Anotações freudianas

ANOTAÇÕES FREUDIANAS Esta reunião de anotações, vulgarmente chamadas por

Anotações Freudianas, como o próprio nome pode sugerir, consistem de algumas de minhas leituras das obras de Sigmund Freud e, em acréscimo, de algumas de minhas interpretações. As anotações foram reunidas desde o início do ano de 2009. De tal modo, as minhas interpretações, as minhas formas de ler as obras de Freud, de selecionar trechos e de resumir ideias, tudo isto pode ou mesmo deve variar enormemente entre as várias leituras, que eu não tive, contudo, o trabalho de datar. As únicas datas que poderão ser encontradas são as de publicação das próprias obras de S. Freud. Após algumas leituras resolvi adicionar um índice remissivo a fim de facilitar a localização dos textos e dos temas e conceitos principais na obra freudiana e anotados aqui, por mim. Já que estas anotações não visam, originariamente, nada mais que uso e deleite próprios, não há nenhuma preocupação adicional em simplicidade, comunicação etc. Deve-se apenas notar que os negritos nas citações são todos meus. Faço, também, duas recomendações, já que disponibilizo este texto aqui, no Scribd. A primeira se endereça aos leitores iniciantes que queiram ler este amontoado de anotações. A segunda, aos leitores que já têm formação ou um conhecimento relativamente amplo da obra freudiana e da psicanálise. Aos primeiros, gostaria de recomendar uma leitura que siga a data dos escritos de Freud, conforme poderá ver na seção “Textos” do índice onomástico. Quanto aos demais, gostaria de recomendar que lessem todas as temáticas de acordo com os termos contidos no índice onomástico, em caso de uma procura rápida, ou seguir o índice onomástico de maneira idiossincrática conforme a sua necessidade. Hernani Pereira, 24/02/10.

A dinâmica da transferência (1912) As experiências infantis, juntamente às disposições congênitas do indivíduo, determinam sua vida erótica, fixando seus fins (libidinais, eróticos), as condições às quais o indivíduo estará disposto e os instintos com os quais irá satisfazer-se. De tal modo, resultam matizes, nuanças, ou, no termo freudiano, representações libidinosas, que serão repetidas ao longo de sua vida, se forem propícias as condições externas e a natureza dos objetos eróticos acessíveis; contudo, podem, sim, sofrer modificação por meio de experiências mais recentes. Estas nuanças constituem séries de objetos, que o indivíduo buscará e que terão base em seu objeto primeiro, então perdido, qual seja a mãe, ou qualquer outra pessoa – para Lacan, é o Outro. Realmente, o terapeuta pode vir a ser incluído nessa série, caso a libido do indivíduo veja-se reprimida por circunstâncias do mundo externo, i.e., caso ela esteja insatisfeita. A esta projeção da libido dá-se o nome de transferência, que opera não unicamente conscientemente, mas também por representações libidinosas retidas ou inconscientes. Dois pontos são problemáticos: primeiro, por que a transferência é mais intensa em neuróticos submetidos à análise do que naquelas pessoas não a ela submetidas? E, segundo, por que a transferência aparece como a resistência mais forte do tratamento psicanalítico, enquanto que, fora da análise, ela é substrato de efeito terapêutico e condição de êxito? Freud cita o exemplo da transferência ocorrida com neuróticos em sanatórios, muitas vezes tão mais potente que dentro da terapia psicanalítica; com isso, rejeita-se o primeiro problema. O problema da maior intensidade da transferência está na neurose, e não na análise. Mas, ainda assim, o segundo problema – o da resistência – permanece. No processo denominado introversão da libido, esta energia retorna ao inconsciente, que está originalmente apartado da

realidade, e faz emergir, da fantasia, as imagens infantis. O objeto da análise, da cura analítica, é, portanto, fazer com que a libido fique, novamente, sob o jugo da realidade, então acessível à consciência. Este retrocesso da libido geralmente é dado pela ausência de satisfação e pela atração aos elementos dos complexos inconscientes. Em tal processo, a libido retrógrada, ao estar sob o jugo da fantasia (juntamente às imagens infantis), volta-se como uma resistência contra o trabalho analítico, para conservar a situação: de fato, eis aí a satisfação do sujeito e a causa de sua enfermidade. Quando, nos elementos do complexo inconsciente, há algo que possa ser projetado na figura do terapeuta, estabelece-se, pois, a transferência. transferência A são transferência efeitos da é, portanto, O uma arma da da resistência, durante a análise. Assim, a duração e a intensidade da resistência. mecanismo transferência está descrito no parágrafo anterior. Examinar-se-á, agora, seguindo-se o ensaio de Freud, a relação da transferência com a resistência. É mais difícil que uma pessoa revele um dado impulso frente à pessoa ao qual ele se refere; por isso, na transferência, ao analista ser feito objeto dos impulsos sexuais do analisado, torna-se ao último difícil revelá-lo. Mas, nem sempre isso é válido, visto que uma submissão total pode vir a salvaguardar comodidade ao paciente, em revelar seus impulsos. Em seguida, Freud distingue dois tipos de transferência: a positiva ou de sentimentos carinhosos e a negativa ou de sentimentos hostis. Os sentimentos carinhosos, em última análise, têm sua gênese em fontes eróticas, i.e., na sexualidade – ou desejos sexuais (inconscientes) –, por mais puros e assexuais que possam parecer à percepção consciente: “Primitivamente não conhecemos mais que objetos sexuais”. Portanto, a transferência resulta-se como resistência apenas quando é negativa ou positiva de impulsos eróticos reprimidos.

ambas podem coexistir.e. na transferência erótica. até a cura. é fixada. utilizando-se da sugestão para levá-lo a uma melhora permanente. E neste percurso. pelo contrário. na transferência. como a cura o deseja.. No caminho da cura. no entanto tendem a reproduzir conforme as condições características do inconsciente: atemporalidade e sua capacidade alucinatória”. ela é. i. . até certo grau. Visa-se. os fenômenos da transferência estarão presentes em quase todo seu curso. sobretudo. ou. ainda. que. Contudo. na qual o paciente representa o primeiro e o médico. o objeto. com base nos elementos de seu complexo inconsciente. a independência final do analisado. na transferência negativa. “Os impulsos inconscientes não querem ser recordados. Enquanto a figura. em especial na psiconeurose: eis o conceito de ambivalência de Bleuler. há uma luta entre instinto e razão. repelida.Os resultados da psicanálise repousam na sugestão: no influxo exercido sobre um sujeito por meio dos fenômenos de transferência nele possíveis. considerado normal. o segundo. em última análise. pode ser.

e que estão juntas no estado de narcisismo.e. Freud diz-nos que se pode ter uma idéia de um investimento original libidinal do eu. mais se empobrece a outra. Freud distingue a libido própria do eu daquela voltada aos objetos e. converte-se em libido. mas persistindo. o que se poderá. ou. depois.Introdução ao narcisismo (1914) A hipótese de Freud é que pode ocorrer. que são fluídas: quanto mais se gasta uma. nos objetos. receber prazer (ego). aventando a possibilidade de uma energia psíquica indiferente que. dito de outro modo.. que é investido. o conceito de introversão da libido. é necessário supor que o eu não esteja presente desde o começo como uma unidade para explicar o autoerotismo (pulsões autoeróticas iniciais. por conseguinte. ao fundo. a constituição do narcisismo – e do ego. Assim. por conseguinte. confessa que a hipótese das pulsões sexuais e egóicas como separadas e a teoria da libido repousam minimamente sobre bases psicológicas: o essencial é biológico. que Jung utiliza indiscriminadamente. que destaca a libido como energia sexual de uma energia das pulsões egóicas. o sujeito é dividido: atende aos pedidos do seu plasma germinal (pulsões sexuais. as pulsões sexuais das pulsões egóicas. Em seguida traça a oposição entre a libido egóica e a libido de objeto. no desenvolvimento sexual normal de uma pessoa. indo além de uma simples perversão como propõe Näcke: é o narcisismo um complemento libidinoso do egoísmo próprio da pulsão de autoconservação. uma colocação definível como narcisismo. . exclusivamente. vincular ao id) para. Ademais. devido ao investimento libidinal ao objeto. i. sem a presença do ego organizado) e. em troca. é um estágio ao qual deveria se aplicar. sendo apenas possível discerni-las com o investimento objetal. depois. o indivíduo exerce uma função dupla. Doravante.

de outro. diz também que uma mudança. o fundamento são alterações orgânicas comprováveis. e. Freud diz que as pulsões sexuais estão inicialmente ligadas à satisfação das pulsões do ego. 2) a hipocondria e 3) a vida amorosa entre os sexos.. é-nos apresentado o narcisismo primário como que coincidindo com a escolha primitiva . no terceiro. Em seguida. Ademais. Adiante. a mãe que conforta e o pai que protege) e. o que. é o êxtase libidinal. Freud separa as escolhas de objeto em: anaclítica e narcísica.Alterações no ego podem ocasionar alteração na libido. na segunda.. e. qualquer parte sensível do corpo) corresponde a uma mudança paralela de investimento libidinal no ego. em que. além disso.e. para mais ou para menos. que esteja vinculado a uma satisfação (em geral. Freud chama de erogeneidade “a atividade pela qual um lugar do corpo envia à vida anímica estímulos de excitação sexual”. para demonstrar a retirada dos interesses e da libido do mundo exterior (no primeiro caso. egóica e. não comprováveis [imaginárias]. e diz que algumas partes do corpo (as zonas erógenas) podem substituir os órgãos genitais e comportar-se qual eles. objetal). no corpo). amiúde. da erogeneidade no corpo (admitindo-se. escoriação. faz uma comparação entre a hipocondria e parafrenia e a histeria e neurose de transferência. Freud concebe. ademais. Freud utiliza-se de três exemplos: 1) a enfermidade orgânica (um machucado. neste ensaio. a primeira de cada par corresponde a um êxtase da libido (de um lado. em que as primeiras correspondem à libido egóica e as últimas à libido de investimento objetal. i. uma quantidade excessiva e não a qualidade de algo. escolhe-se algum objeto do exterior. então. que se vincule ao eu mesmo. na primeira. em comparação aos reais. Neste ensaio. o desprazer como uma tensão. etc. torna a libido e os interesses egóicos indiferenciados e indistinguíveis. as escolhas objetais). Freud ressalta ainda que a diferença da volta da libido sobre os objetos irreais. no segundo.

de objetos sexuais. que pode ser visado. Há que se notar que Freud dispõe. Freud opõe as pulsões libidinais às pulsões do ego. E o ego-ideal. e que é preenchido por perfeição. ainda mais se vincularmos isto (o ego como reservatório) ao narcisismo. ou a escolhe ou escolhe a si próprio – as mulheres tendem a escolherem a si mesmas. nesse período. como medidor do ego real (idéias culturais e éticas) e como fator condicionante da repressão. vemos a consideração de Freud para com o ego: é este o reservatório da libido. amiúde. no discurso dos pais. No narcisismo da infância. a disponibilidade apenas da Mãe como objeto exterior ao indivíduo. A contradição das pulsões libidinais com as idéias culturais e éticas do indivíduo resultam numa repressão patogênica. que o indivíduo. ser objeto das pulsões e objetivo do narcisismo (tendo por base uma satisfação infantil). dá uma interessante importância filogenética à revivescência do narcisismo dos pais. Freud ego. O complexo de castração é visto como a parte mais importante do narcisismo. não sabe. O discurso dos pais se agrega ao ideal do ego. no filho: é a imortalização do . mas podemos interpretá-la de modos distintos. Os pais revivem seu narcisismo ao cuidarem de seus filhos. O ideal do ego aparece. Daqui pode-se delinear um protótipo teórico do que venha a ser o superego em O ego e o id. o ego-ideal não difere do ego real. Investimento objetal e narcisismo se contrabalançam. a direção da pulsão sexual para algo exterior. Essa concepção será modificada em O ego e o id. isto é. como um objeto de amor. por conseguinte. para sua escolha objetal. A diferença entre idealização e sublimação consiste em que a primeira é a integração do objeto ao ego e a segunda. então. Também neste ensaio.

Noutro trecho Freud diz que se pode achar “no ideal do ego e nas expressões orais dinâmicas da consciência [que estão . ou ‘consciência’ num sentido estrito. ainda mais corroborado segundo outra citação: “A consciência [no sentido estrito. mais corretamente. O os reconhecimento nos compreender chamados ‘delírios de sermos notados’ ou. de forma alguma seria possível chegar a ele como se fosse uma descoberta – podemos tão-somente reconhecê-lo. primeiro da crítica dos pais. Doravante.]”. Esta ‘consciência’. subseqüentemente. O ideal do ego exige. em vista. de sermos vigiados [. por conseguinte. como sendo uma influência hostil vinda de fora”. age (em hipótese) em nome do ideal do ego e é formado. é instituída pela “personificação. O ideal do ego envolve tanto repressão quanto sublimação. que atribuímos-lhe até agora] do paciente então se confronta com ele de maneira regressiva. além de que ela tem um caráter exterior. pois podemos supor que aquilo que chamamos de nossa ‘consciência’ desse possui agente as características permite exigidas. da sociedade – processo que se repete quando uma tendência à repressão se desenvolve de uma proibição ou obstáculo que proveio. no primeiro caso.. Temos aqui mais uma vez o protótipo teórico do que venha a ser o superego. o superego.A formação do ideal do ego coincide com o abandono do narcisismo. pelo discurso crítico dos pais. e caracterizase pela proibição. medindo-o por aquele ideal. e. e que. num sentido estrito. etc. de fora”. institui-se sociologicamente. observasse constantemente o ego real. Observe esta passagem: “Não nos surpreenderíamos se encontrássemos um agente psíquico especial que realizasse a tarefa de assegurar a satisfação narcisista proveniente do ideal do ego. mas esta última pode atuar independente de seu estímulo. com essa finalidade. segundo Freud. Admitindo-se que esse agente de fato exista.. Esta instância.. que tudo sabe.

Eis o motivo para o abandono do narcisismo e do surgimento do ideal do ego: o empobrecimento do eu devido aos investimentos objetais libidinais dele mesmo (o eu). medindo pelo ideal as condições pelas quais se pode ser. que expressa o tamanho de seu ego e está vinculada à libido narcisista. o sujeito pode desejá-lo – é seu devir. como posto. E o eu-ideal pode.D. e. o “censor” (a consciência ou o nosso suposto protosuperego). o eu-ideal. E o narcisismo primário aparece como pressuposto ao desenvolvimento do ego. pois. que rejeita e censura. Espero demonstrar isto com esta passagem: “O ideal do ego impõe severas condições à satisfação da libido por meio de objetos. pois ele faz com que alguns deles sejam rejeitados por seu censor como sendo incompatíveis onde não se formou tal ideal. como na infância. de um lado. de outro lado. Q. . surge.E. nas palavras de Freud. a realização de fatos vinculados ao sentimento primitivo de onipotência do indivíduo aumenta sua auto-estima. por isso. a tendência sexual em questão aparece inalterada na personalidade sob a forma de uma perversão. afirmar o ego como sendo o reservatório de libido desde sempre. enquanto desejo. do ideal do ego. diferente de sensor]” Doravante. Freud retrata o narcisismo como o retorno da libido objetal ao ego. “de fora”. ser um objeto e. em que libido objetal e libido do ego não podem ser distinguidas. no que diz respeito às tendência sexuais não menos do que às outras – isso é o que as pessoas se esforçam por atingir como sendo sua felicidade”. neste artigo. então. como já dito. o ideal do ego como condicionador: aquilo que se pode ser (algo como limites ou prescrições). o censor dos sonhos [atentar-se para o termo censor. Freud mostra. O ideal do ego aparece.incrustadas na estrutura do ego]. Tornar a ser seu próprio ideal [aqui é onde penso se tratar do eu-ideal]. o que nos leva a pensar que não se pode. pautado na realização das condições impostas “de fora” (pelo próprio ideal do ego). Um pouco adiante ainda.

Além do seu aspecto individual. . O ideal do ego também é ideologia: “O ideal do ego desvenda um importante panorama para a compreensão da psicologia de grupo. A libido homossexual transforma-se. constitui também o ideal comum de uma família. A libido homossexual é o amar o outro como a si mesmo. em “sentimento de culpa” (o inexorável). esse ideal tem seu aspecto social. uma classe ou uma nação”.A realização do ideal do ego depende da libido do ego. A introjeção tem por função amparar o ego mutilado. caso haja falta de satisfação brotada da não realização do ideal.

um rodeio necessário para se chegar ao prazer. um susto vivenciado. não são sinônimos. A neurose traumática. por Freud. 1. se o fizesse. o objeto é . que são. o que acontece é um adiamento da satisfação. No influxo do instinto de conservação do eu. que não é. dominando o princípio da realidade. Assemelha-se à histeria. sua manifestação. mas a supera pelos signos de padecimento subjetivo. a. o curso dos processos psíquicos. Um ferimento que venha a ser ocasionado juntamente com o susto parece. privados da possibilidade de satisfação. Outro tipo de limitação do princípio de prazer é apresentado. ir contra seu aparecimento. de fato. contudo. Sua causa principal parece ser a surpresa.Além do princípio do prazer (1919-20) Segundo Freud. por isso. Susto. e partindo dele para o eu. Consistem em vivências com perigo de morte. é forçoso admitir que o princípio do prazer não domina. Eis aí uma pequena parte. onde ocorre uma mudança devido ao princípio de realidade. proporcionam desprazer. visto que. mas sem o prazer seja abandonado. também. o princípio de realidade vem a substituir o princípio de prazer. O princípio do prazer continua regendo o funcionamento do instinto sexual. o prazer deveria acompanhá-los ou conduzi-los até ele. Alguns instintos reprimidos. quando chegam por caminhos indiretos à satisfação direta ou substitutiva. portanto. em todos os casos. medo e angústia expressam relações diferentes com situações de perigo. em vez de proporcionarem prazer. no segundo. para danificar o organismo inteiro. O último é um estado semelhante a expectativa de um perigo desconhecido. “Todo prazer neurótico é desta natureza: prazer que não pode ser sentido como tal”. das sensações de desprazer. nos sintomas motores. a mais intensa. como sendo as ameaças de perigo vindas do exterior: o desprazer de percepção (dos instintos insatisfeitos ou do exterior).

cujo vocabulário não passava de algumas palavras e outros sons compreensíveis para aqueles que a rodeavam. paradoxalmente. Mas. e. um longo e agudo som: “o-oo-o”. e. saída que não poderia. no terceiro. então produzindo o som correspondente a fora. mas. este último ato estava ligado ao maior prazer. contudo. com sua reaparição. ser a ele agradável ou mesmo indiferente. Na ausência da mãe. A interpretação dada por Freud é a seguinte: o menino renunciou a satisfação do instinto ao permitir a saída da mãe sem resistir. 2. A verdadeira natureza do sonho é a realização de um desejo. isto é. a. Neste jogo. representada por si só como jogo. produzindo. Há uma fixação do paciente ao trauma. não há expectativa e nem objeto definido. de modo algum. Freud observou uma criança de um ano e meio de idade. pelo qual se transpassava uma linha. Visto que o . esta criança manejava alguns objetos e os utilizava em seus joguetes. a criança fazia seu joguete. enquanto o último (Da). a função do sonho é invertida: há uma satisfação masoquista. a criança repetia o primeiro ato (Fort) com grande freqüência. fazendo-o despertar com um novo susto. quando esta se ausentava. a criança o trazia de volta. com pouca. b.determinado. E com um carretel de madeira. com uma expressão satisfeita e interessada. criança que tinha um grande afeto pela mãe. Feito isso. fazendo-o desaparecer por entre as grades de seu berço. corresponde ao termo fora (Fort). há um não-saber absoluto. som que. segundo Freud e a mãe da criança. Na vida onírica do neurótico traumático. Os jogos infantis – o Fort-Da. há uma reintegração constante sua à cena do acidente sofrido. sendo. c. ela. e. não chorava. estranhamente. ele compensava a cena de desaparição e retorno com os objetos que a seu alcance encontrava. inclusive. saudava-o com um “aqui” (Da). na neurose traumática.

A compulsão à repetição (Wiederholungszwang). sob o jugo do princípio do prazer. amiúde. donos da situação”. A conclusão última de Freud a respeito deste caso é. Freud diz que essas hipóteses são vacilações e segue: “Se vê que os meninos repetem em seus jogos tudo aquilo que na vida lhes causou uma intensa impressão e que. Uma sensação desagradável que a criança tenha vivido será. Na frase a seguir. então. àquela pessoa que lha inferiu. ao passar da passividade do evento (penoso. este caso não leva nada além do princípio do prazer.segundo ato do jogo não poderia ser seu objetivo final. No parágrafo seguinte. a única razão de que o menino repetira como jogo uma impressão desagradável era a de que aquela repetição se enlaçava uma consecução de prazer de gênero distinto. . ver este entrelace: “No caso aqui discutido. estando (as crianças) sobre o desejo próprio de sua idade: de serem grandes e poderem fazer o mesmo que os adultos. que existem. c. pode-se. uma cirurgia na garganta) à atividade do jogo. ainda. como. Em seguida. claramente. p. deste modo. contudo mais direta”. jogam brinquedos ao chão. a repetição do jogo (quase que inteiramente o primeiro ato) parece estar ligada ao desprazer do menino. por assim dizer. Freud faz destacar o entrelace do desprazer com o prazer. transmitida. caminhos e meios para converter em objetos de recordação e da elaboração psíquica o desagradável em si. Assim. b.. dizendo que crianças. quando nestes objetos estão representadas pessoas odiadas. citando o exemplo de domínio que a criança pode estabelecer no seu joguete e.ex. procuram um escoadouro [exutorio] à energia da mesma. portanto. fazendo-se. 3.

do complexo de Édipo. A neurose de transferência. segundo o desejo do analista. é atingida a convicção do enfermo e o êxito terapêutico que dela depende.e. está a serviço do princípio de prazer. A resistência é produto dos estratos e sistemas superiores da vida psíquica. inclusive. Esta resistência. os motivos das resistências e. mas entre o eu coerente e o reprimido. Freud diz que. tomará a cabo não a oposição entre consciente e inconsciente. elas mesmas são inconscientes ao princípio da cura. a função do terapeuta é lograr (no analisado) uma admissão ao desprazer. a manifestar-se na consciência. Nisto. contudo. na relação do analisado com o terapeuta. que realizaram a repressão: o reprimido tende. tornando-se um escoadouro [exutorio] por meio do ato real. i. segundo Freud.3. a compulsão à repetição deve ser atribuída ao reprimido inconsciente. ser recordado como algo passado. O terapeuta pouco pode fazer: o analisado deve viver algo de sua vida esquecida. portanto. que deveria. Consiste na repetição do reprimido como um evento atual. Na compulsão à repetição. repetição que ocorre. ao reviver o reprimido. eu que emana do inconsciente – ramifica-se dele –. que não pode exteriorizar-se até que o labor psicanalítico tenha debilitado a repressão. Portanto. portanto. a.. visto que.1. o desprazer sofrido pelo eu. e envolve elementos da vida sexual infantil. “mediante a qual a aparente realidade seja sempre reconhecida como reflexo de um passado esquecido”. assim. não contraria o princípio . apenas cuidando para que se conserve certa superioridade. vencendo a coerção à qual fora submetido. jazeria aí. através do retorno ao princípio de realidade. se este conteúdo reprimido fosse liberado. A resistência vem do eu do paciente. b. Disto. sempre dentro da transferência. por si. então. o desprazer.

ao mesmo tempo em que o eu sofre desprazer. que substitui. que a criança sofre. porque. senão tão-só uma função especial dos mesmos. Sentimentos afetivos dolorosos e eventos indesejados como este são repetidos pelos neuróticos durante a transferência. O sentimento de inferioridade (Minderwertigkeitsgefühl). pode-se supor que a compulsão à repetição vá além do princípio do prazer. desfecho – que acabam sempre do mesmo modo. 3. eis aí a cicatriz narcísica.do prazer.2.). que remontam às suas repetição ocorre não mais com pessoas neuróticas: são construções experiências infantis. ela parece ser mais primitiva. o sujeito sente apenas o desprazer. é ocasionado pela perda de amor de seu objeto de desejo. e isto por imposições obsessivas de repetição. difícil de isolá-la. São indivíduos que vivenciam relações humanas de igual desenlace. do qual se experimentam percepções e sensações. elementar e instintiva do que o princípio de prazer. a compulsão à do próprio sujeito. Essa repetição. Ela deve estar entre o exterior. não se diferencia daquela dos neuróticos. segundo Freud. Daqui em diante entramos na parte especulativa do ensaio de Freud (seção IV e segs. Disto. c. o outro sistema (inconsciente) tira satisfação dessa situação. o progenitor do sexo oposto e desejo que está numa situação de incompatibilidade com a realidade. A obsessão de destino. e o interior. Neste caso. e. objeto que é. Neste caso. Segundo Freud. contudo. que se manifesta tanto com a atividade quanto com a passividade do sujeito. ainda que seja. contudo. Eis aí o eterno retorno percebido. do qual se experimentam prazer e . a consciência não pode ser um caráter geral dos processos psíquicos. geralmente.

ocasionando sua máxima modificação. que representa o córtex. ao contrário do Ics. o sistema Cc. desde então. Freud supõe que tais vestígios se produzem em sistemas vizinhos (do sistema Cc. então. brasileira) vestígios duradouros da excitação. pela energia ligada. Seguindo a metáfora biológica do organismo como vesícula e do bombardeamento de excitações na crosta cinzenta. De tal modo. a consciência teria sua gênese na substituição de um vestígio mnêmico e. Este autor postula a existência de dois tipos de energia psíquica: a livre e a ligada. o caminho está aberto para a constituição da consciência – nele há. mas sem permanecerem sempre conscientes. assim. mas que se gasta. e não ligada. onde não residem resquícios. e) internos. que ocorre pela exposição deste sistema ao exterior. Freud diz que existe uma peça protetora da vesícula vivente. Em seguida. visto que essas excitações são fortes. que protege os sistemas internos da forte energia do mundo exterior. para um organismo. por conta das resistências (note-se que este termo está esvaziado de conteúdo psicanalítico). . e. deixando no sistema P-Cc. pois neste último a energia pode ligar-se a representações verbais. aquele no qual não se deixa nada. apenas energia de curso livre (adiante o inconsciente será identificado com a energia de curso livre e o Pcs. impedindo que ela se propague com muita força para as capas (entenda-se como sistemas) vizinhas. porque. (Pcpt. tão importante quanto recebê-las. no fenômeno do devir consciente” (grifo meu) 1 .desprazer. segundo os termos de Breuer2. Em seguida. pois a consciência deve estar aberta à recepção de novas excitações. A defesa contra as excitações é. o organismo deve manter a 1 2 Cruze isto com o que diz Skinner – a respeito do assunto da memória. inclusive. que é recebida pelo sistema Cc. seria. A memória é. mais permanente e forte do que a consciência mesma. ao propagar-se a excitação. onde há “uma transformação duradoura de seus elementos. não há resistência.).-Cs.. chegamos ao ponto que nos interessa: nada se retém no sistema Cc.. ao contrário do que aconteceria em outros sistemas. peculiarmente. onde seria retido algum vestígio das excitações. na ed.

os órgãos do sentido. inclusive. portanto. pode-se concluir que: 1) as sensações de prazer e desprazer sobrepujam todas as excitações exteriores e 2) as condutas do indivíduo tendem a orientar-se contra as excitações interiores que carreguem desprazer. De tal maneira. Portanto. sendo. A proteção é quebrada e. mesmo. a descoberta de que o tempo não se aplica ao inconsciente. essas grandes quantidades de excitação devem ser ligadas (a outras). influem energias de fora com a mesma intensidade que o fariam as . resultam processos patológicos. A idéia de tempo parece-se aplicável à percepção que se tem do sistema P-Cc. que recepcionam excitações específicas. o sistema Cc. meios de defesa da proteção (conscientes). para sua dominação. e determinados caracteres de seu curso criam nele a série de sensações de prazer e desprazer”.. Aquela capa à qual Freud se referia constituirá. Do desenvolvimento deste segundo ponto. apenas pequenas mostras de excitações. mas que também protegem o organismo de quantidades excessivas de excitação. de fora. Freud põe em discussão o princípio kantiano de que tempo e espaço são condições necessárias ao pensamento. o organismo recebe. sendo fragmentada: ela constitui. em seguida. tratadas como se viessem de fora e recebendo. pois. que recebe excitações tanto de fora quanto de dentro. assim. que os “organismos elevados” perderam essa capa protetora em sua totalidade. Freud diz. Quando elas influem para dentro do aparato psíquico. contra as excitações provindas do interior não existe defesa alguma “as excitações das capas mais profundas se propagam diretamente ao sistema sem sofrer a menor diminuição. então.estabilidade entre suas próprias energias (interiores) e o influxo dessas outras. qual se o fossem realmente. que são suficientes para guiá-lo. As excitações exteriores que possuam suficiente energia para atravessar a proteção são denominadas de traumáticas. contudo. e descarregadas. de fora. pondo-se em pauta. Sua função é a mesma: receber pequenas quantidades de excitações do exterior. pois.

iniciada em 2002 e com previsão de término para este ano (2009). Freud segue dizendo que. então. provavelmente o desejo do analista) de se fazer emergir o esquecido e reprimido. o domínio da excitação. * De tal maneira. com efeito. que ocorre por falta da disposição à angústia (Angsbereitschft) – “a última linha de defesa da proteção contra as excitações”. à obsessão de repetição. “As fontes mais profícuas [da] excitação interna são as chamadas “pulsões” do organismo: os representantes {Repräsentant} de todas as forças eficazes que provêm do interior do corpo e se transferem ao aparato psíquico”. mas como algo mais primitivo que a intenção de conseguir prazer e evitar desprazer (princípio do prazer).energias do interior. não servem como realizações de desejo. . feridas físicas podem ocasionar cessação de perturbações graves na distribuição libidinal. algo que faz desenvolver-se a angústia. que surge pelo desejo (não inconsciente. Um sistema repleto de energia. são criados complexos de energia: a contracarga (Gegenbesetzung). conservando-se. acolhe nova energia e a transforma em carga de repouso (energia ligada). que faz resultar um empobrecimento dos demais sistemas psíquicos. de Luis López Ballesteros.. A. o que não contradiz o princípio do prazer – sua posterior função. Hanns. Assim. explica-se a neurose traumática como o resultado da ruptura da proteção contra as excitações (exteriores). possíveis fora de análise. são da ed. Os sonhos dos neuróticos traumáticos. se existe algo além do princípio do prazer. este deve estar na pré-história da tendência realizadora de desejos do sonho – algo que lhe anteceda –. a importância do susto. segundo Freud. ainda. desinibidamente. cuja negligência chegou a ser a causa da neurose. sim. Seria preferível seguir a nova trad. bras. pela ed.3 Este trecho (primeiro 3 Este trecho e os segs. Estes sonhos obedecem mais. em seguida. ele diz que os sonhos que obedecem à obsessão de repetição são. Em fato. ao redor dessas brechas. standard e não mais da trad. publicada. assim. i.e. também. esp. E. de L.

estadosgerais. de reprodução dum estado anterior que o vivo deveria resignar baixo o influxo de forças perturbadoras externas.parágrafo da seção V) demonstra. responde que uma “pulsão seria então um esforço.e. 5 Esta ligação dá-se com a linguagem. seria um tipo de elasticidade orgânica ou. quando não. que as pulsões não existem ex nihil. ainda. mas como a natureza conservadora do ser-vivo. Portanto o trabalho dos estratos superiores (processo secundário) seria fazer a ligação das pulsões do processo primário: quando logra fazê-lo. standard. enquanto a ligada ou tônica. mas organizada em eixos temáticos. com o secundário. E faz uma analogia com a embriologia. o que não está em itálico. ao contrário da ed.pdf >. à repetição mostram alto grau de caráter pulsional. estabelece-se o domínio do princípio do prazer (e de sua modificação no princípio de realidade). de Freud). cf.org/mundial_rj/download/3f_Hanns_112141003_port. com uma representação: é algo que pode ser dito. As exteriorizações da compulsão prazer. Freud diz que com o processo primário se identificam as alterações de investimento livremente móvel4 e. a exteriorização da inércia na vida orgânica” (grifo. E mais metáforas biológicas Quando Freud indaga-se sobre o entrelaçamento da pulsão com a compulsão à repetição. buscando o gérmen da compulsão à repetição: os IMAGO. se assim o quiser. disponível em: <http://www. portanto.. as de investimento ligado ou tônico5 (lembrar da divisão de Breuer). inerente ao orgânico vivo. Em seguida. bras. Para mais detalhes sobre a nova ed. ao sistema Pcs. e é aí que elas entram em conflito com o princípio do . 4 Sem representações. duma perturbação análoga à neurose traumática. algo que não pode ser dito. sem ligação com a linguagem: é. seu artigo Uma nova tradução brasileira das obras de Freud. A pulsão aqui não aparece mais com o caráter habitual de alteração e desenvolvimento... i. – isto será visto depois. mas têm suas fontes. Destas duas notas se deduz facilmente que a energia livre é dinamicamente relacionada ao sistema Ics. isto é.

a oposição entre pulsões de vida e pulsões de morte. e já que tudo o que é vivo morre. depois ainda. com base em estados anteriores da substância viva. se essas pulsões tendem a restabelecer o anterior. A última tende a aproximar o mais rapidamente possível o organismo vivo de sua meta (a morte) e a segunda. surgida por ela. regressa ao inorgânico. que compelem à repetição. por tendências internas. e não algo que não se tenha já alcançado. Disto. através de rodeios que o dificultavam. no curso filogenético. Freud supõe. com o tempo. . pois. outras pulsões de caráter criativo e progressivo. Uma objeção: podem existir. contudo. Com os estímulos externos. deve-se notar que. a consciência. Freud deduz a primeira pulsão: a de regressar ao inanimado. por razões internas. do retorno à morte. resistentes às influências externas e conservam a vida em lapsos (temporais) mais largos. e. isto é. A vida veio depois e. A importância das primeiras. são. o ciclo vital dessa substância inanimada hipotética afastou-se. junto às pulsões conservadoras. “a meta de toda a vida é a morte. Eis aí. que têm por fim evitar o regresso ao inorgânico.seres vivos tendem a repetir as estruturas de todas as formas das quais o animal descende. Já que. tudo o que já se alcançou uma vez é a meta. então. toda a modificação é causada pelo exterior. já que são somente pulsões parciais. retrospectivamente: o inanimado esteve aí antes que o vivo”. Essas pulsões de morte tendem a regressar ao inorgânico. O par de oposições dá-se entre pulsão de autoconservação e provocação da morte (ou o pressuposto de que lhe serve todo o conjunto pulsional). As pulsões de vida são aquelas pulsões nas quais há maior e mais forte tendência à conservação do organismo. como já dito. cai por terra. então. Freud vê o desenvolvimento como um jogo de repetição genético. Assim. que todas as pulsões reproduzem algo de anterior. a prolongar o trajeto que o leva a esta meta – sua duração.

aparece pela primeira vez (no corpo do texto de Freud) o conceito de pulsão de morte. satisfação plena em ponto algum: não se conclui e não alcança objetivo algum. resulta-se insatisfatória. utilizando-se da teoria morfológica de Weismann. existe uma idade média para a morte natural parece apoiar a hipótese de uma tendência interna à morte. com certa fagulha de idéia de eternidade.A satisfação duma pulsão baseia-se na repetição duma satisfação primária (que já ocorreu. Em seguida. sob investigação. à continuação da vida. digamos. programada. dá conta desse instinto que. de tal modo. que ocorre no eu. visto que ela funciona como que um consolo para “suportar as penas da existência” – verso de Schiller citado por Freud. Freud chama esta pulsão que vaza de pulsão de aperfeiçoamento. então. também. manifesta-se apenas em raros casos propícios. para tal –. a crença numa morte interna. por isso. pode-se entender que pulsão de vida e pulsão sexual sejam termos equivalentes. Eros: conjuga o orgânico em unidades cada vez maiores. pela união das células germinativas ou pelo ato sexual. dada pela Necessidade – Freud invoca o nome de uma divindade grega. Freud explica. a qual. historicamente): um instinto reprimido esforça-se para satisfazer-se plenamente. que postula a existência de opostos num ser vivo: o temporal e o atemporal. que culminará na fecundação. vaza. em que as primeiras se esforçam em direção à morte e as segundas. o corpo (o soma) e o plasma germinal (as . a despeito de as condições dinâmicas para seu desenvolvimento serem universais. fazendo-se às vezes de substituto à “pulsão de aperfeiçoamento”. Freud põe. Ananké. no reino animal. O argumento de que. Em seguida. e nada. nem mesmo uma sublimação. Freud diz que a oposição das pulsões egóicas e das pulsões sexuais. A vida e seu prolongamento ocasionado pela pulsão sexual ou pulsão de vida são dados. justamente pelo fato de que ele (o eu) surge do animado com a tendência de retorno ao inanimado. que não alcança. E. o aparente progresso evolutivo da evolução humana numa pulsão reprimida (de fora).

retêm-na em seu interior e mantêm-na em qualidade de reserva. em geral. amiúde. Pode-se baixar também o arquivo (em PDF): <http://cienciahoje. anabólica (agregante. o primordial seria a vida e a reprodução. Assim. seus filhos” (os grifos. Algo sobre isto pode ser visto no link a seguir: <http://pt. As células germinativas são narcísicas. aos moldes de Goethe. para agruparem-se e manterem o “Estado” (uma metáfora de Freud. nestes organismos. i. negritos.e. a Eros ou pulsão de vida que promove esta agregação. nos protozoários. em seguida. do velada animal por esta. essas cadeias são infinitas. visto que os seres se tornaram mortais a partir do ponto em que se dividiram em plasma germinal e corpo. os telômeros. Freud apóia sua teoria. ao menos uma década após a publicação deste ensaio de Freud. 6 Hermann J. As células. na década de 30.wikipedia. Freud utiliza-se da hipótese de Hartmann.com. que. essas estruturas são responsáveis pela morte celular programada ou interna de um organismo pluricelular: de fato. coincide com a reprodução. ao contrário. formando um anel e não uma reta. “posto pode que toda a substância progenitor transmitir-se diretamente aos indivíduos jovens. também. assimilante). ficando.células germinativas). na qual o organismo multicelular é encarado como uma sociedade organizada) vivo. Assim. qual nos pluricelulares. esta coesão do vivente. pois a morte. portanto. visto que seres unicelulares são infinitos em si mesmos: são plasma germinal e corpo.uol. Mas. Muller identificou. dominam a pulsão de morte das demais com a pulsão de vida.. e só assim poderse-ia falar de morte programada. que são estruturas constituídas por fileiras repetitivas de proteínas e DNA não codificante e formam as extremidades dos cromossomas. Contudo. para tanto. deduz-se que os protozoários sejam. É. interna6.br/controlPanel/materia/resource/download/55391>. em vista sua atividade posterior. aponta-se que a teoria de Weismann não corrobora o princípio de que há algo inerente na natureza da vida que sirva de mecanismo à morte. no sentido de que não liberam sua libido para objetos exteriores a si. vê a morte como conseqüência da reprodução: a reprodução é o “fecho do desenvolvimento individual”. como são constituídos todos os seres pluricelulares. na teoria de Weismann. seres mortais.org/wiki/Tel%C3%B4mero>. . são meus).

não mais às pulsões sexuais. pois são também de natureza libidinosa. Freud compara também o sadismo (investimento de destruição até o objeto) e o masoquismo (retorno desse investimento para o próprio eu). que indica uma tendência de rebaixar. As pulsões egóicas: são aquelas orientações pulsionais que resultaram (até este ensaio) menos conhecidas. pois. então. . respectivamente. de natureza libidinosa e tomar o eu mesmo como objeto próprio. talvez porque as pulsões libidinosas do eu estejam entrelaçadas com estas outras pulsões do eu. Diz. pulsões de vida e pulsões de morte estão associadas. quanto ao objeto de amor.. um dos motivos mais fortes para a crença nas pulsões de morte. nos seres vivos superiores (i. posta provisoriamente até aqui. pluricelulares em geral).A pulsão de autoconservação faz parte da pulsão egóica. Pulsões de vida e pulsões de morte correspondem. Estas pulsões opõem-se. É só a união de duas células germinativas que. então. que podem diferenciar-se das pulsões sexuais dirigidas ao objeto. Equipara-se o sadismo e a destruição de objeto com a pulsão de morte. mas que é difícil de discriminá-las. inclusive. sendo. manter constante e suprimir a tensão interna do estímulo do qual é expressão princípio do prazer. mas podem ser também. ao menos em parte. todas as pulsões são libidinosas: a diferença está na pulsão retida e na investida (ao objeto). embora se pareça problemático. Freud diz que. A despeito de se trabalhar com duas incógnitas.e. que. podemos aprender algo desta dualidade (entre pulsões de vida e de morte): há uma polaridade entre amor (ternura) e ódio (agressão). às pulsões sexuais e às pulsões egóicas. garante a imortalidade da substância viva. a existência dum masoquismo primário (com base na pulsão de morte e no narcisismo). O princípio de Nirvana: termo de Barbara Low. Em seguida. supondo. Freud diz que talvez haja pulsões diversas das pulsões de autoconservação no eu.

Freud diz. Essas pulsões libidinosas (as egóicas e a de objeto) [correção: sexuais e egóicas] estatuir-se-ão como Eros ou pulsões de vida e sua oposição não será senão a pulsão de morte. além de que os primários são os processos que ocorrem na mais cedo infância. ambas formando o conjunto das pulsões libidinosas. apenas das pulsões de objeto. Mas. Freud diz que o princípio do prazer parece estar a serviço das pulsões de morte. . em que não existem outros. os do processo secundário”. no processo secundário. pois é a consciência que transmite adentro do aparelho psíquico as sensações de prazer e desprazer. Ao fim. em seguida. visto que “mantém guarda” contra os estímulos de dentro para favorecer a vida do organismo. então. diferenciam-se. que “parece fora de toda dúvida que os processos não ligados. além dos estímulos (excitações) de fora.portanto fazem parte delas. é claro. provocam sensações muito mais intensas em ambos os sentidos que os ligados. estas sensações devem também estar estabelecidas. por ocasião das excitações que sofre. os processos primários. portanto a maior intensidade de prazer corresponde a este período.

é um resíduo de lembrança de antigas percepções. duas classes do inconsciente: o latente. no sentido dinâmico. por sua vez. é reprimido”. Portanto. i. visto que no Ics. de ser. o latente – que é inconsciente em sentido descritivo – é chamado de preconsciente e o reprimido é o protótipo do inconsciente. devem existir. pelo contrário. se indagada. uma pessoa poder não ter ciência do fato e estar inadvertida. não há representação verbal. consciência. Uma lembrança funciona assim: o investimento (catexia) do sistema mnêmico (uma antiga percepção) transfere-se em parte ao que forçam conteúdos a não permanecerem na . também. que há algo de inconsciente no ego. sim. Assim. está sempre em transformação: no instante em que ela é. só pode tornar-se consciente aquilo que já foi uma percepção Cs. então.. Logo. A consciência. Uma representação verbal. no sentido descritivo. o “latente suscetível de consciência”. Uma coisa se torna Pcs. deduz-se. e o reprimido. A resistência é o que mantém esse conteúdo inconsciente. já deixa. o reprimido é apenas um elemento do sistema Ics. “Vinculando-se às representações verbais que lhe são correspondentes”. que não o é. enquanto se tenta fazê-lo consciente – na análise.e.O ego e o id (1923) Neste ensaio. Freud retoma as discussões iniciadas em Além do princípio do prazer (1920). mas nem tudo o que é Ics. isto é. parte do aparelho psíquico: é ele o inconsciente. A consciência depende do eu e é deste eu que partem as repressões. Devido ao fato de a repressão ser função do ego e de. que é suscetível de consciência. As representações que não são conscientes o são por conta duma força de resistência: o recalque. E “tudo o que é reprimido é Ics. Ele inicia dizendo que o conteúdo latente de uma vivência faz.

Ou seja. em relação aos sentimentos.. (perceptivo). no sentido . só é sentido como tal quando há uma repressão do ego agindo sobre ele. O parágrafo que se segue demonstra claramente o apreço da psicanálise pela linguagem Segundo Freud.: o desprazer. as percepções auditivas são as mais importantes para a constituição da palavra. ela deve.. não se deve deixar de lado a importância de percepções ópticas. no adendo). que se conectam ao sistema Pcs. por exemplo. para a ligação do conteúdo inconsciente e para que. do outro lado. por conseguinte. passar pelo sistema Pcpt. diferentemente da alucinação. que Freud chama de id. Todavia.e. i. (resíduos mnêmicos) e é também inconsciente. o resíduo mnêmico de uma palavra que foi ouvida” – uma frase que está logicamente mal construída ou mal traduzida. em última análise. tornese consciente.sistema Pcpt. assim. o que fará Freud supor a existência dum mecanismo acústico acoplado a este sistema – sua “fonte sensória especial”. como vindos “de fora”. Estas duas estâncias estão. Mas. emprestando o conceito de G. seja trazido ao Cs. Para que uma coisa. O ego tem início no sistema Pcpt. fundidas. dos resíduos verbais. inclusive sentimentos e sensações. tem-se a “entidade [. abrange o Pcs. Portanto. podem não ser criados vínculos de ligação: ou eles são inconscientes ou são conscientes – não é necessária a participação do Pcs. a análise fornece “vínculos intermediários” ao sistema Pcs. devido à repetição do termo palavra para explicá-lo. obtidos pela percepção externa (Ver Diagrama α – representação do devir consciente. “uma palavra é.] que se comporta como se fosse Ics”. mesmo que constituam uma “forma muito incompleta de tornar-se consciente” e se situem “mais perto dos processos inconscientes do que o pensar em palavras”. Groddeck. formam uma conjunção.. As representações verbais tornam o conteúdo dos processos internos externos.. via de regra. na verdade. onde a transferência é completa..

o real. E vejamos a impotência do ego: “o ego tem o hábito de transformar em ação a vontade do id. de um lado. que. Deduzimos. Em nota de rodapé. retomando-se um pouco do que fora dito em Além do princípio do prazer (1920). no adendo). E. com o id). o princípio de prazer. O corpo. Freud diz que o ego é uma representação psíquica da superfície do corpo. como diria Lacan. em primeira instância. tenta aplicar o princípio de realidade ao id. além de representar a superfície do aparato psíquico. e não este. ao tato. portanto. então. por outro lado. para Freud. por ser a projeção da superfície e não simplesmente uma entidade de superfície (esenciasuperficie). Assim. portanto. em seguida. como se fosse sua própria”.-Cs. o id é o meio de comunicação do reprimido com o ego. por identificar aquela.”. no espanhol). e existem outros casos em que em algumas pessoas as faculdades supostamente . por forças externas. então. A partir disto Freud deduz que. o ego é um ego corporal (esencia-corpo. observe-se a seguinte frase: “a percepção desempenha o papel que no id cabe [à pulsão]” (o trecho entre colchetes substitui o trecho em que se lia “ao instinto”.algébrico. sobrepujar. Desta frase podemos deduzir outra coisa: a homeostasia que a pulsão promove em relação ao mundo externo. comunicando-se com o ego através deste último. dizendo que o ego. A experiência psicanalítica comprova que os processos mentais superiores não têm necessariamente uma ligação direta com a consciência. inclusive o reprimido) com o mundo externo (ver Diagrama α. pode produzir tanto percepções internas quanto externas. a pulsão. é o Real do sujeito (do inconsciente). se. podendo permanecer pré-conscientes. então. Freud continua. O reprimido é identificado. como um elemento do id. pode ser visto como qualquer objeto e. por intermédio do Pcpt. visto que influem (outros) estímulos dele. Freud diz que “o ego é aquela parte do id que foi modificada pela influência direta do mundo externo. o ego é a (ponte de) comunicação do id (e todos os seus elementos.

. A identificação consolida o caráter do eu – tese de Freud retomada em passagem. por exemplo. pois. aqui.superiores. pelo qual abandona seus objetos anteriormente investidos. Assim. o sistema Pcpt. em O humor. Ele diz que. Existe aqui um chamamento: em Além do princípio do prazer. É certo que o sujeito é . como. No sétimo parágrafo deste capítulo. Freud diz que o ideal do ego (ideal-yó) ou superego (veja-se aqui como ele coloca os termos em identidade). Por detrás do ideal do ego jaz “a primeira e mais importante identificação de um indivíduo. é impossível distinguir entre catexia (investimento) de objeto e identificação. autocrítica e a consciência. Freud indica-nos o conflito que pode resultar caso haja incompatibilidade entre várias identificações introjetadas. são inconscientes e atuam neste nível. As escolhas de objeto posteriores. para ser amado pelo id. ter por fim uma identificação tal qual esta. na fase oral – mais primitiva –. está diminutamente ligado à consciência. sendo uma parte do ego. Em seguida. O ego transforma-se. Freud chama de núcleo do eu o inconsciente. donde Freud retirará sua tese do superego. que se origina mais primitivamente do que qualquer investimento de objeto. relativamente ao primeiro período sexual e relacionadas ao pai e à mãe. no objeto de amor. sendo a primeira reforçada. O sistema perceptivo é “o representante na mente do mundo externo real” – veja-se com isto o caráter sistêmico da mente.-Cs. Quando uma pessoa abandona o objeto sexual (exterior). fixam o caráter de gênero no sujeito. assim e de certo modo. parecem. a sua identificação com o pai em sua própria pré-história pessoal”. seu ego é modificado a ponto de o objeto ser nele introjetado – processo do id. em geral. entramos no conceito de “sentimento inconsciente de culpa”. ocasionando uma ruptura do ego – patológica ou não. produzindo efeitos importantes. o superego. As identificações que sucedem o complexo de Édipo.

Esta alteração do eu recebe sua posição especial: enfrenta-se o outro conteúdo do eu [referente às tendências sexuais. Assim.. assim.originalmente bissexual. de um lado. com anotações minhas em vermelho e entre colchetes: “como resultado mais universal da fase sexual governada pelo complexo de Édipo. da identificação] como ideal do eu ou superego” (tradução livre do espanhol. inversamente. as possibilidades de comportamento incrustadas no complexo edipiano são múltiplas. O superego (troca-se de novo o termo). p. pareceu-me mais bem elaborado). manifestando-se como consciência ou sentimento inconsciente de culpa. portanto. sobre o ego: manifesta-se com um caráter impulso sob a forma de um imperativo categórico. visto que uma escolha de objeto reflete uma tendência sexual exclusiva e excludente. nesta parte. o ideal do ego afirma o que se deve ser e proibir o que não se pode ser. de outro. . também representa a “formação reativa enérgica contra essas escolhas” – as objetais. cito. e aqui Freud troca os termos. a identificação e. reprimindo o complexo de Édipo. tendo à sua disposição tanto forças masculinas quanto femininas. que consiste no estabelecimento destas duas identificações [identificação-pai e identificação-mãe. E. visto que o complexo pode ser tanto negativo quanto positivo (em relação ao objeto) e o sujeito é originalmente bissexual. como. ambivalentes desde o início. o objeto. ademais. para a discussão do superego ou ideal do ego. pode-se supor uma consolidação no eu. que é o inverso.ex. unificadas. de alguma maneira. falando-se de gênero. O superego. tendo. Assim. entre si [do modo como explanei nos colchetes anteriores]. após o desfecho do complexo edipiano. de acordo com elas. o objeto do outro. e assim por diante]. a identificação-pai retém o objeto-mãe no complexo positivo para o menino. cujo texto. onde um toma. ter-se-á o resultado de gênero. retém o caráter repressivo e poderoso obtido no complexo de Édipo.

] é o herdeiro do complexo de Édipo. assim. com uma dessexualização das relações objetais (vide Laplanche & Pontalis. um conflito entre ego e ideal do ego consistirá num conflito entre o que é externo e o que é interno. mediante a formação do ideal no que é mais elevado na mente humana pela nossa escala de valores”. Freud nos apresenta o ideal do ego como receptivo a figuras de fora. que se refere ao ideal do ego] e os desempenhos concretos do ego” (grifo meu). sendo . O sentimento de culpa é. a libido do sujeito é investida aos objetos de amor. experiências do ego. e. no ideal do ego. Lorenz) no id e. ao id: o superego representa.. Para Freud. o superego é o que contata o mais profundo do indivíduo. pois. Assim. o superego. Ou seja. o mundo externo. O ego domina o complexo e se sujeita. constitui também a expressão dos mais poderosos impulsos e das mais importantes vicissitudes libidinais do id”. portanto. quando repetidas amiúde numa população. assim. estes objetos são introjetados. sob a forma de consciência (este termo é diferenciado àquele em relação ao sistema Pcpt. como diz Freud. Vocabulário de psicanálise: o verbete Latência). e. portanto. seu id – toda a aquisição filogenética está inclusa: “O que pertencia à parte mais baixa da vida mental de cada um de nós [o id] é transformado. o mundo interno. como nos alerta Freud. a “tensão entre as exigências da consciência [o termo diferenciado. enquanto o ego. é o herdeiro do complexo de Édipo porque. de incontáveis egos. que são seus pais. preservadas por herança.“O ideal do ego [. à sua queda. exercendo a censura moral.). No parágrafo seguinte. do id. neste período.. na base de possuírem o mesmo ideal do ego”. atuando. podem ser impressas (tomei esse termo para fazernos lembrar do termo estampagem de K. Pois bem. visto que ego e id estão conectados e o ego é a ponte de comunicação entre id e mundo externo: são resíduos. E nos diz em seguida que os “os sentimentos sociais repousam em identificações com outras pessoas.-Cs. portanto. que exercem proibições.

4 e início do cap. neste retorno da libido dos objetos sexuais ao ego. e o segundo. que. este pode permanecer inconsciente ao ego. constituindo-o por meio de suas identificações com esses objetos. é a revivescência de antigos egos. superego e ideal do ego. Ademais. ego que visa se tornar o único objeto de amor do id. com isso. Deste narcisismo. ou melhor. E como as pulsões do id. procede do estoque narcísico de libido: para a libido transformar-se em libido do ego deve haver uma dessexualização. final do cap. visto que se pode tanto regredir quanto avançar: Freud diz que uma regressão se deve à desfusão de pulsões. ser amado por ele. à . Esta energia. na tentativa de desfusioná-los. anterior à gênese do ego. por isso. Notei que o narcisismo primário e o secundário estão ligados (ou parecem estar). o instinto de destruição é habitualmente colocado a serviço de Eros”. E. donde os objetos antes investidos retornam ao ego. um abandono dos objetos sexuais. por conseguinte. pois. dá-se o narcisismo secundário ou narcisismo do ego. 5). o autor expõe o caráter tênue de sua hipótese das pulsões de vida e morte. respectivamente. Assim. modifica-se a fim de tornar-se idêntico ao(s) objeto(s) amado(s) pelo id e. o superego ou ideal do ego. Freud denomina de força neutra o Eros dessexualizado: aquela que sucede o desfalecimento do complexo edipiano. Freud retoma os conceitos de pulsões de vida e pulsões de morte. à gênese do ego e do superego ou ideal do ego (Cf. cuja expressão era única até o desfalecimento do complexo edipiano. E faz-nos lembrar que “para fins de descarga. constituem o superego. surge-se. segundo Freud. retirando-lhes de sua identidade. E neste parágrafo as fases de desenvolvimento libidinal aparecem desprovidas de fixação cronoontogenética. podem também ser entendidos de acordo com o desenvolvimento do organismo vivo: o primeiro pertencendo a qualquer fase primitiva. Em seguida.formado pelo ego a partir do id. da primeira identificação deste narcisismo secundário.

Lembrar: A Prof. contudo menos que o id. que aponta para um estado inicial. enquanto o segundo se refere à interdição. . numa liberação das pulsões agressivas do superego. O sentimento de culpa se torna inconsciente por conta duma repressão feita pelo ego em relação às pulsões do superego. A desfusão das pulsões ocasiona o caráter geral de severidade e crueldade do superego. e. portanto. anterior à organização do ego. É a sublimação realizada pelo ego que resulta na desfusão das pulsões e.consolidação do ego forte. O superego é um entrincheiramento das pulsões de morte. sendo que cada um diz respeito a um senhor do ego: o primeiro. ao não-fazer. e o terceiro. No apêndice B. portanto. o promotor destas mesmas. no qual a pessoa integral é tida como id. visto que o ideal do ego é posto. ameaça o ego de punições. mas a primeira proposição parece não precisar de mais escrúpulos]. temos uma citação das Novas Conferências Introdutórias de Freud. constituída por múltiplos egos – do passado. no qual ele se projeta a ser algo para ser amado pelo Outro. esta estância possui mais saber que o ego. também como alguma figura exterior e o superego como uma estrutura filogeneticamente herdada. o segundo. Numa escala de saber. O ego-ideal é aquilo que é visado pelo ideal do eu ao medir o ego e o dever-ser. [Este parágrafo necessita duma maior averiguação. à realidade. Freud ao fim do ensaio distingue três tipos de medo. no mesmo texto. ao superego. visto que este quer tornar-se um objeto de amor para o id. que é uma resposta do ego ao imperativo categórico do superego. que é. que aspira. que provêm do id. de 1938-40. portanto do sentimento de culpa. a respeito da conduta moral do sujeito. em geral.ª Rosane Lustoza distinguiu ideal do ego e superego da seguinte maneira: o primeiro refere-se a um dever-ser do sujeito. que é feito pelo tradutor. ao id.

.

dois aspectos ao observador. apresenta.] tem de ser defendida contra o indivíduo. de que tudo acontece antes no material e só depois no mental. inclui todos os regulamentos necessários para ajustar as relações dos homens uns com os outros e.. 15). instituições e ordens dirigem-se a essa tarefa” (p.O futuro de uma ilusão (1927) Este é um famoso ensaio de Freud dedicado ao tema da religião.] toda civilização tem de se erigir sobre a coerção e a renúncia ao instinto” (p. expressão pela qual quero significar tudo aquilo em que a vida humana se elevou acima de sua condição animal e difere da vida dos animais – e desprezo ter que distinguir entre cultura e civilização –.. inclui todo o conhecimento e capacidade que o homem adquiriu com o fim de controlar as forças da natureza e extrair a riqueza desta para a satisfação das necessidades humanas... 17). CIVILIZAÇÃO. as massas podem ser induzidas a efetuar o trabalho e a suportar as renúncias de que a . Freud tem uma perspectiva materialista. 17).] quanto menos um homem conhece a respeito do passado e do presente. anti-sociais e anticulturais. essas determinar o suficientemente comportamento delas na sociedade humana” (p. 15-16). Por um lado. “A civilização [. como sabemos. “A civilização humana. “[. pelo viés da (sua) psicanálise. portanto. INDIVÍDUO VS. num grande número fortes de para pessoas. mais inseguro terá de mostrar-se seu juízo sobre o futuro” (p. especialmente.. tendências e são que. 16). a distribuição da riqueza disponível” (pp. “Só através da influência de indivíduos que possam fornecer um exemplo e a quem reconheçam como líderes.. e seus regulamentos. “[. “Acho que se tem de levar em conta o fato de estarem presentes em todos os homens tendências destrutivas e. por outro.

existências depende. 20087. II] A civilização também é defendida através de “medidas de coerção e outras. . O superego permite o status quo da civilização. internalizando-a na infância: a coerção passa a ser interna. 17). São Paulo: Companhia de Bolso. pois um agente mental especial. [Cap. 20).. 21). Tudo isto aparece como hostil à civilização. que é horizontal (cf. Trata-se aqui da visão freudiana da psicologia das massas: é vertical. Toda criança 7 Jacques Lacan: esboço de uma vida.. história de um sistema de pensamento. 20).] seja hoje a mesma que era nos primórdios da história” (p. que reagem desejos instintuais encontram-se os do canibalismo. a assume e a inclui entre seus mandamentos. nascem de novo com cada criança. já que consolida a moral. “[. os neuróticos. que os homens não são espontaneamente amantes do trabalho e que os argumentos não têm valia alguma contra suas paixões” (p. do incesto e da ânsia de matar” (p. 18)... Gustave Le Bon. 240-242). Roudinesco. “Não é verdade que a mente humana não tenha passado por qualquer desenvolvimento desde os tempos primitivos e que [. “Os desejos instintuais que sob elas padecem. há uma classe de pessoas.] existem duas características humanas muito difundidas. o superego do homem. que se destinam a reconciliar os homens com ela e a recompensá-los por seus sacrifícios” (p. em oposição à de. a saber. responsáveis pelo fato de os regulamentos da civilização só poderem ser mantidos através de certo grau de coerção. “Acha-se em consonância com o curso do desenvolvimento humano que a coerção externa se torne gradativamente internalizada. e que se tenham erguido à altura de dominar seus próprios desejos instintuais” (p. por exemplo. Tudo correrá bem se esses líderes forem pessoas com uma compreensão interna (insight) superior das necessidades da vida. pp.

portanto. por meio de fraude. 2008. mentira e assim por diante. é só por esse meio que ela se torna um ser moral e social” (p. “O nível moral [.] os ideais se baseiam nas primeiras realizações que foram tornadas possíveis por uma combinação entre os dotes internos da cultura e as circunstâncias externas. à impunidade dos mesmos. as satisfações que podem ser derivadas dessas fontes” (p. 22). Dicionário de Psicanálise. Essa satisfação pode ser partilhada não apenas pelas classes favorecidas. 21).. A satisfação que o ideal oferece aos participantes da cultura é. O ideal do eu como ideal do grupo (cultural) pode ser entendido como ideologia ou visão de mundo: Weltanschauung. suas vantagens sob forma de ideais e criações artísticas. em compensação. mas. Há.. 22). Freud dirá que ainda há desejos ou impulsos (avareza.. também Laplanche & Pontalis. segundo ele. “A satisfação narcísica proporcionada pelo ideal cultural encontra-se também entre as forças que alcançam êxito no combate à hostilidade para com a cultura dentro da unidade cultural. e que essas primeiras realizações são então erigidas pelo ideal como algo a ser levado avante [cf. Freud dirá também que uma classe oprimida de uma civilização tende para a não-internalização das proibições culturais.. à destruição da própria cultura. de modo que não necessite de medidas externas de coerção. impulsos agressivos e desejos sexuais) capazes de prejudicar outras pessoas que ainda assim são satisfeitos numa comunidade e isto se deve. além disso. sobre o ideal do ego]. de natureza narcísica. isto é. . repousa em seu orgulho pelo que já foi alcançado com êxito” (p. calúnia. É só por meio deste processo que o homem se torna “veículo da civilização”. “[.] não constitui a única forma de riqueza mental que entra em consideração ao se avaliar o valor de uma civilização.nos apresente esse processo de transformação.

“apesar de sua hostilidade [. por esse motivo. que as ideias religiosas são “o item mais importante do inventário psíquico de uma civilização” (p. mas também pelas oprimidas. Metanarrativa se aproxima da concepção atrás denominada de ideologia ou visão de mundo e. que está para além dessa narrativa particular mesma. Esta eleição é proveniente do próprio modo de funcionamento da narrativa. 23). global. para reconciliar o homem com os sacrifícios que tem de fazer me benefício da civilização” (p. então. .] podem ver neles os seus ideais” (p. onde “nível acima” se trata de uma “eleição”. contudo.. 24). Freud dirá. 23) e “ilusões” (idem).. em que as articulações significantes e significativas (o próprio interior da narrativa) operam sobre os falantes e os falantes dão voz a essas articulações. da noção de significante-mestre de Lacan. como nenhuma outra coisa. [Cap. A “identificação das classes oprimidas com a classe que as domina e explora é. Ela está “um nível acima”.. O papel da arte: “[. apenas um parte de um todo maior” (p. 8 Entendo por meta-narrativa toda e qualquer narrativa capaz de produzir significações em outras narrativas particulares..] só uma única pessoa se poderia tornar irrestritamente feliz através de uma tal remoção das restrições da civilização. 23). 23). porque.. III] “[. que se tivesse apoderado de todos os meios de poder.] a arte oferece satisfações substitutivas para as mais antigas e mais profundamente sentidas renúncias culturais. também. um ditador. Qualquer narrativa particular pode.que desfrutam dos benefícios da cultura. 2) As classes oprimidas sublimam a tensão que sofrem pela opressão em outras culturas (ou em seus iguais). ter sentido a partir desse referente (aquilo a que ela se refere). já que o direito a desprezar povos estrangeiros as compensa pelas injustiças que sofrem dentro de sua própria unidade” (p. 23).. E mesmo ele teria todos os motivos para desejar que os outros observassem pelo menos um mandamento cultural: ‘não matarás’” (p. e. por assim dizer. e essa pessoa seria um tirano. em seguida. Duas deduções: 1) A metanarrativa8 permite a coesão. ela serve.

Ela nos destrói [. 25). Freud dirá que. ademais. na página 24.] método. “do mesmo tipo que conhecemos em nossa sociedade. em que Freud aparece contra a abolição da civilização e. Para a primeira tarefa da cultura (preservar o homem contra o poder da natureza). já que impõe certas medidas de privação ao indivíduo.] sentirnos em casa no sobrenatural e lidar com nossa insensata ansiedade através de meios psíquicos” (p. pelo mais forte interesse prático. mas. a razão de ser da própria civilização. particularmente eficiente. podemos tentar conjurá- . movida. é o próprio perigo da natureza. “Contra esses violentos superhomens externos podemos aplicar os mesmos métodos que empregamos em nossa própria sociedade. sua curiosidade. todas as suas dificuldades e animosidades internas.Há um trecho. 25) –. perante grandes perigos naturais. porque. de aproximar-se do eternamente distante – de “forças e destinos impessoais” (p.. dotando os elementos naturais de qualidades humanas. é verdade. diferentemente da técnica.. Por outro lado. contra o anarquismo. 25). apesar de o estado de natureza não exigir restrição dos instintos. e se lembra[m] da grande tarefa comum de se preservar[em] contra o poder superior da natureza” (p. de nos coibir. a própria natureza “possui seu [. então poderemos [. por isto. exige consolação. 25). quanto ao segundo ponto. diz ele. é certo que a civilização gera sofrimento. os homens se esquecem das “discordâncias de sua civilização. pede uma resposta” (p.. a sociedade não se resume a isso: “A auto-estima do homem. a vida e o universo devem ser despidos de seus terrores. o motivo pelo qual os seres humanos se reuniram em sociedade. Assim. a solução foi também humanizar a natureza. a solução foi humanizar a natureza.. seriamente ameaçada.. Mas.] através das próprias coisas que ocasionaram nossa satisfação” (p. 24)..

despojá-los de uma parte de seu poder” (p. particularmente a que é demonstrada na morte” (p. “exorcizar os terrores da natureza” (p. o caráter de desamparo do homem (em relação aos dois itens restantes) pôde ser solucionado com a crença em além-mundos. 26). Contudo. o desamparo do homem não podia ser remediado. 26). da regularidade e conformidade de sua apresentação (leis). mas um protótipo filogenético (que favorece a sobrevivência da civilização). os deuses tem três missões: 1. que sua alma migre (migração das almas). então. já que permanece o seu DESAMPARO. dizer que essa situação reflete a nossa vida infantil em relação ao pai. então. Então. 2. Isto. E é por isto que o homem não transforma as forças impessoais da natureza em homens – seres iguais a ele –. Por outro lado. para que tudo . 26). 3. “reconciliar os homens com a crueldade do Destino. diz Freud. segundo Freud. transformando-os em deuses. esses exerceriam apenas uma função moral em relação aos homens – a sua terceira função. o qual tememos. influenciando-os assim. 26). Freud irá. suborná-los e. A partir disto também. há a crença numa Providência atuando de modo que tudo o que acontece seja pensado por Ela. mas “lhes concede o caráter de um pai” (p. Com os gregos houve a ideia de que haveria uma autonomia da natureza e do Destino (os próprios deuses estariam sob seu mando) em relação aos deuses e que. e o desprendimento do caráter humano dessas imagens. Mesmo com o conhecimento dos fenômenos naturais. Compensar os homens “pelos sofrimentos e privações que uma vida civilizada em comum lhes impôs” (p. apaziguá-los. “os deuses se mostravam aptos a falhar” (p. o homem ainda continua ansiando por deuses.los. assim. mas que pode nos proteger contra os perigos conhecidos. porque são sumamente poderosos. 27). O destino do homem é. que “significa um aperfeiçoamento da natureza do homem” (p. 27). 26). reflete não só um protótipo infantil. Segundo Freud.

de fato. IV] “Tentei demonstrar que as idéias religiosas surgiram da necessidade de que se originaram todas as outras realizações da civilização [.. porque ele já as encontra lá. mas como um novo começo. com sufixo plural [-im]) é uma aglutinação de deuses. e ele não seria capaz de descobri-las por si mesmo. 31). . por parte do homem primitivo. a fim de. Como dirá posteriormente. 28).. A morte não aparece como a maior das privações. que se faziam sentir penosamente [. 28). são-lhe presenteadas já prontas. mas como sob o mando dessa Providência. 30). Freud dirá que o único modo de compreensão da natureza. As forças da natureza não aparecem mais como impiedosas. que significa Deus ou divindade. um “retorno ao inanimado” (p. [cap..aconteça do melhor modo para os homens. com os seus saberes e poderes.] é especialmente apropriado dizer que a civilização fornece ao indivíduo essas idéias. controlá-lo” (p. um “novo tipo de existência” (p. 27). na página 32. Aquilo em que ele está ingressando constitui a herança de muitas gerações [. posteriormente. é a projeção de sua existência. que está oculto por detrás da própria figura. todos os deuses da Antiguidade foram condensados” (p.]” (p. em nossa civilização. de modo que crie seres semelhantes a ele próprio referentes a cada acontecimento. natural ao homem personificar tudo o que deseja compreender.... E Freud dirá que o núcleo da figura divina é o pai. “um ser divino. A isso acrescentou-se um segundo motivo: o impulso a retificar as deficiências da civilização. Aqui Freud joga com o mítico: Elohim (da palavra Eloha.] da necessidade de defesa contra a força esmagadoramente superior da natureza. “é. os deuses estão vinculados ao complexo paterno do homem e ao seu desamparo.

[Cap. ele irá avaliar a . os ensinamentos merecem ser acreditados porque já o eram por nossos primitivos antepassados. impresso em toda religião. O pai virá. O homem busca proteção ao seu desamparo e contra as ameaças mundanas em um Pai-superior. posteriormente. por isto. possuímos provas que nos foram transmitidas desde esses mesmos tempos primevos. Neste trecho (cap.“Em Totem e Tabu. V] Freud apontará três pontos em que se funda a reivindicação da crença religiosa. como uma figura marcada por uma ambivalência: “ela o teme tanto quanto anseia por ele e o admira” (p. 32). “Em primeiro lugar. mesmo que fossem acometidas por dúvidas. o homem é uma eterna criança. 35). A formação da religião empresta esta defesa contra o desamparo infantil. Freud tratará de retomar o tipo anaclítico de ligação (narcísica) da libido da criança em relação à mãe. Freud apresenta a pressão imposta sobre as pessoas para que cressem nos axiomas religiosos trataram de levar as pessoas a acreditar que o seu dever era acreditar. Freud dirá que o totemismo está estreitamente relacionado às religiões posteriores dos deuses. O interesse de Freud. mas apenas do totemismo” (p. é totalmente proibido levantar a questão de sua autenticidade [os nossos antepassados acreditaram. “Os animais totêmicos tornam-se os animais sagrados dos deuses. mas fundamentais restrições morais – as proibições contra o assassinato e o incesto – originam-se do totemismo” (p. então devemos acreditar]” (p. V). um ser neotônico por excelência. 32). 31). em segundo. Isto está. então. mas “o corpo acabado das idéias religiosas” (p. não era meu propósito explicar a origem da religião. Em seguida. não é a idéia de Deus. Em seguida. segundo Freud. em terceiro. e as mais antigas. cuja função é proteção. 33).

ou seja.] [ou] refutadas” (p. uma ordem moral no universo e uma vida posterior. “O que é característico das ilusões é o fato de derivarem de desejos humanos” (p... desprezamos suas relações com a realidade. principalmente o Credo quia absurdum e o “como se”. assim procedendo. “Podemos [. e que suprem o amparo (do “ser carente”. . ao colocar o verbo desejar em questão (o grifo do texto é meu). Freud dirá que a essência da religião é a busca de um “remédio” à impotência do homem perante o universo.. como diz Freud. 40). VI] Freud dirá que a religião se pauta na força dos desejos de proteção. Aqui. a qual é proporcionada pelo pai. na verdade. um tipo de intelectualidade débil. “Dir-nos-emos que seria muito bom se existissem um Deus que tivesse criado um mundo. Não se pode pôr a prova justamente porque.autenticidade dos postulados religiosos e a sua capacidade de serem submetidos à crítica. então tornado Grande-pai.. fato bastante notável que tudo isso seja exatamente como estamos fadados a desejar que seja” (p. Freud dirá que não se pode forçar alguém a descrer. irrealizáveis ou em contradição com a realidade” (p. 42). Freud convoca todos os elementos enumerados como ilusórios. como caracteriza Herder o ser humano). tal como a própria ilusão não dá valor à verificação” (p. constitui.] chamar uma crença de ilusão quando uma realização de desejo constitui fator proeminente em sua motivação e. 40). porém que a religião é. 40) e porque “o trabalho científico constitui a única estrada que nos pode levar a um conhecimento da realidade externa a nós mesmos” (p. 39) e “As ilusões não precisam ser necessariamente falsas. 40). [Cap. “não podem ser provadas [. uma Providência benevolente. porém.

após ter identificado a religião como ilusão. (ciência das ideias) e. Em seguida. Assim. os “instintos associais e egoístas” (p. E ele tocará no conceito de Weltanschauung. preferivelmente. relaciona-se mais com o outro substantivo. Este conceito pode ser traduzido por ideologia ou. A influência não é a mesma que em tempos anteriores e isto “não aconteceu por que suas promessas tenham diminuído.[Cap. Ideologia. 43) estariam livres e o caos seria estabelecido. por exemplo. que é Ideologie e está relacionado ao sentido político. e o segundo. por Marx. o que se deve fazer é tomar a “filosofia do ‘como-se’” (idem). Freud tratará de estender a noção da relação entre desejo e ilusão para o domínio cultural e político mais amplo. posteriormente. embora já tenha sido usado para descrever imposição de ideais. VII] Neste capítulo. Ele responderá dizendo que “a civilização corre um risco muito maior se mantivermos nossa atual atitude para com a religião do que se a abandonarmos” (p. por Antoine Tracy e seus cols. porque os princípios religiosos é que a mantém. discorrerá sobre a influência da religião sobre o povo em sua época. Deus todo-poderoso coloca o homem na situação de obrigado para com a civilização. que. que se refere a uma visão do mundo ou sua representação. para preservar a cultura. tem dois termos correspondentes: Weltanschauung. a meu ver. visão-de-mundo. Freud dirá também que. antes. enquanto método de análise. tratava de uma “ciência das ideias”. sendo que. O primeiro termo é utilizado por Kant e Scheleiermacher. Sem a religião e as crenças. com outro sentido. 44). comportando-nos de modo como se Deus existisse. mas . A religião (as crenças e os princípios religiosos) sustém a civilização. a psicanálise pode servir tanto para se argumentar contra a religião quanto a favor. no alemão.

é o conhecimento que provoca. daquilo que pode ter sua origem remontada à autoridade de um parlamento todo-poderoso ou de um alto judiciário. VIII] “A insegurança da vida. 47). isto é. para servir a seus interesses [das pessoas mesmas. para que os homens não destruam esta última. e reserva para si o direito à morte comunal de quem quer que viole a proibição. em uma sociedade de direito de morte e poder sobre a vida. a civilização. sem santidade embutida]. a religião..] todas As que com as abandonássemos honestidade regulamentações inteiramente puramente da preceitos civilização pessoas compreenderiam que são elaborados. segundo Freud. Foucault falará. Porém. de certo modo. do biopoder e da biopolítica (esta mesma que Freud discorre sobre). A técnica e a ciência avançaram de tal modo que os homens já não creem na religião. a saber. [Cap. em História da Sexualidade. o da carência de fundamento para a vida em civilização em caso de inexistência de Deus. a constituiria Deus origem e vantagem e humana indubitável admitíssemos de [.porque as pessoas as acham críveis” (p. justamente.. então. e adotariam uma atitude mais . Freud sugere: “Visto ser tarefa difícil isolar aquilo que o próprio Deus exigiu. que constitui um perigo igual para todos. temos justiça e castigo” (p. Para resolver o problema posto no capítulo anterior. O fato aqui para Freud é que os homens que se utilizam de seu cérebro – em sua maior parte. não tanto para dominá-las. provar-se-á que Deus inexiste. deve-se rever a relação entre religião e civilização. este afastamento. homens descrentes – eles são veículos da civilização e que. na falta daquela. 49). Aqui. se Deus é o único fundamento de se preservar a civilização. pelo contrário. mas. une hoje os homens numa sociedade que proíbe ao indivíduo matar. pois.

] o pai primevo constitui a imagem original de Deus.. em seguida. via de regra... 50). embora. 51). mas têm de ser domadas através de atos de repressão.. se acha o motivo da ansiedade [. p.] Deus realmente desempenhou um papel na gênese daquela proibição [.] Isso se dá porque muitas exigências instintuais que posteriormente serão inaproveitáveis não podem ser reprimidas pelo funcionamento racional do intelecto da criança.. FREUD apenas ACRESCENTA realizações de ALGO AO “CABEDAL mas também DE IDEIAS RELIGIOSAS”: “[.. é verdade.] o deslocamento da vontade do homem para Deus é plenamente justificado [. o modelo a partir do qual as gerações posteriores deram forma à figura de Deus [. 50) e pior ainda deve ter sido na antiguidade.] a humanidade como um . sendo primeiro válido em relação ao substituto do pai e.. Em seguida...] a doutrina religiosa nos conta a verdade histórica [.. dirá que foi da morte do pai primitivo que surgiu o mandamento: “não matarás”.. 51).. estendido aos demais. mas não numa universalidade completa – admite Freud (cf. por trás dos quais. a certa modificação e disfarce [. “Sabemos que a criança humana não pode completar com sucesso seu desenvolvimento para o estágio civilizado sem passar por uma fase de neurose [.] o cabedal de idéias religiosas inclui não desejos..... ressalta Freud.]” (p. em vez de visarem à sua abolição. 51). “[.amistosa para com eles e. importantes reminiscências históricas” (p. Freud falará das forças das paixões: “Mesmo no homem atual os motivos puramente racionais pouco podem fazer contra impulsões apaixonadas” (p...] submetida. visariam unicamente à sua melhoria” (p.

admitindo-o.. tombou em estados análogos às neuroses” (p. 55). justamente porque não haveria argumentos suficientes ou mesmo proibições e também porque haveria certa “dependência” (Freud não utiliza este termo). “O crente está ligado aos ensinamentos da religião por certos vínculos afetivos” (p. a questão cairia sobre o poder significativo do significante e a relação desejante que o sujeito tem para com ele. ela abrange um sistema de ilusões plenas de desejo juntamente com um repúdio da realidade” (p. “Se. por outro. ao contrário da aceitação. por assim dizer. Pela aceitação da neurose universal (crente).] a religião seria a neurose obsessiva universal da humanidade. por assim dizer. Mais adiante. 52). na página 56. 52). a religião traz consigo restrições obsessivas. 51). . por um lado. em seu desenvolvimento através das eras. Freud dirá que arrancar a crença do crente num só golpe seria irrealizável.todo. do relacionamento com o pai” (p. exatamente como. Isto ainda parece um tanto quanto aristotélico. A partir disto. tal como a neurose obsessiva das crianças. como significante-mestre]. Freud dirá que as verdades históricas precisam ser apresentadas como preceitos racionais da civilização. [Pensando lacanianamente. “[. exceto nossa inteligência” (p. de outros meios de controlar nossa natureza instintual. do crente em relação àquilo que crê. porém. “Não dispomos. faz a neurose obsessiva. assim e inconscientemente.. num indivíduo. o indivíduo é poupado duma neurose individual. “incondicional” às verdades deformadas da religião. ela surgiu do complexo de Édipo. 54).

Freud seguirá dizendo que o homem é, sim, capaz de sobreviver sem “a consolação da ilusão religiosa” (p. 57), embora seja mesmo difícil de viver numa situação dessas. Porém, o homem deve admitir o seu desamparo e a sua insignificância perante o universo, retirar-se do centro do universo. “[...] não há dúvida de que o infantilismo está destinado a ser superado. Os homens não podem permanecer crianças para sempre; têm de, por fim, sair para a ‘vida hostil’. Podemos chamar isso de ‘educação para a realidade’” (p. 57). “Afastando suas expectativas em relação a um outro mundo e concentrando todas as energias liberadas em usa vida na Terra, provavelmente conseguirão alcançar um estado de coisas em que a vida se tornará tolerável para todos e a civilização não mais será opressiva para ninguém” (p. 58). A religião também permite a sublimação dos homens. Freud dirá que o intelecto dos homens não tem tanto poder quanto a sua vida instintual, mas que, “num futuro infinitamente distante” (p. 61), o intelecto poderá ter sua primazia, assumindo, inclusive e possivelmente, o papel de Deus. “É possível que a educação libertada do ônus das doutrinas religiosas não cause grande mudança na natureza psicológica do homem” (p. 62). E Freud defenderá a ciência contra a religião: “As transformações da opinião científica são desenvolvimentos, progressos, e não revoluções” (p. 63). “[...] tentou-se desacreditar o esforço científico de maneira radical, com o fundamento de que, achando-se ele ligado às condições de própria organização, não poderia produzir nada mais senão

resultados subjetivos, ao passo que a natureza real das coisas a nós externas permanece inacessível. Mas isso significa desprezar diversos fatores de importância decisiva para a compreensão do trabalho científico. Em primeiro lugar, nossa organização – isto é, nosso aparelho psíquico – desenvolveu-se precisamente no esforço de explorar o mundo externo, e, portanto, teria de ter concebido em sua estrutura um certo grau de utilitarismo; em segundo lugar, ela própria é parte constituinte do mundo que nos dispusemos a investigar e admite prontamente tal investigação; em terceiro, a tarefa da ciência ficará plenamente abrangida se a limitarmos a demonstrar como o mundo nos deve aparecer em conseqüência do caráter específico de nossa organização; em quarto, as descobertas supremas da ciência, precisamente por causa do modo pelo qual foram alcançadas, são determinadas não apenas por nossa organização, mas pelas coisas que influenciaram essa organização; finalmente, o problema da natureza do mundo sem levar em consideração nosso aparelho psíquico perceptivo não passa de uma abstração vazia, despida de interesse prático” (p. 63). “Não, nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não nos pode dar, podemos consegui em outro lugar” (p. 63). Aqui a ciência, para Freud, parece ser o “remédio para todos os males”. Isto e a ideia progressista da ciência de Freud deixam clara a sua influência positivista. Teses principais deste texto

A civilização é coercitiva e pautada na restrição aos instintos, já que os homens possuem instintos contrários à civilização, mas também deve ser pautada em recompensas para o sacrifício dos homens.

• A civilização deve se defender contra o indivíduo. • A coerção externa se internaliza no supereu.

• O ideal cultural (extensão do ideal do eu) permite a coesão de um grupo.

A civilização é necessária, já que o defende contra a natureza. natureza e reconciliá-lo com o infinitamente distante.

• A civilização tem duas tarefas: defender o homem contra a • A civilização constitui-se de um já-aí de valores, crenças, e assim por diante, que o indivíduo deve aceitar. • A religião é uma ilusão, porque sua motivação é um desejo. • A religião se pauta no desejo de o homem suprir e mesmo suprimir o seu desamparo em relação à natureza. • O homem deve investir as suas energias para o mundo, no lugar de o fazer em relação ao além-mundo, porque, assim, tornar-se-ia um ser capaz. • O homem é um ser infantil. • A civilização ainda vive o seu período de infantilidade. • Os deuses surgem da necessidade humana de um grande pai protetor. • A cultura atual se funda na religião. • A religião, além de ser formada por desejos, o é por reminiscências históricas (o totemismo, principalmente). • O intelecto pode superar o poder das paixões, mas num futuro distante, após a superação da ilusão e a integração civilizada dos homens.

junto a ele. 74) e que as fronteiras do ego não são bem delimitadas ou permanentes. no qual se pauta toda e qualquer religião e que mesmo uma pessoa sem desejos e ilusões (em relação à religião) poderia ter e. Freud discorrerá sobre a resposta de seu amigo ao seu livro recém publicado – O futuro de uma ilusão. depois. apresentando. Inicia-se com uma delimitação de padrão. chamar-se religiosa. Freud dirá. através de uma “ação especial” (p. “Não consigo descobrir em mim esse sentimento ‘ocêanico’. Não é fácil lidar cientificamente com sentimentos’ (p. Freud retoma várias ideias de O futuro de uma ilusão (1927). mas também “à diversidade de seus impulsos plenos de desejo” (p. quase sendo. aqui. 75). “Uma criança recém-nascida ainda não distingue o seu ego do mundo externo como fonte das sensações que fluem sobre ela” (p. do nosso próprio ego” (p. 73): Freud está. 74). . há diversos tipos de pessoa. 74) e que. mesmo não convencido da existência desse sentimento. dizendo-se que. O desenvolvimento do ego aparece após a primeira introdução de um “objeto” (o seio da mãe). Em seguida. Freud está aí identificado com o discurso científico. que “não há nada de que possamos estar mais certos do que do sentimento de nosso eu. a existência de um padrão de normalidade cultural. um só: foi absorvido. assim. o próprio ego não deve ter sido o mesmo durante toda a vida da pessoa. não sendo o mesmo na criança e no adulto. Ele dirá a seguir que este sentimento oceânico pode ser um sentimento de ligação indissolúvel “com o mundo externo como um todo” (p. mas ter se desenvolvido. em uma cultura. Dirá que esse amigo argumenta haver um sentimento oceânico. Esse padrão não se deve apenas aos comportamentos (ações e pensamentos) das pessoas.O mal-estar na civilização (1930) Neste ensaio. Além disso. que há pessoas que “não contam com a admiração de seus contemporâneos” (p. em verdade. prefere não negar sua existência noutras pessoas. 73).

ou que a preservação em geral dependa de certas condições favoráveis” (p. não sendo. 76). um mundo externo” (p. É sempre possível que. como aponta Freud. de si mesmo. 78). em circunstâncias apropriadas (quando. de modo que possa haver “a defesa contra sensações de desprazer que realmente sentimos ou pelas quais somos ameaçados” (p. 76). mas não suficiente. então. “numa expressão mais correta.76). quer como exceção – a tal ponto. cujo afastamento e cuja fuga são impostos pelo princípio do prazer” (p. originalmente o ego inclui tudo. preservado e que. de alguma maneira. separa-se do mundo externo ou. “A suposição de que tudo o que passou é preservado se aplica. Afinal. segundo Freud. 77). separa. pode remontar a um sentimento do ego antigo e revivescido. mesmo na vida mental. a regressão volta suficientemente atrás). algo do que é antigo seja apagado ou absorvido – quer no curso normal das coisas. acabam por se confundir com o ego por serem inseparáveis dele. por sua origem interna.. Mas. Após a separação entre externo e interno o princípio da realidade se instaura. que não possa ser restaurado nem revivescido por meio algum.. mesmo na mente. destruído. pode ser trazido de novo à luz” (p. posteriormente. Alguns objetos e sensações de desprazer. de modo que a ilimitabilidade do mundo o vínculo do ego com o universo se mantenha como conteúdo ideacional como resquício próprio sentimento do ego. necessariamente. do que se deduz que o orgânico seja condição necessária. como algo que existe “exteriormente” e. 80). O sentimento oceânico. então. ao psiquismo. também.] o que se passou na vida mental pode ser preservado. o sentimento do ego pode persistir na maturidade. “nada do que uma vez se formou [no inconsciente] pode perecer – o de que tudo é. O ego. . “[. por exemplo. só com a condição de que o órgão da mente tenha permanecido intacto e que seus tecidos não tenham sido danificados por trauma ou inflamação” (p. 79). após as “múltiplas e inevitáveis sensações de sofrimento e desprazer.

A fuga do sofrimento sobrepujou a busca de prazer. sob a influência do mundo externo. que constitui seu conteúdo ideacional. da relação com o mundo e com outros homens. como em O futuro de uma ilusão. já preconizada em O futuro de uma ilusão. tipos de satisfação e fuga de sofrimentos. de que a civilização sob o mando da técnica científica é a melhor para todos.. E isto de modo que a nossa própria felicidade se encontre dentro dos limites de nossa constituição. E Freud retomará a ideia.] o que decide o propósito da vida é simplesmente o programa do princípio do prazer.. A questão do sentido da vida não tem sentido.E. Freud entende a felicidade numa dimensão negativa (evitar sofrimento e desprazer) e numa dimensão positiva (buscar experiências de intenso prazer). “[. por estar em contraste com a realidade. essas ilusões não são menos eficazes que o princípio da realidade. 84). Contudo. A ‘unidade com o universo’. sendo que o sofrimento é tão mais constante. já que a felicidade é a satisfação dos instintos: . já que as portas a este último estão cerradas. Freud tratará da felicidade. Esse princípio domina o funcionamento do aparelho psíquico” (p. sob a pressão do sofrimento: “o próprio princípio do prazer. “Posso imaginar que o sentimento oceânico se tenha vinculado à religião posteriormente. se transformou no mais modesto princípio da realidade” (p. como se configurasse uma outra maneira de rejeitar o perigo que o ego reconhece a ameaçá-lo a partir do mundo externo” (p. porque funcionam como fantasias inconscientes. soa como uma primeira tentativa de consolação religiosa. 81). De novo (como em O futuro de uma ilusão). então. 85). Em seguida. provindo. da constituição do corpo. Freud dirá que o sentimento oceânico remonta à situação de desamparo infantil. Freud dirá que o desejo é uma ilusão.

O trabalho (no sentido de produção). no sentido psicanalítico.. • O eremita.• Felicidade de quietude: não-satisfação em troca de nãosofrimento. libido: reorientação dos instintivos” (p. aparece como . é tornada acessível inclusive àqueles que não são criadores. fruição que. Freud falará de três modos de fuga da realidade: • O intelectual. por intermédio do artista. Após este trecho. como origem das ilusões e distante do senso de realidade. 88). essa região foi expressamente isentada das exigências do teste de realidade e posta de lado a fim de realizar desejos difíceis de serem levados a termo. 87-88. “A região onde essas ilusões se originam é a vida da imaginação. Além disso. não faz mais do que ocasionar um afastamento passageiro das pressões vitais” (p. 87). À frente das satisfações obtidas através da fantasia ergue-se a fruição das obras de arte. As pessoas receptivas à influência da arte não lhe podem atribuir um valor alto demais como fonte de prazer e consolação na vida [. na época em que o desenvolvimento do senso de realidade se efetuou. entende-se a potência que Freud quer atribuir ao senso de realidade e a importância de seu diferente: a fantasia. para que a frustração do mundo externo • Sublimação dos instintos: assiste ao deslocamento da libido e consiste na máxima fruição de prazer através de trabalho psíquico e intelectual. • Quanto maior a pureza da da pulsão. a imaginação se encontra no centro. • O artista. na nota de rodapé das pp. • Deslocamento seja evadida.] a suave narcose a que a arte nos induz.. maior a satisfação “objetivos (felicidade) que ela pode proporcionar.

Na página 100. ao mesmo tempo. 89). A religião é uma restrição à felicidade. Freud destaca o papel das atividades mentais superiores. . a reprodução de si no instrumento. A “domada do fogo” e.. O ser humano tem uma tendência inata para a não-ordem (p. para ampliar-se. que define papéis de felicidade a priori (p. 100). A arte de viver: de amar e ser amado (p.. 97). em seguida. 100). também é a técnica que deixa o sujeito mais aberto ao desamparo. “O homem [. de maneira mais próxima. 89): ela (a religião) é um delírio de massa. A cultura protege os homens contra a natureza e os ajunta em seus relacionamentos. 98) e “[. Embora tal seja o melhor método para a obtenção duma maior quantidade de satisfação (prazer/felicidade). 98-99): 1) Proteção e utilitarismo.aquilo que vincula. 3) Higiene e ordem..] atualmente o homem não se sente feliz em seu papel de semelhante a Deus” (p. Definição psicológica da ordem (p. 98).] tornou-se uma espécie de ‘Deus de prótese’” (p. homem e realidade. As três necessidades de uma civilização (pp.. A casa como representação do útero (p. 2) Esteticização e fetichismo.

enquanto que a mulher dispõe. uma ilusão (p. que ameaça a civilização. já que “o homem é lobo do homem”. 109). É a luta entre Eros e Tânatos que representa a evolução cultural. A liberdade. 2) A sublimação. Privação do amor (Eros) e compulsão ao trabalho (Ananke9) são elementos primeiros à vida comunal (p. . 107-8). um desejo. A agressividade aparece como própria ao homem. Freud destaca outro aspecto da civilização: a regulação das relações sociais humanas. de modo que a proposta comunista se faça uma ilusão.Na página 101. assim. O maior problema da civilização é o instinto à agressão. o poder estatal aparece como o primeiro passo da civilização. Três fatores que desempenham papel no processo civilizatório: 1) A formação de traços caracterológicos. 9 Traduzido outrora por Destino (corresponde à divindade grega que representa o Destino. O amor universal é o ponto mais alto que um homem pode alcançar (pp. O que une os homens é Eros (pulsão de vida). Na mesma página. 102). a agressividade não está na propriedade. 3) A renúncia ao instinto. “As mulheres representam os interesses da família e da vida sexual” (p. 106). A renúncia aos instintos e. a uma parcela da felicidade tem por compensação uma parcela de segurança. O homem não dispõe de quantidade ilimitada de libido. Para Freud. a Necessidade). O instinto de morte deriva da tendência à agressão. do qual segue a lei.

então. O sentimento de culpa tem duas fontes: 1) duma autoridade (fase mais primitiva no desenvolvimento individual) e 2) do superego (após sua estruturação no desenvolvimento humano). O superego equivale ao sentimento de culpa (cf. por assim dizer.. então.] a renúncia instintiva (imposta a nós de fora) cria a consciência. p. 128). ao introjetá-los e barrar o ego.É o superego que. 132).. “a renúncia instintiva [. na civilização. o mau comportamento.] O efeito da renúncia instintiva sobre a consciência. a qual. visto que o desejo permanece: o sentimento de culpa é perene. Freud parece se referir à consciência punitiva. Trata-se aqui da formação da consciência a partir da realidade externa (a renúncia) e da formação do .. É a frustração externa que aumenta o poder (de castigo) do superego. Cada renúncia à agressão aumenta o poder do superego. O medo da perda de amor é o que rege a “má consciência”. O SENTIMENTO DE CULPA SE ESTABELECE PELO CONFLITO ENTRE EROS E AGRESSIVIDADE. exige mais renúncias instintivas [. Ao superego a renúncia ao instinto não é suficiente. CONFLITO ORIGINADO DA VIDA EM CONVÍVIO ENTRE OS HOMENS. controla os impulsos agressivos do homem. duma “influência estranha”. A identificação renúncias com a autoridade. O superego é um retorno deformado por um desejo. resultando no sentimento de culpa. O julgamento do superego vem “de fora”.. 132)..] cria a consciência” (p. é que cada agressão de cuja satisfação o indivíduo desiste é assumida pelo superego e aumenta a agressividade deste (contra o ego)” (p. responsável resulta na pelas primeiras dessa instintuais introjeção autoridade: cria-se o superego. Textualmente: “[.. da criança. O segundo sucede (deriva de) o primeiro e lhe dá continuidade. Aqui.

. num lugar ou outro. o sentimento de culpa e o remorso (p. deformado por um desejo. ao passo que.. Esta transforma-se então em seu superego... A ansiedade está sempre presente. maior será o sentimento de culpa resultante do conflito. em suas fases posteriores. 133). O sentimento de culpa se origina do complexo de Édipo e da morte do pai da horda primitiva (cf.. 137). “Através da identificação. fatores constitucionais inatos e influências do ambiente real atuam de forma combinada” (p. [o indivíduo] incorpora a si a autoridade inatacável. ruidosamente. E as relações da ansiedade com a consciência apresentam as mesmas e extraordinárias variações. em . em determinada ocasião. E quanto mais desenvolvida a civilização – argúi Freud –. “o sentimento de culpa nada mais é do que uma variedade topográfica da ansiedade. e de demonstrar que o preço que pagamos por nosso avanço em termos de civilização é uma perda de felicidade pela intensificação do sentimento de culpa” (p. dos relacionamentos reais existentes entre o ego. VIII] Freud diz que foi sua “intenção [. A civilização se liga pela Eros e se fortalece pelo sentimento de culpa. E mais: “na formação do superego e no surgimento da consciência.] a situação [real] é invertida [p. p. toma. 132] [. 133). 134).supereu a partir dos impulsos agressivos abandonados pelo indivíduo.] O relacionamento entre o superego e o ego constitui um retorno. e um objeto externo” (p. [Cap. porém. A morte do pai da horda primitiva . entrando na posse de toda a agressividade que a criança gostaria de exercer contra ele [.] representar o sentimento de culpa como o mais importante problema no desenvolvimento da civilização. ainda individido. por trás de todo sintoma. 135).. posse da totalidade da consciência. coincide completamente com o medo do superego.

e em grande parte permaneça inconsciente. onde. Freud então comparará o desenvolvimento individual (“egoísta”) com o desenvolvimento da civilização (“altruísta”). Freud dirá que o sentimento de culpa surge da relação masoquista do ego para com o sádico do superego. que somos obrigados a falar de ansiedade inconsciente. De tal modo. seus elementos libidinais são transformados em sintomas e seus componentes agressivos em sentimento de culpa” (p. sendo que o desenvolvimento individual se . se oculta tão completamente. a união entre os homens. “quando uma tendência instintiva experimenta a repressão. 138). portanto. simplesmente um sentimento –. como consequência do ato agressivo executado pelos filhos. sendo antes “conseqüência [sic] dos atos de agressão de que alguém se abstivera” (p. 141. impera o princípio do prazer e. é bastante concebível que tampouco o sentimento de culpa produzido pela civilização seja percebido como tal. através da severidade destrutiva do superego. qualquer agressão pretendida pelo ego foi. O remorso provém dessa relação. no primeiro caso. se desejarmos ter uma consciência psicológica mais clara – visto a ansiedade ser. pelo menos. Por conseguinte. das possibilidades de ansiedade. O sentimento de culpa remonta à morte do pai da horda primitiva. como a reação do ego perante a ação do superego. uma insatisfação. para o segundo. para a qual as pessoas buscam outras motivações. posteriormente.outra. ou apareça como um espécie de malestar [al. para o primeiro. As religiões. contendo a ansiedade de forma pouco alterada. ou. nunca desprezaram o papel desempenhado na civilização pelo sentimento de culpa” (p. grifos meus). igualada ao caráter de agressão realizada. a punição se generalizou perante a onisciência do superego. 140). Unbehagen].

.. do que podem ser no indivíduo. tal como o último.. Ademais. Neste. E há algo claro aqui: há o superego civilizacional e o individual. 10 Para que haja egoísta deve haver altruísta. 143). “Pode-se afirmar que também a comunidade desenvolve um superego sob cuja influência se produz a evolução cultural [. “essa luta entre indivíduo e a sociedade não constitui um derivado da contradição – possivelmente irreconciliável – entre os instintos primevos de Eros e da morte.vê entrecruzado pelas duas tendências (egoísta e altruísta)10. quando a tensão cresce. suas exigências reais permanecem inconscientes no segundo plano.. com freqüência.]” (p. porque é nele onde se acham “preceitos do superego predominante”. passível de reconciliação e – espera Freud – que pode ser reconciliada na civilização. Neste ponto os dois processos. cuja desobediência é punida pelo ‘medo da consciência’ [. 144). Trata-se de uma luta dentro da economia da libido [.] O superego de uma época de civilização tem origem semelhante à do superego do indivíduo. é apenas a agressividade do superego que. estabelece exigências ideais estritas. se acham. que não podem ser confundidos. o do desenvolvimento cultural do grupo e o do desenvolvimento cultural do indivíduo. “Outro ponto de concordância entre o superego cultural e o individual é que o primeiro.] os processos mentais relacionados são mais familiares para nós e mais acessíveis à consciência tal como vistos no grupo. Ele se baseia na impressão deixa atrás de si pelas personalidades dos grandes líderes [aqui Freud personifica a lei nos líderes]” (p. por assim dizer. e vice-versa. sempre interligados” (p... de modo que haja algo no processo desenvolvimental do indivíduo não encontrado no desenvolvimento da civilização humana. 144). descobrimos que elas coincidem com os preceitos do superego predominante. sob a forma de censuras. Se as trazemos ao conhecimento consciente. se faz ruidosamente ouvida.. O superego grupal é mais facilmente acessível à consciência.

aquelas que tratam das relações dos seres humanos uns com os outros uns com os outros estão abrangidas sob o título de ética. E algo sobre o sintoma social (palavra não usada por Freud): “[. deixando-o infeliz. pode-se produzir uma revolta ou neurose no homem. portanto. Esta frase resume o problema instintivo do Unbehagen. em todos os tempos. deixam um homem em desvantagem (emocional) em relação àquele outro que desvaloriza tais preceitos. Trata-se do mandamento do superego. produzisse resultados especialmente importantes. se a defesa contra ela pode causar tanta infelicidade quanto a própria agressividade!” (p. controlar o id absolutamente. As pessoas. tomamos como nosso ponto de partida o contraste que distingue o paciente do seu meio ambiente. Os preceitos culturais. O ego não pode. 145). O superego cultural exige mais do ego do que este pode oferecer: exige que este disponha de controle ilimitado sobre o id..“O superego cultural desenvolveu seus ideais e estabeleceu suas exigências. ela trata de um assunto que pode ser facilmente identificado como sendo o ponto mais doloroso de toda civilização. Entre estas. algo até agora não conseguido por meio de quaisquer outras atividades culturais” (p. De fato. contudo. A ética deve. na verdade.. través de uma ordem do superego. o qual se presume ser ‘normal’. Numa neurose individual. Para um grupo de que . 145-6).] a diagnose das neuroses comunais se defronta com uma dificuldade especial. mas apenas dentro de certos limites. Um exemplo disto é o mandamento “Ama a teu próximo como a ti mesmo”. A partir desta exigência “transcendental”. como se esperassem que ela. ser considerada como uma tentativa terapêutica – como um esforço por alcançar. 145] civilização a agressividade deve ser. de modo específico. “Que poderoso obstáculo à [p. deram o maior valor à ética.

qual seria a utilidade da mais correta análise das neuroses sociais. O mal-estar. . não poderia existir esse pano de fundo. 147). E. até o último homem. podemos esperar que. Sabem disso. e é daí que provém grande parte de sua atual inquietação. não teriam dificuldades em se exterminarem uns aos outros. “Os homens adquiriram sobre as forças da natureza um tal controle. 146). a técnica e o fim do homem. que. quanto à aplicação terapêutica de nosso conhecimento. um dia. com sua ajuda.todos os membros estejam afetados pelo mesmo distúrbio. alguém se aventure a se empenhar na elaboração de uma patologia das comunidades culturais” (p. e a despeito de todas essas dificuldades. se não se possui autoridade para impor essa terapia ao grupo? No entanto. ele teria de ser buscado em outro lugar. de sua infelicidade e de sua ansiedade” (p.

seu guardião e auxiliar. ou perigoso e temido) e mais raramente um vegetal ou um fenômeno natural (como a chuva ou a água). O totem pode ser herdado pela linha masculina ou feminina. como estando muito próximos ao homem pré-histórico. Não há lugar determinado do totem: clãs de diferentes totens vivem pacificamente juntos. o o o o o o o o o o o o o o o o x’ x y’ y Totem A z’ z Totem B Totem C . Evitam relações incestuosas (diferentemente do que se esperaria). É duvidoso que haja religião de adoração a seres superiores. Totemismo ocupa o lugar de instituições religiosas e sociais.Totem e tabu (1913) Freud considera alguns homens contemporâneos de sua época. Vivem de carnes de animais que caçam e de raízes que arrancam. Não constroem cassas. A relação de um australiano com o seu totem é base de todas as suas obrigações sociais. transpondo relações de filiação social e consangüíneas. “Em quase todos os lugares em que encontramos totens. de modo que a organização social sirva ou esta relacionada à consecução desta norma. conseqüentemente. Aborígenes da Austrália: selvagens mais atrasados e miseráveis. a não ser o cão. na vida mental desses indivíduos. Por isso. que mantém relação peculiar com todo o clã” (p. 23). mas um conselho de anciães que decidem os assuntos comuns ao grupo. encontramos também uma lei contra as relações sexuais entre pessoas do mesmo totem e. Tem caráter inerente a todos os membros da classe: em certos rituais. contra o seu casamento” (p. 22. devido a seu continente ser mais jovem. um estágio do desenvolvimento da civilização. Não cultivam o solo. primitivo. Não criam animais domésticos. que está fortemente vinculada ao totemismo. reconhece e poupa os seus filhos. “[Totem] é um animal (comível ou inofensivo. os selvagens ou semiselvagens. Não conhecem a arte da cerâmica. Antepassado do clã. busca. Cada clã (subdivisão do grupo maior) é representado por um totem. nem abrigos permanentes. Não há reis ou chefes. grifos do autor). os membros do clã executam mimetismos da figura totêmica. Trata-se da exogamia. Os integrantes do clã estão na obrigação de não matar ou destruir o seu totem.

Linha feminina M xy xx xx Totem A Totem B Totem A P M xy xy Totem B Linha masculina P xx Observe-se que as relações de gênero não são questionadas. antes. 24). por exemplo. Em certas situações sociais e em certos festejos. uma composição de autoridade (também. mas isso não é colocado por Freud. no que restou de casamentos grupais. deve haver. As relações incestuosas não podem ocorrer dos filhos em relação à mãe. Mais: Repare-se que as setas possuem duplos-ponteiros. ao passo que o pai pertencerá ao clã antigo. já que a pena não é acarretada devido ao ato de incesto resultar em filhos. • A proibição: o A violação da proibição ao incesto é vingada como se este fosse um perigo que ameaça toda a comunidade – uma culpa que a pressiona. Quer dizer. substituíram os individuais. já que ele é de origem diferente. provavelmente. A linhagem feminina – sugere Freud – deve ser mais antiga. o que significa que a ação é bilateral. para que os desejos incestuosos do filho em relação à mãe fossem barrados.  A pena é a morte.. sendo indiscutivelmente uma ligação muito firme” (p. além da de gênero e a de totem). mas todos os homens com que a sua mãe poderia ter-se casado. Isto acontece de modo que se indiquem muito mais relações sociais do que físicas. meninos e meninas.. sim. Quer dizer. . mas. por sua vez. os seus filhos. dependendo da linhagem (gênero – mulher ou homem) de que descende: se é da linha feminina e a mulher é do totem emu. tratando-as como se fossem irmãs de sangue. ‘pai’ não é apenas o pai consangüíneo de um indivíduo. Do mesmo modo. o Os totens são hereditários e não mutáveis pelo casamento. que. os termos ‘mãe’ e ‘pai’. termos para expressar diversos graus de parentesco denotavam uma relação entre um indivíduo e um grupo e não entre dois indivíduos. o As razões para a proibição não são. o A exogamia vinculada ao totem. de natureza prática. Exogamia totêmica: meio para impedir o incesto grupal. além da prevenção ao incesto com a própria mãe e irmãs. torna impossível ao homem as relações sexuais com todas as mulheres do seu próprio clã (com um certo número de mulheres que não são suas parentas consangüíneas). pertencerão ao clã emu. do pai em relação aos filhos. os direitos de laços conjugais exclusivos de um homem sobre a sua mulher podiam ser rompidos. canguru. Na linguagem desses indivíduos. Nesses selvagens. o parentesco sangüíneo é substituído pelo parentesco totêmico.“[.] a ligação entre totemismo e exogamia existe.

e f c d Subfratrias Exogamia totêmica: um costume.. a mãe. de origem obscura. Todas as divisões são exógamas: c e e e d e f formam unidades exógamas. faz parte de um ritual da puberdade irmãos e irmãs não se encontrarem. Quanto ao homem. fugirem uns dos outros. (possivelmente) com o declínio da influência do totem. A possibilidade de incesto. . a irmã também.. Estendem-se muito além das raças totêmicas da Austrália [. em que há conflitos de pulsões e desejos.] Esses costumes ou proibições costumeiras foram denominados de ‘evitações’. Freud dirá que a evitação mais difundida e rigorosa é a que impede as relações de um homem com a sogra. as restrições valem apenas para irmãs de sangue. desde cedo ele já “escolheu” a mãe como objeto de amor e. Ϩε 1 2 3 α β 4 5 6 InstituiçãoClãs totêmicos de classes matrimoniais: resultado de uma legislação deliberada. como nas relações genro-sogra. da relação genro-sogra. em outros. então. Em vários outros lugares e povos. há também as classes matrimoniais ou fratrias. mas também se necessitam “de ‘costumes’ que regulam as relações dos indivíduos com os seus parentes próximos [.. Freud tratará. Na Ilha dos Leprosos. existem regras de evitação entre irmão e irmã. Em alguns casos. pode se apaixonar pelo homem que a filha ama e. há também a divisão das fratrias em subfratrias. em outros casos. γ ς Não bastam as instituições descritas para conter o incesto nos povos primitivos. mobilizada pela ação de laços vinculantes inconscientes. para irmãs tribais.]” (p. Ao contrário. Um homem do totem α só a b Fratrias pode casar-se com uma mulher dos totens 4.. talvez. sendo. a possibilidade de incesto está no plano da fantasia. Devido às barreiras contra o incesto. identificada com a filha. exógama e abrangendo certo número de clãs. 5 ou 6 (1/4 de todas as mulheres australianas. O lugar de sua mãe é assumido pela sogra. se o número em cada clã fosse o mesmo).Além das divisões totêmicas. o seu amor é desviado dessas figuras para um objeto externo modelado sobre elas. isto pode culminar em neurose. Isto aumenta a restrição sobre a escolha de casamento e a liberdade sexual. cada uma delas. Assim. no caso do parentesco de sangue. até chegar à escolha final. já que a mãe se identifica com os filhos. é imediata e passível de ser evitada de modo consciente. 29). Além disso. em casos extremos. em todos os casos.

34-35). Naturais ou diretos (resultado do poder misterioso inerente a uma pessoa ou coisa). Suposição geral: tabu é mais antigo que os deuses e anterior à existência de qualquer espécie de religião. • Resultado da violação do tabu: influência mágica inerente ao objeto ou pessoa tabu – (menos) força do mana antagônico do violador do tabu: se x (poder do chefe) > y (poder do violador). 37). • Noa (polinésio) é o contrário de tabu e significa “comum” ou “geralmente acessível”. sem ordem divina. Comunicados ou indiretos  Adquiridos. caso violado. termo polinésio (latim sacer.Com este trabalho. • Na inserção de deuses no contexto. 38). Tabu = temor sagrado. o Não têm fundamento e são de origem desconhecida. Restrições do tabu são diferentes das religiosas ou morais. concerne à sociedade: “os primeiros sistemas penas humanos podem ser remontados ao tabu” (p. o Não se enquadram “em nenhum sistema que declare de maneira bem geral que certas abstinências devem ser observadas e apresente motivos para essa necessidade” (p. chefe ou outras pessoas.  Impostos por um sacerdote. • Em outros casos. A psicanálise nos ensinou que a primeira escolha de objetos para amar feita por um menino é incestuosa e que esses são objetos proibidos: a mãe e a irmã” (p. grego ayos. o Misterioso. cuja conduta levava os demais ao perigo. perigoso. • Fonte do tabu: poder mágico peculiar inerente a pessoa e espíritos e pode ser por eles transmitido por intermédio de objetos inanimados. o II. x – y = punição maior. consagrado. era punido por um agente interno automático. inicialmente. a punição era esperada dessa ordem. • Atos de expiação e purificação podem evitar perigos provocados pela violação do tabu. Freud busca lançar uma nova luz “sobre os fatos da psicologia social pela adoção deu m método psicanalítico de abordagem” (p. para aqueles que são por elas dominados. como naturais. . impuro. O incesto “se trata fundamentalmente de uma característica infantil. a punição dos transgressores. • A transmissibilidade do tabu permite o expulsar por meio de cerimônias purificatórias. 37) tabu é o código de leis não escrito mais do homem. e que revela uma notável concordância com a vida mental dos pacientes neuróticos. o São aceitas. o Impõem-se por sua própria conta. hebreu kadesh): o Sagrado. 35). Ensaio II • Tabu. Intermediários (I + II) • O tabu. Para Wundt (apud p. • Classes de tabu: o I. o III. proibido.

por um lado.• Tabus podem ser: o Temporários (podem evitar ou estar vinculados a certos estados particulares. pois há uma certeza interna (convicção moral) de que qualquer violação (à lei) conduzirá a uma desgraça insuportável. • A explicação do tabu pode esclarecer o “imperativo categórico” (do superego). • As proibições morais e as convenções que nos regem estar relacionadas com os tabus primitivos. plantas. o Sobre homens: restringem-se a circunstâncias nas quais a pessoa sobre a qual o tabu é imposto se encontra numa situação inusitada. Necessidade interna. transformando-se em uma força com base própria e desenvolvendo-se nas normas do costume e da tradição e na lei. como se adquirisse a carga de perigo. coisa mais profunda que os interesses das classes privilegiadas. • Trata-se de um poder proveniente de uma espécie de conservantismo mental. • O tabu se afasta. casas e localidades: menos estáveis. • Um indivíduo transgressor ele mesmo passa a ser proibido. As proibições obsessivas dos neuróticos comungam com o tabu a ausência de motivo e do mistério de suas origens. Quer dizer. com a transplantação do tabu de demônios para deuses. • Wundt divide três classes de tabus: o Sobre animais: constituem o núcleo do totemismo. • De acordo com Wundt. • Crença em fantasmas e espíritos  baixo nível de cultura (Freud). com o tempo. inicialmente. Capítulo II (do ensaio II) • Freud seguirá comparando a neurose com o tabu. por outro. tudo lhes é proibido e eles não têm ideia do motivo. o Denota as proibições advindas desse atributo. não lhes ocorrendo levantar a questão. trata-se. da crença em demônios. Esta reflexão – a de que tabu. posteriormente. não era diferenciado em “sagrado” e “impuro” e de que. o Tem conotação que abrange. o Sobre árvores. depois. e periogoso. • Tabu – o Tudo que é veículo ou fonte do misterioso atributo. como a menstruação e o parto etc. qualquer coisa que seja misteriosa ou provoque temor por qualquer motivo se torna sujeita a tabu. de medo objetivado para. sagrado e acima do comum. . ela Freud deve a Wundt. impuro e misterioso. diferenciar-se. falta motivo atribuível. Não se faz necessária uma ameaça externa de punição. pessoas mortas e coisas que lhes pertençam). • O poder perigoso carregado por uma pessoa ou coisa pode ser transferido. Trata-se da expressão do temor de entrar em contato com ele. em veneração e horror. estes termos vieram a se diferenciar e constituir a oposição–. primeiramente. • Wundt admite que a origem do tabu esteja na fonte dos instintos humanos. • Tabu: propriamente “aquilo que não pode ser tocado” (entre o sagrado e o impuro). o Permanentes (ligados a sacerdotes e chefes. ao mesmo tempo. 1.). A quantidade desse atributo perigoso também desempenha seu papel. 2. • Aos povos primitivos.

o A facilidade ao deslocamento da proibição reflete um processo que se enquadra ao do desejo inconsciente. o O instinto permanece. o A proibição permanece para que o instinto não aceda à consciência e não ingresse na operação real. o O desejo de tocar é inconsciente. Isto leva a supor que elas devem ter sido impostas aos homens primitivos pela geração anterior. o A proibição não consegue abolir o instinto. estão sujeitas ao deslocamento. como resultado da tradição transmitida através da autoridade parental e social e. o A proibição é consciente. terem sido organizadas como dom psíquico herdado. o Não faz sentido perguntar a um selvagem sobre a origem das proibições. porém. de geração a geração. Aqui estão as injunções para a realização de atos cerimoniais. pois foi reprimido. porque há uma diferença entre a situação de um selvagem e a de um neurótico. algo mais forte do que o desejo de toque. a proibição também se desloca e estende a toda possibilidade que a pulsão possa ocupar. 47). tanto da neurose quanto do tabu. o As mais antigas e importantes proibições ligadas ao tabu são as duas leis básicas do totemismo e. o Resta uma atitude ambivalente do sujeito para com o ato em conexão com um objeto determinado. posteriormente. não apenas físico. o Há um conflito entre o querer tocar (gozo supremo) e a proibição. um caso típico de fobia de contato. por isso. o Devido ao fato de. • Não se pode levar a comparação ao ponto de identidade entre neurose e tabu. porque o verdadeiro motivo deve ser inconsciente. A fim de fugir do impasse. à extensão ou contaminação – de um objeto a outro objeto ou gama deles. o Desejo forte de tocar (a genitália).3. como consequência. Os atos compulsivos ou obsessivos são a realização das renúncias e restrições extensivas das proibições obsessivas e são da mesma natureza da expiação e da purificação (medidas defensivas). 4. do tabu. Porém. o desejo se desloca e se esforça por encontrar substitutos para colocar em lugar dos proibidos. o Aceitação da proibição com apoio de fortes tendências internas (relação amorosa da criança com os autores da punição). a história do tabu pode ser reconstruída de acordo com o modelo das proibições obsessivas. Proibição (tabu e neurose): fobia do contato. o Proibição externa contra a realização daquele tipo específico de contato. advir uma amnésia. que o faz detestar o tocar. mas também intelectual (pensar no objeto). • História clínica dos mecanismos da neurose obsessiva. A descarga desse processo de tensão é feita através da realização de atos obsessivos. persistindo. As proibições. os motivos da proibição permanecem desconhecidos (p. junto ao mecanismo de repressão na idade precoce. os mais antigos e poderosos desejos humanos: . o Deve-se reprimir o instinto e bani-lo para o inconsciente.

mas também de remorso. • A violação de certas proibições deve ser punida por todos do grupo. • Quer-se demonstrar a ambivalência nas observâncias do tabu. de acordo com o ensaio. para cuja realização existe forte inclinação inconsciente” (p.  Restrições sobre o assassino ou chefe de expedição vitoriosa.] a base do tabu é uma ação proibida. 51). uma pessoa que viola a proibição se torna tabu e deve ser evitado por incitar os demais a também violá-la. • “[. 53 em diante): o A morte de um homem é regida pelas observâncias que estão incluídas entre as práticas do tabu (isto para evitar que uma desgraça caia sobre a aldeia). de modo que tudo isto esteja inscrito no tabu. 49).   Capítulo 3 do Ensaio II • Grau de valor que deve ser atribuído ao paralelo entre neurose e tabu. • Maiores diferenças de poder de incitar a outrem (“força mágica”) são mais temidas do que as menores diferenças. de admiração pelo inimigo e de consciência pesada por havê-lo matado. • Contágio. • A “perigosa força mágica do mana corresponde a dois poderes de uma espécie mais realista: o poder de fazer alguém lembrar-se de seus próprios desejos proibidos e o poder visivelmente mais importante de induzi-lo a transgredir a proibição em obediência aqueles desejos” (p. • Expiação ou reparação: renúncia a algo desejável. • Quanto ao tabu em relação aos inimigos (A.Não matar o animal totêmico. Chefes o C. para traçar precisamente a concordância psicológica entre ele e a neurose.  Atos de expiação e purificação por parte dele. • Aquilo que se busca confirmar são os determinantes psicológicos do tabu. Assim.  Certas observâncias cerimoniais. então há uma só função: lembrança e tentação se reúnem. • O atributo perigoso que permanece o mesmo em todas as condições diferentes do tabu é “a qualidade de excitar a ambivalência dos homens e de tentá-los a transgredir a proibição” (p. no caso da imitação generalizada (desejar agir como o transgressor). 49). o grupo diluirse-ia. • A partir de agora Freud tratará dos tabus que se vinculam a: o A. compensando o desejo realizado. vide p. que. porque.. Esta renúncia está na base da obediência ao tabu. de modo que essa expiação seja mais fundamento que a purificação no cerimonial do tabu. sendo essas observâncias:  Apaziguamento do inimigo assassinado. Inimigos o B. Evitar relações sexuais com membros do clã totêmico do sexo oposto. Os mortos. o Dois princípios das 4 observâncias: . o Os impulsos que esses aborígenes expressam para com os seus inimigos não são unicamente hostis. se vem a conhecer a partir da neurose obsessiva. Também uma pessoa que não viola a proibição pode ser tabu simplesmente por incitar a ambivalência de desejos de outrem. Se considerarmos que ambos estão associados..

o A pessoa do rei ou do governante também tem importância para a sucessão de existência do grupo: o rei tem papel na vida dos os súditos. uma variedade de diferentes impulsos encontra expressão na relação como [sic] os reis. regulada pelo tabu.  O rei deve ser vigiado para bem exercer os seus poderes. imposições. como também há o seu contrário: aqueles que. o Há. 57 em diante): o Dois princípios:  O governante deve ser protegido  Os indivíduos devem proteger-se contra os governantes (porque estes incitam os seus desejos. e vice-versa.  O primeiro contato (o perigoso) é de uma relação passiva para com rei.  O segundo. . o que é tabu para os súditos o rei pode gozar. 63). o Devido a isso.. Freud chama a atenção para a contradição aparente do “fato de o mesmo indivíduo ser tanto mais livre quanto mais restringido” (p. em alguns casos. 63). numa ordem inversa: em alguns casos. o Isso corresponde à ambivalência emocional para com o inimigo. Além disso. caso contrário. o Existem tabus diferenciados para reis e para súditos. p. isto se deve à severidade de regras.. o Quando maior é o poder do rei. adoecem os sujeitos até a sua morte.A extensão do tabu do homem morto a tudo o que tenha entrado em contato com ele. com número crescente ao longo de seu desenvolvimento. perdoando. às quais se deve submeter.]” (p.. e é por isso que ele deve ser protegido. o Há certa contraditoriedade em proteger o rei:  O rei tem poderes como os dos deuses de fornecer recursos.. por regozijarem-se de mais recursos) o O contato com o rei pode ser o remédio para os perigos provocados por esse mesmo contato (e dissolver a culpa). Isto dá origem a contradições [.  O medo de seu fantasma (do homem morto). pela culpa. é uma relação ativa. o O rei é tratado como um deus desde que proveja o necessário para a vida de seu povo. mais tabus ele está obrigado a observar. e cada um desses impulsos é desenvolvido a um ponto extremo sem considerar os outros. vide. em que o rei age conscientemente. a sua vida é ameaçada. o herdeiro está sujeito aos tabus desde a infância. o “[. resistência em assumir um cargo de governante. o Há certos “poderes” de cura na ação do rei. Não há nada como uma monarquia nestes casos. houve a separação posterior de rei tabu e dos governantes temporais: os primeiros com a supremacia espiritual e os segundos com os deveres práticos.] por superstições e outros motivos.  • Quanto ao tabu em relação aos governantes (B.

Isto leva à condição desses povos não possuírem tradições nem lembrança histórica. o O contato no sentido metafórico (por estar-se em luto) é estendido como contato corporal. eis aí a ambivalência emocional. o Os homens selvagens tratam as palavras como coisas. 65). a pessoa tem “autocensuras obsessivas”. os pratos antes usados pelo homem tabu são quebrados e as suas roupas. o Em seu retorno à vida em comunidade. Isto se aplica ao tratamento do rei: uma parte ostensiva ou consciente de veneração e uma parte que. o Os cerimoniais revelam a sua derivação de impulsos ambivalentes:  Exalta-se o rei muito acima do comum dos mortais. sem necessariamente haver semelhança fonética ou morfológica. os laços são quase cortados. reduzida a uma servidão pior do que a dos súditos.. de modo que o nome de alguém faça parte de sua personalidade. o Neuróticos obsessivos se comportam da mesma maneira que os selvagens em relação aos nomes.. já que o espírito do morto não abandona os seus parentes e não deixa de ‘pairar’ sobre eles durante o período de luto. na realidade. participam do enterro ou estão em processo de luto sofrem restrições. em que. o “O ato obsessivo é ostensivamente uma proteção contra o ato proibido [parte consciente]. o Viúvos e viúvas devem se esconder. a nosso ver. Estas satisfações substitutas despertariam a ira do fantasma por irem de encontro ao luto. o Evitar pronunciar o nome do defunto é parte de uma cerimônia para afastá-lo. o O conceito de espíritos maus surgiu dos cadáveres. contudo. é aplicada em muitas comunidades como forma de evitação do nome do defunto. o • Quanto ao tabu em relação aos mortos (C. essas pessoas tornam-se tabu. Após a morte os entes queridos transformam-se em demônios. porém também uma pulsão inconsciente de destruição. que buscariam a morte dos seus assassinos ou seriam indivíduos com desejos insatisfeitos.Há uma adoração consciente para com o rei. Freud investigará as razões do tabu. o Há correlação disso com perturbações psiconeuróticas. quando da morte de um ente querido. Esta hostilidade. o Manifesta-se nas consequências decorrentes do contato e do pranto: as pessoas que entram em contato com o morto. de despertar o seu desejo por outro ou o desejo do outro por ela (este último vale à viúva). mas. o “[. 66 em diante): o Tabu virulento (infeccioso). 65). jogadas fora. isto mostra o seu caráter de perigo à tentação. por parentesco com o defunto ou simplesmente como marco de sua morte. na realidade ou inconscientemente.  A sua existência é tão tormentosa. geralmente é disfarçada em forma de cerimônias. trata-se de uma repetição dele [parte inconsciente]” (p.] grande parte da atitude de um selvagem para com seu governante provém da atitude infantil de uma criança com o pai” (p. o A mudança de nome de coisas e pessoas. trata-se de um castigo pela sua exaltação. o A partir desses dados sobre a virulência do tabu. . vide p.

é que os leva a um imenso dispêndio de energia mental” (p. pode-se dizer que herdaram uma constituição arcaica como vestígio atavístico. assim. resultando em culpa. mas é característica da disposição dos neuróticos obsessivos. a censura da satisfação do desejo de morte é deslocada ao objeto da hostilidade – os mortos mesmos. • A projeção de impulsos sobre os demônios é apenas parte da Weltanschauung (visão de mundo) dos povos primitivos (animismo). responsável por sua morte. 79. • Durante e após a fase em que os sistemas são construídos. para proteger-se do morto. Mas. • Freud trata. Há um desejo inconsciente ligado à morte do ente querido. Após a morte do “objeto de amor”. resta uma reação emocional frente ao morto e. • O protótipo desses sistemas e dos neuróticos é a “revisão secundária” do conteúdo dos sonhos. da diferença de tratamento dos mortos entre os primitivos e os modernos: suprassunção de considerá-los como demônios – passagem para considerá-los como bons. de algum modo. assim. que se satisfaz). Eis aí o mecanismo de projeção: o sobrevivente nega os desejos hostis para com o morto e. A hostilidade é protegida através de tabus (reação à hostilidade latente no inconsciente). É de supor-se que como essa ambivalência diminuiu. Dos neuróticos. as censuras se dirigem contra aquele desejo. Nos povos primitivos. por força da civilização. mas inconsciente. um que não fica insatisfeito (quer dizer. o tabu (sintoma da ambivalência e um acordo entre os dois impulsos conflitantes) lentamente desapareceu. • O (processo de) luto está no cerne da origem de crença em demônios. dois conjuntos de razões podem ser atribuídos a cada acontecimento psíquico que é conscientemente julgado: o Um pertence ao sistema o O outro. a necessidade de compensar isso. que é inata em maior ou menor grau em cada um. .o o o o um sentimento de culpa de ser. o morto é quem passa a ter tendências hostis. deve-se submeter a renúncias e restrições. que são obrigados a reproduzir o conflito e o tabu dela resultante. • Proibições do tabu: resultado ou consequências de uma ambivalência emocional. disto. • “os impulsos psíquicos dos povos primitivos fossem [são] caracterizados por uma quantidade maior de ambivalência que a que se pode encontrar no homem moderno civilizado. O tabu desenvolveu-se com base numa atitude emocional ambivalente. então. Isto pode ser encarado como uma forma patológica de luto. Eis aí a ambivalência emocional novamente (amor e ódio). grifos do autor). • As conclusões de Freud levam à afirmação de que a palavra tabu possui um sentido duplo desde o início. real. sendo usada para designar um tipo específico de ambivalência o que dela surgia. Capítulo 4 do Ensaio II • O último exemplo nos leva a afirmar que o mecanismo de projeção de percepções internas para fora é primitivo.

82-83. Quanto ao tabu. ideias antitéticas. • Há uma diferença psicológica entre proibições dos tabus e as proibições morais. uma altruística. há também um senso de culpa tabu. De forma análoga. Mesmo que isto seja contra o que achamos. o “onde existe uma punição tem de haver um desejo subjacente” (p. cometer incesto etc. • A consciência também surge da ambivalência emocional. a pessoa teme que um castigo. como nos primitivos. contra a nossa consciência.. • “A consciência (conscience[. 82). na neurose. seu uso ampliando-se.• A palavra tabu. grifos meus). para relações análogas. desejamo-lo inconscientemente – por exemplo. • O medo do neurótico para com outrem é secundário – começa com um medo por sua própria vida. a princípio caracterizava relações humanas bastante específicas por grande ambivalência emocional. pode ter atingido o local em que chama a nossa atenção através do mecanismo de ‘deslocamento’” (p. em oposição às pulsões inconscientes. ao passo em que o neurótico. que são as razões para o ato de repúdio – o caráter de ansiedade. caia sobre si.. 80). A satisfação do desejo acarreta o sentimento de culpa. que o castigo caia sobre outra pessoa – em geral. após uma violação. podendo ser descrita como “pavor da consciência” (idem). • Os processos psíquicos inconscientes regozijam de liberdade adicional do que aqueles vinculados à consciência. que “vem como coisa natural e do qual a origem é desconhecida” (p. Trata-se de uma modificação nas circunstâncias que regem a ambivalência emocional subjacente a elas. do contrário. Eis aí. Esse impulso é reprimido . o A sensação de culpa comunga com a natureza da ansiedade. o O sintoma dos neuróticos obsessivos é uma “escrupulosa conscienciosidade” (p. a ambivalência emocional. estando todos ameaçados pelo ultraje – o medo aqui é a extensão ou contágio pela violação do tabu. 81). Assim. ao contrário. • “o tabu não é uma neurose e sim uma instituição social” (p. pois. que agrupava. • “Na raiz da proibição existe sempre um impulso hostil contra alguém que o paciente ama – um desejo de que essa pessoa morra. a forma mais remota do fenômeno da consciência.]) é a percepção interna da rejeição de um determinado desejo a influir dentro de nós” (p. • No tabu. em si. • Deve haver algo de positivo (desejado e desejável) na proibição que é o tabu. pode surgir de uma outra região inteiramente diferente e haver aplicado originalmente a outras pessoas e conexões completamente diferentes. 81) contra a tentação que vem do inconsciente. • Freud fala de uma consciência primitiva: a consciência tabu. muito próxima. novamente. não faria sentido proibi-lo. • Consciência no sentido moral (conscience) e consciência no sentido da percepção do que se passa em nós ou ao redor de nós (consciousness). matar alguém. • “Um impulso inconsciente não precisa ter surgido no ponto em que faz seu aparecimento. “Tabu” segue uma sorte diferente daquelas palavras que se separaram da “palavra primordial”. levando-nos à consideração de que existe algo de fonte inconsciente em conexão com a sensação de culpa. 83). mais tarde. que é acarretado após o tabu ter sido violado. o homem primitivo demonstra uma ação egoísta. para Freud. o sentimento coletivo só recai sobre todos quando a pessoa individual não é vingada.

o Adotado pela visão de mundo dos primitivos. por deslocamento. “animalismo” e “hominismo”. o As almas eram. os animais e as coisas – os seus espíritos. Os instintos sociais. proteger o . de altruísmo. no sentido mais amplo. o Preenche-se o mundo real de seres espirituais. 85). A neurose é um afastamento da realidade e. assim. o contato não é exclusivamente de origem sexual. e doutrina de seres espirituais em real. Neurose = fobia de contato – relacionada ao contato do tipo sexual. o Também são utilizados os termos “animatismo”. foram perdendo as suas características materiais. Existe uma ameaça de morte se o desejo for realizado. o É um sistema de pensamento. ao longo do tempo. que. grifos do autor). afirmar-se. posteriormente. Ensaio III (Animismo. fundadas. 1 • Animismo: o Doutrina da alma. que permite “apreender todo o universo como uma unidade isolada de um ponto de vista único” (p. das instituições sociais humanas. o Junto ao animismo há um conjunto de instruções de como obter domínio sobre os homens. no sentido mais estrito. A satisfação sexual é. a princípio. No tabu. benevolentes e malignos. magia e a onipotência de pensamento) Cap. 84). represente talvez um ato hostil contra a pessoa amada. Seu objetivo é submeter os fenômenos naturais à vontade do homem. 85). o Surge da necessidade prática de se controlar o mundo. contudo. o Os seres humanos são habitados por espíritos semelhantes. assunto privado de cada indivíduo” (p. São elas:  A magia (despreza os espíritos e faz uso de procedimentos especiais. obter controle. esforçam-se por conseguir. Não se trata. 85. o “o fato que é característico da neurose é a preponderância dos elementos sexuais sobre os elementos instintivos sociais. mas no sentido de atacar. essencialmente. então. mas de egoísmo – à mesma maneira dos primitivos. por meios particulares. que não são os psicológicos cotidianos). o que na sociedade se efetua através do esforço coletivo” (p.• • • • • • por uma proibição e esta se liga a algum ato específico. o Esses seres são as causas dos fenômenos naturais: tudo é animado por eles. Mas o processo vai além e o desejo original de que a pessoa morra é substituído pelo medo de que ela possa morrer” (p. concebidas como muito semelhantes a pessoas e. As neuroses são “estruturas associais. derivam-se eles próprios de uma combinação de componentes egoísticos e eróticos em totalidades de um tipo especial” (p. “As necessidades sexuais não são capazes de unir os homens da mesma maneira que as exigências de autopreservação. 89) e que contém os fundamentos sobre os quais as religiões foram.

Ponto de partida para essa concepção. 94). Outro caso de magia contagiosa não é dado mais por semelhança. da vida moderna. as leis da natureza são substituídas por leis psicológicas. adquirem-se as qualidades por ela possuídas. As crianças. empregado para dar representação da situação satisfatória – a satisfação é experimentada por meio de alucinações motoras – e de modo a modificar a realidade para a satisfação dos seus desejos. É a partir daqui que o animismo começa a declinar. Isto lembra Comte. o Era natural para o homem primitivo a imortalidade – a morte veio a ser aceita posteriormente. são mais importantes do que as coisas. Assim. dirá que “A primeira Weltanschauung humana é uma teoria psicológica” (p. superstições. para os primitivos. Sistema de magia contagiosa sobre as associações de contiguidade: importância da generalização de vontade e desejo para todos os atos psíquicos sujeitos à vontade. 95). nas crenças. 2) religião e 3) científica.  A feitiçaria (arte de influenciar os espíritos. de maneira análoga. tratando-os como se tratariam os seres humanos em circunstâncias semelhantes. o acento psicológico se desloca dos motivos do ato mágico para as medidas através das quais ele é executado [. .. Isto se deve à semelhança.• • • • • • • • • • • • • • indivíduo de seus inimigos e de perigo. também concedendo-lhes poderes para prejudicar os inimigos. de modo que uma ação feita sobre uma ideia resultará também na coisa. satisfazem os seus desejos de maneira alucinatória. filosofias. ainda que apenas imaginada. Freud fala que o primitivo tem um método alternativo: possui um impulso motor (vontade). uma que ainda se faz(ia) presente. Freud fala que há três grandes representações do universo: 1) animista (mitológica). 95). conduz a precauções e restrições relacionadas à dieta.] o próprio ato” (p. mas por contiguidade. de modo que se pudesse apresentar uma prova objetiva do real estado de coisas (realidade). Supervalorização do pensamento: as ideias das coisas. uma das partes mais important es de uma pessoa é o seu nome” (p. O canibalismo: o Ao se incorporar as partes do corpo de uma pessoa pelo ato de comer. o “fenômeno psíquico da dúvida começou a surgir [grifos meus]” (p. 89). Falando do animismo. 93). Freud trata da brincadeira como “técnica primitiva e puramente sensorial da satisfação” (p. 95). Mais tarde. “À medida que o tempo passa. As magias operam pela semelhança entre ato executado e resultado esperado. Freud partirá de uma teoria associativa para tratar de magia imitativa e dirá: “Tudo o que precisamos admitir é que o homem primitivo tinha uma crença imensa no poder de seus desejos” (p. porque se tem receio de que as qualidades ruins de uma carne possam ser transmitidas àquele que come. o Em algumas circunstâncias. “Segundo a visão do homem primitivo.. nos povos primitivos: o problema da morte.

 Fase científica: não há lugar para a onipotência humana. em seguida.• • • • • • • • • • • Semelhança e contiguidade (princípios de associação) estão incluídas no conceito de contato (visto na análise do tabu). Evolução da maneira do homem enxergar o universo:  Fase animista: atribuição dos homens da onipotência sobre si mesmos. eles são afetados apenas pelo que é pensado com intensidade e imaginado com emoção. o Fase teológica: escolha de objeto – ligação com os pais.. o Características de ambos:  Repressão sexual  maior sexualização dos processos de pensamentos (hipercatexia libidinal). Na arte. como já disse antes [. 100). é a imaginação (os elementos imaginários. ao passo que a concordância com a realidade externa não tem importância” (p. Isto pode ser relacionado com o narcisismo – um componente essencial dele. o Fase científica: maturidade. na manifestação dos sintomas.. “Os neuróticos vivem um mundo à parte. renúncia ao princípio de prazer. contudo. o Condição de apaixonado: protótipo das psicoses. brevemente. sexualizado.. o “[. ajuste à realidade. porque os homens reconheceram a sua pequenez e submeteram-se resignadamente à morte e às outras necessidades da natureza. Atos obsessivos primários: caráter mágico – evitam a desgraça. Freud dirá que o impulso fundador da arte está relacionado à magia. culminando em serem substitutos ao ato de conteúdo sexual proibido e de imitações próximas dele. Não há sensação primária de inferioridade considerada aqui. Esta é a origem de sua fé na onipotência dos pensamentos [. A onipotência de pensamentos – um tipo de superstição – é também característica neurótica obsessiva. a onipotência de pensamentos está mais próxima da consciência: a realidade do pensamento – não da experiência – determina a formação dos sintomas..] no homem primitivo. 97). embora ainda possam influenciar os deuses com os seus desejos. O elemento primordial. embora ainda haja fé no poder da mente humana.  Narcisismo intelectual.]” (p. em grande parte. . os desejos malignos –. volta ao mundo externo em busca do objeto de desejo.  Fase religiosa: onipotência transferida aos deuses.] somente a ‘moeda neurótica’ é moeda corrente. Neuróticos e homens primitivos atribuem grande importância aos atos psíquicos. Freud comparará em seguida as fases da visão humana de mundo com as de desenvolvimento libidinal: o Fase animista: narcísica. Freud descreverá. o narcisismo. O princípio da magia é a onipotência de pensamentos.  Onipotência de pensamentos. o processo de pensar ainda é. remontam a elementos reais ou se baseiam neles). o desenvolvimento libidinal do sujeito e explorará. Esses atos surgem como modo de se afastar qualquer conteúdo sexual – no caso da magia.. onde. Na neurose. a onipotência de pensamentos é mantida.. isto é. Traçando uma genealogia da arte.

A alma animista reúne propriedades de ambos os lados (consciente e inconsciente).] um sistema é mais bem caracterizado pelo fato de pelo menos duas razões poderem ser descobertas para cada um de seus produtos: uma razão baseada nas premissas do sistema (uma razão. neste sistema. inversamente. no sistema animista. e na verdade tola. reconhece-se dois estados: o Um em que algo é diretamente fornecido aos sentidos e à consciência (coisa presente. Freud diz isso porque busca a origem da projeção dos processos mentais para o exterior. algo que lembra a “cadeia de significantes”.. quando esse sistema conseguir instalar-se como representante de um desejo inconsciente e da defesa contra o desejo. para Freud). Freud trata de uma “rede de determinantes”. portanto. mas capaz de reaparecer. o Animismo: transferência dessa onipotência para os espíritos.. Da percepção endopsíquica. que foram ignorados. recolocada na mente. Do mesmo modo.. Quaisquer outras fantasias inconscientes e reminiscências operativas que possam estar presentes no paciente forçam caminho à expressão como sintomas ao longo dessa mesma trilha. Há. . Os determinantes são ocultos. que devemos julgar como sendo a verdadeira operante e real” (p. que pode ser. com base em suas premissas subjacentes. Restrições morais do tabu e criação dos espíritos nascem da mesma fonte: o conflito emocional da perda de um ente querido. uma fase “animatista” (de “universalidade da vida”). seria tarefa vã. segundo o ponto de vista psicanalítico. uma fase em que a magia é principal e que é anterior à fase dos espíritos (animismo). “[. de uma fase pré-animista. delirante) e uma razão oculta. que consiste na obtenção de maior vigor a partir da renúncia a algumas satisfações instintivas (pulsionais).] uma inibição do movimento (uma abasia ou uma agorafobia) gradualmente tornar-se-á mais completa e mais particularizada. Há razões ocultas no sistema animista também. a superstição não é razão única ou real para um costume. Desse modo. Percepção/Consciente. tentar compreender as complexidades e pormenores dos sintomas de (por exemplo) uma agorafobia. 102). pois toda a harmonia e precisão são apenas aparentes” (p. o Religião. o Outro em que a mesma coisa é latente. “o processo patológico da paranóia faz uso do mecanismo de projeção a fim de lidar com conflitos mentais dessa espécie [da luta por onipotência no psiquismo]” (p. devido à superstição subjacente. Na página 105-6. Na projeção de algo para a realidade externa. 106). o Magia: onipotência dos pensamentos. Memória/Inconsciente. manifesta).• • • • • • • • • • • • • O animismo é uma imagem psicológica do mundo – formada pelo homem. Trata-se. “[. e agrupam-se numa nova disposição apropriada dentro da estrutura da inibição quanto ao movimento. uma vez tenha sido aberta. o homem primitivo transpôs ao mundo externo as condições estruturais de sua própria mente e a natureza acreditada das coisas é. então. Há renúncia ao instinto (um progresso. 105). Há progressos..

“O totem. 117) Freud tratará das teorias: a) Nominalistas. Os nomes. de acordo com esse ponto de vista.. Sociológicas. 123). a posição que adotará.] encontramos dois pontos de vista opostos: um que procura manter a pressuposição original de que a exogamia constitui parte inerente do sistema totêmico e outro que nega existir tal vinculação. O verdadeiro objeto de adoração no totemismo é a comunidade. . representava um lugar seguro de refúgio em que alma podia ser depositada. mas adicionando algo a ela: a troca). posteriormente. são essenciais. A origem do totemismo (p. sustentando que a convergência entre esses dois aspectos das culturas mais antigas é uma convergência fortuita” (p. o que seria então o totem. Trata-se da identificação psicológica do nascente com a imagem concebida pela mãe em relação a qualquer coisa que tivesse em mente durante a concepção (parto). A origem da exogamia e sua relação com o totemismo “[. Lévi-Strauss. Em uma visão específica dentro dessa. Nominalistas. 124). Também que esse fator seja o mais importante. b) Sociológicas e c) Psicológicas.. 126). isto não faz. partes inerentes às coisas. bem como para as crianças. para os primitivos. daí o vínculo de um homem com o totem. fugindo assim aos perigos que a ameaçavam” (p. Psicológicas.Ensaio IV: O retorno do totemismo na infância A psicanálise não pretende que a fonte de algo que explica e à qual dá ênfase seja a única. por exemplo. “o totemismo seria uma criança da mente feminina. Há estudos que afirmam a exogamia estar destinada à prevenção do incesto (esta é. antes que da masculina: suas raízes estariam nos ‘doentios caprichos das mulheres grávidas’” (p. O totemismo é uma hipertrofia do instinto social. que tem o mesmo nome. ela não despreza outros fatores.

que pode se tornar mais poderoso do que o do pai da horda primeva e. digamos. Também não pode resultar de motivos higiênicos. O horror ao incesto é fonte da exogamia.Primeiras restrições do incesto: aos mais jovens. Nalguns casos de psiconeurose. Ulteriormente: pais com filhas. desejos incestuosos. Freud tratará do caso do Hans e outro de Ferenczi. no período edipiano. “proprietários”. assim. isto é improvável. há uma identificação (pelo menos houve. posteriormente. formar outro grupo. O totem é o pai primevo de um grupo. no caso de Ferenczi e do pequeno . dele. A psicanálise mostra que há. Exogamia: não pode resultar de perigos postergados à progênie. Freud avança com uma tentativa histórica a partir da hipótese de Darwin. com a neurose e o tabu. Trata-se aqui do parricídio da horda primeva. Este grupo seria guiado por um macho alfa que não permitia promiscuidade sexual Na horda primeva. a consequência é a exogamia para os mais jovens. na infância. No capítulo 3. parece haver uma aversão própria da intimidade [acréscimo meu]. No caso dos Kibutzem. segundo a qual existiu um grupo mais ou menos organizado primitivo: a horda primeva. as mulheres. porque estes não explicam a aversão ao incesto. disso. o seu ancestral. A ideia principal é a de deslocamento de objetos semelhantes (o contágio) e. Cada um desses pode. já que as mulheres já têm. tomar.

Surge também a necessidade de . Ao partilhar de comida com a divindade. posteriormente. Parte do ritual de sacrifício. O sacrifício de animais é a sua forma mais antiga. simbolizava-se que homem e divindade faziam parte de uma só substância: aferravam-se os laços. o sangue do totem é o sangue do clã.] o animal sacrificado era tratado como um membro da tribo. de vegetais às deidades. “Se o animal totêmico é o pai. Era um ritual compartilhado e obrigatório. 137). As oferendas de social. Trata-se de uma ambivalência emocional: restrição (do pai para com o filho. que implica uma divindade Os sacrifícios fazem parte das mais antigas religiões: são ofertas de carne e. a comunidade sacrificante. O sangue do animal totêmico só é derramado em rituais de grupos. embora temporariamente. Assim. A refeição totêmica como parte do sistema totêmico (hipóteses de Smith). o que pedia uma renovação dos laços por meio de mais rituais (daí a anuidade dos mesmos). sacrifício funcionavam como laço de união com a divindade. deste último ter a mulher daquele) e identificação (do filho para com o pai. 140). no consentimento: não há aprovação solitária de tal ato. o deus e o animal sacrificado eram do mesmo sangue e membros de um só clã” (p. que matou o pai e casou com a mãe. “[.. então as duas principais ordenanças do totemismo. assim como os dois desejos primários das crianças.Hans) com o animal totêmico amado e odiado. cuja repressão insuficiente ou redespertar forma talvez o núcleo de todas as psiconeuroses” (p. porque deseja ser como ele). O laço absoluto e inviolável das sociedades primitivas era o de parentesco (laço que é mais antigo do que a família). as duas proibições do tabu que constituem seu âmago – não matar o totem e não ter relações sexuais com os dois crimes de Édipo..

“Um festival é um excesso permitido. para manter o elo. Não é que os homens cometam os excessos porque se sentem felizes em conseqüência de alguma injunção que receberam. na participação da substância comum. 144). Segue-se a narrativa textual de Freud: .] proponho que adotemos a hipótese de Robertson Smith de que a matança sacrimental e a ingestão comunal do totem animal. No caso desses rituais. ou melhor.“[. o sentimento festivo é produzido pela liberdade de fazer o que via de regra é proibido” (p. a ruptura solene de uma proibição. tem-se. quando dos rituais.. 143). “Dessa análise da natureza do sacrifício. a identificação com o totem é elevado. a hipótese da morte do pai da ordem primeva. não podendo ninguém ausentar-se da matança e da refeição” (p. No festival do sacrifício.. Totemfagia. O caso é que o excesso faz parte da essência do festival. então. obrigatório. “Cada homem se acha consciente de que está executando um ato proibido ao indivíduo e justificável apenas pela participação de todo o clã. Há uma atitude emocional ambivalente para com a morte do totem: alegria festiva e pranto (de luto). 142). constituía uma característica importante da religião totêmica” (p. Associando-se à interpretação psicanalítica do totem o fato da refeição totêmica e as teorias darwinianas do estado primevo da sociedade humana. 144). Robertson Smith tira a conclusão de que a morte e a ingestão periódicas do totem em tempos anteriores à adoração de deidades antropomórficas constituiu um elemento importante da religião totêmica” (p. cujo consumo era proibido em todas as outras ocasiões.matar um dos membros do clã.

e uma comemoração desse ato memorável e criminoso. com a sua morte – e mais forte. realizavam a identificação com ele. Assim. a afeição até então recalcada passa a ser sentida como remorso – sentimento de culpa. Resulta daí o deslocamento para um substituto – o totem – e a criação dos dois tabus fundamentais ao totemismo. colocando assim um fim à horda patriarcal. isto é. cuidado e indulgência – enquanto que.“Certo dia. mataram e devoraram o pai. “O sistema totêmico foi. por assim dizer. cada um deles adquirindo uma parte de sua força. um pacto com o pai. comprometiam-se a respeitar-lhe a vida. das restrições morais e da religião” (p. A proibição do incesto tem por função unir os homens. a lei do incesto provê sobre a luta de todos contra todos. pelo ato de devorá-lo. quer dizer. por seu lado. no qual este prometia-lhes tudo o que uma imaginação infantil pode esperar de um pai – proteção. que correspondem aos dois desejos reprimidos e ao Complexo de Édipo: 1) matar o totem (substituto do pai) e 2) ter relações incestuosas dentro do clã. a lei.. antes posta pelo pai. tiveram a coragem de fazê-lo e foram bem sucedidos no que lhes teria sido impossível fazer individualmente [.. seria assim uma repetição. já que os desejos sexuais os separam. A refeição totêmica. Unidos. O violento pai primevo fora sem dúvida o temido e invejado modelo de cada um do grupo de irmãos: e. Assim. 145). 148). que foi o começo de tantas coisas: da organização social. os irmãos que tinham sido expulsos retornaram juntos. mas também devoraram a vítima.] Selvagens canibais como eram. não repetir o ato que causara a destruição do pai real” (p. não é preciso dizer que não apenas matavam. surge a interdição “moral”. . que é talvez o mais antigo festival da humanidade. Dos sentimentos ambivalentes dos irmãos parricidas.

] parece plausível supor que o próprio deus era o animal totêmico. . 149). meios de defesa contra o conteúdo parricida.. reorganizando a antiga horda primeva. “A horda patriarcal foi substituída. por isso. em primeira instância. O pai é glorificado e tornado totipotente e onipotente. pela horda fraterna. Com o sacrifício. 150). Há um elemento paterno no conceito de Deus. transcendendo-a.. “[. Totemismo e exogamia estão intimamente ligados. O objeto do sacrifício sempre foi o pai. e que deste se desenvolveu numa fase posterior do sentimento religioso [. e o animal – antes símbolo possível de totem – tornou-se oferenda.] o totem nada mais é que um representante do pai” (p. o oráculo etc. Com as divindades... Os desenvolvimentos religiosos são racionalizações do sacrifício e. uma divindade é tornada membro do clã. A refeição totêmica se repete pelo sacrifício. alguns traços do totemismo permanecem: os atributos benévolos do pai. cuja existência era assegurada pelo laço consangüíneo” (p. Deus foi afastando-se da humanidade. Só se podia aproximar de Deus por meio de um intermediário – o sacerdote.Na religião. a sociedade se torna patriarcal. A ambivalência emocional continua existindo na religião.

relação do homem com o pai e ambivalência emocional estão na base das instituições sociais . uma expiação que não é meramente individual. em primeiro lugar. então.O sacrifício de si (suicídio. estendeu-se a gerações novas livres de tal tratamento. mas do grupo como um todo. gostaria de insistir em que o resultado dela mostra que os começos da religião. Em particular. o substituto do pai. o redentor. Tratase da rebelião de um mortal contra a autoridade divina. que tomei como base de toda minha posição a existência de uma mente coletiva. Complexo humanas. Na tragédia. da mora. Devo admitir que estas são dificuldades graves e qualquer de Édipo. “Ninguém pode ter deixado de observar. em que ocorrem processos mentais exatamente como acontece na mente de um indivíduo. “Ao concluir. pela própria razão de o pai ter sido eliminado. A comunhão cristã é uma repetição do ato culposo para com o pai. O herói é o pai primevo e. Supus que um processo emocional. num certo sentido) é para expiação por um homicídio contra o pai primevo. tal como se poderia ter desenvolvido em gerações de filhos que foram maltratados pelos pais. supus que o sentimento de culpa por uma determinada ação persistiu por muitos milhares de anos e tem permanecido operativo em gerações que não poderiam ter tido conhecimento dela. 158). com o qual o Coro se identifica. da sociedade e da arte convergem para o complexo de Édipo. Isso entra em completo acordo com a descoberta psicanalítica de que o mesmo complexo constitui o núcleo de todas as neuroses” (p. esta investigação excepcionalmente condensada. o herói conduz a culpa trágica em seu sofrimento. ao mesmo tempo. na expiação de sua culpa.

“Mesmo a mais implacável repressão tem de deixar lugar para impulsos substitutos deformados e para as reações que deles resultem. “Não encontramos atos. “Temos justificativas para acreditar que. se supusermos . pois a psicanálise nos mostrou que todos possuem. teriam sido suficientes para produzir a reação moral que criou o totemismo e o tabu” (p. um apparatus que os capacita interpretar as reações de outras pessoas. 159). Consequentemente. a desfazer as deformações que os outros impuseram à expressão de seus próprios sentimentos. como um dos fenômenos de sua organização narcisista. Há uma herança das disposições psíquicas do passado. o simples impulso hostil contra o pai. mas impedidos de realizar-se. a mera existência de uma fantasia – plena de desejo de matá-lo e devorá-lo. Assim. à geração que a sucede. o crime da morte do pai da horda primitiva pode não ter existido. portanto. podemos presumir com segurança que nenhuma geração pode ocultar. cerimônias e dogmas que restaram da relação original com o pai pode ter possibilitado às gerações posteriores sua herança de emoção” (p. na atividade mental inconsciente. mas apenas impulsos e emoções. Se assim for. nunca realidades concretas” (p. pretendendo fins malignos. isto é. “A analogia entre os homens primitivos e os neuróticos será estabelecida assim de modo muito mais completo. 160).explicação que pudesse evitar pressuposições dessa espécie seria preferível” (p. Uma tal compreensão inconsciente de todos os costumes. O que jaz por trás do sentimento de culpa dos neuróticos são sempre realidades psíquicas. 161). 160). eles [os homens primitivos] supervalorizavam seus atos psíquicos a um grau extraordinário. nada de seus processos mentais mais importantes.

] ‘no princípio foi Ato’” (p. eram desinibidos. 162). já que os homens primitivos. que os homens primitivos realmente fizeram aquilo que todas as provas mostram que pretendiam fazer” (p. 162).. houve o parricídio primevo.que também no primeiro caso a realidade psíquica – a respeito da qual não temos dúvida quanto à forma que tomou – coincidiu no princípio com a realidade concreta. Quer dizer. . diferentemente dos inibidos neuróticos. ou seja.. “[.

há uma relação de perda e ganho para ambas as instâncias: o inconsciente pode gozar da consciência e. geral Luiz Alberto Hanns. Escritos sobre a psicologia do inconsciente.. não foi filosófico. Isto se refere ao termo conscious ou.] o recalcado não abarca todo o inconsciente. Coord. O editor da edição inglesa (James Strachey) lembra-nos que o interesse de Freud. 2006. a formação de compromisso é um contrato entre ambas as instâncias psíquicas. por outro lado. Posso dizer que a formação de compromisso é um exemplo. Sigmund. mas. deve assumir o sintoma. em geral. 17). visto que. a consciência se vê livre da idéia.] temos fortes evidências de que mesmo permanecendo inconsciente a idéia recalcada é capaz de continuar a produzir efeitos sobre a psique e de que alguns dos seus efeitos acabam por alçar-se à consciência do sujeito” (p. assim. mandado ao inconsciente. mas também retém a idéia reprimida. Em suma. Podemos já notar aqui . “[. quando um conteúdo é tornado recalcado em favor da consciência e. instalase o sintoma. 19). O sentido ativo se refere a Bewusstsein.. O editor chama a atenção para o fato de que o termo “‘consciente’ deve. de trad. trad. prático.O inconsciente (1915) FREUD. ser compreendido num sentido passivo” (p. advinda da instância da qual goza. Isto lhe possibilitaria explicar ou descrever os fenômenos com os quais se defrontava (em sua clínica). Bewusst. volume II: 1915-1920. 19)... que pode ser traduzido como ser consciente (de alguma coisa). por isso mesmo. Anotações sobre os comentários editoriais da Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud. Esta é uma idéia que Freud desenvolverá melhor em O ego e o id (1923). Claudia Dornbusch et al. “[. Ou seja. inconveniente. o inconsciente tem maior abrangência que o recalcado. digamos. este é apenas uma parte do inconsciente” (p. Só mais uma coisa. portanto. Rio de Janeiro: Imago. mas. ao supor o inconsciente. no alemão. Ao texto propriamente dito. antes.

agora adentramos no capítulo 1: o que justifica afirmar a existência do inconsciente. Diz que a análise fornece “vínculos intermediários” ao sistema Pcs para a ligação do conteúdo inconsciente e para que seja. Represento aqui de forma sistêmica a idéia presente no presente texto. Anoto aqui também algo que Freud diz em O ego e o id (1923).] para que isso ocorra é preciso que o analisando supere as resistências que ao rechaçarem do seu consciente determinados conteúdos os transformaram em material recalcada” (p. 19).. quando fora equiparado ao recalcado.. uma vez que esse conteúdo seja inconsciente. mesmo que constituam uma “forma muito incompleta de tornar-se consciente”. Em seguida. que supera a antiga: Inconscie nte Recalcado Recalcado Inconsciente ou Inconsciente Recalcado. qual seja a de rechaçar da consciência determinados conteúdos e torná-los material recalcado. Pois bem. deve-se vencer uma resistência para que se torne consciente. Aqui Freud já dá uma idéia do recalque. por conseguinte.que Freud supera as suas primeiras idéias do que seja o inconsciente. Também devemos observar que. Freud trata da tradução do conteúdo inconsciente à consciência. . “[. estando estas últimas “mais perto dos processos inconscientes do que o pensar em palavras”. traduzido ao sistema Cs Esses vínculos são as palavras e as imagens.

. como nos alertou o editor da ed. a consciência. 20). de modo que a maior parte daquilo que chamamos de conhecimento consciente se encontra necessariamente e por longos períodos em estado de latência. 19). ou seja. Assim. No parágrafo seguinte. Freud trata de demonstrar a insuficiência da consciência. como um que vai além dessa experiência imediata.. Vemos também que a suposição da existência do inconsciente é imprescindível a esse procedimento. tal ganho de sentido e coerência por si só justificaria que avançássemos além da experiência imediata” (p. como na dialética... num estado de . não pode explicar todo o funcionamento do psíquico. parece atestar o seu método como não-fenomenológico. Aqui Freud fala de uma “experiência imediata”. para tornar a própria consciência coerente e para atuar nele de forma eficaz. buscando sua essência. teremos então uma prova irrefutável da existência do inconsciente” (p. “Mas. Já na página seguinte temos algo mais. Ora. além disso. porque os dados da consciência têm muitas lacunas” (p. é prática e está aí a finalidade do procedimento de Freud: agir no inconsciente para influenciar a consciência. sem conteúdo.] se pudermos inferir a existência de atos inconscientes e interpolarmos entre esses atos conscientes os atos inconscientes. é necessária a suposição da existência do inconsciente. ela é insuficiente.] a cada momento a consciência só abarca um conteúdo psíquico pequeno. Ou seja. Freud começa falando de processos conscientes dos quais os processos de elaboração nos permanecem ocultos e continua: “[. no sentido de que sua preocupação. tanto no sentido prático quanto no teórico. inglesa. então tudo isso que antes parecia incompreensível adquirirá um novo ordenamento compreensível e demonstrável. se. pudermos construir um procedimento – fundado na suposição de um inconsciente – capaz de influenciar eficazmente o curso dos processos conscientes.Uma primeira justificativa da suposição do inconsciente: “Ela é necessária. 20). E continua. Aqui vemos um Freud pragmático. além da realidade que é aparência. “[. assim.

20). a consciência. sabemos com segurança que eles têm abundantes pontos de contato com os processos psíquicos conscientes” (p. a ausência de consciência remete a um ato. a nível psicológico. numa equação de igualdade: consciência = psiquismo. Freud diz que podemos. é apenas um dos elementos ou subconjuntos do psiquismo. quando se trata do inconsciente. Freud irá tratar depois do fato de reconhecermos a consciência no outro. tratar desses estados latentes com as mesmas categorias com que se tratam os atos psíquicos conscientes.. ao contrário. neste trecho. Assim. por analogia a nós mesmos. mas relutamos em aceitar sua existência em nosso próprio psiquismo.. assim. Além de podermos notar. não há conceito fisiológico nem processo químico que nos possam dar a menor noção acerca de sua natureza. enquanto os estados conscientes têm sentido passivo. Freud parece tratar de uma diferenciação entre sua teoria e o fisicalismo. 21). Por outro lado. o psiquismo não mais pode ser equiparado à consciência. No outro parágrafo. que a ausência de consciência tem um sentido ativo. E diz que “a única coisa que os distingue dos estados conscientes é justamente sua ausência de consciência” (p. no alheio. a amplitude do inconsciente para além do recalcado. Continuando nesta temática. Freud irá . então. 21). isto é. vendo. E. diz Freud: “[. Contudo. Vejamos.] estamos em condições de demonstrar que convencionar uma equivalência entre o psíquico e o consciente é algo totalmente sem sentido” (p. na página seguinte. a insuficiência da consciência. com a ajuda dos tradutores e editores. no que Freud chamou de estado de latência.inconsciência psíquica” (p. do ponto de vista psíquico. eles [os estados latentes da vida psíquica] nos são totalmente inacessíveis. 21). com Freud. o semelhante. isto acontece de forma reversa e com resistência: aceitamos e reconhecemos a existência de atos latentes no outro. podemos notar que. podemos também ver que o inconsciente a permeia. Por outro lado. Devemos notar aqui. “No que tange às suas características físicas. não sendo nem mesmo hegemônico.

23). 2. a hipótese de uma segunda consciência é inadmissível. Ao fim do capítulo. há sempre algo do objeto que falta à percepção. logo. Existiriam. o objeto da percepção consciente tomado como um processo psíquico inconsciente é incognoscível por inteiro. A isto ele faz três objeções. como se não estivessem inter-relacionados e nada soubesse um dos outros” (p. não pode ser comparada àquela. isto é. tal qual a percepção de um objeto externo. Irei anotá-las a seguir: 1. A psicanálise demonstrou que os processos psíquicos latentes funcionam “com um alto grau de independência. Ou seja.refutar a hipótese da existência de uma segunda consciência que habite nosso psiquismo. 23). Uma “parte desses processos latentes possui características e peculiaridades que assumem as formas mais estranhas e até mesmo mais inacreditáveis que contrariam diretamente as propriedades da consciência por nós conhecidas” (p. 3. a ela.. por conseguinte. Freud retoma a teoria de Kant da percepção do mundo externo. incognoscível. na terminologia kantiana. sempre falta algo. que é o númeno. por conseguinte. esses processos latentes são desprovidos de consciência. a percepção consciente. segundo a qual o objeto pode ser percebido.] também a psicanálise [escreve Freud] nos alerta para que não coloquemos a percepção da consciência no lugar do próprio objeto dessa percepção: o processo psíquico inconsciente” (p. Uma consciência da qual o portador nada possa saber não pode ser uma consciência alheia – é de outra natureza – e. caso não se aceitasse a existência de um inconsciente. uma diferença de grau: “é preciso [escreve Freud] dizer que no nosso caso o objeto . pois sequer possui o caráter de fazer-se presente à consciência. embora seja. Contudo.. O termo “subconsciente” – alerta-nos Freud – não deve substituir o termo inconsciente. “[. há uma pequena diferença. infinitas consciências desconhecidas por nós e entre si. 24). Além do mais. de fato.

é aquilo que. p. assim. S.] a psicanálise afirma que um ato psíquico passa. Devemos notar. mas com referência a um tipo de idéia que eu. que é faltante. por vezes. Peirce (apud Santaella. Para traçarmos um paralelo. ou representamen. 2000) e outra de C. vemos aí que ao interpretante falta o objeto: ele tem apenas acesso ao objeto carregado pelo signo. na tríade genuína. do processo de um conteúdo – livre. ainda. 12): [. Agora adentramos no capítulo 2: os múltiplos sentidos do inconsciente e o ponto de vista tópico. Dirige-se a alguém. ou. E a seguir transcrevo um parágrafo muito interessante. o ato psíquico se encontra em estado . cria na mente dessa pessoa. Ao signo assim criado. isto é. o objeto do signo também é de natureza sígnica. ele deve vencer esta censura. O signo representa alguma coisa.. aqui Freud está falando do devir consciente. um signo equivalente ou talvez.228). grifos meus) Um signo. Freud apresenta as abreviações Cs e Ics para trabalhar com. “[. sem ser ainda o recalcado – se tornar consciente.. então. Na primeira fase.interno é menos incognoscível do que os objetos do mundo exterior” (p. quer dizer. respectivamente. seu objeto. 19. Representa esse objeto não em todos os seus aspectos. o objeto da representação só pode ser de natureza representativa (p. esse teste ou exame]. denominei fundamento do representamen (2. a consciência e o inconsciente no sentido sistêmico. em geral. isto é. um signo mais desenvolvido. por duas fases e que entre ambas há uma espécie de teste (censura) [Pois bem.] numa relação triádica genuína.. representa algo para alguém. denomino interpretante do primeiro signo. que o mesmo ocorre com o processo psíquico inconsciente em relação à percepção da consciência: a consciência só percebe um processo inconsciente de maneira incompleta. Ou seja. 24).. sob certo aspecto ou modo. o objeto manifesta-se no interpretante através do signo. citarei aqui uma passagem de Santaella (a teoria geral dos signos.

antes de tudo. sob certas condições ele agora pode tornar-se objeto da consciência sem ter de enfrentar maiores resistências. p. na p. mas certamente ser capaz de tornar-se consciente. Esclarecendo: ele pode ainda não se encontrar em estado consciente. dos editores). Freud continua dizendo que há uma lacuna na correspondência entre anatomia e psiquismo. [Cf. Freud rechaçou a idéia de uma identidade entre pré-consciente e inconsciente]. Seguindo o próximo parágrafo. ele ingressa na segunda fase e passa a pertencer ao segundo sistema.inconsciente e pertence ao sistema Ics. se constatarmos que também o grau de censura determina a transformação ou não do pré-consciente em consciente.]” (p. caso seja aprovado no teste. Mas. a mera pertinência a esse sistema ainda não define de forma inequívoca a sua relação com a consciência. 41. o último conteúdo entre colchetes é do próprio texto. isto é. são esquemas descritivos para que visualizemos melhor os . pergunto: qual é a diferença entre a concepção dinâmica e a tópica? O que é uma fixação de idéia? Como podemos esboçá-la? À pergunta de Freud. Entretanto. ele é designado na psicanálise como “recalcado” e terá de permanecer inconsciente. [Veja que aqui o termo préconsciente está mais próximo do sistema Cs do que do inconsciente. a passagem para a segunda fase ser-lhe-á interditada. atrás. 26. (de acordo com a expressão de J. Breuer). ainda não se conectou a um sistema anatômico. também designamos o sistema Cs como “pré-consciente”. A sua tópica. Levando em conta essa capacidade de vir a tornar-se consciente. No entanto. nesse caso. tal idéia passaria a existir paralelamente em dois tópos (consciência e inconsciente) ou a transposição consistiria numa mudança de estado aplicada ao mesmo material e no mesmo local? Vejamos (ele cogita uma resposta adiante. que se refere ao anímico. se no teste ele for rejeitado pela censura. então precisaremos diferenciar com maior rigor o sistema Pcs do Cs. lembrando que. E continua: “é último lembrar que. nossas suposições têm apenas sentido figurado. 27). que chamamos de sistema Cs.

como uma memória das marcas ou do rastro auditivo da idéia. No outro parágrafo. outrora recalcada. a de uma mera mudança funcional de estado. “A primeira das duas possibilidades a que havíamos aludido. um paciente. mas também a mais cômoda. é de antemão a mais provável. a mais grosseira. 27). Na consciência. 2. Ele demarcará três implicações da primeira possibilidade: 1. “bipresente”. Inconscie nte B. pode avançar regularmente de uma posição a outra. No inconsciente.processos” (p. o recalque não será levantado antes que tenha ocorrido a separação das resistências que impedem a idéia consciente de entrar em contato com os rastros [Spur] da memória . A segunda suposição. E é aqui que Freud discutirá uma resposta àquelas duas perguntas. sem ativar o recalque. as suposições da psicanálise não podem ser coisificadas. situado em outro local. como uma lembrança inconsciente da vivência mantida em sua forma anterior original (p. isto é. 27). é. de acordo com o seu lugar (locus). e. A mesma idéia. ela é novamente rejeitada. Consciênc ia A. que a fase Cs de uma idéia que surge na psique é um novo registro desta. Que essa idéia. pois são figuradas. Freud irá dizer que ao informarmos uma pessoa. “Na realidade. Que uma idéia pode estar simultaneamente presente em dois lugares no aparato psíquico. temo-la representada nos dois lugares: 1. ou seja. de uma idéia de seu inconsciente. 3. embora menos plástica e mais difícil de manipular” (p. 27). Que Ics e Cs estão separados topicamente. isto é. 2. em Ics e Cs. então. se não for inibida pela censura. sem dúvida. mas em diferentes modalidades. sem perder o primeiro registro ou locus.

27). Contudo. embora tenham o mesmo conteúdo” (p. pergunta Freud: “será que também há . de acordo com o seu lugar (locus). Consciênc ia A. A linha tracejada designa “os rastros da memória inconsciente” (ainda não tornados conscientes).[Erinnerung] inconsciente. Inconscie nte B. [Adicionado posteriormente] A e B são duas coisas diferentes. Freud diz que essa identidade entre o que chamamos de idéia A e idéia B nos esquemas é apenas aparente. Capítulo 3: sentimentos inconscientes Além das representações mentais conscientes e inconscientes. das quais se tratou até agora. mas jamais para a consciência. Apenas quando essa marca se torna consciente teremos sucesso” (p. o objeto a. em verdade. porque o recalcado (B) jamais comparece à consciência: ele é. A mesma idéia. a coisa freudiana. O que vem à consciência não passa de um substituto aliado à palavra ou outra representação imaginária (e simbólica). 28). mas em diferentes modalidades. algo que é em si. prefere deixar em suspenso aquela pergunta (acima) sobre o registro de uma idéia. “pois ter apenas escutado algo ou tê-lo efetivamente vivenciado são duas coisas completamente diferentes do ponto de vista de sua natureza psicológica. Assim.

apenas a idéia que o representava é que sucumbiu ao recalque” (p.. quando reconhecemos a distorção ocorrida e logramos restabelecer as conexões originais corretas. B. eles são constatados na clínica. em seguida. sofrer um recalque e ligar-se a outra representação mental. São Paulo: Martins Fontes]) definem pulsão como um “Processo dinâmico que consiste numa pressão ou força (carga energética. Inconscie nte A. fator de motricidade) que faz o organismo tender para um objetivo. Freud diz que parece improvável uma aplicação da divisão entre consciência e inconsciente. Diz que uma pulsão só se pode mostrar através de uma ligação sua com um afeto ou uma idéia. sentimentos e sensações inconscientes [. “Em psicanálise. Segundo Freud.]” (p. é no objeto ou graças a ele que a pulsão pode atingir a sua meta” (p. Freud diz que. . pois eles podem se ligar primeiro a uma idéia e. estabelecendo-se de acordo com a história do sujeito. 29). 11 Uma corrente inicial da pulsão* que ainda pode sofrer recalque (Nota minha).. designamos de “inconsciente” a moção de afeto original [isto é. Desde o início da obra de Freud. a primeira]. • No segundo (p. 28)? No primeiro caso. tanto no caso consciente quanto no inconsciente (representação ideacional inconsciente). Contudo. embora na verdade seu afeto jamais tenha sido de fato inconsciente [acredito que aqui Freud esteja tratando do recalcado].impulsos • pulsionais11 [Tribregungen]. 394). Há um problema de identificação. o seu objetivo ou meta é suprimir o estado de tensão que reina na fonte pulsional. *Laplanche e Pontalis (2008 [Vocabulário de Psicanálise. 29) Consciênc ia A. Uma pulsão tem seu objeto variável. uma pulsão tem a sua fonte numa excitação corporal (estado de tensão). o das pulsões. por mais paradoxal que pareça a existência de afetos. oposições as quais vão se modificando ao longo da trajetória teórica da psicanálise. eles vão além do uso lingüístico no caso de uma “pulsão inconsciente”. Daí que a pulsão sexual seja sempre contraposta a outras pulsões. sentimentos e sensações inconscientes. a pulsão é analisada a partir da sexualidade. A consciência toma esse afeto como efetiva e fiel expressão da nova representação mental.

que então passa ao domínio do recalcado (deixa de existir. o objetivo do recalque é impedir a manifestação ou desencadeamento de um afeto após uma idéia ter sido recalcada]. Aqui a noção de repressão não é utilizada no sentido técnico “Sabemos como na nota que a 2 (abaixo). Continua existindo como um afeto. e o segundo. etc. seu desencadeamento é impedido. apenas designa um [aqui impedimento. principalmente em medo. entretanto. ao processo pré-consciente de evitar o acesso desses sentimentos à consciência.Recalcado A linha tracejada vermelha indica o processo de recalque12 ocorrido em referência à idéia A. “como a efetiva e fiel expressão dessa nova representação [idéia]” (p. que será tomada pela consciência. matemático. na consciência). 40. como diz Freud.] Fred diferencia Unterdrückung (“repressão”) de Verdrängung (“recalque”). Uma moção pulsional pode ter três destinos. também repressão [Unterdrückung] também não no sentido técnico] do desencadeamento do afeto é o verdadeiro objetivo do recalque e que seu trabalho permanece inacabado se o objetivo não for alcançado [ou seja. Transforma-se numa quota de afeto de outra qualidade (da quantidade à qualidade?)... 2. Já a linha contínua verde indica o processo em que a moção (afeto) da idéia A. que logramos reinstalar ao desfazermos o trabalho de 12 Os editores da presente edição escrevem uma nota muito interessante sobre recalque e repressão. algébrico. no todo ou em parte. segundo Freud (vide página 29): 1. p.: não há valor métrico. É reprimido (unterdrückt). “[. 3. Obs. Vou transcrever um trecho. Em todos os casos em que o recalque consegue impedir que os afetos aflorem. . faz ligação com a idéia B (esta não recalcada). isto é. Freud não diferencia ambos” (nota dos T. devido ao recalque dessa idéia. o primeiro referindo-se ao esforço consciente de reprimir um sentimento inadmissível. chamamos esses afetos. 29). em certo sentido. 66). em geral.

29-30). 2010]. O sistema Cs normalmente controla tanto a afetividade quanto o acesso à motricidade. o que se segue foi redigido apenas em mai. . melhor em palavras. De fato. No último esquema. em vez do afeto inconsciente. enquanto no mesmo local. porém o ponto de ancoragem potencial do afeto poderia ser representado. podemos ver claramente a concepção de que a idéia continua existindo como formação real no sistema Ics. “Toda a diferença origina-se no fato de que idéias consistem em cargas investidas – basicamente em traços de lembranças – ao passo que os afetos e sentimentos correspondem a processos de descarga [Abfuhrvorgänge] cujas manifestações finais são percebidas como sensações” (p. 2009.recalque. Cs e Ics estão em constante conflito pela primazia sobre a afetividade. [O que se segue foi adicionado posteriormente. de “afetos inconscientes” [são os afetos não manifestados]” (pp. mas também impede o desencadeamento do afeto e da atividade muscular. 30). Duas conseqüências: 1. 2. o sistema Cs está mais fortemente vinculado ao controle motriz voluntário do que ao controle do desencadeamento do afeto. Enquanto que até aqui as anotações do presente texto foram redigidas em nov. “De especial interesse para nós é a constatação de que o recalque pode bloquear o processo de transformação da moção pulsional em expressão de afeto” (p. há apenas um ponto de ancoragem potencial que não pôde desenvolver-se [os grifos são meus]” (p. Quanto à diferença entre idéia inconsciente e afeto inconsciente. mas pode vir a ser. O recalque não apenas produz o afastamento (do afeto) da consciência. Contudo. 30). Freud irá dizer que “há uma diferença significativa: a idéia inconsciente continua existindo como formação real no sistema Ics após o recalque. como algo que ainda não é. 30).

O recalque atua nas fronteiras entre Pcs (Cs) e Ics. na retirada de uma carga de investimento pertencente ao sistema Pcs” (p.O sistema Cs (Pcs) tem também função na formação de sintomas através da ideia substitutiva: “o desencadeamento do afeto partirá desse substituto consciente o caráter qualitativo do afeto corresponderá à natureza desse substituto” (p. ou seja. 31). 3. é claro que ela deve ter conservado sua carga de investimento. mas por uma mudança de [p. 31] estado. 31). O que foi retirado deve ser algo diferente” (p. O recalque. enquanto não houver a ação do recalque. que separa ideia de afeto. que é o calcar a posteriori – aquele que sobrepõe outros conteúdos recalcados –. IV: tópica e dinâmica do recalque]. 31). [Cap. consiste na “operação de retirada da carga de investimento (pré-)consciente que estava contida na idéia. quer dizer. Os resultados podem ser três: 1. 2. “Trata-se necessariamente de uma retirada da carga de investimento” (p. 31) e “um afeto não se forma enquanto não houver a ruptura para encontrar uma nova substituição no sistema Cs” (p. 31). se considerado como o recalque propriamente dito. uma . Uma hipótese é colocada: “a passagem do sistema Ics para outro situado próximo a ele não se dá por meio de um novo registro ou inscrição. “Como a idéia recalcada ainda mantém no Ics sua capacidade de ação. A ideia mantém a carga ics [minúsculo] que já possuía antes (mantém-se a carga de investimento do inconsciente). operando sobre as ideias (Vorstellung). A ideia recebe uma carga do Ics (substituição de carga pré- concsiente por uma carga oriunda do inconsciente). A ideia fica esvaziada de carga (retirada da carga préconsciente).

32). 32). que assegure “a manutenção do esforço do recalque [secundário. para dar um nome a essa tríplice forma de compreensão dos fenômenos. “que visa a acompanhar o destino das quantidades de excitação e busca. estimar as magnitudes dessas quantidades” (p. há uma ideia inconsciente que ainda não recebeu a carga do Pcs. 32). enquanto no recalque propriamente dito (no calcar a posteriori) há ainda outro mecanismo a ser acrescentado: a retira da carga de investimento pcs. Aqui. então. a hipótese funcional desbancou facilmente a hipótese tópica” (p. Tem-se. E. E “o dispêndio constante [de energia] que sustenta e garante a durabilidade do recalque original reside justamente nesse contra-investimento de carga. no caso do recalque original. nos permita explicar sua instalação inicial e sua continuidade: a única hipótese plausível é imaginarmos que exista um contra-investimento de carga por meio do qual o sistema Pcs se protege da pressão de retorno ao consciente exercida pela idéia [Vorstellung]” (p. Freud sugere “chamar toda descrição do processo psíquico que envolva as relações . o calcar a posteriori] e que. Deve-se supor a existência de outro processo. podemos dizer que é ele que representa esse dispêndio” (p. 32). Dois problemas: 1. Por que a ideia não tenta penetrar novamente no sist. “o recalque original constitui-se tão somente no mecanismo de contra-investimento de carga. ao menos aproximativamente. o econômico. Recalque original e calcar a posteriori. Pcs? 2. 31-32). ou seja. É bem possível que essa carga de investimento retirada da idéia seja então utilizada para servir de contra-investimento de carga” (p. No recalque original.transformação na carga de investimento. além dos pontos de vista dinâmico e do tópico.

eu não os retratarei aqui. irromperá e penetrará). o contra-investimento articulando como formação reativa e promovendo um primeiro recalque inicial. de três quadros de neurose: o quadro de histeria de angústia (excreção de uma ideia fóbica ou associada a uma zona de fobia e medo de investimento Cs dessa ideia). mais tarde. então. [Cap. lado a lado.dinâmicas. Cs. 33).) e da neurose obsessiva (o contra-investimento do sistema Cs se coloca em primeiro plano de maneira evidente. através do qual a ideia recalcada. Contudo. composto no Ics [Wunschregungen]. Freud tratará. V: características especiais do sistema Ics.] Algumas representações: Carga de investime nto Condensaçã o Idei a Carga de investime nto Idei a “O em núcleo outras do Ics é Deslocamen to composto é de representantes de impulsos impulsos pulsionais de desejo [Triebrepräsentanzen] desejos de escoar sua carga de investimento – palavras. esses pulsionais [Triebregungen] coexistem coordenados entre si. tópicas e econômicas de descrição metapsicológica” (p. devido ao papel do contra-investimetno de carga existente no sist. sem se . o quadro da histeria de conversão (a carga de investimento que se ocupava de uma ideia inconsciente é drenada para a inervação anatômica. Investimento de carga é o mesmo que libido.

Assim. Não há contradição. tendo então a função de substituta do recalque” (p. provocar-se-á um efeito cômico e o fenômeno parecerá “engraçado” e provocará riso” (p. um acordo de compromisso” (p. não são [p. Além disso. No sistema Pcs. nem diferentes graus de certeza. “No âmbito do Ics não há lugar para a negação. um objetivo ambos simultaneamente intermediário. diremos que predomina o processo secundário. em vez de se distanciarem comparecem um do outro ou de se e anularem formam mutuamente. a soma de uma sua idéia carga ou de pode investimento para outra idéia. . 37-38). Cabe observar que. diferentemente do que ocorre no Ics. se tal processo primário operar sobre elementos pertencentes ao sistema Pcs. Esse gênero de restrições só se instala a partir do trabalho da censura que ocorre entre o Ics e o Pcs. “os processos nesse sistema [o Ics] são atemporais. a idéia ou representação pode apropriar-se da carga de investimento de várias outras idéias. Quando no Ics dois impulsos de desejo são ativados ao mesmo tempo – embora seus objetivos nos possam parecer inconciliáveis –. Dois impulsos de desejo podem comparecer mutuamente. para a dúvida. 37). “Utilizando-se representação do processo passar de toda deslocamento. 37] afetados pelo tempo decorrido e não têm nenhuma relação com o tempo” (p.influenciarem mutuamente. nem se contradizerem. empregando o processo de condensação. Já sugerir em outra ocasião que se encarasse o deslocamento e a condensação como marcas que caracterizam o chamado processo psíquico primário. Não há relação com o tempo – é atemporal. formando um objetivo mediano. eles não são cronologicamente organizados. nem diferentes graus de certeza. 37). Não há negação. 37). também a negação [Negation] somente entrará em cena em um nível superior.

em que há uma unidade de sentido – pulsão-afeto-imagem) das cargas de investimento. deslocamentos e condensações. O sistema Ics. o que mais sofreu ações da realidade externa). quando no Pcs um processo transita de uma idéia para outra.Processos pertencentes ao sistema Ics: 1) ausência de contradição. 2) ausência de negação ou graus de certeza. 5) substituição da realidade externa pela realidade psíquica (fantasma). O sistema Pcs é o mais elevado (quer dizer. . “Assim. [sic] são extremamente limitados” (p. 38). tais como ocorrem no processo primário. no Pcs. Freud apresenta em seguida a teoria de Breuer sobre os estados livre e atado (ligação da energia com imagens ou afetos. a primeira conserva uma parte de sua carga e apenas uma pequena parte da carga de investimento sofre um deslocamento [Verschiebung] [deslize de pequenas quantidades de energia das cargas de investimento que preenchem ou ocupam as representações – efeito metonímico] em direção à próxima [Vorstellung] [idéia]. O sistema Pcs inibe a tendência à descarga inerente às ideias (lembrar-se dos conceitos ulteriores de Eros e Tânatos). por si só. 4) atemporalidade. 3) processo primário (mobilidade das cargas de investimento). “não conseguiria implementar uma ação muscular capaz de atingir uma meta – à exceção das ações que já estão pré-organizadas como reflexos” (p. 39). Portanto. estão fora de questão ou.

no entanto. ics – pertencem ao sist. VI: o trânsito entre os dois sistemas] O Ics pode evoluir. Ics. O Ics e o Pcs atuam mutuamente. 4) submeter os conteúdos ao teste de realidade e ao princípio de realidade. nós reconhecemos tais fantasias como etapas prévias da formação tanto de sonhos quanto de sintomas. e capaz tanto de influenciar constantemente o Pcs como de ser influenciado por este” (p. Freud já se aproxima da concepção da segunda tópica. “Podemos dizer. referindo-se aos derivados]. como tais. 2) inserir uma ordem temporal nos conteúdos ideacionais. “A formação das fantasias das pessoas normais e dos neuróticos é análoga a essa mestiçagem [semelhança sem pertença completa. mesmo com sua alta organização. 3) introduzir uma censura ou várias censuras. mas são. [Cap. e mais: que ele é suscetível aos efeitos produzidos pela vida. aqui. 5) tem papel importante na memória consciente (que é diferente dos traços de lembrança: estes últimos são aqueles nos quais se fixam as vivências do Ics). 40). não podem . permanecem recalcadas e. sendo que. efetivamente. Um espectro do Ics no Pcs: os derivados. os assim chamados derivados. Nesta seção.Sistema Pcs: 1) promover o trânsito entre o conteúdo das ideias. em síntese. ainda está tratando de um modelo da primeira tópica – ainda que em transição. Eles adquirem características do Pcs. que o Ics continua a atuar através de ramificações.

tornar-se conscientes” (p. 41). Há esse resto inacessível à consciência: é a coisa freudiana, que fundamentam a fantasia. “Frente à consciência o conjunto dos processos psíquicos se apresenta como se pertencesse ao campo do pré-consciente. Em verdade, uma parte muito grande desse pré-consciente provém do inconsciente, tem características próprias dos derivados do inconsciente e antes de poder tornar-se consciente tem de submeterse a uma censura. Por outro lado, existe uma parte do Pcs que pode tornar-se consciente sem ter de passar pela censura” (p. 41). E essa censura não mais se refere apenas a uma divisão entre Ics e Cs, mas também entre Pcs e Cs. Quer dizer, “a cada passagem de um sistema para o imediatamente superior, ou seja, que a cada progresso para um nível maior de organização psíquica, corresponda uma nova censura” (p. 41). E, também, “a primeira censura funciona contra o próprio Ics; a segunda, contra os seus derivados pcs” (p. 42). Há, então, um sobreinvestimento no processo pelo qual algo se torna consciente, do Pcs ao Cs, não se tratando de mera percepção. E há que se considerar também a direção da censura: “todos os caminhos que vão da percepção ao Ics permanecem livres; somente os caminhos que seguem do Ics ao Cs estão sujeitos ao bloqueio pelo recalque” (p. 43). Nem tudo o que se encontra no consciente se encontra em estado consciente: pode-se estar em estado latente. “A verdade é que não apenas o recalcado permanece estranho à consciência, mas também parte das moções que dominam o nosso Eu [...] esses elementos que estão no mais forte contraste funcional em relação ao recalcado também permanecem estranhos à consciência” (p. 42).

“os derivados do Ics, após sofrerem grandes deformações, embora conservando muitas das características que evocaram o recalque, podem tornar-se conscientes constituindo formações substitutivas ou sintomas” (p. 42). E a passagem seguinte é muito interessante, em se tratando, além de outras coisas, da comunicação: “Também é relevante mencionar que o Ics de uma pessoa pode reagir ao Ics de outra contornando o Cs. O fato merece uma análise mais aprofundada, especialmente para sabermos se a atividade préconsciente permanece excluída desse processo, mas, do ponto de vista, descritivo, o fato é irrefutável” (p. 43). Isto pode nos lembrar do quadro da relação terapêutica desenhado por C. G. Jung, em que a comunicação inconsciente pode ser diretamente estabelecida. Além disso, os conteúdos do sistema Pcs (Cs) têm duas vias:
1) pela vida pulsional, com mediação do sist. Ics ou 2) pelos influxos da percepção.

Já o sist. Ics, ele possui relativa autonomia e é pouco suscetível a ser influenciado – pelo sistema Pcs, pois, como vimos, as percepções influem diretamente para ele. Mas, o tratamento psicanalítico se funda na influência do Cs sobre o Ics. É através dos derivados do Ics que se visa abrir caminho para o trabalho analítico. “Mesmo que intensamente recalcada, a moção [Regung] inconsciente pode entrar em cooperação com uma tendência [Strebung] dominante se ambas estiverem atuando na mesma direção. Nesse caso, o recalque é suspenso e a atividade recalcada é incluída a título de reforço da ação intencionada pelo Eu. Nessa constelação específica, o inconsciente entra em sintonia com o Eu [ichgerecht],

sem que nada mais mude no seu recalque. O resultado da contribuição do Ics nessa cooperação é evidente; os anseios do indivíduo, agora intensificados pelo acréscimo da atividade inconsciente, comportam-se de maneira bem diversa dos anseios normais; esses anseios reforçados são capazes de um desempenho muito mais pleno e, diante de contradições, revelam ter uma resistência, semelhante à que observamos nos sintomas obsessivos” (p. 44). E este é outro trecho extremamente importante para a teoria freudiana, que será retomado em vários dos seus trabalhos (nas Conferências introdutórias de 1916-17 e no caso do Homem dos lobos, por exemplo), mas especialmente em O Eu e o isso de 1923. “Em resumo, poderíamos comparar o conteúdo do Ics a uma população psíquica [note-se que a expressão não se refere a pessoas, mas a um conjunto de coisas que possa pertencer à classe que pode ser adjetivada/qualificada pelo termo “psíquico”] ancestral. Se for verdade que há no homem formações psíquicas herdadas, talvez semelhantes ao instinto [Instintikt] animal, elas seriam o cerne do Ics. A esse cerne acrescentam-se mais tarde os conteúdos que foram descartados durante o desenvolvimento infantil como sendo inúteis, mas que por sua natureza não são necessariamente diferentes dos conteúdos herdados. No entanto, uma diferenciação clara e definitiva entre o conteúdo dos dois sistemas, em geral, só se estabelecerá na puberdade” (p. 44).

[Cap. VII: identificando o inconsciente]
Esquizofrenia: oposição entre Eu e objeto. A libido é recolhida do objeto inteiramente para o Eu e não investe qualquer outro objeto, caracterizando um estado de narcisismo primitivo. Pacientes esquizofrênicos são incapazes de executarem transferência: o mundo

V. ela se tornou linguagem dos órgãos” (p. Predominância da relação com a coisa ou ato.. então. abaixo. as palavras são condensadas [verdichtet] e transferem integralmente uma à outra suas cargas de investimento deslocando-as. Neste.] um traço hipocondríaco. nas neuroses o são no Ics. as palavras são submetidas ao mesmo processo que também transforma os pensamentos oníricos latentes em imagens oníricas. 47). Predomina-se. Freud nos apresenta uma fórmula: “No caso da esquizofrenia. Trata-se de um caso em que “a fala esquizofrênica apresenta [. O processo pode cegar ao ponto de uma única palavra assumir a representação de toda uma cadeia de pensamentos. 46). Freud ilustrará um caso de esquizofrenia. Há.externo é rejeitado. Trata-se do que chamamos de processo psíquico primário. Predominância da relação com a palavra e não com a coisa: é a semelhança entre as expressões linguísticas e não entre objetos definidos que define a substituição de um por termo por outro. uma um investimento de carga no objeto que continua a ser mantido – o que é evidente na transferência. As falas dos esquizofrênicos são desprovidas de sentido.” Eis.. a representação-deobjeto (quer dizer. Freud divide. rompe a homogenia do termo) em . colocado à sua disposição pelo Dr. devido às múltiplas relações que mantém com outros elementos (p. o investimento de carga nas representações mentais das palavras (representações-de-palavra). um trecho importante: Ao tratar da esquizofrenia. portanto. Em seguida. porém. dirigindo-se a um objeto recalcado (introversão). Psiconeuroses: impedimento (externo) ao Eu em relação ao objeto e uma efetiva renúncia ao objeto real e libido retirada do objeto real e direcionada para um objeto fantasmático. Tausk. Muitos aspectos que na esquizofrenia são encontrados em estado consciente.

representação-de-palavra e representação-de-coisa. nos traços de lembrança que estão mais distantes e derivam dessas lembranças. estes são os primeiros e verdadeiros investimentos de carga no objeto. ao ser vinculada às representações-de-palavra que lhe correspondem. podemos supor que são os tais sobreinvestimentos de carga [Überbesetzungen] o fator que leva a uma organização psíquica mais elevada e possibilita a substituição do processo primário pelo processo secundário dominante no Pcs. este surge quando essa representação-de-coisa. representação inconsciente é somente a representação-de-coisa [Sachvorstellung]. . O sistema Ics contém os investimentos de carga referentes à coisa [Sache] que faz parte do objeto. Assim. É a representação não revestida de palavras ou o ato psíquico que não esteja sobreinvestido que permanecerá como material recalcado no Ics” (p. recebe uma camada de sobreinvestimento de carga [Überbesetzung]. pois essas palavras devem continuar associadas ao objeto [trata-se aqui do signo fechado: S/s]. Uma representação [Vorstellung] consciente acrescida abrange da ao a representação-de-coisa que a [Sachvorstellung] [Wortvorstellung] [Vorstellung] representação-de-palavra passo correspondente. Tampouco são diferentes estados funcionais de investimentos de carga aplicados ao mesmo local. ele está recusando-se a aceitar a tradução da representação em palavras. como pensávamos. Quanto ao sistema Pcs. Agora. Fica agora então claro como uma idéia consciente se diferencia de uma inconsciente. “Esta última consiste no investimento de cargas – se não nas imagens diretas da lembrança-de-coisa [Sacherinnerungsbilder] –. AS duas não são. também podemos expressar de forma precisa o que nas neuroses de transferência é negado [verweigert] pelo recalque: ao rejeitar uma idéia ou representação. 49). diferentes registros do mesmo conteúdo situados em locais psíquicos diferentes. na verdade.

representação-de-coisa. apenas investimentos de carga referentes à coisa que faz parte do objeto. que não retiveram mais nada de suas qualidades e necessitam de um reforço através de novas qualidades para se tornarem conscientes” (p. podemos concluir que a característica desse modo esquizofrênico de operar consiste em tratar as coisas concretas como se fossem abstratas” (p. os investimentos de carga tentam recuperar uma parcela do objeto na representação-de-coisa. Freud. Pcs. 50). A palavra qualifica. A seguir Freud tratará do recalque no esquizofrênico: recalca-se a representação-de-coisa. . aventa a hipótese de “que o pensamento se dá em sistemas muito distantes dos resíduos originais de percepção. para diferenciar representação-de-coisa da de palavra. 51). “a partir da forma com que a psique esquizofrênica funciona. representação-de-coisa.Consciente: Inconsciente: representação-de-palavra apenas somada quer à dizer. Assim. enquanto que a representação-de-palavra ainda subjaz no sist.

. melhor.. mas a energia agregada aos conteúdos reprimidos que encontra elementos substitutos – trata-se. por fim. 3. ao Ego e ao sistema Pcpt.-Cs. Foram representados aqui 6 sistemas: o aparelho psíquico (que aqui está representado por um círculo.-Cs.: não é o próprio conteúdo do reprimido que avança.-Cs. do processo de deslocamento.Adendo Diagrama α. o Reprimido. Sistema Pcs. ou. na verdade.. agora ligado.-Cs. ligando-se ao sistema Pcpt. a não ser uma parte do sistema Pcpt. o Id. como seu elemento. mas topológica)... 1. no sistema Pcs. ligando-se ao Ego e ao sistema Pcpt. tornando-se energia ligada. ligando-se ao meio externo. ela deve passar pelo sistema Pcpt. 3) e. Representação gráfica do devir consciente. o sistema Pcpt.. então.-Cs. Sistema Pcpt.-Cs. [Acrescentado posteriormente] Obs. o Ego. Ego Aparelho Psíquico Reprimi do Id Esta representação não deve ser tomada por seu valor geométrico.. que se liga somente ao Ego e tem..-Cs. passa ao sistema Pcpt. que engloba todos os demais. 2) este conteúdo. parte que faz conjunção com o meio externo. em sua parte consciente. As flechas vermelhas demonstram o percurso do devir consciente de um conteúdo reprimido e os números que as acompanham representam as fases do processo: 1) o conteúdo reprimido (energia livre) liga-se às representações verbais. . ao Pcs. adentrando no Ego. não-geométrica. visto que para qualquer coisa se torne consciente. o sistema Pcs. em 1. embora sua forma seja. Meio externo 2. ademais. e ao Id. descontínua.

senso de realidade.Índice remissivo dos temas e conceitos tratados por Freud C Conceito · Neurose Universal x Neurose Individual · 46 Conceitos · A força das paixões · 45 A horda primitiva e o parricídio · 78 A hostilidade latente no inconsciente e as proibições do tabu · 71 A lei após o parricídio e o Complexo de Édipo · 81 A ligação afetiva do crente · 46 A magia · substituição das leis da natureza por psicológicas · 74 A morte do pai da ordem primeva · 80 A morte do pai primitivo e o mandamento · 45 A proibição do incesto como união dos homens · 81 A religião se pauta em desejos · 42 Ambivalência emocional em relação ao pai · 78 Amor universal · 55 Animismo · 76 Animismo (maior) · 73 As fases do desenvolvimento humano individual e coletivo · 75 As tendências destrutivas e anticulturais do homem · 34 As três teorias sobre a origem do totemismo · 77 Censura · Ics-Cs. nem motivos higiênicos) · 78 Os deuses · de forças impessoais a superhomens · 38 Os dois pontos de vista sobre a vinculação entre exogamia e totemismo · 77 Princípio do prazer como regente da vida · 52 Proibição na neurose e no tabu · 67 Proibições do tabu e a ambivalência emocional · 71 Razão de ser da civilização · 38 Recalque · 98 calcar a posteriori · 98 Recalque original vs. a técnica e o fim do homem · 61 O papel da arte · 37 O papel da ciência · 47 O princípio da realidade e o desenvolvimento do ego · 50 O superego cultural e a infelicidade · 60 Origem da exogamia (nem perigosos postergados à progênie. Recalque propriamente dito ou secundário · 99 . Pcs-Cs · 104 Civilização humana · 34 Complexo de Édipo como base das instituições sociais humanas · 83 Comunicação pela via do Ics · 105 Definição de metapsicologia · 99 Definição de tabu · 65 Definição de totem · 62 Derivados · uma aproximação com a segunda tópica · 103 Deslocamento da libido · 53 Deus de prótese · 54 Diferença psicológica entre proibições totêmicas e morais · 72 Eros e Tânatos na cultura · 55 Eros. sentimento de culpa e civilização · 57 Esquizofrenia e psiconeuroses · 106 Exogamia e totemismo · 62 Fonte do tabu · 65 Função da linguagem · 107 Herança das disposições psíquicas · 84 Ics como uma população ancestral · as formações psíquicas herdadas · 106 Ideal cultural · 36 Ilusão. fantasia e obra de arte · 53 Individual (egoísta) vs. sua relação com o pai e com as proibições do tabu em relação ao totem · 79 O festival como exceção à regra da obrigação · o proibido é permitido · 80 O horror ao incesto é fonte da exogamia · 78 O mal-estar.poder sobre a vida · 44 Latência na consciência · 104 Liberdade como desejo · 55 Morte do pai da ordem primitiva e sentimento de culpa · 57 Mulher · 55 O contra-investimento de carga como auxiliar do recalque · 99 O Édipo. imaginação. Cultural (altruísta) · 58 Influência do Cs sobre o Ics · 105 Inteligência x Natureza instintual · 46 Justiça e Castigo .

representação-de-palavra e representação-de-coisa · 107 Sacríficio como expiação grupal do parricídio · 83 Semelhança e contágio · 74 Sentimento de culpa e civilização · 56 Sintoma social (não é usado propriamente por Freud) · 60 Sistema Ics e suas características · 102 Sistema Pcs e suas características · 103 Sublimação · 53 Superego cultural e a ética · 60 Superego e ser social · 35 Supereu e cultura · 56 Superstição e costume · 76 Tabu como instituição social · 72 Tirano · 37 Totem · representante do pai · 82 Totem como membro do clã · 79 Totem como o pai primevo de um grupo · 78 Totemfagia · 80 Três fatores que desempenham papel no processo civilizatório · 55 Três necessidades de uma civilização · 54 Tutela e os líderes · 34 Unbehagen (mal-estar) e sentimento de culpa · 57 T Textos · A dinãmica da transferência (1912) · 2 Além do princípio do prazer (1919-20) · 11 Introdução ao narcisismo (1914) · 5 O ego e o id (1923) · 25 O futuro de uma ilusão (1927) · 34 O inconsciente (1915) [nova tradução] · 86 O mal-estar na civilização (1930) · 50 Totem e tabu (1913) · 62 .Refeição totêmica e sacrifício · rituais sociais que aferravam os laços entre os homens e entre esses e as divindades · 79 Religião como delírio de massa e restrição à felicidade · 54 Religião como ilusão · 37 Religião como neurose · 46 Religião. desejo e reminiscência histórica (morte do Pai primevo) · 45 Representação-de-objeto.

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