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29416095 EducaCAo Pelo Argumento

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EDUCAÇÃO PELO ARGUMENTO Gustavo Bernardo

colaboração de GISELE DE CARVALHO

Rio de Janeiro – 2000

Digitalização: Vítor Chaves Correção: Marcilene Aparecida Alberton Ghisi Chaves

SUMÁRIO Preliminar Parte I EDUCAÇÃO PELO ARGUMENTO 1 - A premissa maior 2 - A premissa menor 3 - A educação pelo argumento 4 - A preparação do argumento 5 - A formação da hipótese 6-A âncora do argumento 7 - O argumento impertinente 8 - O esforço dialético 9 - A rede de argumentos

PARTE II COLA, SOMBRA DA ESCOLA 10 - À sombra de Platão 11 - À sombra da cela 12 - À sombra do fórum 13 - À sombra do Deus 14 - À sombra do mestre 15 - À guisa de conclusão

Estante

PRELIMINAR
Há algumas idéias que se repetem em todos os discursos sobre a escola. Entre elas, duas se destacam: todos os professores, de todas as disciplinas, ensinam Língua Materna, isto é ensinam a ler, a escrever e a raciocinar, todos os professores de todas as disciplinas ensinam Matemática, isto é, ensinam estruturas lógicas e ensinam, portanto a raciocinar. Entretanto a maneira como isso se dá na prática não fica clara para os professores e, conseqüentemente, também não fica clara para os alunos. Percebe-se necessário unificar alguns conceitos e alguns procedimentos, para que sejam trabalhados e realizados simultaneamente por todos os professores de todas as disciplinas. A primeira dificuldade reside em determinar que conceitos e quais procedimentos. A segunda dificuldade reside em estabelecer um consenso, entre os professores, quanto àqueles procedimentos e conceitos. Esta Educação pelo argumento faz uma escolha e traça um caminho, ao articular o ensino das duas linguagens fundamentais - de Língua Materna e de Matemática - através da prática da argumentação. A partir dessa escolha, acreditamos ser possível articular o ensino de todas as disciplinas. Optamos por relacionar as disciplinas pelo que nelas já é comum: a redação - mais especificamente, a argumentação. Nossa opção é metodológica. Por essa via, fazemos uma proposta para a escola. Ao reforçar a integração estreita entre as duas disciplinas que ensinam ”linguagens” - Português (no nosso caso, brasileiro) e Matemática —recusamos a prioridade que via de regra se atribui à segunda. A Matemática, a despeito de sua contribuição singular, caracteriza-se como fonte secundária para o raciocínio lógico (restando claro que ”secundária”, nesse contexto, não quer dizer ”de menor importância”, mas apenas que surge em segundo lugar, determinada, inclusive, pela fonte primária), É indubitável que o ensino da Matemática contribui para o desenvolvimento do raciocínio, mas tanto quanto o aprendizado de qualquer conteúdo, da Economia à Literatura: dependendo da forma da abordagem um curso de História, por exemplo, pode-se mostrar especialmente propício para o exercício do raciocínio, enquanto, por outro lado, um curso de Matemática em que o conhecimento é revelado de modo mágico, sem qualquer

monossêmica. Se em Matemática a fórmula acaba sendo ensinada pela fórmula. Partindo-se da condição imprecisa. costuma vestir a carapuça de assunto árido. p 76.1 A prioridade que se empresta ao ensino de Matemática assenta em um pressuposto equivocado. Uma escola em que o livro capital do professor Othom Moacir Garcia. destinado à compreensão de poucos? O ensino de Português. uma escola em que os alunos não tivessem aula de Português. a prática revela uma contradição insuperável: por que uma disciplina ”depurada de ambigüidades” e. ibidem. portanto a desejar. Ora. a escrever e a raciocinar. Claro. e. o ensino de Língua Materna também pode ser igualmente árido. oferece poucas contribuições nesse sentido”. essa proposta pressuporia uma outra escola”. que nunca vai conseguir aprender aquilo. Ensina-se Língua menos para desenvolver o raciocínio e mais para valorizar uma descrição gramatical. não se encontra isento de equívocos equivalentes.vestígio de uma construção. O aluno acaba aprendendo apenas. de todas as disciplinas. para que os professores destas matérias pudessem se dedicar integralmente a trabalhá-las junto com os seus pares já que “todos os professores. portanto. Ambas as disciplinas. por outro lado. p 18 .2 Por isso. são tratadas como linguagens ”em que a hipertrofia da dimensão sintática obscurece indevidamente o papel da semântica. que é deixada em segundo plano”. inclusive. porque polissêmica. Logo. elas deveriam ser trabalhadas priorizando o seu caráter instrumental em estreita articulação com todas as outras disciplinas. 1 2 Nilson Machado Matemática e língua materna. é comum pretender-se que a Matemática represente para a Ciência o papel de uma linguagem precisa. o que acontece quando as regras gramaticais ocupam o centro das atenções. chegamos a imaginar. Nos nossos delírios. abdicando. depurada de ambigüidades. Idem. ensinam a ler. absolutamente ”clara”. Matemática ou Filosofia. Entretanto. Português e Matemática. em Português ensina-se gramática pela gramática. da Língua Materna. de um programa próprio de conteúdos que não fosse resultado de demanda das demais áreas do conhecimento. ambas as disciplinas têm valor instrumental e constituem condição de possibilidade do conhecimento em qualquer assunto para o qual se possa dirigir a atenção. em princípio. sobrepondo a terminologia e a taxonomia ao uso eficiente e adequado da língua.

todo debate. p 291. Lembra que. ”sofisma”. não queremos confundir o aprendizado do raciocínio com as abstrações da lógica formal. obtida graças a uma persuasão racional. são muito poucos aqueles que priorizam o aprendizado do raciocínio e da lógica. ”dedução”.Comunicação em prosa moderna. mas efetivamente adotado em todos os níveis de ensino. pela qual os professores na sala de aula talvez não sejam exatamente os principais responsáveis (embora. Entretanto. publicado pela primeira vez em 1967.3 Escreve realmente mal aquele que não tem o que dizer porque não aprendeu a pôr em ordem o seu pensamento.o porrete seria suficiente). .” vemos apenas a paupérrima subdivisão dos modos de escrever em ”descrição-narraçãodissertação”. mas que se apele à sua 3 Othon M Garcia Comunicação em prosa moderna. para a necessidade do argumento que oriente. e pensou com clareza. O trabalho de Garcia se encontra na origem do nosso. Perelman lembra. ”silogismo”. de algumas ”orações subordinadas substantivas objetivas indiretas reduzidas de gerúndio”. precisemos assumir significativa parcela de responsabilidade). É Othon quem diz que ”aprender a escrever é aprender a pensar”. com propriedade: O uso da argumentação implica que se tenha renunciado a recorrer unicamente à força. A ênfase no argumento chama a atenção para a necessidade do diálogo com o outro e. ao lado. toda discussão. A respeito. como hipótese!”. é claro. e porque não tem o que dizer. sem dúvida. ”quando o estudante tem algo a dizer. de maneira civilizada (sem o que. Enfatizando a lógica e a redação. ”falácia”. não lhe bastam regras ou vocabulário. que esse não seja tratado como um objeto. Reconhecida essa circunstância lamentável. não fosse apenas sugerido para os alunos universitários. sua expressão é geralmente satisfatória”. ainda que não se conheça o professor que discorde do enunciado acima. para quê? . todo diálogo. ”dialética”. que se dê apreço à adesão do interlocutor. porque pensou. No lugar dos termos que caracterizam ao menos a tradição greco-cristã-cartesiana. nem tampouco confundir o aprendizado da expressão do pensamento com a esterilidade do trio-maravilha (descrição-narraçãodissertação). por via de conseqüência. cabe definir por que estamos atribuindo prioridade absoluta ao argumento. ”indução”. como se pode depreender da leitura dos programas das melhores escolas.

Cabe à escola acompanhar a ciência que pretende ensinar e eleger a argumentação como eixo de todas as suas ações pedagógicas. uma vez que a ciência de que se trata na escola seria eminentemente factual. todavia. O leitor escolarizado. para se permitir estatuto de verdade (ainda que provisório). 61. Torna-se negativa somente quando se acredita nela não mais como instrumento provisório. Toda nova descoberta ou formulação precisa ser publicada. no sentido pleno do termo. neles não se façam ”experiências”. não haveria necessidade de argumentação. O simples fato de que as conquistas e descobertas científicas sejam regularmente superadas mostra como o discurso científico se apóia sobre convenções. comunidades estas que por sua vez determinam regras e perspectivas. arbitrárias. Tratado da argumentação. porque condição de possibilidade de comunicação. cujo fundamento é ético. A arbitrariedade. só se pode dar pela via do argumento. O recurso à argumentação supõe o estabelecimento de uma comunidade dos espíritos que. Em outras palavras. nas poucas escolas onde há laboratórios. O relacionamento dentro de cada comunidade. e sim como fim em si. exclui o uso da violência. mas tão-somente de Matemática e de laboratórios. bem como o relacionamento de uma comunidade com a outra. p. Podemos desconsiderar. nesse momento. e não retórica. o discurso da ciência ela mesma seria eminentemente argumentativo. Logo. e exatamente em função da sua exatidão. em especial nas ciências ditas exatas. mas estranhá-la como epistemológica. precisamos defender que o argumento e sua prática antecedem a qualquer cálculo ou fórmula. ainda. o fato de que. pode aceitar o caráter ético da opção. . é necessária. isto é. Ainda assim.liberdade de juízo. divulgada e testada em diferentes ambientes e por diferentes cientistas. se esforçam por refutá-la com diversos contra-argumentos. na escola. no tempo e no espaço. percebem-se melhor as 4 Chaím Perelman. mas apenas demonstrações primárias.4 Nesse sentido. Do momento em que se compreende a atividade científica como jogo institucionalizado. o eixo do trabalho se revela fruto de uma opção metodológica e epistemológica. por definição. Os diferentes cientistas no começo desconfiam da nova formulação e se esforçam por descobrir os seus pontos fracos. Thomas Kuhn5 nos lembra que não existe ciência fora de comunidades científicas. enquanto dura. Podemos desconsiderar a circunstância de que pouquíssimas escolas brasileiras possuem laboratórios de qualquer tipo.

suas características fundantes, ou seja, tanto o seu aspecto persuasivo quanto o seu desejo de permanência: resistindo ao novo que desestrutura, permite a afirmação apenas daquelas descobertas cujos agentes argumentam melhor.6 A quem serve a recusa do argumento? Segundo Perelman, especialmente a dois personagens perigosos: o cético e o fanático.7 O cético exige de uma argumentação que ela forneça provas coercivas, provas que demonstrem por A + B que não há outra opção. Ora, o caráter próprio do processo argumentativo é uma escolha entre possíveis: isso significa que sempre há outra opção, ou seja, sempre é possível uma outra perspectiva. O fanático, por sua vez, é aquele que, aderindo a uma tese contestada e cuja prova não pode ser fornecida, recusa mesmo assim considerar a possibilidade de submetê-la a livre discussão. No final do seu Tratado da argumentação: a nova retórica, Perelman (cujo livro deveria se encontrar presente nas salas de aula e de professores) faz um belo elogio do argumento, que nos interessa subscrever: Combatemos as oposições filosóficas, taxativas e irredutíveis, que nos são apresentadas pelos absolutismos de todo tipo: dualismo da razão e da imaginação, da ciência e da opinião, da evidência irrefragável e da vontade enganadora, da objetividade universalmente aceita e da subjetividade incomunicável, da realidade que se impõe a todos e dos valores puramente individuais. Não cremos em revelações definitivas e imutáveis, seja qual for, aliás, sua natureza ou origem; os dados imediatos e absolutos, sejam eles chamados sensações, evidências racionais ou intuições místicas, serão arredados de nosso arsenal filosófico. [...] Nossa posição será bem diferente. Em vez de fundamentarmos nossa filosofia em verdades definitivas e indiscutíveis, partiremos do fato de que homens e grupos de homens aderem a toda espécie de opiniões com uma intensidade variável, que só é conhecida quando posta à prova. Apenas a existência de uma argumentação [...] confere um sentido à liberdade humana, condição de exercício de uma escolha racional.8 Na segunda parte do livro, vamos submeter a teste a nossa argumentação, fazendo uma proposta global de avaliação para a escola. Sabemos que a avaliação é o
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Era Maria Coracini. Um fazer persuasivo, p. 31. Maria Coracini. Obra citada, p. 40. 7 Chaím Perelman. Obra citada, p. 69.

nó górdio das discussões pedagógicas, mas ainda assim vamos tentar cortá-lo com os nossos argumentos. Para tanto, estaremos comparando a Educação e o Direito à luz de questões éticas, refletindo sobre a moral de educadores e de juristas. O título da segunda parte - ”cola, sombra da escola” remete a problema aparentemente menor na escola, ou seja, ao hábito, por parte dos alunos, de furtar idéias e respostas alheias, nas situações de avaliação. Defenderemos, porém, que o problema não é menor - pelo seu hábito, tão difícil de combater, o futuro cidadão ”aprende” a desonestidade intelectual, exatamente a matriz de todas as demais. A cola é parte integrante da identidade da escola, uma sombra sem a qual o corpo não faz sentido. Pode se esconder à luz do dia (e da razão), olhando apenas de esguelha para saber se não está sendo olhada, mas se espalha como praga, ou como moda, nos momentos menos iluminados (e mais interessados). A cola é uma construção da escola - construção dos mestres e do discurso social e moral que os informa e lhes dá forma. Para desenvolver essa hipótese, recorremos à investigação de Michel Foucault sobre o panopticon de Jeremy Bentham, nas conferências brasileiras de A verdade e as formas jurídicas [1973] e em Surveiller et punir [1975]. Bentham, fundador do utilitarismo moderno, em 1787 imaginava construir sua Inspection House, aplicável a quase todas as instituições (prisons, houses ofindustry, work-houses, poor-houses, manufactoríes, mad-houses, lazarettos, hospitais and, last but not least, schools). Foucault, ao estudá-lo, estabelece a mesma relação direta da prisão com a escola. De fato há duas espécies de utopia: as utopias proletárias socialistas que têm a propriedade de nunca se realizarem, e as utopias capitalistas que têm a má tendência de se realizarem freqüentemente. A utopia de que falo, a fábrica-prisão, foi realmente realizada. E não somente foi realizada na indústria mas em uma série de instituições que surgiam na mesma época. Instituições que, no fundo, obedeciam aos mesmos modelos e aos mesmos princípios de funcionamento; instituições do tipo pedagógico como escolas, orfanatos, centros de formação; instituições correcionais como a prisão, a casa de recuperação, a casa de correção, instituições ao mesmo tempo correcionais e terapêuticas como o hospital, o hospital psiquiátrico.9

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Idem, ibidem, pp. 576-581. Michel Foucault. Vigiar e punir, p. 110.

A fábrica-prisão se realizaria na fábrica, propriamente dita, e ao mesmo tempo na prisão, na escola, no asilo e no hospital, a partir do modelo arquitetônico e disciplinar do panopticon, que pretendia ver sem ser visto, isto é, que pretendia inviabilizar o agente do poder, tornando transparentes seus objetos. É panóptico - para usarmos o adjetivo de Bentham - o tablado das salas de aula, que facilita a observação dos alunos; é panóptica a posição vertical do professor, em confronto com a turma sentada; é panóptico o inspetor que toma conta de provas com óculos escuros, para melhor ver sem que os virtuais infratores percebam o movimento dos seus olhos, assim como é panóptico aquele vidrinho na porta das salas de aula, assemelhando-as a aquários de controle; são panópticos os lugares marcados dos alunos, facilitando o controle das individualidades e das personalidades divergentes, ou ”problemáticas”; são panópticas as semanas bimestrais de provas, bem como panóptico será misturar turmas e séries para aumentar o controle e ”impedir” a cola. Estas situações estão presentes, muitas vezes todas juntas, na escola em que estudamos e, depois, trabalhamos. Toda utopia sistemática contém um certo delírio de controle dos homens e das coisas, da história e da natureza, a partir de um centro de poder, ou de um tirano mais ou menos ”iluminado”. O problema do panoptismo, bem como de toda utopia erigida como sistema, é o de quem controla o controlador ou observa o observador, uma vez que também é senso comum que o poder, de qualquer matiz e tamanho, corrompe em alguma medida. É, igualmente, o problema de uma das primeiras e mais bem construídas utopias, a saber, a República de Platão. Falaremos dela um pouco antes de explorar a reflexão de Foucault, porque sua concepção de poder e de amor - o conhecido, mas pouco compreendido amor platônico - constitui a sombra de toda a história das panópticas instituições ocidentais, inclusive, e principalmente, da escola. Essa reflexão, acreditamos, nos permitirá defender uma proposta de avaliação simples, mas radical - adotada, mudaria pela raiz toda a prática de sala de aula. Essa segunda parte do nosso livro, Cola, sombra da escola, foi publicada como um pequeno livro pela EdUERJ em 1997 e rapidamente se esgotou, gerando algumas matérias de jornal - a questão que levanta pareceu oportuna - e trabalho muito interessante realizado no Pará, como monografia de final do curso de Licenciatura Plena em Pedagogia. Renato Canto Jr. e Lúcia Helena Sales, em Quem não cola não sai da escola: um estudo sobre o uso da cola no processo de avaliação da aprendizagem no

1010 Recentemente. propusemos a discussão do assunto: o candidato devia defender ou criticar o uso da ”cola”. participando da banca que elaborou a proposta de redação do vestibular da UENF Universidade Estadual do Norte Fluminense -. pela articulação do sistema de consultoria para os participantes do Programa de Dedicação Exclusiva da Universidade . acreditamos. A pesquisa de Renato e Lúcia. por imoral (ainda que. não é atributo exclusivo de adolescentes alunos dos ensinos médio e fundamental. pelo acesso a seus manuscritos. contratando à UERJ a consultoria do autor. professores sugeriam punição mais séria aos infratores. não justifica o pessimismo ou a inércia: é preciso compreender sistemicamente o problema para enfrentá-lo de maneira igualmente sistêmica. porém. Número bem pequeno tanto de professores quanto de alunos propunha a solução do problema a partir da mudança do modelo de avaliação.curso de magistério no município de Óbidos. alguns agradecimentos se impõem. Constatar a dificuldade. 80. muito provavelmente. Antes. é necessária. e à Sub-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da UERJ. .Prociência. o que é mais grave. aqueles que questionaram o sistema de avaliação em si. Essa dificuldade. por sobrevivência. diretoras da Escola Parque. testando nossas hipóteses com fecunda pesquisa de campo em uma escola municipal da região. uma Educação pelo argumento. enquanto os demais preferiam ou criticar o uso da ”cola”. apontam para a dificuldade de se pensar sistemicamente. antes se raciocinando por reação maniqueísta. Entrevistando professores e alunos. & Lúcia Helena Sales. infelizmente. professores de todos os níveis. afetando tanto universitários quanto. estudam o problema da ”cola” a partir também do nosso livro. por nos terem ”cobrado” este livro e financiado a sua pesquisa e redação. Quem não cola não sai da escola. p. Agradecemos a EVANDRO LINS E SILVA. também colassem com regularidade). entretanto. Ora. constataram que a maioria apresentava sugestões basicamente repressivas para solucionar o problema da ”cola”: alunos sugeriam redobrar a vigilância pelo professor. não chegaram a dez. 10 Renato Canto Jr. a MARY FERRAZ e PATRÍCIA KONDER. ou defender o uso da ”cola”. de definir as premissas do nosso argumento e dessa educação. entre quase dois mil candidatos. bem como as respostas dos candidatos àquele vestibular.

então eu penso. terceiro.cogito ergo sum. explicitada na obra capital do filósofo René Descartes. logo. então Deus existe.DR. o pensador chegou a estabelecer apenas três certezas: primeiro. SPOCK PARTE I EDUCAÇÃO PELO ARGUMENTO I A PREMISSA MAIOR A premissa maior do nosso argumento (sobre o argumento) é a que estabelece o primado da dúvida. portanto. segundo. penso. Em estilo elegante. not the end.Dubito ergo sum. que funda a filosofia moderna. vel quod item est. existo . se o ”eu” existe. duvidando metodicamente de tudo. então existe um ”eu” que pensa. Um dos principais paradigmas do método científico se encontra na concepção de ”dúvida metódica”. . A primeira certeza é um raro caso de consenso. logo. cogito ergo sum. Discurso sobre o método. se o pensamento existe. no meio científico e . -RENÉ DESCARTES Logic is just the beginning of wisdom. o pensamento existe. se eu duvido.

Em tira de maio de 1998. a passagem da segunda certeza à terceira é um tanto ou quanto mais brusca mas isso pode ser tão-somente defeito do nosso brevíssimo resumo da lógica cartesiana (cabe ao leitor duvidar de nós e conferir. nesse momento. Toda a obra de Descartes acentuava o caráter precário e. forçoso admitir. como o faz uma das cobras do cartunista Luís Fernando Veríssimo. Por sua vez. predomina a indeterminação. A necessidade da dúvida não implica. por um breve momento (o momento do positivismo e do determinismo). . cogito ergo sum – “Duvido. necessariamente. ou. passa-se a perceber que. penso. todavia. e considerá-las depois. Ética e Direito. como premissa maior. porque a razão que a isso nos determinou o é. não mais como duvidosas. no que diz respeito à prática. quando não está em nosso poder discernir as opiniões mais verdadeiras. que. nessa controvérsia. deste livro e da argumentação. por ora. logo existo. um ou dois séculos é ”logo a seguir”). o que nos interessa. no texto de Descartes).que. é uma verdade muito certa que. indispensável. a existência de algum ente que pensasse o pensamento. o primado da dúvida: Dubito ergo sum. se não há mais certezas. entre as necessidades da dúvida e da certeza. ao mesmo tempo. entretanto (em História. dos valores. logo existo”. como as ações da vida freqüentemente não suportam nenhuma delonga. é estabelecer. E assim. Entretanto. foi necessário afastar-se do determinismo linear. 84. então não há mais valores. o emaranhado dos determinismos implica imprevisibilidade em longo prazo.acadêmico: não há dúvida de que o pensamento exista. uma vez que o simples ato de duvidar funciona como prova dessa existência. Tal equilíbrio funda a filosofia e a ciência modernas . não entraremos. não temos escolha porque somos obrigados a escolher”. vel quod item est. tentaram renegar a dúvida cartesiana. no plano moral. por si próprio. no plano macroscópico. ou seja. Logo a seguir. a passagem da primeira certeza à segunda é contestada por muitos filósofos: de que o pensamento exista não se seguiria. Entretanto.11 Atingia assim o difícil equilíbrio entre a incerteza e a razão. o que é o mesmo. duas 11 Em Chaím Perelman.12 O primado da dúvida não é muito confortável. mas como muito verdadeiras e muito certas. ”no plano das partículas elementares. p. devemos seguir as mais prováveis.

a sua observação modifica. que. principalmente da dúvida quanto ao próprio argumento. p. radicalmente. o momento em que a tribo toma contato com a civilização ocidental através dele. O Universo que a gente vê pode ficar completamente diferente assim que a gente virar as costas.” A segunda cobrinha então retruca: ”não se pode confiar mais nem em tudo!” Não. O antropólogo. Nas ciências ditas ”humanas”. formulado pelo físico Heisenberg. na assunção integral e permanente da dúvida. paradigma das certezas (paradigma herdado do positivismo cientificista). Filosofia para não-filósofos. experimentalmente. com todos os seus preconceitos e limites de pensamento e de discurso. ou seja. quanto mais precisamente se tentasse medir a posição de uma partícula. e como ele. consegue ver uma tribo enquanto ela o vê . no máximo. é indispensável duvidar da validade do próprio argumento. A explicação do fenômeno é simples e perturbadora: o procedimento para se obter a medição implicava projetar luz sobre a partícula. Para argumentar. luz essa que alterava a velocidade da partícula de forma não previsível. 65. 12 Albert Jacquard. . em 1926. não se pode confiar mais ”nem em tudo”. o observador depara com a perspectiva perturbadora de que o próprio observador é parte integrante do fenômeno que observa. antropólogo. Para argumentar bem. ao tentar descrever uma tribo indígena que não teve contato com a civilização ocidental. menos precisamente se poderia medir sua velocidade. A primeira diz: ”segundo a Física Quântica. o comportamento dos ”objetos” observados. é necessário duvidar de tudo. O princípio da incerteza é uma versão quântica da exigência da dúvida metódica. podemos supor princípio equivalente. não se pode confiar na ciência. em que as dúvidas e as incertezas são mais flagrantes. descreve. é necessário aprender a dialogar respeitosa e criticamente com o próprio pensamento. A cobra epistemológica estava se referindo ao princípio da incerteza da Mecânica Quântica. O físico reconhecia. e vice-versa. as partículas se comportam de um jeito quando são observadas e de outro quando não são.ou seja. portanto. porque a ciência hoje sabe muito bem que o seu campo só é fecundo porque o geram suposições e hipóteses. ao mesmo tempo que modifica a si mesmo.destas personagens esguias de Veríssimo conversam olhando para o céu estrelado. A qualidade primeira e maior do argumento se encontra. Em outras palavras.

O sentido. mas sim começá-la. todavia. É necessário um certo nível de ceticismo. é diametralmente oposto: já que não tenho certeza de nada. que ”tudo é relativo” . certeza invertida. como nos mostra Vilém Flusser: A dúvida é polivalente.13 O primado da dúvida. Em doses moderadas estimula o pensamento.o ceticismo e a 13 Vilém Flusser. portanto. Significa ainda.Isto não significa. devo investigar com rigor as minhas dúvidas e defender uma a uma. Como experiência moral é tortura. despojadas de argumento elas mesmas. nada vale a pena”. Da religiosidade. a velocidade da luz). ceticismo. A dúvida destrói essa ingenuidade de forma irrevogável. O primado da dúvida. em combinação estreita com uma disposição interna para se admirar com o inusitado. pela via do argumento. estas duas formas de pensar . para se construir uma comunidade de interesses políticos e científicos. Em doses excessivas paralisa o intelecto. Significa o fim de uma certeza. O primado da dúvida não implica ceticismo circular. Os argumentos se sustentam se e somente se explicitam as suas relações internas. isto é. A alma. p. o primado da dúvida não pode aceitar refutações in limine. assim.frase que os preguiçosos mentais invocam para encerrar a discussão e pontuar sua ignorância. se não vier acompanhado de um sentimento que poderíamos chamar de ”admiração”. Significa a procura de certeza. contém violência semelhante ao silêncio ou ao porrete. se levado ao extremo. todas as minhas conclusões provisórias. porque nem tudo é relativo. Como experiência intelectual é um dos prazeres puros. a noção de relatividade dos fenômenos (em relação aos observadores) não pode encerrar uma discussão. Em conseqüência. A frase ”não aceito o seu argumento”. aqui. Em particular argumentos escritos merecem comentários e refutações também por escrito. Primeiro. Segundo. A fé como aceitação ingênua dos dados é o estado intelectual primordial e primitivo. Logo. O ponto de partida da dúvida é a fé. portanto. se não vier acompanhada de contra-argumentos. é perigoso. fica muito pequena. por hipótese. . do tipo ”já que não tenho certeza de nada. já que a teoria da relatividade do físico Albert Einstein procurou estabelecer o que seria absoluto (por exemplo. isto é. pode nos aproximar perigosamente do fanático de Perelman. porque as coisas são relativas a outras. De acordo com o astrônomo Carl Sagan. 39. desde que não circular.

16 Bertrand Russell. depende daquele que manipule as ferramentas e o discurso. 13. está claro. em nome de um duvidoso bem no futuro. Se estivéssemos seguros ”de que sem os judeus o mundo seria um paraíso. Descartes disse-o claramente: Não imitei os céticos que duvidam apenas por duvidar. ou o ”maravilhamento”. valeu a pena queimar-se muitas pessoas na fogueira a fim de que os sobreviventes pudessem ir para o céu. mas se é muito mais provável que o mundo resultante de tais métodos seria um inferno. embora 14 15 Carl Sagan. apoiando-se na dúvida. justamente na hora em que não está mais ali). a dúvida não é um fim em si mesma. quer é alguma certeza. não parece justificável que nos dediquemos a qualquer norma de ação apoiados na crença de que esta. não poderia haver nenhuma objeção válida quanto a Auschwitz. O mundo assombrado pelos demônios.16 Considerando que as conseqüências distantes das ações são mais incertas do que as conseqüências imediatas. como diz Bertrand Russell. Defende-se do fanatismo quando duvida. de tão difícil convivência. p. para que possamos duvidar inclusive das nossas perspectivas usuais.admiração -. Nesse sentido. principalmente. Idem. Por isso. justamente porque a única certeza que tem é a do mal presente. ao contrário. afastar os sedimentos e a areia para chegar à pedra ou ao barro que está embaixo. . permitindo-nos estabelecer pontos de contato com o princípio jurídico in dúbio pró reo. Se. A racionalidade. mas se era duvidoso que os hereges fossem para o inferno. por exemplo. o que faculta a paradoxal sensação de determinadas pessoas estarem mais presentes na nossa vida quando. O hábito também funciona como uma capa que encobre os fenômenos. 290. que nos obriga a ver quem não víamos. Em Carl Sagan. trata-se de uma ferramenta que depende de outras ferramentas e. p. ausentes (pela morte repentina.14 O inusitado. o argumento em favor da perseguição não era válido”. toda a minha intenção foi chegar a uma certeza.15 A dúvida metódica é científica e politicamente indispensável. por exemplo. tanto pode partir do que nunca vimos como do que vemos sempre. e somente quando. p. de infligir no presente um mal indubitável. 29. são absolutamente centrais para o método científico. Ensaios impopulares. podemos permitir livre manifestação da nossa natural repulsa humanitária contra a crueldade”. faz-se necessário cultivar a admiração. que merece admiração. ”a teologia dos primeiros tempos era inteiramente correta. junto com a dúvida permanente e metódica. e fingem estar sempre indecisos.

14. que faz uma análise muito interessante (e divertida) de chistes e piadas em várias línguas. 17 18 Idem. enfim. e agir com implacável determinação na crença de que a verdade constitui monopólio de seu partido é o mesmo que fazer um convite ao desastre. de uma nova perspectiva. isto é. malgrado seu e o apelo dramático às entranhas de Jesus Cristo. na maior parte das vezes. Saber-se a verdade é mais difícil do que a maioria dos homens supõe. O que responder nessa hora? Que é muito difícil ”ter uma opinião”. Da mesma maneira. Os humores da língua. ibidem. os escoceses foram derrotados por Cromwell no campo de batalha. O apelo não funcionou. de perguntas atentas aos fenômenos e aos fundamentos da própria investigação. E a nossa resposta é ambivalente (o que não quer dizer ambígua). ou a sua interpretação. logo. Toda argumentação é. ”ter uma opinião” é muito mais difícil do que se supõe. na verdade. Mas é uma pena que Cromwell jamais haja dirigido a mesma observação a si próprio. comenta que a relevância de qualquer estudo se dá quando ocorre a emergência de um novo ponto de vista. A maior parte dos maiores males que o homem tem infligido ao homem proveio do fato de as pessoas estarem absolutamente certas de algo que. que permite propor hipóteses realmente novas de interpretação para os fenômenos abordados. podemos ler como sábia. vir a ser benéfica. o aluno esperto e o professor cético podem nos perguntar: o primado da dúvida autoriza o aluno a duvidar dos seus professores. algum dia. p. Uma das frases mais sábias que se conhece pode ter sido a que Cromwell dirigiu aos escoceses antes da batalha de Dunbar: ”rogo-vos pelas entranhas de Cristo que julgueis possível que possais estar enganados”. e portanto de toda a escola? Boa pergunta. quem sabe.17 Saber-se a verdade é muito mais difícil do que se supõe. Opiniões são raras. poderá. O lingüista Sírio Possenti. Professores deparam continuamente com alunos reclamando que o mestre não levou em conta a sua opinião. 202. p. precisam ser construídas com muito cuidado e com muito trabalho. . era falso. enuncia-se uma coletânea contraditória e descosturada de opiniões emprestadas do cotidiano e dos media. Sírio Possenti. indício de uma dúvida. Nesse momento.18 E a nova perspectiva emerge da dúvida. apenas formulou uma frase que.nociva no presente.

se não exercitar a dúvida sobre o que lê. quando se pede aos alunos para comentar determinado livro. Esse exercício necessário da dúvida. lhe cabe. se deve ensinar a argumentar com educação e respeito ao outro. em outras fontes. principalmente. considerando que se encontra especialmente motivado (porque muito interessado no efeito das suas palavras). procurar. melhor do que reclamar e ”pedir ponto” seria redigir suas reivindicações e justificativas. Aliás. diríamos que sim. sobre o que pensa. principalmente. Se o aluno duvida de determinada afirmação do professor. ”ele faz descrições excessivas e desnecessárias. e portanto não será capaz de argumentar com o mínimo de qualidade. e depois sob a perspectiva de uma lente grande-angular (que ”alarga” as imagens). de cada um dos seus livros didáticos. sobre o que escuta e.”por favor”. sugerimos para o professor (ou para a escola como um todo) esse procedimento como norma: só aceitar reclamações de avaliação por escrito. uma besteira maior). Um dos indicadores de que isto infelizmente não acontece aparece na aula de literatura. Usando o efeito zoom. Da mesma maneira que se ensinam à criança as palavrinhas mágicas . dois contextos de referência. de Machado de Assis. e todas encontram um canal adequado através da formalização escrita. antes de gritar nervoso que o mestre falou besteira. na medida em que o aluno se permite lidar com um autor . as evidências que comprovem o erro (sob pena de ele mesmo pronunciar. entretanto.além de um excelente exercício de redação. seu estilo é prolixo”. um escritor que viveu no século XIX ”usa palavras que não se usam mais” e suas descrições antecedem de muito a era do cinema e da televisão. o aluno deve duvidar de cada um de seus professores. fartamente justificadas e documentadas . por precipitação. responderemos primeiro sob a perspectiva de uma lente zoom (que aproxima as imagens). ”desculpe” -. inteligência e cuidado de que é capaz. Há muitas maneiras civilizadas de se duvidar. por exemplo.pressupondo duas molduras. com toda a elegância. não aprenderá. A educação pelo argumento pressupõe argumentos com educação. parece claro. a tendência é que o aluno escreva melhor do que na prova propriamente dita. mas o problema maior desse tipo de comentário reside na falta de educação argumentativa e cultural. ”esse autor é muito repetitivo”. Se o aluno duvida. ”obrigado”. da avaliação que recebeu do professor. sobre o que vê. Colhem-se então ”pérolas” do tipo: ”esse autor usa palavras que não se usam mais”. bem como. Na verdade. por exemplo. Para usar a metáfora do fotógrafo. não se deve confundir com a arrogância. quer dizer. Naturalmente.

procurando tão-somente erros. reclama que as aulas são um tédio e ele se encontra ali tão somente obrigado (pela família. nos cabe retrucar. preservando-os como condição presente (ainda que indigente) de possibilidade do saber. enfrentando as conseqüências de suas opções. deve saber preservar o lugar do professor. . uma pessoa pior. e aprender a lidar com respeito com Machado de Assis e com todos os que produziram. principalmente. podemos alargar a perspectiva e usar a lente grandeangular. da sua própria arrogância autocentrada. ele deve duvidar de si mesmo. ele se torna um aluno pior. Quando o aluno. conseqüentemente.consagrado como os professores lidam com a redação dele: não estabelece um diálogo. e a instituição de que faz parte sem o que. O aluno entediado e revoltado se encontra na sala de aula porque não tem peito de estar em outro lugar. quando a nossa resposta àquela questão passaria a ser negativa: o aluno. A partir do ”cri-cri”. pela escola. com Sartre: todos estamos condenados à liberdade. enquanto é aluno. eleitos por alguns alunos como tal). para enfocar o professor como instituição e a escola como entidade. mal inspirado pelo exercício da dúvida. O que nos conduz à premissa menor da nossa educação pelo argumento. Logo. Pela mesma razão. Em vez de exercitar o raciocínio crítico. que se pode propriamente chamar de ”cri-cri”. por definição. alguma obra. só há uma alternativa digna: fazer bem o que se está fazendo. Claro que deve procurar distinguir entre professores (todos somos) e mestres (apenas alguns o são. congela uma postura excludente. no mundo. pelo Estado).

o que é simplesmente um atestado de ignorância que se passa para o professor. perguntando. que conteúdos eles achavam que deveriam constar de um manual interdisciplinar de redação. Não nos parece produtivo refazer o que já está bem feito. entre outras coisas. Na verdade. quer para não errarem nos seus trabalhos e no quadro-negro (ou verde). Por que não atendemos a essa proposta? Porque estas listas existem nos manuais de redação dos grandes jornais do país.A PREMISSA MENOR A premissa menor do argumento envolve aquela condição mínima de possibilidade do saber. Precisamos subscrever. Os manuais de redação dos jornais devem freqüentar a estante nas salas de aula e de professores. quer para corrigirem os trabalhos dos alunos. Também não por acaso estes livros precisam trazer ”chave de resposta”. intelectual e. claro. Professores e alunos tornaram-se os seus escravos. a despeito da possibilidade. formulamos um questionário. uma vez que o seu inegável sucesso se acompanha. ao lado de dicionários. salarial. qual seja. para os professores da Escola Parque. de assim vendermos mais (muito mais). da desqualificação moral. contribuindo para a alegria das editoras e para o desperdício de dinheiro público (com as compras multimilionárias para distribuir livros na escola pública). por exemplo). gramáticas e obras de referência (como as de Othon Garcia e Cháím Perelman). pelo menos na forma em que isso existe hoje no Brasil. nada desprezível. Entendemos que o chamado livro didático é uma grande falácia. a afirmação de Bárbara Freitag: Esse triunfo do livro didático nos últimos 20 anos vem se revelando como uma vitória de Pirro para a educação no Brasil. No início da pesquisa. ainda que com tristeza. O livro didático vem progressivamente substituindo as bibliotecas. do professor. inclusive de referência para a cidadania (o que inclui a Constituição Federal. os laboratórios e os próprios professores. o que não é nenhuma coincidência. a figura do Professor. Alguns responderam que deveríamos elencar os principais erros de português. perdendo a autonomia e o senso crítico que o próprio processo de ensino- . não queremos que este nosso trabalho seja um livro didático. ”atingindo” um maior número de pessoas (e engordando um pouquinho a nossa magra conta bancária). entronizando no lugar maus instrutores.

ainda. Crase antes de palavra masculina ou de verbo. ou traduzidos para o português. em um único caractere. Enquanto os líamos (e nos relíamos). a compreensão que o escriba tem da estrutura da língua.. modesto porém honesto. Há até mesmo um outro trabalho muito menos excepcional. quanto à correção lingüística.. O uso correto da crase demonstra. a ignorância sintática . para só depois. é não só pertinente como altamente louvável. qual seja. Não cria ou recria a língua aquele que desconhece ou despreza a língua que lhe foi legada. Ele deve ser a priori obedecido à risca. Obra citada. quando já se conhece o padrão e o que foi estabelecido como certo e correto. como os de Irving Copi e Wesley Salmon. escritos por filósofos brasileiros. . acabamos por resistir. limitamos o escopo do trabalho a uma defesa da educação pelo argumento. A língua portuguesa. a dificuldade de estabelecer articulações formais. em um único equívoco. todos e no lugar certo. que publicamos em 1985. que devem estar presentes naquela estante. E mais não lembramos. por sua vez. sob o título de Redação inquieta. Não. Os acentos são para serem usados.aprendizagem deveria criar. 172. ou à tentação de reduplicarmos parcialmente as gramáticas e os manuais de redação já existentes. entretanto. se não vamos acabar fazendo a lista que dissemos que não iríamos fazer. na verdade. que acreditamos poder fundamentar. pelas civilizações como um todo e por cada escritor ou escrevinhador em particular. a posteriori.vale dizer. O que importa é ter sempre muito claro que faz parte do escrever bem fazê- 19 Em Nilson Machado. p. ora. ”Quiser” não é com ”z”. é um código de comunicação verbal elaborado e modificado ao longo dos séculos. mas deveriam existir. reinventá-lo e enriquecê-lo. Em conseqüência. o risco da reduplicação de textos: já há excepcionais manuais de lógica e de retórica. Essa era. pelo amor de Zeus. nos convencíamos de que não faríamos melhor. a proposta inicial (deveras ambiciosa) apresentada à escola que solicitou a consultoria. nos gabinetes dos professores (estes gabinetes não existem?. o trema não caiu . igualmente. A preocupação daqueles professores. demonstra. como todas as línguas maternas. como Leônidas Hegenberg. Corríamos.19 Se resistimos à tentação do livro didático. a de redigir um Manual do argumento para professores de todas as disciplinas.) e nas salas de aula. a uma tentação própria. novamente.

Se todos ensinamos a ler. de muitas maneiras e por todos os professores. dominem a sua língua. Também é ”popular” aquele professor. Para tanto. para reclamar dos erros dos alunos como se ele mesmo não ensinasse (ou ”desensinasse”) redação. que adentra a sala dos professores perguntando ”quem é o professor de português dessa turma”. de todas as disciplinas. igualmente básico. sim. não podemos nos referir àqueles professores que escrevem ”tudo errado”. no início da aula. nem uma coisa nem a outra. como todos nós.lo respeitando escrupulosamente o código. Entretanto. o arquiteto na sua prancheta. o matemático na sua escrivaninha. Isto deve ser lembrado aos alunos. Um segundo pressuposto. é verdadeira. devem usar as notações numéricas corretamente. deve ser preservado na própria estrutura da avaliação. básico. a língua materna. um primeiro pressuposto. embora dominando o conteúdo das suas disciplinas. Mas. o primado da dúvida. no nosso caso a língua portuguesa. O cientista no laboratório precisa usar uma roupa limpa e adequada. para enfrentar o problema. à língua portuguesa. o português. o geógrafo no campo precisa fazer as suas observações de acordo com os procedimentos previamente estabelecidos por seus pares.. mais do que isto. é: que todos os professores. equívoco e desatenção. premissa maior do argumento. a escrever e a raciocinar. para os procedimentos de avaliação como um todo. Assim como as estruturas lógicas que organizam o pensamento ocidental. é: que todos os professores tenham tempo para avaliar com cuidado o trabalho dos alunos. A questão deve se ampliar. e todos eles. . A atenção à língua portuguesa e à organização do raciocínio deve alicerçar todos os instrumentos e todos os critérios de avaliação. parece óbvio que todos devemos ensinar a língua portuguesa. coloca no canto do quadro vários acentos e sinais de pontuação. o tempo todo. ”orientando” os seus alunos para os distribuírem como quiserem. normalmente de ”humanas”. todavia. no quadro e nos seus testes. É conhecido o caso do professor de uma dessas disciplinas ”exatas” que.. preocupando-nos em mostrar o certo e corrigir o errado. sob pena de expressarmos tão somente erro. Admiti-lo é necessário. enfim. bem como equipamentos adequados e limpos. devemos nos submeter. terminando por formular questões equivocadas e ambíguas porque. constitui a lei maior à qual todas as demais se subordinam. Por delicadeza. infelizmente. não dominam.

. Resumindo rapidamente.tanto que a penaliza. Para isso. ou melhor. de transgressão consentida (e até estimulada). Mas estamos antecipando a segunda parte do livro. a instituição subterrânea (bem. a não confiar no seu próprio pensamento e no seu próprio esforço. nem tão subterrânea assim) da ”cola” promove o avesso da dúvida metódica. O físico Heisenberg (aquele. em consulta necessária. Associada ao perverso. ou seja. sistema da ”múltipla” escolha.. a desconfiança sem método. e mais ou menos ao mesmo tempo em que se dava o sucesso do livro didático). em segundo lugar. diminuindo-se em conseqüência. qual seja. aprende. o aluno aprende. porém. abrangentes e desafiadoras. sem exceção. quando estaremos propondo um sistema de avaliação que acaba de vez com a ”cola” e todas as suas conseqüências imorais. isto é. permitam (e até mesmo exijam) consulta geral. cujas respostas constituam sempre. foi absorvido com alegria em todos os níveis de ensino (devido à humaníssima lei do menor esforço.O padrão de avaliação que conhecemos. O sistema da chamada ”múltipla” escolha. e inclusive à prova do colega do lado). as provas e testes precisam abandonar a pretensão tirânica de ”abarcar toda a matéria”. a ser ilegal e imoral.e mais inteligentes. enganando por princípio. obrigando a que todos os instrumentos de avaliação. um argumento. quanto mais coniventes e frouxos os professores. Na verdade. a furtar o pensamento e o esforço alheios. o que se vai propor é transformar a ”cola”. não gosta muito da dúvida. Devem conter questões amplas. penetra nos ossos e na alma de cada aluno um comportamento que poderíamos resumir com a expressão: de má-fé. Como ”quem não cola não sai da escola”. às anotações de aula. Com o passar dos longos anos escolares. se o aluno tem muito mais chance de errar do que de acertar: são três ou quatro opções ”erradas” para uma ”certa”. detesta a dúvida . ampla e irrestrita (aos livros. esse sistema é uma contradição nos próprios termos. tornando-se menores . Entretanto. Passa-se a pensar e a agir de má-fé. quanto mais despropositadas e desconectadas entre si as tarefas e avaliações escolares. quanto mais testes de ”múltipla” escolha se aplicam. preservando o primado da dúvida metódica. do princípio da incerteza) enuncia mais uma regra do juízo: ”não se deve julgar um movimento político pelas metas proclamadas . cujas respostas somente possam ser discursivas. se o aluno não tem escolha alguma. em primeiro lugar. usado inicialmente em concursos de grande porte. ainda que cômodo.

por que tal opção estaria certa e por que cada uma das outras opções não seria adequada. temos certeza de que não apenas se desenvolve melhor o pensamento do aluno como ainda o treinamento para o tal do vestibular se revela muito mais eficiente. que para alcançar A faziam o avesso de A. tal 20 Werner Heisenberg. Trabalhando dessa maneira. demonstrar e. se responderá que o sistema da consulta necessária admite questões com alternativas excludentes. não só do professor nos alunos. p. principalmente. tanto para o aluno resolver quanto para o professor elaborar. desde que o aluno sempre precise justificar discursivamente. Ora. A exigência do argumento (articulada a questões minimamente decentes) é que inviabiliza a ”cola”. Ao contrário. imaginando alunos bonzinhos que nem existem. dialogar. o caráter do grupo que recorre a tais e quais meios. À restrição. Em conseqüência. precisa ser inteiramente abolida. recorremos novamente à estreita relação que existe. não como um desejo abstrato mas como condição estrutural. A parte e o todo. obviamente. Ao se considerarem estes dois temas enquanto componentes curriculares. para valorizar sobremaneira os argumentos do aluno. que se apóiam antes nos números e nas fórmulas do que nas palavras e nas frases. .20 Pensando nos movimentos totalitários do século XX. todas as nossas aulas) devem refletir. revelando no presente. investigar. a avaliação que não só dá margem à ”cola”. Isso não é um sonho de ”polyanna”. entre o ensino da língua materna e o ensino da Matemática. À restrição. gerando. todas as nossas formas de avaliação (e. logo. mas na verdade produz a ”cola”. de que continuarão existindo os fatídicos testes de ”múltipla” escolha nos concursos de seleção. e não em um futuro que ainda não há. ou deveria existir. também previsível. Entre a Matemática e a Língua Materna existe uma relação de impregnação mútua. esse objetivo. provas com consulta necessária são muito mais difíceis. de que o sistema não é conveniente para as ciências ditas exatas. o avaliador deve priorizar menos a opção ”certa”. concluir. o cientista entendia que os meios já são os fins. mas dos alunos no seu próprio saber. Nesse caso. facultando uma relação de confiança. mas apenas pelos meios que usa para alcançá-las”. previsível. com argumentos. os alunos precisam ser treinados para enfrentar estes testes. como benefício secundário (mas nada desprezível) a confiança referida. 58. a sua regra serve à perfeição para a escola: se queremos um mundo com indivíduos intelectualmente autônomos. capazes de duvidar.publicamente.

Não existe. porque tem de formular o que aprendeu. exigindo justificativa. o aluno de fato aprende. de expressar o pensamento. 21 Nilson Machado. Obra citada. Só assim. e nos cabe tão somente andar com ela. Ora. pelo menos num primeiro momento. esperando ser encontrada. incluindo as questões de prova. acredita. A verdade não está parada. um pensamento desconectado da sua expressão. para todas as disciplinas das assim chamadas ciências exatas. uma imbricação nas questões básicas relativas ao ensino de ambas. defendemos. 10. . quando é. não sabem Matemática: sabem fazer conta. O mesmo vale. não atinamos que na verdade o gesto de escrever. e como esse trabalho se constitui na premissa menor da presente Educação pelo argumento. para ele. mas sim um movimento. que existe apenas quando é formulado.21 Nilson Machado lembra que é muito comum a existência de bons alunos de Matemática que. Quando nos surpreendemos ao escrever algo que não sabíamos que pensávamos. com todos os esses e os erres da língua portuguesa. todavia. que as máquinas calculadoras também fazem (e muito mais rápido). sabem atender ao que se pede. toda verdade é verdade andando. O pensamento não é uma ”coisa”. redunda em mais trabalho. mas simplesmente não dão o salto dos procedimentos mentais mais ou menos mecânicos. sabem obedecer. Justificar implica descrever. estas considerações e propostas sobre a avaliação implicam uma outra maneira de trabalhar. pensado. No seu livro Matemática e língua materna. isto é. tentaremos demonstrar um pouco mais adiante.impregnação se revela através de um paralelismo nas funções que desempenham. p. Machado propõe que todas as atividades propostas pela disciplina. para realmente compreender o que estão fazendo. é o próprio pensamento. sabem o que o professor quer. não é apenas colocar os cálculos ao lado da resposta ”certa”. o caminho do raciocínio. da sua expressão verbal. É hora de falar sobre o trabalho do professor. sejam também discursivas. Não existe um cantinho escuro no meio do cérebro onde volta e meia vamos capturar um pensamento ou uma idéia. A língua materna é anterior à linguagem de todas elas e as contém. uma complementaridade nas metas que perseguem.. e mais especificamente.. É necessário reconhecer a essencialidade dessa impregnação e tê-la como fundamento para a proposição de ações que visem à superação das dificuldades com o ensino de Matemática. o que. E ”justificativa”.

Mandamos o aluno ler muito. como a. como escola. ufa. num quadro de exploração. de fato legítima (apesar da expressão chula que. ao longo do tempo. algumas atitudes que poderiam ser qualificadas. oh azar. faz. Foi um outro professor de Matemática que nos passou uma dúvida existencial profunda: sou um merda porque sou professor. Mas não acreditamos que estes professores estejam lendo estas considerações. tutores e preceptores. como de má-fé. a postura lamentosa (e lamentável) de Hardy Ha-Ha: ”oh dia. igualmente. é absolutamente precisa). ensina História. e quem ”não dá pra” mais nada. . se alguém estiver lendo) professores com o mínimo de condição financeira e intelectual. reflete a má-fé da sociedade em relação ao trabalho do professor. alguns anos atrás. é verdade) aquele plástico infeliz: e ”hei de vencer. quem ”não dá pra” latifundiário (ou sem-terra). quem não sabe. ensina (e quem não sabe nem ensinar. faz Pedagogia. no contexto.O comportamento de má-fé do aluno. enfim. quem ”não dá pra” jornalista ou escritor. e escrevemos muito pouco. Podemos abranger os dois questionamentos . mestres.. podemos inferir que os professores que nós somos também desenvolvemos.” É verdade que muitos professores brasileiros ganham menos do que um salário mínimo. oh céus. todos nós.. como professor. eu sabia que não ia dar certo. ou faltamos muito mais vezes.o da merda e o da luta contra a merda -. na escola pública. nos perguntaram por que nos esforçávamos por propor ”coisas diferentes”. ensina Português. não sabe. Colocávamos. no vidro da janela do carro (usado. Em outra conversa. ensina Geografia. mesmo sendo professor”. do tipo: quem sabe. em decorrência da institucionalização da ”cola”. remete àqueles ditados populares que nos atormentam. quiçá empolgante. Essa dúvida. Exigimos. condição essa que os capacita não só a fazer uma análise política lúcida da situação do magistério. Mandamos o aluno escrever muito. inclusive os seus líderes.o que significa que damos aulas piores. que ele saiba o que cada um de nós. desprestígio e desânimo do magistério. Como a tal ”sociedade” somos. ou sou professor porque sou um merda. ministrar uma aula decente. e que isto é uma vergonha inominável. ensina Biologia. com freqüência. quem ”não dá pra” médico. quem ”não dá pra” advogado ou político. Adotamos. De modo mais ou menos consciente. ensina Matemática. damos nossas aulas de acordo com o salário que nos pagam . com todas as dificuldades. ensina Educação Física). e lemos muito pouco. Ou do tipo: quem ”não dá pra” engenheiro. Sem dúvida estão lendo estas palavras (bem.

precisamos dar também uma resposta prática. se. Ele é sem dúvida deveras exigente . num exercício adolescente de cinismo. Só posso ”ter” aquela pessoa me amando. como se diz. merecer a felicidade. pede um professor que dê o exemplo e tenha prazer em argumentar. perdê-la. se e somente se ela puder servir de modelo para toda e qualquer pessoa. sim. nos cabe. Por isso. ao fazer os seus gestos e dar os seus exemplos. de aula e de . Entretanto. nos cabe. ou professor. a felicidade de um implica a infelicidade de outrem. Nesse sentido. Obviamente. Sou um merda porque escolho ser um merda. O corolário desse imperativo é que não se pode desejar o que não possa representar regra universal. com precisão.difícil de alcançar. permanecer onde está. tão somente. A resposta prática é simples: só nos cabe fazer o melhor possível o que estivermos fazendo. Ele escolhe. isto é. por exemplo. Logo. Qualquer resposta pode ser boa e válida. O imperativo kantiano está lá. apenas. devemos abandonar a vã pretensão de vir a controlar. com a boca torta. o velho existencialista francês. que também a quer. embora finja que não escolhe. é bom nos perguntarmos também se queremos estar nesse lugar. Mas não é. ele poderia não estar ali. tentamos adotar o imperativo que reza: ”age de tal modo que a máxima da sua ação possa servir de regra universal”. tanto faz. como um horizonte regulador. proporcionando situações didáticas. Em geral. por exemplo. se outro. Só posso ter muito dinheiro. quando reclama pelos corredores e pelos cantos. é claro. não é da nossa lavra: foi enunciado por Immanuel Kant no século XVIII. por via da sorte. ou errada. se muitos tiverem muito pouco. ou lutar pela felicidade. ”fazer por onde” . Em termos filosóficos mais gerais. da corrupção ou da força. A escola que priorize o argumento sobre a resposta certa. se queremos continuar a ser professores nesse país. Não podemos desejar a felicidade. Não é isto que já dissemos ao nosso aluno entediado: por que você está aqui. não deseja enfrentar as conseqüências duras do seu ato.o mais foge totalmente a nosso controle. De vez em quando. na prática. fazer o que fazemos da melhor maneira possível. das maiores às menores. e não por ser aluno. disse. Logo. ou lá o que seja. Tanto o nosso aluno quanto nós estamos condenados à liberdade. como se a pergunta fosse absurda. cada um de nós. Significa que se deve realizar cada ação.com uma resposta teórica e outra prática. por que não está em outro lugar? Ele pode até ter dado um risinho. se na prática continuamos na lida. mas. pode sair em qualquer momento. torna-se um legislador. a orientar a ação. o Destino e o Universo (ou o nosso salário). por definição.

bem como de todos aqueles que ocupam cargos de poder em todas as esferas de governo e cujas ações tenham algum efeito sobre a educação. Quando aquele colega. os eventuais ouvintes e leitores. desprestígio e desânimo do magistério. que nunca vimos proposta: ”como otimizar a preparação das aulas e a correção dos trabalhos dos alunos”. num quadro de exploração. ou workshop.avaliação. a acolhida das nossas teses. lançando os dados no tapete do discurso. a realidade brasileira? Sim. na sala de aula como nos livros. ao aplicarmos as nossas provas com consulta obrigatória. ou de outra alma. Aliás. O efeito das nossas palavras. para um outro livro (nosso. ao nos ministrarmos as nossas aulas. Fica a idéia. deixando em segundo plano a resposta ”certa”. ao nos preocuparmos prioritariamente com o argumento. crença e gesto. Há ene maneiras de otimizar o trabalho pesado da nossa profissão . Devem-se alterar radicalmente as condições de trabalho dos professores. quem sabe. essa seria uma excelente oficina. e responsabilidade de todos aqueles que têm função de direção na escola pública e na escola particular. não excludentes. volta então à carga e questiona: vocês acham que esse discurso todo. que nos perguntava por que nos esforçávamos por propor ”coisas diferentes”. tão caridosa quanto esperta). como no parágrafo anterior. que esse Kant todo. Cumprirmos com o nosso dever. o que permitiria. Isto não precisa significar trabalhar como um enlouquecido. convence o professorado? Resposta sincera? Não sabemos. absolutamente necessário. acompanhando essa alteração de uma mudança radical no nível de exigência das instituições em relação a seus professores. corrigindo provas e redações nas madrugadas de sábado para domingo. O que nos cabe é insistir que vislumbramos dois caminhos. não . O primeiro caminho está sob o controle e sob a responsabilidade de cada professor: interligar teoria e prática. discurso e metodologia. ainda que por um milímetro (que nunca será um reles milímetro). Dar a nossa melhor aula e escrever o nosso melhor texto. que promovam o argumento do aluno. O que nos cabe é escrever o nosso melhor texto. não podemos controlar nem nos cabe. O segundo caminho é político.e não vamos aqui listar todos os nossos truques (honestos. para modificar profundamente a condição do magistério. Isso vai mudar a escola brasileira. filosofia e ação concreta. porventura. diga-se de passagem). isso alterará. Se nos modifica a nós mesmos ao escrevermos.

e isto inclui praticamente todas as autoridades educacionais . técnica. esportiva ou artística) ininterrupta. Não é privilégio nacional. devem-se garantir condições financeiras que atraiam os melhores talentos (e não apenas ”quem não deu certo pra mais nada”) e. p.onde. As pessoas que não estão acostumadas a ensinar . durante várias horas. e incapazes de inspirar a seus alunos a sensação de prazer intelectual que se obtém através de uma nova compreensão e de um novo conhecimento. Concomitantemente. 22 Bertrand Russell. em contraste grosseiro com a realidade de nossa profissão.exime. ao mesmo tempo em que recebia o Prêmio Nobel de Literatura. antes de os autores desse livro nascerem. ou seja. devem-se gerar condições morais que revertam o desprestígio da categoria em real prestígio social. para o professor. dizia: Convém dizer que a maioria dos professores se acha sobrecarregada de trabalho. o filósofo inglês Bertrand Russell. para estudo e pesquisa (ou. os políticos e os donos das escolas da sua enorme responsabilidade. sendo obrigada a preparar os seus alunos apenas para os exames. mas um esforço análogo é exigido dos professores. . no escritório pessoal . O processo de desvalorização moral (da qual todas as demais desvalorizações decorrem) do professor acompanha o sistema econômico em que vivemos. e por que não. para chamar a atenção para a importância do professor. em uma só escola ou universidade. a um gentleman. em vez de lhes ministrar um treino mental generoso. portanto. O resultado disso é que muitos deles ficam esgotados e nervosos.22 Recorremos a Sir Russell. aliás. fizemos este livro). alheios às obras recentes sobre as matérias que ensinam. poder trabalhar em um único local. em casa. com dedicação exclusiva. de maneira alguma. que possa se submeter à mesma avaliação a que submetemos os nossos alunos. ainda. ou em biblioteca razoável. Não se espera que os clérigos façam sermões. Obra citada. todos os dias.não têm idéia do dispêndio de inteligência que isso envolve. deve-se garantir um turno de trabalho na sala de aula (o que inclui preparação das aulas e correção dos trabalhos dos alunos) e o outro turno em gabinete minimamente equipado. Ainda em 1950. principalmente. Da sua argumentação infere-se que se deve garantir. 152. deve-se exigir dos professores a contrapartida: reflexão permanente e produção (científica.

A despeito da seriação oficial do currículo e da freqüente alteração das denominações.Não parece fácil . considerando que todas as formas possíveis de argumentar de fato acontecem. Como não estamos fazendo um tratado de argumentação. trabalhar todos os elementos em uma única série. oficina ou melhor nome que se dê (menos ”reciclagem” ou ”treinamento”. A ordem dos aspectos da argumentação obedece a uma determinada lógica. essa seriação pode ser obviamente alterada. Dadas as premissas. que devem ser lidos pelos professores. tendemos a continuar encarando como ensino médio. ser necessária uma preparação da equipe. o intervalo entre a quinta série do ensino fundamental e a terceira série do ensino médio. laboratório. queremos esboçar um projeto de educação pelo argumento para a escola secundária. tão ou mais consistente do que a nossa. recombinada. ”reuniões pedagógicas”. por qualquer escola. É dentro dessa faixa que fazemos a nossa proposta. Urge. inclusive. ainda. Discriminaremos. cada parte da proposta. nos capítulos que se seguirão. mas sem a preocupação de esgotar o assunto. será necessário remeter a textos e obras complementares. Quinta série: a preparação do argumento Sexta série: a formação da hipótese Sétima série: a âncora do argumento Oitava série: o argumento impertinente Primeira série: o esforço dialético Segunda série: a rede de argumentos Se aceita a premissa da argumentação como eixo interdisciplinar. explicitada no decorrer dos respectivos capítulos. através de seminário. Acreditamos. maior e menor. do argumento. mesmo que sem consciência plena disso. estabelecendo para cada série um determinado aspecto da teoria do argumento a ser trabalhado por todas as disciplinas. entretanto. nos debates de todas as séries. Nossa proposta é uma dentre muitas viáveis. como escola secundária. curso. . mas nos parece perfeitamente possível encontrar outra ordem. invertida. em que se costuma perder tempo e oportunidade de trabalhar. É perfeitamente possível.mas é absolutamente necessário. por favor). por qualquer grupo de professores. Recomendamos evitar.

naturalmente. a partir da 5ª série. Mas. não existe mais sombra de projeto pedagógico. se adotados. não nos parecem interferir quer nos programas de cada escola. no primeiro segmento do ensino fundamental. para serem testadas. sem projeto pedagógico escrito. barato. escolas particulares). cada professor possa escolher suas prioridades e inventar suas alternativas. toda escola. dentro do eixo. Eles emprestam um eixo metodológico a todas as aulas. para então se levantarem as propostas de cada disciplina e de cada professor. mas. e em particular aquelas que têm um nome consagrado na praça (na maioria dos casos. se ler e se estudar. Do mesmo jeito que o cientista faz experiências que devem ser divulgadas (com demonstrações e argumentos). eles dependem quase exclusivamente do brilho de determinados professores ou do carisma de determinadas coordenações. o que. deve ser. Os princípios gerais da educação pelo argumento. que não conhecemos). um projeto melhor do que o nosso. damos como exemplo dessas experiências. de 1ª a 4ª série. além de ficar na dependência flutuante do talento individual dos seus profissionais. Os recursos existentes devem ser ampliados e direcionados . na conjuntura atual. deve depender menos de recursos e mais do estudo e da ação dos seus professores. Escola Pólen. têm a obrigação moral e acadêmica de produzirem. nem bons resultados. refutadas e enriquecidas pelos seus pares. e muito bem-sucedidas. Não é que não haja bons trabalhos. Há experiências de fato interdisciplinares. Esse projeto. exatamente quando se subdividem drasticamente as disciplinas. entretanto. nem pior nem melhor. Todavia. experimentarem e exportarem um projeto pedagógico consistente e coerente. Nossa experiência. infelizmente. nem um projeto em ação. limitada. nos parece que as escolas. justo para se permitir adotado por qualquer escola pública. algumas escolas do Rio de Janeiro: Escola Parque.no seu caso. conhecimento pedagógico. porque as conhecemos.concretamente. ainda mais no caso brasileiro. Centro Educacional Anísio Teixeira. Pode haver. já parece muito. não conhece. salvo melhor juízo. No entanto. além de consistente e coerente. abdica não só de enfrentar a fragmentação do conhecimento como de produzir conhecimento . com fundamentação piagetiana. Oga Mitá e Colégio de Aplicação da UERJ (certamente existem tantas outras. quer na criatividade de cada professor. isto é. não impedem que.

vale dizer. por sua vez. Essa Educação pelo argumento é a nossa contribuição que precisa ser encampada e desenvolvida pelos colegas e pelas escolas.prioritariamente para a formação e a valorização do professor. Cabe aos professores das melhores escolas particulares.. para redigirem um projeto que altere substancialmente. o que implica valorizar em todos os níveis (começando pelo salarial) o seu professor (e não apenas o prédio. para melhor.). . como na era dos cieps e ciacs e outros quacs. a qualidade do ensino público no país. para se realizar. Cabe aos governos a valorização decisiva da escola pública. aproveitarem a sua própria qualidade e a sua condição de trabalho um pouco melhor para produzirem conhecimento pedagógico. como compromisso moral e político..

o pensamento por ação irrefletida. hooligan inglês ou paulista. em que o papel em branco na frente da pessoa parece invadir a sua cabeça. a versão light do terrorista do final do século. Em outras palavras (dramáticas). talvez. Começaremos por um exame das relações entre ler. o ”branco” frente ao papel em branco se pode afigurar perigoso. bem ironizada pelo pichador da tira do Laerte23. .com. ”legítimo” representante de uma juventude de perspectivas estreitas (estreitadas por um sistema político e econômico particularmente excludente. terrorista de Estado ou mercenário sem causa. oralmente e por escrito. Pichador do banheiro da escola. o português acelerou o carro. escrever e aprender. é mais difícil ainda. tende a substituir as idéias por tinta. defendê-la em público. porque entendemos que.br. Mas há maneiras de enfrentar esse pequeno ”terror”. Seria. Vejamos uma piada (politicamente incorreta). pelos bancos de uma escola que não soube defender o valor do argumento no lugar da violência.laerte. todos passam. ao invés de ela preenchê-lo com sinais e significados. O pichador. ele volta ao local onde a placa está fincada e a corrige: DEPRESSA TAMBÉM.A PREPARAÇÃO DO ARGUMENTO Por Gisele de Carvalho Começa-se pela preparação do argumento.que já não precisa mais nem de ideologia nem de utopia. as sentenças e as perguntas por ícones e rabiscos fazendo referência a nada (ou quase nada). 23 A tira se encontra no site do cartunista: www. Logo depois. de algum modo. Conhece-se a sensação de ”branco”. Tomemos como ponto de partida as formulações ler para aprender e escrever para aprender. que já não tem mais nem ideologia nem utopia a justificar os seus crimes . se não soubermos como nos preparar para o argumento. pichador de monumentos públicos. se ter uma idéia própria é coisa rara. Este capítulo trata do ato de começar. é bom que se diga). Nele discutimos as etapas que precedem a geração de um texto. incluindo aqui as habilidades de estudo e pesquisa que precisamos dominar antes de iniciar a redação. a pé. Ao deparar com a placa DEVAGAR QUEBRA-MOLAS.

No céu?!? (Aqui a mãe interfere e explica a confusão que a menina denuncia. apesar de já podermos considerá-la uma usuária razoavelmente competente de sua língua. Será que a mesma frase pode vir a ter algum valor (além de treinar a coordenação motora. A gramática está correta. não leu O texto através de outros textos. como outras crianças de quatro anos. não levou em conta outros tipos de sinalização em estradas que se utilizam da mesma forma sintática (DEVAGAR: TRECHO EM DECLIVE). de compreendê-las como sendo um aviso (”acelere. ela era capaz de ouvir um enunciado como. atende o telefone para mim. onde é que você estuda? Philipe – No CEL. antes de responder) Na Lagoa! Adriana ainda compreendia parte do que lhe era dito de forma literal. Situação similar à do patrício. O sentido atribuído às letras não levou em conta o contexto onde elas estavam inseridas. Adriana . O assunto lá no banco de trás era ”escola”. a caminho da casa do primo-padrinho (Philipe). ó pá!”).Nosso amigo português sabe ler? Sim. assim como a ortografia. A frase solta. aos cinco anos. e diz que a mamãe já vai sair do banho. assim demonstrando que o compreendeu. por exemplo. serpenteando na folha enorme ou espremida num cantinho. viveu Adriana. Vamos ao diálogo. Agora. do irmão mais velho e da prima. em companhia de seus pais. Adriana escreve frases: ”AMENINADEUABOLAPARAOMENINO”. aos quatro anos.(continuando a conversa) Onde é a sua escola? Philipe . Adriana. Ele foi capaz de dar um sentido àquelas letras. que aconteceu dentro do carro. a memória da grafia das palavras)? Talvez na . na metade do processo de alfabetização. Nosso amigo português sabe ler? Não. O leitor pule um ano. Ela sabe escrever? Sim e não.(rindo. é indício da falta de um propósito para o exercício da escrita. Adriana .Philipe. Semelhante enunciado demandava entender o que lhe era dito e agir de acordo. Mas sua autora ainda não domina uma convenção do discurso escrito aparentemente muito simples: as palavras são delimitadas por espaços. pela careta e pela entonação) Adriana .

tem o trabalho. Podemos. ou de um ensaio sobre o argumento. Ela precisa colocá-los em ordem e escrever a pequena história resultante. Ao mesmo tempo. as tarefas não são internamente motivadas. Enquanto não podemos fechar os olhos às artificialidades de várias metodologias de ensino de redação. por definição. Na preposição para identificamos a finalidade. pois passa a ter um valor descritivo. Estamos. Química. Isto é. viola estas duas restrições. além de estar conectada a outras. em sala. no papel da Adriana. de uma redação de trinta linhas. mas não pode abrir mão delas como instrumentos de sustentação da aprendizagem. Grabe & Kaplan têm algo a nos dizer a respeito disso: O ensino de redação nas escolas. de uma frase só. História. falando da leitura e da escrita como meios de aprendizagem. Theory andpractice ofwrítíng. Além disso. e (2) partir de um desejo.seguinte situação: Adriana. recebe um envelope com gravuras. Podemos agora passar às nossas proposições iniciais: ler para aprender e escrever para aprender. o propósito que tanto enfatizamos e o salto que pretendemos. . Parece-nos que a frase agora ”merece” ser escrita. algumas das tarefas que os professores têm de necessariamente prescrever não são essencialmente comunicativas. os professores prescrevem tarefas escritas. ao final das contas. dar o salto das primeiras sílabas para o ensino de redação. inclusive delas mesmas. é necessário dar um sentido às tarefas escolhidas. O conteúdo (seja ele de Matemática. portanto. reconhecemos que necessidades educacionais podem ter mais peso que outras considerações.24 Em outras palavras. 266 . nesse sentido. Física. mesmo as mais mundanas. Estas são as condições necessárias à produção escrita. desenhos ou quadrinhos que formem uma seqüência. isto precisa ficar claro para quem. para que os alunos deixem de executá-las só porque o professor assim determinou. acreditamos que os professores podem fazer muito para aperfeiçoar a orientação comunicativa das tarefas escritas. então. precisa atender a duas condições básicas: (1) ter um propósito comunicativo claro. Quantas e quantas vezes ouvimos o célebre (e correto) comentário do professor de Matemática: ”o problema desse menino é 24 William Grabe & Robert Kaplan. Mesmo que os propósitos de uma tarefa sejam eminentemente pedagógicos e. p. se configurem também como meios para se chegar a um certo fim.a tradução desta passagem e das demais é de Gisele de Carvalho. para posteriormente compará-la com a de outros colegas. até de Português) que se pretende desenvolver até parece ter precedência sobre a leitura e a escrita. tomando assim um sentido para si. A frase solitária.

o que ele não sabe é ler”. obtidas a partir de sua observação e combinadas com conhecimento adquirido via aulas. ou ainda dar forma a experiências pelas quais passamos a fim de que possamos compreendê-las com mais clareza. Escrever para aprender significa descobrir relações entre idéias. contendo um integrante de cada um dos grupos originais. Aqui o aluno escreve para aprender. quando o terapeuta propõe que o paciente permaneça durante algum tempo numa certa postura. a fim de cada um poder produzir um pequeno relatório a partir do que tiver sido observado. um claro exemplo de escrever sem propósito. quando o psicólogo pede que a criança modele um monstro em argila e dê a ele um nome. o que aprendeu! Esse aluno está dando forma a essa visita. ”que tipo de acabamento foi dado ao tecido?”). a dor provocada 25 John Harris. adquire um sentido. Essa linguagem constrói representações destas experiências: o paciente se ouve dizendo o indizível. Conseqüentemente. é verdade. para essa nova equipe fazer um relatório que dê conta de todo o processo de produção de um tecido. lhe cabe decidir o melhor procedimento). e o relatório final. mas essa tarefa transformou a visita: ela agora é mais instrutiva. corporal ou plástica? Quando o psicanalista faz perguntas a respeito de um relato de sonho. a dor e o medo tomam forma através de uma linguagem. Introducing writing. antes de não saber calcular. Dá mais trabalho. no dia seguinte à visita a uma fábrica de tecidos. estas anotações serviriam de base para formar outros grupos. Dá um pouco mais de trabalho. pode ser esquecida. p. Assim como aquele texto que os alunos são instados a fazer. Depois da visita. . digamos assim. tirado da cartola do professor de Química e valendo nota.. e fica aliviado. antes da visita. selecionar e ordenar idéias e dados. a redação do tipo ”minhas férias”.. acompanhado da descrição das reações químicas e físicas observadas pelos alunos e trabalhadas pelo professor (antes ou depois da ida à fábrica. que precisa ser construído por todos.entender o problema. como se fosse um quebra-cabeça. dividir a turma em grupos e distribuir tarefas de observação específicas para cada um deles (”anote os passos do processo da transformação da fibra em fio”. através da seleção e ordenação de informações.25 Abrindo um parêntese: não é exatamente isto o que as terapias procuram promover através da linguagem oral. 11. o inconsciente.

Literatura. junto com a ”virada”. de uma forma ou outra. O que estava latente. a entrada na quinta série compartimentaliza as Ciências. em termos ”macro”. temos uma tarefa em comum . tão frágil.basta uma verificação rápida nos programas. Fecha o parêntese (e o parágrafo). para que possamos compreendê-lo melhor. Como estamos tentando demonstrar. mas como fim também. a linguagem escrita é também uma forma de representação. que pode então ser trabalhada. que o aluno torne-se capaz de lidar com vários conjuntos de informação. A primeira delas é a de que os alunos já dominam habilidades de estudo e pesquisa básicas. a Matemática. inclusive as de aprendizagem. escondido. podemos pensar na escrita não só como meio de sustentação da aprendizagem. No entanto. parecem ser comuns a todas as disciplinas . Estes objetivos. (2) a forma dada ao conhecimento e (3) o resultado de nossas análises. como começar? Vários anos de contato com alunos universitários em cursos de Letras nos dizem que devemos abandonar certas pressuposições. oralmente e por escrito. avaliação crítica. logo todos nós ensinamos a escrever. tem um começo. ensinamos a pensar. isto é. Mas o que exatamente se quer dizer quando pensamos em nosso aluno como alguém que escreve para aprender Geografia.um fim a atingir: se todos nós. sínteses e avaliações críticas. cada vez mais complexos e por muitas vezes também díspares.invoca a dor primeira. escrever significa registrar os caminhos da reflexão. acompanhado de um certo refinamento sintático e lexical. o medo toma a forma de um boneco que. através do domínio das convenções de diversos gêneros. uma maneira pela qual podemos dar forma a várias experiências. parece que nós professores. Se. Seria extremamente simples se para escrever fosse necessário apenas começar. independentemente da matéria que lecionamos. tomou forma. os Estudos Sociais. Física ou Inglês? Em linhas gerais. História e Geografia. Se através da escrita podemos registrar (1) o tratamento dado à informação (selecionando-a. de dar forma a conhecimento adquirido e utilizá-lo na aquisição de outros. Língua Portuguesa. essa finalidade. Física e Química. de desenvolver sua capacidade de análise. Esperase. pode quebrar-se. Geometria e Trigonometria. Mas esse fim. a Língua. numa fase inicial. Literatura e Redação. Nesse sentido. de expressar-se de maneira adequada. contudo. síntese. Elas ”viram” (mesmo que ainda disfarçadas. Álgebra. organizando-a). por termos guarda-chuva) Biologia. no contexto escolar. técnicas e estratégias utilizadas por .

Mas o óbvio não o é. nas primeiras séries do ensino fundamental. Pequenos grupos recebem diversos livros e uma lista de assuntos (com grau variável de dificuldade para serem localizados).por osmose. As respostas dão forma a uma experiência de aprendizagem. Acima de tudo. Ganha o jogo a equipe que descobrir primeiro e corretamente em que livros e em que páginas os assuntos se localizam. uma gramática. O jogo pressupõe que as crianças conheçam um dicionário. para achar o assunto tal. como por exemplo. as básicas. escrevem e ouvem (aulas. Determinadas habilidades. Pressupomos que os alunos sabem tomar notas. Basta fazer disto uma brincadeira. palestras) com a finalidade de estudar e aprender de forma eficiente. podem ser desenvolvidas no ensino (também) básico. É preciso fazer com que os alunos explicitem as estratégias utilizadas por eles (”por que. a cabeça. uma revista popular. quando os alunos são jogados dentro do segundo segmento. pelo menos não tanto assim. e qual a diferença entre eles (uma habilidade indispensável para quem precisa pesquisar qualquer coisa. aliás. e um jovem adulto reclamando que não consegue achar nada . pela pressão do . não é necessário esperar até sua chegada à universidade. ensaio e erro. quebrando. um livro didático. que já leia fluentemente. utilizar índices em livros. ainda que meio doloroso. é capaz de encontrar assuntos em um índice. se eles não sabem (coitados!). A situação é um pouco mais complicada.porque não sabe consultar um índice. ficamos no mínimo tristes ao testemunharmos a seguinte cena: várias gramáticas abertas na página do sumário. irão aprender . no caso de ambos estarem presentes na publicação. retardando a aquisição de habilidades básicas). pressupomos também que não ficam totalmente perdidos dentro de uma biblioteca e que sabem o que fazer com as fichas catalográficas. uma enciclopédia. Uma criança de oito anos. com base nestas pressuposições. Na universidade. Entretanto. um assunto a ser pesquisado. Conhecemos experiências desse tipo. uma receita num livro de culinária). vocês foram à enciclopédia e não ao dicionário?”) e para que serve o jogo. Só que o jogo não termina aí. não deixa de ser um método de aprendizagem. ligeiramente equivocadas.aqueles que lêem. Tudo parece óbvio demais para quem aprendeu quebrando a cabeça (o que. dispensamo-nos de ensinar-lhes estas ”coisas”. que elas tenham noções claras de onde os sumários e os índices em geral se localizam. fazer resumos. tais experiências se abandonam. quase literalmente. acreditamos com fé cega que.

E aprende-se a ler reconhecendo que. por sua vez. quando saímos pela tangente (diria o professor de Matemática.. desde sempre e desde antes. Ora. o arquiteto japonês lendo a terra sobre a qual será erguida uma casa. jogando todo esse peso nas costas dos professores de Língua Materna e Matemática . de modo a protegê-la das forças malignas. . escrever e raciocinar.). estudo. é condição de sobrevivência. Na verdade. O astrônomo lendo um mapa de estrelas que não existem mais. Ler de modo eficiente é pedra fundamental na construção da escrita. o zoólogo lendo os rastros de animais na floresta. pelo menos. se lê o mundo. centrada na lógica e na redação. Uma história da leitura. o que sem dúvida prejudica mesmo os alunos que trabalharam tais habilidades de primeira a quarta série. 20. pesquisa e escrita. o futuro escritor deve ser capaz de reconhecer e decifrar o sistema social de signos antes de colocá-lo no papel”. E se é pedra fundamental. não dão conta da responsabilidade concentrada. usando a mesma desculpa do conteúdo programático. desresponsabiliza cada professor de ensinar a ler. ”a leitura precede a escrita. como a de uma pessoa que não escreve nem seu próprio nome. o jogador lendo os gestos do parceiro antes de jogar a carta vencedora. Por que isto acontece? A fragmentação do conhecimento e das disciplinas.26 Parece que podemos esticar essa idéia a certas situações extremas.”conteúdo programático” . Reconhecê-lo implica admitir a urgência de uma proposta interdisciplinar. o organista lendo várias linhas musicais simultâneas orquestradas na página. exatamente no momento em que as relações se tornam mais complexas. abandona-se o aprendizado das habilidades básicas de leitura. o tecelão intrincado de um tapete sendo tecido. medo ou 26 Alberto Manguel. relata Alberto Manguel. p. ou as cores do coletivo. pois reconhece. mas em geral não pega ônibus errado para ir ao trabalho. além de prejudicar os próprios professores. A proposição ”ler para aprender” exige atenção. na educação pelo argumento (não é isto que estamos propondo?).ao menos essa é a desculpa usual. os pais lendo no rosto do bebê sinais de alegria. a dançarina lendo as anotações do coreógrafo e o público lendo os movimentos da dançarina no palco. Todos saímos perdendo. para então ler para aprender. aprender a ler. a partir da quinta série. isto é. os números. dificultando sobremaneira o seu trabalho.que..

admiração; o adivinho lendo as marcas antigas na carapaça de uma tartaruga; o amante lendo seriamente o corpo amado à noite, sob os lençóis; o psiquiatra ajudando os pacientes a ler seus sonhos perturbadores; o pescador havaiano lendo as correntes do oceano ao mergulhar a mão na água; o agricultor lendo o tempo no céu - todos eles compartilham com os leitores de livros a arte de decifrar e traduzir signos.27 A importância da leitura, todavia, não pode nos conduzir ao extremo de colocá-la como causa exclusiva da escrita, pressupondo que ”escreve bem quem lê muito”. A questão não é quantitativa e a relação entre ler e escrever é muito mais complexa. Quem só lê manuais dificilmente pode extrair de sua leitura base para produzir uma carta para o PROCON, reclamando que certa firma não cumpriu um prazo de entrega. Ler freqüentemente não é garantia nem de ortografia correta, quiçá de aspectos textuais mais sofisticados. Entretanto, não ler, ou ler sem um mínimo de consciência do ato de ler, só complica. A preparação do argumento exige a leitura do mundo e dos argumentos alheios - como o mostra Luís Fernando Veríssimo: Gosto da palavra ”fornida”. É uma palavra que diz tudo o que quer dizer. Quando você lê que uma mulher é ”bem fornida”, sabe exatamente como ela é. Não gorda mas cheia, carnuda. E quente. Talvez seja a semelhança com a palavra ”forno”. Talvez seja apenas o tipo de mente que eu tenho.28 Possenti comenta como, a seu modo, que a priori não pode ser considerado nem pior nem melhor do que o de qualquer teórico ”sério”, o humorista toca nos dois problemas cruciais da interpretação. De fato, na tarefa da interpretação, são relevantes o texto e o leitor, isto é, as palavras (sua semelhança e relação com outras palavras, jogando todo texto no intertexto, vale dizer, no labirinto do discurso) e o ”tipo de mente” do leitor (o seu conhecimento da língua e de um certo número e tipo de fatores contextuais que devem ser acionados para que um texto possa ser interpretado). Como a formulação de Veríssimo é humorística, portanto se vale da polissemia da língua não como falha, mas como condição inerente ao seu discurso, às diferentes possibilidades do ”tipo de mente” do leitor - dedutiva, indutiva, detalhista, panorâmica, algébrica, geométrica, prática, filosófica, equilibrada ou delirante - acrescenta-se a ambigüidade da dicotomia limpasuja...
27 28

Idem, ibidem, p. 19. Em Sírio Possenti. Obra citada, p. 71.

Como nosso livro está centrado no ato de escrever, vamos nos restringir a falar da leitura que alimenta a escrita, ao ler para escrever. com este fim, certas atividades podem promover uma conscientização de vários aspectos do discurso escrito, a ser ativados quando da produção de um texto ou a ser incorporados a ele. A leitura na escola é, em geral, centrada em comandos de exercícios e de questões de prova, pequenas poesias, crônicas, trechos do livro didático que está sendo utilizado. Como a leitura de textos mais longos demanda tempo e silêncio, o estudo baseado na leitura é, em geral, feito em casa - mas quem estuda precisa descobrir, sozinho, como fazê-lo. O professor diz o que tem de ser lido e para quando, às vezes para quê, mas nunca como. E precisa? Sim. É preciso orientar quem vai estudar a fazê-lo com economia de meios, isto é, com eficiência. Ou mais uma vez o método ”aprenda quebrando a cabeça” entra em ação. Imaginemos a seguinte tarefa: ”você vai receber três artigos sobre X; decida qual dos três você utilizaria a fim de redigir uma descrição detalhada de X e justifique sua escolha”. Como, em geral, procedemos? Selecionamos, a partir de uma primeira leitura rápida, tipo varredura, aquele ao qual daremos mais atenção, pois melhor se adapta à tarefa proposta. O que podemos compreender através desse exercício simples? Primeiro: a leitura dos textos tem um objetivo claro, que nesse caso foi definido no corpo da tarefa (estamos falando do contexto escolar onde o fazer alguma coisa com o texto é fundamental). Em outras palavras, lemos com algum objetivo em mente. Segundo: em função do objetivo da tarefa, determinamos que tipo de estratégia de leitura usar (a primeira leitura, rápida, visa a uma compreensão geral do conteúdo dos textos para que possamos selecionar aquele que mais diretamente nos interessa; a seguir, a leitura do texto escolhido é cuidadosa, pois visa a uma compreensão detalhada). Terceiro: a restrição imposta pela natureza da atividade de leitura se reverte também em uma estratégia, conhecida pelo nome pomposo de ”seletividade”. Se não podemos ou não precisamos ler tudo, temos de selecionar. Essa estratégia extremamente simples é base para o desenvolvimento de outras habilidades que envolvem escolha, como, por exemplo, citar ou resumir. Podemos olhar para um texto como se estivéssemos em um avião. com tempo bom, ao olharmos pela janela conseguimos identificar se estamos sobrevoando o campo ou a cidade a partir da predominância do verde ou do cinza. É cinza, então

estamos sobre a cidade. Estamos em manobras de aterrissagem. Descemos um pouco e já distinguimos os traçados das grandes avenidas. Mais um pouco, vemos os riscos das ruas. Mais, e percebemos a movimentação dos carros. Chegamos. Ou podemos olhar para um texto como Ide responde à pergunta ”por que o espírito deve proceder do mais ao menos universal?” [...] o conhecido do qual parte o espírito é um mais universal, e o desconhecido ao qual ele chega é um mais particular. O progresso, aqui, compreende-se melhor na dimensão vertical. A inteligência parte do alto da montanha; de lá ela tem uma visão global do vale. Mas, se quiser conhecê-lo melhor, deverá descer e sua visão se fará mais detalhada.29 Passemos então aos procedimentos de descida, a uma leitura mais cuidadosa. Em geral, ela é auxiliada por um lápis, por um marcador fosforescente, porque agora não queremos só uma impressão geral do texto, queremos mapeá-lo. Podemos começar por tentar perceber, ainda lá do alto, qual é o propósito mais amplo de um texto, sua função retórica. Persuadir o leitor a comprar algo, a adotar um certo ponto de vista, a ver ou não certo filme? Definir e classificar? Descrever um processo? Narrar uma história, um caso? Trata-se de um exercício bem simples, mas que dá uma direção à leitura e faz com que o conhecimento implícito que temos de certo tipo de texto possa ser ativado. E se não possuímos ainda tal conhecimento, abrimos uma pasta lá na nossa memória, onde vamos passar a inserir textos com aquela função retórica, para que possamos acessá-los quando necessário. Lá na pasta ”persuasão”, por exemplo, podemos encontrar os seguintes arquivos: editoriais de jornal, anúncios, resenhas de livros, filmes e peças, cartas de opinião dos leitores. Embora o objetivo de todos estes textos seja o de persuadir o leitor, há diferenças marcantes que justificam sua separação. O formato, o tamanho, a fonte na qual eles se inserem e o local da fonte onde eles se encontram são características percebidas rapidamente pelo olho que passeia pelo papel; há também diferenças intrínsecas a cada tipo de texto, percebidas pelo olho atento, que identifica detalhes: uma resenha de filme contém um resumo do enredo, além de opiniões a respeito do desempenho dos protagonistas ou da qualidade da fotografia e da direção, que contribuem para o veredicto final, positivo ou negativo; já os editoriais de jornal utilizam

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Pascal Ide. A arte de pensar, p. 6.

.a hipótese não é demonstrada. dá-se o nome de tautologia (ou. O segundo aspecto diz respeito aos recursos utilizados para comprovar uma hipótese. teimosia. no pior sentido da palavra. dados da situação. é preciso sustentálas. mas retomada e repetida com termos diferentes. O que o autor do texto nos oferece? Ele cita 30 José Luiz Fiorin e Francisco Platão Saviolli. . faz com que a busca de respostas leve o leitor a perceber aspectos importantes da construção do texto. portanto. Perguntas são sempre necessárias. e sim reafirmando sua vontade. Quando a criança diz ”porque não” ao lhe perguntarem porque não quer tomar banho. brega. pode vir a criar a necessidade de ele mesmo se perguntar. se essa combinação ligeiramente patriótica parecer cafona. O primeiro aspecto reside na diferença entre hipótese e comprovação. estatísticas. Suponhamos que estamos diante de um editorial. É um exercício. opiniões. Quando o adulto faz o mesmo. Algumas perguntas possíveis se colocam aqui. se não as sustentamos. experimentos.) . Que idéia é veiculada nesse texto? Há só uma ou mais de uma? Quais? Como elas se relacionam? O ato de dirigir perguntas a si mesmo sobre um texto faz com que o leitor volte ao texto para buscar nele as respostas. dados. A fim de refinar o exercício. Começar pelas questões maiores. ela não está apresentando uma justificativa (apesar da presença da conjunção porque). Voltemos aos nossos textos persuasivos. podemos vir a perceber que não basta apenas sair fazendo uma série de afirmações. Lições de texto. Que hipótese o autor procura comprovar? Como o autor procura comprová-la (ele oferece fatos. A partir de uma atividade bem simples. conhecimento do mundo”. Que procedimentos estimulariam o leitor a perceber estes detalhes? Perguntas. sempre perguntas. podemos então substituir a palavra idéia por hipótese (se o texto examinado assim permitir). mais abrangentes e mais generalizantes é um bom exercício. como o autor procura comprovar sua hipótese. iluminar de amarelo neon que frase(s) delimita(m) a hipótese apresentada no texto e de verde (também neon) aquelas que servem de sustentação (pode-se trocar de cores. exemplos)? A que conclusão ele chega? A pergunta mais geral.como estratégia a menção ”de provas concretas.30 concatenados de forma a criar credibilidade e uma impressão de verdade. p.. Perguntar ao leitor. num primeiro momento. criamos um texto infantilizado. 292. já que lhe faltam argumentos. ou ridícula mesmo). dados da realidade.

FUNÇÃO DO TEXTO HIPÓTESE COMPROVAÇÃO CONCLUSÃO COMPROVAÇÃO TIPO DE RECURSO a. Vejamos como podemos trazer à tona os aspectos textuais vistos até aqui. tabelas ou diagramas. já que ambos os recursos podem ser usados como evidência. que um leitor aprenda a distinguir fatos de opiniões. estão no campo da realidade objetiva. b. b. dá exemplos. através de esquemas. por exemplo. a. menciona dados. RECURSO RELAÇÃO ESTABELECIDA a. e precisam ser demonstradas para que tenham alguma força. na forma de exercícios. b. pontos de vista. cifras e estatísticas? É essencial. As opiniões expressam julgamentos de valor. a. para que posteriormente aprendam a elaborar as suas próprias tabelas e esquemas.especialistas na matéria discutida. . Fatos são verificáveis. que podem ser apresentados aos alunos. ou comprovação. lança mão de idéias universalmente aceitas.

Cada texto sugere esquemas diferentes. fica mais fácil para quem lê compreender qual a hipótese a ser comprovada e como isto será feito. Ainda segundo Ide. indutivo? Perceber como se argumenta é somente parte do que se pretende mais adiante: avaliar a qualidade dos recursos utilizados. de validade discutível”. que as citações estejam bem amarradas com o assunto tratado (que não sejam apenas demonstrações de erudição. Se o escritor deixa claro logo no início do texto como ele está organizado. através de uma leitura atenta e anotada. Aqui começamos a falar do exercício da leitura crítica. ou seja. 176. Fica mais fácil perceber a organização de um texto quando ela é transparente. orientar o leitor de forma clara e imediata ”é o ideal do ponto de vista do rigor e da economia de tempo”.ou menos explícita) de um plano ou da ausência dele. ou indicação de um estilo meramente ”aspasiano”. argumenta por analogia. a partir dela. mas a simples presença destes recursos no texto não garante uma argumentação consistente. Mas ainda nos resta ver como os recursos são utilizados. sem idéia ou frase próprias). ele caminha do particular ao geral. dos meios utilizados na produção de um texto argumentativo. Precisamos cuidar para que os exemplos e os dados não sejam usados como trampolins para generalizações pretensiosas ou equivocadas. cabe ao leitor desvendá-lo para melhor compreender as idéias veiculadas. Identificar os meios de sustentação de uma hipótese é parte do processo de conscientização. Obra citada. o autor do texto pode usar uma situação concreta para. que o recurso ao senso comum não se confunda com ”lugares-comuns carentes de base científica. p. dedutivo. e às vezes nem a consciência para se darem conta disso”. Por exemplo. No caso de o autor não revelar qual é seu plano. . Há três tipos de autores: ”os que têm um plano e o anunciam”.b.32 Precisamos prestar atenção à conclusão resultante do raciocínio exposto no texto e cuidar 31 Pascal Ide. Dar exemplos.silogístico. ”os que têm um plano mas não o anunciam” e ”os que não têm plano e que não têm sequer a insolência de anunciá-lo. citar outros ou referir-se ao senso comum.31 Estamos aqui diante de mais um exercício de leitura atenta: a identificação da existência (mais . ou pode lançar mão de um fato histórico e compará-lo com a situação que quer demonstrar. utilizar dados estatísticos. O plano de um texto dá pistas de sua linha argumentativa e do tipo de raciocínio empregado . assim. chegar a uma conclusão abrangente. são meios pelos quais se dá a persuasão.

lexical e semântico”.para que ela não seja decorrente de erros argumentativos (nos capítulos ”a formação da hipótese” e ”o argumento impertinente”.. estejamos nós conscientes disso ou não. justificar. sua organização. garimpar o texto para nele percebermos seu propósito. Para Moita Lopes. por que não investigar a quem ela se dirige? Algumas das decisões que o autor de um texto precisa tomar durante a escritura se relacionam diretamente com a noção de público-alvo. Em outras palavras. redigir seus próprios textos. não o fazemos impunemente nem aleatoriamente. delineia o que se precisa definir. então. reconhecendo que seu significado potencial é construído através desse garimpo e com o 32 33 José Luiz Fiorin e Francisco Platão Saviolli. No entanto. 140. ’”Logo” pode ser marca de raciocínio silogístico. 34 Luiz Paulo da Moita Lopes. p. ”É em função de um auditório que qualquer argumentação se resolve”. Elas estão lá. não tiramos estas informações da cartola.adotar um posicionamento lógico ou apelar à emoção do leitor? O quanto o escritor de um texto supõe que tem em comum com seu leitor. estudaremos com mais detalhe estes pontos). o fluxo das idéias. no texto. e ”o conhecimento esquemático [. 286. p. e associando-as a nosso conhecimento esquemático e sistêmico. Oficina de lingüística aplicada.. explicar. Por exemplo. que idéia central está sendo veiculada e como ela é defendida. Obra citada. p. da gramática. ou seja. E é justamente por isso que devemos prestar atenção às pistas inscritas no texto. se eles partem dos mesmos pressupostos e têm o mesmo grau de conhecimento de um assunto.33 Então. dizem-nos Perelman & Olbrechts-Tyteca. Ler para escrever significa. . sua audiência. não é à toa. principalmente se estiver atrelado a uma conclusão. que plano e linha de raciocínio foram adotados pelo autor. assim como a escolha adequada de uma estratégia de persuasão . a língua em uso. Obra citada. ”o conhecimento sistêmico engloba o conhecimento do leitor aos níveis sintático. que chegamos às respostas. mais adiante. Ao iniciar uma frase com ’”por outro lado”. Estar atento à noção de público-alvo e às escolhas feitas a partir dela é fundamental para quem vai. o tom mais ou menos formal depende de quem é o destinatário.] é responsável pelas expectativas que os leitores têm sobre o que encontram no texto”. Cháím Perelman. 6. o uso que fazemos das palavras. sintáticas e discursivas. Foi seguindo as pistas lexicais. o escritor estará indiciando uma contraargumentação.34 Se o autor de um texto escolhe a palavra ”delírios” para se referir às idéias de outro. Através da leitura conseguimos descobrir qual a função retórica do texto lido.

já estamos indicando uma possibilidade de como começar a escrever: pela leitura. Contudo. As linguagens falada e escrita ora se misturam. e tem de escrever uma dissertação. É o caso de quem lê uma crônica. o que é em geral positivo. que agora chamaremos de pesquisa. gostaríamos de examinar duas questões a respeito da leitura de textos e da produção escrita no contexto escolar. expor os alunos a um tipo de texto que não servirá nem de trampolim para aquele que eles terão de produzir é um risco a ser evitado. para que ele não comece a escrever do zero. se há coincidência entre os tipos de textos lidos e aqueles escritos. O texto lido cuidadosamente fornece ao futuro escritor uma base. pois a interface passa a ser o próprio discurso escrito. Antes de passarmos ao processo de redação propriamente dito. Em segundo lugar. por escrito. Portanto. são constituídas de forma distinta e autônoma. por mais que procuremos dissertar organizadamente a respeito de um tema. Como este livro. precisamos os professores ser extremamente cautelosos. ao vermos a leitura da forma até aqui apresentada. as marcas da oralidade. O discurso da sala de aula. vale a pena correr o risco calculado de contar com a transferência do que se observa através da leitura para a produção escrita. não é porque o professor dá um exemplo. ora se opõem. e sim um ponto de partida. é importante enfatizar que o modelo lido não é uma camisa-de-força. e. fazendo uma apreciação crítica da crônica que leu. de uma leitura crítica de uma crônica durante a aula (oralmente e através de um discurso que poderíamos rotular de pedagógico). a passagem de leitor a escritor pode vir a ser realizada de forma mais tranqüila e segura. Além disso. Nesse sentido. ao vivo e a cores. que se superpõem e inter-relacionam. A partir da conscientização de que um texto é constituído destes vários aspectos. Parece-nos então que contar com a transferência do discurso oral (do outro) para o escrito é correr um risco desnecessário. Em primeiro lugar. o nosso. tem suas marcas específicas e. que seu aluno automaticamente será capaz de fazer o mesmo. a . se não há coincidência.auxílio das ferramentas do conhecimento prévio. pois podemos estar partindo do pressuposto de que a aquisição da escrita é ”espontânea”. dentre elas. foi escrito? Partimos de uma idéia. lá na aula de literatura. e quando o fazem. ainda por cima.

que gerou outras. sobre lógica. e por assunto dentro de cada capítulo. sobre argumentação. fizemos um primeiro plano de trabalho . pusemo-nos a pesquisar nas fontes mais diretamente relacionadas com nossa idéia: livros sobre redação. Essa pesquisa. A partir desse esboço. Da idéia.que capítulos (que subdivisão interna da idéia) achamos necessários. mais ou menos assim: CAPÍTULO 4 A PREPARAÇÃO DO ARGUMENTO HABILIDADES LEITURA ESCRITA PESQUISA/ESTUDO • identificar função do texto • escrever para aprender • utilizar mecanismos de busca • distinguir hipótese de comprovação • esboçar um plano • consultar material de referência • pesquisar •anotar • perceber o plano do texto • construir o raciocínio • fichar • perceber a audiência • perceber a língua em uso . resultou num fichamento por capítulo.argumentação como articulação interdisciplinar. a ela interligadas de várias formas. sobre retórica. por sua vez.

de uma pergunta que nos fazemos (ou que nos fazem) a respeito dele. Primeiro. para que pudéssemos fazer referência a elas quando necessário.será que é preciso ler todas para que então se possa saber sobre o que vamos escrever? Segundo. A fase da pesquisa é. neste sentido. Depois de várias reescrituras. nas bibliotecas reais e virtuais. Com o plano refeito. saber trabalhar com palavras-chave é uma habilidade fundamental. pudemos começar a redação de uma primeira versão do texto.. É um pouco como quando solicitamos ao robô de busca na Internet que localize ocorrências de ”AIDS”. para que o trabalho ao qual se refere possa ser devidamente arquivado. ”Colar”. além da indicação da fonte. deflagrada a partir de um tema.• refazer o plano • redigir • editar • resumir • organizar informações coletadas • ler criticamente Cada item foi seguido de uma ou várias citações. e da resposta que damos a essa pergunta. é fundamental. Toda esta pesquisa foi acompanhada de conversas. que têm links. como também as complementavam e até as retificavam. pois as leituras nos indicaram idéias e visões do assunto que não só ratificavam as nossas. foi preciso refazer o plano inicial. Um resumo (abstract) bem redigido as inclui no título e no texto. mesmo que embrionário. pois se pesquisamos sem um pequeno plano. Após a pesquisa. corremos o risco de nunca sairmos da fase da pesquisa. pois muito do que cada um de nós pesquisou individualmente também servia para o trabalho do outro. muitas das páginas têm links com assuntos afins. É a partir delas que os livros são agrupados por assunto e por isso as encontramos nas fichas catalográficas. A restrição do tema é necessária. mesmo que os robôs de busca não sejam tão eficientes. que têm links com assuntos afins. por exemplo. As palavras- . o texto estaria.. ele acha um número gigantesco de páginas onde a palavra aparece . pronto. então. finalmente. No entanto. que ainda seria lido e revisado por nós mesmos e por outros leitores (que nos dariam ”cola” através de suas leituras do nosso texto).

sobrando a essência da fruta.chave são o mecanismo utilizado nos processadores de texto para criar e inserir índices e referências cruzadas nos textos que produzimos. sem alteração de seu sentido original. onde se comenta o conteúdo do resumo a fim de confirmá-lo ou questioná-lo. Obra citada. Podemos também produzir algum tipo de esquema que nos ofereça uma visão do que lemos . Podemos simplesmente transcrever passagens do texto que nos interessam. criar notas. pelo menos. uma citação ou uma paráfrase são inseridos em um texto com um determinado propósito e que. dar-lhes o miolo de um resumo para que eles apenas insiram a primeira e última frases. 324. é preciso fazer com que essa seja aprendida. comprovação da hipótese. Podemos. por exemplo. faz-se o contrário: dá-se a primeira e última frases e eles fazem o preenchimento. tabelas. Um resumo é o ”sumo” de um texto. esse exercício tem o valor de demonstrar que um resumo. com a vantagem de ”não exigir nenhum tipo de organização complexa de argumentos e contra-argumentos porque a avaliação é uma continuação do resumo”. Chegamos ao texto via palavra-chave e essa é a hora de nos utilizarmos de outra estratégia de pesquisa e estudo: anotar. É. p. ibidem. extrai-se o suco. e como o resumo foi redigido (ele deve estar devidamente concatenado e fazer sentido como se fosse um texto autônomo. devem estar bem ancorados nele.36 além disso. Posteriormente. Idem. generalizações. o primeiro encontro de uma laranja lima com um bebê: tiram-se as sementes. . ainda. que é então coado. duas outras habilidades: as de resumir e parafrasear. listas (de tópicos abordados.diagramas. exemplificação. hipótese. verbatim. Para tal. e nas palavras de quem produz a condensação. Pode-se. Grabe & Kaplan35 sugerem várias atividades para que os alunos percebam que escolhas são feitas para se resumir uma passagem. 323. portanto. por exemplo). elas são a nossa porta de entrada nas obras e a das obras nos locais e canais de divulgação. Como outras habilidades já mencionadas aqui. Estas atividades não se fecham em si mesmas: é preciso chamar a atenção para o que foi retido e o que foi desprezado do original. é preciso desenvolver. Esse exercício fundamenta certas práticas argumentativas. p. mapas das diferentes partes do texto e suas relações: idéia principal. 35 36 Grabe & Kaplan. Em suma. não basta retirar uma frase aqui e outra acolá do texto original). depois que os alunos já dominam a de resumir. Outra habilidade a ser desenvolvida. comparando. é a de juntar ao texto condensado um parágrafo de avaliação.

para a partir daí compará-los e saber o que eles têm de semelhante e de diferente. e passam a escrever a partir delas. p. Então. as paráfrases (idéias de outros expressas em nossas próprias palavras. como comprovação ou refutação de hipóteses. já define a tarefa e a organização retórica de nosso texto. e devidamente documentadas) precisam ser praticadas. como começar? Pelo tema. Compreender exatamente a natureza da tarefa que nos é proposta é o primeiro passo.Assim como os resumos. preferimos indicar a terceira orientação. é fundamental para quem escreve textos argumentativos e lança mão de testemunhos de autoridade. Elements ofargument. telegráficas. Outras. Antes de fazer com que alunos redijam paráfrases é necessário fazê-los perceber a diferença entre aquelas que plagiam o original. acha que as idéias escorrem do cérebro pela ponta da caneta. que devem ser desenvolvidas de forma gradual mas sistemática e constante. Sem saber absolutamente nada a respeito desse assunto. Precisamos saber. Outras fazem pequenas notas. Todo texto a ser redigido passa por uma fase de planejamento. que determina o esquema da construção do texto. Dominar estas habilidades. organizam o texto mentalmente e começam a redigi-lo. Aqui. em primeiro lugar. . material empregado 2. elaboram um pequeno projeto. 282. nós esperamos que o desenvolvimento do texto tenha como configuração um dos dois esquemas abaixo: Semelhanças 1. um pouco mais detalhado. por si só. no que consistem os dois métodos. ainda. quem observa.37 Citar ou parafrasear são formas de integrar nosso estudo e pesquisa ao texto que produziremos. aquelas que o alteram e aquelas bem redigidas. pois o verbo ”comparar”. A pergunta inicial é: qual é a questão que me colocam? Imaginemos uma situação: o professor de Biologia pede que dois métodos (A e B) de inseminação artificial sejam comparados. Elas são variantes das citações e devem se manter fiéis ao sentido original. custo 37 Annette Rottenberg. pois nos interessa acompanhar todo o processo de produção escrita. Esse planejamento é pessoal: há pessoas que se dão um tempo. por exemplo.

Diferenças 1. projetando um texto descarnado. principalmente. para quem escreve e para quem lê. Nesse momento. há o risco de rechear a defesa da hipótese de muitos ”eu acho que” e ”na minha opinião”. do texto (como recomendam muitos professores equivocados). processo 2. Usadas com parcimônia e bem defendidas. o alerta de Hegel também é necessário: ”a injustiça mais . sem âncoras factuais que as sustentem. Em contrapartida. um aspecto absolutamente fundamental de um argumento: o seu ponto de vista. A dificuldade de se construir uma opinião própria não deve ser escamoteada com a multiplicação aleatória de opiniões soltas. depois de responder à pergunta ”qual é a questão que me colocam?”. que ou não tem perspectiva ou esconde a sua perspectiva. depois. sem conexão entre si e. resultados obtidos Ou: Material empregado A=B Processo AB Custo A=B Resultados obtidos A=B Se a proposta é argumentativa. a sua perspectiva. um bom começo é se perguntar ”e o que acho disso?”. empobrecendo-a. ajudam a esclarecer. Entretanto. esse é apenas um ponto de partida para a formulação da hipótese que será defendida. sob pena de cairmos no pecado positivista. não cabe simplesmente eliminar todos os achismos do plano e. As expressões ”eu acho que” e ”na minha opinião” são negativas apenas quando em excesso.

como nos videogames. no qual o primeiro é questionado pelo último. ibidem.38 O que nos remete a novas questões que devemos nos colocar. exemplos. O desdobramento da hipótese a ser fundamentada é o raciocínio que se apresenta na forma de premissas gerais e particulares. Essa abordagem heurística resulta em um plano de pesquisa ou. Não convém. p. Esse plano parte da hipótese que se pretende defender. a enumeração de causas e suas conseqüências. Obra citada.corrente que se comete em relação ao pensamento especulativo consiste em torná-lo unilateral. tem papel análogo ao daquele diabinho dos desenhos animados. Que outra opinião há sobre esse tema? Quem pensa assim? Em que essa opinião está alicerçada? Quais são os pontos fracos do alicerce? Ou: como contra-argumentar? É hora de retomarmos nossa tese inicial e nos perguntarmos: quem pensa assim também? Quem pensa próximo disso? Que tipo de evidência sustenta a hipótese? Os fatos. O leitor. Se a definição é ausente. as comparações estabelecidas. Insistimos no advérbio ”cuidadosamente”. por que definir? Porque ”a definição é o melhor fundamento de uma boa demonstração: o quê? fecunda o por quê?”. p. Mas. que precisa agora ser cuidadosamente formulada e desdobrada.. mesmo que imaginário e por isto mesmo tão poderoso. precisar a natureza ou a essência de algo parece ser o primeiro movimento do raciocínio. pular de fase. assemelhando-se a um debate entre autor e leitor. Idem. relevantes e convincentes? Há falhas na fundamentação proposta? Como responder a estas falhas de forma consistente e assim justificar a escolha por determinado ponto de vista? Ou. 183 . de novo: como contra-argumentar? Um bom texto argumentativo sempre considera pelo menos dois lados da questão (até porque sempre há muitos lados em todas as questões). em um plano de redação. dados estatísticos. são suficientes.39 De fato. Um dos passos diz respeito à definição. em revelar apenas uma das proposições de que ele se compõe”.. já que os passos do raciocínio não devem ser pulados. Constrói-se assim um raciocínio cuja articulação se dá na relação entre as premissas geral e particular. que precisa estar ancorado em fatos e evidências. perguntamo-nos: mas o que se quer dizer com isso?. ou seja. Nesse plano também já está presente a conclusão.. se já estamos satisfeitos com as respostas e conhecemos o suficiente do assunto. e assim já começamos a desconfiar do que vem adiante. 38 39 Em Pascal Ide.. 53. os testemunhos abalizados.

a tese resultante da comprovação da hipótese inicial. Portanto, não basta apenas retomar o que foi dito no início, para dizê-lo de outra forma, como se fizéssemos uma paráfrase de nós mesmos; é necessário ”pôr em termos claros, insofismáveis, a essência da proposição”,40 que se impõe como decorrência natural das provas apresentadas. Temos então material organizado suficiente para a redação de um primeiro rascunho. Nessa redação, o autor já estará preocupado com sua audiência - no contexto escolar, com o diabinho-professor. Um dos equívocos mais comuns é pressupor que o professor sabe tudo - ou quase - e daí excluir partes importantes do argumento, não definindo, por exemplo, os termos da questão. com isso, deixam-se de explicitar as relações que o autor estabelece entre as premissas, ou seja, exatamente aquilo que o leitor desconhece (e quer conhecer). Portanto, é fundamental deixar transparentes todos os passos do raciocínio para melhor sustentá-lo, sem pressupor conhecimento por parte do leitor (mesmo que o leitor seja um professor que dá a impressão de saber tudo). Durante a redação e nas várias leituras e reescrituras de nosso texto voltamos a questões que lhe dão forma: seu propósito, sua organização, o fluxo de idéias, a língua em uso. O escritor-leitor mais experiente revisa seu texto levando em conta todos estes aspectos ao mesmo tempo. O menos experiente, mas não menos competente, deve ir por partes, sempre se questionando. O texto cumpre seu propósito de convencer ou persuadir o leitor de X? A organização é transparente, ou seja, o plano está explicitamente traçado para o leitor? O raciocínio utilizado pode ser percorrido pelo leitor com facilidade ou o texto deixa lacunas enormes a serem preenchidas? As escolhas lexicais e sintáticas são adequadas? O estilo, mais ou menos formal, é condizente com a natureza da tarefa, das convenções discursivas e da audiência? Perguntas, sempre perguntas. Cabe lembrar que procuramos responder a elas enquanto garimpávamos os textos, através da leitura, para que de alguma forma o processo de escrita também se tornasse um pouco menos nebuloso. Acreditamos que o ato de escrever se configura como trabalho, esforço, exercício, tudo isso com prazer e adrenalina, e não simplesmente como um dom. Deixemos o dom para os anjos, e mãos à massa.

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Othon Garcia. Obra citada, p. 381.

A FORMAÇÃO DA HIPÓTESE A leitura - do mundo e dos livros - deu o tom da preparação do argumento. O passo seguinte poderia ser a organização dos dados e dos fatos coletados, para dessa organização se extrair a conclusão. Entretanto, a organização dos dados e dos fatos demanda uma lógica que lhe é prévia, isto é, demanda uma hipótese organizadora. Por isso, optamos por definir a ”formação da hipótese” como o segundo momento do nosso projeto interdisciplinar, o que talvez provoque algum estranhamento, já que, segundo alguns manuais de Lógica, a hipótese introduz o argumento dedutivo e o silogismo. Ora, apresentar o argumento dedutivo, mais abstrato, antes do argumento indutivo, mais concreto, estaria em flagrante contradição com o desenvolvimento do pensamento, tal como o descreveu Jean Piaget. Entretanto, defendemos sua apresentação antes dos recursos indutivos com base na tese de que todo o pensamento humano, inclusive o da criança pequena, articula-se primeiro dedutivamente, deixando a indução como um segundo momento: o momento da prova. A noção de que o argumento indutivo não só deveria comparecer primeiro, para entrar em correspondência com o estágio do pensamento da criança, ou do adolescente, como, justamente por essa razão, é mais fácil, nos parece equivocada. Sabemos, porém, que esse equívoco, se o é, vem defendido com unhas, dentes e testes pelo ensino dito tradicional, calcado na enumeração exaustiva (põe ”exaustiva” nisso) de fatos singulares e fenômenos presumivelmente concretos. Cientistas, como Roger Shank, discordam frontalmente da escola, afirmando que ”os fatos não são a base do aprendizado”; dominar um conjunto maior ou menor de fatos não quer dizer absolutamente nada sobre a educação de uma pessoa (a não ser., talvez, o quanto ela tenha sido mal educada): ”os fatos têm um papel importante no sistema educacional porque são muito fáceis de testar. E são esses testes (em geral provas altamente irrelevantes) que vêm moldando o seu aprendizado desde os seis anos de idade”.41 Shank trabalha em ciência da computação. Ele sabe que, para ”educar” um computador, é preciso programá-lo com a possibilidade de tirar algumas conclusões, inferir crenças e aprender com os erros. Espanta-se, portanto, quando nota os professores de seus filhos tratando-os como se eles fossem muito menos inteligentes do

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Em John Brockman. Obra citada, p. 196.

que os computadores do seu laboratório, uma vez que se limitam a lhes ensinar ”coisas” e ”nomes”. Assim como os computadores, as pessoas precisariam aprender afazer coisas na verdade, só se aprende fazendo. Esse axioma é bastante antigo, mas persiste pouco aplicado, uma vez que, quando o aluno de fato faz, o seu produto foge ao controle do professor: o que de fato se faz, se constrói, não cabe mais no gabarito fechado de um teste. O modo como os fatos são encarados é muito mais importante do que os fatos em si. Decorar a lista dos afluentes da margem direita do rio Amazonas provavelmente não ajudará muito a alguém que se encontre perdido, mais tarde, na floresta amazônica - ou frente aos dilemas ecológicos do nosso tempo. Certo, ninguém mais cobra os afluentes da margem direita do Amazonas (Javari, Juruá, Purus, Tefé, Madeira, Tapajós, Xingu e Tocantins!), mas decerto outras listas extensivas ocuparam o seu lugar... Ser capaz de enunciar fatos é útil, apenas., para passar em provas, impressionar amigos (facilmente impressionáveis) e se dar bem em programas de auditório, mas serve para muito pouco além disso. O princípio do aprendizado científico é o mesmo que orienta o caçador ”primitivo”: nós aprendemos melhor aquilo que queremos. O motor da inteligência é o desejo, condição de possibilidade da imaginação. E a imaginação não é, como queria Malebranche, ”a louca da casa”, mas sim a própria antecipação do conhecimento. Não há conhecimento sem antecipação; não há conhecimento sem a imaginação que formule as condições prévias para o conhecimento.42 A hipótese outra coisa não é do que a antecipação, forçosamente imaginária, do conhecimento que não se tem, mas se deseja alcançar. Em sentido estrito, a dedução é a forma do raciocínio que parte do geral para o particular, enquanto a indução é a forma do raciocínio que faz o caminho inverso, do particular para o geral. Qual é o caminho que se toma primeiro, é questão fundamental para a educação. Considerando que parece mais ”lógico” partir do conhecido para o desconhecido, muitas pessoas dirão que o caminho indutivo precede o caminho dedutivo, uma vez que se conheceria antes o que parece mais perto da pessoa: o particular, o concreto, a parte - só depois se teria acesso ao geral, ao abstrato, ao todo. A escola concorda com isso; tanto, que seus instrumentos pedagógicos são eminentemente indutivos, admitindo que um acúmulo de observações indutivas (corporificadas num
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Albert Jacquard. Obra citada, p. 75.

mas o deforma um pouquinho. os elementos e os princípios se destacam por meio da análise”. 44 Em outras palavras: conhecemos antes as idéias (nossas). precisaríamos colocar o argumento indutivo na frente do argumento dedutivo. se acaso o souber (ó erudição!). Obra citada. inclusive. mas sim o que já foi observado. optamos (seguindo. ou seja. fizeram parte de alguma experiência). se lembrarmos o que Aristóteles escrevia há 24 séculos: ”a marcha natural do intelecto é ir das coisas mais conhecíveis e mais claras para nós às que são mais claras em si e mais conhecíveis. Precisamos. A escola parte do ideal positivista. dos conceitos. Como não concordamos com ele. à compreensão do todo. não se fazem experiências legítimas. admite-se (com Popper e Kuhn. pela observação e pela experimentação. dos fundamentos e da estrutura. Ora. . dessa indistinção. E. porque aprende. mas exibições controladas de procedimentos que. a criança pequena não diferencia um terra-nova de um golden retriever (tal como muitos leitores adultos. Conhecemos antes os conjuntos. o que implica afirmar que a imaginação é precondição para o conhecimento dos fatos. é provável que ainda não tenha tido tempo (ou necessidade) de contar o número de nós que se acham na madeira. E. e depois as coisas. a maioria absoluta dos livros de Lógica) pela precedência do argumento dedutivo. ao contrário. p. é só depois que. A ciência contemporânea. enfurnados nos seus mínimos apartamentos). mas sim o que já foi experimentado (mesmo nos raros e precários laboratórios. 26. o lugar privilegiado de realização da imaginação é a hipótese. para podermos então observá-lo (espantados). em 43 Maria José Coracini. o que para nós é primeiramente manifesto e claro são os conjuntos mais misturados. mas certamente ignora o número de tábuas que compõem o assoalho de seu quarto. pelo qual a verdade dos fatos pode ser alcançada tão-somente pelos sentidos. Não estamos sendo especialmente revolucionários. em ciência. antes de qualquer outro processo intelectual. para só depois conhecermos os elementos particulares dos conjuntos.43 Se concordássemos com o ideal positivista. Da mesma maneira. vale dizer. na medida em que não ensina a observar. algum dia. algum dia. imaginar o mundo como mundo (como conjunto de coisas e fenômenos). por exemplo) como eminentemente dedutiva. não ensina a experimentar. concretos e parciais da matéria) leve. O leitor sabe que está lendo este modesto livrinho no quarto.acúmulo de questões sobre aspectos particulares.

mas também para orientar as nossas observações. na verdade. usada por nove entre dez mitos (e por dez entre dez filósofos). 11. 5. Reconhecê-lo. O substantivo ”modelo” implica uma ação: a ação de modelagem. ou nele penetra. entretanto. As pessoas do vulgo não vêem diferença entre os homens”. deverá descer para a sua visão se detalhar. se quiser conhecê-lo melhor.. e não imediato. materiais. se puder e quiser.).. Ou. Idem. justamente para extrair das realidades sensíveis. em si.derivados. não apenas para nortear as nossas ações. batizamos a todas pelo nome ”folha” (embora a dita cuja. A medida que se convive (que se investiga. entretanto. tudo samba e futebol. não precisa implicar a desvalorização da percepção sensível. precisamente. Como não podemos conhecer todos os homens e mulheres. p. é esclarecedora. das coisas e dos acontecimentos que povoam o vale.). paradoxalmente. microscópica e macroscópica.. pressupondoos todos iguais . que se pensa). Assim se fazem os conceitos . por exemplo. percebemos a necessidade de um modelo e de um ideal. reconhecem-se as enormes diferenças individuais. como o fez Platão na famosa 44 45 Em Pascal Ide.. à distinção das raças. também não exista). Modela-se uma abstração.46 Dito de outro modo. como diria Pascal: ”à medida que se tem mais espírito. a reconhecer um cão (au-au. Obra citada. do latim abstrahere. ibidem. . Mas. de uma concepção. Porque o que chamamos realidade ”é uma hipótese que formulamos a propósito do que nos rodeia”. O mesmo se pode dizer a respeito de todas as coisas que compõem a realidade e. sua essência inteligível e universal. da realidade mesma.mas o mesmo acontece entre eles. Quanto mais desce no vale. p. Esse modelo funciona como um horizonte regulador que. o nosso acesso à realidade só pode ser mediato. passando depois.primeiro lugar. nos move e nos orienta. designamos a todos por um nome genérico.45 A metáfora da montanha e do vale. porque só de lá se pode ter uma visão global do vale (da realidade). Como não podemos dar um nome a todas as folhas que caem das árvores. Os ocidentais acharemos graça nos japoneses. mais a inteligência descobre o quanto não conhece: a extensão infinita. Do alto da montanha. A inteligência partiria do alto da montanha. em relação aos brasileiros (todos iguais. dos seres. descobre-se que há mais homens originais.

como delimitar. na lógica e na retórica . a hipótese. 46 47 Albert Jacquard. dos nossos alunos. Para melhor exemplificar. acompanhemos. 192. na qual nos iludimos com as sombras que pensamos que são reais. os filósofos Anaxímenes e Empédocles sustentavam que a Terra era plana. acompanhando. argumentos cada vez melhor elaborados. da Biologia História. A ênfase deste livro no argumento. retornamos ao alto da montanha para falar do fundamento do argumento dedutivo. inclusive. ao orientar a ciência em uma direção diferente: ao invés de buscar o conhecimento das ”coisas”. primeira idéia) é o fundamento desse argumento. com o seu primado da incerteza.alegoria da caverna. que não se pensa sem expressar o que se pensa.47 Trata-se da polêmica sobre a forma da Terra. Heisenberg. de resto óbvia em função do seu título mesmo. Irving Copi. as condições pelas quais temos acesso à realidade e às suas partes infinitas (e infinitamente parciais). portanto. que não admitia o planeta como esférico (senão. devem-se buscar as condições pelas quais temos acesso às ”coisas”. admitindo. 406-416. Supondo que todos concordemos com isto. p. a fortuna de duas hipóteses rivais muito famosas. qual seja. pp. bem como de toda a ciência. na verdade deseja que essa se torne a ênfase da escola. todos estaríamos escorregando!). com o seguinte argumento: Que os mares assumem uma forma esférica é percebido pelos navegadores.vale dizer. A ênfase deste livro e projeto no argumento . senso comum. a tal ponto que realmente deixemos de dar e cobrar ”coisas”. Obra citada. datas e fatos que não estarão à mão na hora que se precise deles (a menos que sejamos dotados de uma memória anacrônica e nos encontremos no palco de um programa de televisão tipo ”o céu é o limite”). Introdução à lógica. sempre provisoriamente. para de fato exigirmos.se preocupa menos com as idéias ou as coisas ”em si” e mais com as condições através das quais pensamos e expressamos o nosso pensamento. permitiu-se reescrever o mito da caverna. com Irving Copi. A hipótese (primeira tese. Nicolau Copérnico afirmou o contrário. deve ser saber como expressar e defender o que se sabe. colecionando neuroticamente dados. . Na antiga Grécia. Mais tarde. ou seja. Mais importante do que saber (isto ou aquilo).

não podiam subir em uma nave espacial para ver. e fazer ver. O argumento de Copérnico se complica se lembrarmos que mais tarde admite-se a possibilidade do trajeto curvilíneo da luz (embora não exatamente nas condições que envolvem um observador no cais olhando para navio ao longe). pela gravidade da Terra (embora. pouco a pouco. aos demais. a hipótese de Copérnico. Havia uma falha no argumento de Copérnico que os seus adversários poderiam ter usado. da Terra esférica. infere-se que o barco desaparecerá por inteiro.Pois quando a terra ainda não é discernível do convés de um barco. como o ocaso de um corpo celeste. já é visível do alto dos mastros. mesmo hoje. a luz é que se propagava em curva. Entretanto. ao lado dele. os observadores. o convés ao mesmo tempo que o alto do mastro. à época. uma suposição. A hipótese da Terra plana servia para explicar o que os sentidos percebiam. da hipótese de que a Terra é plana. Sua experiência do navio se afastando dependia não apenas de considerar a Terra como redonda. depois de o convés ter desaparecido da vista. mais ou menos esférica) da Terra (na verdade. a Terra como plana ou esférica. vendo o mesmo navio. infere-se que o mastro do barco continuará visível por algum tempo ainda. E agora? Em função dos elementos conhecidos à época de Copérnico. uma hipótese. também se baseava nos sentidos. Na verdade. porque nem os partidários de uma concepção nem os da outra podiam ver. Da hipótese de que a Terra é esférica. ainda não se tivesse formulado a teoria da gravidade). a forma indubitavelmente esférica (quer dizer. é a extrema importância de se explicitar com toda a clareza todas as hipóteses e suposições que orientam o raciocínio e as . seria tão boa quanto a outra. até desaparecer totalmente. E se uma tocha for atada ao mastro. aqui. atraída. poucos de nós podemos fazê-lo. com os seus olhos. no mesmo cais. Um defensor da Terra Plana poderia muito bem refutar Copérnico dizendo. Portanto. O que se deve destacar. mas acreditamos nos que foram. mas de considerar uma hipótese adicional da maior importância: a de que a luz siga um trajeto retilíneo. por exemplo. A polêmica se prolongou por muito tempo. quando o navio se afasta da terra parece aos observadores postados no litoral que a tocha vai descendo. que a Terra era plana sim. nas imagens da televisão). na Grécia ou no tempo de Copérnico. bem como. é claro.

quando escrevem na margem da redação: ”desenvolva mais o seu pensamento”. . Quando o que inicialmente se sugere como uma hipótese é confirmado por diferentes cálculos e observações. 48 Em Werner Heisenberg. os livros didáticos (e os professores cansados) apresentam a descrição dos fenômenos apenas a partir do final do argumento. Mesmo as nossas observações são orientadas por hipóteses prévias. mas tratava-se de uma suposição oculta. a sua argumentação. o que significa que poderiam ser programados para ver de outras maneiras. a solução -. fundamentalmente político. Às vezes. costuma-se elevá-lo à categoria de uma ”teoria”. Da mesma forma. mas sim ”explicite as bases e as hipóteses que orientaram o seu pensamento”. A parte e o todo. muitas vezes. A ciência conseqüente é mais cética ainda do que São Tome: duvida dos próprios olhos. mas sim: ”diga o princípio”. Para o real desenvolvimento do progresso científico. porque sabe que os olhos são ”programados” para ver de tal ou qual maneira. nesse sentido. O princípio de tudo é a hipótese.a resposta. A partir de um grande volume de provas. torna-se um axioma: ”é a teoria que decide o que podemos observar”. alcançando aceitação próxima da universal. e em conseqüência. os alunos apressados tendem a apresentar somente a parte final do seu raciocínio . sem explicitar as suposições básicas. na verdade. 78. sem explicitar as hipóteses que os orientam. por sua vez. é fundamental explicitar todas as suposições que nos orientam. É o hábito dessa dúvida que permite formular as hipóteses (enquanto tal). é isso o que os professores percebem. aliás. Que a luz viaja em linha reta era pressuposto no argumento de Copérnico. embora confusamente. que sugere ao aluno que ele deve acrescentar elementos a partir do que escreveu. explicitando tudo o que ainda permaneça implícito . bem como para o permanente aperfeiçoamento dos nossos argumentos.conclusões. o que enfraquece. a teoria. p. Não é ”diga mais”.esse é o trabalho maior do educador. A frase de Einstein.48 Não vemos. apenas com os nossos olhos . sem as quais sequer conseguimos começar a abrir os olhos. a melhor recomendação não seria ”desenvolva mais”.porque os nossos olhos só podem ver depois que os ”informamos” como e o que ver. que não deixa de ser. Mas. se eleva ao status maior de ”lei”. Nesse caso. sobremaneira.

Não é o lugar nem o momento de fazermos uma história da ciência. provocou exclamações surpreendentemente estúpidas por parte de cientistas renomados. com base nos fatos acessíveis ou provas relevantes”. substituiu a de Newton. frente a frente com o bichinho: este animal não existe. que poderia. Essa maneira de pensar.a ciência não seria mais do que a decifração desses programas. quando deparam com fenômenos que não se encaixam de modo algum nas explicações (nas hipóteses) existentes. implícita ou explicitamente. alguns disseram. porque obscurecem a questão fundamental: todas as proposições gerais da ciência são consideradas hipóteses. . mas eu o vejo. A descoberta do ornitorrinco.50 O termo ”lei” sugere que os objetos estão submetidos a uma decisão arbitrária da natureza. por exemplo. enquanto a contribuição de Einstein. logo. ora.Essa hierarquização da terminologia científica. os termos ”hipótese”. Ao verem um animal que não se encaixava nas classificações estabelecidas. p. mais ou menos provável. ter decidido de outra maneira. parecendo antes misturá-las ironicamente. Albert Jacquard. toda explicação é proposta a título de ensaio e provisoriamente. que aperfeiçoou e. eu não existo. animal australiano. Toda explicação proposta considera-se uma simples hipótese. é designada como ”Teoria da Relatividade Geral e Restrita”. parece claro.49 Jacquard chega a propor deixar o termo ”lei” tão-somente para uso dos juristas (mesmo assim. um programador onisciente. nem sempre é seguida à risca: a descoberta de Newton ainda é conhecida como ”Lei da Gravidade Universal”. 173. entretanto. Obra citada. mas importa lembrarmos que o que conhecemos como ciência é uma construção histórica da 49 50 Irving Copi. dos conceitos adotados para se descrever o real. O perigo mais grave da referência constante a leis é descrever o mundo real como uma acumulação desordenada de fenômenos. Na verdade. as leis científicas são apenas a conseqüência lógica. p. Obra citada. na medida em que supõe. ”teoria” e ”lei” não são muito felizes. cada um deles acompanhado de um programa de funcionamento . quiçá. e não dogmas: ”na ciência. No entanto. Essa maneira de pensar tende a deixar os cientistas em palpos de aranha. Se seguissem a lógica clássica até o fim. necessária. mantendo-os sob suspeição). em parte. 382. precisariam dizer: este animal não existe. a fórmula matemática que sustenta a lei tende a ser percebida como uma decisão cifrada tomada por um tribunal. é antes religiosa do que científica.

para ”ver” além (e aquém). Nesse processo. mas não são suficientes: para explicar certos fenômenos. por definição.51 Levar essa idéia às últimas conseqüências pode redundar em perigosa forma de cientificismo. começou-se a estudar tanto o infinitamente grande. em inevitável decorrência. representando objetos ou conceitos um pouco à maneira como os ideogramas chineses também o fazem. por considerar que os métodos da Matemática podem se estender até abranger a totalidade do conhecimento. Ainda que nem tudo possa ser reduzido a cálculos e números. ”para desmistificar a Matemática. é difícil chegar a um acordo. números e cálculos ampliam significativamente as possibilidades do nosso conhecimento (e. A Matemática nada mais é do que uma linguagem de símbolos. progressivamente. ou seja.modernidade (ou. do que conhecemos como modernidade). É extremamente curioso como a escola transformou a Matemática na disciplina mais difícil do currículo. forjando a ilusão (positivista) de que. do menor esforço e da facilidade. p. Mas essa formalização não passa de uma atividade de escriba que. é bom considerá-la como a invenção de indivíduos preguiçosos. . como o cosmos. é preciso abstrair o que se consegue ver. Jacquard lembra que. como o átomo. quando ela seria. 22. Telescópios e microscópios passam a ocupar o topo da colina. se ajudou a fundar a ciência e o mundo modernos. se tudo pode ser reduzido a uma bela fórmula matemática. da economia e. Vamos transformar os raciocínios em cálculos e obter as conclusões como se fossem resultados aritméticos. tudo pode ser conhecido. a proposta de Leibniz obviamente tinha e tem muita importância. até porque. portanto. 51 Em Carlos Lungarzo. graças à sua experiência. desejosos de resumir pela formalização a escrita de seus raciocínios. O que é lógica. o filósofo e matemático alemão Leibniz propõe transformar todo raciocínio em uma espécie de cálculo. a consciência de nossa ignorância). No século XVII (época das maiores descobertas científicas. a visão especulativa do alto da montanha. intensificouse o procedimento dedutivo. quanto o infinitamente pequeno. Entretanto. fundando o conhecimento subseqüente). o caminho da simplificação. O que importa é não acreditar nos números como se eles fossem a Verdade maiúscula e única. O limite da abstração é o número. Se a gente argumenta na maneira usual.

o resultado não pode ser exato. Não há maiores dificuldades técnicas para se fazer essa divisão. Ainda aqui. necessariamente parcial. mas numa relação. tão-somente. não se pretende que exista uma correspondência completa entre as propriedades da sala 8 e as do número 8. em cada ocorrência. 41. é rigorosamente exato dizer-se que a média aritmética de suas notas é 5. o que nunca é o caso. não mais. Para demonstrar numericamente o caráter representativo e inexato do número.999. se um aluno obtém notas 4 e 6 em duas avaliações independentes. Somando as três partes. Nilson Machado.). como comprimento de cada uma das partes. Obra citada. numa relação de identidade. ”Na verdade.. nem chega a ser definível. Quando os astrônomos ”medem” a distância do Sol à Terra. numa relação de equivalência. A seguir.de média. que é menor do que 1.. pela razão muito simples de que semelhante distância. o número não assume o lugar de grandeza. no máximo.}.333.. Depois. mas não é necessariamente verdadeiro que ele conheça 50% da matéria trabalhada em sala. divida-se matematicamente um metro por três partes iguais: encontramos. de representação.. Quando se numeram as salas de um corredor. ou aproximação. Nem todas as propriedades da grandeza em questão resultam caracterizadas pelo número que lhe é associado.. ou aproximação.. Pode ser que a sala 8 situe-se entre as salas 7 e 9. encontramos o estranho número de 0. Obra citada. média. (ad infinitum. mas apenas a representa. 52 53 Albert Jacquard. 102.. se podem juntar as três partes para se ter de volta a fita original. simplesmente porque nenhuma das duas medições exatas é possível. (ad infinitum.”53 Isto significa que o número não se encontra numa relação unívoca de identidade..encontra o melhor artifício para simplificar o seu trabalho”. mas não se espera que ela seja necessariamente maior que a 7 (ou com o dobro do tamanho da sala 4). . tem sido fonte de um equívoco básico: deixa crer que a realidade pode ser adequada e completamente representada. Existe. modificada segundo a segundo. trata-se. o aspecto ordinal do número. É tão difícil medir exatamente esse percentual quanto medir exatamente a distância entre a Terra e o Sol. apenas se considera. faça-se a seguinte experiência: divida-se uma fita de um metro de comprimento em três partes idênticas. p. Nessa representação. p. 0. com uma boa tesoura e um bom ”olhômetro”.52 Considerada o modelo das ciências mal ditas ”exatas”. Analogamente.

poderíamos dizer que a medida está errada. deixam de considerar as reentrâncias maiores e menores das pedras e da areia. chegaríamos. computadas as menores reentrâncias visíveis a olho nu. e sim uma ciência rigorosa. mas... dez mil metros. e eles mostrarão seus instrumentos de medição . Eles sabem. a tal ponto que. então: Os bons matemáticos sabem. Ao esticarem a fita de dez metros. . Olhando a fita mais de perto (muito de perto). ou. no espaço dos dez metros daquela fita dos geógrafos. mas não deveria perturbar os bons matemáticos. naquele espaço que eles determinaram como medindo ”dez metros”. uma vez que a reconstituição da fita à situação anterior depara com impasses milimétricos. A tesoura mais afiada do mundo cortando a fita mais fina do mundo não consegue fazê-lo em uma linha absolutamente reta. por que ela não consegue exprimir uma divisão materialmente possível? A pergunta é perturbadora. primeiro.. Eles sabem. Para continuar a complicar. que nem mesmo o final da experiência que dividiu materialmente a fita é possível. e ainda sem considerar que o litoral de uma ilha se modifica segundo a segundo. Se usássemos microscópios mais e mais poderosos. (ad infinitum. Então lhes perguntaríamos como o fizeram.Se a Matemática é uma ciência exata. sem outros dados adicionais. com as ondas que vão e vêm. com a maré que sobe e desce. ou medindo 0.999.) metros. provavelmente. se juntarmos os três pedaços sobre uma mesa absolutamente lisa (o que também não existe.por exemplo.. também. ”qual a extensão do litoral da ilha de Paquetá”. imagine-se o número que se pode obter como medida de todo o litoral da ilha de Paquetá: teria uma extensão equivalente a várias vezes a distância (estimada) entre a Terra e o Sol. Imaginemos um grupo de geógrafos fazendo isso. observam-se minúsculas reentrâncias e ziguezagues que farão com que. a não ser como abstração). digamos. poderíamos encontrar. uma fita de dez metros. haveria apenas duas respostas corretas: ”depende do metro”. uma fita de pouco mais de um metro. a um número potencialmente infinito . teremos uma fita não de um metro.logo. igualmente. Qualquer que fosse o número obtido. permitindo-nos não só nos aproximar da realidade (mais não nos é dado) como brincar com paradoxos resultantes das tentativas. podemos tentar medir a extensão do litoral da ilha de Paquetá. Em conseqüência. A formulação de Einstein se afigura emblemática: ”na medida em que as leis matemáticas referem-se à realidade. e chegando a um determinado número. se uma questão de prova perguntasse. que a Matemática não é uma ciência exata. que tudo isso é que torna a disciplina fascinante.

Há uma expressão latina que deveria acompanhar todo problema de Matemática ou Física: ceteris paribus. para que haja possibilidade de solução. garantimos que não é possível se ter P falsa se a for verdadeira. Precisam reduzir as variáveis ao mínimo. 32. ou de outras. 136. vale dizer. imutáveis. ibidem. 54 55 Idem. 186. Em prol da simplicidade. A questão da verdade matemática reveste-se de caráter exclusivamente hipotético: quando afirmamos ”se a. que todos os demais aspectos ”permaneçam” invariáveis. sem nenhuma interferência do trânsito. estabelecendo relações na forma ”se a. pela razão. se o carro se mantivesse em movimento uniforme por mais uma hora. O antropólogo Pascal Boyer alerta: ”as idéias científicas não são. nem deveriam ser fiéis à vida”. elas não se referem à realidade”. das questões em aberto ou impossíveis de responder no seio de problemas caracteristicamente matemáticos”. então P”. um número potencialmente infinito de variáveis. Idem. p. fundamentalmente hipotéticas. estabelecendo. a vida e os seus fenômenos não são. Pode ser traduzida como ”tudo o mais sendo invariável”.elas não são exatas. devem buscar o máximo de simplicidade e economia de meios para serem realmente produtivas. Nesse caso. definitivamente. essa sim muito simples. Obra citada. como veremos um pouco mais adiante. ”é essencial o reconhecimento da importância dos resultados aproximados. mas nada podemos afirmar sobre a veracidade de a ou P isoladamente. descrevem-se os aspectos relevantes do fenômeno. Dizer que um carro ”tem” velocidade de 60 km/h ao passar por determinado ponto significa afirmar que. sempre. uma afirmação condicional relativa a um hipotético movimento uniforme. ibidem. neutralizados.55 A base da Matemática é. toda proposição é apresentada como decorrência da admissão de outra. Entretanto. simples: contêm. de que todo fenômeno é muito mais complexo do que possa sonhar a nossa vã filosofia (ou ciência). p. . então na próxima hora ele percorreria 60 quilômetros. 56 Em John Brockman. As explicações científicas. não podem ser. O conceito de velocidade envolve sempre um ”se a. então P”. o fundamento da lógica do argumento.54 Portanto. não implica levar em conta todos os possíveis aspectos do fenômeno que se procura descrever. arbitrariamente. então (3” (a implica 3). p. ou um argumento. das estimativas.56 Produzir uma teoria. e na medida em que são exatas.

Ora. usando métodos semelhantes. porém. religiosos. apavorante). devo respeitar a vida de um feto . que um óvulo. Porque.. desde as primeiras e adolescentes poluções noturnas.tanto isso é verdade. usando os mesmos e melhores recursos de argumentação.logo.muito mais graves.. que não se lamentam os espermatozóides que se ”perdem” e ”falecem”. coloca a si mesma. a qualidade da estrada. last but not least.ou alguém pode demonstrar o contrário? O mesmo. Essa consciência ”desconsiderante”. que não se lamentam os óvulos que ”morrem” todos os meses. conduzindo-nos a outro absurdo. Por exemplo: como a consciência pode saber o momento em que nasce a consciência? Essa pergunta. o argumento é necessário. mas não suficiente. com a sentença-limite ceteris paribus. os cientistas. todas as questões secundárias e laterais. apesar de conter as condições para que o processo da vida se desenrole. Nesse caso. o sono do motorista. façamos o raciocínio inverso. irrelevante? Nos debates que nos afetam mais de perto.e por que não com o neném que acaba de nascer? . devo respeitar a vida de um ovo que acaba de ser fecundado . Vamos fazer um raciocínio. logo. também não terá consciência . Como resolvê-los? O que considerar variável.. deve acontecer com o embrião resultante das diferenciações celulares que ocorreram naquele ovo .e assim por diante. devo respeitar a sagrada vida de todos os óvulos e de todos os espermatozóides do . geneticistas e. nos diria um psicanalista famoso -.Para resolver o problema mais simples. biólogos. então. seletiva. portanto relevante. Determinar a velocidade de um carro. O mesmo pode ser dito a respeito do espermatozóide . assim como os fenômenos não se deixam descrever completamente a verdade é não-toda. problemas mais graves . depende de a consciência não considerar (mas apenas enquanto se resolve o problema!) o trânsito. respeito a vida de um bebê. lingüistas. justificando-se todos os crimes. vale dizer. discordam entre si. o ovo fecundado. é crucial para o debate sobre o aborto. resultante do encontro dos dois. devo respeitar a vida de um embrião . a polícia rodoviária. válido (no entanto. antropólogos. não tem consciência tanto isso é verdade. por exemplo.. é indispensável. Pressupomos. e o leitor ou leitora deve concordar com isto. e o que considerar invariável.logo. no seu limite. é preciso ”congelar”.logo. que se fazem médicos. Evidentemente.por que não com o feto que sucede ao embrião? . Agora.

não se infere alguma regra moral absoluta. a formulação de todas as hipóteses. Trata-se do princípio de nãocontradição. esperamos.. essa questão. A posição do filósofo Albert Jacquard. para ser absolutamente coerente. tendo refletido. devido à tradição do pensamento ocidental. . é fundada ”no respeito pela jovem mulher que. Dele partem os dois outros princípios que o completam: do terceiro excluído e da identidade. é muito grande . devo respeitar a vida do menor micróbio e da menor célula.mundo .que. em nome do respeito absoluto à vida.pelo futuro neném que ela traz em seu seio”. Como não se pode demonstrar o princípio de não-contradição. Obra citada. deixando-o. Pode-se enunciar assim o princípio de não-contradição: ”não podemos afirmar e negar um enunciado ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto”. A dedução costuma se confundir com a própria lógica. no entanto. Não existe terceira hipótese”. momentaneamente. procurando o princípio que funda a lógica e. Da descrição. ele é sempre igual a ele mesmo”. fundar e sustentar o seu argumento a respeito. morrer de pneumonia. que deriva diretamente da lógica aristotélica. em conseqüência. Coloco esse respeito acima do respeito . Fica claro.logo.. A fábula é de Nahra e Weber. 16. Aristóteles. Aceitemos. filhos de Dona 57 Albert Jacquard. essa interposição. que não pode ser demonstrado.58 Era uma vez três irmãos.o que reforça a necessidade de aperfeiçoarmos o nosso estudo e o nosso argumento. que nos emprestou os argumentos-limite sobre o aborto. decide que o aborto é para ela a solução menos má. O princípio da identidade é bem claro: ”dado um enunciado. que não é nestes ou naqueles termos que se pode colocar o problema do aborto. p. pode-se ilustrá-lo por uma fábula bem interessante. Compete a cada um tomar a sua posição. e em conseqüência não devo tomar antibióticos (antivida!) nem ministrá-los a meu filho. bem como todas as demais que realmente importam. não está resolvida .57 Como se pode depreender. e se chama ”DISCUSSÃO NA FAMÍLIA LOGUS”. O princípio do terceiro excluído se enuncia desse modo: ”dado um enunciado ou ele é verdadeiro ou é falso. Dialéticos e Sofísticos. A ciência limita-se a construir uma descrição da realidade que se pode ver. ceteris paribus.

Pois eu lhe pergunto. Rapaz educado. vivia questionando Seu Logus e desrespeitando as regras familiares. impacientava-se com o comportamento de seus irmãos. mas conhecimento mesmo tinha pouco. é capaz de convencer os outros de que uma vaca tem cinco patas. .Claro! O princípio de não contradição diz que ”é impossível que o mesmo atributo pertença e não pertença ao mesmo tempo e sob a mesma relação ao mesmo sujeito”.disse Aristóteles .Pois eu lhe digo que é possível. achava que sabia tudo e que era mais inteligente que todos. até que um dia resolveu dar um fim a essa situação e chamou seus irmãos para o que ele denominou de ”uma discussão em família”. Seu Logus costumava queixar-se..Sophia e de Seu Logus. se facilitar. também. dizendo: ”Desrespeitando-me desse jeito. Rebelde com causa. Dialéticos. . E lhe digo. Sofísticos era o ”espertinho” da família.Dialéticos . que o princípio de não 58 Cynara Nahra e Ivan Weber. quando faziam aquelas reflexões privadas que todo casal faz sobre sua prole. pp. Pedante como só ele. Dialéticos era um sonhador e vivia ”no mundo da lua”. sendo a paz familiar apenas abalada pelas constantes disputas entre Aristóteles. que tinham sérias e profundas divergências intelectuais e existenciais. costumavam dizer: ”Esse menino. Suportava tudo sem nada dizer. como geralmente viviam todas as famílias de classe média do mundo (naquele tempo não existia ainda crise econômica). Dialéticos e Sofísticos. inteligente e vivo. Dona Sophia e Seu Logus. como costumava dizer Dona Sophia..Exatamente. que viviam a provocá-lo intelectualmente.você sabe o que é o princípio de não contradição? . Isto não é nada bom”. esse menino não vai aprender nada e nunca vai ser alguém na vida”. 53-7. Aristóteles era o orgulho da família. . Poderíamos também dizer mais informalmente que o princípio de não contradição enuncia que ”nada pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto”. A família vivia muito feliz. . Através da lógica. Tinha uma boa lábia. se você acha que é possível desrespeitar esse princípio.

provavelmente. Aristóteles! Quer dizer que você. estar e não estar nos banhando em um rio. Você está querendo me dizer que as coisas podem. Obviamente o que aconteceu nesse caso é que. foi caçar ratos. Dialéticos! Seu caso é pior do que eu pensava. . Dialéticos. Por exemplo. As águas que nos banham hoje não serão mais as mesmas que nos banharão amanhã. com águas que amanhã não serão mais as mesmas. estaria dizendo que viu e não viu um determinado acontecimento em um mesmo instante. Nada impede. Nada impede. acha que as contradições podem existir e que o mundo é movido a contradições? . também. que alguém diga: ”eu vi o Gato Frajola sentado na cadeira às 19 horas” e ”eu não vi o Gato Frajola sentado na cadeira às 19 horas e 2 minutos”. Aristóteles. mas acho que você está compreendendo mal o princípio de não contradição. as coisas estão sempre em movimento. Em tempos diferentes. e João. Nós nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio. Dialéticos. Afirmar isto seria contraditório. pare de querer forjar consensos e não coloque palavras na minha boca! Contradições jamais. entretanto. ao passar o tempo. quem sabe. . ser e não ser? .Ah não. longe da cadeira. mano. podemos ter diferentes estados de coisas no mundo. Nada impede.Sim. em um mesmo instante. . O que o princípio diz é que as coisas não podem ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. eu digo. o que é evidentemente impossível. . o que mostra que aquilo que é hoje pode não ser mais amanhã. Veja bem. jamais podem existir. provavelmente. Isto significa que não podemos. que hoje estejamos nos banhando em um determinado rio. o Gato Frajola saiu da cadeira e foi para outro lugar.Pelo amor de Deus.contradição deve ser dialeticamente superado. Se alguém dissesse isto. ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. entretanto. porque amanhã as águas de hoje já terão passado. estava próximo à cadeira e por isso viu o gato. Pedro e João estavam sob diferentes relações quanto ao objeto (no caso. Nesse caso. o gato) em questão.Explique isto melhor. estava na rua. que João diga: ”eu vi o Gato Frajola sentado na cadeira às 19 horas”. Jamais alguma coisa poderá ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. como eu. Pedro.É realmente profundo. e por isso não viu o gato. um mesmo indivíduo jamais poderá dizer: ”eu vi e não vi o Gato Frajola sentado na cadeira às 19 horas”. e Pedro diga: ”eu não vi o Gato Frajola sentado na cadeira às 19 horas”.

.Veja bem. Quando desobedece ao princípio de não contradição.Digo-lhe que eu gosto de bananas.Como assim? . sobre o local onde o gato está e sobre o que você pensa sobre Mr. não informa nada a respeito do mundo. . enunciando nada sobre seu gosto por bananas. Ele pede a Aristóteles uma demonstração do princípio de não contradição e diz que sem essa demonstração ele não pode dar-se por convencido da existência desse princípio. É sempre assim. Peço-lhe. Sofísticos. mas lhe darei uma prova que tem a mesma força de uma demonstração. . . eu posso desrespeitar o princípio de não contradição. . Se o desrespeitasse.Você não pode me informar que gosta de bananas. Sofísticos. regrediremos ao infinito e não demonstraremos nada. Não podemos demonstrar aquilo que é o princípio de tudo. ele é a base de onde todas as outras demonstrações procedem.Quando diz isto. não me dou por convencido e simplesmente não o aceito. o irmão Sofísticos se intromete na discussão. Você ainda não o demonstrou. Sofísticos. Aristóteles. Hyde. então. Se tentarmos tudo demonstrar. eu nada posso saber sobre seus gostos. Hyde foi e não foi um monstro”. Exatamente por ser um princípio. e não estaria. Chamarei essa prova de ”refutação” ou ”demonstração indireta”. desrespeitando o princípio de não contradição. .Nesse exato instante. que você simplesmente me diga qualquer coisa. .Não posso lhe dar uma demonstração. Sofísticos! É impossível demonstrar o princípio de não contradição. você estaria dizendo: ”Eu gosto e não gosto de bananas”. . eu posso dizer: ”eu gosto e não gosto de bananas”. Se você me diz coisas contraditórias como ”Eu gosto e não gosto de Maria” ou ”O gato está e não está em cima da cadeira” ou ainda ”Mr. você está pedindo que eu demonstre o princípio de . você já está respeitando o princípio de não contradição. você simplesmente não enuncia nada.E daí? O fato é que eu posso dizer estas coisas.Ora.Pois se não podemos demonstrar o princípio de não contradição. Sofísticos. portanto.

por exemplo. certo? Mas se você. Quando diz: ”eu quero uma demonstração do princípio de não contradição”. todo aquele que diz ser possível desrespeitar esse princípio. é condenar-se a passar a vida sem nada afirmar e sem nunca julgar. nada pode ser comunicado. por sua vez.59 Aquele que diz ”eu não existo” igualmente incorre em uma autocontradição pois se não existisse de fato. porque ele é a condição de toda e qualquer demonstração. refutar. entretanto. menos ainda de que vivam no ”mundo da lua”. se incorre em uma autocontradição. Ao se dizer ”Pégaso é indizível”. então. satisfeitos com aquele que seria seu mais ilustre filho.Se você desrespeita o princípio de não contradição. Da mesma forma. porque você estaria me pedindo para dar e não dar uma demonstração do princípio de não contradição. para informar isto. usualmente representados como pedantes de muita lábia e pouco conhecimento. então esse diálogo simplesmente não estaria sendo travado. não pode enunciar nada. a nunca usar a razão. com clareza. A despeito destas dúvidas. desrespeita esse princípio. Dona Sofia e seu Logus que a tudo assistiam deram um sorriso largo. o predomínio do pensamento aristotélico na história do Ocidente e. p. O dizível e o indizível. a força desse princípio! Ele não pode ser diretamente demonstrado. Se desrespeitamos o princípio. não é mesmo? . Podemos. mostrando que desrespeitá-lo é condenar-se ao silêncio eterno. Se para enunciar qualquer coisa você não pode desrespeitá-lo. guardamos sérias dúvidas sobre o caráter dos sofistas.não contradição. você não está dizendo: ”eu quero e não quero uma demonstração do princípio”. . 83. você precisa respeitar o princípio. Não estamos inteiramente convencidos de que os dialéticos sejam exatamente sonhadores. nada no mundo pode ser informado. como eu fiz agora. uma vez que se está dizendo algo mais: está se dizendo algo sobre Pégaso. como poderia falar para negar a sua existência? Uma série 59 Mário Guerreiro.Como assim? . nem enunciar que você deseja uma demonstração desse princípio. muita discussão (que rende um debate interessante em turmas motivadas). Vejam. a partir dele. então o princípio tem validade universal. a pequena fábula mostra. A fábula sobre a discussão na família Logus merece. Você está me informando que quer essa demonstração e. meus irmãos. de fato. a importância do princípio de não-contradição. nada pode ser dito.

50. quando amadurece. a derrota do primeiro e a vitória do segundo. Juízos de valor podem ser obviamente contrários.60 Fulano pode afirmar que nenhuma coisa pode ser vermelha e não-vermelha. diferentes pontos de vista. nesse caso poderá replicar que Deus não existe ”concretamente”. de modo a violar a formulação mais forte formulada por Fulano. . sua existência teria tão-somente o estatuto lingüístico-imaginário. Logo. para reforçar que o princípio de nãocontradição é inestimável em enunciados factuais (ou atos de fala constativos). sendo que um não pode ”ver” o que e como o outro vê. entretanto. mas problemático em juízos de valor. O ateu dirá ”Deus não existe”. defendendo um determinado e irredutível (a outrem) interesse. 60 Idem. ou bem Sicrano e Fulano simplesmente nada têm a discutir quando um considera ruim aquilo que o outro considera bom por exemplo. e o religioso (ou o lógico) poderá rebater. de tal modo que a e não-a não possam ser verdadeiros ao mesmo tempo e sob o mesmo ponto de vista. essa discussão vai longe. p. ibidem. se tem um dilema: ou bem Fulano e Sicrano discutem. Fulano acrescenta duas cláusulas restritivas: ”nenhuma coisa pode ser vermelha e não-vermelha ao longo da mesma extensão e ao mesmo tempo”. Sicrano discorda: o mesmo tomate verde fica vermelho.enorme de equívocos e falácias ocorrem porque se desrespeita o princípio de nãocontradição. Se quisermos. sempre se pode retrucar: ”se não existe. Mas é válido aplicar a mesma regra aos juízos de valor? Não. enunciados factuais têm de comportar a possibilidade de contradição no sentido mais forte. mas não podem ser contraditórios. argumentando que se Deus não existisse. Explicitados os limites. Sicrano não conseguirá encontrar um contraexemplo. a suspendemos. Diante do argumento. Quando se escuta a expressão ”isso não existe!”. jurídica ou política.! tanto quanto os unicórnios e as quimeras. pela razão muito simples de que eles expressam sempre um determinado e irrepetível ponto de vista. Na melhor (ou pior) das hipóteses. ao longo da mesma extensão. ao analisar uma questão de natureza ética. sequer se poderia fazer uma frase em que Deus ocupasse justamente o lugar de sujeito. em especial nos argumentos que definem e delimitam as coisas de que se falam. O ateu mais calmo. Momentaneamente. como você pode falar disso?”.

61 Os símbolos especiais. A estreita relação entre a Lógica Simbólica e a Matemática se beneficia dos procedimentos de simplificação. 225. A questão se complica. como forçando o aluno a abdicar do seu principal instrumento de aprendizagem: a comparação com o que já sabe. uma linguagem elaborada e adequada faz parte da essência do pensamento: ”a vida do pensamento e da ciência é a vida inerente aos símbolos”. Qualquer menino da escola fundamental pode multiplicar sem dificuldade 113 por 9 (ou ao menos deveria poder fazê-lo). O ensino de Matemática é na verdade o ensino de uma linguagem: ou se beneficia da comparação direta e permanente com a língua materna (como bem postula o professor Nilson Machado). A elaboração dos argumentos. que torna dificílimo (e traumatizante) o que foi criado para facilitar o pensamento. implica escolha criteriosa dos termos que discriminem as suas partes. pense apenas ”em inglês”. o que se faz necessário? Argumentos cuidadosamente elaborados. 61 Em Irving Copi. Ocorre com o ensino de Matemática o mesmo que acontece com o ensino de uma língua estrangeira: tenta-se ensinar uma e outra disciplina como se aprende a língua materna. e. com clareza. desconsiderando o que o aluno já sabe.Isto parece relativamente fácil de demonstrar. sugerindo que apenas uns poucos escolhidos pela divindade entendem aquela cabala misteriosa. Por que se substituíram os números romanos pela notação árabe? Porque estes são mais fáceis de compreender do que aqueles. está não só desejando o impossível. por sua vez. na ciência como no cotidiano. Quando o professor de Inglês exige que o aluno. Peirce considera um erro afirmar que uma boa linguagem é importante para o bom pensar. dizendo a todo instante o que exatamente a Matemática simplifica. enunciados factuais de juízos de valor. e a dificuldade aumenta se considerarmos números maiores. ou persiste no esforço insano de esmagar o aluno com signos apresentados da maneira mais hermética e esotérica possível. principalmente. pela facilidade de cálculo. . são fundamentais para manipular enunciados e argumentos. Da mesma maneira. não pense ”em português”. Obra citada. isto é. quando tratamos de tomates e de fulanos. ao mesmo tempo que se prejudica com os equívocos do ensino de Matemática. p. na hora em que não se consegue distinguir. a adoção de uma notação lógica especial facilita sobremaneira a derivação de inferências e a avaliação de argumentos ou deveria facilitar. desde os primeiros contatos com o novo idioma. Mas multiplicar CXIII por IX é uma tarefa bem mais difícil. para o lógico. Então. analogamente. na verdade.

Muitas vezes. na guerra ”fria” que se sucedeu à Segunda Grande Guerra). e faz predominar nas suas aulas o ”ensino” das regras gramaticais. o professor de língua materna sente inveja desse poder do professor de Matemática. . não mostramos interesse emocional sobre as identidades ou qualidades dos senhores (ou senhoras) a que os símbolos se referem. quando deparamos com questões políticas. destinado a desensinar para manter e reforçar o micropoder do professor: quanto menos o aluno sabe. houver palavras que despertem emoções diferentes mas poderosas em leitores diferentes. e tornam-se necessários cuidado e prática para refletirmos com a generalidade que usamos diante de um problema algébrico. numa frase que exprima opinião política. Obra citada. essa espécie de interferência emocional mostra-se mais grave. P o nosso odiado rival e )) o professor que apresentou o maldito problema. porém. qualidade necessária quer aos enunciados científicos quer às avaliações políticas. se pensamos que a somos nós mesmos. Diz que. 45. os nossos cálculos sofrem perigosa interferência emocional: fazemos todo o possível para a ser o primeiro e (j) o último. procurando encontrar a solução do caso com correção impessoal. talvez se trate de um deliberado procedimento autoritário. e assim por diante”. na pior. ( ). ou. P. A simplicidade é precondição da generalidade. 62 Bertrand Russell. na melhor das hipóteses . consegue efeito muito semelhante ao das aulas do colega: tédio. P a Alemanha (recém-derrotada) e 0 a Rússia (o inimigo do Ocidente. alemão ou russo. subindo uma determinada montanha. só conseguiremos formular hipóteses que dependam estreitamente do fato de se ser inglês.62 Ele dá um exemplo do pós-guerra. O fundamento destas disciplinas deve ser a simplicidade. de um esforço completamente insano. a. enquanto nos lembrarmos do que essas letras gregas significam.Talvez não se trate. supondo que a seja a Inglaterra (seu país). Mas. procuremos substituí-las por símbolos. ao resolvermos problemas relativos a A e J. mais o docente reforça a sua própria posição ”superior” (e indecente). quanto mais o aluno sabe que não sabe.medo e ignorância congelada. Na álgebra elementar. Enfatizando as ”orações subordinadas substantivas objetivas indiretas reduzidas de gerúndio”. p. o que deveria ser logicamente irrelevante. Bertrand Russell chega a recomendar o seguinte exercício: ”quando. Ora.

sem que necessariamente se precise enunciá-lo. podem ser encontrados em diversos manuais de Lógica (observar. 85. Nesse sentido. com a aplicação dos princípios da lógica formal à argumentação. o caráter. De forma equivalente. Obra citada. não exatamente da afirmação. ao final. da Matemática. A arte. Vamos nos preocupar. mas dos seus pressupostos.. a Lógica usa uma série de símbolos e operadores lógicos para simplificar e demarcar os seus argumentos. na pintura. Se em um interrogatório se pergunta. propriamente ético. . A generalidade. mas de fato não é possível explicitar todos os pressupostos de cada sentença. do argumento dedutivo. Não à toa os manuais de Matemática principiam os seus problemas com ”suponhamos que. É preciso supor várias idéias para se começar a pensar e a argumentar. na nossa estante). da Lógica e. das suas emoções e idiossincrasias. para melhor se convencerem um ao outro (ou o outro ao um). na literatura. na escultura. por exemplo. ”onde você gastou o dinheiro que roubou?”. fornecem as condições de possibilidade do argumento dedutivo. um dos conceitos básicos para orientar toda argumentação é o conceito de pressuposição. busca a mesma economia de meios para conquistar um poder de representação maior. 63 Cynara Nahra. Aquele que argumenta deve ostentar uma postura semelhante à do médico. Por definição. é uma suposição que se põe como condição prévia ao discurso. que tenta salvar vidas incondicionalmente. antes.”. está pressuposta uma pergunta anterior .”foi você que roubou o dinheiro?” . em uma discussão. É importante explicitar o máximo possível todas as premissas do argumento. aquele que argumenta deve buscar princípios suficientemente gerais que orientem o seu raciocínio. No entanto. p. É possível discordar de determinada afirmação explicitando a sua pressuposição e inferindo o absurdo. na dança. a notação abstrata. desvinculando-o.e sua resposta afirmativa. os feitos ou malfeitos do seu paciente. a economia de meios. Entretanto.63 É irrelevante se a pessoa de que cuida é herói ou monstro. não lhe interessa a personalidade. na música. ou seja. o máximo possível (porque a neutralidade absoluta é humanamente impossível). P e t .. não fazem parte do escopo deste livro os diversos operadores lógicos bem como as tabelasverdade. Assim como a.Esse é o valor. um pressuposto é pré-suposto. extensivamente. cabe aos interlocutores justamente discutirem as pressuposições um do outro.

65 A consciência do signo implica. sobremaneira. são eminentemente termos relativos. então P. a verdade não pertence a Fulano. 235. poderíamos esquematizar assim: 64 65 Irving Copi. . Não afirma que seu antecedente seja verdadeiro. — . conclusão. mas unicamente que. são obras de entretenimento. enunciado. os enunciados dedutivos são eminentemente condicionais: se isto. premissa. logo. ou p. Obra citada. p. como pressuposição. no x . No segundo caso. a consciência do caráter relacional. Z). r4. ou conceitos. a ordem dos termos no argumento varia enormemente. Deve-se prestar atenção. por exemplo.64 com esses termos. No primeiro caso. No cotidiano. então aquilo. propriamente. —. nos discursos. nem farão. os danos que os de cavalaria têm feito. i. hipotéticos ou implicativos: se a. . ”Um enunciado condicional afirma que seu antecedente implica seu conseqüente. enunciados condicionais. Observe-se a passagem. extraída do romance Dom Quixote: ”estes livros não merecem ser queimados como todos os demais. isto é. declaração. mas apenas que o conseqüente é verdadeiro se o antecedente o for”. Nela. móvel. hipótese. dinâmico. sem prejuízo de terceiros”. Tampouco afirma que o conseqüente é verdadeiro. ibidem. se seu antecedente for verdadeiro. das idéias que o argumento expressa (seria mais preciso dizer: das idéias que o argumento movimenta). explicitando inclusive algumas das suas pressuposições. o conseqüente se apresentar antes do antecedente. Chamam-se. 23. T. questionamos Z): perguntamos sobre a validade da relação que se estabeleceu. Há duas perspectivas pelas quais se pode avaliar a qualidade de um argumento: pela sua verdade ou pela sua validade. é muito comum. vamos construindo a teoria da argumentação. proposição. Representa-se também desse modo: a Z) P. à relação entre eles. Se quisermos colocar o argumento na forma lógica padrão. A verdade não se encontra em a. ou Sicrano (tampouco a Beltrano). importa perceber que termos. Idem. a verdade lógica reside no movimento e nas relações: em z . nas redações. indicada pelo símbolo de implicação (D): ela é mais importante do que a verdade ou a falsidade dos termos isoladamente. p. portanto. porque não fazem. então seu conseqüente também será verdadeiro.Em decorrência. questionamos a e P: perguntamos sobre a verdade dos termos.

fazer amor. para planejar o próprio argumento antes da sua redação final (conferir o capítulo anterior). Irving Copi. verificando previamente a força. p 38.. * Estes livros não causam prejuízo a terceiros. Entre as premissas e a conclusão pode-se interpor um traço contínuo.. ou a força. 103. porque há certamente partes desses argumentos verdadeiras (todo mundo tem razão . propriedades de validade ou invalidade podem pertencer a argumentos dedutivos. * Estes livros são obras de entretenimento.66 Aprender a colocar os argumentos na forma lógica padrão é importante por dois bons motivos: primeiro. fazer amigos.67 Estas restrições são fundamentais. ou a fraqueza.alguma. Importa atentar para o fato de que verdade ou falsidade podem ser atributos das premissas e das proposições iniciais. podemos verificar os seus valores de verdade e as suas condições de validade. que representa o indicador de conclusão: ”então.. Somente a partir da explicitação e esquematização do argumento. das suas premissas. investigando a fraqueza. argumentar. Na verdade. Costumamos refutar argumentos alheios in totum. e 66 67 Cynara Nahra. o que não só enfraquece a nossa refutação. depois esta. p. para permitir-nos pensar. das suas premissas. Diz-se que um argumento se encontra na ”forma lógica padrão” quando as premissas e a conclusão estão ordenadas: primeiro aquelas. Obra citada. logo”. como nos faz perder a oportunidade ímpar de aprendermos alguma coisa com perspectivas diferentes da nossa (ainda que calçadas em premissas possivelmente falsas). salvo melhor juízo. mas nunca dos argumentos. . convencionam-se algumas coisas como verdades. * Estes livros não fazem os danos que os de cavalaria têm feito. segundo. Do mesmo modo.. conviver.*Todo livro que prejudique as pessoas merece ser queimado. fazer ciência. * Estes livros não merecem ser queimados. Obra citada.). para combater melhor o argumento de outrem. Estabelecer a verdade de quaisquer premissas é sem dúvida complicado. mas nunca a proposições.

no entanto. (4) argumentos inválidos com premissas falsas e conclusão verdadeira. Isto acontece porque as regras de validade são estabelecidas conscientemente por nós. O que importa saber? Que há: (1) argumentos válidos e verdadeiros. 69. ”Considerando que todas as baleias são mamíferos e que todos os mamíferos têm pulmões. O que é então a verdade? Uma multiplicidade incessante de metáforas. uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente elevadas. deduz-se que todas as baleias têm pulmões” é um argumento do tipo 1. aí sim. enquanto os critérios que separam a verdade da falsidade se encontram diluídos e espalhados na ”natureza” e na ”realidade”. metáforas que foram usadas e que perderam a sua força sensível. não há melhor atalho do que estudarmos as condições de validade dos argumentos. são válidos. Estas convenções são absolutamente necessárias. Devemos. (3) argumentos com premissas e conclusão verdadeiras que. de metonímias. por estranho que pareça à primeira vista. Mas.68 Estabelecer a validade de um argumento. p. para que a desconfiança não se transforme num ceticismo estéril. no entanto. parecem a um povo firmes. Isto não significa que devemos abdicar completamente de discutir a verdade das premissas de um argumento . mas volta e meia um filósofo aparece para balançar as nossas verdades. todos continuaríamos questionando a verdade disto e daquilo. moedas nas quais se apagou a impressão e que desde agora não são mais consideradas como moedas de valor. transpostas. em síntese. improdutivo.assim por diante. guardando sempre o primado da dúvida. inclusive e principalmente por nós mesmos. mesmo se disséssemos tal coisa. .até porque. Crepúsculo dos ídolos. regulares e constrangedoras: as verdades são ilusões cuja origem está esquecida. desconfiar das verdades estabelecidas. é bem mais simples. não são válidos. é claro. e que. ”Considerando que todas as aranhas têm seis pernas e que todos os seres de seis 68 Friedrich Nietzsche. por outro lado. ornamentadas. (2) argumentos com premissas e conclusão falsas que. mas como metal. de antropomorfismos. após um longo uso. de tal modo que não temos acesso direto a eles. ou o contrário: com premissas verdadeiras e conclusão falsa.

ainda que as duas premissas sejam falsas (ou melhor. porém. Definimos um argumento como inválido quando a sua conclusão não segue necessariamente das premissas. portanto. ora. ”Se nós possuíssemos todo o ouro do Banco Central. sendo verdadeiras as premissas. ele mostra. qualquer tipo de apoio ao político em questão. Então. seria muito rico. é possível que. vocês devem votar nos candidatos do meu partido. diz apenas que. Para respaldar sua tese. com premissas verdadeiras e conclusão falsa. o que não significa. Nada impede. como certamente aqueles mestres teriam feito: deve-se votar no partido mais organizado.pernas têm asas. Quando a lógica diz que o argumento X é válido. Nesse caso. inválido. o meu partido é mais organizado. então. diferentes professores de Lógica que. não somos ricos” já é um argumento do tipo 3. necessariamente. porém. válido. ou naquele que apresenta as melhores propostas e as melhores condições de implantá-los. portanto. Se considerarmos que um mês tenha 365 dias e que um ano tenha 31 dias. No argumento válido. se as suas premissas são verdadeiras. um mês abrangerá um período de tempo maior do que um ano. Definimos um argumento como válido quando a sua conclusão segue necessariamente das premissas. necessariamente. como não possuímos todo o ouro do Banco Central. que se questione exatamente a veracidade das premissas. como não possui todo esse ouro. disseram que o seu argumento era válido. Digamos que um político emita o seguinte juízo. ele não é rico” é do tipo 4. devemos votar nele. e um destes candidatos sou eu mesmo. confrontados com o seu argumento. O argumento é válido. é impossível que. talvez nem o principal? Ainda: supondo verdadeiro que se deva votar no partido . deduz-se que todas as aranhas têm asas” é um argumento do tipo 2: com premissas e conclusão falsas. das quais a organização interna é apenas um dos aspectos. entretanto. na sua campanha eleitoral: se um partido é mais organizado. ainda que as duas premissas estabeleçam convenções opostas àquelas a que estamos habituados). Em contrapartida. Os professores de Lógica tinham de afirmar que o argumento era válido. argumentos válidos são argumentos cínicos? Não. a conclusão forçosamente o será. mas. acresce-se à validade do argumento uma dose desagradável de malandragem. logo. o argumento ”se Bill Gates possuísse todo o ouro do Forte Knox. No argumento inválido. seja falsa a sua conclusão. mesmo sendo verdadeiras as premissas. seríamos muito ricos. com premissas e conclusão verdadeiras (podemos garantir). no programa eleitoral da televisão. no entanto. seja falsa a sua conclusão.

Também parece razoável que uma hipótese nova seja compatível com as demais hipóteses existentes e bem estabelecidas. ou até mesmo permita-nos fazer previsões a partir dos fenômenos explicados. impedindo quer que se comprovasse. feitas por seus pares e pela imprensa. O fundamento destas e daqueles é a hipótese básica. Há quem faça campanha pelo voto nulo. explicitamente. a possibilidade de clonagem de seres vivos e complexos. em decorrência. ou o conjunto de hipóteses básicas. Os argumentos transformam-se. mas não divulgou suficiente e extensivamente o seu experimento. © compatibilidade com hipóteses prévias bem estabelecidas. Mas queremos chamar a sua atenção para os dois últimos critérios. Seus critérios são: d relevância. porque eu creio Nele” pode ser uma bela afirmação de fé. por exemplo. e que não sejam diretamente modificadas pela nova hipótese. ou que se deva votar em Fulano ou Beltrano. Podemos recorrer a eles para estudar os nossos argumentos e dos demais. Irving Copi define alguns critérios. . como. Todo argumento deve poder ser refutado. como vimos. no corpo do argumento. por outros cientistas em outros laboratórios. o leitor deve aceitar com facilidade que a hipótese em questão explique os fenômenos de que trata. democrático) ao argumento. um cientista disse ter clonado uma ovelha (chamou-a Dolly). também. para se julgar o valor e a aceitabilidade das hipóteses. como há quem faça campanha contra o voto obrigatório . quer que se refutasse o seu experimento.mais organizado.69 Parece óbvio (mas não custa enfatizar) que a hipótese deve ser relevante para o fato que pretende explicar. ”Deus existe. a pressuposição de que se deva votar. e os meios para a refutação devem estar contidos. mas 69 Irving Copi. (D poder preditor ou explicativo. quais são as evidências que garantem que o partido do Fulaninho seja de fato o mais organizado? E ainda se podem questionar algumas pressuposições anteriores que estão implícitas. Sofreu. habituais nos procedimentos científicos. em teorias. isto é. (D simplicidade.com bons argumentos. o fato deve ser deduzível da hipótese proposta. p. Recentemente. 386. Da mesma forma. © possibilidade de submissão a teste. Obra citada. É o que empresta todo o caráter dialógico (poderíamos dizer. uma série de censuras gravíssimas.

José Ferrater Mora. devem ser simples? Simplesmente porque o pensamento e o discurso representam esforços. O critério da simplicidade. Sócrates 70 71 Pascal Ide. portanto de produzir (no sentido construtivo do termo) mais conhecimento. Entretanto. 105. não sobre singulares que são contingentes”. é uma estrutura argumentativa que junta a com (3 através de Q. . Se tentássemos fazer a etimologia dessa palavra. sendo capaz de formular conseqüências e previsões para diante e sendo passível de submissão a teste. 643. sendo compatível com hipóteses prévias. que funda a lógica e o raciocínio. considera que o raciocínio dedutivo parte do geral para o particular. seja também a mais simples. Obra citada. Se nada é simples. Pela ênfase da lógica grega no argumento dedutivo. capaz de convencer mais gente. um argumento. que representa o máximo de simplicidade a que pode ser reduzido um argumento dedutivo. simplesmente. por sua vez. o silogismo se pratica antes de tudo sobre matéria universal. das pessoas e das coisas. baseados na estrutura condicional ”se — então”. O silogismo. no verbete apropriado.71 ao defender. já podemos dar um nome à forma lógica padrão. a forma nobre do raciocínio chama-se ”silogismo”. ou seja: mais genérica. seríamos tentados a enxergar sob ela a expressão ”se-é-lógico”. como uma teoria. em todas as cátedras. mas sem ele não há ciência ou argumentação. através de um termo médio. Em todos os tempos. isto é. por exemplo. mas sem consultar o dicionário apropriado. enquanto o silogismo partiria do geral para o geral mesmo: ”com efeito. nem que Deus não exista. sendo relevante. de simplificar o que se observa. No entanto. logo. porque o enunciado não dá condições de refutabilidade ou de testabilidade ao interlocutor. p. costuma-se subsumir o silogismo à dedução. Dicionário de filosofia. a melhor explicação é aquela que. Desde Aristóteles. se consultarmos o dicionário adequado. pode gerar algum estranhamento ao leitor preocupado com a complexidade do mundo.não é um argumento. Nesse momento. O critério exclusivo da simplicidade não se sustenta. portanto. ainda que no limite impossíveis. p.70 Com ele concorda Ferrater Mora. veremos que a palavra vem de um termo grego que significa ”juntar os feixes de feno”. não se pode provar nem que Deus exista. Pascal Ide. Sócrates é homem. em todos os tribunais. ora. há controvérsias. que o célebre silogismo ”todos os homens são mortais.

extremamente úteis ao homem.atribuindo uma onda a todo corpúsculo. grande parte das coisas que não existem). o silogismo nos é apresentado através do ”exemplo clássico de Aristóteles”. relacionando duas premissas universais que jamais se havia pensado em aproximar até então. uma injustiça histórica (Aristóteles jamais apresentou esse exemplo). quando inventou a mecânica ondulatória. aliás. tais livros não poderiam existir. Em boa parte dos manuais de lógica. se o unicórnio não existisse. porque contém um termo singular. . Só que isso é. um erro lógico. segundo. E atualmente é indispensável para livros de lógica e teoria do conhecimento. apropriadamente moído. com a ajuda de um animal que não existe (mas que. é bastante poderoso. No romantismo e pós-romantismo foi amplamente utilizado como tema de poesias (embora a palavra ”unicórnio” não tenha muitas rimas nas línguas latinas). Embora não sejam. como remédio contra todos os venenos. aquele que conclui pela mortalidade de Sócrates. são. tomemos as seguintes sentenças: 1. A maçã é verde. Na Antigüidade o seu chifre servia. se o silogismo não se pratica sobre singulares contingentes. publicado no jornal Folha de S. aproximando ”onda” e ”corpúsculo” .é mortal” na verdade não o é. Na Idade Média o unicórnio servia como atributo da virgindade. portanto tinha utilidade pública incontestável. um tanto ou quanto inútil gastar três frases para emitir o óbvio ululante. primeiro. Paulo de 24 de março de 1972. O falso silogismo da mortalidade de Sócrates seria na verdade uma caricatura do silogismo. a rigor. Parece. A sua utilidade varia com o tempo. entretanto. Para prová-lo. Com efeito. o silogismo é a forma do raciocínio que permite o discurso científico. num texto rigorosamente lógico e logicamente engraçado. como a de Louis de Broglie. Para ambos. e. Assim se teriam realizado as grandes invenções. como. mas sobre universais. por sua vez. O filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser. e nem. caricaturou. essa caricatura do silogismo. no entanto. apesar disso. fazendo dessa aproximação fonte de nova compreensão. responsável por certo desprezo dos alunos pela lógica. animais domésticos. se existisse. de fato.

Não fosse o unicórnio. também. Pois isto é fácil dizer-se. felizmente. ao dizermos tais sentenças. A primeira sentença pode ou não ser verdadeira. A sentença ”a liberdade é verde” não tem sentido. Deus é verde. o presente rei da França e o unicórnio. não existem. Não se pode dizer que o presente rei da França não existe. Isto seria uma pena. sem dizer-se. e fácil verificar-se. a liberdade. Seria fácil se pudéssemos dizer que tais sentenças não têm sentido. Não teriam sentido. e a sentença era então provavelmente falsa. 4. 3. 6. porque os seus sujeitos. já que. porque a sua presença ou ausência são nitidamente constatáveis. são ridículas e divertidas.2. e o unicórnio é verde. Mas. e os livros de lógica e teoria de conhecimento não teriam sentido. e Sócrates é seu fiel companheiro. Assim: Sócrates é mortal. Por exemplo: no século XVII existia um rei da França que estava presente. Ambas têm sentido. a saber. embora a liberdade exista. 5. Portanto podemos dizer claramente porque a sentença ”o unicórnio é verde” não tem sentido. O único caso nítido entre os exemplos fornecidos. especialmente para professores de lógica e teoria do conhecimento. porque não poderiam exemplificar o que quer dizer: ”não ter sentido”. O sangue é verde. As demais sentenças não têm sentido. há unicórnio. A liberdade é verde. Coisa impossível. Mas não podemos dizê-lo. quando se está falando. e tinha portanto sentido. Não se pode dizer que a liberdade não existe. Viva a cultura. O presente rei da França é verde. todos estão de acordo que não existe. Deus. . A segunda é falsa. Por não terem sentido tais sentenças. Não se pode dizer que Deus não existe. Mas. quanto ao unicórnio. O unicórnio é verde. porque seria primeiro necessário definir o termo ”Deus”. estamos segurando a risada. Difícil é dizer por que tais sentenças não têm sentido.

permitindo a articulação lógica. contendo. No momento. o termo médio. . o termo sujeito (a) da conclusão.p ORA. Nesse sentido. Os manuais de lógica discriminam os silogismos em diferentes formas válidas. encontra-se no sujeito da premissa maior e no predicado da premissa menor. merece debate e diferentes explorações. vai estabelecer a ligação lógica entre a e 0. todos os sabões são substâncias solúveis em água. na medida em que exibe um esquema de relação entre premissas. Logo. queremos chamar a atenção para o silogismo como um recurso nobre do raciocínio. seria o seguinte: TODO O . Como se vê. então. seria importante trabalhar e exercitar essas diferentes formas. O nosso esquema-padrão de um silogismo válido. como os termos da 72 Irving Copi. um exemplo de silogismo válido seria: Todos os SAIS DE SÓDIO são substâncias solúveis em água.P A primeira sentença do argumento é a premissa maior. a partir da hipótese inicial. A segunda sentença do argumento é a premissa menor. deve obedecer ao esquema-padrão. A conclusão. p. as variantes do silogismo em um esquema-padrão. Nas duas sentenças. entre parênteses. Obra citada. independentemente da verdade ou falsidade das suas premissas. capaz de fazer andar o argumento e o pensamento. 168. para ser válido. falsidade e lógica. com diversas figuras secundárias. nesse caso. Ora.72 O silogismo. o termo predicado (p) da conclusão. Nas aulas de Matemática e Filosofia. nesse caso. entre os outros dois termos. ”sais de sódio”. contendo. Condensaremos. na conclusão (observe-se. há um termo médio (Q). a partir do termo médio.O curto texto de Flusser resume de maneira clara e cômica (talvez clara porque cômica) algumas das principais discussões filosóficas sobre verdade. TODO a -»Q LOGO a . Em outro espaço (na sala de aula. todos os sabões são SAIS DE SÓDIO. que deve necessariamente alternar a sua posição sintática nas duas primeiras sentenças e não aparecer na conclusão. no entanto. por exemplo).

Alguns Ministros são PROPONENTES DA MEDICINA SOCIALIZADA.P Pode-se demonstrar a não-validade do argumento aplicando a mesma estrutura lógica em um outro raciocínio. alguns cavalos são CORREDORES MUITO VELOZES. dêem o flagrante do equívoco. Ora. o Japão tenta pôr fim às hostilidades entre ele e a China. Por volta de 1930. Todas as tentativas para pôr fim às hostilidades entre dois países devem ser aprovadas por todas as nações. 73 Idem. pp. porque o termo médio não é de fato médio. Todos os comunistas são PROPONENTES DA MEDICINA SOCIALIZADA. alguns Ministros são comunistas. Logo.Q LOGO a . ibidem. Obviamente. a ação do Japão na China deve ser aprovada por todas as nações. apresentando-se no predicado das duas premissas. Todos OS coelhos são CORREDORES MUITO VELOZES. 184-9. . Nesse caso. de tão óbvias. e não apenas em uma.73 Se essa regra não é obedecida. cujas premissas.Q ORA. o esquema não-válido é: TODO (3 . cada um dos quais deve ser usado no mesmo sentido durante todo o raciocínio ou argumento”.Gramática se relacionam diretamente com a lógica clássica). se dá a falácia quaternio terminorum (dos quatro termos). Ora. alguns cavalos são coelhos. Portanto. a política oficial do Japão expressava-se na forma de um silogismo que disfarçava a falácia. Já o silogismo seguinte não é válido. os termos do silogismo não se podem modificar no decorrer do argumento: ”um silogismo categórico válido deve conter exatamente três termos. Portanto. TODO a .

ou deveriam conter. A verdade deve ser procurada (mesmo que nunca a encontremos plenamente) nas premissas. Para encerrar esta seção. o termo médio não era de fato médio. enquanto a premissa menor disfarçava que as tentativas do país em questão eram pela via da guerra. as evidências que ancoram o argumento. ”pôr fim às hostilidades” não implicava um acordo. . Podem-se usar silogismos perfeitamente válidos defendendo pontos de vista rigorosamente opostos. cabe enfatizar que silogismos válidos não são garantia da verdade final do argumento.A premissa maior pressupõe tentativas pacíficas. ou seja. que contêm. Em conseqüência. pois se usava com dois sentidos diferentes. da hostilidade mesma. mas a derrota da China.

As âncoras são fundamentais. O processo da ancoragem é também conhecido por método indutivo. se dá o inductive leap. pertencendo ao campo do argumento. das evidências que apresenta. através de jornais. pertencendo ao campo do argumento e tendo relação direta com a hipótese básica. têm relação direta com a hipótese básica. para buscar novos fatos e lançar. normalmente. e ao testemunho autorizado (ou seja. Esse ”pulo” muitas vezes toma a forma de um insight. finalmente. daquilo que chamamos também como ”estalo”. O procedimento indutivo. primeiro. foi iluminado pela articulação entre a relevância. o pulo indutivo. Os fatos são pertinentes se pertencem ao campo do argumento. a pertinência e a suficiência dos fatos. os fatos elencados. Da mesma forma que o silogismo se avalia. da premissa maior. ou seja. sugerindo um momento de iluminação que.A ÂNCORA DO ARGUMENTO As evidências que sustentam o argumento constituem. que apenas enumere fatos. vale dizer. portanto. E os fatos são suficientes se. a indução parte do particular para o geral. A principal preocupação que se deve ter com os fatos é equivalente à que se deve ter com as âncoras: volta e meia é necessário ”levantar âncora!”. pela construção da hipótese geral. o princípio indutivo. os argumentos iniciam seu movimento dedutivamente. ou seja. com ponto de exclamação e tudo. que contêm. dizerem ao que vieram. Estes fatos são as âncoras do raciocínio. propriamente. na verdade. ou ”eureka!”. os fatos.é no máximo uma coletânea. depois. Em trajeto inverso à dedução. Como quisemos demonstrar. isto é. e a seguir se sustentam pela premissa ou premissas menores. à observação indireta (ou seja. novas âncoras. pois sem elas o navio e o pensamento não podem aportar no cais e. não chega a ser exatamente um argumento . à observação e à pesquisa dos outros. relevância e suficiência dos fatos que elenca. um argumento que seja apenas indutivo. aparecem em número suficiente para corroborar a hipótese básica. o raciocínio indutivo se avalia pela pertinência. Na verdade. que coleciona os fatos para sustentar a hipótese definida a princípio. à observação e pesquisa de pessoas que se reconhecem como autoridades e especialistas no campo do . pela validade da sua estrutura e. livros e outros meios de comunicação). Os fatos são relevantes se. Quando os fatos são suficientes. permitindo a passagem do reconhecimento das evidências para a conclusão. recorre à observação direta (com os próprios sentidos). pela verdade das suas premissas.

Entretanto. conforme o conhecimento e a capacidade de leitura e argumentação dos interlocutores. Reza o sábio (e um pouco cínico) ditado popular que existem três verdades: ”a minha. Colocam-se dois ratos em uma gaiola. com rara precisão e simplicidade. de determinada seqüência de fatos pertinentes. Uma maneira. isto é. cientista ou não. ”não”. a qualquer pessoa. Por mais extensa que seja a nossa pesquisa e a nossa leitura. e a verdade mesma” e a essa última. uma vez que se lhe dá a sensação divina do infinito e da imortalidade. por decorrência (lógica). o que nos permite apenas tecer hipóteses momentaneamente fecundas. conhecemos tão-somente uma parcela ínfima dos fenômenos. já que por via direta não é possível. nada mais do que a verdade e somente a verdade?” O lógico. ”A verdade é não-toda”. Não é outro o fundamento do emblema da filosofia em todos os tempos. quanto mais estuda. Isto se dá porque é absolutamente impossível. Não nos foi dado conhecer toda a verdade. mais descobre a extensão da sua ignorância. . enunciado presumivelmente por Sócrates ao fim da vida: ”só sei que nada sei”. a sua. indireta. pois sempre é possível uma nova viagem na direção de um cais desconhecido. mais aprende e sabe o quanto ainda não sabe. conhecer todos os fatos. O que importa ter em mente é que os fatos não existem independentes da interpretação que lhes sobrepomos. relevantes e suficientes. no tribunal. logicamente. só poderia responder. se podem inferir conclusões mais ou menos prováveis. ”Jura dizer toda a verdade. A cada vez que o rato aperta a alavanca. enunciou.argumento em questão). Enquanto os argumentos propriamente dedutivos podem nos conduzir a conclusões válidas (não necessariamente verdadeiras). Por isso. que contém uma alavanca. de demonstrar que não podemos conhecer tudo de coisa alguma se encontra na sensação com a qual depara todo e qualquer estudioso. isto não desanima o verdadeiro pesquisador. o psicanalista Jacques Lacan. ao estudar com afinco o seu assunto: descobre que. Tome-se como exemplo uma experiência banal e recorrente de condicionamento de animais. e que qualquer interpretação sempre pode ser posta sub júdice. conhecer tudo. não temos o menor acesso. os argumentos exclusivamente indutivos somente podem nos conduzir a conclusões prováveis (e não obrigatoriamente verdadeiras). o pesquisador põe comida na gaiola. quanto mais aprende e sabe.

antes de discutir a hipótese derivada. no século XVII. com contribuições importantes: inventou a palavra ”gás” e descobriu os sucos gástricos. foi. A repetição dos fatos . você verá nascer pequenos escorpiões”. datadas de 1648: ”Faça um buraco num tijolo. comprovaria a tese da geração espontânea. Alguns dias mais tarde. tendo o manjericão agido como fermento.75 Sua receita para produzir ratos é pior ainda: ”basta comprimir uma camisa de mulher . ou condicionando. um cientista sério. não são minúsculos nem abortados. o que permite deduzir uma outra hipótese. Supondo nós a boa-fé do químico. Não é possível? Por que não? Na verdade. que explicaria a regularidade do movimento do ratinho em relação à alavanca da sua gaiola.. podemos levantar uma hipótese alternativa. ser humano ou não. não estão mais mamando. médico e químico flamengo. você não calcula como eu condicionei esse tipo lá fora.uma camisa um pouco suja. Um fermento vindo da camisa. é claro. O que está com a mão na alavanca diz para o outro: ”companheiro. p. acredita o pesquisador estar ensinando. Filosofia da ciência. De maneira cômica. Isso é ainda mais admirável porque os ratos nascidos do trigo e da camisa não são filhotes. Jan Baptist van Helmont. sinalizando a fome do animal . É só dar um apertãozinho na alavanca e ele me dá um pedaço de comida”.rato apertando alavanca. Helmont descreve uma experiência. que coloca no mesmo patamar o rato e nós outros. em suas Obras de medicina e de física. . Entretanto.num vaso guarnecido de frumento. não podemos conhecer o ponto de vista do animal assim como não podemos conhecer o ponto de vista de qualquer outro. transforma em rato o próprio trigo. Mas também se pode ler. Dependemos de mediações para supor a perspectiva que nos é alheia. É o que faz cartum publicado no Time em setembro de 1971. o rato a pedir a sua comida. mas são muito bem formados e podem pular”. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e exponha tudo ao sol. e em horários mais ou menos previsíveis.74 Dois ratinhos conversam numa gaiola. poderíamos elencar uma série de hipóteses alternativas que explicassem o aparecimento 74 Em Rubem Alves. 131. que supostamente. de preferência . ponha ali erva de manjericão bem triturada. presumivelmente. o desenho alude à possibilidade de o rato ter condicionado o cientista. behaviorista: os animais podem ser condicionados pelos seres humanos. transformado pelo odor dos grãos. correlata: os seres humanos poderiam também ser perfeitamente condicionados por outros seres humanos.sugere a seguinte interpretação.Desse modo..

. Experiências meticulosas podem produzir erros crassos. Ou se aceita sem pensar. Talvez isso não tenha acontecido porque os ”daquela época” diziam e aceitavam mais besteiras.dos escorpiões no tijolo e dos ratos adultos na camisa (de mulher). os que virão não perderão a oportunidade de rir de nós (quiçá até mesmo. e por que não. acrítica e reverente. pode ser lida e interpretada de diferentes maneiras. não foi dessa maneira que os seus contemporâneos o leram. ibidem.76 A experiência dos três sábios. 186. tudo em nome da ciência). Como está inundado de vermes espermáticos. no ensino médio. independente da crueldade com a cadela (mas claro. como aliás qualquer fenômeno. algumas das quais se revelarão. meticulosamente. simplesmente porque toda experiência. mas sim porque todos estejamos demasiado próximos da nossa própria época para termos noção clara das suas bobagens. o biólogo Buffon. Entretanto. considera-se a experiência um sucesso! Contempla-se. decidiram provar a perfeita igualdade dos sexos. Idem. p. Mal termina o coito. o microscopista Joseph Needham e o zoólogo Louis Daubenton. como ser lido e discutido. aberta e seu útero dissecado. de JeanPierre Lentin. a cadela é morta. mas não sem antes rir um pouco da besteira. Penso. Para isso. é uma dentre muitas histórias equivocadas. absurdas. isto é. Providenciaram uma cadela no cio e um macho ardente. logo me engano: breve história do besteirol científico. Três sábios do século XVIII. Ele foi levado a sério. pela primeira vez. Seria uma espécie de antídoto mais do que necessário ao cientificismo e seu triunfalismo perigoso. 136. dessa ingênua Educação pelo argumento). logo me engano. em ambos 75 76 Em Jean-Pierre Lentin. persuadidos de que não teria havido tempo para que ele subisse tão rapidamente a dezena de centímetros que separa a vagina dos ovários”. ou se recusa por não entender. Penso. é um daqueles que deveria não só se encontrar nas estantes de todas as salas de aula e de professores. de tudo o que está nos livros. Um dos efeitos colaterais nefastos da escola e seus sistemas fechados de avaliação é o desenvolvimento da leitura ”bíblica”. mais tarde. ”os três doutores sequer sonharam em pensar que se tratava do esperma do macho. os animálculos fêmeos. O livro que a contém. p. precisavam demonstrar que as fêmeas também produziam espermatozóides.

à inevitável antropomorfização que fazemos de tudo o que observamos ou experimentamos. Chama a atenção para o que dizemos desde o princípio: para observarmos o mundo e os seus fenômenos. Na charge. por exemplo. mas inválida em outro. costumam se transpor através de analogias. remete. assim como os princípios da astronomia não se aplicam diretamente. quando irrompe no laboratório o cientista que diz alegremente ter descoberto o gene responsável por eles pensarem que tudo é determinado pelos genes: ”Eureka!. Conquanto sejam sempre usadas. nem poderíamos abrir os olhos: a realidade nos cegaria. Há toda uma geração de cientistas... via de regra. na medida em que elas se revelam.exatamente porque misturam princípios e estruturas de pensamento mais ou menos incompatíveis. I’ve discovered the gene that makes us think that everything’s determined by genes!”. a postura passa longe da inteligência.entretanto. as experiências do nosso final de século. uma recusa da ciência e dos fatos. A piada não quer ser apenas engraçada. o procedimento científico mais rigoroso recomenda que se suspeite de todas as analogias. essa teoria ainda não foi escrita. através de imagens e de articulações com o que os interlocutores já conhecem. Isto não significa. como logicamente fracas .os casos. ao mundo dos átomos. mesmo em textos acadêmicos. isto é. circunspectos pesquisadores estão ”levantando” os genes responsáveis pela gordura. Implica uma assunção do caráter hipotético do pensamento e da ciência. colocando sob suspeição. todavia. reflexões e conclusões sobre o que ainda não se conheça. As analogias são argumentos fortemente persuasivos. Charge publicada na Newsweek (não identificamos o autor) em dezembro de 1997 ironiza toda a Genética contemporânea. Sem uma hipótese prévia. procurando a teoria ”final”. se aplica ao infinitamente pequeno. a teoria tão ampla e tão simples que realmente abarque todos os fenômenos que existem para serem descritos . de físicos. mas não se aplica ao macrocosmo. colocamos antes os óculos da hipótese. pelo alcoolismo. sem mediação. Essa condição relativa é que faculta a uma determinada verdade poder ser válida em tal contexto. bem como a necessidade de ancorar todos os nossos argumentos nos fatos e nas evidências desde que se reconheça que as evidências o são em termos relativos: relativos aos nossos limites perceptivos. entre uma ciência e outra. A teoria quântica. pela homossexualidade. . pela disposição para o trabalho. através do humor. mas todo o contrário. ainda. porque concretizam. As ”pontes” entre uma teoria e outra.

dificuldade que se intensifica. É que o assunto. a um biólogo. quer fazer um eletrocardiograma para medir os movimentos do coração justamente de Sigmund Freud. entre um cardiologista e um psicanalista. sem camisa. 18. um bonequinho. a várias analogias. mas não devemos acreditar ”piamente” nelas. as respostas. faz cara feia quando vê que o ”coração” do doutor Freud obriga o aparelho a lhe mostrar não sístoles nem diástoles. A ciência de cada um dos inquiridos condicionará. no lugar da reflexão atenta. assim como a teoria psicanalítica. O cartunista argentino Quino brinca com a extrema dificuldade de se estabelecerem as pontes entre as ciências. para que se possam estudar os elementos que se repetem. cheio de fios colados no peito. na pintura. Os fatos que constituem as âncoras de cada ciência não residem nas analogias iniciais. e não apenas o escritor. devido à abrangência do tema. Algumas respostas poderão se mostrar mais bonitas.. para se construir um programa de fato interdisciplinar. a um sexólogo. a um religioso. no entanto. provavelmente todos. todas correm o grande risco de serem logicamente fracas. não se esgota em uma perspectiva apenas . Como se trata de um tema bastante perigoso . uma nuvem. que se encontra deitado na maca. como de resto todos os assuntos que são importantes para nós. de estarem apoiando as suas âncoras em terreno lodoso. Não podemos pensar sem analogias.Pergunte-se o que acha de um tema como o ”amor” a um cardiologista. a um estatístico. precisarão recorrer a várias imagens. mas. sem palavras. .”quando o amor tem mais perigo. O cardiologista. isto é. apoiado nos seus instrumentos e nos gráficos esquemáticos da sua ciência.. p.e não nos é dado ”ver” em mais de uma perspectiva (foi o que o cubismo. ambos procuram elementos que se repetem. tentou inventar). a um roteirista de novelas televisivas. promove argumentos impertinentes. o cardiologista. é quando ele é sincero”. Quinolerapia. mas sim um desenho infantil: uma casinha. Ainda que a teoria de um seja irredutível à do outro. na escola. a um sociólogo. Em um dos seus desenhos. mas nas repetições dos fenômenos que se possam observar. a um psicanalista. 77 Quino. mas apenas conjuntos numerosos de sonhos. Freud sempre disse que não se podem interpretar sonhos isolados. ao supor um diálogo. uma árvore. para ”chegar perto” do assunto. diria o poeta Cacaso -. A crença ”pia”. de maneira decisiva.77 O aparelho de eletrocardiograma também funciona por analogias. a um historiador das mentalidades. outras mais ”científicas”.

pp. Obra citada. chamou de ”errodição”. num plano de conceitualização primitiva que nos remete à consciência imanente de que falava Hegel. a elaborar um manual completo do argumento. num trecho: Valiosa também. No que estava apenas ecoando. Obra citada. O eufemismo pode ser considerado a figura falaciosa mais marcante de todas. ao ser emboscado por seguranças de um latifúndio. por medo de não sermos competentes). para não reduplicar o que já está bem escrito (e. pp. 92-142. derrubar dois com a sua foice e ser metralhado: ”Ahrk”. todos os tipos de sofisma existentes. a filosofia de Albert Hirschman da Silva. Ironizando discurso do presidente brasileiro e duble de sociólogo. agricultor sem-terra que há dias disse. da generalidade e da abstração. também não listaremos. Além de termos feito deles um resumo em Redação inquieta (1985). Bertrand Russell. de dois textos capitais: ”A arte refinada de detectar mentiras”. talvez. para não deixarmos esse importante ponto em branco. podem ser encontrados naqueles manuais que devem estar presentes nas estantes da escola. numa crônica exemplar (Jornal do Brasil. a figura de linguagem conhecida como ”eufemismo”. Fernando Henrique Cardoso. de Bertrand Russell. queremos destacar algumas questões sobre o sofisma que nos parecem centrais.78 e ”um esboço do rebotalho intelectual”. é a exposição de Anthony Giddens da Silva. e tem sua contrapartida no ”eruditismo”. em particular. Recomendamos. sucintamente. recentemente desempregado. a nosso entender. Destacamos. . ainda. o de Wesley Salmon (1973) e o curioso volume do filósofo Arthur Schopenhauer (1997). de Carl Sagan. Veríssimo comenta. a reprodução. que elenca 38 ”estratagemas erísticos” para bem enganar os demais. para alunos e professores. Um dos primeiros eixos da expressão sofismática seria. nesse capítulo.O ARGUMENTO IMPERTINENTE Quando cabe discutir o que estamos chamando de ”argumento impertinente”.79 No entanto. Como nos recusamos. 12/09/1997). a faceta perversa da erudição aquilo que Luís Fernando Veríssimo. autor de uma instigante teoria da dependência do que seus filhos ganham 78 79 Carl Sagan. que os manuais de lógica costumam denominar sofismas ou falácias. o manual de Irving Copi (1978). Implica perda de reflexividade. porque explica e reforça as alternativas da imprecisão. 200-217.

que se apóia no abuso do jargão especializado . A ”errodição”. de todos os lados. entre outras construções humanas. A moral é hoje aquilo que emana de focos isolados da sociedade. atacar aquela moral. centro-esquerda. porque o Beto morreu de sarampo há pouco. Essa mesma linguagem já se encarregou de desgastar o sentido de ”moral”. Não é o caso de preservar-se nenhuma moral. meio-centroesquerda. freqüentemente está contra a ética e atua para seu esboroamento. mas para impressionar e submeter. sem saber se a epidemia que o levou era de esquerda. mais importante. o eufemismo tenta substituir palavras ”feias” por ”neutras”. como é a arte e a economia. E certamente implica refazer a linguagem. Ou se pode esquecer. meio-centro-direita ou meio-centro. não raro.”sociologuês. ou não mais podem assim ser vistas. que determina o restante. em conseqüência. Teixeira Coelho vê o eufemismo procedendo por metástase. A linguagem não está como está porque a ética se mostra nesse estado: a ética está como está porque a linguagem. É bem de ética que se trata. trata-se de vitalizar a ética. é um instrumento verbal de poder. como não existem palavras neutras. Revigorar essa ética implicará. não de moral. a condição infantilizada do interlocutor). A moral. está assim.com esmolas para poder sobreviver embaixo do viaduto. A ética é o que vem de baixo. que não firam a sensibilidade popular (na verdade. A linguagem não é mero fenômeno periférico. ao corromper a célula semântica inicial. liquefaz-se a linguagem e. Não há resto: a ética não existe no ar. economês. como diria Hobbes. centro-direita. politiquês” -. degradando e corrompendo o objeto a que se refere. Essa liquefação da linguagem faz parte de um processo maior de erosão dos laços éticos da sociedade. que todos secretam para que a vida em comum se torne possível e desejável. discursando e escrevendo não para ser entendido ou convencer. a ética não está em si mesma como não está na linguagem (e em outras dimensões): a ética é a linguagem. manifestação superestrutural de uma realidade mais central. difunde-se a ignorância. Não haverá modificação . Ao contrário do que dizem os dicionários comuns. E não se pode esquecer a contribuição de Norberto Bobbio da Silva para o debate. hoje. ou viaduct. ética e moral não são sinônimos rigorosos. Na busca de ”outras palavras”. Entretanto. geralmente formados pelos que detêm alguma forma de poder. afastando a turba ignara da comunicação. direita.

A variante contemporânea do eufemismo se mostra no argumento ”politicamente correto”. rejeitando o professor. que mostramos no início do ensaio. menos perigoso. então. A linguagem que usamos. 293.mas. acabando com a carreira e com a família do professor. O filme se passa quase inteiro dentro do gabinete do professor. nem por isso. não só para melhor argumentar. através do qual alguns setores da sociedade tentam impor aos demais como se deve pensar e falar. mostrando diálogos entrecortados e intenções ambíguas. Dicionário do brasileiro de bolso. à força da repetição e outros fogos de artifício. artístico. O espectador se debate entre uma identificação inicial com a aluna. Ao lado do eufemismo como fonte de equívocos e falácias. forja uma realidade perversa em cima de pura fumaça. os argumentos que construímos. pedante e paternalista. principalmente. a aluna. do argumento. dá um show de argumentos eufemísticos e politicamente corretos. absorvendo a perspectiva do mestre e a monstruosidade da atitude da aluna. para. da necessidade de ”dar mais uma olhada”. quer estejamos conscientes disso ou não. não por acaso má aluna. e com base em expressões confusas do docente.na ética se a linguagem não se modificar. que lhe dizia o que fazer e pensar. em decorrência. p. p. Apoiada num grupo feminista. têm participação direta. isto é.81 É esse provérbio o principal responsável pela força dos boatos e das 80 81 Teixeira Coelho. de parte a parte . na condição ética das nossas relações sociais e da sociedade como um todo. como para melhor viver. Esse filme nos oferece um excelente exemplo. E viver implica desconfiar das verdades fáceis que. confrontando um professor universitário inseguro e uma aluna ignorante. de nos forçarmos a procurar pensar em mais de uma perspectiva. 44. Pascal Ide. O filme Oleanna. a aberração popular conhecida como ”onde há fumaça há fogo”. de David Mamet. Resistir ao eufemismo é uma das maneiras de precisarmos e explicitarmos estas preocupações.80 Esse trecho de Teixeira Coelho faz um outro elogio da linguagem e. encontramos. . tão importante quanto o elogio de Perelman.mas. que na verdade se esconde sob a capa de um coletivo rancoroso . tentam se impor sem se acompanhar minimamente de evidências. na verdade sofismas. por parte da aluna. que força uma acusação de assédio sexual. ver-se forçado a ”trocar de lado”. aos poucos. Obra citada.

O imediato se assustou. em letras garrafais. o conhecido personagem Rango pergunta. Não era mentira. mas também de perversidade emocional: por um processo de transferência do mal que Freud já explicou. querendo dar a entender que só naquele dia o seu desafeto não estava bêbado. 95. no mesmo dia o imediato colocou no mesmo diário: ”o capitão hoje estava sóbrio”. No cartum de Edgar Vasques. Até a própria verdade literal pode ser um veículo para a falsidade e a calúnia quando colocada num contexto equívoco. Sabendo muito bem disso. enquanto a retratação e o desmentido aparecem em reles corpo 8. como essa . Obra citada. assustado com a chacina na favela: ”por que morreram?” A resposta do ”PM” encapuzado não é mentirosa: porque estavam vivos. mas induzia a uma interpretação mentirosa. a ponto de se colocar como autoridade com direito a prescrever medicamentos. ao vincular astros do esporte a produtos farmacêuticos. de chacinas e genocídios. . A lógica mental do público. especialmente se esse outro for uma pessoa bem-sucedida.83 Só que não era exatamente isso que tinha sido perguntado. com poder nefasto equivalente. o capitão registrou o fato no diário de bordo: ”o imediato hoje estava bêbado”. Para ilustrar. provoca malentendidos. Não se trata apenas de preguiça mental. a posteriori. p. do endeusamento de certas figuras públicas. preguiçosa. provoca piadas e tiras de humor. A publicidade abusa dessa falácia. na seção de cartas. Como o capitão se negasse a retirar o registro. Nesse sentido.calúnias. 82 Irving Copi. como se o jogador Fulano fosse também formado em Medicina. Copi conta a piada do marinheiro:82 no navio.que. Numa das brigas. porque assim nos vemos como os mocinhos da história. por exemplo. brigavam o capitão e o imediato. formador de todos os preconceitos e justificador. que sempre sobra alguma coisa (a calúnia vem na primeira página. o sofisma provoca trocadilhos. ao mesmo tempo chama a atenção para a tragédia contida no ”argumento” e no raciocínio vicioso. O imediato bebia demais. no entanto. contenta-se com um índice vago e superficial para concluir dele uma verdade geral e irrefutável. O avesso da calúnia. deriva do culto da personalidade. ora bolas. na página 6). os estrategistas políticos e os jornalistas inescrupulosos tiraram uma regra de ação eficiente: caluniar sem parar. circular. e o capitão era um fanático da abstinência. aceitamos com facilidade uma calúnia apressada contra o outro. porque o dono do barco leria o diário e o demitiria. Em nome do primado da fama.

e poucos alunos ”maus”. Já se disse que números. defendem seu instrumento com base na constatação de que. que funcionem como alerta para os demais quanto ao poder da instituição. sua distribuição fica bastante próxima da célebre curva de Gauss. figuras de fato públicas. Os defensores do QI. Jacquard ainda observa que a constatação da curva de Gauss nos testes de 83 Edgar-Vasques. massageados com um pouco de estatística. que a formulou de maneira muito precisa: ”no futuro. deixando implícito que a resposta não pode ser mais do que aproximativa e parcial. camuflado pelos seus instrumentos de avaliação. que se destacaram no mundo dos espetáculos esportivos e artísticos. que comprovem o sucesso da metodologia. que comprovem a necessidade do professor e da escola. que é impossível medir um conjunto. 28. qual seja. . muitos alunos ”médios”.o caso ”Ronaldinho na final da Copa da França” ilustra bem esse drama. Não à toa os problemas mais importantes de Matemática precisam determinar até que casa decimal se admite a resposta. centenas de pessoas se submetem a humilhações apenas para aparecer por reles 15 segundos num programa imbecil de televisão. simplesmente porque desde o princípio se precisam produzir poucos alunos ”bons”. Por último. O gênio gabiru. intensifica-se a síndrome de Andy Warhol. discriminando com precisão terços superiores. Poderíamos retrucar afirmando que a grande maioria dos testes escolares produz o mesmo efeito. são objeto de uma pressão desmedida para sustentar precariamente a sua imagem a toda hora ameaçada . tornam-se fatos. muitos deles pedagogos ansiosos por saberem ”que aluno devem formar”. Todas as medições de QI (quociente de inteligência) embarcam na falácia da medição de um conjunto complexo por instrumentos lineares. a compulsão cientificista e matematizante para tudo medir. antes limites aproximativos. Grande parte de absurdos costuma se gerar quando se esquece que a Matemática estabelece menos respostas absolutamente precisas.subproduto daquele culto. só se pode medir o que se apresente como unidimensional. sempre que o QI é medido no conjunto de uma população. medianos e inferiores de inteligência. todos terão direito a quinze minutos de fama”. devemos comentar um terceiro germe formador das demais falácias. p. Em contrapartida. Em função da síndrome. também. É preciso dizer.

no século V. Admite-se que essa predominância é consonante com a velocidade da nossa época. ”Sofistas”. Obra citada. que produz muita coisa que deve ficar obsoleta em pouco tempo para se poder produzir muito mais coisa. um ritmo desenfreado. que afirma: se estabelecermos para cada indivíduo vários caracteres sem vínculo entre si (altura. número de sapatos no armário. número de glóbulos vermelhos.85 Observados esses aspectos sobre o sofisma. Idem. data de nascimento. 133. obrigado a enfrentar. ibidem. independentemente de considerações morais. ao contrário do que pensam seus defensores. que nos obriga a ver sob outra perspectiva até mesmo o erro lógico.84 Baseia-se no teorema de Liapounof. não tinha. eram os filósofos preparados para mostrar de que maneira se argumenta contra e/ou a favor de qualquer opinião. de modo algum. 136. 84 85 Albert Jacquard. seria uma mera ilustração de uma propriedade matemática.. A rapidez é menos essencial para a construção de nossa própria ferramenta intelectual do que a capacidade de nos interrogarmos e colocarmos em questão nossa compreensão. vivendo ao ritmo das estações.) e calcularmos a média dos resultados encontrados. p. então. andar do apartamento em que mora. o sujeito sob teste sabe que tem de responder depressa. com toda a certeza. é quase sempre útil ter reflexos rápidos. . mas amadurecê-las durante um tempo bastante longo. porque mais próxima da conhecida ”curva de sino” será a sua distribuição. Pretendiam seguir um argumento aonde quer que o dito cujo os levasse. cívicas ou religiosas. principalmente. na nossa sociedade. ”uma forte indicação a favor da hipótese de que ele não mede nada”. menos significativa será a média obtida. p. mas isto não tem nada a ver com a inteligência. Entendiam que a busca da verdade. quando sincera.QI é. O que se mede. tamanho do sapato. fortuna.. de tomar decisões rápidas. deve ignorar dogmas. Tomava o seu tempo e não era menos inteligente do que o citadino de hoje. cabe pensar na origem do próprio termo. permanentemente. O camponês de outrora. do qual não é o senhor. não conferindo a menor validade aos testes de QI. nesse tipo de teste? A rapidez. conselhos e regras sociais: quem busca a verdade não pode saber se encontrará verdades consideradas ”boas” pela sociedade. quanto mais numerosas forem as características. A distribuição ”gaussiana”. mas trata-se de uma característica com pouco interesse em inúmeras culturas. Desenvolvendo-se sob o controle do cronômetro. antes pelo contrário: reflete uma concepção produtiva ligeiramente burra (digamos).

Para lidar com o erro como trampolim para o acerto. como. por exemplo. ajudando a forjar o sentido pejorativo de ”sofisma”. ”elaborado”. Não há. vale dizer. no sentido de tentar. que tanto pode significar ”pedante” como ”refinado”.Outros filósofos. de viajar. portanto. Platão. por exemplo. Tem parentesco interessante com o adjetivo ”sofisticado”. Levando esse histórico em conta. no discurso de um político ou na petição de um advogado. enfim. cabe um certo esforço dialético. precisamos compreender que um mesmo raciocínio ou texto pode ser encarado como um sofisma. se estiver. o que admite quer a perspectiva positiva dos sofistas (o pensamento livre dos interesses humanos) quer a perspectiva negativa que hoje atribuímos ao termo (o pensamento que se expressa desprezando a ancoragem nos fatos e na realidade). . é também necessário. mas que ”errar”. vem do grego e pode ser lida como ”só-pensamento”. presente na fala de um personagem de romance. por exemplo. de experimentar. reflexão sobre o sofisma independente da observação cuidadosa do texto e do contexto. se estiver. combateram os sofistas. ou como estilo e verdade. Pensando no sofisma como um erro. para novo argumento. com efeito. interessados menos na defesa da verdade e mais na defesa de determinada verdade. aliás inevitável. de errância. temos de pensar não apenas que errare humanum est. A palavra ”sophisma”.

na melhor das hipóteses. conforme Parmênides. quando necessário para a sua argumentação. profundamente . demonstrar uma tese distinguindo os conceitos envolvidos na discussão. na fábula da família Logus). para manter a sociedade dividida em classes e perpetuar a sua dominação. um sobre o outro. por um momento aristotélico (ou mineiro). servindo no máximo para polemizar. Os metafísicos mais inteligentes sabem ser. no diálogo. Levava ao extremo a recomendação de Aristóteles: não se deve dialetizar. quando necessário para a sua argumentação. enquanto aquela diz que tudo é movimento e portanto instabilidade . via na dialética um método sem grande valor cognoscitivo. ”a essência profunda do ser é imutável”. a metafísica estaria tentando definir os aspectos mais estáveis da mesma realidade. também conhecidos como filósofos présocráticos. A estabilidade desejada pelos metafísicos corresponde à estabilidade desejada pelas classes dominantes. profundamente dialéticos. Schopenhauer. considerando-a um exercício sofista. por exemplo. passou a ser a arte de. Em contrapartida. discutir ou polemizar com quem não conheça o assunto e as regras da argumentação válida: contra negantem principia non est disputandum. tornou-se a arte de. os dialéticos mais conseqüentes conseguem ser. para compreender o movimento perpetuamente contraditório da realidade.8 O ESFORÇO DIALÉTICO Dialética é uma dama com três vestidos. com Hegel e depois Marx. como o faz Schopenhauer ao combater Hegel através da sua tese sobre a ironia. e reacionária. com o tempo. Os partidários da metafísica opõem-se à dialética. demonstrar uma tese por meio de uma argumentação capaz de definir e distinguir claramente os conceitos envolvidos na discussão. na maior parte dos casos. esta afirma que o movimento e a mudança são fenômenos superficiais. procurar a virtude no meio. porque. Desde os gregos. de acordo com Heráclito (um dos principais sofistas. Enquanto a dialética procura investigar os aspectos mais dinâmicos e instáveis da realidade. Podemos. Os partidários da dialética costumam considerar a concepção metafísica conservadora. dialética era a arte do diálogo (do logos a dois). Na Grécia antiga. No limite. Modernamente.”um homem não toma banho duas vezes no mesmo rio”. opõe-se à metafísica. como vimos. no diálogo. páginas atrás.

em caso algum. ainda que anticientífica. não tenho. ele só pode perder ou ganhar esse caso. faremos antes o elogio da dialética. terá de me pagar. . Logo. então. por decisão do tribunal. porém. devo ganhar ou perder esse caso. Eulato. mas ele usou as mesmas armas. p. O dilema é uma figura de retórica conhecida como syllogismus cornutus. A situação não parecia boa para Eulato. então. que deve ser respeitada. Eulato deve. pela sentença do tribunal.metafísicos. não há outra alternativa. se. se Eulato ganha esse caso. que precisariam ser estáveis. realmente não há outra alternativa. Logo. não terei de pagar ao professor. da resposta ”certa”. me pagar. apesar da nossa solução mineira (ou aristotélica). como não podia pagar os estudos. confiante nas lições que recebera. o mestre apresentou a sua versão do caso através de um dilema esmagador: Se Eulato perde esse caso. enfatizando a tal ponto a estabilidade das coisas que criaram a ficção. pois nesse caso não terei ganho. ficou a frase: ”o homem é a medida de todas as coisas”.86 Protágoras foi um filósofo sofista que viveu na Grécia. pelos termos do nosso contrato. Obra citada. os 86 Irving Copi. há quem diga. porque a ciência positivista e a escola contemporânea já puxaram de sobra a brasa para a sardinha da metafísica. à perfeição. da nova sociedade que antevia. Eulato era seu aluno. então. outra coisa não é do que a arte de sofismar). fez um acordo com o professor: só pagaria quando ganhasse o primeiro caso. Cansado de esperar pelo pagamento. infelizmente poderosa. perco esse caso. mas.que resolveu defender a si mesmo. o meu primeiro caso. ainda. Quando concluiu o curso. protelou o início da sua prática profissional. Ensinava a arte da advocacia (que. porque se trata de um silogismo com duas pontas. como o faz Marx ao procurar definir as bases. No tribunal. Ora. todavia. replicando com um contra-dilema: Se ganho esse caso. de pagar a Protágoras. pelos termos do nosso contrato tampouco terei de pagar ao ilustre mestre. A antiga história do mestre Protágoras e seu oportunista discípulo. Ora. Entretanto. ilustra. de qualquer modo. Imagine-se o leitor na posição do juiz: o que decidiria? À primeira vista. terá igualmente de me pagar. durante o século V antes de Cristo. 222. o desenvolvimento do nosso argumento. Da sua obra. Protágoras processou o ex-aluno em juízo .

desfaria ambos os dilemas com apoio no conceito com que começamos este livro: o conceito às pressuposição. Doutor Spock. desrespeitava frontalmente os seus pressupostos mínimos. volta as armas da lógica contra o próprio mestre para continuar não cumprindo a sua parte do acordo . Protágoras se teria empolgado com os seus recursos retóricos. ele nos dizia: ”logic is just the beginning of wisdom. podemos afirmar que o texto não vive. nem Protágoras e nem Spock podem esgotar todo o contexto a que se refere qualquer texto (de vez que a verdade é não- . Nem Eulato. A pequena história não nos conta a tréplica do professor. protelando a sua iniciação profissional e deixando o seu professor sem o pagamento que lhe era devido. nem qual teria sido a sentença do juiz. o esforço dialético de Protágoras apenas teria começado. O jovem advogado Eulato. permitindo a réplica homóloga do seu exaluno. o eminente lógico vulcaniano. contexto no qual se inserem o falante e os interlocutores. sem o contexto que o gera e mantém. Protelar essa prática era demonstração flagrante de má-fé. atendo-se estritamente à letra do acordo. Na verdade. como também o compromisso de o aluno iniciar a sua prática profissional tão logo terminasse os seus estudos. Portanto. que deveria ser punida não só com o pagamento dos honorários do professor. O acordo entre mestre e discípulo forçosamente pressupunha não só o compromisso de pagamento. desrespeitava o próprio espírito do acordo.o que é imoral. isto é. e portanto a defender o seu primeiro caso.500 anos atrás um personagem do ano 2500 depois de Cristo. A arte do diálogo tem uma enorme tendência a ser pouco ética. assim como os ouvintes e os querelantes. visto que as mesmas palavras e a mesma forma de argumentar podem servir tanto para defender A quanto o contrário de A. Trazendo a pendência para o nosso momento e para a nossa preocupação com o argumento. Eulato fez um acordo e deliberadamente não o cumpriu. para se lembrar de Spock? Onde nenhum homem jamais esteve? Pois então: em Star Trek VI. levantando a sobrancelha. não o seu final. A lógica é o começo da sabedoria. O leitor tem memória do futuro. filme dirigido por Leonard Nimoy (que também representava Spock).críticos da dialética parecem ter razão. como com uma multa significativa. a saber. Quando forçado a se defender. é preciso trazer para esse tribunal de 2. not the end”. Spock. não significa. para que se respeitasse mais a lógica.

Dialética: teoria e práxis (1977). por exemplo. ocupar lugar de honra naquela estante das salas de aula e de professores. 87 Chaim Perelman. porque dizem o mesmo que ”negócio é negócio”. estudam exaustivamente toda a história do pensamento dialético e os seus principais recursos. . ”eu estou mentindo”. exatamente. De maneira mais condensada ainda. Mas. se alguém nos diz. p.toda. se ficarmos presos à sua declaração não podemos saber se ele diz a verdade ou se mente. por um lado interessantes para demonstrar a arbitrariedade e os limites do signo. Quem se veda. o que. devendo. sim. O que é dialética (1985).. um cretense. vale dizer. rompendo com o princípio da não-contradição. As relações entre texto e contexto são propriamente dialéticas. ou. ou. na verdade. que só são escolhas porque não há garantia de verdade. o limite do discurso humano .). por outro tão estéreis quanto os dilemas dos advogados sofistas. Obra citada. por razões religiosas ou filosóficas. ainda. diz que ”todos os cretenses são mentirosos”. A dialética lida. Caso contrário. em outras palavras. se admite igualmente que é preciso cuidar dos doentes que sofrem de uma infecção:87 irá ou não servir-se da penicilina que pode destruir um grande número de micróbios.limite com o qual. não precisamos nos conformar. de seres vivos? Impasses como esse não se resolvem apenas com a lógica ou com a retórica. Quando Epimênides. dinâmicas e permanentemente superáveis. escolhas morais. quer dizer: nada. demonstrando. permanecemos em paradoxos. não temos como saber se a frase é mentirosa ou verdadeira. estas afirmações não são nem verdadeiras nem mentirosas. de matar um ser vivo.. podem ser desmontadas com a atenção ao contexto e aos pressupostos da interlocução. entretanto. 230. São necessárias. mas também com a lógica e com a retórica. Os livros dos filósofos brasileiros Leandro Konder. Em outras palavras. e Gerd Borheim. As diferentes variantes do paradoxo do mentiroso. mas também não podem denegá-lo. ”pai é pai”. pode ser arrastado a uma incompatibilidade de proposições. com a contradição. porque não temos acesso direto e completo à verdade. porque parece paradoxalmente mentirosa e verdadeira ao mesmo tempo. isto é. buscando dialeticamente superá-lo. portanto. bem como com as possibilidades teóricas e práticas de superar a contradição. são auto-referentes.

No nosso livro, que é antes um projeto interdisciplinar com eixo no argumento, devemos enfatizar que a dialética, tanto quanto a lógica e a retórica, se referindo às regras e às possibilidades da argumentação, procura igualmente se aproximar da verdade, reconhecendo relações dialéticas na própria realidade. O dramaturgo David Mamet pode então afirmar, na sua teoria sobre os três usos, ou três atos, do teatro: ”os alemães criaram e aceitaram a dominação nazista em nome da autodeterminação; nós criamos e aceitamos ignorância e analfabetismo em nome da informação.”88 As coisas convivem com os seus contrários, as sombras da realidade volta e meia tomam o lugar das coisas. Os alemães, em determinado momento, teriam criado e aceitado a dominação nazista em nome da autodeterminação, e a partir daí passaram a negar, pela guerra, a autodeterminação de outros povos. Nós, hoje, quando se publica cada vez mais e se lê cada vez menos, em nome da informação e sob a égide da World Wide Web, estamos criando, aceitando e difundindo ignorância e analfabetismo. Já comentamos, em outro lugar, como outros, antes de nós, comentaram: à expansão desmedida do poder da espécie humana, que nos permite destruir-nos completamente ene vezes, parece corresponder, dialeticamente, a redução flagrante do poder do indivíduo. Como fomos educados numa simplificação da lógica aristotélica, tendemos a achar que pão é pão e queijo é queijo, assustando-nos com o queijo-quente, em que uma coisa se mistura com a outra e faz uma terceira. Pois é preciso aprender a pensar e aprender a ensinar, na hora em que o queijo-quente está... quente. É a hora em que a realidade derrete e se espalha, movimentando-se sob as nossas palavras. Superam-se os sofismas e as falácias através do esforço dialético. Pascal lembra, com muita propriedade: ”o erro não é o contrário da verdade; é o esquecimento da verdade contrária”.89 Erra, portanto, quem procura a verdade como se ela existisse, e não fosse, já, a própria procura em si. Erra, portanto, quem procura imobilizar um acerto qualquer, sem atentar para os aspectos inevitavelmente paradoxais e dialéticos não só da realidade que observa, como da própria teoria que constrói. Erra, em última análise, quem tem pavor do erro e não percebe o seu valor.90 O ”erro” ensina a pensar, e não a reincidir. Mas a escola faz todo o contrário e

88 89

David Mamet. Time uses oftlie knife, p. 55 Em Jean-Pierre Lentin. Obra citada, p. 177. 90 Idem, ibidera, p. 244.

continua a penalizar o erro e fetichizar o acerto, ao invés de desenvolver o argumento e a pesquisa da verdade - que depende de ”erros” para ser ciência e filosofia. Em 1980, na França, fizeram uma experiência maquiavélica, cujos resultados surpreenderam até mesmo os autores da experiência. Em 15 turmas dos cursos fundamental e médio, nos testes de Matemática, propuseram-se problemas do gênero: ”num barco se encontram 26 carneiros e 10 cabras; qual é a idade do capitão?”. Ou então: ”numa classe há 12 meninas e 13 meninos; qual é a idade da professora?”. Os pesquisadores esperavam que a maioria dos alunos percebesse imediatamente o absurdo das perguntas - o que aconteceria, imaginamos, se as perguntas tivessem sido feitas no recreio. Entretanto, os resultados são deprimentes: 90% dos alunos do curso fundamental e 30% dos alunos do curso médio combinam tolamente os dois números do problema para ”dar” uma ”solução”. Discutindo estes resultados constrangedores, os pesquisadores decidem ir mais longe e propõem a outros professores 15 problemas, dos quais 13 são do tipo acima, ou seja, problemas para os quais não há resposta possível (logo, não são ”problemas”, na acepção completa do termo). Novamente para sua surpresa, a maioria dos professores ”cai como um patinho” (a classe dos professores, portanto, demonstrou um desempenho pior do que os alunos do curso médio...). O filósofo Daniel Dennett escreveu um pequeno artigo que deveria, como já sugerimos com outros trabalhos, também ser reproduzido para professores e alunos. O artigo se chama ”Como se devem cometer erros”.91 Dennett reconhece que há momentos em que não se deve cometer erro algum, como sabem os pilotos de avião e os cirurgiões. Em outro cartum de Quino, paciente na maca chega para uma operação mas se assusta quando lê a inscrição latina que encima a sala de cirurgia: ”errare humanum est”.92 Ora, há certos erros que não se podem cometer, pensa o paciente, com boa dose de razão. Mas tanto os pilotos quanto os médicos precisam errar para aprender, devendo recorrer a simuladores de vôo e de cirurgia (cadáveres, por exemplo). A escola deveria ser, por definição, o lugar para se errar, e assim retirar a inscrição latina da porta da sala de cirurgia, lugar no qual ela se torna perversa e irônica.

91 92

Em John e Katinka Matson. As coisas são assim, pp. 151-8. Quino. Obra citada, p. 33.

Logo, na maioria dos momentos, em vez de se evitarem os erros, se deveria cultivar o hábito de cometê-los: ”em vez de renegar seus enganos, você deveria se tornar um connoisseur de seus próprios erros, analisando-os como se fossem obras de arte, o que, de certo modo, eles são. Você deveria procurar oportunidades para cometer grandes erros, só para então se recuperar deles”. À medida que a pessoa trabalha melhor com os próprios erros e percebe, relativamente surpresa, que a terra não a engole quando ela fala ”você tem razão, acho que eu cometi um erro”, torna-se muito menos provável que se cometa um erro daqueles horrendos, na mesa de cirurgia ou na pista de aterrissagem. Quando o aluno, na sua redação, regulariza um verbo irregular, o professor não deveria considerar a ocorrência como um mero erro a ser punido e desqualificado, mas como evidência de um raciocínio válido, em que ocorre a aplicação de uma regra previamente observada. Ainda que não ”caiba” (olha só um verbo que não deveria ”caber” numa frase decente) naquele exemplo, demonstra-se um raciocínio pertinente. O que o professor deve fazer é explicitá-lo e, sim, valorizá-lo, sem deixar, está claro, de corrigir a ocorrência. Para o crítico literário, o princípio é básico. Importa menos analisar a obra que leu do que ler a leitura que fez, isto é, do que analisar-se lendo aquela obra. O que se enfatiza aqui? A necessidade primordial da segunda leitura, tanto dos livros quanto do mundo e dos fenômenos. Transpondo essa necessidade para a prática da redação, responsável pela construção dos argumentos, reforça-se a necessidade do rascunho e da reescritura, vale dizer, do momento em que se aprende com os próprios erros. Não à toa o físico Niels Bohr afirmava: ”o oposto de uma afirmação correta é uma afirmação falsa, mas o oposto de uma verdade profunda pode muito bem ser outra verdade profunda”.93 A sentença estava de acordo com o seu conceito de ”complementaridade”, que tentava enfrentar, sem eliminar, as contradições entre as teorias da matéria. Numa discussão entre dois cientistas, um afirma que nunca se pode resolver mais de uma dificuldade de cada vez, enquanto outro retruca que nunca se pode recuperar uma dificuldade isolada, devendo-se sempre ultrapassar várias delas ao mesmo tempo. Ambos parecem se encontrar em campos irremediavelmente opostos, até que comecem a argumentar, levando sempre em conta as objeções do outro. O primeiro

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Em Werner Heisenberg. Obra citada, p. 122.

com. é apenas sombra de discurso.pretende dizer apenas que qualquer um que procure enfrentar vários problemas ao mesmo tempo peca por arrogância. a forma típica do raciocínio antidialético é o argumento que se autoconsidera ”politicamente correto”. sem perceber que. do seu Super-Homem solitário e heróico. Nesse sentido. um vislumbre que nos ajuda a eliminar também outras dificuldades”. o fumo faz mal à saúde. baseados em razões absolutamente corretas . que não pensa sobre os seus fundamentos. Tira de Laerte94 é emblemática dessa discussão: Quem afirma que o símbolo ”está proibido” se encontra na sombra.laerte. a suástica. em nome do Übermensch. e também por isso os dois autores deste livro não fumam .trata-se de Werner Heisenberg -. Nos dias que correm. Nesse momento. pois é ele mesmo sombra das suas palavras. passo a passo.cientista – trata-se de Paul Dirac . essa sim. A essência do argumento ”politicamente correto”. Desse modo. como se os veículos que todos continuamos dirigindo não fossem de longe os principais responsáveis pela poluição do ar (mas é mais fácil criticar o cigarro do vizinho do que a indústria automobilística ou o seu próprio sonho de consumo). ambas as formulações parecem conter um pedaço da verdade. O dono da camiseta com a suástica ostenta-a à luz do dia. e faz perguntas incômodas. indiciando não um desacordo irredutível. o Infra-homem dissolvido na Juventude Nazista. de que o ar que eles respiram está sendo poluído.passam a discriminar e agredir as pessoas que fumam com a alegação. Os argumentos convencionais tendem a ter dificuldades com a dialética. que melhor se aprofundaram quanto mais se dialetizaram. exatamente porque não reconhecem nem os próprios erros nem admitem a força da verdade contrária. ”the Germans created and accepted Nazi domination in the name of self-determination”. que manifestamente indica um 94 A tira se encontra no site do cartunista: www. mas perspectivas opostas e complementares. os defensores do antitabagismo. quer apenas assinalar que a solução autêntica de um problema difícil ”não é mais nem menos do que um vislumbre de um contexto mais amplo.de fato. em determinado momento. O segundo . produziu o Untermensch. contestável.br. . abdicam da sua condição de ”argumentos” e passam à categoria inflexível dos dogmas (ou das opiniões frouxas). já que a ciência caminha devagar. Assim como Hitler subverteu a filosofia individualista de Nietzsche e. escolhendo a sua perspectiva como a única admissível. por sua vez. também tomara um dos símbolos mais antigos da humanidade.

. destruindo cidades inteiras. segundo muitos filósofos e psicólogos. todavia. 95 Jean Chevalier. sem retornar. mas espiralado: em círculos que progridem sempre em círculos.dialética. Dicionário de símbolos. do nazismo. sobre duas cidades japonesas.movimento de rotação em torno de um centro. representando portanto ação e perpétua regeneração. 852. ao ponto de partida.. Resistir ao nazismo proibindo o símbolo do nazismo é decretar a vitória final. que se desenrola. Não precisa ir muito longe. O medo era tanto que ”nós” construímos primeiro e lançamos logo duas. de modo não linear. basta pensar no grande medo que os autodenominados ”Aliados” tinham de que os alemães construíssem a bomba atômica. propriamente.95 A suástica estiliza o movimento do próprio pensamento. Quem venceu? A democracia ocidental. Pensar dialeticamente o nazismo implica desconfiar da sua derrota na guerra. com a sua população civil.. percebendo como estratégias nazistas se tornaram vitoriosas posteriormente. p. ou o medo? Ou a Bomba? É uma discussão .

então toda a nossa reflexão sobre a natureza deve girar em círculos espiralados. em círculos que progridem sem retornar ao ponto de partida. falando matematicamente. são necessárias e úteis. em círculos ou espirais. . como sabemos pela teoria quântica. os silogismos não aparecem isolados e arrumadinhos. com as suas premissas e conclusão encadeadas: usualmente parte das premissas está implícita (são os entimemas) e muitos silogismos se articulam em seqüência mesclada (chamando-se. sorites). uma alternativa não equivale a um simples sim ou não. e entre os fenômenos e nós. então. ser ou não ser. poderíamos começar por qualquer lugar. Mas.é o que nos permite arrumar os silogismos. temos todo um continuam de respostas possíveis. Entretanto. lançamos âncoras ao mar do texto. ou. mas não bastam. Enquanto concebemos essas alternativas da maneira como o fazemos na vida cotidiana. pelas alternativas: sim ou não. Para sustentar as premissas. bem ou mal. ainda não é tudo. necessariamente. mas nossa mente é feita de tal modo que parece ser melhor começarmos pelo mais simples. a coisa pára por aí. ao mesmo tempo. e só podemos pensar porque nosso cérebro foi formado de acordo com as leis da natureza. É preciso ainda explorar as contradições que movem o mundo e as idéias. por sua vez. isto é. há muitas outras formas de ligação entre as coisas do que supõe nossa vã lógica ou filosofia. portanto. bem como sua interferência mútua. Ainda não se trata do argumento final. ” Para conhecer a realidade. em debate com o físico Werner Heisenberg. colocamos primeiro os óculos da hipótese . um grupo contínuo de transformações lineares de duas variáveis complexas. 282. As relações de causa e conseqüência entre os fenômenos. aquelas âncoras que se encontravam no fundo do texto). Obra citada. Entretanto. pois só podemos compreender a natureza quando pensamos sobre ela. implica também outras respostas complementares. mas espiralado. bem como em fatos (consensualmente considerados como tal). apoiando-nos em evidências provisórias. Em princípio.A REDE DE ARGUMENTOS Se o movimento do pensamento se desenrola de modo não linear.96 Toda a nossa reflexão sobre a natureza tem que girar. a dialética. o que apenas um esforço dialético dá minimamente conta (embora abale. Em conseqüência disso. p. É o que conclui o filósofo Carl Friedrich. em que o grau de probabilidade do sim ou do não é explicitado. 96 Weraer Heisenberg.

é claro. Eles se combinam com outros modelos. a novidade avassaladora da Internet e sua linguagem ”HTML”. a realidade. 125. premissa maior —» premissa menor — conclusão. aquele que englobe todos os demais. de conhecer e de argumentar. de simulação. para mapear. ao menos neste livro e projeto. portanto simplificar. exatamente porque o nível de modelagem. da Web e. ou mesmo falham.. que simulavam as escalas musicais. As tecnologias da inteligência. se tornou absolutamente abstrato. por definição uma abordagem simulada de verdade. vale dizer. quando se perde de vista a sua dimensão de ”modelo”. os modelos analógicos. e particular —» geral foram e são produtivos até um certo ponto. da política contemporânea. a saber. p. nos oferece uma alternativa que combina com os impasses da ciência nesse final de século. Como temos de nos aproximar do ponto final em algum lugar.. não vamos. O mestre Protágoras ressurge . como uma boneca russa que contém uma boneca menor que por sua vez contém outra boneca menor ainda que por sua vez. confere praticidade ao uso mas dificulta a compreensão. a eficiência ganha da verdade. mas aumentam a distância entre o chamado senso comum e a ciência. Só há uma proibição: não se pode 97 Pierre Lévy. .Na verdade. o pensamento assume mais claramente a sua condição mista de camuflagem e maquete. a sua dimensão de conhecimento por simulação. Eles todavia se interrompem. problema — solução.”o homem é a medida de todas as coisas” porque o quadro epistemológico da Física Quântica. e tese — antítese —» síntese. da Teoria da Relatividade. sigla sucinta para ”Hyper Text Marked Up Language”. com vantagem. Todo conhecimento é mimético (assim como a melhor estratégia de sobrevivência é a do camaleão). o conhecimento através de modelos digitais soa como uma revanche de Protágoras sobre o idealismo e o universalismo platônicos. Diz Pierre Lévy que ”a simulação toma o lugar da teoria. todo a é Q — todo Q é P — logo.97 Os modelos digitais substituem. Na era da informática. é relativista. Os modelos binários pergunta — resposta. Todo conhecimento simula a realidade desde a construção da hipótese. trinários. uma vitória inesperada dos sofistas sobre o organon de Aristóteles”. pelas fórmulas numéricas dos CD-ROMs. Substituir os sulcos de milimetricamente variada profundidade dos discos de vinil. geral —» particular. todo P é a. causa — conseqüência. encontrar o argumento final.

que ”uma pessoa explore modelos mais complexos e em maior número do que se estivesse reduzido aos recursos de sua imagística mental e de sua memória de curto prazo. ele 98 Idem. o sumário dos livros. A simulação. simula. Na parte sobre a preparação do argumento. texto esquemático. não remete a qualquer pretensa irrealidade do saber ou da relação com o mundo. O sumário. Os exercícios de simulação por computador permitem. mas não anula outras perspectivas. parcial ou reduzidamente.98 A perspectiva otimista do filósofo nos parece correta. para ser. que demonstra ou muita dificuldade ou muita resistência para lidar com as novas tecnologias e. mesmo se reforçadas por esse auxiliar por demais estático que é o papel. ibidem. propriamente. isto é. com as linguagens associadas. 126. Há um grande número de professores. . Cada texto. e deve honestamente apresentar a sua bibliografia. conhecemos o hipertexto há muito tempo. no entender de Lévy. não temos acesso. ou mesmo a um outro livro. e aquelas que também não entendem como o aparelho de fax devolve o dinheiro que estariam mandando para as suas filhas na Europa. menos positivas. obviamente. por símiles. Quando um versículo bíblico remete a outro versículo. então. os livros nos quais momentaneamente se ancorou. temos o hipertexto. mas apontam para uma dificuldade intrínseca com os modelos de conhecimento por simulação. cada argumento. em conseqüência. podem parecer apenas casos folclóricos. p.acreditar que os modelos sejam ”verdadeiros” . alertando para a necessidade de se aprender a ler. É ”hiper” porque explicita.todo modelo é construído para determinado uso de determinado sujeito em momento dado. Aqueles que não sabem o que é um drive e deixam o disquete em cima da mesa. que livros se fazem de livros e fazem livros. Um ensaio acadêmico pode conter notas. um argumento ”hipertextual”? Na verdade. na sua própria estrutura. esquematiza o texto a que se refere. assim como quando um verbete de enciclopédia remete a outro verbete. simplesmente. O que seria. para falar apenas de nós mesmos. Aliás. mas antes a um aumento dos poderes da imaginação e da intuição”. ou ao ”pé” (olha a analogia) da página ou ao final. o Texto Maior a que. desde o início dos textos e dos tempos. sobre o reconhecimento de índices. sem entender por que o seu computador se recusa a gravar o seu trabalho no dito cujo. portanto. falamos sobre a importância da leitura instrumentalizada. que textos nascem de textos e geram textos.

Como pode fazer citações (em corpo menor. como em uma só corda com diversos nós. conter uma rede inteira. [.”99 Pierre Lévy define hipertexto como ”conjunto de nós ligados por conexões”. . livro. uma configuração semântica reticular que. não sabendo como fazer o caminho de volta . Quem quer que comece a ”navegar” na Internet sente estimulante e dolorosa sensação de vertigem. talvez imperceptivelmente. de lembranças. uma imagem global. por sua vez. A configuração do hipertexto. o outro também vem. Idem.100 Os itens da informação não são ligados em linha. de modo reticular. imbricando outros textos no seu próprio texto. O que é importante acrescentar é que a relação entre o texto e o contexto não é de mão única. para aquilo que chamamos de ”contexto”. ou seja. 33. chama a atenção para o que circula à volta. Navegar em um hipertexto implica portanto desenhar um percurso em uma rede que pode ser tão complicada quanto possível. Arlindo Machado também entende que a melhor metáfora para o hipertexto. brilhe por um instante na noite dos sentidos. ibidem. ou então orientar sua atenção para uma certa zona de seu mundo interior.] O sentido de uma palavra não é outro senão a guirlanda cintilante de conceitos e imagens que brilham por um instante ao seu redor. mas fazem suas conexões em estrela. ao alertar para as múltiplas ligações do texto. Ela transformará. com apenas esse produzindo aquele: onde um vai. se mostra composta de imagens. até que uma forma particular. permanecendo sentado na sua cadeira. ou seja. o mapa do céu. diremos que o objetivo de todo texto é o de provocar em seu leitor um certo estado de excitação da grande rede heterogênea de sua memória. p. de modelos. de sensações. ibidem. A reminiscência dessa claridade semântica orientará a extensão do grafo luminoso disparado pela palavra seguinte. na medida em que cada nó pode.mesmo. e depois desaparecerá para abrir espaço para outras constelações. de conceitos e de pedaços de discurso. Podemos certamente afirmar que o contexto serve para determinar o sentido de uma palavra. Tomando os termos leitor e texto no sentido mais amplo possível.. se ”perde” completamente. 99 100 Idem. quando nos concentramos nela. 24. e assim por diante. mais destacadas da margem. é ainda mais judicioso considerar que cada palavra contribui para produzir o contexto. p.Ariadne não lhe deu nenhum fio para encarar o labirinto informático.. por exemplo). porque. ou ainda disparar a projeção de um espetáculo multimídia na tela da sua imaginação.

no seu momento genético.ou para a hipermídia. revezando-se e sobrepondo-se como se vários aparelhos projetassem muitos slides ao mesmo tempo. inclusive com palavras sobre palavras e frases sobre frases e ainda por cima múltiplas imagens ao fundo. Essa crítica tem demonstrado que a escritura. pois reproduz bem a sua estrutura intrincada e descentrada. Diz Arlindo: Todo texto. p. bifurca-se diante das soluções diferenciadas. e não achar uma saída. p. é sempre plural. O labirinto cretense. o texto sofre o fogo cerrado dos críticos imaginários que atormentam o autor. ibidem. 101 102 Em Diana Domingucs. através do exame dos manuscritos ou rascunhos originais. toda uma pluralidade. encontraremos muito provavelmente uma barafunda completa de idéias. Modernamente. é a do labirinto. então? Talvez. num repertório de alternativas que. 149 Idem. a própria mente. Pode-se escapar do labirinto pulando os seus muros. as soluções que foram abandonadas. mesmo eliminadas na apresentação final. é sempre a atualização (necessariamente provisória) de uma infinidade de escolhas. mas o que interessa é explorá-lo. continuam a perturbar dialogicamente a forma oferecida como definitiva. ”resolver” o labirinto implica percorrê-lo. mesmo o texto linear e seqüencial. mas o que possibilita visitar o maior número possível de lugares. É muito difícil. ”a forma labiríntica da hipermídia repete a forma labiríntica do chip. mas.102 O que o hipertexto simula. construído por Dédalo. não era propriamente uma armadilha ou uma prisão. O melhor percurso não é aquele que permite chegar mais depressa ao fim. Ao longo do processo de escritura. as versões que não chegaram à forma final.101 Na verdade. com o surgimento de uma crítica que investiga a gênese do texto. multiplica-se numa profusão de possibilidades (que depois se rasuram ou se apagam). ela se dá como feixe de possibilidades e a grandeza do resultado final está menos em escolher a melhor alternativa do que em dar forma orgânica à multiplicidade. 148 . funcionando como um desafio para medir a astúcia do visitante. ícone por excelência da complexidade em nosso tempo”. enfim. se conseguirmos colocar no papel um pensamento como o pensamos (e não como o arrumamos para os outros lerem). é possível tornar visíveis os descaminhos da obra. que precisou ser sacrificada para que o texto pudesse tomar a forma de obra publicável. A arte no século XXI.

É claro. cidades e neurônios. do olhar. p. tantas bifurcações. escola pública e neurotransmissores. no final das contas. Se a educação é prática política por excelência. em um dos famosos desenhos de uma-linha-só de Pablo Picasso. deveria ser imaginado (porque. da carícia. Então. com apenas uma linha . p. sistemas de signos e reflexos. mas é porque uma megarrede cosmopolita pensa dentro dela.104 Uma excelente representação do pensamento múltiplo e vário que não se limita a uma linha com princípio. O psiquismo. ibidem. cada nó da qual é por sua vez um entrelace indiscernível de partes heterogêneas. 173. Para ele. Subjetividades infrapessoais do gesto. . menos ainda. ”a mente não forma um todo coerente e harmonioso”. e assim por diante em uma descida fractal sem fim. Pequenas chamas evanescentes de subjetividade unitária correm na rede como fogos fátuos no matagal das multiplicidades. Obra citada. 105 Pablo Picasso.todavia. 164. meio e fim podemos encontrar. que parece o próprio corpo da filosofia. de cortar. com tantos nós. curiosa e paradoxalmente. Os atores dessa rede não param de traduzir. de repetir.103 O crânio humano conteria milhares de computadores diferentes. 52. o que é todo o contrário da necessidade de controlar (e testar) o 103 104 Em Pierre Lévy. misto de animal e humano. nesse sentido. de desejo e controle. quem pensa? Uma imensa rede loucamente complicada. de flexionar em todos os sentidos aquilo que recebem de outros. desenha no ar uma letra. não podemos saber como ele ”é”) como uma sociedade cosmopolita. Ele traça um centauro. Idem. com todos os seus monumentos e todas as suas mazelas. num gesto rápido. novamente. que por sua vez. tantos contornos. não haveria sequer um código ou um princípio comum de organização a todo o sistema cognitivo. estruturados conforme arquiteturas distintas e desenvolvidos de forma independente ao longo da evolução humana. como uma substância. pesquisador de inteligência artificial do MIT. para a política e para a vida cotidiana. a pessoa pensa. p. que pensa de forma múltipla. e não como um sistema coerente.De acordo com Marvin Minsky. lhe cabe então atuar sobretudo como intensificadora do pensamento. Picasso’s one-liners. Subjetividades transpessoais de grupos. tantos retornos. ou.105 A compreensão da ”rede” e da multiplicidade originária traz implicações definitivas para o ensino.

. Como é que isso se traduziria no trabalho com a redação propriamente dita? Nessa hora. um grupo de disciplinas e professores. do argumento) por simulação. pela nossa abordagem do conhecimento (logo. da teoria do caos e dos fractais aos diversos modelos. toda a discussão contemporânea sobre o conhecimento. Em conseqüência. Dessa maneira. resolva seguir de algum modo o nosso projeto e finalize pela invenção do hipertexto como eixo interdisciplinar. que se deve trazer à baila. os princípios éticos que regem as relações com o pensamento alheio. caso uma escola. o ”ensaio”. nas reuniões dos mestres e nas suas aulas.pensamento alheio. Esperamos estar deixando claro. um verdadeiro ciclo básico para a Universidade. da mente e do pensamento. as maneiras de citar e referir. a saber. mais precisamente. deve ser privilegiado. quer como objeto de leitura quer como proposta de escritura. Devem-se compreender e experimentar os links. os professores precisaríamos abdicar de toda pretensão de controle. que. o texto acadêmico. o ensino médio já se configuraria o que sempre deveria ter sido. psicológicos e neurológicos.

apenas ”normal”. por exemplo: ”São as sombras da justiça o que vê quem afasta o olhar da idéia para a realidade social.como diria Platão. A ilusão da justiça. vendo. Poucos conseguiriam. 5-403. A situação torna-se mais grave quando se percebe que tanto alunos quanto professores não a consideram especialmente grave.e virar a cabeça para ver o real. como profissionais despreparados e cidadãos moralmente inseguros. libertar-se das correntes . todavia. Idem.isto é. Essas sombras se estendem sob os nossos pés de dentro da famosa caverna de Platão. ao divino. p. da alma e da essência .PARTE II COLA. isto é. alegoricamente mas não só. 423.106 A idéia da justiça. ao supra106 107 Em Hans Kelsen. libertar-se da percepção das coisas pelos sentidos . ao imortal. sisifítica. dos acontecimentos que acontecem às nossas costas. . e não a sombra do real. à custa de esforço hercúleo. furta o esforço intelectual alheio. à visão das idéias em si. preparando não só furtos mais graves no futuro. Os homens nos encontraríamos acorrentados à entrada de uma gruta escura. e a muito custo”. inclusive) do corpo. ibidem. definiu parcela importante da sociedade ocidental cristã que nos encerra. Como diz o Sócrates platônico: ”na esfera do concebível a idéia do Bem só se mostra como cognoscível no fim. acima de tudo. A escola que existe talvez tenha dificuldade de enxergar as suas contradições e os seus sintomas por conta das sombras que lhe atrapalham a visão. Esse virar-se é justo a guinada da percepção sensível rumo ao pensamento puro. A alma assemelha-se. caverna essa que. SOMBRA DA ESCOLA À SOMBRA DE PLATÃO A escola em que queremos uma educação verdadeiramente interdisciplinar e com todas as suas práticas centradas no desenvolvimento da argumentação é. pp. a mesma escola em que a maioria dos seus professores colou e a maioria dos seus alunos ainda cola. e são as sombras da justiça aquilo pelo que se luta nos tribunais”. tão-somente suas sombras na parede oposta.107 A guinada da percepção sensível na direção do pensamento puro baseia-se numa recusa apaixonada (patologicamente falando. em nome de uma busca.

conforme a doutrina órfica. que pressupunha verdade preexistente aos sujeitos. corresponde formidável otimismo em relação ao Além. A maiêutica não impedia. 110 Idem. Apenas o invisível. ibidem. 499. portanto.108 O corpo é o cárcere. . da invenção e. a maiêutica. Da recusa do corpo e do Aqui deriva o princípio: o que é perfeitamente bom só pode se fazer pior pela mudança.] A alma é algo inteiramente diverso do corpo. obrigando a alma a não ser idêntica a si mesma. defendia um sistema que começaria por expulsar os poetas e a poesia. prazer e sofrimento. poderíamos dizer -. mesmo em vida. então . coerentemente. e que portanto não se modifica. Todo o trabalho dos filósofos consistiria em libertar e separar a alma do corpo . [. 111 Idem. a modificar-se continuamente. mas. entretanto.restava lembrá-la. ”Ou é inteiramente impossível obter um saber. acompanha cada um de nós apenas como uma espécie de sombra. prazeres. justamente imutável. seria ”impossível que aquilo que permanece sempre idêntico a si mesmo (a lei) se relacione de forma suportável com o que jamais permanece idêntico a si próprio (as relações humanas)”. poderia ser verdadeiro. ao único. ao sensível. apartada do corpo. O corpo é o empecilho primeiro e maior.”109 No aqui e no agora. desejar a morte. Ao profundo pessimismo platônico em relação ao Aqui. bem como os platonismos que o seguiram. sem paradoxo. ou só é possível após nossa morte. algo ”pesado e opressivo” a tornar a alma ”maculada e impura” com seus desejos. p. o corpo. ícones da diferença. assemelha-se ao humano. propriamente a caverna da alma. a alma estará sozinha consigo mesma. o corpo. por uma espécie de parto. Isso porque.e não antes disso -. não propunha formas de tolerância . dores e sofrimentos desejo e dor.o que implica. 113. p. ao contrário. ao mortal. dada desde sempre . Esse sistema calcava-se no método pedagógico de Sócrates..111 Como lidar. ao indissolúvel e ao que permanece sempre idêntico a si mesmo. sob o mesmo valor desprezível. não poderia haver nem justiça. da mudança. desse modo. 467.110 De fato. apenas o só concebível. por sua vez. então. nem conhecimento verdadeiro. Idem. uma das fontes da sociedade ocidental cristã. portanto. p.de suportabilidade. 511. reconhecendo-se.sensível. Íbidem.. àquilo que se dissolve e ao que jamais permanece idêntico a si próprio. ibidem. p. com tal relacionamento insuportável? Platão. é tão-somente a alma que faz de nós o que verdadeiramente somos. que o 108 109 Ibidem. ao multiforme.

o Bem e a Justiça -justifica o meio . As castas devem ser construídas a partir de pseudo-mitos que. o controle. sendo incapaz de agir de forma justa (a não ser por acaso). portanto. A verdade socrática é uma verdade pedagógica. sobre assuntos de avaliação e disciplina. ou engane.no caso.112 Nas reuniões pedagógicas. não vemos alternativa. mas reserva a ambos o direito de empregar a mentira como indispensável instrumento de educação ou de governo. motivado apenas por bons propósitos. o nosso próprio ”rabo”: ele se deita sobre a sombra de Platão.no caso. ou desvelada. como verdade construída e construível. subordinada à meta. ou para línguas.isto é. Proíbe com o máximo rigor que se minta para o governo. meiasmentiras). naturalmente. mesmo supondo que mentir (ou semi-dizer) nos constranja.hibernassem nos discursos . não combinamos certos procedimentos que os alunos não devem conhecer? Não concordamos. O fim . porque é consciente. em conseqüência. aos fins. é claro. de tanto se repetirem. em castas. ou de falar-se. e não exatamente revelada. Os alunos das nossas escolas precisam acreditar que ”dão” para Matemática. diz uma inverdade? Ele mesmo responde. E a pedagogia. ou para o professor. ou para servir. em contar aos alunos apenas meias-verdades (que são. Platão declara. se tornem verdades. que o mais justo. Olhemos. A verdade platônica se admitia. de modo paradoxal. embora não se reconhecesse publicamente como tal. principalmente? Em muitos casos. no decorrer de poucas gerações. disciplinar.e de um Piaget sem ingenuidade . ou para combater. a si mesmos). a classificação. mas coerente: é mais injusto quem mente involuntariamente . a mentira legítimo instrumento da educação. tautologicamente. sob pena de perdermos.porque não sabe qual é a verdade.Sócrates platônico torcesse as verdades ”partejadas” até que elas chegassem ao status de ”verdades” convenientes à ordem e ao princípio de não-mudança. ou aquele outro que. precisa pôr a verdade sempre abaixo da Justiça e do Bem . já que quem conduz os outros só poderia desejar o Bem do Todo (que não será exatamente igual ao bem de todos). Pressupõe-se. ou seja. deriva da necessidade de conduzir os demais (por definição infantes incapazes de conduzir-se. O filósofo pergunta sobre quem seria o mais injusto: aquele que engana intencionalmente seus amigos. mestres à direita ou à esquerda. pouco que seja. a mentira consciente.. ou para serem governadas. As pessoas devem acreditar que ”nasceram para” governar. enquadrando-se em castas que justificam. que define a priori horizonte determinado para o qual quer levar suas ”crianças”. sem querer.. É como se germes de Maquiavel . minta. ou que não ”dão” para nada.

Construir a verdade. 88. Nesses termos. não há heterossexualidade. ou pelo que se lhe assemelhe). afinidade estreita da verdade pedagógica platônica com a sua concepção de amor.mas nos termos platônicos. Essa questão se evita porque se recusam os corpos que existem. ou seja. de maneira desinteressada. de maneira a subordiná-la à justiça. de maneira direta ou indireta. a partir da recusa do corpo e da diferença. Em decorrência. ou absurda. ou educação. sim . o que obriga a. de resto impossível. É por amor aos homens que se deseja modelá-los como deveriam ser. p. Apenas no amor homossexual o filósofo supõe haver a possibilidade de abstenção da satisfação do impulso sexual. pretende-se amorosa. Todos conhecemos a expressão. então. o que temos? Homossexualidade (em sentido estrito. é uma espécie de eufemismo para a pederastia. olhando para nós. a não ser com o próprio umbigo. Outra coisa não é o chamado amor platônico. Se não há relação. nos dois casos. com relação ao objeto. pp. não há amor. as reuniões pedagógicas de escolas e universidades costumam se perguntar ”que aluno queremos formar”. não contradiz o interesse amoroso. ou então jovens histéricas adorando cantores de rock que nunca poderão sequer tocar. em nome de almas invisíveis. como pedagogos. deriva do interesse. esse amor pode ser sublimado no desejo. portanto. em nome de uma alma invisível.socráticos. propriamente. independente de conhecermos Platão. A homossexualidade. apenas uma vontade de poder amoldada ao sujeito. não necessariamente genital. . ao menos como a formula Platão. ibidem. ibidem. faz parte da sua tentativa. A pederastia e a educação de jovens compõem o conteúdo de uma tal vida. de conduzir. logo. político. como condição prévia. Mesmo nos dias que correm. Semelhante condução. da timidez e da histeria. pedagógico. O amor platônico. evitando a questão anterior: que aluno de fato temos. a recusa do corpo. de conduzir os semelhantes mais novos.113 O impulso pedagógico é muito freqüentemente. recusam-se o outro e a diferença. em nome de ”corpos” e discursos que deveriam existir. os moços. ao invés de buscá-la. recusá-los como são. os moços. porque não há relação. que pessoas se encontram em nossas salas. ou ”que aluno queremos ter”. Ora. de recusar o corpo e a vida para ficar com a alma e a morte. Por via de conseqüência. que ideologicamente oculta a si mesmo sua 112 113 Idem. Imaginamo-la ligada a adolescentes tímidos que não têm coragem de se declararem à amada. isto é. amor por si mesmo. Percebe-se. Idem. 199-201/235-238. aqui e agora.

67. Dos delitos e das penas.situação ao declarar que o mundo dos adultos é demasiado corrupto para que possa ser reformado.114 Deriva daí histórico preconceito: de que os gregos. 46. só houvesse homens. ibidem. um verdadeiro paraíso platônico . reformado. antes dele. Entretanto. p. não existe. reservando este apenas para a reprodução. e ainda assim para os muito poucos que soubessem escutá-lo. Um mundo demasiado corrupto não poderia ser compreendido e.admitia o dinamismo do conceito. Kelsen chama a atenção que isto não é uma verdade grega. e do mito de Édipo: Laio foi punido. para confirmar. A preocupação platônica com a justiça legitima a dominação que se articula. exatamente porque seduzira o belo Crísipos. p.onde só houvesse almas. Mas. cabem duas advertências. A primeira é do jurista Cesare Beccaria. ela é uma simples maneira de conceber dos homens”. de se assemelhar a ele. mas ao contrário. recusando-se a pensar em termos de essência da justiça . mas platônica. então. portanto. ao menos. sem dúvida obscura.115 Beccaria já reagia ao platonismo. em conjunto harmônico com as verdades que se constroem. em conferência de 1973. uma vontade obscura de se afastar dele e de destruí-lo. é só lembrar das comédias de Aristófanes. A segunda advertência é do filósofo Michel Foucault. como sugere a expressão libido grega. preferiam o amor homossexual ao heterossexual.”116 Em outras palavras. ou. a libido cognoscendi confunde-se. Cesare Beccaria. Os pedagogos forjam-se a partir do amor ao que não muda e. o que nos leva ao capítulo seguinte. Recusa-se o corpo porque se recusa o tempo presente. maldade radical do conhecimento. 114 115 Idem. que ridicularizavam os personagens homossexuais. de acordo com a nossa apropriação daquelas considerações). As considerações de Kelsen tentam iluminar a sombra platônica que reside nas costas da cultura (e da escola. como uma força física ou um ser vivo. em nome de um Além que apenas o filósofo saberia definir. nascido em 1738: ”É necessário evitar associar à palavra justiça a idéia de algo real. proferida no Brasil: ”Atrás do conhecimento há uma vontade. com a maldição do oráculo. . não de trazer o objeto para si. irremediavelmente. é preciso construir um outro mundo. A pedagogia nasce da denegação da História.

116 Michel Foucault. 21. .com a libido dominandi. p. A verdade e as formas jurídicas.

a orientação dos jovens. da política. Disciplinase. Sem prejuízo de sistemas paralelos de enquadramento e penalização (advertência. Sensação que se reforça quando a inspetora e/ou coordenadora e/ou diretora observam mestre e discípulos. . Na fábrica. portanto. Vigiar e punir. vestuário). no ”tempo” seguinte. reprimindo o conjunto dos comportamentos que escapam aos grandes sistemas de castigo. falta). para mestres e discípulos. disciplina-se pela localização e postura do professor. no dia seguinte. ao mesmo tempo. A sala de aula contemporânea remete à cela contemporânea. a nota configura o principal mecanismo penal da escola. mais ou menos difusa. suspensão. dos discursos (tagarelice. sujeira. no exército e na escola há toda uma micropenalidade do tempo (atraso. Michel Foucault. Disciplina-se pela arquitetura externa e interna da escola. ao toque estridente do ”sinal” que anuncia o recreio ou o final do dia.117 Ainda que não houvesse a escola como a conhecemos hoje.. medianos (medíocres) e inferiores (irrecuperáveis). disciplinas. pelo vidrinho da porta da sala. desobediência). funciona um pequeno mecanismo penal”. apequenando vítimas e agentes. ruidosa. fazendo todos se sentirem como peixes vermelhos ”disciplinados” dentro de um aquário. negligência. através da moeda de troca da escola. da maneira de ser (grosseria. p. interrupção). principalmente. socialmente. disciplina-se pela distribuição compulsória dos alunos na sala. da sexualidade (imodéstia.À SOMBRA DA CELA Já em Platão. a nota: o enquadramento dos indivíduos em terços superiores. na aula seguinte. A prisão. na semana seguinte. p. qual seja.. indiscretas. Obra citada. uma 117 118 Hans Kelsen. no período letivo seguinte. 178. expulsão). Ainda que uma liberdade parcial se apresente.159. tão pior do que aqueles em que vivemos e convivemos: ”a prisão: um quartel um pouco estrito. da atividade (desatenção. a pedagogia. não se mostra. o virtual embrião do Estado verdadeiro. a escola era um sucedâneo para a política e. recomeça. Porque: ”na essência de todos os sistemas disciplinares. a sensação de aprisionamento. disciplina-se pela divisão estanque do conhecimento em. insolência) do corpo (postura. como um espaço tão diferente assim. Configura-se uma justiça criminal miúda.118118 É como se as instituições não-jurídicas quadriculassem espaço deixado vazio pelas leis maiores. indecência). ou na sombra. se encontrava na base. castigo.

porque toda avaliação é uma penalização” . com um pouco de paciência. A prisão. via de regra. É certo que a nota é um sistema precário de estímulo à aprendizagem.208. muito mais próximo do chicote e do tablete de açúcar do domador de cavalos. Entretanto. os interesses históricos que construíram a escola (e a prisão) que conhecemos. assim como a escola.recebem. deveras ingênua: a de que se pode querer aprender sem interesse como querer. 119 Nesse ponto os leitores. É verdade. a qual ocorre também em relação às críticas estruturais que as duas instituições . habituados a assistir a filmes de penitenciárias cruéis. homens ficam com homens. Mas. sem querer? Logo. na escola. por trás.p. dentre as poucas que foram promovidas. e do conhecimento. levando ao fundo. . uma teoria do ser humano. que não apenas reproduz como ainda intensifica o controle que já sofrem (sem contar a ação de bedéis grosseiros)? A pergunta é retórica. imaginamos que os leitores. Se o professor abole a nota das suas aulas. pode aparecer justamente através dessa comparação entre a cela e a sala.prisão e escola . uma oficina sombria.ibidem. humilham-se e violentam-se entre si. ”é proibido avaliar. como solução do problema. podem rejeitar a semelhança e a isonomia. constrangidos. Nas prisões. aceitem a resposta infelizmente afirmativa.escola sem indulgência.contradiz seus próprios termos. e todas as críticas apontam. cabe examinar. vem há séculos recebendo graves críticas sobre a sua ineficiência. pelo menos em relação a seus objetivos explícitos . A abolição simples da nota tem. na sombra. em nome do saber sem penalidades. meninos não tendem a ficar com meninos. para soluções alternativas. o próprio problema. todas as críticas sugerem a reforma da prisão. fica sem alunos e sem emprego. deu o menor salto qualitativo. nada de qualitativamente diferente”. Isto é. mas. A ponta do nó górdio da questão. não exercem nenhum jogo de humilhação e dominação. nunca desatado ou rompido. as observações que fazemos não são novas e não apontam. mas não se inventou nenhum melhor. O poder penal 119 Idem. a despeito de importantes diferenças de grau entre os procedimentos e os acontecimentos de uma escola e de uma prisão. Todo argumento que retome a ordem ”É PROIBIDO PROIBIR” . sem contar a ação de carcereiros estúpidos. Mas as diferenças de grau antes confirmam que desmentem a isonomia. mesmo sabendo que nenhuma reforma.ou.recuperar criminosos para a sociedade e para a cidadania responsável -.

Enquanto o sistema escolar a todo momento pune e recompensa. O inquérito. na Zoologia. ”Tem-se aí uma nova maneira de prorrogar a atualidade. testemunhas reconstroem o delito que não pôde ser flagrado. que reconstrói a verdade. como tribunal permanente. p. como um bumerangue metafísico. Quer dizer.120 Presentifica-se o crime. seguindo o espírito arrogante do cientificismo. Todo saber é uma forma de poder. prefigurado em Édipo. com ajuda de testemunhas e deduções. pela causa. até encontrar o último (em termos morais) de todos os criminosos. É a isso mesmo que Nietzsche se referia. ao saber. portanto pelo culpado: a investigação termina por apontar. simultaneamente. configura-se uma nova forma de saber-poder que pretenderá estudar os fenômenos a priori. praticamente sem justificativa teórica.. mas já se enunciava na história de Édipo-Rei. sempre.maior e os micropoderes institucionais são. a Estatística. daí nascem. ao afirmar: je est un autre. arbitrando para conhecer. A prisão surge como instituição de fato. Mas. como se estivesse sendo. Édipo é provavelmente o primeiro de todos os detetives. conhecendo para arbitrar . Trata-se do exame. de transferi-la de uma época para a outra e de oferecê-la ao olhar. a Geografia. para o próprio investigador. a Astronomia. Entre as formas de saber-poder da sociedade ocidental. enfim. O exame começa na prisão. O inquérito é uma forma de pesquisa da verdade que aparece como ordenação jurídica na Idade Média. para presentificá-los. judiciário. controlá-los desde suas primeiras causas. na Botânica. É disso que Rimbaud falava. . para só depois provocar conceitos e noções que a 120 Michel Foucault A verdade e as formas jurídicas. atualiza-se o que foi.arbitrariamente. quando alertava: o perigo de olhar para um abismo se encontra na possibilidade de surpreender o abismo olhando para você. no século XIX. a Economia. o sistema penal stricto sensu a todo momento estuda o comportamento e a ação dos homens e das leis. aquele que matara o próprio pai e dormira com a própria mãe: ele mesmo. como se ela ainda estivesse presente”.. Estudam-se os fenômenos a posteriori. mais tarde. a primeira de todas as histórias de detetive já enunciava o paradoxo perturbador da procura humana pelo conhecimento. a partir do século XII espalha-se como forma de saber na Medicina. O inquérito. disciplinares e epistemológicos. e vice-versa. substitui o flagrante delito. isto é. 72. Foucault vislumbra duas grandes linhas: a do inquérito e a do exame.

. Escher (que. p. não havia nela nenhum ponto de sombra e. 121 122 Idem.124 O panóptico prenuncia as tentativas futuras. O Panopticon era um edifício em forma de anel. o conhecido dragão de M. Visível. . o princípio da masmorra é invertido. sua planta baixa é a do Panopticon.123 Para Bentham. 85. se automatiza e se desindividualiza o poder. mas das virtualidades de comportamento que elas representam. 31. no fundo. como a escandalosa noção de periculosidade: ”a noção de periculosidade significa que o indivíduo deve ser considerado pela sociedade ao nível de suas virtualidades e não ao nível de seus atos. Como cada cela dava ao mesmo tempo para o interior e para o exterior..sustentassem. atribuem-se menos a função de punir as infrações dos indivíduos. o operário) nunca sabe quando está sendo observado. Na torre central havia um vigilante. em gravura de 1952. o hospital. Dissociando o par ver/ser visto. C. Esse tipo de poder pode perfeitamente receber o nome de panoptismo.122 Em suma. e depois a escola. É o uroboro filosófico. mais a de corrigir suas virtualidades. o olhar do vigilante podia atravessar toda a cela.a torre de vigia.”121121 A justiça. tautológicas.. não ao nível das infrações efetivas a uma lei efetiva. p. havia. ibidem. porque a todo instante o detento (o aluno. o asilo. [. Inverificável. 177. o vidro da sala de aula (do aquário). de a mente obter poder sobre. Seu ideólogo chama-se Jeremy Bentham. a polícia. por conseguinte. a sociedade que atualmente conhecemos . Idem. 87. um louco atualizando sua loucura etc. O anel se dividia em pequenas celas que davam tanto para o interior quanto para o exterior. tudo o que fazia o indivíduo estava exposto ao olhar de um vigilante que observava através de venezianas.] O Panopticon é a utopia de uma sociedade e de um tipo de poder que é.. o operário) vê o que pode vê-lo . um operário trabalhando. o panóptico seria ”a new mode of obtaining power of mind over mind”. segundo o objetivo da instituição. uma criança aprendendo a escrever. A visibilidade é uma armadilha. primeiro. porque o poder deve simultaneamente ser visível e inverificável. Vigiar e punir. de postigos semicerrados de modo a poder ver tudo sem que ninguém ao contrário pudesse vê-lo. 123 Michel Foucault. porque o detento (o aluno. tanto se torce que forma também o sinal de infinito). Em cada uma dessas pequenas celas. 124 Jeremy Bentham. Entra-se na idade do que Foucault chama de ”ortopedia social”. a própria mente. p. The panopticon writings. ibidem. no meio do qual havia um pátio com uma torre no centro.utopia que efetivamente se realizou. p. o monstro que tenta devorar o próprio rabo e. um prisioneiro se corrigindo.

O exame faz a individualidade entrar num campo documentário. todavia. é o exame contínuo (a prova. ou.. onividente: ”sua essência consiste. onipresente e. p. O sujeito torna-se culpado (ou burro. cada um com todos. para controlar no nascedouro as causas dos desvios. de uma espécie de ”inspetor central”. de fora. relatórios. todos controlam todos. criando o chamado ”provão” de fim de curso.. A essência do panóptico reside na centralidade da situação de inspeção. Pressupondo que haja verdade e sinceridade nas intenções oficiais (logo. Reúnem-se então circunspectos Conselhos de Classe para. Compara-se. pais controlam coordenadores. exames vestibulares.125 A base dessa arquitetura institucional.por que atirar no pato (no graduando) para acertar no lago (na faculdade 125 Idem ibidem. A semelhança com as campanhas pela reforma das prisões não é mera coincidência. avaliações. sucedem-se boletins. o que permite medir e sancionar. supondo ingenuidade nossa). mais controle. em que não apenas mestres controlam alunos. submetem-se os alunos que se graduam a um exame nacional. ou louco. o exame. então. no Brasil. depois de prolongadas e cansativas discussões não remuneradas. sobraria o veredicto de ”estupidez” . . A pretexto de examinar a qualidade das universidades. O controle. onipotente. tem de ser altamente ritualizado basta tentar observar. Recentemente. não parece garantir um melhor ensino. portanto.portanto. sem dúvida ficcional. mas coordenadores controlam mestres. a si mesmo. combinada com a famosa e eficaz artimanha do ver sem ser visto”. o tempo todo. que foram ”mal formados”. Em todos os dispositivos de disciplina. 43. na centralidade da situação do inspetor. nas universidades. arquivando cada um dentro de uma rede de anotações escritas. exames orais. ou um aluno melhor. ou doente) até prova (exame) em contrário. ”a superposição das relações de poder e de saber assume no exame todo o seu brilho visível”. exames psicotécnicos. então. principalmente. exames médicos. constantemente. na petição de princípio em que caem. na construção. e menos ainda um professor melhor. o teste). para conferir se eles foram bem ”formados”.126 A escola torna-se um aparelho de exame ininterrupto. o Ministério da Educação nos oferece mais um exemplo do frisson examinante. Gasta-se uma fortuna para saber o que já se sabe: os alunos que estudaram em faculdades devidamente autorizadas pelo poder público são informados. os reformadores do mundo ou da humanidade. propor-se. pelo mesmo poder público.

166-172. mas trata-se de um domínio ilusório (domínio de uroboro). . o que. pp. portanto coerente. a desonestidade intelectual mãe de todas as corrupções. A escola. na verdade. como pós-graduação do crime. ou delinqüência . Freud. não consegue.que. no fato de que não se submete o inconsciente . pp. produz. Não há outro domínio que o do Eu.127 Essa é a utopia panóptica . loucura. para meio-azar nosso. Antes. estuda-se com cuidado indivíduo por indivíduo. ibidem. Proibir promove .ruim)? . para meia-sorte nossa. pois visam primordialmente ao domínio da criança e de seu desenvolvimento.por desobediência. 165. aliás. Ou. Freud já lembrava que o objetivo do Eu (do ego. delinqüentes em profusão. doentes desobedecem às prescrições médicas. Os sujeitos tendem a se individualizar antes por desvios . desde os primeiros exames. As três repousam sobre os poderes que um homem pode exercer sobre outro mediante a palavra. Na relação pedagógica. incluía a educação entre as profissões impossíveis. controla melhor assim. Mas isto mesmo pode ser mau.do que por proezas. Nisto as doutrinas pedagógicas seriam eu-óicas. em qualquer relação. estudavam-se cuidadosamente os heróis. Detentos fogem. Isto pode ser bom.e promovendo. 128 Catherine Millot.128 Mas. antes de objetivação e de sujeição. loucos riem de enfermeiros. com a (ir)racionalidade dominante. e as três encontram os limites de sua ação. e dos alunos. não se pode realizar plenamente. ou os grandes bandidos. o esforço de controle e de domínio implica conseqüências que põem do avesso princípios e ideais. os reis.pois é ele que nos sujeita. ainda assim controla. criada para ensinar e 126 127 Michel Foucault. se termina por tornar a cola uma das subinstituições mais fortes da escola.se a medida não fosse isonômica. Idem. como também se traduz) é manter a qualquer preço o controle da situação para conservar o prestígio. com conhecimento de causa. alunos namoram e ”colam”. Vigiar e punir. como. criada para ressocializar criminosos. Substitui-se a individualidade do homem memorável pela do homem calculável. mas o processo não é mais o de heroificação. em última instância. Freud antipedagogo. p. indubitavelmente. o inconsciente do educador possui peso muito maior que todas as suas intenções conscientes. porque significa que o indivíduo reage ao controle e à desindividualização. ensinando. ao lado da psicanálise e da arte de governar. agora. O poder panóptico pretenderia eliminar a cola. 149-151. implicando o desconhecimento da impossibilidade estrutural desse domínio. A prisão.

São falhas ou condições do sistema? É o que se tentará responder a seguir. . desonestos consigo mesmos e com seus parcos saberes. forma. contingentes de trabalhadores semi-honestos e semicapazes .formar cidadãos.em outras palavras. também.

de julho de 1996. pela promiscuidade. metáfora: o presídio que ameaça ruir. ao mesmo tempo. A pergunta é esperta. como uma incubadora. falando da hipocrisia do sistema penal: Jamais se viu alguém sair de um cárcere melhor do que quando entrou. dos guardas e dos carcereiros. embrutece. corrompe. o que nos remete à afirmativa categórica de um dos mais importantes juristas brasileiros: ”a prisão não regenera nem ressocializa ninguém. A polícia já havia encontrado 56 túneis sob o presídio.”130 Evandro Lins e Silva completa seu argumento. p. todo o sistema. Um exame técnico havia indicado que a fundação do prédio fora danificada e ameaçava desabar. porque supõe diretores. 240. a ponto de ameaçar ruir toda a construção? A pergunta é. a delinqüência. conta que a Justiça interditou o Presídio de Guarulhos. como unívoco.o desemprego. na verdade. transferindo os presos para outro local. Evandro Lins e Silva Arca de guardados. De Beccaría a Filippo Gramática. Legalmente. ainda que casual. de preferência. com suas fundações minadas por dezenas de túneis cavados diuturnamente pelos presos. ingênua e esperta. . é uma universidade às avessas onde se diploma o profissional do crime”. nas nossas penitenciárias e nos xadrezes das delegacias de polícia. sem contradições. não podem viver ou sobreviver. pela ociosidade. em São Paulo.À SOMBRA DO FÓRUM Manchete do jornal O Globo. e o mal ainda se agrava. pela própria prisão. A prisão constrói as suas próprias cavernas de sombras. deforma. A sociedade que os enclausurou sob o pretexto hipócrita de reinseri- 129 130 Evandro Lins e Silva. uma reprodutora de criminosos: ”a prisão é má por si mesma. sem corrupções. é uma fábrica de reincidência. A pergunta é ingênua. perverte.129 Esse jurista vê a prisão. E o estigma da prisão? Quem dá trabalho ao indivíduo que cumpriu pena por crime considerado grave? Os egressos do cárcere estão sujeitos a uma outra terrível condenação: . avilta. graças aos túneis construídos por presos em fuga. porque aponta para uma excelente. os mais jovens. daí decorrendo toda a sorte de perversões e brutalizações sexuais. guardas e carcereiros. pela superlotação. que atingem. dentro dos padrões convencionais. no lugar. como se fossem toupeiras que às cegas procurassem a luz encontrando. Como é que se podem cavar 56 túneis sob as barbas dos diretores.

com pelo menos um terço em situação irregular. também. realizado pelo Ministério da Justiça.” Entender o criminoso como um ”trecho flagrante da humanidade” implica admiti-lo. Como já admitia Beccaria. rejeita-os. Exterminá-lo. mais cruéis).760 presos (15% a mais do que em 1994). quer do cidadão. ao custo de 1. não dá conta do problema social: novos sintomas e novas sombras se produzem. Idem. e. mas um trecho flagrante da humanidade. o índice de penas alternativas é de 50%. Deixa. pela pena de morte. pura e simplesmente. Alguns países já conseguiram avançar para privilegiar penas alternativas. cumprindo pena não em presídios. Só para colocar os condenados em celas minimamente decentes seria preciso construir 145 presídios. que não impliquem encarceramento: na Inglaterra. como permanecemos na retaguarda dos retardatários.los depois em seu seio. em última instância. ibidem. mas não se furta a pensar a contradição embutida nesse clamor: ”os partidários da volta a métodos bárbaros de repressão. o censo penitenciário de 1996. No Brasil. de haver alternativa. aí sim. mas amontoado em delegacias ou cadeias. citado por Evandro: ”o crime não é apenas uma abstrata noção jurídica. nos Estados Unidos. e o criminoso não é um impessoal modelo de fábrica. no século XX. de acordo com suas intenções explícitas. repele-os. De Beccaría a Filippo Gramática. mantêm-se 150 mil pessoas em condições de barbárie e crueldade). o ex-condenado só tem uma solução: . no século XVIII. de 68%. . por penas mais duras (leia-se.7 bilhão de reais . ou enclausurá-lo.133 Não só fomos o último país do Ocidente a abolir a escravidão. No Brasil? Apenas 1% (para ser exato. Nelson Hungria. que constrói imensos prédios para melhor ressocializar.incorporar-se ao crime organizado. Não entendem que estão transformando homens em feras e aumentando a legião dos desajustados. e admite Lins e Silva.131 O advogado tem consciência do clamor popular por mais prisões. aqueles que 131 132 Evandro Lins e Silva. como sintoma e como sombra. isto é. contabiliza números vergonhosos: 148. quer do legislador.o que é inteiramente inviável (logo. mas um fato do mundo sensível. um vírgula dois por cento) dos condenados brasileiros cumpre penas alternativas. repudia-os. a prisão é sombra da hipocrisia de um poder.”132 O que nos obriga a dar ouvidos a outro eminente jurista brasileiro. ou de um fórum.

Quando se vê assim exposto a sofrimentos que a lei não ordenou nem mesmo previu. portanto. O fim último de todo sistema penal. para os perigosos”. já compreendia: O sentimento de injustiça que um prisioneiro experimenta é uma das causas que mais podem tornar indomável seu caráter. ou. que o número das reincidências aumenta. .tantas vezes. Cesare Beccaria. ”ultima ratio. 135 Idem. ibidem. p. e por isso erraram aqueles que pensavam ser a real medida dos delitos a intenção de quem os comete”. já admitia que ”a única e verdadeira medida dos delitos é o dano provocado à nação. Obra citada. por seres finitos.136 Ele admitia a prisão apenas como recurso extremo. Como. crescem as críticas ao fracasso da prisão. p. sem aparentemente observar o óbvio: o efeito de fato alcançado é o avesso do efeito assumido como desejado. 136 Idem. mesmo quando se publica que o número de crimes não diminui. como ecoa Evandro. seria apenas o de ”impedir que o réu cause novos danos aos seus concidadãos e dissuadir os outros de fazer o mesmo”. porque nem podemos ter acesso direto e completo às nossas próprias intenções mais profundas . assinado por Julius. Desde seu advento institucionalizado. sabemos o que queríamos só depois: ”a gravidade do pecado depende da imperscrutável malícia do coração. ”resulta evidente que o fim das penas não é atormentar e afligir um ser sensível. O procedimento do exame. a qual não pode ser conhecida. 137 Evandro Lins e Silva. não decresce. com propriedade e bem antes de Freud.134 Entendia.137 O que se viu. ou seja. entretanto. multiplicando os problemas de verba e de superlotação dos presídios. nem desfazer um delito já cometido”. intenta controlar as próprias intenções dos sujeitos. ele entra num estado habitual de cólera contra 133 134 Dados da revista Veja de 23 de outubro de 1996. Texto de 1831. poderia essa malícia constituir-se em norma para a punição dos delitos?”135 Logo. que não temos nem podemos ter acesso direto às reais intenções das pessoas. As campanhas contra a impunidade exigem que se prendam mais pessoas. no entanto. foi a aplicação da prisão em todos os casos. 65. De Beccaria a Filippo Gramática. que se espalhou do tribunal à escola. ibidem. no afã de prevenir e dirigir mesmo os atos que ainda não foram consumados. 55. pois. a segregação só em último caso. sem uma revelação. A ética pragmática de Beccaria. p.se tenham desviado. sem que se abale seu prestígio público. 57. passando pela burocracia e pelo hospital.

p. é feita para alguns e se aplica a outros. tipo especificado. paradoxalmente muito melhor armadas. 141 Idem ibidem. ou seja.139 Ora. A mais ingênua das polyanas sabe. forma política ou economicamente menos perigosa . hoje em dia. 237.140 Não à toa colarinhos brancos entram na prisão apenas como diretores ou visitadores. íntimos. Idem. A hipótese de Foucault é de que a prisão e seus castigos não se destinam a suprimir as infrações. marcada. só vê carrascos em todos os agentes da autoridade. É impossível compreendermos a situação se não a pensarmos como resultante de um conjunto de acordos. da delinqüência. As críticas sugerem somente reformas. que a lei se diz feita para todo mundo em nome de todo mundo. entre as forças da ”ordem” e as forças. das leis.tudo que o cerca. cidade em que moramos. Produz-se um mal menor. 140 Idem. A prisão não teria fracassado em reduzir os crimes. mas antes organizar a transgressão num sistema de sujeições. e do 138 139 Em Michel Foucault Vigiar e punir. Expedições policiais e militares para desalojá-los representaram fracassos vergonhosos. 244. é emblemático. estas sim. ano em que começamos esta pesquisa. acusa a própria justiça. Tais acordos não precisam estar escritos. verdadeira. o pretenso fracasso da prisão pode estar escondendo. . da ”desordem”.138 A despeito.de ilegalidade”. para controlar o mal maior. A cidade se encontrava aparentemente sitiada pelos traficantes de drogas. antes tido sucesso em ”produzir a delinqüência. ”a realização do projeto corretivo como o único método para superar a impossibilidade de torná-lo realidade”. do fórum. pesa sobre outras ilegalidades e revoltas populares que ameaçariam. não visam a tornar dóceis potenciais transgressores. o sofrimento de delinqüentes e suas vítimas de ocasião. encastelados nos morros e nas favelas. A prisão não pretenderia nem eliminar nem reduzir a criminalidade. mas na verdade. 235. mas antes organizá-la numa espécie de economia de poderes subterrâneos e eficientes. basta que funcionem.talvez até utilizável . dando a prisão (melhorada) como remédio da própria prisão. ibidem.141 A existência visível. Nesse sentido. p. 240. o risco de perder qualquer fatia de poder. o seu verdadeiro sucesso. nem serem claros. cinicamente. ibidem. e como sombra mesma. p. O caso do Rio de Janeiro. em 1997. p. não pensa mais ter sido culpado. mas antes a distingui-las e utilizá-las. isto é. a prisão se mantém. à sombra. o pretenso mal menor se torna um bem: a marginalidade delinqüente se torna fundamental para circunscrever e fixar as fronteiras da sociedade. os poderes vigentes.

p. o bicho (a lei) pega. João Uchôa Cavalcanti Netto. um convite tão subliminar quanto rendoso à insurreição. O Direito. ela própria arruma então um jeito fundamental de ser contrariada: e no simples brandir do castigo já ela excita à rebeldia pois de antemão não se anunciam penas quando se crê na força do comando. os esclarecem. 52. ibidem. isto já tinha um nome: the fiction of God. por outro lado não há lei sem crime posterior que a ratifique. um mito. organiza silenciosamente um campo de objetividade em que o castigo poderá funcionar em plena luz como terapêutica e a sentença se inscrever entre os discursos do saber”.142 Um juiz de direito lembra o serviço que o crime presta à lei: Logo. ao impedir que o sistema jurídico se dilua no vácuo.”144 Se correr. Limita a velocidade do trânsito permitindo entretanto a produção de veículos quase capazes de voar. . sendo só meia verdade declarar que a lei serve ao Direito: a irreverência também serve. e não apenas porque os seus túneis de fuga seriam um pouco mais escuros do que os corredores dos tribunais.p. mentem. p. estimula o que reprime. Em Bentham. A lei. se ficar. contêm mentiras que. A prisão é a região mais sombria do aparelho de justiça. Trata-se de duplos vínculos: ordens que se anulam mutuamente. 98. para sobreviver.parlamento democrático. a lei assim freia ostensiva através do preceito e estimula dissimulada justo mediante a propaganda da sanção com a qual de público admite previamente que será violentada.227.ibidem. Perfeita réplica do verbo divino. como fizera Jeová. A prisão ”é o local onde o poder de punir. que não ousa mais se exercer com o rosto descoberto. praticamente impinge o desacato. E como a norma jurídica. mas para obrigar à culpa. que reprime. será possível? Parece: ”a lei proíbe sim o uso de armas porém autoriza a respectiva fabricação e em tal quantidade que. ordens proferidas não para serem cumpridas. e depois (ou ao mesmo tempo) presos por não ter cão. o bicho (a infração) come. emitindo dessa maneira. às vezes.143 Os fatos. curiosamente. em vez de sequer dificultar. 142 143 Idem. 144 Idem. sem respostas. se não há crime sem lei anterior que o defina. reclama desobediências eventuais. Somos presos por ter cão.

. outros autores exploraram o medo de um futuro monista e panóptico. mas não o aceitaram para publicação. meigos e sérios. já enfrentava a idéia panóptica. enfim.”. Dentre eles. um dissidente russo. Revolução. isto é. No ensaio ”Literatura. p. de um grande Olho que pode ver todos os recantos. Mas. da parede da minha sala. Muitos livros tematizaram o panóptico. Ah. é um meio de combater a calcificação. do que a literatura que vê a si mesma como ”útil” à Revolução . William Golding (O senhor das moscas) e Anthony Burgess (Laranja mecânica). A crítica ao panoptismo aqui se apresenta com todas as letras (e algarismos): O Horário. o romance mais conhecido é 1984. antes deles. meus pensamentos se voltam para o que os antigos chamavam de ”ícone” e sinto um desejo intenso de compor poemas ou preces (que são a mesma coisa). coração e pulso do Estado Uno? Quando crianças. Nós foi escrito em 1921. inexistente) do inspetor-geral toma a forma do Big Brother. de George Orwell. como Aldous Huxley (Admirável mundo novo). Depois dele. Um dos pontos altos do romance é o tributo irônico ao ”Horário. coração e pulso do Estado Uno”. Formulava seu argumento como um paradoxo . provocou violentos ataques dos críticos e escritores do partido . em 1923. Nós.exatamente porque se tratava de uma sátira cáustica às sociedades esquemáticas e totalitárias.À SOMBRA DO DEUS A utopia panóptica . Lido. porque é antientrópica.145 Eugene mostrava-se. na escola. por que não sou poeta. assim. Orwell escreveu-o em 1948. em geral para repudiá-lo.. Nesse momento. Entropia e Outros Temas”.. seus algarismos roxos em campo dourado olham-me nos olhos. ou exorcizá-lo. 9. invertendo os dois últimos algarismos para situar sua utopia negativa. para render um merecido tributo ao Horário. Eugene Zamiatin. ”mais” dialético do que os defensores ”oficiais” da dialética.. com sua obra-prima: Nós.revolução que se calcifica no instante exato em que se arrota maiúscula.a literatura nociva seria mais útil do que a literatura útil. Involuntariamente. . conforme era costume à época.em si mesma uma obra de ficção gerou outras tantas obras de ficção. todos lemos (talvez você tenha também lido) o maior 145 Eugene Zamiatin. em que a figura onipresente e onividente (entretanto. numa reunião do Sindicato dos Escritores Russos. o escritor defende sua opção estéticopolítica com clareza: ”A literatura nociva é mais útil do que a literatura útil.

adormecemos.e você pode chamar-me de idealista. para produzir a ficção que melhor atuasse sobre a realidade. Nessas horas podemos observar persianas recatadamente baixadas nas salas de alguns.. determinado pelo Horário. nós milhões de nós . como brilha! Quem não perde o fôlego folheando ansioso ”O Guia das Estradas de Ferro”? Mas o nosso Horário? Ora. vamos ao auditório. e verá que parece grafite na presença de um diamante. como é transparente o diamante. Algum dia. A semelhança com o pensamento de Platão .tenho confiança de que mais cedo ou mais tarde conseguiremos integrar também essas Horas Pessoais na fórmula geral. Ele se preocupava menos em distinguir as ficções da realidade. como é eterno. ibidem. Duas vezes por dia. e num uníssono de milhões de cabeças paramos.400 segundos também farão parte do Horário. Todas as manhãs. À mesma hora.em outras palavras. Jeremy Bentham propõe sua Inspection House a partir de uma elaborada ontologia da ficção. das dezesseis às dezessete.carbono . à mesma hora e no mesmo instante. Mas compare-o com o nosso Horário. sentados à escrivaninha. esses 86. num uníssono de milhões de cabeças. para explorar os efeitos que a ficção exerce sobre a realidade . ele transforma cada um de nós numa imagem de aço. outros caminhando compassadamente pela avenida como se subissem os degraus de bronze da Marcha. vamos ao ginásio para fazer ginástica Taylor. saímos para passear. levamos nossas colheres à boca. no mesmo segundo. são as Horas Pessoais determinadas pelo Horário.levantam-se como se fossem um só. mas reservava a ambos o direito de empregar a mentira como legítimo instrumento de educação.que proibia com o máximo rigor que se mentisse para o governo ou para o professor. esse poderoso mecanismo único subdivide-se em células individuais. No mesmo segundo. começamos a trabalhar. seriam 146 Idem. no capítulo que se refere à ”sombra de Deus”. de sonhador . 26-7. Mas tenho confiança . ainda outros.monumento literário que herdamos dos antigos . E fundidos num único corpo de milhões de braços. como Zamiatin. e das vinte e uma às vinte e duas horas. pp. ambos são constituídos do mesmo elemento . num herói de seis rodas de um fantástico poema épico. ou de governo não será mera coincidência.146 A sátira contida nos romances de Eugene Zamiatin e George Orwell não se coloca por acaso. com a precisão de seis rodas. ou as diferentes ficções entre si. Serei inteiramente franco: mesmo nós ainda não encontramos uma solução absolutamente perfeita para o problema da felicidade.no entanto. Também para Bentham. .”O Guia das Estradas de Ferro”.. como eu agora. os poetas.

que permite a cada um dentro das celas ser facilmente visto. produziria um bem para todos .em termos freudianos. quer por rondas aleatórias. uma sombra. O inspetor perfeito é. o inspetor onipresente. Entretanto. Miran Bozovic. um ofício carimbado. quer pela arquitetura do lugar. enfim. Na sua prisão panóptica. simulá-la. às claras. a disciplina -. mas a todos os demais. 149 Idem. é aquele que nunca aparece .147 Para Bentham. mas de pessoas contratadas exclusivamente para semelhante propósito: ”enquanto os outros pensariam que os infratores estavam sendo punidos por suas ações. 4. resta forjá-la. Idem. ou um ponto opaco. qualquer punição deve ser encarada antes de tudo como espetáculo. uma voz. ao mesmo tempo que produziria nenhum mal. uma sombra indistinta no fundo do corredor . o inspetor perfeito. ou seja. um jogo de verdades e de perspectivas. a própria ficção de Deus . escuro”.”148 A punição aparente. como a onipresença não pode ser um atributo humano. a punição é em primeiríssimo lugar um espetáculo: na medida em que a punição não é dirigida ao indivíduo a ser punido. exatamente porque o ”mal” produzido teria sido ”de mentirinha”. ninguém estaria sofrendo punição alguma. um olho. extensivamente. do que as impressões que recebem todos aqueles que vêem o castigo ou dele são informados.mas pode aparecer a qualquer instante.149 Trata-se da metonímia eficiente de um poder que só pode aparecer indiretamente. fictícia. observa: ”Aos olhos de Bentham.perigosos. porque ”mentem” para pessoas que sabem que eles ”mentem”. O inspetor onipresente e onisciente acaba por se tomar um ícone do poder e. na verdade. 7. 13. filósofos do quilate de Platão e Bentham pretendem se reservar o monopólio da ficção. Em contrapartida. ocasionalmente gritos horríveis se escutariam só que não de prisioneiros. na apresentação dos Escritos panópticos de Jeremy Bentham. importa menos o seu efeito sobre quem é castigado.a ordem. porque jogam. por partes de si mesmo.”da cela ele é visível como uma silhueta. p. . Um bem de segunda ordem poderia então ser produzido sem requerer nenhum mal de primeira ordem. Todo o panóptico. Em última análise. p. com o objetivo de melhorar a humanidade. Tlie panopticon writings. na verdade. é que a execução da punição é um espetáculo”. controlando os movimentos de transgressão entre os internos. ibidem. É precisamente a aparente onipresença do inspetor que sustenta a perfeita disciplina no panóptico. a própria Lei 147 148 Em Jeremy Bentham. é estruturado como uma ficção. ibidem. p. ao mesmo tempo em que dificilmente vê quem o vê.

é uma entidade de ficção . mas precisamente graças ao fato de que eles não existem. qua God. temos medo. ele pode provocar um medo superior ao de um guarda real. nós podemos amar? Em outras palavras. is. as Lacan puts it. 11. exatamente.151 O inspetor torna-se. to give anything at all? Since God simply has everything. algo absolutamente desconhecido e estranho em nosso mundo. antes. nós escutamos uma voz. Não temos medo de fantasmas a despeito do fato de que eles não existem. a quem obviamente nada falta. precisely the principal feature of being: existence. O que nós amamos em um objeto é. precisamente. desconectados de seu portador. mostrando como o panóptico é uma prisão construída menos com tijolos. ibidem. em Deus. De que. we love him because he is a non-entity. p. com palavras. p. nada oferecer? Desde que Deus simplesmente tem tudo. qua God. who is supposed to be a total plenitude of being. If we love God. Ele 151 150 . It is an illusion to think that we love God because he is a total plenitude of being. O panóptico deve ser governado por um olhar e por uma voz dessubjetivados. então será que é possível para Deus. only as a fiction. O inspetor. se é somente dar o que não temos que conta como sinal de amor. a quem nada falta. 152 Idem. É uma prisão feita de linguagem. exatamente. What we love in an object is precisely that which it lacks. The inspector certainly knows that. uma espécie de fantasma. who obviously lacks nothing. the inspector only exists through an artifice. But then what is it in God. ibidem.153 Idem. ou pensamos que somos vistos. quando dizemos que sentimos medo de fantasmas? Ora: sentimos medo. simultaneamente pletórica e insuficiente.Glorificada: ”é conseqüentemente a ficção de Deus que sustenta o universo do panóptico. nós somos vistos. 21.”150 Nesse tipo de instituição. sem vermos o dono da voz. could lack.ele não existe. Justamente por isto. se entendemos a linguagem humana como aquela que não basta. that we can love? In other words. who lacks nothing. The only thing that God. em última instância.152 Miran Bozovic faz eco a Lacan e mata a charada. permanentemente equívoca. Mas então o que. 11. the only reason we love him is that perhaps he does not even exist at all. ibidem. 153 Amamos a Deus precisamente porque Ele não existe. aquilo que lhe falta. da invasão de algo radicalmente outro. sem vermos aquele que vê. if it is only giving what we do not have that counts as a sign of love. então. por mais cruel e truculento que fosse o guarda. p. he obviously has nothing that he could give. he does not really exist. We love God precisely because he does not exist. Idem. then is it even possible for God.

com dois sexos de mulher. a única razão pela qual nós O amamos é que.] Daí o fracasso. à incompletude. não perfeição plena. precisamente a principal característica de ser: existência. ele não existe realmente.. a falta. é. quereis ouvir um belo conto de amor e de morte?. longe de abolir a solidão. Mas são corpos que se tocam. o inspetor existe apenas por meio de um artifício. de quem se supõe total plenitude de ser.” Assim começa Tristão e Isolda. mas sim à carência.. Porque se vê novamente entregue a si mesmo. enfim. Amam o amor. o ser se encontra alhures. Eles queriam ser um só e ei-los mais dois do que nunca. Post coiturn omne animal triste. e a tristeza. à miséria. sempre pobreza devoradora. como poderia começar Romeu e Julieta. No Banquete (ou.. desfez-se a unidade e a felicidade: cada ser passou a ser obrigado a procurar a sua metade. mais do que a vida. apenas como uma ficção.. O amamos porque Ele é uma não-entidade. n’O Simpósio. É uma ilusão pensar que nós amamos Deus porque Ele é uma plenitude absoluta de ser. Tanatos se impõe: os amantes nunca desejam outra coisa que não a morte. e os andróginos. não fusão. ibidem. O inspetor certamente sabe disso. sempre. discorda completamente. entretanto. ora à religião. à sua banalidade. e é por isso que o coito.. A única coisa que poderia faltar a Deus. Sócrates.. Manon Lescaut. a falta de felicidade é o próprio amor. As almas talvez pudessem fundir-se... [. expressão que se deve tomar ao pé da letra.. e só há desejo do que falta. 154 ”Senhores. Os amantes o sabem. como Deus. É preciso ser dois para fazer amor (pelo menos dois!). seguem ainda os passos do Sócrates platônico. Mas prova algo contra a fusão. que tinham os dois gêneros de sexo. Nessa lógica. que se amam. a confirma. p. como prefere a tradução portuguesa). a esse grande vazio nele do desejo desaparecido. que gozam. a paixão. Idem.. 23.. como Lacan coloca. que permanecem. O mito de Aristófanes explica por que uma pessoa seria homossexual ou heterossexual — depende da metade perdida. com dois sexos de homem.. destinando-nos ora à infelicidade. Lucíola ou As afinidades eletivas. Amor. Na lógica de Eros. nada contra o amor. Deus. Para ele. quando é verdadeiro. Aristófanes fala do amor como um castigo dos deuses. [. se antes nossos ancestrais eram duplos. ”Amor feliz” é uma contradição em termos. que o prazer recusa exatamente quando acreditava alcançá-la.. mais do que a presença. mais do que a felicidade ou o prazer. Ele não exista de forma alguma.Bozovic e Lacan. é desejo. na verdade. quando ele é puro. . o amor não se destina à completude. como Deus.. obviamente não tem nada que pudesse dar. divididos em três gêneros: os machos. talvez. Se nós amamos a Deus. Quando Zeus decidiu puni-los cortando-os em dois. à sua solidão. se existissem. o ser só pode ser o que falta. tão freqüentemente. Amor é sempre busca.] Isso não prova nada contra o prazer. a verdadeira vida é ausente. as fêmeas.

no se lês castiga de un modo explícito cuando su comportamiento no está dentro de las normas admitidas: por el contrario. por ejemplo. A la menor recaida en su anterior indisciplina.portanto. no tardará en echar de menos lo que nunca tuvo y ni siquiera conoce: finalmente. se lês comienza a compadecer con las más expresivas demostraciones de dolor por lo que han perdido. . Pero su método de ensenanza rechaza el fácil expediente de establecer un juego único de prêmios y castigos. que utilizan como único estímulo dei aprendizaje y fijador indeleble de lo aprendido: se trata. que se constrói todo o panoptismo. En un principio. p. Poço a poço. como el culpable no echa en falta nada. É em cima dessa falta. A los ninos. principalmente sobre a falta de Deus (da alma. Pequeno tratado das grandes virtudes. toda a repressão calcada na falta (ou ficção) de Deus. O escritor Fernando Savater mostra à perfeição esse sistema. Nadie sabe muy bien quê es lo que teme pero todo el que sabe. siguen ejerciendo su educativo efecto en la intimidad azarada del párvulo. pedirá de rodillas que lê sea devuelto.. En esto quizá no difieren demasiado de lo usual entre otros pueblos conocidos. Para los fobiones no hay más que un principio pedagógico. Los maestros fobiones son a este respecto insuperables: dominan todos los resortes de la inquietud y el arte sutil de la insinuación pavorosa no tiene secretos para ellos. junto ai temor de que esta vuelva a hacerse patente un dia. pues dejan entrever que lo sustraido es algo irrecuperable. enfim). 251.. só pode ser O que falta absolutamente. prefiriendo una dosifícación permanente del pânico y un hábil manejo de la inconcreción de las amenazas. Estas consideraciones aparentemente tranquilizadores no hacen sino aumentar la zozabra infantil. como es natural. Pero la sospecha de su incompletitud. Guando la lección ha sido llevadaa lo suficientemente lejos como para estar seguros de que nunca será olvidada. Sus tutores se harán de rogar: a fin de cuentas. sabe que teme. El ânimo del discípulo está en un punto tal que ya no aspira a nada más y vive ese retorno al redil con histérico alivio. sin embargo. Fijalos que no lê restituyen la convicción de su integridad. quizá Io que lê falta no sea tan importante ni valga Ia pena inquietarse demasiado por su perdida. no se inquieta por esta extemporânea solicitud de sus mayores. sino simplemente algo así como un sobreseimiento de la acusación de mengua. Gulliver. para descrever o método pedagógico do povo de Fobión. dei miedo. una palabra ai desgaire lê recordará la grieta que 154 André Comte-Sponville. comienza a sentirse menguado por la convincente insistência de los que lê rodean en que lo está. usando o personagem de Swift. los educadores aceptan el arrependimento del neófito y hacen profesión pública de que a partir de entonces van a tratarle como si no careciese de nada.

a que apelidou de A Casa Verde. é um personagem que finge ser uma pessoa. . psicólogo ou psicanalista -.daquilo que. torna-se um ícone da ciência onipotente. consegue construir.puede abrirse en cualquier momento bajo sus pies. O médico. compreendendo que a saúde mental residia ”no perfeito desequilíbrio das faculdades”. Por conseguinte. reformula a teoria para adequá-la à sua prática: A loucura. como um ícone da alma . da medicina onipresente. ao contrário. ninguém o representou melhor do que o brasileiro Machado de Assis.. em pequena cidade do interior. quando diagnostica esquizofrenia sem considerar a história e o contexto de cada paciente. o problema da pessoa. depois de internar a cidade inteira. objeto dos meus estudos. a fobia . ao passar muito rápido pela cama do doente. Doy fé de la excelência de este procedimiento: entre los fobiones. um enorme asilo. movimiento anímico que suele incluir como contrapartida una oculta tentación. inclusive os amigos. Tanto procura.o medo. era até agora uma ilha perdida no oceano da razão. pp. a esposa. os políticos. com palavras leigas. Este último personagem. No suele hacer falta más para que acate con renovado entusiasmo la pauta de conducta ortodoxa. contribuindo para a constituição de uma sociedade hipocondríaca muito interessante que interessa aos laboratórios farmacêuticos e aos micropoderes que enquadram e controlam o nosso corpo.156 Mais tarde. sino francamente temida. constitui a si mesmo como parâmetro de equilíbrio. justamente. não há. seu protagonista.155 O inspetor.. o padre. no conto O alienista. enquanto ícone da divindade onisciente. fazer hum-hum e recusar-se a explicar. pues ei pecado lês recuerda ei oculto despedazamiento primordial de sus almas. la posibilidad de incurrir en delito no es virtuosamente detestada. a verdade última sobre a loucura apontava. uma enorme mad-house. é uma máscara que finge ser um rosto. começo a suspeitar que é um continente. não duvida de seus próprios critérios.psiquiatra. em última instância. O alienista . tanto examina. De princípio. Simão Bacamarte. Criaturas del aire. que logo interna a maior parte da população. Seu poder deriva do simples fato de não ser. 136-7. para ele 155 Fernando Savater. o personagem machadiano efetiva o supremo paradoxo irônico. o que provoca.

enquanto os organizadores das paradas militares. Simão Bacamarte conclui. cujo primeiro exemplo sou eu.as mentiras do Estado e da Escola cumpram melhor sua função. na Casa Verde.tanto. Não percebemos sequer a crítica certeira de Machado aos arrogantes realistas de sua época . proclamando: A questão é científica. como ”realista”. 27. construindo as mais seguras prisões do mundo: as prisões de papel. . as armas e os uniformes brilham. Idem. que não ostentasse o menor defeito. nas noites mal dormidas corrigindo. dos eventos mais mirabolantes e menos estimulantes. não. louco seria somente aquele que fosse perfeitamente equilibrado. 66. A ficção é transformada em evento histórico. a humanidade faz-se suficientemente estranha para si mesma. entre outros. somos capazes de lê-lo ”nos lendo”? Somos capazes de ler Simão Bacamarte como caricatura legítima do cientificismo e do pedagogismo. brilham na frente dos holofotes com as suas performances. para que as ficções que fingem que não o são . nas aulas. e esse louco chamava-se Simão Bacamarte. Reúno em mim mesmo a teoria e a prática. o garbo e a disciplina impressionam. das perguntas que fizemos. torna-se muito mais perigosa quando se transforma em algo que já assustava Benjamin: na estetização da política. provas mal feitas. p. que sufocou. trata-se de uma doutrina nova. nos corredores. Eugene Zamiatin. dos programas de talk show. Então ele interna a si mesmo. ou são ”adotados” nas escolas para serem objeto de exame. nos exames. Nas paradas militares. em praticamente todos os manuais didáticos de literatura. pode-se dizer que emocionam. bacamartianamente. A ideologização da estética. das semanas de cultura. Logo. das aulas que ”demos”? Infelizmente. em ”estilo de época”. Um ou outro soldado desmaia 156 157 Joaquim Maria Machado de Assis. que o enquadramos. dos delírios de controle que tantas vezes pensamos exercer.157 Professores de literatura. Papéis avulsos. que só havia um louco na pequena cidade de Itaguaí. ibidem. produto e sintoma indiscutível. Isto é. No processo de estetização da política. quando adotamos o pequeno texto de Machado. como se pudéssemos ser justos? Como se as provas mal feitas não fossem o resultado direto. com muita gravidade. Os escritores se escondem. p. permitindo-se viver a própria destruição como um gozo estético. e somente a si mesmo.mesmo.

Para os que morreram. enquanto os audazes pilotos da esquadrilha da fumaça evoluem no céu. às vezes professores e alunos se empolgam. restaram pais orgulhosos de filhos que caíram . mas Armada. pronta a mandar jovens matar outros jovens. a Marinha e a Aeronáutica representam a Pátria não exatamente Amada. retornar-se sem muito espanto à repetição estéril da educação bancária. Nesse contexto.no ”cumprimento do dever”. parecendo acreditar por um momento que podem ser criativos e significativos para. o Deus que não há e nem pode ser? Representa. ele mesmo. ele mesmo. na semana seguinte. por conta das minúsculas Ilhas Falkland. a sombra de um saber que não tem dúvidas sobre sua missão. Quando as escolas promovem ”semanas da cultura”. de um saber que não sabe que sabe tão pouco? . onde fica o mestre? À sombra de Deus? Representa. congelando a cultura no freezer positivista.sob o forte sol de setembro (no caso brasileiro). Ninguém se lembra de que o Exército. apressaram-se em tricotar casacos de lã para que os ”meninos” comparecessem ao ”teatro de operações” não só agasalhados como esteticamente bem arrumados. as mães dos soldados. pouco importa o nível de estupidez do dever.mas agasalhados e bem vestidos . quer britânicos quer portenhos. Quando a Argentina decretou guerra à Inglaterra.

ou turmas. que se ancore no próprio excesso. ad infinitum. Procedimento. ou. . terços médios 158 159 Michel Foucault. no sentido estrito de decompor. medir as qualidades ou os méritos. Vigiar e punir. de preferência com lugares marcados. p. apreciá-lo. ordenam-se os alunos por séries. sancioná-lo. ou eqüinas). por definição. instaurar as comunicações úteis. as pluralidades confusas. 160 Idem. A disciplina fabrica. As ”Luzes”. como sombra da cela. ”A disciplina é uma anatomia política do detalhe”. as quais. daí à cola. p. Cada um destes dois campos se fragmenta em outros tantos. inexata. em alusão direta ao medo do disciplinador e de seus procedimentos). que se constrói por dentro.158 Os mestres somos seus responsáveis (ou. cus-de-ferro. chegamos à sala. poder a cada instante vigiar o comportamento de cada um. formando terços superiores (popularmente conhecidos como CDFs. propriamente.159 detalhe que se constrói um a um. portanto. dominar e utilizar. sob o princípio básico da localização imediata. A disciplina organiza um espaço analítico. no mesmo passo. indivíduos. O espaço disciplinar divide-se em partes que por sua vez se dividem em subpartes. 128-153. ou do quadriculamento: cada indivíduo no seu lugar. bem como as igualdades e as fraternidades. Seu poder não é um poder triunfante. sombra e imagem virtual do delinqüente. se ordenam por fileiras e filas. as disciplinas. ibidem. e daí ao aluno. por sua vez. Devem-se analisar. como sombra do crime. os mesmos alunos são reordenados pelas notas dos exames. Importa estabelecer as presenças e as ausências. ibidem. Depois. isto é. seus primeiros objetos). da ficção de Deus.160 Na escola. a sanção normalizadora. mas sim um poder modesto. as quais se ordenam por classes. inventaram. Na escola. o conhecimento se fragmenta em ciências que se dizem ”exatas” (como se toda ciência não tivesse por horizonte a exatidão. e sua combinação no procedimento específico do exame. saber onde e como encontrar os indivíduos. e em cada lugar um indivíduo. ou como se qualquer ciência não fosse. maciças ou fugidias. 195. que por sua vez se fragmentam em outros tantos. pp. Seu progressivo sucesso deve-se a instrumentos simples: o olhar hierárquico. para conhecer. desconfiado. que descobriram as liberdades.À SOMBRA DO MESTRE Da ficção panóptica de Bentham. interromper as outras. 131. Idem. aproximativa) e outras que se dizem ”humanas” (como se conhecêssemos ciências marcianas.

muito próximos do medíocre) e terços inferiores (compostos por alunos que aprenderam que nunca vão aprender certas matérias. do tempo.7:20. quando apresentam. como a dizer: nada é o que parece ser. das classes. Na verdade. curioso contrasenso.(medianos. ao invés de espaço de construção do saber. não só no Brasil. As conseqüências perniciosas de tanta ”análise”. e a escola como lugar de demolição do conhecimento. ao invés de casa de correção. . dessa prisão e dessa escola. entretanto. sem atinar para a petição de princípio em que se incorre. Mas não basta dividir o conhecimento e as pessoas. e nem podem mudar. isto é. de aula. ou 45 minutos. divide-se a semana em 30 ou 36 tempos. o cardápio principal). como vimos. Parecem com aquele refrigerante que vendia ”um litrão” de litro e meio. como escrever. mas de inexatos 50.a prisão como universidade do crime. 7 7:30 horas . Logo. ou contar e calcular). Esse esforço minucioso de organização analítica contém em si mesmo. entretanto. com os reformadores da prisão. ou certas habilidades.sem que se consiga propor mudança substancial. de aula. O mesmo acontecia e acontece.. a hipótese de abolição. das turmas. O requinte da divisão é tal. a hora não é exatamente uma hora. levando ao limite da caricatura a convenção que nos faculta ”perceber” o tempo como percebemos o espaço. e exaustivamente discutidas em toda reunião pedagógica . no nível do detalhe. 13 horas e 10 minutos. porque continuam a ser parte do problema. Um litro não é exatamente um litro. como a denunciar a inexatidão da sua compulsão pelo exato. digamos. é necessário dividir. ideológica e pragmaticamente. o próprio tempo. a própria prisão como solução de si mesma. Percebe-se a questão principal . do conhecimento.. ao sabor das mudanças que não mudam. as ”soluções” devem se apresentar entre aspas irônicas. são conhecidas. pura e simples. tautologicamente. às. dos alunos. de disciplinas. pelo controle de tudo: do aluno. Não se suporta. sugerindo-se soluções meramente paliativas. ou horas. ou horas.e terminar do mesmo modo. ou às vezes a criação de uma nova disciplina com a incumbência de integrar as demais (é a hora de Filosofia entrar no currículo e sair dele. O contra-senso é que. de tanta fragmentação. efetuam o controle que criticam. O máximo que se sugere são rearrumações do horário. que o dia tende a começar em horas ”quebradas” . enquanto problema. desviam-se os argumentos para as questões secundárias. as chamadas horas-aula não são de uma hora. Divide-se uma manhã em seis tempos. isto é. ioiô epistemológico. exata.

reforçando. Talvez o termo ”controle” devesse ter sido colocado também entre aspas. dependência intelectual. hoje. Da mesma maneira que a prisão fabrica delinqüentes. É muito difícil encontrar aquele ou aquela que nunca tenha atirado a primeira pedra. não sai da escola” (a reforçar o título e a rima da segunda parte deste livro). conseqüentemente. ”quem sabe. mais tarde. enquanto que. num aspecto específico dos procedimentos de exame. o antigo desprestígio platônico pelo corpo). da figura clássica do Mestre. No entanto. progressiva e contínua. terminam por legitimar e convidar à prática da cola. inclusive entre alunos que. de maneira deficiente. sabem que a cola é prática corrente. Os mais variados mecanismos de controle. Punem-se somente aqueles que ”colam” muito mal. diretas e indiretas. através da piada. (2) a fragmentação do corpo docente. poderíamos desdobrar outras. uma vez que esse controle efetiva-se. o controle deficiente da cola pode ser um procedimento bastante eficiente de promovê-la. formado por professores que se esbarram no recreio e desconhecem o que os outros ensinam. quem não sabe. cabe lembrar algumas conseqüências. a escola fabrica dependentes intelectuais. em termos tanto morais quanto materiais. o suficiente apenas para manter a impressão de repressão. ou seja. promovendo subterrânea desonestidade e. à primeira vista. às avessas de sua definição como casa de correção. Destas conseqüências gerais. às avessas de sua definição como espaço de luzes e independência intelectual. o que seria do interesse de um sistema panóptico de organização social. isto é. em relação ao número real de infratores. Um número indecentemente pequeno de alunos. por exemplo. somente aqueles que não respeitam o enorme esforço do examinador em não ver o que vê. por conveniência e por sobrevivência. do controle dos resultados individuais dos exames. Como os leitores já passaram pela escola. do frenesi analítico da escola: (1) a fragmentação do próprio conhecimento. com sua ineficiência. não conseguem sair da escola (tornando-se professores). faz. ao menos na condição de alunos.Por necessidade do argumento. ou surrupiado a resposta alheia. é ”pego” colando. ensina” (e quem não sabe ensinar ”ensina educação física”. . criando sujeitos que. se. Paralelo ao ditado deprimente que nos põe ensinando em função da incompetência para fazer. embora se chova o seu tanto no molhado. Logo. (3) a desvalorização. precisamos esquecer?. na escola. determina-se ainda: ”quem não cola. por irrelevante para a sua especialidade como podemos exigir que os alunos considerem relevante o que nós mesmos. escrevem de modo razoável tão-somente na aula de português. mas devemos fechar o foco no tema. Trata-se do controle da cola. a despeito dos mecanismos variados de controle.

necessária) a pena de um delito. se não promovesse. quando ”consegue” pegar um aluno ”colando”. sintomática de contradições mais amplas: o aluno. enquanto a lei. Logo. você me enganou!” . não tenha aplicado os melhores meios possíveis para preveni-lo. em que o colega ao lado senta-se a menos de um metro. ao tentar resolver uma questão de múltipla escolha. Os sistemas de avaliação ao mesmo tempo reprimem e estimulam a cola. meio sem querer querendo (como diria o Chaves. Se pensarmos em termos do Direito clássico. A indignação ”como. Quando essa ”opção” é a ”certa”.nenhuma das respostas anteriores”. então não há opção correta seria um paradoxo. O aluno se anima em enganar o professor. uma vez que a escola não só se previne mal contra ele. subliminarmente. quase se obriga. . ao contrário.”161 Ao invés de prevenção eficaz. somando testes e exames toda semana. às vezes todos os dias de uma única semana. A tal da múltipla escolha pode ser resolvida. não só porque proíbem-na com estardalhaço (emitindo 161 Cesare Beccaria Obra citada. Que é peça de um jogo. ambas menos problemas ocasionais da escola que construções suas. a cola se estimula. ele não tem escolha nenhuma. A contradição se torna patética se lembramos a ”opção” [E] de várias provas: ”n. como regra de ouro: que as regras não sejam claras. a cola se estimula. enfrenta muito maior possibilidade de errar (cinco contra um) do que de acertar. como até o estimula. o constrangimento de reconhecer que faz parte de um logro. ou seja. perversamente. é um absurdo. dentro de um espaço usualmente apertado. quando os testes são de ”múltipla escolha”. jogo esse que tem. pelas quais se aprende. antes de ser um paradoxo.apesar da institucionalização da cola. a ignorância. assim como o próprio professor usualmente não percebe. Beccaria dizia que ”não se pode chamar precisamente justa (isto é. o professor tende a se portar de maneira pessoalmente indignada. Sua própria denominação revela contradição flagrante. quando se submete o aluno a múltiplas disciplinas fragmentadas. nas dadas circunstâncias de uma nação. que desse modo torto entra no sistema e corresponde ao que dele se espera. A múltipla escolha é irmã gêmea da cola. no menor esforço. sem perceber. pelo chamado rabo do olho. a seus próprios olhos.oculta. cada uma delas com exigências cumulativas e conflitivas entre si. a cola é um ”crime” com atenuantes.r. Como requinte final.a. a desonestidade. precisa encontrar a única resposta certa. personagem de popular seriado mexicano). p 118 . definitivamente.

ou da pesquisa. como substituir o motor de combustão por motores elétricos e eletrônicos. não encontramos uma única causa para um único efeito. ou somente perguntas e constatações impertinentes? Em fenômenos complexos. no mundo do trabalho. já faz parte da solução que. outra pessoa sozinha. tanto nas grandes indústrias quanto nos hábitos dos seres urbanos. necessária e mecanicamente. mas também quando enchem o aluno daquelas exigências conflitantes e excessivas. é possível superar o logro. por que não se faz? Porque exige mudanças de longa duração. como tentamos fazer nestas poucas folhas. ou determinada geração. Se. Do mesmo modo que uma pessoa sozinha não inventou o capitalismo e o automóvel. as soluções não se encontram do lado de fora da questão. se constrói. Mas. Se isso já é possível. poder.de corpos e de mentes . mais inteligente. Sabemos. De que todo esforço de saber seja uma forma de exercer um poder não se deduz que conhecer algo nos dê poder instantâneo sobre o que pensamos conhecer. instaurando. que já há soluções tecnológicas para a redução drástica da poluição nas grandes cidades. o trabalho é coletivo. não cabe repressão a priori à cola. Ao contrário de Platão. se não fosse parte disfarçada das estratégias de controle e disciplinamento . por exemplo. esse é o logro. o profundo enraizamento dos sistemas panópticos. outro jogo? Parece chegado o momento de resolver. cabe desfazê-lo na prática. que só queira colar do alheio.de que vimos tratando. aos poucos. como se descreveu. Será possível apresentar alguma solução para o problema? Temos respostas. escolhendo instrumentos de avaliação e cobrança para os quais o caminho de superação mais fácil (logo. no mundo do trabalho. considerando. não se produz mais nada sozinho. em todos os veículos. no lugar. . é ejetado rapidamente do trabalho.assim irrecusável convite). Explicitar o problema. Não faria sentido que isso permanecesse na escola. Fora da escola. em certo sentido bem lógico) é a cola. Logo. de fato. em problemas complexos. à espera de serem magicamente encontradas. e se dele estamos agora conscientes. não consegue desinventá-los. a consulta a todos os meios disponíveis é indispensável. com as empresas multinacionais e com o emprego das pessoas. Aquele que não contribua com sua parte para o trabalho coletivo. Mexe radicalmente com as bases do capital e do trabalho. não acreditamos que saber implique.

ou reorientá-las. Apenas. melhor dizendo. a nossa própria sombra. para relativizar nossas decisões e nosso comportamento cotidiano. se ele não investiga. como o cartunista Ziraldo. por exemplo. sobra. queremos (devemos) olhar um pouco o nosso próprio rabo. ao médico. Diariamente devemos nos perguntar. não deveríamos tentar exercêlo. não ensina. não é mestre. tentamos estudar as contradições do ofício. antes de qualquer paciente.pressupondo-se que pôde conhecê-las . que reputamos genial. nossos alunos à imagem e semelhança de nossas melhores palavras. se os nossos alunos aprendem alguma coisa graças ao nosso trabalho. que ”é melhor ler do que estudar” isto é. por implicar hybris e arrogância em relação ao destino e ao acaso. pelo seu lado. que desfazem o dito popular: se o mestre não faz. mais valeria o estudo orientado pelo desejo do que aquele organizado pelas disciplinas. mas sim lutar tão-somente por merecermos seu reconhecimento. histericamente. e quando. descreve longas linhas de tempo. quando alguém nos diz. a sério. sabendo que conhecê-las . no fim e ao cabo. os professores talvez devêssemos nos esforçar não por tentar controlar e moldar. Quais alunos. com atenção e apreensão. a si mesmo: medice.não permite interrompê-las. cura te ipsum. Escutamos. e é saudável que isso aconteça. sempre o mesmo antigo e digno método pedagógico: o exemplo...eles. por merecermos bons alunos . só mesmo o próprio exemplo do professor. como professores. uma boa bibliografia.Quando Foucault estuda os procedimentos do inquérito e do exame. que fizessem a sua parte. ou se aprendem apesar do nosso trabalho. que cure. Quando. é o que de melhor o aluno pode receber de cada professor. seguirão os nossos melhores exemplos. mas sim lutar tão-somente por merecermos a felicidade. não há método que leve seus alunos a pesquisarem e escreverem. dizer que aprender ou é um ato de amor ou não é nada: . não há método que faça seus alunos lerem. uma boa orientação para o estudo e o esforço pessoais. Se o mestre não lê muito. não nos imaginamos trocando de profissão. no ensino médio e universitário. Para além disso. Na verdade. Assim como Kant dizia que não deveríamos tentar ser felizes. não escreve. quando vemos aquele cineasta. passando curiosidade e hábitos de leitura crítica. Em outras palavras. Logo.portanto. é algo que foge inteiramente ao nosso controle . atendendo ao adágio latino que prega. Incomoda-nos.

da tirania de seus superiores e da maldade do mundo. Romance recente de um escritor francês. Para ter dirigido. ver filmes ou peças e de ouvir música. em Stíg Bjôrkman. Assim.parecido. E ele se referia a professores norte-americanos. bedéis nos corredores e funcionários da administração nos escritórios. nos contemplando com os mesmos adjetivos: ”tristes e amargos”. Segundo o diretor..pelo menos os que eu tive na escola secundária . Você tem de gostar de ler.. Você apenas escuta porque gosta de jazz. à espera pela aposentadoria. o amor pelos estudos dera lugar. exatamente porque ”eles falam. nos poros do seu corpo ou coisa semelhante. 23. vai entrando. gosta muito. Muitos foram ficando tristes e amargos. uma disciplina. tristes e amargas”. Woody Allen por Woody Allen. Gosta. eram tímidos e trancados . aprende. a partir das suas escolhas e não da escola. de 1989. os alunos eramlhe hostis. falam. falam. gradativamente. através dos anos.162 Não que o cineasta em questão seja indisciplinado. falam e quando você olha para eles . os pais desconfiavam dessas coisas e o que Louise Lefébure mais queria era que tudo estivesse em ordem: alunos e professores nas salas de aula. um dos personagens aconselha sua sobrinha a não ouvir o que os professores falam mas a ver com o que eles se parecem. produzido e atuado em mais de vinte filmes. É errado esse negócio de estudar como uma obrigação. p.vê que são pessoas de aparência má. O barulho substituíra essa dupla.panóptico .como que esbofeteados pela vida .ou exageradamente extrovertidos. O mesmo se dá com a autoria de peças teatrais.Você não pensa que está escutando jazz para estudá-lo. Eram motivados graças a uns bons pitos para entrarem na linha e a umas apreciações pedagógicas. precisou desenvolver uma disciplina de trabalho e de criação férrea mas o fez de dentro para fora. Em Crimes and misdemeanours (traduzido no Brasil como Crimes e pecados). nos mostra espelho . . Os tempos haviam mudado e no Georges-de-Scudéry ninguém se preocupava com a cultura ou o saber. no caso de muitos colegas. preocupadas. direção de cinema ou interpretação. falando em alto e bom som para mostrar que não eram nada trouxas mas que ainda assim a estima e as apreciações de seus superiores equivaliam a tudo o que a 162 Woody Allen. no seu sangue. filme de Woody Allen. Sonhavam com o dia em que ela os libertaria da impertinência dos alunos. também professor. Você aprende tudo o que vale a pena por osmose. Isto. de uma maneira ou de outra. Segundo os casos. e.

. uma solução semântica (o que não quer 163 Jean-Pierre Gattégno. Por eles. aquilo que ele fizer do que aprendeu. Vamos nos limitar a uma única proposta . provas essas recheadas de besteiras estimuladas pelas perguntas bestas que lhes fizemos. Ou quando estamos tomando conta de provas. melhores. Poderíamos pensar na progressiva evolução das nossas maneiras de ensinar para um sistema de aulas magnas e tutoria. se não nos cabe. Cada aluno nosso vai ser. e em certos momentos .quando perdemos momentos preciosos da vida lendo. cura te ipsum? Começa a se esboçar algo semelhante a uma solução . antes de mais nada.a uma proposta pragmática para resolver de uma vez por todas o problema da cola e assim re-qualificar toda a avaliação escolar. em parte.163 No Brasil. Há muitas coisas que poderíamos. tudo vale a pena? Não sabemos. ou deveríamos mudar . bem como redução de disciplinas no currículo . somos estas pessoas ranzinzas.mas vamos nos ater ao título do livro. Mas.que.vida lhes havia recusado. curando a nós mesmos. 31-2. para ofertar-nos aulas melhores. Poderíamos sugerir formas de interdisciplinaridade. não bons livros. tristes e amargas. andando entre as filas não como mestres. de controlar seus saberes e seus pequenos grandes crimes. excursões. dentro e fora da escola. isto é. multimeios. Não sabemos se a alma já não foi ficando pequena. reclamando do controle que legitimam? Pior? Talvez. cremos. economizando energia para promover trabalhos e leituras. mas como guardas ou bedéis (ou idiotas. quando sentimos que uma aula foi especialmente boa e interessante. ou quando percebemos que certos alunos nos elegeram como Mestres. mas pilhas de provas de alunos. articulado com bibliotecas. sempre. pp. digamos.com o concomitante oferecimento de cursos optativos. aquilo que ele quiser ser. não seria possível ampliar a presença do princípio medice. se não nos é possível abolir a escola. ou ao menos abolir a forma do exame.. . sem dúvida. laboratórios. A noite do professor. se pensarmos nos alunos que colam rapidinho às nossas costas). portanto à questão da cola. nossas próprias ou de colegas. A solução apresentada é. outros momentos. parte do centro do problema. Poderíamos encostar o afã de controlálos. Há. cuidando de nós mesmos. como referenciais provisórios para as suas vidas. Internet.

reconhecida como necessária. enquanto continue a existir nos concursos públicos . Nas séries que precedem os concursos públicos. todas as provas. em palestra de 3 de fevereiro de 1997). que passa a trazer o nome de consulta. Em todas as avaliações. e as erradas. tornando-a necessária. redigida. nas redações dos jornais. não o exime de construir a sua justificativa . deve ser permitida. com uma explicação discursiva. Primeiro.mas toda questão de múltipla escolha passa a cobrar a justificativa correspondente do aluno a respeito de todas as ”opções”: a certa. antiga cola. principalmente. cartesiana. para construção . a consulta. e mesmo respostas.que é o que importa. extensiva. ”cobrar” todo o programa. justamente. nos diz há bom tempo que importa o porquê se respondeu de tal ou qual modo.algum mestre deseja. cabe. às suas práticas. tanto que podemos sintetizá-la em dois momentos e em duas linhas. Trocar idéias. a menos que se queira insistir na ilusão de controle do saber alheio. o professor pode relegar a quinto plano a necessidade de. Em seguida. muito antes de determinar. rebatizar a cola.dizer. certo. Preservando-se um certo ambiente. de todas as matérias. conscientemente. naturalmente. Aplicando a dúvida metódica. Não é necessário um número grande de questões. que demandassem dos alunos. descriminalizá-la. Por que você respondeu isto? é a pergunta-chave do professor. Em todos os exames. toda resposta do aluno deve ser justificada. ele aprendeu . desde Piaget. Deveriam bastar duas ou três perguntas abrangentes. treinamento esse que não precisa adormecer o senso crítico de alunos e de professores. ou melhor. toda a matéria. treinamento específico. consulta. ou. Se soube defender sua resposta. a consulta ao colega simula a situação de trabalho coletivo usual nas empresas. irrelevante). dos passos do seu raciocínio. O aluno poderia também consultar o trabalho do colega? Sem dúvida. errado. A solução apresentada é simples. menos do que o conteúdo da resposta em si (como nos lembra Patrícia Lins e Silva. tanto faz se com muita ou pouca ajuda alheia. um certo clima de silêncio. com o vizinho. em cada exame. outra coisa? O construtivismo. não só com os cálculos. a menos que se queira continuar a fingir que se pode ensinar tudo (e mais um pouco). A múltipla escolha persistirá. todos os exames. nos escritórios e consultórios. mas. a replicar sempre que receber uma resposta do aluno.

como contrapartida. A mudança proposta é simples transformar a instituição consentida da cola na instituição da consulta necessária e cotidiana -. acreditamos haver . que. Essa mudança mais ampla. Na verdade. com seu tempo tão fragmentado quanto as disciplinas que ministram. Todos estamos cansados de soluções de gabinete. esquece. isto é. haveria alguma (ou muita) resistência. modifique na raiz sua relação com os seus profissionais. pela imodéstia.donos e diretores de escolas particulares. secretários de educação e diretores de escolas públicas. A resistência é saudável porque chama a atenção para outras questões. a relação global com o trabalho. entre os professores. relativizando toda avaliação. com os alunos e com os exames exige. qualquer mudança mais ou menos profunda é muito difícil em uma escola cujos professores sejam horistas. foge ao escopo deste trabalho . entretanto e infelizmente. afetando as práticas de sala de aula. ou karma. desde que cortasse horizontal e verticalmente toda uma escola . cujas respostas interessassem ao professor como leitura. por parte dos alunos. não seria problema. quebraria o eixo da. Essa solução. portanto todo exame. A resistência é saudável. o aluno devolve sempre faltando algum valor importante e. Não é pouca coisa. amplia seu débito. mas não seria pequena.elaborada de uma resposta interessante . Exames e provas com consulta tendem a ser até mais difíceis. cobra na prova com juros e correção monetária. dentro do contexto dos processos de construção do saber. e não como castigo. que cremos semântica mas não inócua. de soluções de papel. de correção e avaliação destes testes e provas. pública ou privada. de elaboração de testes e provas. Transformar a cola (in)conveniente em consulta necessária assume o conhecimento como um constructo infinitum.mas sente que tem sua inteligência respeitada. ”educação bancária”.em todas as disciplinas e em todas as séries -. Modificar a relação global com o conhecimento depende de alterar. ou seja. concomitantemente. na famosa expressão de Paulo Freire. que a instituição. A aceitação da novidade.perguntas que refletissem os interesses do aluno. entretanto. é que não podem fugir dela. depois. na qual o conhecimento é reificado como ”moeda podre”: o professor dá a matéria na aula. Pedindo desculpas. Modificar a relação dos professores com o saber. Forçoso admitir. aos leitores. qualquer aluno sabe .

Gostaríamos de acrescentar que. não se pode saber. até para conquistarmos mais ”moral”. Talvez a solução se ressinta da mesma falha visceral que afeta os sistemas utópicos: na melhor das hipóteses. que se perpetua e se reproduz graças à legião de micropoderes que representamos. do que afirmar o que se quer. O controle. Precisamos depor algumas armas (restando-nos sempre nosso saber e nossa mestria). primeiro. no poder que um homem pretende exercer sobre outro. que considerava três as profissões impossíveis. Propõe-se. por parte dos controladores. de nossa parte. ao que todos podemos ser e não temos. Acreditamos que os professores precisamos aprender a desconfiar de toda intenção de controle. Não lembramos Freud. necessariamente. É muito mais fácil dizer o que não se quer. o nosso lugar social. a alguma alternativa decente para o futuro. uma solução interessante.abdicar de parte das funções policiais de que nos investiram modificaria. . o que estaria errado. uma boa descrição crítica da conjuntura presente. Tentamos demonstrar que o controle tende a ser. por definição. não tem rosto. o que seria o certo.não merece tanta fidelidade assim. não tem corpo . é altamente estressante. é ineficiente. Mas o ”sistema”. perverso . fizerem a mesma aposta. a saber. além de ineficiente e perverso. como saber. ineficiente. e depois. felizmente. na sua força.gerando o avesso do que suas ”boas” intenções pregam. propostas pedagógicas surgiriam natimortas. como psicanalisar e governar. que não leva. poder esse anulado pelo inconsciente. o esforço de controle. e burro. psicanalisar. governar e educar? Uma vez que educar se baseia. em suma. aqui. sem ser especialmente originais. Todavia. através de um alicerce ético. perverso. uma outra fidelidade: ao enigma. portanto. direção e coordenação. envelhecendo-nos prematuramente. o seu inconveniente: só pode ser testada se toda a administração de uma escola. pelo que. à incerteza. de maneira microscópica mas substantiva. De dentro da crítica mesma pode emergir outro defeito da saída apresentada.construído. O controle só não é estúpido para o sistema como um todo. bem como todo o corpo docente. A solução desta segunda parte tem. envolvendo e aproximando as disciplinas da escola na promoção de determinado nível de transdisciplinaridade. perante os alunos e a sociedade . algumas ressalvas se impõem.

toda instituição sua sombra negativa. cada vez que desejamos aquilo que . há prazer. em que se ama. se pode saber sódepois. sonhando com uma reconstrução da moral na escola enquanto produz. a menor de nossas alegrias cumpre esse objetivo. simplesmente porque o futuro ainda não há. continuar refutando o platonismo: refutar o platonismo é preciso. mas somente aquele que não existe (porque o queremos ”formar”)? Propor uma alternativa pedagógica libertadora que elida o controle não seria contraditório em seus próprios termos. Mas não temos como saber.Não nos apoiamos em Foucault. Tudo isso é possível. Pensar eticamente o passado implica tanto homenageá-lo quanto superá-lo. ao mesmo tempo. o menor de nossos prazeres. igualmente. Se as escolas vão implantar as nossas idéias é de somenos. desde então. ao nosso controle. deve ser feito. em que se deseja não a obra. não o aluno à nossa frente. ou do que uma idéia para o futuro. enfim. mas sua posse (que não é possível). sempre. para ser observado e criticado. e depois se tornam. algo. Mas o quanto. mas a glória (que esperamos). a arte de conduzir os moços para uma meta que a priori não poderia ter sido estabelecida por eles? É possível. sempre. Geram-se. A menor de nossas ações. Algo. que é real. em que se deseja não essa mulher. pálidas). quem sabe mais eficientes e perigosas? Não vimos que a lógica de Eros passa pela lógica de Tanatos. Nossa solução certamente carrega boa probabilidade de ser canhestra (se humana). brilhantes (na melhor das hipóteses) e sombrias (porque portam sempre as suas próprias sombras). à sua crítica. Importa. o que somos ou o que existe. o que temos. Propor idéias para o futuro. será feito (ou refeito). por definição. se a pedagogia é. e como. há alegria cada vez que desejamos o que fazemos. As invenções humanas começam pálidas. e ainda bem que foge. O passado contém infinitamente mais elementos. outras formas de controle. que justamente estuda a microfísica do poder para demonstrar que toda intenção pode portar seu avesso. propor-se em disponibilidade de ação e risco para o futuro. do que o futuro. meras frases. sem o perceber. que fazemos. Há ação. novas frases (no começo. porque foge. em suma. todo ser seu abismo e seu limite escuro? Transformar a cola em consulta não poderia ser apenas mais um joguinho de palavras. implica admitirse e oferecer-se. na medida em que se deseja o que nunca é nem atual nem presente. Na verdade. antes.

não nos falta: há ação. a esposa que vira madrasta sufoca a bela adormecida. Esvaziou-se já nesse ato de sua divindade. É o Deus de Simone Weil. p 264. eu te amo pelo que você não é (e é isto que você não é nem tem que deve me dar). para Spinoza todo desejo seria potência de agir ou força de existir (agendi potentia sive existendi vis). eu te peço nada: fico feliz com a idéia de que você existe. prazer ou alegria cada vez que Platão está errado. de renúncia. A criação é da parte de Deus um ato não de expansão de si. É por isso que João diz que o Cordeiro foi degolado já na constituição do mundo.165 Há um amor. essa distância voluntária. e isso diz muito sobre o platonismo!164 Se para Platão o desejo é falta. As religiões que representam a divindade como comandando em toda parte onde tenha o poder de fazê-lo são falsas. justamente. que se atesta sobretudo por 164 165 André Comte-Sponville. aumentá-lo. por conseguinte. ainda que a falta primeira também faça parte da sua raiz. p. esse nosso mundo. 294. Esvaziou de si uma parte do ser. Essa resposta. e te deixo pelo que você é (pela falta mesma que moveu a paixão) . ou uma outra ficção de Deus. só pôde criar outra coisa que não Ele. que contém Eros mas o supera. mas de retirada. ao contrário. Mesmo que monoteístas. esse eco que depende de nós recusar é a única justificativa possível à loucura do amor do ato criador. Deus permitiu que existissem coisas diferentes Dele e valendo infinitamente menos que Ele.daí. . essas religiões são a verdadeira religião. Deus aceitou essa diminuição. Pelo ato criador negou a si mesmo. Deus negou-se em nosso favor. da ausência. As religiões que conceberam essa renúncia. só pôde fazer menos bem que Si mesmo. Mas há um outro Deus. isto é. Idem. O Deus de Bentham . Deus e todas as criaturas é menos que Deus sozinho. para nos dar a possibilidade de nos negar por Ele. são idólatras.o marido mau mata o príncipe encantado. esse apagamento voluntário de Deus. que cria de modo diferente. Obra citada. Sendo Ele mesmo todo o Bem. Na declaração do amor spinozista. sua ausência aparente e sua presença secreta aqui embaixo.a ficção de Deus. já sendo todo o Bem possível e não podendo. a tradução em diferentes línguas da grande Revelação. só pôde criar o Mal . o inspetor-geral de Bentham constrói sua onividência e onipresença a partir. como Cristo nos prescreveu nos negarmos a nós mesmos. Deus. ibidem. Na declaração do amor platônico.

pela doçura. Por isso mesmo. possa inspirar não the fiction of God. Esse amor refuta o amor platônico. na medida em que pode. devemos colocá-lo em nosso horizonte regulador. preferindo até mesmo perder a possuir . pelo recuo. pela delicadeza de existir menos.ou a controlar.uma força que não se exerce. Esse amor é muito raro. mas uma ficção de mestres e de discípulos que se encontrem aqui. talvez. ”mostrar sua fraqueza sem que o outro se sirva dela para afirmar sua força”. Há um amor potente justo ao recusar toda forma de onipotência. limitando a si mesmo e preferindo se negar a se afirmar. preferindo se retirar a se estender. e agora. na fórmula de Pavese. Por isso mesmo. .

O leitor. Acreditamos que as partes são coerentes uma em relação à outra. A segunda parte deu um passo adiante. mas pela construção de um programa de investigação comum . Em ambos os casos. fazemos uma proposta radicalmente interdisciplinar. Mas esta é a nossa crença. que pretende justamente envolver todas as disciplinas. enfocando o desenvolvimento da argumentação. . inteiramente centrado em textos argumentativos e que transformasse a cola consentida em consulta necessária. por favor. optando não pela superficialidade de um ”tema comum”. argumentando a favor de um sistema de avaliação para a escola.15 À GUISA DE CONCLUSÃO A primeira parte deste livro propôs uma prática escolar que articulasse todas as disciplinas a partir do ensino de redação e de lógica do discurso. nos conte a sua.programa este eminentemente ético.

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