Unidade

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Tecendo o Humano: Os Fios Históricos e a Primeira Infância
Objetivos:
• Esta unidade situa historicamente a construção do conceito de infância na sociedade ocidental, enfocando o desenvolvimento nos primeiros anos de vida desde a concepção aos dois anos de idade. Para tanto, destaca o papel da família e do meio sociocultural no atendimento às necessidades básicas do desenvolvimento.

em diferentes épocas. 1. tiveram o conceito de infância. que se transforma com o passar do tempo. a vida adulta e a velhice que se assemelham e divergem das representações apresentadas por tais autores. diferem em suas concepções sobre o tema em aspectos como: a duração da infância. são produtores e produtos da história. segundo Heywood (2004). o que poderia indicar o menosprezo da sociedade por esta figura ou a possibilidade de a infância não ser caracterizada como uma etapa distinta da do adulto. da economia. na Idade Média. olhando as obras de arte dos séculos XIII ao XV é possível encontrar as crianças pintadas ou esculpidas em imagens com formas angelicais ligadas ao universo das religiões. tem variado entre grupos sociais e étnicos nas diversas culturas e sociedades. No caso do Brasil. A Biologia. 2009). Contudo. nesta unidade. a noção de que crianças podem ser diferenciadas dos adultos de várias formas. até o século XII. os adultos pensavam sobre ela. cujo desenvolvimento é determinado. a adolescência. O papel da criança. em períodos distintos. etc (SANTOS. Inclusive. ou seja. assim a própria leitura de suas obras deve ser pensada à luz dos contextos aos quais estão voltados. historicamente. A infância passou a ser contextualizada e citada apenas no começo do século XIII. das relações familiares. portanto. certamente. sobremaneira. Todas as sociedades. como construção social. Vale destacar que os referidos autores representam uma visão europeia. XAVIER e NUNES. da política. muitas variáveis relacionadas à colonização e à mistura de etnias interviram em nossa formação e. Contudo. as crianças não eram retratadas nas obras de arte. tem papel relevante no desenvolvimento infantil. em nossas representações sobre a infância. esteve pautado pelas expectativas e significados atribuídos pelos adultos.1. Deste modo. requer saber também o que. A fim de. a evolução de seus conceitos pode ser acompanhada pela história da arte e iconografia até o século XVI. situarmos como historicamente foi sendo construído o conceito de infância vamos nos ancorar nos estudos de Ariès (1998) e Heywood (2004). de forma ampla e global. por sua constituição biológica. a compreensão da criança. por conseguinte. mas as crianças se desenvolvem em ambientes concretos.Capítulo 1 O percurso histórico do conceito de infância É possível identificar várias perspectivas para o que se entende por infância nas diferentes sociedades. ainda é comum pensarmos em uma criança natural e mesmo universal. A infância. A infância através dos tempos: do século XII ao XIX Segundo Ariès (1998). PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 43 . Neste sentido. ao longo da história. da cultura. as características que diferenciam os adultos das crianças e as marcas mais acentuadas do que se denomina infância.

O segundo. Para ele. nas camadas populares as crianças continuavam auxiliando suas famílias com sua força de trabalho. Nos séculos XVI e XVII. introduzidas no mundo adulto. cuidados. sua obra Emílio. Para ele. as questões da cultura e o impacto das transformações sociais com o surgimento do capitalismo na Europa Ocidental. No século seguinte. No final do século XIX e início do XX surgiu. Nesse período. Embora em alguns países. Para Locke. Heywood (2004) observa que nem sempre as manifestações artísticas de um período conseguem retratar as particularidades dos segmentos sociais ou mesmo as diversidades culturais e sociais características de cada país. aos poucos. O primeiro aparece na família. o cenário socioeconômico da época e os estudos de pensadores como o empirista inglês John Locke e o suíço Jean-Jacques Rousseau alavancaram as transformações mais significativas na concepção de infância. inclusive. Apesar de tais sentimentos. indicando a provável percepção de diferenças entre adultos e crianças. mais especificamente na igreja. traz uma das primeiras divisões da infância em etapas. Porém. A esse respeito. as crianças aparecem nas efígies dos túmulos. Aliás. surge fora da família. nos Estados Unidos.A partir do século XVI as crianças foram. neste período histórico. Contudo. ainda se empregue mão-de-obra infantil e se tenha altos índices de analfabetismo em crianças com idade escolar (p 76). Rousseau acreditava na pureza e inocência da criança. A visão romântica da infância aparece no final do século XVIII e início do XIX. o que poderia expressar uma valorização social maior da infância. completamente moldada pelo meio. A criança é vista como alguém que precisa de afeto. Xavier e Nunes (2009) Somente com a legislação do trabalho infantil e a obrigatoriedade da escolarização na contemporaneidade. uma certa indiferença com relação a essas mortes. Os românticos viam as crianças como seres com sabedoria. eram as instituições sociais que as corrompiam. ligado à ideia da criança como elemento para diversão e entretenimento do adulto. espaço e tempo para brincar. surgem dois fortes sentimentos sobre a infância: a paparicação e a exasperação. proteção. pintadas nuas e mais desvinculadas das imagens de anjos. foram pintadas sem a presença dos adultos. que defende maior rigidez no trato com as crianças para a sua formação moral. segundo Ariès (1998). festas e propagadas nos contos infantis e na pintura leiga. os cuidados com as crianças eram ainda precários. Essa redescoberta estava pautada em três causas históricas: o aparecimento da escola. sendo retratadas em feiras. ainda prevalecia na sociedade o pensamento cristão da Idade Média que colocava as crianças sob o manto do pecado original. 44 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . Segundo Santos. a criança se assemelhava a uma folha em branco. pela classe média. documentos do período medieval apresentam vestígios de uma consciência de singularidade da infância. principalmente. inclusive no Brasil. A partir do século XVII. alterando a concepção de Rousseau acerca da inocência infantil. esse quadro foi gradativamente modificado. uma nova concepção de infância adotada. Os séculos XVI e XVII são denominados por Heywood (2004) como período de redescoberta da infância e não de surgimento. em pleno século XXI. sensibilidade estética e consciência dos valores morais. com alta mortalidade nos primeiros anos de vida e.

são exemplos de estudiosos que compreenderam crianças e adultos como seres históricos (SANTOS. No Brasil. em função da faixa etária. os estudos de Emília Ferrero e Ana Teberoski. situando a infância como período fundamental na constituição da subjetividade humana. 1983).O século XIX trouxe consigo o avanço da industrialização e das tecnologias recém-surgidas. a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e alguns avanços obtidos na LDB No 9394/96. Leontiev e Luria defendiam uma Psicologia na qual o sujeito é um ser atuante no mundo.2. Apesar de tanto “progresso”. aspectos básicos para a qualidade de vida humana ainda não foram alcançados em muitos países como a garantia de habitação digna. Henri Wallon. por fortalecer a noção de um período de transição da infância para a idade adulta. como no caso da internet que permite. Vygotsky. estudaram a infância destacando aspectos específicos de seu desenvolvimento. 2009). maior acesso aos elementos que poderiam estimular o vício do álcool. e do discurso que colocava na formação da criança a responsabilidade pelo “futuro da nação”. O século XXI. na Psicologia. Celestin Freinet e Paulo Freire. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 45 . merecem destaque as recentes conquistas. Também Sigmund Freud. preocupavam o Estado. a infância e a adolescência foram prolongadas. 2005). Deste modo. através da medicina higienista (COSTA. Por conseguinte. Mais recentemente. Arnold Gesel. dentre outros. A nova vida urbana acelerava seu ritmo junto com a economia e as descobertas da ciência. rompeu com a concepção de pureza infantil vigente na época. garantido na Constituição de 1988. a comunicação e difusão de informações em todo o planeta em tempo real. inclusive em uma perspectiva concreta e histórica. Uma sociedade que alcançou conquistas sequer sonhadas em séculos anteriores. A obra “Adolescência” de Stanley Hall. Teóricos como Jean Piaget. No âmbito da Educação. de valores e princípios alavancadas pelas transformações econômicas em curso. etc. Essas discussões no campo teórico aconteceram em cenários políticos concretos. A infância nos séculos XX e XXI: desafios na contemporaneidade O século XX trouxe importantes contribuições teóricas e novas formas de se pensar a infância. Donald Winnicott. XAVIER e NUNES. ainda por serem consolidadas: o direito à educação. produzindo e ao mesmo tempo sendo fruto dos processos da cultura e da história. drogas. também tiveram impacto na redefinição do papel da criança nos processos de aprendizagem escolar. e as mudanças sociais. Expoentes dessas ideias. traz consigo desafios imensos que já deveriam ter sido superados em uma sociedade que se orgulha dos grandes avanços científicos e tecnológicos. com importantes lutas pelo reconhecimento dos direitos da criança (KRAMER. havendo também a separação dos jovens dos adultos nas escolas. Neste cenário. sobre a construção da língua escrita pela criança. inclusive. educação. mal se anunciou. segurança e. a família passa a ser mais normatizada. ao propor um desenvolvimento psicossexual desde a primeira infância. Melanie Kleine. pode ser considerada um marco. acesso aos serviços de saúde. comportamentos mais abertos no âmbito da sexualidade. dentre outras coisas. 1.

de pensarem criticamente. passa pela sua relação com o brinquedo. é o direito de brincar. emocional e social. em especial os que lidam diretamente com a infância. de interagirem com seus pares e com os adultos de forma solidária. de serem crianças com a ludicidade e a alegria próprias a esse período. devem ser celebradas. O brincar é uma necessidade do desenvolvimento infantil.000 crianças e adolescentes fora da escola. a desnutrição e. de 10 de junho de 2009. planeta que também tem sido maltratado continuamente. Compreendendo que a própria ideia de como concebemos a criança foi produzida historicamente pelos homens e mulheres nas diversas sociedade. mesmo com conquistas legais que. cuidado e amor em seu sentido amplo. especialmente. inclusive no Brasil. o jogo. O percurso até aqui explicitado nos revela que não é possível pensar na infância e no seu desenvolvimento sem considerá-la dinâmica e fruto da interação de múltiplos aspectos nos campos psicomotor. por incrível que pareça. Aliás. Antes de discutirmos cada um deles vamos abordar os fatores que intervêem no desenvolvimento infantil. Um desses direitos importantes. Não é possível mais continuarmos a fechar os olhos para a situação mundial da infância. 46 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . Os educadores. ainda padece de descaso. o crescimento da pedofilia. Nossa infância em todo o mundo. os maltratos às crianças. possuindo um valor simbólico importante na significação do mundo pela criança. É necessário vermos as possibilidades de nossas crianças como sujeitos que merecem respeito. alimentação. Segundo Polleto (2005). sem dúvida. a exploração sexual de menores. Inclusive. têm uma responsabilidade e compromisso social fundamentais. podemos refletir continuamente sobre qual a concepção que temos da infância hoje. oferecendo a elas a oportunidade de aprenderem de modo significativo. no sentido de lutar pela garantia de direitos básicos que devem ser assegurados às crianças. cognitivo. Somente no Ceará são quase 600. esquecendo que essas crianças constituem as gerações que herdarão o planeta. conforme relatório do UNICEF em 2008. a internalização pelas crianças dos discursos sociais e culturais vindos do mundo adulto. a falta de acesso às escolas ainda fazem parte de nossa realidade. São estes aspectos biopsicossociais que vão constituindo a criança como ser integral e em permanente transformação.principalmente. A vergonha do trabalho infantil. de exercitarem sua criatividade construindo seus caminhos em direção a uma vida melhor e. os autores que estudam resiliência apontam o brincar como um importante fator de proteção à criança. conforme reportagem do jornal Diário do Nordeste. o lúdico.

o acompanhamento pré-natal é fundamental para a saúde do bebê. Essas vivências emocionais mobilizam defesas importantes que podem aparecer em forma de sintomas físicos. nascimento prematuro. a mãe vai. doenças cardíacas congênitas ou distúrbios de sono. Essa divisão é feita para melhor compreensão do desenvolvimento humano.. Como veremos. aumentando sua sensibilidade. 2. gradativamente. o meio no qual a criança vai viver e as relações que vão Um dos problemas bastante conhecidos pela ingestão de álcool na gravidez é a chamada “síndrome alcoólica fetal”. o consumo de álcool. é preciso deixar claro que não há uma relação determinista e linear entre a gravidez e o desenvolvimento infantil. Infelizmente. fobias. cognitivo e socioemocional. deformações físicas. que passa pela saúde física e emocional da mãe. se a mãe vive uma gestação desejada. TATSCH e SANTOS. conforme vimos na unidade anterior. o estresse e a ansiedade podem ter repercussões moderadas ou graves no desenvolvimento infantil. estudos mostram algumas elaborações psíquicas importantes que a mulher realiza ao longo da gravidez em torno de temas como: as representações de si como mãe.Capítulo 2 O desenvolvimento biopsicossocial da criança Apresentaremos o desenvolvimento da criança de 0 a 3 anos. retardo mental. Assim. as fantasias sobre o aspecto físico e a personalidade do bebê. negações. o que pode repercutir no desenvolvimento do bebê. primeiro ano de vida e segundo/terceiro anos de vida. o desenvolvimento humano é global e deve ser compreendido em sua inter-relação permanente. etc. especialmente. Período pré-natal e parto O período pré-natal é muito importante para as etapas posteriores do desenvolvimento humano. não implicando em aspectos estanques e isolados entre si. Winnicott chamou de preocupação materna primária. desde então. as pesquisas revelam que perturbações causadas por fatores externos como a alimentação da mãe. se possui apoio emocional em seu entorno. em geral. terá maiores condições de desenvolver uma gestação saudável e uma maior unidade com o bebê. É um período em que a mulher está mais vulnerável e necessitando proteção. Nesse sentido. 2001). depois da 16ª semana quando se notam os primeiros movimentos fetais. dividindo-o em períodos: pré-natal e parto. nascem com essa síndrome. em itens subsequentes. recém-nascido. identificando-se com o bebê. se possui acesso a tratamentos de saúde e informações sobre o processo pelo qual passa. Há estudos mostrando que um terço de bebês de mulheres que bebem muito. e. Para Bee (2003) considerando esse desenvolvimento intrauterino. Contudo. Contudo.1. Ao contrário. nem todas as mulheres podem vivenciar esse período de forma saudável e tranquila. se estabelece nas primeiras semanas. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 47 . Aliás. como discutimos na unidade anterior. caracterizada por sintomas como crescimento retardado. já deve ser garantido o seu direito à vida. angústias. Na gestação. especialmente no campo profissional. o fumo. e o medo de morrer no parto ou de perder o bebê (ZIMERMMAN. A partir do primeiro ano dividiremos o desenvolvimento em aspectos: psicomotor. esse vínculo. ansiedades e questões ligadas à sua feminilidade e a capacidade de nutrir e cuidar do outro. as dificuldades que enfrentará na vida prática. A gestação traz para a mulher novas expectativas. se tem condições dignas de moradia e alimentação. criando o que.

começa a bater e vai se desenvolvendo rapidamente. com quem o bebê vivia total intimidade. e também a melhora do tônus muscular que facilita o choro. Os pulmões já estão plenamente desenvolvidos e podem sustentar a respiração fora do útero. cheiros. embriônico e fetal (NEWCOMBE. de modo que o bebê já pode sobreviver fora do útero. O recém-nascido O parto representa. embora os pulmões ainda não estejam plenamente desenvolvidos. Em geral. olhos e orelhas vão se definindo melhor e o embrião mede aproximadamente 2. • Estágio germinal: caracterizado pela divisão do óvulo após ser fertilizado. A gestação. no sentido de que suas funções fisiológicas trabalharão sozinhas. Na oitava semana. Mas as células do sistema nervoso somente estarão completas nos dois últimos meses. o feto já pode puxar e exalar o ar. assim como o sexo pode ser distinguido. embora com cuidados especiais. pode ser dividida em estágios: germinal. aparecem cabelos.se estabelecer com adultos e outras crianças. a separação da mãe. a presença do pai também 48 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . tem reações visuais e auditivas básicas e pouca sensibilidade à dor. 43 cm. Os meninos são um pouco maiores e mais pesados do que as meninas. Alguns estudos sugerem que o bebê prematuro já distingue gostos. que serão aperfeiçoados nas últimas 20 semanas. as proporções do feto estão mais parecidas com as de um bebê. estão desenvolvidos. embora anida seja um ser bem dependente dos cuidados externos. • Estágio embrionário: vai da segunda à oitava semana de gestação. boca. a respiração. em média.2. 1999). a criança deve fazer exames clínicos que informam sobre sua saúde geral. Com 28 semanas os sistemas nervoso e circulatório. ainda. e já mede 11. Logo após o nascimento. As primeiras oito semanas de gestação sustentam a forma primitiva de todos os órgãos.5cm. também são fundamentais para prevenir e/ou tratar problemas. a partir do nascimento o bebê adquire vida própria. Na sexta semana. há um aumento rápido do peso e da altura. até a sua implantação no útero materno. Até o final da gestação. o embrião começa a tomar forma. Nesse sentido. a boca e os olhos já se movimentam. Com 16 semanas. Um dos testes mais conhecidos é o método de avaliação Apgar. então. sendo possível distinguir a cabeça e a região caudal. 3kg400g e mede 50 cm. Ao chegar às 24 semanas. o parto também representa um novo momento em que o bebê ingressa no mundo social. unhas e as glândulas sudoríferas se desenvolvem. a pele começa a ter forma definida. Após fixar-se na parede do útero. Segundo Pio (2007). o tônus muscular. assim como as mãos já são capazes de agarrar e de fechar. Por conseguinte. mãos e pés começam a desenvolver-se e o fígado já produz glóbulos vermelhos. Até a 20a semana. ainda primitivo. • Estágio fetal: com 12 semanas cílios e unhas já começam a se formar. corpo rosado/extremidades azuis e completamente rosado). O momento do nascimento também deve ser considerado importante na formação da criança. Depois de 20 semanas. sendo que problemas como anoxia (falta de oxigênio no cérebro) e baixo peso (muito inferior à média de 3 a 5 Kg) podem acarretar prejuízos neurológicos. o recém-nascido pesa. no qual são observados os batimentos cardíacos. rosto. O coração. 2. o reflexo de sucção e a motricidade. a médio e a longo prazos e ter consequências graves como o retardo mental ou a paralisia cerebral. bem como outros sistemas do corpo. a resposta à estimulação dos pés e a cor que o bebê apresenta (azul/ pálida.

alternando os pés como se estivesse caminhando. mas sim como um ser complexo e previsível que interage com os adultos que o cercam. vamos apresentar o quadro extraído de Bee (2003). Esfregue a palma da mão do bebê com seu dedo Emita um som alto perto do bebê ou deixe o bebê cair um pouco “de repente” Resposta O bebê assume uma postura de esgrima. com os pés tocando o chão ou uma superfície plana. após nove meses de forte ansiedade e muitas fantasias.é importante para a mãe e o bebê. quando a criança vira a cabeça voluntariamente. como os reflexos de Moro. 74). Reflexo Tônicocervical Estimulação Vire a cabeça do bebê para um lado. indo dos dedos para o calcanhar. O bebê fará movimentos de passos. arqueia as costas. fechamos os olhos automaticamente. possuidor de uma capacidade interna de organização e integração que faz dele um ser competente e que permite o contato com o ambiente cuidador (p. Entender este processo inicial é importante para a compreensão de desenvolvimento infantil. Muitos reflexos permanecerão na vida adulta. apenas têm função adaptativa para o bebê. o bebê não é mais visto como uma massa sem formas. o bebê terá que se adaptar a um novo mundo de forma ativa e interativa com o ambiente e as pessoas ao seu redor. pernas e dedos. Outros reflexos. Agarrar Moro Marcha automática Segure o bebê pelas axilas. O bebê vai abrir os dedos do pé como um leque. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 49 . posto que os reflexos prenunciam aquisições posteriores. Desaparece aos 4 meses. com ele acordado e deitado de costas. O bebê segura o dedo com força. O bebê estende braços... Desaparece entre 8 e 12 meses. Eles desaparecerão ao longo do primeiro ano de vida com o aprimoramento do córtex cerebral. Desaparece em torno dos 6 meses. mas. Posteriormente. e atira a cabeça para trás. com um braço estendido para o mesmo lado em que a cabeça está virada. é a primeira relação social da criança. surgem outras envolvendo outros contextos” (p. De acordo com Eizirick. É um bebê ativo. Esfregue a sola do pé do bebê. Desaparece após 3 semanas. estarão relacionados com importantes padrões de comportamento do desenvolvimento no futuro. Kapezinski e Bassols ( 2001) . Agora. Desaparece aos 3 ou 4 meses. Desaparece em torno de 2 meses. que são as respostas físicas automáticas e involuntárias a um estímulo específico. Ele os modela quase tanto quanto é influenciado por eles. O bebê vira a cabeça na direção do toque. reflexo de Babinski e marcha automática.1). posto que “estão juntos pela primeira vez. Para termos uma ideia melhor de quais os comportamentos que estimulam os bebês e que respostas reflexas eles dão. prestes a ser modelada pelo seu ambiente. Babinski Rotação Esfregue a bochecha do bebê com um dedo. quando uma luz muito forte é colocada em nossa direção. A relação mãe-bebê é a evolução das relações sociais ou seja. Por exemplo. O recém-nascido tem seu desenvolvimento basicamente ligado aos reflexos. Abre a boca e faz movimentos de sucção.

Sonolência 4. há bebês mais irritados. O primeiro ano de vida O primeiro ano de vida caracteriza-se por um rápido aumento no peso e na altura da criança. 2. nos próximos itens veremos. especialmente na interação com seus pais e/ou cuidadores. conforme veremos no quadro abaixo: Estados 1-Sono calmo Características Sono sem movimento ocular rápido. é o ritmo de alternância dos estados entre a vigília e o sono. com mais detalhes. Assim. Assim. Grande atividade motora. outros com maior capacidade de sucção do seio ou mamadeira dentre outras características. outros se acalmam sozinhos. Por conseguinte.Alerta ativo 6. esses estados de vigília e sono. respiração irregular e movimentos faciais em intervalos. O contato corporal. não podemos esquecer que também há as diferenças individuais entre os bebês com aspectos que são de natureza genética que os estudiosos (BEE. rosto contraído e vermelho. reflexos como o tônico-cervical estão relacionados com a capacidade do bebê de pegar objetos. Contudo. Pálpebras fechadas ou semiabertas (olhar vago) Olhar vivo e brilhante. Segundo Eizirik. considerada pelos psicólogos do desenvolvimento como a etapa da primeira infância. característico do recém-nascido. O bebê está agitado. que vai ter influência no comportamento do bebê nos primeiros anos. Outro aspecto importante. as mudanças em suas capacidades 50 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . Atividade motora intensa. outros com atividade motora mais intensa. 2003. Kaézinski e Bassols (2001) podem ser observados seis estados. lábios e pálpebras. 2. Contudo. a atenção dedicada ao bebê são aspectos fundamentais para facilitar a regulação do organismo. NEWCOMBE.Sono REM 3. respiração regular sem movimento corporal. 1999) denominam de temperamento. isto pode indicar alguns problemas de ordem neurológica. Não se movimenta. Destacamos o recém-nascido.Alerta. porém está calmo e atento ao ambiente. Gritos e choros.Vale ressaltar que embora desapareçam ao longo do primeiro ano.3. As vezes mexe de leve os dedos. como se processa o desenvolvimento do primeiro mês ao terceiro ano de vida. a fala suave e em tons baixos. pode gemer ou esboçar gritos e sua atenção não está fixada em nada. Além do mais. persistem com os reflexos que já deveriam ter desaparecido. ajudando-os a manterem-se no estado clamo e atento. quando recém-nascidos não apresentam determinados reflexos ou ao contrário. constituem-se em uma forma de comunicação do bebê com os adultos em seu entorno.Choro Um ambiente familiar tranquilo com vínculos afetivos estáveis e fortes influencia nos estados dos bebês. É importante conhecer o perfil do recém-nascido para prevenir precocemente perturbações e distúrbios comportamentais que podem vir a se tornar mais graves. outros mais fáceis de ser consolados por um adulto. considerando a importância dos primeiros dias de vida da criança. Movimentos oculares rápidos. o reflexo da marcha automática pode estar relacionado com a capacidade futura de caminhar etc. quieto 5. além do aspecto neurofisiológico.

Contudo. Isto é essencial para que possamos ter adultos mais independentes. diz respeito às possibilidades do indivíduo de perceber e agir com os outros. tanto a mãe quanto o pai têm a responsabilidade de cuidar do bebê para que possa transformar-se num adulto saudável. a perturbações no seu desenvolvimento emocional que se revelarão através de dificuldades pessoais. embora não se possa garantir que esta criança não terá problemas. a vida familiar é fundamental para a saúde física e mental da criança. Afinal. O desenvolvimento psicomotor caracteriza-se pela maturação que integra o movimento. Vistos esses aspectos gerais do desenvolvimento infantil no primeiro ano de vida. mas necessárias. amigos. até certo ponto.1. Está relacionado também à maturação na qual o corpo é a origem das aquisições afetivas.Outras pessoas que integram o ambiente do bebê também serão fundamentais para o seu desenvolvimento como irmãos. criando um clima emocional propício para que ele possa viver de forma rica e plena as suas experiências. está voltado. cognitivas e orgânicas. muitas vezes. novas relações com o meio também vão sendo definidas influenciando o desenvolvimento emocional e cognitivo. etc. A figura paterna representa aspectos relacionados com a segurança o e apoio. Por conseguinte. solidários. O cuidado e o afeto maternos vão ajudar o bebê a organizar e direcionar seus próprios afetos. Por conseguinte. a construção espacial e temporal. Em síntese. não poderá ser recuperado mais tarde. como um contato afetivo. sendo necessário um ambiente emocional estável. outros familiares. Para Winnicott (1971) "um bebê privado de algumas coisas correntes. 2.motoras também são intensas. à medida que crescer" ( p. caso ocorra algum problema nessa relação algo se perde e. Sua ausência expressa a falta de um homem com quem o bebê possa se identificar no futuro. pois no primeiro ano sua estrutura psíquica ainda não está pronta. consigo e com os objetos. as atitudes da mãe vão servir de estímulo ao bebê. constituindo uma relação que é de complementariedade. 95). Para Spitz (1979) o bebê precisa se adaptar mesmo sendo indefeso e incapaz. saudáveis e amorosos. evidenciado novas aprendizagens e habilidades. Desenvolvimento psicomotor O aspecto psicomotor está relacionado ao desenvolvimento humano através do seu corpo em movimento e na relação com o mundo externo e interno do sujeito. vamos especificar os diferentes níveis do desenvolvimento biopsicossocial nessa idade. tudo que foi conquistado nesse período poderá ser consolidado. quando os vínculos afetivos são sólidos e garantem boas experiências. o reconhecimen- PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 51 . um bebê é alguém tentando se adaptar a um novo mundo cheio de descobertas e coisas novas. Entretanto. o ritmo.3. Em realidade. Para o referido autor. Nesse percurso o bebê vai significando a realidade. Esse é um processo intenso. fortalecendo o elo emocional entre a criança e seus cuidadores. Com eles também irá construir de forma singular novas interações e padrões afetivos. A mãe (biológica ou adotiva) tem importância fundamental na satisfação dessas carências. mas a mãe deve propiciar a satisfação de suas necessidades físicas e afetivas. cujas interações vão ter um influência importante na qualidade de vida dessa criança. que ajudará o bebê a constituir sua identidade e seu lugar na família.

assim como a intenção e significado de seus movimentos e expressões verbais e não verbais. primeiras palavras. por exemplo. vai ter relevante papel no desenvolvimento das funções psicomotoras. • 12 meses: é capaz de caminhar sozinha. • 2 meses: levanta a cabeça e o peito. • 6 meses: senta-se na cadeira com apoio e pega objetos em movimento. Já consegue segurar objetos por um tempo maior. nadar. quem não lembra de um bebê aprendendo a andar. Começa a imitar gestos simples. comunicação pelo sorriso. 52 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . o indivíduo tem o choro como a primeira forma de comunicação. apoiando-se em um móvel. • 5 meses: pega objetos e é capaz de rolar lateralmente. • 9 e 10 meses: pode engatinhar arrastando-se. escrever. • 8 meses: consegue ficar em pé. Podemos sintetizar. Contudo. orientação no espaço. Todas essas conquistas do primeiro ano dependem da maturação dos sistemas neural e muscular e das oportunidades de experimentação que a criança tenha no ambiente em que se desenvolve. mesmo deitado de costas. andar. Cada aquisição será fundamental para o desenvolvimento de outras capacidades como a linguagem e o pensamento. na direção céfalo-caudal (cabeça-tronco) e próximo distal (centro-laterais). • 11 meses: consegue ficar em pé sozinha e caminha segura por uma das mãos. preensão e permanência dos objetos. Fonseca (2001) destaca que o desenvolvimento psicomotor deve ser compreendido na interação recíproca da motricidade e do psiquismo. as principais conquistas psicomotoras do primeiro ano: • 1 mês: levanta a cabeça. na habilidade de pintar um quadro. e depois apoiando-se nos joelhos e nas mãos. digitar. • 3 meses: já tenta alcançar objetos que lhe interessam. Neste sentido. A maturação neurológica com o processo de mielinização.é preciso cuidado porque ainda é comum distrair-se e cair. Já pode caminhar se alguém lhe segura as duas mãos. dançar. no quadro abaixo. orgânico. apesar de já ficar sentado sem apoio. Gradativamente. Afinal. ainda desajeitado e com pouco equilíbrio ou tentando pegar objetos menores com a palma da mão aberta? Momentos preciosos e necessários para o que um dia se transformará. engatinhar. pois estabeleceu o início da coordenação entre olhos e mãos. vai obtendo importantes conquistas como: sons vocais. como agitar os braços. a imagem que temos do nosso corpo. construir uma casa. inicialmente.to dos objetos e das posições. • 4 meses: senta-se com apoio. ao nascer. que no primeiro ano é marcado pela imprecisão dos movimentos. etc. • 7 meses: fica sentado sozinho por alguns minutos. escalar montanhas. por exemplo. Gosta de tirar objetos de um recipiente para colocá-los em outro. dirigir. não pode ser tomada apenas do ponto de vista biológico. ficar de pé. inclinando-se para a frente a fim de manter o equilíbrio. ao longo do primeiro ano de vida. É necessário considerar também o meio no qual a criança se expressa e se movimenta. ainda que de modo desajeitado. usando as mãos. a compreensão de como a criança se desenvolve neste aspecto. No plano psicomotor.

a capacidade auditiva está melhor desenvolvida do que a capacidade visual. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 53 . o bebê já identifica bem de onde está vindo o som. virando-se em sua direção.2. Por exemplo. é a tendência a voltar a atenção para objetos que variam em forma. pois se tornarão cada vez mais complexos à medida em que o bebê integra novos hábitos ao seu comportamento e organiza a percepção. quase todos os neurônios que teremos durante a vida. que irão despertar uma maior atenção por parte das crianças. 1967). por acaso passa o dedo na boca e o suga. movimentos. Esse tipo de descoberta ajuda a identificar a acuidade visual dos bebês que aliás. Outra capacidade interessante que as pesquisas já mostraram. Assim. Contudo. como por exemplo a percepção. sendo que o olhar um importante papel no estabelecimento dos vínculos entre o bebê e as pessoas que estão em seu entorno. Desenvolvimento cognitivo No plano da cognição. já estão presentes no feto de 7 meses. 2. o bebê passará a reproduzir gestos e movimentos que produzem um efeito interessante para ele. especialmente no caso de prematuros. no início bate em um chocalho apenas pelo reflexo de mexer braços e pernas. tamanho. Inclusive. expressando a intensa atividade que ocorre em todos os aspectos do desenvolvimento nesse período da vida. nesse período da vida. é a de que os bebês nos primeiros dias de vida já possuem uma memória auditiva.3. é uma importante característica dos recém-nascidos. Agora. Segundo Newcombe (1999). Por volta dos seis meses. Os bebês reagem melhor aos sons com padrões variados e de baixa frequência (roucos). as cores preta e branca. estudos constataram que os bebês preferiam ouvir estórias que as mães haviam lido para eles quando estavam grávidas. Os estudos revelam que o recém-nascido revela uma preferência visual pelo rosto humano. Os demais sentidos também se encontram bem desenvolvidos ao nascermos. Aos 4 meses. Desse modo. descobre o som interessante e passa a bater a mão. Uma das tendências perceptivas mais importantes. A sensibilidade às mudanças de temperatura e ao toque. especialmente a da mãe. Essa possibilidade de pegar e de manipular objetos aumenta o poder da criança para formar novos hábitos. Esse processo de formação do sistema nervoso tem implicações em diversas capacidades do bebê. depois irá repetindo o gesto que o levará a descobrir a mão e assim por diante. Logo. depois vai descobrir que pode segurá-lo e assim sucessivamente. Até os 24 meses há um grande incremento na densidade das sinapses. por exemplo. eles já se interessam pelas suas ações sobre o meio no qual estão e não apenas pelas suas próprias reações corporais. são precisamente os sons produzidos pelas falas dos adultos. O bebê repetirá ações que inicialmente ocorrem de forma acidental. Ao nascer. produzindo as chamadas as reações circulares primárias.No caso do sistema nervoso. reagem melhor às vozes das pessoas conhecidas. ou seja. os reflexos precedem e anunciam a assimilação mental. desenvolvendo as reações circulares secundárias. aumenta significativamente nos primeiros meses de vida. através do crescimento dos axônios. cor. a estimulação precoce através do tato com massagens e exercícios é importante para o desenvolvimento do bebê. na interação com o meio (PIAGET. simetria ou que possuem fortes contrastes como por exemplo. do que ouvir novas histórias. se dá em torno de 9 ou 10 meses. a formação de conexões de longo alcance entre as principais regiões cerebrais.

as gracinhas. que em alguns caso. Segundo o autor.No plano perceptivo. Nesse período vai procurar o objeto sempre no mesmo lugar que viu o objeto ser escondido da primeira vez. justamente a partir dos reflexos de sugar. por exemplo (BEE. se assemelham a forma como os adultos as expressam. 2003). então. Em torno dos 12 meses os bebês avançam e já conseguem ampliar o seu repertório de ações. nessa fase. Piaget situou esta etapa nos quatro subestágios do período sensório-motor. A situação ilustrada no quadro mostra que a criança ainda não desenvolveu o conceito de que os objetos ausentes de seu campo de visão continuam a existir. Para Henri Wallon. O bebê chora e a mãe lhe dá outro brinquedo. 2. o bebê escuta melhor a voz humana e consegue discriminar a voz da mãe. como faziam nos primeiros meses. motrizes e cognitivas a percepção vai-se ampliando. mas também não buscam alcançá-los quando já não os enxergam. O bebê para de chorar e parece não se importar mais com a ausência do chocalho. enfim.3. mas ainda não há uma dissociação entre ela e o plano exterior. o recém-nascido não se diferencia do outro nem mesmo no plano corporal. que equivale aproximadamente à distância entre seus olhos e o rosto da mãe na amamentação. Por isso. Essa diferenciação vai se dar aos poucos na relação com os objetos e com o próprio corpo. no aspecto psicológico e social. Dos 3 aos 6 meses. Afinal. já desenvolvidas no recém-nascido. a noção de eu corporal (GALVÃO.1995). Durantes os 2 ou 3 primeiros meses de vida eles seguem visualmente o objeto até que saiam de seu campo de visão e já não o procuram. como colocar a língua para fora. Vejamos um exemplo: Uma criança de quatro meses está brincando com um chocalho colorido e ele cai. Com as experiências e a crescente maturidade das células nervosas sensoriais. as conquistas. pela centralidade da libido na região da boca.3. estão mais voltadas para a interação que terá com os adultos. Também vai 54 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . quando será constituída. Já não apenas repetem movimentos e gestos. Por volta dos 9 meses. Pesquisas recentes mostram que mesmo o recém-nascido já possui alguma capacidade de imitação de gestos faciais dos adultos. ele denominou o período de impulsivo emocional. consegue focar melhor o olhar a 20 ou 25 cm de distância. os bebês tentam alcançar um objeto que tenha sido escondido diante deles. Na teoria freudiana esse período é denominado de fase oral. o choro. Exploram o ambiente e os objetos. ainda é pouco desenvolvida. considerando que a linguagem no primeiro ano de vida. ainda que muito específicos. Desenvolvimento social e emocional Os estudos sobre as emoções e socialização dos bebês têm se centrado principalmente nas expressões faciais e nas mudanças corporais. e da relação com a mãe no processo de amamentação. Por exemplo. tentam agarrar os objetos que veem. Algumas dessas habilidades perceptivas. ainda não possui a noção que Piaget denominou de permanência do objeto. as necessidades mais imediatas do bebê são os elementos que mobilizam os adultos em torno da criança. é a emoção que vai orientar as primeiras relações do bebê com as pessoas e com o mundo diante de suas necessidades e de sua precária habilidade motora. Estas pesquisas têm mostrado que existem emoções específicas nos bebês. a criança já reconhece algumas pessoas em relação a outras. Inclusive.

Para Erikson (BEE. Inclusive. É necessário tornar este momento como algo prazeroso e tranquilo. pois seu comportamento ganha complexidade e se torna mais imprevisível. por exemplo. experimentos mostraram que crianças que são cuidadas por suas famílias no primeiro ano de vida mantêm um índice maior de sorriso em anos seguintes. fome. considerando que é totalmente dependente do adulto. que é marcante no primeiro ano. havendo necessidade de muito afeto. A partir dos seis meses. etc. as pessoas não são apenas reconhecidas. com seu jeito peculiar de se expressar. quanto ao aspecto afetivo dos bebês.4. Aos 4 ou 5 meses. Muitas vezes. Neste sentido. rostos conhecidos quando colocam enfeites ou adereços que os tornem diferentes. exploradora de seu ambiente. A esse respeito. prosseguindo em seu processo de individuação e elaborando a angústia da separação da mãe. Alguns estudos desenvolvidos por Wolf (1987) mostraram a evolução do sorriso em bebês. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 55 . o bebê desenvolverá a confiança no outro e em si mesmo. Contudo. podem assustar as crianças. Contudo. zanga. algumas delas reagem bem à presença de estranhos. A construção da identidade é influenciada pelo reconhecimento de sua imagem no espelho. Afinal. No recém-nascido. no qual estabelece as fronteiras entre ela e os outros. especialmente se a aproximação à criança for lenta e suave. mas já permanecem na memória. nesse estágio. Nesse período. É importante considerar a relação com quem alimenta o bebê. Por exemplo. muitas vezes. etc. No terceiro ano. quando a criança chora na presença de pessoas desconhecidas ou com as quais pouco convivem. a criança se torna mais ousada. susto. manifestando clara preferência pelos rostos familiares e maior segurança com as pessoas que cuidam dela. aos estímulos visuais e às brincadeiras. é o processo de alimentação. Esse evento tem relação com os medos na primeira infância. Segundo e terceiro anos de vida No decorrer do segundo ano a criança conquista cada vez mais sua autonomia. 2. as crianças já podem sorrir reagindo às diversas interações sociais. é apenas reflexa.ter importante papel na estruturação da personalidade. pode se tornar mais ansiosa e voluntariosa. os bebês apresentam alguns medos bem definidos. essa reação. pesquisadores concluem que quanto mais a criança se desenvolve. É importante lembrar que nem todas as crianças têm as mesmas reações de medo. Aqui já conseguem expressar alegria. Como está fortalecendo o sentimento de identidade. Entre os 7 e os 12 meses. é um período considerado mais delicado na relação com os outros. as preferências e recusas a determinados tipos de alimentos expressam como as crianças estão se sentindo. 2003). a criança formará seu sistema de vínculos e apegos. brinquedos novos que produzem sons diferentes podem causar medo. a partir dos cuidados que recebe. mais os padrões de sorriso vão sendo influenciados pelos processos de aprendizagem. geralmente relacionados com situações que são imprevisíveis ou saem da rotina da criança. já no primeiro mês os bebês esboçam sorrisos em resposta a determinados sons. do que aquelas criadas em instituições. Aos dois meses já sorriem especialmente em função de rostos e vozes humanos. esta separação também a torna vulnerável. Um outro aspecto que deve ser levado em conta. Assim. alguns teóricos falam da angústia dos 8 meses.

considerando que irão influir em novos comportamentos. empilha objetos. empurra o triciclo. sobe e desce escadas. corre.5cm e 12. • 18 meses: coloca objetos em recipientes. calculada considerando como parâmetro crianças nascidas em gestação de 9 meses e com desenvolvimento considerado “normal”. Aos dois anos se pode observar uma evolução notável no desenvolvimento psicomotor da criança. • 12 meses: caminha sozinho.2kg e os meninos 86.4. por exemplo. deve ser bastante considerada por educadores. • 16 meses: sobe escada sem ajuda. • 15 meses: anda para trás e para os lados. Nesse período. demonstra diferenças em relação ao sexo das crianças. A proteção dos adultos será fundamental para que essa exploração possa acontecer sem riscos para a criança. Importante ressaltar que as crianças possuem ritmos diferentes e há uma variação nessas idades explicitadas no quadro acima. Crescimento físico e desenvolvimento psicomotor Aos 24 meses a curva de crescimento. em relação ao primeiro ano de vida. Aos dois anos e meio a capacidade de caminhar se consolida. • 36 meses: corre com facilidade. Seus movimentos são voluntários. manipula cubos.6kg. Somente após os 3 anos de idade o tamanho da criança pode ser usado como um dos indicadores de sua altura na vida adulta. • 24 meses: apanha pequenos objetos.5cm e peso de 12. ao longo dos segundo e terceiro anos de vida. recorta com tesoura. outra aos 12 e outra somente aos 14 ou 16. a criança busca explorar o espaço através da marcha automatizada. exige que lhe sejam oferecidos materiais diversos para suas brincadeiras e jogos. já pode reconhecer e nomear as diferentes partes do corpo. • 20 meses: corre. Essas mudanças no desenvolvimento físico e psicomotor nos três primeiros anos. segura o lápis com os dedos. mas 15kg de peso.1. controla a posição do corpo. Deste modo. Aos 2 anos as meninas terão altura mediana de 85. atitudes e sentimentos que a criança terá quanto ao seu desempenho e a sua imagem corporal. enquanto os meninos da mesma idade também terão 94cm de altura. que lhe permite se projetar no mundo. pedala. Rabisca. bem como já possui a noção da totalidade corporal. Aos 3 anos as meninas terão altura mediana de 94cm e peso de 14kg. • 23 meses: pula sem sair do lugar. • 14 meses: empilha objetos. Vejamos essa evolução com mais detalhes.2. Essa nova autonomia redimensiona o conceito da criança sobre si. cada nova aquisição motora afeta suas experiências no meio e as interações com as pessoas ao seu redor. Assim. os movimentos de coordenação motora fina estão mais aperfeiçoados. assim como uma variada gama de atividades. geralmente em torno de 2 meses para antes ou depois da média apresentada. anda. pula com os dois pés. 56 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . Afinal. uma criança pode caminhar sozinha aos 11 meses. Essa intensa atividade motora da criança nesse período da vida. ela fica fascinada explorando o ambiente e os objetos em geral. profissionais de saúde e familiares. Inclusive.

Aspectos como dieta. ou como cita BEE (2003) serão podadas. pois “marca o início do comportamento verdadeiramente inteligente.57). Assim.: ela chama. baseado na teoria piagetiana. a pessoa do outro torna-se o seu melhor procedimento para suas realizações (Piaget. Ela. Ela estende-a para sua mãe. pois a partir dos três anos aquelas sinapses que não foram devidamente estimuladas irão diminuindo. p. Caso o ambiente no qual a criança vive seja rico em estímulos e experiências diversas. ela sabe bem que depende do adulto para conseguir o que deseja. condições de saneamento. aponta para o objeto com seus dedos etc. mas as pessoas e aos próprios objetos em si.. ou seja. pois sabe que a boneca poderá cair. a criança é capaz de se adaptar a novas situações. Por exemplo.2. nos dias seguintes.4. Nesse processo.Um elemento que reforça essas ideias supracitadas é a rapidez com que ocorrem as mudanças no sistema nervoso. grita. Sobre isto Wadsworth (1996) apresenta um exemplo de um experimento realizado por Piaget. então. não apenas imita comportamentos mas varia. Por conseguinte. Nessa etapa. mesmo aquelas com as quais não estava familiarizada. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 57 . expressando uma intencionalidade. oportunidades de experiências cognitivas e psicomotoras diversas têm impacto especial nos dois primeiros anos de vida. Desenvolvimento cognitivo Piaget situa o segundo ano de vida como o final do sensório-motor e o destaca como um período de extraordinário desenvolvimento mental. Nesse período vai ocorrer um aumento das conexões sinápticas. p. Vejamos um exemplo: Uma criança de 18 meses está em seu cercadinho com uma boneca. ele não fará mais somente um tipo de som com a boca ou balançará um brinquedo sempre da mesma forma. assim. moradia. coloca os dois bracinhos para puxar. os fatores genéticos sejam fundamentais no crescimento e desenvolvimento físico humano. Como podemos observar. abre-a e põe a caixa nela. cujo desenvolvimento partiu das atividades reflexas do recém-nascido” (p. Em resumo.. os fatores externos têm relevância desde o período pré-natal. Tudo ocorreu sem um único som. buscará variações que provocarão novas reações em seu ambiente. marcado pelos subestágios 5 (12-18 meses) e 6 (18-24 meses). 2. a criança busca novas formas de interagir com o objeto (brinquedo) e alcançar o que deseja. principalmente. ela transfere a caixa de sua mão direita para a esquerda. Segundo Wadsworth (1996). Jaqueline segura em sua mão direita uma caixa que ela não pode abrir. que faz de conta que não nota. Jaqueline faz o adulto intervir no seu jogo. nos dois primeiros anos de vida. etc. aparecem as reações circulares terciárias marcadas pelas experimentações do bebê que. Uma nova conquista que vai se juntar a esta é a capacidade de a criança de perceber que as causas dos fenômenos não estão ligadas apenas as suas ações.55). sempre que um objeto está muito longe. ela vai inventando novos meios para realizar a ação que deseja. a criança alcança um significativo desenvolvimento cognitivo quando é capaz de solucionar novos problemas sensório-motores. Tenta um pouco mais e quando consegue segura firme. A criança tenta pegá-la através da grade e não consegue. essa criança manterá uma rede neural mais complexa. Ao contrário. Então. 1954. Começa a brincar e a boneca cai do lado de fora. 275 apud Wadswoth. embora a maturação. interações afetivas. com sua mão livre ela pega a mão da sua mãe.

a linguagem. Isto tem importante consequência na ampliação de sua percepção. são as representações mentais como a imitação. alcançando conquistas que não conseguiriam sozinhas. Assim. histórias. caracterizado pela inteligência prática. que às vezes empurra o lápis com força no papel e às vezes de modo tão suave que quase não se vê o traçado. principalmente. No primeiro ano de vida. por exemplo. Isto reforça a importância das interações pessoais e da diversidade de experiências a serem vivenciadas pelos pequenos. pois a criança sabe que as coisas continuam existindo mesmo que não estejam diante de seus olhos. mas somente com ajuda. inclusive com maior controle visual do traçado e intenção de representar algo. o desenho. ainda que para o adulto não seja possível identificar o desenho. ampliando seu repertório de pensamento. vai marcar os rabiscos da criança. marcando o controle simples dos movimentos desenhando linhas. pontilhados e traçados com angulações. sem qualquer controle. Assim. Agora. etc. está profundamente ligada também ao desenvolvimento psicomotor da criança. brincadeiras. ela pode reter imagens em sua mente e expressá-las em desenhos. ela poderá procurar uma boneca que foi guardada pela mãe no dia anterior. o olho da criança começa a seguir o movimento da mão. fortalecendo a ideia de que os diferentes aspectos do desenvolvimento estão intimamente relacionados entre si. Para Vigotski (1996). 58 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . A capacidade de representar através de desenho. o jogo simbólico e. a impulsividade do gesto. segundo Greig (2004). É fundamental proporcionar desafios para que as crianças possam pensar e atuar de forma diversificada. A partir do desenvolvimento da capacidade de usar símbolos a criança poderá representar mentalmente objetos ou eventos. Vejamos os exemplos abaixo: Ao longo do segundo ano de vida. Pesquisas mais recentes situam esta capacidade a partir dos 14 meses. por exemplo. constata-se gradativamente o domínio dos traços. a criança passa para o nível de inteligência representacional. mesmo crianças em idades precoces já aprendem pela observação de seu entorno. Para Piaget. linguagem e de ação. Uma importante aquisição desse período. os adultos devem ajudar as crianças a avançarem em suas zonas de desenvolvimento. Por volta dos 18 meses. a partir dos 18 meses no subestágio 6 do período sensório-motor.

comportamentos regressivos. ajudando a criança a expressar suas necessidades e desejos.Mas a criança já atribui nomes ao que desenhou e a partir dos dois anos e meio já produz rabiscos compostos. segundo Piaget (1967). Por conseguinte. principalmente a mãe. É fundamental conversar com a criança. não corrigi-la. embora nem sempre empregue os conectivos e ainda não use corretamente os tempos verbais. está no início do período pré-operatório. a evolução harmônica do desenho pela criança. Inclusive. a família. pois ao desenhar um objeto ela não vai se preocupar com perspectivas. afirmação. mas vai desenhar conforme ela percebe e sente o objeto. ângulos ou reprodução do real. Nessa idade mostra maior domínio do traço. revelando rabiscos compostos com os elementos traço e círculo. estando relacionada a elementos como conflitos. etc. e por outro lado. A conquista da fala amplia o universo de interações da criança e a introduz no universo de conceitos e noções coletivas da cultura na qual está inserida. que evoluiu em sua linguagem. Vejamos um exemplo: PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 59 . a representação do desenho expressa esse tipo de pensamento. De acordo com Greig (2004). Ao final do segundo ano e início do terceiro ano ela já usa frases curtas e se comunica com maior clareza verbal. seu pensamento é egocêntrico na medida em que não consegue se colocar do ponto de vista dos outros. A afetividade. a evolução do desenho da criança expressa aspectos de seu desenvolvimento psicológico. levando-a a perder a confiança em sua capacidade de se comunicar. Aos dois anos a criança já fala em torno de 200 palavras. sua fala avançou muito e a maioria das crianças de três anos já conta histórias. etc. falar corretamente com ela sem infantilizar a voz. é muito importante nesse processo. O desenvolvimento da linguagem da criança também está profundamente ligado ao desenvolvimento do pensamento. percebe-se que há uma repetição de traços verticais. Nesse sentido. grandes círculos e figuras fechadas. posto que o pensamento é a fala interiorizada e esta por sua vez é a manifestação do pensar. Para o autor. Está bastante centrada em si mesma. a paciência e os estímulos para que a criança se expresse são elementos importantes na evolução da linguagem. que vai aproximadamente até os seis ou sete anos. Além do mais. Contudo. Isto revela um ambiente rico e saudável no qual a criança pode expressar plenamente seu potencial emocional e criativo. No caso da linguagem também volta-se sempre para ela. Vale destacar que esta criança de 3 anos. mesmo quando essa fala é ainda pouco inteligível para as demais pessoas. Aos 3 anos já apresenta um esboço da chamada figura-girino (representação humana) como se pode observar no terceiro desenho do quadro acima. nessa etapa. relata fatos do cotidiano. buscando também o círculo. vai dos traços primitivos aos traços compostos. repetindo que todas as coisas e pessoas a quem ela ama são suas.

aumentam sua rapidez e duração e. características dos primeiros meses de vida. as brincadeiras tornam-se mais ricas. 115). é característica dos primeiros meses de vida. Uma menina de 3 anos está brincando com uma prima de quatro anos. manifestando um avanço enorme em relação as suas primeiras respostas reflexas. Fuentes e López (2004). voltando pelo mesmo caminho qual a distância da escola para sua casa? Ela responderá 2. por exemplo.3. a criança passa a ter o senso de autoconsciência. de fazer comidinha. com mais clareza. podem ser feitos e desfeitos. Depois perguntamos. de aniversários. o que gosta e o que não gosta. superando a simbiose sincrética que. Outra característica do pensamento pré-operatório. ou seja. Há uma rigidez do pensamento como vemos no próximo exemplo: Dizemos para uma criança de 4 anos que de sua casa para a escola são 2 km de distância. Por exemplo. contribuindo para a socialização dos sentimentos. Todo esse desenvolvimento cognitivo conquistado ao longo de dois anos no período sensório -motor amplia a capacidade da criança de se relacionar consigo e com o mundo ao seu redor.Um bebê de 12 meses olha para sua imagem no espelho e buscará uma interação com a imagem como se fosse outro bebê. Aliás. Entre dois e três anos as crianças costumam usar os objetos para representar outras coisas.4. a criança não compreende que certas coisas/fenômenos são reversíveis. um lençol. O acesso à linguagem determina uma grande mudança na vida emocional e nas interações sociais da criança. Wallon ressalta essa etapa como essencial para assegurar a consciência de si mesmo que vinha sendo formada no ano anterior. A menina de 3 anos olha para a prima e diz: "saia do colo. A partir do segundo ano de vida. de passear com as bonecas pelos lugares aonde costumam ir com os pais. Ela é minha tia todo dia". com a qual a menina tem contato quase diariamente. são assentadas as bases para formação do autoconceito. vão se socializando na interação com as figuras de apego “ (p. Nesse sentido. pinta sua testa com tinta amarela. Inclusive. de escolinha. Nesse processo. Desenvolvimento social e emocional Como pudemos perceber pelo desenvolvimento cognitivo. De repente chega a tia delas. um experimento do espelho é bastante elucidativo dessa conquista. Nela. implicando em mudanças nos aspectos social e emocional. claro. 4 ou outro número qualquer. A criança diferencia entre ela e os outros. como veremos no item seguinte. pois ela já pode expressar. um cabo de vassoura vira um cavalo. já ampliou sua autonomia e independência. A tia pega as duas e as põem em seu colo. etc. para Wallon. Graças também à imitação e ao jogo simbólico a partir dos dois aos três anos pode compreender as emoções dos outros. diferentes teoria psicológicas chamam atenção deste aspecto emocional e social como marcante no segundo ano de vida. um adulto chega e. há um intercâmbio social mais rico e um investimento afetivo em direção às outras pessoas. ela existe no meio separada da mãe e dos demais objetos. ou seja. elas também imitam as situações cotidianas brincando. entre os 15 e os 18 meses. Ao voltar a se ver no espelho ela estenderá a mão para sua testa e não para a imagem refletida no espelho. fingindo brincar. é irreversibilidade. as expressões emocionais vão-se tornando cada vez mais seletivas. 2. Contudo. uma cadeira um trem etc. ao final do terceiro ano. enquanto a outra a vê com menos frequência. “ao longo dos três primeiros anos. como vimos na unidade I. entendido como a imagem que a pessoa terá de 60 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . Uma criança na metade do segundo ano de vida também se olha no espelho e brinca com sua imagem. no universo da criança. Para Ortiz. uma casinha. O teste revela o autoreconhecimento. principalmente com os jogos de faz-de-conta.

os melhores fatores de proteção contra a dor emocional da criança. Nem sempre é fácil para a família e para a escola lidar com as crianças aos três anos. graças também ao processo de diferenciação de si em relação aos outros a criança a partir dos dois anos é capaz de criar empatia. Assim. Em síntese: os três primeiros anos de vida trazem aquisições importantes que serão essenciais para o desenvolvimento humano em todos os seus aspectos nas etapas seguintes. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 61 . Esse processo de autoconsciência e separação do outro. seguir determinadas regras. Para os autores são os vínculos afetivos. são comuns nessa idade os momentos de gritos. como vimos no item anterior. ser impedida de subir onde deseja. Você deve lembrar que as teorias abordadas no parágrafo anterior foram explicitadas com mais detalhes na unidade anterior. agressão física e mau-humor. Inclusive. Como as crianças já conversam mais com os adultos. atitudes desafiantes. já podem perguntar se a mãe está triste ou com raiva. pois assim você compreenderá melhor o desenvolvimento infantil nas etapas trabalhadas nesta segunda unidade. a partir dos dois anos já aparecem as expressões faciais que indicam um certo controle das emoções como morder o lábio inferior quando está ansiosa ou comprimir os lábios quanto tem raiva. Ela acarreta (. É exatamente um ambiente seguro com vínculos afetivos fortes que a ajudarão nesse percurso para constituir sua identidade. Aproveite e revise-as. brincar com outras crianças com maior interação. controlar esfíncteres. já ficam aflitas se veem alguém chorando. 2001). Kapczinski e Bassols (2001). resolver alguns conflitos com seus pares. Assim para Eizirik. comer sozinha. Para Erikson se refere a essa etapa como caracterizada pelo dilema do indivíduo entre a iniciativa. mas ao mesmo tempo ainda não está preparada para enfrentar situações como abandonar a mamadeira e a chupeta. Como as exigências de socialização vão aumentando e suas novas capacidades lhes apresentam novos desafios. Então. Ela precisa ser encorajada em sua autonomia. Não podemos esquecer que com o avanço da linguagem e da capacidade de representação. sabendo que está protegida e cuidada. a autonomia versus a culpa. etc. Uma característica marcante das crianças desse período é que gesticulam bastante acompanhando o pensamento.si mesma. a criança expressa suas emoções com mais clareza e pode manter um diálogo melhor com o adulto.. a vergonha. compartilhando dos estados afetivos das outras pessoas. etc. sendo importante para definir determinados traços de personalidade. familiares e nos espaços onde a criança interage. muitas vezes a criança vive o conflito entre sua autonomia e estar mais perto dos pais. faz com que a criança desenvolva o sentido interno de que é capaz de “funcionar independentemente da mãe. Isto não significa que a criança não tenha necessidade de ser amada e protegida. ir à escola. Na teoria freudiana essa é a fase anal que coincide com o treino de controle de esfíncteres e com a noção de limites imposta pelos adultos. KAPCZINSKI e BASSOLS. ouvir não com mais frequência.) uma consciência de que os outros têm uma existência separada em relação à criança” (EIZIRIK. elas também passam a se interessar pelo estado emocional das outras pessoas.. Muitas vezes tem medo de perder o amor dos pais se não fizer o que eles querem.

90). Necessitam. não se negam as diferenças e transformações que vão ocorrendo ao longo da vida. muito têm contribuído para uma compreensão mais ampla da infância e maior valorização da criança como alguém com características e processos específicos e singulares. visões. preconceitos. comprometerem-se com a produção de conhecimentos sistemáticos. Xavier e Nunes (2009) . em uma perspectiva integrada. ampla. assim como as diversas teorias também o são. 62 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . em um tempo e espaço concretos.. perceber os diferentes elementos que constituem o desenvolvimento infantil. sem distinções. plural. Contudo. A Psicologia e a Educação precisam analisar a infância de forma integrada. segundo Santos. Assim. de fato. voltados para a compreensão do ser humano como sujeito social. Os conhecimentos sobre a constituição da infância são essenciais na formação dos educadores e demais profissionais que trabalhem com crianças. Nenhum dos aspectos referidos. Portanto. as teorias clássicas. Políticas que defendam o exercício pleno da cidadania a qual as crianças têm direito. histórico e cultural. Confrontar saberes. escola e sociedade em geral (p. Entretanto. econômico e cultural. considerando a diversidade social. sem uma preocupação maior com delimitação de fases. Como vimos no início do texto. podem ser analisados isoladamente ou descolados de questões contextuais mais amplas. não estamos falando de uma criança que é abstrata. consistentes e. que necessitam ser respeitados pela família. o conceito de infância é construído historicamente.. uniforme e universal. acima de tudo. A Psicologia tem buscado. articulando as dimensões teóricas e práticas. mas. ainda. político. crenças. cada vez mais. de uma criança situada em um determinado contexto social. valores e informações diversas sobre o tema pode contribuir significativamente para a melhoria dos processos educacionais e para a ampliação da luta por políticas públicas mais justas que. contínua. e que já lhes deve ser asseguradas antes mesmo do nascimento. inclusive. cultural e étnica nesse processo. embora devam ser refletidas criticamente e sempre à luz do cenário no qual estamos imersos. atendam todas as crianças.Capítulo 3 A infância sob o olhar da psicologia Ao longo desta unidade estivemos apresentando aspectos gerais do desenvolvimento em determinadas etapas da vida infantil.

especialmente na Idade Média. inicialmente. obstáculos e situações críticas. estabeleça uma comparação com a criança dos dias atuais. 2. Vale ressaltar que todos os aspectos do desenvolvimento humano devem ser analisados de forma integrada e contínua. 1. faça uma comparação entre a criança de 6 meses e a de dois anos. o conceito de infância como uma construção social e histórica. discutindo se realmente os aspectos observados aparecem na literatura. 6. Resiliência: capacidade de vencer as dificuldades. Para tanto. foi discutido o desenvolvimento cognitivo. jogo. psicomotor. social e emocional da criança. Em seguida.Esta unidade apresentou um panorama geral do desenvolvimento da criança do período pré-natal aos dois primeiros anos de vida. Elabora um relatório e apresente síntese em sala de aula. Lúdico: relacionado à brincadeira. a partir da Idade Média e ganhando novos sentidos e desafios na contemporaneidade. Observe duas crianças (uma no primeiro e outra no segundo ano de vida). psicomotor. resistência. constituída especialmente. atualmente. Não esqueça de contextualizar o ambiente social e familiar das crianças observadas. Pesquise e elabore um pequeno texto explicitando quais os principais desafios enfrentados pelas crianças brasileiras no século XXI. social e emocional no referido período da vida da criança. comprometendo-se a preservar a identificação da criança. Considerando a ideia de criança apresentada por Ariès. destacando os avanços principais e quais as influências do ambiente nesse processo. bem como solicitar autorização dos responsáveis. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 63 . superação. foi abordado. Por fim. 4. tomando as características abordadas no texto como base para elaboração de roteiro de observação sistemática. 3. tendo como referência algumas teorias psicológicas clássicas e contemporâneas. Explicite a relação entre a gravidez e o desenvolvimento do bebê em todos os seus aspectos. entende a criança. Qual a importância dos vínculos materno e paterno para o desenvolvimento do bebê em seus dois primeiros anos de vida? 5. foi apresentada uma reflexão sobre como a Psicologia. A partir dos aspectos do desenvolvimento apresentados no texto: cognitivo.

utilizando técnicas milenares da tradição indígena. Mensageiras da luz. F. Alguns bebês são confinados em um laboratório por cientistas que querem criar gênios. Contudo. FONSECA. P. Contudo. Psicomotricidade.Filmes Síndrome de Caim Direção: Brian de Palma. V. COSTA.as parteiras da Amazônia Direção: Evaldo Mocarzel. 2003. Elas ajudam no nascimento de bebês. H. 2004. 1983. (Brasil- 2004). Porto Alegre: Artmed. são impedimentos para o trabalho dessas mulheres que prestam um importante serviço. O filme conta a história de um psicólogo infantil que tem uma filha de dois anos e faz experimentos com crianças nessa faixa etária. 1995. Bebês geniais Direção: Bob Clark. 64 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . Uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. A criança e seu desenho. O nascimento da arte da escrita. A. 2001. História social da criança e da família. Porto Alegre: Artmed. ARIÉS. 1998. Petrópolis: Vozes. Nem as grandes distâncias entre as comunidades espalhadas pela selva amazônica. Uma rebelião dos bebês trará muitas surpresas. São Paulo: Paz e terra. São Paulo: Martins Fontes. P. GREIG. um casal que possui uma creche busca provar que o amor é o principal ingrediente para o desenvolvimento infantil. BEE. Ordem médica e norma familiar. (EUA - 1999). Porto Alegre: Artmed. GALVÃO. A criança em desenvolvimento. Documentário com duração de 72 minutos que narra a vida das parteiras tradicionais do Estado do Amapá. Suspense que discute a relação adulto e criança. Estados Unidos (1992). começam a aparecer crianças sequestradas na região onde mora e então um mistério se instala. I. e as possibilidades de controle da mente. J. Henri Wallon.

G. São Paulo: Martins Fontes. ORTIZ. São Paulo: Ática. In: EIZIRIK. B. V. Desenvolvimento socioafetivo na primeira infância. C. Porto Alegre: Artmed. S. MALTZ. 2005. E BASSOLS. L. Acessado em 26 de maio de 2009. J. parto e puerpério. 2004. M. L. XAVIER. ZIMEMERMAN. Rio de Janeiro: Zahar editores. PIAGET. Pepsic. 2003.. O Primeiro ano de Vida. I. S. 1967. E BASSOLS. Porto Alegre: Artmed. In: EIZIRIK. 2001.org. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 65 . KAPCZINSKI. A criança de o a 3 anos. V. 2009. J. e PALACIOS. MARCHESI. F. e LÒPEZ. 2004. Psicologia do desenvolvimento. W. Http://www. A criança e o seu mundo. WINNICOTT. et alli. 2ª ed. SPITZ.br. S. Revista Psicologia em estudo. A história da infância. N. p.10. A. E ISOLAN.. Desenvolvimento Psicológico e Educação. L. São Paulo: Martins Fontes. D. Psicologia evolutiva. Um estudo psicanalítico do desenvolvimento normal e anômalo das relações objetais. J. A.bvs-psi. S. 105-126. S. O ciclo da vida humana. C.. A . F. . 1999. Brasília: Liber livro. Desenvolvimento infantil. C. POLLETO. 65-75. S. C. B. R.. R. M. Rio de Janeiro: Forense. P. A. FUENTES. 1986. F. (1971). KRAMER. 2005. 2ª Ed. Gestão e formação. A. J. M. Teorias e Temas contemporâneos. 1979. WADSWORTH. VIGOTSKI. Abordagem de Mussen.. Porto Alegre: Artmed. Ludicidade da criança e sua relação com o contexto familiar. M.1. E NUNES. S. Cleuza. Inteligência e afetividade da criança na teoria de Piaget. G. In: COLL. São Paulo: Pioneira Thomson Learning. M. A. C. O ciclo da vida humana. Da idade média à época contemporânea no Ocidente.HEYWOOOD. NEWCOMBE. 2001.. A. A. Profissionais da educação infantil. SANTOS. N. L. Seis Estudos de Psicologia. PIO. KAPCZINSKI.(1979). Da concepção ao primeiro ano de vida: reflexões sobre o relacionamento mãe-bebê.1. MANFRO. Porto Alegre: Artmed. Porto Alegre: Artmed. Gestação. A formação social da mente. J.

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