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_Agostinho - 029

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CONSIDERAÇÕES ACERCA DO PENSAMENTO FILOSÓFICO NA ALTA IDADE MÉDIA Terezinha Oliveira – teleoliv@femanet.com.

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RESUMO

O objetivo desta comunicação é tecer considerações sobre o papel do pensamento filosófico, na Alta Idade Média, no desenvolvimento da razão. Ao demonstrarmos que a filosofia assume a forma da religião, pretendemos explicitar que o cristianismo não foi apenas um dogma religioso, mas, acima de tudo, uma doutrina pedagógica que procurou conservar e desenvolver a reflexão na sociedade, entre os séculos V e X d. C. Ao procurar cristianizar os bárbaros, os teóricos da Igreja, na maioria pagãos até o momento da conversão, como São Jerônimo e Santo Agostinho, buscavam estabelecer na sociedade novos valores morais, éticos, religiosos. Enfim, procuravam fomentar uma nova forma de comportamento aos homens.

Palavras-chave: Educação, Idade Média, Razão, Filosofia.

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Pretende. mas a forma como prega o cristianismo está pautado em Platão. o roubo. ao contrário do que comumente se pensa a respeito desse período. muito claramente. apenas para mencionarmos alguns autores dos primeiros cinco séculos da Idade Média. Seu ponto de partida é o conhecimento que havia angariado ao longo da sua formação pagã. não se caracterizou pelo predomínio do obscurantismo e pelo domínio absoluto da Igreja Católica. as homilias de Santo Hilário. a diferença entre essas duas obras é que a segunda pretende que os homens sejam felizes no mundo terreno. que foram denominados Idade Média. a violência. algumas características que marcaram o pensamento filosófico medieval na Alta Idade Média. com efeito. em linhas gerais. Sem dúvida. ao longo dos dez séculos que separam a Antigüidade do Renascimento Humanista do século XV. contida na obra A República. os escritos de Jean Erigène. influenciaram-no. o estupro. Agostinho ensinava a esses homens que eles tinham que evitar o homicídio. enfim. Ao contrário. a peça Sabedoria de Roswita. o suicídio. quanto este autor lutou para conservar os valores morais e o conhecimento nesse novo povo que estava se formando com a ruína do Império Romano e com as invasões bárbaras. por conseguinte. de rapina e de destruição do mundo romano. estes dez séculos da história da civilização ocidental. percebemos. se examinarmos atentamente a produção intelectual da época. desta forma. Ao lermos os escritos de Santo Agostinho. a Consolação da Filosofia. traçar. É nossa intenção demonstrar que. nesta comunicação. como os escritos de Santo Agostinho. por conseguinte. não poderemos comungar com a afirmação que essa foi uma época apenas de violência. a República seja composta pelo 2 . de Boécio. os diálogos de Pepino e Alcuíno. surgiram grandes pensadores que propiciaram o nascimento do pensamento moderno e. todas as pessoas vivam bem e. A idéia que aparece na obra a Cidade de Deus é claramente a de bem comum de Platão. É inegável que Agostinho pretendia divulgar o cristianismo entre esses homens pagãos e dissolutos. especialmente o pensamento platônico. que cada um deve ficar satisfeito e feliz com o lugar que ocupa na sociedade e realizar bem a sua função para que.Pretendemos. O propósito é explicitar que.

diante da impossibilidade de conquistar. ao despertar a imaginação deste povo bárbaro e romano. ele pretendia. A imaginação de uma felicidade eterna era o único caminho possível para despertar a sensibilidade dos homens. a violência e a rapina. Afinal. para se conquistar o reino do céu. Esse bom comportamento passava pela redução da agressão. o único caminho que se apresentava era o da imaginação. de apresentar um plano futuro de felicidade. o retrato que eles nos apresentam do grau de violência que imperava nesta sociedade. a meu ver. Ao procurar mostrar a cidade celeste. despertar também a sensibilidade e a razão humana que estavam sendo perdidas diante do grau de rapacidade que assolava o mundo romano do Ocidente. Mas. Agostinho e o cristianismo pretendiam promover mudanças no comportamento dos homens. pela força e pela violência. evitar o homicídio e o suicídio. Aparentemente. utópica. 3 . no século XXI. Transcorridos aproximadamente dez séculos. apenas. Do seu ponto de vista e do cristianismo. A proposta de Platão era. que eram as práticas dos homens. mas. que as pessoas aceitassem a sociedade organizada em classes. Desse modo. Não se tratava. por meio da imaginação dos homens. quando falamos assim. Santo Agostinho busca no exemplo de governo platônico a idéia da cidade celeste. Buscavam evidenciar que os homens precisavam agir de outra forma que o recurso à violência. evidentemente. somos levados a pensar que Agostinho era apenas um representante do cristianismo defendendo a sua doutrina. via o temor da condenação e da infelicidade eterna.bem comum de todos. pois somente assim se poderia constituir o Estado. Pretendia. ou seja. de coibir. Agostinho pretendia modificar o comportamento dos homens na Terra. do perdão. mas uma tentativa. somos levados a refletir sobre o papel e a importância da imaginação na vida dos homens daquela época. os homens que estavam compondo a sociedade ocidental do século V no Ocidente. ou seja. pela razão. mostrar-lhes a possibilidade de agirem como humanos e não como animais. se considerarmos detidamente e sem preconceitos os documentos da época. como homem de seu tempo. era necessário ter um bom comportamento na Terra. a promessa da felicidade eterna após a morte.

mais uma vez coloca-se na ordem do dia a necessidade da razão para que os homens consigam se entender e se comunicar. de fato. No entanto. Sua principal obra. acima de tudo. em Boécio vemos um lamentar da perda da sensibilidade. ou seja. Do seu ponto de vista. nada pode justificar o fato de que os homens. da doutrinação. a sensibilidade para ouvir e não apenas escutar. mas o da imaginação. o sentido dos sinais. despertar nos homens aquelas qualidades que os tornam humanos e os diferenciam dos animais: a imaginação. Se em Agostinho verificamos um embate travado no sentido de estimular a imaginação e a sensibilidade. Trata-se da discussão que trava acerca do livre-arbítrio. já mencionada acima. se sobrepor aos demais animais. Ele era um cônsul romano que foi traído pelos seus pares e acusado 4 . Boécio foi um dos últimos filósofos pagãos do final do mundo romano. esta questão aparece também com muita propriedade. mas. o de Agostinho não poderia ser o da consciência (os homens de sua época não estavam preparados para isso). consigam domesticá-los a não ser pelo uso da razão. O caminho de Platão pode ser o da consciência no sentido da ciência. Ao discutir o significado das palavras. é capaz de entender o sentido das palavras e das ações. a mesma questão aparece. retrata com grande tristeza o fim da filosofia e dos valores éticos da sociedade. fica explícito que não se trata tão somente de pregar e difundir uma doutrina religiosa. Agostinho mostra que somente aquele que consegue despertar a sua imaginação e usar a razão é capaz de dominar e domar as bestas feras. Ao discutir o que faz com que o homem consiga. outra obra desse referido autor. a audição e o olhar que permitem o desenvolvimento da razão. sendo animais frágeis e inferiores a muitos animais da natureza. A razão que Agostinho procura despertar nos homens de seu tempo é a mesma razão que Platão quer ver nos seus cidadãos.Em outra obra de Agostinho. Em De Magistro. os homens da República já haviam superado o estágio de barbárie que os homens de Agostinho estavam vivenciando. Agostinho chama a atenção para o fato de que somente aquele que possui a capacidade de entender os sinais. da capacidade de reflexão dos homens de sua época. Desse modo.

cada vez mais. a sua moral. tudo o que é externo aos homens. de fato. Todavia. Tudo o mais é externo ao homem. inclusive. a capacidade de se despertar a imaginação. Uma das passagens mais brilhantes da obra é quando a filosofia fala para a consciência de Boécio que ele não deve se entristecer porque perdeu suas riquezas. ele não estava perdendo nada com a sua condenação porque a única coisa que pertence exclusivamente à pessoa é a sua mente. a valorização do poder. deixando de ser felizes não porque a fortuna os abandona. ou seja. a formação do intelecto ou a capacidade de compreender a essência da natureza humana a sua razão reflexiva. a questão da razão. era a força. Com Alcuíno. seus criados. pois esses bens pertencem ao mundo material e externo e. os homens mais ou menos felizes. afinal essa segue a sua roda. concretamente. está assumindo novas características. ou da filosofia. foi condenado e morto. seu título. a razão. passível de perda. por isso. A sua Consolação à Filosofia foi escrita na prisão. a riqueza não deixa. a sua razão reflexiva. mas porque os homens estão deixando passar ao largo a qualidade que realmente produz o ser humano. portanto. nunca lhe pertenceu. a sua ética. o conhecimento e a razão está se esvaindo. o intuito da filosofia é mostrar a Boécio que. é inerente ao nosso corpo e à nossa mente.de conspiração. ou seja. a moral. e não a essência da natureza humana. as questões também não são muito diferentes das de Agostinho e de Boécio. Dado o fato de que prevalece na sociedade a força e tudo o que representa os bens materiais. que a diferencia da época dos outros dois autores. dado o fato que a sociedade do Ocidente medieval. Todavia. mas é a essência humana que possui essa capacidade humana. No diálogo. que os homens estão. da riqueza. A filosofia afirma. 5 . à época de Boécio. Porque algo nos pertence apenas quando. Ela se apresenta sob a forma de um diálogo entre a sua consciência e a razão filosófica. a grande lamentação da filosofia em Boécio é a mesma lamentação de Agostinho. assim como na de Agostinho. o que prevalecia. meados do século VI. verdadeiramente. entre os séculos VIII e IX. Desse modo. Do ponto de vista da filosofia. de fato. assume um novo contorno.

O mestre Alcuíno já não lamenta mais a perda da imaginação. que. a intenção de Alcuíno é despertar a capacidade de abstração dos homens. Lentamente. entre outras características que moldam os homens. que poderia ser chamada de imaginação. mas que é absolutamente indispensável à vida dos homens medievais. que se pode lembrar de algo. todos os homens têm capacidade de apreender elementos que não sejam necessariamente visíveis. mesmo que não se consiga contê-lo. de religião. o mestre carolíngio estava despertando nos homens a essência da natureza humana. esta situação. nunca vista. À sua época. mesmo que esse algo não seja concreto. concretos. que se pode entender algo. Indubitavelmente. nunca tocada. que é a razão. da reflexão. nada necessita mais da imaginação do que crer em uma figura altamente poderosa. Ao ensinar noções básicas da natureza. mas ele tem a certeza que todos os homens a possuem porque faz parte da natureza humana. que se pode entender determinados fenômenos da natureza. criança e adultos que freqüentam as escolas palacianas. mesmo que não se tenha presenciado tal episódio. como representante da Igreja. tão veementemente condenada e combatida por Agostinho e Boécio. Esta qualidade poderia até estar adormecida. Do seu ponto de vista. de reflexão. existiria uma qualidade que diferencia os homens dos animais. na essência das pessoas. palpáveis. Afinal. do homem. precisa ensinar e despertar nos indivíduos suas capacidades de abstração até mesmo para disseminar a religião e tornar possível a crença em Deus. Para que os 6 . Entretanto. na escola palaciana de Carlos Magno. escondida no mais recôndito espaço da alma – não podemos nos esquecer que nesse momento a Igreja Católica tornara-se a grande mentora dos homens – . ao ensinar a religião e outros conhecimentos. tornou-se a forma de ser dos homens medievais. o domínio da violência. Alcuíno procura mostrar aos seus alunos. de abstração. Alcuino. qual seja. a sua capacidade de reflexão. A grande luta do mestre carolíngio foi no sentido de mostrar aos homens de seu tempo que eles poderiam ter um outro comportamento que não somente o da força e da violência. A grande luta de Alcuino é travada no sentido de mostrar aos seus alunos.

Daí a necessidade de se despertar a razão. lutaram para conservar o elemento essencial da natureza humana. antes. Os filósofos medievais enfrentaram tempos difíceis. entender como se processava esses elementos no seu interior.homens pudessem compreender o que é o sonho. em alguns momentos. esses três grandes mestres da Alta Idade Média. Desse modo. a felicidade. Em Alcuíno. à natureza. de agir pela reflexão e não pela força. com efeito. tal qual a filosofia clássica. Todavia. ao cristianismo. Sabemos. a capacidade de se sobrepor aos animais. ela não deixa de ser o espelho que reflete o que há de mais sublinhe nos homens. os homens precisavam. na filosofia medieval. à Deus. a dor. os documentos nos mostram que. 7 . que é a razão. está amalgamada à fé. quando o estágio maior da barbárie já havia sido suplantado pelo estabelecimento do regime feudal. Deus. o que é a morte. mas a grandeza desses grandes mestres reside no fato não só de terem conservado a sabedoria do passado como terem conservado acesa a chama da natureza humana. cada um em seu tempo e a seu modo. não se tratava de conservar a razão da filosofia. qual seja. mas de criar razão nos homens. à investigação das coisas essencialmente humanas e da natureza e que a razão. Esta chama se acende com mais força e brilho a partir dos séculos XI e XII. a linha entre a força dos animais e a dos homens era muito tênue. que a razão na filosofia clássica está estreitamente vinculada à ciência.

São Paulo: Martins Fontes. J. SANTO AGOSTINHO. -------. 1998. Petrópolis: Vozes. 1986. Consolação da Filosofia. São Paulo: Paulus. De Magistro. BOÉCIO.Livre-Arbitrío. Educação. São Paulo: Perspectiva. 1995. L. In: LAUAND.A Cidade de Deus. In: Os pensadores. 1995. Diálogos de Pepino e Alcuino. São Paulo: Cultura. -------.REFERÊNCIAS ALCUINO. Teatro e Matemática Medievais. 1973. 8 .

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