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TEORIA LITERÁRIA I AMADOR RIBEIRO NETO
APRESENTAÇÃO: TEORIA DA LITERATURA I (Teoria da Poesia) Literatura é uma palavra de múltiplos significados. Pode significar tratados de filosofia como ensaios de geografia. É comum encontrarmos pessoas de outras áreas que não a de letras afirmando que consultaram a literatura disponível sobre física quântica. Para nós que somos estudantes e amantes das letras, tal afirmação pode soar absurda. De fato, vamos combinar o seguinte: sempre que falarmos a palavra “literatura” estamos nos referindo à ficção, tanto em prosa como em verso. Assim, romances, contos, novelas e poemas pertencem ao que denominamos literatura. Ficção em prosa ou em verso: isto é literatura. Em Teoria da Literatura I vamos estudar teoria da poesia. Dos versos de cordel até a poesia discursiva de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, passando pela poesia visual e chegando à infopoesia ou ciberpoesia. Por esta gama de variedades dá pra você sentir que a palavra “poesia” abarca uma variedade significativa de modalidades. Há o cordelista que faz versos marcados pela oralidade. É uma poesia de fácil memorização, já que seu intuito é mesmo ser dita em voz alta. Há a poesia de João Cabral de Melo Neto, de Carlos Drummond de Andrade, de Manuel Bandeira, que se pautam por uma sofisticada técnica de fazer poesia. Há a poesia visual de poetas que, não satisfeitos com os moldes tradicionais de fazer poesia, inventaram um modo novo de dispor as palavras nas páginas em branco e até fazendo poesia sem palavras. E há a novíssima poesia feita pra viver na tela do computador, incorporando recursos da linguagem da informática. Todos estes modos de fazer poesia compõem nosso universo de interesse. Ao seu tempo cada um deles será devidamente estudado. Falamos em poesia e não nos perguntamos: o que é que faz um texto ser chamado de poesia? Quais as características que encontramos num poema? Pode haver poesia sem palavras? Como fixar no papel um poema feito para ser visto e lido na tela do computador? ATENÇÃO!!! Você pode notar, lendo os capítulos I a IV do livro “ABC da Literatura”, de Ezra Pound (disponível na biblioteca de sua cidade) que poesia é condensação de idéias Poesia é, portanto, um modo de dizer as coisas, de modo enxuto, econômico. Agora você me pergunta: e os poemas longos, como “Odisséia” e “Ilíada” de Homero, “Os lusíadas” de Camões, “Eneida” de Virgílio, “A divina comédia” de Dante Alighieri – não são poesia?

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A resposta é: são poesia sim. E são poesia de excelente qualidade. Quando falamos que a condensação, a economia, o laconismo caracterizam a poesia estamos falando da fusão genial que os poetas fazem de imagens, idéias e musicalidade. Não interessa o número de páginas de um poema: o importante é a condensação que o poeta opera no manuseio das palavras. Cada palavra tem um peso especial e singular para o poeta. Na palavra escolhida pelo poeta, o som e o significado interagem reciprocamente gerando um terceiro termo: a poesia. A poesia é pois condensação e resultado da tensão entre o som e o significado da palavra. Observe um poema. Leia-o com atenção e cuidado. Veja como cada palavra colocada ali só pode ser ela mesma. Não é possível substituí-la por outra palavra. Mesmo uma palavra sinônima não cabe no poema. (Claro que estamos nos referindo a excelentes poemas). Leia o poema abaixo: Amor é fogo que arde sem se ver (Camões) Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer; É um não querer mais que bem querer; É solitário andar por entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É cuidar que ganha em se perder; É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata lealdade. Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor? Lido o poema, tente contá-lo para alguém. Você vai perceber que a pessoa para quem você contou o poema vai achá-lo bem menos bonito do que você. Isto porque ao contar o poema você transformou a forma dele. E em poesia a forma é importantíssima. ATENÇÃO!!! Em poesia é a forma que informa. E você já se deu conta de que uma forma não pode ser resumida?

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Para isto a paráfrase se presta muito bem. quer pelo uso de uma semântica diferente da que usamos cotidianamente. Mas superada esta fase. Só então. Em outras palavras: toda obra de arte é plurissêmica. sem que você saiba. precisam ser explicados. sabendo do que se trata. parafraseado. o que um poema diz. Claro que nunca esgotaremos as possibilidades de análise e interpretação de um poema. voltamos à forma do poema a fim de compreendê-lo integralmente. Não dá pra “resumir” um triângulo. Qual o resumo de um triângulo: qual o resumo. mitológica só são entendidas pela paráfrase. filosófica. Fotografia é forma. Depois que seu colega tiver lido o poema. Dá pra resumir uma foto sem desfigurá-la? De jeito nenhum. Claro que a paráfrase é importante na hora de entendermos o poema. com o nosso jeito pessoal. Muitos termos. qual o diminutivo de triângulo? Oras. Sinta a diferença entre um poema lido respeitando a forma dele e um poema “contado”. 4 . Quando você conta o poema para alguém você está fazendo paráfrase. ATIVIDADE: Tome o livro “Cinco séculos de poesia”. Por isto mesmo dizemos que toda obra de arte permite múltiplas leituras. A paráfrase é contar com nossas próprias palavras. Ou você fala o poema tal como ele é. escolha um poema e leia-o. quer pelo distanciamento histórico e geográfico que temos em relação a eles. Às vezes uma citação histórica.Pense num triângulo. peça-lhe que conte-lhe o poema. é outro triângulo. Assim acontece com o poema. ou então você o mutila. você deve ler o poema. Assim como não dá pra resumir uma forma. Cada resumo que eu fizer da foto estarei retirando partes dela. Peça a um colega que. disponível na biblioteca de seu município. Nós repetimos em outras palavras o que o poema diz a fim de melhor entendê-lo.

se esta informação não se casa com o sentido emitido pelo poema? A forma (que entendemos como o modo de dizer) e o fundo (que entendemos como o que se diz) devem estar unidos na nossa interpretação e análise do poema. Se os versos têm duas ou doze sílabas.. ou seja. enjambements nos versos pares. Etc. Ao longo da história da literatura. rimas alternadas. ainda fazemos elisões vocálicas. e estou do nosso antigo estado!”. Um sem o outro não faz sentido. Se as vogais ou as consoantes repetem-se insistentemente. a estrofação e o rimário fazem parte da Metrificação (ou Versificação). a sintaxe e o ritmo ultrapassam o próprio verso e expandem-se pelo verso seguinte. Identificar a forma do poema apenas pela forma é negar ao poema sua significação mais vertical. Tudo isto compõe a forma do poema e tem algo a nos dizer. Antes pelo contrário: é algo inerente. / e / es / TOU / do / NOS / so / an / TI / go / es / TA / do! 1/ 2 / 3/ 4/ 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10 / 11 / 12 / 13 / 14 Mas possui apenas 10 sílabas poéticas. temos 14 sílabas gramaticais: es / TÁS. no verso “Estás. Se a estrofe possui dois ou quatro versos. Se o sentido. ou seja. é dividir o verso em sílabas poéticas. versos alexandrinos. Para iniciar nosso estudo do poema vamos nos valer de alguns princípios fundamentais da versificação. Por exemplo. De que adianta dizer que um poema possui forma fixa. sextas e décimas. Fazer a escansão é escandir. unimos as vogais finais com as iniciais de uma palavra. pois além de contarmos até a última sílaba tônica do verso.. a poesia acumulou sons e sentidos diferentes. Se acentuam a tônica nas quartas. enriquecendo seu significado. Se palavras são repetidas na mesma posição ao longo dos versos.UNIDADE I METRIFICAÇÃO ESCANSÃO A escansão.. atentando para o fato de que a contagem das sílabas de um verso não obedece à contagem silábica gramatical. A forma não é algo exterior à poesia. Por exemplo: “e estou do nosso antigo estado” e / es / TOU / do / NOS/ so / an / TI / go / es / TA / do = 12 sílabas ees / TOU / do / NO / ssoan / TI / goes / TA (do) = 8 sílabas 5 . mas à contagem silábica poética. Ou seja: a contagem silábica poética contabiliza até a última sílaba tônica de um verso.

vamos contabilizar suas sílabas poéticas: Es / TÁS. / ees / TOU / do / NO / ssoan / TI / goes / TA / (do!) 1/ 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10 ! ATENÇÃO!!! Observe que estamos assinalando em maiúscula as sílabas tônicas. Os versos podem ter: UMA SÍLABA: todos formam um só lado duro (fragmento do poema “Valete” de Amador Ribeiro Neto) A contagem silábica fica assim: TO(dos) / 1/ FOR(mam) /1/ UM /1/ SÓ /1/ LA(do) /1/ DU(ro). e entre parênteses as sílabas átonas posteriores à última sílaba tônica. /1/ DUAS SÍLABAS: Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! 6 (fragmento de uma estrofe do poema “A valsa”.Voltando ao verso completo. de Casimiro de Abreu). .

Quem-DE (ra) / 1 /2/ Que-SIN (tas) /1 / 2 As-DO (res) /1/2 Dea-MO-(res) /1 / 2 Que-LOU (co) /1/ 2 Sen-TI! /1/2 TRÊS SÍLABAS: descobrir o brasil tantas vezes descaminha índias ó sempre aquelas via Oswald (fragmento do poema “500 anos” de Amador Ribeiro Neto) des-co-BRIR /1/2/3 o-bra-SIL /1/ 2 / 3 TAN-tas-VE(zes) /1 / 2 / 3 des-ca-MI(nha) /1 / 2 / 3 ÍN-dias-Ó 1/2 /3 sem-prea-QUE (las) /1 / 2 / 3 VI-aos-WAL(d) /1 / 2 / 3 QUATRO SÍLABAS: Também conhecido como verso tetrassilábico. Recife de águas Luas e pontes 7 .

(estrofe do poema “I juca pirama” de Gonçalves Dias) MEU-CAN-to-de-MOR(te). Este tipo de verso é usado desde as cantigas provençais. /1 / 2/3/4 /5 Nas-SEL-vas-cres-CI: /1/ 2 / 3 / 4 / 5 Gue-RREI-ros-des-CEN-do /1/ 2 / 3/ 4 / 5 8 . descendo Da tribo tupi. Guerreiros ouvi: Sou filho das selvas.Um modo treno Terno concreto Uns performáticos Outros tambores (fragmento do poema “Recife” de Amador Ribeiro Neto) Re-CI-fe-deÁ(guas) /1/ 2 /3 / 4 LU-as-e-PON(tes) /1 / 2 / 3 / 4 Um-MO-do-TRE(no) /1 / 2 / 3 / 4 TER-no-con-CRE(to) /1 /2/ 3/ 4 UNS-per-for-MÁ(ticos) /1 / 2 / 3/ 4 OU-tros-tam-BO(res) /1/ 2 /3 / 4 CINCO SÍLABAS: O verso de cinco sílabas é também conhecido como pentassílabo ou redondilha menor. e está presente na poesia contemporânea. /1 / 2 / 3/4/ 5 Gue-RREI-ros-ou-VI: /1 / 2 / 3 / 4 / 5 SOU-FI-lho-das-SEL(vas). Nas selvas cresci. Guerreiros. Meu canto de morte.

Rosa! Canto! Sombra! Estrela! Do gondoleiro do amor.. /1 / 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 9 . EIS-oes-ter-TOR-da-MOR(te) /1/ 2/3 / 4 /5/ 6 EIS-o-mar-TÍ-rioe-TER(no) / 1/ 2/ 3 / 4 / 5 / 6 EIS-o-ran-GER-dos-DEN(tes).. Eis o ranger dos dentes. Eis o estertor da morte. Eis o martírio eterno. Por isso eu te amo. Os cordelistas também fazem muito uso dele. Os cantadores de viola utilizam-no à mancheia. (estrofe do poema “O gondoleiro do amor” de Castro Alves) Por-I-ssoeu-teA-mo-que-RI(da). / 1 /2 / 3 / 4 / 5 / 6 EIS-o-pe-NAR-doin-FER(no)! / 1 /2/ 3/ 4 / 5 / 6 SETE SÍLABAS: O verso de sete sílabas é também conhecido como heptassílabo ou redondilha maior. querida.. Eis o penar do inferno! (estrofe do poema “Martírio” de Junqueira Freire).Da-TRI-bo-tu-PI /1/2 /3/4/5 SEIS SÍLABAS: Também conhecido como verso hexassílabo. É um tipo de verso bem popular e remonta à Idade Média.. quer na dor. Quer no prazer. / 1 /2 / 3/ 4 / 5 / 6/ 7 RO-sa-CAN-to-SOM-braes-TRE(la)! /1 / 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 Do-gon-do-LEI-ro-doa-MOR. /1 /2/ 3 / 4 / 5 / 6 / 7 QUER-no-pra-ZER-QUER-na-DOR.

de redondilha maior.REVISANDO: o poema de cinco sílabas recebe o nome de redondilha menor. o que quer? Vem matar vossos bravos guerreiros. a mulher! (fragmento do poema “Canto do Piaga” de Gonçalves Dias) Não-sa-BEIS-o-queo-MONS-tro-pro-CU(ra)? /1 / 2 / 3 / 4/ 5 / 6 / 7 / 8 / 9 Não-sa-BEIS-a-que-VEM-o-que-QUER? /1 / 2/ 3 /4/ 5 / 6 / 7 / 8 / 9 Vem-ma-TAR-VO-ssos-BRA-vos-gue-RREI(ros). OITO SÍLABAS: Também conhecido como verso octossílabo. Vem roubar-vos a filha. e o de sete sílabas. /1 / 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9 Vem-rou-BAR-vos-a-filha-a-mu-LHER! / 1 / 2 / 3 / 4 /5/ 6 / 7/ 8 / 9 10 . Não sabeis o que o monstro procura? Não sabeis a que vem. Como pode agora nesta hora Uma mulher vaga amassando Prosa poesia poema Credo apagado sofrimentos (fragmento do poema “Uma mulher” de Amador Ribeiro Neto) CO-mo-PO-dea-GO-ra-NES-taho(ra) /1 / 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 U-ma-mu-LHER-VA-gaa-ma-SSAN(do) 1 /2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 PRO-sa-po-e-SI-a-po-E(ma) /1 / 2 / 3 /4/ 5/6/ 7/ 8 CRE-doa-pa-GA-do-so-fri-MEN(tos) / 1 / 2 / 3 / 4 / 5/ 6 / 7 / 8 NOVE SÍLABAS: Também conhecido como verso eneassílabo.

a mulher”. Temos dois tipos de decassílabo: o heróico. o-bra-ço-de-Je-SUS-não-se-ja-PAR(te) /1/2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10 pois-que-fei-to-Je-SUS-em-par-tes-TO(do) / 1 / 2 / 3 / 4 / 5/ 6 / 7 / 8 / 9 / 10 A-ssis-te-ca-da-PAR-teem-su-a-PAR(te) /1/ 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8/ 9 / 10 11 . de tristeza Heleura está doente. com acento tônico nas 6ª e 10ª sílabas e o sáfico com acento tônico nas 4ª. Ara. DEZ SÍLABAS: Também conhecido como decassílabo.Observe que não fizemos a elisão entre as vogais do substantivo feminino e o artigo feminino em “filha. (primeiro terceto do soneto “Ao braço do menino Jesus quando aparecido” de Gregório de Matos). Desde a noite funérea. morrendo. o verso ficaria com 8 sílabas. 8ª e 10ª sílabas. Assiste cada parte em sua parte. É que respeitamos a virgulação. Caso contrário. Um formoso defunto: “vivo! vivo!” (fragmento do poema “Novo Éden” de Sousândrade) Des-dea-noi-te-fu-NÉ-rea-de-tris-TE(za) / 1 / 2 / 3 / 4/ 5/ 6 / 7 / 8 / 8 / 10 He-leu-raes-TÁ-do-en-teA-ra-mo-RREN(do) /1/ 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10 Nun-ca-per-DE-raas-co-res-do-sem-BLAN(te) /1 / 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10 Um-for-MO-so-de-fun-to-VI-vo-Vi(vo) / 1/ 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9/ 10 Agora vejamos um exemplo de verso decassílabo heróico: O braço de Jesus não seja parte. É uma modalidade de verso em que predomina a musicalidade. Nunca perdera as cores do semblante. Pois que feito Jesus em partes todo. destoando da silabação poética recorrente.

.... que desaterra ...... (Canto I.......... que desenterra ... Na-o-ra-ÇÃO-que-de-sa-TE-rraa-TE(rra) /1/ 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10 Quer-Deus-quea-QUEM-es-táo-cui-DA-do-DA(do) / 1 / 2 / 3 / 4 / 5/ 6/ 7 / 8 / 9 / 10 Pré-gue-quea-VI-daé-em-pres-TA-does-TA(do) / 1 / 2 / 3 / 4/ 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10 Mis-té-rios-MIL-que-de-sem-TE-rraa-TE(rra) / 1 / 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10 OBSERVE!!! O verso decassílabo pode ser heróico ou sáfico........... Em ambos os casos é um verso marcadamente musical. As-TRI-bos-vi-ZI-nhas-sem-FOR-ças-sem-BRI(o) /1/ 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10 / 11 As-AR-mas-que-BRAN-do-lan-ÇAN-doas-ao-RI(o) /1/ 2/ 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10 / 11 Oin-CEN-soas-pi-RA-ram-dos-seus-ma-ra-CÁS: / 1 / 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10 / 11 Me-DRO-sos-das-GUE-rras-queos-FOR-tes-a-CEN(dem) /1 / 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9 /10/11 Cus-TO-sos-tri-BU-tos-ig-NA-vos-LÁ-REN(dem) /1/ 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10/11 12 ....... que..... terceira sextilha de “I juca pirama” de Gonçalves Dias)........... lançando-as ao rio................ João Franco de Oliveira pondera o poeta a fragilidade humana” de Gregório de Matos). sem brio.. que a vida é emprestado ...... Custosos tributos ignavos lá rendem...... As armas quebrando.. sem forças. O incenso aspiraram dos seus maracás: Medrosos das guerras que os fortes acendem.. estado Mistérios mil.... As tribos vizinhas........... aterra Quer Deus.... enterra...Agora vejamos um exemplo de verso decassílabo sáfico: Na oração. ONZE SÍLABAS: Também conhecido como verso hendecassílabo............dado Pregue... (primeira quadra do soneto “No sermão que pregou na Madre Deus D....... Aos duros guerreiros sujeitos na paz.... a quem está o cuidado ........

8ª e 12ª sílabas.Aos-DU-ros-gue-RREI-ros-su-JEI-tos-na-PAZ / 1 / 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8/ 9 / 10 / 11 DOZE SÍLABAS: Também conhecido como verso alexandrino. cada uma nomeada hemistíquio. que queres mais? Coração.. Este verso normalmente é divido em duas partes iguais.. que mais queres? Passam as estações e passam as mulheres. é muito comum ser encontrado na poesia da Antigüidade Clássica.. Mas o verso alexandrino comporta outra divisão: a divisão em 3 partes iguais. E eu tenho amado tanto! E não conheço o Amor! (segundo terceto do soneto “Última página” de Olavo Bilac) car-ne-que-que-res-MAIS-co-ra-ção-que-mais-QUE(res)? /1 / 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10 / 11 / 12 pa-ssam-as-es-ta-ÇÕES-e-pa-ssam-as-mu-LHE-(res). E o acento tônico recai sobre as 6ª e 12ª sílabas. Claro que há. Basta ver a produção dos modernistas. Há quem diga que todo verso com mais de 12 sílabas é na verdade a junção de dois tipos de versos já exitentes.. /1 / 2 / 3 / 4/ 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10 / 11 /12 eeu-te-nhoa-ma-do-TAN-toe-não-co-nhe-çooa-MOR! / 1 / 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10 / 11 / 12 Observe que há uma divisão (chamada normalmente de cesura) bem na metade silábica do verso. por exemplo. Carne. Desarquipélagos sutis linhas cartilhas Desfluviéter fluvial flutuam vias Incantochão digitação dedos ao léu (fragmento do poema “Cantata de quinta 2” de Amador Ribeiro Neto De-sar-qui-PÉ-la-gos-su-TIS-li-nhas-car-TI(lhas) /1/ 2 / 3 / 4 / 5/ 6 / 7 / 8 / 9 / 10 / 11 / 12 Des-flu-vi-É-ter-flu-vi-AL-flu-tu-am-Vi(as) / 1 / 2 / 3 / 4/ 5 / 6 / 7 / 8 / 9 /10/ 11/12 In-can-to-CHÃO-di-gi-ta-ÇÃO-de-dos-ao-léu /1/ 2 / 3 / 4 / 5 / 6/ 7/ 8 / 9/ 10 / 11/12 E agora aquela pergunta que todo mundo gosta de fazer: não há versos com mais de 12 sílabas? Há. Neste caso a cesura se dará nas 4ª. Por exemplo: o verso de 18 sílabas seria a soma de dois versos de 9 13 .

Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é. versos regulares.sílabas. é um verso totalmente livre. Há muito lhe preparam Todas de brancas penas revestidas Festões de flores as gentis donzelas. A forma utilizada pelo poeta é livre de convenções da versificação. Portanto. impossivelmente real. Mas isto é discutível – e parece buscar apenas ‘regras regulares” para a versificação. Mais que Lindoya. Para uma rua inacessível a todos os pensamentos. Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres. Já o verso livre não obedece a regra alguma. Observe este fragmento do poema “Tabacaria” de Fernando Pessoa. Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens. Tanto quanto à versificação quanto à posição das sílabas fortes quanto à presença de rimas. sob o heterônimo Álvaro de Campos: Janelas do meu quarto. mas falta-nos falar sobre os tipos de estrofe. mas não rimam entre si. Real. 14 . Os versos aqui têm os mais variados tamanhos. Enfim. São todos versos decassílabos. Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. versos brancos. desconhecidamente certa. Não há preocupação com rimas. Observe estes versos de Basílio da Gama num fragmento de “O Uraguay”: Para se dar princípio à estranha festa. Depois responda: que nome recebem estes versos escandidos? ESTROFAÇÃO Falamos em versos livres. de Camões. saber que há versos brancos e versos livres. Nem com acentos tônicos. são versos brancos. certa. aqui. e faça a escansão de seus versos. Interessa-nos. SUGESTÃO: Tome o soneto “Amor é fogo que arde sem se ver”. O verso de 13 sílabas seria a soma de um verso de 7 sílabas com um de 6 sílabas. Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente. o que saberiam?). Os versos brancos obedecem às regras de versificação mas não apresentam rimas.

Desde Petrarca o soneto assumiu a forma que hoje possui. Um só verso não forma estrofe.. Dístico: é a estrofe de 2 versos. Ao longo da história da poesia o quarteto sempre conservou 14 versos. ATENÇÃO!!! O soneto é a forma fixa de poesia mais conhecida. Quadra ou Quarteto: é a estrofe de 4 versos. os sonetos de Shakespeare e veja o que há de diferente neles.. Busque. Soneto (Álvares de Azevedo) Oh! páginas da vida que eu amava. Pressinto a morte na fatal doença!.. Nona ou Novena: é a estrofe de 9 versos. na Internet. embora a disposição dos mesmos variasse. amor de irmã! em sossegado Adormecer na vida acalentado Pelos lábios que eu tímido beijava! Embora . Perdoa. Em treva densa Dentro do peito a existência finda. Terceto: é a estrofe de 3 versos. o soneto possui 14 versos. Portanto. Oitava: é a estrofe de 8 versos. Daí depreendemos que há estrofes de todos os tamanhos. Quando um poema possui uma forma fixa com dois quartetos e dois tercetos recebe o nome de soneto.A estrofe é uma reunião de versos. Sétima ou Septilha: é a estrofe de 7 versos. Ardei lembranças doces do passado! Quero rir-me de tudo que eu amava! E que doido que eu fui! como eu pensava Em mãe.. Sexteto ou Sextilha: é a estrofe de 6 versos. Rompei-vos! nunca mais! tão desgraçado!. Décima: é a estrofe de 10 versos. eu te amo ainda! ! 15 . Conforme o número de versos tal é o nome da estrofe. minha mãe. Mas mesmo assim seus quatorze versos já foram distribuídos de outras maneiras. Mas para haver estrofe temos de ter no mínimo 2 versos.é meu destino. Quinteto ou Quintilha: é a estrofe de 5 versos. A mim a solidão da noite infinda! Possa dormir o trovador sem crença..... não obedecendo à norma de duas quadras e dois tercetos.

E o haicai deve trazer o máximo de elementos para a nossa reflexão. 7 no segundo e novamente 5 no terceiro. Vejamos 3 exemplos: “Caridade” (Guilherme de Almeida) Desfolha-se a rosa. Olga Savary – e na Paraíba um haicaísta de renome internacional: Saulo Mendonça. faz uso da rima e dispensa a referência à natureza e a métrica. Millôr Fernandes. como em Guilherme de Almeida. 5 sílabas no primeiro verso. Observe que os títulos dos haicais de Guilherme de Almeida restrigem o alcance do poema. No caso do haicai de Saulo Mendonça o significado abre-se num leque de possibilidades que se vale da ambigüidade do termo “estrela” (pode ser a estrela em sentido literal e a estrela enquanto uma celebridade). Parece até que floresce O chão cor-de-rosa. Há intertextualidade com o “Poema das sete faces” de Carlos Drummond de Andrade que diz na primeira estrofe: “Vai. ser” Carmen na vida. na quase totalidade dos casos. no céu grisalho. Além de sugerir “mulher da vida”. 16 . E não faz uso da rima. No oriente o haicai versa sempre sobre uma estação do ano e tem um tom reflexivo. Fecho a minha porta. o haicai. passa a ter múltiplos sentidos. Tropicalizado. Carlos! / ser gauche na vida”. SUGESTÃO: Busque haikais de Paulo Leminski. na acepção vulgar da expressão. e um dos seus mais significativos poetas é Bashô.Outra forma fixa de poesia é a dos haicais. E ainda faz referência ao livro “Carmen” de Prosper Mérimée e que deu origem à ópera homônima de Georges Bizet. há o uso do título. O haicai tem sua origem no Japão. Carlos. Entre nós destacam-se como haicaístas Paulo Leminski. Um galho. Leia estes haicais sem o título e constate como ele se torna plurissêmico. e veja como este poeta tropicaliza a forma oriental deste tipo de poesia. “Velhice” (Guilherme de Almeida) Uma folha morta. Ou seja. E em alguns casos. Normalmente o haicai dispensa o título. Haicai é um terceto que totaliza 17 sílabas. (Saulo Mendonça) Tambaú. na Internet. Uma estrela diz: “Vai.

Veja nesta seqüência da segunda parte da lira XXII estrofes 1. Do crime suposto Com mil artifícios Indaga a razão. Tal constatação é importante na hora da análise do poema. Infame masmorra Da minha prisão. Mas ah! Que não treme. Além do refrão este tipo de verso. E duro grilhão. É uma obra polissêmica (= possui vários sentidos). Marília. Não treme de susto O meu coração! Já Torres se assenta. Aqui me reputo: Mil vezes escuto O som do arrastado. Mas. Divagações não cabem na leitura de um poema. O poema é uma obra aberta. por si mesmo. Não treme de susto O meu coração! Você percebeu que os três últimos versos de cada estrofe repetem-se formando o refrão. já disse Umberto Eco. Cada poema traz consigo a própria gramática. Mas ah! Que não treme. E que os versos são do tipo redondilha menor. Desta interação resulta a leitura crítica do poema em questão. enfatiza o caráter oral e musical do poema. que tem por finalidade fixar determinadas idéias do poema e dar-lhe um colorido musical. Carrga-me o rosto. Mas tudo que afirmarmos sobre ele tem de ser comprovado com o próprio poema. ah! Que não treme. na hora da análise e interpretação do poema temos que abarcar o que o poema diz com a forma como fiz. Por morto. É importante ressaltar que não há UMA ÚNICA regra para a análise e interpretação do poema. Como já assinalamos. 2 e 3 do poema “Marília de Dirceu” de Tomás Antônio Gonzaga. 17 . O corpo do poema é o material sobre o qual nos debruçamos na hora da análise e interpretação.Quando determinadas estrofes de um poema repetem-se formam o refrão. É preciso considerar esta singularidade do poema. Não treme de susto O meu coração! A chave lá soa Na porta segura: Abre-se a escura.

tipos de rimas. quer pelo fato de o poeta ter sido escrito em épocas histórias anteriores a nossa e assim usar uma terminologia que nos é estranha. Um bom exemplo de intertextualidade encontramos nas várias versões para “Canção do exílio” de Gonçalves Dias. mas é preciso “matá-lo” para que possamos entender o que ele diz grosso modo. por Oswald de Andrade. Veja este exemplo extraído do poema “As cismas”. Pensava no /Destino. podendo vir a formar uma sílaba. A rima pode ser consoante ou toante. A paráfrase é a repetição do que o poema diz feita com nossas próprias palavras. indo em direção à casa do AGRA. a seguir. geralmente pelo viés da paródia. Vale a pena parar e “redizer” o poema com nossas palavras para. e tinha mEDO! Portanto. A rima consoante é aquela que faz rimar vogais e consoantes de uma palavra. Assombrado com a minha sombra mAGRA. ou um filme. Ponte Buarque de MacEDO. etc. Você pode consultar na internet estas “novas” canções do exílio. Foi o que fizemos ao ler o haikai de Saulo Mendonça e ao relacioná-lo com o “Poema de sete faces” de Carlos Drummond de Andrade. podemos contar o poema com nossas próprias palavras? Somente com a finalidade de entendermos aquilo que o poema diz e que temos dificuldades em entendê-la.. Outra coisa importante: na hora de interpretar e analisar um poema é sempre bom fazer a PARÁFRASE dele. Ou seja. outro poema. quer por valer-se de figuras de linguagem que nos são obscuras às primeiras leituras. nos vêm à memória. E a este procedimento damos o nome de INTERTEXTUALIDADE. etc. estabelecemos uma relação da obra analisada como outra obra em questão. O poema original foi reescrito. Murilo Mendes e José Paulo Paes. Então podemos relacionar o poema com esta outra obra? Claro que sim. vamos proceder ao levantamento dos elementos estruturais do poema como escansão das sílabas poéticas. Eu. voltar à forma original do poema e proceder à interpretação e análise. Então podemos dizer que a paráfrase “mata” o poema. Vamos estudar seus tipos principais. às rimas [edo] e [agra] chamamos rimas consoantes. Feita a paráfrase. Mas se o poema é forma e se a mudança da forma implica a mudança de sentido do poema. SUGESTÃO: Cite dois poemas ou duas letras de música que tenham refrão. de Augusto dos Anjos: Recife. ao lermos um poema. 18 . ou uma peça teatral. ou um conto.Muitas vezes. figuras de linguagem. entre outros. Responda depois: qual a função do refrão nestes poemas ou nestas letras? RIMÁRIO Rimário é o conjunto de rimas.

João Cabral de Melo Neto é um expert no uso da rima toante. A rima externa é aquela que ocorre no final de diferentes versos. Além de “neguinho da Portela” remeter a “Neguinho da Beija-flor”. [esquina]. Não há a presença de consoantes. As rimas podem ser externas e internas. Mas pode haver o caso de uma rima entre uma palavra final de um verso e outra palavra no interior de outro verso. [upa] com [garupa].As rimas toantes são aquelas em que apenas as vogais tônicas rimam entre si. etérea Aura Você percebeu que apenas as vogais tônicas rimam entre si: o [o] tônico de nOite e lOnge e o [a] tônico de açoitAdas e Aura. Como rasgam-se as brisas açoitAdas Por vergônteas. Mas há rimas entre a palavra final de um verso e uma palavra interna do verso seguinte. [primeiro] com [janeiro]. [TV]. manhãs d’ esto. Aproveite para constatar que não há uma simetria entre o número de sílabas de cada verso. Este tipo de rima traça um entrelaçamento entre os versos que deve ser considerado na leitura crítica de um poema. Veja este fragmento do poema “David Byrne” de Amador Ribeiro Neto: As mãos da cigana trocam dedos no teclado da internet Um saco forget de soja na esquina Gatinhos leblonzeados no primeiro De janeiro mimos na TV Em apa epa ipa opa upa Garupa neguinho da Portela Você notou que não há rimas externas entre [internet]. 19 . E que há intertextualidade do penúltimo verso com o verso final do poema “Contemplando as coisas do mundo desde o seu retiro”. [upa] e [Portela]. imortalizada pela voz de Elis Regina. Veja que [internet] rima com [forget]. [primeiro]. de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri. COMPLEMENTAÇÃO: busque ouvir a canção “Upa neguinho” na interpretação de impecável de Elis Regina. de Gregório de Matos. Mas veja neste fragmento do poema “Novo Éden” de Sousândrade: Fundo silêncio estava dia e nOite Na sombria mansão: de longe em lOnge. É o caso do fragmento citado do poema “As cismas” de Augusto dos Anjos: [edo] e [agra] são rimas externas. o célebre sambista e com a música “Upa neguinho”.

diferentes dos apresentados. Neste caso os versos sem rima recebem o nome de rima perdida ou rima órfã. ficam nos pólos. recebem o nome de rimas misturadas. Elas podem ser emparelhadas. Sentou-se. como o próprio nome diz. Eu. Miguel Paulista quebram ondas nos tetos dos trens Há rimas nos versos 2 e 4: tENS e trENS. rima A rima B rima B rima A Vamos atribuir uma letra do alfabeto a cada tipo de rima. Mas os versos 1 e 3 não têm rimas: falta e Paulista. Outra coisa: quando a rima é formada por uma palavra oxítona recebe o nome de rima aguda. cruzadas e misturadas. externas e internas. veio à janELA. O leque abriu. a essa hora entrAVA E estaquei. Considere agora os dois tercetos de “À cidade da Bahia” de Gregório de Matos: Deste em dar tanto açúcar excelENTE Pelas drogas inúteis. vendo-a decotada e bELA. Oh se quisera Deus. Rimas esdrúxulas formadas por palavras proparoxítonas. As rimas “A” são interpoladas. interpolas. andam “de parelha’. vejamos como se apresentam as rimas externas. que de repENTE Um dia amanheceras tão sisUDA Que fora de algodão o teu capOTE! rima A rima B rima C rima A rima B rima C As rimas ABCABC recebem o nome de rimas cruzadas (ou alternadas). juntas. Veja agora o poema “falta água e falta” de Amador Ribeiro Neto: falta água e falta água tens e não tens os surfistas de S. As interpoladas. As rimas “B” são emparelhadas. [ela] de janela e bela é do tipo “A” e [ava] de arfava e entrava é do tipo “B”. que abelhUDA Simples aceitas do sagaz BrichOTE. consoantes. Quando a valsa acabou.Agora que você já sabe o que são rimas toantes. também como o próprio nome diz. viração da noite. Consideremos a estrofe inicial do soneto “Cheiro de espádua” de Alberto de Oliveira. As rimas emparelhadas. Sorria e arfAVA. Veja este fragmento de poema “Evoé” de Pedro Kilkerry: 20 . Rimas formadas por palavras paroxítonas recebem o nome de graves. ou seja. Quando as rimas obedecem a outros esquemas.

vINHOS. tênue. aMOR.. Com quatro cordas de AmOR! rima A rima B rima A rima B As rimas “A” são formadas por palavras paroxítonas e recebem o nome de rimas graves: VInhos. (. Há ainda dois tipos de rima: a rima rica e a rima pobre. Nós. Considere a primeira quadra do soneto “Budismo moderno” de Augusto dos Anjos: Tome. As rimas “B” são formadas por palavras oxítonas e recebem o nome de rimas agudas: FLOR. cavaquINHOS. Veja agora os versos 11 e 14 do soneto “A idéia” de Augusto dos Anjos: (.) No molambo da língua paralÍTICA! As palavras rimadas são proparoxítonas: raQUÍticas... adjetivo com adjetivo.. etc. cavaQUInhos. As rimas “A” e “B” são rimas ricas porque fazem rimar um verbo com um substantivo: corte (verbo) e morte (substantivo). Se se rimam palavras da mesma classe gramatical a rima recebe o nome de rima pobre. paraLÍticas. esta tesoura. Esta rima recebe o nome de esdrúxula. rimar substantivo com substantivo. E ai! Corações. Por exemplo.. esta faixa está no disco “Ninguém”. Estes dois tipos obedecem a duas variantes: classe de palavras e sons. e. Se se rimam palavras de classe gramatical diversa a rima recebe o nome de rima rica. cORTE Minha singularíssima pessOA.Primavera! – versos. pessoa (substantivo) e roa (verbo). Se você tem a obra do Arnaldo. mínima... depois da mORTE? rima A rima B rima B rima A COMPLEMENTAÇÃO: busque na Internet o poema “Budismo moderno” musicado por Arnaldo Antunes.. primaveras em flOR. Dr.. Confira agora a seguinte quadra do poema “Minha desgraça” de Álvares de Azevedo: 21 . Exemplo: substantivo e adjetivo.. Que importa a mim que a bicharia rOA Todo o meu coração. raquÍTICA.) Tísica. etc.. verbo e substantivo.

Na rima rica a identificação inicia-se antes da vogal tônica.Mais servira.. Nem na terra de amor não ter um ECO. Passava. Na rima pobre as letras a partir da vogal tônica são as mesmas. Veja neste exemplo da segunda quadra do soneto “Antífona” de Cruz e Sousa: Formas do Amor. constelarmente pURAS. Leia atentamente o poema abaixo: Sete anos de pastor Jacó servia (Camões) Sete anos de pastor Jacó servia Labão.. se não fora Para tão longo amor tão curta a vida! 22 . servia a ela. E deve-se considerar a posição da vogal tônica.. Mas não servia ao pai.. eco e boneco também são substantivos. Os dias. Porém o pai. de Virgens e de Santos vapoROSAS. Começa de servir outros sete anos. mádidas frescURAS e dolência de lírios e de ROSAS. As rimas “B” rimam a incorporando a consoante /r/ que vem antes da vogal tônica. E meu anjo de Deus. rima A rima B rima A rima B As rimas do tipo “A” e “B” são constituídas por palavras da mesma classe gramatical: poeta e planeta são substantivos. portanto são rimas pobres.. Como se a não tivera merecida. E a ela só por prêmio pretendia. Dizendo: . na esperança de um só dia. Em lugar de Raquel lhe dava Lia. o meu planETA Tratar-me como trata-se um bonECO. contentando-se com vê-la. serrana e bela. Portanto estas rimas são chamadas rimas pobres. rima A rima B rima A rima B As rimas “A” rimam a partir da vogal tônica. portanto trata-se de uma rima rica. Mas há ainda outro critério para a classificação das rimas ricas e pobres: é pelo som. não.. pai de Raquel. não é ser poETA. Vendo o triste pastor que com enganos Lhe fora assim negada a sua pastora.Minha desgraça. usando de cautela. Brilhos errantes.

faça a paráfrase dele. Por que dizemos que este poema é um soneto? Em seguida faça a escansão dos versos do soneto. Por exemplo. Este tipo de verso transmite a idéia de continuidade. pois ela abre o poema para a polissemia. Como se chama o verso com o número de sílabas poéticas deste soneto? As rimas do soneto são consoantes ou toantes? Há rimas internas neste soneto? Há rimas ricas e rimas pobres no soneto? Predominantemente as rimas são agudas. Observe que é “o grito agudo” continua no verso seguinte: “das arapongas. de envolvimento. 3 e 4.. de seqüência. semântica e ritmicamente. POLISSEMIA: vários sentidos que um poema. na mesma posição inicial dos versos 1. ele recebe o nome de enjambement ou encadeamento ou cavalgamento. ANÁFORA: repetição de um termo no início. os dois versos iniciais do canto IV do poema “Minh’ alma é triste” de Casimiro de Abreu: Minh’alma é triste como o grito agudo Das arapongas no sertão deserto. no meio ou no fim de mais de 2 versos. Quais são as rimas interpoladas e emparelhadas das duas quadras acima? Este soneto permite uma leitura intertextual com outro texto? Que texto é esse? OUTROS CONCEITOS USUAIS NA ABORDAGEM DO POEMA ENJAMBEMENT: quando um verso continua no seguinte.. graves ou esdrúxulas? Classifique as rimas das duas quadras do soneto de acordo com o esquema AB-C-D.. 23 .” AMBIGÜIDADE: é uma das características fundamentais da poesia.SUGESTÃO: Lido o soneto. Por exemplo a primeira estrofe do soneto “Pintura admirável de uma beleza”: Vês esse Sol de luzes coroado? Em pérolas a Aurora convertida? Vês a Lua de estrelas guarnecida? Vês o Céu de Planetas adornado? Há a repetição do vocábulo “Vês”.etc.. sintática. um verso ou uma palavra podem ter.

METALINGUAGEM: é a linguagem falando da própria linguagem. Exemplo de soneto metalingüístico é “Língua portuguesa” de Olavo Bilac: Última flor do Lácio. falando desde suas origens no Lácio. Que tens o trom e o silvo da procela. Ela ocorre no verso depois da sílaba acentuada.A este recurso chamamos anáfora. etc.. a metalinguagem. O exemplo mais conhecido de metalinguagem é o dicionário. Já vimos que um dos tipos de cesura é a que divide o verso alexandrino em dois hemistíquios. as estrofações. Considere um verso do poema “Amor” de Cruz e Sousa: Um sol dentro de tudo altivamente imerso. Amo-te assim. Ou fala da linguagem do poema. 24 .. a intertextualidade. Inclui as escansões. passando por Camões e chegando aos dias atuais. O gênio sem ventura e o amor sem brilho! Você notou que para falar da língua portuguesa o poeta usou a própria língua. inculta e bela. Tuba de alto clangor. E em que Camões chorou. E o arrolo da saudade e da ternura! Amo o teu viço agreste e o teu aroma De virgens selvas e de oceano largo! Amo-te. lira singela. porque ali as palavras são usadas para explicar as próprias palavras. as figuras de linguagem. no exílio amargo. É quando um poema fala do próprio poema. Um-sol-den-tro-de-TU-doal-ti-va-men-tei-MER(so) /1/ 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 /9 / 10 / 11 / 12 ELEMENTOS FORMAIS: todo o conjunto estrutural do poema. a um tempo. que na ganga impura A bruta mina entre os cascalhos vela. esplendor e sepultura: Ouro nativo. CESURA: pausa. És. ó rude e doloroso idioma. os tipos de rima. desconhecida e obscura. Em que da voz materna ouvi: “meu filho!’.

por chumbo seu verbo: pois para catar esse feijão. toda palavra boiará no papel. em que o poeta compara catar feijão com escrever. açula a atenção. flutual.COMPLEMENTAÇÃO: É muito comum encontrarmos um poema falando do modo de fazer poema. um grão imastigável. O poema “Catar feijão”. é todo metalingüístico. Veja: Catar feijão se limita com escrever: jogam-se os grãos na água do alguidar e as palavras na da folha de papel. Ora. pedra ou indigesto. numa ATENÇÃO!!! O livro “Poesia na sala de aula”. Vale a pena ser lido. A Poesia Concreta foi lançada oficialmente em 4 de dezembro de 1956. de quebrar dente. de Antonio Candido. e depois. ou um rap falando de rap. que você encontra na biblioteca de sua cidade. Certo não quanto ao catar palavras: a pedra dá à frase seu grão mais vivo: obstrui a leitura fluviante. traz interpretação e análise de poemas. Certo. água congelada. joga-se fora o que boiar. palha e eco. ! 25 . 2. como é o caso de “A rosa púrpura do Cairo”. A tudo isto damos o nome de metalinguagem. de João Cabral de Melo Neto. de Wood Allen. soprar nele. Na música popular é muito comum ouvirmos um samba falando de samba. Assim como é comum você assistir a um filme que tem outro filme dentro dele. isca-a com o risco. nesse catar feijão entra um risco: o de que entre os grãos pesados entre um grão qualquer. e jogar fora o leve e oco.

dentro da nossa música popular Arnaldo Antunes. Detalhe: Little Richard explodia nas rádios com Tutti frutti. a condensação. Até hoje. colaborações dos poetas concretos. Glauco Mattoso. Os verbos são renegados. Frederico Barbosa. a Poesia Concreta nasce no Brasil e ganha o mundo. Isto.UNIDADE II POESIA CONCRETA exposição realizada no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Consciência do quê? De linguagem. desde o ano anterior. Caetano Veloso. Elvis Presley. substantivos. Tinha início um outro tempo. o rigor. Otto. O poeta agora pensa e sente ao mesmo tempo. No entanto. Uma das manchetes da revista O Cruzeiro. Talvez devido ao fato de o Jornal do Brasil. Dentro da poesia brasileira contemporânea poetas como Ricardo Aleixo. Décio Pignatari e Haroldo de Campos. O uso dos pronomes também é excluído. vir publicando. Ela enfatiza a concisão. Assim. mas sentimento + consciência. deve os créditos de origem e desenvolvimento às teorias e práticas da Poesia Concreta. ao som do rock (e da Bossa Nova). Paulo de Toledo. ficou famosa: “O rock’n’roll da poesia”. que pipoca internacionalmente quase ao mesmo tempo. A infopoesia de nossos dias. Não há mais verso. mais de cinco décadas depois. A Poesia Concreta quer um poema feito com sentimento. Para os poetas concretos interessava usar o espaço em branco da página tirando dele o maior proveito possível. A palavra por si. quando de fato apenas combate o subjetivismo enquanto expressão de um Eu que se dá o direito de falar exclusivamente com o coração. No entanto: 1. na época. A sintaxe também é violentada: as palavras. no sentido tradicional do termo. Por isto cada poema devia ser lido incorporando também o espaço físico da página. Karnak. E ao up-grade que ele promoveu na produção poética nacional e internacional. Gilberto Gil. Mas no Rio a coisa foi pra valer. numa verborragia anacrônica. As palavras agora são distribuídas de forma inovadora na folha em branco. Os idealizadores da mostra foram Augusto de Campos. Chico César. através de seu suplemento literário semanal. na sua materialidade. pagam tributo à Poesia Concreta. com Heartbreak hotel. Em 1957 a exposição se transfere para o Rio de Janeiro e repercute mais que em São Paulo. gera uma polêmica acirrada. Sebastião Uchoa Leite. valem-se de procedimentos da Poesia Concreta. na maioria das vezes. Zeca Baleiro. ela amplia seu veículo de propagação e criação. Wladimir Dias Pino e Ferreira Gullar. Busca-se agora a essência da palavra. Antônio Risério. Lenine. sim. 26 . falando dos concretos. Com o advento da cibercultura e das infolinguagens. há séria resistência aos avanços de linguagem que a Poesia Concreta nos trouxe. juntamente com Ronaldo Azeredo. entre outros. Consciência da materialidade dos signos verbais e não-verbais. entre tantos outros. Condensação poética passa a ser a palavra de ordem. dão o seu recado pela disposição gráfica na folha. A Poesia Concreta é acusada de não considerar a subjetividade.

tudo bem. de cinema. Antropologia. à televisão. Cacá Diegues brada com veemência contra as “patrulhas ideológicas” e Caetano compõe “Odara”. aos shows musicais. se por “coisa” quer afirmar-se a materialidade sígnica. as fontes tipográficas.rigorosamente. foi além da palavra para melhor possuí-la. Ambos são muito malhados pela esquerda e pela direita. das construções substantivas. os olhos devem girar tal qual os movimentos de uma câmera cinevideográfica. Julio Cortázar. pós concreto ou não concreto) assume a responsabilidade poética de conhecer a História Universal da Poesia antes de começar a escrever. o espaço em branco da página. trinta anos depois. A Poesia Concreta incomodou (e incomoda) os letrados porque ela não se restringe ao objeto literário pura e simplesmente. ao design. à música popular. Ou seja: com conhecimento semiótico do material utilizado: a palavra. as dimensões do objeto (página de papel. já que na Poesia Concreta (e em toda grande arte) a Forma é que informa. No Brasil. A Poesia Concreta incomoda por valorizar excessivamente a Forma. sim. como poema que se basta. Ora. à música erudito-contemprânea. 27 . Ela junta objetos sonoros. E diz mais: relata sua angústia toda vez que uma pessoa amiga vem lhe trazer “um bom tema” para um texto. etc. uma mensagem. E ao começá-lo. ao rádio. Resultado: a Poesia Concreta chegou aos outdoors. num mesmo e antropofágico caldeirão ampliando os limites da Poética. Psicologia. virtuais. Um modo que misture. criando um novo verbo receptivo-crítico: o verbo VLER. do plurilingüismo. Mensagem. placa hologramática. Ou seja. às revistas de consumo popular. ao cinema. nos anos 70. à escultura. Para vler. Para Cortázar uma pedra sobre a palma da mão pode render um excelente produto literário. à arquitetura. O poema concreto se reivindica como “poema-objeto”. movimento estético-poético que. reflexão são objetos da Filosofia. tela de computador. constata-se que os dois tinham razão e que atuaram como “antenas da raça” antecipando-nos novas realidades. Enfim. libertou-se de uma militância engajada com quaisquer tipos de temas. trabalhando a palavra. no seu modo de fazer. plásticos. etc. etc. já que na arte da palavra o que importa é o tratamento de linguagem que se dispensa a tais temas. estes dois verbos. em célebre conferência proferida em Cuba. por exemplo. como poema que se realiza na sua construção. recortando e montando significados que incorporem o espaço de fundo do poema (o branco da folha de papel. visuais. e tal. 2. Religião. à moda. mas a Pós-Modernidade ecoa diretamente Concretismo. de vídeo. ao teatro. Ou seja. à fotografia. das ciências e teologias que refletem sobre algo que é mais importante do que a forma de dizê-lo. às histórias em quadrinhos. para os concretos o que conta é o MODO de fazer poesia. A arte literária. a Modernidade nasceu com o Simbolismo francês. à pintura. Sociologia. 3. as possibilidades advindas dos neologismos. deve fazê-lo com precisão. Ora. afirmou que não há temas bons ou maus em literatura. como sugere Décio Pignatari. à cerâmica. aos sambódromos. etc. desde fins do século 19. Com o advento da Poesia Concreta todo poeta (seja neoconcreto.). cinéticos. um poema que manda um recado. O poema é repudiado por ser uma “coisa”. Hoje. táteis. escultura em diferentes materiais. ao vídeo. A palavra sob a dimensão de objeto cobra um novo modo de Ler e Ver. a tridimensionalidade da escultura) às formas da linguagem utilizada pelo poeta. Sem forma não há poesia. recado. o Modernismo quem nos trouxe foi a semana de 22. Jamais o poema concreto se define como um poema sobre algo.

felicidade. E o faz.. com mais atenção percebemos que as palavras aparecem em ordem alfabética: Atrocidade. “cité”.. Unicidade. Voracidade. o segundo verso é constituído apenas pela palavra “city” e o terceiro. Terreno propício não somente à Poesia Concreta. Todas palavras do universo de uma cidade. O poema é composto por apenas três versos. causticidade. Seria cochilo do poeta? Quer nos parecer que um poema que se revela até agora tão cerebral não escorregaria numa bobagem destas.SUGESTÃO: Procure ouvir a música “Odara” de Caetano Veloso e assitir a algum dos filmes de Cacá Diegues da década de 70: “Quando o carnaval chegar” . S. . Vivacidade. pedindo ao leitor que imagineo estirado na longa tira a fim que não se perca tanto do seu sentido original: “atrocapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubrimendimultipliorganiperio diplastipublirapareciprorustisagasimplitenaveloveravivaunivoracidade / city / cité”.. capacidade. Desta feita tem-se a chave de leitura: atrocidade. A Poesia Concreta veio abrir campos e espaços. Veracidade. à Ciberpoesia. não é nada mal supor. escrito em 1963. aqui transcrito desobedecendo à forma original devido às limitações da página. Mas o que tem isto a ver com cidade? Talvez remeta-nos ao planejamento urbano das cidades modernas. pela trovoada de sons sem sentido que povoam o primeiro verso. Como o título do poema é “cidade” e esta palavra aparece em três línguas. A vogal “U” vem depois da consoante “V”. Então. Daí. elasticidade. E o fez. Voltando ao poema agora como está. Você entrará em contato com a poesia da canção e o cinema poesia. que estamos num mundo atormentado por imensurável poluição sonora. Nem em duas. um dos mais significativos poemas brasileiros. a francesa”. “Chuvas de verão”. Se você me disser que não entendeu nada ou entendeu muito pouco. Mas uma leitura mais atenta vai nos revelar que o poema é composto de partes de palavras (seus radicais) aos quais são acrescidos a palavra cidade. e que finalizam com a palavra “cidade”. Todavia. Capacidade. mas à Ciberliteratura. O poema não cabe numa página de livro convencional. “Xica da Silva”. Por fim todos os radicais podem ser associados a “city” e 28 .. ao aparente ruído sem significado do primeiro verso contrapomos uma leitura de significados plenamente elaborados. Tenacidade. Talvez em quatro.. Um terceto. Vale a pena pensar a poesia em relação a outros códigos. Neste novo milênio que vivemos priorizam-se os investimentos em conhecimento e cultura. nova leitura mais atenta revelará que ao final há um desvio da organização alfabética: . Transcrevo o poema. Talvez o poeta esteja fazendo referência aos “furos” que todo planejamento urbano tem. etc. No livro “Viva Vaia” (S. Só que com um grande diferencial: enquanto o primeiro verso é formado por um amontoado de sílabas “sem pé nem cabeça”. Tomemos o poema concreto chamado “cidade”. “Joana. digamos assim. Paulo. Paulo: Ateliê Editorial) ele estende-se numa tira de mais ou menos 62 cm. Nem em três. e por aí afora.. Causticidade. Elasticidade. as três cidades seriam três metrópoles. Nova Iorque e Paris. de imediato posso até concordar. à Infopoesia. Duplicidade.

Observe o poema “Beba Coca-Cola” de Décio Pignatari. Veja neste poema de José Lino Grünewald: 1 2 3 4 c 2 3 4 i 3 4 n 4 c o Este poema brinca com a relação entre os signos numéricos e os alfabéticos. O poeta vale-se do slogan do refrigerante para desconstruí-lo através de fina ironia: beba coca cola babe cola beba coca babe cola caco caco cola cloaca 29 . chegando a formar uma equação matemático-gramatical. Sem dúvida um dos grandes poemas da literatura brasileira. A compreensão deste poema fica melhor quando a comparamos com sua tradução para o inglês: 1 2 3 f 2 3 o 3 u r Há uma concisão absoluta dos signos presentes no poema. COMPLEMENTAÇÃO: Ouça a versão musical deste poema feita por Cid Campos no cedê “Poesia é risco”.“cité” tornando o poema trilíngüe. de Augusto de Campos e Cid Campos.

branco vermelho estanco branco branco branco vermelho espelho vermelho branco estanco Considere agora o poema “Velocidade” de Ronaldo Azeredo. Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Mas sempre com a idéia de velocidade. que faz com palavras o que Mondrian faz na pintura: concisão vocabular dialogando com a concisão geométricopictórica do pintor. boa na rede. um pente de Istambul e a música de Gilberto Mendes” com o título de “Motet em ré menor (Beba Coca-Cola)”. Divirta-se com a interpretação que associa humor e ironia. estudada na Primeira Unidade de nosso curso. Atente para o poema concreto de Haroldo de Campos. Podemos dividir o poema em duas partes com uma linha diagonal que formará dois triângulos. VVVVVVVVVV VVVVVVVVVE VVVVVVVVEL VVVVVVVELO VVVVVVELOC VVVVVELOCI VVVVELOCID VVVELOCIDA VVELOCIDAD V E LO C I DAD E SUGESTÃO: a) procure na Internet poemas de Augusto de Campos. Preste atenção na repetição vocabular e veja as cores (e a ausência delas através do verbo estancar) formando um quadro abstrato. d) Estabeleça relações entre as características da Poesia Concreta e a poesia convencional. Um só com a letra “V” e outro com as letras que formam a palavra “velocidade”. 30 . b) Comente com colegas e amigos. Conforme você “acelere” ou “desacelere” sua leitura. c) Elenque as características fundamentais da Poesia Concreta.COMPLEMENTAÇÃO: Este poema foi musicado por Gilberto Mendes no cedê “Surf. o poema funciona como um acelerador ou desacelerador.

a estandartização. 31 . permanece instigante e atual. Por isto mesmo o homem de jornal não é. um homem das artes. os conservadores vivem em um mundo anacrônico. tanto melhor para todas as outras linguagens.nem à primeira vista e nem em tempo algum integralmente. O temor de cientificização e tecnização da cultura é uma idéia bem antiga. Impera a redundância. Esta é uma das razões pela qual a poeisa. O jornalista é um profissional preocupado com a eficácia imediata da comunicação. quase mitológica. há a aproximação dos semelhantes e dos idênticos. sem operar inovações.. CIBERPOESIA. Seu trabalho tem como alvo o público amplo. Acomodados em modelos estabelecidos. Mas para o produtor de artes e de linguagens não há desculpas: ele tem como dever de seu trabalho questionar/provocar o tempo e o espaço enquanto direções (outras) da vida cultural contemporânea. Mas pode-se objetar que elas são lidas por mais de 100% dos leitores de jornal. mas não vale para a poesia. A poesia relaciona-se com o tempo numa outra clave: instiga a reflexão inovadora através de um objeto que não se entrega . mas entender o próprio tempo é o desafio que a maior parte dos artistas e dos críticos de arte não consegue encarar de frente. Pior: muitas vezes impedem que a vida cultural prossiga com sua narrativa feita de pausas. Quanto mais uma linguagem se torna singular. como uma informação objetiva. Para a teoria da comunicação. de tempos em tempos. encerram uma metáfora: a perda do controle do homem sobre si mesmo e sobre o mundo. a mesmice. Parece fácil. nova. a comunicação direta. e como fim. Sim. À primeira vista ele seduz. seres autônomos. Máquinas inumanas. A desinformação cultural pode levar o homem comum a ter medo das transformações técnicas e científicas de seu tempo. sendo transtemporal. a priori. Sem conflitos. conforme amplia-se o repertório de seu receptor. diferente. Quando há nivelamento. geral e irrestrito. Ou seja. Isso pode ser útil para a comunicação mais imediata. nivelamento opõe-se à interação crítico-criativa. PENSE NISTO: O campo da poesia é o da busca da especificidade das linguagens. etc. Mas elas não funcionam apenas como atrativo sedutor: constroem paradigmas de texto e de pensamentos que se pautam pela funcionalidade imediata da linguagem. retrocessos e saltos qualitativos. e depois revela-se apenas parcialmente. é fato. As manchetes jornalísticas não nos desmentem.UNIDADE III TECNOLOGIA. CRÍTICA E POEMAS MUSICADOS O crítico russo Iúri Lotman observa que “a cultura tem por vocação analisar e dissipar os temores”. automatização da vida.

O Barroco. É a produção que se vale dos recursos da informática. Para o crítico russo. Os progressos do intelecto artificial ainda engatinham. O novo suporte pede novas leituras. no geral). completando-a com exemplos: “A poeisa é o ponto máximo de sofisticação de tudo aquilo que o homem criou”. filósofo francês contemporâneo. ou seja. uma nova postura. No mundo contemporâneo. na certeza de que o modo de pensar racional e lógico do homem é a medida e o modelo do universo. acaba sendo percebido tempos e tempos depois. é que conta. a ciberpoesia. a infopoesia. sempre inovadora e desafiadora das estruturas pré-estabelecidas de todos os stabilishments. “A concepção mecânica da máquina. o conceito de atividade intelectual repousa. Outra dificuldade no contato com a máquina reside na resistência que lhe impingimos. empregamos “funções intelectuais relativamente primitivas com as quais se espera construir um todo pensante. no geral . pede um novo olhar. travando o desenvolvimento das técnicas e a evolução geral da cultura”. a influência da técnica sobre a arte não apresenta interesse. o trabalho da arte. Ora. como se constrói uma casa de tijolos”. Esta é uma lógica da ilógica. enquanto que o impacto da poesia – e da arte. que remonta à cultura do século XVII. este sim. Para Lotman. usando os recursos da cibernética. através de sua linguagem. SUGESTÃO: Comente a seguinte afirmação. A poesia. Resultado: há poetas aplicados na prolixidade e jornalistas alimentando-se do imediatamente descartável. Inevitavelmente formam-se dois grandes grupos de pensamento: um alicerçado na verticalidade (o dos poetas) e outro flutuando na superfície (o dos comunicólogos). pontua Lotman. Um dos mais belos estudos sobre o barroco encontramos em Giles Deleuze. só foi percebido como arte nada menos que três séculos depois de seu aparecimento. O advento do computador trouxe novos modos de produção e consumo de poesia (e de arte. enquanto característica estética de um período. via de regra. Um poema escrito em computador. 32 . E até hoje vivemos lendo/relendo o Barroco. um novo enfoque de leitura. permanece na consciência do homem civilizado dos nossos dias. pela imagem das máquinas conhecidas. muitas vezes. Interessante é a razão deste patinamento. mais que uma expressão isolada de um ou outro artista.! ATENÇÃO!!! Cada linguagem tem sua especificidade e seu raio de alcance. da internáutica. E neste contexto surge hoje a ciberliteratura.sobre a técnica. Mas como esta apreensão não se rende às apreensões e raciocínios imediatistas. Não é novidade. até inconscientemente. A analógica da poesia. a lógica que conta é a lógica da analógica. E este modo da linguagem molda o pensamento do produtor de linguagem. É que o papel que atribuímos às máquinas está influenciado. reflete o ponto a que o homem chegou no presente.

Enfim. a poesia hoje. no geral). Arnaut Daniel. o que mais se busca hoje é inclusão. Jules Laforgue. Daí se refugia no biografismo. John Donne. Shakespeare. Não se discute se o computador vem ocupar o lugar do papel. O dito crítico incensa a arraia-miúda por interesses escusos à literatura. Ovídio. ! 33 . E opina diretamente sobre a obra. Por isto mesmo. Agora que você já foi introduzido nas teias do poema. tem na tela do computador um novo aliado. surgidos com o advento da Informática e Computação. São fricotes. a cibercultura vêm somar ao que já existe. O livro “ABC da Literatura” de Ezra Pound. Na verdade este “crítico” sente necessidade narcísica de projetar-se. Outra: o mau crítico é aquele que chama a atenção para a literatura de terceiro escalão. vale a pena refletir sobre o papel do crítico (de poesia ou de artes. Vamos tomar o conceito de mau crítico segundo Pound. Outro aspecto muito abordado no estudo da poesia reside na função social da poesia. Mas tem mais: o mau crítico é aquele que chama a atenção para os seus próprios escritos. Revela (novos) autores. A informática. Parece uma conversa. Claro que não “esquece”: ele exila a obra. E estamos conversados. Inclusive inclusão digital. além do papel como suporte. desprezando o objeto a ser analisado. O que é literatura? Qual a utilidade da linguagem? O que caracteriza a poesia? Qual a ruptura da literatura? Como procede um crítico? Que autores formam um cânone? Além de trazer uma mini-antologia que abarca Homero. mas consideremos o seguinte. A bem da verdade. Será que a poesia teria uma função social ou seria mero entretenimento? Pode parecer uma falsa questão. Catulo. Confúcio. Sua escolha já denota a qualidade de seu trabalho.ATENÇÃO!!! A infopoesia ou ciberpoesia abarca a produção que se vale de novos suportes. É inadmissível como um número altamente expressivo tece loas e boas para a vida do autor e “esquece” a obra. Não precisamos falar em exclusão. antes de mais nada. Quer projetar-se através destes que “critica”. Safo. PENSE NISTO: O crítico tem o dever de esclarecer a obra para o público e orientar o artista. a internáutica. não sabe como abordá-la. já que outros o ignoram. Este livro está incluído na bibliografia mínima de nossa disciplina e disponível na biblioteca da sua cidade. Geralmente é um jogo de trocatroca: eu falo bem de você e você fala bem de mim. Revela a obra. Daí a proliferação de zil livros que nada acrescentam ao mundo da literatura. que já conhecemos foi escrito numa linguagem direta e clara. Aborda temas espinhosos com delicadeza. É aquele que. um livro de cabeceira para os amantes da literatura. fala da biografia do autor ao invés de abordar a obra. O bom crítico faz uma escolha. Isto não vem ao caso – embora o livro deva permanecer como é mesmo diante das mais revolucionárias tecnologias. Só com esta afirmação Pound já derruba mais da metade dos ditos críticos. Dante Alighieri. Rimbaud. É o tal do igrejismo.

Mas. Basta ver que mudou o mundo. que a arquitetura contemporânea nada tenha a ver com aquela do século XII. a poesia que vale a pena – ou seja. Sem forma não há poesia. Poesia e letra de música sempre estiveram interligadas. a poesia que é poesia – sobrevive às questões que envolvem o poeta. no início. a poesia fica datada. Tudo voltado para as práticas religiosas. A expedição de Vasco da Gama nada tem a ensinar aos desbravadores dos mares de hoje – mas “Os Lusíadas” continuam um grande livro de poema épico. E mais: estas poesias contavam histórias. acalmar ânimos. na moral. A grande poesia de todo este tempo. de todos estes feitos. pecuária. cancionista de mão cheia. etc. O fato é que na grande poesia os temas são suporte para a forma poética. POEMAS MUSICADOS Ao longo de nossos estudos recomendamos que alguns poemas fossem ouvidos na forma de canção. poesia e religião andavam de mãos dadas. continua viva e forte. Pouco importa que não se crie gado. mas a poesia (a grande poesia. vai na mosca: “se o simples fosse fácil. na ética.A poesia pode propor-se um projeto social definido. mudaram seus valores. construção de casas. curar doenças. Isto é interessante: a poesia nunca sobreviveu desta função social. Portanto. Musicar poemas não é nada simples. teciam narrativas. Não interessam as causas dos poetas – se eles defendem ou atacam uma idéia socialmente aceita ou condenada. Como já fez nos inícios de seus tempos: tinha o propósito claro de invocar bons espíritos. morre no instante em que aquela circunstância histórica é superada. RELEMBRANDO: O engajamento da poesia é com a forma. Depois a poesia começou a ensinar coisas práticas: normas de agricultura. Modos de viver bem eram passadas através dos versos. inferno e purgatório. trazer amantes. que não se dê mais crédito a palavras mágicas na condução das crises das doenças. Interessa é o trabalho com a linguagem da poesia que só o poeta sabe operar. Poucos são os que acreditam no céu. Os tempos passam. A grande poesia. expulsar espíritos indesejáveis. Mas poucos são os que não se comovem ainda com os impecáveis versos de Dante Alighieri. entre outros. A forma é a grande propriedade do poeta. As primitivas formas da poesia tinham esta função mística e mítica. O mesmo vale para a grande viagem marítima de Ulisses na “Odisséia” ou as guerras infindáveis da “Ilíada”. não importa de que época) continua com o mesmo vigor. Quando o tema é maior que a poesia. 34 . Alguns poetas continuam emprestando à poesia uma função social determinada. O tema da “Divina Comédia” e das obras “com função social” podem ser abordados na prosa. Mais ou menos é a função que hoje cabe aos curandeiros e jogadores de cartas. No entanto temos um só ”. Mas suscitam uma breve reflexão. Neste momento a poesia encontra na filosofia. uma razão de ser. tinham enredo. quem disse que o simples é fácil? Erasmo Carlos. Isto não está em questão. E o poeta Maiakovski disse: “Não há arte revolucionária sem forma revolucionária”. teríamos milhões de ‘Parabéns a você’. e tal. isto é.

humana). Agora. singular. E faz isto com propriedade poética de quem sabe/ vive/come Literatura e Música Popular. a canção originada deve soar em consonância com o poema e. Enfim. uma vez cantado. É. uma faixa que prima pelo rigor do belo. funciona como metáfora da condição existencial brasileira e. mas o mar secou”. Adriana coloca seus agudos em contraposição aos graves do arranjo musical. nova. José?”. como toda canção que se preze. “caia bem”.. voltando ao poema propriamente dito. Sofrível? Pra lá de sofrível: mortífero. o inquietante poema chapou-se numa lengalenga musical monocórdia. como bom mineiro. ouça a canção feita por Paulo Dinis. 35 . mulher. Cid Campos mergulha nos contrabaixos . em dado momento da sua história de vida. ou releia o poema “José” de Carlos Drummond de Andrade. de 1994. exata. O verme e a estrela Agora sabes que sou verme. neste disco. amigos e até sem a possibilidade da própria morte: “quer morrer no mar. no disco A fábrica do poema. Por outro lado. vê-se sem nada: festa. Oras. deixando a do meio para ser recitada. Pois bem: musicado. Se não notei minha epiderme.. o poema perdeu seu intento e virou uma ba(ba)ladinha medíocre. de Carlos Drummond de Andrade. num belo dia. e menos conhecido ainda. (Não é esta a primeira nem a última vez que ela se embala e se embola com a poesia em seus discos). tão comum. faz jus a transcrição do poema. E confronte os dois: o poema em si e o poema musicado. A gravação é tão modelar que quem quer que queira regravar esta música terá de passar pela interpretação singularíssima de Adriana e pelo arranjo musical do próprio Cid. Apenas fez um muxoxo). Sensível e inteligente. sei da tua luz.É isso aí: musicar poemas não é simples nem fácil. ao mesmo tempo. COMPLEMENTAÇÃO: Leia. nunca estrela eu te supus. cool. Musicado por Paulo Dinis. Se puder. ambos constroem. por extensão. Enfim. faz uma bateria bossa toda e traz para o surdo uma marcação discreta. não disse nada. Mas.um deles em solo de rara beleza -. restringiu a melodia às estrofes inicial e final. O registro foi feito por Adriana Calcanhoto. José. o belo poema de Drummond retrata a tragicidade limítrofe a que chega um certo José. Pelo fato de Kilkerry ser tão pouco divulgado. Cid Campos ao musicar o poema “O verme e a estrela”. em algo que. do brilhante e pouco conhecido maranhense Pedro Kilkerry (1885-1917). (Dispensável dizer que o nome José. iconizando o verme e a estrela. Quem não conhece o poema terá uma péssima impressão dele. mas é impossível cantar bem o que já nasce malfeito. Um exemplo desastroso de “colocar música” em poesia é o caso de “E agora. Isto porque o resultado deve manter a essência do poema e ainda revertê-lo numa canção. casa. (Dizem que Drummond ouviu a gravação e. “seja maneiro”. em faixa homônima. Paulo Dinis se esforça para cantar bem. diferente. ou seja.

digo. Azul-celeste O céu. Aí é que a porca torce o rabo: entonação + sistematização + criatividade. Mas fica bem musicar-se apenas parte de um poema? O nó da questão não está aí. como se o olhar do verme fosse oblíquo. esta. obscurece tudo que não seja luz autoprojetada. talvez. Por que não deste Um raio.e nem se lembrar do restante. em música popular. talvez. Assim. E aí. O conflito se instaura sob fina ironia: lá pelas tantas o verme afirma/indaga: “Ceguei! ceguei da tua luz?”. Afinal. a palavra falada. Mas. Daí fica aquela parte da música martelando nossa memória como um ímã. Estrela nunca eu te supus! Olho. Principalmente no leitor da época: lembremo-nos de que a Semana de Arte Moderna. vira batuque na mesa. ou seja. não pôde ser. que sou. valeu. a forma (= a linguagem do poema) e o fundo (= as idéias do poema) devem ser encarados enquanto unidade indissolúvel. de trás para frente. um verme. Sinal evidente de que a música. A escolha inusitada do verme dialogando com a estrela provoca estranheza no leitor de poesia. que a gente não consegue esquecer .. assovio. a canção fica em nós. por sua vez. que liberaria definitivamente a poesia (e a arte) de suas traumáticas amarras formais e temáticas. Isto mesmo. a canção não é a soma da letra com a música: é o todo único de letramúsica.. ao lado da palavra cantada. ora! enfim. mas que. sobre a qual sempre perguntamos: “como é mesmo o resto?”. Um tripé que não sabemos como conseguir. lido pelo final. a canção. Olho e não vejo a tua luz! Vamos. o xis da questão está na integração contínua da forma com fundo. como um disco riscado. ao teu viver? Não te lembrava. mas na pertinência (eficácia) da música ao poema. Mas como uma coisa boa. brando. No caso. compasso nos pés. ou mesmo repetição interminável de um mesmo trechinho. feito. Todavia. Mais: o resultado final deve incorporar a naturalidade do canto.. se cantar pudesse um verme. ou seja.Mas.. toca nosso coração. refazendo-se à luz da estrela. luz que a espelhe e espalhe na imensidão narcísica de si mesma. é facilmente identificado. Eu cantaria a tua luz! E eras assim.. Quer seja. cantar é falar com entonação sistematizadamente criativa. por que não deste Somente um raio ao teu viver? Olho.. examino-me a epiderme. examino-me a epiderme. 36 . que só “cai bem” (vimos em colunas anteriores) quando o canto respeita a naturalidade da fala. faz referência às duas vozes diferentes do poema: a do verme e a da estrela. só viria a acontecer anos depois da morte de Kilkerry. Gira em nossa cabeça. Ceguei! ceguei da tua luz? Uma curiosidade: neste poema o início se evidencia às avessas.

Paulo: Ateliê Editorial. Antonio. 2004. ritmos. Tradução de Maria do Carmo Vieira Raposo e Alberto Raposo. POUND. ed. b) Veja como cada um destes poetas e/ou teóricos produzem poesia e teoria. 8. Versos. Lisboa: Editorial Estampa. 37 . (Série Fundamentos). ver. Tradução de Augusto de Campos. c) Qual a contribuição da infopoesia? d) Todo poema musicado apresenta resultados satisfatórios tanto para a poesia como para a canção? BIBLIOGRAFIA BARBOSA. I. PIGNATARI. 2007. Augusto de. Haroldo de & PIGNATARI. 11. Frederico (org). sons. Alckmar Luiz dos Santos. Cinco séculos de poesia: antologia de poesia clássica brasileira. etc. ed. Teoria da Poesia Concreta. de André Vallias. Norma. ed. S. 3ª ed. S. Décio. São Paulo: Ática (Col. Discuta com colegas. CAMPOS. Faça anotações. 2005. Décio. Ricardo Aleixo. 6). Pedro Barbosa. Paulo: Ática. Paulo: Ateliê Editorial. LOTMAN. CANDIDO. Na sala de aula: caderno de análise literária. e atual. 2006. 2006. 2003. Ezra. O que é comunicação poética. 14. Princípios. GOLDSTEIN. São Paulo: Landy. ABC da literatura. S. Augusto de Campos. ed. A estrutura do texto artístico. São Paulo: Cultrix. v. 1978. CAMPOS.SUGESTÃO: a) Você pode entender melhor o que falamos nesta unidade visitando os sites do Centro de Estudos sobre Texto Informático e Ciberliteratura (CETIC).

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