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MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro

A MORENINHA
Joaquim Manuel de Macedo

1

Aposta Imprudente

Bravo! exclamou Filipe, entrando e despindo a casaca, que pendurou em um cabide
velho. Bravo!... interessante cena! mas certo que desonrosa fora para casa de um estudante
de Medicina e já no sexto ano, a não valer-lhe o adágio antigo: - o hábito não faz o monge.
- Temos discurso!... atenção!... ordem!... gritaram a um tempo três vozes.
- Coisa célebre! acrescentou Leopoldo. Filipe sempre se torna orador depois do
jantar...
- E dá-lhe para fazer epigramas, disse Fabrício.
- Naturalmente, acudiu Leopoldo, que, por dono da casa, maior quinhão houvera no
cumprimento do recém-chegado; naturalmente. Bocage, quando tomava carraspana,
descompunha os médicos.
- C’est trop fort! bocejou Augusto, espreguiçando-se no canapé em que se achava
deitado.
- Como quiserem, continuou Filipe, pondo-se em hábitos menores; mas, por minha
vida, que a carraspana de hoje ainda me concede apreciar devidamente aqui o meu amigo
Fabrício, que talvez acaba de chegar de alguma visita diplomática, vestido com esmero e
alinho, porém, tendo a cabeça encapuzada com a vermelha e velha carapuça do Leopoldo;
este, ali escondido dentro do seu robe-de-chambre cor de burro quando foge, e sentado em
uma cadeira tão desconjuntada que, para não cair com ela, põe em ação todas as leis de
equilíbrio, que estudou em Pouillet; acolá, enfim, o meu romântico Augusto, em ceroulas,
com as fraldas à mostra, estirado em um canapé em tão bom uso, que ainda agora mesmo
fez com que Leopoldo se lembrasse de Bocage. Oh! VV. SS. tomam café!... Ali o senhor
descansa a xícara azul em um pires de porcelana... aquele tem uma chávena com belos
lavores dourados, mas o pires é cor-de-rosa... aquele outro nem porcelana, nem lavores,
nem cor azul ou de rosa, nem xícara... nem pires... aquilo é uma tigela num prato...
- Carraspana!... carraspana!...
- O’ moleque! prosseguiu Filipe, voltando-se para o corredor, traze-me café, ainda
que seja no púcaro em que o coas; pois creio que a não ser a falta de louças, já teu senhor
mo teria oferecido.
- Carraspana!... carraspana!...
- Sim, continuou ele, eu vejo que vocês...
- Carraspana!... carraspana!...

2

- Não sei de nós quem mostra...
- Carraspana!... carraspana!...
Seguiram-se alguns momentos de silêncio; ficaram os quatro estudantes assim a
modo de moças quando jogam o siso. Filipe não falava, por conhecer o propósito em que
estavam os três de lhe não deixar concluir uma só proposição, e estes, porque esperavam
vê-lo abrir a boca para gritar-lhe: carraspana!...
Enfim, foi ainda Filipe o primeiro que falou, exclamando de repente:
- Paz! paz!...
- Ah! já?... disse Leopoldo, que era o mais influído.
- Filipe é como o galego, disse um outro; perderia tudo para não guardar silêncio
uma hora.
- Está bem, o passado, o passado; protesto não falar mais nunca na carapuça, nem
nas cadeiras, nem no canapé, nem na louça do Leopoldo... Estão no caso... sim...
- Hein?... olha a carraspana.
- Basta! vamos a negócio mais sério. Onde vão vocês passar o dia de Sant’Ana?
- Por quê?... temos patuscada?... acudiu Leopoldo.
- Minha avó chama-se Ana.
- Ergo!...
- Estou habilitado para convidá-los a vir passar a véspera e dia de Sant’Ana conosco
na ilha de...
- Eu vou, disse prontamente Leopoldo.
- E dois, acudiu Fabrício.
Augusto só guardou silêncio.
- E tu, Augusto?... perguntou Filipe.
- Eu?... eu não conheço tua avó.
- Ora, sou seu criado; também eu não a conheço, disse Fabrício.
- Nem eu, acrescentou Leopoldo.
- Não conhecem a avó; mas conhecem o neto, disse Filipe.
- E demais, tornou Fabrício, palavra de honra que nenhum de nós tomará o trabalho
de lá ir por causa da velha.
- Augusto, minha avó é a velha mais patusca do Rio de Janeiro.
- Sim?... que idade tem?
- Sessenta anos.
- Está fresquinha ainda... Ora... se um de nós a enfeitiça e se faz avô de Filipe!...
- E ela, que possui talvez seus duzentos mil cruzados, não é assim, Filipe? Olha, se é
assim, e tua avó se lembrasse de querer casar comigo, disse Fabrício, juro que mais
depressa daria o meu “recebo a vós” aos cobres da velha, do que a qualquer das nossas
“toma-larguras” da moda.
- Por quem são!... deixem minha avó e tratemos da patuscada. Então tu vais,
Augusto?
- Não.
- É uma bonita ilha.
- Não duvido.
- Reuniremos uma sociedade pouco numerosa, mas bem escolhida.
- Melhor para vocês.
- No domingo, à noite, teremos um baile.
- Estimo que se divirtam.

3

- Minhas primas vão.
- Não as conheço.
- São bonitas.
- Que me importa?... Deixe-me. Vocês sabem o meu fraco e caem-me logo com ele:
moças!... moças!... Confesso que dou o cavaco por elas, mas as moças me têm posto velho.
- É porque ele não conhece tuas primas, disse Fabrício.
- Ora... o que poderão ser senão demoninhas, como são todas as outras moças
bonitas?
- Então tuas primas são gentis?... perguntou Leopoldo a Filipe.
- A mais velha, respondeu este, tem dezessete anos, chama-se Joana, tem cabelos
negros, belos olhos da mesma cor, e é pálida.
- Hein?... exclamou Augusto, pondo-se de um pulo duas braças longe do canapé
onde estava deitado, então ela é pálida?...
- A mais moça tem um ano de menos: loura, de olhos azuis, faces cor-de-rosa... seio
de alabastro... dentes...
- Como se chama?
- Joaquina.
- Ai, meus pecados!... disse Augusto.
- Vejam como Augusto já está enternecido...
- Mas, Filipe, tu já me disseste que tinhas uma irmã.
- Sim, é uma moreninha de quatorze anos.
- Moreninha? diabo!... exclamou outra vez Augusto, dando novo pulo.
- Está sabido... Augusto não relaxa a patuscada.
- É que este ano já tenho pagodeado meu quantum satis, e, assim como vocês,
também eu quero andar em dia com alguns senhores com quem nos é muito preciso estar de
contas justas no mês de novembro.
- Mas a pálida?... a loura?... a moreninha?...
- Que interessante terceto! exclamou com tom teatral Augusto; que coleção de belos
tipos!... uma jovem de dezessete anos, pálida... romântica e, portanto, sublime; uma outra,
loura... de olhos azuis... faces cor-de-rosa... e... não sei que mais: enfim, clássica e por isso
bela. Por último uma terceira de quatorze anos... moreninha, que, ou seja, romântica ou
clássica, prosaica ou poética, ingênua ou misteriosa, há de, por força, ser interessante,
travessa e engraçada; e por conseqüência qualquer das três, ou todas ao mesmo tempo,
muito capazes de fazer de minha alma peteca, de meu coração pitorra!... Está tratado... não
há remédio... Filipe, vou visitar tua avó. Sim, é melhor passar os dois dias estudando
alegremente nesses três interessantes volumes da grande obra da natureza do que gastar as
horas, por exemplo, sobre um célebre Velpeau, que só ele faz por sua conta e risco mais
citações em cada página do que todos os meirinhos reunidos fizeram, fazem e hão de fazer
pelo mundo.
- Bela conseqüência! É raciocínio o teu que faria inveja a um caloiro, disse
Fabrício.
- Bem raciocinado... não tem dúvida, acudiu Filipe; então, conto contigo, Augusto?
- Dou-te palavra... e mesmo porque eu devo visitar tua avó.
- Sim... já sei... isso dirás tu a ela.
- Mas vocês não têm reparado que Fabrício tornou-se amuado e pensativo, desde
que se falou nas primas de Filipe?...
- Disseram-me que ele anda enrabichado com minha prima Joaninha.

. e depois fazer-me caretas ao lhe dar as costas?. mau e perigoso e vocês inocentes e anjinhos. por causa de uma moça?. meus pensamentos nunca têm dama. . Por minha vida. . Sou inconstante.. porque apaixonando-me tantas vezes não chego nunca a amar uma vez. sua vaidade é tanta que se suponham inesquecíveis.A alma que Deus me deu.Nem uma coisa nem outra....Não. . a culpa. interessantes senhores. ... rindo às gargalhadas. exclamaram os três. oh!.. verdade seja que nada há mais fácil do que me ouvirem um “eu vos amo”. . . eu?.. .Não diz o que sente.. pois diz o que não sente.. . Eis o que faço.. . . se.Quem?. eu nunca amei. meus caros amigos. . é romântico.E que todo o resto do ano letivo passarás pela rua de. pois eu já me vou dispondo a fazer meu pé-de-alferes com a loura. duas e três vezes por dia. principalmente... ah!... apesar de tal. é um grandíssimo velhaco... mas sou feliz na minha inconstância...Oh!..Ei-lo aí com a sua mania. mas entre nós há sempre uma grande diferença: - vós enganais e eu desengano. sou.. pateta. . lá vai: afirmo. para que ela chame as vizinhas que lhe devem ajudar a chamar-me tolo. Augusto. porque sempre têm damas..Pode bem suceder que de ambas.O que quiserem. não se ocupa..Augusto é incorrigível. enfim..Assevero que sim. eu a ninguém escondo os sentimentos que ainda há pouco mostrei. E vós. certo. não é amor. é sensível demais para reter por muito tempo uma mesma impressão. que horror!.Não sente o que diz. meus senhores.. basbaque e . inconstante e incapaz de amar três dias um mesmo objeto.Creio que gostarei. da pálida.. numa mesma hora. . que não é minha.Faz mais do que isso. eu não amo ainda.A pálida?.. Todavia.E tu.. mas também a nenhuma pedi ainda que me desse fé. vós jurais amor eterno cem vezes por ano a cem diversas belezas... mentis.. 4 . ... digo a todas o como sou e.... ...E de que gostarás mais.Sim! esse sentimento que voto às vezes a dez jovens num só dia.. e como ele diz aquilo! . loucamente apaixonado de alguma de minhas primas. se querem.. e para quê?.. que blasonais de firmeza de rochedo. não digo o que sinto não sinto o que digo.. de todas. certamente.. que meu pensamento nunca se ocupou. para vê-la lançar-me olhos de ternura. .Assevero que não. romântico ou velhaco.. . continuou Augusto.. .. está romântico!. eu não amarei jamais..E eu afirmo que segunda-feira voltarás da ilha de. ah!. . precisarei melhor o meu programa sentimental. . . somente com o fim de vê-la.. da loura ou da moreninha?. e em toda a parte confesso que sou volúvel.Ou.. vós sois tanto ou ainda mais inconstantes que eu!. Serei incorrigível. eu digo a verdade e vós.. eu mesmo passar duas e três vezes por dia por uma só rua.. ou mesmo digo o que não sinto.Ah!. quererás porventura reqüestar minha irmã?. nem se há de ocupar de uma mesma moça quinze dias. ou sorrir-se brandamente quando eu para ela olhar.É possível. . meus senhores. às vezes. .. que horror!. pelo contrário..Está romântico!.

na sala parlamentar da casa n..Como quiseres. Fora disto só queimarei o incenso da ironia no altar de vossa vaidade. escrever-se-á um romance. muitas vezes. e um de nós dois. 20 de julho de “18. te digo eu. meu valente campeão do amor constante! . Sala parlamentar. minhas belas senhoras da moda! eu vos conheço. no caso contrário.... . 5 namorador?. Tens apenas duas primas. . em que qualquer dos quatro falou duas vezes sobre a matéria. E eram oito horas da noite quando se levantou a sessão. . e entre bravos.Ora. segunda e terceira vez o termo da aposta. e.Pagará a todos nós um almoço no Pharoux. concluiu Filipe. disse Fabrício. escreverei o triunfo da tua inconstância. tenham o direito de te fazer ganhar a aposta. Então vocês querem governar o meu coração?. o infeliz. fingirei obedecer a vossos caprichos e somente zombarei deles. Pagará um camarote no primeiro drama novo que representar o nosso João Caetano. que.Que vaidoso!. . da “rua de..Não. exclamou Filipe. . será o autor. acordaram Filipe e Augusto. talvez..Eu te mostrarei. o seguinte termo: “No dia 20 de julho de 18. . será obrigado a escrever um “romance em que tal acontecimento confesse. igual “pena sofrerá o primeiro acordante.. ... .. . esta não é má!. eu torno a afirmar que tu amarás uma de minhas primas todo o tempo que for da vontade dela. uma para responder e dez ou doze pela ordem.. sendo testemunhas os estudantes Fabrício e Leopoldo.. salva a redação. esqueço-me de vós duas horas depois de deixar-vos.Mas tu me dás muita vantagem e eu rejeitaria a menor. amante apaixonado quando vos vejo. . mas escreve. todas as belas.. Não. também estudantes. está dizendo consigo: “ele me adora”. depois de se oferecerem quinze emendas e vinte artigos aditivos.E quem perder?..Aposto que sim. se perderes.Papel e tinta. quando me ouve dizer: “sois encantadora”.Que mimos de amor que são as primas deste senhor!.” Como testemunhas: Fabrício e Leopoldo. pois.Qual almoço! acudiu Leopoldo.. alguma de vós... Ah!. Augusto escreveu primeira. escreva-se a aposta.. . se até o dia “20 de agosto do corrente ano o segundo acordante tiver amado a uma “só mulher durante quinze dias ou mais. apoiados e aplausos.. e se ganhares. Não sejam só elas as únicas magas que em teu favor invoques para me encantar. porém. .Bem. é um número de feiticeiras muito limitado.. a vaidade de todas as belas. enquanto eu digo também comigo: “que vaidosa!” .. mas depois de longa e vigorosa discussão. escreverás a história da tua derrota.Aposto que não. Salva a redação.Juro que não.. . foi aprovado. caiu tudo por grande maioria. Acordantes: Filipe e Augusto. Meus sentimentos ofendem. nem camarote...Nem almoço. . 2 .

mas um sábado véspera de Sant’Ana. o moringue. estava cuidadoso Augusto. Augusto está só. de cartas de família. sempre entendi que uma namorada é traste tão essencial ao estudante como o chapéu com que se cobre ou o livro em que estuda. Era Rafael. que de momento a momento exclamava: . porque Augusto não se quis convencer de que deveria dar um ponto na Clínica para ir com eles ao amanhecer. onde ele guarda os seus livros. bem viste as impertinências de Filipe e Leopoldo.. O meu sistema era este: . um cabide. o castiçal. decerto. uma. Demorei o Rafael. São dez horas da noite. e tudo mais que as urgências mandavam que ele fosse. no dia seguinte retiraram-se descontentes. sentado junto de sua mesa. porém tu não ignoras que a semelhante respeito estamos discordes no mais: tu és ultra-romântico e eu ultraclássico.. do qual dependerá o meu prazer e sossego na ilha de. Eram dez horas da noite. amanhã será sábado. não é. Que macistas!.. o chapéu. não aparecia. Conto com a tua amizade.. portanto. Augusto tinha respondido: Ora vivam! bem basta que eu faça gazeta na aula de partos. Pobre do Rafael! que cavaco não dará quando lhe raparem os cabelos! Mas neste momento ouviu-se tropel na escada. Augusto. que era ao mesmo tempo o seu cozinheiro. não um sábado como outro qualquer. pois. Às sete horas.. dizia ele. pena se toda essa série de coisas que compõem a mobília do estudante. limpa-botas. tendo diante de seus olhos seis ou sete livros e papéis. e Rafael. E.. mas Leopoldo e Filipe o levaram consigo. Felizmente. e que foi aprontar o chá. o seu querido moleque. cheia de papéis. acabam de deixar-me. cabeleireiro. não vou senão às dez horas do dia. Já lá se foram quatro dias. e nada do moleque.. desse quarto saíram três amigos: Filipe. hoje é sexta-feira. a bengala e a bacia. concordando com algumas de tuas opiniões a respeito de amor. Agora ele está só. onde pendura a casaca. Leopoldo e Fabrício. à força. É inútil descrever o quarto de um estudante.. Fabrício fez-se acompanhar do moleque que servia Augusto. que trazia uma carta de Fabrício.. 6 Fabrício em Apuros A cena que se passou teve lugar numa segunda-feira. Ei-la aqui: “Augusto. Fabrício queria ainda demorar-se e mesmo ficar com Augusto. moço de recados e. O bom Rafael. enquanto Augusto lia a carta. tanto mais que foram os teus princípios que me levaram aos apuros em que ora me vejo.Vejam isto!. Principio por dizer-te que te vou pedir um favor.. Augusto via-se atormentado pela fome. é pouco mais ou menos assim o quarto de Augusto. despediram-se amuados. porque. tinha um papel de importância a mandar. Fabrício quem há de pagar as despesas da Casa de Correção.. a cama. já tocou a recolher e Rafael está ainda na rua!! Se cai nas unhas de algum beleguim.. porém. de flores e fitinhas misteriosas. Aí nada se encontra de novo. até duas canastras de roupa. Trataram da viagem para a ilha de. Ao muito acharão uma estante. que... Os sinos tocaram a recolher. Concordei mesmo algumas vezes em dar batalha a dois e três castelos a um tempo. Com justa razão. a mesa onde escreve e que só apresenta de recomendável a gaveta. Melhor seria que eu te falasse. Eis o caso. “Tu sabes. porque era longo o que tenho de escrever-te. o Sr...

Beijos por beijos antes os reais que os sonhados. apesar de romântico. eu quis experimentar o amor platônico. Assim eu não ia ao teatro para vê-la.. “Estas eram as bases fundamentais do meu sistema.. Daqui tirava eu dois proveitos. maldita curiosidade de rapaz!. nem quitutes nem empadas. tu te lembrarás que bradavas contra o meu proceder.. E por tal modo livrava-me de pagar doces. Estou em apuros. Não reqüestar moça endinheirada. “3º. como é sublime deitar-se o estudante no solitário leito e ver-se acompanhado pela imagem da bela que lhe vela no pensamento. doces. “Mas tu prosseguias: “. e. porque eu me lembro que em patologia se trata mui seriamente dos derramamentos. apesar de me ajudares a comer saborosas empadas. o poeta por amor não tem. e as asas dos delírios se desfazem. como indigno da minha categoria de estudante..E depois. “2º. Em amor a imaginação é tudo: é ardendo em chamas. esses derramamentos de alma bastante me assustavam. principalmente quando ela lhe velasse na véspera de alguma sabatina. e dirigindo-me certa noite ao teatro S. e à mercê das trevas. 2º. do que sorvê-los em sonhos e acordar com água na boca. tu exclamavas: . porque eu sempre acho muito mais apreciável sorver os beijos voluptuosos por entre os postigos de uma janela.. “Ora. e quer saber como?. e poupava os meu cobres. é elevado nas asas de seus delírios que o mancebo se faz poeta por amor.Mas quando as chamas se apagam. a saber: não pagava o moleque para me levar recados e dava sossegadamente. “Entabulei-o. que essa imagem que vela no pensamento não será a melhor companhia possível para um estudante. disse entre mim: esta noite hei de entabular um namoro romântico. meus beijos por entre os postigos das janelas. O estudante deve considerar o amor como um excitante que desperte e ateie as faculdades de sua alma: pode mesmo amar uma moça feia e estúpida.Fabrício! não convém tais amores ao jovem de letras e de espírito. Sr. “Eu então te respondia: “. contanto que sua imaginação lha represente bela e espirituosa. Augusto de uma figa!. etc. Pedro de Alcântara. nem aos bailes para com ela dançar. que tantas mil vezes se beija. “Além disto no teu sistema nunca se fala em empadas. petiscos. Saí fora do meu elemento e espichei-me completamente. “E tu me tornavas: “. quitutes apimentados e finos doces. Fingir ciúmes e ficar mal com a namorada em tempo de festas e barracas no Campo. “Ora. ou despertar ao momento de ver-se em sonhos sorvendo-lhe nos lábios voluptuosos beijos! “Ainda estes argumentos me não convenciam suficientemente. paixão romântica! Ainda não sentiste como é belo derramar-se a alma toda inteira de um jovem na carta abrasadora que escreve à sua adorada e receber em troca uma alma de moça. “Eis o caso: “Nessa noite fui para o superior. derramada toda inteira em suas letras. nunca viraste as costas nem fizeste má cara a esses despojos de minhas batalhas. no meu eles aparecem e tu. entabulei-o. festas e outras impertinências. e não podia .É porque ainda não experimentaste o que nos prepara o que se chama amor platônico. 7 “1º. eu ia entabular um namoro romântico. porque eu pensava: 1º. com que as belas pagavam por vezes minha assiduidade amantética.. “Mas enfim.. Não namorar moça de sobrado. como eu.

com a maior força. espirrei e a pequena. que tinha estado no vácuo.. Veio o pano finalmente abaixo.. empinando-se. quando de novo olhei para o camarote.. “. fui o primeiro a sentar-me.Agora sim.. vi se irem enchendo os camarotes.. sem dizer por quê. consegui entrar antes de todos. subi para os camarotes e fui dar comigo no corredor da quarta ordem. A porta estava cerrada. eu podia muito bem mandar-lhe um recado pelo qual me fizesse conhecido. sim senhor. melhor. Começou a ouverture.. dá-lhe a ligeireza.Pois que lhe fiz eu. pois. quando a moça ergueu-se por sua vez e retirou-se para dentro do camarote. Ora. vi uma que olhava para o meu lado. estava-lhe o todo dizendo para o que servia!. assoei-me. tomei tabaco. queira perdoar!. Augusto.. “. “Ah! maldito crioulo. disse eu comigo mesmo.. erguendo-me para tornar-me mais saliente. Consultei com meus botões como devia principiar e concluí que para portar-me romanticamente deveria namorar alguma moça que estivesse na quarta ordem. mas que importa? Um romântico não cura dessas futilidades..Ó senhor. vi-o descer e subir depois. Para ser tudo à romântica. nova desgraça! Mal me tinha levantado. da casaca o meu lenço branco. alterando-me. fui ao fim do corredor e voltei de novo: um pensamento esquisito e singular acabava de me brilhar na mente. lembrava-me que nesse camarote a minha querida era a única que se achava vestida de branco e. parecia que o negócio com ela não era. todo vestido de branco.. com lábios grossos e de nácar. “Sem pensar no que fazia. ó infortúnio!. “. batendo com o pé com toda a força. ainda o lustre monstro não estava aceso.. a moça se tinha voltado completamente para a tribuna.Não tenho que lhe dar satisfações.. que fariam inveja a uma baiana. começará o nosso telégrafo a trabalhar. respondi-lhe amuado.Acaba de pisar-me.. cabalístico e fatal! repara que em tudo segui o romantismo). Levantei os olhos. “. gemendo e fazendo uma careta horrível.. “Porém. “ E dando mil desculpas ao homem.Isto só pelo diabo!. 8 ser de outro modo. o meu companheiro da esquerda. “Eu tinha visto junto à porta n. saí para fora do teatro.º 3 um moleque com todas as aparências de ser belíssimo cravo-da-índia. Tirei.. sem olhar para o meu lado. achei-me no mundo: o teatro estava cheio.. nada. “Confesso que deveria ter notado que a minha paixão começava debaixo de maus auspícios.O senhor está doido?! disse-me.. os teus maus conselhos me empurravam para diante com força de gigante.. Representou-se o primeiro ato. avancei para o moleque. e então pensei comigo mesmo: seja aquela!. pois.. tossi. abracei-me com ele.Tem. exclamei eu involuntariamente. passei junto do camarote de minhas atenções: era o n. retorquiu-me o sujeito. E. nem caso.. um crioulinho de 16 anos. Porém. mas a minha má fortuna ou. tendo dois olhos belos. Pinta na tua imaginação. brilhante de luzes. pois. vivíssimos e cuja esclerótica era branca como o papel em que te escrevo. Tempo perdido. Não sei se é bonita ou feia. ela voltou os olhos para a cena. “.º 3 (número simbólico. para fingir que enxugava o suor. então? acudi. “. a inquietação e rapidez de movimento de um macaco e terás feito .. abanar-me e enfim fazer todas essas macaquices que eu ainda ignorava que estavam condenadas pelo romantismo. ocultando duas ordens de finos e claros dentes. com uma cara mais negra e mais lustrosa do que um botim envernizado. “. “. no melhor calo do meu pé direito. finalmente eu. levantou-se o pano. grandes.. pensando no meu amor. nem por que não .

lesto e agudo. etc. se acha loucamente apaixonado de sua beleza. meu senhor!.Sim. batendo no meu ouvido.Hás de levar um recado à Sra. “.. “. Sr. isso era já muito para quem a via pela primeira vez..Pronto.. e hoje. “. quando ela para ele olhar..Pelos olhos se conhece quem tem lombrigas. fiel como um cão e vivo como um gato. “.. o recado de meu senhor é uma carambola que. D. há três meses que não como ..Pois toma sentido. Augusto dos meus pecados. “. “.Como se chama a senhora que está vestida de branco? “. “. “. perguntei.. meu senhor! prontíssimo. meus parceiros me chamam orelha de cesto. Luísa. etc.Pois dize-lhe que o moço que se sentar na última cadeira da 4. que também aí está. “Não me foi preciso chamá-lo. Bastou um movimento de olhos para que o Tobias viesse a mim. etc.. e que se chama a Ilma. tem 17 anos e morre por casar. Das duas uma: ou poderás falar com ela hoje ou só amanhã.Como te chamas? “.Eu recompensar-te-ei. “... Sra. pé de coelho e boca de taramela.A Sra. Nestas coisas Tobias não cochila: com licença de meu senhor. que se chama Tobias.. Eu continuei. agora mesmo. D. senhor. “O maldito do crioulo era um clássico a falar português. O meu defunto senhor era negociante e o pai de minha senhora é padre. “.E quem são?. 9 idéia desse diabo de azeviche. “. n.Mais pronto. “Finalmente. Já não tenho tempo de exercer o meu classismo. eu cá sou doutor nisto.Quem te disse isso?. Joana. se fores fiel.Pronto. crioulo de qualidades. concedendo-me apenas amiudados e curiosos olhares.º.Por agora toma estes cobres. Joaninha.Ouve. “. me respondeu ele. rindo-se desavergonhadamente.Ó. “Ignoro de que meios se serviu o Tobias para executar a sua comissão. “. repetiu de novo o crioulo. Levei-o para um canto.. O que sei é que antes de começar o 2. escravo de meu senhor. mais lesto e mais agudo! “. “.. ao lado esquerdo de quem vai para cima. Joana.Tobias. “. eu já sei o que se diz nessas ocasiões: o discurso fica por minha conta..Tu pertences àquelas senhoras que estão no camarote... e elas moram na rua de. embora a moça não correspondesse aos sinais do meu telégrafo. ao anoitecer. respondeu-me o moleque. “. “. o negócio adiantou-se.º ato já eu havia feito o sinal.Hoje. lesto e agudo. que assoar-se com um lenço de seda verde. etc. tarde me arrependo e não sei como me livre de semelhante entaladela.Sim.Não precisa dizer duas vezes. vai logo bater no da senhora D..E amanhã.. “. espera-me na porta de tua casa.São duas filhas de uma senhora viúva. “. pois o Tobias não me sai da porta.. “. a cuja porta te encostavas?. e então comecei a pôr em ação toda a mímica amantética que me lembrou: o namoro estava entabulado. lestíssimo e agudíssimo.ª coluna da superior. Vá dizendo o que quiser que em menos de dez minutos minha senhora sabe tudo.. D. “. senhor..

os reformadores dizem: menina simpática!. de custo de 400rs.. “Entende que todos os dias lhe devo dar dinheiro e persegue-me de maneira tal que. Joana leu o Faublas. “Para bem rematar o quadro das desgraças que me sobrevieram com a tal paixão romântica que me aconselhaste. não só por amizade. o mesmo a respeito de bailes. e no meio de seus caprichos de menina dá-me provas do mais constante e desvelado amor. os botins que calço.. o que sucede quatro vezes no mês. mostra amar-me com extremo. pois não há pela vizinhança gordurento caixeirinho que se não ria nas minhas barbas quatro vezes por dia. hoje é ao contrário: sublime languidez!. com seu romantismo a que me não posso acomodar. isto é detestável. Vocês. que sou clássico em corpo e alma e que. Esta despesa arrasa-me a mesada terrivelmente. porque eu não sei onde vá buscar mais cruzados para comprar papel.º Devo ir ao teatro sempre que ela for. a chamariam “pálida”. prima de Filipe. “Eis aqui. e cor dos meus lenços. ela quer governar os meus cabelos. dou às coisas o seu verdadeiro nome. Ora. o que. “O Tobias está no caso de muitos que. cum quibus. “3. D. me é participado. como por dever. Boa recomendação!. para ver-me livre dele. se torna sobretudo insofrível é o despotismo que exerce sobre mim o brejeiro do Tobias. principia a minha vergonha. as minhas barbas. “Eu preciso de um pretexto mais ou menos razoável para descartar-me da tal “pálida”.. D. desenxabimento.. conto que me ajudarás no que te vou propor.. ordenou-me que não fumasse charutos de Havana nem de Manilha. nem mais asneiras para lhe escrever. Eu. “Malditos românticos. dir-te-ei. a chamarei sempre “amarela”. A escola dos românticos reformou tudo isso. quatro cartas por semana. a despeito da minha má vontade. aqui te escrevo alguma das principais exigências da minha amada romântica. porque era isto falta de patriotismo. mas que importa isso.. Para maior martírio a minha querida é a Sra. Lembra-te que foram os teus conselhos que me obrigaram a experimentar uma paixão romântica. O que outrora se chamava em bom português. Aqui vês bem. pelo menos.. Daqui concluo que a Sra.º Devo passar por defronte de sua casa duas vezes de manhã e duas de tarde. amarela e feia como uma convalescente de febres perniciosas. faz Tobias comigo. a folha. Joana. aqui para nós.º Devo tratá-la por “minha linda prima” e ela a mim por “querido primo”. escorrego-lhe.. “Para compreenderes bem o quanto sofro. ando sempre com as algibeiras a tocar matinas. meu Augusto. “O que. portanto.. Joana. e. portanto. 10 empadas e.. As que o foram chamam-se agora espirituosas!.. “5.º Devo escrever-lhe. em papel bordado.... “E eu. se eu não posso pagar-lhe com gratidão?. “4.. a minha casaca. com antecedência. a minha bengala. .. “1. grandes e excelentes parladores. o lamentável estado em que me acho.. antigamente.º Ao teatro e bailes devo levar no pescoço um lenço ou manta da cor da fita que ela porá em seu vestido ou no cabelo. porém. apesar de minhas economias. que têm crismado tudo e trocado em seu crismar os nomes que melhor exprimem as idéias”!. Já não há mais meninas importunas e vaidosas. não posso deixar de convencer-me que a minha “linda prima” é. Como eles fazem ao país. moça feia. D. são péssimos financeiros na prática. em consideração ao belo sexo.. O que numa moça era. Isto é um despotismo detestável!. “Finalmente. apesar dos tratos que dou à minha imaginação. que sempre depois de longo discurso me apresenta um déficit e pede-me um crédito suplementar. por último. “2.

correrei a apertar-te contra meu peito. A avenida por onde iam os estudantes a divide em duas metades. orlada de coqueiros. que é mais importante.. sempre brilhantes e viçosas. despediu o seu bateleiro. Augusto pagou. E fizemos muito bem em concluir depressa. aproveitarei o primeiro instante em que estiver a sós com D.. ciumento e delirante. não farás caso e continuarás com a reqüesta para diante. que lhes ficava a trinta braças do mar. Não sabes o que tens perdido. das quais a que fica à esquerda de quem desembarca está simetricamente coberta de belos arvoredos. “Ver-me-ás enfadado. é tão pitoresca como pequena. mas escolhida. e com facilidade. muita gente. ou pelo aspecto curioso que oferecem. A casa da avó de Filipe ocupa exatamente o centro dela. principalmente. o nosso estudante desatou a rir como um doido. persegue-a. Aí podemos levar a efeito.E esta!. Leopoldo?. depondo a carta sobre a mesa e sorvendo uma boa pitada de rapé de Lisboa.. 11 “Ela vai passar conosco dois dias na ilha de. exclamou Augusto. porque Filipe acaba de receber Augusto com todas as demonstrações de sincero prazer e o faz entrar imediatamente para a sala. . Agora..Não: pouca.. quando o batelão de Augusto abordou à ilha de. Desesperado.. Ainda que ela não te corresponda. Soprava vento fresco e. Nisto se limita o teu trabalho. “Eu então irei às nuvens. talvez que te trate com rispidez e que te dirija alguma graça pesada. pulando fora da tal paixão romântica. graças à eterna primavera desta nossa boa terra de Santa Cruz. à minha vista.Então.. No entanto. outras duas palavras sobre a casa: imagine-se uma elegante sala de cinqüenta ..Fabrício. Rir- se-ia a noite inteira. o meu plano: ele é de simples compreensão e de fácil execução. e. ele designou ao seu palinuro o lugar a que se destinava.. enquanto por uma bela avenida. daremos idéia em duas palavras. que o vinha chamar para tomar chá. muito antes do que supunha. Acabando de sorver a pitada. estimáveis. Augusto ergueu-se.Bem-vindo sejas. De tudo isto se conclui que a avó de Filipe tem no lado direito de sua casa um pomar e do esquerdo um jardim. talvez. A que fica à mão direita é mais notável ainda fechada do lado do mar por uma longa fila de rochedos e no interior da ilha por negras grades de ferro está adornada de mil flores. para não ser prolixo. Joaninha. se dirigiam à elegante casa. e começará então o meu. que se foi remando e cantando com os seus companheiros... 3 Manhã de Sábado Seriam pouco mais ou menos onze horas da manhã. “Tu deverás reqüestar. Leopoldo deu-lhe o braço.. E esta!. pois que é o teu costume. ouvindo a voz de Leopoldo que o esperava na praia. como teu amigo e colega de coração . Augusto.. farei um discurso forte e eloqüente contra a inconstância e volubilidade das mulheres. A ilha de. a tal minha querida. ou pelos frutos de que se carregam. E no meio de meus transportes dou-me por despeitado de meus amores com ela e.. Não te custará muito isso.. e deitou-se para ler mais à vontade o Jornal do Commercio... Embarcando às dez horas. o curioso estudante recém-chegado examinava o lindo quadro que a seus olhos tinha e de que. .. se não fosse interrompido pelo Rafael.” . .

12

palmos em quadro; aos lados dela dois gabinetes proporcionalmente espaçosos, dos quais
um, o do lado esquerdo, pelos aromas que exala, espelhos que brilham, e um não sei quê,
que insinua, está dizendo que é gabinete de moças. Imagine-se mais, fazendo frente para o
mar e em toda a extensão da sala e dos gabinetes, uma varanda terminada em arcos; no
interior meia dúzia de quartos, depois uma alegre e longa sala de jantar, com janelas e
portas para o pomar e jardim, e ter-se-á feito da casa a idéia que precisamos dar.
Pois bem. Augusto apresentou-se. A sala estava ornada com boa dúzia de jovens
interessantes: pareceu ao estudante um jardim cheio de flores ou o céu semeado de estrelas.
Verdade seja que, entre esses orgulhos da idade presente, havia também algumas rugosas
representantes do tempo passado; porém isso ainda mais lhe sanciona a propriedade da
comparação, porque há muitas rosas murchas nos jardins e estrelas quase obscuras no
firmamento.
Filipe apresentou o seu amigo a sua digna avó e a todas as outras pessoas que aí se
achavam. Não há remédio senão dizer alguma coisa sobre elas.
A Sra. D. Ana, este o nome da avó de Filipe, é uma senhora de espírito e alguma
instrução. Em consideração a seus sessenta anos, ela dispensa tudo quanto se poderia dizer
sobre seu físico. Em suma, cheia de bondade e de agrado, ela recebe a todos com o sorriso
nos lábios; seu coração se pode talvez dizer o templo da amizade cujo mais nobre altar é
exclusivamente consagrado à querida neta, irmã de Filipe; e ainda mais: seu afeto para com
essa menina não se limita à doçura da amizade, vai ao ardor da paixão. Perdendo seus pais,
quando apenas contava oito anos, a inocente criança tinha, assim como Filipe, achado no
seio da melhor das avós toda a ternura de sua extremosa mãe.
Ao lado da Sra. D. Ana estavam duas jovens, cujos nomes se adivinharão
facilmente: uma é a pálida, a outra a loura. São as primas de Filipe.
Ambas são bonitinhas, mas, para Augusto, D. Quinquina tem as feições mais
regulares; achou-lhe mesmo muita harmonia nos cabelos louros, olhos azuis e faces
coradas, confessando, todavia, que as negras madeixas e rosto romântico de D. Joaninha
fizeram-lhe uma brecha terrível no coração.
Além destas, algumas outras senhoras aí estavam, valendo bem a pena de se olhar
para elas meia hora sem pestanejar. Toda a dificuldade, porém, está em pintar aquela
mocinha que acaba de sentar-se pela sexta vez, depois que Augusto entrou na sala: é a irmã
de Filipe. Que beija-flor! Há cinco minutos que Augusto entrou e em tão curto espaço já ela
sentou-se em diferentes cadeiras, desfolhou um lindo pendão de rosas, derramou no chapéu
de Leopoldo mais de duas onças d’água-de-colônia de um vidro que estava sobre um dos
aparadores, fez chorar uma criança, deu um beliscão em Filipe e Augusto a surpreendeu
fazendo-lhe caretas: travessa, inconseqüente e às vezes engraçada; viva, curiosa e em
algumas ocasiões impertinente. O nosso estudante não pode dizer com precisão nem o que
ela é, nem o que não é: acha-a estouvada, caprichosa e mesmo feia; e pretende tratá-la com
seriedade e estudo, para nem desgostar a dona da casa, nem se sujeitar a sofrer as
impertinências e travessuras que a todo momento a vê praticar com os outros. Enfim, para
acabar de uma vez esta já longa conta das senhoras que se achavam na sala, diremos que aí
se notavam também duas velhas amigas da dona da casa: uma, que só se entreteve, se
entretém e se há de entreter em admirar a graça e encantos de duas filhas que consigo
trouxera; e outra, que pertence ao gênero daquelas que nas sociedades agarram num pobre
homem, sentam-no ao pé de si, e, maçando-o duas e três horas com enfadonhas e
intermináveis dissertações, finalmente o largam, supondo que lhe têm feito grande honra e
dado maior prazer.

13

Quanto aos homens... Não vale a pena!... vamos adiante.
Estas observações que aqui vamos oferecendo fez também Augusto consigo mesmo,
durante o tempo que gastou em endereçar seus cumprimentos e dizer todas essas coisas
muito banais e já muito sediças, mas que se dizem sempre de parte a parte, com obrigado
sorrir nos lábios e indiferença no coração. Concluída essa verdadeira maçada e reparando
que todos tratavam de conversar, para melhor passar as horas e esperar as do jantar, ele
voltou o rosto com vistas de achar uma cadeira desocupada junto de alguma daquelas
moças; porém, ó monfina do pobre estudante!... Ó itempestivo castigo dos seus maiores
pecados!... a segunda das duas velhas, de quem há pouco se tratou, estendeu a mão e
chamou-o, mostrando com o dedo carregado de anéis um lugar livre junto dela.
Não havia remédio: era preciso sofrer, com olhos enxutos e o prazer na face, o
martírio que se lhe oferecia. Augusto sentou-se ao pé da Sra. D. Violante.
Ela lançou-lhe um olhar de bondade e proteção e ele abaixou os olhos, porque os de
D. Violante são terrivelmente feios e os do estudante não se podem demorar por muito
tempo sobre espelho de tal qualidade.
- Adivinho, disse ela, com certo ar de ironia, que lhe está pesando demais o
sacrifício de perder alguns momentos conversando com uma velha.
- Ó minha senhora! respondeu o moço, as palavras de V. S. fazem grande injustiça a
si própria e a mim também: a mim, porque me faz bem cheio de rudeza e mau gosto; e a si,
porque, se um cego as ouvisse, certo que não faria idéia do vigor e da...
- Olhem como ele é lisonjeiro!... exclamou a velha, batendo levemente com o leque
no ombro do estudante, e acompanhando esta ação com uma terrível olhadura, rindo-se
com tão particular estudo, que mostrava dois únicos dentes que lhe restavam.
Augusto olhou fixamente para ela e conheceu que na verdade se havia adiantado
muito. D. Violante era horrivelmente horrenda, e com sessenta anos de idade apresentava
um carão capaz de desmamar a mais emperreada criança.
A conversação continuou por uma boa hora; o tédio do estudante chegou a ponto de
fazê-lo arrepender-se de ter vindo à ilha de... Três vezes tentou levantar-se, mas D. Violante
sempre tinha novas coisas a dizer. Falou-lhe sobre a sua mocidade... seus pais, seus amores,
seu tempo, seu finado marido, sua esterilidade, seus rendimentos, seu papagaio e até suas
galinhas. Ah!... falou mais que um deputado da oposição, quando se discute o voto de
graças. Finalmente parau um instante, talvez para respirar, começar novo ataque de maçada.
Augusto quis aproveitar-se da intermitência: estava desesperado e pela quarta vez ergueu-
se.
- Com licença de V. S.
- Nada! disse a velha, detendo-o e apertando-lhe a mão, eu ainda tenho muito que
dizer-lhe.
- Muito que dizer?... balbuciou o estudante automaticamente, deixando-se cair sobre
a cadeira, como fulminado por um raio.
- O senhor está incomodado?... perguntou D. Violante, com toda a ingenuidade.
- Eu... eu estou às ordens de V. S.
- Ah! vê-se que a sua delicadeza iguala à sua bondade, continuou ela com um acento
meio açucarado e terno.
- Oh, castigo de meus pecados!... pensou Augusto consigo; querem ver que a velha
está namorada de mim?!! e recuou sua cadeira meio palmo para longe dela.
- Não fuja... prosseguiu D. Violante, arrastando por sua vez a cadeira até encostá-la
à do estudante, não fuja... eu quero dizer-lhe coisas que não é preciso que os outros ouçam.

14

- E então? pensou de novo Augusto, fiz ou não uma galante conquista?... E suava
suores frios.
- O senhor está no quinto ano de Medicina?...
- Sim, minha senhora.
- Já cura?
- Não, minha senhora.
- Pois eu desejava referir-lhe certos incômodos que sofro, para que o senhor me
dissesse que moléstia padeço e que tratamento me convém.
- Mas... minha senhora... eu ainda não sou médico e só no caso de urgente
necessidade me atreveria...
- Eu tenho inteira confiança no senhor; me parece que é o único capaz de acertar
com a minha enfermidade.
- Mas ali está um estudante do sexto ano...
- Eu quero o senhor mesmo.
- Pois, minha senhora, eu estou pronto para ouvi-la: porém julgo que o tempo e o
lugar são poucos oportunos.
- Nada... há de ser agora mesmo.
Ah!... A boa da velha falou e tornou a falar. Eram duas horas da tarde e ela ainda
dava conta de todos os seus costumes, de sua vida inteira; enfim, foi uma relação de
comemorativos como nunca mais ouvirá o nosso estudante. Às vezes Augusto olhava para
seus companheiros e os via alegremente praticando com as belas senhoras que
abrilhantavam a sala, enquanto ele se via obrigado a ouvir a mais insuportável de todas as
histórias. Daqui e de certos fenômenos que acusava a macista, nasceu-lhe o desejo de tomar
uma vingançazinha. Firme neste propósito, esperou com paciência que D. Violante fizesse
ponto final bem determinado a esmagá-la com o peso do seu diagnóstico e ainda mais com
o tratamento que tencionava prescrever-lhe.
Às duas horas e meia a oradora terminou o seu discurso, dizendo:
- Agora quero que, com toda a sinceridade, me diga se conhece a minha
enfermidade e o que devo fazer.
- Então V. S. dá-me licença para falar com toda a sinceridade?
- Eu o exijo.
- Pois, minha senhora, atendendo tudo quanto ouvi e principalmente a estes últimos
incômodos, que tão a miúdo sofre, e de que mais se queixa, como tonteiras, dores no
ventre, calafrios, certas dificuldades, esse peso dos lombos, etc., concluo e todo o mundo
médico concluirá comigo, que V. S. padece de...
- Diga... não tenha medo.
- Hemorróidas
D. Violante fez-se vermelha como um pimentão, horrível como a mais horrível das
fúrias, encarou o estudante com despeito, e, fixando nele seus tristíssimos olhos furta-cores,
perguntou:
- O que foi que disse, senhor?...
- Hemorróidas, minha senhora.
Ela soltou uma risada sarcástica.
- V. S. quer que lhe prescreva o tratamento conveniente?
- Menino, respondeu com mau humor, tome o meu conselho: outro ofício; o senhor
não nasceu para médico.
- Sinto ter desmerecido o agrado de V. S. por tão insignificante motivo. Rogo-lhe

Se a Sra.. preciso seria que Fabrício aproveitasse um momento de loucura. Violante. mostrando-lhe um lugar junto de sua neta.. e já se dispunha a travar conversação com a menina travessa. pois. não é um crime. .. até o dia de hoje ainda não me supus boneca. não é pelo menos louca e repreensível leviandade. Augusto passe junto a mim momentos tão agradáveis. acudiu Augusto. 4 Falta de Condescendência Fabrício acaba de cometer um grave erro e que para ele será de más conseqüências.. .Aquela menina lhe poderá divertir alguns instantes.... .. eu estimaria falar-te já. a fibra do amor. eu devo ir apressar o jantar. senhor.Creio que não é preciso que seja imediatamente.. Além de que.Nada. minha senhora. . pela grande vitória que acabava de alcançar. Augusto gostou da ironia.. cujo único delito é ter sabido amar o ingrato com exagerado extremo. Violante. disse: . Ora. é apenas perdoável e . o lugar e as circunstâncias lhe eram completamente desfavoráveis. disse ele com os seus botões. e vendo-o deixá-la. quando mais não desse.Este não nasceu para Medicina! Mas Augusto. minha avó.. como lhe foram as horas que gozou ao pé da Sra. deve medir bem o tempo. eu serei bem feliz se puder fazer com que o senhor. o estudante ergueu-se..De estudante.Contudo.. .. um desses instantes de capricho e de delírio em que Augusto pensasse que ferir a fibra mais sensível e vibrante do coração da mulher. pois leu no seu rosto que a conversação que teve com a Sra. E procurava uma cadeira. . exclamou a menina com prontidão. Isto dizendo. o Sr. Quem pede e quer ser servido. D. A digna hóspede compreendeu perfeitamente os desejos do estudante. querendo retê-la. Por mim não seja. não quero que o Sr. mesmo um apetite de. eu o ouvirei mais tarde. Fabrício me olhe com maus olhos.Acabe.Menina!. .Augusto. e Fabrício não soube conhecer que o tempo. disse em tom profético: . . Carolina o permitisse.. Violante. . E mal o disse.. a travessa moreninha correu para fora da sala. disse a menina erguendo-se. cuja vizinhança lhe conviesse.Agora. dava graças ao poder do seu diagnóstico e augurava muito bem de seu futuro médico. quando Fabrício se chegou a eles e disse a Augusto: . de.. Vai exigir que Augusto o ajude a forjar cruel cilada contra uma jovem de dezessete anos.. para conseguir semelhante torpeza.. o lugar e as circunstâncias. sim. minha senhora... . D.Tu me deves dar uma palavra. a velha já não fez o menor movimento para o demorar. mas eu julguei dever dizer o que entendia.Mas. ao menos produziu-lhe muito apetite.Não. afastando-se de D. . vou recuperar o tempo perdido. . 15 que me desculpe. D.

tive a paciência de lê-la toda.A minha carta?. dos tais que por semelhante povo são como formiga por açúcar. o que eu quero é desgrudar-me do fatal contrabando. Voltados um para o outro. juras amor eterno. para se achar em toda a liberdade. porque.Por tua culpa.. . e o primeiro com ares de quem ia tratar importante negócio.Espero a tua resposta. e principalmente um estudante com fome. O lugar não menos lhe era desfavorável.Eu a li.E então?. a pesar teu. Eles se dirigiram ao gabinete do lado direito da sala.Não. a influência cativadora da formosura em botão. Ora. respondeu o outro. diante de um ranchinho de belas moças.Quem é que te fala em peteca?. o braço de Augusto e ambos saíram da sala: este com vivos sinais de impaciência. Enfim. .. fechou Fabrício a porta sobre si. e ele tem razão! Por último. estavam sós.Ainda me não perguntaste nada.. que não acharia nem mais uma só dose homeopática desse tão necessário confortativo para despender com o novo macista. um rapaz.Então tu. criança por campainha. . Ainda quando não houvesse nele muita generosidade.. ..Então o quê.. encontrando os de Fabrício. . de beleza virgem ainda.. . . pois a Sra. 16 interessante divertimento de rapazes. o poderoso magnetismo de vinte olhos belos como o planeta do dia. de uma anjo. terá de sair de seu empenho com tantas contrariedades. Violante havia tido o poder de esgotar toda a elástica paciência do pobre estudante. deixa-te disso. vamos mangar com a moça. . e entrando.Ora. Joaninha.Então... . . . se aborrece de tudo. deves respeitar e cultivar nobre sentimento que te liga a D. Fabrício? . Fabrício tomou.. Joaninha os acompanhou com os olhos e riu-se brandamente. estava para desarmá-lo o poder indizível da inocência..Eu desengano: previno a todas que minhas paixões têm apenas horas de vida. pois... e tu. Mas Fabrício olvidou tudo. A inocente D. macaco por banana. como os outros. quem poderá tramar contra o sossego delas?. porque Augusto começa a sentir todos os sintomas de apetite devorador.Tu estás doido. Então Augusto. Pelo contrário.. .A resposta?. o qual fora destinado para os homens.. disse Fabrício. Que se diria do teu procedimento.Pois então cuidas que o amor de uma senhora deve ser peteca com que se divirtam dois estudantes?. o tempo não lhe é propício. Augusto. sem a mais pequena desculpa?... . por espaço de três meses. principalmente do que lhe cheira a maçada.. e mal. enfim. as circunstâncias também contrariavam Fabrício.. se depois de trazeres uma moça toda cheia de amor e fé na tua constância. sim.. D.Aquilo não tem resposta. homem?. .. a desprezasses sem a menor aparência de razão. Foi Augusto quem teve de rompê-lo. e nessa hora não podia Augusto raciocinar tão indignamente. . . porque é símbolo de um anjo a virgindade de uma jovem bela.. ficamos a jogar o siso? . sem dúvida. com o teu sistema de. guardaram alguns momentos de silêncio. que teve ainda bastante audácia para fingir um sorriso de gratidão.

Joaninha. juízo e dinheiro.. a tal paixãozinha me esgotou já paciência..Oh! oh! oh!. o Tobias.Quem.. segue-se que estou encadernado nos axiomas da ciência. com os olhares. . Joaninha.Pois bem. fingindo ciúmes..Pois que dúvida? Para viver-se vida boa e livre é preciso andar com o olho aberto e pé ligeiro. isso não te custava cinco minutos de trabalho.. inconstante por índole e por sistema.Torno a dizer-te que estás doido. não vês o que se passa a duas polegadas do nariz. com a facilidade e indústria com que a aranha prende a mosca na teia.. não posso suportar o peso: escrever quatro cartas por semana. Não te supunha tão adiantado! . portanto. 17 . Joaninha é um peixão. suspiros a tempo. Ora. uma desenxabida.Estou desconhecendo-te. tu verás que eu estou na regra. . rir e fugir. Eu reqüestaria D.. saí do meu elemento. .. porque as moças têm ultimamente tomado por mote de todos os seus apaixonados extremos ternos afetos e gratos requebros. uma verdadeira traição. o alfenim da casa. estes três infinitos de verbos: . eu apenas te disse que não sabias o gosto que tinha o amor à moderna.. . D.. palavra de honra. Não a quero mais.. . meu amigo.. fica de gaiola para todo o resto de seus dias.Bravo! bravo! foi muito bem respondido. palavrinhas doces. meu Augusto. Tu a deixavas. Tu.Com efeito!. que tenho dó te ti! Vejo que em matéria da natureza de que tratamos estás tão atrasado como eu em fazer sonetos. se o papagaio é tolo e não voa logo.. .Isso. os rapazes. . não podíamos deixar de inscrever por divisa em nossos escudos os infinitos destes três outros verbos: fingir..Que blasfêmia! . Apesar de todo o teu romantismo ou. Benedito da família!. mas. pescar e casar. que súbito acesso de moralidade é esse que tanto te perturba. Então.. . eu?. principalmente por causa dele. já que te meteste nisso..Tu sempre foste um papa-empadas. . Então as tais sujeitinhas que. deixa-te de insípidos escrúpulos e ajuda-me a sair dos apuros em que me vejo..Puxa-lhe as orelhas.iscar. uma armadilha tão emaranhada que... .. bem vês que. Augusto. ..... se ele é a cria de D. . talvez. para contrabalançar tão parlamentares e viciosas disposições. .Como?. nós. Explica-me. E. deixa-te de asneiras. avante! Além de que... Fabrício.Fabrício. zelos afetados e arrufos com sal e pimenta. Isto só! o talento que é preciso para inventar asneiras e mentiras dezesseis vezes por mês! e depois.... sorrisos. Fabrício. fui experimentar a paixão romântica. aí a tens!. são capazes de tecer de repente. pois que me acreditas capaz de servir de instrumento para um enredo. que pensas?. quero te dizer: a teoria do amor do nosso tempo aplaude e aconselha o meu procedimento. por quem és.. . e depois quem me livraria dos apertos em que necessariamente tinha de ficar?. Portanto. arranja-te como puderes.Além disso é impossível.. .Lembra-te que foste a causa principal de tudo isso.Ora.. . não é assim?. Pois meu amigo. medeixes aproximando-se.. o S. Sempre te achei com juízo e bom conceito e agora temo muito que estejas com princípios de alienação mental.. mete por força o pé no laço e adeus minhas encomendas. chama-se inspiração de bons costumes.Não sei.

Portanto. .Sim. 5 Jantar Conversado Ao escutar-se aquele aviso animador que. Cada cavalheiro deu o braço a uma senhora e. Anda.Desacredito-te na opinião das moças. . tomara eu que chegasse a hora dele!.Fabrício.Agora digo mais que não quero. até o jantar! Neste momento Filipe abriu a porta do gabinete e..Mostrarei que a tua moral a respeito de amor é a pior possível. . e há dois meses que não sei o que é o cheiro delas. .Esta é melhor!.Melhor. raios de alegria brilharam em todos os semblantes. Um velho alemão ficava à esquerda dela e. até o jantar! .Não posso e não devo. .Direi que és um bandoleiro. se dirigiram para a sala de jantar. 18 .Desafio-te a isso.Bravo!. repetido pela boca de Filipe. tinha chegado até ao gabinete onde conversavam Augusto e Fabrício.É um meio de tornar-me objeto de suas atenções. guerra! . elas farão por tornar-me constante. .Tornar-me-ás interessante a seus olhos..Hei de. par a par. cuja cintura se podia abarcar completamente com as mãos. .Bravíssimo. Coube a Augusto a glória de ficar entre D. e uma jovem de quinze anos.Oh! por milhares de razões. disse: .. que lhe dera a honra de aceitar seu braço direito.. .. . não contava divertir-me tanto! . meu Augustozinho. vinte e seis pessoas. ajuda-me! . também. . .Augusto.. Quinquina. podia Augusto afirmar que D. estes dois dias. . por seu turno mais se importava com o copo do que com a . .Descubro e analiso o teu sistema de iludir a todas. Clementina prestava mais atenção a ele que aos jagodes. .. . . .Então tu teimas no teu propósito?.Vamos jantar. pretendes meter-me medo?..Ótimo!..Tenho dito. meu Fabrício. dirigindo-se aos dois. .. nestes dois dias. se é precisamente agora que estou vendo os bons resultados que ele me promete! . Eram.Eu sou capaz de vingar-me.. sem vaidade.Pois.Olha que te hás de arrepender! . Peço-te que o faças. elas se esforçarão por fazê-la boa. a falar a verdade.Antecipo-te que meu primeiro ataque terá lugar durante o jantar.. atrapalhar-te continuamente. que. entre senhoras e homens.Vê lá o que dizes! .Augusto! . guerra! .

.. se não por si. Clementina para logo recuou. tornou-lhe D.. provavelmente por ficar-lhe muito vizinha. todas nós gostamos de chamá-la Moreninha. S. mas nem por isso deixarás de ser beijada por ela!.Sim. lançou sobre elas o ridículo. E assim dizendo. A cronista fez-se cor de nácar e a sua adversária. Preciso é que os ouvidos estejam bem abertos e a atenção bem apurada. Clementina. Seu moral é belo e lânguido como seu rosto.. Clementina pertencia. e curiosa como.. continuou a menina.vis-à-vis. e. Já basta de brilhar. que decerto não poderá toda esta tarde e noite olhar para nós outras. ao menos por nós. Carolina. Parecia que uma luta interessante ia ter lugar. perco eu o amor que tinha ao astro que me ofuscou. As únicas que lhe haviam escapado eram D. sem compaixão ou desgosto. Clementina é um epigrama interminável. D. o Sr. D.. a Moreninha estendeu e apinhou os dedos de sua mão direita. as duas adversárias mostravam-se ambas fortes e decididas.. um apurado observador. e os sorrisos de Augusto. .Quem?. quando se está defronte de uma moça como D.. .. sua vivacidade e espírito se empregam sempre em descobrir e patentear nas outras as melhores brechas.. faceira como o pavão. juro- lhe que ninguém lhe iguala na habilidade de compor um mapa! . como é moda dizer . a Moreninha?. disse a irmã de Filipe. que sempre tem coisas tão engraçadas e tão inocentes para dizer!. Carolina. D. Essa. . apontando para a Moreninha. imitando-a na malícia do sorriso e no acento gracejador. Augusto deve estar tão enfeitiçado com o seu espírito e talento.. e a irmã de Filipe. não. por ofuscada. portanto. Augusto quis provocar os tiros de D. é fato que nenhuma de nós gosta de ser ofuscada com o esplendor de outra. como o copo de vinho nos do alemão. disse. respondeu ela no mesmo tom. Clementina.Acabe D. D. Clementina.. decididamente... fez . uma mulher. Quinquina (como a chamam suas amigas) conversa sofrível e sentimentalmente: é meiga. a outro gênero: o que ela é lhe estão dizendo dois olhos vivos e perspicazes e um sorriso que lhe está tão assíduo nos lábios. Quinquina. como querendo não passar por vencida... afetando um acento gracejador: .Mas. sorriu-se maliciosamente e. desta jovem senhora que está defronte de nós? perguntou ele com voz baixa.E que pensa V.Sim.. porém D. Durante as primeiras cobertas ela dissertou maravilhosamente acerca de suas companheiras. Bela rosa do jardim! teus espinhos feriram a borboleta. e mostra ser muito modesta.. não poupa a melhor de suas camaradas.Ela é travessa como o beija-flor. .. que estava defronte ou. acabava de fixar de repente na terrível cronista dois olhares penetrantes e irresistíveis.Oh! não. inocente como uma boneca. prosseguiu ainda: . . para abatê-las na opinião dos homens com quem pratica. que. por mais que contra ela se dispusesse. Oh! minha camarada. fingindo antes não prestar atenção ao que conversavam os dois... D. 19 moça.. que com destreza desafiava. que manejava. não exitaria de classificá-la entre as sonsas. você deu o cavaco?. Clementina contra aquela menina impertinente que tão pouco lhe agradava. Maliciosa e picante..Falo da irmã de Filipe. porém.. pudibunda..Mas ninguém conclua daqui que. já basta. . terna. minha senhora. com picante ironia.

a ver os olhos pardos e escovados ali do meu amigo Leopoldo.Oh! disse Augusto consigo mesmo: a tal menina travessa não é tão tola como me pareceu ainda há pouco. porém feia. e aqui principalmente..Pois é precisamente agora que eu reconheço ter chegado muito tarde ou. e D. depois de amanhã.Pois juro. continuou o estudante. tachara de irregular e feio. . respirando junto de alguém. depois de amanhã preferirei não ver.Eu não o compreendo bem. balbuciou D. minha senhora. executou com o braço um movimento. com toda a empáfia de um semidoutor. E desde então começou o nosso estudante a demorar seus olhares naquele rosto que. Coitadinho. o tal Sr. D. pelo contrário. por havê-la surpreendido fazendo-lhe uma careta. Prevenido contra D. sorrindo-se. como quem desejava travar conversação com Augusto. se incomoda. Quinquina.. disse a moça enrubescendo. . o aroma das rosas. que. que. Quinquina. cedeu um pouco a tormenta. vibrada por ligeira mão de formosa donzela. portanto. . decidiu magistralmente que a moça tinha todos os defeitos possíveis. Augusto..Não quis vir com seus colegas? .. portanto. . isso é demais! .Quem respirou o ar embalsamado dos jardins.Chegou muito tarde à ilha. . . como se atirasse o beijo sobre D. Carolina. sons de harpa sonora. . talvez cedo demais. minha senhora.. pregando nela um olhar de quem está pedindo um sim.. com tanta injustiça.. Enfim.. doem-se de ouvir o toque inqualificável da viola desafinada da rude saloia. e com tanta freqüência e tão pouca fertilidade que só a Sra. a ouvir a voz de .. espichou-se tão completamente.. Digo que... que agora mesmo já está pensando com os seus botões: ela não será bonita!... .. . cintilando em céus do mais puro azul.Pensa deveras isso.Penso.Depois de amanhã? repetiu ela. os eflúvios da angélica.Aqui.Certamente. Ana teve.. que desta vez me há de compreender perfeitamente. . não ouvir e não cheirar coisa alguma.Eu gosto de andar só.. 20 estalar um beijo no centro do belo grupo que eles formaram e. floresce e brilha o prazer. vendo eu hoje dois olhos que por sua cor e brilho se assemelham a dois belos astros de luz. minha senhora?!. por sua saúde. enfim. . enfim. e apontando depois para D..Cedo demais?. de vê-lo beber seis vezes.. voltando os olhos por todas as senhoras. continuou: .Mas às vezes também a sociedade se torna insuportável. ..Minha senhora. respondeu este.Sempre é má e triste a solidão. ouvidos que escutaram acordes. Clementina.Ainda o não entendi. mas perde-se também a liberdade de um mancebo! Os dois foram interrompidos para corresponder a uma longa e interminável coleção de brindes que o alemão principiou a desenrolar.. por exemplo.. não se chegará sempre cedo demais onde se corre algum risco? . depois de amanhã o quê? . se exaspera ao respirar logo depois a atmosfera grave e carregada de miasmas de um hospital. ..Neste lugar. Quinquina. cujo bafo é um perfume de delícias. que havia gostado do que lhe dissera o estudante. escutando uma voz tão doce como serão as melodias dos anjos. ..

disse por fim Fabrício. Carolina.Por desdita dele não houve ocasião de pôr em campo um outro sentido. apesar de amigo e colega de Augusto. . Começava então a servir-se a sobremesa.. não direi palavra. . Fabrício queria tomar vingança de sua nenhuma condescendência. não há. não falo mais. Quinquina. Quinquina terá finalmente compreendido o que o Sr. e.. sem figuras e flores de eloqüência. exclamou outra vez inesperadamente D. pela triste conquista que acaba de fazer. disse Augusto.. Carolina.. não posso deixar de lastimar a Sra. dá-me também o prazer de apreciar e admirar seu espírito e agudeza. pôs em ação três sentidos. Augusto conheceu que lhe era dado o sinal de combate. consinta que ela continue a gracejar. Augusto. você o teria compreendido no primeiro instante. Sr.. disse. .. estão juntinhos.Minha prima. Sem se explicar o porquê.Ah!..Certamente. minha prima. estou comprada. Augusto tanto se empenha em lhe explicar.Minha prima. 21 taboca rachada do meu colega Filipe e a respirar a fumaça dos charutos de meu companheiro Fabrício.. e. eu fingisse não compreendê-lo logo. é rica. Além de me dar a honra de tomar-me por objeto de seus gracejos. como algumas costumam fazer. não é assim?.. . como que esperando uma resposta. sem contradição. de fatigado. não hesitou: .Minha senhora!. . .. endireitando- se.. . todavia.. continuou a terrível Moreninha. . o gosto ficou em inação bem contra sua vontade. E vendo que todos tinham os olhos nele. a mais alegre e apreciável conquista! A ironia o feriu. porque. já sei o que querem de mim os seus elogios.Obrigado..E eu. D. para dar lugar a mais vivas finezas. se as mãos do Sr. eu creio que D. Ora isso quase que aconteceu. sem perturbar-se. que com facilidade e sem risco se podem tocar por baixo da mesa.. os ouvidos e o nariz do Sr.. . declarar que. nem pode haver amor que dure mais de três dias. modesta. quem sabe os transes por que passariam os pés de minha prima?. porque os olhos. não é assim. Eu cá não custo tanto a compreendê-lo como minha prima. Devo. Fabrício continuou: . A interessante Moreninha lançou sobre Augusto um olhar de aprovação e sorriu-se brandamente.Venha embora o ridículo. todos olham para nós. também o nosso estudante teve em muita conta aquele sorriso da menina travessa. que nem por isso poder-se-á negar que para o nosso Augusto não houve. com acento de repreensão. respondeu a mocinha. o Sr. além de ser moça. Joaquina. rindo-se com a melhor vontade. . D. Uma risada geral aplaudiu as últimas palavras de D. certo que lhe eu daria meus parabéns em prosa e verso. porque Fabrício é. não há nada mais natural. o que poderia também suceder era que. nem eu mesmo posso de mim formar outro conceito. ela era neta da dona da casa. gostou de o ver manejar a sua arma favorita. se me fosse dado conhecer a ditosa mortal que conseguiu ganhar os pensamentos e o coração do meu colega.Agradecida! muito agradecida! tornou o diabinho da menina. meio aturdido. Augusto conservaram-se em justa posição. Augusto?. dissesse tudo. .Menina! exclamou a Sra.. até que ele.Minha senhora. atreveu-se a dizer a ingênua.A respeito de tato. Ana. . preparou-se para sustentar a luta com todo o esforço.. Augusto hão de estar certamente cansados de tão excessivo trabalho!.. medrosa e muito sonsa D. pois. Os Srs. além de falar com habilidade e fogo.

e quase de todo esgotada. e foi. pois. novo prazer de Augusto por merecê-los. Augusto respondeu: . com seriedade.Misericórdia! exclamou uma das moças. mostravam temer encontrar seus olhos.Sim. Lançou depois um olhar ao derredor da mesa e todas as senhoras lhe voltaram o rosto. Augusto estava como em isolamento. com a maior crueldade do mundo. que não entende o dizer de Auber. suspiros e ânsias de condenado. cujo contato podia fazer a desgraça de outro. inexperiente. apontando maliciosamente para uma garrafa que se achava defronte do orador. Novo olhar. . e. afeta prestar pouca atenção ao seu acusador. Fabrício está hoje romântico! exclamou Leopoldo. enquanto Augusto. tanto em prática como em teoria.. se já o nosso colega afirmou que eu me prezava de ter essa qualidade?.E o que há aí de mais engraçado é que Fabrício tem culpa disso.É absolutamente verdade. . se havia deixá-lo debatendo-se em sua má posição. fala. concluiu Fabrício.Muito bem! muito bem! disseram algumas vozes. que conserva uma impressão. como se ele fosse a inércia da matéria.Eis o que ele não pode negar.Seu coração é pétrica abóbada de teatro. quando soluça à flauta ternos sons de músico discurso. acessível a toda as belezas.. arrancá-lo dela. perguntou a avó de Filipe. .. apontando também para a garrafa. novo sorriso de aprovação de D. murmurou Augusto. Fabrício. as senhoras olhavam para ele com receio. durante um curto momento.. mas logo depois soltou uma sofrível risada e pareceu ocupar-se exclusivamente de uma fatia de pudim. Reinou silêncio por alguns instantes: Fabrício parecia vitorioso. respondeu o estudante.o homem perigoso.E para que negar.Mas ele deverá viver de lágrimas.É possível?!. Desde as fatais palavras de Fabrício. enfim. . .Apoiadíssimo!.. ande. Fabrício compreendeu em quão triste situação estava o seu adversário. mas que não a guarda senão o tempo que é gasto para um novo agente modificá-la! . minhas senhoras. repudiando-as ao mesmo tempo para correr atrás de outra. quis ainda mais piorá-la. rindo-se. servindo-se de um prato de grosso melado. que será logo deixada pela vista de uma nova. antes de três dias de amor. D. acudiram Leopoldo e Filipe.. . pois aquela muda superfície reflete a todos e a todos esquece com estúpida indiferença!.Nada de fugir da questão. porque... Fabrício torceu-se sobre a cadeira e prosseguiu: . . A Moreninha olhou-o com espanto. as senhoras embebem nele seus olhos e o aplaudem. é um jovem inconstante. o meu colega é e se preza de ser o protótipo da inconstância..Bravo!.. que. e haja de andar em companhia dele. tira-me todos os lances. Augusto era naquela mesa o que costumava ser um leproso na Idade Média: . Quinquina tinha nos lábios um triste sorriso. manda o meu destino que eu sempre tenha andado. . Carolina. 22 Todas as senhoras olharam para o réu daquele horrendo crime de lesa-formosura.. . . Poder-se-ia julgar fraqueza querer de algum modo ocultar que. dir-se-ia que receavam que de uma troca de olhares nascesse para logo o sentimento que as devesse tornar desgraçadas.. talvez. .

deixem-no apresentar o seu programa amoroso. defenda-se. . exclamou Filipe. o mais inconstante dos homens em negócio de amor. não há amante algum mais firme do que eu. por amar a delicadeza do talhe da primeira. e quando o encontro em outra.Ouçam! ouçam! . mas nada de maçada! . . debaixo de certo ponto de vista o meu colega Fabrício disse a verdade. bravo!. Quantas vezes. a qual.. . pois.Mas também quem me conhece bastante conclui que. .. me esquecesse das ternuras dos olhares e da graça dos sorrisos da segunda. minhas senhoras. era esquecida depois. mas debalde o fiz. amo-a não porque ela é senhora. viva o raciocínio! . sem dúvida. minhas senhoras. .Bravo!. . Eu vejo uma senhora bela.Atenção!.Bravo!. eu amo a beleza. por fim de contas. .Duas palavras. este atributo não foi exclusivamente dado a uma só senhora.. . fora injustiça que eu desprezasse nesta aquilo mesmo que tanto amei na primeira.. só duas palavras. ora. mas vendo que era vão trabalho querer extinguir por tal meio uma disposição que a natureza nele plantara. porque eu sou. Augusto. .Tem a palavra. Agora eu entro na segunda parte da minha explicação. . poderia. acudiu Fabrício. acusar.Ainda repete?! . justa e. procurei uma jovem bem encantadora para me lançar em cativeiro eterno. que se extinguiu no baile dessa mesma noite!. minhas senhoras. julgo apenas oportuno dar algumas explicações. pretendi primeiro achar na mesma natureza um corretivo que o fizesse. é o respeito que tributo ao merecimento de todas.. todas são lindas.. eu repreendi o meu coração pela sua volubilidade... porque eu sou tão sensível ao poder da formosura. coroando um rosto romanticamente pálido. com efeito.Mais ainda. . Todo o mundo sabe que não há quem nasça perfeito. muito bem!. ao contrário.Eis aqui... . que me vejo em termos de segui-lo.Defender-me?.. enfim. é talvez o excesso a que levo as considerações que julgo devidas ao sexo amável.. esta supera aquela na ternura do olhar e na graça dos sorrisos.. e a terceira.. certo que o não farei. assim como das bastas madeixas negras e do rosto romanticamente pálido da última.. que sempre me sucedia esquecer a bela de ontem pela que via hoje. ganha as duas na sublime harmonia de umas bastas madeixas negras. mas a primeira vence a segunda na delicadeza do talhe. que me faz ser volúvel. minhas senhoras. Ora. Estou achando um não sei quê tão aproveitável no teu sistema. logo.Sim. Minhas senhoras. nos meus passeios da tarde. .Sim.É exatamente assim. .. mas porque é bela. estimável. pela mesma razão. mas também não quero. 23 .Não o interrompam. por que sou inconstante. vamos ao desenvolvimento da primeira proposição.. continuou Augusto.A minha inconstância é natural. minhas senhoras.Peço a palavra para responder! exclamou Augusto.Antes que ninguém.Muito bem. defenda-se. bem se vê que seria cometer a mais detestável injustiça se eu. eu olvidei o amor da manhã desse mesmo dia por outro amor. .É exageração! disse uma senhora. . ..O senhor está compondo enigmas. ele vai provar que é constante!. Suponhamos que eu estou na agradável companhia de três jovens.

.Foi assim.Ah. que eu me pude tornar constante e.. no meio dos prazeres de um festim. O champagne estourava naquele momento. .. Por exemplo.Alguma estátua da Academia das Belas-Artes?.Que folha d’alho!. ...M.. uma coleção não deixa de ser singular. 24 . Acode-me tal número dos que têm tocado o superlativo do amor. . minha senhora! no beber um copo de champagne não está a dúvida..A boneca que se vê na vidraça do Desmarais?.Como é isto!. maninho.. pronunciaremos.Eis! ânimo. pois. Os outros mancebos pronunciaram suas letras. Leopoldo aproximou-se de Augusto.. ao alfabeto inteiro! Meia hora depois levantaram-se da mesa. .. no qual Augusto.. ele há de beber também. Sr. disse Leopoldo. prosseguiu Augusto.Então. escolher o mais amado. retirando- me desta ilha. como Aquídias de Rodes? . olhando para D.Nada disso.. Carolina. . . Não é novo que mancebos bebam. pronunciou Filipe.. se eles me dessem licença. do talhe elegante daquela. mas de um só objeto que não tem existência real. . das lindas madeixas de outra.Pois bem... Consegui-o. propor um belo meio de terminar esta discussão.. a quem tributo o amor mais constante. minhas senhoras.. entre tantos nomes. .. muito bem!.Então que dizes. Disse.C. posso amar a todas as senhoras a um tempo sem ser infiel a nenhuma. acudiu a interessante Moreninha. resumidas num só ente ideal. a inicial do primeiro nome. Augusto não beberá conosco. Sou firme amante de um objeto.J. um copo de vinho depois de pronunciar o nome daquela que é dama de seus pensamentos: aqui não estamos só mancebos e. . minhas senhoras. por castigo de sua inconstância. esvaziando seu copo. . como Narciso?.. exclamou D. Reúno o que de melhor está repartido e faço mais ainda: aperfeiçôo a minha obra todos os dias.. continuou a menina.Então a quem? . exclamou. exasperado com um acesso de tosse que atacara Augusto. nos não poderá acompanhar. a dificuldade toda é poder.Muito bem!... convidando a todos os senhores para um brinde. disse D. . Augusto.Mas que letra. eu faria o enorme sacrifício de reduzir as que me lembram ao diminuto número de vinte e três. eu formei o meu belo ideal. só o inconstante faltava. . . Augusto?. . Augusto.Não. Quinquina.Nada! nada! nesta saúde não entra o número plural.Sim! sim! disse Filipe. Sr. Clementina. que não vive. não faremos tanto.Augusto desempenhou-se. . então a quem ama? .Viva o cumprimento!..A todas as senhoras. . . minha senhora?. .. do colo de alabastro desta. beba o seu copo de champagne ao alfabeto inteiro! ..Sim. balbuciou Fabrício.. . Leopoldo tomou a palavra pela ordem..Ao cupido de Praxiteles. .A sua sombra.. graças a meu proveitoso sistema.. À custa dos belos olhos de uma.. . eu creio que vestirei o meu belo ideal de novas formas! . . minha senhora. contudo...Eu vou. eu entendi que devia recorrer a mim próprio para tornar-me constante.

. não sei. a julgava travessa.Eu a supus estouvada e desagradável.Estou na minha regra..De quais destas meninas estás mais apaixonado.. ..E daqui a pouco? .. .À uma hora?. importuna e feia.Durante o jantar?.... porque. ao meio-dia..A melhor resposta que te posso dar..Fui achando-lhe algum espírito e acusei-me por havê-la julgado feia. é. . . mas era-me completamente indiferente. ..Má.. 25 .. .Eu te direi. . .Parece que me sinto muito inclinado a declará-la engraçada e bonitinha.E o que pensas da irmã de Filipe? . e desejava vê-la longe de mim. mas hoje tenho-me apaixonado só de três..Às duas horas?... .. .E quem ganhará a aposta? .Que passaremos a mais agradável noite. principalmente. ..Eu.E agora? . .

corria. ou se desculparam. mas a bela. Pela nossa parte confessamos que não há cachaça que embebede mais depressa do que uma que se bebe nos olhos travessos de certas pessoas. Augusto viu de repente todos os braços engajados. Quinquina. antes. que era muito mais proveitoso ficar fazendo honras a meia dúzia de garrafas de belo vinho do que acompanhar as moças. que entendeu. divagando-se assim pelo jardim. a um mesmo fim. Eram eles D. todos animados e cheios de prazer e harmonia. melhor. quando mais perto o via. Augusto passeava só. Passeava-se. não sabemos se mal ou bem.Amor-perfeito! . como uma abelha ou. solteiros. Esta última costuma sempre ser mais perigosa. tornando-se difíceis. o dicionário das flores era lembrado a todo o momento. D. e que o melhor meio de o conseguir era fingir desprezá-lo e mostrar não fazer conta com ele. o prender com inquebráveis cadeias aquele capoeira do amor. fingiram não ouvi-lo. inocente para não se envergonhar de suas travessuras e criada com mimo demais . que de perto as acompanharam. Mas dissemos que não sabíamos se Keblerc havia feito bem ou mal em não imitar os outros. e daqui a pouco ser a última no passeio: viva. apenas algum lhe dizia. por assim o querer. Um braço era uma prisão e a engraçada Moreninha gosta. maridos e irmãos. e esta menina era. cem vezes dela se aproximava o sujeito. que por diversos caminhos vão. desde o programa de Augusto. tanto o alemão como os rapazes. porém. dispostos a acabar o dia e entrar pela noite com gosto. assim como pais. agora adiante de todos. Sem dúvida já fomos condenados por homem de mau gosto. Cada cavalheiro dava o braço a uma senhora. Entendemos. haverá mona. Em resultado.Existo para ti só! tornava imediatamente.Acácia! . cumpre-nos dar algumas razões. aquela lânguida e sonsinha D. saltava. 26 6 Augusto com seus Amores Poucos momentos depois da cena antecedente. com que quase sempre se triunfa da mulher. a sala de jantar ficou entregue unicamente ao insaciável Keblerc. contra a vontade. nem mais nem menos. cá para nós. Queria passear só. O inconstante não lhes fazia conta. pelo contrário. como se costuma dizer. que se foram deslizar pelo jardim. Outro tanto não fizeram os rapazes. Carolina. andavam. ágil. a diferença é que uma será mona de vinho e a outra de amor. com seus olhos sempre brilhantes. E o mesmo fazia a respeito de todas as flores que lhe mostravam. não só na sala do jantar. Menina havia que. Fiai-vos nas sonsas! Um moço e uma moça. mas também no jardim. Carolina. e.Sonhei com você! respondia logo. Duas senhoras. . voava como um beija-flor. saltar e entender com as outras. Carolina e Augusto. D. vê-lo reqüestando-as. Era uma doutora de borla e capelo em todas as ciências amatórias. queriam. apontando para a flor: . cada uma delas entendeu lá consigo que seria grande glória para qualquer. a quem se dirigiu. ou. pouco a pouco. esgotadas as garrafas e terminado o passeio. Exatamente intentavam batê-lo por meio dessa tática poderosa. porque. havia rejeitado dez braços. da liberdade. com seu pezinho sempre pronto para a carreira. Ela quer correr. sobretudo. isto é . como uma doudinha.

O seu semblante? . Vamos ouvi-los: ...Julgo que sim.. e. o único partido que eu procuro e tenho conseguido tirar é o sossego que há algum tempo gozo. é uma opinião. onde iríamos assentar o sossego das famílias.a constância?. de cada suspiro.Sem dúvida bela!.Não.Eis o que também me espanta! . senhor!. vê. mas que eu resumirei em poucas palavras.Mora na Corte?. . Augusto guardou silêncio e ela continuou: .Não senhor. conversa.. que ela é tão rápida como o pensamento. Estão afastados do resto da companhia. finge não se curvar por muito tempo diante de beleza alguma. . .Creio que deve ser.Como? .Um erro.Vê-a muitas vezes? . Augusto pensa de maneira absolutamente diversa daquela pela qual se explicou. minha senhora. . Ana. . 27 para prestar atenção aos conselhos de seu irmão. . observa tudo e de tudo tira partido para rir-se: em contínua hostilidade com todas aquelas que passeavam com moços. aparecer e desaparecer ao mesmo tempo. não sei por que se quer espantar!. . o que há é muita velhacaria..Mas. Não tenho a louca mania de amar um belo ideal. e se assim acontecesse.Com efeito. rogo-lhe que por um instante pense comigo: se o seu sistema é bom... era por isso temido e acariciado. inimigo invencível. . . Com efeito. . . para plantar no amor-próprio das moças o desejo de triunfar de sua inconstância.Pois o senhor não sabe?.Eu devo crer que o Sr.Não me lembro dele.Então o senhor já ama? . Finalmente. ou. . nada há aqui que exagerado seja. a paz dos esposos. devo confessar que me espantei ouvindo-o sustentar com tão vivo fogo a inconstância no amor. .. disse a Sra. nem à nossa pena é dado o poder acompanhá-la.. porém. porque não tinha travo por onde fosse atacado..É uma história muito longa. de cada ação que percebia tirava motivo para seus epigramas.Juro que não. . . o pobre Augusto encontrou uma senhora que teve piedade dele.A uma moça? .Desejo muito sabê-lo. como pretendi fazer crer. Deixemo-la. se lhes faltava a sua base . o certo é que eu sou e quero ser inconstante com todas e conservar-me firme no amor de uma só.Como se chama?.. ela está em toda a parte. D. minha senhora.. de cada palavra.Ignoro-o. deve ser seguido por todos. um sistema perigoso e capaz de produzir grandes males. melhor ainda.Nunca. de cada vista d’olhos.. pois.Pois então a quem? . .. consinta que lhe diga: no seu pretendido sistema. não sou tal qual me pintei durante o jantar. correr e saltar. .

28

- Que mistério!...
- Eu devo mostrar-me grato à bondade com que tenho sido tratado, satisfazendo a
curiosidade que vejo muito avivada no seu rosto; e pois, a senhora vai ouvir o que ainda
não ouviu nenhum dos meus amigos, o que eu não lhes diria, porque eles provavelmente
rir-se-iam de mim. Se deseja saber o mais interessante episódio da minha vida, entremos
nesta gruta, onde praticaremos livres de testemunhas e mais em liberdade.
Eles entraram.
Era uma gruta pouco espaçosa e cavada na base de um rochedo que dominava o
mar. Entrava-se por uma abertura alta e larga, como qualquer porta ordinária. Ao lado
direito havia um banco de relva, em que poderiam sentar-se a gosto três pessoas; no fundo
via-se uma pequena bacia de pedra, onde caía, gota a gota, límpida e fresca água que do
alto do rochedo se destilava; preso por uma corrente à bacia de pedra estava um copo de
prata, para servir a quem quisesse provar da boa água do rochedo.
Foi este lugar escolhido por Augusto para fazer suas revelações à digna hóspeda.
O estudante, depois de certificar-se de que toda a companhia estava longe, veio
sentar-se junto da Sra. D. Ana, no banco de relva, e começou a história dos seus amores.

7

Os Dois Breves, Branco e Verde

Negócios importantes, minha senhora, tinham obrigado meu pai a deixar sua
fazenda e a vir passar alguns meses na Corte; eu o acompanhei, assim como toda a nossa
família. Isto foi há sete anos, e nessa época houve um dia... mas que importa o dia?... eu o
poderia dizer já; o dia, o lugar, a hora, tudo está presente à minha alma, como se fora
sucedido ontem o acontecimento que vou ter a honra de relatar; é uma loucura a minha
mania... embora... Foi, pois, há sete anos, e tinha eu então treze de idade que, brincando em
uma das belas praias do Rio de Janeiro, vi uma menina que não poderia ter ainda oito.
Figure-se a mais bonita criança do mundo, com um vivo, agradável e alegre
semblante, com cabelos negros e anelados voando ao derredor de seu pescoço, com o fogo
do céu nos olhos, com o sorrir dos anjos nos lábios, com a graça divina em toda ela, e far-
se-á ainda uma idéia incompleta dessa menina.
Ela estava à borda do mar e seu rosto voltado para ele; aproximei-me devagarinho.
Uma criança viva e espirituosa, quando está quieta, é porque imagina novas travessuras ou
combina os meios para executar alguma a que se põe obstáculos; eu sabia isto por
experiência própria, e cheguei-me, pois, para saber em que pensava a menina; a pequena
distância dela parei, porque já tinha adivinhado seu pensamento.
Na praia estava deposta uma concha, mas tão perto do mar, que quem a quisesse
tomar e não fosse ligeiro e experiente, se expunha a ser apanhado pelas ondas, que
rebentavam com força, então.
Eu vi a travessa menina hesitar longo tempo entre o desejo de possuir a concha e o
receio de ser molhada pelas vagas; depois pareceu haver tomado uma resolução: o capricho
de criança tinha vencido. Com suas lindas mãozinhas arregaçou o vestido até aos joelhos, e
quando a onda recuou, ela fez um movimento, mas ficou ainda no mesmo lugar, inclinada
para diante e na ponta dos pés; segunda, terceira, quarta, quinta onda, e sempre a mesma
cena de ataque e receio do inimigo. Finalmente, ao refluxo da sexta, ela precipitou-se sobre

29

a concha, mas a areia escorregou debaixo de seus pés; e a interessante menina caiu na praia,
sem risco e com graça; erguendo-se logo e espantada ao ver perto de si a nova onda, que
dessa vez vinha mansa e fraca como respeitosa, correu para trás e sem pensar atirou-se nos
meus braços, exclamando:
- Ah!... eu ia morrer afogada!...
Depois, vendo-se com o vestido cheio de areia, começou a rir-se muito, sacudindo-o
e dizendo ao mesmo tempo:
- Eu caí! eu caí!...
E como se não bastasse esta passagem rápida do susto para o prazer, ela olhou de
novo para o mar, e tornando-se levemente melancólica, balbuciou com voz pesarosa,
apontando para a concha.
- Mas... a minha concha!...
Ouvindo a sua voz harmoniosa e vibrante, eu não quis saber de fluxos nem refluxos
de ondas; corri para elas com entusiasmo e, radiante de prazer e felicidade, apresentei-me à
linda menina, embora um pouco molhado mas trazendo a concha desejada.
Este acontecimento fez-nos logo camaradas. Corremos a brincar juntos com toda
essa confiança infantil que só pode nascer da inocência, e que ainda em parte se dava em
mim, posto que já a esse tempo fosse eu um pouco velhaquete e sonso, como um estudante
de latim que era, e que por tal já procurava minhas blasfêmias no dicionário.
É sempre digno de observar-se esta tendência que têm as calças para o vestido...
Desde a mais nova idade e no mais inocente brinquedo aparece o tal mútuo pendor dos
sexos... e de mistura umas vergonhas muito engraçadas...
Eu cá sempre fui assim; quando brincava o tempo-será, por exemplo, sempre
preferia esconder-me atrás das portas com a menos bonita de minhas primas, do que com o
mais formoso de meus amigos da infância.
Mas, como ia dizendo, nós brincamos juntos, corríamos e caíamos na areia, e depois
ríamos ambos de nós mesmos. Tínhamos esquecido todo o mundo, e pensávamos somente
em nos divertir, como os melhores amigos.
Depois de uma agradável hora passada em mil diversas travessuras, que nossa
imaginação e inconstância de meninos modificava e inventava a cada momento, a minha
interessante camarada voltou-se de repente para mim, e perguntou:
- Sou bonita, ou feia?...
Eu quis responder-lhe mil coisas... corei... e finalmente murmurei tremendo:
- Tão bonita!...
- Pois então, tornou-me ela, quando formos grandes, havemos de nos casar, sim?
- Oh!... pois bem!...
- Havemos, continuou o lindo anjinho de sete anos, eu o quero... Olhe, o meu primo
Juca me queria também, mas ainda ontem me quebrou a minha mais bonita boneca... Ora, o
marido não deve quebrar as bonecas de sua mulher!... Eu quero, pois, me casar com o
senhor, que há de apanhar bonitas conchinhas para mim... Além disso ele não tem como o
senhor os cabelos louros nem a cor rosada...
- Porém, eu gosto mais dos cabelos pretos...
- Melhor!... melhor!... exclamou a menina, saltando de prazer. Olhe: os meus são
pretos!
E nisto ela puxou com a sua pequena mãozinha um de seus belos anéis de madeixa,
para mostrar-mo, e largando-o depois, eu vi cair outra vez em seu pescoço, de novo torcido
como um caracol.

30

Ainda corremos mais e continuamos a brincar juntos; e, sem o pensar, nós nos
esquecemos de procurar saber os nossos verdadeiros nomes, porque nos bastavam esses
com que já nos tratávamos, de: meu marido, minha mulher!
A viveza, a graça e o espírito da encantadora menina tinham feito desaparecer meu
natural acanhamento, nós estávamos como dois antigos camaradas, quando fomos
interrompidos em nossas travessuras por um outro menino que para nós corria chorando.
- O que tem?... perguntamos ambos.
- É meu pai que morre! exclamou ele, apontando para uma velha casinha que
avistamos algumas braças distante de nós.
Ficamos um momento tristemente surpreendidos; depois, como dominados pelo
mesmo pensamento, ela e eu dissemos a um tempo:
- Vamos lá.
E corremos para a pequena casa.
Entramos. Era um quadro de dor e luto que tínhamos ido ver. Uma pobre velha e
três meninos mal vestidos e magros cercavam o leito em que jazia moribundo um ancião de
cinqüenta anos, pouco mais ou menos. Pelo que agora posso concluir, uma síncope havia
causado todo o movimento, pranto e desolação que observamos. Quando chegamos ao pé
de seu leito, ele tornava a si.
- Ainda não morri, balbuciou, olhando com ternura para seus filhos, e deixando cair
dos olhos grossas lágrimas. Depois, deparando conosco, continuou:
- Quem são estes dois meninos?...
Ninguém lhe respondeu, porque todos choravam, sem excetuar a minha bela
camarada e eu.
- Não chorem ao pé de mim, exclamou o velho, sufocado em pranto, e escondendo o
rosto entre as mãos, enquanto seus três filhos e o quarto, que tínhamos há pouco visto fora,
se atiravam sobre ele, no excesso da maior, da mais nobre e da mais sublime das dores.
A minha camarada dirigiu-se então à velha.
- O que tem então ele?... perguntou com viva demonstração de interesse.
- Ó, meus meninos, respondeu a aflita velha, ele sofre uma enfermidade cruel, mas
que poderia não ser mortal... porém é pobre!... e morre mais depressa pelo pesar de deixar
seus filhos expostos à fome!... morre de miséria!... morre de fome!...
- Fome! exclamamos com espanto; fome! pois também morre-se de fome?...
E instintivamente a minha interessante companheira tirou do bolso do seu avental
uma moeda de ouro e, dando-a à velha, disse:
- Foi meu padrinho que ma deu hoje de manhã... eu não preciso dela... não tenho
fome.
E eu tirei de meu bolso uma nota, não me lembro de que valor e por minha vez a
entreguei, dizendo:
- Foi minha mãe que ma deu e ela me dá também um abraço, sempre que faço
esmola aos pobres.
Não é possível descrever o que se passou então naquela miserável choupana. Minha
linda mulher e eu tivemos de ser abraçados mil vezes, de ver de joelhos a nossos pés a
velha e os meninos... O ancião forcejava por falar há muito tempo... Dava com as mãos,
chamando-nos... Finalmente nós nos aproximamos dele, que nos apertou com entusiasmo
contra o coração.
- Quem sois? pôde, enfim, dizer; quem sois?
- Duas crianças, foi a menina que respondeu.

eu vos vejo casados lá no futuro!. que já não serão para ele. e tirando de uma pequena e antiga caixa dois breves. e tendo no rosto um ar de inspiração e em suas palavras um acento profético. vós o sentireis. apoiando-se sobre um dos cotovelos... . o ancião guardou silêncio por alguns instantes.. obedecendo pontualmente. maquinalmente.Vosso irmão?.. Seus lábios tremiam convulsivamente. Escutando suas palavras. eu quero que ele seja meu marido. cosa dentro do breve branco este camafeu.. Pois o quê!... vede!.Menina! que trazeis convosco que possais oferecer a este menino?.. Meus filhos! amai-vos. pronunciada por um inspirado do Senhor. .É o meu camarada.. disse ainda ela. seus olhos flamejantes. sua mão rugosa tinha três vezes nos abençoado.. 31 ... os meninos que entraram na casa do miserável... abriu a gaveta de uma mesa. Meus filhos. dizendo: . A menina. bebeu com sofreguidão um púcaro cheio d’água e. tornou o velho. Eu não vos iludo. O doente. .. Eu corri com os olhos tudo que em mim havia e só achei. Os breves eram dois: um verde e outro branco..Sim.Não.. sim. disse: .. eis aí outra vez o delírio!. O velho o deu à sua mãe. e penetrar com seus olhares através do véu do futuro!. olhando de novo para nós.... voltando-se para mim. Ó meus meninos! Deus paga sempre a esmola que se dá ao pobre!. amai-vos... para entregar ao admirável homem que me falava. . os descoseu com prontidão.Marido? .Seja dado ao homem agonizante lançar seus últimos pensamentos do leito da morte. Acabando de pronunciar estas palavras. .... entregou-lhe um botão de esmeralda que trazia em sua camisinha.. não pode o Eterno abençoar a virtude pela minha boca?.Dois anjos. Não parou aí a nossa admiração. minha mãe. exclamou: .. e amai-vos muito! A virtude se deve ajuntar.. um lindo alfinete de camafeu...Minha mãe..Não senhor... além dos anos. a promessa realizada! São dois anjos que se unem. bem longe. lá no futuro. Depois o ancião. A velha. Nós estávamos espantados. pus-lhe nas mãos o meu camafeu. continuou ele.. não! não é delírio.. meu. como que já esperando tal pergunta. que enxugaram o pranto e mataram a fome da indigência. continuou: ..Deus realize vossos desejos!. descosa esses dois breves. . o rosto do ancião se havia tornado rubro.. que meu pai me tinha dado para trazer ao peito e.. disse a velha vendo a exaltação e o semblante afogueado do enfermo. eu acreditei que estávamos ouvindo uma profecia infalivelmente realizável. acrescentou: · Minha mãe.... E voltando-se para minha bela camarada.Oh!. assim como o vício se procura.. cosa esta esmeralda dentro do breve verde.. marido.. são abençoados por Deus e unidos em nome d’Ele!. ainda uma vez.. . que estava junto de seu leito. dizendo: . cujas forças pareciam haver reaparecido subitamente.Minha mãe. vejo lá.Menino! que trazeis convosco que possais oferecer a esta menina?. atilada e viva. E quem é este menino?. O velho quebrou o pé do alfinete e dando-o a sua mãe. .. os deu à velha.

. .O velho disse que sim.Pois então nós os guardaremos. Eu mal compreendi o que o velho queria: ainda maquinalmente entreguei o breve à linda menina. . . nós pensamos no velho e choramos juntos. Isto dizendo.. a fim de que ela o guarde com desvelo. disse-me: . dizendo isto. que o velho ardia.Eu o juro. correu. dando-me o de cor branca. . senti que seu bafo era como vapor de água fervendo. que o prendeu no cordão de ouro que trazia ao pescoço..Oh! eu o prometo. . Esse fatal .E qual?. Ele contém o vosso camafeu: se tendes bastante força para ser constante e amar para sempre aquele belo anjo.Ide.. a fim de que ele o guarde com desvelo.Tomais este breve. . .. minha mãe ralhará comigo! E... Enfim. Minha bela mulher executou a insinuação do velho com prontidão. cuja cor exprime a candura da alma daquela menina. ele tomou os dois breves e.. esquecendo-se até de despedir-se de mim. e fiz-lhe igual pergunta: . Ah! recebei a bênção de um moribundo! recebi-a e saí para não vê-lo expirar. . nas crianças. minha linda mulher. esquecer-se-ão disso. apertou nossas mãos com força. eu senti. Ele contém a vossa esmeralda: se tendes bastante força para ser constante e amar para sempre aquele bom anjo. disse sorrindo-se: . e Deus olhará para vós. a menina olhou para mim e disse: .Neste momento soou ave-maria.Eles mandarão procurar. Quando tudo isto estava feito. então. o velho prosseguiu ainda: . ele delirava quando assim praticou com duas crianças. meus meninos. O nosso homem deu-lhe o outro breve. com efeito.Diz que é para nos casarmos quando formos grandes.. dai-lho. crescei e sede felizes! vós olhastes para mim. Sinto ainda sobre meus dedos o calor abrasador dos seus e agora compreendo que. que sua mão era uma brasa que queimava.E não o achando.E os breves?. depois. isto não merece reparo.Para que será isto?. 32 Quando as ordens do ancião foram completamente executadas. .E quando meu pai perguntar pelo meu camafeu? Ficamos olhando um para o outro. que me parecera estar pensando. dai-lho.Eu direi à minha mãe que perdi a minha esmeralda na praia. Sós. Eu cuidei que lhe respondia.Nós os guardaremos?..E eu responderei a meu pai que perdi o meu camafeu nas pedras. . sem dúvida... passados alguns instantes. . . e eu prendi o breve ao meu pescoço com uma fita que me deram.. para cuidarmos em brincar outra vez... pobre e miserável. dizendo: . .. nossa dor se mitigou.Eu vou pregar uma mentira.E quando minha mãe perguntar pela esmeralda?.Tomai este breve. nós deixamos aquela morada aflitos e admirados..Tão tarde! exclamou a menina. Chegou a vez dela.... cuja cor exprime as esperanças do coração daquele menino. . De repente..

Aqui parou Augusto para respirar..Foi talvez uma ilusão! respondeu a digna hóspeda. disse-me meu pai com bondade. quando quero falar a seu respeito. perguntou a Sra. pois nem lho perguntei. tornou Augusto.. . e. mostrando-me o breve branco. porém.o meu breve!.Eu o guardarei! Pela minha parte entendi dever dar-lhe igual resposta. Meu pai fez todas as despesas do enterro do velho e socorreu sua desgraçada família.. em louvor da ação que praticaste. porque. minha senhora. o estudante lhe fez ver que ainda muito faltava para o fim de suas histórias. dirigindo-se à entrada da gruta e observando em derredor dela. o certo é que eu ainda hoje me lembro com saudade dessa criança tão travessa.. minha senhora. Eu nunca mais vi. porém tão bela. ou que esse breve tivesse em si alguma coisa de encantador. D. gritou: . na verdade. Carolina. 33 descuido acabava de entristecer-me. adormecendo sobre o papel que acabava de escrever.. pois.Apenas lá vejo sua bela neta. quando ela. meu pai o leu à sua vontade e soube o destino do camafeu.. minha senhora. e mesmo to mando. doidinho.. ergueu-se logo.. voltou-se para onde eu estava e. mas nem por isso a esqueci.Enganei-me. agora. socorrendo um velho enfermo. eu ouvi distintamente a bulha que faz uma pessoa que corre.Não. ou seja que meu coração a tivesse amado deveras.. nem soube notícia alguma de minha interessante camarada. eu te perdôo tuas novas loucuras.Anda. ouvindo ruído à entrada da gruta. já de longe. guarda melhor esse breve do que guardaste o camafeu. por sua vez. guarda. digo: - minha mulher! Riem-se? não me importa: eu não posso dizer de outro modo. sem precisar que eu lho dissesse. Isto me tirou o trabalho de mentir. . exclamando: .Então?. produziu vivíssima impressão no meu espírito. porém. . quanto me havia acontecido.Mas vê alguma pessoa?. pensativa e recostada à efígie da Esperança. Ele ainda estava junto de mim quando despertei. apenas entrei em casa escrevi.. . . Ana. D. E isto dizendo. . continuou: . e voltando de novo ao seu lugar. soube que o velho morrera no dia seguinte e que no momento da agonia abençoara de novo a minha camarada e a mim. minha mulher!. a Sra. nem ela mo disse.O acontecimento que acabo de relatar. Sem saber seu nome. tão cansado estava com a longa narração. 8 Augusto Prosseguindo A avó de Filipe quis tomar.. . deixou-me. eu to peço.. . ajudado por minha memória de menino de treze anos. . mostrei-lhe o meu breve verde e gritei-lhe também: · Eu o guardarei!. palavra por palavra. porque. a palavra. o velho!..Alguém nos escuta! disse ele. Não se falou mais nesse acontecimento..

para não endoidecer por causa do breve e. A primeira moça que amei era uma bela moreninha... . correspondido por uma interessante jovem tão coradinha.. minha senhora. e desmaio de que não acordava sem que eu mesmo lhe chegasse ao nariz o seu vidrinho de essência de rosas. mancebo. com seu engraçado sorriso diante de meus olhos. o meu novo amor chegava a ser tocante demais: a minha querida levava o ciúme até um ponto que atormentava prodigiosamente: se passava algum dia em que a não visse e lhe não mandasse uma flor. Eu resumo algumas. tornou este. depois dessa resposta. interrompendo Augusto. meu coração se entusiasmou com isso. porém. oito dias depois. se na tal partida eu me atrevia a dançar com alguma outra moça bonita. e por tal convidavam-me para cantar em elegantes sociedades. aparecia-me depois chorosa e abatida. Eu já era. triunfos e derrotas amorosas. Além disto freqüentava as casas de meus companheiros de estudos e os ouvia contar proezas de paixões.. passei cinco anos pensando nela de dia. 34 Sempre com sua imagem na minh’alma. continuou Augusto. em que me julgava longe: . julgavam que eu dançava com graça e lá ia eu para os bailes. certamente.Cheguei assim aos meus dezoito anos. para não ser necessário à minha mãe casar-me cedo. pois. como cheguei a fazer algumas quadras. Fiz- lhe a minha declaração na carta mais patética que um pateta poderia conceber: no fim de três dias recebi uma resposta abrasadora e cheia de protestos de gratidão e ternura. era uma loucura.. era a mais agradável sabatina que podia ter um estudante. D. que parecia mesmo uma rosa francesa. Meus pais nada poupavam para me educar convenientemente: aprendia quanto me vinha à cabeça: diziam que minha voz era sonora. finalmente. e com ela sonhando de noite. os mesmos estudantes quase que me quebraram a cabeça com cacholetas e gargalhadas. e lá falando mil vezes no meu breve e em minha mulher. Meu amor-próprio se despertou. Jurei não amar moça nenhuma que tivesse a cor morena. Na primeira reunião de estudantes contei a minha vitória. de dezesseis anos de idade. tinha três meses de .. tive vontade de amar e ser amado. Portanto. Este amor já estava um pouco velho. . foi essa minha resolução que me tornou mais firme e mais amante de minha mulher. porém. com suas sonoras palavras soando a meus ouvidos. onde as belezas formigavam e os amores eram dardejados por brilhantes olhos de todas as cores. pediam- me para recitar sonetos em dias de anos.Temo que esse breve tire o juízo àquele menino: talvez que nos seja preciso casá- lo cedo. Apaixonei-me logo e fui. que teve o amor comigo. desgraçadamente. ouvi a minha mãe dizer uma vez. pois tendo ido passear certas férias na roça. mas também para contar alguma vitória de amor. por conseqüência. minha senhora?.Esqueceu-se. de sua mulher e do seu breve?! perguntou a Sra. porque oito dias. li a minha carta e a resposta que havia recebido: fui vivamente aplaudido. mas que havia eu de fazer?. determinei-me a amar. . e tudo mais por este teor e forma. pois foi isso mesmo o que me sucedeu no decurso de minhas paixões. a minha terna amada casou-se com um velho de sessenta anos. Nós nos encontrávamos nas noites dos sábados em certa casa. bem contadinhos.Não sei. Ana. e assim introduziram-me em mil reuniões. finalmente. Julguei esta minha determinação ainda mais justa. para não ouvir somente. onde se dava todas as semanas uma partida. era contar com um desmaio certo. para entender que todas as moças deviam rir-se de mim e zombar de meus afetos! Pensa que brinco.Ao contrário.

disse ele. talvez me esperando. continuou ele. mas. cheguei cedo. eles já se correspondiam há muito tempo. · Eu penso do mesmo modo... sem vergonha nenhuma. Não sei por que ainda tive ânimo de tirar o meu chapéu à tal pálida.Exatamente. minha senhora. . da minha exasperação! pela terceira vez eu era a boneca de uma menina!. a traidora olhou para mim e. Pouco durou o mau tempo. disse com o maior sangue-frio: . pois olhava para o lado donde eu vinha. e receber em resposta as seguintes palavras: . rebentou uma tempestade e choveu prodigiosamente. ainda tomei-me cego amante de uma jovem pálida. que ao menos .E eu também.. Sem emendar-me. sem dúvida... mas o meu espanto se tornou em fúria quando ouvi o machacaz falar no meu nome.. não pude resistir ao desejo de vê-la e fui à reunião. 35 idade.Ainda melhor. acabada a festa. ambos nos aproximamos. . Saímos da igreja.. Infelizmente eu não conhecia o primo da minha amada. . mas.O Augustozinho?. .. Jurei não amar moça nenhuma de cor rosada. como das outras vezes. pelo que ouvi. onde mora a sua?..Nós devemos ser amigos. quando entrei na sala. consentiu nisso. indo agora vê-las à janela. coisa notável. eram onze horas da noite. procurei-a com os olhos e certo moço. com quem me dava. logo depois da minha chegada. vingar-nos.. apesar disso eu olhava a todos os momentos para a porta e. E apertamos as mãos.é aquela!. eu a avistei debruçada na janela.. porém as ruas deveriam ter ficado alagadas e a bela esperada não podia vir. sempre encontrava os olhos de um outro moço. Voei para ele. mas essa era a infelicidade mais tolerável possível. coitado! é um pobre menino com quem me divirto nas horas vagas!. . em seus amores!. eu exigi que a minha terceira amada continuasse a receber cartas dele e que as respondesse. iremos juntos.. que me entendeu. .. Julgue.. Cheguei-me de manso: conversavam os dois. Lamente-o antes. Um dia tratamos de encontrar-nos em certa igreja. embraçamo-nos e fomos. Ela estava sentada junto de um mancebo e com as costas voltadas para a porta: tomavam sorvetes.Mas nós vamos. Antes de ver-me. Soltei um surdo gemido.... Belo! disse comigo: vou também divertir-me por minha vez à custa de um amante infeliz! E o negócio ficou assentado. fui correspondido com ardor.Convenho: esperávamos ambos as nossas amadas e a chuva mangou conosco. a minha é na mesma rua.. onde tinha de haver esplêndida festa.. mas deste tive eu provas de afeto mui sérias.Bravo!. e.Na rua de.Eu queria propor a mesma vingança. Um sábado mandei-lhe prevenir que faltaria à partida. ela amava um primo e até escrevia-lhe a miúdo. fingindo-se zeloso. A minha amada morava perto. abri a boca para dizer ao meu novo amigo: é aquela!. .Sou capaz de jurar que adivinho a razão por que o senhor olhava tanto para aquela porta. tendo terminado cedo meus trabalhos. . voltando- se depois para o seu querido. apontou para um gabinete vizinho. quando ele me pronunciou com indizível prazer . respondi. .Ora aí tem! perdi por sua causa este divertimento. .. com a condição de lhe redigir eu as respostas. Fiquei espantado e tanto mais que. que se dirigiam também para lá...

jurei não amar a moça nenhuma que fosse morena...juro que não hei de amar moça nenhuma de cor pálida. se o estudante foi um famoso pateta e um tolo rematado. acrescentei: . não o foi menos o primo daquela senhora a quem cortejamos na rua de. . falei ainda comigo mesmo: . meu amigo? . e tirando dela todas as cartas que Jorge havia escrito à sua prima.Não é bom ir tão longe. Minha tristeza. Passando a maldita casa. . eu lhe conto. em última conclusão. minha senhora. logo não me caso com minha mulher e.. e eu acho um belo divertimento.Quem lhe disse?.Concordemos ambos que.. . frade. é tolo rematado. tornei-me ao que era dantes. exclamou: . ora.. Mas eu andava triste e abatido e às vezes pensava assim: . ..Não me fale mais nela. e. A única consolação que tive foi vê-la correr para o piano. Tratei de dormir... vou ser. que minha prima tem bastante habilidade para se corresponder com meio mundo. talvez por ver-me de braço com o meu novo amigo. caro estudante. .ora pois. o estudante.. sem se incomodar com o trabalho da redação de suas cartas!.. portanto...Fale-me a verdade: eu acho aquela moça com cara de ser sua prima..Não é coisa de cuidado.. a pesar meu. ..Tenho as mais fortes. que assim se chamava o moço.. isto é. Jorge. achará isto imprudência. Eu. serei celibatário. e só de noite se retirou. um belo divertimento. minha mulher terá. mas. rimo-nos todo o dia..Não tem dúvida. é. e ouvi-la cantas as seguintes e outras quadrinhas musicadas no gosto nacional: ..É por certo um famoso pateta... ..Sim. e que ela me tinha mandado. Desde então declarei guerra ao amor. meu abatimento deu nos olhos da digna.... A correspondência tem continuado por minha vontade e sou eu quem sempre faço a norma das cartas que ela deve escrever. abraçando-me. antes de adormecer. com efeito. depois desatou a rir e.. assim como as normas que eu redigira para as que deveriam ser enviadas ao meu amigo. Apenas chegamos à minha casa.Aquela jovem adora-me! . 36 dessa vez se fez cor-de-rosa...Acredita muito nelas? ... . e eu respondi em seu lugar. estas são as cores.Pois vamos à minha casa. Jorge devorou todas as cartas e normas que lhe dei.Tenho provas. por último recebi ainda e de maior confiança. disse-me com fogo: . corada ou pálida.Está certo disso. Um estudante a reqüestou e escreveu-lhe.. frade!. uma das tais cores. Ela me pediu que lhe confiasse as minhas penas e eu não pude deixar de relatar estes três fatos à consorte de um caro amigo. ocupei-me somente em me lembrar de minha mulher e em beijar o meu breve.Mas que é isso? está tão pálido!. . abri a minha gaveta... O bom humor de Jorge tornou-me alegre..... . minha prima! . Jantamos juntos.Concordemos também.E a sua amada?. . jovial e espirituosa esposa de um de meus bons amigos. ela mandou-me a carta. estes são os tipos da beleza.

Não tire a esperança De amante nenhum. Porquanto eles são Um grande partido. Nunca foi desgraça Um velho marido. em falta de moço Que fortuna faça. Que. Não caia em amar A homem algum. Nem seja notável Por sua esquivança. 37 I Menina solteira Que almeja casar. . Suspiros ferventes Bem pode soltar: Não negue a nenhum Protestos de amor. A qualquer que for O pode jurar. III Os velhos não devem Formar exceção. II Mereçam-lhes todos Olhares ardentes.

Estimo que lhe sirva de muito. V Contra os ardilosos Oponha seu brio: Tenha sangue-frio Pra saber fugir. minha senhora? exclamei eu. . ao vê-la levantar-se do piano. Assim praticando.Fico-lhe extremamente agradecido pelo desengano. . esgotados os belos tipos.Escute: abatido e desesperado com os meus infortúnios.E como?. me respondeu ela. VI Pode bem a moça. Serve muito isto Antes de casar. eu tinha jurado não amar a mais nenhuma moça que fosse morena. Não será loucura Fingida estudar. é este.. . . A vida passar.Então o negócio é assim. já tirei grande proveito dele. Sem mais reflexão. 38 IV Ciúmes e zelos. É logo casar. Amor e ternura. Em todos os casos Sempre deve estar Pronta pra chorar. se aparecer Algum toleirão. estavam. Mas.. pois. Pronta pra rir. . . Assim ganhar tudo Moças se tem visto. Dos homens zombando. o breviário por onde reza a totalidade das moças.Certamente. . corada ou pálida. minha senhora. . eu deveria morre celibatário. pouco mais ou menos.Já serve...

..Uma borboleta. graças ao seu lundu..E agora?. . .. E. que se precipita com a maior graça do mundo sobre uma borboleta que lhe foge e que ela procura prender. .. D. sem dúvida. . Augusto?. Ana. E isto dizendo..É talvez uma nova ilusão.V.Apenas lá vejo a sua bela neta. Ana principiou. graças ao lundu. dirigindo-lhe estas palavras pela ordem: . não quis tomar a palavra para responder. seguramente fabulosa. Ana. 1. dirigindo-se à entrada da gruta e observando ao derredor dela. . minha senhora.. feias ou bonitas. minha senhora. cortesãs ou roceiras.. pois fui.. tão minucioso em minha narração que eu mesmo tanto me fatiguei. e peço-lhe perdão por me haver tornado incômodo. tudo serve. põe em tributo a minha curiosidade. Augusto ia respirar um instante. era mais difuso que alguns de nossos deputados novos na discussão do art. Sr. perguntou a Sra. mas a Sra.Sim. a história de meus amores!.. disse ela. D.Então concluiu.. magras e gordas.. o bom do estudante que.Agora?.Eu o satisfaço com todo o prazer. sem segurar-se. mas bem apropositada dessa fonte.. viu que a boa hóspeda estava rindo-se maliciosamente. D. 9 A Sra. .Alguém nos escuta. foi ao fundo da gruta. tornou Augusto. que vou beber uma gota d’água. D. D. finalmente.. D. e enchendo o copo de prata na bacia de pedra. e que tem muita relação com a história de seus amores e com o copo d’água que acaba de beber. eu ouvi distintamente a bulha de uma pessoa que corre. respondeu a digna hóspeda.. . que já tinha-o por vezes interrompido fora de tempo e debalde.Pois estava neste momento lembrando-me de uma tradição muito antiga. Tais foram as razões que me tornaram borboleta de amor. . que sempre comigo trago.. . A Sra.. dirigindo-se à Sra. com efeito. continuou Augusto. Carolina. a Sra. morenas.Certamente que não o adivinho.Não. . quando voltou os olhos. Ana com suas Histórias Finalmente.Então?.. minha senhora..Mas vê alguém?.º dos orçamentos. . na verdade. quando pela segunda vez lhe pareceu ouvir ruído na porta da gruta.Sabe de que estou rindo?. 39 . Ana.. como da outra vez. . . eu conservo a lembrança mais terna e constante de minha mulher: ela é o amor de meu coração. julgou dever fazer pausa de suspensão.. o esgotou até ao fim.. guardando e beijando com desvelo o meu querido breve. coradas. . S.Enganei-me. Eis. enquanto todas as outras são o divertimento dos meus olhos e o passatempo de minha vida. . quando lhe dava para falar.... disse ele. juro que de hoje avante amarei a todas elas. Terminando assim. fiz-me absolutamente um ser novo. pálidas.

de cansada. onde ainda então não se via a fonte que hoje vemos. como era de esperar. tendo de exprimir a doçura. Aí chorou. o traduziu para a nossa língua e fez dele uma balada. e sempre ela cantava e chorava. a qual minha neta canta. e já então o rochedo estava todo traspassado pelas lágrimas da virgem selvagem. nem fugiu-lhe. como o gemido da rola. que é veneno que não mata. Mal a avistava ao longe. Aí cantou. A pobre Aí. nem mesmo quando. ora lhe apanhava as aves que ele matava. e esperava a piroga de Aoitin. tal qual a ouvi a minha avó. ao romper da aurora. dormindo na gruta. correu para o mar. não olhou para Aí. quando no fim de seus trabalhos. ele viu sobre o rochedo a jovem Aí e disse bem alto: . e nunca ele a atendia. 40 As Lágrimas de Amor . até que se partia o bárbaro que nunca dela dava fé. ou porque. entregou-se a seus prazeres e. e. Ora. a pobre Aí subia ao rochedo. Desde então tomou outro partido: chorou. quando se sentiu fatigado. mas. ela já tinha compreendido que a grande arma da mulher está no pranto. ouvindo-o por tradição depois de muitos anos. Todos os dias. e por isso alegre e folgazona como uma cabritinha nova. pôde do bruto rochedo. mas. por vir sempre temperado com o reativo da esperança. cujo rosto moreno parecia tostado pelo fogo em que ardia-lhe o coração. Esta pequena ilha abundava de belas aves e em derredor pescava-se excelente peixe. que sempre o seguia. procurou fugir do insensível moço e fazer por esquecê-lo: porém. a causa estava no agradável parecer de um mancebo da sua tribo. a moça julgou dever separar da dor. ao tempo que em mais sossego dormia. uma vez veio Aoitin e. saltando dentro de sua piroga e afastando-se da ilha. que serve de teto a esta gruta. o canto soava sobre a sua cabeça. seu canto havia amolecido a rocha e suas lágrimas a traspassaram. como das outras. sem que uma só desse fé dos olhares ardentes que lhe dardejava a moça. caíram-lhe sobre as pálpebras. e nunca um só sinal de reconhecimento obtinha. ela. como na saudade. começou a fazer-se tímida e depois triste. que tinham passado através do rochedo. que lhe cerravam os olhos. que o mesmo não pôde vencer do insensível moço. uma doce amargura. Mas tantos extremos era tão mal pagos. e tomando suas flechas. Dizem que um velho frade português. uma jovem tamoia linda e sensível. entrou na gruta e adormeceu num leito de verde relva. mas terno canto. nem lhe escutou as sentidas cantigas. Uma vez. que diariamente vinha caçar ou pescar na ilha. a esperança que no pranto lhe adicionava a doçura. E o mancebo vinha sempre. Aoitin ia adormecer na gruta. tinha por habitação esta rude gruta. E porque também nas lágrimas de amor há. chorava e cantava horas inteiras. movendo o ar. o nome dela era Aí. e nem o esqueceu. que em pequena a aprendeu de um velho gentio que nesta ilha habitava. com efeito. Aoitin despertou.Eu lhe vou contar a história das lágrimas de amor. Ou porque sua dor era tão grande que lhe podia espremer o amor em lágrimas desde o coração até aos olhos. ora lhe buscava as flechas disparadas. ela entrava de manso e com um ramo de palmeira procurava. O nome dele era Aoitin. Era no tempo em que ainda os portugueses não haviam sido por uma tempestade empurrados para a terra de Santa Cruz. Uma jovem tamoia. Seu canto era triste e selvagem. que até aos quinze anos era inocente como a flor. sem descanso. duas gotas das lágrimas de amor. e vinte vezes já o havia feito. que a fazia chorar amargores. selvagem mesma. Mas Aí era tão formosa e sua voz tão sonora e terna. refrescar a fronte do guerreiro adormecido. que Aí.

Quem ama não dorme. tanto na selvagem como na civilizada: a mulher deseja ser amada. Dizem. como sempre. E em segundo lugar. e viu a sua amada. para a gruta. ouvindo a terna cantiga. não puderam esconder a sua origem e fizeram com que Aoitin conhecesse que era amado.Sinto amar-te! E Aí não respondeu e só sorriu-se.era a febre do amor. mas não ouviu ainda o canto dela. D. pois. Aoitin teve sede. e dessa vez a gota de lágrima lhe caiu no lugar do coração e. depois de caçar veio. nem chorava: mesmo antes de chegar à praia.. quando voltava. então. As lágrimas de amor. que haviam tido o poder de tornar amante o insensível mancebo. Então ele não mais buscou sua piroga.Tu me amas!? Aí não respondeu. No dia seguinte veio Aoitin.. e quando a sede foi saciada. a dois passos viu a fonte que manava. Saindo da gruta.Sinto amar-te! Mas de repente ela estremeceu.No outro dia ele voltou e já.. parece que nada mais faltava a Aí. mas não dormiu. Ana. disse bem alto: . A cada trago que bebia. a fonte era milagrosa. olhou para a virgem selvagem. caçou e cansou. e foi numa mesma hora que morreram ambos. dessa vez. querem também alguns que algumas gotas bastam para fazer a quem as bebe adivinhar os segredos de amor.. correu açodado para ao pé dela e. deseja ser senhora do mesmo de quem é escrava: e pois Aí nada respondeu. trepando pelo rochedo.. pois. disse a Sra.Voz sonora! Terceiro dia amanheceu e Aoitin viu e ouviu Aí. que já não cantava. deitou-se. 41 · Linda moça! .. adormecer na gruta. porém já a este tempo as muitas que havia derramado tinham dado origem a esta fonte.Sinto amar-te! Ora. foi bebendo as lágrimas de amor.Terminei aqui a minha história. mas também não fugiu dos braços de Aoitin. confessando também o seu amor tão antigo. já o insensível era escravo e não vivia longe do encanto que o prendia: correu. . veio repousar na gruta. suas lágrimas secaram. sentiu que em suas veias corria sangue ardente. mas riu- se. mas a natureza da mulher é a mesma. disse bem alto: . foi clamando: . já estava feliz. como. que seu coração estava em fogo: . a gota de lágrima lhe veio cair no ouvido. fez um rodeio e foi. esperava ver partir o seu amante e ouvir o seu belo grito: . e que a ela cumpria responder a este último grito de Aoitin. até chegar junto de Aí. na volta não só admirou a beleza da jovem.. um raio de esperança lhe brilhava. que ainda hoje existe. Desde então foram felizes ambos na vida. com os olhos na praia do lado oposto. ajuntando as suas mãos. que sorrindo-se lhe disse num tom seguro e terno: . . nem ficou devendo o beijo que nesse instante lhe estalou na face. e. que. que quem bebe desta água não sai da nossa ilha sem amar alguém dela e volta. Nada de caça. nada de pesca. por força. respirando. de manso. A fonte nunca mais deixou de existir e há ainda quem acredite que por desconhecido encanto conserva duas grandes virtudes. fingindo não amar.. em demanda do objeto amado. porque uma mão estava sobre seu ombro: e quando olhou viu Aoitin.

Será possível?! . .Adivinhou o seu pensamento.E eu. Augusto correu à porta e voltou logo depois. não a ouve cantar. . que pela terceira vez sinto ruído de alguém que se retira correndo.. .E eu sou capaz de jurar. disse Augusto. . perguntou a Sra. D.. D. 42 .E então?. . E a balada.. ...Rogo-lhe que.. .Pois examine depressa.Apenas a Sra. Carolina. que vai apressadamente para o rochedo. Ana.. respondeu o estudante. ...Ninguém. me facilite o prazer de ouvir sua linda neta cantar a balada de Aí. não carece pedir.Oh!. minha senhora. que tanto me interessou com o seu amor. .Diga..Sempre minha neta!. tenho que pedir-lhe uma graça... .. . .. sobre o rochedo?. por sua intervenção.E vê alguém no jardim?.

II O riso de meus lábios Há muito que murchou. E tenho amor ainda. 43 10 A Balada no Rochedo A hóspeda e o estudante deixaram então a gruta e. Aquele que eu adoro Ah! foi quem o matou: Ao riso. E por tão triste amar Aqui venho chorar. Aquele que eu adoro Ah! foi que a desbotou: A face tão rosada De pranto está lavada! . III O fogo de meus olhos De todo se acabou: Aquele que eu adoro Foi quem o apagou: Onde houve fogo tanto Agora corre o pranto. que morreu. tomando campo no jardim para vencer a altura do rochedo. O pranto sucedeu. IV A face cor de jambo Enfim se descorou. viram a bela Moreninha em pé e voltada para o mar. com seus cabelos negros divididos em duas tranças que caíam pelas espáduas. e cantando com terna voz o seguinte: I Eu tenho quinze anos E sou morena e linda! Mas amo e não me amam.

VI Diurno aqui se mostra Aquele que eu adoro. E sempre o vejo e choro: Por paga a tal paixão Só lágrimas me dão! VII Aquele que eu adoro É qual rio que corre. . VIII São horas de raiar O sol dos olhos meus. 44 V O coração tão puro Já sabe o que é amor. E nunca ele me vê. Sem ver a flor pendente Que à margem murcha e morre: Eu sou a pobre flor Que vou murchar de amor. IX Lá vem sua piroga Cortando leve os mares: Lá vem uma esperança. Aquele que eu adoro Ah! só me dá rigor: O coração no entanto Desfaz o amor em pranto. Mau sol! queima a florzinha Que adora os raios seus: Tempo é do sol raiar E é tempo de chorar.

. E cai na rude cama. Que cai do pé na grama: Quando há de nesse leito Dormir junto a meu peito? XIV . Garboso como o cervo Que salta alto valado: Quando há de ele cá vir Só pra me ver sorrir?. 45 Que sempre dá pesares: Lá vem o meu encanto. Que sempre causa pranto. XIII Lá entra para a gruta.. Qual flor de belas cores. XI Lá corre em busca de aves A selva que lhe é cara. Qual beija-flor. Ligeiro como a seta Que do arco seu dispara: Quando há de ele correr Somente pra me ver? XII Lá vem do feliz bosque Cansado de caçar.. Enfim salta apressado.. X Enfim abica à praia. que cansa De mil flores beijar: Quando há de ele cansado Descansar a meu lado?.

. XVI Ó bárbaro! tu partes E nem sequer me olhaste? Amor tão delicado Em outra já achaste? Ó bárbaro! responde Amor como este. aonde? XVII Somente pra teus beijos Te guardo a boca pura. Que colo há mais formoso. E na piroga embarca. se ocultando. Qual sonho que se esvai E deixa após pesares: Quando há de ele cá vir Pra nunca mais fugir?.. 46 Lá súbito desperta.. Mais digno de teus braços? Ingrato! morrerei. Meus lábios murchareis.. O fim do dia marca: Quando hei de este sol ver Não mais desaparecer? XV Lá voa na piroga.. Que o rasto deixa aos mares. Em que lábios tu podes Achar maior doçura?.. . E não te abraçarei. Seus beijos não tereis! XVIII Meu colo alevantado Não vale teus braços?... Qual sol que.

. Empurras para longe O bem que te está perto! Só pagas com rigor As lágrimas de amor?. se amanhã vieres. XXI Ingrato! ingrato! foge. Terás de ouvir meus ais: E ouvir queixas de amor. esteve no jardim e em toda a parte.. Cantando me ouvirás. . Carolina Mas ela não pára: o movimento é a sua vida.. 11 Travessuras de D. 47 XIX Meus seios entonados Não podem ter vala? Desprezas as delícias Que neles te oferecia? Pois hão de os seios puros Murcharem prematuros? XX Não sabes que me chamam A bela do deserto?. Chorando me acharás!.. Em pé na rocha dura ‘Starei cantando aos ares A mal paga ternura... E ver pranto de dor!.. E aqui não tornes mais: Que... sempre que tornares. XXII E....

.. apontando para a irmã de Filipe. cada cumprimento que lhe endereçamos paga ela com uma resposta que não tem troco e que nos racha de meio a meio. agastou-se comigo. Encontrando Leopoldo. tinham .Muito esbelta.. .Pois meu amigo.Então.Tem voz muito agradável. mas.Palavras da tarifa. . . graça e espírito. Carolina. perdido.. e a patente de cirurgião do exército.. disse Leopoldo. fez as pazes.Tanto melhor para mim. apenas suas faces se coraram com o rubor da agitação.Que mais? . . .. faze idéia! Já leu Mary de Wollstonecraft e. .. Travessa menina!. Não há um só..Dize tudo de uma vez. mas. e palavras da tarifa. pois lhe prometi que.E ela? .É tão ligeira como um juramento de mulher... tu bem vês que ela me está chamando: adeus!. doido. . . 48 cantou de sobre o rochedo e ei-la outra vez no jardim! Infatigável.. . Carolina continuava a cativar todos os olhares e atenções.. tenho-me singularmente divertido: a bela senhora é filósofa!. . adeus! o meu lindo par se levanta do banco de relva em que descansava. enfim. todos nós estamos derrotados..Também Fabrício? .Só isso?. à exceção de Filipe.Pois é opinião geral que ela te prefere a todos nós. enfim! . em prol dos tais direitos das mulheres: além de que. . . No entanto D. o diabinho da menina nos tem posto o coração em retalhos.. se fizer a saúde que hoje fizemos.. O mesmo Augusto não pôde resistir à vivacidade da menina.. .. . como esta defende os direitos das mulheres.Só?. . Tu ainda não lhe disseste nada? .Tem a boca mais engraçada que se pode imaginar.. produziu o gênio inquieto de D... vou tomar-lhe o braço. pronunciarão a letra C. espirituosa e capaz de levar a glória ao mais destro casuísta.. que dás o cavaco por ela. porque lhe pedi uma comenda para quando fosse Ministra de Estado. como a achas agora?. no caso de chegar a ser general.. Mas. Olha. apenas me formasse. que menos valera se não fizera o que faz. Se.E ela? ...É tudo o que pensas?.Nada mais?..Acho-a bonita.Interessante. adeus!. ela tempera todas as travessuras com tanta viveza... Fabrício vê-se doido com ela..Zomba de todos nós. à primeira vista.. Porém.Pois que queres que eu diga? .. e cousas vãs. estradas e canais.. der cuja alma se não tenham esvaído as idéias desfavoráveis que.Cousas vãs..Que a amas!. . .Ora! esse está doente... . .E pior para ela. em lugar das maçadas de pontes..Amá-la? não faltava mais nada! amo-a como amo as outras. disseram duas palavras sobre ela.. isso sim. entre todos.. todos. de novo. trabalharia para encartar-me na Assembléia Provincial e lá. .. promoveria a discussão de uma mensagem ao governo-geral.

.. Carolina foi bem imprudente em quebrar o pé dessa rosa com que brinca. Joaninha para o lado em que ela se achava. mas logo depois desapareceu completamente a menor aparência de tristeza.. . não é assim? . Fabrício. sua bela prima ama as rosas.Pois aqui a tem. em vez de olhar para a mão que o dava. encarando a irmã de Filipe. V..Com toda a justiça e. disse-lhe. além disto. e.. E Fabrício. a rosa é como a beleza: encanta mais espinha. nada de ciúmes. tendo-a defronte de seu formoso semblante. Todos tinham tido seu quinhão. Ao momento de se encontrar a mão que dava e a que recebia. entre um beijo-de-frade ou um cravo-de-defunto e uma rosa. Finalmente D. segundo os merecimentos de cada um. que ela estivera alguns momentos recostada à efígie da Esperança. meu caro senhor! nunca vi pedir uma rosa com tanta graça: quer servir-se dela? .Nada foi. pois que ele retirou vivamente a mão. nas graças maliciosas da menina. . não é assim? . não hesito em preferir a última. Carolina. chegando-se com fingido cuidado para ele. é verdade.Foi um combate sanguinolento. que ainda não estava suficientemente castigado e que. tornou a brilhar-lhe o prazer em ebulição.Pela minha vida. seu primeiro pensamento foi crer que era amado. porque também foi ele o único que se atreveu a travar luta com ela. Eu queria dizer que. quando se viu ao pé de D. Fabrício fingiu não entender a alusão e continuou. correndo para junto de uma roseira toda coroada por suas belas e rubras flores. expondo assim seus delicados dedos. S. Carolina. recebendo o belo presente. e dirigindo-se a D. . Carolina. maior ou menor. . já menos desconcertado. S. . continuou D. ma ganhei o prêmio da vitória. e bem cruel também em fazê-la murchar de inveja. respondeu a menina. . valeu a pena. . exclamando involuntariamente: . Era que a travessa lhe havia apertado os dedos contra os espinhos da rosa. 49 notado. D. em tom meio vingativo: .É decididamente o que eu pensava..Perfeitamente. mas logo se lhe apagou esse raio de vaidade. minha senhora: comprei uma rosa por algumas gotas de sangue. . S.. a levantou com presteza.Pois feriu-se?.ª o sabe.. . depois de ter cantado sua balada. atentava em êxtase o rosto moreno e o sorrir malicioso de D.Ai! feri-me!. perguntou D. mas também não ignoro que a rosa só espinha quando se defende de alguma mão impertinente que vem perturbar a paz de que goza. Carolina rindo-se.ª o sabe. Querida prima.Todavia não é sempre bem pensada semelhante preferência. Mas a flor tinha caído na relva: Fabrício. De todos os lados soavam-lhe os parabéns. V. Fabrício jurava mesmo que a vira enxugar uma lágrima. Carolina acabava de entrar outra vez no jardim. exclusivamente. mas ela escapou a eles.Oh! então a Sra.. começava a gostar seu tantum da Moreninha.. Ninguém havia escapado: Fabrício era a vítima predileta. teatralmente.Seria a mais apetecível glória... se dirigiu com D. . disse Fabrício. Joaninha: sim.Poderia eu merecer a honra de uma explicação? perguntou Fabrício. maldita rosa! eu te ..Maldita rosa! exclamou a Moreninha.Conforme as ocasiões e circunstâncias. Fabrício sentiu que lhe apertavam os dedos. triste e pensativa. tanto mais que foi a V..ª que me dirigi.

enquanto os homens se conservavam na parte de fora. uma voz reuniu todas as senhoras e senhores em um só ponto: serviu-se o café num belo caramanchão. portanto. quando de repente soltou também a sua risada e exclamou: .Foi muito bem feito! disse D.. Continuaram as risadas. quando esta estremeceu no pires. D. Com efeito.. os dois estudantes voaram à casa. aí só se abrigaram as senhoras. a desfolhou completamente.. Fabrício muito daria para ser livrar dos apuros em que se achava. Fabrício recuou um passo e colocou-se à ilharga de Augusto: ele desconfiava das tenções da menina. 12 Meia Hora Embaixo da Cama Não tardou que Filipe. manchada pelo café. viesse em auxílio de Augusto. tombou: o café derramou-se inopinadamente. Fabrício. . não ficou na mão de Fabrício mais que o verde cálice. como bom amigo e hóspede. No entanto começava a declinar a tarde. minha senhora. Escravas decentemente vestidas ofereciam chávenas de café fora do caramanchão. como fosse ele pouco espaçoso para conter tão numerosa sociedade. por sua vez. Fabrício tinha encontrado um companheiro na desgraça: Augusto estava de calças brancas. seja pelo amor de Deus! exclamou Fabrício.Eu quero fazer as pazes. todas as senhoras tinham saído do caramanchão e riam-se. Carolina.Viva as calças de Augusto! Todos olharam. que durou alguns instantes. que o fez ir às nuvens... mas. as terríveis consolações o atormentavam.E esta! murmurou ele. O pobre estudante ergueu-se com ligeireza. Em verdade que era impossível passar o resto da tarde e a noite inteira com aquela calça.. perdeu o equilíbrio e caiu redondamente na relva. Fabrício recuou ainda mais com vivacidade. Carolina correu para junto de sua digna avó. Joaninha. o homem teve de ceder à mulher. começou entre os dois um duelo de cerimônias. E dando um piparote na inocente flor. o pobre estudante ficou desconcertado.Fabrício espichou-se completamente! exclamou Filipe. 50 amaldiçôo!. finalmente. recuou um pouco. D. apesar disse. Duas eram as vítimas. . encontrando a raiz de um chorão que sombreava o caramanchão. Fabrício ia receber a chávena. que se via batido por todos os lados. e. . enfim. Augusto. Fabrício fez outro tanto: a chávena. na verdade. e a maior porção de café entornado havia caído nelas. e. . Sr. redobraram os motejos. inda mal tomada. sua primeira idéia foi esta: o café não tem açúcar. .Perdão. corrido do que acabava de sobrevir-lhe: as risadas continuavam. mas. entrando no . cheia de zelos e dando-lhe um beliscão. Então. temendo que sobre ela se entornasse o café. que praticava com Augusto. D. desapiedadamente. Uma gargalhada geral aplaudiu o sucesso. vejo que deve estar muito agastado comigo e venho trazer-lhe uma chávena de café temperado pela minha mão. Carolina se dirigiu com uma para Fabrício. mas.

pequena era para lhe caber sem incômodo toda a coleção de saias. enrolou-a. muito espartilhada. enfeites e mil outros objetos que estavam todos muito em ordem. julgando-se sós. .. E eram elas D.. sentiu rumor que faziam algumas pessoas que entravam na sala. medroso . eu vou.Augusto. de te aproveitares das mil comodidades e das mil superfluidades que formigam no toucador de uma moça?. quando foi por Filipe interrompido. na hora da afinação. do qual não tirava os olhos. saiotes. Quinquina de um lado. em ceroulas e nu da cintura para cima. vergonha e não sei que mais. segundo suas próprias camaradas. embaixo da qual estava ele. mas que as mãozinhas destas quatro demoiselles não puderam resistir ao prazer. quando se juntam fazem. que também se achava manchada. pois quatro moças entraram no quarto. certamente. bonita. conversando. comprimia a respiração e conservava-se mudo e quedo. e com ela embaixo do braço escondeu-se atrás de uma linda cama que se achava no fundo do gabinete.. sentar-se da maneira seguinte: D. D. Vai!. mas lembra-te que és tu quem me fazes ir e que o meu coração adivinha.. em uma cadeira. Depois de respirar um momento. ainda outra vez. Augusto conheceu logo que eram moças. isto dizendo. D. coberto de teias de aranha e suores frios.Anda. em outra cadeira que.. o nosso estudante estava. apesar de ser de braços e larga. mas.. . que o teu coração sempre foi um pedaço d’asno. muito estufada. porque estes anjinhos. o pobre rapaz seguiu o primeiro pensamento que lhe veio à mente: ajuntou toda a sua roupa. com sua roupa embaixo do braço. Joaninha. águas cheirosas. que com D. baeta fina para esfregar o rosto e enrubescer as pálidas.Mas que espécie de felicidade achas tu nisso? . e. . muito habitual nas moças. se assim o encontrasse. se é sediço e mesmo insólito compará-las a um bando de lindas maitacas. Joaninha na cama. horror.. Gabriela exatamente defronte do espelho. e que seria tudo quanto tivesse vontade de ser. de desarranjar para outra vez arranjar.. e D. portanto. por sua esdrúxula figura. enquanto Augusto. E. menos o que mais acreditava que era. não há remédio senão dizer que muito se assemelham a uma orquestra de peritos instrumentais. Gabriela. flores murchas e outras viçosas. Ai do pobre Augusto!. vestidos de baixo e enorme variedade de enchimentos que lhe faziam de suplemento à natureza. . começaram a conversar livremente.. isto é. mal tinha acabado de tirar as calças e a camisa. pobre estudante! teve logo de agachar-se e espremer-se para baixo da cama. as meninas. teria de cobrir o rosto com as mãos. Depois que todas quatro se miraram. ali acharás banhas e pomadas naturais de todos os países. matinada tal.Ora! pois tu deixas passar uma tão bela ocasião de te mirares no mesmo espelho em que elas se miram!. Clementina e D. que a um quarto de légua se deixam adivinhar. 51 gabinete destinado aos homens. ao belo povinho que acabava de entrar em casa e que. foram por mal dos pecados de Augusto. uma idéia feliz! vai vestir-te no gabinete das moças.Basta. Ora. Filipe empurrou Augusto para o gabinete das moças e se foi reunir ao rancho delas. óleos aromáticos. muito adocicada. essências de formosura e de todas as qualidades. tinha sido um pouco mesquinha a certos respeitos. Clementina e uma outra por nome Gabriela. Quinquina.. escovas e escovinhas. incapaz de aparecer a pessoa alguma. pós vermelhos para as faces e para os lábios. D. faria recuar de espanto. cuidando que cedo se veria livre de tão intempestiva visita. basta. sou eu que to digo. compuseram cabelos. ia tratar de despir-se.

há objeto mais interessante do que D.E a boca?. na verdade.Nem eu! Nem eu! disseram as outras duas.Ora.E como é feia!. por minha vida.. .Antes mil vezes cinco batinas seguidas. Luísa mostrar-se gorda. . A posição do estudante era penosa.Um nariz com tal cavalete. mas. seria ele impreterivelmente visto.Por quê? ... Clementina. por onde.Parece que anda sempre pedindo boquinhas. vale bem o incômodo que sofremos... a teimosa continuou a chuchá-lo com a mais descarada impunidade. Quinquina. se alguma das moças olhasse.E que língua que ela tem! . bem feita?. Mas. . tem uma testa maior que a rampa do Largo do Paço!. .. dizia ele consigo.Não lhe fico atrás. a barra da cama era incompleta e havia seguramente dois palmos e meio de altura descobertos. falam todas quatro ao mesmo tempo.. porque se eu quisesse falar..Ora. em tempo de barracas no Campo!.. . . Quinquina. . juro-lhe eu! exclamou D. Gabriela!.. não há nada que nela assente bem. . ... exclamou D.Ainda que estivesse na moda.Deus me livre!.. você reparou no vestido de chalim de D. está absolutamente fora da moda.. ... que não dizemos mal de nenhuma delas. que me deu pernas grossas.Bravo. .. afetando no abanar de seu leque todo o donaire de uma espanhola.É um saco! . oh! não parece que estamos no mês de julho. é um pau vestido!..Diga sempre... segundo o antigo costume.Não.. Joaninha. ah! ah! ah! .. não me obrigue a rir!. saltou-lhe uma pulga à ponta do nariz.. não quero. acudiu D. o que é.Ora. Mas as moças falam já há cinco minutos. por último.. Clementina. pois não posso emendar a natureza.É horrenda! .E não vimos a filha do capitão com sua dentadura postiça?. porque tem pernas de caniço de sacristão. certamente.Que calor!. D. .. . então seus olhos.D. por exemplo.. que parece o morro do Corcovado!. Todavia.É verdade. 52 de que o mais pequeno ruído o pudesse descobrir.Coitadinha! aperta tanto os olhos! .Têm visto muita coisa boa..Eu não sei por que as outras não hão de ser como nós. pelo menos para mim nunca deve ser.. .Se ela pudesse arranjar também um postiço para o queixo! .. esbelta. D. . mas. um pouco difícil.. .Pernas finas também é moda presentemente.. passando a outra coisa. e por mais que o infeliz a soprasse. D. façamos por colher algumas belezas. Josefina aplaude com prazer a moda dos vestidos compridos! . para meu mor infortúnio. .. D.. Gabriela... não é por falar.. alguma coisa se aproveitará. . Agora não faz senão rir!. . Quanto a mim. o regalo que têm tido nossos olhos. ..É uma víbora! .É um bicho! ... Carlota?. Olhe. pois. ..

Trocou as cartas! . que são os juízes.. .. arregalou os olhos de maneira que lhe pareciam querer saltar das órbitas.. mas.Logo duas?. o nosso estudante. uma preta que vende empadas e que se encarrega das minhas cartas. Joãozinho: “Ingrata! Ainda tremem minhas mãos. ... Joaninha. Ouvindo tal proposição.. Mesmo dizendo-lhe eu dez vezes: a de lacre azul é do Sr.Como? . apertando-os com força.. . até tocar com o pé no chão. ... rematando este interessante painel róseo. porém.Ora pois... e só te . Gabriela. .Isto é fácil.. te condenam às perpétuas galés do desprezo...Facilmente: vamos medir nossas pernas. acrescentou D. não somos todas moças?... e deixando escorregar de propósito uma das pernas para fora do leito. quem o pensaria? não foram beijos o que desejou o estudante outorgar àquele precioso objeto. Olhem..Que tinha isso?.. Joãozinho e a de verde é do Sr.É verdade... Porém. por sua vez.Pois por mim não era a dúvida.. entregou-me este escrito do Sr. felizmente. repetiu D. acudiu D. pegando no corpo de delito da tua perfídia! Escreves a outro? Compareces por tão horrível crime perante o júri do meu coração.. eu vejo-me doida!. Pobre Augusto!. de modo que ficou à mostra até o joelho. dez... e quando descia a escada... suspirou ela. disse ela. com a destreza precisa. com ar de triunfo.. recebeu da minha mão duas. respondeu D. e que estava mesmo pedindo um...E o resultado?. Juca.Quem me dera já casar.Ei-lo aqui. apertado em um sapatinho de cetim. isto é só para ver qual dos cinco quer casar primeiro.. D.... apesar de todas as minhas explicações. dir-se-ia que não temos dormido juntas. um pezinho que só se poderia medir a polegadas. tornou D.Havia de ser engraçado. Quinquina. sabem o que fez?.. tornou a primeira. mas. pois bem. já estava de boca aberta e para saltar... ontem..E talvez algum saiote. além de que.Isso é bom de se dizer. lembrando-se da exótica figura em que se via. ..Quem me dera já casar!. disse.Não. . veio deixá-lo com água na boca. através da finíssima meia aprecia uma mistura de cor de leite com a cor-de-rosa e. não te chamarei eu feliz!. Quase que já se não podia suster. Clementina. bem que tenhas nesse tribunal a tua beleza por advogada. cem. procurava iludir sua imaginação.. ele vê a um palmo dos seus olhos a perna mais bem torneada que é possível imaginar!. Clementina e. . mais de vinte me atormentam! Querem saber o que me sucedeu ultimamente?. vamos a isto! . . meteu a roupa que tinha enrolada entre os dentes e.. não se veria demais senão quatro ou cinco saias por baixo do segundo vestido. . não... tirando um papel do seio. disse D. . Gabriela.. Gabriela. principalmente se devemos dar crédito aos que tanto nos perseguem com finezas. 53 . . apesar de se ver em apuros embaixo da cama. veio-lhe ao pensamento o prazer que sentiria dando-lhe uma dentada.. ao vir embarcar. Clementina. e. podemos tirar as dúvidas. que não parecia estar muito consigo e que só por honra da firma dissera o seu “nem eu!”. a tal preta. o meu ciúme e justo ressentimento. a maldita estava de mona. recostando-se mole e voluptuosamente nas almofadas. mil beijos.... D. Eu confesso que me correspondo com cinco.. arregaçarmos aqui nossos vestidos!.

. por que lhe não entrega ou não lho manda entregar?... O tal Sr.E você. vejo-me sempre cercada de adoradores... um embrulhozinho com uma trança de meus cabelos. todas nós gostamos de ser conquistadoras.....Bravo... . hoje. embaixo da cama. . . Clementina.Que asneira?. Joaninha. Eu começo declarando que estou comprometida com o Sr. . Joaninha. D. Clementina.Eu?. aos lábios de um desenxabido namorado. que vai direita ao caramanchão. embaixo da quarta roseira da rua do jardim.. . que triunfos havemos conseguido?... mana..Mas que temos nós feito nesta ilha?. Gabriela mirando-se no espelho.. não é graça. para não constipar.. ainda não tive tempo de olhar para as pernas.” . enfim. é o único de quem gosto. .Olhem lá o diabinho da sonsa! murmurou consigo mesmo Augusto.. e o Sr. perguntou ainda ela a D.. e a tudo isso julga ele ter muito direito por ser tenente da Guarda Nacional! Pois. isso é verdade. digo que ainda não amo. Vaidade para o lado: moças bonitas. tomo sorvetes até não poder mais. . disse D. . Fabrício?.. Joaninha. havia tanto tempo para isso! mas.. tem-se regalado hoje com o incomparável Fabrício. mas enfim. disse D. é doutor. mas também você parece que não se arrepia muito com a corcova do nariz de meu primo. 54 poderás livrar delas se apelares dessa sentença para o poder moderador de minha cega paixão. respondeu aquela. confessemos. tenho-me visto doida. não diz nada?.Isso é razoável.Bem mostra pelo bem que escreve. Filipe a deixar esta noite. Leopoldo.É a única que ama deveras! pensou o estudante.Pois confessemos.Você.Pois bem. Joãozinho é sem dúvida estudante de jurisprudência? ... que não tome sorvetes.. Gabriela! o Sr. . ando agora de fita branca no cabelo. exclamaram as três. o que hei de dizer? respondeu esta. . eu não sei se sou bonita. ... dou dominus tecum aos moços mesmo quando eles não espirram e não posso ver o Sr. Leopoldo.. a quem já doíam as cadeiras de tanto agachar-se. em sinal de sentimento. como somos.Ora. assobiou D... Quinquina. eu ainda não vi estudante mais desestudável!.. mas é uma verdadeira desgraça ser hoje moda ouvir com paciência quanta frivolidade vem à cabeça .Não. porém.E o Sr. por exemplo.Juro que estou completamente aturdida com os protestos de eterna paixão do Sr. só as perninhas que ele tem!.não direi à cabeça. eu tenho muita vergonha. por isso mesmo. exige ainda que eu não valse mais. acudiu D. até parece romântico. perseguiram-me constantemente .. . Não lhe gabo o gosto. com uma fita preta no cabelo. antes quero assim. e que jamais me ria quando ele estiver sério.Ora. Querem ver uma dessas? O meu predileto está de luto e por isso exige que eu vá à festa de. que não dê dominus tecum a moço nenhum que espirrar ao pé de mim.. de futilidades é que amor se alimenta. D.Pela minha parte não digo nada.. .Mas eu sou bem tola! conto tudo o que me sucede e ninguém me confia nada! . Fabrício?. minha amiga.. Tenente Gusmão sério sem soltar uma gargalhada. Gabriela. nós devemos pagar com gratidão a confiança de D.. tornou D. Quinquina.. devemos ter conquistado alguns corações! .. . mas.São caprichos de namorados! falou D. . . onde quer que esteja.. valso todas as vezes que posso. porque parece que os tolos como que não a têm.

.. .. exclamou D. As quatro moças levantaram-se espantadas. .. ... ..Vamos: pensemos nos meios de zombar dele cruelmente. ouviu-se um grito de dor. estendendo o pescoço a modo de cágado. ao qual seguiu-se viva agitação no interior daquela casa. .. era impossível ter tempo de mangar com todos a preceito. onde inda há pouco só se respirava prazer e delícias. que se ponha outra no meu lugar.. . .Pois bem. Augusto.Que vaidoso! . Joãozinho. deixar aquele lugar. Houve já um que não teve vergonha de escrever isto em um papel: Num dia. Gabriela deixado cair.. que... No mesmo lugar Eu gosto de amar Quarenta Cinqüenta Sessenta: Se mil forem belas.. sem ser visto. vestiu-se apressadamente e ia. soltado por D.Eu creio que ele é corcunda.Mas.. escapar-se do gabinete. .Vamos ver. . quando deu com os olhos na carta do Sr. porque. com a pressa e agitação. saiu de seu esconderijo.Essa opinião segue também o Augusto! . Mas elas não tiveram tempo de pensar.... 55 seis. O grito de dor tinha sido. . Um instante depois foi cuidadoso procurar saber a causa do rumor que ouvira.Tem as pernas tortas. e esse paspalhão!. .Pareceu-me a voz de minha prima Carolina. Amo a todas elas. por sua vez. murmurou entre dentes o nosso estudante.Que pateta!. Joaninha.. que não estava menos assustado.Há de ser interessante dançando! . . assemelha-se muito a uma preguiça. neste momento.... aquilo é magreza. Carolina.Não. numa hora.Pois pensemos.Oh!. Gabriela.Alguns homens zombariam de doze de nós outras a um tempo. com efeito.Como lhe fica mal aquela cabeleira!. . .Coitada! que lhe sucederia?. . O estudante apanhou e guardou aquele interessante papel. e com prontidão e cuidado pôde.. ..Que tolo!.. D. em que se vira em tantos apuros. havia D. . onde está o seu talento?..Forte impertinente! falando é um Lucas.. As quatro moças correram precipitadamente para fora do quarto..Ei-las comigo.Vamos nós tomá-lo à nossa conta? .

se alguém corre perigo. ele pensava que seria mais feliz se deparasse com um companheiro que o ajudasse a reqüestar aquelas belezas: era um amante sem zelos. não é certamente ela. Não havia remédio senão corresponder a brindes tão obrigativos. forçava Paula a virar copos cheios. torrada e depois desfeita num . duas salas e tudo em dobro.. que os copos dançavam.. caiu sobre ela. porque o era da despotazinha daquela ilha. se tivesse deixado embriagar. é fraqueza complicada com o tempo frio. Ninguém ousou pensar que Paula. e. Momentos depois Paula se achava deitada numa boa cama e rodeada por toda a família. por isso. e. em resultado as seis garrafas foram-se. . Carolina. 56 13 Os Quatro em Conferência Ninguém se arreceie pela nossa travessa. sua mãe e sua família. Violante.. exclamando com força: . das quais se achava ternamente enamorado. Chamou-a. muito estimada de todos. junto à mesa. . não vale nada. cambaleou e. rubicundo e reluzente. enquanto o alemão. Por infelicidade de Paula. Morava com a Sra. mas o nosso amigo Keblerc achara justo e prudente deixar-se ficar fazendo honras à meia dúzia de lindas garrafas. por nome Paula. Paula deixou-se ficar sentada.. Carolina quis levantar-se. O caso é simples. mostrou por ela o mais vivo interesse e depois convidou-a a beber à saúde de seu pai. todos se tinham ido para o jardim logo depois do jantar. ergueu-se e sentiu que as paredes andavam-lhe à roda. sempre sóbria e inimiga de espíritos. caiu com estrondo contra uma porta. Ora.. Paula se foi tornando alegrezinha e por sua vez desafiava Keblerc a fazer novos brindes. foi despejando meia garrafa de vinho na boca da pobre Paula que. depois. não pôde livrar-se de que a interessante Esculápia lhe entornasse boa porção pelos vestidos. que teve o mesmo mal. que se supunha com muito jeito para a Medicina. por mais que lépida e risonha o fosse engolindo a largos tragos.. A primeira pessoa que entrou em casa foi D. o alemão a lobrigou ao entrar num quarto. de D. venha um copo de vinho! E dizendo isto. mas.. correram alguns escravos para o jardim. pareceu-lhe que estava uma nuvem diante de seus olhos.. com cauda de cobra moída. havia algazarra tal. Quem lhe olha para o nariz diz logo que são maleitas! Eu já vi curar-se uma mulher. que o assoalho abaixava e levantava-se debaixo dos pés. .. risonha e imóvel. com toda a força de seus pulmões. que havia duas mesas. vendo a infeliz mulher estirada no assoalho.. a quem tinha servido de ama. contudo. Logo confusão e movimento. Depois não houve ninguém no mundo a quem Keblerc não julgasse dever com a sua meia língua dirigir uma saúde..Foi este o seu grito de dor. não pôde dar mais que dois passos.São maleitas! exclamava D. gritou uma avelhantada matrona. que mal se entendia uma palavra.Oh! minha mãe!. gritando que Paula acabava de ter um ataque. Ana uma pobre mulher.. como já estivesse um pouco impertinente. e muito naturalmente. são maleitas!.. Quando daí a pouco a ama de D. O grito de dor foi. obrigou-a a sentar-se junto de si. acreditando sentar-se numa cadeira. Carolina que. D. Passado algum tempo. porém.. seu. na verdade. Os desvelos e incômodos que tivera na criação da menina lhe eram sobejamente pagos pela gratidão e ternura da moça.Isto foi o jantar que lhe deu na fraqueza. se dirigiu para a sala.

que foi mais ouvida que as primeiras.. . sempre em voz baixa. não se vê logo que isto não passa de uma mona.. . . disse Filipe em tom baixo a seus colegas. podemos aproveitar as circunstâncias. Só cuidava de si quando devia enxugar as lágrimas.. Curto foi o exame. . .. .Não. O rosto e o bafo da doente bastaram para denunciar-lhes com evidência a natureza da moléstia. a minha Paula nunca teve tão feio costume. para que estão com tal azáfama?. mesmo vendo-se a minha dor.. por força. a culpa é desta senhora. disse com voz teatralmente solene: . no qual os quatro estudantes fingiram observar o pulso. que acabava de entrar no quarto. aturdidas pelo caso repentino e preocupadas pela sobriedade desta mulher.. Carolina.. isso é do catecismo dos charlatães! . não sejas tolo. Observava-se aquela Moreninha de quinze anos. portanto. ficando entendido que as honras pertencerão ao que maior número de asneiras produzir.. aqui ninguém nos entende. a língua. No meio de toda esta balbúrdia era de ver-se o zelo e a solicitude da menina travessa!. É fazer isso já. . à vista de tanta gente que. nenhuma delas quer ver o que está diante de seus olhos. o caso é que nos não entendam.Ora.Mona.. ainda que também nós não entendamos.É espírito maligno! acudiu outra. prevenindo tudo e aparecendo sempre onde se precisava apressar um serviço ou acudir a um reclamo. 57 copo d’água tirada do pote velho com um coco novo e com a mão esquerda. . correndo de uma para outra parte. tornou Augusto.Mas que iremos dizer nesta conferência. é uma mona de primeira ordem.Há de ser bonito. rogamos breves momentos de atenção.Oh diabo!. que. se lhe disséssemos que sua ama se embebedou. e. Oh! é bem cruel que. tornou Filipe. digam semelhantes coisas!. que a boa da Paula tomou? Olhem: até tem o vestido cheio de vinho. voltando-se para os circunstantes.. Movimento de curiosidade. . Junto do leito apareceram os quatro estudantes. disse uma senhora. que parecera somente capaz de brincar e ser estouvada.Diremos tudo o que nos vier à cabeça. zombar de todas elas e divertir-nos fazendo uma conferência. conhecerá esta patacoada.Está claro..São lombrigas! gritava uma terceira. que há pouco lhe despejou meia garrafa por cima. . não pareces estudante. . pelo lado da parede. vamos sossegar estas senhoras. é espírito maligno que lhe entrou no corpo! venha quanto antes um padre com água benta e seu breviário. o rosto e os olhos da enferma auscultaram e percutiram-lhe o peito e .. . queremos conferenciar. não senhora! acudiu D.Meus senhores. senão que ela está espirituosa demais? perguntou Augusto. . minha irmã ficaria inconsolável.Qual conhecer?. e..Isto não vale a pena.. Seguiu-se novo exame da enferma.Ora. tornou Filipe. se está molhada com vinho. nem sentir o cheiro que lhes está entrando pelo nariz. brigaria conosco e não nos acreditaria. devemos lançar mão de tudo o que nos possa dar prazer e não ofenda os outros.É ataque de estupor! bradava a quarta senhora.

haviam-lhe mandado aplicar mais de trezentas bichas. exclusivamente. é. ah!. cause um retrocesso prostático. Mas eu tenho observações de moléstias de natureza da que nos ocupa e que vão mostrar a superioridade do meu sistema... mas devo combater o tratamento por ele oferecido.O tratamento que proponho é concludente: algumas gotas de éter sulfúrico numa taça do líquido fontâneo açucarado. Desde Hipócrates. herbária. . o cozimento dos frutos do coffea arabica torrados. com o Amazonas ao pé!.Daí. Depois eles se colocaram em um dos ângulos do quarto. as nossas lancetas estão bem afiadas e duas libras de sangue de menos não farão falta à doente. já tinha sofrido trinta sangrias. no esfíneter do cerebelo..Como ele fala bem! murmurou uma das moças. como a estercorária. como pensam os modernos autores.Muito bem concluído. com três doses. porque a verdade está só. perturbam a quimificação da hematose. . A moléstia de que nos vamos ocupar não é nova para nós. Hahnemann. no Organon do grande homem! Ah! se depois do divino sistema morre por acaso alguém.Sangue! sempre sangue! eis a Medicina romântica do insignificante Broussais! mas eu detesto tanto a Medicina sanguinária.. sudorária e todas as que acabam em ária. queimai todos os vossos livros. o que julgo impossível. creio. até os nossos dias.. de fazer-me observar uma enfermidade que não nos deixa de pedir sérias atenções e sobre a qual eu vou respeitosamente submeter o meu juízo. penetrando pelas câmaras ópticas. tem triunfado a ignorância. eis a grande verdade!. . no alcorão de nosso Mafoma.Não respondo aos apartes.. .. ... podendo mesmo produzir uma protorragia nas glândulas de Meyer. que foi o maior charlatão do seu tempo.. até que.. ... . duzentos e mais anos. Fabrício tomou a palavra. 58 fizeram todas as outras pesquisas do costume. que qualquer de vós já a tem padecido muitas vezes.C’est trop fort!.. . em minha opinião. brilhou o sol da sabedoria. purgantes sem conta.Eis aí a consideração que os leva ao erro!. ou mesmo o thea sinensis.. enfim. uma vez que a compresão do diafragma lhes cause vibrações simpáticas que os façam caminhar pelo canal colédoco até o periósteo dos pulmões.. Poucas palavras bastam. senhores...Acabastes.. que por isso se tornando em linfa hemostática. Concebe-se perfeitamente que as etesias desenvolvidas pela decomposição dos éteres espasmódicos e engendrados no alambique intestinal. Disse: .Mas por que não têm morrido envenenados os que por vezes o têm já tomado?. capaz de envenenar a todos os habitantes da China! O mesmo direi do cozimento do coffea arabica. Senhor meu colega.. Uma mulher padecia este mesmo mal. quebrai vossas lancetas. . mesmo. senhores! para curar o mundo inteiro basta-vos uma botica homeopática. senhores. passando à garganta.. Ouçam-me. é por se não ter ainda descoberto o meio de dividir em um milhão de partes cada simples átomo da matéria! Senhores. Eu diagnostico uma baquites.. mas já. às vezes só aparece depois de cem. que. Profundo silêncio. e promovam uma rebelião entre os indivíduos cerebrais: por conseqüência isto é nervoso.Está enganado. é porque a ação maléfica desses medicamentos não se faz sentir logo.. .. e quando isto não baste.. e acidulado com algumas gotas de éter sulfúrico. vá de um jacto causar um tricocéfalo no esfenóide. quis o seu bom gênio que ela recorresse a um homeopata.. vomitórios às dúzias e tisanas aos milheiros. Filipe teve a palavra. Uma taça de líquido fontâneo açucarado. . eu concordo com o diagnóstico de meu colega.

Ainda em cima de não lhe mandar aplicar uma ajuda.. .. Em resumo basta dizer que ele combateu as raras teorias de Filipe. um escalda-pés!.. caiu a tropa das mezinheiras sobre o desgraçado estudante.Olhem como a doente está risonha. 14 Pedilúvio Sentimental Ria-se.. que se viu quase doido com a balbúrdia de novo alevantada no quarto. com boas cores e até remoçou e ficou bonita. nos aclara sua enfermidade. em boa disposição de brincar. por ter a ama de D. mas concordou com o tratamento por ele proposto e falou com arte tal que D.. jogava-se.Pois bem. gorda.. mas posso afirmar que ela mora em uma casa e que hoje está nédia. não era justo que tantas moças e moços. segundo. foi pensando consigo mesmo que as coisas que mais contrariam o médico são: primeiro. enfim.Sr. Doutor. isto pode ser fatal à doente! . portanto. .. eu devo confessar que restam-me muitas dúvidas a respeito do diagnóstico e. Augusto determinou as aplicações convenientes ao caso. a saúde alheia... pois. só por ouvir falar em escalda-pés!.. e quem quiser pode ir vê-la na rua. Seguiu-se o discurso de Augusto que..Senhores.. a pôs completamente restabelecida. por último. ficassem a noite inteira pensando na carraspana da . dobrada razão acho para sustentar o meu parecer porque. Leopoldo tem a palavra. Outro fato. basta. Carolina tomado seu copo de vinho de mais. . eu não respondo pelo resultado!. Voto.. não tendo entrado no número delas a essencial lembrança de um escalda-pés. e umas poucas de velhas determinadas a maçar meio mundo. levada ao sonambulismo. que tanto abismaram Paracelso e Kisker. brincava-se.. dizia o rapaz.O Sr. as senhoras mezinheiras. . minhas senhoras. . . eu nunca vi negar-se um escalda-pés! .. . parece prudente omitir. e propondo a aplicação da nihilitas nihilitatis na dose da trimilionésima parte de um quarto de grão. Na verdade também que. enfim. julgo útil recorrermos ao magnetismo animal. esquece-se também do escalda-pés!.. dou por terminado o meu discurso.Pois bem. Todos se haviam já esquecido da pobre Paula. um mau enfermeiro e.Menos ruído.Ora.Aquilo é pressentimento! .Se não lhe derem um escalda-pés. eu tenho fé de que não há moléstia alguma que possa resistir à maravilhosa aplicação dos passes. se similia similibus curantur. 59 das quais cada uma continha apenas a trimilionésima parte de um quarto de grão de nihilitas nihilitatis. para que comecemos já a aplicar-lhe os passes. . dêem-lhe o preconizado escalda-pés! E fugindo logo do quarto. É certo que não me lembro agora onde. mas.Basta! basta!. minhas senhoras. por longo demais. . Além disto. Ainda mais: se o diagnóstico do colega que falou em primeiro lugar é exato. necessariamente o magnetismo tem de curar a baquites. para vermos se a enferma. disse Augusto para se ver livre delas. Carolina o escolheu para assistente de sua ama.

na verdade.. Augusto.. A rapazia empregava melhor o seu tempo: também jogava. vinha logo outro melhor. não podia ter menos de cinqüenta anos. exceção de regra entre os mais. nem criar impostos. a interessante Moreninha é.. nem cartas. Violante ocupou-se em desenvolver a um velho roceiro os meios mais adequados para se preencher o defict provável do Brasil para o ano financeiro de 44 a 45.. Violante tinha casas na cidade. pois outra vez?. D. Entre os rapazes. E além disso. Filipe ainda não gritou com a dor de nenhum beliscão.Eu já não dei inda agora?. a travessa. cumprimentado e aplaudido as senhoras idosas que se achavam na sala. gordo.. passada meia hora. O terceiro agradou tanto. qualquer das duas recua um passo. Restavam quatro senhoras. Keblerc que. quando um aborrecia.. mas na sua roda não havia nem mesa. sem mais nem menos. Já se havia jogado o do toucador e o do enfermo.. como o episódio do ás galar o sete. por felicidade deles sempre se encontra desses. de pernas arqueadas.. e fazendo-se coradinha.. que julgaram a propósito jogar o embarque. como. A causa é outra: a alma da ilha de. pelo contrário. D... como é seu velho costume. a Sra... Era um homem de estatura muito menos que ordinária.. casados e velhos pais perdiam ou ganhavam dinheiro no écarté. já se viu que coincidência!. se são capazes.. Com efeito. sem aumentar os direitos de importação. era uma escala inteira que ele solfejava com bemóis. Já se vê que D. adeus etiquetas e cerimônias!. Os rapazes estavam nos seus gerais. que na verdade as divertia muito. Batista (este é o seu nome) era fértil em jogos. a inquieta. não! ele esperava isso como castigo de sua inconstância. pois. . principalmente aquelas que tinham trazido consigo moças. Estabeleceu-se um cordão sanitário entre a velhice e a mocidade. grandes inventores.. no fim de cada jogo.Quantos abraços!.. se arrojaria Paula a morrer. que nos vieram ensinar os senhores franceses. Será por que no tal jogo da palhinha tem por vezes ficado viúvo?. Joaninha! E sempre. havia. nem dados.. o jogo da palhinha. a princípio. há um que não está absolutamente satisfeito: é Augusto.. a tentaçãozinha não está aí. diante de meia dúzia de garrafas vazias. haviam festejado. que se repetia pela duodécima vez.... não estava bem senão entre rapazes.. segundo ele.. Era por isso que todos brincavam alegremente.. quatro semidoutores já haviam pronunciado favorável diagnóstico. não está na sala! Augusto vê o jogo ir indo o seu caminho muito em ordem. bequadros e sustenidos!.. O Sr. exclama: . Clementina e Fabrício D. Carolina (ele assim o pensa). jugo muito bonito e muito variado. com aplauso geral. enfim. grande alemão para roncar!. a décima urbana. contra a ordem expressa dos quatro hipocratíssimos senhores?. roncava prodigiosamente. tinha o rosto muito vermelho. não se rasgou ainda nenhum lenço.. já faz dela idéia absolutamente diversa da que fazia ainda há poucas horas. travessa. tudo se faz em regra e muito direito. sem dúvida!. dir-se-ia que entoava um hino. Ana achou a ocasião oportuna para ir dar ordens ao chá.. Tal o diretor da roda dos moços. mas. ora isto!. outra mesa em que alguns senhores. sem amar D.. . a Baco. Agora. 60 rapariga. viúvos. Tem- se jogado a palhinha doze vezes e em todas as doze tem a sorte feito com que Filipe abrace D. mas a cada travessura ajunta tanta graça. ajuntava ao ridículo de sua figura muito espírito. Caso célebre!. porém.. abolindo-se. principalmente das moças: era. D. a buliçosa. como se pouca vontade houvesse nelas de dar o abraço. O seu jogo tinha diretor que. cabelos e barbas ruivas.. ora expliquem.. menos o Sr. Carolina está ausente!.

e depois. D. minha senhora. Augusto pediu que o dispensassem e foi ter com a dona da casa. a segunda era uma escrava que acabava de depor. . assim disseram os moços. Sr. está em sê-lo a sua maior graça.Parece-me pouco alegre. ligeiro como abelha. Carolina. minha senhora. e receba isso como a mais franca prova de minha estima para com o amigo de meu neto. vivo e delicado. estou satisfeitíssimo. Três pessoas havia nesse quarto: Paula. mas não via.. 61 que tudo se lhe perdoa. apontando para dentro. D. era um objeto triste e talvez ridículo. D. A escrava abaixou-se... .Não joga mais. . Carolina. aquele rosto moreno. Carolina está sem dúvida no quarto de Paula. . respondeu ele.. tirou-a de repente. .É a delicada borboleta deste jardim. disse ela. Augusto? . que desprezava a sala.A Sra.Gosta de minha neta.Minha senhora..Na verdade que aqui não está tudo. O beija- flor nunca se mostra tão belo como quando se pendura na mais tênue flor e voeja nos ares. junto do leito.Ao contrário. puxou os pés da pobre Paula. vá vê-la e consiga arrancá-la de junto de sua ama. A boa senhora riu-se com satisfação.. se não padecesse. a bacia em que Paula deveria tomar o pedilúvio recomendado. e sacudindo-a: . . A porta estava cerrada. D. Ana levou Augusto pela mão até ao corredor e depois o empurrou brandamente. Tomásia. objeto indiferente. Seu orgulho de avó acabava de ser incensado. Carolina é um beija-flor completo. este objeto era nobre. .. Ana.Está fervendo!. D. respondeu a menina. pondo a mão n’água.Então que falta? . . . . Ana entrou na sala. Pela sua voz conhecia-se que tinha chorado. em que borbulhava o prazer. . abriu sem ruído e parou no limiar. depois. .Não está fervendo. A Sra. Batista acabava de dar fim ao jogo da palhinha e começava novo. deitada e abatida sob o peso de sua sofrível mona. se é inquieta e buliçosa. dá-lhe o escalda-pés! disse D. disse.Anda. mostrando as flores. . a terceira era uma menina de quinze anos.O amigo de meu neto deve merecer minha confiança. disse a Sra. .Por ora não.Vá buscá-la. era tocar-lhe no fraco. Neste momento a Sra.. pelo quarto em que padecia uma pobre mulher. tanta honra!. aquele corpinho. D. Carolina e a escrava tinham as costas voltadas para a porta e por isso não viam Augusto: Paula olhava. com presteza e alegria. ou antes não sabia o que via.Vá. se não estivesse em contínua agitação. sentou-se defronte do jardim. D. dirigindo-se à grande varanda da frente. perderia metade de que vale. . deve ser bem quente. Carolina é o prazer em ebulição. se aqui lhe falta alguma coisa. Augusto? disse ela. esta casa é dos meus amigos e também dos dele. Augusto não esperou ouvir nova ordem: e endireitou para o quarto de Paula. Sr.Oh! seu rosto mostra não sentir o que me dizem seus lábios.

. e depois abaixou-se no lugar da escrava.O senhor falava de meus escravos. exclamou D. .Ela corre algum risco?. disse o moço.. . .Estonteada!. que bateu com os pés de Paula contra a bacia. .Mas a quem encarregarei? . Quando Augusto julgou que era tempo de terminar...Quer dar-me a honra de acompanhá-la até à sala? disse Augusto. por isso não pôde suster-se e. ficou em seu lugar o anjo de candura. e adivinhou que ela estava engolindo suas dores para não gemer. e aceitando o braço do mancebo deixou o quarto de Paula..Experimente..Obrigada! . quando algum dos muitos escravos que a cercam poderia encarregar-se do trabalho em que a vi tão piedosamente ocupada. e começou a banhá- los. o olhava com ternura. quando aí tocara de leve com as suas. afasta-te. minha senhora.Afasta-te daí. adiantando-se. Os últimos vislumbres das impressões desagradáveis que ela causara a Augusto.. .Pois nem para escravo eu presto? . disse: .Ela me deu de mamar. nessa mesma água que fizera lançar um grito de dor à escrava.Veja se eu sei dar um pedilúvio! E nisto o estudante abaixou-se e tomou os pés de Paula. . . minha senhora.. Ela não respondeu.Nenhum o fará com jeito. Belo espetáculo era o ver essa menina delicada.Mas nem por isso deve a senhora condenar suas lindas mãos a serem queimadas. mas olhou-o com gratidão. ..Oh!. chorando. tão finas.. .E tenho testemunhado tudo! A menina abaixou os olhos. Carolina.. banhando-os com sossego. sai. . . ... curvada aos pés de uma rude mulher. disse: . oferecendo a mão direita à bela Moreninha. . Agora deixemo-la descansar. arregaçando as mangas de seu lindo vestido. tão grosseiras e calejadas!.. disse a menina com tom imperioso.. perguntou a menina. de todo se esvaíram. confusa e apontando para a doente. Acabou-se a criança estouvada.Senhor!.Afirmo que acordará amanhã perfeitamente boa. enquanto D. Mas o sensível estudante viu as mãozinhas tão delicadas da piedosa menina já roxas. o senhor estava aí? . tão lindas. apertou-os contra o peito. Carolina.. 62 A escrava tornou a pôr a mão e de novo retirou-a com presteza tal. tomou os pés de sua ama. .. A escrava não obedeceu.A mim. mergulhando suas mãos.. a jovenzinha recebeu os pés de sua ama e os envolveu na toalha que tinha nos braços. junto dele.Perdoe.

Carolina. Um autor pode entrar em toda parte e. ao sentir tão perto dos seus os lindos lábios dela. de volta do seu passeio noturno. suspira.. 63 15 Um Dia em Quatro Palavras Ao romper do dia de Sant’Ana estavam todos na ilha de. atirou-se entre Fabrício e Leopoldo e imediatamente adormeceu. e.vamos dormir. em vez de chamá-lo. outras tantas rebelde. não cumpria certos castigos que lhe impunham. Não. assoprando-lhe os lábios. ainda bem. Os estudantes dormiram juntos. Carolina e Augusto lhes deu ainda dobrada viveza e fogo.. dois velhos ferraram-se no gamão. que... A chegada de D. Com efeito.. e como roncam!.. assentara de. quando eu sonhava com um anjo.. peste!.. e como se o colega tivesse culpa de tal infelicidade. acordando- o pouco a pouco.. A bonita Moreninha tornou-se mais travessa do que nunca. Oh! beleza! oh! inexplicável poder de um rosto bonito que. dá um beijo em Fabrício. Finalmente. queria rir-se. e cada qual tratou de fazer por consegui-lo. não deu um só beijo e aquele que atreveu-se a abraçá-la teve em recompensa um beliscão. depois de uma noite como a da véspera. A porta está aberta. Mas que faz o nosso Augusto? Ri-se. que traquinas como sempre. para isso. que ele fingira continuar a dormir e ela se sentara à sua cabeceira. finalmente.. bater com os beiços e nariz contra a testa de Fabrício. Corra-se. que o rosto chegou à distância de meio palmo e. não contente com as zombarias que faz ao homem que vela. Eis os quatro estudantes estirados numa larga esteira. não.. não podendo mais resistir aos seus férvidos desejos.. alto lá! no gabinete das moças. outros jogavam..Sai-te daí. as moças espalharam-se pelo jardim e os quatro estudantes . ouviu-se a voz de: .. mil vezes bulhenta. (aqui parou o sonho e principiou a realidade) e ele deu um salto e.. com toda a força e estouvamento.. em que tanto se havia brincado. no dos rapazes. ir de um salto colher o voluptuoso beijo naquela boquinha de botão de rosa. O último que se deitou foi Augusto e ignora-se por que saiu de luz na mão. os jogos de prendas tinham-se prolongado excessivamente. São seis horas da manhã e todos dormem ainda o sono solto. um véu sobre quanto se passou até que se levantaram do almoço. acorda espantado e ainda em cima empurra cruelmente o mesmo a quem acaba de beijar. Então que é isso lá?. murmura frases imperceptíveis. estava ardentemente desejoso de furtar-lhe um beijo... era isso muito natural. de modo que era preciso começar de novo o que já estava no fim. foi. Uns conversavam. acordo-me nos braços de Satanás!. A sociedade se dividiu logo depois em grupos. quando se aproximasse o belo rosto. que. descansando nos braços do sono. que ele. deu-lhe dois empurrões.. quando todos se achavam acomodados. ora. a passear pelo jardim. de quem ele teve até aborrecimento e que agora começa com os olhos travessos a fazer-lhe cócegas no coração. vinha terna e amorosamente despertá-lo. porém. o ilude e ainda zomba dele dormindo! Estava o nosso estudante sonhando que certa pessoa. aproximava seu rosto do dele. perturbava a ordem dos jogos. pois. em lugar de pregar um terno beijo nos lábios de D. dizendo: .. ria-se ao ver as contrações que produzia a titilação causada pelo sopro. não senhor. mas que temia vê-la fugir ao menor movimento.

. para tornar a aparecer logo depois. sempre quer. e eu vejo que ela já tem presa no cabelo uma das duas rivais. agora a observava com cuidado e prazer. Sr. ficava na mesa um lugar vazio e junto do arco da varanda.. Doutor! . Já se vê que o voltarete não podia seguir marcha muito regular. D. eu guardarei a sua rosa. já triunfou de uma de suas rivais! .Protesto que a hei de furtar. colocava-se uma sentinela. . minha senhora. Quinquina.Ó minha senhora! seria um cruel castigo para ela. Carolina. a aurora e a rosa disputam sobre qual primará na viveza da cor. seja o seu carcereiro! disse D. concordariam por força que no lindo rosto moreno de D. . . jurando não dizer palavra.Sua prima. em compensação. acudiu D. estava completamente restabelecida. sempre em brincadora guerra com todos e em interessante contradição consigo mesma. para oferecê-la a Augusto.Pois bem.Certo que não. por exemplo. porém não havia quem resistisse à viveza de seus olhares.Como?. Joaquina. alguém queria que ela tivesse maiores olhos. jamais querendo. .Pois rejeita?.. D.Qual?..Mas cuidado. além disto. faz as pazes com o irmão. Carolina nada iria melhor do que o prazer que nele transluz e o sorriso engraçado e picante que de ordinário enfeita seus lábios. e ele. É impossível continuar assim!.Que por ora lhe conceda seus cabelos por homenagem. .Ora... de cada vez quer qualquer deles dava cartas. Eis uma deliciosa invasão!. Carolina brilhava no jardim e. render-lhe toda a justiça. aceito mas rogo um outro obséquio.. graceja. por graças e encantos que todos sentiam e que ninguém poderia bem descrever. mas jurava-se que era encantadora. Augusto. que olhava para o jardim. apresenta-se. ela a um tempo solta um ai e uma risada. acrescentou D. explique-se. Carolina. fazendo-se de grave. . D. .Parabéns. para.. 64 tiveram a péssima lembrança de formar uma mesa de voltarete. à custa de um único sorriso. que se acusava de haver sido injusto para com ela.. as que mais apaixonados fossem da doce melancolia de certos semblantes em que a languidez dos olhos e brandura de custosos risos estão exprimindo amor ardente e sentimentalismo. . querendo tirar uma linda rosa do cabelo. dez moças entram de repente na varanda e num momento dado tudo se confunde e amotina. Augusto. E apesar do poder todo da cachaça do jogo. confessava-se que não era bela. distraía-se com freqüência tal. Nunca também se havia mostrado a Moreninha tão jovial e feiticeira. Carolina atira no meio da mesa do voltarete uma mão cheia de flores. que esta minha prima nunca entende as figuras do Sr. mas para isso boas razões havia: esse era o dia dos anos de sua querida avó e a pobre Paula.Eu o encarrego com prazer da guarda fiel desta minha competidora. .. escondendo-se. será satisfeito. dá-se por acabado o jogo e a Moreninha. . ela furta-lhe a espadilha e voa.. sua estimada ama. Sra. não haja quem liberte a bela cativa! disse Leopoldo. enquanto Filipe faz tenção de dirigir-lhe um discurso admoestador. disse Augusto. perguntou ela. que às vezes passava com basto e espadilha e era codilhado todas as mãos que jogava de feito.. fala. mais que as outras.. A Moreninha já fazia travessuras muito especiais no coração do estudante. que se mostra tão vaidosa! .

sentindo a mão da prima sobre a rosa. Então começou uma luta de ardis e cuidados entre a Moreninha e D.. Carolina é muito rebelde. Carolina. . que ela se enchera de zelos supondo. que Augusto desse subido valor à rosa.Vai ao júri. .. por ser causado pelo ciúme. Depois de uma meia hora de hábil afetação. Toda a companhia veio tomar parte naquele divertimento improvisado e até. dou a minha palavra. e cinco moças saíram por sorte para juradas.Desafio-lhe a isso! respondeu-lhe a prima. era mais um motivo para se tornar perjura. 65 . Leopoldo abaixou-se para levantá-lo e D. um instante despercebida. . . não é suficiente? . procurou provar que D. queria ser senhora absoluta de todos os corações e até de todos os seres.Ó maninho! não diga isso. por prender . porque a ré não quisera matar mas. D. . curvou-se também e soltou logo um grito.Tanto pior. e Filipe foi escolhido para advogado da ré e Leopoldo da autora.É verdade. Clementina. não menos viva. e em resultado desfolhou-se completamente a rosa. vamos levá-la ao júri. disse ele. que mutuamente se beliscaram.Você jura obedecer?. Augusto foi declarado suspeito na causa. Longo fora enumerar tudo o que se passou em duas horas muito agradáveis e por isso muito breves.Pois bem.Morreu a bela cativa!.. enfim. se havia crime. O interrogatório de D. Filipe não se deixou ficar atrás. As testemunhas foram D.. gritaram as moças. .. e enfim. e com a sua foi acudir a esta. Quinquina. houve um conflito entre duas finas mãozinhas.. morreu a pobre cativa!. que. Gabriela e uma outra. cônscia de seus encantos e beleza. fingindo-se fatigada. também. O debate dos advogados esteve curioso.Basta! basta! Organizou-se o júri. só o cometera a autora. sim libertar. e se fosse condenada não cumpriria a sentença. Argumentou dizendo que era impossível decidir que mão tinha dado a morte à bela cativa. Carolina está criminosa! disse D. não. com razão. Aquela já tinha debalde esgotado quantos estratagemas lhe pôde sugerir seu fértil espírito. Clementina terá de ser a relatora da sentença. a menina travessa. que. . Leopoldo acusou a ré.. . que o ciúme da ré era tão excessivo. um outro moço serviu de escrivão.. só Filipe se opôs. por lhe ser dada por uma moça bela como a autora e. Carolina fez rir a quantos o ouviram. veio sossegadamente conversar junto de D. conservava-se na defensiva.Eu juro por você. quem o diria?!. Quinquina. minha senhora! . que não houvera premeditação. com um rápido movimento. . que deram provas de bastante espírito. Fabrício foi encarregado da presidência. fez cair o leque de sua adversária.Não. A sessão começou. os dois velhos deixaram o tabuleiro do gamão! Resuma-se alguma coisa. que já na tarde antecedente jurara a perda daquela flor. A idéia foi recebida com aplauso geral. demonstrando que tinha havido a circunstância agravante da premeditação e que o crime se tornava ainda mais feio.D. Quinquina. por desconfiar que o zéfiro brincava mais com ela do que com seus olhos.

às vezes. entusiasmado. aproximou-se de Augusto e. que tanto a venciam em rubor e viço. Augusto. eleva-se vaidosa nas asas dos aplausos.. disse a ré. perdoada...O senhor me perdoa?. o dono da rosa é o Sr. e que. como dizer que não a quem pede como ela?.. Outras criticam de uma . . um bravíssimo inopinado. . De rosa fez-se então o rosto de D. . Carolina estava. os mais intrincados negócios. desafinando um sustenido.. tornou a perguntar com meiguice e ternura: . por último. que solta de lá da sala do jogo o parceiro que acaba de ganhar sua partida no écarté. de telhados abaixo.Porém. ainda quando fosse a ré que desfolhara a rosa e mesmo dando-se o propósito de o fazer.Agradecida! disse ela com vivo acento de gratidão e estendeu sua destra para Augusto que. Você deu sua palavra! Ela hesitou alguns momentos.Não é a mim que o deve dar. se deslizando pela sala e marchando em seu passeio. com um copo de champanha na mão. D. todos murmuram e não há quem deixe de ser murmurado. pois. estão no seu elemento: aqui uma.clamaram de todos os lados. .. colocando-a tão perto de suas faces. 66 uma inocente flor. Carolina criminosa e a condenou a indenizar o dono da rosa com um beijo. por entre os quais surde. como resistir ao seu sorriso?. Mas a menina parecia contar com o poder de seus lábios.Não! Não! Não! . O velho lembra-se dos minuetes e das cantigas do seu tempo. .. A manhã deste dia foi assim passada.Para fazer tal. não podendo ceder tudo com tão criminoso desinteresse. Em um sarau todo o mundo tem que fazer. disse: . dever-se-ia atribuir tal ação à piedade. depois. exclamou Augusto. pois que D. tome um beijo. mesmo na ocasião em que a moça se espicha completamente.Não! não! . mais a compasso que qualquer de nossos batalhões da Guarda Nacional. O diplomata ajusta..Me perdoa?.O beijo! o beijo! gritaram as juradas. com seu sorriso feiticeiro e irresistível nos lábios.. pelos braços de seus pares. daí a pouco vão outras. ao mesmo tempo que conversam sempre sobre objetos inocentes que movem olhaduras e risadinhas apreciáveis. tomou entre as suas aquela mãozinha de querubim e fez estalar sobre ela o beijo mais gostoso que tinham até então dado seus lábios.. sorrindo-se ainda do mesmo modo. Quinquina a estava matando pouco a pouco com o veneno da inveja. O júri declarou D. Carolina. e á tarde voltou-se aos preparativos do sarau. minha prima. as moças são no sarau como as estrelas no céu. que foi lida por D... As juradas recolheram-se à toilette e cinco minutos depois voltaram com a sentença. porque. respondeu a autora. . cantando suave cavatina. e o moço goza todos os regalos da sua época. não carecia eu de sentença do júri. 16 O Sarau Um sarau é o bocado mais delicioso que temos. Clementina.

durante ele. Carolina dividiu seus cabelos em duas tranças. . para alguns é regra.. Vamos apreciá-lo. recomendáveis por caráter e qualidades. . Porém. repetiu pela quarta vez aquele. se um atento observador a estudasse. disse Fabrício. que acabava de rogar à linda Moreninha a mercê da terceira quadrilha.. . que brilha e mostra em toda a parte borbulhar o prazer e o bom gosto. . arrebatou todas as vistas e atenções. que deixou cair pelas costas: não quis adornar o pescoço com seu adereço de brilhantes. descobriria que ela adrede se mostrava assim. Entre todas essas elegantes e agradáveis moças. para mostrar. e agora só acabo de ratificar uma promessa: o Sr. dir-se-ia que o gênio da simplicidade a penteara e vestira.Juro. que senta-se ao lado. Ali vê-se um ataviado dandy que dirige mil finezas a uma senhora idosa. há cinco minutos que já estava engajada até a duodécima. e que seu pecado contra a moda reinante não era senão um meio sutil de que se aproveitara para deixar ver o pezinho mais bem-feito e mais pequeno que se pode imaginar... que com aturado empenho se esforçam por ver qual delas vence em graça. que tanto a formoseia. vestiu um finíssimo. no sarau não é essencial ter cabeça nem boca. encantos e donaires.Oh! lá vai ter com ela o nosso Augusto. numerosa e escolhida sociedade enche a grande casa.. é a mesma que eu lhe havia pedido. Os dois estudantes aproximaram-se de Augusto. tendo os olhos pregados na sinhá.Mas. D. que até pecava contra a moda reinante... balbuciou Augusto. Finalmente. é inútil qualquer juramento de homem.Não. Hábil menina é ela! nunca seu amor-próprio produziu com tanto estudo seu toucador e. .. todo nu. . depois das palavras de uma senhora. E o mais é que nós estamos num sarau. certo que sobrepuja a travessa Moreninha. e que ela leva aos pequenos que.Leva de tábua. Enquanto as outras moças haviam esgotado a paciência de seus cabeleireiros. Inúmeros batéis conduziram da Corte para a ilha de. Mas a jovenzinha pensou um momento antes de responder ao pretendente. posto em tributo toda a habilidade das modistas da Rua do Ouvidor e coberto seus colos com as mais ricas e preciosas jóias. nem com seu lindo colar de esmeraldas. Augusto poderá dizer se ontem pediu-me ou não a terceira contradança? . alegre. 67 gorducha vovó. contudo. senhoras e senhores.Basta! acudiu Fabrício interrompendo-o. lhe ficaram em casa. pensar pelos pés e falar pelos olhos. vermelho de despeito e aturdido com um beliscão que lhe dera Leopoldo. depois riu- se e respondeu a Augusto: . mas simples vestido de garça. minha senhora. o elevado colo de alabastro. Carolina.É verdade. olhou para Fabrício e com particular mover de lábios pareceu mostrar-se descontente. que ensaca nos bolsos meia bandeja de doces que veio para o chá. Terminam sem dúvida a sua prática. diz. em belo contraste com a alvura de seu vestido branco. Não importa. tornou D. já estava engajada para doze quadrilhas.Danças com ela? perguntou Leopoldo. disse Fabrício ao ouvido de Leopoldo. porque. por não ser sobejamente comprido. vamos ouvi-los. . E vindo assim aparecer na sala. para ostentar as longas e ondeadas madeixas negras. . Sobre ela estão conversando agora mesmo Fabrício e Leopoldo. . princesa daquela festa.Com muito prazer.Está na verdade encantadora!.

. A interessante D..Ainda há pouco ia jurar falso. que diz ele?. como nenhuma. tocou em todos os doces. do que com aquele seu amigo. foi preciso que a Sra. . quis aplicar um corretivo e. . . diz-me coisas que não quero saber. . levaram todo o tempo a endireitar as toucas e comer doce.. obrigou alguns moços a tomá-la por par e até dançou uma valsa de corrupio. a tirana princesinha da festa esteve realmente desapiedada.. é um sarau. D. . Violante fez o diabo a quatro: tomou doze sorvetes. Neste momento a orquestra assinalou o começo do sarau. não sei mentir.. .Agradeço-lhe a condescendência com que ia tomar parte na minha mentira. . . os casados trabalharam por esquecer-se dele. Agora são quatro horas da manhã.Pois será preciso dizer que a detesto?. para isso. .. Carolina.. não quis passear com o estudante.Basta não dizer que me ama. . minha senhora? .Misericórdia! eu não falei em amor!.A culpa será de seus lábios. .Ofendeu-lhe.Meu Deus! é um crime que eu tenho estado bem perto de cometer! . os convidados vão . as avós. Tudo esteve debaixo destas regras gerais. tomou o braço de Augusto. que tinha iludido o primeiro.. minha senhora. erguendo-se.Então. mas. . alguns momentos mais e serei réu como Fabrício.. eu.Pois bem. e temendo que daquela ocorrência tirasse este alguma explicação lisonjeira demais. já idosas.. trataram de modas e criticaram desapiedadamente umas das outras.. e. basta dizer o seguinte: Os velhos lembraram-se do passado.. mas.Antes dos seus olhos.Fala tantas vezes em amor. As filhas deram carreirinhas ao som da música. falaram em política e reqüestaram as moças.. como todos os outros.Acabe.Tentaçãozinha. . Augusto apaixonou-se por seis senhoras com quem dançou.Certo que não. 68 Fabrício e Leopoldo retiraram-se... É preciso antecipar que nós não vamos dar ao trabalho de descrever este.. disse: . só resta dar conta das seguintes particularidades: D. as mães..Nas palavras de um anjo ou de uma.Perdeu a terceira contradança. comeu pão- de-ló.. Os solteiros fizeram por lembrar-se do casamento. ninguém cuidou do futuro. D. . Augusto! lembre-se da contradança! . o sarau está terminado. quero antes dançar com qualquer. Carolina sempre dançou a terceira contradança com Augusto. . E assim tudo mais. os moços aproveitaram o presente. o rapaz é incorrigível. por não ter que fazer nem que ouvir.. Os homens jogaram. .. as senhoras ouviram finezas..Cuidado. Ana empenhasse todo o seu valimento..Mas eu temo perder a minha contradança. receberam cumprimentos por amor daquelas. vendo brilhar o prazer na face de Augusto.É não dizer o que sinto. foi necessário que eu praticasse assim. foi esta a única razão. Sr. Aproveitando o passeio.

. ... Gabriela. mais alguém estava no . vamos ter com ele.. palavras dele. talvez por outras mais..Apaixonado?!. que me jurou ser a mais bela a seus olhos e a mais cara a seu coração.. . disse.Oh! que moço abominável!.. porque meus cabelos eram fios d’ouro e a cor das minhas faces o rubor de um belo amanhecer!.. pois é verdade que esse Sr. ponhamo-lo doido.Que insolente!.... porque das virgens do céu somente se beija os pés.Mais isto é um insulto feito a todas nós! .Muito bem pensado! vamos! .. ...Por nós quatro.Bem. tem um segredo a confiar-vos. seja a zombaria completa: escreva-se uma carta anônima.. Cada uma lhe pedirá um anel de seus cabelos. . para beijar-me a face. o próprio que afirmou ser-lhe impossível viver sem alentar-se com a esperança de possuir-me. .. . e mesmo do que o sol. obriguemo-lo a dizer qual de nós é a mais bonita.” .Bravo! então escreva. e de joelhos!... . Asseverou que meus olhos pretos davam à sua alma mais luz do que a seus olhos todos os candelabros da sala nesta noite. não me pediria como as outras. bradou D. .Uma incógnita. entrando no toilette. .Pois tiremos por sorte! A idéia foi recebida com aprovação e a sorte destinou para secretária D.. . que conversam com ardor e fogo.Que maldito brasileiro com alma de mouro!. . acudiu D.E havemos de ficar assim?.. se fora por mim amado e pudesse desejar e pedir algum extremo... Quinquina. quando e onde? .. por sua vez...Então. Clementina... sede circunspecto e vereis a quem. nos dias mais brilhantes. quando um suspiro as suspendeu. . . escreva você. .Sim. Quinquina.. palavras dele. tornou D... Augusto lhe fez uma declaração de amor?.. .. escreveu sem hesitar: “Senhor: . exclamou D.Não... . 69 retirando-se e nós. ridicularizemo-lo como for possível.. convidando-o para estar ao romper do dia na gruta.Deus nos livre! à vista de tanta gente!. Ao raiar da aurora a encontrareis no banco de relva da gruta..É possível?!.. Quinquina. D.. e ousou dizer-me que me amava com tão subida paixão que...Isto é nada para quem não tem vergonha!. por meia hora ainda. eu me encarrego de fazer-lhe receber a carta.. porque eu sabia ferir corações com minhas vistas e curar profundas mágoas com meus sorrisos!.Uma jovem que vos ama e que de vós escutou palavras de ternura.Deus me defenda!.Como quer que lhe diga. E por quem? ..Que atrevido!. dirigindo-se à sua mana. nenhuma escreve. vamos ouvir quatro belas conhecidas nossas.. Saiamos... quer ser apenas . ele mesmo. desmascaremo-lo.Qual! se ele está apaixonado!.. ele pensa assim.. maninha?.Uma idéia!.. .Como se estará ele rindo!. que tem boa letra. Joaninha. . .. Clementina que.Eu não.. uma lembrança.... tirando de seu álbum um lápis e uma tira de papel. D. palavras dele. palavras dele. As quatro moças iam sair.. ..Pois troquemos os papéis: finjamos que estávamos tratadas para desafiar-lhe os requebros. Gabriela. .. disse D... uma prenda.....Então. escreva.

. Clementina não pôde resistir a tantas graças.. Com efeito. Carolina. recostada em uma cadeira de braços. correu para ela. encantadora no mole descuido de seu dormir: à mercê de um doce resfolegar. os desejos se agitavam entre seus seios. 70 toilette.. a tornavam mais feiticeira que nunca.. finalmente.. D. quatro lábios cor-de-rosa se tocaram e este toque fez acordar D. Joaninha. seu pezinho bem à mostra. A Moreninha se mostrava. . medrosa de que uma testemunha tivesse presenciado a cena que se acabava de passar. disse. se é que o anjo realmente dormia. dois rostos angélicos se aproximaram. voltou-se para o fundo do gabinete e o susto para logo se dissipou.. suas pálpebras cerradas e coroadas por bastos e negros supercílios.Vejam como ela dorme!. . seus lábios entreabertos e como por costume amoldados àquele sorrir cheio de malícia e de encanto que já lhe conhecemos e. Um beijo tinha despertado um anjo. Carolina estava profundamente adormecida. na verdade. D. D. suas tranças dobradas no colo.

. ainda com o lenço acudiu a tempo. mas.. pois continuou: . quando a primeira rosa da aurora se desabriu no horizonte. meu Deus.. serei por agora . minhas belas senhoras. o certo é que o estudante.. como quatro pombas- rolas enfiladas no mesmo galho. foi de mansinho se aproximando. ergueram-se sobressaltadas ao ver entrar inopinadamente o estudante. mana? exclamou D. sem esquecer o do relógio. era isso mesmo o que ele queria. que estavam todas sentadinhas no banco de relva. exposto ao fogo abrasador de oito olhos brilhantes. porque esta mesma noite jurastes amar a cada uma delas em particular. eis-me aqui!. juro que tenho sede.... disse Augusto beijando o bilhete. é coisa que pouco interesse dá. e só depois de devorar o convite sem assinatura foi que lembrou-se que ainda não se havia assoado e que o pingo estava cai não cai na ponta do nariz. então correu logo para um lugar solitário. mas de vazar as algibeiras da gente.Bravo! exclamou o nosso estudante.O que é que ele está dizendo... presumindo que talvez introduzissem algum no enorme canudo de cabelo que lhe escondia as orelhas. em lugar de uma só! Belo amanhecer é este.Oh! se ele vier! . que entendeu não lhes dever nunca dar tempo a tomar a ofensiva. lançou a mão ao segundo bolso de sua jaqueta. mas que quer interessar-se por vós.Muito bonito! muito bonito!... sorvendo uma boa pitada de rapé.Uma moça.. . apesar de ser vossa amiga. temíveis mãozinhas seriam estas. nada mais havia. exclamou o estudante. Quinquina. eu me sinto arder. Eis ali uma fonte. achou o interessante escritinho.. deveria avivar o cérebro. abriu e leu o escrito. e até passou os dedos por sua basta cabeleira.. que tinha entre os lábios o copo de prata.. uma gota desta linfa de fadas!. estou exatamente representando um papel de romance! mas quem sabe se ainda acharei mais cartas?... O estudante pensou no conteúdo de ambas e ainda reflexionava se lhe cumpria fugir ou aceitar um certame com quatro moças. apontando para Augusto. Bem! bem! melhor.Ei-lo aqui. porque.. indo tirar o lenço para assoar-se. que pretendem zombar de vós. . e depois entendeu que. para melhor decidir o que lhe cumpria fazer naquela conjuntura. Mas. Quinquina ou se foi ela mesma quem pôs a carta anônima no bolso da jaqueta de Augusto. entende dever prevenir-vos que no banco de relva da gruta não achareis ao amanhecer uma incógnita. e eis que lhe sai com a caixa do bom Princesa um outro escritinho como o primeiro. 71 17 Foram Buscar Lã e Saíram Tosquiadas Se houve alguém que quisesse servir a D. . que nem é bonita nem namorada.. As moças. Augusto correu para a gruta encantada. Portanto. se se dessem ao exercício não de encher. também duas cartas tão curiosas já eram de sobra em uma só noite. é a fonte encantada que descobre os segredos de quem está conosco!. porém sim conhecidas. enfim. Não procureis adivinhar quem vos escreve. E nisto pensando. “Senhor: .As senhoras vêem que acudi de pronto ao honroso convite e que me entusiasmo vendo quatro auroras. que ele adivinha quais eram.. E sem mais dizer. Chegando ao pé. sem dúvida. Porém...Uma incógnita” . foi correndo um por um todos os bolsos dos seus vestidos. sentiu o rumor e ouviu que alguém dizia em tom baixo: .

em particular. disse.Impossível! balbuciou D... ora. a fada mo deu há pouco com sua mão invisível. Clementina. agora silêncio. trocou-as e deu. . . .Basta o que tenho ouvido e que não posso bem compreender. para bem perto do lugar encantado. que ingratidão!. disse Augusto. .. todavia. ... Há quatro dias.. Sra. porque pelo jardim talvez estejam passeando alguns profanos.. Então o estudante. só olhais como real a galanteria. Joãozinho. vós quereis zombar de mim. uma vendedeira de empadas. senhora.Sr. estais incursa em igual delito. . adivinhado belos segredos: escutai vós..Ele está mangando conosco. comece você. e dando a seu rosto uma expressão animada e às suas palavras estudado acento: .. Joaninha. ... . Eu não ouso falar alto... toda vergonha e acanhamento.Começo eu. Pois bem. disse então. . .Senhor!. enquanto vos falar inspirado por um poder sobrenatural.Eu não. recorrendo ao seu álbum. Gabriela. eu vos poderia perguntar como o poeta: Assim se paga a um coração amante?! .Mas.. à mercê de sua água. disse D. minhas senhoras.. porque vos protestei os mesmos sentimentos que havia protestado a mais três companheiras vossas e. quer mais alguma coisa ainda e me dá uma cruel missão! ordena-me que eu diga a cada uma de vós.. Vós não achareis em vosso álbum o escrito desesperado do Sr. Iluminai-me. por haver amado a todas vós numa só noite. . ouvi.Eu não. pois só por cartas vos correspondeis com cinco mancebos. sou eu que o tenho. enganou-se na entrega de duas. sim. para melhor provar os seus encantamentos.Será preciso que eu escolha? continuou o tagarela. .A fada! e fez mais ainda.Oh! não vos impacienteis. . qual de vós quer ser a primeira?.Eu?! respondeu a menina. . desgraçadamente.. mas dê-me o que lhe pedi. senhor! quem lhe contou essas invenções? . para vós amor não existe: é um sonho apenas.. que vos foi entregue no momento de vossa partida para esta ilha. D..Pois não quereis ouvir mais nada?. a de lacre azul ao Sr.. Joãozinho. Augusto..Principie você. recuando. voltou-se para elas. senhora. eu lho rogo que me dê esse papel.. Gabriela. 72 . Será..Vós. ainda não amastes a pessoa alguma.. Escolherei. é preciso obedecer. que se encarrega de vossas cartas. que tinha acabado de esgotar o seu copo d’água.Ora. . Ela não podia encontrar o escrito.. Augusto já estava falando em voz baixa a D. Perdoai e consenti que vos trate assim.. Gabriela. e começo por dizer-vos que aquela fonte é realmente encantada. . se bem me lembra a fada. trazendo-a pela mão para junto da fonte. vinde.A senhora mesma. que sou a mais moça. a fada que preside àquela fonte. eu tenho. algum segredo do fundo de vossos corações. Nenhuma se moveu. quereis provas?. disse D.. a. Gabriela.. Qual de vós quer ser a primeira?. murmurou D. Vós viestes aqui para maltratar-me e zombar de mim.. Juca e a de lacre verde ao Sr..É preciso decidir-nos a começar. boa fada! Quem será?.

por nome Tobias. dizei. Augusto falou já em outro tom: ..Até logo.. tão volúveis como eu. com gesto apaixonado. porque o velho militar não tirava os olhos de vós. não poupe as outras. contou-me que no baile desta noite.. Quinquina deixou-se levar para junto da fonte..A fada. se acaso não fosse roubada pela fada que preside esta fonte. . que leva o seu despotismo amoroso ao ponto de exigir que não valseis. que não tomeis sorvetes. Augusto começou: .Senhora. que não deis dominus tecum quando ao pé de vós espirrar algum moço e que não vos riais quando ele estiver sério. a fada esteve recostada a essa janela. ela estava cor de nácar. Augusto prosseguiu: . as moças tinham perdido toda a força. . porém.Com muito prazer. tudo era verdade. eu poderia dizer-vos. porque. mas para tal saber não precisava eu beber da água encantada. . por nome Gusmão. é chegada vossa vez. isso não é comigo. Não é possível bem descrever a admiração das três. respondeu D. ora. senhora. D. havia sete flores em botão.Pode dizê-la. este excesso vos deve ser nocivo.Minha senhora. 73 ..Minha senhora. . não foi assim? D. chamado Lúcio.Eu não entendo nada do que o senhor está dizendo. Lúcio queria esse cravo.Quem lhe disse isso. . senhor?.Obrigada. Quinquina guardou silêncio. Gabriela. . senhora. passeando com um velho militar.. . não é verdade? Pois o Sr. podia também gastar meia hora em falar-vos do vosso galanteio com um tenente da Guarda Nacional. além da flor aberta. Então os dois se dirigiram para fora. muito notável. . na hora de minha partida para a Corte.Sois sobremaneira delicada. mas vós lho não podíeis dar. quereis fazer-me o obséquio de ir descansar e dar-me a honra de aceitar a minha mão até à porta da gruta?. com uma condição. conversando com o Sr. vós recebestes da mão dele um lindo cravo e a seus olhos o escondestes. D..Senhor!. Lúcio. Chegando à porta. .Por nome Gusmão. tão ternamente aceita.Daqui a pouco.. acordastes ambos que ele iria esperar um instante no jardim e que um pequeno escravo. Lúcio. lhe levaria a flor. disse: . fingindo-se zeloso. Ora. Lúcio viu ser dado e recebido o presente e. que vós sois como as outras de vossa idade. espero que me faça a justiça de crer que fico extremamente penalizado por não poder dilatar por mais tempo a glória de acompanhá-la. o que diante delas se passava pedia uma explicação que não estava ao seu alcance dar. deveria ir parar no bolso de um belo jovem.Eu me explico: o Sr. pelo que me conta a boa fada. passando junto das três companheiras. e ainda me disse mais: por exemplo. vos pediu esse cravo.. sentados em um banco e com as costas voltadas para uma janela da sala do jogo. e como o tal Tobias ainda não conhecia o Sr. no palpitante seio. mas daí a um quarto de hora essa mesma flor. Augusto chegou-se a D. Quinquina. e tomando-lhe a mão. . . Gabriela pôde apenas dizer-lhes: .. mas sabe o que ainda tenho de fazer. ora.Isto se passou estando vós na grande varanda. senhora. este lhe daria por senha as seguintes palavras: sete botões.

Augusto!. Joaninha.Não preferis antes que eu a entregue ao feliz para quem a destináveis? .. era a vez dela. não concebo até onde iria a vossa vingança. quereis saber mais alguma coisa? .Bem! então consentireis que eu a traga esta manhã no meu peito?.. senhora? . eu a mostrarei. e quando viu o Tobias. só a curiosidade retinha as outras: Augusto se chegou para elas e falou a D. todavia. .Eu já sei que o senhor sabe demais! .. senhora. . ei-lo aqui!.Eu vo-lo darei na hora de minha partida. Vós quatro queríeis zombar de mim. deixando cair uma lágrima na mão de Augusto. porém.Senhora. como lhe é dado tomar todas as figuras. Filipe. preciso de reféns que assegurem a paz entre nós.Venceu. O senhor coronel ainda se não retirou e.Pergunto. . hoje. . disse Augusto. basta.Eu não preciso saber nada disso.. senhoras. poderei gozar o prazer de conduzir-vos até à porta da gruta?.Agora nós. .... como as duas primeiras.. .Quer. quando tomáveis chá? .. enfim. Quereis descansar. senhor. sossegarei mesmo os vossos cuidados e os do Sr.Isto é uma invenção. . eu não conheço essa flor. foi ao jardim. Dê-me esse maldito cravo. Sois. . se vos dá gosto que eu vos repita o que convosco se passou.Então. . senhora. Quinquina..Sr... Se não confessais. e o estudante começou: ..Eu estou pronto a obedecer-vos. e o cravo foi logo da fada e é agora meu. oferecer-me a mão e obrigar-me a desamparar o campo? . . foi a fada desta misteriosa fonte quem vos roubou um precioso embrulho que continha uma trança de vossos cabelos e que deveria ser achado embaixo da quarta roseira da rua que vai ter ao caramanchão.. Só restava D. em minhas mãos. e essa trança pára. tomou a de moço. quando tomáveis um sorvete ao lado de um jovem de cabelos negros. seria uma lágrima se o relento da noite não molhasse também a rosa.. ..Eu vos deixei para o fim. senhora.Não.Sim.Quereis fatos de anteontem ou da noite passada. ei-la aqui.. a respeito da perda de certo objeto.Eu estou pronto. Duas guerreiras tinham sido batidas. sem dúvida. senhor. porque a vós é que eu mais admiro.Oh! dê-ma. disse sete botões. Clementina: . porque vós sois exatamente a única dentre elas que tem amado melhor e que mais infeliz tem sido. eu vos explicarei isto.Eu não entendo o que o senhor quer dizer.Basta. .Perdoe-me. ouvi mais.Então dir-vos-ei o que mais vos interessa.Pois bem.. mas eu vejo que vossa face está umedecida. estes são meus.. e sou eu que lhe peço que me acompanhe até à porta da gruta. . balbuciou. D. para servir-vo em tudo. . um pouco excessiva em exigências. . senhora. . . . o que convosco conversou o meu colega Filipe. 74 ouviu quanto dissestes e. mas só na hora de minha partida. Ela deixou-se levar pela mão até junto da fonte.. eu lhe peço que ma dê...

sei amar até o extremo. Carolina respondeu-lhe primeiro com o seu costumado sorriso. Augusto lhe ofereceu o braço. . porém..Minha senhora!. A menina travessa bebeu em seguida a estas palavras o seu copo d’água e depois. . estudante. que vá a miúdo ao teatro e aos bailes que freqüentais. pelo menos. finalmente disse.. e ainda mais.É uma vil traição! . que passe por defronte de vossa casa quatro vezes por dia. Adeus. que se achava junto dela. Joaninha ia deixar a gruta. que enchia o copo de prata. permita que eu entre só em casa. ao menos para ouvir por mais tempo os vaticínios e . balbuciou o estudante. atalhou em princípio uma grande enfermidade. 18 Achou Quem o Tosquiasse Escutando aquelas inesperadas palavras que o chamavam para a mesma posição em que ele tinha colocado as quatro moças. mas não o fez. uma outra toma o cuidado de vingá-las. quando ordenais a um estudante que vos escreva quatro vezes por semana. que não sabe pagar o vosso amor: eu poderia dar-vos provas. D. é chegada a sua vez.Vieram buscar lã e saíram tosquiadas! E já estava para pôr o pé fora da gruta. quando lhe ouço repetir o que deveria ser sabido dele e de mim somente? Augusto ia falar. e depois assim: . senhor! eu posso apenas agradecer-lhe. exclamou D. Sr.. eu agradeço o benefício que recebi. que sabe que amais a um moço.Que quereis muito. e até que não fume charutos de Havana nem de Manilha. disse ela.Não as tenho eu bastante. 75 .A fada. Augusto ficou só.. senhora: quer que eu vos aconselhe a que desprezeis esse jovem infiel. que nem mesmo lhe recomendo o cuidado do meu segredo. disse: .Senhor. dizendo: . ela o interrompeu. confuso. Esteve alguns momentos lembrando-se da cena que acabava de ter lugar. como das outras. soltando uma risada: . senhora. quando uma voz branda e sonora o suspendeu..De todas essas épocas.. Joaninha com sentimento.Agora. senhor!? . dizendo que tenho tanta confiança na sua discrição e no seu caráter. .Exatamente diz o mesmo a nossa boa fada.. Sr. .Quereis que vos fale do passado. do presente ou do futuro? .. a quem dais a honra de chamar querido primo. ao contrário. fosse daqui a pouco tempo incurável! Eu galanteio também às vezes. imitando o estilo de Augusto. Sr. D.Não se dirá que um homem zombou impunemente de quatro senhoras. por ser falta de patriotismo.Quem lhe disse isso. .Agradecida. Augusto? . . eu também sou adepta ao culto desta fada e vou invocá-la em meu auxílio. Augusto voltou-se de repente e viu no fundo da gruta a interessante Moreninha. talvez. Augusto.Que quer dizer. o senhor quis zombar de mim. que.

Exasperado com o infeliz resultado deles e vivamente tocado das leras e da música de certo lundu que se vos cantou. sim. sim. eu a respeito também.. . que cedo começava a fazer loucuras.. mas basta de vossa mulher. não foi assim? . porque vós estais bem certo de que eu devo saber ainda muito.Posso eu sabê-lo? respondeu a Moreninha. por certo... Já sei de quem foram certas carreirinhas e. em atenção a vós. . senhor..Minha senhora. D. para rir-se da cara que fazia Augusto. que minha avó não me fala em semelhantes objetos. atalhou o estudante. vós amastes muito cedo. . A menina fingiu não entender a alusão e continuou: . Sim.Pois então principiemos pelo passado.Oh! sim. quando souberam de tal. . desatou a rir. estou vendo tudo.Ora! é que a fada está-me dizendo que ainda em cima vossos amigos. Oh! que belas revelações me fez a fada! Sim..Então a Sra. e casou-se oito dias depois com um velho de sessenta anos! não foi assim? E a menina.. Ana lhe contou tudo isso? . Eis alguns de vossos principais galanteios. minha senhora. vamos acabar com o vosso passado. creio.. e escuso estender-me mais.Que cruel juízo! .Ora.Poderia eu contar-vos uma longa história de velho moribundo. com efeito. . como de vós. a quem em uma noite ouvistes dizer num baile que éreis um pobre menino com quem ela se divertia nas horas vagas. a fada só me diz o que se passou em vosso coração e vós.Oh! não vos agasteis.A primeira jovem que reqüestastes foi uma moreninha de dezesseis anos. compreendo que sabeis tudo à custa. com quem brincastes à borda do mar. . Augusto recuou um passo. minha senhora! . e por justo e bem merecido castigo fostes desgraçado: todas elas zombaram de vós! E a menina interrompeu-se. deram-vos uma roda de cacholetas! .A terceira foi uma moça pálida.. que zombou solenemente. . . a uma menina de sete anos. tanto de um primo que tinha.À custa da fada. adivinhando e podia dizer-lhe o que ele mesmo ignorava. A segunda foi uma jovem coradinha. ela prosseguiu: .Senhor. de que gosta tanto? . permiti que vos diga que mostrava ser uma criança doidinha. sim. camafeu.. que jurou-vos gratidão e ternura. . Houve um tempo em que quisestes figurar entre os amigos como galanteador de damas. por esta não esperava eu..Prossiga. . porém.. foi de idade de treze anos. portanto. lembro-me agora que a senhora passeava pelo jardim.Juro-vos.E quem era ela? como se chamava? perguntou Augusto com fogo. estou dentro do vosso espírito e de vosso coração! . que também não sabeis quem era essa menina e só a conheceis pelo nome de minha mulher. talvez pensando que D. Carolina estava.Amastes.Prossiga. . tomastes outro partido e desde então vós pretendeis fazer-vos passar por borboleta de amor. eu juro que isso é verdade. de novo. senhor. esmeralda. eu estou lendo no livro da vossa vida. disse o estudante. .Borboleta?!. Consenti que eu continue. 76 palavras de tão amável Sibila.

a feiticeira fazia isso? .Depois do baile puseram-vos duas cartas no bolso.Sois sobejamente sôfrego! não vedes como isso vai contra a boa ordem da narração? .A fada.Sim. .Ontem. . vós fostes mudar de roupa e entrastes para o gabinete das senhoras. Compreendo. lá ouvistes tudo o que afetastes adivinhar há pouco.Oh. .Desejo que não. . que me revelou isso. .A fada? sim. sereis perjuro. sem dúvida.Mas quem observou o que eu fiz às escondidas e com tanto cuidado? . 77 .Misericórdia! .A culpa será dos olhos dessa outra.Pois bem. o sublime no que se não entende.Não mo sabe dizer a fada. Quinquina fostes vós que recebestes no jardim. O cravo de D. procurou e achou a trança de cabelos de D. que vos apresentará o termo da aposta. . mas diga sempre.Esta agora é melhor! e quem o pôde notar? . se falasse do presente de vossa vida. o feio é só o que podemos compreender: isto é romântico. contudo.Mas a desordem é hoje a moda! o belo está no desconcerto..Então a fada. porque não longe está o dia em que a esquecereis por outra. eu já vos vejo em princípio e temo que vades ao fim. . pois.. leu a termo na carteira de quem o guardou. na noite dos jogos de prendas. antes quero falar-vos do vosso presente.Que mãos delicadas. .. vós viestes para esta gruta acudindo a um convite e fingistes adivinhar segredos de corações. mas vós ides ser. minha senhora. . .Provavelmente a fada vos observava. . . Do vosso futuro eis quanto me disse a fada. . como pretendia fazer.Pelo amor de seus belos olhos.Vós não sois inconstante.. . porém. .Mas que estais a ponto de o ser: digo-vos que perdereis uma certa aposta que fizestes com três estudantes.E disse bastante para me confundir. Clementina. se quero! No presente está a minha glória... Não era verdade: a fada nada vos revelou. vamos antes ao que eu não sei.Quando involuntariamente fui causa de vos entornarem café nas calças. porque tendes até hoje cultivado com religioso empenho o amor de vossa mulher. .E quem me viu entrar? . vamos ao vosso futuro. aparecesse a vossos olhos a mulher traída. no baile. porém.Como é isso? Então a senhora sabe. dissestes palavras de ternura pelo menos a seis senhoras. embaixo da quarta roseira da rua que vai para o caramanchão. . dizendo-vos que vós não sois inconstante como afetais. a feiticeira o leu. . . . fostes vós ainda quem. Principiarei. tereis de escrever um romance e perdoai-me se vos desejo este mal: eu quisera que ao pé de meu irmão.Explique-me.Quereis que vos fale agora de vosso presente? .. vamos ao meu futuro. vamos ao meu futuro. com uma luz na mão. minha senhora. quem sabe?. queira ser romântica.A fada. o que dissestes sabíeis antes e a fada me disse como.Não.. . .

mas continue. 19 Entremos nos Corações O que é bom dura pouco. eu sou um tresloucado. . mas sou exceção de regra.Basta! vós duvidastes da fada e por isso eu termino aqui. eu lhe direi ainda contra a vontade. .A fada?!.... . .. Mas..É só para dizer que eu amo. Carolina tinha desaparecido da gruta.. voltou-se já com o nome da bela nos lábios e.. .. . .E que se chama. disposto a lançar-se aos pés da menina.Não é isso: a uma bela moça.Sei que sou senhora... .. depois de uma patuscada de tom..Perdão! perdão!..Pois então.Já sei. pelo que toca a estes..Muito espirituosa. que. um doido..Beba outro copo d’água.Nada mais de disse. Oh! como sou feliz!. nem o que digo.. não fica por oito dias incapaz de compreender a mais insignificante lição? Isto sucede assim. .Já ela o era em criança. essa pobre gente vê. que me importariam vossos passos e vossas ações?. . . digo o que ainda se passa nele.. a feiticeira é a senhora! . Carolina para não deixá-lo concluir sua declaração e. nossas belas conhecidas bordam....A fada.. . por certo! perdoe-me minha senhora. que adivinha tudo o que está dentro do meu coração.. . a sua mulher. a feiticeira me segue sempre com os olhos?!. digam-me. As festas estão acabadas. . minha senhora! é preciso dizer-me mais alguma cousa ainda!. .... qual é. nossos alegres estudantes estão de livro na mão. não quero saber.. qual é o estudante que.Não sou curiosa. mas eu devo descobrir todos os meus segredos a quem conhece tão boa parte deles..Ouça uma só palavra. não aparecia pessoa alguma.. segundo penso.Cumpre retirar-me. .....Não..Senhor! sois pouco modesto. . . ..Pois a senhora. um incivil.Ah! espreitam-nos da entrada da gruta? Augusto correu a examinar quem era a indiscreta testemunha. .Ela o deve ser agora... não sei o que faço.Não julgo necessário. ..E para isso toma-me a saída?. D. . vos tem sempre seguido com os olhos. .. . . compreendeu então que fora ainda um meio de que se lembrara D.Eu me contento com o pouco que sei. .Não! não. 78 ....Embora.. por força a fada lhe deveria ter revelado! ela.

está aborrecido da Medicina. viva! quero divertir-me.Há três dias que não falas senão na irmã de Filipe e. encantadora.Não. não há para seus olhos lugar nenhum bonito no mundo.. quando. entre ele e a bela Moreninha... se ela tivesse gostado. mas venha cá. aborrece a Corte. porque Leopoldo lhe perguntou: . me perguntou sossegadamente: “Esteve dormindo na gruta.. ainda melhor..Então ela gostou da tua semideclaração?!.Por uma difícil saída que eu não havia observado.. sempre ela é bela. . no princípio. Não há. passou-se para a oposição. não me fugiria.. ah! ela rindo-se. e até mesmo séria. ... acredita que D. Sr.. e foi à hora de tua partida passear pela praia e ver-te embarcar?... . ou divididos em belas tranças... . . por exemplo. e se não..Ora.. mas.. o baile. .. ature-se um namorado!. porque quer ir vadiar pelas ruas. estamos realmente apaixonados?! . digo-te que a acho feia.Que diabinho de menina! . Augusto. Realmente notei-lhe muitos defeitos. . se no dia seguinte se demora só dez minutos. a narração do que com ele se passou na ilha de.Ora.E por onde fugiria ela?. às vezes. se o inocente moleque lhe apronta o chá muito cedo.. Mas depois.. Leopoldo.. chamaste feia?.. .. Leopoldo.. Também eu. e que exatamente se praticava no fundo da gruta.... Augusto.. quando ela canta ou toca ou brinca ou corre.. leva dois pescoções. ele está em seu gabinete e um pouco menos carrancudo. quando ela dança ou mesmo quando está sentada. cousa alguma que possa contentar o Sr. 79 por toda a parte... porque Leopoldo.Então. ... . é boa! não devia fazer outra coisa... de ministerial que era.. Sr. um basbaque! tremi diante de uma criança que não tem quinze anos e não soube dizer duas palavras. o seu amigo do coração. as moças e os prazeres que apreciou. dize por que se não deixou ela dormir.” . tão adiantado.Se ela gostasse de mim!. Augusto. com os cabelos à négligé. não.Pois eu disse que ela era feia? É verdade que eu. Que lição temos amanhã? . que história é essa? Acabas divinizando a mesma pessoa que. Para que dizer mais? Sempre. não é lá essas coisas... Rafael é quem paga o pato... angélica! . sim. às vezes.. formosa.Quem te disse semelhante asneira?. fui desta um tolo.. Carolina foi mais sensível aos teus cumprimentos que aos de nenhum outro. e doido varrido. para andar mais ligeiro... Augusto?. então como é isso?. por que me não deu um só sinal de ternura?. enfim. este maldito Velpeau!. na dissertação que escreve.. Deveremos fazer-lhe uma visita. o acompanha e tem a paciência de lhe estar ouvindo.. mas. Por que ficou ali passeando até desaparecer o teu batelão?. tem feito duas gazetas na aula. quando eu entrei na sala. pela duodécima vez. está agora bronco para as lições e impertinente com tudo. quando ela fala ou mesmo quando está calada. e misturando-se com todos os pensamentos..Estás doido. como as outras senhoras.. apanha meia dúzia de bolos. Augusto acaba de relatar o que ocorreu na gruta... nas estampas que observa.Quanto mais se tu notasses a graça e malícia com que ela. O nosso Augusto. no livro em que estuda.Isto não significa nada. parece ter mau gênio. detesta a roça e só gosta das ilhas.. Segundo parece. não quer mais ser assinante de periódicos. Ora! estou com dores de cabeça... respondeu Augusto.Ora.. Olha. principiando. .

Temos maçada! Quem te perguntou por isso agora? Falemos de D. e é tudo. Leopoldo.... . sinceramente falando. olha que estás vermelho como um pimentão.. Amor não é efeito. Carolina. então. é o teu coração. que não sei como o chame. Augusto. Carolina..Que efeito?. plantou no meu coração um domínio forte. passeou pelo quarto duas ou três vezes e.Modera-te. acalma-te..Oh! tudo naquela ilha fatal se assanhou para enfeitiçar-me. finalmente. até a própria mentira. bebi um copo d’água da fonte do rochedo. não sei onde irá isto parar..Eu? Pode ser.... para encurtar razões. . nem causa... talvez. pois. Augusto abriu um livro e fechou-o logo. Deveras que ainda não me passou pela mente a idéia do casamento. Houve um momento de silêncio. em alguns minutos de uma cena de amor e piedade. uma mentira. Esta minha cabeça!.. Mas que efeito esperas tu que provenha de toda essa moxinifada? . uma mentira que me perseguiu lá dois dias e que me persegue ainda hoje. é uma coisa que. amor é o diabo... porque eu bebi daquela água e não pude deixar a ilha sem amar. porque o amor é um nome muito frio para que o pudesse exprimir!. O. porém não posso mais esconder estes sentimentos que eu penso que são segredos e que todo o mundo mos lê nos olhos! Leopoldo.... qual o resultado que pensas tirar de tudo isso que me contaste.. Eis aqui.. um de seus habitantes. roceiro como és. mas suponhamos o contrário disto: que mal tu achas em que um roceiro se case com uma moça da cidade?. .Eis aí outra! Não acabaste de perguntar-me qual era a lição de amanhã? ....Escuta.. Eu amo! ardo! morro! . e muito. falemos sério. Augusto. não é a minha cabeça: a causa está no coração. mas sentimento que é novo para mim. O. enfim.. se tal pensasses.. um sentimento filho da admiração. . no curto trato de um dia. ou melhor ainda. ... .Não é a tua cabeça. sim. uma mentira. porém tu nem cuidas em casamento nem.. tudo. nem fim.. te lembrarias. tenho tido pejo de te confessar.. do baile. nem princípio. nem chegará a tal ponto minha loucura. .E tu acreditaste muito nessa senhora?. pois. que se transformou em verdade.Que resultado?. aquela menina que aborreci no primeiro instante.Amor?.. tudo isso ao mesmo tempo. mas uma mentira que excitou a minha imaginação. em que a vi de joelhos banhando os pés de sua ama. essa tua exaltação estava muito em ordem num moço que quisesse desposar D. veio de novo sentar-se junto de Leopoldo...E ele a dar-me com o maldito amor! Augusto. que daí a algumas horas comecei a achar bonita. eu fatigado e sequioso. Leopoldo: uma vez que com a avó de Filipe conversava na gruta. . .Esta agora não é má!. disse. a nossa boa hóspeda contou-me uma fabulosa e singular tradição daquela fonte. Dize-me. amor.Tratar-se-á das apresentações de. não é graça. finalmente. educada e pode-se dizer que mora na Corte...Deveras que isso não deixa de ser interessante... .. de escolher para mulher uma menina que foi criada. . . depois tomou rapé. amor. que julguei insuportável e logo depois espirituosa. A água dizia-se milagrosa e quem bebesse dela não sairia da ilha sem amar algum de seus habitantes.É verdade. 80 .. . do... Eu a mim não conheço.

os mesmos bosques e árvores. da senhora que passa para o menino que brinca. tu me forçarias a tomar a palavra para defender a linda Moreninha.. ainda contra a vontade. não. certamente que o satisfarei com uma das muitas cachopinhas de minha terra. Isto é assim. não a deixa mais..Oh!. ela se faz por força e por costume tão inconstante como a sociedade em que vive. que. compreende.. onde cem óculos fitos em seu rosto parecem estar dizendo .... a ouvir frases de amor a todas as horas. por prazeres e distrações que se precipitam. que tanto me cativa? . Assim. tão mudável como a moda dos vestidos. . certamente. de mudar de costumes e de vida.. mais jovialidade. Quando se ama deveras e se está com o objeto do amor. sua alma.. não se deseja. considera que é lá em nosso campos que mais brilham esses sentimentos. que são a mesma vida e que não podem acabar senão com ela!. porém. necessariamente.Bom! quando não. escuta: devendo ir morar na roça. é para viver e morrer por aquele que ama. do séquito do casamento para o acompanhamento do enterro! Sua alma tem de sentir ao mesmo tempo o grito de dor e a risada de prazer. . ao romper d’alva.és bela! e assim enchendo-a de orgulho e muitas vezes de vaidade. porém. quando a amada companheira recordar-se de sua família. que por natureza e hábito. não se recorda. quando concebe uma idéia.Como estás exagerado. Queres agora ver o que se passa com a moça da roça?. tem o teatro. pois. do teatro.. vive eterno com ela. . por objetos que se multiplicam e se renovam a todo o momento. Olha. anima-a.. quanto devem entristecer os suspiros e saudades de que serás testemunha. mais livre. os lamentos. a moça tem.. se o marido for amado por ela!. a pesar dela a ligará ainda a seu passado!. tem o baile com sua atmosfera de lisonjas e mentiras. A moça da Corte cresce e vive comovida sempre por sensações novas e brilhantes..Eu logo vi que nos teus raciocínios e observações andava o gênio da prevenção. aqui encontramos nas moças mais espírito. é para nunca mais esquecer. durante o dia. dessa cadeia de delícias. Augusto. tudo a obriga a ser volúvel: se chega à janela um instante só. seu espírito. sempre a mesma lua que prateia seus raios na lisa superfície do lago.. nem tanta constância. à noite.. ela se acostuma a ver e amar um único objeto... Leopoldo! juraria que desejas casar com alguma moça da roça! .. depois. os brados de alegria e o ruído do povo. quando chega a amar. Ora. finalmente.Que mal?... Ainda bem que somos ambos estudantes da roça e posso dizer-te agora o que entendo. Augusto?. . porém. a mudar de galanteador em cada contradança. se esse desejo me dominar. são sempre os mesmos prados. Ali ela está na solidão de seus campos. as nossas roceiras são mais constantes que as cidadoas?. talvez menos alegre. sempre o mesmo gado que se vem recolhendo ao curral. . sem medo de ofender a susceptibilidade de cortesão algum. Depois. de responder-te.. que variedade de sensações! seus olhos têm de saltar da carruagem para o cavaleiro. de suas amigas..Que há muitas exceções. nelas não acharemos nem mais beleza. pois que falaste em geral e desse modo concedes. graça e prendas. é sempre e só aurora que bruxuleia no horizonte. não se quer mais nada!. enfim.Tu falas em amor. onde ela se acostuma a fingir o que não sente. abraça-a. Leopoldo. quanto atormentará o coração do pobre marido à vista dos dissabores e contrariedades que sofrerá na solidão e monotonia campestre a senhora amamentada no seio dos prazeres e festins da Corte!. Estudemos as duas vidas. de tarde. sua alma é todos os dias tocada dos mesmos objetos. do passeio. sem dúvida? ..Oh! não.. Pois ainda não observaste que o verdadeiro amor não se dá muito com os ares da cidade?. 81 .. escuso-me.

e então.. Carolina.. Ah! Sr. mas. Augusto! a culpa é toda sua.Quando. que não vê o que olha. amoldava os corações à sua vontade. que não sabe dizer onde lhe dói. E às vezes suspira. e tanto mais que já conhecemos o estado em que se acha.. não se despede. sabia tirar partido de todas as circunstâncias para fazer rir. que quer campar de beija-flor. . Antes deles. que chega a ir encarapitar-se no juízo. D. ela ignorava o que era estar melancólica dez minutos e praticava o despotismo de não consentir que alguém o estivesse. por pior trato que se lhe dê. ou. um diabinho. enquanto suas músicas se empoeiram. afável e carinhosa para com todos..... acostumada desde as faixas a exercer um poder absoluto sobre todos os que a cercam.. faz-se dono da casa alheia.. pois. Faremos uma visita à nossa linda Moreninha. sem dúvida... se eu pudesse esquecê-la!.Estás tolo. Assim como o grito tem o eco. descansa a cabeça em sua mão e pensa. Também suas modificações têm aparecido no caráter de D. nos seguintes termos: “eu olhei e ela olhou.Que romance? .. Deixemos. e às vezes dá tais saltos no coração. não desconfia.Daqui até lá. mas aquela menina não é como as outras: é uma tentação.. com quem a mamãe não é impertinente.. portanto. boa. Basta.. depois dos festejos de Sant’Ana.. é porque já ama. era ela a vida daquele lugar e empunhava com as suas graças o cetro do prazer. e. não pode ser”. também não há moléstia de mais fácil diagnóstico. quando muito. Carolina ama. toma conta de todas as ações. que não tem. Irreconciliável inimiga da tristeza. Vamos agora entrar no coraçãozinho de um ente bem amável. por força ou vontade. perdendo seus belos olhares na vastidão do mar. o senhor Augusto entregue a seus cuidados de moço.. que acha todo o guisado mal temperado... quais serão os solitários pensamentos de uma menina de menos de quinze anos?. todos sabem que os amantes têm um prazer indizível em matrequear os ouvidos dos que os atendem com uma história muito comprida e mil vezes repetida que. . de estudantes. parece que a tal tentação anda fazendo pelóticas no peito da nossa cara menina... ela vaga solitária pela praia. hóspede quase sempre importuno.. como aquele. uma pessoa a quem confie suas penas. ah! o amor é demoninho que não pede para entrar no coração da gente e...Perderás a aposta e ao completar-se o mês. porventura. ora. a quem?!. era essa interessante jovenzinha o prazer da ilha de.. Hoje suas maneiras são outras. Em quê?. leva o seu domínio muito cedo aos olhos. Já temos ouvido bastante o nosso Augusto e demorar- nos mais tempo em seu gabinete fora querer escutar ainda as mesmas coisas: porque o tal mocinho. não pôde ouvir o estudante vangloriar-se de não ter encontrado ainda uma mulher que o . vai-se colocando e deixando ficar.. e está sinceramente enamorado dela. o ídolo. 82 . tomando por um momento seu antigo bom humor.Então. eu ainda pretendo nestes quinze dias mudar de amor três vezes. seu piano passa dias inteiros fechado. suas bonecas não mudam de vestido. Pois muito bem. sem vergonha nenhuma. tem o amor o suspiro. reduzindo-se à expressão mais simples. eu lhe disse - pode ser. adeus minhas encomendas!. que não quer que se chame médico. parece que caiu no visco dos olhos e graças da jovem beleza da ilha de.. o delírio de quantos a praticavam. portanto. Uma mocinha que não tem cuidados. junto dela. e. sentada no banco de relva da gruta. a flor o aroma e a dor o gemido. e por isso sofre talvez mais. ficaria em zero ou.. porém. teremos. respondeu Augusto. Eis o que é já um pouco explicativo.. que suspira sem ter flatos.. começas a escrever? .. Augusto! Sr.. Esta bela menina. tudo tinha que respirar alegria. um romance? . Augusto. um suspiro?.

Carolina estava vestida de branco. Carolina ama o feliz estudante. que deve passar o dia conosco. Estas palavras tiveram poder elétrico. minha boa avó.. 83 cativasse deveras. que não queria mais ver-nos! . era de prazer. tinha há muito descoberto a ilha de. Ana. e uma mistura de saudades e de temor da inconstância do seu amado é provavelmente a causa de sua tristeza. talvez. Enfim o batelão abordou a ilha de. e.. consultou a sua consciência e ouviu que ela respondia. por isso instava com os seus remeiros para que forcejassem. depois dos primeiros cumprimentos. bateu-se: o combate foi fatal a ambos. correu a esconder-se em seu quarto. 20 Primeiro Domingo: Ele Marca Augusto madrugou. todos já se tinham levantado. Sr. ele o acusava de pesado.Para vir na companhia de Augusto. para ocultar a perturbação que a agitava. D. ninguém dormia. o que se chama acusação injusta.. Eis. Augusto correu a casa de que tantas saudades sofrera. rápido como uma flecha pelos ares. e foi . disse a Sra. e. o incômodo de um sentimento novo. portanto. e no fim dele a orgulhosa guerreira apalpou o seu coração e sentiu que nele havia penetrado um dardo. estudou a natureza e os fracos do inimigo. sem querer dispensar uma só tarde para vir visitar sua querida avó e a tão bonita maninha. Augusto. D. que foi crescendo... bem às escondidas. Carolina. D. uma pessoa que tinha o mau costume de dormir até alto dia. a figura branca havia desaparecido como um sonho. desde a Sra..Pensei. observou..E quase que deixei a viagem para amanhã. nós temos passado oito dias de nojo. D. ideou mesmo um plano de ataque. ela derramou uma lágrima: doce lágrima. quando os voltou de novo para o rochedo. ajunte-se a isto a novidade e os cuidados de um amor nascente e primeiro. ela pôs então em ação todo o poder de suas graças. que lhe enchia o inocente coração e ver-se-á que ela tem suas razões para andar melancólica. E. Carolina?. Além de quanto se acaba de expor. .. já ele havia vencido meia viagem e seu desejo era ir acordar na ilha de. . sem sentir o mais vivo desejo de reduzi-lo a obediente escravo de seus caprichos.. inexplicável. D. eu lhe agradeço a sua boa visita. toda a família está assaltada do mesmo mal. há na ilha uma epidemia de mau humor que tem chegado a todos. um objeto branco. viu a casa.Eu lhe agradeço bem.. Então por quê?. Diz o ditado que: . . os objetos foram pouco a pouco se tornando mais e mais distintos.. que enfim lhe pareceu uma figura de mulher.O ingrato ainda o diz. aprontai o pau! Filipe estava esperando pelo dia de sábado para aproveitar o domingo todo no seio de sua família. de vagoroso. D.falai no mau. que ostentava a alvura de seus vestidos.. quando a aurora começou a aparecer. sempre crescendo. Lá.. ei-lo aí que recebe a bênção de sua avó e beija a fronte de sua irmã. e muito. acresce que Filipe se deixou ficar na cidade a semana inteira. ouves. enquanto seu batelão se deslizava pelas águas. depois distinguiu sobre esse rochedo negro um ponto. Carolina a sua balada. Ana até à última escrava. porém. Depois ele tinha desviado um pouco os olhos. viu o rochedo em que outrora a tamoia deveria ter cantado seus amores e de sobre o qual cantara. há oito dias. disse aquela. .. se venceste também estás vencida! Com efeito...

ao muito. se aí não estivesse. tens estado melancólica e abatida toda esta semana. Carolina tinha os olhos em um livro de música. minha senhora. que às vezes reparava suas indiscrições e que outras.É porque não quer. . . Que eram saudades conheci eu pelos suspiros que soltavas e também não vai mal nenhum em confessá-lo. minha senhora. estivemos todos carrancudos e. . passaria desapercebido. .Não o negues.É ir muito longe. Carolina estava bonita como dantes. eu não me poderia haver com uma agulha na mão.Eu.Eu. quando mais parecia ocupar-se com seus alegres trabalhos. . desde ontem à noite já tem estado sofrivelmente travessa. 84 preciso que Filipe nos trouxesse a notícia de sua vinda. .Ora.Eu julgo que ele está trabalhoso e perfeitamente marcado. . Augusto teve de agradecer as obsequiosas atenções da avó de Filipe.De um engraçado pedacinho da cavatina do Fígaro. seja dito em amor da verdade. realmente foi ele que o mostrou sofrer maiores saudades. . olhava-o furto. que a embelecia ainda mais. Augusto? perguntou a boa hóspeda. D. observe-o de mais perto. Carolina voltou o rosto. para reviver nossa antiga alegria. .O mesmo por lá nos sucedeu.Tem uma bela prenda. menina. Augusto. Sr. D. eu acho tudo o melhor possível. minha avó. Mas. poder-se-ia dizer que este X foi marcado por mão de moça travessa. Então ele examinou o livro e viu que havia mentido. . foi porque chegou-me um companheiro para traquinar comigo.Que é muito comum.Minha senhora.De que estás rindo. repare que barafunda vai por aqui. porém.Eu não entendo assim. Quem não sabe marcar? . durante essas duas horas. e também de reparar com esmero e minuciosidade no objeto de seus recentes cultos. e que. gostou de nosso trato e nossa companhia. Em resultado de suas observações concluiu que D. ela sorriu brandamente. porque o que tinha diante de seus olhos era uma coleção de modinhas do Laforge. Augusto arregalou os olhos e sentiu que a ventura lhe inundava o coração. com uma certa expressão de receio. Durante o almoço a conversação divagou sobre inúmeros objetos. eram saudades da agradável companhia que tivemos. ouvindo as últimas palavras do estudante. por exemplo. Carolina. finalmente teve de ir bulir com um pobre lencinho que estava na mão de D. que dizia ter por ele notável predileção. Carolina? perguntou Filipe. que se passaram muito depressa. . a visita que vim ter o gosto de fazer é a melhor resposta que lhe posso dar. .E nem por isso merece menos.Quer dizer que foi pela minha? Adivinhou. aprecio bem pouco o que todo o mundo pode ter. mais do que nenhum outro. disse Augusto. . . mais lânguida. . . sempre tive fama de desinquieta e prazenteira. no Barbeiro de Sevilla. respondeu a menina. Carolina. e se ontem me adiantei.É porque não posso. Duas horas depois serviu-se o almoço. . mas seus ouvidos e sua atenção pendiam dos lábios de Augusto. aí o tem.É verdade. disse Filipe tomando a palavra. . pejo e ardor.

Então. . Filipe desafiou Augusto para uma partida de gamão e incontinenti foram travar combate na varanda. senhor.É uma mão de honra! . . . está o senhor matriculado na minha aula de marcar e daqui a uma hora principiaremos a nossa lição. por certo.Mas. palmatória não.Veja o que diz!. disse Augusto. . ensine-me com palmatória. porque. . Augusto acabava de lançar uns dois e ás. dirigindo-se ao seu discípulo. nem o que não quero. respondeu D. enfim. . eu a aceito.Terá os meus elogios. que desconcertaram seu antagonista. . qualquer dos dois podia dar ou levar gamão.Pois bem.Aceito a admoestação. antes.Ele há de aproveitar muito. quando tocou uma campainha. .. . que minha maninha reduz Augusto a aprender a marcar! .Repito-o. então quer você. .Um dia de paciência lhe seria suficiente. Levantaram-se da mesa.Não.Se é uma condição que oferece. . aceito as condições. . 85 . .. disse com engraçada seriedade: .É o que pretendo fazer.Depois da lição. dar-lhe-ei um puxão de orelha.Levará um puxão de orelha.E então ele não passeia comigo? perguntou Filipe.E é preciso obedecer.Pois bem. .Porém podes ensinar-lhe com bons modos. fazendo-se de grave.Pior está essa! . são horas de lição.Se me é permitido. senhor. minha avó. .E se por acaso errar alguma vez? .Ora. . seria isso alguma asneira? .Querem ver. . estavam no começo do quarto. D. . maninha pode mesmo dar-te algumas lições. levantando-se. . não lhe dou licença. Filipe derrotou seu competidor em três jogos consecutivos.. Carolina. acudiu Filipe. Carolina apareceu e. minha bela mestra.Sim. eu o chamaria a bolos.Não. são horas de lição. é boa! acudiu Filipe.Nada. concluiu Augusto. quando D. . respondeu a mestra. algum tempo foi destinado a descansar. . vamos. Ana.O senhor não ouviu tocar a campainha? .. e espero que para outra vez não me seja preciso chamá-lo. sou muito raivosa e à primeira linha que ele rebentasse. mas de cada vez que eu julgar necessário. minha senhora. podia doer-lhe muito. eu não estou pedindo a ele que venha aprender comigo.Menina! disse a Sra.Não tenho a dizer-lhes o que quero. mas rogo-lhe o obséquio de consentir que termine esta partida. respondeu a menina.Então isso era comigo? . . . os dois estudantes não deram atenção a isso e continuaram: o jogo tornou-se duvidoso.

Não se exaspere. a menina estremeceu toda. exclamou a Sra. tenha modos!.Tome cuidado no modo de pegar nessa agulha!. o amor lhes tinha ensinado outros.. O resto do dia se passou como se havia passado o seu princípio para Augusto e D. Carolina não podia conservar imperturbável sua afetada gravidade e então os sorrisos da bela mestra e do aprendiz graciosamente se trocavam. não há outro remédio. Ora. o dedal estava bem junto dos pés dela e o aprendiz.Ouviu o que ele disse? perguntou Augusto. Filipe apareceu na sala. e “minha bela mestra”. esse contato fez mal. minha senhora!. os olhos de ambos se encontram e os olhos de ambos tinham fogo.. porque estava pescando. que a dez passos cosia.Está bem. Eles não se chamaram mais por seus nomes próprios. e que só podia ver a exterioridade do que se passava entre a bela mestra e o aprendiz... . .. . Augusto.. Novo fogo de olhares! que aproveitável lição!. .Menina. . E depois acrescentou.. ninguém sabe se de propósito. A lição se prolongou até ao meio-dia e mais de mil vezes se repetiu a mesma cena do encontro das mãos. eu não os posso aturar.Já lhe tenho repetido três vezes que não é assim que se pega na agulha. D. ora. porque era já pela quarta vez que a bela mestra recomeçava suas explicações e o aprendiz cada vez a entendia menos. escutava.Já não posso mais! exclamou a bela mestra. gritou ela com mau modo e sem se importar com Filipe. minha senhora. ela se mostrava mais pacífica e ele menos atento do que haviam prometido. minha senhora! eu não sou sua senhora. eram: “meu aprendiz”. ele poderia responder que não queria caçar. . A madrugada seguinte foi triste. minha bela mestra. . eu o vou apanhar e não cairá mais nunca. com os olhos fitos no rosto dela. com seus dedos em um daqueles delicados pezinhos. ao apanhá-lo. Tudo foi às mil maravilhas. porque presidiu às despedidas do aprendiz e sua . Augusto curvou-se e ficou quase de joelhos diante de D. o sossego se restabeleceu. E.Fique-se aí. Às vezes D. sou sua mestra. Todo o mundo adivinha que Augusto disse que não.Minha bela mestra não dá licença. Carolina.. Carolina. Sr.. aos pés da sua bela Onfale! . . Augusto se comprometeu a apresentar na primeira lição um nome marcado pela sua mão. O senhor não atenta no que faz!.. ora. Augusto olhou-a admirado.. pronto para ir caçar. Ana.Digo-lhe que já me vai faltando a paciência. Carolina não conseguiu puxar uma só vez a orelha do estudante e o aprendiz não perdeu uma só ocasião de apertar os dedos da mestra.Minha bela mestra! . Hércules. D. disse este.Ora. dizendo isto... não dá um ponto que preste.Ora. o Sr. tocou. saindo. lançou uma das mãos à orelha do aprendiz. e nesse ensejo os dedos da bela mestra foram docemente apertados pela mão do aprendiz. e convidou o seu amigo para com ele partilhar do mesmo prazer. Um momento se passou. rebentou o senhor pela quinta vez a linha. 86 Daí a pouco estava tudo em via de regra. essas mãos se encontraram. sentado em uma banquinha aos pés de sua bela mestra. sorrindo-se: . . as explicações necessárias. que de súbito deu um grito e acudiu com as suas. Augusto não é criança. debateram-se.. mas contentou-se com dizer: . já tem quatro vezes rebentado a linha e é a décima segunda que lhe cai o dedal.

Carolina. sem inconveniente.Vamos. . como na passada viagem. . dizendo-se: almoçaram e chegou a hora da lição.Não. Carolina a Augusto.. abreviar toda a história de duas horas. pode-se. eu não farei tal na lição de hoje. essa figura se demora sobre o rochedo. que tantas noites se tem sonhado beijar. cujo sorrir se considera um favor do céu.Então errarei toda a lição. apreciar sobre si o doce contato de uma bem torneada mão. sentir sob sua face perfumado bafo que se esvaiu dentre os lábios virginais e nacarados. roçar às vezes com o cotovelo um lugar sagrado. que seguiu a sete outros. Carolina que só desce dele para ir receber o feliz estudante que acaba de desembarcar. que vai crescendo mais e mais. porque só a ele é isto de grande entidade. Um bonito rosto moreninho fez olvidar todos esses episódios da vida do estudante. O prognóstico de D. Eles se sorriram. . tudo isso. e convém dizer apenas o que absolutamente se faz preciso. à medida que seu batelão se aproxima. é um amante que acredita ser amado e que vai. Augusto está viajando: já não é mais aquele mancebo cheio de dúvidas e temores da semana passada.. D. Augusto os está gozando neste momento. se ela não amasse também. passados entre sonhos. que estava já sentado a seus pés e em sua banquinha. disse D. Como da primeira vez. que não tenha experimentado esses doces enleios. mas ainda foi bem doce.Meu aprendiz!. saudades de esperanças. já sei que traz nome bem marcado. Augusto vê o dia amanhecer-lhe no mar.Oh! sempre precisarei que me queira puxar as orelhas. . Ter a ventura de receber o braço de uma moça bonita e a quem se ama. o apanhar o leque que escapa da mão que estremeceu. . é D. meu aprendiz. mas Filipe acaba de chegar e todos três vão pela avenida se dirigindo a casa. radiante de esperanças.. mas desta vez. vamos. · Minha bela mestra!. avista sobre o rochedo o objeto branco. levar à sua bela mestra a lição de marca que lhe foi passada. mas para que divagações? que mancebo há aí. voluptuoso e palpitante. 87 bela mestra.Até domingo! 21 Segundo Domingo: Brincando com Bonecas (1) Raiou o belo dia. se vai verificando: Augusto está completamente esquecido da aposta que fez e do camafeu que outrora deu à sua mulher. na gruta encantada.Talvez.. e. o senhor comprometeu-se a trazer-me um nome marcado pela sua mão. não como da outra. não desaparece como um sonho. Carolina triunfa e seu orgulho de despotazinha de quantos corações conhece deveria estar altaneiro. bela por força. é uma bonita realidade. de dezesseis anos por diante.E se eu merecer? . tão leves para a reflexão e tão graves e apreciáveis para a imaginação de quem ama? Pois bem. mas.. que nome marcou? . até que distintamente conhece nele a elegante figura de uma mulher. .. porque ambos meigamente se disseram: .

Sabe. Venha a marca. pois. porém.Eu quero saber quem foi! exclamou com força. viu-a correndo para ela.É verdade. Tudo estava primorosamente trabalhado.Mas. outra bela mestra!.. . ele tem outra mestra. ver a sua obra.. Augusto estava espantado e a Sra. porém. que é mais bonita!.. o que fez? foi para a Corte tomar outra mestra.. . .Não sabe?. continuou. quero saber-lhe o nome. . ...Não lhe deram este lenço? .. como fiz na lição passada.Foi uma mulher! isso não carece que me diga. com a voz entrecortada.. levantando os olhos ao escutar a última exclamação de sua neta. mas com toda a beleza da dor e delírio do ciúme. mas que marca melhor que eu. Augusto apresentou então um finíssimo lenço aos olhos da sua bela mestra..Pois eu o rasgo.. D... minha bela mestra.. .Quis trazer um lenço bem marcado para ostentar meus progressos e motivar alguns gracejos e mandei-o encomendar a uma senhora muito idosa. só o nome!. minha querida avó: aqui está a marca que ele me traz! Eu queria um nome muito mal feito..Veja. menina? que tem que ele tomasse outra mestra? pois por isso choras assim? . . que sua bela mestra ia gradualmente corando e por fim se fez vermelha de cólera e de despeito. .. já nem me quer chamar sua mestra!..Minha senhora. Uma moça que lhe marcou este lenço para o senhor vir zombar e rir-se de mim. minha querida avó.Nunca a mão grosseira de um homem poderia marcar assim!. uma barafunda que se não entendesse. disse ela a custo.Vamos. Então ela ergueu-se e. o pano suado e feio. E dizendo isto. .Que é isto menina? perguntou.... de tudo.. veja. . . Carolina.. com os olhos ainda molhados.Eu não entendo.. .Mas nem me quer dizer o nome dela!. . tudo péssimo. . ocultou o rosto no seio da extremosa senhora e começou a soluçar..Paguei-o. . eu me riria com ele.Muito idosa?. preciso é confessar: o aprendiz havia marcado melhor do que nunca o tivera feito D. de minha credulidade. A interessante jovem acabava de ser inesperadamente assaltada de um acesso de ciúme. .Vejam!. 88 . agora só sabe dizer “minha senhora!”.. Augusto esperava com ansiedade ver brilhar nos olhos de sua bonita querida o prazer da gratidão.. nem o meu prazer. fruía já de antemão o terno agradecimento com que contava. voltou-se para Augusto e perguntou: . que vive destes trabalhos. Que me importa que seja moça ou bonita? nada tenho com isso. e creia que estou pouco disposta a perdoar-lhe. tudo mau... .. Ela não esperava outra resposta. .Entendi que devia ser o nome da minha bela mestra. com espanto.Juro que não sei.Como se chama ela? . que não há de ter a minha paciência. Ana. que teve de ler em cada ângulo dele o nome Carolina e no centro o dístico Minha bela mestra.Que loucura é essa.. quando viu..

não falemos mais nisto. já tarde. não desejo ver a menor hesitação. D. . No entanto a Sra. examina o guarda- roupa. como para ler-lhe n’alma o que ela pensava daquilo.Então fui julgado incapaz de adiantamento? . o rei humilde cativo. . pelo trabalho que me trouxe. Ora. mas nem por isso quer entregar todo o futuro do objeto que mais ama no mundo ao só abrigo do nobre caráter e sérias qualidades que tem reconhecido no mancebo. minha senhora. O amor foi inventor das cabeleiras. como uma varinha ao vento. como qualquer moça da moda as tem no seu toucador. o sábio doido..Pois rejeita um presente de minha neta? perguntou a amante avó.. . o amor está fazendo um estudante do quinto ano de Medicina passar um dia inteiro brincando com bonecas. . jóias e um número extraordinário de bugiarias. quero que aceite este lenço. Um momento depois a sala estava invadida por uma enorme quantidade de bonecas..Não. O pai de família tem os filhos. despe umas e veste outras. O amor faz o velho criança. cada uma das quais tinha seus parentes. tirando de sua cesta de costura um lenço recentemente por ela marcado. sou eu quem tem outros cuidados.Ei-lo em tiras. Carolina? exclamou a Sra. Augusto já sabe de cor e salteado todos os nomes dos membros daquela família. respondeu a bela mestra. acudiu Augusto: exterminou o mau gênio que acabava de fazê-la chorar. disse ele. .. querendo. peço-lhe licença para dar um dos meus ao Sr.Ao contrário. Ana. batiza. dobra-se aos prazeres de sua bela mestra. porém. não me saí bem do magistério. basta de marcar. que já estamos bem. em uma palavra. dos dentes postiços que. mas nem isso desnorteou a viva mocinha que. não.. A Sra.E que importa que eu rasgasse um lenço? minha querida avó. às vezes. conversa com todas. dizendo: .. . . que sou criança. casa. a um surdo o companheiro companhão e a um cego o procura quem te deu. conhece os diversos graus de parentesco que existem entre eles. vi que o senhor estava adiantado demais.Quem é que deles não carece?. Augusto. o ofereceu a Augusto. julgou a propósito não dar resposta alguma. Ana. . vamos à minha lição. . enfim. seus vestidos. Ana os observa cuidadosa.Agora. Ana. tem simpatizado muito Augusto. o senhor os seus livros e eu. que começava a desconfiar da natureza dos sentimentos da mestra e do aprendiz. alto lá! que isto é bulir com muita gente. D. faz mesmo.Que fazes. mas.Fez o que cumpria. acalenta as bonecas pequenas. impedir que sua neta rasgasse o lenço.Eu não admito uma só desculpa.Com o maior prazer. tenho as minhas bonecas. o tal bichinho chamado amor é capaz de amoldar seus escolhidos a todas as circunstâncias e de obrigá-los a fazer quanta parvoíce há neste mundo. O amor seria capaz de obrigar um coxo a brincar o tempo-será. Com efeito. chorei diante do meu aprendiz. D.Já tem cuidados?. Augusto olhou para a Sra. . A resposta de Augusto foi um beijo na prenda de amor. com que o feio pareça bonito e o grão de areia um gigante.Pode o fazer. 89 . . D. Quer vê-las? .

.....Eu não perguntei a quem o senhor amava. .Pois acredita que em amor possa haver felicidade? .. mas suspirou. Uma vez Augusto e Carolina. talvez. Não lho impeço. alguns suspiros vinham também perturbá-los mais e havia dez minutos eles se não tinham dito uma palavra. mas. essa delicada mão.E a senhora já amou também? Novo silêncio. A virgem guardou silêncio e o mancebo.Eu não pergunto. Ana. ao sentir passos.Por quantos dias? . E o mancebo.. . o nome de Augusto foi mil vezes pronunciado. rogando-lhe que o reservasse para a sua neta.Oh! para sempre!. D. já tem a senhora amado? . perguntou tremendo: . . como involuntariamente. Igual pensamento. O maior inimigo do amor é a civilidade. D. A mão da bela Moreninha tremia convulsamente no braço de Augusto e este apertava às vezes contra seu peito.. mas esta lhe fez cair a sopa no mel.. ..São felizes! .É a senhora.Acaso.. apertando-lhe vivamente o braço. a tarde deve de ser empregada em passeios à borda do mar e pelo jardim. ela pareceu não ouvir.Eu?!.Elas se amam! E a menina murmurou apenas: . Depois ainda continuou: . Carolina fez-se cor-de-rosa e só depois de alguns instantes pôde perguntar. talvez brilhou em ambas aquelas almas.Comecei a amar há poucos dias. começaram a beijar-se com ternura. .. e esta cena se passava aos olhos de Augusto e Carolina!.E a senhora não me revela o nome feliz?. em um arbusto. respondeu Augusto.. e o senhor?! . voaram e assentando-se não longe.Posso eu fazê-lo? . que iam adiante.. apontando para as pombas. Ele falou menos baixo: . 90 Como de costume. ficaram muito distantes do par que os seguia...Às vezes. tendo de oferecer seu braço à Sra. porque os olhares da menina e do moço se encontraram ao mesmo tempo e os olhos da virgem modestamente se abaixaram e em suas faces se acendeu um fogo.E a quem? . Augusto o sentiu. . Filipe acompanhava sua avó e na viva conversação que entretinham. forcejando um sorriso: . depois de alguns instantes.Quer que lhe diga?. Em uma das ruas do jardim duas rolinhas mariscavam.Já ama também?. que era o do pejo. Ela abaixou ainda mais os olhos e com voz quase extinta disse: ...Não.Não sei. disse: . .

... ele é volúvel?. achou na Corte seu pai e em poucos momentos teve de concluir..Talvez um dia. . para que ninguém o possa ouvir... eu não posso!.. levou o braço do mancebo até ao peito e lhe fez sentir como o seu coração palpitava. .. com fogo e ternura: . Não pôde.. O nosso Augusto.. Voltando da ilha de.....Serei eu?. mas. que. . basta o nome pronunciado bem em segredo. o pai de Augusto não falava em voltar para a roça. estão no caso do fogo viste lingüiça? e ainda bem não puseram os pés no Largo do Paço já têm os pés na Praia Grande (que por estes bons cinqüenta anos há de continuar a ser Praia Grande. contra o costume do maior número dos nossos agricultores. ... .Ostenta sê-lo. pelo céu!.Oh!.Talvez.. A interessante Moreninha quis falar. depois daquele belo dia da declaração de amor.. . A vigem tremeu toda e não pôde responder... 91 .. da severidade com que era tratado. Augusto está desesperado.. Augusto lhe perguntou ainda.. . e. depois de muitos rodeios e cerimônias. Ela tinha dito somente: . apesar de a terem crismado Niterói)... pediu ... vieram por fim dar-lhe a certeza de que o seu bom velho estava ciente de tudo. Chegou o sábado.. nem a brisa o leve.Se eu perguntasse?. perguntou uma terceira vez Augusto.. parecia haver esquecido a moagem e a safra. . .Oh!. bem no meu ouvido.. Pelo céu!. . porém que fez transbordar a glória e entusiasmo na alma do seu amante.. com requintada ternura..Então..Eu não..... não!.Serei eu?. a julgar-se pelo sossego e vagar com que tratava os menos importantes negócios.Senhor!. A mais bem merecida repreensão... e um discurso cheio de conselhos e admoestações... . .Mas por que não pode? . Para coroar a obra..Porque não devo. sem o pensar. 22 Mau Tempo Tristes dias têm-se arrastado.E nunca o dirá?! . . A jovenzinha murmurou uma palavra que pareceu mais um gemido que uma resposta. não posso..Um só nome que peço!..Quando estiver certa que ele não me ilude.. . acabe de matar-me!.Serei eu?.E quando?. quando vêm à cidade..É impossível. que já alguém o havia prevenido das suas loucuras e dos muitos pontos que ultimamente tinha dado nas aulas..

escarapela. foi o nosso estudante às nuvens. e. . daí a pouco pareceu-lhe que ela soluçava. por mais força que se faça mais o maldito rasga. com os olhos em fogo e o rosto mais enrubescido que de ordinário. limpar-lhe o caminho. com seu vestido branco. por ver que ele não chegava.. Isto aconteceu a Augusto. a alma do homem que padece é. toda cheia de encantos e graças. Carrancudo e teimoso. chora. jurando que não havia de estudar dois meses. viu-a chorar. principalmente no caso em que se acha o nosso estudante. donde. muita indústria deve ter quem o quer pôr na rua. Portanto. Porém os homens. O experimentado velho fingiu ter-se deixado enganar e. Mania antiga é essa de querer triunfar das paixões com fortes meios. trancou a porta ao pobre estudante. escabelou-se e. então. que. voltou o rosto para a parede e principiou a roncar como um endemoninhado. e para consegui-lo convém ir despedindo-o com bons modos. agadanha-se logo no coração da gente. parlamentares oferecimentos e nunca bater-lhe com a porta na cara. como nada disso lhe valesse. atirou com todos os seus livros para baixo da cama e deitou-se de novo. viu-a. e obteve em resposta um não redondo. pois. saltou exasperado fora do leito em que se achava deitado. concentra-se. esbravejou. amor é um menino doidinho e malcriado. o nosso encarcerado estudante soltou as velas da barquinha de sua alma. esburaca e se profunda. para que não corra. Augusto ama deveras. sem dúvida para vir consolá-lo e dar-lhe salutares conselhos. abrindo as cortinas do leito. só se lembram do seu tempo para gritar contra o atual e esquecem completamente os ardores da mocidade. não concebe. jurou que tinha dado sua palavra de honra de lá se achar nesse dia e o pai. Já era tarde. prudente é facilitar-lhe o que deseja. para que não passe: acabar com as dificuldades e oposições.Já dormes. quando se engole. 92 finalmente licença para ir passar o dia de domingo na ilha de. mandou voltar o almoço. não há idéias mais livres que as do preso.. nem faltasse à honra. A única resposta que obteve foi um ronco que mais assemelhou-se a um trovão. para que o filho não cumprisse a palavra. esperneia. exercia nele um poder absoluto e invencível. e pela primeira vez em sua vida. e sentindo que seu pai abria a porta do quarto. Uma noite de amargor foi. morde. Augusto quis dar dois passos e foi preciso que os braços paternais o sustivessem para livrá-lo de cair. e o amor. não vela e não se exalta se não por ele. para que ele disso se desgoste. retirando-se. soltá-lo no prado. mais forte que seu espírito. O amor é um anzol que. Ouviu-a acusá-lo de inconstante e ingrato. Ora. esperando-o em cima do rochedo. o jantar e a ceia que lhe trouxeram. escabuja. e suas lágrimas queimavam-lhe o coração. Augusto? perguntou o bom pai. toda de sua dor. se não é com jeito destravado. de modo que. que voou atrevida por esse mar imenso da imaginação: então. passeou a largos passos por seu quarto. fez mil planos de fuga. sem tocar num só prato. a que se passou para este. belisca e incomoda mais que solto e livre. o pai veio encontrá-lo ainda acordado. erro palmar. começou a criar mil sublimes quadros e em todos eles lá aparecia a encantadora Moreninha. julgou muito conveniente trancá-lo no seu quarto. para que ele durma e muitas vezes morra. escutou um grito de dor semelhante a esse que soltara no primeiro dia que ele tinha passado na ilha! Aqui. . O resultado disso é o mesmo que tirará o pai de Augusto da energia e violência com que procura apagar a paixão do filho. acusou a crueldade dos pais. quando alguém intenta refreá-lo. na solidão e silêncio das trevas. mais que nunca. ao abrir-se na manhã seguinte a porta do quarto. experimentou se podia arrombar a porta. mergulha-se inteira em seu sofrimento. mal passam de certa idade. não pensa.

como meio morto. tomando e beijando a mão paterna. por seus lábios. fez-se esperar pouco. com seu sentimentalismo. fez-lhe o que chamou uma bela sangria de braço. murmurou com voz sumida e terna: . e entrou apressado e trêmulo no quarto do enfermo. entrou de novo na câmara do doente.. horas inteiras se passavam sem que uma só palavra fosse apenas murmurada. tão bom!.. Os nossos amantes acabavam de chegar ao sentimental e. exclamou. três dias se passaram sem conseguir-se a mais insignificante melhora. meu pai. tomou outro tipo: Augusto tornou-se pálido.. Na visita do quarto dia o médico disse ao pai de Augusto: . que também se desenhava no ardor dos olhares.. voltando passadas algumas horas. algum elixir tão admirável. com tanta facilidade como a princípio supôs o médico. amortecidos.Querido louco!.Não vamos bem. como que obsequiavam a luz quando por acaso se entreabriam. louco? perguntou o pai. ficando só com ele. que o tinha vindo procurar.Eu amo. mas. que as melhoras começaram a aparecer como por encantamento. julga isso pouco? E além destas palavras não quis pronunciar mais uma única sobre o seu estado. como insensível. . na viveza das expressões e na audácia dos pensamentos. . uma mudança apenas se operou: a exacerbação foi seguida de um abatimento e prostração de forças notável.. fez retirar todas as pessoas que aí se achavam e. contudo.Nada. cujo amargor só pode sentir a alma de um pai. também duas lágrimas ficaram penduradas em suas pálpebras e ele.O que sente? Ele respondeu. Algumas aplicações se fizeram e um dos colegas de Augusto.. Os namorados . O médico deu por terminada a sua visita. Doces frases que retumbaram com mais doçura ainda no coração do velho. ele estava em violenta exacerbação..Oh! Sr. E. a flor de suas esperanças. estavam azedando a vida dos que lhes queriam bem. cuidadoso.O meu filho!. um leve sorriso de gratidão lhe alisou os lábios. Oh! ele queria dizer que sofria muito! Imediatamente foi-se chamar um médico que...Meu pai. por que me queres matar? Um brando favônio de vida passeou pelo rosto de Augusto. . e vendo-o prostrado no leito.E mais nada? . contra o costume da classe. com lágrimas nos olhos: . prolongadas insônias eram marcadas minuto a minuto por dolorosos gemidos. e tal idéia derramou em seu coração todo esse fel. deu-lhe. provavelmente. eu não sofro nada . A enfermidade de Augusto não cedeu. e seus olhos. sua paixão. com toda fria segurança do homem determinado: . mas. Que milagre não será capaz de fazer o amor dos pais? Novidades do mesmo gênero perturbavam a paz e os prazeres da ilha de.Que fizeste. D.. meu filho!. no mesmo instante. sombrio e melancólico. Carolina também padecia... passei uma noite em claro.. doutor. seus olhos se abriram... Uma idéia terrível apareceu então no pensamento do sensível velho: a possibilidade de morrer seu filho. porém. Augusto sujeitou-se com brandura ao exame necessário e quando o médico lhe perguntou: . 93 . disse ele: tu me obrigas a fazer loucuras! E saiu do quarto e logo depois de casa..

deixando-a cheia de prazer. Carolina levantou a cabeça e viu que já o batel cortava as ondas. como para corresponder a tão animador cumprimento. deixa o rochedo. da Sra. que por uma cartinha de cinco linhas põe os lábios de um pobre amante em inflamação aguda com o estalar de tantos beijos. Ana. que de um nadazinho tira motivos para o prazer de dias inteiros. ela. À tarde sentiu-se incomodada. o chá não se podia tomar. que mal pode consolá-la. às vezes algumas cólicas. D. não ceou e não dormiu. conhecendo já a causa da tristeza da querida neta. sem exceção nenhuma. porque. apontou também para o céu. mentirosos e até. D. Esse homem despediu-se. depois incomodam- nos choramingando. Acordando-se ao primeiro trinar do canário. que nem mesmo a sorte grande os causaria. A presença da linda neta parecia alentar mais essas reflexões. e. para passar o dia inteiro no fundo do gabinete. Ana recebeu cartas que a tornaram talvez menos triste. saudou-a com esta simples palavra.. teme vê-la fugir vermelha de pejo.. pruído de canelas. (bradava ela lindamente enraivecida) falsos. repetindo com fogo a estrofe que tanto lhe condiz.. outras amargores de boca. feios. Tudo neste mundo é mais ou menos compensado. apontando para o céu: . mas. 94 são semelhantes às crianças: primeiro divertem-nos com suas momices. No almoço não houve prato que não acusasse de mal temperado: faltava-lhe o tempero do amor. por principiar assim: “Eu tenho quinze anos. E sou morena e linda. se não produzisse também agastados arrufos. e pondo a outra mão no lugar do coração disse: . maus. palpitações.Esperança! D. enfim.. Retirou-se.. tendo debalde esperado o seu estudante até alto dia. Ele. que por um só cabelo faz escarcéus tais. Pertencia a uma classe. que a terra chegaria a lembrar-se de ser competidora do céu.. toda a gente de sua casa a olhava com maus olhos. por sua vez. se não fingir com finura que ignora o estado de seu coração. A bela Moreninha tinha visto romper a aurora do domingo no rochedo da gruta. o dia estava frio de enregelar. voltou para casa arrufada. sem exceção. no momento em que saltava dentro do seu batel. ela busca o rochedo. ataques de hipocondria. e. mas sem dúvida muito pensativa. ou ao lado de sua boa avó. Coitadinha! vai passando uma semana de ciúmes e amarguras. cujos membros eram. que se prolongaram até a tarde do dia seguinte.. O dia de sexta-feira trouxe ainda algumas novidades à ilha de. com os olhos embebidos no mar. seria tão completa a felicidade cá embaixo. em que um velho e particular amigo de sua família veio da Corte visitá-la e com a respeitável senhora ficou duas horas conferenciando a sós. vendo a interessante Moreninha que tristemente passeava à borda do mar.Esperarei! . seu próprio irmão tinha um defeito imperdoável: era estudante. canta muitas vezes a balada de Aí. A Sra. o amor não podia deixar de fazer parte da regra. etc. e. que de uma flor já murcha engendra o mais vivo contentamento. Um exemplo dessa regra está sendo a nossa cara menina.” E quando o sol começa a fazer-se quente.

. assim me mandou dizer Filipe. . Com força e comoção desusadas bateu o coração a D. fingiu não tê-los sentido e continuou sua balada: .Se ele pagasse bem. ela vendo que chegavam à praia..Oh! pobre moço!.. parece pagar-nos bem a amizade que lhe temos.. . voando com asa intumescida para a ilha. Carolina. disse: . e depois respondeu: .. Ah! era o batel suspirado.. Carolina. fazendo com habilidade e destreza cair a conversação sobre o estudante amado. hoje já pôde chegar à janela. teria vindo domingo. há dois dias ficou livre dele. .Eis uma injustiça. enfim. . Carolina. a bela Moreninha distinguiu dentro dele Augusto... Desde sábado à noite que Augusto está na cama. se não fosse isso teria vindo ver-nos!. no instante mesmo em que ela dizia no seu canto: “Lá vem sua piroga Cortando leve os mares” um lindo batelão apareceu ao longe.. pensava ela.. dividiu seus cabelos nas duas costumadas belas tranças.Aquele interessante moço. pensarás acaso de maneira diversa?. que tanto gostava de fazer ondear pelas espáduas. E sou morena e linda” Mas. todos os antigos sentimentos de ciúme e temor da inconstância do amante se trocaram por ansiosas inquietações a respeito de sua moléstia.Graças a Deus. eu não sei. A menina hesitou um instante. há uma semana esquecido. sentado junto de um respeitável ancião.. . buscando o toucador.Minha avó. porque. 95 23 A Esmeralda e o Camafeu Dona Carolina passou uma noite cheia de pena e de cuidados. pois.. E. a amorosa menina despertou e.Dize sempre. como por encanto. Quando o ligeiro barquinho se aproximou suficientemente.. na hora do chá.Eu me alinhei. . vestiu o estimado vestido branco e correu para o rochedo. hoje é domingo e talvez. extremamente comovida. cheias de amor e de esperança.. ela principiou também a cantar sua balada: “Eu tenho quinze anos. Doente?. que calou-se para só empregar no batel que vinha atentas vistas. talvez consiga com algum esforço vir ver-me.. ao amanhecer. porém já menos ciumenta e despeitada...Doente?! exclamou a linda Moreninha. a boa avó livrou-a desses tormentos. não entendes assim?. a quem não pôde conhecer.. prostrado por uma enfermidade cruel. Como ontem já pôde chegar à janela. E quando o sol começou a refletir seus raios sobre o liso espelho do mar. No dia seguinte. em perigo?.. então.

sem dizer palavra. e como lembrando-se dos pesares que tinha sofrido.” sentiu que Augusto corria para ela. com ternura. defronte um do outro. E eles continuavam no silêncio. . Carolina.. . 96 “Enfim. para ajudá-lo a desembarcar. com os nossos dois amigos Leopoldo e Fabrício. Augusto para aí se dirigiu tremendo. é necessário que os ajudemos.O mar está bem manso. cônscia já de sua fraqueza. mas olhavam-se com fogo. Uma hora depois o pai de Augusto e a Sra. desceu do rochedo e foi cumprimentar o pai dele. E para que mais?. como todos prevêem. e depois deu a mão a seu pai. D. o Sr. quando dizia: “Quando há de ele correr Somente pra me ver. Fala. Ana recebeu com sua costumada afabilidade o pai de Augusto e abraçou a este com ternura. Ambos os amantes compreenderam o que queria dizer a palidez de seus semblantes e os vestígios de um padecer de oito dias. Tanto D. A Sra. D. abrir a boca e fechá-la de novo. aceitando o braço do estudante. guardaram silêncio.Enfim. com efeito.. prosseguiu seu canto. não sabia mais servir-se de seus sorrisos com a malícia do tempo da liberdade e mostrava-se esquecida de seu viver de alegrias e travessuras. Prazer imenso inundava a alma da menina. D. Carolina curiosa. abica à praia Enfim.Por que não veio o meu neto? . houve bons cinco minutos de silêncio: o pai de Augusto instou para que ele falasse. até que. Augusto parecia querer comunicar alguma coisa bem extraordinária à sua interessante amada. Quando eles se sentaram. e D.. Ana conferenciavam a sós. porém sempre estremecia ao entreabrir os lábios. Ana os convidou a entrar no gabinete. . Carolina como o pobre estudante ficaram cor de nácar. D. Ana tomou então a palavra e disse sorrindo-se: . No fim de muito tempo eles haviam conseguido dizer-se: . Augusto te ama e te quer . Carolina. saltava nesse momento fora do batel. que ainda não mostrava dar fé deles.. o ancião falou: . e os dois namorados achavam-se. para que possa ser descrito. como tremendo pelo êxito dela?. ela lhe perguntou: . E o bom do rapaz não fez mais que olhar para a moça. agora resta que alcances o sim da interessante pessoa que amas. tiveram só olhares para trocar e suspiros a verter.. não tiveram uma palavra para pronunciar. Felizmente para eles a Sra. Alguma grande resolução obrigava o moço a estar silencioso.” Augusto. no vão de uma janela.Ficou para vir mais tarde.Augusto. eu acabo de obter desta respeitável senhora a honra de te julgar digno de pretenderes a mão de sua linda neta. salta apressado..Então teremos um excelente dia. Carolina. A Sra. E D.. a balada foi nessa estrofe interrompida e D.O dia está sereno.. Ao servir-se o almoço. Carolina.Eu o espero. D.

Para que. Sr.. senhora? . pois.Pois creio que ninguém melhor que tu o poderá saber.Mas eu nunca fui casado. . sem levantar a cabeça. .A senhora o ouviu há pouco. .. . eu só venho ouvir a minha sentença. portanto.A senhora? . o senhor só será esposo dessa menina...Não...Minha avó.. Desejas que eu responda em teu nome?. . .. veja como verificou-se o prognóstico que fiz do seu futuro! Não se lembra que aqui mesmo lhe disse “que não longe estava o dia em que o Sr. retomado o antigo verniz do prazer e malícia.. murmurou o estudante!. eu emendarei a mão agora.. ..Pois bem. e só casará com sua desposada antiga.Eu rogo que daqui a meia hora se vá receber a minha resposta na gruta do jardim. pede-me para sua esposa?.Ela deve ser uma bonita moça!. D. . teria razão de queixar-se contra mim. e já por tal podia gracejar com os noivos.Eu creio que ainda se não passou meia hora. contudo.. iremos. não quer refletir também no jardim? O estudante não esperou segundo conselho e para logo dirigiu-se à gruta..Acaso veio perguntar-me alguma coisa?.. ... e. agora já é impossível! . pois.Eu.Oh!. pedindo..Juro-lhe que há de sê-lo. se eu roubasse um coração que lhe pertence.E quem me poderá obrigar? . . . Augusto. murmurasse apenas: . ... disse: .Jamais! .Quererás consultar a fonte? Pois bem.. .. . eu não sei. . disse a Augusto: . Carolina estava sentada no banco de relva. animou o amor que pela senhora sinto?. D.. .Então.. havia de esquecer sua mulher”? . e erguendo a cabeça. apesar de ser travessa. O senhor há de cumprir a palavra que deu há sete anos! Augusto recuou dois passos. Nem palavra..O senhor é um moço honrado. e. Foi preciso que se repetisse pela terceira vez a pergunta. não sou má.. continuou a cruel Moreninha.Ah! podia eu esperar tanto tempo?. tu que dizes?.E quem tem culpa de tudo. mandando.. minha senhora. até por direito de antiguidade.O Sr. portanto. para que a menina. sem poder ocultar a comoção e o pejo que lhe produziu o objeto de que se tratava. não pôde vencer-se. . Carolina saiu com ar meio acanhado e meio maligno. cumprirá a palavra que deu..Muito a tempo ainda me lança em rosto a parte que tenho na sua infidelidade. A bela Moreninha pensou um momento. e seu rosto. Vendo entrar o moço disse: . Ana. tinha. 97 para sua esposa... como quem estava certa do resultado da meia hora de reflexão.E a honra. Passados alguns instantes a Sra.. sorriu-se como se sorria dantes.Oh! isso é uma recomendação contra a sua constância!. ora eu. D.

.. . um louco!. deixe a senhora brincar nos seus lábios o sorriso com que costuma encantar para matar. . só para ter a glória de perguntar-lhe uma vez.. Trabalhei.. .Acabe! . Por que deu o senhor o breve à menina?.. .Foi um juramento de criança.Penso que devo fugir para sempre desta ilha fatal. lá no futuro vós o sentireis”? Não tem o senhor esperança de ver realizar-se essa bela profecia? não se lembra de ouvi-la? Pois ela soou bem docemente no meu coração quando às escondidas. . a escutei repetida nesta gruta por seus lábios. fiz talvez mais do que devia..Já a senhora em outra ocasião me disse isso mesmo. Oh! já não haverá futuro para mim! Adeus senhora!... e desejei vingar a injúria feita ao meu sexo... se já o vejo faltar à fé a uma outra?. e eu devo lembrar-lhe o dever que com a paixão esquece. .... se tendes bastante força para ser constante e amar para sempre aquele belo anjo.. como agora o faço: “Então... . antes que eu visse o lindo anjo desta ilha? . Talvez encontre aquela a quem jurou amor eterno. trocou com ela aí mesmo prendas de amor.. confesso que trabalhei por prendê-lo. Senhor! senhor! o que foi que prometeu há sete anos passados?. que faria?....Embora..Quando o velho moribundo.. D.E agora pensa no que quer fazer? .... e sofro mil torturas..Junto ao leito de um moribundo jurou que havia de amá-la para sempre.. que o presente me enlouquece e me mata.Se eu encontrasse!. . Escute: na idade de treze anos o senhor amou uma linda e travessa menina. 98 .Então?. Ah! senhor! nunca lhe seja perjuro. penso que a lembrança do meu passado faz a minha desgraça. vá. somente para isso. cuja cor exprime a candura da alma daquela menina.Para satisfazer as minhas vaidades de moça. . . .. deixar aquela cidade detestável.. Penso. . Carolina deixou cair uma lágrima e falou ainda. parte?. que contava apenas sete... .Ah! senhora!. onde não posso ser outra vez feliz!. senhor.Porque eu era um louco.Então eu não pensava no que fazia. .. deve partir..” . e quando a menina lhe apresentar a que recebeu e lhe pedir a que lhe ofereceu e o senhor aceitou?.Sim. mas já com voz fraca e trêmula: . Eu o ouvi gabar-se de que nenhuma mulher seria capaz de conservá-lo em amoroso enleio por mais de três dias. enquanto eu padeço. dando-lhe o breve de cor branca disse: tomai este breve. ..E para sempre. senhor. quem venceu: o homem ou a mulher?... uma criança? . abandonar esta terra de minha pátria. que o futuro.. foi um juramento. para que ela o guarde com desvelo. .E nem ao menos se lembra de que o velho disse com voz inspirada: “Deus paga sempre a esmola que se dá ao pobre!. .Porém já passou o tempo do galanteio.Penso que sou um desgraçado.Foi a beleza. posso eu acreditar nos seus protestos de ternura e constância. ele contém o vosso camafeu.Oh! mas por que Deus não me prendeu a essa menina nos laços indissolúveis. dai-lho.E como.Então.. penso que é uma barbaridade inqualificável que.

Só falta a derradeira capa do breve. Mas. tire a relíquia e à mercê dela encontre sua antiga amada. que se dizia milagrosa. em sinal de reconhecimento também este velho me fez um presente: deu-me uma relíquia milagrosa que. senhor. .. de acordo com o pai do noivo. que começou a descosê-lo precipitadamente. entusiasmado e como delirante. de dar o que se deseja. se perdoar.Isto tudo me parece um sonho. .” E o infeliz amante arrancou debaixo da camisa um breve... com efeito. continuou Augusto: “recebei este breve que já não devo conservar. porém. dê-me esse breve! A menina. elaborado por Filipe. Carolina. matei a fome de sua família e cobri a nudez de seus filhos. abraçar-me-ia com eles e lhe diria: “Perdoai-me. que convulsivamente apertou na mão. .. que também por sua parte chorava de prazer. tornou D. ainda não lhe pedi coisa alguma... respondeu a travessa Moreninha ingenuamente: nós éramos conhecidos antigos.. Carolina?. . Fabrício e Leopoldo veio dar ainda mais viveza ao prazer que reinava na gruta. escute. Obtenha o seu perdão e me terá por esposa.. por um momento suspendido. exclamando: .Que quer dizer isto. e. .. cai aos pés de D. onde poderei achar essa moça a quem não tornei a ver. Como o senhor e sua camarada.. que fizera a proposta. entregou o breve ao estudante. Carolina não podia ser um mistério para eles.. respondeu Augusto.Eu lhe diria. E tornou a deixar correr o pranto.” A cena se estava tornando patética. volte que eu serei sua.. .. eu lha cedo. senhora.. porque eu amo outra que não sois vós. o breve que contém a esmeralda!. Ana e o pai de Augusto entram nesse instante na gruta e encontram o feliz e fervoroso amante de joelhos e a dar mil beijos nos pés da linda menina.Atirar-me-ia a seus pés. que ainda no dia antecedente viera . bradava Augusto. eu cosi essa relíquia dentro de um breve. Carolina. eu já não posso ser vosso esposo! tomai a prenda que me deste.Achei minha mulher!. onde?. era sua última esperança. o meu camafeu!. repita-lhe o que acaba de dizer. A senhora D..O breve verde!... meu Deus. vá ter com sua desposada. asseverou-me ele. . Epílogo A chegada de Filipe. disse. encontrei minha mulher! . ele se abraçava com ela.. e Augusto... Aquela relíquia.Espere... exclamou D..Sim. Carolina. mas trago-a sempre comigo. dê-me.. e com o velho amigo. O projeto de casamento de Augusto e D.Que loucura é esta? perguntou a senhora D... tem o poder uma vez na vida de quem a possui.. Ana. ....Oh! pois bem. descosa-o.. que é mais bela e mais cruel do que vós!. . ei-la que cede e se descose. Houve um dia. eu corro.. tendo sido como foi.O meu camafeu!. em que eu também socorri um velho moribundo. semelhante ao náufrago que no derradeiro extremo se agarra à mais leve tábua... onde meu Deus?.Ah! minha boa avó!. perdoai- me. tome o breve..... 99 . ambos choravam e só passados alguns instantes a inexplicável Moreninha pôde falar e responder ao triste estudante. e se ela ceder. nem poderei conhecer?. salta uma pedra. quando a minha mãe era viva. esposa.

Minha boa avó. .Minha boa avó. apesar de me roubares minha irmã. respondeu o noivo.É verdade! um mês! exclamou Filipe. exclamou Filipe.Como?.Estamos no dia 20 de agosto: um mês! .. ele perdeu ganhando.. .. ..Então estás arrependido?. por certo. .Muito bem! muito bem! disse por fim Filipe. . isto quer dizer que Augusto deve-me um romance. Ana. meu maninho. .Como se intitula? .Um mês!. . .Mas. isto quer dizer que finalmente está presa a borboleta. 100 concluir os ajustes com a senhora D. e. acudiu a noiva.A Moreninha. quem pôs o fogo ao pé da pólvora fui eu. . .Não.. portanto. Finalmente para este tesouro sempre teria de haver um ladrão: ainda bem que foste tu que o ganhaste. que obriguei Augusto a vir passar o dia de Sant’Ana conosco.. .. Ana. o tempo que se gastaria em explicações passou-se em abraços. gritaram Fabrício e Leopoldo.Eu não entendo isto! disse a senhora D. .Já está pronto.. .