Manual do Coletivo Feminista Dandara

Faculdade de Direito da USP

Calouras e calouros, bem-vindos à faculdade! Esse é um manual para apresentar para vocês o Coletivo Feminista Dandara, um grupo da faculdade que busca debater e transformar as relações de gênero. Aqui vamos explicar a razão de existir desse grupo, além de nossas propostas e atividades. O que é o feminismo? O feminismo busca a igualdade de tratamento entre homens e mulheres. É muito perceptível que, em nossa cultura (como em muitas outras), diferentes papéis são dados para homens e mulheres na sociedade. O homem é sempre aquele pressionado, por exemplo, para pagar a conta quando sai com a namorada, para ficar com mais meninas na balada, para ser o provedor da casa. A mulher é aquela que tem que estar sempre bonita, que é julgada por suas experiências sexuais, que tem que cuidar dos filhos e da casa. O feminismo existe para transformar essas relações, pensando que podemos ser tratados como iguais em todas essas questões. Não se trata, portanto, de uma inversão na relação entre homens e mulheres. Não queremos que a mulher assuma os papéis atribuídos aos homens, e sim que os próprios papéis sejam repensados. Muitas pessoas pensam que não há motivo para feminismo nos dias de hoje, já que as mulheres tiveram conquistas importantes no século XX como o voto, o trabalho fora de casa ou mesmo o controle anticoncepcional. No entanto, só para darmos alguns exemplos, as mulheres ainda detêm só 1% de toda a riqueza mundial (Banco Mundial, 2009) e a maioria delas sofre algum tipo de violência sexual.      Mais de 70% das pessoas que vivem em situação de pobreza no mundo são mulheres. A cada 12 segundos uma mulher é violentada no Brasil. As mulheres ganharam um salário em média 27,3% menor que dos homens. Uma em cada cinco mulheres considera já ter sofrido algum tipo de violência de parte de algum homem. As mulheres dedicam 16 horas a mais que os homens em atividades domésticas.

Por fim, é importante esclarecer que o feminismo não pode ser confundido com o femismo. O femismo é uma “versão feminina do machismo”, por assim dizer: a ideia de que as mulheres seriam superiores. Esta é uma ideia tão reprovável como a do machismo, de que os homens seriam superiores. Por que precisamos do feminismo na nossa faculdade? A faculdade também é um lugar onde todas essas relações desiguais se manifestam. É só comparar a quantidade de professores com a de professoras, por exemplo, e outros casos também podem demonstrar isso. Em dezembro do ano passado, Viviane Wahbe, uma estudante de Direito da PUC, cometeu suicídio. Alguns dados do caso apontam que Viviane sofria assédio sexual de um dos sócios do escritório em que estagiava e que, na festa de fim de ano, foi estuprada. Ainda que o estupro não tenha sido comprovado, a história fez emergir um problema pouco debatido na Faculdade (e na sociedade em geral): o assédio sexual e moral cometido contra as mulheres. Algumas iniciativas já existem em relação a isso, como o grupo no Facebook “Cantada de rua – conte o seu caso”, que reúne relatos, na maioria de mulheres, sobre as cantadas de rua - atitudes tratadas como inocentes, mas que, tomadas como hábito, constituem uma violação à autonomia e integridade das mulheres. Em nosso meio é comum ouvirmos relatos de colegas de curso sobre a forma como as estagiárias são tratadas no ambiente do escritório. Existe toda uma fetichização da imagem da estagiária como uma mulher que trocaria ascensão profissional por favores sexuais. Isso ocorre, sobretudo, porque a capacidade intelectual das mulheres é sempre tida como uma

característica secundária à sua beleza. Assim, o assédio acaba sendo uma resposta a essa pressuposição de que a beleza seja o meio para conseguir algo, e não capacidade profissional. Em razão da posição instável no ambiente de trabalho, muitas estagiárias ficam inseguras em reagir quando sofrem assédio sexual, principalmente porque dependem desse trabalho e uma eventual denúncia poderia acarretar sua demissão. Outro acontecimento recente foi um caso de assédio sexual durante o Grito do Peru, que é uma festa que antecede a Peruada, organizada pelo Centro Acadêmico dentro do prédio da Faculdade. Nessa ocasião, um estudante deu um tapa na bunda de uma aluna, ao que ela reagiu. Após ele rir diante da reação da garota, ela deu um soco na cara dele. Momentos depois, ao encontrá-la novamente, o garoto desferiu dois socos em sua direção: um que atingiu seu ombro e outro que atingiu uma amiga dela. É importante notar que este caso só teve repercussão na faculdade porque ela denunciou e trouxe a público o ocorrido, ao contrário do que ocorre com diversas outras alunas assediadas em diversas festas. O que esses dois acontecimentos nos mostram é a importância do debate feminista na nossa faculdade. A união entre as mulheres na busca do enfretamento dessa violência é uma das bandeiras do feminismo. Quem foi Dandara? Dandara foi uma grande guerreira do Quilombo dos Palmares, companheira de Zumbi, e que lutou contra a escravidão no Brasil. A escolha desse nome se orientou pelo objetivo de relembrar as mulheres que participaram da nossa história e que pouco são mencionadas, sobretudo as mulheres negras.

Marcha das Vadias A Marcha das Vadias foi um movimento que começou em Toronto, Canadá, em 2011, quando um policial, ao dar uma palestra em uma Universidade onde ocorreram diversos casos de abuso sexual contra mulheres, disse que se elas não se vestissem como vadias, não seriam vítimas de estupro. Essa fala do policial desencadeou as manifestações das canadenses por meio da Marcha das Vadias (“Slutwalk”), que também ganhou o mundo, inclusive o Brasil. O que as manifestantes da marcha propõem é que as mulheres não sofram classificações preconceituosas em razão da roupa que vestem e nem

que, a partir disso, sejam responsabilizadas pelo estupro que sofreram. A consequência da ideia manifestada pelo policial (e que, de certa forma, está presente na sociedade em geral) é o cerceamento da liberdade das mulheres em se autodeterminar de acordo com a sua vontade individual. Seguindo um dos lemas da marcha, vamos ensinar os homens a não estuprar, e não as mulheres a ter medo. O Femen não representa o movimento feminista Recentemente, o grupo Femen ganhou atenção da mídia brasileira em razão da forma como as integrantes protestam, com os seios descobertos. Embora a nudez feminina como forma de protesto possa ser coerente com a teoria feminista (pois não existe razão para que as mulheres, diferentemente dos homens, precisem cobrir os próprios seios), o Femen tem um método que afasta as pessoas da pauta feminista mais do que aproxima. Infelizmente, suas ações não trazem discussões construtivas nem avanços significativos na conscientização das pessoas, o que entra em conflito com a proposta do Coletivo Dandara. O @ e o x. Às vezes as feministas usam o “@” ou x em substituição às letras que determinam se uma palavra é feminina ou masculina. Na língua portuguesa, o masculino é o critério para as palavras generalizantes ou no plural, representando, assim, o feminino, mas sem manifestar essa presença. Esse é um traço linguístico que mostra que o gênero feminino é visto como uma mera variação do sexo masculino. É como se, ao invés de a humanidade ser uma soma de indivíduos do sexo masculino e feminino, fosse composta de homens e o gênero feminino fosse meramente acessório.

Quais as propostas e as atividades do Dandara? O Dandara é um grupo que, buscando abordar as questões atuais do feminismo, atua por meio de várias frentes na faculdade, e também fora dela.  Projeto de extensão “Promotoras Legais Populares: concretizando direitos humanos das mulheres”.

É um projeto coordenado pela União de Mulheres de São Paulo com a colaboração do Dandara, que consiste em um curso participativo com encontros semanais em que são discutidos temas relativos aos direitos das mulheres e aberto a qualquer mulher que queira participar. A extensão é um dos pilares da Universidade, ao lado do Ensino e da Pesquisa. A participação no projeto nos possibilita o contato com mulheres de diferentes lugares, idades, áreas do conhecimento e classes sociais, e suas diferentes vivências, entre elas as violências sofridas e as violações de direitos. Esse contato permite uma compreensão mais profunda acerca do direito e amplia nossa visão de mundo. Ao possibilitar acesso a instrumentos reivindicatórios de direitos, o projeto contribui para a emancipação das mulheres e a organização de um movimento em torno de mais conquistas, aliando a perspectiva de uma educação libertadora à construção coletiva da igualdade entre mulheres e homens.  Formações abertas

São espaços abertos a tod@s em que discutimos temas em destaque (como prostituição, violência doméstica, etc.) ou textos de autoras feministas. Disponibilizamos material de apoio, seja em nossa pasta no xérox, seja por informe eletrônico. Para saber onde e quando ocorrem, fique atent@ aos cartazes fixados nas paredes da faculdade e aos informes eletrônicos!  Reuniões ordinárias

As nossas reuniões acontecem semanalmente e são espaços onde definimos diretrizes do grupo, organizamos ações e realizamos estudo de textos e debates teóricos. Além disso, esse também é um momento em que conversamos sobre acontecimentos recentes da faculdade. Nesse semestre, as reuniões ocorrerão às terças-feiras, a partir das 18h30, na sala do SAJU e sempre estarão abertas a novas participantes! O coletivo Dandara é auto-organizado, ou seja, composto apenas por mulheres. Essa escolha se dá porque a superação da opressão machista deve acontecer pela emancipação das próprias mulheres. Em espaços autoorganizados, nós podemos nos colocar com maior liberdade, criando uma identificação política coletiva e unificação para a luta. Porém, entendemos que o machismo também oprime os homens e diz respeito a eles, de forma que são sempre bem-vindos nas formações abertas e nos eventos!

Próximas atividades do Coletivo Dandara    Evento sobre assédio sexual e estupro na SEREC, na sexta-feira à tarde; Oficina de apresentação do Dandara na Calourada; 8 de março - Dia Internacional de Luta das Mulheres: uma manifestação que ocorre todos os anos na praça da Sé, para qual o Dandara sempre busca mobilizar os estudantes da Faculdade; Primeira formação aberta sobre o conceito de gênero (data a definir).

Contatos Facebook: Coletivo Feminista Dandara (perfil e grupo) E-mail: coletivodandara@yahoogroups.com.br

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