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Revista Pergunte e Responderemos - ANO III - No. 032 - AGOSTO DE 1960

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10/28/2012

Projeto

PERGUNTE
E

RESPONDEREMOS
ON-LINE
Apostolado Veritatis Spiendor

Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoríam)

com autorizagáo de

APRESENTAQÁO DAEDigÁOON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos estar preparados para dar a razáo da nossa esperanga a todo aquele que no-la pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora, visto que somos bombardeados por numerosas correntes filosóficas e religiosas contrarias á fé católica. Somos assim incitados a procurar consolidar nossa crenca católica mediante um aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade

controvertidas, elucidando-as do ponto de vista cristáo a fim de que as dúvidas se dissipem e a vivencia católica se fortaleca no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabalho assim como a

equipe de Veritatis Splendor encarrega do respectivo site.

que

se

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003. Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual

Celebramos

convenio

com d.

Esteváo

Bettencourt

e

conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e zelo pastoral assim demonstrados.

AMO

III

Índice
Pág.

I. 1)

CIENCIA

E

RELIGIAO

"Pódese admitir que as docncas do corpo estejam rela

cionadas com a consciéncia moral c com as atitudes religiosas do
pudente ?

Se de fato existe ésse nexo, como deve ser entendido ?"
2) "Os curandeiros c os que exercem a medicina em nome de ciencias ocultas ou do S. Evangelho, serño realmente condenareis, como se diz ?

311

Realizam militas curan mararilhosas. Niio será isto o sinal de
que Deus está com cica ?" II.
3)

317 DOGMÁTICA

"As fallías da nnturesa (a doenca, os seres defeitnosos e

monstruosos, a própria viorte) nao depóem contra a existencia

de Deus ou ao menos contra a sabedoria e a bondade do Criador ?" 4) "A historia do pecado de Adáo e Eva parece inventada
(a doenca, a jome, a para explicar a morte e seas precursores

320

dor...) no mundo. Dir-ne-ia, porém, que i fábula vá, pois a morte e as miserias nao precixam de explicacáo especial.
Ou será que se encontra fora do Cristianismo algo de seme-

Ihante a historia de Adáo e Eva, corroborando a nogáo de urna culpa original ?"
5) "Poderei estar certa dn minlia, salvando eterna i

320 33.1

Terei a graca de urna boa morte e da perseveranca final?" III. SAGRADA ESCRITURA

G)

"Sao Paulo, aos Efésios 2,8s, escreve: 'Pela graga é que

sois salvos, mediante a fe, e isto nao vem de vos, porque- é dom-

de Deus; nao vem das obras, para que ninguem se glorie'.

Nao quer este texto dizer que gómente a fe salva, de moiln
a nao se poder atribuir ulgum mérito as boas obras ?" ;>41

TV.
7)

HISTORIA

DO

CRISTIANISMO
(f 1600)

"Que dizer da condenacüo de Giordano Bruno

pela Inquisicáo ?

Nao será éste caso ton exemplo fricante de que a Igreja entravotc o progresso das ciencias até época recente?" 31,7

CORRESPONDENCIA MIÚDA COM APROVACAO ECLESIÁSTICA

351

«PERGUNTE

E

RESPONDEREMOS»
Ano III — N? 32 — Agosto de 1960

I.

CIENCIA E RELIGIÁO

ARIEL (Rio de Janeiro):

1) «Pode-se admitir que as doencas do corpo estejam relacionadas com a consciéncia moral e com as atitudes reli giosas do paciente?

Se de fato existe ésse nexo, como deve ser entendido?»
A questáo aborda um assunto muito complexo. Se nao é possível dizer sempre a última palavra no tocante as origens das doengas, é-nos facultado ao menos discernir alguns prin cipios importantes em tal setor. Consideraremos, pois, certos fatos muito significativos referentes ao surto de molestias humanas; ésses fatos nos habilitaráo a deduzir conclusóes valiosas tanto para o paciente como para o médico.
A elaboracáo desta resposta seguirá de perto os dados fornecidos pelo Prof. Dr. Arthur Jores, Diretor da II. Med. Univ.-Klinik, de Hamburgo, Eppendorí, em urna aula inaugural, cujo texto foi publi cado na revista «Die Medizinische Welt» de 6 de Janeiro de 1951.

1.

Os dados da Medicina e da Psicología Experimental

1. Há cérea de cinqüenta anos atrás, as doengas eram preponderantemente consideradas como fenómeno de bioquí mica e de física estritamente ditas. O fator psíquico ou a presenca de urna alma espiritual no paciente nao entrava na consideragáo dos homens de ciencia; tal fator pertenceria ao dominio da filosofia ou das especulagóes mais ou menos subje tivas dos «metafísicos».

nao basta, porém, para explicar devidamente os estados patoló gicos que acometem o ser humano.

2. Hoje em dia, diversa tornou-se a atitude médica: reconhece que a doenga é algo que afeta todo ou a personalidade como tal. Nao há dúvida, bioquímico da molestia deverá ser sempre levado

da ciencia o homem o aspecto em conta;

costuma «viver (isto é, carregar com toda a sua personalidada) a sua doenga» como se fosse parte integrante do seu ser, principalmente se ele sofre de molestia crónica. O paciente fala da «sua» doenca,

É o que se depreende, por exemplo, do fato de que o homem

— 311 —

expressáo esta cuja legitimidade os médicos nao lhe contestam: a individualidade do doente impregna a sua própria molestia; mesmo quando os exames de anatomía e as análises de laboratorio pouca diferenca acusam entre a tuberculoso do cidadáo A, a do cidadáo B

tém características marcantes que nao correspondem ás pequeñas diferencas verificadas pelos exames clinicos. Daí dizer-se que o psiquismo do homem, ou seja, sua vida espiritual influí na coníiguragao dos seus estados patológicos ou melhor, faz parte essencial da estrutura désses estados docntios.

e a do cidadáo C, verifica-se que as proporcóes assumidas pela molestia, a sua evolucáo e as repercussóes da mesma na vida de cada paciente

A distingáo entre materia e espirito, assim como a existencia de urna alma espiritual no homem, aqui pressupostas já foram expla
nadas em «P. R.» 5/195S, qu. 1.

O fato de que o homem todo vive a sua doenga, é comprovado pelo papel de grande vulto que a molestia desempenha na historia dos individuos e das sociedades: muitos e muitos mudam seu teor de vida para melhor ou para pior por causa da doenga, enquanto outros realizam faganhas de bravura ou notáveis descobertas de ciencia por causa de calamidades mór bidas (haja vista ainda recentemente a producáo da penicilina e de tantos antibióticos por ocasiáo da última guerra mundial).
As estatislicas nesse setor se tornaram particularmente signifi cativas: mostram, por exemplo, que as doencas sao fator económico de grande peso, pois alta porecntagem de pessoas vive á custa das
molestias de outrem, o nao poucas classcs de profissionais se consagram totalmente ao cuidado dos doentes: assim na cidade de Hamburgo o recenseamento de 1946 evidenciou que cérea de 90 profissóes e 30 setores da economía estavam a servico dos doentes e da saúde.

A afirmagáo de que a doenga no homem nao constituí mero disturbio somático, é outrossim corroborada por um confronto com os animáis irracionais: estes podem sofrer dos mesmos estados mórbidos que os homens; néles, porém, a doenga está longe de ter as mesmas consecuencias que entre os seres humanos. Isto significa que na criatura racional nao sómente a animalidade (parte material), mas também as faculdades própriamente humanas (isto é, a parte espiritual do individuo) sao envolvidas pela doenca: a consciéncia de u'a missáo a desempenhar na térra, o conhecimento do bem e do mal, a liberdade de arbitrio e outros fatóres típicamente huma nos concorrem para exacerbar no ser intelectivo as molestias
que afetam também os irracionais.

3. A verificacáo déstes fatos tem levado médicos moder nos a falar do sentido ou da finalidade da doenga, querendo éles com isto frisar que mesmo as molestias acometem o homem
em vista de um objetivo transcendente; sob o goyérno da Pro— 312 —

videncia Divina, elas devem do seu modo concorrer para que o paciente atinja a vida eterna.
4. O que acaba de ser dito, deverá agora ser aprofundado

por breve análise dos principáis estados patológicos que possam
afetar o homem. a) As neurosos sao, como o nome diz, disturbios nervosos ora mais, ora menos graves. A psicología das profundidades tem revelado que tais desordens sao, muitas vézes, oriundas de um confuto de consciénc'a (problema t:pico do esp'rito). Pode acontecer, sim, que alguém, colocado diante da necsssidade de optar entre a virtude e o vicio, nao se ouse definir; a luta que assim se desencadeia no seu íntimo, chega nao raro

paciente ou alguma pessoa de sua cercanía a saiba explicar. A solucáo para o caso nao será exclusivamente do dominio da medicina: esta se poderá esgotar, sem grande resultado, ñas tentativas de trata mentó; a cura pertencerá, principal mente, ao setor da moralidade ou da consciéncia, pois consis tirá, antes do mais, em fazer o paciente tomar ánimo e optar decididamente em favor do bem, repudiando o mal.
Eis um exemplo típico de tal neurose:
Durante a guerra passada. a Senhora N. foi infiel a seu marido convocado para o exército; terminada a tormenta, soube aue ele estava para regrcssar ao lar. Conseqücntemente, um problema de consciéncia se lhe apresentou. cuja soluqáo em qualquer hipótese seria muito ardua: ou rompería com o amante para reconstituir a vida com o marido, ou abandonaría definitivamente a éste após lhe haver declarado o que se dera. Pós-sc a refletir, sem. porém, conseguir decidir-se. Comecou entáo a experimentar, principalmente á noite. misteriosas

a provocar a neurose; esta se manifesta entáo señi que o próprio

susneitar de urna doenca cardíaca, motivando urna consulta ao médico... Éste caso evidencia como alguém pode cair doente por estar vivendo contra a consciéncia ou por estar envolvido num confuto de

paípitacóes do coraeáo e sentimentos de angustia, que a fizeram

pneadn o v'rtude. Muitas vñzes a doenca é a «solucáo* para urna situado desreproda da qual a pes?oa nao ousa sair ñor vía normal;

a doenca dispensa de tomar decisao enérgica; é fuga, mas fuga aparentemente justificada e honesta; excita a compaixáo do próximo e parece desculpar o individuo perante ele mesmo e perante a sociedade (há quem fale das «vantagens» de ser doente; um atestado médico muitas vézes «soluciona» caso embaracoso!!.

b) As doencas orgánicas. Na opiniáo de bons médicos, hoje em dia nao se observa táo rígidamente a clássica distingáo

entre doen"a dos ñervos e molestia orgánica: a neurose pode
transtornar o metabolismo do paciente de modo a néle provocar urna doenca orgánica; há mesmo urna serie de molestias orgá nicas que na realidade sao muitas vézes tidas como resultado

— 313 —

de perturbagóes nervosas: asma, úlceras, tensáo cardíaca, e

outras que acometem freqüentemente o homem contemporáneo.

consciéncia.

É o que permite estender, até certo grau, as doengas orgánicas o que atrás dizíamcs a respeito das neuroses e dos conflitos de
Em particular, recentes estudos de asma tém corroborado éste

novo modo de considerar a doenca orgánica. Conscientes de que a

sensivel, os médicos procuravam outrora por meios físicos e químicos neutralizar os espasmos para debelar as crises de asma; tal tratamento podía acalmar um achaque asmático, mas nao impedia o surto de ulteriores crises. Outro processo terapéutico, já mais radical, visava eliminar as causas de irritacáo ou os estimulantes nefastos para o paciente; mas também éste método se comprovava pouco proficuo, pois a maioria dos asmáticos é «polivalente», isto é, sensivel a grande número de influencias. Assim as tentativas de curar a asma por processos físico-químicos se mostravam mais ou menos vas (Marcel Proust era acometido de violentas crises de asma, quando via rosas!). Quando, porém, os médicos se puseram a considerar a índole «funcional» ou o sentido que a asma possa ter numa personalidade humana, averiguaram o seguinte: o asmático é alguém que sofre da angustia mais penosa possivel, pois julga achar-se na situacáo de quem está para se afogar; ora, submetendo-se ésse paciente a testes e análises psicológicos, verifica-se que na raiz de urna doenca asmática está geralmente urna angustia «existencial», ou seja, urna
angustiada; em conseqüéncia. os clínicos passaram a recorrer a tera péutica psicológica em casos de asma, terapéutica que multas vézes deu resultados ineompar&velmente superiores aos dos métodos ante riores. O asmático, por conseguinte, é freqüentemente alguém cuja situacáo de vida angustiada ou cuja opressao psíquica se exprime numa opressáo ou numa angustia física.

asma consiste em espasmos musculares provocados pela aeáo dos mais diversos fatóres sobre urna constituigño íisica excessivamente

situacao de vida cm que a personal idade inteira é profundamente

Também sobre as úlceras do estómago a medicina moderna pode dizer algo de muilo valioso. Sabe-sc que, de modo geral, as perturbacóes digestivas sao particularmente freqüentes em pessoas que se

queixam de nao ser felizes ñas suas tentativas de amar. Já aconteceu
a saúde.

recuperou

que um vario, mal sucedido em sua vida conjugal, tenha comecado a sofrer de úlcera gástrica; logo, porém, que se separou da esposa,

Experiencia muito significativa a éste propósito é a que se realizou em 1950 numa clínica sueca. Foram entao submetidas a exame psico lógico 108 pessoas atetadas de úlcera, apurando-se os seguintes resultados:
54 29 22 3 dos pacientes sofriam de conflitos psíquicos agudos; padeciam conflitos psíquicas crónicos; apresentavam síntomas de desequilibrio psicológico; apenas pareciam nSo depender de fatóres psicológicos.

c) As doencas infecciosas. Neste tipo de molestias, parece mais difícil supor a intervengo de fatóres de ordem psíquica. No entanto, observa-se que as epidemias infecciosas nao atingem igualmente todos os homens da mesma regiáo (alguns nao sao
— 314 —

mesmo atingidos) nem se alastram igualmente por toda a parte. Essa desigualdade pode muito bem ser atribuida a diversa

pessoas premunidas... Tal explicagáo é, sem dúvida, válida, mas parece exigir um complemento. Estudos recentes feitos

resistencia que os organismos opóem á contaminagáo infecciosa; há pessoas predispostas a tal e tal doenga, como há também sobre a tuberculose deram a ver o seguinte: o bacilo desta molestia contamina, inegávelmente, com mais freqüéncia as
porém, o estado psíquico dos pacientes, verificou-se que a tuber culose contagia e se desenvolve principalmente ñas fases de crise de consciéncia por que pode passar urna pessoa.
Eis um caso muito significativo.

pessoas que entram em contato com tuberculosos; analisando-se,

Durante muitos anos a enfermeira N. dedicou-se zelosamente a urna clínica de tuberculosos, sem ser contagiada. Casou-se e deixou o servico, passando a viver feliz com seu marido; o tempo de coabitacao, porém, foi breve, pois logo o esposo teve que partir para a

lhar na mesma clínica sem, o principio, sofrer contaminacáo alguma. Veio, porém, a apaixonar-se por um homem com o qual estava prestes a contrair uniáo ilícita, quando repentinamente foi vítima de violenta hemoptise... Ora a análise psicológica dessa paciente averigüou que ela se sentía ainda profundamente ligada ao seu legitimo marido e quo a voz da consciéncia Ihe censurava claramente a infitlelidade que ola estava para cometer. O caso é significativo, porque durante anos
a mesma pessoa sujeita ao perlgo de contaminacao só velo a contrair a molestia no momento em que seu estado de consciéncia se abalpu.

guerra. A enfermeira, entáo, obrigada a ganhar o pao, voltou a traba-,

Dir-se-á. porém: «A coincidencia do contagio com o desajuste de consciéncia foi meramente casual!» Esta tentativa de explicacao — que nada explica — nao é aceita pelos estudiosos, vista a freqüéncia' de casos análogos que se tém registrado. Os bons cientistas, levando'
em conta ésses fntos, eoncluom que a predisposicño para a tuberculose

e, de corto modo, para as doencas infecciosas em geral estáí em parte; • baseada na situacáo psíquica de cada individuo; o risco de contrair, urna infeccáo nao depende apenas do perigo de contagio a que cada um se expóe, nem apenas da resistencia física de cada organismo,'
mas também do estado de alma de cada pessoa.

d) As domáis doencas a, em particular, as molestias moríais. A todo homem incumbe nesta vida a tarefa de desen volver as virtualidades de sua personalidade. Ora ninguém negará o papel importante que a doenca desempenha no exercício dessa tarefa. O homem receptivo, o homem que se deixa educar pela tribulagáo, aprendendo a se desapegar dos valores transitorios da materia, para mais aderir aos do espirito, muito ganha em generosidade e heroísmo ao padecer a molestia; esta é, para nao poucos, a genuína escola de maturidade, escola sem a qual nunca sairiam da mediocridade; nota-se que varios

dos grandes vultos da humanidade foram durante toda a sua
— 315 —

vida acompanhados por achaques fisicos. — É o que nos leva significado providencial, do qual o paciente deve procurar tirar
partido.
Em particular, a molestia que o médico diagnostique como mortal, vem a ser a exortacáo do Pal Celeste para que o homem melhor se disponha a comparecer diante de Deus. Donde se vé que, lora casos excepdonais, os amigos do paciente podem a éste prestar grande beneficio revelando-lhe seu auténtico estado de saúde; evite-se que a marte sobrevenha sem que o doente tenha previamente tomado consciéncia déla.

a dizer que, em última análise, toda e qualquer doenga tem

O que acabamos de dizer, tem suas aplicacóes de grande valor na vida cotidiana, como se verá no parágrafo abaixo.

2.

As consecuencias práticas

a) Para o paciente, a doenga será sempre ocasiáo de um exame de consciéncia (o cristáo, em particular, sabe que a doenga entrou no mundo em conseqüéncia do primeiro pecado; cf. «P. R.» 2/1957, qu. 7); a natureza humana, mesmo nos santos da vida presente, será sempre suscetível de correcto e melhora.
A medicina moderna dispóe de urna serie de recursos que costumam produzir com certa presteza a cura do doente. O emprégo de tais remedios é muito desejável, pois todo individuo, ñas circunstancias normáis, tem a obrigagáo de defender a sua saúde. Acontece, porém, que, atravessando mais rápidamente a molestia, o homem contemporáneo menos ensejo tem de «cair em si» e tomar consciéncia do seu estado geral de corpo e alma; a doenga assim se torna menos significativa no curso

curado, continua a carregar consigo os problemas de ordem espiritual que talvez estivessem na raíz da doenga debelada; nao será para recear entáo que, apenas parcialmente curado, torne a cair enfermo?
«Por isto nos, médicos, conhecemos doentes que urna interminável historia patológica traz continuamente á nossa presenca. De seis em seis meses, ou ainda mais a miüde, novo achaque se verifica: um resfriado sucede a urna gripe; a seguir, vém urna furunculose e urna pneumonía com inflamacáo das cavernas laterals, ou ainda um desas tre ou urna fratura, que requerem intervencao cirúrgica, e assim por diante. Nunca em algum désses casos o doente toma consciéncia
do sentido da molestia. Será preciso, porém, dizer que um enfermo a vacilar constantemente entre a saúde e a doenga so se restabelecerá

de vida do individuo. Em conseqüéncia, o paciente, rápidamente

por completo restaurando em si a ordem interior que deve reinar entre a alma e o carpo» (Dr. Arthur Jores, artigo citado).
sincero.

Tais observag5es merecem, sem dúvida, toda a atencáo do leitor

— 316 —

Além disto, nota o Dr. Jores que a medicina moderna, pelos novos recursos que emprega, conseguiu, sem dúvida, prolongar a duracáo media da vida humana, debelando males que outrora seriam fatáis; nao conseguiu, porém, diminuir o número de pessoas doentes; antes, éste parece aumentar. «Em abono do que afirmo, refiro-me apenas a neurose... que tende a tornar-se a molestia da nossa época...

Poder-se-á debelar a pneumonía, por exemplo, á custa de injecSes
de penicilina; com isto, porém, ninguém impedirá o paciente de cair em perturbacíio neurótica por nao ter realizado o sentido da sua doenca» (Jores, art. cit.). Jores frisa bem que nao quer em absoluto depreciar a ciencia e a técnica modernas, mas visa únicamente chamar a atengáo para um problema de outra Índole, pelo qual o enfermo e o médico contem poráneos nao podem deixar de se interessar.
íatos referidos.

Torna-se assim lógico consideráronos agora as conseqüéncias dos

b) Para o médico: éste, principalmente quando católico, nao poderá limitar sua tarefa ao setor somático e bioquímico; verá, antes, no paciente urna personalidade em que o físico e o psíquico sao simultáneamente afetados; e procurará, na medida do possivel, ajudar o doente a remediar nao sómente
ao corpo, mas também á alma ou á consciéncia. Incumbe

destarte ao médico u'a missáo que toca as raias do sacerdocio e que de certo modo prepara a fungáo do ministro oficial de Deus junto ao doente; o clínico nao poderá dar por consu
mada a sua tarefa enquanto o doente tomar consciéncia do buindo á maturidade da sua porém, que, para exercer tal

portador de apurado senso religioso e de esclarecida consciéncia crista; sem isto, em váo se esforgaria por solucionar crises de almas; arriscar-se-ia mesmo a causar mais daño do que beneficio ao paciente!

ele nao tiver procurado fazer sentido de sua doenga, contripersonalidade. — Está claro, encargo, o médico há de ser

SEQUIOSO (Sao Paulo):
2) «Os curandeiros e os que exercem a medicina em

nome de ciencias ocultas ou do S. Evangelho, será» realmente condenáveis, como se diz?

sinal de que Deus está com éles?»
comum em nossos sociedade. dias, até mesmo

Rcalizam

muitas

curas

maravilhosas.

Nao

será isto

o

O exercicio da medicina em nome da Religiáo é algo de assaz
ñas classes mais elevadas da

Para proceder com seguranga no estudo de táo estranho fenómeno, procuraremos abaixo analisar o comportamiento do terapeuta ocul tista e o do seu paciente — o que nos possibilitará chegar a algumas conclusoes significativas.

— 317 —

pág. 8).

Na elaboracáo da presente resposta, muito nos valemos do estudo de Maurice Colinon: «Les Guérisseurs». Paris 1957, na colecao «Le Bilan do Mystére» n' 1. Grasset, éditeur. — Antes de escrever tal obra, o autor realizou demoradas pesquisas no mundo dos curandeiros, dedicando-se, a seguir, á prática do magnetismo durante alguns meses. Guiado por tal experiencia, Colinon resolveu escrever, proíessando «nao obedecer a preconceito ou paixáo de especie alguma» (ob. cit.

1.

A psicología do curandeiro

Observa-se que há curandeiros e terapeutas ocultistas dos mais variados tipos: alguns fazem sobre o paciente uma prece acompanhada de «bénciío»; outros dáo-lhe um cha específico; outros, agua «milagrosa», que o enfermo deve beber ou aplicar á parte doente do seu corpo; ainda outros entregam um «bentinho» ou um talismá... Em geral, cada curandeiro especializa-se no recurso a um désses meios, que ele costuma aplicar independentemente da índole da doenca que lhes seja apresentada pelo cliente. Contudo, por muito pobres e monótonos que sejam os procedimentos dos curandeiros, o resultado que estes anunciam e que os pacientes dizem obter, é sempre o mesmo: recuperagáo da saúde. Déste fato já se deduz uma conclusáo importante: na chamada «medicina livre» nao é própriamente o remedio que importa e que cura, mas, sim, o homem ou a pessoa do curan
deiro.
Alias, isso é bem compreensívcl. O curandeiro. nao tendo estudado a medicina científica, nao se pode interessar muito pelo diagnóstico científico das molestias; ele tcm que visar muito mais o enfermo do que a enfermidade como tal; a essénda da sua arte consiste em cstabclecer um contato de pessoa a pessoa com o seu consulente, aue o vai procurar freqüentemente mim estado de ansiosa expectativa. Nao estando ligado as normas da medicina científica, o curandeiro pode
«simpatizar» com ele («simpatía» no sentido etimológico de «padecer com..., identiíiear-s<? eom quem soíre»), ... procurando outrossim corresponder ao temperamento e aos anelos que o enfermo Ihe apresenta; em uma palavra, ele se torna para todos «o homem do momento».
Transcrevemos aqui dois testemunhos que bem ilustram quanto acaba de .ser dito. O primeiro provém de um curandeiro italiano, o Dr. Racanelli, que, para se «informar á lei civil, fez seus estudos de medicina: «O segrédo do curandeiro reside precisamente nessa comunháo, consciente ou inconsciente, com o enfermo que néle tem fé. O curan deiro nao cura a doenca. mas o doente» (F. Racanelli, Le don de Guérison. Delachaux et Niestlé 1951. 33). Confronte-se tal depoimento com o seguinte testemunho, emanado de um médico norte-americano, o Dr. Arnold Hutschnecker, o qual procede estritamente segundo os métodos científicos:
com destreza amoldar-se á personalidade do seu paciente, procurando

— 318 —

«O novo homem de ciencia, o especialista, aproxima-se do doente, munido de aparelhagem completa e variegada. Ele vé diante de si nao própriamente um enfermo, mas urna enfermidade» (Arnold Hutschnecker, La volonté de vivre. Robert Laffont 1954, 10).

Justamente por nao possuir formagáo de medicina cientí fica, o curandeiro fácilmente eré possuir um dom extraordinario — o dom das curas — assim como a missáo divina de utilizar

essa graca em favor do próximo. É o que explica certos títulos

atribuidos a famosos terapeutas de Franga: «Radar do diagnós tico, Mulher-rádio». 2. A psicología do cliente do curandeiro

Maurice Colinon, durante seus dez anos de estudos do assunto, realizou um inquérito junto a doentes que iam procurar os curandeiros, indagando quais os motivos por que assim procediam. As respostas mais freqüentemente obtidas eram
do teor seguinte:
«... porque sabem coisas que todos nos ignoramos».

«... porque cíes nos compreendem e nos os compreendemos».

«...porque os curandeiros restauraram os remedios simples naturais, já há muito tempo esquecidos». «... porque o curandeiro é gente de vanguarda^.

e

em dados científicos nem em raciocinio rigoroso; sao, antes, a expressáo de urna benevolencia preconcebida para com os curandeiros; estes parecem despertar nos clientes o sentido do «misterioso» ou do «místico», sentido particularmente arraigado na alma de tais pacientes.
Outro inquérito do mesmo teor, efetuado pela revista «Présences» (n* especial «Malades et guérisseurs», pág. 56), sugería semelhante

Como se vé, estas respostas nao se baseiam própriamente

conclusáo. Notem-se algumas das respostas entáo registradas:

certas pessoas confessavam que iam ter com o curandeiro, porque tentavam escapar a urna intervengao cirúrgica ou a internagáo em casa de saúde;

outras, ... porque desejavam evitar a compra de remedios caros;
outras, ... doioroso. porque o tratamento receitado pelo curandeiro nao é

Ihanca do que se dá com o próprio curandeiro, também o consulente déste é movido primariamente por razóes emocio náis; nao examina muito a ciencia nem o preparo intelectual
do terapeuta; o que, antes, o fascina é a pessoa déste, geral— 319 —

Sintetizando os resultados de numerosas análises e pesqui sas, os estudiosos chegaram á verificagáo seguinte: á seme-

mente apregoada como extraordinaria, dotada de poderes tau matúrgicos, de intuigóes místicas, etc. É a pessoa, e nao o remedio, que age sobre ele; verifica-se até que o mesmo remedio aplicado ao paciente por outra pessoa que nao o curandeiro
«tal», nao produz efeito algum.
Procurando explicitar ainda mais a psicología do cliente da «medicina livre», lembraremos o seguinte: o estado de ánimo de quem vai consultar um ocultista é bem diferente do estado de quem se dirige a um médico própriamente dito. Quem vai ao ocultista ou ao curandeiro, se acha em situagáo de sofrimento exacerbado. Desi ludido dos recursos que a ciencia costuma indicar no caso respectivo, tal infeliz ouve repentinamente falar de nova esperanca que lhe parece sorrir na pessoa de tal ou tal «taumaturgo»; varias curas maravilhosas lhe sao relatadas... A impressáo é tal que, pondo de lado o senso crítico, o enfermo fácilmente concluí: «Porque nao tentaría, também

eu, urna consulta ao homem portentoso? Afinal de contas, nada perderei com isso!». Enceta entáo urna viagem que por vézes é longa e penosa, apta a acumular impress6es na mente do enfermo; no lugar de chegada, junto ao consultorio do «taumaturgo», tem multas vézes que esperar em condicSes incómodas, entre dezenas de doentes febris, uns desfigurados, outros quicá transfigurados pela esperanga; enquanto aguardam, váo narrando uns aos outros as maravilhas efetuadas pelo terapeuta; a atmosfera fervilha; o sonho de recuperarem a saúde se torna cada vez mais vivaz e impressionante; dir-se-ia que pouco falta para que se torne realidade!...

seu olhar suplicante, por sua voz emocionada, por suas maos trémulas,

Chegado finalmente á presenca do «taumaturgo», o enfermo, por

parece exprimir duas coisas apenas: extraordinaria confianca no médico e o pedido de que éste ponha em agáo o seu poder milagroso...

3.

O benéfico encontró

terapeuta ocultista; éste, estimulado pela atitude confiante de

O encontró com a personalidade do paciente nao pode deixar de abalar, de certo modo, também a personalidade do quem assim o interpela, julga-se, ainda mais do que antes,

capacitado para socorrer ao infeliz; a fé «na missáo que Deus

lhe deu» torna-se néle ainda mais dinámica. Curandeiro e doente assim entram em acordó tácito (acordó que é o efeito

da sugestáo reciproca): «Nao há dúyida, a cura há de ser

obtida, nao poderá deixar de ser eficaz o recurso aplicado (prece, béngáo, agua lustral, cha...); o poder do Alto há de corresponder maravillosamente». O curandeiro póe entáo em prática a sua arte, com todo o aparato de que ela se para resolver a situagáo; acontece, porém, que ela pode produzir — e de fato muitas vézes produz — o efeito desejado, nao por
costuma revestir. — Tal arte por si é certamente inadequada

seu valor intrínseco, mas por exercer a fungáo que se poderia dizer de «catalisar», isto é, de acelerar um processo psíquico
— 320 —

molestia que acabrunha o consulente.

já iniciado no paciente. Éste processo psíquico é que provocará finalmente a cura (real ou aparente, duradoura ou transi toria...; isto depende das circunstancias de cada caso) da

Assim se explica que em nao poucos casos o encontró do enfermo com o curandeiro acarrete realmente a restauracáo (ao menos apa rente) da saúde. O tratamento entáo é psíquico, e nao somático, como se depreende da análise ácima (já verificamos, na resposta anterior a esta, que grande número de molestias somáticas sao, pela medicina moderna, íntimamente relacionadas com o psiquismo do paciente).
Observe-se ainda que, no encontró do enfermo com o seu curan deiro, aquéle nao é sómente passivo nem éste sámente ativo, mas há entre ambos influencia reciproca; talvez mesmo o paciente dé mais do que o próprio curandeiro.

Sim; «o doente... reforca no curandeiro a acáo da sugestáo coletiva... sem a qual o curandeiro nada conseguirla... O doente oferece ao mago aquilo de que éste precisa: a sua fé, o seu ato de íé (no poder taumatúrgico do terapeuta). Entao estabelece-se o contato... entre dois inconscientes gémeos, igualmente fracos, igual mente sugestivos, como se um dissesse ao outro...: 'Eu te torno curandeiro', e o outro respondesse: 'E eu, eu te curo'... Multo chama a atencao o fato de que a maloria dos curandeiros nao tem confianca

em seu próprio poder senáo na medida em que essa confianca lhes é imposta pelos doentes mesmos» (Colinon, Les Guérisseurs 111).

4.

Pesquisas científicas comprovam ...

A explicagao do processo de cura que acabamos de dar, supóe sejam o curandeiro e seu cliente personalidades em alto grau capazes de receber sugestóes; ambos se deixam, sim, afetar profundamente pela «onda do momento» e comunicam um ao outro, de maneira extraordinariamente forte, a impressáo que tal onda possa causar. Essa afirmagáo, mormente no tocante aos curandeiros, tem sido comprovada por pesquisas, cujos resultados principáis
váo aqui brevemente consignados.
1. Em abril de 1954, realizou-se em Saint-Paul-de-Vence (Franga) um Coloquio Internacional de Parapsicología (estudo de fenómenos contraditóriamente aos normáis). Partíciparam do certame dentistas de renome, como Adlous Huxley e os professdres de Universidade Bender (Friburgo), Ducasse (Brown, EE.UU. da América), Eisenbud (Denver), van Lennep (Utrecht), Meng (Basiléia), Meier (Zürich), Servadlo (Roma), Thouless (Cambridge), Nrban (Innsbruck), assim como o Dr. Leuret, presidente do «Bureau des Constatations Medicales» (Comissao de Exames Médicos) de Lourdes. Entre os principáis pontos

que ocorrem ao lado — para, em grego — dos normáis, nao, porém,

do programa de estudos estavam consignadas as «curas paranormais» (sua origem e seu desenvolvimento). Pois bem; sem dificuldade os
estudiosos se mostraram de acardo em reconhecer «a importancia essencial, única, da personalidade do curandeiro» em tais processos. Em conseqUéncia, o Prof. van Lennep propós a análise aprofundada

— 321 —

da psicología do curandeiro, da psicología do paciente, assim como das relacóes que entre éles se estabelecem por ocasiáo da terapéutica.

teste das «quatro imagens»; o Prof. Heiss fez que outros passassem pelo teste das «pirámides de cor». Etn conclusáo, ambos verificaram que tais taumaturgos apresentam entre si profundas semelhancas de ánimo, a ponto de se poder dizer que constituem quase um grupo
psicológico caracterizado.

Van Lennep pessoalmente submeteu curandeiros holandeses ao

Dr. Moser, de Zürich, o qual recorreu aos testes de Szondi, cujo desenrolar é o seguinte: apresentam-se ao cliente seis

Pesquisas ainda mais significativas foram efetuadas pelo

series de fotografías, cada uma das quais representa pessoas de tipos psicológicos muito diversos; em cada serie, o «sujeito» deve indicar os dois semblantes que mais Ihe agradam e os
dois que menos o atraem; a escolha há de ser rápida e espon tánea, como um reflexo.

escolhas que o hotnem faz na vida, dependem de genes próprios, responsáveis pela atracáo ou pela repulsa que tal ou tal pessoa experi menta era relacáo a tais e tais outras pessoas. Existe, portanto, con forme Szondi, um «genotropismo», tropismo éste que vai mover, por exemplo, tal doente a escolher tal médico ou tal curandeiro; os mesmos genotropismos existentes em pessoas diversas provocam de sortes entre essas pessoas.

O Prof. Szondi, ao conceber tal teste, baseava-se na tese de que as

análogos comportamentos na vida e íundam uma especie de comunháo

Pois bem; os testes de Szondi aplicados pelo Dr. Moser a curandeiros suigos levaram as duas conclusóes seguintes:
1) as curas tparanormais» (no nosso caso:... ocultistas) verificam-se com freqüéncia toda especial entre pessoas associadas entre si por afinidade psicológica ida qual elas geralmente nao tém constais curas.

ciéncia).

2)

«Personalidade iraca» é condicáo necessária para que se déem

damente influenciável ou sugestionável». Em uma palavra, as duas conclusñes ácima confirmam o que diziamos: a terapéutica curandei-

Por «personalidade iraca» entende-se aqui «temperamento profun

rista supóe entre o «médico» e seu cliente afinidade baseada em elevada tendencia a se deixarem empolgar por misticismo, e misti
cismo cegó ou descontrolado.

«Poder-se-ia crer que ésse tipo de personalidade (iraca, sugestionável) é nocivo ao prestigio dos curandeiros. De modo nenhum. É, ao contrario, a condicáo necessária ao seu éxito. Pois o curandeiro por si nada é; ele só é tal, mesmo aos seus próprios olhos, por Influencia

dos doentes que o v3o procurar e por influencia da fama que estes Ihe proporcionam. O ambiente místico é indispensável ao curandeiro. Caso se atenué ou desapareca, o 'dom' desaparece com o ambiente»
(Colinon, ob. cit. 105s).

A sugestionabilidade dos que se acham envolvidos no curandeirismo, explica que muitos e muitos déles possam estar
— 322 —

agindo de boa fé: totalmente empolgados pela situacáo que se cria em torno déles, nao conseguiriam sequer suspeitar algum
erro no seu procedimento pessoal.

exame... Um grafólogo de autoridade, membro do Conselho mais comuns as seguintes:

2.

Também a grafía dos curandeiros foi submetida a

da Sociedade de Grafologia de Franga, tendo analisado a escrita de bom número désses terapeutas, averigüou entre as notas
temperamento pouco dado a intelectualidade e ao raciocinio, desequilibrio de glándulas endocrinas (hipófise e suprarrenais),
nervosismo

tem que ver nem com ciencia própriamente dita nem com a intervencáo de fórcas superiores ocultas.

nados: a peculiaridade do curandeiro reside no seu psíquico; nada

Estes dados fazem eco aos dos testes psicológicos atrás mencio

(Noticia colhida na citada obra de Colinon, pág. 113s).

acentuado.

3. Instituiram-se outrossim estatisticas a respeito das molestias que mais freqüentemente sao curadas por via paranormal, verificando-se que em media 83% dos casos bem suce didos tém por objetivo urna das seguintes doengas: certos fibromas, hipertiroidismo, úlceras do estómago, asma, infeccóes
cutáneas e molestias ditas «sem causa».

Ora a medicina tem averiguado que sobre tais enfermidades a sugestáo exerce influencia por vézes decisiva.

O assunto já foi abordado na resposta á questao precedente; si-Kuem-se aquí apenas algumas notas complementaros. É Colinon quem observa: «Milhóes de seres humanos vivem numa atmosfera saturada de bacilos; contudo sómente alguns dentre éles caem doentes, e multas vézes nao sao os menos resistentes do ponto de vista puramente fisiológico. Um dos grandes misterios da vida humana é justamente o de saber porque somos atingidos em tal momento por tal infecgáo

á qual escapamos em outras circunstancias análogas ou mais propi cias á contaminacao. Verifica-se assim que nao há 'doencas físicas' e 'doencas imaginarias'; há, sim, seres humanos em desequilibrio,
nos quais a molestia equivale a um brado de alarme» (ob. cit. 117).

escrevia:

Ilustrando com urna imagem as idéias ácima, o Dr. Hutschnecker

«O agente físico que chamamos 'causa da doenga' — o microbio da gripe ou a célula maligna — se relaciona com a doenca como o Uro do revólver de Saravejo se relacionou com a primeira guerra O que quer dizer: a acáo do bacilo mórbido é por vézes mera ocasiáo para que um processo de desordem psíquica latente no íntimo de urna personalidade prorrompa finalmente num disturbio somático. Se nao fóra essa desordem psíquica, o bacilo nao lograría efeito. eczemas, etc.), Colinon (que, como notamos no inicio desta resposta,
mundial» (La vulonlé de vivre 13).

Quanto ás molestias cutáneas em particular (urticaria, verrugas,

praticou a medicina conforme as normas do magnetismo) assevera
que constituem o setor de triunfo de todo curandeiro principiante:

— 323 —

«Lembro-me da minha primeira paciente... a qual, já havia dez anos, sofria de eczema crónico. Em duas sessóes obteve a cura. Foi o que deu fundamento á minha fama de taumaturgo... Nao
me lembro de ter alguma vez fracassado em caso de eczema ou de verruga... Basta soprar sobre as verrugas. Era o que eu fazia conscientemente. O enfermo executava o resto, isto é, em horas marcadas efetuava urna serie de gestos complicados que eu inventava conforme o caso. O essencial era que tais gestos exigissem muita atencáo e muito lempo. — Nao se diz, alias, que o segrédo da eficacia dos cataplasmas consiste no fato de exigirem meia-hora de prepa rativos?» (ob. cit. 119s).

Por finí, a propósito das doencas cuja origem nao é ¡mediata mente perceptivel (doencas ditas «sem causa», como acontece com certas enxaquecas, nevralgias, palpitaeóes cardiacas, insuficiencias hepáticas, paralisias parciais), verifica-se muitas vézes que estáo profundamente associadas a um estado psiquico perturbado; íígado, coracáo, estómago se acham. do ponto de vista fisiológico, em condigoes totalmente normáis; de nada adíantaria aplicar-lhes drogas e tratamentos; o que deve ser reformado em tais casos, é o estado de ánimo do paciente; ora é justamente isto o que urna visita ao curandeiro pode muitas vézes provocar (recurso contudo precario, pois, como veremos adiante, nao soluciona o problema pela raiz). «O homem que é causa da sua própria doenga (sem ter consciéncia disso, é claro; muitas vézes mesmo, recusando-se .a admitir tal hipótese), pode ser causa da sua própria cura. Basta, para isto, que o processo psicológico tome o sentido oposto» (Colinon, ob. cit. 120).

Os dados ácima corroboram bem o que anteriormente dissemos sobre a importancia capital do fator psíquico ñas curas dá chamada «medicina livre ou ocultista». Resta-nos agora rematar a explanagáo propondo breve
5. Reflexao final

molestias. Contudo a análise de tais curas dá a ver que nao se trata

É inegável que, por arte dos curandeiros, se podem debelar certas

de efeitos sobrenaturais, mas, sim, do desencadeamento de íórcas psíquicas latentes no próprio enfermo e «catalisadas» no momento

oportuno pela presenca e pela acáo do curandeiro. Os progressos da medicina moderna, principalmente a descoberta do caráter psico-somático das doencas humanas, fornecem assim a explicacao dos fenómenos

do curandeirismo (um ou outro caso talvez leve a supor direta intervengáo do demonio).

sinceridade. Contudo essa técnica nao pode deixar de provocar a repulsa de quem tenha o espirito um pouco esclarecido, mormente de quem tenha o espirito cristio.
E por que?

Ninguém negará que a medicina ocultista é muitas vézes praticada por pessoás (terapeutas e pacientes) dotadas de

Por dois motivos:

1) Do ponto de vista meramente humano ou psicológico, verifica-se que o curandeirismo, longe de extinguir o mal do
— 324 —

psíquico pouco regular; éste nao se patenteia pelos mesmos sintomas que o anterior, mas tende a se revelar cedo ou tarde mediante nova doenga do corpo.
De resto, deve-se irisar que o adepto do curandeirismo padece como que um recuo do seu psiquismo, tornando-se semelhante a urna criancinha amedrontada, a bracos com suas angustias e á espera
«fadas» que a líbertaráo!

paciente, apenas o desloca. Sim; o enfermo que sofría de um estado psíquico manifestado por tais sintomas ou por tal doenga do corpo, após a cura ocultista passa a sofrer de outro estado

das...

Ora está claro que nao vale a pena iludir-se com o recurso a tal terapéutica! 2) Do ponto de vista cristáo, o curandeirismo representa evidentemente um abuso da fé e dos valores religiosos. A fé nao é algo que Deus dé ao homem para que se imunize dos males do corpo e da vida presente; ao contrario, Cristo prometeu aos seus fiéis a cruz como instrumento de purificagáo interior — o que nao pode deixar de ser doloroso (cf. Mt 16,24); acontece mesmo que, quanto mais elevado é o grau de perfeigáo a que alguém se destina, tanto mais também deve contar com a agáo da cruz em sua vida (cf. Apc 3, 19).
O cristáo doente, longe de pretender fazer da Religiáo o instrumento de sua cura somática, procurará, á luz da fé, rever o seu estado de alma e corrigir os defeitos moráis, gran des ou pequeños, que ai possa haver. A fé ensina, sim, que toda enfermidade se prende ao pecado, ao menos ao primeiro pecado (o pecado de Adáo), cuja heranga todos nos trazemos. Consciente disto, o discípulo de Cristo verá na sua doenga um sinal providencial de Deus, que o desperta para um exame de consciéncia e para a emenda de sua vida, vida quigá tibia e sempre suscetível de perfeigáo maior. A fé, iluminando désse modo o sentido da doenga de um cristáo, concorrerá eficaz mente para tornar a enfermidade proficua, embora a fé nao sempre contribua para restaurar a saúde do corpo (valor éste que é secundario em comparagáo com o vigor sobrenatural da alma).
podem encontrar em

Ulteriores esclarecimentos sobre os assuntos aqui explanados se

«P. R.» 28/1960, qu. 2 e 3 11/1958, qu. 1
«P. R.» 18/1959, qu. 1 23/1959, qu. 1 í I

f I

(distincáo entre natural, tural e preternatural)

sobrena-

(a influencia do demonio no surto de doencas)

— 325 —

II.
P. N. (Mariana):

DOGMÁTICA

3) «As falhas da natureza (a doenca, os seres defectuosos e monstruosos, a própria morte) nao depoem contra a existen
Criador?»

cia de Deus ou ao monos contra a sabedoria c a bondade do

A questáo ácima focaliza um aspecto do grave problema do mal existente no mundo, problema já abordado em «P. R.» 5/1957, qu. 1. O assunto requer aplicacáo serena do raciocinio, isento de sentimen talismo superficial. É o que nos propomos fazer nos incisos que se
seguem.

1.

Que é o mal?

1. Antes de analisar qualquer dos aspectos do problema, torna-se-nos imprescindlvel definir o que se entende própriamente por «mal». Urna das mais freqüentes causas de dificuldades no estudo da questáo é a espontánea tendencia que se tem, de conceber o mal como urna entidade positiva ou como um ser subsistente em si. Ora tal nao se dá; o mal justamente nao é algo de positivo, mas é
nega§9o ou ausencia de ser

carencia).

existir em tal determinado sujeito (é o qui se chama própriamente
Assim a falta de olhos no homem é um mal. pois a natureza humana inclui em suas notas constitutivas a potencia visual; ao contrario, a ausencia de asas na criatura humana nao é um mal, pois

e — note-se bem — ausfincia_do.ser_deyWo ou do ser que deveria

a esséncia do homem nao implica a faculdade de voar. Caso a carencia se dé na ordem fisica, ou seja, na linha da esséncia estática ou da estrutura característica, de um ser, tem-se o mal fisico (a cegueira, por exemplo). Se, porém, a carencia se veri fica na linha moral, isto é, na atividade de um ser consciente que, em vez de se encaminhar para seu auténtico Fim Supremo, se desvia déste, tem-sc o mal moral ou o pecado (o furto, por exemplo). Estas breves consideragóes sobre a esséncia do mal já sao sufi cientes para que nos voltemos pnra a quostao focalizada no cabec.alho déste artigo.

2.

E os defeitos da natureza...?

1. A possibilidade de incorrer no mal ou de ser falho é inerente ao conceito de qualquer ser criado. Com efeito, quem diz «criatura», diz «ser que comecou a existir, ... ser, portanto, que existe transitoria ou con tingentemente, ... ser que nao se explica por si mesmo, mas que é explicado por outro, a saber, por Aquéle que lhe deu inicio».
— 326 —

de nao possuir necessáriamente o seu ser (ela nao era, e veio a ser por obra de um agente que nao é ela mesma), está sujeita a perder ésse ser ou em parte (desvirtuando-se e definhando) ou totalmente (caindo na ruina e na morte). Urna criatura que, seria urna contradigáo: seria simultáneamente volúvel, transitoria, nao tendo em si mesma a sua razáo
de ser (pelo fato de ser criatura),
por sua natureza mesma, nao fósse sujeita a falhar e perecer,

Sondo assim, entende-se que toda criatura, pelo fato mesmo

e imutável, absoluta (pelo fato de nao poder perder o ser). Vé-se assim que Deus jamáis poderia ter feito urna cria tura que nao fósse naturalmente sujeita a decair e perecer (a infalibilidade, caso exista na criatura, é dom gratuito do Senhor); Deus nao poderia ter feito outro Deus; o Absoluto nao poderia ter produzido outro Absoluto. nos seguintes termos: ao conceber cada criatura, o Criador concebeu-a dotada de perfeigóes em grau limitado. Isto, longe de depor contra a perfeicáo do Criador, era, e é, algo de necessário, algo de inerente ao conceito mesmo de criatura. O que caracteriza a obra do Ser Perfeito ou de Deus, é o fato de que, no seu setor próprio, cada urna das criaturas é harmoniosa, reunindo um conjunto de elementos bem concate nados entre si; todos os seres criados sao limitados, mas nenhum
é, por sua esséncia mesma, contraditório ou absurdo.
Assim a natureza do ferro é em si devidamente equilibrada para desempenhar as funcóes características déste metal; nao se espere, porém, que urna barra de ferro cresca e se multiplique...!
A rosa representa um artefato de Criador no setor da flor; nao se espere, porém, que raciocine...

2.

Positivamente, a mesma conclusáo se poderia formular

O homem. sim, é dotado da faculdade de raciocinar; ninguém, porém, exigirá que o homem, raciocinando, chegue a conhecer todos

as segredos da natureza; sdmente urna inteligencia é capaz de com-

preendor tuclo que existe: a inteligencia do Ser Absoluto ou de Deus.

3. A limitacáo e a defectibilidade inerentes a cada criatura explicam até mesmo a existencia de indivíduos-monstros no mundo. Sim; o Criador, ao acompanhar com a sua Providencia a historia do género humano, nao tolhe a atiyjdade das-criaturas ;ao contrario, suscita-a. Suscitando-a, porém, nao modifica a natureza das criaturas, isto é, nao as torna infalíveis. Donde se segué que na historia da natureza mesma podem acontecer, e de fato acontecem, casos de aberracáo ou deformidade (cegos, paralíticos, surdo-mudos de nascenca, etc.); o processo de formagáo de urna criancinha, por exemplo, no seio
— 327 —

materno supóe a agáo de glándulas, hormónios, tecidos, etc. dotados de perfeicáo finita; ao se concatenaren!, compreende-se
que tais fatóres possjun_.desgastar-se, dando lugar a erros, que

sao os chamados «erros da natureza». Ésses erros, cuja freqüén-

''sao devidos ao Criador ou á CausaJPrimária. mas as criaturas
envolver no plano de administrar o mundo.

cia é relativamente exigua, nao encobrem a harmonía geral do universo nem depóem contra a perfeigáo^de Deus, pois nao

ou as causas secundarias, qué o Senhor Supremo se digna
Urna analogía muito clara ilustra quanto acabamos de dizer: Tenha-se em vista urna grande máquina sabiamente instalada

numa oficina para fabricar determinados objetos. O seu fundonamento
é automático; a pressáo sobre um botáo desencadeia urna corrente elétrica que póe em movimento rodas, engrenagens, alavancas, etc.; a materia prima colocada na abertura da máquina sai do lado oposto

i todo o esmero profissional desejável; nao obstante, é inevitável.jao !fim do processo, o aparecimento de objetos defeituosos ou monstruo

pronta para o consumo... — Certamente urna sabía inteligencia humana inventou tal aparelhagem; outra inteligencia humana — a do operario técnico — desencadeia e observa atentamente o íuncionamento da máquina. Da parte do inventor e do operador, pode haver

na impressáo de um livro, etc.). Tais falhas decorrem da deficiencia ; natural do mecanismo (houve desajuste em alguma engrenagem ou comecou a faltar óleo numa alavanca, desgastou^se urna pesa...); 1 cada um dos elementos do conjunto sendo defectivel, é normal que um ou out.ro deixe de prestar sua funcáo até mesmo quando menos se espere. Os^smonstros» que procedam da máquina, nao desdizem a inteligencia" do inventor nem a do operador; acontece, porém, que nenhuma inteligencia pode fabricar pecas de metal, lona ou óleo totalmente isentos de dosvirtuamcnto; quem conseguissc tal, já nao estaría produzindo pecas de metal nem lona nem óleo... Ora algo de semelhante se dá no universo: a sabedoria do Criador concebeu e coordena as atividades de cada criatura em vista de urna harmonía de conjunto... Pois bem; a perfeigáo do Criador se manifesta nüo numa pretensa ausencia de íalhas dos seres criados (isto equivaleria a cancelar a atividade mesma désses seres); patenteia-se,
antes, na arte grandiosa de tirar dos males um bem mais relevante, um bem muito reluzente, porque colocado sobre um fundo muito negro, um bem mais admirável porque obtido por meio (ou apesar) de toda a precariedade de instrumentos criados.

sos (urna fólha de papel enrugada, em vez de lisa; páginas em branco

Flores que nao murchem nem morram sao flores artificiáis,
vantagem? O fato é que Deus nao quis fazer flores artificiáis;
flores que nao possuem perfume,... que sao e nao sao... Será que a vantagem de nao murchar, no caso, aínda é

fé-las como as vemos na natureza, pereciveis, sim, mas perfu madas e fiéis as leis da vida; o Criador permite que as flores naturais morram, mas sabe utilizar essa própria morte das flores para produzir novos e maiores bens... Assim faz Ele também com os homens,... e com os males dos homens!
— 328 —

4) A historia do pecado de Adáo e Eva parece inventada para explicar a morte e seus precursores (a doenca, a fome, a dor...) no mundo. Dir-se-ia, porém, que é fábula va, pois a morte e as miserias nao precisam de explicacáo especial. Ou será que se encontra fora do Cristianismo algo de semelhante á historia de Adáo e Eva, corroborando a nocao de urna culpa original?»
Elaboraremos nossa resposta examinando sucessivamente dois tipos de depoimentos sobre o chamado «pecado original»: o testemunho da razáo e o da historia das Religióes.

1.

O testemunho da razao

Nao há dúyida, como foi dito na resposta n» 3 déste fascí culo, a defectibilidade faz parte das características mesmas de

qualquer criatura; esta, nao possuindo em si própria a sua

razáo de ser (pois «ser criado» diz «ser produzido por outrem»), nao é Ser Absoluto, mas relativo, limitado e, conseqüentemente, sujeito a falhar. quem atualmente observa o homem e o mundo, com suas defi ciencias cotidianas, nao é necessáriamente levado a concluir a existencia de urna catástrofe no inicio da historia, catástrofe que teria sido a causa das fainas verificadas hoje no universo. Estas se poderiam explicar satisfatóriamente pela defectibilidade inerente a qualquer natureza criada.
Sao Tomaz de Aquino, porém, embora professe o que acaba de ser dito, julga que há no mundo ao menos sinais de provável
rebordosa inicial. Sim; quem considera nao tanto as criaturas em si, mas, antes, a Providencia Divina, é levado a crer que esta deve ter, a principio, disposto os seres de modo tal que

Na base destas verdades, muitos teólogos afirmam que

os superiores em tudo possuíssem dominio sobre os inferiores, e os menos perfeitos estivessem plenamente subordinados aos mais perfeitos. Na verdade, tudo que Deus faz, traz a marca da proporgáo e da harmonía. Ora nao seria ilógico supor que, para conseguir tais características no inicio do mundo, a Sabedoria Divina tenha, por meio de dons gratuitos, harmonizado a
diversidade de tendencias das criaturas, introduzindo ordem e colaboragáo entre todas. Assim teria o Criador garantido ao homem o exercicio do primado que lhe compete em relagáo aos demais seres visíveis. Por conseguinte, segundo Sao Tomaz, quem leva em conta principalmente a Providencia, é induzido

— 329 —

originarios, mas devidos a urna violagáo da ordem inicial; seriam urna sangáo acarretada por culpa do homem (que é naturalmente responsavel pelos seres inferiores perante Deus). Assim o observador de bom senso poderia, ao menos com certa probabilidade, concluir a existencia do pecado original de que fala a Escritura Sagrada (Génesis 3). Cf. S. Tomaz, Suma

a julgar que provávelmente os conflitos das criaturas entre si (da carne, por exemplo contra o espirito, dentro do homem; dos seres inferiores contra os superiores, no mundo) nao sao

contra os Gentíos IV 52.

a criatura humana era isenta de sofrer e morrer, assim como de outros achaques naturais; contudo, note-se que tal condicüo provinha de puro dom de Deus, que destarte se dignava corrigir as deficiencias
naturais do ser criado.

casal — Adáo e Eva — de dons que, ultrapassando as exigencias da natureza, permitiam ao homem gozar de períeita harmonía no seu interior (entre a carne e o espirito) e em tdrno de si (as criaturas inferiores serviam devidamente ao seu rei). No estado inicial, portante

Na verdade, a Biblia ensina que o Senhor Deus clotou o primeiro

estabelecida por Deus: o seu espirito insubordinou-se contra o Supre mo Bem, pretendendo encontrar em si mesmo a felicidade; em conseqüéncia, o corpo humano já nao é sujeito ao espirito, mas tem suas concupiscencias desregradas, e o mundo exterior, em vez du colaborar com o homem, humilha-o e esmaga-o (a rocha, o mosquito, as secas e as enchentes... sao capazes de destruir a vida humana).

que voltasse nobremente ao seu Autor), o homem violou a ordem

Abusando, porém, do livre arbitrio (que o Senhor lhe dera para

registradas no mundo, embora pudessem a riRor ser explicadas pela defectibilidade congénita das criaturas, na realidade nao sao simplesmente naturais, mas resultam de urna derrocada que o homem, pecando, infligiu a si e aos seres inferiores.
Esta conclusáo é agora ilustrada mediante

Dai dizer-se, segundo a fé crista,

que

as desordens

atualmente

2.

O testemunho da historia das Keligioes
nossa atengáo o fato seguinte: os povos

Muito chama

antigos geralmente professam que a morte e as miserias neste mundo nao sao algo de originario, mas, sim, conseqüéncias de urna desordem introduzida pelo homem ao transgredir as
leis de Deus. Ora o fato de que os homens localizados ñas mais desconexas regióes do globo, detentores hoje de urna cultura que corresponde aproximadamente á dos albores da humanidade, professem idéntica concepgáo a respeito da morte e do seu significado, insinúa que já a professavam quando se achavam
reunidos numa só populagáo, antes de se dispersarem. Esta observagáo nao deixa de dar novo esteio á doutrina bíblica

— 330 —

segundo a qual Deus nao fez o mal nem a morte, mas estes infortunios entraram no mundo em conseqüéncia do pecado; tal ensinamento parece, conseqüentemente, pertencer ao patri

monio das noc.5es primordiais do género humano e só se explica devidamente se de fato corresponde á realidade histórica.

Naturalmente, cada tribo primitiva deu á narrativa do primeiro pecado seu colorido próprio, caracterizado pelo am biente de vida e pela mentalidade particular de tal ou tal clá; nao é ésse colorido, variável de povo a povo, que interessa ao presente estudo, mas é a mensagem doutrinária assim transmi tida. Essa mensagem, em última análise, faz eco á da Escritura Sagrada (Gen 3), corroborando-a estupendamente.
Nao há dúvida, o confronto do texto bíblico com os documentos pagaos dá a ver que a Escritura conservou a mensagem primitiva preceito divino; a serpente a representar o demonio...); conservou-a, porém, isenta de qualquer corrupcáo da superstigáo e do politeísmo. Fora de Israel, a mensagem foi envolvida em aberragóes da religiosidade decadente.

revestida talvez de um ou outro símbolo (a fruta a significar o

Passamos, portanto, a enunciar algumas das narrativas dos povos primitivos referentes á origem da morte no mundo.
1) Em New South Wales (Australia) varias tribos afirmam que os primeiros homens foram destinados a nao morrer. Contudo era-lhes proibido aproximar-se de certa árvore oca, em que abelhas selvagens linham feito a sua colmeia. No decorrer do tempo, as mulheres cobigaram o mel da árvore proibida, até que, belo dia, urna délas, desprezando as admoestagóes dos homens, tomou do seu machado e o arremessou contra o tronco; imediatamente saiu déste urna enorme coruja. Era a Morte, a qual de entáo por diante circula livremente sobre o mundo c reivindica para si tudo que ela possa tocar com
as asas.

2) Os pigmeus referem que Deus (Mugasa) a principio criou dois rapazes e urna jovem, com os quais vivia amigávelmente na floresta, como pai com seus filhos, num lugar de toda bonanga: nada faltava aos homens, nem tinham que recear por alguma perspectiva de morte. Mugasa apenas lhes proibira que procurassem ver a sua face. Habitava urna tenda, diante da qual diariamente a jovem tinha que depositar lenha para o fogo e um jarro de agua. Um dia, porém, a moca, vencida pela curiosidade, escondeu-se atrás de urna árvore, ficando a espreita do «Pai», que havia de aparecer. De fato, ela o pode ver, quando estendia o braco reluzente de ornamentos a fim de apanhar o jarro. A menina alegrou-se entáo profundamente e guardou o segrédo do ocorrido. Mugasa, porém, percebera a desobediencia. Chamou os tres irmáos á sua presenta e lhes censurou a falta, predizendo-lhes que havia de os deixar; para o futuro, a indigencia e a moríe pesariam sobre éles. Os prantos do grupinho humano nao conseguiram deter a sentenga; certa noite Mugasa partiu rio ácima, e nao foi mais visto. Quanto ao primeiro filho que nasceu a mulher, morreu apás tres dias de existencia...

— 331 —

3) Os Bagandas da África Central contam que Kintu, o primeiro homem, depois de ter superado varios testes, obteve a licenga de se casar com Nambi, urna das filhas de Mugulu (o Céu ou o Alto). O pai da donzela deixou que ela viesse com seu consorte para a térra, trazendo ricos presentes, entre os quais urna galinha; ao despedir-se do casal, mandou que se apressassem por sair, aproveitando o íato de que o irmao de Nambi, chamado Warumbe (a Morte) estava fora
o que quer que tivessem esquecido. Durante a caminhada, porém, Nambí veriíicou que chegara a hora de dar de comer á galinha; já que esquecera o milho, consentiu entüo em que Kintu voltasse á casa para buscá-lo. Mugulu, o pai, ao rever o genro, irritou-se pela deso bediencia; Warumbe (a Morte), estando de novo em casa, fez questáo de acompanhar Kintu; toda resistencia tendo sido vá, a Morte desceu com o casal para a térra, onde até hoje habita com os homens.

de casa; recomendou-lhes, outrossim, que nao voltassem para apanhar

4) Graciosa é a historia que contam os japoneses: o principe Ninighi se enamorou pela princesa «Florescente como as flores». O pai da jovem, que era o Deus da Grande Montanha, consentiu em seu casamento, e deixou-a partir com sua irmá mais velha «Alta como as rochas». Esta, porém, era tremendamente feia, de sorte que o noivo a mandou voltar para casa. Em conseqüéncia, o velho Deus amaldicoou o genro, e declarou que sua posteridade seria frágil e delicada como as flores!
5) Os «Bataks» de Palawan (ilhas Filipinas) contam que o seu deus costumava ressuscitar os mortos. Todavia certa vez os homens o quiseram engañar, apresentando-lhe um tubarao enfaixado como um cadáver. Quando a Divindade descohriu a astucia, amaldigoou os homens, condenando-os a ficar sujeitos ao sofrimento e á morte.

6) No territorio, de Uganda (África) os «Masáis referan que um dos seres divinos ou Demiurgos deu a um homem a seguinte ordem: todas as vézes que morresse urna crianga, deveria remover e desaparece definitivamente!». Essas palavras produziam o efeito de ressuscitar. Um dia, porém, o dito comissário da Divindade, posto diante de urna erianca que nao Ihe pertencia, houve por bem deso bedecer, invertendo os dizeres da famosa fórmula. Quando na vez seguinte repetiu a frase certa sobre um de seus próprios filhos, verificou que ela perderá o seu poder. De entáo por diante acontece que, quando a Lúa morre, ela volta á vida, ao passo que o homem, caindo ñas garras da morte, é por esta detido. 7) Por fim, deve-se mencionar a crenca numa era de inocencia e felicidade anterior aos lempos presentes, crenca professada freqüentemente pelos aborigénes da América. Os indios de Cheyenne, por exemplo, falam de urna época para vestes e caminhavam em meio a campos férteis; guerra, endientes e fome teráo sucedido a tal fase da historia, a ponto de dominar atualmente o mundo. A morte, ñas narrativas semelhantes a estas, é muitas vézes apresentada como conseqüéncia de urna culpa moral ou de um pecado; é o que se verifica, em particular, ñas tradigóes
dos esquimos. inicio da historia, idade em que o Deus Sol governava soberanamente

o cadáver dizendo: «Homem, morre e vem de novo á vida! Lúa, morre,

disíaca, em que os homens, moralmente puros como eram, nao usavam

Os egipcios proíessavam a existencia de urna idade de ouro no

o orbe e nao havia nem pecado nem espiritos malignos; revoltando-se contra Deus, os homens teriam perdido a felicidade original. Haja vista, por exemplo, a narrativa intitulada «Destruigáo do género

— 332 —

humano»: o Deus Solar, Ra, caracterizado pelo seu amor ao bem, reinava em tempos remotos sobre os deuses e a humanidade. Envelheceu, porém, e os homens comegaram a tratá-lo irreverentemente; Ra entao mandou-lhes seu próprio dlho sob a forma da deusa Hator, a íim de os destruir. Ora Hator nao hesitou em provocar tremenda carnificina humana, que a divertiu durante um dia inteiro. Ao fim déste, Ra compadeceu-se e resolveu salvar do total exterminio a
estirpe dos homens. Recusou-se contudo a habitar doravante sobre a térra, retirando-se conseqüentemente para o céu.

mas nela entraram sub-repticiamente por terem os homens violado a ordem de coisas estabelecida por Deus. — Ora é justamente isto o que o livro do Génesis ensina... A conver
gencia de depoimentos difícilmente se explicaría se nao corres-

nao nos interessam aqui pelas figuras infantis ou fantasistas que apresentam, mas, sim, pela mensagem que em todas elas, de algum modo, se repete: a morte e seus precursores (as desgranas) nao sao originarios na historia do género humano,

Como foi dito, as «historias» que acabam de ser referidas,

pondessem á realidade histórica.
A. F. P. (Belo Horizonte): 5) «Poderei estar certo da minha salvacao eterna?

Terei a graca de unía boa morte e da perseveranca final?»
Desenvolvendo a resposta as questOes ácima, consideraremos sucessivamcnte: 1) cm que consiste a perseveranca íinal; 2) a maneira de obter esta graga e 3) os motivos de confianza do cristao perante o misterio da salvagáo eterna.

1.

Em que consiste a perseveranca final

1. Em estrita linguagem teológica, diz-se que a perseveranga final é o dom resultante da ocorréncia simultanea de dois favores especiáis do Senhor:
a) o estado de graga, em que o justo possui. a vida sobre natural e o conjunto de dons (virtudes infusas, dons do Espirito Santo) que ornamentam a alma em tal situacáo;
estado de graca — o que equivale ao dom de boa e santa morte.

b)

a coincidencia da hora da

morte com a posse do

Nao há dúvida, para que o homem encerré sua peregrinagáo

terrestre precisamente num instante em que sua alma esteja voltads. para Deus, requer-se especial disposigáo da Providencia, pois só esta domina soberanamente os termos da vida e da

final.

morte. É precisamente na simultaneidade do instante da morte com o estado de graca que consiste a graga da perseveranga

Os dois elementos ácima assinalados sao evidentemente dons ou favores do Senhor, já que o livre arbitrio humano, falível como é, nao tem em si o poder de permanecer ou de se imobilizar no bem, muito menos tem o poder de se imobilizar no bem em certo mo mento de sua existencia, como é o momento da morte (momento cuja escolha ou determinacáo escapa totalmente ao nosso alcance). Por isto o Concilio de Trento fala do «grande dom da perseveranca final» (Denzinger, Enchiridion 726); é dom do qual, em última análise, depende toda a salvacao eterna do homem (cf. Mt 10,22: «Aquéle que perseverar até o íim, será salvo»); por isto deve ser atribuido a especial benevolencia do Criador para com a criatura.

2. As páginas bíblicas, em mais de urna passagem, inculcam a soberanía de Deus no tocante á salvagáo humana; esta, de modo geral, deve ser tida como gratuito dom do Altissimo. É o que S. Paulo ensina com muita énfase:
se proviesse de nos mesmos, mas é de Deus que vem a nossa aptidao» (2 Cor 3,5). «Que é que te distingue? Que é que possuis que nao tenhas recebido?» (1 Cor 4,7).

«Nao somos capazes de atribuir a nos o que quer que seja, como

Alias, o próprio Cristo afirmou:
«Sem Mim nada podéis fazer» (Jo 15,5); «Ninguém vem a Mim, se o Pai nao o atrab

(Jo 6,44).

Explícitamente, a perseveranga final é atribuida á soberana graca de Deus no seguinte texto de Sao Paulo:
vos... convicto que de Aquéle que iniciou em vos a boa obra prosseguirá no seu aperfeicoamento até o dia do Cristo Jesús» (Flp 1,3.6).
«Rendo gragas a meu Deus todas as vézes que me lembro de

... ou ainda nos dizere? de Sao Pedro:
gloria, vos aperfeicoará, vos dará firmeza e vigor, tornando-vos inaba-

«O Deus de toda a graca, que por Cristo vos chamou á sua eterna

láveis» (1 Pdr 4,10).

No Antigo Testamento, o livro da Sabedoria mostra a Providencia Divina a fazer coincidir a hora da morte com o
estado de inocencia do homem justo:
«Deus transferiu o justo do meio dos pecadores, onde vivia. Foi arrebatado para que a malicia nao lhe corrompesse o modo de pensar, nem a astucia lhe pervertesse a alma... Sua alma era agradável ao Senhor; e é por isto que Ele sem demora o retirou do meio da perversidade» (Sab 4,10s. 14).

3. Por sua vez, os concilios no decorrer da historia da Igreja ensinaram tal doutrina.
— 334 —

Assim o sínodo de Orange (Gália) em 529 inculcava que «os cristáos batizados e os santos deveráo sempre implorar o auxilio de Deus, para que possam chegar a santo desenlace
e perseverar na prática do bem» (Denzinger 183).
solenemente:

Mais tarde, o Concilio de Trento

(1545-1563) declarou

que persevere, e... zinger 832).

«O grande tlom da perseveranca final nao pode provir senáo d'Aquéle que é poderoso para corroborar quem está em pe, a fim de
poderoso para rcerguer aquéle que caí» (Den

«Se, exceto em caso de especial revelacao divina, alguém com abso luta e infalível seguranca asseverar que certamente possuirá o grande dom da perseveranca final, seja tido como hereje» (Denzinger 826).
quer que seja, embora todos devam colocar firmíssima esperanca no auxilio divino. Com efeito, se a criatura humana nao se furta á graca,

«Ninguém pode com absoluta certeza prometer a si mesmo o que

Deus leva a bom termo a obra que Ele comecou, produzindo no homem tanto o querer como o realizar» (Denzinger 806; cf. Flp 2,13).

que, embora paregam antagónicas, se completam mutuamente: de um lado, ninguém pode ter certeza absoluta de que perse verará no bom até o fim de sua vida, pois a adesáo ao bem e a coincidencia desta com a hora da morte sao independentes da vontade e do esfórco humanos; ninguém pode garantir para si bom éxito no combate travado contra a carne, o mundo e o demonio. De outro lado, a incerteza assim gerada é cheia de confianca e esperanza, pois o Senhor nao recusa a nenhum justo sincero o auxilio oportuno; nao deixa inacabada a obra que Ele iniciou na sua criatura (e o sinal de que iniciou sua obra, é o propino desejo sincero que a criatura humana tenha,
de perseverar no bem).
Já estas proposicoes focalizando um dos mais nos incutem a consciéncia de estarmos insondáveis, mas certamente grandiosos,

Como se vé, o Concilio acentúa bem duas verdades capitais,

designios da Sabedoria Divina. Contudo. nao será ilícito perguntar:

2.

graca da perseveranga final?

Gomo se poderia obter a

Em duas sentencas se resume a resposta:

(ou obtido por inerecimento).

1)

O dom da perseveranca final nao pode ser merecido

Por mérito entende-se a recompensa que Deus dá a alguma boa obra do homem ou a titulo de justica (tal é o mérito dito «de condigno») ou a titulo de caridade, isto é, levando em conta os direitos da amizade

— 335 —

que existe entre o Senhor e a alma justa
congruo»).

(tal é o mérito dito «de

Pois bem; os teólogos aíirmam que a perseverarla final nao pode, a titulo algum, ser obtida por mérito. É o que se depreende do seguinte raciocinio:

O dom da perseverarla final nao é senáo o estado de graga conservado ou restaurado no momento da morte.

eleva a alma á ordem sobrenatural, habilitando-a a agir no plano da recompensa eterna.

Ora o estado de graga vem a ser o principio mesmo de todo e qualquer mérito; vem a ser a condigáo indispensável para que se possa adquirir algum mérito, pois é a graga que

Em outros termos: toda recompensa que o homem possa obter de Deus, é de ordem sobrenatural; ora sómente a graga coloca o homem na ordem sobrenatural ou á altura de adquirir
algum título (ou mérito) na linha sobrenatural.

Está claro, porém, que o principio ou a condigáo previa de qualquer mérito nao pode ser simultáneamente objeto adquirido por mérito; a raiz do mérito nao pode ser merecida; em caso contrario, ter-se-ia um círculo vicioso. Donde se vé que a posse do estado de graQa e, em particular, do estado de graga na hora da morte (= dom da perseveranga final) jamáis pode ser con quistada por mérito, mas há de ser dom totalmente gratuito
da parte de Deus. Isto equivale a dizer que é a Misericordia, e nao a Justiga de Deus, que coloca o homem em estado de graga e que o conserva neste estado (a conservagáo nao é senáo urna criagáo continuada ou «o ato inicial de colocar em estado de graga»

continuado ou prolongado). E, a sua Misericordia, Deus a

exerce para com todo justo que a aceite ou que nao íhe ponha
ou lhe resista.

obstáculo; Ele só nao a exerce (permitindo entáo que se atue simplesmente a Justiga) no caso em que a criatura a recuse

de ánimo bem disposto, embora nao tivesse mérito algum, o Senhor outorgou o dom de urna santa morte ou da morte em estado de graca, ao passo que nao se pode com certeza dizer o mesmo a respeito do outro malfeitor, que aínda nos últimos instantes de vida blasfemava contra Deus (contudo ninguém ousará afirmar que o mau ladrao haja incorrido na condenacao eterna; pode-.se ter finalmente arrependido em seu Intimo). — Sobre o valor da fé e das obras na

É essa dualidade de procedimento divino que se observa na cena dos dois Iadr5es crucificados com Cristo: a um, que se mostrou

justifjcacáo, veja a resposta n' 6 déste fascículo. De resto, o concilio regional de Quierzy (Franca) em 853 inculcava claramente: «Deus todo-poderoso quer que todos os homens sem excecáo se salvem (cf. 2 Tim 2,4), embora nem todos o consigam. O fato de que

— 336 —

certo número déles obtétn a salvacao, deve-se ao dom do Salvador; quanto á perda dos outros, seja ela atribuida á culpa dos mesmos»

(Denzinger 318).

2) oracáo.

O dom da perseveranga final pode ser obtido pela

É precisamente a oragáo o recurso que o homem tem para se dirigir á Misericordia de Deus (ao passo que o mérito se
dirige á Justica Divina).

principio ou a raiz de qualquer mérito. — Ora o mesmo se dá
com o dom da boa morte ou da perseveranga final.

Nao há dúvida de que pela oracáo os homens podem conse guir gragas que éles nao obtém por mérito. Tal é o caso, por exemplo, do pecador que, orando, pode alcangar do Senhor o dom da conversáo ou a graga santificante, graga que certamente ele nao obtém por mérito, pois tal graga vem a ser o

Disto se depreende a necessidade que a todos os íiéis incumbe, de pedir a Deus urna santa morte; nao a pedir constituiría a mr.is funesta das negligencias, ou a negligencia da salvacáo eterna. Eis também porque freqüentemente a Igreja coloca nos labios de seus filhos a prece: «Santa María, Máe de Deus, rogai por nos, pecadores, agora e na hora da nossa morte». Tendo em vista o íato de que toda oragáo feita em nome de Cristo, ou seja, em demanda dos bens da Redencáo, jamáis é va (de acordó com a promessa do próprio Jesús em Jo 16,23s), muitos teólogos julgam provável a sentenca segundo a qual o dom da perseverarla final pode, com sucesso infalivel, ser
obtido mediante a á

Sao Tomaz se compraz em enumerar quatro condicoes que hSo de ser preenchidas para que se possa atribuir plena eficacia á oracáo: a

«...reze o orante por si (em seu favor), pedindo bens necessários
salvacáo, de maneira piedosa e perseverante»

(Suma Teológica

II/II 83,15 ad 2). A primeira condicáo talvez cause estranheza: reze o orante em seu próprio favor... A cláusula se explica pelo fato de que, quando rezamos por outrem, talvez estejamos intercedendo por alguém cujo

coracáo se achc voluntariamente obstinado no pecado, resistindo, portante, á graca de Deus; em tal caso, é claro que a nossa oracáo

pode ser frustrada, pois Deus nao costuma conceder seus dons a quem nao os queira receber. Ao contrario, quando rezamos por nos mesmos, é de supor estejamos sinceramente desejosos de receber a graca do Senhor.
atencáo. Assim como nao é fácil á criatura persistir no cumprimento do bem, também nao lhe é fácil persistir na prática da oracáo. Em

A cláusula «rezar com perseveranca» também merece especial

vista disto, recomendam os autores, estimemos com particular afinco a graga de perseverar na prece; pecamos ao Senhor, nao nos deixe sucumbir á tentacáo1 de nao orar; livre-nos do mal de perder o prazer de rezar, fazendo-nos, antes, atravessar vitoriosamente as fases de aridez e cansaco que nao Taro acometem as almas de oracáo.

— 337 —

3.

Os motivos de imperturbada confianca

Na incerteza em que todo homem se acha perante o misterio da sa!va<;áo eterna, o cristáo vive muito alegre e sereno (basta recordar, por exemplo, a figura otimista e ardorosa de Sao Paulo refletida ñas epístolas do grande Apastólo).

perseveranga final.

1. Tres sao os pontos aptos a suscitar, no discípulo de Cristo, profunda e tranquila confianga frente aos arcanos da

1) O primeiro désses pontos é — paradoxalmente — o fato mesmo de que a nossa persistencia no bem está baseada nao no poder e na sabedoria do homem, mas, sim, na trans cendente e soberana munificencia de Deus. O fato de que tudo depende do Senhor, por muito aterrador que parega á primeira vista, vem a ser justamente a maior fonte de paz e alegría para o cristáo; com efeito, éste sabe que a misteriosa Liberalidade de Deus é sempre movida por bondade e amor, nunca por espirito de prepotencia ou tiranía. Se Deus quer dar e pode dar (como de fato acontece), certamente dará, e dará com muito mais eficacia e abundancia do que a criatura daría a si mesma — desde, porém, que se verifique da parte do homem urna condigáo indispensável: nao oponha resistencia á graga, seja dócil á agáo divina em sua alma. Seja licito repetir: por depender da Liberalidade divina, a salvagáo do homem está muito mais garantida do que se dependesse direta e exclusivamente da sabedoria da criatura.
Escrevendo a urna pessoa assaltada por preocupac.3es concernentes á salvagáo eterna, o famoso bispo e pregador Bossuet (t 1704) reco-

mendava:

«Essas preocupacóes. quando vém ao espirito, provocando da nossa parte vaos esíorcos para as dissipar, devem induzir-nos final mente a um abandono total de nos mesmos a Deus, abandono tranquilo porque nossa salvacáo está infinitamente melhor ñas máos de Deus do que em nossas próprias máos; é tiesta atitude, e nesta só, que encontramos a paz. É a tal abandono que nos devem provocar toda a doutrina da predestinacao, assim como os designios misteriosos do Soberano Senhor, designios que é preciso adorar sem os pretender perscrutar. É mister que nos percamos nesse abismo e nessa profundidade impenetráveis da Sabedoria de Deus; é necessário que nos lancemos irrestritamente dentro da sua imensa Bondade, esperando tudo de Deus, sem, porém, nos dispensarmos dos esíorcos para nos salvar que o Senhor exige de nos... O desfecho de vossas preocupacSes deve ser o abandono a Deus, que destarte está obrigado, por sua

bondade e suas promessas, a vigiar por vos» (Cartas de direcáo, ñas Obras completas de Bossuet. Paris 1846 XI 444).
72' dia, pondera o seguinte: «O homem soberbo teme que a sua salvacáo se torne demasiado incerta. caso nao a possua em suas máos; engana-se, porém. Poderia

O mesmo autor, em suas «Meditares sobre o Evangelho» II parte,

— 338 —

eu ter segurarla em mim mesmo? Meu Deus, sinto que minha vontade me escapa a todo momento; se me quisésseis constituir único senhor da minha sorte, eu recusaría íaculdade táo perigosa para a minha íraqueza. Nao me digam, portanto, que a doutrina da graca e da livre nscolha divina leva as almas boas ao desespero. Julgam os homens que mais me tranqüilizaráo se me fizerem apoiar-me em mim mesmo e se me entregaren! a minha inconstancia? Nao, meu Deus; nao consinto nisso. Nao posso encontrar seguranca senáo abandonando-me a Vos. E tanto maior é a minha paz quanto mais vejo que aqueles a quem dais a conftanca de se abandonarem totalmente a vos, rece be m ... os melhores sinais de vossa Bondade que se possam ter
sobre a térra».

a sua salvacáo depende primariamente da benevolencia do Pai Celeste.

Por conseguinte, entrega confiante a Deus; eis a única atitude que o cristáo possa e deva tomar após verificar que

2) O segundo motivo de confianca frente ao misterio da salvacáo é a eficacia mestna da oracáo, de que tratávamos atrás. O Senhor insistentemente exortou os discípulos a pedir «em norae de Cristo», ou seja, a pedir os bens necessários á vida eterna, prometendo atender benévolamente (cf. Jo 16,23s).

Está claro que a oracáo sincera é geralmente acompanhada de conduta de vida virtuosa, e, vice-versa, a vida virtuosa está intimamente associada a prática da oracáo. É o que leva os teólogos a afirmar que de modo geral o exercício assiduo das boas obras é sinal de perseveraba final na graca (nao em váo se costuma dizer que «cada pessoa morre como viveu»).
Em particular, os autores indicam os como sinais de perseverarla final no bem: seguintes característicos

a) a delicadeza de consciéncia, que leva o cristáo a nao condes cender com pecado algum, ainda que pareca leve. Cf. 1 Jo 3,21: «Carissimos, se nosso coracáo nao nos condena, temos plena seguranca diante de Deus»;
fizeres, recorda-te do teu fim, e jamáis pecarás»;

b)

o espirito de oracáo e meditacáo. Cf. Eclo 7.40: «Em tudo que

mos com Cristo, com Ele reinaremos»;

c) verdadelra humildadc, a qual é o melhor penhor da obtencao da graca e da conservacáo das virtudes. Cf. Tg 4,6: «Deus resiste aos soberbos, e dá a graca aos humildes»; d) paciencia serena ñas adversidades. Cf. Rom 8,17: «Sofremos com Cristo para ser glorificados com Ele»; 2 Tim 2,12: «Se sustentar-

e) caridade operosa em favor do próximo e freqüente exercicio das obras de misericordia espirituais e corporais. Cf. Tg 5,20: «Aquéle que do erro converte um pecador, salvará da morte a sua própria alma, e cobrirá ua multidáo de pecados» (cf. também Tob 4,11); f) devocAo sincera a Cristo Redentor, á S. Eucaristía, á Paixáo do Senhor,

— 339 —

á Ssma. Virgem, refugio dos pecadores, á Santa Igreja, dispensadora da graca e da verdade.

3)

Referem-se

revelagóes,

de

caráter

particular,

que

prometem a graga da perseveranga final a quem pratique tais ou tais obras boas; seriam, por exemplo, a promessa do S. Coragáo de Jesús em favor de quem receba a S. Comunháo na primeira sexta-feira de nove meses consecutivos, a promessa da Virgem Santíssima em favor dos devotos do escapulario

do Carmo, a promessa de Fátima (1).

Virgem, ... práticas que, como se dizia atrás, sao geralmente consideradas penhores de perseveranga final no bem.
Sao Roberto Belarmino (t 1621) propSe no texto abaixo os prin cipios que sen'em para so interpretar qualquer promessa de salvacáo anexa a alguma obra particular:
«Muitas vézes a S. Escritura atribuí a alguma prática de piedade o poder de justificar as almas ou mesmo de Ihes assegurar a salvagáo. Isto nao quer dizer que tais práticas por si mesmas possam justificar jusüficagáo e a vida eterna, contanto que sejam associadas a outros meios de salvacáo, como a fé, o estado de graca, a observancia dos
mandamentos» (De paenitentia 1. II c. VID;
e salvar, mas apenas que possiiem a eficacia de contribuir para a

Note-se, porém, que estas e outras promessas (as quais nao constituem materia de fé obrigatória) nao devem ser tidas como «passaportes» para a eternidade. A eficacia de tais pro messas está condicionada ao cumprimento das demais condigóes impostas a todos os homens para que alcancem a vida eterna (observancia dos preceitos de Deus e da Igreja, esfórgo em prol das virtudes...); as promessas mencionadas desempenham primariamente o papel de fomentar as práticas de virtude ou de devogáo para com a S. Eucaristía ou para com a Ssma.

Entendidas dentro déste quadro doutrinário, pode-se reconhecer verdadeiro valor ás práticas de devogao recomendadas por revelagSes particulares feitas a tais e tais santos no decorrer da historia.

fim mencionar, a titulo de ilustragao, urna sentenca propalada prin

2.

Em se tratando de motivos de conflanga crista, pode-se por

cipalmente por teólogos modernos: julgam, sim, que na hora da morte o Senhor ilumina a mente de toda e qualquer criatura humana,
(1) Aqui se segué, conforme o depoimento de Lucia, o teor da mensagem que Maria Santissima terá dirigido a esta vidente em
«•Tu, ao menos, procura consolar-mc, e dize que prometo assistir a Sagrada Comunháo, rezarem um tergo e

Fátima:

na hora da morte, com todas as gracas necessárias á salvacáo, a todos os que, no primelro sábado de cinco meses seguidos, se confes-

íizerem companhia durante quinze minutos, meditando os misterios do rosario, com o fim de me desagravarem».

sarem, receberem

me

— 340 —

que provoque necessáriamente a conversáo do pecador para Deus.
sáculo XIV:

com pleno conhecimento de causa, por ou contra o Senhor Deus; a clarividencia assim outorgada, acrescentam, poderla mesmo ser tal

a íim de que conceba clara idéia de Deus e conseqüentemente opte,

O primeiro esbóco de tal hipótese parece ter sido proposto no

«Todo ser humano, adulto ou nao, Sarraceno, Judeu ou pagao, mesmo que morra no seio materno, recebe, antes da morte, a clara visao de Deus; sob esta visáo conserva a liberdade de se converter ao Senhor ou de se afastar d*£le; caso se volte para Deus, salva-se; na hipótese contraria, condena-se». A proposicáo assim concebida íoi condenada em 1368 por Simáo

Langham, arcebispo de Cantuária (éste pronunciamento porém, nao significava condenacSo da tese por parte do magisterio iníalível da
S. Igreja).

No séc. XIX o teólogo alemáo Klee íormulou semelhante hipótese para o caso das criangas que morram sem batismo: Deus as iluminarla na hora da morte, de modo a poderem conceber ao menos o déselo do batismo (Katholische Dogmatik ni. Mogúncia 1835, 119). A sentenga loi repetida com ligeiras inovac.5es por Karl-Maria Mayrhofer em 1851 e por Laurent em 1879. Dom Démaret incluiu na sentenca o caso mesmo dos adultos (cf. «Les morts peu rassurantes, motifs d'espérance et de priére». Montligeon 1923).

na Escritura Sagrada ou na tradic.ao oral, mas ao contrario parece

pouco verossímil. Nao sómente nao se lhe pode apontar fundamento

Sob qualquer das suas modalidades, tal sentenca se apresenta

2 Pdr 3,14; Apc 3,3; 16,15.

pouco condizente com as palavras de Cristo e dos Apostólos que exortam os discípulos á vigilancia continua a fim de nao incorrerem em ruina eterna; cf. Mt 24,42.44; 25,13; Le 12,39s; 21,34; 1 Tes 5,2.6;

De rosto, a confianza do cristáo na Providencia Divina é suficien temente firme para que se possa dispensar de pedir apoio a doutrinas
novas e pouco seguras.

ID.

SAGRADA ESCRITURA

EVANGÉLICO (Belo Horizonte):
que sois salvos, mediante a fé, e isto nao vem de vos, porque

6)

«Sao Paulo, aos Efésios 2,8s, escreve: 'Pela grasa é

é dom de Deus; nao vem das obras para que ninguém se glorie'.
Nao quer este texto dizer que sómente a fé salva, de modo a nao se poder atribuir algum mérito as boas obras?»
Sao Paulo, antes de se converter ao Cristianismo, foi ardoroso íariseu. Éste lato deverá ser levado em conta por quem deseje penetrar auténticamente o pensamento do Apostólo. Com efeito, Saulo, na fase pré-crista da su a vida, conforme a tendencia dos fariseus, daya enorme valor ao cumplimento minucioso da Lei de Moisés, ou seja, «ás obras da Lei» (cf. Gal 2,19s); convertendo-se, porém, ao Evangelho,
tornou-se o testemunha, por excelencia, do dom ou da graga de Deus,

que se antepóe a qualquer obra humana. A mentalidade do Apostólo é inegávelmente marcada pelo seu curriculo de vida. Sendo assim, no estudo da questáo ácima proposta, para evitar interpretacoes

— 341 —

unilatcrais, devoremos distinguir os dois planos nos quais se move o pensamento de Sao Paulo: a) íé e obras antes da conversáo para

Cristo (ou seja, antes da primeira justif¡cacao); b) íé e obras após a conversáo para Cristo (ou após a justif¡cacao inicial).

1.
1.

Fé e obras antes da conversáo para Cristo

Paulo é a descrigáo do estado moral do género humano anterior a Cristo: o Apostólo mostra a incapacidade dos homens para

Urna das notas características das epístolas de Sao

se emancipar do pecado («todos pecaram e precisam da gloria de Deus», Rom 3,23; cf. Gal 3,22) e a conseqüente gratuidade

a Cristo.

da justiga ou do cancelamento da culpa outorgado por Cristo; evidenciando isto, Sao Paulo faz ver que nao se pode atribuir a justificagáo a algum mérito ou direito previamente adquirido pelo homem. Éste, ao contrario, para se tornar justo perante Deus, so pode apresentar suas boas disposigóes, ou seja, sua adesáo á Palavra de Deus que benévolamente o chama para lhe comunicar o perdáo e um novo principio de vida. Donde o axioma pelo qual freqüentemente os exegetas traduzem o pen samento do Apostólo: a fé é o principio da justificagáo, e nao as obras realizadas pelo homem anteriormente á sua conversáo 2. Consideremos os textos dos quais se depreende tal
a passagem de

conclusáo.

Ef 2,8s, citada no cabegalho déste artigo, constituem urna des
com Cristo:

Justamente os versículos que precedem

crigáo muito viva da miseria dos homens antes do contato

«Vos (cristáos eíésios convertidos do paganismo) estáveis morios pelos vossos delitos e pecados, em que outrora vivestes, segundo o costume déste mundo segundo o Espirito que prossegue a sua obra naqueles que resistem... Nos todos (incluindo agora os judeus convertidos ao Cristianismo I íomos outrora semelhantes. vivcndo conforme os desejos da carne, servindo aos caprichos da carne o dos pensamentos culposos, de modo a sermos por natureza íilhos (ou
merecedores) da ira (de Deus)» (Ef 2,1-3).

Semelhante descriCáo do lamentável estado moral em que se encontravam pagaos e judeus antes de Cristo, lé-se cm Rom 1,18-2,16.

Tendo assim inculcado a lamentável situagáo dos povos antes da conversáo a Cristo, Sao Paulo pode, na citada epístola

aos Efésios (2,4-8), realgar com de tal transformagáo: esta foi dom de Deus mediante a fé. Isto aos pecadores primeiramente o

toda a énfase a índole gratuita realizada pela graga ou pelo quer dizer: o Senhor concedeu dom da fé; a fé iluminou a

— 342 —

mente dos homens culpados, fazendo-lhes ver as desordens de sua conduta e levando-os a repudiá-las; destarte a fé habilitou tais homens a receber o perdáo e um principio de vida nova, a filiagáo divina. A conversáo, por conseguinte, nao se verificou como conseqüéncia de boas obras, pois, antes de se converterem, nem pagaos nem israelitas levavam vida digna de Deus; praticavam, ao contrario, obras más; a graca do acesso a Cristo e a RedenQáo Ihes foi dada realmente «de gracr.». é o que se lé em continuacáo do texto de Ef 2,1-3:
«Mas Deus, que é rico em misericordia, pela extremada caridade com que nos amou, aínda quando estávamos mortos pelos pecados, deu-nos vida juntamente em Cristo — é por graca que sois salvos — e com Ele nos ressuscitou... Pela graca é que sois salvos, mediante a íé, e isto nao provém de vos, mas é dom de Deus; nao é o efeito das
vossas obras, para que ninguém se glorie» (Ef 2, 4s.8s).

seguinte:

Sintetizando a doutrina do Apostólo, dever-se-á dizer o

Dois elementos concorrem para a salvacáo do homem: da parte de Deus, a graga, que é o primeiro e principal fator; da parte do homem, a fé, ato que serve, por assim dizer, de instru mento a graca («é mediante a fé...», diz S. Paulo no v. 8). Em última análise, porém, verifica-se que estes dois elementos, a graga e a fé, ambos sao dons de Deus; sim, Sao Paulo visa subtrair as fórcas naturais do homem o que se refere á própria conversáo: «isso nao provém de vos, mas é dom de Deus; nao é o efeito das vossas obras, para que ninguém se glorie» (Ef 2,8s). leseado neste texto, o Concilio regional de Orange (Gália) em 529 declarou que já a conversáo ou o «initium fideb ó efeito da graga divina, e nao de pretensos merecimentos do convertido (cf. Denzinger, Enchiridion 178). Sim; anterior mente a conversáo, o pecador está morto em conseqüéncia das suas faltas, sendo por isto táo incapaz de merecer quanto um
morto é incapaz de se mover.

3. Conludo deve-se notar que a S. Escritura (e, com ela, o Apostólo) nao nega todo valor as obras boas que o pecador possa praticar: embora estas nao Ihe meregam a conversáo, encaminham-no para a Verdade e para Deus.
centuriao pagáo Cornélio com a sua conversáo:

É por isto que Sao Pedro relaciona as oragóes e as esmolas do

«Cornélio, tua oracáo íoi atendida e tuas esmolas foram recor dadas diante de Deus... Em qualquer nacáo, é-lhe agradável aquele que O teme e pratica a justica» (At 10,31.35).

religioso muito férvido:

Sao Paulo, por sua vez, ao anunciar o verdadeiro Deus aos ate nienses, diz que estes O ad.Tam sem O conhecer, dado o sea senso

— 343 —

«Atenienses, vejo em tudo que sois os mais religiosos dos homens. Passando pela vossa cidade e observando os vossos monumentos sagrados, encontrei mesmo um altar com a inscricáo «Ao Deus desconhecido». Ora o que vos adoráis sem conhecer, eu vo-Lo anuncio» (At 17,23s). nao sejam motivo de mérito, constituem remota preparagáo para a conversáo do pagáo ou do pecador.

Donde se vé que as boas obras anteriores k conversáo, embora

4.

Quanto a salvagáo outorgada por Deus,

Sao Paulo

em Ef 2,8 a menciona mediante um verbo no tempo de perfeito: éste sesosménoi, em grego. Ora o perfeito grego significa urna agáo que, iniciada no passado, aínda se vai processando no presente. É realmente esta a Índole da salvagáo que o pecador recebe quando se converte pela primeira vez a Cristo: trata-se de um germen de vida eterna que tende a se desabrochar lenta mente no decorrer desta vida, podendo, porém, ser sufocado pela infidelidade da criatura. Éste caráter germinal da salvagáo na vida presente faz que Sao Paulo a ela se refira ora em termos de pretérito, ora em termos de futuro, ora em termos de pretérito e futuro simultáneamente. Sim,
a) ... ora em termos de pretérito (a salvagáo já foi iniciada e, segundo a reta ordem das coisas, deverá chegar á sua plenitude);

deleites... Mas, quando apareceu a bondade do Salvador nosso Deus..., nao por obras de justica que tivéssemos íeito, mas segundo a sua misericordia, salvou-nos pelo batismo de regeneracao e renovagao do Espirito Santo... para que, justificados pela sua graga, sajamos herdeiros, segundo a esperanca, da vida eterna». Seja licito notar a respeito da última frase déste texto: o dom de Deus funda a esperanca apenas, e nao a certeza da vida eterna. b) ... ora em termos de futuro (o que bem se en tende pelo fato de que a gloria celeste ainda está para ser alcancada). Cf. Rom 5,10: «Se, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, com muito mais razáo, depois de reconciliados, seremos

cf. Tit 3,3-7: «Éramos insensatos,... escravos de varias paixdes e

salvos por sua vida».

c) ... ora em termos de pretérito e futuro simultáneamente. Cf. Rom 8,24: «Na esperanca é que fomos salvos». Sim; o cristáo aquí na térra vive essencialmente do passado e continuamente em demanda do futuro; o pretérito e o porvir caracterizam simultáneamente cada instante do discípulo de Cristo.

2.

Fé e obras após a conversáo para Cristo

1. Depois de haver descrito em termos muito vivos o que era (e é) o homem anteriormente a Cristo, o Apostólo inculca o que ele vem a ser depois da conversáo. É nova criatura (cf. 2 Cor 5,7; Ef 2,10; Gal 6,15; Tit 3,5), pois recebe novo principio de vida — a graca santificante. Em conseqüéncia, o cristáo pode e deve produzir obras correspondentes a ésse novo
— 344 —

estado de coisas — obras que sao o fruto da grasa néle exis tente (cf. Gal 5,22). Sao Paulo chega mesmo a dizer que a vocagáo normal do discípulo de Cristo é a de caminhar pela senda das boas obras: «Somos feitura d'Éle (Deus), pois fomos criados em Cristo Jesús em vista das obras que Deus preparou de antemáo para que as pratiquemos» (Ef 2,10) (1). A expressáo «boas obras que Deus preparou de antemáo» merece nossa atengáo. Significa enfáticamente que o homem, mesmo depois de convertido a Cristo, por si nada poderia fazer em vista da salvagáo eterna; qualquer obra boa que ele efetue, vem a ser fruto da graca oferecida ao homem e por éste aceita; Deus se antecipa ao homem mesmo na producáo das boas obras após a conversáo. Acontece, porém, que, embora se antecipe, o Senhor nao deixa de solicitar a aquiescencia e a üvre colaboraCáo da criatura com a graca. Um dos maiores infortunios que possam ocorrer a um cristáo, seria, como diz Sao Paulo, o de «receber a graca de Deus em váo» (2 Cor 6,1). Dando, porém, seu consentimento á graca e movendo-se com o auxilio desta, o cristáo se torna verdadeiro autor de suas boas obras, de sorte que pode adquirir algum título a ser recompensado por Deus no dia do juízo. É o próprio Jesús quem afirma:
«O Filho do homem há de vir na gloria de seu Pai com os seus anjos, e entáo dará a cada um a retribuicáo conforme as suas obras»
(Mt 16.27).

2. Mediante as boas obras produzidas com a graca do céu, o cristáo, que é um íilho de Deus (cf. Rom 8,14), torna-se herdeiro do
Jesús, alias) inculca freqüentemente a correlagao que existe entre as obras do cristáo nesta vida e a sua sorte postuma... Observemos em particular o seguinte texto: «Agora, libertados do pecado e feitos escravos de Deus, tendes

Pai Celeste e co-herdeiro de Cristo (cf. Rom 8,17). Sao Paulo (como

como fruto a santlíicagáo e como fim a vida eterna. O sóido do pecado é a morte, ao passo que o dom de Deus é a vida eterna em Cristo Jesús

fazemos nesta vida e o que comeremos na eternidade. Mas nao sómente isto... Sao Paulo em tal passagem concebe a existencia do cristáo na térra como um servico militar prestado ou a Deus ou ao pecado. Ora o sóido (opsonia, em grego) que, conforme o Apostólo, o pecado paga a seus militantes, é a morte, a morte eterna; esta é a partilha que, a titulo de estrita justiga ou de salario, compete aqueles que (1) Transcrevemos aqui mais dois textos do Apostólo a incutir

Nosso Senhor» (Rom 6,22s). Estas palavras incutem, sim, a proporcáo existente entre o que

a mesma dou trina:

«Esta é urna verdade infallvel. e quero que a afirmes, para que procurem avantajar-se em boas obras aqueles que créem em Deus» (Tit 3,8); «E aprendam todos os nossos a ser os primeiros em boas, obras
para atender as necessidades urgentes; do contrario, seráo infrutuosos> (Tit 3,14).

— 345 —

praticam o mal. Quanto á vida eterna. Sao Paulo nao a aprésenla como um sóido, mas como um dom (chárisma, em grego) que Deus outorga a seus fiéis. — A diversidade de termos (salario, de um lado; dom, favor gratuito, de outro lado) é intencional da parte de Sao Paulo; já S. Agostinho no séc. V a observava. Empregando a palavra «dom (chftrisma)», o Apostólo quería significar que Deus nao concede a vida eterna a seus filhos como quem paga urna divida, nao. A rigor,

o Senhor nada deve á criatura; os próprios títulos ou méritos que o cristáo possa adquirir para ser recompensado na eternidade, sao obtidos por influencia da graca ou mediante previo dom de Deus.
cristáo conserva-se livre para aceitar ou recusar o dom de Deus; caso o aceite, éle age realmente de modo a poder merecer recompensa; S. Agostinho exprimía muito bem esta verdade dizendo que a vida eterna também pode ser tida como um sóido, sóido, porém, pago á justica de Deus existente no homem (é, sim, justica que provém de Deus e que o homem apropria a si mesmo).

Disto, porétn, nao seria lícito concluir que o homem se comporta de modo meramente passivo sob a agáo da graca; na verdade o

mérito... possa ser o efeito de nossos esforcos apenas. É Deus quem, depois de haver colocado em nossas máos o poder de merecer, nos excita e ajuda a fazer uso do mesmo... Isto nao impede que o mérito seja nosso e nos proporcione um verdadeiro direito junto a Deus»
(F. Prat. La théologie de St. Paúl, 10a. ed. 1925, 456).

«Falsificaría o pensamento de Sao Paulo quem supusesse que o

3.

Em conclusáo: verifica-se que o conceito de «mériío,>

ou «direito á recompensa eterna» está bem no ámago da niensagem do Novo Testamento: pelas boas obras o homem é capaz de merecer nao a conversáo do pecado para a graga (esta prescinde de obras anteriores), mas a passagem da graga

santificante característica desta vida para a gloria própria da eternidade; deve-se mesmo dizer, conforme S. Paulo, que, se

o cristáo nao coopera com o dom de Deus, produzindo boas obras, a graca da conversáo fica estéril e nao desabrocha na gloria celeste. — De outro lado, porém, é preciso notar que os méritos ou os títulos de justiga que o homem possa adquirir em vista da bsm-aventuranca eterna sao ssmpre antecipados pelo dom do Redentor (scm a graca de Cristo a criatura ruidu
consegue fazer; cf. Jo 15,5), de tal modo que se pode afirmar com S. Agostinho que Deus «no homem justo coroa os seus próprios méritos (isto é, os méritos do próprio Deus)». . .

Tal no;-áo de mérito em nada derroga ao primado absoluto de Cristo e da graga; por conseguinte, nao suscitará escrúpulos dos irmáos «evangélicos». De resto, tais irmáos, na prática, nao valorizam as boas obras menos do que os católicos; nao seria

boas obras?

isto indicio de que, em última análise, também nao pensam muito diversamente dos católicos no que concerne á fé e as
— 346 —

de há muito convertidos, mas tendentes a cair na frouxidáo espiritual; a tais leitores, está claro que Tiago devia inculcar a necessidade das boas obras ou de urna conduta de vida que fósse profissáo de fé prática, traduzida pela caridade. Isto, porém, nao implica que um Apostólo haja negado a posicáo do outro; trata-se apenas de dois modos, diversos e complementares, de considerar o tema da justiíicagáo. A respeito da fé e das obras segundo o Protestantismo, veja «P. R.» 17/1959, qu. 4; 8/1958, qu. 3; sobre a possibilidade de se perder
a salvacáo outorgada por Deus, cf. «P. R.» 3/1958, qu. 6.

A aparente divergencia entre S. Paulo, que mais acentúa o papel da íé, e S. Tiago, que inculca principalmente as obras, explica-se plenamente pelo íato de que S. Paulo, como dissemos, tem em vista a primeira conversSo ou a passagem do estado de pecado para o de graca, ao passo que S. Tiago escreve para um grupo de cristáos já

IV.

HISTORIA DO CRISTIANISMO

TERCEIKO (Niterói):

pela Inquisicao?

7)

«Que dizer da condenacao de Giordano Bruno (f 1600)

entravou o progresso das ciencias até época recente?»

Nao sera éste caso um exentólo frisante de que a Igreja

de mente» da Igreja. É essa situacao que vamos agora considerar, localizando primeiramente a vida e a personalidade do citado varáo,
refletindo, a seguir, sobre a atitude da Igreja frente ao mesmo.

Giordano Bruno, filósofo do séc. XVI, é um dos personagens que a critica liberal costuma apresentar como vítima da «estreiteza

1.

As vicissitudes de Giordano Bruno

1. Filippo (tal era o nome de batismo de quem na vida domini cana se chamarla Giordano Bruno) nasceu em Ñola (reino de Ñapóles) em 1548. Recebeu educagáo e instrucao de escol. facilitadas pelos dotes de imaginacáo ardente e de aplicacáo ao estudo que caracterizavam o menino. Aos 14 ou 15 anos entrou na Ordem Dominicana, onde professou a vida religiosa, sendo ordenado em 1572.
Já aos 18 anas de idade, como ele mesmo confessou aos seus juízcs, sofreu as primeiras dúvidas de fé. Isto so explica polas circuns

principalmente do neoplatonismo (sistema panteista ou monista, pois concebe o mundo como emanacáo ou continuacao da substancia mesma de Deus). Os ensaios de tal fusáo, a presentados geralmente em estilo elegante, fascinavam nao poucos estudiosos da época, chegando a contaminar Giordano Bruno. Éste, no convento mesmo, se inclinava a interpretacSes racionalistas dos dogmas cristáos: o Filho (ou a segunda Pessoa da Ssma. Trindade) seria apenas «o intelecto do Pai»:

tancias da época: os filósofos humanistas dos séc. XV/XVI tendiam a fundir com o Cristianismo as dou trinas da antiga filosofía paga,

o Espirito Santo seria «a alma e o amor do universo». A Divindade de Cristo lhe aparecia como titulo meramente metafórico para designar a extraordinaria assisténcia outorgada por Deus ao homem Jesús. De modo geral, passou a conceber a Religláo e suas manifestacoes como símbolos de verdades intelectuais, adaptadas á mentalidade

— 347 —

ignorante do vulgo e possu¡dores apenas de valor prático (ou seja, do valor de disciplinar os costumes da massa humana).

nao tardou a se incompatibilizar com os mestres calvinistas, que o processaram (15S0>. Recomecou entüo sua vida errante pela Franca,

Em conseqüéncia, abriu-se em Ñapóles um processo de heresia contra Giordano. Éste íugiu para Roma e, tendo abandonado o hábito religioso, pós-/.e a vaguear pela Italia e a Franga, indo finalmente fixar-se por algum tempo em Genebra (Suica), onde o Calvinismo tinha sua sede principal. Havendo aderido a esta denominagao religiosa, a Inglaterra, a Alemanha a Boémia. a Suiga. Deteve-se, por fim, na república de Veneza (1592)... As idéias que disseminara e as nume rosas obras que cscrevera nesses anos, eram cada vez mais estranhas; pode-se dizer que algumas já nao tinham caráter própriamente filosó fico, mas índole marcadamente íantasista e satirica.

O mais famoso dos escritos de G. Bruno é o diálogo intitulado «Spaccio della Bestia trionfante» (A expulsáo da bésta triunfadora), Paris 1584. Apresenta urna coméd'.a mitológica o zombeteira de signi ficado ambiguo: Júpiter, irritado no Olimpo por ver negligenciado o

seu culto, intima a comparecer di ante de si as 48 conste] agoes do céu, entre as quais deseja implantar urna reforma; o Deus Momo entáo lhe faz ver que o lamentável descaso provém de que foram dados aos astros os nomes dos deuses — désses deuses escandalosos que por suas aventuras se tornaram objeto do deprézo dos próprios

mortais; em conseqüéncia, sugere Momo sejam tais apelativos subs

tituidos por nomes de virtudes... — Pergunta-se: como se definirla a mentalidade do autor de tal peca? Quanto aos tratados cujo tema é própriamente filosófico, propSem

todos urna ideología panteísta assaz confusa, segundo a qual Deus é a ménade inicial que entra na composigáo de qualquer ser visível; a substancia dos corpos é imperecivel e nao difere da dos espíritos; a materia e o espago sao infinitos, como a própria esséncia divina. As almas podem emigrar de um corpo para outro, até para outro mundo; a mesma alma é capaz de habitar simultáneamente em dois corpos. O mundo existe desde toda a eternidade. Os comentarios bíblicos de Giordano Bruno também sao inspira dos pela imaginagáo mais do que pela exegese objetiva: sómente os hebreus seriam descendentes de Adao e Eva; os outros homens teráo nascido de outro casal, anteriormente criado por Deus. Moisés haveria concebido por si só o Decálogo; teria realizado seus milagres por meio da mag'a (aplicagáo de receitas reservadas aos iniciados), coisa boa e licita. Cristo mosmo nao haveria sido mais do que um mago de importancia considcrávcl.

Em Veneza, o Grao-Duque Giovanni Mocenigo muito desejava aprender com Bruno a arte de utilizar sabiamente a memoria (arte que, no pensamento de Giordano B., estava muito ligada com a magia).
Contudo nao conseguiu tolerar as afirmacSes antirreligiosas do mestre, que Mocenigo acabou denunciando ao Sto. Oficio como hereje. Iniciou-se, por conseguinte, era 1592 novo processo contra Bruno, processo que as autoridades eclesiásticas de Roma quiseram orientar dlretamente. Giordano foi entáo enviado para Roma em 1593; a causa foi sendo julgada com vagar, pois Bruno, embora professasse submissáo aos poderes eclesiásticos, se recusava sorrateiramente a retratar alguma de suas afirmagóes antigás; foram-lhe apresentadas oito proposigdes extraídas de seus escritos e portadoras de heresias teológicas (nao se tratava de ciencias naturais, no caso). Bruno, depois de muito protelar a resposta, negou-se formalmente a reconhecer os erros

— 348 —

teológicos; nao sabia o que haveria de retratar... Em conseqüéncia, após tres anos de espera, a Inquisicáo resolveu proceder decisivamente: Giordano Bruno íoi declarado transgressor dos seus votos monásticos

e apóstata da fé; de acordó entáo com a jurisprudencia vigente, os

inquisidores o entregaram ao braco secular, isto é, ao Governador de Roma, para que lhe aplicasse a pena devida; ora esta, no caso de
um hereje renitente, era a morte pelo íogo. Depois

os juizcs aínda eoncederam oíto días a G'ordano Bruno para que se reabilitasse; em váo. porém. Aínda por ocasiáo da execucjio no Campo dei Fiori (Roma), Bruno rejeitou o crucilixo que lhe apresentavam. Assim encerrou ele os seus dias aos 17 de fevereiro de 1600. 2. Por todo o século XVII o nome de Giordano Bruno era rara mente mencionado na galería dos homens doutos da historia (Keppler, tl630, porém, a ele se refería ao tratar da pluralidade de mundos habitados).

de sentenciado,

liano, foi o filósofo Jacobi (tl818), com as suas «Cartas sobre a doutrina de Spinoza». ñas quais G. Bruno é apresentado como imediato precursor do panteísmo do pensador judeu Baruch Spinoza (tl677). — Por sua vez, Schelling (tl854) e Hegel (tl831) muito honraram a Bruno como arauto inicial do seu sistema idealista (que é panteismo-monismo). Por incrivel que pareca. também o positivismo (doutrina que rejeita a metafísica ou a especulagio em torno de objetos invisiveis) enalteceu Giordano Bruno, tendo em vista o naturalismo (recusa do sobrenatural) professado pelo ex-dom:nicano. Nesse concha ve nao faltaram nem sequer os políticos do século passado; com da esquerda tomaram Giordano espirito anticlerical e macón.

Do séc. XVIII em dianto é que Bruno se tornou famoso, princi palmente entre os livres pensadores, dos quais foi tido como precursor e mártir. Quem contribuiu decisivamente para exaltar o mestre ita

efeito, os nacionalistas do

«Risorgimento» italiano e os demócratas
Bruno como vanguardeiro do seu

Hoje em dia nao é tanto por suas doutrinas muito subjetivas a fantasistas que Bruno goza de alguma fama, mas é, sim, pelo seu espirito de revolta contra as instituicñes cristas tradicionais. Urna vez enunciados estes elementos de historia, pergunta-se: que
pensar sobre o caso?

2.

Um juízo sobre a historia narrada

Procuraremos avaliar o significado do episodio de G. Bruno, dosenvolvendo tres observacóes:

1) A condenagáo do ex-frade por parte das autoridades eclesiásticas constituí mais urna das facetas da historia da Inquisicao. Ora a Inquisigáo é fenómeno típico da mentalidade medieval, mentalidade que certamente nao é a do homem moderno e que, por isto, táo dific.lmente hoje cm dia é recons tituida e compreendida.
Já foram propostas em «P. R.» as grandes idéias que, aos olhos do cristáo medieval, norteavam e legitimavam a Inquisicao; tenham-se em vista os fascículos «P.R.» 8/1957, qu. 9 (a historia e o espirito da Inquisigáo);
«P. R.> 4/1958, qu. 12 (o processo de Galileu);

— 349 —

<P. R.» 8/1958, qu. 9 (o processo de S. Joana d'Arc);

• P. R.» 16/1959, qu. 7 (o processo dos Templarios) Resumiremos aqui o principal do que ja foi dito nos fascículos citados.

Para o homem medieval, era indiscutivel o principio de que o bem da alma mais vale do que os bens do corpo. O cidadáo, na Idade Media, tinha consciéncia de que a alma existe, e a esta dava o lugar devido — lugar de primazia sobre o corpo. Disto se segué que tudo que dizia respeito á salvacáo da alma, na Idade Media, assumia importancia capital; ora, entre os bens referentes á salvagáo da alma, contava-se (e conta-se) a verdadeira fé; a perversáo do credo, portanto, mediante a heresia era tida como mal gravissimo.

Habituado a esta maneira de apreciar as coisas, o medieval assim raciocinava: se a jurisprudencia da época julga réu de morte o criminoso que p5e em perigo a vida do corpo de seu semelhante, muito mais deverá ser considerado réu de morte o hereje, que, contaminando a verdade (da qual se nutre a vida da alma), póe em perigo a alma de seu próximo. — Déste raciocinio o medieval, com a consciéncia tranquila, concluia nao sonriente ser lícito, mas até necessário, eliminar da sociedade os cidadáos cuja obstinacáo na heresia constituisse evidente perigo de deterioragáo da verdade revelada por Deus.
A tal cidadáo — isto é muito importante — nunca era recusada a reconciliagáo com Deus mediante os sacramentos da Confissáo e da Comunháo; ora, absolvido sacramentalmente antes de sofrer a morte física, o réu poderia perfeitamente salvar a sua própria alma e ir para o céu (éste é o único objeto que um juiz jamáis poderia licitamente recusar ao réu;
quanto a urna prolongada permanencia neste mundo, sabemos que ela nem sempre é vantajosa para o homem!).

Note-se outrossim que, ao raciocinar de maneira táo irla, o medieval seguía urna das tendencias marcantes da época — tendencia a se guiar muito mais.pelo rigor da lógica do que pela ternura do sentlmento. O homem moderno, ao contrario, é menos propenso ao raciocinio rígido e mais inclinado a se nortear pelo sentimento ou pela afetlvidade impulsiva e incoerente (hoje em día os homens nao acreditam muito em principios perenes, tendendo, antes, a tudo julgar segundo criterios relativos e subjetivistas). Sendo a Índole dos medievals mais especulativa e lógica, nao nos surpreenderemos pela rudez com que aíirmavam e defendiam a escala dos valores que se oíerecem
ao homem aqui na térra.

De resto, a fé era algo de táo vivo e espontáneo na Idade Media que difícilmente se admitiría viesse alguém a negar com boas intencoes um só dos artigos do credo.

— 350 —

2) A mentalidade que inspirou a Inquisigáo, longe de arrefecer no séc. XVI, foi ainda agucada em virtude da cha
mada «Renascenca» dos séc. XV/XVI.
Com efeito, nessa época as ciencias naturais progrediram grande

mente, seguindo novos métodos de trabalho, que lhes proporcionaram descobertas de notável relevo. O homem de ciencia assim tendia a julgar-se cada vez mais emancipado de qualquer autoridade (inclusive da fé). A «vertigem da inteligencia» ia-se apoderando de alguns pensadores que de maneira mais ou menos confessada chegavam a lancar um brado de morte a Deus (tal íoi o caso, por exemplo, de Campanella, 1568-1639). Em urna palavra: urna onda de ateísmo reves tido da capa de ciencia alastrou-se capciosamente por círculos de estu diosos do séc. XVI.

Em conseqüéncia, as autoridades eclesiásticas, ciosas de conservar o patrimonio da verdade, se sentiram, a novo título,

bem coletivo, ou seja, o patrimonio da fé (que é fonte de vida espiritual) corría perigo! É o que explica o fato de que Giordano Bruno, professando urna filosofía paga revestida ora de termos de ciencias naturais, ora de termos de teología crista, tenha provocado contra si a agáo dos Inquisidores.
3) De resto, independentemente mesmo do caso de Giordano Bruno, nunca será demasiado inculcar a distincao a se fazer entre a Igreja como tal e estes ou aqueles de seus fIlhos, por mais graduados que sejam. Freqüentemente no decorrer da historia o procedimerto dos inquisidores destoou das normas oficiáis da Igreja e foi objeto
de reprovacáo por parte dos Papas.

era Giordano Bruno, se mostrasse arauto da nova mentalidade, aos juízes eclesiásticos devia parecer lógico que nao lhe poderiam permitir a propagagáo das suas idéias dissolventes; o

estimuladas á vigilancia: desde que um filho da Igreja, como

Quanto á tese de que a Sta. Igreja se tenha oposto ao progresso da ciencia nos séculos passados, já foi analisada em «P. R.» 5/1958, qu. 10; 29/1959, qu. 6.

CORRESPONDENCIA MIÜDA
PERTURBADO : É difícil instituir comparagáo entre as virtudes. Cada qual tem sua grandeza e seu brilho peculiares ; em última análise, todas sao solidarias entre si, de modo que o progresso de urna virtude implica naturalmente no desenvolvimento das demais. Normalmente, nenhuma virtude cresce sem que as restantes com ela cresgam. Nao obstante, pode-se observar o seguinte esquema : 1) Se a raíz de todo pecado é a soberba (haja vista a transgressáo de Adáo no paraíso, que foi, em primeira linha, devida ao orgulho), o fundamento de toda vida virtuosa é a humildade. É a presenta desta que faz que os hábitos bons de urna pessoa sejam motivos de louvor a Deus e enobrecimento do individuo, em vez de serem razóes de vá com placencia ou de endeusamento do próprio "eu" (o que equivale a dizer:... motivos de desfigurado do individuo).

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Em particular, a castidade cultivada scm humildadc pode tornar-so ocasiáo de desordem e aberragáo, como parece ter acontecido no caso das Religiosas de "Port-Royal", consideradas por M. de Péréflixe "puras como anjos, orgulhosas como demonios" (cf. "P.R." 31/1960, pág. 303). —• Esta observa?áo, porém, está longe de querer desvirtuar a grandeza da castidade e da virgindade consagradas a Deus. 2) Como virtude de cúpula, criterio supremo de perfeic,áo e santidade, enuncia-se a carídade (cf. Col 3,14). — A caridade, no caso, significa amor a Deus e ao próximo, soja éste "simpático", scja "anti pático" do ponto de vista natural. língua latina entre os fiéis ocidentais nao estáo necessáriamentc ligados entre si. O fato de se acharem simultáneamente em vigor hoje em dia deve-se a fatóres históricos independentes uns dos outros. O amigo leu o histórico do celibato em "P.R." 4/1957, qu. 7 e 7/1957, qu. 7 ; poderá encontrar o histórico do uso do latim na liturgia em "P.R." 5/1957, qu. 3. Em resumo : o celibato do clero representa um valor perene, digjio de toda estima em qualquer época (cf. 1 Cor 7), ao passo que o emprégo

NOVO ASSINANTE (Aracajú): O celibato do clero e o uso da

cunstancias históricas levaram a autoridade eclesiástica a vedar o aban necessem. Ora estes já váo passando ;
a evolueáo dos tempos.

do latim no culto sagrado é algo de contingente e transitorio. Nunca a Santa Igreja teve a .intengáo premeditada de celebrar o culto em idioma alheio á lingua materna dos fiéis; muito ao contrario... Apenas cir dono do latim no séc. XVI, até que inconvenientes de momento J se esvaem conseqüéncia, tem entrado

cada vez mais o vernáculo nos ritos oficiáis da S. Igreja. Aguardemos MILES CHRISTI (Curitihn): Os ascetas de Qumran (judous) cultivavam o celibato por motivo religioso, sem dúv.ida, ou seja, para melhor se aplicar ao servico de Deus, á vida una, que é antecipacáo da vida
celeste.

do "Plano para ler a Sagrada Escritura": consta de fichas que distribuem os diversos livros da Biblia (á razáo de tres capítulos por dia aproximadamente) para a leitura cotidiana da Escritura Sagrada, de modo que em um ano estoja assegurada a leitura de toda a Biblia (excetuados os Salmos e os Evangelhos, que sao de uso rnuito freqüente). Prejo : Cr$ 30,00. Os pedidos podem ser enviados a qualquer dos dois
endereces abaixo indicados.
D. ESTÉVAO BETTENCOURT O. S. B.

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