Estranhas Entranhas.

Psicanálise e Depressão na Gravidez
Marcia Zucchi

2000

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ZUCCHI, Marcia Aparecida “Estranhas Entranhas. Psicanálise e Depressão na Gravidez.” 1. Psicanálise. 2. Feminino. 3. Gestação 4. Maternidade. 5. Depressão. 6. Transtornos afetivos na gravidez.

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À Rita Leucci Zucchi, minha mãe, pelo amor da vida inteira

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Indice
1. Psicanálise e Depressão na Gravidez.
Apresentação................................................................................................................2 2. As bordas do caminho. Considerações preliminares.........................................................................................16 Porque uma descrição metapsicológica.......................................................................21 Método da pesquisa.....................................................................................................24

3. Sobre um dos nomes da tristeza...
A depressão no campo dos saberes.............................................................................27 Alguns aspectos epistemológicos da conceptualização da depressão.........................28 A organização dos saberes sobre o mental em sistemas classificatórios: implicações clínicas.........................................................................................................................32 Os estudos sobre a depressão na gravidez...................................................................35 Depressão como experiência afetiva...........................................................................38 4. A Metapsicologia da maternidade. Proposições freudianas acerca da sexualidade feminina e da maternidade.................42 O complexo de Édipo feminino em Freud..................................................................45 O estatuto do objeto filho...........................................................................................53

5. À procura da especificidade feminina.
O debate de 20 e a produção de Helene Deutsch........................................................59 As divergências com relação a Freud.........................................................................63 O apoio da função reprodutiva para organização da sexualidade feminina................64 O afeto deprimido na gravidez....................................................................................68 Um narcisismo feminino.............................................................................................70 6. A metapsicologia da melancolia como modelo de compreensão do afeto deprimido. A teoria de Freud........................................................................................................76 Amor e Melancolia: os domínios do objeto...............................................................82 Uma concepção metapsicológica da depressão.........................................................87 Algumas articulações com a depressão na gravidez..................................................91 A dor psíquica, um trabalho de objeto.......................................................................94

7. Estranhas Entranhas.
Um corpo estranho...................................................................................................102 Estranhos afetos........................................................................................................108 Estranhar, uma prática feminina...............................................................................113

8. Considerações finais...........................................................................................119
9. Bibliografia.........................................................................................................123

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Psicanálise e Depressão na Gravidez
Mulher, como te chamas? – Não sei. Quando nasceste, tua origem? – Não sei. Por que cavaste um buraco na terra? – Não sei. Há quanto tempo estas aqui escondida? – Não sei. Por que mordeste o meu anular? - Não sei. Sabes, não te faremos mal nenhum. – Não sei. De que lado estás? – Não sei. É tempo de guerra, tens de escolher. – Não sei. Existe ainda a tua aldeia? – Não sei. E estas crianças, são tuas? – Sim. Wislawa Szymborka1

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SZYMBORKA , “Vietnã”, publicado no Jornal do Brasil de 4 de outubro de 1996. A autora recebeu o Prêmio Nobel da Literatura em 1996.

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Apresentação Ao enunciar o tema deste livro – a depressão na gravidez – tanto no ambiente acadêmico como fora dele a reação foi sempre de embaraço, como se aos meus interlocutores tal tema desconcertasse. Importante ressaltar que esta reação foi muito acentuada nas mulheres. Inicialmente reagiam manifestando um misto de espanto e curiosidade, para em seguida demonstrarem uma “familiaridade aliviada”. Este alívio parecia se dever à possibilidade de delineamento ou contorno de uma experiência vivida, ainda que tal nomeação carecesse de precisão. Chamar de depressão o entristecimento que ronda a gravidez, embora soasse estranho, seria melhor do que o silêncio que, em geral, permeia esta experiência. Concluí que a ligação entre depressão e gravidez despertava, então, algo simultaneamente familiar e estranho - Unheimlich2 - a associação dos termos sendo possivel, perfeitamente cabível Cabe perguntar se tal estranheza se explicaria exclusivamente pela pressão cultural em direção a uma “felicidade na maternidade” como único modo possível da mulher viver a gravidez quando desejada. Modo esse que impediria não só a expressão, mas o próprio reconhecimento de qualquer sentimento oposto. Tomei esta hipótese como um fato pois, ainda que não universalizável, é um dado constatável ao nível do senso comum. Uma pesquisa com maior grau de detalhamento quanto a esta questão seria pertinente ao campo sociológico, fugindo ao âmbito deste livro. Além disso, não seria coerente com as suposições psicanalíticas atribuir-se valor de determinação exclusiva a um fator externo à subjetividade. Permanece, então, a questão: quais seriam os fatores subjetivos determinantes desse estranhamento vivenciado, muitas vezes, com o afeto da tristeza, podendo chegar até a depressão? Na perspectiva das mulheres que engravidam desejando estas gravidezes, a estranheza estaria relacionada ao filho ou às proprias mulheres? Se a estas últimas, qual o eixo ou o núcleo da estranheza, a “identidade materna” ou a “identidade feminina”? A identificação ao papel materno é uma via “normal” do feminino ou sua construção exige algum trabalho específico mas não

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Das Unheimliche, termo alemão utilizado por Freud no título de sua obra de 1919, referente à experiência de estranhamento, onde algo aparece simultanêamente como íntimo e profundamente estranho, por efeito de recalque.

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do aparelho psíquico? Qual o estatuto do objeto filho, durante a gravidez? Como este é incluído, assimilado, “incorporado”, no eu da gestante? O encaminhamento de possíveis respostas a estas questões requer que se contextualize, de modo metapsicológico, tanto a maternidade – corolário psíquico da gestação desejada -, quanto a depressão – nomeação sob a qual reuniu-se um conjunto de experiências subjetivas perpassadas pela tristeza.

A maternidade tem um aspecto enigmático que ora a tem feito participar do sacro, ora a torna objeto de atenção científica, além de ser constantemente abordada pelas linguagens artísticas. Seja no âmbito do relato jornalístico, na

poesia, na construção mítica, ou na ciência, a experiência humana da procriação, especialmente a vertente da relação entre a mulher e seu filho, é sempre descrita como um precipitado extremo de paixões. Alguns exemplos permitem que se o constate. O exemplo em epígrafe é um deles. Vivendo uma situação limite, a

guerra, a mulher em questão perdeu todas suas referências identitárias. Sabe, apenas, de sua condição de mãe. Sabe, somente, que aqueles são seus filhos. Nada mais. Este é o único saber que a referencia. Há um apontamento, pela autora do poema, no sentido da perenidade e força deste vínculo, enquanto ancoradouro subjetivo para mulher. Roberto Pompeu de Toledo, num Ensaio escrito à revista Veja de 5 de agosto de 98, apresenta a confrontação de duas situações extremas, vividas por mulheres, onde, em cada uma delas, o leitor é tomado por uma fina e aguda sensação de divisão entre o espanto e a amarga ternura. Compara as histórias de Christine Malèvre e Roberta Magnani, apresentadas pela imprensa em 98: a primeira, autora de uma série de assassinatos a idosos em estado terminal; a segunda, uma mulher que após conseguir realizar o sonho de uma gravidez se descobre com câncer e abre mão do tratamento e da vida para que a criança nasça. Histórias passadas em contextos culturais bastante diferentes, uma numa região próxima a Paris, a outra no norte da Itália. Uma, a história de uma enfermeira, a outra, a de uma funcionária pública. Ambas guardando uma relação de profunda intimidade com o extremo, com o limite, com a lei, mas também com um além dela. Ambas protagonizadas por mulheres. O estilo do autor, elegante, sensível, contribui muito para evocar os sentimentos descritos acima. Há, porém, algo que ultrapassa as questões estilísticas

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e parece advir das realidades descritas. Não que sejam mártires ou heroínas, muito ao contrário, as condutas dessas mulheres não deixam de ter um aspecto “reacionário”, como lembra o autor, pois decidem, de modo solitário, sobre a vida e a morte de outrem, caracterizando um arbítrio, se não um certo “delírio” onipotente. Há, porém, algo de semelhante entre essas duas situações, talvez a pungência que evocam, a coragem que implicam, certamente o caráter afetivamente extremo que portam. As duas histórias têm a ver com sofrimento físico e morte. Uma delas tem a ver com nascimento. Na soma, cobrem os dois extremos da vida, o nascimento e a morte. Não é por acaso que são protagonizadas por mulheres.(...)Roberta e Christine têm em comum, no entanto, algo de nobremente arquetípico. Suas histórias são histórias de mulheres em estado visceral, colocadas num extremo, muito delas, de paixão e compaixão. São histórias de mulheres. (TOLEDO, 1998: 162).

As produções acadêmicas de diferentes áreas retratam, também, a pluralidade de aspectos que envolve a mulher e a maternidade. Num estudo relativo a representações mitológicas da maternidade, CHEVALIER e GHEERBRANT, apontam como as grandes deusas mãe, foram também deusas da fertilidade, simbolizando, entretanto, a ambivalência entre a vida e a morte: para os gregos, Gaia, Réia, Hera, Deméter, dentre outras; entre os egípcios e nas religiões helenísticas, Ísis; para os assírios-babilônicos, Istar; Astart para os fenícios e Kali entre os hindus (1988: 580). Os autores discutem as várias vertentes da figura simbólica da mãe tanto no cristianismo, como nas religiões célticas, e em algumas religiões orientais. No caso do cristianismo, por exemplo, afirmam que a simultaneidade da condição da Virgem Maria de mãe e filha de Deus, atesta sua dupla vinculação, humana e divina. Além disso, o dogma em torno da virgindade de Maria reveste sua maternidade com um duplo contorno: factual (histórico) e simbólico. Já nas artes e religiões indianas as deusas são estritamente símbolos, porém, também, com aspectos ambivalentes como no caso de Kali com sua aparência hedionda, considerada a Mãe Divina e representando, de modo concomitante, a criação, a manutenção e a destruição. Ainda nas religiões célticas a mulher desempenha simultaneamente o papel de “mensageira Outro Mundo”, e de “divindade guerreira” (1988: 581).

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Em diferentes expressões simbólicas, especialmente naquelas oriundas das culturas antigas, há uma associação entre a Mãe, a Terra e a Água, claramente vinculada aos enigmas em torno das origens e dos destinos, seja do homem, seja do cosmo. Na modernidade, no entanto, as associações da identidade feminina aos fenômenos “naturais”, especialmente às ocorrências do corpo como a reprodução, têm sido duramente criticada pelos estudiosos das questões de gênero3, dado o caráter de exclusão da subjetividade da mulher que uma concepção essencialista da maternidade pode sugerir. É sabido que o sentimento da maternidade é construído na história da cultura ocidental (BADINTER, 1981). Mesmo sendo a “chave do estatus feminino em cada época histórica, a maternidade não é um fato biológico inalterável cuja consideração possa isolar-se das transformações sociais.” (IRIARTE, 1996: 77)4. Os significados sociais que a gravidez e a maternidade podem assumir, diferem no tempo e espaço, caracterizando, assim, uma especificidade cultural. Mesmo o corpo, em sua complexidade biológica e subjetiva - mediatizada pela linguagem -, participa de uma realidade historicizável. As manifestações humanas nas diferentes expressões semióticas atestam a diversidade das concepções de corpo na história da humanidade.

Num interessante estudo antropológico acerca do papel e do valor da maternidade na democracia da Grécia antiga, IRIARTE (1996) busca demonstrar, através das personagens das tragédias gregas, o papel que a maternidade ocupa na sustentação da organização social patrilinear. De algumas das tragédias, a autora deduz um desejo masculino de apropriação das funções reprodutivas femininas e apoia aí sua tese de que o enaltecimento da reprodução não corresponde à valorização da mulher como cidadã. Em suas próprias palavras: Do ponto de vista do estatus feminino, a relevância que, em nome da paternidade, o discurso político dá à função reprodutora, constitui uma faca de dois gumes, pois se a intervenção da mulher – concretamente, da mulher-mãe – se reconhece explicitamente como imprescindível para definir a

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Esta não é uma posição hegemônica. Sobre isto ver, por exemplo, Camille PAGLIA (1992) em Personas Sexuais. Arte e Decadência de Nefertite a Emily Dickinson. 3 Tradução da autora.

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empresa política, este reconhecimento implicará um maior controle da esposa legítima. (IRIARTE, 1996: 78)5 A autora demonstra que embora a maternidade fosse revestida de caráter cívico pois gerava cidadãos para pólis, embora lhe fosse atribuído um estatuto heróico tanto pelos sofrimentos implicados no parto (as dores, o risco de morte), como pela entrega dos filhos à cidade e à guerra (em Esparta, por exemplo, a maternidade era equivalente à experiência bélica), estas representações tão valorativas da maternidade não garantiam o direito civil das mulheres em relação a seus filhos. Este anseio feminino era vivido como ameaçador à ordem social e política na democracia patriarcal da Grécia antiga. Poder-se-ia considerar que frente à potência natural da mulher, expressa em sua capacidade geradora, a organização social (patrilinear) frespondia retirando-lhe o poder no campo da cidadania.

Uma outra autora, Silvia FINZI (1996), em seu artigo sobre os mitos de origem e suas relações com a construção da identidade feminina, aponta que o caráter enigmático de potência geradora é ponto de enlace dos grandes saberes da antigüidade. Segundo Finzi, estas produções discursivas se orientam no sentido de desvendar e exorcizar poder tão ameaçador. Sem consegui-lo, porém, “como demonstra a persistência de um imaginário monstruoso acerca do corpo e das funções femininas e a reiteração de uma interrogação insistente”6 ( FINZI, 1996: 129). A autora supõe a existência de figuras primordiais que participam tanto do imaginário da cultura como do imaginário individual. A mãe arcaica seria uma delas. Imagem pré-edípica, fantasma de origem que é suposto preceder a experiência individual e humana. Suas representações permanecem enigmáticas tanto nas expressões individuais como culturais por remeter a algo que escapa à possibilidade de transmissão pela linguagem, a linearidade do tempo das narrativas impedindo que se as circunscreva. Partindo da constatação freudiana de que as imagens gozam de privilégios em relação às palavras quanto à censura, Finzi considera que a estatuária pode bem representar a força desta figura da mãe arcaica. Analisa, então, as Matres Matutae, um conjunto de estátuas encontradas em Santa María Capua

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Tradução da autora. Tradução da autora.

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Vetere, região que foi ponto de ligação entre a antiga Etrúria e a Magna Grécia. Tais estátuas, provavelmente construídas entre os séculos VII e IIa.c., representam a maternidade em seus vários aspectos. As mais antigas apresentam uma imponência fria e distante, aparentando algo de imemorial, atemporal: suas vestimentas são apenas esboçadas, o material é aspero, faltam expressões no rosto e gestos; os filhos são pequenos e numerosos, também só esboçados. A autora, bem como os arqueólogos que a elas se dedicam, as descrevem como tendendo ao inorgânico, contendo vida mas sem estarem vivas. Estão esculpidas como se estivessem num trono real, e o trono se confunde com seus corpos. Nas palavras da autora, “nenhuma mulher se identifica a elas porque representam a alteridade nelas mesmas, o radicalmente outro.”7 (FINZI, 1996:142). Arqueólogos consideram que estas figuras representam as grandes deusas da fecundidade, amalgamando em si o corpo e a terra, a vida e a morte. Por outro lado, as estátuas construídas mais recentemente parecem se humanizar. São menores e apresentam gestos e A mulher

expressões plenos de relação e afetividade, como na amamentação. moderna já encontra

elementos de identificação com estas imagens. A autora

ressalta, porém, que estas últimas perdem um pouco de seu caráter enigmático, em relação às anteriores. O conjunto destas estátuas parece visar um complexo de representações da maternidade, indicando desde o aspecto impessoal e atemporal desta, enquanto origem de vida, até sua expressão singularizada na relação entre uma mãe e seu filho. Segundo Finzi, a importância da análise da maternidade representada nos

mitos, é destacar a questão da origem como vinculada à alteridade.

A maioria dos estudos atuais, que enfatizam o caráter histórico da maternidade e sua procedência como resultado de operações simbólicas, visa desconstruir ideais identitários da mulher apoiados na ilusão de uma singularidade sustentada pela experiência da maternidade. Na fuga de uma naturalização opressiva da maternidade e do feminino, corre-se, às vezes, o risco da ideologização do caráter cultural de ambas.

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Tradução da autora.

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A posição que se pretende manter neste livro é a de sustentar a tensão entre os aspectos biológicos e subjetivos da maternidade. Na apresentação que faz a Figuras de mãe, coletânea de textos antropológicos, sociológicos e psicanalíticos referentes à maternidade, Silvia TUBERT descreve a concepção de maternidade sob a qual é construída aquela coletânea e que se aproxima bastante da que se quer como fundamento deste livro: (...) se é reducionista subsumir a feminilidade à categoria da maternidade, também existe a possibilidade da redução oposta, que supõe a separação simples e irredutível de ambas as categorias. O feminino e o maternal mantêm relações lógicas complexas: nem coincidem totalmente nem são completamente dissociáveis. Se a maternidade não se reduz à transmissão de um patrimonio genético senão que se situa no plano da transmissão simbólica da cultura, tampouco se pode negar que o processo biológico da gestação se realiza segundo uma ordem que escapa à vontade da mulher em cujo corpo tem lugar. Se falamos de uma maternidade assumida pela mulher como sujeito desejante, não podemos ignorar que a gestação requer a aceitação de uma posição de passividade frente ao desenvolvimento embrionário e fetal. O exercício da maternidade supõe a articulação do corpo na cultura. A autonomia do sujeito feminino se acha limitada em sua singularidade quando seu corpo passa a ser lugar de origem de outro ser humano; o domínio sobre o próprio corpo – a maternidade voluntariamente escolhida -, se acha por sua vez limitado por ter sido aquele construído como corpo significante pelas práticas e discursos dominantes na sociedade, através da linguagem e dos vínculos sociais.” 8(1996: 11) considera-se que as pressões modeladoras da maternidade, tanto biológicas quanto culturais, sofrerão as marcas distintivas do desejo inconsciente, as quais vão caracterizar a particularidade das experiências subjetivas de cada mulher. Pretende-se, no entanto, manter no horizonte um fio de indecidibilidade, onde essas realidades se tocam.

Camille PAGLIA (1992) num belíssimo ensaio denominado Sexo e Violência ou Natureza e Arte, analisa, dentre outras coisas, o extremo

desenvolvimento da cultura ocidental, o qual considera o resultado da relação

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Tradução da autora.

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agonística entre o masculino e o feminino, e, ali, ao referir-se à relação da mulher com seu corpo afirma: O corpo feminino é uma máquima ctônica, indiferente ao espírito que o habita. (...) O corpo da mulher é um mar sobre o qual atua o movimento lunar das ondas. Indolentes e adormecidos, seus tecidos adiposos encharcamse de água, e depois se enxugam de repente na maré alta hormonal. O edema é nossa recaída de mamífero no vegetal. A gravidez demonstra o caráter determinista da sexualidade da mulher. Toda mulher grávida tem o corpo e o ego tomados por uma força ctônica além de seu controle. (1992: 21-22) Alguns reparos são cabíveis nesta concepção: a máquina ctônica9 sofre sim e também provoca efeitos no espírito que a habita, não lhe sendo, portanto, indiferente. Entretanto, na concepção do feminino que a autora apresenta, a valorização da mulher na cultura não se faz às expensas de sua natureza ctônica, mas numa dialética muito mais complexa entre masculino e feminino cujo resultado é “a distorção da realidade”, distorção esta promovida pela ótica feminina dos fatos. A realidade “ deve ser distorcida; quer dizer, corrigida pela imaginação”, segundo PAGLIA (1992: 23). Tal concepção se aproxima da concepção psicanalítica do feminino que norteia este trabalho. A gravidez, parece ser um ponto de especial exemplificação deste entrincamento, na subjetividade da gestante, entre o ctônico e o cultural.

O objeto cuja pesquisa resultou neste livro é a ocorrência de afeto deprimido em relação à gravidez, que por rigor conceitual e metodológico será abordado dentro dos limites do campo psicanálitico. A posição aqui adotada está em consonância com a concepção de que os efeitos subjetivos da gravidez se inscrevem no trajeto entre os valores imaginários e simbólicos que o filho pode assumir para a mulher. Acredita-se, no entanto, que o real do corpo,

especificamente na gestação, seja um forte propulsor de trabalho psíquico em relação à reconfiguração narcísica que a passagem à condição de mãe exige da mulher, especialmente considerando-se que pode estar em jogo, alí, um possível

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O têrmo ctônico é relativo às entranhas da terra . (PAGLIA,1992:17)

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gozo feminino na maternidade, gozo este que pode ser experimentado como “estranho”.10

Em seu conjunto, este livro se constitui do modo como se descreverá a seguir.

O 2º capítulo trata de questões metodológicas gerais envolvidas no trabalho de pesquisa, especialmente psicanalítica. Discute-se o reducionismo necessário a toda abordagem teórica, especialmente em se tratando de objetos complexos como é o caso da depressão na gravidez. Neste segundo capítulo discute-se tanto os esforços de Freud para manter sua obra no campo da cientificidade, quanto os limites deste

empreendimento. A produção de testemunhas fidedignas que atestem a veracidade da realidade abordada – as manifestações do inconsciente – não se dá, na psicanálise, de um modo que satisfaça os critérios de cientificidade. Entretanto, sua produção conceitual, organizada num corpo metapsicológico, é o instrumento de abordagem do real, que se dá no exercício clínico. Tal instrumento , quando renovado criticamente, permite uma maior eficácia da psicanálise frente às novas realidade clínicas. Além disso, por maiores que sejam as diferenças entre as escolas psicanalíticas, a metapsicologia enquanto organização conceitual própria da(s) psicanálise(s), mantém a possibilidade de distinção entre este campo de saber e os outros, possibilitando sua participação nas produções transdisciplinares.

Através da revisão da literatura psicanalítica em torno dos diferentes temas que envolvem o objeto em pauta, busca-se descrever a depressão na gravidez em termos metapsicológicos, isto é: em termos de operações subjetivas, ou níveis de trabalho do aparelho psíquico, implicados no quadro clínico em questão.

A partir de uma questão proveniente da clínica – como uma gravidez desejada pode ser vivida com afetos depressivos? – analisa- se, no 3º capítulo, a
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Imaginário, Real e Simbólico, são categorias destacadas por Lacan quanto à estruturação do aparato psíquico. Tais categorias definem os planos de operação da subjetividade e seus limites, representados por outra categoria,

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propriedade do têrmo depressão para descrição deste evento clínico. Com este fim, avalia-se seu uso em alguns contextos teóricos subdivididos em duas grandes áreas de abordagem dos fenômenos mentais: as que tem como eixo uma concepção orgânica do mental e as que centralizam suas conceituações no aspecto simbólico do aparato mental. Embora esta classificação possa correr o risco da imprecisão dada sua generalidade, ela parece útil para destacar algumas questões epistemológicas que envolvem o problema da depressão do ponto de vista conceitual, conforme o contexto de uso. Neste capítulo levanta-se, ainda, as principais diferenças entre os estudos epidemiológicos e os psicanalíticos quanto a depressão na gravidez.

Passa-se, então, especificamente, ao campo psicanalítico. O 4º capítulo trata da metapsicologia da maternidade. Busca-se, ali, apresentar como a maternidade se localiza no contexto teórico freudiano. Percorre-se os

desenvolvimentos da teoria de Freud quanto à femininilidade, enfocando as particularidades do complexo de Édipo feminino, em especial as retificações posteriores a 1920. Destaca-se o fato da maternidade inscrever-se, na teoria freudiana, no plano da identidade sexual, isto é, do “ornar-se mulher”, orientada t pela lógica fálica. Procura-se salientar, também, os estatutos que assume o filho enquanto objeto relativo à subjetividade da mãe.

Como a teoria freudiana da sexualidade psíquica se construiu numa certa ênfase de sua modalidade masculina, um efeito imediato, no campo teórico então nascente, foi a busca da especificidade da sexualidade feminina. A década de 20 caracterizou-se pela profusão de produções sobre este tema. No 5o capítulo, tomase as proposições de Helene Deutsch, autora deste período, que se dedicou intensamente ao estudo da sexualidade feminina. Outros autores como Karen Horney, Jones, Brunswick, Lampl de Groot, por exemplo, envolveram-se também com esta temática. Porém, a inclusão de Deutsch nesta pesquisa se deve à ênfase que a autora dá a aspectos como o narcisismo e a maternidade na subjetividade feminina. Além disso, a revisão bibliográfica preliminar nos levou a esta autora como primeira referência à depressão na gravidez interpretada psicanaliticamente. Foi em
a de Gozo. O valor de operadores destes conceitos no escopo deste trabalho se escalrecerá em capítulos

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sua obra que se encontrou um aprofundamento de algumas indicações freudianas quanto ao lugar de ideal de eu que o filho pode ocupar para subjetividade da mãe.

No 6º capítulo discute-se a teoria metapsicológica de Freud, sobre a melancolia, buscando-se extrair dela os elementos conceituais para compreensão do afeto deprimido na gravidez. Parte-se do Rascunho G de 1895, passa-se por Luto e Melancolia de 1915, indo até Inibição, Sintoma e Ansiedade [Angústia] de 1926, destacando-se as permanências e transformações da teoria freudiana sobre o tema. Alguns aspectos da teoria da melancolia são ressaltados, o primeiro deles é a questão da chamada “identificação narcísica ao objeto perdido”, onde se busca compreender como a relação entre o eu e o objeto pode ser de ordem a inibir a diversidade dos comparecimentos simbólicos. O segundo aspecto ressaltado é a dinâmica dos ideais como origem de estados melancólicos e depressivos. Parte-se da teorização sobre a melancolia, proposta por M.C. Lambotte, autora de orientação lacaniana, onde se destacam as proposições quanto ao estádio do espelho na abordagem da melancolia. A autora extrai destas proposições uma particularidade no caso dos melancólicos, a identificação do sujeito ao objeto, porém na sua vertente de resto, ficando o ideal de eu deslocado para os objetos. A ausência de um investimento materno desejante sobre a imagem do filho, responderia por esta identificação. A partir destes elementos teóricos busca-se estabelecer algumas relações com o que ocorre entre a gestante e seu bebê, retomando a indicação de Deutsch quanto ao filho ocupar o lugar de ideal de eu da mãe.

Neste ponto da pesquisa, a questão do objeto toma um valor pregnante. Considerando-se a precisão conceitual que Lacan oferece à questão do objeto, apresenta-se alguns tópicos de suas proposições. Passa-se, então para ao terceiro aspecto ressaltado, o problema da dor psíquica envolvida nos processos de luto, patológico ou não. A questão metapsicológica da dor intrigou Freud durante todo seu trabalho com as diferentes formas de luto. A revisão bibliográfica, mais uma vez conduziu a um autor que dedica um trabalho exclusivo a esta problemática, J.D.Nasio, cuja produção também

subsequentes.

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é de orientação lacaniana. Nasio tratará da dor como objeto pulsional, não só na perspectiva de um masoquismo perverso, mas, especialmente, como indicador de uma quebra fantasística que deixa o eu convulsionado pela desorientação pulsional, indicador esse que se situa no limite entre o corpo e o psiquismo.

Finalizando, no 7º capítulo, parte-se especialmente da experiência corporal da gestação para desenvolver o sentido de “estranho” que o filho pode assumir para subjetividade materna. Toma-se as relações estabelecidas por Freud na segunda tópica entre ego e corpo para dali deduzir a faceta de estranheza que o filho como objeto pode assumir para o eu materno. O estranhamento é tratado em consonância com a abordagem freudiana do tema, apresentada em seu artigo de 1919, O Estranho. Quanto à questão do objeto, ela é aqui tratada conforme as proposições freudianas do Projeto..., especialmente no que se refere às diferentes formas de trabalho que o objeto promove no aparelho psíquico para seu reconhecimento (juízos). Aproxima-se, então, este trabalho àquele exigido à subjetividade materna para o reconhecimento do filho enquanto objeto simultaneamento idêntico e estranho ao eu materno.

Propõe-se ao final que o “estranhamento” seria uma prática peculiar ao feminino. A concepção de feminino formulada por Lacan parece oferecer elementos para essa proposição uma vez que ela contempla o ultrapassamento da lógica e do gozo fálicos. A dor que algumas experiências de estranhamento podem provocar estaria ligada à pressão por inscrição desse gozo na ordem fálica, ou no campo do sentido.

No 8º capítulo é apresentado um breve mapeamento do caminho percorrido, ressaltando-se tanto os pontos de corte, como os aspectos de ligação que definem o território abordado por esta pesquisa.

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As bordas do caminho
A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam. Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. Era dividida em metades diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. Nenhuma das duas era totalmente bela. E carecia optar. Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia. Carlos Drummond de Andrade1

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C. D. ANDRADE, (1984: 41-42). “Verdade”. In: Corpo.

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Considerações preliminares

A explicitação dos referenciais norteadores de qualquer pesquisa demarcam a posição do pesquisador no tocante às possibilidades de produção do conhecimento ou de abordagem do real. Isto implica não só o recorte do objeto, como a forma escolhida para essa abordagem (método em sua vertente de técnica) e, ainda, a finalidade deste conhecimento ou produção. Se, de um lado, uma determinada concepção de conhecimento ou de ciência engendra concepções específicas de objeto, certos objetos empurram o pesquisador à utilização de eixos de compreensão diversos. De qualquer m odo, sejam quais forem os referenciais adotados, sempre se procederá a uma forma de redução2 ( ATLAN, 1991). Este é o caso na presente pesquisa. Falar em depressão na gravidez é falar de um objeto híbrido3 (LATOUR, 1994), impreciso em seus contornos e paralelamente complexo em suas articulações. Conforme indica MORIN: Pode dizer-se que o que é complexo releva de uma parte do mundo empírico, da incerteza, da incapacidade de estar seguro de tudo, de formular uma lei, de conceber uma ordem absoluta. Releva de outra parte algo de lógico, quer dizer da incapacidade de evitar contradições...a complexidade é diferente da completude. Julga-se muitas vezes que os defensores da complexidade pretendem ter visões completas das coisas. Por que o pensariam eles? Porque é verdade que pensamos que não se pode isolar os objetos uns dos outros. No limite tudo é solidário. Se tendes o sentido da complexidade tendes o sentido da solidariedade. Além disso, tendes o sentido do caráter multidimensional de qualquer realidade. (1991: 8283).

Em se tratando de um estudo acerca de processos subjetivos, mesmo que se os compreenda como efeitos complexos das articulações entre linguagem,

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Atlan se refere ao valor pragmático do reducionismo, de circunscrever o domínio de legitimidade da ciência, indicando os limites do procedimento científico, ”o qual só pode progredir obrigando-se a ser reducionista, ‘jogando o jogo’ reducionista, porém, ‘crer nele’ certamente testemunharia uma grande ingenuidade” (ATLAN, op. cit. : 83). 3 Híbrido esta sendo utilizado aqui, no sentido atribuído por L atour: relativo simultaneamente à natureza e à cultura.

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biologia e relações sociais, será necessária alguma sorte de redução que permita abordá-los. Nesta pesquisa tal redução se fez a partir do referencial psicanalítico.

As origens da psicanálise estão assentadas no empirismo. O projeto freudiano de construção de uma psicologia profunda foi marcado, durante toda sua produção, pelo anseio de incluí-lo no campo das ciências. É interessante notar como as marcas do método de John Stuart Mill , filósofo da ciência empírica do século XIX, aparecem nos trabalhos psicanalíticos iniciais de Freud (este último foi, inclusive, tradutor das obras daquele, para língua alemã), onde busca respeitar as principais regras de uma produção empírica, os métodos da “concordância”, da “diferença”, “da variação concomitante” e dos “resíduos”, propostos por Mill, conforme descrito por CASTIEL (1996) num capítulo de sua obra Moléculas, Molestias e Metáforas... denominado “Freud e Mill: a histeria e a empiria”. Pode-se considerar ainda a adesão freudiana ao empirismo em função da prevalência dada à clínica como fundamento epistemológico da teoria. Em um de seus últimos trabalhos – Esboço de Psicanálise -, escrito em 1938, FREUD afirma num curto prefácio: Os ensinamentos da psicanálise baseiam-se em um número incalculável de observações e experiências, somente alguém que tenha repetido estas observações em si próprio e em outras pessoas acha-se em posição de chegar a um julgamento próprio sobre ela. (1975: 168).

Todavia, a concepção freudiana de ciência foi bem além do positivismo. Num dos principais textos metapsicológicos, Os instintos e suas vicissitudes, tratando da importância do conceito de pulsão para organização do aparato teórico da psicanálise, Freud (1974c) dá absoluta prioridade à formulação do conceito como instrumento de abordagem do real, e portanto, como base da construção teórica (BOURGUIGNON, 1991). Em suas próprias palavras: O verdadeiro início da atividade científica consiste antes na descrição dos fenômenos, passando então a seu agrupamento, sua classificação e sua correlação. Mesmo na fase de descrição não é possível evitar que se apliquem certas idéias abstratas ao material manipulado (...) Tais idéias - que depois se tornarão os conceitos básicos da ciência- são ainda mais indispensáveis à medida que o material se torna mais elaborado. Devem, de início, possuir necessáriamente certo grau de indefinição; (...) Enquanto permanecem nessa

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condição, chegamos a uma compreensão acerca de seu significado por meio de repetidas referências ao material de observação do qual parecem ter provindo, mas ao qual de fato foram impostas. Assim, rigorosamente falando, elas são da natureza das convenções – embora tudo dependa de não serem arbitrariamente escolhidas mas determinadas por terem relações significativas com o material empírico, relações que parecemos sentir antes de podermos reconhecê-las e determiná-las claramente. (1974c: 137).

Este texto parece evidenciar a relação dinâmica entre observação e conceituação, que permeia toda obra freudiana. A construção do saber psicanalítico se faz num processo dialético entre a clínica (que não é, exatamente, fonte de observação empírica no sentido sensorial , porém é empírica no sentido de experienciada) e a teorização, cuja finalidade é sempre o retorno à clínica, e assim sucessivamente... Conforme indica FREUD em seu artigo de 1926, A questão da Análise Leiga: Na psicanálise tem existido desde o início um laço inseparável entre cura e pesquisa. O conhecimento trouxe êxito terapêutico. Era impossível tratar um paciente sem aprender algo de novo; foi impossível conseguir nova percepção sem perceber seus resultados benéficos. Nosso método analítico é o único em que essa preciosa conjunção é assegurada. (1976m,: 291). L. CHERTOK, e I. STENGERS (1990), conjugando suas respectivas experiências de psicanalista e epistemóloga, realizaram um interessante estudo acerca do projeto freudiano de cientificidade. Acompanham as origens da psicanálise na hipnose, e o processo de sua construção como campo de saber em relação às ciências modernas, a partir do abandono da técnica sugestiva pela da associação livre e pelo processo elaborativo. Aí demonstram o meticuloso trabalho de Freud para garantir condições de produção de um testemunho fidedigno que pudesse fazer da psicanálise uma ciência de pleno direito. Comparam, então, a evolução da psicanálise à da química, comparação indicada pelo próprio FREUD em Linhas de Progresso na Terapia Psicanalítica (1976 a), onde apontam a passagem realizada por Lavoisier estabelecendo o estatuto da química como técnica experimental ou ciência operatória (em oposição a seus antecessores que lhe reservariam o estatuto de arte da experiência). A proposição de criação dos fatos químicos e dos protocolos de abordagem destes, visava garantir seu

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reconhecimento e sua reprodutibilidade por qualquer um que dispusesse destes instrumentos. Chertok e Stengers julgam que, de modo semelhante, Freud buscou estabelecer a psicanálise como um campo de produção científica ao substituir a hipnose pelo trabalho de elaboração. A cena analítica viria a se transformar numa espécie de laboratório onde o objeto de experimentação seria a neurose de transferência. Tal como o químico do século XIX “criava seu objeto”, em vez de tomá-lo no mundo natural, não mais estudando as matérias-primas não purificadas que o artesão transformava, o analista “[instaurava] um estado que tem todos os aspectos de uma doença artificial”. E essa doença, na medida em que tinha por arena única o “campo circunscrito” da cena analítica, tornava-se acessível a suas intervenções .(CHERTOK e STENGERS, 1990: 76).

Os autores concluem que o objetivo freudiano de fazer da psicanálise uma técnica científica de abordagem do inconsciente onde a verdade e a sugestão fossem claramente distingüíveis, não se produziu. Afirmam que os textos finais da obra de Freud atestam o “fracasso da experiência” de produzir testemunhas fidedignas pela cura dos pacientes através da clínica psicanalítica (única a lhes permitir um verdadeiro acesso a sua verdade em oposição às técnicas sugestivas). Impossibilidade que se revelou freqüente em função das resistências e da compulsão à repetição, que impediam os sujeitos de reconhecer e aceitar sua verdade inconsciente. Consideram, entretanto, que a posição freudiana frente a este “fracasso” foi de valorizar a teoria (o conceito) por esta ser capaz de explicar os fracassos da técnica. Os referidos autores pretendem destacar a insistência do passo freudiano na busca do caráter científico da experiência analítica. Cabe ressaltar que a posição destes autores não é de elogio ao cientificismo, ao contrário, pretendem assinalar como o desprezo dos “testemunhos falsos” (como os produzidos pela hipnose, por exemplo) pode ser empobrecedor do processo de conhecimento. Assinalam que tais testemunhos e fracassos experimentais deveriam, na perplexidade que evocam, convocar os cientistas a uma prática da transdisciplinariedade.

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Ainda em outro trabalho, Quem Tem Medo da Ciência..., STENGERS (1990), referindo-se à esta mesma temática, afirma que o que se põe aos psicanalistas como questão é “quais são as práticas a serem produzidas, inventadas para trabalhar juntos e transformar um fenômeno em ator de discussão, sem o ideal judiciário da testemunha fidedigna que concluirá a controvérsia, que dirá quem tem razão e quem está errado.”(1990: 139). Indica, ainda, que o fato dos psicanalistas lidarem com “seres que estão interessados na produção de saber operado a seu sujeito”(1990: 140), aponta para necessidade de se ultrapassar a diferença entre fato e artefato 4, uma vez que é inevitável (e não totalmente controlável) a participação do analista na produção dos efeitos da análise. Na neurose de transferência, a natureza do fato clínico é a de um artefato enquanto criação de uma certa realidade - a que implica analista e analisando -, realidade esta que mantêm estreitas relações com os fatos ou realidades psíquicas do sujeito em análise. STENGERS reafirma sua posição epistemológica de que fazer ciência é um processo coletivo, e parece indicar como caminho para a psicanálise a ampliação do trabalho conjunto entre escolas e entre campos de saber, “produzindo intrigas cada vez mais sutis (...) e ficções cada vez mais pertinentes, cada vez mais exigentes quanto aos múltiplos sentidos de seu conhecimento ‘patético’”(1990 : 141).

É na perspectiva proposta por Stengers que este trabalho foi concebido. Buscar descrever um dado clínico – o surgimento de afetos de tristeza relacionados à gravidez – em diferentes perspectivas da teoria psicanalítica, parece ser um modo não só de ampliar as possibilidades de compreensão deste dado, como, também, de experimentar-se os limites do aparato conceitual. Considera-se, em princípio, que as realidades humanas, individuais e sociais, só são compreendidas e/ou explicadas através de recortes teóricos de alcance específico e limitado, abarcando diferentes graus de complexidade do real, sem que haja diferença de valor entre eles. A pertinência das construções teóricas pode ser verificada na coerência interna de suas premissas e categorias - na lógica de sua racionalidade5 -, no “interesse”6 que geram entre os pares, bem como na eficácia da praxis7 que produz.

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O artefato é considerado um testemunho extorquido pelo experimentador, portanto cientificamente inválido. Racionalidade é, segundo MORIN, “o estabelecimento de uma adequação entre uma coerência lógica (descrita, explicativa) e uma realidade empírica.”(1990: 121).

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Porque uma descrição metapsicológica.

A razão de estabelecer-se que o produto desta pesquisa deveria incluir-se no campo da metapsicologia, se deve ao fato de considerar-se que esta define o campo onde se organizam os conceitos e as experiências relativas à psicanálise. A idéia de que o que Freud produzia era uma metapsicologia (têrmo formulado por equivalência a metafísica), está ligada ao campo onde emergem suas pesquisas. Voltado para sintomas mentais de origem enigmática, é além da consciência que Freud vai buscar a razão destes. Em sua correspondência a Fliess (1977) , são vários os momentos em que se questiona, através de seu interlocutor, quanto à propriedade deste termo (metapsicologia) para suas construções teóricas. No período em torno de 1914/15, Freud realiza um trabalho de sistematização de suas proposição referentes ao aparelho psíquico, o qual nomeia explicitamente Metapsicologia. Embora declare compor-se de um conjunto de 12 textos, parece ter escrito somente 5: Os instintos [pulsões] e suas vicissitudes, Repressão [recalque], O inconsciente, Suplemento metapsicológico à teoria dos sonhos e Luto e Melancolia. Entretanto, há um certo consenso no campo quanto à pertinência da inclusão de outros textos neste conjunto, tais como O Projeto para uma psicologia científica, Capítulo 7 da Interpretação dos Sonhos, Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental, O Narcisismo. Uma introdução e O Ego e O Id. Como se pode perceber, são considerados metapsicológicos os trabalhos de organização conceitual. Em 1915, quando escreve sua Metapsicologia, Freud adverte aos seus leitores que as descrições metapsicológicas devem envolver três modos de descrição dos fenômenos. Uma descrição dinâmica explicando os conflitos subjacentes a eles, uma descrição econômica apresentando as vicissitudes das forças ou quantidades de excitações que respondem pela formação de tal fenômeno e, finalmente, uma descrição topográfica, isto é, a localização das estruturas psíquicas envolvidas na produção do fenômeno em questão.

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Uma das hipóteses desenvolvidas por STENGERS (1992) em La Volonté de Faire Science. À propos de la Psychanalyse, é de que o “interesse” que desperta uma proposição científica é condição para que ela possa ser considerada “ verdadeira”, no sentido de organizar forças e meios de prova em torno desta proposição. 7 O termo praxis é utilizado aqui, no sentido dado por Marx, de união entre teoria e prática. A praxis humana constituindo o fundamento de toda possível teorização ( FERRATER-MORA, 1986: 2661).

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Não será descabido dar uma denominação especial a essa maneira global de considerar nosso tema, pois ela é a consumação [vollendung] da pesquisa psicanalítica. Proponho que, quando tivermos conseguido descrever um processo psíquico em seus aspectos dinâmico, topográfico e econômico, passemos a nos referir a isso como uma apresentação metapsicológica. (FREUD, 1974e: 208).8

O termo ao qual se referiu Freud em 1915, para designar o que a descrição nestes tres níveis produz foi – vollendung – “acabamento”. A descrição metapsicológica produziria, então, o acabamento, a conclusão conceitual explicativa sobre um fenômeno psíquico assim abordado. Entretanto, a teorização psicanalítica quando referida à prática clínica, se mostra freqüentemente arredia a estes acabamentos. Não só pelas dificuldades de reprodução experimental dos fenômenos inconscientes, nem também pela extrema implicação do observador nos fenômenos observados, mas pela própria riqueza e variabilidade das produções do inconsciente. Parece claro que o projeto de organização do campo teórico da psicanálise nos termos de uma metapsicologia responde, dentre outras coisas, aos anseios freudianos de cientificidade. Conforme esclarece LE GAUFEY: Em sua preocupação de tornar a psicanálise reconhecida como ciência, Freud por vezes promoveu o ideal de uma apresentação conceitual “completa” da psicanálise; e só seu respeito pelas imposições inerentes ao objeto de sua démarche o afastou constantemente deste ideal.(...) O projeto metapsicológico talvez seja o melhor atestado desta tensão presente na obra de Freud entre um acabamento conceitual, que permitiria à psicanálise alcançar um certo Olimpo da cientificidade, e um inacabamento conceitual que é prova de um traço fundamental de seu objeto, traço que nenhum conceito particular consegue subsumir e que no entanto seria fatal ignorar.(1996: 340).

A tensão entre o fechamento e a abertura do campo conceitual psicanalítico é o que parece caracteriza-lo. É nesse intervalo que a metapsicologia essa “bruxa” como a caracterizou Freud em Análise Terminável e Interminável (1975

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Importante salientar que ao nomear-se alguns capítulos subseqüentes com o termo “metapsicologia” (metapsicologia da maternidade ou metapsicologia da melancolia), foi mantido o caráter descritivo apontado por Freud nesta citação.

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a) -, pode fazer “surgir” respostas especulativas aos limites da clínica, empurrando-a, certamente, adiante.

Daniel WIDLÖCHER (1994) num artigo denominado Metapsicologia e Auto-Análise, apresenta três concepções da metapsicologia. Na primeira, o quadro teórico é compreendido como o organizador dos dados clínicos, permitindo a descrição mais precisa possível dos processos que ali ocorrem. Na segunda concepção a metapsicologia é um meio de explicar a vida mental. No primeiro caso propõe-se uma nova leitura dos fenômenos do mundo a partir do inconsciente; no segundo, trata-se de articular a concepção do inconsciente às outras concepções de aparelho psíquico (as neurobiológicas, por exemplo). Segundo o autor, estas concepções não se opõem. As divergências que produzem só aparecem quando articuladas a outros aparatos conceituais de explicação da vida mental. O autor ressalta que a metapsicologia possibilita uma interdisciplinariedade. Ressalva, porém, os riscos de um reducionismo descaracterizante quando as assimilações são feitas de modo simplificador. Entretanto, “explicar o inconsciente” ou “explicar pelo inconsciente” são ambas posições encontradas em Freud. Widlöcher apresenta, ainda, uma terceira concepção de metapsicologia. Partindo da articulação feita por Didier Anzieu quanto à relação entre a auto-análise de Freud e sua construção metapsicológica, o autor propõe que, assim como a análise de seus próprios sonhos teria fornecido a Freud o complexo teórico básico da psicanálise, assim também cada análise fornece uma teoria da vida mental do analisante, a qual se constrói na transferência. Toda análise constitui-se, então, numa construção metapsicológica.

SOUZA (1998), num artigo no qual discute uma certa tendência atual das produções psicanalíticas em direção a questões sociais, aponta o empobrecimento do campo conceitual psicanálitico provocado pelo deslocamento do olhar da psicopatologia dos sujeitos para psicopatologia do social. Através da análise de alguns textos freudianos, mostra a especificidade do modo pelo qual Freud aborda a vinculação entre subjetividade e cultura com sua metapsicologia. Na obra freudiana não ocorre o deslocamento descrito acima, o que se observa é um movimento recursivo entre as dimensões sociais e individuais de produção de subjetivação, “as condições contemporâneas de subjetivação desempenham um papel etiológico

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importante mas não absolutamente decisivo no espectro psicopatológico do qual o psicanalista se ocupa.”(1998:86). O autor propõe, então, que a metapsicologia possa exercer um papel moderador na avaliação dos psicanalistas quanto à incidência de suas práticas na cultura. A “renovação criativa dos conceitos metapsicológicos” é o que poderia oferecer aos psicanalistas saídas para os impasses que a clínica apresenta, sejam eles movidos por transformações sociais ou não.

Método da pesquisa O objeto desta pesquisa – o afeto deprimido durante a gravidez – foi resultado de questões sucitadas pela clínica. Embora esta não seja uma pesquisa de campo, parece importante salientar que as elaborações conceituais aqui estabelecidas sofreram o balizamento desta experiência clínica. O objetivo geral da presente pesquisa foi buscar elementos teóricos que permitissem a compreensão da ocorrência de afetos deprimidos durante a gravidez, a partir das teorias psicanalíticas. Para que tal objetivo fosse atingido procedeu-se uma pesquisa básica de revisão da literatura psicanalítica. Tal revisão se processou através de fontes

primárias - a obra freudiana - e secundárias, ou seja: artigos e livros de línguas inglesa, francesa, espanhola e portuguesa. O material foi coletado em bibliotecas e através de sistema eletrônico de pesquisa (ex.: sistema Medline). A pesquisa deste material foi feita em torno de 3 núcleos temáticos9 (Complexo de Édipo/Castração; Gravidez/Maternidade/Feminino e Depressão/Melancolia). Estes temas não se encontram isolados na teoria, porém foram destacados diferentemente nos vários períodos e pelas diversas escolas psicanalíticas. Foi necessário, então, que se buscasse suas principais conceptualizações em Freud, bem como algumas reformulações teóricas, propostas por autores que tenham contribuído para a teorização destas temáticas. Alguns outros temas surgiram como contingências dos caminhos percorridos na pesquisa. O estudo do feminino e da maternidade conduziu aos

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diferentes estatutos que o filho ocupa enquanto objeto na subjetividade da mãe. A pesquisa em torno da depressão conduziu à questão da formação do eu e seus ideais. O anseio de encontrar uma explicação para os afetos deprimidos durante a gravidez que não se restringisse a efeitos de uma estrutura neurótica ou psicótica, levou à análise do fenômeno do estranhamento, o qual se tornou, por fim, a linha de costura do tecido deste livro.

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Tema é aqui compreendido no sentido descrito por Bardin como “a unidade de significação que se liberta naturalmente de um texto analisado segundo critérios relativos à teoria que serve de guia de leitura.” (BARDIN apud MINAYO, 1992: 208)

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Sobre um dos nomes da tristeza
“Quando me dei conta de que fora vencido pela doença, senti a necessidade de, entre outras coisas, registrar um protesto contra a palavra “depressão”. (...) “Melancolia” pode ainda ser adequada e evocativa para definir as formas mais graves da doença, mas foi destronada por uma palavra de conotações mais brandas, sem ar professoral, usada indiferentemente para descrever uma economia em declínio ou uma vala na estrada, uma palavra realmente sem cor considerando uma doença dessa importância. Talvez o cientista a quem geralmente é atribuida essa denominação, nos tempos modernos(...) – o psiquiatra nascido na Suiça, Adolf Meyer – não tivesse um ouvido capaz de captar os rítmos mais sensíveis da língua inglesa e por isso não percebeu que estava perpetrando um desastre semântico quando propôs a palavra “depressão” para descrever uma doença tão terrível. Seja como for, por mais de setenta e cinco anos a palavra tem deslizado inocuamente através da língua como uma lesma, deixando poucos sinais indicadores da sua malevolência e impedindo, devido à sua extrema insipidez, o conhecimento generalizado da terrível intensidade da doença quando não é controlada”. William Styron1

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STYRON (1990: 43-44). Perto das Trevas

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A depressão no campo dos saberes. O quadro clínico que deu origem a esta pesquisa emergiu da clínica psicanalítica. Em alguns casos, mulheres que durante suas análises expressavam intenso desejo de engravidar, ao realizarem esse projeto foram acometidas de um estado de tristeza, com alterações de sono e apetite, num período que abrangia os primeiros meses da gestação. Tal quadro pode ser aproximado àquele classificado pela psiquiatria moderna como episódio depressivo ( D.S.M. IV) (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 1995). O motivo deste estado de tristeza ou dor

psíquica que se está qualificando como depressão na gravidez não parecia ser o bebê – este continuava sendo extremamente desejado, nos casos observados -

mas algo relativo à própria subjetividade daquelas mulheres em vias de se tornarem mães. Cabe ressaltar que as mulheres em questão eram primíparas e não tinham diagnóstico de psicose. Chamar-se-á inicialmente este estado afetivo de depressão por esta semelhança descritiva. Pretende-se, no entanto, discutir, ao longo do trabalho, a adequação (ou não) da utilização desta nomenclatura. Embora se reconheça a existência de imensa literatura relativa à depressão como quadro psiquiátrico, bem como a profusão de obras referentes à melancolia como estrutura clínica, o que se busca, aqui, é poder recortar a experiência do afeto deprimido durante a gravidez não como efeito de uma estrutura subjetiva melancólica ou deprimida, mas como efeito do processo de subjetivação feminino em relação à maternidade.

Uma primeira questão relativa à propriedade do uso do termo depressão para qualificar uma ocorrência clínica deste tipo diz respeito a seu caráter diagnóstico e à pertinência de seu uso na clínica psicanalítica. O termo depressão aparece nas produções psicanalíticas desde seu início, sem que tenha o estatuto de um conceito teórico da psicanálise. Nas vezes em que Freud se utiliza deste termo, o faz com o caráter que lhe atribui a psiquiatria da época. Todavia, mesmo na psiquiatria, a definição do que seja a depressão e sua posição no campo da patologia tem sido trabalhosa e permanentemente alterada. Seja como entidade nosográfica, seja como experiência fenomenológica, a depressão adquire interesse nesta pesquisa, tanto por seu “poder definidor” ou “poder explicativo” junto ao senso comum (o têrmo depressão é utilizado de forma a

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representar quase toda sorte de estados de “dor psíquica”), como pela freqüência com que tem sido associada aos mais diversos quadros clínicos, complexificando suas explicações etiológicas, bem como sua terapêutica. Sabe-se que os fenômenos depressivos são objeto de diferentes áreas do saber cujos contornos são, por vezes, muito pouco definidos: as psicologias, as psiquiatrias, as psicanálises, as ciências sociais, além da genética, da neurologia e outras... (nenhuma delas hegêmonica no domínio do saber sobre o mental ou

psíquico - este objeto pouco preciso, complexo ou pluriobjeto). Nesse sentido, são inevitáveis as intersecções e interfaces (ex.: psiquiatria psicanalítica,

psiconeuroimunologia, psicobiologia, neuropsiquiatria, etc...) onde os conceitos se organizam em sintaxes que se diferenciam tanto das fontes originais (uma psicologia ou uma psiquiatria específicas), quanto das possíveis combinações de saberes.

Além da abundância de literatura científica, nas mais diversas tendências, acerca do tema depressão, há, também, uma profusa literatura não científica sobre este tema. Ele é presença freqüente na imprensa escrita, falada ou televisiva, comparece nos discursos dos representantes de qualquer classe social (pelo menos nos países cuja cultura é ocidentalizada), é apresentado, inclusive, em home pages de redes computacionais. Na última década, a circulação das informações científicas tem se dado de forma ampla, independente da qualidade destas ou do quanto de incerteza escamoteiam..., e o senso comum vem se construindo sobre esta forte influência da divulgação dos saberes científicos (GRANGER, 1993: 16-19).

Alguns aspectos epistemológicos da conceptualização da Depressão

Tratar de aspectos epistemológicos é, antes de mais nada, tratar da lógica sob a qual um conhecimento se processa. Se o conhecimento só se faz por mediação, a razão é o mediador que caracteriza o conhecimento científico. MORIN descreve a razão como: (...) um método de conhecimento baseado no cálculo e na lógica (na origem, ratio quer dizer cálculo), empregado para resolver problemas postos ao espírito, em função dos dados que caracterizam uma situação ou um

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fenômeno. A racionalidade é o estabelecimento de uma adequação entre uma coerência lógica (descrita, explicativa) e uma realidade empírica. ( 1990: 121). Compreender os périplos da noção de depressão implica reconhecer a racionalidade do uso deste conceito em diferentes contextos teóricos. O estudo da depressão coloca o pesquisador - clínico ou teórico - em confronto com problemas epistemológicos como o da multiplicidade de definições de depressão conforme os referenciais teóricos utilizados. A escolha de tais referenciais tem implicações tanto no campo teórico como prático. Do ponto de vista epistemológico é importante se ressaltar a diferença de recorte do objeto mente ou psiquismo, sede da depressão. Conceber a depressão como ocorrência de um aparelho psíquico forjado no embate entre moções pulsionais e as pressões culturais, é completamente diferente, por exemplo, de compreendê-la como efeito de processos bioquímicos num aparato neuronal. Para as neurociências o mental se circunscreve nos processos de cognição e nas estruturas cerebrais (ex.: circuitos neuronais, bioquímica cerebral) (ANDREASEN, 1997: 1586) enquanto nos saberes psicodinâmicos a ênfase do mental está na subjetividade, portanto, na organização particular, simbólica, do que quer que seja o mental (neurônios, gens, relações sociais ou traços de linguagem). Nesse sentido, a categoria ou conceito depressão, sofre os efeitos lógicos de estar vinculada a uma ou outra concepção do mental. Não seria necessário demonstrar, portanto, as

enormes diferenças na clínica da depressão conforme o modelo teórico que se utilize. Se é possível relacionar o mental orgânico, com o mental simbólico, como pretendem, especialmente, os pesquisadores das neurociências (ANDREASEN, op. cit.,1586), é necessário que antes se considere os ganhos e as perdas que tal

junção pode trazer. Essas relações só se fazem através de reduções, que, por vezes, custam a perda do objeto em si (SAMAJA, 1992: 15). Por outro lado, a finalidade pode justificar esta tentativa. A clínica do mental (e suas dificuldades...) é, sem dúvida, um forte estimulante para criação destas interfaces. Porém, aqui também (clínica do mental), há diferenças marcantes: umas caminhando no sentido da eliminação ou controle dos sintomas e transtornos; outras, considerando os

sintomas como discursos subjetivos cuja decisão sobre seu destino (eliminação ou não) não é devida, nem possível para o profissional que conduz a clínica.

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Parece importante destacar-se a mudança de perspectiva de um fenômeno (a depressão, no caso) quando vinculado a um ou outro desses objetivos, de modo que se possa decidir sobre a propriedade de seu uso no contexto clínico abordado por esta pesquisa. Tais objetivos, ou sentidos da intervenção clínica, têm sua determinação (ao menos em parte...) no privilégio à vertente subjetivante ou objetivante da produção de conhecimento. O objetivismo poderia ser sintetizado como uma visão do mundo constituído de objetos com características e propriedades independentes dos seres que com eles se relacionam, possibilitando, assim, seu conhecimento verdadeiro, através de métodos e linguagem claros e objetivos como pretendem ser o método e a linguagem científicos. Já o subjetivismo compreende o conhecimento dos objetos do mundo através das relações entre os seres e os objetos, enfatizando todas as formas de manifestação subjetiva.(LAKOFF & JOHNSON, 1980).

Outra questão epistemológica relevante na análise de um conceito é a dificuldade em se rastrear as semelhanças ou linhas de continuidade internas a um saber, ou entre saberes diversos, no que tange ao uso desse conceito, em função das mudanças de estatuto que este sofre no seu contexto de uso. A depressão, por exemplo, tem sido tratada ora de modo substantivo ora adjetivo. Conforme descreve PALMEIRA, em sua tese de mestrado acerca das relações entre psiquê e cancer: (...) em alguns casos a “depressão” é entendida como algo que o sujeito sofre, em outros é interpretada como algo inerente à própria natureza do sujeito. (1994: 47) . Uma tentativa de neutralização deste problema tem sido feita pela epidemiologia psiquiátrica com seus sistemas de classificação, nos quais estados como os de depressão seriam sempre adjetivos, resultado de um somatório de sinais.

Na perspectiva mais estritamente neurobiológica, a depressão é associada a fatores tais como alterações de processos cerebrais adaptativos (ANDREASEN, 1997:1588), ou intercorrências nos sistemas de transmissão noradrenérgicos do sistema nervoso central (s.n.c.); ou processo de recaptação da serotonina ao nível sináptico do referido sistema (s.n.c.); ou ainda deficiência de

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dopamina no sistema nigroestriatal ( SIMÕES et alii, 1996: 4-5). Outra vertente da pesquisa biomédica associa a depressão a fatores hormonais, como o estrogênio, por sua “ ação direta e indireta sobre os neurônios do s.n.c.” (SIMÕES et alii, op. cit.:5), condição considerada como uma das prováveis responsáveis pela freqüência de depressão, duas vezes maior, nas mulheres do que nos homens.(PAYKEL, 1991). Fica evidenciado, aqui, que a depressão, independente da hipótese que a explique, é compreendida como um fenômeno adjetivo, resultante de processos neurobiológicos ou genéticos. Os modelos de produção de conhecimento acerca da depressão, nestas áreas, são objetivos. Seja o que for, a depressão é suposta exterior àquele que a pesquisa.

A

depressão como experiência vivida - subjetiva - é tratada pelos temerário, entretanto,

saberes psicodinâmicos (incluindo aqui os culturais). Seria

conceber qualquer universalidade nas formas de pensar a depressão, pelas diversas correntes de saber que têm as experiências psíquicas como seus objetos. Para os saberes teóricos que descrevem a subjetividade e suas manifestações (as psicanálises, as antropologias etc..) a depressão também tende a ser vista de modo adjetivo, como resultante de processos - agora não mais biológicos - mas psíquicos ou sociais. A pretensão do conhecimento objetivo acerca dessa experiência é, no entanto, abandonada e substituida por uma racionalidade que supõe encontrar a verdade do fenômeno depressivo intrinsecamente delineada no contexto particular , subjetivo, de sua manifestação. Referindo-se às diferenças de racionalidade do saber científico e do saber filosófico (não positivista), ATLAN faz afirmações que podem ser úteis para esclarecer a racionalidade dos saberes psicodiâmicos: Assim, contrariamente ao ideal das filosofias neopositivistas, que procuravam imitar a física e a sua forma lógico-mátemática, o papel da filosofia seria falar daquilo que não pode ser formalizado, utilizar uma linguagem natural, com as suas metáforas, as suas analogias e a indefinição que as acompanha, sem, por isso, renunciar a continuar racional; e para tal, distinguir as boas das más analogias, as metáforas enriquecedoras das metáforas enganadoras, o pouco vago, que oculta o que deveria ser dito, do demasiado vago, potencial de criação. (1991: 101).

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A organização dos saberes sobre o mental em sistemas classificatórios: algumas implicações clínicas.

Conforme apresentado no prefácio à edição brasileira da Classificação Internacional de Doenças - descrições clínicas e diretrizes diagnósticas - da Organização Mundial de Saúde (O.M.S.) CID 10 (1993: XI), o esforço sistemático de classificação dos transtornos mentais, orientado por esta entidade, data da década de 60 e vem se ampliando e se especificando desde então. Esta última versão de 1992, junto com o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM IV -AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 1994), representam os resultados mais recentes desta tendência taxônomica que vem buscando instrumentos que permitam a comunicação entre os diferentes profissionais envolvidos na clínica, na pesquisa e na educação em saúde mental. Estas classificações se caracterizam pela descrição de sinais e sintomas, com um declarado abandono da noção de doença mental e a opção pelos conceitos de episódios e transtornos . Este último é definido como “um conjunto de sintomas ou comportamentos, clinicamente reconhecível, associado, na maioria dos casos, a sofrimento e interferência com funções pessoais.” (O.M.S. - CID10, 1993:5). Outros dois eixos utilizados nas classificações são: a distribuição dos sinais e sintomas no tempo (episódica ou recorrente) e sua intensidade (grave, moderada ou leve). Esta opção pelo modelo sindrômico em detrimento do modelo nosológico se dá, especialmente, em função da ausência de certezas quanto à etiopatogenia dos transtornos mentais, e/ou, da complexidade que envolve a causalidade do psíquico. O objetivo apresentado para estas categorizações é: “melhorar o diagnóstico e a classificação dos transtornos mentais”, facilitando a

clínica, a pesquisa e a comunicação entre profissionais da área de saúde mental ( O.M.S. op.cit.: XI ). Por outro lado, dependendo da finalidade que se atribua a um diagnóstico, este esforço classificatório será de maior ou menor valia. ZARIFIAN define um diagnóstico como um instrumento que “permite comunicar acerca de um doente, (...) permite comparar grupos de pacientes entre si, (...), [não sendo necessário na clínica, entretanto] pois a abordagem é

essencialmente intuitiva.” (1989: 45-47). Nesta mesma linha LAJEUNESSE afirma

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que: “o interesse de um diagnóstico fiel e válido é condensar uma informação com virtude prognóstica e, por conseguinte, condicionar a orientação terapêutica” (1989: 72). Segundo este autor, tal “fidelidade” se obtém às custas da retirada das

sintomatologias puramente subjetivas, quando da descrição das categorias. Procedimento que, segundo o próprio autor, não garante a objetividade e, ainda, acirra a dicotomia entre os praticantes da clínica do mental (subjetivistas e objetivistas). O abandono da posição nosográfica, nos dois sistemas classificatórios citados acima, se deve, também, a uma opção pela não utilização de qualquer referencial teórico específico, no bojo, ainda, de um projeto de objetividade de tais classificações. Se por um lado esta postura “suprateórica” gera a clareza dos sintomas descritos, por outro os multiplica de forma progressiva, dificultando sua utílização clínica como instrumento de projeto terapêutico (o capítulo dos transtornos mentais do CID 9 tinha 30 categorias, a atual versão - CID 10 tem 100).

Quanto à categoria depressão, os organizadores da CID. 10 advertem que a atual versão ainda é fonte de muita discordância entre psiquiatras. Supõem, entretanto, que tais discordâncias serão dirimidas com “medidas fisiológicas e bioquímicas, ao invés (...) de descrições clínicas de emoções e comportamentos.” (O.M.S., op.cit.: 13).

Uma perspectiva nosológica implica modelos teóricos de interpretação dos eventos. A “costura” dos dados parece fundamental na própria caracterização dos fenômenos. Esta ausência de organização teórica dos sintomas leva, por vezes, a situações bizarras, onde qualquer sujeito pode ser incluído sob certos diagnósticos. O transtorno depressivo é um caso exemplar deste tipo. Na

classificação do DSM IV, a depressão é classificada como um transtorno afetivo do humor envolvendo episódios depressivos, em um período mínimo de duas semanas e mais, pelo menos quatro dos seguintes sintomas: queixas de tristeza, desesperança, perda de prazer generalizada, perda de apetite, perturbações do sono, alterações psicomotoras, diminuição de energia, sentimentos de desvalia ou culpa e pensamentos suicidas (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 1994). Seria quase impossível encontrar um adulto ocidental que não se enquadrasse nestes critérios, especialmente aqueles que vivem nos grandes centros urbanos...

34

Em relação aos critérios fisiopatológicos, bioquímicos ou genéticos como fontes de especificação diagnóstica, é preciso que se destaque a subversão que tal caminho pode criar na compreensão (e consequente abordagem) dos fenômenos mentais. Sobre isso ZARIFIAN afirma: Os psicotrópicos tiveram papel importante, e não inocente, na evolução dos conceitos diagnósticos. Responsável por isso é sobretudo o marketing farmacêutico. (...) Se bem que os psicotrópicos não sejam senão tratamentos sintomáticos e não específicos de uma afecção mental, o cenário está armado. As classificações de psicotrópicos reforçam a situação. Há antipsicóticos, antidepressivos e ansiolíticos: então há psicoses, depressões e ansiedade. ( op.cit: 49-50).

Poder-se-ia objetar que as versões atuais dos sistemas classificadores minimizam este problema abrindo mão das grandes categorias nosográficas. Todavia, a intenção de objetivação através de critérios estritamente biológicos permanece, como foi mostrado alguns parágrafos acima. Conta-se, atualmente,

com instrumentos poderosos para esses fins: além da fidedignidade da bioquímica , desfruta-se agora da precisão e do rigor das imagens (tomografia de emissão de pósitrons, por exemplo...). Mais ainda, corre-se o risco de identificar fenômenos de uma esfera (os afetos deprimidos, por exemplo), com achados de outra esfera (as possíveis alterações de imagens tomográficas quando de estados afetivos deprimidos), incorrendo em inevitável engano e confusão, com evidentes

conseqüências clínicas.

Outra fonte de dificuldades no estabelecimento e uso clínico de um sistema classificador são as diferenças culturais. Estas são reconhecidas, nos dois sistemas a que estamos nos referindo (DSM.IV e CID.10), porém, dada a dificuldade em transformá-las em variáveis indicáveis objetivamente , elas não são consideradas. Mais uma vez isso não ocorre sem prejuízo clínico. A esse respeito LUTZ afirma: Argumentarei, entretanto, que a distinção entre o o quê e o como da experiência depressiva (...) somente faz sentido no contexto cultural Euro-Americano dentro do qual foi desenvolvido(...) O que é mais notável na visão ocidental da depressão é a afirmação implícita do carater de oposição à alegria, ou pelo menos aos afetos positivos, em relação a um

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estado normal. (...) O que é particularmente desviante nos deprimidos é sua desistência em buscar a felicidade ou o amor de si, considerados objetivos básicos e normais das pessoas. Estas metas aparentemente naturais são, de fato, moldadas culturalmente, em contraste com outras possiveis definições de normalidade nas quais, por exemplo, a ênfase pode ser posta no cuidado de crianças ou parentes, ou em vivenciar emoções de caráter moral, corretas porém não prazeirosas... ( 1985: 6370).

Parece então que esta objetivação das classificações diagnósticas, se traz vantagens tais como a abertura de espaço para a consideração de configurações complexas, no interior de sistemas dinâmicos (BASTOS et al., 1994: 108), traz também alguns riscos clínicos como o de se confundir “os signos

recolhidos com a realidade da doença” (CLAVREUL, 1983:202). O fato dos sistemas classificadores terem abandonado a concepção de doença, não significa que as pessoas (o senso comum) a tenham abandonado também, muito pelo contrário... Prova disso são os serviços clínicos, cada dia mais lotados de autodenominados “doentes do pânico” ou “deprimidos”... BENETI (1997), em seu artigo DSM-IV: El “McDonald’s de la Psiquiatría”, faz notar o risco de inversão clínica quando à singularidade do paciente é sobreposta a universalidade do sistema diagnóstico. Parece possível supor que o caráter de saber universalizador dos sistemas diagnósticos pode oferecer ao senso comum o frágil conforto (no caso das afecções subjetivas) da pertinência a um

grupo, onde o diagnóstico (depressão, no caso) sutura, parcialmente, a pressão pela busca das razões individuais do sofrimento.

Os estudos sobre Depressão na Gravidez Numa revisão preliminar da literatura médica sobre o tema, foram encontrados estudos conjuntos nas áreas de obstetrícia, psiquiatria e psicologia demonstrando a ocorrência de estados depressivos durante a gravidez normal (SÉGUIN et alli, 1995; KONIAK-GRIFIN et alli 1996; KITAMURA et alli, 1996). Tais estudos poderiam ser subdivididos em dois grandes grupos: • aqueles que pesquisam os fatores de risco para depressão na gravidez.

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• os que buscam associar a depressão como fator de risco para certos desfechos obstétricos, tais como a prematuridade, o baixo peso ao nascer, a irritabilidade do bebê (ZUCKERMAN et alii, 1990) ou mesmo a mortalidade neonatal (BUSTAN et al, 1994).

Nestes trabalhos, a depressão é quase sempre ligada a situações como estresse, falta de suporte social, baixa renda, enfim, fatores denominados psicossociais. Em relação aos fatores de risco mais freqüentemente associados à depressão na gravidez, encontram-se as dificuldades econômicas e a falta de

parceiro ou de suporte familiar e social (MILLÁN, et alii, 1990; JADRESIC, et alii, 1993; HOBFOLL, et alii 1995; SÉGUIN, et alii, 1995). Nesse sentido, a prevalência da depressão na gravidez é maior em grupos de mulheres de baixa renda, negras, com baixos níveis de escolaridade (ZUCKERMAN, et alii, 1989; SÉGUIN, et alii, 1995; ORR et al, 1995; COPPER, et al 1996). A depressão é ai descrita, predominantemente, como vinculada a condições de desequilíbrio ou desadaptação social. Estes estudos não tecem considerações sobre a dinâmica psíquica subjacente à depressão na gravidez.

No campo psicanalítico a consideração de qualquer fenômeno sofre os efeitos de “refração” da existência de diferentes escolas. A teoria psicanalítica não é unívoca, seu desenvolvimento tem se dado a partir do privilégio ou da ênfase de aspectos diferentes da teorização freudiana, estes ora mais, ora menos evidentes, na obra do fundador da psicanálise. Os artigos de orientação psicanalítica tendem a abordar estados depressivos em gestantes na perspectiva da reorganização psíquica imposta à mulher pelo estado gestacional (BIBRING et al, 1976; WELDON, 1991). Não foram encontrados, porém, trabalhos específicos acerca da depressão na gravidez , na literatura psicanalítica. Alguns fatores parecem poder explicar tal ausência. Em primeiro lugar, o fato da depressão não ser uma entidade nosográfica, nem mesmo um conceito, do campo psicanalítico. O transporte deste termo da psiquiatria para psicanálise se fez através dos psicanalistas com formação psiquiátrica dita clássica, a qual se baseava na “observação cuidadosa”, no “dialógo sustentado e atento com o doente” (MILLAS, 1997: 96), onde as entidades clínicas eram descritas de modo

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minucioso e criterioso a partir da referência à psicopatologia fenomenológica (BENETI, 1997). É o estudo do quadro clínico da melancolia, realizado por Freud em diferentes momentos de sua obra, que serve à psicanálise como modelo para compreensão dos afetos deprimidos. A melancolia também é uma entidade nosográfica da psiquiatria (distinta da depressão), ora considerada uma afecção mental em si, ora associada à psicose (especialmente à psicose maníacodepressiva, atualmente denominada transtorno bipolar). Freud, porém, aborda o problema da melancolia buscando descrevê-la nos termos de suas conforme se exporá mais adiante. Outra razão para a falta de trabalhos psicanalíticos específicos quanto a depressão na gravidez parece ser o fato de os trabalhos sobre a maternidade estarem predominantemente centrados em duas grandes temáticas: a frigidez e a infertilidade. A depressão é estudada , alí, numa relação mais específica a estes fenômenos. Na primeira metade do século a discussão em tôrno da infertilidade já se centrava nos aspectos da psicologia feminina. A inexistência, naquele momento, de técnicas de reprodução sofisticadas, permitiu o avanço das pesquisas em torno dos chamados fatores psicogênicos. Se para a medicina tais fatores, embora com aspecto de caixa preta, serviam de escoadouro para o não-sabido emanado da clínica, para a psicanálise, era a possibilidade de expandir seus construtos explicativos. As discussões sobre esta questão se fizeram em torno do desenvolvimento da sexualidade feminina no complexo de Édipo. De modo geral, as teses falavam de um infantilismo quanto à sexualidade psíquica. Quer fosse por inveja do pênis como propôs Freud, ou por temor de um submetimento masoquista à mãe, como teorizou Deutsch, ou por ansiedade paranóide em relação às partes más deste objeto mãe, como observou Klein, os conflitos eram, geralmente, referidos à dificuldade de identificação com a mãe. As angústias e depressões eram abordadas na perspectiva das dificuldades em tornar-se mulher. Como a maternidade foi tratada por Freud no contexto da organização sexual feminina e considerada seu alvo evolutivo, alguns estudiosos das questões de gênero, deduziram, por parte da psicanálise, uma proposição normativa, redutora da mulher à condição de mãe. Quanto a isso cabe lembrar que a questão central sobre a qual Freud se debruçou foi a sexualidade no seu duplo intrincamento, o teorias,

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indivíduo e a espécie, sendo a reprodução e a maternidade indissociáveis nesse plano de pesquisa. Na última década, a ênfase dos trabalhos psicanalíticos relativos à gravidez recai sobre as práticas de inseminação artificial. A tendência desta discussão se faz em torno do desconhecimento da vertente inconsciente do desejo destas mulheres cuja infertilidade tem causa desconhecida ou “psicogênica”, e que se submetem às técnicas de reprodução assistida. A suposição subjacente a estes trabalhos é de que as práticas médicas sustentam, por vezes, este

desconhecimento, no atendimento da demanda de uma gestação.

Se o filho é

esperado no lugar de metáfora do que é ser mulher, a resposta a esta demanda representará a negação da castração2 e a valorização de idealizações imaginárias quanto ao papel da maternidade na identificação da mulher ao feminino. Tais trabalhos buscam evidenciar, ainda, que a falta de um significante que especifique a mulher no campo das diferenças sexuais psíquicas, diz respeito à pluralidade das suas possibilidades representativas e não a qualquer sorte de carência real, que possa ser resolvida pelo imaginário biológico. Nestes trabalhos o afeto deprimido é abordado, então, em relação ao fracasso que estas gravidezes assistidas podem representar quanto ao sentido plurívoco do desejo das mulheres em questão. (CHATEL, 1995; TUBERT, 1996).

Depressão como experiência afetiva A versão dicionarizada do vocábulo depressão - “ato de deprimir-se; abaixamento de nível resultante de pressão ou de peso; baixa de terreno; diminuição, redução; (...); psiq: distúrurbio mental caracterizado por adinamia, desânimo, sensação de cansaço(...); fig: abatimento moral ou físico, letargia.” (HOLLANDA, 1966: versão eletrônica) - parece evidenciar uma relação analógica entre os movimentos mecânicos de pressão com efeito de diminuição ou redução numa quantidade qualquer, e o que se observa nas descrições semiológicas dos quadros ditos depressivos. Sustentando esta relação analógica buscar-se-á

2

O têrmo Castração está sendo utilizado aqui numa das acepção propostas por Lacan, como condição estrutural da subjetividade, como ausência de um significante que possa circunscrever, em termos de saber, toda a verdade referente ao sujeito e a seu desejo.

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evidenciar que tipo de pressão e sob que aspectos da subjetividade da mulher grávida, poderá resultar num rebaixamento de sua alegria.

Como já sublinhado no início deste capítulo, esta pesquisa da depressão associada à gravidez não pretende enfocar um quadro nosográfico, mas uma manifestação subjetiva passível de ocorrer em mulheres de variadas estruturas psíquicas. Parece, entretanto, que o tratamento metapsicológico que se pretende dar à questão pode autorizar sua extensão à clínica psicanalítica de quadros de depressão na gravidez vínculados a estruturas melancólicas ou depressivas. Porém, a ocorrência de um período depressivo durante a gravidez não indica, necessariamente, uma estrutura subjetiva melancólica3: É possível a presença de afeto deprimido na gravidez de mulheres sem uma história pregressa deste tipo de episódios. Poder-se-ia objetar que a utilização do termo depressão está aqui, então, sustentada apenas no afeto da tristeza, o que não caracterizaria uma depressão ou um quadro melancólico. A intenção de manter tal termo, todavia, se deve à

associação entre a tristeza e um sentimento de perda inefável, ocorrida ou por ocorrer, desvinculada de qualquer perda objetiva, relatada nos casos que serviram de fonte para esta pesquisa. A semelhança com as situações de melancolia - e de luto, por decorrência - onde o afeto triste e a inibição generalizada dão o aspecto depressivo aos sujeitos por eles acometidos, determinou a manutenção do termo. A depressão será aqui considerada como uma ocorrência relativa ao campo do afeto, gerada na passagem da condição subjetiva de mulher à condição de mãe. Buscar-se-á discutir em capítulos subseqüentes a relação entre a angústia a estranheza e o sentimento de depressão, na experiência da gravidez desejada . Parece necessário ressaltar que, se toda angústia se refere à fundação do sujeito como desejante, então, as diferentes experiências que remetem o sujeito
3

A referência a uma estrutura melancólica visa estabelecer diferença entre uma posição subjetiva transitória e outra prevalente. A idéia de que a melancolia poderia ser uma estrutura específica, independente das neuroses, das psicoses e das perversões, permeia atualmente a obra de alguns psicanalistas. Embora nesta pesquisa não tenha sido encontrada referência explícita a essa posição, alguns indícios apontam nessa direção. Na obra de Marie-Claude LAMBOTTE (1997), por exemplo, a opção é por um discurso melancólico. Entretanto, tratandose de autora com orientação lacaniana, sua referência ao discurso a aproxima da concepção de estrutura uma vez que para LACAN (1992) a noção de discurso diz respeito a posições estáveis na linguagem. De modo semelhante, o trabalho de PINHEIRO (1998) O estatuto do objeto na melancolia, embora não explicite a proposição de uma estrutura melancólica, refere-se a uma metapsicologia específica da melancolia, envolvendo um modo particular de vinculação da subjetividade ao objeto, que seria menos de desejo e mais de mimese identificatória.

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a esta fundação são de extremo interesse na clínica psicanalítica. Supõe-se que a gravidez seja uma delas.

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A metapsicologia da maternidade

“De acordo com sua natureza peculiar, a psicanálise não tenta descrever o que é a mulher seria esta uma tarefa dificil de cumprir -, mas se empenha em indagar como é que a mulher se forma, como a mulher se desenvolve desde a criança dotada de disposição bissexual.” Sigmund Freud 1

1

S. FREUD (1976n). A FEMINILIDADE .p. 144

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Proposições freudianas acerca da sexualidade feminina e da maternidade

Estudar a gravidez através da psicanálise implica fazê-lo mediante o recorte específico com que esta compreende o vivido humano, como experiências cuja realidade é centralmente psíquica, essencialmente simbólica. As duas áreas da psicanálise às quais a gestação se liga de modo mais imediato são a sexualidade feminina e a maternidade. No propósito de teorizar a sexualidade, por concebê-la como constitutiva da subjetividade humana, Freud descreve sua organização, porém, com maior ênfase na vertente masculina. Esbarra, entretanto, no desenvolvimento da sexualidade psíquica nas mulheres. O feminino entra na psicanálise desde os primórdios, como campo de enigmas, equívocos e muita fecundidade teórica. Quanto à gestação, seu principal tratamento no campo, tem se dado através da perspectiva da maternidade. Esta, por sua vez, tem sido abordada, especialmente, sob dois prismas: como manifestação do desejo inconsciente de um sujeito mulher ou como função relativa à constituição simbólica da subjetividade (do filho). Nesta última visada a função materna comparece no conjunto de operações psíquicas que respondem, de modo mítico, pela origem do sujeito. Esta foi a vertente sob a qual Freud abordou preferencialmente a questão da maternidade. O conjunto de operações que respondem pela sexuação psiquica é, segundo FREUD (1970), o Complexo de Édipo, processo que resulta no engajamento do sujeito na ordem social através de sua identificação a uma posição sexual, que lhe possibilita a participação na partilha dos objetos sexuais. É através do complexo de Édipo que o sujeito se reconhece (como homem ou mulher) e pode fazer vínculos de natureza sexual e social. Os fundamentos sobre os quais Freud constrói a teoria edípica são: a bissexualidade constitucional, a falta de um demarcador psíquico quanto à diferença sexual, e a necessidade de orientação do sujeito na ordem transgeracional . A idéia de uma lógica edípica subjacente aos processos subjetivos remonta aos primeiros trabalhos psicanalíticos de FREUD (1974a), produzidos entre 1895 e 97. A teoria da sedução, de valor etiológico na estruturação das neuroses, já indicava que os adultos que faziam parte da cena relatada pelos pacientes, cenas de excitação sexual na infância, eram, freqüentemente, os próprios pais. A teoria da sedução é depois substituída pela teoria da fantasia, no entanto, o conteúdo sexual

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envolvendo

os

pais

ou

seus

representantes

permanece.

Freud

passa,

progressivamente, a atribuir valor determinante ao complexo de Édipo, não só na estruturação das neuroses, mas na estruturação psíquica mesma (FREUD, 1976g). A formalização da teoria edipiana da subjetivação não se desenvolveu de forma linear no que diz respeito aos homens e às mulheres. Embora a primazia do falo na orientação do desenvolvimento psíquico da sexualidade estivesse assentada na teoria desde 1905 nos Três Ensaios Sobre a Sexualidade (FREUD: 1972a), os efeitos diversos desta primazia só foram teorizados nos artigos posteriores a 19202. Importante ressaltar que um dos reflexos da bissexualidade original (tese que dá fundamento à teoria do Édipo) é a presença universal, com forças individualmente variáveis, de um complexo de Édipo completo - em sua forma direta ou positiva, e em sua forma invertida ou homossexual - em todos os indivíduos. O que está em questão no Complexo de Édipo é um jogo de investimentos e desinvestimentos libidinais, entre a criança e um dos pais (ou seu representante), acompanhado de identificações ao outro elemento do par parental. O resultado é a identificação a uma posição sexual (feminina ou masculina), que possibilita a participação do sujeito nas trocas sociais, as quais são mediadas pela posição sexual que caracteriza o modo de abordagem dos objetos. Essa trama se dá em torno da ausência e presença do pênis como representante do falo3. Num jogo dialético entre ser e ter o falo e seus correlatos (ter e perder, não ter e receber), constrói-se a posição sexual subjetiva bem como o ingresso na ordem social. O falo tem função de indicador de haver diferença sexual. meninos A presença do pênis nos

em associação a sua ausência nas meninas (e somente nesta estrita

associação) conduz a criança a produzir hipóteses acêrca de seu próprio sexo, bem como do sexo oposto, uma vez que não há reconhecimento psíquico imediato, inato, da diferença sexual. A diferença corporal (ter pênis - não ter pênis) é um indicador imaginário da diferença simbólica que se constroi em torno do falo (fálico –
2

Especialmente nos artigos A Organização Genital Infantil de 1923 (FREUD, 1976g), A Dissolução do Complexo de Édipo de 1924 (FREUD, 1976h), Algumas Consequências Psíquicas Da Diferença Anatômica Entre os Sexos de 1925 (FREUD, 1976i) e nos trabalhos dedicados à sexualidade feminina Sexualidade Feminina FREUD (1974f) e a ConferênciaXXXIII Feminilidade (FREUD,1976n).
3

Em psicanálise o falo é o elemento simbólico por excelência. Seu uso esta ligado à função simbólica desempenhada pelo pênis na dialética intra e inter-subjetiva. Estão referidas ao falo todas as significações subjetivas. (LAPLANCHE & PONTALIS: 1986). LACAN (1993A), em sua repostulação do inconsciente freudiano enquanto estruturado como linguagem, atribuiu ao falo valor de significante fundador do espaço

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castrado). A oposição presença / ausência marca uma diferença que faz trabalhar a linguagem, daí o valor simbólico do falo. A castração é o operador em torno do qual se desenvolve o complexo de Édipo. A lógica subjacente ao complexo de castração é a da ameaça de perda de algo valioso – o falo – como norteador das escolhas possíveis para o sujeito. FREUD (1972b) descreve este complexo pela primeira vez em 1908 quando do estudo do pequeno Hans. O temor da castração passa a ser descrito nos trabalhos psicanalíticos como relacionado, de modo especial, à clínica das neuroses. Depois de 1920, com o aparecimento do texto freudiano A organização genital infantil (Uma interpolação na Teoria da Sexualidade) (FREUD, 1976g) a castração passa a ser considerada a lógica prínceps sob a qual é abordada a diferença sexual e suas conseqüências: o posicionamento sexual psíquico e as escolhas identificatórias e objetais. Como explicitado por LAPLANCHE & PONTALIS: É que o papel que a psicanálise atribui ao complexo de castração não se compreende sem ser relacionado com a tese fundamental – constante e progressivamente afirmada por Freud – do caráter núclear e estruturante do Édipo. (...) O complexo de castração deve ser referido à ordem cultural em que o direito a um determinado uso é sempre correlativo de uma interdição. (1986: 114-115)

Nesta teorização onde a consideração dos genitais femininos se dá a partir do pênis, a mulher está na condição de desprovida ou provida de forma falha (clitóris como um pênis pouco desenvolvido ou amputado). FREUD reconhece que o clitoris é a zona de atividade sexual genital para menina, porém sua comparação com o pênis dos meninos estabelece uma lógica de inferioridade ou falta, do lado das mulheres: Entre as zonas erógenas que formam parte do corpo da criança há uma que certamente não desempenha o primeiro papel e que não pode ser o veículo dos impulsos sexuais ulteriores mas que é destinada a grandes coisas no futuro. Tanto nos meninos quanto nas meninas ela é posta em conexão com a micção (na glande e clitóris)(...) (1972a: 192). A suposição de que todos os seres humanos têm a mesma forma (masculina) de órgão genital é a primeira das muitas teorias sexuais notáveis e momentosas das crianças. Pouco adianta a uma criança que a ciência da biologia
subjetivo, significante este que, na interrelação aos outros significantes do campo da linguagem, promove sentido à subjetividade.

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justifique seu preconceito e tenha sido obrigada a reconhecer o clítóris como um verdadeiro substituto do pênis. ( 1972a: 201). Esta noção de falta relacionada à sexualidade das mulheres será

retomada, mais tarde, por Lacan, que lhe atribuirá um estatuto de fonte do ultrapassamento do gozo fálico.

O Complexo de Édipo Feminino em Freud A teorização de Freud sobre o Édipo feminino se inicia pela postulação de sua equivalência ao masculino, em conseqüência da predominância dada por ele à lógica fálica no estabelecimento e desenvolvimento da sexualidade psíquica. Até a década de 20 Freud postula uma simetria entre o Édipo masculino e o feminino. Ao modo especular, as relações edípicas entre o menino e seus pais se oporiam às da menina. Ao amor devotado à mãe pelo menino, corresponderia o amor ao pai destinado pela menina. À rivalidade do menino ao pai, ocorreria, de modo análogo, a rivalidade da menina à mãe. Toda esta tese será modificada depois de 1925, como descreveremos mais adiante. Freud 4 reconheceu, porém, várias vezes, que o seu conhecimento acerca do desenvolvimento da sexualidade das mulheres era precário. No trabalho de 1923 a Organização genital Infantil (Uma interpolação na Teoria da Sexualidade) FREUD reafirma pontos como a primazia fálica na organização genital das criança e a renegação inicial da diferença sexual constatada na observação clínica dos meninos. Introduz, entretanto, um aspecto importante

para o conjunto da teoria e de especial interesse em relação a este trabalho: a associação entre a maternidade e a percepção das mulheres como castradas: Não se deve supor, contudo que a criança efetua rápida e prontamente uma generalização de sua observação de que algumas mulheres não tem pênis. (...) Mulheres a quem ela respeita, como sua mãe, retêm o pênis por longo tempo. Para ela, ser mulher ainda não é sinônimo de não ter pênis. Mais tarde, quando a criança retoma o problema da origem e nascimento dos bebês e adivinha que apenas as mulheres podem dar-lhes nascimento, somente então também a mãe perde seu pênis. E juntamente, são construídas teorias
Sobre isso ver Introdução do Editor Inglês, J. Strachey ao artigo de FREUD (1976i) Algumas Conseqüências Psíquicas da Diferença Anatômica entre os Sexos.
4

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bastante complicadas para explicar a troca do pênis por um bebê. Em tudo isso, os órgãos genitais femininos jamais parecem ser descobertos. (1976g: 183-184 ). Em 1924 FREUD escreve A Dissolução do Complexo de Édipo, onde discute especialmente a função da ameaça de castração na dissolução do Édipo e a permanência de seus traços através da estrutura superegóica. Se o

desenvolvimento suposto normal ou ideal do complexo de Édipo seria que as primeiras escolhas ou investimentos libidinais sucumbissem ao recalcamento, a

pressão para este recalcamento, no entanto, parecia advir de fontes diferentes conforme o sexo anatômico da criança. Para os meninos a ameaça de castração por parte do pai seria o principal propulsor do recalcamento do amor pela mãe, restando no inconsciente as marcas deste jogo entre desejo incestuoso e ameaça de castração na forma de núcleo do superego. Para menina tal hipótese seria inadmissível. Freud chega a propor um alongamento indefinido na situação edípica da mulher, uma fragilidade no recalcamento de seu amor pelo pai, provocado por seu anseio de obtenção de um pênis, o qual lhe seria doado por aquele, seja na forma de pênis seja na forma de seu substituto, um filho. A ausência de um temor e a prevalência de uma inveja responderiam por certa fragilidade do superego feminino. Estando assim excluído, na menina, o temor da castração, cai também um motivo poderoso para o estabelecimento de um superego e para a interrupção da organização genital infantil. (FREUD,1976h: 223). No caso das meninas, ressalta que a castração (não como ameaça mas como constatação) ocorre numa fase inicial do desenvolvimento libidinal. Em função da inserção da menina na lógica fálica esta continuará, entretanto, aspirando ao desenvolvimento de um pênis ou de algo que se equacione a ele simbolicamente, um filho especialmente. O abandono (quando há) do projeto edípico e o término da organização genital infantil aconteceriam graças a sua não realização, ou seja, por desistência. A formação do superego ocorreria através da ameaça de perda do amor de um dos pais. Nesse sentido a simetria entre os Édipos masculino e feminino já não se sustentava.

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Na década de 20 a pesquisa psicanalítica na área da sexualidade feminina produziu trabalhos de peso como os de Abraham, Helene Deutsh, Karen Horney, Jeanne Lampl de Groot, Ernest Jones e Melanie Klein, dentre outros, estudos que parecem ter exigido um reposicionamento de Freud quanto à teorização sobre o feminino. Freud começa a responder a esta exigência especialmente em seu trabalho de 1925 Algumas Conseqüências Psíquicas da Diferença Anatômica Entre os Sexos (1976i). Neste artigo estão apresentados, de modo sintético, os principais pontos de suas reformulações teóricas sobre o tema, os quais serão desenvolvidos em dois trabalhos na década de 30 - Sexualidade Feminina (FREUD,1974f) e Conferência XXXIII (FREUD,1976n). Importa ressaltar que tais reformulações respondem mais a uma exigência de coerência teórica da própria produção freudiana do que a uma adaptabilidade de Freud aos dados trazidos por estes pesquisadores, o que pode se observar no último capítulo do artigo sobre a Sexualidade Feminina, no qual Freud se dedica a rebater as proposições de cada um dos autores citados acima. Essas críticas já vinham se esboçando desde o artigo de 1925. Em suas próprias palavras: “(...) existe muita coisa que toca de perto naquilo que escrevi, nada contudo, que coincida com ele completamente (...)” ( FREUD, 1974f: 320). As principais reformulações que as pesquisas sobre a sexualidade feminina trouxeram à teoria freudiana dizem respeito a dois aspectos: à intensa ligação da menina à mãe nas fases iniciais de sua organização libidinal, exigindo assim uma troca de objeto (da mãe pelo pai) para que o complexo edípico se instale, e à mudança da zona genital (do clitóris para vagina). A nuclearidade do complexo de Édipo e da angústia de castração são mantidas por Freud acrescentando-se um período pré-edípico, onde meninas e meninos teriam o mesmo objeto de investimento libidinal, a mãe. Este é, portanto, um ponto não de simetria mas de semelhança entre os Édipos masculino e feminino. Outra questão que se esclarece no texto de 1925 é a diferença da função da castração no desenvolvimento dos vínculos edípicos em meninas e meninos. Para as primeiras, a constatação da castração inaugura o complexo de Édipo, para os segundos, ela o encerra.

Um ponto fundamental para Freud desde o início de sua teorização é a idéia da necessidade de uma operação de deslocamento da fonte de excitação, do clítoris para a vagina, para que esta possa ser tomada como fonte de prazer (e

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melhor servir à reprodução ). A ênfase da sexualidade genital infantil feminina é toda no clitóris em equiparação ao pênis, o que sustenta a primazia fálica na organização psíquica da sexualidade. Nesta vertente fálica, a menina não é, em princípio, mas pode vir a se tornar mulher. A este ponto se oporão autores como Ernest Jones e Karen Horney por suporem um conhecimento precoce da vagina (no sentido de experiência psíquica) por parte das meninas. Quanto ao desejo de um filho pela mulher, na perspectiva freudiana, ele é um desejo essencialmente fálico. A maternidade é compreendida no espectro do desenvolvimento da sexualidade fálica. Freud toma como ponto de partida a

masturbação clitoridiana infantil e seu correspondente psíquico – as fantasias – que, senão nos seus primordios, mas desde muito cedo, se orientam para os pais. Considera que a interrupção desta atividade (a masturbação) e o recalcamento das representações a ela ligadas promovem o sentimento de humilhação da menina na comparação das possibilidades de atividade da vagina em relação ao pênis. As chances de um exercício erótico ativo ou masculino são então percebidas pelas meninas como menores em comparação com os meninos. O desejo de um filho entra no campo psíquico da menina como uma espécie de desejo de reparação desta humilhação ou inferioridade, no universo fálico: Não posso explicar a oposição que por esse modo é levantada pelas meninas à masturbação fálica, exceto supondo existir algum fator concorrente que faça a menina voltar-se violentamente contra essa atividade prazerosa. Esse fator está bem à mão. Não pode ser outra coisa senão seu sentimento narcísico de humilhação ligado à inveja do pênis, o lembrete de que afinal de contas , esse é um ponto no qual ela não pode competir com os meninos e assim seria melhor para ela abandonar a idéia de fazê-lo. (...) (...) Agora, a libido da menina desliza para uma nova posição ao longo da linha – não há outra maneira de exprimi-lo – da equação ‘pênis-criança’. Ela abandona seu desejo de um pênis e coloca em seu lugar o desejo de um filho; com esse fim em vista toma o pai como objeto de amor. A mãe se torna o objeto de seu ciúme. A menina transformou-se em uma pequena mulher. (1976g: 317-318)

No artigo de 1931 Sexualidade Feminina FREUD (1974f) teoriza três modos através dos quais as meninas lidariam com a constatação da diferença sexual. Um primeiro modo seria através do abandono de toda atividade sexual caso

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o sentimento de inferioridade fálica fosse percebida como irreparável. Um segundo modo seria pela intensificação da masculinidade que poderia configurar-se duplamente: na manutenção da suposição de posse de um órgão fálico (por negação da castração), podendo levar a um vínculo objetal de caráter homossexual; ou na expectativa de recebimento deste órgão. O terceiro modo de administração da castração pela menina se daria pelo ingresso no complexo de Édipo, via através da qual atingiria “a atitude feminina normal final” (FREUD, 1974f: 264). Neste artigo o desejo de um filho aparece como efeito dos dois modos que não o do abandono da sexualidade: é um projeto de obtenção fálica (portanto, masculino), no âmbito do complexo de Édipo (pênis-filho recebido do pai). Esta retificação teórica, em relação ao texto de 1925, parece indicar uma sorte de contradição: desejar um filho seria, afinal, para mulher, um projeto masculino ou um projeto da feminilidade? Sob este aspecto afirma LAPLANCHE: São essas soluções contraditórias para responder à constatação de uma certa disparidade dos órgãos genitais que foram agrupadas sob o têrmo inveja do pênis, termo cujo caráter equívoco, multívoco (que deve ser conservado), tem sido freqüentemente sublinhado: tanto é a inveja de ter um pênis no lugar pubiano quanto o desejo de receber um no coito, por exemplo, ou ainda a vontade de arrancá-lo do outro, ou a vontade de recebê-lo ou de produzir um substituto dele, por exemplo, sob a forma do filho. Esse equívoco do têrmo “inveja do pênis” significa justamente essa coexistência possível, na menina, daquelas soluções contraditórias que Freud, por mais de uma vez, enumera quando fala das soluções do complexo de castração feminino. (1988: 79) Ainda no artigo sobre Sexualidade Feminina Freud discute longamente as transformações profundas no caráter da vinculação da menina à mãe, durante a organização de sua sexualidade infantil. Estes processos são de interesse para a presente pesquisa, especialmente no que se refere às vicissitudes da imagem materna enquanto objeto de investimento libidinal, em função do papel que a imagem de mãe assume como elemento de identificação para menina. As transformações da imagem materna, para as meninas, poderiam ser sintetizadas da seguinte maneira: inicialmente a mãe é o objeto de todo investimento libidinal, trata-se de uma mãe fálica (não castrada) cujo falo, no caso, é a própria menina. A criança vive os cuidados maternos como estímulos sexuais, o que dá à mãe o papel de sedutora, e esta passa a ocupar o lugar de objeto das fantasias

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sexuais da filha. Sendo em geral a própria mãe que limita a prática masturbatória da criança, ela (a mãe) acabará por assumir um valor contraditório: simultaneamente sedutora e proibidora. A constatação da diferença sexual acrescenta uma outra característica negativa à representação da mãe para menina: teria sido ela - mãe a responsável pela ausência de seu pênis e, portanto, por sua inferioridade. Freud enumera ainda os sentimentos de insuficiência do amor materno ligados a fantasias de ter sido pouco aleitada; ou de ter tido que se submeter à repartição do amor materno com outros além de si (irmãos em geral). Enfatiza, no entanto, que o deslocamento objetal da mãe para o pai se deve, especialmente, à natureza ambivalente das ligações libidinais. O menino pode manter sua ligação afetuosa à mãe dedicando os sentimentos de rivalidade ao pai, e, assim, desenvolver sua masculinidade nos parâmetros do complexo de Édipo. Já a menina não ingressará no percurso tortuoso da identificação à feminilidade caso não abandone a mãe como objeto, o que só se dará se prevalecer, em relação à mãe, a vertente rivalitária de seu amor infantil. Este é, segundo Freud, o caminho para que a menina possa se tornar mulher e, possivelmente, mãe; para que cumpra então a anatomia seu destino... Observa-se na clínica psicanalítica um reavivamento deste conjunto fantasístico durante a gravidez .

Outra vertente importante na discussão acerca do feminino é a oposição atividade/passividade que surge já nos trabalhos iniciais de Freud sobre o desenvolvimento sexual fazendo série, posteriormente, com as oposições fálico / castrado e masculino / feminino, respectivamente. Essa oposição foi Introduzida por FREUD (1972a) no artigo Os Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade, é, porém, na conferência de 1933 – Feminilidade – (FREUD, 1976n) que se encontra a síntese de seus pontos de vista sobre esta questão. Não é a passividade em si que caracteriza o feminino, mas a busca de um fim passivo, cuja obtenção exige, por vezes, muita atividade. Freud atribui esta tendência feminina a uma extensão do modelo sexual à vida da mulher de modo geral, sem desprezar, no entanto, a variabilidade individual do poder modelador da sexualidade, nem a influência do meio. Freud estabelece uma seqüência lógica entre passividade –› ambivalência –› masoquismo. A bissexualidade original se molda, na mulher, ao predomínio da passividade, tanto por contingências biológicas (anatômicas) como sociais. O fim

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passivo é o alvo genital da sexualidade feminina. Para atingi-lo, no entanto, deverá abdicar (ou sublimar) o fim ativo de suas moções pulsionais, o que se faz às custas de suas tendências agressivas. Freud demonstra nesta conferência como a supressão da agressividade, que se institui no desenvolvimento da organização libidinal feminina, para que a passagem da menina fálica à mulher receptora do falo possa ocorrer, é reforçada socialmente, o que vem a favorecer “o desenvolvimento de poderosos impulsos masoquistas (...)” (FREUD, 1976n:144). Tais impulsos investem de um caráter erótico as tendências destrutivas voltadas contra o próprio eu da mulher, de modo que a sexualidade f minina assume um viés masoquista. e Nesta vertente se desenvolveram as pesquisas de psicanalistas de peso como Helene Deutsch, Karen Horney e Melanie Klein.

Retomando o artigo de FREUD (1976n) de 1933, vê-se ressaltar com especial atenção o fato de que, no caso específico da experiência edípica nas mulheres, tudo que vem a se passar quanto ao investimento libidinal em relação ao pai, já foi vivido inicialmente em relação a mãe. Sendo assim, também para as meninas as fantasias primordiais de sedução são relacionadas à mãe e é também em relação a ela que se organiza inicialmente, o desejo de um filho. Referindo-se à fase adulta da mulher, Freud afirma, na Conferência em questão, que a escolha objetal desta é marcada pela inveja do pênis, importando assim uma maior demanda narcísica, em função de sua suposta inferioridade ou deficiência quanto ao falo. Isto faz a mulher mais dependente do amor e dos dons do homem (pênis e filho, por exemplo), na busca de reparação narcísica. O objeto de seu amor é aquele que puder amá-la com ou por sua falta. (...)Assim, atribuimos à feminilidade maior quantidade de narcisísmo, que também afeta a escolha objetal da mulher, de modo que, para ela, ser amada é uma necessidade mais forte que amar. A inveja do pênis tem em parte, como efeito, também a vaidade física das mulheres, de vez que elas não podem fugir à necessidade de valorizar seus encantos, do modo mais evidente, como uma tardia compensação por sua inferioridade sexual original. (...) Onde a escolha (objetal) pode mostrar-se livremente, ela se faz, freqüentemente, em conformidade com o ideal narcisista do homem que a menina quisera tornar-se. (FREUD, 1976n: 162).

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Nestas duas citações vê-se Freud tratar o narcisismo feminino na perspectiva do complexo de Édipo. A idealização do masculino como objeto de identificação, situando-se no plano do complexo de Édipo, parece, nas mulheres, dever ser pensada como segunda em relação a um primeiro plano identificatório. Assim, uma escolha objetal que se mostra livremente também pode revelar-se em conformidade com o ideal narcisista do (a) filho (a) amado (a) que se foi, ou gostaria de ter sido um dia. Estes são os modos narcísicos de escolha de objetos, descritos por FREUD em 1914 (1974b), escolhas de caráter pré-edípico, portanto. No final desta conferência Freud discute alguns possíveis problemas na relação conjugal das mulheres e atribui-lhes como causa uma possível regressão libidinal a estágios pré-edípicos marcados pela ambivalência, onde o marido ou companheiro é tomado num deslocamento da imagem da mãe. Freud ressalta, ainda, a possibilidade de, frente ao nascimento de um filho, a mulher reviver sua identificação à mãe “contra a qual ela vinha batalhando até a época do casamento (...)” e assim, reproduzir o “casamento infeliz dos pais”. (FREUD, 1976n: 163). Esta afirmação parece revelar o caráter problemático de uma identificação à posição feminina final. Se no caso do menino a “normalidade” de sua identidade sexual está na identificação ao pai e ao abandono da mãe como objeto de desejo, em favor de todas as outras mulheres, no caso das meninas há também a interdição quanto ao objeto (o pai), mas a fonte de identificação (a mãe) é destituída de poder por sua posição de castrada quanto ao falo. Outra dificuldade, ainda, é que este processo de identificação da menina à mãe não se faz senão sobre um fundo de ressentimento de um amor primário fracassado.

Parece importante destacar, na conclusão deste capítulo, o quanto a mítica edipiana - vertente sob a qual Freud supõe o reconhecimento psíquico do sujeito quanto à diferença entre os sexos - se apóia na anatomia. Se, por um lado, esta é uma fonte de equívocos, por outro, ela mantém no campo psicanalítico uma exigência à constante redefinição do papel do corpo na subjetividade. É impossível que se despreze o lugar de operador que a imagem do corpo assume na organização da sexualidade psíquica, independente de se considerar ou não a pulsão como um conceito relativo a algo que participa do campo biológico. O peso da anatomia parece central na constituição da sexualidade em sua face simbólica. É importante, porém, que se ressalte o apontamento freudiano de que a anatomia esta

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implicada no destino da sexualidade psíquica. É nesse sentido que se faz necessária a distinção entre mulher e feminino; a primeira, restrita à anatomia, o segundo relativo ao que se pode fantasiar ou simbolizar quanto aquilo que a anatomia oferece de possibilidades de gozo para uma mulher. Ainda assim, porém, o peso relativo da anatomia nos fundamentos da organização sexual psíquica, parece ser fonte de muitas divergências no campo psicanalítico.

O estatuto do objeto filho Para que se possa compreender as implicações do filho na subjetividade materna é necessário que se qualifique seu estatuto de objeto. É preciso, no entanto, explicitar as várias vertentes em que a noção de objeto comparece na teoria freudiana. LAPLANCHE & PONTALIS (1986) destacam três formas sob as quais a noção de objeto aparece na teoria freudiana, sendo duas delas próprias ao campo da psicanálise, e a terceira proveniente da intersecção entre os campos psicanalítico, filosófico e biológico. Na primeira acepção o objeto é correlativo da pulsão, instrumento do qual esta se utiliza para atingir sua finalidade, a satisfação. Uma segunda postulação diz respeito ao amor, onde o objeto é visado numa pretensa meta de totalização do eu, este mesmo o protótipo do objeto. Segundo os autores a noção de objeto comparece ainda, numa perspectiva mais próxima à concepção filosófica de objeto do conhecimento, associada a uma perspectiva psicofisiológica de objeto da percepção. Autores vinculados às concepções lacanianas da psicanálise, todavia, buscam demarcar fortemente a não pertença ao campo psicanalítico desta terceira vertente. Nesta linha uma autora como RABINOVICH (1988) subdivide, também em três, as formas de comparecimento da noção de objeto na obra freudiana, privilegiando os surgimentos daquela noção que sustentam a construção lacaniana de objeto a. Apresenta como primeira teoria do objeto a da Interpretação dos Sonhos onde esta noção é vinculada à de desejo, o objeto sendo

fundamentalmente perdido e reconstruído alucinatóriamente como percepção interna. É o objeto em jogo no processo primário. Um segundo surgimento do objeto se faz em torno da noção de pulsão: aqui o objeto é essencialmente parcial. A

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relação entre estas duas acepções de objeto pode ser resumida nas palavras da própria autora: “O objeto perdido do desejo é, (...), condição de produção do objeto pulsional na obra freudiana; este último adquire traços que lhe são próprios e que são inseparáveis do autoerotismo e da inclusão do corpo.” (op. cit p. 6). A terceira dimensão do objeto é a do amor. A autora sublinha porém, a noção do objeto falo, tardia na obra freudiana, e com Lacan ressalta uma possível excentricidade deste, como redefinidor das outras séries do objeto.

Retomando a questão do estatuto do filho como objeto na obra de Freud, todo desenvolvimento teórico demonstrado no ítem anterior indica que ele é fálico. Poder-se-ia argumentar que tal viés se deve ao fato das maiores referências à maternidade terem sido feitas no contexto do complexo de Édipo e à lógica fálica. Importante lembrar que Freud também tratou do filho como objeto na vertente

narcísica. No texto Sobre o Narcisismo. Uma Introdução FREUD (1974b) trata da relação entre a libido do eu e a libido objetal, comparando-a com o fluxo entre vasos comunicantes, o que dá elementos para que se pense o duplo estatuto do objetofilho. Sendo investido simultânemente pela libido narcísica e pela libido objetal, o filho pode ser tomado como mesmo e como outro pelo eu materno. Cabe que se tome aqui o texto de 1914 para se acompanhar o desenvolvimento que faz Freud quanto à vida erótica dos seres humanos como prova em favor da existência de um narcisismo primário. Nesta parte de seu artigo descreve o apoio das pulsões sexuais nas de autoconservação no início da vida erótica. A obtenção da satisfação erótica se viabilizando através dos mesmos objetos que garantem a sobrevivência (a mãe ou seus substitutos). Em seguida fala da descoberta clínica de sujeitos cuja escolha objetal tem como modelo o próprio eu. Presume, então, em todos os seres humanos, uma dupla condição do objeto em sua origem: Dizemos que um ser humano tem originalmente dois objetos sexuais – ele próprio e a mulher que cuida dele – e ao fazê-lo estamos postulando a existência de um narcisismo primário em todos, o qual, em alguns casos, pode manifestar-se de forma dominante em sua escolha objetal. (FREUD, 1974b: 104-105).

O modelo do objeto é simultaneamente aquele que provê satisfação e o que é satisfeito. Sendo o objeto o elemento em torno do qual se orienta a pulsão,

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esta é outra forma de abordar-se a reversibilidade pulsional. Reversão que implica não só os dois polos sujeito e objeto, mas também o conteúdo pulsional. FREUD (1974c) em seu artigo metapsicológico sobre as Pulsões descreve como única forma de reversão do conteúdo pulsional a reversão do amor em ódio. Tal possibilidade explicaria, então, o surgimento de afetos derivados do ódio no seio de relações narcísicas conforme demonstrou LACAN em seus artigos O Estádio do

Espelho...(1995c) e A Agressividade em Psicanálise (1995d), os quais serão abordados em capítulo subsequente. No trabalho sobre o narcisismo, Freud constrói os argumentos para

postulação de um narcisismo primário como modo de organização libidinal prévio aos investimentos objetais, a fim de justificar as observações clínicas que indicam o retorno da libido para o eu em circunstâncias como as do sono, da doença orgânica, da esquizofrenia e outras. Nesta via o feminino lhe serve de sustentação. Faz uma diferenciação entre os modos de escolha de objeto típicos da masculinidade e da feminilidade. Embora reconheça não poder universalizá-los, atribui ao masculino o amor objetal completo, com seu traço de supervalorização sexual, originado da total transferência do amor de si (narcisismo) em favor do amor do objeto. Ao tratar do tipo feminino o texto se complexifica pois o autor trabalha em dois níveis: no âmbito estritamente psíquico (o feminino em oposição ao masculino), e no plano biológico (mulheres em oposição aos homens). Distingue o tipo de escolha feminino pela transferência sempre parcial da libido aos objetos em função da manutenção de um certo grau de narcisismo. Afirma que este tipo é o mais frequente e o mais verdadeiro. Para explicá-lo, se utiliza do desenvolvimento da sexualidade nas mulheres. Atribui a estas uma intensificação do narcisismo na adolescência graças ao amadurecimento dos órgãos sexuais, o qual lhes propicia um certo “autocontentamento”, desfavorável a uma escolha objetal completa. “Sua

necessidade não se acha na direção de amar mas de serem amadas(...)” (FREUD, 1974b: 105). Compara o fascínio exercido pelas mulheres (especialmente as mais belas), ao das crianças, dos grandes animais carnívoros, dos grandes criminosos e dos humoristas, em suas aparências de autosuficiência e/ou independência em relação aos objetos. Atribui o poder de encantamento destes objetos à sua capacidade de afastar qualquer coisa que possa interferir em sua integridade narcísica.

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Freud conclui apresentando duas situações onde as mulheres amam de modo objetal completo: “na criança que geram em seu próprio corpo” ou na manutenção do “anseio por um ideal masculino” (FREUD, 1974b:106). Tais afirmações parecem se esclarecer na seqüência do artigo quando Freud descreve os caminhos pelos quais se escolhe um objeto - através de si mesmo enquanto objeto amado e amável, ou através do outro enquanto objeto amador -, e os modos pelos quais se pode amá-lo – como amor de si (narcísico) ou como amor para outro (anaclítico). Parece possível que se conclua que Freud considera masculino o amar extensivo (anaclítico) que se dirige para alteridade, e feminino o amar intensivo

(narcísico) dirigido à ampliação do próprio eu. Ainda assim, tais afirmações se prestam a equívocos. O amar narcísico pode ser entendido como amar a si mesmo através do objeto mas, também, amar o objeto como ao próprio eu. Esta última formulação coincide, no entanto, com a do amor objetal. Ao considerar o narcisismo como modo de organização libidinal, Freud atribui um valor genético, de fundamento, ao amor de si em relação ao amar os objetos. Assim a distinção entre o amar a si através dos objetos e o amar aos objetos através de si, não diz respeito à distinção entre os modos masculino e feminino de amar, mas ao modo neurótico ou não de fazê-lo. A experiência pulsional completa envolve os dois polos de satisfação, enquanto a neurose implica na fixidez da reversibilidade, mantendo-se sob recalcamento um dos polos. Freud finaliza a segunda sessão de seu artigo dedicando-se a explicar o amor dos pais aos filhos, na perspectiva narcísica. Supõe que o fundamento da supervalorização afetiva freqüentemente envolvida neste tipo de relação se deve à revivescência do narcisismo dos pais. Afirma tratar-se de um amor objetal completo, transformado a partir do amor narcísico dos pais. O amor ao objeto filho sendo sempre uma expansão do amor dos pais a si mesmos. Na terceira sessão do artigo Freud descreve a formação do ideal do eu como derivada do narcisismo prímario, compondo-se dos traços de si enquanto objeto amado. Construção que se dá pelas atribuições que o amor do objeto faz sobre o eu infantil e que são por ele percebidas enquanto atribuições de valor. Se o filho desejado é sempre investido pela libido narcísica dos pais, em tese sua presença, durante a gestação normal, deveria representar um incremento do amor próprio daqueles. A observação clínica demonstra, no entanto, que isto nem sempre ocorre. A tristeza, o desânimo, afetos próximos aos da melancolia ocorrem

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com certa freqüência em periodos iniciais da gravidez. Como explicar, na perspectiva narcísica, a ocorrência desses estados afetivos? É o que se pretende desenvolver a seguir.

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À procura da especificidade feminina
“(...) É precisamente na avançada sociedade ocidental, que tenta melhorar ou ultrapassar a natureza, e que erige o individualismo e a realização pessoal como modelos, que a crua realidade da condição feminina emerge com dolorosa clareza. Quanto mais a mulher corre em busca de identidade e autonomia pessoais, quanto mais desenvolve sua imaginação mais feroz será a luta com a natureza – quer dizer, com as obstinadas leis físicas de seu próprio corpo.” Camille Paglia.1

1

C. PAGLIA (1992) “Sexo e Violência ou Natureza e Arte”. In: Personas Sexuais. Arte e Decadência de Nefertite a Emily Dickinson.

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O debate de 1920 e a produção de Helene Deutsch Nas décadas de 20 e 30 travaram-se intensos debates no campo psicanalítico referentes à teoria do estabelecimento das vias de construção da sexualidade nas mulheres. Autores como Karen Horney, Ernest Jones e Helene Deutsch, dentre outros, pareciam supor a necessidade de se produzir uma conceitualização da sexualidade psíquica das mulheres centralizada em sua especificidade anatômica. A teoria psicanalítica da organização da sexualidade psíquica infantil, construída em tôrno da genital, parecia dar o lugar de modelo à sexualidade masculina. Os debates se faziam não só quanto ao papel da anatomia, mas quanto ao que seria a particularidade, tanto do percurso, quanto do resultado final, fazendo diferir a sexualidade feminina da masculina. Discussões sobre o papel da vagina, do complexo de castração e do masoquismo, na constituição da sexualidade psíquica, formavam o núcleo de tais debates. Cabe ressaltar que estes debates se estenderam no campo desde então. Ainda em 1960, em Amsterdam, realizou-se um colóquio internacional de Psicanálise sobre o tema da Sexualidade Feminina, no qual LACAN apresenta uma compilação dos problemas teóricos relativos ao feminino organizados em tôrno da seguinte questão: “quais são as vias da libido outorgadas à mulher pelos faneros anatômicos de diferenciação sexual dos organismos superiores?” 2 ( 1993b: 704). Isto demonstra que os problemas relativos ao papel da anatomia na subjetividade ainda eram bastante candentes naquele momento da produção psicanalítica.

No caso do tema abordado por este livro - os afetos deprimidos na gravidez - o peso do cenário biológico é bastante relevante. A gravidez é um processo biológico restrito (ao menos por enquanto...) ao corpo das mulheres. Este tipo de ocorrência ou mesmo de possibilidade responde por especificidades da organização libidinal nas mulheres? De que modo? Foi com este tipo de questão que se abordou a literatura psicanalítica pesquisada. Tomou-se como ponto de partida os autores que debateram diretamente com Freud a questão do feminino. Destes destacou-se o trabalho de Helene Deutsch uma vez que esta autora revela uma preocupação em teorizar as relações entre a função reprodutiva na mulher e a feminilidade. Sem dúvida, outros autores que trabalharam o feminino abordaram

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direta ou indiretamente a reprodução e a maternidade. O recurso a esta autora, se deve, especificamente, ao especial destaque que ela dá ao narcisismo na organização psíquica da mulher. Além disso, foi na teorização de Deutsch que encontrou-se a primeira referência à depressão na gravidez interpretada

psicanaliticamente.

Atualmente,

os

psicanalistas

interessados

nas

experiências

da

maternidade e seus correlatos, têm retomado, com freqüência, as produções e os debates do início desta polêmica em tôrno do feminino, isto é os artigos das décadas de 20/30. Uma delas é AMARAL (1996) que em sua tese de mestrado descreve e analisa algumas produções desse período. Em relação a Helene Deutsch, apresenta uma análise aguda e extremamente pertinente sobre seu trabalho, salientando a correção da constatação daquela autora quanto ao campo onde poder-se-ia buscar uma especificidade do feminino - o do gozo. Este último é tomado na concepção que propõe LACAN, ou seja, como modo particular de experiência do limite da subjetividade na linguagem, limite do saber (1992). Ressalva, porém, que a teorização de Deutsch se faz numa direção essencialista, buscando simetrizar a sexualidade entre homens e mulheres e critica a postulação de uma finalidade ou sentido (a reprodução) no desenvolvimento da organização sexual psíquica. Amaral pretende demonstrar a disparidade da teorização de Deutsch em relação a de Freud. A posição adotada neste livro é a de que talvez não se trate exatamente de disparidades, mas de conseqüências lógicas de um tipo de leitura da obra freudiana onde o apoio do psíquico no biológico não é apenas metafórico mas real, suas relações não sendo necessariamente de causalidade, mas submetidas a ordens complexas de interações recursivas, onde se operam, simultaneamente, a “subjetivação do corpo” e a “corporificação da subjetividade” (PRADO Jr., 1998). Os artigos de Deutsch aqui trabalhados são aqueles coletados por MarieChristine HAMON (1994) e publicados num conjunto de textos psicanalíticos acerca do feminino denominado Féminité Mascarade, além do livro da própria Helene DEUTSCH (1952), La Psicologia de la Mujer; bem como nas produções de alguns comentadores dos trabalhos desta autora: Paul ROAZEN (1978), Olga SALAS (1990) e Nympha AMARAL (1996).

2

Tradução da autora.

61

Helene Deutsch tem um importante papel na elaboração teórica da psicanálise por ter participado do grupo que partilhou com Freud essa construção. Sua contribuição se deu, especialmente, no campo da psicologia feminina. Apesar de algumas contestações de Freud quanto às posições desta autora, ele respeitava sua produção a ponto de atribuir a ela e a R. Brunswick a descoberta da fase préedípica de ligação da menina à mãe (ROAZEN, 1978). O trabalho de H. Deutsch, entre outros, leva Freud a reorganizar sua teoria edípica, abrindo mão da hipótese da simetria entre o desenvolvimento libidinal masculino e feminino, alteração que aparece em seu artigo Algumas Conseqüências Psíquicas da Diferença Anatômica entre os Sexos ( FREUD, 1976i).

Para Deutsch a peculiaridade do desenvolvimento libidinal das mulheres, seu caminho de acesso à posição feminina, seria o da passividade e do masoquismo. Segundo esta autora a vida sexual das mulheres se caracteriza por sofrer inibições não só de caráter social (estas inibições seriam secundárias) mas, também, constitucional. Tais inibições são defesas do ego frente aos conflitos entre as tendências sexuais e as de autoconservação. Através de um aumento do investimento narcísico o eu feminino se defende do m asoquismo característico de suas tendências sexuais. Deutsch questiona, inclusive, a tese freudiana de que o narcisismo da mulher seja mais forte do que o do homem como produto da inveja do pênis : Ainda que esta explicação contribua num certo grau para nossa compreensão do narcisismo feminino, não julgamos que seja completa nem que constitua o fator essencial que se deva levar em conta.(...) Como as tendências sexuais da mulher se dirigem a objetivos perigosos para seu ego, este se defende e fortifica sua segurança interna intensificando seu amor a si mesmo, que se manifesta, então, como ‘narcisismo’. ( DEUTSCH, 1952: 177).3 O resultado desta inibição constitucional é um aumento da “atividade voltada para dentro” expressão que a autora prefere para descrever a passividade feminina. Deutsch estabelece uma analogia entre esta atividade dirigida para dentro nas mulheres e a atividade voltada para fora nos homens, ou seja, faz um paralelismo entre masoquismo nas mulheres e agressividade nos homens. A autora
3

Tradução da autora.

62

não se utiliza do termo sadismo no equivalente masculino. Há uma clara preocupação em desvincular o masoquismo feminino da perversão4. Masoquismo parece ser utilizado no sentido de predominantemente receptivo em oposição à masculinidade cuja característica seria a tendência intrusiva. Este tipo de movimento libidinal explica, segundo a autora, uma maior tendência à sublimação do erotismo, nas mulheres. Partindo do jogo entre as tendências masoquistas e narcísicas, a autora define três tipos femininos eróticos. Essa tipologia se estabelece apoiada ainda num terceiro elemento – os precussores emocionais das funções reprodutivas da mulher ou seja, sua disponibilidade psíquica para maternidade. Deutsch supõe, portanto, um papel central à maternidade (realizada ou fantasiada) na organização psíquica do feminino. Quanto aos três tipos femininos eróticos poder-se-ia sintetizá-los através das nuances no equilíbrio entre as tendências narcísicas e masoquistas. No primeiro haveria um leve aumento nos traços de satisfação masoquista, enquanto no segundo a inclinação seria para o incremento do narcisismo. O terceiro tipo difere dos dois primeiros pela presença de um forte masoquismo moral. Importante ressaltar que esta tipologia não propõe designações nosográficas mas refere-se a “tipos normais”. Quanto à disponibilidade para maternidade, esta interfere na

eleição dos objetos de amor por parte das mulheres, ou seja suas escolhas eróticas se fazem com vistas à atualização de suas tendências à maternidade. Para auxiliar na sustentação de suas hipóteses, a autora se utiliza de estudos na área da fisiologia sexual animal, comparando-as com a humana. Mostra que entre algumas espécies animais a fêmea só está submetida ou receptiva no ato do coito e na fecundação, todo o ciclo reprodutivo nestas espécies se deslanchando a partir da fêmea. No caso dos humanos, há uma total independência entre a sexualidade do homem e a da mulher, podendo aquele submeter por sua força a esta última. Deutsch atribui esta diferença à passagem ao bipedalismo do homo erectus que permitiu ao homem, dadas as diferenças de compleição física, dominar a mulher para o sexo, estabelendo-se este modo de aproximação sexual como modelo humano, o qual se reatualiza nas fantasias de estupro femininas. Tais

4

“Para tranquilizar o leitor anteciparemos nossa exposição do masoquismo feminino assinalando que carece da crueldade, impulsos destrutivos, sofrimento e dor, com que se manifesta o masoquismo nas perverssões” (DEUTSCH, 1952: 180). Tradução da autora.

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fantasias associam a violência e a força masculina com o cuidado e a proteção que a mulher deseja.

As divergências com relação a Freud

No que tange aos pontos de divergência teórica em relação a Freud, o mais importante parece ser o papel equivalente que Deutsch atribui à vagina em relação ao pênis na organização da sexualidade, estabelecendo então uma equipotência fálica entre ambos. A questão da diferença psíquica entre os sexos, que em Freud se estrutura em tôrno da diferença anatômica, parece se deslocar na teoria de Deutsch para uma distinção no tempo e nos meios pelos quais se obtem a integração e conseqüente satisfação da pulsão sexual. Para Deutsch a inveja do pênis, não se constitui como característica central ou o móvel da organização sexual feminina. A percepção da diferença anatômica não tem valor de fundação da diferença no campo psíquico. Para esta autora, é o estabelecimento de um caráter funcional aos órgãos sexuais que fornece à criança os indícios da diferença sexual. É quanto a este caráter funcional que as meninas sofreriam o trauma genital. Este se refere à dupla carência funcional – ativa e passiva – quanto aos órgãos sexuais. O clitóris, um pênis em menor dimensão, é insuficiente para penetração, para satisfação de impulsos

ativos/agressivos. A vagina – órgão funcionalmente passivo – leva muito tempo para ser percebida pela menina, uma vez que depende do pênis, no coito, para sua percepção. Vemo-nos obrigados a supor que esta verdadeira incapacidade do órgão para satisfazer as moções pulsionais, ativas e agressivas, deve ter conseqüências importantes. Em primeiro lugar – em oposição à conduta do menino – essas pulsões que necessitam um órgão ativo ficam suspensas. Portanto, a insuficiência do órgão pode ser considerada como uma causa biológica e fisiológica das diferenças sexuais psíquicas. (...) O lugar do órgão ativo é ocupado por outro passivo-receptivo, a vagina. Este processo se produzirá mais tarde, e o mais notável é que entre esse giro em direção à passividade e a completa eficácia do órgão corresponde um grande espaço de tempo, durante o qual a menina pequena não tem este órgão a sua disposição. (...) Estes dois

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acontecimentos associados produzem o trauma genital (DEUTSCH, 1952: 212-213)

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Deutsch se distingue de outras autoras contemporâneas suas, como Karen Horney e Josine Mueller, por exemplo, que supunham a percepção precoce da vagina com representações psíquicas a ela correspondentes. Os destinos dados a estas percepções respondendo pelo poder do complexo masculino na menina. Para H. Deutsch esta percepção é tardia: O despertar da vagina para um funcionamento sexual completo depende totalmente da atividade do homem, e a ausência de atividade vaginal espontânea constitui a base fisiológica da passividade feminina. (DEUTSCH, 1952: 216).6

O apoio da função reprodutiva para organização da sexualidade feminina.

Em seu artigo La psychologie de la femme en rapport avec ses fonctions de reproduction (DEUTSCH, 1994) a autora busca explicar como a procriação está relacionada a processos de reavaliação funcional e revaloração que a mulher tem que operar em relação a seus órgãos genitais. Este artigo se desenvolve no sentido de demonstrar que a vagina assume progressivamente sua função de recepção do pênis, no coito, e que este processo se faz orientado pelo desenvolvimento da organização libidinal. A autora supõe uma equivalência na economia libidinal entre boca e vagina, assim como entre mamilo e pênis. A boca se erogeneiza inicialmente de modo passivo–receptivo, através do mamilo; assim como, posteriormente, em equivalência regressiva, o pênis erogeinizará a vagina. Deutsch parte das concepções de FREUD (1972a) e ABRAHAM (1970) quanto às fases ou modos de organização da libido. Supõe que estas não se passam de modo linear mas cumulativo, amalgamando elementos de etapas anteriores. Além disso, presume uma organização que se dá não só de modo progressivo mas, também, regressivamente. Um ponto fundamental de sua construção teórica é a concepção de que a sexualidade feminina se dirige, em seu
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Tradução da autora.

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desenvolvimento, para procriação. Isto exige um investimento narcísico da vagina, para que esta tome sua função tanto no processo reprodutivo como na economia do prazer. Para quem alcançou a posição feminina, a tarefa última não é a satisfação do desejo infantil do pênis no ato sexual, mas uma verdadeira descoberta da vagina como órgão de prazer – por uma troca do pênis diante da posse real e equivalente da vagina. Este órgão novamente descoberto deverá se tornar para mulher – como o pênis para o homem, segundo Ferenczi, ‘uma miniatura do eu inteiro’, ‘um duplo do eu’ (DEUTSCH, 1994: 78).7

Para a autora, a libido que investe a vagina advém de duas fontes: do corpo em geral com suas zonas erógenas e do clitóris. Em ambos os casos é através do contato com o pênis que estes investimentos se deslocam para a vagina. A libido proveniente do corpo como um todo responde pelo papel passivo da vagina na medida em que herda o caráter receptivo da boca em seu modo de relação primária com o mamilo. Segundo a autora, nas fases iniciais do desenvolvimento libidinal o “inconsciente estabelece uma equivalência entre o pênis paterno como órgão de sucção, e o seio materno.” (DEUTSCH, 1994: 79). Já a libido proveniente do clitóris é responsável pelo caráter masculino também atribuível à vagina. A atividade orgástica é suposta equivalente à uma ejaculação masculina “atenuada”.

Importante salientar que a teorização de Helene Deutsch se ancora, também, nas teorias de FERENCZI (1990), especialmente no que se refere ao papel teleológico do coito na organização psíquica. Para esse autor não só a sexualidade se desenvolve no sentido da genitalidade, como isto responde por uma melhor adaptação do organismo ao meio, uma vez que a prevalência de um erotismo disperso por todo o corpo interferiria na funcionalidade dos órgãos e, portanto, nas condições de sobrevivência deste organismo. O coito representa o ponto terminal de uma organização sexual que se dá de modo pangenético, reproduzindo o processo inteiro em cada etapa de sua organização. O autor supõe um tríplice processo de identificação: entre o organismo total (que se representa no ego) e o órgão genital, entre o ego e o parceiro sexual, e entre o ego e a secreção genital. O alvo final da
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Tradução da autora. Tradução da autora.

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evolução da sexualidade sendo um “regressar ao corpo materno” situação primária de bem estar, onde ainda não teria havido a ruptura dolorosa entre o ego e o meio ambiente. (FERENCZI, 1990: 24). Se considerarmos o processo genital sob esse ângulo que eu qualificaria de ‘bioanalítico’, estaremos em condições de compreender, enfim, por que o desejo edipiano, o desejo de coito com a mãe, é reencontrado com essa regularidade quase enfadonha por sua monotonia como tendência nuclear na análise dos homens neuróticos. O desejo edipiano é a expressão psíquica de uma tendência biológica muito mais geral que impele os seres vivos ao retorno ao estado de repouso de que desfrutavam antes do nascimento. (FERENCZI, 1990: 24-25). Nas concepções de autores como Ferenczi, Abraham e Deutsch, a organização sexual psíquica parece não só se apoiar, mas ser determinada pela organização genital. Nesse sentido, a obra teórica de Deutsch busca a especificidade da sexualidade da mulher, desvinculando-a de uma posição de sombra da sexualidade do homem e, considerando a anatomia e a fisiologia feminina como centro e alvo da organização sexual psíquica da mulher. Esta reconsideração do papel da anatomia não a afasta, no entanto, de uma concepção da primazia fálica na organização da subjetividade. A autora relativiza, porém, o papel fálico do pênis, neste processo. Por outro lado, esbarra às vezes, no próprio excesso de ênfase na anatomia, o que a faz tratar fatores constitucionais e anatômicos como empecilhos a um pleno acesso à feminilidade. Por preservar a exclusividade da lógica fálica como o modo de funcionamento da sexualidade no campo psíquico, sem, no entanto, abrir mão de uma via de sexualização específica da mulher, a autora faz equivaler a vagina ao pênis, restando a bissexualidade e o clitóris como obstáculos à plena feminilidade: Se não houvesse para mulher esta funesta disposição à bissexualidade e o clitóris com suas tendências masculinas, como seria simples e evidente para ela a via em direção a uma mestria harmoniosa de sua existência! 8 (DEUTSCH, 1994: 95).

Afirmações como estas demonstram o grande esforço da autora em buscar a especificidade da sexualidade feminina, embora num claro hibridismo entre

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o estabelecimento de uma lógica de regência inconsciente própria ao feminino e, a descrição de uma psicologia da mulher, condições que se apoiam sem serem idênticas.

Prosseguindo na análise do artigo de 1924, encontra-se um relevo quanto ao papel da gravidez no processo de organização da sexualidade psíquica da mulher, bem como uma abordagem do problema da depressão na gravidez. A gravidez e o parto se inscrevem no conjunto da organização libidinal, a qual se desenvolve rumo a genitalidade. Ambos constituem-se como prolongamentos do ato sexual, mais especificamente do coito, o qual representa o restabelecimento de uma forma primária de relação aos objetos: a incorporação oral. A culminância desse processo no parto corresponde a um retorno a uma situação sem ambivalência, onde as fronteiras entre sujeito e objeto se apagam. Esta proposição parece se articular à tese freudiana de que todo desenvolvimento do ego, para além do narcisismo, visa sempre o retorno a este estado original (FREUD, 1974b: 117). Na perspectiva do coito como um processo de incorporação, a vagina passa de continente do pênis a continente do filho. A função reprodutiva que no caso do homem é alcançada diretamente no ato sexual com a ejaculação e a satisfação orgástica, na mulher, sofreria um desdobramento: a primeira fase, o orgasmo; a segunda, a gravidez e o parto. O parto seria a conclusão de uma experiência, tanto biológica quanto psíquica, que se inicia no coito. O orgasmo para mulher já encerraria, em si, elementos da satisfação completa só obtenível no parto. A autora fala do orgasmo feminino como um parto não ocorrido, um “missed labour”. (DEUTSCH, 1994:85) Ao centrar na incorporação, fora da ambivalência, a equivalência entre o mamar e o coito-parto, Deutsch parece estar fazendo equivaler o filho (sua representação) enquanto resultado do coito, a uma primeira organização erógena do eu que se pré-figura na fase oral primitiva da organização libidinal. A gestação parece repetir a organização do eu.

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Tradução da autora.

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O afeto deprimido na gravidez

Quanto à depressão na gravidez, a autora a explica partindo da proposição freudiana acerca da pulsão de morte, identificando esta última com a destrutividade. Seguindo a proposição de FREUD, em O Ego e o Id (1976e), de que a pulsão de morte se manifesta quando as pulsões sexuais estão satisfeitas, Deutsch afirma que a gravidez e o parto poderiam despertar os temores da manifestação destas pulsões destrutivas, por representarem o cume da satisfação erótica para mulher. Dada a analogia entre a organização fálica da sexualidade na mulher e no homem, para ambos a descarga da tensão genital significa o ápice da satisfação sexual, e a abertura, portanto, para a manifestação da pulsão de morte. A depressão na gravidez seria, assim, um efeito das moções pulsionais destrutivas. Tal afirmação parece se esclarecer na análise teórica que a autora faz das relações entre o eu materno e o objeto libidinal bebê, as quais serão descritas no contexto da gravidez. A autora descreve uma complexa economia libidinal entre o coito e o parto, que se manifesta no trato com o objeto pênis-criança, o qual é incorporado no ato do coito sendo também introjetado psiquicamente, passando a ser parte constitutiva do eu. As relações entre o eu e este objeto (pênis-bebê) se passam em dois níveis: de um lado o objeto é tomado como parte integrante do próprio eu, portanto, numa relação narcísica, de outro, como objeto derivado das series identificatórias. Aqui, então, como outro em relação ao eu materno.

Deutsch aborda, ainda, a economia dos afetos na gravidez referindo-se à ambivalência amor-ódio. Segundo esta autora, a regressão libidinal a estágios precoces de organização tais como a fase oral tardia e a fase anal sádica, marcados pela ambivalência, responderiam pela duplicidade de afetos com os quais as representações do bebê são investidas quando de sua incorporação e introjeção simultaneamente como objeto interno e externo ao eu. Para Deutsch, a hiperemese, assim como as contrações uterinas durante a gravidez, são expressões destes modos respectivos de trato com o objeto. A autora afirma que em ambos os casos é de uma libido narcísica que se trata, investindo o bebê enquanto parte do corpo próprio da mãe, porém parte a ser dela destacada. Este processo se apoia na equivalência simbólica entre fezes-bebê. A manutenção do feto na gestação, bem

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como a separação do bebê em relação ao corpo real e simbólico da mãe, se apoiam sobre esta equivalência. No texto, Helene Deutsch esclarece que a libido que aflui ao eu, atraída pela introjeção do objeto bebê, reatualiza um investimento desta mesma ordem, correspondente à identificação paterna. Neste sentido, o bebê ocupa para a mãe o lugar de Ideal do Eu, tornando-se assim o eixo de seus processos sublimatórios. Por outro lado, tal identificação desliza, por vezes, para vertente superegóica, podendo se tornar fonte de conflito com o eu. A autora define dois tipos de mulheres

conforme suas reações à gravidez: umas que adoecem, se deprimem e se enfeiam à medida que o bebê se desenvolve; outras que parecem estar no apogeu de suas capacidades físicas e psíquicas durante a gestação. Em relação às primeiras, em cujo grupo supõe poder encontrar experiências de melancolia na gravidez, afirma: No primeiro caso, o narcisismo da mulher sofreu em benefício da criança. De um lado o superego se apropriou do eu; de outro lado a criança, enquanto objeto de amor, atraiu para si uma tal quantidade de libido que o eu se tornou empobrecido.9 (DEUTSCH, 1994: 91) Vê-se, então, que o tratamento dado pela autora a esta tipologia, e, conseqüentemente à melancolia na gravidez, é de ordem metapsicológica. Envolve um aspecto dinâmico e topográfico - o conflito entre instâncias psíquicas – além de um econômico, referente ao deslocamento da libido entre o eu e o objeto. A ênfase no caráter opressivo do Ideal do Eu corresponde, ainda, ao enfoque dado por Freud à questão da melancolia em Luto e Melancolia ( 1974d)

Deutsch termina este artigo ampliando a demonstração da analogia entre o fim sexual masculino (a descarga sexual), e o feminino (o parto). Ainda ancorada na analogia fantasmática entre a atividade do pênis e do seio, a autora propõe que na lactação se realiza para mulher, pela segunda vez, uma identificação ao papel fálico masculino. No coito o pênis assumiu o papel do mamilo, erotizando a vagina; na lactação o mamilo se faz pênis erotizando a boca do bebê...Se não se toma exclusivamente os aspectos anatômicos desta descrição, ela se configura numa clara indicação de que, para esta autora, o desenvolvimento da sexualidade psíquica feminina tem como fim não só a transmissão genética mas, especialmente, a

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Tradução da autora

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transmissão da potência erógena. Dito de outro modo: o objetivo da sexualidade feminina é não só a transmissão da vida, mas da vida desejante.

Um narcisismo feminino

Buscou-se mostrar, até o momento, como Helene Deutsch privilegia o narcisismo no delineamento da sexualidade feminina. Cabe ressaltar o modo específico com que a autora trata esta organização libidinal nas mulheres. Em seu artigo Erotismo: A Mulher Feminina (DEUTSCH, 1952) parte das concepções freudianas, especialmente as desenvolvidas no artigo de 1914 (1974b), papel

desenvolvendo-as de modo bastante particular. Atribui ao narcisismo um

central na organização da sexualidade psíquica feminina: seu papel seria o de fiel da balança entre a feminilidade normal e a neurótica e sua função seria exercer uma certa regulação em relação às moções pulsionais passivo-masoquistas que predominariam nas mulheres. Considera o aumento do narcisismo como efeito da luta das pulsões de autoconservação em relação às sexuais, uma vez que os objetivos sexuais femininos tenderiam a pôr o eu em perigo. A autora faz uma crítica à afirmação freudiana de que uma mulher feminina não ama mas se deixa amar. Afirma que o amor feminino é naturalmente passivo-narcisista. “Se este amor não é patologicamente deformado, pode comparar-se a um fogo que irradia calor.” (DEUTSCH, 1952: 179). Como já foi dito acima, a autora compreende a estutura psíquica feminina como se organizando em torno da tensão entre a sexualidade passivo-masoquista e o narcisismo erótico mas também autoconservador. Um terceiro elemento que define a estrutura feminina é a disponibilidade para maternidade. “A eleição pela mulher dos objetos amados está, de certo modo, determinada por seus laços emotivos passados, e por sua capacidade psicológica para a maternidade.” (DEUTSCH, 1952:180) Como compreender esta disponibilidade à que a autora se refere? Não parece tratar-se de uma mera descrição fenomenológica relativa à psicologia da mulher, uma vez que tal disposição é de caráter estruturante. Deutsch relaciona esta disponibilidade para a maternidade aos laços amorosos femininos. O vínculo com o objeto de amor se faz numa dupla determinação: em relação a um modelo paterno e

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a um um modelo filial – o objeto é recolhido ora na serie do pai idealizado e hiperestimado, ora na série do filho promissor “que necessita que a mulher a ele se identifique para aumentar sua confiança em si mesmo.” (DEUTSCH, 1952: 187). O elemento comum é o vínculo através da identificação, seja a uma forma realizada (paterna) ou por realizar-se (filial). Um aspecto da teoria do feminino de Deutsch que parece importante salientar é o que ela considera um traço comum às mulheres: sua facilidade para identificar-se a seus objetos de amor. Traço indicativo de riqueza interna. Importante lembrar que FREUD (1976d) em seu artigo de 1921 Psicologia de Grupo e Análise do Ego trata a identificação como a expressão do modo mais primitivo de laço

emocional. Primitivo, neste caso, não parece ter um caráter valorativo, mas referirse ao estatuto inicial , básico, da identificação como modo de relação do eu ao objeto.

Em O Ego e o Id de 1923, no capítulo dedicado a formação de superego e suas relações com o ego (eu) Freud trata tanto das identificações primárias, anteriores a qualquer relação objetal, como da identificação ao objeto que já foi investido anteriormente pela libido. Descreve este último movimento como o principal processo na formação do ego (eu). Ainda buscando especificar as relações entre investimento objetal e identificação Freud afirma: (...) De qualquer maneira, o processo [de identificação pós abandono do objeto] especialmente nas fases primitivas de desenvolvimento, é muito freqüente, e torna possível supor que o caráter do ego é um precipitado de catexias objetais abandonadas e que ele contém a história dessas escolhas de objeto. Naturalmente, deve-se admitir, desde o início, que existem diversos graus de capacidade de resistência, os quais decidem até que ponto, o caráter de uma pessoa [seu ego] desvia ou aceita as influências da história de suas escolhas objetais eróticas. Em mulheres que tiveram muitas experiências amorosas, não parece haver dificuldade em encontrar vestígios de suas catexias de objeto nos traços de seu caráter. (FREUD, 1976e: 43-44).

Freud não especifíca neste trecho a natureza dessa capacidade de resistência a qual parece responder por uma maior ou menor fixidez do eu. Pode-se supor uma referência ao que vem a desenvolver a seguir: o supereu. Chama atenção porém, a introdução do exemplo das mulheres e suas relações amorosas

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num contexto onde descrevia a formação do aparelho psíquico. Em se considerando que num texto de Freud, uma afirmação não seja nunca desprovida de importância, pode-se supor que o exemplo clínico indica uma particularidade da organização egóica nas mulheres. Cabe lembrar que Freud sempre considerou lábil o superego feminino em função da particular relação das mulheres com o complexo de castração. Seguindo imediatamente o trecho descrito acima, Freud se refere à possibilidade de vigor simultâneo tanto da identificação quanto do investimento objetal em relação a um mesmo objeto. Julga que esta concomitância pode, por vezes, responder pela manutenção da relação objetal (este ponto será retomado em capítulo subsequente). Estes parecem ser os pontos de sustentação para concepção de Deutsch quanto ao predominio das identificações amorosas nas mulheres e seu papel “enriquecedor” da subjetividade.10

Retornando a H.Deutsch, parece necessário que se esclareça qual a natureza do vínculo ao filho durante a gravidez, uma vez que esta autora supõe a regressão libidinal da gestante a estágios primários de organização libidinal, estágios pré-ambivalentes. A ênfase dada a corrente afetiva de ligação das mulheres a seus objetos, permite que se levante a questão de se o vínculo com o objeto é sempre de natureza sexual, seu caráter terno sendo resultado de sublimação ou dessexualização, como propunha Freud, ou se existiria uma corrente terna, desvinculada da sexual e de natureza própria, provavelmente derivada de pulsões de autoconservação como viriam a propor BALINT (1986 e 1993), com sua teorização do amor primário, e BOWLBY (1990), com sua teoria do apego, como formas de relação objetal primárias. O fato de a autora em questão referir-se a este investimento como libidinal parece definir seu caráter sexual. A concepção de Helene Deutsch parece apontar no sentido de uma corrente única sexual, modalizada em masculino e feminino, esta última modalidade se distinguindo da corrente masculina pelo predomínio do objetivo passivo e do modo de satisfação

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CORRÊA (1995) em seu artigo Um disparador e suas consequências psíquicas, buscando uma correlação entre o conceito de desmetido de Ferenczi e o conceito de hemorragia psíquica de Freud, analisa a questão das identificações nas mulheres, em relação à economia libidinal, tal como apresentadas nos textos freudianos. Afirma que a plurivocidade do precipitado de identificações das mulheres – os traços de seus muitos amores – é o que lhes confere ganho psíquico. Este ultimo é entendido como a ampliação e complexificação das vias de resposta (descarga) do aparelho psíquico, em oposição à passividade [ou a maior fixidez] das organizações psíquicas estabelecidas em conformidade com identificações impostas, ou escassas, que dificultariam o empreendimento das ações específicas.

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narcísica. A diferença entre masculino e feminino se centraria, assim, não na natureza do vínculo, mas no modo de acesso ao objeto. No que se refere, então, ao objeto filho, o texto de 24 parece descrever os tempos e o modo de constituição deste objeto, através de um modelo de dinâmica libidinal própria à gravidez, enfatizando os aspectos clínicos da transformação da representação do filho, de objeto narcísico (objeto de amor de si), para objeto de amor... A construção desse objeto, repetiria a história de construção da subjetividade materna.

Em relação às alterações afetivas durante a gravidez, Helene DEUTSCH fala de “tendências hostis se manifestando igualmente nas modificações passageiras de caráter, tipicamente anais, na mulher grávida” (1994, p.88). Atribuias ao reavivamento da equivalência fezes- bebê e considera tais sentimentos de desgosto como deslocamentos para alimentos, pessoas ou situações, dos desejos expulsivos (anais) em relação ao bebê. Ressalta, porém, que tais atitudes hostis tendem a se modificar em torno do quinto mês de gestação “ om os primeiros c movimentos do bebê” . A autora supõe uma dupla vetorialidade na mudança que então se passa: de um lado o amadurecimento do investimento libidinal por parte da mãe tende a uma representação do filho como objeto separado; por outro, o desenvolvimento da criança para uma certa autonomia pressiona na direção do amadurecimento descrito acima. Numa interpretação kleiniana poder-se-ia

considerar que a movimentação do feto pode servir como signo da integridade do objeto, portanto, da integridade dos conteúdos internos da gestante, que não teriam sido, então, alvo da retaliação por parte de sua própria mãe, em face dos desejos agressivos da gestante para com ela. Essa integração da imagem do objeto permite sua separação em relação ao eu materno, sem conseqüências destrutivas para este último (KLEIN, 1996).

Deutsch discute, também, como o narcisismo, que tem função de proteger o ego da mulher de suas tendências masoquistas em relação a seus parceiros, freqüentemente fracassa em sua função defensiva quando da relação da mulher ao filho. Paradoxalmente, a maternidade que, numa ótica estritamente fálica, poderia representar a realização de uma posição narcísica para mulher, numa perspectiva como a apresentada por Deutsch representa também seu fracasso. A

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posse do filho, mesmo que se a considere em sua vertente fálica, elimina a ferida narcísica anterior, relativa ao falo, liberando a libido para outros investimentos amorosos, especialmente no próprio filho. Isto, por sua vez, submete a mulher às suas tendências passivo-masoquistas, agora em relação ao filho. A tendência às posições masoquistas nas relações entre mães e filhos é um dado observado na clínica psicanalítica. A autora afirma que a escolha de não ter filhos em mulheres com traços fortemente femininos e maternais pode representar, neste sentido, uma tentativa de salvaguarda do eu .

É necessário que se ressalte que a posição da autora quanto à maternidade não caracteriza uma normativização. A disposição para maternidade é uma tendência, simbólica, apoiada na disposição biológica da espécie. Nas palavras da própria autora, maternidade designa a “(...)capacidade para subordinar seus interesses individuais aos da espécie. A espécie está representada pelo filho, mas a atitude maternal pode ser dirigida a outras pessoas ou coisas.” (DEUTSCH, 1952: 190). Fica assim evidente o intrincamento ou apoio do destino pulsional às necessidades biológicas não só do indivíduo mas também da espécie. Apoio que a autora parece sustentar com toda conseqüência ao considerar, na reprodução e na sexuação psíquica, a função de transmissão da eroticidade, conforme já afirmado anteriormente.

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A

metapsicologia

da

melancolia como modelo

de

compreensão do afeto deprimido na gravidez.
“Como as partes diferem e as funções variam, a melancolia, conforme a parte que ocupa ou atravessa, engendra paixões diversas: no coração, um estremecimento, no estômago, uma fome devoradora, no cérebro, as ilusões enganadoras, e nos outros órgãos, os problemas correspondentes às suas funções.”1 Timothy Bright2.

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Tradução da autora T. BRIGHT (1996: 129) Traité de la Mélancolie de 1586.

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A teoria de Freud

Em diferentes momentos da produção psicanalítica de Freud, pode-se constatar seu interesse pela melancolia. Em sua correspondência a Fliess, o

Rascunho G testemunha sua atenção à descrição dos processos psíquicos subjacentes a este quadro clínico (FREUD, 1977). Sua data provável é 7 de janeiro de 1895. Nesse momento, a abordagem teórica da melancolia se faz em torno da dinâmica da libido, como luto pela perda da libido. Em 1917 Freud aborda

novamente este tema em Luto e Melancolia (FREUD, 1974d), artigo escrito em 1914, provavelmente na esteira do artigo sobre o Narcisismo, como indica seu editor inglês. Nele, a melancolia é abordada em sua forma clínica associada à mania. Freud mantém a comparação dos processos melancólicos àqueles envolvidos no luto, ressaltando, agora, porém, a regressão libidinal ao narcisismo. Em 1924, em seu Neurose e Psicose (FREUD, 1976f), dá à melancolia o estatuto de neurose narcísica, distinguindo-a tanto das neuroses de transferência como das psicoses. Supõe, então, uma organização metapsicológica específica a estas afecções, baseada em sua nova teoria do aparelho psíquico. Neste artigo sua ênfase recairá no conflito entre o ego e o superego.

No período de escrita do Rascunho G, Freud se encontrava em pleno processo de pesquisa das relações entre as funções somáticas e as psicológicas, que resultaria no Projeto para uma Psicologia Científica (FREUD 1977), trabalho parcialmente abandonado pelo autor, em favor da construção de um conjunto teórico de caráter metapsicológico. O rascunho sobre a melancolia se inseria naquela linha de pesquisa. Nele, Freud parte da relação entre a melancolia e estados somáticos (como a anestesia sexual, a neurastenia provocada por masturbação e coito interrompido, as manifestações somáticas da ansiedade intensa) e verifica que a semelhança entre estes quadros clínicos se deve a uma diminuição no nível da excitação somática que investe as representações de objeto. Para analisar estas diferentes apresentações da melancolia, Freud parte de dois eixos: o movimento da libido e o afeto que lhe corresponde. Afirma que em qualquer estado melancólico o que se observa é uma perda no âmbito da libido, e

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um afeto semelhante ao luto. Descreve o mecanismo melancolia do seguinte modo:

psíquico subjacente à

Podemos imaginar que se o ps. G [grupo sexual psíquico] se defronta com uma grande perda da quantidade de sua excitação, pode acontecer uma retração para dentro (por assim dizer) na esfera psíquica, que produz um efeito de sucção sobre as quantidades de excitação contíguas. Os neurônios associados são obrigados a desfazer-se de sua excitação, o que produz sofrimento. Desfazer-se associações sempre é doloroso. Com isso, instala-se um empobrecimento da excitação (no seu depósito livre) – uma hemorragia interna, por assim dizer – que se manifesta nos outros instintos e funções. Essa retração para dentro atua de forma inibidora, como uma ferida, num modo análogo ao da dor. (FREUD, 1977: 281-282). Esta descrição da melancolia é prevalentemente econômica. A falha ou perda se passa no campo pulsional, o efeito é uma inibição dos investimentos libidinais e sofrimento psíquico (dor).

Em Luto e Melancolia esta tese inicial guarda sua pertinência, entretanto, a questão do objeto assume relevância. Neste artigo a ênfase recairá nos vínculos com o objeto. Daí a importância da distinção entre a perda do objeto real (no luto) e a perda do objeto ideal (na melancolia). Também será necessário distinguir o vínculo objetal de uma identificação, pelo tratamento diverso que é dado ao objeto nas duas situações. Freud reafirma a propriedade da analogia entre estes dois estados psicológicos - luto e melancolia - por ambos envolverem uma perda, cujo resultado é um conjunto de traços mentais, muito semelhantes: (...) um desânimo profundamente penoso, a cessação do interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição do sentimento de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. (FREUD, 1974d: 276). A ausência de perturbação da auto-estima e suas conseqüências, nos

processos de luto, serve de chave para compreeensão de importantes diferenças metapsicológicas quanto aos dois processos. Freud examina em que consiste o trabalho do luto e em seguida tenta compará-lo aos estados melancólicos. Afirma que a constatação da ausência do objeto leva o eu a um período alucinatório da

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presença daquele, visando à manutenção do vínculo, antes prazeiroso. O desinvestimento da representação de tal objeto exige que o desligamento da libido se realize em relação a cada lembrança ou expectativa relacionada a ele (trabalho do luto). A conformação à realidade tende a impor-se, no caso do luto, e a conclusão deste trabalho torna o eu novamente livre e desinibido. Na melancolia, todavia, a natureza da perda é diferente – é no campo do ideal – e ocorre fora do plano da consciência. O sujeito melancólico não sabe o que perdeu, o que torna o trabalho de desligamento libidinal, por parte do eu, mais difícil e enigmático. Além disso, o complexo melancólico, em seu caráter inconsciente, “se comporta como uma ferida aberta, atraindo a si as energias catexiais (...) provenientes de todas as direções, e esvaziando o ego até este ficar totalmente empobrecido” (FREUD, 1974d: 286). Essa concepção de um furo ou de uma ferida na organização do eu, que absorve todo movimento libidinal do sujeito melancólico, responde, também, por sua dificuldade em refazer novos investimentos. Avaliando a questão da auto-estima na melancolia, Freud conclui que os ataques a si, tão impróprios à natureza narcísica do eu, são, na verdade, ataques ao objeto deslocado para o eu. Tal deslocamento ocorre, em função de duas précondições: uma forte fixação mas uma fraca catexia objetal. Estas condições são, aparentemente, contraditórias. Entretanto, baseado numa constatação de Otto Rank, FREUD afirma: (...) essa contradição parece implicar que a escolha objetal é efetuada numa base narcisista, de modo que a catexia objetal, ao se defrontar com obstáculos, pode retroceder para o narcisismo. A identificação narcisista com o objeto se torna, então, um substituto da catexia erótica,(...) Essa substituição da identificação pelo amor objetal constitui importante mecanismo nas afecções narcisistas (...) Ele representa, naturalmente, uma regressão de um tipo de escolha objetal para o narcisismo original. (1974d: 282) Forte fixação e fraco investimento do objeto seriam característicos, então, do modo de vínculo narcísico. Ao especificar a diferença entre a identificação histérica e a narcísica, Freud afirma que na primeira o investimento libidinal ao objeto é mantido, enquanto, na segunda, é abandonado. Situa ambas no contexto da formação dos sintomas, atribuindo à identificação narcísica um papel mais primitivo. Reafirma, todavia, que as identificações expressam a existência de algo em comum entre o eu e o objeto, “que pode significar amor” (FREUD, 1974d: 283).

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Assim, não basta o recurso ao vínculo narcísico para compreender a melancolia. A explicação de seu caráter auto-acusatório e auto-culpabilizador deve vir de outra fonte. É na própria natureza dos vínculos entre o eu o o objeto que Freud vai buscála, recorrendo ao caráter ambivalente dos vínculos objetais nas fases iniciais da organização libidinal. Freud conclui que a melancolia toma emprestado alguns de seus traços, ao luto; e os outros, à regressão libidinal ao narcisismo. Devido aos processos regressivo, e à ambivalência, o vínculo amoroso se transforma em agressão, atacando o eu do melancólico, agora identificado ao objeto. A catexia libidinal, nestes casos, sofre dupla vicissitude: parte dela regride para o narcisismo e outra parte se transforma em sadismo devido à ambivalência. Daí a possibilidade do suicídio, como agressão ao eu tomado pelo objeto. Do ponto de vista metapsicológico, a melancolia se processa como efeito de uma regressão libidinal ao narcisismo, devida a alguma sorte de ataque ao eu (perda), onde a ambivalência afetiva (inconsciente) revela sua face de sadismo na forma de agressões ao eu identificado ao objeto.

Uma afirmação de Freud, entretanto, coloca de modo muito condensado questões de bastante relevância. Discutindo a dinâmica do trabalho psíquico na melancolia, constata a rigidez do eu atribuindo-a à afluência da libido para as representações ligadas ao conflito melancólico e explica a dificuldade em dormir, observada nestes pacientes, como devida a esta fixidez da catexia libidinal no complexo conflitivo. O que provavelmente é um fator somático, fator este que não pode ser explicado psicologicamente, torna-se visível na melhoria regular da condição, que se verifica por volta do anoitecer. Essas considerações nos levam a perguntar se uma perda no ego, independente do objeto 3 - um golpe puramente narcisista contra o ego -, não bastará para produzir o quadro de melancolia, e se um empobrecimento da libido do ego, diretamente por causa de toxinas, não será capaz de produzir certas formas de doença. (FREUD, 1974d: 286). Embora Freud esteja se referindo a processos somáticos – tóxicos – afetando a estrutura egóica, parece pertinente que se deduza que outros processos, que não a regressão libidinal da relação objetal para relação narcísica, podem

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também ser responsáveis pelo aparecimento de estados melancólicos. Conforme indicado na citação acima, a perda no ego pode se referir a algo que o afete em sua organização básica, nuclear. Se o narcisismo primário é o recobrimento pela libido de um conjunto de traços identificatórios primitivos, formador do eu, poder-se-ia pensar no efeito doloroso provocado por tudo que afete o arranjo original destes traços. Retomando o rascunho G, conforme citado acima, o desinvestimento de traços é sempre doloroso. Esta afirmação, aparentemente isolada no texto, parece indicar que, do ponto de vista etiológico ou, no que se refere à disposição para a afecção, o peso relativo da estrutura do eu, de sua flexibilidade para suportar o “golpe narcísico”, na produção dos sintomas, está em conexão estreita com a dinâmica pulsional e o conseqüente trato (vínculo) com o objeto. Esta posição será claramente indicada em 1924 no artigo Neurose e Psicose (1976f).

Baseando-se nesta afirmação acima, parece possível supor que a presença do feto no corpo da mulher pode representar uma perda no eu. A perda do estatuto narcísico de filha, e/ou mulher, reorientado no sentido do tornar-se mãe, poderia responder pela presença de afetos melancólicos durante a gravidez. Em algumas mulheres, ou mesmo em alguns períodos da gravidez, a atenção do

parceiro ou do entorno em geral, voltada de modo prevalente para a gestação, pode representar uma perda no plano narcísico. O ser amada através do filho implica, num certo nível, a perda do ser amada por seu próprio eu. É freqüente escutar-se a queixa por parte das gestantes quanto ao excesso de atenção ao “corpo gestante” e perda de atenção ao “corpo erógeno” da mulher grávida, especialmente por parte do parceiro.

Retornando aos textos freudianos, observa-se que, em 1923, quando publica O Ego e o Id, formalizando sua nova tópica do aparelho psíquico, a explicação da dinâmica subjacente à melancolia será centrada nas relações entre o ego e o superego. A supremacia da instância crítica fica evidente tanto na melancolia quanto na neurose obsessiva. Na neurose obsessiva, no entanto, o

objeto ao qual se destina o sadismo superegóico é um objeto ao qual o eu se

3

Grifo da autora.

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vincula, um objeto externo ao eu. Já na melancolia, o fato do objeto ter sido incluido no eu, faz com que seja a este último (ao eu) que se dirijam os ataques, aumentando os riscos de autodestruição. O maior risco de suicídio na melancolia se deve justo a esta identificação. A neurose obsessiva estaria mais protegida pela manutenção do vínculo agressivo com um objeto exterior ao eu. “Podemos perceber que o que garante a segurança do ego é o fato de o objeto ter sido retido.” [retido como objeto, portanto, separado do eu]. ( FREUD, 1976e: 70). Importa ressaltar que, nesta segunda tópica, as forças pulsionais são supostas duais, podendo se fusionar e desfusionar. Ao eu cabe administrar a satisfação dessas tendências pulsionais opostas, em relação às exigências da realidade, e àquelas oriundas das instâncias ideais. Em relação à melancolia a perspectiva proposta em O Ego e o Id é a de que através do processo de regressão libidinal, provocado por frustração, ocorre um desintrincamento pulsional onde o superego passa a mobilizar as moções destrutivas e as dirige contra o ego. Conforme indica Freud, o superego surge ao final do complexo de Édipo, por identificação aos modelos parentais, processo que implica na dessexualização das relações a estes objetos de amor. Entretanto, a dessexualização implica na desfusão pulsional. “Essa desfusão seria a fonte do caráter geral de severidade e crueldade apresentado pelo ideal - o seu ditatorial ‘farás’” (FREUD, 1976e: 71).

No artigo de 1924, Neurose e Psicose, Freud qualifica a melancolia como uma neurose narcísica. Num esforço de aperfeiçoamento do poder de descrição clínica de seu novo esquema do aparelho psíquico, propõe como diferencial nosográfico as fontes de conflito do ego. Assim, “As neuroses de transferência correspondem a um conflito entre o ego e o id; as neuroses narcísicas, a um conflito entre o ego e o superego, e as psicoses, a um conflito entre o ego e o mundo externo.” (FREUD, 1976f: 192). Termina este pequeno artigo questionando-se sobre as circunstâncias em que o ego pode enfrentar estes conflitos sem “cair enfermo”, e conclui que os determinantes serão o fator econômico (magnitude das moções pulsionais envolvidas) e a plasticidade do ego em deformar-se, ou mesmo clivar-se, evitando, assim, seu colapso.

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Amor e Melancolia: os domínios do objeto

Seguindo as proposições freudianas quanto à melancolia, visando relacioná-las com o objeto desta pesquisa, acompanhar-se-á as relações entre o estar amando e o estar melancólico. Freud toma o amor intenso e o suicídio melancólico como exemplos de situações onde o eu é dominado pelo objeto. Cabe notar que afeto deprimido e gravidez desejada parecem relacionar-se com estes dois pólos. Uma gravidez ensejada a partir do desejo de um filho envolve um enorme investimento amoroso quanto às representações deste objeto. Nesse sentido, a dimensão do filho como objeto de amor pode ser de ordem tal que sua sombra venha a se abater sobre o eu total da mulher, inibindo seus outros investimentos afetivos ou manifestações simbólicas. O que parece importante destacar são as identificações constitutivas do ser mãe, relativas ao narcisismo e ao eu feminino, e relacioná-las ao desejo da mulher que espera um filho. Dito de outro modo: qual a relação entre a constituição narcísica da mulher na posição de mãe e o filho como objeto? Como essa relação pode afetar o sujeito mulher ou quando o amor pelo filho gestado pode ser inibidor das produções subjetivas da mulher?

A temática das identificações interessa aqui por sua participação tanto na teoria freudiana da melancolia - modelo que se está utilizando para compreensão do afeto deprimido -, como por sua inclusão freqüente nas abordagens psicanalíticas da maternidade. Partindo-se da teoria freudiana, a identificação ao papel maternal é suposta ocorrer como resultado da experiência edipiana, por identificação à mãe. O desejo é, inicialmente, de dar um filho à mãe e, posteriormente, de ter um filho do pai. Mas é identificada ao lugar da mãe que a mulher poderá gerar filhos. A literatura descreve, também, a necessidade de identificação da mulher ao filho, na maternidade4. Esta identificação parece referir-se ao reconhecimento dos limites
4

Exemplos desta concepção de que a mulher grávida se identifica ao feto podem ser encontrados em DEUTSCH : “A ’regressão maternal’ definitiva é alcançada durante a gravidez pela identificação com o bebê.” (1994: 92) ; LANGER: “A mulher grávida se identifica com o feto, revivendo assim sua própria vida intrauterina” (1964:182); WINNICOTT: “Existe comunicação, ou não, [entre mãe e bebê] dependendo do fato de a mãe ser ou não capaz de se identificar com o bebê (...). Isto leva a um estudo das transformações que ocorrem com a mãe (ou pai) no que diz respeito à gravidez e à paternidade.(...) Nesta situação a mãe é tanto o bebê quanto ela própria (...).” (1996: 95); BALINT: “Libidinalmente, a mãe é receptora e doadora na mesma extensão que seu

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quanto aos referenciais (tanto imaginários como simbólicos) nos quais se inscreve a subjetividade. A fragilidade maturacional dos primórdios da vida humana, fundamento sobre o qual se estrutura a subjetividade desejante, parece ser reatualizada na gestação e nas relações iniciais da mãe com o filho recém-nascido. Retomar-se-á, então, a temática das identificações na teoria psicanalítica de modo que se possa examinar as semelhanças entre sua ocorrência na gravidez e nos processos melancólicos e de luto. O conceito de identificação vai se especializando progressivamente na obra de Freud, até assumir valor central na constituição do aparelho psíquico. Essa centralidade é correlativa ao papel essencial atribuído ao complexo de Édipo com seu corolário de identificações e escolhas objetais. Na segunda tópica, as identificações respondem pela formação das subestruturas psíquicas, a partir do id. A identificação narcísica, apresentada sob esta denominação em Luto e Melancolia, já fora postulada em Totem e Tabu como um modo primário de relação ao objeto definido por sua introdução ou incorporação no eu. Este primeiro tipo de laço ao objeto se associa ao modo mais elementar de experiência pulsional, a constituição oral do objeto. Com a teorização do narcisismo e a divisão pulsional em pulsões sexuais e pulsões do eu, a identificação narcísica se torna correlata aos investimentos do eu. A escolha objetal narcísica se faz sob um modelo identificatório, em conformidade com o que se é, o que se foi, o que se gostaria de ser ou alguém que foi uma vez parte sua (FREUD,1974b: 107). Na segunda tópica, especialmente com a teorização da dissolução do complexo de Édipo e, da construção do supereu como seu herdeiro, a idéia de especialização do aparelho a partir do id dá muito relevo às identificações como traços das relações primitivas. Neste momento da obra de Freud, a identificação narcísica ou incorporativa, considerada anterior às relações objetais e tida como uma relação maciça ao objeto, será denominada identificação primária. Em síntese, parece possível supor que o processo de identificação primária ou narcísica diz respeito a alguma sorte de alteração (ou formação) do eu total, mediante a relação ou intervenção de um objeto também total, isto é, sem discrimanação exata de seus traços ou atributos. Daí a possibilidade de situar-se
filho; ela experencia seu filho como uma parte de seu próprio corpo e ainda como algo estranho e hostil, do

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este modo de identificação tanto numa primeira constituição do eu onde as distinções se fazem por critério incorporativo (o que é prazeroso é eu, o deprazeroso é não-eu), quanto nos processos relacionados à melancolia. Nesta última, a vinculação do eu ao objeto é de tal ordem que o sujeito não reconhece o que perdeu nele (nos atributos do objeto), não podendo, assim, fazer seu luto. O luto do objeto implica no reconhecimento destes atributos, no reinvestimento do vínculo em cada um deles para a posterior retirada da libido. Na melancolia o luto não se faz porque o objeto indiscriminado resta incorporado ao eu. Nem na identificação primária, nem na melancolia há relação objetal em sentido estrito.

No caso da identificação da mulher ao papel materno não se trata de uma identificação primária mas de uma identificação oriunda do complexo de Édipo, onde o objeto filho poderá se inscrever na série dos objetos fálicos, o que já o vincula, também, ao narcisismo da mãe, porém não como único objeto possível, uma vez que, por definição, os objetos fálicos são sempre substituições de um hipotético objeto primeiro. Que relações entre o eu materno e o objeto fálico filho poderiam responder, então, pela inibição dos investimentos libidinais maternos com o conseqüente estado de tristeza? Retomar-se-á a discussão sobre o amor e a melancolia, em parêntese, visando encontrar um encaminhamento de resposta a essa questão. Amor e Melancolia parecem ser situações extremas que permitem demonstrar o caráter plástico do eu, sua capacidade de sofrer alterações nas lides com o objeto. Na perspectiva da relação do eu ao objeto, suicídio melancólico e fascinação amorosa aparentemente se identificam, porém é necessário esclarecer a que se devem suas diferenças. Seu ponto em comum é o domínio que o objeto exerce sobre o eu, a identificação ao objeto. Todavia, esta não pode responder sozinha pela alteração no eu que o coloca em risco, como no caso do suicídio melancólico. Parece que no suicídio melancólico há um significativo aporte de ódio dirigido ao objeto, que não se observa na fascinação amorosa. Outro problema é que também na paixão amorosa a identificação narcísica ao objeto seguida da fragilização do eu ocorre somente em algumas

situações específicas. Outros efeitos podem também ser observados: o incremento

mesmo modo que a criança em relação ao corpo da mãe.” (1986: 100). As traduções são da autora.

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da auto-estima, o aumento dos cuidados dedicados não só à própria imagem, mas à vida subjetiva num sentido amplo. Como explicar essa diferença no interior da experiência amorosa? Trata-se de algum gradiente de investimento libidinal que vai regressivamente do amor como investimento objetal ao amor como fascínio narcísico? Qualquer experiência amorosa pode, então, se inscrever e deslizar por qualquer ponto desta série? Ou, ao contrário, o amor enquanto investimento objetal seria uma experiência envolvendo aspectos metapsicológicos diferentes daqueles presentes na fascinação amorosa? Na obra freudiana parece possível encontrar apoio para ambas as posições. A introdução na teoria de modalidades ou subestruturas do eu – os ideais – indicam que na tópica de 1920 há uma opção pela segunda hipótese. No capítulo VIII de Psicologia de Grupo e a Análise do Ego (1976d), artigo de 1921, Freud trabalha as questões do direcionamento da libido aos objetos e suas conseqüências para o eu na fascinação amorosa. Neste caso, está buscando explicar o submetimento apaixonado dos indivíduos ao poder hipnótico dos líderes. Trata deste efeito hipnótico como equivalente do vínculo amoroso, ressaltando na experiência amorosa a idealização dos atributos do objeto em conformidade com o narcisismo. Freud encaminha sua argumentação no sentido de mostrar que é esta idealização que revela um processo subjacente de subsunção do eu ao objeto. Neste ponto, faz uma diferenciação entre a identificação ao objeto e este outro processo amoroso que leva à servidão do eu, a idealização. Afirma que na identificação o “(...) o ego enriqueceu-se com as propriedades do objeto (...)”, na idealização fascinante “(...) empobreceu-se, entregou-se ao objeto, substituiu o seu constituinte mais importante [o ideal do eu] pelo objeto.” (1974b: 111). Mas a identificação é um processo que se refere ao eu, enquanto a idealização é um processo referido ao objeto, como salienta Freud. O próprio autor se mostra insatisfeito com a distinção econômica entre estes dois processos, apresentada nestes termos. Opta, então, por uma distinção dinâmica, diferenciando o vínculo entre o eu e o objeto em cada uma delas: No caso da identificação, o objeto foi perdido ou abandonado; assim ele é novamente erigido dentro do ego e este efetua uma alteração parcial em si próprio, segundo o modelo do objeto perdido. No outro caso [idealização], o objeto

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é mantido e dá-se uma hipercatexia dele pelo ego e às expensas do ego.5 (FREUD, 1976d: 144). É na idealização, portanto, que se dá o esvaziamento da libido narcísica. Estas conclusões parecem contradizer as proposições teóricas sobre a melancolia. Lá, é justamente à identificação narcísica posterior à perda do objeto que se atribuem as inibições de investimento do eu. Por outro lado, naquele texto Freud já afirma o caráter ideal da perda na melancolia, indicando um processo de idealização dos atributos do objeto. Este parece um apontamento quanto à ligação íntima entre esses dois processos (identificação narcísica e idealização). No artigo sobre a Psicologia de Grupo citado acima, FREUD se questiona se seria “inteiramente certo que a identificação pressupõe que a catexia de objeto tenha sido abandonada” conjeturando sobre a possibilidade de “ aver h identificação enquanto o objeto é mantido.“(1976d: 144). Em O Ego e o Id (1976e) esta possibilidade é tomada como certa. O tema das identificações é retomado no contexto de elaboração das origens do ideal do eu. Ali, além de atribuir às identificações o papel de formadoras do “caráter” do eu, enquanto fonte de traços dos vínculos objetais precoces, é destacado seu papel na administração das moções pulsionais. Ao identificar-se ao objeto o eu se oferece como objeto para satisfação das exigências das pulsões. Freud enfatiza que a identificação narcísica com o objeto implica uma alteração na qualidade do vínculo, dada a alteração do objetivo pulsional. Dito de outro modo, a identificação implica numa dessexualização. Faz ainda uma diferença entre os possíveis desfechos das identificações, mostrando que nem sempre elas implicam a introdução do objeto abandonado no eu. Alega, porém, que no caso das mulheres esta alteração do eu é bem mais freqüente. O que parece uma indicação no sentido da particular plasticidade do eu feminino. Esta plasticidade seria devida ao modo especial com que a castração afeta as mulheres. Dada a ausência do falo imaginário no corpo, o eu da mulher é que assumiria, então, este lugar fálico: daí a ameaça de castração configurar-se como ameaça da retirada do amor por parte do objeto.

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Grifo da autora.

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Essa discussão sobre o papel patógeno da identificação narcísica parece relevante no caso dos afetos na gestação pois este tipo de identificação se impõe em qualquer gravidez desejada. Parece evidente que o amor da mulher dirigido ao filho enquanto objeto necessariamente deixa traços no eu materno. Essa identificação é, porém, secundária ao investimento do filho no lugar de objeto separado do eu. Por outro lado, a inflexibilidade dos ideais que orientam as

identificações secundárias pode responder pela rigidez do lugar que ocupará o filho como objeto em relação ao eu materno, conforme pretende-se demonstrar a seguir.

Uma concepção metapsicológica da depressão.

Utilizar-se-á

as

indicações

de

Marie-Claude

LAMBOTTE

(1997)

apresentadas em O Discurso Melancólico, por tratar-se de uma obra vigorosa de análise fenomenológica e metapsicológica da melancolia. Esta autora propõe como hipóteses metapsicológicas da melancolia a “ usência ou enorme fragilidade da a imagem especular, devida ao desfalecimento primeiro da imago materna.” (1997:197). Baseada nas formulações lacanianas do Estádio do Espelho como organizador da função do eu, considera que a melancolia se constrói nos “avatares da formação do eu e de seus modelos “(op. cit, 201)6.

A imagem especular, antecipadora de uma totalidade identificatória do eu, foi pensada por Lacan como campo - espaço - onde a origem simbólica do sujeito vem a operar. Com a proposição do estádio do espelho, LACAN (1955c ) apresenta as linhas que confluem para formação original do eu. A prematuridade do bebê humano a qual engendra uma especial dependência do semelhante que lhe prove cuidados (em geral a mãe). Este semelhante com seus desejos particulares interpreta os movimentos da criança7 como portadores de sentido. E a linguagem

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Lambotte supõe a origem da melancolia na fase pré-especular, na operação de destacamento de uma metáfora referenciadora do sujeito no simbólico, a qual orienta, também, a formação da imagem especular. A autora distingüe, todavia, a melancolia das psicoses. O que se operaria na entrada do sujeito no simbólico não seria uma foraclusão do significante paterno, mas uma identificação ao objeto enquanto resto de operação simbólica. O sujeito melancólico reconheceria a castração, sem ter, porém, os instrumentos ilusórios, fantasísticos, para lhe fazer face. 7 Lacan se utiliza da palavra infans para designar a criança antes de seu acesso a linguagem. 8 Tradução da autora.

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onde esta interpretação se inscreve como enigmática. É, portanto, na relação da criança ao enigma do desejo deste outro que a compreende segundo seus próprio desejos, que se desencadeia o desejo inconsciente daquela (criança). Esta dinâmica implica a anterioridade (apenas lógica) de uma identificação ao outro como semelhante, que possibilita à criança a formação de uma imagem, uma silhueta de um si mesmo - um eu ideal - em torno da qual as questões do ser e do desejo vão se dar. Trata-se da mesma identificação à qual Freud referiu-se como anterior à relação objetal. Nos termos lacanianos o que se passa então é a “(...)transformação produzida no sujeito quando assume uma imagem”, cuja assunção indica uma “matriz simbólica em que o eu se precipita de forma primordial (...) essa forma é mais constituinte do que constituída; (...) simboliza a permanência mental do eu, ao mesmo tempo que prefigura sua destinação alienante; (...)”8 ( 1995c: 87-88 ). Lacan lembra, ainda, que esta captura pela imagem, nos moldes como se dá no sujeito humano, é indicativa da insuficiência da realidade orgânica como fonte da subjetividade. O processo de subjetivação do humano depende do

estabelecimento de uma dialética a qual, a partir deste eu formal, liga a criança aos outros semelhantes, através do desejo destes últimos expressos no conjunto da linguagem. Lacan sublinha o corte destacado por Freud quanto à natureza do desejo humano que subverte a ordem das necessidades. Toda construção da imagem subjetiva se fará mediada por significantes. A linguagem explode a necessidade em planos diversos - imaginário, simbólico e real – nodulados entre si, porém dissimétricos. As faces do objeto vão se alterar, então, conforme o plano de articulação subjetiva em que estejam envolvidas. No estádio do espelho a configuração prevalente do objeto é a imaginária onde, ao assumir uma imagem, a criança se reconhece como aquilo que falta ao outro, se institui como objeto de amor do outro. A saída desta relação especular faz-se pela identificação da criança a um traço (significante) do desejo do outro expresso em suas demandas. Esse traço – suposto objeto ideal do outro – formará o ideal de eu da criança. O objeto é agora, porém, um objeto que se circunscreve na linguagem.

Na concepção acima descrita, o narcisismo primário seria a forma de designar a dinâmica libidinal deste momento, onde o outro - com sua imagem e sua

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linguagem - tem poder alienador do eu, sendo, portanto, fonte da imagem e do desejo da criança, conseqüentemente, alvo de sua agressividade. Segundo Lacan, a agressividade é uma tendência correlativa às identificações narcísicas,

determinantes da estrutura formal do eu e dos objetos. Nas palavras do autor: Essa forma se cristalizará em efeito na tensão conflitual interna ao sujeito, que determina o despertar de seu desejo pelo objeto de desejo do outro: aqui, o concurso primordial se precipita em competência agressiva, e dela nasce a tríade do próximo, do eu e do objeto (...)9. (1995d: 106). Ou ainda, Na origem, antes da linguagem, o desejo só existe no plano da relação imaginária do estado especular, projetado, alienado no outro. A tensão que ele provoca é, então, desprovida de saída. Quer dizer, não tem outra saída (...) senão a destruição do outro. (1986: 197-198).

Desta teoria de Lacan, onde a agressividade é concebida como correlativa da tensão entre a estrutura narcísica e a subjetividade em seu caráter simbólico, é possível destacar-se uma série de inferências clínicas, especialmente aquelas relativas aos ideais, como é o caso da melancolia e da depressão.

Assim, Lambotte propõe que a ausência de um olhar materno que destaque a imagem da criança como um objeto potentemente prazeroso para as relações com o Outro, é a condição da melancolia. Um olhar materno que transpassa a criança, perdendo-se num horizonte sem limites, não pode oferecer a necessária moldura para constituição de uma fantasia que dê contorno, ainda que ficcional, à subjetividade desta. Completando, então, sua hipótese metapsicológica a autora propõe que: (...) à falta de uma imagem especular suficientemente investida, o melancólico se esforçaria em atenuar esta falha de ilusão ou de imaginário – e, por isso mesmo, de desejo – negando vigorosamente tudo o que se assemelharia a logro e mentira frente a uma verdade encontrada muito cedo: a da irredutível ficção que define o sujeito. (op. cit, 207).

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Tradução da autora.

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É na relação do melancólico aos objetos que se verá a força de um ideal esmagador, desqualificando qualquer destas relações como passíveis de sustentar sua imagem ideal, que não se pretende imaginária. Seguindo Lacan, Lambotte se apóia na teoria kleiniana da constituição do supereu. A origem deste, ligada à incorporação de objetos bons e maus, em conformidade com a imago materna, exigirá da criança (de seu eu) a constante vigilância para proteger os bons dos maus objetos, com os conseqüentes sentimentos de angústia e culpa. A autora toma desta construção a idéia de um supereu materno arcaico que se interporia entre a criança e o espelho e afirma: (...) a imagem de um modelo cujo grau de idealidade impede todo comprometimento com o mundo exterior, engendrando um sentimento de inferioridade e impotência que imediatamente faz deslanchar um processo de inibição. (...) mais que da perda do objeto, o sujeito melancólico sofreria de uma identificação originária que, através da indiferença ou do fechamento da posição materna, retornaria a um supereu ancestral cuja transmissão na expressão da falta teria como conseqüência invalidar a priori todas as relações humanas. (op.cit, 211). Em síntese, é a constituição de um eu-ideal que não pode se dar, uma vez que o que o sujeito melancólico introjetou não foi um traço, um significante que o refere à ordem simbólica, mas um ideal formal, que reduz inteiramente suas possibilidade de identificação com alguma imagem ideal de si como objeto para o Outro. Lambotte hipotetiza, então, que a ausência desta imagem impele o sujeito a deslocar o Ideal do Eu para os objetos exteriores. Recobre-os com os traços de ideal visando regressivamente incorporá-los, em busca da reconstrução protética (a qual não se efetiva) de sua própria imagem. Parece importante salientar que esta autora também distingue a melancolia da depressão. O que do lado da melancolia seria o olhar vazio da mãe, seu discurso desafetivizado, na depressão corresponderia a um olhar de ódio, e a um discurso pontuado de queixas. Assim, a melancolia parece associada à ausência de um Ideal de Eu, ou à sua presença formal, arcaica, não metaforizável, ao passo que a depressão parece ancorada na presença deste Ideal enquanto traço do sadismo do Outro.

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Algumas articulações com a depressão na gravidez.

Como já apresentado em capítulo anterior (À procura da especificidade feminina) crê-se possível articular a depressão na gravidez à dinâmica dos ideais, em especial à imagem de um Ideal Materno. A depressão na gravidez pode estar referida, então, não necessariamente à ausência ou fragilidade de uma imagem de sí (eu ideal) constituída pelo olhar materno 10, mas à rigidez ou fixidez do ideal do eu. O ideal do eu responde pelo estabelecimento da via desejante preferencial do sujeito. Compõe-se do conjunto dos significantes que, ao fixar imaginariamente o desejo numa certa via libidinal, pacifica a rivalidade dirigida ao outro. A função da identificação edipiana é apaziguar essa agressividade deslocando a sexualidade (o desejo) para outros objetos que não aquele apontado pelo desejo do Outro. E esse deslocamento se faz orientado na via do ideal do eu. Assim, ao referir-se a depressão na gravidez à rigidez do ideal do eu materno, o filho é tomado como falo e representa a recomposição da imagem narcísica da mulher enquanto objeto de amor. O traço do objeto ideal do desejo do outro – o ideal do eu – é deslocado para o filho. A prevalência é da relação imaginária à maternidade. É nesse sentido que se poderia falar de identificação narcísica ao filho. Parece possível supor, nestes casos, não necessariamente a presença de um supereu arcaico ou sádico, mas de um ideal de eu inflexível. Ao invés da ausência de imaginário que caracteriza as estruturas melancólicas, poder-se-ia falar de um excesso imaginário, próprio às neuroses, relacionado ao papel materno da mulher. Assim, no momento em que o desejo se apresenta organizado em torno da demanda de um filho, a pregnância imaginaria do papel fálico desse filho para mulher leva à idealização deste objeto, tendo como efeito a identificação do eu materno ao objeto filho. Como já apontava Helene Deutsch far-se-ia, assim, um deslocamento do ideal do eu para o filho. Se o ideal do eu for aqui entendido como traço do desejo do Outro, com valor de significante que orienta a construção de uma imagem ideal do sujeito, ter-

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Não se pretende excluir a existência de casos de depressão na gravidez oriundos da estrutura melancólica ou depressiva da mulher. Pretende-se, ao contrário, limitar o alcance destas proposições aos episódios depressivos ocorridos estritamente em referência à maternidade, cuja ocorrência é possível a qualquer mulher.

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se-ia uma imagem pouco flexível deste sujeito mulher, onde o ser mãe equivaleria à possibilidade de ter o falo através do filho.

Na ocorrência da gravidez real, porém, esta imagem ideal tende a sofrer abalos, ou mesmo a perder-se, uma vez que a realidade do filho no ventre, dado o complexo de sensações que provoca, pode fazer bascular o objeto fálico de sua vertente imaginária, revelando a castração por sua presença real e excedente no que diz respeito ao conjunto de sentidos modulados pelo complexo edípico. Isto não se daria, no entanto, sem forte carga afetiva. Um filho que participa da fantasia da mulher no lugar do objeto fálico, ocupa o lugar do objeto de gozo – fetiche -, objeto de sutura da castração materna, conseqüentemente, fonte de horror para a mulher neurótica. A presença de um objeto em posição de satisfação do desejo incestuoso causa horror, sendo o incesto aqui entendido como a liquidação – impossível – do desejo. No plano da narrativa edipiana, seria o desejo de dar o falo à mãe, extingüindo assim, no Outro, a castração e o desejo.

AMARAL (1996) ao analisar, em sua dissertação de mestrado, algumas conseqüências clínicas da maternidade para subjetividade feminina, descreve com clareza como o filho tomado enquanto objeto de preenchimento fálico pode produzir horror: (...) é como horror, como insuportável, que a emergência da possibilidade da relação incestuosa com o pai é vivida. Isto se traduz, no laço com o bebê, através da súbita aparição da fragilidade da criança. O corpo do bebê, objetificado, aparece em sua dimensão carnal, deserotizada, como passível de ser usado, abusado, destruído. Aí emergem as idéias rejeitadas com repulsa, de que ‘eu poderia esmagá-lo com as minhas próprias mãos’. Isso que escapou ao recalque e surgiu para o sujeito como possibilidade, não podendo ser novamente banido de seu campo de saber, horroriza e apavora. (1996: 109)

De outro lado, há a vertente em que a mãe se toma, em fantasia, como objeto de satisfação para o Outro, representado pelo filho. Mais uma faceta possível, no plano fantasístico, do deslocamento do ideal do eu para o filho. Esta também pode ser uma fonte de afetos depressivos na gestação. Sua manifestação clínica é

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permeada pela angústia que, aqui, indica a presença de um objeto (a imagem da própria mulher) em posição de garantir o gozo do Outro (representado pelo filho). Lacan articula o que escapa do jogo especular, o que não se reflete na imagem narcísica, como objeto a, causa do desejo do sujeito, que buscará preencher, através da linguagem, essa falta em sua imagem. É como busca de um objeto, o falo, que o desejo se instala para o sujeito. O falo, no entanto, é um significante inscritível na linguagem. Quando aspectos do objeto não representáveis na linguagem aparecem, o que se tem é angústia. Ao colocar o filho no lugar de seu ideal de eu, a mulher o toma como Outro, e a si como objeto de gozo daquele. Mais uma vez utilizar-se a a descrição feita por AMARAL (1996) quanto à este quadro: Ela [a mulher], que demandara ter um filho para suturar a falta que reconhecia em si, vê-se, ela própria, demandada por aquilo que ambicionara ter(...) Este filho é agora tomado como pólo de todas as demandas irrecusáveis a que o sujeito–mulher deve responder. Isto se apresenta na clínica como uma perda-de-si irreversível, irreparável.11 Algo exige sem nomear o que quer. É a reinstauração massiva deste Che vuoi? Insaciável que remete à perspectiva de extinção, esgotamento, desaparecimento do sujeito-mulher. (1996:111).

Sublinhou-se os sentimentos de perda irreparável e irreversível de si, pois parecem corresponder ao que Freud designou quanto a melancolia através da formulação de que a sombra do objeto recai sobre o eu. Essa descrição corresponde, também, àquela feita por Helene Deutsch quanto às mulheres que adoecem e/ou tornam-se feias na gravidez, pelo efeito superegóico que a imagem do filho exerce sobre elas. Outra manifestação desta tomada de si mesmas como objetos de gozo do filho, por parte de algumas mulheres, pode ser observada na rigidez com que são consideradas as tarefas de cuidado do bebê, transformadas assim em árduas batalhas. Em relação à amamentação, por exemplo, é freqüente escutar-se ditos referentes a um sentimento de aprisionamento, de opressão que a função de aleitamento promoveria. Parece possível que tais afirmações se inscrevam na cadeia das idealizações das funções maternais, o que as enrijece, tornando-as pouco metaforizáveis.

11

Grifo da autora

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A queda, então, deste ideal imaginário da posição materna, exigiria da mulher um forte trabalho de luto, o qual poderia manifestar-se pela dor e até por certa inibição característica deste trabalho elaborativo, tomando o quadro o aspecto deprimido.

Fica evidenciado que o filho para mãe, nesta formulação, se inscreve na vertente que vai do narcisísmo ao objeto fálico, até sua queda ou revelação como alteridade. Esta queda, ou perda imaginária - seja do filho como falo, seja da mãe como falo do filho - levaria, na melhor das hipóteses, ao luto, o qual permitiria à mulher reinvestir seu papel de mãe, fora dos cânones de qualquer ideal, mas no amor de objeto a esse outro sujeito, estranho, porém seu filho. Esta tomada do filho como unheimliche - estranho – talvez represente a concepção do filho na

perspectiva feminina tal como apresentada por Lacan – fálica mas não-toda. É o que se pretende desenvolver no próximo capítulo.

A dor psíquica, um trabalho de objeto.

A presença de dor psíquica nos casos de melancolia, de depressão ou no de luto, conduziu esta pesquisa a uma breve abordagem deste tópico, especialmente pelo que ele pode revelar da relação do sujeito ao objeto. A questão da dor interessa a Freud desde suas primeiras elaborações como se pode observar em sua correspondência a Fliess. Nas abordagens que faz da melancolia e do luto, deixa sempre sublinhada a necessidade de compreensão metapsicológica dos processos de dor como condição para o entendimento mais amplo daqueles fenômenos. A concepção da dor apresentada no Projeto vai percorrer toda sua obra, “(...)a dor consiste na irrupção de grandes Qs [quantidades de energia] em psi”. (FREUD, 1977: 408-409). A idéia subjacente é de que o ultrapassamento de certos limites, estabelecidos pelas experiências precoces de desprazer, são percebidas como dor. Desde trabalhos como o Rascunho G de 1895, até o Adendo C de Inibição Sintoma e Angustia de 1926, passando por Luto e Melancolia de 17, mesmo com as modificações de suas concepções quanto à tópica do aparelho psíquico, e com a complexificação da dinâmica de funcionamento deste aparelho, o processo econômico básico relativo à dor permanece entendido como

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ultrapassagem de limites, acarretando um excesso de carga libidinal diante da impossibilidade de inscrever como representações certos aportes do real, incompatíveis com o funcionamento homeostático do aparelho psíquico.

No trabalho de 26, Inibição Sintoma e Angústia, em seu Adendo C, FREUD (1976l) traz importantes distinções quanto às relações entre a dor, a angústia e o luto. A questão que orienta sua reflexão diz respeito às condições em que a perda de objeto produz angústia e às condições em que produz dor (neste momento a dor é correlativa ao luto). Todo desenvolvimento é feito no sentido de mostrar que não se encontrará diretamente na perda do objeto a explicação nem de um, nem de outro. A dor é uma reação à perda do objeto, enquanto a angústia é uma reação ao perigo da perda. Freud compara os processos implicados na dor física, onde é suposta uma hipercatexia das representações egóicas da parte doente do corpo, com a dor psíquica. Reafirma que as condições econômicas de ambas são as mesmas. No entanto, no que diz respeito ao campo psíquico, separa dor e angústia, referindo esta última ao investimento narcísico, e a dor à relação com o objeto. Uma representação de objeto que esteja altamente catexizada pela necessidade instintual [pulsional] desempenha o mesmo papel que uma parte do corpo catexizado por um aumento de estímulo. A natureza contínua do processo catexial e a impossibilidade de inibi-lo produzem o mesmo estado de desamparo mental. Se o sentimento de desprazer que então surge tem o caráter específico de dor (um caráter que não pode ser descrito mais exatamente), em vez de manifestar-se na forma reativa de ansiedade [angustia], plausivelmente podemos atribuir isso a um fator do qual ainda não fizemos suficientemente uso em nossas explicações – o alto nível de catexia e ‘ligação’ que predomina enquanto ocorrem esses processos que conduzem a um sentimento de desprazer. (FREUD, 1976l: 197). No rascunho G, entretanto, Freud apresentara uma perspectiva da dor como relacionada ao desligamento associativo ou ao desinvestimento libidinal que aparentemente se opõe a esta última definição da dor como continuidade da catexia, ligação com alto nível de investimento, caracterizando um certo modo de fixação. A contradição é só aparente se se entender que o alto nível de catexia de uma representação implica o redirecionamento de todos os investimentos laterais para essa representação em foco. Esta concepção parece mesmo sustentável como

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explicação da dor, pois pode-se observá-la também em situações de investimento amoroso sem perda de objeto. Expressões do senso comum como “amo tanto que chega a doer” parecem corroborar esta hipótese.

Discutir-se-á, a seguir, o tratamento dado por Lacan ao Adendo C, quando o aborda em seu seminário sobre a Angústia (1996). A partir desta leitura lacaniana examinar-se-á algumas proposições teóricas trazidas por Nazio quanto a este mesmo adendo freudiano referente à angústia, à dor e ao luto.

No seminário proferido durante os anos de 62 e 63, ao buscar rigorizar o conceito de objeto a, LACAN (1996) trabalha, em vários momentos, com a teoria freudiana do luto, destacando da noção de perda de objeto os diferentes estatutos do objeto na teoria psicanalítica. Parece necessário, aqui, que se retome alguns aspectos do conceito de objeto tal como propostos na teoria de Lacan. Este é abordado numa tripla dimensão: enquanto objeto imaginário do estádio do espelho, gestalt antecipatória de uma imagem de si, de um eu; como objeto simbólico, objeto perdido da teoria freudiana, sobre cuja ausência se constrói, via linguagem, o desejo inconsciente; e como objeto a, resto da operação simbólica, real inassimilável às outras duas posições, porém condição lógica dos dois outros modos de comparecimento do objeto. A ênfase dada por Lacan à estrutura linguageira do inconsciente e do desejo se ancora na separação radical entre o objeto da

necessidade e o objeto do desejo. Separação que este autor destaca na obra de Freud com o conceito de Das Ding forjado no Projeto (FREUD, 1977). A proposição mais inovadora, no entanto, foi o conceito de objeto a. Sua concepção se liga à operação de constituição subjetiva na linguagem. Ao estabelecer a linguagem como campo de surgimento subjetivo será necessário forjar alguma materialidade à causa ou razão desta subjetividade. Lacan constrói este conceito para representar o resto, o vazio, o por-vir, a falta de uma última palavra quanto à razão subjetiva, funcionando simultaneamente como seu limite e causa. Além das acepções de vazio e resto, o objeto a é destacável no movimento pulsional, como miríade de objeto, “estilhaços” de objeto aos quais não se reduz. Nesta vertente, descreve-se como partes destes estilhaços os primeiros objetos (parciais) delineados no jogo de demandas entre a criança e mãe, através dos corpos de ambas (BAUDRY, 1996).

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No seminário de 62-63, então, Lacan teorizará a angústia como ligada à esse objeto – o objeto a –, sua presença indicando a separação entre o movimento do desejo e a possibilidade de gozo. Se a angústia é sempre de castração como constatou Freud em Inibição Sintoma e Ansiedade [Angústia], e se esta é estrutural na fundação da subjetividade, a presença do objeto a indica, simultanemante, a vinculação do desejo do sujeito às demandas do Outro inscritas na linguagem, e a impossibilidade de satisfazê-las todas, resultando na impossibilidade de chegar à razão última da própria subjetividade. No plano da constituição subjetiva, a imagem narcísica do sujeito, suporte de uma estrutura gramatical mínima – a fantasia – liga o desejo do sujeito ao Outro, é uma primeira configuração de si como objeto. Esta imagem afasta a angústia proveniente do desordenamento pulsional original, orientando-o em relação a uma demanda proveniente do Outro. Como tal imagem não responde pela totalidade da subjetividade, o que dela resta não simbolizável permanece como objeto a, causa de desejo para o sujeito. 12

Ainda neste seminário Lacan retoma o Adendo C utilizando-se da distinção entre as noções de objeto narcísico e objeto a, para estabelecer a diferença entre o trabalho do luto e a melancolia. Segundo ele, o árduo trabalho do luto sobre cada traço do vínculo com o objeto perdido reflete a busca de restauração do vínculo fundamental entre sujeito e objeto, ou seja, a reconstituição da relação entre a imagem de si como objeto e a falta estrutural a partir da qual o desejo se organiza. Em suas próprias palavras: O problema do luto é o da manutenção dos vínculos por onde o desejo esta suspenso, não do objeto a (...) senão de i(a), pelo qual todo amor, enquanto este termo implica a dimensão idealizada que expressei, está estruturado narcisicamente. (1996: sessão de 3/7/63).

No seminário R.S.I., LACAN (1990) descreve a angústia como provocada pela invasão de real no imaginário. Essa retificação da teorização sobre a angústia postulada em R.S.I. é devida a ampliação das articulações teóricas de Lacan relativas ao conceito de objeto a . Enquanto no seminário A Angústia a ênfase se dá sobre a vertente do objeto como resto da operação simbólica, índice, portanto, da castração, em R.S.I. a tônica recai sobre seu papel de nodulador dos registros simbólico, imaginário e real, com os quais opera o psiquismo humano. Esta pesquisa centra-se nas proposições teóricas apresentadas no seminário 10 (A Angústia) tanto em função da ênfase que traz quanto a posição do objeto relativamente à castração, como pelo tratamento que Lacan dá, alí, ao objeto no trabalho do luto e na melancolia.

12

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Já na melancolia, Lacan aponta tratar-se de um ataque à própria imagem visando, porém, o objeto mas enquanto objeto a. A perda a que se refere o melancólico é a perda fundamental da subjetividade. O melancólico parece capturado no logro que representa a imagem narcísica. Atacando a própria imagem visa atacar a inconsistência (ou perda) fundamental do objeto do desejo.

Juan David NASIO (1997), em seu trabalho denominado O Livro da Dor e do Amor, ao discutir o problema da dor psíquica debate as formulações de Freud em Luto e Melancolia, à luz das observações trazidas pelo Adendo C, e pelas formulações lacanianas conforme apontadas acima. O autor faz, inicialmente, uma distinção entre sofrimento e dor, e opta por esta última como um fenômeno de maior precisão para o debate metapsicológico. Considera a dor como afeto limite, indicador, para consciência, de uma tensão pulsional que ultrapassou os níveis de prazer-desprazer que garantiam a homeostase no funcionamento do aparato psíquico. A dor seria a expressão de uma percepção endopsíquica. Seguindo as indicações freudianas, Nasio propõe uma leitura onde a dor mais do que referida à perda, se relaciona ao trabalho de luto. Constata com Freud que o que provoca a dor é o intenso direcionamento da libido para os traços representativos do objeto, etapa prévia ao desligamento libidinal destes. Nas palavras do próprio autor, “ dor não é pois dor de perder, mas de A apertar fortemente demais os laços com a representação do outro ausente.” (op. cit p.166). Por seu caráter de elemento de passagem entre um investimento objetal a ser desfeito e outro por vir, a dor recebe no trabalho de Nasio o estatuto de objeto pulsional.

Esta proposição teórica parece útil para que se compreenda a dor na gestação como um afeto indicativo da mudança na qualidade do vínculo da subjetividade da mãe em relação ao filho como objeto, conforme se buscará discutir adiante.

Quanto

aos

objetos

que

podem

provocar

dor

quando

de

seu

desaparecimento, Nasio os qualifica como aqueles cuja presença “nos assegura a indispensável insatisfação” (op.cit, p.36), designação do objeto a teorizado por Lacan. A ameaça de sua perda é fonte de angústia, enquanto a efetivação de sua

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perda provoca dor. Segundo Nasio, os objetos cuja perda parece insubstituível são aqueles cujos traços se identificam aos de um outro primitivo, suporte da alteridade, através do qual o sujeito se constituiu como efeito suposto de seu desejo (do Outro). Ainda segundo Nasio, apoiado na teoria lacaniana da fantasia, o objeto cuja perda causa dor é aquele que sustenta a fantasia, o Outro a quem o sujeito falta. Em suas próprias palavras: “O que se perde com a morte do ente querido é, primeiro, a imagem de mim mesmo que ele me permitia amar. O que perdi, antes de tudo, é o amor a mim mesmo, que o outro tornava possível. Isso significa que o que se perde é o eu ideal, ou mais exatamente o meu eu ideal ligado à pessoa que acaba de desaparecer. (...) Ele não era meu eu ideal, mas o suporte real desse eu.” ( opus cit, p. 163).

Para Nasio, a identificação ao objeto perdido seria o terceiro passo do trabalho do luto. O autor tende a não tratar a identificação narcísica ao objeto como um processo patológico em si. Considera que somente quando esta identificação “se dissemina pelo conjunto do eu e se cristaliza sob a forma de uma identificação congelada com a imagem do objeto perdido” (op.cit, p.168) o resultado será um luto patológico. 13

Seguindo estas indicações de Nasio, poder-se-ia supor que, na gravidez desejada, a dor esteja relacionada ou à queda do filho enquanto objeto fálico, ou à queda da mãe enquanto objeto fálico para o filho. Este ponto será desenvolvido no próximo capítulo.

O recurso à teoria lacaniana relativa aos diferentes estatutos do objeto parece necessário à clarificação da relação da subjetividade materna ao filho como objeto. Em seu Seminário 20, Lacan parece privilegiar a vertente de objeto a do filho

Cabe sublinhar que Nasio trata o luto patológico como característico da melancolia em oposição ao luto normal. Não diferencia o luto patológico como cartacterístico da neurose obsessiva, em oposição a melancolia , separação que corresponderia melhor ao texto freudiano. LAPLANCHE, trabalhando também sobre o luto e a melancolia em seu seminário a Angústia, afirma: “Esquematicamente, tem-se no luto: perda de objeto; no luto patológico: perda de objeto mais ambivalência, mas sem identificação com o objeto perdido; na melancolia, os três elementos: perda de objeto, identificação e ambivalência.” (1987: 308). Embora correspondendo efetivamente à distinção teórica estabelecida por Freud, clinicamente é possível observar-se a identificação ao objeto perdido, também no luto.

13

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para a mãe. Afirma: “Para esse gozo que ela [a mulher] é, não-toda, quer dizer, que a faz em algum lugar ausente de si mesma, ausente enquanto sujeito, ela encontrará como rolha esse ‘a’ que será seu filho” (LACAN, 1985: 49). Apesar de um certo mal gosto na metáfora utilizada – “rolha” - Lacan parece designar ao filho o lugar do objeto que pode responder pelo recentramento da mulher no campo do gozo fálico. Como objeto a o filho é, porém, simultaneamente causa de desejo da mulher e resto não simbolizado de seu desejo. Nesta última vertente o filho pode remete-la para além do gozo fálico. Se se tomar, no entanto, a vertente imaginária do filho como objeto fálico, seu papel será de garantir a unidade narcísica, a imagem fálica da mulher. Poderse-ia dizer que a imagem narcísica da mulher enquanto mãe se constrói tanto em referência aos traços de identificação à sua mãe como em referência ao filho. A não aceitação da castração materna e/ou a permanência de uma relação rivalitária à própria mãe, pode levar a uma intensificação da relação imaginária ao filho como fonte de traços narcísicos para mulher. Esta última pode cristalizar-se em afirmações tais como, “eu, como mãe, sou o que falta a este filho”. Proposição extremamente perigosa, mas presente no imaginário feminino. A não relativização desta imagem pode responder pela dor de muitas mulheres grávidas quando se sentem como não estando “à altura” de ocupar este lugar materno.

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Estranhas Entranhas

O terceiro anjo brotou entre meus galhos meu corpo feito árvore, madeira de barco. Anjo esperado, logo um homem, dramaticamente um homem, mas meu filho. Meu corpo foi barco, meu sangue foi pasto, mas teu olho que me encara busca a vida. Não tenho respostas: tenho, como tu, homem menino, todas as perguntas, e a estranheza de ser porto de repouso, e ponto de partida. Lya Luft1.

1

L. LUFT (1984: 103) Mulher no Palco.

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Um corpo estranho

A condição de desconhecido do objeto real filho e sua gestação na intimidade do corpo da mulher, podem ser fonte de estranhamento e angústia. A evocação da idéia de um corpo estranho não parece distante daquilo que as mulheres experimentam em alguns momentos da gravidez. É na série do

estranhamento despertado pela presença do filho como objeto, realidade corporal estranha, porém entranhada no corpo e no eu materno, que se pretende tratar, aqui, dos afetos depressivos durante a gestação, portanto, como o estranho/familiar unheimliche – freudiano. Interessante notar que mesmo no campo da imunologia o feto enquanto corpo estranho em relação ao corpo materno se reveste de uma estranheza peculiar, desafiando as regras usuais de reatividade imunológica. Como afirmam VAZ e FARIA, “Cerca de 25% das mulheres primigravídicas desenvolvem

anticorpos IgG dirigidos a epitopos do HLA fetal. Estes anticorpos, em presença de complemento, podem lisar celulas fetais in vitro, mas não são citotóxicos in vivo” (1993: 199). Embora reconhecendo a impropriedade metodológica de articular-se hipóteses de um campo teórico sobre outro, é quase inevitável supor-se que o sistema orgânico vivo da mãe pode “reconhecer” de algum modo este corpo estranho filho, inibindo a reação a ele. O que corrobora a idéia do filho gestado como um estranho/familiar.

Na psicanálise, campo de eleição preferencial deste livro, as questões relativas ao corpo exigem alguns estabelecimentos prévios. Qual o corpo que a psicanálise aborda? -O corpo erógeno, pulsional, circunscrito pela linguagem. O que significa um corpo desenhado por experiências de prazer/desprazer recobertas de sentidos e significações oriundas inicialmente do meio e, posteriormente, tomadas como referenciadoras da particularidade subjetiva. A presença do filho no corpo da mulher grávida, exige sua presença na subjetividade2. Nada que é do corpo acede, porém, ao psiquismo sem mediação da
2

Segundo LERENA (1997), pesquisas no campo da genética têm demonstrado que somente 25% das fecundações em humanos resultam em gravidezes. Em tôrno de 75% são abortadas espontaneamente, antes mesmo da nidação, portanto, sem que sejam claramente percebidas pelas mulheres. As causas destes abortos precoces são muito variadas e de difícil pesquisa. Contudo, algumas hipóteses podem ser levantadas mesmo no

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linguagem. A construção simbólica do filho como objeto de desejo da mulher se inicia muito antes da concepção daquele, e embora a extensão desta construção possa perdurar ao longo da existência de ambos (mãe e filho), uma primeira fase desta construção parece só se concluir com o nascimento, quando a mãe pode defrontar-se com um sujeito real, invariavelmente diferente daquele imaginarizado antes e/ou durante a gravidez, processo que culmina (ou não...) numa adoção verdadeira deste pequeno outro como objeto de amor. Durante a gestação, porém, é na condição de mesmo e de outro que o filho se situa no corpo materno, simultaneamente, familiar e estranho. Embora esteja se desenvolvendo no corpo da mãe, é ali, também, um alheio, estrangeiro, um

alienante do corpo materno. As acepções do verbo alienar, na lingua portuguesa, parecem oferecer uma boa visão do estatuto do corpo da mulher quando em gestação de um filho. Segundo FERREIRA alienar significa “1.Transferir para outrem o domínio de; tornar alheio; alhear(...) 2. Desviar; afastar(...) 3. Indispor; malquistar(...) 4. Alucinar; perturbar(...) 5. Desviar; apartar (...) 6. Enlouquecer; endoidecer; alhear-se.” (1975: 69-70). O corpo da mulher durante a gravidez se torna, ao menos parcialmente, um corpo cedido a outrem, e, por vezes, enlouquecido por esse outro. Algumas metáforas usadas no campo da saúde incidem negativamente sobre este sentimento de estranheza promovendo um aspecto ameaçador da experiência de gestação. Na tentativa de salientar a necessidade de alguns cuidados especiais com a saúde do organismo da gestante é ressaltado o caráter relativamente compulsório com que o feto, para seu desenvolvimento, se utiliza das “reservas” maternas ( hormônios, vitaminas etc...). A ênfase na atenção da mulher às suas próprias necessidades orgânicas é feita, por vezes, aprofundando o sentimento de que o bebê (o feto) estaria “retirando”, “roubando”, “utilizando-se egoisticamente” do corpo da mãe.

É necessário sublinhar, no entanto, que no psiquismo o corpo próprio só se apresenta como imagem e como exigência de trabalho ou pulsão. Assim sendo, o

campo das produções teóricas sobre o psiquismo. Parece necessária uma sorte de percepção endopsíquica e um imediato investimento narcísico neste “corpo estranho” - o embrião – para que possa ser tomado, pelo eu materno, como “corpo próprio”.

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corpo real já é fonte de estranhamento independente da presença desse outro corpo – o do filho – cuja presença implica em mais estranhamento. O fato de, na gestação, a mulher ver-se alheada parcialmente de seu corpo, pode promover um efeito, no imaginário, semelhante ao da experiência especular onde o sujeito se percebe apenso ao desejo do outro. Os efeitos agressivos e rivalitários desta experiência serão mediatizados quando o desejo do filho estiver lastreado além dele próprio e das referências narcísicas da mãe. Dito de outro modo, ceder o corpo a um outro – o filho – pode não ser uma experiência de perda para mulher quando este filho é um dom recebido e retribuído a um homem – o parceiro – aquele por quem a mulher foi desejada na sua condição de semblante de objeto causa de desejo, e amada. Algumas vezes, porém, não é como amada que a mulher gesta um filho e, ainda assim, cede amorosamente seu corpo a ele, o que indica que, mesmo nestas circunstâncias, esse filho foi considerado um dom do Outro.

As relações entre o que é relativo ao corpo e suas implicações no eu, foram tratados por Freud em vários momentos de sua obra; aqui serão destacados seus apontamentos na segunda tópica . Em O Ego e o Id (1976e), Freud atribui ao corpo o estatuto de objeto por excelência, através do qual o eu se funda. No campo dos objetos perceptíveis, especialmente graças às experiências táteis, o corpo próprio tem lugar privilegiado por oferecer ao aparelho psíquico sensações de duas espécies: de interioridade e de exterioridade. Nesta segunda tópica freudiana, o eu, instância psíquica mediadora da busca de satisfação das moções pulsionais e das exigências culturais fixadas em ideais, se organiza (se forma) a partir de uma projeção ideativa ou mental do corpo, não como corpo biológico, mas como antecipação gestáltica de uma superfície limite entre externo e interno. A matéria sob a qual se constrói esta superfície é tratada, no texto que ora se aborda, como pulsão associada à linguagem. Freud discute a formação do eu à partir do id, sede das pulsões, como “(...) aquela parte do id que foi modificada pela influência direta do mundo externo, por intermédio do [sistema] Pcpt-Cs(...) (1976e: 39), ou seja, como transformação da pulsão em percepção (interna), inserida no sistema de sentido por sua participação na linguagem; conjunto de traços das primeiras experiências de objeto; experiência de objeto enquanto reflexo da experiência de sujeito promovida pelas pulsões. O corpo – seja como imagem, seja como fonte de

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sensações – dá conformação ao eu. Freud afirma neste artigo que o eu é “primeiro e acima de tudo um ego corporal “(op.cit p. 41).

No desenvolvimento do conceito de objeto algumas linhas se mantêm vigorando desde os primeiros esboços desta noção no Projeto..., até as obras posteriores a 1920. A dupla vertente do objeto – coisa e atributo – bem como seus efeitos no psiquismo – exigência de trabalho e trabalho de vinculação, respectivamente – fora esboçada em 1895 e depois retomada no capítulo IV de Além do Princípio do Prazer, de 1920. No Projeto..., o ego é postulado como uma organização entre neurônios catexizados, criada pelas experiências primitivas de satisfação e dor, cuja função é orientar as novas excitações através das facilitações e inibições. O objeto aparece, ali, como o que se constrói entre o traço de memória (neste momento, representado como catexia num grupo de neuronios) e a percepção, possibilitando ou não a descarga. Assim, tanto os traços do complexo perceptivo, como do complexo mnêmico, passam pelo processo de juízo afim de que a descarga possa ser autorizada. Nas palavras de FREUD: Assim, juízo é um processo “psi” que só se torna possível graças à inibição exercida pelo ego e que é evocado pela dissemelhança entre a catexia de desejo de uma lembrança e uma catexia perceptiva que lhe seja semelhante. Daí se deduz que a coincidência entre essas duas catexias se converte num sinal biológico para pôr fim à atividade do pensamento e iniciar a descarga. Quando as duas catexias não coincidem, surge o impulso para a atividade do pensamento, que voltará a ser interrompida pela repetição da coincidência. (1977: 434).

Quanto ao complexo do objeto, seja o da memória, seja o da percepção, sua conformação implica em partes estáveis (coisa) e partes cambiáveis (atributos). O julgamento só sendo dirigido às segundas. Freud descreve três confrontos possíveis entre a memória e a percepção, numa situação d0e desejo: uma primeira, onde haveria identidade entre ambas, a segunda, onde a parte núclear permaneceria idêntica restando o trabalho de encontrar possíveis identidades nas partes variáveis e, finalmente, a terceira situação onde não haveria nenhuma identidade entre os traços do objeto percebido e aqueles da satisfação primeva

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transformados em memória. Freud destaca o maior ganho psíquico neste último caso, por implicar em mais trabalho (maior produção de pensamentos) no sentido de buscar vias de identidade que permitam a descarga da tensão do desejo. Parece possível pensar-se que o filho gestado (especialmente o primeiro) se encontra para subjetividade da mãe nesta terceira categoria, dado o caráter totalmente inusitado desta experiência, e sua profunda implicação no corpo/eu da mulher.

No trabalho de 1920, a temática da constituição dos objetos no psiquismo é retomada no contexto da reteorização das pulsões em pulsões de vida e pulsão de morte. Para fundamentar a pulsão de morte, FREUD (1976c) busca expandir, aos limites, as possibilidades de regência do psiquismo pelo princípio do prazer. Nesta via, reafirma o psíquismo como um aparato cuja competência essencial é a da vinculação de estímulos (externos e internos), e no qual as experiências como as dos sonhos traumáticos, dos jogos de repetição infantis e da própria transferência, indicam a repetição como meta, independente do princípio do prazer. Nestas experiências se observa o limite do sistema de vinculação. A repetição - sempre idêntica – revelando a pouca possibilidade de ligação (e, conseqüentemente, de descarga), ou, o mínino de vinculação fazendo tela à angústia da desorientação frente a irrepresentabilidade das forças que acossam o aparelho. No polo oposto encontra-se a pulsão e seu “influxo de energia” inundando o aparelho e exigindo o máximo de vinculação, em cuja ausência sobrevém, também, a angústia. Esta última está, portanto, nos dois polos de funcionamento do aparelho psíquico. FREUD esclarece este processo nos seguintes termos: (...) Quanto mais alta a própria catexia quiescente do sistema, maior parece ser a sua força vinculadora; inversamente, entretanto, quanto mais baixa a catexia, menos capacidade terá para receber o influxo de energia e mais violentas serão as conseqüências de tal ruptura no escudo protetor. (1976b: 46). Como afirma CORRÊA (1994) em seu artigo Revisão do Conceito de Objeto em Psicanálise, as experiências como as dos sonhos traumáticos, dos jogos de repetição infantis “ brem caminho para o estudo de formações cujo estatuto, a entre coisa e objeto, entre corpo e psiquismo, não se confunde com as formações do inconsciente.” (1994: 23). Para que o filho possa, então, ser compreendido numa

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perspectiva que ultrapasse a de um sintoma da mulher, a noção de objeto como portador de um núcleo resistente à representação parece de grande valia.

LACAN (1988), em seu seminário sobre a ética da psicanálise, retoma esta vertente do objeto – a coisa, Das Ding – e salienta sua posição de exclusão e seu papel imantador, nuclear na constituição de todo movimento desejante pelo qual se caracteriza o aparelho psíquico. Sendo a coisa a parte do objeto que não suscita pensamento, sua localização é anterior à ordenação da subjetividade em torno da busca de repetição das experiências de satisfação. Assim, sua retomada no plano do desejo o ressitua como objeto a ser reencontrado, porém impossível. Nas palavras de Lacan: (...) o Ding é o elemento que é, originalmente, isolado pelo sujeito em sua experiência do Nebenmensch [semelhante] como sendo, por sua natureza, estranho, Fremde. (...) O Ding como Fremde, estranho e podendo mesmo ser hostil num dado momento, em todo caso como o primeiro exterior, é em torno do que se orienta todo encaminhamento do sujeito. (...) O mundo freudiano, ou seja, o da nossa experiência comporta que é esse objeto, das Ding, enquanto o Outro absoluto do sujeito, que se trata de reencontrar. (1988: 68-69).

É bem verdade que Lacan retoma esta noção apresentada no Projeto... para com ela distinguir uma das vertentes do objeto, a de objeto causa de desejo. Parece possível, no entanto, considerar-se que um filho ocupa, enquanto objeto da subjetividade da mãe, um ugar de substituto privilegiado de Das Ding. O próprio l Lacan destaca este privilegio do objeto- filho para mulher, como se pode observar na citação apresentada na página 99. Em sua tese de doutoramento, A experiência do excesso – por uma revisão da loucura dos artistas, CORRÊA (1998) ressalta o importante passo de Lacan, no seminário sobre a Ética da Psicanálise, quando, analisando a noção de das Ding, o propõe não só como núcleo irrepresentável - núcleo coeso - mas como núcleo afetado pelo significante, tornando-se, neste sentido, causa, empuxo à representabilidade, na linha proposta por Freud em mais Além do Princípio do Prazer.

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Acredita-se que o trabalho de elaboração que um filho objeto de desejo traz à subjetividade materna encontra-se na categoria descrita acima. Todas as construções mentais que a mãe possa fazer quanto ao filho gestado (e mesmo o nascido) ou quanto a si como mãe serão díspares em relação às suas experiências primárias, exigindo intensa elaboração psíquica, uma vez que a maternidade não se constitui, exclusivamente, como uma experiência de satisfação, mas, especialmente, como uma experiência de total reorganização subjetiva. Além disso, não é só como alienante que o filho ocupa o corpo da mãe. É luminosa e indescritível a alegria com a qual esta experiência pode ser vivida. Acredita-se que isto se deva não só ao fato da mulher estar gerando um complemento fálico - o que restringiria este afeto a um prazer narcísico - mas, ao saber que o filho gerado pode ser tomado como outro, como diverso, e, portanto, exigência de vida ao corpo e à subjetividade materna. O acesso a essa alegria pode passar, no entanto, pelo susto, a dúvida, o estranhamento, que fazem bascular o filho de sua posição fálica em relação a subjetividade materna. Se o corpo é em princípio potência (e não força pré-direcionada), cujas possibilidades de produção estão nele sob a forma de virtualidades e cuja presentificação reordena (ou renova) toda a subjetividade (BORGES 1996), a recepção destes adventos parece comocionar inevitavelmente o sujeito em questão. E o estranhamento parece ser uma das faces desta comoção. Resta ainda discutir-se como esse complexo objetal – o filho – pode ser fonte de estranhamento e como isto pode produzir dor ou um afeto deprimido.

Estranhos afetos

A questão do afeto é delicada e fundamental, no campo psicanalítico. Sua abordagem não corresponde às concepções psicológicas dos afetos, nem dos sentimentos. Na teoria psicanalítica a análise do afeto se faz vinculada à sexualidade. Mesmo antes de ser compreendida pela metapsicologia como elemento pulsional, seu tratamento esteve ligado a um raciocínio econômico relativo à sexualidade e à formação de sintomas. O afeto está mais ligado à idéia de transformação do que de expressão. Isto pode ser observado desde as concepções de 1895, no Projeto, onde as experiências de prazer e desprazer são concebidas

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como delimitando a complexificação do aparelho psíquico, até as proposições de 1926, quando a angústia é concebida como afeto por excelência, “sinal” indicativo, retroativamente, da história das construções sintomáticas e transformações subjetivas. O afeto foi tratado nos artigos metapsicológicos como um representante pulsional paralelo ao representante ideativo, responsável pela transformação em consciência da parcela quantitativa da pulsão não associada aos traços de

palavras. Na discussão que FREUD faz sobre o tema, no artigo O Inconsciente, parece deixar clara a sua conexão com a instância da consciência. Indica, ali, que pensar o afeto como inconsciente seria incompatível com a sua função psíquica, qual seja, a de revelar, na consciência, a pressão pulsional. Reafirma ainda esta posição em O Ego e o Id. Outro aspecto importante quanto à questão do afeto é que, na psicanálise, este esteve sempre associado à angústia. De modo sintético poder-seia afirmar que em grande parte da obra de Freud a angústia esteve articulada à idéia de transformação da libido quando represada a sua satisfação. Na segunda tópica, porém, uma outra concepção se configura, paralelamente a esta. A angústia como afeto fundamental - experimentada no nascimento através do sentimento de desamparo - passa a ser o protótipo das experiências de angústia subseqüentes. Em Inibições, Sintomas e Ansiedade [Angústia] (1976l) Freud faz uma diferença entre angústia automática e angústia como sinal, correspondendo a primeira à manifestação ou reação do eu diante de um afluxo pulsional intenso cujo ordenamento pela linguagem, fornecedor de sentido no plano da consciência, fosse difícil ou impossível. A segunda (angústia como sinal), ainda como uma reação do eu, teria a função de deflagrar movimentos defensivos que pudessem impedir o desenvolvimento da angústia e o conseqüente colapso das funções do eu. Como Freud sempre insistiu que todo desenvolvimento da sexualidade e, portanto, do desejo inconsciente, estavam ligados à angústia de castração (perda dos representantes fálicos), a angústia do nascimento ou desamparo toma valor, retroativamente, como experiência afetiva que se reedita na angústia de castração.

Já em LACAN a questão do afeto é tratada exclusivamente como angústia. Em seu seminário de 62/63 A Angústia (1996), afirma que a angústia é a experiência essencial do sujeito em relação à sua contingência na linguagem, sendo

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também, portanto, o cerne da experiência psicanalítica. Lacan considera, neste seminário, que a angústia é o afeto evocado quando uma imagem subjetiva (imagem do sujeito como objeto do gozo do Outro) resiste à sua queda, frente à pressão pulsional que insiste na exigência de novas representações. Ainda em reparo à proposição freudiana Lacan afirma que a angústia “não é sem objeto”. O objeto da angústia é esta imagem em queda desvelando a castração ao fundo. Assim, parece mesmo necessário que, ao tratar-se psicanaliticamente de um afeto, se o articule à angústia, seja de modo direto, seja nas suas vertentes de estranhamento, luto ou dor psíquica, isto é, através das manifestações do destacameto do objeto a.

A gestação, com suas transformações corporais observáveis e/ou sensíveis, parece contribuir para o sentimento de estranheza. Este afeto é tomado aqui, na perspectiva apresentada por FREUD em 1919 em seu artigo O Estranho, como “(...) aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito familiar.” (1976b: 277). Na segunda parte deste artigo Freud parte das constatações de Jentsch sobre os aspectos psicológicos do estranhamento e dá destaque à incerteza intelectual quanto à vitalidade de um objeto como uma condição particularmente favorável para a evocação daquele sentimento. Se o objeto tem vida ou não, ou se um destes estados aparenta o seu oposto (algo vivo parece morto ou o contrário), são questões que provocam estranheza. Um parêntese parece necessário: nada mais próximo do que experenciam as gestantes em relação à vitalidade do feto. Isto pode ser observado no aumento considerável da demanda por ultrassonografias, por parte das gestantes, como se buscassem alí a garantia desta vitalidade, oferecendo-lhes uma sorte de certeza intelectual afim de minimizar, ao menos temporariamente, o estado de estranheza, de angústia, quanto a esse objeto que portam em seus corpos. Quanto ao artigo de Freud, este amplia ainda mais a constatação de que a incerteza intelectual quanto à vitalidade dos objetos é fonte de estranheza e a aproxima da vida emocional infantil quando freqüentemente se atribui vida a objetos inanimados (brinquedos, por exemplo). Articula este processo à clivagem do eu, à criação de um duplo imaginário, sede, seja de perfeições, seja dos defeitos do eu, provocado pelo narcisismo primário. Aqui, novamente, um aspecto que permite associação com a relação mãe-filho: freqüentemente o bebê é associado às

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bonecas da infância – são bonecas com vida -,(as meninas, especialmente, são geralmente chamadas na infância de “boneca”), prestando-se, assim, facilmente a ocupar o lugar de duplo materno. Voltando ao artigo de Freud, este faz, alí, uma correlação com o que virá a ser na segunda tópica o supereu. Atribui a esta instância simultaneamente crítica e ideal a posição de sucedâneo do duplo narcísico infantil. Após o processo de recalcamento dos atributos do eu estabelecidos num duplo, o traço de seu retorno é, por vezes, vivido com estranheza. A repetição involuntária de um traço infantil recalcado, desorganiza o sistema de referências egóicas podendo provocar a sensação de desamparo e estranheza. Constatando, porém, a não universalidade desta ocorrência (todo estranhamento advém de material familiar que sofreu recalque, mas nem todo recalcado retorna associado ao sentimento de estranheza), Freud busca distinguir as fontes específicas deste sentimento. Faz, então, uma separação entre a estranheza oriunda de um abalo na crença de algum aspecto da realidade, e aquela originada no retorno de complexos infantis recalcados. Afirma que em ambos os casos “ coisa toda é simplesmente uma questão de ’teste de realidade‘(...)”. No a primeiro caso, o abalo se dá no campo material dos fenômenos, ao passo que no segundo, o questionamento é quanto a estabilidade de algo da realidade psíquica. Quando o estranho se origina de complexos infantis, a questão da realidade material não surge; o seu lugar é tomado pela realidade psíquica. Implica numa repressão [recalque] real de algum conteúdo de pensamento e num retorno desse conteúdo reprimido [recalcado], não num cessar da crença na realidade de tal conteúdo (1976b: 309)

Parece possível supor que, no primeiro caso - o da instabilidade no campo material - o abalo se dá em relação às crenças do sujeito: opera-se uma alteração no campo do sentido a que o sujeito está referido, e o que se desorganiza (parcialmente) é a orientação do sujeito no simbólico. No segundo caso, é a própria referência subjetiva simbólica que se desestabiliza com o retorno do recalcado. O retorno de traços identificatórios recalcados ameaça cristalizar o sujeito em certas significações, o que é fonte de angústia. Parece possível conceber que uma face da experiência do estranhamento, é vivida como perda – perda da mobilidade simbólica, da multiplicidade de possibilidades de comparecimento subjetivo, daí uma possível semelhança com os processos de melancolia e de luto. Sua outra face, o

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estranhamento proveniente das alterações na “realidade material”, também vivido com angústia, parece, porém, convocar ao trabalho psíquico na busca de encontrar traços de identidade com a “realidade psíquica”. No caso da gestação tanto a realidade material – o corpo da mulher grávida – , como a realidade subjetiva, são fontes de estranhamento por suas rápidas transformações. O sentimento de estranheza aparece na fala de gestantes tanto em referência ao corpo, como à subjetividade. O corpo feminino, sede de inúmeras transformações, torna-se presente na consciência, saindo de sua posição de fundo, de palco, passando a protagonista. Ainda que a mulher retorne à forma física semelhante àquela anterior a gravidez, há um discurso que aparece quase sempre como queixa, que o corpo ”nunca mais voltou ao que era”; outras vezes são apontadas, mesmo sem o caráter de queixas, mudanças corporais ocorridas após a gravidez – “meu cabelo ficou mais liso” ou “mais crespo”, “meu peito diminuiu “ ou “aumentou”, etc... Enfim, é como se fosse dito “não sou mais a mesma pessoa”, e a ênfase não é propriamente no resultado, mas na mudança em si. PAIM (1998) em seu estudo etnográfico Marcas no corpo: gravidez e maternidade em grupos populares, constatou que, entre as mulheres entrevistadas para aquele estudo, as marcas corporais deixadas pela gravidez ( estrias, cicatrizes, manchas etc...) eram apresentadas como registros de uma ascese da mulher a um status de mulher adulta, serviam como signos de um ideal (social, no caso) de maternidade atingido. Acredita-se que tais sentimentos, expressos através da referência às mudanças corporais, digam respeito a alterações no cerne do eu da mulher que, pela gestação, deslocou um de seus eixos de orientação subjetiva: a condição de mulher-filha, para a condição de mulher-mãe. A mudança no plano corporal parece representar, para o conjunto do eu, o traço da gestação com suas experiências de estranhamentos e enigmas. Uma espécie de proximidade da coisa – das Ding – essa ausência da razão última, esse núcleo enigmático da essência humana, que a mulher contacta com a experiência deste objeto privilegiado: o filho. Estranho porque fálico mas não-todo em relação à subjetividade da mãe, e de materialidade também estranha porque radicalmente outro. Este investimento de atenção e libido sobre o corpo em transformação significa um reinvestimento narcísico. Seja como realização de uma imagem idealizada, seja como afastamento desta, ocorre uma quebra na estabilidade de certos aspectos narcísicos. Embora só em algumas gestantes se possa obsevar

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quadros de profunda desorganização mental com perda de referência subjetiva, na maioria das gestações pode-se constatar algum período de desorientação da mulher quanto à sua potencialidade simbólica. A presença do filho como corpo estranho associada à pregnância dos aspectos etogramáticos que as transformações corporais da gravidez representam, levam em maior ou menor grau, à experiência de estranhamento, por parte da gestante. Acredita-se, ainda, que se esta experiência não ocorre durante a gravidez, ocorrerá quando do nascimento da criança, aparecendo, possívelmente, nos quadros de depressão pós-parto.

Estranhar, uma prática feminina.

Quando a mulher toma contato com o fato de estar grávida – mesmo nas gravidezes muito ansiadas – ocorre, freqüentemente, um sentimento de susto seguido da dúvida quanto ao desejo de ter um filho. A certeza antecipada quanto ao desejo parece vacilar na iminência de sua realização, mesmo que seja imediatamente reavida. O susto e a dúvida parecem também indicar que não é só como falo que o bebê é esperado. De um lado, esta dúvida refletie o temor de extinção do desejo que a posse do filho traria. Indicação de sua posição fálica excessivamente imaginarizada. De outro, porém, a dúvida liga-se à radical alteridade de que se reveste o filho como objeto. A radicalidade da experiência de gerar no próprio corpo este ser de pura diferença, parece marcar-se na subjetividade feminina através de um assustador sentimento de inexorabilidade ligado à condição materna. Autoras como BENHAÏM (1992) e AMARAL(1996) descreveram o sentimento de irreversibilidade da maternidade como fonte de angústia na gravidez, do seguinte modo: A passagem do estado de mãe ao estado de nãomãe não pode se realizar, não contém qualquer elemento natural. Quando a mãe perde seu filho, surge uma posição inalcançável, aquela do retorno impossível.O estado de mãe é irreversível. A regressão (mãe–>não-mãe) não se realiza no psiquismo. (BENHAÏM, 1992: 89). Longe de ser um episódio biográfico pareado a outros, porém, em uma direção bastante diversa da beatitude apontada por Freud, o advento da maternidade tem efeitos definitivos sobre a subjetividade feminina. Estes efeitos são

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comumente relatados como sendo da ordem de um sentimento de irreversibilidade, vivido imediatamente após a chegada do primeiro filho3, denotando que algo está definitivamente modificado, sem retorno, na vida da mulher. (AMARAL, 1996: 91-92).

O sentimento de irreversibilidade da condição de mãe, parece, também, se apoiar (não no sentido de determinação mas de suporte) nas mudanças

corporais da gestação, com seus traços permanentes, as quais correspondem a mudanças na gramática fantasmática da mulher em vias de tornar-se mãe. As ocorrências no plano do corpo biológico parecem deixar traços psíquicos de irreversibilidade que se reinscrevem como traços simbólicos nas mudanças da imagem do corpo, no sentido descrito no subcapítulo anterior. Podem também, todavia, aparecer sob uma forma de estranhamento, ou mesmo, angústia, diante desta vinculação quase absoluta da subjetividade da mãe à do filho.

Retomando a questão da dúvida quanto ao desejo do filho, poder-se-ia considerá-la como inerente à própria lógica fálica que rege (parcialmente...) o desejo, uma vez que o objeto fálico é sempre um substituto do objeto original (ou natural) ausente. Sendo o falo um significante e não um signo, é próprio à sua natureza a discordância, fonte dos processos metonímicos e metafóricos de articulação do desejo, podendo a excessiva pregnância imaginária de um objeto levar à paralisia do desejo (fonte de agressividade para o sujeito, como descreveu Lacan).

Importa ressaltar que em toda extensão da psicanálise o filho é tido como um objeto privilegiado do desejo da mulher. Nas obras dos mais diversos autores – inclusive na de Lacan – o filho é tomado como o equivalente fálico natural, para a mulher, do pênis para o homem. Por outro lado, na mítica individual prevalente na clínica psicanalítica, a interdição do incesto bem como sua aspiração se organizam em torno da idéia de mãe enquanto origem e objeto perdido. Como salienta LACAN no Seminário 7:

3

Em função dos dados clínicos que orientaram a presente pesquisa, julga-se que tais sentimentos podem iniciarse durante a gravidez.

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(...)tudo o que se desenvolve no nível da interpsicologia criança-mãe e que expressamos mal nas categorias ditas de frustração, da gratificação e da dependência não é senão um imenso desenvolvimento da coisa materna, da mãe na medida em que ela ocupa o lugar dessa coisa, de das Ding. (1988: 86)

Lacan, todavia, redimensiona o valor do falo na economia do desejo quando lhe atribui um estatuto de significante e, ainda, quando postula o desejo feminino como referido ao falo mas não-todo. É nesta outra via do desejo - a do nãotodo fálico - que se quer abordar, agora, o estatuto do filho para mulher. O

estranhamento seria um indicador deste caráter do objeto filho para a subjetividade da gestante.

Em seu Escrito de 1960 – Idéias Diretivas Para Um Congresso Sobre Sexualidade Feminina – LACAN se pergunta “se a mediação fálica drena tudo o que pode manifestar-se de pulsional na mulher, e principalmente, toda corrente do instinto materno”4 (1995b: 709). Propõe como solução estabelecer-se que tudo o que seja analisável seja sexual, mas que nem todo o sexual seria accessível à análise. Parece afirmar que o analisável é o que está adstrito à ordem fálica, porém já aponta o que será formalizado em 72 e 73 em L’ Etourdit e Mais. Ainda, ou seja, que a divisão sexual apontaria para uma ordem sexual além da fálica. Nestes seminários do início da década de setenta, Lacan retoma a questão da divisão sexual não como complementaridade, mas como dissimetria e suplementaridade. Se em Freud a diferença sexual só se inscrevia no inconsciente como positividade instaurada pelo falo – o que respondeu bem à lógica subjacente às produções masculinas -, com Lacan, ver-se-á a postulação da lógica do não-todo fálico para as mulheres. Enquanto na vertente masculina a universalidade fálica é sustentada por um elemento (pai primordial) que, não estando submetido a ela, faz o limite do campo, no caso feminino, a universalidade é contraditada pela contingência. O caráter mítico da formulação masculina é revelado por uma outra lógica que aponta não haver nenhum falante não submetido à castração, porém, nenhum submetendo-se a ela por inteiro.

4

Tradução da autora.

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Sendo a realidade subjetiva regida pela lógica do significante, a positividade da vertente masculina estaria na sua condição de sujeito representado entre significantes, referido à possibilidade de ocupação do lugar de falo simbólico. Dito de outro modo: face a abertura do campo da linguagem e a ausência de um significante demarcatório da diferença sexual, a afirmação identificatória mínima do humano só poderia se fazer na afirmação da condição de sujeito da linguagem. Na tábua da sexuação construída por Lacan no Seminário 20, do lado do masculino é que se encontra o sujeito cindido entre significantes e o falo simbólico. A constituição de seu desejo dependeria, no entanto, da articulação a um objeto (a) situado alhures. Trata-se da construção da fantasia onde o objeto é revestido de uma expectativa de complementaridade, impossível em realidade. É no outro lado da tábua da sexuação que se localiza este objeto - no campo do feminino - o que afirma a mulher como sintoma do homem. Quanto à vertente feminina da sexuação, sua referência não seria o sujeito, mas sua causa – a ausência de um significante totalizador da linguagem – representada no destacamento do objeto (objeto a). É dúplice, portanto, a face feminina da sexualidade: ora objeto causa do desejo masculino (posição que a mulher só ocupa como semblante), ora afirmação vivida, porém não dizível, de tudo que excede a possibilidade de simbolização. Segundo LACAN, para a mulher que “por sua essência ela não é toda”(1985: 98), não haveria universalidade possível. Seu gozo é “para além do falo (...) Há um gozo dela sobre o qual talvez ela mesma não saiba nada a não ser que o experimenta – isto ela sabe” (1985:100). Lacan aproxima este gozo suplementar da mulher à experiência mística. A positividade do gozo feminino se revelaria no endereçamento de sua realidade ou ‘identidade” para além do significante fálico, portanto, para além do que a língua pode expressar. O feminino seria, então, da ordem da experiência que faz empuxo ao dizer. Sobre essa questão, VILTARD (1996), ao final de seu verbete sobre o Gozo no Dicionário Enciclopédico de Psicanálise, se pergunta sobre onde a mulher ancoraria seu pouco de ser uma vez que não seria como sujeito que ela encontraria sua referência feminina. Reafirma , então, a posição expressa por Lacan em dois seminários já avançados em sua obra – Mais, Ainda (1985) e RSI (1990) -, onde os filhos, enquanto objetos a, são designados como a referência por excelência da mulher no feminino.

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Em seu livro Variáveis do Fim da Análise, SOLER (1995) analisando a posição do filho na teoria de Lacan, se refere à carta enviada por este a Jenny Aubry, onde afirma “é dado a uma mulher como mãe, o que não é dado a nenhum homem, ver aparecer no real o objeto mesmo de sua existência” (LACAN, apud SOLER, 1995: 131). A autora destaca que o filho é, na teoria de Lacan, um objeto real, destacado do corpo da mãe, objeto cuja “ereção de vivente” só é alcançavel pela mãe; seu ser presentificando a causa de desejo parental como impossível a dizer. Soler sublinha uma diferença entre a mãe na teoria de Freud e na de Lacan: A mãe freudiana é a que obtém o substituto do falo sob a espécie de criança. Nesse texto, Lacan não fala do substituto do falo, mas de uma espécie de presentificação real do mais impossível de dizer. Poderíamos então muito bem desenvolver as diferenças entre a mãe freudiana e a lacaniana; esta última distingue-se da outra, não só porque vale por seu desejo e não por seu amor, mas também porque tem a mais um acesso ao real, fato não sublinhado por Freud.” (SOLER, 1995: 131).

Assim, a maternidade para o feminino, em Lacan, parece revestir-se de importância especial. Tomando-se sua afirmação no seminário 20 de que o homem só se remete à divisão sexual orientado pela castração ao passo que a mulher só o faz enquanto mãe, e que o filho como objeto a é o que vem barrar o gozo excêntico desta última (LACAN, 1985), pode-se compreendê-la tanto na perspectiva de que é o filho que centra a mulher no campo das possibilidades discursivas, mas, também, como sendo ele – o filho – o limite, e assim, uma forma de “lembrança” ou “testemunho” dessa realidade além do significante que o feminino experiencia. Quanto ao fato de o gozo feminino não se positivar senão como experiência, parece útil utilizar-se, aqui, a noção de experienciador apresentada por Corrêa em sua tese de doutoramento. Ancorada na concepção lingüística de que papeis semânticos universais se inscrevem como competência dos falantes, destaca um, apresentado por Ray Jackendoff, que é o beneficiário ou dativo ético no qual o indivíduo se encontra na posição de acolher um evento que a ele se dirige. Preferindo a nomenclatura experienciador, a autora a põe em paralelo com as

noções de agente e paciente. Em suas próprias palavras: “ e o agente faz e o S paciente sofre, o experienciador acolhe, deixa que por ele passem as linhas do acontecimento”. ( CORRÊA, 1998: 53). É nesse sentido que a particularidade da

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experiência da gestação no corpo da mulher lhe franqueia o acesso a um gozo especial, não-todo fálico, estranho ao universal da ordem masculina. Se a produção de objetos no campo dos significantes – no campo da lógica fálica – serve à produção de discurso e ao liame social, a experiência da maternidade parece inscrever cada mulher que dela participa, no limite entre o definível e o indefinível, entre o dizível e o indizível de si mesma e de seu gozo. É neste aspecto que parece articulável o gozo feminino e a experiência do estranhamento.

A dor da qual por vezes se recobre essa experiência pode ser entendida na extensão do masoquismo erógeno compreendido como estado fundamental do aparelho psíquico face a pressão pulsional, uma das leituras a ser depreendida do artigo freudiano O Problema Econômico do Masoquismo (FREUD, 1976j). Ali,

Freud, tentando compreender como a dor poderia ser compatível com o princípio do prazer, retoma a proposição que fizera nos Três Ensaios..., onde afrima que em um grande número de processos internos a excitação sexual sobreviria como efeito do aumento, além de certos limites, das intensidades de excitação envolvidas. Amplia, ainda, esta argumentação, associando os processos de sadismo e masoquismo à “parcelas” da pulsão de morte que, transformadas em agressividade e destrutividade seriam dirigidas para fora ou mantidas associadas à libido, respectivamente. Descreve o masoquismo, então, como uma das faces da organização pulsional onde o sujeito aparece submetido, como objeto, do desejo de outrem (ser devorado, ser espancado, ser copulado). O que parece fundamental, entretanto, é que Freud admite, neste artigo, a existência de um masoquismo primário. Se se compreender esta operação de associação da pulsão de morte à pulsão de vida e o trabalho desta última como a vinculação ou busca de representabilidade para pressão pulsional, parece esclarecer-se que o masoquismo erógeno ou primário seja a condição básica da estrutura subjetiva. O modelo para pensar como doloroso todo contato com o aspecto real (não representado) do objeto pode ser formulado mediante a experiência do desamparo (Hilflosigkeit) provocada pelas pulsões - “agressão dolorosa por um corpo estranho interno” ( LAPLANCHE apud ANDRÉ, 1996: 113) – sem que a criança disponha de aparelhos mínimos de organização fantasística para fazer face às excitações endógenas.

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Assim, se o filho for tomado como esse objeto “estranho” que faz “exigência de trabalho” ao psiquismo materno, pode-se considerar que sua presença possa evocar uma forma de “dor”. A dor da convulsão subjetiva provocada por sua presença de objeto que ultrapassa em muito ao falo.

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Considerações Finais

“ (...) Não sei há quanto tempo (horas ou anos) Fausto e Parsifal se dedicam a retraçar os seus itinerários, tarô após tarô, sobre a tábua da taverna. Mas cada vez que se inclinam sobre as cartas sua história se lê de um outro modo, sofre correções, variantes, ressente-se dos humores da jornada e do curso dos pensamentos, oscila entre dois pólos: o tudo e o nada.(...)” Italo Calvino 1

1

I. CALVINO (1993) O Castelo dos Destinos Cruzados. P.: 123.

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O quadro clínico “depressão na gravidez” compõe-se, sem sombra de dúvida, de uma ampla gama de aspectos constituintes. Entretanto, abordálo dentro dos limites deste livro, exigiu recortes e, com isso, implicou riscos de imprecisões. Parece importante que se enfatize, então, algumas linhas com as quais se esquadrinhou o problema, destacando que se reconhece a possibilidade de tratá-lo em outras direções conceituais, dentro da própria psicanálise. Desde o princípio deste trabalho pareceu necessário distinguir dois planos nos quais a depressão na gravidez se insere: um o da “psicopatologia”, o outro o da “normalidade”. No primeiro plano, trata-se de descrevê-la sob a ótica do conflito, da perturbação; no segundo, busca-se explicá-la como uma ocorrência possível, esperada, inerente mesmo à sexualidade feminina. Mais uma vez, o tempo disponível para confeção deste trabalho só permitiu que essas diferenças fossem apontadas, tendo-se trabalhado apenas alguns aspectos tanto d’uma quanto d’outra visada. A perspectiva desta pesquisa é de que, se por um lado, a dor psíquica (depressão) na gravidez é percebida como algo sintomático, portanto episódico e circunstancial, restrita a algumas formas de organização psíquica, por outro, parece situar-se no âmago da experiência feminina da gravidez. Depressão na gravidez e masoquismo erógeno parecem ligados enquanto experiências subjetivas que articulam sexo e sexualidade. Em ambas há uma exacerbação da experiência de submetimento, tanto à pressão do desejo inconsciente que caracteriza a sexualidade – simbólica por excelência - quanto à pressão biológica da natureza reprodutiva do sexo. A busca de coerência no delineamento das áreas e conceitos psicanalíticos que poderiam auxiliar a compreensão deste quadro clínico, fez com que a teoria de Freud fosse o eixo central em torno do qual se problematizou a questão. Assim, a maternidade e o feminino, bem como a melancolia e o estranhamento, formam o núcleo da abordagem desta pesquisa. Tendo Freud discutido a questão da maternidade em relação à organização da sexualidade psíquica, portanto, no contexto do complexo de Édipo, suas considerações quanto à maternidade apontavam para uma experiência adstrita ao eixo narcísico-fálico. Problematizando esta teorização,

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tomou-se alguns trabalhos de Helene Deutsch, autora que ressaltou o caráter especial do narcisismo nas mulheres, não como efeito da “inveja do pênis” mas como defesa frente à tendência pulsional feminina ao submetimento (masoquismo). Além disso, Deutsch tratou de modo especial o papel da maternidade na sexualidade das mulheres. O centramento de sua teoria nas questões do narcisismo na mulher ofereceu subsídios para uma primeira abordagem psicanalítica da depressão na gravidez. A autora afirmava que o filho poderia ocupar o lugar de ideal do eu da gestante, fonte de deslocamento dos ideais paternos e, daí, transformar-se em superego, tiranizando, assim, o eu da futura mãe. Partindo destas indicações foram buscados os apontamentos de Freud quanto à melancolia. Tendo percorrido os principais artigos onde abordou o tema, observou-se que a clivagem do ego e a dinâmica dos ideais eram alguns dos problemas centrais descritos como relativos à melancolia. Importante salientar que poder-se-ia destacar outros aspectos da dinâmica melancólica, como por exemplo o “negativismo”, para, através deles, extrair conseqüências relativas à depressão na gravidez. No entanto, o apontamento de H. Deutsch norteou o recorte a ser feito. Passou-se, então, à pesquisa dos autores atuais que tratam do tema da melancolia. Dentre estes destacou-se o trabalho de Lambotte como uma das tentativas mais completas de abordagem metapsicológica do problema. Seguindo as indicações desta autora, apoiadas na teoria lacaniana do narcisismo e da relação especular ao Outro - indicações estas que apontam para o poder mais ou menos deformante do “outro” que suporta o lugar do espelho - extraiu-se algumas considerações relativas à depressão na gravidez. Considerou-se que se a gravidez é desejada, nesse momento em que o corpo se define como hospedeiro de um outro, pode surgir angústia. Esta, será, ou não, destinada a novas produções discursivas referentes à subjetividade da mulher, conforme a flexibilidade dos ideais narcísicos dessa gestante. Se a representação do bebê se constrói em acordo com os traços do ideal do eu, a flexibilidade destes traços é necessária para que o reinvestimento narcísico secundário que a gestante necessita desenvolver, implique em incremento do amor-próprio e da auto-estima da mulher, com a conseqüente passagem ao pleno amor de objeto na figura do filho. A rigidez do ideal do eu materno, ao

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contrário, não permite que a presença do feto no corpo da mulher represente moldura estável para o ego materno. Donde a gestante não poder tomar-se na imagem de mãe, permanecendo, quanto a essa posição, numa relação desprovida de investimento, mas identificada narcisicamente ao feto.

Retomando o percurso realizado neste trabalho, embora estivesse claro que os conflitos envolvendo as diferentes faces do eu não recobriam todo o universo etiológico da depressão na gravidez, parecia necessário que se delineasse, especialmente, a segunda vertente na qual se insere a depressão na gravidez, isto é, no campo da “normalidade” feminina. Partindo-se da noção de que o corpo real é fonte de estranheza para o psiquismo, considerou-se este excedente de estranhamento que representa a presença viva de um outro, no corpo materno. Tomou-se esta noção (estranho) como uma experiência no limite entre os planos afetivo e intelectivo frente às oscilações seja da realidade material, seja da psíquica (afinal, a primeira sempre se reduz a esta última). Tomou-se, ainda, a noção de juizo proposta no Projeto... , como o trabalho psíquico deslanchado pelo complexo do objeto. Seguindo indicações lacanianas relativas ao feminino buscou-se, então, articular a concepção do filho enquanto objeto-não-todo fálico, e a exigência de reorganização, de redescrição que ele importa para subjetividade materna. Por fim, considerou-se que a “dor” pode ser o indicador da exigência de produção de novas inscrições no ordenamento subjetivo, que o complexo objetal filho representa para o psiquismo da mulher grávida.

Antes de terminar parece necessário destacar que o objetivo deste trabalho foi o de ressaltar a possibilidade de ocorrência de certas experiências subjetivas na gravidez - aquelas revestidas de um matiz de angústia e/ou tristeza – em qualquer mulher. Ao tentar compreender psicanaliticamente tais experiências buscou-se encontrar instrumentos de intervenção clínica para aqueles que de algum modo se ocupam da mulher e da gravidez.

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Dados da Autora
Marcia Zucchi é psicóloga formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 1976. É também psicanalista filiada à Escola Brasileira de PsicanáliseSeção Rio, e Mestre em Ciências da Saúde, área de especialização saúde mental da mulher, pelo Instituto Fernandes Figueira – FIOCRUZ. Atua na clínica psicanalítica desde 1983. Tem artigos publicados na área e este seu livro de estréia é resultado da pesquisa realizada para obtenção do grau de Mestre.

Considerando que os afetos depressivos podem ser freqüentes, mesmo em gravidezes desejadas, a autora buscou, na teoria psicanalítica, os elementos da dinâmica própria à sexualidade feminina que pudessem responder por estas manifestação. Neste percurso são levantadas as principais formulações teóricas de Freud e Helene Deutsch quanto à maternidade em sua relação com a sexualidade feminina. São assinaladas, ainda, as permanências e transformações da teoria de Freud relativas à melancolia, uma vez que este aparato conceitual é uma das principais referências para o estudo da depressão no campo psicanalítico. A autora recorre, também, à teorização lacaniana sobre o feminino para, com ela, articular a experiência da passagem à condição de mãe - através da gestação – com o estranhamento, tal como descrito por Freud. A dor psíquica é tratada,por fim, como o efeito da “exigência de trabalho” que esse estranhamento impõe ao aparelho psíquico da gestante.

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