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Cultura e comunicação juvenis
Michel Maffesoli1
Tradução de Douglas F. Barros

RESUMO O presente artigo2 analisa aspectos da cultura juvenil contemporânea, como a formação de novas tribos, a influência dos meios de comunicação de massa, dos vestuários (uso de piercings, umbigos à mostra etc.) e dos novos valores sobre as formas de sociabilidade. Procura-se relacionar esses aspectos com a decadência da cultura do pai todo-poderoso e com a busca de elementos que possam forjar uma nova ética para os relacionamentos humanos. Palavras-chave: Cultura juvenil; comunicação; ética; lei do pai. ABSTRACT The present article analyses aspects of contemporary young culture such as the formation of new tribes, the influence of mass media, clothing (body piercings, bare belly-buttons etc.) and new values on over all forms of sociability. The article attempts to relate these aspects to cultural decadence of the patriarchal figure and the search of elements that can form a new type of ethics to the human relationships. Keywords: Young culture, communication, ethics, patriarchal figure.

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Professor na Sorbonne, Univesité Rene Descartes, Paris V. É coordenador do Centro de Estudos sobre o Atual e o Quotidiano (CEAQ) da Sorbonne e autor de vários livros, dentre eles, O mistério da conjunção: ensaios sobre comunicação, corpo e subjetividade, editora Sulina (2005) e A parte do diabo: resumo da subversão pós-moderna, editora Record (2004). Texto apresentado ao Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Práticas de Consumo por ocasião da palestra “Sexo e publicidade”, proferida pelo autor na Escola Superior de Propaganda e Marketing, em 26 de abril de 2005.

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C O M U N I C A Ç Ã O, M Í D I A E C O N S U M O S Ã O P A U L O V O L. 2 N. 4 P. 1 1 - 2 7 J U L. 2 0 0 5

ao mesmo tempo. se consideraria um “imprudente do espírito”. Esses são qualitativos que podem parecer assombrosos. própria das redes de internautas. é tal que a encontramos no mimetismo tribal e na intensa circulação de informações. tenha isso se dado na indiferença ou no conflito. Mas. não é mais em função de tal ou qual sistema teórico que se vai elaborar a relação com o outro. Os contatos que eles induzem são perigosos. às formas de vestir ou aos diferentes comportamentos exprimindo-se nas manifestações que qualificamos. elas aceitam que possam existir outras maneiras de ser e de parecer. a tolerância que predominou em relação aos costumes. assim como na ritualização da banalidade cotidiana: “eu. ao dizer isso. Com efeito. em resumo. as relações suscitadas podem também ser “arriscadas” (eco trivial em relação ao “imprudente” nietzschiano). mais vivida do que pensada ou dita. pudicamente. dessa eterna criança que. eu. besta indecifrável. de facto. De onde provém. mas que traduzem bem o abandono da paranóia que marcou as grandes ideologias políticas. sem segurança. O audacioso pensador. às maneiras de ser.12 D O S S I Ê CULTURA E COMUNICAÇÃO JUVENIS ão desagrada aos moralistas e outros “notáveis” do saber o fato de que há algo de nietzschiano nos excessos. e elas repousam sobre um sentimento bastante forte de pertencimento. Não é mais na ordem do político que esse conflito ou essa indiferença se exprimem. mas eles exprimem bem a inocente vitalidade do puer aeternus. esbanjador de toda sabedoria”. eu. próprias da modernidade. vive no dia-a-dia os diferentes enigmas da existência humana. sem o parapeito de uma Verdade estabelecida. nos novos meios de comunicação de massa e na nova cultura que eles impulsionam. homossociais. essencialmente. Mas essa audácia. monstro luminoso. mas antes de uma maneira N ESCOLASUPERIORDEPROPAGANDAEMARKETING . Nesse trágico vivido há algo de pudor e de trágico. de “éticas”. Estas são.

enfatiza o apelo e a exploração dos caracteres da juventude. E também R. 2 0 0 5 . Sobre o jogo. assim como o foi o adulto sério. N. 1951. 2 N. Aqui. T. não está limitado simplesmente a um problema geracional. lembremo-nos aqui de Caillois e de Huizinga. o imperativo do trabalho ou a responsabilidade cidadã. e as referências ao naturalista Ernst Haeckel. orientar os costumes para mais flexibilidade na apreciação do bem e do mal. regras. Paris: Gallimard. sobre as so- 3 Ver sobre esse ponto de vista o texto do poeta italiano G. Não vamos atuar contra o Espírito do tempo e aquele que sopra. em cada tribo. 1 1 . Donde provém o relativismo galopante na maneira de viver a sexualidade. a saber. Levergeois. eu quero dizer que a desenvoltura em relação aos códigos da moral estabelecida assinala que a infância subsiste em cada um de nós. Ela recorda também que subsiste. M Í D I A E C O N S U M O S Ã O P A U L O V O L. apoiando-nos nas teses de alguns naturalistas. Ser cool é uma maneira de dizer a recusa da rigidez “ontológica”. a infância do gênero humano. Temos aqui. mas a uma função contaminadora. A partir de então. produtor e reprodutor no século XIX. Les jeux et les hommes. E podemos. 4 P. ainda. discípulo de Darwin. modas etc. ora como zefir. desde então. Mas traduz antes uma espécie de “ontogênese”: uma pessoa ou uma tribo sempre em vir-a-ser.: A expressão jeunisme. que resulta em B. a outros ou à vida em geral parece ser a única injunção que é admitida na estruturação coletiva. Os “pequenos bandos”. 4 C O M U N I C A Ç Ã O. E é essa nova figura emblemática que vai. ver Huizinga. no texto original em francês. pode ser também agonal ou tomado de vertigem excessiva. valores. 29. a atitude ou a cultura jovem. o “juvenilismo”4. uma das marcas do mito da “eterna criança” que precisa fazer apenas qualificações morais judicativas ou normativas. 1958. próprias à lógica do político. ser cool em relação a si mesmo. Paris: Michel De Maule. 2004. ora como furacão. Para retomar uma expressão corrente.MICHEL MAFFESOLI D O S S I Ê 13 lúdica. Le petit enfant.2 7 J U L. racional. Lúdico que. Caillois. Paris: Gallimard. Pascoli. Homo ludens. em todos os domínios. reconhecem como leis apenas as regras que são fixadas por eles próprios. lembrar que a ontogênese individual ou grupal é uma recapitulação ou uma repetição da filogênese3. que com freqüência se estigmatiza nas sociedades contemporâneas. A “eterna criança” é contemporaneamente uma figura emblemática. p.

aquela fálica saída do pai todo-poderoso que é recolocada em questão. A ironia acerba desses programas de televisão humorísticos. o magistério intelectual estão sensivelmente desestabilizados. e em relação a seus dogmas. crônicas do cotidiano temperadas com humor ácido e que denotam um falso comprometimento com os problemas da realidade.: Programa humorístico de um canal de televisão francês constituído de bonecos caricatos de políticos e de personalidades públicas francesas e de expressão mundial. O caminho agora está percorrido. a audaciosa desenvoltura de revistas como Teknikart testemunham. que acentuam a evanescência do poder patriarcal tradicional. que está relegado a seu papel verdadeiro: o de uma pretensiosa e inútil mouche du coche5. Uma sociedade de “irmãos” tende a prevalecer. p. é a estrutura vertical. ciedades pós-modernas e transporta com ele se não a contestação. para viver e para se mostrar na “forma” de uma identidade estável e fixa? É certamente uma tal volubilidade. São numerosos os indícios de uma tal desvalorização. Em poucas palavras. Estamos aqui no coração de uma verdadeira transubstanciação societária. Husson. como também especulações sobre a vida privada de celebridades. Entre as principais atrações há entrevistas que se utilizam de termos pejorativos e se amparam em estereótipos. talvez até o ESCOLASUPERIORDEPROPAGANDAEMARKETING . apresentando uma versão bufa. adotanto um ponto de vista falsamente engajado e sempre abordando os temas de um ponto de vista politicamente incorreto. T. não tem mais sentido. T. entre outras coisas. T. Alexander Mitscherlich.: Le Vrai Journal é um programa televisivo do Canal+ protagonizado pelo showman Karl Zéro. carregada de ironia e cinismo de suas performances públicas. A educação em família ou na escola está atravessada por essa crise.: A expressão faire la mouche du coche quer dizer “agitar-se sem ajudar ninguém”. sem falar do suposto poder midiático. 8 Ver também D. tal como aparece na produção do grande modismo masculino. 5 6 N. pelo menos a indiferença em relação aos mestres do pensamento ou da ação. a ação política. Digamos claramente que a lei do pai não ordena mais. 7 N. Trata-se de um fenômeno de mídia que atrai o público entre 15 e 35 anos e procura “fazer e desfazer” a realidade. Recordemos das judiciosas e proféticas análises de Alexander Mitscherlich (1963) sobre a “sociedade sem pai” (Auf dem Weg zur vaterlosen Gesellschaft 8). mostra bem que o macho dominante está descartado do centro do mundo. tais como Les Guignols de l’Info6 ou Le Vrai Journal7. próprio da tradição ocidental. mudança de fundo em que o progressivo controle de um eu forte e seguro de si mesmo. O homem tornou-se um enigma que sofre para se pensar a si próprio.14 D O S S I Ê CULTURA E COMUNICAÇÃO JUVENIS N. um tal relativismo que fragiliza o corpus legislativo do qual o pai é o suporte. que a assunção do absoluto de valor único. 144 e ss. Os “bonecos da informação” procuram satirizar essas mesmas personalidades e suas participações em eventos do cotidiano. A androgenia notável.

Hegel (1970: 289. em todos os domínios. Em cada um dos casos. Tacussel. pois ele via na diversidade das tribos a característica (para a Alemanha) de uma “nação livre”.MICHEL MAFFESOLI D O S S I Ê 15 espírito crítico. Aqui. Le jeu des passions (2000). A realidade empírica fornece muitos exemplos cotidianos. Certamente ela continua. a partir de então. a existir. Bey. talvez até francamente anárquica. Nós a visitamos como se o fizéssemos por uma curiosidade ornamentada pelos bons velhos tempos. 308.2 7 J U L. A diversidade dos gostos plurais sucedem. oficialmente. Porque para cada eleição. Zone d’autonomie temporaire (1997). em poucas palavras. E é isso que convém pensar. ou diversas tribos. pequenos bandos assim como o prognosticava Charles Fourier. a unidade do poder centralizado. 331) pode nos esclarecer. ele nota. 9 Ver P. 1 1 . se retomarmos essa metáfora cada vez mais utilizada. A moral encobridora não é mais do que uma sombra evanescente. onde o ideal da iniciação horizontal da abadia de Thélème. Atmosfera algo libertária. Nós nos referimos a ela. o que caracterizava o papel de pater familias está bastante maltratado. TAZ. Daí a emergência disso que chamei de “sociedades de irmãos”. Judiciosa observação quanto a essa inconsistência do poder central! Bela metáfora que podemos aplicar a todas essas “zonas de autonomia temporárias” que caracterizam. 2 0 0 5 . Ver também H. o que está em jogo é o deslizamento do imperativo categórico (Kant) para o imperativo atmosférico (Ortega y Gasset). a vida das tribos pós-modernas. M Í D I A E C O N S U M O S Ã O P A U L O V O L. centrado em um hedonismo do presente. 4 P. precede uma pedagogia vertical orientada para um futuro projetivo. C O M U N I C A Ç Ã O. Charles Fourier. O império não aboliu isso. o poder da moral lhe servindo de fundamento. Mas ela está catalogada em museus. 2 N. Mas o cimento que liga o corpo social encontra em outro lugar seus ingredientes: na comunicação de massa. “os príncipes introduziam novas condições restritivas ao exercício do poder imperial de maneira que esse último se reduziria a uma sombra inconsistente”9.

no momento é suficiente notar que um tal relativismo deveria incitar à prudência analítica e ao sentido de nuance. por meio de suas análises. Para retomar uma temática cara a Edgar Morin. ao uso do véu “islâmico”. o mais freqüente de uma maneira pedante. Certamente. mais eles tomam posição sobre tudo e qualquer coisa. Todas elas. em tal contexto. ao uso de saias com cortes largos e ao uso dos cabelos envoltos por uma espécie de rede. Suscitando. um prurido legislativo frenético. o que concerne ao vestuário. intelectuais continuam a ser uma legião ávida por representar o papel do praeceptor humanitatis. assim. na França. o aspecto religioso não saberia ser negligenciado. ignorando essa evolução de fundo. há uma relação tetânica entre o substancialismo e o moralismo. sempre com arrogância.16 D O S S I Ê CULTURA E COMUNICAÇÃO JUVENIS Com efeito. tornando muito visíveis as partes íntimas? É interessante notar que todos esses temas são objeto de análises peremptórias que. o restante do poder patriarcal se exprime com força. a fim de salvar a República Una e Indivisível! Análises sem nuances naquilo que elas não levam em conta da dimensão “estética” dessas modas do vestuário. E o “véu” em questão se alia. E o mais curioso é que. para algumas entre elas. mesmo para alguns casos. assim como já indiquei. A ontologia que lhes é comum está sempre à procura de uma “causa ESCOLASUPERIORDEPROPAGANDAEMARKETING . apesar de raras exceções. ou a das calças “baggy”. coisas que relativizam a injunção religiosa. E. a postura moralizadora não está mais posta. nessa lógica. Menos eles compreendem o que está em jogo. Sem estender esses exemplos. Na matéria. Quando virá a interdição do “fio dental” à mostra. permanece apenas o fato de que está em jogo uma lógica da sedução. apelam ao legislador. Para uma grande maioria. ou à barba de mesmo nome e outros detalhes para o rosto serão regulamentados. Desse modo. em uma sociedade complexa é preciso saber compreender os fenômenos em toda sua complexidade.

Weber. interiormente. pulsão inconsciente se assim o quisermos. Com efeito. ou se exprimem de uma maneira paroxística nas numerosas “paradas” urbanas enfatizam uma “ordo amoris” (Scheler 1996: 63). Essa parte obscura se encontra no “trabalho” sobre o corpo contemporâneo. E. 2 N. do piercing.MICHEL MAFFESOLI D O S S I Ê 17 suprema”. o estrutura. E o sucesso da tatuagem. Esses fatos. 2 0 0 5 . Os mitos. e outras maiúsculas que ignoram a pluralidade da coisa e o politeísmo dos valores.). a Verdade Una. Dificuldade para saber as conse- 10 Ver ainda sobre esse aspecto Nelson Vallejo-Gomez (org. na qual predomina um forte sentimento de pertencimento. Ela repousa em um “fundamento antipredicativo. o que nos mostra a observação. stricto sensu. a apresentação fenomenológica da vida cotidiana é que tudo está em movimento. contos e lendas são atravessados pela sombra. o Senso da História. Mas a vitalidade desses arquétipos. caracterizaria a comunidade. há algumas dificuldades para a inteligência moderna de se contentar com um julgamento de fato: dizer o que é. primeira. p. segundo M. As teatralidades corporais que sobrevivem dia após dia nos rituais dos vestuários. 1 1 . Ou. assim como aquele de Harry Potter ou do Senhor dos Anéis não deixa de invalidar o julgamento de valor e a análise moralizadora. a Finalidade. pré-categorial”10 (Durand 1969). O ideal comunitário tem necessidade de símbolos exteriores para traduzir a força que. 4 P. se exprime muito freqüentemente de uma maneira anômica. M Í D I A E C O N S U M O S Ã O P A U L O V O L. Ela repousa sobre a divisão dos afetos. A sociabilidade. aquela do “mundo da vida” (Lebenswelt).2 7 J U L. A emocionalidade escapa à injunção moral. constituem a nova cultura juvenil em gestação. Para retomar esse termo que. o que está em jogo é da ordem do emocional. tudo flutua. portanto. complica a simples causalidade. O que. não simplifica um social deduzindo-se por simples raciocínio. única. Morin en ses 80 ans. L’humanisme planétaire. C O M U N I C A Ç Ã O. 112. Habituada que ela está em apreciar o bem e o mal a partir do que eu chamei de “o fantasma do Um”: o Deus Um.

Desse modo. então. é um inconsciente arquétipo com o qual cada um se comunica. ESCOLASUPERIORDEPROPAGANDAEMARKETING . O intelectualismo ou o racionalismo. o próprio da vida orgânica repousa sobre a riqueza de uma tal conjugação. talvez até provocadora naquilo que não obedece das injunções da vida social. Fiel à injunção bíblica (Deus separa a Luz das Trevas). O que aflora à superfície. é sempre empregado para separar as diferentes esferas da natureza humana. exacerbação das diferenças − e a constituição de um espírito comum. Podemos até dizer que nos interstícios do aparecer opera uma experiência do ser coletivo. de um ideal comunitário. Ela é chocante. para saber o impacto de uma atmosfera dionisíaca da qual a órbita se estende cada vez mais. em inúmeras de suas análises. admitidas em comum. à “comunicação existencial” como fundamento de toda cultura. freqüentemente reata com os valores antigos.18 D O S S I Ê CULTURA E COMUNICAÇÃO JUVENIS qüências de uma “ordo amoris” renascente. pelo menos institucionalmente. Mas sem querer canonizá-la a priori. Eu acrescentaria que esta. tal como um ideograma. vinha). Comunicaçãosímbolo-cultura! Karl Jaspers faz referência. Ela transgrediria as normas estabelecidas. O signo vem a ser símbolo e faz surgir o outro lado. há uma sutil alquimia entre o trabalho sobre o corpo − fenômenos de moda. a razão tem medo desse holismo em que o verso e a frente se conjugam harmoniosamente. em seu momento fundador. uma anomia tal não deixa de ser instrutiva para aqueles que fazem da ludicidade uma marca da nobreza de espírito. Reconhecer que há na corporeidade e na presença ambiente um impulso vitalista que alia o material e o espiritual. ainda dominante. imaterial. como o “espírito do vinho” está exatamente em constante relação com a matéria (terra. Ou. das coisas. é sempre anômica.

ela apenas dá sua verdadeira legitimidade. a primeira coisa a fazer? O essencial é prestar corretamente as designações”11. econômico ou simbólico. La Gauche. a partir de então. Assim como o relata a sabedoria chinesa (Granet 1968: 362). Quero dizer aqui uma atitude fenomenológica que sabe qualificar antes de legiferar. portanto. sempre. o que assinala a importância do bom uso das palavras. “grudar” no espírito do tempo exige. 12 Sobre o pelagianismo. naquilo que concerne ao governo dos espíritos. p. Fundador. ou a covardia. por meio dos quais a parte sombria da natureza humana vai ser. ver L. la Droite et le péché originale (1984). do moralismo e do conformismo social. ultrapassada12.MICHEL MAFFESOLI D O S S I Ê 19 O retorno do orgânico à vida de nossas sociedades. Para dizê-lo de maneira familiar. 2 0 0 5 . revolução do olhar que é própria do compreender. Mas esta não pode se fazer a contra-senso. Karl Jaspers. Tseu-lou disse a Confúcius “o senhor de Wei se propõe a vos confiar o governo. a essa capacidade de se ajustar ao estado dos costumes. em vossa opinião. O monge Pelágio. a essa conjunção de coisas opostas que são a alma e a matéria. Moulin. Esta é. 2 N. isto é. Qual é. ao renegar a tarefa original pode ser considerado. a importância das efervescências contemporâneas e de medir seus efeitos. “Retornar à cidade”. quer o saibamos ou não. sem prejulgamentos. Precisamente. essa “opinião” mais ou menos douta. 380. inelutavelmente. aconselhava Platão (République. 11 Ver também as referências a Karl Jaspers. seu valor espiritual a qualquer poder que seja: político. C O M U N I C A Ç Ã O. da qual o medo. a partir de então. in J. que se tome certa distância frente à doxa dominante. sabemos de longa data.2 7 J U L. Eis. 4 P. C. Gens. No entanto. algo um pouco mágico. é o fundamento mesmo da necessária organização social. quer dizer. 521c. M Í D I A E C O N S U M O S Ã O P A U L O V O L. O que implica sabermos romper com o que poderíamos chamar de o pelagianismo moderno. O cuidado das denominações exatas. convida a um pensamento orgânico.). 1 1 . como o fundador da pedagogia racionalista que é progressivamente imposta à organização social do mundo ocidental. é o motor essencial.

imprensa. O desejo de não mais se curvar a uma lógica da separação.20 D O S S I Ê CULTURA E COMUNICAÇÃO JUVENIS Moralismo pedagógico que faz a sociedade. com uma espécie de quietismo insolente. edição −. A expressão de um não-conformismo. mas. compreender a realidade como um todo. por vezes. É isso mesmo que se exprime no uso do véu ou na exibição do umbigo e de partes das nádegas. aparentemente opostas. “Homens teóricos” (Nietzsche). ao invés disso. uma imensa manufatura de empregados a serviço de uma ideologia empresarial dominada por um utilitarismo onipresente. com um forte componente amigável. subterraneamente. Encarnação que encontramos nos fanatismos religiosos. ao contrário. É quase em termos olfativos que seria preciso colocar o problema social. isso cria um tipo de realismo mágico que deixa estupefato o conjunto dos observadores sociais. E é portanto esse utilitarismo que não parece mais ser uma coisa admitida sem discussões. esses sofreram bastante para entender a fome de vida em seus aspectos encarnados. Ao que o pelagianismo oficial responde. dada ESCOLASUPERIORDEPROPAGANDAEMARKETING . mas também no frenesi de sentidos de todas as ocasiões festivas caras às diversas tribos pós-modernas. Estamos aqui no coração da cultura-comunicação pós-moderna. bem domesticado. um perfeito inconsciente. Há nessas provocações. As éticas particulares induzidas por um tal não-conformismo reaproximam materialismo e espiritualismo. A experiência do vivente ultrapassa a simples lógica mercantil e quantitativa. Em cada um desses casos se encontra em presença de verdadeiras “paradas amorosas”. mas de um modo teimoso. onde a sedução tem uma parte enorme. mas de fato bastante iguais. após todas as suas instâncias espirituais − universidade. a expressão da recusa de um mundo unicamente mercantil. E como em outras etapas de efervescência cultural.

nas quais cada um se põe a comunicar em uma experiência do ser-coletivo. De diversas maneiras pudemos mostrar a estreita relação existente entre o racionalismo cartesiano e o logocentrismo.2 7 J U L. C O M U N I C A Ç Ã O. p. ao julgamento moral. M Í D I A E C O N S U M O S Ã O P A U L O V O L. Ver também M. tende a se perder. É a um tal deslizamento que convém estar atento: a alma coletiva tende a prevalecer contra o espírito individual. por exemplo. Janicaud. D. Entrevista com J. Com freqüência. da mesma forma. protagonista do “contrato social” moderno. é o espaço que prevalece. que trabalhamos para o lazer. Deslizamento que demanda uma atitude não judicativa. Espaço do corpo próprio. recordando que ele é dos tempos em que o lugar faz a união. assinalei esse deslizamento do logocentrismo para lococentrismo. O ideal moral está bem instrumentalizado para gerar o indivíduo racional. Maffesoli. que era a conseqüência disso13. posto que. que ultrapassa nossa habitual tendência a analisar em termos de “bem” ou “mal”. Faye. Esse “eu penso” soberano constitutivo de si e do mundo e que fabrica a sociedade parece submerso em um “suplemento” de gozo. 2 0 0 5 . que mutilamos para o gozo doloroso. É preciso dizer que tais copulações místicas escapam. Por meio da violação do corpo ou de seu desvelamento assistimos a danças. mais ou menos frenéticas. que ornamentamos para o prazer. 150. Quem 13 Ver. em todos os aspectos. 4 P. largamente. Território do corpo tribal que empregamos para conquistar e que defendemos contra todas as formas de intrusão. Le rythme de la vie (2004). Ele é impotente ante o ressurgimento dos afetos tribais. A exacerbação do corpo individual no quadro de um corpo coletivo remete a uma outra forma de ligação social de forte componente logocêntrico. Elas colocam em má posição uma visão do mundo da essência contratual. Heidegger en France (2003). na comunidade da qual ele é. tributário. Em todos os casos. espaços simbólicos que geram e confrontam a união. 2 N. poderíamos dizer a se consumir. 1 1 . Tomo II. Com efeito. o indivíduo racional e mestre de si mesmo.MICHEL MAFFESOLI D O S S I Ê 21 a importância da secreção. P. que vestimos para a reza.

Elas não são fundadoras se sabemos apreciá-las naquilo que elas são e não naquilo que desejaríamos que elas fossem. o que é surpreendente observar é que essas novas formas de sociabilidade são. Aqui. da simplicidade das relações. p. se eu faço referência a um exemplo religioso. Podemos extrapolar as lições desse exemplo. certamente. Art d’Occident. ao demandar uma nova ética comunitária. Não é a primeira vez que tais índices produzem significado. p. a união mística projetada. E que. Reunião renovada e purificada por uma ultrapassagem das leis artificiais saídas da esclerose e dos pensadores institucionais. Ética mais próxima da natureza. Focillon. Ela demanda outras figuras nas quais o ideal comunitário se reconhece e se compraz. As “formas” que elas empregam podem. deveria nos incitar a constatar em relação a que os fenômenos podem parecer anômicos − e eles certamente o são em relação às normas estabelecidas − podem ser considerados como os índices (index) mais seguros que apontam uma nova sociabilidade em gestação. expri- ESCOLASUPERIORDEPROPAGANDAEMARKETING . mostrando que toda instauração nova é uma transfiguração. Símbolo importante. 71. os cistercienses vão criar novas “formas” onde esta possa se desabrochar14. Ética que tinha por ambição restaurar o fervor original e a edificação do corpo monacal a fim de melhor realizar a vocação monástica. Davy. Entre a multiplicidade de exemplos históricos.22 D O S S I Ê CULTURA E COMUNICAÇÃO JUVENIS 14 Ver M. com efeito. M. isso vai se realizar ao ser usada uma vestimenta nova que significa. ser transgressivas. de uma parte. 159. portanto. podemos recordar quando os historiadores da arte ou os filósofos da vida religiosa analisam a rebelião dos monges Cîteaux contra o que estes consideravam ser o enfraquecimento das regras para a abadia de Cluny: eles revelam que a “ordem das formas corresponde à ordem do espírito”. atravessadas pela intensidade própria à religiosidade e. le MoyenÂge roman et gothique (1938). É agradável ver em que as práticas contemporâneas obedecem a uma lógica parecida. Saint Bernard (1990). de outra parte. Ver também H.

2 N. Isso é. o fato de que privilegiar todas as ocasiões de “transporte” (transportes festivos. portanto. A atitude “contemplativa” que prevalece em relação à pulsão política. O subjetivo tende a ceder o lugar ao “percurso” (G. C O M U N I C A Ç Ã O.MICHEL MAFFESOLI D O S S I Ê 23 mem uma transbordante intensidade na relação com o outro. efervescências diversas). reatamento intuitivo aos outros e à natureza circundante. todas as situações empíricas onde a fórmula conceitual (política. o lugar para que se ponham em prática pequenas liberdades intersticiais onde domina uma forma de alegre imoralismo. do fechado ao aberto. Uma forma comunitária onde cada um não procura mais sua singularidade. Intensidade e densidade que − obriga o presenteísmo −. de “brilhar” ou de ter o feeling. Resta apenas que o imperativo categórico da moral estabelecida deixe. o fato de que a intuição nas relações sociais preceda as associações pensadas (partido. no fato de “ser transportado”. de uma vida rotineira à vida mística15. falando trivialmente. tudo isso se traduz. própria das gerações precedentes. Correspondência holística. Sobre o “reatamento”. tudo isso cria uma atmosfera específica na qual o sujeito substancial que. Durand). Podemos aproximar isso das intuições de Bérgson (1932: 445): as passagens do estático ao dinâmico. mas se dedica. a ser apenas um com o objeto que lhe ou ao qual pertence. não tem mais grande importância. 1 1 .2 7 J U L. A lista dessas expressões que exprimem a ultrapassagem de uma lógica discursiva é longa e realçam a calma violência do fluxo vital. não são menos reais embora todas as coisas sejam efêmeras. M Í D I A E C O N S U M O S Ã O P A U L O V O L. op. podemos ofuscá-las. 4 P. teoricamente. na tradição ocidental. social) cede o lugar a uma forma operatória. Reliance et théories (1996). 2 0 0 5 . cit. Scheler. a “ordo amoris” (Scheler) enquanto causa e efeito dos múltiplos êxtases sociais. concretamente. Isso esclarece bem. Bolle de Bal. Certamente. 15 Ver também M. sindicatos). ao conhecimento direto da íntima ligação de todas as coisas. ver M. cada vez mais. nos era familiar. Isto é. não afirma mais sua especificidade.

vem a ser assim um hieróglifo. Invertendo o adágio popular: o hábito faz o monge. em todo caso. quer ela esteja sobre o corpo. Os apaixonados pelos jogos eletrônicos sabem bem que. mas que tende a se afirmar na organicidade dos grupos emocionais. encarnação que é preciso compreender em seu sentido preciso: prazeres da carne. a diferença tem pouca importância como meios de redizer a importância do corpo individual no quadro do corpo coletivo. loucamente. “nós somos” isso que fixamos como um emblema de reconhecimento. ao se proteger atrás da máscara da transcendência. Práticas encarnadas. a circuncisão religiosa. por meio dos quais elas transfiguram um cotidiano dominado por uma lógica mercantil em uma realidade espiritual que. e sobretudo. assim como o piercing íntimo favorecem os êxtases comunitários. Corpo místico. lenço Hermès. roupas íntimas Calvin Klein. Morada real ou virtual que assegura proteção e reconforto. poderíamos à vontade multiplicar os signos e as marcas que podem ser consideradas o mesmo que manifestações do sentimento de pertencimento. Eles são o mesmo que rituais anódinos ou exacerbados por meio dos quais as microtribos contemporâneas exprimem suas afinidades eletivas. a “vestimenta”. que não se reconhece mais pelos mecanismos da abstração racional. O umbigo exposto de uma maneira “sexy”. Mesmo. Construção simbólica onde tudo parece ter sido feito corpo. Pedras vivas de um templo imaterial onde nos “sentimos” bem. aqui e agora. assim. Stricto sensu. mortificação da carne. Signo sagrado que faz com que se participe de uma espécie de transcendência imanente. criam comunidades não menos “reais” do que ESCOLASUPERIORDEPROPAGANDAEMARKETING . procuram na Internet uma forma de comunhão e que. quipá judeu.24 D O S S I Ê CULTURA E COMUNICAÇÃO JUVENIS Véu islâmico. se uma tal afirmação provoca ou choca aqueles que “não o são”. sempre não é menos profundamente humana: isso que vejo com outros. às vezes.

uma maneira de interagir por contaminações sucessivas. desenraizada. Uma co-presença que torna cada elemento indispensável e o conjunto específico ou original. É esse “doméstico” e esse “imediatismo”. esclarecedor. Dupla necessidade que inclui o real vivido no vasto quadro de uma realidade total. propostos pela sociedade. dentro de uma sensibilidade ecologista. talvez até dos familiares próximos. mas em interação com o meio ambiente global. 1 1 . Mas esta faz somente significar uma embriaguez coletiva: deixar sua marca na trágica inconstância do dado mundano. mas tomando um sentido em função da fauna. uma “dependência” inegável. em levar em conta o que está próximo. que podem nos ajudar a compreender o escorregamento da moral à ética. C O M U N I C A Ç Ã O. Há aqui. quer dizer. por contigüidade com a cidade que lhe dá sentido. ou quase mística. simbolicamente. sem mediações. M Í D I A E C O N S U M O S Ã O P A U L O V O L. ela pensava. freqüentemente.2 7 J U L. O que mostra bem que aquilo que está próximo vive em osmose. esta é antes de tudo encarnada. 2 0 0 5 . os falsos utilitários são como marcas sobre o próprio corpo permitindo que se integre a um corpo coletivo. o laço social se constrói. Nesse sentido.MICHEL MAFFESOLI D O S S I Ê 25 os agrupamentos sociais. é. Encontramos aqui algo como um eco da noção de domus. 4 P. Por meio de uma espécie de concatenação mágica. portanto racionais. da flora. por uma apropriação de lugares sucessivos. O termo espanhol immediaciones. própria do pensamento antigo. Há algo como um imediatismo absoluto entre os diversos elementos de um todo. nesse sentido. que descreve o entorno de um ponto central de uma cidade importante. proxêmica. Quando a escola californiana de Palo Alto elabora a noção de “proxemia”. Com a importância da “casa” não se limitando às quatro paredes da habitação. 2 N. Enquanto aquela é algo um tanto abstrata. por irradiações.

permitindo-lhe ser algo. o território. De diversas maneiras. uma justaposição de rituais cotidianos. Nessa perspectiva. portanto com maior humildade. quer ele seja real ou simbólico. essa terra. mas bem no coração de um humanismo presente. o espaço é de qualquer modo um tempo vivido.26 D O S S I Ê CULTURA E COMUNICAÇÃO JUVENIS 16 Ver também M. na ética que se desenha. Ela acentua o espaço. mais modestamente. ela é antes de tudo concreta (cum-crescere): cresce com o que a circunda. A partir de então. a ética doméstica − poderíamos dizer tribal − é uma ética da situação. o terreno. união carnal. desde então. Merleau-Ponty. a cultura concreta: uma memória partilhada. A ética é entendida como modo de vida. que criam um estado de alma coletivo. mais humanamente. Se nos referimos à etimologia do termo. a partir de então. Phénoménologie de la perception (1976). Ligada a uma permanência. estamos longe do atemporal e do universal. O meio ambiente social adquire. Nesse sentido. e é atravessada pelo cuidado desse lugar. sentido apenas em função do meio ambiente natural. esse solo. ESCOLASUPERIORDEPROPAGANDAEMARKETING . justamente. Eles “interessam” porque estamos no interior (inter esse). aquele dos momentos (bons ou maus) que fazem. Estamos muito longe da afetação moral das belas almas responsáveis pela humanidade e seu conjunto e atormentadas pelas tristezas do gênero humano. Ela é tributária de um lugar. 491. Aquele das pequenas histórias. esse mundo vem a ser por meio de círculos sucessivos importantes. A cultura. a uma região particular. por sedimentações sucessivas. A ética da situação é. vem a ser particular e não tem mais a pretensão universal da civilização. Nesse sentido. como maneira de existir a partir de um lugar que partilhamos com os outros. p. Heidegger (1983: 151) esteve atento a um tal ethos como maneira de habitar: “a ética deve dizer que ela pensa a permanência do ser humano”16. Assim como o diz Merleau-Ponty é “porque eu habito” esse mundo que posso levá-lo a sério.

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