P. 1
Bras Cubas

Bras Cubas

|Views: 1|Likes:
Published by Gesner L C Brito F

More info:

Published by: Gesner L C Brito F on Mar 05, 2013
Copyright:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

08/19/2014

pdf

text

original

1

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS Machado de Assis

AO VERME QUE PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES DO MEU CADÁVER DEDICO COMO SAUDOSA LEMBRANÇA ESTAS MEMÓRIAS PÓSTUMAS Ao leitor Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez.. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevia-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião. Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus. Brás Cubas CAPÍTULO 1 Óbito do Autor Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo; diferença radical entre este livro e o Pentateuco. Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia — peneirava — uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso que proferiu à beira de minha cova: —

2

"Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que tem honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu , aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado." Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte a pólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego, como quem se retira tarde do espetáculo. Tard e e aborrecido. Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre elas três senhoras, minha irmã Sabina, casada com o Cotrim, — a filha, um lírio-do-vale, — e... Tenham paciência! daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de saber que essa anônima, ainda que não parenta, padeceu mais do que as parentas. É verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa. Nem o meu óbito era coisa altamente dramática... Um solteirão que expira aos sessenta e quatro anos, não parece que reúna em si todos os elementos de uma tragédia. E dado que sim, o que menos convinha a essa anônima era aparentá-lo. De pé, à cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crer na minha extinção. — Morto! morto! dizia consigo. É a imaginação dela, como as cegonhas que um ilustre viajante viu desferirem o vôo desde o Ilisso às ribas africanas, sem embargo das ruínas e dos tempos, — a imaginação dessa senhora também voou por sobre os destroços presentes até às ribas de uma África juvenil... Deixá-la ir; lá iremos mais tarde; lá iremos quando eu me restituir aos primeiros anos. Agora, quero morrer tranqüilamente, metodicamente, ouvindo os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora, à porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e coisa nenhuma. Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo.

3

CAPÍTULO 2 O emplasto Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: deciframe ou devoro -te. Essa idéia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto antihipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. Na petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundos efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio, porém, que esse talento me hão de reconhecer os hábeis. Assim, a minha idéia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: — amor da glória. Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição. Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto. CAPÍTULO 3 Genealogia Mas, já que falei nos meus dois tios, deixa-me fazer aqui um curto esboço genealógico. O fundador de minha família foi um certo Damião Cubas, que floresceu na primeira metade do século XVIII. Era tanoeiro de ofício, natural do Rio de Janeiro, onde teria morrido na penúria e na obscuridade, se somente exercesse a tanoaria. Mas não; fez-se lavrador, plantou, colheu, permutou o seu produto por boas e honradas patacas, até que morreu, deixando grosso cabedal a um filho, o licenciado Luís Cubas. Neste rapaz é que verdadeiramente começa a série de meus avós — dos avós que a minha família sempre confessou —, porque o Damião Cubas era afinal de contas um tanoeiro, e talvez mau tanoeiro, ao passo que o Luís Cubas estudou em Coimbra, primou no Estado, e foi um dos amigos particulares do vice-rei conde da Cunha. Como este apelido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria, alegava meu pai, bisneto do Damião, que o dito apelido fora dado a um cavaleiro, herói nas jornadas da Africa, em prêmio da façanha que praticou arrebatando trezentas cubas aos mouros. Meu pai era homem de imaginação; escapou à tanoaria nas asas de um calembour. Era um bom caráter, meu pai, varão digno e leal como poucos. Tinha, é verdade, uns fumos de pacholice; mas quem não é um pouco pachola nesse mundo? Releva notar que ele não recorreu à inventiva senão depois de experimentar a falsificação; primeiramente, entroncou-se na família daquele meu famoso

nenhum escreveu a confissão de Augsburgo. madama Lucrécia. depois de tantas cabriolas. Todavia. Quem não sabe que ao pé de cada bandeira grande. e foi então que ele imaginou as trezentas cubas mouriscas. vive o pai. antes uma trave no olho. flor dos Bórgias. há muitas vezes várias outras bandeiras modestamente particulares. que é a flor das damas do seu tempo. pela minha parte. a volúvel história que dá para tudo. constituíra-se idéia fixa. o lírio-do-vale.. e não poucas vezes lhe sobrevivem? Mal comparando. E tu. se alguma vez me lembro de Cromwell. mas cumpre advertir que a natureza é uma grande caprichosa e a história uma eterna loureira. seus confrades. talvez a finada dieta germânica. e. minha sobrinha Venância. de uma filosofia desigual. Suetônio deu-nos um Cláudio. retifique o seu nariz.. antes um argueiro. tomando à idéia fixa. onde morreu em 1592. Pois lá iremos. Lá iremos. ostensiva. — fórmula Suetônio. e. importa dizer que este livro é escrito com pachorra. a família do capitão-mor. Eu deixo-me estar entre o poeta e o sábio. Por exemplo. coisa que não edifica nem destrói. foi a idéia fixa da unidade italiana q ue o matou. que mereceu ser as delícias de Roma. é como a arraia-miúda.Mas não antecipemos os sucessos. a idéia móbil. o Cotrim. CAPÍTULO 5 Em que aparece a orelha de uma Senhora Senão quando. a comparação não presta. Vivem ainda alguns membros da minha família. também não ficaste pântano.4 homônimo. de uma idéia fixa. só porque ainda não chegamos à parte narrativa destas memórias. Vê o Cavour. Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar. e tornemos ao emplasto. Não se riam dessa vitória comum da farmácia e do puritanismo. o verdadeiramente delicioso. recebi em cheio . que era um simplório. e acho que faz muito bem. veja-a e não esteja daí a torcer-me o nariz. CAPÍTULO 4 A idéia fixa A minha idéia. direi que é ela a que faz os varões fortes e os doidos. que fundou a vila de São Vicente. apareceu um Gregorovius incrédulo que te apagou muito essa qualidade. Verdade é que se fez graúda e castelã. foi o "abóbora" de Sêneca. acabemos de uma vez como nosso emplasto. é só pela idéia de que Sua Alteza. teria imposto aos ingleses o emplasto Brás Cubas. não inflama nem regela. como os outros leitores. e por esse motivo é que me deu o nome de Brás. e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado. com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século. agora austera. o delicioso. o capitão-mor Brás Cubas. Viva pois a história.. Vamos lá. Opôs -se-lhe. porém. Verdade é que Bismarck não morreu. com a mesma mão que trancara o parlamento. por exemplo. Deus te livre. Veio modernamente um professor e achou meio de demonstrar que dos dois césares. Não. obra supinamente f ilosófica. se um poeta te pintou como a Messalina católica. Nenhum de nós pelejou a batalha de Salamina. Creio que prefere a anedota à reflexão. vaga ou furta-cor é a que faz os Cláudios. talvez as pirâmides do Egito. Não me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo: talvez a lua. Era fixa a minha idéia.. um sujeito que. caiu este e a arraia ficou. que se acolhia à sombra do castelo-feudal. e um Tito.. pública. se não vieste a lírio. estando eu ocupado em preparar e apurar a minha invenção. leitor. que se hasteiam e flutuam à sombra daquela. logo brincalhona. Deixemos a história com os seus caprichos de dama elegante. fixa como. — ou “uma abóbora” como lhe chamou Sêneca..

mas incompletamente. Com esta reflexão me despedi eu da mulher. mas enfim saciados. então sim. como uma águia imortal. Eu . e lá se ia tudo. um ar austero e maternal. e a figurar nas folhas públicas. Havia já dois anos que nos não víamos. tratei-me enfim. não direi mais discreta. mas qual fora. a minha teoria das edições humanas. mas com certeza mais formosa entre as contemporâneas suas. tal foi a origem do mal que me trouxe à eternidade. dia aziago. que a morte ia espalhar na eternidade do nada. trazia comigo a idéia fixa dos doidos e dos fortes. entre macróbios. O estranho levantou-se e saiu.Virgília tinha agora a beleza da velhice. onde jazia. da colonização e da necessidade de desenvolver a viação férrea. não sei se em igual dose. CAPÍTULO 6 Chimène. firme. sem método. havia apenas dois corações murchos. que me visitava todos os dias para falar do câmbio. de duas paixões sem freio... Talvez eu exponha ao leitor.5 um golpe de ar. que eu chegasse a galgar o cimo de um século. adoeci logo. já enfermo. durante algum tempo ficamos a olhar um para o outro. e porque era das que resistem muito. que vence em eficácia o cálculo humano. Creiam-me. e creio haver provado que foi a minha invenção que me matou. porque um Ezequias misterioso fizera recuar o sol até os dias juvenis. Via-me. Recuou o sol. então talvez se pode gozar deveras. há nela uma gota da baba de Caim. em vez de estar lançando os alicerces de uma invenção farmacêutica. No outro dia estava pior. — Anda visitando os defuntos? Disse-lhe eu. porque entre uma e outra dessas duas ilusões. Sabem já que morri numa sexta-feira. sem ânimo de entrar ou detida pela presença de um homem que estava comigo. pálida. Nenhuma água de Juventa igualaria ali a simples saudade. ao longe. a anônima do primeiro capítulo. — Ora.. ninguém se fie da felicidade presente. q ue é o ministro da morte.qui l'eût cru? Vejo-a assomar à porta da alcova. Vinha a corrente de ar. Tinha então 54 anos. a realidade dominou logo. esquecido de lhe dizer nada ou de fazer nenhum gesto. era uma ruína. e este punhado de pó. Da cama. o menos mau é recordar. muitos anos antes e que um dia. em algum canto deste livro. Quem diria? De dois grandes namorados. estava menos magra do que quando a vi. Não era impossível. ou de uma reforma religiosa. entretanto. Sentou-se. mas a voz era amiga e doce. Imagine o leitor que nos amamos. nem cuidado. numa festa de São João. qui l’ eût dit? Rodrigue. nada mais havia ali. o presente expeliu o passado. Assim corre a sorte dos homens. nem persistência. e remontar ao céu. só agora começavam os cabelos escuros a intercalar-se de alguns fios de prata. Suponha-se que. vinte anos depois. e veio até o meu leito. Corrido o tempo e cessado o espasmo. sacudi todas as misérias. com a gravidade que lhe davam as roupas e os anos. vejo-a assomar à porta da alcova. defuntos! respondeu Virgília com um muxoxo. ela e eu. E depois de me apertar as mãos: — Ando a ver se ponho os vadios para a rua. sem articular palavra. pôde mais do que o tempo. e não me tratei. na Tijuca. pela última vez. Era um sujeito. ascender do chão das turbas. devastados pela vida e saciados dela. Tinha saúde e robustez. nada mais interessante para um moribundo. cuja imaginação à semelhança das cegonhas do Ilisso. Há demonstrações menos lúcidas e não menos triunfantes. a tal. melhor é a que se gosta sem doer. Tinha o emplasto no cérebro. e eu via-a agora não qual era. e não é diante de tão excelso espetáculo que um homem pode sentir a dor que o punge. e ali ficar durante um minuto. comovida. Virgília deixou-se estar de pé. Não durou muito a evocação. trajada de preto. contemplei-a durante esse tempo.. tratava de coligir os elementos de uma instituição política. quais fôramos ambos. Saiu. uma imponente ruína.O que por agora importa saber é que Virgília — chamava-se Virgília — entrou na alcova. Não tinha a carícia lacrimosa de outro tempo.

via-a falar com desdém e um pouco de indignação da mulher de que se tratava. alguém as descruzava (Virgília decerto). Nenhum olhar suspeito. escanhoando um mandarim. que era o sal da palestra. Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais. vi chegar um hipopótamo. — Que idéias essas! Interrompeu-me Virgília um tanto zangada. impressa num volume. único filho de seu casamento. e confesso que. aliás sua amiga. basta estarmos vivos. levantou os ombros e disse com gravidade: — Estou velha! Ninguém mais repara em mim. o doente é um solteirão e a casa não tem senhoras. destro. que. com um simples enfermeiro. porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto. casualmente. Virgília adivinhou-me e disse ao filho: — Nhonhô. retorqui. sendo as minhas mãos os fechos do livro. podíamos falar um ao outro. dois dias depois. Era o meu delírio que começava. com fechos de prata e e stampas. pode saltar o capítulo. e encadernada em marroquim. meio secretos. fora cúmplice inconsciente de nossos amores. ouvindo aquela palavra digna e forte. sem perigo. Primeiramente.Virgília deu-me longas notícias de fora.6 estava só. se Buffon tivesse nascido gavião. sentia um prazer satânico em mofar dele. por menos curioso que seja. Virgília refletiu um instante. Ultimamente. Sorriu o filho. — Olhe que eu não volto mais. uma dominação sobre si mesma. meio divulgados. senti -me transformado na Suma Teologica de São Tomás. . Logo depois.. em persuadir-me que não deixava nada. virei amanhã ou depois. Nhonhô era um bacharel. Vieram juntos.. tomei a figura de um barbeiro chinês. uma igualdade de palavra e de espírito. Vou me embora — Já? — Já. eu. mas não pode ser antes de sábado. na minha alcova. O filho sentia-se satisfeito. faço-o eu. Mas. narrando-as com graça. bojudo. nenhum gesto que pudesse denunciar nada. tinha o aspecto das vidas imaculadas. e a ciência mo agradecerá. e cruzando-as eu sobre o ventre. em casa. que pareciam e talvez fossem raras. com um certo travo de má língua. E vendo o relógio: — Jesus! são três horas. Virgília estava serena e risonha. Mas. para cortar dúvidas. que me arrebatou.. — Não sei se faz bem. não repares nesse grande manhoso que aí está. eu creio que também sorri. e tudo acabou em pura galhofa. ao vêlos ali. vá direito à narração. Morrer! Todos nós havemos de morrer.. nuns amores ilegítimos. prestes a deixar o mundo. na idade de cinco anos. idéia esta que me deu ao corpo a mais completa imobilidade. restituído à forma humana. que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos: caprichos de mandarim. não quer falar para fazer crer que está à morte. e ainda agora me lembra que. virei com o Nhonhô. CAPÍTULO 7 O delírio Que me conste. fui tomado de um acanhamento que nem me permitiu corresponder logo às palavras afáveis do rapaz. — Sua mana? — Há de vir cá passar uns dias. Como tocássemos. ainda ninguém relatou o seu próprio delírio. e eu perguntava a mim mesmo o que diriam de nós os gaviões. sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos.

mas apenas pude grunhir esta pergunta ansiosa: — Onde estamos? — Já passamos o Éden. como para certificar me da existência. mas o hipopótamo não me entendeu ou não me ouviu. provarás ainda. dentro em pouco. se era descendente do cavalo de Aquiles ou da asna de Balaão. se era tão misteriosa como a origem do Nilo. e vários animais grandes e de neve. Tentei falar. — Vivo? perguntei eu. não sei se por medo ou confiança. tu dirás que queres viver. até que o animal estacou. e a planície voava debaixo dos nossos pés. calado. A figura soltou uma gargalhada. enterrando as unhas nas mãos. Olhar somente. perguntei quem era e como se chamava: curiosidade de delírio. não via o caminho. se é que não fingiu uma dessas coisas. . paremos na tenda de Abraão. o pão da dor e o vinho da miséria. vives. E depois — cogitações de enfermo— dado que chegássemos ao fim indicado. mas. não cheguei sequer a soltar um grito. não era impossível que os séculos. que foi breve. a espaços. enorme. retorquiu-me com um gesto peculiar a estes dois quadrúpedes: abanou as orelhas. não disse nada. replicou o animal. o frio incômodo. sou tua mãe e tua inimiga. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho. recuei um pouco. Com efeito. Estupefato. meneando ao vento as suas largas folhas. irritados com lhes devassarem a origem. — Engana-se. e que chegou uma ocasião em que me pareceu entrar na região dos gelos eternos. disse ela. a carreira de tal modo se tornou vertiginosa. Pela minha parte fechei os olhos e deixei-me ir à ventura. tu vives. Caiu do ar? destacou-se da terra? não sei. Não te assustes. Tudo neve. Fiquei vexado e aturdido. —Chama-me Natureza ou Pandora. fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. lembrame só que a sensação de frio aumentava com a jornada. Como ia de olhos fechados. nós vamos à origem dos séculos. é sobretudo pela vida que se afirma. e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade. e tudo escapava à compreensão do olhar humano. Insinuei que deveria ser muitíssimo longe. me esmagassem entre as unhas que deviam ser tão seculares como eles. perguntando-lhe. que me atrevi a interrogá-lo. uma figura de mulher me apareceu então. nada vi. as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das coisas externas. vegetação de neve. mas. Vives: não quero outro flagelo. verme. e o resultado impalpável. brutesca. — Mas se nós caminhamos para trás! redargüiu motejando a minha cavalgadura. ao cabo de algum tempo. por algumas horas. e o que parecia espesso era muita vez diáfano. Tudo nessa figura tinha a vastidão das formas selváticas. visto que ele falava. O silêncio daquela região era igual ao do sepulcro: dissera-se que a vida das coisas ficara estúpida diante do homem. Ao ouvir esta última palavra. sei que um vulto imenso. e pude olhar mais tranqüilamente em torno de mim. — Sim.7 Deixei-me ir. Vives: agora mesmo que ensandeceste. por saber onde ficava a origem dos séculos. tomado de susto. Enquanto assim pensava. A jornada entrou a parecer-me enfadonha e extravagante. porque os contornos perdiam-se no ambiente. me aparecia uma ou outra planta. Já agora não se me dá de confessar que sentia umas tais ou quais cócegas de curiosidade. até ali azul. abri os olhos e vi que o meu animal galopava numa planície branca de neve. e. minha inimizade não mata. com uma ou outra montanha de neve. chegava a gelar-nos um sol de neve. Talvez. que produziu em torno de nós o efeito de um tufão. além da imensa brancura da neve. — Bem. e sobretudo se valia alguma coisa mais ou menos do que a consumação dos mesmos séculos: reflexões de cérebro enfermo. e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino. que desta v ez invadira o próprio céu. íamos devorando caminho. a condução violenta.

mescla de força e viço. a da vontade imóvel. todas as paixões. nem. eu não sou somente a vida. enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. o maior benefício das minhas mãos. — desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria. as raças todas. Imagina tu. encarei-a com olhos súplices. e via a miséria agravando a debilidade. e todos agitavam o homem. a fome. Quem me pôs no coração este amor da vida. pareceu-me sentir a decomposição súbita do mim mesmo. se as tinha. naquele imenso vale. Tremes? — Sim. tu não passas de uma concepção de alienado. o amor. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência. e a enxada e a pena. Aí vinham a cobiça que devora. o sono. não te peço mais nada. sublime idiota? — Viver somente. O minuto que vem é forte. não tenho outra lei. Natureza. Então. e traz a morte. sou também a morte. a esperança. nesse rosto de expressão glacial. não obstante. A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver. tu és absurda. a inveja que baba. por que te hás de golpear a ti mesma. ficavam encerradas no coração. nem quero entender-te. e tu estás prestes a devolver me o que te emprestei. Estou sonhando. a melancolia. que era enorme. Ao mesmo tempo. a visão estendeu o braço. uma redução dos séculos. uma coisa única. decerto. espera-te a voluptuosidade do nada. arrebatou-me ao alto de uma montanha. como um chocalho. e pedi mais alguns anos. geral. Só então. Egoísmo. e perece como o outro. e contemplei. enfim. e um desfilar de todos eles.8 Dizendo isto. — Pobre minuto! exclamou. jocundo. traz esse rosto indiferente. mas o tempo subsiste. porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga. a quietação da noite. se eu amo a vida. Inclinei os olhos a uma das vertentes. a feição única. uma coisa vã. porque os olhos do delírio são outros. tu és uma fábula. segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar. Não importa ao tempo o minuto que passa. nenhuma expressão de ódio ou ferocidade. Sobe e olha. e. a vaidade. respondi. — flagelos e delícias. Grande lascivo. como um trovão. úmidas de suor. a cólera que inflama. completa. havia um ar de juventude. conservação. ou. mas o minuto que vem. e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. durante um tempo largo. se é verdade que enlouqueci. Eram as formas várias de um mal. ao longe. ora mordia o pensamento. os aspectos da terra. afigurou-me que era o último som que chegava a meus ouvidos. não faz da vida um flagelo. a melancolia da tarde. eu via tudo o que passava diante de mim. que ora mordia a víscera. Quando esta palavra ecoou. matando-me? — Porque já não preciso de ti. e a ambição. se não tu? e. supõe trazer em si a eternidade. Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia. Os séculos desfilavam num turbilhão. — Não. Egoísmo. como tu. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Tal era o espetáculo. a riqueza. era a da impassibilidade egoísta. acerbo e curioso espetáculo. nenhuma contorção violenta. pude ver-lhe de perto o rosto. como o sepulcro E por que Pandora? — Porque levo na minha bolsa os bens e os males. Isto dizendo. leitor. dizes tu? Sim. através de um nevoeiro. Nada mais quieto. — Entendeste-me? disse ela. e via o amor multiplicando a miséria. e passeava . egoísmo. tu? a Natureza que eu conheço é só mãe e não inimiga. Raivas. a destruição recíproca dos seres e das coisas. e o maior de todos. que a razão ausente não pode reger nem palpar. no fim de algum tempo de mútua contemplação. — Creio. até destruí-lo. o teu olhar fascina-me. Que mais queres tu. o tumulto dos impérios. a da eterna surdez. a guerra dos apetites e dos ódios. consolação dos homens. como se fora uma pluma. isto é. como um farrapo. diante do qual me sentia eu o mais débil e decrépito dos seres.

outros minguaram. Mas é sestro antigo da Sandice criar amor às casas alheias. umas tristes. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário. A dor cedia alguma vez. as palavras de Tartufo: La maison est à moi. corria diante da fatalidade das coisas. que perscruta. de idéias novas. clamando. ou ao prazer. Pandora. fazia-se a história e a civilização. Ao contemplar tanta calamidade.9 eternamente as suas vestes de arlequim. um pouco difuso. nu e desarmado. a coisa é divertida e vale a pena. Então o homem. como os Hebreus do cativeiro. viu enfim chegar o século presente. que era uma dor bastarda. em cada um deles rebentavam as verduras de uma primavera. e que aliás começou a diminuir. disse eu. Aquele vinha ágil. fitei a vista.” E fixei os olhos. como um escárnio. Era efetivamente um gato. Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz. a rude aldeia e Tebas de cem portas. e continuei a ver as idades. a diminuir. audaz. armava-se e vestia-se. vibrante. com a agulha da imaginação. outros perderam-se no ambiente. com a mesma rapidez e igual monotonia. e a arte que enleva. A resposta foi compelir-me fortemente a olhar para baixo. — Tens razão. como os devassos de Cômodo. já então tranqüilo e resoluto. destro. Quis fugir. mas ao cabo tão miserável como os primeiros. — menos o hipopótamo que ali me trouxera. os séculos vão passando. então disse comigo: — “Bem. outro de improvável. corria a face do globo. e essa figura. e então ela ria. não sei até se alegre. e atrás dele os futuros. Talvez alegre. e convidava a Sandice a sair. Redobrei de atenção. que brincava à porta da alcova. descia ao ventre da terra. mecânico. que era um sono sem sonhos. cheio de si. as gerações que se superpunham às gerações. atrás de uma figura nebulosa e esquiva. com que entretinha a necessidade da vida e a melancolia do desamparo. e todas elas pontuais na sepultura.. de modo que. sabedor. mas digere -me. e assim passou e assim passaram os outros. ou deixava-se apanhar pela fralda. — o último!. e digere me. até ficar do tamanho de um gato. outro de invisível. construía o tugúrio e o palácio. — talvez monótona — mas vale a pena.. velozes e turbulentos. a coisa é divertida. em derredor da espécie humana. mas cedia à indiferença. de novas ilusões. criava a ciência. e com melhor jus. apenas senhora de . uns cresceram. mas uma força misteri osa me retinha os pés. que Natureza ou Pandora escutou sem prote star nem rir. um retalho de impalpável. mas então já a rapidez da marcha era tal. que vinham chegando e passando. e passará também. colaborando assim na obra misteriosa. Vamos lá. que escapava a toda a compreensão. fui eu que me pus a rir. um nevoeiro cobriu tudo. como uma ilusão. a diminuir. de apatia e de combate. Meu olhar. subia à esfera das nuvens. — nada menos que a quimera da felicidade. chegará o meu. é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o espetáculo. e o seu cortejo de sistemas. Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se. não pude reter um grito de angústia. Quando Job amaldiçoava o dia em que f ora concebido. abre o ventre. c'est à vous d'en sortir. feita de retalhos. cosidos todos a ponto precário. — ou lhe fugia perpetuamente. e não sei por que lei de transtorno cerebral. filósofo. Encarei-o bem. fazia-se orador. CAPÍTULO 8 Razão contra Sandice Já o leitor compreendeu que era a Razão que voltava à casa. para remoçar mais tarde. até o último. e amareleciam depois. e o homem. flagelado e rebelde. ia enfim ver o último. e sumia-se. era o meu gato Sultão. outras alegres. — de um riso descompassado e idiota. enfarado e distraído. com uma bola de papel. e o homem a cingia ao peito. ao pé dela o relâmpago seria um século. e a ver os séculos que continuavam a passar. que me dará a decifração da eternidade. de verdade e de erro.

mas não me admiraria nada se Deus o destinasse a um bispado. deixe -me ficar algum tempo mais. peço-lhe só uns dez minutos. que o sentimento paterno é que o induziu a gratificá-la com duas meias dobras.Vamos ao dia 20 de outubro. não se tira daí. nem do inspetor de quarteirão. e alçava-me ao ar. mano Bento? Meu pai respondia a todos que eu seria o que Deus quisesse. em que nasci. — Está bem. não há juventude sem meninice. como é. Que isto de método. sendo. se era . dificilmente lha farão despejar. mas um pouco à fresca e à solta. se advertirmos no imenso número de casas que ocupa. o antigo oficial de infantaria. nada que divirta a atenção pausada do leitor: nada. grunhiu algumas zangas. meu tio Ildefonso. senhora. concluiremos que esta amável peregrina é o terror dos proprietários. que se gabava de ter aberto a porta do mundo a uma geração inteira de fidalgos. Agora. estou na pista de um mistério. Meu tio João. cansada e experimentada. Virgília foi o meu grão pecado da juventude. e foi andando. o que você quer é passar mansamente do sótão à sala de jantar. todavia. com que arte faço eu a maior transição deste livro. então simples padre. e outra tesa. como quem não se lhe dá da vizinha fronteira. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do método. CAPÍTULO 9 Transição E vejam agora com que destreza. Não é impossível que meu pai lhe ouvisse tal declaração. daí à de visitas e ao resto.. todavia é melhor tê-lo sem gravata nem suspensórios. Vejam: o meu delírio começou em presença de Virgília. E. perguntava a todos se eu me parecia com ele. No nosso caso. porque a adventícia não queria entregar a casa. CAPÍTULO 10 Naquele dia Naquele dia. e não digo mais por não parecer orgulho.. Cada qual prognosticava a meu respeito o que mais lhe quadrava ao sabor. de uma arte natural e feiticeira.. — Não. coisa que meu pai não pôde ouvir sem náuseas. — Que mistério? — De dois. Na verdade.. dizendo isto. depois entrou e fechou-se. há muito que lhe calejou a vergonha.. não é coisa impossível. Que diz você. ao dia 20 d e outubro de 1805. e a dona não cedia da intenção de tomar o que era seu. travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fora. — Cônego é o que ele há de ser. em ar de surriada. recebeu-me nos braços a Pascoela. como se intentasse mostrar-me à cidade e ao mundo. Viram? Nenhuma juntura aparente. mas desenganou-se depressa. uma coisa indispensável. achava-me um certo olhar de Bonaparte. um bispado. É sestro. — Hás de ser sempre a mesma coisa. já a Sandice se contentava com um cantinho no sótão. estou cansada de lhe ceder sótãos. a árvore dos Cubas brotou uma graciosa flor. outras durante as suas estações calmosas. Lavado e enfaixado. farejava-me cônego. É verdade. deitou a língua de fora.... que há uma genuína e vibrante. A Sandice ainda gemeu algumas súplicas. sempre a mesma coisa. fui desde logo o herói da nossa casa.. sem a rigidez do método. umas de vez. o da vida e o da morte. A Razão pôs-se a rir. Afinal. replicou a Razão. sem esforço. E como a eloqüência. engomada e chocha.. era tempo. Nasci. sempre a mesma coisa. emendou a Sandice.10 uma. insigne parteira minhota. e eis aqui como chegamos nós. meninice supõe nascimento. houve quase um distúrbio à porta do meu cérebro. creio.

provavelmente mal. obrigavam-me cedo a agarrar às cadeiras. — Muito esperto. Se não conto os mimos. as magnólias são menos inquietas do que eu era na minha infância. e nisso é que a família não interveio. Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de "menino diabo". porque não havia pessoa estranha diante de quem me não obrigassem a recitá-los. Cuido que os nomes de ambos foram das primeiras coisas que aprendi. traquinas e voluntarioso. Prudêncio. mas andava. com uma varinha na mão. não satisfeito da travessura. à guisa de freio. luminoso e puro. arguto. as admirações. porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo. Item. Sei que a vizinhança veio ou mandou cumprimentar o recémnascido. Um poeta dizia que o menino é pai do homem. fitava-me longo tempo. se os contasse. puxar pelo rabicho das cabeleiras. não contente com o malefício. ou revelava algum talento precoce. e. um — “ai. batizei-me na Igreja de São Domingos. e. sendo padrinhos o coronel Rodrigues de Matos e sua senhora. não acabaria mais o capítulo. e que durante as primeiras semanas muitas foram as visitas em nossa casa. segundo as ouvi narrar anos depois. exclamavam os ouvintes. não sei bem quando.11 inteligente. a não ser que foi uma das mais galhardas festas do ano seguinte. bonito. Um e outro descendiam de velhas famílias do norte e honravam deveras o sangue que lhes corria nas veias. pegavam-me da fralda. quando muito. namorado. — Só só. as bênçãos. era o meu cavalo de todos os dias. — Nhonhô. e é preciso acabá-lo. e eu tinha apenas seis anos. dia claro. — Meu padrinho? é o Excelentíssimo Senhor coronel Paulo Vaz Lobo César de Andrade e Sousa Rodrigues de Matos. ignoro a mor parte dos pormenores daquele famoso dia. comecei a andar. indiscreto. e ele espalmava a mão sobre a minha cabeça. é porque. vejamos alguns lineamentos do menino. dar beliscões nos braços das matronas. CAPÍTULO 11 O menino é pai do homem Cresci. recebia um cordel nos queixos.. deitei um punhado de cinza ao tacho. dava mil voltas a um e outro lado. cheio de si. mas antes do tempo. concordava meu pai. um moleque de casa. outrora derramado na guerra contra Holanda. nhonhô. e os olhos babavam-lhe de orgulho. um dia quebrei a cabeça de uma escrava. cai acolá. e fiquei andando. — É muito esperto o seu menino. fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”. Por exemplo. lá ia para a frente. fui dos mais malignos do meu tempo.. não posso dizer nada do meu batizado. e verdadeiramente não era outra coisa. e ele obedecia. que minha mãe agitava diante de mim. eram mostras de um gênio indócil. Não houve cadeirinha que não trabalhasse. diga a estes senhores como é que se chama seu padrinho. com certeza. e outras muitas façanhas deste jaez. minha madrinha é a Excelentíssima Senhora Dona Maria Luisa de Macedo Resende e Sousa Rodrigues de Matos. nhonhô!” — ao que eu retorquia: — “Cala a boca. Talvez por apressar a natureza. aventou-se muita casaca e muito calção. . — algumas vezes gemendo. ou. cresci naturalmente. como crescem as magnólias e os gatos. e. e andava. eu trepava-lhe ao dorso. cai aqui. Se isto é verdade. E eu. 1806. e certamente os dizia com muita graça. porque nada me referiram a tal respeito. Digo essas coisas por alto. punha as mãos no chão. fusti gava-o. — mas obedecia sem dizer palavra. só só. Talvez os gatos são menos matreiros. deitar rabos de papel a pessoas graves. davam-me carrinhos de pau. Item. uma terça-feira de março. atraído pelo chocalho de lata. os beijos. besta!” — Esconder os chapéus das visitas. dizia-me a mucama.

apenas compensavam um espírito medíocre. deixava-me estar. Esse tinha muita austeridade e pureza.. incompleta. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infração dos mandamentos. a ensaboá-las. negativa.. nas festas cantadas. se não passei o tempo a esconder-lhes os chapéus. assim como eu perdoava aos meus devedores. sem titubear. Um deles. conversa picaresca. e a boa regra perdia o espírito. iludia-se a si próprio. diabo!.12 mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto. a classificá-la por partes. Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabeça dos outros nem a esconder-lhes os chapéus. a princípio. a explicá-la. egoísta e algo contemptor dos homens. Vinha antes da sacristia que do altar. e por este modo. a tantos anos de distância. mas opiniático. sinceramente piedosa. inclinadas sobre as peças de roupa. De manhã. dizia-lhe que ele me dava mais liberdade do que ensino e mais afeição do que emenda. Vimos os pais. Minha mãe doutrinava-me a seu modo. e exclamava a rir: Ah! brejeiro! ah! brejeiro! Sim. tais dotes. sem confundir o irmão. a hierarquia. se tinha alguma coisa boa. as sobrepelizes. e. dava-me pancadinhas na cara. mas eu sentia que. a palestrar com as escravas que batiam roupa. mas ao sabor das circunstâncias e lugares. com uma tanga no ventre. Eu não. ou expor. e ra no geral viciosa. inclinei-me a atenuá-la. apesar de bonita. a arregaçar-lhes um palmo dos vestidos. apesar de abastada. outras fora. pedia a Deus que me perdoasse. Cônego foi a única ambição de . em partes. como não respeitava a batina do irmão. iam ouvindo e redargüindo às pilhérias do tio João. as circunflexões. eivadas todas de obscenidade ou imundície. Outrossim. no lavadouro. e de noite. no fundo da chácara. e um estalar de risadas. mais do que as oraçõe s. umas dentro do tanque. a entendê-la. O marido era na terra o seu deus. aí é que era um desfiar de anedotas. sabia melhor o número e caso das cortesias que se deviam ao oficiante. de pouco cérebro e muito coração. as preeminências. para se tomar uma vã fórmula. temente às trovoadas e ao marido. que. sem entender nada. Desde os onze anos entrou a admitir-me às anedotas reais ou não. era um homem de língua solta. levava-me a passeio. mas ninguém. passado o alvoroço. houve ainda o exemplo estranho. não poucas vezes me aconteceu achá-lo. — caseira. alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleiras. Não me respeitava a adolescência. No fim de certo tempo. que ninguém podia ouvir. fazia o por simples formalidade: em particular dava-me beijos. de perguntas. à vista de gente. e modesta. depois entendendo e enfim achando-lhe graça. porque o lavadouro ficava muito longe de casa. porque meu pai tinha-me em grande admiração. afeiçoei-me à contemplação da injustiça humana. Meu tio cônego fazia às vezes alguns reparos ao irmão. As pretas. que a faz viver. isso fui. e se às vezes me repreendia. Da colaboração dessas duas criaturas nasceu a minha educação. assaz crédula. dava-me doces. quem o procurava era eu. com a diferença que este fugia logo que ele enveredava por assunto escabroso. o meio doméstico. não realçavam um espírito superior. Não era homem que visse a parte substancial da Igreja. via o lado externo. não estou certo se ele poderia atinar facilmente com um trecho de Tertuliano. e a comentá-las de quando em quando com esta palavra: — Cruz. De envolta com a transmissão e a educação. a torcê-las. o João. a batê-las. contudo. Este sinhô João é o diabo! Bem diferente era o tio cônego. me governavam os nervos e o sangue. e meu pai. Em casa. antes do mingau. e ele gostava muito de mim. Minha mãe era uma senhora fraca. mas meu pai respondia que aplicava na minha educação um sistema inteiramente superior ao sistema usado. mas entre a manhã e a noite fazia uma grande maldade. meu pai adorava-me. Agora. não segundo um padrão rígido. a história do símbolo de Nicéia. antes da cama. quando lá ia passar alguns dias. vida galante. fazia-me decorar alguns preceitos e orações. vejamos os tios. de ditos.

Napoleão. E notem que eu ouvi muito discurso. que meu padrinho me dera no dia de Santo Antônio. Nunca mais deixei de pensar comigo que o nosso espadim é sempre maior do que a espada de Napoleão. Não se contentou a minha família em ter um quinhão anônimo no regozijo público. matou-se um capado. acanhado.13 sua vida. foi o que pouco mais ou . domínio do capricho. Não digo nada de minha tia materna. O que importa é a expressão geral do meio doméstico. cortejo e aclamações. perdoava no déspota o que admirava no general. Dito e feito. daí as controvérsias e as rusgas.V eio abaixo toda a velha prataria. e dizia de coração que era a maior dignidade a que podia aspirar. julgaram mais decoroso o silêncio. estava já em todo o esplendor da glória e do poder. entendeu oportuno e indispensável celebrar a destituição do imperador com um jantar. e tal jantar que o ruído das aclamações chegasse aos ouvidos de Sua Alteza. as vastas mangas de vidro. uns com suas mulheres e filhas. Chegando ao Rio de Janeiro a notícia da primeira queda de Napoleão. mas um Te Deum. Os vencidos. testemunhas do regozijo público. e essa aí fica indicada. todos os aparelhos do luxo clássico. A população. mas todos comungando no desejo de atolar a memória de Bonaparte no papo de um peru. Dada a hora. encomendaramse às madres da Ajuda as compotas e marmeladas. ou quando menos. castiçais. frouxidão da vontade. não regateou demonstrações de afeto à real família. e aliás era a pessoa que mais autoridade tinha sobre mim. os outros parentes dividiam-se. em que era exemplar. frouxo. houve naturalmente grande abalo em nossa casa. mas carecia absolutamente da força de as incutir. Nunca me esqueceu esse fenômeno. outros sem elas. quando eu nasci. Dessa terra e desse estrume é que nasceu esta flor. não sei se por espírito de classe e simpatia de oficio. CAPÍTULO 12 Um episódio de 1814 Mas eu não quero passar adiante. era imperador e granjeara inteiramente a admiração dos homens. Piedoso. mas viveu pouco tempo em nossa companhia. de seus ministros. uns dois anos. de as impor aos outros. amor das aparências rutilantes. — vulgaridade de caracteres. meu tio padre era inflexível contra o corso. lá ecoava alguma vez este conceito de experimentado: — Vai-te embora. do arruído. nutria contra ele um ódio puramente mental. o juiz de fora. tinha nove anos. não tivemos uma vida comum. cordialmente alegre. alguns foram além e bateram palmas. vieram as toalhas de Flandres. lavaram se. salvas. e. e o mais. francamente. essa diferençava-se grandemente dos outros. poliram-se as salas. li muita página rumorosa de grandes idéias e maiores palavras. escadas. no fundo dos aplausos que me arrancavam da boca. arandelas. três ou quatro oficiais militares. severo nos costumes. que à força de persuadir os outros da nossa nobreza acabara persuadindo-se a si próprio. interessava-me mais o espadim do que a queda de Bonaparte. Outros parentes e alguns íntimos não merecem a pena de ser citados. possuía algumas virtudes. achou-se reunida uma sociedade seleta. Te Deum. Era isso motivo de renhidas contend as em nossa casa. sem contar sumariamente um galante episódio de 1814. minucioso na o bservância das regras. tu só cuidas do espadim. alguns comerciantes e letrados. houve iluminações. mas intermitente. Figurei nesses dias com um espadim novo. mas não sei por que. arearam-se. vários funcionários da administração. porque meu tio João. com grandes claros de separação. Meu pai. subalterno. herdada do meu avô Luís Cubas. quando era vivo. Dona Emerenciana. Não era um jantar. as grandes jarras da Índia. mas nenhum chasco ou remoque.

. a acumular adjetivo sobre adjetivo. De quando em quando um riso jovial. ninguém já pensava em comer. — ou então o melado escuro e grosso. que seria capaz de me dar o sol. e logo pedia outro e mais outro. influxo de um bom jantar. obrigando-me a recolher o desejo e o pedido. mas três. entretanto. solitário e deslembrado. e a sobremesa continuava intacta. só para mostrar como folgara nos seus bons tempos de criança. dava a outro notícia recente dos negros novos. segundo cartas que recebera de Luanda. o Doutor Vilaça. a mor parte. pedir a meu tio padre que lhe repetisse o mote. em Lisboa. Não fez uma glosa. mas não era. Lembra-me. amarelo como uma gema. a glosarmos. retorquia modestamente o Vilaça. fazia o Vilaça batendo com as mãos uma na outra. menos o dedo índice. as damas sentiam-se superfinas. um palavrear de estômagos satisfeitos. e do minuete e do solo inglês. Eu via isso. tão simples. como eu ouvi. a tal ponto que uma das senhoras presentes não pôde calar a sua grande admiração. repetido o mote. discreteava com duquesas! Um Bocage e uma Cadaval! Ao contato de tal homem. atulhada de doces e frutas. nos pratos. nas flores. Ele não via nada. ia caminho. Aquilo sim! que facilidade! e que versos! Tivemos lutas de uma e duas horas.. Ele. amplo. e. O que afiançava é que podíamos contar. assim posto e composto. no fim do século. no meio de palmas e bravos. ou vivos e cálidos. mas fazia-o em vão. Pois esse homem tão dado. finamente ralado. alguns com inveja. lá estava. os olhos moles e úmidos. via-se a si mesmo.14 menos disse um dos letrados presentes. O rumor cessava de súbito.. nem faltava matrona que prometesse bailar um oitavado de compasso. ali o melão em talhadas.Trazia-as justamente na algibeira. devolver o mote glosado. que estavam a vir. uma carta em que o sobrinho lhe dizia ter já negociado cerca de quarenta cabeças. que apontava para o teto. só nessa viagem. espreguiçavam-se ou saltitavam de uma ponta à outra da mesa.. — Trás. E estas três palavras últimas. A tia Emerenciana arrancara-me da cadeira e . alçar a mão direita. trivial e cândido. trás. deliciava-se com a familiaridade travada entre os mais distantes espíritos. e. que acrescentou aos pratos de casa o acepipe das musas. trás. antes mesmo da glosa. depois jurou aos seus deuses não acabar mais. lembra-me de o ver erguer-se. advérbio sobre advérbio. Meu pai. como se fosse ontem. toda fechada.. produziram em toda a assembléia um frêmito de admiração e pasmo. davam-lho. Ninguém se lembrava de dar a primeira voz. aqui o ananás em fatias. mas era tarde. à cabeceira. como a pedir-lhe que ma servisse. e não pude muito. há dias. Era à sobremesa. expressas com muita ênfase.. berrei. enfim.. porque arrastava os olhos da compota para ele e dele para a compota. No meio do interesse grande e comum. pelo menos. não longe do queijo e do cará. Um sujeito. Pedi em voz baixa o doce. no botequim do Nicola. com a sua longa cabeleira de rabicho. As moças falavam das modinhas que haviam de cantar ao cravo. ele glosava-o prontamente. e outra carta em que. Imenso talento o do Bocage! Era o que me dizia. vinha quebrar a gravidade política do banquete. mirava-se todo nos carões alegres. uns cento e vinte negros.. agitavam-se também os pequenos e particulares. No fim de cada glosa ficava muito contente. não raros com incredulidade. esperando que fosse a última. a desfiar todas as rimas de tirano e de usurpador.. Pedia um mote. e todos os olhos se voltavam para o glosador. mas não as podia ler naquela ocasião.. Quanto a mim. cravar os olhos na testa de uma senhora. — A senhora diz isso. bati com os pés. a namorar uma certa compota da minha paixão. como um estacado de orquestra. glosador insigne. além de pleitear com poetas. p orque nunca ouviu o Bocage. um riso de família. a Senhora duquesa de Cadaval. saboreava a goles extensos a alegria dos convivas. desabotoado. E as glosas sucediam-se. se eu lho exigisse. Pacientei quanto pude. Meu pai. como bátegas d'água. No intervalo das glosas. chamou um escravo para me servir o doce. Quem ficava longe aconcheava a mão atrás da orelha para não perder palavra. corria um burburinho alegre. casaca de seda. tinha já um meio riso de aplauso. as compoteiras de cristal deixando ver o doce de coco. os varões olhavam-no com respeito. depois tossir. ao pé de mim. uma esmeralda no dedo. bradei.

as minhas ignorâncias.. mas. não obstante os meus gritos e repelões. que mais tarde verifiquei ser de uma das óperas do Judeu: — Não chores. — Deixe-me. dizia ela. de saudades. e eu ouvi estalar. e pouco mais.. terror dos meus dias pueris. calva à mostra. tu que foste o compelle intrare com que um velho mestre. metido numa casinha da Rua do Piolho. a sintaxe. aquele espadim de 1814. que se não era bonita. Morrer. a enfadonha escola. um beijo. pretextando o sereno. puxou-a para si. sem enfadar o mundo com atua mediocridade. Só era pesada a palmatória.. disse ela. — Por quê? — Porque. bufar. E fizeste isto durante vinte e três anos. coisa que de alguma maneira o tornasse ridículo. no dia seguinte.creio às vezes que é melhor morrer. grunhir. mui pouco e mui leve. e ainda assim. uma robusta donzelona. ao almoço. e o meu espadim. com as tuas chinelas de couro branco.. tão superior à espada de Napoleão! Que querias tu. meu anjo? Que idéias são essas! Você sabe que eu morrerei também. a rir: Ah! brejeiro! ah! brejeiro! CAPÍTULO 13 Um salto Unamos agora os pés e demos um salto por cima da escola. dar cacholetas. Não me contentava o rabo de papel nem o rabicho da cabeleira.. absorver uma pitada inicial. meu velho mestre de primeiras letras? Lição de cor e compostura na aula. calado. O Vilaça levava nos olhos umas chispas de vinho e de volúpia.. não sei por quê. sacudiu-me o nariz. Vejo-te ainda agora entrar na sala. e o mais que ele sabia. me incutiu no cérebro o alfabeto. as mães arrastavam as filhas. onde quer que fosse propício a ociosos. era lusco-fusco. ossudo e calvo. segredos. meu bem. mas grande e exemplar. muito ao de leve. os castigos. — Ninguém nos vê. irritado deveras com a indiscrição. pontual. apanhá-las. Tinha amarguras esse tempo.. escrever. contar. com a minha alma imberbe. porque é a minha sina. à socapa. lenço na mão. medido e lento. barba rapada. obscuro. e ir fazer diabruras. também não era feia. Tanto bastou para que eu cogitasse uma vingança. a prosódia. casado e pai. Entrei a espreitá-lo. — O Doutor Vilaça deu um beijo em Dona Eusébia! bradei eu correndo pela chácara. nada menos do que quer a vida. Meu pai puxou-me as orelhas. benta palmatória. que digo?.. quem me dera ter ficado sob o teu jugo. qualquer que fosse. na chácara aonde todos desceram a passear. com a diferença que tu. nada mais. mas deixou-se ir. morro todos os dias. que é a mestra das últimas letras. afinal. vejo-te sentar. até que um dia deste o grande mergulho . — Estou muito zangada com o senhor. a estupefação imobilizou a todos. trocavam-se sorrisos. Disse isto. Ó palmatória. as lições árduas e longas. e chamar-nos depois à lição. ela resistiu um pouco.. a segui-lo. lembrando o caso.. capote..15 entregara-me a uma escrava. de paixão. os olhos espraiavam-se a uma e outra banda. tinha os ralhos. uniram os rostos. V io-o conversando com Dona Eusébia. nunca me meteste zanga.. Que ele era um homem grave o Doutor Vilaça. irmã do sargento-mor Domingues. onde aprendi a ler. ora nas praias. se me metias medo. Dona Eusébia levou o lenço aos olhos. Tinham penetrado numa pequena moita. disfarçadamente. O glosador vasculhava na memória algum pedaço literário e achou este.. ora nos morros. tão praguejada dos modernos.. quarenta e sete anos.. durante o resto da tarde. havia de ser coisa pior. o mais medroso dos beijos. Não foi outro o delito do glosador: retardara a compota e dera causa à minha exclusão. não queiras que o dia amanheça com duas auroras.. eu segui-os. Foi um estouro esta minha palavra.

à toa. que entrava na vida de botas e esporas. nem eu. ou simplesmente arruar. Era filha de um hortelão das Astúrias. o Quincas Borba. certa magnificência nas atitudes. Duas. CAPÍTULO 14 Primeiro beijo Tinha dezessete anos. achei um menino mais gracioso. dava um pulo. porém. lindo e audaz. De resto.. ou se há de dizer tudo ou nada. por compaixão. porém. Cosas de España. luxuosa. sem escrúpulos. E de imperador! Era um gosto ver o Quincas Borba fazer de imperador nas festas do Espírito Santo. ele escolhia sempre um papel de rei. . outros rosnavam. com alguma coisa de seu. E tinham razão os rapazes. e. este livro é casto. que servia aos meninos de eterno mote a chufas. abastado. Marcela. que te devo os rudimentos da escrita. Naquele ano. como dois peraltas sem emprego. — um nome funesto. se um homem com ares de menino.. general. Se ele a encontrava ainda nas horas da aula. não se distinguia bem se era uma criança com fumos de homem. nos nossos jogos pueris. e mal chegava a entender a moral do código. ou ao pé do tinteiro. veloz. — ninguém. ela morria de amores por um certo Xavier. não sei se diga. Suspendamos a pena. Uma flor.. com os olhos espetados no ar. moleques. ou na gaveta da mesa. como o corcel das antigas baladas. A que me cativou foi uma dama espanhola. eram a minha feição verdadeiramente máscula. vivos e resolutos. Os olhos. Vamos de um salto a 1822. ao menos na intenção. uma supremacia. comido de lazeira e vermes. que foi preciso deitá-lo à margem. e gravidade. havia de lhe deixar na algibeira das calças.. eu era esse garção bonito. na intenção é castíssimo. — uma pérola. uma. ir caçar ninhos de pássaros. num dia de sinceridade. Ao cabo. ministro. ferido. disse-mo ela mesma. Tinha garbo o traquinas. o Quincas Borba. vítima da invasão francesa. asseado. um pajem que nos deixava gazear a escola. A mãe. porque a opinião aceita é que nascera de um letrado de Madri. letrado ou hortelão. Nunca em minha infância.16 nas trevas. Chamava-se Ludgero o mestre. encarcerado. senão de toda a cidade. a verdade é que Marcela não possuía a inocência rústica. quero escrever-lhe o nome todo nesta página: Ludgero Barata. não adiantemos os sucessos. para dar com eles nas ruas do nosso século. Sim. Quem diria que. que o romantismo foi buscar ao castelo medieval. capadócios. com um vistoso pajem atrás. airoso. ou levantou para mim os olhos cobiçosos. Mas vá lá. O pior é que o estafaram a tal ponto. De todas porém a que me cativou logo foi uma. dizia-nos os últimos nomes: éramos sevandijas.. espingardeado. a “linda Marcela”. circulava os olhos chamejantes. — umas largas calças de enfiar —. quando ela tinha apenas doze anos. era um lindo garção. chicote na mão e sangue nas veias. data da nossa independência política. que lhe não permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas. pungia-me um buçozinho que eu forcejava por trazer a bigode. ou perseguir lagartixas nos morros do Livramento e da Conceição. e não já da escola. e do meu primeiro cativeiro pessoal. nunca em toda a minha vida. e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte pensativa. sujeito abastado e tísico. adorava o filho e trazia-o amimado. lépida. enfeitado. três vezes por semana. e ninguém te chorou. uma barata morta. um pouco tolhida pela austeridade do tempo. malcriados. como lhe chamavam os rapazes do tempo. viúva. o pai. Como ostentasse certa arrogância. onde o realismo o veio achar. Quem quer que fosse. amiga de dinheiro e de rapazes.. qualquer que fosse. nos meneios. rijo. salvo um preto velho. o transportou para os seus livros. esse então era cruel com o pobre homem. inventivo e travesso. deixava-se estar quieto. — Uns tremiam. Um de nós. o Quincas Borba. Era a flor. cavalgando um corcel nervoso. impaciente. Era boa moça.

teve a fase consular e a fase imperial. sem repreensão. —Segue-me. disse ela ao pajem. a um tempo manhoso e teimoso. A meio caminho. como o touro de Europa. sei que desci outra vez as escadas. tão pajem como o outro. como o cisne de Leda e a chuva de ouro de Dânae. Não direi as traças que urdi. há dois meios de granjear a vontade das mulheres: o violento. alguma coisa que nunca achara nas mulheres puras. com todos os seus tubérculos. Ela ia abrir-me caminho para tornar à sala. dizia a todos que eu era rapaz e que ele o fora também. — Esqueceu alguma coisa? perguntou Marcela de pé no patamar. puxei-a para mim. que devia resgatar um dia com usura. Éramos dois rapazes. Que gentil que estava a espanhola! Havia mais uma meia dúzia de mulheres. inventá-lo. como se a ordem me fosse dada. que eu de nomes não curo. o Xavier depôs as insígnias. alguns goles de vinho. mas a espanhola. que me levou à casa dela.17 Via-a. Três dias depois perguntou-me meu tio. uma festa de primavera. lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio João. — todas de partido —. Era meu universo. na noite das luminárias. nem as esperas baldadas. pela primeira vez. à porta da rua. apeei-me. um desgarre. estouvado. e eu concentrei todos os poderes na minha mão. e incerto como um ébrio. cheias de graça. em verdade. eu segurei-lhe nas mãos. em que eu pouco ou nada comi. Pois foi a mesma coisa. Fomos. e bonitas. — um asno de Sancho. bati-lhe na anca e mandei-o pastar. Mas a tal extremo chegou o abuso. airosa e vistosa. Via-a sair de uma cadeirinha. se chamou alguém. quando a credulidade não pôde resistir à evidência. deveras filósofo. que me dava às escondidas. chamaram-lhe “linda Marcela”. nem nenhuma outra dessas coisas preliminares. nos Cajueiros. e fiquei. confesso que fiquei tonto. na criação bíblica. mas o asno da paciência. em segredo. veloz como um tufão. Era pouco. com todos os arrebatamentos da juventude. depois mais. e deilhe um beijo. regemos o Xavier e eu. Primeira comoção da minha juventude. leitor amigo. — O lenço. o efeito do primeiro sol. à saída. ou ligação. E eu seguia-a. nem as peitas. era em casa de Marcela. o povo e eu. sem que ele jamais acreditasse dividir comigo o governo de Roma. um corpo esbelto.. multiplicá-lo. Então recorri a minha mãe. Foi-me preciso coligir dinheiro. Na primeira. deixei-me ir namorado. e induzi-a a desviar alguma coisa. tudo isso me levou a fazer uma coisa única. não já cavalgando o corcel do cego desejo. se queria ir a uma ceia de moças. nem as alternativas de confiança e temor. que ele restringiu um pouco as franquezas. um amanhecer da alma pública. sem demora. ou qualquer outro nome. e o insinuativo. lancei mão de um recurso último. cheio das primeiras auroras. aí ficam trocados no cavalo e no asno. Imagina tu esse efeito do primeiro sol. a bater de chapa na face de um mundo em flor. ondulante. ele dava-me tudo o que eu lhe pedia. Que. e se alguma vez contaste dezoito anos. O Xavier. disse a meu tio que esperasse um instante. O entusiasmo. foi a fase cesariana. Não sei se ela disse alguma coisa. que doce que me foste! Tal devia ser. porque só tinha olhos para a dona da casa. presidia ao banquete noturno. depois mais. que. o gênio imperioso. deves lembrar-te que foi assim mesmo. por estarem fora da moda. CAPÍTULO 15 Marcela Gastei trinta dias para ir do Rossio Grande ao coração de Marcela. entrei a sacar sobre a herança de meu pai. Teve duas fases a nossa paixão. no fim do citado período. vibrante. Afirmo-lhes que o asno foi digno do corcel.. se gritou. sem frieza. ai triste! não o era de graça. mas. mas. . não sei nada. logo que constou a declaração da independência. vínhamos da infância. no Rossio Grande. e tornei a subir as escadas. três inventos do padre Zeus. a assinar obrigações. Primeiro explorei as larguezas de meu pai. que foi curta.

o alferes Duarte. dizia-me Marcela. deste-me grandes repelões aos nervos. quando nos separarmos.. um presente tão caro. Marcela teve primeiro um silêncio indignado. dizia isto a contemplá-la entre os dedos. Marcela juntava-as todas dentro de uma caixinha de ferro. não sejas assim desconfiado comigo... uma vez. E porque tinha notícia dos meus zelos tardios. quando nos separarmos. que o nosso amor não precisava de tão vulgar estímulo. Vendera muita vez as aparências. — Não lhe perdôo. sem esforço. — Tudo cessa! Um dia. Dizia isto.. se acabou? Um dia. a ensaiá la em si. — Mas essa cruz. um momo de criança. que eu nesse tempo não entendia bem. quando eu lhe levava alguma seda. Baixela do diabo. Jamais consentiria que lhe comprassem os afetos. escondiaa por medo dos escravos. Sorriu e ficou. uma . disse eu. e a beijar-me com uma reincidência impetuosa e sincera. com simplicidade e franqueza. Gostava muito das nossas antigas dobras de ouro... guardava-a para poucos. continuou a falar daquilo. metendo a mão no seio e tirando uma cruz fina. cingiu-me com elas o rosto. conchegou-me ao seio. e eu levava-lhe quantas podia obter. que lhe deu. jarras. E. pedi-lhe muito que não me fizesse tal desfeita. de jacarandá lavrado. por uma espécie de lei da consciência e necessidade do coração. tomou das minhas. que importa. mas. Não sei se me explico. e sussurrou-me baixo ao ouvido: — Nunca. — uma linda baixela da Índia. era própria. de uma bruxa de Shakespeare com um serafim de Klopstock. baixela. dois anos antes. penso que era um riso misto. Não pôde acabar. puxou-me a si e fez um trejeito gracioso. meu amor! Eu agradeci-lho com os olhos úmidos. No dia seguinte levei-lhe o colar que havia recusado. cuja chave ninguém nunca jamais soube onde ficava. se você fizer de mim essa triste idéia. chiquito. que lhe doara um desembargador. como a cruz de ouro. e todas as demais alfaias. ela só lhe aceitava sem relutância os mimos de escasso preço. como eu lhe não pudesse dar certo colar. espalmou as mãos. — Para te lembrares de mim. Depois.. e a rir. retorquiu-me que era um simples gracejo. não havia desejo a que não acudisse com alma. por exemplo. com — expressão cândida. — Não digas isso! bradei eu. por exemplo. súbita como um passarinho. que ela vira num joalheiro. estendeu as mãos. a procurar melhor luz. que ela amara deveras. de ouro. derramava-lhe a felicidade d os olhos. depois fez um gesto magnífico: tentou atirar o colar à rua. — cândida e outra coisa. mas agora. como devia ter a criatura que nascesse... Marcela abanou a cabeça com um ar de lástima: — Não percebeste que era mentira. reclinada na marquesa. A casa em que morava. em verdade. parece que gostava de os açular mais. Nunca o desejo era razoável. Disse-o muita vez à própria dona. E logo.. não me disseste que era teu pai que. espreitava os meus mais recônditos pensamentos. presa a uma fita azul e pendurada ao colo. Duarte. não lhe dissimulava o tédio que me faziam esses e outros despojos dos seus amores de antanho. Pois isto é coisa que se faça.. Eram sólidos e bons os móveis. — Esta cruz. Ela ouvia-me e ria. m as um capricho puro. você quer brigar comigo. nunca. espelhos. pagava-me à farta os sacrifícios.. concluiu ameaçando-me com o dedo. Assim foi que um dia.. nos Cajueiros. de festas. observei eu. um soluço estrangulou-lhe a voz... e eu sentia-me feliz com vê-la assim. Entretanto. que eu dizia isso para te não molestar? Vem cá.. alguma jóia. só a custo conseguia dar-lhe alguma coisa de valor. relembrando o caso. se era jóia. mas a realidade.18 Em verdade. Eu retive-lhe o braço. Amei a outro. como me acontecia a mim. que ficasse com a jóia. protestando.

CAPÍTULO 17 Do trapézio e outras coisas . Marcela. assim o afirmam todos os joalheiros desse mundo. cantarolou uma seguidilha. com tais e tais enfeites. Trouxe -lho a mucama. E como eu fizesse um gesto de espanto: — Gatuno. CAPÍTULO 16 Uma Reflexão Imoral Ocorre-me uma reflexão imoral. vais para a Europa. que seria do amor se não fossem os vossos dixes e fiados? Um terço ou um quinto do universal comércio dos corações. que não podia ir para a Europa.. vivia. Marcela deixara-se estar sentada. Marcela ofereceu-me polidamente o refresco. os brincos. se a cingir um diadema de pedras finas. como de outras vezes fizera. Ia . fria como um pedaço de mármore. como insistisse. entornou-lhe o líquido no regaço. morto por Napoleão. sem ter ao menos a desculpa da sinceridade. provavelmente Coimbra. disse-lhe que ela era um monstro. Tive ímpetos de a estrangular. que era bem bonita. e ela cedia a tudo. Sacou da algibeira os meus títulos de dívida. risonha e palreira. fazendo muitos gestos descompostos. senhor. Marcela amou-me. por exemplo. nem menos amada.19 criancice. que Marcela morria de amores pelo Xavier. porque não se entende bem o que eu quero dizer. Estava furioso. achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil Desta vez. Não morria. disse ele. Eu ouvi-o calado.. enquanto me lembrar de meu pobre pai. Bons joalheiros. não posso ir respirar aqueles ares. — Por que não? — Não posso.. Ficando a sós. a renda. disse-me que ficava. disse ela com ar dolente. a qual é ainda mais obscura do que imoral. minha resposta foi dar com a mão no copo e na salva.. derramei todo o desespero de meu coração. Cuido haver dito. — Qual deles: o hortelão ou o advogado? Marcela franziu a testa. eu bradei-lhe que se fosse embora. não é outra coisa um filho que me faz isto. Meu pai. subjugando-a a meus pés. quero-te para homem sério e não para arruador e gatuno. já resgatados por ele. Esta é a reflexão imoral que eu pretendia fazer... ir a passeio ou outra coisa assim. que jamais me tivera amor. vê-la trajar de certo modo. que é ao mesmo tempo uma correção de estilo. gente muito vista na gramática. sim. de a humilhar ao menos. ruminava a idéia de levar Marcela comigo. vais cursar uma universidade. sem responder logo..Viver não é a mesma coisa que morrer. Fui ter com ela. — Vês. logo que teve aragem dos onze contos. — Você é das Arábias. entre dentes. chamei-lhe muitos nomes feios. a preta deu um grito. sobressaltou-se deveras. expus-lhe a crise e fiz-lhe a proposta. peralta? é assim que um moço deve zelar o nome dos seus? Pensas que eu e meus avós ganhamos o dinheiro em casas de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tomas juízo. que fazia parte dos meus onze contos.. que me deixara descer a tudo.Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis. E ia pôr o vestido. depois queixou-se do calor. ou ficas sem coisa nenhuma. Marcela ouviu-me com os olhos no ar. com uma obediência de encantar. nem menos b ela. e sacudiu-mos na cara. nada menos. e nada opus à ordem da viagem. O que eu quero dizer é que a mais bela testa do mundo não fica menos bela. a estalar as unhas nos dentes. mas de um furor temperado e curto. numa salva de prata. este vestido e não aquele. dizia-me. no capítulo 14. e mandou vir um copo de aluá.

Ah! trapézio dos meus pecados. Quando embarcas? — Daqui a dois ou três dias. e.. terás tudo o que quiseres. com um ar de repreensão: — Ora você! dizia. ofegante desvairado.. . tentava rejeitá-los de mim. disse eu. disse eu. e deleitava-me com a idéia de que Marcela. tive uma idéia salvadora.. tornei a aproximar-me.20 talvez fazê-lo. Enfim. recordei aqueles meses da nossa felicidade solitária. . Marcela estava reclinada numa rede.. gastei duas mortais horas em vaguear pelos bairros mais excêntricos e desertos. coligi-os. com um ar enfastiado: — Não me aborreça. uma lembrança qualquer. onde fosse difícil dar comigo. como a do emplasto (capítulo 2). corri à casa de Marcela. que tudo aquilo era um pesadelo. e ora me comprazia em crer que eles eram eternos. deslumbrá-la. as horas. com a cabeça entre os joelhos dela. como do alferes Duarte. sacudiu o vestido. busquei alguma simetria naquela desordem. repeti-lhe os nomes queridos de outro tempo. eu lancei-lhe as mãos aos cabelos. temos muito dinheiro. fui eu que me atirei aos pés dela. derramados. por força. mas toda a má impressão se desvaneceu. Olha. corrigi-lhes as madeixas.. Não medi as conseqüências: recorri a um derradeiro empréstimo. Depois tirou o pente. disse. e rematei-o com o pente de diamantes. encastoados num pente de marfim. toma. e pagar-me o sacrifício com um beijo. o olhar quieto e sonolento. apertando-lhe muito as mãos. ainda molhado. lembrou-me pedir-lhe por um meio mais concreto do que a súplica. admirou muito a matéria e o lavor. Marcela teve um leve sobressalto. com uma espécie de gula mórbida. ergueu metade do corpo.. enganando-me a mim mesmo. abaixei-as de um lado. não hás de entrar. Saí desatinado.. e toda a natureza me bradava que era preciso levar Marcela comigo. Marcela esteve alguns instantes a olhar para mim. enlaceios à pressa. Não gostei da expressão com que passeava os olhos de mim para a parede... Vens comigo? Marcela refletiu um instante. improvisei um toucado.. Ia mastigando o meu desespero. contrito e súplice. o dente do ciúme enterrava-me no coração. arranjei recursos. Que ela amara-me a tonta. quando ela me respondeu resolutamente: — Vou. e abanando a cabeça. evocava os dias.. ela entrara e fechara-se.não quero. E mostrei-lhe o pente com os diamantes. como um fardo inútil. beijei-lhos. fui à Rua dos Ourives. Então.. recuei. três diamantes grandes. sabendo da partida. apoiada num cotovelo.. Então resolvia embarcar imediatamente para cortar a minha vida em duas metades.. sem nenhum alinho. até que brandamente me desviou e. a ver-lhe o pezinho calçado de meia de seda.. e da parede para a jóia. Levantou-se... tudo com uma minuciosidade e um carinho de mãe. uma das pernas pendentes. o mais ardente de todos. e caminhou para a alcova. dizia eu ferindo o ar com uma punhada. — Por força. pedi-lhe com lágrimas que me não desamparasse. ora. trapézio das concepções abstrusas! A idéia salvadora trabalhou nele.. os instantes de delírio. Nisto. os cabelos soltos. mas a ação trocou-se noutra. devia de sentir alguma coisa. — Pronto. olhou para o pente durante alguns instantes curtos. — Vem comigo. olhando a espaços para mim. depois retirou os olhos. fasciná-la muito. calados ambos. — Doido! foi a sua primeira resposta. A segunda foi puxar-me para si. comprei a melhor jóia da cidade. Era nada menos que fasciná-la. o gesto mole e cansado.Não! bradei eu. ficaria ralada de saudades e remorsos. sentado no chão. arrastá-la. tinha-se dominado. Ia a lançar-lhe as mãos: era tarde.

o da libré na boléia. porque. aquele olhar que pouco antes me dera uma sombra de desconfiança. A mulher ia quase sempre numa camilha rasa. Achava-me feliz. Imaginem se resisti. Não estava magra. Não chorava sequer. ao fundo do corredor escuro. um homem doido. e a afiançar que me havia de mostrar os arredores de Lisboa. tinha uma idéia fixa. ela a acenar-te com a posse. meu pai à direita. vi o olhar de Marcela. repetindo o nome de Marcela. sei que não me tirava os olhos de cima.. Três dias depois segui barra fora. chamava-me para toda a parte. o qual chispava de cima de um nariz. levava a mulher tísica em último grau. quatro comerciantes e dois criados. era impossível que não morresse de uma hora para outra. donde saíste à rua. vi na calçada três dos correeiros. Então pareceu-me que o corredor de Marcela era a alameda. ou se meu pai o pôs de sobreaviso. podia ter defeitos. ao longo da galeria. — Algum temporal? disse eu. Agradeci-lho de joelhos. talvez por enganar-se a si mesmo.. acompanhado pela mulher. levava-me para a mulher. Que me importava a mim o destino de uma mulher tísica. estava transparente. apalparme.21 — Vou. meu tio c ônego à esquerda. começando pelo capitão do navio. está celestial! O estilo desmentia da pessoa. Meu pai recomendou-me a todos. Subi cauteloso. no meio do oceano? O mundo para mim era Marcela. os quais todos três entraram no corredor. Pobre namorado das Mil e uma noites! Vi-te ali mesmo correr atrás da mulher do vizir. donde fui transportado a uma galera que devia seguir para Lisboa. não. O capitão fingia não crer na morte próxima. convocar as idéias dispersas. d ois rapazes que iam a passeio. Uma noite. a tossir muito. reaver-me enfim no meio de tantas sensações profundas e contrárias. Não sei se o capitão suspeitou alguma coisa do meu fúnebre projeto. Malditas idéias fixas! A dessa ocasião era dar um mergulho no oceano. e lá me levaram à casa do intendente de polícia. ela sorriu. a correr. CAPÍTULO 19 A bordo Éramos onze passageiros. até a alameda comprida. Tinha achado a minha Marcela dos primeiros dias. mas toda a resistência era inútil. Eu não sabia nem pensava nada. — Um anjo! murmurei eu olhando para o teto do corredor. — Não. Certo é que os diamantes corrompiam-me um pouco a felicidade. abatido e mudo. mas não é menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos e os seus presentes. enquanto eu descia a escada.. Fitei- . tomaram-me pelos braços. outro de libré. tinha os olhos fitos no horizonte. que.. que aliás tinha muito que cuidar de si. assaz rude e aparentemente alheia a locuções rebuscadas. junto à amurada. logo no fim de uma semana. mas encontrei o capitão. outro à paisana. CAPÍTULO 18 Visão do corredor No fim da escada. parei alguns instantes para respirar. e foi guardar a jóia. como um escárnio. E depois eu confiava na minha boa Marcela. respondeu ele estremecendo. achei ensejo propício para morrer. Com efeito. Quando não podia estar comigo. e disse-lho. admiro o esplendor da noite. mas amava-me. olhando para a porta. e tu a correr. e que a rua era a de Bagdá. além do mais. Veja. onde todos os correeiros te apuparam e desancaram. E aí. um de batina. que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e o meu. meteram-me numa sege. a correr.

A mulher não podia já cuidar dele. No dia seguinte. respondeu ele. No dia seguinte. de corpo presente. ia recitar-me outro. a dizer que a filha o mandava buscar. que não viu nem ouviu nada. — uma égloga. — Vai ver. à luz de uma lanterna. E recitou-me um poemazinho. ele agradeceu-me. logo depois do almoço. quando o vieram chamar da parte da mulher: — Lá vou. a morte de uma filha fora a causa da loucura. e com efeito possuía algumas letras latinas. perguntando-me por que não fazia uma ode à noite. que é modo interino de morrer. na verdade. O capitão perguntou-me se tivera medo. respondi-lhe que não era poeta. pálido. leu uma ode horaciana sobre a liberdade da vida marítima. e os versos. relembrou os versos que lhe fez. se não achara sublime o espetáculo: tudo isso com um interesse de amigo. desesperadamente. fui achar o marido a olhar para as vagas. corremos ambos. Notei um fenômeno: os ademanes que ele usava eram tais. e recitou-me o terceiro soneto. que era a sua vocação natural. eu fugi ao espetáculo. que vinham morrer no costado do navio. no meio do tumulto das gentes e dos uivos do furacão. antes de me recitar nada. o capitão perguntou-me se não gostava de idílios piscatórios. tinha-lhe repugnância. Naturalmente a conversa versou sobre a vida do mar. mas a musa do capitão varrera-me do espírito os pensamentos maus. numa berlinda. Confesso que foi uma diversão excelente à tempestade do meu coração. entregue ao terror da morte. mas o capitão. — Morreu como uma santa. Os dias passavam. Eu. com os olhos a saltarem-lhe da cara. e ria muito. sacou um pedaço de papel. para que estas palavras não pudessem ser . e tratei de o consolar. acordamos debaixo de um temporal. que uma vez me fizeram rir. mas não deixou de ser poeta. meteu a mão no bolso. explicou-me o capitão que só por motivos graves abraçara a profissão marítima. Eram versos dele. Deixei-a consternado. Neste ponto vieram buscá-lo da parte dela. não chegou a ser padre. elogiou a fidelidade e a dedicação da mulher. — e enfim cinco sonetos. relatou-me a história dos seus amores. Meia hora depois encontrei o capitão. depois outro. depois umas argolas. disse ele. que meteu medo a toda a gente.22 o. quando recitava. — Passou muito mal a noite. recitou-me logo. se estivera em risco. de tal sorte olhava para dentro de si mesmo. Fui vê-la. porque era seu propósito levar-me à universidade. menos ao doido. que meditava ir ter com a morte. Enfim. cabelo arrepiado e longo. logo depois recitou-me dois sonetos. com amor. depois um xadrez. disse-lhe alguma coisa de conforto. eu respondi-lhe ingenuamente que não sabia o que era. pegou-me na mão e apontou para a lua. porque a avó queria que ele fosse padre. e com eles ia também passando a vida da mulher. com pausa. não ousei fitá-la quando ela veio ter comigo. preferi dormir. antes de ir comigo a Coimbra. achei-a. depois. com os quais rematou nesse dia a confidência literária. O capitão rosnou alguma coisa. Esse e o dia seguinte foram cruéis. — Já! exclamei. Fiquei só. Para prová-lo. era uma crise. fazia umas cruzes com os dedos. lembra-me que ele me apertou a mão com muita força e muitos agradecimentos. Às vezes parava. o terceiro foi o da morte. e as águas. respondeu. Um dia. ele pareceu saborear o meu espanto. — Que tal? Não me lembra o que lhe disse. Não. disseme o capitão que a enferma talvez não chegasse ao fim da semana. a cantarolar e a bailar. No fim de alguns segundos. mas falando ainda de descansar em Lisboa alguns dias. e. a tempestade amainou. quase moribunda. esse entrou a dar pulos. nunca me há de esquecer a figura hedionda do pobre homem. erguia ao ar as mãos ossudas. Estava por pouco. com a cabeça nas mãos. muito amarrotado. deu dois passos. rezava por si mesma a todos os santos do céu. sentado num molho de cabos. e recitou-mos. uma centena de versos.

— bispo que fosse... Deus é que lhos há de pagar. acho os versos perfeitos. Cá me vou às fadigas e à glória. vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições escritas. e nem por isso perdi o grau de bacharel. poucas horas depois. — principalmente de saudades. no horizonte misterioso e vago. acolheu o despojo. creia que nunca me esquecerei dos seus bons serviços.. era o cadáver lançado ao mar. No fim. — Não haverá estro.. arqueólogo. e fitou o horizonte. ergueu-se logo. Versos de marujo. Adeus. ele apertou-me muito a mão e predisse-me um grande futuro. confessou-me que era a sua obra mais acabada. para distraí-lo. o mar. são bem frouxos versos. dado que fosse águia.. superficial.. A vaga abriu o ventre. em que estavam memoradas as circunstâncias da morte e da sepultura da mulher. No dia seguinte veio ler-me um epicédio composto de fresco. — uma vez que fosse um cargo.. uma grande reputação. disse eu. pedi que os reunisse e mos desse antes do desembarque. E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. — De marujo poeta... com as cerimônias do costume. Efetivamente. eu disse-lhe que sim. Um cadáver. e ofereci-me para imprimi-los... estudei-as muito mediocremente. o céu. acentuando as intenções literárias. — uma leve ruga. continuou. — Sim. dando relevo às imagens e melodia aos versos.. — Vamos. político ou até bispo. deram-mo com a solenidade do estilo.. leu-mo com a voz comovida deveras. Fui dali ter com o capitão. Jurei-lhe que não. — Obrigado. Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião. ponderou ele. A universidade esperava-me com as suas matérias árduas. que me lera. disse ele. uma preeminência. banqueiro. — Talvez aceite. eu busquei um derivativo na poesia. Marcela! dias de delírio. A tristeza murchara todos os rostos. Eu deixei-me estar alguns minutos. Uma idéia expelia outra. entreguemo-la à cova que nunca mais se abre. amores! adeus. à popa. com um gesto longo e profundo. Enxugou com a manga uma lágrima importuna. . olhou para o papel. eu creio que. que era a paixão dele. mas não sei. mas já então sem tremuras. disse-me ele compreendendo a intenção. jóias sem preço.. e desvendou a pupila fulva e penetrante. uma bela festa que me encheu de orgulho e de saudades. dado às aventuras. após os anos da lei. Pobre Leocádia! tu te lembrarás de nós no céu. e tornou a recitar a composição. o do viúvo trazia a expressão de um cabeço rijamente lascado pelo raio. fechouse. ao longe. No dia em que a universidade me atestou. — Não me parece. e a mão trêmula. no fim de um instante. se não é que o próprio sentimento prejudicou a perfeição. fazendo romantismo prático e liberalismo teórico. — Pobre Leocádia! murmurou ele sem responder ao pedido. quebrou nessa ocasião o ovo. Um grande futuro? Talvez naturalista. Ele levantou os ombros. a ambição desmontava Marcela. mas ninguém me negará sentimento. uma posição superior. — e a galera foi andando. A ambição. vida sem regime. era um acadêmico estróina.. — São. o navio. com os olhos naquele ponto incerto do mar em que ficava um de nós.23 levadas à conta de fraqueza. devolvia eu os olhos. Falei-lhe dos v ersos. deixo -vos com as calcinhas da primeira idade. adeus. Grande silêncio. no fim perguntou-me se os versos eram dignos do tesouro que perdera.. literato. Os olhos do capitão animaram-se um pouco. sacudiu a cabeça. CAPÍTULO 20 Bacharelo-me Um grande futuro! Enquanto esta palavra me batia no ouvido. tumultuário e petulante.

Guardei-o. contundia-me deveras. se o juramento corre por ali fora.. — de prolongar a universidade pela vida adiante.. que ali estava. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria. um monólogo paternal. meti-lhe na mão um cruzado em prata.24 em pergaminho. cavalguei o jumento. uma moeda era bastante para lhe dar estremeções de alegria.. que o “senhor doutor” podia castigá-lo. mas já então. cabeça partida. com muito zelo e arte. não porque tal fosse o preço da minha vida. mas o diabo do bicho está a olhar para a gente com tanta graça. uma moeda. Mas a algumas braças de distância. e efetivamente deu dois saltos. Ri-me.. mas. Resolvi dar-lhe três moedas de ouro das cinco que trazia comigo. não a viu o almocreve. Digo mal: tentou disparar. Examineilhe a roupa. entrou a falar ao jumento de um modo significativo. que o p é esquerdo me ficou preso no estribo. Valha-me Deus! até ouvi estalar um beijo: era o almocreve que lhe beijava a testa. cedeu a um impulso . de viver. e durante esse tempo cogitei se não era excessiva a gratificação. dou-lhe as três moedas. depois mais três. eram os vinténs que eu devera ter dado ao almocreve. uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro. Meti os dedos no bolso do colete que trazia no corpo e senti umas moedas de cobre. E era verdade. apresentando-me a rédea da cavalgadura. dizia-lhe que tomasse juízo. — Olhe do que vosmecê escapou. deixa-me. disse o almocreve. um desejo de acotovelar os outros. mas porque era uma recompensa digna da dedicação com que ele me salvou. porque eu tinha lhe voltado as costas. ainda que orgulhoso. O almocreve salvara-me talvez a vida. mas suspeitou-o talvez. e vim por ali fora assaz desconsolado. se não bastavam duas moedas. uma congestão. que me sacudiu fora da sela. — Olé! exclamei. hesitei. mas sentindo já uns ímpetos. — essa era inestimável. o almocreve fazia-me grandes cortesias. dava-me a responsabilidade. de influir. se me dava a liberdade.. — Daqui a nada. CAPÍTULO 21 O almocreve Vai então. dava-lhe conselhos. com a ajuda do Senhor. eu sentia-o no sangue que me agitava o coração. e não sei se a morte não estaria no fim do desastre. com evidentes mostras de contentamento. e com tal desastre. eu pagara-lhe bem. ele não levou em mira nenhuma recompensa ou virtude. de gozar.. Tirei-a. enfim mais um. é possível. que nunca jamais vira uma moeda de ouro. em lugar do cruzado em prata. não sem esforço nem perigo. e segui a trote largo. melhor direi um pouco incerto do efeito da pratinha. Talvez uma. acudiu a tempo de lhe pegar na rédea e detê-lo. tento agarrar-me ao ventre do animal. via-a reluzir à luz do sol. um pouco vexado. Com efeito. olhei para trás. pagara-lhe talvez demais. Dominado o bruto. era um pobre -diabo. disse ele. era positivo. Adverti que devia ser assim mesmo. ele cuidava de consertar os arreios do jumento. espantado. tirei um colete velho. — Queira vosmecê perdoar. fustiguei-o. ele deu dois corcovos. e lá se me ia a ciência em flor. Bom almocreve! Enquanto eu tornava à consciência de mim mesmo. deixei as margens do Mondego. uma curiosidade. confesso que me achei de algum modo logrado. enfim. em cujo bolso trazia as cinco moedas de ouro. que ainda não estou em mim. Porque. mas um almocreve. — Ora qual! — Pois não é certo que ia morrendo? — Se o jumento corre por aí fora. Fui aos alforjes. empacou o jumento em que eu vinha montado. respondi. desvencilhei-me do estribo e pus-me de pé. Está dito. Portanto. qualquer transtorno cá dentro. — Pronto. disparou pela estrada afora. viu vosmecê que não aconteceu nada.

da velha Europa. esqueço-me a escrever. ao avistar a cidade natal. Note-se que eu estava em Veneza. o doge. tinha ainda diante dos olhos as circunstâncias da última bênção que ela me dera. Vim.. não alonguemos este capítulo. se não vieres depressa acharás tua mãe morta!” Esta última palavra foi para mim um golpe. tipo elegante. — Que doge.. O espírito. tive remorsos. acresce que a circunstância de estar. as coisas e cenas da meninice. a mulher de mantilha. Fiquei desconsolado com esta reflexão. não direi coisa nenhuma. disse-lhe que a minha pergunta era um gênero de charada americana.25 natural. corte dourado e vinhetas. Capítulos compridos quadram melhor a leitores pesadões. A infeliz padecia de um modo cru. não direi que assisti às alvoradas do romantismo. Não. o preto do ganho. arrepiou o vôo na direção da fonte original. e nós não somos um público in-folio. Pois deixei tudo isso. porque o cancro é indiferente às virtudes do sujeito. e acrescentou que gostava muito das charadas americanas. Já agora não digo o que pensei dali até Lisboa. dizia ele na última carta. na península e em outros lugares da Europa. Era um locandeiro. aos hábitos do ofício. a torre. Meu pai abraçou-me com lágrimas. CAPÍTULO 23 Triste. ainda não mesclada do enxurro da vida. larga margem. pouco texto. foi a consternação da família. — Tua mãe não pode viver. como estas são. a bordo do navio. ele mostrou compreender.. mas curto Vim. e foi beber da água fresca e pura. as damas do Rialto. deixei tudo e disparei como uma bala na direção do Rio de Janeiro. E essas palavras ressoavam-me agora. não era já o reumatismo que a matava. era-o do lugar da infância. rói. soluçava a pobre senhora apertando-me ao peito. mas não confessei a ilusão. e a pena vai comendo papel. que também eu fui fazer poesia efetiva no regaço da Itália. Mas não. revivendo o pretérito.Teria de escrever um diário de viagem e não umas memórias. não alonguemos o capítulo.. Ao cabo de alguns anos de peregrinação. signor mio? Caí em mim. Com efeito. nem o que fiz em Lisboa. o mérito do ato era positivamente nenhum. chamei-me pródigo. quando rói. Eu amava minha mãe. há aí um lugar-comum. tristemente comum. crendo-me na Sereníssima República. tive (por que não direi tudo?). como um pássaro. o locandeiro. parecia constituí-lo simples instrumento de Providência. que nesse tempo parecia remoçar. que sou autor. mas justamente no ponto do desastre. Não nego que. .. nas quais só entra a substância da vida. a rua. principalmente vinhetas. com grave prejuízo meu. como uma profecia realizada. ainda recendente aos versos de lord Byron. Outro lugar-comum. disseme ele. “Meu triste filho. não mais adiante nem mais atrás. ao temperamento. CAPÍTULO 22 Volta ao Rio Jumento de uma figa. os versos do lord. Nada menos que uma renascença. mergulhado em pleno sonho. mas in-12. o chafariz da esquina. Reparando bem. Não era efeito da minha pátria política. Às vezes. lancei o cruzado à conta das minhas dissipações anti gas. era um cancro no estômago. nunca mais te verei". e de um ou de outro modo. a Ponte dos Suspiros. a gôndola. buriladas na memória. uma vez aconteceu-me perguntar ao locandeiro se o doge ia a p asseio nesse dia. tive uma sensação nova. Não. lá estava. não se lhe deu da corrente dos anos. atendi às súplicas de meu pai: — “Vem. É verdade. cortaste-me o fio às reflexões..

ele intercalava as penteadelas com muitos motes e pulhas. e nós temíamos avisá-la do fim. já então casada com o Cotrim. um sorriso alumiou o rosto da enferma.. a orgulhosa de Catão. — a m orte aleivosa de César. porque cada palavra seria um soluço. Longa foi a agonia. Dona Eusébia e algumas outras senhoras lá estavam também.. essa foi a primeira vez que a pude encarar. não enfadava nunca. — Meu filho! A dor suspendeu por um pouco as tenazes.. Para lhes dizer a verdade toda. Ajoelhado. Colhi de todas as coisas a fraseologia. advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. a consciência boquiaberta. que é o estímulo. o esqueleto. fria. tão meiga. E contudo era eu.. uma dúzia de locuções morais e políticas. sem ousar falar. sem aparelho político ou filosófico. nesse tempo. não menos tristes e não menos dedicadas. eu refletia as opiniões de um cabeleireiro. Era menos um rosto do que uma caveira: a beleza passara. que nunca jamais fizera verter uma lágrima de desgosto. o olhar da opinião. havia oito ou nove anos que nos não víamos. nada mais. Na vida. e a hipocrisia. restavam os ossos. Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade. fiquei mudo e quieto. que é uma sensação penosa. Não tinha outra filosofia. Era a flor dos cabeleireiros. repisada. Não chorei. para as despesas da conversação. CAPÍTULO 24 Curto. mas alegre Fiquei prostrado. Quê? uma criatura tão dócil. à força de embaçar os outros. trateada. Mas esse duelo do ser e do não-ser. Triste capítulo. que achei em Modena. lembra-me que não chorei durante o espetáculo: tinha os olhos estúpidos. mas eu decorei-lhe só as fórmulas. e o melhor da obrigação é quando. que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode . passemos a outro mais alegre. a disfarçar os rasgões e os remendos. Tratei-a como tratei o latim: embolsei três versos de Virgílio. mãe carinhosa. a casca.. era força que morresse assim. a garganta presa. ou trazia-lhe a idéia embrulhada nas amplificações de retórica dos professores de coisas antigas. a vertigem. que não emagrecem nunca. incongruente. cheios de um pico. como um dia brilhante. Vão temor! Ela sabia que estava prestes a acabar. Mas. quando muito tinha-a visto já petrificada no rosto de algum cadáver. dois de Horácio. a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência. Jamais o problema da vida e da morte me oprimira o cérebro.26 roer é o seu ofício. com as mãos dela entre as minhas. nunca até esse dia me debruçara sobre o abismo do Inexplicável.mordida pelo dente tenaz de uma doença sem misericórdia? Confesso que tudo aquilo me pareceu obscuro. verificamo-lo na seguinte manhã. na morte. e mbaça-se um homem a si mesmo. a austera de Sócrates. Conhecia a morte de oitiva. o contraste dos interesses. ao pé da cama. sobre o qual a morte batia a asa eterna. de um sabor. por mais demorada que fosse a operação do toucado. disse-mo.. andava a cair de fadiga. Pobre moça! dormia três horas por noite. e que se distinguia por não as ter absolutamente. que me encheu de dor e estupefação. a ornamentação. Tratei-os como tratei a história e a jurisprudência. o vocabulário. esposa imaculada. de uma crueldade minuciosa. Mal poderia conhecê-la. O próprio tio João estava abatido e triste. faltava-me o essencial. um fiel compêndio de trivialidade e presunção. dolorida. longa e cruel. convulsa. a morte em ação. Era a primeira vez que eu via morrer alguém. porque em tal caso poupa-se o vexame. tão santa. Nem eu. a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos. contraída. Não digo que a universidade me não tivesse ensinado alguma. que é um vício hediondo. Minha irmã Sabina. a morte de uma pessoa amada. insano. que acompanhei ao cemitério.

era bastante para sacudir-me da Tijuca fora e restituir-me ao bulício. mas adverti que os acontecimentos . No sétimo dia. com ardor. — lia muito.. Meu pai forcejou por me torcer a resolução. com uma sensação única. Às vezes caçava.. confesso que senti em mim um eco. já não há vizinhos. durante as primeiras semanas depois da morte de minha mãe. a encaracolar as suíças. guarda-a. Com efeito. quando o moleque Prudêncio me disse que uma pessoa do meu conhecimento se mudara na véspera para uma casa roxa. Um dia. como uma borboleta vadia ou faminta. sem dizer palavra. despintar-se. uma coisa a que poderia chamar volúpia do aborrecimento. em suma. estava farto da solidão. Sejamos simples. recomendei expressamente que me deixassem só. que então tinha. como era simples a vida que levei na Tijuca. É ela? Ela e a filha. o espírito já se não contentava com o uso da espingarda e dos livros. De noite. O olhar da opinião. Agora comerciava em gêneros de estiva. despregar-se. Senhores vivos. de imaginação em imaginação. debaixo de um tamarineiro. Lembra-me que estava sentado. — ou jururu. nem estranhos. Amava a mulher e um filho.. sentado à janela. As horas iam pingando uma a uma. roupa. charutos. Apertava ao peito a minha dor taciturna. outras lia. com perseverança. e se não chegares a entendê-la. e o espírito ainda mais cabisbaixo do que a figura. as camisas. não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados. Reagia a mocidade. três dias. esse olhar agudo e j udicial. — outras enfim não fazia nada. nem conhecidos. podes concluir que ignoras uma das sensações mais sutis desse mundo e daquele tempo. acabada a missa fúnebre. desafeitar-se.27 sacudir fora a capa. labutava de manhã até a noite. como dizemos das galinhas tristes. Ninguém me visitava.. meu cunhado esteve a ponto de me levar à fina força. as sombras da noite velavam a montanha e a cidade. outras dormia. leitor. logo que pisamos o território da morte. Diziam que era avaro. ao menos. passara de estróina a circunspecto. solitária e mórbida. ao cabo de sete dias. e senti -me vexado. — e fui meter-me numa velha casa de nossa propriedade. confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque. situada a duzentos passos da nossa. e nos não examine e julgue. as meditações. com o livro do poeta aberto nas mãos. Sabina desejava que eu fosse morar com ela algum tempo -duas semanas. deitar ao fosso as lentejoulas. deixava-me atoar de idéia em idéia. essa flor amarela. não há platéia. travei de uma espingarda. tinha o espírito atônito. a dor aplacara. os hipocondríacos do poeta. mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. um eco delicioso. o sol caía. e que lhe morreu alguns anos depois. as gravatas. examina-a. alguns livros. Creio que por então é que começou a desabotoar em mim a hipocondria. e ia fechá-lo. dois dias. — “Que bom que é estar triste e não dizer coisa nenhuma!” — Quando esta palavra de Shakespeare me chamou a atenção. de um cheiro inebriante e sutil. Vieram ontem de manhã. mas eu é que não podia nem queria obedecer-lhe. um moleque. nem com a vista do arvoredo e do céu. CAPÍTULO 25 Na Tijuca Ui! lá me ia a pena a escorregar para o enfático. Era um bom rapaz este Cotrim. — Quem? — Nhonhô talvez não se lembre mais de Dona Eusébia. nem amigos. perde a virtude. nem inimigos. Meti no baú o problema da vida e da morte. Ocorreu-me logo o episódio de 1814. não pensava em outra coisa. Renunciei tudo. uma semana inteira passada assim. — Lembra-me. Volúpia do aborrecimento: decora esta expressão. não digo que ele se não estenda para cá. — o Prudêncio do capítulo 11. era preciso viver.

. — Mas os ursos casam-se. A ponderação do moleque era razoável. eu devia-lhe uma visita. fora impossível evitar as relações íntimas do Vilaça com a irmã do sargento-mor. e depois de rir. Não tinha almoçado. Meu tio João mandou-me dizer depois que o Vilaça. e beijei-lhe a mão. O próprio tio João. — Aceitas? — Não entendo de política. Demais trago comigo uma idéia.. Na verdade. se a visse. Riu-se meu pai. isto não é vida! Era meu pai. — Já lhe fui agradecer este sinal de consideração. depois a intimação. desdizia tanto das minhas sensações últimas. sim.. Foi ela quem vestiu o corpo da minha defunta senhora. depois a persuasão. — Nhonhô não vai visitar sinhá Dona Eusébia? Perguntou-me o Prudêncio. é um homem notável. guloso de escândalos. a travessura. que deduziu com singular volubilidade. aliás de muitas folhas. conforma-te com a vontade de Deus. faz hoje as vezes de Imperador. Fiz comigo essa reflexão e acabei de fechar o baú. coisa que deu muito que falar em todo o bairro. e. Nenhum de nós aludiu ao triste motivo da minha reclusão. já se boquejava misteriosamente no nascimento de uma menina. bastava que eu a visse. ou. para tudo dizer.. antes mesmo do meu embarque. CAPÍTULO 26 O autor hesita Súbito ouço uma voz: — Olá. um lugar de deputado e um casamento. e o beijo da moita. trago dois projetos. Lembrei-me que a vira.28 tinham-me dado razão.. concluiumeu pai. iria logo pedi-la ao pai. nem dócil nem rebelde à proposta. . — Eu? — Tu. com ele. nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ela. já bastante amarrotada. de passagem. digo-te tudo. ao morrer. sem demora de um dia. cujo fim era cavá-las mais profundamente no meu espírito. tornou a falar sério.. a olhar para mim. e não no mesmo tom. ignorava porém que ela houvesse prestado a minha mãe esse derradeiro obséquio. a Ursa Maior. Olhe. determinei fazê-la imediatamente. Tinham-me dado razão os acontecimentos. não tratou de outro assunto na carta. que sou. quando meu pai fez recair a conversa na Regência: foi então que aludiu à carta d e pêsames que um dos Regentes lhe mandara. e. Ele esteve alguns instantes de pé. Experimentou assim a fascinação. logo. Uma só vez falamos nisso. A proposta. — Já me conformei. porém. encareceu o lugar e a noiva. por vinte e tantas razões. e acho que deves ir também.Quanto à noiva. que chegava com duas propostas na algibeira. almoçamos juntos. por ocasião da morte e do enterro. dizia ele. Meu pai disse isto com pausa. — Pois traga-me uma ursa. foi a minha resposta. Ainda porém que ma não dessem. replicou ele. afiava a ponta de um palito ou fazia bolas de miolo de pão. deixe-me viver como um urso. depois estendeu-me a mão com um gesto comovido: — Meu filho. a sorrir ou a refletir. Sentei-me no baú e recebi-o sem alvoroço. entre outras senhoras. Era-me necessária a carreira política. Creio haver dito que era de um dos Regentes. talvez por havê-la lido a muitas outras pessoas. disse eu depois de um instante. Meu pai não fraqueou e repetiu-a. e descer. que eu cheguei a não entendê-la bem. Trazia a carta consigo. quanto à noiva. meu rapaz.. mas dando às palavras um jeito e disposição. e o Vilaça.. finalmente. 1814 lá ia longe. Leu-ma duas vezes. eu não dava resposta. um projeto. ilustrando-as com exemplos de pessoas do nosso conhecimento. deixara um bom legado a Dona Eusébia.

veio a mim. cheia daquele feitiço. e que antes. mas também não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha. a escrever desvairadamente num pedaço de papel. sem ordem.. havia certa lógica. ia a escrever virumque. Eu deixava-me estar ao canto da mesa. teve larga parte nas minhas mais íntimas sensações. muito antes. batendo as sílabas com o dedo. de um coche que pretendia comprar. Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos. lançou os olhos ao papel. da Câmara. e a morte de minha mãe me parecia como um exemplo da fragilidade das coisas.. CAPÍTULO 27 Virgília? Virgília? Mas então era a mesma senhora que alguns anos depois. da Regência.29 Sentia-me aturdido. por causa da primeira sílaba.. e entrou a falar de tudo. em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas. e era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça. era justamente a senhora. para os fins secretos dacriação.. e. foi o virumque que me fez chegar ao nome do próprio poeta. que em 1869 devia assistir aos meus últimos dias. Es tu. do Evaristo. disse meu pai. e repetia-os muitas vezes. traçava uma palavra. um verso.? A mesma. precário e eterno. dasafeições. fresca. m eu rapaz. Uma parte de mim mesmo dizia que sim. com certeza. Bebeu o último gole de café. ao acaso. Era isto Virgília.. outra dizia que não. — e sai-me Virgílio. certa dedução. e era clara. um pouco despeitado com aquela indiferença. por exemplo. da família. que o indivíduo passa a outro indivíduo. não o bstante. r epotreou-se. De-fi-ni-ti-va! repetiu. saía das mãos da natureza. e. um triângulo. . a tua noiva chama-se justamente Virgília. — Virgílio! exclamou. a mais voluntariosa. então continuei: Vir Virgílio Virgílio Virgílio Virgílio Virgílio Meu pai.. ergueu-se. Era bonita. — Não vou daqui sem uma resposta definitiva. da restauração... não. com uma ponta de lápis. um nariz. e ntre as mocinhas do tempo. do Senado. Não digo que já lhe coubesse a primazia da beleza. que uma esposa formosa e uma posição política eram bens dignos de apreço. da nossa casa de Matacavalos. porque isto não é romance. uma frase. assim: A Arma virumque cano arma virumque arma virumque cano virumque arma virumque cano Arma virumque Cano Maquinalmente tudo isto.

pueril. faceira. para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos. Não. ignorante. é esse poder de restaurar o passado. Tu que me lês. — devoção. — Mas. nem injusto. cheia de uns ímpetos misteriosos. que o editor dá de graça aos vermes. — tu que me lês. muita preguiça e alguma devoção. Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. dirás tu. não reparas na diferença entre a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi? Crê que era tão sincero então como agora. é uma errata pensante. Cada estação da vida é uma edição. quando estas páginas vierem à luz. que corrige a anterior. em poucas linhas. se ainda fores viva. creio que medo. o retrato físico e moral da pessoa que devia influir mais tarde na minha vida. Virgília amada. Aí tem o leitor. isso sim. e exprimi-la depois de tantos anos? Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz senhores da terra. como é que podes assim discernir a verdade daquele tempo.30 muito clara. a morte não me tornou rabugento. era aquilo com dezesseis anos. . ou talvez medo. e que será corrigida também. até a edição definitiva.

. Contanto quê?. Vamos lá. isto é.. fico certo de que a vista fará fé! Demais. interrompeu sentenciosamente meu pai... Era o seu próprio sangue que ele.o emplasto Brás Cubas. senhor. como deves. e a todos nós. em pequeno. declarei depois que estava disposto a examinar as duas coisas. Virgília? interrompi eu. sem hesitar um só minuto. despediu-se e desceu... fui visitar Dona Eusébia.. aceito a dilação. dispus-me a aceitar o diploma e o casamento. contanto que. para eu andar depressa. e torceu a rédea à . obscuro.. contanto que. Creio que chegou a cingir-me com o seu par de braços robustos. filha do Dutra. Não estragues as vantagens da tua posição. começava. E foi por diante o mágico. disse ele num assomo de ternura política. Olha que os homens valem por diferentes modos.. entre muitas exclamações de contentamento: — Ora. a agitar diante de mim um chocalho. — Sim.. viva como um azougue.. — Que Dutra? — O Conselheiro Dutra. com um alvoroço. Fez me sentar ao pé de si. posto me entristecesse. — As duas Virgílias.. Vou fazer primeiramente uma visita a Dona Eusébia. Virgília e a Câmara dos Deputados. não gastei dinheiro.. que me desacanhou logo. a candidatura e o casamento . enfim.. — o amor da nomeada. Eu. a noiva e o parlamento são a mesma coisa. cuidados. o Brasinho! Um homem! Quem diria. Imagina uma moça assim. fitei por alguns segundos a ponta do botim. Aceitei-os. aceitas? Não respondi logo. e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens.. com tantas saudades.. — Desces comigo? — Desço amanhã. para te não ver brilhar. os teus meios. — Ah! brejeiro! Contanto que não te deixes ficar aí inútil. Um anjo. estou por tudo. mas deixou tudo para vir falar-me. Dona Eusébia começou a falar de minha mãe.. imitando-lhe a voz. continuá-lo e ilustrá-lo ainda mais.31 CAPÍTULO 28 Contanto que.Um homenzarrão! E bonito! Qual! Você não se lembra bem de mim. Ela percebeu-o nos meus olhos. Meu pai torceu o nariz. não. CAPÍTULO 29 A visita Vencera meu pai. foge do que é ínfimo.. na varanda. empenhos. não conheces. Mas seja como queres. Achei-a a repreender um preto jardineiro.. mas não disse nada. saberás depois. Brás. Olha. há anos. é o nome da noiva. um anjo sem asas. uma influência política. que me cativou logo. um prazer tão sincero. estou com sessenta anos. mas se fosse necessário começar vida nova. interrompi eu. é preciso continuar o nosso nome. e nada mórbida. e uns olhos.. meu pateta.. e te convém. — Todo o homem público deve ser casado. meu pai deu-me dois fortes abraços.. e triste. reconhecia. e a flor da hipocondria recolheu-se ao botão para deixar a outra flor menos amarela.. Disse-lhe que sim. na tarde desse mesmo dia. creio que posso ser separadamente homem casado ou homem público. — Contanto quê? — Contanto que não fique obrigado aceitar as duas...Vá. desta altura... Teme a obscuridade. com muitas saudades. que não era possível esquecer uma amiga tão familiar de nossa casa. como me faziam..

. filho do Senhor Cubas. E voltando-se para mim: — Minha filha Eugênia. a rir comigo da superstição das duas mulheres. mamãe. Não pôde Eugênia encobrir a satisfação que sentia com esta minha palavra. mal respondeu ao gesto de cortesia que lhe fiz. dissimulava a impressão com muita força de vontade. cumprimenta o Doutor Brás Cubas. o beijo. — Menos um. fez-me um cumprimento com a ponta do chicote.. cuja ponta se desmanchara. pediu-me que lhe contasse a viagem. De tarde. mas emendou-se logo. que se deteve à porta. ela parecia ainda mais mulher do que era. ofegante. com resolução e franqueza: — Vem cá. um pouco envergonhada. mas não voltou. os namoros também. disse eu. Pois já não está em idade própria.. a moi-ta. a mãe fazia-lhe grandes elogios. e lentamente se aproximou da cadeira da mãe. lembrou-me minha mãe.. Nisto recordei-me do episódio de 1814. — Travessa? disse eu. Dona Eusébia sentou-se outra vez. ao que parece.. Eugênia. Dona Eusébia quebrou-o.. levantou-se. ao ver gente estranha. Não imagina. — tive umas cócegas de ser pai. sai.. ouço um ranger de porta. seguida de um pajem. praguejou umas palavras soltas: — T'esconjuro!. que subitamente penetrou na varanda. olhou-me admirada e acanhada. alguns passos adiante. disse ela. Depressa nos familiarizamos. o meu grito. A mãe arranjou-lhe uma das tranças do cabelo. Apertei-lhes a mão e sai. seria criança nos seus folgares de moça. CAPÍTULO 30 A flor da moita A voz e as saias pertenciam a uma mocinha morena. ela. expeli a borboleta.. tirando o lenço. superior. enfim. mas assim quieta. e— direi tudo. CAPÍTULO 31 A borboleta preta . — Não tenha medo.. — Quantos lhe dá? — Dezessete. — Ah! travessa! dizia. doutor. com os olhos fúlgidos.. tinha a compostura da mulher casada. eu escutava-os de boa sombra. como se lá dentro do cérebro lhe estivesse a voar uma borboletinha de asas de ouro e olhos de diamante. e confesso que me lisonjeei com a idéia de que. ereta. Sim. E beijou-a com tão expansiva ternura que me comoveu um pouco... o Vilaça. diabo!. os namoros. — Dezesseis. Em verdade. um farfalhar de saias e esta palavra: — Mamãe. alguns instantes. e. Virgem Nossa Senhora!. e ela sorria. um rir filosófico.32 conversação. Digo lá dentro. os estudos. e começou a bater as asas em derredor de Dona Eusébia. e ficou como dantes. e estando a recordá-lo. vi passar a cavalo a filha de Dona Eusébia. a filha. Talvez essa circunstância lhe diminuía um pouco da graça virginal. Silêncio curto e constrangido. Eugênia. porque cá fora o que esvoaçou foi uma borboleta preta. veio da Europa. confessou-me que era uma velha patusca.. ela voltaria a cabeça para trás. pode ser que p álida de medo. Dona Eusébia deu um grito. o que isto é.. Pois então! é uma moça.. desinteressado. impassível.. a flor da moita. fria e muda.

um ar divino. sob a vasta cúpula de um céu azul. porque eu sacudisse de novo. Passa pela minha janela. Estava pronto. Não lhe valeu a imensidade azul. Creio que foi por minha causa. com alguma simpatia. Não. Imaginei que ela saíra do mato.. volto à primeira idéia. saí do quarto. era-lhe devida aquela compensação. incomodado. A borboleta. Desço imediatamente. que não pude deixar de aceitar. entra e dá comigo. despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. e não é impossível que descobrisse meia verdade. viu dali o retrato de meu pai. e achando-a ainda no mesmo lugar. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque. minutos depois. Suponho que nunca teria visto um homem. Eugênia desataviou-se nesse dia por minha causa. senti um repelão dos nervos. saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai.” A idéia subjugou-a.O gesto brando com que. Apiedei-me. lhe pendiam agora . que tinha olhos. — se é que não andava muita vez a ssim. como eu estivesse a preparar-me para descer. tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Não era.. Ai. — Também por que diabo não era ela azul? disse eu comigo. não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete. pernas. Fiquei um pouco aborrecido. uma estatura colossal. tanto. e viu que me movia. Era tarde. lancei mão de uma toalha. o que era o homem. Era tempo. e muito maior do que ela. a infeliz expirou dentro de alguns segundos. no susto que tivera e na dignidade que. é justo dizê lo. Não caiu morta. quando me entrou por casa. mas o medo. a saber. Lembrou-me o caso da véspera. ela foi pousar na vidraça. que estava ali o pai do inventor das borboletas. não contava com Dona Eusébia. entrei logo a pensar na filha de Dona Eusébia. espairecendo as suas borboletices. bati -lhe e ela caiu. para todas as asas. dois palmos de linho cru. e me reconciliou comigo mesmo. Vinha convidar-me para transferir a descida. — me consolou do malefício. tanto.. uni o dedo grande ao polegar. nem a alegria das flores. entrou no meu quarto uma borboleta. Nem as bichas de ouro. Deixei-me estar a contemplar o cadáver. descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo. Cheguei a recusar. tão negra como a outra. uma vez posta. desço. mas instou tanto. confesso.braços. se ela fosse azul. apesar dele. não teria mais segura a vida. não sabia. Era negra como a noite. contra uma toalha de rosto. fui. Esta última idéia restituiu-me a consolação. CAPÍTULO 32 Coxa de nascença Fui dali acabar os preparativos da viagem. e ir lá jantar nesse dia. demais. que trazia na véspera. e. Dei de ombros. — uma das mais profundas que se tem feito desde a invenção das borboletas. que é sempre azul. portanto. Já agora não me demoro mais. depois de esvoaçar muito em torno de mim. soube conservar. Então disse consigo: “Este é provavelmente o inventor das borboletas. Quando enxotada por mim. começou a mover as asas. ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. tinha um certo ar escarninho. aterrou-a. ou cor de laranja. A manhã era linda. insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa. e voou a pedir-lhe misericórdia. f oi pousar na vidraça. para recreio dos olhos.33 No dia seguinte. pousoume na testa. E esta reflexão. que me aborreceu muito. e beijou me na testa. Veio por ali fora. que é também sugestivo. Sacudi-a. creio que para ela era melhor ter nascido azul. nem a pompa das folhas verdes. modesta e negra. e ri-me. aí vinham já as próvidas formigas. ainda que algum leitor circunspecto me detenha para perguntar se o capítulo passado é apenas uma sensaboria ou se chega a empulhação. Pois um golpe de toalha rematou a aventura. mas tornando lá. almoçada e feliz..

sem temeridade. grosseirão. mas pouco. Palavra que o olhar de Eugênia não era coxo. e ai fiquei eu a noite toda a cavar o mistério. e que naquele dia. dali à chácara. Por que bonita. mas porque razão o confessava agora? Olhei para ela e reparei que ia triste. e foi então que notei uma circunstância. um botão de madrepérola. O melhor que há. não menos que no terceiro dia. perfeitamente são. sim. a boca.. Uns olhos tão lúcidos. e eu sem acudir a coisa nenhuma. chamei-me desastrado. já a achei à mesa de jantar. nessa primeira explosão da natureza. tão pouco. disse a mãe. Com efeito. Vimos toda a chácara. Fiquei aliviado e fui dormir. que é uma fresta do espírito. é verdade. Idéias claras. se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa. e no quarto. ao pé de mim. A mãe calou-se. Dona Eusébia vigiava-nos. transferi a descida. lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta. um pouco turvados. foi o que eu fiz. Mandei-me a todos os diabos.. tanque de lavar. Era isso no corpo. sem explicá-lo. exatamente a boca d a mãe. a manhã era límpida e azul. Tratei de apagar os vestígios de meu desazo. mas duas ou três vezes somente. sem atinar com a solução do enigma. Uma simples égloga. e outro botão nos punhos. feita de amor e desprezo. maneiras chãs. Eugênia coxeava um pouco. lá embaixo a família a chamar-me. e o arlamento. mas gosto. Enlevado é uma maneira de realçar o estilo. — O senhor desce amanhã? Disse-me ela no sábado. árvores. tanque de patos. de cassa. porque a mãe era. tendo ao colo. a filha respondeu sem titubear: — Não. não era outra coisa no espírito. Um simples vestido branco. uma infinidade de coisas. uma velha patusca. uma compostura tão senhoril. Manhãs bonitas. e nem sombra de pulseira. entregava-me a alma em flor. senhor. nem biocos. Então lembrou-me que da primeira vez que a vi — na véspera — a moça chegara-se lentamente à cadeira da mãe. . Saímos à varanda. em geral. um ar de senhora. que eu cheguei a perguntar-lhe se machucara o pé. que me adejava no cérebro. de soslaio. enlevado ao pé da minha Vênus Manca.sem enfeites. ao pé dessa criatura tão singela. flores. temperava a necessidade com a conveniência. uma certa satisfação física e moral. ao passo que eu. filha espúria e coxa. CAPÍTULO 33 Bem-aventurados os que não descem O pior é que era coxa. se coxa? por que coxa. A filha. Mas o sonho. até o fim da semana. e apesar disso deixei-me ficar. Amanheceu chovendo. vinha de uns olhos pretos e tranqüilos. E isto na Tijuca.. e então dava-me ímpetos de glosar o mesmo mote à filha. ao pé dela sentia-me bem. duas orelhas finamente recortadas numa cabeça de ninfa. logo que esgotamos o último gole de café. e não sei se alguma outra coisa. Creio que duas ou três vezes baixaram. Talvez fosse para encobrir o defeito. fitavam me com franqueza. e prontamente travou de conversa comigo. e ela creio que ainda se sentia melhor. quando se não resolve um enigma. a simples possibilidade de ser coxa era bastante para lhe não perguntar nada. mas direito.Queria-lhe. — não me foi difícil. e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. de noite. frescas. a qual me lembrava o episódio de 1814. mas no outro dia. — Agora vou mostrar-lhe a chácara.34 das orelhas.. e a noiva. sou coxa de nascença. fechando as mangas. certa graça natural. convidativas. perscrutava os olhos de Eugênia. uma boca tão fresca. segundo confessara. não havia enlevo. deixou novamente entrar o bichinho. em vez de broche. é sacudi-lo pela janela fora. que ela me ia mostrando. e comentando.

. oito dias depois. as bufonerias. suspirou ela estendendo-me a mão com simplicidade. Eu cínico. e o terror de vir a amar deveras. mas candidamente entregue. Que dissimulação graciosa! que arte infinita e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural. foi no domingo esse primeiro beijo de Eugênia.. Ia dizer-lhe que não. na moita. continuou: — Faz bem em fugir ao ridículo de casar comigo. eu não sou cínico. . porque deles é o primeiro beijo das moças. e desposá-la. desde a rosa de Smirna até a arruda do teu quintal. e talvez. Tanto melhor! Dona Eusébia não suspeitou nada. e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue. alma sensível. não estudado.. vivo. um pandemônio. entre as cinco ou dez pessoas que me lêe m. que nos apanhasse ao pé um do outro. — que isso à s vezes é dos óculos. CAPÍTULO 34 A uma alma sensível Há aí. limpa os óculos. ela retirou-se lentamente. à tua origem. D. que está decerto um tanto agastada com o capítulo anterior. alma sensível? Pela coxa de Diana! Esta injúria merecia ser lavada com sangue. talvez.. o austero. meu cérebro foi um tablado em que se deram peças de todo gênero. que me sussurrou as palavras da Escritura (Act. — E como eu nada dissesse. alma sensível. há aí uma alma sensível. mas não tão súbita. ouvi uma voz misteriosa. alma sensível. e acrescentei um versículo ao Evangelho: — Bem-aventurados os que não d escem. na tarde de uma segunda-feira. e jurei-lhe por todos os santos do céu que eu era obrigado a descer. ao anunciar-lhe que na seguinte manhã viria para baixo. — o primeiro que nenhum outro varão jamais lhe tomara. natural como o sono. havia também a da lesma e do sapo. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida. em que podias ver tudo. que ela escutou sem dizer nada. a desgrenhada farsa. 7): "Levanta-te. que. a expressão. começa a tremer pela sorte de Eugênia. e tinha duas origens: a piedade. Pobre Eugênia! Se tu soubesses que idéias me vagavam pela mente fora naquela ocasião! Tu. sim." Essa voz saia de mim mesmo.. Alcancei-a a poucos passos. engolindo as l ágrimas. natural como o apetite. IX. desde o magnífico leito de Cleópatra até o recanto da praia em que o mendigo tirita o seu sono. que me desarmava ante a candura da pequena. me chame cínico. uma barafunda de coisas e pessoas. Não desci. a comédia louçã. castiga os nervos. e entra na cidade. Com efeito. Cruzavam-se nele pensamentos de vária casta e feição. com os braços nos meus ombros. eu fui homem. o piegas. Não havia ali a atmosfera somente da águia e do beija-flor.. Eusébia entrou inesperadamente. se o sangue lavasse alguma coisa nesse mundo. lá no fundo de si mesma. tudo hipérboles frias. o drama sacro. os autos. Eugênia sentou-se a consertar uma das tranças. — e acabemos de uma vez com esta flor da moita. Eu fui até a janela. Foi na varanda. pois. — Não desça. Retira. — Adeus. trêmula de comoção.35 — Pretendo. e não furtado ou arrebatado. não há duvidar que ela o achou e mo disse. faz bem. como um devedor honesto paga uma dívida. CAPÍTULO 35 O caminho de damasco Ora aconteceu. mas que não deixava de lhe querer e muito. Não. no Vilaça. e eu com os olhos em 1814. como eu estivesse no caminho de Damasco. a contemplar em mim o teu bem-vindo esposo.

um pouco irritado com os males públicos. Quanto à noiva. que era conveniente abraçar a carreira política.. e aí tens a felicidade barata. que levava idéias a respeito da pequena. que não desmentiu em nada o panegírico de meu pai. com o fim de deparar a ocasião de comer. que o meu cavalo. que a minha noiva. é o nome que dou a uma criaturinha. laboriosa... uma coisa rara. Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra. — Só isto? — Só isto. Desci da Tijuca...Vinha dizendo a mim mesmo que era justo obedecer a meu pai. porque.CAPÍTULO 36 A propósito de botas Meu pai. convinha. e fui descalçar as botas. . Era uma pérola esse homem. E descalçou-as o lascivo. respirei à larga. senão de império. e via a aleijadinha perder-se no horizonte do pretérito. porém. desgraçado. ela.. triste como os enterros pobres... abraçou-me cheio de ternura e agradecimento.. não me fitou de modo diferente. na manhã seguinte. e sentia que o meu coração não tardaria também a descalçar as suas botas. Antes de ir à casa do Conselheiro Dutra. calada. Eu. um pouco amargurado. Quatro ou cinco dias depois. solitária. enquanto os pés. Relede o capítulo 27.? Deixei-o nessa reticência. é que não as descalçaste nunca. que sucede a uma dor pungente. O que eu não sei é se a tua existência era muito necessária ao século. Posso enfim. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizesse patear a tragédia humana. que a constituição. e todo eu atrás deles.36 — Acredita-me? perguntei eu no fim. que estavam apertadas. e de tal modo falei.. Mortifica os pés. . Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas. — e à filha. minha Eugênia. fitei-a de certo modo. e creio que o fará. Quis retê-la. foste aí pela estrada da vida.. inefável e incoercível momento de gozo. e digo-lhe que faz bem. que é uma jóia.. que não sei se as tinha. fazendo doer os pés. CAPÍTULO 37 Enfim! Enfim! eis aqui Virgília. porque só aguça a fome. senão porque eles aperfeiçoam a felicidade terrestre. confessei-lhe o desejo que tinha de te ver deputado. lançava eu os olhos para a Tijuca. Há tempos. — Não.. que ele prometeu fazer alguma coisa. é a filha d ele. imaginei que. — uma estimável senhora. esperar alguns meses. uma flor. Achou que a minha candidatura era legítima. outro pouco satisfeito. Uma vez aliviado.. — Nenhum ajuste. a um incômodo. E logo me apresentou à mulher.. se casasses com ela. mais depressa serias deputado. ao sabor dos sapateiros e de Epicuro. — Agora é deveras? disse ele. entrávamos numa relativa bem-aventurança. e deitei-me a fio comprido. mas não desesperando de o s curar depressa. manquejando da perna e do amor.. dão azo ao prazer de as descalçar. Tu. perguntei a meu pai se havia algum ajuste prévio de casamento. que me não esperava. Enquanto esta idéia me trabalhava no faoso trapézio. até que vieste também para esta outra margem. Daqui inferi eu que a vida é o mais engenhoso dos fenômenos. No fim de um mês estávamos íntimos. risonho. mas o olhar que me lançou não foi já de súplica. jovial. e não inventou os calos. patriota. uma estrela. conversando com ele a teu respeito. desmortifica-os depois. saboreava esse rápido. a uma preocupação. e o nosso olhar primeiro foi pura e simplesmente conjugal. Juro-vos que em nada. Fomos dali à casa do Dutra.

que mudou. Gastei pouco tempo em dizer-lha. que era luxuosa. respondi secamente.37 CAPÍTULO 38 A quarta edição — Venha cá jantar amanhã. Dadas as voltas. As bexigas tinham sido terríveis. nem interessante. enormemente grossa. mas ainda inçada de descuidos e barbarismos. e do tempo. naquele tempo. com o balcão permeio. Deu-me uma cadeira. e fui dar várias voltas. que era elegante. — Mas por que entrou aqui? Viu-me da rua? Perguntou ela. Verdade é que tinha a alma decrépita. da vida que levara. — Quer comprar alguma coisa? disse ela estendendo-me a mão. se a memória do passado. era agora pouco buscada a loja — talvez pela singularidade de a dirigir uma mulher. defeito que. no meio das recordações e saudades. Não respondi nada. ardia neles a flama da cobiça. estava eu na quarta edição. Os meus é que não souberam ver-lha. ao contrário. O rosto dizia-me que não. Quanto ao cabelo. pósteros? essa mulher era Marcela. não era longa. eu deixei-me ir então ao passado. creio eu. Não a conheci logo. mas. perguntei a mim mesmo por que motivo fizera tanto desatino. mas a doença e uma velhice precoce destruíram-lhe a flor das graças. consulto o relógio e cai-me o vidro na calçada. e. era um cubículo. meia doce e meia triste. já outrora. No dia seguinte. interrogando o rosto de Marcela. Lembra-vos ainda a minha teoria das edições humanas? Pois sabei que. disse-me o Dutra uma noite. achava alguma compensação no tipo. Crê-eis. — empoeirado e escuro. e não pouco bonita. Num dos dedos da mão esquerda fulgia-lhe um diamante. era o instinto da vaidade. Entro na primeira loja que tinha à mão. Em seguida pediu-me que lhe contasse a minha vida. e na encadernação. com a atonia de quem reflete ou relembra. Não podia ter sido feia. aliás. ao passar pela Rua dos Ourives. das lágrimas que eu lhe fizera verter. das saudades. ela porém conheceu-me apenas lhe dirigi a palavra. — Ainda não. mandei que a sege me esperasse no Largo de São Francisco de Paula. cujo rosto amarelo e bexiguento não se destacava logo à primeira vista. Marcela compreendeu a causa do meu silêncio (não era difícil). — Não. adiantando-lhe a decadência. que não durou mais de um instante. — pouco mais. Vi-lhe um movimento como para esconder-se ou fugir. deixara-lhe aquela loja de ourivesaria. para que a desgraça fosse completa. e davam uma sensação de lixa grossa. e. Eram os olhos a melhor parte do vulto. grandes e muitos. via-se que fora bonita. revista e emendada. ao mesmo tempo os olhos me contavam que. Vendera tudo. Não e ra esta certamente a Marcela de 1822. estava ruço e quase tão poento como os portais da loja. eram olhos da primeira edição. dos desastres. por trás do balcão. e aliás tinham uma expressão singular e repugnante. era difícil. Marcela lançou os olhos para a rua. logo que eu comecei a falar. mas a beleza de outro tempo valia uma terça parte dos meus sacrifícios? Era o que eu buscava saber. mas logo que se destacava era um espetáculo curioso. estava sentada uma mulher. Ao fundo. . Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual por outra. se o assombro do presente. que lhe escalavraram o rosto. Marcela acomodou-se e sorriu. um homem. em decidir o que dominava mais. enfim das bexigas. declives e aclives. supunha entrar numa casa de relojoeiro. e lhe morreu nos braços. falou-me longamente de si. queri a comprar um vidro para este relógio. que a amara outrora. entretanto. Aceitei o convite. e só hesitou. — Casou? disse Marcela no fim de minha narração. como hoje. que ajudou a moléstia. os sinais. saindo daquela espécie de torpor. faziam saliências e encarnas. quase tudo.

— Coitadinha! disse Marcela beijando-a.. repetiu-me. e que negociava com o único fim de acudir à paixão do lucro. Contou mais algumas coisas o sujeito.. Maricota? Toma a bênção.. assim. imagine o quê?.. não? Parecem gostar muito de mim. como a senhora não imagina. a mulher também. .. todas mui agradáveis.. — Anda.. devo confessar que o coração me batia u m pouco.. Maricota? — Não diga. disse ele. até que saiu levando a menina. CAPÍTULO 39 O vizinho Enquanto eu fazia comigo mesmo aquela reflexão. Para dizer tudo. Não havia remédio. a uma loja na vizinhança. o primeiro discurso que eu tinha de proferir na Câmara dos Deputados. e a filha é galante. uma paixão. — É um namoro... O espírito ia travado de impressões opostas. sem chapéu. Ainda ontem. ponderou que mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse. — É um relojoeiro de vizinhança.. — Como passou de hoje de manhã? disse ele a Marcela. desculpe-me.. Olha a vara de marmelo! Assim. Digo. já me custava estar ali. que queria oferecê-los a Santa Marcela. um bom homem.. mas a pequena ontem veio pedir-me com voz muito humilde. Não imagina o que ela é lá em casa. e o sol também..38 vou a outra parte. e. ao almoço. ao mesmo tempo.. A verdade é que eu me sentia pungido e aborrecido. mas era uma espécie de dobre de finados. Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de Marcela. tenho pressa. é boa gente. apesar da minha oposição. por antecipação. Então.. chamou u m moleque. não sem deitar-me um olhar interrogativo ou suspeitoso. pergunta a Dona Marcela como passou a noite. e afiançou que me daria finas jóias por preços baratos... Era tempo. a mãe ensina-lhe a rezar todas as noites um padre -nosso e uma ave-maria.. mas a mãe não tinha podido vesti -la. mandou-o. — Assim. CAPÍTULO 40 Na sege Nisto entrou o moleque trazendo o relógio com o vidro novo. Maricota. Não disse preços baratos. Entrei a desconfiar que não padecera nenhum desastre (salvo a moléstia). entretanto. comprar o vidro. oferecidos a Nossa Senhora. entrou na loja um sujeito baixo. A mãe diz que é feitiço. não. trazendo pela mão uma menina de quatro anos. e ansiava por me ver fora daquela casa. O sujeito levantou a criança pelos braços e passou-a para dentro do balcão. mas usou uma metáfora delicada e trans-parente. — Então foi alguma coisa feia? perguntou Marcela batendo na cara da menina. que tinha o dinheiro a bom recado. foi isso mesmo que me disseram depois.que era o verme roedor daquela existência. sentei-me outra vez. fala na senhora a todos os instantes.. rimo-nos muito. papai. e aqui parece uma pamonha. e saí a passo largo. Vem cá. deu-lhe o relógio. Estava ansiosa por vir cá. disse a Marcela que voltaria noutra ocasião. Meu pai. Disse ela que desejava ter a proteção dos conhecidos de outro tempo. Marcela. Perguntei a Marcela quem era ele. Notem que aquele dia amanhecera alegre para mim. Marcela suspirou com tristeza. e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura. — Eu lhe digo. dei uma moedinha de prata ao moleque.

e. peguei-lhe na mão. ei-lo que me interroga. O pior é que a sege não andava. cai-me o vidro do relógio. e eis me surge o passado.. ou só despeito. Os olhos. — Tão bonita. — Nunca me viu? perguntou Virgília. e porque a dor que se dissimula dói mais. bradei eu ao boleeiro.. Esta sege anda ou não anda? — Uê! nhonhô! Já estamos parados na porta de sinhô Conselheiro. ela porém não me respondia nada. Lá dentro. Céus! Era outra vez a fresca. seria Virgília aquela moça? Fitei-a muito. não forte nem áspero. fazia estalar as unhas. Eu fiquei algum tempo a olhar para os meus próprios pés. é mui provável que Virgília padecesse em dobro do que realmente devia padecer. a florida Virgília. Vai senão quando. Havia alguma afetação naquele desdém. a pele. e não pouco. calada. do mesmo modo que Virgília devia rir. mas muito de cima. que me detivera. com um rosto cortado de saudades e bexigas. Falei-lhe de coisas estranhas ao incidente. que me esperava no Largo de São Francisco de Paula. e tudo isso me parecia estar parado.39 que estava brilhante. nem rodomoinha nas saias das mulheres. e chamei-a brandamente a mim.. A mãe. Seguiram se alguns segundos de pausa. Entrei apressado. e como que dissolve os espíritos? Pois eu tinha esse vento comigo. mau humor. e ordenei ao boleeiro que rodasse pelas ruas fora. que era surda. — ou fosse mágoa pura. ao ponto de as unir. estigmada pelo mesmo flagelo que devastara o rosto da espanhola. As bexigas tinham-lhe comido o rosto. nem olhava para mim. CAPÍTULO 41 A alucinação E era verdade. tinha o lábio triste e a atitude cansada. Lá o deixei. e a sensação foi tão penosa. estava na sala com ela. enquanto Virgília. e encaminhei-me para Virgília. era a estátua do Silêncio. um certo vento morno . contraindo as sobrancelhas. aparecia-me agora amarela. CAPÍTULO 42 . Menos o estalido.Não me enganava. fizeram-se murchos. Devia sair ou ficar? Rejeitei o primeiro alvitre. a juvenil.. nenhum havia. fronte nublada. mas abafadiço. De repente morre-me a voz nos lábios. achei Virgília ansiosa. as molas gemiam. Creio que fiz um gesto de repulsa. Não há. Virgília afastou-se. as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara a chuva recente. que lá estava sentada e calada. meti -me às pressas na sege. fico tolhido de assombro. afrouxa. e todavia é ou parece ser pior do que se fizesse uma e outra coisa. Uma só vez me d eitou os olhos. O boleeiro atiçou as bestas. almejava por sair à planície do futuro. quando eu lhe contasse as nossas fantasias do almoço. vendo que a encarava com insistência. e foi sentar-se no sofá. Virgília. No fim dos cumprimentos disse-me a moça com sequidão: — Esperávamos que viesse mais cedo. rosada e pura. ainda na véspera tão fina. como nos mais belos dias do mundo. nunca. certo de que ele me soprava por achar-me naquela espécie de garganta entre o passado e o presente. que recuei um passo e desviei a vista. e todo esse conjunto de coisas dava-lhe ao rosto uma expressão média entre cômica e trágica. soerguendo a pontinha esquerda do lábio. entro na primeira loja que me fica à mão. Tomei a olhá-la. Olheia bem. Sentei-me. Creio que isto é metafísica. às vezes. Defendi-me do melhor modo. que eram travessos. — João. falei do cavalo que empacara. ela padecia. Em vão procurei no rosto dela algum vestígio da doença. que nos não leva o chapéu da cabeça. a sege entrou a sacolejar-me. eram as bexigas. porque abate. que era simplesmente absurdo. ei-lo que me lacera e beija. era um arrebique do gesto. e de um amigo. era a pele fina e branca do costume.

que eu. — o qual. já então informado da nossa tanoaria.. que esperasse outra aragem. — Pela minha vontade. Um Cubas! um galho da árvore ilustre dos Cubas! E dizia isto com tal convicção. Virgília perguntou ao Lobo Neves. cedendo à força impulsiva. porque eu serei marquês Positivamente. a sorrir. pela dos outros. um despeitozinho agudo como ponta de alfinete. e elegeu a águia. que esterilizava o solo em que batia. um diabrete angélico. O lábio do homem não é como a pata do cavalo de Áti la. quando seria ele ministro. recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Brás Cubas. Dutra veio dizer-me. tal foi o começo da minha derrota. é justamente o contrário. Não foi alegre o almoço. e então. alguma obediência e muita fatuidade. que tinha de amar aquela. ao almoço. E isto basta a explicar a vigília. Mas eu era moço. Meu pai é que não pôde suportar . Temos que Marcela. Como é que este capítulo escapou a Aristóteles? CAPÍTULO 43 Marquesa.. leituras truncadas. até romper a aurora. e se estabelece uma coisa que poderemos chamar — solidariedade do aborrecimento humano. além de uma fantasia passageira. não lhe estava agora preso por nenhum outro vínculo. nem mais lido. entrou a rolar também até esbarrar em Virgília. nem mais elegante. Não precedeu nenhum despeito. A princípio não quis crê-lo. esqueci um instante a volúvel dama. não se ama duas vezes a mesma mulher. tantos e tantíssimos os sonhos.40 Que escapou a Aristóteles Outra coisa que também me parece metafísica é isto: — Dá-se movimento a uma bola. a mais tranqüila das auroras. daqui a um ano. um dia. sem padecer um forte abalo no organismo. Cedi.. nem mais simpático. transmite-lhe o impulso. porque eu serei marquês. e todavia foi quem me arrebatou Virgília e a candidatura. com um ímpeto verdadeiramente cesariano. não raro. e eu. mas dez que fossem não queria dizer coisa nenhuma. Talvez cinco beijos. CAPÍTULO 44 Um Cubas! Meu pai ficou atônito com o desenlace. se querem. que não tinha nada com a primeira bola. murros. Virgília comparou a águia e o pavão. não houve a menor violência de família. Desde então fiquei perdido.. se tocam os extremos sociais. encontra outra bola.Tinha velado uma parte da noite. Eram tantos os castelos que engenhara. — a terceira. para só contemplar aquele fenômeno. e eis aí como. era despeito. De amor? Era impossível. por exemplo. com charutos. um homem que não era mais esbelto que eu. e eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou. já. porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes influências. pela simples transmissão de uma força. Virgília replicou: — Promete que algum dia me fará baronesa? — Marquesa. a segunda. deixando o pavão com o seu espanto. Marcela. Brás Cubas. Suponhamos que a primeira bolan se chama. — Um Cubas! Repetia-me ele na seguinte manhã. e quer-me parecer que não morreu de outra coisa. era um diabrete Virgília. tinha o remédio em mim mesmo. mas era-o. Virgília. tempos depois. eu próprio estava a cair de sono. mas curioso: uma imaginação graduada em consciência. e três ou quatro beijos que lhe dera. o seu despeito. — é uma simples suposição. Então apareceu o Lobo Neves. que não podia vê-los assim esboroados. rola esta. o qual se desfez. dentro de poucas semanas. Uma semana depois.

disse Cotrim. Sabina e eu. e o levantam. e mais o tio Ildefonso e meu cunhado. acudi eu. encostado a um consolo. — acabrunhado. e apertavam a mão à família. com os braços cruzados e a morder o bigode. aqui há anos. Profundo silêncio. — O boleeiro não. tocheiros. Teve ainda uma meia hora de alegria. Morreu sem lhe poder valer a ciência dos médicos. o rodar dos carros. veludo preto nos portais. triste. um homem que veio vestir o cadáver.. com os olhos no chão. nem o nosso amor.um desencanto mortal que lhe substituiu os reumatismos e tosses. — Velha! exclamou Sabina. — Podia custar até sessenta. caixão. que era. de pé. — lembra-me bem. que foram muitos. — minha irmã sentada num sofá. quer só o boleeiro de papai e o Paulo. CAPÍTULO 46 A herança Veja-nos agora o leitor. e o descem a custo pela escada.. com uma preocupação intensa e contínua. Pensando bem. o último lampejo da alma expirante. — Vale cinqüenta. — pouco adiante. convites. uma manhã de maio. — eu a passear de um lado para outro. como aliás me cabia. mano. — Parece-lhe nova. podemos arranjar tudo em boa amizade. mas que o desastre lhe complicou as últimas dores. padre e sacristão. tornou Cotrim. Por exemplo. não obstante os gritos.. . o rodar do coche. por assim dizer. aspersões d'água benta. ponderei. um a um. convidados que entravam. Mas a tristeza tomou logo. a tristeza de morrer sem me ver posto em algum lugar alto. a do Campo? — Não fale nisso! Uma casa velha. o Cotrim. Isto que parece um simples inventário. foi quando um dos ministros o visitou. e com lisura.41 facilmente a pancada. todos sérios e calados. — vi-lhe o grato sorriso de outro tempo. aposto? — Ora. soluços e novas lágrimas da família. nem coisa nenhuma. demos que valha trinta e cinco. eram notas que eu havia tomado para um capítulo triste e vulgar que não escrevo. se esta vale os cinqüenta contos. rezas. e vão até o coche fúnebre. — Um Cubas! CAPÍTULO 45 Notas Soluços. outro que tomou a medida do caixão. seis pessoas que o tomam da essa.. nem os cuidados. levantando as mãos ao teto. alguns tristes. quantos não vale a que você deseja para si.. o Cotrim não aceita os pretos. disse Sabina. oito dias depois da morte de meu pai. e nos o lhos uma concentração de luz. é positivo. lágrimas. o fechar do caixão a prego e martelo.. erguendo-se do sofá. e menos ainda que os valha hoje. Luto pesado.. a passo surdo. tinha de morrer. fico com a sege e não hei de ir comprar outro. Morreu daí a quatro meses. entre os dois filhos. essa. deixe-se dessas coisas. casa armada. — Mas afinal. Olhe. Vi-lhe. morreu. Lentamente. baixaram muito. esta casa pouco mais pode valer de trinta contos. Você sabe que as casas. à semelhança de remorso. pode ser que não morresse precisamente do desastre.. a Sabina sabe que cu stou cinqüenta e oito. mas não se segue que os valesse. — Um Cubas! Morreu alguns dias depois da visita do ministro. e o colocam em cima e traspassam e apertam as correias.

— Não falta mais nada. eu ia dizer que não me convinha. já pelo lavor. fico com o Paulo e o Prudêncio. e acho -lhe razão. Faça isto. voltou. e agradeceu-mo. Sabina fora até a janela que dava para a chácara. peguei na mão de Sabina. creio. que por alguns instantes me fez esquecer os interesses. — Deixa. nem cedo. Fizeram-se finalmente as partilhas. bati -lhe levemente na palma. — Meus filhos. a velha prataria do tempo de Dom José I. irmamente. — Livre? — Há dois anos. continuou o Cotrim. a dera de presente a meu bisavô Luís Cubas. nem uma colherinha. Cotrim. Riu-se e perguntou-me a quem caberia o bule e a quem o açucareiro. e ainda presenciou uma pequena altercação. Sorri. — Isso nunca! não faço esmolas! disse ele. eu não faria questão nenhuma. se não fosse o desejo que sua irmã tem de ficar com ela. a porção mais grave da herança. E digo-lhes que. não cedi coisa nenhuma. custou-me muito a brigar com Sabina. não. quando vice-rei do Brasil. outro oficio! Estava tão agastado. já pela vetustez. apresentável. Era tão sublime esta pergunta. como bons irmãos que éramos. com a condição de ficar com a prata. fúrias de crianças. tudo isso com tão boa sombra. e precisa de uma copa digna.que o Cotrim interpretou o gesto como de aquiescência. que eu não sou seu cunhado. risos e tristezas da idade adulta. Pão seco é que eu não engulo. Tal qual a beleza de Marcela.. que entendi oferecer um meio de conciliação: dividir a prata. — Mas posso casar. — O Prudêncio está livre. e propôs ceder o Paulo e outro preto. Jantamos tristes. e eu não menos. que se esvaiu com as bexigas. não é de pão. Olhe.42 — Bem. dizia meu pai que o Conde da Cunha. é de manteiga. mas o Cotrim adiantou-se e disse a mesma coisa. enão perde nada. Quanto à prata. Sabina é casada. é muito mais sumário citar-nos a juízo e provar com testemunhas que Sabina não é sua irmã. Entretanto. A questão. Quer a sege. lembrem-se que meu irmão deixou um pão bem grande para ser repartido por todos. quer a prata. Você é solteiro. Meu tio cônego apareceu à sobremesa. — Para quê? interrompeu Sabina. Ora. dividimos muita vez esse pão da alegria e da miséria. quer o boleeiro. é só o que falta. porém.... mas nós estávamos brigados. creio que não libertou a prata? Tínhamos falado na prata. — Livre? Como seu pai arranjava estas coisas cá por casa. ainda assim. CAPÍTULO 47 O recluso . quando menos em juízo. — e depois de um instante. meu amigo. declarou que teríamos tempo de liquidar a pretensão. já pela origem da propriedade. vê se ele quer ficar também com a nossa roupa do corpo. — Quanto à prata. não recebe. Mas Cotrim: — Creio. — Nem cede? Abanei a cabeça. quer tudo. e depois desta pergunta. disse ele. Mas estávamos brigados. — Que é lá? redargüi. Éramos tão amigos! Jogos pueris. sem dar parte a ninguém! Está direito. disse minha irmã ao marido. e que Deus não é Deus.

43

Marcela, Sabina, Virgília... aí estou eu a fundir todos os contrastes, como se esses nomes e pessoas não fossem mais do que modos de ser da minha afeição interior. Pena de maus costumes, ata uma gravata ao estilo, veste-lhe um colete menos sórdido; e depois sim, depois vem comigo, entra nessa casa, estira-te nessa rede que me embalou a melhor parte dos anos que decorreram desde o inventário de meu pai até 1842.Vem; se te cheirar a algum aroma de toucador, não cuides que o mandei derramar para meu regalo; é um vestígio da N. ou da Z. ou da U. — que todas essas letras maiúsculas embalaram aí a sua elegante abjeção. Mas, se além do aroma, quiseres outra coisa, fica-te com o desejo, porque eu não guardei retratos, nem cartas, nem memórias; a mesma comoção esvaiu-se e só me ficaram as letras iniciais. Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou teatro, ou palestra, mas a maior parte do tempo passei-a comigo mesmo. Vivia; d eixava-me ir ao curso e recurso dos sucessos e dos dias, ora buliçoso, ora apático, entre a ambição e o desânimo. Escrevia política e fazia literatura. Mandava artigos e versos para as folhas públicas e cheguei a alcançar certa reputação de polemista e de poeta. Quando me lembrava do Lobo Neves, que era já deputado, e de Virgília, futura marquesa, perguntava a mim mesmo por que não seria melhor deputado e melhor marquês do que o Lobo Neves, — eu, que valia mais, muito mais do que ele, — e dizia isto a olhar para a ponta do nariz... CAPÍTULO 48 Um primo de Virgília — Sabe quem chegou ontem de São Paulo? Perguntou-me uma noite Luis Dutra. Luís Dutra era um primo de Virgília, que também privava com as musas. Os versos dele agradavam e valiam mais do que os meus; mas ele tinha necessidade da sanção de alguns, que lhe confirmasse o aplauso dos outros. Como fosse acanhado, não interrogava a ninguém; mas deleitava-se com ouvir alguma palavra de apreço; então criava novas forças e arremetia juvenilmente ao trabalho. Pobre Luís Dutra! Apenas publicava alguma coisa, corria à minha casa, e entrava a girar em volta de mim, à espreita de um juízo, de uma palavra, de um gesto, que lhe aprovasse a recente produção, e eu falava-lhe de mil coisas diferentes, — do último baile do Catete, da discussão das câmaras, de berlindas e cavalos, — de tudo, menos dos seus versos ou prosas. Ele respondia-me, a princípio com animação, depois mais frouxo, torcia a rédea da conversa para o assunto dele, abria um livro, perguntava-me se tinha algum trabalho novo, e eu dizia-lhe que sim ou que não, mas torcia a rédea para o outro lado, e lá ia ele atrás de mim, até que empacava de todo e saía triste. Minha intenção era fazê-lo duvidar de si mesmo, desanimá-lo, eliminá-lo. E tudo isto a olhar para a ponta do nariz... CAPÍTULO 49 A ponta do nariz Nariz, consciência sem remorsos, tu me valeste muito na vida... Já meditaste alguma vez no destino do nariz, amado leitor? A explicação do Doutor Pangloss é que o nariz foi criado para uso dos óculos, — e tal explicação confesso que até certo tempo me pareceu definitiva; mas veio um dia, em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de filosofia,atinei com a única, verdadeira e definitiva explicação. Com efeito, bastou-me atentar no costume do faquir. Sabe o leitor que o faquir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com o fim único de ver a luz celeste. Quando ele finca os olhos na ponta do nariz, perde o sentimento das coisas externas, embeleza-se no invisível,

44

apreende o impalpável, desvincula-se da terra, dissolve-se, eteriza-se. Essa sublimação do ser pela ponta do nariz é o fenômeno mais excelso do espírito, e a faculdade de a obter não pertence ao faquir somente: é universal. Cada homem tem necessidade e poder d e contemplar o seu próprio nariz, para o fim de ver a luz celeste, e tal contemplação, cujo efeito é a subordinação do universo a um nariz somente, constitui o equilíbrio das sociedades. Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o gênero humano não chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos. Ouço daqui uma objeção do leitor: — Como pode ser assim, diz ele, se nunca jamais ninguém não viu estarem os homens a contemplar o seu próprio nariz? Leitor obtuso, isso prova que nunca entraste no cérebro de um chapeleiro. Um chapeleiro passa por uma loja de chapéus; é a loja de um rival, que a abriu há dois anos; tinha então duas portas, hoje tem quatro; promete ter seis e oito. Nas vidraças ostentam-se os chapéus dorival; pelas portas entram os fregueses do rival; o chapeleiro compara aquela loja com a sua, que é mais antiga e tem só duas portas, e aqueles chapéus com os seus, menos buscados, ainda que de igual preço. Mortifica-se naturalmente; mas vai andando, concentrado, com os olhos para baixo ou para a frente, a indagar as causas da prosperidade do outro e do seu próprio atraso, quando ele chapeleiro é muito melhor chapeleiro do que o outro chapeleiro... Nesse instante é que os olhos se fixam na ponta do nariz. A conclusão, portanto, é que há duas forças capitais: o amor, que multiplica a espécie, e o nariz, que a subordina ao indivíduo. Procriação, equilíbrio. CAPÍTULO 50 Virgília casada — Quem chegou de São Paulo foi minha prima Virgília, casada com o Lobo Neves, continuou Luis Dutra. — Ah! — E só hoje é que eu soube uma coisa, seu maganão... — Que foi? — Que você quis casar com ela. — Idéias de meu pai. Quem lhe disse isso? — Ela mesma. Falei-lhe muito em você, e ela então contou-me tudo. No dia seguinte, estando na Rua do Ouvidor, à porta da tipografia do Plancher, vi assomar, a distância, uma mulher esplêndida. Era ela; só a reconheci a poucos passos, tão outra estava, a tal ponto a natureza e a arte lhe haviam dado o último apuro. Cortejamo-nos; ela seguiu; entrou com o marido na carruagem, que os esperava um pouco acima; fiquei atônito. Oito dias depois, encontrei-a num baile; creio que chegamos a trocar duas ou três palavras. Mas noutro baile, dado daí a um mês, em casa de uma senhora, que ornara os salões do primeiro reinado, e não desornava então os do segundo, a aproximação foi maior e mais longa, porque conversamos e valsamos. A valsa é uma deliciosa coisa. Valsamos; e não nego que, ao conchegar ao meu corpo aquele corpo flexível e magnífico,tive uma singular sensação, uma sensação de homem roubado. — Está muito calor, disse ela, logo que acabamos. Vamos ao terraço? — Não; pode constipar-se. Vamos à outra sala. Na outra sala estava Lobo Neves, que me fez muitos cumprimentos, acerca dos meus escritos políticos, acrescentando que nada dizia dos literários, por não entender deles; mas os políticos eram excelentes, bem pensados e bem escritos. Respondi-lhe com iguais esmeros de cortesia, e

45

separamo-nos contentes um do o outro. Cerca de três semanas depois recebi um convite dele para uma reunião íntima. Fui; Virgília recebeu-me com esta graciosa palavra: - O senhor hoje há de valsar comigo. — Em verdade, eu tinha fama e era valsista emérito; não admira que ela me preferisse. Valsamos uma vez, e mais outra vez. Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos perdeu. Creio que nessa noite apertei-lhe a mão com muita força, e ela deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçá-la e todos com os olhos em nós, e nos outros que também se abraçavam e giravam...Um delírio. CAPÍTULO 51 É minha! É minha! disse eu comigo, logo que a passei a outro cavalheiro; e confesso que durante o resto da noite, foi-me a idéia entranhando no espírito, não à força de martelo, mas de verruma, que é mais insinuativa. — É minha! dizia eu ao chegar à porta de casa. Mas aí, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessórios, luziu-me no chão uma coisa redonda e amarela. Abaixeime; era uma moeda de ouro, uma meia dobra. — É minha! repeti eu a rir-me, e meti-a no bolso. Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o caso, senti uns repelões da consciência, e uma voz que me perguntava por que diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara, mas somente achara na rua. Evidentemente não era minha; era d e outro, daquele que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum operário que não teria com que dar de comer à mulher e aos filhos; mas se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda e o melhor meio, o único meio, era fazê-lo por intermédio de um anúncio ou da polícia. Enviei um carta ao chefe de polícia, remetendo-lhe o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance, fizesse devolvê-lo às mãos do verdadeiro dono. Mandei a carta e almocei tranqüilo, posso até dizer que jubiloso. Minha consciência valsara tanto na véspera, que chegou a ficar sufocada, sem respiração; mas a restituição da meia dobra foi uma janela que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de ar puro, e a pobre dama respirou à larga. V entilai as consciências! não vos digo mais nada. Todavia, despido de quaisquer outras circunstâncias, o meu ato era bonito, porque exprimia um justo escrúpulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que ela me dizia, reclinada ao peitoril da janela aberta. — Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar não é só puro, é balsâmico, é uma transpiração dos eternos jardins. Queres ver o que fizeste, Cubas? E a boa d ama sacou um espelho e abriu-mo diante dos olhos. Vi, claramente vista, a meia dobra da véspera, redonda, brilhante, nítida, multiplicando-se por si mesma, — ser dez — depois trinta — depois quinhentas, — exprimindo assim o benefício que me daria na vida e na morte o simples ato da restituição. E eu espraiava todo o meu ser na contemplação daquele ato, revia-me nele, achava-me bom, talvez grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que é ter valsado um pouquinho mais. Assim, eu, Brás Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência. Talvez não entendas o que aí fica; talvez queiras uma coisa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho misterioso. Pois toma lá o embrulho misterioso.

era uma felicidade. dizia eu comigo. talvez um dote a alguma menina pobre.. três semanas depois. que era abastado. — Estes cinco contos. fui outra vez ao gabinete. não grande. nem desonra.. todavia não era crime achar dinheiro. creio que por vergonha. grunhir. Talvez uns dez mil réis mais. que estava na praia. assim por experiência. patear. um achado raro.. desandei o caminho e guiei para casa. Nada menos. Aventou o caso. e concluí que não. nem indigno dos benefícios da Providência. Cinco contos levam-se com trinta mil sentidos. e o embrulho resistiu. um bom acaso.. era talvez um lance da Providência. recontei nada menos de cinco contos de réis. — ninguém que pudesse ver a minha ação. mas não sem receio. Cinco contos em boas notas e dobras. Embrulhei-as de novo. tropecei num embrulho. Não se perdem cinco contos. como os ganhos de um jogo honesto e até direi que a minha felicidade era merecida. Era um achado. um acerto feliz. e ri -me dos meus cuidados maternais a respeito de cinco contos. uma coisa que parecia alguma coisa. ele lembrou-se logo da carta e da meia dobra que eu lhe remetera alguns dias antes. como se perde um lenço de tabaco.. Lá encontrei o chefe de polícia. que eu ouvi com impaciências de mulher histérica. não se lhes tiram os olhos de cima. respondi enfadado que a coisa não valia a pena de tamanho estrondo. atado com um barbante rijo. mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto. a praia estava deserta. tudo asseadinho e arranjadinho. cuja notícia andava já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento. nem as mãos. Lá me receberam com muitas e delicadas alusões ao caso da meia dobra. achei. Não digo bem.. E certo que não havia ali nenhuma testemunha externa. fazer o diabo. e bati. Era tarde. guinchar. alguns dias depois. cacarejar. nem crime. disse eu ao entrar no gabinete.. menos de dinheiro.. louvaramme então a modéstia. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente.. Podia ser uma pulha de rapazes. replicaram-me que era simplesmente grande.. ou outra coisa assim. no dia seguinte. houve menos tropeção q ue pontapé. Gostava de falar de todas as coisas. Não podia ser outra coisa. examinei o dinheiro. e até confesso que os deixei muito quietinhos na gaveta da secretária. se me visse abrir o embrulho e achar dentro um dúzia d e lenços velhos ou duas dúzias de goiabas podres. Ao jantar pareceu-me que um dos moleques falara a outro com os olhos. e vi. — um pescador curava as redes ainda mais longe. porque eu não me sentia mau. e cada um dos presentes acertou de contar uma anedota análoga.. que havia de assobiar. hei de ver. como a sorte grande. apupar. nem nada que embaciasse o caráter de um homem. mas apalpei-o e rejeitei a idéia. ao longe uns meninos brincavam. apanhei o embrulho e segui. indo eu a Botafogo.. numa praia. desfiz o embrulho. inclinei-me. a curiosidade estavaa guçada. Segui. — Vejamos. Crime é que não podia ser o achado. . Para não pensar mais naquilo fui de noite à casa do Lobo Neves. que instara muito comigo não deixasse de fre qüentar as recepções da mulher. nem o pensamento. Sobre o jantar. como as apostas de cavalo. assaltou-me outra vez o receio da pulha. em toda aquela semana pensei o menos que pude nos cinco contos. contei.46 CAPÍTULO 52 O embrulho misterioso Foi o caso que. — e porque eu me encolerizasse.— eu. Virgília pareceu saborear o meu procedimento. Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brasil. apalpam-se a miúdo. Relanceei os olhos em volta de m im. como deve estar a do leitor. Tive idéia de devolver o achado à praia. fui-lhe apresentado. mas limpo e corretamente feito. e principalmentede dinheiro achado. hei de empregá-los em alguma ação boa. E hesitei um instante. e para se perderem assim totalmente. De noite. é necessário que. lembrou-me bater-lhe com o pé. Um pouco adiante. Vendo um embrulho.

que. — uma hipocrisia paciente e sistemática.. abotoou-se a flor. Não pude dormir. folhuda e exuberante criatura dos bosques... — coitadinha. o derradeiro homem. — Outra de menos. na minha vida. Usualmente. mas outra hora vinha e engolia aquela. — breve como a ocasião. mas outra.. As fantasias tumultuavam-me cá dentro. nos meus olhos. talvez com frio. saudaram-se e ficaram de palestra. quando eu perdia o sono. sentado entre dois sacos. Aí achou ao peitoril de uma janela o pensamento de Virgília. ardiloso e traquinas. mas foi o mesmo que nada.. para saber a hora exata em que morre. — Outra de menos. estirei-me na cama. Lembra-me. Naquela noite não padeci essa triste sensação de enfado. as mesmas instituições morrem. parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. um beijo que ela me deu. trêmula. esse tique-taque soturno. a repetirem o velho diálogo de Adão e Eva. há de ter um relógio na algibeira. se o relógio parava. como tudo mais. de certo tempo em diante não ouvi coisa nenhuma. — trêmula de medo. de desesperos e de ciúmes. e a contá-las assim: — Outra de menos. à semelhança de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor das procissões. Não lhes poderei dizer. os dias que durou esse crescimento. de prazeres que rematavam em dor. de cóleras. e deleitosa. — vida de agitações. ardente como o amor. que. para que ele não deixasse de bater nunca. e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. de terrores. saltou pela janela fora e bateu as asas na direção da casa de Virgília. que se transformam ou acabam. para deixar à tona as agitações e o resto. e era verdade. de aflições que desabrochavam em alegria. dentro em pouco.47 CAPÍTULO 53 .. o relógio é definitivo e perpétuo. o da vida e o da morte. e os dois vadios ali postos. Virgília é que já se não lembrava da meia dobra.. ou o beijo. vinham umas sobre outras. vagaroso e seco... — era o que dizia.. Imaginava então um velho diabo. porque o meu pensamento. que é o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquele prólogo. Há umas plantas que nascem e crescem depressa. no meu pensamento. único freio de uma paixão sem freio. Nós a rolarmos na cama. Não ouvia os instantes perdidos. que uma hora pagava à farta e de sobra. mas os minutos ganhados. é certo.. a tirar as moedas da vida para dá-las à morte. necessitados de repouso. ao despedir-se do sol frio e gasto. brotou com tal ímpeto e tanta seiva.. e o resto do resto. se assim lhe quiserem chamar. Uniu-nos esse beijo único. eu dava-lhe corda. Ouvi as horas todas da noite. O mais singular é que. outras são tardias e pecas. CAPÍTULO 54 A pêndula Saí dali a saborear o beijo. — Outra de menos. o bater da pêndula fazia-me muito mal. sim. em certa noite. de remorsos... CAPÍTULO 55 O velho diálogo de Adão e Eva . Invenções há. ao certo. era a mais vasta.. porque era ao portão da chácara.. O nosso amor era daquelas. toda ela estava concentrada em mim. prólogo de uma vida de delícias.

..... BrásCubas ......! Virgília........................! CAPÍTULO 56 O momento oportuno Mas.......? Brás Cubas. .......... Virgília....... Não era oportuno o primeiro momento........ desfizemo-o e separamo-nos.....!.... porque não houvera paixão nenhuma.......... .................48 Brás Cubas................................. ? ......... se nenhum de nós estava verde para o amor. Estremeci....................................... .......... é certo........... — Que importuno! dizia ela fazendo uma careta de raiva.. Quem me explicará a razão dessa diferença? A razão não podia ser outra senão o momento oportuno. Tinha vindo de importuno a oportuno....................................? Virgília............. fitei-a........ não me tornara mais bonito nem mais elegante................................ tratamos o casamento........................................ à minha parte.......................... vi que a indignação era sincera........................................... distinção fundamental. ambos o estávamos para o nosso amor............................. CAPÍTULO 57 ........ torno a vê-la..... Virgília.Correm anos.................. A beleza de Virgília chegara............... BrásCubas................................. ..................... a frio........ com a breca! quem me explicará a razão desta diferença? Um dia vimo-nos........................ mas nós éramos substancialmente os mesmos......... mordeu-me apenas algum despeito e nada mais... a um alto grau de apuro....................................................... damos três ou quatro giros de valsa.... sem dor..........! BrásCubas.. e eis-nos a amar um ao outro com delírio......................... e eu......................... porque.................................................. ...............!.... BrásCubas... Esta explicação achei-a eu mesmo..................... um dia queVirgília se me queixava de um pintalegrete que lá ia e tenazmente a galanteava... dois anos depois do beijo......! Virgília............................................... Não há amor possível sem a oportunidade dos sujeitos.................................. então ocorreu-me que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquela mesma careta.. e compreendi logo toda a grandeza da minha evolução........... Virgília..............

Não ouvia missa aos domingos.. Era a nossa sorte amar-nos.. mas não falava dele às amigas. amávamos. nem por que estradas escusas. não há gratidão. porque nós éramos outra espécie de animal menos tardo. CAPÍTULO 58 Confidência Lobo Neves. nada.. e não é impossível que. disse-lhe muitas coisas bonitas. Entrei na política por gosto. não se vexava de mo dizer muitas vezes. contou-me que a vida política era um tecido de invejas. Já vê que reuni em mim só todos os motivos que levam o homem à vida pública. obra de talha. pelo menos. achava que Virgília era a perfeição mesma. Creia que tenho passado horas e dias. Um dia. sem poder abrir o vôo. interesses. Pobre Destino!Onde andarás agora. parecendo não ouvir coisa nenhuma.. a não ser o eco de seus próprios pensamentos. com três imagens dentro. e creio até que só ia às igrejas em dia de festa. ou. e um pouco por vaidade. as raivas sopitadas. chegou à porta escancarada. que era bonito! Soberbo cenário. como eu lhe dissesse que.. De fresta que era. despeitos.. por ambição. com sono. que todas as leis sociais no -lo impediam. problema que me assustou. Disse eu comigo que já agora seria o que Deus quisesse.. faltou-me só o interesse de outra natureza. um modelo. nada. Achávamo-nos jungidos um ao outro. amorável. ao contrário. Vira o teatro pelo lado da platéia. metia-me grandes sustos. que ele ouviu com aquela unção religiosa de um desejo que não quer acabar de morrer. de três palmos de altura. e quando havia lugar vago em alguma tribuna. ergueu . e. durante algumas semanas. Eis-nos a caminhar sem saber até onde. vaidades. e resmoneava todas as orações do catecismo. Mas para que o estou a fatigar com isto? Deixe -me ficar com as minhas amofinações. outra cara. grande procurador dos negócios humanos? Talvez estejas a criar pele nova. mais velhaco e lascivo. tachava de beatas as que eram só religiosas. é a vontade do céu.49 Destino Sim senhor.. Escriturei-me. como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatório: Di pari. e que a sua religião era uma espécie de camisa de flanela preservativa e clandestina. é verdade.. Tinha medo às trovoadas. murmurando: — Amo-te. e digo mal. um conjunto de qualidades sólidas e finas. a princípio.. com os olhos no ar. mas cuja solução entreguei ao destino. por família. elegante. movimento e graça na representação. — Sei o que lhe digo.. E a confiança não parava aí. não há nada. palavra. como explicaríamos a valsa e o resto? Virgília pensava a mesma coisa. Um dia confessou-me que trazia uma triste carcoma na existência. Agora.. Calou-se profundamente abatido. se assim não fora.. che vanno a giogo. mas evidentemente era engano meu. com fervor. Ah! nas estradas escusas. austera. Virgília era um pouco religiosa. tapava os ouvidos. replicou-me com tristeza. se tinha remorsos. tratei de combatê-la. as amarguras engolidas.. E esta palavra não vinha à toa. outro nome. Após alguns instantes. intrigas. Animei-o. comparando-nos a bois. faltava-lhe a glória pública. então compreendi que a ambição dele andava cansada de bater as asas. Algum tempo desconfiei que havia nela certo vexame de crer. Já me não lembra onde estava. Não pode imaginar o que tenho passado. nessas ocasiões. Virgília cingiu-me com os seus magníficos braços. Pura ilusão! Como adorasse a mulher. Não há constância de sentimentos. é porque me não tinha amor. Mas rezava todas as noites. Dias depois disse-me todos os seus tédios e desfalecimentos. perfídias. deram-me um papel que. agora é que nos amávamos deveras. Na alcova dela havia um oratoriozinho de jacarandá. come buoi. vida. Evidentemente havia aí uma crise de melancolia. outras maneiras. depois de me confessar que tinha momentos de remorsos.

dos oito primitivos botões restavam três. e o sorriso não perdera certo ar escarninho. Quem me dera agora o verbo solene de um Bossuet ou de Vieira. por que não serás ministro de Estado? Ao ouvi-lo. a comparação acabrunhava. andando. essa barba pintada de branco. as alegrias e travessuras. Conhecia-a. As calças. fui andando. ele suportava com firmeza o meu espanto. Lobo Neves recebeu-os com alegria. Entretanto. e eu fui andando. meu antigo companheiro de colégio. E Virgília que havia de gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara. Mas era. esse maltrapilho avelhentado. disse ele. ponderei-lhe que a rigor não se passara nada. que toda essa ruína fosse o Quincas Borba. impossível. magro e pálido. uma deliciosa sensação me refrescava todo o organismo. tão inteligente e abastado. a sege seguiu.. — ou. salvo o feitio. não pode ser. fui sentar-me num banco. e dentro um dos ministros. para contar tamanha desolação! Era o Quincas Borba. Recordei aquele companheiro de colégio. andando. a cor preta ia cedendo o passo a um amarelo sem brilho. de um jeito sombrio e triste. — trajada ao bizarro. Creio que trazia também colete. Ao pescoço flutuavam as pontas de uma gravata d e duas cores. CAPÍTULO 59 Um encontro Deve ser um vinho bem enérgico a política. e desabotoado. como diria o padre Bernardes. Imaginem agora uma sobrecasaca. E ria. — Não me lembra. Entrei. Uma vida de .. — esta idéia começou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me estar com os olhos nela.50 se eestendeu-me a mão: — O senhor há de rir-se de mim. chasqueava. Não pensei mais na tristeza de Lobo Neves. que me não pareceu desconhecida. Corteja-nos afetuosamente. — Não é preciso contar-lhe nada. — Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta anos. o Quincas Borba. que me mordia o espírito. — Aposto que me não conhece. No fim de algum tempo arredei os olhos. se a figura repelia. roto a espaços. Os olhos tinham um resto da expressão de outro tempo. os ossos da pessoa. as correrias nos morros. Não podia acabar de crer que essa figura esquálida.. a achar-lhe graça. mas logo depois natural. até que na Rua dos Barbonos vi uma sege.. mais larga do que pediam as carnes. o senhor adivinha tudo. o gracioso menino de outro tempo. e fui andando. tinha um negócio. fosse donde fosse. Entrava então no Passeio Público. a remoer aquela idéia. As roupas.. No fim de meia hora. apertando um colarinho de oito dias. a princípio um tanto postiça.. Senhor Doutor Cubas? disse ele. de brim pardo. ambas desmaiadas. o meu companheiro de colégio. ninguém diria que ele não era o mais afortunado dos homens. e riam todos. e perguntei a mim mesmo por que não seria eu como ele. Cubas? — Cubas. rútila e grande. conversava. que lhe era peculiar. tinham duas fortes joelheiras. — Por que não serás ministro. alto. e comparei o menino com o homem. pareciam ter escapado ao cativeiro de Babilônia. dizia eu comigo. Recuei espantado. — Sou o Borba.. O Quincas Borba! Não. mas desculpe aquele desabafo. e ria. enquanto as bainhas eram roídas pelo tacão de um botim sem misericórdia nem graxa. e tudo me parecia dizer a mesma coisa.. o pêlo desaparecia aos poucos.. senti a atração do abismo.. depois pediu-me que não referisse a ninguém o que se passara entrenós. disse ele enfim. literalmente. ao sair da casa de Lobo Neves. Entraram dois deputados e um chefe político da paróquia. um colete de seda escura. o chapéu era contemporâneo do de Gessler. — Por que não serei eu ministro? Esta idéia.

— In hoc signo vinces! bradou. Pois saí cedo. roupa fina. que diferença! Pudera. ainda hoje não almocei. saí muito cedo de casa. não precisa b ater na porta.. jóias. Se alguma vez nos virmos.. Com certeza. Um sorriso magnífico lhe abriu os lábios. Eu estava enjoado dessa abjeção tão cômica e tão triste. Ele. com um ar de indiferença. Não havia nele a resignação cristã. dando um bote para mim.Parece que a miséria lhe calejara a alma. Senti-lhe na mão uns estremeções de cobiça. CAPÍTULO 60 O abraço Cuidei que o pobre -diabo estivesse doido.. entendeu-me. — Moro na rua. Talvez contente. escolhi uma nota de cinco mil réis. disse ele. dê-me outra nota de cinco mil réis. e ia afastar-me. disse eu. poderei arranjar-lhe alguma coisa. e ainda não comi. — O senhor trata-se. — Pois está em suas mãos ver outras muitas.. — Não? — Não. e tão ruidosa expansão. E moças? Como vão elas? Está casado? — Não.. ia dizer meu amigo. uma nota de cinco mil réis. — a menos limpa. à esquerda de quem sobe. Arrastava os andrajos. escarranchando-se diante de mim. Uma coisa de nada.51 misérias. ficou sério. Tirei a carteira. E para quê? Eu nada peço. a não ser dinheiro. — Magnífico! disse ele. mas permita-me que não a vá buscar à sua casa. Depois começou a andar à roda de mim e a examinar-me muito. atalhou Quincas Borba. Lembra-se das nossas festas.. quando ele me pegou no pulso.. — Não quero saber onde mora. e olhou alguns instantes para o brilhante que eu trazia no dedo. nem a conformidade filosófica. elegante e. disse eu. Um inferno. parecia resignado aos golpes da fortuna. replicou. de atribulações e de lutas. Sabe onde moro? No terceiro degrau das escadas de São Francisco. dizendo que era alegria de pobre que não via. a ponto de lhe tirar a sensação de lama. como outrora a púrpura: com certa graça indolente. calou-se alguns instantes. desde muitos anos. e agitou-a entusiasmado. Ele recebeu-ma com os olhos cintilantes de cobiça. nem isso fiam as malditas quitandeiras. — e dei-lha. impassível. É uma espécie de . Nem as quitandeiras. disse ele. Levantou a nota ao ar. e pediu-me desculpa da alegria. Um inferno! o diabo! todos os diabos! Olhe.. e as casas de pasto não fiam. não! Digo-lhe que se trata. e não sei se será o último que não me fará nada.. que era arguto. conclui eu. — Trabalhando. E depois beijou-a... Fez um gesto de desdém. E alçando a mão direita e os ombros. e não sei até se contente. meu. dinheiro sim. — Sim? acudiu ele.. e preparei-me para sair. porque é necessário comer. — Não é o primeiro que me promete alguma coisa. Compare esses sapatos aos meus. — Nem eu. extremamente fresca. grotescamente sério. em que eu figurava de rei? Que trambolhão! Acabo mendigo. Casa fresca. que me produziu um sentimento misto de nojo e lástima. uns pruridos de posse. depois disse-me positivamente que não queria trabalhar. — Procure-me.. com muitos ademanes de ternura. uns dois vinténs de angu.. — Não vá sem eu lhe ensinar a minha filosofia da miséria.

de o trazer ao trabalho e ao respeito de sua pessoa enchia-me o coração. bem pesadas as coisas. Cinco minutos bastaram para olvidar inteiramente o Quincas Borba. CAPÍTULO 61 Um projeto Jantei triste. Indaguei do guarda. que me importa que exista. CAPÍTULO 62 O travesseiro Fui ter com Virgília. simplesmente enfadonhas. e então jantei depressa. Virgília era o travesseiro do meu espírito. Nisto caia a noite. Última desilusão! o Borba furtara-mo no abraço. ou até dolorosas. Saí de casa. Separamo-nos finalmente. mas era cedo. era a imagem do autor do furto. e as reminiscências de criança. com a camisa amarrotada do abraço. que molestes os olhos dos outros. andrajo do passado. adeus. abjeto.. — eram quatro horas . enfronhado em cambraia e bruxelas. Era ali que ele costumava repousar de todas as sensações más. começou a abrir em mim a flor amarela e mórbida do capítulo 25. mendigo e gatuno. um travesseiro mole. Já não dominava em mim a parte simpática da sensação. não qual fora deveras. mas já não o achei. porque o encontro do Quincas Borba tornara me aos olhos o passado.. eu começava a sentir um bem-estar. Outra vez pensei no Quincas Borba.. mas um passado roto. não pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outrora. para fechar os olhos e dormir? CAPÍTULO 63 Fujamos! Ai! nem sempre dormir. disse-me que efetivamente “esse sujeito" ia por ali às vezes. iria achá-los à mesa. E. a ver se o achava. Três semanas depois. bem depressa esqueci o Quincas Borba. Desde a sopa. Quisera ver-lhe a miséria digna. Escrófula da vida... indo à casa de Virgilia. cinco minutos de uma contemplação mútua. — Adeus! — E obrigado.. mas a outra. tépido. Não era impossível encontrá-lo noutra ocasião. Contudo. e a conclusão. Não era a falta do relógio que me pungia. não podia ser. Fui. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto? E dizendo isto abraçou-me com tal ímpeto que não pude evitá-lo. cinco minutos e um beijo. disse comigo. Virgília era o presente.. prometi a mim mesmo lá voltar. e tive então um desejo de tornar ao Passeio Público... vejo que está impaciente. a idéia de o regenerar surgiume como uma forte necessidade. uma admiração de mim próprio. fui ter com Virgília. para correr à casa de Virgília. — Ora adeus! Vamos jantar.. e outra vez a comparação. com as mãos presas umas nas outras. não era outra a razão da existência de Virgília. enfadado e triste. se eu tenho dois palmos de um travesseiro divino. — A que horas? — Não tem hora certa. para escapar às opressões do passado. aromático. eu a passo largo. eu queria refugiar-me nele. Agora. Meto a mão no colete e não acho o relógio. entristecer-me e encarar o abismo que separa as esperanças de um tempo da realidade de outro tempo. A necessidade de o regenerar.52 orgulho. uma elevação. E lá se foi a lembrança do Quincas Borba.

Com os braços ao meu pescoço. e eu fiquei a olhar para as cortinas. Virgília empalidecera muito. deixou cair os braços e sentou-se no canapé. — De quê? — De fugir. A beleza de Virgília tinha agora um tom grandioso. Virgília ouvia-me calada.. Noto agora umas esquisitices nele. Tarde ou cedo. nem moral. não sei se vacilante na escolha. Logo que apareceu na chácara. — Que é? — Amas-me? Oh! suspirou ela. cingindo-me os braços ao pescoço. disse que podiam ser cuidados políticos. eu proponho -te uma coisa. deixei-me estar. e comecei a rufar com os dedos no peitoril. nem nenhum outro liame. Esteve assim alguns instantes. eu deixei-me estar a vê-los. Virgília chamou-me. insisti na proposta. a namorar-lhe a boca. na roça ou na cidade. porque eu o matarei. se o tivesse ali à mão. mas o olhar parece que não é o mesmo. pode ser que sim. e ele não a amava tanto que pudesse ir buscá-la. depois disse: — Não escaparíamos talvez. Iremos para onde nos for mais cômodo. Não tremas assim.. se ela estivesse longe. juro-te. disse-lhe todas as vantagens de uma vida a sós. a moral e o marido.. — Pode ser. não há dúvida. perguntei-lhe se tinha coragem. fito nela. Fui-me a ela. Virgília concordou que seriam. Mostrei-lhe que não. que davam uma sensação singular de luz úmida. ele iria ter comigo e matava-me do mesmo modo. lobrigava. Interrompi-me.. Virgília fez um gesto de espanto e quase indignação. mas. que não possuíra antes de casar. e eu tinha os meios de viver onde quer que houvesse ar puro e muito sol. uma casa grande ou pequena.. e insaciável como a morte. só as grandes paixões são capazes de grandes ações. e ele também.. ainda esta noite acordei. ele não chegaria até lá. à tua vontade. ouves? perdida. Ao contrário.. Uma janela aberta deixava entrar o vento. ele pode descobrir alguma coisa. rasgado e puro. sem zelos. deslacei-lhe as mãos. sem me dizer palavra. — Virgília. Talvez seja ilusão. nem terrores. O mundo era assaz vasto.. onde trocáramos o beijo inicial. Empunhara o binóculo da imaginação.. que não hei de rubricar esta lauda com um pingo de sangue.. mas não apática nem fria. que sacudia frouxamente as cortinas. em que exprimia mudamente tudo quanto pode dizer a pupila humana. Mas o tempo urgia. deixou-se ficar a olhar para mim. Sim? fujamos. tinha o aspecto das naturezas cálidas. em que não havia Lobo Neves. respondi eu. resumia todo o amor. Resumia-o sobretudo naquela ocasião. Estávamos na sala de visitas. Não sei. com os seus grandes e belos olhos. peguei-lhe nos pulsos. descansa. ou na Europa.. calada. eliminados assim o mundo. a desejar estrangular o marido. mas eu penso que ele d esconfia. ao longe. tranqüilamente bela. disse. na realidade. leitora pálida. uma casa nossa. e. fresca como a madrugada.. e não haja perigos para ti. aterrada. uma vida nossa. que nos tolhesse a expansão da vontade. onde te parecer.. Fui até a janela. e estarás perdida. estava sonhando que ele me ia matar. Esta idéia embriagou-me. se aterrada com a idéia da descoberta e da morte. onde vivamos um para o outro. que dava justamente para a chácara. fiz- . Trata-me bem.. onde ninguém nos aborreça.. como as estátuas. um mundo nosso. sem as ver. Não me quis dizer o que era. Era dessas figuras talhadas em pentélico. murmurou que o marido gostava muito dela. Durmo mal. a remoer os meus zelos.. respirando muito. Justamente. nesse instante. e podia-se dizer que. de um lavor nobre. mas ficou ainda muito excitada e nervosa. — Virgília amava-me com fúria. como eu instasse muito: — Creio que o Damião desconfia alguma coisa. apareceu na chácara o Lobo Neves.53 da tarde. morta. — achei-a triste e abatida. Tranqüilizei-a como pude. aquela resposta era a verdade patente.. nem casamento. bastava penetrar naquela habitação dos anjos.. nem aflições.

uma na câmara e outra na rua. fiquei um pouco mais. Não olhei uma só vez para ela durante o jantar. o colo de leite. afastei-me de ambos. acompanhado de uma palavra graciosa. Lobo Neves acompanhava-me com muita placidez e dignidade. e tomou a perguntar o que era. da ópera que se cantava. doutor. acerca da toilette que faria. com o vestido soberbo que havia de ter. beijou-o muitas vezes. ou se me lembrasse. em voz baixa. acrescentou. — Não. pensava eu. Julguei. compôs-lhe a gravata. era dar prova de fraqueza. Via-a dali mesmo. Virgília retirou-se apressadamente da sala. Entrara sério. Virgília tornou à sala — Ah! respirou Lobo Neves. — Para a Candiani? — Para a Candiani. e tudo aquilo me irritava também. — Um. E saí CAPÍTULO 64 A transação Vaguei pelas ruas e recolhi-me às nove horas. deu um beijo no filho. e de não sei que outras coisas. diz que você possui o melhor vinho do Rio de Janeiro. aturei duas maçadas de primeira ordem. — Cansado? perguntei eu. Às onze horas estava arrependido de não ter ido ao teatro. onde ele entrou daí a três minutos. — os braços que eram meus. o Nhonhô. bebi mais do que costumava. que trocou logo por uma verdadeira expansão de jovialidade. E esta idéia fez-me sucessivamente desesperado e frio. os cabelos postos em bandós. levantou-o ao ar. Já estava excitado. — Muito. — Pode ser. reclinada no camarote. creio que falaria de teologia. com os seus magníficos braços nus.. e sair. costume seu. — Nada menos que um camarote.. menos do que era preciso para perder a razão. Despedi-me apenas nos levantamos da mesa. Virgília bateu palmas. — Você janta conosco. Era a primeira grande cólera que eu sentia contra Virgília. só meus — fascinando os olhos de todos.54 lhe um gesto amigo. — Que é? perguntou Virgília. da imprensa. levantou-se. confirmou a mulher. do ministério. sentando-se preguiçosamente no sofá. — Veio para isso mesmo. consultei o relógio. que destoava muito da figura. derramando os olhos de um modo distraído. atirei-me a ler e escrever. ainda assim. pegou-lhe numa das mãos. o futuro bacharel do capítulo. que tinha ódio ao menino. disposto a esquecê-la e a matá-la. pesado. se a soubesse. quando viu chegar o filho. tomou-o nos braços. desmenti-o. à . que chegaria tarde. Virgília começava a aborrecer-se de mim. Não podendo dormir. — Está cá há muito tempo? Disse-me ele. olhando para a mulher. Ao jantar. e até com certa benevolência superior. com um ar de alegria pueril. disse-me Lobo Neves.consultou o marido. Adivinha! Virgília sentara-se ao lado dele. depois perguntou se o camarote era de boca ou do centro. não? perguntou Lobo Neves. falei de política. Eu. porém. E ainda temos terceira. demais. — Nem por isso bebe muito. e me tornava mais amargo e longo o jantar. Evidentemente. quis vestir-me. — Até logo.

e o sorriso que lhe derreava os cantos da boca trazia a mesma expressão de candidez. — Você não me ama. solitária. Sorrimos ambos. em alguma rua escondida. olhe que podem ouvi-la. — a torná-la minha. se o quiser. pedi-lhe que esquecesse tudo. que me perdoasse. acrescentei que talvez houvesse nele muita dissimulação. — Já se apeou? perguntou Virgília ao escravo. em alguma rua escusa. Se eu ao menos soubesse o que é que fiz! —Mas não sei. estou certa de que ele me irá buscar ao fim do mundo. acudiu Virgília. peguei-lhe nas mãos. fui cedo à casa deVirgília. — Eu? — Sim. traveilhe dos pulsos. que eu era um doido. a despenteá-la com as minhas mãos sôfregas e lascivas. mate -me você. recalcava os soluços. disse eu. não é? Acho a idéia boa. Se alguém a ouvisse. argüi-la de quê? Não era culpa dela se o marido a amava. não deixo meu filho. Depois. — Que ouçam! Não me importa. aliás. . sussurrei-lhe os nomes mais doces da nossa intimidade. Não posso. Via-a assim. CAPÍTULO 65 Olheiros e Eescutas Interrompeu-nos o rumor de um carro na chácara. Disse-lhe que não me fizera coisa nenhuma. — Se a senhora está assim com dor de cabeça. disse eu. metia o lenço na boca.. Não me dirá o que foi? — Que foi o quê? Creio que não houve nada. foi a sua resposta.. e duas lágrimas rebentaram-lhe dos olhos. metida num j ardim. No dia seguinte. a pôr de lado as jóias e sedas. somente minha. — Acabou. e doía-me que a vissem outros.. não me pude ter. se o levar.. Tratou-me ontem como se me tivesse ódio. parece que o melhor é não receber. nunca me teve a menor soma de amor. mostrei-lhe o perigo. — Não posso. começava a despi-la. — Pensei nisso. a torná-la. disse ela daí a alguns instantes. beijei-as. Virgília enxugou os olhos e estendeu-me a mão. minutos depois.. Não tive ânimo de argüir. — não sei se mais bela.. — Que houve? perguntei. que eu tinha necessariamente ciúmes do outro. que nem sempre o podia suportar de cara alegre. — Nada? Tratou-me como não se trata um cachorro. é uma egoísta! prefere ver-me padecer todos os dias. respondi: — Você é que nunca me teve amor. mas que a minha insânia provinha dela e com ela acabaria. tornávamos ao assunto da casinha solitária.. Veio um escravo dizer que era a baronesa X. acabou. e que o melhor meio de fechar a porta aos sustos e às dissensões era aceitar a minha idéia da véspera. e para não atrair gente. afastando-me. Ah! meu Deus! meu Deus! — Sossegue..55 maneira do tempo. e os brilhantes. Virgília consultou-me com os olhos.. uma casinha só nossa. e. A esta palavra. mas para que fugir? Disse isto com o tom ingênuo e preguiçoso de quem não cuida em mal. se mais natural. menos luzidios que os olhos dela. Então.. o terror apaziguou-a. Estava ainda excitada. Inclinei-me para ela. achei-a com os olhos vermelhos de chorar. é uma egoísta sem nome! Virgília desatou a chorar. explosão que me desconcertou.ou deixe -me morrer. unicamente minha. perdia-se tudo.

Sim. Com efeito. iam-me as pernas levando. era um grande avaro. Onde se mete o senhor que não aparece em parte nenhuma? Pois olhe. e de o apresentar aos conhecidos. A Candiani esteve deliciosa. Os outros. Havia ainda o primo de Virgília. e me deixáveis com o desejo a avoaçar. enfim. como as pestanas eram rótulas. A baronesa era uma das pessoas que mais desconfiavam de nós. Havia. Quando estes. CAPÍTULO 66 As pernas Ora. mas. porte elegante e maneiras finas. ao tempo que ela olhava só.. vestígios de beleza. vários gamenhos. foi um raio de luz. ruas abaixo. zangava-me quando vos fatigáveis. Não falava muito nem sempre. olhavam. ou perto disso. nenhum merecimento da ação me cabe. umas duas ou três senhoras. não acha. Que mulher! Gosta da Candiani? É natural. Os senhores são todos os mesmos. risonha.. se mostravam contentes da apresentação. o Luís Dutra. — Vá. A segunda pessoa era um parente de Virgília. não tendo deliberadamente andado.. desembainhava um olhar afiado e comprido. Virgília? Pois. falavam. com o olhar fixo. chupado e amarelado. não há dúvida que Luís Dutra exultava de felicidade. porque deixava cair as pálpebras. quando não podíeis ir além de certo ponto.. — Bons olhos o vejam! explodiu ela. — Qual! Algum namoro. ontem admirou-me não o ver no teatro. remexendo a alma e a vida dos outros. que eu.. mas. mas se me dá licença vou consultar a certidão de batismo. que a fizeram. mas era impossível mostrar maior alvoroço. porque o senhor deve estar com quarenta anos. que pareciam quarenta. tinha-vos em má conta. Os olhos porém luziam de muita vida e saúde. levando a astúcia ao ponto de olhar às vezes para dentro de si. vós deixastes à minha cabeça o . dizia-me que. Aquele caso. Mas por que é que o senhor não foi ontem ao teatro? — Uma enxaqueca. que é pior. que uma só italiana vale por cinco brasileiras. possuía a grande arte de escutar os outros. nas primeiras semanas. até então. Eu mesmo. quando o Viegas parecia espreitar. no camarote. que padecia de um reumatismo teimoso. de modo que insensivelmente me achei à porta do Hotel Pharoux. não sabendo o que era.. mas eu curava-me da felicidade com a esperança de que ele nos não denunciasse nunca. e tudo isso constituía uma verdadeira floresta de olheiros e escutas. não lhe tinha medo nenhum. Chegando à rua. à semelhança de galinha atada pelos pés. arrependi-me de ter saído. de uma asma não menos teimosa e de uma lesão do coração: e ra um hospital concentrado. porém. vá. Virgília. por entre os quais tínhamos de resvalar com a tática e maciez das cobras. ligando o nome à pessoa. Não tem quarenta anos? — Não lhe posso dizer com certeza. Cinqüenta e cinco anos. meu amigo. o barão está com umas saudades suas. apresse-se. um cangalho de setenta invernos. reclinava-se então na cadeira.. enquanto eu pensava naquela gente. estava simplesmente contando dinheiro. Abençoadas pernas! E há quem vos trate com desdém ou indiferença. e os fâmulos. Não sei se contava comigo na sala. E estendendo-me a mão: — Até quando?Sábado ficamos em casa. pernas amigas. respondi eu. e sim às pernas. agora desarmava à força de lhe falar nos versos e prosas. ora fixa. e deixava-se estar. macia. gesticulavam. ora móbil. o Viegas. O barão dizia ontem. Que desaforo! e desaforo de velho.56 — Já se apeou. De costume jantava aí. que naturalmente se desforravam assim da condição servil. espiando-os. diz que precisa muito de falar com sinhá! — Que entre! A baronesa entrou daí a pouco.. o olhar continuava o seu oficio.

Concluiu dizendo que não sabia que fazer. meu cúmplice e meu inimigo. expressamente feita num recanto da Gamboa. e dissestes uma à outra: — Ele precisa comer. mistério e solidão. embrulhada em papel de seda.. — a unidade moral de todas as coisas pela exclusão das que me eram contrárias. Não nos veremos mais. sem olheiros. A casa resgatava-me tudo. vamos levá-lo ao Pharoux. uma parte fique lá com a dama. amáveis pernas. esqueça-me para sempre. abria-a. Com efeito. estava arrependida. CAPÍTULO 68 O vergalho . o que me obriga a imortalizar-vos nesta página. e o despeito morreu depressa. enfim a p resença do filho deles. que me mandara o Lobo Neves. Um brinco! Convencionamos que iria morar ali uma mulher. Vá lá. sem escutas. apenas fechou a noite. na noite anterior. Desconfiam de nós. em cuja casa fora costureira e agregada. corri à casa de Virgília..57 trabalho de pensar emVirgília. Não se lhe diria tudo. E cumpristes à risca o vosso propósito. são horas de jantar.. CAPÍTULO 67 A casinha Jantei e fui a casa. tudo está perdido. somente nosso. nosso. e ornada de fitinhas cor-de-rosa. arranjemos a casinha. Vi que era impossível separar duas coisas que no espírito dela estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração pública." Foi um golpe esta carta. sem leis.. Lá achei uma caixa de charutos. Era tempo. em suma. conhecida de Virgília. com quatro janelas na frente e duas de cada lado todas com venezianas cor de tijolo. A baronesa disse-lhe francamente que se falara muito. Ao vão de uma janela. e tirei este bilhete: “Meu B. e finalmente chegue são e salvo ao hotel. a. que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade. sem instituições. contou-me o que se passara com a baronesa. Um brinco! Nova. Virgília exercia sobre ela verdadeira fascinação. de todas essas coisas. sem baronesas. superior. Agora podia evitar os jantares freqüentes. do canapé. éramos objeto da suspeita pública. o chá de todas as noites. insinuei. do tapete. Talvez senti alguma coisa semelhante a despeito. a propósito da minha ausência do camarote do Lobo Neves. caiada de fresco. dividamos a consciência dele. esqueçase da infeliz V . tire o chapéu aos conhecidos. Entendi. uma só vontade. o mundo vulgar terminaria à porta — dali para dentro era o infinito. uma aparência de posse exclusiva. ela aceitaria facilmente o resto. tinham comentado as minhas relações na casa. e a fuga só lhe deixava uma. Já estava cansado das cortinas do outro. um só casal. alguma coisa que me faria adormecer a consciência e resguardar o decoro. — Nunca. dias depois. jardim na frente. — um só mundo. — trepadeira nos cantos. tomemos nós a outra. um mundo eterno. não abalroe as gentes e as carroças. achei-a. para que e le vá direito. uma só afeição. não obstante. no teatro. Virgília era capaz de iguais e grandes sacrifícios para conservar ambas as vantagens. mas as comoções daqueles dois dias eram já muitas. Adeus. das cadeiras. de domínio absoluto. Para mim era aquilo uma situação nova do nosso amor. uma só vida. respondeu ela abanando a cabeça. — O melhor é fugirmos. excepcional.

mas . três vezes maior. era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir. Não serias capaz de lá entrar hoje. dormir. Pobre Romualdo! A gente ria da resposta. não pede. transmitindo-as a outro. seria matéria para um bom capítulo. e a propósito de um vergalho recebido e transferido. perdão!” Mas o primeiro não fazia caso. e. — Está bom. meu senhor. e talvez alegre. punha-lhe um freio na boca. Exteriormente. aliás. mas só exteriormente. perdão. Entra para casa. que era livre. ele deteve-se logo e pediu-me a bênção. — É. e tomei tanto tártaro. e ia-lhe pagando. Era a sua grande e única mania. Segui caminho. e tinha uma curiosa maneira de a explicar. CAPÍTULO 70 Dona Plácida Voltemos à casinha. a desfiar uma infinidade de reflexões. dos braços. perdoa-lhe. das pernas. meu senhor. e desancava-o sem compaixão. e até rei dos Tártaros. era torvo o episódio do Valongo. força é confessar que é muito melhor voltar à casinha da Gamboa. Parei. Agora. é o meu fraco. mas adoeci. curioso leitor. apodreceu. e com razão. porém. respondia com uma vergalhada nova. dispunha de si mesmo. Eu gosto dos capítulos alegres. Outrora fui Romualdo. Interrompeu-mas um ajuntamento.58 Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo. olhei. eu não lhe acho graça nenhuma. com alto juro. ele gemia e sofria. Cheguei-me. tinha algum chiste. em criança. podia trabalhar. bêbado! Saí do grupo. perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele. deixemos os Romualdos e Prudêncios. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas re cebidas. gemia somente estas únicas palavras: — “Não. — Toma. diabo! dizia ele. e o proprietário deitou-a abaixo para substituí-la por outra. que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas. mas é provável que o leitor não se ria. bêbado! — Meu senhor! gemia o outro. no papel.. as quantias que de mim recebera. — Cala a boca. besta! replicava o vergalho. desagrilhoado da antiga condição. — Eu sou o ilustre Tamerlão. Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um miolo gaiato. agora é que ele se desbancava: comprou um escravo. dizia ele. — Fez-te alguma coisa? — É um vadio e um bêbado muito grande. que fiquei Tártaro. tanto tártaro. fino e até profundo. toma mais perdão.. — Pois não. sim nhonhô. envelheceu. folgar. disse eu. e ele deixou a quitanda para ir na venda beber. por aqueleValongo fora. Ainda hoje deixei ele na quitanda. que sinto haver inteiramente perdido. montava-o. O tártaro tem a virtude de fazer Tártaros. Eu. — o que meu pai libertara alguns anos antes. Ouvida. tanto tártaro. enquanto eu ia lá embaixo na cidade. logo depois de ver e ajustar a casa. justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio. a cada súplica. nhonhô manda. m as assim contada. Vejam as sutilezas do maroto! CAPÍTULO 69 Um grão de sandice Este caso faz-me lembrar um doido que conheci. enegreceu. tanto tártaro. Chamava-se Romualdo e dizia ser Tamerlão.

aceitou-as todas. e não me dava por ofendido. forcejava por obter-lhe a benevolência. e o livro anda devagar. imaginei uma história patética dos meus amores com Virgília. e eu não quero dar pasto à crítica do futuro. Heis de cair. que lhes deu algumas ilusões. fiz-lhe um pecúlio de cinco contos.. é certo que não levantou os olhos para mim durante os primeiros dois meses. urram. séria.. escorregam e caem.. examina-as por dentro e por fora. heis de cair. tratava-a com carinho e respeito. E vê agora a neutralidade deste globo. por todos os lados. andam e param. Dona Plácida não rejeitou uma só página da novela. E caem! — Folhas misérrimas do meu cipreste . e as restantes. ameaçam o céu. depois outra. designou as alfaias mais idôneas. Ao menos. Esta é a grande vantagem da morte. Olhai: daqui a setenta anos. a dureza do marido. Virgília fez daquilo um brinco. Era uma necessidade da consciência.inclina-se sobre a página anterior. CAPÍTULO 72 O bibliômano Talvez suprima o capítulo anterior. suposta. Dona Plácida agradeceu-me com lágrimas nos olhos. e tudo ficou sob a guarda de Dona Plácida. — como um pão para a velhice. entre outros motivos. e nunca mais deixou de rezar por mim. CAPÍTULO 71 O senão do livro Começo a arrepender-me deste livro. treslê. através dos espaços. nas últimas linhas. vício grave. tu amas a narração direita e nutrida. e. verdadeira dona da casa. Foi assim que lhe acabou o nojo. gargalham. e doía-lhe o ofício. e. a certos respeitos. às vezes triste. e não sei que outros toques de novela. realmente. Não que ele me canse. Mas o livro é enfadonho. guinam à direita e à esquerda. saca uma sílaba. esfrega-as no joelho. O mundo era estreito para Alexandre. diante de uma imagem da Virgem que tinha no quarto. um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas. mas afinal cedeu. grisalho. Tu tens pressa de envelhecer. que não ama nenhuma outra coisa além dos livros. amarelo.59 juro-te que muito menor que a primeira. carrancuda. Ao cabo de seis meses quem nos visse a todos três juntos diria que Dona Plácida era minha sogra. depois um ferreiro. Eu queria angariá-la. Quando obtive a confiança. um sujeito magro. e aliás ínfimo. e nada. lê. e dispô-las com a intuição estética da mulher elegante. Custou-lhe muito a aceitar a casa. falava-me com eles baixos. cheira a sepulcro. que. o estilo regular e fluente. Não fui ingrato. — os cinco contos achados em Botafogo. contra a luz. um caso anterior ao casamento. Amanhã pode l á dormir um eclesiástico. eu não tenho que fazer. leitor. resmungam. uma frase muito parecida com despropósito. também não deixa olhos para chorar. e este livro e o meu estilo são como os ébrios. a princípio: tinha nojo de si mesma. eu levei para lá alguns livros. desengonça as palavras. depois a confiança. porque o maior defeito deste livro és tu. espaneja-as. Creio que chorava. . se não deixa boca para rir. depois um assassino. mais outra. e. dar-ia uma lágrima de saudade. farejara a intenção. traz certa contração cadavérica. como uma lancha de náufragos. depois um poeta. expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. há aí. como quaisquer outras belas e vistosas. a ver se lhe descobre o despropósito. a resistência do pai. lava-as. não acha o despropósito. relê. que vai dar à costa: dorme hoje um casal de virtudes no mesmo espaço de chão que sofreu um casal de pecados. que nos leva. e todos abençoarão esse canto de terra.. se eu tivesse olhos. todas as noites.

reatávamos a palestra. mas Dona Plácida não aceitava nunca. Não conhece o autor. de criancices. Único! Vós. pesquisou. Comprou-o por duzentos réis. na casinha da Gamboa. de olhares ternos. na pessoa de Dona Plácida. Lá continua o homem inclinado sobre a página. longe de termos horror ao método.. ficaram a seu cargo a filha. Note-se que. O pior é o despropósito. Comíamos. e adivinhais. — Você parece que não gosta mais de mim. compatíveis com a idade.Virgília acariciou-a muito. é verdade. Ele rejeitaria a coroa das Índias. todos os museus da Itália e da Holanda. com uma lente no olho direito. uma infinidade desses apartes do coração. a caminho do poder. se a houver por baixo daquela frase obscura.. a p ratinha rendeu-me uma confidência de Dona Plácida. disse-lhe um dia Virgília. todo entregue à nobre e áspera função de decifrar o despropósito.Viúva e moça. frutas. Fecha o livro. senão que padeceis a mania deles. e conseguintemente este capítulo. Ele dá de ombros. na qual relate o achado do livro e a descoberta da sublimidade. e veio a descobrir que era um exemplar único. como eu reato a narração. o ininterrupto discurso do amor. Ela deixava-me. cansada de trabalhar. Um exemplar único! Nesse momento passa-lhe por baixo da janela um César ou um Cromwell. Ao cabo. para desatá-la outra vez. como eu a achasse só em casa. vós sabeis mui bem o valor desta palavra. Se a idéia vos parece indecorosa. — por acaso.. ou ia para o interior ouvir as denguices de Dona Plácida. o nosso luncheon. e a mãe. não descobre nada e contenta-se com a posse. Indagou. Não gosto de Iaiá! Mas então de quem é que eu gostaria neste mundo? E. Que melhor não era dizer as coisas lisamente. fecha a janela. no pardieiro de um alfarrabista. até molharem lhe os olhos. portanto. onde às vezes fazíamos a nossa patuscada. Um exemplar único! CAPÍTULO 73 O luncheon O despropósito fez-me perder outro capítulo. de tão fixo que era. — Virgem Nossa Senhora! exclamou a boa dama alçando as mãos para o teto. chega-se à janela e mostra-o ao sol. mira-o. travamos palestra. uma vez que fosse único. pegando-lhe nas mãos. direi que ele é o que eram as minhas refeições com Virgília. este nome de Brás Cubas não vem nos seus dicionários biográficos. com dois.60 É um bibliômano. eu deixei-lhe uma pratinha na algibeira do vestido. Vinho. com amor. que não só amais os livros. Dias depois. se os houvesse de trocar por esse único exemplar. era nosso costume convidá-lo. Às vezes vinha o arrufo temperar o nímio adocicado da situação. olhou-a fixamente. fixamente. Cinco ou dez minutos depois. que morreu tísico algum tempo depois. faria a mesma coisa com o Almanac de Laemmert. o papado. compotas. refugiava-se num canto do canapé. remira-o. aliás o verdadeiro. sem todos estes solavancos! Já comparei o meu estilo ao andar dos ébrios. Já prometeu a si mesmo escrever uma breve memória. e não porque seja o das minhas Memórias. Era filha natural de um sacristão da Sé e de uma mulher que fazia doces para fora. Achou o volume. Aos quinze ou dezesseis casou com um alfaiate. e ela contou-me em breves termos a sua história.. Já então ralava coco e fazia não sei que outros trabalhos de doceira. deixando-lhe uma filha. esgaravatou. estira-se na rede e folheia o livro devagar. Tinha de sustentar a três . a sentar-se conosco à mesa. fixamente. aos goles. mas era um comer virgulado de palavrinhas doces. CAPÍTULO 74 História de Dona Plácida Não te arrependas de ser generoso. as delícias de meu bibliômano. Perdeu o pai aos dez anos.

— Não se cria isto à toa. Depois. para comer e não cair. amaram-se. Trabalhava muito. porém. a não ser namorar os capadócios que lhe rondavam a rótula. Dona Plácida despediu-o do mesmo modo. observo que é preciso lê-lo para entender o que eu disse comigo. Foi por esse tempo que conheci a família de Iaiá: boa gente. chorou muito. de dia e de noite.. as pontas dos dedos picadas da agulha. ajudando à missa. a vida não se arranja à toa.. Um dos pretendentes conseguiu fazer-se aceito. . Deus sabe como é que isto se cria. não é? Dona Plácida jurou-me que não esperava fidalgo nenhum. Ora esta! Moços tão bons como o Policarpo da venda.. enfim. faziam cumprimentos. Depois vivi como Deus foi servido. coitado. A mãe tinha a rabugem do temperamento. quando tinha de ir entregar costuras. a mãe chegou a receber propostas de dinheiro. Eu tinha um medo de acabar na rua. Dona Plácida vivia com imensos cuidados. foi com um sujeito. Fazia doces. pois. CAPÍTULO 75 Comigo Podendo acontecer que algum dos meus leitores tenha pulado o capítulo anterior. ao acender os altares. mortificava a filha para que tomasse um dos maridos de empréstimo e de ocasião que lha pediam. creia que me te ria casado. um ano.... queimando os dedos ao fogão. e começou a rir.. não a beleza. Eu fiquei a olhar para a ponta do botim. perdeu a mãe. A filha estava com quatorze anos. Felizmente. costurando. viu entrar a dama. Era gênio. retirou-se da sala. mais de um ano. Com isto iamse passando os anos. E bradava: Queres ser melhor do que eu? Não sei donde te vem essas fidúcias de pessoa rica. olhe estas mãos. não. Sabia muito bem que a mãe o não fora. nos dias de festa. Queria ser casada. que pensei morrer. nem quero saber. disse-me ela. "cheia de fidúcias". e continuou logo: — Minha filha fugiu-me. e os olhos ao candeeiro. Não tinha ninguém mais no mundo e estava quase velha e doente.. Dona Plácida teve um calafrio. mas ninguém queria casar comigo. Continuou a coser para fora e a escumar os tachos. levando-a consigo. pedindo esmola. cansada do meu silêncio. Esperas algum fidalgo. Ela gostou dele.. Iaiá me protegeu.. e conhecia algumas que tinham só o seu moço delas. que devia ser sua colaboradora na vida de Dona Plácida. a chamar-se tola.61 pessoas. seduções. pareceu atentar na inconveniência daquela confissão ao amante de uma mulher casada. Interrompeu-se um instante. enterrou-a por subscrição. Minha camarada. que era o seu ofício. Ao soltar a última frase. convencida de que ela a levava para colher marido ou outra coisa. porque não a tivera nunca. E mostrou-me as mãos grossas e gretadas. acercaram-se. Deixou-me só. Emagreceu. mais delicado que os outros. mas era muito fraquinha.. com afinco. tão triste. como se tornasse a si. Apareceram-lhe alguns namoros. um dia. Olhe os meus dedos. a dez tostões por mês. Saí quando Iaiá casou. dos anos e da necessidade. disse-lhe alguma graça. e. — A gente das lojas arregalava e piscava os olhos.. pisou-lhe o pé. não sendo. mas era gênio e queria ser casada. a desdizer-se. e continuou a trabalhar. e o senhor doutor também. adoeceu. Alguns diziam graçolas. Estive lá muitos meses. não se come vento. como lhe dizia a mãe. Dessa conjunção de luxúrias vadias brotou Dona Plácida. O que eu disse foi isto: — Assim. propostas. durante semanas inteiras. mas cosia também. — Se eu pudesse encontrar outro marido. o sacristão da Sé. logo depois que Dona Plácida saiu da sala. e não fazia nada. meu senhor. gostou. e até chegou a me dar casa. para três ou quatro lojas e ensinava algumas crianças do bairro. Viu-a outros dias. a que resistia. que me deu que fazer. Não queria também que a filha fosse outra coisa.. agregada.. depois de o despedir. mas tão triste.

disse ela sentando-se. CAPÍTULO 76 O estrume Súbito deu-me a consciência um repelão. porém. Foi o que me disse a consciência. depois de uma longa vida de trabalho e privações. O Damião perguntou muitas vezes se você não iria. Que doce que era vê-la chegar. tranqüilo e constante. envergonhada e trêmula! Ia de sege. com os olhos no chão. amanhã resignada. ou não comer. Agora. Ela acrescentou que eu me aproveitara da fascinação exercida por Virgília sobre a ex-costureira. entre as minhas sobrancelhas. obrigando-a a um papel torpe. A consciência concordou. andar de um lado para outro. à custa de obséquios e dinheiros. — Por quê? — Por que não foi lá ontem. envolvido numa espécie de mantéu. palavra! em nenhuma outra ocasião a achei tão bela. os olhos baixos. até vencê la. ao canto de uma janela. — Estou muito zangada com você. donde se poderia deduzir que o vício é muitas vezes o estrume da virtude. nos primeiros dias.A intensidade de amor era a mesma.62 E de crer que Dona Plácida não falasse ainda quando nasceu. e a culpa era toda de Virgília. até acabar um dia na lama ou no hospital. E repuxou-me outra vez de um modo irritado e nervoso. valsara duas vezes com o mesmo peralta. as entrevistas entravam no período cronométrico. nem ficou subitamente séria. provavelmente Dona Plácida acabaria como tantas outras criaturas humanas. e eu tinha-a baixado a esse ofício. Notou a resistência de Dona Plácida. e. mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: — Aqui estou. Estava tão alegre! tão derramada! tão cheia de si! Quando descobriu. os olhos na costura. Essa mulher esplêndida sabia que o era. a ruga interrogativa e ameaçadora. na faina. fiquei uns dez minutos sem saber que lhe replicasse. como nos casamentos. ofegante. tinham acabado os sustos e vexames. como eu dizia. e gostava de o ouvir dizer. Se não fossem os meus amores. Da primeira vez deixou-se cair no canapé. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam: — Chamamos-te para queimar o s dedos nos tachos. foi para isso que te chamamos. Questão de ciúmes. depois de lhe escutar as cortesanices. velado o rosto. acusou-me de ter feito capitular a probidade de Dona Plácida. da gratidão desta. que lhe disfarçava as ondulações do talhe. triste agora. Medianeira não era melhor que concubina. O que não impede que a virtude seja uma flor cheirosa e sã. Concordei que assim era. e eu fui abrir a porta a Virgília. com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez. fosse em voz alta ou baixa. os silêncios. enfim da necessidade. Os tempos tinham levado os sustos e vexames. em casa da baronesa. adoecendo e sarando. escarlate. as caras feias. num momento de simpatia. não teve nenhum sobressalto. ao menos. CAPÍTULO 77 Entrevista Virgília entrou risonha e sossegada. mas aleguei que a velhice de Dona Plácida estava agora ao abrigo da mendicidade: era uma compensação. logo desesperada. Na antevéspera. comer mal. eu havia faltado à palavra que dera. mas deitou ao mar o peralta e as . talvez porque nunca me senti mais lisonjeado. tomar chá. mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura. Por que é que não foi? Com efeito. a diferença é que a chama perdera o tresloucado dos primeiros dias para constituir-se um simples feixe de raios. como me tinha dito. e a minha arte em suportar tudo isso. as lágrimas dos primeiros dias.

sem saber o que faria. uma estupefação visível. O marido respondia a tudo com as necessidades políticas. na casa da Gamboa. as sobrancelhas arqueadas. nunca vi olhos mais pasmados. tinha dito tudo a Dona Plácida. — Não me agrada muito. a repetir: — Isto. as mãos deixadas sobre os joelhos. No dia seguinte achei-a triste. foi a sua resposta. dos teus brasões. dois dias depois declarou à mulher que a presidência era coisa definitiva. Vendo que não falava. parados. e nem baronesa estás. faça o que lhe parecer. Virgília não pôde dissimular a repugnância que isto lhe causava. sem luz. Não se disse mais nada.. que inteiramente me confundiu. e entrei a passear de um lado para outro. onde se me queixou de cansaço. com os dedos cruzados. mas enfim contei-lhe o motivo da minha ausência. como a menina que torna do colégio. mas de noite Lobo Neves insistiu no projeto. Virgília tinha os olhos no chão. em certas ocasiões. e levou-me a outra sala.isto. A boca semi-aberta. é certo que eu me lançaria aos pés dela. tal foi a primeira réplica de Virgília. com o ar pueril que costumava ter.? — Então. dizendo que iria talvez ocupar uma presidência de província. Olhei para Virgília. entrou Lobo Neves em casa. abanou a cabeça com um sorriso de piedade e ternura. deu-me pancadinhas na testa. custava-me responder alguma coisa. menos povoada. — Ora você! E foi tirar o chapéu. mas é preciso que me não ponhas um peso nas asas da ambição. na atitude de suprema desesperança. Enfim. olhei para ela. que buscava consolá-la como podia. ouvíamos somente o latir de um cão. eternas estrelas. do nosso futuro. à minha espera. Agora mesmo.63 cortesanices. Decorreram alguns instantes de silêncio. tomou-me o braço. eu fui encostar-me ao consolo fronteiro. e eu ouvi-a quase sem responder nada. com um só dedo. é preciso desfazer o projeto. — e eu não tive remédio senão rir também. CAPÍTULO 78 A presidência Certo dia. cheguei-me a Virgília. depois veio a mim. que empalideceu. Dona Plácida foi à janela.. perguntou-lhe: — A modo que não gostaste. disse eu. disse-me Virgília. um pouco mais resolutamente do que de tarde. e disse muitas outras coisas. — Nesta pequenina mão está toda a minha existência. e tudo acabou em galhofa.. que estava sentada. Não.. —Você há de ir conosco. que estava sentado. — É impossível. e a . meu amor. Levantei-me. porque eu prometi que serias marquesa. Não fiquei menos abatido. Veio depois a mim. Noutra ocasião. que a viu empalidecer. Virgília teve um gesto aflitivo. — Já aceitou? — Parece que sim. Dirás que sou ambicioso? Sou-o deveras. e não sei se o rumor da água que morria na praia. jovial. Era claro que me enganara. Virgília ficou desorientada. e travei-lhe da mão. tangível. meses depois. Cogitei largamente. é até conveniência nossa. e não achei nada. lépida. ele. Virgília? Virgília abanou a cabeça. por diferente motivo. — Mas então. você é responsável por ela. atirei o chapéu a uma cadeira. — Está doida? Seria uma insensatez.que se não podia negar. — Não posso recusar o que me pedem.

a placidez do rosto era natural. mas se quisesse obsequiar-me. o olhar vinha direito e franco. — egoísmo. Cheguei a ouvir um prorromper de lágrimas. e nenhuma cedia definitivamente. fingia ler um livro. mas por cima da página olhava-me de quando em quando. e eu ficava irresoluto e inquieto. não violenta. Nem sombra disso. — Ah! — Uma idéia. ao sacrifício. foi o que fiz. com ardor. as esperanças. — que me dizia: — Fica. estavam ambos. Respirei. ele muito jovial. agora. entre a piedade que me empuxava à casa de Virgília e outro sentimento. não precisa de um magro ordenado. que essa piedade era ainda uma forma de egoísmo. uma placidez salpicada de alegria. Agora. deixá-la. cheios de curiosidade e ternura. parecia-me que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpada. as dificuldades locais. continuou ele. Às vezes sentia um dentezinho de remorso. Creio que essas duas forças tinham igual intensidade. e tenho uma idéia. disse eu. sem nada sacrificar nem arriscar de mim próprio. como se descobrisse uma serpente diante de si. e não tive ânimo de olhar para Virgília. estava tão contente! tão esperançado! Virgília. as resoluções. — Você é rico. ia de secretário comigo. quer-me parecer que o compromisso era uma burla.. que isto escrevo. disse-me de repente o Lobo Neves. era preciso compeli-la ao esforço de si mesma. suponhamos. quando ia capitular. porém. Juro que ela sentiu certo alívio. Vacilava entre um querer e um não querer. — Repito. fixamente. vinha outra vez o amor. Meu espírito deu um salto para trás. e receoso de que a vista me levasse a compartir a responsabilidade da solução. ao pé da mesa. é que ainda não achei secretário. e conseguintemente desampará-la. com tenacidade. deixa-a a sós com o problema. Lobo Neves contou-me os planos que levava para a presidência.. — Não? — Não. e. para as enxugar com um beijo. a ver se lhe apanhava algum pensamento oculto. CAPÍTULO 80 De secretário Na noite seguinte fui efetivamente à casa do Lobo Neves. deixa-a que ela o resolverá no sentido do amor. Por fim interveio um compromisso entre o egoísmo e a piedade. Virgília muito triste. e só em casa. e digo-lhes que estive a ponto de voltar. Deste modo poderia conciliar as duas forças. Quer você dar um passeio ao Norte? Não sei o que lhe disse. em presença do marido. senti por . para lhe não dizer nada. — O pior.. interrogativa e ansiosa. desejoso de a ver. quando os nossos olhos se encontraram. mas subjugueime e saí. e me repetia o conselho egoísta. Encarei o Lobo Neves. e sair. imperiosamente.. e que a resolução de ir consolar Virgília não passava de uma sugestão de meu próprio padecimento. à responsabilidade da nossa vida comum. mas eu já estava fora da porta. Virgília quis agarrar-me. investiam e resistiam ao mesmo tempo. a minha felicidade está nas tuas mãos. CAPÍTULO 79 Compromisso Não acabaria se houvesse de contar pelo miúdo o que padeci nas primeiras horas. à espera do efeito da minha intimação.64 ampararia com a minha razão e a minha ternura. eu iria vê-la em casa.

Nossa família está acabando. beijei-a muitas vezes. na verdade. e disse que sim. mas um barbeiro da vizinhança lembrou-se de zangarrear na clássica rabeca. Sabina olhou para o Cotrim. de uma vez por todas. as nossas festas. muitos planos de futuro. é preciso que. Sara.. um pedaço de minha mãe. Suportei a recordação com algum esforço. Parecia ter vinte anos. disse ela. a filha estava linda como os amores. de tudo. — Isto não pode continuar assim. Os olhos dela estavam secos. acompanhava-me de longe. Que diacho podia eu achar no Norte? Pois não era na corte. — Sim? — Palavra. quebrando o corpo para descer. ao sair de lá. e logo um homem. O marido viria mostrar-ma. e falei-lhe do marido. Não achei nada. se eu consentisse. era minha irmã Sabina.. e essa voz — porque até então a recordação era muda. ambos concordaram que essas idéias não tinham senso comum. a nossa família. vaidade nos meus triunfos.. era um concerto de louvores e admirações. fanhosa e saudosa. a meter num chinelo os rapazes do tempo? Que. os anos iam caindo como as fileiras de cartas de jogar encurvadas. não havemos de ficar como dois inimigos. Simples prólogo. e deixavam-me ver a nossa casa. e contava mais de trinta. tive umas sombras de dúvida.com sinceridade. como dois namorados. Cotrim. sem necessidade. a tal ponto me comoveu. Nenhuma alusão ao passado. disse Sabina. Corro. Sentei-a ao pé de mim. veio o criado dizer-me que estava na sala uma senhora. a pequena.. que me pedia também a mesma coisa. que devia continuar a luzir. E não deixei de dizer que essa troca de jantares podia ser que tivesse uma curta interrupção. e eu disse-lho com ternura. nenhum acanhamento. é certo que me pareceu acanhado.. — Entra. dos negócios.. Que importa? Era minha irmã. promessa de jantarmos em casa um do outro. Ao meio-dia. orgulho. Achei-a mais gorda. mana! bradei eu estendendo-lhe os braços. meu sangue. trazia o espírito feito e resoluto a aceitar a nomeação. sem motivo sério? A menos que não fosse . nas ruas e nas salas. Eu estava tão comovido. falando de tudo e de nada. cogitei se não ia expor insanamente a reputação de Virgília. — Mas se eu não te peço outra coisa. com que eu brincava em pequeno. Sabina não herdara a flor amarela e mórbida. vou abrir. porque eu andava com idéias de uma viagem ao Norte. e. se não haveria outro meio razoável de combinar o Estado e a Gamboa. um secretário. Era a minha infância que ressurgia. uma presidenta. aparece-me à porta um chapéu. espantada. era um anjinho de cinco anos. Ouvia o que se dizia a meu respeito. Na verdade. nada menos que o Cotrim. É tempo de acabar com isto. nenhum ressentimento. — Ora essa! irei eu mesmo vê-la. da filha. Era minha sobrinha. nenhum havia que se me comparasse.65 cima da página o olhar dela. e talvez mais moça. — essa voz do passado. Tudo ia bem. Súbito. Olhávamos um para o outro. Graciosa. empurrava-me o ombro com a mãozinha. façamos as pazes. travessa e loura. coberta com um véu. afável. em plena corte. Apanhei-a do chão. No dia seguinte. ouço bater à porta da sala. Talvez essa efusão o desconcertou um pouco. um presidente. que. Nisto. não obstante uma briga ridícula. que iria. era resolver as coisas de um modo administrativo. que deixei a filha e lancei-me aos braços do pai. fresca. ele. o Cotrim para Sabina. com as mãos seguras. CAPÍTULO 81 A reconciliação Contudo. teve sempre interesse. ao levantar-me da cama. E deixa-se isso para ir passar alguns meses na província. — Tanto melhor! respirou Sabina. o Cotrim. Daí a pouco falávamos como bons amigos velhos.

. casa de homem solteiro. hão de vir jantar comigo. trivial e grulha. venha jantar hoje conosco.66 política. — Justamente política. que já andava em boatos. — Não sei. desta vez vai ler Cícero. CAPÍTULO 82 Questão de botânica Digam o que quiserem dizer os hipocondríacos: a vida é uma coisa doce. receosa de alguma réplica. Referia-se às belas formas de Virgília. era feliz. Uma vez. No teatro disse-me uma senhora que era levar muito longe o amor da escultura. e reconciliava-me com os meus. ligando a minha nomeação à do Lobo Neves. velho cirurgião. não confunda.. — E depois de outro silêncio: — Seja como for. aconteceu-me sorrir.. um sorriso curto. fugitivo e guloso. e voltou o r osto para disfarçá-lo. a fim de realizar certos desígnios políticos. Continuei a pensar que. em vinte e quatro horas? Nesse mesmo dia. mas. aos noventa anos. Alguns. pequenino. na verdade. dizendo muitas palavras afetuosas para cima. Olhe que é Virgílio e não Virgília. que é a gentileza do ancião. no Pharoux e no teatro. disse eu. sem adquirir jamais aquela compostura austera. Não sei se há alguém que explique o fenômeno. o contentamento.. — Cícero! exclamou Sabina. ao saber da viagem. que não entendi bem. replicou ele daí a um instante. aos oitenta. — Já sei. Disse-o na Rua do Ouvidor. mano. quando ouvia alguma alusão aos nossos amores. Eu explicoo assim: a princípio. Sabina e olhou para mim. O caso dos meus amores andava mais público do que eu podia supor. CAPÍTULO 83 13 . Entretanto sorri. Amava-me uma mulher. Você precisa casar. Que podia desejar mais. — palreiro como as pegas de Sintra. andando o tempo. outros batiam-me no ombro. e continuei a fazê-lo das outras vezes. tinha a confiança do marido. Foi o que eu pensei comigo. Não importa. repeti -o no dia seguinte. Traduz Virgílio de relance. onde eu ficava — no patamar. desabotoou-se em flor..Virgília era um belo erro. que me eram pessoais. a mais triste e derradeira surpresa da natureza humana.. de um riso grosso. objetou Sabina. a princípio. — Certamente que vou. e é tão fácil confessar um belo erro! Costumava ficar carrancudo. tratando de aparelhar os ânimos. sendo interior. rasteiro e frívolo. a reconciliação de uma família vale bem um gesto enigmático. As outras pessoas olhavam-me com um ar de curiosidade. mas abotoado. disse-me ele. — Pois então? Seu mano é um grande latinista. — Nem assim. Também eu quero uma sobrinha. Mas a alusão mais rasgada que me fizeram foi em casa de Sabina. era por assim dizer o mesmo sorriso. — a dizer-lhes outras tantas para baixo. não sei. Simples questão de botânica. ouviu? Cotrim reprimiu-a com um gesto. A velhice ridícula é. ao ver Sabina. amanhã ou depois. que podia chegar aos setenta.. indulgência e simpatia: era transparente que não acabavam de ouvir nenhuma novidade. ia por secretário de ambos. Fê-la um certo Garcez. o marido e a filha descerem de tropel as escadas. e apareceu aos olhos do próximo.. comecei a espalhar que talvez fosse para o Norte como secretário de província. quando me viu sorrir. porventura. três dias depois. porém. mas. E ria. palavra de honra! sentia cá dentro u ma impressão suave e lisonjeira. sorriam maliciosamente. mas sorriu.

desorientado. Coitada de Dona Plácida! Estava cada vez mais aflita. Esta era a questão. e segui duas horas depois para a Gamboa. e tratando-se d e personagens políticos. A casa em que morrera a mãe tinha o nº 13. é um motivo poderoso para mim. ficou muito séria. Talvez Cotrim tivesse razão. Referiu-lhe que o decreto trazia a data de 13. — um pouco assombrado com esse sacrifício a um número. é ridículo.. — Você quer que lhe diga uma coisa? perguntou ele. como um ponto de interrogação.. — Mas nós já não vamos. Não podia alegar semelhante coisa ao ministro. — Por quê? Você bem sabe porque. perguntou-me se esqueceríamos a nossa velha. Em verdade. dá muito na vista. não sei se devo aceitar. e perguntou-me em que estava pensando. não podia confessá-lo a ninguém mais. Escrevi imediatamente a Virgília.. observou ele... Deixe. — espírito e coração. levando-me à janela. As palavras do Cotrim ressoavam-me aos ouvidos da memória. Respondi que em coisa nenhuma. que é melhor. o sacrifício devia ser sincero. — não faça essa viagem. sei eu. muito perigosa. o ministério. mas em suma. entende. disse eu. Disse isto. sobretudo. não faça semelhante viagem. — Virgília deixou-se cair. no canapé. — Como assim? Contou-me que o marido ia recusar a nomeação. e por motivo que só lhe disse. Virgília chegou daí a pouco. mas eu próprio precisava de consolações. tudo. pedindo-lhe o maior segredo. suporte a ausência.. é uma noiva. que me pede o cartão de ingresso. tínhamos sido nomeados presidente e secretário da província de *** o Lobo Neves e eu. abro uma folha política e leio a notícia de que. e que esse número significava para ele uma recordação fúnebre. perigosa. Eu sei disso há longos meses. lépida como uma andorinha. que tinha sono e ia para casa.. a objeção do Cotrim afligia-me. — É pueril. — Mas não entendo.. o corpo legislativo. Por outros termos: embarcar ou não embarcar. — triste. Eu deixei-me estar com os olhos no lampião da esquina. Tudo pronto para embarcar. . passam a imprimi-lo com todas as letras.67 Cotrim tirou-me daquele gozo. é insensata. mas na província muda de figura. tornou ele: é. os remoques. O pai morreu num dia 13.. sendo ele ambicioso. O lampião não me dizia nada. — e eis aí me surge esse porteiro das conveniências. Era um algarismo fatídico. seria bem pouco amigo nosso. ou lutar com ela e subjugá-la. As gazetas de oposição.. mas podia eu separar-me de Virgília? Sabina veio ter comigo. mas. — Por quê? disse ela. e foi para dentro. as alcunhas. — O que você precisa. No dia seguinte. Dei ao diabo as conveniências. a rir. um caso desses perde-se na multidão da gente e dos interesses. é perigosa. se a ausência era grande e se a província ficava longe. e aí virão as chufas. a ela. — Que aconteceu? — Vacilo. e com elas a constituição. Sabina esteve um instante calada. dir-ia que tinha razões particulares para não aceitar.. por decreto de 13. Saí de lá opresso. — um antigo lampião de azeite. — Não é conveniente. Et coetera. se me negasse o que toda a gente sabe.. que eu ainda arranjo uma noiva para você. logo que farejarem o negócio. obscuro e recurvado. e evite algum grande escândalo e maior desgosto. Eu fiquei como há de estar o leitor. Aqui na corte. Consolei-a. mas. — Entende. é realmente insensatez. de um modo mui diverso do das palavras do Garcez. Repito. ao ver-me triste. treze dias depois de um jantar em que havia treze pessoas. Que me cumpria fazer? Era o caso de Hamlet: ou dobrar-me à fortuna.

tua. como porque. absorvia-se. ilusão complicada de algumas aparências. que um escrúpulo desasara. e mais pre zado também. e talvez o arrependimento. . Faz mal. sem outra explicação. lembras-te que te abençoei muitas vezes? Assim também as virgens ruivas de Tebas deviam abençoar a égua.. Assim. e a mesma coisa lhe aconteceu a ela. para fugir a uma simples careta. disse-me também que eram negócios particulares. de ruiva crina. E ntrei a amar Virgília com muito mais ardor. que as substituiu no sacrifício de Pelópidas. apertando-nos com abraços. Pois dou-ta eu. e o rosto sério. — mas um arrependimento. metia-se em casa. Oprimiam-no duas coisas.. Ele é que mal podia encobrir a tristeza profunda que o minava. — Que tem isso? perguntava-lhe eu. entre as donzelas escapas.. que se achegam ao regaço das mães. Ou verruga ou outra coisa. — Faz mal. porque o fundo supersticioso existia. coberta de flores. Número fatídico. sobrevieram incidentes. aí sabia perfeitamente que era caso de criar uma verruga. que repugna ao mesmo indivíduo. a presidência não fez mais do que avivar a afeição primitiva. é insuportável a que leva uma parte da vida. e. Isto somente. foi a droga com que tornamos mais saboroso o nosso amor. com estrépito e afetação. para quem não perde uma presidência de província? Tolera-se uma superstição gratuita ou barata. E assim reatamos o fio da aventura. — uma donosa égua. depois daquele incidente. esta única resposta. que lá morreu. se fosse dilatando entre nós. e então conversava e ria muito. falava pouco. e logo depois a dúvida. se houvesse separação. Já não acontecia a mesma coisa quando se falava de apontar uma estrela c om o dedo. — Minha boa Virgília! — Meu amor! — Tu és minha.. depois que estive a pique de a perder. Outras vezes recebia. tu foste a nossa salvação.68 CAPÍTULO 84 O conflito Número fatídico. enfim. como uma toalha elástica. não? — Tua. Duvidava da superstição. égua piedosa. e ela contentava-se com a certeza do mal. fez honra à dissimulação humana. à proporção que o mar. Não me confessou o marido a causa da recusa. — a ambição. era um fenômeno digno de alguma atenção. que o ministro não acreditou nos motivos particulares. a tristeza de um e de outro. com o tempo. comunicou a desconfiança aos colegas. sem que ninguém lhe desse nunca uma palavra de saudade. que valia para ela o livro dos sete selos. que viria outra vez. não é impossível que figurasse uma avó dos Cubas. Nos primeiros dias. era a sua resposta. convencido. com que eu o escutei. como a sultana S cheherazade o dos seus contos. a ler. que valia isso. tratou-o mal. se se repetisse a hipótese. folgávamos de imaginar a dor da separação. o presidente resignatário foi para a oposição. Este era o caso do Lobo Neves com o acréscimo da dúvida e do terror de haver sido ridículo. quando confessava não poder ver um sapato voltado para o ar. semelhantes às crianças. E mais este outro acréscimo. Esse foi. atribuiu a recusa do Lobo Neves a manejos políticos. fugíamos do suposto perigo. Mas eu preferia a pura ingenuidade de Dona Plácida. Essa persistência de um sentimento. sem chegar a rejeitá-la. Disseram-lhe isso em criança. CAPÍTULO 85 O cimo da montanha Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade. não só pela morte havida.

o ponto máximo do nosso amor. As outras. tinha a probidade tão exemplar. se o marido ti nha iguais pensamentos. e uma lesão de coração por quebra. mas também há de reparar que desta vez acrescento-lhe um adjetivo — perpétuo. e acrescentando que tinha muito prazer com a visita. podia ser rico. — Não pega. era o Doutor B. e não quis. e por cima de nós o céu tranqüilo e azul. terra solta e areia. em boa palestra.. Era a probidade em pessoa. Um dia. negando-se. essas camadas de caráter. cá estou de dentro. com os seus setenta anos. rápida. Tudo se deve dizer: havia no Lobo Neves certa dignidade fundamental. deixemos ao leitor o tempo de decifrar este mistério. Jacob mandou dizer que não estava em casa. com efeito. o Doutor B. violentando um pequenino escrúpulo. afirmando que cuidava ser outra pessoa. E Deus sabe a força de um adjetivo. em casa dele. com as mãos presas ou soltas. e. e não ele. vieram dizer que o procurava o Doutor B. disse eu ao Jacob que ele acabava de mentir quatro vezes. O Viegas passou aí de relance. fitou-me os olhos. avaro como um sepulcro. Foi um dos finos espreitadores da nossa aventura.69 cuido eu. começamos a descer a encosta. que chegava a ser miúda e cansativa. Virgília nutria grandes esperanças em que esse velho parente.. encobria-os ou estrangulava-os. CAPÍTULO 87 Geologia Sucedeu por esse tempo um desastre: a morte do Viegas. O Jacob foi recebê-lo. que eu não chegarei jamais a fixar no papel. observará que é agora a segunda vez que eu comparo a vida a um enxurro. calou-se. Ela estremeceu. como eu a visse um pouco diferente. essas camadas mereciam um capítulo. de fadiga. que eu não escrevo. que a vida altera. que apareceu logo à porta da sala. conforme a resistência delas. singular. colheu-me a cabeça entre as palmas. p rincipalmente em países novos e cálidos. Eis a í um mistério. abafados de asma. Travei-lhe das mãos. e provavelmente a do cavalheiro. a segunda. E. que é um enxurro perpétuo.. Repousado esse tempo. lhe amparasse o futuro do filho.. a descer.. com algum legado. fez um gesto de enfado. disse o Jacob. uma camada de rocha. e respiramos. perguntou-lhe então se ia sair. em menos de duas horas: a primeira. — Com minha mulher. depois afagoume com um gesto maternal. O que é novo neste livro é a geologia moral do Lobo Neves. Digo apenas que o homem mais probo que conheci em minha vida foi um certo Jacob Medeiros ou Jacob Valadares. Retirou-se o Doutor B. deixou ir pelas mãos fora nada menos de uns quatrocentos contos. perguntei-lhe o que tinha. Jacob. de mal-estar. Um fluido sutil percorreu todo o meu corpo: sensação forte. que resistia ao comércio dos homens. e isto mesmo porque o Jacob tirou o relógio. não me recorda bem o nome. como nos achássemos. Sim. não sei se abatida ou outra coisa. puxei a levemente a mim. com uma delicadeza de zéfiro e uma gravidade de Abraão. que me está lendo. e beijei-a na testa. mas a descer... por não alongar a narração. o que nos rendeu hora e meia de enfado mortal. donde por algum tempo divisamos os vales de leste e de oeste. bradou uma voz do corredor. desconjuntados de reumatismo. o cimo da montanha. ela disse-me que. Se o leitor ainda se lembra do capítulo 23. alegrando- . num capítulo. a sós. levou-lhes a vida.. ateimei. em suma. CAPÍTULO 86 O mistério Serra abaixo. Uma vez respirados. Talvez fosse Jacob Rodrigues. as camadas de cima. conserva ou dissolve. um sujeito enfadonho.

meigo. intervalado de uma arfagem incômoda para ele e para os outros. se estava calor. Ah! então sim. a terceira. o nhonhô chegava à sala. um pouco mais para a frente. Viegas gostava muito dele. De quando em quando. manifestava claramente as esperanças que trazia no legado. ora de um negócio de família. Virgília cumpria-lhe o desejo. Ela era menos escrupulosa que o marido. falando e rindo. pelo menos. e que a paz das cidades só se podia obter à custa de embaçadelas recíprocas. dando-lhe ela o braço. a palavra doce. lentamente e a custo. porque havia lá na casa a "cadeira do Viegas". alguma coisa. por dizer-se rijo e capaz de andar uma légua. Ia fechar a janela próxima. Parecia-lhe que o casarão em que morava podia ser substituído. Não importa a idade do adulado.. não do caminho. mas discreto. a quarta. casa de feitio moderno. e já tinha encomendado o risco a um pedreiro de fama. dava-lhe o braço e levava-o a uma cadeira. — ou ainda de enfermeira. Jacob refletiu um instante.. tornavam a ir. — Qual! Passei mal a noite. nhonhô. ora enfim de uma casa que ele meditava construir. com as mãos nos joelhos do enfe rmo. Repetia-se isto. talvez para atordoar a consciência. feita p ara gente enferma ou anciã.. — Então? hoje está mais fortezinho. aturando-o por largo tempo. As formas graciosamente curvas. que ele nem sempre aceitava. então é que Virgília chegaria a ver o que era um velho de gosto. gemendo. Ah! lembra-me agora: chamava-se Jacob Tavares. em que o mais hábil dos homens carecerá sempre de um quid. mostrando certo calor fictício. para residência própria. depois confessou a justeza da minha observação. Entretanto. a mulher há de ter sempre para ele uns ares de mãe ou de irmã. Ela ia recebê-lo à porta. O caso de Virgília tinha alguma gravidade mais.70 se com a presença do importuno. Esta orça pela servilidade. ora de uma b isbilhotice de sala. Falava. sério. E bufava o homem. um fluido. — Vem cá. contemporânea de el-rei Dom João VI. mas com cuidado. que ainda hoje (creio eu) se podem ver no Bairro de São Cristóvão. Era o que eu pensava comigo. ou abri -la. como se pode supor. conchegada. Pastilhas antiasmáticas. vinha um acesso de tosse. ou até à cadeira. mas desculpou-se dizendo que a veracidade absoluta era incompatível com um estado social adiantado. a outra confunde-se com a afeição. mas ele estava tão vexado do meu reparo. combinando de modo que lhe não desse um golpe de ar. porque ia sempre de sege. acrescentando que com a mulher. a mesma fraqueza física dão à ação lisonjeira da mulher uma cor local. a mover as pedras com a mão fro uxa e tarda. se havia alguma brisa. Outras vezes. cumulava o parente de todas as cortesias. a falar de coisas várias. O pequeno dizia que eram muito boas. desciam a passear na chácara. metia uma na boca e dava outra ao pequeno. e a custo introduzia a mão na ampla algibeira. sem os pulos do costume. Iam.. repousando a pouco e pouco do cansaço da entrada e da subida. numa banquinha. um codicilo. outro ofício feminil. sentavam-se. adulava-o. um aspecto legítimo. à maneira de algumas. com as suas grossas colunas na frente. mas eu observei que a adulação das mulheres não é a mesma coisa que a dos homens. o diabo da asma não me deixa. com os mais elementares argumentos. atenções e afagos que poderiam render. porque a dele era das antigas. dizendo que ia sair. quando Virgília se desfazia toda em afagos ao velho parente. tirava-lhe o chapéu e a bengala. Como o Viegas gostasse de jogar damas. dizia-lhe. com variantes. . Ao lado. CAPÍTULO 88 O enfermo Não é preciso dizer que refutei tão perniciosa doutrina. sentava-se Virgília. que resistiu até o fim. curvo. tirava uma caixinha de pastilhas. Propriamente. obra especial.

71 levava o lenço à boca. recusou primeiramente os trinta contos.. um primor. que lhe tolheu a fala durante quinze minutos.. passado o acesso. Vinham tossidas estas palavras.. um terraço. e tornou a tratar da casa.. com um sujeito magro.. quar. casada. nos joelhos e nos pés. a filha. e sentiu-a fria. e eu lia-as. a pele amarelada. — Veja. com grande consternação do sujeito magro. no intervalo dos acessos debatia o preço de uma casa. às sílabas. pediu-me que os deslaçasse: fi-lo. e ele calou-se por alguns instantes. levantou-se.. adoecera justamente agora. Veja. — Nunca! gemeu o enfermo. Suspeitara a morte e tinha medo. Ele abria-as. tornava ao plano da casa. a arfar muito: Virgília empalideceu. pontudo em dois lugares. — Quarenta contos. com a mão trêmula. Dobradiças francesas. depois mais três. não tendo forças para tirar a fita de borracha que prendia os papéis. cocheira. — Am?. de carpinteiro. calado. ofereceu-lhe trinta e seis contos. Fiz-lhe sinal para que não insistisse. O sujeito magro contou uma anedota. mas... Eu acheguei-me ao doente. — Então? disse o sujeito magro.. — Não. da sala de jantar. que devia ter tais e tais quartos.. e não podia fazer-lhe companhia. mas Viegas não cedia. definitivamente. Eu aproveitei a circunstância para passar todo aquele dia ao pé dela. — Pois bem. o Viegas exigia quarenta. Mandou buscar um maço de papéis à escrivaninha. revestia apenas a caveira de um rosto sem expressão. mas era tarde. daí a pouco expirava ele. Só os juros.. contas do papel da sala de visitas... mil e duzentos. O comprador acarinhou-o muito.. uma por uma. perguntei-lhe se sentia alguma coisa. quar.. pegou-lhe na mão. disse ele.. — Trinta e oito contos. contas das ferragens. não lhe dou por menos. alteando a proposta.. enfim teve um forte acesso. das alcovas. não.. como se fossem migalhas de um pulmão desfeito. e foi o último. Sob o lençol desenhava-se a estrutura óssea do corpo.. que me confessou depois a disposição em que estava de oferecer os quarenta contos. às golfadas. papel de mil e duzentos a peça. Virgília ia lá de quando em quando. faça a conta dos juros. Eu procurei falar de outras coisas. CAPÍTULO 89 In extremis — Amanhã vou passar o dia em casa do Viegas. Eram as contas das despesas com a construção da casa: contas de pedreiro. O sujeito magro aproximou-se da cama. Nas órbitas fundas rolavam os olhos lampejantes. concluiu ele depoisde lida a última conta. dos gabinetes. que me faziam lembrar a lamparina da madrugada. e investigava-o. Teve um acesso de tosse. foi até a janela. quar. CAPÍTULO 90 . Viegas tossia com tal força que me fazia arder o peito. de pintor. O doente ficou a olhar para o teto.. O comprador instava como quem receia perder o trem da estrada de fe rro. uma carapuça de algodão branco cobria-lhe o crânio rapado pelo tempo.. depois mais dois.. gemeu o enfermo. arranjou-lhe os travesseiros. se queria tomar um cálice de vinho.. é de graça. Coitado! não tem ninguém. custo do terreno. quaren. Viegas caíra na cama.. rugosa. Eram duas horas da tarde quando cheguei. bamba. e pedia me que as lesse... O sujeito oferecia trinta contos. disse-me ela uma vez.

"Há tempos. princípio das coisas. Insinuei-lhe que não devia pensar mais em semelhante negócio. Chamo-lhe Humanitismo. e disse-mo com certa cautela.. o mistério e o mistério. não digo superior. pequenino. morte do Viegas. nem envergo uma famosa sobrecasaca cujas abas se perdiam na noite dos tempos. O melhor de tudo era esquecer o defunto. Olhos do mundo. uma atitude: esse embrião tinha a meus olhos todos os tamanhos e gestos: ele mamava. Meu filho! E repetia estas duas palavras. zelos do marido. . tomei-lhe de empréstimo um relógio. o nosso filho por exemplo. Minha primeira idéia revelava uma grande enfatuação. acompanhada de um objeto não menos extraordinário. nem conflitos políticos. De bacharel passava outra vez à escola. enche de imensa glória o nosso país. nem revoluções. um cainho sem nome. falávamos de coisas presentes e futuras. no Passeio Público. – baby e deputado. nem terromotos. dava-me pancadinhas na cara com as mãozinhas gordas. porém outro. ele valsava. uma conversa sem palavras entre a vida e a vida. A diferença é que não é o mesmo. esse doce mistério de algumas semanas antes. fruto de longo estudo. Saiba que já não trago aquelas botas caducas. não pela coisa em si. de Humanitas. e tratar de coisas alegres. nem nada. monseigneur — como dizia Figaro. senão porque entendia com o filho. O maroto amava-me. que não só explica e descreve a origem e a consumação das coisas. Em vão buscava fixar no espírito uma idade. ou então traçava a beca de bacharel. Um filho! Um ser tirado do meu ser! Esta era a minha preocupação exclusiva daquele tempo. e uma voz secreta me dizia: é teu filho. Muitas coisas se deram depois do nosso encontro. ao p é de Virgília. Eis o que a carta dizia: "Meu caro Brás Cubas. Que voulez-vous. o embrião e eu. A verdade é que estava em diálogo com o embrião. E u só pensava naquele embrião anônimo. colegial e pintalegrete. suprime a dor. "Dito isto. era chamar-lhe borbismo. nem pouco. reprochava-me o silêncio. como faz dar um grande passo adiante de Zenon e Sêneca. quando Virgília me pareceu um pouco diferente do que era. peço licença para ir um dia destes expor-lhe um trabalho. se me não fechar a porta. era um pelintra gracioso. E singularmente espantoso este meu sistema.. finalmente. esquecia-me dela e de tudo. assegura a felicidade. com os olhos rasos de lágrimas. CAPÍTULO 91 Uma carta extraordinária Por esse tempo recebi uma carta extraordinária. Nenhuma lembrança testamentária. mas igual ao primeiro. um novo sistema de filosofia. de quem sabia que eu não gostava muito.72 O velho colóquio de Adão e Caim Nada. com que do todo em todo não parecesse ingrato ou esquecido. Nada. um lorpa. almoço. ele escrevia. Sentia-me homem. ele era o interminável nos limites de um quarto de hora. e não sei que assomos de orgulho. E o pai a ouvi-lo de uma tribuna. dizia que eu já lhe não queria nada.Às vezes. Lá me escapou a decifração do mistério. lousa e livros debaixo do braço. Virgília tragou raivosa esse malogro. O melhor é que conversávamos os dois. de obscura paternidade. — c'est la misère. Tenho a satisfação de restituir-lho com esta carta. irei contá-las pelo miúdo. nada me interessava por então. uma pastilha que fosse. de Borba. Cedi o meu degrau da escada de São Francisco. retifica o espírito humano. e fazia um discurso na câmara dos deputados. porque ele havia de ser bacharel. ou então caia no berço para tornar a erguer-se homem. denominação vaidosa. era o velho colóquio de Adão e Caim. Virgília sacudiame. com certa voluptuosidade indefinível. cujo estoicismo era um verdadeiro brinco de crianças ao pé da minha receita moral.

.. um homem às direitas. que a filha dele cantava em casa. como todos os outros passageiros. Ah! ele estava ansioso por voltar ao Rio de Janeiro. De resto. Que os levasse o diabo os ingleses! Isto não ficava direito sem irem todos eles barra fora. Agora queria ouvir o Ernani. ele parou dizendo que simpatizava muito comigo. há coisas que se não podem reaver integralmente. meu caro Brás Cubas. Quando casara. verá que é deveras um monumento. Enjoara muito a bordo. Coisas! coisas! Falaria depois.e fizera a revolução de 1831. Mas não embarcaria mais. Gostava muito de teatro. Até breve. descendia de um antigo capitão-mor muito patriota. — E dizia isto levantando-se e cantarolando a meia voz. Não digo tanto. — mas por penachos da guarda nacional. por desacordo com o Regente. e ele havia de mostrar de que pau era a canoa. com atenção. no espaço de cinco minutos.. de três. estava eu na Europa.. e lá me esperava para maior palestra. o desenvolvimento do tráfico dos africanos e a expulsão dos ingleses. Palavra! em alguns lugares teve vontade de chorar. com um bilhete do Cotrim. Ernani.chegara poucos dias antes do Norte. após tantos séculos de lutas. Mas fazia-se tarde.. a convicção. era obra de uma noite a expulsão dos tais godemes. Também gostara muito da Deperini. ao piano: Ernani." Li esta carta sem entendê-la. Verá. ou na Ana Bolena. logo que chegou foi ao teatro de São Pedro. é certo. — Levei-o até a porta da sala. Naturalmente o Quincas Borba herdara de algum dos seus parentes de Minas. mas enfim a regeneração não era impossível. onde viu um drama soberbo. a lucidez. como dizem alhures. muito gosto. pouco menos asno do que os ministros que serviram com ele. e esperei a filosofia. com umas saudades. Foi ele mesmo que me disse isto.. Voltei à carta.. e uma comédia muito interessante. Vinha com ela uma boceta contendo um bonito relógio com as minhas iniciais gravadas. Sim. — No Norte essas coisas chegavam como um eco. — não por cantigas. Conheceu meu pai.não se lembrava bem.. na Safo. senhor. tinha patriotismo. reli-a com pausa. Ei-las na minha mão. que era um asno. não era nenhum pé-rapado. e se alguma coisa há que possa fazer-me esquecer as amarguras da vida. Tinha uma voz muito mimosa a filha. E com certeza exprimia menos. pesquisas. era papa-fina. e esta frase: Lembrança do velho Quincas . convidando-me para jantar. Neste ponto. Vinha de guardar a carta e o relógio. tinha de ir levar a resposta .. com quem dançara num célebre baile da Praia Grande. CAPÍTULO 92 Um homem extraordinário Já agora acabo com as coisas extraordinárias. meu caro Brás Cubas. fazia-se tarde. O portador era casado com uma irmã do Cotrim. Graças a Deus.. Guardei a carta e o relógio. consegui organizar e formular o governo de suas preferências: era um despotismo temperado. quando me procurou um homem magro e meão. chamava-se Damasceno. é o gosto de haver enfim apanhado a verdade e a felicidade. Só não pude alcançar se ele queria o despotismo de um. — e batia no peito. E gosto. Saudades do Velho amigo Joaquim Borba dos Santos. exceto um inglês. essas duas esquivas. ia dizer que eu não faltaria ao jantar. Opinava por várias coisas. A restituição do relógio excluía toda a idéia de burla. Que é que a Inglaterra podia fazer-nos? Se ele encontrasse algumas pessoas de boa vontade. conquanto trouxesse as idéias políticas um pouco baralhadas. — o que não admirava porque era de família. descobertas. a revolução estava outra vez às portas. A filha morria por ouvir todas as óperas... ei-las nas mãos do homem. entre outras. Já havia corrido a cidade toda. de trinta ou de trezentos. — um pouco jactanciosa. Viesse a ocasião. Kettly ou a volta à Suíça. e a abastança devolvera-lhe a primitiva dignidade. sistemas e quedas. involami. Mas a Candiani! sim. a serenidade. a Maria Joana. Saíra do Rio de Janeiro. — pareciam excluir a suspeita de insensatez.73 além de rude e molesta.

quer você queira quer não. mas uma voz misteriosa chamava-me à casa do Lobo Neves. Saiu. que eram soberbos e só tinham o defeito de se não arrancarem de mim. mas só a princípio. Não gostava de semelhante alusão. CAPÍTULO 93 O jantar Que suplício que foi o jantar! Felizmente. ou mais familiarmente Nhã-loló.. meu rico. sozinha. recurso sem longa eficácia. Não era absurda e sta hipótese. Sabina fez-me sentar ao pé da filha do Damasceno. um modo de prender-me a ela. que quase não olhava para o prato. uma âmbula divina. CAPÍTULO 94 A causa secreta Como está a minha querida mamãe? — A esta palavra. Bem boa noiva para você. amuou-se. repreendendo-a. em seguida desviou os olhos e sorriu de um jeito incrédulo. disse adeus a Sabina e às suas ameaças.um pouco em nome dos meus direitos de pai. menos preocupada dos outros e do marido. Supus a princípio que o embrião. E eu. Foi-se o embrião. Com certeza. e recebeu-me alegremente. — Muito simpática. mas Nhã-loló comia tão pouco. Quanto ao vexame. Estava ao canto de uma janela. a voz era como dizia o pai. mas quando lhe falei no nosso filho. as flores de antanho? Uma tarde. Santo Deus! seria esse o motivo da reconciliação? Fiquei um pouco desconsolado com a idéia. feita de minutos de vida e minutos de morte. Nunca Virgília me parecera mais expansiva. Faltava-lhe elegância. Mas que coração! é uma pérola. aborreciam-lhe as minhas antecipadas carícias paternais. não é? acudiu ela. Enganava-me. — Casmurro! Para quando é que você se guarda? Para quand o estiver a cair de maduro. — Assim. deixava-a estar quieta. mais sem reservas. há de casar com Nhã-loló. "muito mimosa". moça bem graciosa. Não obstante. Era medo do parto e vexame da gravidez. a olhar para a lua. E dizia isto a bater-me na face com os dedos. já sei. Pois. esquivei-me. que talvez começava de oprimi-la. complicava-se ainda da forçada privação de certos hábitos da vida elegante.74 ao Cotrim. Padecera muito quando lhe nasceu o primeiro filho. uma Dona Eulália.. esse perfil do incógnito. meiga como uma pomba. após algumas semanas de gestação. era isso mesmo. CAPÍTULO 95 Flores de antanho Onde estão elas. e perguntou-me que tal achara a filha do Damasceno. Sabina veio até à porta. De noite cantou. dei-lho a entender. esboroou-se todo o edifício das minhas quimeras paternais. mas compensava-a com os olhos. a minha doce Virgília mentia às vezes com tanta graça! Naquela noite descobri a causa verdadeira. como sempre. lhe restituira a consciência do mal. e ao mesmo tempo intimativa e resoluta. um tanto acanhada a princípio. assim. — Não gosto de pérolas. falta-lhe um pouco mais de corte. dava-lhe já imaginariamente os calafrios do patíbulo. projetando-se na nossa aventura. Não eram remorsos. Virgília fitou-me. e essa hora. exceto quando desciam ao prato. fechei-lhe a porta. Virgília amuou-se. Imaginei também que a concepção seria um puro invento. para quem ela era já uma pessoa sagrada. naquele ponto em .

empalideceu muito.Talvez a imaginação lhe mostrou. Onde iam elas as flores de antanho? CAPÍTULO 96 A carta anônima Senti tocar-me no ombro. CAPÍTULO 97 Entre a boca e a testa Sinto que o leitor estremeceu. era o Lobo Neves. daí a dias na Gamboa. outro que lhe escrevera uma carta. ao longe. mas não me lembra bem. estudando os olhos do marido. Indaguei de Virgília. A carta havia de ser de algum namorado sem ventura. para não dar margem à calúnia. Naturalmente a última palavra sugeriu-lhe três ou quatro reflexões. como se fosse um beijo de defunto. mas se lho dissesse. não pelo acréscimo de dissimulação que era preciso empregar de ora em diante. Esse homem. depois ficamos a conversar uma meia hora. por exemplo. e até de remorsos. e ainda outros e outros. — Calúnia? perguntou Lobo Neves. Virgília compreendeu que estava salva. das nossas entrevistas externas. tratar-me-ia de maneira que eu não voltaria lá.75 que se não distingue Laplace de uma tartaruga. e disse-me com certa amargura: — Você não merece os sacrifícios que lhe faço. mas. de saudades. — ou devia estremecer. como se quisesse atirar-se sobre mim. Creio que lhe vi fazer um gesto. mostrou-se irritada com a insistência. — Infame. levantou-me a cabeça. aliás intrépido. pela falta de comoção. com um ar de pulha. a olhar para a chácara. e acrescentava que a suspeita era pública. era ocioso ponderar-lhe que um pouco de desespero e terror daria à nossa situação o sabor cáustico dos primeiros dias. O que me lembra claramente é que durante os dias seguintes recebeu-me frio e taciturno.Virgília recuou. Não lhe disse nada. Encaramo-nos alguns instantes. cada letra bradava contra a indignação da mulher. E citou alguns. não falava. No fim desse tempo. porque tudo lhe perdoaria. Citava-os pelo nome. não é impossível que ela chegasse lenta e artificiosamente até esse pouco de desespero e terror. e concluiu dizendo que. Não lhe disse nada. vieram trazer-lhe uma carta. jurou que da minha parte só ouvira palavras de gracejo e cortesia. mas pela tranqüilidade moral de Virgília. aproximei me e beijei-a na testa. durante algumas semanas. Ouvi tudo isto um pouco turbado. Tive a notícia por boca do Lobo Neves. onde verdejavam as laranjeiras sem flores. Veja bem o quadro: numa casinha da Gamboa. Virgília notou a minha preocupação. Enfim Virgília contou-me tudo. o famoso olho da opinião a fitá-lo sarcasticamente. Era anônima e denunciava nos. O marido respirou. Instou com a mulher que lhe confessasse tudo. O marido mostrou-lhe a carta. de susto. duas . porque eu olhava então para o soalho. e fechou-a com a mão trêmula. Eu encostei-me à janela. inconsoláveis. com circunstâncias. e acompanhou o médico à alcova da frustrada mãe. — um que a galanteara francamente. Ela batia nervosamente com a ponta do pé no chão. ele leu-a. que me deixou na sala. talvez uma boca invisível lhe repetiu ao ouvido as chufas que ele escutara ou dissera outrora. era agora a mais frágil das criaturas. mudos. logo que ela se restabeleceu. Não dizia tudo. tomando à carta. até afastar-me inteiramente da casa do Lobo Neves. parece que cada palavra dela lhe fazia com o dedo um sinal negativo. Virgília leu a carta e disse com indignação que era uma calúnia infame. limitava se a precavê-lo contra a minha intimidade.

Mas enfim eu escrevo as minhas memórias e não as tuas. apanhava de memória os retalhos da conversação do Lobo Neves. cobrindo casta e redondamente o joelho. Abençoado uso que nos deu Otelo e os paquetes transatlânticos! Estou com vontade de suprimir este capítulo. refazia as maneiras dele. Ao contemplá-lo. como se sentisse o contato de uma boca de cadáver. O Damasceno recebeu-me com muitas palavras. Ela exprimia inteiramente a dualidade de Pascal. tenderia a embotar os sentidos e a retardar os sexos. ativa-as. dada a multiplicação das obras e dos cuidados do indivíduo. e a outra a recuar. e daí. expansivo. que. e conseguintemente faz andar a civilização. O declive é perigoso. no breve intervalo. prestes a levantar o pano. Entro. De noite fui ao Teatro de São Pedro. mas torceu logo a conversação para assuntos gerais. ao passo que o vestuário. uma inclinada para a outra. que dizia algumas coisas do céu. que a natureza previu a vestidura humana. principalmente ele. puxou-me a um dos óculos do teatro. nem as palavras dos atores. constrangidos um e outro. Ao pé da graciosa donzela. não sei como lhes diga que não me senti mal. nem as palmas do público. quase risonho. l'ange et la bête. Parecia-me agora mais bonita que no dia do jantar. e falamos muito. Não. encontramo-nos num dos corredores. A carta anônima restituía à nossa aventura o sal do mistério e a pimenta do perigo.. A . um vestido que me dava cócegas de Tartufo. de conversa com alguns amigos. Adivinhe quem quiser a causa da diferença. coisa difícil de explicar. e condigna de um capítulo em que tudo há de ser vago. Quanto a Nhã-loló.76 pessoas que se amam há muito tempo. — e la bête. A nudez habitual. com muita afabilidade e riso. Trajava a filha com outra elegância e certo apuro. Não ouvi nada d o seguinte ato. Reclinado na cadeira. Há aí. Mas no intervalo seguinte. No intervalo fui visitá-los. decididamente suprimo este capítulo CAPÍTULO 99 Na platéia Na platéia achei Lobo Neves. reprodu-las. Cheguei a perguntar-lhe pela mulher. aguça e atrai as vontades. — 1'ange. vejo em um deles Damasceno e a família. a saber. em que não havia ninguém. parecia-me tomado de uma sensação dupla e indefinível. — a contração deum ressentimento —. foi que eu fiz uma descoberta sutil. Achei-lhe certa suavidade etérea casada ao polido das formas terrenas: — expressão vaga. eu fujo ao Damasceno que me espreita ali da porta do camarote. talvez fosse por isso mesmo. com a diferença que o jansenista não admitia a simultaneidade das duas naturezas. não tirou mais os olhos de mim. respondeu que estava boa. corro os olhos pelos camarotes. que parecia o mais tranqüilo dos homens. e concluía que era muito melhor a nova situação. trajando garridamente um vestido fino. porque o pai ganhava apenas o necessário para endividar-se. falamos por alto.. a dar-lhe um beijo na testa. ao passo que elas aí estavam bem juntinhas. condição necessária ao desenvolvimento da nossa espécie. a mulher com muitos sorrisos.. entre a boca e a testa antes do beijo e depois do beijo. leitor pacato. há aí largo espaço para muita coisa. negaceando a natureza.. CAPÍTULO 98 Suprimido Separamo-nos alegremente. representavase uma grande peça. Realmente. Ele veio a mim. Bastava-nos a Gamboa. Jantei reconciliado com a situação. a frio. em que a Estela arrancava lágrimas. a ruga da desconfiança — ou enfim o nariz pálido e sonolento da saciedade. ao pé da moça. e afinal foi bem bom que Virgília não perdesse naquela crise a posse de si mesma.

era até melhor. de conversas. recusou a nomeação por motivo da data do decreto. interrompi eu. r econciliou-se com o ministério. Deixei dito noutra página que o Lobo Neves. mas esse gesto de indiferença era desmentido por alguma coisa menos definível. e que terá de torna como a primeira. para usar de uma imagem. ausente. quando toma aos outros. eu rompia-as de um gesto de Gulliver. Vulgar coisa é ir considerar no ermo. esse desvão luminoso e recatado do cérebro. de um discurso. Que ela amava . que outra coisa é senão a afirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual? Vive Deus! eis um bom fecho de capítulo. Um exemplo da segunda classe constitui o presente capítulo. vejamos a aplicação. fato que o leitor não deve perder de vista. era escusado lembrar ao leitor que eu só afirmo certas leis quando as possuo deveras. o fato particular da ojeriza de um número produziu o fenômeno da dissidência política. mas por gratidão ao marido. Com efeito. cujo amor cobicei até a morte. metia a saudade de permeio nos amores. O mais que podem dizer. deixava burburinhar em volta do meu corpo a gente humana. Assim. limito -me a dizer por ora que o Lobo Neves. E não sei por que. e não é improvável. de nervos e paixões.O voluptuoso. —De maneira que desta vez fica você baronesa. é insular-se o homem no meio de um mar de gestos e palavras. um ato político determinou na vida particular uma cessação de movimento. inacessível. Segundo parece. como o Prometeu de Esquilo fazia aos seus verdugos.. sem a ouvir. nomeado presidente da província. ou da tua agitação? Frágeis cadeias. da tua indiferença.. que havia de ufanar-se quando visse luzir o meu nome. Ao demais. e moveu a cabeça a um e outro lado. Multidão.77 freqüência da outra casa aguçaria as invejas. nem simples eleitor de paróquia.. ato grave. há alguma coisa semelhante às marés da Praia do Flamengo e de outras igualmente marulhosas. cuja conseqüência foi separar do ministério o marido da Virgília. que era 13. quando a onda investe a praia. imaginei que a carta imperial da nomeação podia atraila à virtude. — ou. tempos depois. CAPÍTULO 101 A Revolução Dálmata Foi Virgília quem me deu notícia da viravolta política do marido. Resta ver como. e vai engrossar a onda que há de vir. Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade. Urgia fazer alguma coisa. eu galgara os quarenta anos. amiga minha. falou-me de reuniões. em relação a outras restrinjo-me à admissão da probabilidade. certa manhã de outubro. regular. cuja leitura recomendo a todas as pessoas que amam o estudo dos fenômenos sociais. Ela derreou os cantos da boca. com variável força. — é que baixa do mundo da lua. entre onze e meio-dia. e não era nada. Creio que nessa ocasião houve grandes aplausos. — isto é.. não digo pela virtude em si mesma. uma expressão de gosto e de esperança. existe entre os fatos da vida pública e os da vida particular uma certa ação recíproca. quando ele tomar a si. Esta é a imagem. e talvez periódica. era assim que eu me vingava às vezes de ti. alaga-a muitos palmos a dentro. menos clara. o esquisito. mas esta mesma água tornar ao mar. Rigorosamente podíamos dispensar-nos de falar todos os dias. ainda por amor de Virgília. CAPÍTULO 100 O caso provável Se esse mundo não fosse uma região de espíritos desatentos. mas não juro. decretar-se alheado. mas o mundo da lua. Não convindo ao método deste livro descrever imediatamente esse outro fenômeno. eu pensava em outra coisa. se quiser penetrar a sutileza do meu pensamento. quatro meses depois de nosso encontro no teatro.

ou ainda as que recearem encarar a pupila de outros olhos. Um dito. Nada esquecia a nossa confidente e caseira. Coitada de Dona Plácida! Estava aflita deveras. e um dos maiores desgostos de nossa vida foi o aparecimento de certo pelintra de legação. nem a mentira. vero fidalgo de raça. baixa. porque uma vez chegou a atribuir-me uma paixão nova. nada. Virgília há-de reconhecer que não tive culpa nenhuma. eu não desejo a morte de ninguém. é que há-de ver o anjo que ela é! Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão. mas. contavam as cabeças. depois de um q uarto de hora. sem nenhum protesto ou admoestação. então sim. que a namorou durante três meses.V. Quer você levar-lhe uma carta agora mesmo? — Ela há-de estar bem triste. Em tais casos. Andava de um lado para outro. qualquer coisa. exige menos esforço. suspirando com estrépito. outros adotam o recurso de assobiar a Norma. Perdoe-me. a cada navio que chegava da Europa. não hei de contá-lo nesta página.. — os bons doces de outros dias. ou restituir-lhe a primeira flor. que era ser muito injusto com uma moça que me sacrificaia tudo. Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde ao lugar em que o espera a sua dama.. dolorosa. praticou daí a tempos.78 cordialmente a nobreza. cuido que foi simples distração. CAPÍTULO 103 Distração — Não. — de legação da Dalmácia. que jurara votar-me ao desprezo. . E depois a Dalmácia era tão longe! CAPÍTULO 102 De repouso Mas este mesmo homem. nem a calúnia. E esta só palavra. transcreviam os horrores. formidável. se o senhor doutor algum dia chegar a casar com Iaiá. os jornais. Não chego a alcançar o que seria de mim.. Virgília tinha ido embora. eu atenho-me ao gesto indicado. uma conversa. simples distração. que ficou triste. eu abençoava interiormente essa tragédia. E não era. Eu não. coitadinha! Olhe. Recomendo este gesto às pessoas que não tiverem uma palavra pronta para responder. Tinha razão Dona Plácida. acalentava as manhas do nosso amor! que imaginação fértil em tornar as horas mais aprazíveis e breves! Flores. é mais simples.. e outras mais coisas que a nossa caseira dizia com lágrimas na voz. isto não se faz. Foi sangrenta revolução. uma anedota. senhor doutor. Repito. nada. doces. possuía a vocação diplomática. quando Virgília me falou em semelhante coisa. pedindo-me que não desamparasse Iaiá. alguns preferem recitar uma oitava dos Lusíadas.. Entrei esbaforido. dissipou o aleive de Dona Plácida. se não rebentasse na Dalmácia uma revolução. que. Uma ação grosseira. Esse homem. que chorara. que se irritara. fique esse capítulo para repouso do meu vexame. Não. — e muito riso. toda a gente fremia de indignação e piedade. bafejava as faces. disse-lhe eu. muito afago.. um riso e um afago que cresciam com o tempo. Expliquei-lhe então que um equívoco. — Está bem.. porque a um e outro referia suspiros e saudades que não presenciara. Coitada de Dona Plácida! Com que arte conchegava as roupas. como se ela quisesse fixar a nossa aventura. — Você sabe que n ão posso gostar de outra mulher.. transtornara um pouco a cabeça de Virgília.. não contarei o caso nesta página. sem explicação possível. — o conde B. suponhamos. abanando a cabeça. que se alegrou com a partida do outro. além do mais. mediam o sangue.. que me tirara uma pedrinha do sapato.. istodnão se faz. que derrocou o governo e purificou as embaixadas. foi a minha resposta. Dona Plácida contou-me que ela esperara muito. espiando pela rótula.

calculei toda a distância que ia da minha mão ao planeta Saturno. eu dispus-me a esperar o Lobo Neves. correu até a porta da alcova. você teima em zangar-se.. empurrou-me para a alcova. Apareça. Fosse como fosse. queria fechar também a porta de dentro. com os braços fincados nos joelhos. está bom.. Com efeito. é o que ela dizia. Sentei-me ao pé dela. — Justamente! Foi dali pôr o chapéu. tudo estava explicado. sim. a fim de separar os dois insetos. outras graciosas. Virgília dizia-me uma porção de coisas duras. Era tarde. que eu inclinei-me a apanhá-lo. e perguntei a mim mesmo que interesse podia haver num episódio tão mofino. disse-lhe. que se aborrece. não veio por outra coisa. — Que é isto? exclamou Virgília. mas completo. Esse curto instante passou. enganas-te. Tudo estava esquecido e perdoado. sem arrebatamento. Virgília fez-se da cor das rendas do vestido. Virgília tornou a si. a confidente obedeceu. que na agitação caiu um brinco de Virgília. muito superior a mim. outras humildes. Eu retive-a. Nem me lembra se interiormente as atribuí a Dona Plácida. bradou ela para dentro. Adivinhe quem está cá. CAPÍTULO 104 Era ele! Restitui o grampo a Virgília.79 Três dias depois. tinham dado três horas. — Está bom.. abriu as asas e foi-se embora. Iaiá. Então eu. onde uma mosca arrastava uma formiga que lhe mordia o pé.. parando diante de mim. Eu espreitava-os pelo buraco da fechadura. Depois foi até a porta. ela afastou-se da porta e foi cair no canapé. e preparou para sair. mas não perdoado. Dona Plácida. sem explosão. — Adeus. agarrei-a pela cintura. podia acontecer que Dona Plácida chorasse.. pedi-lhe que ficasse. c om a delicadeza nativa de um homem do nosso século.. que fechara a rótula. Pobre mosca! pobre formiga! — Mas você não diz nada. Não afirmo se os nossos lábios chegaram à distância de um fio de cambraia ou ainda menos.. disse a Dona Plácida que voltasse à janela. fecha subitamente a janela e exclama: — Virgem Nossa Senhora! aí vem o marido de Iaiá! O momento de terror foi curto. ameaçavame com a separação. Virgília ainda forcejou por sair. e circulou um olhar em volta da sala.. Dona Plácida abriu-lhe a porta com muitas exclamações de pasmo: — O senhor por aqui! honrando a casa de sua velha! Entre. ia sair. que esquecesse. como se diz na Escritura. quieto. Você por aqui? . por um fenômeno da visão. Lembra-me. sentado. Era ele. que estava a um canto. as lágrimas que tinha nos próprios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virgília. Esse sim. nada? perguntou Virgília. pálido. e. O Lobo Neves entrou lentamente. um primor de cortesia e afeição. pus na palma da mão aquele casal de mortificados. Se concluis d aí que eu era um bárbaro. levando sempre a formiga no pé. frio. faça favor. e que a mosca de há pouco trepou ao brinco. mas a mosca farejou a minha intenção. delicado. ao vê-la desapontada. com a mão trêmula. olhava para o chão. que hei-de dizer? — Sabe o que me parece? Parece-me que você está enfastiada. Dona Plácida.porque eu pedi um grampo a Virgília. quando lhe pedi desculpa das lágrimas que derramara naquela triste ocasião. que o repregou nos cabelos. correu o fecho. Não tem que adivinhar. Pobre mosca! pobre formiga! E Deus viu que isto era bom. — Que hei-de dizer? Já expliquei tudo. e menos ainda esquecido. Suponho que Virgília ficou um pouco admirada. Dona Plácida. enquanto eu. atirou-se ao marido. Virgília. enfim louvava o marido. que espreitava a ocasião idônea para a salda. disse-lhe muitas coisas meigas. raivosa. que quer acabar. é matéria controversa. estava tudo explicado. era um homem digno.

abriu-o diante dela. Virgília.. sem lhe dizer coisa nenhuma. Dona Plácida. arranjava os cabelos. Era preciso arejar a consciência. Iam e vinham.. Ao cabo. Eu ouvia.. eu estava . e vinha oferecer-se-me para ir à casa do Lobo Neves. Em verdade. porque ele desconfiaria da visita tão próxima. e em bem que o disse. no capítulo 51. Coitadinha! é mesmo a cara da mãe. isto é. — Está aqui. Dona Plácida foi buscar um espelho. De repente vejo um vulto negro. que não respondia nada. Saiu. Tempo houve em que — cheguei a supor que não dissera aquilo senão para que ela me detivesse. como os pontinhos e vírgulas escuras percorrem o campo visual dos olhos enfermos ou cansados. Ponderei-lhe que era arriscado. Mas depois? que ia aconte cer em casa de Virgília? matá-la-ia o marido? espancá-la-ia? encerrá-la-ia? expulsá-la-ia? Estas interrogações percorriam lentamente o meu cérebro. e perguntava a mim mesmo se não era tempo de levantar e espairecer. Vamos juntos. de um desejo de canalizar a vida. — Vou. falando ao marido. foi o que disse. e eu não podia agarrar um deles e dizer: és tu. a exceção. tu e não outro. Dona Plácida. e abriu-lhes a porta. não se esqueça de aparecer. era Dona Plácida. acudiu esta. senhor doutor. refletia comigo se não era melhor ter fechado Virgília na alcova e ficado na sala. m as a simples reflexão basta para mostrar que. Se ele estiver em casa não entro. A nossa boa velha tagarelava demais. confirmaria a suspeita. parecia-me jogar um jogo perigoso. depois dos dez minutos da alcova. — Sossegue. o gesto mais genuíno e cordial não podia ser senão esse. Adeus.. Por que não? Meu coração tinha ainda que explorar. eu saberei arranjar as coisas. as aventuras são a parte torrencial e vertiginosa da vida. enfiara a mantilha.Virg ília punha o chapéu.. CAPÍTULO 105 Equivalência das janelas Dona Plácida fechou a porta e caiu numa cadeira. com o fim de arrancar Virgília ao marido. E digam que as velhas não valem alguma coisa. eu fiquei a ruminar o sucesso e as conseqüências possíveis. Eu deixei imediatamente a alcova. Sentiame tomado de uma saudade do casamento. Foi muito melhor assim. severo e puro. — Não me demoro.. Sente-se. e respirei.80 — Ia passando. era um modo de disfarçar as tremuras do corpo. Olhai. — Muito obrigada. — Dê cá o meu chapéu. que eu tive a satisfação de descobrir e formular. e uma cena de sangue.. ouviu? A outra prometeu que sim. com o seu aspecto seco e trágico. CAPÍTULO 106 Jogo perigoso Respirei e sentei-me. interrompeu ela. — Pronta! disse ela. — Você vai para casa? disse Virgília. A alcova foi uma janela fechada. chegaria o fogo à pólvora.. E acariciando-a muito: — Este anjinho é que nunca se esqueceu da velha Plácida. eu abri outra com o gesto de sair. mas adverti logo que seria pior. e dei dois passos para sair à rua. e vim cumprimentá-la. gentes! Iaiá parece estar com ciúmes. dominado o primeiro instante. tornara à posse de si mesma. vi Dona Plácida à janela. porque Dona Plácida deteve-me por um braço. que fora dentro. atava as fitas. Dona Plácida atroava a sala com exclamações e lástimas. E isto por aquela famosa lei da equivalência das janelas. não me sentia incapaz de um amor casto.

A razão principal poderia ser justamente o meu desastre. agora saiu. ou nas lágrimas? Quanto a mim. e menos ainda praticá-lo. sabido fica que almocei. Esse retalhinho de papel.. ao pé de uma mulher adorável. Nem então. e não a aceites sem provas. E se não conto a história. garatujado em partes. era vaidade e não era vaidade.” CAPÍTULO 108 Que se não entende Eis ai o drama. nem no outro. dispenso-me outrossim de descrever-lhe a figura. no meio de tanta coisa importante obliterada escapou esse almoço. e que. a frugalidade podia indicar certa tendência para o ascetismo. antes e depois do almoço. era um documento de análise. e não era medo. que esta filosofia acomodava-se facilmente com os prazeres da vida. mas interessante.81 enfarado delas. extremamente azul. Calo-me. no deserto. deixei-me ir atrás da imaginação. e fazer emagrecer o farisaísmo na sinagoga. é a realidade pura. como eu não entendi. e só resta dizer que essa refeição foi das mais parcas da minha vida: um ovo. Não me tratou mal nem bem. uma fatia de pão. para nhonhô. uma xícara de chá. muita cautela. e tudo isso dava uma combinação assaz complexa e vaga. digo somente que se o principal característico do homem não são as feições. enfim. o desespero que se constrange e medita. Era medo. ao contrário. vi-me logo casado. mas ele suspeita alguma coisa. depois de o fitar muito tempo. CAPÍTULO 107 Bilhete "Não houve nada. que é verdade. nem talvez em todo o resto do livro. não sei até se me pungia algum remorso. Mal pensei naquilo. uma história longa. ele não era o Quincas . isto é. o espetáculo e os amores. sem delírio. duvidai um pouco da asserção. a principal razão foi a reflexão que me fez o Quincas Borba. a perspicácia e o ânimo dessas poucas linhas traçadas à pressa. diante de um baby. mas o vestuário. se vos disser mais que o reli no dia seguinte. aliás mui diversa da que me apareceu no Passeio Público. se vos disser que li o bilhete três ou quatro vezes. inclusive a mesa. Disseme ele que a frugalidade não era necessária para entender o Humanitismo. porque tem de resolver-s ena lama. era dó e não era dó. que eu não farei neste capítulo. acreditai-o.. uma coisa que não podereis entender. naquele dia. complicada. por ora. Poderia eu tirar ao leitor o gosto de notar por si mesmo a frieza. Não sei o que vai acontecer. Mas se vos disser a comoção que tive. Muita cautela. a espiarmos através das árvores uma nesga do céu azul. e por trás delas a tempestade de outro cérebro. continuou ele. antes e depois do almoço. carrancudo. era amor sem amor. em vez de engordar tranqüilamente na cidade. CAPÍTULO 109 O filósofo Sabido que reli a carta. que dormia no regaço da ama. eis aí a ponta da orelha trágica de Shakespeare. Deus me livre de contar a história do Quincas Borba. mas não foi. que aliás ouvi toda naquela triste ocasião. mantinha-se de gafanhotos. a raiva dissimulada. todos nós no fundo de uma chácara sombria e verde. machucado das mãos. está muito sério e não fala. nem ainda agora cheguei a discemir o que experimentei. o qual era a expressão acabada da tolice humana. Suponhamos que não disse nada. Deus queira que isto passe. Não me esqueceu esta circunstância mínima. cuja visita recebi naquele dia. Sorriu uma vez somente. podeis crê-lo. — Veja São João.

trouxe. se o decreto viesse outra vez datado de 13. toda a longa série dos homens tem-se debruçado sobre o poço. e esta simples transposição de algarismos eliminou deles a substância diabólica. parecia restituída à primitiva sonoridade. — Olhe. a data de 31.82 Borba. desequilibrava-me. que omito por brevidade. um negociante sem deficit. porém. alguns mais afoitos desceram ao fundo e trouxeram um sapo. Os gregos faziam-na sair de um poço. Venha para o Humanitismo. como se fosse a mais fina pluma. era instrutiva a narração do nosso filósofo. Contentem-se de saber que as botas eram de verniz. igualmente rija e eficaz. sujeitava-se a um certo método. Quincas Borba sorriu de um modo malicioso. Se falasse. sem falta. do quarto próprio ao corpo da guarda. venha depois. o mar eterno em que mergulhei para arrancar de lá a verdade. Que profundas que são as molas da vida! CAPÍTULO 111 O muro Não sendo meu costume dissimular ou esconder nada. Saibam mais que ele herdara alguns pares de contos de réis de um velho tio de Barbacena. Mas eu não quero descrevê-lo. o bilhete de Virgília dava-lhe outra palmada. dormi-a inteira. Não era só convidar o escândalo. iniciaria uma descrição. descia. quando ia a cair. Só me disse estas últimas palavras à porta: — Venha para o Humanitismo. Eu fui diretamente ao mar. ele é o grand e regaço dos espíritos. roufenha outrora. admirava-lhe sobretudo o talento de observação com que descrevia a gestação e o crescimento do vício. no botão de ouro que trazia ao peito. mal pensada e até ridícula. Lobo Neves foi nomeado presidente de província. dizia que me esperava à noite. Quis expor-me finalmente a filosofia. Que concepção mesquinha! Um poço! Mas é por isso mesmo que nunca atinaram com ela. meu espírito era naquela ocasião uma espécie de peteca. era um bilhete de Virgília. a primeira noite que passei na escada de São Francisco.. E concluía: "O muro é baixo do lado do beco. era um desembargador sem beca. Esse puxar e empuxar de coisas opostas. e ele era de novo arremessado aos ares. o uso da lama. Gregos. CAPÍTULO 110 31 Uma semana depois. Agarrei-me à esperança da recusa. sem que houvesse perdido a viveza de outro tempo. e o episódio do Passeio Público recebia-o com outra palmada. a alvura da camisa. as capitulações vagarosas. talvez soubesse da minha aventura. que não está lá. era convidá-lo de parceria com a risota. Entrando em casa de Dona Plácida. A mesma voz. A carta pareceu-me descomunalmente audaciosa. do corpo da guarda à rua. estou sempre em casa. Quanto à gesticulação. as lutas interiores. e mandá-los de presente a Aristóteles. vi um papelinho dobrado sobre a mesa. Estou muito preocupado hoje e não poderia atendê-lo. observou ele. Notei-lhe a perfeição da sobrecasaca. tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba. antigregos. não tinha já a desordem. Eles estavam prestes a embarcar. subgregos. o Lobo Neves e o bilhete de Virgília na mesma filosofia. mas não acrescentou nada.. — Meu espírito (permitam-me aqui uma comparação de criança!). Cuido que não nasci para situações complexas. na chácara. um general sem farda. Contudo. A narração do Quincas Borba dava-lhe uma palmada. contarei nesta página o caso do muro." Fiz um gesto de desagrado. Imaginei- . Gastaram cordas e caçambas. o asseio das botas. e na qualidade do couro das botas. por exemplo. ele subia. para ver sair a verdade. Por quê? Porque fui gradualmente da cama de esteira ao catre de pau. eu pedi-lhe que não.

a doença. e a atividade externa. um antigo bilhete de Virgília. Pareceu-me então (e peço perdão à crítica.. Tive uma sensação esquisita. que me levava ao corpo da guarda. que abriria minucioso inquérito acerca do caso. nesta sua gaveta. e atirá-los ao vento.. vi-o de modo que devia custar-lhe muito. embora baixo e do lado do beco. . mas de um retraimento que forcejava por dissimular. era possível que já estivesse arrependida. uma certa entrevista na chácara.. sem igualmente buscar a separação conjugal. em verdade. cuido que ele estaria pronto a separar-se da mulher. como o leitor se terá separado de muitas relações pessoais. essa opinião que lhe arrastaria a vida por todas as ruas. e oblitera a memória das coisas. e. era. que a distância dos fatos apagasse os respectivos contornos. obstou à dispersão da família. e. Guardei o papel e. — Diga-lhe que vou. na Rua do Ouvidor. Que lhe custasse creio. Poucas horas depois. Ele não podia mostrar-se ressentido comigo. recebido no começo dos nossos amores. nem de si. que as relataria na palestra das chácaras desocupadas. remirei-o. que coligiria uma a uma todas as circunstâncias. CAPÍTULO 112 A opinião Mas estava escrito que esse dia devia ser o dos lances dúbios. assim. um responso. em que cada membro acusa e julga. Olhei para o papel.. essa terrível opinião. o vexame da fuga. um pedaço de papel amarrotado. que a opinião se ocupasse um pouco com outras aventuras. nem do código. Ele aproveitou o primeiro conhecido que nos passou à ilharga. encontrei Lobo Neves. Ao mesmo tempo tornou impossível o desforço que seria a divulgação. tinha medo da opinião. um muro baixo e discreto. mas a opinião. era o limite posto à vontade do Lobo Neves. naqueles dias. via-me agarrado por um pedestre de polícia.nem da consciência. Tive uma sensação esquisita. tão curiosa das alcovas. O filho. o declínio. e estava fechado o livro da vida. mirei-o. Mas o tempo (e é outro ponto em que eu espero a indulgência dos homens pensadores!). mas recuei a tempo.. crescendo. se este meu juízo for temerário!) — pareceu-me que ele tinha medo— não medo de mim. como o último despojo da minha aventura. Tive comichões de o rasgar. quando ia a galgá-lo. falamos da presidência e da política. induções. — Não me disse nada. antecedências. buscaria satisfazer as ambições do pai. depois de muitos cumprimentos. Dona Plácida arregalou os olhos: — Mas esse papel. Supus que esse tribunal anônimo e invisível. em trinta mil pedaços. o amor-próprio. Talvez já não amasse a mulher. Reli o papel. era de supor que os anos lhe despontassem os espinhos.. e deixou-me. — Aonde? perguntou Dona Plácida. — Neste papel. e. que uma sombra de dúvida retrospectiva cobrisse a nudez da realidade. iguais sentimentos. por dedução. principalmente. mas inflexível. achei-o hoje de manhã. Isso. e a velhice depois. e teve então de simular a mesma ignorância de outrora.83 me a saltar o muro. a morte. O muro é baixo! E que tinha que fosse baixo? Naturalmente Virgília não soube o que fez. a idéia do medo. e pensei que. enfim. que me levou efetivamente a saltar o muro. Não havia remédio senão ir. sem nenhuma página de sangue. uma notícia biográfica. Cuido (e de novo insto pela boa vontade da crítica!). — Onde ela disse que me espera. Lembra-me que estava retraído. pode ser que o coração fosse estranho à indulgência dos seus últimos atos. e o prestígio público. o tempo caleja a sensibilidade. provas. seria o herdeiro de todos os seus afetos.

Coitada! Foi ontem despedir-se de nós. De um ou de outro modo. a saber. É uma boa criatura. Alguns metafísicos biliosos têm chegado ao extremo de a darem como simples produto da gente chocha ou medíocre. havia servido nos famosos Véry e Véfour. . uma coisa mista. — Talvez dois anos? — Qual! ele diz que só até fazer as eleições. eis algumas das melhores recordações daquele tempo. Seria romanesco. e não almoçar. bastava considerar os efeitos salutares da opinião.. o baile dos estrangeiros. adeus. é uma boa solda a opinião. Agora até daqui a. ela receberá as cartas. e ao estômago com os acepipes de M. para titilar-lhe os nervos da fantasia.. — Quem? — Ali do sofá. A polca.CAPÍTULO 114 Fim de um diálogo — Sim. devia padecer um grande desespero. Olhe que estão olhando para nós.. — Mas é preciso. antes de acabar o livro. — Se tivermos de escrever.. de Paris. para concluir que ela é a obra superfina da flor dos homens. mas também não é impossível que o deixe como está.. Virgília! — Até breve. em iguais doses. A realidade pura é que eu almocei. Prudhon. é que a opinião é uma boa solda das instituições domésticas.84 CAPÍTULO 113 A Solda A conclusão. disse que eu não a veria mais. chorou muito. e mais nos palácios do Conde Molé e do Duque de la Rochefoucauld? Era insigne. . segundo dizia o dono da casa. Eu bem sei que. mas à hora marcada senti alguma coisa que não era dor nem prazer. alívio e saudade. mas é evidente que. — Sim? então até breve. mas não seria biográfico. Prudhon. e tanto na ordem doméstica. ainda quando um conceito tão extremado não trouxesse em si mesmo a resposta. adeus! — Adeus! — Não se esqueça de Dona Plácida. — Então. mas sobretudo os acepipes do mestre eram deliciosos. Não se irrite o leitor com esta confissão. o Tivoli.Velhos do meu tempo acaso vos lembrai desse mestre cozinheiro do Hotel Pharoux... tudo m isturado. do maior número.. M. acudindo ao coração com as lembranças da minha aventura. Não é impossível que eu desenvolva este pensamento. — Custa-me muito. como na política. Adeus! CAPÍTULO 115 O almoço Não a vi partir.. um sujeito que. o Cassino.. se há alguma no capitulo anterior. Vá vê-la algumas vezes. é amanhã. . derramar algumas lágrimas. não é? — Certamente. Você vai a bordo? — Está doida? É impossível. Separemo-nos. Entrou no Rio de Janeiro com a polca. como nos demais dias.

Ai dor! Era-me preciso enterrar magnificamente os meus amores. Leitor ignaro. empregarei a locução de um velho marujo. Que requinte de temperos! que ternura de carnes! que rebuscado de formas! Comia-se com a boca. no espaço e no tempo. Guarda as tuas cartas da juventude! Ou. porém. Minha irmã encaminhou a candidatura conjugal de Nhã-lolóde um modo verdadeiramente impetuoso. eu continuava às moscas. não conhecerás um dia a filosofia das folhas velhas. — Humanitas. Quando dei por mim estava com a moça quase nos braços. a bailar ao som de uma gaita anacreôntica. é o que se pode exigir mais triste. tão vadios e tão vazios. a dispersiva. Era tudo: saudades. Que digo? como quem leva cartas ao correio: selei as cartas. entornava as cartas antigas. e abria-as todas. CAPÍTULO 117 O Humanitismo Duas forças. Não guardei a conta desse dia. e recompunha o pretérito. se guardares as cartas da juventude. com um chapéu de três bicos. no fund o de uma sala grande. se te não apraz o chapéu de três bicos. familiar da casa de Cotrim. além de uma terceira. Jamais o engenho e a arte lhe foram tão propícios. entoadas no alto-mar. e eu ficava-me ali numa ponta de mesa. descansar um pouco. ambições. ficava-me para os não ver nunca mais. sugeriu a Humanitas o desejo de o gozar. e deixei ao carteiro o cuidado de as entregar em mão própria. mas a fisgá-las de um modo particular: com os olhos. filha do Cotrim. dos parentes. ao longe. e contará mais uma. Fisgava-as uma a uma. expôs -me enfim o Humanitismo. A partida de Virgília deu-me uma amostra da viuvez. como Domiciano. Outras vezes agitava-me. iniciando o universo. a expansiva. o princípio das coisas. Como expressão poética.85 Eram. não é outro senão o mesmo homem repartido por todos os homens. estirado na rede. item. sei que foi cara. como quem leva dinheiro a um banco. mar em fo ra. Ia às gavetas. acharás ocasião de "cantar uma saudade". Quanto ao Quincas Borba. com um livro aberto entre as mãos. Não me dei por abalado. dois primos. não quero perder tempo. das namoradas (até as de Marcela). se não guardas as cartas da juventude. Eles lá iam. na penumbra. Parece que os nossos marujos dão este nome às cantigas de terra. e continuar depois. e naquela manhã parece que o diabo do homem adivinhara a nossa catástrofe. com os meus quarenta e tantos anos. não gostarás o prazer de ver-te. Mas não. purgar o espírito da melancolia que a empacha. e muito devaneio solto. mas o eflúvioda manhã quem é que o pediu ao crepúsculo da tarde? CAPÍTULO 116 Filosofia das folhas velhas Fiquei tão triste com o fim do último capítulo que estava capaz de não escrever este. dizia ele. a fisgar moscas. A expansão. Meu tio cônego morreu nesse intervalo. sistema de filosofia destinado a arruinar todos os demais sistemas. se não mente o Suetônio. meti-as na caixinha. absorção do homem e das coisas. um pouco de tédio.. a contrativa. anterior a toda a criação. Conta três fases Humanitas: a estática. com o nariz.. dos amigos. Morriam uns. levei-os ao cemitério. que não é mais do que a multiplicação personificada da . nasciam outros. porque ela poderia tornar e tornou. aparecimento do homem. começo das coisas. Foi também por esse tempo que nasceu minha sobrinha Venância. Nos primeiros dias meti-me em casa. direi que. compeliam-se a tomar à vida agitada do costume: Sabina e Quincas Borba. com os olhos. botas de sete léguas e longas barbas assírias. e daí a dispersão. li-as uma a uma.

o algoz que executa o condenado pode excitar o vão clamor dos poetas. segue-se que a transmissão da vida. nem quedas. não era o mesmo que descender dos cabelos ou da ponta do nariz. a fome é uma prova a que Humanitas submete a própria víscera. esse sentimento tão sutil e tão nobre. mas tão frouxas. Nutriu-se de milho. foi vendido. O acordo é universal. nem alegrias pueris. Explicou-me que. que ele não gastou muito tempo em destruí-las. Tinha uma asa de frango no prato. O amor. o Humanitismo ligava-se ao Bramanismo. na distribuição dos homens pelas diferentes partes do corpo de Humanitas. e foi-me preciso suspender a conversa por alguns minutos. por exemplo. Daí a necessidade de cultivar e temperar o músculo. concluiu ele. isto é. se senão houvesse amesquinhado com a parte galante dos seus mitos.86 substância original. Queres uma prova da superioridade do meu sistema? Contempla a inveja. e sendo a luta a grande função do gênero humano. importado de Angola. um navio o trouxe. fazendo notar as grandes linhas do sistema. a reprodução um ritual. esquece as retóricas rafadas. que eu não tinha nascido. — Para entender bem o meu sistema. cristão ou muçulmano. Quincas Borba mal podia encobrir a satisfação do triunfo. é uma operação conveniente. importa não esquecer nunca o princípio universal. um navio construído de madeira cortada no mato por dez ou doze homens. levado por velas. que parece uma calamidade. Hércules ou não foi senão um símbolo antecipado do Humanitismo. que foi plantado por um africano. que troveje contra o sentimento da inveja. e para tudo dizer numa só palavra: viver. Nota que eu não faço do homem um simples veículo de Humanitas. Mas eu não quero outro documento da sublimidade do meu sistema. Sendo cada homem uma redução de Humanitas. por exemplo. Porquanto. repartido e resumido em cada homem. e não há mendigo que não prefira a miséria à morte (o que é um delicioso influxo de Humanitas). Neste ponto o Quincas Borba ponderou que o paganismo poderia ter chegado à verdade. suponhamos. e estuda a inveja. Nesta igreja nova não há aventuras fáceis. abre mão dos velhos preconceitos. é claro que nenhum homem é fundamentalmente oposto a outro homem. ir ao teatro. não. Nasceu esse africano. Como a vida é o maior benefício do universo. Assim. a saber. é uma manifestação da força de Humanitas. Nada disso acontecerá com o Humanitismo. Eu fiz-lhe ainda algumas objeções. é positivo que não teria agora o prazer de conversar contigo. o rigor das conseqüências. quaisquer que sejam as aparências contrárias. é um sacerdócio. Se entendeste bem. Ora bem. por exemplo. enquanto digeria a filosofia nova. Como me não aparecesse assaz clara esta exposição. nem tristezas. mas aquilo que na religião indiana tinha apenas uma estreita significação teológica e política. ser um forte. ele é ao mesmo tempo veículo. ele é o próprio Humanitas reduzido. que oito ou dez homens . Não há moralista grego ou turco. era no Humanitismo a grande lei do valor pessoal. e trincava-a com filosófica serenidade. — Imagina. cocheiro e passageiro. tudo isso parecia superiormente grande. continuou o Quincas Borba. Quincas Borba desenvolveu-a de um modo profundo. facilmente compreenderás que a inveja não é senão uma admiração que luta. Olha: a guerra. descender do peito ou dos rins de Humanitas. todos os sentimentos belicosos são os mais adequados à sua felicidade. Para que negá-lo? eu estava estupefato. Assim. comer esta batata. Dai vem que ainveja é uma virtude. verdadeiramente há só uma desgraça: é não nascer. senão este mesmo frango. como se disséssemos o estalar dos dedos de Humanitas. longe de ser uma ocasião de galanteio. O mesmo direi do indivíduo que estripa a outro. A clareza da exposição. a fome (e ele chupava filosoficamente a asa do frango). é a hora suprema da missa espiritual. por um lado. cresceu. desde os campos da Iduméia até o Alto da Tijuca. daí a necessidade de adorar-se a si próprio. mas substancialmente é Humanitas que corrige em Humanitas uma infração da lei de Humanitas. Nada obsta (e há exemplos) que ele seja igualmente estripado. a lógica dos princípios.

A multidão atraía-me. com alguma coisa e por alguma coisa. e por dois motivos: 1º porque sendo Humanitas a substância criadora e absoluta. . herdada e transmitida. destinados a não influir sobre o homem. inventada unicamente para seu recreio dele. A dor. cada indivíduo deveria achar a maior delícia do mundo em sacrificar-se ao príncipio de que descende. não diminuiria o poder espiritual do homem sobre a terra. as brisas. nem por isso ficava destruído o sistema. posto que concebida com um formidável rigor de lógica. a insurreição. Entre o queijo e o café. mas é indispensável. a fome. com letra miúda e citações latinas. que eu almocei agora mesmo. ————— Um cocheiro filósofo costumava dizer que o gosto da carruagem seria diminuto. ainda assim. Eram quatro volumes manuscritos. Quincas Borba leu-me daí a dias a sua grande obra. Pangloss. que mal se lhe podem assinar alguns milhares de anos. Reorganizada a sociedade pelo método dele. sobretudo. de cem páginas cada um. quem sabe? Não teria morrido logo e estaria célebre. o tempo nos enterra. as tâmaras e o ruibardo.87 teceram. CAPÍTULO 119 Parêntesis Quero deixar aqui. se todos andassem de carruagem. essa predisposição é que constitui a base da ilusão humana. não tem mais do que remontar o pensamento à substância original para obstar qualquer sensação dolorosa. fundado no Humanitismo. entre parêntesis. Assim. podem servir de epígrafe a discursos sem assunto: ————— Suporta-se com paciência a cólica do próximo. porque não passariam de movimentos externos da substância interior. segundo o Humanitismo. senão como simples quebra da monotonia universal. o simples murro. 2º porque. é uma pura ilusão. Se a idéia do emplasto me tem aparecido nesse tempo. Mas ainda quando tais flagelos (o que era radicalmente falso) correspondessem no futuro à concepção acanhada de antigos tempos. e. como as estrelas. era talvez a parte mais enfadonha do sistema. é o resultado de uma multidão de esforços e lutas. ————— Matamos o tempo. porém. dizia-me ele ao fechar o livro. fecha os olhos e treme. é tão profunda. não era tão tolo como o pintou Voltaire. São bocejos de enfado. as doenças. antes mesmo de ter sido espancada. o aplauso namorava-me. Mas o emplasto não veio. nem por isso ficavam eliminadas a guerra. O último volume compunha-se de um tratado político. demonstrou-me Quincas Borba que o seu sistema era a destruição da dor. meia dúzia de máximas das muitas que escrevi por esse tempo. Não basta certamente a adoção do sistema para acabar logo com a dor. a incapacidade de viver só. Uma vez que o homem se compenetra bem de que ele é o próprio Humanitas. a miséria. sem contar a cordoalha e outras partes do aparelho náutico.Veio o desejo de agitar-me em alguma coisa. claro estava que a sua existência não impediria a fe licidade humana. CAPÍTULO 118 A terceira força A terceira força que me chamava ao bulício era o gosto de luzir. a facada anônima. A evolução. executados como único fim de dar mate ao meu apetite. este frango. Quando a criança é ameaçada por um pau. mas sendo esses supostos fl agelos verdadeiros equívocos do entendimento. o resto é a natural evolução das coisas.

o pai e eu. f ui ter com ele e expus-lhe os movimentos internos da minha paternidade. uns em mangas de camisa. outros metidos em sobrecasacas esfrangalhadas. os olhos da moça. E vimos isto. eram outros tantos impulsos que me levavam ao matrimônio. à porta. A lembrança de Virgília aparecia de quando em quando. outros de jaqueta. animoume ao casamento. ponderou que eram mais alguns convivas que batiam à porta. tamanhos e cores. Damasceno. Como o Damasceno morava nos Cajueiros. os desejos do pai. salvo o velho palacete do alto. mas nem sempre duvides dos outros. Sem filhos! Não. basta-lhes ler este capítulo até o fim. ela. ali quatro. erradamente interpretado pelos padres. homens de todas as i dades. eu acompanhava-os muitas vezes à missa. estes sentados sem pedras. e todos c om os olhos fixos no centro. declarou-me que Humanitas se agitava em meu seio. terna. não sei que fenômeno se deu que fui deixando aqui dois anos. disse-me Sabina. e todos me foram cedendo espaço. que de um terceiro andar. ————— Não se compreende que um botocudo fure o beiço para enfeitá-lo com um pedaço de pau. CAPÍTULO 121 Morro abaixo No fim de três meses. atitudes diversas. cor-derosa. ————— Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens. mas outro diabo vinha. logo adiante cinco. de maneira que. que vinha ao pé de nós. quer não. se querem saber em que circunstâncias se deu o fenômeno. E não me deixou sem provar que o apólogo evangélico não era mais do que um prenúncio do Humanitismo. Sim. Pois um domingo. — Que é? perguntou-me Nhã-loló. etc. e compradas a troco da solidão. Que belo futuro! Um solteirão sem filhos. Não os sentia. e com ela um diabo negro. estava com vinte anos apenas. percorreu-me outra vez o fluido misterioso. sem . abri sutilmente caminho. aqueles encostados ao muro. senhor. O fluido. Agora. no qual eu via ao longe Virgília d esfeita em lágrimas. Sem filhos! Como já então depositasse grande confiança em Quincas Borba. ainda mesmo a aliança do Damasceno. A vida celibata podia ter certas vantagens próprias. e as almas debruçadas das pupilas. mas seriam tênues. Vínhamos da missa. em que fui à missa na capela do Livramento. quando cheguei abaixo. tão lépidos como tinham sido. impossível. uns de cócoras. com outro espelho.88 ————— Crê em ti. percebeu o que era e adiantou-se alvoroçado. cumpria ser pai. luminosa. CAPÍTULO 120 Compele intrare Não. Sabina. nós fomos atrás dele. há de casar. O morro estava ainda nu de habitações. angélica. agora quer você queira. em que se refletia a figura de Nhã-loló. outros com as mãos apoiadas nos joelhos. como dizia Jesus. Dispus-me a aceitar tudo. certo domingo. acrescentarei até que os deitara fora. O filósofo ouviu-me com alvoroço. Compelle intrare. Sem filhos! A idéia de ter filhos deu-me um sobressalto. ia tudo à maravilha. onde era a capela. Esta reflexão é de um joalheiro. Fiz-lhe sinal que se calasse. ao descer com Nhã-loló pelo braço. Não falo dos anos. que me metia à cara um espelho. No meio do morro achamos um grupo de homens.

vou arrancar esta flor a este pântano. Podiam supor-lhe algum interesse. concentrara-se no duelo. no meu espírito. ele veio daí a pouco rodeado dos apostadores. a sua causa da causa do pai. CAPÍTULO 122 Uma intenção mui fina O que vexava a Nhã-loló era o pai. Ambos tinham o bico aberto. não ouvia. A briga de galos era uma de suas paixões. se acaso louvasse as raras prendas de Nhã-loló. a manifestação do pai foi tamanha que a entristeceu grandemente. tão expressivo o desânimo. ao contrário. Um destes. bico abaixo. entendi não tratar o casamento sem primeiro falar ao Cotrim. Ambos agitavam as cristas em sangue. Aceitei o conselho e vim com ela por ali abaixo. O centro tinha-lhes atado os olhos.. Era notável a diferença que ela fazia de si mesma. relembravam as proezas de ambos. respirando a custo. ao mesmo tempo dava-se ao esforço de mascarar a inferioridade da família. adivinhava. tesoureiro das apostas. principalmente porque lhe parecia o meio mais seguro de ajustar as nossas pessoas. Nhãloló vexadíssima. golpe deste. porém. e Nhã-loló chegara a temer que tal sogro me parecesse indigno. Este sentimento pareceu-me de grande elevação. Vi os dois contendores. vibrantes e raivosos. Eu fui andando. o espetáculo eliminou para ele todo o universo. sem embargo das fortes comoções da luta. Em vão lhe disse que era tempo de descer: ele não respondia. disse eu comigo.. à espera de Damasceno. que não trazia crista nenhuma. por isso calava-se. O Damasceno não sabia mais nada. Foi assim que os anos me vieram caindo pelo morro abaixo. olhos fitos nos olhos. — Não há remédio. biografavamos contendores. Nhã-loló observava. Foi nessa ocasião que Nhã-loló me puxou brandamente pelo braço. estudava-se e estudava-me. Já disse que o morro era então desabitado. Era tão profundo o abatimento. disse-lhes também que vínhamos da missa. Tão forte que abri logo o guarda-sol. A vida elegante e polida atraía -a. Era uma briga de galos. vinham alegres. como eu amasse a harmonia da família. dois galos de esporão agudo. era uma afinidade mais entre nós. Mas lutavam ainda assim. Ele ouviu-me e respondeu me seriamente que não tinha opinião em negócio de parentes seus. olho de fogo e bico afiado. E forte. mas era engano — o vencido era o outro. esfalfados.89 que positivamente ninguém me visse. Quanto aos galosvinham sobraçados pelo respectivo dono. era claro que fazia bom tempo. que vi logo nele o vencido. o peito de um e de outro estava desplumado e rubro. que eu cheguei a atribuir a Nhã-loló a intenção positiva de separar. um sol delicioso. e inclinei-o por modo que ajuntei uma página à filosofia do Quincas Borba: Humanitas osculou Humanitas. Um deles trazia a crista tão comida e ensangüentada. golpe daquele. que não a alegravam mais. a comentar com eles a briga. Mais: estava certo de que a sobrinha nutria por mim verdadeira paixão. e não lhes tendo dito que chovia. bico acima. distribuia um velho maço de notas de dez tostões. Eu busquei então diverti-la do assunto. Ao sopé detivemo-nos alguns minutos. imitava. CAPÍTULO 123 O Verdadeiro Cotrim Não obstante os meus quarenta e tantos anos. que os vencedores recebiam duplamente alegres. dizendo-lhe muitas chanças e motes de bom-tom. Naquele dia. invadia-os o cansaço. Os apostadores. A facilidade com que ele se metera com os apostadores punha em relevo antigos costumes e afinidades sociais. mas se ela o consultasse. dizendo que nos fôssemos embora. segurei-o pelo centro do cabo. vexado. vãos esforços. o seu conselho .

A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos. concluiu ele. e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o deficit. fazendo-lhe certas confidências. mas ele desculpava-se dizendo que as boas ações eram contagiosas. Não era levado por nenhum ódio. não é de minha honra. Era tesoureiro de uma confraria. a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado. e na dor que padeceu quando morreu Sara. assaz danoso ao efeito do livro. Não digo que este pensamento seja meu. não posso ter voto. e se tal era o intuito. e cuido que tinham razão. — Diga. como era de justiça. esses benefícios senão com o fim de espertar a filantropia dos outros. mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude. dali a alguns meses. o sestro de mandar para os jornais a notícia de um ou outro beneficio que praticava. pode ser real e comum. como eu. donde eles desciam a escorrer sangue. — sestro repreensível ou não louvável. segundo me disse. quando públicas. e não única. — não se fartava de as elogiar. quanto à noiva. Em suma. não devo. e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais. — Não. Não era perfeito.. Eu mesmo fui injusto com ele durante os anos que se seguiram ao inventário de meu pai. Saltar de um retrato a um epitáfio. a forma é pitoresca. — Lavo inteiramente as mãos. além de que ele só mandava os perversos e os fujões. padeceria o leitor um forte abalo. tendo longamente contrabandeado em escravos. poderia dever algumas atenções. ocorre que..Como era muito seco de maneiras tinha inimigos. não chegaria jamais a negar que era noiva excelente. e que. não digo nada.. mas não. senão para escapar à vida.. apreciava as minhas boas qualidades. que chegavam a acusá-lo de bárbaro. entretanto. — Mas você achava outro dia que eu devia casar quanto antes. Arguiam-no de avareza. Não obstante. acho eu. Saiba que na política o celibato é uma remora. não digo.. de quando em quando.. — Isso é outro negócio. CAPÍTULO 124 Vá de intermédio Que há entre a vida e a morte? Uma curta ponte.. Reconheço que era um modelo. não se re fugia no livro. ao menos. tinha. e até irmão remido de uma destas. força é confessar que a publicidade tornava-se uma condição sine qua non. prova irrefutável. habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria. digo que há nele uma dose de verdade.90 seria negativo. Agora. Parece-me que Sabina foi além. por exemplo.. Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim. concordo. verdade é que o benefício não caíra no chão: a irmandade (de que ele fora juiz). Olhe. razão a que se não pode negar algum peso. mas. o leitor. mandara-lhe tirar o retrato a óleo. mas daí a aconselhar o casamento ia um abismo. decerto. e irmão de várias irmandades. não quero. mas em todo caso ela não é tia carnal de Nhã-loló. e pelo que respeita a Nhã-loló. se eu não compusesse este capítulo. E repito: não é meu. principalmente tendo ambições políticas. Creio mesmo (e nisto faço o seu maior elogio) que ele não praticava. o que não se coaduna muito com a reputação da avareza. . Acho que é indispensável casar. O único fato alegado neste particular era o de mandar com freqüência escravos ao calabouço. mas não devia um real a ninguém.

— Qual! gemia ele.. Doze pessoas apenas. mas esta pergunta era tão insensata. Ficam sabendo que morreu. Concluí que talvez não a amasse deveras.91 CAPÍTULO 125 Epitáfio EPITÁFIO ————— AQUI JAZ DONA EULÁLIA DAMASCENA DE BRITO MORTA AOS DEZENOVE ANOS DE IDADE ORAI POR ELA! CAPÍTULO 126 Desconsolação ————— O epitáfio diz tudo. ou uns dos outros. levou também uma jovem dama. menos ainda daquela morte. acrescentarei que foi por ocasião da primeira entrada da febre amarela. matando à direita e à esquerda. Vale mais do que se lhes narrasse a moléstia de Nhã-loló. doeu-me um pouco a cegueira da epidemia que. não conto igualmente a missa do sétimo dia. no meio do luto geral. Ponderei-lhe que as perdas eram tão gerais que bem se podia desculpar essa desatenção aparente. não sentia eu algum secreto encanto em ter escapado às garras da peste. e me despedi triste. continuava inconsolável. Quincas Borba. A tristeza de Damasceno era profunda. Cotrim. fez-me notar que. e suspirou: . que tinha de ser minha mulher. a morte. o desespero da família. o enterro. e três quartas partes amigos do Cotrim.. esse pobre homem parecia uma ruína. das panacéias dos boticários. Três semanas depois tornou ao assunto. Quinze dias depois estive com ele. Se não contei a morte. Chegou a perguntar-me se. quisera ter a consolação da presença dos amigos. E ele fizera expedir oitenta convites. desampararam-me. Não digo mais nada. no meio do desastre irreparável. abanou outra vez a cabeça. Damasceno ouviu calado. e dizia que a dor grande com que Deus o castigara fora ainda aumentada com a que lhe infligiram os homens. havia uma vantagem de muito peso: a sobrevivência do maior número. não cheguei a entender a necessidade da epidemia. falariam da inércia do governo. acompanharam à cova o cadáver de sua querida filha. e então confessou-me que. a não ser que a acompanhei até o último jazigo. por mais horrendo que fosse o espetáculo. Damasceno abanava a cabeça de um modo incrédulo e triste. explicou-me que epidemias eram úteis à espécie. Creio até que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras mortes. que ficou sem resposta. porém. embora desastrosas para uma certa porção de indivíduos. do preço das casas. Os oitenta viriam por formalidade. que estava presente: — Vieram os que deveras se interessam por você e por nós. Vejam agora a que excessos pode levar uma inadvertência. Não me disse mais nada. mas sem lágrimas.

tu captas a indulgência de um Profeta. c om o fim de saber de um modo positivo e concludente. a letra dá vida. mas a indiferença que corteja deixa-lhe uma deleitosa impressão. e vi a gravura turca. quando. Eram seis damas de Constantinopla. Era deputado. o perfil do orador. tanto num como noutro caso. ao contrário de uma velha fórmula absurda. e lady Macbeth passeia à volta da sala a sua mancha de sangue. e para os outros é igualmente inútil. — modernas. de dúvida. sendo eu também deputado. E eu achei graça a essa esperteza da faceirice muçulmana.para sossego do Damasceno e glória de Muhammed. tempos depois. eu devendo conter o meu remorso. compreenderás que. e outro. que simulava descobrir somente os olhos. surge aí a orelha de uma rígida e meiga companheira do homem social. — mas não o esconde. a medianeira entre os homens. de interpretação. senão a ti. Vive tu. Se possuísse os aparelhos próprios. dois anos depois das palavras de Damasceno. Para quem há lido este livro é escusado encarecer a minha satisfação. mas com um véu tenuíssimo. a quem. o espírito é que é objeto de controvérsia. para o fim de dizer que efetivamente n ão continha nada. Amável Formalidade. que contava uma anedota. não com um espesso pano que as cobrisse deveras. a faculdade de as comparar e o talento de concluir! Eu tive essa distinção psíquica. — e divulga a beleza. deverão esse imenso benefício? A estima que passa de chapéu na cabeça não diz nada à alma. eu a agradeço ainda agora do fundo do meu sepulcro. enquanto um deputado discutia um parecer da comissão do orçamento. o homem vulgar que ouvisse a última palavra do Damasceno. nas costas de urna sobrecarta. em meio de grande burburinho. A razão é que.92 — Mas viessem! CAPÍTULO 127 Formalidade Grande coisa é haver recebido do céu uma partícula da sabedoria. não é a letra que mata. houvesse de olhar para uma gravura representando seis damas turcas. O orador e ra o Lobo Neves. a não ser a ambição de ser ministro. e conseguintemente de luta e de morte. como duas botelhas de náufragos. o vínculo da terra e do céu. que tirava a lápis. A onda da vida trouxe -nos à mesma praia. cara tapada. o bálsamo dos corações. não se lembraria dela. sim. De fato. que assim esconde o rosto. ele contendo o seu ressentimento. se a dor adormece. e emprego esta forma suspensiva. Aparentemente. o bordão da vida. — e cumpre o uso. o dom de achar as relações das coisas. recostado na minha cadeira.. CAPÍTULO 129 Sem remorsos Não tinha remorsos. porque havia de decompor o remorso até os mais simples elementos.. Mas eu . — em trajos de rua. tu enxugas as lágrimas de um pai. nada há entre as damas turcas e o Damasceno. e via-a na câmara dos deputados. por que razão Aquiles passeia à roda de Tróia o cadáver do adversário. mas se tu és um espírito profundo e penetrante (e duvido muito que me negues isso). entre um colega. dubitativa ou condicional. e na realidade descobria a cara inteira. amável Formalidade. e a consciência se acomoda. CAPÍTULO 128 Na câmara E notai bem que eu vi a gravura turca. incluía neste livro uma página de química. tu és. Pois eu lembrei-me.

pelo processo ventríloco-cerebral. e portanto tem de dissimular com arte maior. jovial. e logo passa a outro sentimento menos ríspido e menos secreto. Um dito remoto. cafres. sentindo-se causa da infração e vencedor de outro homem. E com tanto maior prazer o confesso. Subentendia-se tudo. se hei-de acabar este capítulo. direi que não quisera ser Aquiles nem lady Macbeth. mas o homem. como não tinha remorsos. de uma formosura outoniça. Em pontos de aventura amorosa. ou então um olhar.93 não tenho aparelhos químicos. ao contrário. Além disso (e refiro-me sempre aos casos defesos). — principalmente a última réplica. realçada pela noite. lapônias. eu fui vê-la descer as escadas. CAPÍTULO 130 Para intercalar no capítulo 129 A primeira vez que pude falar a Virgília. monossilábico. — essa meiga fatuidade. e ostentava às luzes o mesmo par de ombros de outro tempo. antes passear ovante o cadáver do que a mancha. ouvemse no fim as súplicas do Príamo. e mais nada. — senti que alguém me punha a mão no ombro. tinha vontade ser ministro de Estado. quanto que as mulheres é que têm fama de indiscretas. basta-me deixar escrito nesta página. pelintra! disse eu. e jurariam aos Santos Evangelhos que era tudo uma calúnia. um pouco despejado de maneiras. a mulher. retirou-se. por exemplo. de um modo frio. Ele sorriu maliciosamente. em amor. que a indiscrição das mulheres é uma burla inventada pelos homens. A razão desta diferença é que a mulher (salva a hipótese do capítulo 101 e outras) entrega-se por amor. — Salta. a ser alguma coisa. Voltei-me. ou negavam a custo. mas ainda estava formosa. Contudo. Pouco depois. Lembra-me que falamos muito. e que. etc. ou polinésias. vago. e não sei por que fenômeno de ventriloquismo cerebral (p erdoem-me os filólogos essa frase bárbara) murmurei comigo esta palavra profundamente retrospectiva: — Magnífica! Convém intercalar este capítulo entre a primeira oração e a segunda do capítulo 129. tem de refinar a aleivosia. ou seja o amor-paixão de Stendhal. Mas seja ou não verdadeira a minha explicação. que é a transpiração luminosa do mérito. depois da presidência. antes Aquiles. — o que era simples opinião e não remorso. e disse-me: — Seu maganão! Recordações do passado. mas o discurso do Lobo Neves. Trazia um soberbo vestido de gorgorão azul. quando ama outro homem. e g anha-se uma bonita reputação militar e literária. era um antigo companheiro. e pode ser que outras raças civilizadas. foi num baile em 1855. achei homens que sorriam. ao passo que as parceiras não davam por si. Confesso que este diálogo era uma indiscrição. e não tinha remorsos. — falo do homem de uma sociedade culta e elegante — o homem conjuga a sua vaidade ao outro sentimento. ameaçando-o com o dedo. oficial de marinha. Eu não ouvia as súplicas de Príamo. e sem aludir a coisa nenhuma do passado. CAPÍTULO 131 De uma calúnia Como eu acabava de dizer aquilo. . ao passo que o homem. para uso dos séculos. Não era a frescura da primeira idade. hem? — Viva o passado! — Você naturalmente foi reintegrado no emprego. parece-lhe que mente a um dever. fica legitimamente orgulhoso. e não quero acabar o livro sem retificar essa noção do espírito humano. ou o puramente físico de algumas damas romanas.

94

pelo menos, elas são um verdadeiro sepulcro. Perdem-se muita vez por desastradas, por inquietas, por não saberem resistir aos gestos, aos olhares; e é por isso que uma grande dama e fino espírito, a rainha de Navarra, empregou algures esta metáfora para dizer que toda a aventura amorosa vinha a descobrir-se por força, mais tarde ou mais cedo: "Não há cachorrinho tão adestrado, que alfim lhe não ouçamos o latir.” CAPÍTULO 132 Que não é sério Citando o dito da rainha de Navarra, ocorre-me que entre o nosso povo, quando uma pessoa vê outra pessoa arrufada, costuma perguntar-lhe: "Gentes, quem matou seus cachorrinhos?" como se dissesse: — "quem lhe levou os amores, as aventuras secretas etc." Mas este capítulo não é sério. CAPÍTULO 133 O princípio de Helvetius Estávamos no ponto em que o oficial de marinha me arrancou a confissão dos amores de Virgília, e aqui emendo eu o princípio de Helvetius, — ou, por outra, explico-o. O meu interesse era calar; confirmar a suspeita de uma coisa antiga fora provocar algum ódio supitado, dar origem a um escândalo, quando menos adquirir a reputação de indiscreto. Era esse o interesse; e entendendo-se o princípio de Helvetius de um modo superficial, isso é o que devia ter feito. Mas eu já dei o motivo da indiscrição masculina: antes daquele interesse de segurança, havia outro, o do desvanecimento, que é mais íntimo, mais imediato: o primeiro era reflexivo, supunha um silogismo anterior; o segundo era espontâneo, instintivo, vinha das entranhas do sujeito; finalmente, o primeiro tinha o efeito remoto, o segundo próximo. Conclusão: o princípio de Helvetius é verdadeiro no meu caso; - a diferença é que não era o interesse aparente, mas o recôndito. CAPÍTULO 134 Cinqüenta anos Não lhes disse ainda, — mas digo-o agora, — que quando Virgília descia a escada, e o oficial de marinha me tocava no ombro, tinha eu cinqüenta anos. Era portanto a minha vida que descia pela escada abaixo, — ou a melhor parte, ao menos, uma parte cheia de prazeres, de agitações, de sustos, — capeada de dissimulação e duplicidade, — mas enfim a melhor, se devemos falar a linguagem usual. Se, porém, empregarmos outra sublime, a melhor parte foi a restante, como eu terei honra de lhes dizer nas poucas páginas deste livro. Cinqüenta anos! Não era preciso confessá-lo. Já se vai sentindo que o meu estilo não é tão lesto como nos primeiros dias. Naquela ocasião, cessado o diálogo com o oficial de marinha, que enfiou a capa e saiu, confesso que fiquei um pouco triste. Voltei à sala, lembrou-me dançar uma polca, embriagar-me das luzes, das flores, dos cristais, dos olhos bonitos, e do burburinho surdo e ligeiro das conversas particulares. E não me arrependo; remocei. Mas, meia hora depois, quando me retirei do baile, às quatro da manhã, o que é que fui achar no fundo do carro? Os meus cinqüenta anos. Lá estavam eles os te imosos, não tolhidos de frio, nem reumáticos, — mas cochilando a sua fadiga, um pouco cobiçosos de cama e de repouso. Então, — e vejam até que ponto pode ir a imaginação de um homem, com sono, — então pareceu-me ouvir de um morcego encarapitado no tejadilho: Senhor. Brás Cubas, a rejuvenescência estava na sala, nos

95

cristais, nas luzes, nas sedas, — enfim, nos outros. CAPÍTULO 135 Oblivion E agora sinto que, se alguma dama tem seguido estas páginas, fecha o livro e não lê as restantes. Para ela extinguiu-se o interesse da minha vida, que era o amor. Cinqüenta anos! Não é ainda a invalidez, mas já não é a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o que um inglês dizia, entenderei que “coisa é não achar já quem se lembre de meus pais, e de que modo me há de encarar o próprio ESQUECIMENTO”. Vai em versaletes esse nome. OBLIVION! Justo é que se dêem todas as honras a um personagem tão desprezado e tão digno, conviva da última hora, mas certo. Sabe-o a dama que luziu na aurora do atual reinado, e mais dolorosamente a que ostentou suas graças em flor sob o ministério Paraná, porque esta acha-se mais perto do triunfo, e sente já que outras lhe tomaram o carro. Então, se é digna de si mesma, não teima em espertar a lembrança morta ou expirante; não busca no olhar de hoje a mesma saudação do olhar de ontem, quando eram outros os que encetavam a marcha da vida, de alma alegre e pé veloz. Tempora mutantur. Compreende que este turbilhão é assim mesmo, leva as folhas do mato e o f arrapos do caminho, sem exceção nem piedade; e se tiver um pouco de filosofia, não inveja, mas lastima as que lhe tomaram o carro, porque também elas hão de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION. Espetáculo, cujo fim é divertir o planeta Saturno, que anda muito aborrecido. CAPÍTULO 136 Inutilidade Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capítulo inútil CAPÍTULO 137 A barretina E daí, não; ele resume as reflexões que fiz no dia seguinte ao Quincas Borba, acrescentando que me sentia acabrunhado, e mil outras coisas tristes. Mas esse filósofo, com o elevado tino de que dispunha, bradou-me que eu ia escorregando na ladeira fatal da melancolia. — Meu caro Brás Cubas, não te deixes vencer desses vapores. Que diacho! é preciso ser homem! ser forte! lutar! vencer! brilhar! influir! dominar! Cinqüenta anos é a idade da ciência e do governo. Ânimo, Brás Cubas; não me sejas palerma. Que tens tu com essa sucessão de ruína a ruína ou de flor a flor? Trata de saborear a vida; e fica sabendo que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la. Vê-se nas menores coisas o que vale a autoridade de um grande filósofo. As palavras do Quincas Borba tiveram o condão de sacudir o torpor moral e mental em que andava. Vamos lá; façamo-nos governo, é tempo. Eu não havia intervindo até então nos grandes debates. Cortejava a pasta por meio de rapapés, chás, comissões de votos; e a pasta não vinha. Urgia apoderar-me da tribuna. Comecei devagar. Três dias depois, discutindo-se o orçamento da Justiça, aproveitei o ensejo para perguntar modestamente ao ministro se não julgava útil diminuir a barretina da guarda nacional. Não tinha vasto alcance o objeto da pergunta; mas ainda assim demonstrei que não era indigno das cogitações de um homem de Estado; e citei Filopêmen, queordenou a substituição

96

dos broquéis de suas tropas, que eram pequenos, por outros maiores, e bem assim as lanças, que eram demasiado leves; fato que a história não achou que desmentisse a gravidade de suas páginas. O tamanho das nossas barretinas estava pedindo um corte profundo, não só por serem deselegantes, mas também por serem anti -higiênicas. Nas paradas, ao sol, o excesso do calor produzido por elas podia ser fatal. Sendo certo que um dos preceitos de Hipócrates era trazer a cabeça fresca, parecia cruel obrigar um cidadão, por simples consideração de uniforme, a arriscar a saúde e a vida, ,e conseqüentemente, o futuro da família. A câmara e o governo deviam lembrar-se que a guarda nacional era o anteparo da liberdade e da independência, e que o cidadão, chamado a um serviço gratuito, freqüente e penoso, tinha direito a que se lhe diminuísse o ônus, decretando um uniforme leve e maneiro. Acrescia que a barretina, por seu peso, abatia a cabeça dos cidadãos, e a pátria precisava de cidadãos cuja fronte pudesse levantarse altiva e serena diante do poder; e concluí com esta idéia: O chorão, que inclina os seus galhos para a terra, é árvore de cemitério; a palmeira, ereta e firme, é árvore do deserto, das praças e dos jardins. Vária foi a impressão deste discurso. Quanto à forma, ao rapto eloqüente, à parte literária e filosófica, a opinião foi só uma; disseram-me todos que era completo, e que de uma barretina ninguém ainda conseguira tirar tantas idéias. Mas a parte política foi considerada por muitos deplorável; alguns achavam o meu discurso um desastre parlamentar; enfim, vieram dizer-me que outros me davam já em oposição, entrando nesse número os oposicionistas da câmara, que chegaram a insinuar a convivência de uma moção de desconfiança. Repeli energicamente tal interpretação, que não era só errônea, mas caluniosa, à vista da notoriedade com que eu sustentava o gabinete; acrescentei que a necessidade de diminuir a barretina não era tamanha que não pudesse esperar alguns anos; e que, em todo caso, eu transigiria na extensão do corte, contentando-me com três quartos de polegada ou menos; enfim, dado mesmo que a minha idéia não fosse adotada, bastava-me tê-la iniciado no parlamento. Quincas Borba, porém, não fez restrição alguma. Nãosou homem político, disse-me ele ao jantar; não sei se andaste bem ou mal; sei que fizeste um excelente discurso. E então notou as partes mais salientes, as belas imagens, os argumentos fortes, com esse comedimento de louvor que tão bem fica a um grande filósofo; depois, tomou o assunto à sua conta, e impugnou a barretina com tal força, com tamanha lucidez, que acabou convencendo-me efetivamente do seu perigo. CAPÍTULO 138 Aum crítico Meu caro crítico, Algumas páginas atrás, dizendo eu que tinha cinqüenta anos, acrescentei: "Já se vai sentindo que o meu estilo não é tão lesto como nos primeiros dias." Talvez aches esta frase incompreensível, sabendo-se o meu atual estado; mas eu chamo a tua atenção para a sutileza daquele pensamento. O que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer, sim, que em cada fase da narração da minha vida experimento a sensação correspondente. Valha-me Deus! é preciso explicar tudo. CAPÍTULO 139 De como não fui ministro d'Estado ...........................................................................................................................................................................

...................... A palavra daquele grande homem era o cordial da sabedoria. que nessa ocasião parecia acentuar o risinho de sarcasmo...... Iam-me as esperanças todas..... sentado na minha cadeira. Trouxeram-nos café........... Nunca me há-de esquecer o benefício desse passeio.. A dureza da interrupção.. e daí a maior aflição. e "desmancha toda esta igrejinha". aborrecido..... o maior desencanto... — eram três — pendia uma gaiola com pássaros.. CAPÍTULO 141 Os cães — Mas..... mas um capricho....... CAPÍTULO 140 Que explica o anterior Há coisas que melhor se dizem calando......... saimos para os lados do Engenho Velho........ O meu sentimento. fugir aos homens................... conquanto eu estivesse na minha sala.......... indo pôr a xícara vazia no parapeito de uma das janelas....... retemperar-se no calão do povo.... segundo o Humanitismo...... como alguns inculcam..... — Nada! interrompeu-me o Quincas Borba com um gesto de indignação.... ou pela da esquerda. estou farto de filosofias que me não levam a coisa nenhuma..... estávamos na minha sala de estudo......... cadeiras excelentes... por isso mesmo que os queima a paixão do poder... que não era minha.. Estou envergonhado.. equivalia a um desacato.... que chilreavam as suas óperas rústicas. tal é a matéria do capítulo anterior................... bons livros........ ao pé dos meus livros. não tendo em si a mesma força... um grande sol.. se me fechavam a tribuna... disse-me ele....... e.. o ladrão... uma bela sala..... objetos d'arte. um Voltaire de bronze..... Tantos sonhos... o sol.... com que me olhava....... achou que a minha ambição não era a paixão verdadeira do poder..... — Não sei........ amofina muito mais. mas ele próprio desculpou a irritação com que lhe falei... a dor...... vou meter-me na Tijuca.... que dava para o fundo da chácara. um desejo de folgar. era uma hora da tarde... não sei se por chalaça ou poesia.. interrompi-o. fora.... este sentimento. E notem que o Quincas Borba.... chamou um dos ministros da natureza........ um Voltaire entre eles.. que o Quincas Borba... não sendo mais profundo que o outro.. lá chegam à fina força ou pela escada da direita.. vou. o abatimento do dia em que perdi a cadeira da câmara dos deputados.. Podem entendêlo os ambiciosos malogrados... Não era assim o meu sentimento. — Vai para o diabo com o teu Humanitismo.. o céu estava azul........ Tudo tinha a aparência de uma conspiração das coisas contra o homem.. terminava a carreira política.. este.. uma ou outra vez..... olhando para a minha chácara.... . Na opinião dele......... tantos sonhos. Íamos a pé..... não tem a mesma certeza do resultado. meu caro Borba..... porque orça pelo amor que as mulheres têm às rendas e toucados. alumiado pelo meu sol........ ouvindo meus pássaros........ tratando-se de tamanho filósofo...... Se a paixão do poder é a mais forte de todas....... — Magnífica idéia! Vou fundar um jornal......... cumpria-me abrir um jornal..... corria um vento fresco.. Um Cromwell ou um Bonaparte. acrescentava ele.. imaginem o desespero.. a maior tristeza... convidou-me a sair. Disse-me ele que eu não podia fugir ao combate...... filosofando as coisas.97 .. enfim... .... não chegava a curar-me das saudades daquela outra cadeira.... De cada janela............. Funda um jornal.. que pretendes fazer agora? perguntou-me Quincas Borba...... Para distrair-me.... por induções filosóficas que fez.. e não sou nada.... vou escachá-los............ mostrando assim que a língua filosófica podia..... Chegou a usar uma expressão menos elevada... ..

comem-se gafanhotos. e não deixou de chamar a minha atenção para a circunstância de que o osso não tinha carne. ele estava arraigado ao chão. disse-lhe que tinha uma dúvida. deram-me uma carta. Dona Plácida está muito mal. conquanto a minha filosofia valha mais que a dele. enquanto eu lia a carta. as criaturas humanas é que disputam aos cães os ossos e outros manjares menos apetecíveis. chapéu na cabeça. Quincas Borba meteu a bengala debaixo do braço. e.. Quis arrancar-me dali. mas não pude. segundo convinha a um grande filósofo. e o Quincas Borba. disse Quincas Borba. como Ezequiel. porque entra em ação a inteligência do homem. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal. r esta saber se é mais digno do homem disputá-lo. e um dos cães. Daí a pouco demos com uma briga de cães. tirando um livro da estante. o essencial é que lutes. ou preferi -lo.. Peço-lhe o favor de fazer alguma coisa por ela. Entramos. luta que se complica muito. motivo da guerra. de maneira que. Virei e revirei o papel. com todo o acúmulo de sagacidade que lhe deram os séculos etc. que era de Virgília: "Meu bom amigo. não estava bem certo da vantagem de disputar a comida aos cães. Ora. que diz ele nesta página? — E. foi ler a lombada dos livros de uma estante. Estávamos à porta de casa. o ruim é comível. mora no Beco das Escadinhas. Mas por que não será um espetáculo grandioso disputá-lo aos cães? Voluntariamente. — Vais compreender que eu só te disse a verdade. ou coisa pior. Podes escachá-los ou não. Quincas Borba fez-me parar e observar os cães. e parecia em êxtase. mordido e vencido. modificável. o V da assinatura não passava de um rabisco sem intenção alfabética. Pobre Dona Plácida! Mas eu tinha-lhe deixado os cinco contos da Praia da Gamboa. veja se alcança metê-la na Misericórdia. Notou que ao pé deles estava um osso. logo. Sua amiga sincera. Quanta coisa numa briga de cães! Mas eu não era um discípulo servil ou medroso. Pascal é um dos meus avós espirituais. quando a briga cessou inteiramente. mas a privação do alimento era nada para os efeitos gerais da filosofia. Não era a letra fina e correta de Virgília. Andando. Fez-me observar a beleza do espetáculo. e só continuou a andar. foi levar a sua fome a outra parte.. apontava o lugar com . dizendo que vinha de uma senhora. rosnavam. como o Precursor. — O quê? perguntei espantado. bengala sobraçada. ao passo que a fome é eterna. CAPÍTULO 142 O pedido secreto Quanta coisa num minuete! como dizia o outro. concluiu que os cães tinham fome. com furor nos olhos. era mui difícil atribuir-lhe a autoria. relembrou o objeto da luta. — Que belo que isto é! dizia ele de quando em quando. que deixasse de fazer uma ou outra objeção adequada. Eram dois. — Vais compreender. se a carta aparecesse. Um simples osso nu. não posso negar que era um grande homem. porque a condição dos contendores é a mesma. Vida é luta. Nem deixou de recordar que em algumas partes do globo o espetáculo é mais grandioso. Os cães mordiam-se. e leva o osso o que for mais forte.98 — Lutar. e não podia compreender que. fato que aos olhos de um homem vulgar não teria valor. posto contivesse a alegria. para obedecer a uma exaltação religiosa. isto é. Ele respondeu-me com excepcional brandura: — Disputá-la aos outros homens é mais lógico. Notei que ficara sinceramente alegre. mas grossa e desigual.. por virtude de uma necessidade natural. com a discrição própria de um filósofo. como a vida e como a morte.

. achei um molho de ossos. e eu que a leve! Morre -se em qualquer parte. vendeu as apólices e fugiu com o dinheiro. Tinha de lá ir. “Sabe que morre” é uma expressão profunda. — Letras vencidas. ou imediatamente quebrados. convenho. ao passo que o universo ignora-o absolutamente". s e era para isto que o sacristão da Sé e a doceira trouxeram Dona Plácida à luz. no fim de alguns meses inventou um negócio. a mim mesmo. dei-lhe algum dinheiro. Acresce que eu não sabia ou não me lembrava do tal Beco das Escadinhas. Realmente. onde ela morreu uma semana depois. a ponta da mesa. Utilidade relativa. por assim dizer. Não vale a pena. duvido muito que ninguém fosse mais generoso do que eu. CAPÍTULO 144 Utilidade Relativa Mas a noite. que é boa conselheira. — Que diz e le? Diz que o homem tem "uma grande vantagem sobre o resto do universo: sabe que morre. a consciência da extinção dura um breve instante e acaba para nunca mais. comeu-os em grandes festas. e agora roca para a Misericórdia. relia eu o bilhete. portanto. Ao jantar. bater à porta etc. Mas adverti logo que. estendido sobre um catre velho e nauseabundo. aposto que foi aquela carta? — Foi. uma cadeira. com o pedido de Virgília. Tinha dado a Dona Plácida cinco contos de réis. fitava o canto da sala. que a fórmula de Pascal é inferior à minha. pelo nome. em plena efervescência. Que maçada! Não vou. num momento de simpatia específica. um prato. ou a vaidade. ponderou que a cortesia mandava obedecer aos desejos da minha antiga dama. a utilidade da vida de Dona Plácida. Simples repetição de um capítulo. de prolongar o estado consciente. mas que diacho há absoluto nesse mundo? CAPÍTULO 145 Simples Repetição Quanto aos cinco contos. como no capítulo 75. como eu dizia. parecia-me algum recanto estreito e escuro da cidade. o entendimento humano. envolto em molambos. incomodado. urge pagá-las. CAPÍTULO 143 Não Vou Enquanto ele restitua o livro à estante. ao passo que a fome tem a vantagem de voltar. disse-me ele: — Tens alguma coisa.99 o dedo. tal foi. disse eu ao levantar-me. No dia seguinte fi-la transportar para a Misericórdia. Vês? Logo. Minto: amanheceu morta. Parece-me (se não vai nisso alguma imodéstia). se não fosse Dona Plácida. uma mosca invisível. tal qual entrara. logrou espertar-lhe os sentidos. chamar a atenção dos vizinhos. Porquanto. e casou com ela. Cinco contos! E que fizera deles? Naturalmente botou-os fora. creio todavia que é mais profunda a minha expressão: sabe que tem fome. o homem que disputa o osso a um cão tem sobre este a grande vantagem de saber que tem fome. sentia-me aborrecido. o fato da morte limita. sem todavia deixar de ser um grande pensamento. talvez os meus amores com Virgília tivessem sido interrompidos. vendo que eu falava pouco. mastigava sem acabar de engolir. saiu da vida às escondidas. e é isto que torna grandiosa a luta. Outra vez perguntei. e Pascal um grande homem. É o caso dos cães do Quincas Borba. Depois do almoço fui à casa de Dona Plácida. mas. nem tanto. não vale a pena dizer que um carteiro da vizinhança fingiu-se enamorado de Dona Plácida.

” No dia seguinte entra-me em casa o Cotrim. como amigo e parente. O ministério. defender os sãos princípios de liberdade e conservação. — Mano Brás. Interrompi-o nesse ponto. Vira a notícia do jornal. que é que você vai fazer? perguntou-me aflita. CAPÍTULO 147 O desatino Mandei logo para a imprensa uma noticia discreta.. somente. dizendo que provavelmente começaria a publicação de um jornal oposicionista. Deixou a filha no camarote. segundo a nossa doutrina. que o Quincas Borba achou mesquinha e local: "A nova doutrina que professamos há de inevitavelmente derribar o atual ministério. que esta é a verdade eterna. pegou da pena. assentamos de lhe não fazer nenhuma referência. um erro fatal.100 CAPÍTULO 146 O programa Urgia fundar o jornal. . e verá que é um desatino.. que o Quincas Borba achou mesquinha. Crê. que era uma aplicação política do Humanitismo. a mesma sublimidade. bradou Quincas Borba. dissuadir-me de semelhante idéia. fazia um apelo ao comércio e à lavoura. mas com certeza viveria muito. não só lhe parecia excelente. que até então lhe não ouvira. coisa que aparentemente não acontece às cabras. as guerras de Napoleão e uma contenda de cabras eram. daí a algumas semanas. não era impossível uma vaga. o que aliás podia não ser a minha opinião. Posso dizer como o grande Muhammed: nem que venham agora contra mim o sol e a lua. autógrafa e reservada. Quincas Borba exigiu apenas uma declaração. Redigi o programa. citava Guizot e Ledru -Rollin. meu caro Brás Cubas. A ameaça do fim. e ele mesmo o confessou depois. com a diferença que os soldados de Napoleão sabiam que morriam. dizendo que não queria ter a mínima parte no meu desatino. e de certa maneira trancar as portas do parlamento. de que alguns princípios novos aplicados à política eram tirados do livro dele. A mesma coisa disse Sabina. Quincas Borba.. o meu califa. posterior aos séculos. eu não fazia mais do que aplicar às circunstâncias a nossa fórmula filosófica: Humanitas queria substituir Humanitas para consolação de Humanitas. e. o Humanitismo não excluía nada. e que podia eu ganhar com indispô-lo contra mim? Sabia que alguns dos ministros me eram afeiçoados. — Tu és o meu discípulo amado. não recuarei das minhas idéias. destruir os abusos. para lhe dizer que meditara muito o passo que ia dar. mas ele recusou energicamente. e não podia recuar uma linha. e acrescentou ao meu nome. afetando sossego e até alegria. à noite. nas circunstâncias políticas da ocasião. sem necessidade. redigido pelo Doutor Brás Cubas. e acabava com esta ameaça. repetiu ele. com Cotrim. Porquanto. esta frase: “Um dos mais gloriosos membros da passada câmara. com uma nota de ternura. como o Quincas Borba não houvesse ainda publicado o livro (que aperfeiçoava de ano em ano). anterior aos mundos. o programa pareceu-me uma obra-prima. ainda inédito. Cheguei a propor-lhe a leitura do programa.. Era a fina flor d os programas. Que idéia é essa de provocar o governo. Vinha um pouco transtornado. a quem li a notícia. no teatro. Mostrou que eu ia colocar-me numa situação difícil. com uma fraternidade verdadeiramente humanística. Era um erro. prometia curar a sociedade. mas dissimulava. e trouxe-me ao corredor.” Confesso que. Ora. quando podia. demonstrei-lhe que e ra saturada do mais puro Humanitismo. pense ainda alguns dias. e achou que devia. — É um verdadeiro desatino.

Pois a lembrança de tamanho obséquio não teve força para obstar que ele viesse a público enxovalhar o cunhado? Devia ser mui poderoso o motivo da declaração. Supõe que tens apertado em demasia o cós das calças. que "posto não militasse em nenhum dos partidos em que se dividia a pátria. as recordações eram de verdadeiros obséquios. Tão insolúvel que o Quincas Borba não pôde dar com ele. Não podia acabar de crer nos meus olhos. concluiu. nenhuma sombra. isto é. Uma vez produzido o efeito essencial. — Pois siga o que lhe parecer. O atual ministério (como aliás qualquer outro composto de iguais capacidades) parecia-lhe destinado a promover a felicidade pública". é que o prazer do beneficiador é sempre maior que o do beneficiado. Deu-me as costas e voltou ao camarote. — Ora adeus! concluiu. nem todos os problemas v alem cinco minutos de atenção. e reli a declaração inoportuna. desabotoas o cós. no fim de mais três anos. por não me parecer adequado à situação — e a certa fórmula filosófica. Esfreguei-os uma e duas vezes. em substância. o Doutor Brás Cubas. nem são obrigados a fazê-las. Realmente. insólita e enigmática. afiancei que empregaria sempre uma linguagem cortês. ao estado indiferente. torna o organismo ao estado anterior. apesar de estudá-lo longamente e com boa vontade.. CAPÍTULO 149 Teoria do benefício . embora enérgica. que a minha idéia era derribar o ministério. assim. Desenganada. confesso que era um problema insolúvel. Se ele nada tinha com os partidos. o organismo torna à indiferença. lançou-me em rosto preferir os conselhos de pessoas estranhas e invejosas aos dela e do marido. Quanto à censura de ingratidão. A violência não era especiaria do meu paladar. alternadamente. dizendo. Quincas Borba rejeitou-a inteiramente. Sabina bateu com o leque na ponta dos dedos. que não. que lhe importava um incidente tão vulgar como a publicação de uma folha? Nem todos os cidadãos que acham bom ou mau um ministério fazem declarações tais pela imprensa. fornecimentos que ele continuava a fazer com a maior pontualidade. eu disse-lhe que não. uma vez cessada a privação. que o fazia cometer ao mesmo tempo um destempero e uma ingratidão. respiras. que. — Não me podes negar um fato. não como improvável. CAPÍTULO 148 O problema insolúvel Publiquei o jornal. podiam dar-lhe uns duzentos contos. cujas idéias e procedimento político inteiramente reprovava. abanou a cabeça. Ao contrário. nada. sendo eu deputado. depois da reconciliação. disse ele. não menos que a sua agressão pessoal. e que não. nós cumprimos a nossa obrigação. não me lembrava nenhum dissentimento. e não te lembras dos teus dedos que praticaram o ato. Que é o benefício? é um ato que faz cessar certa privação do beneficiado. era um mistério a intrusão do Cotrim neste negócio. mas como absurda. para fazer cessar o incômodo.101 Expliquei-lhe que não me convinha mendigar uma cadeira no parlamento. por não obedecer às conclusões de uma boa filosofia humanística. e tornou ao assunto com um ar de súplica e ameaça. Não . achava conveniente deixar bem claro que não tinha influência nem parte direta ou indireta na folha de seu cunhado.. e dos quais me dizia algumas semanas antes. por exemplo. Vinte e quatro horas depois. saboreias um instante de gozo. pude obter-lhe uns fornecimentos para o arsenal de marinha. Nossas relações até então tinham sido lhanas e benévolas. aparecia em outros uma declaração do Cotrim.

que no seu Elogio da Sandice escreveu algumas coisas boas. remira-se a miúdo. conserva sempre no beneficiado a lembrança do primeiro. No momento em que eu terminava o meu movimento de rotação. e esta é uma das coisas mais legitimamente agradáveis. e dedutivamente a consciência de que somos capazes de boas ações. se eu disser que a vida humana nutre de si mesma outras vidas. há o sentimento de uma boa ação. s e nenhuma razão há para que perdure a memória do obséquio no obsequiado.102 havendo nada que perdure. Erasmo. menos há-de haver em relação ao obsequiador. ou. sem nenhum valor aos olhos de um filósofo. sendo tudo uma simples irradiação de Humanitas. concluía Lobo Neves o seu movimento de translação. Quisera que me explicasse este ponto. Quando levantou . superioridade no estado e nos meios. O primeiro número do meu jornal encheu-me a alma de uma vasta aurora. para não arriscar essa figura menos nítida e adequada. Não digo que. como a de Dona Plácida. e pois que o boato me encheu de muita irritação e inveja. Prazer é muito. segundo as melhores opiniões. tem os seus dias. e deles compõe o seu ano mais ou menos longo. Na sala mortuária achei Virgília. quando se acha bela. coroou-me de verduras. mas este fato. mas é verdade. não aconteça. é certo. como o corpo alimenta os seus parasitas. e daí a duas semanas a da morte. não é impossível que a notícia da morte me deixasse alguma tranqüilidade. — Não se explica o que é de natureza evidente. Mas. Seis meses depois batia a hora da velhice. recebe-se uma convicção de superioridade sobre outra criatura. restituiu-me a lepidez da mocidade. De modo que. pela privação continuada na memória. Morria com o pé na escada ministerial. respirei como um homem que vem de longo caminho. acompanhada de certa afeição mais ou menos intensa. creio não dizer uma coisa inteiramente absurda. que repercute a dor passada e aconselha a precaução do remédio oportuno. a saber. o benefício e seus efeitos são fenômenos perfeitamente admiráveis. senão porque se acha bonita. alívio. ainda sem esta circunstância. mas eu direi alguma coisa mais. e por que isso lhe dá certa superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menos bonitas ou absolutamente feias? A consciência é a mesma coisa. ao organismo humano. algumas vezes. e um ou dois minutos de prazer. Correu ao menos durante algumas semanas. mas são verdadeiras aberrações. aliás um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho. persistir a memória do obséquio. mais ou menos efêmeras. — Mas. que ele ia ser ministro. precisa de chão. que foi clandestina. retorquiu o Quincas Borba. ao pé do féretro. afeição ou idade um ciclo inteiro da vida humana. Não esqueças que. desiguais como os de Júpiter. porque ela não é uma planta aérea. A esperança de outros favores. a soluçar. é natural que a memória se esvaeça. A persistência do benefício na memóriade quem o exerce explica-se pela natureza mesma do benefício e seus efeitos. No dia em que o jornal amanheceu morto. esse há de te r nos olhos algum indício especial de satisfação. Por que é que uma mulher bonita olha muitas vezes para o espelho. Primeiramente. mas direi o que ele não disse. prefiro uma imagem astronômica: o homem executa à roda do grande mistério um movimento duplo de rotação e translação. Nem o remorso é outra coisa mais do que o trejeito de uma consciência que se vê hedionda. explica-se pela memória da privação. CAPÍTULO 150 Rotação e translação Há em cada empresa. Fui ao enterro. em segundo lugar. chamou a atenção para a complacência com que dois burros se coçam um ao outro. Estou longe de rejeitar essa observação de Erasmo. usando de outra fórmula. juro aos séculos que é a pura verdade. que se um dos burros coçar melhor o outro. repliquei eu.

uma vez que lhe recebeste pontualmente as lágrimas. — o da bula e o outro. nem dos ouvidos os soluços de Virgília. e fingindo ler os epitáfios. mas a nobre convicção do filósofo incutiu-me certo medo. às vezes. afastei-me do cemitério. E. e até fácil. e tanto se colhe do mal como do bem. Digo-vos que as lágrimas eram verdadeiras. principalmente quando deixei cair a pá de cal sobre o caixão. o baque surdo da cal deu-me um estremecimento passageiro. entre a gente civilizada. desde que se atenda que pode haver num arcebispo dois arcebispos. que olhou para mim com certa cautela e pena. Alguns dias antes tinha pensado na hipótese de uma revolução social. estado e credo. uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou. todavia. Conhecia-o. Dormi. vi que chorava deveras. mas na realidade perfeitamente solúveis. aflita. gosto dos epitáfios. ou que porção de arcebispo pode jazer num coletor. ao Quincas Borba. porém. fiquei aterrado. Eu fui ao cemitério. Ele. vieram tirá-la e levá-la para dentro. Meiga.103 a cabeça. é o que te não importa. abraçou-se ao caixão. levava uma pedra na garganta ou na consciência. No cemitério. mas desagradável. implacável amiga. porém.. vou ser nababo. no fundo da cova. mandou-me o Quincas Borba um alienista. ou que soma de coletor pode combinar com um arcebispo etc. sonhei que era nababo. CAPÍTULO 151 Filosofia dos epitáfios Saí.. Não podia sacudir dos olhos a cerimônia do enterro. tinham o som vago e misterioso de um problema. com sinceridade. apeando-me do carro. Virgília traíra o marido. a tristeza inconsolável dos que sabem os seus mortos na vala comum. Eu gostava. Ao sair o enterro. No dia seguinte. talvez. principalmente. aliás. para dizer tudo. as roupas pretas. houve-se com a maior . só o meu carro esperava pelo dono. que transferisse o arcebispo de Cantuária a simples coletor de Petrópolis. ou se o arcebispo rejeitaria o coletor. mas não tendo geralmente os doidos outro conceito de si mesmos. disse-o. de imaginar esses contrastes de região. religiosa e política. E vede se há algum fundamento na crença popular de que os filósofos são homens alheios às coisas mínimas. Os soluços. Eis uma combinação difícil que não pude fazer em todo o trajeto. e. e acordei com a idéia de ser nababo. aparentemente. três vezes meiga Natura! CAPÍTULO 153 O alienista Começo a ficar patético e prefiro dormir. não tinha muita vontade de falar. porventura. e fiz longos cálculos para saber se o coletor eliminaria o arcebispo. parece-lhes que a podridão anônima os alcança a eles mesmos. Daí vem. CAPÍTULO 152 A Moeda de Vespasiano Tinham ido todos. Questões insolúveis. Acendi um charuto. A moral repreenderá. Ri-me a princípio. Meiga Natura! A taxa da dor é como a moeda de Vespasiano. A única objeção contra a palavra do Quincas Borba é que não me sentia doido. eles são. e agora chorava-o com sinceridade. Era um simples gracejo. levando a sua bondade a comunicar-me que eu estava doido. suspeitei que a combinação era possível. a minha cúmplice. o cemitério. afastando-me dos grupos. é certo. Está dito. em casa. tal objeção ficava sem valor. não cheira a origem. e depois a tarde tinha o peso e a cor do chumbo.

mas a posse imaginária dos navios valia por todas as dracmas da Hélade. Um homem de tamanho espírito. disse-me o alienista.CAPITULO 154 Os navios do Pireu — Há de lembrar-se. — Não.. dava certo pico à vida. — Justos céus! Parece-lhe?. pode crer que jura falso. e acrescentou até que um grãozinho de sandice.. era um dos meus criados que batia os tapetes. por imagem.104 delicadeza e habilidade.. A intenção dele é mostrar que não é criado de qualquer. dois ou três patachos. O alienista. — Imaginem a minha aflição. não haverá muito que lastimar o Quincas Borba. enquanto nós falávamos no jardim. para dormir. que d evassara o mais possível a sala. disse ele. que. uma hora de ilusão que lhe dá a maior felicidade da terra. se é seu criado esse homem que ali está sacudindo os tapetes à janela. e evitar que lhe entrem no cérebro maníacos de outras paragens. raros homens terão tanto juízo como o senhor. é uma questão de mais ou de menos. reconheceu que eu era amigo do Quincas Borba. Ora bem. mais . a loucura entra em todas as casas. Contudo. CAPÍTULO 156 Orgulho da servilidade Quincas Borba divergiu do alienista em relação ao meu criado. daquele famoso maníaco ateniense. um filósofo! — Não importa.. ricamente alfaiada. — Pode-se. E depois: — Ao contrário. e concluiu: — Este seu criado tem a mania do ateniense: crê que os navios são dele.. — Também o senhor! perguntei-lhe. disse eu comigo. que talvez não tivesse. mas imagens não são idéias nem observações tomadas à natureza. longe de fazer mal. pelo menos. — Também eu? — Também o senhor. peço-lhe que o distraia. vendo o efeito de suas palavras. e tratou de diminuir a gravidade da advertência. De fato. atribuir ao teu criado a mania de ateniense. ao lado. — Também eu. há em todos nós um maníaco de Atenas. despedindo-se tão alegremente que me animou a perguntar-lhe se deveras me não achava doido. a cuba de Diógenes. tão extraordinária. — Depois chamou a minha atenção para os cocheiros de casa-grande. que não merece menos de um capítulo.. o alienista sorriu e disse-me uma coisa tão extraordinária.. Como eu rejeitasse com horror esta opinião. não menos. —Então o Quincas Borba enganou-se? — Redondamente. mentalmente. CAPÍTULO 155 Reflexão cordial — Se o alienista tem razão. O alienista notou então que ele escancarara as janelas todas desde longo tempo. e quem j urar que não possuiu alguma vez. e o seu criado.. Observou que podia não ser nada. que supunha que todos os navios entrados no Pireu eram de sua propriedade. Não passava de um pobretão. se é amigo dele. . O que o teu criado tem é um sentimento nobre e perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo: é o orgulho da servilidade. para que a vissem de fora. disse ele sorrindo. é justo cuidar dele. que alçara as cortinas.

tão grande que me dava excelente idéia de mim mesmo. Com efeito era impossível crer que um homem tão profundo chegasse à demência. e ainda mais triste. — Vai. porém. achei. lembra-me que ele estremeceu e ficou muito pálido. ficou pálida. os fenômenos da consciência são de difícil análise. Talvez a economia social pudesse ganhar alguma coisa. CAPÍTULO 157 Fase brilhante — Sublime és tu. e via-a morrer no mesmo dia em que. foi o que lhe disse após o meu abraço. porém.. mas foi obra de um instante. filiei-me na Ordem Terceira de ***. nada. CAPÍTULO 158 Dois Encontros No fim de alguns anos. a filha de Dona Eusébia e do Vilaça. calo-me. porque a solidão pesava-me.. Não acabarei. teria de contar todos os que a ele se prendessem. estava enfarado do ofício e deixei-o. cuja solicitude obedece às variações sociais da freguesia etc. ao reconhecer-me. a do futuro. e não me digam que é negativa. lançando-lhe os braços ao pescoço. não digo absolutamente nada. não conto os meus serviços. tinham a monotonia da desgraça. que me deu direito ao retrato na sacristia. denunciando-lhe a suspeita do alienista. sem chegar a saber a causa do dissentimento. Os quadros eram tristes. o que fiz aos pobres e aos enfermos. O cristianismo é bom para as mulheres e os mendigos. não digo nada. se contasse um. Afirmo somente que foi a fase mais brilhante da minha vida. disse-me este. tão coxa como a deixara.105 impertigados que o amo. — prova cabal de que muitas vezes o homem.. achei a flor da moita. se eu mostrasse como todo e qualquer prêmio estranho vale pouco ao lado do prêmio subjetivo e imediato. a única verdadeira.. Ergueu . a fase contractiva é a reconstituição da substância. Esta. que é tão aborrecida como a do gozo. não o seu aniquilamento etc. para distribuir esmolas. ainda a engraxar botas. e acabava fazendo um capítulo de psicologia. mas temporariamente. Reconciliação oportuna. por outro lado. Não. Pouco depois fui convidado por ele a filiar-me numa Ordem Terceira. Agora é que não são capazes de adivinhar. para os criados de hotel. se queres. Eugênia. nem as recompensas que recebi. E vede agora a minha modéstia. Demais. E concluiu que era tudo a expressão daquele sentimento delicado e nobre. Mas a alegria que se dá à alma d os doentes e dos pobres é recompensa de algum valor. três ou quatro. o que eu não fiz sem consultar o Quincas Borba.. não esqueças. A absorção final. foi essa a fase mais brilhante da minha vida. e as outras religiões não valem mais do que essa: orçam todas pela mesma vulgaridade ou fraqueza. Não obstante. não sem um donativo importante. exerci ali alguns cargos. adivinhem quem?. Foi por esse tempo que eu me reconciliei outra vez com o Cotrim. eu recebia-a de um modo reflexo. Eu trato de anexar à minha filosofia uma parte dogmática e litúrgica. bradei eu. e talvez pior. e quanto ao nirvana de Buda não passa de uma concepção de paralíticos. sem dizer que vi morrer no Hospital da Ordem. e a vida era para mim a pior das fadigas. a linda Marcela. que és o meu califa. é sublime. mas seria romper o silêncio que jurei guardar neste ponto. Não posso descrever a impressão que lhe fez a denúncia. O paraíso cristão é um digno êmulo do paraíso muçulmano. que é a fadiga sem trabalho. por só recebê-la o obsequiado. o capítulo.. visitando um cortiço. O Humanitismo há-de ser também uma religião. e baixou os olhos. e ainda assim grande. Verás o que é a religião humanística. Vai aonde te chamam.

não fui califa.. não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. como uma frouxa lamparina no meio das trevas. e estendi-lhe a mão. e levou consigo a melhor das filosofias. e esse resto de consciência. Mais. o caluniado Pangloss. Vinha demente. que morreu comigo. Nunca mais a vi. ao contrário. Contou-me que. e litanias espirituais. A graça lúgubre com que ele levantava e sacudia as pernas era singularmente fantástica. com os olhos fitos no ar. nem que desastre a trouxera a tamanha miséria. que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos. — Juras por Humanitas? Perguntou-me.106 logo a cabeça. e que Pangloss. ao lado dessas faltas. não padeci a morte de Dona Plácida. Morreu pouco tempo depois. nem a semidemência do Quincas Borba. achei-me com um pequeno saldo. que assim brincava consigo mesmo. embora não escrita. e antífonas. Somadas umas coisas e outras. onde Marcela entrara na véspera. porque ao chegar a este outro lado do mistério. E imaginará mal. tu me darias o primeiro lugar entre os homens. coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. A voz mal podia sair-me do peito. uns olhos em que. dizia-me que era ainda uma prova de Humanitas. Foi com esta impressão profunda que cheguei ao hospital. — Sabes que sim. Recitava-me longos capítulos do livro. não soube nada da vida dela. conseguintemente que saí quite com a vida. e entrou-me em casa. Outras vezes amuava-se a um canto. Voltou quatro meses depois. A parte dogmática ficava completa. mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. queimara o manuscrito todo e ia recomeçá-lo. Este último capítulo é todo de negativas. A diferença é que o olhar era outro. qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra. nem se a mãe era morta. mas o Quincas Borba partira seis meses antes p ara Minas Gerais. porque eras a genuína e direta inspiração do céu. feia. Compreendi que não receberia esmolas da minha algibeira. Cortejou-me e fechou-se no cubículo. e não se irritava contra o mal. decrépita. triste como uma lágrima. como faria à esposa de um capitalista. Sabia-o. Quincas Borba não só estava louco. Não alcancei a celebridade do emplasto. e. não conheci o casamento. não era tão tolo como o supôs Voltaire. fulgurava um raio persistente da razão. e precisava de uma força. de longe em longe. quase no estado em que eu o vira no Passeio Público. não fui ministro. e ai vos ficais eternamente hipocondríacos. e onde a vi expirar meia hora depois. certa manhã. CAPÍTULO 160 Das negativas Entre a morte do Quincas Borba e a minha.. O acaso determinou o contrário. chegou até a reproduzir uma dança sacra que inventara para as cerimônias do Humanitismo. Sei que continuava coxa e triste. e fitou-me com muita dignidade. acima da ciência e da riqueza. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas. jurando e repetindo sempre que a dor era uma ilusão. e aliás não tinha descoberto toda a cruel verdade. . para o fim de aperfeiçoar o Humanitismo. CAPÍTULO 159 A semidemência Compreendi que estava velho. magra.. por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto. complicava muito o horror da situação. Verdade é que.. em minha casa. era a verdadeira religião do futuro.

You're Reading a Free Preview

Download
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->