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mfRo COMUM
'~~T~'
pela Oxlord UnI­ 001-431H110.6
"l1'li11 Importante documen­
Q1Inem deade o Relatório
....ndf'. Nosso fulllro comum.
~I 15do da Comleaio Mundial sobre
liiio Ambiente e Desenvolvimento,
...... um dOS temas mais preme""
... do memento ­ 8 relaçilo entre o
'11 nvolvlmen1o e o melo ambiente.
M ~lfaiill.90ea coIlgldaa pela Co­
1IIIIeIo, 10 longo da l!ê8 8noa da
NOSSO
PIICIU'" e análl_, apólaJn..ae em
"p oIrnet1lo8 de centenas de eepe­
....IIIM de quase todoa oa pelles,
-FUTURO
lDImsnCIo um cenádo mundial do de­
l8llVOIv'.n1entO a seu Impacto nos re­
_ _ pllnetérI08. COMUM
..... das Idéias centreis da
"'/10 "'111m
PIO'I1t
comum alltma e com­
que um desenvOlvimento eco­
lânIoo . . . toma Impenoss a con-
1IMI;1o dOII meIoS nalllrals. Sem
lMdIdu que aesegurem a conquista
.... obJetIvo, a humanidade pom
l1li rI4Ico 8 própria aobnIvlYêncla.
A otn p6e em evldêncls meti­
dilnl, lIdma de qualaquer dúvidas,
.... ,.11dsde: um progresso econô­
mIcO a aoclal cada vez maior nAo po­
dirá bII_se na axploraçilo Indis­
criminada a devastadora ds natureu.
Ao conlnlllo: trem o uao sablamente
dirigido doa recuraoe naturais. nio
hawr6 desenvOlvlmamo sustentável.
A fim da ssllanlar as propor­
90M e a marcha das causas que es­
110 concomlndo pera tomar a Terra
...-nta
lnabltaval, Nosso fulllro comum
advartánclss como as se­
e cada ano, 6 milhões da
de tarraa produtivas se
em de8ertos Inúteis. Em
IMO corresponde 8 urns
....... sornsdes da Ale­
Espanha, Inglatarra,
Noruega - 2.170.000
.....111"".. 110 deatruldoa
COMISSÃO

- MUNDIAL
COMISSAO
SOBRE MEIO AMBIENTE
Presidente: Gro Horlem Brundlland (Noruega)
Vice-presidente: Ma.-.r Kllalid (Sudão) E DESENVOLVIMENTO
Susanna Agnelli (Itália)
Salell A. AI·Athel (Arábia Saudita)
Bernard CII"".ro (Zimbábue)
Lamlne Mohammed Fadlka (Costa do Matflm)
Volker Hauft (Rep6blica Federal d. Alemanha)
Ist_an Lang (Hungria)
Ma Shljun (Repablica Popular da China)
Margarita Marino de Batera (Colômbia)
Nagendra 81ngh (índia)
NOSSO
FUTURO
Paulo Nogueira Neto (Brasil)
Saburo Okita (Japão)
SlIridath S. ltamphal (Guiana)
Wllliam D. ltuekelshaus (EUA)
Mobamed Sabnoun (Argélia)

COMUM
Emil Salim (Indonésia)
Bukar Shaib (Nigéria)
Vladimir Sokolov (URSS)
Ja_ Stanovnlk (Iugoslávia)
Mauri"" Strong (Canadá)

EX-OFFICIO 2'edíção
Jlm Ma.Neill (Canadá)

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Editora da Fundação Getulio Vargas
Rio de Janeiro, RJ ­ 1991
SUMÁllIo

Titulo da obra em lngJês:
Our cOIlU7IOn future
Oxford I New York, Oxlbrd Ulllversily Press, 1987
Siglas e nota sobre a terminologia
Direitos rese....ados desta ediçAo ~ Fimdação Getulio Vatgas Ptefácio da presidente
Praia de Bolafogo, 190 - 22253 Da Terra ao mundo: vi.slIo panorâmica da
Rio de Jalleiro, RJ - Brasil Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento 1

11 vedada. reprodução tutal ou parcial desta obra Pàrtel: PRElQCUPAÇÓES COMUNS 27

I Um futuro.ameaç.odo 29

Copyrighl C Comisslo Mundial sobre Meio Ambiente e 2Em busca do desenvolvimento sustentável 46

DeseJlV01vimento 3 O papel da economia internacional 72

l' edição -1988 Parte D: DESAFIOS COMUNS 101
2' ediçAo-I991 4 População e recursos hllDllUlos 103
5 Segnmnça alimentar: mantendo o potencial 129
Editora da Fundaçio Getulio Vargas 6 Espécies e ecossisletnllll: recursos para o desenvolvimen­
Cbef..: Francisco de Castro Azevedo to 162
Coordenaçlío editorial: DamilIo Nascimento 7 Energia: opç6es para o meio ambiente e o desenvolvimen­
Supervisão de editoração: En:llía Lopes de Souza to 186
Supervisão gráfica: Hélio Lourenço Netto 8 Indt1stria: com menos, produzir mais 230
Capa: Marcos Tupper 9 O desafio w:bano 262

Parte lli: ESFORÇOS COMUNS 291
•lI) A adminIs1nlÇ1io das áreas comuns 293
gpaz, segnmnça, desenvolvimento e o meio ambiente 325
12 Pels ação comum: propostas de mudança institucional
e legal 345

Anexo 1 Sdmula dos princípios legais propostos para a proteção
Nosso [uturo comum I Comisslio M••diol_ Mo., ABlbiea,•• ambiental e o desenvolvimento sustentável 388
De&alvotvimeolO. - 2. ed.. - Rio ... J8IlClro! Edilora da Fudaçio Getulio Varps,
1991. Anexo 2 A Comissão e seu trabalho 493
xvüi, 430p.
Neste relatório foram incluídas citaçõeS de algumas das muitas
Tradução do:: Qllr commOa. mtlH'e. pessou que prestaram depoimento nas audiências públicas da
lael.i 1>ibllogra!iA.
CMMAD, a fim de ilustrar a ampla garnà de opiniões com que a
1. M.., Ambi..... 2. P.llIica ... bi....I. 3. Proteção ...bi....I. ComissIio travou contato em seus três anos de atividades. Elas
4. Deacnvolvim..", ecoallmleo.l. Comias!<> M...,iaI ..ln Meõo ABlbi.....
nlio refletem necessariamente o ponto de vista da Comissão.
D _... lvim_. n. Fuad:açáo GcIlIl., V"'1l'"

illD-3013

V
LISTA DE BOXES
USTA DE TABELAS

2.1 Crescimento, redistribuição e pobreza 54-55

1.1 Tamanho da população e PNB per capita por grupos

3.1 Algodão produzido para exportação no Sabel 73

de países 32
3.2 Açúcar e desenvolvimento sustentável 90

1.2 Distribuição do COIlllUlOO mtmdial, médias para 1980-82 36

3.3 O papel das empresas transnacionais 93

1.3 Taxa anual de crescimento do PIB em países em

4.1 O equiUbrio entre alimento e população 106-107

desenvolvimento, 1976-85 39
5.1 Perpectivas regionais de desenvolvimento

3.1 Transf~ líquida de recumos para países em
agríeola 132-/33

desenvolvimento imponadores de capital 74

5.2 Sistemas naturais de nutrientes e controle de

3.2 A importância crescente do comércio exterior 86
prdgas 150

4.1 População mundial 1950-85: fatos-chave 109

6.1 Alguns exemplos de extinção de espécies 164

4.2 Tamanho da população - atual e projetado - e taxas
7. 1 Uuidades de energia 187

de aumento 110
7.2 Dois cenários energéticos 190-191

4.3 Indicadores de saúde 112
7.3 Quanto custam os danos e o controle da poluição

4.4 Taxas de matrículas dos sexos masculino e feminino,
do ar 201

por Região. 1960 e 1982 113
9.1 Como dominar as cidades 265

5.1 Duas décadas de desenvolvimento agrícola 130
9.2 Problemas ambientais nas cidades do Terceiro

7.1 Consumo global de energia primária per capita. 1984 188
Mundo 268

8.1 Participação do valor adicionado manufatoreiro
9.3 Três maneiras de usar US$20 milhões para melhorar

no PlB. por grupo de economias e grupo de renda 231
as condições de uma cidade de 1 milhão de

8.2 Composição do comércio de mercadorias dos países
habitantes 282

em desenvolvimento 233
9.4 A falta de compreensão das necessidades das mulheres

9.1 População residente em áreas urbanas, 1950-2000 263
nos projetos habitacionais 287

9.2 Exemplos de rápido aumento popolacional em

10.1 Os acordos sem precedentes do Tratado Antártico 315

cidade. do Terceiro Mundo 264

11.1 Gastos militares versus segurança ambiental 339

10.1 Pesca mondial nas principais zonas pesqueiras,
1979-84 300

VU
VI
SIGLAS
ONG organizações nIIo-goVemamentais

ONUDI O!::ganização das Nações Unidas para o Desenvolvi·

mento Industrial
Pffi produto interno bruto
PIGB Projeto Internacional para a Geoslera e a Biosfera (do
CIUC)
AlD Associação Internacional de Desenvolvimento
PNB produto nacional bruto
AlEA Ag&cia Intemacional de Energia Atómica PNUMA Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente
PPP Princípio de Pagamento do Poluidor
AOO assistência oficiaI ao desenvolvimento
CAEM Conselho de Assistência Econômica Mlltua PRI países recém-industriaJizados
CCPA Comitê Cientffi<:o de Pesquisa Antártica PSN Padrões de Segurança Nuclear
CCRMVA Comissão para a Conservação dos Recursos Marinhos SGMMA Sislema Global de Monitoração do Meio Ambiente
Vivos da Antártida
STA Sistema do Tratado Antártico
UICN Upião Internacional para a ConservaçliD da Natureza
CE Comunidade Econ&nica Européia
e dos Recursos Naturais
CEE Comissão Econômica Européia
Comitê das Instituições Intemacionnis de Desenvol­ UJT União Internacional de Telecomunicações
ClIDMA UNCTAD Conferência da Nações Unidas sobre Comércio e De­
vimento para o Meio Ambiente
ComissIiD Internacional sobre a Pesca da Baleia senvolvimento
CIPB UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, a
CIPR Comissão Internacional de Proteção Radiológica
Conselho Internacional de Uniões Científicas Ciência e a Cultora
CIUC
Centto de Ugação Ambiental V AM valor adicionado manufatureiro
CLA
Centto das Nações Unidas para Assentamentos Hu­ ZEE Zona Econômica Exclusiva
CNUAH
manos (Habitat)
OAESI Departamento das Nações Unidas de Assuntos Eco­
nômicos e Sociais Internacionnis
EM empresas muItinacionais
ENC Estratégia Nacional de Conservação
FAO Organização das Nações Unidas para a Alimentação e
aAgricul~
FMI Fundo Monetário Internacional
FMVS Fundo Mundial para a Vida Selvagem
GA'IT Acordo GeraI sobre Tarifas e Comércio
GEACPM Grupo de Especialistas em Aspectos CientífICOS da
Poluição Marinha
lIMA0 Institoto Intemaciónal para o Meio Ambiente e o De­
senvolvimento
IRM Instituto de ReCursos Mundiais
ICMA Junta das Nações Unidas para a Coordenação do
Meio Ambiente
OCOE Organização para a CooperaçliD e o Desenvolvimento
Econômico
OIT Organização Internacional do Trabalho
OMM Organização Meteorol6gica Mundial
OMS Organização Mundial da Saúde

VIII IX
NOTA SOBRE A TERMINOLOGIA PREFÁCIO DA PRESIDENTE

o agrupamento de países na apresentação dos dados está indicado "Uma agenda global para mudança" - foi o que se pediu à Co­
nos lugares apropriados, As expressões "países industrializados" missão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvímento que
e "países desenvolvidos em geral compreendem as categorias
11
preparasse. Tratava-se de um apelo urgente da Assembléia Geral
adotadas pela ONU de eeonomias de mercado desenvolvidas e das Nações Unidas para:
países socialistas do Leste europeu e a URSS, Salvo indicação em • propor estratégias ambientais de longo prazo para obter um de­
contrário~ a expressão ··pais em desenvolvimento" refere~se ao senvolvímento sustentável por volta do ano 2000 e da( em diante;
grupo de países em desenvolvimento com economias de mercado • recomendar maneiras para que a preocupação com o meio am­
c aos países socialistas da Ásia. tal como classüicado pela ONU. biente se traduza em maior cooperação entre os países em desen­
A menos que o contexto indique o contrário. a expressão ''Tercei­ volvimento e entre pa(ses em estágios diferentes de desenvolvi­
ro Mundo refere-se aos países em desenvolvimento com econo~
H mento econômico e social e leve à consecução de objetivos co­
mias de mercado. tal como definido pela ONU. muns e interligados que considerem as inter-relações de pessoas,
recursos. meio ambiente e desenvolvimento;
Salvo indicação em contrário. toneladas são toneladas métricas • considerar meios e maneiras pejos quais a comunidade intema~
(l.oookg ou 2,204.6 libras-peso), Dólares são d6lares none-ame­ cional possa lidar mais eficientemente com as preocupações de
ricanos correntes ou para o ano especificado. cunho ambiental;
• ajudar a definir noções comuns relativas a questões ambientais
de longo prazo e os esforços necessários para tratar com êxito os
problemas da proteção e da melhoria do meio ambiente, uma
agenda de longo prazo a ser posta em prática nos próximos decê­
nios, e os objetivos a que aspira a comunidade mundial.
Em dezembro de 1983, quando o secretário-geral das Nações
Unidas me encarregou de criar e presidir urna comissão especial e
independente para tratar deste grande desafio que se impõe à co­
munidade muodial. eu tinha plena consciência das dimensões da
tarefa e de que minhas responsabilidades cotidianas de líder de
panido a tomavam quase impossível. Além disso. o que a Assem­
bléia Geral solicitava parecia írrealista e ambicioso demais. embo·
ra fosse também uma evidente demonstração do sentimento gene­
ralizado na comunidade internacional de frustração e inadequação
no tocante à nossa capacidade de enfrentar as questões vitais do
mundo e lidar bem com elas.
Bste fato é uma realidade incontestável e difícil de negar. Co­
mo não se dispõe de respostas para questões fundamentals e sé­
rias, a única alternativa é continuar tentando enconlrá-Ias.
Eu ponderava sobre isto tudo quando o secretário-geral apre­
sentou-me um argumento irrefutável: nenhum outro líder político
se tomara primeiro-ministro com uma experiência de vários anos,
no plano nacional e internacional. como ministro do Meio Am­

XI
x
blen.... Isto me deu esperanças de que o meio ambiente não estava mais internacionais. A. colônias dotadaJI de recursos naturais to...
fadado a pennanecer uma questão secundária no processo polftico navam-se nações. Os ideais de cooperação e partilha pareciam
central de tomada de decisões. estar sendo seriamente buscados. Paradoxalmente, os aoo~ 70 en­
Em Illtima análise, resolvi aceitar o desafio. O desafio de enca­ traram pouco a pouco num clima de reação e isolamento, en­
rar o fulUro e de proteger os interesses das gerações vindouras. quanto uma série de conferências da ONU trazia espemnças de
Pois uma coisa era perfeitamente clara: precisávamos de um man­ maior cooperação quanto às questões mais importantes. A Confe­
dato para a mudança. rência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Hwnano, em
1972, levou os países em desenvolvimento e os industrializados a
Vivemos uma era da história das nações em que é mais neces­ traçarem, juntos, os ud.ireitos da :fanúlia. humana a wn meio am­
U

sária do que nunca a coordenação entre ação política e responsa­ biente saudável e produtivo. Várias reuniões desse tipo se sucede­
bilidade. A tarefa e o encargo com que se defrontam as NaÇões ram: sobre os direitos das pessoas a uma alimentação adequada, a
Unidas e seu secretário-geral são enormes. Satisfazer com respon­ boas moradias, a água de boa qualidade, ao acesso aos meios de
sabilidade os objetivos e as aspirações da humanidade requer o escolher o tamanho das famfiias.
apoio ativo de todos nós. Na década amai, verificou-se um retrocesso quanto às preocu­
Minbas reflexões e perspectivas também se baseavam em ou­ paçées sociais. Os cientistas chamaram atenção para problemas
tros aspectos importantes de rninba experiência política pessoal: urgentes e complexos ligados à própria sobrevivência do homem:
OS trabalhos anteriores da Comissão Brandt sobre questões Norte­ um planeta em processo de aquecimento, ameaças à camada de
Sul e da Comissão Palme sobre questões de desannamento e se­ ozônio da Terra, desertos que devoram terras de cultivo. Nossa
gurança, de que participei. resposta foi exigir maiores esclarecimentos e transferir os proble­
Pediam-me que ajudasse a lançar um terceiro e premente apelo mas a iostitoições mal equipadas para lidar cmn eles. A deteriora­
11 ação polftica: após Programa para a sobrevivlncia e Crise c0­ ção ambiental, vista a princípio como um problema sobretudo dos
mum, da Comissão Brandt, e após Segurança comum, da Comis­ países ricos e como um efeito colaleral da riqueza induslrÍal, tor­
são PaIme, viria FuturO comum. Era isso o que eu tinha em mente nou-se uma questão de sobrevivência para os países em desenvol­
quando, junto com o Vice-Presidente Mansour Khalid, comerei a vimento. Ela faz parte da espiral descendente do declfnio econll­
trabalhar na ambiciosa tarefa que as Nações Unidas nos confiam. mico e ecológico em que muitas das nações mais pobres se vêem
Este relatório, apresentado à Assembléia Geral da ONU em 1987, enredadas. Apesar de esperanças oÍlciais expressadas por todos,
é o resultado desse processo. nenbuma das tendências hoje idenrifieadas, nenhum programa ou
polftica oferece qualquer esperança real de estreitar a lacuna cada
Talvez nos.. tarefa mais urgente hoje seja persuadir as nações vez maior entre nações ricas e pobres. E, como parte de nosSO
da necessidade de um retorno ao multilateralismo. O desafio da "desenvolvimento'\ armazenamos arsenais capazes de alterar 08
reconstrução após a 11 Guerra Mundial foi a verdadeira motivação rumo. que a evolução vem segnindo há milhões de anos e de criar
que levou ao estabelecimento de nosso sistema econômico inter­ um planeta que nossos ancestrais não reconbeceriam.
nacional do pós-guerra. O desafio de encontrar rumos' para um Em 1982, quando se discutiam pela primeira vez as atribuições
desenvolvimento sustentável tinha de fornecer o impeto - ou de nossa Comissão, houve quem desejasse que suas considerações
mesmo o imperativo - para uma busca renovada de soluçées mul­ se limitassem apenas a "questões ambientais". Isto teria sido um
tilaterais e para um sislema econ/lmico internacional de coopera­ grave erro. O meio ambiente não existe como uma esfera desvin­
çãe reestruturado. Esses desaUos se sobrepunbam às distinções de culada das açées, ambições e necessidades humanas, e tentar de­
soberania nacional, de estratégias limitadas de ganho econllmico e fendê-lo sem levar em conta os problemas hwnanos deu li própria
de várias diseiplioas cientificas. expressão "meio ambiente" uma conotação de ingenuidade em
Após 15 anos de paralisaçãe ou mesmo deterioração na coope­ certos círculos polftieos. Também a palavra "desenvolvimento"
ração global, acredito ter chegado o momento de expectativas fni empregada por alguns num sentido muito limitado, como "o
mais elevadas de busca conjunta de objetivos comuns, de um que as nações pobres deviam fazer para se tornarem mais ricas",
maior empenbo político em relação a nosso futuro comum. e por isso passou a ser posta automaticamente de lado por muitos,
A década de 60 foi um tempo de otimismo e progresso; havia no plano internacional, como algo atinente a especialistas, àque­
mais esperança de um mundo novo melhor e de idéias cada vez les ligados a questées de "assistência ao desenvolvimento".

Xli XIII
Mas é no urneio ambiente" que todos vivemos; o "'desenvolvi­ missão não exercíamos as funções que tínhamos em nossos paí­
monto" é o que todos fazemos ao tentar melhorar o que nos cabe ses, agfamos como individuos: e à medida que nosso trabalho
neste lugar que ocupamos. Os dois são inseparáveis. Além disso, avançava, iam diminuindo o nacionalismo e as distinções artifi­
as questões de desenvolvimento devem ser consideradas cruciais ciais entre '"industrializado" e Hem desenvolvimentou • entre
pelo. líderes políticos que acham que seus países já atingiram um Leste e Oeste. Nascia, em vez disso. uma preocupação comum
nível que outras nações ainda lutam para alcançar. Muitas das es­ com o planeta e com as ameaças ao n:lesmo tempo ecológicas e
tratégias de desenvolvimento adotadas pelas nações industrializa­ econômicas contra as quais todos OS povos, instituições e gover­
das são evidentemente insustentáveis. E devido ao grande poder nos agora lutavam,
econômico e político desses países, suas decisões quanto ao de­ Dumnte o tempo em que ,a Coraissão esteve reuuida, tragédias
senvolvimento terão profundo impacto sobre as possibilidades de como as crises de fome na Africa, o vazamento na fábrica de pes­
todos os povos manterem o progresso humano para as gemçõcs ticidas de Bhopal, na (ndia, e o desastre de Tchernobil, na URSS,
folurns. aparentemente justificaram as graves previsões quanto ao futuro
Muitas questões cóticas de sobrevi vência estão relacionadas humano que se tomaram lugar-comum em meados dos anos 80.
com desenvolvimento desigual, pobreza e aumento populacional. Mas nas audiências públicas que realizamos nos cinco continen­
Tndas elas impõem pressões sem precedentes sobre as telTllS, tes, também tomamos conhecimento de vítimas de catástrofes
águas, florestas e outros recursos naturais do planeta, e não ape­ mais crónicas e generalizadas: a crise da dívida, a cessação da as­
nas nos países em desenvolvimento. A espiral descendente da p0­ sistência aos países em desenvolvimento e do investimento neles.
breza e da deteriornção ambiental é um desperdício de oportuui­ a queda dos preços dos produtos básicos e das rendas pessoais.
dades e recursos. De modo especial, é um desperdício de recursos FIcamos convencidos de que eram necessárias grandes mudanças~
humanos. Esses vinculos 'entre pobreza, desigualdade e deteriora­ tanto de atitude quanto na fonna em que nossas sociedades são
ção ambiental foram um dos principais temas em nossa análise e organizadas.
recomendações. O necessário a80m é wna nova era de cresci­ As questões referentes a população pressão populacional,
mento econômico - um crescimento convincente e ao mesmo população e direitos humanos - e os vínculos entre estas e a p0­
tempo duradouro do ponto de vista social e ambiental. breza, o meio ambiente e o desenvolvimento revelaram-se das
Devido à abrangéncia de nosso trabalho e à necessidade de mais difíceis dentre as que tínhamos de enfrentar. As diferenças
wna visão ampla, eu tinha consciência de que era preciso reunir de ponto de vista pareceram a princípio intran<poníveis, e foi pre­
wna equipe de cientistas e políticos influentes e altamente qualifi­ ciso muita reflexão e muito empenho para supel'31' distinçõcs cul­
cados, a fim de formar wna Coraissão verdadeiramente indepen­ turais, religiosas e regionais.
dente. Isto era essencial ao êxito do processo. Juntos, deveríamos Outra quesrão de vulto foi a área das relações económicas in­
esquadrinhar o mundo e formular um método interdisciplinar e ternacionais. Neste e em vários outros asJ>eCtos importantes de
integrado para abordar as preocupaçõcs mundiais e nosso futuro nossa análise e de nossas recomendações, conseguimos chegar a
comum. Necessitávamos de ampla participação e de uma clara um amplo consenso.
maioria de membros de países em desenvolvimento, a Íuo de re­ Foi essencial o fato de todos nos tennos tornado mais expe­
tratar as realidades do mundo. Necessitávamos de pessoas de rientes, aprendido a suplantar as barTeiras culturais e históricas.
grande experiência. oriundas de todos os campos políticos, não só Houve momentos de grande preocupação e crise potencial, mo­
com fonnação em meio ambiente e desenvolvimento enquanto mentos de gratidão e reaIização~ momentos de sucesso na elabo­
disciplinas políticas, mas de todas as áreas onde são tomadas de­ ração de uma análise e uma pempectiva Comuns. O resultado ob­
ci.sões vitais que influenciam o progresso econômico e social nos tido foi certamente mais completo, mais realista e mais voltedo
níveis nacional e internacional. para o futuro do que qualquer de nós, sozinho, poderia conseguir.
Assim~ viemos de experiência,; extremamente diversas: minis-­ Chegamos à Comissão com opiniões e perspectivas diferentes,
tros de relações exteriores, funcionários de finanças e planeja­ valores e crenças diferentes, experiências e noções muito dife­
mento, administradores na. áreas de agricultura, ciência e tocno­ rentes. Após três anos de tmbalho em comum, viagens, troca de
logia. Vários membros da Comissão são rainistros de gabinete e experiências e debates, apresentamos um relatório que é de todos.
economistas de alto nível em suas próprias nações, e muito en­ Sou profundamente grata a todos os membros da Coraissão por
volvidos nos assuntos desses países. Mas como membros da Co­ sua dedicação. sua antevisão e seu engajamento pessoal em nossa
XIV
xv
lido comum. Foi sem dúvida uma excelente equipe. O clima de volvimento sustentável, para estabelecer os alicerces de Nosso
emize"" e comunicação fIanca. a convergência de idéias e o pr0­ Futuro Comum.
cesso de aprendizagem e participação nos propiciaram uma expe­ O processo de elaboração desterelat6rio prova que é possfvel
riência de otimismo. muito valiosa !anto para nós quanto. creio, unir esforços, identificar objetivos comuns e estabelecer uma ação
para este relatório e sua mensagem. Esperamos partilhar com ou­ comum. Cada membro da Comissão, se tivesse escrito o telatório
tras pessoas tndo aquilo que aprendemos e todas as experiências sozinho, teria escolhldo palavras diferen",". ConlUdo, consegui­
que vivemos juntos. Muitas outras pessoas têm de partiIha.r essa mos cbegar a acordo sobre a lUlálise, os remédios em geral e as
experiência a fim de que se possa alcançar um desenvolvimento
sustentável.
A Comissão foi orientada por pessoas de todas as categorias
[ recomendações para que o curso do desenvolvimento não sofra .
intenupções.
Em última análise, o que importa é estimular a compreensão
sociais. É a essas pe$soas - a todas as pessoas do mundo - que a comum e O espírito de responsabilidade comum, tão evidente­
Comissão agora se dirige. Assim, falamos diretamente às pessoas mente necessários num mundo dividido.
e também às instilUições que eias criaram.
A Comissão se dirige a governos, seja diretamente. seja por Mil.lumos de pessoas em todo o mundo contribuírmn para os
meio de suas várias agencias e ministérios. Este relatório destina­ trabalhos da Comissão, cOm idéias, com ajuda financeira, ou
se. principalmente. à congregação de governos. reunida na As­ compartilh'!Ddo conosco suas experiencias ao nos transmitirem
sembléia Geral das Nações Uuidas. suas necessidades e caténcias. Fico sinceramente grata a IUdos os
que nos deram sua contribuição. Os nomes de muitas dessas pes­
A Comissão se dirige também à empresa privada. desde a for­ soas constam do anexo 2 do relatório. Agradeço especialmente
mada por uma SÓ pessoa até a grande companhia multinacional, ao Vice-Presidente Mansour Khalíd, a todos os demais membros
com um movimento total superior ao de muitos países. e com pos­
sibilidades de promover mudanças e melhorias de grande alcance.
• da Comissão, ao Secretário-Geral Sim MacNeill e a sua equipe em
nossa secretaria, que foram muito além do dever para nos ajuda­
Antes de 1Udo. 'potém, nossa mensagem se dirige às pessoas,
cujo bem-estat é o objetivo tlItimo de todas as políticas referentes
a meio ambiente e desenvolvimento. De modo especial, a Comis­
I
~
tem. Seu entusiasmo e dedicação não tiveram limites, Quero
agradecer aos presidentes e aos membros do Comitê Preparat6rio
Intergovemamental Inter-Sessional. que colaboraram estreita­
são se dirige aos jovens. Aos professores de todo o mundo cabe a mente com a Comissão, dando-nos incentivo e apoio. Também
tarefa CtuCial de levar a eles este relatório. agradeço ao diretor executivo do Programa das Nações Unidas
Se não conseguirmos transmitir nossa mensagem de urgência para o Meio Ambienre, Dr. Mostafa Tolba, por seu apoio e inte­
aos pais e administradores de hoje. arriscamo-nos a comprometer resse valiosos e constantes.
o direito fundamental de nossas crianças a um meio ambiente
saudável. que promova a vida. Se não conseguirmos traduzir nos­ Gro Harlem Brundtland
sas palavras numa linguagem capaz de tocar os corações e as Oslo, 20 de março de 1987
mentes de jovens e idooos. não seremos capazes de empreender as
amplas mndanças sociais necessárias à correção do curso do de­
senvolvimento.
A Comissão tenninou seus trabalhos. Pedimos um empenho
conjunto e novas normas de conduta em todos os nfveis, no iote·
resse de todos. As mudanças de atilUde, de valores sociais e de
aspirações que o relat6rio encarece dependeria de amplas campa­
nhas educacionais, de debates e da panicípação pública.
[

Com este objetivo, apelamos a grupos de cidadãos, a orgo..Jza­
ções não-govemamentais, a instilUições de ensino e à comunidade
cientffica. Todos no passado desempenharam funções indispensá­
veis para a conscientização do público e a mudança política. Sua
participação será vital para orientar o mundo no rumo do desen­

XVI XVII
DA TERRA AO MUNDO
VIsão panorâmica da ComIIisão Mundial
sobre Melo Ambiente e Desenvolvimento

Em meados do século XX, vimos nosso planeta do espaço pela
primeira vez. Talvez os historiadores venham a considerar que
este fato teve maior impacto sobre o pensamento do que a revolu­
" ção copérnica na do século XVI, que abalou a auto-imagem do
homem ao revelar que a Terra não era o centro do univel'llo. Vista
do espaço, a Terra é uma hola frágil e pequena, dominada não
pela ação e pela obra do homem, mas ppr um conjunto ordenado
de nuvens,oceanos, ~~..<!.~I<iJO fato de a humanidade
ser incapaz de agit confonne essa ordenação natoraI está alteran­
do fundamentaImente os sistemas planetários. Muitas dessas alte­
rações acarretam ameaças à vida. Esta realidade nova, da qual
não há como fugir, tem de ser reconhecida - e enfrentada.
Felizmente, essa realidade nova coincide com fatos mais posi­
;L tivos e também novos neste século. É possível fazer infOnnaç6es
e bens circularem por todo o planeta com uma rapidez sem prece­
dentes; é possível produzir mais alimentos e mais bens investindo
menos recursos; a tecnologia e a ciência de que dispomos nos
',' penuitem, ao menos potencialmente, examinar mais a fundo e
compreender melhor os sistemas naturais. Do e.'!paÇo, podemos
ver e estodar a Terra como um organismo cuja sallde depende da
saúde de todas as suas partes. Temos o poder de reconciliar as
atividades humanas com as leis naturais, e de nos enriquecermos
com isso. E nesse sentido nossa herança eultoraI e espiritual pode
fortalecer nossos interesses econômicos e imperativos de sobrevi­
vência.
Esta Comissão acredita que os homens podem construir um fu­
turo mais próspero. mais justo e mais seguro. Este relat6rio. Nos­
so Futuro Comum, não é uma previsão de decadência. pobreza e
dificuldades ambientais cada vez maiores num mundo cada vez
mais poluído e com recl1l'llOS cada. vez menores. Vemos, ao con­
~ ttário. a possibilidade de uma nova era de creseimento econômi­
co, que tem de se apoiar em práticas que conservem e expandam a
.\}) base de recursos ambientais. E acreditamos, que tal crescimento é
I absolutamente essencial para mitigar a grande pobreza que se vem
~ intensificando na maior parte do mundo em desenvolvimento.
Mas a esperança da Comissão em relação ao futuro está condi­
cionada a uma ação política decisiva que deve ser empreendida
jIi, para que se comece a administrar os recursos do meio am­

I
blente no intuito de 118Segur8r o progresso hUll'llUlo continuado e a
IObrevivência da humanidade. Não prevemos o futuro; apenas A Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvi­
transmitimos a infonnação - wna informação urgente, baseada mento reuniu-se pela primeira vez em outubro de 1984 e
nas evidências científicas mais recenleS e mais abalizadas - de publicou este relatório 900 dias depois, em abril de 1987.
que é chegado o momento de tomar as decisões necessllrlU afim Durante esse tempo:
de garantir os recursos para o sustento desta geração e das próxi­ • na África, a cnse ligada ao meio ambiente e ao desenvol­
mas. Não ternos a oferecer um plano detalhado de ação, e sim um •
vimento. desencadeada pela seca, atingiu o auge, pondo em
caminho para que os povos do mundo possam ampliar suas esfe­ risco 35 milhões de pessoas e matando aproximadamente 1
milhão;
ras de cooperação. • em Bhopal, na lndIa, um vazamento numa fábrica de pes­

ticidas matou mais de 2 mil pessoas, deixando outras 200
mil oegas ou feridas;
I, O DESAFlO GLOBAL • na Cidade do México, tanques de gás liquefeito explodi­
ram, matando mil pessoas e deixando milhares desabrigadas;
1.1 )l:x1tos e ~ • em Tchemobil, a explosão de um reator duelear espalhou
radiação por toda a Europa, aumentando o risco de incidên­
Os que buscam êxitOs e sinaia de esperança podem encontrar cia de câncer humano;
muitos: a mortalidade infantil está em queda; a expectativa de vi­ • na Suíça, durante o incêndio de um depósito, foram des­
da humana vem aumentendo; o pen:entual de adultos, no mundo, pejados no rio Reno produtos químicos agrícolas, wlventes
que sabem ler e escrever está em ascensão; o pen::entnaI de crian­ e mercdrio, matando milhões de peixes e ameaçando o
ças que ingressam na escola está subindo; e a produção global de abastecimento de água potável na República Federal da
Alemanha e na Holanda;
alimentos aUflleOta mais depnlSSa que a população. I
• cerca de 60 milhões de pessoas morreram de doenças in­
Mas os mesmos processos que trouxeram essas vantagens gera­ testinals decorrentes de desnutrição e da ingestão de água
ram tendências que o planeta e seus hablmntes não podem supor­ imprópria para o consumo; as vitimas, na maioria, eram
tar por muito tempo. Estas têm sido tradicionalmente divididas em crianças.
fracassos do "desenvolvimento" e fracassos na gestão do nosso
meio ambiente. No tocante ao desenvolvimento, há, em termos
absolutos, mais famintos no mundo do que nunca, e seu nWnero
vem aumentando. O mesmo ocorre com o nWnero de analfabetos, podem ter:se acidificado a ponto de quase não haver esperanças
com o n1lmero dos que não dispõem de água e moradia de boa de recupernção. A queima de combustfveis fósseis espalha na at­
qualidade, e nem de lenha e carvão para cozinhar e se aquecer. mosfera dióxido de carbono, o que e.~ provocando um gntdual
Amplia-se - em vez de dinúnuir - o fosso entre nações ricas e aquecimento do planelÁ. Devido a esse "efeito estufa", ! possível
pobres, e, dadas as circunstâncias atuais e as disposições institu­ que, já no início do pnlximo século, as temperataras médias glo­
cional., há poucas perspectivas de que essa tendência se inverta. bais se tenham elevadu a pontu de acarretar o abandono de áreas
Há também tendências ambientais que ameaçam mndificar ra­ de produção agrícola e a elevação do nível do mar, de modo a
dicalmente o planeta e ameaçam a vida de muitas espécies, In­ inundar cidades costeiras e desequilibrar economias nacionais.
cluindo a espécie humana. A cada ano,6 milhões de hectares de Certos gases industriais ameaçam comprometer seriamente a ca­
terras produtivas se transformam em desertos Inúteis. Em 30 anos, mada protetora de ozÔnio que envolve o planeta, com o que au­
Isto repnlSCntará uma área quase igual à da Arábia Saudita. mentaria acentuadamente a incidência de vários tipos de eâncer
AnuaImente, são destruídos mais de 11 milhões de hectares de em seres humanos e animais e seria rompida a cadeia alimentar
florestas, o que, dentro de 30 anos, representará wna área do ta­ " dos oceanos. A indústria e a agricultura despejam substâncias t6­
manho aproximado da lodia. Grande parte dessas florestas é xicas que poluem irremediavelmente a cadeia alimentar hwnana e
transformada em terra agrícola de baixa qualidade, incapaz de os lençóis subterrineos.
prover o sustento dos que nela se estabelecem. Na Europa, as Os governos e as instituições multilaterais tomam-se cada vez

~

chuvas ácidas matam florestas e lagos e danificam o patrimômio mais conscientes da impossibilidade de separar as questões relati­
artístico e arquitetônico das nações; grandes extensões de terra vas ao desenvolvimento econÔmico das questões relativas ao meio
l 3
IIIIbIenle; muilaS fonnas de desenvolvimento desgastam os recur­

~
80S ambienlais nos quais se deviam fundamentar, e a deterioração "crises" globais que preocuparam a lodos. sobretudo nos I1ltimos
do meio ambiente pode prejudicar o desenvolvimenlD econômico. 10 anos. NáD sãD crises isoladas: uma crise ambiental, lima crise
"'~_ uma das principais "!msWLC..Jml Qp~nc do desenvolvimento, uma crise energética. SáD uma s6.
,Iêniá. =âinl;i"imíli fiO -mUliãó~POrtántO, T O planeta eslá atravessando um período de crescimento drásti­
esSêS' prOI)Iem:a.~...;mWíiã· 'pé;, ., CO e mudanças fundamenlais. Nosso mundo de 5 bilhões de seres
humanos tem de encontrar espaço, num contexto ímito, para outro
mundo de seres humanos. Segundo projeções da ONU, em algum
momento do próximo século a população poderá estabilizar-se
entre 8 e 14 bilhões de pessoas. Em sua maior parte, esse au­
mento ocorrerá nos pafses mais pobres (mais de 90%) e em cida­
des já superpovoadas (90%).
A atividade econômica multiplicou-se para gerar uma econo­
mia mundial de USS13 trilhões, que pode qU,intuplicar ou decu­
plicar nos próximos 50 anos, A produção industrial cresceu mais
de 50 vezes no illtimo século, sendo que quatro quintos desse
crescimento se deram a partir de 1950, Esses nllmeros refletem e
p... figuram profundos impactos sobre a biosfera, à medida que o
mundo investe em habitação, transporte, agricultura e inddstria.
Grande parte do crescimento econ6mico se faz à custa de maté­
, rias-primas de flo...slaS, solos, mares e vias navegáveis.
A nova tecnologia, uma das molas mestras do crescimenlo
econômico, possibilita a desaceleração do consumo perigosa­
mente rápido dos recursos finitos, mas também engendra sérios
riscos, como novos tipos de poluição e o surgimento, no planeta,
de novas variedades de fonnas de vida que podem alterar os ru­
mos da evolução. Enquanto isso, as indl1s1rias que mais dependem
de recursos do meio ambiente, e que mais poluem, Se multiplicam
com grande rapidez no mundo em desenvolvimento, onde o cres­
cimento é mais urgente e há menos possibilidades de minilaizar
efeitos colaterais nocivos.
Essas alterações correlatas criaram novos vínculos entre a eco­
nomia global e a ecologia global. No passado, nos preocupamos
com os impactos do crescimento econômico sob... o meio am­
biente. Agora temos de nos preocupar com os impactos do des­
li, gaste ecol6gico - degradaçáD de solos, regimes hídricos, atmosfe­
ra e floreslaS - sobre nossas perspectivas econômicas. Mais re­
centemente tivemos de assistir ao aumento acentuado da interde­
., pendência econ6mica das nações. Agora temos de nos acostumar
à sua crescente interdependência ecológica. A ecologia e a ec0­
Até recentemente, o planeta era um grande mundo no qual as ati­ nomia estáD cada vez mais entrelaçadas - em âmbito local, regio­
vidades humanas e seus efeitos estavam nitidamente conf"mados ual, nacioual e mundial - numa rede inteiriça de causas e efeitos.
em nações, setores (energia, agricultura, comércio) e amplas áreas Se a base de recursos local se depaupera, áreas mais amplas
de interesse (ambienlai, econômico, social). Esses compartimen­ podem ficar depauperadas: o desflorestamento das tetTaS alIaS
IDs começaram a se diluir, IsID se aplica em particular às várias acarreta inundações nas tetTaS baixas; a poluição industrial preju­
dica a pesca local. Esses implacáveis ciclos localizados passam
4
5
qora ao pIano nacional e regional. A deterioração das terras ári­
nômico mundial que retira de um contineote pobre mais do que
cIu leva milhões de refugiados ambientais a transpor as fronteiras
lhe dá. Não podendo pagar suas dívidas, as nações africanas que
de seus paises. O desflorestamento na América Latina e na Ásia
dependem da venda de produtos primários vêem-se obrigadas a
wm provocando ntais inundações. com danos sempre maiores.
superexplorar seus solos frágeis, transformando assim terras boas
1108 paises situados em áreas mais baixas e no curso inferior dos
em desertos. Por causa das barreiras comerciais impostas pelos
rios. A chuva ácida e a radiação nuclear ultrapassaram"as frontei­ ,<
países ricos - e por muitos países em desenvolvimento - os afri.
ras da Europa. No mundo todo, estio ocorrendo fenômenos simi­
canas têm dificuldade em vender seus produtos a preços razoá­
la.res. como o aquecimento global e a perda de ozônio. Produtos
veis. o que pressiona ainda mais os sistemas ecológicos. A ajuda
qufmicos perigosos, presentes em alimentos comercializsdos in­
concedida pelas nações doadoras não só tem ficado aquém do de­
ternacionaImente, são eles próprios comercializsdos internacio­
'11 sejável. como freqüentemente reflete mais as prioridades destas
nalmente. No próximo século. poderão aumentar multo as pres­ nações do que as necessidades dos países recebedores. A base de
sões ambientais que geram migrações populacionais. ao passo que prodoção de outras áreas do mundo em desenvolvimento é tam­
os obstáculos a essa migração poderão ser ainda maiores do que bém afetada tanto por falhas locais quanto pela atuação dos sis­
hoje. temas econômicos internacionais. Devido à "crise da divida" da
Nos últimos decênios, surgiram no mundo em desenvolvimento América Latina, os recursos naturais dessa região estáo sendo
problemas ambientais que põem em risco a vida. O nllmero cres­ usados não para o desenvolvimento. mas para cumprir as obriga­
cente de agricultores e de sem-terras vem gerando pressões nas ções rmanceiras contraIdas com os credores estrangeiros. Esse en­
áreas rurais. As cidades se enchem de gente. carros e fábricas. E foque do problema da dívida é insensato sob vários aspectos:
no entanto esses pafses em desenvolvimento têm de atuar num cconômico, poUtico e ambiental. Exige que países relativamente
contexto em que se amplia o fosso entre a maioria das nações in­ pobres aceitem o aumento da pobreza ao mesmo tempo que ex­
dustrializsdas e em desenvolvimento em matéria de recursos, em • portam quantidades cada vez maiores de recursos escassos.
que o mundo industrializado impõe as normas que regem as prin­ Hoje, a renda per capita da maioria dos paises em desenvolvi­
cipais organizações internacionais, e em que esse mundo indus­ mento é mais baixa do que no início da década. O aumento da
trializado já usou grande parte do capital ecológico do planeta. pobreza e o desemprego vêm pressionando ainda ntais os recursos
Essa desigualdade é o maior problema "ambiental" da Terra; é ambientais, à medida que um nllmero maior de pessoas se vê ror­
também seu maior problema de "desenvolvimento". çado a depender mais diretamente deles. Multos governos sus­
Em muitos paises em desenvolvimento, as relações econômicas penderam seus esforços para proteger o meio ambiente e para in­
internacionais constituem um problema a ntais para a admiaistra­ serir considerações ecológicas no planejamento do desenvolvi­
ção <;lo meio ambiente. A agricultura, a silvicultura, a produção mento.
energética e a mineração geram pelo menos a metade do produto A crise ambiental, que se aprofunda e amplia. representa, para
nacional bruto de multos desses países, proporcionando empregos a segurança nacional - e até para a sobrevivência - uma ameaça
e meios de subsistência em escala ainda maior. A exportação de talvez ntais séria do que vizinhos hem annados e mal-intenciona­
recursos naturais continua sendo um fator importante em suas dos, ou alianças hostis. Em certas áreas da América Latioa. Ásia.
economias. sobretudo no caso dos menos desenvolvidos. Devido Oriente Médio e África. a deterioração do meio ambiente está se
a enonnes pressões econômicas, tanto .externas corno internas. a ,f tomando fonte de inquietação polCtica e tensão internacional. A
maioria desses países explora excessivamente sua base de recur­ recente destruição, na África. de grande parte da produção agrf­
sos ambientais. cola de terras áridas foi mais grave do que se um exército invasor
A recente crise africana ilustra bem e de modo bastante tnígico tivesse devastado essas terras. No entanto, a maioria dos gover­
como a economia e a ecologia podem interagir de f0rml!- destruti­ 'I nos dos pafses afetados ainda gasta hem mais para proteger seus
va e precipitar o desastre. Essa crise, desencadeada pela seca, tem povos de exércitos invasores do que de desertos em expansão.
causas reais ntais profundas. que devem ser buscadas. em parte. Em termos globais, os gastos militares totalízam cerca de US$l
nas polfticas nacionais que dispensaram pouquíssima atenção. e trilhão por ana e não cessam de subir. Em muitos países, os gas­
mesmo assim demasiado tarde. às necessidades da agricullllra de tos militares consomem uma proporção táo grande do produto na­
pequena escala e aos riscos inerentes a rápidos aumentos popuJe­ cional bruto que chegam a prejudicar bastante os esforços desen­
donais. As rafzes da crise estendem-se também a um sistema eco­ volvimentistas dessas sociedades. Os governos costumam tratar a

6 7
A Comissão buscou meios pano que no século XXI o desen­ nos anos 70. Houve 5,2 milhIIes de vítimas de inundações
\'Olvimenlo global possa vir a ser sustentável. Cerca de 5 por ano na década de 60; 15,4 milhões nos anos 70. O nú­
mil dias separam a publicação de nosso relat6rio elo primeiro mero de vítimas de ciclones e terremotos também disparou,
dia elo século XXI. Que crises ambientais nos estãO reserva­ já que cada veZ fuais pessoas pobres constroem casas precá­
das nesses S mil dias? rias em terreno perigoso.
Na década de 70, o número de pessoas atingidas por cu­ Ainda não há dados definitivos para o. anos 80. Mas. 56
lJi.,trofes "naturais" a cada ano dobrou em relação à década na África, 35 milhões de pessoas foram atingidas pela seca,
de 60. As catástrofes mais diretamente ligadas à má admi­ e na lndia dezenas de milhões sofremm os efeitos de uma
~\1
nistração do meio ambiente e do desenvolvimento - secas e seca mal. bem administrada e portanto menos divulgada.
inundaç<les - foram as que afetaram o maior número de pes­ Inundações assolaram os Andes e.o Himalaia desflorestados
soas e as que se intensificaram mais drasticamente em ter.. com wn vigor sempre crescente. Ao que parece, essa ten­
mos de vítimas. Cerca de ISS milhões de pessoas sofreram dência sinistra dos anos 80 se transformará numa crise que
anualmente os efeitus da seca nos anos 60; 24,4 milhões, deverá durar toda a década de 90.

questão "segurança" à base de defmições tradicionais. Istu fica
patente nas tentativas de obter segurança por meio de sistemas de
armas nucleares capazes de destruir o planeta. Os estudos indicam
que o inverno nuclear, frio e escuro~ que se seguiria a uma guerra
'.
Mas os efeitos da dissipação atual estão rapidamente acabando
com as opções das gerações futuras. Muitos dos responsáveis pe­
las decisões tomadas hoje estarão mortos antes que o planeta ve­
nha a sentir os efeitos mais sérios da chuva ácida, do aquecimentu
nuclear mesmo limitada poderia destruir ecossistemas vegetais e da Tetta, da redução da camada de ozônio, da desertiflCação ge­
animais e deixar aos sobreviventes humanos um planeta devasta­ neralizada ou da extinção de espécies. A maioria dos jovens
do, muito diferente daquele que herdaram. eleitores de hoje ainda eStará viva. Nas audiências da Comissão,
A corrida annamentista - em todos os quadrantes elo munelo ­ partiram dos jovens, dos que têm mais a perder, as críticas mal.
drena recursos que poderiam ser usados de modo mais produtivo deras à atual administração do planeta.
pano diminuir as ameaças à segurança gerada por conflitos am­
bientais e ressentimentos alimentados pela pobreza generalizada. 1.3 De!lenvolvlmento _tentável
Muitos dos atuais esforços para manter o progresso humano,
pano atender às necessidades humanas e para realizar as ambições A humanidade é capaz de tomar o desenvolvimento sustentável ­
humanas são simplesmente insustentáveis - tanto nas nações ricas de garantir que ele atenda as necessidades do presente sem com­
quanto nas pobres. Elas retimm demais, e a um ritmo acelerado prometer a capacidade de as gerações futuras atenderem também
demais, de uma conta de recursos ambientais já a descoberto, e no
futuro não poderão esperar outra coisa que não a insolvência des­
sa conta. Podem apresentar lucros nos balancetes da geração

às suas. O conceito de desenvolvimento sustentável tem, é claro,
limites - não limites absolutos, mas limitações impostas pelo es­
tágio atual da tecnologia e da organização social, no tocante aoS
atual, mas nossos mhos herdarão os prejuízos. Tomamos wn ca­ recursos ambientais, e pela capacidade da biosfera de absorver os
pital ambiental emprestado às gerações futuras, sem qualquer in­ .j' efeitos da atividade humana. Mas tanto a tecnologia quanto a or­
tenção ou perspectiva de devolvê-lo. Elas podem até nos maldizer ganização social podem ser geridas e aprimoradas a fun de pro­
por nossos atos perdulários, mas jamais poderão cobrar a dIvida porcionar uma nova era de crescimento econômico. Para a Comis­
que temos para COm elas. Agimos desta forma porque podemos são, a pobreza generalizada já não é inevitável. A pobreza não é
escapar impones: as gerações futuras não votam, não possuem apenas um mal em si mesma, mas pano haver wn desen ..olvimento
poder poIltico ou financeiro, não têm como opor-sea nossas deci­ sustentável é preciso atender às necessidades blisicas de todo. e
sões. . dar a todos a oportunidade de realizar suas aspirações de uma vi­
8 9
da melhor. Um mundo onde a pobreza é endêmica estará sempre interligados não mudará; mas é preciso que mudem as políticas e
IllljelIO a cattlslmfes, ecológicas ou de outra datuteza. as instituições envolvidas.
O atendimenlO das necessidades básicas requer não só uma T0'm8-se cada vez mais necessária uma cooperação internacio­
nova. era de crescimento econômico para as nações cuja maioria nal efetiva para lidar com a interdependência ecológica e econô­
da população é pobre, como a garantia de que esses pobres rece­ mica. Contudo, verifica-se ao mesmo tempo um decréscimo de
berão uma pareela justa dos recursos necessários Patll manter esse :,' confiança nas organizações internacionais e uma redução do
crescimento. Tal eqüidade seria facilitada por sistema~ políticos apoio que lhes é dado.
que assegurassem a participação efetiva dos cidadãos na tomada Outra grande falha institucional, no que tange a enfrentar os
de decisões é por processos mais democráticos na tomada de de­ desafioo do meio ambiente e do desenvolvimento é a incapacidade
cisões em âmbito internacional. dos governos de fazer com que os organismos cujas práticas dete­
Para que haja um desenvolvimento global sustentável é neces­ rioram o meio ambiente se comprometam a adotar medidas que
sário que os mais ricos adntem estilos de vida compatíveis com os evitem essa deterioração. A preocupação com o meio .&mbiente
recursos ecológicos do planeia - quanto ao conswno de energia. adveio dos danO's causados pelo rápido crescimento econômico
por exemplo. Além disso, o rápido aumento populacional pode que se segoiu 11 II Guerra Mundial. Os goveinDs, pressionados
intensificar a pressão sobre os recursos e retardar qualquer eleva­ por seus cidadãos, perceberam a necessidade de reparar esses da­
ção dos padrões de vida; portanto, só se pode buscar o desenvol­ nos e, para tanto, criaram ministérios e órgãos ambientais. De fa­
vimento sustentável se o lamanho e o aumento da população esti­ to, muitos deles conseguiram - dentro dos limites de suas atribui­
verem em harmonia com o potencial produtivo cambiante do ções - melhorar a qualidade do ar e da água e aumentar outros re­
ecossistema. . cursos. Mas em gerai sua atuação concentra-se necessariamente
Afinal, o. desenvolvimento sustentável não é um estado perma­ ·,t na reparação de estragos já causados: ",florestarnento, "'genera­
nente de harmonia, mas um processo de mudança no qual a explo­ ção de terras desérticas, r<!Construção de ambientes urbanos,
ração dos recursos, a orientação dos investimentos. os rumos do restauração de habitats naturais e recuperação de regiões agres­
desenvolvimento tecnológico e a mudança institucional estão de tes.
acordo com as necessidades atuais e futuras. Sabemos que este A existência desses órgãos deu a muitos governos e cidadãO'S a
não é um processo fácil, sem Impeços. Escolhas difíceis terão de falsa impressão de que os mesmos eram capazes de, sozinhos.
ser feitas. Assim, em última análise, o desenvolvimento sustentá­ proteger e aumentar a base de recursos ambientais. Contudo,
vel depende do empenho político. muitos países industrializados e a maioria dos em desenvolvi­
mento arcam com pesados ônus decorrentes de problemas herda­
1.4 As 'acnnas institucionais dos, como poluição do ar e da água, esgolamento dos lençóis
subterdlneos, proliferação de produtos quúnícos tóxicos e de re­
A meia do desenvolvimentO' sustentável e a natureza indissociável jeitos perigosos. A esses problemas vieram juntar-se outros mais
dO'S desafiO'S impostos pelo meio ambiente e o desenvolvimento recentes - erosão, desertificaçlio, acidificação, novos produtos
glohais constituem um problema para as instituições nacionais
e internacionais criadas a partir de preocupações restritas e Com­
partimenladas. De modo geral, a reação dos governos à rapidez e
,
.~
qul'micos e novos tipos de rejeitos - direlamente relacionadO'S com
políticas e práticas agncolas,.industríais, energéticas,-florestais e
viárias.
à amplitude das mudanças globais tepl sido a relutância em reco­ As atribuições dos ministérios econômicos, centrais e setoriais,
nhecer devidamente a necessidade de eles mesmos mudarem. Os são também, com freqüência, muito limitadas, muito volladas para
desafios são interdependentes e complemenlares, exigindo por_ aspectoo quantitativos da produçllo ou do crescimento. Entre as
tanto abordagens abrangentes e participação popular. atribuições dO'S ministérios da indOstria estão as metas de produ­
Mas a maioria das instituições que enfrentam esses desafios ção, enquanto a poluição daí decorren"" fica a cargo dos ministé­
tende a ser independente, fragmentada, com atribuições relativa­ rios do meio ambiente. Os órgãos responsãveis pela eletricidade
mente limitadas e processos de decisão rechados. As responsáveis produzem energia, mas a limpeza da poluição !lcida que também
pela administração dO'S recursos naturais e a proteção do meio produzem é deixada para outros organismos. O desafio atual con­
ambiente estio desvinculadas das que se dedicam à administração siste em atribuir aos ministérios econômicos~ centrais e setoriais.
da economia. O mundo real de sistemas econômicos e ecológicos a responsabilidade pela qualidade das áreas do meio ambiente
10 11
a

aprimorar o potencial humano para administrar esses recursos.
humano afetadas por suas decisões, e em dar mais poder aos ór­ São necessárias medidas urgentes para conter as elevadas taxas
gãos ambientais para enfrentarem os efeítos do desenvolvimento de awnento populacional. As opções feitas agora influenciarão o
não-sustentável. nível em que a população se estabilizará no próximo século - por
Também os órgãos internacionals que tratam de empréstimos volta de 6 bilhões de pessoas. Mas esta não é apenas uma questão
para o desenvolvimento, regulamentação do comércio, desenvol­ demográfica; dar às pessoas os meios e a educação necessários
vimento agrícola etc. necessitam de mudanças. Esses órgãos cus­ para que decidam sobre o tamanho de suas famflias é um modo de
taram a dar importância aos efeitos de suas atividades sobre o assegurar - especialmente às mulheres - o direito humano básico
meio ambiente, embora alguns estejam tentandô fazer isso. da livre escolha.
Para que os danos ao meio ambiente possam ser previstos e Os governos que precisam agir dessa forma devem adotar pc>­
evitados é preciso levar em conta não s6 os aspectos ecológicos líticas populacionais multifacetadas e de longo prazo, e empreen­
das políticas. mas também os aspectos econômicos, comerciais, der wna campanha visando a amplos objetivos demográficos:
energéticos, agrícolas e outros. Todos eles devem ser levados em fortaIecer as motivações sociais, culturais e econômicas para o
consideração nas mesmas agendas e uas mesmas instituições na~ planejamento familiar e fornecer a todos os interessados a educa­
denais e internacionais. ção, 0$ contraceptivos e os serviços necessários.
Essa reorientação é um dos principais desaÍlOs institucionais O desenvolvimento dos recursos humanos é requisito básico
para os anos 90 e os seguintes. Realizá-Ia exigirá g1'andes refor­ não sÓ para a aquisição de aptidões e conhecimentos técnicos,
mas institucionais. Muitos países. por serem pobres ou pequenos mas também para o estabelecimento de novos valores que ajudem
demais ou por disporem de pouca capacidade administrativa, te­ os indivíduos e as nações a enfrentarem as :realidades sociais, am­
rão dificuldade em empreender essa tarefa sem ajuda. Precisarão bientais e de desenvolvimento que se encontram em rápida trans­
de assistência financeira e técnica, além de fonnação profissional. formação. Se o mundo partilhar o conhecimento, haverá maior
Mas há necessidade de mudanÇas em todos os países, grandes e entendimento mútuo e maior empenho em partilhar eqüitativa­
pequenos, ricos e pobres. mente os recursos globais.
Os povos tribais e indígenas vão requerer especial atenção, já
que as forças do desenvolvimento econômico conturbam seus es­
Z. AS DIRETRIZES DE POLÍTICA tilos tradicionais de vida - estilos que muitao lições têm a dar às
sociedades modernas no tocante à administração de recursos em
A Comissão concentrou sua atenção nas áreas de população, se­ ecossistemas complexos de florestas, montanhas e terras áridas.
gurança alimentar, extinção de espécies e esgotamento de recUr­ Alguns desses povos estão ameaçados de extinção devido a um
sos genéticos~ energia. indústria e assentamentos humanos - por desenvolvimento insensível, sobre o qual não têm qualquer con­
entender que todas se interligam e não podem ser tratadas isola­ trole. Seus direitos tradicionais deveriam ser reconhecidos e eles
damente. Este item contém apenas algumas das muitas recomen­ deveriam ter voz ativa na fonnulação de políticaS relativas a de­
dações da Comissão. senvolvimento de recursos nas áreas onde vivem. (Ver capítulo 4
para uma análise mais ampla dessas questões e recomeodações,)
1.1 População e recu.-- hum'anos
1.1 Seaunmça alimentar, manter fi potencial
Em muitas partes do mundo, a população vem aumentando a taxas
incompatíveis com os recursos ambientais disponíveis, e que O crescimento da produção mundial de cereais vem invariavel­
frustram qualquer expectativa razoável de obter progressos em mente suplantando o da população do mundo. Mesmo assim, a
áreas como habitação, serviços sanitários, segurança alimentar ou cada ano é maior o n1lmero de pessoas que não obtêm alimentos
fornecimento de energia. em quantidade suficiente. A agrícultura mundial tem condições de
O problema não está apenas no número de pessoas, mas na re­ produzir alimentos para todos, mas com freqüência não há ali­
lação entre esse número e os recursos disponíveis. Assim, o mento disponível onde é necessário.
"problema populacional" tem de ser soluciollado por meio de es­ Nos países industrializados, a produção tem sido em gerai
forços para eliminar a pobreza generalizada, a fim de garantir um muito subsidiada e protegida da concorrência internacíooai. Esses
acesso mais justo aos recursos e~ por meio da educação, a fim de
13
12

,~ .
subsídios estimularam o USO abusivo do solo e de produtos quúni­ trovérsias quanto a esse ritmo e os riscos que acarreta. Mas ainda
cos, a contaminação dos recursos hídricos e dos alimentos com está em tempo de deter esse processo.
esses produtos, e a delerioração das áreas rurais. Muitos desses A diversidade de espécies é necessãria ao funcionamento nor­
esforços geraram excedenle., mas também ônus financeiros. E mai dos ecossistemas e da biosfera. O material genético das espé­
parte desses excedentes foi "enviada. em condiçl5es subvencionais. cies selvagens contribui anualmenle com bilhões de dÓlares para a
a países em desenvolvimento, prejudicando suas polnicas agríco­ economia mundial sob a fonna de cultivos melhorados. novas
las. Contudo, alguns países estão tomando maior consciência das drogas e medicamentos, e matérias-primas para a indústria. Mas,
conseqüências ambientais e econômicas dessas práticas, e agora além da utilidade, há também razões morais, éticas, culturais, es­
suas polfticas agrícolas dão ênfase à conservação. téticas e puramente científicas para a conservação da vida selva­
Por outro lado, muitos países em desenvolvimento têm passado gem.
pelo problema oposto: não há apoio suficiente aos agricultores. Uma prioridade básica é fazer com que o problema das espé­
Em alguns desses países, a combinação de tecnologia mais avan­ cies em extinção e dos ecossistemas ameaçados conste nas agen­
çada, incentivos através dos preços e serviços pl'iblicos produziu das políticas como item da maior importância no tocante à eco­
um aumento repentino e marcaole na produção de alimentos. Mas nomia e aos recursos.
em outros, os pequenos produtores de alimentos foram negligen­ Os governos podem sustar a destraição de florestas tropicais
ciados. Contando cOm tecnologias quase sempre inadequadas e e outras reservas de diversidade biolÓgica, e ao mesmo tempo de­
poucos incentivos econômicos, muitos são forçados a trabalhar senvolvê-Ias economicamente. A refonnulação dos termos de
terras marginais: muito secas, muito encharcadas, ou pobres em concessão e dos sistemas de receitas florestais poderia gerar bi­
nutrientes. Florestas são derrubadas e terras áridas produtivas tor­ lhões de dÓlares de receitas adicionais, promover um uso mais
nam-se estéreis. eficiente e de longo prazo dos recursos florestais e conter o des­
A maioria dos países em desenvolvimento necessita de siste­ matamento.
mas de incentivos mais eficazes para estimular a produção, s0­ O conjunto de áreas protegidas de que o mundo precisará no
bretudo de culturas alimentares. Em suma, é preciso que as "rela­ futuro deve abranger áreas muito mais amplas que contem com
ções de troca" passem a favorecer o pequeno agricultor. Já a algwn tipo de proJeção. Assim, o custo da conservação se elevará
maioria dos países industrializados deve alterar os sistemas atuais, diretamenle e em tennos de oportunidades de desenvolvimento.
a fim de cortar excedentes, reduzir a concorrência desleal com os Mas a longo prazo as oportunidades de desenvolvimento serão
países que possam ter vantagens comparativas reais, e promover favorecidas. Portanto, as agêndas internacionais de desenvolvi­
práticas agrfcolas sensatas do ponto de vista ecológico. mento deveriam dar atenção detida e sistemática aos problemas e
A segurança alimentar exige que se atenle para questões de oportunidades da conservação de espécies.
distribuição, pois a fome quase sempre advém da falta de poder Os governos deveriam considerar a possibilidade de estabele­
aquisitivo e não da falta de alimentos. Pode ser propiciada por ...,.. cerem uma "Convenção das E.~pécies". semelhante em espírito e
formas agrárias e por políticas de proteção aos agricultores de objetivos a outras convenções internacionais atinentes a princípios
subsistência, aos pequenos pecuaristas e aos sem-terra - grupos relativos a Hrecursos universais H• Também deveriam pensar em
vulneráveis que por volta do ano 2000 compreenderão 220 mi­ acordos financeiros internacionais para custear a implementação
lhões de faruflias. Sua maior pro'speridade dependerá de um de­ dessa convenção. (Ver capítuio 6 para uma análise mais ampla
senvolvimento rural integrado que aumenle as oportunidades de dessas questões e recomendações.)
trabalho tanto na agricultura como em outros setores. (Ver capí­
tulo 5 para uma análise mais ampla dessas questões e recomenda­ 1.4 Energia: opçiies para o meio ambiente
ções.) e o desenvolvimento

1.3 EspécIes e eeossisteroas: l'eaIrsos para o desenvolvimento Uma via energética segura e duradoura é indispensável ao desen­
volvimento sustentável; ainda não a encontramos. As taxas de
As espécies do planeta estão em risco. Há um consenso científico aumento de consumo de energia estão declinando. Mas a indus­
cada vez mais generalizado de que certas espécies desaparecem trialização, o desenvolvimento agrícola e as populações que au­
do planeta a wn ritmo sem precedenle, embora tarubém haja con­ mentam em ritmo acelerado nos países em desenvolvimento preci­

14 lS


-- ~ - - - - - --- ..
sarão de muito mais energia, Hoje~ o indivíduo médio numa eco­
consumo será preciso um programa coordenado de pesquisa.. e
nomia industrial de mercado consome mais de 80 vezes mais
projetos de demonstração .que disponha dos recursos financeiros
energia que um habitante da África subsaariana. Portanto, qual­
necessários para garantir o lápido desenvolvimento da energia re­
quer cenário energético global realista deve contar com um au­ nováveL Os países em desenvolvimento terão de ser assistidos pa.
mento substancial no consumo de energia primária nos países em
ra alterar seus padrões de consumo de energia nesse sentido.
desenvolvimento.
No mundo em desenvolvimenlo, milhOes de pessoas carecem
Para que, por volta do ano 2025, os países em desenvolvi­
de combustível vegetal, a principal fonte de energia doméstica de
mento consumam tanta energia quanto os industrializados. seria
metade da humanidade, e esse número vem aumentando. As na­
preciso aumentar cinco vezes o atual consumo global. O eoossis~ ções com pouca madeira devem organizar seus setores agrícolas
tema planetário não suportaria isso. sobretudo se esses aumentos de rondo a produzir grandes quantidades de lenha e outros com­
se concenmu,sem em combustíveis fósseis não-renováveis, Os ris­
bustíveis vegetais.
cos de aquecimento do planeta e acidificação do meio ambiente A atual silllação energética do mundo exige grandes mudanças,
muito provarelmente descartam até mesmo uma duplicação do mas, dado o papel preponderante dos governos como produlores
consumo de energia mediante as atuais combinações de fontes de energia e sua importância como consumidores, estas não serão
primárias.
obtidas apenas mediante pressões do mercado. Para manter e am­
Uma nova era de crescimento econômico deve, portanto. con­ pliar a tendência recente de ganhos anuais de rendimento energé­
sumir menos energia que o crescimento passado. As políticas de tico, os governos têm de transformá-Ia num objetivo explícito de
rendimento energético devem ser a pedra-de-toque das estratégias suas políticas de fIXação de preços de energia para os consumido­
energéticas nacionais para um desenvolvimento sustentável, e há res. Há vários meios de chegar a preços que estimulem a adoção
muitas possibilidades de melhoria nesse sentido. As aparelhagens
de medidas poupadoras de energia. Embora a Comissão não ex­
modernas podem ser reformulada. de modo a fornecer o mesmo presse preferências, a "fixação de preços de conservação" requer
rendimento usando apenas dois terços ou mesmo a metade dos in­ uma análise a longo prazo dos custos e beneficios das várias me­
sumOs energéticos primários necessários ao funcionamento dos didas. Dada a importância dos preços do peb'Óleo para a política
equipamentos tradicionais. E as medidas que visam a ampliar o energética internacional~ deveriam ser tentados novos mecanismos
rendimento energético em geral são eficientes em função dos para encorajar o diálogo entre consomidores e produtores.
custos. Uma estratégia energética segura, viável do ponto de vista am­
Após quase 40 anos de intensQ esforço tecnológico, o uso da biental e econômico, capaz de manter o progresso humano até um
energia nuclear ampliou-se bastante. Mas nesse período, a nature­ futuro distante, é evidentemente unperativa. E também possfvel.
za de seus custos. riscos e beneficios tomou-se mais evidente, Mas para chegar a ela serão necessários um empenho político e
servindo de tema a ardentes controvérsias. Vários pafses, em todo uma cooperação institucional renovados. (Ver capítulo 7 para
o mundo, adotam posições diferentes quanto ao uso da energia uma análise mais ampla dessas questões e recomendações.)
nuclear. Os debates no âmbito da Comissão também refletiram es­
sas opiniões e atitudes diferentes. No entanto, todos foram unâ­ l.S Indústria: com menos, produzir mais
nimes em que a geração de energia nuclear só se justifica se hou­
ver soluções seguras para os problemas que acarreta. Há que dar Hoje o mundo fabrica sete vezes mais produtos do que o fazia há
prioridade máxima à busca de alternativas sensatas do ponto de 'relativamente pouco tempo, nos anos 50. Considerando as taxas
vista ambiental e ecológico, bem como de meios para tomar a de aumento populacional, será necessário elevar de cinco a 10 ve­
energia nuclear maís segura. zes a produção de manufaturados apenas para fazer com que o
No que se refere ao rendimento energético, cabe apenas espe­ consumo desses bens no mundo em desenvolvimento atinja os ní­
rar que o mundo formule vias alternativas de baixo consumo veis do mundo industrializado quando as taxas de aumento popu­
energétíco com base em fontes renováveis~ que deverão ser o ali­ lacional se nivelarem no próximo século.
cerce da estrutura energética global do século XXI. A maioria A experiência dos países industrializados demonstrou que, no
dessas fontes apresenta hoje problemas, mas, com inovações, p0­ tocante aos danos evitados para a saúde, a propriedade e o meio
derão fornecer a mesma quantidade de energia primária que o ambiente, a tecnologia pntipoluição foi eficiente em função dos
planeta consome atualmente. Contudo. para atingir esses níveis de custos. Além disso, fez com que muitall inddstrias se tomassem
16 17
mais lucrativas por usarem os recursos com mais eficiência. Em­ saneamento, escolas e transportes. O resultado é a pmlifemção de
bora o crescimento econômico tenha prosseguido. o conswno de assentamentos ilegais. com instalações primitivas, populações em
matérias-primsB se manteve estável ou mesmo declinou. e novas crescimento desenfreado e índices aiarmantes de doenças conju­
tecnologias prometem ser ainda mais eficientes. gados a um ambiente insalubre. Muitas cidades do mundo .indos­
As nações têm de arcar com os custos da industrialização ina· trializado também enfrentam problemas: infra-estrotura em deca­
dequada, e muitos pafses em desenvolvimento estáo percebendo dência, degeneração do tneio ambiente. deterioração dos centros
que não dispõem nem de recmsos nem de tempo - dada a rapidez urbanos e descaracterização de bairros. Mas como dispõem dos
das mudanças tecnol<Sgicas - para danificar agora seu meio amo tneios e recursos para combater essa sitoação, o problema da
biente e mais tarde recuperá-Io. Mas também precisam de assis­ maioria dos-países industrializados restringe-se a uma opção poJ(­
tência e de infOI1llaÇÕeS das nações industrializadas, a fim de. usar tica e social. Este não é o caso dos países em desenvolvimento,
a tecnologia da melhor forma possível. Cabe em especial às em­ que se vêem a braços com uma grave crise urilana.
presas transnacionais a respollB8bilidade de facilitar a industriali­ Os governos terão de formular estratégias de assentamento
zação das nações em que operam. bem definidas para orientar o processo de urbanização. desafogar
As tecnologias emergentes prometem maior produtividade. os grandes centros urbanos e erguer cidades menores, integrando­
mais eficiência e menos poluição, mas muitas apresentam o riaco as mais estreitamente às áreas interioranas. Isto sigoifica rever e
de novos produtos qufmioos e rejeito. t6xicos e de graves aci· alterar outras polftjcas - tributação, fixação de preços de alimen­
dentes que superam em natureza e proporções os atuais mecaniS" tos, transporte. saúde, industrialização -. que se opõem aos obje­
mos para enfrentá·los. Urge Controlar mais rigomsamente a ex­ tivos das estratégias de assentamento.
portação de produtos químicos agrícolas e industriais perigosos. Uma boa administração municipal requer a descentralização ­
O. atuais controles sobre o despejo de rejeito. perigosos deve­ de recursos, de poder polftjco e de pessoal- em favor das autori­
riam ser mais rígidos. dades locais.' que estão em melhor sitoação para avaliar e prover
Muitas das necessidades humanu básicas só podem ser atendi­ as necessidades de sua área. Mas o desenvolvimento sustentável
das por bens e serviços industriais, e a transição para o cresci· das cidades depende de uma cooperação mais estreita com as
mento sustentável deve ser estimulada por um fluJ<O contínuo de maiorias pobres UIbanas, que são os verdadeiros construtores das
riqueza proveniente da indllstria. (Ver capítulo 8 para uma análise cidades. somando suas aptidões e recursos àqueles do "setor in­
mais ampla dessas questões e recomendações.) fonnal". Muito pode ser feito por tneio de projetos "comunitá­
rios" que proporeionem às famílias serviços básicos em tomo dos
2.6 O desafio urbano quais se possam construir habitações mais sólidas. (Ver capftolo 9
para uma anlllise mais ampla dessas questões e recomendações.)
Na viradà do século, quase metade da humanidade viverá em cio
dades; o mundo do século XXI será predominantemente urbano.
Em apenas 65 anos. a população urbana do mundo em desenvol­ 3, COOPERAÇÃO INTERNACIONAL
vimento decuplicou. passando de aproximadamente 100 milhões E REFORMA DAS INSTITUIÇÕES
em 1920 a I bilhão hoje. Em 1940. de cada 100 pessoas, uma vivia
em cidades com I milhão ou mais de habitantes; em 1980. isto 3.10 papel da economia Internadonal
ocoma com uma em cada 1Q. De 1985 até o ano 2000, as cidades
do Terceiro Mundo poderão abrigar mais de 750 milhões de pes­ Para que os intercâmbios econômicos internacionais beneficiem a
soas. Isto indica que. nos pr6ximos anos. o mundo em desenvol­ todas as partes envolvidas, é preciso que antes sejam atendidas
vimento precisa aumentar em 65% sua capacidade de proporcio­ duas condições: a manutenção dos ecossistemas dos quais depen­
nar infra-estrutura. serviços e moradias urilanos apenas para de a economia global deve ser garantida; e os parceims econômi­
manter as condições atuais. quase sempre bastante precárias. cos têm de estar convencidos de que o intereâmbio se processa
Poucos governos municipais do mundo em desenvolvimento numa base justa. No caso de muitos países em desenvolvimento.
dispõem de poder, recursos e pessoal qualificado para fornecer a nenhuma dessas condições é atendida.
suas populações em rápido crescimento as terras, os serviços e as Em muitos desses países, o crescimento vem sendo contido
instalações que a qualidade da vida humana reqUer: água potável, pela queda dos preços dos produtos básicos, pelo p....tecíonismo.

18 19
pelo intolerável ônus da díVida e pela redução dos fluxos de fi­ 3.2 Administrando OS bens <OmWJS
nanciamento do desenvolvimento, Para que os padrões de vida sé
elevem e aliviem a pobreza. é preciso inverter essas tendências. As formas tradicionais de soberania nacional geram problemas
específicos quanto à administração dos "bens comuns do globo"
Nesse sentido, cabe ao Banco Mundial e à Associação mtema­ e de seus ecossistemas - os oceanos,. o espaço c6smico e a Antár­
cianal de Desenvolvimento a maior parcela de responsabiIi<iaQ;:"
tida. Já se obteve algum progresso nas três áreas, mas ainda há
já que constituem o principal canal .de financiamento multilateral muito que fazer,
para países em desenvolvimento. No que respeita a fluxos fman­ A Conferência das Nações Unidas sobre Direito Marítimo foi
ceiros constantemente ampliados, o Banco Mundial pode custear a tentativa mais ambiciosa jamais feita para se chegar a um regi­
projetos e polfticas que sejam benéficos ao meio ambiente. No to­ me internacionalmente aceito de administração dos oceanos. To­
cante ao financiamento para ajustes estruturais, o Fundo Monetá­ das as nações deveriam ratificar o mais rápido possível o Tratado
rio mternacional deveria apoiar objetivos 'de desenvolvimento sobre Direito Marítimo. Seria preciso fortalecer os acordos de
mais amplos e de mais longo prazo que os atuais: crescímento, , pesca para impedir a superexploração que hoje se verifica. e tam­
metas sociais e efeitos sobre o meio ambiente. bém as convenções para controlar e regulamentar o despejo de
O nível atual do serviço'da dívida de muitos países, sobretudo rejeitos perigosos no mar.
na África e na América Latina, não se coaduna com o desenvol­ Há uma preocupação cada vez maior com a administração do
vimento sustentável. Os devedores estão sendo instados a recorrer espaço orbital, centrada no uso da tecnologia dos satélites para
a excedentes comerciais para pagar o serviço de suas dívidas e, controlar os sistemas planetários, no uso mais eficiente possível
para tanto, exploram em excesso seus recursos não-renováveis. das capacidades restritas da órbita geossinCfÔnica para satélites de
São necessárias medidas urgentes para aliviar o ônus da dívida, comunicações, e na contenção do entulho espacial. A colocação
de mudo a que baja uma divisão mais justa de responsabilidades e de armas em órbita e os testes espaciais aumentariam bastante es­
obrigações entre devedores e credores. se entulho. A comunidade internacional deveria tentar elaborar e
Os atuais acordos sobre produtos básicos poderiam ser bas­ pôr em prática um regime espacial que assegurasse a manutenção
tante aperfioiçoados: mais fmanciamento compensatório para con­ do espaço corno ambiente pacífico, para o benefício de todos.
trabalançar os choques econômicos encorajaria os produtpres a A Antártida está submetida ao Tratado Antártico de 1959.
adotarem uma perspecti va de mais longo prazo e a não produzir Contudo. muitas nações que não participam desse pacto conside­
mercadorias em excesso; e os programas de diversificação p0de­ ram o sistema do Tratado limitado demais. tanto no tocante à par­
riam prestar maior assistência. Os acordos exclusivamente ati­ ticipação quanto na abrangência de suas medidas conservacionis­
nentes a produtos básicos podem seguir o modelo do Acordo m­ tas, As recomendações da CODÚssão referem-se à salvaguarda do
ternacional sobre Madeiras Tropicais, um dos poucos a incluir es­ que já. se conseguiu, à incorporação de todas as jazidas minerais
pecificamente deteI;!IÚnaç6es ecol6gicas. num regime administrativo, e a várias opções para o futuro. (Ver
As empresas multinacionais têm importante papel a desempe­ capítulo 10 para uma análise mafs ampla das questões e recomen­
dações relativas à administração dos bens comuns.)
nhar no desenvolvimento sustentável, sobretudo à medida que os
países em desenvolvimento passam a depender mafs de capital so­ 3.3 Paz, segurança, desenvolvimenlo e o melo ambiente
cial estraogeiro. Mas para que essas empresas influam de modo
positivo no desenvolvimento, a capacidade de negociação dos Dentre os perigos a que o meio ambiente está exposto. a possibi­
países em desenvolvimento em relação às multinacionais deve ser lidade de uma guerra nuclear é sem dúvida o mais sério. Certos
fortalecida, a flnl de que obtenham condições que respeitem seus aspectos das questões de paz e segurança relacionam-se direta­
interesses ambientais. mente com o conceito de desenvolvimento sustentáveL A noção
Mas essas medidas específicas devem estar inseridas num de segurança, tal como tradicionalmente entendida - em tennos
contexto mais amplo de cooperação efetiva para gerar um sistema de ameaças políticas e militares à soberania nacional -, tem de ser
econômico internacional comprometido com o crescimento e a ampliada para abranger os efeitos cada vez mais graves do des­
eliminação da pobreza no mundo . (Ver capítulo 3 para uma análi­ gaste ambiental - em nível local, nacional, regional e mundial.
se mais ampla das questões e recomendações sobre economia in­ Não há soluções DÚlitares para a "insegurança ambiental".
ternacionaL)
21
20
No tocante à segurança, os governos e as agências internacio­
3.4.2 Lidantk> com os efeitos
nais deveriam avaliar a efICiência, em função dos custos, do di­
nheiro gasto em annamentos em comparação com o dinheiro gasto
na redução da pobreza ou na recuperação de um meio ambiente Os governos deveriam também reforçar o papel e a capacidade
devastado. dos órgãos de proteção ao meio ambiente e de administração de
Porém o mais importante é conseguir um melhor relaciona­ recursos. Isto é necessário em muitos países industrializados, po..
mento entre as grandes potências capazes de desenvolver aIn)8S rém da maior urgência nos países em desenvolvimento, que preci­
de destruição em massa. Isto é necessário para que se chegue a sarão de assistência para fortalecer suas instituições. O Programa
um consenso quanto ao controle mais rigoroso da proliferação e das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) deveria ser
da testagem de vários tipos de aml8S de destruição em massa ­ prestigiado, já que é a principal fonte de coleta. avaliação e di­
nucleares ou não - inclusive as que afetam o meio ambíente. (Ver vulgação de dados sobre o meio ambiente, e o principal defensor
capítulo 11 para uma análise mais ampla das questões e recomen­ e instrumento de mudanças e de cooperação internacional em
dações sobre os vínculos entre paz, segurança, desenvolvimento e questões criticas relativas à proteção dos recursos naturais e do
meio ambiente.) meío ambiente.

3.4.3 Avaliando os riscos globais
3.4 Mudança InstltucioPal e legal
Deve-se aprimorar e ampliar sem demora a capacidade de identi­
ficar. avaliar e dívulgar os riscos de danos irreversíveis aos siste~
Ao longo deste relatório (e especialmente no capítulo 12) há mas naturais e as ameaças à sobrevivência. à segurança e ao bem­
muitas recomendações específicas para mudanças institucionais e estar da comunidade mundial. Os governos, isoladamente ou em
legais que não podem ser resumidas aqui de fonna adequada. Mas grupo, são os principais responsáveis por isso. O Programa de
as principais propostas da Comissão estão contidas em seis áreas Vigilãncia Mundial, do PNUMA, deveria encabeçar o sistema de
prioritárias. avaliação de riscos da ONU.
Contudo, dada a delicada natureza política de muitos dos ris­
cos mais graves, toma-se também necessário que os riscos globais
3.4.1 Ch4gando às jorues mais sérios sejam avaliados e divulgados de modo independente,
se bem que complementar. Para tanto, deveria ser criado um novo
Este é o momento de os governos começarem a responsabilizar programa internacional de cooperação entre organizações não-go­
diretamente as principais agências nacionais, econômicas e seto­ vemamentais, organismos científicos e grupos de indllstrias.
riais pela fonnulação de poHticas, programas e orçamentos que
apóiem um desenvolvimento econômico e ecologicamente sus­ 3.4.4 Fazentk> opções conscientes
tentável.
Por sinal, as várias organizações regionais precisam se empe­ As difíceis opções necessárias à obtenç ão de um desenvolvimento
nhar mais para incorporar plenamente o meio ambiente em suas sustentável dependerão do apoio e do envolvimento de um públi­
metas e atividades. Há necessidade sobretudo de novos acordos co bem informado, de organizações não-governamentais, da co­
regionais entre países em desenvolvimento para lidar com ques­ munidade científica e da indtlstria. Todos eles deveriam ter am­
tões ambientais que ultrapassem fronteiras. pliados seus direitos, suas funções e sua participação no planeja­
Todos os principais organismos e agências internacionais de­ mento, na tomada de decisões e na implantação de ~rojetos de­
veriam certificar-se de que seus programas estimulam e apóiam o senvolvimentistas.
desenvolvimento sustentável,. e também aperfeiçoar muito mals
sua coordenação e cooperação. Dentro do sistema da Organização 3.4.5 ProvÍ<Ú!nciando os meios legais
das Nações Unidas, o Secretariado Geral deveria constitui....se em
um mlcleo de liderança de alto nível, capaz de avaliar, aconse­ O direito nacional e internacional ",.Iá cada vez mais defasado
lhar, dar assistência e divulgar os progressos oesse sentido. devido ao ritmo acelerado e à dimensão crescente dos impactos
sobre a base ecológica do desenvolvimento. Por isso, cabe aos
22
2.3
na flora e na fauna, assim como nas relações entre todos eles. O
governos: preencher as grandes lacunas que o direito nacional ritmo das mudanças vem suplantando os conhecimentos cient{fi­
e internacional apresenwn no tocante ao meio ambiente; buscar cos e nossa capacidade atual de avaliação e aconselhamento. Vem
meios de reconhecer e proteger os direitos das gerações presentes frustrando as tentativas das instituições polfticas e econômicas de
e futoras a um meio ambiente adequado a sua saúde e bem-estar; se adaptarem a um mundo diferente, mais fragmentado. E causa
elaborar, sob oS auspfcios da ONU, uma Declaração universal s0­ enorme preocupação às várias pessoas que buscam maneiras de
bre a proteção do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável, inserir essas questões nas agendas polfticas.
e posteriormente uma Convenção; e aperfuiçoaros mecanismos O ônus não recai sobre um grupo determinado de nações. Os
para evitar ou solucionar disputas sobre queslÓes relativas ao palses em desenvolvimento enfrentam as evidentes ameaças à vi­
meio ambiente e à administração de recursos. da representadas pela desertíficação, pelo desmatamento e pela
poluição, e suporwn grande parte da pobreza decorrente da dete­
3.4.6 Investindo em nossojururo rioração ambiental. Toda a farnflia humana de nações sofreria ca­
so desaparecessem as florestas tropicais. se extinguissem espécies
Na dltíma década, ficou demonstrada a eficiência glob..1, em fun­ vegetais e animais e se alterassem os regimes pluviais. Os países
ção dos custos, dos investimentos destinados a deter a poluição. industrializados enfrenwn as ameaças à vida representadas por
O prejuízo crescente, tanto em tennos econômicos quanto ecoló­ produtos químicos tóxicos, rejeitos tóxicos e acidificação. Todas
gicos, de não investir na proteção e melhoria do meio ambiente as nações podem vir a sofrer com o lançamento na atmosfera ­
wnbém já foi muitas vezes demonstrado - freqüentemente sob a pelos países industrializados - de di6xido de carbono e gases que
fonna cruel de inundações e fome. Mas há graves implicações fi­ reagem em contato com a camada de ozônio, ou então com uma
nancei~,seja para desenvolver a energia renovável, controlar a
guerra futura que empregasse os arsenais nucleares controlados
poluição ou descobrir formas de agricultura que utilizem menos por esses países. Compete a todas as nações f"".cr algo para alte­
recursos. rar essas tendências e corrigir um sistema econômico internacio­
Neste sentido, o papel das instituições ftnanceiras multilaterais nal que aumenta em vez de reduzir a desigualdade, que aumenta
é de capital importãocia. Atualmente, o Banco Mundial está in­ em vez de reduzir o ndmero de pobres e famintos.
cluindo em seus programas uma preocupação maior com o meio As próximas décadas serão vitais. É tempo de romper com os
ambiente. A isto se deveria somar um comprometimento básico do modelos do passado. Se tentannos manter a estabilidade social e
Banco com o desenvolvimento sustentável. Também é essencial
ecológica por meio das velhas estratégias de desenvolvimento e
que os bancos de desenvolvimento regionais e o Fundo Monetário
proteção ambiental, a instabilidade aumentará. A segurança deve
Internacional incluam objetivos similares em suas polítk:as e pr0­
ser buscada na mudança. A Comissão relacionou uma série de
gramas. E as agências bilaterais de assistência wnbém devem
ações a serem empreendidas a fim de reduzir as ameaças à sobre­
adotar novas prioridades. vivência e dar um rumo viável ao desenvolvimento futuro. Mas
Dada a dificuldade de aumentar os atuais fluxos de ajuda in­
estamos conscientes de que essa constante reorientação ultrapassa
ternacional. os governos agora deveriam considerar seriamente as
propostas de obter receita adicionai com o uso dos bens CQmuns e a capacidade dos processos decisórios e dos acordos institucio­
dos recursos naturais internacionais. nais da atualidade, tanto nacionais Corno internacionais.
Esta Comissão cuidou em basear suas recomendações na reali­
dade das instituições atuais, no que pode e deve ser feito no m0­
4. APELO Á AÇÁO mento. Mas para que as gerações futuras possam ter opções, a ge­
ração atual deve começar a agir agora, e a agir unida.
Ao longo deste século, o relacionamento entre o homem e o pla­ Para que se realizem as mudanças necessárias, acreditamos ser
neta que o sustenta passou por profunda mudança. imperativo seguir as diretrizes contidas neste relatório. É com isto
No início do século, nem o número de seres humanos nem a em mente que apelamos à Assembléia Geral das Nações Unidas
tecnologia eram capazes de alterar radicalmente os sistemas pla­ para que, após as devidas considerações, transforme este relatório
netários. No fmdar do século, não só o imenso nÚ1pero de seres num Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sus­
humanos e suas atividades são capazes distP, como estão ocor­ tentável. As conferencias especiais poderiam ter infcio em âmbito
rendo mudanças inesperadas na atmosfera, nos solos, nas águas. regional. Decorrido o tempo oportuno após a apresentação deste

24 25
-;

relatório à Assembléia Geral, uma conferência inbmlacional po­
deria ser convocada para analisar os progressos obtidos e promo­
ver os acordos complementares necessários ao estabelecimento de
pontos de referência e à manutenção do progresso humano.
Antes de tudo, esta Comissão preocupou-se com as pessoas­
de IOdos os países e de todas as condições sociais. A elas é que
dirigimos nosso relatório. As mudanças que desejamos nas atitu­ Parte I

des bumanas dependelI\ de uma ampla campanha de educação,
debates e participação pliblica. Tal campanha deve iniciar-se ago­
m, se quisennos chegar a um progresso humano sustentável.
Os membros da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e De­ PREOCUPAÇÕES COMUNS

senvolvimento são oriundos de 21 países muito diferentes. Em
nossas discussões, discordamos com f!eqüência quanto a detalhes
e prioridades: Mas apesar da disparidade de nossas experiências e
da di""nidade de nossas responsabilidades nacionais e int.em.a­
"ionais, fomos capazes de chegar a um consenso quanto ao rwoo
que se deve dar às mudanças.
É. unAnime a nossa convicção: a segurança, o bem-estar e a
própria sobrevivência do planeta dependem dessas mudanças, já..

26
J. UM FUI'URO AMEAÇADO

Há só uma Terra, mas não um só mundo. Todos nós dependemos
de uma biosfera para conservannos nossas vidas. Mesmo at;sim,
cada comunidade, cada país luta pela sobrevivência e pela pros­
peridade quase sem levar em consideração o impactb que causa
sobre os demais. Alguns consomem os recursos da Terra a um tal
ritmo que provavelmente pouco sobrará. para as gerações futuras.
Outros, em número muito maior. consomem pouco demais e vi·
Vem na perspectiva da fome, da tniséria, da doença e da morte
prematura.
Contudo, houve progressos. Em grande parte do mundo. as
crianças nascidas hoje podem esperar ter vida mais longá e edu­
cação melhor que seus pais. Em muitos lugares, os recém-nasci­
dos também podem esperar conseguir um padrão de vida mais
elevado, de modo geral. Esses progressos dão esperança quando
pensamos no que ainda é preciso fazer e quando avaliamos nossas
tentativas fracassadas de tornar esta Terra um lar melhor para DÓS
e para os que virão depois.
As falhas que precisamos conigir derivam da pobreza e do
modo equivocado com que temos freqüentemente buscado a pros­
peridade. Muitas partes do mundo entraram numa espiral descen­
dente viciosa: os povos pobres são obrigados a usar excessiva­
mente seus recursos ambientais a fim de sobreviverem. e o fato de
empobrecerem seu meio ambiente os empobrece mais, tomando
sua sobrevivência ainda mais difícíl e incerta. A prosperidade
conseguida em algumas partes do mundo é com freqüência precá­
ria, pois foi obtida mediante práticas agrícolas, florestais e indus··
mais que só trazem lucro e progresso a curto prazo.
As sociedades já sofreram tais pressões no passado e, como
nos recordam várias ruínas, às vezes sucumbiram a elas. Mas tais
pressões, de modo geral, eram localizadas. Hoje, a dimensão de
nossa intervenção na natureza é cada vez maior_e os efeitos fisÍ­
cos de nossas decisões ultrapassam fronteiras nacionais. A cres­
cente interação econômica das nações amplia as conseqüências
das decisõcs nacionais. A economia e a ecologia nos envolvem
em malhas cada vez mais apertadas. Muitas regiões correm o risco
de danos irreversíveis ao meio ambiente humano que ameaçam a
blllle do progresso humano.
Essas interconexões cada vez mais profundas são a justificati­
va básica para o estabelecimento desta Cotnissáo, Viajamos pelo

29
mundo durante quase três anos, ouvindo as pessoas. Em audiên­ derivam tanto da falta de desenvolvimento quanto de conseqüên­
cias póblicas especiais organizadas pela Comissão. ouvimos líde­ cias inesperadas de certas formas de crescimento económico.
res governamentais, cientistas e especialistas, ouvimos grupos de
cidadãos envolvidos em várias questões ligadas ao meio ambiente 1.1.1 Pobreza
e ao desenvolvimento. e ouvimos milhares de pessoas - agriculto­
res. favelados. jovens.;ndustriaís e povos indígenas e tribais. Há hoje no mundo um número maior de pessoas famintas do que
Encontral!JOS em toda parte uma grande preocupação com o
meio ambiente, que não sÓ levou a protestos como também, com
freqüência, gerou mudanças. O desafio que se nos apresenta é ga­
rantir que esses novos valores se reflitam melhor nos princípios e
no funcionamento das estruturas políticas e econômicas.
i• jamais houve na história da humanidade, e este número está au­
mentando. Em 1980, havia 340 milhões de pessoas, em 87 países
em desenvolvimento, que não ingeriam o número de calorias sufi­
cientes e por isso apresentavam deficiência de crescimento e grá­
ves problemas de saóde. Esse total situava-se Iigeinamente abaixo
dos m.lmemo de 1970. em termos proporcionais à população mun­
Também encontramos motivos de e&pemnça; as pessoas que­
rem cooperar na construção de um futuro mais próspero. mais <;lial. mas em números absolutos representava um aumento de
justo e mais seguro; é possível chegar a uma nova era de cresci­ 14%. Segundo previsões do Banco Mundial, esses números de­
mento econômico, fundamentada em políticas que mantenham e vem continuar crescendo. I
ampliem a base de recursos da Terra; O progresso que alguns des­ Também cresce o número de pessoas que vivem em cortiços e
frutaram no século passado pode ser vivido por todos nos próxi­ habitações miseráveis. Cada vez mais pessoas carecem de água
mos anos. Mas para que isso aconteça, tamos de compreender potável e de saneamento, ficando assim sujeitas às doenças que
melhor os sintomas de desgaste que estão diante de DÓS. identifi­ tal carência pode provocar. Houve algum progresso, até impres­
car suas causas e conceber novos métodos de administrar oS re­ sionante em determinados lugares, mas de modo geral a pobreza
cursos ambientais e manter o desenvolvimento humano. • continua e suas vftimas se multiplicam.
A pressão da pobreza deve ser considerada num contexto mais
amplo. Em nível internacional, há grandes disparidades na renda
\
1.1 SINTOMAS li: CAUSAS

O desgaste do nieio ambiente foi com freqüência cunsiderado o
resultado da crescente demanda de recursos escassos e da polui­
• per cupittl- que em 1984 variava de US$I90 nos países de baixa
renda (exceto China e tndia) até US$11.430 nas economias in­
dustriais de mercado. (Ver tabela 1.1).
Tais desigualdades representam grandes diferença., não apenas
ção causada pela melhoria do padrão de vida dos relativamente quanto à atual qualidade de vida. mas também quanto à capacida­
ricos. Mas a própria pobreza polui o meio ambiente. criando outro de das sociedades para melhorarem sua qualidade de vida no futu­
tipo de desgaste ambiental. Para sobreviver, os pobres e os fa­ m. A maioria dos países mais pobres do mundo depende, para
mintos muitas vezes destroem seu próprio meio ambiente: derru­ aumentar sua receita de exportação. de produtos agrfcolas tropi­
bam floresta", pennitem o pastoreio excessivo, exaurem as terras cais vulneráveis a relações comerciai. instáveis ou em declínio.
marginais e acorrem em número cada vez maior para as cidades já Muitas vezes, a expansão só é possível à custa do desgaste ecoló­
congestionadas. O efeito cumulativo dessas mudanças chega a gico. Contudo, condições desvantajosas de transferência de tec­
ponto de fazer da própria pobreza um dos maiores flagelos do nologia, protecionismo e menores fluxos f"manceiros para os paí­
mundo. ses que mais precisam de ímanciarnento internacioual impedem
Já nos casos em que o crescimento ecODÓmiCO permitiu a me­ uma diversificação que atenuaria ao mesmo tempo a pobreza e o
lhoria dos padrões de vida, isso foi por vezes conseguido à custa desgaste ecológico. 2
de danos globais a longo prazo. As melhorias conseguidas no Dentru dos paises, a pobreza foi exacerbada pela distribuição
passado basearam-se, em grande parte, no uso de quantidades ca­ desigual da terra e de outros bens. O rápido crescimento popula­
da vez maiores de matérias-primas, energia, produtos químicos e cional prejudicou a capacidade de melhorar o padrão de vida. Es­
sintéticos. e produziram urna poluição que não é adequadamente ses fatores, aliados a uma necessidade cada vez maior de explorar
levada em conta quando se estimam os custos dos processos de comereiaImente terras boas (muitas vezes para cultivar produtos
produção. Tudo isso teve efeitos não-previstos sóbre o meio am­ de exportação), levaram muitos agricultores de subsistência a se
biente. Por isso, os problemas ambientais que enfrentamos hoje transferirem para terras ruins, tirando-Ihes assim qualquer espe­

30 31
Tabela 1.1
Tamanho da população e PNB per capita por grupos de países uCreio que essa Comissão deveria prestar atenção ao modo co­
mo considera a questão de uma partícipação maior dos povos
que são objeto do desenvolvimento. ElUTe suas necessidades bá­
Grupo de países População PNB Taxa média anual sicas estão o direito de preservar sua idenlidade cultural e o di­
(milhões) percapita de crescimento do
(dólares de
reito de não ser apartndo de sua própria sociedade e de sua pró­
PNB per capita, pria comuni<kuJe. O que desejo ressaltar é que não podemos dis­
1984) 1965-84 cutir (') meio ambiente e o desenvolvimento sem discutir (') desen~
(%) vo/vimenlO politico. Não é possfvel erradicar a pobreza simples­
Economias de baixa renda ""'nte redisrribuindo a riqueza ou a rrmda, pois tem de haver
J uma redistribuição melhor do poder.' ,
(exceto China e Índia) 611 190 0,9
China e índia 1.778 290 3,3
Aristides Katoppo
Economias de
Editor
renda média baixa 691 740 3,0 Audiência pública da ComiBsão Mundial sobre Meio
Economias de Ambiente e Desenvolvimento, Jacarta, 26 de março de 1985.
renda média alta 497 1.950 3,3
Exportadores de
petróleo de renda alta 19 lUSO 3,2
Econonúas
industriais de mercado 733 11.430 2,4

Fome: baseada em dados de: Banco Mundial. Relat6rio sobre o desenvol­
vímento mundial 1986. Rio de Janeiro, Fundação Getutio Vargas, 1986.
• soas, por ano, foram vítimas de inundações nos anos 60; nos anos
70, foram 15,4 milhões.3 Ainda não dispomos dos números para
os anos 80, mas nesta década tão. propensa a desastres naturais os
números provavelmente terão aumentado; houve secas na África,
rança de participarem da vida econômica de seus países. Pelos A na Índia e na América Latina, e inundações na Ásia, em partes da
mesmos motivos, muitos lavradores nômades tradicionais, que África e na região andina da América do Sul.
antes denubavam florestas, cultivavam suas lavouras e depois A maloria das vítimas dessas catástrofes é constituída pelos
deixavam que as florestas se refizessem, não têm agora nem terra pobres das nações pobres - onde os agricultores de subsistência
suficiente nem tempo para que as florestas se recuperem. Assim, tornam suás terras mais sujeitas a secas e inundações porque des­
muitas vezes as florestas estão sendo destruídas apenas para obter matam as áreas ma.rginais~ e onde os pobres se tomam mais vulne­
terras de cultivo de baIxa qualidade, incapazes de sustentar os ráveís a todas as catástrofes porque vivem em encostas íngremes
que as trabalham. O cultivo extensivo em encostas íngremes está ou em regiõe.. ribeirinhas sem proteção - as únicas áreas que lhes
aumentando a erosão do solo em Inuitat; regiões montanhosas de restam para collSlrufrem seus barracos. Não dispondo de alimen­
países desenvolvidos e em de..envolvimento. Em muitos vales tos nem de divisas J os governos economicamente vulneráveis des­
fluviais, cultÍvam*8e agora áreas onde as inundações sempre fo­ ses países têm poucas condições de enfrentar tais catástrofes.
ramcomuDS. Os vínculos entre desgaste ambiental ecatástJ;ofes que impedem
Essas pressões se refletem numa incidência cada vez mais alta o desenvolvimento evidenciarn~se melhor na Africa subsaariana.
de catástrofes. Nos anos 70, o número de pessoas mortas anual­ A produção de alimentos per capita, que vem declinando desde
mente por "catástrofes naturais" fui seis vezes superior' ao dos os anos 60, entrou em colapso durante a seca dos anos 80 e, no
anos 60, sendo que dobrou o número das pessoas atingidas por momento em que os alimentos eram mais necessários, cerca de 35
essas catástrofes. As secas e ínundações - flagelos para os quais milhões de pessoas ficaram em risco. O uso excessivo da terra e a
contribuem o desmatamento e o cultivo excessivo - foram respon­ seca prolongada ameaçam transformar em deserto os prados do
sáveis pelos malores estragos, em termos de número de pessoas Sabel africano. 4 Nenhuma região sofre de modo mals trágico com
afetadas. Nos anos 60, 18,5 milhões de pessoas por ano foram ví­ o cÚ'culo vicioso da pobreza que leva à deterioração do meio am­
timas de secas, e nos anos 70, 24,4 milhões; 5,2 milhões de pes­ biente, que por sua vez leva a uma pobreza maior.

32 33
utilizar 10% do fluxo anual das águas, e a previsão é de que este
"Se as pessoas destroem a vegetação para ter terra, alimemo, fudíce suba para 20 a 25% por volta do fim do século. 6
forragem, combustfvel ou madeira, o solo perde sua proteção. A O impacto do crescinÍento e das rendas mais elevadas pode ser
chuva produz escoamemo superf'tcial e se dA a erosão do solo. avaliado pela distribuição do consumo mundial de vários produtos
Quando jd não há solo, a dgua não ftca retida e a terra jd não que demandam muitos m:ursos naturais. O. pa1ses industrializa­
pede produzir alimento, forragem, combust(velou madeira sufi­ dos mais ricos usam a ÚJaior parte dos metais e dos combustíveis
CÚ!ntes; então as pessoas busc.am novas terras e recomeçam todo fósseis do' mundo. Mesmo no tocante a produtos alimentícios, há
o processo. diferenças acentoadas, sobretodo quanto a produtos mais recurso­
Os problemas mais catastrófICos do Terceiro Mundc são, em
essência, problemas não-resolvidos de desenvolvimento. Por­ iatensivos. (Ver tabela 1.Z).
Nos últimos anos, os países industrializados conseguiram cres­
tanto, a pN!Venção de catástrofes.! basicamenle _ aspecto do
desenvolvimemo, de um desenvolvimento que se verifique dentro
t' cer economicamente usando menos matéria-prima e energia por
dos limites sustentdveis." unídade de produção - o que, aliado aos esforços para reduzir a
descarga de poluentes • .yudará a conter à pressão sobre a biosfe­
OddGrann ra. Mas. com o crescimento populacioual e a elevação das rendas,
Secretdrio-8'ral da Cru:: Vermelha Nol'Ut!g"".a o consumo per capila de energia e matérias-primas aumentará nos
Audiencia pública da CMMAD, Oslo, 24-25 de junho de 1985 países em desenvolvimento, caso se queira atender às necessida­
des essenciais. O aumento pode ser moderado se se der mais
atenção 11 eficiência dos recunos, mas por outro lado irão au­
mentar, em termos globais, os problemas do meio ambiente liga­
dos ao uso de m:urso8.
1.1.2 Crescimento •
1.1..3 Sobrevivênda
Em algumas partes do mundo, sobretudo a partir de meados dos
anos 50, o padrão de vida e a qualidade de vida se elevaram
muito. graças ao crescimento e ao desenvolvimento. Muitos dos , O aumento da população e da produção acarretou Un'la Jiecessida­
de maior e mais complexa de recursos naturais. A natureza é pró­
produtos e das tecnologias que contribuíram para essa melhoria diga, mas também é frágil. e seu equilfbiio é delicado. I::lá limites
consomem muita matéria-prima e muita energia, e são altamente que não podem ser trauspostos sem que a integridade básica do
poluentes. Por isso, seu impaclo sobre o meio ambiente é o maior sistema fique prejudicada. Hojt!. estamos perto de vários desses
já regislrndo na história. limites; temos de ter sempre em mente o risco de ver ameaçada
No século passado, o uso de combustíveis f6sseis cresceu qua­ nossa sobrevivência na Terra. Além disso, o uso dos m:ursos está
se 30 vezes, e a produção industrial aumenlou mais de 50 vezes. mudando tão depressa que dispomos de pouco tempo para prever
A maior parte desse aumento - cerca de três quanos no C8lIO dos e evitar efeitos não-<Iesejados.
combuslíveis fósseis, e pouco mais de quatro quinlos no caso da O "efeito estufa", uma das ameaças aos sistemas que susten­
produção industrial - ocorreu a partir de 1950. Hoje, o aumento tam a vida. deriva diretamente do maior uso dos recursos. A
anual da produção industrial é talvez " mesmo da produção total queima de combusliveis fósseis e também a derrubada e a queima
da Europa. em fins dos anos 30. 5 Atualmente. obtemos em um de florestas libenun diÓxido- .de caroono (COi). O acúmulo de
ano as décadas de crescimento industrial - e de deterioração do C02 e de outros gases na atmosfera retém a rudíação solar nas
meio ambiente - que foram a base da economia européia antes da proximidades da supetficie terrestre. provocando o aquecimento
guerra. do pianeta. Isto pode fazer com que o rdvel do mar, nos próximos
Formas mais tradicionais de produção também provocam des­ 45 anos, se eleve a ponto de inundar muitas cidades sitoadas em
gaste ambiental. Nos últimos 100 anos, houve mais desmatamen­ litorais e deltas de rios. Também pode causar enormes traustornos
tos para criar áreas de cultivo do que em todos os séculos prece­ 11 produção agrícola nacional e internacional e aos sistemas co­
. , 7
dentes. Aumentaram muito as intervenções nos ciclos hldricos. meICllUS.
Enormes represas, quase todas construídas após 1950, retêm Outra ameaça é a destruição da camada de ozônio da atmOSfe­
grande parte das águas dos rios. Na Europa e na Ásia. chega-se a ra, devido a gases liberudos durante a produção de espuma e de­

34 35
i
Tabela 1.2

Distribuição do consumo mundial, médias para 1980-82

"Os grandes feitos da tão celebroda RevoluçtJo Industrial estdo
começando a ser seriamente questionados, sobretudD porque na
Países Paf_ lpoca não se levou em conJD o meio ambiente. Achava-se que o
desenvolvidos em desenvôlvimcnro clu era tão vasto e claro que naJa jamais mudarÚl sua cor; que
(26% da população) (74% d. populaçlio) os rios eram tdo grandes e suas águas tdo abundantes que as ati­
vidades Iumranas jamnis lhes alterariam a qualidade; e que as
Produto Unidades Participaçlio Per Participação Per árvores e florestas eram tantas que jatnais acabarlamos com
de consumo no consumo capíta. no consumo capita elas. Afinal, tornam a crescer.
percapila mundial mundial Hoje sabemos. O ritmo alarmante ao qual a superficie terres­
I' tre está sendo despojnda de sua capa vegetal natural parece in­
(%) (%)
dicar que O mundo pode em breve estar sem árvores, devido ao
AJimento: de_amemo para fins de desenvolvimento Iuunano.'·
Calorias Kcalldia 34 3.395 66 2.389 Victoria Chitepo
Proteína gr/dia 38 99 62 58 Ministra de Recursos NatW'ais e TfJ.nsmo do Zimbábue
Gordura gr/dia 53 127 47 4()
Cerimônia inaugural d. CMMAD, Harare, 18 de serembro de 1986
Papel Kg/ano 85 123 15 8
Aço Kglano 79 455 21 43
Outros
metais Kg/ano 86 26 14 12
Energis As práticas atualmente adotadas para a eliminação de rejeitos
Comercial mtcelano 80 5,8 20 0,5 tóxicos (como os de indústrias químicas, por exemplo) envolvem
riscos inaceitáveis. Rejeitos radiativos da indústria nuclear se
Fonte: estimativas da CMMAD baseadas em dados por país d. FAO, do mantêm !)erigasos durante séculos. Muitas das pessoas que se ex­
Escritório de Estatística da ONU, da UNCT AD e da Amerlcan Metal
Association. , põem a esses riscos em nada se beneficiam com as atividades que
produzem os rejeitos.
A desertificação - o processo pelo qual as terras áridas e semi­
áridas se tomam improdutivas do ponto de vista econômico - e o
vido ao uso de refrigerantes e aerossóis. Uma perda substancial desflorestamento em grande escala são também ameaças à inregri­
desse ozônio poderia ter efeitos catastróficos sobre a saúde das dade de ecossistemas regionais. A desertificação envolve intera­
pessoas e de animais domésticos, e sobre certas formas de vida ções complexas de seres humanos, terra e clima. Também contri­
que constituem a base da cadeia alimentar marinha, A descoberta, buem para o processo as pressões de produção de alimentos de
em 1986, de que havia um orifício na camada de ozônio sobre a subsistência, cultivos comerciais e produção de carne em áreas
Antártida sugere que sua destruição pode ocorrer com mais rapi­ áridas ou semi~áridas.
dez do que se supunha. 8 . A cada ano, mais de 6 milhões de hectares se desgastam pela
Vários poluentes do ar estão matando áIvores e lagos e cau­ erosão e passam à condição de deserto. 10 Em 30 anos, isto repre­
sando danos a prédios e tesouros culturais, que tanto podem si­ sentará uma área quase igual à da Arábia Saudita. São destruídos
tuar-se nas proximidades dos locais onde se dá a descarga, quanto anualmente mais de I I milhões de hectares de florestas tropicais,
estar a milhares de quilômetros de distãocia. A acidificação do o que representará, em 30 anos, uma área quase igual à da Ín­
meio ambiente ameaça vastas ãreas da Europa e da América do dia. 11 À parte os impactos diretos e freqiientemente drásticos que
Norte. Arualrneote, cada metro quadrado do solo da Europa Cen­ isso causa na própria região, as regiões vizinhas também são afe­
tral está recebendo mais de um grama de enxofre por ano. 9 A tadas pela areia que se espalha, pelas altemçóes nos regimes hí­
destruição das florestas pode acarretar erosão, fonnação de depó­ dricos e por um risco maio. de erosão do solo e de formação de
sitos sedimentares, inundações e alterações climáticas localizadas. depósitos sedimentares.
Os danos causados pela poluição do ar estão se tomando eviden­ A destruição de florestas e de outras áreas agrestes causa a ex·
tes em alguns países recém-industrializados. tinção de espécies vegetais e animais e reduz drasticamente a di­
36 37

jlAJ

versidade genética dos ecossistemas do mundo. Esse processo
Tabela 1.3
priva as gerações atuais e futuras de material genético para aper­
Taxa anual de cleSCÍmento do PIB em palses em desenvolvimento,
1976-85 (%)
feiçoar variedades de cultivos, tornando-as menos vulneráveis ao

desgaste provocado pelo clima, às pragas e às doenças. O desapa­

recimento de espécies e subespécies, muitas delas ainda não estu­
Indicador 1976-80 1981 1982 1983 1984 1985
dadas pela ciência, 'priva-nos de importantes fontes potenciais de
"

remédios e produtos químicos industriais. Destroi para sempre se­ Produto mlemo bruto:
res de grande beleza e partes de nosso patrimônio cultural; e em­
Todos o. palses em
pobrece a biosfera.
desenvolvimento 4,9 1,3 0,2 0,8 2,1 2,5
Muitos dos riscos que derivam de nossas atividades produtivas ,c Pa1Be8 em desenvolvimento
e de nossas tecnologias ultrapassam as fronteiras nacionais; mui­ excluídos os paf­
tos deles' são globais. As atividades que causam tais perigos ten­ graade. 4,5 1,1 -0,6 0,1 1,5 1,4
PIB per capíta:
dem a concentrar-se em poucos países, mas há riscos para todos, . Todo. os palses em
ricos e pobres, tanto para os que se beneficiam dessas atividades desenvolvimento 2,4 -1,0 -2,1 -1,5 -0,2
como para os que não se beneficiam. A maioria dos países que
-0,2
Países em desenvolvimento
compartilham esses riscos influi pouco nos processos decisórios i:
'. excluídos o. palses graades 1,9 -1,5 -3,1 -2,4 -1,0 -1,1
que regulamentam essas atividades.
Resta pouco tempo para ações corretivas. Em alguns casos, já
podemos estar prestes a transpor limites críticos. O. cientistas
continuam buscando e discutindo causas e efeitos. mas em muitos
casos já temos conhecimento suficiente para justificar a ação. Isso
j FontJ?:: Dopa.r1ment of lnternalionaI Economic and Social Affai... Dou­
bling development ftru:urçe; meeting a global challelJ8e, view. and recom­
mendatloIIB of lhe Commítee on Dovelopment Planning. New York, Uni­
ted Natlons, 1986.
vale em nível local e regional no caso de ameaças como desertifi·
cação, desflorestamento, rejeitos t6xicos e acidificação; em nível
global, vale para ameaças como alteração do clima, destruição do agudamente sentida com as crises do meio ambiente e do desen­
ozônio e extinção de espécies. Os riscos aumentam mais rapida­ volvimento sobrevindas nos anos 80.
mente que nossa capacidade de lidar com eles. O ímpeto menos acelerado de expansão econômica e a estag­
A maior ameaça ao meio ambiente da Terra, ao progresso sus­ nação do comércio mundial na década de 80 desafIou a capacida­
tentável da humanidade e mesmo à sobrevivência é talvez a pos­ de de todas as nações para reagirem e ajustarem-se. Os países em
sibilidade da guerra nuclear, que aumenta a cada dia pela corrida desenvolvimento que dependem da exportação de produtos primá­
armamentista que nlIo cessa e já está chegando ao espaço. A bus­ rios foram especialmente atiogidos pela queda dos preços desses
ca de um futuro mais viável s6 tem sentido se houver esforços produtos. Entre 1980 e 1984, esses países perderam cerca de
mais vigorosos para deter o desenvolvimento dos meios de ani­ US$55 bilhões em suas exportações devido à queda dos preços de
quilação. produtos primários, e o golpe foi sentido mais profundamente na
América Latina e na Átrica.l 2
Em conseqüência desse período de menor crescimento da eco·
1.1.4 A crise ec:ooômiea noruia mundial - ligado a obrigações cada vez maiores com o ser­
viço da dívida e a um declfnio dos influxos de financiamento ­
Os problemas ambientais com que nos defrontamos não são no­ muitos países em désenvolvimento enfrentaram graves crises eco­
vos. mas s6 recentemente sua complexidade cOmeçou a ser enten­ nômicas. De mto. mais da metade desses países leve seu produto
dida. Antes, nossas maiores pteo<:upações voltavam-se para os interno bruto (Pffi) per capita reduzido no período 1982-85, sen­
eleitos do desenvolvimento sobre o meio ambiente. Hoje, temos do que, para o conjunto dos .países em desenvolvimento, o PIB
de nos preocupar também com o modo como a deterioração am­ percapi.ta caiu cerca de 10% nos anos 80. (Ver tabela 1.3.)
biental pode impedir ou reverter o desenvolvimento econômico. O ônus mais pesado do ajuste econômico intero.acional recaiu
Área após área, a deterioração do meio ambiente .,.tá minando o sobre os povos mais pobres do mundo. Em conseqüência, o s0­
potencial de desenvolvimento. Essa ligação básica passou a ser frimento humano aumentou muito, e houve moa exploração ex­

38 39
I

cessiva da terra e dos recursos naturais para gruantír a sobrevi­
vência a curto prazo. "Por quanto tempo poderemos continuar fingindo com seguran­
Muitos problemas econômicos internacionais ainda não fomm ça que meio ambiente não é economia, não é saúde, não é requi­
resolvidos; o endividamento dos países em desenvolvimento con­ sito para o desenvolvimento, não é lazer? Sem realista conside­
tinua sendo uma questão grave; os mercados de produtos primá­ ra17'1lO-nos administradores de uma entidode chamada meio am­
rios e de energia estão muito instáveis; os fluxos financeiros para biente. alheia a nós, uma alternativa à economia. um valor caro
'I
países em desenvolvimento são bastante deficientes; o protecio­ demais para ser protegido em épocas de dificuldodes ecOllômi­
cas? Quando nos organizamos a panir desta premissa. estamos
nismo e aS guetTaS comerciais representam uma séria ameaça. trazendo conseqüencias perigosas para nossa economia, nossa
Além disso, há um esvaziamento das instituições multilaterais e saútk e nosso crescimento industrial.
das regulamentações, num momento em que são mais necessárias
do que nultca. Há uma tendência para o declínio do multílatera­ •
Só agora começamos a perceber que é preciso encontrar uma
alternativa para nossa tendlncio a onerar as gerações futuras
lismo e para a afirmação da predominãncia nacional. devido a nossa crença errônea de que é poss(vel escolher entre a
economia e o meio ambiente. A longo prazo. essa escolha revela­
se uma ilusilo e tem conseqülncias terrlveis para a humanidtl­
1.2 NOVAS MANEIRAS DE CONSIDERAR O MEIO
de."
AMBIENTE E O DESENVOLVIMENTO

Charles Cacei.
O progresso humano sempre dependeu de nosso engenho técrnco Membrudo Parlamento. Cllmara dos Comuns
e de nossa capacidade para agir em cooperação. Essas qualidades /,~ Audiência pública da CMMAD, Ottawa, 26-27 de maio de 1986
fomm freqüentemente usadas de modo construtivo, com vistas ao
.,f
progresso do desenvolvimento e do meio ambiente: por exemplo,
no tocante ao controle da poluição do ar e da água, ou a uma efi­
ciência maior no uso de materiais e energia. Muitos países aU­
mentamm a produção de alimentos e reduzírarn os índices de
crescimento populacional. Alguns progressos tecnológicos, sO­
bretudo no campo da medicina, foram amplamente disseminados.
IIJlIS-Í&SO nin.b.llSlaJ A administração do meio ambiente e a ma­
,
Segundo, os desgastes ambientais e os padrões de desenvolvi­
mento econômico se interligam. Por isso, é possível que políticas
agrícolas sejam a origem da deterioração de telTas, águas e flo­
restas. Em muitos países em desenvolvimento, as política.. ener­
géticas estão ligadas ao efeito estufa global, li acidiflcação e ao
. nútenção do desenvolvimento impõem sérios problemas a todos . desfloreslamento com vistas li obtenção de lenha. Esses desgastes
'os países. Meio ambiente e desenvolvimento não constituem desa­ ameaçam o desenvolvimento econômico. Portanto* a economia e a
fios separados; estão inevitavelmente interligados. O desenvolvi­ ecologia devem integrar-se perfeitamente nos processos decisó­
mento não se mantém se a base de rectJrSos ambientais se deterio­ rios e legislativos. não só para proteger o meio ambiente, mas
ra; o meio ambiente não pode ser protegído se o crescimento não também para proteger e promover o desenvolvimento. A econo­
leva em conta as conseqüência.. da destruição ambiental. Esses mia não é apenas a produção de riqueza, e a ecologia não é ape­
problemas não podem ser tratados separadamente por instituições nas a proteção da natureza; ambas são também muito importantes
e políticas fragmentadas. Eles fazem parte de um sistema comple­ para que a humanidade viva melhor.
xo de causa e efeito. ­ Terceiro, os problemas ambientais e econômicos ligam-se a vá­
Primeiro, os desgastes do meio ambiente estão interligados. O rios fatores sociais e políticos. Por exemplo, o rápido crescimento
desflorestamento. por exemplo, por aumentar o escoamento, ace­ populacional. cujo impacto sobre o meio ambiente e O desenvol­
lera a erosão do solo e a formação de depósitos sedimentares em vimento foi tão profundo em muitas regiões, derivou em parte de
rios e lagos. A poluição do ar e a acidificação contribuem para fatores como O status das mulheres na sociedade e outros valores
matar florestas e lagos. Tais vínculos significam que é preciso culturais. Além disso, o desgaste do meio ambiente e o desenvol­
tentar resolver ao mesmo tempo vários problemas diferentes. E se vimento desigual podem aumentar as tensões sociais. Pode·se ar­
houver'sucesso em uma área, como, por exemplo, a proteção das gumentar que a distribuição de poder e influência na sociedede
florestas t podem aumentar as chances de sucesso em outra área, está no âmago da maioria dos desafios do meio ambiente e do de­
como, por exemplo, a conservação do solo. senvolvimento. Por isso as novas abordagens têm de incluir pro­

40 41
"Para conseguir resolver problemas globais. temos de criar no· "VOCI!'s !atam muito poueo de vida e falam "..ito em sobrevivên­
vas maN!JiNS de pensar. desenvolver.novos critlhiDs morais e de cia. É muito importonre lembrar que quando acabam as possibi­
valores. e sem davida nOvo.s padr6es de comportornento. lidades de vida. começam as possibilidades de sobrevi~ncút. E
A. humanidade se encontra ds portas de um novo ·est4giO em h4 povos. aqui no Brasil. especialmente na regiCúJ amazônica.
seu desenvolvimento. Deverfomcs /Ido s6 promovt!r a expans40 que ainda vivem, e esses povos que ainda vivem não querem de­
de sua base materiOJ. cientf/ica e Iknica. mas 1anrb4m. ·0 que ~ cair ao nfvel da sobrevi~ncia."
mais importante, incutir novos valOres e aspirações humanistas
na psicologút humana. pois a sabedoriO e o humanismo sao as DepoimentQ d. um participante
'verdades eternas' que constituem a base do humanidade. Preci­ Audiancia I'lIblica da CMMAD. São Paulo. 28-29 de outubro de 1985
samos de novos conceitos sociais. morais, cieN/ficos e ecol6gi­
COSo que devem ser determinados por """,,-,", condiç6es de vida da
humanidade;"1'Qje e no futuro." ,
I.T. Frolov
No passado, quem cuidava das questões ambientais eram os
Redator-Chefe da Communist Magazine
Audiência pública da CMMAD, Moscou, 8 de derembro de 19S6 t ministérios e instituições do meio ambiente, que às vezes tinham
pouco ou nenhum controle sobre a destroição causada por políti­
4
( cas e práticas agrícolas, industriais, de desenvolvimento urbano e
florestais. Foi um er;ro, por parte das sociedades, atribuir a res­
4
gramas de desenvolvimento social, principalmente para melhol'lU" ~ ponsabilidade de evitar danos ao meio ambiente a ministérios e
a posição das mulheres na sociedade, proteger os grupos vulnerá­ l' órgãos "setrn:ials" que os causam com suas polfticas. Assim, nos­

I
veis e promover a participação local no processo decisório. sas práticas de administração ambiental ficaram muito concentra­
Por fim, as caracteristicas sistemicas nlIo atuam somente no das em reparar os danos já feitos: reflorestamenlO, recuperação de
interior das nações, mas também entre elas. As fronteiras nacio­ regiões desérticas, reconstrução de ambientes urbanos, restaum­
nais se tomaram tio penncáveis que apagaram as. ttadicionais r ção de habitais naturais e reabilitação de terras selvagens. Para
distinções entre assuntos de significação local, nacional e interna­ prever e impedir danos ao meio ambiente será preciso considel'lU"
cional. Os ecossistemas nlIo respeitam- fronteiras nacionais. A ao mesmo tempo os aspectos ecológicos da polllica e seus aspec­
poluição das águas vui tomando rios, lagos e mares que banham tos econ&nícos, comerciais, energéticos, agrfcolas ele.
mais de um país. Através da almOsfera, a poluição do ar se espa­ Na maioria dos pafses, as políticas ambientais visam aos sin­
lha até bem longe. Os efeitos de acidentes mais ~os - princi­ tomas do crescimento prejudicial; tais polfticas trouxeram pto­
palmente em reatores nucleues on em fábricas e depósitos que gressos e vantagens e devem continuar e ser fortalecidas. Mas não
contém materiais tóxicos - podem espaJ.lrar..se por toda uma basta isso. É necessária uma nova abordagem, pela qual todas as
, região. nações visem a um tipo de desenvolvimento que integre a produ­
Muitos dos VÚlCulos entre o meio ambiente e a economia tam­ ção com a conservação e ampliação dos recursos, e que as vincule
bém atuam em nível global. Por exemplo, a agricultura das ec0­ ao objetivo de dar a todos uma base adequada de subsistência e
nomias industriais de mercado, que recebe muitos subsídios e in­ um acesso eqüitativo aos recursos.
centivos, gera excedentes que buixam os preços e tomam menos O conceito de desenvolvimento sustentável fornece uma es­
viáveis as agriculturas dos pafses em desenvolvimento, com ire­ trutura para a integração de políticas ambientais e estratégias de
qliI!ncia negligenciadas. Em ambas os sistemas, os solos e outros desenvolvimento - sendo o termo "desenvolvimento" aqui em­
recw:sos ambientais sofrem. Cada país deve criar polllicas agrf­ pregado em seu sentido mais amplo. Muitas vezes o termo é em­
colas nacionais para assegul'lU" os ganhos econ&nícos e polllicos a pregado com referência aos processos de mudança econômica e
curto prazo, mas nenhuma nação pode, sozinha, criar polfticas social no Terceiro Mundo. Mas todos OS países, ricos e pobres,
que lidem eficientemente com os custos financeiros, econ&nícos e precisam da integração do meio ambiente e do desenvolvimento.
ecológicos das polfticas agrícolas e comerciais adotadas pelas A busca do desenvolvimento sustentável exige mudanças nas po­
demais nações. lfticas internas e internacionais de todas as nações.

41 43
odesenvolvimento &llstentáyel procura atender às necessida­ coodiçõe. de enfrentar, como deve, o desafio de garantir um pro­
des e aspirações do presente sem comprometer a possibilidade de gresso humano sustentável.
atendê-Ias no futuro. Longe de querer que cesse o crescimento
econômico, reconhece que os problemas ligados à pobreza e ao
subdesenvolvimento só podem ser resolvid06 se houver uma nova Notas
era de crescimento no qual os países em desenvolvimento desem­
penhem um papel importante e colham grandes beneficios. I World Bank. Poveny and lumger; issues and options for food secwity in
Há sempre o risco de que o crescimento econômico prejudique developing countries. Washington, D.C., 1986.
o meio ambiente. uma vez que ele aumenta a pressão sobre os re­ 2 Department of Internadonal Econr-lOúc and Social Affairs. Doubüng de­
cursos ambientais. Mas os planej.dores que se orientam pelo con­ velopment jinmu:e; meeting a global cha\lenge, views and recommendatiollli
ceito de desenvolvimento sustentável terão de lrabalhar para ga­ of the comnúttee on Development Planning. New York, United Nations,
rantir que as economias em crescimento permanéçam rmnemente 1986.
ligadas a suas raízes ecol6gicas e que essas raízes sejam protegi­ 3 Hagrnan, G. et ali. PreveMO" better than cure. Report on human and
das e nutridas para que possam dar apoio ao crescimento a longo environmental disasters in the l1úrd World. Stockholm, Swedish Re<I
prazo. Portanto~ a proteção ao meio ambiente é, inerente ao con­ Cross, 1984.
ceito de desenvolvimento sustentável~ na medida em que visa 4 United Nations, General Assembly. The criticai economic situatíon in
Africa: report of lhe Secretary GeneraL AlS-I3!z. New York, 20 May
mais às causas que aos sintomas dos problemas do meio ambiente. 1986.
Não pode haver um único esquema para o dese!,volvimento 5 Baseado em dado. de: Rostow, W.W. riu! world economy; hístory and
sustentável~ já que os sistemas econômicos e sociais diferem prospect. Austín, University of Texas Press, 1978; Unite<l N.tions. World
muito de país para país. Cada nação terá de avaliar as implicações energy supplies in selected years 1929·1950. New Yorl<, 1952; Unite<l
concretas de suas polfticas. Mas apesar dessas diferenças, o de­ Nations. Statistical Yearbook 1982. New Yorl<, 1985: UNCTAD. Handbo­
senvolvimento sustentável deve ser encarado como um objetivo ok of international trade and development s/alistics 1985 supplement. New
de todo o mundo. York, 1985; Woytínsky, W.S. & Woytinsky, E.s. World popukltion and
Nen/"1Um pais pode desenvolver-se isoladamente. Por isso a production trénds and outlook. New York, Twentieth Cenlury Fund, 1953.
busca do desenvolvimento sustentável requer um novo ",uno para 6 USSR Commíttee for lhe lntem.tional Hydrological Decade. World
...mr balance and a<Uer resources oftlu! Eanh. Paris, Une"",, 1978.
as relações internacionais. O crescimento sustentável a longo pra­ 7 World Meteorological Organízation. A ,""port oftlu! lntemational Confe­
zo exigirá mudanças abrangentes para criar fluxos de comércio, rence on lhe Assessment 01 Carbon Dioxide anil Otlurr Greenhôuse Gases
capital e tecnologia mais eqüitativos e mais adequados aos impe­ in cUmate Variatíons and Associated Impacts. Villach, Austria, 9-15 Oct.

rativos do meio ambiente. 1985. WMO n. 661. Gcoeva, WMO/lCSU/Unep, 1986.

Os mecanismos de uma coopemção internacional maior. neces­ 8 National Seience Foundation. Scientists closer to identifying cause of

sária para garantir o desenvolvimento sustentável, variarão de Anlarctíc ozooo layer depletion. Washington, D.C., 20 Oct. 1986. (infor­

setor para setor e em rélação a cada instituição. Mas é fundamen­ me à imprensa)

taI que todas as nações se unam para conseguir o desenvolvi­ 9 Lehmhaus, J. et ali. Calculated and observe<l data for 1980 compare<! at

mento sustentável. A unificaçáo das necessidades humanas requer Emep measurement stations. Norwegian Meteorological Institute,
um sistema multilateral que respeite o principio do consenso de­ EmeplMSC-W Report 1-86, 1986.

10 United Nations Environment Progranime. General assessment of pro­

mocrático e reconheça que há não apenas uma Terra, mas também gregs in lhe implementation of lhe Plan óf Action to Combat Desertifi­

ums6mundo. c.tion 1978-1984. Nairobi, 1984; WCED Advlsory Panel on Food Secu­

Nos capítulos seguintes examinaremos mais detslhadamente rity, Agriculture, Forestry and Envirorunent. Food security. London, Zed

essas questôes e apresentaremos propostas específicas para reagir Books, 1987.

às crises de um futuro ameaçado. De modo geral, nosso relatório 11 World Resources Institutellnternationallnstitute for Environment and

traz uma mensagem de esperança. Mas tal esperança está coodi­ Development. World resources 1986. New York, Basic Books, 1986.

danada à inauguração de uma nova era de cooperação interna­ 12 UNCT AO. rrade and Developmenl Report 1986. New Yorl<, 1986,

cional baseada na premissa de que todo ser humano - os que já
existem e 0$ que virão - têm direito à vida. e a uma vida razoá­
vel. Cremos, com confiança~ que a comunidade internacional tem

44 45
2. EM BUSCA DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
mamente a uma melhor qualidade de vida. Num mundo onde a
pobreza e a injustiça são endémicas, sêmpre poderão ocorrer cri­
ses ecológicas e de outros tipos. Para. qUe .haja um desenvolvi­
mento sustentável, é preciso que todos tenham atendidas as suas
necessidades básiCas e lhes seJam proporcionadas oportunidades
de concretizar suas aspirações a uma vi.dlÍmelhor. .
Padrões de vida que estejam além do mínimo básico só são
o desenvolvimento sustenlllvel é aquele que atende às necessida­
sustentáveis se os padrões gerais de consumo tiverem por objetivo
des do presente sem cómprometer a possibilidade de as gerações
alcançar o desenvolvimento sustentável a longo prazo. Mesmo as­
futuras atenderem a suas próprias necessidades. Ele contém dois
sim,. muitos de n6s vivemos acima dos meios ecológicos do m~n­
conceitos-ehave:
do~ como demonstra, por exemplo. 'o uso da energia. As necessi­
• o conceito de "necessidades", sobretudo as necessidades essen~
dades são detenninadas social e cultura:lmente, e o desenv<llvi­
cials dos pobres do mundo, que devem receber a máxima priori­
mento sustentável requer a. promoção de valores que mantenham
dade;
os padrões de consumo dentro do limite das possibilidades ecoló­
• a noção das limitações que o estágio da tecnologia e da organi­ gicas a que todos podem, de modo razoável, aspirar.
zação social impõe ao meio ambiente, impedindo-o de atender às A satisfação das necessidades essenciais depende em parte de
necessidades presentes e futuras. que se consiga o crescimento potencial pleno, e o desenvolvi­
Portanto, ao se definirem os objetivos do desenvolvimento mento sustentável exige claramente que haja crescimento econ6­
econômico e social, é preciso levar em conta sua sustentabilidade mico em regiões onde tais necessidades não estáo sendo atendi­
em todos os países - desenvolvidos ou em desenvolvimento, com das. Onde já são atendidas, ele é compatível com o crescimenlo
economia de men:ado ou de planejamento central. Haverá muitas econômico, desde que esse crescimento reflita os princípios am­
interpretações, mas todas elas terão característica.. comuns e de­ plos da sustentabilídade e da não-exploração dos outros. Mas o
vem derivar de um consenso quanto ao conceito básico de desen­ simples crescimento não basta. Uma grande atividade produtiva
volvimento sustentável e quanto a uma série de estratégias neces­ pode coexistir com a pobreza disseminada, e isto constitui um ris­
sárillS para sua consecução. co para o meio ambiente. Por isso o desenvolvimento sustentável
O desenvolvimento supõe uma transformação progressiva da exige que IIS sociedades atendam às necessidades humanas, tanto
economia e. da sociedade. Caso uma via de desenvolvimento se aumentando o potencial de produção quanto assegura.Ílàóa todo.
sustente em sentido tlsico, teoricamente ela pode ser tentada as mesmas oportunidades.
mesmo num contexto social e político rígido. Mas só se pode ter se os "1I1meros aumentarem, pode aumentar a pressllo sobre os
certeza da sustentabilidade ffsica se as polfticas de deSenvolvi­ recursos, e o padrão de vida se elevará mais devagar nas áreas
mento considemrem a possibilidade de mudanças quanto ao aces­ onde existe privação. A questão não é apenas o tamanbo da po­
so aos recursos e quanto à distribuição de custos e beneffcios. • pulação, mas também a distribuição dos recursos; portanto, o de­
Mesmo na noção mais estreita de sustentabilidade ffsica está im­ senvolvimento sustentável só pode ser buscado se a evolução de­
plfcila uma preocupação com a eqüidade social entre gerações, mográfica se harmonizar com O potencial produtivo cambiante do
que deve, evidentemente, ser extensiva à eqüidade em cada gera­ ecossistema.
ção. ( Há muitas maneiras de uma sociedade se tornar menos capaz
I de atender no futuro às necessidades básicas de seus membros a
:U O CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO
i exploração excessiva dos recursos é uma delas. Dependendo da
SUSTENTÁVEL
! orientação do progresso tecnológico, alguns problemas imedialos
'\ podem ser resolvidos, mas podem surgir outros ainda maiores.
Satil!l'<!~rª" oecessi<la4e&e 8!H."pirações humanas é o principal \ Uma tecnologia mal empregada pode marginalizar amplos seg­
objetivo do desenvolvimento. Nos países em desenvolvimento, as : ment..s da população. < •

necessidades básicas de grande n11mero de pessoas - alimento, A monocultura, o desvio de cursos d'água, a extração mineral,
roupas, habitação. emprego - não estáo sendo atendidas. Além a emissão de calor e de gases nocivos na atmosfera, as florestas
dcsSllS necessidades básicas. as pessoas também 'aspiram legiti­ comen:ials e a manipulação genética todos estes são exemplos

46 41
drlcos e as perdas genéticas. Em geral. não é preciso esgntar os
•'Devido à falta de comunicaçdo, os grupos de assistência ao recursos ",nováveis, como florestas e peixes, desde que sejam
melo ambieme, à população e ao desenvolvimerao ficaram sepa­ usados dentro dos limites de regenereção e crescimento naturai.
rados dU1"alUe muito tempo. o que impediu que tomássemos cons­ Mas a maioria dos recursos renováveis é pane de um ecossistema.
ciência de nosso inleresse comum e de TlQssaforça conjunla. Fe­ complexo e interligado, e, uma vez levados em conta os efeitos da
Iízmeme. essa falha está sendo sanmJo:. Sabemos agora que o exploração sobre todo o sistema, é preciso definir a produtividade
que nos une ~ muito mais importante que o que nos divide. máxima sustentável.
RecOlfhecemos que a pobreza, a deterioraçdo do meio am­
bienle e o cnscimerao popuiacional estdo indissoluvelmeme li­ No tocante a recursos não-renováveis:, como minerais e com..
gados, e que nenhum desses problemas fundomenlais pode ser bustfveis fósseis. o uso reduz a quantidade de que disporão as
resolvido Isoladamente. Venceremos ou fracassaremos jumos. futuras gerações. Isto não quer dizer que esses recursos não de­
Chegar a Uma definição de deserrvolvlmemo sustentável aceita vam ser usados. Mas os nfveis de uso devem levar em conta a
por todos continua sendo um desafio para todos os que estão disponibilidade do recurso, de tecnologias que minimizem seu es­
empenhados no processo de desenvolvimento." gotamento, e a probabilidade de se obte",m substitutos para ele.
Portanto, a terra não deve ser deteriorada além de wn limite ra­
Making common cause zoável de recuperação. No c....o dos minerais e dos combustíveis
USo 8ased developmem, el1vironment, popu/ati.OI1 NGOs f6sseis, é preciso dosar o índice de esgotamento e a ênfase na re­
Audiência pública d. CMMAD, Ottawa, 26-27 de maio de 1986
ciclagem e no uso econômico. para garantir que o recurso não se
esgote antes de haver bons substitutos para ele. O desenvolvi­
mento sustentável exige que o índice de destruição dos recursos
da intervenção hwnana nos sistemas naturais durante o desenvol­ náo-renováveis mantenha o máximo de opções futuras possíveis.
vimento. Até pouco tempo, tais intervenções eram em pequena O desenvolvimento tende a simplificar os ecossistemas e a re­
escala e tinham impacto limitado. Hoje, seu impacto é mais dnIs­ duzir a diversidade das espécies que neles vivem. E as espécies,
.tico, sua escala maior, e por isso elas ameaçam mais os sistemas wna vez extintas. não se renovam. A extinção de espécies vege­
que sustentam a vida, tanto em nfvellocal como global. Isso não tais e animais pode limitar muito as opções das gerações futuras;
precisaria ocorrer. No mínimo, O desenvolvimento sustentável não por isso o desenvol vimento sustentável requer a conservação das
deve pôr em risco os sistemas naturais que sustentam a vida na espécies vegetais e animais.
Terra: a atmosfera, as águas, os solos e os seres vivos. Os chamados bens livres, como o ar e a água, são também -re­
O crescimento não estabelece um limite preciso a partir do cursos. As matérias-primas e a energia usadas nos processos de
qual o tamanho da população ou o uso dos recursos podem levar produção SÓ em pane se convertem em produtos !lteis. O resto se
a uma catástrofe· ecológica. Os limites diferem para o uso de , ~sfonna em rejeitos. fara haverJlIlu1esenvolvÍll!!'nto sustentá­
energia. de matérias-primas, de água e de terra. Muitos deles se vel é preciso minimizar os impactos adversos !':'ll>li:i.~e
imporão por si mesmos media,nle a elevação de custos. e diminui­ ao ~át;-aãági:i3e -dê outros elementos natíiiiiS. a f'un <Ie_lIllUlter
ção de retornos, e não mediante uma perdá s!lbita de alguma base a}!!tgi'ldãdê g!obãI do ecossiiíteiiiã. - .' .
de recursos. O conhecimento acumulado e o desenvolvimento -, Em 'esSl!iiéTa;OêJesenvolViinenlo' sustentável é wn processo de
tecnológico podem aumentar a capacidade de produção da base transformação no qual a exploração dos recursos, a direção dos
de recursos. Mas há limites extremos, e para havet sustentabilida­ investimentos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e a
de é preciso que. bem antes de esses limites serem atingidos. o mudança institucional se hannoDÍzam e refotçam o potencial pre­
mundo garanta acesso eqüitativo ao recurso ameaçado e reoriente sente e futuro, a fun de atender às necessidades e aspirações hu­
os esforços tecnológicos no sentido de aliviar a pressão. ~dranas.
Obviamente, o crescimento e o desenvolvimento econômicos
produzem mudanças no ecossistema físico. Nenhum ecossistema,
seja onde for, pode ficar intacto. Uma floresta pode ser desmatada 2.2 EQÚIDADE E INTERESSE COMUM
em wna pane de wna bacia fluvial e ampliada em outro lugar ­
e isto pode não ser mau, se a exploração tiver sido planejada e se Descrevemos o desenvolvimento sustentável em termos gerais.
se levarem em conta os nfveis de erosão do solo. os regimes hí­ Como persuadir as pessoas ou fazêr!as agir no interesse comum?

48 49
~té certo pon~ pela educação. pelo desenvolvimento das institui­
ções e pelo fortalecimento legal. Porém muitos dos problemas de
"Se os desertos estão se expandindo, as florestas desaparecendo
. destruição de recursos e do desgaste do" meio ambiente resultam e a desnutrição aumelUando, ..e as condiçõe.. de vida do.. habl­
de disparidades no poder econômico e político. Uma indústria ta/Ues de áreas urbanas estão piorando, não é devido à falta de
pode trabalhar com níveis inaéeitáveis de poluição do ar e da recursos, mas ao tipo de pollJicas adotadas por nossos dirigen­
água porque as pessoas prójudicadas são pobres e não têm condi­ te.. , pelos grupos de eliJe. A negação tios direitos e dos inleresse..
ções de reclamar. Pode-se destruir uma floresta pela derrubada das pe....oas est4 nos fevrurdo a uma situação na qual só a pobre­
excessiva porque as pessoas que nela vivem ou não têm alternati­ za tero um futuro próspero na A{rica. No..sa esperança é que
vas ou são em geraI menos influentes que os negociantes de ma­ esta Comis.stlo, a Comissão Mundial, não negligenciará os pro­
deira. blemas tios direitos humanos na A{rica e buscará erlfatizd-los,
As interações ecológicas não respeitam as fronteiras da pr0­ pois tro:ta-se de pessoas livres, pessoas que t2m direitos, que são
priedade individual e da jurisdição política. Logo: ciJadiios moduros e responsáveis, capw;es de participar do de­
serrvt>lvimento e da proteção ao meio ambiente."
• Numa bacia fluvial. um agricultor cujas terras se situem na en­
costa pode. dependendo do modo como as use. afetar o escoa­ DepoimenlO de um participante
mento nas fazendas mais abaixo. Audiência p6blica da CMMAD, Nairóbi, 23 de setembro de 1986
• As prátic... de irrigação, os pmguicidas e os fertilizantes utili­
zados numa fazenda afétam a produtividade das que lhe são vizi­
nh.... sobretudo se forem pequenas propriedades.
• A água quente que uma usina térmica despeja num rio ou num !ação rigorosa em matéria de responsabilidades podem controlar
trecho de mar afeta a pesca na região. . efeitos colaterais danosos. E, o que é mais importante, se as e<>­
• A eficiência de urna caldeira de fiibrica detenulna o Indice de munidades locais participarem dos processos de decisão, poderão
emissão de fuligem e produtos químicos nocivos. afetando assim articular e impor seu ioteresse COmum.
todos os que vivem e trabalham nas imediações. A interdependência é mais que um fenômeno local. O rápido
o. sistemas soeisi. tradicionais reconheceram alguns aspectos crescimento da produção estendeu-a ao plano internacional, com
déssa interdependência e aumentaram o controle da comunidade manifestações tanto físicas quanto econômicas. Aumentamos.
sobre as práticas agrícolas e sobre os direitOS tradicionais relati­ efeitos globais e regionais da poluição, como os que se verificam
'\fOS. a água. florestas e terras. Tal esforço do "interesse comum", em mais de 200 bacias fluviais internacionais e em grande número
contudo, não impediu necessariamente o crescimento e a expan­ de"","".
são. embora possa ter limitado a aceitação e difusão de inovações A imposição do interesse comum é multas vezes prejudicada
técnicas. porque as áreas de jurisdição política não coincidem com ... áreas
A interdependência local aumentou. quando muito. devido à de impacto. As poUticas energéticas de uma jurisdição causam
tecnologia empregada na agricultura e na manufatura modernas. precipitação ácida em outra. As poUticas pesqueiras de um Estado
Mas, por causa do progresso técnico, do "cerco" das temls e<>­ podem afetar a pesca em outro. Não existe uma autoridade supra­
muns, do desgaste dos direitos comuns sobre florestas e outros nacional que resolva tais questões, e só é possíVel fazer valer o
recursos. e da intensificação do comércio e da produção para o ioteresse colIll.lm por meio da cooperação internacional.
melXlldo, as responsabilidades quanto b decisões estlío sendo re­ Da mesma forma, a capacidade de um governo controlar sua
tiradas dos grupos e dos indivíduos. Essa mudança ainda está em economia nacional fica reduzida pelas crescentes interações CC<>­
processo em muitos países em desenvolvimento. nômicas internacionais. Por exemplo, no comércio exterior de
Não é que de um lado existam vilões e de outro vítimas. Todos produtos primários, as questões ligadas ã capacidade produtiva e
estariam em melhor condição se cada um considerasse os efeitos à esc...sez de recursos são consideradas uma preocupação inter­
de seus atos sobre os demais. Mas ninguém está disposto a crer nacional. (Ver capftulo 3.) Se o poder econômico e o. benefícios
que os outros agirão desse modo, e assim todos continuam a bus­ do comércio fossem mais bem distribuídos, os interesses comuns
car seus próprios interesses. As comunidades ou os governos po­ seriam amplamente reconhecidos. Mas os ganhos com o comércio
dem compensar essa situação mediante leis, educação, impostos, exterior estão mal distribuídos; O modo como O açúcar, por exem­
subsídios e outro. métodos. O cumprimento das leis e uma legis­ plo, é comercializado afeta não apenas um setor nacional de pro­
50 51
dução açucareira. mas IIImbém a ecC5norrua e a ecologia de vários volvimento de outras nações. (Este capítulo trata das estratégias
países em desenvolvímento que dependem muito desse produto. nacionais. A reorientação nas relações econômicas internacionais
Seria menos difícil buscar o interesse comum se houvesse, para é abordada no cap{tulo 3.)
todos os problemas ligados ao desenvolvímento e ao meio am­ Os principais objetivo. das políticas ambientais e desenvolvi­
biente. soluções que deixassem a todos em melhor situação. Isto mentista.. que derivam do conceito de desenvolvímento sustentá­
raramente ocorre. e em geral há quem ganhe e quem perca. Mui­ vel são t entre OUtros, os seguintes:
tos problemas derivam de desigualdades no acesso aos recursos. • retomar o crescimento;
Uma estrutura ná~üitativa de propriedade da terra pode levar à • alterar a qualidade do desenvolvímento;
exploração excessiva dos reclmlOS das propriedades menores, com • atender às necessidades essenciais de emprego, alimentação,
efeitos danoso. tanto para o meio ambiente quanto para o desen­ energia, água e saneamento;
volvimento. No plano internacional. o controle monopolístico dos • manter um nível populacional sustentável;
recursos pode levar os que deles não partilham a explotar eXCes­ • conservar e melhorar a base de recursos;
sivamente os reclmlOS marginais. Outra manifestação do acesso • reorientar a tecnologia e administrar o risco;
desigual aos recursos é o fato de os explotadores terem uma pos­ • incluir o meio ambiente e a eConomia no processo de tomada de
sibilidade maior ou menor para dispor dos bens "Iivtes", seja no decisões.
plano regional. nacionai ou internacional. Entre os que saem per­
dendo nos conflitos desenvolvimentofmeio ambiente estão os que 2.3.1 Retonumdo O cresclmenlo
sofrem mais com os prejuCzos que a poluição causa à saúde, à
propriedade e ao ecossistema. Como já assinalamos, o desenvolvímento sustentável tem de lidar
Quando um sistema se aproxima de seus limites ecológicos, as com o problema do grande número de pessoas que vivem na p0­
desigualdades se acentuam. Assim, quando uma bacia fluvial se breza absoluta. ou seja. que náo conseguem satisfazer sequer suas
deteriora, os a,gricultores pobres sofrem mais porque náo podem necessidades mais básica... A pobreza reduz a capacidade das
adotar as mesmas medidas antierosão que os agricultores ricos pessoas para usar os reclitsos de modo sustentável, levando-as a
adOIllm. QUando se deteriora a qualidade do ar nas cidades. OS exercer maior pressão sobre o meio ambiente. A maioria dos p0­
pobres, que vivem em áreas mais vulneráveis, têm a saúde mais bres absolutos vive nos países em desenvolvimento; em muitos
prejudicada que os ricos. que geralmente vívem em lugares mais deles, essa pobreza foi agravada pela estagnação econ6mica dos
protegidos. Quando os =1mI08 minerais escasseiam, os retardatá­ anos 80. Uma condição necessária, mas não suficiente, para a
rios do processo de industrialização é que perdem os benefícios eliminação da pobreza absoluta oS o aumento relativamente rápido
dos suprimentos baratos. Globalmente, as nações mais ricas estão das rendas per capim no Terceiro Mundo. Portanto, é essencial
inverter as atuais tendências de estagnação ou declÚlio do cresci­
em situação melhor, do ponto de vísta fmanceiro e tecnológico,
para lidar com os efeitos de. uma possCvel mudança clintãtica.. mento.
Ali taxas de crescimento poderão vsriar, mas é necessário um
Portanto, nossa dificuldade para' promover o interesse comum
no desenvolvímento sustentável provém com freqüência do fato nível mínimo para causar algum impacto sobre a pobreza absolu­
ta. Considerando todos esses pafses. parece improvável atingir es­
de não se ter buscado adequadamente a justiça econ6mica e social
dentro das nações e entre elas. ses objetivos se o crescimento da renda per capim for inferior a
3%. (Ver box 2.1.) Dados os atuais (ndices de crescimento popu­
lacional. seria necessário um crescimento global da renda nacio­
2.3 IMPERATIVOS ESTRATÉGICOS nal de cerca de 5% ao ano nas economias em desenvolvimento da
Ásia, de 5,5% na América Latina e de 6% na África e na Ásia
É preciso que O mundo crie logo estratégias que permilllm às na­ ocidental.
ções substituir seus atuais processos de crescimento, freqüente­ Será possível chegar a essas cifras? O desempenho da Ásia
mente destrutivos, pelo desenvolvimento sustentável. Para tanto é meridional e oriental nos últimos 25 anos, principalmente no úl­
necessário que todos os países modifiquem suas política., tanto timo qüinqllênio, sugere que a maioria dos países pode chegar a
em relação a seu próprio desenvolvímemo quanto em relação aos um crescimento anuaJ,de 5%, inclusive os dois maiores, fndia e
impactos que poderão exercer sobre as possibilidades de desen­ China. Na América Latina, foram obtidas taxas médias de cresci­

32 '3
DOll: 2.1 Crescimento, redistribuição e pobreza buição só podem ter efeito havendo aumento de renda. Se­
gundo, em países em desenvolvimento de baixa renda, só os
A pobreza é o nível de renda abaixo do qual uma pessoa ou grupos mais ricos dispõem dos excedentes que podem ser
uma famllia não é capaz de atender regularmente às necessi­ usados 'para a redistribuição. Terceiro, as políticas de redis­
dades da vida. A percentagem da população que se situa tribuição não podem ser traçadas de modo tão preciso que
abaixo desse nfvel depende da renda nacionai per capita e só beneficiem os que estão abaixo do nível de pobreza. As­
do modo como ela é distribuída. Com que rapidez um país sim, OS que estão um pouco acima também receberão alguns
em desenvolvimento espera eliminar a po1m:za absoluta? A beneficios.
resposta díferirá de pais para país, mas é possível aprender • Para que o índice de pobreza caia de 50 para 10%, o tem­
muito examinando-se um caso típico. po necessãrio será: .
Consideremos uma nação na qual metade da população • de 18 a 24 anos se a renda per capíta crescer 3% ao ano;
viva na pobreza e a dístribuição da renda familiar seja a se­ • de 26 a 36 anos se crescer 2% ao ano;
guinte: um quinto das famílias detém 50% da renda total; • de SI a 70 anos se crescer apenas 1%.
outro quinto detém 20%, outro 14%, outro 9%, e o último Em todos os casos, o prazo mais curto supõe a redístri­
quinto apenas 7%. É exatamente isso o que acontece em buição de 25% da renda incrementai da quinta parte mais ri­
muitos pafses em desenvolvimento de baixa renda. ca da população, e o mais longo supõe que não haja redis­
tribuição.
Nesse caso, se a dístribuição de renda não se alterar, será Assim, se a renda nacional per capita crescer apenas 1%
preciso que a renda nacional per capita dobre para que o
. índice de pobreza caia de 50 para 10%. Se houver uma dis­ ao ano, só quando o próximo século estiver bem adiantado é
tribuição de renda que favoreça os pobres, essa redução po­ que será possfvel eliminar a pobreza absoluta. Mas se qui­
de se dar mais depressa. Consideremos a possibilidade de sermos ter certeza de que já no início do próximo século o
que 25% da renda incrementai daquele um quinto da popu­ mundo estarã a caminho do desenvolvimento sustentável,
lação que é o mais rico sejam igualmente dístribufdos aos então é preciso lutar por um crescimento mínimo de 3% da
demais. renda nacional per capita e adotar políticas fIrmes de redis­
Estas hipóteses de redistribuição refletem tres critérios. tribuição.
Primeiro, na maioria das situações as políticas de redístri­

mento de 5% nos anos 60 e 70, mas. tais mdices caíram na pt'ÍlI,ICí­ pectiva de crescimento a médio prazo dos países industrializados
ra metade dos anos 80, devido sobretudo à crise da dívida. I A é de 3-4%, o mínimo considerado necessário pelas instituições fi­
retomada do crescimento na América Latina depende da solução nanceiras .internacionais para que esses países participem da ex­
dessa crise. Na África, nos anos 60 e 70, os mdices de cresci­ pansão da economia mundial. Tais índices de crescimento podem
mento situaram-se em tomo de 4-4,5%, o que, aos atuais índices ser sustentáveis do ponto de vista ambiental se as nações indus­
de crescimento populacional, siguificaria um crescimento da ren­ trializadas continuarem a orientar seu crescimento para atividades
da per capita ligeiramente superior a 1%.2 Nos anos 80, o cres­ que conswnam menos energia e matérias-primas, e a usar de Ifl()-­
cimento quase parou, e a renda per capita declinou em dois terços do cada vez mais eficiente estas últimas.
dos países. 3 Para se chegar a um nível mínimo de crescimento na Mas à medída que as nações industrializadas usam menos ma­
África. é preciso corrigir os desequilíbrios de curto prazo e aca­ térias-primas e menos energia, se tomam men:ados menores para
bar com velhos entraves ao processo de crescimento. os produtos primários e os minerais dos países em desenvolvi­
'? O crescimento precisa ser retomado nos países em desenvolvi­ mento. Se estes concentrarem seus esforços em eliminar a pobreza
mento porque é neles que estão mais diretamente inmrligados o e satisfazer às necessidades humanas básicas, haverá um aumento
crescimento econômico, o alívio da pobreza e as condíçóe8 am­ da demanda interna de produtos agrfcolas e de manufaturados,
bientais. Mas esses países fazem parte de uma economia mundial e também de alguns serviços. Portanto, na própria lógica do de­
interdependente, e sua.< perspectivas dependem também dos níveis senvolvimento sustentável está implícito um estímulo interno ao
e dos padrões de crescimento das nações industrializadas. A pers­ crescimento do Terceiro Mundo.

54 55
Em inúmeros países em desenvolvimento. porém. os mercados
são muito pequenos; e todos estes países precisarão de um grande •Talvez pela pt'imeira vez na história, as pessOas thn l'IOÇão de
crescimento das exportaçôes sobretudo de itens não-tradicionais~
J
sua pobreza relativa e (CIJ'1fMm vontade de sair dela e melhorar
para financiar as importações. cuja demanda virá com o cresci­ sua qualúkuie de vida. A medida que progridem maeerialmellle, e
comem e vivem melhor, o que aIIleS era um luxo passa a ser visto
mento rápido. como veremos no capítulo 3. como uma necessúkuie. O resultado é que a demanda de ali­
mento, malérú:ls-prÚJlClS e energla aumenta em grau ainda maior
que a população. A medida que a demanda aumR!nta, exige-se
2.3.2 Mudando a quaUdade do crescimento cada vez mais da área finita do mundo, a fim de que produza
aquila de que se necessita. "
o desenvolvimento sustentável é mais que crescimento. Ele exige
uma mudança no teor do crescimento, a fIDl de tomá-lo menos Or. LP. Garbuchev
intensivo de matérias-primas e energia, e mais eqüitativo em seu Academia Búlgaro de Ciencias
impacto. Tais mudanças precisam ocorrer em todos os países, co­ Audiência pública d. CMMAO, Moscou, 11 de dezembro de 19~
mo parte de um pacote de medidas para manter a reserva de capi­
tal ecológico, melhorar a distribuição de renda e reduzir o grau de
vulnerabilidade às crises econômicas.
O processo de desenvolvimento econômico deve basear-se pequenas propriedades pode propoI'Cionar resultados mais lentos
mais finnemente na realidade da reserva de capital que o mantém, no princípio, mas a longo prazo pode ser mais viâvel.
coisa que raramente ocorre.:, seja nos países desenvolvidos, seja Se o desenvolvimento econômico aumenta a vulnerabilidade às
naqueles em desenvolvimento. A renda derivada de operaçôes crises, ele é insustentável. Uma seca pode obrigaras agricultores
florestais, por exemplo, é convencionalmente medida em termos a sacrific81em animais que seriam necessários para manter a pr0­
do valor da madeira e de outros produtos extraídos, deduzidos os dução nos anos seguintes. Uma queda nos preços pode levar os
custos da extração. Não se levam em conta os custos de regenerar agricultores e outros produtores a explorarem excessivamente os
a floresta, a não ser que realmente se gaste dinheiro com isso. As­ recursos naturais, a fim de manter as rendas. Mas pode-se reduzir
sim, os lucros advindos das operações com madeira quase nunca a vulnerabilidade usando tecnologias que diminuam os riscos de
levam plenamente em conta as futuras perdas de renda decorren­ produção. dando preferência. opções institucionais que reduzam
tes da deterioração da floresta. Também no caso da exploração de as flutuaçôes do mercado e acumulando reservas, sobretudo de
outros recursos naturais - sobretudo os que não são capitaiizados alimentos e divisas. O desenvolvimento que aliar crescimento
em contas nacionais ou de empresas, como ar água e solo - veri·
t
e menor vulnerabilidade será mais sustentável que o que não o
fica-se O mesmo tipo de contabilidade incompleta. Em todos os fizer.
países, ricos ou pobres, o desenvolvimento econômico tem de le­ Mas não basta ampliar a gama das variáveis econômicas a se­
var também em conta a melhoria ou a deterioração da reserva de rem consideradas. Para haver sustentabilidade, é preciso uma vi­
recursos naturais em sua mensumção do crescimento. são das necessidades e do bem-estar humano que incorpora variá­
A distribuição de renda é um dos aspectos da qualidade do veis não-econômicas como educação e s.lide, água e ar puros, e a
crescimento, como foi dito anteriormente, e o crescimento rápido proteção de belezas naturais. Também é preciso eliminar as limi­
aliado à má distribuição de renda pode ser pior do que um cres-' tações de grupos menos favorecidos, muitos dos quais vivem em
cimento mais lento aliado a uma redistribuição que favoreça os áreas ecologicamente vulneráveis, como é o caso de muitos gru­
pobres. Em muitos países em desenvolvimento, por exemplo, a pos tribais que habitam florestas, dos nômades do deserto, de
introdução da agricultura comeI'Cial em grande escala pode gerar grupos que vivem em montallbas isoladas, e das populações indí­
receita com rapidez, mas também pode desalojar muitos pequenos genas das Américas e da Austra1ásia.
agricultores e tomar mais injusta a distribuição de renda. A longo Para mudar a qualidade do crescimento é necessário mudar
prazo, pode não ser uma estratégia viável, pois empobrece muita nosso enfoque do esforço desenvolvimentista, de modo a levar em
gente e aumenta a pressão sobre a base de recursos naturais me­ conta todos os seus efeitos. Por exemplo, um projeto hidrelétrico
diante a supercomen:ialização da agricultura e a marginalização não pode ser encarado simplesmente como um modo de produzir
dos agricultores de subsistência. Dar preferência ao .cultivo em mais eletricidade; seus efeitos sobre o meio ambiente e sobre o

56 57
· meÍó de vida da comunidade local devem constar de todos os ba­
lanços. Assim, abandonar o projeto de uma hidrelétrica porque "No mundo .... desenvolvin..",ro, e prirrcipalmen/le 110 Terceiro
prejudicaria um sistema ecológico raro pode ser uma medida a fa­ MuntIo, vemos que nosso maior problema é a fall<1. de oportuni­
vor do progresso e não um retrocesso no desenvolvimento. 4 Pode dades de emprego; a mniorln dos desempregados deixo; as dreas
ar6 ser que, em alguns casos, as considerações de sustentabilidade 1'/.ITQis e migra para as cidot/es e os que ficam continuam incor­
levem ao abandono de atividades economicamente ·atraentes a rendo em práticas - como a queima de ccuvtio vegel<1.i - que Ie­
curto prazo, ""'" ao desjlcrestamento. Talvez as organizações que tratam do
O desenvolvimento econômico e o desenvolvimento social po­ meio ambiente devessem·intervir e procurar meios de evitur essa
dem e devem apoiar-se mutuamente. O dinheiro empregado em destruiçdo/' ,
educação e satlde pode aumentar a produtividade dos indivíduos. Kennedy Njiro
O desenvolvimento econômico pode acelerar o desenvolvimento
Aluno da Escola Polilknica do Qulnia
social fornecendo oportunidades a grupos menos favorecidos ou Audiência pdblica da CMMAD, Nairób~ 23 de setembro de 1986
disseminando a educação com mais rapidez.

'). 2.3.3 Atendendo às necessidades humanas essenciais
Atualmente precisamos nos ,concentrar nos alimentos básicos,
A A satisfação das necessidades e aspirações humanas é um objeti­
vo tão óbvio da atividade produtiva que pode parecer redundante
mas as projeçôcs mencionadas mostram também a necessidade de
se aumentar em muito o índice de disponibilidade de proteína.
falar de seu papel central no conceito de desenvolvimento sus­ Isto é especiàImente difícil na África, devido ao recente decLínio
tentável. Muitas vezes a pobreza é tanta que as pessoas não con­ da produção per capil<1. de alimentos e às atuais dificuldades de
seguem satisfazer suas n"""ssidades de sobrevivência e bem-es­ crescimento. Na Ásia e na América Latina, parece mais fácil che­
tar, mesmo quando há bens e serviços disponíveis. Ao mesmo gar aos índices mais altos de consumo· de calorias e proteínas.
tempo, as demandas dos que não são pobres podem ter conse­ Mas o aumento da prodnção de alimentos não deve basear-se em
qüências de vulto para o meio ambiente. políticas de produção ecologicamente inviáveis, nem comprome­
O principal desafio do desenvolvimento é ateoder às necessi­ ter as perspectivas de segurança alimentar a longu prazo.
dades e aspirações de uma população cada vez maior do mundo A energia é outra necessidape humana essencial que não pode
em desenvolvimento. Destas, a principal é o sustento, ou seja, o ser universalmente atendida a menos que se alterem os padrões de
emprego. Entre 1985 e 2000, a força de trabalho nos pafses em consumo. O problema mais urgente diz respeito às necessidades
desenvolvimento aumentará em cerca de 900 milhões de pessoas, das fam1lias pobres do Terceiro Mundo, que dependem basica­
com o que terão de ser criadas novas oportunidades de sustento mente de lenha. Na virada do século, 3 milhões de pessoas pode­
para 60 milhões de pessoas por ano.5 E preciso que O ritmo e o rão estar vivendo em áreas onde a madeira é cortada mais depres­
padrão do desenvolvimento econômico criem oportunídades de sa do que pode crescer. ou onde há escassez de leLlL..7 As medi­
trabalho sustentáveis nessa escala e num nível de produtividade das corretivas visariam a reduzir o trabalho de conseguir madeira
que permita às familias pobres viverem dentro dos padrões míni­ mnito longe e também a preservar a base ecológica. Na maioria
mos de consumo. dos países em desenvolvimento, as nece..ídades mínimas de
É preciso haver mais alimento não só para alimentar um ntlme­ combustível vegetal para cozinhar parecem ser di "n:\em de
ro maior de pessoas, mas também para combater a subnutrição. 250kg do equivalente em carvão per capil<1. por ano Isto repre­
Para que cada pessoa, no mundo em desenvolvimento, coma tanto senta apenas uma fração do consumo familiar de eneigia nos paí­
quanto cada pessoa no mundo industrializado, por volta do ano ses industrializados.
2000, é preciso que haja um aumento de 5% em calorias e 5,8% As n"""ssidades interligadas de habitação, abastecimento de
em proteínas na Africa; de 3,4 e 4%, respectivamente, na Améri­ água, saneamento e serviços médicos também são importantes no
ca Latina; e de 3,5 e 4,5% na Ásia. 6 Cereais e amidos são as que se refere ao meio ambiente. As deficiências nessas áreas são
fontes básicas de calorias; as proteínas são obtidas principalmente muitas vezes manifestações evidentes de desgaste ambiental. No
de produtos como leite, carne, peixe, legumes e sementes oleagi­ Terceiro Mundo, o fato de não se ter conseguido atender a essas
nosas. necessidades básicas é uma das principais causas de várias doen­

S8 .59
ça.. transmissíveis como malária, infe<:ções gastrointestinais, cóle­ forma de desenvolvimento social que dá aos casais, e principal­
ra e tifo. O crescimento populacional e a migração para as cida­ mente às mulheres, o direito de autodeterminação.
des ameaçam agravar esses probíemas. Os planejadores precisam O crescimento populacional nos países em desenvolvimento
valorizar mais o espírito de iniciativa das comunidades e o uso de continuará distribuído de rorma desigual entre as áreas urbanas e
tecnologias baratas. rurais. Segundo projeções da ONU, na primeira década do próxi­
mo século, o tamanho absoluto das populações rurais na maioria
2.3.4 Mantendo um ní....1 populadnnal sUstentável dos países em desenvolvimento começará a diminuir. Cerca de
90% do aumento, no mundo em desenvolvimento, ocorrerá nas
áreas urbanas, cuja rw,ulação deverá passar de 1,15 bilhão para
A sustentabilidade do desenvolvimento está diretamente ligada à 3,85 bilhões em 2025. O aumento será especialmente aóentuado
dinâmica do crescimel)to populacional. Mas a questão não é sim­ na África, e em menor grau na Ásia.
plesmente o tamanho da população do mundo. Uma criança nas­ As cidades dos países em desenvolvimento estão crescendo tão
cida norn país onde os níveis de uso de matérias-primas e energia depressa que as autoridades não têm como lidar com o problema.
..-;) são elevados representa um ônus maior para o,. recursos da Terra Faltam habiiações, água, saneamento e transporte de massa. Uma
do que uma criança num país m;ús pobre. O mesmo argumento proporção cada vez maior de habitantes das cidades vive em ha­
~.

I
vale intema.tne'pte paraca<,la 1!!!.~ É mais fácil buscar o desenvol­
" Vimento sustenilií-el quando o tamanho da população se estabiliza
num nível coerente com a capacidade produtiva do ecossistema.
Nos países industrializados, o Úldice global de crescimento
bitações miseráveis e cortiços, exposta muitas vezes à poluiçãO do
ar e da água, bem como a riscos naturais e industriais. A deterio­
ração deve piorar, pois o maior crescimento urbano se dará nas
cidades maiores. Assim, se o rilmO do crescimento populacional
,
populacional é inferior a 1%; vários países já chegaram ou estão diminuir, quem mais lucrará serio as cidades., que se tomarão
chegando a um crescimento populacional zero. A população total mais fáceis de administrar.
do mundo industrializado pode aumentar dos atuais 1,2 bilhão pa­ A própria urbanização é parte do processo de desenvolvimen­
ra cerca de 1,4 bilhão em 2025.8 to. A questão é controlar o processo de modo a evitar uma séria
A maior parte do aumento da população global ocorrerá nos deterioração da qualidade de vida. Por isso é preciso estimular a
palses em desenvolvimento; neles, a população que era de 3,7 criação de centros urbanos menores, a fim de reduzir as pressões
bilhóes em 1985 pode chegar á 6,8 bilhões em 2025. 9 O Terceiro sobre as grandes cidades. Para solucionar a iminente crise urbana,
Mundo não tem a opção de migrar para terras "novas", e o tempo há que estimular os pobres a criarem seus próprios serviços urba­
de que dispõe paTa se ajmtar é muito menor que (;, que tiveram os . nos e construírem suas próprias casas, e também encarar de modo
países industrializados. Assim, é preciso baixar rapidamente os mais positivo o papel do setor informal, concedendo-lhe fundos
índices de crescimento popolacional, sobretudo em <egiões como suficientes para o abastecimento de água, o saneamento e outros
a África, onde esses índices estão se elevando. serviços.
O declínio das taxas de natalidade nos países industrializados
deveu-se em grande parte ao desenvolvimento ecollÔmico e s0­
cial. Os nlveis cada vez mais altos de renda e urbanização, assim 2.3.5 Conservando e melhorando a base de recursos
como o novo papel das mulheres, tiveram grande importância.
Processos semelhantes estão ocorrendo agora nos países em de­ f
Se quisermos atender às necessidades numa base sustentável, a

I
senvolvimento. Eles devem ser reconhecidos e estimulados. As base de recursos naturais da Terra tem de ser conservada e melho­
políticas populacionais devem integrar-se a outros programas de rada. Serão necessárias amplas reformas de políticas para fazer
desenvolvimento ecollÔmico e social - educação das mulheres, face aos altos niveis de consumo que hoje se veri1'lCam no mundo
atendimento médico e expansão dos meios de sustento dos p0­ industrializado, aos aumentos de consorno indispensáveis ao
bres. Mas o tempo é escasso, e os palses em desenvolvimento atendimento de padrões mínimos nos países em desenvolvimento.
também tetão de adotar medidas diretas para reduzir a fecundida­ e à expectativa de crescimento populacional. Mas a conservação
de, a fim de não ultrapassarem de modo radical seu potencial pro­ da natureza não deve ser vista apenas como um dos objetivos do
dutivo capaz de sustentar suas populações. Na verdade, o acesso desenvolvimento. Ela é parte de nossa obrigação moral para com
maior aos serviços de planejamento familiar é em -si mesmo uma os demais seres vivos e as futuras gerações.
60 61
A pressão sobre os recursos aumenta quando as pessoas ficam
sem alternativas. As polfticas de desenvolvimento devem dar mais •Traba/Jro qJm serÍllgue(ros na AmaztJnia e estou aqui para fa­
opções para que as pessoas disponham de um meio de vida sus­ lar dafú>resta tropical.
rentável sobretudo no caso de famílias com poucos recursos e de Vi"""""" dessa floresta que querem destruir. E queremos
áreas onde existe desgaste ecológico. Numa região montanhosa, aproveitar esta oportunidade. quando tantas pessoas estãc aqui
por exemplo, pode-se aliar o interesse econÔmico e a ecologia reunidas com o mesmo objetivo de defender nosso habitat. de
ajudando os agricultores a trocarem as safras de grãos pelas cultu­
ras arbóreas; para isso é preciso dar-lhes conselhos, equipamento
" conservar a floresta, a floresta tropical.
Na minha drea, extrafmos da floresta cerca de 14 ou 15 pro­
e assistência mercadológica.
o. programas para proteger as rendas de agricultores, pescado­
I
;.
dutos nativos, oJém das outros atividades que exercemos. Acho
que isso deveria ser preservado. Pois não é s6 com gado. pasta­
ge... e estradas que conseguiremos o desenvolvimento da Ama­
res e silvicultores contra as quedas de preço a curto prazo podem ztJnia.
diminuir sua necessidade de explorar excessivamente os recur­ Quando eles pensam em derrobar árvores. sempre pensam em
sos. construir estradas, e as estrados. trazem a desrruiçãc sob a más- .
~ A conservação dos recursos agrl'Colas é tarefa urgente porque cara do progresso. Vamos colocar esse progresso onde as terras
em muitas partes do mundo os cultivos já se estenderam às terras já forum desmatadas, onde folta mão-de-obra. onde é preciso
marginais, e a pesca e a silvicultora foram exploradas excessiva­
mente. Tais recursos devem ser conservados e melhorados para
atender às necessidades de populações cada vez maiores. O uso
achar rraba/Jro para as pessoas. e onde é preciso fazer a cidade
crescer. Mas deixemos os que querem viver na floresta. que que­
rem manJl-ia tal como é.
,
da terra oa agricultura e na silvicultura deve basear-se nwna ava­ Nãc trouxe nada escrito. Não trouxe nada que tenha sido pre­
liação científica da capacidade da terra, e o esgotamento anual do
solo arável e dos recursos pesqueiros e florestais não deve ultra­
, parodo em algum escrit6rio. Isto não éfilosofia. É apelWSa ver­
dade. porque isso é o que nossa vida é."
passar o (ndice de regeneração.
As pressões que a lavoura e a pecuária exercem sobre a terra I Jaime da Silva Araújo
Assoâaçáo Nacionoi dos Seringueiros
agricultável podem ser em parte aliviadas se a produtividade au­ Audiência públlcada CMMAD, Silo Paulo, 28-29 de outubro de 1985
,mentar. Mas melhorar a produtividade de modo imprevideote e a
curto prazo pode provocar diversas formas de desgaste ecológico,

como a perda de diversidade genética dos cultivos permanentes, a
salinização e a aIcalização das terras irrigadas, a poluição por ni­ capacidade da biosfera de absorver os subprodutos do uso de
trato das águas subterrâneas e os resíduos de praguicidas nos ali­ energia) 1 Esses limites energéticos podem ser atingidos muito
mentos. Existem opções mais benignas do ponto de vista ecológi­ mais depressa do que os limites impostos por outros recursos ma­
co. Os futuros aumentos de produtividade, tanto nos países em teriais. Primeiro, há problemas de abastecimento: o esgotamento
desenvolvimento como nos desenvolvidos, deveriam basear-se das reservas de petróleo, o alto custo e o impacto ambiental da
num uso mais bem controlado de água e agroqufinicos, e também mineração de carvão, e os riscos da tecnologia nuclear. Segundo,
no uso mais extensivo de adubos orgânicos e praguicidas não­ há problemas de emissão, especialmente a poluição ácida e o
qufinicos. Essas alternativas só podem ser estimuladas por wna " acúmulo de dióxido de carbono, que causam o aquecimento da
poUtica agrícola que se baseie nas realidades ecológicas. (Ver ca­ Terra.
pftulo 5.) É possível resolver alguns desses problemas usando-$e mais os
No tocante à pesca e a silvicultora tropical, dependemos muito recursos energéticos renováveis. Mas a exploração de fontes re­
da exploração das reservas naturais dispon!veis. É bem possível
que a produtividade sustentável dessas reservas seja insuficiente
• nováveis, como lenha e energia hidrelétrica, também pode trazer
problema.~ ecológicos. Por isso, a sustentabilidade requer urná ên­
para atender à demanda, Nesse caso, será preciso adotar métodos fase maior na conservação e no uso eficiente de energia.
que produzam mais peixe, lenha e produtos florestais sob condi­ Os países industrializados precisam reconhecer que seu con­
ções controladas. Podem ser estimulados os substitutos de lenha. sumo de energia está poluindo a biosfera e diminuindo as reservas
Os limites extremos do desenvolvimento global talvez sejam já escassas de combustível fóssil. Foi possível limitar um pouco o
determinados pela disponibilidade de recursos energéticos e pela consumo devido a melhorias recentes na eficiência energética e
62 63
ao estímulo a setores menos energ.a-mtensivos. Mas é preciso vel. Segundo, é preciso alterar a orientação do desenvolvimento
acelerar o processo, a fim de reduzir o consumo per capita e es­ tecnológico, de modo a conceder maior atenção aos fatores am­
timular a busca de fontes e tecnologias não-poluentes. Não é viá­ bientais.
vel, nem desejável, que o mundo em desenvolvimento simples­ As tecnologias dos países industrializados nem sempre são
mente adote os mesmos padrões de consumo de energia dos paí­ adequadas ou fáceis de adaptar às condições sócio-econômicas e
ses industrializados. Uma mudança desses padrões para melhor ambientais dos países em desenvolvimento. Para aumentar o pro­
requer novas políticas de desenvolvimento urbano, 10COilização de blema, a maior parte da pesquisa e do desenvolvimento no mundo
ind11strias, planejamento habitacional e sistemas de transporte, dá pouca atenção às questões prementes que esses países enfren­
bem como a seleção de tecnologias agrícolas e industriais. tam, COmo a agricultura em terras áridas e O controle de doenças
Os problemas de suprimento de recursos minerais não-com­ tropicais. Não se está fazendo tudo o que é necessário para adap­
bustíveis aparentemente são menores. Segundo estudos anteriores tar às necessidades dos países em desenvolvimento as recentes
a 1980, que supunham uma demanda exponencialmente crescente, inovações nos campos de tecnologia de materiais, conservação de
o problema s6 surgiria no decorrer do próximo século. 12 Desde energia, informação tecnológica e biotecnologia. Tais lacunas
então. o consumo mundial da maioria dos metais permaneceu precisam ser preenchidas por maior incentivo à pesquisa, ao pla­
quase o mesmo, o que leva a crer que os minerais não-combustf~ nejamento, ao desenvolvimento e à especialização no Terceiro
veis s6 se esgotarão num prazo ainda mais longo. A história do Mundo.
desenvolvimento tecnológico também sugere que a ind11stria pode Em todos os países, as preocupações com os recursos ambien­
se aju.<;far à escassez se houver maior eficiência no uso, na reci.. tais deveriam nortear os processos de invenção de tecnologias al­
c1agem e na substituição. Entre as necessidades mais imediatas ternativas, de aperfeiçoamento das tradicionais, e de escolha e
contam-se a modificação da estrutura do comércio mundial de mi­ adaptação de tecnologias importadas. A maior parte da pesquisa
nérios, para dar aos exportadores uma participação maior no valor • tecnológica feita por organizações comerciais dedica-se a criar e
adicionado do uso de minerais, e a melhoria do acesso dos países processar inovações que tenham valor de mercado. O que é ne­
em desenvolvimento às reservas de minerais à medida que sua cessário são tecnologias que produzam "bens sociais", COmo
demanda aumente. melhor qualidade do ar ou produtos mais durãveis, ou então que
A prevenção e a redução da poluição do ar e da água continu ... solucionem problemas que geralmente não entram nos cálculos
rão sendo um ponto critico da conservação de recursos. A quali­ das empresas, como os custos externos da poluição ou da destina­
dade do ar e da água é ameaçada pelo uso de fertilizantes e pra­ ção dos resíduos.
guicidas, despejos urbanos, queima de combustlveis fósseis, usa Cabe às políticas públicas garantir, mediante incentivos e de­
de alguns prndutos químicos e várias outras atividades industriais. sincentivos, que as organizações comerciais se empenhem em
Tudo isso é capaz de aumentar substancialmente a poluição da considerar mais plenamente os fatores ambientais presentes nas
biosfera, sobretudo nos países em desenvolvimento. Limpar o que tecnologias por elas desenvolvidas. (Ver capítulo 8.) As institui­
já foi poluído é uma solução cara. Assim, todos os países preci­ ções de pesquisa mantidas com verbas públicas também precisam
sam prever e evitar problemas de poluição, e para tanto podem, receber tal orientação, e os objetivos do desenvolvimento susten­
por exemplo, buscar padrões de emissão que levem em conta os tável e da proteção ambiental deveriam constar das atribuições
efeitos a longo prazo, estimular as tecnologias que deixem poucos ~
das institoições que atuam em áreas ecologicamente sensíveis.
rejeitos e prever o impacto de novos produtos, tecnologias e re­ A criação de tecnologias mais adequadas ao meio ambiente
jeitos. está diretamente ligada a questões de administração de riscos.
Sistemas como reatores nucleares, redes de distribuição de eletri­
2.3.6 Reorientando a tecnolOllia e adminlslrando o risco cidade e outros serviços, sistemas de comunicação e de transporte
de massa tomam-se vulneráveis caso se desgastem além de deter­
Para alcançar esses objetivos, será preciso reorientar a tecnologia minada medida. Por estarem ligados em redes, ficam imunes a pe­
- o vínculo-chave entre os seres humanos e a natureza. Primeiro~ quenos probleinas, porém mais vulneráveis a distúrbios inespera­
a capacidade de inovação tecnológica precisa ser muito ampliada dos que ultrapassem determinado limite. Se se analisarem cuida­
nos países em desenvolvimento, a fim de que eles possam reagir dosamente as vulnerabilidades da implementação de tecnologias e
de modo mais eficaz aos desafios do desenvolvimento sustentá­ as deficiências que já apresentaram, e se se adotarem padrões de

64 65
"Os povos indfgellM sdo a base do que. em minha opinião. pode "A meu ver. as questtJes aqui apTl'!senkldas stib muito amplas e
ser chamatio de o sistema de seguronça do meio ambiente. So­voeis podem ter ou _ ter Ntspostdr para elas. Mas o ftzJo de
. m os Ntsponsáveis pelo SUCltSSO ou fracasso em poupar nossos re­ouvirem tudo O que foi aqui exposto pode ao menos dor-lhes uma
cursos. Para muitos de nós. contudo. houve nos tHtimDs sécules noçdotiasprobkmas.
uma substancial perda de controle sobre nossas terras e 4guas. Voeis podem _ ter as N!SJ'OSklS nem as soluçiJes. mas po­
Ainda somos os primeiros a tomar conhecimento das niuáanças dem sugerir meiDs de resolver esses problemas fazendo sugesttJes
do mele ambiente, mas agora somos os tHtimos a seNtm ouvidos aos lJUIIernDS. li ONU ou aos dT'[lÕOlf internacional4 quonro d
ou consultadoS. meDror maneira de Ntsolvl-Ics. ou seja. ouvindo as pessoas que
Somos os primeiros a perceber quanda as florestas esttib sen­estão diretamente envolvidas. Deveriam ser ouvidos todos os que
do ameaçadas, já que a economia deste pa(s faz delas o que bem se beneficiam e tombIm· todos os que stib vl'limos de qualquer
entende. E somos os últimos a opinar sobre o jUluro de nossas questão ligada ao desenvolvimento.
florestas. Somos os primeiros a sentir a pahdçtib de nossas Acha que a lÓriCa coisa que aqui estamos ouvindo ou e.rpe:I'Qn­
águas, Como podem atestar os povos Ojibway das terras em que do é talvez a seguinte: que em tudo O que diga respeito ao desen­
lUlSCi, no norte de Ontárle. E. evidentemente. somos os tHlinros a volvimenk> sejam ouvidas e consuJtodas as pessoas envolvidas.
serem consultados sobre como. quando e onde deveriam ser t0­Se isso for feito. estará dodo ao menos o primeiro passo para a
madas medidas para assegurar a harmonk> para a sétima gera­sal:uçfto do problema."
çtib.
O máximo que apNtndemos a esperur I ser compensados. . Ismid Hadad
SI!mpTl'! multo tarde e com muito pouco. Raramente somos cha­ Redator-chejit tIe Prisma
mados a contribuir com nossa éXperilncle e nosso consentimento AudieDcia ptiblica da CMMAD,lacarta. 26 de lIlI1I'ÇO de 1985
para o desenvolvimento no .rentIdo de evitar a necessidtJde de
sermos compensados. ~. -
Louis Bruyere
Presidel1le do Conselho Nativo do Canadá amplamente difundidas, de modo a garantir que sua produção, seu
Audiência pública da CMMAD. Ottawa, 26- 27 de maio de 1986 uso e seus resíduos não desgastem excessivamente os recursos do
meio ambiente. Tais disposiç&s são !leC!'ssárias sempre que luYa
intervenções de monta nos sistemas nalUtaÍ$, como desvio de cur­
sos'de rios ou demlbada de florestas. Além disso, é preciso refor­
atividade manufatureira e planos de contingi!ncia para as opera­ çar as compensações pelos danós involuntários.
ções. as conseqüências de uma falha ou de um acidente podem ser
menos catastróficas. 1.3.7 Indulndo O melo ambiente e a ec:onomIa
Não tem sido aplicada coerentemente às tecnologias oU siste­ no processo de dN-Idn
mas a melhor análise de vulnerabilidade ou de risco. Um dos
principais objetivos da ampla concepção de sistemas seria tomar o tema comum a essa estratégia do desenvolvimento sustentável é
menos graves as conseqüências de falhas ou sabotagem. Portanto. a necessidade de incluir eonsiderações econômicas e ecológicas
são necessárias novas técnicas e tecnologias - e também novos " no proCesso de tomada de decisões. Afinal, econoDÚa e ecologia
eSIi!;Untegradas n"!1d!tivi dade s dlL1l1lU!º"~l\lII!J Para tanto será
mecanismos legais e institucionais - para planejar a segurança.
prevenir acidentes, traçar planos de contingi!ncia, diminuir os da­ · preciso mudar antndes e objetivos e chegar a novas disposições
nos e dar o auxílio necessário. f institucionais em todos os níveis.
Os riscos ambientais resultantes de decisões tecnológicas e de­
senvolvimentistas recaem sobre os indivíduos e as áreas que têm.
pouca ou nenhuma influência sobre estas decisões. Há pois que
't \
1'1\
< As preocupações econômicas e as ecológicas não se opõem
necessariamente. As políticas que conservam a qualidade das ter­
ras agricultáveis e protegem as florestas melhoram as perspectivas
levar em conta seus interesses. São necessários mecanismos ins­ \j a longo prazo de desenvolvimento agrícola. Maior eflciência no
titucionais de âmbito nacional e internacional para avaliar os im­ ):I uso de matéria&-primas e energia pode servir a objetivos ecológi-
pactos potenciais de novas tecnologia.•• antes que elas se tomem I I ous, mas também pode reduzir os custos. Muitas vezes, porém, a

66 67
compatibilidade entre os objetivos ambientais e econômicos fica
perdida quando se busca o ganho individual ou de algum grupo, "NãO foi muito difícil jUlltar o lobby ambienlal do Norte e
sem dar grande importância ao impacto que isto pode causar aos o lobby desenvolvimenJista do Sul. E agora, de fato. a distinçãO
outros, acreditando-se cegamente que a ciência encontrará solu­ entre ambos já não é tão clam, e eles estão chegando a um con­
ções e ignorando-se as conseqüências que poderão h'lr num futuro senso sobre o tema do desenvolvfmenlo SIISl<!ratfvel.
distante as decisões tomadas hoje. A inflexibilidade das institui­ Já temos os tijolos para a cOllStrUÇãO. A preocupaçãO com O
'i meio ambierae é comum a ambas as partes. A preocupaçãO hu­
ções agrava essa situação.
manitdrio é comum a ambas as panes. A diferença está 7IOS mé­
Uma séria inflexibilidade é a tendência a lidar isoladamenh'l todos empregados e no- maior ou menor empenho com que cada
com cada selar ou indíistria, sem reconhecer'a importância dos uma delas busca satisfazer seu iraeresse econtJmico medionte o
vínculos inh'lrsetoriais. A agricuitura modema utiliza grandes proc.esso de assist(Jncio ao deselWolvimerao.
quantidades de energia produzida comercialmente e também de É tempo de preencher essa locuna. por motivos pollticos bar­
produtos industriais. Ao mesmo tempo, O vinculo mais tradicional tanle pragmáticos. Em primeiro lugar, as pessoas do Norte não
- o fato de a agricultura ser fonte de matérias-primas para a in­ querem ver seus impostos despe~s. Segundo. não querem
díistria - está se desfazendo devido ao uso cada vez mais disSe­ ver aumentar a pobnna e obviamente se preocupam com o meio
minado de produtos sintéticos. A ligação entre energia e indústria ambierae. seja o ,do Norte, onde vivem, ou o do Sul. E a maiori4
também está se alterando, pois há uma forte tendência a um uso' dos pessoas do Sul não quer soluções de curto prazo, que logo
menos intensivo de energia na produção industrial dos países in­ ficam superadas.
Na verdade, existe 710 conceito de desenvolvimerao susteratfvel
dustrializados. No Terceiro Mundo, contudo, a transferência uma C01I'IUIlhão poltlica de iraeresses entre o Norte e o Sul que
gradual da base industrial para os setores produtores de materiais pede servir como porao de partido."
básicos está levando a um uso mais intensivo de energia na pr0­
dução industrial. Richard Sandbrook
EsSas ligações inh'lrsetoriais criam contextos de interdependên­ Instituto Intemacional para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento
cia econômica e ecológica que raramenh'l se refletem no modo Audiéncia pública da CMMAD, Oslo, 24-25 de junho de 1985
como as políticas silo elaboradas. As organizações setoriais ten­
dem a buscar objetivos setoriais e a considerar seus efeitos sobre
outros setores corno efeitos colah'lrais. só os levando em conta se
a isso forem obrigadas. Por isso os impactos sobre as florestas ra­
ramente preocupam os responsáveis pelos rumos das polfticas pó­ o que implica maior participação pública nas decisões que afetam •
blicas ou das atividades comerciais nas áreas de energia, desen­ o meio ambiente. O melhor modo de se conseguir isso é descen­
volvimento industrial, agronomia e comércio exterior. Muitos dos tralizar a administração dos recursos de que dependem as comu­
problemas de meio ambiente e de desenvolvimento COm que nos nidades locais, dando-lbes voz ativa no tocante ao uso desses re- '
defrontamos originam-se dessa fragmentação setorial de 'respon­ cursos. Também é preciso estimular as iniciativas dos cidadãos,
sabilidades. Para haver desenvolvimento sush'lntável, é preciso dar mais poderes às organizações populares e fortalecer a demo­
que tal fragmentação seja superada. cracia local. I3
A sustentabilidade requer responsabilidades mais amplas para \41
Alguns projetos de grande escala, contudo, demandam partici­
os impactos das decisões. Para tanto silo necessárias mudanças pação numa base diferente. Pesquisas e audiências póblicas sobre
nas estruturas legais e institucionais que reforeem o interesse c0­ os impactos do desenvolvimento e do meio ambiente podem con­
mum. Algumas dessas mudanças partem da idéia de que um meio tribuir em muito para chamar a ah'lnção para pontos de vista di­
ambiente adequado à sadde e ao bem-estar é essencial para todos versos. O livre acessO a informações importantes e a disponibili­
os seres humanos - inclusive as futuras gerações. Essa perspec­ dade de fontes alternativas de know-how técnico podem constituir
tiva coloca o direito de usar os recursos públicos e privados em uma boa base para a discussão póblica. Quando um projeto pro­
seu contexto social apropriado e dá margem a medidas mais espe­ posto tem grande impacto sobre o meio ambiente, o caso deve ser
cíficas. obrigatoriamenh'l submetido ao escrutínio pl1blico e, sempre que
A lei, por si só, não pode impor o interesse comum. Esh'l re­ possível, a decisáo deveria ser submetida li aprovação póblica,
quer principalmente a conscientízação e o apoio da comunidade, talvez por meio de refenlIldo.

69
Também é preciso haver mudanças nas atitudes e nos procedi­ O importante é que esses objetivos sejam buscados com sinceri­
mentos das empresas tanto púbücas quanto privadas. Além disso, dade e que os eventuais desvios sejam corrigidos com eficiência.
a regulamentação referente ao meio ambiente tem de ir além, das
costumeiras regulamentações de segurança, leis de zoneamen1D e
de controle da poluição; os objetivos ligados ao meio ambiente Notas
devem estar embutidos na tributação, na aprovação prévia de in­
vestimentos e escolha de tecnologias, nos incentivos ao comércio I UNCTAD. Handbook 01 inlernational trade and developme1l1 _sties

exterior, enfun, em rodos os componentes das poIIticas de desen­ 1985 supplement. New Yorl<, 1985.

volvimento. 2Ibíd.

tl necessário bannonizar em nível intemllCÍonal a integração de 3 Department of Inlernational Economic and Social Afíairs (Diesa).Dou­
b1ing development jinance; meetiog a globsl chaUenge, views and r _ ­

fa"'res econ6micos e ecol6gicos nos sis!erria$ legal e decisório mendations of the Committee for Development PIsnning. New Yorl<,

dos países. O aumen'" do consumo de combustível e matérias­ UIÚte<! Nations, 1986.

primas toma mais estreitos os vínculos físicos entre os ecossiste­ 4 Um exemplo de urna decisão como essa de absndonar um projeto de de­

mas de diferentes países. Também aumentam as interações econô­ senvolvimento no interesse da conservação ambientai é a ÍIIterrupção do

micas mediante o comércio, o fioanciamen"', o investimen'" e o Projeto Hídrico do Vale do Silêncio, na lndía.

intercâmbio, intensificando assim a interdependência econômica e 5 B......:Io em dados de: Banco Mundial Re/aulrÚi sobre o desenvolvi­
ecológica. No futuro, talvez mais que agora, o desenvolvimenro mento mourdial 1984. Rio de Janeiro, Fundação Gelulio Vargas, 1984.

sustentável vai eldgir a unifICação da economia e da ecologia nas 6 B......:Io em dados do CQnswno per capita extra/dos da FAO (Production

relações internacionais, como veremos no próximo capítulo. Yearbook 1984. Rome, 1985) e em projeções demográficas do Di.s.

(World popula.tion prospects estimates and projections as assessed in /984.

,l New York, UIÚte<! Nations, 1986.)
7 FAO. Fuelwood supplles in tIuI developing countries. Rome, 1983. (1'0­
~ 2.4 CONCLUSÃO restry Paper n. 42.)
8 Diesa. Wor/d popu/aliQn prospects••• cit.
Em seu sentido mais amplo. a estratégia do desenvolvirnen", sus­ 9Ibid.
tentável visa a promover a harmonia entre os seres hwnanos e 10Ibid.
entre a humanidade e a natureza. No contexto específICO das cri­ 11 lUCele, W. &; Sassin, W. Resour.es and endowmenls, ao outline of fu­
ses do desenvolvimen'" e do meio ambiente surgidas nos anos 80 ture energy systems. In: Hemily, P.W. & Ozdas, M.N., ed. Sc/ence and
- que áS amais institoições poIfticas e econômicas nacionais e in­ future clwlce. Oxford, Clarendon Press, 1979.
temacionais ainda não conseguiram e talvez não consigam supe­ 12 Ver, por exemplo: 0IlCD.1merfulUres; f!ICing the future. Paris, 1979;
CoWlcil on Ilnruoomental Quality and US Department of State. ihe Glo­
rar - a busca do desenvolvimen'" sustentável requer: /)aI 2()()() report to lhe presidenr, entering lhe twenty-fust century, tIle te­
• um sistema político que assegure a efetiva participação dos ci­ clmk:al report. Washington, D.C" US Government Printing Office, 1980.
dadãos no processo decisório; v.2.

• um sistema econÔmico capaz de gerar excedentes e know­13 Ver: Por mUllÍl;;ipal initiotive and citizen power. In: Inderena. La cam­
how técnico em bases confiáveis e constantes; • palia verde y los con.cejos verdes. BogotA, Colombls, 1985.

• um sistema social que possa resolver as tensões causadas por
um desenvolvimento nlío-equilibrado;
• um sistema de produção que respeite a obrigação de preservar a
base ecol6gica do desenvolvimen"';
• um sistema tecnol6gico que busque constantemente novas solu­ ,

ções;
• um sistema internacional que estimule psdrões sustentáveis de
comércio e financiamento;
• um sistema administrativo flexível e capaz de auK>corrigir-se.
Estes requisitos têm antes o caráter de objetivos que devem
iospirar a ação nacional e internacional para o desenvolvimen"'.

70
3. O PAPEL DA ECONOMIA INTERNACIONAL
Box 3.1 Algodão produzidó para exportação no Sabel
Em 1983184, quando grsssavam a seca e a fome na região
africana do Sabel, cinco nações sabelianas - Burkina Fasso,
Chade, MaU, Níger e Senegal - produziram quantidade re­
corde de algodão, Colheram 154 milhões de toneladas de fi­
Ao longo dos tempos. os povos foram além de suas pnSprias bra de algodão, ou seja, 22,7 milhões de toneladas 11 mais
fronteiras para conseguir matérias-primas essenciais. exóticas ou que em 1961/62. O Sabel como um todo conseguiu wn ou­
valiosas. Hoje. devido à maior segurança das comunlc8ÇÕes e à tro recorde em 1984: importou I,n milhão de toneladas de
expansão do comércio e dos movimentos de capital, esse processo cereais, 200 mil toneladas a mais que as importadas anual·
mente no início dos anos 60. Duranle o período em que as
se amplion muito, acelerou seu ritmo e passou a ter vastas impli­ colheitas de algodão no Sabel cresciam constantemente, os
cações ecológicas. Por isso a busca da sustentabilidade requer preços mundiais do algodão também caíam constantemente
grandes mudanças nas relações econômicas internacionais. em termos reais. Estas cifras não sugerem que as nações sa­
helianas devessem arrancar tndo o algodão para plantar sor­
go e painço. Mas como os agricultores que podem cultivar
algodão não podem cultivar alimento suficiente para seu
3.1 ECONOMIA INTERNACIONAL, MEIO AMBIENTE próprio .uslento, é de crer que se esteja dando demasiada
E DESENVOLVIMENTO atenção aos cultivos comerciais, e muito pouca aos cultivos
alimentares.
Para que os intercimbios econômicos internacionais beneficiem a Fonte: Oiri, J. Relr<>spective de fécorwmie .ahelienne. Paris. Club du
todas as partes envolvidas, é preciso que antes sejam atendidas Sabe!, 1984,
duas condições: a manutenção dos ecossistemas dos quais depen­
de a economia global deve ser garantida e os parceiros econÔmi­
cos têm de estar convencidos de que o intercâmbio se processa
numa base justa. RelaÇões desiguais e baseadas em qualquer tipo que levam à deteriomção do meio ambiente e ao esgotamento dos
de dominação não constituem uma base sólida e duradoura para a recursos, em prejulzo do desenvolvimento a longo prazo,
interdependência. No caso de muitos países em desenvolvimento O comércio internacional de madeiras tropicais, por exemplo, é
nenhuma dessas condições é atendida. uni dos· fatores do desflorestamento dos trópicos. A necessidade
Os vínculos econômicos e ecológicos entre as nações aumenta­ de obter dIvisas faz com que muitos países em desenvolvimento
ram depressa, o que torna maior o impacto das crescentes desi­ cortem madeira a wn ritmo mais acelerado que o da regeneração
gua1dades verificadas no desenvolvimento e no poder econÔmico das florestas. A derrubada excessiva, além de esgotar os recursos
das nações. A assimetria das relações econômicas internacionais que sustentam o comércio mWldial de madeira, toma inviável a
agrava o desequilíbrio. pois as nações em desenvolvimento .ge­ vida dos que dependem das florestas, aumenta a erosiio do solo e
ralmente sofrem a influência das condições econômicas interna­ as inundações no curso inferior dos rios, e acelera a extinção de
cionais, mas não têm influência sobre elas. espécies e de recursos genéticos. O modo como se processa o
As relações econômicas internacionais representam wn pr0.­ oomércio internacional pode também estimular políticas e práticas
blema particular para os países pobres que tentam adminlstrar seu desenvolvimentistas inviáveis, como as que vêm deteriorando ca­
meio ambiente, porque a exportação de recursos naturais continua da vez mais as !"IraS de cultivo e as pastagens naturais nas Te­
sendo fator de peso em suas economias, sobretudo no caso dos gi6es áridas da Asia e da África. É o que 'ocorre, por exemplo, na
menos desenvolvidos. A instabilidade e as tendências de preços região do Sabel, devido ao crescimento da produção algodoeira
adversos enfrentadas pela maioria dessas nações impossibilitam­ para exportação. (Ver box 3.1.)
lhes administrar suas bases de recursos naturnls com vistas a uma . Muitos países em desenvolvimento precisam, para crescer, de
produção constante. O ônus cada vez maior do serviço da dívida influxos externos de capital. Se os fluxos não forem razoáveis,
e a diminuição de novos fluxos de capital intensificam as forças nIo há qlI8Iquer perspectiva de melhoria do padrão de vida. Em
72 73
Tabela 3.1 T~m é preciso haver mais ímanciamento externo, mas sem
Transferência líquida de recursos para países em desenvolvimento deixar de levar em conta osimpacros 90bre o meio ambiente. é
importadores de capital (US$ bilhões). preciso ressaltar que a JÍrÓpria redução da pobreza é requisito pa­
m um desenvolvimento ecologicamente viável. E fluxos de recur­
sos de ricos para pobres - fluxos melhores IlInto em qualidade
Fluxo de capital 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 quanto em quantidade - são um requisito para a erradicação da
Transferência pobreza.
I.!quida por
empréstimos
(todos os PIC)! 30,7 30,6 27,7 0,8 -8,6 -22,0 -41,0 3.2 O DECLOOO NOS ANOS 80

Transferência As pressões da pobreza e do aumento populacional dificultam
lfquida por imensamente a ad"",lio de políticas ecologicamente viáveis nos
todos os fluxos
de recursos
países em desenvolvimento, mesmo na. circunstâncias mais favu­
ráveis. E quando as condições econômicas internacionais são
(IOdos OS PIC)2 41,4 39,3 41,5 10,4 -0,3 -12,5 -31,0 ruins, pode tomar-se impossível lidar com os problemas. Nos
anos 80, as taxas de crescimento econômico declinaram acentua­
Transfer&lcia
I.!quida por damente ou mesmo fomm negativas em grande parte do Terceiro
todos os fluxos Mundo, sobretudo na África e na América Latina. Entre 1981 e
de recursos par.! 1985, o crescimento populacional foi maior que o crescimento
~
a América Latina 15,6 11,9 11,4 -16,7 -25,9 -23,2 -30,0 econômico na maioria dos países em desenvolvimento. 2
A deterioração das relações de troca, as obrigações cada vez
Fonte: Uniled Nations. Worldeconomic survey 1986. New Yori<, 1986 maiores do serviço da dívida e o prol!l!Cionismo crescente nas
eco"omias de me",ado desenvolvidas causaram sérios problemas
1 As transferências lfquidas por empréstimos são os fluxos de capital I.!qui­ :. de pagamentos ao exterior. O custo mais alto dos empréstimos
do menos os juros llquidos pagos. Todos os empréstimos, oficiais e priva­ extemo~, numa época em que as exportações estavam em baixa,
dos, a curto e longo prazos, estão inciuldos junto com o crédito do PML , também contribuiu para a crise da dívida em muitos países em de­
2 O total de fluxos de recursos IIquidos está ligado às traDsfer&lcias por senvolvimento. Após esta crise, tornaram-se especialmente onero­
empréstimos I.!quidos, doat;<les e in,,",stimento dineto llquido (menos a ren­
da do investimento direto llquido). .90S os programas de austeridade traçados pelo Fuodo Monetário
Internacional (PMI) como requisito para aumentar o crédito desti­
nado a atender às necessidades a curto prazo do balanço de pa­
conseqüência, os pobres serão forçados a danificar seu meio am­ gamentos. O crescimento foi interrompido e muitos objetivos s0­
biente para poderem sobreviver. Assim, fica muito diffcil, e às ciais foram abandonados. inclusive os que diziam respeito a em­
vezes alé impossível, o desenvolvimento a longo prazo. Mas as prego, sadde, educação, lIléio ambiente e assentamentos humanos.
tendências do movimento de capital são de molde a causar preo­ Isso foi uma mndança mdical em relação aos anos 60 e 70.
cupações. Os fluxos líquidos de recursos para os países em de­ Bntáo, o rápido crescimento econômico era visto como ameaça
senvolvimento diminuíram em tenuos reais: globalmente, há ago­ ecolÓgica; agora. essa ameaça reside na recessão, na austeridade e
m, de fato, uma evasão. (Ver tabela 3.1.) Nos próximos anos na queda do padrão de vida. O decUnio ocorrido nos anos 80
desta década, o aUlllénto espemdo dos influxos de capital interna­ ", agmvou as pressões sobre o meio ambiente de vários modos:
cional para oS países em desenvolvimento será apenas metade da­ • As medidas de austeridade e as condições recessivas gerais
quele necessário para recupemr o crescimento em níveis que per­ acarretaram um acentuado decUuio das rendas per caplta e au­
mitam reduzir a pobreza. 1 mentaram o desemprego. Isto leva um ndmeto maior de pessoas a
Mas o lIléto fato de aumentar os fluxos de capital para os paí­ retomar à agricultura de subsistência, a qual exige muito da base
ses em desenvolvimento não contribuirá necessariamente para o de recursos narurais, provocando seu desgaste.
desenvolvimento. Os esforços internos são de suma importáncia. • O. progratnal! de austeridade incluem necessariamente cortes

7S

.,.'
governamentais tanto de pessoal como de gastos em agências de
meio ambiente ainda incipientes e vulneráveis, prejudicando as­ USabemos que o mundo atravessa uma crise financeira interna­
sim os esforços ainda mínimos no sentido de incluir considera­ cional. que aumenta a miséria e a pobreza no Terceiro Murtdo,' e
ções de ordem ecológica no planejamento do desenvolvimento, sacrificamos ainda mais nru-.ro "",io ambiente, embora saibamos
• A conservação do meio sempre é relegada a segundo plano em que a situação pode ser mudado. se empregarmos corretamente
épocas de ten$ã,o econômica. Como as condições econômicas piO'­ as novas tecnologias e con1tecfmentos. Mas para isso temos de
raram nos países em desenvolvimento e as pressões da dívida au­ enconlrar uma nova ética que incluo. antes de tudo a relação en·
mentaram, os planejadores passaram a ignorar o planejamento e a
tre o hcmem e a natureza. n
j
conservação ambientais em projetos de desenvolvimento tanto in­ I Sérgio Dialelllchi
dustrial quanto rural.
~
Depoimento de um parlicíponte
A situação crítica da África subsaariana e o endividamento dos Audiência púbtica da CMMAD, São Paulo, 28-29 de outubro de 1985
países latino-americanos refletem de modo agudo os impactos
prejudiciais que uma situação econômica internacional inalterada
exerce sobre o desenvolvimento e o meio ambiente.

3.%.10 continente aAicano afetados por tendências negativas nas relações de troca dos pro­
dutos primários e por choques externos como a alta dos preços de
A África como. um todo enttou numa série de espirais deScen­ petróleo, a flutuação das taxas cambiais e o aumento das taxas de
dentes: juros. Nos últimos 10 anos, os preços dos principais produtos
• a pobreza e fome levam ao desgaste do meio ambiente, à dete­ primários, como cobre, minério de ferro, açúcar, amendoim, bor­
rioração da agricultura e, conseqlientemente, a mais pobreza e racha, madeira e algodão, caíram bastante. Em 1985, as relações

!
mais fome; de comércio dos países subsa.arianos (com exceção dos exporta­
• queda da poupança e falta de novos investimentos, devido à dores de petróleo) estava 10% abaixo dos níveis de I91Ó. Nos
crescente pobreza; países habilitados a receber fundos da Associação Internacional
• altas taxas de mortalidade infantil e pobreza, e baixo índice de de Desenvolvimento (AID), a queda média foi bem superior a
escolarização; 20%. tendo sido ainda mais acentuada em alguns deles, como
• altas taxas de crescimento populacional; Etiópia, Libéria, Serra Leoa, Zaire e Zâmbia.3
• migração para as cidades das que passam fome nas áreas rurais, O problema foi agravado pela dificuldade cada vez maior de
acanetando níveis explosivos de crescimento urbano e mi~a e atrair capítal dos pâíses industrializados para o desenvolvimento.
agravando os problemas de abastecimento de vÍveres. Ao mesmo tempo, as amortizações da divida e as despesas com
Mas nem sempre a situação é tão desalentadora. Algumas na­ juros awnentaram. Na África subsaariana em geral, o.serViço da
ções lidaram bem com os problemas e nos últimos anos tiveram divida, que representava 15% das receitas de exportação em
início algumas refonnas corajosas e abrangentes que já começam 1980, passou para 31% em 1986.4 Tudo isso fez com que as
a dar ftutos. Também é alentador o que ocorreu na Ásia meridio­ transfesências de recursos liquidas para a região caíssem de uma
nal, onde, após uma crise verificada há 20 anos, a produção de estimativa de US$1O bilhões por ano em 1982 para US$I bilhão
alimentos entrou numa espiral ascendente, a poupança e os inves­ em 1985.5 Em conseqílêncía, as nações puderam imponar muito
timentos aumentaram, a pobreza (embora ainda séria) diminuiu, as menos. Nos países candidatos a empréstimos da AID, o volume
taxas de crescimento populacional baixaram e se passou a dar per capita de importações em 1984 foi apenas 62% do que tinha
mais atenção às questões de longo prazo referentes à administra­ sido em 1910.6 Foram cortadas as importações para a agricultura
ção do meio ambiente e a tecnologias adequadas. - maquinaria, fertilizantes e praguicidas - e de suprimentos es­
Entre as várias causas da crise africana, sobressaem as que de­ senciais ao atendimento das necessidades básicas. A conjugação
rivam da economia internacional. O bem-estar econômico da de fatores internos e ,internacionais adversos fez as rendasrr eG­
África subsa.ariana depende ainda mais do comportamento da pita cafrem 16% na Africa subsa.ariaoa entre 1980 e 1985.
economia mundial do que o bem-<:star econômico da Ásia de bai­ As dificuldades econômicas dos países subsa.arianos tiveram
lta renda. Na última década, muitos países subsa.arianos foram impa<:tos sociais devastadores. O declínio da produção de ali­

76 77
mente suas polltica.•• ainda assim o financiamento ou o a1fvio da
"A crise.- África t! tão st!ria que não pode ser exagerada e de­ dívida disponíveis mediante as atuais políticas dos doadores fica­
veria realmente motivar o mundo inleiro. A vida dos 400 milhiJes riam muito aquém do necessário para evitar uma queda ainda
de pessoás que hoje habitam a África esM em perigo. E muitos maior dos padrões de vida da África de baixa renda. H E essa
que ainda não nasceram terão pelafrente umfuturo basttmte de­ sombria equação não inclui dinheiro para recuperar o meio am­
salentador, a menos que se encontrem, e logo, soluções ejicazes. biente deteriorado.
Certamente não é preciso multa imaginação para perceber A comunidade internacional precisa entender que a África não
que não apenas a África esM em perigo. A langd prazo. a e'Cb­ conseguirá superar a crise econômica e ecológica mais séria do
nomia mundial pode estar ameaçada. não só pçrque o bem-estar planeta sem uma ajuda a longo prazo muito maior que a que foi
humano é indi:visfllel. mas tamMm porque a África desempenha
papel importonlfssimo na economia global como fonltf de um programada. Além disso. o financiamento muito maior para o de­
grande tulmero de matérias-primas vitais." senvolvimento deve ser acompanhado por mudanças de poUticas
qué levam em conta a preservação do meio ambiente.
Maxime Ferrari
Diretor do Escrit6rio Regional do PNUMA para a África 3.2.2 A dfvida Jatlno-amerieana
Audiência pób1i<:. da CMMAD. Harare. 18 de setembro de 1986
Para muitos pafses da África, a dívida é um problema gravíssimo.
Mas em face dos montantes envolvidos. o intpacto da dívida foi
mais visfvel em alguns palses de renda média - principalmente da
mentos per capita contribuiu para awnentar a subnutrição. A seca América Latina. A crise da dfvida continua sendo uma ameaça à
pôs em risco cerca de 35 milhões de viaas em 1984185. e depois estabilidade financeira internacional. mas seu maior impacto. até
que ela melhorou. '19 milhões de pessoas contin\l&ram passando agora. foi sobre o processo de desenvolvimento. tanto em seu as­
fome. 8 A subnutrição e a fome enfraqueceram muito a população. pecto econômico qnanto ecológico. Em 1985, a dívida mundial
reduzindo sua produtividade e tomando muita gente (em especial total era de USS9S0 bilhões. dos quais cerca de 30% eram devi­
as crianças e os velhos) mais sujeita a doenças e à mone prematu­ dos por quatro países: Argentina, Brasil. México e Venezuela. As
ra. A crise prejudicou o progresso já obtido na área de abasteci­ dívidas destes países representam mais OU menos dois terços dos
mento de água potável e saneamento. empréstimos pendentes dos bancos para OS palses em desenvolvi­
Agora já se admite que é necessário atacar as causas a longo mento.l 2
prazo e não OS sintomas. A grande miséria causada pela seca na Nos anos 70. o crescimento econOmico da América Latina foi
África já é notória, e a comunidade mundial reagiu com um int­ facilitado por empréstimos tomados ao exterior. Os bancos co­
portante programa de emergência. Mas a ajuda alimentar de merciais gostavam de fazer empréstintos a países em crescimento
emergência á apenas uma reação a curto prazo e, na melhor das e ricos em recursos naturais. Depois. a situação internacional mu­
hipóteses. parcial. As raízes do problema estão nas políticas na­ dou muito, e a dívida se tomou insustentável. Devido à recessão
cionais e internacionais. que têm impedido as economias africanas mundial. os mercados de exportação se retrafram e polfticas mo­
de realizarem todo o seu potencial de expansão econômica e as­ netárias restritivas fizeram as taxas de juros globais I\Iingirem nf·
sim diminuir a pobreza e as pressões ambientais que ela cria. veis nunca vistos. Os banqueiros. assustados COm a deterioração
A solução cabe sobretudo aos admiuistradores africanos. mas a da capacidade cre<litfcia, suspenderam os empréstimos. E a eva­
comunidade internacional deve igualmente apoiar os esforços da são de capital nacional dos palses em desenvolvimento agravou o
África para se ajustar. não só fornecendo a ajuda adequada e fa­ problema.
zendo acordos de comércio, mas também cuidando para que mais Seguiu-se uma crise que forçou os governos a adotarem polfli­
capital flua para as nações mais pobres, em vez de sair delas. Es­ cas de austeridade para cortar as importações. Em conseqüência,
ses dois aspectos complementares da solução dos problemas fo­ as intPortações latino-americanas caíram 40%. em teII110S reais,
ram reconhecidos pelos próprios palses africanos9 e pela comuni­ em trés anos.1 3 A retração dai decorrente reduziu em média 8% o
dade intemacional. lO Segundo estimativas do BaIÍco Mundial, o produto interno bruto dos oito principais países Iatino-america­
mesmo que haja condições econômicas externas favoráveis nos nos.l 4 Grande parte desse Ônus recaiu sobre os pobres, uma vez
próxintos cinco anos e os governos africanos reformulem ampla­ que os salários reais diminuíram e o desemprego awnentou. Em

78 79
Assim, os recursos naturais da América Latina não estão sendo
"O impacto dq atual crise. na A",,!rica Latina foi comparado, usados pata o desenvolvimento ou a melhoria dos padrões de vi­
por sua profundidade e extensão, à Grande Depressão de da, e sim pata atender às exigências financeiras dos países indus­
1929-32. A crise deixou claro que, embora a necessidade de triaíizados, os credores. Essa fonna de lidar com o problema da
proteger o meio ambiente contra os problemas tradicionais de dívida suscita problemas de sustentabilidade econômica, política e
deterioração e esgotamenlo continue sendo l(m objetivo válido, ambiental. Pretender que países relativamente pobres ao mesmo
OS planejadores responsáveis pelo. gestão do meio ambiente deve­ tempo baixem seus padrões de vida, aceitem o aumento da pobre­
riam evitar atitudes negativas em face da necessida<k de recupe­ za e exportem quantidades, cada vez maiores de recursos escassos
ração e crescimento econiJmico$. a fim de manter a capacidade creditícia reflete prioridades que
A expansão, conservação, manutenção e proteção do meio poucos governos eleitos democraticamente conseguiriam tolerar
ambiente podem representar uma contribuição essencial para por muito tempo. A situação atual nâo é compatCvel com o desen­
melhorar o padrão de vido, o emprego e a produtivida<k.' , volvimento sustentável. O conflito é ainda agravado pelas polfti­
cas econômicas de alguns dos principais países industrializados,
Osvaldo Sunkel que deprimiram e desestabilizaram a economia internacionaí. Para
Coordenador da Unidade Conjunta Ec/aJPNUMA promover um desenvolvimento sustentável em tennos sociais e
de DesenvolvirMnto e Meio Ambiente ecol6gicos, é indispensável, entre outras coisas, que o países in~
Audiência pdblica da CMMAD, São Paulo, 28-29 de outubro de 1985 dustrializados retomem as polfticas internacionais visando a ex­
pandir o crescimento, o comércio e o investimento. A Cop'lissão
ressaltou que, em tais circunstâncias, alguns países devedores se
viram forçados a suspender ou limitar a saída líquida de fundos.
Cada vez mais bancos credores e 6rgâos oficiais estão perce­
todos os principais países latino-americanos são claramente visí~
J
bendo que muitos devedores simplesmente não terão condições de
veis a pobreza crescente e a deterioração do meio ambiente. manter o serviço de suas dívidas, a menos que o ônus seja dinú­
Além disso, a falta de novos créditos e o ônus constante do nuído. Entre as medidas discutidas contam-se novos empréstimos
serviço da dívida forçaram esses países a servir suas dívidas re­ adicionais, perdão de parte da dívida, reescalonamento a prazo
correndo a seus excedentes comerciais. As transferêncías líqui­ mais longo e adoção de termos mais brandos. Mas está faltando o
das de sete dos principais países da América Latina pata seus necessário sentido de urgência. Todas e..sas medidas devem levar
credores somaram quase US$39 bilhões em 1984, e, nesse mesmo em conta os legítimos interesses de credores e devedores, e repre­
ano, 35% das receitas de exportação furam destinados ao paga­ sentar uma divisão mais justa do ônus de resolver a crise da divi­
mento dos juros da dívida externa.l 5 Essa drenagem maciça re­ da.
presenta de 5 a 6% do produto interno bruto da região, cerca de
um terço da poupança interna e quase 40% das receitas de ex­
pottação. Ela adveio de políticas de ajustamento que impõem 3.3 PARA POSSIBILITAR O DESENVOLVIMENTO
cortes drásticos e desiguais nos saJários, nos serviços sociais, no SUSTENTÁVEL
investimento, no consumo e no emprego, tanto no setor pllblico
como no privado, agravando ainda mais os problemas de desi­ Durante muites anos, os países em desenvolvimento propugnaram
gualdade social e pobreza genernlizada. A tentativa de expÍlndir por mudanças fundamentais nos acordos econômicos internacio­
as expottações e encontrar substitutos de produtos importados nais, de modo a tomá-los mais eqüitativos, sobretudo no tocante a
aumentou acentuadamente as pressões sobre o meio ambiente e os fluxos fmanceiros~ comércio exterior, investimentos transnacio­
recursos; além disso, intensificaram-se também a deterioração e a nais e transferência de tecnologia.l6 Hoje, seus argumentos têm
exploração excessiva do meio ambiente, resultantes do aumento de ser refonnulados para levar em conta as dimensões ecol6gicas.
do número de pobres urbanos e rurais em luta desesperada pela freqüentemente negligenciadas no passado.
sobrevivência. Grande parte do rápido crescimento das exporta­ A curto prazo, para quase todos os países em desenvolvimento,
ções íatino-americanas verificou-se na área de matérias-primas, exceto os maiores, uma nova era de crescimento econômico de­
alimentos e produtos manufaturados baseados em recursos. pende de uma administração econômica eficiente e coordenada
80 81
"É quase impossfvel negar a importdncia univer$(ll dos proble­ "A demortda de matlrias-primas, maior produttvidalk e bef!S
mas ecol6gicos. Para que eles tenJuun uma soluçl1o satisfat6ria, materiais, por pai'te do mundo inJustrializada. teve smos im­
sem necessdria uma coordenDÇl1o cada vez maior dos atividades, pactos sobre o meio aprhienre e custos econlJmicas muito eleva­
nda 36 na economia de cada paEs, mas também no Ombito do. co­ dos rido s6 em nossos paEses. mas também nÓ mundo em desen­
operaçl1o imernacional. Os problemas eco16gicos.nda têm pre­ volvimemo. As atuais palfticas internacionais financeiras. eco­
cedemes na hist6ria do. humanidade." nIJmicas, comerciaiS" e de investlmemos agravam ainda mais OS
problemas. .
Dr. TodorI. BoUúnov Todos precisamos estar dispostos a exominar nossas reloções
ComM de Proteção tÜJ Meio Ambiente, BulgJria no lImbito do comércio internacional. dos investlmemos, do. as­
Audiência pública da CMMAD, Moscou, 8 de dezembro de 1986 sistlncia ao desenvolvimemo, do. indústria e do. agriculflD"a d luz
dos conseqiUncias que elas podem. ter para O subdesenvotvi­
memo e a destruiçl10 do meio ambieme no Terceiro Mundo. Te­
mos de estOr ál$pOSfOS a ir ainda mais longe e adotar OS meios
necessários para atenuar esses sintomas."
entre os principais parses industrializados. Tal administração visa­
ria a facilitar a expansão, reduzir as taxas reais de juros e deter o Rakel Sudien
avanço do protecionismo. A longo prazo, são também necessárias Ex-ministra tÜJ Meio Ambiente. governo da Noruega
mudanças substanciais parn tomar sustentáveis os padrões de Cerimônia de abertura daCMMAD, Oslo, 24 de junho de 1985
consumo e produção num contexto de crescimento global mais
elevado.
No tocante à administração mencionada, a cooperação interna­
cional é embrionária, e no tocante ~ mudanças, é insignificante.
Na prática, e na falta de uma administração global da economia e 3.3.1.1 A.umemantib o fi""" de financlamemo
do meio ambiente, deve-se concentrar a atenção no aperfeiçoa­
mento das polfticas em áreas onde o alcance da cooperação já esrá No que tange à quantidade de recursos, 11 escassez de financia­
definido: assistência, comércio exterior,. empresas multinacionrus e mento extemo já contribuiu parn uma queda inaceitável dos pa­
transferência de tecnologia. drões de vida nos países em desenvolvimento. lá falamos da si­
tuação e das necessidades não SÓ dos países altamente endivida­
dos que dependem principalmente de fllWlciamento comercial,
3.3.1 Estimulando o num de recursos para os paises
mas também dos países de baixa renda que dependem de assistên­
em desenvolvimento
cia. Contudo, alguns países pobres ubtiveram grandes progressos
nos ó11imos anos. embora seus problemaJI ainda sejam enormes,
i.nclusive os que se ref~ à deterioração do meio ambiente. A
No cerne de nossas recomendações subre fluxos financeiros há Ásia de baixa renda ainda precisa de muita assistência; de modo
duas preocupações interligadas: uma diz respeito à quantidade e geral, oS maiores beneficiários dessa região administraram bem a
outra à "qualidade" dos fluxos de recursos parn os palses em de­ ajuda recebida, sem a qual seria muito mais dificil manter o cres­
senvolvimento. Não há como negar que são necessários mais te­ cimento que, aliado a programas voltados parn a pobreza, pode
Ctmlos. A idéia de que seria melhor os países em desenvolvimento melhorar a situação das centenas de milhões de pessoas que vi­
viverem de acordo com seus meios limitados não passa de uma vem em estado de "pobreza absoluta".
cruel ilusão. A ação isolada dos governos dos patses pobres não é Para satisfazer a essas necessidades é preciso que os principais
suficiente para reduzir a pobreza global. Ao mesmo tempo, mais doadores e as instituições que concedem empréstimos reexaminem
assistência e outras formas de financiamento, embora necessárias, suas polfticas. Os níveis de assislêncÍlI ollCiaI ao desenvolvimento
não bastam. Os projetos e os programas devem ser concebidos estagnaram em termos absolutos, e a maioria dos países doadores
com vistas ao desenvolvimento sustentável. fica muito aquém das metas combinadas internacionalmente. Os

82 83
empréstimos comen:iais e os concedidos por agências de crédito tante que o Banco leve em conta a sustentabilidade quando avalia
para exportações caíram acentuadamente. É de vital importância os empréstimos para '\iuste estrutural e outros empréstimos de
para o desenvolvimento, como parte de um esforço conjunto para apoio a políticas para setores baseadOs em recursos - em especial
inverter essas tendências, que aumentem substancialmente os re­ agricultora, pesca, silvicultura e energia - e também a projetos
cursos de que dispõem o Banco Mundial e a AID" No caso dos específicos. .
maiores devedores, também são necessários empréstimos mais Outra mudança necessária diz respeito aos programas de ajuste
elevados por parte dos bancos comen:iais. . • adotados pelos paCses em desenvolvimento. Até agora, na maioria
dos casos, o "ajuste" - especialmente sob os auspícios do FMI _
3.3.1.2 Empréstimos para o de.senvolvimento sustentdvel favoreceu a estabilização financeira em detrimento dos padrões de
vida. Em muitos planos sugeridos para lidar COm a crise da dívida
No passado, a assistência ao desenvolvimento nem sempre contri­ está implícito um reconhecimento cada vez maior de que no futu­
buiu para o desenvolvimento sustentável e às ve~ até o prejudi­ ro o ajuste deve se voltar para o crescimento. Ma.. nem 'por isso
cou. Os empréstimos para agricultura, silvicultura, pesca e ener­ pode deixar de ser sensível ao meio ambiente.
gia costumam basear-se em critérios econômicos estreitos que O FMI também concede empréstimos para ajuste estrutural,
pouco levavam em conta os efeitos sobre o meio ambiente. Por através de seu novo Programa de Ajuste Estrutural. Os países em
exemplo, as agências de desenvolvimento por vezes estimularam desenVOlvimento tomadores de empréstimos rem instado com o
mais a agricultura à base de produtos químicos do que a agricul­ Fundo para que vise mais aos objetivos do desenvolvimento mais
tura sustentável e regenerativa. Por isso é necessário que haja amplo e de longo prazo - crescimento, metas sociais e impactos
uma melhoria não SÓ quantitativa, como qualitativa. sobre o meio ambiente do que à estabilização financeira.
Uma porção maior da assistência total ao desenvolvimento de­ As agências de desenvolvimento, e particulannente o Banco
veria ser destinada aos investimentos necessários para fortalecer o Mundial, deveriam criar metodologia. de fllciJ aplicação a ínn de
meio ambiente e a produtividade dos setores de recursos. Tais es­ enriquecer suas próprias técnicas de avaliação e ajudar os países
forços incluem reflorestamento, estúuulo aos combustíveis vege­ em desenvolvimento a melhorarem seus conhecimentos sohre o
tais, proteção das bacias fluviais, conservação do solo, agrossilvi­ meio ambiente.
cultura, projetos de recuperação e irrigação, agricultura de pe­
quena escala, medidas sanitárias de baixo custo e conversão de 3.3.2 Os vfnctdos entre comércio exterior, melo ambiente
cultivos em combustível. A experiência mostrou que os esforços e desenvolvimento
mais eficazes nesse sentido são projetos pequenos que contam
com a máxima participação das comunidades rurais. Os progra­
mas que têm relação mais direta com o objetivo do desenvolvi­ No pds-guerra, ó comércio exterior passou a ser muito mais ~
mento sustentável podem ter custos locais mais elevados, um Cn­ portante para o desenvolvimento nacional da maioria <1os países.
dice mais alto de custos de capital e um uso maior da tecnologia e (Ver tabela 3.2.) Isto pode mostrar até que ponto o comén:io exte­
do faww.how locais. rior tornou as nações mais interdependentes econômica e ecologi­
Para que esses programas passem a ser adotados, seria preciso camente. Também houve acentuada mudança nas tendências do
que os doadores reexarninassem ""us programas de assistência, comércio mundial. Primeiro, o valor comen:ial dos bens manufa­
sobretudo aqueles referentes a prodütos básicos, que às vezes di­ turados aumentou a um ritmo mais acelerado que o de produtos
minuíram as possibilidades do desénvolvimento sustentável, em primários não-combustíveis. e um nllmero crescente de pafses em
vez de aumentá-Ias. (Ver capitulo 5.) desenvolvimento tomou-se grande exportador daqueles bens.
O fundamental é que as considerações referentes a sustentabi­ Hoje. o valor dos bens manufaturados é duas vezes superior ao
lidade se reflitam no trabalho das instituições financeiras interna­ das ex~ões excluiodo petról-:o dos pafses em desenvolvi­
cionais. O papel do Banco Mundiai e do FMI é especialmente mento. 7 (Ver capitulo 8.) Segundo, as economias induslriais de
crucial porque as condições em que essas instituições concedem men:ado passaram a depender mais das importações de combustí­
empréstimos servem de ponto de referência para empréstimos pa­ veis de países em desenvolvimento, que representaram 43% do
ralelos por parte de outras instituições, como bancos comen:iais e consumo em 198018 I. contra apenas 16% em 1959160 e ainda
agências de crédito para exportações. Nesse contexto, é impor­ menos nos anos anteriores à guerra. 18

84 8S
Tabela 3.2
A importância crescente do comércio exterior (exportações como
percentual do PIB ou PML) "Acho que tambim ti impo_ a ComisséIo atentar para o pr0­
blema da negociação dII contratos referentes ao dII.senvolvtmemo
dII recursos. Durame 10 OTUM, tentamos Utclutr neles cúiusulas
. Grupo ecooômico 1950 1982
relativas ao meio ambiente. Tudo o que conseguimos foi obter
Economias de mercado desenvolvidas 7,7 15,3 das investidores uma descrição geral do que deveria serfeito pa­
Economias de mercsdo em desenvolvimento 15,5 23,8 ro proteger o meio ambiente. Entrar em dlltalhes criaria proble­
PaIsa socialistas do ~te europeo 34 1 16,6 1 mas com os advogadas e assim por di.aJVe. Isto prejudica o in­
PaIsa socialistas d. Ásia 2:9 1 9,7 1 vestimemo.
Para nós, claro, há uma opção: ou ceder mais um pouco ou
F01lle: baseado em: UNCTAD, Handbook of internationaI trade an.d de­ se manter firme, e então, ti claro. não hoverd investimento I'W
veÚJpment stiltistics, 1985 supplement.NeN York, United Nations, 1985. pats. Se pudéssemos fazer um apelo às muJtinacionais. seria s0­
bretudo para que compreendessem que o que foi feito I'W caso da
I Pcmelltwm do produto·materi.alllquido (PML). madeiro tambim poderia aplicar-se a outros acordas. como os
do cqfé, estanho e outros. Acho que isto ajudaria muito.»
As economias de mercado desenvolvidas também se turnaram
mais dependentes de outras importações de minerais de palses em Depoimento de um participante, agência governamental
desenvolvimento, sendo que a participação ~sas importações no Audiência pdblica da CMMAD, Jacarta, 26 de março de 1985
consumo aumentou de 19% em 1959/60 para 30% em 1980181. 19
Hoje" os recursos não-renováveís, como combustíveis e minerais,
e também oS produtos manufaturados são muito mais importantes
que os produtos tropicais e outros produtos agrícolas no fluxo de
produtos primários dos palses em desenvolvimento para os países não o petróleo continuam a representar mals de um terço das re­
industrializados. Na verdade, o fluxo de grãos se dá no sentido ceitas de exportação do grupo. A dependência desse tipo de ex­
inverso. p<n:UIÇOOs é esoecia1mente elevada na América Latina (52%) e na
O principal vfnculo entre comércio exterior e desenvolvimento Africa (62%)::W Nos países considerados "~s desenvolvi­
sustentável é o uso de matérias-printas não-renováveis para obter dos", de acordo com o Programa especial da ONU, os prodotos
divisas. Os países em desenvolvimento se vêem ante o dilema de primários representam 73% das receitas de exportação. 21
ter de exportar produtos primários a ftm de obter divisas para o Os preços de produtos primários que não o petróleo caíram no
crescimento, e ao mesmo tempo minimizar os danos à base de re­ início dos anos 80, em termos não só reais, mas também nomi­
cursos naturais que sustenta esse crescimento. Há outros vfnculos nais. No início de 1985, o índice de preços de produtos primários
entre comércio exterior e desenvolvimento sustentável; se, por da Confenlncia das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvol­
exempln, o protecionismo cria barreiras às exportações de manu­ vimento (UNCTAD) estava 30% abaixo da média de 1980.22 Os
falUl'ados, as nações em desenvolvimento ÍlCarn com menoS espa­ baixos preços desses prodotos podem ser mais que um fen6meno
ço para diversificar sua produção e sair do âmbito limitado dos temporário. Tais preços ainda não se recuperaram da recessão
prodotos primários tradicionais. E o desenvolvimento insustentá­ mundial, apesar do maior crescimento econômico nos paises con­
vel pode advir não só do uso excessivo de certos produtos primá­ sumidores. A. razões para isto podem ser em parte tecnológicas
rios, mas também de produtos manufaturados potencialmente p0­ (urna substituição mais acelerada das malérias-prirnas), em parte
luentes. monetárias, devido aos altos custos de manter estoques de pro­
dutos primários, e em parte resultantes do aumento da oferta de
3.3.2.1 Comércio Internacional dII produtos primdrl.os países que buscam desesperadamente conseguir divisas.
Tais páíses estão voltando contra si mesmos os termos de c0­
Um número crescente de países em desenvolvimento passou tam­ mércio, sanbando menos por exportarem mais. O aumento do
bém a exportar manufalUl'ados, mas os produtos primários que volume das exportações de produtos primários já levou por vezes
ao uso excessivo e insustentável da base de recursos naturais. Os
86
87
.casos particulares até podem não se ajustar inteiramente a essa As negociações dos acordos de produtos primários não foram
generalização, mas já se afumou que isso aconteceu no tocante à fáceis, e a regulamentação do comércio desses produtos tem dado
pecuária de corta, à pesca tanto em zonas costeiras COmo em margem a notórias controvérsias. Os acordos que hoje existem
águas profunda.._ à indústria florestal e a detenrunados cultivos poderiam ser melhorados sob dois aspectos cruciais:
comerciais. Além disso, os preços das exportações de produtos • Somas mais altas para financiamento compensatório, a fim de
primários não refletem plenamente o custo ecológico que repre­ atenuar os choques econômicos como faz o Serviço de Finan·
sentam para a base de recursos. Assim, de certa funna, os países ciamento Compensatório do FMI -, estimulariam os produtores a
pobres em desenvolvimento estão subsidiaado os mais ricos que adotarem uma perspectiva de longo prazo, em vez de partirem pa­
importam seus produtos. ra uma supetprodução de bens primários que beire os limites da
O que ocorreu éom o petróleo foi decerto diferente do que sustentabilidade ambiental em períodos de saturação do mercado.
ocorreu com a maioria dos demais produtos primários. (Ver capí­ • Maior assistência a programas de diversificação, caso os pro­
tulo 7.) O caso do petróleo é um exemplo de corno os produtores dutores precisem mudar seus métodos tradicionais de monocultura
entraram em acordo para reduzir a produção e elevar os preços, e buscar a diversificação. Uma parte do Fuado Comum ~eria
conseguindo ...sim aumentar bastante ... receitas de exportação e ser usada para a regeneração e a conservação dos recursos.
ao mesmo tempo conservar a base de recursos, além de estimular Todos os govemos poderiam usar melhor os recursos renová·
a economia e a substituição de energia em grande escala. Fatos veis, como a floresta e a pesca, a Íun de ...segurar que os índices
receuIes indicam que a regulamentação do mercado por iniciativa de exploração uIin ultrapassem os limites da produtividade sus­
dos produtores é muito difícil a longo prazo, quer atenda ou não ... ntável e que haja dinheiro disponível para regenerar os recursos
a interesses mais amplos e globais; de qualquer fonna, não há e lidar com os efeitos sobre o meio ambiente. No caso de recursos
condições para que os exportadores de outros produtos primários não-renováveís, como minerais, os governos deveriam garantir
ajam da mesma maneira. Qualquer acordo que inclua medidas pa­ que:
ra aumentar ... receitas de exportação dos produtores, bem corno • os arrendatários empreendam a exploração visaado a acrescen­
para manter a base de recursos, necessitaria do apoio tanto de tar às reservas já existentes uma quantidade pelo menos igual à
consumidores quanto de produtores. extraída;
Nos I1ltimos anos, os exportadores de produtos primários do • o coeficiente produção/reserva existente pennaneça abaixo de
Terceiro Muado tentaram aumentar su... receitas encarregando-se um limite previamente fIxado;
do primeiro estágio de beneficiamento das matéri ....primas. Esse • os fundos provenientes de royaIties sejam usados de modo a
primeiro estágio costuma envolver subsídios à energia, outras compensar o declínio das renda.. quando fur esgotada a fonte de
concessões e altos custos em tennos de poluição. Mas freqüente­ recursos;
mente esses países percebem que esse primeiro estágio de benefi­ • os arrendatários se responsabilizem pela recuperação d ... terras
ciamento, com uso intensivo de capital e de energia, não produz e por outras medidas de controle ambiental na área aíetada pela
ganhos muito elevados, já que a diferença de preços tende a favo­ mineração.
recer os produtos em fase mais adiantada de benefkiamento, os As organizações internacionais importantes, corno as várias
quais, em sua maioria, continuam a ser manufaturados principal­ agências da ONU, o Banco Mundial e grupos regionais, devem
mente nos países industrializados. Tal tendência é reforfada pela continuar buscaado novas fonna.. de incluir esses princípios nos
escalada das tarifas nas economias industriais de mercado. contratos e diretrizes a serem adotados.
A principal reação internacional aos problemas com os produ­
tos primários foi a criação de acordos intemacionais sobre esses 3.3.2.2 Protecionismo e comécio inte1TlOCional
produtos, a fun de estabilizar e aumentar as receitas que os países :[
em desenvolvimento obtêm cOm a exportação desses produtos. O aumento do protecionismo nos países industrializados cons­
Mas o progresso foi muito limitado, e houve mesmo alguns reve­ trange O crescimento das exportações e impede sua diversificação. I
ses. Além do mais, a preocupação COm os recursos do meio amo Alguns países em desenvolvimento do Extremo Oriente consegui­
biente não foi incluída nos acordos sobre produtos primários, sal­ ram aumentar suas exportações de produtos manufaturados com
vo no caso do Acordo Internacional sobre Madeiras Tropicais, elevado coeficiente de mão-de-obra, o que atesta o potencial des­
que constitui uma exceção notável. 23 se tipo de com6rcio. Contudo, outros palses - sobretudo as na­

88 89
produtos manufaturados; mas também há casos - como o do açú­
80l< 3.:11 Açúcar e desen""'vimento sustentável car - em que os países industrializados adotam restrições ao co­
mércio de produlns agrícolas, causando danos tanto ecológicos
A sobrevivência de 30 milhóes de pobres do Terceiro Mun­ como econômicos. (Ver box 3,2,)
do depende da cana-de-açúcar, Muilns países em desenvol­
vimento têm vantagem comparativa real na produção e p0­ 3.3.2,3 Produtos "poluição-i1ll4'mivos"
dem obter valiosas divisas se expandirem a produção. Al­
guns Estados pequenos - Fiji, Maurício e várias ilhas do O processamento de algumas matérias-ptimas - como polpa e pa­
Caribe - dependem da, exportações de açúcar para sua s0­
peI, petróleo e alumina - pode ter sérios efeil<JS colaterais sobre o
brevivência econômica.
O. países industrializados estimularam e protegeram meio ambiente. De modo geral, os países industrializados tiveram
muito a produção do açúcar de beterraba, que compete com maís êxiln que os em desenvolvimenln em conseguir que os pre­
o de cana e teve efeitos bastante danosos para os países em ços dos produlns de exportação reflitam os cuslos dos danos ao
desenvolvimenln. A produção de açúcar de beterraba, de meio ambiente e do controle desses danos. Assim, no caso das
cusln elevado e sob protecionismo. estimula o uso de ado­ exportações de países industrializados, iais custos são pagos pelos
çantes artificiais; as cotas excluíram as importações do Ter­ consumidores das nações importadoras, inclusive as do Terceiro
ceiro Mundo (salvo no caso de algumas importações garan­ Mundo, Mas no caso das exportações dos países em desenvolvi­
tidas pelo Protocolo do Açúcar da Comunidade Econômica mento, esses custos continuam recaindo inteíramente sobre eles
Européia); e os excedentes são despejados nos mercados mesmos, quase sempre sob a forma da danos 11 saúde humana, 11
mundiais, o que faz os preços cal'rem,
No Relat6rio sobre o desenvolvimento l1I/.t1Idial 1986, o propriedade e aos ecossistemas.
Banco Mundial estimava que as políticas açucareiras causa­ Em 1980, as indústrias de países em desenvolvimenl<! que ex­
ram aos países em desenvolvimenln uma perda de receitas portavam para membros da Otganização para a Cooperação e o
da ordem de US$7,4 bilhões em 1983, reduziram sua renda Desenvolvimento EconÔmico (OCDE) teriam incorrido em gastos
real em cerca de US$2,1 bilhões e aumentaram em cerca de de US$S,5 bilhões com o controle direln da poluição, caso tives­
25% a instabilidade dos preços, sem que obedecer aos padrões ambientais então adotados pelos
Mas além do empobrecimenln que essas práticas acarre­ EUA, segundo estudo realizado para esta Comissão,25 Se fossem
tam nos países em desenvolvimento, o estimulo à produção também computados os gastos com controle da poluição ligados
de ,açúcar de beterraba nos países industrializados teve às matérias-primas que entram na composição do produto final, os
efeiros colaterais adversos para a ecologia. O cultivo mo­
derno de beterraba é altamente capital-intensivo, depende cusros teriam chegado a US$14,2 bilhões. Os faros também indi­
muJro de herbicidas químicos e as plantações têm pouca ca­ cam que as importações feitas pela OCDE a países em desenvol­
pacidade de regeneração. O mesmo produro poderia ser cul­ vimenln incluem produtos que causam em média maís danos ao
tivado em países em desenvolvimento a custo mais baixo, meio ambiente e aos recursos do que o total das importações da
como é o caso da cana, usando-se mais mão-de-obra e me­ OCDE.26 Estes custos hipotéticos de controle da poluição prova­
nos aditivos qulínicos. velmente subestimam os cuslns reais de danos causados ao meio
ambiente e aos recursos nos países exportadores, Além disso, tais
CUSIns só se referem à poluição do meio ambiente, e não aos da­
nos econômicos decorrentes do esgotamento de recursos,
ÇÕ<:s asiáticas e latino-americanas de baixa renda - ao tentarem O fato de esses custos permanecerem ocolln. significa que os
seguir o mesmo caminho, viram-se muiro prejudicadas por barrei­ países em desenvolvimenro podem atrair maís investimenlns para
ras alfandegárias cada vez maíores, sobrerodo na área de têxteis e a exportação de produlns manufaturados do que no caso de haver
vestuário, Se os países em desenvolvimenln quiserem conciliar a wn sistema maís rigoroso de controle do meio ambiente mundiai.
necessidade de um crescimenln rápido das exportações com a ne­ Muilns planejadores do Terceiro Mundo consideram O fato bené­
cessidade de conservar a base de recursos, é imperativo que suas Hoo, pois dá aos países em desenvolvimento uma vantagem com­
exportações nlo-tradicionais tenham acesso aOS mercados dos parativa em produl<JS "poluição-intensivos" que deve ser explo­
países industrializados, onde desfrutam de vantagem comparativa. rada. Consideram também que, se cobrassem mais pelos cusro.
Em muilns casos, os problemas do protecionismo estão ligados a luis. a posição competitiva de seus países ficaria prejudicada
90 91
em alguns mercados; por isso, encaram qualquer pressão nesse
sentido como uma fonna de prorecionismo disfarçado dos produ­
tores já estabelecidos. Mas é do interesse a longo prazo dos pro..
prios países em desenvolvimento qne uma psrte maior dos custos
de produção relativos" meio ambiente e recursos se reflita nos
Dax .3.3 O papel das emp"""", transuaciooals

,

• Em 1983, os produtos químicos .representaram aproxima­
damente um quarto do investimentb externo direto feito na
-I
preços. Essas mudanças devem partir dos próprios países em de­ atividade manufatureira dos países em desenvolvimento por ,
senvolvimento. companhias de quatro principais pa1ses - Japão (23%), EUA
(23%). Reino Unido (27%) e República Federal da Alema­
3.3.2.4 Osfdruns de comircio multilateral nha (14%).
• A agricultura, a ~ração e outras indtlstrias extrativas

Alguns projetos de pesquisa da UNCTAO levaram em conta os representaram 38% do investimento dos EUA nos pa1ses em

desenvolvimento em 1983. 23% do investimento do Japão

vfnctllos entre comén.:::io exterior e meio ambiente, mas tais ques­ em 1983, 21 % do investimento total da República Federal

tões não foram consideradas de modo sistemático pelas organiza­ da Alemanha em 1981-83 e 9% do investimento do Reino

ções intergovernamentais. Os mandatos dessas organizações ­ Unido em 1978.

principalmente o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (Gal!) e • De 80 a 90% do comércio ,de chá, café, cacau, algodão,

a UNCTAO deveriam incluir o desenvolvimento sustentável. produtos florestais, tabaco, juta, cobre, minério de ferro e

Suas atividedes deveriam mostrar preocupação com os impactos bauxita sâo controlados, no caso de cada produto, por DO

do comércio sobre o meio amtiiente e com a necessidade de ins­ mínimo três e no máximo seis das maiores multioacionais.

trumentos mais eficazes para inco1JlOrar aos acordos comerciais
Fonre: UN Centre on Transnational Corporalions. EnVÍTonmental
internacionais as questões ligadas ao meio ambiente e ao desen­ aspects Df the activiU'es Df tranmational corporaticns; a survey. New
volvimento. Yort, Uníred Nations, 1985.
As organizações internacionais que lidam com comércio terão
mais facilidede para reformular suas atividades se cada nação
criar um órgão incumbido de avaliar os efeitos do comércio inter­
nacioual sobre a conservação da base de recursos do crescimento
econÔmico. Esse órgão poderia encarregar-se de levantar questões de recnologia nos setores de mineração e manufaturados de mui­
relativas à sustentabilidade no âmbito de ação do UNCTAD, do tos países em desenvolvi)nento, sobretudo em áreas ecologica­
Galt, da OCDE, do Conselho de Assistência EconÔmica Mtltua e mente sensfveis. como petróleo, produtos químicos, metais, papel
de outras organizações importantes. e automóveis. Também dorrúoam o comércio mundial de vllrios
produtos primários.
3.3.3 Garantindo a responsabilidade no investlme.nto Nos dltimos anos, muitos países em desenvolvimento começa­
transnaclonal ram a encarar de modo mais positivo o papel que os investimentos
das traosnacionais podem ter em seu processo de desenvolvi­
As atividades de investimento externo das companhias de ecooo­ mento. Para tanto intlufram a necessidade de divisas por parte
lIÚas de mercado aumentaram muito nos tlltimos 40 aDOS. (Ver desses pafses e a consciência de que o investimento estrangeiro
box 3.3.) Atualmente, as filiais no estrangeiro são responsáveis pode ajudar a obtê-las. 11 possível haver uma cooperação efetiva
por 40% das vendas, 33% dos ativos líquidos e 56% dos ganhos com as Err, contanto que todas as partes estejam em igualdede de
líquidos de 380 das maiores empresas industriais das econolIÚas condições, o que pode ser conseguido pela rigorosa observância
de mercado, segundo dados levantados pelo Centro das Nações do princípio de soberania do país hospedeiro. Por sua vez, muitas
Unidas para as Empresas Transnacionais. 27 Uma proporção ele­ empresas reconheceram a necessidede de partilhar seu knuw-how
vada do investimento traosnacional é realizada em economias in­ administrativo e recnológico com os habitantes do país hospedeiro
dustriais de mercado, o que é mais um aspecto da crescente inte­ e de visar a objetivos lucrarivos num contexto de desenvolvi­
gração dessas economias. mento sustentável a longo prazo.
As empresas traosnaciouals (Err) desempenham importante pa­ . Mas ainda existem suspeitas mtltuas, quase sempre devidas à
pel como proprietárias, paroeinas em joint ventures e fornecedoras desigualdade entre o poder de barganha das grandes empresas e o

92 93
dos países em desenvolvimento, pequenos e pobres. MuitaS vezes envolvidas têm de reconhecer e aceitar certas responsabilidades
as negociações se tomam unilaterrus devido à falta de informação, especiais . ..(Ver capítulo 8.)
ao despreparo técnico e à fragilidade. polltica e institucional do
país em desenvolvimento. Continua haV6ndo suspeitas e diver­ 3.3.4 AmPliando a base tecnológica
gências, sobretudo no tocante à introdução de novas tecnologias,
ao desenvolvimento dos recursos naturais e ao uso do meio am­
biente. Para que as multinacíonaís tenham um papel mais impor­
• Tomar os recursos mais produtivos é tarefa que compete em
grande parte à política econômica interoa. Mas a economia inter­
tante no desenvolvimento é preciso que tais conflitos e suspeitas nacional afeta de vária.. formas as possibilidades de aumentar a
diminuam. produtividade, sobretudo no que tange à transferência de tecnolo­
Portanto, é fundamental fortalecer o poder de barganha e a p0­ 1 gia de um país para outro.
sição dos países em desenvolvimento em face das empresas mui­
tinacíonais. Se as nações não tiverem capacidade própria ·para li­ 3,3.4.1 A difusão de tecnologias ecologicamente viáveis
dar com as grandes empresas multinocionais, dewm ser assistidas
por agências regionais e outras instituições internacionais. Como Para promover o desenvolvimento sustentável é preciso um esfor­
já dissemos, a ajuda atoal pode ser intensificada mediante· acor­ ço organizado no sentido de criar e difundir tecnologias novas,
dos-modelo com essas empresas, os quais se apliquem às diV6rsas como as que são empregadas na produção agrícola, nos sistemas
situações, como os acordos de conCessão para a e'lploração de re­ renováveis de energia e no controle da poluiç.ão. Grande parte
cursos miuerais. Também poderiam ser criadas equipes de assis­ desse esforço deverá basear-se no intercâmbio internacional de
tência lécnica e de aconselhamento quando um país está em nego­ tecnologia: mediante o comércio de equipamento mais moderno,
ciações com uma empresa transnacional. acordos de transferência de tecnologia, fornecimento de especia­
As transnacionais podem ter grande impacto sobre o meio am-· listas, colaboração em pesquisas etc. Portanto, os procedimentos e
biente e os recursos de outros pafses, e também sobre as áreas as políticas que influenciam esse intercâmbio devem estimular
comuns a lodos. O país-sede e os países hospedeiros das ET divi­ a inovação e garantir o acesso imediato e irrestrito a tecnologias
dem responsabilidades e devem trabalhar juntos para fortalecer as ecologicamente víáveis.
polfticas nesse âmbito. Por exemplo, os países hospedeiros deve­ O verdadeiro desafio consiste em assegurar que essas novas
riam ser informados sobre as políticas e os padrões adotados pelas tecnologias cheguem a todos os que precisam dela.., superando
multinacionais quando inV6stem em seu país-sede, sobretudo no problemas como a falta de informação e, em certos casos, a im­
que se refere a tecnologias de risco. Seria de todo conveniente possibilidade de pagar por tecnologias desenvolvidas comercial­
aplicar as polfticas já vigentes em alguns países industrializados ­ mente. Na Parte II deste relatório examinamos as medidas neces­
de submeter previ3j1Jente os principais inV6stimentos a uma ava­ sárias. no plano nacional, para lidar com esses problemas. Mas
liação ambiental - aos investimentos feitos em outros países. essas duas questões também surgem na difusão internacional da
Além disso, tais políticas deveriam incluir critérios relativos à. tecnologia.
sustentabilidade. As informações e as recomendações daí resul­ Em 1980, os países em desenvolvimento pagaram cerca de
tantes deveriam ser partilhadas com os países hospedeiros, aoS US$2 bilhões, sob forma de roya1tú!s e comissões, principalmente
quais, evidentemente, caberia a responsabilidade fmal. aos países industrializados,28 A insuficiência de conhecimentos
Apesar de a s medidas internacionais em relação às empresas científicos e tecnol6gicos é especialmente acentuada em áreas que
transnacionais serem tão importantes, elas geralmente não existem interessam diretamente aos objetivos do desenvolvimento susten­
e sua negociação tem sido extremamente difícil. As normas de tável, inclusive biotecnologia e engenharia genética, novas fontes
conduta das empresas tranSnacionais formuladas pela OCOE e ora de energia. novas matérias-primas e substitutos, e tecnologias pa­
em discussão na ONU deveriam lidar explicitamente com ques­ ra diminuir os rejeitos e a poluição.
tões relativas ao meio ambiente e à meta do desenvolvimento No que tange ao impacto dos pagamentos, a principal questão
sustentáveL Já outros problemas requerem instrumentos mais de­ das políticas é O impacto de patentes e direitos de propriedade.
talhados e específICOS. Quando se introduz uma tecnologia, uma Em 1980, as economias industriais de mercado foram responsá­
fábrica, um produto ou um processo novos, ou quando se parte veis por 65% do total mundial de patentes concedidas, e os países
para uma joinl veraure num país em desenvolvimento, as partes sociaIistSs do Leste europeu por 29%.29 Os países em desenvol­

94 93
infonnac;:ões valiosas e variedades genéticas vitais, e os países em
"A transfer~l'I!Cia de tecrwiagia também deve ser considerada um desenvolvimento estarão sempre em desvantagem no que tange à
processo social. Na veráork, o ideal seria as pr6prias pessoas adaptação de novas biotecnologias às suas próprias necessidades.
fazerem a sekçdo, e não nós. Em _ . acho que ao falar sobre Por isso 05 países em desenvolvimento precisam agir, isolada­
tecnologia, tnlvez seja multo importante compreender que esta­ mente e em conjunto, para criar sua capacidade tecnológica. A
rnes lidando com um processo de mudança. As qwno/Qgias só criação e ampliação de uma infra-estrutura para pesquisa e tec­
podem ser diretainente transferitlas se estiverem ligadas a um nologia é requisito indispensável para essa cooperação. O. países
processo social. EntõcJ. na veráork a tecno/Qgia não t! uma va­ envolvidos poderão repartir o ônus fonnulando projetos de pes­
riável independente nesse caso, pois depende multo da rnudan!;'a
,_-!_t ., . quisa em colaboração, ~gondo as diretrizes dos Centros Interna­
S"""". cionais de Pesquisa Agrícola. 30 Poderiam ser empreendidas ativi­
M. Nashihin Huan dades de pesquisa em colaboração em áreas como agricultura em
Depoimento de um participante terras áridas, silvicultura tropical, controle de poluição em peque­
Audiência ptlblica d. CMMAD, )a"art., 26 de llllIIÇo de 1985 nas empresas e habitação de baixo custo. As instituições e empre­
sas dos países participantes teriam responsabilidades específicas,
e estariam previstas no acordo a partilha eqüitativa e a ampla di­
fusão das tecnologias desenvolvidas.
vimento foram responsáveis por apenas 6% dessas patentes; e a
maioria delas foi coneedida a não-residentes. Os direitos de pr0­ 3.4 UMA ECONOMIA MUNDIAL SUSTENTÁVEL
priedade são um elemento-chave para o desenvolvimento comer­
cial de tecnologia. Mas sua aplicação em certas áreas pode difi­ Para evilar catástrofes econômicas, sociais e ambientais em gran_
cullar a difusão· de tecnologias ecologicamente viáveis e aumenlar de parte do mundo em desenvolvimento, é essencial revitaJizar o
as desigualdades. crescimento econômico globai. Em tennos práticos, isto significa
Antigamente, a pesquisa custeada com recursos pdblicos for­ um crescimento econômico mais rápido tanto nos países em de­
necia tecnologia nova a pequenos produtores, sobretudo agricul­ senvolvimento como nos industrializados. maior liberdade de
tores. de modo gratuito ou subsidiado. Hoje, a situação não é acesso ao mercado para os produtos dos países em desenvolvi­
muito diferente, e em certas áreas, como por exemplo a de novas mento, taxas de juros mais baixas, mais transferência de tecnolo­
variedades de sementes, há motivos para crer que os direitos de gia. e fluxos de capital muito maiores, tanto em termos conces­
propriedade venham a dificullar em muito a aquisição de novas sionários COmo comerciais.
tecnologias por parte dos países em desenvolvimento. A coopera­ Muitos temem, porém, que uma economia mundial em rápido
ção internacional é indispensável para manter O fluxo de material crescimento venha a causar pressões ambientais lão insustentáveis
genético e assegurar uma partilha eqíiitativa dos ganhos. quanto as criadas pela pobreza crescente. A demanda cada vez
maior de energia e outras matérias-primas não-renováveis pode
3.3.4.2 Criandc capacióLzde tecnol6glca em pafses em determinar um considerável aumenlo no preço desses itens em
desenvolvimento relação a outros bens.
A avaliação global desta Comissão é que a economis interna­
No momento, a maioria das pesquisas e dos esforços desenvolvi­ cional deve acelerar o crescimento mundial, respeitando porém as
mentistas do mundo está voltada para objetivos militares ou para limitações ecológicas. Já se notam algumas tendências favoráveis
os objetivos comerciais das grandes empresas, sendo que uma no consumo" na produção dos paises industrializados, que cole­
parte muito pequena tem importância direta para as condições dos tivamente ainda· consOmem a maior parte dos recursos não-reno­
países em desenvolvimento. Em muitas áreas, está diminuindo váveis do mundo.
a insuficiência de cap<ocidade tecnológica, mas esses esforços A continuar assim, será mais fácil para os países em desenvol­
precisam contar com assistência internacional, sobretudo em vimemo crescerem mediante a diversificação de suas próprias
áreas-chave como biotecnologia. A menos que se faça algo para economias. Mas para que deixem de ser dependente., não basta
acumular conhecimento biológico, ficadio perdidas para sempre uma aceleração do crescimenlo econômico global. Isso significa­

96
97
ria apenas a perpetuação dos' padrões econÔmicos j~ existentes, Notas
ainda que talvez com níveis de renda mais elevados. E preciso ga­
rantir que as ecoDOl1Úas dos países em desenvolvimento cresçam a 1 Department of Intemational Economic and Social Affairs (Diesa). Dou­
um ritmo que lhes pennita superar seus crescentes problemas in­ h/ing túvelopmelll fino.na: meeling a global challenge, views and """'m­
temos e dar a primeira arrancada para adquirir impUlso. O cres­ mendalions of the Commit~ on Developmenl Planning. New Yo!k.
United NatioDS, 1986.
cimento econômico continuado e a diversificaçã/;>, juntamente 2 Ibid.
com o desenvolvimento da capacidade tecnológica e administrati­ 3 worid Bank. FlnD1ICing adjustmelll wilh growth in Sub-Salraran Africa.
va, ajudarão os países em desenvolvimento a aliviarem as pres­ Washington, D.C., 1986.
sões sobre o meio ambiente rural. aumentarem os nrveis de pr0­ 4 Intemational Monetary Fund. World Economi<: Outlook. 001. 1986.
dutividade e consumo, e deixarem de depender de um ou dois 5 United NatioDS. World eco1WmÍc SUlVey 1986. New Yo!k, 1986.
produtos primários para obter receitas de exportação. 6 World Hank, op. cito
71bid.
É preciso que os futuros padrões de desenvolvimento agrfcola 8 United Nations, General Assembly. The critical economic situation in
e florestal, de consumo energético, de industrialização e de as­ Africa: reporl of the Secretary General. AlS-13/z. New York, 20 May
sentamentos humanos sejam menos material-intensivos (ver capí­ 1986.
tulos 5, 7, 8 e 9) e portanto mais eficientes tanto do ponto de 9 Organizatinn of African Unity Assembly of HeM. of State of Gover­
vista econÔmico quanto ecológico. Atendidas essas condições, nment. Africd$ priorlty programme oi actkm 1986-1991. Addis Abeba,
uma nova era de crescimento na economia mundial poderá am­ 1985.
pliar as opções de que dispõem os países em desenvolvimento. 10 United Nations, General Assembly. United NalWns programme 01 ac­
Ii<m for Africon economi<: recovery anil dew!lopmelll. New York. 1986.
São agora necessárias reformas de âmbito internacional para se 11 World Bank, op. oil.
lidar ao mesmo tempo com os aspectos econômicos e ecológicos, 12 Bank for lnternational Settlementa.lntematÚillal banking andfino.ru:ia/
de tal sorte que a economia mundial possa estimular o cresci­ 1II4Tket dew!lopments. Hasel, 1986.
mento dos países em desenvolvimento e dar maior peso às ques­ 13 Inler-American Development Bank. Economic and social progr... in
tões ambientais. Isto requer um sério compromisso por parte de Latin America. Washington, D.C .• 1986.
todos os países no sentido de viabilizar o trabalho de instituições 14 Dados nlio-publicados da Comissão Econômica das Nações Unidas para
multilaterais, como os bancos de desenvolvimento multilateral; a América Latina.
criar e fazer cumprir regulamentações internacionais em áreas 151bid.
como comércio exterior e investimento; estabelecer um diálogo 16 Ver, por exemplo: United Nations, General Assemb1y. Programme of
construtivo sobre muitas questões nas quais não há cuincidência action on a new international economic arder. Resolution 3202 (S- VI).
I May 1974.
de interesses nacionais, mas que podem ser resolvidas por meio 17 Ver: Gatt.lnternationo./ trade 1985-86. Geneva, 1986.
de negociação. 18 UNCTAD. Hanálx>ok oi l1IIernationa/ trade anil túv.lopment MittistiC$
Assim, a comissão lamenta, mas não pode deixar de assinalar o 1977 anil 1985 supplernents. New York. United NatioDS, 1977 e 1985.
recente declfnio da cooperação multilateral em geral e a atitude 19Ibid.
negativa em relação ao diálogo, sobretudo no tocante ao desen­ 20 UNCTAD.SuJlisticalpocketbook. NewYorlc, United Nations, 1984.
volvimento. À primeira vista, o fato de serem introduzidas ques­ 211bid.
22 UNCTAD. Trade and túvelopmelll r.port. New York. United Nation.,
tões relativas ao meio ambiente complica ainda mais a busca des­
1986.
sa cooperação e desse diálogo. Mas também acrescenta um novo
23 Alister Maclntyre. UNCTAD, depoimento na audiência pública da
elemento de interesse mútuo, pois a incapacidade para lidar. com a CMMAD. em Oslo, em 1985.
interação do esgotamento de recursos e o aumento da pobreza 24 O Fundo Comum é um acordo internacional para a estabilização dos
acabará por acelerar a deterioração ecológica global. preços de um grupo de mercadorias que interessam parliculannente aos
Novas dimensões de multilateralismo são essenciais ao pr0­ países em desenvolvimento. A "Segunda Janela" do Fundo provê recursos
gresso humano. A Comissão confia que os mútuos interesses en­ para atividades promocionais e de pesquisa.
volvidos nas questões relativas a meio ambiente e desenvolvi­ 25 Walre.:, I & Loudon, I.H. Environmental co.ta and lhe patterns of
mento possam contribuir para criar e manter o i.mpulso necessário North-South trnde. 1986. (Elaborado para a CMMAD.)
às mudanças econômicas internacionais. 261bid..

98 99
27 UN Centre on Transnational Corporations. TransnarioMl corporations
in world tkvelopment third _)I. New York. United Nations. 1983.
281bid.
29 CommonWcaJIh Worldng Group. Tecltn%g/cal clrange. London.
Comroonwc.allh Secrelariat. 1985.

30 Referimo-nos as atividades dos institutos internacionais que atuam sob

a proteçto do Grupo Consultivo sobre P""'lUÍ8a AgrfroIa Internacional, do
Banco Mundial. Parten

DESAFIOS COMUNS

I

100
J~~' - _ .......-J>,
li

4. POP.ULAÇÃO E RECURSOS HUMANOS

Em 1985. cerca de 80 milhões de pessoas vieram somar-se a uma
população mundial de 4,8 bilhões. A cada ano, aumenta o mhnero
de seres humanos, mas permanece finita a quantidade de recursos
naturaís destinados ao SUSlento dessa população, à melhoria da
qualidade da vida humana e à eliminação da pobreza generaliza­
da. Por outro lado, a expansão dos conhecimelltos faz aumentar a
produtividade dos recursos.
As atuais taxas de aumento populacional não podem continuar.
lá estilo comprometendo a capacidade de muitos governos de for­
necer educação, serviços médicos e segurança alimentar às pes.­
soas, e. até sua capacidade de elevar os padrões de vida. Esta de­
fasagem entre número de pessoas e recursos é ainda miús pre­
mente porque grande parte do aumento populacional se concel)ira
em países de baixa renda, em regiões desfavorecidas do ponto de
vista ecológico e em áreas de pobreza.
Mas a questão populaçlo não se limita aO número de pessoas.
Pode haver pobreza e degradação de recursos em áreas muito
pouco povoadas, como as terras áridas e as florestas tropicais. As
pessoas silo o recurso fundamental. Mediante melhorias'na educa­
ção. no saneamento e na nutrição, elas poderiam usar melho~ os
recursos de que dispõem e fazê-los durar mais. Ah!m disso. as
ameaças ao uso sustentável dos recursos advêm tanto das desi­
gualdades de acesso aos recursos e dos modos pelos quais são
usados, quanto do número de pessoas. Assim, a preocupação com
O "problema populacional" desperta também a preocupação com
o progresso humano e a igualdade humana.
As taxas de aumento populacional não são um desafio apenas
para as nações que apresentam altas taxas de aumento. Uma pes­
soa a mais num pafs industrializado consome muito mais e exerce
pressão muito maior sobre os recursos naturais do que uma pessoa
a mais no Terceiro Mundo. Para a conservação dos recursos, os
padrõel; e as preferências de consumo são tão importantes quanto
o número de consumidores.
Assim, muitos govemos têm de lutar em VlIrias frentes - conter
o aumento populacional; controlar os efeitos desse aumento sobre
os recursos e, dispondo de miús conhecimentos, ampliar os limites
desses recursos e aumentar sua produtividade; possibilitar a reali'
zação do potencial humano, para que as pessoas possam ceono­

103
'núzar e usar melhor os recursos; e propon;ionar às pessoas outras
.fonnas de segurança social que nlio um grande nlimero de fllhos. "A partir <k 1970 tm'7fOU-.!Ie moda tllSIlIbefectttr distinç4D _
O. meios de atingir esses objetivos variarão de país para país, popu/açt!Jo e meio ambienle como ..., se tmIosstll <k dlIas dreas em
mas todos devem ter em mente que o crescimenlo econônúco crise, mtJ$ .,.,..,freqiibrcia _ es:quecemo.r <k que apopuk.tçlJo ti
sustentável e o aceSSO eqüitativo aos recursos são duas das formas na verdade parte inUgranU do meio QIIfbie_ e, porfalUQ. quan­
mais seguras de se chegar a taxas de fecundidade mais bail\llS. do _ referimos a popuiaç{Io, e_ _ referindo nilD s6 <lOS
Dar às pessoas os meios para que escolham o tamanho de suas meias ambitmles júfco, bloldgico tllqu6nico, mtJ$ tamblnl aos
famflias nlo é apenas um método para manter o 'equilíbrio entre meio ambiente sdcio-culturDlou s6ci0-econlJnJico _ quais uses
populaçlo e recursos; é um modo de garantir - sobrelodo às mu­ progromas <k <ksenvolvimenJD estiJo $tiIndo impianIados. E faz
lheres - o direito humano básico da aulodetenninação. A quanti­ nwito mais .!Iendtlo jaiar <k popuI.aç4o <kntro <k um COfWXI<>."
dade de meioS disponíveis para o exercício dessa escolha mede o
Dr.l.0. Oucbo
desenvolvimento de lima naçio. Da mesma forma, o incremenlo lnmilulo ik &tudDa li! Pesqutsas PopIIlacÍOllaÚ
do potencial humano não só promove o desen'lOlvimenlo COmo Audiência pdbIlca da CMMAD, Nairóbi, 23 de seII:Imbro de 1986
também ajuda a assegurar o díreilo de todos a uma vida plena e
digna.
f

, A própria possibilidade de desenvolvimenlo pode ser c0mpro­
4.1. OS vfNCULOS COM O MEIO AMBIENTE E metida por altas taxas de aumenlo populacional. Al~ disso. a
O DESENVOLVIMENTO maioria dos países em desenvolvimenlo nllo dispõe de recursos
para esperar algumas gerações até que a popuIaçlo se estabilize.
A opçIo de migrar para novas terras praticamente já RIo eltÍSle. E
O aumenlo populacional e o desen'lOlvimenlo têm vinculos com­ os baíltos níveis de desen'lOlvimenlo econômico e social conjuga­
pleltOs. O desenvolvimenlo econ6mico gera recursos que podem dos a uma relação mutável entre colIllércio e produção limitam as
ser usados na melhoria da educação e da salide. Tais melhorias, possibilidades de usar o comércin interD!1CÍonal para aumentar o
juntamente com as mudanças sociais a elas ligadas, reduzem tanlo acesso aos recursos. Desta forma, se RIo houver medidas delibe­
as tal\llS de fecundidade como as de mortalidade. Já as altas taxas radas, o desequillbrio entre aumenlo populacional e desen'lOlvi­
de aunlento populacional que corroem os excedentes disponíveis mento de recursos se agravará.
para o desen'lOlvímenlo econômico e social podem impedir me­ A presslo popuIac:ional jiS está forçando os agricullores tradi­
lhorias na educação e na sallde. cionais a trabalharem mais, quase sempm em fazendas cada vez
No passado, por meio da inlli?nsificação da agricultura e do
áumenlo da produtividade, as naçôes puderam enfrentar as cres­
menores situadas em terras rna:rginaís. apenas para manter a renda
familiar. Na África e na Ásia, a popuIaçlo rural praticamente d0­
centes pressões populacionais sobm a terra disponível. A migra­ brou entre 1950 e 1985, com um correspondente declínio na di&­
ção e o comércio internacional de alimentos e combustíveis ali­ pouibiJidade de terra. 1 O dpido aumenlo populacional também
viavam a pressão sobre os recursos locais, pennitindo manter as cria problemas urbanos de cunho econ6mico e social. q .... amea­
altas densidades populacionais de alguns países industriaIizndos. çam Iomar as cidades impossíveis de administrar. (Ver capftuIo
A situaçlo é di.femnte na maioria do mundo em desen'lOlvi­ 9.)
mento, onde as melhorias obtidas na medicina e na salide pdhlica Serão oecessllrios maiores investimentos apenas para manter os
fizeram as tal\llS de mortalidade cai:n::m acentuadamente e as tal\llS aIoais níveis, já insatisfatórios. de acesso a educação, assist!ncia
de aumenlo populacional atingirem níveis sem precedentes. Mas m6dica e outros serviços. Em muitos casos, os recursos exigidos
as taxas de fecundidade permanecem elevadas, grande parte do simplesmeate nlo existem. Deterioram-se as condiç6es sanitárias.
potencial humano nlio chega a se realizar e o desenvolvimenlo de habitação. a qualidade da educaçio e dos serviços pdblicos;
econÔmico está estagnado. A intensificação da agricultura pode, aumentam o desemprego. a migração para as cidades e a agitação
até cerlo ponlo, restaurar o equilíbrio entre produçlo de alimentos social.
e população,.mas nlio pode ultrapassar cerIoS limites. (Ver box Os países industrializados seriamente preocupados coni as altas
4.1.) tal\llS de aumento populacional verificadas em oul:l:U partes do

104 lOS
Do" 4.1 O equ.WbrIo entre allmeuto e popuIaçllo
A FAO e o Instituto Internacional para a Análise de Slste­ Alguns pesquisadores estabeleceram o potencial "teóri-.
rnas Aplicados realizaram um estudo conjunto para avaliar a co" da produção global de alimentos. Segundo um dos estu­
capacidade potencial da terra para sustentar a população nos dos. a área destinada ao cultivo de alimentos pode ser de
países em desenvolvimento. Dados sobre as caracterfsticas cerca de 1,5 bilhão de bectares (nível próximo do atual) e a .
do solo e da term foram combinados com dados relativos ao produtividade média podelia chegar a cinco toneladas de
clima a Íun de calcular a produtividade potencial das princi­ equivalentes em grãos por hectare (em comparação com a
pais cultoras, selecionar as cultw1lS ótimas e deduzir o p0­ média atual de duas toneladas de equivalentes em grãos).
tencial total de produção de calorias. Foram calculados três Considerando-se a produção das áreas de pastagem e dos
níveis de produção agrícola: o primeiro, com pouca tecnolo­ mananciais marinhos~ o upotencial'* total situa-se em oito
gia, nenhum fertilizante ou produto químico. variedades de toneladas de equivalentes em grãos.
cultura tradicionais e nenhuma conservaçll.o do solo; o se­ Quantas pessoas podem ser sustentadas com isso? A mé­
gundo. com um nível médio de tecnologia usando metade dia global atual de consumo de energia vegetal em alimen­
das terms para a cultura mista mais produtiva e fertilizantes, tos, sementes e ração animal é de cerca de 6 mil calorias ao
variedades melhoradas e alsuma conservação do solo; e o dia - variando de 3 mil a 15 mil entre os paises, dependendo
terceiro, com alto nível de tecnologia, uma mistura ideal de dos níveis de consumo de carne. Tomando isso por base, a
culll.lrU e tecnologia em toda a termo A capacidade de sus­ produção potencial poderia sustentar pouco mais de 11 bi­
tento da população foi detenninada dividindo-se a produção lhões de pessoas. Mas se o consumo médio aumentar muito
total de calorias por um nível JDlnimo de ingestão per capi­ - digamos, para 9 mil calorias - a capacidade produtiva da
ta. Esse nl1mero foi então comparado com a variante média população da Terra cai para 7,5 bilhões. Esses nl1meros p0­
das projeções populacionais da ONU. deriam ser muito mais altos se a área destinada à produção
Os 117 paises em desenvolvimento estudados, em con­ de alimentos e a produtividade de 3 bilhões de hectares de
junto. podem produzir comida suficiente para alimentar uma pastagens permanentes pudessem ser aumentados numa base
vez e meia sua populaçlio projetada para o ano 2000, mesmo sustentável. Contudo, os dados levam realmente a crer que,
com um nfvel baixo de tecnologia. Mas o quadro é menos para atend,er às necessidades alimentares de uma população
alentador no que se rerere a cada pais isoladamente. Com o mundial de cerca de 10 bilhões de pessoas. seria preciso
nfvel baixo de tecnologia, 64 paises (com uma população de mudar um pouco os hábitos alimentares e também melhorar
cerca de 1,1 bilblIo) nIio terão recursos para se alimentar. bastante a eÍlciência da agricultura tradicional.
Com os métodos agrícolas mais avançados, o número de
países cuja produção potencial de alimentos ficaria abaixo
do necessário cai para 19, com uma população total de 100
, milhões. Destes. quase todos são países de alta renda do Fontes: GiDand. B. Considerations on world population and food
Oeste asiático e alguns são pequenos EStados insullU'Os. supply. Population anti Developmenl Review, 9(2):203-11; Higgins.
Muitos desses pafses estio capacitados a obter divisas sufi­ O.M. et aIii. POlenlú:Jl popu/aJion suppor1Íng capocities of lallds In
cientes para importar o alimento de que precisam. No caso lhe tieveloplng world. &ome, "AO, 1982; Mabar, D.l., 00. Rapid
dos demais, é preciso modernizar a agricultura numa base popu/olion growth anti hwnan carrying capacity. Washington. D.C.,
sustentável. World Bani<:, 1985. (Stttff Woiking Papers n. 690.)

mundo têm obrigações que vão além do simples fornecimento de uma nação em desenvolvimento de administrar seu aumento p0­
pacotes de ajuda sob a fonna de material para o planejamento fa­ pulacional. É por isso que a preoc!lpação com o aumento popula­
miliar. O desenvolvimento econômico, por meio de seus efeitos cional deve fazer parte de uma preocupação mais ampla com um
indiretos sobre os fatores sociais e culturais. reduz as taxas de fe­ ritmo mais acelerado de desenvolvimento econÔmico e social nos
cundidade. Portanto, as políticas internacionais que interferem no pafses em desenvolvimento.
desenvolvimento econômico interferem também na <:apacidade de Em última análise, a questão populacional. tanto nos países em
U)6 107
desenvolvimento quanto nos desenvolvidos, refere-se a seres hu­ Tabela 4.1

manos e não a mlmeros. É falso e injusto para com a condição População mundial 1950-85: fatos-cbave

humana considerar as pessoas meros consumidores. Seu bem-estar
e segur-dIlÇa - segurança na velhice, declínio da mortalidade in­
fantil, serviços médicos etc. - são a meta do desenvolvimento. Tamanho e !altas 1950 1960 1970 1980 1985
Quase tndas as atividades que aumentam o bem-estar e a seguran­
ça diminuem rias pessoas o desejo de ter mais milOs do que elas e População total (bilhões):
Mundo 2,5 3,0 3,7 4,4 4,8
os ecossistemas do paCs podem suportar. 0,94 1,14 1,17
Regiões mais desenvolvidas 0,83 1.05
Regiões menos desenvolvidas 1,68 2m 2,65 3,31 3,66

4.2. A PERSPECOVA POPULACIONAL Aumento anual l (%):
Mundo 1,8 2,0 1,9 1,7
4.2.1 O aumento em números Regiões mais desenvolvida.. 1,3 1,0 0,8 0,6
Regiões menos desenvolvidas 2,1 2,5 2,3 2,0
o aumento populacional acelerou-se em meados do século XVIII
com o advento da Revolução Industrial e das correspondentes População urbana (%):
melhorias na agricultura, não só nas regiões mais desenvolvidas Mundo 29 34 37 40 41
como também em outras. A fase recente de aceleração começou Regiões mais desenvolvidas 54 67 67 70 72
Regiões ""'!lOS desenvolvidas 17 22 .25 29 31
por volta de 1950, quando as taxas de mortalidade se reduziram
acentuadamente nos paCses em desenvolvimento. Fo1Ue: Department of Intemational Economic and Social Atfaiu. World
Entre 1950 e 1985, a população mundial awnentou a uma taxa population prospects; estimates and projectiOllll .. assessed in 1984. Ne",
anual de 1SI %, em comparação com os 0,8% dos primeiros 50 Yorl<, United Nations, 1986.
anos do século. 2 Hoje, o aumento populacional concentra-se nas
regiões em desenvolvimento da Ásia, África e América Latina, 1 Dados referentes ao _ t o na década anterior ou, no caso da 61tima
responsáveis por 85% do aumento da população mundial a partir coluna. nos cinco anos anteriores.
de 1950. (Ver tabela 4.1.)
Os processos de aumento populacional vão se alterando na
maioria dos países em desenvolvimento, à medida que as taxas de
natalidade e mortalidade caem. No inCcio dos anos 50, quase lo­ 28-23 anós), com taxas de aumento ainda mais elevadas em certos
dos os pulses em desenvolvimento apresentavam taxas de natali­ países, como O Qnénia.3
dade superiores a 40 e taxas de mortalidade superiores a lO, sen­ No mundo industrializado, as taxas de fecundidade declinaram
do a grande exceção as baixas taxas de mortalidade da América e a população não está aumentando rapidamente. Na verdade, es­
Latina. (Essas taxas referem-se ao mImem anual de nascímentos e tabilizou-se em muitos países. Ainda assim, espera-se que por
mones por mil habitantes.) Hoje, a situação é bem dife.rente: volta de 2025 a população da América do None, Europa, URSS e
• 32% da população do Terceiro Mundo vivem em pulses - como
Oceania tenha aumentado em 230 nillhões, nllmero atual de habi­
China e Repllblica da Coréia - com taxas de natalidade infieriores
tantes dos EUA.
a 25 e taxas de mortalidade inferiores a 10;
A aceleração do aumento populacional no Tenoeiro Mundo e o
• 41 % vivem em países onde as taxas de natalidade caíram, mas
declínio dos níveis de fecundidade nos paCses industrializados
não tanto quanto as de mortalidade, e cujas populações crescem
estão alterando radicalmente os padrões de distribuição etária.
cerca de 2% - em outras palavras, dobram a cada 34 anos. Entre
Nos pulses em desenvolvimento, predominam os jovens. Em
esses países estão o Brasil, índia, Indonésia e México;
1980, 39% das populações dos países em desenvolvimento tinham
• os 27% restantes vivem em países como Argélia, Bangladesh,
menos de 15 anos; nos países industrializados, esse percentual em
Irã e Nigéria, onde as taxas de mortalidade caíram ligeiramente,
de apenas 23.4 Porém, nestes (íltimos países, a proporção de ido­
mas as taxas de natalidade pennanecem elevadas. O aWDento glo­
sos vem crescendo. Em 1980, as pessoas de 65 anos ou mais re­
bal da população situa-se na faixa dos 2,5 a 3% (dobrando a cade
presentavam 11 % da população; nos países em desenvolvimento,

108 109
. Tabela 4.2 na ou na Ásia. Em alguns países em desenvolvimenlO, como a
Tamanho da populaçllo - atual e projetado - e taxas de aumenlo 1 China, as taxas de aumeDlo p.,pulaciooul já estão bem abaixo de
2% e a expectativa é 'Il'e caiam a menos de I % por volta do inr­
cio do próximo século.
População (bilhões) Taxa de aumenlo anual Refletindo o "Úllpelo" do aumenlO populacional, as projeçócs
(%) de longo prazo da ONU mostram que no nível global:
1950 1985 2000 • se a fecundidade atingir o nível de reposição em 2010, a popu­
a a a lação global se estabilizará em 7,7 bilhões por volta de 2060;
Região 1985 2000 2025 1985 2000 2025 • se essa taxa for atingida em 2035, a população se estabilizará
em 10,2 bilhões por volta de 2095;
Mundo 4,8 6,1 8,2 1,9 1,6 1,2 • se, no entanto, a taxa só for atingida em 2065, a população glo­
bal em 2100 poderá ser de 14,2 bilhões. 7
África 0,56 0,87 1,62 2,6 3,1 2,5 Essas projeções mostram que o mundo tem opções. A adoção
América Latina 0,41 0,55 0,78 2,6 2,0 1.4 de pollticas para baixar as taxas de fecundidade poderia'Significar
Ásia 2,82 3,55 4,54 2,1 1,6 1,0 uma diferença de bilhões na população global do próximo século.
América do Norte 0,26 0,30 0,35 1,3 0,8 0,6 A Ásia meridional, a África e a América Latina são responsáveis
Europa 0,49 0,51 0,52 0,7 0,3 0,1
URSS 0,28 0,31 0,37 1,3 0,8 0,6 pela maior parte das diferenças entre as três variantes. Por isso,
<keania 0,02 0,03 0,04 1,9 1,4 ·0,9 muito depende da eficácia das políticas populacionais nessas re­
giões.
Fonte: Department of Internalional Economic and Social Affaírs. World
populatio1l prOS[HlCIs: estimate. and projeclions as •• sessed in 1984. New 4.2.2 Mudanças na mobilidade
York, United Nalions, 1986.
o mlmero de pessoas na Europa, Japli9, América do Norte e
I Projeções de variante média. a
URSS quintuplicou entre 1750 e 1950, e pan.icipação dessas re­
giões na população mundial aumenttlu acentuadamente nesse pe_
ríodo. 8 Por volta de fins do século XIX, a preocupação com as
apenas 4%.5 Assim, no 'mundo industrializado, um nl1mero relati­ pressões populacionals se,intensificou na Europa. As migrações
vamente menor de pessoas em idade de trabalhar terá de suportar para a América do Norte, Austrálià e Nova Zelândia ajudaram até
o ônus de manter um número relativamente maior de idosos. certo ponto. Quando atingiu o auge, entre 1881 e 1910, a emigra­
A altemção da estrutura etária ajuda a estabelecer as estruturas ção pennanente absorveu quase 20% do aumento populacional
do futuro aumento populaeiooul. O falo de haver muilos jovens verificado na Europa. 9
nos países em desenvolvimento significa que no futuro muitos Hoje, porém, a migração já não é um falor determinante na
deles serão pais, e assim, mesmo que cada pessoa tenha menOS fi­ distribuição da população entre os países. De 1970 a 1980, a
lhos, o número lotai de nascimenloa continuará a aumentar. O au­ emigração permanente, como percentual do amrienlo populacio­
menlo populacional pode persistir, por algumas décadas após o ouI, calu para 4% na Europa e foi de apenas 2,5% na América
declínio das taxas de fecundidade para o "nível de reposição" de Latina. As percentagens correspondentes na Ásia e na África fo­
pouco mais de doi. filhos, em média, por casal. Desta forma, ram bastante inferiores.1 0 Assim, a opção de emigrar para novas
muitas nações terão seguramente altas taxas de aumenlo popula­ terras não teve e não terá grande significação para aliviar as pres­
ciooul nas pnSximas gerações. . sócs demográficas nos países em desenvolvimenlo. Na verdade,
As projeções demográficas indicam que a população global reduz o tempo disponível para equilibrar a população com os re­
a_tará de 4,8 bilhões em 1985 para 6,1 bilhões no ano 2000 e cursos.
para 8,2 bilhões em 2025. (Ver tabela 4.2.) Mais de 90% desse Dentro de cnda país, há mais mobilidade populaciooul. O aper­
aumenlO deverão ocol1'Cr nas regiões em desenvolvimento. Há feiçoamento das comunicações possibililou grandes deslocamen­
grandes diferenças entre os países dessas regiões, e o impulso do los de pe"ssoas, às vezes como uma reação natural ao aumenlo das
awnenlO populaciooul é maior na África do que na América Latí­ oportunidades econômicas em detenninadas áreas. Alguns gover­
110 111
Tabela 4.3

Indicadores de saáde
Tabela 4.4

Taxas de matrículas dos sexos ma.sculino e feminino, por região.

1960 e 1982

Expecíativa de Taxas de morllllidade
vida ao rllISCeI' infantil (mortes por
(anos) mill!.llllCidos vivos) S.xo l11811CulIao Sexo feminioo

Região 1950-55 1980-8S 1960-65 1980-85 Região 1960 1982 1960 1982

Mundo 49,9 64,6 117 81 Mundo
Nível primbio 92,2 101,3 71,1 87,3
África 37,5 49,7 _ 157 114 Nível seeundllrlo 31.3 53,3 23,1 42,S
ÁsiIt. 41,2 57,9 133 87
África
América do Sul 52,3 64,0 101 64
71,1 - 43 27 Nível primbio 56,2 89,2 32,0 72,1
Américá do Norte 64,4 Nível secundllrio 7,3 29,6
73,2 37 16 2,9 19,5
iluropa 65,3
URSS 61,7 70,9 32 2S América Latina
Oceania 61,0 67,6 55 3~ e caribe
Nível primário 7S,O 106,2 71,2 103,3
Fon.te: CMMAD, com base em dados de: World Resources Inslitute/lnter­ Nível secundário 14,9 46,6 13.6 48,5
oational Iostilute for Environmenl and Development. World resources América do Norte
1986. New Yorl<, Basic B00I<6, 1986. Nlvelprimbio 117,4 119,7 116,4 119,9
Nívelseeundár'io 69,4 8.5,4 71,4 86,6
nos estimularam bastante a migração de áreas densamente povoa· Áaia
das para outras de população escassa. Fenômeno mais recente são Nível primário - 94,9 100,1 63,1 79,9
os "refugiados ecológicos", que abandonam as áreas onde o meio Nível secundllrio 29,3 49,3 16,6 32,9
ambiente se deteriorou. Europa e URSS
Grande parte dos deslocamentos dá-se do campo para a cidade. Nlvelprimbio 103,4 105,4 102,7 104,5
(Ver capitulo 9.) Em 1985, cerca de 40% da população mundial Nível """""dário 46,5 76,2 44,6 81,3
viviam em cidades; a magnitúde da migração para as cidades é Oceania
_stada pelo fato de que, a partir de 1950, o aumento da popula­ Nrvel primário 102,2 102,9 100,7 98,9
ção wbana foi maior que o aumento da população rural, tanto em Nrvel secundário 53,8 71,1 58,8 72,0
termos percentuais como absolutos. Esse deslocamento é mais
impressionante nos países em desenvolvimento, onde o námero de FonIe: CMMAD, ""'" base em dados de: Unesco. A summary statistical
citadinos quadruplicou nesse período.11 review of ed"C8!ÍOn in Iile world, 1960-1982. Paris, July 1984.

Ohs.: Os ollmcros silo perce!ltusiIt. dos grupos cujas idadea correspondem
4.1.3 Melhores coadlç6es de saúde e edueaç.io ao ofvel de edocaçlo que nocebem. Como há muitas crianças mais velhas
Da eocola primária. os percentuais podem ser maiores que 100.
Melhorias nas condições gerais de salide e educação - mas em
especial das mulheres. e associadas a outras mudanças sociais que
elevam o _ feminino - podem ser muito importantes para a
redução das taxas de aumento -populacional. Contudo, num perío­ o "estado de sallde" de uma sociedade é um conceito comple.
do inicial, melhores serviços médicos significam que mais recém­ xo e de ditlcil mensuraçllo. Mas encontram-se bem à mio dois in.
nascidos vivem para reproduzir, e que as mulheres terão FIlhos dicadores que refletem pelo menos alguns aspecl'Ds da salide de
por um período de tempo mais longo. uma sociedade: a expeclativa de vida e as taxas de mortalidade
Infantil. (Ver labela 4.3.) Essas estatísticas indicam que as condi­
112
113
ç/les de saúde melhoraram praticamente em toda parte; e, pelo sustentável e níveis mais baixos de fecundidade, ambos têm vín­
menos no que tange a esses dois indicadores, diminuiu a lacuna culos estreitos e reforçam-se mutuamente.
entre os países industrializados e os em desenvolvimenlD. As medidas destinadas a alterar o tamanho da população s6 são
Dos muitos fatores que podem aumenta! a expectativa de vida et"tca:zes em combinação com outras questlles relativas a desen­
e redum as taxas de mortalidade, vale a pena ressalta! dois. Pri­ volvimento e meio ambiente. O tamanho, a densidade, a mobili­
meiro, embora em tennos gerais a riqueza de um país se reflita na dade· e a taxa de aumento de wna população não podem ser alte­
saolde desse país, algumas nações e áreas relatiVlÍmente pobres, rados a curto prazo se esses esforços se chocam com padrões
como China, Sri Lanka e o estado indiano de Kerala, foram muito opostos. de desenvolvimento em outras áreas. As polfticas popula­
bem-sucedidas em suaS tentativas de baixar a mortalidade infantil cionais devem visar a aspectos mais abrangentes que o simples
e melhorar as condiçlles de saolde, por meio da melhoria da edu­ controle de nolmeros: são também importantes medidas para me­
cação - sobretudo das mulheres -, da instituição de serviços blIsi­ lhorar a qualidade dos recursos humanos no tocante a sao!de, edu­
cos de saolde e de outros programas de assistência médica.l 2 Se­ cação e desenvolvimento social.
gundo, as reduções mais significativas nas taxas de mortalidade Um primeiro passo seria os governos abandonarem a falsa di­
do mundo industrializado ocorreram antes do advento dos medi­ visão entre gastos ·'produtivos u ou "econÔntÍcosn e gastos "so­
camentos modernos; deveram-se a melhores condiçóes de nutri­ ciais". Os planejadores precisam entender que os gastos com ati­
ção, habitação e higiene. Os progressos recentes ocorridos nos vidades populacionais e com outros esforços para que o potencial
paises em desenvolvimento deveram-se também em grande parte a humano se realize sio cruciais para as atividades económicas e
programas de saolde pl1blica, sobretudo ao controle de doenças produtivas de urna nação e para a obtenção de um progresso hu­
transmissíveis. mano sustentável - a finalidade dos governos.
A educação é outro aspecto-chave da "qualidade da popula­
ção". Nas ültimas décadas as oportanidades educacionais amplia­ 4.3.1 AdminlstnuJdo o aumento populacional
ram-se bastante em quase tudos os países. Houve grandes pro­
gressos em termos de matriculas escolares, índices de alfabetiza­ As polfticas populacionais apresentam níveis desiguais de pr0­
ção, ampliação do ensino técnico e desenvolvimento de técnicas gresso. Alguns países com sérios problemas demográficos adotam
científicas. polfticas abrangentes. Outros limitam-se a promover o planeja­
.mento familiar. Outros ainda nem isso fazem.
Oma Pol.ftica populacional deveria definir e adotar amplas me­
tas demográficas nacionais, relacionando--as com outros objetivos
4.3 UMA ESTRurURA DE POLmCA
sócio-econômicos. Dentre os fatores que afetam a fecundidade,
sobressaem os sociais e os culturais. Destes. os mais importantes
Um aumento populacional excessivo faz com que os frutos do de­ são os papéis que a mulher desempenha na fam/lia, na economia e
senvolvimentu sejam repartidos por um n1!mero cada veZ maior de na sociedade em geral. As taxas de fecundidade caem à medida
pessoas, não pennitindo que, em muitos países em desenvolvi­ que aumentam suas opurtanidades de empregn fora de casa - na
mento, OS padrões de vida se elevem; é imperativo recjuzir as cidade.ou no campo - e elas passam a ter mais acesso à educação
atuais taxas de aumento populacíonal a fIm de se atingir o desen­ e a casar-se mais tatde. Por isso, as polllicas destinadas a baixar
volvimento sustentável. Os pontos criticas são o equilíbrio entre as taxas de fecundidade devem não só abranger incentivos e de­
tamanho da população e recursos disponíveis, e a taxa de au­ sincentivos econômicos, como procurar dar à mulher urna posição
mento populacional em relação à capacidade da economia de melhor na sociedade. Essas polfticas deveriam, em essência, pro­
atender às necessidades blIsicas da população, não s6 hoje, mas mover os direitos da mulher.
por gerações. Uma perspectiva de tão longo prazo é necessária A pobreza gera altas taXas de aumento populacional: as famí­
porque as atitudes em relação à fecundidade raramente mudam lias mal providas de renda, emprego ou previdência social preci­
com rapidez e porque, mesmo depois que a fecundidade começa a sam de filhos, primeiro para trabalhar e mais tatde para sustentar
declinar, os aumentos populacionais anteriores indicam um impul­ os pais idosos. As taxas de fecundidade baixarão caso se tomem
SO de crescimento quando as pessoas atingem a idade de procriar. medidas para propiciar às famílias pobres wn meio de vida ade­
Não importa o modo como urna nação busque o desenvolvimento quado, para estahelecer e reforçar na legislação wna idade mini­

114 115
ma para a mão-de-obra infantil, e pam assegurar uma previdência
social fmanciada com recursos páblicos. Programas melhores de "O meio ambieNe diz reJl[Jt!iIo a todos, o desenvolvimento dJ-z:
saáde páblka e de nutrição infantil, que façam cair as taxas de respeitQ. a todos, a vida e o viver dizem 1Y!!speilo a todos. C1't!!io
mortalidade infantil - para que os pais não precisem de filhos que a solução .rerá estimulaJ"·a instrução ambienral em """""",
para que possam ser tomados decisões democráJicas e esclareci­
"exlnls" como precaução contra a morte de outros filhos -. p0­ das. pois .re as decisiies ~ d4 uns pollCOS, sem incluir a
dem também ajudar a reduzir os níveis de fecundidade. opinião das massas, especial:meNe as organizaçlJe.r nIio-sover- .
Todos esses programas só conseguem reduzir as taxas de nata­ nan.." 'Mis, O mais provável é q .... não se chegue a soluções ade­
lidade quando seus benefícios são partilhados pela maioria da p0­ quadas. Elas serifo impostas d4 cima, o povo não reagird positi­
pulação. As sociedades que tentam estender os beneficios do vamente a elas e () projeto fracassard _ s d4 CtJl1llltÇtU".'·
crescimento econômico a um segmento mais amplo da população
podem ser mais bem-sucedidas no tocante a baixar suas taxas de loseplt Ouma
natalidade do que as sociedades que apresentam um cresclmento ReitI)T da EscolD de Estudos i\mbIentois. Universidade Moi
econômico maior e mais acelerado, porém uma distribuição mais Awiü!ncia póblica da CMMAD, Nair6b~ 23 de setembro de 1986
desigual dos benefícios desse crescimento.
Assim, as estratégias demográficas dos países em desenvolvi­
mento I&n de lidar não só com a variável população propriamente
dita, mas também com as condiçôes econômicas e sociais subja­ alguns países doadores reduziram sua assistência a programas p0­
centes ao subdesenvolvimento. Devem abranger mllltiplos aspec­ pulacionais multilaterais e os enfraqueceram; isto tem de ser cor­
tos: dar mais motivações sociais, cultorais e econômicas aos ca­
sais para que tenham menos filhos e, mediante programas de pla­
rigido.
O Zimbábue foi bem-sucedido na integração de seus esforços
\
nejamento familiar. propiciar a todos os interesssóos a educação,
os meios tecnológicos e os serviços necessãrios ao controle do
de planejamento familiar tanto com serviços de saáde rurais como
com outros esforços para tomar as mulhere~ mais capazes de or­
1
tamanho das famllias. ganizar atividades em grapo e ganhar dinheiro com seu próprio
Os serviços de planejamento familiar de muitos países em de­ trabalho. No infclo, a ação do governo não se destinava tanto a
senvolvimento ressentem-se da falta de integração com outros limitar o·aumento populacional. mas a ajudar as mulheres a espa­
programas que reduzem a fecundidade e até mesmo com aqueles çar os partos, no interesse da saúde da mãe e da criança. e a
que aumentam a motivação para recorrer a esses serviços. Tanto prestar assistencia às mulheres estéreis para que gerassem filhos .
..., serem planejados quanto ..., serem implementados, esses servi­ M'U aos poucos as famllias· começaram a usar os contraceptivos
Ços permanecem desvinculados dos programas relativos à fecun­ de que dispunham para espaçar 011 partos a fim de limitar a fecun­
didade - como nutrição, ...lide páblica, assisténcia matemo-in­ didade. Hoje, o Zimbábue ê o país da África subsaariana que
fantil e educação pr6-escolar - que se desenvolvem na mesma mais se uti1iza dos mérodos de contracepção modernos .14
área e freqüentemente são custeados pela mesma agência.
É preciso. portanto, que esses serviços sejam integradoS a ou­ 4.3.2 Administrando. a dJsI:ribuJÇão e a mobWdade
tros esforços que visam a facilitar o acesso à assistência médica e
à educação. O apoio clínico requerido pela maioria dos métodos A distribuição da população pelas diferentes ""giõe. de mil país ~
de contracepção modernos torna os serviços de planejamento fa­ influenciada pela disseminação geográfica das atividades e opor­
miliar bastante dependentes' do sistema de salide. Alguns gover­ tunidades econômicas. A maioria dos países está teoricamente en­
nos conseguiram, com sucesso, aliar programas populacionais a gajada em equilibrar o desenvolvimento regional, mas na.prátíca
projetos de saúde, educação e desenvolvimento ruml, e os im­ _ t e o consegue. Os governos capazes de difundir oportuni­
plantaram como parte de programas sócio-econômicos mais am­ dades de emprego por todo o território de seus países e sobretudo
plos em aldeias ou regiôes. Essa integração aumenta a motivação, pelo interior restringem o crescimento rápido e quase sempre des­
facilita o acesso e torna mais eficazes os investimentos em plane­ j:OJltrolado de uma ou duas cidades. Talvez o programa nacional
jamento fiuniliar. aIIIis arabicioso desse tipo seja o esforço feito na China para
Atualmente, apenas cerca de 1,5% da ajuda oficial ao desen­ _ter indás!rias de porte urbano 110 campo.
volvimento destina-se à assistência populacional.I 3 Infelizmente,
117
116
soas. através de uma melhor nutrição, assist6ncia médica etc. É
"Os fenômenos demográficos constituem a ~lICia da probú!. preciso também propiciar· lhes educação para ajudá·las a se tomar
mática do desenvoMmenJo aj'rlcano; são os dodas que leVam a mais capazes e criativas, mais preparadas, mais produtivas e mais
maioria das analisrns a pro~ para a Áfrico. /mia crise conti· capacitadas a lidar com os problemas do dia-a-dia. Tudo isso tem
nua e cada vez mais grave. É sem dútlida imperativo e urgellle de ser conseguido mediante o acesso e a participação nos pr0ces­
que os govemos qfricanos adOtem e imp/emelllem c:om rigor /mia sos do desenvolvimento sustentável.
polflica popuiacional d4 longo alcance.
Uma questiío relevante que precisa ser examinada mais a fun· 4.3.3.1 MelJwrando ascondiçóesd4 sa.útk
do I o lUO do sistema tribulário como meio d4 conlroiar o au·
mento da popu.1oçdo e d4sestimular a migração rural·urbana.
Para d4sacelerar o aumenJo populocional, del'er·se·ia dar às Uma boa sa1jde é a base do bem-estar e da produtividade huma·
famIliaa sem filhos um inamJivo fiscaJ. ou isenç40 d4 impostos? nos. Por isso, uma política sanitária em bases amplas é essencial
Dever-se·ia impor .."". sanç40 fiscal para cada filho que uitm· ao desenvolvimento sustentável. No mundo em desenvolvimento,
passasse um NJmero d4terminado, considerondo que o sistema os graves problemas do mau estado de sallde estão íntimamente
tribulário néIo resolveu o probkma da migroç40 popuioclonal?" ligados às condlçóes ambientai. e aos problemas do desenvolvi·
mento.
Adebayo Adedejí A rnaIárla é a principal doença parasftica dos trópicos, e sua
Diretor execlllivl'I da Comissão Econbmica para a Africa incidência está estreitamente ligada 11 eliminação e' à drenagem
Audiência pública da CMMAD, Harare, 18 de oe1embro de 1986
das águas servidas. As grande. represas e sistemas de irrigação
fizeram aumentar acentuadamente a incidência de esquistossomo..
se em muitas áreas. Deficiências de abastecimento de água e de \
A migraçlo do campo para a cidade não constitui um mal em si
saneamento slo diretamente respoll8áveis por outras doenças
muito jlifundidas, como a diarréia e várias verminoses.
,
I
I
mesma; faz pane do processo de desenvolvimento e diversifica· Embora se tenham feito muitos progressos nos llltimos anos,
ção da economia. O problema nlo é tanto a migraçlo ruraI·urbana j
1,7 bilhão de pessoas ainda não dispõem de água potável e .1,2
global, mas a dislribuiçlo do crescimento urbano entre grandes bilhão, de saneamento ndequado. 1S Muitas doenças podem ser 1
metrópoles e cidades de pequeno. porte. (Ver cllpftulo 9.)
Comprometer.se com o desenvolvimento ruraI implica dar mais
atenção 11 realização do potencial de desenvolvimento de todas as
controladas por meio não .6 de intervenções terapêuticas, mas
também de melhorias no abastecimento de água das regiões ru·
rals, saneamento e educação sanitária. Para tanto, é realmente ne·
I
regiões, sobretudo as menos favorecidas do ponto de vista ecoló­ cessãria uma solução calcada no desenvolvimento. No mundo em
gico. (Ver capftulo 5.) Isso ajudaria a reduzir a migraçlo nessas desenvolvimento, o námero d~ bicas de uma região é.um indfcio
áreas em funçIo da falta de oportunidades. Mas os govemos de· melhor da saúde de uma comunidade do que o ndmero de leitos
veriam evitar excessos no sentido oposto, e não estimular as pe... hospitalares.
soas a se mudarem para áreas escassamente povoadas, como as Outros exemplos do vínculo entre desenvolvimento, condições
florestas tropicals dmidas, onde as terras podem ser incapazes de ambientais e saúde são a poluição do ar e as doenças respiratórias
prover o sustento das famlllas. decorrentes, o imPacto das condições habitaCionais na transmis­
são da tuberculose, os efeitos das substãoclas cancerígenas e t6­
4.3,3 Do passivo ao ativo xicas, e a possibilidade de acidentes no trabalho e em outros lo·
cals.
Quando uma população excede a caPacidade de produção dos re­ Muitos problemas de saúde advêm de deficiências de nutriçAo,
cursos disponíveis, pode se tomar um passivo nos esforços para que existem em praticamente todos os pafses em desenvolvimen­
dàr mais bem-estar às pessoas. Mas falar de popolaç4o apenas em to, e de modo mais acentuado em dreas de baixa renda. A subnu·
termos numéricos pode deixar encoberto um ponto importante: as trição está em grande parte relacionada com uma deficiência caló­
pessoas também são um recurso criativo, e essa criatividade é um rica ou protéica ou com ambas, mas alguns regimes alimentares
ativo que as sociedades devem aproveitar. Para alimentar e au· também deixam Il desejar em elementos e CQmPOnentes especlfi·
mentar esse ativo, é preciso melhorar o bem-estar físico das pes· cos, como ferro e iodo. As condições de sadde melhorarão muito
118 119
nas áreas de baixa renda com políticas que propiciem uma produ­
ção maior dos alimentos baratos que os pobres costumam comer ­ "Acho que n6s, IM Ásia, busci:unDs o equiJlbrio ent1'le a vida e8­
cereais nilo-refmados e tubérculos. pirilUDi e a material. Percebi que vods tentamm separar a relI.­
Esses vlnculos entre sallde, nutrição, meio ambiente e desen­ gl/kJ do fodo tecnol6gico da vida. O erro do Ocülerúe lido foi
exaIi1mente desenvolver a teCnologia .sem ética, sem religl/kJ? Se
volvimento mostram que as polCticas sanitárias não podem ser
concebidas puramente em tennos de tera~utica ou ~cina pre­
foi. " se temos a possibiliilDde de seguir ouJro camínho. ndo de­
verfomos arrmselhar OI!! que trabalhom C<Jm _logia a busca­
ventiva, ou mesmo em tennos de maior atenção à sadde pllblica. rem "'" tipo diferente de tecnologia, que tenha por: base não sd a
SAo necessárias abordagens integradas que reflitam objetivos­ rac:ionaliilDde. mas ~ o aspecto espiritual? Serd isso "'"
chave de natureza sanitária em áreas como produção de alimen­ sonIzo, ou algo que não podemos evikrr?"
tos; abastecimento de água e saneamento; polltica industrial, s0­
bretudo no que se refere a segurança' e poluição; e planejamento Depoimento de um participante
de assentamentos humanos. Além disso, é preciso identificar os Audillncia p6bIica da CMMAD, Jacsrta, 26 de _ de 1985
grupos vulneráveis e os riscos que corre a saóde desses grupos, e
garantir que os fatore. s6cio-econômicos subjacentes a esses ris­
cos sejam levados em conta em outras áreas da política desenvol­ A rápida disseminaçáo da sindrome da imunodeficiência adqui­
vimentista.
rida (Aids), tanto nos países em desenvolvimento como DOS de­
Por isso, a estratégia "Satlde para Todos", da Organizaçlio . senvolvidos, pode alterar drasticamente as prioridades sanitárias
Mundial da Sallde, deveria ir muito além do fornecimento de pes­ de todes as nações. A Aids ameaça matar milhões de pessoas e
soal médico e ambulat6rios e abranger os fatos ligados à satlde de conturbar a economia de muitos países. Os governos deveriam
todas as atividades de desenvolvimento. 16 Além disso, esSa abor­ deixar de lado a timidez e alertar imediatamente seus cidadãos a
dagem mais ampla deve refletir-se em acordos institucionais para respeito dessa sfndrome e dos modos como se difunde. É essen­
uma coordenação eficiente de todas essas atividades. cial a cooperação internacional na pesquisa e no combate dessa
No campo mais restrito do atendimento médico, um bom ponto
doença.
de partida é propiciar serviços básicos de sallde e assegurar que Ontro grande problema para a saóde, com ramificações inter­
todos tenham a oportunidade de usA-los. A assistência médica nacionais. é o aUllle/1to da toxicomania. Esse problema v:incula-se
matemo-infantil é também de particular importância. Neste caso, estreitamente ao crime organizado no tocante li produção de dr0­
a infra-estrutura é relativamente barata e pode ser muito benéfICa gas, ao tráfico internacional em grande escala e às redes de distri­
para a satlde e o bem-estar. A mortaIidade. materna pode ser dras­ buição. Distorce a economia de muitas áreas pouco produtivas e
ticamente reduzida, caSO se disponha de um sistema organizado destrói pessoas em todo o mundo. Para enfrentar esse flagelo, a
de parteiras treinadas e de proteção contra o tétano e outras infec­ cooperaçáo internacional é indispensável. Alguns países têm de
ções do parto, e também de alimentação suplementar. Da mesma despender somas bastante elevadas para pôr fim li produção e ao
fonna. as taxas de sobrevivência infantil podem ser muito mais tráfico de narcóticos, diversificar o. culti_s e aplicar esquemas
altas, caso se criem programas de baixo custo para vacinar, ensi­ de reabilitação nas áreas produtoras, que geralrnente ficam esgo­
nar e fornecer terapia de reidratação oraI contra a diarréia, e esti­ tadas. Tudo isto requer maior assistência internacional.
muIat a amamentaçlio (que por sua vez pode reduzir a fecundida­ Grande parte da pesquisa médica concentra-se em prodntos
de). farmacêuticos, vacinas e outros tipos de intervenção tecnológica
O atendimento médico tem de ser complementado por uma que visam o controle das doenças. Muitas dessas pesquisas refe­
educação sanitária eficiente. Em breve, certas regiões do Terceiro mm-se a doenças dos países industriaIizados, já que seu trata­
Mundo poderão apresentar um nt!mero cada vez mais alto de ca­ mento representa parte substancial das vendas das indllstrias fur­
sos de doenças ligadas aos estilos de vida das nações industriali­ maeêuticas. É urgente que se intensiflquem as pesquisas sobre
zadas - sobretudo cliocer e cardiopatias. Puucos países em desen­ doenças tropicais ligadas ao meio ambiente, que constituem o
volvimento podem a:roar com os altos custos do tratamento destas maior problema sanitário do Terceiro Mundo. Essas pesquisas não
doenças, e deveriam começar agora a educar seus cidadãos deveriam concentrar-se apenas em novos medicamentos, mas
quanto aos perigos do fumo e das dietas muito ricas em gorduras. também em medidas de sallde póblica para o controle dessas

12/
120
r;
I',
I~

O investimento em educação e o aumento das matrículas eSCO­
"A educoçát> e a comunicaçtlo silo de importdncill vital para que lares verificados nas Illtimas décadas são indícios de progresso. O
cada indivftúw se conscientize de sua re$pOnsabüldade para com acesso à educação vem crescendo. e deverá continuar a crescer.
o futuro sadio do mundo. O mellwr meÚJ de os estudantes reco­ Hoje. quase todos os meninos do mundo recebem algum tipo de
nhecertml que suas açóes têm conseqiibrcills ~ a esc04z ou a co­ instrução primária. Na Ásia e na África, no entanto, as taxas de
munidade organt_ projetos dos quais eles participem. Uma matrículas escolar de meninas são muito inferiores às de meninos.
vez convencidos de que podem colaborar, as pessoas fendem a em tudos os níveis. Ainda existe lambém grande defasagem entre
mudar de aIirude e de ~nlo. As novas alirudes para países desenvolvidos e em desenvolvimento no que tange às taxas
com o meÚJ ambie_ se refletirão nas decisóes tomDtkIs em casa de matrícula após o nível primário. como mostra a tabela 4.4.
e nas salos de reunião "'" todo o mundo. "
As projeções da ONU referentes a taxas de matrícula escOlar
VanessaAWson para o ano 2000 indicam que essas tendências devem se manter.
E.1JIdante do North TOn»IfiJ CoUegiale High School Por isso. apesar do incremento no ensino primário, o analfabetis­
Audiência pública da CMMAD. Ottawa. 26-27 de maio de 1986 mo continuará a aumentar em números absolutoS: no run do sé­
culo, mais de 900 milhões de pessoas não saberão ler nem escre­
ver. Por essa época. prevê-se que, na Ásia, as taxas de matrícula
escolar de meninas ainda estarão abaixo das taxas atuais· para me­
njnos. No tocante ao ensino secundário, prevê-se que por volta do
doenças. Conviria fortalecer muito maís os acordos já existente_ ano 2000, os países em desenvolvimento ainda não tenham atin­
de colaboração internacional para a pesquisa de doenças tropi­ gido sequer os níveis apresentados pelos países indnstrializados
cais. em 1960. 17
4.3.3.2Am,pliando a educaçdo Para haver um desenvolvimento sustentável, é preciso retificar
essas tendências. A tarefa principal das políticas educacionais é
o desenvolvimento dos recursos humanos requer conhecimentoS e promover a alfabetização universal e acabar com as defasagens
técnicas que ajudem as pessoas a ter melhor desempenho econ6­ entre taxas de matricula escolar de meninos e meninas. Se esses
mico. O desenvolvimento sustentável exige mudanças de valores objetivos fossem atingidos, a produtividade e as rendas pessoais
e atitudes para com o meio ambiente e o desenvolvimento - na auínentariam e mudaria a atitude individual para com a sallde, a
verdade. para com a sociedade e o trahalho doméstico, em pr0­ ·nutrição e a procriação. Isto também pode tomar as pessoas mais
priedades rurais ou em fábricas. Todas as religiõcs poderiam c0­ conscientes dos fatores ambientais do dia-a-dia. As oportunidades
laborar, orientando e motivando a formação de novos valores que de ensino posterior ao primário devem ser ampliadas para propi­
salientassem a responsabilidade individual e coletiva para com o ciar os conhecimentos necessários à obtenção do desenvolvimento
meio ambiente e para com a hannonia deste com a humanidade. sustentável.
A educaç!o deveria lambém estar equipada para tornar as pes­ Um sério problema com que se defrontam muitos países é o
soas maís capazes de lidar com os problemas de superpopulação e desemprego generalizado e a inquietação daí decorrente. Muitas
de densidades populacionais muito elevadas. e estar mais <;apaci­ vezes a educação não consegue capacitar as pessoas a obterem
tada a melhorar o que se poderia chamar de "capacidades sociais empregos adequados. Isso se evidencia no grande número de de­
de produção". Isso é indispensável para evitar rupturas na tecitu­ sempregados que foram preparados para exercer funções burocrá­
ra social; e a escola deveria tentar aumentar os níveis de tolerão­ ticas em popul8ÇÕCS urbanas cada vez maiores. A educação e a
eia e empatia necessários à vida num mundo superpovoado. Para formação prorlSsional deveriam também visar à aquisição de co­
que haja melhores condições de sadde, fecundidade mais baixa e nhecimentos práticos e de técnicas profissioualizantes. e. princi­
melhor nutrição são necessárias maís instrução e maior responsa­ paImente, a aumentar a autoconfiança pessoal. Tudo isso deveria
bilidade cívica e social. A educação. além de propiciar tudo isso, ser apoiado por esforços no sentido de fol1alecer o setor infonnal
pode tomar a sociedade mais apta para superar a pobreza. elevar e incrementar a participação de oQlllnizaçõcs comunitárias.
as rendas, melhorar a sadde e a nutrição. e reduzir o lamanho das Dar oportunidades é apenas um começo. Deve-se melhorar a
famílias.

122 123
I;

4.3.3.3 Fortalecendo os grupos vulnerdveis
qualidade da educação e adequá-Ia mais às condições locais. Em
muitas áreas, O ensiao deveria estar integrado à participação das
crianças no trabalho agrfcola, processo que requer flexibilidade Os processos do desenvolvimenlD geralmente fazem com que as
por parte do sistema escolar; deveria transmilir conbecimentos comunidades locais se integrem gradualmente numa estrotura s0­
aplicáveis à administração correia dos recursos locais. Do currí­ cial e econômica mais ampla. Mas algumas comunidades - os
culo das escolas rurais deveriam constar matérias versando sobre chamados povos ind[genas ou tribais - permanecem isoladas de­
os solos locais, a água e sua conservação, o desfloreslamento e vido a fatores tais como barteiras físicas à corounicaçio ou dife­
como a comunidade e as pessoas podem repará-lo. A formação de renças marcaoles de práticas sociais e cultw:ais. Tais grupos são
professores e a elaboração do currículo escolar deveriam ser de encontrados na América do Norte, na Austrália, na bacia amazô­
molde a fazer OS alunos aprenderem mais sobre os dados agrícolas nica, na América Central, nas florestas e montanhas da Ásia, nos
de uma área. desertos do norte da África e em outros lugares.
A maioria das pessoas baseia sua compreensão dos processos Seu isolamento resultou na preservação de um modo de vida
ambientais e de desenvolvimento em crenças tradicionais ou nas tradicional em íntima harmonia com o ambiente natural. A própria
infurmações transmitidas por uma educação convencional. Mui­ sobrevivência desses povos dependeu de sua consciência e adap­
tas, portanto, continuam ignorando como aperfeiçoar as práticas laçio ecológicas. Mas o isolamento fez tamMm com que poucos
tradicionais de produção e proteger melhor a base de recursos partilhassem do desenvolvimenlD econômico e social de seus paí­
naturais. Por isso, a educação deveria ser mais abrnngente e en­ ses; e a isso pode se dever seu estado precário de saóde, nutriçio
globar as ciências sociais e natorais e também as humanidades, e educaçio.
para que se pudesse perceber a interação dos recursos natorais e À medida que o desenvo!vimenlD organizado vai chegando às
humanos, do desenvolvimento e meio ambiente. regiões remotas, esses grupos ficam menos isolados. Muitos vi­
A educação ambiental deveria constar do currículo formal em vem em áreas ricas em recursos natorais valiosos que os planeja­
todos os níveis - tanto COmo matéria isolada, quanto como parte dores e "desenvolvlmentistas" desejam explorar; e essa explora­
de oulras matérias. Isso awnentaria o senso de responsabilidade ção conturba o meio ambienle local a ponto de pôr em risco os
dos a1W1OS para com o estado do meio ambiente e lhes ensinaria a modos de vida tradicionais. As mudanças legais e institucionais
control.s-lo, protegê-Io e melhor'-lo. B impossível atingir esses que acompanbam o desenvolvimento organizado contribuem para
objetivos selo que os alunos se engajem no movimenlD em prol aumentar a pressão.
de um meio ambienle melhor, seja através de clubes devotados à A interação cada vez maior com o mundo está tornando esses
natureza, seja através de grupos de inleresse. A educação de grupos mais vuJnerãveis, já que muitas vezes são deixados à mar­
adultos, o ensiao profissionalizante, a televisão e outros métodos gem dos processos de desenvolvimento econômico. A discrimina­
menos fonnai. devem ser usado. para atingir o maior mlmero çlo social, as barreiras cultw:ais e a excluslo desses povos dos
possível de pessoas, porque as questões ambientais e os sistemas processos polfticos nacionais deixam-nos vulneráveis e sujeitos à
de conhecimento agora mudam radicalmente no espaço de uma exploraçfio. Muitos grupos perdem suas terras e ficam marginali­
geração. zados, e suas práticas tradicionais desaparecem. Tomam-se víti­
A formação de professores é um ponto vital. As atitud",. dos mas do que poderia ser chamado de extinção cultural.
professores serão fundamentais para que se lenha uma compre­ Tais comunidades são depositárias de um vasto acervo de co­
ensão mais ampla do meio ambiente e de seus vínculos com O de­ nbecimentos e experiências tradicionais, que liga a humanidade a
senvolvimenlD. Para que eles se tomem mais conscientes e mais suas origens ancestrais. Seu desaparecimento constitui uma perda
bem preparados COlo relação a esse assunto, as agências multila­ para a sociedade. que teria muilD a aprender com SWIJI técnicas
terais e bilaterais devem prestar apoio à elaboração de um currí­ tradicionais de lidar coro sistemas ecológicos muito complexos. B
culo adequado nas instituições de formação de professores, à pre­ de uma terrfvel ironia que, à medida que o desenvolvimento for­
paração de materiais didáticos e a outras atividades ligadas à área. mai vá. atiogiodo mais inlensamente as florestas tropicais, os de­
Essa conscientização geral poderia ser facilitada, estiroulando-se sertos e outros ambientes isolados, tenda a destruir as únicas cul­
os professores de diferentes países a entrarem em contam, por turas que se mostraram capazes de lidar bem com esses ambien­
exemplo, em centros especializados criados para este fim. les.

124 12,5
A proteção dos direitos tradicionals deveria ser acompanhada
"Estou aqui como filho de wna pequena naçdo, a naçilo indfge­ de medidas positivas para melhorar o bem-estar da comunidade de
na Krenak. Vivemos no vale do rio Doce, na divisa dos estados forma adequada ao estilo de vida do grupo. Por exemplo, os ga­
do Espfrito Samo e Minas Gerais. Somes um micropais - wna nhos auferidos com as atividades tradicionais podem ser aumen­
micronaçilo. tados mediante a introdução de acordos de comercialização qúe
Quandc o govemo tomou nossa terra no vaÚl do ria Doce, assegurem um preço justo para a produção, e também por medidas
queria nos dar outra, em oUlrO lugar. Mas o Bstodb, o gawtmO,
jamais entenderá que niúJ temos outro lugar para ir. para conservar e fortalecer a base de recursos e aumentar a pro­
Para o povo Krenak, o único lugar onde I pasmei viver, e dutividade desses recursos.
est<lbelecer nossa existlncÍLl, falar com nossos deuses, falar com As políticas de promoção que interferem nas vidas de povos
nossa natureza, órganizar nossas vidas. I o lugar onde nosso isolados e tradicionais devem ser executadas de fonna a não
Deus: nos criou. É i1fÚli1 o govemo nos colocar nwn lugar muito mantê-los num isolamento artificial e talvez indesejado, e de for­
bonito, nwn lugar muito bom. com muita caça e multa pesca. ma a não destruir arbitrariamente seus estilos de vida. Portanto, é
Nds, o pOvo Krenak, continuoremos morrendo e morreremos in­ essencial tomar medidas abrangentes no tocante ao desenvolvi­
sistindo em que 3d há um lugar onde podemos viwr. mento dos recursos humanos. Devem-se providenciar serviços de
Meu amzção niúJ fiça feliz em ver a incapacidade dos ho­ sadde para complementar e aperfeiçoar as práticas tradicionais;
me..... Nilo tenho prozer nenlwnt em vir aqui e fazer essas decio­ corrigir as deficiências nutricionais e criar instituições de ensino.
mç(ies. Jd niúJ podemos encarar o planeta em que vivemos como
um tabuJ.eiro de xadrez onde as pessoas simplesmt!Jnte movem as Tudo isso precisa ser feito antes da implantação de novos projetos
peças. Nilo podemos considerar o planeta aigo iso/aáo do c6smi­ que abram campo para o desenvolvimento econômico. Também
co. são necessários esforços especiais para assegurar que a comuni­
Nilo somes idiotas para acreditar que I pasmei viver longe dade local se beneficie plenamente desses projetos, principal­
do lugar onde nossa vida teve origem. Respeitem o lugar onde mente no que se relere a emprego.
vivemos, niúJ deteriorem 1IOSSas condiçlJes de·vida. respeitem es­ Em ndmeros absolutos, esses grupos isolados e vulneráveis são
sa vida. Nilo temos Qn1jQ$ para presslunar, tudo o que temos I o pequeno.. Mas sua marginalização é sintoma de um estilo de de­
direito de reclomor nossa dignidode e a necessidade de vivermos senvolvimento que tende a negligenciar considerações tanto de
em nossa terra. ~
J
ordem humana como ambientaI. Por isso, mn exame mais cons­
ciente e cuidadoso desses interesses é a pedra de toque para uma
AillOnKrenak
COQrdenador do União de NOfõeslNilgenas política de desenvolvimento sustentável.
AudiIlnciA pt1blica da CMMAD, Slio Paulo, 28-29 de outubro de 1985

Notas
I Departmenl or International Economic and Social Affair. (Diesa) .

.O ponto de partida para uma política justa e humana em rela­ World popula/ion prospects; estimates and projections as assessed in 1984.

ção a esses grupos é o reconhecimento e a proteção de seus di­ New Yorl<, Unired Nations, 1986.

reitos tradicionais 11 terra e a outros recursos nos quais se apóia 2Ibid.

seu modo de vida - direito. que eles podem definir em termos que 3 B.......ao em dados de: UNCTAD. Handbook ofinterna.·onal trade and

não se enquadram nos sistemas legais regulmes. As próprias ins­ develepnu"'J ,tatistícs 1985 ,upp/em.enl. New Yorl<, 1985.

tituições desses grupos para regulamentar direitos e obrigações 4 Banco Mundial. Relatório ,obre o desenvo/vinu!nJo mundia/1984. Rio de

são fundamentais para a manutenção da hannonia com a natureza laneiro, Fundação Getulio Varp, 1984.

e da consciência ambiental característica do modo de vida tradi­ 51bid.
6 Diesa, op. cito

cional. Por isso, o reconhecimento dos direitos tradicionais deve
7 Unired N.tions. Popularion Bulleún of lhe United Nations, n. 14.1982.

se associar a medidas de proteção das instituições locais que en­ New Yark, 1983.

fatizam a responsabilidade no uso dos recursos. Faz parte também 8 CIarIi. C. Popula/loR growth and land use. New Yorl<, St. Martin'.

desse reconhecimento dar voz ativa ás comunidades locais nas Preso, 1957.

decisões relerentes ao uso dos recursos das áreas onde vivem. 9 BIIIICO Mundial. op. clt.

126 127
101bid.
S. SEGURANÇA ALIMENTAR:
11 Diesa, op. ci!.
MANTENDO O POTENCIAL
12 World HeaJtb Organization.lntersectoral ünkages anti lrealÚ! devewp­

menJ, case studíes in lndia (KeraJa state), Jamaica, Norway, Srj Lanka anti

Thaikmd.Geneva, 1984.

13 Banco Mundial. cp. cit,

14 Timberlake, L. Only o". EarÚ!; living for lhe futuro. 1.oOOon,

BBC/Eartbscan, 1987
Hoje,. a produção mundial de aIímentos por habila:nte é a maior
15 United Nation. Environment Programme. Tire stale of the environment;
verificada em toda a história da humanidade. Em 1985 fonun prq­
environment and beallh. Nairóbi, 1986.

16 World Health Organization. Global srrolegy for lrealth for ali by tire

duzidos quase 500kg por habitante de cereais e tubérculos, as
year 21XX1. Geneva, 1981.
fontes básicas da alimentação. I Mas em meio a essa abundância,
17 Unesco. A srurunary sttJtistical rev;ew Df edllcation in lhe 'WOTld,
mais de 730 milhões de pessoas não comem o suficiente para le­
]96()..82. Paris, 1984.
var uma vida plenamente produtiva.2 Há lugares onde quase nada
é cultivado; e há lugares onde grande número de pessoas não ga­
nha o suFICiente para comprar alimentos. E em amplas áreas da
Terra, tanto nos paises em desenvolvimento como nos desenvol­
vidos, o aum<>nto da produção de alimentos está prejudicando a
ba.", da produção futura.
Dispomos dos recursos agrícolas e da tecnologia necessária pa­
ra alimentar populações cada vez maiores. Nas últimas, décadas
houve muitos progressos; Não faltam recursos para a agricultura;
o que falta são políticas que assegurem que o alimento seja pro­
duzido não só onde é necessário, mas de modo a garantir a sub­
sist!ncia.das populações pobres rurais. Para enfrentar esse desa­
fio, ten,los de consolidar nossas conquistas e traçar novas estraté­
gias para garantir alimento e meios de subsist!ncia.

5.1 CONQUISTAS
Entre 1950 e 1985, a produção de cereais supiantou o aumento da
população, passando de cerca de 700 milhôes de toneladas para
mais, de 1,8 bilhio de toneladas, uma taxa de crescimento anual
de aproximadamente 2,7%.3 Esse incremento 8judou a atender às
crescentes demandas de cereais acarretadas pelo aumento popula­
cional e pela elevação das rendas nos países em desenvolvimento
e também peias necessidades crescentes de ração animai nos par­
ses desenvolvidos. Mas houve grandes diferenças no desempenho
.egional. (Ver tabela 5.1.)
Como a produção aumentou ·acentuadamente em alguntas re­
giões e a demanda em outras, a estrutura do comércio mundial de
alimentos, em particular de cereais, alterou-se radicalmente. A
América do Norte. que exportou apenas 5 milhões de toneladas
de grilos alimentícios ao ano antes da fi Guerra Mundial, chegou
a quase 120 milhões nos anos 80. Hoje, o déficit de grãos na Eu­

128 129
Tabela 5.1 leite e carne creSCe à medida que aumentam as rendas nas socie­
Duas décadas de desenvolvimento agrícola dades que preferem' protelna animal, e grande parte do desenvol­
vimento agrfcola dos países industrializados destinou... a atender
a essa demanda. Na Europa, a produção de carne mals que tripli­
Produçio de a1i- Área de plantio Uso de cou entre 1950 e 1984, e a produção de leite quase dobrou.S A
mentos per capita bruta per capita fertilizantes per produção de carne para exportação aumentou abruptamente, s0­
(1961-64= 100) (hectares) . caplta (quilos) bretudo nas ãreas de pastagem da América Latina e da África. As
Região 1961-64 1981-84 1964 exportações mundiais de carne passaram de aproximadamente 2
1984 1964 1984
milhões de toneladas em 1950-52 para mals de li milhões em
Mundo 100 112 0,44 0,31 29,3 85,3 1984.6 .
Para essa produção de Íeite e carne foram necessários, em
Améri.::a do Norte 100 121 1,05 0,90 47,3 93,2 1984, cerca de 1,4 bilhão de bovinos e bufalinos, 1,6 bilhão de
Europa Ocidental 100 . 131 0,31 0,25 124,4 224,3 ovinos e caprinos, 800 milhões de suínos e grande quantidade de
Leste europeu aves - todo isso representando um peso superior ao dos habitan­
• URSS 100 128 0,84 0,71 30,4 122,1 tes do planeta. 7 A maloria desses animais pasta ou se alimenta da
África 100 88 0,74 0,35 1,8 9,7 vegetação local. Contodo, o crescimento da demanda de grãos
Oriente Próximo l 100 107 0,53 0,35 6,9 53,6
Extremo Oriente 2 100 forrageiros acarretou acentuados aumentos na produção de cereais
116 0,30 0,20 6,4 45,8
América Latina 100 como o milbo, que respondeu por quase dois terços do aumento
108 0.49 0,45 li ,6 32,4
Paf... asíálicos totaI da produção de grãos na América ·do Norte e na Europa en­
com economia de tre 1950e 1985.
plsnejamento Esse crescimento aem precedentes lia produção de alimentos
centrnlizado3 100 135 0,17 0,10 15,8 170,3 deveu-se, em parte, à expansão da base de produção: .malor área
de plantio, maior rebanho, mais barcos pesqueiros etc. Mas em
FOI/Ie; baseado em dados da FAO. grande parte decorreu de um incrível aumento na produtividade.
1 Agrupsmento da FAO que compreende o Oeste da Ásía, Egito,. Ubía e O aumento popuiacional provocou a redução da área destinada ao
Sudilo.
cultivo em quase todo o mundo, em termos per capíla. E com o
2 Agrupamento de FAO que abrange o Sul e o Sudesie asiático, excluindo declfnio da disponibilidade de terras agricultáveis, os planejado­
as economias asiálicas de planejamento centrnlizado.
3 Agrupemento da FAO de economias de plsnejamenlo centrnlizado da res e agricultores se concentraram no aumento da produtividade.
Ásia que compreende China, Coréia do Norte, Kwnpucheía, Mongólia e Nos últimos 35 anos, isso foi conseguido mediante:
Vietnã. • o uso de novas variedades de sementes desenvolvidas para ma­
ximizar o rendimento, facilitar o cultivo múltiplo e resistir às pra­
gas;
ropa é muito menor, e o grosso das eltportaç(!es nOJ1l>.amcricana.. • a aplicação de mais fertilizantes qulnricos, cujo consumo au­
destina-se à URSS, Ásia e África. No infcio dos anos 80, três mentou mais de nove vezes;8
países - China, 1apão e URSS - recebiam metade das exportaç(!es • o uso de mais ~eslieidas e produtos qulnrieos similares, que au­
mundílÚs; grande parte do restante destinava-se a países em de­ mentou 32 vezes; ,
senvolvi.mento relativamente ricos, como os exportadores de pe­ • o aumento das áreas irrigadas, que mais do que duplicaram. 10
tróleo do Oriente Médio. Vários países pobres essencialmente As estatísticas globals mascaram as grandes diferenças regio­
agrícolas, sobretodo na África subsaariana, tornaram-se importa_ nais. (Ver box 5.1.) Os efeitos das novas tecnologias têm sido de­
dores líquidos de grãos alimentícios. Mesmo assim, embora em siguais, e sob certos aspectos a defasagem em tecnologia agrícola
1984 um quarto da população da África subsaariana dependesse ampliou-se. Por exemplo, a produtividade média dos grãos ali­
de grãos importados, as importações dessa região representaram mentícios na África declinou em relação à produtividade européia
menos de 10% do comércio mundial de grãos nos anos 80. 4 de aproximadamente dois quartos para cerca de um quinto nos úl­
Além dos grãos, outros alimentos estão alterando as eslIUturas timos 35 anos. Até na Ásiã, onde a nova tecnologia difundiu-se
da demanda e da produção de alimentos no mundo. A demanda de rapidamente, a produtividade calu em relação aos níveis euto­

130 131
Dos 5.1 Perspectivas regionais de desenvolvimenlo

agríc:ola

África • apoio governarnental sob a forma de centros de pesquisa
• queda de cerca de I % ao ano na produção de alimentos para o desenvolvimento de semenles de alto rendimento e
per capita a partir do início dos anos 70; oulras tecnologias;
• concentração em culturas comerciais e maior dependência • distribuição desigual da terra;
de alimentos importados, estimulada por políticas de preços • desfloreSlan1ento e degradação da base de recursos agrí­
e por necessidade de divisas; colas, decorrentes em parte do commio com o exterior e da
• grande defasagem de infra-estrutura para pesquisa, exten­ crise da dívida;
silo, fornecimento de insumos e comercialização; • enonne potencial de recursos agrários e de alta produtivi­
• degradação da base de recursos agrícolas devido a deserti­ dade. embora a maior parte da terra potencialmente cultivá­
ficação, secas e outros fenômenos; vel se situe na bacia ama.zÓnica~ área remota e escassamente
• grande potencial não-explorado de temos cultiváveis, irri­ povoada, onde talvez só 20% da terra sejam adequados à
gação e uso de fertilizantes. agricultura sustentável.
.Oeste da Ásia e Nol'U! da África Amlrica do Norre e Europa ocidental
• incremento de produtividade, devido à melhor irrigação, • a América do Norte é a principal fonle mundial de exce­
ao cultivo de variedades de alto rendimento e a maior uso de dentes de grãos alimentícios, embora o ritmo de aumento da
fertilizantes; produção por hectare e da produtividade total se tenha desa­
• terras cultiváveis limitadas e grandes extensões de deser­ celerado nos anos 70;
tos, tomando um desafio a aUIO-sufici&lcia alimentar; • subsrdios à produção dispendiosos dos pontos de vista
• necessidade de irrigação controlada para enfrentar as con­ ecológico e econômico;

dições de aridez. • o efeito dos excedentes comprime os mercados mundiais e

conseqilentemente afeta os países em desenvolvimento;

Sul e Leste asi4ticos • base de recursos em degradação constante por meio de
• maior produçllo e produtividade, com alguns parses regis­ erosão, acidificação e poluição da água;
trando excedentes de grãos;
• rápido crescimento no uso de fertilizantes em alguns par­ • na América do Norte, há possibilidade de uma futura ex­
pansão agrícola em áreas pouco exploradas, que só podem
ses e desenvolvimento extensivo da irrigação; ser cultivadas intensivamente a um custo muito alto.
• comprometimento por parte dos governos com a au~sufi­
ci&lcia em grãos. levando à criação de centros nacionais de Leste europeu e URSS
pesquisa, ao de,!""volvimento de sementes de alto rendi­ • déficits de alimentos compensados com importações, sen­
mento e à promoção de tecnologias locais espccfficas; do a URSS o maior importador mundial de grãos;
• pouca terra não-aproveitada e desfloreslan1ento extensi vo • maior investimento governamental em agricultura, acom­
e constante; panhado de maiores facilidades na distribuição e organiza­
• nWnero crescente de sem-temos. ção da produção agrícola a fim de alcançar as metas de au­
to-sufici&lcia alimentar, o que leva a um aumento na produ­
Amlrica l..alIna çllo de carne e de tubérculos;
• declínio das importações de alimentos a partir de 1980, já • pressões sobre os recursos agrícolas por meio de erosão
que a produção acompanbpu o aumento populacional na 111­ do solo, acidificação, salinização, alcalinização e poluição
tima década; da água.

peus.ll "Defasagens tecnológicas" similares ocorreram entre re­ intensivo de capital e insumos e geralmente em grande escala,
giões de um mesmo país. predomina na América do Norte, Europa Ocidental e Oriental,
Nas últimas décadas surgiram três grandes tipos de sistemas de Austrália e Nova Zelândia e em pequenas áreas do. países em de­
produção de alimentos. A "agricultura industrializada", com uso senvolvimento. A "agricultura da Revolução Verde" é encontra­

132 133
da em áreas unifurtne$, ricas em recursos, geralmente planas e ir­ açlica.r no mercado internacional, e isso tem criade graves pro­
rigadas doS celeiros agrícolas de alguns países em desenvolvi­ blemas para vário. países em desenvolvimento cujas economias
mento. ~ mais COmwn na Ásia, roas laJIJb&n é praticada em certas baseiam-se na agricultura. A ajuda lIlimenlar nllo-ernergencial eas
regiões da América Latina e de norte da África. No infcio, as no­ importações a preços baixos também reprimem os preços recebi­
vas tecnologias podem ter favorecido os grandes agricultores, mas dos pelos agricultores do Terceiro Mundo e desestimulam O au­
hoje estão acessíveis a um nllmero cada vez lll\lÍor de pequenos mento da produção interna de alimentos. .
produtores. A "agricultura pobre em recursos" depende mais das Nos países industrializados, estio se tomando evidente. as
chuvas ocasionais que da irrigação e costuma ser eooontrada nas conseqüências' que um sistema de produção fortemente subsidiadc
regiões em desenvolvimento de dificil cultivo - lemIs áridas, pode ter para o meio ambiente; 13
molllanhosas e florestas - e que apresentam solos frágeis. EstiiO • queda da produtividade à medida que a qualidade do solo deçli­
neste caso a maior parte da A.trica subsaariana e as áreas mais na devido ao cultivo intensivo e ao abuso de fertilizaoles e pesti­
remotas da Ásia e da América Latina. Nessas regiões. a produção cidas químicos;14
per caplta vem declinandc e a fome é 'um.sério problema. Mas • destruição do campo, através da remução de cercas vivas, cintu­
hoje os três sistemas de produção de alimentos mosl$n sinais de rões verdes e outras camadas protetoras e também do nivelàmen­
crise que ameaçam seu crescimento. to, da ocupação e do cultivo de terras marginais e áreas de prote­
ção de bacias;
• poluição do lençol freático por nitrato, devido ao uso abusivo e
5.2 SINAIS DE CRISE freqlienlemente subsidiado de fertilizantes que contêm esta sub ...
tlIncia.
As políticas agrícolas de quase !Odes os países conceDtraram-se Os efeitos' financeiros, econômicos e ambientais dos atuais
no aumento da produção. Mesmo assim, ve:rificou-se ser muito sistemas de incentivo estão começando a ser questionades por
mais diffcü elevar a produção agrícola mundiAl em consistentes muitos governos e grupos, inclusive por organizações agrícolas.
3% ao ano em meados dos anos 80 do que o fora em meados dos Um aspecto que causa especial preocupação é o impacto dessas
anos 50. Além. disso, os recorde. de produção foram contrabalan­ políticas sobre os países em desenvolvimento. Elas fazem cair as
çadcs pelo surgimelito de crises econ~I6gicas: os países colações internacionais de produtos, como o arroz e o DÇlicar, que
industrializados estio encontrande cada vez mais dificuldade para 1!m grande patlicipação nas exportações de muitos países em ~
admjnisttar seUs excedente. de produção alimentar; a base de senvolvimento, reduzindo com isso os ganhos em divisas desses
subsisl.êocia de milhões.de prodctores pobres nos países em ~ países. Tomam mais instáveis as cotações mundiais e desestimu­
senvolvimento está se deteriorandc e a base de recursos para a lam o beneficiamento de produtos primários agrícolas nos países
agricultura sofre pressões em quase todo o munde. produtores. 15
É no 'interesse de todos, inclusive des agricultores, que as p0­
5.2.1 O el'eito dos subsfellos líticas têm de ser alteradas. Nos Iillimos anos, de fato, ocorreram
algumas mudauças no sentido de uma conservação maior e alguns
Os excedentes de alimentos na América do Norte e na Europa ~ sistemas de subsidio passaram a ressallar cada vez mais a neces­
comm principalmente de subsídios e 0Ulr0S incentivos, que esti­ sidade de não incluir a terra no processo de produção. O ônus'fi­
mulam a produção mesmo não havendo demanda. Os subsídios nanceiro e econômico dos subsídios precisa ser reduzido. Tem de
diretos ou indiretos, que hoje abrángem praticamente todo o ciclo 'se acabar com o mal que essas políticas causam à agricultura dos
a1imenlar, tornaram-se extremamente dispendiosos. Nos EUA, o países em desenvolvimento ao desequilibran'Jm os mercados mun­
custo dos subsídios agricolas passou de US$2,7 bilhões em 1980 diais.
para US$25,8 bilhões em 1986. Na CE, esses custos subiram de j
US.$6,2 bilhões em 1976 para US$21,S bilhões em 1986.12 5.2.2 A slluaç60 de abandono do pequeno produtor
Tomou-se mais atraente do ponto de vista político. e comu­
mente mais barato, exporia!" os excedente. - muitas vezes como
lliuda alimenlar - de que estocá-Ios. Esses excedentes fortemente
A nova tecnologia que propiciou o aumento da produtividade
agrícola exige qualificações científicas e tecnol6gicas, um sistema
li
I'
l!
subsidiados derrubam as cotaçÕiOS de produtos primários COIDO o de especialização em tecnologia e outros serviços para os agri­

134 l3S
Como OS agricultores de subsistência, se apóiam em certos direi­
"Acho que num f6rum como esse costuma sempre haver alguhn tos tradicionais. que são ameaçados pelas atividades comerciais.
se levantando e dizendo que seu; problema/oi esquecido. Creio Criam raças tradicionais, resistentes mas dificilmente muito pr0­
que o meu;. como orgtVlizaçClo niio-govemtl1tl4ntal. I muito im­ dutivas.
portante: trota-se da queSlÕO da mulher. E estou; certa de que a As agricultoras. embora desempenhem papel fundamental na
maiorúz das pessoas aqui presentes eStd bastante interessada no produção de alimentos, são freqüentemente ignoradas pelos pr0­
papel da mulher em reloção ao meto ambienle. '.' gramas destinados a melhorar a produção. Na Am6rica Latina, no
Creio que }d foi dito multas e muitas vezes que. sobretudo "'" Caribe e na Ásia. constituem importante contingente de mão-de­
África. as mulheres s40 respon.r4Yeis por 60 a SQlI, da p.rodJIçãc, obra agrícola. e na África subsaarlana a maioria dos cultivos ali­
do beneficlamenlo e da comercializaçãc de qlímenlaS. Ningrdm !ÍICIl!areS fica por conta das mulheres. Mesmo assim., quase todos
pode exominar de fato a CTÍSIe allmenJar "'" Afi'ica ()U muitas das
outras CTÍSles que parecem existir aqui Sf!m exomint1r a queSlÕO
os programas agrícolas tendem a desconsiderar as necessldades
da mulher e sem constalar que as mulheres participam das pro­ peculiares das mulheres que trabalham na agricultura.
cessos de tomada de decisiJes desde .sua base aM seus n(veis mais
elevados." 5.2.3 A dep-adação da base de recursos
Sra. King A adoção de políticas insensatas está levando 11 degradação da
The Gree()beú Mo_nt base de recursos agrícolas em q _ todos os continentes: erosão
Audiência pdbIica da CMMAD, Nairóbi, 23 de setembro de 1986 do solo na Am6rica do Norte; acidificação do. solo na Europa;
desflorestarnellto e desertificação na Ásia. África e América lati­
na; e desperdício e poluição da água em quase toda parte. Dentro
de 40-70 anos, o aquecimento global pode causar a inundação de
cultoljOS. al6m de orientação comercial para a administração agrí­ importantes áreas costeiras de produção. Alguns desses efeitos
cola. Em muitos pontos da Ásia, em especial. os pequenos agri­ provêm de medidas tomadas com relaçikJ ao consumo de energia e
cultores têm-se mostrado excepcionalmente capacitados a empre­ 11 produção industrial. Outros decorrem da pressão exercida pela
gar novas tecnologias quando recebem incentivos e apoio finan­ população sobre recunos limitados. Mas as políticas agrícolas
ceiro e de infra-estrutura adequado. Na África, os pequenos agri­ que visam o allIll"nto da produção sem se deterem em considera­
cultores que lidam com cultivos comerciais provaram o potencial ções ambienIais também vêm contribuindo bastante para essa de­
. do minifundiário do continente, e nos últimos anos registtanun-se terioração.
êxitos também nas culturas alimentícias. Mas as áreas ecologi­
camente desfavorecidas e as massas rurais que dispõem de pouca 5.2.3.1 A perda dos re<:UTSOS do solo
teml não se beneficiaram dos 'avanços tecnológicos e continuarão
não se beneficiando at6 que os governos se mostrem diapostos e Nas últimas d6cadas, o allIll"nto das áreas de plantio fez muitas
capazes de redistribuir terras e recursos e conceder-lhes o apoio e vezes com que fossem cultivadas terraS marginais propensas 11
os incentivos de que necessitam. ,erosão. Em fins dos anoS 70. a erosão do solo suplantou a fonna­
Os sistemas de apoio 11 agricultura raramente levam em cqnta ção de solos em cerca de um terçO da área agricultãvel norte-ame­
as condições especiais dos agricultores de subsistência e pecua­ ricana, a maioria nO celeiro agrícola do Meio-Oeste. 16 No Cana­
ristas. Os agricultores de subsistência não podem arcar com o alto dá. a degradação do solo vem custando aos agricultores US$1
custo dos insumos modernos. Muitos praticam o cultivo rotativo e bilhão por ano. 17 Na URSS. a extensão do cultivo at6 as chama­
não possuem sequer o título da terra que útilizam. Podem plantar das Tenu Virgens foi um dos principais esteios da política agr:{­
muitas VlUiedades de culturas num mesmo lote de terreno para cola, mas boje se acredita que em grande parte essas terraS são
atender às próprias necessidades, e (!<>rtanto não conseguir fazer marginais.18 Na índia, a erosão do solo afeta de 2S a 30% das
uso dos m6todos desenvolvidos para grandes plantações de uma _ cultivadas.l9 Segundo um estudo da Organização das Na­
única cultura. . ções Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), se não
Muitos criadores de gado são IlÔmades, sendo diffcil chegar até forem tomadas medidas de conservação. a área total agricultável
eles para proporcionar-lhes educação. orientação e equipamentos. nlio-inigada dos pa(ses em desenvolvimento da Ásia. África e

136 137
América Latina perderá cerca de S44 milhões de hectares a longo
pnlZo, devido à erosão e 11 degradação do so10.20 "Os pequenos agric:ukores s40 responsabilizados pelo. devasra­
A erosão faz com que o solo retenha menos água, retira-lhe os çCIo do meio ambieNe come se pudessem escolher os recursos
uuttieules e reduz a profundidade indispensável para que as raízes dos qusis depettder para a sua subsistincia, quando de fato não
se fixem. A produtividade da letra declina. A camada superficial podem. Quando se trata de sobrevivhlcia bdsbt:a, as necessido­
erodida é levada para os rios, lagos e resen'lI1órios, obstruindo des de _ tendem a suplantar qualquer conside1't1Ç4o
portos e vias navegáveis, reduzindo a capacida(le dos reservató­ quanto ao futuro ambiental. A responsável pelo. devastm;i1o dos
rios e aumentando a incidência e a gravidade das ÍIltIIldaÇÓes. recursos natw'als I apobrua, e não os pobres."
Sistemas de ~ão mal planejados e implementados já cau­
saram o alagamenln, a salinização e a alcalinizaçlio de solos. Se­ Geoffrey Brute
AgIIICÚI Canadense de Desenvolvimento llllernacwnal
gundo estimativas da FAO e da Unesco, cerca de metade dos sis­ Aad~ncia ptlbli",! da CMMAD, Ottawa, 26-27 de maio de 1986
temas de il:rigaçlio exislentes no mundo apresentam em algum
grau esses problemas.21 Ess"" estimativas indicam que cerca de
10 milhões de hectares de terra irrigada são abandonados anual­
mente.
A degradaçlio do solo destrói pouco a pouco toda a base de re­ riedade e a gravidade das pragas, ameaçando a produtividade da
cursos para a agricultura. A perda das terras cultiváveis impele os agricultura nas áreas onde se manifestam.
agricultores ao uso abusivo da terra remanescenle e 11 invado de O uso de produtos químicos na agricultura não é prejudicial
florestas e áreas de pastagem. A agricultura suslentável não pode em si mesmo. Na verdade. em muitas regiões esse uso ainda é
se basear em métodos que solapam e esgotam o solo. muito pequeno. Nessas áreas, os índices de reação aos produtos
são altos e os efeitos dos resíduos para o meio ambiente alnda não
5.2.3.2 O efeito dos prod1.4tos qufmicos consfiluem problema. Por iSso, essas regiões se beneficiariam com
um maior emprego de agroquímicos. Contudo, tende-se a usar
Desde a II Guerra Mundial, os fertilizantes e pesticidas químicos msis produtos químicos exatamente nas áreas em que eles podem
têm sido muito importantes para o aumento da produção, mas fo­ causar mais malefícios do que benefícios.
ram feitas advertências bem claras contra o fato de se dependert
deles em demasia. A perda de nilrogênio e de fosfatos devido ao 5.2.3.3 A açdo cotUro as j'/Qrestas
uso excessivo de fertilizantes causa danos aos recursos hídricos, e
esses danos estão se alastrando. As tlorestas slio fundamentais para a manulenção e o aumento da
O emprego de produtos químicos para conIrolar insetos, pra_ produtividade das terras cultiváveis. No entanto, a expansão agrí­
gas, ervas daninhas e fungos aumenta a produtividade, porém o cola, o crescimento do comércio mundial de madeira e a demanda
emprego abUSivo ~ a sadde dos seres humanos e a vida de de combustível vegetal destrulram grande par1e da cobertura fl0­
outras espécies. A exposição contínua e prolongada a pesticidas e restal. Embora tal destrulção tenha ocorrido em todo o mundo,
resíduos químicos presentes na água, nos alimentos e até no ar é hoje o maior desafio concentra-se nos países em desenvolvimen­
perigosa, especiaImenle para as crianças. Segundo estimativas de to, sobretudo nas florestas tropicais. (Ver capftulo 6.)
um estudo de 1983, aproxi:madanJente 10 mil pessoas morrem por O aumento populacional e a disponibilidade cada vez menor de
ano no. países em desenvolvimento devido a envenenamento pQr lena cultivável leva os agricultores pobres dos países em desen­
pesticidas e cerca de 400 mil são gravemente afetadas por eles.22 volvimento a buscarem novas lerras nas florestas para plantar
E os efeitos não se restringem às áreas onde oS pesticidas são mais alimento. Algumas políticas governamentais incentivam a
usados, mas atingem toda a cadeia alimentar. transfor:mação de tlorestas em pastagens, e outras incenti varo
Zonas de pesca comereial foram esgotadas, espécies de pássa­ grandes esquemas de reassentamento em áreas florestais. Não há
ros ficaram ameaçadas e insetos que atacam pragas foram eXler­ nada de intrinsecamente. errado em derrubar tlorestas para dar lu­
minados. O mlmero de espécies nO<:ivas de insetos resislentes a gar à atividade agrícola, contanto que a 1emt seja a melhor possí­
pesticidas aumentou em todo o mundo e muitas resiatem até mes­ vel .para tal atividade, possa sustentar as pessoas incentivadas a
mo aos produtos químicos mais modernos. Multiplicam-se a Va­ nela se fixar, e já não esteja servindo a uma função mais útil, co,
138 139
de ajudá reforçaram as pressões para que a produção de culturas
mo a proteção das bacias fluviaís, Mas quase sempre se derrubam comerciais aumentasse a qualquer custo.
florestas sem reflexão prévia ou planejamenro. Um plano de ação concebido pelo Programa das Nações Uni­
O desflorestamenro abala seriamenle as áreas montanhosas e as das para o Meio Ambienle e elaborado duranle a Conferência das II
bacias das lerrns altas e os ecossistemas que delas dependem, As Nações Unidas sobre Desertificação. em 1977, trouxe alguns pr0­
lerrns altas têm influência sobre as chuvas, e o estado de seus gressos, principaImenle em nívellocal. 29 Ma.< o plano não pôde ir I

sislemaS de solo e vegetação delennina a maneira como as chuvas aãtanle devido 11 falta de apoio financeiro por parte da comunida­
se precipitam sobre riachos e rios e sobre as áreas agriculláveis de inlemaCional. pela inadequação das organizações regionais
das planícies situadas abaixo, Tanro as inundaçôes como as secas criadas para lidar com os problemas de natureza regional e ao
que aumentaram e se rornaram mais graves em muitas partes do nAo-envolvimento das comunidades de base.
mundo - foram associadas ao de.floreslamento nas bacias fluviais
das leIJBS altas. 23

5,2.3.4 O avanço dos desertos 5.•3 O DESAFIO

Cerca de 29% da superfície lerrestre do planeta sofrem desel1ifi­ A demanda de aIímentos crescerá à medida que as populações
cação branda, moderada ou grave; outros 6% enquadram-se na aumentarem e seus padrões de consumo se al_m. Até o ÍlOl
calegoria de desertificação extremamen(eo grave.24 Em 1984, as do século, a famffia humana será acrescida de cerca de 1,3 bilhão
terras áridas do mundo sustentavam cerca de 850 milMes de pes­ de pessoas (ver capítolo 4); mas a elevação das rendas pode ser
soas, das quais 230 milhões viviam em !erms afetadas por grave responsável por 30 a 4Q% do aumento da demanda de alimenros
desel1ificação. 25 nos países em desenvolvimento, e por cerca de 10% nas nações
O processo de desertificação atinge quase todas as regiões do industrializadas.lO Assim, nas próximas décadas. o sistema global
globo, ma_ é mais destrutivo nas lerras áridas da América do Sul, de alimentos deve ser gerido de fonna a aumentar a produção de
Ásia e África; nessas três áreas, em col1Íunro, 18.5% das lerras alimedtos em 3 a 4% anuaimenle.
produtivas (870 milhões de hectares) estão em processo grave de A segurança aIímentar do mundo depende não só do aumenro
desertificação. Das lerras áridas dos pallles em desenvolvimento, da produção global. mas da redução das distorções na estrutura
as que mais sofrem são as zonas do Sudão e do Sabel, na África, do mercado mundial de alimentos e também de um deslocamento
e. em grau mais reduzido, alguns países situados ao sul dessas da produção de alimentos para pallles. regiões e famllias que
zonas. Nas leIJBS áridas e semi-áridas dessa região encontram-se apresentam déficit em alimentos. Muitos dos pallles cuja produção
80% das pessoas moderadamente atingidas pelo problema e 85% 6 insuficienle para a própria alimentação possuem as maiores re­
das pessoas gravemente atingidas,26 servas ainda exislenles de recursos agrícolas não-explorados. A
A degradação progressiva da lerra até atingir a condição de América Latina e a África subsaariana dispõem de mnita terra nio
deserto vem' aumentando a uma taxa anual de 6 milhões de hecta­ aproveitada. embora sua qualidade e quantidade variem baslanle
res. 27 A cada ano. mais 21 milhões de hectares não dão qualquer de pais paI'!! país e esta lerra seja em grande parte ecologicamenle
reromo econômico devido ao avanço da desel1ificação.28 E essas vulperável.31 A URSS e parte da América do NorIe dispõem de
tendências devem-se manler, apesar de algumas melhorias locali­ exlensões siguificativas de terras pouco exploradas adequadas à
zadas. agricultura; só a Ásia e a Europa carecem verdadeiramenle de let­
A desel1ificação é causada por uma mistura complexa de efei­ ras para o cultivo.
tos climáticos e hllllllll!os. Entre os efeitos humanos - sobre os A segurança alimentar do mundo também depende de se ga­
quais lemos mais controle - estão o rápido aumento das popula­ rantir a rodas as pessoas. mesmo às mais pobres. o acesso ao ali­
ções humanas e animais, práticas nocivas de uso da lerra (prlnci­ mento. Embora em escala mundial esse desafio exija toda uma
paimenle o desflorestamento), relações de troca adversas e con­ reavaliação da distribuição global de alimentos, a tarefa é mals
flitos civis. O cultivo de culturas comerciais em áreas de pasta­ urgenle e difícil para oS governos nacionals. A distribuição desi­
gem inadequadas obrigou os pecuaristas e seus rebanhos a ocupa­ gual dos bens de produção, o desemprego e o subemprego cons­
rem letras marginais. As relações de troca internacionais desfavo­ tituem o cerne do problema da fome em muitos paises.
ráveis aos produtos primários e as políticas dos países presradores
141
140
das economias industriais de mercado, permitindo que adorem
"O desenvolvimento agr(cola qprt!S<!nkl /IfIIÜas conIraI.Iiçtles. É práticas agrícolas mais sustentáveis. As estruturas de incentivos
preciso parar de imitar cegamente os modelas cricuJbs em. cir" podem ser allllradas a 11111 de que estimulem as práticas agrícolas
cunst4nclas di[erenJes e considerar as" real!dades e as" ~s que melhoram a qualidade do solo e da ágoa, e não a superprodu­
existenJ:es na Africa. Vastas dreas de terra virgem forom alienas ção. Os orçamentos governamentais ficariam aliviados dos ônus
a cu.ltivos de ~ão. cujos preços continuam declinando. de estocar e exportar excedenres de produção.
isto não é do interesse dos palses'em desenvolvime1flo. Essa mudança na: produção agrícola s6 será suslllntável se a
São tantos os probfemos a :ruperar que aM nos esquecemm de
que cado problema é uma oportunidade de fazer algo positivo. base de recursos estiver bem protegida. Como já se viu, hoje es­
Temos agora a oportunidade de perr.mr na COII3e1V<1Ção e 110 tamos bem longe disso. Portanto, para se atingir a segurauça ali­
meio ambienJ:e num amplo conlato educocional. Fazendo isso, mentar no mundo, a base de recursos para a produção de alimen­
poderemos chegar à nova geração ti! demonstrar..fhe a beleza e as" tos deve _ mantida, aumentada e - caso tenha sido reduzida ou
vantagens do mundo que a cerca." destruída - recuperada.

Adolfo Mascarenhas 5.4 ESTRATÉGIAS PARA A SEGURANÇA
Escritório de Harore da Uni4<1inl<1macionaJ ALIMENTAR SUSTENTÁVEL
para a Con:rervaçdo da Natureza e dos Recursos NaJIlmis
AU<fu!ncia ptlbtica da CMMAD, Harare, 18 de setembro de 1986 A segurança alimentar exige mais do que bons programas de con­
servação, que podem ser - e geralmente são - comprometidos e
prejudicados por poll'ticas agrícolas, econômicas e comerciais
inadequadas. Tambmn não se trata apenas de acrescentar aos pr0­
gramas um elemento ambiental. As estratégias referentes à ali­
Um desenvolvimento agrícola rápido e sólido representa nlIo mentação devem levar em conta todas as políticas relacionadas
só mais alimento, como também mais oportunidades de ganhar di­ com o triplo desafio de deslocar a produção para onde ela ~ mais
nheiro para comprar comida. Assim, quando os países com recur­ necessária, de assegurar os meios de subsistência dos pobres ru­
sos agrfcolas ainda inexplorados se abastecem importando mais rais e de conservar os recursos.
alimentos, estão na verdade importando. desemprego. Da mesma
forma, os países que subsidiam as exportações de alimentos estão 5,4.1 A Iolen'enção do 1IIO'm'DO
contribuindo para que o desemprego aumente nos países importa­
dores. ISso marginaliza as pessoas, e os marginalizados se vêem A imervenção governamental na agricultura ~ uma constanlll tanto
forçados a destruir a base de recursos para sobreviverem. Um nos par.ses em desenvolvimento como nos industrializados, e está
meio de assegurar a subsistência em bases sustentáveis ~ dirigir a aí para ficar. Para os sucessos obtidos nos 11ltimos 50 anos contri­
produção para os países com d~ficit em alimentos e para os agri­ buíram o investimento público em serviços de exlllnsão e pesquisa
cultores destes países que dispõem de poucos recursos. agrícola, a assistência ao crédito agrícola e serviços de comercia­
A conservação da base de recursós agrfcolas e a manureução lização, e uma série de outros sistemas de apoio, Na verdade, o
da segurança dos meios de subsistência dos pobres podem refur­ problema para muitos países em desenvolvimento ~ a fragilidade
çar-se mutuamenre de IIés maneiras. Primeiro, a segurança no t0­ desses sistemas.
cante a recursos e meios de subsislêncla adequados leva a uma Mas há também outros tipos de inlllrvençllo. Muitos governos
boa administração doméstica e a uma administração sUBrentável. controlam praticamente todo o ciclo alimentar - insumos e pro­
Segundo, atenuam a migração do campo para a cidade, estimulam dutos, vendas inlemaS, expol'taÇóes, abasrecimento, estocllgem e
a produção agrícola a partir de reclH!!às que de outra forma p0de­ distribuição, controles de preços e subsídios - e impõem várias
riam ser subutilizados, e reduzem a necessidade de produzir ali· oonnas para o uso da Illrra: área da terra, variedade de culturas
mentos em outros lugares. Teroeiro, combatendo a pobreza, aju­ etc.
dam a desacelerar o ritmo do aumento populacional. De modo geral, há IIés falhas básicas no. padrões de inlllrven­
O deslocamento da produção para os países com déficit em ção governamental. Primeiro, os cri~o. empregados no plane­
alimentos também reduzirá a pxessão sobre os recursos agrícolas jamento dessas inlllrvençõe. não têm qualquer orientação ecol6gi­
142 143
ca e muita.'! vezes são regidos por considerações de curto prazo.
Esses critérios deveriam desencorajar práticas agrfcolas incorreta.'! "O problema da agriculrura não é impessoal. Eu, como agri­
do ponto de visla ambienlal e encorajar os agricultores a conser­ cultor, sou ....... vftima potencial do sistema 110 qual trabalha­
var e melhorar seus solos. floresta.'! e recursos hídricos. mos. Por que cerca de um quarto dos agricultores canadenses
A segunda falha é que a política agrícóla tende a atuar num esiá dianle da penpectiva imediaIa de falbtcia? Essa situação
contexto nacional de preços e subsídios uniformes. critérios pa­ tem refoção direta com o conceito geral de uma po/ftica de ali­
dronizados para o provimento de serviços de apoio. financia­ mentos baratos que constinli a pedra angukzr da polftica agrf­
mento indiscriminado de investimentos em infra-estrutura etc. É COÚlfederal desde o princfpia da colonização.
Consideramos a atual polftica de alimentos baratos uma for.
preciso adolllr políticas que variem de região para resiiio e que Te­ ma de viol4ncia econlJmica que estd contribuindo pora a cuplo­
flillltn as diferentes necessidades regionais, para estimular os ração do solo e pora uma refoção cada vez mais impessoal entre
agricultores a adolarem práticas que sejam ecologicamente sus­ os agricultores e o solo, em funçilo da sobreVivencia econlJmica.
tentáveis em suas próprias lreas. Trata-se de uma poIftica de industrialização que SÓ pode levar ao
É fácil demonstrar a importância da diferenciaçãO regional de desastre econ&nico - pora nós como agricultores e, do pomo de
políticas: vista ambUtntal. para nós todos como canadenses e cidadãos do
• Nas iireas de encosla, lalvez seja necessário fixar preços de in­ 11'IIiII1tILJ. ".
centivo para as frutas e subsidiar a oferta de grãos a1irnontícios,
para induzir os agricultores a se dedicarem à horticultura, que po­ W.yne Easter
de ser mais sustentável do ponto de viSIa ecol6gico. Presidente da União Naciono.! dos Agricultores
Audiência p6blica da CMMAD, Ottawa, 26-27 de maio de 1986
• Em lreas propensas à erosão pela ação dos ventos e da água,
a intervenção governamental por meio de subsídios e outras medi­
das estimularia os agricultores a conservar o solo e a água.
• Os agricultores cujas terras ficam em áreas de realimentação de
lençóis freáticos sujeitos à poluição por nitrato devem receber in­
centivos para manter a fertilidade do solo e aumentar a produtivi­ reduzem o incentivo a produzir. O que é preciso, em muitos ca­
dade por outros meios que não o uso de fertilizantes à base de ni­ sos, é nada mais nada menos que uma tentativa radical de tornar
trato. as "rdaçõe. de troca" favoráveis ao. agricultores. mediante polí­
A terceira falha da intervenção governamental está nos siste­ ticas de fixação de preços e realocação dos gastos governamen­
mas de incentivos, Nos países industrializados, a superproteção tais.
aos agricultores e a superprodução represenllltn o resultado. acu­ Pam promover a segurança alimentar de wna perspectiva glo­
mulado de reduções fiscais; subsídios diretos e controles de pre­ bal, é necessário reduzir os incentivoS que forçam a superprodu­
ços. Hoje, estas políticas estão cheias de contradições que esti­ ção e a produção não-competitiva nas economias desenvolvidas
mulam a degradação da base de recursos agríColas e. a longo pra­ de mercado, e awnenlllr os incentivos à produção de alimentos
zo. causam mais prejuízos que beneficios à agroindllstria. Alguns DOS países em desenvolvimento. Ao mesmo tempo. é preciso re­
governos já reconbecem isso e estão se esforçando para alterar o formular eSses sistemas de incentivos a fun de promover práticas
enfoque dos subsldios, passando do crescimento da produção para agrícolas que conservem e fonaleçam a base de recursos agríco­
a conservação. las.
Por outro iado, os sistemas de incentivos são deficientes na
maioria dos países em desenvolvimento. As intervenções no mer­ 5.4.2 Uma penpeetlva lIloba!
cado são quase sempre ineficazes por falta de wna estrutora orga­
nizacional ,de abastecimento e distribuição. Os agricultores ficam O comércio internacional de produtos agrícolas triplicou de 1950
expostos a um alto grau de incerteza. e os sistemas de subsídios a 1970, e desde então duplicou. No entanto. quando se trata de
com freqüência favorecem os habitantes das cidades ou se res­ agricultura, os países são extremamente conservadores; continuam
tringem a alguns poucos cultivos comerciais, acarretando. nos pa­ pensando principalmente em temJo$ locais ou nacionais e preocu­
drões de cultivo, distorções que awnenllltn as pressões destrutivas pando-se sobretudo em proteger seus próprios agricultores às
sobre a base de recursos. Em certos casos, OS controles de preços cUsta.'! dos competidores.

144 14'
Deslocar a produção para os países deficitários em alimentos de suas terras, florestas e recursos bídricos suficientemente deta­
exigirá uma grande mudança nas estrut\JraS de comércio exterior. lhados para servir de base à deÍmição das categorias de terras.
Os países precisam ~nder que todas as partes perdem com Poucos países em desenvolvimento possuem tais levantamen­
as barreiras protecionistas, que :reduzem o comércio de produtos tos, mas podem e deveriam 'realizá-los o mais depressa possível,
alimentícios em relação aos quais algulIlllll nações têm genuína recorrendo ao rastreamento por satélite e a oulms técnicas aVaD­
vantagem. Esses países têm de começar pela refonnulação de seus çadas.3 2
SÍStelIlllll comerciais, tributários e de iucentÍvos, empregando cri­ A seleção das terras que pertencem a cada categoria poderia
térkls que abranjam a sustentabilidade ecológica e ecooc1mica e a ser da responsabilidade de uma junta ou comissão que represen­
vantagem comparativa internaciooal. tasse os interesses envolvidos, sobretudo os dos segmentos mais
Nas economias desenvolvidas de mexcado, os eXcedentes de­ pobres e marginalizados da população. O processo deve ser de
correntes de iucentivos aumentam as pressões para a exportação caráter pÓblico baseado em critérios aceitos por todos e que aliem
desses excedentes a preços subsidiados 00 como ajuda alimentar o melbar método de uso ao nível de desenvolvimento necessário
lIlio-emeI:geocial. Os países doadores e os recebedores deveriam para manter os meios dC sUbsistência. A classificaçiio da terra se­
responsabilizar-se pelos efeitos da ajuda e usá-Ia com objetivos gundo o melhor uso acarretará mudanças no provimento de infra­
de longo prazo. Tal ajuda pode ser usada de forma proveitosa em estrutura, nos serviços de apoin, medidas promocionais, restriçóes
projetos de recuperação de terras degradadas, criaçiio de iofra-es­ nonnativas, subsídios fiscais e onttos incentivos e desincentivos.
trutura rural e melhoria do ofvel de nutrição de grupos vulnerá­ As terras classificadas como áreas de prevenção não deveriam
receber garantias e subsídios que estimuiassem seu aproveita­
veis.
mento para agricultura intensiva. Mas essas áreas poderiam muito
bem suportar determinados usos ecológicos e economicamente
5.4.3 A baBe de recursos sustentáveis, como pastagens, plantaçóes de madeiras combustí­
veis, fruticultura e silvicultura. Esses sistemas de apoio e incenti­
A produçiio agrícola só pode ser mantida a longo prazo se a terra, vos refannulados deveriam cenlIar-se numa variedade maior de
a água e as florestas que coostil.oem sua base niio sofrerem degra­ cultivos, inclusive os que favorecem pastagens, conservaçiio do
daçiio. Como sugerimos, uma reorientação da intervenção póblica solo e da água el<:.
criará condições para isso. Mas silo necessárias medidas mais es­ Hoje, fatores naturais e certas práticas de uso da terra reduzi­
pecíficas de proteção da base de recursos para manter ou mesmo ram a produtividade de vastas áreas a nfveis muito baixos para
awnentar a produtividade agrícola e os meios de subsistência de manter até mesmo a agricultura de subsistência. O Imtamento des­
todos os que viwom DaS áreas rurais. sas áreas deve variar de um lugar para outro. Os governos deve­
riam dar prioridade ao estabelecimento de uma polftica nacional e
5.4.3.1 O uso da terra de programas multidisciplinares, bem como à criaçiio ou ao for­
talecimento de instituições destinada. à recuperação dessa..
O primeiro passo para incrementar a base de recursos é definir áreas. Tais instituições já existem, mas poderiam ser mais bem
três categorias amplas de terras: coordenadas e planejadas. O Plano de Açiio das Nações Unidas
• áreas de reforço, capazes de suportar cultivos intensivos e ní­ para o Combate da DesertiÍICação, já em execnçiio, necessita de
veis mais altos de população e conswno; mais apoio, sobretudo financeiro.
• áreas de prevenção, que por comum arordo não devem ser ex­ A recuperaçiio pode exigir a imposição de limites às atividades
ploradas para agricultura intensiva ou, caso já o sejam, devem ser humanas para pemútir que a vegetação se regenere. lstp talvez
aproveitadas para outros usos; seja diffcil onde já existem grandes rebanhos ou grande número
• áreas de recuperação, onde as terras desprovidas de cobertura de pessoas, pois a concordãDcia e a participação dos habitantes
vegetal já apresentam uma produtividade e x _ n t e reduzida. locais silo da maiOr importància. O Estado, com a cooperação dos
ou a perdersm por completo. que vivem nessas áreas, poderia protegll-Ias declarando-as reser­
Identificar a terra de acordo com os critérios de "melhor uso" vas !J.8Cionais. Quando essas áreas silo de propriedade privada, O
requer informações que nem sempre estão disponíveis. A maioria Estado deveria tentar comprar as terras ou então dar incentivos
das nações industrializadas possui levantamentos e mapeamentos pára a sua recuperaçiio.

146 147
e superficiais pode ampliar a disponibilidade de água e fazer com
"A agricultura inJensiva pod4 em pouco tempo esgotar a cober­ que um abastecimento Iinútado dure mais.
tura do solo, degradotuJo-a, a menos que se tomem medidas es­
peciais de proteção que visem a uma recuperação constante e a 5.4.3.3 Alternativas para os produtos qulínicos
uma fertilidm:le maior. A tarefa da agricultura não se limita,
portanto, d obtenção do produto biológico, mas inclul a mànu­ Muitos países podem e devem aumentar a produtividade utilizan­
tenção permanente e o aumento da fertilidm:le do 'solo. Do can­
tnJrio. logo consumiremos o que par dil'l!ito pertence a nossos do mal. fertilizantes e pesticidas químicos, sobretudo no mundo
filhos. netos e bisnetos, para não mencionar descendentes ainda em desenvolvimento. Mas os países também podem obter maior
mais distantes. Esse equivoco - que nossa geração viva até certo produtividade ajudando os agricultores a usar nutrientes orgâni­
ponto ds custas das júJuras gerações, utilizando impensadamente cos com mais eficiência. Por isso. os governos devem incentivar o
as reservas bdsicas de fertilidm:le do solo. acumuladas durante uso de mais nutrientes vegetais orgânicos para complementar os
os mil~nios do desenvolvimento da biosfera. em vez de viver do produtos químicos. O controle de pragas também deve se apoiar
incremenro anual de agora - pI'l!OCIIpQ cada vez mais os cientis­ cada vez mais no emprego de métodos naturais. (Ver bo" 5.2.)
tas que lidom com O estado da cobertura do solo plonetdrio." Estas eslratégias requerem mudanças nas políticas públicas, que
atualmente estimulam um emprego maior de pesticidas e fertili­
B.G. Rozanov zantes químicos. Para adotar métodos que não usem produtos
Un/versidatú Estatal de Moscou
químicos, ou os usem em menor escala, é preciso criar e manter
Audiéncia pÓblica da CMMAD, Moscou. 11 de dezembro de 1986
condições jurídicas, políticas e de pesquisa.
O. fertilimntes e pesticidas químicos são fortemente subsidia­
dos em muitos palses. Tais subsídios promovem o uso de produ­
5.4.3.2 A administração das águas tos químicos exatamente nas áreas agrícolas mais orientadas para
o comércio. onde os danos que causam ao meio ambiente já p0­
É essencial administrar melhor os recursos hídricos para aumentar dem ser maiores que qualquer aumento verificado na produtivida­
a produtividade agrícola e reduzir a degradação da terra e a p0­ de. Por isso, regiões diferentes requerem políticas diferentes para
luição da água. Neste caso, as questões-chave são a concepção regulamentar e promover o uso de produtos químicos.
dos projetos de ínigação e a eficiência no uso da água. As estroturas legislativas e institucionais de controle dos
Quando a «gua é escassa, o projeto de ínigação deve maxinú­ agrotóxicos precisam ser bastante fortaiecidas em tudo o mundo.
zar a produtividade por unidade de água; quando a água é abun­ Os países industrializados devem impor controles mais rígidos à
dante, deve maximizar a produtividade por unidade de terra. Mas exportação de pesticidas. (Ver capítulo 8.) O. países em desen­
t i condições locais é que irão determinar o volume de água a ser vulvimento precisam dispor dos instromentos legislativos e insti­
utilizado sem .prejuízo para o solo. Pode-se evitar a salinização, a tucionais básicos para admialstrar o uso de produtos químicos
alcalinização e os alagamentos tomando-se maiores precauções agrícolas em seus territórios. E para tanto necessitarão de assis­
com reiação a drenagem. manutenção, sistemas de cultivos, con­ tência técuica e financeira.
trole do volume de água e cargas d'água mais racionais. Muitos
desses objetivos são mais fáceis de atingir com projetos de irriga­ 5.4.3.4 Silvicultura e agricultura
ção em pequena escala. Mas, grandes ou pequenos, os projetos
têm de ser planejados levando-se em conta as capacidades e os As florestas virgens protegem as bacias fluviais, reduzem a ero­
objetivos dos agricultores que deles participam e que devem ser são, servem de habitat para espécies selvagens e desempenham
chamados a colaborar em sua adminislração. papel-chave nos sistemas climáticos. São também um recurso
Em certas áreas, o uso abusivo das águas subtetrineas está fa­ económico, pois fornecem madeira, lenha e outros produtos. É
zendo baixar rapidamente o nível dos leuçóis freáticos - comu­ vital equilibrar a necessidade de explorar florestas com a necessi­
mente um caso de proveito próprio às custas da sociedade. Quan­ dade de preservá-Ias.
do O uso das águas subterrâneas excede a capacidade de renova­ Para serem corretas, as políticas florestais só podem se basear
ção dos lençóis subterrâneos locais, tomam-se essenciais contro­ na análise da capacidade das florestas e das terras onde se encon­
les normativos OU fiscais. O uso combinado de águas subterrâneas Iram para desempenhar v4rias funções. Tal análise pode levar li

148 149
ção de maior responsabilidade aos governos e comunidades lo­
Box 5.2 Sistemas naturais de nutrientes cais. Será preciso negociar, ou renegociar, os contratos relativos
e _Irole de pragas ao uso das florestas, a fim de assegurar a sustentabilidade da ex­
ploração florestal e da conservação do ecossistema e do meio am­
• Os resíduos agrícolas e o adubo orgânico são fontes p0­ biente globais. Os preços dos produtos f10reslnis devem refletir o
tenciais de nutrientes do solo. vetdadeiro valor desses bens, enquanto recursos.
• Os resíduos orgânicos reduzem a perda e, aumentam o Porções de floréstas podem ser classificadas como áreas de
aproveitamento de outros nutrientes, além de melhorar a ca­
pacidade do solo de reter água e resistir à erosão. prevenção. Trata-se, basicamente, dos parques nacionais, que p0­
• O usO de adubo orgS.nico, particularmente em conjunção deriam Íu:ar ao \aJ:go da exploração agrícola a fllD de conservar o
com culturas intervaladas e rotativas, pode reduzir bastante solo, a água e a vida selvagem. Podem-se também incluir as terras
os custos de produção. marginnis, cuja exploração acelera a degradação da terra por meio
• Os sistemaS podem ficar muito mais eficientes se o adubo da erosão ou da desertificação. Quanto a isso, o reflorestamento
ou a biomassa vegetal forem digeridos anaerobicamente em das áreas florestais degradadas é de vital importância. As áreas de
usinas de biogás, gerando energia para cozinhar e para pôr conservação ou os parques nacionais também conservam os recur­
em fimcionamenlD bombas, motores e geradores elétricos. sos genéticos em seus habitais naturals. (Ver capítulo 6.)
• São de grande potencial os sistemas naturais de fixação Pode-se também mesclar silvicultum e agricultum. Os agricul­
biológica do nitrogênio através do uso de cettos cultivos tores podem utilizar sis~ agroflorestais para produzir ali­
anuais, árvores e microorganismos, mentos e combustível. Em sistemas assim, uma ou mais calturas
• O controle integrado de pragas reduZ a necessidade de
agroquúnicos, melhora o balanço de pagamentos de um país, rubóreas combinam-se a uma ou mais cultums alimentícias ou à
libera divisas para outros projetos de desenvolvimento e ge­ criação de anintais na mesma área, embora nem sempre ao mesmo
ra empregos onde eles são mais necessários. tempo. Se as culturas são bem selecionadas, reforçam-se mutua­
• O controle integllldo de ptagas exige informações deta-· mente e produzem mais alimentos e combustível do que produzi­
Ihadas sobre as pragas e seus inimigos naturais, variedades riam em separado. A tecnologia adapta-se de modo especial a pe­
de sementes criadas para resistir às .pragas, padrões integra­ quenos agricaltores e a terras de qualidade inferior. A agrossilvi­
dos de cultivos e agricultores que apóiem esse método e es­ cultum foi praticada em toda parte pelos agricultores tradicionais.
tejam dispostos a modificar suas práticas agrícolas para O desaflo atual é retomar OS métodos anr' aperfeiçoá-los,
adotá-lo. adaptá-los às novas condições e criar outros.
As organizaçôcs internacionais de pesquisa florestal deveriam
atuar em vários países tropicnis e em vários ecossistemas, seguin­
do a orientação do Grupo Consultivo para a Pesquisa Agrícola
conClusão de que cenas florestas devem _ denubadas para dar Intemacioual. Há um campo enonne para operações institucionais
lugar ao cuJlivo intensivo, e outras, à criação de gado; algumas e novas pesquisas sobre O papel da silvicultum na produção agrí­
áreas florestais poderiam _ destinadas ao aumento da produção coU;, como por exemplo o desenvolvimento de modelos para pre­
de madeira ou à silvicullura e outras deixadas intatas para a pro­ ver melhor os efeitos da remoção de porções específicas da co­
teção das bacias, o lazer ou a conservação das esp6cies. O apro­ bettura florestal sobre a perda de água e de solos.
veitamenlD das áreas florestais para Íms agrfcolas deve - feito
com base na classificação cienU'fica da capacidade da terra. 5.4.3.5 AqüicuJ.tuTa
Os programas de preservação dos recursos floreslnis devem vi­
sar, em ptimeiro lugar, às pessoas que ·vivem no local; elas são ao A pesca e a aqüicultum são vitais para a segurança alimentar,
mesmo tempo vl'I:imas e agentes da destroição, e teIão de suponar pois fornecem proteínas e geram emptegos. A maior parte da pro­
o ônus de qualquer novo esquema de administração}3 Nelas se dução pesqueira mundial provém da pesca marítima, que produziu
deveria central a administração florestal integrada, que é a base 76,8 milhôes de toneladas em 1983. Nos Illlirnos anos, a oferta
da agricultum sustentável. aUIl1eJ1tou em 1 milhão de toneladas anuais; no fim do s6cu1u, tal­
Tal método acarretaria mudanças no modo de os governos es­ vez se chegue a uma produção pesqueira de aproximadamente
tabelecerem prioridades de desenvolvimenlD, e também a atribui- 100 milhôcs de toneladas. 3S Isso fICa bem aquém da demanda
ISO 1St
projetada. Há indícios de quc grande parte das reservas naturais
de peixes de água doce já foram totalmente exploradas ou atingi­ "Na raiz da questtio ambiental esld um problema agrário que só
das pela poluição. será resolvido se for adatadn uma polftica ecológÍCrl sb'ia - e se
A aqüicultura, ou "piscicultura", que difere da pesca COnven­ a polftica agrlcola receber nova orientação. Creio que quolquer
cional porque os peixes são deliberadamente criados em reservas polftica conservacionista tem de ser acompon/uuúl de uma polfti­
aquáticas controladas, pode ajudar a satisfazer as necessidades ca agrlcola coerente que ate11da não só às necessidodes de pre­
futuras. A produção aqwcola duplicou na última década e hoje servação. mas tmrrbhn às necessidodes da populai;ão brasilei­
ro."
representa cerca de 10% da produção pesqueira diundial.36 Se
houver o necessário apoio científico, financeiro e organizacional, . Jillio M.O. O!'iger
espera-se que essa ~ÇãO aumente de cinco a 10 VllZeS por Presidente d. Associação Nacional de Apoio ao (ndio
volta do ano 2000. A aqúicultura pode ser feita em arrozais, Audi&cia Páblica da CMMAD, S60 Paulo, 28-29 de outubro de 1985
minas abandonadas, pequenos reservatórios e em muitas outras
áreas providas de água, e também em várias escalas comerciais:
individual, familiar, cooperativa ou empresarial. Deve-se dar
prioridade máxima à expansão da aqüicultura nos países desen­
volvidos e em desenvolvimento. são incertas, a topografia irregular e os solos pobres, sendo por­
tanto impróprias às tecnologias da Revolução Verde.
5,4.4 Produtividade e produção Para ser de valia à agricultura dessas áreas, a pesquisa tem de
ser menos centralizada e mais sensível às condições e prioridades
A conservação e o incremento da base de """ursos agrícolas fará dos agricultores. Como primeiro passo, os cientistas precisam en­
aumentar a' produção e a produtividade. Mas para tornar os insu­ trar em contato com os agricultores pobres e basear suas priorida­
mos mais efetivos são necessárias algumas medidas específicas. O des de pesquisa nas prioridades dos que cultivam a terra. Os pes­
melhor modo de obter isso é reforçando a base de recursos tec­ quisadores devem aprender com os agricultores e desenvolver as
nológicos e humanos da agricultura nos pafses em desenvolvi­ inovações introduzidas por eles, e não apenas o contrário. Deve­
mento. riam ser feitas mais pesquisas nas próprias fazendas, utilizando-se
as estações de pesquisa como ponto de referência e pedindo-se a
5.4.4.1 A base tecnológíca colaboração dos agricultores na avaliação dos resultados.
As empresas comerciais podem ajudar a desenvolver e difundir
A combinação de tecnologias tradicionals e modernas cria condi­ a tecnologia. mas cabe às instituições públicas fornecer a estrutu­
ções para a melhoria da nutrição e o aumento do emprego rural ra necessária à pesquisa e à extensão agrícolas. Nas regiões em
em bases sustentáveis. A biotecnologia - inclusive técnicas de desenvolvimento, são poucas as instituições acadêmicas e de pes­
cultura de tecidos e tecnologias para o preparo de produtos de quisa bem-dotadas de recursos financeiros. O problema é mais
valor adicionado a partir da biomassa -, a microelelrÔnica, a in­ grave nos países de baixa renda, onde os gastos COm pesquisa e
formática, a transmissão de imagens por satélite e a tecnologia da extensão agrícolas representam 0,9% da receita agrícola total,
comunicação, todas são aspectos de tecnologias de ponta que p0­ contra 1,5% nos países de renda média,39 As atividades de pes­
dem aumentar a produtividade a~[a e contribuir para uma quisa e extensão precisam ser bastante ampliadas, sobretudo nas
melhor administração dos """ursos. 11 áreas em que clima, solos e terrenos apresentam mais problemas.
Dar aos agricultorea que dispõem de poucos recursos meios de Essas áreas, em particular, necessitam de novas variedades de
subsistência sustentáveis representa um grande desafio para a sementes, mas o mesmo se dá com grande parte da agricultura dos
pesquisa agrícola. Os grandes avanços ocorridos na tecnologia países em desenvolvimento. Atualmente, 55% dos recursos vege­
agrícola nos últimos decênios adaptam-se melhor a condições es­ tais genéticos cientificamente estocados do mundo são controla­
táveis. uniformes e ricas em recursos, com bons solos e bom dos por instituições dos países industrializados, 31% por institui­
abastecimento de água. As regiões que mais urgentemente neces­ ções de países em desenvolvimento e 14% por Centros Internacio­
sitam de novas tecnologias são a África subsaariana e as áreas nais de Pesquisa Agrícola.40 Grande parte desse material genético
mais remUlas da Ásia e da América Latina, onde as precipitações provém de pafses em desenvolvimento. Esses bancos de genes

152 153
precisam aumentar seus estoques de material, aperfeiçoar suas pesticidas. O custo desses insumos representa uma proporção ca­
técnicas de estocagem e assegurar que os centros de pesqnisa dos da vez maior dos custos agrfcolas, e o desperdício causa danos
países em desenvolvimento tenham pronto acesso a esses recur­ econômicos e ecológicos.
sos. Uma das necessidades mais importantes relacionadas com a
Cada vez mais, as empnosas privadas adquirem direitos de pr0­ energia é a energia meciinica para irrigação. A eficiência das
priedade sobre variedades melhoradas de sementes, quase- sempre bombas poderia ser muito maior se se concedessem incentivos
sem n:çonhecer os direitos dos países de onde proVém a matéria adequados aos fabricantes de equipamentos e aos agricultores, e
vegetal. Isso pode desencorajar os países ricos em re(:IU"SOS gené­ se propiciasse um serviço efe6'11O de extensão. A energia para as
ticos a facilitar o acesso dos outros países a esses recursos e, as­ bombas de irrigação também poderia ser fornecida por geradores
sim, reduzir as opções de desenvolvimento de sementes de todos a vento ou por máquinas convencionais de combustllo interna que
os países. As possibilidades de pesqlÚsa genética dos palses em funcionassem a biogás, produzido a partir de rejeitos da biomassa
desenvolvimento são tIIo limitadas que sua ~ltura pode se local. Secadores e refrigeradores solares podem poupar produtos
tomar excessivamente dependente de bancos de genes privados e agrícolas. Seria conveniente promover o uso dessas fontes nfio­
de companhias de sementes de outro. países. Por isso, a coopera­ convencionais, sobretudo em áreas carentes de recursos energéti­
ção internacional e uma boa compreensão no tocante à participa­ cos.
ção nos ganhos são vitais em aspectos crfticos da tecnologia agrí­ Há perda de nutrientes quando se faz mau uso de fertilizsntes.
cola, como o desenvolvimento de novas variedades de sementes. Eles freqlientemente se diluem na água que flui pelo campo e de­
terioram o abastecimento local de água. Problemas semelhantes
5.4.4.2 Recursos humanos de desperdício e de efeitos colaterais nocivos ocorrem com o uso
de pesticidas. Por isso, os sistemas de extensão e os fabricantes
A transformação tecnológica da agricultura tradicional será diffcil de produtos químicos precisarão dar prioridade a programas que
se não houver um esforço semelhante para desenvolver os recur­ promOVàlJl o uso jndicioso e contido desses materiais caros e tó­
sos humanos. (Ver capttulo 4.) Isso significa reformas educacio­ xicos.
nals a fim de que se fonuem pesqlÚsadores mais afinados àsne­
cessidades das populações rurais e da agricultura. O analfabetis­ 5.4.5 Eqüidade
mo ainda impera entre os pobres rurais. Mas as iniciativas no
campo da alfabetização deveriam concentrar-se na alfabetização
funcional, que compreende o uso eficiente da terra, da água e das O desafio da agricultura sustentável é elevar não só a produtivi­
florestas. dade e a renda médias, mas também a produtividade e a renda dos
Apesar do papel fundamental da mulher na agricultura, seu que dispõem de poucos recursos. E a segurança alimentar não se
acesso à educação e sua participação em serviços de pesquisa, linúta apenas à questllo de aumentar a produção de alimentos; é
extensão e de outros tipos estão ainda mlÚto longe do ideal. As ~m garantir que os pobres urbanos e rurais não passem fome
mulheres deveriam ter as mesmas oportunidades de educação que a curto prazo ou em meio a uma onda de escassez local de ali­
os homens. Entre os que se ocupam com serviços de extensão de­ mentos. Tudo isso exige a promoção sistemática da eqüidade na
veria haver mais mulheres, e elas ~m deveriam particiPar de produção e na distribuição de alimentos.
levantamentos de campo. As mulheres deveriam dispor de mais
poder para tomar decisóes em nolaçfio a programas agrícolas e flo­ 5.4.5.1 Reforma agrdria
,
restais.
Em muitos países com distribuição de terras muito designai, a re­
5.4.4.3 ProduJIvidode dos iIt.sronos forma agrári" é fundamental. Sem ela, as mudanças institucionais
e políticas que visam a proteger a base de recur!lOS podem de fato
Na agricultura lradicional, o material orgânico local provê o agri­ promover desigualdades, porque impedem o acesso dos pobres
cultor de fontes de energia, nutrientes e meios de controlar pra­ aos recursos e favorecem os latifundiários, que estilo mais capa­
gns. Hoje, essas necessidades são cada dia mais atendidas pela citados a conseguir os parcos créditos e serviços disponíveis. Ao
eletricidade, por derivados do petróleo, fertilizantes qutinicos e deixar centenas de milhões de pessoas sem opções, essas muda0­

154 155
<;as podem produzir o efeito contrário do I1retendido, e permitir
que se continue violando imperativos ecológicos. "À medióo. que a produção agrlcoln se desenvolve. um 1UÓ1Iero
Dadas as diferenças institucionais e ecológicas existentes, é maior de agricultores tem condições de comprar traJores. Mas
impossível uma abordagem universal à refonna agrária. Cada país acabam descobrindo, após usarem OS tratores JX>r um ano. que
são muito mais dispendiosos do que esperavam. devido aos pre­
deve conceber seu próprio programa de refOlma agrária para as­
ços exorbitantes das peças de reposição. Talvez fosse o caso de
sistir aos minifundiários e fornecer uma base para a conservação recomendtu que a Indonésia construa uma fdbríca de peças de
coordenada dos recursos. A redistribuição da !eira é particular­ reposição, antes de continuar estimulando o u.w de tratores na
mente importante onde coexistem latifúndios e grande número agricultura .
de minifundiários. Entre os componentes essenciais da refonna Por isso, ainda não foram pagos vdrios dos emprtsrimos que
estão a reformulação dos acordos de ocupação da terra, a garantia o governo concedeu aos agricultores afim de que modernizassem
da posse e o registro dos direitos de propriedade da terra. Nas re­ suas Mcnícas agricolas. especialmeflle comprando traJores. Se
fonoas agrárias, deve-se dar grande importllncia à produtividade estes ainda estivessem funcionando, os agricultores poderiam
da terra, e, em áreas florestais, à proteção das florestas. prollrlvelmente quitar seus empréstimos. Na verdade, esses trato­
Nas áreas onde as propriedades se fragmentam em vários lotes res estão se tcrlUllldo um problema, JX>rque flC<lm lá enferrujan­
do e transfonnando-se em poluição."
não-contíguos, a reunião das terras pode facílítar a implementação
de medidas de conservação dos recursos. Promover a cooperação Andi Mappasala
entre os pequenos agricultores - em relação ao controle de pragas Presitknte. Yayasan Tellung Poccoe
ou à administração da água, por exemplo - também contribuiria Audiêncía pública da CMMAD. Jacarta, 26 de março de 1985
para a conservação dos recursos.
Em muitos países, a mulber não tem direitos diretos à terra; só
o homem recebe títulos de propriedade. No interesse da segurança
alimentar, as refOlmas agrárias deveriam reoonbecer o papel da
mulher na produção de alimentos. As mulheres, sobretudo as che­
mades, e deve-se dar prioridade ao investimento público para
fes de família, deveriam ter direitos diretos à terra.
melborar suas terras agricultáveis, áreas de pastagem e recursos
hídricos.
5.4.5.2 Agricultores de subsisti1ncia e pec:uoristas
5.4,5.3 Desenvolvimenk> rural integrado
Os agricultores de subsislência, criadores de gado e nôtuades
ameaçam a base de recursos ambientais quando processos que es­
As populações rurais continuarão a aumentar em muitos países.
capam a seu controle comprimem-no. em terras ou em áreas inca­
Dentro dos atuais padrões de distribuição da terra, o número de
pazes de sustentã-Ios.
mínifundiários e de famílias de sem-terra passará de aproximada­
Os direitos tradicionais dos agricultores de subsislência - s0­
mente 50 milhões para quase 220 milhões por volta do ano
bretudo dos lavradores rotativos -, pecuaristas e n&nades preci­
2000.41 Em conjunto, esses grupos representam três quartos das
sam, portanto, ser protegidos. Os direiros à posse da terra e os di­
fanúlias agrícolas dos países em desenvolvimento.4 2 Sem meios
reitos comunais, em particular, precisam ser respeitados. Quando
suas práticas tradicionais ameaçam a base de recursos, esses di­ adequados de subsis!!ncia, essas fanúlias carentes de recursos
reitos podem ter de ser restringidos, mas somente quando se lhes continuarão carentes e se verão forçadas a usar abusivamente a
base de recursos a fim de sobreviverem.
oferecem alternativas. A maioria desses grupos necessitará de
Já se despeoderam muitos esforços para traçar estratégias de
l\Juda para diversificar seus meios de subsislêocia e entrar na ec0­
desenvolvimento rural integrado, e conhecem-se muito bem seus
nomia de mereado, por meio de programas de emprego e a adoção
re<fuisitos e suas annadilhas. A experiência já demonstrou que a
de alguns cultivos comerciais.
refonna agrária é necessária, mas que sozinha não basta, precisa
Desde o infcio, a pesquisa deve dar ateoção às várias necessi­
do apoio da distribuição de insumos e dos serviços rurais. Os mi­
dades da agricultura mista, típica na agricultura de subsis!!ncia.
Os sistemas de extensão e de fornecimento de insumos rem de se nifundiários, inclusive - e de modo especial- as mulheres, devem
tomar mais flexíveis para atingir os lavradores rotativos e os nó­ ter preferênCia quando da alocação de recursos, pessoal e crédito

156 157
escassos. Os pequenos agricultores devem também participar mais Durante a maioria dos períodos de escassez, as famf\ias pobres
da elaboração das políticas agrícolas. f1CMl incapacitadas de produzir a\ímentos e perdem suas fontes
O desenvolvimento roral ínlegrado exige também """ursos para costumeiras de renda, não tendo como comprar o alimento dispo­
absorver o grande aumento das populações que trabalbam nas nfvel. Por isso, a segurança alimentar também requer o pronto
áreas rurais. Tal aumento é esperado na maioria dos pafses em de­ acesso li maquinaria, pam dar poder aquisitivo às farofiias atingi­
senvolvimento devido às oportunidades de trabalho nfío-agrícola das pela catástrofe, através de programas de obras p)tblicas de
que devem ser promovidas nessas 1II:eas. O sucesso do desenvol­ emergência e de medidas de proteção a pequenos agricultores
vimento agrícola e O crescimento das rendas devem criar oportu­ contra quebras de safras.
nidades de trabalho no setor de serviços e na manufat.unt de pe­
quena escaJa, se apoiados por políticas pdblicas.
5.5 ALIMENTO PARA () FUTURO
5.4.5.4 F1utuaçéIes na disponibilidade de alimentos
O desafio de aumentar a produção de a.\imentos pam equipará-la à
demIIIIda, ao mesmo tempo mantendo a integridade ecológica es­
A degnldação ambiental pode amiudar e agravar as crises de es­ sencial dos sistemas de produção, é um desaÍlO formidável em
cassez de alimentos. Por isso, o desenvolvimento agrícola SUS­ magnitude e complexidade. Mas dispomos do conhecimento ne­
tentável reduzirá a variação sazonal da oferta de alimentos. Mas cessário pam conservar nossos =ursos agnirios e hídricos. As
não será capaz de eliminá-la. Haverá flutuações provocadas por novas tecnologias possibilitam o aumento da produtividade e, ao
fatores climáticos, e a dependl!ncia cada vez maior de apenas mesmo tempo, reduzem as pressões sobre os """ursos. Uma nova
urnas poucas variedades de culturai em lII:eas muito vastas pode geração de agricultores combina experiência com educação. De
aumentar OS efeitos danosos do clima e de pragas. As familias posse desses recursos, podemos satisfazer as necessidades da fa­
mais pobres e as regiões ecologicamente mais desfavo"""idas são mília humana. Como obstáculo temos o enfoque limitado do pla.
com freqiI6ncia as que mais sofrem com essas crises de escassez. nejamento e das políticas agrícolas.
A estocagem de alimentos é indispenSável pllnl se enfrentar os
períodos de escassez. No momento, o estoque mundial de cereais A aplicação do conceito de desenvolvimento sustentável ao es­
é da ordem de :20% do consumo IInnal: o mundo em desenvolvi­ forço para garantir a segurança alimentar exige uma atenção sis­
mento controla cerca de um terço do estoque, e o mundo indus­ temática 11 renovação dos recursos naturais. Exige também uma
trializado, dois terços. Mais da metade do estoque dos países em abordagem bolística centrada nos ecossistemas em nfvel nacional.
desenvolvimento está em dois países - Oúna e fndia. Os estoques regional e global, o uso coordenado da terra e o plllnejamento
da maioria dos demais países 8Ó atendem a necessidades opera­ cuidadoso da exploração da água e das floresta'. A meta da segu­
cionais imediatas: as reservas são muito pequenas.43 mnça ecológica deveria estar firmemente enraizada nas atribui­
Os estoques de alimentos dos pafses industrializados são cons­ ções da FAO, de outras organizações da ONU que tratam da agri­
tituídos sobretudo de excedentes e .....-...m de base para a assis­ cultura, bem como de todas as outras agências internacionais cor­
tência emergencial, que p"""Í$l ser mllIltida. Mas a ajuda alimen­ relatas. Também 6 necessário que a assistência internacional se
tar de emergência é uma base p=ária para a segurança alimentar; amplie e receba nova orientação. (Ver capítulo 3.)
os pafses em desenvolvimento deveriam formar estoques nacio­ Os sistemas agrícolas estabelecidos nos á\timos decênios con­
nais nos IInOS em que houvesse excedentes a f!Dl de disporem de tribufram enonnemente pam aliviar a fome e elevar os padrões de
reservas e também de estimularem o estabelecimento da segurança vida. Atingiram seus objetivos ali! certo ponto. mas fonun criados
alimentar em nível familiar. Para IllIlto, p"""isarão de um sistema pam um mundo menor e mais fragmentado. As novas realidades
eficaz de apoio pdblico a medidas que facilitem a aquisição, o revela!n suas contradições inerentes. Tais realidades necessitam
transporte e a distribuição de alimentos. O estabelecimento de de sistemas agrícolas que dêem ateação tanto às pessoas quanto à
serviços de estocagem estrategicamente localizados 6 essencial tecnologia, IllIlto aos recursos qUllnto à produçiio, IllIlto a prazos
IllIlto pam redU7ir as perdas posteriores à colheita quanto para mais dislllIltes quanto a mais imedialos. Só sistemas assim podem
possibilitar intervenções nipidas em casos de emer:gência. enfrentar o desafio do futuro.

158 1'9
No.... 24 Unep. General _ 0 1 of progress in lhe implcmenlation of lhe

plan of Action lo Cornhat Deoertification 197&-1984. Nairób~ 1984;

I B ......do em dados de PAO. Production Yearbook 1985. Rome, 1986. WCED Advisory Panel... cito

2 Baseado em estimativas do B"""" Mundial para 1980, segundo as quais 2S Unep. op:-ci!.

340 míIhlies de habitantes de pafses em desenvolvimento (exceto China) 26lbid.

n!o possuíam rends suficiente para atingir wn padrlio calórico mfnimo que 27lbid.

impedisse sérios danos à saiIde e o raquitismo infantil; e 730 míIhlies ..la­ 28Ibid.

vam abaixo do padrlio exigido para uma vida economicamente ativa. Ver 29lbid.

World Oank. Poveny and hwlger; isso.. and options for food security in 30 PAO. AgricJúJure lOWaI't:Ú 21XJO. Rome, 1981.

developing countries. WashinglOn, D.C., 1986. 31 PAO. POIentiDJ popÍúIJIioII supporting capacities 01 Itmds In the deveIo­

3 PAO. Yearbook of Food anã AgricultlU'e Stat4tics, 1951. Rome, 19S2; ping wor/d. Rome, 1982­
PAO. Production Yearbook 1985, ci!. 32 A claasif"1C<IÇIo da terra elaborada pelo US Oureau of Laad Manage.

4 PAO. Yearbook 01 Food and Agricu/Jural Stalistics Trade Volume, Part meDI é apenas wn exemplo de como o problema pode ser abordado. Um

2, 1951. Rome, 1952; PAO. TI'tUÜI Yearbook 1982. Rome, 19&3; PAO. tipo mailI amplo de claasif"~encontra·se.em: PAO. PoteIIIi4JpopuIa·

TI'tUÜI Yearbook 19&4. R.",.., 1985. . tio" suppoTt/ng capacities.., ciro

5 PAO. 'fr<lú Yearbook 1968. Rome, 1969; PAO. Commodities review 33 Inderéoa. Caguon·Caquera report. Bogota, Colombia, 1985.

anã OfIJ1ook 19&4-85. Rome, 1986. 34 Os progranlas agrnflorestais postos em prática na índia slio exemplos

6 PAO. Yearbook 01 Food anã AgricuJturtlJ Stati.Jtics TI'tUÜI Volume, Part dessa abordastm. Foram adolf\dos enrusiasticamente por mullos agricul.

2,1954. Rome, 1955; PAO. CommodIries review... cito !ores.

7 PAO. Production Yearbook 19&4. Rome, 19&5. 35 FAO. WorIdfood "port. Rome. 1985; WCED Advisory Panel... cit.

8 Brown, L. R. Suslllining world agriculrure. In: BroWll, L.R. el aw. Srate 36 WCED Advisory Panel... cit.

37Ibid.

oflhe world 1987. London, W.W. NOrlOn, 19&7.
9 Gear, A., ed. The orgtmicfood guide. Essex, 19&3. 381bid.

10 USSR Commlltee for lhe Intematiunal Hydrological Docade. WorId 39 FAO. Worldfood report. cit.

""*' ba/JJ1ICt! anã _ r resources 01 lhe &uth. Paris, Uoeoco, 197&. 40 Dados da Pu.ndaçáo Dag HlIIIIIIUU1IItjold. Suécia. In: Cenlnl (or Scie"""

and Environment. op. ciro

11 PAO. Yearbook of Food anã Agricultru'al StatUtics lM/. clt.; PAO.
Production Yearbook 1984. cil. 41 Estimativas da FAO citadas in: WCED Advisory PaneL.. clt.

12 Dairy, pmírie. The Eco_, 15 nov. 19&6. 42 Ibid.

13 WCED Advisory Panel on Pood Security, Agriculture, Poreotry and 43 FAO. Food oudooI:. Rome. 1986.

Environment. Food .fecrully. London, Zed 000"', 1987.
14 Neste relatório o termo pesticidas é WlIIdo em sentido genérico, com·
preendendo inseticidas, herbicidas, fungicidas e outros inswnos agricolas
do gênero.
15 O...,., Muodlal. Relatório $Obre o desénvolv/me1llQ mundial 1986. Rio
de Janeiro, Pundaçlio Gerulio Vargas, 1986.
16 Brown, L.R., op. ciro

17 Standing Committee on Agriculwre, Pisheries and Foreotry. SoII ai

risk; Canada's eroding fulUre. Ottawa, 1984. (Relal6rio sobre a conoerva­

çlio do solo para O Senado do CanadiL)

18 Orown, L.R. cit.

19 Centre for Science and Environment. The _ oflnd1a's envil'Onmelll

/984-85. New DeJhi, 19&5.

20 PAO, Land,food anã people. Rome, 1984.

21 Szabolcs, I. Agrnrian cbange. Elaborado para a CMMAD, 1985.

22 Gear, A. cito

23 Oandyopadhysy, J. Rehabllítalioo of uplsnd watersheds. Elaborado

paraaCMMAD.19&S.

160 161
6. F3PÉCIF.S E ECOSSISTEMAS: RECURSOS vincular da COIIIIerYaçlio de cada espécie dentro dos ecossisremas
naturais. Administrar ao mesmo tempo espécies e ecossistemas é
PARA O DESENVOLVIMENTO evidentemente o modo mais racional de lidar com o problema. Há
Wllmer08 exemplos de soluções aplicáveis a problemas locais. I
As espécies e os e<:oSsi5remas naturais contribuem bastante pa­
ra o 0 0 _ humano. Mas esses rectmlOS tlio importantes rara­
mente são vtilizados de modo a poder en.fren1ar as crescentes
A conservaçlio dos recursos naturais vivos - ""gelais, animais e pressões da futura demanda de benlI e de serviços que dependem
mícroorganismos, e dos elementos não-vivos presentes no meio desses recursos naturais.
ambiente do qual dependem é fundamental psra o desenvolvi­ Cresce o consenso no meio científlco de que as espécies esü\o
mento. Atualmente, a conservação dos recursos vivos selvagens desaparecendo a um ritmo nunca anies preseociado no planeta.
consta dos planos de govemos: quase 4% da supertTcie IelTeslre Mas também há controvérsias quanta a esse ritmo e aos riscos que
do planeta é gerida explicitamente para conservar espécies e acarreta. O mundo está penlendo precisamente aquelas espécies
ecossistemas, e só nmíto poucos países não possuem parques na­ sobre as quais tem ROUCO ou nenhum conhecímelllO; elas estão
cionais. O desafio que se impõe hoje às nações jã não é mais de­ desaparecendo nos habitats mais remotos. Esse crescente interes­
cidir se a conservaçlio é uma boa idéia, mas sim como implemen­ se científico é relativamente recente e os dados em que se baseia
tâ-Ia no interesse nacionai e com os meios disponíveis em cada não são muito.s6lidos. Mas se consolida a cada ano. à medida que
país. surgem novas pesquisas de campo e novos estados JXI1' satélite.
Muitos ecossistemas biologicamente ricos, e promíssores em
beneficios materiais encontram-se seriamente ameaçados. Imlme­
6.1 O PROBLEMA: CARACTERíSTICAS ras variedades biológicas com:m o risco de desaparecer justa­
E ABRA.NG~C1A mente quando a cl!ncia com<IÇIl a aprender a explorar a variabili­
dade gené!tica devido aos avanços da engenharia genética. Vários
estudos documentam essa crise com exemplos tirados de florestas
As espécies e seus elementos genéticos prometem desempenhar tropicais, florestas Jemperadas, IJlIlDllUCzais. recifes de coral. sa­
um papel cada vez mais importante no desenvolvimento, e jã se vanas. prados e zonas áridas. 2 Embora a maioria desses estados
faz presente uma vigorosa argumentação econômíca em defesa apresente documentaçlio de caráter geral e poucos listem as espé­
dos motivos éticos, estéticos e científicos psra preservá-in•. As cies em risco ou recentemente extintas.algons expõem pormeno­
contribuições da variabilidade genética e do elemento plasma rlzadamente espécie por espécie. (Ver box 6.1.)
getmínati vo das espécies à agricultura, à medicina e à indústria já A alteraç.lio dos habitats e a extinção das espécies nIio são as
montam a muitos bilhões de dólares anuais. ónicas ameaças_ O planeta tambi!m ""m sendo empobrecido pela
No entanto, os cientistas só pesquisaram exaustivamente uma perda de raças e variedades dentro de espécies. A variedade das
em cada 100 espécies vegetais da Terra, e uma proporção muito riquems genéticas existentes em uma l1nica espécie é atestada
menor de espécies animais. Se as nações assegorarem a sobrevi­ pela variabilidade evidente nas nmítas raças caninas. ou nos
vência das espécies, o mundo poderá contar com alimentos novos, multos tipos de mílho obtidos pelos cultivadores. 3
e melhores, novas drogas e medicamentos, e novas matérias-pri­ Muitas espécies estão perdendo popolaç6es inteiras a um ritmo
mas psra a indústria. Esta - a possibilidade de as espécies contri­ que reduz rapidamente sua variabilidade genética e, portanto, sua
buírem sempre mais e de uma infiuidade de formas para o OOm­ capacidade de adaptaçio M mudanças cli.máticas e a outrns for­
estar da humanidade é a principal justificativa psra os esforços mas de ad""rsidade ambiental. Os fundos de gelleS remanescentes
cada vez maiores no sentido de salvagoardar os milhões de espé­ das principais espécies ""gelais cultivadas como o mílho e o ar­
cies da Terra. roz, por exemplo, representam apenas uma fraçlio da di""rsidade
19oalmente importantes são os processos vitais efetuados pela gené!tíca que abrigavam há apenas a1gons efednios, mesmo que as
natureza, entre eles a estabilização do clima, a proteção das ba­ próprias espécies não estejam ameaçada •. Assim, pode haver uma
cias fluviais e do solo, a preservação de viveiros e áreas de re­ grande dífem1Ç8 entre perda de espécies e perda de reservas de
produção etc. A conservação desses processos não pode se des­ , genes.
162 163
"No.r;ra mata atI4nlica, essa massa de floresta tropical. que se
estende """"" faixa estreikl de norte a sul. foi drastlcamellt4 re­
Dol< 6.1 Alguns exemplos de extlnçAo de espédes duzida.
A floresta ~se por grande número de espécies en­
• Em Madagascar, até meados do século, havia 12 IIliI espé­ tNmkas. espécies que s6 e:dstem nessa drea e apenas no Brasil.
cies vegetais e provavelmente cerca de 190 IIliI espécies
animais; pelo menos 60% desse total emm enllêIllicas na
Por u,w. rompete a IIÓS. brasileiros, a responsabilidade de
manter vivas es..w:u esplcies.. ~'
faixa florestal existente na parte oriental da ilha (ou seja,
não existiam em nenhum outro lugar do mundo). Pelo menos Ibsen de Gusmão Clmara
93% da floresta priIllitiva desapareceram. Com base nestes Presidelllli da Fundação BrasiÚl/ra para o Conservação da NOture20
nt1meros, 06 cientistas calculam que pelo menos metade das Audiência p6blica da CMMAD. São Paulo, 28-29 de outubro de 1985
espécies originais já desapareceu ou está em vias de desapa­
recer.
• O lago Malavi, na África Central, possui mais de SOO es­
pécies de peixes, das quais 99% endêmicas. O tamanho do t inevitável que se perca parte da variabilidade genética, mas
lago é apenas um oitavo do dos Grandes Lagos da América . todas as espécies deveriam ser protegidas na medida em que isso
do Norte - que possuem apenas 173 espécies, das quais me­ fosse I6cnica, econômica e politicamente possível. O panorama
nos de 10% são nativas - e se encontra ameaçado pela p0­ genético está em conslante mudança através de processos evoluti­
luição causada por instalações industriais e pela possível
introdução de espécies alienígenas. vos, e há mais variedades do que o esperado para serem protegi_
• Supõe-se que o Equador ocidental já tenha possuído entre das por prognunas governamentais bem definidos. Por isso, no
8 mil e 10 mil espécies vegetais, sendo de 40 a 60% endê­ que diz respeito à conservação genética, é preciso que oS gover­
IIlicas. Considerand.,..se que em áreas semelhanles existem nos sejam seletivos e investiguem que reservas de genes merecem
de 10 a 30 espécies animais para cada espécie vegetal, o ser objeto de medidas de proteção. Contudo. como proposta mais
Equador ocidental deve te;r possuído cerca de 200 IIliI espé­ ampla, oS governoS deveriam sancionar leis e implementar poUti­
cies. Desde 1960, quase todas as florestas da região foram cas pdblicas que estimulassem a responsabilidade dos indivíduos,
destruídas para ceder lugar a plantações de banana. poços das comtIl1idades e das empresas para com a proteção das reservas
de petróleo e assentamentos hlllDMOs. t dificil avaliar o de genes.
nl!mero de espécies que desapareceram por causa disso. mas Mas anUla .que a ciência possa se concentrar em novas manei­
poderiam ter sido 50 mil ou mais - e em apenas 25 anos.
• Na região do Pantanal, no Brasil, há cerca de 110.000 ras de conservar as espécies, os planejadores e o ptlblico em geral
Km 2 de terras Wnidas, talvez as mais extensas e ricas do - para o qual as políticas sáo feitas - devem compreender o
mundo, que são o habitat das mais nwnerosas e variadas es­ quanto é grave e premente a ameaça. As espécies importantes pa_
pécies de aves aquáticas da América do Sul. A Unesco con­ ra o bem-estar humano não são apenas os vegetais silvestres apa­
siderou a região "de importãncia internacional", mas ela rentados às culturas agrkolas. oU oS animais criados para consu­
vem sofrendo cada vez mais devido à expansão da agricultu­ mo. As IIlinhocas, as abelhas e os cupins podem ser muito mais
ra, li construção de represas e outras fanoas de desenvol vi­ importantes devido ao papel que desempenham num ecossistema
mento que rompem o equillbrio ecológico. sandável e produtivo. Seria bastante irônico que, justo no m0­
mento em que as novas I6cnicas da engenharia genética começam
Fontes: Rauh, W. Problems of biologic:al ennservatioo in Madsgas­
caro In: Bramwell, D.• ed. Planls anti /slands. London, Academk: a perIllitir que conheçam06 melhor a diversidade da vida e usemos
Press, 1979; Barel. D.C.N. et alii. Destruction of fisheries in Afri­ os genes com mais eficácia para melhorar a condição humana.
ca'. lakes. Noture. 315:19-20, 1985; Gentry, A.H. Pattem. oí ueo­ achemos esse tesouro lamentavelmente desgastado.
tropical pIant species diversity. Evo/ulionary Bi%gy, 15: 1-34, 1982:
Senti, D.A. & Carbonell, M. A directory of neotropical wetlands. 6.1 EXTINÇÃO: FORMAS E TEND~CIAS
GIand, SwitzerIand,lUCN, 1985.
A extinção é um fato tão antigo quanto a vida. Os poUC06 milhões
de espécies que sobrevivem até hoje silo os que restaram do meio
164 165
bilhão que se calcula já haver existido. No passado, quase todas
as extinções ocon:eram por proceSIlOS naturais, mas hoje se devem "Há 20 anos, quando tIec:Idimo8 explorar maiB intenslvr:unente
predominantemente 11 ação humana. nossas florestas, pe1ISl11fIOS apenas na disponibilidade de recur­
A duração média de uma espécie é de cerca de 5 milhões de sos e simplesmenlie os lI&:III'fOS. Na tpoca. achávanu:I8 ramMm
anos. As estimativas atuais mais odmístas são de que, nos últimos que o fato • as árvores serem den'ubadas não impediria a rege­
200 milhões de anos, 900 mil espécies, em média, ... tenham ex­ neraç(io da: florestn. porque ""'" todas as árvores estavam sendo
tinguido a cada I núlhão de anos, o que daria uma taxa média de cortadas. Mas es~ de que ainda não sabIilmos como re­
cuperar florestas tmpicais.
quase uma extinção a cada 13 meses e meio, aproxín:la<lamente.4 Uma espécie nativa czqo nome $l6 Ift!i .... minha IÚlgua, me­
A taxa atual, provocada pela ação humana, é centenas de vezes ranti, t /lOS"" madeira maiB nobre, e t uma árvore que ndo dd
mais alta e podo Iilcilmente chegar a ser milhares de vezes mais sombn:z dMronte seu perfodo de C1'escÍ1f'/elllO. E não pode sobrevi­
alta. S Nilo sabemos. Nilo dispomos de dados numéricos precisos ver sem sombra. E Mo nem levamos isso em conla. simplesmenlie
sobre as taxas atuais de extinção, pois as espécies que estlio de_ aceitamos a tecnologia ocIdentaJ que diz que é preciso derndx.v
parecendo são, em sua maioria, aquelas menos estudadas, como e explorar nonas florestas."
os insetos das florestas tropicais.
Bmmy H. Obarsono
Embora as florestas tropicais dmidas sejam sem dávida as uni­ Rede de Or~_ Nlk>-g<>venamenta" parti.
dades biológicas mais ricas em tennos de diversidade genética e Q COI&SD'WJÇIIo de FIorutlts
as mais ameaçadas pela ação humana, outras importantes mnas Audi8ncla pllblics da CMMAD.lscarta, 26 de março de 1985
ecológicas também sofrem pressões. As terras áridas e senú-áridas
abrigam apenas um n!lmero muito pequeno de espécies, em c0m­
paração com as florestas tropicais. Contudo, devido ao fato de es­
sas espécies se adaptarem a condições de vida muito duras. en­ Por volta do fim dq sécu1o, ou pouco depois, talvez restem
tram na composição de muitos produtos bioquímicos de grande muito poucas florestas tropicais ánúdas virgens, a nào ser na ba­
potencial, como a cera líquida da jojoba e a borracha natural do eia do Zaire ~ na porção ocidental da AtDazônia brasileira, e em
guaiúle. Muitas dessas espécies estão ameaçad.., entre outras algumas outras áreas, como a faIxa florestal da Guiaoa. na nane
causas, pela e~ do. rebanhos. da América do Sul, e partes da ilha de Nova Guiné. ~ improvável
Os recifes de coral, com oerca de meio núlhão de espécies em que as florestas dessas moas sobrevivam por muitos docêalos
400.000 Km", estio ...ndo devastados a tal ponto que provavel­ mais, já que. a demanda mundial de seus produtos continua a .0­
mente, no início do próximo século, só exlstirilo alguns remanes­ q1CIItat, assim como o mlmero de agricultores que exploram essas
centes deteriorados. Isto representaria uma grande perda, pois o. terras.
organismos dos recifes de coral, graças 11 "guerra biológica" em Se o desflorestamento na A.tnazbnia prosseguisse ao ritmo
que se empenham para garantirem seu espaço vital em habitats . atual até o ano 2000 e entlio cessasse por completo (o que é im­
superpovoados, geram um nWnero e uma variedade excepcionais provável), ter-se-iam perdido cerca de 15% das espécies vegetais.
de toxinas inestimáveis para a medicina moderna.6 Se a floresta amazóníca acabasse se restringindo às áreas hoje
As florestas tropicais ánúdas cobrem apenas 6% da supedi'cie consideradas parques e reservaS florestais, 66% das espécies ve­
terrestre do planeta, mas abrigam pelo menos metade das espécies getais desapareceriam, além de quase 69'lL das espécies de pás­
da terra (que totalizam no míninlo 5 milhões, mas podem chegar a ros e proporções semelhantes de todas as outras principais eate~
30 milhões). Nelas vivem 90% ou mais de todas as espécies. As rias de espécies. Quase 20% das espécies da Terra enCODtram-5e
florestas tropicais maduras ainda existentes cobrem apenas 900 em florestas da Aml!rica Latina, excInída a A.tnazbnia; outroS
milhões de hectares, dos 1,s-I ,6 bilhão de hectares que já chega­ 20% estlio em florestas da Ásia e da Áfiica. excluída a bacia do
ram a cobrir. De 7,6 milhões a 10 milhões de hectares são com­ Zaire.8 Todas essas florestas estlio ameaçadas e, se desaparece­
pletamente devastados a cada ano e pelo menos OUtroS 10 milhões rem, as espécies perdidas podem chegar a centenas de milhares.
sofrem sérios danos anualmente. 7 Mas esses mlmero. provêm dI' A menos que se tomem medidas administrativas adequadas de
levantamentos feitos em fins dos anos 70: desde então, é provável longo praro, pode-se perder pelo menos um quarto, talvez um ter­
que o ritmo do desflorestamento tenha se acelerado. ço e possivelmente até uma ptoporção ainda maior daa espécies

166 167
hoje existentes. Muitos especialistas sugerem que se protejam Em muitos pa{ses em desenvolvimento, o aumento populacio­
pelo menos 20% das florestas tropicais, mas até agora bem menos nal é uma das maiores ameaças aos esforços de conservação. O
de 5% recebem algum tipo de proteção - e muitos dos puques de Qu&nia destinou 6% de seu território a parques e reservas, a fim
florestas tropicais existem apenas no papel. de proteger sua vida selvagem e ganhar divisas com o torismo.
É improvável que mesmo os puques e áreas protegidas mais Mas os atusis 20 milhões de hahitantes do país já estão pressio­
bem administrados constituam uma solução adequada para o pr0­ nando tsnto os puques que as terras sob proteção vêm sendo gra­
blema. Na Amazônia, se metade da floresta fosse de alguma for­ dativamente perdidas devido à invasão de (l8ricuItore•. E segundo
ma preservada, mas a outra metade desaparecesse ou sofresse !Ié­ as prqie<;i5es. a populaçio queniana quadruplicará nos próximos
rios dano;;, talvez não houvesse umidade suficiente no ecossiste­ 40 ...ms. 10
Pressões populacionais semelhantes ameaçam os parques da
ma amazônico para manter úmido o restante da floresta. 9 Ela p0­
deria ir secando até se tomar praticamente uma floresta aberta - o Eli6pia. U ganda, Zimbábue e de outros países, onde um mbnero
que provocaria a perda da maioria das espécies adaptadas às con­ cada vez maior, porém mais pobre, de C8lllponeses se vê forçado
dições de uma floresta tropicalllmida. a depender de uma base de recursos naturais cada vez mais redu­
É provável que num futuro não muito distante venham a <>COr­ zida. São sombrias as perspectivas para os puque. que nõQ con­
_ variações climáticas mais generallzadas. uma vez que o acú­ tribuem de modo marcante e comprovado para os objetivos do de­
mulo de "gases de estufa" na atmosfera acarretará o aquecimento sen~lvimento nacional.
do planeta já no início do próximo século. (Ver capftulo 7.) Tal Brasil, Colômbia, Costa do Marfun, Filjpinas, Indonésia, Ma­
dagascar, Peru. Quênia, Tailãodia e outras naçi5es com grande
variação afetará bastante todos os ecossistemas, tornando parti­
culannente importante manter a diversidade nalUra/ como meio de abundAncia de espécies já estão enfrentando fluxos maciços de
adaptação. agricultores das terras tradicionais para territórios virgens. Esses
tenit6rios qll8llC sempre contêm florestas tropicais, que os mi- .
grantes estimulados para a atividade agrícola consideram terras
"livres", onde podem se estabelecer sem empeçilhos. A. W ssoas
6.3 ALGUMAS CAUSAS DA EXTINÇÃO

Os trópicos, que abrigam o maior número e di""rsidade de espé_
cies. também abrigam a maioria dos pa{ses em desen~lvimento,
onde o aumento populacional é mais acelcrado e a pobreza é mais
_s
que já vivem nessas terras - em baixas densidades populacionais
e possuindo apenas os direitos tradicionais à terra - são muitas
banidas desses locais, no afã de cultivar terras que bem p0­
deriam continuar como florestas de uso extensivo.
Muitos países tropicais ricos em recursos florestais provocaram
difundida. Se os agricultores desses pa{ses se virem forçados a "b«mIs de madeira" devastadores ao concederem direitos de ex­
persistir na agricultura extensiva que é intrinsecamente instá""l ploraçio em troca de pagamentos de royalti8s, alugUéis e impos­
e obriga a deslocamentos constantes -, então a agricultura teadará tos que. representam apenas uma pequena ft8ç4o do valor comer­
a se esteadar por todo o meio ambiente selvagem ainda existente. cial líquido da exteaçilo da madeira. O dano causado por esses in­
Mas se forem lliudados e incentivados a praticar uma agricultura centivos foi alnda agravado pelo fato de SÓ serem oferecidas con­
mais intensiva, poderáo fazer uSO produtivo de áreas relativa­ cessões a cw10 prazo - o que leva os concessionários a iniciarem
mente limitadas e afetar muito menos as ten:all selvapns. imedial:s:mente O corte da madeira -, e de serem ado1ados sistemas
Os agricultores necessitaráo de l\iuda: treinamento, apoio à de royalti8s que induzem os madeireiros a só extrafrem as melho­
comercialização, fertiIizantes, pesticidas e implemento. a preços re. árvores, danificando demais as restanteS. Em Conseqüência, 08
acessíVeis. Isso exigirá o apoio integral dos governos, inclusive a empresários madeireiros de YlIrios pafses arrendaram praticamente
garantia de que as polfticas de conservação serão elaboradas de toda a área florestal produtiva em poucos anos e exploraram abu­
modo a beneficiar sobretudo a agricultura. Tal""z seja con""­ sivamente os recursos. sem se preocuparem muito com a produti­
1:Iiente ressaltar que esses programas são mais importantes para os vidade tutora (enquanto, imprudentemente, permitiam na área la­
agricultores do que para a vida selvagem, embora os destinos de vradores que a limpavam por meio de queimadas).! I
ambos estejam interligados. A conservaçio das espécies vincula­ Nas Américas Central e do Sul, umitos governos incentivaram
Se ao desenvolvimento, e os problemas de ambos são mais polCti­ • cooversilo em larga escala de florestas tropicais em fazendas de
co. que técnicos. criaçio de gado. Multas dessas fazendas se revelaram inviáveis

168 169
téticas, éticas, culturais e cientfficas. Mas para aqueles que exi­
gem prestações de conta, os valores econômicos inerentes às
"Todos n6s. na Áfrka. ellf;aTnos knJomente dl/!:spertal'lt:lo J1QTa
substâncias genéticas das espécies já bastam para jlIatificar a sua
o .falo di/!: que a crise qfricana I em essbrt:itJ um problema di/!:
meio ambien18 qt.te ,trowre conseqíMncias negalivas como seca. preservaçlio.
fome. dl/!:serlificaçiio. supe1'pOJ1Ulat;iio. refug/Dtlos, instabüidode Hoje, as nações industrializadas regislnml beneficios financei­
polftica, pobreza gelflllr'aflmdq etc. ros rmúto maiores decoI::rentes das espécies selvagens jXt que os
Estamos dl/!:spertal'lt:lo J1QTa o falo di/!: que a África e&!? mor­ paIses em desenvolvimento, embora os beneficios não registrados
rendo porque seu melo ambien18 foi pilhodo. superexplOrado e para os habitantes interiOllUlOS das regi6e.s tropicais possam ser
negligenciado . considetáwis. Os paIses industrializados dispõem da capacidade
Muitos di/!: n6s. na África. ellf;aTnos taJnbbn começando a per­ cientffica e industrial para &prowitar substâncias selvagens na in­
ceber qw nenhum bom samaritano Im CTJI!Z4T' os mares pan;z vir d11stria e na medicina. E ~ comem:ializam uma proporção
salvar o melO ambiente qfricano. 56 mesmo n6s, q/ricruros, p0­ muito maior de sua produção agrícola do que as nações em de­
demo.. e deveremos ser nificie- sen.sfveis ao bem-estllF di/!: senvolvimento. Os cultivadores do Norte dependem cada wz
nosso meio ambiente. U
mais das substâncias genéticas provenientes de variedades selva­
s.... Rabab W. Nwatba gens de milho e trigo. duas culturas que desempenham papel de
Th4 GreetúMlt Move_", destaque no comércio internaCional de grilos. O Departamento de
Audi!ncía pIIbIica da CMMAD. Nairóbi. 23 de setembro de 1986 Agricultura dos EUA estima que as contribuições do material ge­
nético wgetal geram _ntos de prodntividade que, em média,
se sitoam em tomo de 1% ao ano, com um valor para o produtor
bem superior a US$1 bilbAo (dólares de 1980).1 3
do ponto de vista ecológico e econOmico. pois o solo logo perde A safra II01'bHIn1ericana de milho sofreu um graw rev6s em
seus nutrientes; as esp6cies daninhas tomam o lugar da gramfnea 1970, quando um fungo de folha atacou as terras de cultivo. fa­
plantada e a produtividade das pastagens declina abruptamente. zendo os agricultores perderem mais de US$2 bilh6es. Descobriu­
No entanto. dezenas de milhões de hectares de f101eStas tropicais se, então. uma substância genética resistente a fungos em reservas
se perderam para dar lugar a essas fazendas. principalmente par­ genéticas prowruemes do México. 14 Mais recentemente, uma es­
que os govemos garanlinun as conversões por meio de COIICe&­ pécie primitiva de milho foi descoberta numa floresta alpeSIre do
sOes de terras • .nditos to isenç&s fiscais. empI1!8t1mos subsidia­ CeoI;ro-Sul mexicano. lS Esta planta sUvestre é a esp6cie mais an­
dos e outros incentivos.1 2 tiga que se conbece aparentada 80 milho moderno e ~vivia em
A promoçlio das iInportaç6es de madeiras trapU:ais em certos apenas ttês _ilaS faixas de terreno que se esteodiam por uns
países industrializados - que fixam tarifas baixas e concedem in­ parcos quatro hecta:I:es de uma área ameaçada de destruiçlio por
,centivos comerciais bastante favoráveis -. somada às fn1geis po­ agricultores e madeireiros. A espécie selvagem é perene; todas as
Ifticas florestais dos países tropicais e aos altos custos e desin­ demais formas de milho são anuais. Sua hibridaçlio com varieda­
centivos à exploração madeireira vigentes nos países iodustriali­ des comerciais de milho abre 80S agricultores a perspectiva de
zados. ~m leva ao desflarestamento. Alguns paIses industria­ poderem vir a poupar os gastos anoais com a arada e a semeadu­
lizados ar6 importam toros nIo-beneficiados sem PIl8ar impostos ra, pois a planta cresce por si mesma todos OS anoS. Os benefícios
OU a taxas tarifárias mínimas. Isso estimula as ioddatrias dos paí­ genéticos dessa esp6c1e silveslre, descobertos quando só restavam
ses desenvolvidos a US8lCm a madeira das florestas tropicais e nio alguns milhares de talos, podem totalizar vários bilh6es de dóla­
a prdpria. fato que é reforçado' por restrições internas li quantida­ res ao ano. 16
de de árvores que podem ser cortadas nas fIOIeStas desses países. As espécies selvagens ~m contribuem para a medicina.
Metade de todas as receitas aviadas originam-se de organismos
selvagens.17 O valor comen::iaidesses medicamentos e drogaS nos
18
6.4 VALOIlJl'S ECONÔMICOS EM JOGO EUA chega hoje a cerca de US$14 bilh6es anoais. Bm termos
mundiais, incluindo substâncias que nlio entram na composlçlo de
A c01I.IIef'WÇ1io das espécies nio se justifica apenas em tennos receitas e produtos f~ticos. o valor comercial estimado
econômicos. Também é motivada. e muito. por conaideraç(ies es­ excede a US$40 bilhões ao ano.l 9
171
170
A lnddslria l:IIInbém se beneficia da vida selvagem.20 Com as da maior de esp.!cies ameaçadas, coincide aproximadamente com
subsfAncias dela' extraídas produzem-se gomas, óleos, resinas, a área que se convencionou chamar de Terceiro Mundo. Muitas
tinturas, 1mÚDO, son:t- e çeraa vegeJais, inaeticidas e muitos nações em desenvolvimento reconhecem a necessidade de prote­
outros COInpostos. Muitas espécies vegetais silvestres t!m semen­ ger as espécies ameaçadas, mu nlio dispõem do insl:t'llmental
tes ricas em óleo que podem ser utilizadas na fabricaçlio de fibras, cientifICO, da capacidade lnstitocional nem dos recursos financei­
detergentes, colas e comestíveis em geral. Por exemplo, as videi­ ros nece8Sérios a essa conservação. As nações industrializadas
ras de f10resla pluvial do gênero FevUf«l:, encontradas na Ama­ que procuram colber alguns dos beneficios econômicos dos recur­
zônia ocidental, contl:m semenres tão ricas em óleo que um hecta­ sos gen6ticos deveriam ajndar as naçlíell do Terceiro Mundo em
re dessas videiras na floresta original poderia produzir mais óleo !!Cus esforços conservacionistas; l:IIInbém deveriam procurar meios
do que um hectan:I de uma planlllçio comercial de paImeilu olea­ de ajndar os países tropicais - sobretudo a popuJaçlio rural, que
.
glJI088S.
21 está mais diretamente ligada a essas espécies - a oblllr alguns dos
Poucas ellpécies vegetais contl:m Iúdrocarbonetos em vez de beneficios econômicos propiciados por esses "",ursos.
carboidrat0s22 e algumas podem germinar em dIeas que se toma­
ram indteis devido a atividades como a lDineraçlIo de corre aberto.
Assim, as _ deterioradas pela exlmção de IúdroclU'bonetos 6.S UMA NOVA ABORDAGEM: PREVER E EVITAR
como o C8t'Ylio poderiam ser recuperadas IDI:diante O cultivo de
IúdrocIU'boneIDs na superfície. AI6m disso, ao conlrllrio de um O m<!todo histórico de criar parques nacionais até certo ponto
poço petrolífero, uma "plantaçlio de petnSleo" nunca cbcga ne­ isolados da sociedade foi superado por uma nova abordagem de
celll8l'Í8D:leDlII a secar. conservação das espécies e ecossistelll8$ que se pode definir ca­
O novo campo da enge:oharia gen6tica, atraVlls do qual a cian­ mo "prever e evitar" . Isso implica acrescentar uma nova dimen­
ela projeta novas varIaç6es de formas de vida, niio inutiliza genes são 80 método já tradicional, se bem que viável e ncoc:<eSS6rlo, das
selvagens. Na verdade, esta nova ciancia deve se basear no mate­ áreas protegidas. Os modelos de desenvolvimento precisam ser
rial gen6tico existente, lDrnando-o, assim, ainda mais dtil e vaIlo­ alterados para se tomarem mais compalÍveis com a preservação da
so. A extinçIo, segwldo o Prof. Tom Eisner, da Comeu Uuiver­ valiosfllsima diversidade biológicâ do planeta. Altel1U' as estnIlu­
sity, "já DIa si,gnifica mais a simples perda de um volume na bi­ ras econômieas e de USO da terra pm::ce ser a melhor a~em
bliolDCa da _ . Siguifica a perda de um livro de folhaa sol­ de longo prazo para gamnfu:í\ sobrevivência das espécielÍ'!lelva­
tas, em cada pIlgina - para que as espécies sobrevivam - penna­ gens e de seus ecossisteniâS. .•
neceria perpetuaIDImIe dillponiveJ • transfer&lcia seletiva e ao Essa abordagem ."estratágica traia dos problemas 4a~­
aperfeiçoamento de outras esp6cies".23 O Prof. WinslDn Brill, da IDIIÇlio das espécies eóhíÚlforigem nas políticas de desenwlvi­
Universidade de WI_in, assinalou: "Estamos entrando numa mento, preva os resultiillós óbvios das políticas mais deslnltivas e
era em que a riqueza gen6tica, sobretudo a de dIeas tropicais ca­ evita danos desde agó'ra, llma boa llI8DCira de prom<ii.iei- essa
mo as florestas pluviais, até agora um fundo fiduciário relativa­ abordagem <! a elaboraçll3 ~ Bstratágias Nacionais de Conserva­
mente inacessível, está se tomsndo uma moeda de alto valor ime­ çlio (ENC), que retinem os"Pro<:easos de cóÓserV8Ção e desenvol­
diato. u24 vimento. Na elaboraçio de uma ENC participam aganclas gove:r­
Graças • engenharia gen6tica, pode ser que a Revoluçlio Verde n _ i s , organizações nio-gove:mamentais, int.eresses privados
da agricultura seja sup1antada por uma "Revolul;lio Genética". e a comunidade em geral, a f'lI1I de aiuúisar questões relativas a
Essa tecnologia cria a esperança de que algum dia se venha a recursos naturais e estabelecer prioridades. Espera-se que, desta
plantar nos desertos, no mar e em outros ambientes que antes niio fonna, os interesses setoriais tenham uma melhor compn!eD!Iâo de
podiam ser cultivados. No campo da medicina, os pesquisadores suas inter-relações com outros setores e que se possa chegar a
antevêem que sua prdpria Revolução Gen6tica obterá mais pr0­ novas possibilidades de conservação e desenvolvimento.
gressos DOS dltimos 20 anos dcsIII século do que nos 2(X) anos O vínculo enúe c:onservaçlio e desenvolvimento e a necessida­
anteriores. de de atacar o JIIOblema na origem sio visíveis no caso das flores.
Muitas das naçlíell meDOS capacitadas a administrar seus recur­ tas tropicais. As vezes, não é a necessidade econômica que leva.
sos vivos são as mais ricas em espécies; os tnSpicos, onde estio exploraçlio abusiva e • destruição dos recursos, mas a política
pelo menos dois terços de todas as espécies e uma proporção aio- governamental. Os custos econômicos e fiscais diretos dessa ex­
173
172
nômica. Muitos governos mantêm impostos irrealisticamente bai­
''Não ~ posmel fa:zer com que as oomurasaki - nossa borboleta xos sobte terras rurais, enquanto permitem que colonos se apro­
imperl4l púrpura - voltem a existir em quantidade. ct:JmO 110 pas­ priem de terras "virgens" pelo fato de cultivá-las. Assim, os ricos
sado. A floresta ideal para as oomurasaki exige a extirpação de donos de terras podem ficar com propriedades imensas e pouco
ervas tIaninIrDs, o plantio de árvores, cuidados e _nçõo. A exploradas a wncusto baixo ou nulo, eoquanto os ca:rnponeses
floresta será passada às ;fu.turas geraçlJes. Não I tnaraVillroso carenleS de terra são incentivados a derrubar florestas e se instaiar
pensar que se e.stá ligado às geraçlJes;fu.turas pelo /dto de lhes em asse_nlDs marginais. A reforma dos sistemas tributário e
deixar uma floresta onde voam tantas oomurasaki e as pessoas de ocupação da terra poderia aumentar a produtividade nas pro­
des.fhdam de momentos de alegria? priedades existentes e reduzir as pressões para expandir o cultivo
Seria muito bani se pudlssemos instalar 110 ClOração das em florestas e bacias de planaltns.
crlanfas o amor pela natureza. Esperamos dar de presente a fo>­ Uma conservação bem planejada dos ecossistemas contribui de
resta que eSk1mos plantando às crianças que viveriío 110 skulo
XXI." muitas formas para a consecuçlio das metas principais do desen­
volvimento sustentável. A proteção de faixas vitais de terras sei.
Mika Sakakt"bara vagens ajuda também, por exemplo, a proteger terras agricultá­
Aluna da Universidade de Agrfcultura e T~cM/og/a de Táquio veis. Isso se aplica de modo especial às florestas de planallDs dos
Audi<!ncia páblica da CMMAD, Tóquio, 27 de fevereiro de 1987 trópicos, que protegem os vales das inundações e da eroslio e os
cursos d'água e os sistemas de irrigação do assoreamenlD.
Um bum exemplo é a Reserva de Dumoga-Bone, em Sulawesi,
norte da Indonésia, que abrange cerca de 3.000 Km' de florestas
de planalto. Ela protege grandes popolaçiies da maioria dos ma­
plomçllo abusiva - somados aos da extinção de espécies - são míferos endêmicos de Sulawesi e muitas das 80 espécies endêmi­
enormes. O resultado tem sido a exploraçID ruinosa das florestas cas de pássaros da ilha. Também protege o Sístema de Irrigação
tropicais, o sacriffcio da maioria de suas riquezas em madeira e de do Vale de Dumoga, fmandado pelo Banco Mundial e instalado
outros tipos. perdas enormes de """,ita potencial para o governo e nas planícies próximas a fun de triplicar a produçlio de arroz em
a destruiçAo de recursos biológicos de gmnde vulor. mais de 13 mil hectares de terras agrícolas de primeira qual ida­
Os governos do Terceiro Mundo podem conter a destro içA0 de. 25 Outro exemplo é o Parque Nacional de Canalrna, na Vene­
das florestas tropicais e de outras reservas de diversidade biológi­ zuela. que protege o abastecimenlD de água residencial e indus­
ca sem comprometer suas metas econômicas. Podem conservar trial para uma grande hidrelétrica que, por sua vez, gera eletrici­
esp6cies e habitats valiosos enquanto reduzem seus &lus econO­ dade para o principal centro industrial do país e sua capital.
micos e fISCais. A refonna dos sistemas de receita florestal e dos Daí se conclui que os governos poderiam considerar a criação
IeItOOS de concesslio poderia gerar bilhões de d61ares de receita de "parques para o desenvolvimento", já que servem ao duplo
adicional, promover o uso mais eficienle e mais prolongado dos propósilD de proteger, simultaneamente, os habitats das espécies e
recursos florestais e reduzir o desflorestamento. Os governos p0­ os processos de desenvo1vimenlD. Os esfoxços nacionais no senti­
deriam evitar enormes despesas e perdas de receita, promover do de prever e evitar as conseqüências negativas das políticas de
usos mais sustentáveis da Iemt e refrear a destruiçlio das florestas desenvolvimento em qualquer_dessas áreas seriam certamente
tropicais, se eliminassem o. incentivos à atividade pecu4rla. muito mais áteis li conservaçlio das espécies do que todas as me­
O vínculo entre conservaçAo e desenvolvimenlD também exige didas IDmadas nos últimOs 10 anos a fim de promover a criação
certas alterações nas estruturas do comércio. Isso foi reconhecido de parques, a guarda de áreas florestais, o combate à caça e à
quando se criou, em 1986, a Organizaçlio Inlemacional de Madei­ pesca ilícitas e outras formas convencionais de preservaçlio da vi­
ras Tropicais, sediada em Iocoama. Japão, com o objetivo de ra­ da selvagem. O DI Congresso Mundial sobre Parques Nacionais,
cionalizar os fluxos comerciais. Sua criaçlio visava à implementa­ realizado em Bali, Indonésia, em outubro de 1982, levou esta
çlio do prime;ro acordo sobte produtos b4isioos a incorporar um mensagem dos administradores de áreas protegidas a tudos os
componente espeeffico relativo à conservaçlio. planejadores do mundo, demonsttando as muitas contribuições
Podem-se encontrar inthneras outras oportunidades de encora­ que as áreas protegidas à maneira moderna estlio trazendo para a
jar tanlD a conservação das espécies quanto a produtividade eco­ sociedade humana.

174 175
6.6 A AÇÃO INTERNACIONAL EM RELAÇÁO çlies sobre áreas naturais-e recursos genéticos. Seu Fundo para o
ÀS ESPÉCIES NACIONAIS Patrimônio Mundial financia a administração de alguns ecossis­
temas de características excepcionais em todo o mundo, mas essas
As espécies e seus recursos genéticos - quaisquer que sejam suas atividades dispõem de orçamentos limitados. A Unesco procurou
'origens - e1lidentemente beneficiam todos os seres hwnanos, Os estabelecer um sistema global de Reservas da Biosfera. onde esti·
recursos genéticos selvagens do México e da Alriérica CentraI vessem representadas as 200 "províncias bióticas" da Terra e que
atendem tota1mente às necessidades dos produtores e eonsunüdo­ abrigasse amostras de comunidades de espéeies. Mas só um terço
res de milho. As principais naçlies produtoras de cacau encon· das reservas necessárias foi criado, apesar de o estabelecimento e
tram-se na África ocidental. enquanto os recursos genéticos de a manutenção dos dnis terços restantes viessem a custar apenas
que as modernas cacauiculturas dependem para manter sua. pro­ cerca de US$lSO milhões ailUais. 26
dutividade situam-se nas florestas da Amazóni.a ocidental. Ontros órgãos da ONU, como a OrgaIJização para a Alimenta­
Os produtores e consumidores de café, a fun de obterem boas ção e a Agricultura (FAO) e o Programa das Nações Unidas para
safras, dependem do fornecimento constante de novas matmas o Meio Ambiente (PNUMA), mantêm programas relacionadOS
genéticas de espécies selvagens da família do café, localizadas com espécies ameaçadas, recursos genéticos e ecossistemas im­
sobretudo na Etiópia. O Brasil, que fornece plasma geiminativo portantes. Mas suas atividades coqjugadas pouco representam
de boll'llCha selvagem para os seringais do Sudeste asiático, de­ diante do muito que é necessário fazer. Dentre os orgãos nacio­
pende também do plasma germinativo proveniente de diversas nais, a Agência Norte-Americana para o Desenvol1limenta Inter­
partes do mundo· para manter suas lavouras de cana-de-açúcar, nacional é a mais importante nO que tange ao reconhecimento da
soja e outras de igual importância. Se os países da Europa e da necessidade de conservar as espécies. Por leÍ"aprovada no Con­
América do Norte não tivessem acesso a fontes estrangeiras de gresso dos EUA em 1986. seráo destinados anualmente US$2,5
plasma genninativo ano após ano, sua produção agrfeola logo de­ milhões a esse objetivo.27 Mais uma vez, esta deveria ser consi­
clinaria. derada uma atitude importante se comparada com o que tem sido
As espécies e os ecossistemas naturais da Terra dentro em bre­ feito até agora pelas agências -bilaterais, mas insignificante em
ve serão considerados ativos a serem preservados e administrados tennos de necessidades e opoltUnidades.
para obenefrcio de toda a humanidade. Por isso, será absoluta­ A Uaião Internacionsl para a Conservação da Natureza e dos
mente necessário incluir a conservação das espécies nas agendas Recursos Naturais (UICN), trabalhando em estreita Cólabor:ação
polítieas intenw:ionais. com o PNUMA, o FundoMundial para a Vida Selvagem, o Ban­
No âmago da questiío está o fato de quase sempre haver um co Mundial e várias agências internacionsis de assistência Il!cni­
conflito entre os _interesses econômicos de CUI1n prazo de cada ca, criou um "Centro de Monitoração da Conservação", para for­
nação em separado e os interesses de longo prazo do desenvolvi­ necer informaç<les sobre espécies e ecossistemas a qualquer parte
mento sustentável e dos ganhos econômicos potenciais da comu­ do mundo, com rapidez e facilidade. Este serviço, aberto a todos,
nidade mundial como um todo. As açIies que visam a conservar a ajuda a garantii' que os 'projetos de desenvolvimento sejam elabo­
diversidade genética devem, portanto, procurar tornar a proteção rados contando COm todas as infonnações disponíveis sobre as
das espécies selvagens e de seus ecossistemas mais atraentes do espécies eos ecossistemas que possam 1Iir a afetar. Présta tamb6m
ponto de vista econÔmico tanto a cW10 quanto a longo prazos. assistência técnica a naçlies, setores e organizações interessados
Deve-se asseglll'ltt aos países em desenvol1limento uma parcela em criar bancos de dados locais para uso próprio.
eqüitativa do lucro econôtnico proveniente do uso de genes para O. problemas atinentes às espécies tendem, de modo geral. a
fins comerciais. ser considerados mais em termos cient((icos e conservacionistas
do que uma importante questão econômiea e de recursos. Sendo
6.6.1 Algumas Iniciativas em curso assim, a questão carece de suporte político. O Plano de Ação s0­
bre Silvicultura Tropical é uma importante inieiativa no sentido
Uma série de medidas em nível internacional já estão sendo ten­ de dar maior ênfase à conservação no debate das qu.estlies relati­
tadas, mas em âmbito limitado, com êxito apenas relativo e de vas ao desenvo11limento internacional. Esse esforço conjuntO, c0­
natureza reativa. A Organização das Nações Unidas para a Edu­ ordenado pela FAO, envolve o Banco Mundial, a UICN, o Insti­
cação, Ciência e Cultura (Unesco) mantém um centro de informa­ tuto de Recursos Mundiais e o Programa da. Nações Unidas para

176 177
pa Mundial da Natureza, adotado pela ONU em outubro de 1982,
':4 medida que o desjtorestamento progride, cai a qualidade de foi um passo importanle nesse sentido.
vida de milhões de pessoas /lOS paúes em desenvolvimento; sua Os govemos deveriam estudar a possib1lidade de fumar uma
sobrevivincia estd ctmeDÇ<lÓa pela perdo. de vegetaçdo da qual "Convenção sobre as Espécies", semelhante em espírito e em al­
dependem como fonte de energia dombtica " de muitos outros Cance à Lei do Tratado. do Mar e a outras convenções imemacio­
beneffcios. Se as fkJrestos tropicais cont:inuarem a ser derruba­
das /lO ritmo de agora, pela me/lOs 225 milhões de l/ectares terilo nais que exprimem princípios de 'Hrecursos universais"'. Uma
sida destrufàos par volta do ano 2()()(); se a destiUição das fio· Convenção sobre as Espécies, nos moldes de um documento ela­
restos pluviais tropicais continuar. estimo-se que de 10 a 20% da borado pela UICN, deveria enunciar o conceito de espécies e de
vida vegetal e animol da Terra lerdo desaparecida /lO ano 2()()(). variabilidade genética como um patrimônio comum.
. Conter O desflorestamento depende de lidemnça palftica e de Responsabilidade coletiva pelo patrimÔnio comum não signifi­
mudanças adequadas de polftica par parte dos gtrW!11'IOS das paI­ caria direitos inlemacionais coletivos aos recursos de uma naçlIo.
ses em desenvolvtmenta, em apoio a iniciativas /lO ntvel da co­ Não haveria in1erferência nos conceitos de soberania nacional.
mu:nidade. O prlncipollngredlente é a participaçdo ativa tk mi­ Signif-'caria apenas que as nações já não leriam de contar somenle
lhões de pequencs agricultares e sem-terras, que, lados os dias, com seus esforços isolados para proleger espécies ameaçadas em
usam florestos e drvorei para atenderem ds $IID$ necessidades." seu lenit6rio.
1. Gustave Spelb Tal Convenção precisaria apoiar-se num acordo financeiro que
Preáidetlle do lnstituJo de Recursos Mundiais contasse com o ativo patrocÚlio da comuuidade de nações. Qual_
Audiência pdblica da CMMAD, Silo Paulo, 28-29 de outubro de 1985 quer ajusle desle tipo - e são imlmeras as possibilidades _ não
deve apenas lentar assegurar a conservação dos recursos genéti­
cos para todos, mas também garantir que as nações detentoras de
grande parte desses recursos tenham uma participação eqliitativa
o Desenvolvimento, além de várias outras instituiÇ;ÕeS. Essa ini­ nos beneficioS e ganhos advindos de seu aproveitamento. Isso se­
ciativa, muito ampla, propõe que se proceda à revisão da silvi­ ria um grande estfmulo à conservação das espécies. Tal acordo
cultura nacional. que se fonnulem planos nacionais de silvicultu­ poderia ser um FIIl1do Fiduciário para o qual todas as nações
ra. que se adolem novos projetos, que se _nle a cooperação contribuíssem, cabendo uma participação maior às que mais se
enlre as agências de assistência ao desenvolvimento que atuam no beneficiassem com o uso dos recursos. Os governos dos países
setor florestal e que haja um maior fluxo de recursos técnicos e que possuem florestas tropicais poderiam ser pagos para conser­
financeiros para a silvicultum e campos correlatos, como o da var detenninadas Ifreas florestais, e tais pagamentos aumentariam
agricultura em pequena escala. ou diminuiriam dependendo do nível de manulenção e proteçllo
das f1orestas. 28
Estabelecer normas e procedimentos para questões relativas a
recursos é pelo menos tio impona:nle quanto aumentar recursos Para uma consenraçllo eficienle são necessárias somas eleva­
financeiros. Exemplos de tais nonnas silo, enlre outros, a Con­ das. Só a conservação de florestas tropicais por meios tradicionais
vençllo sobre Terras Úruidas de Importllncia Internacional, a exige um dispêndio de US$170 milhões por ano dura.nle pelo me­
Convençllo sobre a Conservaçllo de Ilhas para a Ciência (ambas nos cinco anos. 29 Contudo. na rede de heas protegidas de que o
visando à salvaguarda de habitats originais e suas espécies) e a mundo necessitará por volta de 2050, têm de estar incluídas áreas
Convenção sobre o Comércio Inlemacional de Espécies Ameaça­ muito mais vastas, que precisam de diferentes níveis de proteçllo
das. As três Convenções são cheio, embora as duas primeiras se­ e de técnica.. de adruinisttaçAo bastante flexíveis.3O
jam basicamente tentativas de criar "refúgios de espécies". Também silo necessários mais recursos financeiros para as aIi­
vidades de conservação fora das áreas prolegidas: ~
6.6.2 Estabeleeendo prioridades da vida selvagem. áreas de ecodesenvolvimento, campanhas edu­
cativas etc. Enlre outras medidas menos dispendiosas está a can­
Uma prioridade básica é fazer com que o problema das espécies servaçllo de bancos de genes selvagens de importllocia especial,
em extinção e dos ecossistemas ameaçados cons1e das agendas de por meio da criação de "áreas de conservação genética" nos paI_
políticas como uma importante questllo relativa a recursos. O Ma­ ses de grande riqueza biológica. A maioria desse lI:abalho pode

179
ser levada a efeito por grupos de cidadãos e por outros meios
não-governamentais. "brfelizmente o mundo ndQ é o que gOl!tarlamos que fosse. Os
As agências internacionais de desenvolvimento - o Banco problemas são muitos e graves. Na verdm:le. só podem ser ""sol­
Mundial e outros grandes bancos de crédito. as agências da ONU vúJos com cooperoção e talento.
e as agências bilaterais - deveriam atentar. de mndo detido e sis­ Represento uma organização chamada Naliu'eza e Juventude.
temático. para os problemas e as oportunidades!!e conservação Sei que conto com o toIal apoio de noSsos membros quando digo
das espécies. Embora já exista um grande comércio internacional que estamos preocupados com o fUturo caso ndQ ocorram mu­
de espêcies e prndutos da vida selvagem. até boje não se deu a danças drásticas em relação ao modo Como o mundo vem traton­
do de nossa condição essencial. a IfCIJureza.
devida imporlancia ao valor econômico inerente à variabilidade Nós que trabalhamos com a juventude, e que somos jovens na
genética e aos processos ecol6gicos. Entre as possíveis medidas a Noruega de hoje. sabemos muito bem que a destruição da na./u­
serem tomadas estão a análise dos efeitos de projetos de desen­ reza- provoca nos jovens wn medo apático com relação a seu fu­
volvimento sobre o meio ambiente. dando-se especial atenção a turo e com afeição que ele tomorá.
habitais de espécies e sistemas de manutenção da vida; a identifi­ É muito importanle que as pessoas comuns lenham a chance
cação dos locais onde existem concentraçôes excepcionais de es­ de participar nas decisões quanto ao modo de trator a nature­
pécie. com níveis muito elevados de endemisrno e de perigo de za.'·
extinção; e as oportunidades de vincular a conservação das espé­
cies à assistência ao desenvolvimento. Frederic Hauge
Natureza e Jv:vo"rude
Audiência pl1l>lk:a da CMMAD. Oslo. 24-25 de junho de 1985
6,7 A AÇÃO NAQONAL

Corno já se disse. os governos têm de partir para uma nova abor­
dagem nesse campo - prever o impacto de suas políticas sobre vá­ bitats). As Estratégias Nacionais de Conservação. como as já
rios setores e agi:r no sentido de evitar conseqílências indesejá­ existentes em mals de 25 países. podem ser muito úteis para a c0­
veis. Deveriam rever seus programas em setores como agricultura. ordenação dos programas de conservação e desenvolvimento.
silvicultura e assentamentos. que degradam e destroem habitais de Recoobecendo que o desaparecimento de espécies representa
espécies. Os governos deveriam também determinar quantas áreas um sério desafio aos recursos e ao desenvolvimento. os governos
protegidas ainda são necessárias. tendo em mente sobretudo de poderiam tomar ainda outras medidas para enfrentar esta crise ­
que forma tais áreas podem contribuir para os objetivos do desen­ entre as quais considerar as necessidades e as oportunidades da
volvimento nacional. e redobrar as providências para li proteção conservação das espécies no planejamento do uso da terra e in­
de bancos de genes (como. por exemplo. variedades originais corporar -explicitamente suas reservas de recursos genéticos aos
cultivadas) que talvez não possam ser preservados por meio das sistemas de contas nacionais. Daí poderia advir a criação de um
áreas protegidas convencionais. sistema de contas de recursos naturais que dedicasse especial
Além disso, é preciso que os governos reforcem e ampliem as atenção às espécies. considerando-as recurso de grande valor em­
estratégias já existentes. Entre as necessidades mals urgemes es­ bora ainda pouco recoobecido. Por fun, os governos deveriam
tão uma administração melhor da vida selvagem e das j!reas pr0­ apoiar e expandir programas de educação pública para assegurar
tegidas. um malor mhnero de áreas protegidas do tipo não-con­ que as questões atinentes às espécies merecessem a atenção devi­
vencional (como as estações ecol6gicas que estão tendo relativo da por parte da população.
sucesso no Brasil). mal. projetos ligados à pecuária e a reservas Toda nação dispõe apenas de recursos limitados para lidar com
de caça (como os esquemas referentes a crocodilos na índia. Pa­ as prioridades de conservação. O dilema consiste em como usar
pua Nova Guiné. Tailândia e Zimbábue). uma promoção mais in­ esse recursos com o máximo de eficiência. A cooperação com
tensa do turismo em regiões de vida selvagem. e medidas mals países limítrofes que partilham dos mesmos ecossistemas e espé­
severas para impedir a caça ilícita (embora as espécies ameaçadas cies pode ajudar no tocante à elaboração de programas e também
peta caça ilícita sejam relativamente poucas em comparação com 11 divisão das despesas com iniciativas reginnais. S6 será possível
o elevado mlmero de espécies ameaçadas pela perda de seus M­ tomar medidas precisas para salvar um mlmero relativamente pe­

180 181
queno das espécies mais importantes. Como essa escolha é dificí­ Norte, a 8,1%; na América do Sul, a 6,1%; na Áftica, a 6,5%; e
lima, os planejadores precisam tornar as estratégias de conserva­ na Ásia (eltcluída a URSS) e na Austrália, a 4,3% cada. 35
ção o mais seletivas possível. Ninguém se alegra com a perspecti­ A partir de 1970, essas redes cresceram em exlensão em mais
va de relegar espécies ameaçadas ao esquecimento. Mas na medi· de 80%, cerca de .dois terços desse total no Terceiro Mundo. Mas
da em que as escolhas já estão inconscientemente sendo feitas, ainda há muito a ser reito. Há entre os profissionais um consenso
elas deveriam ter por base um critério seletivo que levasse em de que a exlensão total das áreas protegidas precisa ser no mJoi­
conta o impacto da extinção de uma espécie sobre a biosfera ou mo triplicada para constituir uma amostra represenIativa dos ecos­
para a integridade de detenninado ecossistema. sistemas da Terra. 36
Mas mesmo que os esfolÇOS públicos se concentrem em umas AiruIa está em tempo de salvar as espécies e seus ecossisIemas.
poucas espécies, todas são importantes e merecem algum tipo de Esle é um pré-requisito indispensável ao desenvolvimento sus­
atenção, que poderia se traduzir em créditos fiscais para os agri­ lentável. Se falharmos, não seremos perdoados pelas gerações
cultores que desejassem manter cultivares primitivos, no fim dos futuras.
incentivos 11 derrubada de florestas virgens, no incentivo das uni­
versidades locais 11 pesquisa, e na elaboração de inventários da
flora e da fauna nativas pelas instituições nacionais. Notas
I McNeely, J. & Miller, K .• ed. NatiaMI parlcs conservation anti tkvelop­
me"'; lhe role of protected are•• in .u.taining .ociety. Proceeding. of lhe
6.8 A NECESSIDADE DE AÇÃO World Congregs on National Parks. Washington. D.C., Smilhsonian Inm­
tution Preso, 1984.
2 BIIIIllgtl. W.B. Policies for lhe maintenance of biological diversity 1986.
Há inúmeros indícios de que a perda de espécies e de seus ecos­ (Preparado para a CMMAD.); Ehrlich. P.R. & Ehrlich, A.H. Exlinction.
sistemas está sendo encarada seriamente como um fenômeno com New York. Random HOUlle. 1981; Westem, D., ed. Conservation 2JOO.
conseqüências práticas para todos os povos do mundo, tanto hoje Proceedings of Wildlife Conservation IntemationaI and N.>w York: Zoolo­
quanto para as gerações vindouras. gjcal Society Conference, 21-24 Cc!. 1986. New York. ZooJogical So­
O aumento recente dessa preocupação popular manifesta-se em ciety (no prelo); Myres. N. Tropical deforestation and species extinction,
fatos como os Clubes de Vida Selvagem do Quênia, que hoje já lhe latest news. FuiUres, Cct. 1985; Lewin, R. A mas, elttinction without
chegam a mais de 1.500 clubes escolares com cerca de 100 mil ssteroíds. Science, 30ct. 1986; Raven, P.H. Statement from Meetiog of
membros)1 Algo semelhante no tocante 11 educação para a con­ IUCN/WWF Plant Ad'llisory Group. Las Palmas. Canary Islands. 24-25
Nov. 1985; SouIe, M.E., ed. ConservatWn blology; science of scarcity and
servação ocorreu em Zâmbia. Na Indonésia, cen::a de 400 grupos diversity. Sunderland, Ma...., Sinauer Associates, 1986; Wilson, ao., ed.
conservacionistas se reuni.nml sob a égide do Forum Indonésio Biodiversity. Proceedings of National Forum held by National A<:ademy of
para o Meio Ambiente e já exercem forte influência poHtica.3 2 Sciences and Smithsonían Institution. 21-24 Sept. 1986. W~shington,
Nos BUA, o número de membro. da Audubon Society chegou a O.C., National Academy Preso (no prelo).
385 mil em 1985. 33 Na URSS, os clubes da natureza contam com 3 Prantel, O.H. & Soule. M.I!. Conservation and ,volation. Cambridge,
mais de 35 milhões de .6oio• .34 Tudo isso indica que o público Cambridge University Pres'. 1981; Schonewald-Cox, eM. et aJii, org.
atribui 11 natureza um valor que ultrapassa os imperativos econô­ aenelics and conservation. Menlo Patk, Calif.. BenjaminlCummings.
micos normais. 1983.
Bm resposta a essa preocupação popular. os governos estão 4 Raup, D.O. Biologjcal extlnction in Eatlh hislory. Sclence. 28 Mat.
tomando providências para assistir às espécies ameaçadas em seus 19!1i .
territórios, principaImente por meio da instituição de mais áreas 5 Wilson, E. O. op clt.; I!hr1ich, P.R. & I!hr1ich, A.H. op. clt.; Myers, N.
op. cit.: Soule, M.E. op. clt.
protegidas. Hoje, a rede mundial de áreas protegidas totaliza mais 6 Ruggieri. G.O & Rosenherg. N.O. The h«lling sea. New Yodc, Dold
de 4.000.000 Kni', o que equivale aproximadamente ao tamanho Mead,1978.
da maioria dos países da Europa ocidental combinados, ou a duas 7 I'AO UNEP. Tropical forest resources. Rome. 1982. (I'orestry Paper
vezes o tamanho da Indonésia. No que tange a cada continente, as n.30.); MeIillo, 1.M. et aIii. A comparison of teceot estimates of disturban­
áreas protegidas na Europa (exclu(da a URSS) conespondiam em ce in tropical forests. Environmental Cons.rvation. Spr1ng 1985; Myers,
1985 a 3,9% do lenitório; na URSS, a 2.5%; na América do N. The primary source. New yor". W.W. Norton, 1984; Myers, N. Tropi­

183
.al deforestation... cit.; Molofsky, 1. et alii. A comparlson of tropical fo­ 28 R.A. Sedjo, Depoimento aore a Subcomissão sobre Direitos Hll!l1lIoos e

resl survey•• Washington, D.C., Cartlon DiolÚde Program, US Depart­ Organizações Internacionais, Comíssão de Relações Exteriores, Câmara

menl of Energy, 1986. dos Deputados dos EUA, 12 set. 1984.

8 Simherloff, D. Are we on lhe verge of. mass extinc1ÍOn in tropical rain 29 Intemalional Task Force. Tropieal fores<; a calJ for action. Wash.ington,

forests? In: Enio!, D.K., ed. Dynamics of extinction. Chicesrer, UK, 1000 D.C., Warld Resources Institure, 1985.

WUléy, 1986; Raven, P.H. op. cito 30 Pore", R.L. & Darling 1.[1 S. The greenbouse effeel af nalure reser­

9 Salati, E. & Vose, P.B. Amazon basin: a system in equllibrium. Sdence, VeS. Bioscience, 35:707-17, 1984.

13 lu1y 1984. 31 Wilson. Ed Kenys's Wildlife Clubs. WWF Regional Omee for East

10 Depanment af Inremational Eoonomic and Social Affain. World po­ aod Central Africa, 3 Feb. 1987. (Comunicação pessoal.)

pulation prospect; estimares and projeclions. as assessed in 1984. New 32 Centre for Enviranrnental Stndies. E1Ivironme1lll:Ú NGO's in developlng

YOrl<, Unired Nations, 1986. coulÚTies. Copenbagen, 1985.

II Repetlo, R. Creating.ineentives for sustainable foreslry development. 33 N6mero de membros da Audubon retirado de Ulrich'$ PeriodicaIs.

Washingron, D.C., World Re50urces Institure, Aug. 1985 New York, R.W. Bowker, 1985.

12 Ibid. 34 Prof. Yazan, vice-presidente e conselheiro regional da UICN.IUCN

13 Agricultural Researcb Service. lntroduction, classification, maimenan­ BuUetin.I7(7'9).

ce, evaluation, and doe_ntation of pia'" germplasm. Washingron, D.C., 35 Listof IlOtional parksand equivalem reserves.IUCN, 1985.

US Depanment of Agrieu1ture, 1985. 36 McNeely, J. & MiJler, K. op. cito
14 Tatum, L.A. The Soutbern com leaf blígbl epidemíc. Science,
171:1.113-16,197!.
15 Iltis, H.H. el alü. Zea diploperennis (gramíneae), a new reosinre fram
MelÚco.Science,121an.1979.
16 Fiaber, A.C. Eoonomíc analysís and lhe extinc1ÍOn of species. Berkeley,
Departrnenl of Energy and Resources, University of Califomia, 1982.
17 Fa.rnsworth, N.R. & Socjarro, 0.0. PofUltial consequence of plant ex­
tinction in lhe Unired States on lhe cUITenl and future availability of pres­
cription drogo. Econcmic Botany, 39:231-40, 1985.
18 Mye.., N. A wea/th of wild spedes. BouIder, Colo., Westview Press,
1983.
191bid.
20 Oldfield, M.L. The value of conserving genetic resources. Washington,
D.C., National Park Serviee, US Department of the Interior, 1984; Prin­
cen. L.H. New crop deveiopment for industrial oUso JOUTnal OflM Ameri­
can OÜ C/remists' Society. 56:845-8, 1979.
21 Gentry, A.H. & Wettacb, R. FevUléa - a new oUseed from AmazoDÍao
Peru. Ecoru:mUc Botany, 40: 177- 85, 1986.
22 Calvin, M. Hydrocarbons fram plants: analylical rnethods and observa­
lion•. Naturwissensclulften, 67:525-33, 1980; Hinman, C.W. et alii. Five
porential new crops far arid lands. Environmental. Conservation, Winter
1985.
23 Eisner, T. Cbemicals, genes, aI)d lhe Ioss af species. Nature Cqnserw:zn..
cy New., 33(6):23-4, 1983.
24 Brill, W.l. Nitrogen lixatian: basic 10 applied. American Sdentist,
67:458-65, 1979.
25 McNeely, 1. & Miner, K. op. cito
26 Unesco.lmernational Coord/nating Councü of Man and IM Biosplrere.
Paris, 1985. (MAB Report Series n. 58.)

27 Carta envinda a N. Myers, consultor em meio ambiente. desenvolvi­

mento, pelo Senador W. Ralh (R-Del.), Congresso dos EUA, Washinglon,

D.C.

184 185
7. ENERGIA: OPÇÕES PARA O MEIO AMBIENTE
E O DESENVOLVIMENTO Box 7.1 Unidades de energia
Várias unidades são utilizadas para medir a produção e o
consumo de energia em lermos fisicos. As unidades usadas
neste capftulo são o kilowatt (kW); o gígawatt (GW), que
equivale a I milhão de kilowatts; e o terawatt (TW), que
A energia é indispensável à sobrevivência diária. O desenvolvi­ equivale a I bilhão de kilowatts. Um kilowatt - mil watlS de
mento futuro depende indubitavelmente de que se disponha de potência - emitido continuamente durante um ano é lkW­
ano. O consumo de lkW-ano por ano equivale à energia li­
energia por muito tempo, em quantidades cada vez maiores e de berada peja combustão de 1.050 quilos - aproximadamente
fontes seguras, confiáveis e adequadas ao meio ambiente. Hoje. uma tonelada - de carvão ao ano. Portanto. lTW-ano é igual
não dispomos de nenhuma fonte isolada ou combinada a oUlmS a cerca de I bilhão de toneladas de carvão. No texto, TW­
- que possa atender a essa necessidade futura. anos/ano aparece como TW.
É natural que nos preocupemos com um futuro seguro no to­
cante à energia. pois ela proporciona "serviços essenciais" à vida
humana - calor para aquecimento, para cozinhar e para atividades
manufatureiras, ou força para o transporte e para o trabalho me­
cânico. Atualmente, a energia necessária a esses serviços provém tão do ponto de vista da sustentabilidade, cujos elementos-chave
de combustíveis - petróleo, gás, carvão, fontes nucleares, madeira a serem conciliados são:
e outras fontes primárias (solar, eólica ou hidráulica) - que não • aumento dos suprimentos de energia em quantidades suficientes
têm utilidade até serem convertidos nos serviços de energia de para atender às necessidades humanas (o que significa ajustar-se a
que precisamos, por meio de máquinas ou de outros tipos de um mínimo de 3% de crescimento de renda per capita nos países
equipamentos, como fogões, turbinas e motores. Em muitos pafses em desenVOlvimento);
de todo o mundo, desperdiça-se gn>nde quantidade de energia • medidas que visem à conservação e ao rendimento energético,
primária devido ao planejamento ou ao funcionamento ineficien­ de modo a minimizar o desperdício de recursos primários;
tes do equipamento usado para converter a energia nos serviços • sallde pliblica. reconhecendo os riscos à segurança inerentes às
necessários, embora felizmente já se tenha mais consciência da fontes energéticas;
necessidade de conservar a energia e usá-Ia com eficiência. • proteção de biosfera fi prevenção de furmas mais localizadas de
As atuais fontes primárias de energia são quase todas nik>-re­ poluição.
nováveis: gás natural, petróleo, carvão. turfa e energia nuclear O período que se inicia deve _ considerado de transição de
convencional. Há também fontes renováveis, como madeira, ve­ uma era em que a energia foi usada de modo não-sustentável.
getais, estercó, quedas d'água, fontes geotermais. energia sblar, Ainda não se encontrou uma fonna aceita por todos para se che­
eólica, das marés e das ondas, além da força muscular animal e gar a um futuro energético seguro e sustentãveL Não acreditamos
humana. Os reatores nucleares que produzem combustível pró­ que a comunidade internacional já tenha encarado esses dilemas
prio, e às vezes os reatores a fusão. incluem-se também nessa ca­ de uma perspectiva global e consciente da urgência com que de­
tegoria. Teoricamente, todas as diversas fontes de energia podem vem ser tratados.
contribuir para a futura combinação energética a ser utilizada em
todo o mundo. Mas cada uma tem seus custos, beneffcios e riscos
econômicos, sanitários e ambientais - fatores que interagem ati­ 7.1 ENERGIA, ECONOMIA E MEIO AMBIENTE
vamente com outras prioridades governamentais e globais. É pre­
ciso fazer opções, mas sabendo que a escolha de uma estratégia O aumento da demanda de energia decorrente da industrialização,
energética determinará inevitavelmente a escolha de uma estraté­ da urbanização e da melhoria das condições sociais levou a uma
gia ambiental. distribuição global extremamente desigual do consumo de energia
Os atuais padrões de uso de energia, e suas alterações, já estão primária. I Nas economias industriais de mercado, por exemplo, o
ditando os padrões para o próximo século. Abordaremos a ques- consumo de energia per capita supera em mais de 80 VC7.eS o da

186 187
Tabela 7.1
em todo o mundo nos nfveis atuais dos países industriâlizadOs,
Consumo global de energia primária per capiM, 1984
por volta de 2025 a mesma população !\lobal necessitaria de
aproximadamente S5TW.
PNBper Consumo Populaç40 Consumo É improvável que qualquer dns dnis casos se mostre realista,
ClassiflCaç40 do mas dão uma idéia aproximada da faixa em que pode se situar o
Banco Mundial capita de energia em meados total
segun<looPNB (dólllres (kW per de 1984 (fW) consumo de energia futuro, pelo menos hipoteticamente. Podem­
de 1984) capital' (milhões) se conceber muitos outros cenários intennediários, entre eles al­
guns que admitem uma base energética melhor parn o mundo em
Renda Baixa 260 0,41 2.390 0,99 desenvolvimento. Se, por exemplo, o consUmO médio de energia
África subsaariana 210 0,08 258 0,02 nas economias de renda baixa e média triplicasse e dobrasse, res­
Renda média 1.250 1,07 1.188 1,27 pectivamente, e se o COnSUmo nos países de renda alta exportado­
Média baixa 740 0,57 691 0,39 res de petróleo e industrializados - com e sem economia de mer­
Média alia 1.950 1,76 497 0,87 cado - pennanecesse o mesmo de hnje, os dois grupos estariam
África subsaariana 680 0,25 148 0,04 consumindo aproximadamente as mesmas quantidades de. energia.
Exportadores de petr61eo
A. categorias de renda baixa e média necessitariam de 1O,5TW e
de renda alta 11.250 5,17 19 0,10
as três categorias "altas" consumiriam 9,3TW o que totalizaria
2OTW, admítindo-se que a energia primária esti vesse sendo usada
EconomIas industriais
nos mesmos nfveis. de rendimento de hoje.
de mercado 11.430 7,01 733 5,14

Qual a praticidade desses cenários? Os analistas de questões
EconomIas de
referentes a energia realizaram muitos estudos acerca das peno
planejamento
pectivas da energia global nos anos 2020 e 2030. 4 Tais estudos
centralizado do
não fazem prognósticos quanto às necessidades futuras de ener­
Leste europeu 6,27 389 2,44

gia, mas examinam como vários fatores técnicos, econÔmicos e
Mundo 2,11 2 4.718 9,94 ambientais podem interagir com a oferta e a procura. Dois desses
estudos são examinados no box 7.2, embora se disponha de uma
Fon..: baseado em: Banco Mundial Relat6río sobre o de""nvotv_ _
série muito maior de cenários - variando de 5TW a 63TW.
mundial 1986. Rio de Janeiro, Fundação Getulio Vargas, 1986.

De modo geral, os cenários mais baixos (I4,4TW por volta de
I kW percapita é kW-anos/anoper capita.
2030,5 11,2TW por volta de 20206 e 5,2TW por volta de 20307)
2 O consumo médio de energia ponderado pela populaç40 (kW/capita)
exígem uma revolução no rendimento energético. Os cenários
para as três primeiras categorias principais é 0,654 e para as categorias
mais altos (lS.8TW por volta de 2025,8 24,7TW por volta de
economIas industriais de mercado e Leste europeu é 6,76.
20209 e 3S,2TW por volta de 203010) agravam os problemas de
poluição ambiental que o mundo vem enfrentando desde a rI
Guerra Mundial.
As implicações de um consumo elevado de energia no futuro
África subsaariana. (Ver tabela 7.1.) E cerca de um quarto da p0­ são inquietantes. Um estudo recente do Banco Mundial indica
pulação mundial consome três quartos da energia primária do que, no período 1980-95, um crescimento anual de 4,1 % no con­
mundo. sumo de energia - mais ou menos comparável ao -caso A no box
Em 1980, o consumo global de energia ficou em tomo dos 7.2 - exigiria um investimento médio anual de cerca de US$130
10'IW.2 (Ver box 7.1.) Se o consumo per capita permanecesse bilhões (em d61ares em 1982) apenas nos parses em desenvolvi­
nos níveis atuais, por volta de 2025 uma população global de 8,2 mento. Isso implicaria a duplicação da parcela de investimentos
bilhões de habitantes3 necessitaria de aproximadamente 14TW em energia em termos de produto interno bruto agregado, 11 Cerca
(mais de 4TW nos pafses em desenvolvimento e mais de 9 TW de metade desse montante teria de provir de divisas e a outra me­
nos' países industrializados), um aumento de 40% em relação a tade. de gastos internos com energia nos países em desenvolvi­
1980. Mas se o consumo de energia per capita se unifoIlIlÍZasse mento.

188 189
Box 7.2 Dois cenários eneraéCicos
Caso A - cenário alto em desenvolvimento conseguissem adquirir o recurso primá~
Por volta do anO 2030, um· consumo de 351W significaria rio liberado, ainda apresentariam um déficit de O,91W no
produzir 1,6 vez mais petróleo, 3,4 vezes mais gás natural e
quase 5 vezes mais carvão que em 1980. Esse aumento no
, suprimento de energia primária. Tal déficit provavelmente
será muito maior (talvez duas ou três vezes maior), devido
consumo de combustíveis fósseis implica colocar em opera­ ao alto nível de rendimento que este cenário requer, e que a
ção o equivalente a um novo oleoduto do Alasca a cada um
ou dois anos. A capacidade nuclear teria de ser aumentada
30 vezes em relação aos níveis de 1980 - o que equivale
I
t
maioria dos governos provavelmente não conseguirá alcan­
çar. Em 1980, foi assinalado o seguinte colapso de forneci­
mento primário: petróleo, 4,21W; carvão, 2,4; gás, 1,7;
à instalação de uma nova usina nuclear que gerasse I GW de fontes renováveis. 1,7; e energia nuclear, 0,2. A questão é
eletricidade a cada dois ou quatro dias. Este cenário de saber qual li origem do déficit de fornecimento de energia
351W ainda está bem abaixo da perspectiva de 551W, que primária. Esse cálculo aproximado serve para ilustrar que o
pressupõe que todos os países tenham chegado aos níveis de almejado crescimento médio de ceJXa de 30% per capita no
consumo de energia per capita apresentados boje pelos paí­ conswno primário nos países em desenvolvimento ainda
ses industrializados. exigirá quantidades consideráveis de suprimento de energia
primária mesmo que se adotem sistemas de uso de energia
Caso B - cenário baixe de extremo rendimento.
Tomando o cenário de 11.21W como um exemplo bastante
otimista de uma estratégia vigorosa de conservação, a de­
manda de energia, em 2020. nos países industrializados e Fomes: o cenário de 35TW foi tirado de; Energy Systems Oroup of
em desenvolvimento é fixada, respectivamente, em 3,9TW e lhe lnternational In.titule for Applied Sy.tems Analysis. Enu8Y in
7,3TW, em comparação com os 71W e 3,31W de 1980. Isto a fim.. _rld; a global systems analy.is. Cambridge, Mass., Ballin­
significaria uma economia de 3,11W nos países industriali­ ger, 1981; todos os outros cálculos são de Ooldemberg J. ot aIii. An
zados por volta de 2020 e uma necessidade adicional de eoo-use oriented global energy strategy. Annual Review of Energy,
41W noS países em desenvolvimento. Mesmo que os países lO, 1985.

Os riscos e incertezas ambientais deconentes de um consumo Essas reservas são válidas até mesmo quando O uso de energia
elevado de energia no futuro também são inquietantes e dão mar­ é menor. Um estudo que propôs apenas a metade do consumo de
gem a reserva•. Quatro se destacam:
• a séria probabilidade de alteração climática devido ao "efeito
estufa" de gases emitidos na atmosfera, sendo o mais importante
cos .de· um aquecimento global por CO Z.16 °
energia do caso A (hox 7.2) chamou especial atenção para os ris­
estudo indica que
uma mistura realista de combustíveis - em essência, um consumo
deles ° dióxido de carbono (CG2) produzido pela queima de quatro vezes maior de carvão, duas vezes maior de gás e 1,4 vez
combustíveis fósseis; 12 maior de petróleo - poderia causar um aquecimentu global signi­
• a poluição do ar urbano pelas indústrias, devido a poluentes at­ ficativo na década de 2020. Atualmente, não existe tecnologia
mosféricos gerados pela queima de combustíveis fósseis; 13
• acidificação do meio ambiente devido às mesmaS causas;14 e
•° risco de acidentes em reatoreS nucleares, os problemas de de­
combustíveis fósseis. °
capaz de impedir as emissões de C02 decorrentes da queima de
consumo elevado de carvão também au­
mentaria as eoússões de óxidos de enxofre e de nitrogênio, que
posição dos rejeitos e da desativação dos reatores após seu tempo em grande parte se transformam em ácidos na atmosfera. Alguns
de vida útil, e os perigos da contaminação associados ao uso da países estão hoje exigindo a adoção de tecnologias para eliminar
energia nuclear. estas emissões em todas a.s instalações fabris novas e at6 mesmo
Além desses, outro sério problema é a escassez cada vez maior em algumas mais velhas. mas essas tecnologias podem aumentar o
de lenha nos países em desenvolvimento. A se manter essa ten­ custo dos investimentos em 15.25%.17 Se os países não estão
dência, por volta do ano 2000 cerca de 2,4 bilhões de pessoas preparados para incorrer nesses gastos, esse procedimentu toma­
poderiin estar vivendo em áreas quase desprovidas de madeira.I 5 se ainda mais impraticável, uma lioútação que se aplica muito

190 191
danças políticas e institucionais básicas para que o investimento
. "Em termos bem simples, a energia i a unidade fund.am,elUal do
potencial seja reestruturado no sentido dessa meta.
mundo físico. Assim sendo, não se pode pensar em desenvolvi­
A Comissão acredita que o mundo do século XXI não dispõe
melUo sem alterações na extensilo e. na natureza dos fluxos de
de nenhuma outra opção realista. As idéias que serviram de base
energia. E por ela ser tão fund.am,enlfll, todos essas alterações de
a esses cenários de consumo mais baixo não são fantasiosas. O
fluxos tlJm implicações ambiefllais. E essas implicações silo pro­
rendimento energético mostrou-se eficaz em função dos custos.
fundas. Isto quer dizer que as opções em questõell de energia não
Em muitos países industrializados, a energia primária necessária
são simples. Silo sempre cvmpkros. E todos envolvem compen­

sações. COIUndo, algumas opções e algumas compensações pa­
para produzir uma unidade de pm caiu em um quarto ou até em
recem sem sombra de dúvida melhores que ouJras, lU) selUido de
um terço nos último< 13 anos, devido em grande pane à imple­
men~ão de medidas visando a Um uso mais eficiente da ener­
que q{erecem mms desenvolvimento e menps danos ao meio am­ '.

biente. 't
gia. 19 Se bem administradas, essas medidas pennitirão que as na­
ções industrializadas estabilizem seu consumO de energia primária
David Brook. já na virada do século e também que os países em desenvolvi­
. Amigos da Terra mento atinjam níveis mais altos de crescimento com níveis de in­
Audiência pOblica da CMMAD, Ottawa, 26-27 de maio de 1986. vestimento, endividamento externo e danos ambientais muito !l'le­
nores. Nas primeiras décadas do século XXI, porém, essas medi­
(. das não terão feito diminuir a necessidade global de novos e
maiores suprimentos de energia.
mais aos elevados consumos futuros de energia que dependem
mais de combustíveis fósseis. Dificilmente se chegará a uma qua­ 7.2 COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS: O DILEMA CONSTANTE
se duplicação do consumo global de energia primária sem ter de
enfrentar vários embaraços econÔmicos, sociais e ambientais. Muitos prognósticos acerca da recuperação de recursos e reservas
, Isso toma ainda mais desejável um futuro com menor consumo petrolíferos levam a crer que, nas primeiras décadas do próximo
de energia, em que o crescimento do produto interno bruto (PIB) século, a produção de petróleo se estabilizam e a partir de então
não sofra contenções e em que o investimento se dirija para o de­ declinará gradualmente durante um período de oferias reduzidas e
senvolvimento e a ofena de equipamentos de uso final de elevado preços mais altos. As reservas de gás deverão durar mais de 200
rendimento e poupadores de combustível, e não, como agora, para anos e as de carvão cerca de 3 mil anos, às taxas atoais de con­
a obtenção de mais fontes supridoras de energia primária. Assim, sumo. Baseados nessas estimativas, muitos analistas estão con­
os serviços energéticos de que a sociedade precisa poderiam ser vencidos de que o mundo deveria implementar imediatamente
fornecidos COm uma produção muito menor de energia primária. uma vigorosa política de conservação do petróleo.
O caso B do box.7.2 leVl\ em conta uma queda de 50% no con­ Em tennos de risco de poluição, o gás é o combustível mais
sumo de energia primária per capita nos países industrializados e limpo, com grande vantagem sobre o segundo - o petróleo - e
um aumento de 30% nos países em desenvolvimento.l 8· Empre­ sobre o terreiro - o carvão -, que já polui bem mais. Mas todos
gando as tecnologias e oS processos de maior rendiménto energé­ apresentam três problemas interligados de poluição almosfiSrica: o
tico hoje disponíveis em todos os setores da economia, pode-se aquecimento global ,lO a polui~ãO urbano-industrial do ar2 1 e a
chegar a taxas de crescimento anual do PIB per capita global de acidificação do meio ambiente. 2 Alguns dos países industrializa­
aproximadamente 3%. Esse crescimento equipara-se pelo menos dos mais ricos podem ter capacidade econômica para enfrentar es­
ao que este relatório considera o mínimo para um desenvolvi­ sas ameaças, o que não ocorre com a maioria dos países em de­
mento razoável. Mas tal procedimento exigiria enormes mudanças senvolvimento.
estruturais para permitir a entrada no mercado de tecnologias efi­ Esses problemas estão se tomando cada vez mais comuns, so­
cientes, e é pouco provável que a maioria dos governos consiga bretudo nas regiões tropicais e subtropicais, mas a sociedade ain­
atingir plenamente este objetivo nOs próximos 40 anos. da nlio apreendeu plenamente suas repercussões econÔmicas, s0­
O ponto imponante com relação a esses futuros com consumo ciais e políticas. A exceção do C02' os poluentes do ar podem ser
menOr e maior rendimento energético não é se serão totahnente eliminados dos processos de queima de combustíveis fósseis a um
atingidos dentro dos cronogramas propostos. São necessárias mu­ custo geralmente inferior ao dos danos causados pela poluição. 23
192 193
importantes sobre ( ... ) as principais atividades relativas à gestão
•'É diflcil imaginar algo 'fIJ4 produza mais impactos g'/obais so­ dos recursos hídricos, como irrigação e energia hidrelétrica - me­
bre as sociedades humanas e sobre o ambiente natural do que o didas para atenuar as secas - uso de terras agricultáveis - planos
qeito estufa. Os indfcios não são muitÓ claros, mas talvez jd es­ estruturais e projetos de engenharia costeira - e planejamento
tejamos presenciando alguns exempios, senão efeitos de falO des­
se feniJmeno na África. energético todas baseadas na premissa de que os dados climáti­
Os impactos potD1Ciais extremos do Q'fIJ4Ciníento devido ao cos do passado, sem niodificaç6es, constituem uma orientação se­
efeito estlifa podem Sl!r catastróficos. Temos motivos parajulgar gura para o futuro. Essa já não é uma premissa válida."25
que jd t muito tarde para começar a tecer con.sideroçt'Jes polfti­ Os cientistas calêUlam, que. mantidas as tendências atuais, a
caso Despertar a con.sciência do público, conseguir apoio para concentração de C02 e de outms gases causadores do efeito estU­
as polfticas nacionais e finalmente desenvolver e:;forços multila­ fa na allnOllfera equivaleria. possivelmente já na década de 2030,
terais para desacelerar o ritmo de crescimento das emiss(Jes são
processos de implanlação demorada. ao dobro dos níveis de COz da era pré-industrial, o que poderia
A 'fIJ4stão do efeito estufa t uma oportunidode e um desaJio; e ocasionar um aumento das temperaturas médias globais "maior do
não t de surpreender 'fIJ4 Cón.stitua mais uma impartante rw:ão que qualquer outm já verificado na história da humanidade". 26
para que se adotem estrattgios de desenvolvimento mstentdvel." Os,atuais estudos de modelos e "experiêncins" indicam para uma
duplicação de CO2 , urna elevação das temperaturas médias da su­
Irving Mintzer perlfcíe terrestre em torno de 1,5"C e 4.5"C, sendo o aquecimento
Instituto de Recur.sos Mundiais mais pronunciado durante o inverno nas, latitudes mais altas do
Audiência pública da CMMAD, 0.).0, 24-25 de junho de 1985. que no equado{.
Uma séria preocupação é que uma elevação da temperatura
global de 1,5-4,5"C, associada a um aquecimento talvez duas ou
Entretanto, o risco de aquecimento global toma problemática uma três vezes maior nos pólos, faça o nlvel do mar subir entre 25 a
dependência maciça de combustíveis fósseis no futuro. 140 cenlÚnetms. 27 Um aumento maior inundaria as cidades cos­
teiras e 8JI áreas agrícolas sitnadas em nível mais ba.ixq, e muitos
7.2.1 Lidando com a mudança dimáCiea países poderiam sofrer graves desequilibrios em suas estrutlmi.ll
econômicas. sociais e políticas. Isso também desaceleraria a "mil.­
A queima de combustíveis fósseis e, em menor grau, a perda de quina térmica atmosférica", que é regulada pelas diferenças de
cobertura vegetal, sobretudo de florestas, devido ao crescimento temperatura entre os pólos e o equador, influenciando assim os
uroano-industrial, aumenta o acdmulo de C02 "" atmosfera. A regimes pluviais.28 Segundo os especialistas. as fronteiras agrí-,
concentração pré-industrial era de cerca de 280 partes de dióxido colas e florestais se deslocarão para latitudes mais altas, sendo
de carbono por I milhão de partes de ar por volume. Essa con­ praticamente desconhecidos os efeitos de oceanos mais quentes
centração chegou a 340 em 1980 e prevê-se que dobre para 560 sobre ecossistemas marinhos. zonas pesqueiras e cadeias alimen­
de meados para o 1un do próximo século. 24 Outros gases também tares.
contribuem bastante para esse "efeito estufa", por meio do qual a Não há como provar que isso virá a ocorrer até que realmente
radiação solar fica presa ""s proximidades do solo. esquentando o ocorra. A questão importante é saber que grau de certeza oS g0­
globn terrestre e alterando o clima. vernos exigem para concordar em tomar providências. Se espera­
Após analisarem os indicios mais recentes do efeito estufa, em rem até que significativas alterações climáticas fiquem patentes,
outubro de 1985, numa reunião realizada em VilIach, Áustria, e pode ser tarde demais para que sejam tornadas medidas efetivas
promovida pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), contra a inércia que já estará instalada no sistema global. A de­
pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNU­ mora inf"rndável inerente à negociaçã<> de qualquer acordo inter­
MA) e pelo Conselho Intemacional de Uniões Cientfikas nacional sobre questões complexas concernentes a todas as na­
(CIUC), cientistas de 29 países industrializados e em desenvolvi­ çiJes levou alguns especialistas a concluir que já é demasiado Iar­
mento concluíram que a mudança climática deve ser considerada de. 29 Dadas as complexidades e as incertezas que a questão en­
uma "probabilidade plausível e grave". Concluíram também que: volve, é indispensável que o processo comece agora. Necessita-se
HHoje, vêm sendo tomadas muitas decisões econômicas e sociais de urna estralégla que combine:
194 19.5
• um melhor acompanhamento e avaliação dos fenômenos que encontrados (assim como certas nações já proibiram o uso desses
estão ocorrendo; produtos químicos em forma de aerossol). Os governos deveriam
• mais pesquisas, para se conhecer melhor as origens, os meca­
ratificar a convenção já existente sobre o ozônio e estabelecer
nismos e os efeitos dos fenômenos;
protocolos para a limitação das emissões de clorofluorcl!Ibonos,
• o estabelecimento de políticas que derivem de um acordo inter­
além de sistematicamente controlar e relatar sua implementação.
nacional, para a redução dos gases que causam poluição;
Ainda é necessário trabalhar muito no campo da formulação de
• a adoção das estrall!gias necessáriu para mil'limizar os dados políticas. E isso deve ser feito ao mesmo tempo que se intensifi­
e lidar com as alterações climáticas e com a elevação do nível do cam as pesquisas para minorar as incerteza.. científicas que ainda
mar. subsistem. As nações precisam urgentemente formular medidas
Nenhuma nação dispõe do poder político ou econômico para " conjuntas de controle para todos os produtos químicos que agri­
combater sozinha a alteração climática. Por isso, a declaração de dem o meio ambiente e são liberados na atmosfera pela ação hu­
Villach recomendou que a estratégia em quatro pontos aqui citada mana, em especial os que podem influenciar o equilíbrio da radia­
fosse promovida pelos govenlOs e pela comunidade cientffica ção na terra. Os governos deveriam iniciar conversações visandO
através da OMM, do PNUMA e do cruc apoiada, se necessá­ a uma convenção sobre esse assunto.
rio, por uma convenção global. 30 Caso não seja possfvel implementar logo uma convenção sobre
Enquanto se preparam essas estrall!gías, podem e devem ser polfticas de contenção de produtos químicos, os governos deve­
adotadas medidas de polftíca mais imediatas. As mais urgentes riam traçar estrall!gias e planos de contingência visando à adapta­
são as necessárias para o aumento e a ampliação do que já se con­ ção às alterações climáticas. Em ambos os casos, a OMM, o
seguiu no tocante ao rendimento energético e para orientar a PNUMA, o cruc e a Organização Mundial da S8llde, além de
combinação energétiea no sentido de componentes renováveis. A outros importantes organismos nacionais e internacionais, deve­
produção de dióxido de carbono em todo o mundo poderia ser riam ser encorajados a coordenar e acelerar seus programas que
bastante reduzida por meio de medidas que visassem ao rendi­ visam à formulação de uma estratégia bem integrada de pesquisa,
mento energético sem que houvesse qualquer redução no ritmo do acompanhamento e avaliação dos prováveis efeitos sobre o clima,
crescimento do pm. 31 Tais medidas serviriam também para dimi­ a saWfe e o meio ambiente causados por todos os produtos quími­
nuir outras' emissões de gases. reduzindo assim a acidificação e a cos que agridem o meio ambiente e são liberados na atmosfera em
poluição urbano-industrial do ar. Os combustíveis gasosos produ­ grandes quantidades.
zem menos dióxido de carbono por unidade de produção energé­
tica do que o petróleo ou o carvão; por isso, seria conveniente 7.2.2 Reduzindo 8 poluição urbano-industriaJ do ar
estimular seu uso, sobretudo na cozinha e em outras atividades
domésticas. Nos últimos 30 anos, devido ao crescimento generalizado e acele­
Acredita-se que outros gases, que não o dióxido de cl!Ibono. rado ocorrido no mundo, houve grandes aumentos no consumo de
sejam responsáveis por cerca de um terço do atual aquecimento combustíveis para aquecimento e refrigeração. trallsporte motori­
global, e calcula-se que por volta de 2030 a eles se deverá metade zado. atividades industriais e geração de enérgia elétrica. No fim
desse problema.3 2 Alguns deles. especialmente os clorofluorcar­ dos anos 60. a preocupação com os efeitos da crescente poluição
booos - usados como aerossóis, como produtos químicos de refri­ do ar levou à adnção de medidas corretivas, entre as qUalS crité­
geração e na fubricação de plá.'lticos - são mais fáceis de contro­ rios e padrões de qualidade do ar. e tecnologias de controle de
lar que o C02' Embora não se relacionem diretamente com a pro­ poluentes eficazes em função dos custos. Essas medidas reduzi­
dução de energía, esses gases terão influência decisiva sobre as ram bastante as emissões de alguns dos principais poluentes e
políticas que visam ao controle das emissões de dióxido de car­ limparam o ar de muitas cidades. Apesar disso, a poluição do ar
bono. já atingíu nfveis alarmanleS nas cidades de vários países indus­
Além de seus efeitos sobre o clima, os c1orofluorcarhonos são trializados e recém-industrializados. e também nas da maioria dos
em grande parte responsáveis pelos danos causados ao oz6nio es­ parses em desenvolvimento, sendo hoje algumas delas as áreas
tratosférico da Terra.3 3 A ind11stria química deveria esforçar-se urbanas mais poluídas do mundo.
ao máximo para encontrar substitutos para eSses gases, e os go­ Dentre as emissões de combustível fóssil que mais preocupam
vernos deveriam exigir o uso de tais substitutos tão logo fossem em tennos de poluição urbana - liberadas por fontes móveis ou

196 197
fixas - estão o dióxido de enxofre, os óxidos de nitrogênio, o
monóxido de caroono, vários compostos orgânicos volá41is, cin­ "Uma floresta é um ecossiStema que existe sob determinadas
zas e outras partículas suspensas no ar. Tudo isso pode prejudicar condições ambienmis, e se essas condições são alteradas. o sis­
a saúde humana e o meio ambiente, causando problemas respira­ tema acaba se allerando. É uma torefa muito diftcil para os
tórios cada vez mais graves, alguns potencialmente fatais. Mas ecologiStas prever quo.is ser4D essas aJÚ!rações, pois os sistemas
esses poluentes podem ser mantidos dentro de certos limites de
são exJremlllnA!nÚ! complexos.
As causas diretas para a 1'IW11e de uma árvore podem estor
modo a se proteger a saúde humana e o meio ambiente, e todos os muito distantes da pressão inicial que mantinha o equilibrio de
governos deveriam tomar medidas para chegar a nfveis aceitáveis todo o sistema. Uma vez esta causa pode ser o oztJnio: outra, o
de qualidade do ar. rol. ou ainda. o envenenamento por alumlnio.
Os governos podem estabelecer e fazer cumprir metas e objeti­
vos de qualidade do ar. níveis aceitáveis de desca.tga de poluentes
'. Posso exemplificar com uma analogia: num perfDdo de fome,
lido são muitas as pessoas que morrem diretamente de inoniçdo;
na atmosfera e critérios e padn'les de emissão, como alguns já fa­ elas morrem de disenteria ou de várias doenças infecciosas. E
zem com sucesso. As organizações regionais devem apoiar essas numa sinmç4D assim, lido adianra muito dar remédios em vez de
iniciativas. As agências multilaterais e bilaterais de assistência ao comida. Ista quer dizer que. em tal sinmção, é necessário retne­
desenvolvimento e os bancos de desenvolvimento deveriam in­ ter"se ds pressões primárias, sobre o ecossistema. "
centivar os governos a exigir o uso das tecnologias de maior ren­ AlfJohnels
dimento energético sempre que indllstrias e serviços de energia Museu Sueco de História NalUFal
planejassem erguer novas instalações ou ampliar as já existentes. Audiênciap6blica da CMMAD, Oslo, 24-2.5 de junho de 1985.

7.2.3 Danos decorrentes da ampla dl5'Iemi nação
da poluição do ar ntimicos desses fenômenos, mas os existentes demonstram que
são bastante altos e vêm aumentando rapidamente.35 Essas subs­
Nos anos 70, as medidas tomadas por muitos paises industrializa­ tâncias danificam a vegetação, contribuem para a poluição da ter­
dos para controlar a poluição urbana e industrial do ar (por exem­ ra e da água e corroem edifícios, estruturas metálicas e veículos,
plo, chaminés mais altas) melhoraram bastante a qualidade do ar causando prejuízos de bilhões de d6lares anuais.
nas cidades onde foram adotadas. No entanto, involuntariamente, A ocotrência de danos foi comprovada primeiramenle na Es­
lançaram quantidades cada vez maiores de poluentes para aJém ,t candinávia _ anos 60. Milhares de lagos da Europa, sobretudo
das fronteiras nacionais, atingindo outros países da Europa e da no sul da Escandinávia, 36 e várias centenas na América do Nor­
América do Norte, o que contribuiu para a acidificação de am­ te37 registraram um awnento constante dos níveis de acidez, a
~
bientes distantes e gerou novos problemas de poluição. Isso evi­ ponto de suas populações natnrais de peixes diminuírem ou desa­
denciou-se em danos maiores a lagos, solos e comunidades vege­ parecerem. Esses mesmos ácidos penetraram no solo e nos lençóis
tais e auimais.34 O. fato de algumas regiões não terem conseguido d'água subterrãoeos, awnentando a corrosão dos encanamentos de
controlar a poluição causada por automóveis agravou ainda mais água potável na Escandinávia.38
o problema. l, As provas circunstanciais que indicam ser necessário agir nas
Assim, a poluição atmosférica - antes con.iderada apenas wn fontes de precipitação ácida acwnulam-se tão rapidamente que
problema urbano-industrial localizado relativo à saúde das pes­ cientistas e governos diSPõem de pouco tempo para avaliá-Ias
soas - agora é vista como uma questão muito mais complexa, que cientificamente. Alguns dos maiores danos de que se tem notícia
engloba constroções, ecossistemas e talvez até mesmo a saúde verificaram-se na Europa Central, que vem recebendu atualmente
pública em vasta.. regiões. Enquanto se deslocam na atmosfera, as mais de wn grama de enxofre em cada metro quadrado de solo
emissões de óxidos de enxofre e nitrogéuio e de bidrocaroonos por ano - pelo mene. cioco vezes mais que o teor natural. 39 ,Em
voláteis convertem-se em ácidos sulfúrico e nítrico, em sais amo­ 1970 havia poucos indícios de danos a árvores na Europa. Em
nfacos e em ozÔnio. Essas substâncias caem no solo, às vezes a 1982, a República Federal da Alemanha informou que as folhas
muitas ceotenas ou milhares de quilÔmetros de seus locais de ori­ de determinadas áreas florestais em todo o pais apresentavam da­
gem, sob a forma de partículas ou então de chuva, neve, geada, nos visíveis, chegando em 1983 a 34% e elevando-se em 1985
nevoeiro e orvalho. Há poucos estudos sobre os custoS sócio-eco­ para 50%.40 A Sukia constatou danai entre pequenos e modera­

198 199
dos em 30% de suas florestas, e vários infonnes de outros países
do leste e do oeste europeus silo também bastan'" inquietantes. Box 7.3 Qullllto custam os danos e o rontrole
Estima-se que 14% de toda a área florestal européia já estejam da poluição do ar
afetados.41
As provas não são cabais, mas muitos inronnes mostram que • É muito difícil quantificar os custos do controle de danos,
os solos de certas regiões européias estão se tomando ácidos nas sobretudo porque esses. custos dependem muito da eslrntégia
camadas que abrigam as raízes das árvores,42 especialmente os de controle adotada. No entanto, no leste dos EUA, çalcu­
lou-se que para fazer cair pela metade as emissões de dióxi­
solos pobres em nutrientes, como os do sul da Suécía.43 Não se do de enxofre das fontes existentes seria necessário gastar
conhece quais os verdadeiros mecanismos causadores dos danos,
mas todas as teorias apresentam um elemento de poluição do ar. ., USS5 bilhões por ano, awnentando em 2-3% as atuais tari·
fas de energia elétrica. Se incluirmos nesse cálculo os óxi­
Os danos às ra.fzes44 e os danos às folhas parecem interagir, afe­ dos de nitrogênio, os custos adicionais podem chegar a
tando a capacidade das árvores tanto para eXllair água do solo US$6 bilhões ao ano. Só os danos causados por corrosão de
quanto para retê-Ia em sua folhagem, tomando-as especialmente materiais têm um custo estimado de US$7 bilhões por ano
vulneráveis a períodos de seca e a outros tipos de pressão. A Eu­ em 17 estados do leste dos EUA.
ropa pode estar experimentando uma séria mudança no sentido de
moa acidificação irreversíVel, que para ser reparada exigiria cus­ • As estimativas dos custos anuais de garantir wna redução
tos acima do alcance da economia. 45 (Ver box 7.3.) Embora haja de 55 a 65% nas emissões remanescentes de enxofre nos
países da Comunidade Econômica Européia entre 1980 e
muitas maneiras de reduzir as emissões de enxofre. nitrogênio e
hidrocarbono, é improvável que uma única estratégia de controle
I 2000 variam de US$4,6 bilhões a US$6,7 bilhões (dólares
de 1982) por ano. O controle de caldeiras estacionárias para
de poluentes seja eficaz para lidar com a redução das florestas. J reduzir os níveis de nitrOgênio em apenas 10% ao ano por
Será preciso adotar um conjunto de esllatégias e tecnologias inte­ volta de 2000 custaria entre USSIOO mil e US$400 mil (dó­
gradas a ruo de melhorar a qualidade do ar, e cada um concebido lares de 1982). Estas cifras representam um awnento de cer­
para cada região. ca de 6% no preço da energia elétrica ao consumidor. Se­
Estão começando a surgir indfcios de poluição do ar e acidifi­ guodo estudos, os custos dos danos causados por perdas de
cação no Japão e também em países recém"industrializados da materiais e de peixes são de US$3 bilhões anuais, e o dos
Ásia, África e América Latina. China e Reptlblica da Coréia pa­ danos causados a lavouras, florestas e à saúde pode ser su­
perior a US$IO bilhões ao ano. As tecnologias para reduzir
recem especialmente vulneráveis, assim como Brasil, Colômbia, sensivelmente os óxidos de nitrogênio e os hidrocarbonos
Equador e Venezuela. Sabe-se tão pouco acerca dos prováveis dos gases de escapamento de automóveis já estão disponí­
níveis de enxofre e nitrogênio nos meios ambientes dessas regiões veis e são rotineiramente usadas nos EUA e no Japão, mas
e acerca da capacidade de neutralização de ácidos dos solos de não na Europa.
lagos e florestas tropicals, que se deveria conceber sem demora
um amplo programa de pesquisa. 46 • No Japão, estudos de laboratório indicam que a poluição
Nos lugares· onde a acidificação constitui ameaça real ou p0­ do ar e a chuva ácida podem causar uma redução de até
tencial, os governos deveriam fazer o levantamento das áreas 30% nas safras de trigo e arroz.
propensas a esse risco, avaliar os danos sofridos pelas florestas
anualmente e o empobrecimento do solo a cada cinco anos, se­ F onleS: US Congress, Office of Technology Assessment. Acid rai,,·
gondo protocolos rumados regionalmente, e divulgar os resulta­ anti transported air paU_nts: implications for public pollcy. Wa­
shington, D.C., US Government Printlng Office, 1985; US Envi­
dos obtidos. Deveriam também dar apoio ao monitoramento da
ronmental protection Ageocy. Acid deposition assess"",,,'. WlIllhin­
poluição além-fronteiras, que está sendo executado por agências gton, D.C., 1985; Torrens, I.M. Acid.tain and ai! poDution: a pro­
regionàis e~ onde essas agências não existissem, criar uma ou en· b1em of industrialization 1985. Elaborado pata a CMMAD; MandeI­
carregar da tarefa qualquer órgão regional adequado. Os govemos baum, P. Acid rain • ecoMmic as$f!$smenl. New Yorlc, Plenum
de muitas regiões poderiam tirar grande proveito de acordos para Pross, 1985; Hashirnoto, M. National ai! qua1ity management policy
evitar a poluição do ar além-fronteiras e os enormes danos a suas of Japan 1985. (Elaborado Jl"'8 a CMMAD.); OECD. TIu! s"te oi
bases econômicas que a Europa e a América do Norte estão so­ .""irO"""'"'.
tlu! Paris, 19I!S.
freodo. Mesmo que seja difícil provar as causas exatas desses da-

IJ
200 201

11
DOS, as estratégias para reduzi-tos_são~ por certo. economicamente ameaças mais sérias à paz mundial. Evitar sua proliferação é do
viáveis. Essas estratégias poderiam ser consideradas uma medida interesse de todas as naçóes. Portanto, todas deveriam contribuir
de segurança barata em comparação com os enormes danos p0­ para a criação de um sistema viável de não-proliferação. Os Esta­
tenciais que evitam. dos detentores de armas nucleares devem cumprir o compromisso
assumido de reduzir seu ntímero e por Ílm eliminá-las de seus ar­
7.3 ENERGIA NUCLEAR: PROBLEMAS senais, tomando:as sem importância em suas estratégias. E os
NÃO-RESOLVIDOS Estados que não possuem armas nucleares devem colaborar, pr0­
porcionando garantias seguras de que não estão procurando capa­
7.3.1 O átomo pacifico citação nessa tecnologia.
') A maioria dos esquemas de não-proliferação determina uma
Nos anos que se seguiram à II Guerra Mundial, a tecnologia nU­ separação institucional entre usos militares e civis da energia nu­
clear, que sob o domínio militar havia levado à pÍOOução das ar­ Clear. Mas para os países com pleno acesso a todo o ciclo dQ
mas atÔmicas, foi reformulada pelos técnicos civis parn. servir a combustível nuclear. na verdade não há separação técnica. Nem
fins "energéticos" pacíficos, Vários beneficios eram evidentes na todos os Estados praticam a neccsaária' separação administrativa
época, bem definida entre acesso civíl e militar. Também é necessária a
Também era evidente que nenhuma fonte de energia seria cooperação entre os furnecedores e compradores de instalações e
completamente desprovida de riscos. Havia o perigo de uma guer­ materiais nucleares civis e a Agência Internacional de Energia
ra nuclear ~ da disseminação das annas atômicas e do teITQrismo Atômica (AIEA), a fun de oferecer garantias confiáveis de que os
nuclear. Mas uma intensa cooperação internacional e ã negocia­ programas com fmaIidades civis não serão desvíados para fins
ção de vários acordos levaram a crer que tais perigos poderiam militares, sobretudo nos países que não abrem todos os seus pro­
ser evitados. Por exemplo, no Tratado sobre a Não-proliferação gramas nucleares à inspeção da AlEA. Por isso, sempre permane­
de Armas Nucleares, cujo texto final ficou pronto em 1969, os ce o perigo da proliferação de armas nucleares.
governos signatários que dispunham de armas e tecnologia nU­
cleares cbmprometiam-se a promover e empreender o desarma­ 7.3.2.1 Custos
mento nuclear e também ajudar os países signatários nâo-detento­ •
reg dessa tecnologia a desenvolverem a energia nuclear, mas ex" Os custos de construção e a economia relativa das estações gera­

clusivamente parn. fins pacíficos. Outros problemas - como riscos doras de eletricidade - movidas a energia nuclear, carvão, petró­

de radiação, segurança dos reatores e eliminação dos rejeitos nU­ leo ou gás - são condicionados, ao longo da vida I1til de uma usi­

cleares - foram considerados muito importantes, porém passíveis na, pelos seguintes fatores:

de controle, caso se empreendessem os esforços necessários. • o custo dos empréstimos para financiar a construção da osina;

E hoje, após quase quatro décadas de grande esforço tecnol6­ • o impacto da inflação;
gico para promover o desenvolvimento nuclear, a energia- nuclear • a duração do período de planejamento, licenciamento e constru­

tomou-se amplamente utilizada. Cerca de 30 governos usam rea­ ção;

tores nucleares para gerar aproximadamente 15% de toda a e,letri­ • o custo do combustível e da manutenção;

cidade consumida no mundo. Mas as expectativas de que esta se­
ria uma funte-chave para assegurar uma oferta ilimitada de ener­
• • os custos de medidas preventivas para assegurar um funciona­
mento seguro;
gia de baixo custo não se concretizaram. Contudo, durante esse • os custos da eliminação de rejeitos (contenção da poluição da
período de experiência prática de construção e colocação em fun­ ) terra, do ar e da água) e os custos da desativação no fim da vida
cionamento de reatores nucleares, a natureza dos custos, riscos e Iltil.
beneficios tomou-se muito mais evidente e também objeto de Todos esses fatores variam enormemente dependendo dos dife­
grandesconlrové~ias. rentes contextos institucionais, legais e financeiros dos diferentes
países. Por isso, generalizaçóes e comparações no tocante a cus­
7.3.1 A compreensão cada vez maior das queálell Dudeares tos são inllteis e enganadoras. De qualquer fonna, em termoII de
usinas nucleares, os custos associados a vários desses f _ au­
A possibilidade de disseminação das armas nuclea:tes é uma das mentaram mais rapidamente nos I1Itimos 5-10 anos, de modo que
203
qualquer dos sistemas. Se ocorrer um acidente, cabe a cada g0­
"Os riscos que os usos pac(ficos da energia nuclear. inclusive a verno a responsabilidade de decidir que nfvel de contaminação
energia elétrica nuclear, representam para a satiIk são muito radioativa tomará pastagens, 'ágoa potável, leite, carne, ovos. le­
pequenos se comparados aos beneftcios proporcionmIos pelo uso gumes e peixes proibidos ao consumo animal ou humano.
da radiação nuclear para diagnóstíco e tratamento médico. Diferentes países - e até autoridades locais de um mesmo país
A aplkxlçiio segura da tecnologia da radiação nuclear pode - adotam diferentes critérios. Alguns não adotam nenhum, apesar
trazer muitos beneffcios no tocante à limpeza do meio ambiente e da CIPR e dos PSN. Os Estados com padrões mais rigorosos che­
ao aumento da oferta de alimentos em toda o mundo. pois elimi­ gam a destruir grandes quantidades de alimentos ou a deixar de

~
na q desperdlcio. importar alimentos de um pafs vizinho cujos erilérios são mais li­
A exceção de um fato recent4 e t-I conhecido. a cooperação bernis. Isto provoca sérios contratempos para os agricuIto",s. que
intemocional que assinalou o desenvolvimento da tecnologia da podem não receber comp'cnsação alguma por suas perdas - além
energia nuclear t! wn e:u:elente exemplo de como lidar com pro­
blemas ambientais e éticos comuns causadas pelo desenvolvi­ de causar problemas comerciais e tensões políticas entre Estados.
mento de outras tecnologias." Todo isso se verifICOU após o desastre de Tchernobil, quando fi­
cou claramente demonstrada a necessidade de estabelecer critérios
IanWÜSOD de contaminação mais unifurmes, pelo menos em nfvel "'gional, e
Vice-Presidente da Associação Nuclear CanadelUle acordos de compensação.
Audíência pílblicad. CMMAD, Ottawa, 26-27 de maio de 1986 (.
.~
7.3.2.3 Riscos de acidentes nucleares
'"
a clara vantagem anterior em relação aos custos da energia nu­
clear sobre a vida oltil da usina foi muito reduzida ou mesmo de­
.I A segurança nuclear voltou às manchetes dos jornais após os aci­
dentes de Tbree Mile rsland (Hatrisburg, EUA e de Tchemobil,
sapareceu.47 As nações deveriam, portanto, examinar muito URSS). Em 1975, a Comissão de Regulamentação Nuclear dos
atentamente as C"'1lparações de custos a fim de tirarem o máximo EUA flzera estimativas de probabilidade do risco de uma falha
proveito da estratégia energética adotada. num componente ocasionar uma liberação radiativa nos reatores a
água leve usados no Ocidente.48 A categoria de liberação mais
7.3.2.2 Riscos para a satiIk e o meio ambient4 grave por falha de retenção foi situada em tomo de I para I lIÚ­
lhão de anos de funcionamento de um reator. As análises poste­
As usinas nucleares são "'gidas por cddigos de segurança muito riores aos acidentes de Hatrisburg e de Tchemobil - um tipo de
rlgidos, de modo que, sob condições operacionais oficialmente reator totalmente diferente - mostraram que, em ambos os casos,
aprovadas, o perigo de radiação para o pessoal que trabalha no a causa principal havia sido erro humano. Os acidentes ocorre-'
reator e para o póblico em geral seja mínimo. Mas um acidente ram, "'spectivamente, após cerca de 2 mil e 4 mil anos-reator. 49
num reator nuclear pode em certos casos - extremamente ratOs ­ É praticamente impossível estimar probabilisticamente a freqüên­
ser sério o bastante pata causar a liberação de substâncias radiati­ cia da ocorrência de tais acidentes. Contudo. as análises disponí­
vas. Dependendo do nfvel de exposição, as pessoas flcam sujeitas veis indicam que, embora o risco de um acidente por liberação
ao risco de contrair várias formas de câncer ou de apresentar alte­ ~va seja pequeno, não pode de furma algUma deixar de ser
rações de material genético que podem acarretar defeitos hereditá­ levado em conta no atoaI estágio operacional dos reato."..
rios. Os estudos acerca de precipitação radiativa realizados apÓs os
Desde 1928 a Comissão Internacionai de Proteção Radiológica primeiros testes de armas atôlIÚcas na atmosfera tomam perfeita­
(CIPR) vem fazendo ...comendações acerca dos nfveis de dosa­ mente previsfveis os efeitos "'gionais de um acidente para a sallde
gem de radiação acima dos quais a exposição é inaceitável. Tais e o meio ambiente; e estes efeitos foram confmnados na prática.
níveis foram estabelecidos para funcionários que se expõem por após o acidente de Tchemobil. O que não se poderia prever com
força do próprio trabalho e para o pllblíeo em geral. Os cddigos segurança antes de Tchemobileram os efeitos locais de um aci­
denominados Padrões de Segurança Nuclear (PSN) da AlBA fo­ dente desse tipo. Agora já se tem uma visão muito mais clara, de­
ram estabelecidos em 1975 a ftm de reduzir as diferenças de segu­ vido às experi!nci8& lá realizadas depois que um reator explodiu,
rança entre os Estados-membros. Nenhum governo está sujeito a em 26 de abril de 1986. após as notmall oficiais de segurança te­

204 205
rem sido várias vezes infringidas, causando o pior acidente nu~ Dessa forma, enquanto alguns países ainda não dispõem de
c1ear jamais oconído. Devido a esse acidente, todo um distrito te­ energia nuclear, os reatores já fornecem cerca de 15% de toda a
ve de passar por uma verdadeim ** operação de guerra" , sendo ne~ eletricidade gerada. A produção totaI de eletricidade do mundo,
cessário estabelecer uma ampla operação militar para conter os por sua vez, equivale a cerca de 15% da oferta global de energia
danos. primária. Aproximadamente um quarto dos países do mundo p0s­
suem reatores. Em 1986. havia 366 funcionando e outros 140 em
7.3.2.4 Deposição de rejeitos radiarivos planejamento,51 sendo que 10 governos detinham cerca de 90%
de toda a capacidade instalada (mais de 5GW (e». Destes, oito
Os programas civis de energia nuclear de todo o mundo já gera­ possuem uma capacidade rotal superior a 9GW (e)52, e geraram
ram muitos milhares de toneladas de combustível já utilizado e de em 1985 as seguintes percentagens de energia elétrica: França,
rejeitos altamente radiativos. Muitos governos adotaram progra­ 65; Suécia, 42; República Federal da Alemanha, 31; Japão, 23;
mas de larga escala para estabelecer meios de isolar esses rejeitas Reino Unido, 19; EUA, 16; Canadá, 13; URSS, 10. Segundo a
da biosfera durante as várias centenas de milhares de anos em que AlEA, em 1985 havia 55 reatores de pesquisa no mundo, 33 deles
permanecerão perigosamente radiativos. em países em desenvolvimento. 53
Mas o problema de deposição dos rejeito. nucleares continua Contudo, resta pouca dúvida de que as dificuldades já mencio­
sem solução. A tecnologia relativa a esse problema atingiu urn nadas contribuíram de um modo ou de outro para o atraso dos
alto nível de sofisticação,50 porém ainda não foi plenamente planos nucleares futums - e. em alguns países, para a interrupção
testada ou utilizada. e continua havendo problemas quanto ao que das atividades nucleares. Na Europa ocidental e na América do
fazer com os rejeitas. Há uma preocupação especial quanto a um Norte, que detêm hoje quase 75% da atual capacidade mundial, as
futuro despejo no OCeano ou à deposição de rejeitos contaminados fontes nucleares respondem por cerca de um terço da energia que
no tenítório de países pequenos ou pobres incapazes de impor as previsões feitas há 10 anos indicavam. À exceção da França,
salvaguardas rigorosas. Deveria ficar estabelecido com clareza do Japão, da URSS e de vários outros países do Leste europeu
que todos os países que geram rejeitos nucleares OS depositariam que decidiram levar avante seus programas nucleares, em muitos
em seus pIÚpriOS territórios ou segundo acordos rigidamente m<:>­ outros países .... perspectivas de encomenda, constroção e licen­
nitorados entre Estados. ciamento de novos reatores não parecem nada boas. Na verdade,
entre 1972 e 1986. as antigas projeções globais da capacidade es­
7.3.3 A situação inlernaclonal na atualidade timada para o ano 2000 foram revistas e reduzidas por um fator
de quase sete. Mesmo assim. o =scimento anual de cerca de
Nos últimos. 25 anos, uma conscientização cada vez maior dos 15% que a energia nuclear apresentou nos últimos 20 anos ainda
problemas aqui. esboçados provocou uma vasta gama de reações é impressionante.54
por parte de especialistas, do público e dos governos. Muitos es­ Depois de Tchernobil, houve significativas mudanças na polí­
pecialistas acham que aínda há muito que se aprender Com os tica nuclear de alguns governos. Vários deles - especialmente
problemas vividos até agora. Sustentam que se a opinião pública China, República Federal da Alemanha, França, Japão, Polônia,
lhes pemútir resolver os problemas de desativação e deposição de Reino Unido, EUA e URSS - mantiveram ou reaf'mnaram suas
rejeitos nucleares. e se o custo dos financiamentos permanecer ra­ políticas pIÚ-nucleares. Outros, que adotavam políticas "não-nu­
zoavelmente abaixo do pico de 1980-82. na falta de novas fontes cleares" ou haviam interrompido seu processo nuclear (Austrália,
energéticas alternativas viáveis. não há por que a energia nuclear Áustria, Dinamarca, Luxemburgo, Nova Zelândia, Noruega, Sué­
não déspontar como Uma fonte promissora nos anos 90. No ex­ cia - e a Irlanda, com uma posição extra-oficial antinuclear), re­
tremo oposto, muitos especialistas opinam que há problemas de­ ceberam a adesão das Filipinas e da Grécia. Enquanto isso, Fin­
mais sem solução e que são muitos OS riscos para que a sociedade lândia, Holanda, Itália, Iugoslávia e Suíça estão reexam:inando a
pense num futuro nuclear. As reações do público também variam. segnrança nuclear e os argumentos antinucleares, ou adotaram
Em alguns pafses, há pouca reação popular; em outros, parece leis que vinculam todo e qualquer crescimento futuro do emprego
haver um alto grau de ansiedade, que se manifesta nos resultados de energia nuclear e exportações e importações de tecnologia de
anlinucleares das pesquisas de opinião ou em grandes campanhas reatores a urna solução satisfatória para o problema da deposição
antinucleares. dos rejeitos radiativos. Vários países demonstraram-se preocupa"

206 207
Mas seja qual for a política adotada, o importante é que se dê a
"A avaliação das conseqüências práticas pode basear-se hoje If(l máxima prioridade à promoção de práticas que conduzam ao ren­
experil!ncia prática. As COT/Seqüências de Tche~il levaram os dimento energético em todos os setores ligados à energia e de
especialistas sovU!ticos a questionarem mais UI11il vez se não se­ programas de pesquisa, desenvolvimento e demonstração para um
ria prematuro o desenvolvimento da energia nuclear em escaia uso seguro e não-atentalÓrio ao meio ambiente de todas as fontes
industrial. Acaso ele não seria fatal paro nossa civílização, para supridoras de energia, especialmente as renováveis.
o ecossistema de nosso PÚUleta? Num pÚUleta como o nosso, tão Devido à possibilidade de ereitos além-fronteiras, é essencial
rico em todo tipo de fontes energéticas, esta qu..srão pode ser que os governos cooperem no sentido de estabelecer códigos in­
discutióo com bastante calma. Temos uma opção real nesse
campo, tanto no nlvel estatal e governamental, cvmo no ntvel ternacionalmente aceitos de funcionamento que incluam os com­
dos indívlduos e ãos profissionais. ponentes técnicos, econômicos, sociais (inCluindo aspectos liga­
Devemos nos empenhar a fundo pora aperfeiçoar a própria dos à saúde e ao meio ambiente) e políticos da energia nuclear.
tecnologia, paro criar e elaborar rigorosos padrões e normas de De modo especial, deve-se chegar a um consenso internacional no
qualidade e de segurança tecnológica. Devemos nos esforçar po­ tocante aos seguintes itens especfficos:
ro criar centros antiacidentes e centros destinados a compensar • total ratificação, por parte dos governos, das convenções acerca
as perdas sofridas pelo meio ambiente. Seria bem mais natural de "Notificação Imediata de Acidentes Nucleares" (inclusive a
atentar paro a melhoria do nEvei de segurança industrial e a s0­ criação de Um sistema de supervisão e monitotação adequado) e
lução do problema das re~ões do. homem com a máquina do acerca da "Assistência em Caso de Acidentes Nucleares ou
que concentrar os esforços num único elemento da estrutura Emergência Radiológica", da forma recentemente estabelecida
energética do nutndo. Isso benefiCiaria todo a humanidade." pela AIEA;
V.A. Legasov • treinamento· para enfrentar emergências para contenção de
Membro da Academia de Clb.eias da URSS acidentes e descontaminação e limpeza a longo prazo das áreas,
Audiéncia pdblica d. CMMAD, Moscou, 8 de dezembro de 1986 pessoas e ecossistemas afetados;
• a remoção para além-fronteiras de todos os materiais radiativos,
inclusive combustíveis, combustíveis já utilizados e outros rejei­
tos, atravt!s do mar, da terra ou do ar;
• um código de práticas relativas a obrigações e compensações;
dos o bastante para realizar referendos a fim de conhecer a opi­ • padrões de treinamento de operadores e licenciamento interna­
nião pública com relação à energia nuclear. cional.
• código de práticas para o funcionamento de reatores, inclusive
7.3.4 Conclusões e recomendações padrões mínimos de segurança;
• a comunicação de Iíbetações rotineiras e acidentais em instala­
As reaç6es desses países indicam que, enquanto continuam a re­ ções nucleares;
ver e a atoalizar todos os dados disponíveis, os governos tendem • padrões mínimos de proteção radiológica, eficazes e acordados
a assumir três posições possíveis: internacionalmente; ,
• pennanecer fora do círculo nuclear e desenvolver outras fontes • critérios assentidos de seleção de locais para a instalação ge
de energia; usinas, e consultas e notificações anteriores à montagem de .todas
• considerar sua atual capacidade de energia nuclear necessru;a as grandes instalações civis ligadas à energia nuclear;
durante um determinado período de transição para fontes alterna­ • padrões para depósitos de rejeitos;
tivas de energia mais seguras; • padrões para descontaminação e desativação de reatores nuclea­
• adotar e desenvolver a energia nuclear+ na convicção de que os res cuja vida ótil se esgotou;
problemas e riscos deles decorrentes podem e devem ser resolvi­ • problemas decorrentes do desenvol vimento de embarcações
dos num nível de segurança aceitável nacional e internacional­ movidas à energia nuclear.
mente. Por muitas razões - entre elas, em especial, o fato de os paí_
Os debates da Comissão também refletiram esses mesmos detentores de armas nucleaJ:es nAo çhegarem a IeOttlo quanln ao
pontos de vista, tendências e po..ições. desarmamento -, o Tratado de Nlo-proliferaçAo ",velou-Ie um
208 209
instrumento ioadequado para evitar a proliferação de armas nu­
cleares, que aioda constitui séria ameaça à paz nrundial. Reco­ guir no ritmo atual, por volta do ano 2000 talvez cerca de 2,4 bi­
mendamos, portanto, veementemente a iostauração de um regime lhões de pessoas estejam vivendo em áreas onde "há extrema es­
internacional eficaz que abarque todas as dimensões do problema. cassez de madeira, ou é preciso oblê-Ia em outros lugares". Esses
Tanto os Estados que dispõem de annas nucleares quanto os que nlÚlleros revelam uma situação muito difícil para os seres huma­
não dispõem deveriam comprometer-se a acatar salvaguarda!;, em nos. Não se dispõe de dados preciso. sobre a oferta de lenha por­
confonnidade com oS estatutos da AIEA. que grande parte do produto não é COlllI!l[CÍalizada e sim coletada
Além disso, "é necessllria uma ação normatiVa ioternacional, pelos consumidores, principalmente mulheres e crianças. Mas não
há d11vida de que milhões empenham-se arduamente em encontrar
que inclua a inspeção dos reatores em âmbito mundial. Essa ação • combustíveis substitutos, e este nlÚllero vem aumentando.
nada teria a ver com o papel da AIEA de promoção de energia
A crise da lenha e o desflorestamento embora ligados - não
nuclear. constitoem o mesmo problema. Os rombustfveis vegetais que se
A geração de energia nuclear só se justifica com soluções con­
fiáveis para os problemas· até agora não resolvidos que acarreta. destinatn ao conswno urbano e iodustrial geraimente provêm das
Deve-se dar a máxima prioridade à pesquisa e ao desenvolvi­ florestas, mas apenas uros pequena proporção do consumido pelos
pobres rurais provém de florestas. E mesmo neste caso, os habi­
mento de alternativas viáveis do ponto de vista ambiental e eco­
tantes dos povoados rurais raramente derrubatn árvores; a maioria
nômico, além de meios de aumentar a segurança da energia mi­
apanha galhos mortos cafdos ou os cortam das §rvores.59
clear. Quando a lenha é escassa, as pessoas costumam economizá-Ia;
quaado já não há lenha disponível, os habitantes do campo se vê­
7.4 COMBUSTÍVEIS VEGETAIS: UM RECURSO em forçados e queimar outros combustíveis, como esterco de va­
QUE SE ESGOTA ca, talos e cascas de vegetais e ervas daninhas. Em geral isso não
causa nenhum prejuízo, desde que sejam usados refugos tais c0­
Setenta por cento dos habitantes dos países em desenvolvimento mo talos de algodão. Mas a queime de esterco e de certos resí­
consomem lenha e, dependendo da disponibilidade, queimam alge duos agrícolas pode em alguns casos tirar do solo os nutrientes de
em tomo de mo mínimo absoluto de cerca de 350kg a 2.9OOkg de que este necessita. Por vezes, períodos agudos de escassez podem
lenha seca por ano - em média, aproxirnsdamente 700kg por pes­ provocar a redução do nl1mero de refeições quentes ou encurtar o
soa. 55 As reservas rurais de combustível vegetsl pareçem estar tempo de cozimento, o que aumenta a subnutrição.
pouco a pouco chegando ao fim em muitos países em desenvol­ Muitos habitantes urbanos depeadem de lenha, que em sua
vimento, sobretudo na África subsaariana.56 Ao mesmo tempo, O maioria é COIIlprada. Recentemente, devido ao aumento dos pre­
rápido crescimento da agricultura. o ritmo da migração para as ci­ ços dos cOIIlbustíveis vegetais, as famllias pobres viram-se obri­
dades e o número crescente de pessoas que iogressam no setor gadas a gastar proporções cada vez maiores de sua renda com le­
monetário da economia pressionam mais do que nunca a base de nha. Em Adis Abeba e Maputo, as famíJ.ias destinam a isso de um
biomassa57 e fazem aumentar a demanda de combustíveis comer­ teIÇO à metade de suas rendas. 60 Muito se tem feito nos tUtimos
ciais: desde lenha e carvão vegetal, até querosene, propano líqui­ 10 anos para fabricar fogões eficientes em tennos de combustível,
do, gás e eletricidade. Para enfrentar essa situação, os gevernos e' alguns dos novos modelos consomem 30-50% menos combustí.
de muitos países em desenvolvimento s6 têm COIIlO opção organi­ vel. As áreas urbanas deveriam ter mais acesso a esses fugôes, as­
zar imediatamente sua agricultura a fun de produzir grandes sim como a panelas de alumínio e panelas de pressão. que tam­
quantidades de lenha e de outros combustíveis vegetais. bém cOnsomem muito menos combustível.
A coleta de lenha vem sendo mais rápida do que sua capacida­ O carvão vegetal é um cOIIlbustível mais adequado e mais lim­
de de renovação em muitos países em desenvolvimento que aioda po que a lenha, e sua fi.unaça causa menos irritação aos olhos e
dependem predominantemente da biomassa - madeira, carvão ve­ distlbbios respirat6rios que a fumaça da lenha.61 Porém, os méto­
getal, esterco e resíduos agrfcolas para cozinhar, aquecer suas dos usuais de obIê-Io desperdiçam enormes quantidades de madei­
casas e até para iluminação. As estimativas da Organização para a ra. Os íadices de desOorestamento na periferia de cidades p0de­
Alimentação e a Agricultura iodicam que, em 1980, cerca de 1,3 riam ser bastante reduzidos se fossem empregadas técnicas de
bilhão de pessoas vivia em áreas deficitllrias em lenha.58 Se essa obtenção de carvão mais eficientes, como fomos de tijolo ou de
coleta excessiva - ioduzida pelo tamanho da população - prosse­ metal.

210 211
parece que a lÍDica saída a curto e a médio prazos para o proble­
"A lenha e o carvão vegetal são, e continuarão sendo, as princi­ ma é tratar a lenha como alimento, e planlllr árvores como uma
pais fontes de energia para a g1'<Ullie maioria dos que vivem nas cultura de subsistência. A melhor forma de fazer isso é empregar
zonas rurais dos Pa(ses em desenvolvimento. A derrubado. de dr­ várias técnicas agroflorestais, algllmas das quais são usadas, de
vores nas terra.< semi-árldas e l1mJda.s dos pa(ses africanos re­ fato, bá muitas gerações. (Ver o capírulo 5.)
sulta em grande parte das necessiJades de energia cada """
maiores de populações cada vez maiores, tanto rumis como ur­ Na maioria das áreas rurais, pnrém, o simples plantio de mais
banas. As conseqü1!ncias mais visfveis são a desertificação, a árvores não resolve necessariamente o problema. Em aíguns dis­
erosão do solo e a deterioração do meio ambiente de modo ge­ tritos com árvores em abundância, não há lenha disponível para
ral. os que dela necessitam. As árvores pndem pertencer a apenas
São muitas as razóes paro tais desacertos, mas uma das cau­ umas poucas pessoas. Ou a tradição talvez vede às mulheres o de­
sas fundamentais é sem dúvida O fato de se dar atenção apenas sempenho de qualquer papel na economia financeira, impedindo­
às árvpres, e não às pessoas. A silvicultura deve ampliar seus as de comprar ou vender madeira.62 As comunidades envolvidas
lwrlzontes: para além das árvores - para €L< pessoas que devem têm de criar soluções locais para esses problemas. Mas esses pro_
explorá-w..... blema. localizados indicam que os governos e as organizações de
assistência e de desenvolvimento que desejam melhorar a situação
Rutger Engelhard
Centro para Energia e Desenvolvimenzo na África dJ:J Instituto Beijer da lenha nos países em desenvolvimento terão de se empenhar
AudiêllCia póblica da CMMAD, Nairóbi., 23 de setembro de 1986 muito para compreender o papel que ela desempenha nas áreas ru­
rais e as relações sociais que detenninam sua produção e consu­
mo.

A exploração comercial da silvicultura raramente é eficaz no 7.S ENERGIA RENOVÁVEL: O POTENCIAL

tocante ao fomeciJnento de lenha às áreas rurals, mas contribui INEXPLORADO

para o atendimento das necessidades urbanas e industriais. A sil­
vicultura comercial, OU_ em maior escala, os cultivos destinados à Em .teoria, as fontes de energia renovável pnderiam fornecer de
geração de energia, pndem ser empreendimentos viáveis. Os cin­ 10 a 13TW pnr ano - o equivalente ao atoal consumo global de
ruróes verdes em torno de grandes áreas urbanas também pndem energia. 63 Hoje fornecem cerca de 2TW pnr ano, mais ou menos
fornecer combustíveis vegetais para o consumo urbano; além dis­ 21% da energia conswnida em todo o mundo, dos quais 15% são
so, zonas verdes urbanas desse tipn trazem outros benefícios ao biomassa e 6% energia hidrelétrica. Contudo, em SUa maioria, a
meio ambiente. Algumas siderúrgicas de países em desenvolvi­ biomassa apresenta-se sob a forma de lenha e resíduos agrícolas e
mento têm como base o carvão vegetal produzido da madeira animais. Como já se salientou, a lenha já não pode ser considera­
oriunda dessas plantações destinadas à geração de energia. Infe­ da um recurso Hrenováver' em muitas áreas, porque os índices de
lizmente~ a maioria ainda recorre à madeira das florestas nativas, consumo superam a produção sustentável.
sem reflorestá-Ias. Freqüentemente, sobretudo nos estágios ini­ . Embora a dependência mundial de todas estas fontes venha
ciais, são necessários incentivos ÍISCais e tributários para dar im.. aumentando em mais de 10% ao ano desde fins da década de 70,
pulso a projetos de plantio de árvores. Mais 11U'de, tais incentivos ainda levará algum tempo até que elas constituam uma pnrção
podem ser vinculados ao sucesso do empreendiJnento e eventual­ substancial da ofena energética do mundo. Os sistemas de energia
mente retirados. As áreas urbanas também oferecem boas pen­ renovável ainda se encontram num estágio de desenvolvimento
pectivas para o aumento da ofena de fontes alternativas de ener­ relativamente primitivo. Mas oferecem ao mundo fontes de ener­
gia, como eletricidade, gás propano líquido, querosene e carvão. gia primária potencialmente enonnes, sempre sustentáveis e, de
Mas estas estratégias são ineficazes para a maioria das pessoas alguma forma, à disposição de todas as nações da Terra. Porém,
do campo, especialmente as pnbres, que coletam a lenha que para que esse pntencial se torne realidade, será necessário um
usam. Para elas a madeira é um "bem livre" até que a ú1túna ár­ compromisso fume e constante a fim de promover a pesquisa e o
vore dispnnfvel seja delT\lbada. As áreas rurais exigem estratégias desenvolvimento.
compll>tarnente diferentes. Dada a necessidade básica de combus­ Quando se pensa em madeira Como fonte de energia renovável,
tível doméstico, e o número reduzido de substitutos dispnníveis, costuma-se pensar em árvores e arbustos que crescem natural­
212 213
mente e são aproveitados para o consumo doméstico local. Mas a gasolina substituída. Quando se retiram os subsídio. e se emprega
madeira está se tomando uma importante matéria-prima, plantada uma taxa cambial real, esse custo mostra-se competitivo em rela­
especíaímente para processos avançados de conversão energética ção aos preços do petróleo de 1981. ConsideirandO-se as atuais
tanto em países industrializados como em desenvolvimento - vi­ cotações mais baixas do petróleo, o programa toma-se antieca­
sando à produção de calor, eletricidade e à produção potencial de nÔllÚco; porém, ajuda o país a poupar moeda forte, além de pro­
outros combuslfveis, gasosos e líquidos. porcinnar outros beneffcios, como o desenvolvimento rural. a ge­
A energia hidrelétrica - que, entre as fontes renováveis, vem ração de empregos. o aumento da auto-suficiência e uma vulnera­
logo após a madeira - expande-se quase 4% ao ano. Embora bilidade menor às crises nos mercados mundiais de petróleo.
centenas de milhares de megawatts de energia hidrelétrica tenham O uso de energia geotérmica. gerada por fontes termais subter­
sido utilizados no mundo. o potencial remanescente é enonne.64 râneas naturais; vem aumentando em mais de 15% ao ano tanto
Em países em desenvolvimento fronteiriços, a cooperação entre nos palSes em desenvolvimento como nos industrializados. A ex­
nações no tocante ao desenvolvimento da energia hidrelétrica p0­ periência adquirida nos últimos decênios poderia servir de base
deria revolucionar o potencial da oferta. sobretudo na África. para urna grande expansão da capacidade geolérmica. 68 Por outro
O uso de energia solar é pequeno no mundo, mas já começa lado. as tecnologias de geração de calor de baixa intensidade
a ter lugar importante nos padrões de consumo de energia de al­ através de bombas de calor ou por meio de reservatórios solares e
guns países. O aquecimento doméstico e da água por meio da gradientes termais oceânicos são promissoras. 'mas ainda se en­
energia solar é comum em muitas partes da Austrália, Grécia e contram. em sua maioria. no estágio de pesquisa e desenvolvi­
Oriente Médio. Vários países do Leste europeu e em desenvolvi­ mento.
mento possuem ativos programas de energia solar; nos EUA e no Todas essas fontes de energia não deixam de apresentar riscos
Japão. as vendas de equipamentos de energia solar atingem cen­ à saúde e ao meio ambiente. Embora causem problemas - desde
tenas de milhões de dólares anuais. Com o avanço constante das os mais triviais até Os mais sérios -. as reações do ptlblico a elas
tecnologias de energia solar térmica e elétrica nesses países. é não são neceSsariamente proporcionais ao dano causado. Por
provável que sua contribuição aumente substancíaímente. O custo exemplo. algumas das dificuldades mais comuns com relação à
do equipamento fotovoltalco caiu de cerca de US$500-600 por energia solar são. um tanto surpreendentemente. os ferimentos
picowatt para US$5 e está se aproximando de US$I-2. nível em decorrentes de quedas de telhados durante a manutenção térmica
que Jg'de competir com a produção de energia elétrica convencio­ solar e o inconveniente do brilbo do sol nas superffcies de vidro.
nai. 5 Mas mesmo a US$5 por pícowatt, fornece energia elétrica Uma moderna tuIbina movida a vento. por sua vez. pode ser bas­
para lugares remotos a um custo muito mais baixo de que se fosse tante incômoda em termos sonoros para as pessoas que vivem em
preciso instalar novas linhas de ttansmissão. suas proximidades. No entanto. esses problemas aparentemente
A energia eólica vem sendo usada luI séculos - principalmente banais em geral provocam fortes reações populares.
para bombear água. Nos liltímos tempos seu uso vem apresentan­ Mas essas são questões secundárias se comparadas à destruição
do rápido crescimento em regiões corno a Califórnia e a Escandi­ do ecossistema em instalações' hidrelétricas ou à transferência de
návia. Nesses dois casos são usadas turbinas movidas a vento pa­ fanúlías das áreas a serem inundadas. e ta.mbém aoS riscos para a
ra gerar energia elétrica para as redes locais. Os custos da energia saúde decorrentes dos gases tóxicos emanados da vegetação e dos
elétrica gerada pelo vento - a princípio beneficiada com grandes solos submersos apodrecidos. ou decorrentes de doenças transmi­
incentivos fISCais - caíram drasticamente na Califórnia nos últi­ tidas pela água. como a esquistossomose. As represas também
mos cinco anos e talvez. num prazo de 10 anos, esta fonte de atuam como uma barreira à migração dos peixes e muitas vezes' ao
ene~a se tome competitiva em relação a outras fontes suprido­ deslocamento dos animais terrestres. Mas talvez o problema mais
ras. Muitos países têm programas bem-sucedidos, porém pe­ grave seja o risco de suas paredes se romperem e arrastarem ou
quenos. de energia cólica, mas o potencial inexplorado ainda é inundarem os assentamentos humanos situados a jusante - apro­
muito grande. ximadamente urna vez por ano em algum ponto do mundo. O ris­
O programa de álcool combuslfvel do Brasil produziu cerca de co é pequeno. mas nada tem de insignificante.
10 bilhões de litros de etanol a partir da cana-de-açúcar em 1984 Um dos problemas cIÔnicos mais comuns é a irritação dos
e substituiu cerca de 60% da gasolina de que o país necessita­ olhos e dos pulmões causada pela fumaça proveniente da queima
ria.67 O custo foi estimado em cerca de US$SO-60 por barril de da madeira nos países em desenvolvimento. Quando os rejeitos

214 21S
tucionais a seu uso, que, em muitos pafses. são colossais. Os ele­
vados subsídios disfarçados para combustíveis convencionais,
"Ao optarmos pelos recursos a serem utilizados. não devemos
encarar cegamente os recursos energéticos renováveis. não de~ embutidos na legislação e nos programas energéticos da maioria
vemos perder o senso das medidas, não devemos optar visando dos países. constituem um entrave às fontes renováveis no tocante
apenos ao meio ambiel'l1e de pel si. Em vez disso, deverlDmos a pesquisa e desenvolvimento, licenças para deposição, isenções
desenvolver e utilizar rodos os recursos dispon(veís, inclusive as fiscais e subsldi.:m diretos aos preços ao consumidor. Os países
fol'l1es de energia renovdveis, num e1!jbrço de longo prazo que deveriam proceder ao exame geral de todos os subsídios e outras
requer um empenho continuo e constante que não pode ficar su­ fonoas de incentivo a várias fonte. de energia e eliminar os que
jeito a flutuações econômicas de curto prazo, a fun de que n6s. não tivessem uma c1arajustíficativa.
na Indonésia. consigamos uma transição bem-sucedida e bem Embora a situação esteja mudando rapidamente em algumas ju­
organizado para uma estruturo mois diversifICado e equilibrado
de suprimento de energia e para um sistema de oferta de energio risdições, na maioria delas os serviços públicos de eletricidade
ecologicamel'l1e viável, que ti o objetivo /inal de nossas politi­ detêm um monopólio das fontes supridoras que lhes permite im­
cas.'· por políticas de preços ~ue discriminam outros fornecedores, ge­
ralmente os pequenos. 6 Em certos países, o relaxamento desse
Depoimento de wn participante controle, que levou esses serviços a aceilal;em a energia gerada
Audiência póbtica da CMMAD, Jacarta, 26 de l1IIJlÇO de 1985 por iodllstrias, sistemas menores e particulares, criou oportunida­
des para o desenvolvimento das fontes renováveis. Além disso. o
fatu de esses serviços serem levados a adotar uma abordagem de
uso final no planejamento. financiamento desenvolvimento e co­
t

agrlcolas são queimados, os resíduos de pesticidas inalados junto mereialização da energia pode dar ensejo a uma ampla gama de
com a poeira oU a fumaça da matéria agrlcola podem constituir medidas poupadoras de energia e a fontes renováveis.
um problema para a saúde. Os biocombustíveis líquidos modernos É preciso dar maior prioridade às fontes de energia renovável
também apresentam seus próprios riscos. Além de ocuparem boas nos programas energéticos nacionais. Os projetos de pesquisa,
terras agrfcolas, competindo com as cultutas alimentícias, geram desenvolvimento e demonstração deveriam dispor dos recursos fi­
grandes quantidadeS de efluentes residuais orgllnicos"que quando nanceiros necessários para garantir sua rápida execução.' Se, de
não são usados como fertilizantes podem contaminar seriamente a um potencial de aproximadamente IOTW, fossem aproveitados
água. Tais combustíveis, em especial o meImlol, podem dar ori­ pelo menos 3 a 41W, isso faria uma diferença fundamental para a
gem a outros produtoS combustíveis causadores de irritações ou oferta de energia primária futura. sobretudo nos países em desen­
tóxicos. Todos esses e muitos outros problemas. graves ou não, volvimento, onde há condiçôes para que as fontes de energia re­
aumentarão à medida que os sistemas de energia renovável se de­ nováveis sejam bem-sucedidas. Os desafios tecnol6gicos apre­
senvolverem. sentados pelas fontes energéticas renováveis são mínimos em
A maioria dos sistemas de energia renovável funciona melhor comparação com o desafio de criar estnlturas sociais e institucio­
em pequena ou média escala, sendo ideais para aplicações rurais e nais que insiram essas fontes nos sistemas supridores de energia.
suburbanas. Costumam ser também mão-de-obra intensivos, o que A Comissão acredita que devcria ser feito todo o esforço pos­
constituiria mais um benefício onde há excedente de mão-de-obra. sível para desenvolver o potencial de energia renovável, que de­
São menos suscetíveis do que os combustíveis f6sseis a flutua­ verá constituir a base da estrutura energética do mundo no século
ções violentas de preços e a custos em divisas. A maioria dos paí­ XXI. E se se quiser que esse potencial seja plenamente aproveita­
ses possui alguns recursos renováveis e seu uso pode ajudá-los na do, é preciso um esforço conjunto muito maior. Porém. um grande
busca da auto-suficiência. programa de desenvolvimentu de energia renovável envolve cus­
A necessidade de uma rmne transição para uma combinação de tos elevados e alto risco, principalmente indústrias de biomassa e
fontes energéticas mais ampla e mais sustentável já começa a ser energia solar de grande porte. Os países em desenvolvimento só
aceita. As fontes de energia renováveis poderiam contribuir bas­ dispõem de recursos para financiar uma pequena parcela desses
tante para isso, sobretudo mediante tecnologias novas e mais custos, embora venham a ser grandes consumidores e talvez até
avançadas. mas seu desenvolvimento dependerá, a curto prazo, da exportadores. Será necessária, portanto. assistência financeira e
redução ou da eliminação de certas restrições econômicas e insti­ técnica em larga escala.

216 217
7.6 RENDIMENTO ENERGÉTICO: MANTENDO
o ÍMPETO •Temos de m:u<Ú1T rIOSsa atitude em relação aos bens de COILftmlO
rIOS pa{ses desenvolvidos e temos defazer progressos tecnológi­
Com base na análise exposta, a Comissão acredita que o rendi­ COS que nos permitam levar avante o desenvolvimento econIJmico
mento energético deveria constituir o ponto central das polfticas consumindo menos energia. Temos de nos questionar se podemos
energéticas nacionais que visam ao desenvolvimento sustentável. solMcionar os problemas do sUbdesenvolvimento sem consumir a
Desde o primeiro choque dos preços do petróleo, nos anos 70, já enorme quantidade de energia consumido. par esses pafses.
houve ganhos impressionantes de rendimento energético. Nos dl­ A idt!ia de que OS países em desenvolvimemo consomem muito
timos 13 anos, muitos países industrializados apresentaram. em pouca energia t! incorreta. Achamos que os pafses niais pabres
seu crescimento, uma quede significativa no item energia devido tbn um problema diferente: seu problema t! O uso ineficiente de
a awnentos de rendimento energético de em média 1,7% ao ano energia. Os pafses médios, como o Brasil, usam fontes de com­
bustfvel mais modeT7UlS e de maior rendimento. A grande espe­
entre 1973 e 1983.70 E esta solução - o rendimento energético­ rança para esses pa{ses t! que o fUturo não seja construido tendo
custa menos. por poupar os suprimentos adicionais de energia por base as tecnologias do passado. mas tecnologias adiantados.
Wntárla necessários para pór em funcionamento o equipamento Isso lhes permitird. um grande avanço em relação aos pa{ses já
tradicional. desenvolvidos.
A eficiência em função dos custos do "rendimento" como a
"fonte" de energia mais benéfica em tennos ambientais é mais do José Goldemberg
que sabida. O consumo de energia por unidade de produção a Preside_ da Companhia Energética de São Paulo
partir dos processos e tecnologias de maior rendimento situa_ Audiência pública da CMMAD, Brasllia, 30 de outubro de 1985
entre um terço e menos da metade do dos equipamentos tradicio­
nais disponíveis. 71 .
Isto se aplica a equipamentos para cozinhar, iluminar, refrige­
rar, aquecer e refrescar ambientes - necessidades que se tornam nu!oxo da pobreza. Para o pobre, a escassez de dinheiro constitui
cada vez mais prementes na maioria dos países e pressionam bas­ uma limitação maior do que a eSCassez de energia. Eles são for­
tante os sistemas de suprimento existentes. Também se aplica aos çados a usar combustíveis "livres" e equipamentos ineficientes
sistemas de cuitivo e irrigação agrícolas, a automóveis e a muitos porque não possuem dinheiro nem economias para comprar com­
processos e equipamentos industriais. bustíveis com rendimento energético e dispositivos de uso final.
Dada a grande disparidade de consumo de energia per capita Portanto, em termos coletivos, pagam muito mais por unidade de
entre países em desenvolvimento e desenvolvidos em geral, é evi­ serviço de energia suprida.
dente que a necessidade de poupar energia é potencialmente Na maioria dos casos, os investimentos em tecnologias mais
muito maior nos países industrializados do que nos em desenvol­ aperfeiçoadas de uso final são econômicos, a longo prazo, porque
vimento. Contudo, o rendimento energético é importante seja On­ diminuem a necessidade de suprimento de energia. O custo de
de for. Uma fábrica de cimento, um automóvel ou uma bomba de aperfeiçoar os equipamentos de uso Ímal é com freqüência muito
irrigação de um país pobre em nada diferem de seus equivalentes menor que o custo de aumentar a capacidade de suprimento de
do mundo rico. Em ambos, há aproximadamente as mesmas pos­ energia printária. No Brasil, por exemplo, ficou demonstrado que,
sibilidades de reduzir o consumo de energia ou a demanda máxi· com um investimento total atualizado de US$4 bilhões em tecno­
ma de energia desses dispositivos, sem perda de produção ou de logias de uso f'mal de maior rendimento (como geladeiras, ilumi­
bem-estar. Mas os países pobres ganharão muito mais com essa nação de rua ou motores de maior rendimento), seria possível
redução. adiar a instalação de outros 21GW de capacidade de suprirnynto
A mulber que cozinha numa panela de barro ao ar livre COn­ de energia elétrica, o que corresponde a uma poupança atualizada
some talvez oito vezes mais energia do que uma vizinha mais rica de capital para novas fontes supridoras de USSI9 bilhões no pe­
que cozinha num fogão a gás e em panelas de alumínio. O pobre ríodo 1986-2000.72
que ilumina sua casa com lamparinas a querosene obtém um quin­ Nos países industrializados há muitos exemplos de programas
ze avos da luz gerada por uma lâmpada elétrica de lOOW, mas bem-sucedidos que visam ao rendimento energ<!tico. Entre os ",­
consome a mesma energia. Estes exemplos ilustram o trágico pa­ rios métodos empregados com sucesso para tomar as pessoas mais
218 219
conscientes quanto a isso estão: campanhas de esclarecimento entre nações. Os países e as organizações regionais envolvidas
através de meios de comunicação de massa, publicações técnicas deveriam estipular, e ampliar sempre mais, padrões rigorosos de
e escolas; demonstrações de práticas e tecnologias bem-sucedidas; rendimento energético para equipamentos e a rotulagem obrigató­
vistorias gratuitas de conSumo de .energia; especificação do con­ ria dos aparelhos com especificações do consumo de energia.
sumo energético dos aparelhos; fonnação profissional em técnicas Muitas medidas que visam ao rendimento energético nada
poupadoras de energia. Tudo isso deveria ser ampla e rapida­ custam para serem implementadas. Mas no caso de serem necessá­
mente difundido. Os países industrializados são responsáveis por rios investimentos, estes freqüentemente constituem um empeci­
uma parcela tão grande do consumo global de energia que mesmo lho para famaias pobres e pequenos consunúdores, mesmo quan­
pequenos ganhos de rendimento podem ter impacto substancial do oS prazos de reembolso são curtos. Nestes casos, são conve­
sobre a conservação das reservas e a redução da poluição na bios­ nientes pequenos empréstimos especiais ou vendas a prazo.
fera. É de especial importância que os consumidores, sobretudo Quando os custos do investimento não são exorbitantes, há mui­
os grandes empreendimentos comerciais e industriais, passem por tos mecanismos possíveis para reduzir ou prolongar o investi­
vistorias profissionais de seu consumo de energia. Este tipo de mento inicial, como empréstimos com condições favoráveis de
"contabilidade" energética levará a uma rápida identificação das pagamento ou medidas uinvisíveis u , como empréstimos quitados
áreas da estrutura de consumo onde podem ser feitas grandes mediante a elevação das novas contas reduzidas de energia para
economia.~ de energia.
os níveis anteriores à conservação.
As políticas de fixação de preços para a energia desempenham O transporte ocupa lugar de destaque no planejamento energé­
papel essencial no tocante a estimular o rendimento energético. tico e de desenvolvimento de um país. É Um grande consumidor
Atualmente, às vezes adotam subsldios e quase nunca refletem os de petróleo, cabendo-lhe de 50 a 60% de todo o p::tr6leo consu­
custos reais de produzir ou importar energia, sobretudo quando as mido na maioria dos países em desenvolvimento. 74 É também,
taxas cambiais estão abaixo do valor real. Na verdade, raríssimas COm freqüência, uma grande fonte de poluição localizada do ar e
vezes essas políticas refletem os custos externos dos danos causa­ de acidificação regional do meio ambiente nos países industriali­
dos à saúde, à propriedade e ao meio ambiente. Os países deve­ zados e em desenvolvimento. Os mercados de veículos crescem
riam avaliar todos os subsídios, evidentes e disfarçados, para ve­ com muito mais rapidez nos países em desenvolvimento, contri­
rificar até que ponto os custos reais podem ser repassados ao con­ buindo bastante para a poluição do ar urbano, que em muitas ci­
sumidor. A fixação de preços reais para a energia - com salva­ dades já supera o recomeodado pelas normas internacionais. A
guardas para os muito pobres - precisa ser ampliada em todos os menos que se adotem medidas rigorosas, a poluição do ar pode se
países. E muitos deles, tanto industrializados como em desenvol­ tomar um dos fatores que mais contribuirão para limitar o desen­
vimento, já estão adotando polfticas desse tipo. volvimento industrial de muitas cidades do Terceiro Mundo.
Os países em desenvolvimento enfrentam dificuldades especifi­ Não se podendo contar com preços mais altos para os combus­
cas para poupar energia. Problemas cambiais podem dificultar a tíveis, talvez sejam necessários padrões obrigat6rios que propi­
coinpra de aparelhos de uso final e de convel'llão de energia de ciem Um aumento constante na economia de combustível. De uma
maior rendimento, mas caros. Muitas vezes é possível poupar forma ou de outra, há um enorme potencial para grandes ganhos
energia de modo eficaz em !Unjão dos custos aperfeiçoando os futuros no tocante à economia de combustível. Se o ímpeto puder
sistemas já em funcionament0 7 Mas os governos e as agéncia.< ser mantido, o atual consumo médio de combustível de aproxima­
assistenciais talvez julguem menos interessante custear essas me­ damente /O litros por 100 quilômetros da frota de veículos em
didas do que investir em no'i'OS equipamentos de geração de ener­ operação nos países industrializados poderia ser cortado pela
gia em larga escala, considerados um símbolo mais tangível de metade na virada do século.15
progresso. Uma questão-chave é como os países em desenvolvimento po_
Um dos instrumentos mais eficazes par-d promover o rendi­ dem aumentar rapidamente a economia de combustível em seus
mento energético e produzir economias previsíveis é a fabricação, veículos, quando estes têm em média o dobro da vida útil dos
a importação ou a venda de equipamentos compatíveis com um veículos dos países industrializados, o que faz cair pela metade os
consumo mínimo obrigat6rio de energia ou com padrões de ren­ Indices de renovação e aperfeiçoamento. Dever-se-ia proceder a
dimento energético. Talvez seja necessário recorrer à cooperação uma revisão dos acordos de licenciamento e importação para ga_
internacional quando se comercializa esse tipo de equipamento rantir o acesso aos melhores projetos e processos de produçlo

220 221
disponíveis em tennos de econoDÚa de combustível. Outra estra­ pode revolucionar o rendimento energético dos prédios de todo o
tégia importante para potrpar combustível, sobretudo nas cidades mundo.
cada vez maiores dos países em desenvolvimento, é organizar
sistemas de transporte pllblico cuidadosamente planejados.
A indústria é responsável por 40-60% do consumo total de 7.7 MEDIDAS PARA A CONSERVAÇÃO DE ENERGIA
energia dos países industrializados, e por l~ do consumo
dos países em desenvolvimento-. (Ver capítulo 8.) No tocante 11
• É do consenso geral que os ganhos de rendimento obtidos por al­
produção, já houve uma sensível melboria no rendimento energé­ guns países industrializados nos tlltimos J 3 anos advieram em
tico de equipamentos, processos e produtos. Nos países em de­ grande parte da elevação dos preços da energia, desencadeada
senvolvimento, poder-se-ia chegar a poupar até 20-30% de ener­ pela elevação dos preços do petróleo. Antes da recente queda dos
gia com uma boa adnúnistração do desenvolvimento industrial. preços do petróleo, o rendimento energético vinba crescendo a
Em todo o mundo, a agricultura consome pouca energia, sendo uma taxa de 2% ao ano em alguns países, tendo aumentado gra­
responsável por cerca de 3,5% do consumo de energia comercial dativamente a cada 300.19
no. países industrializados e por 4,5% nos países em desenvolvi­ Se os preços da energia forem mantidos abaixo do nível neces­
mento como um todo.76 Se fosse adotada uma estratégia para du­ sário para estimular o planejamento e a implantação de residênc
plicar a produção de alimentos no Terceiro Mundo, com O empre­ eias, processos industriais e veículos de transporte de maior ren­
go de mais fertilizantes, irrigação e mecanização, seriam adi­ dimento energético, é duvidoso que essa melhoria constante possa
cionados 140 milhões de toneladas de equivalentes de petróleo ao ser mantida e ampliada. O nível necessário variará bastante de
seu consumo de energia para fins agrícolas. Isto representa ape­ país para país e dentro de cada país, dependendo de inll:meros fa­
nas cerca de 5% do atual consumo mundial de energia e quase tores. Mas, seja qual for, deve ser mantido. Em mercados de
com certeza uma pequena parcela da energia que poderia ser pou­ energia inconstantes, a questão é saber como.
pada em outros setores do mundo em desenvolvimento caso fos­ As nações intervêm de várias maneiras no "preço de mercado"
sem tomadas medidas adequadas no tocante ao rendimento. 77 da energia. Impostos internos (ou subsídios) sobre tarifas de
energia elétrica, petróleo, gás e outros combustíveis são muito
As edificações oferecem um enoIlIl" campo para a economia de COmuns. Esses impostos variam bastante de país para país e até
energia, e talvez os modos mais conbecidos de aumentar o rendi­ mesmo dentro de cada país, onde estados, províncias e às vezes
mento energético se encontrom nos prédios residenciais e nos lo­ até municípios têm o direito de adicionar seus próprios impostos.
cais de trabafbo. Atualmente, as construções nos trópicos já estão Embora seja rara a cobrança de tarifas de energia para encorajar o
sendo projetadas de modo a evitar tanto quanto o possível o calor planejamento e a adoção de medidas que visam ao rendimento,
decorrente da mdiação solar direta - as paredes voltadas para o elas podem levar a esse resultado se fizerem os preços da energia
leste e o oeste são muito estroitas, mas as fachadas norte e sul são se elevarem acima de um certo níVel wn nível que varia muito
extensas e ficam protegidas da luz solar que vem de cima por ja­ de uma jurisdição para outra.
nelas recuadas ou amplos parapeitos. Algumas nações também mantêm os preços da energia acima
Um bom método para aquecer prédios é empeegar a água das cotações de mercado, impondo gravames à energia elétrica,
quente produzida durante a geração de energia e levada a baitros aos combustíveis e aos derivados importados. Outras negociaram
inteiros através de encanamentos, que proporcionam ao mesmo acordos bilaterais de preços com produtores de petróleo e de gás
tempo aquecimento e água quente. Esse uso extromamente efi­ para manter os preços estáveis por deternrlnado período de tempo.
ciente dos combustíveis fósseis exige a coordenação do supri­ Na maioria dos países, o preço do petróleo acaba detenninando
mento de energia com o planejamento físico local, o que poucos o preço dos combustíveis alternativos. Grandes flutuações nos
países têm condições institucionais de fazer. 78 Nos lugares onde preços de petr6leo, como ois verificadas recentemente, põem em
tal coordenação foi bem-sucedida, houve em gezal a intervenção risco os programa.0 de estímulo 11 conservação. Em todo o mundo,
das autoridades locais ou o controle das institoíçõe. regionais que muitas iniciativas positivas no campo da energia, que faziam sen­
prestam serviços de energia, como na Escandinávia e na URSS. tido quando o petróleo estava cotado acima de US$25 o barril, di­
Dado o desenvolvimento destes e de outros acordos institucionais ficilmente se justificam com preços mais baixos. Os investimentos
semelhantes, a geração simultãoea de energia térnúca e elétrica em fontes renováveis, processos industriais, ve'=:u1os de trans­

222 223
porte e serviços de energia de maior rendimento podem ser redu­
pafses em desenvolvimento concretizem seu potencial de cresci­
zidos. A maioria é necessária para facilitar a transição para um
mento em todo o mundo.
futoro mais seguro c mais sustentável, em termos CI1ergétícos, no
A energia não é um produto único, mas uma combinação de
próximo século. Mas para que esse objetivo seja aicançado é pre­
produtos e serviços da qnal dependem o bem-estar dos indiví­
ciso um esforço duradouro e irúnterrupto.
duos, o desenvolvimento sustentável das nações e as possibilida­
Dada a importáncia dos preços do petróleo para as polfticas ener­

géticas internacionais, a Comissão reco_nda que sejam explam­

..
des de manutenção da vida do ecossistema global. No passado,
permitiu-se que essa combinação fosse usada ao acaso, em pro­
dos novos mecanismos para encorajar o diálogo entre consumido­
porções ditadas por pressões de curto prazo e pelos objetivos
res e produtores.
imediatistas rle governos, institulções e empresas. A energia é im­
Para que o recente únpeto que levou a ganhos anuais em ren­ portante demais para que oontinue a ser tratada desta fonna alea­
dimento energético se mantenba e amplie, os governos precisam • tória. Uma diretriz energética segura, sensata do ponto de vista
tomá-lo um objetivo explícito de suas políticas de preços de ambiental e economicamente viável que garanta o progresso hu­
energia para o consumidor. O. preços adequados para estimular a mano até um futuro diStanle é evidentemente indispensável. E
adoção de medidas poupadoras de energia podem ser estabeleci­ também possfvel. Mas para que isso seja conseguido serão neces­
dos por quaísquer dos meios citados ou por outros. Embora a sárias novas dimensões de empenho político e cooperação institu­
Comissão não expresse preferências, a "determinação do preço de cional.
conservação" exige que os governos adotem uma perspectiva de
longo prazo para pesar os custos e os beneficios das várias medi­
das. Elas devem vigorar por períodos mais Itmgos, desestimulan­
do flutuações violentas nos preços da energia primãria, o que p0­ Notas
de prejudicar os avanços no campo da conservação da energia.
I Banco Mundial. Relatório .sobre o desenvolvime1llO mundial 1986. Rio de
laneiro, Fundação Getulio Vargas, 1986.
2 British Petroleum Company. BP stnti.stical revíew of world energy. Lon­
7.8 CONCLUSÃO don,1986.
3 Variante média em: Deparlmenl of International Economlc anel Social
Affai1l!. World populalihn prospedlf a.s assessed in 1980. (Population Stu­
É evidente que a melhor maneira de se chegar a um futuro sus­ die. n. 78, annex); Long range populatWII projeclions of t/oe world anti
tentável é o consumo de menos energia. Mas, dada a utilização major regions 2025-2150, five var/aJus a.s asses/fed in 1980. New YorIc,
produtiva e voltada para o rendimento da energia primária, isso Uniled Nations, 1981.
não precisa necessariamente sigoificar uma escassez de serviços 4 Para uma boa comparação de vários ceNlrios, ver: OoIdemberg, I. et olü.
energéticos essenciais. Nos pÍ-óximos 50 anos, as nações terão a Ao ead-use orienled gIobaI energy strategy. Annua{ Review of Energy, 10.
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oportunidade de gerar os mesmos nfveis de energia utilizando
apenas a metade das fORtes de energia primária de hoje. Isso re­
a et aliJ, 00. T/oe greenhouse effeçt clinrM! chtmge anti ecoJYStrmIS. Chi­
eMster, UK,1oltn Wiley, 1986.
quer profundas mudanças estruturaís nos contextos s6ciCHOCOnÔ­ 5 Colombo, U. 8. Bernardini, O. A low energy growth """nario anel the
micos e institocionais e é um sério desafio 11 sociedade global. perspective. for WeSlem Europe. Relatório apresentado ao Painel sobre
E, o que é mais importante, isso criará condições para que se Bmo Crescimento Energético, da Comissão da Comurúdade Européia,
ganhe o tempo necessário para o estabelecimento de grandes pro­ 1979.
gramas sobre formas sustentáveis de energia renovável, e se dê 6 Goldemberg, I. el a1ü. An ead-use... clt.
início 11 transição para uma era energética mais segura e sustentá­ 7 Lovins, A.B. el a1ü. Ener!lY strategy for low c1imatic risIc. Relatório
vel. O desenvolvimento das fontes renováveis dependerá em parte apresentado à Agencia Alemã para o Meio Ambiente 198L
de um tratamento racional dos preços da energia a fim de assegu­ 8 Edmonds, I.A. et a1ü. Ao analysis of possible future atmospheric reten­
rar uma base estável para esse progresso. Tanto a prática rotineira tion of fossü fuel CO z.. Relalório para o US Departrnenl of Energy,
DOElORl21400-I. Washington, D.C., 1984.
de um uso eficiente de energia quanto o desenvolvimento de fon­ 9 FriseI!, IR., 00. Energy 2()()()·2020; world prospects and regiooal stre&­
tes energéticas renováveis contribuirão para aliviar a pressão s0­ ses. World Energy Conference. London, Graham & Trotman, 1983.
bre os combustíveis tradicionais, muito necessários para que os 10 Energy Systems Group of lhe Intemational Institule for AppliOO Sys­

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23 Torrens, I.M. op. cit. Paris, OECD _ 1986.

24 Bo1in, B. et alii, op. clt. 48 Nuclear Regulatory Commissiou. Physical processes in roaetar meIt­
25 WMO. Repor< ofllIler1Iational Conferenoe .. cit. down accldelllS. appentllx VIII ta reactor safety study (WASH-I400). Wa­

26 Ibld. shington, D.C., US Governmenl Printi08 Off"",_ 1975.

27 lbid. 49 IsIam. S. & Lindgren, K. How many reactor accidenlS wi1l tbere be?

28 Goldemberg, J, et alii. An end-use_. clt. Nature, (322):691-2, 1986: Edwards, A.W,F. How many reactoracciden­
29 Mintzer, I. op. clt. 181 Na/JJ.re, (324):417-8, 1986.

30 WMO. Repor< oi Internal/onal Conference ... dI.
226 227
50 Parlmr, F.L. et aIií. The disposol cfhigh l4wIl radk>active _sre - 1984, 70 OECO, op. cil.

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54 F1avin, C. Reassessing nuclear power. In: Brown, L.R. CI aIií. op. clt.; trialized and developing countries. London, Butterworth, 1986.

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56 FAO. FUI!~ suppli..... cit.; FAO/Unep. TropIcal/oreSl resources. 771bid.

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57 The Beijer Institute. EMrgy, .nvirt>nnwml anti deve/opmelll in Afric(l. 79 QECO. op. cito

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tions. Proceedings. Ljudljana, Yugoslavia, 1986.
58 FAO. Fuelwood supp/ies... cit.
59 The Beijer Institute. op. ci!.; Bandyopadhyay, 1. Rchabllitation of
upland watersheds. 1986. (EIaborndo para a CMMAO.)
60 The Beijer Instilute. op. cil.
61 Overend, R. Bioenergy """vemon process: a briof Slate of 111. ar! and
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62 Fernandes, W. & KuIkami, S.,ed. Towardsa _fareslpollcy;people's
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'""arch Organizatíon. Proceedings. Ljubljana, Yugoslavia, 1986.
63 Deudney, O. & Plavio, C. Re1ll!Wable energy: lhe power to choose.
London, W.W. Norton, 1983.
64 World Resources InstitutelIntemational Instilu!e for Environmentand
DevelopmenL Wor/d resources 1987. New York, Basic Books (no prelo).
65 Ibid.
66lbid.
67 QoIdemberg, I. el aIii. An end-lJlle ... cit.; Goldemberg, 1. el alii. Etha·
nol fuel: a use of biomass energy in Brazil. Amhio, 14:293-S, 1985; Gol·
demberg, I. el alü. Basle needs and mucb more, wilh ODe kilcwatl per ca·
pita. Ambio, 14:190-201. 1985.
68 WRI/IIEO. op. cil.
(9 Lucas, N.I D. The influence of existins inslítunons on lhe European
lransition from 00. The European, p. 173-89, 1981.

228 229
Tabela 8.1

8. INDÚSTRIA: COM MENOS, PRODUZIR MAIS Participação do valor adicionádo manufatureiro no PIB, por

grupo de economias e grupo de renda

(%)

Grupo de pafses 1960 1970 1980 1982

A inddstria é fundamental nas economias das sociedade. moder­ Países em desenvolvimento 14,2 16,6 19,0 19,0
nas e fator indispensável ao crescimento. J3 essencial nos países De baixa renda ll,2 13,8 15,0 15,0
em desenvolvimento. a fim de ampliar a base de seu desenvolvi­ De renda média baixa 11,0 13,5 16,4 16,6
mento e alender às suas crescentes necessidades. B embora se di­ De renda intennediária 10,6 14,4 17,1 17,6
ga que os países i.ndustrializados já es!lio entrando numa era De renda média alta 19,4 21,6 24,1 23,3
De alta renda 17,2 16,2 17,2 17,9
pós-industrial, baseada na informação, essa transíção precisa •
contar com um fluxo continuo de riqueza proveniente da indds­ Economiaa de metCaIIo 25,6 28,3 27,9 27,1
tri·a. 1 desenvolvidas
Muitas das necessidades humanllJl essenciais só podem ser Economiaa de planejamento 32,0 42,4 50,5 50,8
atendidas por meio de bens e serviços que a inddstria fornece. A centralizado I
produção de alimentos requer quantidades cada vez maiores de
agroqufmicos e maquinaria. Além disso, os produtos industriali­ Fónse: Unido. Wórld indu,Jtry; astatistical review 1985. Vienna, 1986.
zados constituem a base material dos padrões de vida contempo­
râneos. Por isso todas as nações precisam de bases industriais efi­ lOs nÓlDeros se referem à participação do valor adicionado manuf.tareiro
cientes para atender às novas necessidades, e conseguir tais bases (..timado) no novo produto materiaL Os dados sIío em preços constantes
é uma de suas justas aspirações. (de 1975).
A indl1stria extrai matérias-primas da base de recursos naturais
e introduz no meio ambiente humano não .ó produtos como taJn..
b6m poluição.. Bla pode melhorar o meio ambiente ou deteriorá­ a participação relativa do valor adicionado ao produto interno
lo, e sempre faz uma coisa e outra. (Ver o capítulo 2, onde se dis­ bruto (PIB) pela atividade manufatareira (o valor adicionado ma­
cute o conc:eitn de desenvolvi:mentn sustentável no cOntexto da nufatureiro - V AM) variou entre 19% nos paJses em desenvolvi­
inddstria e do uso de recursos.) mento em gemi, 2T% nas economias industriais de mercado e
51 % do produto material liquido naS economíns de planejamento
centralizado. (Ver a tabela 8.1.) Se forem aí incluidas as indl1s­
8.10 CRESCIMENTO INDUSTRIAL E SEU IMPACTO trillJl extrativas, a participação é ainda maior.

13m 1950, os produtos manufaturados em todo o mundo represen­ 8.1.1 A estrutura mutável da iDdústria mundial
tavam um sétimo do que representam hoje, e a produção de mine­
rais era apenas um terço da atual. O períodl:l de maior crescimento Nos llltirnns anos, a tendência dos anos 50 e 60 se inverteu: a im­
da produção industrial se deu entre 1950 e 1973, quando se re­ portlincia da atividade manufatureira diminuiu em relação a outros
gistrou um crescimento anual de 7% na atividade manufaturem e setores da econotuia. 13m muitos países, tal declÚlio se vem acen­
um crescimento anual de 5% nas atividades de mineração. A par­ tuando desde 1973. Ele é mais evidente no caso das economias
tir dai IIJI taxas de crescimento diminuíram, ficando em ceroa de industriais de mercado, mas a participação do VAM no PID tam­
3% ao ano entre 1973 e 1985 na atividade manufaturem e prati­ bém diminuiu em quase metade dos 95 países em desenvolvi­
camente em zero na mineração.2 mento estudados pela Ot'ganizaçio das Nações Unidas para o De­
Aquele rápido crescimento inicial da produção refletiu-se na senvolvimento Industrial (Onudi).3 O falo pode refletir a intera­
i.mportlincia cada vez maior que a atividade manufatareira passou ção cada vez maior da indústria e de todos os campos da ciência e
a ter nas economíns de quase todos os países. Por volta de 1982, da tecnologia ea crescente integração da indllstrln e dos serviços,

230 231
bem como a capacidade da indústria de produzir mais a partir de Tabela 8.2

menos. Composição do comércio de mercadorias dos países

A importância relativa da indústria como geradora de empre­ em desenvolvimento

gos vem declinando há algum tempo nos países desenvolvidos.
Mas a lransferência dos empregos para o setor de serviços se
acelerou muito nos últimos 15 anos, com a adoção de novos pro­ Exportaç!les . Impor!açÕes
cessos e tecnologias. Os economistas ainda não sabem ao certo se
o advento de uma economia baseada na infonnação acarrerará Item 1960 1970 1980 1982 1960 1970 1980 1982
uma diminuição dos empregos na indústria, ou um aumento das
oporlunidades de emprego em geral. 4 (Em US$ bilhões)
A maioria dos países em desenvolvimento, ao se tornar inde­ Produtos primários 25 452 369 11 17 166 166

"5
pendente, praticamente não possuía uma indústria moderna. Por Excluindo o petróleo 17 27 107 93 .8 12 79 73

isso, nos anos 60 e 70, a produção, o emprego e o comércio liga­ Petróleo 8 18 345 277 3 5 87 92

dos à indústria cresceram mais nesses países do que nas econo­ Bens manufaturados . 3 9 101 112 17 39 288 296

mias de mercado desenvolvidas. Por volta de 1984, os países em Total 27 55 553 481 28 56 454 462

desenvolvimento eram responsáveis por 11,6% do VAM mundial Total sem o petróleo 20 36 208 204 25 51 367 370

(percenlUaI ainda bem inferior à "meta de Lima", de 25%, esti­
pulada pela Unido em 1975). As economias de planejamento (%)
cen!ralizado do Leste europeu aumentaram sua Partic~o no
VAM mundial de 15,2% em 1963 para 24,9% em 1984. Podulos primários
(melusive o petróleo) 90,4 82,6 81,8 76,8 38,8 30,1 36,6 35,9
O comércio internacional de produtos manufalUrados, que Excluindo o petróleo 62,3 49,2 19,4 19,2 28,4 21,7 17,5 15,9
cresceu mais depressa que a produção manufarureira mundial, é Petróleo 28,1 33,4 62,4 57,5 10,4 8,4 19,1 20,0
um dos flllores responsáveis pela alteração geográfica da indus­ Bens manufatursdos 9,6 17,4 18,1 23,2 61,2 69,9 63,4 64,1
trialização. Muilas naç!les em desenvolvimento, sobrelUdo os paí­
ses recém-industrializados (PRI), tiveram participação nesse cres­ Participação nas expor- Participação nas impor­
cimento e fizeram progressos espe!aculares no !ocante à indus­ !açócs (exceto petróleo) !açócs (exceto petr6leo)
trialização. Considerando o Terceiro Mundo em geral, as exporta­
ç!les de produtos manufalUrados apresentaram um crescimento Podutos primários
(excluindo o petróleo) 86,7 73,9 51,6 45,3 32,7 23,7 21,6 19,8
fume em relação ~ exportações de produtos primários, passando
Bens manufaturados 13,3 26,1 48,4 54,7 68,3 76,3 78,4 80,2
de 13,3% do total de suas expor!aç!les excluindo o petróleo em
1960, para 54,7% em 1982. (Ver tabela 8.2.) FOIlle: Unido.lnd...try in a clralJgi"g world. New York, 1983. Para 1982,
De modo geral, a produção industrial dos países em desenvol­ cstimstivas da CMMAD baseadas em: Uniled Nations. 1983 ll1lenrational
vimento eslá se diversificando e passando a áreas mais capilal­ Trade Statistics Yoarl>ook. New York, 1985. v. 1.
intensivas, como as de produtos de melai, químicos, lnaquinaria e
equipamentos. E as indústrias pesadas, lradicionalmente as que
mais poluem, têm crescido em relação ~ indústrias leves. Ao produtos, consumo de energia, formação de resíduos, uso e elimi­
mesmo tempo, tem havido um declfnio subslancial na participação nação dos produtos pelos consumidores. Tais impactos podem ser
das lnddstrias ligadas a produtos alimen!fcios, e em menor grau positivos, melhorando B qualidade de um recurso ou ampliando
nas de têxteis e veslUário. seus usos; ou podem ser negativos, devido à poluiçAo causada
peló processo e pelo produto, ou ainda ao esgotamento ou dete­
~ 8.1.2 A reação à deterioração do melo ambiente rioração dos recursos.
Os primeiros indícios de impactos negativos da atividade in­
A indústria e seus produtos exercem um impacto sobre a base de dustrial sobre o meio ambiente foram problemas loca1izados de
recursos nalUrais da civilização ao longo de lodo o ciclo de ex­ poluição do ar, da água e da teITB. A expansão industrial que se
ploração e extração de malérias-primas, sua transformação em seguiu à fi Guerra Mundial não levou muito em conta o meio am­
232
233
alguns países os adotaram. Os gastos aumentaram, a princípio
gradualmente, chegando, em ÍItIS dos anos 70. a I % e alé a 2%
"Sou uma das vftinias do poluição do ar. EntjIJItIIIU) a economia
do PNB em alguns países indusuializados.
japonesa crescia muito rapidamente, minha asma piorava. Tenho
A inddslrià taJ:nbém reagiu a esses problemas criando novas
39 anos. Fiquei hospitafirodo dos 18 tWS 23 por ruusa do gravi­
tecnologias e nOVOS processos industriais com vistas a reduzir a
doJe de minha a.mJa. Nilo ti:ve nenhuma alegria de vivrr, ne­
poluição e outros impactos adversos sobre o meio ambiente. Em
mas _ pcdia trabaJItar _ante
nhuma joie de vivre naqueles cinco anos. Arranjei um emprego,
o mesmo perl'odo de tempo que
as pessoas C(JmIDI$. Nos últimos 10 anos, mal consigo tmbalhar.
algumas inddsuias altamente poluentes, os gastos com medidas
para controlar a poluição se elevaram rapidamente; e as empresas
E quando a lei foi sancionmJa. a lei sobre a reduçilo do poluí­ começaram a estabelecer suas próprias políticas ambientais e suas
çIIo, recebi uma compensaçilo. Minha única renda. provhn do próprias unidades de controle. Divulgaram-se direuizes e códigos
ini1enízaçilo proporr:ionndo: por essa lei. E se eu vier a ter outra de conduta relativos à segurança dos prndutos e ao funciona­
doença aJbn do a.mJa. realmente _ saberei o que jazer." mento das fábricas, às práticas comerciais. à transferência de tec­
nologia e à cooperação internacionaL7 Associações nacionais e
Yoshi Suzuki internacionais de indlistrias taJ:nbém estabeleceram direuizes e
AMociaçOO dflS VIlimas da poluiçtlo e S_ Faml1ias códigos práticos voluntários. 8
Audi&cia pllblica da CMMAD, Tóquio, 27 de fev.".,;,o de 1987. Houve diferentes resultados, mas ao longo da década alguns
países induslrializados sentiram significativas melhoras na quali­
dade de seu meio ambiente, Em muitas cidades, diminuiu conside­
ravelmente a poluição do ar, e diminuiu também a polnição das
águas de muitos lagos e rios. Alguns prndutos químicos foram
biente e acarretou um rápido aumento da poluição, simboLizado controlados.
pelo smog de Los Angeles; pela "morte" do lago Erie; pela pc>­ Mas eSses avanços só ocorreram em alguns países indusuiali­
luiçilo progressiva de grandes rios como o Mosa, o' Elba e o R.... Z!!dos. No mundo, de modo geral, aumentaram os despejos de
no; e pelo envenenamento qufmico por meredrio em Min_. fertilizantes e dejetos em rios, lagos e 4guas costeiras, causando
Tais problemas tamb<!m se verificanun em muitas patles do Tet-­ impactos sobre a pesca. o abastecimento de água potável, a nave­
celro Mundo, à medida que se' disseminavam o crescimento in­ gaçilo e as belezas naturais. Ao longo dos anos, a quantidade da
dustrial, a ud>aniT!!ç'o e o uso do automóvel.6 'gua da maioria dos principais rios não melhorou muito, tendo
Logo aumentanIm as preocupaç6es do pliblico, e promoveu-ae mesmo piorado em muitos deles, bem como em vários rios meno­
um amplo debate sobre a conservaçilo do meio ambiente e o cres­ res. Os países indusuialízados ainda apresentam formas "tradi­
cimento econ&nico. Nesse debate, um tema inlportante fOi a pos­ cionais" de poluição do ar e da águn. Os níveis de óxido de enxo­
sibilidade de o processo de crescimento induslrial vir a causar es­ fre e de nitrogênio, de partículas em suspensilo e de hidrocarbo­
cassez de I1!ICU1'SOs maIcriais. Embora os recursos nilo-renováveis netos ainda pennanecem elevados e em certos casos aumentaram.
seja, por definiçilo, exauríveis, avaliações recentes levam a crer No Terceiro Mundo, a poluição do ar em certas patles das cidades
que num futuro próximo poucos minerais têm possibilidade de se cbegou a índices jamais registrados nos países industrializados
esgotar. dumnte os anos 60. 9
No final dos anos 60, uma consci&1cla e uma pn>OCt1pIIÇAo É cada vez mais evidente que as origens e causas da poluição
maioml por patIe da opiniio pCIbIica leva:ram os governos e as in­ são muito mais difusas. complexas e inter-relacionadas - e seus
dWIuias a tomarem certas providências, lanto no. países indus­ efeitos muito mais disseminados, cumulativos e crônicos - do que
uiallzado. como em alguns paiBes em desenvolvimento. BIabora­ se julgara alé então. Os problemas de poluição. antes localizados,
ram-se programas e políticas para a proteção do meio ambiente e agom se apresentam em escala regional ou mesmo global. Está se
a cODllel'VllÇilo dos recursos, e crilU3ID-se agencias para adminis­ tornando mais comum a contaminação de solos. de lençóis freáti­
Irá-los. Inicinlmente, as políticas se concentraram em disposiç6es C08 e de pessoas por agrotóxicos, e a poluição por prndutos quí­
para reduzir as emissões. Mais 1lIrde, recorreu-se a uma série de micos se estende a todos os pontos do planeta. Aumentou a inci­
ÍnStrl.tmento. econômicos - uibnlação, moItas por poluição e sub­ dência de graves acidentes provocados por prndutos químicos tó­
sfdios para equipamentos de cootroIe de poluiçlio -, mas apenas xicos. A descoberta de locais de deposição de rejeitos perigosos ­
2:W 235
nificativos benefícios em termos de se evitar danos 11 saúde, 11
"Hoje, sem qualquer sombra de dúvida, a escala e a taxa atuais propriedade e aos ecossistemas. E, o que é mais importante, esses
do desenvolvimento das forças produtivas exigem uma aborda­ benefícios, de modo geral. superaram os custos. 10
gem diferente das questões relativas à proteção ambienlaJ e ao Evidentemente, custos e beneficios variaram de uma indtlstria
uso racional dos recursos nacionbis. E uma tarefa de imensa para outra. Um dos métodos para se avaliar o custo de reduzir a
significação econ/Jmica e social. Pois azuaJmente se trota de uma poluição na indl1stria consiste em comparar o que foi gasto em
preocupação com a saúde das pessoas e com a.riqueza nacional novas fábricas e novos equipamentos que dispõem de meios para
de cada pafs. Além disso. é tDmbém uma queSlião refoliva ao fu­ controlar a poluição com o que seria gasto em novas fábricas que
turo. E de sua solução dependem as condiçtJes de vida das pró­ não dispusessem deles. Em estudos feito. nos EUA e que utiliza­
xiJnas gerQÇ6es. ~, ram essa comparação. ficou demonstrado que o que foi gasto para
diminuir a poluição em novos equipamentos e fábricas no setor
A.P. Semyonov manufatureiro do país em 1984 montou a US$4,53 bilhões, ou
Conselho Central de Associaç/les Comerciais seja, 3,3% do total dos novos gastos. A indtlstria química gastou
Audiéncia pública da CMMAD, Moscou, 8 de dezembro de 1986. US$5SO milhões (3.8%) em equipamentos desse tipo. 11 Estudos
similares em relação à indtlstria siderúrgica japonesa revelaram
que os novos investimentos em equipamentos de controle de po­
luição montaram a 21,3% do investimento total em 1976 e até
hoje continuam sendo de aproximadamente 5%.12
o canal Love. nos EUA, por exemplo. e Lekket:kek. na Holanda. Uma elevada proporção do investimento feito pela indústria
Vac, na Hungria. e Georgswerder, na Repdblíca Federal da Ale­ para controlar a poluição coube a fumas ligadas a produtos ali­
manha - chamou a atenção para outro O<!rio problema. mentícios, ferro e aço. metais não-ferrosos, automóveis. polpa e
Tendo em vista isso tudo e taJnb6m as tendências de cl"NCi. papel, produtos químicos e geração. de energia elétrica - todas
menta até O próximo O<!culo. é evidente que são necessárias medi­ elas muito poluentes. Esses custos foram um grande incentivo pa­
das muito mais enérgicas para reduzir. controlar e evitar a polui­ ra que muitas dessas indtlstrias desenvolvessem uma ampla gama
ção industrial. Sem essá. medidas. os danos causados peJa polui­ de novos processos e de produtos e tecnologias mais limpos e
ção 11 saúde humana podem chegar a níveis intoleráveis em algu­ mais eficientes. Na verdade, algumas das finnas que há 10 anos
mas cidades e continuarão aumentando as ameaças 11 propriedade formamm equipes para pesquisar e desenvolver tecnologias ino­
e aos ecossistemas. Felizmente, o esforço envidado nos tlItimos vadoras, a fim de se ajustarem aos novos padrões relativos ao
20 anos para proteger o meio ambiente deu aos governos e 11 in­ meio ambiente, contam-se hoje entre as mais competitivas em
dústril\ maiur experiência em relação a poJ(!icas e novos meios seus campos, tanto no nível nacional como no internacional.
tecnológicos para obter padrões mais sustentáveis de desenvolvi­ A reciclagem de resíduos e sua reutilização tomaram-se práti­
mento industrial. cas bem-aceitas em muitos setores industriuis. Em alguns países
No início dos anos 70, governos e indústria estavam muito industrializados, as tecnologias para filtrar composto. de enxom.
preocupados com o custo das medidas propostas para a proteção e nitrogênio dos gases emitido. peias chaminés das fábricas apre­
do meio ambiente. Para alguns, tais medidas fariam diminuir o in­ sentaram notáveis progressos num período relativamente curto.
vestimento~ o crescimento, os empregos, a competitividade e o Existem novas técnicas de combustão que ao mesmo tempo au­
comércio, e aO mesmo tempo estimulariam a inflação. Tais receios mentam a eficiência da combustão e reduzem as emissões de po­
se revelaram infundados. De acordo com um levantamento feito luentes.!3 Estão sendo desenvolvidos novo. produtos e novos
em 1984 pela Organização para Cooperação e o Desenvolvimento processos tecnol6gicos que poderão resultar em modos de produ­
Econômico (OCDE) das avaliações realizadas em vários países ção mais eficientes em termos de energia e de recursos, reduzindo
industrializados, os gastos com medidas de proteção ao meio am­ a poluição e minimizando os riscos à saMe e os riscos de aci­
biente nos dltimos 20 anos tiveram um efeito positivo a curto pra_ dentes.
zo sobre o crescimento e o emprego, porquanto aumentavam a O controle da poluição tomou-se. e com toda a razão, um
demanda e conseqüentemente fizeram aumentar a produção de próspero ramo da indústria em vários países industrializados. In­
economias que não operavam com plena capacidade. Houve sig­ ddstri.as muito poluentes, como ferro e aço. outros metais, produ­

236 237
tos quúnicos e geração de energia, muitas Vezes levaram a pro­ isso implica maior consumo de energia e matérias-primas, ri3COs e
gressos em áreas como equipamentos aotipoluição, desintoxica­ resíduos induslriais, acidentes e esgotamento dos recursos.
ção, tratamento de resíduos, instrumentos de mensuração e siste­ Os problemas e as perspectivas do desenvolvimento industrial
mas de acompanhamento. Essas indúslrias não apenas se tomaram variam entre os países do TelXeiro Mundo, que diferem muito em
mais eficientes e competitivas, como também muitas delas desco­ lamanho e recursos. Há alguns países grandes nos quais a abun­
briram novas pOssibilidades para investimento, vendas e eltporta­ dância de recursos naturais e a pujança do mercado interno forne­
ç6es. No futuro, espera-se que em praticamente todos os países cem a base para um desenvolvimento induslrial bastante vatiado.
induslrializados, inclusive os recém-induslrializados, haja um Países menores, ricos em recursos, estão tentando desenvolver
mercado cada vez maior para os sistemas, equipamentos e servi­ uma indúslria voitada para a exportação. Gmnde parte da expanc
ços de controle de poluição. são induslrial de vários paI:""" em desenvolvimento tem como ba­
se as indl1strias exportadoras de vestuário, bens de consumo ele­
trônicos e engenharia leve. Mas em muitos países o desenvolvi­
8.2 DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL SUSTENTÁVEL mento induslrial está Iimilado a uns poucos bens de consumo que
NUM CONTEXTO GLOBAL atendem a melXados internos relativamente pequenos.
A participação dos países em desenvolvimento na produção
Para ser sustentável a longo prazo, o desenvolvimento industrial mundial de ferro e aço subiu de 3,6% em 1955 para 17,3% em
terá de mudar radicalmente em tennos de qualidade, em particular 1984. quando quatro países - Brasil, China, Índia e República da
nos países induslrializados. Mas isso não quer dizer que a indus­ Coréia - produziram mais de 10 milhões de toneladas de aço cada
lrialização tenha alcançado um limite quantitativo, especialmente um, o que equivale à produção de muitos países industrializados
nos países em desenvolvimento. Mesmo hoje, segundo o Onudi. a de porte médl'o,IS Enquanto em muitos países em desenvolvi­
produção induslrial mundial teria de aumentar à ordem de 2,6 pa­ mento essa indústria se contrai. espera-se que no mundo em de­
ra que o consumo de manufaturados nos países em desenvolvi­ senvolvimento ela se expanda para 38 milhões de toneladas entre
mento chegue aos níveis atnais, dos países induslriaIizados.1 4 1982 e 1990. Prevê-se que a América Latina seja responsável por
Diante do aumento populacional previsto, é de esperar que a pr0­ 41% desse aumento, o Sudeste asiático por 36%, o Oriente Médio
dução industrial mundial aumente de cinco a 10 vezes, quandO a por 20% e a África por 1,3%.16
população se estabilizar, em alturna época do próximo século. Muitos países em desenvolvimento ainda dependem bastante
Tal crescimento tem sériaa conseqüências para o futuro dos ecos­ de suas exportações de minerais e outros produtos básicos. a
sistemas do mundo e sua base de recursos naturais. maioria não-beneficiados ou semibeneficiados. No caso de vários
Em geral, deve-se encorajar as indúslrias e atividades indus­ minerais importantes, como alumínio e níquel, umas poucas em­
Iriais que são mais eficientes em teImo. de uso dos recursos, que presas transnacionais controlam toda a indúslria, desde a minera­
geram menos poluição e resíduos, que se baseiam no uso de re­ ção até o processamento final.l 7 Certos países conseguiram au­
cursos renováveis, mais do que no de não-renovãveis, e que mi­ mentar a pa.xela de produtos refinados de suas exportações. No
nimizam os impactos negativos irreversíveis sobre a saúde do ho­ entanto, a maior parte desses produtos "manufaturados" é repro­
mem e o tneio ambiente. cessada no país industrializado que os importa. Em 1980, apenas
39% de todas as exportações do TelXeiro Mundo eslavam prontos
8.2.1 [adustriaIIzaç4o,DO Terceiro Mundo para consumo, ao passo que 43% do tolal de suas exportações
eram de produtos não-beneficiados)8 Esse índice deve melhorar
As populações cada vez maiOres e as altas percenlagens de jovens • medida que as nações em desenvolvimento ingressem nos está­
no Terceiro Mundo estão provocando aumentos consideráveis da gios mais avançados de processamento. Tais melhorias devem ser
força de trabalbo. A agricultura não pode absorvê-los. A indúslria aceleradas .
deve propolXionar a essas sociedades em expansão não s6 empre­ O crescimento esperado das indl1strias básicas prenuncia um
go como também produtos e serviços. Elas conhecerão um au­ t6pido aumento da poluição e da deterioração dos recursos, a me­
mento significativo de bens de consumo básicos e um desenvol­ nos que os países em desenvolvimento se empenhem em controlar
vimento concomitante de infra-estrutura induslrial - ferro e aço, -. poluição e os resíduos, aumentando a reciclagem e reutilização.
produtos químicos, materiais de construção e transportes. Tudo e' minimizando os riscos provenientes dos resíduos. Esses países

238 239
energia e de matéria-prima. Mas nos dois últimos decênios, esse
"Nosso movimento ecológico não.é cOI'Itra a indústria, mas de· padrão parece ter mudado radicalmente, À medida que cresciam
vemos pensar na ftmção social das indústrias e ver que poluição as economias desenvolvidas de mercado, a demanda de materiais
e progresso não são a mesma coisa. Poluição não é sitúJnimo de básicos.. inclusive '4gua e energia. se estâbilizava; em certos 'ca­
progresso; chegou a hora de se criarem novos conceitos de de­ sos, chegava mesmo a declinar em termos absolutos.
senvolvimento. A poluição não devia ser sinl!ninuJ de progresso, O COIISumo de energia por unidade do PIB nos países da
pois sabemos que a poluição é controlável, e ~ voe;! não OECD tem caído à taxa de 1 a 3% ao ano desde fins da década de
cOl'ltrOia a poluição, você está transferindo essa poiatção para a 60. Entre 1973 e 1983, esses países melhoraram em cerca de
comunidade global." J ,7% ao ano o rendimento energético.l 9 Também declinou o con­
SUmo industrial de água por unidade de produção. As fábricas de
Fábio Feldman papel e de polpa mais antigas consomem cerca de 180 metros cú­
Advogado das vitimas de Cubatão bicos de água por tonelada de polpa; mas as que foram construí­
Audil!ncia pdbüca da CMMAD, São Paulo, 28-29 de outubro de 1985. das nos anos 70 consomem apenas 70. Com técnicas avançadas
que mantêm a água em circulação num sistema fechado, e com
pessoal capacitado, esses Úldices podem ser reduzidos para 20-30
metros cúbicos por tonelada de polpa.20
não têm recursos para se industrializar agora e reparar os danos Uma usina siderúrgica integrada consome cerca de 80-200 to­
mais tanle; sequer terão tempo para isso, dado o rirmo acelerado neladas de água para cada tonelada de aço bruto. Mas como s6 se
do progresso tecnol6gico. Mas podem tirar proveito dGS novos perdem cerca de três toneladas de água por tonelada de aço bruto,
métodos de gestão ambiental e de recursos que estão sendo de­ a maior parte por evaporação, a reciclagem pode reduzir em muito
senvolvidos nos países industrializados, evitando assim a necessi.. o consumo.21 Os sistemas fechados de ciICulação de água não silo
dade de reparos dispendíosos. Tais tecnologias também pndem exclusivos da siderurgia ou das economias desenvolvidas de mer­
ajodá-los a reduzir os custos fInals e a aproveitar melhor recursos cado. Entre 1975 e 1980, a produção da indústria química na
escassos. J;: eles podem aprender com os erros dos países desen­ URSS aumentou 76%, mas o consumo total de água potável per­
volvidos. maneceu no meSmo nível de 1975. 22 E entre 1981 e 1986, a pr0­
Hoje, as economias de escala já não constituem a preocupação dução industrial soviética aumentou 25%, mas o consumo indus­
básica. As novas tecnologias no campo das comunicações, da in­ trial de água permaneceu constante,23
formação e do controle do processo industrial permitem o estabe­ As quedas no consumo de outras matérias-primas começaram
lecimento de indústrias de pequena escala, descentralizadas e muito mais cedo. De fato, a quantidade de matérias-primas neces­
bastante dispersas, o que reduz os níveis de poluição e outros im­ sária para uma deCerminada unidade de produção econÔmica tem
pactos sobre o meio ambiente local. Pode haver, contudo, certas caído durante todo este século, exceto nos tempos de guerra, para
mudanças em vista: o processamento de matéria-prima em peque­ praticamente todos os produtos primários não-agrfcolas. 24 Um
na escala, por exemplo, côstoma ter alta intensidade de mão-de­ estudo recente sobre as tendências do consumo de sete materiais
obra e Ser amplamente dísperso, mas faz uso intensivo de energia., básicos nos EUA confirma ioso,2S assim como estudos realizados
Essas indústrias dispersas poderiam poupar as grandes cidades de no Japão. Em 1984, o Japllo consumiu por cada unidade de pro­
certas pressões ligadas à população e à poluição. Poderiam ofere­ dução industrial apenas 60% das matérias-primas utilizadas em
cer empregos n!lo-agrfcolas nas zonas rurais, produzir bens de 1973. 26 Essas tendências de efICiência n!Io resultam de uma
consumo que atendam aos mercados locais e ajudar a difundir queda da atividade manufatureira em favor da indústria de servi­
tecnologias viáveis do ponto de vista ecol6gico. ços, pois durante esses períodos a produção do setor manufatorei­
lO continuou a crescer, A produtividade e a eficiência no tocante
ao uso de recursos estão em constante aperfeiçoamento e a produ­
8.2.2 Uso de ene.... e de maU!rias-primas ç!Io industrial está se afastando nitidamente dos produtos e pro­
cessos que consomem muita matéria-prima.
Muitos consideram que o crescimento industrial inevitavelmente
As duas altas dos preços do petróleo dos anos 70 obrigaram
se faz acompanhar de aumentos correspondentes no consumo de
muitos países a pouparem dinheiro através de medidas de conser­
240
241
vação, da busca de outros combustíveis e do aumento do rendi­
mento energético global. Tais fatos demonstraram a importância '~cho qtU! deve haver uma iniciativa persistellle, um tV'orço
das polfticas de fixação de preços da energia que levam em conta determinado a fim de estabelecer uma esptcie de cddigo ÍnJema­
os estoques atuais, os índices de esgotamento, a disponibilidade cional para as .áreas de tecnologias que implicam altos riscos
de substitutivos e qualquer dano ambiental inevitável associado à para o meio ambiente. No _1110, poucas indtístrias na Indo­
extração ou ao processamentu. (Ver capítulo 7.) Eles também re­ nésia seriam consideradas muito inteligentes. Tambim precisa­
velaram o potencial de políticas de preços seml~lhantes para ou­ mos desse tipo de coisa a fim de garanJir de alguma forma que
tras matérias-primas. poIses como o nosso tenham um mfnimo de segurança pora se
Alguns vêem nesses processos uma crescente "desmaterializa­ deserrvolverem 110 conJexto das relações econômicas internacio­
ção" da sociedade e da economia mundial. Porém, mesmo as eco­ nais."
nomias industrialmente mais aVlll1çadas ainda dependem de uma
oferta contínua de produtos básicos manufaturados. Sua produ­ Depoimento de um participante.
ção, sejam eles nacionais ou importados, continuará a exigir Audiência pábUca da CMMAD, Jacarta, 26 de março de 1985.
grandes quantidades de matérias-primas e de energia, ainda que
os países em desenvolvimento progridam rapidamente na adoção
de tecnologias eficientes em termos de recursos. Para manter o
ímpeto produtivo em um nível global, portanto, é necessário que
as polfticas econômicas, comerciais e de outras áreas afins passem A biotecnologia terá forte influência sobre o meio ambiente.
" levar em conta aspectos ligados à eficiência no uso dos recur­ Os produtos de engenharia genética podem melhorar muito a saú­
sos, sobretudo nos países iodustria1izados, e que sejam rigorosa­ de humana e animal. Os pesquisadores estão descobrindo novas
mente observados oS padrões, normas e regulamentos ambientais. drogas, novas terapias e novos meios de controlar os vetores das
doenças. A energia derivada das plantas pode substituir cada vez
mals os combustíveis fósseis não-renováveis. Novas variedades
8,2.3 Promes_ e riscos das novas tecnologias de sementes de alta produtividade ou resistentes a pragas e a con­
dições climáticas desfavoráveis podem revolucionar a agricultura.
A tecnologia continuará a mudar a tessitura social, econômica e O controle integrado das pragas se difundirá cada vez mais. A
cultural das nações e da comunidade mundial. Administradas com biotecnología pode também fornecer opções mais saudáveis e
cautela, as tecnologias novas e emergentes oferecem imensas mais eficientes para muitus processos e produtos poluentes. As
oportunidades pata elevar a produtividade e os padrões de vida, novas técnicas de tratamento de rejeitos líquidos e sólidos podem
melhorar a saúde e conservar a base de recursos naturais. Muitas ajudar a resolver o problema premente da deposição dos rejeitos
também trarão novos riscos, exigindo maior capacidade para ava­ perigosos.27
liá-los e administrá-los. (Vercapítu1o 12.) Os avanços da tecnologia espacial, por ora um campo quase
É de particular importância a tecnologia da informação, basea­ exclusivo dos países iodustria1izados, também são promissores
da sobretudo nos avanços da microeletrônica e da ciência do para o Terceiro Mundo, mesmo para as economias de base agrí­
colIlputador. Aliada IIOS rápidos progressos dos meios de comuni­ cola. Os serviços de previsão do tempo por satélite e redes de
cação, ela poderá ajudar a melhorar a produtividade, o rendi­ comunicações podem ajudar os agricultores a decidir quando
mento energético' e a eficiência no uso de recursos, bem como a plantar, irrigar, fertilizar e colher. Os sensores e as imagens por
estrutura organizacional da indústria. satélite podem facilitar o uso ótimo dos recurSOS da Terra, permi­
Novos materiais como a cerâmica de alta qualidade, os metais lindo O controle e a avaliação das tendências a longo p,!"zo das
raros e as ligas de metal, os plásticos de alto desempenho e os lIlUdanças climáticas, da poluição marinha, da erosão do solo e da
novos compostos permitem sistemas de produção mais flexíveis. capa vegetal. (Ver capftulo 10.)
Contribuem ainda para a conservação da energia e dos recursos, Essas novas tecnologias e a Revolução Verde toldam as distin­
pois em geral cOnsomem menos energia em sua manufatura e, por ções tradicionais entre agricultura, indústria e serviços. Além dis­
serem mais leves. contêm menos massa que os materiais conven­ so, permitem que o comportamento de um setor afete mais radi­
cionais. calmente O de outros setores. A agricultura tornou-se pralioa­

242 243
mente uma "indlistria" nos países desenvolvidos. Os serviços re­ 8.3.1 E smbeledmento de metas, regulamentações,
lacionados com a agricultura - especiaJmente armazenamento, IncenüVllS e padrões ambientais
transporte e previsão do tempo regionais - são cada vez mais im­
portantes. As novas técnicas de cultura de tecidos e de engenharia Ao lidar com poluição industrial e deterioração de recursos, é es­
genética podem gerar em breve variedades vegetais capazes de fi­ sencial que a indlistria, o governo e o público em geral tenham
xar o nitrogênio do ar. o que afetaria drasticamente a indll\ltria de pontos de referência bem definidos. Sempre que a força de tra­
fertilizantes. mas por outro lado reduztria a _ ç a de poluição balho e os recursos rmanceiros o pemútirem. os governos devem
por agroquúnicos. definir claramente as metas ambientais e estabelecer leis, regula­
As indústrias químicas e geradoras de energia estão entrando mentações, incentivos e padrões ambientais para as empresas in­
cada vez mais no ramo das sementes. para lançar novos tipos que dustriais. Ao formularem tais poIfticas, devem dar prioridade aos
satisfaçam as condições e exigências locais específicas - mas que problemas de saúde pública ligedos à poluição industrial e aos
podem também necessitar de fertilizantes e praguicidas específi­ rejeitos perigosos, bem como aperfeiçoar suas estatfsticas am­
cos. Aqui a pesquisa e o desenvolvimento. a produção e a comer­ bientais e sua base de dados referentes às atividades industriais.
cialização têm de ser orientados com cuidado. para que o mundo As regulamentações e os padrões devem reger assuntos tais
não fique ainda mais dependente de umas poucas variedades de como poluição do ar e das águas, controle dos rejeitos, sadde e
cultivos - ou de produtos de algumas grandes transnacionais. segurança dos trabalhadores, eficiência de produtos e processos
Apesar disso, nem todas as novas tecnologias são intrinseca­ no tocante ao uso de energia c recursos, bem como manufatura,
mente benéficas e não terão sempre impactos positivos sobre o comercialização, utilização, transporte e deposição de substâncias
meio ambiente. A produção em grande escala e o uso generaliza­ tóxicas. Isso deve ser feito normalmente em âmbito nacional, po­
do de novos materiais. por exemplo. podem criar riscos para a dendo oS governos locais ir além. mas não ficar aquém, das nor­
saúde até agora desconhecidos (como o uso de arsenialO de gálio mas nacionais. Ao elaborar as regulamentações ambientais, é im­
na indústria de microchip).28 As pesquisas mais arriscadas e a fa­ portante que se adotem sistemas flexíveis, sem especificar deter,
bricação dos produtos podem ocorrer justamente nos locais em minado processo ou tecnologia, considerando que os governos di­
que haja poucas salvaguatdas e em que as pessoas desconheçam ferem muito em sua capacidade de fonnular e impor padrões le­
os perigos. A necessidade de cautela na adoção de novas tecnolo­ gais.
gias é reforçada peIa experiência da Revolução Verde que, apesar Também são necessárias regulamentaçôes para controlar os
de suas nntâveis realizações, gera preocupações quanto à depen­ imPactos da atividade industrial além da. fronteiras nacionals e
dência de um nlimero relativamente pequeno de variedades de nas áreas comuns internacionais. As convenções internacionais
cultivo e de grandes doses de agroquúnicos. Antes de serem in­ atuais ou futuras que tratam da poluição ou da administração
troduzidas no mercado. e portanto no meio ambiente, as novas além-fronteiras dos recursos naturais comuns devem encerrar
formas de 'vida, produzidas pela engenharia genética deveriam ser certos princfpios básicos:
cuidadosame\'lte testadas e avaliada.- em relação a seu impacto • responsabilidade de cada nação de não prejudicar a saúde e o
potencial sobre a saúde e a manutenção da diversidade genética e meio ambiente de outros países;
do equilíbrio ecol6gico.29 • responsabilidade e compensação por qualquer dano causado por
poluição além-fronteiras;
• direitos iguais a medidas de reparo para todas as partes interes­
sadas.
8.3 ESTRATÉGIAS PARA O DESENVOLVIMI!:NTO
~UST1UALSUSTENTÁVEL
8.3.2 Uso mais eficaz dos Instrumentos econômicos
o planejamento industrial e os processos decisórios do governo e A poluição é uma forma de desperdício e um sintoma de inefi­
da indústria têm de levar em conta as questões relativas a recursos
e meio ambiente. Isso pemútirá reduzir a quantidade de energia e ciência da produção industrial. Quando as indlistrias reconhecem
de recursos requerida pelo crescimento futuro, mediante o uso os custos da poluição, às vezes são motivadas a investir em me­
mais eficiente dos recursos. o estúnulo à sua recuperação e reci­ lhores produtos e processos para aumentar a eficiência e, portan­
clagem. e a dinúnuição dos rejeitos. to, reduzir a poluição e os rejeitos, sobretudo quando há incenti­
245
244
vos econÔmioos para isso. Depende muito da possibilidade de tais
investimentos melhorarem seu desempenho eoonômico. "Nossa açdo t1 no sentido de atacar as ClZUStlS, não os efeitos.
Mas há limíte. para o que a sociedade pode esperar que uma Mas também depa:romos com questões ecol6gicas em nossos
indústria faça volunlariamente, quando opera em concorrência mercados. e_e nossos próprios empregatk)s e em nosso meio
com outras indústrias. As regulamentações que impõem padrões ambiente. Definirtyamente. isso possibilita experi~ncias que su­
de desempenho uniforme são essenciais para garantir que as in­ blinham a necessidade de """" refkxiio mais complexa e abran­
dústrias façam os investimentos necessários para reduzir a polui­ gente sobre os sistemas de que o meio ambiente se toma pane
ção e os rejeitos, de modo a poderem concorrer em pé de iguaída­ integranre. Por selTllOS uma ináiistria; depa:romos também com
de. problemas de reloções internacionais e de ordem ecológica,
O ar e as águas têm sidO encarados tradicionalmente como muitas ..,.,..,s, irlfelizmente, sob formo. de barreiras comerciais
"bens üvres" o que não é exato, se considerarmos os altos custos
J disfarçadas ou de dificuldades na cooperação entre autorida­
que a poluição passada e presente acarretam para a sociedade. Os áes. H
custos ambientais da atividade econômica só aparecem quando a
capacidade assimilativa do meio ambiente é ultrapassada. A partir Rolf Marstnmder
dai, não podem ser evitados e terão de ser pagos. A questão não é Diretor de AssuntOS Ambientais da Norsk Hydro
saber se serão pagos, e sim como e por quem o serão. Basica­ Audiência pdblica da CMMAD, Oslo, 24-25 de junho de 1?85.
mente. há duas possibilidades. Os custos podem ser "ex:tema.liza­
dOs" - ou seja. transferidos para vários segmentos da sociedade
sob forma de custos por dano'!! li saúde hwnana. li propriedade e
aos ecossix:temas - ou "intemalizados" - pagos pela empresa.
Esta pode investir em medidas para prevenir danos e, se o merca­ ganismos governamentais que aceitam que as preocupações am­
dO para seu produto o permitir, repassar os custos para o consu­ bientais sejam levadas em conta.
midor. Ou então investir em medidas para reparar OS danos ine­ No caso da OCDE, as diretrizes dO PPP pretendiam desesti­
vitáveis - reflorestamento, repovoação das zonas pesqueiras, re­ mular os subsídios que pudessem levar a distorções no comércio
cuperaÇão da terra apds mineração. Pode ainda compensar as vi­ exterior. Os países ooncordaram em eliminar os subsídios aos
timas de <!anos à Slllide ou à propriedade. Também nesses casos, poucos, por períodos variáveis de tempo. (Ver no capítulo 3 a
os custos podem ser repassados ao consumidOr. ' aplicação do PPP ao comércio e investimento internacionais.)
As empresas podem ser estimuladas a investir em medidas pre­ Os incentivo. para reduzir a poluição podem ser ampliados por
ventivas, restauradoras ou compensadoras com vários tipos de outras medidas. As polfticas de apreçamento de energia e água,
subsídios. De fato, na maioria dos países industrializadOs e em por exemplo, podem levar.as ,indústrias a consumirem menos. A
muitos países em desenvolvimento, os subsldips são um meio co­ reformulação de produtos e as inoVações tecnológicas que pro­
mum de encorajar as oompanhias a investirem nas medidas neces­ p<>reionem produtos mms seguros, proCessos mais eficientes e re­
sárias para prevenir danos externos. Mas neste caso, natoralmen­ ciclagem de matérias-primas também podem ser promovidos por
te, quem paga é o contribuinte, e não o consumidOr do produto. meio do uso integrado e mais eficaz dos incentivos e desincenti­
Além disso. se os subsídios forem altos e pagos a indú.,trias que vos eoonômicos, como descontos de impostos sobre investimen­
atuam no mercado internacional. podem levar a distolÇÕes comer­ tos, empréstimos a juros baixos, reservas para depreciação, multas
ciais, devendo pois ser.evitadOs. por poluição ou rejeitos. e multas pelo não-cumprimento das re­
gulamentações.
Em 1972. os países-membros da OCDE concordaram em ba­ Às vezes. O modo pelo qual se pmmovem outros objetivos de
sear suas polfticas ambientais em um Princípio de Pagamento do políticas acaba reduzindO, indiretamente. a eficácia dos progra­
Poluídor (PPF).30 Com o PPP. em esséncia uma medida de efi­ mas ecológicos. Por exemplo, os subsídios às malérias-prilllll$ ou
ciência eoonômica, pretende-se encorajar as indústrias a internali­ ao fornecimento de água ou energia para promover o desenvolvi­
zar os custos ambientais e refleti-los nos preços dOs produtos. Ao mento da indústria em áreas remotas podem atenuar a pressão no
mesmo tempo. as regolall)entações estatais dos países do Conse­ aentido da conservação dos recursos. Os governos devem verifi­
lho de Assistência Econômica Mútua são da competência de or­ car se as políticas, os inslrumentos ou subsídios eoonômioos de...
246 247
tinados a vários programas e projetos ligados à indústria contri­ Europeu da Federação dos Fabricantes de Produtos Químicos,
buem de fato para a promoção de práticas saudáveis e eficientes que assumiram papéis de liderança ao abordar as questões am­
em termoS ambientais. bientais. devem agora fazer o mesmo em relação às preocupações
mais amplas inerentes ao desenvolvimento sustentável.
8.3.3 Ampliação das avaliações ambientais Com poucos recursos à sua disposição, as indóstrias de peque­
no e médio porte muitas vezes se vêem incapazes de custear as
Um número cada vez maior de países exige que-. certos investi­ mudanças necessárias para satisfazer as regulamentações am­
mentos importantes sejam submetidos a uma avaliação do seu im­ bientais e os controles de produtos. Os negócios de pequena es­
pacID sobre o meio ambiente. Essa avaliação ambiental mais am­ cala, como metalurgias. máquinas operatrizes, impressão, curtição
pla deve ser aplicada não só a produtos e projetos, mas também a de couros e tinturaria, estão freqüentemente entre os malores
políticas e programas, em especial as políticas macroeconômicas, transgressores das reguiamentações ambientais em qualquer país.
financeiras e setoriais que causam impactos significativos sobre o As novas tecnologias. em especial a microeletrônica, já propor­
meio ambiente. cionam às pequenas indústrias meios baratos de controlar todo um
Muitos paí~s em desenvolvimento, parliculannente na Ásia e processo de produção. Sistemas biológicos poupadores de energia
na América Latina. adotaram sistemas de avaliação do impacto podem ser perfeitamente adaptados às necessidades das indústrias
ambiental. Mas a falta de capacidade institucional e de pessoal de pequeno e médio porte pàra o controle da poluição ou deposi­
qualificado significa que muitos desses sistemas são conduzidos ção dos rejeitos.
por consultores de fora. sem que haja controle da qualidade desse As empresas de pequena e média escala, que constituem o
serviço. Em certos casos. as autoridades governamentais só teriam maior segmento da indústria em muitas nações, necessitam de in­
a lucrar com um outro parecer sobre a documentação ambiental formações e, em certos casos, de assismncia técnica e financeira
que recebem. Os governos interessados deveriam criar um órgão do setor público. A administração e o treinamento de trabalhado­
de avaliação internacional independente para ajudar os países em res podem contribuir para a incorporação, nos padrões de traba­
desenvolvimento a estimarem o impacto ambiental e a sustentabi­ Ibo. do planejamento ambiental e de tecnologias menos poluído­
lidade dos projetos de desenvolvimento em elaboração. ras. Os governos devem encorajar os esforços cooperativos entre
as pequenas empresas - por exemplo, em pesquisas conjuntas so­
8.3.4 Estimulo à ação da Indúslrla bre questões ambientais, 00 no uso comum dos sistemas de rono.
trole de poluição e de tratamento dos rejeitos.
A resposta da indústria à poluição e à deterioração dos recursos
não tem sído nem deve ser limitada ao cumprimento das regula­ 8.3.5 Maior capacidadle para lidar com riscos industriais
mentações. Ela deve comportar um amplo senso de responsabili­
dade social e garantir a conscientização das questões ambientais
em todos os níveis. Para tanto, todas as empresas industriais, as­ Os produtos químicos melhoraram muíto a saúde e a expectativa
sociações comerciais e sindicatos trabalbistas devem estabelecer de vida; incrementaram a produção agrícola; aumentaram o con­
políticas. no âmbito da empresa ou da indústria, que digam res­ forto, as facilidades e a qualidade de vida em geral; e ampliaram
peito à administração ambiental e de recursos. e que incluam a as oportonidades econômicas. A indtlstria quúnica é também um
observância das leis e exigências do país em que atuam. dos setores mais dinAmicos em vários países. incluindo muitos
As associações comerciais internacionais desempenham papel dos em desenvolvimento. Mas essa indústria e seus produtos po­
importante na fixação de padrões e disseminação da informação ­ dem exercer um impacto particuiarmente grave sobre o meio am­
papel que deve ser ampliado significativamente. ElIas devem esta­ biente. Ela deu origem a wna infiuidade de novos problemas de
belecer e tomar disponíveis. tanto quanto possível. diretrizes se­ poluição ligados não s6 aos produtos como aos processos. Conti­
toriais para avaliar a sustentabilidade e os riscos potenciais dos nua a gerar wna quantidade cada vez maior de produtos e rejeitos
novos sistemas, para desenvolver planos de contingência em ca­ I, OIIlos efeitos. sobrerudo a longo prazo. sobre a saúde do homem e
sos de acidentes, e para selecionar as tecnologias de controle da O meio ambiente ainda são praticamente desconhecidos. Ocorre­
poluiçãO e tratamento dos rejeitos. Associações industriais de acidentes graves, e nos últimos anos os índices de segurança
vulto, como a Câmara Internacional de Comércio e o Conselho inddstria ficaram abalados.

248 249
Em um mundo cada vez mais dependenle de produtos químicos
e de 1eCnologias de grande escala altamenle complexas, os aci­ "O crescimenLO mais explosivo da indústria qufmica e poluidora
denles de conseqüências catastróficas lendem a aumentar. Alguns se deu nos países em desenvolvimeTao. Isto oferece grandes peri­
dos metais pesados e minerais não-metálicos, como o asbesto, gos. Os últimos acidentes são uma parcela minima da que pode
também impõem sérios riscos à sadde e ao meio ambienle. Vários acontecer. Contudo, reconhecemos a enorme responsabilidnde
produtos e processos perigosos já estão incorporados aos atuais da movimeTao das associaçães comerciais no sentído de pressio­
sis1emas de produção e à estrutura tecnológica da Sociedade con­ nar as autoridndes e os órgãos dirigentes para que evitem tais
lempotllnea, e levam muito 1empo para que possam ser substituí­ acidentes e os investimenLOs de empresas que não seguem pa­
dos por sislemas e 1eCnologias menos arriscados e maio seguros. drões aceitáveis.
Alguns produtos qulmicos altamenle tdxicos que sabidamente O desenvolvimenLO da tecnologia melhorou o meío ambiente
causam cânoer e defeitos congêuitos, além de lerem efeitos gené­ nas áreas industriais da mundo. Entiio, os novos sistemas de
ticos a longo prazo. já fOIalll lançados no meio ambieille em for­ produção e de in/ormaçiio tomam mais díflcil poro os países em
leS c~ncentrações e podem levar décadas para se diluírem. desenvolvimento o uso de miIo-de-obra barata como meia de
atrair para: lá a indústria. Niio se vislumbra um futuro muito
8.3.5.1 Subst4nc1as quImicas promissor para esses pa(ses, a menos que a sociedade interna­
cional se disponha a partillrar os recursos e a tecnologia de pro­
AJi; substâncias qulmicas representam cerca de 10% do comércio dMçiio.lsto, de fato, é politicamente dlflcil."
mundial total em tenno.s de valor. 31 Hoje, cerca de 70 mil a 80
mil agenle. químicos circulam no mercado e. portanto, no meio JuolBjerke
ambienle.32 Tal cifra é apenas uma estimativa, pois não há um le­ COIifederaçl!.o lntemaciono./ das AsJ'ociaçõ.. de Livre Comércio
vantamento completo. Cerca de I mil a 2 mil novos produtos Audiência pIIbllca da CMMAD, Oslo, 24-25 de Junho de 1985.
qulmicos entram anualmenle no mercado comercial. sem que seus
efeitos tenham sido previa.t:nenle 1eStados ou avaliados.
Segundo amostra do Conselho de Pesquiaa Nacional dos EUA
referenle a 65.725 substâncias químicas de uso comum, só 10%
dos praguicidas e 18% das drogas tinham os dados necessários Assim, a uma proibição ou restrição em um país segue-se geral_
para avaliações completas sobre riscos para a sadde. Não havia menle uma medida semelhanle nos outros países.
dados sobre toxicidade para cerca de 80% dos agentes quúnícos Os países em desenvolvimento importadores em geral não
usados em produtos e processos comerciais inventariados pela Lei adotam esse sistema. Recentemente, alguns países industria1iza­
de Controle das Substâncias Tóxicas. 33 Esta situação agora está dos decidiram exigir que suas indústrias forneçam aos países im­
começando a mudar. à medida que OS governos passam gradual­ portadores uma notificação l1nica sobre os produtos qulmicos por
menle de um sistema de testagem pós-mercado para o de leSlagem eles fonnalmente proibidos ou severamente restringidos. Eles
pré-mercado de todos os novoS agenleS qulmicos. concordaram em enviar uma notificação prévia das exporta­
Em 1986, mais de 500 substâncias e produtos qulmicos foram ções/importações desses produtos. e em passar aos países impor­
totalmenle proscritos ou tiveram seu uso restringido com severi­ tadores as informações que os levaram a coibir OU restringir O uso
dade no país de origem. 34 Além disso. um nd.mero desconhecido dos produtos, caso solicitados a fazê-lo. Embora seja louvável
de agentes qulmicos são retira40s dos processos de liberação lo­ a inlenção desse sistema, é diffcil imaginar que possa funcionar
dos os anos, em vista das preocupações que suscitam nas agências nos países importadores que não dispóem de instituições de con­
le controle. ou então nunca cbegam a ser submetidos às agências trole para receberem a notificação nem de pessoal qualificado pa_
nacionais de controle para liberação. Alguns deles acabam no ra avaliar as informações.
mercado exportador. Os importadores do Terceiro Mundo não têm meios de contro­
Os países indostrializados adotam um sistema cada vez mais lar efetivame01e o comércio de produtos qulmicos proibidos ou de
in1erdependen1e e eficaz. no qual as agências de controle de pr0­ UIlO muito restrito nos pafses exportadores. Daí a grande necessi­
dutos qulmicos compartilham os resultados dos tes1es e comuni­ dade que eles têm de uma infra-estrutura para avaliar OS riscos as­
cam umas às outras as novas restrições sobre produtos qulmicos. lOciados ao uso de produtos quúnícos. Diante da gravidade da

250 251
situação~ a Comissão recomenda a todos os governos, partk:ular­
mente os dos principais países produtores de substâncias quími­ midores e membros da comunidade onde funciona uma indústria
cas: química.
• que cuidem para que nenhum novo produto químico seja colo­
cado nos mercados internacionais até que seus efeitos sobre a 8.3.5.2 Rejeitos perigosos
saúde e o meio ambiente tenham sido testados e av~Iiados~
• que continuem se esforçando para obter um acordo internacio­ Os países industrializados geram cerca de 90% dos rejeitos peri­
nal sobre a seleção dos produtos químicos existentes que mere­ gosos do mundo inteiro. Embora toda estimativa contenba ampla
cem testagem prioritária, sobre os critérios e procedimentos para a margem de erro, dadas as diferentes definições de "rejeitos peri­
avaliação desses produtos, e sobre um sistema de distribuição in­ gosos", em 1984 foram geradas cerca de 325 a 375 milhões de
ternacional das tarefas e recursos necessários; toneladas no mundo todo,36 das quais cerca de 5 milhões nas
• que regulamentem rigorosamente as exportaçoos, para os países áreas recém-industrializadas e em desenvolvimento. 37
em desenvolvimento, dos produtos químicos para os quais não se Só nos países-membros da CX::DE, há milhares de locais para
tentou ou não se obteve autorização para a venda interna, esten­ deposição de rejeitas. muitos dos quais parecem necessitar de al­
dendo aos mesmos as exigências de informações e notificaçoos gum tipo de ação reparadora. Saneá-los custa caro: as estimativas
prévias; falam de US$IO bilhões para a República Federal da Alemanha,
• que apóiem a criação, nas organizaçoos regionais existentes, de mais de US$I,5 bilhão para a Holanda, US$20-100 bilhões para
departamentos qualificados para receber tais informações e'notifi­ os EUA, e pelo menos US$60 milhões para a Dinamarca (em dó­
cações prévias, avaliá-las e advertir os governos regionais sobre lares de 1986).38 Também pode haver diversos lugares poten­
os riscos associados ao uso desses produtos químicos, a fim de cialmente perigosos em certas áreas urbanas e industriais concen­
tradas das economias de planejamento central e dos países em de­
que cada governo pondere sobre os riscos e benefícios que pos­
senvolvimento. É necessário algum tipo de intervenção governa­
sam advir de sua importação.
Deve-se aumentar a conscientização do consumidor. Os gover­ mental mediante ação regulat6ria ou apoio financeiro.
nos devem estimular a criação de centros de infonnações sobre O controle dos rejeitas nos países em desenvolvimento en­
produtos químicos usados pelos consumidores e reforçar o inter­ frenta vários problemas. As chuvas fortes e freqüentes nos trópi­
câmbio de informações, de avaliações e de bancos de dados que cos, por exemplo. fazem com que os rejeitas se infiltrem nos so­
se observa atualmente nas Nações Unidas e fora de sua esfera.3 5 los sob os depósitos de lixo subterrâneos ou mesmo com que eles
Outra providência essencial é adotar e fazer cumprir as regula­ transbordem. Se houver pouco ou nenhum tratamento prévio dos
mentações sobre embalagem e rotulagem de substâncias químicas rejeitos, isso pode contaminar as águas ou fazer com que as pes­
cuja utilização pode ser nociva, de modo a garantir instruções soas fiquem diretamente expostas aos rejeitos. Os depósitos de li­
precisas nos idiomas locais. As associações de consumidores e xo subterrâneos geralmente ficam próximos de áreas industriais
outras organizações não-governamentais devem liderar a coleta e cercadas de bairros pobres ou de favelas 39 Esses perigos salien­
tam a necessidade de planejar o uso da terra nos países em desen­
distribuição da informação comparada sobre os riscos dos compo­
nentes de certos produtos como artigos de limpeza e praguicidas. 'volvimento, bem como a necessidade mais urgente de implemen­
As indústrias que produzem e usam agentes químicos, por se­ tar e fazer cumprir de fato tais planos.
rem as fontes dos riscos associados a essas substâncias e também O principal objetivo das políticas deve ser reduzir a quantidade
de rejeite.. gerados e reaproveitá-Ios em proporção cada vez
as maiores beneficiárias de seu uso, devem garantir (e serem res­
maior. Isso reduzirá o volume que de outro modo precisaria ser
ponsabilizadas por não garantir) que seus produtos atendam aos
tratado, incinerado ou deposto em terra ou no mar. Este é primor­
mais altos padrões de segurança, que tenbam o mÚlimo de efeitos
dialmente um problema dos países industrializad03. Mas trata-se
colaterais sobre a saúde e o meio ambiente, e que sejam manipu­
também de uma questão emergente nos PRI e nos países em de­
lados com a devida cautela pelos trabalhadores e usuários. Para
senvolvimento, onde a rápida industrialização está acarretando os
tanto, há que tomar acessíveis, da forma mais ampla possível, as
mesmos problemas graves de administração dos rejeitos perigo­
informações acerca das propriedades e dos processos de produção sos.
das substâncias químicas e de seus riscos comparados. não só às
Está aumentando a quantidade de rejeitos que cruzam as fron­
autoridades competentes, mas também aos trabalhadores, consu­
teiras nacionais, e tal situação tende a continuar. Entre 1982 e
252 253
um regime inlemacional eficaz de controle do movimento além­
fronteiras dos rejeitos perigosos.
"Nós, do. iru:úJstria, achamos que tado empresa capaz de poluir a
natureza mediante a emissilo de gós liquefeito ou portfcukls tkve 8.3.5.3 Acidemes industriais
ser obrigado. a inscrever seu pessoal'em cursos breves, mas ins­
trutivos, de educação ambiental. Muitas vezes as empresas po­ Os acidentes que envolvem produtos químicos tóxicos e materiais
luem não SÓ por acidente ou falha técnica, mas twnbém por total radiativos podem ocorrer nas fábricas de qualquer parte do mun­
igrwn!lncio. das efeitos destrutivos sobre o meio ambiell1e." do. Segundo um levantamento realizado pela Agência de Proteção
do Meio Ambiente dos EUA, entre 1980 e 1985 ocorreram 6.928
DonaId Allbrey acidentes de gravidade variável em fábricas do país uma média
Socre~pwuS~mraP~~ de cinco por dia. 44
AudiIlncia pública da CMMAD, Ottawa, 26-27 de maio de 1986. Em 1984, tanques" de gás liquefeito explodiram na Cidade do
México, matando mil pessoas e deixando núlhares desabrigadas.
Poucos meses depois da tragédia de Bhopal, na índia, em que
morreram mais de 2 mil pessoas e outra. 200 mil ficaram feridas,
1983, os rejeitos transponados da Europa Ocidental para set)em um acidente numa fábrica em West Virgínia, nos EUA, perten­
depostos em outros países praticamente dobraram de vólume, cente à mesma companhia instalada em Bhopal, resultou na eva­
cbegando a 250 mil a 425 mil toneladas (1 a 2% do total de re­ cuação de emergência dos habitantes do local e em alguns pr0­
jeitos perigosos gerados).40 Esse aumento pode ser" atribuído em blemas de saúde. Em 1976. o vazamento acidental de dioxina,
parte li disponibilidade, em certos países, de sistemas legais e re­ agente químico mutagênico e altamente tóxico, em Seveso, Itália.
lalÍvamente baratos de deposição de rejeito. em termo Por exem­ e a saga que se seguiu. dos tambores carregados de material con­
plo, cerca de 4 mil embarques de rejeitos perigosos pártiram da taminado contornando a Europa, demonstram também que nos
Holanda para a República Democrática Alemã em 1984. E a Re­ países industrializados podem-se burlar as regulamentações e
pública Federal da Alemanha enviou cerca de 20 mil cargas para violar os padrões mínimos de segurança.
a República Democrática Alemã no ano anterior. O transporte No início de novembro de 1986, um incêndio no depósito de
internacional de rejeitos para serem despejados no mar, quer inci­ uma fãbrica de produtos químicos em Basiléia, Suíça, levou fu­
nerando antes ou não, toralizava cerca de 1,8 milhão de toneladas maça tóxica até a França e a República Federal da Alemanha, e
em 1983. 41 Os países pequenos e pobres são especialmente vul­ lançou agentes químicos tóxicos no Reno, causando mortandade
neráveis a essas descargas em alto mar, como ooorreu nas ágoas de peixes e afetando o abastecimento vital de água nos países rio
do Pacífico e do Caribe. abaixo, até a Holanda. Os cientistas que investigaram o Reno
Alguns países propuseram recentemente o que viria a ser uma concordaram em que poderia levar anos para os ecossistemas ri­
espécie de comércio de rejeitos perigosos (inclusive radi~vos). É beirinhos danificados recuperarem suas antigas condiç6es.45
de vital impol1ância um reforço da cooperação internacional nesSa Assim, os acidentes da Cidade do México, Bhopal, Tchernobil
ár'ea* e muitos organismos internacionais se ocuparam do assun~ e Basiléia - que ocorreram todos dentro do curto período de du­
to. 42 A OCDE está elaborando arualmente um acordo in!emacio­ ração desta Comissão - acabaram por despertar O interesse públi­
nal que deverá basear-se em três princípios relevantes: controles co pelos desMtres industrials. Demonstraram também a probabili­
igualmente regidos dos embarques para os países não-membros; dade de aumentos significativos na freqüência e magnitode dos
notificação prévia aos países de destinação e consentimento des­ acidentes industrials de conseqüências catastróficas.
tes, sejam membros oU não-membros; e uma garantia da existên­ Tals acidentes indicam a necessidade de fortalecer os conhe­
cia de meios adequados de deposição no país recebedor. O Pro­ cimentos nacionais e a estrutura para uma cooperação regional e
grama das Nações Unidas para o Meio Ambiente traçou amplas bilateral. Os governos locais e nacionais devem:
diretrizes, mas até agora não há qnaJquer mecanismo eficaz nem • supervisionar as operações industriais arriscadas, adotar e fazer
para monitorar nem para controlar o comércio e a deposição dos cumprir regulamentações ou diretrizeS relativas ao funcionamento
rejeitos perigosos43 Os governos e as organizações internacio­ IIOguro das fábricas e o transporte, manipulação e descarga de
nais devem apoiar de fonna mals atuante os esforços para criar a.leriais perigosos;

254 255
• adotar polfticas relativas ao uso da terra ou planos de desenvol" quando há políticas, leis e regulamentações sobre o meio am­
vimento regional que requeiram ou forneçam incentivos para que biente, elas podem não cstar sendo cumpridas dc forma sistemáti­
as indústrias com alto potencial de poluição e de acidentes se ca. Muitas nações em desenvolvimenk> começaram a reforçar sua
instalem longe dos centros populacionais, e que desestimulem as infra-eslrUtum educacional e científica, mas sua capacidade técni­
pessoas a se mudarem para peI1D das fábricas e dos locais onde ca e institucional para aproveitar ao máximo as tecnologias novas
são despejados rejeitos; ou importadas permanece limitada. Assim. alguns países conti­
• garantir não só que os Il'abalhadores sejam plenamente informa­ nuam a depender de conhecimentos técnicos e adminiSll'ativos de
dos sobre as tecnologias e os produtos com que lidam, mas tam­ fora para a manutenção das atividades industriais. Por falta de ca­
bém que estejam familíarizados com métodos operacionais segu­ pital, muitas vezes eles acham que uma nova indúslria não pode
ros e preparados para situações de emergência; ser criada sem a ajuda, os empréstimos comerciais e o investi­
• engajar os governos locais e os membros da comunidade nas mento direto externos ou sem uma joint venture com uma empresa
principais decisões sobre escolha de locais e planos de emergên­ transnacional.
cia. Tem-se assinalado a importAncia do Investlmenk> privado e o
Cada vez mais, as conseqüências dos acidentes podem afetar papel-chave das empresas Il'ansnacionais. (Ver capítulo 3.) É in­
seriamente os países vizinhos. As nações devem estabelecer acor­ concebível realizar uma transição bem-sucadida para o desenvol­
dos com as outras que podem ser seriamente afetadas por um aci­ vimento sustentável sem que se ajustem as políticas e as práticas
dente em instalações perigosas localizadas em seu território; me­ aos objetivos desse desenvolvimento. As agências externas que
diante tais acordos, elas concordariam em: apóiam e facilitam o investimento privado, sobretudo as organiza­
• informar umas às oull'as sobre a localização e as principais ca­ çõcs de crédito para exportação e de seguro de investimenk>s, de­
racterfsticas das instalações perigosas existentes, nas quais um veriam ·também incorporar critérios de desenvolvimento sustentá­
acidente poderia afetar as vidas, a propriedade e os ecossistemas vel em suas políticas e práticas.
de outro país; Os problemas dos governos dos países em desenvolvimento
• preparar planos de contingência que cubram OS possíveis aci­ são agravados pelas eXll'avagãncias do sistema econ6mico inter­
dentes em tais instalações; nacional, como altas dívidas. altas taxas de juros e relações de
• dar a1axme imedialo, informações completas e assistência ml1tua troca deterioradas no comércio de mercadorias. Diante disso, es­
em caso de acidentes; ses govemos~ muito pressionados, não encontram estímulo para
• estabelecer critérios para a seleção dos locais para novas insta­ dispender grandes somas de seus parcos recursos na proteção am­
lações perigosas, que elttar1am então sujeitas ao estabelecido aci­ bientai e na administração dos recursos naturais. (Ver capítulo 3.)
tna; Os próprios países em desenvolvimento acabarão tendo de su­
portar as conseqüências da industrialização inadequada; e cabe a
• fixar padrões para as responsabilidades e compensações por
quaisquet danos causados pela poluição além-fronteiras. cada governo a responsabilidade Ímal de assegurar a sustentabili­
Os acidentes industriais e suas conseqüências são em grande dade do seu desenvolvimento. Eles devem definir suas próprias
parte imprevisíveis. A ÍlOl de identificarem melhor os riscos, os metas ambientais e objetivos de desenvolvimento. e estabelecer
governos, as organizações internacionais e a própria indlistria de­ prioridades entre as diferentes demandas de seus escassos recur­
vem bus<:ar aperfeiçoar as metodologias de avaliação das tecnolo­ sos. Precisarão também buscar meios mais independen"'" de de­
gias e seus riscos, criar bancos de dados sobre essas avaliações e senvolvimenk> industrial e tecnológico. As opções são suas, mas
tomá-las mais acessíveis a todos os países. precisarão de toda a assistência - técnica, financeira e instituei",
nal - que a comunidade internacional puder reunir para ajudá-los
8.3.6. Fortalecimento das àções internacionais a fixar um rumo ecologicamente viável para o desenvolvimento,
para ~udar os pafses em desenvolvimento além de sustentável.
As grandes empresas industriais, em particular as Il'ansnacio­
As indústrias muito poluidoms e baseadas nos recursos estão nais, têm uma responsabilidade especial. Como possnidoms de
crescendo mais depressa nos países em desenvolvimento. Seus alta capacidade técnica, devem adotar os mais altos padrões pos.­
governos terão, portanto, de melhorar substancialmente seus co­ síveis de segurança e de proteção à salide, e se responsabilizar
nbecimenk>s de adminislmção ambiental e de recursos. Mesmo tanto pelo projeto industrial e segurança da fábrica quanto pelo

256 2"

treinamento de J>!'ssoal. As transnacionais deveriam também vis­ 3 Unido. lndustry in rilé 1980s; stroclural change and interdepeadence.

toria:r as çondiçÕCll ambientais e de segurança de suas fábricas e New York, 1985.

. compará-las com os padrões das subsidiárias, e nlio somente com 4 Ver, por exemplo: Leontief, W. W. TiIé impact of automation. Oxford,

Oxford Universily Press, 1986; Ouchin, F. Autom.tion and its effcets 00

os de OUtrnll companhias locais, que podem ter exigências menos
employment. In: Collings, E. &. Tanner, L.,.ed. EmpIoyment implicarians Df

rigorosas. Os resultados de tais vistorias devem ficar à disposiçlio th.e changíng industrial base. New York, Ballinget, 1984; Rada, J. TiIé im­

dos .8OvenlOS e OUtrnll partes interessadas. . pact ofmicroelectronic.s. Geneva, ILO, 1980; Wernei<e, O. Microelectro­
E necessário especial cuidado ao lidar com agentes químicos' nics and office jobs. Gcneva, ILO, 1983.

tóxicos e rejeitos perigosos, e ao fazer planos de contingência pa­ 5 Unido.lndustryand deve/Qpment; global repor! 1985. New Yor!<, 1985.

ra casos de acideote. Ao planejar novas instalações industriaL!;, 6 WHO. Urban air pol1ution /973-/980. Gcneva, 1984: World Resources

deve-se tentar conhecer os pontos de vista das organizações não­ Institute/lntemational lnstilute for Environment and Development. World

governamentais e da 'comunidade local. No tocante à tecnologia, r<solUCes /986. New York, Basic, 1986.

processo ou produto que está sendo introd\l2;ido, as autoridades 7 A ComiMáo das Nações Unidas para Empresas Transnacionaís tem tra­

comJ>!'tentes, locais e nacionais, devem estar inteiramente li par de balhado Dum código abrangente desde 1977, mas as seções sobre proteção

suas propriedades, efeitos potencialmente danosos e quaisquer ambiental e ao consumidor foram praticamente acordadas. Para outros

riscos possíveis para a comunidade. As informações necessárias exemplos, ver; FAO. Code of conduct in the distribution and use of pesti­

cides. Rome, 1985; Unep. Guidelínes on risk management and accídent

devem ser.reveladas aos habitantes das redondezas, em linguagem
prevention in lhe chemical industry. Adotadas em 1982; OECO. Declara­

dará e acessfvel. As empresas devem cooJ>!'raT com o governo lo­ tinn of OOCO member countries on intemational investrnenl and multína­

eaI e a comunidade nos· planos de contingência e na criaçlio de tinnal enterprise. 1976; OECO. Clarificatinn of lhe environmenlal concer­

mecanismos claramente definidos de assistência e CO!DJ>!'osaçlio os expressed in paragraph 2 of lhe general policies chapter of lhe OECO

para as vítimas qe poluição ou de. acidentes. auidetines for multinational enterprises. Paris, 1985.

Muitos países em desenvolvimento necessitam de infOrmaçÕCll li Ver, por exemplo: lotem.tional Chamber of COItlll1efCe. Environmental

sobre a natureza dos problemas ambientais e de recursos ligados à pidelines for world industry. Paris, 1976 (atualizado em 1981 e 1986);

inddstria. sobre os riscos associados a certos processos e produ­ HcDenic Marine Environment Protection Association. To save lhe soas,

tos, e sobre os pad:n5es e outras medidas para proteger a sadde e ~tion of a voluntary commítrnent. Alhens, 1982. Guidelines for lhe

assegurar a sustentabilidade do meio ambiente. Necessitam ·tam­ ~ of Hebnepa member vessels. Atbcos, 1982; US National Agri­

~al Chernicals Association. Guidelines in labeUing practices. for pesti­

bém de J>!'ssoas capacitadas para aplicar tais infonnaç<les às cir­
cide products in developing areas of lhe world. Washington, O.c., 1985.

cUDstAncias locais. Os sindicatos de trabalbadore. e as associa­
ções de comércio internacionais devem desenvolver programas "Unep; State oftilé environmenr 1982. Nairobi, 1982.

f() OECD. The impact of environmentaJ measures on lhe rale of econornic

esJ>!'ciais de treinamento sobre meio ambiente para os paí.... em
arowlh, rale of inll.tion. productivity and international lrade. Background

desenvolvimento e também divulgar, por meio de assembléias lo­ f/fIpers prepared for rhe InJematiollal Cotiference on Environment and

cais, as informações sobre controle da poluição, reduçlio dos re­ Bconomics vol./. Paris, 1984.

jeitos e planos preparados em caso de emergência. 11 US Oepartrnent of Commerxe. Piant and equipment expenditures by

business for pollution abatement. Survey ofCurrent Business. Feb. 1986.

1I Ministério Japonês de Indtlstria e Comércio Internacional. Dados com­

Notas anualmente para o Industrial Struetural Councll. Tóquio, 1970-86.
Econômica para a Europa, da ONU, compila e publica um
1 Como se verá mais adiante neste capItulo, a classificaçáo convencional tecnologias de pouco ou nenbum rejeito". Um departa­
das atividades econômicas em três setores - primmo (agricultura e núne­ Ministério do Meio Ambiente da França coleta e divulga
ração), secundário (manufatura) e .terciário (comércio e outros serviços) sobre as tecnologias e processos "limpos" (les rechniques
- tem se tornado cada vez mais ambígua. Algumas atividades econômicas
passam por lodos os três setores. Além disso, o setor de serviços começou in lhe /980•... cito
a ocupar sozinho um importante lugar nas economias industrializadas. DlumlIi:i, N. Intemational radeployment of poUution-intensive industrics
Neste capítulo, contudo, o termo uindt1strian será usado no sentido tradi­ of multínatinnal corporations.1986. (Elaborado pata •
cional, que incluí núneração e exploração de pedreiras, atividade manuf.­ "MAO.)
tureira, constrUção civil, eletricidade, gás e água. II()BCD. DevelopmenlS jn sreel malcíng capacity in non-OECD marker
2 Gall.Intemau"",al trade 1985-86. Genev., 1986. MCHIIY countTies. Paris, 1985.
258
17 Namiki, N. op. cíl.
do altamente diluídos, e isso resultou numa estimativa muito maior do total
18 Unido. lndustry in a changing _rM. New York, 1983.
de rejeitos perigesos para OS EUA dn que para os outros palses.

19 OECD. The ./ate ollhe environmem 1985. Paris, 1985.
37 Outras fontes mencionam cif"", que vão até 34 milhões de toneladas só

20 Indu,try experience with environmental preblem solving. Documento
para o Brasil, e 22 milhócs. 13,6 milhões para México e fodia, respecti­

básico preparadn para a Conferência da Indústria Mundial sobre Admi­
vamente. Ver: Leonard. H.J. Hazardous wastes: the crisis spreads. Natio~
nistração Ambiental, organizada pela Câmara Internacional de Comércio e
nal Development, Apr. 1986.
o Programa Ambiental da ONU. Versailles, 14-16 novo 1984.
38 Estimativas citadas em um documento do Secsetariado da OCDE. Pa­
21 Ibid.
ris, 1986.
22 Unep. The wor/d environntem 1972-1982. Nairobi, 1982.
39 Unep. Transfronder movemenls of hazardous wastes with regard to
23 Anikeev, V., diretor dn Depanamento sobre Meio Ambiente e Uso Ra­
developing countrics. Munich, 1984. (Elaborado para o Grupo de Trabalho
cional dos RecurSQs Naturais, Go'plan, durante uma visita em 12 de de­
de Especialistas sobre a Administração Ecologicamente Viável de Rejeitos
zembro de 1986, da CMMAD à sede do Gosplan, em Moscou.
Perigosos.)
24 Drucker, P.F. 'Ih. changed world economy. Forelgn AfJaiTJ, Spring
40 Yakowitz, H. op. cito
1986.
41 OCDE. Documentos básicos para a Conferência sobre Cooperação In­
25 Larson, E.D. et alii. Beyond lhe era of materials. Scienrific Am<!rican,
ternacional quanto à Circulação Além-fronteiras de Rejeitos Perigosos.
JUDe 1986.
Basiléia, Sulç., 26-27 mar. 19&5.
26 Drucker, P.F. op. cito
42 Ver: EEC. Supervision and control of transfrontier shipments of ha­
27 Para uma discussão das diversas possibilidades de aplicação industrial
zardous waste. Brusscls, Council Directive. Dec. 1984; OECD. Resolution
da biotecnologia, ver; Elkington, J. Double dividend.? US biorechrwlogy
ofthe Council C(85)lOO. Paris, June 1985.
and Third Wor/d developmenr. Washington, D.C., World Resouroes Insti­
43 Unep. Transfronder movemenls ... cito Ver também: Sucss, M.I. &
tute, 1986. (WRI Papers n. 2.)
Huismans, J.W., ed. Managementolhazardous waMe; po1icy guidelines and
28 O reilltório anual de 1986 da Agência Japonesa do Meio Ambiente ao
oode of practice. Copenhagon, WIiO, Regional Office for Eutope, 1983.
Parlamento trata amplamente do tema dos riscos e impactos potenciais so­
_ Conclusões preliminares de um estudo realizado para a Agência de
bre o meio ambiente provocados pelas novas tecnologias. Quality 01 rhe
eroteção Ambiental dos EUA. Acute hazardous data base. Washington,
environmem in fapan 1986. Tokyo, 1987.
iI>.c., 1985. Apnd: Yakowilz, H. op. cit;
29 O governo dos EUA anunciou recentemente uma ampla po1itica regu­
.4.5 Ver, por exemplo: La Suis.., 3-9 Nov. 1986: Di. Welr, 10 Nov. 1986;
Iat6ria com vistas a garantir a pesquisa e os produtos biotecnológicos. Ver:
Die uir, 14 Nov. 1986: Der Spiegel, 17 Nov. 1986: Internarional Hera/d
Coordinated framework for regulation of biotechnology. Federal Regigter,
·Tribune. 14-16 Nov. 1986.
26 June 1986.

30 Ver: OECD. Guiding principies conccrning intem.tional cconomic as­

pects of environmental policies. Paris, 26 May 1972. (Council Recommen­

dations C(72)128.)

31 OECD. Economic aspects of international chemicals controlo Paris.
1983.

32 Thc Conscrvation Foundation. Chemica1s policy in lhe global environ­

ment. 1986. (E1aborado para a CMMAD.)

33 National Research CouDeU. Toxicity testing. Washington, D.C., Natio­

nal Academy Press, 1984.

34 Ver: United Nations, comp. Consolidated list of pr<><lucts whose con­

sumplion and/or sale have been banned, withdrawn, severely rcstricted or

not approv<d by govemments. I. <d. rev. Diesa/WP/I, 1986.

35 Os exemplos mais notáveis incluem o Programa Internacional sobre
Segurança Qulmica (PNUMA/OMSIOIT). Registro Internacional dos
Agentes Qufrnicos Potencialmente Tóxicos (PNUMA), Agência Interna­
cional para a Pesquisa do Câncer (OMS) e ONU. (Consoüdated lisL .. cit.)
36 Yakowilz, H. Global aspects of hazaroous waste management. 1985,
(E1aborado para a CMMAD.); US Congress, Office of Technology As­
scssment. Superfund strategy. Washington, D.C .. US Govemment Printin.
omc., 1985. As estimativas dos EUA incluem os rejeitos em estado líqul­

260
9. O DESAFIO URBANO
Tabela 9.1

População resident;;- em áreas uroanas, 1950-2000

Região 1950 1985 2000

(%)
Na virada do século, quase metade do mundo estará vi",ndo em
áreas umanas - desde cidadezinhas até imensas megalópoles. 1 O Total mundial 29,2 41,0 46,6
sistema econômico mundial torna-se cada vez mais wbano, com Regiões mais desenvolVÍdas 53,8 71,5 74,4
redes justapostas de comunicações, de produção e de comércio. 2 Regiões menos desenvolvidas 17,0 31,2 39,3
Tal sistema, com seus fluxos de infonnações. energia, capital, África 15.7 29.7 39,0
comércio e pessoas, fornece a coluna dorsal do desenvolvimento América Latina 41,0 69,0 7611>
(América do Sul temperada) (64,8) (84,3) (88,6)
nacional. As perspectivas de uma cidade - grande ou pequena ­ (79,4)
(América do Sul tropical) (35,9) (70,4)
dependem essencialmente do lugar que ela ocupa no sistema ur­ 28,1 35,0
Ásia 16,4
bano, nacional e internacional. O mesmo se pode dizer do destino (11,0) (20,6) (25,1)
(China)
do interior, com suas atividades agrfcolas, florestais e de minera­ (Índia) (17,3) (25,5) (34,2)
ção, de que o sistema umano depende.
Em muitas nações, certos tipos de indtlstrias e de empresas de Milhões
serviços estão se desenvolvendo atualmente em áreas rurais. Mas
essas áreas estão recebendo serviços e infra-estnltura de alta qua­ Total mundial 734,2 1.982,8 2.853,6
lidade, com sistemas avançados de telecomunicações, que fazem mais desenvolvidas 447,3 838,8 949,9
com que suas atividades sejam parte integrante do sistema uma­ menos desenvolvidas 286,8 1.144,0 1.903,7
35,2 164,5 340,0
no-industrial nacional (e global). De fato. o interior estil sendo
t'urbanizado'~ . Latina 67,6 279;3 419,7
225,8 791,1 1.242.4

9.1 O CRFSCIMENTO DAS CIDADES _ _ _ Urban and rural population projections, 1984. New Yoik., Unlted
, KIuíons, Populatinn Divi.ion. (A valiação não oflCial.)
Nosso século é o da "revolução wbana". Nos 35 anos após 1950, h
o número de pessoas que vi",m nas cidades quase triplicou. tendo .;'A população de muitas das maiores cidades da África subsaa­
aumentado em 1,25 bilhão. Nas regiões mais desenvolvidas, a riIuIa aumentou mais de sele vezes entre 1950 e 1980 - entre elas,
população wbana quase dobrou. passando de 447 milhões para f(airóbi, Dar-es-Salaam, Nuakcholt, Lusaca, Lagos e Kinshasa. 4
838 milhões. No mundo menos desenvolvido, quadruplicou, au­ tabela 9.2.) Durante esses mesmos 30 anos, as populações
mentando de 286 milhões para 1,14 bilhão. (Ver tabela 9.1.) muitas cidades da Ásia e da América Latina (como Seul, Bag­
No penudo de apenas 60 anos, a população umana do mundo Daca, Amã, Bombaim. Jacarta, Cidade do México, Manilha,
em desenvolvimento aumentou 10 ",zes, passando de uns 100 hulo, Bogotá e Manágua) triplicaram ou quadruplicaram.
milhões para cerca de I bilhão em 1980. Ao mesmo tempo, sua cidades. a imigração liquida em geral tem contribuído
população rural mais do que dobrou. para esse quadru que o aumento natural da população dos
• Em 1940, apenas uma entre oito pessoas vivia em um centro ur­ decênios.
bano, ao passo que cerca de uma entre 100 vivia numa cidade muitos países em desenvolvimento, as cidades têm cresci-
com I milhão de habitantes ou mais ("cidade-milhão"). portanto, muito além do que jamais se poderia imaginar há
• Em 1960, de cinco pessoas, mais de uma vivia em um centro algumas décadas - e a um ritmo sem precedentes na histó­
urbano, e uma entre 16, numa ucidade-millião" box 9.1.) Mas alguns especialistas duvidam que as na­
• Em 1980. quase urna em três pessoas era um habitante wbano. desenvolvimento ",nham a urbanizar-se tão rapidamente
uma em 10 era um habitante de "cidade-milhão".3 tifBturo quanto nos I11timos 30-40 anos, ou que as megalópoles
262 263
Tabela 9.2
Exemplos de rápido aumento populacional em cidades do Box !l.I Como dominar as cidades
Terceiro Mundo
(em milhões) Nairóbi.. Qrdnin: em 1975, Nairóbi detinha 57% de todos os
empregos na atividade manufatureim do Quênia, e dois ter­
ços de suas indústrias. Em 1979, Nairóbi continha cerca de
Cidade 1950 Cifra mais Projeção da 5% da população nacional.
recente ONU para 2000 Manilha, Filipinas: a Manilha metropolitana produz um ter­
ço do PNB do paCs, manipula 70% de todas as importações
Cidade do Méxiçc 3,05 16,0 (1982) 26,3 e contém 60% das instalações de manufaturaS. Em 1981, a
SáoPaulo 2,7 12,6 (1980) 24,0 cidade continha cerca de 13% da população nacional.
Bombaim 3,0 (1951) 8,2 (1981) 16,0 Uma. Peru: a área metropolitana de Uma é responsável por
Jacarta 1,45 6,2 (1977) 12,8 43% do PIB, por quatro quintos do crédito bancário e da
Cairo 2,5 8,5 (1979) 13,2 produção de bens de consumo, e por mais de nove décimos
NovaDéIbi 1,4 (1951) 5,8 (1981) 13,3 da produção de bens de capital do Peru. Em 1981, abrigava
Manilha 1,78 5,5 (1980) 11,1 cerca de 27% dos peruanos.
Lagos 0,27 (1952) 4,0 (1980) 8,3 Lagos, Nigérin:' em 1978, a área metropolitana de Lagos
Bogotá 0,61 3,9 (1985) 9,6 negociava mais de 40% do comércio exterior do país, con­
Nairóbi 0,14 0,83 (1970) 5,3 tava com' 57% do valor adicionado total da atividade manu­
Dar-eo-SaIaam 0,15 (1960) 0,9 (1981) 4,6 fatureim e continha mais de 40% dos trabalhadores alta­
Grande Cartum 0,18 1,05 (1978) 4,1 mente qualificados da Nigéria. Contém apenas cerca de 5%
Amã 0,Q3 0,78(978) 1,5 da população do paCs.
Nuakchott 0,0058 0,25 (1982) 1,1 Cidade do México, Mé:xtco: em 1970, com cerca de 24%
Manaus 0,11 0,51 (1980) 1,1 dos mexicanos vivendo na capital, esta cidade continha 30%
Santa Cruz 0,059 0,26(1976) 1,0 dos empregos na atividade manufatureim. 28% dos empre­
gos no comér1::io. 38% dos empregos em serviços, 69% dos
FOIlle: os dados de recenseamentos recentes foram usados sempre que empregos públicos, 62% do investimento nacional em edu­
passlvel; caso contrário, usou-se wna estimativa feita pelo governo local cação superior e 80% das atividade. de pesquisa. Em 1965,
ou por um grupo de pesquisa local. A. pl'<ljeções da ONU para o ano 2000 continha 44% dos depósitos bancários do pIlis e 61% dos
são de: Department of lnternational Economic and Social Affairs. Esti­ créditos nacionais.
maleS anti projectioru l!f urban, rural tmd city populntions 1950-2025. Séio Paulo. Brasil: a Grande São Paulo, com cerca de um
ST/ESAlSER.Rl58. New York, 1985. (Avaliação de 1982.); e de: Uníted décimo da população do Brasil em 1980, contribufa com um
Nations. Urban. rural tmd c1ty populntioIl1950-2()()(). New York, 1980. quarto do produto nacional líquido e com mais de 40% do
(Populations studies D. 68; Avaliação de 1978.) Outros dados, com algu­ valor adicionado industrial do paCs.
mas cifras atualizadas por dados de recenseamentos mais recentes, provem
'de; Hardoy, J.E. & Satlertbwaite, D. Shelter: need and response, Chiehe.­ FOII"': Hardoy, I.E. & Sattertbwaite, D. Shelter, infrastructure and
ter, UK, lobo Wiley, 1981. services in Third World clties. HabitatlnternaMnal, 10(4),1986.

venham a crescer tanto quanto sugeregl as previsões das Nações
Unidas. Argumentam que muitos dos estúnuIos mais fortes à rápi­
da urbani.zaçJIo do passado não têm tanta influência hoje, e que se atoais, as cidades do Terceiro Mundo poderiam fazer au­
as políticas do governo mudassem poderia reduzir-se a atração em três quartos de I bilhão sua população por volta do
comparativa das cidades, em especial as grandes cidades, e assim Durante o mesmo período, a população das cidades do
desacelerar as taxas de urbanização. industrializado terá crescido em mais I I I milhões.6
A taxa de aumento populacional urbano nos paCses em desen­ previsões representam um grande desafio para os países
volvirD<:nto tem diminuído - de 5,2% ao ano em fins da década de "desenvolvimento. No espaçO de apenas 15 anos (ou cerca de
50 para 3,4% nos anos 80. 5 Espera-se que ela decline ainda mIÚI dias), o mundo em desenvolvimento terá de aumentar em
na.' próxi.mas décadas. Apesar disso, se se mantiverem as tend6n, a capacidade de produzir e administrar sua infra-estrotura,

264 265
Na maioria das cidades do Terceiro Mundo as pressões contí­
"DiaNe da distribuiçtio da renda, da disponibilidade previs(vel nuas por moradia e serviços desgastaram as edificações urbanas.
de recursos - nacionais, locais e do rnu.n<kJ inJelro - da tecnolo­ Muitas casas onde habitam pobres estáo em condições precárias.
gio atual, da atual debllidode das governos locais e da falta de É comum haver edifícios ptlblicos em franca decadência, neces­
inJeresse dos governos nacionais pelos problemas de assenta· sitando reformas. O mesmo acontece com a infra-estrutura essen­
mentos humanos, ndo vejo qua/qul!r soluçtio para as cidodes do cial da cidade; veículos coletivos superlotados e em mau estado
Terceiro Mundo.
Ar cidades do Terceiro Mundo sertió cada vez mais cenlros de de conservação, assim como estradas, ônibus e trens, estações de
competiçtio acirrada por um pedaço de terra onde se possa transportes, e banheiros e lavatórios ptlblicos. Com os vazamen­
COl'IIttrUir um abrigo. por um quarto para olugar. por um leito de tos nos sistemas de abastecimento de água, a baixa pressão d'água
hospital. por um lugar numa escoÚl ou num 6nihus. e sobretudo resultante faz com que os esgotos se infiltrem na água potável.
por uma vaga I'IIOS poucos empregos estdvels adequadameirte nt'. Uma grande parcela da popuIação das cidades muitas vezes não
munerodas. e mesmo pelo e$pOÇo numa praça ou calçada onde dispõe de água encanada, nem de sistemas de escoamento da água
se possa expor e vender mercadorias. atividade de que dependem das.chuvas, nem tampouco de estradas.7
tantas fomllias. Um mimem crescente de pobres nas áreas urbanas pndece de')
Os próprios pobres organizam e ajwdam a construir lIUlitos alta incidência de doenças, que provêm, em sua maioria, de mll.1
cios novos cOlliunJos hobitaclonals das cidades do Terceiro Mun· condições ambientais e que poderiam ser evitadas ou drastica- I
cio. e o fazem sem a asslstêncÚl de arquitetas. plonejadores e en·
genheiros, OU dos governos locais ou nacionais. AUm disso, em mente reduzidas mediante investimentos relativamente baixos. \
muitos casos OS governos locais e nacionais importunom bastante (Ver box 9.2,) Moléstias respiratórias agudas, tuberculose, para­
esf"s grupos. Os pr6prios cidodiíos esttio se tornanda, cada vez sitas intestinais e doenças vinculadas a um saneamento precário e
mais. os verdadeiros projetistas e construtores das cidades do à ingestllo de água contaminada (como diarréia, disenteria, hepa- \
Terceiro Mundo, e muitas vezes os adminlstradares de seus pró­ tite e irro) são em geIill endêmicas e uma das causas principais de
prios bairros." DW1bidade e morte, especia.l.tnente entre as crianças. Em certos
pontos de muitas cidades, uma em cada quatro crianças pobres
Jorge Hardoy certamente morrerá por subnutrição acentuada antes de completar
InslÍlUIIJ Internacional para () Melo Ambienze e () Desenvolvimento cinco anos, ou um entre dois adultos sofrerá de verminose ou de
Audiência pciblica da CMMAD, Silo Paulo, 28-29 de outubro de 1985 pve infecção respiratória.8 '
Pode-se supor que a poluição do ar e das águas seja menos
piGmente nas cidades do Terceiro Mundo devido aos baixos ní­
veis de desenvolvimento industrial. Mas na verdade centenas des·
sas cidades têm altas conceotrações de indllstrias. Os problemas
seus serviços e habilaç6es urbanos - só para manter as condições de poluição sonora, do ar, das águas e por dejetos sólidos au­
atuais. E em muitos países isso terá de se realizar num quadro de mentam rapidamente, c podem ter impactos dramáticos sobre a
grandes provações e incertezas econômicas, com recursos abaixo 'rida e a saúde dos habitantes das cidades, sua economia e seus
das crescentes necessidades e expectativas. empregos. Mesmo numa cidade relativamente pequena, basta que
Uma ou doas fábricas despejem resíduos no duico rio das redon­
9.1.1 A crise nas ddades do Terceiro Mundo dezas, para que se contaminem as águas que os habitantes da re­
gião usam para beber, lavar c 'cozinhar. Aglomerados miseráveis e
Poucos governos das cidades do mundo em desenvolvimento, cortiços proliferam perto de inddstrias poluidorns, uma vcz que
cujas populações crescem a um ritmo acelerado, dispõem de p0­ :- . . torras silo desprezadas pelos demais. Tal proximidade au­
deres, recursos e pessoal treinado para fornecer-lhes as terras, OI
serviços e os sistemas adequados a condições humanas de vida:
r-..rou os riscos para os pobres, fato demonstrado pelos grandes
,.frimentos e perdas de vidas hwnanas em diversos acidentes in·
água potável, saneamento, escolas e transportes. O resultado dil· ~recente •.
so é a proliferação de assentamentos ilegais de habitações tosc••, A expansão ffsiea descontrolada das cidades também teve sé· (
aglomerações excessivas e mortalidade desenfreada decorrente di implicações para a economia e o meio ambiente urbano. O (
um meio ambiente insalubre. deseníreado toma moradias, estradas, abasteci­
266 267
Box 9.2 Problemas ambientais nas cidades
I guem construções em uma área, toma-se difícil e dispendioso re­
criar espaços abertos.
. Em geraI, o crescimento urbano muitas vezes precede o esta­
do Terceiro Mundo belecimento de uma base econômica sólida e diversificada para
apoiar o incremento da infra-estrutura, habitação e emprego. Em
Das 3.119 vilas e cidades da índia, somente 209 tinham es­
gotos parciais e somente oito tinham uma rede completa de muitos lugares, os pmblemas estão ligados a padrões inadequados
esgotos e serviços de tratamento de esgotos. No rio Ganges de desenvolvimento industrial e à falta de coereneia entre ... es­
são despejados diariamente os esgotos sem trntamento das tratégias de desenvolvimento agrícola e urbano. O vínculo entre
114 cidades que ele banha, cada uma com SO mil habitantes as economias nacionais e os fatores econômicos internacionais foi
ou mais. As fábricas de DDT, curtume" fábricas de papel e trnlado na Parte I deste relatório. A crise econômica mundial dos
polpa, complexos petroqufmicos e de fertilizantes, fábricas anos 80 não redundou somente em menores rendas" maior desem~
de borracha e inúmeras outras indústrias lançam seus resí­ prego e na eliminação de muitos programas sociais. Ela também
duos no rio. O estuário de Hoogly (perto de Calcutá) está exacerbou a já baixa prioridade dada aos problemas urbanos, au­
entulhado dos resíduos industriais não-tratados de mais de mentando a deficiência crônica dos recursos necessários para
150 das grnndes indústrias dos arredores dessa cidade. Ses­
senta por eent<'l da população de Calcutá sofre de pneumo­ construir, manter e administrar áreas urbanas. 9
nia, bmnquile c outras doenças respiratórias associadas à
poluição do ar. 9.1.2 A situação nas ddades do mundo industrializado.
As indústrias chinesas, a maioria das quais utiliza carvão
em fomos e caldeiras antiquados~ se concentram em êerca O fato de a Comissão enfatizar a crise urbana nos países em de­
de 20 cidades e fazem com que o ar apresente um índice senvolvimento não significa que O que ocorre nas cidades do
elevado de poluição. A mortalidade por câncer de pulmão mundo industrializado não seja de importância crucial para o de­
nas cidades chinesas é quatro a sete vezes mais alta do que senvolvimento sustentável em âmbito global. Pelo contrário. Tais
no país como um todo, e a diferença é atribuída em grande cidades são responsáveis por uma grande pareela do uso de recur­
parte à forte poluição do ar. sos, consumo de energia e poluição ambiental do mundo. Muitas
Na Malafsia, o Vale de Klang (onde fica a capital. Cuala delas são de alcance global e obtêm seus recursos e sua energia
Lumput), altamente urbanizado, tem índices de poluição
duas a três vezes mais altos que oS das principais cidades de terras distantes, com fortes impactoS coletivos sobre os ecos­
dos EUA, e o sistema fluvial do rio KJang está altamente sistemas dessas telT8S,
contaminado por esgotos e emanações industriais e agríco­ Tampouco a ênfase sobre as cidades do Terceiro Mundo impli­
las. ca: a hipótese de que os problemas das cidades dos países indus­
·trializados nãa são sérios. Eles o são. Muitas delas enfrentam
F Qft/es: Centre for Seienee 000 Environment. SitUe of lndids eovi­ problemas de infra-estrutura deteriorada, degradação ambiental,
wnmenJ; a citizens' reporto New Delhi, 1983; SmiI, V. TIte bati ear­ decadência do centro urbano, descaracterização dos bairros. Os
Ih; environmental degradation in China. London, Zed PIe .., 1986; desempregados, os idosos e as minorias étnicas e raciais podem
Sahabat AIan MlIlaySÍll. TIte SfOIe of Malaysian envÍTonment /983·84 mergulhar numa espiral descendente de degradação e pohreza, à
-lO'WO.Ttis grea/l!r environmenJal Qlvareness. Penang, MaJaysia. 1983. medida que as oportunidades de emprego diminuem e os indiví­
duos mais jovens e mais instruídos vão abandonando os bairros
decadentes. Os governos municipais ou das cidades muitas vezes
enfrentam um legado de imóveis públicos mal-acabados e mal
conservados, custos cada vez mais elevados e hases tributárias
mento de água, esgotos e serviços pdblicos proibitivamen\e caros.
As cidades muitas vezes são construídas sobre as terras agrícolas declinantes.
Mas a maioria dos países industrializados tem os meios e os
mais produtivas, e o crescímento não-orientado resulta na perda
IIICUtSOS para combater a decadência dos centros urbanos e seu
desnecessária dessas terras. Tais perdas são mais graves nas na­
correspondente declínio econômico. De fato, muitos conseguiram
ções com áreas cultiváveis limitadas, como o Egito. O desenvol­
_rter essas tendências por meio de políticas lúcidas, da coope­
vimento a esmo também consome as terras e paisagens natural.
entre os setores público e privado, e de investimentos im­
necessárias para parques urbanos e áreas de lazer. Quando se OI'­
269
268
portantes em pessoal, instituições e inovações tecnológicas. 10 As
autoridades locais geralmente detêm o poder político e a credibi­
lidade para tomar iniciativas, fazer avaliações e empregar recur­ "As grandes cidades são par definição ambie[ltes centralizados,
sos de modos criativos que reflitam as- condições locais específi­ feitos pelo homem. e dependem basicamente de ali.mentos, água.
cas. Isso lhes dá capacidade para administrar, controlar, fazer ex­ energia e outros bens que vhn de fora. Já as cidades me".,res
periências e promover o desenvolvimento urbano. As economias podem ser o cerne do desenvolvimento de base comunitária. e
de planejamento centraliZado têm demonstrado uma significativa oferecem serviços à zona rural que as circunda.
capacidade de projetar e implementar programas. de desenvolvi­ Diante da importância das cidades. são necessdrios esforços e
lt'Ieio$ de preservação especiais para garanrir que os recJf."
. sos de
mento urbano. A prioridade aos bens coletivos e não ao COnsumo que necessitam. sejam produz/dqo' de forma sustentável, e que oS
individual também pode ter aumentado a disponibilidade de _ habitantes urbanos participem das decisões que afetam as suas
cursos para o desenvolvimento urbano. vidas. As áreas residenciai,.. tendem a ser mais habitáveis se fo­
Com o passar do tempo, o meio ffsico em várias cidades do rem governadas por bairro. com a participação local direta. Na
mundo industrialiZado melhorou substancialmente. Segundo os medida em que se puder obter energia e outros bens necessdrios
registros históricos de muitos dos principais centros urbanos "., próprio local, tanto a cidade quanto seus arredores ficarão
como Londres, Paris, Chicago, Moscou e Melbourne - há poUCO em melhor situação."
tempo, grande parte de sua população sofria desesperadamente os
efeitos de uma vioJio'lta poluição. As condiçôes melhoraram bas­
o desenvolvimento sustentável e como alcançá-lo
Global Tomorrow CoaIílion
tante durante o século passado, e essa tendência continua, embora Audiéncia p6blicada CMMAD, Ottawa, 26-27 de maio de 1986
variaodo de ritmo de cidade para cidade e dentro de cada uma.
A maioria das áreas urbanas dispõe de serviços de coleta de li­
xo para quase toda a população. A qualidade do ar em geral me­
lhorou, com o declínio da emissão de partículas e de óxidos de
enxofre. as esforços para recuperar a qualidade da água das ci­ de mdovias nas cidades e conseguiu que terrenos baldios fussem
dades·tiveram êxito apenas relativo, devido à poluição que vem convertidos em áreas de lazer.
-de fora, sobretudo por nitratos e outros fertilizantes e pragoicidas. Os problemas que aioda existem são graves, mas afetam áreas
Muitas áreas costeiras, porem, próximas dos grandes emissários .relativamente linútadas, o que toma muito mais fácil lidar com
de esgotos, apresentam deterioração considerável. Há uma pre0­ eles do que com os do Cairo ou da Cidade do México, por exem­
cupação crescente em relação aos poluentes químicos na água plo. Certos aspectos da decadência urbana cbegam mesmo a pos­
potável e aos impactos dos rejeitos tóxicos sobre a qualidade das sibilitar melhorias no meio ambiente. O êxodo das populações e
águas subterrãoeas. E a poluição sonora tende a aumentar. das atividades econÔmicas, embora crie graves dificuldades eco­
as veículos automotores influenciam muito as condições am­ nômicas e sociais, reduz a congestão urbana, propicia novos usos
bientais das cidades no mundo industrializado. Vários fatores aes prédios abandonados, protege os bairros urbanos históricos da
contribuíram para reduzir os impactos do trânsito urbano: a re­ ameaça de demolições e .reconstruções espcculatívas, e contribui
cente queda do ndmero de veículos em circulação, os padrões para a renovação urbana. A desindustrialização dessas cidades é
mais restritos de escapamento para os novos veículos, a distribui­ muitas Ve7.es contrabalançada pelo crescimento do setor de servi­
ção de gasolina que não contém chumbo, as melhorias no rendi­ que traz consigo seus próprios problemas. Mas essa tendên­
mento dos combustíveis, o aperfeiçoamento das políticas de ad­ ria oportunidades de remover as fontes de alta poluição in­
ministração do trânsito e o trabalho de paisagistas. 16strial das áreas residenciais e comerciais.
A opinião pública tem desempenhado um papel fundamental . combinação de teCnologia avançada, economias nacionais
nas campanhas para melhorar as condições urbanas. Em algumas fortes e uma infra-estrutura institucional desenvolvida confe­
cidades, a pressão popular fez com que se abandonassem projetos lI'elastícídade e fornece o potencial para uma renovação contínua
maciços de desenvolvimento urbano; promoveu sistemas habita­ . cidades no mundo industrializado. Havendo flexibilidade, es­
cionais em bases mais humanas, conteve a demolição de certos agir e espírito inovador por parte das lideranças locais,
ediffcios e bairros históricos, modiÍlCou a proposta de construções para os países industrializados se resume, em última
a uma questão de opção política e social. Para os países
270
271
em desenvolvimento, a situação é bem outra: eles estão a braços
com uma crise urbana de grandes proporções.
"Observamos que o bcodo para as zonas urbanas é inevÍldVf!!I:
M uma série de fatores 'de repulsdo' que atuam nas zonas ru­
9.2 O DESAFIO URBANO NOS PAÍSES
rais. A pluralizaçdo rural deriva da ausência de rtiforma agrd­
EM DESENVOLVIMENTO
ria, da aumento da absentel'smo, da deslocaml!nJo da Revolução
Verde.
Os assentamentos - a rede urbana das cidades, vilas e aldeias ­ Além dos faJores 'de repulsdo' dos zonas rurais, M natural­
mente OS falares 'de atraçdo' das cidades. o charme da Cidade
abrangem todos os aspectos do meio ambiente em que ocorrem as
Grande, os maiores saldrios das empregos urbanos em compara­
alterações sociais e econômicas das sociedades. Do ponto de vista
çdo com as passibilidades de renda rural. Foi assim q"" cresceu
intemacional~ as principais cidades do mundo constituem uma re­
o setor iriformal de Jacarta: dos 7 milhões de habitantes de Ja­
de para a alocação de investimentos e para a produção e venda de carta. talvez 3 ou 4 milhões dais terços pelo menos - .rejam o
,I muitos bens e serviços. Esses grandes centros são os primeiros a resultado do êxodo para as zonas urbanas. "
I
se conectarem nessa rede, através de seus portos e aeroportos e
seus serviços de telecomunicações. As novas tecnologias em geral George Adicondro
aparecem e são postas em prática primeiro nas grandes cidades, Diretor da Fundação [rum Jaya para o Desenvolvimento
I' depois nas pequenas. Somente se os grandes centros estiverem
finnemente conectados com essa rede é que poderão atrair inves­
da Comunidade Rural
Audiência pública da CMMAD, Jacarta. 26 de março de 1985 .
11
I timentos em tecnologias e bens manufaturados para os mercados
mundiais. Do ponto de vista nacional, as cidades são verdadeiras
1I incubadoras das atividades econômicas. Algumas empresas são de
grande escala, mas a grande maioria é de pequena escala, e faz de pelos governos e agências oficiais de ajuda seguiram a mesma ló­
I! tudo, desde vender refeições rápidas até consertar sapatos ou aica centralizadora dos investimentos privados, e construíram
construir casas. O crescimento dessas atividades é a base da eco­ sistemas de transporte, instituições educacionais, postos de saúde,
"
)1
nomia interna. -.viços e infra-estrutura urbana onde isto se fazia necessário _
1I
AlI cidade principal. A migração rural-urbana seguiu o mesmo pa­
9.2.1 Estratégias urbanas nacionais 4riIo. O motivo principal de tantas pessoas terem migrado nos úl­
11
II limos decênios para cidades COmo Nairóbi, Manilha, Lagos, Ci­
A evolução natural desse emaranhado de assentamentos~ no en­ dade do México, São Paulo, Rangum ou Porto Príncipe foi o pa_
tanto, causou preocupações na maioria dos países em desenvol­ pol preponderante que cada um desses centros passou a desempe­
vimento. Um motivo especial para isso tem sido o crescimento . . . na economia de seu país,
descomunal de uma ou mais cídades. Em certos países~ o desejo . As políticas macroeconômicas e de fixação de preços adotadas
de limitar esse crescimento levou à adoção de políticas relativas governos reforçaram ainda mais essa concentração. As
ao espaço urbano para acelel'a! o desenvolvimento de .centros se­ cidades, e muitas vezes a capital. em geral recebem uma
cundários. Por trás disso há uma preocupação particular com o lesproporcionalmente grande do total de gastos nacionais
fato de o crescimento desequilibrado estar acentuando as dispari­ lIí ensino e em subsídios para reduzir os preços de ágoa, eletrici­
dades inter-regionais e criando desequiHbrios econômicos e 00· . óleo diesel e transporte público. As taxas de frete ro­
dais que podem ter sérias conseqüências em tennos de unidade vezes favorecem as estradas que passam pela capital.
nacional e estabilidade polftica. fmpostoa de propriedade no centro e arredores da cidade po_
Embora longe de serem conclusivos, os dados disponíveis su­ alar defasados. As indústrias novas ou em expansão que fo­
gerem que a maioria das tentativas dos governos centrais para i Impulsionadas pelas políticas de substituição das importaçõcs
equilibrar o desenvolvimento do espaço urbano tem sido tão dis­ ~ !Itimuladas a se estabelecer na capital ou em seus arredo-
pendiosa quanto inefIcaz. As principais políticas macroeconômi­
cas. sociais e setoriais muitas vezes têm sido diametralmente políticas agrícolas e alimentares também tenderam a pro­
opostas à política de descentralização. Os investimentos apoiadol ·0 rápido crescimento das gr.mdes cidades. O pequeno ou
apoio econômico aos produtos agrícolas afastou os
272
273
pequenos proprietários de suas terrao- e aumentou o número de do de perderem o apoio de facções urbanas politicamente podero­
pobres nas zonas rurais. Muitos foram atraídos para as cidades sas. Assim, não consegoem deter a migração para as cidades nem
devido aos p,reços dos alimentos urbanos~ mais baixos por causa promover a segurança alimentar.
dos subsídios. Mas nos últimos anos alguns países em desenvol­
vimento viram que era possível começar a desviar mais receitas Tais considerações podem fornecer a base para a elaboração de
das grandes cidades para as zonas rurais e cidades menores. Em urna estratégia nacional explícita sobre assentamentos urbanos e
certos casos, as polfticas de promoção das pequénas propriedades de políticas que tragam soluções locais criativas e eficazes para
rurais e da agricultura intensiva tiveram esse efeito. O aumento da os problemas das cidades. Cada governo tem efetivamente essa
produção, o crescimento do emprego agrícola e as rendas médias estratégia, mas na maioria das vezes de forma implícita, em urna
mais altas estimularam o desenvolvimento de centros pequenos série de políticas macroeconômicas, fiscais, orçamentárias, ener­
e intennediários nas regides agrícolas que eles atendem. f2 géticas e agrícolas. Tais polfticas em geral foram Se incrementan­
do em resposta às pressões diárias, e quase sempre eram contra­
Podem-se extrair algumas lições importantes das estratégias ditórias, não só entre si como em relação às metas de assenta­
sobre espaço físico ligadas ao desenvolvimento urbano: mentos urbanos estabelecidas pelo governo. Urna estratégia urba­
• nada senão a coerção evitará o crescimento da cidade grande na nacional poderia propiciar Um conjunto explícito de metas e
nos primeiros estágios do desenvolvimento; priOridades para o desenvolvimento do sistema urbano de uma
• a chave de uma intervenção bem-sucedida é o fato de ser opor­ nação e de seus centros pequenos, médios e grandes. Tal estraté­
tuna, de modo a só estimular a desconcentração quando começa­
gia deve ir além do planejamento físico ou espacial. Requer que
rem a rarear as vantagens da concentração; os governos encarem a política urbana de forma bem mais ampla
• deve-se evitar a adoção de políticas que aumentem a atração da do que a têm tradicionalmente adotado.
eidade grande em especial os subsídios à energia e aos alimentos,
y

a provisão por demais generosa de infra-estrutura urbana e outros Havendo urna estratégia explícita, as nações podem começar a
serviços. e a excessiva concentração de poder adminislJ"ativo na reorientar as principais políticas econômicas e setoriais que
capital; atualmente contribuem para acentuar o crescimento das megaló­
• a melhor maneira de estimular o crescimento de centros secun­ poles, a decadência urbana e a pobreza. Do mesmo modo, podem
dários é aproveitar as vantagens econômicas naturais de suas re­ erornover melhor o desenvolvimento dos centros urbanos peque­
giões, especialmente em tennos de processamento e mercadologia nos e médios, o fortalecimento de seus governos locais, e o esta~
de recursos, com o fornecimento descentralizado de serviços pú­ ~Ieeimento dos serviços e instalações necessários para atrair in­
blicos; vestimentos e iniciativas com vistas ao desenvolvimento. Os Mi­
• os métodos e estratégias de desenvolvimento rural e urbano de­ !Ústérios do Planejamento, da Fazenda, da Indústria e da Agri­
vem ser complementares, e não contraditórios: o desenvolvimento C1iltura devem ter metas e critérios precisos para poderem avaliar
dos centros secundários visa ao benefício econômico direto das 011 efeitos de suas políticas e de seus gastos COm o desenvolvi­
áreas por eles servidas. llJento· urbano. Políticas e programas contraditórios podem ser
~ficados. No mínimo, podem-se estudar os desvios, em tenuos
As oportunidades de emprego e facilidades de moradia propor­ de espaço físico inerentes às políticas fiscais e macroeconônúcas,
9

cionadas pelas cidades são essenciais para absorver o aumento lI9S orçamentos anuais, às estruturas de preços e aos planos de in­
populacional com o qual o campo não pode conviver; desde que YOStimento setorial. Com essa estratégia, os instrumentos tradi­
não haja interferêncía dos controles de preços e dos subsídios, o ~ci,Qnais da política urbana, inclusive o planejamento e o controle
rnerçado urbano deve oferecer vantagens aos produtores rurais. l~,uso da terra, teriam maior chance de ser eficazes.
Mas é claro que há conflitos entre os habitantes das cidades e os
agricultores dos países em desenvolvimento. A mola mestra da I 'A responsabilidade de formular tal estratégia sem dúvida cabe
discussão sobre segoraoça alimentar (ver capítulo 5) foi asseverar .,""mo central. Acima de tudo, no entanto, o papel dos go­
a importância de voltar decididamente as "relações de troca" a centrais deve ser essencíabnente O de dar aos governos 10­
favor dos agricultores, em especial os pequenos, mediante políti­ mais possibilidades para encontrar e pôr em prática soluções
cas cambiais e de fixação de preços. Muitos países em desenvol­ jIIcazes para os problemas urbanos locais, bem corno de estimular
vimento não estão implementando tais políticas, em parte por me­ toportunidades locais.

274
9.2.2 FortaJedmento du autoridades locais "Uma alta percemagem de jovens. e mesmo de adulto.... nos pàl­
se... do Terceiro Mundo, e...t4 de...e mpregada. Queremos tecnolo­
As estruturas legais e institucionais do governo local na maioria gia. simples em que uma SÓ pessoa possa exercer um tipo de em­
dos países em desenvolvimento são inadequadas a esses propósi­ prego capoz de oferecer oportunidades de emprego para cenJ:e­
tos. Na maioria das nações asiáticas e africanas, a estrutura do nas de outras. Que estamos fazendo com o potencial excedente
governo urbano remonta aO penodo colonial: destinava-se a lidar de energia? Por isso torno a dizer que o desenvolvimenJ:O são as
com sociedades predominantemente rurais e agrícolas. Nunca es­ pessoas, e não a alta tecnologia. nem a I7'1CJdernização, nem a
teve voltada para o problema da rápida urbanização nem para a ocide1Jlalização. Mas deveria ser adequndo do ponto de vista
administração de cidades com muitos milhões de habitantes. Os cultural. "
governos das nilçóes que se tomaram independentes recen'temente lan Selcgo
herdaram uma estrutura de leis e de procedimentos totalmente Warld Vision Intemali(JooI
inadequados para ttatar dos processos urbanos que teriam de en­ Audiência pública da CMMAD, Nairóbi, 23 de setembro de 1986
frentar mais cedo ou mais tarde. Apesar disso, em muitas nações
essa estrutura herdada permanece ainda, em grande parte.
Nos lugares onde 'Ü passado colonial imediato é menos evi­
dente, como na maioria dos países latino-americanos, as estrutu­ a fun de ampliar serviçós e recursos. Mesmo os governos de cida­
ras legal, institucional e política do governo local são muitas ve­ des mais ricas têm acesso apenas ao equivalente a US$10-50 por
zes igtlaimente inadequadas. Em sua maioria, assim como na Ásia babitante ao ano. para investimento. Apesar dessas deficiências, a
e na África, baseiam-se em modelos importados da Europa ou da tendência nos óltirnos decênios tem sido no sentido de os gover­
América do Norte. Isso faz com que essas nações tenham dificul­ ll<IS nacionais reduzirem a capacidade Ímanceira dos governos 10­
dades para influenciar o rumo da urbanização e administrar os eais em tennos reais.
problemas dos grandes centros urbanos em rápida expansão. As­ Disso resulta uma crescente centralização e deficiências cons­
sim. criararn-se cidades que consomem. muita energia e matéria­ tantes tanto em nível central quanto local. Em vez de fazerem
prima. e que dependem da,s importações, o que aumentou o ônuS bem algumas coisas, as autoridades centnús acabam fazendo mal
sobre a economia nacional, inclusive devido às pressões sobre o coisas demais. Os recursos humanos e financeíros têm de ser esti­
comércio exterior e o balanço de pagamentos. cados ao máximo. Os governos locais não recebem a autoridade,
O desenvolvimento urbano não pode se basear em esquetnlls apecialização e credibilidade necessárias para lidarem com os
padronizados, importados ou não. As possibilidades de desenvol­ problemas locais. '
vimento são particulares a cada cidade e devem ser avaliadas no Paru se tomarem agentes-chave do desenvolvimento, os gover­
limbito de sua própria região. O que funciona numa cidade pode _ das cidades precisam de maior capacidade política. financeira
ser totalmente inadequado em outra. Embora possa baver necessi­ • institucional, e sobretudo de acesso a uma parcela maior da ri­
dade de ajuda técnica por parte de agências centnús, somente um queza gerada na cidade. Somente desse modo as cidades poderão
governo local forte pode garantir que as necessidades, os hábitos. ldaptar e desenvolver uma parte da vasta gama dos instrumentos
as formas urbanas, as prioridades sociais e as condições ambien­ disponíveis para ttatar dos problemas urbanos - instrumentos co­
tais da área se reflitam nos plaI\os locais de desenvolvimento ur­ o registro de propriedade de terras, o controle do uso da terra
bano. Mas as autoridades locais não têm recebido o poder políti­ , distribuição de impostos.
co, a capacidade de tomar decisões e o acesso à receita necessá­
rios para executarem suas funções. Isso leva à frustração, à crítica Autonomia e envolvimento das cidadãos
constante aos governos locais pela deficiência ou ineficiência dos
serviços, e a uma espiral descendente de fracasso sobre fracasso. ,.maioria dos países em desenvolvimento, de 25 a 50% da pc­
A falta de acesso político a uma base fmanceira adequada é urbana economicamente ativa não conseguem encontrar
wna das principais fraquezas dos governos locais em muitos paC­ vida estáveis e adequados. Como há poucos empregados
seS em desenvolvimento. A maioria desses governos tem dificul­ lOIIÍvels nas fJ.rmas privadas ou no serviço público. as pessoas
dades de obter receita suficiente para cobrir suas despesas opera­ buscar ou criar suas próprias fontes de renda. Esses esfor­
cionais. sem falar nas dificuldades para fazer novos investimentol
277
276
ços resUltaram no rápido crescimento do que se convencionou Tais medidas também reforçariam a auto-suficiência e a in­
chamar "setor informal", que fornece grande parte dos bens e fluência local dos pobres em suas próprias associações de bairro.
serviços baratos essenciais para as economi8$, os negócios e os Por iniciativa e com recursos próprios, os pobres de muitas cida­
consumidores das cidades. des do Terceiro Mundo se organizaram e preencberam lacunas
Assim, embora muitas pessoas pobres possam não estar ofi­ nos serviços. deixadas pelo governo local. Entre outros pontos, os
cialmente empregadas, a maioria está trabalhando - em fábricas grupos comunitários se mobilizam e organizam O levantamento de
ou Ímnas de construção não-registradas, vendendo mercadorias ftmdos ou meios de ajnda mlltua para lidar com os problemas de
pelas ruas, confeccionando roupas em suas casas, ou ainda como saúde, meio ambiente e segurança específicos da área.
serventes ou guardas nos bairros ricos. A maioria dos chamados Os governos devem abandonar uma posição de neutralidade ou
desempregados está trabalhando de fato lO a 15 horas por dia, antagonismo e passar a dar apoio ativo a tais esforços. Alguns já
seis a sete dias por semana. Seu problema não é tanto de subem­ institucionalizaram de fato esses programas, de modo a fazer com
prego, mas de baixa remuneração. . que agências e ministérios públicos trabalhem continuamente com
Grande parte da construção, reforma e ampliação de casas nas as organizações comunitárias. Na cidade indiana de Hiderabade,
cidades dos países em desenvolvimento é feita fora dos planos por exemplo, o Departamento Comunitário de Desenvolvimenlo
oficiais e geralmente em assentamentos ilegais. Este processo mo­ Utbano, instituído pelas autoridades municipais, trabalha direta­
biliza recursos inexplorados, contribui para a formação de capital mente com grupos comunitários e organizações não-governamen­
tais nos bairros mais pobres. Em 1983, os residentes em áreas de
e estimula o emprego. Esses criadores do setor informal repre­
baixa renda criaram 223 organizações, mais 135 associações de
sentam uma fonte importante de emprego urbano, sobretudo para
jovens e 99 grupos de mulheres. \3 Assim. os governos podem se
a mão-de-obra barata e não-qualificada. Eles não são capital-in­
tornar parceiros e patrocinadores das pessoas que são a estrutura
tensivos, não exigem muita tecnologia nem dispendem muita
energia. e em geral não drenam divisas. A seu modo, dão sua par­ humana principal de suas cidades.
cela de contribuição para atingir alguns dos principais objetivos
de desenvolvimento do pais. Além disso, são flexíveis ao supri­ 9.2.4 Habitação e serviços para os pobres
rem as necessidades de demandas locais, satisfazendo em parti­
cular às famílias mais pobres, que em geral não têm a quem recor­ Em várias cidades do mundo em desenvolvimento, existem pou­
rer. Muitos governos já começaram a perceber que é mais sábio aos habitações de baixo custo. Em gerai as pessoas de baixa renda
tolerar seu trabalho que o reprimir. A intimidação em grande es­ .ou alugam quartos - seja em casas de cômodos Ou pensões, seja
cala das comunidade.. de posseiros agora é mais rara, embora ain­ . . casa ou no barraco de outra pessoa - ou então constroem ou
da aconteça. çampram uma casa ou barraco em terreno de ocupação ilegal. Há
Os governos devem apoiar mais o setor informal, reconhecen­ diversos tipos de gradações de ilegalidade, e isso influencia o
do suas funções vitais no desenvolvimento urbano. Alguns fize· grau: de toleráncia dos governos para com a existência de tais
ram isso, facilitando empréstimos e crédito para pequenos empre­ ocupações, ou mesmo o suprimento de recufllOS e de serviços pú­
sários, criando cooperativas e valorizando as associações de bair­ -ltlicos.
ros. Dar titulo de posse aos que ocupam terrenos ilegalmente é Seja de que tipo for, as acomodações de baixa renda em geral
básico nesse processo, assim comO facilitar algumas regulamenta­ ,apresentam três caracteristicas. Primeiro, seus serviços e infra-es­
ções sobre construção e moradia. ,Inltum são inadequados ou inexistentes - inclusive em matéria de
As agênCias bilaterais e multilaterais de assistência ao desen­ _SOIm;, água encanada e outros meios higiênicos de eliminar de­
volvimento devem seguir esse exemplo. e algumas já o fazem. ,jetos humanos. Segundo, as pessoas vivem amontoadas e com­
Organizações voluntárias não-governamentais e privadas estão 'JIri!nidas. o que pode provocar a propagação de doenças conta­
surgindo em muitos países para o fornecimento de canais de as­ ..posas. sobretudo quando há baixa de resistência devido à subnu­
sistência eficazes em tennOS de custos, com a garantia de que essa triçlio. Terceiro, as pessoas pobres geralmente constroem em ter­
assistência chegue aos que podem aproveitá-Ia. Uma parcela lMIDOlI inapropriados para moradia humana: terrenos pantanosos,
muito maior poderia ser canalizada diretamente por meio dessas jIIIIertos arenosos, morros sujeitos a desmoronamentos, ou áreas
organizações. jtr6ximas a indolstrias poluidoras. Escolhem esses locais por serem

278 279
• garantir a disponibilidade da terra e de outros recursos de que
as pessoas necessitam para construir ou melhorar sua moradia;
"As favelas descobriram sua própria técnica, seus próprios re­ • suprir de infra-estrutura e serviços as novas zonas habitacionais
cursos, sem qualquer assistl!ncía de quem quer que seja, e resol­
veram seus problemas habitacionais. O verdadeiro problema não e as já existentes;
é esse. É a pobreza, a falta de púJnejamento, a falta de assistên­ • instalar escritórios nos bairros para aconselhamento e assistên­
cia técnica, a falta de financiamento pora ctJm{?rar mmeriais de cia técnica sobre a maneira melhor e mais econômica de construir
construÇão, afalta de equipamento urbano. . Uma casa, e sobre como melhorar as condições de saúde e higie­
Para mudar a polftica hábitacional de assenramentos huma­ ne;
nos, dever~se-ia estinwlar a construção por inicfativa própria, • planejar e orientar a expansão fisica da cidade, de modo a ante­
em vez de financiar esses enormes conjuntos habitacionais. Seria cipar e poder suprir a necessidade de terreno para novos conjun­
muito melhor e custaria muito menos ajudar as pessoas a cons~ tos habitacionais, para cultivo, ou para a construção de parques e
rru{rem sua própria moradia. áreas de lazer para crianças;
De modo geral, porece evidente que, se não forem satisfeitas
• considerar de que modo a ação governamental poderia melhorar
as necessidades básicas do ser humano, a preocupação com o
meio ambiente tem de ficar em segundo plano. O hamem precisa as condições dos proprietários e dos que se alojam em quartos ba­
primeiro sobreviver. atender e corresponder a suas necessidades tatos ou casas de cômodos;
básicas de sobrevivência - alimentação. moradia, saneamento ­ • modificar os sistemas financeiros habitacionais, a fun de abrir
e depois cuido.r do meia ambiente." possibilidade de empréstimos de baixo custo para grupos comu­
nitários c de renda mais baixa.
Walter Pinto Costa A maioria das cidades necessita com urgência que se aumente
Presidente da Associação de Saneamemo Ambiental ampla e continuamente a disponibílidade de locais para habita­
Audlência pública da CMMAD, São Paulo, 28-29 de outubro de 1985 ções baratas perto dos principais centros de emprego. Somente o
governo pode consegoir isso, mas para tanto não há prescrições
gerais. As sociedades diferem sobremaneira no modo de encarar
os direitos de propriedade privada e de uso da terra, de usar dife­
terras de baixo valor comercial, e, portanto. ser menor o risco de rentes instrumentos tais como doações diretas, eliminação de dí­
expulsão. vidas tributárias ou dedução de juros sobre hipotecas, e de tratar a
As estruturas de propriedade de terras e a incapacidade ou a especulação fundiária, a corrupção e outras atividades indesejá­
má vontade dos governos para nelas intervir são talvez os fatores veis que em geral acompanham processos desse tipo. Embora os
que mais contribuem para os assentamentos '4ilegais" e o a]astra~ meios sejam peculiares a cada nação, o fim deve ser o mesmo: a
menta urbano caótico. Quando a metade ou mais da força de tra­ garantia, por parte dos governos, de que há opções legais, mais
balho de urna cidade não tem qualquer chance de obter legal­ bem situadas·e com melbores serviços, para os lotes de terreno
mente um pedaço de terra onde construir uma casa. ou sequer de ilegais. Se esSa necessidade não for satisfeita, o crescimento caó­
comprar ou alugar uma casa legalmente. o equiUbrio entre os di­ tico das cidades - e os altos custos daí decorrentes - não terá fim,
reitos de propriedade privada e o bem público deve ser rapida­ Além da terra, os materiais de construção são outro fator de
mente repensado. alto custo para a edificação de moradias. O apoio do governo pa_
Diante das tendências de urbanização na maioria dos pafses em ra a produção de todo tipo de material, inclusive certos compo­
desenvolvimento, não há tempo para esperar por programas lentos nentes de estrutura. como ferragens e encaixes, poderia reduzir os
e incertos. A intervenção do governo deve ser reorientada de mo­ custos habitacionais e criar muitos empregos. As pequenas lojas
do a que os recursos limitados sejam aproveitados ao máximo em de materiais dos hairros em geral trazem vantagens em termos de
prol da melhoria das condições habitacionais dos pobres. São economia, devido ao baixo custo do transporte da loja ao local
muitas as opções de intervenção (ver box 9.3), mas os governos das obras.
devem se orientar por estas sete propriedades: Os códigos e padrões de construção. em sua maioria, são igno­
• dar posse legal de imóveis aos que vivem em assentamentos rados, porque segar-los significa edificar prédios excessivamente
"ilegaiS", com tftolos garantidos e serviços básicos fornecidos 'OIU'OS para a maioria das pessoas. Um método mais eficaz seria
pelas autoridades públicas; lialltalar nos bairros cscritórios para dar aconselhamento t6cnico

280
Muitas pessoas pobres alugam moram.; e metade ou mais de
Box 9.3 Três maneiras de usar US$20 milhões toda a população de uma cidade pode ser constituída de inquili­
para melhorar as c:ondjçóes de uma ddade de nos. Para quem precisa morar de aluguel, faz pouca diferença que
1 milhão de habitaote. haja mais disponibilidade de áreas para construir, de materiais. e
crédito. Uma possibilidade seria dar apoio financeiro a organiza­
ções não-govemarnentais e não-lucrativas para a compra e melho­
Opçliol: ria de imóveis especificamente com fins de aluguel. Outra seria
Construir 2 mil unidades habitacionais pdblic8s para famí­
lias pobres (com uma média de seis pessoas), cada uma ao dar apoio financeiro para os locatários se associarem aos pr0­
preço de US$IO mil. Há melhoria de condições para 12 mil prietários e converterem a posse do imóvel em uma propriédade
pessoas, mas a recuperação do custo possível para as famí­ cooperativa.
lias pobres é pequena. Se· a população da cidade awnentM Os governos, sobretudo quando carentes de recursos, podem
5% ao ano, em mais de 10 anos haverá 630 mil novos habi­ argumentar que o abastecimento de água encanada e os sistemas
tantes, de modo que apena.. uma fração mínima da popula­ de esgotos são por demais dispendiosos. Em conseqüência, os
ção total será beneficiada. pobres podem ter de pagar muito mais por litro d'água de canú­
nhões-pipa do que o preço pago pelos grupos de renda média ou
Opçlio2: mais alta pelo serviço pl1blico de água encanada em suas casas.
Criar um "sístema de assentamentos..com-serviços". pelo Os sistemas ocidentais de esgotos carregados pelas águas e usinas
qual as famílias pobres ficam responsáveis pela construção
de suas casas em um local estipulado abastecido de água en­ de tratamento podem sair a um preço proibitivo. Mas outras técni­
canada, ligado a um sistema de esgotos, e com serviços de cas e sistemas custam entre um décimo a um vigésimo desse preço
eletricidade, estradas e drenagem. Ao preço de US$2 mil por famfiia, e a maioria deles utiliza muito menos água. Além dis­
por lote, isso significa moradia para umas 60 mil pessoas ­ so, a tecnologia de baixo custo pode ser melhorada com O tempo.
cerca de 10% do awnento populacional da cidade em 10 à medida que os recursos se tomem disponfveis.l 4
anos. As principais melhorias podem se tomar relativamente mais
baratas em todas essas áreas. Mas os custos só pernlanecerão hai­
Opçlio3: xos se for estimulada a participação plena dos grupos de baixa
Alocar US$IOO mil para uma organização de bairro que re­ renda no sentido de definir suas necessidades, decidir como po­
presente I mil famílias pobres (6 mil pessoas) num assenta­
mento de baixa renda já existeote. O objetivo é melhorar as dem contribuir para os novos serviços c fazer o trabalho com suas
estradas e os serviços de drenagem, construir uma clínica próprias mãos. Essa cooperação depende de que se estabeleça um
médica, criar uma cooperativa para produzir materiais e povo relacionamento entre os cidadãos e o guverno, como já dis­
componentes de construção a baixo custo, e reestruturar o semos.
conjunto, para melhorar o acesso às estradas e obter 50 n0­
vos lotes. São suficientes US$IO milhões para custear 100 9.Z.5 O maior aproveitamenlo dos recursos
dessas iniciativas comunitárias, que beneÍtciam 600 mil pes­
soas e proporcionam 5 mil novos lotes residenciais. Isso es­ Os recursos disponíveis nas cidades e arredores são muitas vezes
timula muitos novos empregus. Os restantes US$1O milhões subutilizados. Muitos proprietários de terras não cultivam certos
são utilizados nas instalações de água encanada; a US$lOO locais bem situados a fim de se beneficiarem mais tarde com sua
por fanúlia, são beneficiadas todas as 600 mil pessoas. valoriZação à medida que a cidade cresce. Muitas agências pl1bli­
cas dispõem de terrenos que poderiam ser mais bem aproveitados,
como as áreas próximas a estações de trens e portos, controladas
pelas autoridades portuárias e ferroviárias . Vários países criaram
programas especiais para estimular a cooperação pl1blica e priva­
no sentido de melhorar as condições de saúde e segurança com o da no aproveitamento desses terrenos, uma iniciativa que deve ser
minimo de custos. Um bom aconselhamento profissional pode encorajada. Há uma necessidade geral de encontrar meios inova­
baixar os custos e melhorar a qualidade, e seria mais eficaz do IIores e eficazes para utilizar a8 terras disponíveis com vistas ao
que prescrever o que se pode e não se pode construir. bem comum. Muitas cidades têm mecanismos para a aquisição de
282 283
empregos. A agricultura urbana também pode fornecer produtos
"Sou especialista em cortiços. Estamos criando uma associoçoo mais frescos e mais baratos, propiciar mais áreas verdes, a elimi­
pequena. diminuta. para. tentar organizar os moradores de corti­ nação dos depósitos de lixo e a reciclagem dos resíduos domésti­
ços. já que existem tantos. Vemos cortiços nas cidm:les, nas al­ cos.l 5
deias. nasflorestas. Outros recursos pouco utilizados são os resíduos sólidos, cuja
Trabalhei durante quatro anos para motivar meus companhei­ eIíminação tem sido bastante problemática em muitas cidades;
ros moradores de cortiços a se tornarem trQllSmigrantes. e fi­ grande parte desse Iíxo ou não é coletada ou é despejada em de­
naimente eles migraram para uma dúzia de lugares por toda a p6sitos. A recuperação, reutilização ou reciclagem dos materiais
Indonésia. Eles aindo se comunicam bastarJ.te comigo. Ainda me
mandam cartas, afirmando que a vida ndo mellwrou nas áreas podem reduzir o problema dos resíduos sólidos, estimular o em­
de tmnsmigroçoo. Viver na obscuridm:le dos cortiços urlxuws ou prego e resultar em poupança de matéria-prima. O adubo com­
viver na obscuridm:le dos áreas de transmigraçêlo é exatamente a posto pode ser útil à agricultura urbana, Se um governo municipal
me.mta coisa. não dispõe de recursos para coletar regulannente o lixo domésti­
Quando eu voltar para. minha gente, os moradores de corti­ co, ele pode dar apoio aos sistemas comunitários existentes, Bm
ços. à noite eles me perguntarãn o que consegui dessa reunioo muitas cidades, literalmente milhares de pessoas ganham a vida
no hotel de luxo. Eles ndo pedirãn informações, pergunrarãn com gratificações municipais para coletarem o fixo manualmente.
apenas 'você trouxe algum dinheiro para construimibs novas ca­ Investir numa usina de reciclagem automática e mais capital-in­
sas?'" . tensiva seria duplamente contraprodutivo,. caso ela consumisse
Syamsuddin Nainggolan desnecessariamente um capital já escasso ou destruísse o meio de
Fundador do Yayasan Panca Bakti vida de muita gente. Mas a necessidade imediata, no caso, é dar
Audiência p~blica da CMMAD, Jacarta, 26 de março de 1985 noções de higiene e saúde e fornecer serviços de atendimento
médico às pessoas que se sustentam com gratificações munici­
pais. 16

!erras e taxas de mercado (o que significa que os sistemas nunca 9.3 COOPERAÇÃO INTERNACIONAL
são implementados) ou então a taxas confiscatórias arbitraria­
mente baixa.. (e também nesse caso a aliança entre as forças polí­ A vida no futuro será predominantemente urbana e as preocupa­
ticas e os proprietários bloqueia a aquisição). ções ambientais mais imediatas da maioria das pessoas estarão
Os govemos também deveriam considerar o apoio à agricultura re/acionadas com o meio urbano. A eficácia dos esforços para
urbana. Isso pode ser menos relevante nas cidades, onde os mer­ melhorar a vida urbana depende muito da higídez das economias
cados de terras são altamente comercializados e há pouca oferta nacionais. Para muitos países em desenvolvimento, isso está es­
de lotes para fins residenciais. Mas há um grande potencial em treitamente ligado ao estado da economia mundial. A melhoria
muitas cidades, em especial aquelas cujos mercados de terras são das relações econômicas internacionais (ver capítulo 3) seria tal­
menos comercializados. Muitas cidades africanas já se deram ""z o mais proveitoso para aumentar a capacidade de os países
conta dissn. A agricultura urbana, espacialmente na periferia das em desenvolvimento lidarem com seus problemas ambientais e ao
cidades, é praticada como um meio de auto-sustento, Em outros mesmo tempo urbanos. Mas além disso é necessário fortalecer a
casos, O processo é mais comercializado, e há empresas especiali~ cooperação entre os países em desenvolvimento e ampliar os di­
zadas na produção de legumes para venda na cidade. VIm!OS tipos de ajuda direta por parte da comunidade internacio­
Uma agricultura urbana sancionada e promovida oficialmente nal.
poderia tomar-se um componente importante do desenvolvimento
urbano e tomar os alimentos mais acessíveis aos pobres das zonas '.3.1 Cooperaçlio entre os paf_ em desenvolvimento
urbanas. Os propósitos principais de tal promoção seriam melho­
rar os padrões de saúde e alimentação dos pobres. ajudar seus or­ Os países em desenvolvimento, unidos, podem fazer muito pela
çamentos familiares (dos quais 50-70% são em geral gastos com Clriação dos conceitos, programas e instituições necessários para
comida), capacitá-los a ganhar alguma renda adicional, e criar oombater a crise urbana que todos eles enfrentam. Embora oS
284 285
problemas de Caracas, Dacar ou Nova Délhi sejam diferentes dos
de Londres ou Paris, as cidades da América Latina, da África Box 9.4 A falia de compreensão das necessidades

Ocidental ou da Ásia Meridional têm muito em comum. Na medi­ das mulheres nos projetos habitacionais

da em que formulam estratégias urbanas nacionais amplas, é im­
pottante que compartilhem experiências sobre a administração de Os projetos habitacionais muitas vezes são concebidos de tal
suas crescentes megal6poles, o desenvolvimento de centros pe­ forma que não pennitem que as mulheres trabalhem em casa
quenos ou médios, o fortalecimento do governo.· local, a melhoria e ao mesmo tempo cuidem de seus filhos e dos filhos dos
dos assentamentos ilegais. as medidas de reação à crise, e uma sé­ vizinhos. Esses projetos, assim COmo o tamanho dos lotes de
rie de outros problemas peculiares ao Terceiro Mundo. terreno, quase nunca levam em conta o fato de que muitas
O aprofundamento das pesquisas nessa área proporcionaria a mulheres gostariam de usar suas residências como oficinas
base para reconsiderar as cidades do Terceiro Mundo. Proporcio­ (para costurar, por exemplo) ou como casa de comércio, o
que muitas ver..,. é proibido nos projetos de habitações de
naria também uma base para programas de fonnação profissional baixa renda. Os procedimentos para se habilitar a uma casa
no interior do pais (ou, no caso de nações menores. programas de baixa renda exigem que a solicitação seja feita pelo.,
regionais de formação profISsional) para as equipes do governo "maridos". o que exclui as mulheres cbefes de f"",,1ia ­
municipal e das cidades. As boas propostas de políticas e os bons e.ntre 30 a 50% de todas as famílias. As necessidades espe­
cursos de treinamento dependem de boas informações e análise ciais das mulheres são ignoradas nas diferentes culturas: nas
locais - tudo isso praticamente inexiste nas cidades dos paÍSes em sociedades islâmicas, por exemplo, a necessidade de a mu­
desenvolvimento. lher dispor de um espaço aberto particular dentro de casa ra­
ramente é levada em conta. do mesmo modo que não se con­
sidera a necessidade de haver vias razoavelmente abrigadas
9.3.2 Ajuda Internadooal para que as mulheres tenham acesso à, lojas e aos hospitais.

Fome; baseado em: Moser, C.Q.N. Housing poficy: towards a gen­
É neçessárlo um maior Ouxo de recursos intemacionais para aju­
der awareness approacb. London, Dcvelopmen! Planning Unit,
dar os países em desenvolvimento em seus esforços para superar a 1985. (Worldng Pape.- n. 71.)
crescente crise urbana. Não há uma definição consensual de "as­
sistência ao desenvolvimento urbano", mas o Comitê de Assis­
tência ao Desenvolvimento estimou recentemente que a ajuda bi­
lateral e a multilateral para programas urbanos montaram em • nos cursos de formação profissional do interior do país e de
US$900 milhões ao ano, em média, durante o período de treinamento para funcionários no próprio local de trabalho.
1980-84.1 7 Também se estima que, até agora, menos de 5% da Parte desse aumento de ajuda deve ir diretamente para os gru­
população urbana do mundo em desenvolvimento foram benefi­ pos comunitários, através de intermediários, como entidades não­
ciados por algum projeto babitacional ou de melhoria do bairro, governamentais, nacionais ou internacionais. Muitos programas
patrocinado por uma agência de assistência ao desenvolvimento. de ajuda bilateral já provaram que esse mélodo é eficaz em termos
Esse índice de ajoda precisa ser aumentado consideravelmente. de custos, vários desses grupos foram responsáveis por muitos
Além disso, o âmbito do apoio deveria ser ampliado, e suas con­ sistemas comunitários bem-sucedidos de melhorias habitacionais e
dições e qualidade deveriam ser melhoradas. prestação de serviços básicos. Em geral, têm mais êxito quanto a
Ademais, as agências de assistência ao desenvolvimento deve­ ....nder aos pobres. Deveria haver também mais apoio a grupos
riam ampliar a ajuda e assistência técnica em três áreas: Independentes de pesquisa que se ocupam de questões de habita­
• na concessão de fundos de infra-estrutura para os governos lo­ Ç60 e urbanismo, em particular os que dão aconselhamento aos
cais; JIOvemos locais e grupos comunitários; muitos já o fazem, espe­
• na assunção de tarefas como reorganização do lançamento e çialmente na América Latina.
colela de impostos, elaboração ou atualização de mapas de pro­ A cooperação Intemacíonal também pode contribuir para de­
priedade privada, e fonnação de equipes técnicas para aconse­ .nvolver tecnologias de baixo cuslo para fins urbanos e estudar
lhamento às famílias e grupos comunitários sobre reformas de mo­ meios de atender às necessidades de conforto habitacional das
radia; mulheres. (Ver box 9.4.)

286 287
UK, lohn Wiley. 1981. Para a situação de São Paulo, ver: Wilheim, J. São
Muitas agências técnicas do sistema das Nações Unidas di... Paulo: environmentul problems of lhe growing metropolis. Apresentado à
j>Qem das bases de conhecimento adequadas para 'desempenharem aadiência pública da CMMAD. São Paulo, 1985.
um papel valioso de ajuda e aconselhamento aos governos, so­ 8 Hardoy, J.Il. & Satterthwaíte, D. Third World cilios and the environ­
bretodo o Centro de Assentamentos Humanos da ONU (UNCHS, menl of poverly. Geoforum, 15(3), 1984. Ver também: World Social Pros­
ou Habitat). Essas agências deveni identificar as infonnações e pects Association. The urban tragedy. Geneva, Unitar, 1986.
diretrizes de que os governos precisam, e o modo de eles as pode­ 9 Ver: Sunkel, O. Debt, development and environment. Apre.'lCIltado à au­
diência pública da CMMAD. São Paulo, 1985; Jordan S.. R. Population
rem receber e utilizar. Tal método poderia ter como modelo, por and lhe planning of large dties in Latin America. Documento apresentado
exemplo, as atoais tentativas no sentido de preparar manuais para à Confer&lcia Internacional sobre População e o Futuro Urbano. Barcelo­
agentes comunitários sobre a identificação dos transmissores de na, Espanha, 19-22 maio 1986.
doenças e a mobilização das comunidades para lidar com esses 10 Scimemi, G. Città e ambiente. Venezia. Daest, Instituto Universitario
problemas, e sobre o que deve ser feito para promover a sobrevi­ di Architettura, 1987. Ver também: The .tale ofthe environmenr in O/:;CD
vência e saúde das crianças. De modo mais amplo, o Habitat pode inember countries. Paris, OECD, 1979, 1985.
fortalecer a cooperação inlernacional em nfvel global, como no 11 Soou, L Urban mui spatial development in Mexico, London, Johns
Ano Internacional do Abrigo para os Sem-Teto, da ONU. É ne­ Hopldns University Press, 1982.
cessário tomar o sislema das ,Nações Unidas mais capaeitado a 12 Ver o capítulo 8 e: Hardoy, J.E. & Satterlhwaitc. D., ed. Sl1Ulll and itl­
exercer liderança em questões de assentamentos humanos, através termediare uroon centres: their role in regional and national development in
do Habitat. lhe Third World. London. Hodder & Sloughton. 1986.
13 UNCHS. Habitai Hyderabad squaller seltlemenl upgrading project.
lndia. Monografia sobre projelo elaborado para o Ano Internacional do
'\
Notas Abrigo pera os Sem-Telo; Nairóbi. 1986.
14 Kalbermallen, J.M. et alli.Appropriate techtwlo/fY for waler supply alUi
I Ilste capítulo se baseia em grande parte nos documentos básicos elabora­
sonitation; a summary of technicaJ and econom:ic options. Washington,
dos para a CMMAD: Burton, r. Urbanization and development. 1985;
D.C., World Bank. 1980.
Hardoy, J.Il. & Satterlhwaitc, D. Shelter, infrastructure and servicos in
15 Silk. D. Urban agriculture. 1985. (Elaborado para a CMMAD.)
Third World citios. 1985. (Publicado em: Habirat InIi!rnononal, 10(4),
16 Khouri-Dagher, N. Waste recycling: towards greater urban self-rcli.n­
1986.); Hardoy, J.Il. & Satterthwaite, D. Rethinking the Tbird World city.
oe. 1985. (Illaborado pera a CMMAD.)
1986; Sachs. I. Human iett!ements: resource and environmentul manage­
17 Ver esboço de nOIlls da agenda da Reunião do DAC sobre Desenvolvi­
ment.I985.
mento Urbano, outubro de 1986, docwnento DAC da OeDE (86)15. Foi
2 Ver: Jacobs, J. Citie. alUi the weallh of naiíons. New York, Random.
utilizada a definição do Banco Mundial para assistência ao desenvolvi­
1984.
mento urbano, que inclui o alívio da pobreza e a promoção da eficiência:
3 United Natioos. The growth in the lWrúf. urban alUi rural popu/alion
urbana, da moradia~ do transporte urbano, do desenvolvimento urbano in­
1920-1980. New York, 1969. (Popnlation Studies n. 4iI.); United Nations.
tegrado e do desenvolvimento regional nas cidades secundárias.
UrlxlIl, rural alUi city popu/ations 1950-2()()(). New York, 1980. (Popula­

tion Studies n. 68); Avaliação de 1978.

4 A expansão das fronteiras da "cidade" ou da "área metropolitana" é res­

ponsável pnr wna parte do aumento populacional mostrado na tabela 9.2.

As projeções da ONU baseiam-se na extrapnlação de tendências p8lisadas.

Este método muitas ve'"s orienta mal em relação às tendências futuras, em

especial as de longo prazo, mas não se dispõe de uma base de dados pera

fazer projeç6es melliores.

5 Documento do UNCHS (Habitat) pera a reunião do DAC de outubro de

1986 sobre desenvolvimento urbano. OCDE, OOcumento DAC(86)47, 27

de agosto de 1986.

6 Department of International Ilconomic and Social Affairs. Urban and

rural pnpulation projections, 1984. New York, United Nations, 1986. (A­

valiação não-oíleíal.)

7 Hardoy, l.E. & Satterlhwaite, D. Shelter; need and response; housing,

Iand and settlement policies in sevcnteen Third World NatiollS. Crucheate\',

288 289
I

8

;
lO, A ADMINISTRAÇÃO DAS ÁREAS COMUNS

As formas tradicionais de soberania nacional são constantemente
desafiadas pelas realidades de interdependêllcia econômica e
ecológica. Isso. é especialmente verdadeiro nos ecossistemas com­
partilhados e nas "áreas comuns do globo" - as partes do planeta
que ficam fora das jurisdições nacionais. Nesse caso, só se pode
assegurar o desenvolvimento sustentável através da cooperação
internacional e de regimes de consenso para supervisão, desen­
volvimento e administração dos interesses comuns. Mas o que
está em jogo não é só o desenvolvimeoto sustentável dos ecos­
sistemas compartilhados e das áreas comuns, e sim o de todas as
nações que para se desenvolverem dependem em maior ou menor
grau de sua administração raciooal.
Aliás, se os direitos e os deveres dos Estados para com as
áreas globais comuns não forem regidos por regulamentos con­
sensuais, equânimes e exeqüíveis, a pressão da demanda sobre os·
recursos finitos destruirá, com O passar do tempo, sua integridade
ecológica. As gerações futuras ficarão empobrecidas, e os que so­
frerio mais serão aqueles que vivem nos paf.ses pobres que têm
menos possibilidade de fazer suas próprias reivindicações em li­
vre competição.
A administração dos diversos bens COmuns - os oceanos, o es­
paço cósmico e a Antártida - encontra-se em diferentes eslllgios
. de evolução, assim como a própria "comunalidade" dessas áreas.
No direito marítimo, a comunidade internaciooal elaborou uma
das convenções internacionais mais ambiciosas e avançadas sobre
os mares e seu fundo. Mas alguns países ainda vêm-se recusando
• aderir ao regime multilateral que tem sido objeto de negociações
globais sempre proteladas, e isso está bloqueando a implementa­
Çla de certos aspectos-chave. Foram fixadas fronteiras oceânicas
panI separar os mares comuns das Zonas Econômicas Exclusivas
(ZEE) nacionais, mas como as águas COmuns e reivindicadas for­
lIII8m sistemas econômicos e ecológicos interligados, e como a
lIMIde de um depende da saúde do OUIm, ambos são analisados
MIte capllulo. Quanto ao espaço cósmico a área comum menos
IlIpl0rada - a discussão sobre sua administração conjunta mal
lIImeçou. A Antártida está sujeita, há mais de um quarto de M­
a um tratado obrigatório. Muitos paí....,. não-signat4riOll des­

293
se tratado consideram seu direito participar da administração do
que encaram como uma parcela das áreas globais comuns. "Os problemas ambientais do mundo são maiores que a soma
dos existentes em cada pafs. Decerto, eles nitn podem mais ser
trotados como meramente nacionais. A Comissão Mundial sobre
o Meio Ambienze e Desel'fllOlvimelllO deve atacar esse problema
10.1 OCEANOS: O EQUlLmRIO DA VIDA fundamental, recomendando meios espec(ficos de os palses coo­
perarem para que se supere a noção de soberania e para que se
atkJtem irutrume1llos internacionais a fim de lidar com as amea­
Na roda da vida da Terra, o equillbrio provém dos oceanos) Co­ ças que pairam sobre o plaMta. A tendência crescente para o
brindo mais de 7()1i1b da superfície do planeta. desempenham papel isolacionismo demonstra que o rirmo amaI da história está em
fundamental na manutenção de seus sistemas de sustentação da desarmonia C01'1'l as aspiraçoos humanas, e atl. com suas chancés
vida, no abrandamento do clima e na conse:vação da flora e da de sobrevivincia.
fauna, inclusive do diminuto fitoplancto produtor. de oxigênio. Os O desafio que se nos apresenta é transcender os interesses
oceanos proporcionam proteína, transporte, energia, emprego, Ia­ particulares de nossos respectivos EstatkJs-naçiJes de modo a
rer e outras atividades sociais, econômicas e culturais. abr~ar um interesse mais amplo - a sobrevivincia da espécie
. Os oceanos são também o derradeiro sorvedouro dos subpro­ humana em um mundo ame~atkJ."
dutos das atividades humanas. Qual imensas fossas sépticas fe­ Tom McMillan
chadas, acolhem rejeitos urbanos, agrícolas e industriais através Millistro do Meio Ambiente, gowmo do Canodá
de emissários de esgotos; despejos de barcaças e navios, escoa­ Audrenei. póblica da CMMAD, Ottawa, 26-27 de Maio de 1986.
mentos costeiros, ágoas de rios e atl! mesmo partiCuIas e molécu­
las altnoSféricas. Nos últimos decênios, o crescimento da econe>­
mia mundial, a demanda crescente de combustíveis e alimentos e
o acúmulo de rejeitos começaram a pressionar os vastos limites
dos oceanos. platafonna continental; e o alto-mar, muito além do mar de 200
Os oceanos se caracterizam por uma unidade fundamental da milhas estabelecido pela ZBB e controlado pelos países costeiros.
qual não há como escapar. Ciclos interconectados de energia, As principais zonas pesqueiras encontram-se, em sua maioria,
clima, recursos de vida marinha e atividades humanas se deslo­ nas águas afastadas da costa, ao passo que a poluição que as afeta
cam através das águas costeiras, dos mares regionais e dos ocea­ provém geralmente do interior e se concentra nas águas costeiras.
nos fechados. Os efeitos do crescimento urbano, industrial e agrí­ B essencial wna administraçân internacional formal nas áreas si­
cola não ficam contidos na Zona Econômica Exclusiva de ne­ tuadas para além da ZEB, embora todas as áreas necessitem de
nhum pa1is; passam através de correntes de água e de ar de nação maior cooperaçân internacional, inclusive eslruturas melhores de
para nação. e através de complexas cadeias alimentares de espécie CóOrdenação da ação nacional.
para espécie, distribuindo os ônus do desenvolvimento. quando
não os benefícios, tantn a pobres quantn a ricos. 10.1.10 equDfbrlo ameaçado
Somente o altn-mar fora de jurisdição nacional é de fato "área
comum"; mas as espécies marinhas, a poluição e outros efeitos do Hoje, oS recursos vivos do mar estão sob a ameaça da superexplo­
desenvolvimento econômico não respeitam essas fronteiras legais. ração. da poluição e das atividades praticadas em terra. A maioria
A administração judiciosa' das águas oceânicas comuns requer dás principais espécies de peixes mais conhecidas que vivem nas
igualmente a administração das atividades praticadas em terra. ~ das plataformas continentais responsáveis por 95% do
Cinco zonas estão incluídas nessa administração: as áreas interio­ produto pesqueiro mundial - está agora ameaçada pela pesca abu­
ranas, que afetam os oceanos sobretudo através dos rios; as terras Uva.
costeiras - pântanos, charcos etc. - mais proximas do mar, onde . Outras ameaças estão mais concentradas. Os efeitos da polui­
as atividades humanas podem afetar diretamente as águas adja­ çIo e do desenvolvimento praticado em terra são bastante graves
centes; as ágoas costeiras - estuários, lagunas e ágil&! rasas em águas costeiras e nos mares semifechados que se estendem
toda a faixa Iituránea do mundo. O uso das zonas litorâneas
gerai - onde são mais sentidos os efeitos das atividades praticada
assentamentos, indústrias, instalações energéticas e lazer
em terra; as ágoas afastadas da costa, próximas 11 extremidade da
29~
294
tende a se acelerar, assim como a manipulação, a montante~ dos
sistema. fluviais estuarinos através de represas ou desvios para a radas sobre o meio marinh