Mestrado em Ciência da Educação Supervisão e Orientação Pedagógica

Avaliação de Desempenho Docente

Trabalho realizado na unidade curricular Ética da profissão Docente

Docente: Dr. Ramiro Marques Mestranda: Fernanda Assunção

Santarém Fevereiro 2013

1. Introdução
O sistema de ensino português desde há alguns anos, a esta parte, entrou num processo de restruturação do sistema da educação, cujo objetivo principal segundo o Artigo 40º do Estatuto da Carreira Docente, seria implementar a avaliação docente visando a melhoria dos resultados escolares dos alunos, a qualidade das aprendizagens e também ter em conta um sistema de reconhecimento do mérito e da excelência dos próprios professores. Ao longo dos anos, foram surgindo sucessivas leis cuja intenção de reforma educativa nem sempre foi pacifica, coerente ou justa. O que devia ser uma verdadeira melhoria do sistema educacional em Portugal, quer para os alunos quer para os professores, tornou-se numa odisseia geradora de conflitos, resistência, desmotivação e revolta, tudo porque se implementou e catapultou leis completamente inexequíveis com as realidades no terreno e os próprios contextos e motivações pessoais dos professores. As escolas portuguesas têm vivido num clima de mudança constante, sobretudo no que diz respeito á avaliação do desempenho docente, o que tem proporcionado debates polémicos, conflitos pessoais, adaptações sucessivas e novos modos de estar na escola e no ensino. A avaliação do desempenho docente, apesar da intenção válida e imperativa, de valorizar os alunos e os próprios professores, foi totalmente deturpada pelos próprios intervenientes,

professores e também pelo próprio Ministério da Educação, que perante imperativos economicistas tornou a avaliação num processo hostil, desgastante e desmotivador para os docentes. Gerou efeitos contrários, o que podia ser uma motivação veio a revelar-se num processo demasiado burocrático e desgastante para os docentes sem que isso traga grande eficácia junto dos alunos. È acerca dessa problemática, que orientarei esta minha reflexão, partindo de diversa documentação e da minha própria experiencia enquanto docente, já avaliada mediante diversa legislação. No ponto um farei um enquadramento legal, pertinente á temática, no ponto dois abordarei as Reformas de gestão na função pública e no sector da educação, no ponto três refletirei sobre as resistências ás mudanças e por fim a conclusão.

1. Enquadramento Legal
Avaliação do desempenho docente está consignada no atual Estatuto da Carreira Docente e tem como objetivo a melhoria da ação pedagógica e da eficácia profissional. Porém desde logo, tornou-se num fenómeno de enorme perturbação para toda a estrutura escolar. Esta conflitualidade tem-se manifestado de diferente formas, desde a manifestações nas ruas contra as medidas, á opinião publica em geral, totalmente desfavorável ao assunto. A avaliação docente começou a ser regulamentada em 1992, pelo Ministério da Educação, com o Decreto Regulamentar nº 14/92, de 4 de Julho, onde definia os princípios orientadores da avaliação do desempenho dos docentes. Pretendia-se com essa reforma, implementar o primeiro modelo de avaliação de desempenho dos professores, juntamente com uma nova política de gestão e administração das escolas, onde se pretendia reforçar a autonomia das escolas, estimular o desenvolvimento profissional dos professores e que a avaliação dos docentes contribuísse para a sua profissionalidade. Conforme consta no Estatuto da Carreira Docente, artigo 40º, ponto 2: " A avaliação do desempenho do pessoal docente visa a melhoria dos resultados escolares dos alunos e da qualidade das aprendizagens e proporcionar orientações para o desenvolvimento pessoal profissional no quadro de um sistema de reconhecimento do mérito e da excelência". No ponto 3, do mesmo artigo, são ainda enunciadas várias alíneas com os objetivos da avaliação do desempenho, salientando-se o contributo para a melhoria da pratica pedagógica, valorização e aperfeiçoamento do docente, inventariação das necessidades de

formação do mesmo, deteção de fatores que influenciam o rendimento profissional docente, premiar os melhores profissionais, promover o trabalho de cooperação, promover a excelência e a qualidade dos serviços prestados às comunidades. Posteriormente saí o Decreto-Lei nº 15/2007, de 19 de Janeiro, onde se assume o imperativo político de alteração do Estatuto da Carreira Docente (ECD), relevando que «o trabalho organizado dos docentes nos estabelecimentos de ensino constitui certamente o principal recurso de que dispõe a sociedade portuguesa para promover o sucesso dos alunos, prevenir o abandono escolar precoce e melhorar a qualidade das aprendizagens», pelo que é «indispensável estabelecer um regime de avaliação de desempenho mais exigente e com efeitos no desenvolvimento da carreira que permita identificar, promover e premiar o mérito e valorizar a atividade letiva. Em 2008 saiu, mais legislação sobre a avaliação de desempenho para efeitos de progressão de carreira ou para o efeito da renovação ou celebração de novo contrato no Ensino Público, tendo por base o Decreto Regulamentar n.º 2/2008, de 10 de Janeiro. Este procedimento de avaliação de desempenho do pessoal docente da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário, inclui: a ficha de autoavaliação; a avaliação dos seguintes parâmetros pertencentes à avaliação efetuada pelo órgão de direção executiva, assiduidade, cumprimento do serviço distribuído e ações de formação contínua. Ao longo dos anos têm saído sucessivas leis, que vão tentado reajustar o sistema de avaliação vigente, mas de forma atabalhoada pouco realista e funcional. Leis essas, que em vez de serenar e orientar os docentes, têm tido efeito inverso. Penso que o principal problema é o excesso de leis sem experimentação no terreno e acima de tudo as medidas economicistas do governo e do Ministério. Dificultando a progressão na carreira, poucos atingem os escalões mais altos da carreira, logo o governo economiza dinheiro independentemente da qualidade do professor.

2. Reformas de Gestão na Função Pública e no Setor da Educação
Nas últimas três décadas, tem havido mudanças importantes nos papéis do Estado enquanto empregador e prestador de serviços públicos. O declínio e a reforma do Estado Providência e a transformação do papel do Estado na economia e na sociedade têm despoletado

diversas modificações ao nível da prestação dos serviços públicos. De facto, devido às especificidades do sector público, a aplicação de uma nova lógica de funcionamento próxima da lógica do sector privado tem gerado alguma discussão sobre os efeitos e implicações destas mudanças. A revisão do modelo de avaliação de desempenho dos professores desafia estruturas complexas de poder laboral e profissional no sector da educação. Os professores são trabalhadores que assumem papéis complexos no sistema escolar e educativo. A sua identidade profissional reporta-se a um conjunto de atributos e papéis compartilhados no meio docente, que são distintivos deste grupo profissional em relação a outros. Os sistemas de remuneração ligados ao desempenho têm sido introduzidos neste contexto. Os novos mecanismos substituem as escalas antigas de remuneração associadas à antiguidade no serviço por novos mecanismos que atribuem remunerações de acordo com os resultados de avaliação do desempenho do funcionário público. Genericamente, os novos modelos substituem as escalas salariais rígidas, associadas à antiguidade nos escalões, por um sistema que remunera e atribui prémios em função do “bom” ou do “mau” desempenho do trabalhador.

3. Resistências
Em geral, os professores do ensino público não tinham modelos de avaliação de desempenho que fossem aplicados de forma regular e integrada no seu desenvolvimento profissional. As resistências à mudança fazem parte dos próprios processos de mudança, seja porque os atores não se revêm na nova configuração (porque não concordam ou têm projetos diferentes), seja porque as características dos modelos instituídos são muito diferentes dos novos modelos. Também o facto de existirem movimentos sindicais fortes , com uma forte oposição à introdução deste tipo de reformas tem constituído uma das dificuldades de sucesso deste tipo de programas. Devido às inúmeras críticas e manifestações por parte dos docentes e plataformas sindicais, os sucessivos governos têm vindo a promover processos de auscultação aos diferentes agentes do sistema educativo, nomeadamente á escola, aos sindicatos, e aos pais. A

intenção será a identificação de possíveis correções dos modelos, por forma a tornar o modelo definitivo de avaliação de desempenho o mais simplificado e aperfeiçoado possível.

. 4. Ética e Profissionalidade no Processo de Avaliação do Desempenho Docente
Os avaliadores são intervenientes fundamentais em qualquer processo de avaliação e a falta de confiança, ou o não reconhecimento de competência nessa função, é um fator de insatisfação que não contribui para um clima gerador de desenvolvimento profissional. A primeira consequência negativa, quer para a profissão, quer para o desenvolvimento profissional, seria o surgimento de um ambiente de instabilidade e contestação geral ao processo de avaliação nos moldes impostos. As razões da contestação prenderam-se, por um lado, com a questão da competência dos avaliadores, e por outro, com a complexidade que os docentes entenderam existir em todo o processo. O ambiente de instabilidade influenciou negativamente a profissão especialmente aos níveis de motivação para prosseguir objetivos de desenvolvimento profissional e de formação. A contestação dos docentes teve como consequência direta na profissão a rejeição do modelo de avaliação, pela sua complexidade e pendor burocrático, evidenciando uma postura tendente ao controle administrativo. Teve, também, consequências negativas no relacionamento pessoal e profissional, pois uma das principais causas da contestação foi a competência dos avaliadores (seus pares), investidos nessas funções por via da divisão provocada administrativamente na carreira. Estas problemáticas influenciam, o relacionamento profissional e a avaliação de pares, ás vezes ligados pela proximidade entre os mesmos. Esta questão da proximidade também provoca contestação quanto ao reconhecimento da competência dos avaliadores, pelo que este modelo, baseado na divisão da carreira, poderá criar tensões graves e deteriorar o ambiente de trabalho. Neste momento, a legislação já acautela essa questão, sendo os avaliadores externos á escola e obrigados a fazer formação especifica para o caso. Não há duvida sobre a importância de evidencia o estatuto ético-deontológico da avaliação do desempenho num quadro de reflexibilidade docente subordinado a imperativos de profissionalidade e de racionalidade pedagógica.

Importa afirmar o carácter profissional da avaliação do desempenho docente não é o mesmo que considerar que essa qualidade depende apenas das competências profissionais dos professores. É fundamental avaliar eticamente o desempenho docente fazendo-lhe justiça, ponderando cada momento, os fins visados, as normas, as vontades e os efeitos gerados. Uma avaliação ética do desempenho é uma avaliação teleogicamente fundamentada e deontologicamente consequente. Avaliar eticamente, é avaliar com sentido de profissionalidade e profissionalismo. A avaliação do desempenho docente nunca deve ser encarada como uma atividade meramente técnica, apoiada em processos rígidos, procedimentos abstratos e impessoais. Representa um momento de reflexibilidade ética por excelência, constituindo um momento de racionalidade prudencial, regulado por valores de equidade e justiça. Importa ressalvar que a relação entre o avaliado e o avaliador, trata-se de uma relação humana enquadrada por valores de ordem institucional e profissional. Obedece a uma intencionalidade avaliativa que reporta ações de interesse coletivo. é preciso ligar o agente á ação. É fundamental uma relação de confiança entre avaliador e avaliado, assente numa forte componente ética, de forma a evitar constrangimentos para ambos. Todos este processo deve ser direcionado a promover condições de reflexividade docente e de cultura profissional avaliativa, as questões de ética e de avaliação de desempenho deverão constar entre as prioridades de formação inicial e continua dos professores.

Conclusão
A ansiedade dos avaliados, dos avaliadores e de todos os envolvidos no processo, potencia as desconfianças e as opiniões críticas sobre os instrumentos, sobre a qualidade e competência dos avaliadores, sobre a pertinência e qualidade dos instrumentos de registo, enfim, sobre os diferentes procedimentos.

As críticas, as desconfianças, a ansiedade e a perturbação inicial são inerentes à implementação de um processo de avaliação de desempenho. Ao longo dos anos, e deste processo de implementação, da avaliação docente, o Ministério Educação, reconheceu o problema da existência de avaliadores de áreas disciplinares diferentes das dos avaliados, o problema da burocracia e o problema da sobrecarga de trabalho inerente ao processo de avaliação. Nos contextos atuais de mudança e de novas exigências, é pedido aos professores que troquem parcialmente alguma autonomia e colegialidade instituídas por novos tipos de profissionalismo e conceções renovadas sobre o que deve ser o trabalho docente. Desta forma, a conflitualidade que tem emergido no desenrolar da mudança advém não só porque os novos modelos são diretamente concebidos de forma tecnocrática. Os professores concordam em absoluto com o carácter formativo da sua avaliação de desempenho e que esta deve contribuir para o seu desenvolvimento profissional, devendo também incidir sobre todas as funções dos docentes. Por outro lado, admitem que a qualidade do desempenho dos professores tem repercussões nos resultados escolares dos alunos e, consequentemente deve premiar o mérito. Quem está no terreno, vê muito claramente que este sistema de avaliação não beneficia as relações entre os professores, não estimula a cooperação entre os docentes, nem promove a intervenção dos professores na vida organizacional, contribuindo para a geração de conflitos entre os mesmo. Neste momento foram tomadas decisões no sentido de proporcionar aos professores avaliadores formação especializada para desempenhar as suas funções. Parece evidente a emergência de uma lógica de “responsabilização burocrática” algumas mudanças em relação à frequência em ações de formação contínua. Os professores sentem-se responsáveis pela qualidade da educação e reconhecem que esta está diretamente relacionada com a qualidade do seu desempenho, por outro lado, rejeitam a inclusão dos resultados escolares dos alunos como parâmetro a incluir no processo de avaliação. Apesar da atual "simplificação", dos avaliadores serem externos á escolas, continua a ser um processo delicado e a exigir uma enorme quantidade de elementos que continua a dificultar o processo.

Bibliografia
Alves, Maria Palmira & Figueiredo, Luísa Lobão, A Avaliação de Desempenho Docente, Quanto vale o que fazemos?, Educação, Sociedade& Culturas, nº 33, 2011, 123-140. Basílio, António & Nogal, João, O Novo Estatuto da carreira docente, edições ASA, janeiro 2007. Batiptista, Isabel, Ética, Deontologia e Avaliação do Desempenho Docente, Edição Ministério da Educação - Concelho Cientifico para a Avaliação de Professores, Cadernos do CCAP - 3, julho 2011. Rodrigues, Ângela & Peralta, Helen, Algumas considerações a Propósito da Avaliação do

Desempenho dos Professores, Ministério da Educação Humanos, fevereiro 2008, (pp. 1-17).

Direção Geral dos recursos

Referências Legislativas
Decreto-Lei nº 15/2007, de 19 de Janeiro, Diário da República, 1.ª série, n.º 14 –Altera o
Estatuto da Carreira dos Educadores de Infância e dos Professores dos Ensinos Básico e Secundário.

Decreto Regulamentar nº 2/2008, de 10 de Janeiro, Diário da República, 1.ª série, n.º 7 –
Regulamenta o sistema de avaliação do desempenho do pessoal docente, da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário.

Decreto Regulamentar n.º 2/2010, de 23 de Junho, Diário da República, 1.ª série, n.º120 –
Clarifica a articulação entre o sistema de avaliação de desempenho docente, a progressão na carreira, o desenvolvimento profissional e a valorização da dimensão formativa da avaliação.

Decreto Regulamentar n.º 26/2012, de 21 de Fevereiro

Master your semester with Scribd & The New York Times

Special offer for students: Only $4.99/month.

Master your semester with Scribd & The New York Times

Cancel anytime.