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Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes

A necessidade deste livro se apóia na seguinte consideração: o discurso amoroso é hoje em dia de uma extrema solidão. Este discurso talvez seja falado por milhares de pessoas (quem sabe?), mas não é sustentado por ninguém; foi completamente abandonado pelas linguagens circunvizinhas: ou ignorado, depreciado, ironizado por elas, excluído não somente do poder, mas também de seus mecanismos (ciências, conhecimentos, artes). Quando um discurso é dessa maneira levado por sua própria força à deriva do inatual, banido de todo espírito gregário, só lhe resta ser o lugar, por mais exíguo que seja, de uma afirmação. Essa afirmação é em suma o assunto do livro que começa.

Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes

Como é feito esse livro Tudo partiu deste princípio: que não era preciso reduzir o enamorado a uma simples coleção de sintomas, mas sim fazer ouvir o que existe de inatual na sua voz, quer dizer de intratável. Daí a escolha de um método “dramático”, que renunciasse aos exemplos e repousasse na ação única de uma linguagem primeira (sem metalinguagem). Substituiu-se, então, à descrição do discurso amoroso sua simulação, e desenvolveu-se a esse discurso sua pessoa fundamental, que é o eu, de modo a pôr em cena uma enunciação e não uma análise. É um retrato, se quisermos, que é proposto; mas esse retrato não é psicológico; é estrutural: ele oferece como leitura um lugar de fala: o lugar de alguém que fala de si mesmo, apaixonadamente, diante do outro (objeto amado) que não fala. 1. Figuras Dis-cursus é, originalmente, a ação de correr para todo lado, são idas e vindas, “démarches”, “intrigas”. Com efeito, o enamorado não para de correr na sua cabeça, em empreender novas diligências e de intrigar contra si mesmo. Seu discurso só existe através de lufadas de linguagem, que lhe vêm no decorrer de circunstâncias ínfimas, aleatórias. Podemos chamar essas frações de discurso de figuras. Palavra que não deve ser entendida no sentido retórico, mas no sentido ginástico ou coreográfico; enfim, no sentido grego: scÁma, não é o “esquema”; é, de uma maneira muito mais viva, o gesto do corpo captado na ação, e não contemplado no repouso: o corpo dos atletas, dos oradores, das estátuas: aquilo que é possível imobilizar do corpo tencionado. Assim é o enamorado apressado por suas figuras: ele se debate num esporte meio louco, se desgasta como o atleta; fraseia como o orador; é captado, siderado num desempenho, como uma estátua. A figura, é o enamorado em ação. As figuras se destacam conforme se possa reconhecer, no discurso que passa, algo que tenha sido lido, ouvido, vivenciado. A figura é delimitada (como um signo) e memorável (como uma imagem ou um conto). Uma figura é fundada se pelo menos alguém puder dizer: “Como isso é verdade!”, “Reconheço essa cena de linguagem”. Para certas operações de sua arte, os lingüistas se servem de uma coisa vaga: o sentimento lingüístico, para constituir as figuras, não é preciso nada mais nada menos que este guia: o sentimento amoroso. No fundo, pouco importa que a dispersão do texto seja rica aqui e pobre acolá; há tempos mortos, muitas figuras duram pouco; algumas, sendo hipóstases de todo o discurso amoroso, têm a mesma raridade – a pobreza – das essências: que dizer da Languidez, da Imagem, da Carta de Amor, se o discurso amoroso é na sua totalidade tecido de desejo, de imaginário e de declarações? Mas aquele que sustenta esse discurso e dele destaca os episódios não sabe que disso se fará um livro; não sabe ainda que como bom sujeito cultural não deve nem se repetir, nem se contradizer, nem tomar o todo pela parte; sabe apenas que o que lhe passa pela cabeça em determinado momento fica marcado, como a impressão de um código (outrora, teria sido o código de amor cortês ou a “carte du Tendre”).* Esse código, cada um pode preenchê-lo conforme sua própria história; minguada ou não, é preciso que a figura esteja lá, que seu espaço (a casa) esteja reservado. É como se houvesse uma Tópica amorosa, da qual a figura fosse um lugar (topos). Ora, o próprio de uma Tópica é de ser um pouco vazia: uma Tópica é de regra meio codificada, meio projetiva (ou projetiva por ser codificada). O que foi possível dizer aqui sobre a espera, a angústia, a lembrança é apenas um modesto suplemento oferecido ao leitor para que dele se aproprie, acrescente, suprima e passe adiante: ao redor da figura, os participantes “passam o anel”; às vezes, num último parênteses o anel é retido um segundo antes de ser transmitido. (O livro, idealmente, seria uma cooperativa: “Leitores e Enamorados Reunidos”). O que aparece como título de cada figura não é a sua definição, é o seu argumento: Argumentum: “exposição, narrativa, sumário, pequeno drama, história inventada”; acrescento: recurso de distanciamento, cartaz, à moda de Brecht. Esse argumento não diz respeito ao que possa ser o sujeito apaixonado (não há ninguém exterior ao sujeito, não há discurso sobre o amor), mas ao que ele diz. Se existe uma figura “Angústia” é porque o sujeito exclama às vezes (sem se preocupar com o sentido clínico da palavra): “Eu estou angustiado!”, “Angoscia!”, canta Callas em algum lugar. A figura é de certa forma, uma ária de ópera; assim como essa ária é identificada, relembrada e manipulada através do seu incipit** (“Je veux vivre ce rêve”, “Piangerò la mia sorte”), assim também a figura parte de um relevo de linguagem (espécie de verseto, de refrão, de estribilho) que articula na sombra. Diz-se que só as palavras têm emprego, não as frases; mas no fundo de cada figura jaz uma frase, quase sempre desconhecida (inconsciente?), que é empregada na economia insignificante do sujeiro
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Mapa de um país imaginário concebido por Mile de Scudéry (Séc. XVIII). (N. da T.) Incipit: primeiras palavras de um manuscrito de um livro. (N. da T.)

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apaixonado. Essa frase mãe (aqui apenas postulada) não é uma frase completa, não é uma mensagem concluída. Seu princípio ativo não é o que ela diz, mas o que ela articula: ela é, se considerarmos ao extremo, uma “ária sintática”, um “modo de construção”. Por exemplo, se o sujeito espera o objeto amado num encontro marcado, uma ária de frase passa repetidamente pela sua cabeça: “Não é lá muito elegante...”; “ele (ela) bem que poderia...”; “ele (ela) sabe bem...”: poder, saber o que? Pouco importa, a figura “Espera” já está formada. Essas frases são matrizes de figuras, precisamente porque ficam suspensas: elas dizem o sentimento, depois param, cumpriram seu papel. As palavras nunca são loucas (no máximo perversas), é a sintaxe que é louca: não é ao nível da frase que o sujeito procura seu lugar – e não o encontra – ou encontra um lugar falso que lhe é imposto pela língua? Na fundo da figura há qualquer coisa de “alucinação verbal” (Freud, Lacan): frase truncada que se limita na maioria das vezes à sua parte sintática: (“Apesar de você ser...”, “Se você ainda tivesse que...”). assim nasce a emoção de cada figura: mesmo a mais doce carrega em si o medo de um suspense: escuto nela o quos ego... netuniano, tempestuoso. 2. Ordem Ao longo da vida amorosa, as figuras surgem na cabeça do sujeito apaixonado sem nenhuma ordem, porque dependem cada vez de um acaso (interior ou exterior). A cada um desses incidentes (aquele que lhe “cai” sobre a cabeça), o enamorado retira figuras de reserva (do tesouro?), de acordo com as carências, as injunções ou os prazeres do seu imaginário. Cada figura explode, vibra sozinha como um som despojado de toda melodia – ou se repete, até cansar, como motivo de uma música sempre igual. Nenhuma lógica liga as figuras nem determina sua contigüidade: as figuras estão fora do sintagma, fora da narrativa, são Erínias; se agitam, se chocam, se acalmam, voltam se afastam sem nenhuma ordem como um vôo de mosquitos. O dis-cursus amoroso não é dialético; ele gira como um calendário perpétuo, uma enciclopédia afetiva (no enamorado, algo de Bouvard et Pécuchet).*** Em termos lingüísticos, dir-se-ia que as figuras são distribucionais, mas não são integrativas; ficam sempre no mesmo nível: o enamorado fala por grupos de frases, mas não integra essas frases a um nível superior, a uma obra; é um discurso horizontal: nenhuma transcendência, nenhuma redenção, nenhum romance (mas muito romanesco). Todo episódio pode ser, certamente, dotado de um sentido: ele nasce, se desenvolve e morre, segue um caminho que é quase sempre possível interpretar segundo uma causalidade ou uma finalidade, até de moralizar se preciso for (“Eu estava louco, agora estou curado”, “O amor é um engano profundo do qual se deve desconfiar daqui por diante”, etc): aí está a história de amor, escrava do Outro narrativo, da opinião geral que deprecia toda força excessiva e quer que o sujeito reduza ele próprio o grande turbilhão imaginário pelo qual é atravessado sem ordem e sem fim, a uma crise dolorosa, mórbida, da qual precisa se curar (“isso nasce, cresce, faz sofrer, passa”, exatamente como uma doença hipocrática): a história de amor (“a aventura”) é o tributo que o enamorado deve pagar ao mundo para se reconciliar com ele. Outra coisa é o discurso, o solilóquio, o a parte que acompanha essa história, sem nunca conhecê-la. É próprio mesmo desse discurso que suas figuras não possam se arrumar: se ordenar, fazer um caminho, concorrer para um fim (para uma instituição); não há primeiras nem últimas. Para fazer entender que não se trata aqui de uma história de amor (ou da história de um amor), para desencorajar a tentação do sentido, era necessário escolher uma ordem totalmente insignificante. Submeteu-se assim a sucessão de figuras (inevitável, pois o livro é condenado por seu próprio estatuto a fazer um caminho) a dois arbitrários conjugados: o da nominação e o do alfabeto. Cada um desses arbitrários é no entanto atenuado: um pela razão semântica (entre todos os nomes do dicionário, uma figura só pode receber dois ou três), o outro pela convenção milenar que estabelece a ordem de nosso alfabeto. Evitaram-se assim as artimanhas do puro acaso, que bem poderiam ter seguido seqüências lógicas; pois não se deve, diz um matemático, “subestimar a força do acaso para engendrar monstros”; o monstro, no caso, teria sido, em virtude de uma certa ordem das figuras, uma “filosofia do amor”, onde não se deve esperar senão sua afirmação. 3. Referências Para compor este sujeito apaixonado, foram “montados” pedaços de origem diversa. Há o que vem de uma leitura regular, a do Werther de Goethe. Há o que vem de leituras insistentes (o Banquete de Platão, o Zen, a psicanálise, certos místicos, Nietzsche, os lieder+1alemães). Há os que vem de leituras ocasionais. Há o que vem de conversa de amigos. Há enfim o que vem de minha própria vida. O que vem dos livros e dos amigos aparece às vezes na margem do texto, sob a forma de nomes para os livros e de iniciais para os amigos. As referências dadas assim não são de autoridade, mas de amizade: não invoco garantias, lembro apenas, por uma espécie de saudação dada de passagem, o que seduziu,
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“B et P”; Romance de Flaubert. (N. da T.) “Lieder” – Canções populares alemãs. (N. do T.)

em troca o sujeito apaixonado lhe passa a inocência do seu imaginário. o que deu por um instante a satisfação de compreender (de ser compreendido?). esses lembretes de leituras. indiferente aos bons costumes do saber. se o autor empresta aqui ao sujeito apaixonado a sua “cultura”. ouvida. no estado quase sempre incerto. que convém a um discurso cuja instância não é outra senão a memória de lugares (livros. inacabado. encontros) onde tal coisa foi lida. . dita. de escuta. Deixou-se. Porque. portanto.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes convenceu.

Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Assim sendo é um enamorado que fala e que diz: .

é que não há lugar para mim em parte alguma. é uma idéia neutra.” ABISMAR-SE. não rompe nada (não “quebra” nada). Sofro (desconheço o motivo). o abandono) dessa manhã. não sou recolhido em lugar nenhum. calculada para que eu tenha tempo de des-sofrer antes de desaparecer. Quando me acontece de me abismar.. X me explicava claramente. desprovida de ressentimento (sem chantagem com ninguém). talvez. lamentava não poder nunca desaparecer quando tivesse vontade. e não em pedaços. nada mais a quem falar. a mesma lufada de aniquilamento me atinge. escorro. me abismo. ora é uma catástrofe (fútil) que parece me afastar para sempre. que me torna sujeito responsável: saio: é o êxtase. algo como um não-lugar). 4. imensa imensidão. substituía a essa força enfraquecedora. Suas palavras diziam que ele assumia sucumbir a sua fraqueza. Werther2 1. me diluo. Manhã (no campo) cinzenta e amena.. sem nenhum tumulto posterior: nenhum outro sofrimento: estou dissolvido. como tragado por um abismo” (43). . uma outra afirmação: assumo ao contrário de tudo e contra tudo uma recusa de coragem. Disfarço meu luto sob uma fuga. esperamos o barco à beira de um lago. sem elaboração. a essa obstrução. mas também de uma fusão: morremos juntos de tanto amar: morte aberta. do túmulo comum. derreto. é no gesto extremo do Imaginário apaixonado – aniquilar-se para poder ser afastado da imagem ou confu7ndir-se com ela – que se realiza uma queda desse imaginário: o breve momento de uma vacilação e perco minha estrutura de enamorado: é um luto factício. Esboço de uma teoria das emoções. O REPOUSO DO ABISMO” (40). embaixo da chuva. me transfiro (a quem? A Deus. sem qualquer incoerência. sim.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes “Me abismo.. carregado de adeus” (Morte dos Amantes). à Natureza. A imagem do outro – à qual estava colado. às vezes. Ele nada tem de solene. uma recusa portanto de moral: é o que dizia a voz de X. Surge uma idéia de suicídio. A lufada de abismo pode vir de uma mágoa. ora é uma felicidade excessiva que me faz recuperá-la. menos ao outro). 3 “No precipício abençoado do éter infinito.. Por mágoa ou por felicidade. depois de uma noite difícil. Um outro dia. não resistir às feridas que o mundo lhe faz. morte fechada. na tua alma sublime. Instalo-me fugitivamente num falso pensamento de morte (como uma chave falsificada): penso na morte ao lado: penso nela segundo uma lógica impensada. sem consciência. que às vezes tinha vontade de desmaiar. uma outra força. diante de mim. Este pensamento levemente tocado. Rua do Cherche-Midi. separado ou dissolvido. sucumbo. combina com a cor (com o silêncio. nem na morte. mergulho e me abismo. “Eu a verei (. Não Será o abismo um aniquilamento oportuno? Não me seria difícil ler nele não um repouso. É exatamente a doçura. a infelicidade ou alegria desabam sobre mim. 2. tudo desaparece diante dessa perspectiva.. o ato (de morrer) não é de minha incumbência: me confio. 4 “Uma tarde feita de rosa e de azul místico. Lufada de aniquilamento que atinge o sujeito apaixonado por desespero ou por excesso de satisfação. Tenho então esta fantasia: uma hemorragia doce que não escorreria de nenhum ponto do meu corpo. 3. 5 “. caio. nem eu. half in love with easeful death (Keats): a morte liberada do morrer. tateado (como se ateia a água com o pé) pode voltar. desta vez por felicidade. uma consumação quase imediata. 6 Sobre o desmaio e a cólera como fugas. Daí. a tudo. Tristão3 Baudelaire4 Rusbrock5 Sartre6 5. com voz precisa. sucumbo. como um longo soluço. sob a força dessas magníficas visões” (4). trocaremos um lampejo único. frases formadas. desmaio para escapar a esta compacidade. a doçura do abismo: não tenho nenhuma responsabilidade. nem você.) Tudo.. nem um morto. ó volúpia!”. da qual vivia – não existe mais. mas ao mesmo tempo. derivo fora da dupla fatal que liga vida e morte ao mesmo tempo que as opõe. Apaixonado pela morte? É muito para uma metade. de qualquer modo. por diluição etérea. 2 “Nesses pensamentos. Sob o efeito de uma sugestão recebo ordens de desfalecer sem me matar. mas uma emoção. sinto às vezes vontade de me abismar. O abismo é um momento de hipnose. experimentado. Assim. (Estranhamente.

ultrapassa seu charme: a história. no meio desse abraço infantil. III. Nesse incesto reconduzido. mas não por essa ou aquela de suas qualidades. a luz.. ontem à noite”. o desejo bem humorado. os parisienses. 542. nada se quer: todos os desejos são abolidos. e. etc.. Momento da afirmação. Rastignac desafiava a cidade: Agora. diz também o que falta ao tudo. (N. a lei. A poesia é ruim? Mas a “poesia ruim” toma o sujeito apaixonado no registro de palavra que só pertence a ele: a expressão. diz uma poesia musicada por Duparc). “Num belo dia de outono. o hieróglifo da benevolência (assim como Greuze* o teria pintado). sem dormir. 168. o Imaginário). fiquei transbordando (todos os meus desejos abolidos pela plenitude da sua satisfação): o transbordamento existe e vou querer sempre fazê-lo voltar: através de todos os meandros da história amorosa. ele corta a sensualidade difusa do abraço incestuoso. retorna o querer-possuir. ao mesmo tempo em que adorável diz tudo. o trabalho. 2.” Um mundo de percepções vem bruscamente formar uma impressão ofuscante (ofuscar. o sujeito apaixonado percebe o outro como um Tudo (a exemplo de Paris outonal). porque Tudo não poderia ser inventariado sem ser diminuído: “Adorável!” não abriga nenhuma qualidade. Entretanto. mas por tudo. a caminhada. em Paris. a dureza das grandes cidades. esse Tudo parece comportar um resto que não pode ser dito. poema de Jean Lahor. a estação. Obras Completas de Diderot. então.. o sujeito apaixonado chega a essa palavra um pouco tola: adorável! 1. “Adorável!” ADORÁVEL. da T. * Pintor francês. Entretanto. saí para fazer compras. o momento da voz que vem me imobilizar. Século XVIII. a beleza luminosa do corpo. 2. a proibição: nada cansa. que na verdade acabou. O gesto do abraço amoroso parece realizar por um momento. alguma coisa deu certo. para o sujeito. as compras. caracterizado por temas moralizantes. tudo é tão suspenso: o tempo. surge infalivelmente o genital. o sonho de união total com o ser amado. ao mesmo tempo. porque parecem definitivamente transbordantes. Sou então dois sujeitos ao mesmo tempo: quero a maternidade e a genitalidade (O enamorado poderia ser definido: uma criança com tesão retesando o seu arco: como o jovem Eros). só vejo nele o objeto de um desejo esteticamente retido. teimarei em querer reencontrar. tudo isso contido em algo que já tem vocação de lembrança: um quadro. renovar. e esse tudo lhe é atribuído sob a forma de uma palavra vazia. desarrumou. Por uma lógica singular. da T. Não conseguindo nomear a especialidade do seu desejo pelo ser amado. a irradiação do ser desejável”. é no fundo impedir de ver. enfeitiçados: estamos no sono. É a lembrança de que? Do que os gregos chamavam a charis: “o brilho dos olhos. (N. a avenida.) ** Cemitério parisiense situado numa colina. a lógica do desejo se põe em movimento. é a volta à mãe (“na doce calma dos teus braços”. estamos na volúpia infantil do adormecer: é o memento das histórias contadas. quer designar esse lugar do outro onde meu desejo vem “Canção Triste”. nem apatia. 3. imagina que o outro quer ser amado como ele próprio gostaria de sê-lo. de dizer): o tempo. Paris inteiro à minha disposição. durante um certo tempo. Do alto do Père-Lacheise**. Diderot). Paris estava adorável naquela manhã. 9 Détienne. eu acrescente a idéia – a esperança de que o objeto amado se oferecerá ao meu desejo. nem cupidez. o adulto se sobrepõe a criança. em suma. nós dois. sem que eu queira alcançá-lo. 8 Sobre a teoria do instante pleno (Lessin. Duparc7 1. exatamente na charis antiga. acordo entregue a um pensamento feliz: “X estava adorável. o dinheiro. Esqueço todo o real que. a não ser o tudo do afeto. a mercadoria. há esse outro enlace que é o abraço imóvel: estamos encantados. É outro tudo que produz nele uma visão estética: ela gaba a sua perfeição. Além da cópula (pro Diabo. talvez mesmo. a contradição – a contração – dos dois abraços. eu digo a Paris: Adorável! A propósito de uma impressão. se vangloria de tê-lo escolhido perfeito.) 7 Diderot 8 Balzac Grego9 . me siderar.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes “Na doce calma dos teus braços” ABRAÇO.

enfim. fora do êxito e do malogro. menos posso nomeála. Essa teimosia. dos desesperos. o fim glorioso da operação lógica. convém ao meu desejo. Todos os argumentos que os sistemas mais diversos empregam para desmistificar. para que eu encontre a Imagem que. Apesar das dificuldades da minha história. estabelece. I. O mundo submete todo empreendimento a uma alternativa. Ou ainda: adoro você porque você é adorável. para um realismo-farsa. uma voz teimosa se faz ouvir que dura um pouco mais de tempo: voz do Intratável apaixonado. Te amo porque te amo. uma forma. nunca saberei nada. 4. contra os quais ergo o real do valor: oponho a tudo “o que não vai bem” no amor. não paro de afirmar em mim mesmo o amor como um valor. amo apenas um. estou feliz. apesar da vontade de me livrar disso. depreciar o amor. é ele mesmo em pessoa). Cena da especialidade do desejo: encontro de Charlus e Jupien no pátio do “Hotel de Guermantes” (início de Sodoma e Gomorra). apagar. uma aparência)? Ou é apenas uma parte desse corpo? E nesse caso. sobre ele minha linguagem vai sempre tatear e gaguejar para tentar dizê-lo. desses milhões posso desejar centenas. mas me obstino: “Sei bem. amar sem estar apaixonado. tão rigorosa que só retém o Único. nesse corpo amado. Adorável quer dizer: este é meu desejo. no fim das contas. Transfiro as desvalorizações do amor para uma espécie moral obscurantista. Assim. Encontro pela vida milhões de corpos. languidamente? É ele inteiro que desejo (uma silhueta. da vitória ou da derrota. à precisa do alvo corresponde um estremecimento do nome. uma mecha. o próprio desejo não pode produzir senão um impróprio do enunciado: deste fracasso da linguagem. O outro pelo qual estou apaixonado me designa a especialidade do meu desejo. 3. me embriago de sua afirmação: a tautologia não é esse estado inusitado. o que fecha a linguagem amorosa é aquilo que a instituiu: a fascinação. a diferença entre a transferência analítica e a transferência amorosa.. estou destituído de toda Pelléas12 “Não é todos os dias que se encontra o que é feito para lhe dar a imagem exata do seu desejo” (Seminário. que é como o grau zero de todos os lugares onde se forma o desejo muito especial que tenho desse outro aí (e não de um outro). onde se acham misturados todos os valores. mas estou triste.” 11 10 . Protesto por uma outra lógica: sou ao mesmo tempo e contraditoriamente feliz e infeliz: “conseguir” ou “fracassar” têm para mim sentidos apenas contingentes. mas contudo.. uma é universal. mas nunca poderá produzir nada além de uma palavra vazia. eu os escuto. como um disco arranhado. o que me anima surda e obstinadamente não é o tático: aceito e afirmo fora do verdadeiro e do falso. é o protesto de amor: debaixo do conserto de “boas razões” para amar de outro modo. lá onde ela não pode senão repetir a sua última palavra. a do sucesso ou do fracasso. o sujeito afirma o amor como valor. Eis um grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo Esse? Por que o desejo por tanto tempo. ultrapassar este enunciado: “estou fascinado”. impropriamente o próprio de meu desejo: viagem ao término da qual minha última filosofia só pode ser reconhecer – e praticar – a tautologia. muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras). etc.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes especificamente se fixar. mas esse lugar não é designável. quanto mais experimento a especialidade do meu desejo. que é o cansaço da linguagem. Foram precisos muitos acasos. tem tendência de fetiche em mim? Que porção. entre mil. a afirmação do que vale nele. Lacan10 Proust11 Esta escolha.”. um dente um pouquinho quebrado obliquamente. 12 “Que tens? Não me pareces feliz . mas dessas centenas. amar melhor. o obsceno da tolice e a explosão do sim nietzscheano? O Intratável Nietzsche AFIRMAÇÃO: Ao contrário de tudo e contra tudo. a outra é específica. De palavra em palavra me esforço para dizer de outro modo o mesmo da minha Imagem. apesar das perturbações. Ao atingir a extremidade da linguagem. É adorável o que é adorável.Sim. Pois descrever a fascinação não pode nunca. uma maneira de fumar afastando os dedos para falar? De todos esses relevos do corpo tenho vontade de dizer que são adoráveis. o que. Adorável é o vestígio fútil de uma cansaço.. passageiros (o que não impede que minhas dores e meus desejos sejam violentos). que acidente? O corte de uma unha. talvez incrivelmente pequena. só resta um vestígio: a palavra “adorável” (a boa tradução de “adorável” seria o ipse latino: é ele. 163). 1. tanto que único: “É isso! É exatamente isso (que amo)! “No entanto. por assim dizer. sim. das dúvidas. limitar.

(Dizem-me: esse gênero de amor não é viável. O tipo. cada um tendo que tomar conta da própria imagem sob o olhar do outro). ao mesmo tempo vencedoras e vencidas. Banquete 2. só podendo falar através de seus códigos gastos.). Sobre a figura perfeita e como embalsamada do outro (que tanto me fascina). 15 J. culpadas. que é tirada da hipnose com um tapinha. como tipo (em termos nietzscheanos. Nascido da literatura. Um pontinho no nariz Werther14 L. mas: “havia um pontinho no nariz que tinha um leve traço de decomposição”. não pela derrota de uma ou de outra. sem liquidar. – L. Faço discretamente coisas loucas. uma palavra. toda a força passa pelo Intérprete. e devolve bruscamente o objeto amado a um mundo medíocre.. quando o apaixonado encontra o outro. escrúpulos razoáveis. ela continua lá. Segue-se um longo túnel: meu primeiro sim é roído pelas dúvidas. alguma coisa insólita que surge (que aponta) de uma região de que eu nunca havia suspeitado antes. segundo Fedro. Abandono alegremente tarefas desinteressantes. 1). não sua repetição. condenado à minha própria filosofia. um objeto. conflito que termina.) um conflito real entre a liberdade do sujeito e a necessidade em tanto que objetiva. todo o relativo da minha vida cotidiana é revirado. a 13 “O essencial da tragédia é (. 12). Confrontado com a aventura (aquilo que me ocorre). o que afirmo. exaltação. entusiasmo. o Padre judeu). 77 e 218 (sobre a afirmação da afirmação). O que o amor descobre em mim é a energia. o que afirmei uma primeira vez. encantada. conserva os amantes gregos no caminho do Bem. seu corpo está intacto e puro (pudera! senão não haveria história). Tudo que faço tem um sentido (posso então viver. II. desse túnel. Rusbrock Dostoievski17 1. Dir-se-ia que a alteração da Imagem se produz quando fico envergonhado pelo outro (o medo dessa vergonha. até hoje. de uma contra-imagem do objeto amado. o valor amoroso é a todo instante ameaçado de depreciação: é o momento da paixão triste.B. impostas pelo mundo. 14 “Ó meu caro. não sem dor). 4. vivo conforme o acaso (a prova é que as figuras do meu discurso me vêm como lance de dados). 17 Morte do starets Zózimo: o odor deletério do cadáver (Irmãos Karamazov. As inflexões dolentes.B. devo escrever urgentemente uma carta “importante” – da qual depende o sucesso de certo empreendimento. se tensionar todo o ser é prova de força. uma roupa. Werther elogia sua própria tensão. . não saio nem vencedor. mas porque todas as duas. projeção louca de um futuro realizado: sou devorado pelo desejo. condutas reativas. intratável. sem me queixar). Fico alarmado: ouço um contra-ritmo: algo como uma síncope na linda frase do ser amado. percebo de repente um ponto de decomposição. quero sua volta.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Schelling13 finalidade. Digo ao outro (antigo ou novo): Recomecemos. porém. sou a única testemunha de minha loucura. há afirmação imediata (psicologicamente: deslumbramento. aparecem na indiferença perfeita” (citado por Szondi. sem repetir. tristes.: Conversa. posso novamente afirmar. no terreno amoroso. estou provisoriamente desfascinado. é o Enamorado. 16 Tudo segundo Deleuze. Rusbrock está enterrado há cinco anos. um ruído de um rasgo no invólucro liso da Imagem. No decorrer de incidentes ínfimos ou de ligeiras características. VII. se colocar nas mãos de um Interpretante. aqui não é o Padre. em vez disso escrevo uma carta de amor – que não envio. nem vencido: sou trágico. (Como a galinha do jesuíta Kircher. Primeiro. não sua contingência: afirmo o primeiro encontro na sua diferença. Mas a força apaixonada não pode se deslocar. Seria o outro vulgar. é a afirmação. Posso sair. que ele afirma diante das mediocridade de Albert. porque então. venda de um Dever remarcável: o Dever amoroso.15 Nietzsche16 ALTERAÇÃO: Produção momentânea. Há duas afirmações do amor. É um ponto mínimo: um gesto. posso “sobrelevar”. mas esse sentido é uma finalidade inatingível: é somente o sentido da minha força. ele cuja elegância e originalidade eu incensava com devoção? Ei-lo que faz um gesto através do qual se revela nele uma outra raça. Certa manhã. em benefício de uma tarefa inútil. é desenterrado. No Ocidente cristão. o sujeito vê a boa Imagem repentinamente se alterar e se inverter. Mas como avaliar a viabilidade? Por que o que é viável é um Bem? Por que durar é melhor do que inflamar?) 2.. a impulsão de ser feliz): digo sim a tudo (me tornando cego). 3. estou portanto só com minha força. a ascensão do ressentimento e da oblação. por que tão grande tensão seria fraqueza?” (53 s. direta na linguagem. Ora.

Gide. porque aquele que vejo é de repente um outro (e não mais o outro). vejo o outro submetido a um desejo. uma pontinha de desejo que detecto no outro sem que ele mesmo esteja bem consciente: eu o vejo. isso não me agradou: vinha bruscamente do exterior. não flores. como nos contos de fadas. o invólucro da devoção se rasga. se rasga. Quando Albertine deixa escapar a expressão grosseira “tomar no rabo”.” (Intermezzo lírico. mais obsequiosa: surpreendo do outro. Observe bem tal reunião: você verá nela esse sujeito perturbado (discretamente. não é louco?). um macho e uma fêmea. da conquista grosseira. ordinariamente. Uma blasfêmia vem bruscamente aos lábios do sujeito e quebra desrespeitosamente a benção do enamorado. A palavra é de uma leve substância química que opera as mais violentas alterações: o outro. no sentido fotográfico do termo – como sujeito a uma instância que é ela própria da ordem do servil: eu o vejo de repente (questão de visão) afobado. Angústia Proust19 Flaubert20 Gide21 Werther22 “Sie sassen und tranken am Teetish. um diante do outro. uma luva suave envolvendo o ser amado. esticando o pescoço. Werther vê de repente Charlotte como uma fofoqueira. O macho andava em volta dela. tinha um ar “de criminoso ou de louco”. e por conseguinte os outros lhe emprestaram. 966). “ofegante. no trem de Biskra. que apenas minha perspicácia. arredondando o leque da cauda. de onde saem. os jarretes dobrados. em flagrante delito de inflação de si mesmo. Certa vez. como oposto a ele para seduzi-lo. se revela. mas rãs. por uma palavra que lhe escapa. 21 Et nunc manet in te. (Assim como. (Ou ainda: o outro se altera se ele mesmo se acomoda às banalidades professadas pelo mundo para depreciar o amor: o outro torna-se gregário). Pois a má Imagem não é uma imagem má. gorgolejando. a cena se torna derrisória: tenho a visão de dois pavões abrindo a cauda. (O horror de estragar é ainda mais forte que a angústia de perder). A fêmea se mantinha imóvel. preocupado. no decorrer de um incidente. falando de nós: “uma relação de qualidade”. 5. e. bem dirigido – caso em que eu teria simplesmente ciúmes (o que depende de outras circunstâncias). o dorso erguido. Ferido por uma frase que ele surpreende. entrandono jogo de três estudantes argelinos. aparece bruscamente – se descobre. Percebo uma perturbação de ser. e eles viram dois pavões. que é o mundo do outro. faz ouvir. depois saltou sobre ela. Quando a imagem se altera. é apenas um desejo nascente. 19 18 . por assim dizer. palpitante”. colocado. diante de sua mulher que fingia ler. pois é o gueto temido da homossexualidade feminina.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Heine18 vergonha vem da sujeição: o outro. ou simplesmente teimando em agradar. mais apelativa. É um discurso devoto. em se curvar aos ritos mundanos graças a que ele espera se fazer reconhecer. agitado. 337 s. 3. 1134. é pela linguagem que o outro se altera. cobrindo-a com as penas. Mas o que destoa nele. por menos que o parceiro solicitado responda do mesmo modo. Qualquer outro desejo que não o meu. Horrível refluxo da Imagem. atrapalhado. O discurso amoroso. colocado em posição de apelo em relação a um terceiro. que não está longe do que Sade teria chamado a efervescência da cabeça (“Vi o demônio se manifestar pelos meus olhos”). um estranho (um louco?). 249) A prisioneira. ele diz uma palavra diferente e ouço rugir de um modo ameaçador todo um outro mundo. que a envolveram como um berço. nomeado. 20 “Um brusco pé de vento levantou os lençóis. não é aos meus olhos um desejo formado. II. A Imagem está corrompida. é uma imagem mesquinha: ela me mostra o outro preso à mediocridade do mundo social. Frequentemente. ele é possuído por um demônio que fala por sua boca. bem-pensante. mas um outro entre outros). o outro me disse. tanto tempo retido no casulo do meu próprio discurso. que se revela repentinamente: uma cena inteira pelo buraco de fechadura da linguagem. Às vezes ainda. um tremor revira minha própria linguagem. multiplicado. (Bouvard e Pécuchet.. e os dois grandes pássaros tremeram num só arrepio”. mundanamente) por esse outro. em respeitar. ou meu delírio captam. 22 99. nivelando a especialidade da relação a uma fórmula conformista. é um invólucro liso que adere à Imagem. e diz então desdenhosamente “minhas mulherezinhas” (meine Weibchen). 4. as linguagens que ele pode pedir emprestado. durante a conversa. levado a estabelecer com ele uma relação mais calorosa.. 50. o narrador proustiano fica horrorizado. ele a inclui no grupo das amiguinhas com quem ela bate-papo (ela não é mais o outro.

Eu me exalto ao pensar numa causa tão grande. o luto violento que toma conta de mim então. A angústia cresce. sacrifico a imagem do Imaginário. voltemos a Paris”). . O mesmo. de uma mágoa. incensado. eu a escuto se nomear. de ataques). é a personagem medíocre de uma encenação forte. dir-se-ia uma pomba gorda. Entretanto. Vou ser muito paciente. Seria preciso que alguém pudesse me dizer: “Não fique mais angustiado. parece.. um objeto grotesco é colocado no centro do palco e lá adorado. em uma só palavra. Vou me levantar cedo. sofro ao ver o outro (que amo) diminuído. eu a recupero na magnificência e na abstração do sentimento apaixonado. indiferente. “calmamente”.). etc. se deixa levar pelo medo de um perigo. As angústias já estão lá. feito um monge. observo sua progressão. não pode mais me ferir. do sabor de uma ou outra contingência. um pouco triste. para que eu transfira meu desejo. para que qualquer coisa aconteça. o sujeito apaixonado esboça uma conduta ascética de autopunição (maneira de viver. tomado à parte. desde a origem do amor. se passa com a angústia de amor: ela é um temor de luto que já ocorreu. imediatamente. Amar o amor ANULAÇÃO. o abandono. Ser ascético Gide Cortezia ASCESE. a inquietude). estando ausente. para trabalhar. seja por querer impressioná-lo com sua infelicidade. Pego um livro e um sonífero. O sujeito apaixonado. 2. O silêncio deste grande hotel é sonoro. digno. em volta da qual roda um macho meio louco. é o luto do próprio Imaginário: era uma estrutura querida. Me sinto culpado e me reprovo de abandoná-lo: procuro desanulá-la. Basta que. E se chegar o dia em que eu tiver que decidir renunciar ao outro. 2. Seja por se sentir culpado em relação ao ser amado. me dedicar ao estudo de uma ciência abstrata. é o amor que o sujeito ama. sobressair. desse objeto anulado. deixo de desejar aquilo que. e choro a perda do amor. como uma figura inexorável. (E se. Esta noite voltei sozinho ao hotel. vou me punir. (Quero voltar. não de fulano ou fulana. os móveis.. é meu desejo que desejo. esconder meu olhar atrás de óculos escuros (maneira de entrar para o convento). para o meu próprio desejo. ainda escuro. vou arruinar meu corpo: cortar meu cabelo curtinho. o outro decidiu retornar mais tarde. do fundo das coisas que estão lá. Vou marcar histericamente meu luto (o luto que suponho) na minha 23 “O temor do aniquilamento”. eu fizesse uma promessa?). como a seqüestrada de Poitiers à sua maratona Malempia). como veneno preparado (o ciúme. de vestir. de um abandono. de uma reviravolta – sentimento que ele exprime sob o nome de angústia. O psicótico vive sob o temor do aniquilamento (do qual as diversas psicoses seriam apenas defesas). me obrigo a sofrer novamente. Mas “o temor clínico do aniquilamento é o temor de um aniquilamento que já foi experimentado (primitive anony) (. eis aí o outro anulado sob o amor: dessa anulação tiro um proveito verdadeiro: quando uma ferida acidental me ameaça (uma idéia de ciúme.) e há momentos em que um paciente precisa que lhe digam que o aniquilamento cujo temor mina sua vida já ocorreu”. arranjada pelo sujeito Werther. como empalhado. Já que sou culpado disso. 75. apertada nas suas plumas. Lufada de linguagem durante a qual o sujeito chega a anular o objeto amado sob o volume do amor em si: por uma perversão propriamente amorosa. como convém ao homem do ressentimento. eu veja o outro sob a forma de um objeto inerte. por exemplo). imóvel. Winnicott23 Werther 1. nada de amigável onde se aquecer (“Estou com frio. por uma amável decisão desse sujeito. você já o(a) perdeu”. 1. em segredo. daquilo (tenho e dou mil razões de sê-lo). num lampejo. não o objeto. reduzido e como excluído do sentimento que ele suscitou. as lâmpadas são estúpidas. feliz de me elevar rebaixando o outro). 1.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes ANGÚSTIA. que deixa atrás de si a pessoa da qual fiz o pretexto (pelo menos é o que me digo. elas esperam apenas que passe um pouco de tempo para poder descentemente se declarar. Charlotte é bem insípida. idiota (ronrom longínquo das banheiras se esvaziando). e o ser amado nada mais é que seu agente. como Sócrates falando (eu lendo) sentia aumentar o frio da cicuta. Pronto. desde o momento em que fiquei encantado. coberto de discursos de louvações (e talvez.

embaraçoso: o outro é inqualificável (seria o verdadeiro sentido de atopos). Surpreendo a atopia do outro no seu rosto. um só. Werther 1. Michel Guérin. à definição. o outro faz tremer a linguagem: não se pode falar dele.: Conversa. sua grande inocência: ela nada sabe do mal que me faz – ou. do mal que ele me dá. mas nossa própria relação. de melodias. ultrapassado. sem “topo” – sem discurso. “esperto”. um traço comum.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes roupa. de algum modo. sou por vocação inversa. A razão é simples: lá. por vocação. consigo sustar o jogo das imagens desiguais (“Posso ser tão original. não resgatado** como um embrulho num 24 25 * Sobre a atopia de Sócrates. E. não tem mais espaço nessa relação sem lugar. É a originalidade da relação que preciso conquistar. mas duas ou três vezes pude ler nos seus olhos uma expressão de uma tal inocência (não tenho outra palavra) que eu me obstinava. de viagem. Como inocência. É atopos o outro que amo e me fascina. desajeitado. a atopia resiste à descrição. O inocente. Grande quantidade de lieder. Neste momento. A ascese (a veleidade da ascese) se dirige ao outro: volte-se. A maior parte das mágoas me vêm do estereótipo: sou obrigado a me apaixonar. veja o que você faz de mim. que amo. Cf. um migrador. em determinado momento. adivinho que o verdadeiro lugar da originalidade não é nem o outro nem eu. No entanto. do seu próprio caráter. Será então que o meu desejo. é o sujeito apaixonado (Werther) que. olhe-me. só há a ausência do outro: é o outro que parte. se afasta. tão forte quanto o outro!”). no corte do meu cabelo. disponível. No original “en soufrrance”. classificação dos nomes (dos Erros). Atópico. no entanto. cada vez que aí leio sua inocência. o objeto amado (Charlotte) não se movimenta. quanto a mim. O outro vive em eterno estado de partida. O ser amado é reconhecido pelo sujeito apaixonado como “atopos” (qualificação dada a Sócrates por seus interlocutores). eu o dispensava de qualquer comentário. não importa o que acontecesse. evacuado e o ciúme. a colocar isso. É uma chantagem: ergo diante do outro a figura do meu próprio desaparecimento. frustrado. na regularidade dos meus hábitos. de canções sobre ausência amorosa. “souffrance” = sofrimento. não se encontra essa figura clássica. sedentário. fincado no lugar. que procura a vida inteira “seu tipo”? em que canto do corpo adverso devo ler minha verdade? 2. Nietzsche24 1. 2. O ausente R. apenas esse pouco de retiro necessário ao bom funcionamento de um patético discreto. um jeito) que me permita dizer: eis meu tipo! É exatamente o meu tipo! Não é nem um pouco o meu tipo! Assim diz o conquistador: o enamorado não é apenas um conquistador mais complicado. A atopia de Sócrates está ligada a Eros (Sócrates é cortejado por Alcibíades) e a Torpedo (Sócrates eletriza e paralisa Menon).). 25 AUSÊNCIA: Todo episódio de linguagem que põe em cena a ausência do objeto amado – quaisquer que sejam a causa e a duração – e tende a transformar essa ausência em prova de abandono. Não posso classificá-lo. não é ele inclassificável (portanto suspeito em toda sociedade. entretanto. à espera. etc. diz-se de uma mercadoria que não foi procurada. rejeitado. à linguagem que é maya. a Imagem singular que veio milagrosamente responder à especialidade do meu desejo. Ora. por mais insignificante que seja (um nariz. sem topos. se encaixa num tipo? Meu desejo é então classificável? Existe. Mas quando a relação é original.H. imóvel. por exemplo. Sócrates Heróico. o estereótipo é abalado. Será um retiro doce. se ele não ceder (a que?). que só “se acha” onde possa classificar Erros)? X bem que tinha uns “traços de caráter” pelos quais não era difícil classificá-lo (ele era “indiscreto”. 3. Atopos ATOPOS. mas sim classificado (como um dossiê muito conhecido). pois ele é precisamente o Único. todo atributo é falso. de uma originalidade sempre imprevista. sobre ele. como todo mundo. tal como ela certamente se produzirá. ele não pode estar contido em nenhum estereótipo (que é a verdade dos outros). no Werther. inclassificável. quer dizer. sou eu que fico. para dizê-lo com menos ênfase. fora dele mesmo.H. doloroso. não me sinto nunca atopos. . Nietzsche. Às vezes. “preguiçoso”. R. ele é. amei ou amarei carias vezes na vida. que é tão especial. como todo mundo: ser ciumento. entre todos os seres que amei. Diante da originalidade brilhante do outro. uma pele. É a figura da minha verdade.

viajante. Ajo como um sujeito bem desmamado. esteja o objeto presente ou ausente? O objeto não está sempre ausente? – A melancolia não é a mesma: há duas palavras: Pothos. entretanto. um afã (que me impede de fazer qualquer outra coisa). Devo infinitamente ao ausente o discurso de sua ausência. tristemente. para o desejo do ser ausente. quisesse se misturar ao outro: imagem do abraço que funde as duas imagens numa só: na ausência amorosa. morre por excesso. sempre ausente. mas por estar apaixonado. você partiu (disso me queixo). o outro está ausente como referente. Werther Rusbrock Banquete Diderot28 4.27 2. abrir o palco da linguagem (a linguagem nasce da ausência: a criança faz um carretel.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes canto qualquer da estação. o discurso da ausência é sustentado pela Mulher: a Mulher é sedentária. A ausência amorosa só tem um sentido. Vou então manipulá-la: transformar a distorção do tempo em vaivém. à noite. retardar tanto quanto possível o instante em que o outro poderia oscilar Grego29 Winnicott 26 27 “Mulher. Do corpo vem uma palavra (clássica) que diz a emoção da ausência: suspirar: “suspirar depois da presença corporal”: as duas metades do andrógeno suspiram uma depois da outra. nasce uma espécie de presente insustentável. na origem. de outras coisas além do seio materno. uma imagem descolada. a mulher é fiel (ela espera). é dizer: “Sou menos amado do que amo”.*** Desta singular distorção. Hugo26 E. que seca. (Criança.) . (Canção ao gosto romântico). ela não estava em nenhum). sei me alimentar. amarelece. depressões). De onde resulta que todo homem que fala a ausência do outro. simulando a partida e a volta da mãe: está criando um paradigma). Sou momentaneamente infiel. é milagrosamente feminizado. Sou então “normal”: me igualo à maneira pela qual “todo mundo” suporta a partida de um “ente querido”. como se cada sopor. A ausência se torna uma prática ativa. obedeço com competência à educação pela qual me ensinaram desde cedo me separar de minha mãe – o que não deixa. em Sèvres – Babylone. de início. incompleto. desejos. 168.B. 5. quando a mãe trabalhava fora.: carta ** Canção das tecelãs na Idade Média. quem choras? – O ausente” (O Ausente. Às vezes. morreria. estabelecer que o sujeito e o outro não podem trocar de lugar. as “chansons de toile”**. Desperto muito rápido desse esquecimento. de ser doloroso (para não dizer terrível). ritmos de viagens. se eu não esquecesse. uma perturbação. o Homem é caçador. (Mito e utopia: a origem pertenceu. da T. dizem ao mesmo tempo a imobilidade (pelo ronrom do tear) e a ausência (ao longe. o futuro pertencerá àqueles que têm algo feminino). para o desejo do ser presente). esse tempo difícil: um simples pedaço de angústia. enquanto espero. Um homem não é feminizado por ser invertido sexualmente. só se constitui diante de você. presente como alocutário. (N. reprovações. Sei então o que é o presente. Essa encenação lingüística afasta a morte do outro: diz-se que um pequeno instante separa o tempo em que a criança ainda acredita que a mãe está ausente daquele que acredita que ela já está morta. 29 Détienne. Historicamente. É a mulher que dá forma à ausência: ela tece e ela canta. é alongar esse momento. consigo suportar bem a ausência. cansaço e tensão de memória (como Werther). sou. Apressadamente arranjo uma lembrança. estou bloqueado entre dois tempos. Dizer a ausência é. o homem é conquistador (navega e aborda). eu ia esperar sua volta na parada do ônibus Ubis. o desejo não é sempre o mesmo. dias de abandono. não é outra coisa senão o esquecimento. produzir ritmo. situação com efeito extraordinária. feminino se declara: esse homem que espera e sofre. (N.) 28 “Inclina teus lábios sobre mim E que ao sair de minha boca Minha alma repasse em ti”. cria-se uma ficção de múltiplos papeis (dúvidas. o tempo da referência e o tempo da alocução. mais ardente. as Tecelãs. que ela lança e retoma. cavalgadas). (Como. A ausência dura. preciso suportá-la. É a condição de minha sobrevivência. os ônibus passavam um atrás do outro. *** Aquele a quem se dirige uma alocução por analogia a destinatário. encarquilha.B. você está aí (por isso me dirijo a você). 3. Essa ausência bem suportada. vagas marinhas. Manipular a ausência. poema musicado por Fauré). sempre presente. e só pode ser dita a partir de quem fica – e não de quem parte: eu. da T. e Himéros. O enamorado que não esquece de vez em quando. eu não esquecia: dia intermináveis. E.

em si. a não ser que esse nada. – Variações de uma mesma informação. esse pensamento é vazio: eu não te penso. Torno a ausência do outro responsável pelo meu mundanismo. 4. ambições. sua volta: que o outro apareça. as pessoas vêm me cumprimentar.S. desejo e preciso ao mesmo tempo. poderes: o amor tinha feito dele um detrito social e ele se regozijava disso). o reanima: quando estiveres desejado a verdade como desejaste o ar. que me retire. muitas coisas te trazem para o meu discurso. A figura visa a dialética particular da carta de amor. funções. É essa forma (esse ritmo) que chamo de “pensamento”: nada tenho para te dizer. 6. por muito. sei esquecer). . ardente. 8.31 A carta de amor CARTA. secessões. que ele me devolva “a intimidade religiosa.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes secamente da ausência à morte. O desejo se abate sobre a carência: aí está o fato obsedante do sentimento amoroso. A Ausência é a figura da privação. Por associação. alianças. Oscilo. eterno: mas Deus está acima dele. então saberás o que ela é”. eu me sinto muito sozinho.. Que bom pensar em você! 2. sua carta segue o seguinte plano: 1. Mas o outro está ausente.S. muito tempo. que me espia. Freud33 Goethe34 30 31 44. 32 75. me sinto rodeado. é para você que digo: “Porque recorri novamente à escritura? Não é preciso. e os braços erguidos do Desejo não atingem nunca a plenitude adorada”. do brilho mundano. simplesmente te faço voltar (na mesma proporção que te esqueço). meu ar se rarefaz: é através dessa asfixia que reconstituo minha “verdade” e preparo o Intratável do amor. promoções. Porque. Quanto à castração. “Pensar em você” não quer dizer nada mais que essa metonímia. 3.S. sem você. invoco sua proteção. como um tema musical: penso em você. Martha: “Ah. mas isso não me satisfaz: o objeto está lá. S. Quando Werther (em missão junto ao Embaixador) escreve à Charlotte. e com quem posso falar de você. mas continua a me fazer falta imaginariamente). Rusbrock30 (“O desejo aí está. como uma mãe que vem buscar seu filho. ao mesmo tempo vazia (codificada) e expressiva (cheia de vontade de significar o desejo). conspirações. O discurso da Ausência é um texto de dois ideogramas: há os braços erguidos do Desejo. eu convoco em mim mesmo para que ele me mantenha à margem dessa amabilidade mundana. vacilo entre a imagem pálida dos braços erguidos e a imagem acolhedora e infantil dos braços estendidos). teria por figura a Intermitência (aceito deixar um pouco o outro “sem chorar”. A frustração teria por figura a Presença (vejo o outro todo dia. a gravidade” do mundo amoroso. da fatuidade social. lisonjeado. 49). esse jardineiro Bünslow! – Que sorte a dele poder alojar minha bem amada” (Correspondência. O que quer dizer “pensar em alguém”? Quer dizer: esquecê-lo (sem esquecimento a vida é impossível) e despertar frequentemente desse esquecimento. A ausência do outro me conserva a cabeça sob a água. Apelo para a sua “verdade” (a verdade cuja sensação ele me dá) contra a histeria de sedução onde sinto que escorrego. 33 Freud à sua noiva. fazer pergunta tão evidente.: Koan recolhido por S. Un koan budista diz o seguinte: “O mestre conserva a cabeça do discípulo sob a água. 7. e há os braços estendidos da Carência.) que parece com você. Aqui estou eu num meio mundano e. solicitado. S. Encontrei alguém (a senhorita de B. 34 Goethe citado por Freud.. querida. Werther 32 1. pouco a pouco sufoco. assumo o luto da relação. o mestre tira o discípulo. Faço votos que possamos estar juntos. no último instante. na realidade. num café. pouco a pouco as bolhas se rarificam. Me instalo sozinho. (X me dizia que o amor o tinha protegido do mundanismo: associações.

na verdade. F. se vê fadado a uma destruição total de si mesmo. Nada a ver com a depressão insidiosa e na verdade civilizada dos amores difíceis. obscuro. 39 Fortaleza Vazia.W. o que estabeleço com o outro. quando você escreve a alguém. todo meu corpo enrijece e revulsa: vejo. no entanto isso em comum: são. (Causa? Nunca solene – jamais por declaração de ruptura. Como desejo. seja por brusca rejeição sexual: o infantil – se ver abandonado pela Mãe – passa brutalmente ao genital). que aquilo que mais agrada a ele”. asfixiado de dor. acabam em idéias falsas sobre as relações mútuas. é o que escreve Werther à Charlotte de diferentes maneiras. Gide (“Pensar em Hubert”. nada a ver com o enrijecimento do sujeito abandonado: não é como ficar na fossa. depois de não sei que incidente. detalhar a imagem do outro em vários pontos em que a carta tentará tocar (trata-se na verdade de uma correspondência. no sentido quase matemático do termo). um empreendimento tático destinado a defender posições. Dois regimes de desespero: o desespero doce. a carta de amor espera sua resposta. sem o que a imagem dele se altera. quando ele me falta. escreve comicamente na sua agenda no narrador de Paludes. que é “uma situação vivida pelo sujeito como tendo irremediavelmente que destruí-lo”. se torna outra. 2. e o desespero violento: um dia. me tranco no quarto e expludo em soluços: sou tomado por uma onda possante. ao pé da letra. por não termos nos certificado delas. 3. É claro como uma catástrofe: “estou desgraçado!”. a destruição a qual estou condenado. A catástrofe está talvez mais próxima daquilo que se chamou no âmbito psicótico. Mas. o que ela postula é uma correspondência. desesperadamente”). aquele que continuasse a falar levemente.39 2. a imagem foi retirada do que se passou em Dachau. é uma relação. não uma correspondência: a relação liga duas imagens.W. sem obter resposta. Crise violenta no decorrer da qual o sujeito. que é o livro do Nada). que é apenas presa do seu Imaginário? Essas duas situações têm. e 95. Mlle de Lespinasse 1. uma armadilha da qual nunca poderá sair. seja pelo efeito de uma imagem insurportável. docemente. ela impõe implicitamente ao outro de responder. de uma situação extrema. (Aquele que aceitasse as “injustiças” da comunicação. infantil.: Conversa . se imaginava”. Entretanto tuas mãos queridas receberão este papel”. Não será indecente comparar a situação de uma sujeito que sofre de amor à de um prisioneiro de Dachau? Pode uma das ofensas mais incríveis da História se repetir num incidente fútil. escreve a Marquesa de Mertueil. A marquesa não está apaixonada. vem sem prevenir.36 Etimologia Freud 37 A catástrofe CATÁSTROFE. para o enamorado. num relâmpago cortante e frio. sofisticado. e nos tornarão estranhos um ao outro quando nos encontrarmos novamente. Você está em toda parte. Ligações Perigosas35 A.C. sua imagem é total. de pânico: são situações sem resto. que. que não são nem ratificados nem alimentados pelo ser amado. e acharmos então as coisas diferentes do que. sem troco: me projetei no outro com tal força que. É o que explica com autoridade o jovem Freud à sua noiva: “Não quero porém que minhas cartas fiquem sempre sem resposta.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Porque. a assegurar conquistas: esse empreendimento deve conhecer os pontos (os subconjuntos) do conjunto adversário. “Veja bem. quer dizer. é para esse alguém e não para você: deve então procurar lhe dizer menos aquilo que você pensa. me recuperar: estou perdido para sempre. a carta não tem valor tático: ela é puramente expressiva – para ser exato elogiosa (mas o elogio aqui é desinteressado: é apenas a fala da devoção). adquiriria um grande domínio: o da Mãe). que aconteceu a um sujeito confortável. Conversa Correspondência. sentindo a situação amorosa como um impasse definitivo. introd. não posso me retomar. a resignação ativa (“Amo você como se deve amar. quer dizer. nada tenho a dizer. e não te escreverei mais se você não me responder. 35 36 37 38 39 Carta CV. Bruno Bettelheim38 F. Eternos monólogos sobre um ser amado.

angustiado) só é rompido uma vez. mas de se sujeitar em comum a um princípio de repartição dos bens da fala. Cada argumento (cada verso do dístico) é escolhido de tal modo que seja simétrico e por assim dizer igual a seu irmão e. um só sujeito. Os parceiros sabem que o confronto ao que se entregam e que não os separará é tão inconseqüente quanto um gozo perverso (a cena seria uma maneira de ter prazer sem o risco de fazer filhos).* modelo arcaico de todas as cenas do mundo (quando estamos em estado de cena falamos por “filas” de palavras). presenciou-se o nascimento. A cena é como a Frase: estruturalmente não há nada que obrigue a pará-la. e vice-versa. mas comum) da cena enuncia através de dísdicos: é a esticômitis. que lhe pede para não tornar a vê-la antes do dia de Natal. O monólogo foi dessa relegado aos próprios limites da humanidade: na tragédia arcaica. em certas formas de esquizofrenia. Essa super-oferta não é outra coisa senão o grito do Narciso: E eu! E eu! 3. para que a cena ganhe velocidade. e o aborrecimento de Charlotte o excita mais ainda: a cena tem portanto. O acordo é logicamente impossível na medida em que o que é discutido não é o fato ou a decisão. eu colo ao que acaba de ser dito. Esticômitis: poema. o louco e o enamorado recusassem a se colocar como heróis da fala e se submeter à linguagem adulta. mas apenas uma origem. Entretanto. esses dois sujeitos já estão casados: a cena é para eles o exercício de um direito. Werther está excitado. conforme o instinto profundamente helênico. quer dizer. mas. 1. Esse é o sentido do que se chama eufemisticamente de diálogo: não se trata de escutar um ao outro. Para que esse desequilíbrio se ponha em movimento (como um motor). no final. como um estava subordinado ao outro. Werther é puro discurso do sujeito apaixonado: o monólogo (idílico. antes mesmo da aparição de Sócrates. A cena começa com uma diferença: Charlotte está aborrecida. É como se o proto-ator. da T. Charlotte empurra sempre sua parte para proposições gerais (“Você me deseja porque isso é impossível”) e Werther conduz a sua para a contingência. querendo através disso significar a ele que é preciso espaçar suas visitas e que a partir de então sua paixão não será mais aceita: segue-se uma cena. 41 “Conversa”. É próprio da réplica não ter nenhuma finalidade demonstrativa. 466 42 123 s. 42). deusa das feridas amorosas (“Sua decisão deve vir de Albert”). o que equivale a dizer nunca você. qualquer que seja a regularidade dessa mecânica. alguma coisa que está fora da linguagem. diz a cena. que cada um dos parceiros se esforça em atrair para seu campo. mas a partir do momento em que dois personagens principais se encontraram frente a frente. a linguagem começa sua longa carreira de coisa agitada e inútil. o combate dialético era impossível. sem mim. é preciso que haja um diferencial em cada dísdico: assim. (N. diálogo de Tragédia onde os interlocutores se respondem verso por verso.) . persuasiva. Nietzsche40 Jakobson41 Com a primeira cena. no entanto acrescido de um suplemento de protesto: enfim. da justa de palavras e de argumentos: o diálogo amoroso (compreenda-se: a cena) sempre foi desconhecido na tragédia grega” (“Sócrates e a tragédia”. e que essa origem seja sempre apenas imediata: na cena. O sujeito (dividido. nenhuma Werther42 Etimologia43 40 “Já existia algo de semelhante na troca das palavras entre o herói e o corifeu. 43 * στιχοζ (stichos): fila. no solilóquio amoroso (pelo menos por tanto tempo quanto eu “sustente” meu delírio e não ceda à vontade de atrair o outro para uma contestação ordenada de linguagem). Escritos póstumos. de uma super-oferta. a prática da linguagem da qual eles são co-proprietários. Pois foi o diálogo (a justa entre dois atores) que corrompeu a Tragédia. esse engano é geralmente um fato (que um afirma e o outro nega) ou uma decisão (que um impõe e o outro recusa: no Werther é espaçar deliberadamente as visitas).Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Fazer uma cena CENA. 2. um de cada vez. pouco antes do suicídio: Werther visita Charlotte. é preciso um engano. fileira. à linguagem social insuflada pela Discórdia: deusa da neurose universal. mas apenas aquilo que a precede: a cena não tem objeto ou pelo menos ela o perde muito depressa: essa é a linguagem cujo objeto foi perdido. dividido por um diferencial de energia (a cena é elétrica). A figura visa toda “cena” (no sentido doméstico do termo) como troca de contestações recíprocas. Quando dois sujeitos brigam segundo uma troca ordenada de réplicas e tendo em vista obter a “última palavra”.

por uma espécie de ascese rara. A fuga? É o signo de uma deserção adquirida: o casal já se desfez: como o amor. disputatio dos Escolásticos) via à posse desse lugar. a chegada de alguém (no Werther é Albert que chega) ou ainda a substituição brusca do desejo pela agressão. A cena é. 125 Medo e Temor. só mesmo o suicídio: pelo anúncio do suicídio. esse jogo é no caso invertido. Ou melhor ainda. “liquidar” o adversário. Para que o sujeito da cena se arme de uma última palavra verdadeiramente peremptória. eu vou desorganizar. porque. tranquilamente. a cena lembra um vômito à moda romana: ponho o dedo na garganta (me excito até a contestação). . a Cena. é dar um destino a tudo que se disse. Só pode interromper a cena alguma coisa exterior à estrutura: o cansaço dos dois parceiros (não bastaria o cansaço de um só). possuir. colocou-a na cabeça e se foi: impecável dissolução da última réplica. daquele cuja posse garantirá o todopoder: a última réplica. ociosa: tão inconseqüente quanto um orgasmo perverso: ela não marca. segundo um privilégio regulamentado. por ser menos coberta (o silêncio é sempre uma boa coberta). pelos professores. Insignificante. A não ser que se aproveite um desses incidentes. as expansões são infinitamente conduzíveis. portanto levado a responder para absorver. ocupado. O raciocínio? Nenhum é de tão puro metal que deixe o outro sem voz. De que meios eu poderia dispor? O silêncio? Ele só realçaria o querer da cena. vomito (um jorro de argumentos ferinos) e depois. 4. essa “adoração perpétua” que faz com que. atribuir o sentido: no espaço da fala. Elogio das lágrimas Sade Werther44 Kierkegaard45 44 45 Pág. a cena é coroada por uma chantagem: “Se você me deixar descansar ainda um pouquinho. 5. castrá-lo de toda fala. pela última palavra. sou. (X tinha de bom o fato de não explorar a frase que lhe era dada. os confessores: todo combate de linguagem (makhê dos antigos Sofistas. desde que o homem existe. No Werther. no entanto contra a insignificância. O que é um herói? Aquele que tem a última réplica. domínio do não-domínio. “concluir”. A análise da cena em si? Passar da cena para a metacena não é mais do que abrir uma outra cena. a decisão). tudo se arranjará”. dilacerada. nenhuma avança para um esclarecimento ou uma transformação. aquele que vem por último ocupa um lugar soberano.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes imposição interna a desgasta. os presidentes. abrandar. Todo parceiro de uma cena sonha com a “última palavra”. Pela insignificância do seu tumulto. ela é luxuosa. resposta rápida mas subversiva. como a linguagem: ela é a própria linguagem. Já se viu um herói que não tivesse falado antes de morrer? Renunciar à última réplica (recusar a cena) é próprio de uma moral anti-heróica: como a de Abraão: ele não fala até o fim do sacrifício que lhe foi pedido. é substituir a última réplica por uma pirueta inconveniente: é o que faz aquele mestre zen que. íntegra. Falar por último. alterada. a cena é sempre recíproca. isso não pare de falar. os juizes. é dominar. pois. num tom queixoso e ameaçador: quer dizer: “Breve você se livrará de mim”: frase impregnada de gozo. nenhum parceiro tem poder para bloquear a cena. apreendida no seu infinito. infligir-lhe uma ferida (narcísea) mortal. se parece mais com a brincadeira do anel: todavia. não suja. continuo a comer. diz Werther a Charlotte. pois ela é fantasiada como uma última réplica. Justine está sempre fresca. como única resposta à solene pergunta: “O que é Buda?”. interminável. uma vez dado o núcleo (fato. A cena não é nem prática ou dialética. A cena se desenrola tendo em vista esse triunfo: não se trata absolutamente de que cada réplica concorra para a vitória de uma verdade e construa essa verdade pouco a pouco. tirou a sandália. Paradoxo: em Sade a violência também não marca: o corpo é restaurado instantaneamente – para novos gastos: constantemente maltratada. pois ganha aquele que consegue reter o anel na mão no exato momento em que o jogo termina: o anel circula ao longo da cena. a vitória é de quem o capturar. dar. Werther se torna o mais forte dos dois: daí se percebe mais uma vez que só a morte pode interromper a Frase. a cena luta. repousada: assim é o parceiro da cena: ele renasce da cena passada como se nada houvesse acontecido. vou reduzi-lo ao silêncio. Cena nenhuma tem um sentido. ela não se aproveitava da linguagem). como na Frase. A cena não se parece em nada com um jogo de xadrez. mas sim de que a última réplica seja a ótima: o que conta é o último lance de dados.

em que tempos se chorou? Desde quando os homens (e não as mulheres) não choram mais? Por que a “sensibilidade” se transformou em dado momento em “pieguice”? As imagens da virilidade se modificam. um jovem monge pega a estrada para uma das abadias de Cisterciennes. ao chorar. opõem gaudium e laetitia. talvez. tendo sentido as lágrimas lhe escorrerem docemente pelo rosto. mas à boca”. Werther46 1. Talvez seja – e geralmente é – o outro que se quer obrigar desse modo a assumir abertamente sua comiseração ou sua insensibilidade. e. Propensão particular do sujeito apaixonado a chorar: modos de aparição e função das lágrimas nesse sujeito. quando choro. a do meu corpo e não da minha língua: “Que são as palavras? Uma lágrima diz muito mais”. Lob der Thränen (Elogio das Lágrimas). da T. Ao chorar. 62. é porque. Cícero. Quem fará a história das lágrimas? Em que sociedades. o sujeito coloca sua esperança num método de controle que permitiria circunscrever os prazeres que lhe dá a relação amorosa: de um lado guardar esses prazeres. aproveitá-los plenamente. e o destinatário das minhas lágrimas não é sempre o mesmo: adapto minhas maneiras de chorar ao tipo de chantagem que pretendo exercer ao meu redor através das lágrimas. mas talvez seja também eu mesmo: me faço chorar para me provar que minha dor não é uma ilusão: as lágrimas são signos e não expressões. W. fazendo assim do enamorado que chora um objeto perdido cuja repressão necessária à “saúde”. 65. Em Werther é o enamorado que chora ou é o romântico? Será talvez uma disposição própria do tipo apaixonado se deixar levar pelo choro? Submetido ao Imaginário. De onde o enamorado tira o direito de chorar. depois de Leibniz. 66. Schubert47 Michelet Schubert48 Laetitia CIRCUNSCREVER: Para reduzir sua infelicidade. me ofereço um interlocutor empático que recolhe a mais “verdadeira” das mensagens. Schlegel. me acomodo: posso viver com ela. Segundo Michelet. certa vez. não só ao coração. meu senhor!”). (Do mesmo modo: em 1199. as pessoas do século XVII choravam muito o teatro.). 60. 68. No filme A Marquesa d’O. pressioná-lo (“Veja o que você faz de mim”). porque. muita freqüência e abundantemente. 2. “elas lhe pareceram tão saborosas e tão doces. * Brabant: região da Bélgica (N. Através das minhas lágrimas. mas diferentes de “chorar”. se chora e as pessoas riem. de felicidade ou de aborrecimento. A menor emoção amorosa. .Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes CHORAR. poesia de A. senão de uma inversão de valores da qual o corpo é o primeiro alvo? Ele aceita reencontrar o corpo criança. conto uma história. talvez não se deva dar a todos os choros a mesma significação.* para obter através de preces o dom das lágrimas). e a partir de então. Qual é esse “eu” que tem “lágrimas nos olhos”? Qual é esse outro que um dia desses estava “à beira das lágrimas”? Quem sou eu que choro “todas as lágrimas do meu corpo”? Ou derramo ao acordar “uma torrente de lágrimas”? Se tenho tantas maneiras de chorar. os gregos. Talvez chorar seja muito geral. talvez haja no mesmo enamorado vários sujeitos que se empregam em modos vizinhos. Gaudium é o “prazer que a alma 46 47 36. Werther chora com freqüência. 63. me dirijo sempre a alguém. Além disso. colocar num parênteses sem pensamento as largas zonas depressivas que separam esses prazeres: “esquecer” o ser amado fora dos prazeres que ele lhe dá. quero impressionar alguém. 110 – Chorar em comum: 27. no Brabant. ele segue ordens do corpo apaixonado. de outro. faz Werther chorar. escorrer juntos: deliciosas lágrimas terminam a leitura de Klopstock que Charlotte e Werther fazem em comum. 1. São Luis se lamentava por não ter recebido o dom das lágrimas. o corpo apaixonado é aqui um duplo de um corpo histórico. ele faz pouco caso da censura que mantém hoje o adulto longe das lágrimas e pela qual o homem pensa afirmar sua virilidade (satisfação e maternal enternecimento de Piaf: “Mas está chorando. em expansão líquida: chorar juntos. 48 Elogio das Lágrimas. liberando suas lágrimas. 3. produzo um mito da dor. (Problema nietzcheano: como se combinam História e Tipo? Não é ao tipo que cabe formular – formar – o inatual da História? É nessas lágrimas do enamorado que nossa sociedade reprime seu próprio inatual. que é um corpo encharcado.

Werther 1. “Sentimento que nasce do amor e que é produzido pelo medo de que a pessoa amada prefira outro” (Littré).). não pelo pensamento. É que se trata (é uma das belezas do livro) de uma disposição trágica e não psicológica. É apenas quando a confidência é abandonada para passar à narração final que a rivalidade se torna aguda. Ele está ao menos apaixonado? Ele só está com ciúmes: não há nada nele de “lunático” – a não ser quando se ama. é M. I. o alívio de uma ressurreição). se desfazem: é a degradação). 2. às vezes contraditórias). Gaudium é aquilo com que sonho: usufruir de um bem vitalício. Albert ocupa simplesmente um lugar desejado. Werther se mostra pouco ciumento. a Mãe (a avó). como se o ciúme acontecesse pela simples passagem do eu ao ele. a Morte? Além disso. O ciumento do romance não é Werther. razoavelmente. e esse doce se reparte: cada um tem o seu pedaço: eu não sou o único – em nada sou o único. se eu não aceitar a repartição do ser amado.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Leibniz49 experimenta quando considera a posse de um bem presente ou futuro como assegurada. num segundo tempo. “um estado onde o prazer predomina em nós” (em meio a outras sensações. 338). Em suas cartas a Wilhelm. Schmidt. nego sua perfeição. Sofro assim duas vezes: pela repartição em sim e pela minha impotência de suportar sua nobreza. áspera. inconseqüente? Esse projeto é louco. num primeiro tempo. Precisei me afastar”. Mas não tendo acesso a Gaudium do qual estou separado por mil entraves. tenho que me curvar diante da repartição: as deusas do Destino não são por acaso elas também as deusas da Repartição. tenho que repartir. o homem do mau humor. esquecer sistematicamente as zonas de alarme que separam esses momentos de prazer? E se eu pudesse ser distraído. as Moiras – sas quais a última é a Muda. é trabalho jogado fora: o grude amoroso é indissolúvel. 52 Hypérion. 51 TALLEMANT DES RÉAUX: Luis XIII: “Seus amores eram amores estranhos: ele não tinha nadade apaixonado. outras se dissolvem. e possuímos tal bem quando ele está de tal forma em nosso poder que podemos usufruir dele quando queremos”. cada vez que ele volta. não um inimigo? Ele não é “odioso”. seu poder de manchar: nada da imagem pode ser esquecido. O ciúmes de Werther vem pelas imagens (ver Albert passar o braço pela cintura de Charlotte). ou se agüenta ou se sai: dar um jeito é impossível (o amor não é nem dialético nem reformista). Charlotte é um doce. sem mortificá-los com a angústia que lhes serve de elo? E se eu pudesse ter uma visão antológica da relação amorosa? E se eu compreendesse. O ciúme Brecht50 CIÚME. que uma grande preocupação não exclui momentos de puro prazer (como o Capelão de Mãe Coragem explicando que “a guerra não exclui a paz”) e se eu conseguisse. e Hypérion sofre por isso: “Minha tristeza era verdadeiramente sem limites. Proust Tallemant51 Hölderlin52 Novos Ensaios sobre a Compreensão Humana. ou ainda. Laetitia é um prazer entusiasta. Mãe Coragem. e a partir de então saborear. sem contaminá-los. no sentido próprio). é um adversário (um concorrente. II. XX. de um discurso imaginário (saturado do outro) a um discurso do Outro – da qual a Narrativa é a voz estatutária. quadro VI. Posso até imaginar alguns procedimentos para obter a circunscrição dos meus prazeres (converter a raridade da freqüência no luxo da relação. penso em me projetar sobre Laetitia: e se eu pudesse conseguir de mim mesmo me restringir aos prazeres entusiastas que o outro me dá. a não ser o ciume” (Historietas. Werther não odeia Albert. ou ainda. Werther é capturado pela seguinte imagem: Charlotte corta uns pãezinhos doces e os distribui a seus irmãos e irmãs. pois é próprio da perfeição ser repartida: Mélite se reparte porque ela é perfeita. apaixonadamente. 127 (assinalado por J.B. considerar o outro como perdido. irmãs. enfim de morar nele comportadamente. tenho irmãos. O narrador proustiano tem um pouco a ver com Werther. – L. uma memória extenuante impede de sair à vontade do amor. (Versão triste da circunscrição dos prazeres: minha vida é uma ruína: algumas coisas ficam no lugar. pois o Imaginário é precisamente definido por sua coalescência (sua cola). 50 49 . 141. o noivo de Frédérique. à moda epicuriana.

19. sem nunca poder alcançá-lo. 54 53 . é preciso uma explicação para esse escândalo: a cena se passa no Egito. exterior à relação amorosa ela mesma. DJEDIDI. Zulayha tentou seduzir José e o marido não se indignou.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Freud53 Djedidi54 Etimologia55 3. continuo seco. sou exclusivista”. eu mesmo deveria alucinar. Bem que eu gostaria de saber o que é. A reflexão me é certamente permitida. mas Platão fala da delicadeza de Atê: seu pé é alado. com o oytro. Que é que eu penso do amor? – Em suma. se eu focar correndo atrás dele só vou perder fôlego. ao mesmo tempo. Sou uma Mãe (o outro me preocupa). 55 Jaloux (ciumento). se acha odiável”. Ora. não penso nada. o sujeito exclama: ”Quero compreender (o que me acontece)!”. diz Freud (que tomaremos como modelo da normalidade). José cedeu “um tantinho como uma asa de mosquito” para que a lenda não pudesse pôr em dúvida sua virilidade. (Até a deusa da perdição. da T. (Conformismo invertido: não se tem mais ciúmes. a forma plural zelos também quer dizer ciúme (Aurélio). mas sem me apoiar. me agito demais. A partir de então. vive-se em grupos. Pois ao mesmo tempo que me identifico “sinceramente” à infelicidade do outro. façamos o aprendizado de uma certa distância. proporcionalmente à profunda reserva onde de fato me apóio. isso não se produz: eu fico emocionado. o sente ou o sabe infeliz ou ameaçado. como Pascal. e que ao estar infeliz por si mesmo. artística) da compaixão. mas como essa reflexão é logo incluída na sucessão de imagens. “Quero compreender” Banquete COMPREENDER. o outro me abandona: se ele sofre sem que eu seja a causa disto. ao mesmo tempo muito afetiva e muito vigiada. Que surja a palavra reprimida que vem aos lábios de todo sujeito que sobrevive à morte de alguém: Vivamos! 3. Ser ciumento é comum. transgredir uma lei. vamos no que dá: e se eu me forçasse a não ser mais ciumento por vergonha de sê-lo? O ciúme é frio. por ser agressivo. 4. 73 57 Michelet ao dizer: “Sofro pela França”. “Sofro pelo outro” COMPAIXÃO: O sujeito experimenta um sentimento de violenta compaixão em relação ao objeto amado. sem me perder. mas. reviravolta: já que o outro sofre sem mim. palavra francesa tomada dos trovadores. ela não se torna nunca reflexidade: excluído da lógica (que supõe linguagens exteriores umas às outras). e o Egito está sob um signo zodiacal que exclui o ciúme: Gêmeos. porque é horrível ver sofrer as pessoas que se ama. unidade de sofrimento – deveríamos odiá-lo quando ele mesmo. Minha identificação é imperfeita. impermeável. condena-se os exclusivos. sofrerei. um zelo – (e é esse zelo que recusamos). qualquer que seja a força do amor. (N. 2. mas estando do lado de dentro. Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento. A essa conduta. angustiado. Ao perceber repentinamente o episódio amoroso como um nó de razoes inexplicáveis e de soluções bloqueadas. por que sofrer no lugar dele? Sua infelicidade o leva para longe de mim. cada vez que o vê. eu mesmo deveria ficar louco. aforismo 63. o que leio nessa infelicidade é que ela tem lugar sem mim. portanto. Zulayha conseguiu “um pouquinho”. Quando amo.) 56 Aurora. por ser louco. se teme enlouquecer. coincidir com ele. Se o outro sofre de alucinações. não em essência. é burguês: é uma agitação indigna. não posso pretender pensar Correspondência. 1. portanto. muito amorosa e muito policiada. eu o vejo em existência. mas uma Mãe insuficiente. 27. Afastemo-nos então um pouco. – Vamos ver! –. Em português. I. é que não conto para ele: seu sofrimento me anula na medida que ele se constitui fora de mim. Do grego ζÁλοj (zelos) – zelosus – jaloux. etc. por ser comum. “Suponho que ressentimos o outro como ele mesmo se ressente – o que Schopenhauer chama de compaixão e que se poderia mais exatamente chamar de união pelo sofrimento. toca levemente). podese dar um nome: é a delicadeza: ela é como a forma “sã” (civilizada. por esta ou aquela razão. Recusar o ciúme (“ser perfeito”) é. Nietzsche56 Michelet57 1. porque temo que meu ciúme machuque o outro. O que quero conhecer (o amor) é exatamente a matéria que uso para falar (o discurso amoroso). porque me reprovo de sêlo. porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído.

tudo que incomoda. que é seu lugar ilimitado: “O lugar mais sombrio. não mais interpretar. é sempre embaixo da lâmpada”. É fútil aquilo que aparentemente não tem e não terá conseqüências. ciência exata das condutas. na verdade. um ato puro. . diz o provérbio chinês. remoendo meu problema amoroso. Banquete. dessa cascata de alternativas. resplandecendo no meio de todos. Do ponto de vista amoroso. Mas para mim. estou no mau lugar do amor. saber. ou ainda: obstinadamente escolho não escolher. e ao grande sonho nítido.. a consciência se tornasse finalmente isso: a abolição do manifesto e do latente. mas contudo. enunciar numa outra linguagem que não a minha. Será que se deve continuar? Wilhelm. Do mesmo modo. surpresas de expressão. 2. o fato se torna conseqüente porque se transforma imediatamente em signo: é o signo e não o fato 58 59 Provérbio citado por Reik. Você ama Charlotte: ou bem você tem uma esperança e então age. geralmente fúteis: diante de tal alternativa. desfazer o eu. um dia. ao amor profético. quero compreender meu delírio para mim mesmo. angustiadamente. uma sorva) em direção ao corte (o ventre) “para que a visão do seu seccionamento os tornasse menos ousados”. – L. só poderia esperar pagar o conceito “pelo rabo”: por flashes. a visão profética (sempre desacreditada). Repressão: quero analisar. fórmulas. solto esse grito estranho: não: que isso termine! Mas: Quero compreender (o que me acontece)! Banquete59 3. órgão formidável do desconhecimento? 4. problemas de conduta. até que surja finalmente. isento de qualquer remorso.60 Etimologia61 CONDUTA.B. Figura deliberativa: o sujeito apaixonado se coloca. 2. me corta. Assim é o discurso do sujeito “são”: ou bem. sujeito apaixonado. me fazer compreender. tudo que é novo. não é cindir a imagem. Minhas angústias de conduta são fúteis. da consciência?). Ao sair do cinema. 81 60 Carta 61 Os gregos opunham Ónar (onar). é o homem da moral. 62 Werther. Essa moral é de fato uma lógica: ou bem isso. Se o outro. mesmo que eu discorresse sobre o amor durante um ano. 5. mas como um signo que é preciso interpretar. da aparência e do oculto? Se fosse perdido à análise não de destruir à força (nem mesmo de corrigi-la ou de dirigi-la). quero que alguém me leve com ele”. me fazer beijar. Compreender. mas fazer da própria consciência uma droga. de qualquer hesitação. e através dela ter acesso à visão sem resto do real. infinitamente fúteis. cada vez mais fúteis. desaparecida toda ideologia reativa. Assinalado por J. Mas o sujeito apaixonado responde (é o que faz Werther): tento me esgueirar entre os dois membros da alternativa: quer dizer: não tenho nenhuma esperança.. o amigo de Werther. desconhecida. ou bem você não tem nenhuma e então renuncia. que fazer? Como agir? Werther62 1. Compreendam sua loucura: era a ordem de Zeus.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Reik 58 bem. é recebido. Esse grito. 47. fico logo afobado: devo ou não lhe telefonar? (De nada serviria me dizer que posso lhe telefonar – esse é o sentido objetivo. me fazer conhcer. escolho a deriva: eu continuo. mas apenas de decorá-la artisticamente? Imaginemos que a ciência dos lapsos descubra um dia sei próprio lapso.C. por volta suplementar da espiral. quando impôs a Apolo de girar o rosto dos Andrógenos divididos (como um ovo. É isso que significa seu grito. não como um fato. que o filme não pudera me fazer esquecer. “Que fazer?” A. Quero mudar de procedimento: não mais desmascarar. e que esse lapso seja: uma nova forma. Interpretação: não é isso que quer dizer seu grito. ainda é um grito de amor: “Quero me compreender. ocasionalmente ou negligentemente me dá o número do telefone de um lugar que posso encontrá-lo mais a tantas horas. ou bem aquilo: e assim por diante. razoável da mensagem – pois é precisamente dessa permissão que não sei o que fazer). o sonho vulgar e Üpar (hypar). 184. quero “ver de frente” o que me divide. sozinho. (E se a consciência – uma consciência como essa – fosse nosso futuro humano? Se. dispersos pelo grande escoamento do Imaginário. ou bem.

como um operário da idade eletrônica. na relação trial. O ciúme é uma equação de três termos permutáveis (indecidíveis): tem-se sempre ciúmes de duas pessoas ao mesmo tempo. Posso então. por prazer. são recebidas numa espécie de paz. não sou homem de pequenos “acting-out”. não me impõem nenhuma responsabilidade de conduta. mas sem mim. meu rival.F. meu ciúme que leio). pois há dois observadores. Coincido ao mesmo tempo com a imagem e com esse segundo espelho que reflete o que sou (no rosto rival é meu medo. de Dotoievski). por mais dolorosas que sejam. fazê-los coincidir. de ficar inquieto). suspenso todo ciúme. fico preso. ligado ao cálculo. o deprecia. posso. permanece interior ao discurso dual. sou eu mesmo que faço ao outro um certo elogio do rival (para ser “liberal”?) contra o que o outro. de qualquer conseqüência: é meumedo – minha deliberação – que é “espontâneo”. Etimologia (Conivência: connivere: quer dizer ao mesmo tempo: pisco o olho. sofro. um gozo de inclusão. a máquina amorosa (imaginária) anda sozinha. estranhamente (para me lisonjear?). por um rápido instante. O budista quer se retirar do karma. Isso pode ser lido em certos embaraços. tenho ciúmes de quem eu amo e de quem o ama. já que você está com vontade! Mas o recurso é vão: otempo amoroso não permite alinhar a impulsão e o ato. produz-se uma igualdade do saber. e essa imagem desenvolve estranhamente nele um acordo de cumplicidade. Daí se chega a esse paradoxo: é o próprio ser amado que. é quase demais. Do mesmo modo. 2. quer suspender o jogo da casualidade. as situações que. dou uma piscadela. D. Aquele/aquela com quem posso falar do ser amado. Bate-papo animado. me impeço de gozar. gozo): pois bem. ele mesmo se queixa do meu rival. em torno desse ausente do qual dois olhares convergentes reforçam a natureza objetiva: entregamo-nos a uma experiência rigorosa. num sobressalto. Na própria infelicidade. poder. protegido por ele. de ficar magoado. como um afogado que toca com o calcanhar o solo marinho. me atrai (ver O Eterno Marido. desencadeando assim entre ele e eu um tumultuado entrecruzamento de imagens. me intriga. telefono-lhe. nesse comentário o objeto não é nem afastado nem rasgado. Zen 1. e. A conivência CONIVÊNCIA. mas pelo menos nada tenho de decidir: nesse caso. por sorte. é aquele/aquela que o ama tanto quanto eu. só tenho que estar lá: o karma (a máquina. 3. nada pode impedir que um dia eu também seja objeto de depreciação. O karma é o encadeamento (desastroso) das ações (de suas causas e efeitos). tento então.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes que é conseqüente (pela sua repercussão). quer ausentar os signos. comentar o outro com quem entende do assunto. Quando o objeto amado. 63 63 Conversa. como eu: meu simétrico. Às vezes me canso de tanto deliberar sobre “nada” (como diria o mundo). voltar a uma decisão espontânea (a espontaneidade: grande sonho: paraíso. minha loucura é equilibrada. a partir daí. ou apenas caso fosse preciso. ou como o péssimo aluno no fundo da sala. Se o outro me deu esse novo número de telefone. e as duas observações se fazem nas mesmas condições: o objeto é testado: descubro que eu tenho razão (de ser feliz. ela não é vista. L’odiosomatto (assim se diz “rival” em italiano) é também amado por mim: ele me interessa. protesta. 3. . é imediatamente que tenho medo das conseqüências. bem-sucedida. por outro lado. que o outro fatalmente interpretará. a aula) faz barulho diante de mim. sou prudente: sei que ocupo o mesmo ponto que meu concorrente e que. Às vezes ainda. fecho os olhos). ignorar a questão prática: o que fazer? Quanto a mim não paro de me colocála ao mesmo tempo que suspiro por essa suspensão do karma que é o nirvana. O sujeito se imagina falando do ser amado com uma pessoa rival. me arranjar um cantinho de preguiça. Tudo significa: por essa proposição. finalmente. por necessidade? Minha resposta será ela própria um signo. não sei como replicar essa queixa: de um lado é “nobre” não me aproveitar de uma confidência que me serve – que parece “reforçar” meu lugar. meu concorrente (a rivalidade é uma questão de posição). isso era signo de que? Seria um convite discreto para fazer uso imediatamente. sem mim.

como se o acaso intrigasse contra ele. todo miolo fatual de um acontecimento que vem dificultar a ambição de felicidade do sujeito apaixonado. O incidente agora vai enrugar como o caroço embaixo dos vinte colchões da princesa. não dos sentidos. 1. 2. não procuro as causas. mesquinharias. porque tive a impressão de que eles cochicharam quando me viram. não suspeito. A figura se refere a todo discurso interior suscitado por um contacto furtivo com o corpo (mais precisamente a pele) do ser desejado. pensado por alguma coisa que se assemelha ao destino. joelho que não se afasta. quer ele se retire ou deixe ficar) a entrar no jogo do sentido: eu vou fazê-lo falar. Esse gesto insignificante. 41. Às vezes. Sem querer. 64 . (Pressão de mãos – imenso dossiê romanesco – gesto delicado no interior da palma. II. contrariedades Proust 65 CONTIGÊNCIAS. 4. “Porque. ele está apaixonado: cria sentido. para o enamorado. uma atividade tumultuada de fala: instalar. mas. coloca a questão da resposta: pede-se à pele que responda. mas atrai para ele toda minha linguagem. não a afloração de uma casualidade). inopinadamente. futilidades. Acontecimentos. Não recrimino. passa da simples função ao sentido resplandecente. nada a não ser signos. ele bifurca. em toda parte. porque esse encontro manifestou a ambigüidade da situação e talvez mesmo a duplicidade de X – a euforia terminou”.. braço estendido. obrigá-lo (quer ele responda. histericamente. fisicamente. Charles pega o queixo do narrador e deixa subir seus dedos magnetizados até as orelhas. No terreno amoroso não há acting-out: nenhuma pulsão. talvez mesmo nenhum prazer. o interrompa. não sou o homem do ressentimento. vou rasgar o corpo opaco do outro. entraves. como por acaso. vejo com temor a extensão da situação na qual estou envolvido. Interpretação dos Sonhos.” CONTACTOS. seus pés. Mas precisamente: Werther é perverso. O incidente é fútil (é sempre fútil). se encontram. (O incidente é para mim um signo. porque. entraves. Eu o transformo imediatamente num acontecimento importante. Werther64 1. No incidente. sem que nada. 3. esta manhã.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes “Quando meu dedo sem querer. 2. é continuado por outra parte de mim. É uma capa que cai sobre mim. como um pensamento diurno que se espalha pelo sono. seus impasses (assim como eu podia ver Paris e a Torre Eiffel na minúscula lente que enfeitava o porta-caneta de nacre). é a região paradisíaca dos signos sutis e clandestinos: como uma festa. X estava de bom humor. que começo. e sim a estrutura. mas o da fatalidade. não é a causa que me detém e repercute em mim. Todo contacto. sem se preocupar com a resposta (como Deus – é sua etimologia – o Fetiche não responde). Inúmeras e mínimas circunstâncias tecem assim o véu negro da Maya. encontrei X acompanhado de Y. Mínimos acontecimentos. uma noite que seria 64 65 66 Andersen Freud66 Werther. que será o empresário do discurso amoroso. que vai frutificar graças ao capital do Imaginário. Toda a estrutura da relação vem a mim como se puxasse uma toalha: seus dedilhados. sobre a mesa. de um modo fetichista. aquele do pedido de amor. e é o sentido que o faz ficar arrepiado: ele está no braseiro do sentido. das palavras. Começo a classificar o que me acontece. O Caminho de Guermantes. poderia se concentrar corporalmente sobre essas fracas zonas de contacto. esta noite. meu próprio corpo produz o incidente. arrastando tudo. “como os dedos de um cabeleireiro”. dos sentidos. porque o próximo encontro já está combinado. o sistema (o paradigma) da pergunta e da resposta. incidentes. 562. bagatelas. não um indício: o elemento de um sistema. e gozar desse pedaço de dedo ou de pé inerte. Werther poderia se abstrair do sentido desses casos. mas do sentido).. de coisa alguma. rugas da existência amorosa. O sentido (o destino) eletriza minha mão. no encosto de um sofá e sobre o qual vem pouco a pouco repousar. sempre. suas armadilhas. a cada ocasião furtiva. o dedo de Werther toca o dedo de Charlotte. a tapeçaria das ilusões. porque recebi um presente dele.

esmaltada. Essa palavra vale por todas as espécies de movimentos e de desejos. a causa do meu desejo). do qual bruscamente não tenho mais medo. atento. todos os “problemas” do coração. a unha do dedão do pe. se. se fazendo de desajeitado. friamente. objetos muitos parciais. como Werther. essa coisa dividida. se o corpo que escruto sai da sua inércia.. Ou ainda: o mundo e eu não nos interessamos pela mesma coisa: e. se ele começa a fazer qualquer coisa. meu desejo muda. e esse coração que me resta no coração. uma gripe: todos os substitutos possíveis da afonia histérica. a raiz dos cabelos. a um Todo: amo novamente. etc.”. 1. sua voz. como se a causa mecânica do meu desejo estivesse no corpo adverso (me pareço com esses garotos que desmontam um despertador para saber o que é o tempo). mundana.. na maciez exata. retorno a uma Imagem. 1. as unhas. eu as bloqueio por uma dor de barriga. sujeita a acessos de afastamento. mas oq eu é constante. Algumas partes do corpo são particularmente favoráveis a essa observação: os cílios. estou calmo. caloroso. uma vez tirado todo espírito que me atribuem e que não quero. e. como se quisesse ver o que tem dentro. sem nada entender. uma maneira de esticar os dedos ao fumar. eu estava fascinado – a fascinação não é outra coisa senão a extremidade do distanciamento – por essa espécie de figurinha colorida. Werther67 O corpo do outro CORPO. O coração é o que creio dar. de seu corpo: seus cílios. 3. (X deve partir por algumas semanas. de outro. e. entretanto. O que é que o mundo. qualquer um pode saber – meu coração só eu o tenho”. sua voz – a voz. meu desejo cessa de ser perverso. é meu único orgulho (. Às vezes uma idéia toma conta de mim: começo a escrutar longamente o corpo amado (como o narrador diante do sono de Albertine).. seus olhos – doce. contida. é o coração pesado: pesado pelo refluxo que o encheu dele mesmo (só o enamorado e a criança tem o coração pesado). seu corpo propriamente – sua pele. 67 Proust Werther. O coração CORAÇÃO. tudo de seu rosto. tal como ele é retido. é que o coração se constitui em objeto de dom – seja ignorado. vejo o pensar.). etc. como o sexo). morno. que o coração é o que resta de mim. por exemplo. É evidente então que estou fetichizando um morto. 2. certo grão de beleza. breve. sou eu. vitrificada onde eu podia ler. A prova disso é que. Ou ainda: de um lado. não me interesso (diz Werther) pelo meu espírito. seu corpo molengo. (Eu via. talvez mais. Essa operação é conduzida de uma maneira fria e atônita. Ah. a balconista diz gracinhas: “Quer o meu? O senhor deveria ser bem jovem quando eles custavam esse preço. Você me espera aí onde não quero ir: você me ama aí onde não estou. todo interesse suscitado no sujeito apaixonado pelo corpo amado. o que é que o outro vai fazer do meu desejo? Essa é a inquietude que reúne todos os movimentos do coração. falha. ela não sabe que eu tenho o coração pesado). torna-se de novo imaginário. Cada vez que esse dom me é devolvido. sua voz que não dava o que o corpo dava. uma declaração solene da qual eu esperava um efeito benfazejo. 2. Todo pensamento. no último instante ele quer comprar um relógio para a viagem. o que eu sei. como se estivesse diante de um inseto estranho. Escrutar quer dizer vasculhar: vasculhar o corpo do outro. bem formada. Werther se queixa do príncipe de XX: “Ela aprecia mais meu espírito e meus talentos que esse coração que. sempre a voz – sonora. de outro. 67 . O coração é o órgão do desejo (o coração se dilata. toda emoção. a finura das sobrancelhas. fofinho. o coração é o que me resta. etc. para minha infelicidade. você não se interessa pelo meu coração.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes como uma festa. Seu corpo estava dividido: de um lado. é pouco dizer. encantado no campo do Imaginário. seja rejeitado.

parecendo importante demais. de ele passo a nós. os três hábitos. no chão ou sobre um leque.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes A conversa DECLARAÇÃO. em última instância. o bonzo os aceita tocando-os com um bastão. toda a atividade de um discurso vem. do seu amor. A emoção de um duplo contacto: de um lado. Lacan 1. Episódio de linguagem que acompanha todo presente amoroso. 99 . XVIII. no futuro. mais geralmente. envolvo o outro nas minhas palavras. mas à forma. 1. que percorro as lojas. com contida emoção. E depois. A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. ramificá-lo. poder-se-ia dizer que todo dito tem por objetivo o amor (seja o que for que se queira destacar) comporta fatalmente uma alocução secreta (me dirijo a alguém. efetivo ou interior. (A atopia do amor. aliás. gnômico. 2. Calculo ativamente se esse objeto agradará. que seria apenas. o fetiche brilhante. lírico ou romanesco. rebuscamento na linguagem e no estilo atribuídos a Marivaux. mesmo que essa pessoa tivesse passado ao estado de fantasma ou de criatura a vir. toma caminho das substituições. Séc. sem crise. A dedicatória DEDICATÓRIA. exato que se adaptará perfeitamente ao teu desejo. e. a fechadura não funciona (a loja era mantida por damas da alta sociedade. por exemplo. mas pode ser também diante do confidente: de você passo a ele. ingenuamente. por causa de um defeito malicioso: se for um cofre (como foi difícil encontrá-lo). O presente amoroso é solene. onde estou. infinitamente comentada. e o sujeito fica sabendo que aquilo que ela dá. escritor francês. tudo que lhe será dado – do que ele viverá – será colocado sobre uma mesa. sensualidade: você vai tocar o que eu toquei. que isso não funciona?). o roço. (N. que vocês não sabem. se não decepcionará. não acabará denunciando o delírio – ou o engano. seria que. aquilo que o faz propriamente escapar a todas as dissertações. O presente é carícia. (Falar amorosamente é gastar interminavelmente. De início é para o outro que discorro sobre a relação. são oferecidos ao bonzo sobre uma lona. uma filosofia da coisa. prolongo esse roçar. deles: a declaração não diz respeito à confissão do amor. de si. pelo qual o sujeito dedica alguma coisa ao ser amado. de relação amorosa. e ainda por cima se chamava “Because I love”: será que é porque eu amo. seja ele filosófico. se não for para alguém). não é possível falar dele a não ser segundo uma estrita determinação alocutória. ele não o * 68 Zen68 Afetação. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos. e liberá-lo. indiretamente. Sócrates. fazê-lo explodir (a linguagem goza de se tocar a si mesma). A pulsão do comentário se desloca.* 2. os objetos pessoais. Minha linguagem treme de desejo. por outro lado. é assim que. colocar em evidência um significado único que é “eu te desejo”. alimentá-lo. real ou projetado. me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação. eu o acaricio. Tenho o seguinte medo: que o objeto dado não funcione bem. uma terceira pele nos une. todo gesto. Dou a X um lenço de seda e ele usa: X me dá o fato de usá-lo. No Banquete. o gozo do presente então se apaga. assim. ele o concebe e o diz. da T. Existe uma forma literária desse coïtus reservatus: é o marivaudage). é praticar uma relação sem orgasmo. é por isso que estou louco de excitação. em suma. discretamente. ou se ao contrário. ou dedos nas pontas das palavras. O presente amoroso é procurado. que teimo em encontrar o bom fetiche. Ao contrário: toda moral da pureza pede que se afaste o presente da mão que o dá ou recebe: na ordenação budista. essa alocução talvez exista: seria Ágaton que Alcibíades interpelaria e desejaria sob a escuta de um analista. escolhido e comprado na maior excitação – excitação tal que parece ser da ordem do gozo.) Percheron. não com a mão. um blá-blá-blá generalizado. Através desse objeto te dou meu Todo. me transporto nele por inteiro. fartamente. te toco com meu falo. dele. ainda. mas que está lá na extremidade das minhas máximas). há sempre no discurso sobre o amor uma pessoa a quem se dirige. Propensão do sujeito apaixonado a alimentar o ser amado. Refazendo a partir daí o caminho inverso. elaboro um discurso abstrato sobre o amor. Ninguém tem vontade de falar de amor. arrastado pela metonímia devoradora que regula a vida imaginária.

etc. à bela sem igual Que ilumina meu coração Ao anjo. ó Fedro. pois o que eu dou quando canto. ao que se opõe o gasto silencioso.S. 5. diz Novalis. ela segue. Por pouco que o sujeito apaixonado crie ou ajeite uma obra qualquer. Nada podendo dar. a pedinha que a criança dá à sua mãe. a obra propriamente dita) pouco tem a ver com essa dedicatória. esse é o princípio do Hino.71 4. é para “eles” que ela foi escrita (os outros. etc.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes tem. indiferente.). mãe. ”Teu-dom” torna-se o nome-farsa do presente amoroso. a rigor. uma fatalidade da própria escritura que não se pode dizer de um texto que ele é amoroso. ai monti. O objeto dado se reabsorve no dito suntuoso. se exclamar. “A esse deus. E até: menos ainda que um chinelo! Porque o chinelo foi feito para teu pé (teu número e teu prazer). ou ainda cantada (lírica). mas não se desviaria da sua fatalidade (de resto enigmática). ou ainda: demos a vida a você (-Dane-se a vida! Etc. que confunde a deixa e o próprio texto.” Não se pode dar a linguagem (como fazê-lo passar de uma mão para outra?). devo me render a esta evidência (que. como um bolo ou um chinelo bordado. representar para o outro o que lhe é dado (tempo.69 (Não é só um objeto que se dá: X faz análise. .H. O objeto que dou não é mais tautológico (te dou o que te dou). pois é chamar a réplica que faz andar toda cena: E eu! E eu! O que é que eu não te dou! O dom revela a prova de força da qual é instrumento: “Te darei mais do que me dás. que ele foi escrito “amorosamente”. aal’eco. e até com antecedência a quem ele ama. Ph. ele atrapalha. O que ele faz. dinheiro. O canto não quer dizer nada: é nisso que você compreenderá finalmente que eu o dou a você. Y também quer ser analisado: a análise como dom de amor?).. ele é demais: “Que é que eu faço do teu dom!”. ai venti. tão inútil quanto o pedacinho de lã. tem um sentido (vários sentidos) que extrapola seu endereço. engenhosidade. portanto. dedico esse discurso. segundo meu Baudelaire Noces de Fígaro72 69 70 71 72 Conversa Discurso de Agáton.”. dedico a própria dedicatória. o amor que no entanto se gritar. all’ombra.. para enunciar. Imponente de se enunciar. energia. Falar o dom é colocá-lo numa economia de troca (de sacrifício. mas apenas. Banquete70 R. ao ídolo imortal. o bolo foi feito ou escolhido para teu gosto: há uma certa adequação entre esses objetos e a tua pessoa.” O canto é o preciso suplemento de uma mensagem vazia.. exceto no caso do Hino. ai fonti. ela está tomado por uma pulsão de dedicatória. a matar escravos). ele não se ajusta ao meu espaço. da consagração. É um argumento típico da cena.). inteiramente contido naquilo a que se endereça.). outras relações. os leitores). Quando escrevo. e assim te dominarei” (nos grandes potlatchs ameríndios. se escrever por toda parte: “all’acqua. indelicada. só a poesia o faz falar). aquilo que segue à dedicatória (ou seja. Sobrescritar o nome virá dizer o dom. o que ele quer dar imediatamente.. é ao mesmo tempo meu corpo (através de minha voz) e o mutismo que você provoca nele (o amor é mudo. mas pode-se dedicá-la – já que o outro é um pequeno deus. mas contudo tem vocação para o detrito: não sei o que fazer do presente que recebo. por mais que eu tenha escrito teu nome na minha obra. ai fiori. obtusa.. all’aria. que absorve tudo que tenho a dizer: “A muito querida. amante”. de super-oferta. 101. é seguir o modelo familiar: olha os sacrifícios que fazemos por você. é interpretável. no gesto poético da dedicatória. é uma espécie de rolo compressor. solene. chegava-se até a queimar vilarejos. É. por quem ele trabalhou ou trabalhará. o dom se exalta na voz única que o diz. Conversa Ária de Querubim (ato I). A escritura é seca. se essa voz é medida (métrica). Mas a escritura não dispõe dessa complacência. O presente não é forçosamente um lixo. Declarar o que dou. Entretanto.. 3. all’erbe. ela mataria “pai.

que longe de perceber nela o dom. uma outra. O demônio é plural (“Meu nome é Legião”. mas o vocabulário é uma verdadeira farmacopéia (veneno de um lado. você não sairia da dura condição de objeto (amado) – de deus. Sem dúvida amar ao mesmo tempo dois significantes diferentes no mesmo corpo. A mecânica da vassalagem amorosa exige uma futilidade sem fundamento. o “outro” não fala. Não posso. é a Coincidência. remédio de outro): não. que você se sinta continuamente reduzido ao silêncio. sem nenhum pensamento tático da realidade. 3. expulso a mim mesmo do meu paraíso. de abandono. De onde o paradoxo cruel da dedicatória: quero te dar. lê uma afirmação de domínio. custe o que custar aquilo que te sufoca. Pois. “Medo de perder o rosto” (o mais malvado dos demônios) fazem “ploc” uma atrás da outra. a partir daí. 1. me magoa): não há nenhuma benevolência na escritura. que teu próprio discurso te pareça sufocado pelo discurso.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Imaginário. eu a sustento. me empenhando em procurar em mim imagens (de ciúme. Uma força precisa arrasta minha linguagem para o mal que posso fazer a mim mesmo: o regime motor do meu discurso é a roda livre: minha linguagem aumenta de volume. deixou aí seu rastro múltiplo. te dar o que acreditei escrever para você. pelo próprio fato de que você é irreconhecível nele. retorna à massa. “Desejo”. quando finalmente lhe impus silêncio (por acaso ou lutando). “Ciúme”. em outros momentos. para 73 “Nós somos nossos próprios demônios. então. mas ele inscreve alguma coisa em cada um aqueles que o desejam – operam o que os matemáticos chamam de catástrofe (a desorganização de um sistema por um outro): é verdade que esse mudo é um anjo. agito constantemente no pensamento o desejo. numa ordem indeterminada: a própria desordem da Natureza. É. mais longe. e. nós nos expulsamos do nosso paraíso” (Werther. . a agressão do outro. O sujeito apaixonado tem às vezes a impressão de estar possuído por um demônio de linguagem que faz com que ele se fira e se expulse – como diz Goethe – do paraíso que. e a alimento com outras imagens. Goethe73 2. não é a de uma figura analógica. a relação amorosa constitui para ele. Figura na qual a opinião vê a verdadeira condição do sujeito apaixonado. Domnei DEPENDÊNCIA. mais calma (caminho para a eufemia). de humilhação) que me podem ferir. é de uma força. de solidão. A operação na qual o outro está envolvido não é uma subscrição. fingindo te dedicar uma obra que escapa a nós dois). portanto. 6. E se excepcionalmente isso se produzir. a saudade. (Verificamos com freqüência que um sujeito que escreve não tem de modo algum a escritura da sua imagem privada: quem me ama “por mim mesmo” não me ama pela minha escritura (e sofro por isso). de um fetiche. Se você fosse apenas aquele (a) a quem foi dedicado esse livro. um outro levanta a cabeça ao lado e começa a falar. “Exclusão”. até que outra ferida venha desviar a atenção. monstruoso. de poder. uma inscrição: o outro está inscrito. que passa. é demais! Não se encontra por aí. de gozo. são combatidos pela linguagem. bolhas enormes (quentes e pastosas) estouram uma atrás da outra. e acrescento a essa ferida o desânimo de ter que constatar que recaio. quando uma se desfaz e se acalma. nota 93). o Bem Supremo). escravo do objeto amado. mais profundamente. Posso portanto ter a esperança de exorcizar a palavra demoníaca que me é soprada (por mim mesmo) substituindo-a (se tenho o talento da linguagem) por uma outra palavra. Assim: eu acreditava ter finalmente saído da crise. 1. sobretudo se são de linguagem (e poderiam ser de outra coisa?). se forma. As bolhas “Desespero”. Quando o demônio é repelido. “Conduta Indecisa”. do sujeito apaixonado: em Teorema. não é uma recaída. é só um último sobressalto do demônio anterior. tenho que me render a este fato: a dedicatória amorosa é impossível (eu não me contentaria com uma subscrição mundana. A vida demoníaca de um enamorado parece com a superfície de uma solfatara. mas tua presença no texto. “Somos nossos próprios demônios” DEMÔNIOS. aberta a ferida. o que há é um terror: ela sufoca o outro. Lucas 7-30). quando uma loqüela – favorecida por uma longa viagem de carro – toma conta de mim. a preocupar. Procuro me fazer mal. cresce. Pouco importa. Como repelir um demônio (velho problema)? Os demônios. ele se inscreveu no texto.

É aí que começo a reclamar. O despelado DESPELADO. Para localizar maus pontos fracos. como a fibra de certas madeiras. como esse telefone que não quero perder. é que ele é para mim um meio de significar minha solicitação: no terreno amoroso. pois impaciente com a falação das comadres que. me parece dessa vez completamente injusta: não estou mais na Fatalidade que como bom sujeito trágico tinha escolhido para mim. e é por ele que me guio.H. uma matéria séria (nada a ver com o “espírito de seriedade”: o enamorado não é um homem da boa consciência): a criança que está no mundo da lua (o lunático) não está brincando. a futilidade não é uma “fraqueza” ou um “ridículo”: ela é um signo forte: quanto mais fútil. não se pode mexer comigo sem riscos: sujeito a vexame. Parodiando o Sócrates do Fedro. é preciso que ela surja nas circunstâncias mais derrisórias. e se torne inconfessável à força da pusilanimidade: esperar um telefone é de certa forma uma dependência grosseira. evitando. é o Despelado. O outro está destinado a um habitat superior.B. segundo condutas exteriormente enigmáticas. favorece maravilhosamente essas primeiras reivindicações). nesse ou naquele roteiro no qual de repente me acho fazendo parte. retarda minha volta ao aparelho do qual sou escravo. estando o outro ele próprio subordinado a uma instância superior. do mesmo modo não estou para brincadeira: não só a brincadeira corre incessantemente o risco de tocar um dos meus pontos fracos. que o torna vulnerável. de resto. de forma que sou sujeito duas vezes: de quem eu amo e de quem ele depende. eu gostaria que esse mapa de acupuntura moral fosse distribuído aos meus novos conhecidos (que. Sou daí devolvido a esse estado histórico. sua escritura é lisa como uma Imagem.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Cortezia74 Banquete75 que a dependência se manifeste na sua pureza. O imaginário é. – L. Banquete. Para encontrar o fio da madeira (quando não se é marceneiro). basta bater um prego e ver se ele penetra bem. 2. Se ele escreve. poderia utilizá-lo também para me fazer sofrer mais ainda). onde tudo se decide e de onde tudo desce sobre mim. preciso afiná-la.”. A resistência da madeira não é a mesma segundo o lugar onde enfio o prego: a madeira não é isotrópica. Nem eu: tenho meus “pontos fracos”. procurando isso ou aquilo. na farmácia. ao contrário. Sensibilidade especial do sujeito apaixonado. e. Freud76 1. se definiria a si mesmo pela supressão do Imaginário: nada de romance. (A escolha das férias. mas também tudo com o que o mundo se diverte me parece sinistro. nada de Imagem simulada: pois a Imitação. ela quer sempre restaurar uma superfície lisível das palavras: anacrônica. um Olimpo. (O sujeito que está sob o domínio do Imaginário “não cabe” no jogo do significante: ele sonha pouco. à mercê das mais leves feridas. mais isso significa e mais se afirma como força). mas. dir-se-ia que ajo energicamente para preservar o espaço da dependência e permitir a essa dependência de se exercer: estou ansioso de dependência. da qual sou objeto último e sem importância. Só eu conheço o mapa desses pontos.77 Winnicott78 74 75 76 77 78 O amor cortês é fundado sobre a vassalagem amorosa (Domnei ou Donnoi). onde o poder aristocrático começa a sofrer os primeiros golpes da reivindicação democrática: “Não há razão para que seja eu que. com seu complicado calendário. sem limites: ficarei. com efeito. R. existe um instrumento que se assemelha a um prego: é a brincadeira: eu mal a suporto. em relação ao texto moderno – que. não pratica o trocadilho. Não tenho pele (a não ser para as carícias). 2. me trará alguma nova ocasião de me sujeitar. Essas decisões que descem são às vezes escalonadas. suscetível? – Mais precisamente mole. pois a decisão superior. (Se assumo minha dependência. além disso – outro dente da engrenagem – essa ânsia me humilha. desmanchável. e não o Emplumado que se deveria dizer ao se falar do amor. 59 Ensaios da Psicanálise. 32 Conversa Fragmento de uma Análise (comentado por J. Sou “uma bola de substância irritável”. etc.) . em suma.

como na Náusea. ao despertar. . só posso fazê-lo com indiferença. na vitrine. só encontro objetos de Uniprix. 3. e essa esperança me angustia mais do que de costume. sofro (palavra incompreensível para quem não está apaixonado). A preocupação amorosa implica num desgaste que força o corpo tanto quanto um trabalho físico. “Folheio o álbum de um pintor de que gosto. como se estivesse drogado. branco despertar. “Espero um telefonema. na exatidão. II. eu lutava tanto o dia todo com a imagem do ser amado. me abandono continuamente fora de mim mesmo. 103. me atrai. 102. Modos diversos pelos quais o sujeito apaixonado se acha reinvestido na preocupação da sua paixão. hora do almoço. vejo-o de perto. e entretanto.) *** Cadeia de lojas populares (N. diante do mundo. 81 Werther. fuga da realidade experimentada pelo sujeito apaixonado. despertar emocionado (de ternura). “Estou sozinho num café. siderado como um astro deserto.*** No aeroporto. Relatado por S. na via dei Condotti. 115. da T. separado. sem vertigem. Werther79 S. da qual sou excluído. “Eu sofria tanto.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes a Representação. Tento fazer qualquer coisa e não consigo. Me parece que a linguagem dos outros. Discorro contra qualquer coisa: “Ao desembarcar em Roma toda Itália se deprecia aos meus olhos.. Sinto frio”. Passeio pelo quarto: todos os objetos – cuja familiaridade habitualmente me reconforta – os telhados cinzentos. Toda conversa geral que sou obrigado a assistir (senão a participar) me arrepia. tudo me parece inerte. onde eu tinha comprado. nenhuma mercadoria. despertar inocente. Aprovo essa pintura. se deitou e dormiu por muito tempo.80 Werther81 1. um cartaz mural. sem névoa. Do outro lado da vidraça. E Werther. de noite. 2. Stendhal82 O mundo siderado DESREALIDADE. “Num restaurante repleto. do barulho. me gela. a Analogia são formas da coalescência: fora de moda). que. “Oh. me parece tão fria quanto uma miniatura envernizada. I. discutem. ele teria morrido naquele instante”).”). A Alvorada DESPERTAR. despertar em pânico (Otávio desperta de um desmaio: “De repente todas as suas infelicidades lhe vieram ao pensamento: se a dor matasse.) 83 Werther. Sentimento de ausência. o mundo está num aquário. ** Antigo jornal (N. feito de uma outra substância. Werther fala do seu cansaço (“Deixa que eu sofra até o fim: apesar de todo o meu cansaço. separado. 2. como uma Natureza nunca habitada pelo homem”. da T. Uma capa irreal me cai dos lustres. os ruídos da cidade. uma camisa de seda e mais finas de verão. Triste despertar. o amor entre os cachorros ou o último número do Petit Rapparteur?** Eu vivo o mundo – o outro mundo – como uma histeria generalizada. 140. ele brinca de viver atrás de uma vidraça. 1. esses outros a investem derrisoriamente: eles afirmam. O sofrimento me vem da multidão. É domingo. quando essa magnífica Natureza.). Para me salvar da desrealidade – para retardar sua vinda – tento me religar ao mundo pelo mau humor.S. Sartre Werther83 (O mundo está cheio sem mim. pouco antes de se suicidar. mas as imagens são frias e isso me aborrece”. III. há dez anos. 82 Armance.. o táxi me pediu catorze mil liras 79 80 Werther.S. dos tetos de vidro”. expõem: que é que eu tenho a ver com Portugal. IV. da T. da decoração (kitsch). contestam. diz alguém. eu dormia muito bem”. aí exposta diante de mim. em companhia de amigos. * Cômico francês (N. Coluche* faz caretas e banca o imbecil. ainda tenho forças para chegar até lá”).

como o de um morto. posso colocar antíteses. Enquanto eu perceber o mundo como hostil. Não é (conforme se diz) a mesma fuga da realidade. eles são mal-educados. “Piazza del Popolo (é feriado). “Colóquio Sentimental”. quer dizer insubstituível: o Imaginário está (passageiramente) excluído. a pintura de T. na mesa vizinha dois valdenses conversam. a propósito da hipnose? Seminário. Meu olhar é implacável. 7. Coluche. não aceito nenhuma piscadela. religado ao mundo. é um trapaceiro: impossível qualquer Elogio da Loucura). estou fora de todo “tráfico associativo”: Coluche. 134. A falta de educação não será apenas: uma plenitude? O mundo está cheio. que é o Imaginário. não acho graça de nenhum teatro. não tenho mais nenhuma linguagem: o mundo não é “irreal” (senão eu poderia dizê-lo: existem artes do irreal. e das grandes). no seu cartaz. vejo. começo a reviver. imóvel. a plenitude é seu sistema. o pintor. 6. mil formas). . Essa maneira de dizer. perco também o real. para o negro céu”. para mim. ainda me retém à beira da realidade que se afasta e esfria pouco a pouco. pois se eu o digo (se eu anoto. Ora o mundo é irreal (ou o digo de outro modo).”. para parte alguma. laboriosamente meio doido. maschi se exibindo. abundantemente (mil romances. vencida. Eu o acho idiota em segundo grau: idiota de bancar o idiota. às vezes. Sou demais. famílias. consigo dizer essa morte. todo mundo fala. Sade Freud84 Lacan85 Verlaine86 84 85 86 “trafic associatif”. hoje. petrificado. Mas o desreal não pode ser dito. No primeiro caso. para que essa agressividade. Tudo está imóvel.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes (em vez de sete) porque era “Corpus Christi”. mas ainda entrar em simpatia com ele: “amar” a realidade? Que desgosto para o enamorado (para avirtude do enamorada)! É como Justine no convento de Sainte-Maire-des-Bois. bom. Alias. o restaurante. e grande a esperança” – a esperança se foi. Festas Galantes. no café. Freud a propósito da histeria e da hipnose – ou Chertok. se mostra (não é isso a linguagem: um estado de amostra?). o restaurante.). do outro lado da vidraça. e em relação a ela todo “real” o incomoda. ele se entrega à Imagem. não “sonho” (nem mesmo com o outro). nem cúmplice. é a Cidade). No lugar desse buraco. mesmo numa frase desajeitada ou literária demais) é que saio dele. 4.”. etc. Aqui estou eu no bar da estação de trem de Lausanne. a Piazza del Popolo. que me mantinha vivo. ora ele é desleal (eu o digo com dificuldade). mas nenhuma substituição imaginária vem compensar essa perda: sentado diante do cartaz de Coluche. por última ofensa. No segundo caso. libertar exclamações. I. como a miniatura envernizada do jovem Werther (a Natureza. continuo ligado a ele: não estou louco. acaba de surgir um real muito vivo: o da Frase (o louco que escreve nunca é totalmente louco. mas. No primeiro momento sou louco. vire abandono. (Entretanto. imutável. o restaurante J. por último fio de linguagem (o da boa Frase). Roma num feriado. posso cantar: “Como era azul o céu negro. povo triste e agitado. baste que eu force um pouco mais. não consegue me associar: minha consciência está dividida em dois pela vidraça do café. não estou nem mesmo mais no Imaginário. mas posso dar a essa queda muito rápida sua insígnia: me digo que a desrealidade é isso: “um grande estereótipo dito por uma voz suíça na bar da estação de Lausanne”. o enamorado se separa então do mundo. esgotado o mau humor. todos me impõem seu sistema de ser. famílias. etc. Coluche que está lá. mas desreal: o real fugiu. nem testemunha? 5. por um certo domínio da escritura. e. mas não a divisão de classes. bruscamente. deveria achar Coluche engraçado. Do meu lugar. se. mesmo que fosse bem bolado. O irreal se diz. A realidade me subjuga como um sistema de poder. esse sistema é apresentado como uma “natureza” com a qual devo me relacionar bem: para ser “normal” (isento de amor). ele irrealiza porque fantasia de um outro lado as peripécias ou as utopias do seu amor. Entro nas águas tristes da desrealidade. Esse país perde dos dois lados: suprime a diferença de gostos. bela e a festa de “Corpus Christi” animada: não só me submeter ao poder. queda livre no buraco da realidade. a recusa que oponho à realidade se pronuncia através de uma fantasia: tudo ao meu redor muda de valor em relação a uma função. aquilo do que estou excluído não me atrai. etc. 121. se dele não sou nem escravo. Mas. duplo luto. desrealizo. de modo que não tenho mais nenhum sentido (nenhum paradigma) à minha disposição: não chego a definir minhas relações com Coluche. Que relação posso ter com um poder. o pintor.

minhas razões. sobre de repente em mim uma frase poderosa: “Que diabo estou fazendo aqui?”. minhas interpretações. 125 . um quadro bem desenhado. denuncia a própria mediocridade: “Encontrei X em companhia de Y”. Às vezes. do consciente. de objeto em jogo). – aquilo que o enamorado faz. Werther. as tristezas. seus conflitos. essa história já teve lugar. Produz-se em mim (contradição 87 88 Caso Wagner. pois aquilo que é acontecimento. num relâmpago. um ar embaraçado: tentam conversar sobre assuntos insignificantes que se esgotam um atrás do outro.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes 8. pode-se duvidar que esse diário relate os acontecimentos propriamente ditos. “Um ar embaraçado” Nietzsche87 EMBARAÇO. O sujeito apaixonado não pode ele mesmo escrever seu romance de amor. “X estava de mau humor”. sua generalidade – aquilo que os outros fazem?). O caso reúne de repente alguns amigos neste café: todo um conjunto de emoções. só existe através da sua repercussão. Só uma forma muito arcaica poderia recolher o acontecimento que ele declama sem poder contar. Só faço ver o que se fala. o que excluía a ação (que tinha lugar antes ou atrás da cena)”. bem composto (algo como Greuze um pouco perverso). etc. de amante. enorme: Diário das minhas repercussões (minhas mágoas. gelado. essa é a fórmula geral do embaraço. O enamorado é um drama. eu a vivo como uma cena. ao contrário. mas a cena muda rapidamente com a chegada de Albert. que toma com a insígnia a insignificância (das frases). pudor branco.. as melancolias. o sombrio”. o amor é uma história que se realiza no sentido sagrado: é um programa que deve ser cumprido. esmiuçar o mundo. é o único rapto do qual fui objeto e do qual repito o que vem depois (e falho). Werther88 1. no estrangeiro. afastado de todo prazer) é o discurso amoroso. decifro. Werther 1. como no cinema mudo. X não me telefonou”. na qual o implícito da relação amorosa age como uma imposição e suscita um embaraço coletivo que não é dito. Então é o amor que me parece desreal. “Hoje. Todos se calam e passeiam pelo quarto de um lugar para o outro. 38. 2. Werther está fazendo uma cena para Charlotte (pouco antes do seu suicídio). longe de todo meu pequeno mundo habitual. sem que esse papel possa ser levado em conta na conversa. Para mim. minhas alegrias. Porque. Como narrativa (Romance. 2. Cena de muitos participantes. apesar de estar engajado nela e sofrer por isso. há uma porção de sentidos que eu leio.. a sombra. Lautréamont (Onde estão “as coisas”? No espaço amoroso mundano? Onde está o “reverso pueril das coisas”? O que é que é pueril? Será “cantar o aborrecimento. conversar. Werther conta ao mesmo tempo os acontecimentos da sua vida e os efeitos da sua paixão. ao ser escrito. etc: quem reconheceria aí uma história? O acontecimento. ínfimo. embalsamado. que eu sigo em toda sua finura. bater papo. suas violências. se quisermos devolver a essa palavra o sentido arcaico que Nietzsche lhe dá: “O drama antigo tinha em vista grandes cenas declamatórias. as dores. falar. suas jogadas. De tanto esperar angustiadamente no quarto de um grande hotel desconhecido. Romance/Drama DRAMA. De que? De que cada um é percebido pelos dois outros no seu papel (de marido. A situação fica carregada. minhas veleidade): quem compreenderia alguma coisa? Só o Outro poderia escrever meu romance. se eu tenho um diário. A situação está carregada. O rapto amoroso (puro momento hipnótico) tem lugar antes do discurso do proscênio da consciência: o “acontecimento” amoroso é de ordem hierática: é minha própria lenda local. e essa declaração de um fato consumado (imóvel. conforme se diz? Ou será ao contrário. desperto e inverto minha queda. minha historinha santa que declamo para mim mesmo. gozo de um texto que explode de lisibilidade pelo próprio fato de não dizer. O que é pesado é o saber silencioso: eu sei que você sabe que eu sei. Paradoxo: o não-dito como sintoma. a morte. Paixão). Nas cartas que envia a seu amigo. mas é a literatura que provoca essa mistura. observo. Os acontecimentos da vida amorosa são tão fúteis que só tem acesso à escritura através de um esforço imenso: não se tem coragem de escrever aquilo que.

2. fico maravilhado de ter achado alguém que. ao ponto de transformar em amor toda curiosidade intensa sobre um ser encontrado (é certamente amor o que sente por Chareaubriand um jovem moreota que observa avidamente seus mínimos gestos e que o segue até sua partida). eu mesmo e o encontro prodigioso que no começo nos descobriu um ao outro. seja conseguindo dar ao amor infeliz uma saída dialética (conservando o amor. seja abandonando esse amor. angústias. o sujeito fará dos três momentos do trajeto amoroso um só momento. o gozo. Ronsard89 1. 3. No encontro. sem repetir. Precisam então se contar: “Eis o que sou”. É uma descoberta progressiva (e como uma verificação) das afinidades. O encontro faz com que o sujeito apaixonado (já capturado) sinta a vertigem de um acaso sobrenatural: o amor pertence à ordem (dionísica) do Lance de dados. posso atribuir ao amor. desde então. o encontro do qual guardo o deslumbramento: porque ele é o da ordem do “primeiro prazer” e não sossego enquanto ele não volta: afirmo a afirmação.” / (suave foi a flechada) Itinerário de Paris a Jerusalém. muito desperto: minha atenção faz parte do que é representado. eu a leio: não há poço é um teatro extremo. sou como um jogador cuja sorte se confirma fazendo com que ele pegue na primeira tentativa o pedacinho que vem completar o quebra-cabeça do seu desejo. É o gozo narrativo. supõe-se. A cada instante do encontro. uma verdadeira cena de amor. Dão o mal-estar – ou para alguns. (O encontro irradia. A figura se refere ao tempo feliz que se seguiu imediatamente ao primeiro rapto. o balanço dos seus gostos comuns: é. telefonemas. a perfeição do ser amado. 832. Esse tempo feliz adquire sua identidade (sua limitação) pelo fato de se opor (pelo menos na lembrança) à “continuação”: a “continuação” é o longo desfile de sofrimentos. .Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes nos termos) uma espécie de fascinação alerta: estou imobilizado e. relança. ou melhor. eu também! Você não gosta disso? Nem eu! Quando Bouvard e Pécuchet se encontram. no decorrer dos quais “exploro”. O trajeto amoroso parece então seguir três etapas (ou três atos): a primeira é a instantânea. ressentimentos. aflições. o tempo do idílio. No encontro amoroso. recomço. extasiado. mas me livrando da hipnose). entretanto. mais tarde. um movimento organizado: é por essa fantasia histórica que às vezes faço do amor: uma aventura.. antes que nascessem as dificuldades do relacionamento amoroso. cumplicidades e intimidades que vou poder manter eternamente (penso nisso) com um outro. não param de fazer. mágoas. Se bem que o discurso amoroso seja apenas uma poeira de figuras que se agitam segundo uma ordem imprevisível como uma mosca voando num quarto. maravilhados. a captura (sou raptado por uma imagem). perversos. a cena não tem exterior e. cartas. seu leve).. imaginariamente. no entanto. prestes a se tornar. desesperos. “meu outro”: estou todo voltado para essa descoberta (tremo só em pensar). Há enamorados que não se suicidam: é possível que eu saia desse “túnel” que se segue ao encontro amoroso: revejo a luz do dia. numa palavra. embaraços e armadilhas dos quais me torno presa. sem fraquejar. por sucessivos bemsucedidos toques. pequenas viagens). com outros. Chateaubriand90 Bouvard Pécuchet e A nave fantasma 89 90 “Quando fui preso ao doce começo / De uma doçura tão docemente doce. “Como o céu estava azul” ENCONTRO. ele falará do “deslumbrante túnel do amor”). e retomando o caminho. pelo menos restropectivamente. procurando reiterar. acaba o quadro da minha fantasia. vivendo então sem trégua sob a ameaça de uma decadência que atingiria ao mesmo tempo o outro. pulo sem parar. a adequação inesperada de um objeto ao meu desejo: é a doçura do começo. aquele que ao mesmo tempo completa e atrasa o saber. em seguida vem uma série de encontros (encontros pessoais. descubro no outro um outro eu-mesmo: Você gosta disso? Ah. (Nem um nem outro se conhecem ainda.

e a errância continua. Daí essa curiosa dialética que permite que o amor absoluto suceda sem embaraço ao amor absoluto. mas até que ponto deve esconder dele suas “perturbações” (as turbulências) da sua paixão: seus desejos. enfim. através do amor. o final dessa história. Desde que não estou transbordante e que no entanto não me mato. aderir à minha “verdade”. tento. ele compreende então que está destinado a errar até a morte. De Racine (N. como se o amor pudesse um dia me fazer transbordar.S. Esse fenômeno resulta de uma imposição do discurso amoroso: eu mesmo (sujeito enamorado) não posso construir até o fim minha história de amor: sou o poeta (o recitante) apenas do começo. E. É assim que vou até o fim da tapeçaria. não se deve declarar ao ser amado que o ama (não é uma figura de confissão). Ajo sempre – teimo em agir. eu não o vejo nem mesmo se dissipar: o amor que termina se afasta para um outro mundo como uma nave espacial que deixa de piscar: o ser amado ressoava como um clamor. 2. desloca com violência seu falso ponto em comum: a errância não iguala. de repente ei-lo sem brilho (o outro nunca desaparece quando e como se esperava). O próprio Werther conheceu este estado – ao passar da “pobre Léonore” à Charlotte. sem construção. longe de esmagar todos aqueles que encontro sob um mesmo tipo funcional (não responder ao meu pedido). até qualquer outro escolha essa fala e a devolva a mim. nos tempos remotos de minha infância profunda. a nuance é o Intratável). O Holandês maldito é condenado a errar sobre o mar até encontrar uma mulher de uma fidelidade eterna. A “mutabilidade perpétua” (in inconstantia constants) que me anima. se Werther tivesse sobrevivido. O que quer que se torne objeto amado. de uma nuance a outra (nuance é esse último estado da cor que não pode ser nomeado. Procuro. esse som é em si mesmo musical).B. de escala em escala. vivida como se fosse eterna. eles que escrevam o romance. mítica. e não me deu nenhum sinal de vida desde a sua partida: acidente? Greve dos correios? Indiferença? Tática da distância? Exercício de um quererviver passageiro (sua juventude é gritante. como se o Bem Supremo fosse possível. para mim. vou mais longe.) .Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes ERRÂNCIA. faz mudar de cor: o que volta é a nuance. quer ele desapareça ou passe Pa região da Amizade. é fatal a errância amorosa. X saiu de férias sem mim. começo. mas. não importa o que me digam nem quais sejam meus próprios desencorajamentos. narrativa exterior. de qualquer maneira. que retiro a energia para recomeçar. quiseram) responder ao meu “pedido”. um não fez senão repetir o outro. corro. pertence aos outros. seus excessos (na linguagem raciniana*: seu furor). Ao longo de uma vida. da T. Werther R. na verdade o movimento não progrediu. 4. Sou esse Holandês Voador. A errância amorosa tem seus lados cômicos: parece um balé. às vezes ele surpreende em si mesmo em uma espécie de difusão do desejo amoroso. suas aflições. mas é também uma grande ópera. modelo de uma mesma diferença infinitamente reconduzida. mais ou menos rápido conforme a velocidade do sujeito infiel. X e Y não souberam (puderam. mas apenas que renasce (posso então renascer sem morrer?). afirmada. Figura deliberativa: o sujeito apaixonado se pergunta. esquecido daquilo que o precede e o segue. 1. não posso parar de errar (de amar) por causa de uma antiga marca que me destinou. assim como da minha própria morte.91 Wagner Benjamin Constant Os óculos escuros ESCONDER. 3. mas nunca sei que acabo: não se diz da Fênix que ela morre. ao deus imaginário que me afligiu de uma compulsão de fala que me leva a dizer “Eu te amo”. de amor em amor. teria reescrito as mesmas cartas para uma outra mulher. X e Y são incomparáveis. como se. Como termina um amor? – O que? Termina? Em suma ninguém – exceto os outros – nunca sabe disso. todos os “fracassos” de amor se parecem (pudera: procedem todos da mesma falha). mas ninguém pode assumir a resposta impossível (que completa de uma forma insustentável). Apesar de que todo amor é vivido como único e que o sujeito rejeite a idéia de repeti-lo em outro lugar. a uma outra música (esse som sem memória. entretanto. uma espécie de inocência mascara até o fim dessa coisa concebida. é da diferença entre eles. ele não ouve?) ou simples inocência? Cada 91 * Conversa. não mexeram uma vírgula do seu sistema. a um outro tempo (de amor em amor vivo instantes verticais). eu tivesse acesso a uma outra lógica (o absoluto não sendo obrigatoriamente o único). 1.

Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Mme de Sevigné

vez mais me angustio, passo por todos os atos do roteiro da espera. Mas, assim que X reaparecer de uma maneira ou de outra, pois não pode deixar de fazê-lo (pensamento que deveria imediatamente tornar vã toda angústia), que lhe direi? Devo esconder dele minha perturbação? – que já passou (“como vai você?”)? Fazê-la explodir agressivamente (“Não está certo, você bem que poderia...”) ou dramaticamente (“Que preocupação você me deu”)? Ou ainda, deixar passar delicadamente essa perturbação, ligeiramente, para torná-la conhecida sem afligir o outro (“Eu estava um pouco preocupado...”)? Uma segunda angústia toma conta de mim, que é de ter de decidir sobre o grau de publicidade que darei a minha angústia primeira. 2. Estou preso num discurso duplo do qual não posso sair. De um lado, me digo: e se o outro, por alguma disposição de sua própria estrutura, precisasse do meu chamado? Eu não ficaria, então, justificado de me abandonar à expressão literal, ao dizer lírico de minha “paixão”? O excesso, a loucura, não são eles minha verdade, minha força? E se essa verdade, essa força, acabassem por impressionar? Mas, por outro lado, me digo: os signos dessa paixão podem sufocar o outro. Não seria então preciso, precisamente porque o amo, esconder dele o quanto o amo? Vejo o outro duplamente: ora o vejo como objeto, ora como sujeito; hesito entre a tirania e a oblação. Envolvo a mim mesmo numa chantagem: se amo o outro, sou obrigado a querer o seu bem; mas com isso só posso me fazer mal: armadilha: sou condenado a ser ou santo ou monstro; santo não posso, monstro não quero; então tergiverso: mostro um pouco da minha paixão. 3. Impor a máscara da discrição (da impassibilidade) à minha paixão: eis aí um valor propriamente heróico: “é indigno das grandes almas espalhar ao seu redor a perturbação que sentem” (Clotilde de Vaux)**; o capitão az, herói de Balzac, inventa para si mesmo uma amante falsa,para ter certeza de esconder hermeticamente da mulher do seu melhor amigo que morre de amor por ela. Entretanto, esconder totalmente uma paixão (ou mesmo simplesmente seu excesso) não é conveniente: não porque a pessoa humana seja muito fraca, mas porque a paixão é, por essência, feita para ser vista: é preciso que se veja o esconder: saiba que eu estou lhe escondendo alguma coisa, esse é o paradoxo ativo que tenho que resolver: é preciso ao mesmo tempo que isso se saiba e que não se saiba: que se saiba que eu não quero mostrá-lo: eis a mensagem que dirijo ao outro. Larvatus prodeo: avanço mostrando minha máscara com o dedo: ponho uma máscara sobre minha paixão, mas designo essa máscara com um dedo discreto (e insinuante). Toda paixão tem finalmente seu espectador: na hora de morrer, o capitão Paz não pode se impedir de escrever à mulher que ele amou em silêncio: não existe oblação amorosa sem teatro final: o signo é sempre vencedor. 4. Imaginemos que eu tenha chorado, por causa de algum incidente do qual o outro nem mesmo se deu conta (chorar faz parte da atividade normal do corpo apaixonado), e que, para não se veja, ponho óculos escuros nos meus olhos embaçados (belo exemplo de denegação: escurecer a vista para não ser visto). A intenção do gesto é calculada: quero aguardar o benefício moral do estoicismo, da “dignidade” (me tomo por Clotilde de Vaux), e ao mesmo tempo, contraditoriamente provoca adoce pergunta (“Mas o que é que você tem?”); quero ser ao mesmo tempo lamentável e admirável, quero ser no mesmo instante criança e adulto. Agindo desse modo, jogo, arrisco: pois é sempre possível que o outro não pergunte nada sobre esses óculos inusitados, e que, na verdade, não veja neles nenhum signo. 5. Para fazer compreender ligeiramente que sofro, para esconder sem mentir, vou utilizar uma hábil preterição: vou dividir a economia dos meus signos. Os signos verbais ficarão encarregados de calar, de mascarar, de tapear: não demonstrarei nunca, verbalmente, o excesso do meu sentimento. Nada tenho dito sobre os estragos dessa angústia, poderei sempre, quando ela tiver passado, ter a certeza de que ninguém terá sabido dela. Força da linguagem: com minha linguagem posso fazer tudo: até e principalmente não dizer nada. Posso fazer tudo com minha linguagem, mas não com meu corpo. O que escondo pela linguagem, o corpo diz. Posso modelar à vontade minha linguagem, não minha voz. Não importa o que diga minha voz, o outro reconhecerá que “eu tenho qualquer coisa”. Sou mentiroso (por preterição), não comediante. Meu corpo é uma criança cabeçuda, minha linguagem é um adulto muito civilizado...

Balzac92

92 **

A Falsa Amante Grande paixão de Auguste Comte (N. da T.).

Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes

Racine

6. ... de modo que uma longa seqüência de contenções verbais (minhas “civilidades”) poderão de repente explodir em uma revolução generalizada: uma crise de choro (por exemplo), diante dos olhos espantados do outro, virá arruinar bruscamente os esforços (e os efeitos) de uma linguagem tanto tempo fiscalizada. Expludo: conhece então Fedra e todo seu furor. Amor inexprimível

ESCREVER. Enganos profundos, debates e impasses que provocam o desejo de “exprimir” o sentimento amoroso numa criação (notadamente uma escritura).

Banquete93

1. Dois mitos poderosos nos fizeram acreditar que o amor podia, devia se sublimar em uma criação estética: o mito socrático (amor serve para “engendrar uma multidão de belos e magníficos discursos”) e o mito romântico (produzirei uma obra imortal escrevendo minha paixão). Entretanto, Werther, que outrora desenhava bem e muito, não consegue fazer o retrato de Charlotte (mal pode esboçar sua silhueta que é, precisamente, aquilo que o atraiu nela). “Perdi a força sagrada, vivificante, com a qual criava mundos em volta de mim”. 2. “Na lua cheia de outono Ao longo da noite Fiz os cem passos em volta do lago”.

Werther94

Haïku95

Não existe indireta mais eficaz, para dizer a tristeza, que esse “ao longo da noite”. Se eu tentasse também? “Nessa manhã de verão, eu estava lindo no golfo, Saí Fui colher uma glicínia”. Ou: “Nesta manhã de verão, estava lindo no golfo, Fiquei muito tempo à minha mesa Sem fazer nada”. Ou ainda: “Nesta manhã de verão, estava lindo no golfo, Fiquei imóvel Pensando no ausente”. De um lado, é não dizer nada, de outro é dizer demais: impossível ajustar. Minhas vontades de expressão oscilam entre o haïku sem realce, que resume uma enorme situação, e uma enxurrada de banalidades. Sou ao mesmo tempo muito grande e muito fraco para a escritura: estou ao lado dela, que sempre está fechada, violenta, indiferente ao eu infantil que a solicita. O amor tem certamente alguma coisa a ver com minha linguagem (que o alimenta), mas não pode se instalar na minha escritura. 3. Não posso me escrever. Qual é esse eu que se escreveria? À medida que ele fosse entrando na escritura, a escritura o esvaziaria, o tornaria vão: produzir-se-ia uma degradação progressiva, na qual a imagem do outro seria pouco a pouco arrastada (escrever sobre alguma coisa é destruí-la), um desgosto cuja conclusão só poderia ser: para que? O que bloqueia a escritura amorosa é a ilusão de expressividade: escritor, ou me acreditando como tal, continua a me enganar sobre os efeitos da linguagem: não sei que a palavra “sofrimento” não exprime sofrimento algum e, por conseguinte, empregála, não somente não comunica nada, como também irrita logo (sem falar do ridículo). Seria preciso que alguém me ensinasse que não se pode escrever sem elaborar o luto da sua “sinceridade” (sempre o mito de Orfeu: não olhar para trás). O que a escritura

François Wahl96

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Banquete, 144 (e também 133). Werther, 102 De Banshô.

Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes

pede e que toda enamorada não lhe pode dar sem dilaceramento, é sacrificar um pouco do seu Imaginário, e assegurar assim através da língua a assunção de um pouco de real. Tudo que eu poderia produzir seria, no máximo, uma escritura do Imaginário; e, para isso, precisaria renunciar ao imaginário da escritura – me deixar trabalhar pela minha língua, suportar as injustiças (as injúrias) que ela não deixará de inflingir à dupla Imagem do enamorado e de seu outro. A linguagem do Imaginário não seria outra senão a utopia da linguagem; linguagem totalmente original, paradisíaca, linguagem de Adão, linguagem “natural, isenta de deformação ou de ilusão, espelho límpido de nossos sentidos, linguagem sensual (die sensualische Sprache)”: “Na linguagem sensual, todos os espíritos conversam entre si, e não precisam de nenhuma outra linguagem, porque é a linguagem na natureza”. 4. Querer escrever o amor é enfrentar a desordem da linguagem: essa região tumultuada onde a linguagem é ao mesmo tempo demais e demasiadamente pouca, excessiva (pela expansão ilimitada do eu, pela submersão emotiva) e pobre (pelos códigos sobre os quais o amor a projeta e a nivela). Diante da morte do filho ainda criança, para escrever (mesmo que sejam apenas farrapos de escritura), Mallarmé se submete à divisão parental: Mãe chora Quanto a mim, eu penso Mas a relação amorosa fez de mim um sujeito atópico, indivisível: sou meu próprio filho: sou ao mesmo tempo pai e mãe (meu, do outro): como eu dividiria o trabalho? 5. Saber que não se escreve para o outro, saber que as coisas que vou escrever não me farão nunca amado por aquele que amo, saber que a escritura não compensa nada, não sublima nada, que ela está precisamente aí onde você não está – é o começo da escritura.

Jacob Boehme97

Boucourechliev98

A espera
ESPERA. Tumulto de angústia suscitado pela espera do ser amado, no decorrer de mínimos atrasos (encontros, telefonemas, cartas, voltas). Schönberg

1. Espero uma chegada, uma volta, um sinal prometido. Pode ser fútil ou imensamente patético: em Erwartung (Espera), uma mulher espera seu amante, de noite, na floresta; quanto a mim, só espero um telefonema, mas é a mesma angústia. Tudo é solene: não tenho noção das proporções. 2. Há uma categoria da espera: eu a organizo, a manipulo, destaco um pedaço de tempo onde vou representar a perda do objeto amado e provocar todos os efeitos de um pequeno luto. Tudo se passa como numa peça de teatro. O cenário representa o interior de um café; temos um encontro, eu espero. No Prólogo, único ator da peça (pudera), constato, registro o atraso do outro; esse atraso, por enquanto, é apenas uma entidade matemática computável (olho o relógio várias vezes); o Prólogo termina numa decisão precipitada: decido “derramar minha bile”, solto minha angústia de espera. Começa então o primeiro ato; ele é ocupado por estimativas: e se houvesse um mal-entendido sobre a hora, sobre o lugar? Procuro me lembrar o momento em que o encontro foi marcado, os detalhes que foram combinados. Que fazer (angústia de conduta)? Trocar de café? Telefonar? E se o outro chegar durante essas ausências. Não me vendo, ele pode ir embora, etc. O segundo ato é a cólera; dirijo acusações violentas ao ausente: “Puxa vida, bem que ele (ela) poderia...”, “Ele (ela) bem que sabe...”, Ah! Se ela (ele) estivesse lá para que eu pudesse reclamar de ela (ele) não estar lá! No terceiro ato, alcanço (obtenho?) a mais pura angústia: a do abandono; acabo de pensar, num segundo, da ausência à morte; é como se o outro estivesse morto: explosão de luto: fico inteiramente lívido. Assim é a peça; ela pode ser encurtada pela chegada do outro; se ela chega no primeiro ato, a acolhida é calma; se ele chega no

Winnicott99

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“Ninguém tem acesso a “sua” alíngua* sem sacrificar um pouco do seu imaginário, e é nisso que, na língua, alguma coisa age asseguradamente a partir do real”. (“Queda”, 7). Alíngua: Termo lacaniano que corresponde ao que Hiidegger chama de linguagem em oposição à língua (código). 97 Citado por N. Brown, 95 98 Thrène, sobre um texto de Mallarmé (Túmulo para Anatole, poblicado por J. – P. Richard). 99 Jogo e Realidade, 34

sem fazer nada. o mandarim se levantou. até mesmo adiantado. alucino: a espera é um delírio. a partir da carência que tenho dele”: o outro chega onde eu espero. onde? 100 101 Jogo e Realidade. de ir ao banheiro. quer que eu fique sentado numa poltrona. e tudo que está em volta da minha espera é atingido de irrealidade: nesse café. 5. chegar atrasado. me desespero só de pensar que a tantas horas terei de sair. em cada importuno. o aroma de rosas. O outro não espera nunca. tem seus momentos de calma. no café. toda pessoa que entra. a ação de graças: respiro profundamente. Do mesmo modo. à confissão. ao infinito. creio reconhecer a voz que eu amava: sou um mutilado que continua sentir pena dor na perna amputada. estabeleço um diálogo. pronto a me voltar colérico contra o inoportuno que me despertar do meu delírio. Fazer esperar: prerrogativa constante de todo poder. batem papo. atendo apressadamente. “eu crio e o recrio sem parar a partir da minha capacidade de amar. até de telefonar (para não ocupar o aparelho). pois espero”. tento me ocupar em outro lugar.101 EU-TE-AMO. Eu o repito fora de toda pertinência. Mas. ele sai da linguagem. O ser que espero não é real. lêem tranquilamente: esses não esperam). a volta da Mãe. A figura não se refere à declaração de amor. pôs o banquinho embaixo do braço e se foi. espera-se sempre – o médico. Mesmo muito tempo depois que a relação amorosa foi pacificada. se divertem. impurezas da angústia. de tanto que ela parece vazia. pela mínima semelhança da silhueta. a antiga mensagem (que talvez não tenha passado por essas palavras). Porque a angústia da espera. o telefone ao meu alcance. A identidade fatal do enamorado não é outra senão: sou aquele que espera. estabeleço imediatamente uma relação agressiva com o empregado. Todas essas distrações que me solicitam seriam momentos perdidos de espera. acabo sempre sem ter o que fazer. no embarque de um avião. desencorajar minha carência. a recepcionista. observo os outros que entram. é. até o inconfessável. na nonagésima nona noite. me impeço de sair da sala. 1. 21 Carta . espero. é o reconhecimento. (A angústia de espera não é sempre violenta. pontual. correndo o risco de perder a chamada benfazeja. o analista. e. “eu te amo” não quer dizer mais nada. conservo o hábito de alucinar o ser que amei. divaga.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Pelléas segundo ato. “Estou apaixonado? – Sim. quando tiver passado cem noites a me esperar sentado num banquinho. A espera é um encantamento: recebi ordem de não mexer. apenas retoma de um modo enigmático. “passatempo milenar da humanidade”). Assim. há “cena”. onde eu já o criei. Passada a primeira confissão. mas ao repetido proferimento do grito de amor.B. e custa a aparecer – como se fosse para derrubar meu desejo. Às vezes quero representar aquele que não espera. disse ela. em todo lugar onde houver espera. às vezes ainda me angustio com um telefonema que demora. mais um esforço e “reconheço” sua voz. “serei sua. 4. (Na transferência. E se ele não vem. Ainda o telefone: a cada toque. na sua pureza. embaixo da minha janela”. 3. Mais ainda: se espero num guichê de banco. Um mandarim estava apaixonado por uma cortesã. mas esse jogo perco sempre: o que quer que eu faça. tenho medo que me telefonem (pela mesma razão). se ele chega no terceiro ato. como Pelléas saindo do subterrâneo e reencontrando a vida. Eu te amo Winnicott100 E. o professor. Assim o seio da mãe para o bebê. cuja indiferença revela e irrita minha dependência: de modo que se pode dizer que. num primeiro movimento. há transferência: dependendo de uma presença que se divide. no meu jardim. reconhecida. 6. a espera de um telefonema se tece de interdições mínimas. penso que é o ser amado que me chama (pois ele tem que me chamar).

por exemplo. fosse uma língua aglutinadora (e no caso é de aglutinação que se trata). “Não tem resposta”. Dispensa as explicações. é minha linguagem. que diz numa só palavra. Eu-te-amo não tem empregos. de acordo. A que ordem lingüística pertence então esse ser estranho. Tudo está no lançamento: é uma “fórmula”. último reduto da minha existência. 2. Essa palavra. A exemplo do que acontece com o canto. 102 . nenhuma deformação vem glifar o signo. Qual! Haveria “eu” de um lado. uma linguagem (a única assunção do eu-te-amo seria apostrofá-lo. e não meu pedido.H. (Embora seja dito milhões de vezes. szeretlek. 4. O proferimento não tem lugar científico: eu-te-amo não é da ordem nem da lingüística nem da semiologia. Eu-te-amo não tem nuances. os graus. “você” do outro. A palavra (a palavra-frase) só tem sentido no momento em que eu a pronuncio: não há nela outra informação a não ser seu dizer imediato: nenhuma reserva. Quem não sente quanto uma tal decomposição. “por que dizer isso?”. eu-te-amo não está no dicionário. como a teoria lingüística. frívola. etc. uma predicação. é uma figura cuja definição não pode exceder o título). não está submetida a nenhuma imposição social. I. mumificada. manda dizer a Mãe. as organizações. apaixonada). desfiguraria o que é lançado fora num só movimento? Amar não existe no infinitivo (a não ser por artifício metalingüístico): o sujeito e o objeto chegam à palavra ao mesmo tempo em que ela é proferida. da a ele a expansão de um nome: Ariane. no entanto. mas também como sujeito falante (como tal tenho pelo menos o domínio das fórmulas). mas cassado meu poder de questionar. pode ser uma palavra erótica. não é metáfora de nada. ele não equivale em nada aos seus substitutos. e no meio um elo de afeição racional (visto que lexical). Sua instância (aquilo a partir de que podemos falar) seria mais exatamente a Música. I. representá-lo outra vez. É uma holofrase. É uma palavra que se desloca socialmente. nela. É a palavra da díade (maternal. que é negado. Diferentes respostas para o eu-te-amo: “eu não”. 103 No Caminho de Swann. os escrúpulos. O gozo não se diz. “não acredito”. pode ser uma palavra sublime.renegando sua bela virtude analítica. as situações em que eu digo eu-te-amo não podem ser classificadas: eu-te-amo é irreprimível e imprevisível. e é uma palavra sempre verdadeira (não tem outro referente a não ser seu proferimento: é um performativo). 250. posso esperar. no proferimento do eu-te-amo o desejo não é mais reprimido (como no enunciado) nem reconhecido (lá onde não era esperado: como na enunciação). De uma certa forma – paradoxo exorbitante da linguagem -.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes R. diz Dionísio). Eu-te-amo não tem distanciamento. 31. e eu-te-amo deve ser entendido (e aqui lido) à húngara. fico como morto. nenhuma distância. muito gritada para ser da ordem da frase? Não é nem exatamente um enunciado (não há nela nenhuma mensagem congelada. mais simplesmente: gozado. ao jovem narrador proustiano que se identifica então justamente como a “moça” Lacan102 Proust103 * E também o português. pare sempre. por Françoise. Eu-te-amo não é uma frase: não transmite um sentido. Mas a verdadeira rejeição é ‘não tem resposta”: fico mais certamente anulado se sou rejeitado não apenas como pedinte. reconduzi-lo. solene. mas se prende a uma situação limite: “aquela em que o sujeito está suspenso numa ligação especular com o outro”. Nietzsche Eu não poderia decompor a expressão sem rir. nenhum depósito do sentido. cuja combinação poderia no entanto produzir o mesmo sentido. muito fraseada para ser da ordem da pulsão. dizer eu-teamo é fazer como se não houvesse nenhum teatro da fala. quanto ao pedido. conservada. pornográfica. A mínima alteração sintática desfaz esse bloco. como se o francês *. tanto quanto a de uma criança. eu te amo. mas ele fala e diz: eu-te-amo. 3. pronta para dissecação). nem exatamente enunciação (o sujeito não se deixa intimidar pelo jogo dos lugares interlocutórios). mas essa fórmula não corresponde a nenhum ritual. Sobre a situação limite e a holofrase: Seminário. posso passar dias seguidos dizendo eu-te-amo sem poder talvez nunca passar a eu o amo: resisto a fazer passar o outro por uma sintaxe. ele está por assim dizer fora da sintaxe e não se presta a nenhuma transformação estrutural. Poderia ser chamado de proferimento. essa fenda de linguagem.

de ter plena certeza. etc. tudo é possível – até mesmo isso: que eu desista de te possuir. cada um a seu modo. pelo cúmulo do paradoxo. nem dom. como se dependesse dele. que não vem pelo raciocínio. se diz: eu te amo). objetos heterogêneos e um tempo desencontrado: meu desejo em troca de outra coisa – e o tempo de que se precisa para a transmissão. lenta preparação. sob a forma tão 104 105 Rousseau Proust Baudelaire104 Klossowski Nietzsche Pelléas105 A morte dos amantes. porque o que é perfeito tem que ser formal. ato III. o roubo (únicas formas conhecidas da economia) implicam. Eu também não é uma resposta perfeita. 7. Eu pronuncio. invertendo a avaliação. surge de fogos cruzados. nova visão do eu-te-amo. nem roubo. diz Pelléas – Eu te amo também. O proferimento simultâneo funda um movimento cujo modelo é socialmente desconhecido. em suma. de sabê-lo. 6. E. pelo despertar (satori). que lhe concede a Mãe (“Vai. 8. 5. depreciar. diz à Françoise para te preparar a cama de casal e dorme por esta noite ao lado dele”). mas pela surpresa. impensável: nosso proferimento. eu o ouvi dizer numa peça de Sagan: uma noite em cada duas. Eu também inaugura uma mutação: caem as regras antigas. O proferimento não deveria ser duplo (desdobrado): só lhe convém o clarão único. depreciativo (será preciso sobmeter à proibição)? Será que se pode. Eu fantasio aquilo que é empiricamente impossível: que os nossos proferimentos sejam ditos ao mesmo tempo: que um não suceda ao outro. O clarão único realiza. temque interpretar bem. da parte do sujeito apaixonado. é uma ação. (operações essas que não excedem o plano do significado). da revolução política: porque. onde duas forças se reúnem (separadas. para que você responda. talvez. É a louca verdade. pois. no fim das contas. Pelléas e Melisande. Entretanto. num caso e no outro. o que é provável. o que fantasio é o Novo absoluto: o reformismo (amoroso) não me atrai. . depois de algumas orgulhosas negativas. – E se eu não interpretar eu-te-amo? Se eu mantivesse o proferimento aquém do sintoma? – Os riscos ficam por sua conta: você não disse cem vezes o insuportável da infelicidade amorosa. essa coisa rara: a abolição de toda contabilidade. A solicitação imperiosa de Pelléas (supondo-se que a resposta de Mélisande tenha sido exatamente aquela que ele esperava. Uma revolução. na TV. Eu-te-amo – Eu também. é suficiente para por em movimento todo um discurso do júbilo: júbilo ainda mais forte quando surge de uma reviravolta: Saint-Preux descobre de repente. Não é um sintoma. pelo modo como ela é fantasiada. e acreditar que eu-te-amo é um deles. não apenas de ser amado de volta. Daí. diz Mélisande. pois ele morre logo depois) vem da necessidade.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes despachada pelo criado do amante: a Mãe não é proibida. que não está longe. Não é portanto suficiente que o outro me responda por um simples significado. imaginar uma visão trágica do sofrimento de amor. e a forma escrupulosa (a letra) da resposta terá um valor efetivo. – Que devemos pensar finalmente do sofrimento? Como devemos pensá-lo? Avaliá-lo? O sofrimento está forçosamente do lado do mal? O sofrimento de amor não será da ordem de um tratamento reativo. pela conversão. e a forma aqui é defeituosa. o dom. como um louco. elas não passariam de um comum acordo). e também ele o obtém por inversão. O menino proustiano – ao pedir que sua mãe venha dormir no seu quarto – quer obter o eu também: ele o quer loucamente. porque ela não retoma literalmente o proferimento – e é próprio do proferimento ser literal. mas também de ouvi-lo dizer para si mesmo. que Julie o ama. que não é troca. mesmo que seja positivo (“eu também”): é preciso que o sujeitro interpelado assuma formular. tem que acreditar nos sintomas. como se fosse uma fórmula. uma afiamção do eu-te-amo? E se o amor (apaixonado) fosse colocado (recolocado) sob o signo do Ativo? 9. designa um gasto que não recai em lugar nenhum e do qual todo pensamento de reserva é abolido pela própria comunidade: entramos um pelo outro no materialismo absoluto. proferir o eu-te-amo que lhe estendo: Eu te amo. A troca. quer dizer. ela é excluída e eu enlouqueço. desencontradas. a necessidade de acabar com isso? Se você quer “se curar”. essa resposta. pela decisão caprichosa do Pai. esse Novo puríssimo está na extremidade do mais batido dos estereótipos (ainda ontem à noite.

mas ele não fica interiorizado por causa do proferimento: dizer eu-te-amo (repeti-lo) é expulsar o reativo. para terminar. eu-te-amo está do lado de Dionísio: o sofrimento não é negado (nem mesmo a queixa. que só pode falar por trejeitos. e imediatamente. olhares. seus indícios. tão completa. corporal. tirando dela sua “capa reativa”. labial da palavra: abre teus lábios e que isso saia daí (sê obsceno). a realidade. Como proferimento. mentirosos. Eu-te-amo é ativo. colocada por Nietzsche. o ressentimento). eles gastam a palavra como se fosse impertinente (vil) que ela fosse recuperada em algum lugar. e ele corre. Como proferimento. 62). o desgosto. Se afirma como força – contra outras forças. eles estão no limite extremo da linguagem. não ama a Fera. o arquétipo da palavra de amor. etc. recolocado numa estética das aparências (no fim das contas. lançá-lo no mundo surdo e dolente dos signos – dos atalhos da fala (que no entanto não paro de atravessar). “O exílio é uma espécie de longa insônia” (Pedras. o sim dessa última afirmação se torna inocente (engloba o reativo): é o amém. alienado no mundo servil da linguagem porque ele não diz tudo (o escravo é aquele que tem a língua cortada. aceita a tautologia (eu-te-amo quer dizer eu-te-amo). ele não errará mais (o que importa no mito. trabalha sem rede. Assim como o amém está no limite da língua. alusões. muito menos social). por sua vez. tomada pela psicanálise. e então ele desmaia: é um filme de 1975. é Apolo que escreve os romances de amor). Começa então “uma espécie de longa insônia”. digamos: pela conversas que tem com a Fera). ele fica dominado pela instancia reativa dos signos de amor. ele quer que ela volte. suspiros. é destinada à depreciação (a afirmação primeira da criança deve ser negada para que haja acesso ao inconsciente). elipses. Tomo Werther nesse momento fictício (na própria ficção) em que ele teria renunciado a se suicidar. ou pior ainda: interromper essa energia delirante que se chama Imaginário. o sujeito se vê com tristeza exilado do seu Imaginário. a Bela. Fadas.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Ravel106 Nave Fantasma afirmativa. eu-te-amo está do lado do gasto. Esse é o preço a pagar: a morte da Imagem contra minha “As conversas da Bela e a Fera”. E ainda o mito. caretas). O exílio do imaginário EXÍLIO. ponto de variação: que as duas palavras se respondam em bloco. Ou ainda: contra a língua. não é o domínio da fidelidade. afasta a servidão da Frase (é apenas uma holofrase). Os “signos” de amor alimentam uma imensa literatura reativa: o amor é representado. ma no final. tão articulada. é obter a palavra. também o proferimento de amor (eu-te-amo) está no limite da sintaxe. Aqueles que querem o proferimento da palavra (líricos. é seu proferimento. Fera”. eu-te-amo não é um signo. 219). Quais? Mil forças do mundo que são todas as forças depreciativas (a ciência. mas luta contra os signos. expressões. atrás da palavra. aparece um novo sujeito. O que eu quero. vencida (pouco importa porque. Ao decidir renunciar ao estado amoroso. se ela a obtiver (por juramento de fidelidade). o que quero receber é a fórmula. Encontro singular (através da língua alemã): uma mesma palavra (Bejahung) para duas afirmações: uma. Essa história é arcaica? Eis uma outra: um cara sofre porque a mulher o abandonou. quanto a sua própria. é modo da vontade de poder (nada de psicológico. seu canto). a outra. de novo: o Holandês Voador essa à procura da palavra. a doxa.). mas se exilar da sua imagem. Como contra-signo. literalmente sem fuga: ponto de escapatória sintática. através do rasgo suntuoso de uma acorde de harpa. ele quer – precisamente – que ela lhe diga eu te amo. desesperadamente. coincidindo significante por significante (Eu também seria exatamente o contrário de uma holofrase). sem ligação com seu sistema. Só lhe resta então o exílio: não seria se afastar de Charlotte (ele já o fizera uma vez sem resultado). . como uma chicotada em cheio. inteiramente. Aquele que não diz eu-te-amo (entre cujos lábios o eu-te-amo não quer passar) está condenado a emitir signos múltiplos. errantes) são sujeitos do Gasto. a razão. evidentemente. ela o diz. suas “provas”: gestos. Mágica? Mítica? A Fera – que foi encontrada na sua feiúra – ama a Bela. Werther Hugo107 Freud108 106 107 1. ele tem que se deixar interpretar. avaros do amor. incertos. 10. produção da diferença. lhe diz a palavra mágica: “Eu te amo. o que importa é o proferimento físico. duvidosos. 108 “O luto incita o eu a renunciar ao objeto declarando que esse último morreu e oferecendo ao eu a gratidão de continuar vivo” (Metapsicologia. lá a própria linguagem (e quem no seu lugar o faria?) reconhece que não tem proteção.

pois ainda o amo. discursos. signos. o telefone. todo mundo fala dele. sintoma de morte certa: pela primeira vez faço mal a quem amo. Sou quem decido que a sua imagem deve morrer (e ele talvez nem saberá disso). Durante todo o tempo de duração desse estranho luto. como paciente elabora o luto de seu analista: liquido minha transferência. desaparecida essa imagem. convenhamos que o progresso é triste. mais me entristeço. 111 “Essa revolta é. tudo está calmo e é pior. cria brasa novamente. Minha tristeza pertence a essa faixa de melancolia onde a perda do ser amado fica abstrata. 194). 3.. Embora justificado por uma economia – a imagem morre para que eu viva – o luto amoroso tem sempre um resto: uma palavra volta sem parar: “Que pena!”. 193). atravessado por contratempos. por exemplo. O ato verdadeiro do luto não é sofrer a perda do objeto amado. em sonhava. é a “prova da realidade” que me mostra que o objeto amado não existe mais. mas apenas perdido em tanto quanto objeto de amor. como um fogo mal apagado. Agora. No luto amoroso o objeto não está nem morto. não há mais repercussão. até a loucura. quanto mais eu o consigo. apetites. retoma sua existência fútil. não está verdadeiramente morto.” (Metapsicologia. 110 “A análise órfã”. diante de mim havia um bem. Se há alguma semelhança entre a crise amorosa e a cura analítica. do mesmo modo. mas. alguém que fosse morrer – para quem eu fosse morrer: eu procedia a uma recusa de separação). Tento me soltar do Imaginário amoroso: mas o Imaginário queima por baixo. e sofro. Assim me angustio (velho hábito) por causa de um telefone que não toca. angústias. terei que suportar duas infelicidades contrárias: sofrer com a presença do outro (continuando a me ferir à sua revelia) e ficar triste com a sua morte (pelo menos tal como eu o amava). posses. como já foi dito. porque decidi elaborar o luto dessa preocupação: é a imagem amorosa que deve me telefonar. (A paixão amorosa é um delírio. Se o exílio do Imaginário é o caminho necessário para a “cura”. mas sem me desesperar. . nem distante.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes própria vida. ele fica então domesticado. Prova de amor: te sacrifico meu Imaginário – como se dedicava o corte de uma cabeleira. No luto real. essa teoria esquece também que o analista também deve elaborar o luto do seu paciente (sem o que a análise corre o risco de não terminar nunca). Quanto mais eu fracasso no luto da imagem. Freud111 Winnicott112 Freud109 Antoine Compagnon110 (Ciúmes. É preciso prever e assumir essa melancolia do outro ao mesmo tempo do meu próprio luto. pode-se perceber na criança. o desejo amoroso queimava de novo por todo o lado. apenas retardado. 2. um longo grito irrompe bruscamente do túmulo mal fechado. sem querer é claro. eu lutava. O que é enigmático é a perda de delírio: se entra em que?). Essa tristeza não é uma melancolia – ou pelo menos é uma melancolia completa (de forma alguma cíclica). a cura e a crise terminam. o ser amado – se eu lhe sacrifico um Imaginário que estava entretanto grudado nele – o ser amado deve entrar na melancolia de sua própria decadência. a recusa do medo que esse objeto perca sua significação(Jogo e Realidade. Entretanto. mais fico angustiado. tão intensa que o sujeito pode chegar a sair da realidade e a se agarrar ao objeto perdido graças a uma psicose alucinatória do desejo” (Metapsicologia. às vezes. 112 “Exatamente antes que a perda seja ressentida. (O ponto mais sensível desse luto não será que devo perder uma linguagem – a linguagem amorosa? Acabaram os “Eu te amo”). 5. Falta redobrada: não posso nem mesmo investir minha infelicidade. Assim talvez (pelo menos é o que dizem) terei acesso ao “verdadeiro amor”. eu desejava. elaboro então o luto de quem eu amo. assim. através da utilização excessiva do objeto transacional. e parece que. mas o delírio não é estranho. é constatar um dia o aparecimento de uma manchinha na pele da relação. 265). O objeto. Fading 109 “Em certas circunstâncias. mas ao mesmo tempo devo me dizer que esse silêncio é de qualquer jeito inconseqüente. Nesse tempo. Era como se eu quisesse abraçar pela última vez. pois não me acuso de nada e não fico prostrado. toque ou não. 4. como no tempo em que eu sofria por estar apaixonado. ressurge aquilo a que se renunciou.. pode-se reconhecer que a perda é de natureza menos concreta.

Experiência dolorosa segundo a qual o ser amado parece se afastar de todo contato. pois cabe a voz de morrer. na região das Sombras. 3. o abandono tão reconhecido dos Místicos: Deus existe. sem que essa indiferença enigmática seja dirigida contra o sujeito apaixonado ou proferida em benefício seja do mundo. o outro aparece perder todo desejo. 1. voz desabitada. é aquilo que está se calando. uma e coalescente. a troco de nada. mas vivo-flou. como se ela fosse imediatamente apenas uma lembrança. Canto XI. assim chamo. mas esse abandono se duplica com o abandono que ele próprio sofre. Não sou destruído. que vai ser tragada muito longe pelas águas frias: ela está no ponto de desaparecer. como ser amado está no ponto de morrer: o cansaço é o próprio infinito: o que não acaba de acabar. maníaco. rarefeita. da branca fatalidade). Proust113 (Fading doloroso: pouco antes de morrer. se apagam. por alguns instantes. No fading. O que faz a voz é aquilo que nela me fere à força de ter que morrer. seja de um rival. a Mãe está presente. é a imagem toda que se enfraquece (o amor é monológico. (Voz adormecida. a retirada inexplicável do amor. o fading das vozes é uma coisa boa. Sou abandonado pelo outro. pois o outro está vivo nele. As vozes da narrativa vão. voz do fim do mundo. Esse ser fantasmagórico da voz é a inflexão. liquidada. mas puro que se essa loucura fosse violenta). não reconhece mais o menino e olha “com um olhar espantado. não posso mais me apoiar em nada. permite a leitura e realiza por assim dizer o desfalecimento do ser amado. mas eles não amam mais. quando ele se afasta. esse quase nada da voz amada e distante tornase em mim uma rolha monstruosa. a Noite o leva. rememorada. fica só a linguagem. se desloca até o infinito e me desgasto para alcançá-lo. quase sem graça pela raridade. voz da constatação. se a voz se perde. voz muito fraca e no entanto monumental. e não pudesse nunca deixar de ser outra coisa. mesmo que esse desejo não se dirija a nós). 408). bem além dos ouvidos. não está morto. é uma linguagem. O ser amado também é assim. o rosto marcado por um ar severo e frio. não para de desmaiar. curta. 334. perverso). desconfiado. (Na época que esta roupa estava no auge da moda. o texto é heterológico. compreender até que ponto precisamos do desejo do outro. exangue. O ciúme faz sofrer menos. não enxerga mais. 4. de desbotar: sentimento de loucura. pela qual se define toda voz.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes FADING. se sobrepõem. do fato longínquo. pois ela é um desses objetos que só existem quando desaparecem. A inflexão. evoco o outro. Essa voz breve. O fading do outro está na voz. Juan de Cruz114 la Odisséia115 113 114 115 O caminho de Guermantes. a avó do narrador. fades and fades. relembrada no interior da minha cabeça. nem mesmo no desejo que o outro leva para outro lugar: fico de luto por um objeto que está ele mesmo enlutado (daí. A voz suporta. “Chamamos de Noite a privação do gosto no apetite de todas as coisas” (Citado por Baruzi. O fading do objeto amado é o retorno aterrador da Mãe Má. entre elas estava a sombra de sua mãe. Nada mais doloroso do que uma voz amada e cansada: voz extenuada. 6. . não ouve mais. parece que ele se move ao longe numa névoa. Quando o outro é tomado pelo fading. é aquele grão sonoro que se desagrega e desfalece. as evocava (Nekuia). 5. 2. Há pesadelos em que a Mãe aparece. Mas o outro não é um texto. mas sou largado como um detrito. aquilo fala. poder-se-ia dizer. a Mãe. fico angustiado porque ele parece sem causa e sem fim. escandalizado”). vêm. não se sabe quem fala. Quando o fading do outro se produz. Só conheço a voz do ser amado morta. mas o que vem é apenas uma sombra. O outro se afasta como uma miragem triste. desse modo sua imagem fica lavada. é só: a imagem desaparece. como se um cirurgião me enfiasse um tampão bem grosso de algodão na cabeça. a não ser de uma angústia que só ele pode dizer através dessas pobres palavras: “Não estou me sentindo bem”. Ulisses as visitava. No texto. uma firma americana gabava o azul desbotado do seu jeans: it fades.

única ligação que me resta. Me assusto com tudo que vem alterar a Imagem. as máscaras da tragédia grega tinham uma função mágica: dar à voz uma origem telúrica. ele olhou num quadro. de aposentados? E se ele tivesse se enganado? Que ridículo correr pela plataforma como essas pessoas que se arrastam carregadas de embrulhos! – Pois foi o que aconteceu: o trem passou pela estação e foi parar muito longe. Por isso ele não se mexia. quando está lá. do último vagão. que não é o da junção. relutando em perder sua mãe. “Expliquei à mãe que seu filho temia a separação e que ele tentava negá-la por meio do jogo do barbante. é Cortezia Martin Freud. (N. sem dúvida. a não ser o trem distante. previa. Como lutar contra o cansaço? Vejo bem que o outro tira desse cansaço. em férias. partir primeiro teria sido uma falta que talvez o incomodasse por muito tempo”. mas tudo parecia tão longe. diz a cada segundo a voz no telefone. Entretanto. Para começar. não seriam manias de velhos. Mas. ao longe. a comunicação falsa? Pelo telefone. não ousava se mexer. enquanto o trem também lá estivesse (com X dentro).) 117 116 . cansada. Toda essa fissura na Devoção é uma falta: é uma regra da Cortezia. 134. 29). a mesma coisa fizeram alguns jovens de roupa de banho. deformá-la. tento “assumir” (é o conselho unânime do mundo) me sinto culpado. afinal de contas. maníaca. fazê-la vir das profundezas subterrâneas). e o que ele deixa passar é a voz má. quando dura (com grande sacrifício). a localização dos vagões de segunda e do vagão restaurante. o medo de se atrasar. de aliviar o peso.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Freud116 Winnicott117 7. Proust118 Blanchot119 (Não li em nenhum romance de amor que um personagem estivesse cansado. Precisei esperar Blanchot para que alguém falasse do cansaço). sobre a plataforma deserta – finalmente impaciente de que o trem partisse. assim como se nega a separação de um amigo recorrendo ao telefone” (Jogo e realidade. A partir de então ele não viu mais nada. Vou te deixar. um pedaço para me dar. dir-se-ia que ela sai debaixo de uma máscara (assim como. deixar a plataforma. Será que ele sentia. 2. Mas que fazer desse embrulho de cansaço colocado diante de mim? Que quer dizer esse dom? Deixe-me? Recolha-me? Ninguém responde. Me assusto portanto com o cansaço do outro: ele é o mais cruel dos objetos rivais. Parece que Freud não gostava de telefone. é exatamente aquilo que não responde. de reduzir a carga exorbitante da minha devoção. não é um barbante inerte. Em certas pequenas ocasiões da vida cotidiana. Faltas FALTAS. é o que se diz. ele que. nunca a reconheço completamente. 119 Conversa antiga * Sigla da rede ferroviária francesa Société Nationale des Chemins de Fer). da T. pois o que é dado. Freud. cada vez que. sem dizer nada. quando ele telefona à sua avó: angustiar-se com o telefone: verdadeira confirmação de amor). lá na frente. X beijo-o rapidamente e correu lá para a frente. 45. uma submissão obsequiosa ao código da SNCF*: a obediência às indicações. meu pai. sem ver nada. pensava ele. não sendo visto por ninguém. nenhum adeus. ele tem um sentido. o fato de se afobar numa estação. lá na frente. uma pusilanimidade. paradoxalmente. entretanto. estúpido. quando essa voz chega até mim. de conduzir X até lá para esperar o trem. que não ousou tomar a precaução. o sujeito acredita ter ferido o ser amado e experimenta por isso um sentimento de culpa. pela sua voz e pelo seu silêncio: de quem é a vez de falar? Nós nos calamos juntos: acumulação de dois vazios. mas o fio do telefone não é um bom objeto transacional. enfim de “conseguir” (segundo o mundo). Essa falta se produz quando esboço um simples gesto de independência em ralação ao objeto amado. 8. gostava de escutar. 118 O Caminho de Guermantes. em suma. O trem não partia. a não ser a placa traseira. tento negar a separação – como uma criança que. mas o da distância: voz amada. brinca de manipular sem descanso um barbante. se bem que fosse absolutamente inútil continuar lá. desterrá-la. o outro está sempre prestes a partir: ele se vai duas vezes. lá no final da plataforma curva. teria sido. Uma espécie de imposição simbólica (a forte imposição de um pequeno simbolismo) o obrigava a continuar lá. Nenhum sinal (não era possível). (Episódio de angústia vivido pelo narrador proustiano. E depois. 1. “Mal eles chegaram à estação de ***. que o telefone é sempre uma cacofonia. ouvida ao telefone: é o fading de toda sua angústia. para romper a servidão. obtusa.

te estendes aqui perto de mim. Assim seria a inocência da paixão: não uma pureza. é a insegurança (ou seu simples gesto) que me torna culpado. e meus olhos se afogavam na embriaguez dos seus! Deus! Serei castigado. absolutamente. de uma fofoca de três quilômetros de comprimento. 28.) ele sofre muito mais se for surpreendido por seu amigo que por seu pai” (43). diante de mim. ao fazê-lo. Toda cor.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes de ser forte que tenho medo. um aborrecimento. eu poderia até afirmar o sofrimento. dos sábios pensamentos que tiveste no vestíbulo aqui perto. em contato contigo. Banquete124 1. o sofrimento dele é geralmente alfinetado pelo seu duplo. o alcança e lhe pede para narrar o banquete oferecido a Agáton. A segunda lingüística diria 120 Fedro: “Se um homem ama e comete má ação (. ele o contou a Apolodoro que. O que espero da presença prometida é um somatório de prazeres. o Lunático. O enamorado seria tão inocente quanto os heróis de Sade. “Vivo dias tão felizes quanto aqueles que Deus reserva a seus eleitos. a disposição dos assentos tem grande importância). apertada contra meu peito. da ternura. e sim mais uma fofoca (falamos dos outros entre nós). um festim. de falta: “A dor foi frustrada de sua inocência”. ele vê um outro andando à frente. Aristodemo compareceu ao famoso Banquete. 124 Agáton: “Vem cá Sócrates. e aconteça o que acontecer não poderei dizer que não provei rãs mais puras alegrias da vida”. observa Nietzsche. (Então. comumente reprimidas – já que a lingüística oficial só se ocupa da mensagem. o conta a Glaucon (homem que diziam não ter cultura filosófica). eu não colocaria em questão aquilo que me machuca ..” (31) e a entrada de Alcibíades (153-154). eu cobria de beijos intermináveis seus lábios que murmuravam palavras de amor. não significa nada para você ser a festa de alguém?). “Esta noite – tremo ao dizê-lo – eu a tinha nos braços. Haveria entretanto nesse amor a possibilidade de uma dor inocente (se eu fosse fiel ao imaginário puro e só se reproduzisse em mim a díade infantil. de uma vontade de falar. o Erro: tenho medo do outro “mais que de meu pai”. se preferirmos. 121. o sofrimento da criança separada da mãe). Nietzsche Banquete120 3. Infelizmente. 2. de imagem em imagem de lugar em lugar (no Banquete. me rejubilo como a criança que ri ao ver aquela cuja simples presença anuncia e significa uma plenitude de satisfações: vou ter. 122 Werther. “Dias eleitos” FESTA: O sujeito apaixonado vive cada encontro com o ser amado como uma festa. e. Essa obra está então ligada a duas lingüísticas. O amor-paixão (o discurso amoroso) sucumbe sem cessar a essa falsificação. Lacan 1. “a fonte de todos os bens”. os convivas não só falam entre si. ao revivê-las no mais profundo de meu ser!”. para que eu possa usufruir. mas simplesmente a rejeição da Falta. A festa para o enamorado. Werther121 Werther122 Jean-Louis Bouttes123 A fofoca FOFOCA. A primeira postularia que nenhuma questão (quaestio) pode ser colocada sem a trama de uma interlocução. para falar do amor. mela mediação do livro. 123 Destruidor de intensidade. ou. Um homem segue aborrecido a estrada de Falera. na estrada de Falera. da conversa. O Banquete não é apenas uma “conversa” (falamos de uma questão). Assim nasce a teoria do amor: de um caso. O sujeito apaixonado se sente ferido quando constata que o ser amado é uma “fofoca” e ouve falar dele em comum. da promessa certeira do prazer: “uma arte de viver acima do abismo”. se ainda agora experimento uma celeste felicidade ao me lembrar dessas ardentes alegrias. 121 Werther. toda infelicidade.. mas implicam também nesse discurso geral as ligações amorosas nas quais estão envolvidos (ou imagina que os outros estejam): assim seria a lingüística da “conversa”.. o conta a nós mesmo que ainda falamos dele. Festa é aquilo que se espera. é um júbilo e não uma explosão: gozo do jantar.. . foram falsificadas por uma idéia de erro.

decreta (depois de muitas outras coisas) que o suicídio é uma covardia. Quando a amiga fala. uma amiga – voz da Fofoca – comenta com Werther sobre aquela cuja imagem vai encantá-lo dentro de alguns instantes: ela já está prometida. No Werther. 126 Werther. ele anula. a de Gasto). 18.. Essas duas vozes são redutoras. sem fazer conta disso. de perda “a troco de nada”. guardado numa urna na parede do grande mausoléu da linguagem. A fofoca é a voz da verdade (Werther vai se apaixonar por um objeto que já tem dono) e essa voz é mágica: a amiga é uma fada má. força de caráter. algo que pode lembrar a velha noção de wcØζ (ischus: energia. ao falar do Banquete. 127 Noção estóica (Os Estóicos). chego às vezes a ouvir seu discurso como o ruído de uma fofoca que detalha e denigre frívola. Albert. seu discurso é insensível (uma fada não fica penalizada). moralista. 113. Werther. tensão.”. de desperdício. Para mim. reduzido. uma economia perversa da dispersão. De um lado. o suicídio não é uma fraqueza. Glaucon e Apolodoro falam é de Sócrates. por que não tolerar Werther * 129 Sujet. a fofoca é frívola. e essa redução me é insuportável. Werther não conheceu Chalotte. em suma. conforme. mais próximo de nós. e.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes que falar é sempre dizer alguma coisa de alguém. duas economias se opõem. fria. XXXII. sua fortuna. Figura pela qual o sujeito apaixonado visa e hesita ao mesmo tempo colocar o amor numa economia de gasto puro. sem espírito de reserva e de compensação. 125 . Calcule bem sua fortuna. de outro. seu nome próprio. etc. tensão. que poupa bem sua felicidade. uma força (“essa violência. e. suas faculdades. Quando eu constato que o discurso em comum se apossa do meu outro e o devolve a mim sob a forma exangue de um substituto universal. força de caráter). 53 e 124. aplicando a todas as coisas que não estão lá. culparam Goethe pela epidemia de suicídios provocada pelo Werther. 128 Werther. e assim ela adquire o estatuto de uma espécie de objetividade. fria e objetivamente aquilo que amo: que fala disso segundo a verdade. 129 “Furor wertherinus”. depois de um bispo inglês. a de Gasto. o outro não poderia ser um referente: você é sempre você. Introd. (Um lorde.. não deve se apaixonar por ela. é como se eu o visse morto. 3. há o marido Albert.. 121. sua voz parece dobrar a voz da ciência. essa indomável paixão”). me dado momento. A filosofia ativa (a das forças da linguagem) compreenderia então duas lingüísticas obrigatórias: a da interlocução (falar a um outro) e da delocução (falar de alguém). uma economia burguesa da fartura. Werther125 2. Ao que Goethe respondeu em termos propriamente econômicos: “Vosso sistema comercial bem fez milhares de vítimas.. mas na carruagem que o leva ao baile campestre (vão pegar Charlotte no caminho). em francês. não quero que o Outro fale de você. a fofoca resume e anuncia a história que está por vir. Werther126 Grego127 1. prediz e chama. há o jovem apaixonado que prodigaliza. ele tem apenas seu próprio nome. Quando a ciência fala. do furor (furor wertherinus). há o enamorado Werther que gasta seu amor todo o dia. XIX – Resposta de Goethe: Introd. retomado a propósito de Werther e de Albert. de Alcibíades e de seus amigos: a fofoca esclarece o “sujeito”*. seu tempo. já que ele resulta de uma tensão: “Ó meu caro. A exuberância GASTO. De um lado. ao contrário. Para Werther. que sob a aparência de dissuadir. O terceiro pronome é um pronome mau: é o pronome da não-pessoa. e. O outro não é para mim nem ele nem ela. Werther128 2. mais próximo de nós. O amor-paixão é. portanto. A fofoca reduz o outro a ele/ela. (Devemos nos lembrar disso se quisermos entrever a força transgressiva do amorpaixão: a assunção da sentimentalidade como wcØζ (ischus: energia. do Amor. personagem insípido. por que tamanha tensão seria fraqueza?”. do outro. desse modo. tem pelo menos dois significados: sujeito e assunto. De um lado. se tensionar todo o ser é prova de força. de outro há o filisteu (o funcionário) que lhe ensina a lição: “Distribua seu tempo. etc. essa tenaz.

deusas da perseguição. parece se empenhar profundamente em me enterrar no meu delírio. ao silêncio. não magoar. Freud132 130 131 Blake citado por N. talvez inconscientemente e por motivos que podem proceder de seu próprio interesse neurótico. ao afastamento. A exuberância amorosa é a exuberância da criança na qual nada vem (ainda) conter a exibição narcísica. afastar as malhas? Pela delicadeza.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes algumas ao Werther?”). não um objetofim). sem finalidade (o objeto amado não é uma finalidade: é um objeto-coisa. de movimentos suicidas. 3. como o famoso cardeal Balue *fechado numa jaula onde não podia nem ficar de pé nem deitar. que se chama exuberância. ele passa sem avisar de um regime a outro. a força deriva. ao frio. Brown. de depressões. Blake130 A gradiva GRADIVA. produzse essa coisa brilhante e rara. . O discurso amoroso não é desprovido de cálculos: eu raciocino . a fonte transborda”. o outro não pára de me reconduzir ao meu impasse: não posso nem sair desse impasse. Freud131 1. figura daquela que ele ama sem saber. o outro tenta me enlouquecer. até que todas estivessem desfeitas e que o animal pudesse fugir esquecendo toda essa aventura”. num movimento de humor. O herói da Gradiva é um enamorado excessivo: ele alucina aquilo que outros apenas avocariam. De que modo o ser que me capturou. fala com ele e o desprende. o outro se esforça em me pôr em contradição comigo mesmo (o que tem como efeito paralisar em mim toda a linguagem). é percebida como uma pessoa real: esse é seu delírio. ou ainda. como se libertasse um animal preso na rede de um caçador: “Muito docemente. nem descansar nele. do mesmo modo. Mas assim como as Eumênidas são apenas antigas Erínias. poderá me descapturar. divertir. uma Eumênida. não param de provocar ou agravar a loucura do filho pelas mínimas intervenções conflituais. sem reparo. * O cardeal Balue foi secretário de estado de Luis XI. seja para representar interiormente ao outro. A cisterna contém. da doçura íntima. mas tal desequilíbrio faz parte dessa economia negra que me marca pela sua aberração. meu pai. 50-51. uma Benfazeja. pois o discurso amoroso não é uma média de estados. Freud. ele alterna atos de sedução e de frustração (isso é comum na relação amorosa).). 132 Martin Freud. Enfim. Esse nome. Mas esses cálculos são apenas impaciências: não há pensamento de lucro final: o Gasto está aberto. me pegou na sua rede. a se aproximar insensivelmente o mito e a realidade. ela se conforma primeiramente a esse delírio. 146). Essa exuberância pode ser entrecortada de tristezas. sem freio. tirado do livro de Jensen analisado por Freud. no terreno amoroso. O pequeno Martin Freud foi humilhado em uma aula de patinação. seu pai então o escuta. e por assim dizer. Por exemplo. consente em representar o papel da Gradiva. sem conservar e irritar a ferida amorosa: assim como esses pais de esquizofrênicos que. segundo se diz. existe. convencer. faço conta às vezes. o gozo múltiplo. designa a imagem do ser amado durante o tempo em que ele aceita entrar um pouco no delírio do sujeito apaixonado a fim de ajudá-lo a sair dele. ao infinito. seja se interessando visivelmente enquanto falo. esconder. para evitar determinada mágoa. A Gradiva é uma figura de salvação. cúmplice. ela entra um pouco nele. ele usa todo seu talento para “quebrar” a conversa. 68. em não quebrar imediatamente a ilusão. e em não acordar bruscamente o sonhador. O ser amado. 2. Para tirá-lo docemente daí. ou enfim de um modo ainda mais sutil. pelo seu luxo intolerável. por outra coisa diferente do que eu digo. ele ia tirando uma a uma as malhas que prendiam o animalzinho. o tesouro de engenhosidades que esbanjo a troco de nada em seu favor (ceder. “Não se deve subestimar a força de cura do amor no delírio” (Delírio e Sonhos na “Gradiva” de Jensen. A antiga Gradiva. e que é igual à Beleza: “A exuberância é a Beleza. Quanto o Gasto amoroso é afirmado continuamente. sem manifestar nenhuma pressa e resistindo pacientemente aos movimentos que o animal fazia para se libertar. etc. de final feliz. através do que a experiência amorosa passar a ter um pouco a mesma função da cura analítica. seja para obter determinada satisfação. mas não menos ferino. 3. uma Gradiva má. 4. seja impondo passar bruscamente de um assunto sério (que me interessa) a um assunto fútil.

“gribouillette”: joga infantil. sobrevive – se vende – o romance de amor). da T. por mais que eu me controle prudentemente. é na medida em que se feminiza. até desconhecida. senão a mulher. mas também a sua imagem. dizer-lhe “Veja como sou melhor que H”. por outros além de mim. ele é o louco que amou Charlotte e vai colher flores em pleno inverno. tudo que me dizem de Y me atinge diretamente. De nada adiante suplicar-lhe. A identificação não tem significado psicológico. portanto. me é duas vezes dolorosa: ela me desvaloriza aos meus próprios olhos (me acho reduzido a tal personalidade). Ou melhor. consigo imaginar rapidamente essa relação de estrutura (alguns pontos estão dispostos numa certa ordem em volta de um ponto) em termos de personalidade: visto que Heinrich e eu ocupamos o mesmo espaço. 2. está apaixonada por ele: e de outro lado. é uma pura operação estrutural: sou aquele que tem o mesmo lugar que eu. idêntico aos outros. 136 S. F. mesmo que a pessoa me seja indiferente. sei imediatamente que na minha ligação à X. ora. 3. ela conserva o domínio do seu sentimento. que acaba de matar seu rival. há de estar apaixonado). Percebo homologias e não analogias: contato.133 Winnicott134 Identificações IDENTIFICAÇÃO. Quem poderá vencer essa dialética? Quem. Pior ainda: pode acontecer que por outro lado eu seja amado por quem não amo. explique-nos essa contradição: de um lado Zoé quer Norbert (quer se unir a ele). que sou para X o que Y é para Z. coisa exorbitante para um sujeito apaixonado. Cada um. Devoro com o olhar toda a rede amorosa e nela localizo o lugar que seria meu se ela fizesse parte. encontro nele até os gestos de minha infelicidade: me sinto ao mesmo tempo vítima e carrasco. aquela que não está voltada para nenhum objeto – somente para. mas que ele não pode salvar da prisão: “Nada pode te salvar. estendida a todos aqueles que cercam o outro e se beneficiam dele como eu. ativamente.W. de qualquer maneira. mas desvaloriza também meu outro. que amou Charlotte até a loucura. longe de me ajudar (pela gratificação que ela implica ou pelo derivativo que ela poderia constituir) me é dolorosa: me vejo no outro que ama sem ser amado. terrível (como uma burocracia). Y. mas também quero dar. Diremos ao enamorado – ou a Freud: era fácil para a falsa Gradiva entrar um pouco no delírio do ser amado. Jogar uma coisa na “gribouillette”. (N. alcança a categoria das grandes Apaixonadas. ela é. torna-a incomparável. não me identifico mais apenas ao lugar de Heinrich. ela não delira. Eis porque – talvez – é Nobert que delira – e é Zoé que ama. O sujeito se identifica dolorosamente a qualquer pessoa (ou qualquer personagem) que ocupe a mesma posição dele na estrutura amorosa. o outro mórbido? Amar e estar apaixonado se relacionam dificilmente: pois. werther fica no mesmo lugar de Heinrich. infeliz! Vejo bem que nada pode nos salvar”.) 134 133 . se é verdade que estar apaixonado não se parece com nada (uma gota de estar apaixonado diluída numa vaga relação amigável colore essa relação vivamente.. estou preso num espelho que se desloca e que me capta em toda a parte onde houver uma estrutura dual. enfim. X é mais ou menos desejado. Ora. das Suficientemente Boas. o louco das flores. por exemplo. Um delírio toma conta de mim: sou Heinrich! Essa identificação generalizada. werther se identifica a todo enamorado perdido. elogiado. sacudido num círculo de correntes. ele é o jovem empregado de uma viúva. jogá-la no meio de crianças que disputam para ver quem ficará com ela. pelo qual ele quer interceder. também é verdade que em estar apaixonado há amar: quero possuir.. um nobre. que se torna o objeto inerte. Então como Zoé pode ao mesmo tempo “amar” e “estar apaixonada”? Esses dois projetos não são considerados diferentes. essa situação. o fetiche que lhes foi lançado para quem pegar primeiro (esse jogo se chamava “gribouillette”). Werther135 1. o pedaço de pano. ou outro objeto qualquer. Entro então no lugar deles. – Valete: 115-117. o dom? se então tal apaixonado chega a “amar”. parece gritar: é meu! é meu! Como se fosse um bando de crianças disputando a bola. Littré136 Conversa A Mãe 135 Louco das Flores: 160s. A estrutura não leva em contas as pessoas.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes 4. porque ela também o amava. pois ela é capaz de fingir.V. (Por essa homologia.

um arrepio lhe corre por todo corpo”. de reclusão. A imagem se destaca. objetos ou tarefas que se tornam aos seus olhos rivais secundários. pois nele toda imagem é seu próprio fim (nada além da imagem). sem dúvida porque era o único que eu podia fechar à chave. 139 Resto de Esperança tirado dos espelhos. aquilo que os outros chamam de forma. 4. diz a imagem que ele tem diante dos olhos. 1. 2. ou melhor. esse vazio pede que eu me projete nele. Sei bem que Charlotte não me pertence. As imagens das quais sou excluído me são cruéis: mas às vezes também (reviravolta) fico preso na imagem. torná-la sutil. mas “quando Albert a abraça pela cintura esbelta. é pouco dizer que me projeto.). eu colo na imagem do enamorado (da enamorada). As imagens Proust137 IMAGEM. onde o caçador está secretamente desenhando na confusão do arvoredo. 137 (O gabinete dos perfumes de íris. Uma pintura romântica mostra. eu não estou na cena: a imagem não tem enigma. abandonado para sempre. com o empregado. em Combray) “Destinado a um uso mais especial e mais vulgar. Ao contrário desses desenhos-charada. se perfumando. (“De Repente. o próprio registro das leituras imaginárias: ao ler um romance de amor. por pouco eu esteja tomado pela tristeza amorosa. A imagem é peremptória. completa. suas imagens. ela tem sempre a última palavra. mas. se suicidando. a definição da imagem. logo você é H”. posso me identificar com Werther. inclinados um para o outro”. quando voltava do vestiário. leques. eu o sinto como força. Essa imagem. é a imagem triste. diz a razão de Werther..Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Inexoravelmente. na teoria da literatura.) serviu muito tempo de refúgio para mim. caprichada. voltemos”. Werther se identifica com o louco. mil sujeitos o fizeram. leitor. me vejo como um boneco. portanto. andando. por isso mesmo. escrevendo como se fossem Werther (pequenas árias. a “projeção” (do leitor no personagem) não ocorre mais: ela é.. se vestindo. Converti minha exclusão em imagem. ela é pura e clara como uma letra: é a letra daquilo que me faz mal. fivelas. A imagem – assim como o exemplo para o obsessivo – é a própria coisa. ele sofre apenas vagamente. No terreno amoroso. Ao me afastar da calçada de um café onde tenho que deixar o outro acompanhado. Historicamente. Albert a rouba de mim. Uma longa corrente de equivalências liga os enamorados do mundo. sentado sobre um dos blocos. nenhum objeto nesse especo desolado. e seu mundo é um mundo invertido. o barco está quebrado. O que me fere são as formas da relação. cantilenas. ele os vê conversando carinhosamente. nenhum conhecimento pode contradizê-la. contudo. mas não há nenhuma estrada. águas-de-colônia a Werther). um amontoado de destroços frios: nenhum homem. de toda a imagem: a imagem é aquilo do que sou excluído. Existe um frio especial do enamorado: friozinho do bebê (seja do homem ou do animal) que precisa de calor materno. Eis então. Werther sabe muito bem que Charlotte está prometida a Albert. sob uma luz polarizada. onde minha ausência está presa como num espelho. trancado com essa imagem no espaço fechado do livro (cada um sabe que esses romances são lidos em estado de separação. Ninguém pode reclamar contra a estrutura. Hoje. ela responde: “você está no mesmo lugar. meio abatido. artista. diz o enamorado. as feridas mais profundas são provocadas mais pelo que se vê que pelo que se sabe. definitiva. para todas aquelas minha ocupações que pediam uma irresistível solidão: a leitura. que talvez só exista durante o tempo em que ficou destacada pelo contorna da fechadura. no entanto. de ausência e de volúpia: nos cantes). . caixas de bombons. Precisa. Pequenos ciúmes que tomam conta do sujeito apaixonado quando ele vê o interesse do ser amado captado e desviado por outras pessoas. ajeitá-la. O enamorado é. Werther 138 Caspar David Friedrich139 A laranja IMPORTUNOS. as lágrimas e a volúpia”. “Estou com frio. pela rua deserta. no entanto. 138 Werther. Eu. eu me vejo indo embora sozinho. oi sonho. Werther 4. e. esse cômodo (. 89. mas. finalmente. 3. sofrendo. ela não deixa lugar para mim: sou excluído como sou da cena primitiva.

a ponto dele nem prestar mais atenção se falo ou não. fico lânguido. me consumo”. me ausentando às vezes. Charlotte compartilha sua laranja por educação. ou se quisermos. o desejo amoroso é descoberto por indução. 143 “Antes do nascimento do amor. Para te mostrar onde está teu desejo. mas é também preciso que eu me afaste no momento em que corresse o risco de atrapalhar o desejo formado: é preciso que eu seja a Mãe suficientemente boa (protetora e liberal). Tudo que abala ligeiramente a relação dual. meu ciúme é indistinto: ele se dirige tanto ao importuno quanto ao ser amado que acolhe a solicitação dele ser ficar aparentemente aborrecido: fico irritado com os outros. 142 “Há pessoas que nunca se apaixonariam se nunca tivesse ouvido falar de amor” (máxima 36). muito jogo. 41). 2. um pouco de proibição. me capturar? Esse “contágio afetivo”. mas em seguida deixem o terreno livre!”: inúmeros episódios em que me apaixono por quem é amado pelo melhor amigo: todo rival foi primeiramente mestre. diz ela. até um objeto. na carruagem que os conduz ao baile. Werther: “As laranjas que eu tinha guardado. 24. da linguagem. O mundo está cheio de vizinhos indiscretos com os quais temos que compartilhar o outro. Os Importunos me atrapalham a toda hora: um conhecido encontrado por acaso e que forçosamente se senta a nossa mesa. como se adivinhasse que os homens são incapazes de encontrar sozinhos quem desejar). um livro. essa bondade não deve ter como efeito abolir o privilégio que me constitui. mas ficando não longe. pois ela é um objeto perfeito. e essa complacência altera sua imagem. enquanto ela cose calmamente. ao seu lado. Depois disso nada mais resta a Werther senão por sua vez se apaixonar por Charlotte. aumenta e leva o sujeito a colar o nariz nele: não é ele o objeto cintilante que uma hábil mão faz brilhar diante de mim e que vai me hipnotizar. em volta da qual a criança brinca. guia. contanto que eu o deixe um pouco livre: maleável. já que ela está as dando”. Freud141 La Rochefoucauld142 Stendhal143 1. por educação. ela oferecia a uma vizinha indiscreta. dos amigos: nenhum amor é original (a cultura de massa é uma máquina que mostra o desejo: eis o que deve lhe interessar. submetido a uma espécie de efeito zoom que se aproxima. se diz provavelmente Werther. 2. dos livros. com o outro. como esses nativos amáveis. e depois deixá-lo. comigo (daí pode começar uma “cena”). 141 140 . designar o desejo. indicador. Toda obediência aos ritos mundanos é vista como complacência do ser amado. fizeram um excelente efeito. diz o mundo. é como se eu mesmo estivesse ardendo nesse fogo. “Você também me pertence”. por exemplo. “Mostre-me quem devo desejar” INDUÇÃO. 89. O ser amado é desejado porque um outro ou outros mostraram ao sujeito que ele é desejável: por mais especial que seja. altera a cumplicidade e desfaz o sentimento de posse. é importuno. no qual o outro está mergulhado (tenho ciúmes do livro). mas por outro. ela predispõe a essa paixão pelos elogios que ouvimos sobre aquele que amaremos” (Do Amor. A dificuldade da aventura amorosa consiste no seguinte: “Que me mostrem quem devo desejar. E a própria Charlotte lhe será designada antes que a veja. Winnicott Werther. sem no entanto se oferecerem para acompanhá-lo. mediador. por bondade. só que. parte dos outros. essa indução. eu sentia o coração como que transpassado”. a cada fatia que. de um lado é preciso que eu esteja presente como proibição (sem o que não haveria bom desejo). Essa contradição se transforma em vago ressentimento. dessa ternura. Pouco antes de se apaixonar. a beleza é necessária como emblema. as únicas que ainda havia. vizinhos de restaurante cuja vulgaridade fascina visivelmente o outro. O corpo que vai ser amado é manejado com antecedência pela objetiva. O mundo (o mundano) é meu rival. mas esses motivos não acalmam o enamorado: “Não valeu a pena guardar essas laranjas para ela. X quer que eu esteja lá. Werther encontra um jovem empregado que lhe conta sua paixão por uma viúva: “A imagem dessa fidelidade. uma amiga gentil lhe diz o quanto Lotte é bonita. O mundo é exatamente isso: uma imposição de partilha. me persegue por toda parte. Essa seria a estrutura do casal “bem-sucedido”. Ensaios de Psicanálise. Contradição insolúvel: por um lado é preciso que Charlotte seja “boa”. que mostram bem o caminho a você. basta te proibi-lo um pouco (se é verdade que não existe desejo sem proibição).Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Werther140 1.

ele vem do exterior. que é um livro dos Nomes). de qualquer maneira. consagrado. no entanto dura). A amizade mundana é epidêmica: todo mundo pega. senão para sempre. está o Informante. A exaltação é como o lucro secundário da minha impaciência. Esse segredo não é profundo. que agita e diz tudo a todo mundo. não sobre uma cena íntima. passado o deslumbramento do encontro. na proporção da sua da sua acuidade. mas me esforço em tornar minha escuta fosca. todo fato tem qualquer coisa de agressivo: irrompe no Imaginário um pingo de “sabedoria”. uma série de investidas. Sentimento amoroso: nada tem jeito – e. ávido de manter com seu outro um espaço impermeável. sua lógica). Werther145 1. é uma infelicidade que não fica gasta. E. Claudius. Suponha agora que eu lance nessa rede um sujeito sensível. Tudo que vem do exterior é uma ameaça. seja sobre a forma de ferimento (se esse mundo me faz um discurso indiscreto sobre esse assunto). nem de uma coragem. no entanto. que é uma imensa fofoca. A cortina se abre ao contrário. . Gontran. 124. uma rede de intrigas). a repetição (cômica?) do gesto pelo qual eu me significo que decidi – corajosamente! – acabar com a repetição. Por mais inocente que seja a mensagem que ele transmite (como uma doença). (Sentimento razoável: tudo tem jeito – mas nada dura. ingrato da realidade me cai sobre a cabeça. é o exterior do outro que me estava escondido. no meio dessa pequena sociedade. Léon e Richard formam um clã. instalo em mim o teatro marcial da Decisão. pelo menos durante muito tempo. isso dura. como se não fosse nada. No final do romance. A paciência amorosa tem pois como ponto de partida a sua própria denegação: ela não se origina nem de uma espera. o Informante me revela um segredo. parece ter como papel constante ferir o sujeito apaixonado dando a ele. as atividades da rede. A informação me é dolorosa. 2. mesmo que seja vulgar. puro (não tocado). Ao 144 145 O discreto charme da burguesia. Gustave. o amadurecimento. suas iniciativas serão recebidas como tantos perigos. Gide Proust 1. suas obstruções. tem um papel negativo. me alimento dela. O que quero é um pequeno cosmo (com seu tempo. numa palavra que precipitará o suicídio de Werther. Entretanto. “Isso não pode continuar” Buñuel144 INSUPORTÁVEL. pois é próprio da situação amorosa ser imediatamente intolerável. um dia que Léon conhece Urbain. Sou obrigado a escutá-lo (mundamente não posso deixar que vejam minha excitação). Étienne e Ursule. informações sem importância sobre o ser amado.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes O informante INFORMANTE. habitado por “nós dois” (título de uma revista sentimental). e muito cedo. seja sob a forma de aborrecimento (sou obrigado a viver num mundo do qual o outro está ausente). Charlotte (que também tem seus problemas) acaba por constatar que “isso não pode continuar assim”. Um demônio nega o tempo. Angèle e Hubert. Abel. nem de um domínio. ao me significar que preciso sair disso. Constatar o insuportável: esse grito serve para alguma coisa. como que tapada. 2. ao mesmo tempo aldeia etnológica e comedia de teatro de revista. Werther. a paciência de uma impaciência. O sentimento de um acúmulo de sofrimentos amorosos explode nesse grito: “Isso não pode continuar”. etc. O informante. um outro ainda (tiro esses nome de Paludes. mas sobre uma sala pública. que de resto conhecia um pouco Léon. O próprio werther poderia ter dito isso. Ao me dar uma informação insignificante sobre quem amo. ele reduz meu outro a nada mais do que um outro. a dialética e diz a cada instante: isso não pode durar! Entretanto. Figura amigável que. Forma-se assim uma constelação: cada sujeito é chamado para entrar em contato com o astro mais afastado e conversar com ele sobre todos os outros: tudo acaba por coincidir (é o próprio movimento da Procura do tempo perdido. Sempre “artista” faço da forma um conteúdo. mas cujo efeito é atrapalhar a imagem que o sujeito tem desse ser. não importa o que ele diga: um pedaço fosco. estrutura parental e trapalhada cômica. um outro. ingênuo ou perverso. nem de um artifício. seu tráfico de informações. que conhce Angèle. Urbain. da Ação e da Saída. indiferente. Para a delicadeza amorosa. nela me afundo. como uma doença.

partir. Se desgastar. 1. Não é verdade que quanto mais se ama. Reviravolta: “Não consigo te conhecer” quer dizer: “Nunca saberei o que você verdadeiramente pensa de mim”. sua opacidade não é de modo algum a tela de algum segredo. raro. etc. na qual fica abolido o jogo de aparência e do ser. A languidez de amor LANGUIDEZ. Estou preso nesta contradição: de um lado.” (Et nunc manet in te. e eu ficava inclinado a amá-lo não mais com terror. pois não sei como você me decifra.) e esqueço logo aquilo que seria preciso estão sacrificar: simplesmente minha loucura – que. creio conhecer melhor o outro do que ninguém e afirmo isso triunfalmente a ele (“Eu te conheço. Não posso decifrar você. que o será sempre: movimento místico: tenho acesso ao conhecimento do desconhecido. 1151). não posso abri-lo. independente dos dados particulares da relação amorosa. por estatuto. 3. Isso porque não sabia nada sobre o seu desejo: conhecer alguém. Só me resta então converter minha ignorância em verdade. me volto para mim mesmo: “O que é que eu quero. intratável. o enamorado não é Édipo. sou uma boneca Daruma. imediatamente. O que aconteceria se eu quisesse te definir como uma força e não como uma pessoa? E se eu me situasse como uma outra força diante da tua força? Aconteceria o seguinte: meu outro se definiria apenas pelo sofrimento ou pelo prazer que ele me dá. fora de qualquer querer-possuir. Só eu te conheço bem!”). É o que diz um poema popular que acompanha essas bonecas japonesas: “Assim é a via Cair sete vezes E se levantar oito”. persisto sem me endurecer: sempre perturbado. experiência da sua falta. . Experimento então essa exaltação de amar profundamente um desconhecido. não pode se constituir em objeto de sacrifício: já se viu um louco “sacrificando” sua loucura por alguém? Por enquanto só vejo na abnegação uma forma nobre. chegar até a sua origem. 2. (De todos que eu conhecera.). mas com indulgência. o que ainda equivale a retê-la no abrigo do seu Imaginário. Quando passa a exaltação.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes imaginar uma solução dolorosa (renunciar. psicológico ou neurótico. se esforçar por um objetivo impenetrável é pura religião. uma glória de abnegação me invade (renunciar ao amor. sobre os desejos de Y: ele era como “um gato escondido com rabo de fora”. graças a uma quilha interior (mas qual é a minha quilha? A força do amor?). Suporto sem me acomodar. teatral. mas que finalmente retoma o seu prumo. como um determinado tipo característico. nunca desencorajado. fico reduzido à mais simples filosofia: a da residência (dimensão natural dos verdadeiros cansaços). etc. um poussah sem pernas em que se dão vários petelecos. e. X era certamente o mais impenetrável. Esforços do sujeito apaixonado para compreender e definir o ser amado “em si”.. 3. Fazer do outro um enigma insolúvel do qual depende minha vida. não à amizade. Estado sutil do desejo amoroso. De onde ele vem? Quem ele é? Por mais que me esforce não saberei nunca. por outro lado sou frequentemente assaltado por essa evidência: o outro é impenetrável. como uma mãe ama seu filho). mas sim uma espécie de evidência. eu que quero te conhecer?”. desfazer o enigma. Gide146 146 Falando de sua mulher: “E como sempre é preciso amor para compreender o que difere de você. não decifrarei nunca a pergunta que ele me faz.. é consagrá-lo como deus. faço vibrar em mim a exaltada fantasia da saída. o que a ação amorosa consegue de mim é apenas uma sabedoria: não tenho que conhecer o outro. O irreconhecível IRRECONHECÍVEL. Ou ainda: ao invés de querer definir o outro (“O que é que ele é?”). mais se compreende. não é apenas isso: conhecer seu desejo? Eu sabia tudo.

u’a mão que se arrasta. dissolvido no éter da Fofoca. saída da Nekuia. 150 “Quando a criatura se elevou. quero poder me atirar sobre. um arrepio toma conta de mim: fico mais verde do que o capim. 10).: papoter): pappa. algo se vai. “e você vai diz meu outro você finalmente vai me responder eu sofro tua ausência te quero sonho com você para você contra você me responde teu nome é um perfume espalhado tua cor brilha entre os espinhos faz reviver meu coração com vinho fresco me faz uma colcha de manhãs sufoco sob essa máscara pele drenada arrasada nada existe além do desejo”. se você se afastasse do círculo deles? (. transferido para o objeto amado que toma o lugar dele: a languidez seria essa passagem extenuante da libido narcísica à libido objetal. 135.. Sollers147 Safo Banquete148 Werther149 Rusbrock150 Freud151 Cortezia152 Lembrado? LEMBRADO. pois desde que te vejo por um instante. sem fim. no entanto. sem atingir o que ela quer. 4. Surge daí um estado de contradição: é a “queimadura suave”.. O sujeito apaixonado se imagina morto e vê a vida do ser amado continuar como se não houvesse acontecido nada. 152 Citado por Rougemont.. minha alma me vinha aos lábios. através do próprio luto.. só faço esperar: “Eu não parava de te desejar”. comer com a ponta dos lábios.) se você partisse hoje. os mesmos amigos.. Se vejo um rosto adormecido. Essa Sátiro – figura do Imediato – é exatamente o oposto do Lânguido. morta. Do amor.B. mas os outros não são a Mãe. surge cruelmente a posição adversa: ninguém precisa mesmo de mim. uma boca entreaberta. não me é mais possível articular uma palavra: mas minha língua se quebra e um fogo sutil desliza de repente sobre a minha pele: meus olhos não têm olhar. sem mudança.. O Sátiro diz: quero que meu desejo seja imediatamente satisfeito. mingau. – L. e por pouco me sinto morrer”. Eis o cansaço amoroso: uma fonte que não é saciada. (. seus problemas. “Quando eu beijava Agáton. (O desejo está em toda parte.” Não é que eu imagine que vou desaparecer sem deixar saudades: na necrologia é certa: é porque eu vejo. é que o moribundo (em que ele se projeta) é citado num bate-papo: Charlotte e as amigas são as “mulherezinhas” que falam futilmente da morte.. 149 “O infeliz cuja vida termina pouco a pouco numa lânguida doença que nada poderá sustar” (48). oferecendo o que pode. 3. ela coloca a ausência na presença. 151 “É só na plenitude dos estados amorosos que a maior parte da libido se transfere para o objeto e esse último toma. Werther surpreende Lotte e uma de suas amigas batendo papo. 148 147 . “..) Teus amigos sentiriam. Werther153 1. 2. então nasce a languidez espiritual” (16).Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes 1. seus passatempos. para mim a depressão). 2. que eu não nego. o lugar do eu” (Breviário de Psicanálise. para eles o luto. pappare. O que aumenta o pânico de Werther. mas no estado amoroso. (Desejo do ser ausente e desejo do ser presente: a languidez suprime os dois desejos. elas falam com indiferença de alguém que está morrendo: “E. de certa forma. meus ouvidos zumbem. (Só a Mãe pode sentir saudades: diz-se que ficar deprimido é carregar a figura da Mãe tal como imagino que ela sentirá saudades de mim para sempre: imagem imóvel. o que lhes enche a existência de em nada mudaria. absurda assunção da Dependência (preciso demais do outro). ele se torna algo de muito especial: a languidez). E Paraíso Dístico de Platão e Agáton. balbuciar e comer. a vida dos outros continuar. como se a infeliz tivesse que ir embora”. 21-22. é como se o desejo não fosse outra coisa senão essa hemorragia. Na languidez. um amor escancarado. Ou ainda: todo meu eu é puxado. o suor escorre sobre meu corpo. freqüentar os mesmos lugares. J. 99 154 Conversa 155 “Bater papo” (fr. Na languidez amorosa.154 Etimologia155 Me vejo comido na ponta dos lábios pela fala dos outros. quanto eles sentiriam o vazio que a tua perda causaria no destino deles? Por quanto tempo?. eu os vejo perseverar em suas ocupações. 153 Werther.

havia uma vara de bambu a qual tinha sido amarrado um recipiente de ferro branco cinzelado de florões. Ou ainda: frequentemente a criança autista olha seus próprios dedos que mexem nos objetos (mas ela não olha os objetos): é o twiddling. Werther156 1. O imperfeito é o tempo da fascinação: parece vivo e. de um gesto. alguma coisa como um gasto puro. Um dia. o objeto: uma energia lingüística. Essa lembrança de infância funciona como uma lembrança amorosa). “Os amores me fazem pensar demais”. em decorrência de uma picada ínfima. (Para pegar os figos do jardim de B. a vara de colher frutas na mão. como só o haïku japonês o soube dizer.” (“Der Leiermann”. é uma manipulação ritual. Werther conta. Reminiscência feliz e/ou dolorosa de um objeto. tramar). O twiddling não é um jogo. começa na minha cabeça uma febre de linguagem. Não escrevo. como se eu me lembrasse apenas do próprio tempo e nada mais. 158 “Os pés descalços sobre o gelo. Canção157 Schubert158 Grego 1. Essa palavra. à medida em que eu as jogo”. Na loqüela nada impede a repetição. titubeando. de uma cena. Mas ele não se importa com nada: ele segue girando sua manivela e seu realejo que não se cala nunca. e marcada pela inclusão do imperfeito na gramática do discurso amoroso. e que não se cala nunca. e não filosoficamente. Desde o princípio as cenas tomam posição de lembrança. que dela eu já não seja. simplesmente o cansativo engano da memória. há muito tempo. Nota. porque me lembro pateticamente. marcada por passos estereotipados e compulsivos. ele titubeia e a latinha de esmolas esvazia. eu o prevejo. de interpelações. designa o fluxo de palavras através do qual o sujeito argumenta sem cansar. morte imperfeita. assim como do primeiro rapto. A anamnésia me faz transbordar e me magoa. Enrolo e desenrolo. tramo o dossiê amoroso e recomeço (esses são os sentidos do verbo mhrÚomai. que não é recuperado em nenhum destino. é um perfume sem suporte. Não tenho mais consciência do que uma máquina automática. Por alguns instantes. triunfará sobre minha própria lembrança. fútil e incansável. Viagem de inverno. essa frase se torna a fórmula que repito proporcionalmente à calma que ela me dá (é eufórico encontrar a palavra certa).. Proust A loqüela LOQÜELA. sobre os efeitos de uma ferida ou as conseqüências de uma conduta: forma enfática do “discorrer” amoroso. tirada de Inácio de Loyola. produzo em mim uma frase “bem-sucedida” (na qual acredito ter descoberto a justa expressão de uma verdade). desenrolar. Tosca 2. não dramáticos. Nunca mais essa felicidade voltará tal qual. Ninguém o escuta. me alimento dela. me perderei nela no passado. nem esquecimento nem ressurreição. do que um realejo cuja manivela um tocador anônimo gira. eu a mastigo novamente. ninguém o olha e os cachorros latem em volta do velho. é feito de lembranças posteriores: é a anamnésia que só reconstitui detalhes insignificantes. o imperfeito murmura em voz baixa atrás desse presente. uma simples fragrância. 62 Do século XV. no entanto. por acaso. como as crianças ou doentes mentais atingidos de mericismo. “E lucevan le stelle” LEMBRANÇA. meruomaï: enrolar. Ela as recebe. 157 156 . engulo sem parar minha ferida e regurgito.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes a fofoca continuará se. não se mexe: presença imperfeita. embaixo. 99. ligados ao ser amado. para pegas as peras dos galhos mais altos. O quadro amoroso. ávidas de representar um papel: frequentemente eu o sinto. “As estrelas brilhavam”. A partir do momento em que. de alocuções. “Tivemos um verão magnífico e estou sempre no pomar de Lotte. não me fecho para escrever o enorme romance do tempo reencontrado. Assim é o Bruno Berttelheim159 Werther.. trepado nas árvores. fala no presente. me lembrarei da cena. poemas de Muller). mas seu quadro já tem vocação para lembrança.. pontualmente. 159 Fortaleza vazia. na sua cabeça. um grão de memória. um desfile de razões. discursivamente: me lembro para ser infeliz/feliz – não para compreender. – Esse teatro do tempo é exatamente o oposto da procura do tempo perdido. no exato momento em que elas se formam.

metafórica: o amor me deixa como louco. eu desdobro minha imagem: sou demente aos meus próprios olhos (conheço meu delírio). não poder me impedir de sê-lo. Eu sou (interiormente) volúvel. discurso sobre ela. secando cogumelos. 2. “Por que não fazeis com que os outros façam? – Um outro não é eu. Mas podemos imaginar um louco enamorado? De modo algum. 125 Pedras. de réplica em réplica como nas antigas esticômitis: há um gozo na fala desdobrada. Ele conta uma cena fúnebre de adeus diante de Charlotte. e eu não sou um outro. perdi simplesmente a razão aos olhos dos outros. Um outro não tem a experiência de secar os cogumelos”). porque não gosto de ancorar o meu discurso: os signos giram em “roda livre”. IV. ele quer colher flores para Charlotte. não estou louco de poder dizê-lo. ninguém me vê. II. Se eu pudesse pressionar o signo. incompleta. 36. redobrada. Eu só tenho direito a uma loucura pobre. empenhados em mostrar o tom. 3. a girar meu realejo. 2. choro como uma criança”. Estou louco de amor. “Eu não sou um outro”: é o que constato assustado. um velho monge está ocupado. no estado amoroso que certos sujeitos razoáveis advinham de repente que a loucura na qual o próprio amor naufragaria). de resto totalmente recuperada pela cultura: ela não mete medo. de falar: não há nenhum diretor para interromper o cinema interior que filmo para mim mesmo. e é nisso que sou louco: sou louco porque consisto. louco de paixão. Que pena que não se pode engessar as cabeças como se faz com as pernas! Mas não posso me impedir de pensar. Para mim. é exatamente o contrário: o que me torna louco é tornar-me um sujeito. Eu vou fazer um papel: sou aquele que vai chorar. e dizer: Corta! A volubilidade seria uma espécie de infelicidade propriamente humana: estou louco de linguagem: ninguém me ouve. como ele. é insignificante e até invisível. a quem conto comportadamente minha loucura: consciente dessa loucura. submetê-lo a uma sanção. Werther se reconhece pela metade no louco das flores. 3. mas não comunico com a sobrenatureza. 150 Werther 106-110 . não há em mim nada de sagrado: minha loucura. Werther escreve à Charlotte e representa para ela a imagem do seu futuro túmulo: “E ao me descrever isso tão vivamente. Esse homem era feliz quando morava numa cabana: ele não sabia mais nada de si mesmo. Há cem anos considera-se que a loucura (literária) consiste nisso: “Eu é um outro”: a loucura é uma experiência de despersonalização. (História Zen: em pleno calor. essa narrativa o deixa abatido pela violência e ele enxuga os olhos com um lenço. Tenho em mim dois interlocutores. Achamos que todo enamorado é louco.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes enamorado tomado pela loqüela: ele fica mexendo na ferida. Werther tem uma tirada contra o mau humor: “Seus olhos se enchem de lágrimas”. (I. torno a me dizer bem depressa a palavra cruel que vai relançá-los. Werther162 160 161 162 Werther. simples perda de razão. poderia finalmente ter sossego. o sujeito apaixonado. Werther160 Hugo161 1. choro mais ainda. Werther encontra um louco na montanha: em pleno inverno. O sujeito apaixonado é atravessado pela idéia de que ele está ou está ficando louco. “Ais vinte anos. “Estou louco” LOUCO. 35. e se os choros diminuem. que ele amou. mas privado de todo acesso à felicidade (suposta) do inconsciente: sofrendo até mesmo por não ter sucesso na sua loucura. dores profundas me fizeram renunciar ao canto. levada até a confusão final (cena de palhaços). Humboldt chama a liberdade do signo de volubilidade. Eu sou evidentemente eu mesmo. porque minha voz me fazia chorar”). represento esse papel diante de mim e ele me faz chorar: sou para mim mesmo meu próprio teatro. mas (como o velhote de Schubert) eu continuo a falar. diz Mme DesbordesValmore. E ao me ver chorar assim. entretanto. (É. III.

. essa é a minha singularidade. Viagem de Inverno. A última folha MAGIA. Quando o vento brinca com ela.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Santo Agostinho163 4. é preciso uma pergunta alternativa (Mal me quer/Bem me quer). Contemplo uma folha e fixo nela minha esperança. encher os olhos dessa luz íntima e forte) promessas cada vez mais vagas. mas porque estou fora de tudo que é social. Essa “alguma coisa” é naturalmente (ancestralmente) uma promessa: se (você voltar. No Fedro de Platão. E se ela cai. Consultas mágicas. por mil astúcias indelicadas. Às vezes. em diversos graus. (Ao consultar quem quer que seja. nem mesmo da minha própria loucura: não socializo (como se diz de um outro que ele não simboliza). (Reconhecer talvez aqui o corte muito singular que dissocia no Enamorado. minha libido está absolutamente limitada: não ocupo nenhum outro espaço a não ser o dual amoroso: nem um átomo de fora. “Letze Hoffnung”. militantes de qualquer coisa. qualquer que seja sua cultura. o discurso do sofista Lísias e o primeiro discurso de Sócrates (antes que se faça sua palinódia) repousam todos os dois sobre esse princípio: que o amante é insuportável (pelo peso) ao amado. forte. II. tão apertada (pois essa é a etimologia da palavra) – uma angústia de espera. “Eu sou odioso” MONSTRUOSO. não concebo que as coisas amadureçam. Foi surpreendido pela beleza da chama e o gesto lhe pareceu menos idiota. pequenos ritos secretos e ações de graças não estão ausentes da vida do sujeito apaixonado. de um discurso bem feito.) então cumprirei minha promessa. articulado? Entretanto. libido sciendi. Se os outros homens são sempre. vento) que marque um dos pólos de variação. em mantê-lo na 163 164 Libido sentiendi. Para poder interrogar a sorte. todo meu ser treme. ele conserva o amado afastado de uma multidão de relações.. a vontade de possuir – que marca a qualidade da sua força – da vontade de poder – da qual ela é isenta?). portanto nenhum átomo de gregaridade: estou louco: não que eu seja original (artifício grosseiro da conformidade). Segue-se a lista dos traços importunos: o amante não pode suportar que alguém lhe seja superior ou igual aos olhos de seu amado. O sujeito se dá conta bruscamente que ele envolve o objeto amado numa rede de tiranias: ele se sente passar de miserável a monstruoso. um objeto suscetível de uma variação simples (Vai cair/Não vai cair) e uma força exterior (divindade. Schubert164 1. aqui e ali. querendo sujeitar. por exemplo. que abrangiam – por medo de escolher – “tudo que não vai bem no mundo””. minha esperança cai com ela”. experimento ao meu jeito a vontade de poder.. acaso. a angústia é tão forte. Platão 1. ele se emprega. 2. ele acendeu uma vela numa igrejinha italiana. Por que então se privar do prazer de criar uma luz? Ele recomeçou. a exemplo dos sistemas políticos. “Subsistem folhas nas árvores. . acrescentando a esse delicado gesto (inclinar a vela nova sobre a vela já acesa. Faço sempre a mesma pergunta (serei amado?) e essa pergunta é alternativa: tudo ou nada. Não sou dialético.O que. A dialética diria: a folha não cairá. a libido dominandi: será que eu não disponho. E fico frequentemente diante delas. o enamorado não fica excitado pelo poder? No entanto. e depois ela cairá. 160). escapem às conveniências do desejo. libido excellendi (dominandi) (Citado por sainte-Beuve. meu problema é a escravidão: estou sujeito. eu não sou soldado de nada. espero que me digam: “a pessoa que você ama também o ama e vai lhe dizer isso essa noite”).que é preciso fazer alguma coisa. e trabalha para rebaixar todo rival. que se pode fazer. Confidência de X: “A primeira vez. quer dizer. tem prazer de ver o fogo pegar. sutil. mas enquanto isso você terá mudado e não fará mais a pergunta. É louco aquele que está isento de todo poder . esfregar docemente as mechas. pensativo.

eu acreditava exibir. uma figura de sonho que não fala. pedem. onde o som não circula. ao falar. (Da escuta distante nasce uma angústia de decisão: devo continuar. o que não está no mesmo nível é imediatamente demais. que esmaga tudo sob seu discurso: que eu amo. enquanto que ele mesmo não se impede absolutamente de ser mais tarde infiel e ingrato. terá sido visto para nada. que só posso capturar depois de algum tempo. pois. X parecia frequentemente olhar e escutar ao longe. de modo que o amado só saiba o que lhe chega através do seu apaixonado. espiando alguma coisa nas redondezas: parava-se. gasto minhas qualidades à toa: toda uma excitação de afetos. sua assiduidade diária é cansativa. O discurso amoroso sufoca o outro. Porque o ser amado se torna um personagem de chumbo. todo o esplendor do meu eu vem se enfraquecer. Nesses breves instantes que falo à toa. 2. Essa escuta fugidia. Sem resposta MUTISMO. sou indesejável. logo nós somos” (Ponge). parentes. minha fala não é propriamente um detrito. monumentalmente. É o luto daquilo que percebemos”. ele não quer para o amado nem filhos. X dizia: “Continua. (O outro fica desfigurado pelo seu mutismo.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes ignorância. faço parte do rol dos importunos: aqueles que pesam. mas esses tesouros são apreciados com indiferença. complicam. me conscientizo dessa inversão: que eu me acreditava puro sujeito (sujeito submisso: frágil. discursando para ele sobre qualquer que fosse o assunto. amigos. com terror. como se – pensamento culpado – minha qualidade excedesse a do objeto amado. miserável). sobretudo. O coração do enamorado fica. isso: tudo que foi visto. comporta recantos mortos. Mais uma vez a armadilha). em distrair. nem lar. mas sei como fazer deslizar os pronomes: “Eu falo e você me ouve. desistir? Seria parecer me vexar. o que quer que seja que ele pense: seu amor não é generoso. que não encontra lugar algum para sua própria fala nesse dizer maciço. Devo parar. uma língua enorme). e eu que falo. Ou ainda: a Mãe gratificante 165 166 “Queda”. eu estou escutando”. é a morte. tesouros de engenhosidade. apesar de velho (o que em si já é inoportuno). que avança cegamente. intimidam (ou apenas simplesmente: aqueles que falam). no fim de um longo silêncio. e daí começar uma “cena”. como nesses sonhos terríveis onde certa pessoa amada aparece com a parte inferior do rosto inteiramente apagada. também fico desfigurado: o solilóquio faz de mim um monstro. é como se eu morresse. ou não responde. delicado. 93. como uma péssima sala de concerto. no sentido musical. Não é que eu o impeça de falar. me vejo transformado em coisa obtusa. então se retornava meio sem jeito o fio de uma história na qual não se acreditava mais”. me envolve num pensamento sórdido: empenhado com ardor em seduzir. às palavras (discursos ou cartas) que ele lhe dirige. ele age como tirano policial e submete o amado o tempo todo a espionagens maldosamente desconfiadas. colocar o outro em questão. 1. a justiça. François Wahl165 Freud 166 3. em sonho. pregar “no deserto”? Seria preciso uma segurança que a sensibilidade amorosa precisamente não permite. ele deseja secretamente que o amado perca aquilo que tem de mais caro: pai. a coincidência. “Quando se falava com ele. cheio de maus sentimentos. e o mutismo. o amigo. de saber. “Os três cofrezinhos”. atrapalham. a relação afetiva é uma máquina exata. de doutrinas. sem boca. mãe. . Às vezes. se amortecer num espaço inerte. (O espaço afetivo. “A morte é. não será aquele que constrói ao redor de você a maior ressonância possível? Amizade não poderia ser definida como um espaço de uma sonoridade total?). – O interlocutor perfeito. ele não aceita ser abandonado nem de dia nem de noite. Me enganei. de delicadeza. são fundamentais. abusam. O Sujeito apaixonado fica angustiado porque o objeto amado responde parcimoniosamente. Ensaios de Psicanálise. desencorajado. mas um “não vendido”: aquilo que não se conso9me no momento (no movimento) e é destruído. como se eu estivesse mais adiantado do que ele. 2. Ora.

flutuo dolorosamente. Mas também. “Diga-me. Não procuro sair do impasse amoroso pela Decisão. o resultado dessa transação é o humor. é bastante honesto para dissimulá-lo. Sentido e uso do mau humor que toma conta do sujeito apaixonado no decorrer de circunstâncias variadas. estar tinieblas (estar nas trevas) me acontece quando a ligação às coisas e a desordem que daí provém me deixam cego. uma chantagem vergonhosa. uma de cada vez. “E a noite clareava a noite” NOITE. ele vem do nosso ciúme. uma leve embriaguez negra. a Imagem e me fala: “É você”. invisível: estoy a escuras: estou lá. O suicídio de amor seria um humor um pouco exagerado?). enfim pelo gesto. o desejo continua a vibrar (a obscuridade é transluminosa). o relevo. mais tarde. e como que inacabado. entro na noite do sentido. Para dizê-lo me sirvo de uma distinção mística: estar a oscuras (estar às escuras) pode ser produzido sem que haja erro. seja me cobrindo. do gasto sutil. estando de mau humor. pois o mau humor não é outra coisa senão uma mensagem. não sei o que ele quer. entretanto.. cujo verdadeiro motivo não é dito abertamente: incapaz de esconder a ferida e não ousando dela declarar a causa. mas nada quero possuir: é a noite do sem-proveito. eu transijo. 308. Todo estado que suscita no sujeito a metáfora da obscuridade (afetiva. A nuvem é então apenas isto: alguma coisa me falta. é um descontentamento conosco mesmo cujo peso colocamos sobre os outros. suportá-lo sozinho. da nossa vaidade. que ele e Charlotte vão visitar. me reservando o direito de abrir o embrulho mais tarde segundo as circunstâncias: seja me descobrindo (no decorrer de uma “explicação”). pelo Empreendimento. sem destruir a alegria à sua volta!”. mudam a luz. etc. intelectual. 168 167 . porque estou privado da luz das causas e das finalidades. o que terá outro peso. Werther J. outra má. eu desloco meu ciúme. A segunda noite envolve a primeira. é de repente uma outra paisagem. 169 “Admirable cosa que siendo tenebrosa alumbras ela noche” (Baruzi. às vezes. pela Oblação. eis a porta de toda maravilha”. o Obscuro ilumina a Treva: “E a noite estava escura e clareava a noite”. tudo repercute. Há no entanto nuvens mais sutis. Esse homem evidentemente não existe. – Escurecer essa obscuridade.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes que mostra o Espelho. 170 “Não-Ser e Ser saídos de uma fundo único só se diferenciam pelos nomes. de causa rápida. O rosto de M. ele próprio se suicidará. sem existência.B. entre os quais o ridículo. 1. a filha do pastor de St***. Werther ataca então o mau humor. uma boa. pela Separação. Schmidt. como ele é: suspendo toda interpretação. XXVI. Mas a mãe muda não me diz o que sou: não tenho mais base. o próprio bem é um mal. eis a porta de toda maravilha” (Tao Te King). Juan de la Cruz167 1. todas as sombras ligeiras. Esse fundo único se chama Obscuridade. estou na obscuridade total do meu desejo. que passam sobre a relação. a Noite é outra: sozinho. A Noite Transluminosa. Apelas substituo uma noite pela outra: “Escurecer essa obscuridade. Mais frequentemente. ele recusa a participar da conversa. aqui. (Desconhecimento: Werther acusa o mau humor. sentado simples e calmamente no negro interior do amor. 2. Não podendo ser manifestadamente ciumento sem vários inconvenientes. o nome do homem que. incerta. você deve ler (que algo está errado): coloco simplesmente meu pathos sobre a mesa. que se oferece à leitura como indicador de um signo. faço abortar o conteúdo sem renunciar à forma. existencial) na qual ele se debate ou se acalma. em postura de meditação (será talvez um papel que me atribuo?). dele só mostro um efeito derivado. 2. Nuvens Rusbrock168 Juan de la Cruz169 Tao170 NUVENS. etc. porque ele pesa sobre os que cercam você. moderado. vai se cobrindo de sombras. Werther é amigável com Frédérique. Experimento duas noites. Baruzi. vivo golpe atrás de golpe: estoy en tinieblas. penso calmamente no outro. diz Werther. – L. 327). o noivo de Frédérique. Assim é o mau humor: um signo grosseiro. (O humor é um curto-circuito ente o estado e o signo).

que o deixa sozinho e exposto. à tarde. pelos quais Zen soube codificar a sensibilidade humana (furyu): a solidão (sabi). meio maduro: sou Paul Géraldy*. por uma inversão de valores. 143. até que seja com o olhar: se Werther não pode ir ver Charlotte e lhe manda seu empregado. “Estou feliz. 19. Géraldy: poeta de alcance bem popular que escreveu “sobre” o amor (Eu e Você). Desacreditada pela opinião moderna.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Zen Pélleas Percorro fugitivamente os estados de falta. para dizer seu amor à mulher que ele ama e que está a seu lado. Werther multiplica os gestos de fetichismo: ele beija o laço da fita que Charlotte lhe deu de aniversário. unificadamente). 61. Werther171 1. A Montanha Mágica.. Exemplo de obscenidade: cada vez que aqui mesmo se emprega a palavra “amor” (a obscenidade cessaria se. o código exige que haja sempre uma palavra que indique o momento do dia e do ano. II. essa leve alusão à chuva. é pois essa sentimentalidade que faz hoje o obsceno do amor. ele se deita no túmulo ao lado da Mãe – precisamente então evocada). No haïku japonês. a tristeza que me vem da “inacreditável naturalidade das coisas” (wabi). se me vejo abandonado. Ora o objeto metonímico é presença (gerando alegria). Do mundo exterior a única coisa que posso associar ao meu estado é a cor do dia. Ou ainda: sonho: dou um curso “sobre” o amor. 25. não fosse o respeito humano”). será sinistro. a notação amorosa guarda o kigo. ele se planta diante do público. é esse empregado sobre o qual ela colocou seu olhar que se torna para Werther uma parte de Charlotte (“Eu bem que teria lhe tomado a cabeça entre as mãos para lhe dar um beijo. como se “o tempo está fazendo” fosse uma dimensão do Imaginário (a Imagem não é colorida nem profunda. Ou ainda: “Noite de ópera: um péssimo tenor aparece no palco. desinvestido. 2. 42. * P. a palavra-estação. seco. (N. que se comunicam com o corpo apaixonado que se sente mal ou bem.) . espalha. a nostalgia (aware). Werther quer ser enterrado com a fita que Charlotte lhe deu. 44. e o kigo. as pistolas que ela tocou. à luz. De que depende então minha leitura? Se penso estar a ponto de transbordar. Lacan Haïku O obsceno do amor OBSCENO. abstrato. a tudo que banha. Lacan 1. (Ela toca o Falo no lugar da Mãe – se identifica a ele. não lhe parecia que essa palavra [amor] lucrasse tanto em ser tão 171 172 Werther. mas estou triste”: essa era a nuvem de Mélisande. globalmente. debochadamente. se dissesse: “ãmor”).. o bilhete que ela lhe manda (se arriscando a encher os lábios de terra). estou morto para qualquer sensualidade a não ser aquela do “corpo encantado”. os raios que guardou durante o dia. fortemente iluminado por uma luz de vitrine. Do ser amado sai uma força que nada pode deter e que vem impregnar tudo o que ele toca. o auditório é feminino. Fora esses fetiches. de noite. não há nenhum outro objeto no mundo amoroso. obsceno e estúpido. A fita OBJETOS. ora ele é ausência (gerando a tristeza). Do haïku. Todo objeto tocado pelo corpo do ser amado torna-se parte desse corpo e o sujeito se liga a ele apaixonadamente. da T. É um mundo sensualmente pobre. Cada objeto consagrado (colocado no espaço fechado do deus) se torna semelhante à pedra de Bolonha. declamo uma ária muito codificada. meu olhar atravessa as coisas sem reconhecer sua sedução. sem olhar quem amo e a quem supostamente me dirijo”. 173 O Olho Pineal. Thomas Mann172 Ou ainda: “. o sentimento do estranho (yugen). o objeto será favorável. mas tem todas as nuances da luz e do calor. a sentimentalidade do amor deve ser assumida pelo sujeito apaixonado como uma forte transgressão. que irradia. Sou esse tenor: como um grande animal.

contanto que ele seja “generalizado” (“a verdadeira música popular. adocicada. encontrei um intelectual apaixonado: para ele. “Musique et Oubli”). em nome do ‘modernismo” que se interessa por um assunto.”. teatro ou análise (cheios de dedos). Ou ainda: sua tolice age como uma clivagem.] diante das gargalhadas das prostitutas”. é a mesma coisa que para o sujeito de Bataille se desnudar num lugar público: é a forma necessária do impossível e do supremo: um tal aviltamento que nenhum discurso de transgressão pode recuperar e que se expõe sem proteção ao moralismo da anti-moral. nada pode suplantar a inconveniência de um sujeito que se desmancha porque seu outro parece distante. reduzimos esse passado a apenas sua marca. o papa sadomiza um peru. o kitsch ou o nostálgico. de proteger. é verdade). escaloná-lo. me limito a um delírio bem comportado.. não é a mentira. não faça mais mal do que bem. mas não a censura.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes frequentemente repetida. Ou finalmente: meu amor é “um órgão sexual de uma rara sensibilidade. a bobagem nua do seu discurso.. diz Lessing sobre o Werther. falo sempre no primeiro grau... Teimo. mas seu delírio é tolo. Descobrir em toda parte essa inocência – é talvez a parte menos atraente do nosso trabalho”. refreado. O enamorado delira (ele “desloca o sentimento dos valores”). ele diz. “enquanto há ainda no mundo tantos homens que morrem de fome. o monumento. . ao contrário. Como divindade (moderna). Meu daïmôn é. Quando penso seriamente em me suicidar por causa de um telefonema que não acontece. recuso o aprendizado. é nisso que ele é obsceno. 4. Na vida amorosa. no terreno do meu amor. a História é repressiva.. os gritos de uma ejaculação grandiosa. [preso ao] do extasiado que o ser fazia em si mesmo como uma vítima nua. colocar nele pontos de vista. se produz uma obscenidade tão grande quanto em Sade. elas estavam associadas a uma imagem como leite molhado. é a inocência encarnada no moralismo mentiroso. mas malcheirosa. Talvez ele conheça sua tolice. a música plebéia. e é isso que a torna mais abjeta. repito as mesmas condutas. minha tolice: assim como o burro de Nietzsche. Tudo que é anacrônico é obsceno. aliada a maior das seriedades é até inconveniente. (Eu tomaria para mim os desprezos lançados sobre todos os pathos: antigamente. Ao contrário. de modificar. discreto. Do passado só suportamos a ruína. Daniel Charles. A partir daí ele julga seus contemporâneos como sendo todos inocentes: são inocentes aqueles que censuram a sentimentalidade amorosa em nome de uma nova moralidade: “A marca distintiva das almas modernas. Bataille173 Nietzsche174 Sade 174 Genealogia da Moral. mas esse fora de moda não pode nem mesmo ser recuperado como espetáculo: o amor fica fora do tempo interessante. 3. a História nos impede de ser inatuais. 2. vocês não acham que ela precisaria de um epílogo bem frio?). aspas. está aberta a todas as manifestações de “subjetividade de grupo”. a rede dos incidentes é de uma incrível futilidade. não lhe pode ser dado nenhum sentido histórico. ele não tem tempo de transformar. alguma coisa branca. não sei modificá-lo. 208. O enamorado fica sempre.. uma perversão: é tolice. à bela subjetividade sentimental do sujeito isolado. conforme. azulada. e tantos povos que lutam duramente pela sua libertação. banalizado pela literatura. essas duas sílabas acabariam por lhe parecer muito repugnantes. Mas a obscenidade sentimental é menos estranha. O sentimento amoroso está fora de moda. O daïmôn de Sócrates (aquele que falava primeiro nele) lhe soprava: não. hoje. é o sentimental – censurado em nome do que no fundo é apenas uma outra moral). (Inversão histórica: não é o sexual que é indecente. O que pode ser mais tolo que um enamorado? Tão tolos que nenhum deles ousa sustentar publicamente seu discurso sem uma dediação séria: romance. a música das massas. e essa futilidade. meu discurso é continuamente irrefletido. que [vibraria] me fazendo me dar gritos atrozes. (É tolice ficar surpreso. polemico. em nome da razão (“Para que uma produção tão ardente. 5.”.. “assumir” (não reprimir) a extrema bobagem. que é divertido. obscena [. etc.. mas. não à subjetividade única. digo sim a tudo. não posso ser educado – nem posso me educar.”.

mein herzallerliebstes liebs. Não sou niilista.a revista – é a mais obscena que Sade). que é de me amar. A obscenidade amorosa é extrema: nada pode recolhê-la. 178). Um dia. 7. Logo em seguida (ou ao mesmo tempo) a pergunta já não é: “por que você não me ama?”. dar a ela o valor forte de uma transgressão. só pode ter ciúmes aquele que se crê amado: o outro. porque só pode trair aquele que ama. Não me digo nunca: “Para quê?”. mas: “por que você só me ama um pouco?”. amor do meu coração. nem mesmo a do “baixo materialismo”. A verdade é que – paradoxo exorbitante – não paro de acreditar que sou amado. eu vivia na complicação de me acreditar ao mesmo tempo amado e abandonado. sempre o mesmo: mas por que você não me ama? Como se pode deixar de amar esse eu que o amor torna perfeito (que tanto dá. “Que significa niilismo? Que os valores superiores são depreciados. Ou então – pois sou nominalista – por que você não me diz que me ama? Freud178 3. (Nous Deux175 . Faltam os objetivos.) só traz à consciência desejos escondidos ou reprimidos. mas é porque eu acreditava sê-lo que eu sofria. Cada ferida vem menos de uma dúvida que de uma traição.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes 6. 176 175 . de boa fé. O texto amoroso (apenas um texto) é feito de pequenos narcisismos. Não me coloco a questão dos fins. privada de cenário: nenhum Bataille daria uma escritura a esse obsceno. casualmente. o sujeito apaixonado vive na crença de que na verdade o objeto amado o ama. o que ele quer? (Eu te amo vira você me ama. Meu discurso monótono não tem “por quê”. um delírio só existe se dele se desperta (só há delírios retrospectivos): um dia. falha em relação ao meu ser. que faz feliz. tudo que não é total me parece parcimonioso. ávido de coincidência. amar “um pouco”? Vivo sobre o regime do demais ou do não chega. e quem o amava só poderia ser quem ele amava. warum verliessest du mich?”. da T.. e não há resposta para essa pergunta “para que?””. 23. o amém. mas ninguém se interessará pelos que Y possa ter com sua sentimentalidade: o amor é obsceno precisamente por colocar o sentimental no lugar do sexual. já estou recuperado). ela os representa em exagero como realizados” (Metapsicologia.). Ao mesmo tempo em que se pergunta obsessivamente por que não é amado. mesmo que fosse através do piscar de uma figura. compreendo o que me aconteceu: eu pensava que sofria por não ser amado.)? Pergunta cuja insistência sobrevive à aventura amorosa: “Por que você não me amou?”. mas. 2. eis a origem das minhas infelicidades. Nietzsche176 Heine177 1. mas não o diz. Todo mundo compreenderá que X tenha “grandes problemas” com sua sexualidade. o limite da língua (todo obsceno dizível como tal não pode mais ser o último grau do obsceno: eu mesmo ao dizê-lo. Como é que faz para amar um pouco? Que quer dizer isso. 177 Lyrisches Intermezzo. Entretanto. ou ainda “Oh! Diga-me. É então o momento impossível onde o obsceno pode coincidir verdadeiramente com a afirmação. Quem quer que tivesse ouvido minha linguagem íntima só teria podido exclamar como se faz com uma criança difícil: mas afinal. 178 “Temos que nos dar conta de que a psicose alucinatória do desejo (. etc. o que procuro é ocupar um lugar de onde não se perceba mais as quantidades e de onde tenha sido banido o cômputo final. ele não tem grandeza: ou sua grandeza (mas quem é que socialmente está aí para reconhecê-la?) é de não poder atingir nenhuma grandeza. a solidão do sujeito é tímida. por que você me abandonou? “O sprich. Existe para mim um “valor superior”: meu amor. Um certo “bebezão sentimental inveterado” (Fourier) que morresse bruscamente apaixonado. a não ser um só. Por quê? PORQUÊ. Alucino aquilo que desejo. Foi preciso um longo tempo de controle para que ele conseguisse dissociar as duas deduções: quem o amava não era forçosamente quem Revista de fotonovelas (N. de mesquinharias psicológicas.. X recebeu orquídeas anônimas: imediatamente ele alucinou a origem delas: só poderiam vir de quem o amava. O imposto moral aplicado pela sociedade sobre todas as transgressões atinge hoje mais ainda a paixão do que o sexo. pareceria tão obsceno quanto um presidente da república atacado de congestão ao lado de sua amante.

Ele não se afirma e se imporá.. o N. 37. Não saio do sistema: “Armance. (o não-querer-possuir. nada recusar: receber. no inerte.” (lido num programa da Tetralogia. não está do lado da bondade. Esse pensamento é um logro. 107 e Tao To King. 3. 180 “Ele não se exibe e brilhará. rumino e decido: de hoje em diante. 153. Não profiro. E de novo o Oriente: não querer possuir o não-querer-possuir. porque ele se instala bem no interior da paixão. É preciso que o querer-possuir acabe – mas é também preciso que o não-quererpossuir não seja visto: não há oblação. Não se matar (de amor) quer dizer: tomar a decisão de não querer possuir o outro. Nietzsche Tao180 Tao Rilke181 Stendhal182 Zen183 Tao184 Nietzsche Rusbrock185 Modo de Nietzsche: “Nunca mais suplicar. etc. ele não fica ligado a ela e como ele não se liga a ela. abençoar”.. (Tao Te King.P. Entretanto. “O mundo me deve tudo de que preciso. Laporte em “Além do horror vacui”. exaltada (. Pensamento constante do enamorado: o outro me deve aquilo de que eu preciso. não conservar. Realizada sua obra.Q. 1911-1912. o grande desânimo”. deixar vir (do outro) o que vier. Wagner179 1. e. seco: de um lado. nada reter.. o sujeito decide abandonar a partir de então todo “querer-possuir” a respeito dele.Q. alma livre e embriagada com aquilo que não bebe e não beberá nunca!”. O N.Q.) que deixa ébria a alma enfraquecida que não o bebe. e deixa intactas suas obsessões e angústias.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes ele amava). fosse um pensamento tático (finalmente um!)? E se eu continuasse a querer (embora secretamente) conquistar o outro fingindo renunciar a ele? Se eu me afastasse para possuí-lo mais seguramente? O reversis (jogo onde ganha aquele que perde) se baseia num artifício bem conhecido dos sábios (“Minha força está na minha fraqueza). Para que o pensamento do N. E aquele momento em que Werther se mata e em que teria podido renunciar a possuir Charlotte: é isso ou a morte (momento.. possa romper com o sistema do imaginário. me disperso.P. e também o mais inebriante (. a primavera chega e o capim cresce sozinho”). o querer-morrer. Preciso da beleza. do brilho.P. 5. produzir sem se apropriar.Q.P. halt ich dich fest” (“Porque não te retenho nunca. 60. Me jogo na cama.) por um certo entusiasmo de virtude que ainda era uma maneira de amar Otávio.P. saboroso. deixo o desejo circular em mim. como um grupo que desiste de “investir”. de outro lado eu o apóio na “minha verdade”: minha verdade é amar absolutamente: sem o que me retiro. não me oponho ao mundo sensorial. apenas: me sentar (“Sento tranquilamente sem fazer nada.. Também: Watts. Digo silenciosamente a quem não é mais ou ainda não é o outro: me impeço de amar você. é vivo. Última armadilha: ao renunciar a todo querer-possuir. 183 Watts.. 182 Armance. pela primeira vez. O N. em Beirute). 4. a não ser que ele evita a escolha”. portanto. fico exaltado e encantado com a “boa imagem” que vou mostrar. solene). Modo místico: “Vinho delicioso. 2. da luz. expressão imitada do Oriente) é avesso do suicídio. não quero possuir mais nada do outro. te tenho firmemente”): Verso de duas melodias de Webern. Sobria ebrietas QUERER-POSSUIR: Ao compreender que as dificuldades da relação amorosa vêm do fato de que está sempre querendo se apropriar de um modo ou de outro do ser amado. é preciso que eu consiga (por determinação de que obscuro cansaço?) me deixar cair em alguns lugares fora da linguagem. Que o Não-querer-possuir fique. Não quero substituir o caloroso enlevo da paixão pela “vida empobrecida. na cabeça tenho eu te amo. etc. mas eu o prendo atrás dos lábios. de certo modo. E se o N. sua obra ficará. pois intrigado de desejo por esse movimento arriscado. 179 . tenho realmente medo. XXII) 181 “Weil ich niemals dich anhielt. 185 Citado por R. 184 Watts.Q. deixar passar (do outro) o que se vai. Ou ainda: “O Perfeito Tao não apresenta dificuldade.”).

como uma corda. 188 História da Galinha maravilhosa. mais o sujeito se torna o sujeito: pois o sujeito é a intimidade (“A ferida (. é o contrário. o raptor é ativo. Nesse momento em que a imagem do outro vem pela primeira vez me raptar. ele quer pegar sua presa. das imagens cativantes. disponível. como Werther) nada mais é que esse tempo. disfarçadamente. ela ficava imóvel. não faz nada. como todos sabem. entretanto: no mito antigo. e quanto mais a ferida está aberta. Assim é a ferida de amor: uma abertura radical (nas “raízes” do ser). Assim werther nos descreve bem longamente a vida insignificante que leva em Wahlheim antes de encontrar Charlotte: nenhum contacto mundano. uma espécie de embalo quotidiano um pouco vazio. só a leitura de Homero. 4. ela ia se mexendo e recomeçava a bicar. fitna diz respeito à guerra material (ou ideológica) e ao ato de sedução sexual. por exemplo.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes O rapto RAPTO. para romper a violência do seu Imaginário (vehemens animalis imaginatio).. diz o jesuíta. e “a coisa aberta que está no fundo do homem não se fecha facilmente” (14). que se fica estupefato quando se ouve alguém devcidir se apaixonar: Athanasius Kircher188 Em árabe. Entretanto. sem que eu o espere. a vaga que abro em mim (e da qual me orgulho inocentemente. 3. nada distingue a via do enamoramento do caminho de Damasco. de raptar. (Experimentum mirable de imaginatione gallinae). Gerard Miller. que não chega a se fechar. bastava lhe dar um tapinha na asa. A língua (o vocabulário) estabeleceu há muito tempo a equivalência entre o amor e a guerra: nos dois casos. (Subsiste. que passava perto do seu bico. sou convertido por uma aparição. regular. o raptor não quer nada. mudado. fascinada. no mito moderno (o do amor-paixão). em seguida sou preso no visco. o nariz colado na imagem (no espelho). em Ornicar. Essa “maravilhosa serenidade” nada mais é que uma espera – um desejo: nunca fico apaixonado sem que o tenha desejado. há sujeito: Die Wunde! Die Wunde! Diz Parsifal se tornando por isso “ele mesmo”. sem que eu queira. ou então. Episódio tido como inicial (mas pode ser reconstituído depois) durante o qual o sujeito apaixonado é “raptado” (capturado e encantado) pela imagem do objeto amado (nome popular: gamação. Bastaria imaginar nossa Sabina ferida para fazer disso o tema (o sujeito) de uma história de amor. no centro do corpo (no “coração”). como ao rapto animal.) é de uma intimidade ordinária”). entretanto. A gamação é uma hipnose: estou fascinado por uma imagem: primeiro sou sacudido. quando desamarrada. entretanto. Parsifal Rusbrock187 Essa singular reviravolta vem do seguinte: O “sujeito” é para nós (desde o cristianismo?) aquele que sofre: onde há ferida. eletrizado. “submetendo-se ao seu vencedor”. achatado. mais ou menos longo. prosaico (ele cozinha ervilhas). o mito da “gamação” é tão forte (isso cai sobre mim. ele é sujeito do rapto (cujo objeto é uma mulher. Cada vez que o sujeito “cai” de amores por alguém. propício sem o saber ao rapto que vai surpreendê-lo. mas a estrutura é profunda. assim como é cíclico o acasalamento entre os animais. Certamente é preciso algo que dê partida ao amor. um vestígio do modelo arcaico: o enamorado – aquele que foi raptado – é sempre implicitamente feminizado). ele faz voltar um pouco no tempo arcaico onde os homens deviam raptar as mulheres (para assegurar a exogamia): todo enamorado que fica gamado tem alguma coisa de uma Sabina (ou de qualquer uma das Raptadas célebres). modelo dos objetos amados.. 2. Curioso intercruzamento. revirado. e é o objeto raptado que é o verdadeiro sujeito do rapto. se constituindo como sujeito nesse próprio corrimento. sempre passiva). ele fica imóvel (como uma imagem). de capturar. nenhum divertimento. e o sujeito da conquista passa ao posto de objeto amado. Djedidi186 1. 187 186 . não sou outra coisa senão a Galinha maravilhosa do jesuíta Athanase Kircher (1646): com as patas amarradas ela adormecia fixando os olhos na linha de giz. Diz-se que o episódio hipnótico é geralmente precedido de um estado crepuscular: o sujeito está de certa forma vazio. em que meus olhos procuram ao redor. como foi Menon por Sócrates. “torpedeado”. o engano é ocasional. e de onde o sujeito escorre. sem minha interferência). “A medula dos ossos onde estão as raízes da via é o centro da ferida” (16). quem amar. trata-se de conquistar. nome científico: enamoramento). etc. imobilizado. 71 – Sobre a hipnose. em Chertok. o objeto da captura se torna o sujeito do amor.

de mexer os lábios carnudos ao comer. O que? Vou deliberar se devo ficar louco (o amor seria essa loucura que eu quero?). Tanto pode ser. é uma ou outra inflexão. 142. na qual se perdia como sujeito. você me fez sentir. custando a me perceber. “E parece que você está lá. arma de repercussão – do “ressentimento”. 4. etc: enfim. que eu seguiria. No imaginário amoroso. ao contrário. por um breve momento. para se contar (o que fascina a “trivialidade” do outro. muito comentada): amamos primeiro um quadro. Compreendo Werther que gostava dos pãezinhos de Charlotte”. Não é a soma dos detalhes da imagem fascinante que me impressiona (como se eu fosse um papel sensível). quando leio passagens de amor nos livros. o tempo é sacudido para a frente (me sobem à cabeça predições catastróficas) e para trás. móveis. No Mundo Animal. de um rasgo. mas apenas uma forma. de todos os arranjos de objetos. a imagem. Do outro. Aquilo que repercute em mim. Werther vê Charlotte (de quem ele se enamora) pela primeira vez. em vida). I. o fazia cautelosamente. a minimo. (educação Sentimental). ao momento fugitivo de uma postura. em seguida. é o quadro que parece se ver melhor pela primeira vez: uma cortina se rasga: o que não tinha sido visto antes é descoberto por inteiro. Tudo que pode me acontecer através de um contorno. o rastro se espalha e tudo fica (mais ou menos rapidamente) arrastado. submetido à fatalidade. a silhueta esbelta. tentando se desenquadrar”. a quentura da mão. enfim a um esquema (scÍma schêma. como. a partir daí. é bom para me raptar: “A primeira vez. de abrir as pernas. mas o outro. decidiu-se a amá-la”. de tornar o corpo idiota. Porque a gamação depende do signo do repente (que me torna irresponsável. imobilizado por que justeza do meu desejo? Eu fixava essa aparição. um fetiche colorido (é assim que engrena o Imaginário). surpreendendo nele. talvez. por um segundo. 190 189 . o que dá partida à mecânica sexual não é um indivíduo em todos os detalhes. é que. é o que aprendo com meu corpo: alguma coisa fina e aguda acorda bruscamente este corpo que. 19. não levarei em conta o estilo. como um gesto de prostituição). a queda dos ombros. cada vez que tinha que aparecer no meu campo (entrando no café onde eu o esperava. diz Frédéric. o que me toca bruscamente (me rapta) é a voz. 192 Werther. que me importa a estética da imagem? Alguma coisa se ajusta exatamente ao meu desejo (do qual ignoro tudo). como se quisesse resistir a essa pintura. raptado): e. Febvre. nada distingue a provocação mais fútil de um fato realmente conseqüente. 163. no outro. pleas esquinas. vi X através do vidro de um carro: o vidro se deslocava. Nietzsche194 1. impregnando seu corpo de discrição e como que de indiferença. e depois. 193 Seminário. o pensamento agem como um chicote. O traço que me fisga (ainda um termo de caça) se refere a uma parcela de prática. nesse intervalo de tempo. uma imagem repercutem dolorosamente na consciência afetiva do sujeito. em situação. de se ocupar de algo muito prosaico. como uma objetiva que procurasse na multidão quem amar. durante meses. Citadopor L. emoldurada pela porta de sua casa (ela corta pãezinhos para as crianças: cena célebre. – Tudo que aí é acusado de exagero. que passam rapidamente pelo corpo do outro: um jeito rápido (mas excessivo) de afastar os dedos. etc. estava adormecido no conhecimento racional de uma situação geral: a palavra. a semelhança de um grande modelo cultural que virá me exaltar (creio ver o outro retratado por um artista do passado). e desde então devorado pelos olhos: o imediato vale pelo pleno: sou iniciado: o quadro consagra o objeto que vou amar. todo um discurso da lembrança e da morte se eleva e toma conta de mim: é o reino da memória. me lembro atemorizado dos “precedentes”): a partir de um nada. Meu corpo interior começa a vibrar como me sacudindo por trompetes que se respondem e se sobrepõem: a incitação provoca um rastro.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Heptameron189 como Amadour vendo Florida na corte do vice-rei da Catalunha: “Depois de tê-la olhado por muito tempo. A repercussão Flaubert190 Etimologia191 Werther192 Lacan 193 REPERCUSSÃO. a partir daí. 191 Trivialis: que pode ser encontrado pelos cruzamentos. por ser uma certa desenvoltura da aparição que abrirá em mim a ferida: posso me sentir atraído por uma pose ligeiramente vulgar (feita para provocar): há trivialidades sutis. 194 Deleuze. 5. o jeito de sorrir. por exemplo). Ao descer da carruagem. levado. é o corpo em movimento. Modo fundamental da subjetividade amorosa: uma palavra.

bem que percebo o movimento de agressividade que levou X – sem que ele mesmo o saiba – a me transmitir uma informação que magoa. Postulo (é isso que me faz gozar) uma conformidade de essência entre o outro e eu. X me conta um boato desagradável que me diz respeito. Rusbrock. Littré 1. envernizado. me machuco de qualquer jeito. Banquete 195 196 197 Obras Completas. sinto seu amargor até o fim. etc. Sócrates: “Então me enfeitei a fim de ficar bonito para ir ao encontro de um rapaz bonito”. houvesse sempre o corpo morto. “faço cuidadosamente minha toalete”. Essa emoção (análoga a uma vermelhidão que enrubesce o rosto. 16. eu escuto completamente. por outro lado. seu gesto – codificado – é isso sem dúvida p que a limita. enquanto esmiúço com desconfiança e amargor a força que a fundamente: perco dos dois lados. etc. que é que eu faço? Conjugo as duas lingüísticas. fechados no mesmo invólucro de pele. sem sofrer. que se esvazia de imagens. não vai dar certo. a mesa é novamente. e deixo passar a “tempestade interior” sem lutar. imitação. enfeito aquilo que. deixo que elas me encham. embelezado como uma vítima. ou ainda “membrana gordurosa e clara que cobre certas peças de carnes e lingüiças”. “A palavra não é a coisa. quero que ele seja eu.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Diderot195 (A repercussão provém de um “incidente imprevisível que (. ela designa também “os preparativos aos quais é submetido à morte antes de ser conduzido ao cadafalso”. A lingüística tradicional só analisaria a mensagem: inversamente a Filologia ativa procuraria antes de mais nada interpretar. A cama (diurna) é o espaço do Imaginário. ela provoca uma tal confusão no meu corpo que sou obrigado a parar tudo que estou fazendo. É o medo tão comum – ao enfrentar determinada situação – quando me vejo futuramente em estado de fracasso. reduzido a um imenso órgão auditivo – como se a própria escuta fizesse parte da enunciação: em mim é o ouvido que fala. fico indignado com sua falsidade.. inevitável. me deito na cama. prostrado. bem constituída no clarão da palavra. Ao me vestir.). recebo em cheio o objeto da mensagem. e é a pureza dessa escuta que me é dolorosa: quem poderia suportar. 4. longe de “flutuar” enquanto o outro fala. Tendo em vista um encontro que me exalta. Costume azul e colete amarelo Diderot196 Rusbrock197 ROUPA. quero desmenti-lo.. como se estivéssemos unidos. portanto. embalsamado. um sentido múltiplo e no entanto isento de qualquer “ruído”? a repercussão transforma a escuta numa confusão inteligível. . Flaubert se jogava no sofá: ficava em “vinhad’olhos”. no final de cada toalete.* Essa palavra não tem só sentidos graciosos. avaliar a força (no caso reativa) que a dirige (ou a atrai). e o enamorado num ouvinte monstruoso. Quando as frases lhe faltavam. Assim é a repercussão: a prática cuidadosa de uma escuta perfeita: ao contrário do analista (é claro). que entrevejo bruscamente. o “momento favorável” de uma pintura: quadro patético do sujeito arrasado. tão “coerente” (coalescente) que só pode vivê-lo sob a forma de uma emoção generalizada. inscrito na exaltação que ela suscita. da imagem. ou usa com intenção de seduzir o objeto amado. ao contrário do monge zen. Na situação amorosa tenho medo da minha própria destruição. O espaço da repercussão é o corpo – esse corpo imaginário. em estado de total consciência: não posso me impedir de ouvir tudo. a roupa sendo apenas o envelope liso dessa matéria coalescente da qual é feita meu Imaginário amoroso. ir até a mesa sem ter que forçosamente começar a trabalhar) para que a repercussão amorteça e deixe o lugar para a fossa. É como se.. 2. Devo parecer com quem amo. Esse incidente repercute em mim de duas maneiras: de um lado. pois basta que em determinado momento eu possa substituir esse gesto por outro (mesmo vazio: me levantar. 2. de impostura. Imagem.) muda subitamente o estado dos personagens”: é um clímax teatral. sem falar no uso escatológico. III. a realidade. o conteúdo do boato). 3. o que quer que se faça nela. faço o máximo de coisas possíveis com o outro. A depressão tem. Se a coisa repercute com muita força. E eu. de escândalo. amplifico-as uma pela outra: me instalo dolorosamente na própria substância da mensagem (quer dizer. mas um clarão à luz do qual percebemos”. de vergonha ou de emoção) é um medo. Quero ser o outro. Toda emoção suscitada ou conservada pela roupa que o sujeito usava no encontro amoroso. do desejo.

Se não fosse da “natureza” do delírio amoroso passar. definida) produzo uma ficção. Seja para querer provar seu amor.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Werther 3. Cada vez que veste essa roupa (com a qual morrerá). Entretanto. a natureza lingüística do sentimento amoroso: toda solução é impiedosamente devolvida à sua idéia única – quer dizer a um ser verbal. Werther forma para si mesmo um corpo de criança. faça o que fizer: coroa eu ganho. 2. sob o nome de “costume à Werther”. idéia de retirada. muito pelo contrário). aquele momento em que ele foi siderado pela Imagem. 3. ninguém poderia nunca acabar com isso (não é porque morreu que Werther deixou de estar apaixonado. 1. seria preciso que eu saísse do sistema – do qual quero sair. é sempre o enamorado que se enclausura. Idéia de suicídio. etc. Aliás. decifrando no que está inscrito o anúncio do que vai me acontecer. etc. . Citado por Szondi. Todas as soluções que imagino são interiores ao sistema amoroso: retirada. Quebra-cabeça: para “me sair bem”. apesar de seu caráter quase sempre catastrófico. de modo que sendo finalmente a linguagem. Esse nó duplo define. parece. A arte da catástrofe me pacifica. ora é uma carta solene. Soluções enganosas. quaisquer que sejam. é preciso que o próprio bem faça mal”). Idéias de solução SAÍDAS. que não é outra senão a da saída. E é da natureza teatral da Idéia que tiro proveito: esse teatro. acabar sozinho. viagem. Eu procuro os signos. como o instante pleno (dotado de um sentimento forte. ele se vê enclausurado. suicídio. ora é uma cena de adeus. 85). mandei fazer um absolutamente igual. Assim se revela. é sempre um enamorado que ele vê: ordeno a mim mesmo estar sempre apaixonado e de não estar mais. aquilo com que eu vivo complacentemente é o fantasma de um outro papel: o papel de alguém que “se sai bem”. escolhido) do drama burguês. A idéia é sempre uma cena patética que imagino e que me emociona. Essa roupa perversa foi usada em toda Europa pelos fãs do romance. um certo tipo de loucura 9ª armadilha se fecha quando a infelicidade não tem contrário: “Para que haja infelicidade. faço um quadro. me engrandece. me torno artista. sem mais nada. Werther: “Custei muito a decidir finalmente não mais colocar o simples costume azul que eu usava quando dancei com Lotte pela primeira vez: mas ele acabara ficando velho.. onde falo e mãe estão reunidos. idéia de separação. por mais alienado que eu esteja. mas de que? Qual o objeto da minha leitura? Será: eu sou amado (não sou mais. não me é difícil perceber. um rever cheio de dignidade. a idéia de saída vem se ajustar à privação de toda saída: o discurso amoroso é de certa forma um recinto fechado de Saídas. Essa roupa azul o envolve tão firmemente que o mundo em volta fica abolido: nada além de nós dois. manipulação fantasiosa das saídas possíveis da crise amorosa. indo embora ou morto. pinto minha saída. Diderot Double blind198 Schiller199 1. A incerteza dos signos SIGNOS. por um procedimento ao mesmo 198 199 “Situação na qual o sujeito não pode ganhar. ou ainda. cara você perde” (Bettelheim. Werther se fantasia. que dão ao sujeito apaixonado um repouso passageiro. vazia. me aumenta a estatura. a Idéia é vista. do gênero estóico. vai embora ou morre. 28. Essa espécie de identidade entre o problema e a solução define precisamente a armadilha: caio na armadilha porque não está ao meu alcance mudar de sistema: sou “feito” duas vezes: no interior do meu próprio sistema e porque não posso substituí-lo por outro. De que? De namorado encantado: ele recria magicamente o episódio do encantamento. idéia de viagem.”. mais uma vez. É com essa roupa (costume azul e colete amarelo) que Werther quer ser enterrado e com ela é encontrado morrendo em seu quarto. o sujeito apaixonado não tem à sua disposição nenhum sistema de signos seguros. posso imaginar várias soluções para crise amorosa e é o que estou sempre fazendo. enfim. para bem mais tarde. uma figura única. ainda sou)? Será o meu futuro que tento ler. através dessas idéias recorrentes. definitiva. um teatro. ora. Ao imaginar uma situação extrema (quer dizer... idéia de oblação. seja para se esforçar em decifrar se o outro o ama.

2. quero retomá-la para decidir sobre uma interpretação. os amantes. suspenso nessa pergunta cuja resposta procuro incansavelmente no rosto do outro: o que é que eu valho? 2. “Tutti Sistemati” Stendhal201 Freud202 Gide203 SITUADOS. (Os Segredos da Princesa de Cardigan). ao vê-los? Não pode ser de um “sonho”. quando ela parava. 1. E isso era o mais terrível de tudo”. menos o mais tolo. privado (eu sei) de toda a razão. O sujeito apaixonado vê todos os que o cercam “situados”. sustentarei a linguagem pela última e única certeza: não acreditarei mais na interpretação. menos uma. É em seguida que eu retorno a ela e começo a alternar interminavelmente o signo bom e o signo mau: “Que querem dizer essas palavras tão breves: você tem toda minha estima? Já se viu algo mais frio? Será um perfeito retorno à antiga intimidade? Será uma maneira educada de interroper bruscamente uma explicação desagradável?”. bens instalados na sua marginalidade: todo mundo. Volta-se então. de um “idílio”. os trios. Os signos não são provas. bobo. Werther quer se situar: “Eu. nunca sei o que é normal. Claro. 57. Aquele que quer a verdade. 200 . ela é provisoriamente verdadeira. nada me importa. seu marido! Ó meu Deus que me criastes. enquanto as crianças dançavam em volta. que continuava de pé. não existe uma felicidade da estrutura. afinal de contas. mas não me era possível prová-lo. outrora. só tem por resposta imagens fortes e vivas. etc. Não.F. fazia ranger os dentes: via-se nela o cúmulo da abstração). 202 Correspondência. e de minha parte digo a ele constantemente que o amo: nada fica para ser sugerido. “Claro que é normal dar uma volta quando se tem uma insônia”.. Ora. eu a amava ainda e até mais do que nunca. Como o Otávio de Stendhal. menos eu. os esposos. simplesmente. sobrando: o enamorado). A eficácia do imaginário é imediata: não procuro a imagem. não é sair no meio da noite e voltar quatro horas depois!”. E Gide: “No comportamento dela tudo parecia dizer: já que ele não me ama. em italiano. paradoxalmente. pois qualquer um pode produzir signos falsos ou ambíguos. 1939. toda minha vida não seria senão perpétua ação de graças. 36. pois não brilha): quero. Freud à sua noiva: “A única coisa que me faz sofrer é estar impossibilitado de provar o meu amor”. assim como Cuvier sabia dizer ao ver o fragmento de uma pata: isso pertence a um animal de tal dimensão. mas o sentido comum só me fornece evidências contraditórias: “O que é que você quer. não terei dúvidas de que ele receberá como verdadeiro aquilo que direi. desde que ela é dita. Ele quer entrar no sistema (“situado”. etc. ele experimenta um sistema ambíguo de interesse e de desdém. Posso muito bem habitar o que não me faz feliz. no sentido comum. o menos brutal ou o mais azarado. o de Albert. adivinhado: para que se saiba uma coisa é preciso que ela seja dita. até os marginais (droga. Uma mulher instruída pode ler seu futuro num simples gesto.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Balzac200 tempo de natureza paleológica e mântica? Não ficarei. Werther D. transa). ela me vem bruscamente. desde que ele tenta transformá-las em signos: como em toda mântica. cada um lhe parecendo provido de um pequeno sistema prático e afetivo de ligações contratuais. uma estrutura (essa palavra. à onipotência da linguagem: já que nada assegura a linguagem. o que alucino no sistema é muito modesto (fantasia mais paradoxal ainda. de uma união”: há muitas queixas dos “situados” em relação ao seu sistema. flutuantes. do qual ele se sente excluído. mas também. uma senhora tocava piano. se tivesses me reservado essa felicidade. e quando eu falar. o consultante amoroso deve ele mesmo fazer sua verdade. 201 Armance. Daí a importância das declarações. talvez. (Brincadeira: havia um certo número de crianças e de cadeiras. mas toda estrutura é habitável. 203 Jornal. talvez aí esteja sua melhor definição. 11. 3. Em que os sistemati que me cercam podem me interessar? De que sou excluído. desejo.. e o sonho de união forma uma outra figura.”: Werther quer um lugar já ocupado. etc”. Porque o sistema é um conjunto onde todo mundo tem o seu lugar (mesmo se não for muito bom). Receberei toda palavra do meu outro como um signo de verdade. se diz sistemato). posso ao mesmo tempo me queixar e “Ela era experiente e sabia que o caráter amoroso é assinalado de alguma forma nas pequenas coisas. cada um se precipitava sobre uma cadeira e se sentava. mas que se tornam ambíguas. quero constantemente arrancar do outro a fórmula do seu sentimento.

(“Tive um pesadelo com uma pessoa amada que passava mal na rua e pedia angustiadamente um remédio: mas todo mundo passava e o recusava severamente. as grandes cidades da Holanda. o enamorado. Querer se situar é querer adquirir em vida um guardião dócil. eu ficava fascinado: acreditava contemplar uma essência: a da conjugalidade. o exorta a reprimir e a sublimar. Se eu tiver vontade de bater a essas portas para me fazer reconhecer em algum lugar (onde quer que seja) minha “loucura” (minha “verdade”). não diz nada. Seja de um amor ao outro ou no interior de um mesmo amor. da lembrança e do adormecimento). Etimologia: religare. “Nem um padre o acompanhava” SÓ. mas nunca leu nada sobre Eros. . a estrutura está separada do desejo: o que eu quero. Como arcabouço. coisas suportáveis. “nem um padre o acompanhava” (é a última frase do romance). 37. sobre o Desejo (amoroso) e não sobre a Carência (Social). quando. e. se ainda existe. e posso mesmo gostar perversamente dessa maneira de ser do sistema: Daniel. ele me parece fixo. Werther204 Etimologia205 1. 2. Cada vez que. é uma doutrina: Eros é para cada um deles um sistema. 3. mas à solidão “filosófica”. Hoje em dia. Quanto ao discurso marxista. Banquete. perto de duas tílias (a árvore do perfume simples. o olhar do viajante mergulha em interiores sem cortinas. se passeia ao longo de vidraças atrás das quais as mulheres fumam e esperam. Quando o corpo de Werther é levado de noite para um canto do cemitério. A excentricidade da conversa vem do fato dessa conversa ser sistemática: o que os convivas tentam reproduzir não são proposições testadas. isso ergue ao meu redor um muro de linguagem que me enterra. O discurso psicanalítico (que. A religião não condena apenas o Werther suicida. como um(a) prostituto(a) superior. vivia muito bem na sua coluna: ele tinha feito dela (coisa porém difícil) uma estrutura. o desclassificado. A figura diz respeito. (Força das estruturas: eis talvez o que se deseja nelas). o que é dado ver é então uma essência de Família. nenhuma lhe responde a não ser para desviá-lo daquilo que ama. eterno (pode-se conceber a eternidade como ridícula). não ao que pode ser solidão humana do sujeito apaixonado. pequenas seguranças. Quando o trem atravessa pelo alto. é a essência da Prostituição que se vê. narrativas de experiências. simplesmente é ser “sustentado”. aquele que não está “ligado” a mais ninguém a não ser ele mesmo. descreve seu estado) o faz elaborar o luto do seu Imaginário. da qual não faço parte) tem qualquer coisa de derrisório: vejo o outro teimar em viver sempre as mesmas rotinas: retido em outro lugar. Banquete206 204 205 206 Werther.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes ficar. como se tivesse diante dele a eternidade para “se enganar”? – Chama-se relapso. bem iluminados. me reprime – a menos que eu chegue à resipiscência e que aceite “me livrar de X”. o estilista. entretanto. em Hamburgo. pelo menos. inopinadamente. ao contrário de todos e contra todos. mas também. e é porque Eros é censurado como assunto de conversa. já que o amor-paixão hoje em dia não está sob a responsabilidade de nenhum sistema maior de pensamento (de discurso). tensões passageiras). não há nenhum sistema de amor: e os poucos sistemas que cercam o enamorado contemporâneo não lhe dão nenhum lugar (a não ser desvalorizado): por mais que ele se volte para uma ou outra linguagem recebida. A estrutura do outro (porque o outro tem sempre sua estrutura de vida. Erixímaco constata com ironia que leu em algum lugar um panegírico do sal. eu via o outro na sua “estrutura” (sistemato). pequenos prazeres. essas portas se fecham uma atrás da outra. me oprime. ligar. e quando estão todas fechadas. não paro de “recair” numa doutrina interior que ninguém divide comigo. No Banquete. O discurso cristão. talvez. o utópico. onde cada um parece se ocupar com a sua intimidade como se não fosse visto por milhares de viajantes. que a pequena sociedade do Banquete decide fazer dele o tema de sua mesaredonda: seria como intelectuais de hoje aceitando discutir contrariamente à moda. 151. posso recusar o sentido da estrutura que suporto e atravessar sem descontentamento alguns de seus pedaços cotidianos (hábitos. Como se chama um sujeito que insiste num “erro”. precisamente o Amor e não sobre Política.

longe das coisas humanas. por um decreto tácito de insignificância: não faço parte de nenhum repertório.. diz Alcebíades. Tal como um antigo místico. Stendhal208 1.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes apesar das minhas idas e vindas. É freqüente a vontade de se suicidar no terreno amoroso: uma coisa à toa a provoca. me vejo de repente numa armadilha. Rusbrock Tao207 Idéias de suicídio SUICÍDIO. Um pouco mais tarde compreendi que essa pessoa era eu – claro.... se fala. espécie de álgebra rápida de que preciso nesse momento do meu discurso. mas da qual vou me afastar por uma coisa também à toa: “E o homem que tinha passado quarenta e cinco minutos pensando em pôr fim à sua vida. Todo mundo tem o seu objetivo só eu tenho o espírito obtuso como um camponês. Só eu sou diferente dos outros homens. subia naquele instante numa cadeira para procurar na estante o catálogo dos espelhos Saint-Gobain”. É uma frase. porque insisto em sugar o seio de minha Mãe”. Meu espírito é o de um ignorante porque é muito lento. seu dialeto é corrente). mas só me escutam (recebem “profeticamente”) os sujeitos têm exatamente e presentemente a mesma linguagem que eu. não prevejo o cenário pesado. indecentemente. não estou forçosamente “despolitizado”: meu desvio é de não estar “excitado”. 2. e sopra como o vento. A mínima mágoa me dá vontade de me suicidar: pensando bem. de gestão. 25. 5. simples. 85. Todo mundo tem o espírito perspicaz só o meu é confuso e flutua como o mar. Às vezes. de ciência. de pensamento. com quem mais eu poderia sonhar?: eu apelava para todas as linguagens (ou sistemas) que passavam. só eu pareço desprovido. imobilizado numa situação (num sítio) impossível: só há duas saídas (ou. apenas uma frase que acaricio sombriamente. dos Suicidas de amor (quantas vezes um mesmo enamorado não se suicida?) aos quais nenhuma grande linguagem (a não ser. como sujeito apaixonado eu não afronto nem contesto: simplesmente não dialogo: com aparelhos de poder. Pequeno grupo dos “Mortos de Fomes”. Todo mundo é clarividente só eu estou na obscuridade. A idéia é frívola: é uma idéia fácil. o suicídio amoroso não tem motivo. é uma solidão de sistema: sou o único a fazer disso um sistema (talvez porque sou incessantemente rebatido sobre o solipsismo do meu discurso).) e as duas estão igualmente trancadas: dos dois lados só tenho que me calar. se conta). de nenhum asilo. a uma estranha repressão: nenhuma censura. a angústia dessa pessoa caminhava para a histeria e eu reprovava. vivamente atingido por uma circunstância fútil e envolvido pela repercussão que ela provoca. Em troca. não lhe dou nenhuma consistência substancial. ou então. XX. A solidão do enamorado não é uma solidão da pessoa (o amor se confia. as conseqüências triviais da morte: mal sei como me suicidarei. Paradoxo difícil: todo mundo me ouve (amor vem dos livros. como se fossem os únicos aptos a conceber e a desculpar tudo que eles ousaram dizer e fazer durante a crise de suas dores”. nenhuma interdição: estou apenas suspenso a humanis. Então a idéia de suicídio me salva. uma filosofia que “me compreenda” – “me recolha”. Porque sou só: “Todo mundo tem sua riqueza. Armance. pois pode ser falada (e não me privo disso): renasço e pinto essa idéia com 207 208 Tao Te King. a do Romance passado) emprestou sua voz. a não ser com aqueles que foram vítimas da mesma coisa. a sociedade me submete. fragmentariamente. etc. 4. mal tolerado pela sociedade eclesiástica na qual vivia. se parecem com aqueles que foram mordidos por uma cobra: “Dizem que eles não querem falar do que aconteceu com ninguém. . era recusado por eles e reclamava a altos brados insistentemente. às claras. 3.. Os enamorados.

Ou ainda vejo o outro nos seus limites. Da. me parece estranho. e sofrendo as incertezas dessa definição. quando estão terrivelmente cansados. menos o falarei: serei como o infans que se contente com uma palavra vazia para mostrar alguma coisa. te tiro do Outro. Não acaba nunca e dá vontade de empurrá-lo pelos ombros. para respirar mais livremente. Ressinto o outro contraditoriamente como uma divindade caprichosa que varia constantemente de humor a meu respeito. um só no qual o outro poderá me surpreender? Assim. porque nos separa e porque. envelhecer. Me desespero ao constatar que não posso deslocá-lo. é a minha morte. é seguido por um outro mais último ainda (. não suponho nada sobre o outro. o ser amado não recebe mais nenhum sentido. Tal. mais uma vez. inveterada (essa coisa envelhecerá tal qual é. e como uma coisa pesada. um adjetivo: o outro é teimoso: ainda diz respeito à qualitas.. seja para me unir a ele fantasiosamente na morte (“descerei ao túmulo para me abraçar com você”). incansável. 231. a alteridade do outro.. ele não é mais 209 210 211 212 213 Etimologia212 Zen213 Lyrisches Intermezzo. quanto mais eu o designar. Esse primeiro tal não é bom porque eu o deixo em segredo. Ao te designar como tal. 3. sua qualitas). hostil. com uma dentada. ele não renuncia nunca ao seu próprio sistema. dirá o enamorado: você é assim. a máquina de linguagem ressoa em mim – pois ele funciona bem – fabrica sua cadeia de adjetivos: cubro o outro de adjetivos. a propósito de cavalos que Werther enaltece a nobreza que marca todo suicídio: “Fala-se de uma raça nobre de cavalos que. Por quatro ou cinco vezes. É. no entanto. como um ponto interno de corrupção. têm o instinto de se abrir eles próprios uma veia. Gide não sabe que no romance de amor. finalmente. Preciso me livrar de toda a vontade de fazer um balanço. subsiste uma impressão dolorosa: vejo que o outro persevera nele mesmo. 205 e 85. me pergunto: haverá um ponto. Sou apenas liberal: de certa forma. Jornal. versáteis. Através desses julgamentos brilhantes. Limitação de espírito: de fato. os cientistas chegaram à conclusão de que os animais não se suicidam. Ta. 2. e é por isso que sofro). me recuso a reconhecer a divisão da nossa imagem. curiosamente ressinto a “liberdade” do outro ser “ele mesmo” como uma teimosia pusilânime. 3. dispensado de todo adjetivo. mas pelo menos alguns – cavalos. não compreendo nada. Watts. um dogmático dolente. 52. com a qual esbarro. Tinha esquecido que ele levava tanto tempo para morrer (o que é totalmente falso). Inveterare.) as partidas muito enfeitadas me irritam”. nem do sistema ao qual ele está preso. desde que ele não “cola” mais à sua imagem.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Heine209 as cores da vida. aquilo que se esperava ser seu último suspiro. Tudo que do outro não me concerne. para me assegurar a liberdade eterna”. Werther. da linguagem. seja para dirigi-la agressivamente contra o objeto amado (chantagem bem conhecida). Tal qual ele é. o sujeito apaixonado sonha com uma sabedoria que o faria considerar o outro como tal qual ele é. sinto então em relação a ele uma mistura de temor e severidade: tenho medo e reprovo o ser amado. o herói é real (porque é feito de uma substância completamente projetiva na qual todo sujeito apaixonado é recolhido) e que aquilo que ele aí deseja é a morte de uma homem. 1940. Tat (diz o sânscrito). Depois de discutir sobre o fato. te quero imortal. te faço escapar da morte da classificação. nem de mim mesmo. ele é ele próprio essa perseverança. Tolice de Gide: “Acabo de reler Werther não sem irritação. Ou. o que quer que eu faça. 66. Assim se passa comigo freqüentemente: tenho vontade de abrir uma veia. Vejo bem o outro como tal vejo o tal do outro – mas no terreno do sentimento amoroso esse tal me é doloroso. exatamente assim. cachorros – têm vontade de se mutilar. o que quer que eu despenda por dele. Constantemente solicitado a definir o objeto amado. (Industriosa. 83. enumero suas qualidades. . Werther210 Gide211 Tal TAL. 1. é preciso que o outro se torne aos meus olhos isento de toda atribuição.

ligeiramente. só o nirvana pode acabar com ele. L via A dirigir à empregada do restaurante bávaro.B. mas não se esquece que te desejo um pouco. Mas em seguida o apelo irresistível da nossa missão nos levaria de novo um para longe do outro. (O negro inimigo do tal é a Fofoca. vigiada. Ternura TERNURA. com tanta bondade. 4. 216 Vritti. mas pela sua existência. mesmos pratos. não mais oponho a oblação ao desejo: me parece que posso conseguir desejar menos o outro e gozá-lo mais. cada um sobre mares. 772). e não o procuraremos dissimular nem disfarçar. E o que mais se pareceria com o ser amado tal qual ele é. aforismo. rumo a paragens. Amo o outro não pelas suas qualidades (contabilizadas). estou plenamente satisfeito: não é esse gesto uma espécie de milagroso condensado da presença? Mas se eu o recebo (e pode ser simultâneo) no campo do desejo. Ou ainda: tal. 2. da recolocação. Alegre Saber. II. insaciável (a deliciosa concordância de uma noite) só pode ser interrompido dolorosamente: tudo parece começar novamente: o retorno do ritmo – vritti – afastamento do nirvana. para encomendar seu Zen216 “Amizade de Astros”. – L. A ternura ao contrário é somente uma metonímia infinita. mas também de ser terno com o outro: estamos encerrados numa bondade mútua. é cortado: era a Festa. como se devêssemos ter vergonha disso. substituí-lo. é o movimento das ondas. não é o amigo? Aquele que pode se afastar um instante sem que sua imagem se destrua? “Éramos amigos e nos tornamos estranhos um ao outro. o processo cíclico. somos reciprocamente maternais: voltamos à raiz de toda relação. é abolido o terror do sentido. nesse momento. “O corpo do irmão estava tão docemente. nem mesmo o seu belo desejo” (Homem sem qualidades. talvez para nos revermos mais uma vez. Como dois navios que seguem cada um seu rumo e seu próprio objetivo: assim sem dúvida poderemos nos encontrar e celebrar festas entre nós como já o fizemos antes – e então os bons navios repousavam lado a lado no mesmo porto. 5. fábrica imunda de adjetivos. para o budista. é a própria categoria do mérito: assim como o místico fica indiferente à sanidade (que ainda seria um atributo). O que eu liquido. seria o Texto. pela suspensão temporária. mesmos talheres. na medida em que o sujeito compreende que esse privilégio não é para ele. nada pode substituir. preciso admitir que aquilo que eu recebo outros também o recebem (às vezes me é dado a ver o espetáculo). sob sóis diferentes – talvez para nunca mais nos revermos. Não se tem apenas carência de ternura. mas também avaliação inquietante dos gestos ternos do objeto amado. sob o sol. O gesto terno diz: me pede qualquer coisa que possa adormecer teu corpo. (Nos restaurantes. ele é de certa forma o suplemento do seu próprio lugar. eu bem que poderia. que ela se sentia descansar nele como ele nela. sempre restrita. mas o suplemento do seu lugar. da interdição. Tenho então acesso (fugidiamente) a uma linguagem sem adjetivos. mas: que ele é. Se eu recebo um gesto terno no campo da solicitação. sem querer possuir nada imediatamente. mas sem nos reconhecermos: mares e sóis diferentes provavelmente nos fizeram mudar!”. Mas é bom que seja assim. Gozo. 279. Se ele fosse apenas um lugar. O prazer sexual não é metonímico: uma vez alcançado. mesmo saleiro: é o mundo do lugar. fico inquieto: a ternura. por um movimento que pode até ser chamado de místico.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes do que um texto sem contexto. não preciso mais. Musil215 1. não há tal). apertado contra ela. Aí onde você é terno. ao ter acesso ao tal do outro. as mesas são de novo preparadas para o dia seguinte: mesma toalha branca. de direito. não é exclusiva. A linguagem que o sujeito apaixonado então defende (contra todas as linguagens sutis do mundo) é uma linguagem obtusa: todo julgamento é suspenso. Nietzsche214 J. Vritti é doloroso. assim também. eu amo não aquilo que ele é. seu tal. 215 214 . um dia. assim que termina o serviço. (“Estupefato. tão tranqüilos que se poderia dizer que já tinham chegado ao seu objetivo e tivessem a mesma destinação. você diz seu plural. nada mais se mexia. nem tenho mais vontade de decifrálo. ao qual não posso acrescentar nenhum adjetivo: que gozo sem ter que decifrar). lá onde se juntam carência e desejo.

fora do medíocre. . Vivo então a assunção definitiva do Imaginário. Transbordo (estou transbordante). o homem é reduzido a nada. tudo isso não será nada perto do gozo do que falo”. o mesmo olhar angelical que o emocionavam quando eram dirigidos a ele”). vem a excedê-la: uma totalidade sem complemento. eu sonho que gozamos um do outro segundo uma apropriação absoluta. 9. 77). Rusbrock Novalis Nietzsche União UNIÃO. 20. a fruição do amor (palavra pedante? Com sua fricção inicial e seu burburinho de vogais. Brilha apenas. é o que chamo de enlevo. pareceria culpado estragar sua expressão: o eu só discorre ferido. eles eram um e inseparáveis. Algo que. seu triunfo. 2.. e. a dar e a receber. a Coincidência. o Rusbrock. um total sem restrição. 222 “E. é a união fruitiva. me fulmina. descubro. fora do geral: “Realiza-se um encontro que é intolerável por causa da alegria. cai sobre mim. nesse repouso. ela e suas particularidades terrestres” (Homem sem qualidades. partindo da totalidade. Esse sujeito é libertário: acreditar no Bem Supremo é tão louco quanto acreditar no Mal Supremo: Heinrich von Ofterdingen é filosoficamente do mesmo tecido que a Julieta de Sade. algumas vezes. por outro lado. é: o re-pouco comum. o voto e a possibilidade de uma satisfação plena do desejo implicado na relação amorosa e de um sucesso sem falhas e como eterno dessa relação: imagem paradisíaca do Bem Supremo. Transbordamentos: não são ditos – de forma que. a perfeição dos sonhos. quando estou transbordante ou me lembro de tê-lo estado. ao mesmo tempo em “satisfação” e “saturado” (satullus). 221 “A magnificência divina” (ibid. nem farto nem saturado. a realização de todas as esperanças”. a repetição das mesmas coisas. ela quer que tudo continue eternamente igual”. O enlevo é a alegria da qual não se pode falar”. O sujeito coloca. Sonho de total união com o ser amado. nossas medidas são as mesmas: exatidão. música: acabei com o não chega. Rusbrock217 Etimologia218 1. mas não me restrinjo a completar o que falta até a beirada. 10. Milagre: deixando atrás de mim toda “satisfação”. 220 “A alegria sem mácula. ultrapasso os limites da saciedade. inseparáveis mesmo dentro de si. pouco me importam minhas chances de ficar realmente transbordante (quero mesmo que sejam nulas). II. ela se mantinha de pé nesse repouso como diante de um nascer do sol e se perdia toda nele. 219 “Deus goza sempre de um prazer simples e único”. a náusea.. se é inconseqüente maldizer a infelicidade. obstinadamente. Aristóteles219 Ibn Hazm220 Novalis221 Musil222 Littré223 217 218 1. a memória vazia. pois uma precipitação: algo se condensa. a vontade de transbordamento. (Perret. e é nesse demais que acontece o transbordamento (o demais é o regime do Imaginário: a partir do momento em que já não estou no demais. reproduzir). A desmedida que me conduziu à medida. – O enamorado transbordante não precisa escrever. “Todas as volúpias da terra” TRANSBORDAMENTO. O que me enche assim? Uma totalidade? Não. isto é. transmitir. Etimologia: satis (bastante). Através dessa vontade. toma as volúpias da terra.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes schnitzel. É que. colo na Imagem. para mim. “Ora. Ou ainda a plena satisfação da propriedade. acumulo.. a tal ponto que a inteligência deles parecia perdida. “a alegria sem mácula e sem mistura. a linguagem me parece pusilânime: sou levado para fora da linguagem.. justeza. e daí. Nominação da total união: é o “prazer simples e único”. a vontade inútil. 772). ela quer a eternidade. “a magnificência divina”. (Transbordamento quer dizer abolição das heranças: “. funda-as numa só volúpia e precipite-a toda num só homem. O transbordamento é. no que diz respeito à felicidade. a Alegria não precisa nem um pouco de herdeiros ou de filhos – A Alegria se quer ela mesma. extravasa”). eu derivo: formo em mim a utopia de um sujeito isento de repressão: já sou esse sujeito. produzo um demais. etc”. ou mesmo a embriaguez. a relação amorosa parece se reduzir a uma longa queixa. Na verdade. um lugar sem nada ao lado (“minha alma não está apensa preenchida. 177). os mesmos olhos ternos. indestrutível. falsamente. justo quer dizer não suficiente): conheço finalmente esse estado onde “o gozo ultrapassa todas as possibilidades entrevistas pelo desejo”. em vez de encontrar o desgosto. me sinto frustrado.

Admeto ou Alceste? A amante se substituiu aos pais que falham. figura dessa “antiga unidade cujo desejo e busca constituem o que chamamos de amor”. ao dizer. um pensará pelo outro”) como se fôssemos vocábulos de uma língua nova e estranha. Citação: 87. Um personagem desse filme evoca Platão e o Andrógeno. CXXVII. 227 Ensaios da Psicanálise. 28. a imagem é contrária. 223 . a sabedoria. Mas meu verdadeiro sonho é todos os outros num só: porque se eu reunisse X. gozo essa união na boca). improvável. mas porque a diferença continua inscrita no interior de um mesmo sexo: um (Pátroclo) era o amante. sem dúvida. quatro pernas. basta que um e outro não tenhamos lugar: que possamos magicamente nos substituir um ao outro: que venha o reino do “um pelo outro” (“Juntos. Impossível me figurar o Andrógeno. Parece que todo mundo conhece esse negócio de duas metades que procuram se colar – ao que vem juntar agora a história do ovo. A prova do meu sonho Banquete226 Freud227 Banquete228 François Wahl 229 Montaigne fala da fruição da vida. 226 Banquete. as mãos apertadas. é o luto que surge assim na expressão (. colo minha metade”. 224.* tomo a dianteira. (escandaloso). “Nas lápides das sepulturas de Atenas. no fim de um contacto que só uma terceira força pode romper. quatro orelhas. equilibrada pela consistência do Mesmo: se tudo não está em dois. excêntrico. se me perguntarem: “Como você vai com X?”. uma só cabeça. 61 (anfimixia: mistura das substâncias de dois indivíduos). e os deuses fizeram com que fosse morto pelas mulheres. o outro (Aquiles) era o amado. há cenas de adeus onde um dos esposos se despede do outro. Y e Z.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes gozo falado assim fica acrescido de uma volúpia oral. Na forma dual que fantasio. devo responder: presentemente. Sonho de total união: todo mundo diz que esse sonho é impossível e no entanto ele insiste. para que lutar? Seria o mesmo que voltar a procurar o múltiplo. quero que haja um ponto sem vizinhança. em vez de transformar o morto em herói. E Corneille: “E sem se imolar todo dia. Assim – dizem a Natureza. Essa união seria sem limites. se opõem. tira do filho o nome que o ligava a eles e lhe dá um outro: fica sempre pois um homem na transação. eu suspiro (não é lá muito moderno) por uma estrutura centrada. 178-187. quatro mãos. 4. Citação da Ilíada. e: “A psicanálise procura o órgão que falta (a libido) e não a metade que falta” (Que pena!). 224 Amores. personagem da Condessa de Ségur. 228 Banquete. Para realizar esse tudo que eu desejo (o sonho insiste). um fraco. da película que parte e da omelete (o desejo é precisar aquilo que se tem – e dar aquilo que não se tem: questão de suplemento. (Passei uma tarde inteira querendo desenhar. X. pois é lá que Apolo vai costurar. o mito – se não for na divisão dos sexos não procurem a união (a anfimixia) fora da divisão dos papéis: é a razão do casal. * Gribouille. mas pela indiferença das suas permutações.. Saio de um filme (que nem era muito bom). (Que posso fazer com uma relação limitada? Ela me faz sofrer. Ronsard224 Lacan225 2. XI. 77s. Sem dúvida. não era senão uma mulher. eu formaria uma figura perfeita desses pontos atualmente afastados: meu outro nasceria). mas não consigo nada por ser mau desenhista ou utopista medíocre. 225 Seminário. Não desisto. O casal perfeito é Aquiles e Pátroclo: não há porque tomar o partido da homossexualidade. (N. As metades estão frente a frente ou dorso a dorso? Ventre a vente. 13. um só pescoço. Não se pode conservar a união fruitiva dada pelo perfeito amor”. No sonho. Uma figura-farsa sai do sonho: do casal louco nasce assim o obsceno da vida doméstica (um cozinha para o outro a vida inteira). eu exploro nossos limites. não de complemento). franzindo a pela para fazer um umbigo: os rostos no entanto. já que Apolo deverá virá-los para o efeito do corte: e os órgãos genitais são atrás. grotesco.) Eu não sou mais eu sem você”. da T. figurar o andrógeno de Aristóteles: tem aparência arredondada. 3. Insisto.) 229 “Queda”. não pela amplidão da sua expressão. na qual seria absolutamente lícito empregar uma palavra pela outra. Fedro procura a imagem perfeita do casal: Orfeu ou Eurídice? Não há muita diferença: Orfeu. “Na sua metade. ou apenas consigo desenhar um corpo monstruoso.. circunscrevo nosso território comum. como Gribouille.

Cada dia que passa ele cresce e fica mais forte. torna-se uma verdade. A verdade seria aquilo que ao ser descoberto deixaria de aparecer a morte (como se costuma dizer: não valeria mais a pena viver). para estar na verdade: um “engano” afirmado infinitamente. na fantasia. nada mais pode alterá-lo: fica indestrutível. Basta que eu teime. posso acreditar nele.Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes está no luto representado. 320). mas não renegado. responde ao lado. E TchaoTcheou respondeu: “Quando eu estava no distrito de Tching. seja porque ele acredita ser o único a ver o objeto amado “na sua verdade”. tal qual um metal primitivo. Não deve sair nunca. 231 230 . O outro é meu bem e meu saber: só eu o conheço. Todo episódio de linguagem ligado à “sensação de verdade” que o sujeito apaixonado experimenta quando pensa em seu amor. o outro me serve de base para minha verdade: só com o outro me sinto “eu-mesmo”. “Não consigo compreender como um outro pode amá-la. não tenho ninguém mais a não ser ela”. (Afinal de contas.. (G. Um monge perguntava a Tchao-Tcheou: “Qual é a única e última palavra da verdade?” (. O engano se livra do seu cenário. Verdade. aquilo que ele considera loucura. talvez exista no amorpaixão um pedacinho de verdade. é redutível a que?”. ilusão. quando eu não conheço. tirando-se uma letra fica Meth (está morto). ele então se desfaz e volta a ser barro. como aquela que deu a um outro monge que lhe perguntava: “Dizse que todas as coisas são redutíveis ao Um. ele faz ficar clarividente: “Tenho de você. “Um homem que duvida de seu próprio amor. verdadeira). Werther230 Freud231 1. tem o direito de amá-la quando meu amor por ela é tão exclusivo. Ele não fala. É empregado da casa. mandei fazer uma roupa que pesava sete kin”. traído: ou seja. mas eu tenho todo o saber sobre você. tão profundo. eu considero factício. para que fique apenas Meth (está morto). pois ele é mortal (só a imortalidade é impossível). A verdade: o que está ao lado. Entendo que o mestre. Na sua testa está escrito Emeth (Verdade). o saber absoluto”. 232 Werther. 90. sua parte irredutível.. 126. Werther decidiu morrer: “Eu te escrevo isso tranquilamente. O amor arregala os olhos. deve duvidar de qualquer coisa menos importante” (citado por M. Payot). sem exaltação romanesca”. a Cabala e o seu simbolismo. 233 “Journal pour lês Ermites”: O Golem é um boneco feito de barro e cola. Jacob Grimm233 Werther.. mas e o Um. Sei mais sobre mim que todos aqueles que ignoram apenas isto de mim: que estou apaixonado. Ninguém além de mim o conhece. reprimido. etc”). seja porque ele define a especialidade de sua própria exigência como uma verdade sobre a qual não se pode fazer concessão. Ou ainda: a verdade seria aquilo que.. ao opor estranhamente um advérbio a um pronome. ao contrário de tudo e contra tudo. Relação entre o patrão e chefe de departamento pessoal: você tem todo o poder sobre mim. sobre você. 4. Verdade VERDADE. Estranhamente é nas profundezas do engano que vem se instalar a sensação de verdade. (O enamorado perde sua castração? Dessa perda ele se obstina em fazer um valor). De medo. dá uma resposta de surdo. a primeira letra é apagada da sua testa. erro. Scholem. sim a qual. deve ser retardado. ou melhor. B. se torna tão puro que. eu considero como verdadeiro. Deslocamento: não é a verdade que é verdadeira. é a ligação com o engano que se torna verdadeira. Klein. não sei. faço com que ele exista na sua verdade. tão completo. Sempre a mesma inversão: aquilo que o mundo considera “objetivo”. Por outro lado. É assim com o nome do Golem: ele se chama Emeth.) O mestre respondeu: “Sim” não vejo nessa resposta a idéia banal segundo a qual o segredo filosófico da verdade seria tomar vagamente o partido de uma aquiescência geral. pode. aquilo que estou sempre querendo saber uma vez antes de morrer (outra formulação: “Morrerei então sem ter sabido. (O amor é cego: esse provérbio é falso. 3. Werther232 2.

Pensées métaphysiques (Pleiade). de la Sirène). MOZART. Ecce homo (Gallimard). nesta Tabula estamos mantendo os títulos em francês. Mère Courage et sés enfants (l’Arche). “Réflexions sur l’utilisation thérapeutique de la double contrainte” (Psychanalyse à l’université. SOLLERS. “Idées”). l’Amour et l’Occident (UGE. “10X18”). FREUD. Henri d’Ofterdingen (mercure de France). du Seuil. 65). l’Éternel Mari (Plêiade). du Seuil). Réflexions ou Sentences et Maximes morales (Club français du livre). 4). le Charme discret de la bourgeoisie. Denis Ferraris. LA Poésie amoureuse des Arabes (Alger. Armance (OEuvres complètes. 6 vol. LA Forteresse vide (Gallimard). 1939-1949 (Pléiade). De l’Amour (Gallimard). la Montagne magique (Fayard).Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes Tabula gratulatória* 1. Problèmes de linguistique générale. 17 de março de 1975). * Traduzimos os títulos das obras e artigos. NOVALIS. Delires et Rêves dans “la Gradiva” de Jansen (Gallimard. Historiettes (Pleiade. "La crainte de l’effondrement" (Nouvelle Revue de psychanalyse. Philippe Sollers. no texto. Hypérion (Pleiade). du Seuil). lê Destructeur d’intensité (manuscrito comunicado). Port-Royal (Hachette. Évelyne Bachellier. la Fausse Maîtresse (Plêiade. MAURICE PERCHERON. LEIBNIZ. (N. l’OEil pinéal (OEuvres complètes. Eros et Thanatos (Julliard). “L’Homme aus loups” (Cinq psychanalyses. Rolande Havas. I. BATAILLE. LA ROUCHEFOUCAULD. MICHEL GUÉRIN. MARTIN FREUD. Aurore (Gallimard. 2). Freud. THEODOR REIK. 348). Esquisse d’une théorie des emotions (Gallimard). HOLDERLIN. Itinéraire de Paris à Jerusalem (Pléaide). le Bouddhisme zen (Payot). T. Fronçois Wahl. I. 1870-1873 (Gallimard). Phèdre (les Belles Lettres). 3. 11). Socrate et la Tragédie (Écrits posthumes. Études sur l’Oedipe (éd. FLAUBERT. TALLEMANT DES RÉAUX. SCHUBERT. THOMAS MANN. de Minuit). Pierres (Genève. les Objets fractals (Flammarion). II). NIETZSCHE. Abrégé de psychanalyse (PUF). "The effort to drive the other person crazy" (Nouvelle Revue de psychanalyse. le Séminaire. SAFOUAN. JEAN-LOUIS BOUTTES. Du Seuil) . du Seuil). III (Club français du livre). Jean-Louis Bouttes. “Symbolisations” (Psychanalyse à l’université. SNED). porém. l’Interpretation des rêves (PUF). Thène. DELEUZE. De ernest Hello. "Chanson triste". FOUCAULT. Romaric Sulger Büel. PIERRE FURLON. DANIEL CHARLES. WAGNER. BENJAMIN PERRET. LES STOÏCIENS (Pleiade). “Idées”). Correspondance. 4. SAINTE-BEUVE. PUF). CHATEAUBRIAND. BROWN. CHERTOK. du Senil). l’Hypnose(Payot). Anthologie de l’amour sublime (Albin Michel). "Le structuralisme en psychanalise" (Qu’est-ce que le structuralisme?. le Banquet ou de l’amour (trad. le Bouddha et le Bouddhisme (ed. 20). ROUGEMONT. LECLAIRE. KIERKEGAARD. l’Homme sans qualités (ed. “Entretien” (les Nouvelles Littéraires. FRANÇOIS WAHL. do E. “10X18”). SZONDI. Ma mère l’Oye. éd. RONSARD. Severo Sarduy. DIDEROT. 1 e 2). les Noces de Figaro. SEVERO SARDUY. les Jardins d’Adonis (Gallimard). PLATON. L. Nouvelles Conférences sur la psychanalyse (Gallimard). L’Epave de l’espoir prise dnas les glaces. devido às referências aos números das páginas. OEuvres choisies (trad. la Révolution du langage poétique (éd. JULIA KRISTEVA. les Amours (Garnier). BAUDELAIRE. “Entretien” (Critique. . Antoine Compagnon. les Frères Karamazov (Plêiade). à medida que apareciam no texto. “La musique et l’oubli” (Traverses. MALDELBROT. Lyrisches Intermezzo (AubierMontaigne). Poussièlgues frères). DOSTOIEVSKI. "Chute" (Tel Quel. HEINE. Ronsard lyrique et amoureux (éd. GOETHE. Michel Lévy). 63). TAO TÖ KING (Gallimard. Métapsychologie (Gallimard). LAPLANCHE. I). O. PROUST. Quinze Variations sur un thème biographique (Flammarion). 4 (bulletin périodique di “Champ freudien”). JAKOBSON. les Fleurs du mal (Pléiade). “Idées”). DJEDIDI. mon père (Denoel). le Vaisseau fantôme. Librairie philosophique de Londrange). de Mario Meunier. Essais de psychanalyse (Payot). la Généalogie de la morale (Gallimard. II. GIDE. Pelléas et Mélisande. le Gai savoir UGE. BENVENISTE. OEuvres complètes. BALZAC. "Les travestis" (Art Press. Gallimard). Nouveaux Essais sur l’entendement humain (OEuvres philosophiques. L. Saint jean de la Croix (alcan). les Souffrances du jeune Werther (Aubier-Montaigne). Du côté de chez Swann (Pleiade). Fragment d’une analyse (Payot) . le Côte de Guermantes (Pleiade). 62). I (Gallimard). Psychanalyser (ed. Et nunc manet in te (Pléiade). HUGO. Bouvard et Pécuchet (Plêiade). I. MUSIL. 12). Jeu et Réalité (Gallimard). 2. Journal. KLOSSOWSKI. Voyage d’hiver. "Idées"). DUPARC. SARTRE. la Tétralogie. BRUNO BETTELHEIM. Fragment d’une grand confesión (Denoël). SPINOZA. l’État amoureux (Payot). RAVEL. VI). CHRISTIAN DAVID. éd. MÉLANIE KLEIN. ROGER LAPORTE. Sodome et Gomorrhe (Pleiade). Essais de Psichanalyse (Payot). du Seuil). DEBUSSY. Nietzsche et le Cercle vicieux (Mercure de France). I e XI (éd. SEARLES. – FRIEDRICH. 1873-1939 (Gallimard). STENDHAL. la Prisonnière (Pleiade). les Secrets de la princesse de Cadignan (Pléiade. 2 vol. ORNICAR. “L’analyse orpheline” (Tel Quel. BRECHT. ANTOINE COMPAGNON. MARCEL DÉTIENNE. BOUCOURECHLIEV.). Crainte et Tremblement (aubier-Montaigne). JEAN BARUZI. – BUNUEL. "Paradis" (Tel Quel. LACAN.). WATTS. N. Gallimar). com as respectivas editoras. Écrits posthumes.). Poésie et Poétique (éd. RUSBROCK. Socrate héroique (GRasset). Éloge des larmes . Payot). du Milieu du Monde). WINNICOTT. Nietzsche et la Philosophie (PUF).