Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação VIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação da Região Sul – Passo Fundo

– RS

Néstor García Canclini*

A Questão da Hibridação Cultural em

Mauro Gaglietti** Universidade de Passo Fundo (UPF) Márcia Helena Saldanha Barbosa*** Universidade de Passo Fundo (UPF)

A beira de um rio ou a orla marítima os aproximam, e em qualquer lugar do mundo as águas que eles vêem ou pisam são também as águas do Mediterrâneo (Milton Hatoum, Relato de um certo Oriente).

Resumo: A questão da representação, ao ser problematizada pela crítica teórica, trouxe à tona a noção do híbrido, que se impõe na contemporaneidade como um conceito básico no quadro de referências teóricas dos discursos pós-colonialistas e feministas, bem como nas teorias da comunicação, da arte e da técnica. Os novos sujeitos híbridos são seres emergentes, indissociáveis da urgência do presente e da marca que nele vai deixando o acontecer da diferença. Neste trabalho, apresentam-se as reflexões de Néstor García Canclini, filósofo e antropólogo argentino radicado no México, acerca do fenômeno da hibridação cultural, procurando compreender o intenso diálogo entre a cultura erudita, a cultura popular e a cultura de massas travado nos países latino-americanos, e sua inserção no cenário mundial. Palavras-Chave: hibridação; mesclas interculturais; América Latina

Trabalho apresentado ao GT Teoria e Metodologia da Comunicação, do VIII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sul. ** Mauro Gaglietti é Doutor em História/PUCRS, Mestre em Ciência Política/UFRGS, Professor e Pesquisador do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas/UPF e autor de livros e artigos científicos – maurogaglietti@upf.br *** Márcia Helena Saldanha Barbosa é Doutora em Teoria da Literatura/PUCRS, Professora e Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Letras/UPF e autora de livros, ensaios e artigos científicos – marciabarbosa@upf.br
1

*

em termos genéricos. Na América Latina. Tais terminologias desenvolveram-se no afã de designar os novos processos e produtos resultantes das ordens simbólicas. Considerado um pioneiro em estudos sobre o hibridismo das culturas latino-americanas. p. que. Assim. É nesse contexto de tensões que Néstor García Canclini identifica o fenômeno da “heterogeneidade multitemporal” (1995. subsumindo-a numa visão ou textualização do exótico e obliterando. cujas diferenciações culturais irão desembocar tanto em ajustes ou negociações quanto na sujeição do outro. concorreram para a formação dos países latino-americanos. conseqüentemente. 1991. essencialista e sistemática subjacente a um estilo de pensamento baseado sobre uma distinção ontológica e epistemológica feita entre “Oriente” e “Ocidente”. Nasce. transculturação. a abrupta interpenetração e coexistência de culturas estrangeiras e dissímiles gerou processos de mesclagem que. o caráter totalizante e generalista da estratégia de representação orientalista legitima uma autoridade discursiva eminentemente apropriativa. a qual é contemporânea do capitalismo multinacional e dos seus fluxos globais de desterritorialização. analisando criticamente o dispositivo orientalista de representação da alteridade cujo emprego. desde o final do século XV. 2 1 2 . em diferentes momentos do século XX. Edward Said2 preocupa-se com as íntimas articulações entre poder e saber. tendo início. o encontro. heterogeneidade cultural. mais precisamente.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação VIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação da Região Sul – Passo Fundo – RS A noção do híbrido emerge na crítica teórica a partir da problematização da questão da representação. aculturação. que ganha os seus contornos decisivos com Michel Foucault. muitas das ambivalências do próprio livro partem precisamente desta oscilação entre uma dimensão teórica próxima de uma crítica da representação pós-estruturalista. preocupada em sublinhar as alianças entre o saber e o poder na representação do outro. Gilles Deleuze e Edward Said. no final do século XVIII. No entanto.72). p. globalização e hibridismo. no qual denuncia a estrutura dicotômica.40-51. da crise da representação no pensamento ocidental. Foucault. que tende a suprimir uma alteridade humana complexa. Profundamente influenciado por Michel Foucault1. O choque da conquista desencadeou a justaposição conflitiva de conquistadores e conquistados. portanto. a reciprocidade e o conflito entre culturas. serão chamados de ocidentalização. e uma recuperação problemática de um conjunto de valores caros às ciências humanas ocidentais. Jacques Derrida. Ver o argumento do autor invocado explicitamente no famoso estudo crítico Orientalismo. Segundo esse intelectual palestino. Essa obra insere-se no contexto específico da crítica ao pós-colonialismo e pode ser colocada no contexto mais amplo de uma nova situação global e das incertezas que a pontuam. estilo esse designado por Said como “orientalismo”. convém não restringir este estudo crítico de Said a uma polêmica anti-imperialista estritamente centrada em objetivos ideológicos da luta no Oriente Médio. por sua vez. data do período colonial.

a falta de uma política cultural moderna na América Latina (1995). Para abordá-las. nos países latino-americanos. produtividade e poder criativo distintos das mesclas interculturais já existentes na América latina. restringindo a difusão da cultura indígena e colonial entre os setores populares. propõe instigantes reflexões em torno do eixo tradição/modernidade/pós-modernidade. aquelas que presidem a realização do projeto emancipador. a mestiçagem interclassista decorrente desses inter-relacionamento teria. Canclini identifica. justificaria. expansivo. possibilitando desdobramentos. pois resulta da combinação da antropologia com a sociologia. a ambigüidade do processo de modernização da América Latina. segundo Canclini. Apesar das tentativas da elite de conferir à sua cultura um perfil moderno. desse modo. tanto dos meios massivos de comunicação quanto dos processos de recepção e apropriação dos bens simbólicos. educacionais e religiosos de origem ibérica.70-1). Canclini se ocupa tanto dos usos populares quanto do culto. que existiam em formas separadas. Esse hibridismo. p. são alvo de sua atenção as lógicas das culturas populares. em que ressalta. renovador e democratizador da América Latina. agenciador do confronto entre temporalidades distintas. Canclini. Esse convívio intercultural. bem como da sua justaposição e entrecruzamento com as tradições dos setores políticos. Para o pesquisador. Dentro dessa perspectiva. hoje. marcou o século XX nas mais diferentes áreas. O entrelaçamento desses elementos veio a engendrar o que ele designou como “culturas híbridas”. desencadeador de combinatórias e sínteses imprevistas. o processo de hibridação cultural da América Latina decorre da inexistência de uma política reguladora ancorada nos princípios da modernidade e se caracteriza como o processo sócio-cultural em que estruturas ou práticas. bem como por impactos da globalização. Ao propor um debate sobre as teorias da modernidade e da pós-modernidade para a América Latina. em grande medida. objetos e práticas. o entrecruzamento 3 . um produto da sedimentação das tradições culturais e lingüísticas de grupos autóctones. gerado formações híbridas em todos os estratos sociais latino-americanos (1995. cujos países são. Néstor García Canclini defende a necessidade da adoção de um enfoque que também poderia ser chamado de híbrido. combinam-se para gerar novas estruturas.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação VIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação da Região Sul – Passo Fundo – RS há décadas Canclini vem desenvolvendo pesquisas voltadas para a compreensão da cultura urbana. ou seja. a recepção e o consumo de bens simbólicos e a hibridação cultural gerados pela heterogeneidade multitemporal. Um dos seus principais objetos de pesquisa são as contradições da cultura urbana. da arte com os estudos das comunicações. como aspecto preponderante.

defasagem esta decorrente do hibridismo sócio-cultural que marcou a formação da América Latina. a radiografia realizada por Canclini indica um resultado positivo: “Ao chegar à década de 90. com ação e atuação efetivas. responsável pela perda de referenciais tradicionais e pelo afloramento de processos de estranhamento. de verificar “quais são as conseqüências políticas que decorrem da passagem de uma concepção 4 . essas práticas se constituem em vias de expressão simbólica. a inexistência de projetos nacionais de integração na América Latina foi. 233). ampliar seu potencial de comunicação e conhecimento. uma vez que.72). revelando um quadro de defasagem histórico-cultural. enquanto etapa histórica. enquanto processo social que interfere na construção da modernidade dos modernismos. em vista. p. conclui que todas as culturas são de fronteira e que as artes. fenômeno que designou como “heterogeneidade multitemporal” (1995. Como sociedade e como cultura: o modernismo simbólico e a modernização sócioeconômica não estão mais tão divorciados” (1990. e de propiciar uma reflexão acerca dos vínculos entre cultura e poder. na sua capacidade de representar o que as interações sociais têm de oblíquo e dissimulado. Néstor García Canclini. A resposta a tal pergunta está na defasagem entre uma modernidade deficiente e um modernismo exuberante. dos projetos culturais que se relacionam com diversos momentos do capitalismo. em virtude do fenômeno da desterritorialização. p. em grande parte.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação VIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação da Região Sul – Passo Fundo – RS de diferentes tempos históricos que coexistem num mesmo presente de forma desarticulada. 209). portanto. que. sendo-lhes possível. Essas distinções dão origem a uma indagação: “Por que nossos países realizam mal e mais tarde o modelo metropolitano de modernização?” (1990. é inegável que a América Latina se modernizou. Canclini saliente que operar com a modernidade latino-americana exige antes a distinção entre a “modernidade”. Ainda que indiretamente. Embora a modernidade latino-americana seja tardia. embora ocupando espaços comuns. p. Como já se assinalou. ou seja. as práticas culturais passam a ocupar um lugar proeminente no processo de desenvolvimento político. A eficácia dos processos de hibridismo reside. os quais não são verticais. Trata-se. ao analisar as formas de hibridismo na América Latina no final do século XX. não chegaram a se integrar. principalmente. quando se fecham ou se enrijecem as vias político-sociais. que foram geradas por contradições decorrentes do convívio social urbano e do contexto internacional. com isso. sobretudo. e a “modernização”. do convívio entre sociedades díspares. articulam-se em relação umas com as outras.

de uma das metáforas mais potentes com que a arte dos anos 1990 trata da “porosidade das fronteiras e fluxos multidirecionais” (2000.17). “como apregoam. em sua opinião. em Tijuana e San Diego.as tradições culturais coexistem com a modernidade que ainda não se consolidou nessa parte do planeta. De forma original.34). Canclini examina as assimetrias edificadas numa instalação do artista japonês multimídia Yakinori Yanagi. Assim. Além de mostrar-se impressionado com essa instalação. p. geradora. na América Latina. Canclini salienta que a experiência mais radical de Yanagi foi a exposição perfomática de Wandering Position. não há uma ampla convicção de que o projeto moderno constitua a principal meta a ser atingida. salienta a necessidade de encontrar modelos propícios à abordagem das “ásperas contradições que afloram nas assimetrias globais” (2000.31-2). Néstor García Canclini. formigas perambulam pela areia que serve de suporte material a um mapa de bandeiras nacionais. ao retomar suas averiguações relativas a fronteiras. e na Bienal de São Paulo em 1996. p. Na referida montagem. A perambulação das formigas pela areia vai mesclando as cores/bandeiras/nações até provocar a dissolução de limites e marcas identitárias. políticos. cujas cores demarcam fronteiras simbólicas entre nações. Há. partindo do princípio de que. globalização e interculturidade.34). Néstor García Canclini analisa a cultura na América Latina levando em conta a complexidade de relações que a configuram na atualidade . economistas e a publicidade de novas tecnologias” (2006. onde ainda prevalecem intercâmbios culturais e econômicos desiguais e onde “certas tendências globalizadoras da economia reforçam algumas fronteiras ou levam a inventar outras novas” (2000. Canclini atribui grande relevância ao papel passível de ser exercido pela América Latina nesse universo. uma montagem de areia em moldura de aço exposta na Bienal de Veneza de 1993. p. Canclini examina as estratégias de ingresso na modernidade e de superação desse estágio. uma 5 . Afim de demonstrar suas postulações.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação VIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação da Região Sul – Passo Fundo – RS vertical e bipolar das relações sociopolíticas para outra descentralizada e multideterminada” (1990. p. cujo potencial crítico atinge desde as relações sociais e políticas entre Japão e Estados Unidos até outras relações de âmbito internacional. p. na “Mostra multinacional de arte urbana” de 1994. 345). nessa instalação. Mantendo esse enfoque e considerando o fato de que a porosidade das fronteiras e dos fluxos multiderecionais prometem (ou parecem prometer) integrações supranacionais para um futuro próximo.

A linguagem paródica. construída por camadas populares. acelerada e descontínua do videoclip representa a desconstrução das ordens habituais. relativizadoras do paradigma binário (subalterno/hegemônico. a metáfora construída por Yanagi não apenas se presta para dar visibilidade às novas condições de interação contrastiva na diversidade cultural do mundo. Canclini prefere chamar essa nova situação intercultural de hibridação em vez de sincretismo ou mestiçagem. melhor do que ‘sincretismo’. Canclini investiga o fenômeno da cultura urbana.e porque permite incluir as formas modernas de hibridação. às quais costuma limitar-se o termo ‘mestiçagem’ . portanto na realidade urbana. música.uma realidade voltada à conquista não de países. assim.para colocar todos os povos em co-presença. como também .Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação VIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação da Região Sul – Passo Fundo – RS inegável crítica ao imobilismo decorrente daquilo que a globalização possui de hegemônico e homogeneizador. reflete sobre o que chama de migrações multidirecionais. grafite e histórias em quadrinhos até a simbologia dos monumentos. p. É na cidade.coincidindo com com as concepções que abordam a globalização como um processo unificador de diferenças . O autor vê no videoclip a linguagem das manifestações híbridas que nascem do cruzamento entre o culto e o popular. A metáfora do videoclip também é utilizada por Canclini. o que leva a globalização . p. principal causa da intensificação da heterogeneidade cultural. tradicional/moderno) que tanto balizou a concepção de cultura e poder na modernidade. Essas rupturas e justaposições culminam em outro tipo de organização dos dados da realidade. Tal denúncia remete à intolerância em relação à coexistência (contraditória) de sujeitos social e etnicamente dissímiles. 19). evidenciando as rupturas e justaposições entre aquelas duas noções tradicionais de cultura.32). 6 . O autor transita entre diferentes manifestações culturais e artísticas (muitas delas anônimas): desde passeatas reivindicatórias. A fim de apreender as formas dispersas da modernidade. Canclini desessencializa. Para Néstor García Canclini. tanto a idéia de uma tradição autogerada. passando pela pintura. fórmula que se refere quase sempre a fusões religiosas ou de movimentos simbólicos tradicionais” (2006. Desse modo. arquitetura. quanto a noção de arte pura ou arte erudita. mas de mercados .a produzir (em série) interatividades edulcoradas e indiferenciadas.não apenas raciais. “porque abrange diversas mesclas interculturais . que se processa uma constante interação do local com redes nacionais e transnacionais de comunicação. o que sugere (e denuncia) uma “interatividade indiscriminada” (2000.

as dificuldades dos grupos políticos para convocarem trabalhos coletivos não rentáveis ou de duvidoso retorno econômico. ou em procurá-los” (2006. “o predomínio das relações secundárias sobre as primárias. em que o real é produzido pelas imagens da televisão. etc.288). A dissolução do indivíduo na massa e no anonimato é apenas uma das facetas da metrópole. entre outros fatores. a associação de moradores.301). essa desarticulação tem como causa. é ainda menos livre por ter que se preocupar com o segundo. a sede do partido político. os elementos mais valorizados são os que se ligam à rentabilidade e à eficiência: “O tempo livre dos setores populares.285). p. A questão é que tais estruturas microssociais da urbanidade . Canclini passa da idéia de urbanidade e teleparticipação para a análise da questão da memória histórica. Por meio de fotografias de monumentos mexicanos. representada num 7 . Canclini ilustra a reedição simbólica dessas grandes construções na contemporaneidade. o café.o clube. desfazendo a perspectiva linear de que a cultura massiva e midiática substitui a herança do passado e as interações públicas. Ao que parece. coagidos pelo subemprego e pela desterriorização salarial. Nesses termos. que criam vínculos locais de afetividade e de condescendência e saem pouco de seus espaços. antes interligadas com uma comunidade utópica dos movimentos políticos nacionais. pois. Nesse sentido. “abertos à dinâmica urbana. Desse modo. hoje. estão cada vez mais desarticuladas enquanto representação política. quase no nível da rua. sendo cada vez mais imperativo o adágio “tempo é dinheiro”. é o fato de haver-se tornado a grande mediatizadora ou até substituta de interações coletivas. ou terceiro trabalho. da heterogeneidade sobre a homogeneidade” não é atribuível “unicamente à concentração populacional nas cidades” (2006. A participação de camadas periféricas relaciona-se cada vez mais com uma espécie de “democracia audiovisual”. p. Os monumentos não são mais os cenários que legitimam o culto do tradicional.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação VIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação da Região Sul – Passo Fundo – RS O autor assinala que a idéia de urbanidade não se opõe à idéia de “mundo rural” ou comunidade. mistura-se à cena de pedestres urbanos na capital mexicana. hoje. a faceta mais importante da mídia. Canclini sugere que a figura heróica de Zapata. a outra é a das comunidades periféricas. o pesquisador destaca a presença dos monumentos e a sua relação ambivalente com as transformações da cidade. p. Uma cena pré-colombiana de índios pedestres. que os heróis nacionais a revitalizem graças à propaganda ou ao trânsito: continuem lutando com os movimentos sociais que sobrevivem a eles” (2006. facilitam que a memória interaja com a mudança. -.

na cidade de Cuernavaca. o videocassete e o video game. a pós-modernidade é entendida não como uma etapa ou tendência que viria a substituir o mundo moderno. O autor identifica. “dando-nos unicamente o prazer de ganhar dos outros ou a possibilidade. Néstor García Canclini afirma que o segundo processo. as referências semânticas e históricas que ancoravam seu sentido. mas como uma maneira de problematizar os vínculos equívocos que este estabeleceu com as contradições que pretendeu excluir ou superar para constituir-se. a condição para ser popular não reside mais no conhecimento dos bens produzidos por uma comunidade relativamente fechada. batalha essa que remete os conflitos travados com a sua enérgica figura.303). vários são os exemplos de hibridação encontrados pelo autor no espaço urbano. o segundo permite a articulação de elementos tradicionalmente opostos nas produções audiovisuais: o nacional e o estrangeiro. desconstrói os antagonismos colonizador X colonizado. Nesses termos. a possibilidade de ser culto por conhecer apenas as chamadas “grandes obras”. Para Canclini. constitui-se como o mais radical significado do ingresso na modernidade. p. o que seria um sintoma mais claro da desconstituição das classificações que distinguiam o culto do popular e ambos do massivo. O primeiro consiste na recusa pós-moderna da produção de bens culturais colecionáveis. O uso do primeiro dispositivo mencionado garante a possibilidade do manejo mais livre e fragmentário dos textos e do saber.307). etc. ao sermos derrotados. o da desterritorializacão. Diminui. onde livros se misturam com recortes de jornais. enfatizando a descentralização das empresas e a disseminação dos produtos simbólicos por meio da eletrônica e da 8 .retoma as idéias de Walter Benjamim. informações fragmentárias são encontradas no “chão regado de papéis disseminados. Além desse. está lutando contra o trânsito denso. de que tudo fique na perda de moedas numa máquina” (2006. Para comprovar o fenômeno da desterritorialização. que não podem ser considerados cultos ou populares. A partir do surgimento de dispositivos tecnológicos. na modernidade. com elas. ao mesmo tempo. desmaterializa e descorporifica o perigo. dois processos diferenciados.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação VIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação da Região Sul – Passo Fundo – RS monumento. cada vez mais. complementares. as coleções se perdem e. p. a política e a ficção. por fim. como a fotocopiadora. de desarticulação cultural: o descolecionamento e a desterritorialização. o autor menciona a transnacionalização dos mercados simbólicos e as migrações. nacionalista X cosmopolita. porém. Canclini (2006. ao afirmar que o intelectual pós-moderno forma-se tendo como base sua biblioteca privada. o terceiro. o lazer e o trabalho.

o artista perde sua aura de fundador das mudanças totais e imediatas. p. Ao artista ou artesão restam as cópias. e as práticas artísticas carecem de paradigmas consistentes: o cânone. a difusão tecnológica permitiu. mas um lugar híbrido. a países dependentes registrarem um crescimento notável de suas exportações culturais.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação VIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação da Região Sul – Passo Fundo – RS telemática. figuras astecas. Na referida cidade fronteiriça. nos últimos tempos.. tais como. O autor cita o manifesto antropófago (1928) no Brasil e algumas manifestações do grupo Martín Fierro na Argentina como interpretações de identidade latino-americana realizadas mediante a incorporação de elementos estéticos e sociais de outros países. no qual se cruzam os lugares realmente vividos” (2006. 9 . O caráter multicultural desse local não se expressa apenas no uso do espanhol e do inglês. Ao mesmo tempo.] várias vezes pensei que essa cidade é. Em conseqüência. um dos maiores laboratórios da pós-modernidade” (2006. tendo ao fundo algumas reproduções de imagens de várias regiões do México. salientando a freqüência cada vez maior da realidade diaspórica. p. ao lado de New York. nem tampouco é essa na qual vivem há alguns anos. Outro fator relevante para caracterizar a desterritorialização é o que o autor chama de migrações multidirecionais. pintam ou compõem músicas.. há.315). Tal é o caso do crescimento da produção cinematográfica e publicitária no Brasil. já não é a cidade na qual passaram sua infância. Canclini se detém no papel que a arte pode desempenhar no compreensão do fenômeno da hibridação na América Latina. nesse lugar. etc. a genialidade e a erudição são idéias ultrapassadas e pretensiosas. ou a possibilidade de ir vê-las num museu ou em livros para turistas. a busca pelo autêntico atende também aos interesses do mercado turístico. fronteira entre o México e os Estados Unidos. O uso de satélites e computadores na difusão cultural também impede que se continuem vendo os confrontos dos países periféricos como combates frontais com nações geograficamente definidas. Sobre o cosmopolitismo e o localismo desses artistas afirma: “O lugar a partir do qual vários artistas latinoamericanos escrevem. cactos. mas nas relações divergentes e convergentes que se dão entre uma cultura e outra. a possibilidade de repetir peças semelhantes. O autor afirma: “[. Visitantes são fotografados em cima de burros cuja pintura imita uma zebra. uma tentativa de retorno ao tradicional.327). Tal realidade é constatada pelo estudo que Canclini realiza sobre os conflitos interculturais em Tijuana. Por fim. ou uma tentativa de reinventá-lo. vulcões. Além disso.

1998.). dita por outro personagem que havia presenciado toda a aflição do protagonista. Santiago: Cuarto próprio. Assim. o culto e o popular” (2006. fala de uma famosa tira de Fontanarrosa. Ana Maria de Moraes (Org. (Org. que. Nuevas perspectivas desde/sobre América Latina. desde o seu nascimento.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação VIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação da Região Sul – Passo Fundo – RS Como proposta de uma prática artística híbrida. Os quadrinhos. O local da cultura.). marcos. sendo o estilo mais lido e o ramo da indústria editorial que proporciona maiores lucros. ___ . Canclini destaca o grafite e os quadrinhos. Néstor García. o personagem acaba por entrar na manifestação organizada por um movimento grevista de policiais. São Paulo: Memorial da América Latina. Modernidade: vanguardas artísticas na América Latina. em que um personagem “contrabandista de fronteira” foge da polícia de 15 países . 1990. 1995. precisa se esconder para não ser preso pela Interpol. gêneros impuros. Mabel. 10 . a fim de ilustrar essas manifestações deslocadas. abandonaram o conceito de coleção patrimonial e se estabeleceram como “lugares de interseção entre o visual e o literário. La modernidad después de la posmodernidad. quando está sendo perseguido. Culturas híbridas: estrategias para entrar y salir de la modernidad. após vender um produto do seu roubo que apresentava defeito. La épica de la globalización y el melodrama de la interculturalidad. Belo Horizonte: UFMG. mas a própria fronteira. arames farpados. evidenciam a potencialidade de uma nova narrativa e do dramatismo que pode ser condensado em imagens estáticas. em virtude de sua relação com o cotidiano. No final da história. os quadrinhos acabam por revelar referências e contradições da própria contemporaneidade. por sua vez. na medida em que ele rouba balizas. 2000. In: BELUZZO. etc. A frase que encerra a tira. O personagem. Buenos Aires: Sudamericana. ___ . In: MORÃNA. CANCLINI. A ambivalência do grafite se constitui na simultaneidade com que serve para demarcar territórios (arte neotribal) de grupos étnicos ou culturais e para desestruturar as coleções de bens materiais e simbólicos da chamada “alta cultura”. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BHABHA. barreiras.o personagem não contrabandeia através da fronteira. Canclini. é uma espécie de emblema e síntese do momento pósmoderno: “A gente nunca sabe onde vai estar metido no dia de amanhã”. p.336). pensando tratar-se de uma procissão. Homi K.

11 . FOUCAULT.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação VIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação da Região Sul – Passo Fundo – RS ___ . Lisboa: Edições 70. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. ___ . Michel. A globalização imaginada. SAID. Edward. 2003. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. 1991. São Paulo: Companhia das Letras. São Paulo: Iluminuras. 1990. Estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: EDUSP. 2006.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful