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As Filosofias Nacionais

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Embora haja na Parte I focalizado alguns dos aspectos adiante considerados,

procurarei sistematizá-los para bem explicitar a tentativa subseqüente, que empreendo.

Dentre as questões teóricas relacionadas à filosofia brasileira, sobressai a

determinação do lugar do problema na história da filosofia e sua consideração como o

elemento distintivo das filosofias nacionais. Em síntese, esclareceu-se a estrutura básica

da filosofia como sendo constituída de perspectivas, sistemas e problemas. As

perspectivas são inelutáveis, perenes e irrefutáveis, consistindo precisamente no

sustentáculo da universalidade da filosofia. Os sistemas caracterizam-se pela

transitoriedade. As civilizações, as circunstâncias históricas, marcam-nos em definitivo.

Mais das vezes, os que supõem contribuir para mantê-los vivos, em ciclos culturais

diversos daqueles em que surgiram, simplesmente dispensam-se do esforço de distinguir

o que é típico do sistema daquilo que de direito pertence à perspectiva. A força desta

induz à suposição de que a filosofia foi capaz, em qualquer época, de constituir um

sistema perene, possibilidade de fato inexistente. Alguns autores acreditam mesmo - e

creio que poderiam ser incluídos nesse grupo tanto Rodolfo Mondolfo (1877/1976)

como Nicolai Hartmann (1882/1950) - que a perspectiva transcendental é incompatível

com todo sistema.

Em contrapartida, são os problemas que animam a filosofia em todos os tempos.

Mondolfo ensinou que, tomando-se por base os “problemas que coloca, ainda que

subordinado sempre ao tempo de sua geração e desenvolvimento progressivo, o

pensamento filosófico mostra-se como uma realização gradual de um processo eterno.

Os sistemas, com efeito, passam e caem; mas sempre ficam os problemas colocados,

como conquistas da consciência filosófica, conquistas imorredouras apesar da variedade

das soluções que se intentam e das próprias formas em que são colocados, porque esta

variação representa o aprofundamento progressivo da consciência filosófica”3
.

Na investigação da filosofia brasileira neste pós-guerra, graças à advertência do

Prof. Miguel Reale, voltamos-nos preferentemente para os problemas de que se

ocuparam os nossos autores, sempre referidos às circunstâncias históricas em que

viveram. Do inventário daí resultante podemos concluir que o problema nuclear da

3

Problemas y métodos de investigación en la historia de la filosofia, 2ª. ed., Buenos Aires, Eudeba, 1960.

p. 31.

41

filosofia brasileira tem consistido na questão do homem. Tive oportunidade de abordar

circunstancialmente tal aspecto na Introdução à 3ª edição da História das Idéias

Filosóficas no Brasil (São Paulo, Convívio, 1984)4

, reproduzida nas edições

subseqüentes.

A filosofia brasileira resultante dos estudos em foco distingue-se radicalmente das

outras filosofias nacionais constituídas na Época Moderna. Contudo, tais distinções

ainda não se estabeleceram de modo sistemático. A percepção da singularidade da

filosofia inglesa ou alemã, se é aceita, mantém-se em níveis meramente intuitivos.

Todos nos damos conta de que a filosofia inglesa foi sendo constituída em torno dos

pressupostos empiristas e, desde pelo menos o século XVIII, tem sido

inquestionavelmente a corrente dominante e hegemônica, com a única exceção de umas

quantas décadas da segunda metade do século passado, quando floresceu e angariou

amplas simpatias a corrente idealista expressa, sobretudo, na obra de Thomas Hill Green

(1836/1882). Mas não se avançou no sentido de avaliar de forma consistente os

fundamentos dessa percepção pouco elaborada.

As filosofias nacionais são certamente uma verdade inquestionável, sendo

evidente que conseguiram em determinados países estabelecer um clima de desinteresse

pelas criações das outras nações, mesmo em se tratando de autores exponenciais. Como

tive a oportunidade de referir, no ensaio que escreveu para a História da Filosofia, sob a

direção de François Chatelet - incluído o volume 6 -, Alexis Philonenko chama a

atenção para o fato de que na França não se traduziu nenhuma das obras de Hermann

Cohen (1842/1918) e Paul Natorp (1854/1924), não obstante tenham sido as figuras

mais expressivas do neokantismo, corrente dominante na Alemanha desde os fins do

século XIX à época da primeira guerra mundial. Os franceses só muito recentemente

traduziram alguns dos textos de Ernst Cassirer (1874/1954) e os livros de Cohen

dedicados à religião e à moral judaicas. Philonenko conclui ter sido solenemente

ignorado em seu país o neokantismo da Escola de Marburgo.

O tema requer, portanto, ulterior elaboração. Entendo que, na etapa atual desses

estudos, precisaríamos recompor a História da Filosofia Moderna do ângulo dos

problemas novos com que se defrontou. Em nosso país há uma opinião impressionista

muito difundida segundo a qual toda a filosofia estaria contida no pensamento grego.

4

Item 2. Os problemas com que se defrontou a filosofia brasileira, sua hierarquia e mútua implicação; p.

18-187.

42

Nada poderia ser mais equivocado, bastando ter presente que os filósofos gregos não

tinham noção de pessoa nem de liberdade e tampouco entendiam a moral como sendo

dotada de universalidade. Se, é certo, os autores cristãos consideraram esses aspectos a

perspectiva grega, isto é, transcendente, a Época Moderna subverteu inteiramente esses

esquemas. Tenho em vista a distinção entre o saber e o real; a postulação da

impossibilidade do discurso filosófico acerca de Deus e da sobrevivência da alma; a

separação entre moral social e moral individual e ainda a constituição de um saber

operativo, apoiado na quantidade, capaz de aplicar-se à natureza e à própria criação

histórico-social. O estudo da Filosofia Moderna centrado nas correntes então

constituídas obscurece a profundidade da mudança, sobretudo quando a distinção

fundamental se faz entre racionalistas e empiristas e não entre as perspectivas

transcendente e transcendental.

Além dessa consideração da Filosofia Moderna do ângulo dos problemas, seria

imprescindível fixar as distinções básicas entre as mais importantes filosofias nacionais.

Seu processo de formação acompanha de perto a emergência das nações e a quebra da

unidade lingüística na Europa.

Se tomarmos como referência os problemas, teremos um fio condutor para

explicar as razões pelas quais as filosofias nacionais seguiram caminhos diversos e em

que consistem tais caminhos. Apenas por reconhecer que nenhuma investigação possa

ser bem-sucedida sem hipóteses prévias - e consciente também da possibilidade de vê-

las refutadas -, formulo aqui o que poderia ser uma primeira aproximação do tema.

Esquematicamente, o problema que angustiou a filosofia alemã parece ter sido a

questão do sistema, notadamente o seu entendimento como algo de imperativo e forma

adequada de expressão da filosofia. Confrontando-a com a filosofia inglesa vê-se logo a

diferença. Os filósofos ingleses não têm nenhuma preocupação com a idéia de sistema

e, a rigor, dela prescindem completamente. A filosofia inglesa tem a ver com o tema da

experiência. Desta vai depender desde logo todo o conhecimento. A experiência é

também entendida como vivência, transitando obrigatoriamente pela sensibilidade

humana e não podendo deixar de ser verificável. A francesa, por seu turno, poderia ser

considerada do ângulo do conceito de razão, mas entendida como estabelecendo a

dicotomia pensamento versus extensão. E, finalmente, a filosofia portuguesa se forma

em torno da conceituação da divindade, da idéia de Deus, na formulação de Sampaio

Bruno (1857/1915). Esta não é certamente a oportunidade para avançar em tal

43

investigação, cumprindo, entretanto, fixar pelo menos os principais de seus

balizamentos.

Enfim, a hipótese não tem nada de arbitrária, merecendo ser aprofundada. Neste

sentido, competia tomar como paradigma a obra clássica de Maurice Merleau-Ponty –

L’union de l’âme et du corps-chez Malebranche, Biran et Bergson (Paris, Vrin, 1968) -

e promover estudos sistemáticos da noção de experiência nos principais filósofos

ingleses; da idéia de sistema de Wolff e Cohen/Husserl, na filosofia alemã, e da noção

de razão em confronto com a natureza na filosofia francesa, a partir de Descartes.

Quanto à filosofia portuguesa, essa obra de sistematização, vem sendo

empreendida por António Braz Teixeira, contando ainda, presentemente, com notável

grupo de estudiosos, evidenciando-se, contudo, as lacunas que apontarei.

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