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Conversando sobre tecnologia

Carla Giovana Cabral

julho de 2011

Apresentação

Nós todos/as temos um entendimento do que seja tecnologia. Esse entendimento pode se originar das nossas vivências e experiências cotidianas, do que assistimos na televisão, lemos na internet, em livros, de aulas que tivemos na escola e na própria universidade. O que vamos discutir nesta aula é o quanto do que entendemos por tecnologia está impregnado de uma visão restrita e como essa visão restrita limita um entendimento ampliado e crítico. O que estamos tentando dizer? No senso comum, na mídia, e também teoricamente há uma visão de tecnologia que a considera apenas ciência aplicada. Isso deixa de lado todo o conhecimento tecnológico que o homem construiu ao longo de sua existência, da história da humanidade; leva-nos a acreditar que a tecnologia, seu avanço, é a responsável pelo bem-estar e a qualidade de vida das pessoas. É sempre assim?

Refletir sobre esse assunto implica conhecer as imagens mais correntes sobre tecnologia – intelectualista e instrumentalista – e um conceito que desconstrói essa ideia, atraindo as dimensões social, ambiental, ética para ampliar o nosso entendimento. Esse conceito é o de tecnologia como prática cultural ou prática tecnológica.

Com isso, a exemplo do que discutimos no texto anterior sobre a não- neutralidade da ciência, vamos tentar compreender que a tecnologia não é neutra: há interesses, crenças, valores envolvidos; há relações de poder, um tempo, uma história.

Essas questões permeiam os objetivos desta aula. Vamos conhecê-los?

Objetivos

1. Compreender que a tecnologia não é neutra e está permeada por interesses, crenças, valores.

2. Conhecer o conceito de prática tecnológica.

3. Refletir

humano.

sobre

Autoavaliação

a

relação

entre

tecnologia

e

desenvolvimento

social

e

1) Vamos começar a nossa aula com uma pesquisa. Escolha um site de busca e coloque a palavra-chave “tecnologia”. O que você encontrou? Liste os três primeiros links e faça um resumo (até 30 linhas) do que eles contém sobre tecnologia. Vamos discutir os seus achados em sala de aula.

A tecnologia nossa de cada dia

Em sua pesquisa, você encontrou uma série de textos e figuras representando a tecnologia. De uma forma geral, elas simbolizam a visão preponderante, que é a de perceber/entender a tecnologia como aplicação da ciência. Uma vez que se tenha um conhecimento científico e esse conhecimento seja aplicado, temos uma tecnologia. Essa ideia se concretiza especialmente em artefatos .

A visão de tecnologia como aplicação da ciência é restrita e traz vários problemas, problemas que limitam nossa visão de mundo, o que se reflete no modo como pensamos e agimos em sociedade, seja no âmbito da esfera privada (nossa casa, família, amigos, companheiro/a;), seja na esfera pública (trabalho, cidade, País, etc.) Vamos discutir alguns desses problemas.

Em primeiro lugar, pensar em tecnologia apenas como artefato leva-nos a não considerar a ideia de tecnologia como possibilidade de conhecimento, um conhecimento que não está necessariamente relacionado com ciência, na forma como a conhecemos hoje. Ciência pode ter vários significados. Aqui, simplificando, estamos considerando-a como o resultado do trabalho e da decisão

dos cientistas, não esquecendo as relações que empreendem com outros grupos e os contextos social e histórico em que se realizam. Automóveis, telefones celulares, computadores, relógios, televisores são exemplos de artefatos. Em sua pesquisa na internet, você encontrou vários deles, não é mesmo? Pense no significado desses artefatos em sua vida, em seu cotidiano.

Outro problema é que ao entendermos tecnologia apenas como um resultado da aplicação da ciência, mostramos um certo desprezo por uma análise singular do que é tecnologia, ou seja, a vemos como redutível à ciência.

Em outro sentido, a tecnologia como aplicação da ciência está relacionada ao chamado modelo linear de desenvolvimento, que tem influenciado sobremaneira as políticas públicas em ciência e tecnologia de vários países, inclusive o Brasil, nos últimos tempos. Nesse modelo, tudo começa com a pesquisa científica, que depois é aplicada. Convertida em tecnologia, levaria ao desenvolvimento científico e tecnológico que, por sua vez, geraria desenvolvimento econômico, e a partir dele desenvolvimento social e humano. Esse é um modelo que embute a ideia de determinismo tecnológico, em poucas palavras, que a ciência e a tecnologia determinariam a vida em sociedade, trariam bem-estar e qualidade de vida, necessariamente.

Veja que apresentamos duas importantes questões: pensar a tecnologia apenas como artefato e aplicação da ciência (reducionismo); entendê-la como determinante da vida em sociedade (determinismo). Vamos discutir essas questões?

O fenômeno técnico

A cultura distinguiu o homem de outros animais e uma série de atributos seus o levou a desenvolver ferramentas técnicas. Pedras, paus e ossos empunhados habilmente foram usados pelos hominídeos para caçar ou se defender. Logo, essas pedras, paus e ossos transformaram-se em lanças, facas e machados, suprindo de uma certa maneira no homem a falta de garras, presentes em predadores melhor dotados anatomicamente (PALACIOS et al,

2001, p. 35). O homem desenvolveu uma habilidade técnica (BAZZO e PEREIRA, 2009, 66).

Assim, essa habilidade técnica dotou a pedra de um outro sentido. Podemos dizer que deu ao homem mais poder e, grosso modo, ele passou de “caça” a “caçador”. A habilidade técnica do homem evoluiu: ele dominou o fogo, aprendeu a cozinhar os alimentos, domesticar os animais, construir casas, fundir metais, etc. Isso não se deu sem intervenções no meio.

Segundo Palacios et al (op cit, 2009, p. 36), a técnica transforma/ou o meio e recria as condições da existência humana: (1) ela permitiu a transformação do meio em que os seres humanos desenvolveram sua vida, mudou as formas de vida humana; (2) também criou obras para durar longo tempo, prolongou a vida das pessoas, por exemplo.

Em certo sentido, a existência humana é um produto técnico, tanto quanto os próprios artefatos que a fazem possível. Não se pode pensar, portanto, em separar a técnica da essência do ser humano. Seguramente, a técnica é uma das produções mais características do homem, mas também é certo que os seres humanos são. Sem dúvida, o produto mais singular da técnica. (Idem)

Em cada época, há um tipo de intervenção humana, em especial. Em outras palavras, desde que percebeu suas habilidades, o homem vem modificando o meio em que vive. Essa não é uma questão simples e requer uma permanente contextualização.

Se no Paleolítico, por exemplo, o homem vivia em poucos grupos na terra e os materiais que utilizava para acender uma fogueira provocam pequeno impacto sobre o meio, isso mudou radicalmente ao longo da história da humanidade:

florestas foram devastadas, rios desviados ou cobertos por cidades, vilarejos inundados por barragens e hidrelétricas, praias e morros invadidos por construções ilegais e clandestinas. E o que isso tem a ver com tecnologia? Bombas nucleares mataram milhares de pessoas, navios derramaram oceanos de petróleo no mar, pesticidas contaminam fauna, flora e seres humanos, reatores

de usinas nucleares explodiram; contas bancárias e bases de dados são invadidas por crackers ; nossa vida é controlada por celulares e vigiada por câmeras a que se atribui segurança. Vamos perguntar mais uma vez: e o que isso tem a ver com tecnologia?

As imagens da tecnologia

Nós vimos no início deste texto que uma das visões mais usuais sobre tecnologia, define-a como aplicação da ciência. Já pontuamos que isso traz uma série de problemas e restringe nosso entendimento, especialmente se buscamos uma visão mais ampla da relação entre ciência, tecnologia e sociedade. Vamos discutir um pouco esse conceito usual. Em primeiro lugar, vejamos este trecho de Palacios et al (2001, p. 37).

“A tecnologia poderia ser considerada como o conjunto de procedimentos que permitem a aplicação dos conhecimentos próprios das Ciências Naturais à produção industrial, ficando a técnica limitada ao momento anterior do uso dos conhecimentos científicos como base do desenvolvimento industrial.” 1

Ele nos traz diversas questões para discutirmos. Tratemos de pelo menos

duas:

1) a dependência da tecnologia de outros saberes;

2) a utilidade da tecnologia.

Quando consideramos a tecnologia como aplicação da ciência, esta, na sua forma tradicional, exerce enorme influência nos produtos e processos resultantes. Isso quer dizer que o caráter de atividade pretensamente neutra, autônoma e universal da ciência se reflete na tecnologia, esta entendida apenas como a sua aplicação. Em outras palavras, ciência seria o conhecimento teórico; tecnologia, o conhecimento prático.

Uma tradição acadêmica que amparou e respaldou essas ideias foi a que se originou do Positivismo Lógico. Na opinião dos positivistas, segundo Palacios et al

(2001, p. 38), as teorias científicas explicavam o mundo por meio de enunciados objetivos, racionais e livres de valores externos à ciência. Na mesma linha, o conhecimento científico era visto como um processo progressivo e acumulativo, que substituía a ciência anterior essas teorias poderiam ser aplicadas em alguns casos; a ciência pura não tinha qualquer relação com a tecnologia.

O Positivismo Lógico é uma filosofia oriunda das discussões de um grupo de pensadores que se reunia no chamado Círculo de Viena, no início do século 20. Eles foram responsáveis por uma retomada da ideia de ciência pretensamente neutra e autônoma em relação à sociedade.

Tomas Kuhn criticou a ideia de conhecimento científico como um processo progressivo e acumulativo, oferecendo como alternativa a teoria das revoluções científicas. Segundo essa teoria, a ciência evoluiu por rupturas: há períodos de ciência normal; em algum momento essa ciência apresenta “anomalias”, que dão origem às revoluções científicas. São construídas, então, novas teorias, que apresentam melhores resultados para um determinado problema, constituindo um novo paradigma.

Assim, uma consequência marcante dessa concepção é que, ao se conferir um estatuto de neutralidade à ciência, este é diretamente transferido à tecnologia (BAZZO, PEREIRA e VON LINSINGEN, 2008, p. 182). Como vimos, conferir neutralidade à tecnologia, a destitui de relações com a sociedade, seja em sua produção ou aplicação. Essa visão constrói a imagem intelectualista de tecnologia. E a relação entre tecnologia e utilidade?

Há quem considere, como Bazzo, Pereira e von Linsingen (2008, p. 182), que a percepção do caráter utilitarista da tecnologia é a mais presente no meio técnico, ou seja, nos lugares em que circulam profissionais como os/as engenheiros/as. Acreditamos que fora desse meio, no chamado senso comum, também é habitual que se veja a tecnologia como algo que auxilia, melhora a vida das pessoas, torna certas tarefas mais fáceis, traz bem-estar. O que você pensa sobre isso? Já parou para pensar nessas questões?

Vista de uma maneira utilitarista, a tecnologia acaba restringindo-se a uma analogia com ferramentas e produção de bens e serviços, oriundos da aplicação

de conhecimentos científicos. Esta é a visão instrumentalista da tecnologia. Também aqui temos o problema da transferência do estatuto de pretensa neutralidade da ciência. Não é raro que ouçamos que a tecnologia não é boa, nem ruim, e que os prejuízos são advindos do seu uso.

Quer dizer, então, que os usuários é que são responsáveis por por benefícios ou malefícios? E quem projetou, e a empresa ou indústria que produziu e comercializou não teriam nenhuma responsabilidade?

Isso é bastante problemático. Vejamos o que dizem Bazzo, Pereira e von Linsingen (2008, p. 183).

“Segundo essa visão, a universalidade associada à tecnologia avaliza a transferência de tecnologia entre sociedades independentes e, muitas vezes, em detrimento de suas especificidades culturais. Por conta disso, o ensino das técnicas, a princípio, pode ser vinculado à ética da responsabilidade social apenas em sentido restrito. Por extensão, permite-se ao engenheiro a isenção da responsabilidade pública do que produz e de seus efeitos”.

Os/As engenheiros/as e outros/as profissionais das áreas científicas e tecnológicas estão realmente isentos de eventuais “efeitos colaterais” de seus projetos, cálculos, processos, produtos e serviços? O que sabem sobre assumir uma postura ética?

Uma postura ética e comprometida com uma sociedade mais igualitária e justa requer a superação de entendimentos de tecnologia que passam pelas visões intelectualista e instrumentalista. Isso pede que se veja a tecnologia não apenas como artefato, mas se tenha em conta seu caráter sistêmico.

O conceito de prática tecnológica

Ao desconstruir o conceito de tecnologia apenas como ciência aplicada, podemos defini-la também como uma série de sistemas são projetados para realizar alguma função instrumentos materiais e tecnologias de caráter organizativo (Palacios et al, 2001, p. 42).

O tecnológico não é somente o que transforma e constrói a realidade física, mas também aquilo que transforma e constrói a realidade social. (Idem)

Na concepção de Radder (1996, apud Palacios et al, 2001, op. Cit., p. 42), há cinco características que distinguem a tecnologia. Vejamos o quadro a seguir (Quadro 1).

 

Características da tecnologia

REALIZABILIDADE

Confere concretude à tecnologia, ou seja, a tecnologia tem que estar realizada; perguntar “onde”, “quando”, “por quem”, para quê” e “por quê” são fundamentais para estudá-la.

CARÁTER SISTÊMICO

Uma tecnologia não se resume a artefatos; qualquer tecnologia está inserida em um ambiente sociotécnico que a viabiliza. Por exemplo, um automóvel é uma tecnologia que necessita de uma série de elementos para funcionar – rodovias, postos de abastecimento, refinarias, gasodutos, publicidade, consumidores, etc.

HETEROGENEIDADE

Tecnologias são constituídas de componentes, que não são iguais, têm diferentes tipo e procedência.

RELAÇÃO COM A CIÊNCIA

Há uma ampla e diversa relação entre a ciência e a tecnologia. Além do conhecimento científico, há o “saber como fazer”, materializado em habilidades, técnicas teóricas, observacionais e experimentais, assim como resultados científicos objetivados em produtos, materiais e instrumentos.

DIVISÃO DO TRABALHO

A realização de uma tecnologia pressupõe uma dependência entre os agentes envolvidos, não um funcionamento incondicional. Há uma divisão do trabalho e diferentes relações de poder entre quem desenvolve, produz, opera e usa a tecnologia.

Fonte: Palacios et al (2001, p. 42-43), com base em Radder (1995); traduzido e ligeiramente

modificado pela autora.

A considerar o caráter sistêmico, a interpretação de tecnologia como prática

tecnológica é um dos conceitos mais interessantes e contributivos para

desconstruir a ideia reducionista de tecnologia como ciência aplicada.

O conceito de prática tecnológica foi proposto por Arnold Pacey na década

de 1980. Ele expressa diferentes aspectos envolvidos na tecnologia, o organizacional, o técnico e o cultural. Antes de os discutirmos, vamos conhecê-los

de maneira esquematizada nesta figura.

Nesta figura, vemos que aos aspectos organizacional, cultural e técnico correspondem diferentes questões. Em geral,

Nesta figura, vemos que aos aspectos organizacional, cultural e técnico correspondem diferentes questões. Em geral, eles são compreendidos de maneira estanque. Ao aspecto cultural, por exemplo, vinculam-se valores, questões éticas; o aspecto organizacional vincula a atividade industrial, profissional e usuários/consumidores; já conhecimento, destreza, máquinas e ferramentos pertencem à esfera do técnico.

Erroneamente se acredita que essa esfera funcione de maneira independente às demais. Assim, costuma-se tratar as dimensões social e humana e seus problemas no âmbito dos aspectos cultural e organizacional da tecnologia. Dessa forma, isentamos a técnica de seu conteúdo humano e social, ignorando a existência de valores nessa atividade (PACEY, 1990, 18; CABRAL, 2006, p. 28-

50).

O que o conceito de prática tecnológica propõe é um diálogo entre os aspectos organizacional, cultural e técnico, mostrando-nos que a tecnologia não é autônoma em relação à sociedade, tão pouco neutra em termos de valores. Segundo Palacios et al (2001, p. 44), o conceito de prática tecnológica permite uma relação que não é linear: entre indivíduos e grupos (os que desenvolvem,

produzem, comercializam e consomem), agentes (individuais e/ou coletivos),

materiais e meios disponíveis e fins a desenvolver.

Vamos relfetir?

Comece a prestar mais atenção no que você ouve, lê, assiste sobre

tecnologia(s). Tente perceber se a ideia de tecnologia que está sendo construída

corresponde a uma imagem intelectualista ou instrumentalista, ou ambas. Veja

se em algum dos espaços (virtuais também!) se trata da tecnologia considerando

suas relações com a ciência e a sociedade, ou seja, se se promove um diálogo

entre os aspectos cultural, organizacional e técnico. Este texto termina aqui, mas

a nossa conversa sobre tecnologia está apenas começando.

Referências

BAZZO, Walter Antonio; PEREIRA, Luiz Teixeira do Vale. Introdução à Engenharia. Florianópolis: EDUFSC, 2009.

BAZZO, Walter Antonio; PEREIRA, Luiz Teixeira do Vale; VON LINSINGEN, Irlan. Educação Tecnológica: enfoques para o ensino de engenharia. Florianópolis:

EDUFSC, 2008.

CABRAL, C. G. UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica. O conhecimento dialogicamente situado: histórias de vida, valores humanistas e consciência crítica de professoras do Centro Tecnnológico da UFSC. Florianópolis, 2006. 205 f. Tese (Doutorado). Universidade Federal de Santa Catarina. Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica.

PACEY,

Económica, 1990.

Arnold.

La

cultura de

la tecnología. México: Fondo de Cultura

PALACIOS, Eduardo Marino García et al. Ciência, tecnología y sociedad: una aproximación conceptual. Madrid: Organizacíon de Estados Iberoamericanos,

2001.

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