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Fichamento_HALL_identidade Cultural e Diaspora

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Universidade Federal do Pará Programa de Pós Graduação em Artes Tópicos Especiais em Antropologia: Estudos Pós-Coloniais em Perspectiva Interdisciplinar

Docente: Prof. Dr. Agenor Sarraf Discente: Vanessa Simões

1- Dados bibliográficos do texto: HALL, Stuart. Identidade cultural e diáspora. In: Comunicação & Cultura, nº 01, 2006, pp. 21-35. 2- Sobre o autor: ―Stuart Hall nasceu em Kingston, na Jamaica, em 1932, mas se mudou para o Reino Unido em 1951, onde vive atualmente. Ele foi professor da Open University, na Inglaterra, entre os anos de 1979 e 1997. É um dos grandes nomes da área das ciências sociais, sendo conhecido e bastante respeitado na Europa e América do Norte. Suas obras representam uma grande contribuição para a área dos estudos culturais e estudos dos meios de comunicação, ganhando ainda destaque por tratarem de questões políticas e dialogarem com outros grandes autores como o também teórico cultural, Raymond Williams.‖ Fonte: http://revistaliter.dominiotemporario.com/doc/aidentidadeculturahall.pdf 3- Objeto de estudo A questão da identidade cultural negra representada dentro na nova cinematografia afrocaribenha. 4- Problemática Diante da nova cinematografia produzida por afrocaribenhos das diásporas do Ocidente, como entender as representações ali postas e as dinâmicas de identidade que elas configuram? 5- Objetivos - Analisar identidade como produção e não como fato, uma posição e não algo estático; - Reconhecer a identidade resultante do processo de diáspora pela ótica da diversidade e hibridismo cultural; - Analisar como a recente cinematografia produzida pelos afrocaribenhos revela novas representações e reconhecimentos (identificações) de uma dita identidade cultural construída em diáspora.

De acordo com os termos desta definição. daí o cinema.34 8. permitir-nos descobrir lugares a partir dos quais podemos falar‖ [. algo que nunca está completo.21  Concepção essencialista de identidade cultural ―Primeiro posicionamento define ‗identidade cultural‘ em termos de uma cultura indivisa mas partilhada. as nossas ‗identidades culturais‘ ‖. da representação. que encontra representação a posteriori em práticas culturais novas. mas como aquela forma de representação que é capaz de nos constituir como novos tipos de sujeitos e. Norris e Peter Hulme.] ―Eis a vocação das modernas cinematografias negras: ao darem-nos a possibilidade de ver e reconhecer as diferentes partes e histórias de nós próprios. enquanto ‗povo uno‘. não a partir de fora mas a partir de dentro da representação.Aporte teórico: O autor utiliza contribuições importantes do pensamento e obra de Franz Fanon. uma espécie de ‗verdadeiro modo de ser‘ colectivo. 7.Tópicos para o debate  Identidade como uma construção/ produção ―A identidade não é tão transparente ou desproblematizada como gostamos de pensar. Benedict Anderson. K. Por isso. e não fora. que as pessoas com uma história e ancestralidade em comum partilhariam. p.. aqueles posicionamentos a que chamamos. C.Tese:  Cinematografia negra como exercício de identificação a partir da elaboração de novas representações: ―Temos vindo a tentar teorizar a identidade como constituída. que é sempre processual e sempre constituído no quadro. um quadro de referências e de sentido que sob a mutabilidade . oculto no seio de muitos outros ‗modos de ser‘ mais superficiais ou impostos de forma artificial. permitem-nos construir aqueles pontos de identificação.6.. em vez de pensarmos na identidade como um facto. Este ponto de vista problematiza a própria autoridade e autenticidade que o termo ‗identidade cultural‘ reclama‖. não como um espelho de segunda ordem que ergue para reflectir o que já existe. talvez devamos pensar na identidade como uma ‗produção‘. Mercer. retrospectivamente. p. além de Edward Said. as nossas identidades culturais reflectiriam as experiências históricas comuns e os códigos culturais partilhados que nos forneceriam. dessa forma.

23 .23 ―As ‗histórias ocultas‘ desempenharam um papel fundamental na emergência de muitos dos mais importantes movimentos sociais dos nossos tempos — nas correntes feministas. p. reunificação imaginária‖. testemunham o ininterrupto poder criativo desta concepção de identidade adentro das práticas emergentes de representação. a unidade fundamental dos povos negros que a colonização e a escravatura se encarregaram de espalhar por toda a diáspora africana. As fotografias que Francis tirou aos povos do Triângulo Negro.22  Papel desempenhado pela concepção essencialista de identidade em sociedades póscoloniais ―Em sociedades pós-coloniais. p. nas Caraíbas. em termos visuais. tentam reconstruir. bem como a de um artista visual como Armet Francis (um fotógrafo natural da Jamaica que vive em Inglaterra desde os oito anos). A obra fotográfica de toda uma geração de artistas jamaicanos e rastafarianos.. tanto perante nós próprios como perante os outros‖. p. imutabilidade e continuidade‖.das divisões e vicissitudes da nossa história concreta. uma era bela e esplendorosa cuja existência nos reabilitaria. com as quais podem confrontar-se as formas fragmentadas e patológicas em que essa experiência tem sido reconstruída no quadro dos regimes dominantes de representação cinematográfica e visual do Ocidente‖. iluminando as continuidades escondidas que aquela suprimiu? Ou implicará uma prática bastante diferente — não a redescoberta mas a produção de identidade. O texto do fotógrafo é um acto de. a redescoberta desta identidade é muitas vezes objecto daquilo que Frantz Fanon descreveu como uma investigação apaixonada. nos EUA e no Reino Unido. da resignação e da retractação. recolhidas em África. p. Não uma identidade fundada na arqueologia mas na renarração do passado?‖ p.23 ―Crucial é o facto de estas imagens constituírem um modo de impor uma coerência imaginária à experiência da dispersão e da fragmentação que é a história de todas as diásporas forçadas‖.23 ―Constituem fontes de resistência e identidade. p. motivada pela secreta esperança de descobrir. se caracterizaria pela estabilidade. para lá da infelicidade de hoje. para lá do desprezo pelo que nos é próprio. anticoloniais e anti-racistas.22 ―A questão que a observação de Fanon coloca é a de saber qual a natureza desta ‗investigação profunda‘ que motiva as novas formas de representação visual e fílmica? Tratar-se-á apenas de pôr a descoberto aquilo que a experiência colonial enterrou e escondeu..

tempo. Daí haver sempre uma política da identidade. p. Porém. assim como alguma continuidade. mas tiveram ainda o poder de fazerem com que nos víssemos e vivêssemos os a experiência de nós próprios como o "Outro"‖. Há que pensar as identidades caribenhas sempre em termos da relação dialógica entre estes dois eixos. . que está à espera de ser descoberto e que. Longe de se fixarem eternamente num qualquer passado essencializado. Esses regimes não só nos configuraram — no sentido "orientalista" — como diferentes. p.24  Identidade como posicionamento ―As identidades culturais são os pontos de identificação. os pontos instáveis de identificação ou sutura. história e cultura. têm histórias. uma política do posicionamento. da cultura e do poder.25  Identidade caribenha constitui-se de continuidades e descontinuidades ―Talvez possamos pensar as identidades caribenhas negras num "enquadramento" constituído por dois eixos ou vectores. As formas como se posicionaram e se sujeitaram os negros e as experiências dos negros nos regimes dominantes de representação foram o resultado de um exercício crucial de poder cultural e de normalização.24  Experiência da diáspora caribenha dialoga com a segunda concepção de identidade ―Só a partir desta segunda posição podemos entender adequadamente o caráter traumático da "experiência colonial". a operar em simultâneo: o vector da semelhança e da continuidade e o vector da diferença e da ruptura. Longe de se fundarem numa mera "recuperação" do passado. assegurará para todo o sempre a estabilidade do nosso sentido de nós próprios. estão sujeitas ao contínuo "jogo" da história. dentro das categorias do conhecimento do Ocidente. que não encontra garantia absoluta numa "lei da origem" que seja desproblematizada e transcendental‖. Não são uma essência mas um posicionamento. tal como acontece com tudo o que é história também elas sofrem transformações constantes. As identidades culturais vêm de algures. uma vez encontrado. que se concretizam adentro dos discursos da história e da cultura. p. as identidades são os nomes que damos às diferentes formas como somos posicionados pelas narrativas do passado e como nos posicionamos dentro delas‖. Concepção de identidade pela ―diferença‖ ―Não é algo já exista e transcenda lugar. como o outro. O segundo lembra-nos de que o que partilhamos é precisamente a experiência de uma profunda descontinuidade: os povos arrastados para a escravatura. O primeiro proporciona-nos algum enraizamento no passado.

26-27  ―Differánce‖ por Derrida compõe-se dos sentidos de ―diferenciar‖ e ―diferir‖ (adiar) ―na medida em que ‗diferenciar‘ se vai matizando em ‗diferir‘. de modo a incluir outros significados adicionais ou suplementares que. binária — ‗passado/presente‘.25  Perceber a diferença mesmo na continuidade ―A diferença. Cada um negociou a sua dependência económica. a vacilar.27-28 . a escravatura.] ―Este segundo sentido de diferença desafia os binarismos fixos que estabilizam o significado e a representação e mostra como o sentido não está nunca acabado ou completo. ‗o mesmo‘ ‖. [. como Norris afirma num outro texto. p. em grande medida.o transporte forçado.. a colonização e a migração vieram predominantemente de África‖.. [. portanto. as fronteiras são re-situadas‖.26  Jogo da diferença na idéia de identidade ―Como descrever então este jogo da ‗diferença‘ dentro da identidade? A história comum . E esta ‗diferença‘.para o transporte forçado. as fronteiras da diferença estão em constante reposicionamento em relação a diferentes pontos de referência.. Sem relações de diferença..26 ―Por outro lado. pois unificou-nos para lá das nossas crenças. a colonização . Há que não esquecer que a inscrição da diferença é específica e decisiva‖.foi profundamente formativa para todas estas sociedades. p. 1997: 15). p. ser representado. não mantemos a mesma relação de alteridade com todos os centros metropolitanos.] ―Este "jogo" cultural não pode. Porém. p. persiste. metafórica e literalmente. o que se constitui assim dentro da representação está sempre sujeito a ser diferido. portanto. Porém.. está já inscrita nas nossas identidades culturais‖.] ―Além disso. somos. Em lugares e momentos diferentes.. Perante o Ocidente desenvolvido. quer queiramos quer não. visto que ela foi. na ideia de que o sentido é sempre diferido‖ [. mantendo-se pelo contrário em movimento.. não constitui uma origem comum. ‗eles/nós‘ A sua complexidade ultrapassa esta estrutura binária de representação. política e cultural de forma diferente. p.. não haveria representação. uma tradução. em termos cinematográficos.na e a par da continuidade.. a ser serializado‖. quando em relação com questões diferentes.] perturbam a economia clássica da linguagem e da representação» (Norris. Regressar às Caraíbas após uma longa ausência é voltar a sentir o choque da "duplicidade" da semelhança e da diferença‖. como uma oposição simples. [.

da paragem contigente e arbitrária . em vez de arbitrário e contigente. os Jamaicanos descobriram que eram ‗negros‘ — assim como. Isto em nada diminui a argúcia original.] ―O facto de lhe pertencermos constitui aquilo que Benedict Anderson . Nesse momento histórico. a Présence Européenne e a terceira e mais ambígua de todas as presenças . nunca ouvi ninguém referir-se a si próprio ou a outros como sendo — ou tendo sido nalgum momento do passado -. se a significação depende do infinito reposicionamento dos seus termos diferenciais. para lá da conclusão arbitrária que o torna. permaneceu e permanece a ‗presença‘ interdita e indizível da cultura caribenha. p. por assim dizer. Esta era — é — a «África» que «está viva e de boa saúde na diáspora» (Hall e Jefferson: 1976)‖.. irrevogavelmente aquilo a que Edward Said chamou uma «geografia e história imaginativas» que ajudariam «a mente a intensificar o seu sentido de si própria ao dramatizar a diferença entre o que lhe está próximo e o que está longe‖ [. sendo que eu entendo qualquer posição deste tipo como ‗estratégica‘ e arbitrária. Apenas pode parecer fazê-lo e treslermos este "corte" na identidade . de cada meandro narrativo da vida.. pelo menos.―Onde entra.como um "fim" natural e permanente. o significado depende.] ―Pois. para nós. num dado momento. "africano". a identidade neste infinito adiamento do sentido?‖ [.28  3 presenças fundamentais nas identidades culturais caribenhas ―Com esta concepção de "diferença". em particular.. É o código secreto com que se "releram" todos os textos ocidentais. é possível repensar os posicionamentos e reposicionamentos das identidades culturais caribenhas em relação a. de alguma forma.29 ―Ela pertence. _ ‗Esconde-se‘ por detrás de cada inflexão verbal. cultural caribenha. para utilizar a metáfora de Aimée Cesaire e Leopold Senghor: a Presénce Africaíne..a "pausa" necessária e temporária na infindável semiosis da linguagem.. O significado continua a desdobrar-se. três ‗presenças‘. descobriram ser os filhos e filhas da ‗escravatura‘ ‖. possível‖. p. embora quase toda a gente à minha volta tivesse a pele em tons de castanho ou negro (África ‗fala‘!). Foi só nos anos 70 que esta identidade afro-caribenha ficou historicamente disponível para a grande maioria do povo jamaicano.] ―África. tanto na Jamaica como no estrangeiro. p. e o seu verdadeiro significado como tal..este posicionamento que torna possível o significado . num dado momento. É o basso ostinado de todos os ritmos e movimentos corporais. então. na medida em que não existe uma equivalência permanente entre frase que concluímos. no mesmo momento.o termo instável: Présence Americaíne‖ [.28 ―Porém. o significado que não podia ser representado directamente durante a escravatura.

31 ―A terceira presença. com outros elementos culturais. não é tanto poder. franceses. as literaturas de aventura e exploração. naturais das índias Orientais. da Ásia e Europa. o olhar etnográfico e viajante.32 . Aparece sempre-e-já crioulizado . americanos. Aparece sempre-já fundido. colocou o sujeito negro dentro dos seus regimes dominantes de representação: o discurso colonial. subdesenvolvimento. judeus. chineses. em Black Skin. dos Aruaques. Nenhum dos povos que agora ocupam as ilhas — negros. Não há como voltarmos literalmente a casa. para esta ‗África‘ que é uma parte integrante do imaginário caribenho‖. território. White Masks.30 ―A ‗Europa‘ pertence irrevogavelmente ao ‗jogo‘ do poder. das brochuras de viagens e de Hollywood e as linguagens violentas e pornográficas da ganja e da violência urbana‖. p. dos Caraíbas e Ameríndios. ao papel do dominante na cultura caribenha. p. sincretizado. holandeses – ‗pertencia‘ lá originariamente.não perdido algures na rota atlântica mas omnipresente: desde as harmonias nas nossas músicas ao basso ostinato de África. pobreza e racismo. de todas as outras partes do globo colidiram. brancos. africanos. é mais solo. a terra ‗vazia‘ (os colonizadores europeus esvaziaram-na) em que estranhos. 1982). colonização e conquista‖. às linhas de força e de consentimento. foi a presença europeia que. com e contra a Présence Européenne é quase tão complexo como o ‗diálogo‘ com África. as linguagens tropicais do turismo. das deslocações originadas pela escravatura. p. na representação visual. primeva. É a encruzilhada em que os muitos principais tributários culturais se encontram. que este poder se tornou um elemento constitutivo das nossas próprias identidades‖. povos que foram permanentemente deslocados das suas terras natais e dizimados. portugueses. atravessando e intersectando as nossas vidas em cada um dos seus pontos‖. O Novo Mundo é o terceiro termo – o cenário primordial – em que se encenou o encontro fatídico/fatal entre África e Ocidente.31 ―O diálogo de poder e resistência. europeus. castanhos.designou por «uma comunidade imaginada» (Anderson. a do ‗Novo Mundo‘. É o espaço onde se negociaram as crioulizações e assimilações e sincretismos. de recusa e reconhecimento. dos demais povos deslocados de maneiras diferentes de África. Acresce que tem de entender-se este espaço como lugar de muitas e contínuas deslocações: dos originários habitantes pré-colombianos. lugar. p.31 ―Frantz Fanon recorda-nos. Em termos de vida cultural de cariz popular não se encontra em lado nenhum na sua forma pura. a sedução do exótico. Em termos de colonialismo. p.

por hibridismo. a todo o custo. do hibridismo e da diferença. As identidades da diáspora são aquelas que jamais deixam de se ir produzindo e reproduzindo pela transformação e pela diferença‖.33 . de regressar. por uma concepção de ‗identidade‘ que vive com e pela diferença. da diversidade. daquilo que faz do povo afro-caribenho já um povo da diáspora. p. mesmo que isso signifique empurrar outros povos para o mar‖ [... portanto. e não apesar dela. mas pelo reconhecimento de uma heterogeneidade e diversidade necessárias. Diáspora entendida pela diferença ―A presença do ‗Novo Mundo‘ — a América. Utilizo aqui este termo de forma metafórica e não literal: diáspora não nos remete para as tribos dispersas cuja identidade só pode ser garantida na relação com uma qualquer pátria sagrada a que têm. Terra Incognita — constitui. não pela essência ou pureza.] ―A experiência da diáspora como a entendo aqui é definida. o próprio início da diáspora.

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