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A IMPORTÂNCIA DOS MANUSCRITOS DE KREUZNACH NA GÊNESE DA ONTOLOGIA MARXIANA

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A IMPORTÂNCIA DOS MANUSCRITOS DE KREUZNACH NA GÊNESE DA ONTOLOGIA MARXIANA1 Frederico Costa A história intelectual de Marx inicia-se em 1841 com

sua tese de doutorado2. Até então seus textos não são significativos, no sentido de não indicarem a originalidade de seu pensamento. Com o fracasso de seu projeto inicial, de ingressar na vida acadêmica, Marx abraça a carreira de jornalista profissional. Entre 1842 e 1843, torna-se colaborador do órgão oposicionista Rheinische Zeitung3, tornando-se, em finais de 1842 e início de 1843, uma das figuras centrais do periódico, que é proibido nesse mesmo ano. Com o encerramento das atividades do jornal, Marx compreende os limites de sua atuação na Alemanha 4. Em meados de 1843, resolve sua vida na Alemanha, casa-se e transfere-se para Paris, aonde chega em fins do mesmo ano. Nesse curto período, sua reflexão dá um salto de qualidade, indicando a perspectiva de uma nova racionalidade, condizente com a emergência do proletariado como sujeito de interesses históricos diversos da burguesia5. No segundo semestre de 1843, entre agosto e outubro, quando está em processo de transferência para Paris, Marx passa algum tempo em Kreuznach, numa espécie de lua-demel, e redige o denominado Manuscrito de Kreuznach6. A importância desse texto, na conformação do marxismo, está em ilustrar o momento em que Marx inicia sua trajetória de pensador original. A partir desse texto é
1 A natureza deste texto vincula-se à necessidade de um movimento de retorno a Marx para compreender o mundo e efetivar sua mudança radical. Também, expressa o contato com as palestras do Prof. Dr. José de Paulo Netto, o nosso estudo dos textos juvenis de Marx e as ricas discussões surgidas no grupo de estudo Fundamentos do Marxismo do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário – IMO. 2 Nesta tese Marx discute as filosofias da natureza de Demócrito e Epicuro, permeada pelo contexto do pensamento alemão dos anos trinta e quarenta do século XIX, isto é, a herança hegeliana. Apesar de seu intento estar marcado pela interpretação hegeliana do desenvolvimento da filosofia, isso ocorre num contexto de crise e dissolução do hegelianismo: “... no momento em que escreve a tese, Marx está inteiramente voltado para o problema da crítica da religião. Trabalha, na mesma época, num panfleto contra a idéia de divindade e numa crítica à teologia de G. Hermes; admira o Tratado teológio-político de Espinosa - com quem aprende que toda concepção teológica é teológico-política; e projeta fundar, juntamente com Bruno Bauer e Feuerbach, uma revista intitulada Arquivos do Ateísmo” (PESSANHA, s/d: 13). 3 Gazeta Renana, que “... foi fruto de um casamento de curta duração entre o hegelianismo de esquerda e a burguesia liberal”(LÖWY, 2002: 55). 4 A situação da Alemanha na passagem do século XVII para o XIX é, freqüentemente, definida pelos historiadores como caótica. O despotismo de alguns governantes fazia-se sentir sobre a nação, que, fragmentada, era submetida a inúmeros despotismos de segunda ordem e que competiam entre si. Formado pela Áustria e pela Prússia, pelos príncipes-eleitores, por noventa e quatro príncipes eclesiásticos, por cento e três barões, quarenta prelados e cinqüenta e uma cidades imperiais, o país compunha-se de aproximadamente trezentos territórios independentes. O governo central não possuía um único soldado e sua renda chegava, quando muito, a alguns milhares de florins. Não havia jurisdição centralizada, predominava ainda a servidão e a censura era aplicada drasticamente. Qualquer leve tomada de consciência era reprimida com rigor. Interessante notar que a Alemanha atual é resultante da hegemonia prussiana obtida na década de 1870. No período tratado, o que existia era uma confederação de estados germânicos, com vínculos frágeis entre si, mas subordinados à opressão prussiana. O quadro político, de ausência de liberdades democráticas, era resultante da não realização, até então, da revolução burguesa na Alemanha. É nesse contexto, que amadurece uma certa oposição intelectual. 5 Os tecelões da Silésia, em 1843-44, se rebelam e é a primeira manifestação significativa de um novo ator social. O impacto do levante é um demarcador na vida cultural alemã. Heine compõe um poema que se transformará numa espécie de manifesto literário contra o estado das coisas na Alemanha É exatamente entre os estudos de 1843 e os textos de 1844, que o proletariado começa a tomar forma no horizonte teórico de Marx. 6 Tal texto não foi produzido para a publicação. Passaram praticamente oitenta e cinco anos para que esse material fosse publicado. Tendo obtido o manuscrito, conservado nos arquivos da social-democracia alemã, David Riazanov, uma das vítimas da contra-revolução stalinista, o incluiu no primeiro volume das “Obras” de Marx e Engels de 1927, com o título de “Para a crítica da filosofia do direito de Hegel”.

que procura sintetizar a dinamicidade do ser em sua integridade. O mérito essencial de Hegel reside nessa sua capacidade de sintetizar e elevar a um nível superior todos os momentos progressistas do pensamento burguês revolucionário. a gestação de uma nova forma de fazer filosofia e ciência. de sua atividade coletiva. o de uma racionalidade objetiva imanente ao desenvolvimento da realidade (que se apresenta sob a forma de unidade dos contrários). Engels. desdobrando-se até o presente. Em meados da década de trinta começa a crise e dissolução da escola hegeliana. ou seja.. 1. a afirmação do caráter ontologicamente histórico da realidade. A história poderia ser tratada como aberta. ao mesmo tempo em que apreende o ser como processualidade. Essa crise se manifesta inicialmente por uma dupla leitura de Hegel. ou seja. categorias que constituem o legado imperecível dessa grande época da humanidade para o conhecimento do real. as provenientes do “saber imediato” (intuição) e do “entendimento” (intelecto analítico) (COUTINHO. No entanto. . e aquele das categorias capacidades de apreender subjetivamente essa racionalidade objetiva. Hegel confina este movimento na elaboração de um sistema concluso. duas décadas após sua morte. a caracterizará como uma contradição 7 Isto porque. ele não poderia conceituar como algo irreprimivelmente aberto. termina pelo enaltecimento do Estado e. de um sentido significativamente global” (idem. o historicismo concreto.. Se a Alemanha não realiza a revolução no plano político-econômico. em três núcleos: o humanismo. Hegel e a crise do hegelianismo Hegel é no mundo pós-Renascimento. que busca com rigor. que gravitarão os debates filosóficos-políticos até. 1972: 14-15).. É em torno do seu legado. o qual. 8 “. o que se expressa bem na tese de “fim da história”7. na esfera política. a Razão dialética. isto é.. com a conseqüente defesa do progresso e do melhoramento da espécie humana. Mesmo que tal ruptura com o passado e seu contexto cultural não se tenha apresentado consumada. Hegel foi também um contemporâneo da Revolução Francesa de 1789 e de todos os levantes sem precedentes históricos que a seguiram – dotados pela primeira vez na história. finalmente. em última instância: “. categorias que englobam. Os determinantes ideológicos de sua posição estipulavam a necessidade de conciliação com o presente e daí o arbitrário encerramento da dinâmica histórica no quadro da ‘sociedade civil’ capitalista e de sua formação do Estado. sistematicidade e radicalidade. a teoria de que o homem é um produto de sua própria atividade. Apesar de ser apenas o passo inicial da definição teórica de Marx. Mesmo com essa contradição imanente.. por meio das reflexões filosóficas de Hegel é contemporânea da revolução burguesa8. Podemos resumi-los. aproximadamente.) que podemos indicar. Com isso. em seu duplo aspecto. apreender o ser enquanto movimento. 2002: 55). o primeiro filósofo. e muito menos socialmente. no plano teórico. por uma tão completa realização do ser que o suprime como movimento. com todas as suas inevitáveis limitações. mas cujas portas voltadas para a direção de um futuro radicalmente diferente teriam que continuar fechadas” (MÉSZÁROS. Hegel se identificava com o ponto de vista do capital. esquematicamente. A filosofia hegeliana é a primeira concepção global da história. Isso porque: É precisamente em Hegel (. mais tarde. nos anos mais importantes de sua formação intelectual. superando.possível ser datado o surgimento de um processo intelectual radicalmente novo. realizando um balanço do pensamento hegeliano. que ocorre em 1831.. a filosofia de Hegel é dominante na primeira metade do século XIX na Alemanha. as categorias essenciais daquilo que chamamos de tradição progressista. 2002: 61). sem ele é impossível compreender a gênese do marxismo como uma ontologia de novo tipo. e. em toda sua riqueza de determinações.

expressando as contradições da realidade alemã. colocando-se o fim da história no [facto] de a humanidade chegar ao conhecimento. O método hegeliano seria revolucionário por revelar a transitoriedade de todas as formas do ser. com Feuerbach em A essência do cristianismo. O movimento da razão em direção à realidade. mas um momento a ser necessariamente negado pelo movimento da idéia em sua marcha inexorável rumo à plena racionalidade (FREDERICO. Desse antagonismo imanente ao pensamento hegeliano surgem duas vertentes básicas. ou seja. Feuerbach era rigorosamente hegeliano enquanto modelo de elaboração intelectual. ao notar sua precariedade. se constitui um grupo de jovens contestadores que: . o real é racional”. De um lado. situam-se aqueles discípulos. precisamente.. o que representava a substância do desenvolvimento histórico. como por exemplo. que. sem deixar de ser natureza. alguns anos depois. o ponto final da história. a filosofia hegeliana sanciona o “espírito absoluto” -. Se tudo o que existe é racional. que farão uma leitura conservadora. é também espírito. com isto. o lado revolucionário fica abafado sob o [lado] conservador que [o] asfixia. 1985: 382). pela vinculação do poder estatal à Igreja. verdadeiro sujeito. Porém. ou seja. em última análise. simultaneamente. que encontrará sua grande expressão. De acordo com essa leitura. Começa então o movimento progressivo de profanação da religiosidade. mas sim um ente real. em contradição com o seu método dialético dissolvente de todo o dogmático [ alles Dogmatische]. o que atenta ou questiona o existente vai contra a razão. porém. Nesses termos. declara-se. . isto é. E o que vale para o conhecimento filosófico. tal postura teórica é legitimadora do que está posto. para mostrar que o momento da racionalidade ainda não tinha chegado e que ele só se efetivaria mediante a negação do existente e toda a sua gritante irracionalidade. subverte inteiramente os termos da problemática hegeliana . exige a superação do presente: este não é de forma alguma.. em 1841. tem-se a determinação do caráter alienado desse “espírito absoluto”. E exatamente por sê-lo. 1995: 23-24). a crítica feuerbachiana à religião e sua extensão à filosofia de Hegel: . representam a substituição do Absoluto (Deus ou Idéia) pelo homem real. 1977: 91). acabava aprisionando essa transitoriedade do real em uma “camisa-de-força” finalística. Como resultado. Essa ala esquerda do hegelianismo aplicou o método. a esquerda hegeliana se manifestava aplicando o método à análise da religião. cria um Deus no qual projeta sua aspiração à eternidade e à perfeição (VÁZQUEZ. ele é um produto dos homens. vontade e sentimento. a denominada direita hegeliana. o caráter não laico do Estado. era essa consciência comunitária. onde criticava a identificação feita por Hegel do conteúdo da filosofia e da religião e demonstrava que eram as tradições mitológicas das primeiras comunidades cristãs que constituíam a fonte e. 9 “Nomeadamente. No entanto. por estar dotado de razão.entre o método e o sistema9. exatamente sobre o que era o sinal mais explícito da ausência de revolução burguesa na Alemanha.. da enigmática frase: “o racional é real. que para Feuerbach já não é propriamente um predicado do espírito. Em síntese. Com isto. daquela Idéia absoluta e de se declarar que esse conhecimento da Idéia absoluta é alcançado na filosofia de Hegel. Para ele. vale também para a prática histórica” (ENGELS. aquilo que existe o é conforme a razão. o conteúdo dos Evangelhos.preferiram enfatizar o racional para contrapô-lo às mazelas da realidade.. precisamente. é sancionado por ela. A evidência do atraso alemão era dada. em Feuerbach. Mas.uma vez que. Evidentemente. e não o “espírito absoluto”. portanto. o sistema por ser conservador. todo o conteúdo dogmático do sistema de Hegel como verdade absoluta. Em 1835 David Strauss publica a Vida de Jesus.

nele a liberdade obtém o seu valor supremo. efetuada com a direta intervenção de Frederico Guilherme IV. A problemática política e a evolução teórica de Marx Em 1821. e dá um golpe nos jovens hegelianos nomeando para reitor da Universidade de Berlim Schelling 10. o naturalismo e a luta contra o obscurantismo da ala esquerda hegeliana abriram os caminhos para crítica da política. Assim. Aquilo que. mais exatamente a partir da expectativa que a sociedade mantinha em relação a ele. irá determinar uma apreciação irracionalista do mundo.]” (HEGEL. Hegel partia da idéia de que o Estado é a instância fundante e compreensiva da sociedade civil11. portanto da conflituosidade. Em linhas gerais. que não nutria nenhuma simpatia por essa postura teórica. expressão ideológica da negação do pensamento dialético e histórico. Porém. perpetrado pela esquerda hegeliana. no sentido de pensar uma filosofia da revelação e da intuição. imóvel.O Estado seria o elemento regulador. O ateísmo. . De fato. sua marca está em incorporar teoricamente o Estado que se estrutura na Europa entre o Diretório . 12 “258 – O Estado. Daí ser esse o eixo da reflexão marxiana de 1843.e o Congresso de Viena. alcançando o ápice com a expulsão de Herweg e com a interdição. a discussão política posta na ordem do dia passa a girar em torno do Estado prussiano. que seria própria da sociedade civil.derrota dos segmentos mais revolucionários da revolução burguesa na França . necessidade exterior e poder mais alto [. a partir de Locke. estreitamente compatível com o obscurantismo do sacro império alemão. Pois. segundo Hegel. 1997: 226). 11 “261. como realidade em ato da vontade substancial. o grande teórico liberal...Em face do direito privado e do interesse particular. 2. O Estado que Hegel figura 10Inicialmente amigo e colaborador de Hegel na juventude. passou a ser conhecido como a relação entre Estado e sociedade civil. pela razão bastante simples de que o mestre dava nessa obra uma solução original a um problema central do pensamento político moderno. nos dois anos seguintes. o Estado é. discutir o Estado prussiano era se confrontar inevitavelmente com a teoria política hegeliana. de todas as publicações liberais (e a sua apreensão quando editadas no exterior) (NETTO. Demonstração disso foi dada pelo monarca prussiano Frederico Guilherme IV. transitava inevitavelmente para uma crítica da política. em Hegel encontra-se uma apologia do Estado 12. Essa obra. realidade que esta adquire na consciência particular de si universalizada. da família e da sociedade civil. instaurador e mediador da sociedade civil. por um lado. 2004: 19).No contexto histórico da realidade alemã. Hegel publica sua Filosofia do Direito. superando as contradições postas pelos interesses particulares. tornou-se objeto de culto da ala direita do hegelianismo. e assim este último fim possui um direito soberano perante os indivíduos que em serem membros do Estado têm o seu mais elevado dever” (idem. do século XIX. E. a fratura entre os jovens hegelianos e o Estado prussiano torna-se irrecorrível: em março de 1842 Bauer é excluído da universidade e as medidas repressivas e policiais multiplicam-se. que ascende ao trono em 1840. quando rompem. A reflexão hegeliana não cria uma utopia estatal. não para aí: A face real do tacão prussiano mostra-se primeiro em 1841 e já se dirige contra os jovens hegelianos: Bauer tem seus cursos proibidos em Berlim. 1997: 271). o movimento de crítica à religião. é o racional em si e para si: esta unidade substancial é um fim próprio absoluto. Para ele é a organização do Estado que permite a ultrapassagem do reino da miséria e da delinqüência. até 1805/1806. O que não deixou de ser percebido pela reação. o das relações entre as instâncias jurídico-políticas e o conjunto da vida social. o primeiro passo para criticar o Estado na confederação germânica era a crítica à religião. da maturidade hegeliana. o que no limite. passando Schelling a involuir. Mas.

sustentou com a Rheinische Zeitung sobre a situação dos camponeses do Mosela e. a polêmica oficial que o Sr. a perspectiva de uma transformação da realidade alemã na década de quarenta do século XIX. As deliberações do Landtag renano sobre os roubos de lenha e divisão da propriedade imobiliária. capaz de totalizar a dinâmica sócio-política e garantir que os interesses particulares não se autodestruíssem. o Estado tal qual se apresentava em seu tempo. No seu conceito reside a condição de que seja natural. no seu ponto de vista. 1997: 259). Assim. na verdade. em última instância. Von Shaper. 1997: 266-267). na qualidade de redator da Rheinische Zeitung. discutir o Estado prussiano era discutir a filosofia do direito de Hegel. não com os pensadores liberais clássicos. o Estado burguês. não é um elemento negativo. portanto colegialmente organizadas” (ibidem. ele acabava por sancionar um Estado com alguns traços de natureza corporativa. encontrei-me pela primeira vez na obrigação embaraçosa de dar a minha opinião sobre o que é costume chamar-se interesses materiais. É precisamente uma instância que seria capaz de garantir a universalidade do Estado: “A conservação do interesse do Estado e da legalidade entre os direitos particulares. o que estava posto em jogo eram os destinos do presente. 1997: 243). Marx não encontrou nenhuma proteção ideal ou nenhum conjunto de requisições abstratas. em termos funcionais. Então. Detrás desse quadro cultural. por funcionários executivos e também por autoridades mais elevadas com poder deliberativo. na figura do monarca15 e. Pronunciei-me contra este trabalho de aprendiz. 1997: 269). no desempenho da burocracia 16. o confronto com Hegel era uma exigência do problema que Marx se punha neste momento de sua evolução. fez-se ouvir na Rheinische Zeitung um eco do socialismo e do comunismo francês. Sob esse aspecto. a organização do Estado e o processo de sua vida orgânica em relação consigo mesmo. como Maquiavel. esta por conseguinte. apesar de lhe oferecerem algumas sugestões de reflexão e pistas de ação política. . numa controvérsia com a Allgemeine Augsburguer Zeitung. 15 “280 – 3) É em tal forma abstrata e simples que consiste esta individualidade suprema da vontade do Estado. mas encontrou a própria razão de Estado de seu tempo. nesta época em que o desejo de “ir para frente” substituía freqüentemente a competência. Marx não se reconhecia em nenhuma das tendências políticas da esquerda hegeliana que se esboçavam naquele tempo. nesta fase de transição orbitava em torno de algumas questões: Em 1842-183. e este indivíduo destina-se à dignidade de monarca de um modo imediatamente natural. por uma iluminada camada burocrática14. Neste processo distingue o Estado os seus elementos no interior de si mesmo e os desenvolve em existência fixa” (ibidem. Locke. finalmente. ao contrário de outros teóricos da política. O que. mas ao mesmo tempo confessei abertamente. ligeiramente contaminado de filosofia. A reflexão marxiana. Nesse sentido. 14 A burocracia. Marx. 16 “293 – As diferentes funções do Estado que a monarquia atribui às autoridades constituem uma parte uma parte da face objetiva da soberania emanada do monarca” (idem. embora Hegel insistisse no papel da Constiuição 13. por nascimento” (Hegel. Hegel é um defensor da monarquia constitucional. pelo contrário. Por isso. Não trabalha uma utopia. Nesses termos. mas com Hegel. os debates sobre o livrecâmbio e o protecionismo.idealmente é. em Hegel. para Hegel. forneceram-se as primeiras razões para me ocupar das questões econômicas. tinha que se confrontar. Hegel vai depositar a garantia da universalidade. se adequava a um Estado burocrático-feudal como o prussiano. confere uma sanção teórico-filosófica a um Estado existente. que os 13 “271 – A constituição política é. a redução destes àqueles exigem uma vigilância por representantes do poder governamental. cuja universalidade estaria garantida. o problema político central embutido na relação Estado e sociedade não era nada mais do que a requisição da garantia da universalidade do Estado. individualidade imediata. Seu trabalho era uma legitimação monárquica. Por isso o monarca em quanto tal é essencialmente indivíduo que está fora de qualquer outro conteúdo. Hobbes. em primeiro lugar. em termos substanciais. para entender o presente. Montesquieu e Rousseau. então primeiro presidente da província renana. Por outro lado.

Marx se vê diante disso e confessa explicitamente que ainda não tem condições de tomar essas posições porque desconhece a literatura sobre o socialismo. combinando organicamente demandas da ação com requisições teóricas. a camada camponesa. Esse problema se põe para Marx quando. Quando Marx estava trabalhando no jornal. etc. cabetistas. há algo que Marx não consegue concretizar. que já estava em Locke e em outros pensadores da tradição política. Também. Essa escolha é bastante significativa. mas com o objetivo de ultrapassagem das estruturas sociais marcadas por classes. Assim. mas. materialistas e anti-religiosos” (LÖWY. Como solução Marx considerava a ação política capaz de conduzir a um Estado democrático19. mas ainda não sabe claramente 17 Além do contato com Moses Hess. Com isso. que já consideravam que a questão era o comunismo.estudos que tinha feito até então não me permitiam arriscar qualquer juízo sobre o teor das tendências francesas (MARX.] Proudhon e Dézamy parecem ser os únicos socialistas franceses dos quais se pode afirmar.) e. aceita o problema de Hegel a relação da universalidade do Estado com a particularidade dos interesses -. no plano do pensamento especulativo. também se põe a ele como um protagonista da luta sóciopolítica. “[. mas estabelecer uma crítica. trabalhar em um jornal. com uma certa dose de probabilidade. e esse organismo que em princípio responde pela universalidade dos direitos? Noutras palavras. Marx aceita a problemática hegeliana. enquanto a esquerda hegeliana incorporava toda uma concepção segundo a qual bastava construir referenciais ideais alternativos. este não se punha como um problema teórico – como problema teórico já estava inscrito na obra hegeliana -.. Outra questão é a das idéias comunistas. visto tratar-se de pensadores à margem das seitas utópicas e dogmáticas (saint-simonianas. A questão referida era a seguinte: como o Estado pode usar a força para reprimir ou impedir o uso de um direito. com a alteração não apenas da forma de distribuir riquezas. que foram lidos por Marx enquanto estava na direção de A Gazeta renana. Marx extrai um problema teórico. Marx rompe a partir de 1844. 2002: 67). mas como problema prático-político imediato. mas que estava dado há muito tempo aos camponeses? Como fica a relação entre uma parte. Em Marx. como fica a relação entre os interesses setoriais que operam na vida sócio-econômica e sua representação na instância do poder jurídicopolítico. políticos e econômicos de uma confederação germânica extremamente diversificada. é que em torno de Bauer. onde tem que responder aos conflitos sociais.. ele vê que estão fechadas suas possibilidades de acesso à universidade e vai. começam a ter eco na Alemanha algumas propostas socialistas de radical transformação social. todos os vínculos com Bauer. a combinação de reflexão e intervenção não é um apriorismo. Para Marx. No contexto das polêmicas. Por isso. 18 Exemplo disso. Marx não tinha só que noticiar. A última questão era que. não positivo. Marx vai procurar uma alternativa política. mas recusa a sua programática. Ele tem convicção do que recusa em termos de tradição conservadora. em 1841-1842. Marx se incompatibiliza com a tradição conservadora da leitura de Hegel. e a universalidade do poder político. principalmente o francês17. as transformações. as reformas. passa a gravitar um grupo de intelectuais que tendiam a fazer. No texto de 1843. emergentes na ordem civil. . portanto. a primeira questão era a relação entre os interesses privados. É interessante notar a singularidade da posição de Marx. fourieristas. se descola dos liberais e demarca com Feuerbach que menospreza essa ação. Marx. está longe de Engels e Mosses Hess. a solução deste. 19 Dessa forma. de que o Estado instaura. é uma condição de seu próprio modus de intervir e refletir. que estariam dadas as condições para alternativas reais18. surgem os primeiros pensadores que divulgam propostas socialistas. recusa de partida. Aquele problema. funda e compreende a sociedade civil. sobre o que ele não tem muita clareza. ao se confrontar com o texto de hegeliano. 1983: 23-24). o que nitidamente os separava da maioria dos socialistas franceses. que não operavam na realidade.

Marx indica a busca da racionalidade e substância do político no social. Essa é uma concreção posta. por um caminho que ele vai ser o primeiro a tomar. um caráter classista. não exaurindo o domínio do político nas formas sócio-políticas. Marx não nega apenas Há. mas também sugere que a compreensão do Estado implica a compreensão da sociedade civil e que. a crítica do político está hipotecada à crítica da ordem social. toda elaboração hegeliana reduz o político aos seus aspectos jurídico-políticos. porque é o único que para a compreensão da relação entre Estado e sociedade civil. É quando ele desloca a discussão das formas políticas do terreno exclusivo da forma jurídico-política. muito especialmente. Pois. É aí que surge um traço projetivo da temática essencial de que Marx vai se ocupar no resto de sua vida. fez muito mais. As Glosas de 43 são inconclusas. era uma crítica que não desdobrava o limite de uma crítica política do político. O elemento que destaca Marx de todos os seus contemporâneos da intelectualidade de oposição na Alemanha. Embora compartilhem traços neo-hegelianos.o que quer. não por requisição intelectual. também. Neste momento. Marx se distingue de todos aqueles pensadores. Sob esse aspecto. não apenas recusa a solução hegeliana – o Estado ordena e regula a sociedade civil – e inverte seus termos. Marx dá um passo fundamental. porque nele Marx apresenta um caminho alternativo para a elucidação da problemática hegeliana. O momento originário do perfil marxiano Marx operou um passo essencial na construção de uma nova perspectiva ontológica. E. com um caráter que até então não tinha. ao estabelecer a crítica a sua filosofia política. a sua filosofia do Estado. No texto de 1843. Como indica CHASIN: . para poder fazer uma análise do político. Marx consegue se demarcar do universo cultural alemão. Ao contrapor-se a Hegel. Marx passa a remeter a explicação e a compreensão da ordem jurídico-política à ordem social. mostrou um conjunto de incongruências e de incoerências que permeavam não só os resultados aos quais Hegel chegara. ele ensaia uma solução. mas por elementos do movimento social real. a crítica que esquerda hegeliana fazia a Hegel. Isso se tornou possível. E. por isso sua importância. mas por recusa. uma análise da sociedade. Em curtíssimo espaço de tempo. porque Marx transitou de um universo teórico para outro. Ao fazer um primeiro acerto de contas com o pensamento hegeliano. surge o traço diferencial em relação aos seus contemporâneos. 3. que a crítica da ordem política só se torna efetiva e radical se acompanhada da crítica a ordem social. não por proposta. Marx não apenas assinalou sua discordância com os resultados dessa concepção. Além de fazer uma série de críticas a Hegel. Marx vai apontar que a compreensão do político supõe a compreensão do social. isto é. ao fazer isso. pela primeira vez em questão. quando ele revela uma perspectiva que incide sobre o social. pela primeira vez. é que diante do problema que ele recolhe em Hegel. também um momento de construção. Há um traço profundamente revolucionário nessa sugestão que põe. mas aponta para a análise da sociedade civil. mas também o próprio fundamento de sua reflexão. É nesse instante que Marx torna-se original. Marx não só afirma que o Estado expressa a sociedade civil. No texto de 1843 já aparece o deslocamento da problemática. Marx iniciou uma revolução na filosofia e na ciência. porque registram o trânsito evolutivo de Marx. começa a se concretizar sua proposta. porém não aparece o seu tratamento. porque. sinalizam uma direção que não aparecia em nenhum deles.

vincado às ênfases e prioridades de um dado tempo e lugar (1995: 367). são activas. o arbítrio. sua inversão implicou na inauguração de uma ontologia materialista ou crítica. a sociedade civil. também. Neles percebe-se claramente uma inversão ontológica de cunho materialista. A crítica ontológico-materialista de Marx não se resume em afirmar que Hegel era um idealista. mas na especulação sucede o contrário. . a família. em primeiro lugar o procedimento teórico metodológico de Hegel. especialmente. Marx mostra todo o “misticismo lógico” presente em Hegel. sobre matéria política. Subverte a própria organização interna das categorias que apreende de Hegel. no verdadeiro sentido da palavra. O elemento central das Glosas de 43. Hegel não nega a faticidade. Para mais adiante dizer: A idéia é subjectivada. expressa a mais densa. todo seu empirismo que deriva na especulação. ela. mas só publicadas no Anedokta em fevereiro de 43. e Princípios da Filosofia do Futuro. com a concepção hegeliana de ser20. mas também da dialética abstrata e especulativa. longa e elaborada análise crítica relativa à especulação. MARX assinala: “Nesta passagem surge-nos claramente o misticismo lógico. finalmente. que nada mais é que o processo do pensamento. que provoca uma inversão não apenas da dialética idealista. demonstram as profundas limitações da leitura vulgar do que foi a chamada “inversão materialista” de Hegel feita por Marx. Essa substituição se dá com uma crítica radical dos procedimentos lógicos de Hegel. que põe como sujeito dos processos e dos movimentos reais o que ele denomina de “Idéia”. A relação real da família e da sociedade civil com o Estado é concebida como sua actividade interior imaginária. Marx não é um Hegel materialista. os sujeitos reais. E concluir: 20 Para isso Marx contou com os aportes da crítica ontológico-naturalista de Feuerbach: “A grande mudança irrompeu somente com a ‘revisão da filosofia do direito de Hegel’. é a ruptura de Marx com toda a tradição idealista alemã. é simples decorrência do próprio itinerário pessoal de Marx. além disso. Ora enquanto a idéia é subjectivada. panteísta” (s/d: 11). as “circunstâncias. que sustenta a crítica à filosofia política hegeliana. pelo processo material.Que a crítica ontológica tenha incidido. etc. não reais. Marx apanha. mas apanha-a de uma maneira peculiar. supondo que esta seja como que a manifestação e a expressão de uma idéia. Proudhon. tendo um sentido diferente (idem. A família e a sociedade civil constituem os pressupostos do Estado. Há uma desmontagem da dialética hegeliana tão radical. editados em julho de 43” (CHASIN. Os Manuscritos de Kreuznach. Assim. Marx não apenas põe de cabeça para cima e assenta os pés na materialidade o método hegeliano. iniciando-se com Hegel. Ao criticar o parágrafo 262. em primeiro lugar. Porém. 1995: 360). vai além. para Hegel. abarcando depois os hegelianos de esquerda e. também. não se trata de uma simples substituição do que era a “idéia” ou “espírito absoluto”.” transformam-se aqui em momentos subjectivos da idéia. o produtor da realidade é o pensamento. o demiurgo. É bom acrescentar que a importância da Crítica de Kreuznach não se resume apenas ao caráter inaugural da perspectiva marxiana. s/d: 11-12). Crítica que é realizada no decorrer dos anos quarenta. instigada por duas poderosas influências – o irresoluto desafio teórico encravado pelos ‘interesses materiais’ e os lineamentos feuerbachianos contidos em dois textos publicados exatamente à época: Teses Provisórias para a Reforma da Filosofia . O eixo do texto é uma polêmica clara com a elaboração hegeliana. é muito mais. escritas em abril de 42.

A reflexão hegeliana não é o puro pensamento. Na verdade. nessa perspectiva. e simultaneamente adquiram o significado de uma determinação da idéia. que aparece como uma espécie de desenvolvimento pensado do pensamento. Noutros termos.A diferença não reside no conteúdo mas sim na maneira de considerar ou na maneira de falar. mas esta condição é formulada como sendo o condicionado. em Hegel.Como é possível verificar ainda no comentário ao referido parágrafo: A finalidade de sua existência não mera existência (Marx aqui se refere ao Estado. como uma ‘repartição” da sua própria matéria. o arbítrio e a própria escolha do seu destino” não é apenas enunciada como constituindo o verdadeiro. o determinante como sendo o determinante. o desenvolvimento conceitual do próprio conceito. ambas constituem a sua condittion sine qua non. através de sua supressão. este é o movimento do exotérico. Hegel incorpora os fatos – sociedade civil e família -. não da idéia de multidão mas sim de uma idéia subjectiva diferente dessa mesma realização). É nessa relevância do exotérico. esotérica e exotérica. do pensamento – idéia. mas a lógica que preside essa incorporação não é lógica dos fatos mesmos. o justificado em si e para si. Porque em Hegel – e é este o núcleo da observação marxiana – o pensamento é sempre sujeito e a realidade é sempre predicado. eles são tomados como mediação da idéia. isto é. que sejam deixados tal como são. conceito -. é uma temática recorrente. Ao nos apropriarmos da noção marxiana de misticismo lógico em Hegel. a família e a sociedade civil: nota nossa). a discussão entre sujeito e predicado. da parte externa. “deles se compõe o Estado”. Mas é ao aspecto exotérico que cabe a tarefa de realizar o desenvolvimento propriamente dito (ibdem. “atribui portanto a essas esferas” (para atingir a sua finalidade) “a matéria desta sua realidade finita”(esta? Qual? Pois se estas esferas constituem a sua “realidade finita”. A idéia é. s/d: 12). se bem que nos surjam como uma mediação aparente. é a idéia que separa de si estes pressupostos “para surgir da sua idealidade como um espírito real e infinito para si”. Há como que uma atribuição de uma lógica à realidade. no que ele possui de mais substantivo. . (MARX. Mas. a especulação enuncia este acontecimento como uma realização da idéia. Nesse sentido. à sua infinitude em si e dela se apropriar. por outro lado. em suas relações empíricas. a atribuição da matéria do Estado “pelas circunstâncias. especialmente. Significa isto que o Estado político não pode existir sem a base natural da família e a base artificial da sociedade civil. “os indivíduos enquanto multidão” (a matéria do Estado é aqui “os indivíduos... são-no. o Estado surge da multidão tal como esta existe enquanto membros da família e da sociedade civil. é possível identificar que a idéia possui uma natureza lógica. a idéia só se rebaixa à “finitude” da família e da sociedade civil para dar origem. do sujeito que não é o sujeito real. a sua “matéria”!). o interesse da parte esotérica consiste em atribuir sempre ao Estado o desenvolvimento do conceito lógico. não são dados em si como constituindo o racional. do real como expressão da verdade filosófica. Todo este assunto apresenta uma forma dupla. a racionalidade dos fatos é exterior a eles. às suas duas esferas. é o pensar o desenvolvimento do pensamento. o produtor como sendo o produto do seu produto. para Hegel é o processo do pensamento que está na base do real. que percebemos a inversão especulativa. Quando há movimento.“No indivíduo”. esta sua existência é aqui expressa como uma obra da idéia. O conteúdo radica na parte exotérica. a multidão”. s/d: 13). o necessário. que se põem como objeto da reflexão. todo o texto. Não são os fatos em seu encadeamento. Assim.

s/d: 14). se a aparência dos fenômenos expressasse sua essência não haveria necessidade de investigação. mas sim no de poderem ser consideradas. com extrema acuidade. a aparência revela e oculta. pois faz parte do real. Essa oposição aparece porque Marx observa que Hegel encontra no seu objeto – nos fatos que ele recolhe. retomando inclusive categorias hegelianas na relação entre aparência e essência. tem um significado distinto de si mesmo. indica e despista. lhes atribui uma racionalidade que lhes é extrínseca. para MARX. como determinações lógico-metafísicas. a razão da lógica do pensamento. Essa verdade filosófica é sua lógica interna. Nisso consiste o empirismo. Há um tratamento empirista dos fatos e dos processos. Hegel cai na pura especulação. a partir da tomada efetiva do empírico.que não é mentirosa nem falsa. A essência das determinações do Estado não consiste no facto de estas serem determinações do Estado. Hegel cai em um dedutivismo que está paramentado pela especulação. o empírico é um nível necessário do real. O aspecto que se torna mais importante é o da lógica e não o da filosofia do direito: o trabalho filosófico não procura encarnar o pensamento em determinações políticas mas sim volatilizar as determinações políticas em pensamentos em pensamentos abstractos. na sua existência empírica. é enunciada como racional. Marx dirá. é a aparência do real. O empirismo reside na apreensão e na incorporação dos fatos tal como eles se apresentam. trata-se de descobrir a lógica do objeto: O conteúdo concreto. Para Marx. mas supõe que sua essencialidade. O acontecimento que serve como ponto de partida não é concebido como tal mas sim como um resultado místico (idem. é suportada pelo sujeito. não no seu encadeamento. não em si mesma mas porque o acontecimento empírico. O momento filosófico não é a lógica do objecto mas sim o objecto da lógica. Quando atribui aos fatos uma processualidade direcionada por uma instância da qual eles são apenas expressão. que deságua num certo panlogicismo. mas de um sujeito que estes expressariam. É de Hegel o mérito de tratar do Estado que pretende submeter sociedade civil e família. é o pensamento pensado que confere racionalidade àqueles fatos. Mas. o empirismo constitui uma polaridade com a especulação. Assim. surge-nos como formal. que o misticismo lógico. na sua forma mais abstracta. conduz Hegel a um empirismo21. considera os fatos tal como eles se dão empiricamente. Isso vai reaparecer no pensamento de Marx. em uma redução dos processos reais a processos lógicos. Então é preciso. A lógica não serve para justificar o Estado. simultaneamente. a sua racionalidade não lhes é imanente. . Marx denuncia. mas. bastaria olhar que já se teria a verdade. reconduzi-lo à sua verdade filosófica. pelo contrário é o Estado que serve para justificar (s/d: 26-27).Finalmente: A realidade empírica apresentar-se-á tal como é. O dedutivismo hegeliano. Cabe à razão avançar a partir dessa aparência . antes. Enquanto que. Hegel não busca a sua legalidade e 21 Com esse procedimento Marx deixa claro um de seus parâmetros críticos fundamentais: no empírico não se lê a verdade. que é o pensamento hipostasiado. no misticismo lógico de Hegel. Sem fazer sua crítica. Marx não identifica a lógica do real com a lógica do empírico. conduzir da verdade empírica à sua verdade filosófica. a determinação real. e a determinação formal absolutamente abstracta aparece como conteúdo concreto. ao deduzir a racionalidade dos fatos e dos processos. Mas. uma vez que é a “idéia”. trata-se do caminho oposto. Hegel recolhe os fatos. que consiste em atribuir aos processos reais uma racionalidade que não lhe é imanente. Com esse texto é possível identificar o fio ontológico que permeia a crítica marxiana à filosofia do direito hegeliana. Simultaneamente. mas não é expressão da estrutura efetiva do real – para sua verdade filosófica. porque Hegel os recolhe tal como eles se apresentam empiricamente. é a outra face de um empirismo.

É o trânsito da especulação à reflexão. a decadência e o potencial desaparecimento do capitalismo. sem a qual não poderiam advir suas conquistas teóricas posteriores: à razão cabe desvendar o objeto. criticamente modulada. O real. porém. se expande ou diferencia no esforço de reproduzir seus alvos. reciprocamente determinante.] reflexibilidade fundante do mundo sobre a ideação promove a crítica de natureza ontológica. Marx compreende que a: [. por ser real. delimitar os contornos de uma ontologia do ser social na Ideologia alemã.. organiza a subjetividade teórica e assim faculta operar respaldado em critérios objetivos de verdade. mas o Estado como razão lógica. que se propõe precisamente a se apresentar como a expressão racional do movimento ideal. como produto efetivo da relação. o desenvolvimento. não mais como simples rotação sobre si mesma de uma faculdade abstrata em sua autonomia e rígida em sua conaturalidade absoluta. ou. o ser é chamado a paramentar o conhecer. Por isso. que fará Marx criticar a ideologia liberal ao diferenciar emancipação política de emancipação humana em A questão judaica. o surgimento. . Racionalidade. uma vez que. ao comunismo. para a potência múltipla de uma racionalidade reflexionante.. dos sujeitos concretos” (CHASIN. indicar os limites especulativos dos jovens hegelianos em A sagrada família. aos complexos efetivos. orientar-se para a crítica da economia política e descobrir a centralidade do trabalho nos Manuscritos econômico-filosóficos. o discurso hegeliano é o discurso do Estado que ele analisa. passa a ser a condensação de determinações lógicometafísicas22. Marx afirma que o objeto da filosofia política de Hegel não é o Estado. no contato dinâmico com as ‘coisas’ do mundo. passa a ser racional. portanto. Contra isso Marx aduz um princípio ontológico essencial de sua elaboração inovadora. a consciência ativa procura exercer os atos cognitivos na deliberada subsunção. onde reproduz com a máxima fidelidade e precisão a legalidade imanente que rege as origens. pois auto-sustentada – nisto se esgota a impostação imperial da mesma. O Capital. de uma razão tautológica. e as possibilidades contidas neste ser social historicamente determinado que podem conduzir à efetiva emancipação humana. e. empenho que ao mesmo tempo entifica e reentifica a ela própria. 1995: 362-363). sob tal influxo da objetividade. conduzir a sua obra de maturidade. isto é. porque genérico. ou seja. Essa é viga mestra da arquitetura teórica marxiana. Assim. porque o vê como realização lógica. reproduzir a lógica dos objetos. entre a força abstrativa da consciência e o multiverso sobre o qual incide a atividade. que pulsa e ondula. 22 É bom frisar que o movimento especulativo hegeliano acaba por sancionar o Estado prussiano existente. De outra maneira. esse Estado.racionalidade nele. sensível e ideal. a transmigração do âmbito rarefeito adstringente. às coisas reais e ideais da mundaneidade. dito a partir do sujeito: sob a consistente modalidade do rigor ontológico.

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