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LUÍS XI DE FRANÇA: A VIDA BURGUESA DE UM REI FEUDAL LOUIS XI OF FRANCE: THE BOURGEOIS LIFE OF A FEUDAL KING Suely Romero, Dip. RSA

(...) os traços distintivos mais prestigiosos são aqueles que simbolizam mais claramente a posição diferencial dos agentes na estrutura social - por exemplo, a roupa, a linguagem ou a pronúncia, e sobretudo ‘as maneiras’ (...) Bourdieu

RESUMO. Este artigo aborda alguns aspectos do reinado de Luís XI, rei de França na segunda metade do século XV. Foca o combate implacável às pretensões dos grandes senhores feudais e o viés burguês que marcou seu estilo de vida, bem como a atenção concedida aos interesses dos elementos comerciantes e agricultores, sem distinção de nascimento. Remete ao desafio da busca contínua de nuances na interpretação do desenvolvimento do absolutismo monárquico que levem em conta as profundas transformações da sociedade da época, sua complexidade e seus reflexos numa ordem política em plena mutação.

ABSTRACT. This text approaches some issues of the rule of Louis XIth, king of France in the second half of 15th century. It focuses on his vigorous fight against the power of the great feudal lords and the bourgeois aspect which marked his lifestyle, as well as the king‟s concern for the commercial and agricultural interests regardless of birth distinction. It reminds of the need to go on looking for distinct ways of understanding absolutism which take account of the deep changes of society at the time, its complexity and influence in a political order in plain mutation.

Palavras-chave: monarquia – absolutismo – pretensões feudais – vida burguesa – Luís XI.

Introdução. A complexidade da sociedade medieval, a consolidação do absolutismo e o jogo de poder subjacente a todas as transformações da época constituem temas intrigantes para o entendimento da formação da chamada era moderna. Nem sempre é possível traçar perfis exclusivos e contrastantes entre os diversos atores ou classes sociais desses longos períodos. Um desses traçados tão nítidos é o que opõe o rei ou príncipe feudal ao burguês, sempre representados como radicalmente diferentes em seus objetivos, valores e apresentação pública. O rei de França Luís XI, cujo reinado se estendeu de 1461 a 1483, fornece um exemplo surpreendente da dissolução dessas linhas separadoras.

000 homens. Nas guerras que empreendeu contra a Liga. com exceção da Navarra e do ducado da Bretanha. incorporou a Provença e Liège a seus domínios e subjugou o resto da França. por sinal infatigável. de tendência particularista e até separatista. Para conseguir maior sucesso na oposição aos senhores feudais.i A atuação de Luís XI. 1850. o artesanato e a agricultura. O apoio das classes comerciantes. levou a marca antifeudal e pró-burguesa. intrépida e persistente. O inimigo comum sem dúvida eram os grandes senhores feudais. em vez de usar os métodos primitivos das políticas feudais. grifo nosso). O poder absoluto de Luís XI só conseguiu se estabelecer na França por meio do apoio dos elementos ligados às atividades comerciais. despistamentos e precauções.2 O estudo da figura desse rei desloca. Havia. Sua infantaria era formada de mercenários suíços. Em seu reinado. mas desta vez foi vitorioso. Com o apoio da classe comerciante. Luís XI decidiu reformar o exército liberando as cidades de obrigações militares e criou uma força de 50. a tese de que a concentração do poder monárquico se fez para melhor preservar a dominação feudal. Toda a parte ocidental da França levantou-se contra ele. entre o rei e aquele povo. Por sua vez. começou uma nova guerra em novembro de 1470. a velha instituição romana dos correios foi restaurada (ENGELS. Luís XI foi derrotado e compelido a assinar um pacto de paz com os senhores feudais em 29 de outubro de 1461. Louis XI. King of France Fonte: NYLPD A marca de Luís XI sobre a história da monarquia francesa foi assim resumida por Friedrich Engels na obra A Guerra Camponesa na Alemanha: Ele começou uma luta contra os senhores feudais. mais foi confrontado pela Liga do Bem Comum que uniu os grandes e pequenos vassalos de França. s/p. de certo modo. Luís. Mas essa paz com os nobres feudais não se concretizou. a pujança de seu desenvolvimento e a defesa de seus interesses foram decisivos nesse embate secular. Em 1481. A utilização de mercenários suíços em seu exército permanente não é gratuita. mas também a ardileza. praticou não apenas a força. Uma canção alemã deploraria no século XVI o exemplo . protegeu o comércio. uma afinidade notadamente contrária ao poder feudal. um sistema diplomático de mentiras.

cidades. mas unido através de negociações regulares e periódicas entre os diversos e múltiplos interesses dos pequenos rurais. o que José Luís Romero denominou sistema feudo-burguês.3 suíço: “Os camponeses tentaram aprender / artimanhas vis com os suíços / e se tornaram seus próprios senhores. em todo lado cada vez mais ambiciosa e adepta do luxo. forçados pelas circunstâncias. não como aliada. encontrou nos cantões suíços condições de sucesso. mas como parte integrante. como chamaria mais tarde Voltaire os nobres feudais que extorquiam e exploravam campo e cidades pela força das armas. Esse sistema durou enquanto o modo de produção senhorial não entravou o funcionamento econômico do mercado nem freou em demasia as ambições da burguesia [. partes integrantes e não marginais do sistema feudal. Boêmia e Áustria.. quando não a expulsão. como alerta Jacques Le Goff: A cidade encontrou o seu lugar no sistema feudal e formou com ele. que eram os pobres. que abalariam no século seguinte vastas regiões da França oriental.” ii. 1991). mercadores e membros da Igreja. 1991. que se tornavam mercenários (BRYANT. Os levantes camponeses. Note-se. Desde 1315. camponeses. de sua nobreza e instaurado um governo sem cabeça dirigente. Não havia grande excedente de produção. De todo modo.. A competência militar dos suíços também era proverbial.. Havia ainda uma propensão histórica dos suíços de conferirem liberdade aos servos e camponeses dos principados situados em suas fronteiras em constante expansão..]. convém considerar o crescimento da burguesia e de seu locus privilegiado. Alemanha. o fator ambiental desempenhou também um importante papel nesta configuração de poder: as áreas montanhosas não forneciam recursos suficientes à manutenção de uma aristocracia. A luta contra os “barões ladrões”. Mas é verdade que a cidade . Eram tidos como os melhores soldados da Europa e logo se tornaram importante fonte de renda financiadora da liberdade de seus cantões. s/p). a cidade medieval. Juntar-se à Confederação Suíça significava adotar o autogoverno. Por outro lado. tendo-se afiado ao longo de séculos de guerras contra os cavaleiros Habsburgos do Sacro Império. extrairiam força e inspiração do exemplo radical e bem sucedido da Confederação Suíça. O aproveitamento dos suíços por Luís XI em suas forças de combate foi motivo não pequeno de despeito e revolta entre os grandes senhores. porém. “Um nobre feudal nas regiões montanhosas seria tão pobre quanto seus servos” (BRYANT. esta tinha conseguido a subjugação.

o burguês o faz “num espírito de ascensão social e de gozo. do tempo. de duração. A base de apoio de Luís XI estava entre os burgueses e a pequena nobreza. entretanto. assim confessa sua oposição à união nacional. podia minar por dentro o sistema feudal para transformá-lo em sistema capitalista. grifo nosso). duque de Borgonha. Há indícios mais que suficientes que fazem merecer Luís XI a qualificação de pesadelo dos grandes feudatários. por sua lógica econômica fundada mais no dinheiro do que na terra. Le Goff (1992) aponta para o elemento original e capital introduzido pela burguesia. do trabalho e do cálculo. de ociosidade e de largueza (desperdício). ou seja. O cálculo é um aspecto de máxima importância. estes chegaram a sobrepor seus interesses particulares para se unirem contra o monarca numa guerra sem fim. calculista. 1992: 168-9). a nobreza” (LE GOFF. Os nobres continuam ligados à vida guerreira. é o que deve guiar o governante. em face do ideal aristocrático de hierarquia vertical. 1992: 58. o que diferencia o modo de vida e a visão de mundo burguesa do feudal medieval propriamente dito. outro ideal de hierarquia horizontal. Tratava-se de dois projetos de dominação inconciliáveis – um centralizador. Apesar da existência de certa simbiose entre nobres e patrícios burgueses. Retomando mais uma vez a expressão de José Luis Romero. a uma oposição de sentimentos e de interesses. por seu sistema de valores no qual. esperar pela revolução industrial (LE GOFF. Em dados momentos. de câmbio e de banco efetuadas exclusivamente por burgueses – levavam a diferenças de modo de vida. as diferenças de atividades – operações propriamente ditas de negócios. impunha a si mesma outra concepção. a uma mentalidade contrária e a divergências profundas. Carlos o Temerário.4 medieval. os burgueses se preocupam com os negócios. Quando se lança ao luxo da habitação. seguem-se a vergonha e o arrependimento”: o raciocínio frio. bem diferente da largueza. do desperdício dominador da classe ociosa medieval. Foi preciso. mesmo que o fosse para depor Luís XI pelo imaginado bem de França: . Uma citação famosa de Luís XI deixa uma mensagem subliminar de seu emprego a expensas da grande virtude feudal expressa pelo orgulho. inseparável da glória: “Onde o orgulho toma à frente. outro de natureza centrípeta que se defrontaram e que ainda se defrontariam pelos séculos seguintes até a vitória definitiva de Luís XIV no século XVII. Cabe neste ponto tentar identificar o que seria exatamente burguês.

isto é. 1968: 40). a dissolução dos laços feudais. 1974: 280).. 18). As massas laboriosas. pois. (. . 1974: XV). o interesse que suscitavam nos cronistas era nulo. as novas formas de poder. depois de uma série de avanços técnicos e comerciais. em que pese a interpretação célebre de Perry Anderson (1989) sobre ser o absolutismo monárquico do início da chamada era moderna não mais que “um aparelho de dominação feudal recolocado e reforçado” e não “um árbitro entre a aristocracia e a burguesia. Temia essa nobreza as massas camponesas. 1989: 22). mas ela foi secundariamente sobredeterminada pela ascensão de uma burguesia urbana que. careciam muitas vezes do mínimo para uma sobrevivência mesmo a mais elementar e não tinham praticamente nenhum papel na cena social (KENDALL. e menos ainda um instrumento da burguesia nascente contra a aristocracia: ele era a nova carapaça política de uma nobreza atemorizada” (p. evoluía agora em direção às manufaturas pré-industriais numa escala considerável (ANDERSON.. Gramsci (1968) faz uma digressão até o Quatrocentos ao perguntar: “Por que os grandes navegadores italianos serviram a outros países?” (p. não se confinavam ao mundo rural. no entanto.5 “Eis o senhor d‟Urfé que me insta a fazer de meu exército o maior possível e me diz que o seria pelo grande bem do reino (. Trabalhavam do nascer do dia ao cair da noite. E responde: “Amo bem mais o reino de França do que pensa Monsenhor d‟Urfé. gostaria que fossem seis!” (KENDALL.. as invenções técnicas. após a dissolução da servidão. a sua estrutura foi fundamentalmente determinada pelo reagrupamento feudal contra o campesinato. Como alerta Kendall (1974). 40).. Chama atenção o contraponto radical da figura de Luís XI à convenção social do que deveria ser um representante de uma linhagem aristocrática. Toda essa sociedade aristocrática se apoiava inteira sobre os ombros de uma massa anônima de servos e camponeses cuja única função consistia em fornecer a seus senhores o excedente de suas colheitas e os produtos indispensáveis à expansão de seu esplendor. nesse período. determinadas agora pela difusão da produção e troca de mercadorias: Assim.)”. sua vida simples e estreita. não tendo [ainda] todo o poder” (GRAMSCI. A resposta ajuda a situar o interesse da burguesia no suporte à monarquia: “A burguesia desenvolveu-se melhor. Combate às pretensões feudais. com um poder indireto. com os estados absolutistas.) sua sorte era monótona. para um rei que existe. diz Carlos ao cronista Commynes. também nas cidades seus membros mal ganhavam para seu sustento. Ao procurar compreender o Risorgimento italiano no século XIX. quando os Estados absolutistas se constituíram no Ocidente.

defendia e cujo poder assegurava: o advento do absolutismo nunca foi. juízes e coletores de impostos recebiam do mesmo modo ordens expressas de fazer valer. O impacto causado pela emergência de um terceiro elemento. Entre elas figurava a abertura de inquérito minucioso e aprofundado sempre que um . o efeito último desta redisposição geral do poder social da nobreza foi a máquina de Estado e a ordem jurídica do absolutismo. 1974: XX). isto é. Desde o início ficou claro a todos essa posição do rei. 1989: 20). Artesãos e pequenos lojistas – alfaiates e sapateiros sem ninguém ou quase a seu serviço – ocupavam alojamentos sombrios e entulhados. para além da nobreza feudal e dos produtores diretos constituídos pelas massas camponesas e citadinas. em última análise. pela interpretação de Perry Anderson. 1989: 20). Recusou-se a manter na corte os senhores de sua parentela. Anunciou ainda sua disposição de não conceder mais qualquer alto comando militar aos grandes vassalos. suas corporações eram as mais pobres e constituíam a fração menos favorecida da burguesia (KENDALL. KENDALL (1974) relata a série de medidas tomadas desde o início de seu reinado que feriam diretamente o poder da nobreza. Abaixo deles. Segundo Anderson (1989). Mandou estudar com grande atenção a lista de pensões em virtude das quais muitos se haviam enriquecido em detrimento do tesouro real. sargentos. a ponto de distanciá-lo ou mesmo contrapô-lo à classe que. pelo advento de uma burguesia próspera e empreendedora. alerta Kendall. cujos interesses coletivos em última análise servia (ANDERSON. que havia estabelecido uma Igreja galicana virtualmente independente da tutela papal e deixara nas mãos dos eclesiásticos e nobres muitos novos benefícios. o golpe mais decisivo contra a feudalidade foi a atuação autorizada pelo rei a seus funcionários – bailios e senescais – encarregados de governar as principais regiões administrativas. apesar de considerados conselheiros “naturais” do rei. nos fundos ou em cima de suas oficinas. No entanto. controlar e mesmo destruir as pretensões feudais. em qualquer circunstância e contra quem quer que fosse. cuja coordenação iria aumentar a eficácia da dominação aristocrática ao sujeitar um campesinato [agora] não servil a novas formas de dependência e exploração. para a própria classe dominante. No entanto. Aboliu a Pragmática Sanção de 1483. um suave processo de evolução: ele foi marcado por rupturas e conflitos extremamente agudos no seio da aristocracia feudal.6 Viviam apinhados em casebres e não usufruíam de quaisquer direitos da burguesia. foram diversas as ações de Luís XI no sentido de domar. Os Estados monárquicos da Renascença foram em primeiro lugar e acima de tudo instrumentos modernizados para a manutenção do domínio da nobreza sobre as massas rurais (ANDERSON. teve talvez em Luís XI um efeito marcante. os direitos e as prerrogativas da Coroa.

Luís XI se preocupava ademais com o clima dominante entre os habitantes do reino. descrevia. deixar atrás de si um rastro de destruição material e de vidas.7 privilégio lhes parecesse duvidoso. do mesmo modo que um bom jardineiro cultiva o seu lote de terra” (KENDALL. em contraposição ao costume. o saber tratar a terra. abstinha-se de atacar ou oferecer batalha para não prejudicar a colheita ou o comércio de determinado local. antecipando de certa forma Voltaire („Il faut cultiver notre jardin’ – „É preciso cultivar nosso jardim‟). Sua vontade de conhecer os pormenores da movimentação dos grandes senhores. Este senso da lei. Resta então ao leitor apoiar-se na tese das contradições internas ao feudalismo para não deixar de ver em Luís XI um defensor de uma ordem feudal em nova versão. 1974: 116). resguardar a plantação das intempéries. tido como exímio general e notável estrategista. semear. Subentende-se a extirpação de ervas daninhas. inconsequência e intimidação aristocrática. Uma nova ordem. aliás. que dispara contra uma tradição já arcaica e instaura uma nova era com novas disposições jurídicas. Poderão esclarecer ainda mais o sentido da atuação real e os valores subjacentes na instauração de sua nova ordem as metáforas correntes na época. Kendall (1974) refere-se à estupefação dos embaixadores milaneses diante da extrema simplicidade da casa real onde apenas os cavalos eram dignos desse status. constituíam marcas de poder. algumas usadas pelo próprio rei. Luís. a semelhança entre o rei e um jardineiro ou agricultor: “O príncipe deve pensar nas condições de seu povo e misturarse a ele com frequência. 113-115). Por outro lado. as tramas urdidas para fazer valer sua política de afirmação monárquica valeram ao rei o epíteto Aranha Universal. p. O rei desejava dar aos súditos um modelo de modicidade e economia. utilizar sabiamente os recursos. sustentar a vida. Luís XI combateu a burocracia do governo diminuindo a quantidade de cargos e exigindo maior eficácia e total fidelidade de seus funcionários (KENDALL. técnicas. comum entre os nobres. a influência cultivada nas cortes estrangeiras de Espanha. 1974. Tal postura contrastava com a prática bélica de terra arrasada. Pilhar e queimar tudo em sua passagem. plantar hoje para colher depois. O rei mantinha também um . econômicas. Inglaterra e reinos italianos. Em notas endereçadas ao filho. foi uma arma poderosa na guerra contra as reivindicações dos grandes feudatários. sua teia de espiões e informantes. alinhada com o início da modernidade. garantir a boa colheita. Por diversas vezes. O cálculo de tais prejuízos fazia parte de seu processo decisório. sociais e militares.

de qualquer burguês simplório. Sua corte tinha uma aparência . mesmo ciente de que seria mal compreendido por muitos setores. Vida burguesa. Por outro lado. confirmavalhes privilégios. sinalizando assim sua preocupação com as classes médias. Importavalhe a competência para realizar seus objetivos de mudança. que se destacava entre os mais notáveis empreendedores da época e ocupou por algum tempo o cargo de tesoureiro do rei. afirmavam que este tinha por único interesse aumentar seus recursos e restringir as despesas inúteis (KENDALL. Em suas constantes viagens. Desde cedo Luís XI promoveu reformas nos impostos e prestigiou o emprego na Corte de homens comuns. autorizou a nobreza a se imiscuir nas práticas comerciais sem perda de seus privilégios. 1974: 45). Dizia-se que sua renda anual equivalia à renda total de todos os outros mercadores de França (KENDALL. gostava de se hospedar na casa de funcionários reais ou comerciantes onde encontraria boa comida e conversação franca. Luís fazia o que lhe passava pela cabeça. sem “berço”. Em suas viagens frequentes. Em seus deslocamentos constantes em função quer das guerras quer das ações de negociação diplomática. promulgava regulamentos comerciais. pedia para ver suas relíquias e dispensava as somas necessárias a alguma obra de restauração (KENDALL. demonstrando um senso de oportunidade dentro daquilo que valorizava como importante a seus propósitos: sondava os governos municipais. em nada se distinguindo. o que o tornava personagem importante também no mundo muçulmano. 1974: 116). livre de formalidades. desde que talentosos e úteis à sua política. Jaques Coeur possuía sociedades de comércio em toda a França e detinha uma frota mediterrânea que trazia artigos de luxo do Oriente. instituía feiras. Kendall (1974) assinala o desejo ardente do rei de instaurar uma nova ordem. Contornou o privilégio que garantia exclusividade dos nobres na aquisição de senhorios introduzindo uma política de enobrecimento dos que se dedicassem à agricultura com o objetivo de estimulá-la. Embora reconhecessem a riqueza do rei. afeiçoado que era à caça. Luís XI usava uma roupa simples de pano cinza e um rosário feito de madeira em torno do pescoço. Kendall (1974) sublinha o prazer que Luís XI parecia ter numa vida que hoje se qualificaria de burguesa. visitava estabelecimentos religiosos. inclusive com as mulheres. para espanto geral. 1974: 114). atento a tudo o que se passava.8 interesse de conhecedor sobre cães. Foi assim que empregou a seu serviço vários indivíduos associados ao grande financista Jacques Coeur.

. 1970: 146-7).) Agia de modo imprevisível e não se dava nem mesmo ao trabalho de anunciar suas visitas com antecedência. Em suma. (. Ele e sua corte eram perfeitamente desprovidos desse senso de decoro e desse gosto de magnificência que eram a essência mesma da realeza. por haver assim falado. que em certa ocasião apresentou ao rei suas saudações num discurso de improviso. Com uma pequena escolta mal vestida e toscamente equipada como de costume. apud LAGARDE. que assim o descreve: Ele falava das pessoas com ligeireza. ele [Luís XI] não correspondia à imagem que se podia fazer de um soberano.) E quando.iii Luís XI demonstrava um interesse vívido pela realidade das coisas. de passagem pela residência do conde du Maine. Tal postura contrastava com a sensualidade e a erudição dos eclesiásticos sofisticados da Renascença como Jean Jouffroy. estava sempre pronto a uma intervenção cômica e ferina a respeito do comportamento dos padres ou da afabilidade afetada dos diplomatas. 1974: 124).9 mesquinha. De língua solta. eficaz e incansável. . 1974: 142). não falava nem pensava como um rei. declinou o convite do bispo. usava desta fórmula dirigida ao personagem atacado: “Bem sei que minha língua me causou um grande mal.. se via prejudicado ou suspeitava que o seria e desejava remediar a situação. Esse traço é observado por seu cronista Philippe de Commynes (c. Cercava-se de homens perigosamente laboriosos. por exemplo. desdenhasse o castelo de seu anfitrião para acampar nas florestas dos arredores? (KENDALL. perigosamente inteligentes e lamentavelmente mal nascidos. 1447-1511). o que feria os grandes senhores em sua dignidade e os tornava excessivamente nervosos. sobre as diferenças entre o cultivo do campo lombardo e o do campo francês (KENDALL. entremeado de citações clássicas e alusões filosóficas (KENDALL. como ilustra sua entrada na cidade borgonhesa de Arras em janeiro de 1464.” Jamais usava essas palavras sem dispensar algum favor ao personagem a que se dirigia e seus favores não eram jamais mesquinhos” (COMMYNES. Não se vestia como um rei... não testemunhava a seus príncipes e a seus senhores a afeição devida a seu círculo por todo verdadeiro rei. interrogando um visitante. mas ela também me proporcionou às vezes um grande prazer. Mantinha a seu serviço todo tipo de estrangeiros. porém pronunciado em latim perfeito. tanto em sua presença quanto ausência (. Quem poderia esperar de um soberano que. apesar da residência deste “ser o mais belo palácio episcopal que se pudesse encontrar e da existência de outros cômodos confortáveis no claustro dos cânones” (KENDALL. É justo que eu faça uma reparação. MICHARD. mas era ativa. lançando-se a uma investigação curiosa acerca da vida diária dos diferentes locais. Preferia alojar-se com simplicidade. cuja companhia preferia à de honestos franceses. 1974: 127). 1974: 126). cardeal de Arras.

sem brasões nem armaduras. um sol de homem e uma imagem que representam uma alta pessoa” (KENDALL. que não pertencia ao seu mundo” (KENDALL. Kendall (1974) assim descreve sua chegada em 28 de setembro de 1463 à aldeia de Hesdin. pai de Carlos o Temerário. estranhavam a rebeldia espantosa do rei face às convenções da época. “Aos olhos dos grandes senhores. mesmo os miúdos. que surge diante de um Luís XI em sua indefectível roupa de caça. sobretudo. tinha cerca de duzentos cavaleiros e escudeiros em equipagem brilhante. murmúrios de espanto se fizeram ouvir entre os espectadores reunidos em massa ao longo das ruas: “Onde está o rei? Qual deles é? Aquele lá?”. em missão diplomática junto aos ingleses: Montado em um pequeno cavalo de má aparência e vestido com sua roupa de caça. 1974: 236). . atravessou o burgo com seu companheiro de aparência miserável (o rei). ao lado do qual. Era um provocador. a do duque. Enquanto a comitiva real era a mais modesta possível. Ainda é o nosso duque. além de uma dúzia de pajens com roupas douradas precedendo o duque de Borgonha. nosso príncipe. Antônio. nas formalidades. ilustra de forma desconcertante o abismo entre duas visões de mundo aparentemente antagônicas. Assim que os aldeões compreenderam que se tratava com efeito daquele lá. A descrição do brilhante cortejo de Carlos de Borgonha. um homem. Tudo nele não vale vinte francos. não conseguiram esconder sua estupefação: “Benedicte! É aquele um rei de França. Não correspondia sequer às expectativas do povo miúdo. onde se encontraria com seu tio Felipe o Bom. 1974: 120). que lhe vinha ao encontro. A simplicidade do rei é impressionante. desfilava sob um manto tecido de ouro que caía até o chão (KENDALL. seu irmão bastardo. Quando o duque de Borgonha. por ocasião de uma visita deste numa dentre muitas missões de negociação. simbolizado nas roupas. foi encontrado por seu tio cerca de uma milha antes da aldeia de Hesdin. nas convenções. duque de Borgonha. um homem de nenhum lugar. 1974: 142).10 O caráter contestador do rei atacava frontalmente o senso de prestígio da alta nobreza. O estranhamento que causava a figura do rei não se limitava aos pares do reino. o maior rei do mundo? Parece mais um valete do que um cavaleiro. cavalo e roupa do corpo. Todos. o rei não possuía as qualidades que deveria ter um príncipe. suntuosamente vestido como de hábito.

Espanha. MICHARD. como testemunha seu cronista Commynes: Era por natureza amigo da gente de condição média e inimigo de todos os grandes que podiam se passar sem ele. perdem sua força engessadora e assumem o papel de um referencial útil. Porque ele conhecia todos os homens de peso e de valor da Inglaterra. Portugal.v A própria figura de Luís XI – sua aparência. há que se buscar entender o impacto dessa postura que contraria frontalmente os símbolos altamente valorizados pela nobreza da época: a magnificência. permite ao estudioso um panorama mais diferenciado e rico das condições de sua época. Ninguém jamais prestou tanto ouvidos às pessoas. atacando-o nos símbolos mais fundamentais e reconhecíveis de seu poder. informou-se sobre tantas coisas mais que ele e desejou conhecer tantas outras. sua forma de atuar. embora de inestimável importância para o entendimento macro da História.11 Cavaleiro de Felipe o Bom. apud LAGARDE. 3º Duque de Borgonha. estados do duque de Borgonha e da Bretanha. As grandes teses explicativas. porém a ser utilizado com precaução. suas características “burguesas” . Levando-se em conta que toda a atuação de Luís XI tem por princípio a consolidação do poder real. tão a fundo quanto seus próprios súditos (COMMYNES. no caso Luís XI. Considerações finais. o afastamento do que é comum.iv Fica-se diante de um verdadeiro choque cultural. . frontalmente contrário às expectativas dos poderes até então dominantes e rivais da realeza. 1970: 146). Acompanhar a trajetória de reis. Itália.tem o efeito de demolir a lógica sobe a qual se assentava a legitimação política e ideológica do regime de dominação feudal. a ostentação. Fonte: Asteria in Europe.

ora o arcaísmo feudal sempre em busca de adaptação aos novos tempos. Digital Item Published: 7-21-2008. GRAMSCI. Disponível em : <http://digitalgallery. Jamille Paz. Revue.12 A concentração do poder monárquico certamente ganhou matizes próprios em cada local e em cada época.htm>. cheia de revezes. 2. RAIN Magazine. manifestada pelo desejo do rei de instalar uma nova ordem em França.uniceub. O reinado de Luís XI projeta a burguesia e as classes médias rurais e urbanas a um patamar importante na luta pelo poder. a expressão dessa ascensão burguesa. COMMYNES. jan. volume 48. Asteria in Europe.publicacoesacademicas. não surpreenderia se a correlação de forças ora privilegiasse a burguesia em crescimento. 2010. CAVALEIRO de Felipe o Bom. Paris: Bordas. O apogeu da cidade medieval. p. Brasília. 1999.com/archive/1991-1/medievalmovements-and-the-origins-of-switzerland>. A Economia Das Trocas Simbólicas. 2010. Translated: by Moissaye J. updated 6-252010. 1970. 2010 ENGELS. 2010.rainmagazine. Por que os países se unem? Universitas . LAGARDE. Acesso em: 4 set./jun. Number 1. . Faz sentido buscar nesta transformação. Disponível em: <http://www. Frederick. BRYANT. Neue Rheinische Zeitung. Disponível em: <http://www. Antonio. Notes.org>. 2010.361 p. Medieval Sourcebook. The Peasant War in Germany. um papel bem maior do que a sobredeterminação (ou atuação secundária) da burguesia. Acesso em: 15 ago. LOUIS XI. Disponível em: <http://www. São Paulo: Martins Fontes. dentro das condições prevalentes na segunda metade do Quatrocentos. Luís XI foi certamente. Moyen Age. São Paulo: Perspectiva.br/index.fordham. Acesso em: 12 out. REFERÊNCIAS ANDRADE. Coleção Perspectivas do Homem. Summer 1850. 219-233. BOURDIEU. Vol XIV.org/archive/marx/works/1850/peasant-wargermany/notes.._p>. Disponível em: <http://web. A luta da burguesia contra a aristocracia feudal foi longa. Portrait of Louis XI (c. 1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.marxists. Laurent. London.html>. Jacques. Medieval movements and the origins of Switzerland. Os intelectuais e a organização da cultura . André. n. Acesso em: 12 out. King of France. 2010. v. NYPL Digital Gallery.Relações Int.nypl.com/rhynemaid/Asteria_in_Europe/Asteria_in_Europe/Entries/2008/6/25_The_Virtue_of _Magnificence~The_Berne_Exhibition. 1498). Winter 1991. e somente se definiu no final do século XVIII com a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. MICHARD. Philippe de.1. Acesso em: 15 ago. HTML Mark-up: revised January 2002.edu/halsall/source/commynes1. Disponível em: <http://www. 1968.me. Série Filosofia. LE GOFF. Acesso em: 15 ago. 5. 2004. Pierre. Nesse longo intervalo de séculos. Olgin in 1926 for International Publishers. ed. Greg.php/relacoesinternacionais/article/viewFile/243/25 3>.

n. BRYANT.marxists. s/p./jun. iv Tradução livre do texto em francês na obra citada. v Ver considerações sobre cultura estruturada e cultura estruturante baseadas na obra de Bourdieu em ANDRADE. . v.. Brasília. iii Tradução livre do original em francês na obra citada.org/archive/marx/works/1850/peasant-war-germany/notes. 2010. Por que os países se unem? Universitas .Relações Int. p. Acesso em: 15 ago. jan. 2004.13 i Tradução livre do texto em inglês disponível em <http://www. ii Tradução livre do inglês. 2. 1991. 219-233. Jamille Paz.htm>.1.

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