Na terce ira maté ria da série Por que o Brasil não aprende?

, a revista Adverso foi atrás de uma solução. Graças a uma experiência corajosa de ensino, um pequ eno e pobre Brasil, aprende sim. por Clarissa Pont

Na roda, pode
Antropólogo por formação acadêmica, educador popular por opção política, folclorista por necessidade e mineiro “por sorte”, Tião é cheio de idéias fervilhando sob o chapéu que ele nunca tira. A fala é mansa e as opiniões, fortes. Gosta de contrariar quem o felicita por conseguir tirar as crianças pobres da rua: “Lugar de menino é na rua. O que quero é mudar a rua, para que seja um lugar de convívio e solidariedade”. Tião é o responsável pelo Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), uma organização não governamental, sem fins lucrativos, fundada em 1984, em Belo Horizonte (MG), com uma missão quase impossível: promover educação popular e desenvolvimento comunitário respeitando a cultura local, tomada como matéria-prima de ação pedagógica. No centro, brincar é a semente para que as pessoas fiquem juntas e se organizem. Na cozinha, na horta ou nas pequenas fábricas. As reuniões eram sempre em círcur lo, o que deu origem ao primeiro pilar que ajudou a ergue vê o o CPCD: a Pedagogia da Roda. “Na roda, todo mund ítodo mundo. Todos falam e escutam, ninguém é exclu o do busca é re semp o: eleiçã há do”, explica Tião. Ali, não acoloc stas, propo dez e consenso. “Se temos 20 pessoas Isso mos as dez em pauta e começamos pela mais urgente. às início dá leva todo mundo a propor coisas” e a roda atividades do dia em todos os projetos do Centro. Na cidade de Curvelo também surgiu outro aprendiszado: a Pedagogia do Sabão. Quando Tião pediu às profe em veio sta respo a s, escola as soras relatórios avaliando se forma de listas dos materiais que faltavam. “Perguntei
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Arquivo pessoal CPCD

A fala de Tião Rocha, que construiu junto com a , é comunidade de Curvelo (MG) a Pedagogia da Roda entrecortada por diversas permissões. Pode, Tião? “Na roda, pode”. E se, na roda pode, em vários outros lugares também. Pode em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, Minas na Gerais, um dos lugares mais miseráveis do País. Pode nder “apre Tião, do África ou em Portugal. Porque, segun o não deve ser doloroso”. Longe de ser permissivo, o métod é aliás, garante educação com carinho e respeito. Método, uma palavra que Tião corrigiria na hora, “porque educa ha, ção não é receita de bolo”. Mas pode ser receita de bolac bisdo fazen er escrev a dem quando diversas crianças apren coito. E pode? Pode.

de cinco diferentes estados. O menino aprendeu a calcular e o jogo terminou na sala de aula . conta o educador. Guiné Bissau e Portugal. destinado às crianças de 4 a 6 anos que não são atendidas pela rede pública ou particular. A solução. Encontrei pouc os personagens. dona de casa. Curioso. Resultado: no final do primeiro ano. Pensamos: dama não é lógica? Inventamos um tabuleiro com números. resume Tião. Uma professora disse que havia vários produtos que qualquer um poderia fazer”. O professor é aquele que ensina. “Quando a minha filha estava na escola. Para que não faltasse material de limpeza na escola. Aqui. apareceram 26 pessoas para conversar. gente à toa. mais um artigo acadêmico que ninguém lê. 14 Junho | 2007 Adverso 148 . para todos os educadores do CPCD . grandes centros. como dizia Guimarães Rosa. e Porto Alegre. A Pedagogia da Roda tem 23 anos. a professora foi em frente e os alunos da quarta série fizeram sabão. Um dia. Uma fartura de menino. Aquilo começou a me angustiar porque todos os discursos que se ouvi a eram no sentido de mais verba para a educação. Será que a gente pode fazer uma escola embaixo de um pé de manga? Na segunda-feira. em zona rural. Votem em mim que eu vou construir mais escolas. e sim da escola que a gent e gostaria de não ter tido. ou se estavam apenas nos livros. diz. Um dos meninos do projeto. que reúne esses núcleos desde 1996. ao vivo. estava nas crianças. Brincadeiras são a base do ensino. Transformei aquilo em não objetivos educ acionais. Depois. Em área urbana. cidade capit al da minha literatura. Em um determinado momento. o CPCD decidiu acompanhá-las . E eu via que não era esse o caso. Elas queriam continuar com as brincadeiras. a diretora disse no primeiro dia de aula . quatro vezes repetente da primeira série. são coisas diferentes. Quando as primeiras crianças deixaram o Sementinha para entrar na escola. mas aquilo que os dois conseguem trocar”. Eles queriam aprender. Eu tive que tomar uma decisão na contramão de toda lógica e pedir demissão da universidade. me dei conta de que não queria mais ser professor. “Os pais queriam tirar as crianças do grupo. feitos por jovens e mulheres das comunidades. Sentamos numa roda e começamos a conversar. trabalhando na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). O respeito pelo conhecimento da criança e pela cultura da comunidade onde ela está inserida são fundamentais na Pedagogia da Roda. Temos que para r com aquela coisa de eu te cito. “Professor e educador são coisas diferentes” Fui professor a vida toda. e a ONG não oferecia atividades de reforço escolar. os meninos não conseguiam ficar. mas muita criança. Comecei a falar com meus companheiros da universid ade sobre o meu desejo e eles respondiam que era a mesma coisa. Fora do Brasil também. “Educação é uma coisa que só acontece no plural.para fazer educação elas precisavam daquilo tudo. queria ser educador. Eu anotava tudo. O projeto adaptou mais de 1. todas repetiram. A Pedagogia foi se consolidando e se afirm ando. pequenos cidades. E eu dizia. No final da semana. por telefone.7 mil tecnologias populares de baixo custo. o educador é aquele que aprende. fiz uma lista de tudo que nós havíamos dito e tirei o sumo daquilo. Assim surgiu o Projeto Fabriquetas (ou Núcleos de Produção de Tecnologias Populares). E eu acho que nessa instituição a qual estamos ligados temos que aprender mais ainda. Aí me disseram que não sabiam nem qual documento encaminhar até o MEC para uma demissão. professor. tu me citas e no final do mês sai mais uma tese. Professor da universidade pública brasileira não se demite. peças com sinais de mais e menos e criamos um jogo”. tanto a Pedagogia quanto os projetos foram sendo replicados em várias regiõ es e em várias condições. as aulas eram muito ruins . Menino que fez de Guimarães Rosa sua base de leitura. sendo entrevistado pela rádio local. as crianças são como uma página em branco onde devemos escrever um belo livro. bem vindo à escola. relembra Tião. Fui para uma cidade chamada Curvelo. e vimos que a batata quente estava nas nossas mãos”. eu queria conhecer o sertão e ver se os personagens existiam ali ainda. são vendidos pela Cooperativa Dedo de Gente. conta Tião. “Com a damática. “Curvelo. A conversa com Tião Rocha que segue aconteceu entre São Paulo. Quando tinha escola. em Moçambique. construída a partir de uma escola embaixo de um pé de manga em Curvelo. não conseguia aprender matemática. onde foi adotado. mais uma vez. espera a aposentadoria. Como alguém pode considerar uma criança uma página em branco se ela tem sete anos de sabedoria?”. o menino abriu a porta”. São Francisco e Araçuaí. cidade capital da minha literatura” Saí com o desejo de aprender. eu levantei essa questão. “Só que ele era bom no jogo de damas. o educador conta como a Pedagogia da Roda foi estruturada. Os produtos. É possível fazer educação sem escola? A pergunta ficou no ar. Para se tornar membro. Eu disse que sabia e fui. é preciso integrar uma Fabriqueta. hoje presente nas cidades mineiras de Curvelo. Para que haja educação é necessário que haja no mínimo duas pessoas: o eu e o outro. Percebi que a gent e não falava da escola que gostaríamos de ter. Esse preceito também é base do CPCD: “educação é algo que só ocorre no plural”. O projeto Sementinha foi o primeiro do CPCD e sempre funcionou nesta lógica. Os projetos Ser Criança e Sementinha estão em mais de 20 mun icípios brasileiros. E educação não é o que eu tenho nem o que o outro tem. mas não havia escola suficiente. Isso tem 25 anos.

soas. para serem aprenque aprender umas com as outras. sentamos com o prir elece soas e começamos a conversar e a estab reflee meiro objetivo operacional que era fazer ação ou Paulo xão. tamb tece educadores. A questão do rima imder fazendo.“Eu paulofreiro. uma E foi isso que a gente começou a fazer. Infelizmente o contrário acon é onde que maus educadores fazem caca educacional. Nós começamos a praticar isso. ofrei paul ele ras. ativo esse verbo no presente do indic ra. . dade reali Freire como receita. as pess toda em . em eiro grande roda onde todo mundo se vê.é meio um é não mundo e olhar a vida. podíamos responder afirmativamente: é escola emuma fazer ível zer educação sem escola. rarei Não se conjuga paulofreiraria. ARAÇUAÍ: as abriquet em uma das f Tião e as crianças da Roda es de Tecnologias Popular do Núcleo de Produção Adverso 148 Junho | 2007 Arquivo pessoal CPCD 15 .” “Sentou na roda.. Fomos para as comunidades.. Mas apre bons com faz se só coisa fundamental. Nosso conestão essas pessoas? Nós temos que formá-las a escola. A educação têm . tu paulofrei m. nida teúdo é a cultura da comu os sabecomo de nida comu E nós entendemos a cultura da sentam que as pesso as res os fazeres e os quereres de todas na roda. Praticar Paulo Freire. No possível faano. ou não faz. tudo dar faz consenso. é educador” Dividimos as 26 pessoas em grupos de aprendias peszes. A gente nunca utiliz entendi a nunc eu . Na olhar o de jeito como mas Paulo Freire como método. Aí surgiu o prim gogia da aprendizado nosso que foi a construção da Peda eleição. faz não roda uma Roda. é um educador. poriona func bom em outros processos. Para nós. Nós podemos estu o muit é ia ocrac Dem organizar a ordem do aprendizado. Eu paulofreiro. Sentou na roda. A gente descobriu que s que temo só . Paulo Freire deixou de ser conjuga só sive inclu e gent A soa e virou um verbo. tu paulofreiras. nem paulofrei você faz. Os perdedores saem da roda final de um venceram. É poss ém uma tamb os ndem baixo de um pé de manga. adas educ um fim em si. E . dess ra cultu a de. com a cultura como matéria-p uma pesportante. que boa educação ém. freira paulo nós paulofreiramos. em uma roda não porque não que é excludente. vós paulofreirais. eles Ou . As pessoas.

As pessoas não sabiam o que era cafuné. O menino não pode ajudar? Ao invés de eles desenharem. que é algo fundamenta l. por exemplo. Mas não sabe fazer nada? Ah. Como é que chama esse biscoito? Biscoito escrevido. depois de oito anos de escola. e escreve o nome: Antônio. eu sei fazer biscoito. A estatística dizia o seguin te: 96. O menino de 10 anos apren de a fazer queijo. Como é que a gente faz sabão? Pensando assim.3% dos meninos. criativas. Você imagina qualquer menino aí de Porto Alegre que vai à escola pela primeira vez. Precisa de aprendizagem. a escola já está pronta. Nós fomos juntando esses processos e há nove anos fomos para Araçuaí. A Escola da Ponte. mas o conceito da escolarização. o que ele sabe. a questão da escola pronta e preparada independente das pessoas que vão freqüentá-la. escola embaixo do pé de manga. pode faltar tudo.7% dos meninos que estudaram oito anos estavam em estági o crítico ou insuficiente. Esse é o grande mérito de todos esses trabalhos. Metade delas os meninos fazem com as mãos para trás. É um lugar para ficar no atraso. Escola pode ser no meio da rua. de goma. que é classif icado como um dos cinco maiores bolsões de pobreza do mund o. De excelê ncia não tinha nenhum. E como é que faz biscoito? Biscoito de polvilho. eu também sou analfabeta. embaixo do pé de manga. até sabão. já construímos mais de 1. Aí é simples: o que a senhora pode fazer para ajudar o menino a sair dessa fase? Eu não sei fazer nada não moço. atingiam o grau de suficiência. 16 Junho | 2007 Adverso 148 “A escola está no formol” Experiências como essas são fundamentais porque não só questionam o modelo formal de educação e escolarização que nós temos. inteligentes. Aprende a receita. e quem não sabe o que é cafuné não sabe fazer no outro. Pode? Pode. Criamos uma UTI educacional e começ amos a chamar a comunidade para fazer parte. brincando. Não importa de onde ele vem. no Vale do Jequitinhonha. Você bota as pessoas dentro daquilo e elas têm que aprender.“não precisa de escola p ara a educação. não precisa de escola para a educação. não precisa nem de préd io”. “E como é que faz biscoito escrevido?” Depois da Pedagogia da Roda e da Pedagogia do Brinquedo. Taís Vicari . SEGUNDO TIÃO. Morreu e a gente conserva dentro do formol. nem qual é a vida dele. Então criamos a Oficina de Cafuné. poderiam escrever o nome. Somente 3. não precisa nem de prédio. O CPCD mostra que é possível ir além. mas propõem saídas alternativas. escola no meio da rua. Nas comunidades mais pobre s que se pode imaginar. é a gente mostrar alternativas para um sistema que não é só formal. Pode? Pode. A outra foi a Pedagogia do Sabão. mas é formol.7 mil tecnologias de baixo custo. Não é o conceito da educação. veio a Pedagogia do Abraço. mostrou que é possível mudar dentro do sistema que está engessado.

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