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Memória e esquecimeto ou solidao informacional

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Memória e esquecimento ou solidão informacional do homem contemporâneo

:
a metáfora do filme Amnésia
Georgete Medleg Rodrigues
RESUMO
Em Questão, Porto Alegre, v. 11, n. 1, p. 137-152, jan./jun. 2005.

O filme Amnésia é analisado neste artigo num quadro de referências que evoca os conceitos de tempo, memória e informação e adota como ponto de partida as impressões dos alunos da disciplina Memória e Informação do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade de Brasília sobre o filme. A análise proposta busca refletir sobre as relações entre informação e memória e o seu significado na sociedade contemporânea que privilegia a rapidez, a eficácia e a eficiência da informação; que supervaloriza a informação e os meios de transmiti-las, ao mesmo tempo em que tende a torná-los – meios e informação – rapidamente obsoletos. Busca, também, compreender como os indivíduos transitam nesse paradoxo de abundância de registros informacionais e as dificuldades de lhes atribuir algum sentido; da impotência do sujeito que perdeu a memória e o instinto e parece deslocado temporal, social e espacialmente. PALAVRAS-CHAVE: Informação. Memória. Cinema.

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137-152.. ou ainda./jun. “[. “implicando uma tomada de posição mais vasta sobre os problemas humanos” (MARTIN. 1990. p. segundo esse mesmo autor. entre memória e informação? Como os sujeitos individuais transitam nesse paradoxo? Essas são algumas das questões norteadoras do meu curso na Pós-graduação em Ciência da Informação na Universidade de Brasília. Difíceis de apreender são as atmosferas que os tornam possíveis Doris Lessing. p. ou ter feito aquilo? Os fatos são fáceis. 23).]porque toda imagem é mais ou menos simbólica: tal homem na tela pode facilmente representar a humanidade” (MARTIN. a torná-los (meios e informação) rapidamente obsoletos? Atualmente.. 41. Entretanto.. 95). de antemão. p. 11. 2005. nem análise do filme como obra de arte – embora possamos recorrer a esses elementos –..Como vou cicatrizar. Uma safra profícua de 138 . 1990).]se integra ao mundo que a cerca e com a qual ele [o filme] necessariamente se comunica. tradução nossa). mas. então. prevenimos os leitores de que o nosso objetivo não é uma análise semiótica ou estética. tende-se. n. a eficácia e a eficiência.” O cinema (seja como ficção ou documentário) fornece-nos material para reflexões – de uma maneira que lhe é específica – e tem abordado temas que refletem indagações e perplexidades de uma época. Um filme como ponto de partida para a discussão desses temas revelou-se uma experiência didática interessante. p. segundo a compreensão do cinema tamEm Questão. bém como uma “metáfora ideológica” (MARTIN. que relações podemos estabelecer. como observou Marc Ferro (1993. no sentido de que ele vai além da ação mesma do filme. antes. que papel/lugar a sociedade contemporânea reserva à memória e à informação? Ao supervalorizar a informação e os meios de transmití-las. v. hoje. a análise do filme aqui proposta é um ato que “[. se não posso sentir o tempo? Leonard Shelby. Debaixo da minha pele 1 Introdução Privilegiando a rapidez. Porto Alegre. protagonista de Amnésia Mas como é que pôde acreditar nisso. jan. 1.

a que melhor transmite uma impressão de realidade[. Nós que aqui estamos por vós esperamos (Brasil.. consegue um efeito perturbador que evoca memórias. acreditamos que o filme Amnésia (Christopher Nolan. loucura. etc. tecnologia. 137-152.. velhice. 1.. EUA. v. 11. nas palavras do crítico de cinema Inácio Araújo. do ponto de vista da disciplina. em preto-e-branco. 1 O filme é baseado no conto de Jonathan Nolan./jun. No Brasil. 2004) e Como se fosse a primeira vez (50 First Date. porque articula. Dessa forma. O primeiro.]” (METZ. precisamente porque o cinema é “[. jan. 2000).. EUA. Arquivologia. 2004). Violação de privacidade (The final Cult. EUA.produções cinematográficas do século XXI. angústias e sonhos de uma época. porque “[. n. os conceitos de memória – logo. oriunda basicamente dos Estados Unidos. se não a responder. violência. ao menos a problematizar os temas anunciados no pará- 2 A leitura inicial do filme na perspectiva dos alunos Partir da análise do filme Amnésia para iniciar a discussão dos temas da disciplina com os alunos não pretendia atribuir-lhes. particularmente. Porto Alegre.. temos.”(ARAÚJO. metaforicamente. ressurreição. Comunicação. 139 .]de todas as artes. como já dito anteriormente. Dos mais recentes cujo tema central é a memória podemos destacar Amnésia (Memento. de tempo –. constituído apenas de imagens de arquivo. 1998) e Narradores de Javé (Brasil. p. Ou. 1972). 2004). Embora numa abordagem mais otimista – e centrada essencialmente num drama particular e romântico – este último é simpaticamente solidário com a alteridade e a diferença. irmão do diretor. tem-nos oferecido muitos filmes com enfoque principal em temas que há muito atormentam a humanidade: morte. 2000)1 nos ajudaria. intitulado Memento Mori.. a tarefa de críticos de cinema. grafo que abre este artigo. 2005. 2002) Em Questão. e informação. com as conseqüências decorrentes desse nexo. A nossa idéia inicial era que esses alunos – oriundos de cursos de graduação em História. Esse filme interessou-nos.]bons filmes costumam ter um valor metafórico de largo alcance. memória. EUA.

2005. para a discussão das questões relacionadas à memória e à informação no contexto da sociedade contemporânea. que suscitaram novas questões. 15) fragmentação. mas poderia resultar. mas sempre em torno de memória e de informação.2 as leituras tornaram-se mais estimulantes. de leituras dos autores já indicados na bibliografia da disciplina. dentre outras. analisar 2 Os outros dois filmes foram Uma cidade sem passado (The Nasty Girl. 4) fatos. jan. um discurso dos alunos com base exclusivamente na percepção de cada um. preferencialmente. 1. 17) violência. O que está em destaque no parágrafo anterior são aspectos que se repetiram nos registros de todos os alunos. sem lembranças. 11. dos interlocutores e dos registros. A maioria registrou apenas suas impressões. 1/2005).Ciência da Computação e Biblioteconomia – registrassem suas impressões sobre o filme num texto escrito. também./jun. p. 12) impossibilidade de dar sentido às experiências mais recentes. levam à manipulação. v. os textos produzidos pelos alunos foram discutidos coletivamente. 1999) e Narradores de Javé. sem a intervenção de autores. 6) memória é referenciada no passado. A nossa constatação. independentemente do seu suporte ou origem? 3) impossibilidade de memorizar o presente. 7) engano. 16) esquecimento. 137-152. logo. depois desse filme. Após cada semestre eu buscava sistematizar as impressões (escritas) dos alunos com as Em Questão. na semana seguinte. o que tornou a experiência mais rica e instigante. 8) vingança. é que. quando oferecemos a disciplina na pós-graduação. Alemanha. como professora. iremos. presente e futuro (tempo). Algumas impressões tornaram-se mais interessantes quando. 9) preso/refém do presente. 5) perda de identidade. 14) descontinuidade. n. Este deveria ser. conclusões às quais chegávamos depois dos debates em sala de aula. então. 10) perda da intuição. A experiência foi desenvolvida em três semestres acadêmicos (1/2003. O que era apenas impressão poderia ser direcionado para a temática do curso. 11) corpo apenas como veículo de informação. 13) sensação de angústia (do espectador). Neste artigo. as falas dos alunos sobre o filme: 1) devemos confiar nos registros escritos? 2) As fontes são ou não confiáveis. 1/ 2004. Porto Alegre. Eis. 140 .

jan. a montagem) que altera drasticamente a noção de tempo.1890). parte de um trabalho investigativo que terá continuidade com os alunos da pós-graduação a cada novo semestre.]é o processo ou conjunto de processos que mantém a memória funcionando durante essas horas em que a [memória] de longa duração não adquiriu sua forma definitiva” (IZQUIERDO.. não fosse a estrutura narrativa (e. Na verdade. folheto ou livrinho em que se acha resumido o essencial de uma matéria ou assunto: resumo. imagens. 2005.. p. v. significando “[. um pensamento ainda em construção.essas percepções com base nas reflexões de alguns autores e recorrendo a certas passagens significativas do filme. n. contudo. os títulos Amnésia e Memento complementam-se. p. Porto Alegre. fisionomias). Entretanto. 1999).. 2001. .” (HOUAISS. Memória recente: “[. O psiquiatra russo Korsakoff descreveu essa perturbação em alcoólatras crônicos. cuja identidade ele desconhece. observando que certos autores citados aqui foram discutidos em sala de aula. claro. a linguagem e as principais recordações antigas são conservadas. ao tentar intervir o protagonista recebe um golpe violento na cabeça o que compromete suas funções mnemônicas para informações novas.. 1. 137-152.] aquilo que recorda algo ou alguém. acreditamos. marca ou nota que se usa para trazer alguma coisa à lembrança. 11. Este texto representa. A perda da memória recente é denominada Amnésia de Korsakoff que significa a perda quase total da capacidade de memorizar a longo prazo todas as informações novas (palavras. o tornam rele3 4 Expressão emprestada a Philippe Artières (1998). Trata-se da história de um homem (Leonard) que perde a memória recente4 em função de um trauma ocasionado pelo assassinato brutal de sua mulher. Leonard busca desesperadamente o assassino. 141 Em Questão. Testemunha da cena. estamos diante de um clássico filme policial. sumário. representam bem a temática do filme ou as questões que. no melhor estilo noir – nos quais o detetive é sempre solitário e angustiado –. caderneta para apontamentos e notas que se deseja lembrar./jun. essa palavra deriva do latim. 3 Arquivarás tua vida3 ou homem-memento? Memento é o título original do filme. Aparentemente. lembrança. Segundo o Dicionário Houaiss. recordação. contando a história de trás pra frente (não se trata apenas de flashback). Desde o episódio.

Mas não se trata de escrever um diário. Não é.] O mito de Teuto.vante como representação de uma época. Ao demonstrar ao rei Amon. em algum momento. para a memória.. então.. ô rei. assim como a instrução.]quase tudo. porque eles cessarão de exercer sua memória: atribuindo sua confiança ao escrito. Carro. fotografias.” E o rei respondeu: “[. simultaneamente. etc. – une..]”. que eles se rememorarão das coisas. aqui. grifos nossos) Em Questão. ele não tem memória. 11. pressupõe uma ordenação na narrativa (1998). um deus-demônio egipício. n. anotações na própria mão. “Arquivar a própria vida[. Amnésia (ou Memento) – ao contar a história de um indivíduo que perde a memória recente e que para se lembrar dos fatos tatua as informações em seu próprio corpo.]” (PLATÃO. é de fora. O “[. a arte da escrita. uma página de agenda[./jun. definitiva.. um conhecimento que terá como efeito tornar os egípcios mais instruídos e mais capazes de se rememorar: a memória. numa sentença curta.. além de registrá-las em bilhetes.. tradução nossa.. justamente. v. Mate-o. 1. a falta (amnésia) e o excesso (de mementos). que o protagonista faz as analogias. graças a eles mesmos. Porto Alegre.. Sua atitude evoca a amarga constatação de Sócrates. entre cada termo. como nos indica Artières.]. apenas registra fatos. uma folha de bloco. fotografias. 2005. de se enxergar no espelho – não cabe no personagem porque.. disse: “Eis. O protagonista move-se no filme sempre anotando e/ou fotografando. p. 142 . que.. jan. tornar suas almas esquecidas. sem nuanças. de Platão : [. Casa. não narra.” É assim. a maioria.. O nosso personagem. não de dentro. Alguém curioso – incluindo o espectador – tendo acesso a suas anotações não compreenderia nada: ele também – espectador – é jogado em cada cena como se ela somente existisse no presente. é para a rememoração que tu descobristes um remédio[. para ele. “Fotografia. graças às marcas estrangeiras. 274d. 137-152. ao contrário. passa por um pedaço de papel. se traduzem por documentos. Esse conhecimento terá como conseqüência para aqueles que o adquiriram. encontram o seu remédio. num dos diálogos de Fedro.]” – ao qual se refere Artières (1998) para nos lembrar que as ações compulsivas de tudo guardar remete à vontade do indivíduo de se construir a si mesmo..

2000. p. p. além dos arquivos. O arquivo surge. registrando-as. Segundo Huyssen (2000) e Colombo (1991). incluindo um relatório de polícia ao qual. falta de solidarie- 143 .. a investir nas come- Esquecimento como uma reação ao excesso de informação é a tese de Huyssen (2000. no entanto.] contrapeso ao sempre crescente passo da mudança. 92) observa que. v.. 2005./jun.. um lugar de preservação espacial e temporal.. jan. a narrativa não é elaborada mediante a seleção de acontecimentos ou fatos. aprofundando as teses de Halbawchs (2004).. que “[. 11.] os fatos não estão dados.. aí residiria um dos fetiches do nosso tempo. Leonard somente pode contar com as informações (dados) que lhes são passadas pelos outros personagens. reproduzindo-as. Em Questão. Bettetini (1980 apud COLOMBO.] a “sociedade da técnica” recolhe continuamente memórias. Vázquez. como um “[. somorações. 137-152. n. a tudo “museologizar”. 109. sim). [. Tendo perdido a sua memória.” (HUYSSEN. o que compromete sua credibilidade (os documentos escritos são mais confiáveis que a memória? Para o protagonista. 1. p 20). isto é. p.” Num mundo de violência.” (VAZQUEZ. mos impelidos a tudo arquivar.Como veremos mais adiante. 2001. mais nos sentimos no perigo do esquecimento e mais forte é a necessidade de esquecer. tradução nossa). p.]quanto mais nos pedem para lembrar. então. transforma tudo em signo e em testemunho: produz uma forma excepcional de arqueologia que se constitui simultaneamente com o primeiro devir das coisas. observa. no rastro da explosão da informação e da comercialização da memória. entretanto. repetindo-as. segundo a qual “[.. Porto Alegre. Encontrar o assassino vai depender se este se encontra registrado nos arquivos de Leonard. 1991. mas fatos e acontecimentos se convertem em tais por meio da organização narrativa dos discursos. Leonard. não consegue transformar “dados” em “informações”. faltam doze páginas (quem as teria arrancado?). 33). tráfico de drogas. duplicando-as. entre os documentos que ele sempre carrega consigo. Aterrorizados com a perspectiva do esquecimento..

ele é um representante de empresa de seguro para o qual não existe compaixão pela dor do outro e cuja intuição é “ensaiada” –. os alunos declararam não saber em quem ou no quê acreditar. Nessa perspectiva./jun. 2005. a mais forte de todas? Como compreender a dimensão dessa violência se. Eis a metáfora essencial à qual fizemos alusão no título deste artigo. Essa opção narrativa torna os espectadores cúmplices do drama de Leonard: não é somente o protagonista que está perdido na história. de Leonard. um suspense policial. a narrativa transforma o que poderia ser apenas um drama individual. O cenário do filme é mais um personagem e remete-nos às cidades que parecem. v. 1. todos envolvidos numa trama além das aparências. jan. a sua percepção de passado e futuro. se a violência permanece como marca e como recordação. o que parece comprometer. ele (nós) perdeu (emos) a capacidade de lhes dar outro sentido? 4 Leonard somos nós? A opção radical do diretor tem uma razão: é preciso que o espectador se identifique com o tipo de amnésia do protagonista que. esquecer como. tem alterada a sua percepção do presente. p. 11. ou o “mal-estar no século XXI”. Isso dá ao filme a sua dimensão social. Porto Alegre.dade – na história em preto-e-branco. também. o que menos importa no filme é a identidade do assassino – ou mesmo se houve um assassinato –. na verdade. A certa altura. como tantos à beira-estrada. paralela. elas também. num mal-estar coletivo. espectadores. os outros personagens e nós. mais que um drama individual. mas o jogo confuso que se estabelece entre o protagonista. da perda de memória como um fenômeno coletivo. alunos com o sentimento de angústia do protagonista: como ele. 137-152. sem memória. 144 . diante dos arquivos – pessoais e institucionais –. n. um “não-lugar” como quer a globalização dominante: um quarto de hotel. nós todos o acompanhamos. segundo Ribeiro (2000) evocando Freud. após o crime. tudo parece indicar que. não seria melhor “esquecer”? Porém. Daí a identificação dos meus Em Questão. Assim.

A tudo isso. o cinema faz parte..] as memórias do século XX nos confrontam não com uma vida melhor. 145 . p. v. já no seu alvorecer.. a não solidariedade com o sofrimento de outrem. paradoxalmente. todos os personagens. Finalmente. n. radicalizada pelas invenções tecnológicas do século XX das quais. qual. assim como o protagonista./jun. pode ser entendido como uma marca das sociedades contemporâneas: a violência. Kossoy (1989) e Sontag (2004). A ausência de 5 A primeira edição. na França. p. ou de um século que se anuncia violento. uma maneira de o diretor problematizar a presunção de verdade da fotografia. 31) quando afirma que “[. como os espectadores. nos diz Halbwachs (2004). 2005. Porto Alegre. o protagonista acrescenta o registro fotográfico. a alteridade. jan. mas com uma história única de genocídio e destruição em massa. “Nosso entorno material leva ao mesmo tempo nossa marca e a dos outros”. Fatos (ou dados) se superpõem a todo instante e são obsessivamente registrados por Leonard (e por nós. parecem solitários e o único laço que os aproxima e os une é aquilo que. como assinalam. espectadores.cansado de vagar por entre espaços que lhe são indiferentes. desse livro saiu em 1950. 11. a priori. Essa constatação encontra eco em Huyssen (2001. dentre outros. 1. não sofre de falta de informações. é outro aspecto interessante do filme que o alça à categoria de representação de uma época. claro) e são “complementados” pelas versões dos outros personagens. Finalmente. póstuma. com o 11 de setembro. Sua casa e alguns objetos que lhe fazem lembrar de sua mulher: uma escova de cabelos e um livro. o protagonista. o seu desejo o remete ao que ainda pode ser humano e suave. por documentos oficiais. O poder de realidade da fotografia é anunciado com mais precisão no conto Memento Em Questão. Além da violência que o liga a um passado que se lhe afigura fragmentado. de certa forma. 137-152. Leonard diz que “gostaria de ter uma casa”. barra qualquer tentativa de glorificar o passado”.5 Ruas desoladamente vazias onde reinam apenas os automóveis e o que eles simbolizam da vertigem de velocidade.

reafirmando o que nos lembra Berger (1999). Porto Alegre. n. ele deverá guiar-se na busca pelo assassino de sua mulher. “Bela foto. e. Mas. na perspectiva da filosofia da informação. como manifestação primitiva e fundamental. por outro lado. da ilusão fotográfica já anunciada por Michelangelo Antonioni no intrigante filme Blow Up. É para isso que serve a foto – aquela pregada à parede ao lado da porta. 4) Ainda no filme. jan.. Curiosamente. disso pode ter certeza.” Lembremo-nos. próxima à porta.. isto é. sabiam que você não se lembraria. no sentido fenomenológico. de forma que você não pudesse deixar de olhá-la sempre que se levantasse para procurá-la. o efêmero introduzindose na narrativa. seus médicos.” Na direção apontada pelo autor. em Polaroid: é o instantâneo. Não é usual tirar fotos em funeral. 2001. que significado tem a informação para quem perdeu a memória – pelo menos. o protagonista aparece fazendo uma fotografia. p. a informação. na ausência de memória. pois. já envolvidos. é um “fato” – um dentre outros – que. da comunicação e da decisão. parte dela? Vejamos o conceito de informação. o efeito de verdade da fotografia é recusado numa cena em que o personagem de nome Teddy ou John G. obtém informações “oficiais”. suponho. por meio de um diálogo interior (simplificado no filme) do personagem central. p. mas alguém.] uma imagem é uma cena que foi Em Questão. 1. logo no início. 2005.Mori. ajustados ou em ajustamento a 146 . também. de Jonathan Nolan. fotografa. para o protagonista.9). diz Teddy. segundo ele.. Eu pareço magro”. (NOLAN. Você esteve lá. deve ser entendida como “[.. recriada ou reproduzida. 137-152.. afinal.] um fundamento da ação. Para Iharco (2003./jun. Eles a ampliaram bastante e a puseram bem aí.. não por acaso. anota. 5 As informações e a ausência de sentido O nosso personagem tatua seu próprio corpo. é fotografado por Leonard. p. o sujeito que apreende a informação é determinado pelo seu passado. “[. que “[.] no mundo. de 1966. 11. Mas. v.

p.]” e 6 Falamos aqui na “natureza formativa” da informação no sentido segundo o qual a “[. Ou. 88.” (ILHARCO. 137-152... p. actuamos intuitivamente com base naquilo que para nós próprios e conforme ao que nós mesmos somos.. mas o que vemos depende do que somos. isto é. uma idéia. SILEM. à memória. Porto Alegre. que “[. grifos nossos).266). O filósofo Henri Bergson7 (1999) associa as tomadas de decisão do indivíduo à sua capacidade mnemônica. Nessa direção. uma entidade distinguida no meio envolvente em que está e é o ser humano. As teses defendidas pelo autor nesse livro vinham sendo objeto de sua preocupação desde o século XIX e muitas dessas teses. jan. 11. em francês Matière et mémoire. que impõe aquela forma” (ILHARCO. 658). 2005). n. por isso. a diferença entre “dado” e “informação” deve ser destacada: a “[./jun. p. depende do que vimos. de uma modelação ou de contornos sobre uma coisa.] conserva seu passado e o atualiza no presente[.. 2005. como assinalado por Arendt (1988). p. Complementando. p.] o “acabamento” que de fato todo acontecimento vivido precisa ter nas mentes dos que deverão depois contar a história e transmitir seu significado deles se esquivou.41). sugerindo-nos assim a decisão mais útil. Ilharco diz que “[. 1997.. p.. 2003.” (ILHARCO.cada situação e aos outros. 2003. [. 2003.. p. 1988. 32. p. referindo-se à concepção de memória de Bergson. v.] ver é determinante e é determinante para a ação.” (BERGSON. recordar-nos o que precedeu e o que seguiu.]palavra informação significa a imposição de uma forma. 297. grifos nossos) Em Questão.. o caráter “formativo”6 da informação supõe um sujeito que lhe dá sentido.. como sintetizado por Abagnano (1998. funcionou no passado. foi publicada em 1939 pela Presses Universitaires de France (PUF). a pessoa.. particularmente aquelas referentes à existência de vários tipos de memórias. 7 A primeira edição da obra de Bergson. do que soubemos e do que sabemos. 174). simplesmente não sobrou nenhuma história que pudesse ser contada. são corroboradas pelos estudos atuais sobre memória (JAFFARD.] informação é um dado provido de sentido no processo de comunicação. 147 .. e sem este acabamento pensado após o ato e sem a articulação realizada pela memória. 1.. o ser que tem memória “[. 1999. (ARENDT. Ou seja.” (LAMIZET. E uma parte essencial desse dar sentido reside na memória. tradução e grifos nossos)..] tem por função primeira evocar todas as percepções passadas análogas a uma percepção presente..

.] decidir. por sua vez. p.” Bougnoux (1999). faz parte do humano a capacidade que ele denomina “[.]por conseguinte. 1. em suma.. não perdeu a memória). 137-152. fotografou.140.] um organismo. eventos ou informações. Ele está. 6 A título de conclusão A memória é um processo dinâmico e conflituoso e que está fortemente ligado a cenários sociais e comunicativos. e essas relações ditas semióticas qualificam. Cada cena testemunhada pelo espectador é imediatamente apresentada em retrospectiva e o que se vê parece contradizer o que “nossos olhos viram” há pouco. não se deixa encadear a seu meio ambiente por relações mecânicas ou de tipo estímulo-resposta [. 1999. Amnésia provavelmente não seria tão desconcertante e envolvente se conEm Questão. de fato. o que é.. mais do que o protagonista – que perdeu a capacidade de avaliar se o que ele anotou. É no quadro das relações que se constro- 148 . diante de um conjunto de dados.] ativação preventiva do esquecimento [. se angustia por não saber.]” que nada mais é do que “[. “[. Porto Alegre. etc.. registrou é verdadeiro –. o espectador (que. as fotografias. o que se chama informação. 89). em tese. v. 11.. jan... verdade. ele o interpreta. p.. tasse uma história de forma linear.].” (COLOMBO. história e tradição. segundo Colombo (1991).. 1991. todos os “fatos” estão lá: as anotações. cujo valor coincide também com nosso grau de liberdade. “refém” de um presente sobre o qual não tem controle. as informações dos outros personagens. enquanto está vivo. 2005. os relatórios... p. O problema é que a faculdade de interpretar e o grau de liberdade do protagonista estão comprometidos pela falta de memória. n. (BOUGNOUX./jun.tem. Entretanto. [. grifo nosso) Da mesma forma. Nesse sentido. como notaram os meus alunos. ressalta que. quais devem ser privilegiados e quais podem ser abandonados ao possível cancelamento. A ação mnemônica compreende assim um processo comunicacional..

. ela já existe na própria natureza (divisão entre dia e noite) e. Amnésia parece representar bem esse mundo “agitado e conturbado” da “sociedade da informação”. individuais ou coletivas. 103. or the informational solitude of contemporary man: the metaphor of the film Amnésia ABSTRACT The film Amnésia is analysed in a referential framework that evokes the concepts of time. individual ou coletiva. segundo Le Goff (1997.” (DEMO. 2001. p.. 2001). tampouco existe vida social sem memória. em algum momento. its point of departure are the 149 . 2000. jan. Esse autor. retomando Halbawchs. p. me ajuda a entender a minha”. a dimensão temporal é fundamental para a vida social (VÁZQUEZ. Ainda que a marcação do tempo tenha sido construída. 1. 11. Porto Alegre. que as lembranças são evocadas. tradução nossa). p. Ainda há algum sinal de discernimento num indivíduo que reflete: “nós todos precisamos de espelhos. p./jun. Finalmente. ele murmura que “nós todos precisamos de espelhos”. nos lembra ainda que “[. por meio da linguagem. diz Leonard a um dos personagens. 2005. As memórias são tributárias umas das outras – simultâneas e precedentes –.” Em Questão. memory and information. Assim. 46). No final do Memory and forgetfulness. 41).” Por outro lado. “Sua história filme.” Duas passagens do filme representam bem essas afirmações. a um tempo “[. v. 2004). remete à idéia de um contexto organizado e que dá sentido às experiências. “a memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade. assim como da história e da cultura de uma sociedade (VÁZQUEZ..] intrinsecamente manipulado e impossível de ser totalmente manipulado. 137-152. cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje. Assim.em as memórias e é nele. a expressão “viver no tempo”.] não existe memória sem vida social.. essa construção foi objeto de um consenso social (HALBAWCHS. n.

memoria e información a partir de las opiniones de los alumnos del programa de posgrado en Ciencia de la Información de la Universidad de Brasilia. 150 . Memoria y olvido o soledad informacional del hombre contemporáneo: la metáfora de la película Amnesia. Trad. society and space. 1. Cinema. Intérpretes: Guy Pearce. Nicola. São Paulo: Martins Fontes. v. Se trata también de comprender cómo las personas conviven con la paradoja de la abundancia de informaciones y de la dificultad de atribuírles cualquier sentido.ed. Direção: Christopher Nolan. 2. Memory. RESUMEN Se analiza en este trabajo la película Amnesia desde el punto de vista de las nociones de tiempo. The proposed analysis attempts to reflect on the relations between information and memory and their significance in contemporary society as favoring rapidity. 1998. efficacy and efficiency of information. Dicionário de filosofia. Referências ABAGNANO. al tiempo que se observa una tendencia a tornar rapidamente obsoletos tanto la información como los medios de transmitirla. Cinema Em Questão. Memoria. jan. que privilegia la rapidez. n. At the same time. de la impotencia del sujeto que perdió la memoria y el instinto y parece perdido en el tiempo. en la sociedad y en el espacio. El análisis propuesto se basa en reflexiones sobre las relaciones entre información y memoria. la eficacia y la eficiencia de la información y supervalora la información y sus medios de transmisión. the article seeks to understand how individuals move through this paradox of a superabundance of informational registers and the difficulties they have in trying to give it a kind of meaning. 137-152. AMNÉSIA (Memento). trying to put a high premium on information and its means of transmission all the while one is rapidly causing those same means to become obsolete. Alfredo Bosi. of the impotence of the subject which loses memory and instinct and which appears dislocated in time. Joe Pantoliano e outros. Carrie-Anne Moss./jun. 2005.impressions postgraduates students in information science have of the film. KEYWORDS: Information. así como sobre su significación en la sociedad contemporánea. Produção: Jennifer Todd. p. Suzanne Todd. PALABRAS-CLAVE: Información. 11. Porto Alegre.

Produzido e distribuído por Videolar S/A. Rio de Janeiro: Rocco. Boris. 11. In: _______. Pedro. Henri. Mauro W. Ruggiero (Dir. Ciência Hoje. São Paulo: Martins Fontes. Ivan. Baseado no Conto “Memento Mori”. v. Barbosa de Almeida. Trad. BERGSON. A quebra entre o passado e o futuro. 1945. Trad. Marc. 2004. São Paulo: Perspectiva. Modos de ver. ARTIÈRES. John. Gustavo Lins. São Paulo: Perspectiva. Jean-Claude Bernadet. abr. A memória coletiva. 1999. IZQUERDO. Porto Alegre. Os arquivos imperfeitos. Lúcia Olinto.Roteiro: Christopher Nolan. S. ed.42. Christian. 37. n. p. p. 2000. 2000. maio/ago. ARENDT. Trad. Introdução às ciências da comunicação. Caderno Mais! PLATÃO. Robert. Os labirintos da memória. Trad. JAFFARD. Trad. Fedro. Ciência da Informação./jun. 1998. Cidade do México: Universidad Nacional Autónoma de México. Dicionário da Houaiss da Língua Portuguesa. p. Cultura e política no mundo contemporâneo. LE GOFF. 1999. A diversidade da memória. p. Bauru: EDUSC. 1997. DVD (115 min). 11. Philippe. Em Questão. 2001. 1991. n. Cinéma et histoire. Fotografia e história. DEMO. Paris: Gallimard. Trad. 3943. Arquivar a própria vida. 9-34. Andreas. v. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda. 11-51. 2. FERRO. HALBWACHS. São Paulo: Perspectiva. n. Laís Teles Benoir. de Jonathan Nolan. Juan David García Bacca. Rio de Janeiro: Aeroplano. Memória. 148. Brasília: Editora da UnB. 1972. 1988. 1. Música: David Julyan. Paulo. Jonathan. Maria Leonor Loureiro. 2000. Matéria e memória. Memento Mori. Trad. COLOMBO. p.2.29. Trad. BERGER. Especial Memória. Rio de Janeiro: Objetiva. 151 . In: ROMANO. Seduzidos pela memória. 1993. 25. 1999. Antônio. 1989. Hannah. color. 2001. São Paulo: Ática. HOUAISS. METZ. Paulo. Memória social e cultura eletrônica. Trad. KOSSOY. 12 ago. NOLAN.) Enciclopédia Einaudi. Ambivalências da sociedade da informação. 1999. Estudos históricos. Paris Filmes e Newmarket. 243. Paulo Neves. jan. v. São Paulo: Centauro. Maurice. 21. Beatriz Borges. Victor Aiello Tsu. Rio de Janeiro. Daniel. RIBEIRO. Entre o passado e o futuro. 2005. p. n. A significação no cinema. EUA. Mente & Cérebro. Viver. v. São Paulo. 137-152. Folha de S. 2. Tradução Sérgio Alcides. Ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. Jacques. n. Fausto. BOUGNOUX. 2005. HUYSSEN. 2000.

Otacílio. Susan. particularmente: Ana Claudia. 2005. André. Leandra e Daniela. cuja temática é Memória e Informação. Trad. Porto Alegre. 1. Agradeço aos meus alunos da disciplina Tópicos Especiais em Arquivologia. p. Rubens Figueiredo. Fernanda.br Em Questão. v. jan. Sobre fotografia. pelas discussões e observações inteligentes e sensíveis. Georgete Medleg Rodrigues Doutora em História Professora do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação do Departamento de Ciência da Informação da Universidade de Brasília (UnB) E-mail: georgete@unb. 152 . Elizangela. São Paulo: Companhia das Letras. Carlos Eduardo. Angelica. 137-152.SONTAG. n./jun. 11. 2004.

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