Elmano d’Argus

Palimpsesto

Lisboa, 2001

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A nossos filhos, Maria, tomando voz de nossos pais.

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Tão elementar é, afinal, pai, o teu desígnio. Só tens que ser tal, qual te impõe o meu destino.

Quando te perguntarem quem foi o teu pai, podes, com o sentido que lhe queiras atribuir, responder: Eu sou a filha do enforcado. E posso-te garantir que essa resposta qualquer a pode dar. Nem sempre, nem todos com o mesmo sentido. À Maria Leonor.

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Itinerário

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Pouco antes de me despedir da sua companhia, que frequentei durante um ror de anos, o cego Damião, prevendo porventura o epílogo da sua incansável e atribulada viagem terrena, ansiando usufruir em intimidade os derradeiros dias, distribuíu os seus haveres. Parcos haveres, dirão alguns. Algumas dúzias de fardos de papelada atados com cordéis, que ninguém saberia o que continham, mas que tenho vindo a trazer à fama. Talvez por vaidade, convenci-me de que me contemplara com o quinhão mais substancial do espólio, mais ainda do que ao títere Perdigão, o mais dilecto e contíguo dos seus discípulos. Mas um dia encontrei por acaso o Perdigão, já muito doente e devastado pela saudade, perdido e solitário em demanda de velhos caminhos, cujo rasto se perdera numa paisagem subvertida de que a memória se apagara. Ainda teve alento para se sair com umas décimas, já sem a cadência viva e sarcástica de outrora, mas sábias no desânimo, conquanto recalcitrantes em ilusões fugazes. Foi então que tirou da sacola surrada um canhenho manuscrito, com uma dezena de cadernos, muito esvaecido, e me disse: - Guarda-o. A mim não me serve já para nada. Era do Damião. Nem tu sabias que ele escrevia romances. Deve ter sido escrito durante muito tempo, durante toda a sua vida, porventura, a julgar pelas alterações da caligrafia. Há uns anos que, sem saber que destino hei de tomar no resto da minha caminhada, tento desfazer o caminho do Damião, à procura do lugar onde se iniciaram os nossos destinos. Mas o Damião calcorreou muito mundo, mais ainda com a mente alucinada e frenética de cego do que com as botas buliçosas. E os caminhos apagaram-se na paisagem, submersos pelos detritos que se acumularam pelo mundo. Já não vejo destino para a minha jornada, nem enxergo a proveniência daquela em que me perdi já nem sei quando. Durante os últimos anos, tenho tentado guiar-me por este livro, como se ele fosse um mapa para voltar para trás e reencontrar

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o local e o momento de onde o Damião partiu. Algures, numa estância qualquer da jornada do Damião, partimos nós, tu e eu, sucessivamente. Eu, por mim, perdi-me. Tenta agora tu. Tomei o livro e folheei-o. Resisti todavia a aceitá-lo. A bem dizer, senti mesmo um pouco de despeito. - Ora... se é a história da vida do Damião, sabes que eu próprio a recolhi e escrevi, guiado pelos seus relatos, há alguns anos. É bem possível que a história da vida do Damião tivesse sido diferente de cada vez que a relatou, conforme as circunstâncias e os circunstantes, e que este livro me proporcione uma versão surpreendente se a conotar com a que me transmitiu. Mas, por mim, fiquei muito satisfeito com a que eu próprio pude recolher de sua viva voz e não me serve para desmanchar nem o caminho do Damião nem o meu, nem para procurar novos para as minhas próprias jornadas. Quero dizer que, depois de acompanhar o Damião através dos seus sinuosos caminhos, desejo cada vez mais encontrar os meus próprios, sem sobrepor às suas as minhas pegadas, no mesmo ou em inverso sentido. - Não, estás enganado. Essa não é a história da vida do Damião. É a história da vida de alguém, que serviu de esquema ou de esboço sobre o qual o Damião quis que compusessem a sua própria. Foi o que me pareceu. Ele mesmo, em notas, refere onde recolheu essa história. Bem, se não te servir para nada, oferece-a a outro qualquer. A mim, serviu-me apenas para me sentir mais longe de mim próprio. E lá fiquei eu com a encomenda. Ainda hoje me sinto traído, quando penso que foi através do títere que este livro me veio parar às mãos. Esperaria que o Damião, ao confiar-me o relato da história da sua vida, me tivesse confiado este manuscrito. Desagravo-o, concluindo que o não fez por distracção.

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Se fizer fé numa nota que acompanha um prefácio sumário, a história foi recolhida pelo Damião de um velho alfarrábio impresso em Évora nos anos derradeiros do Século XVII, que jazia esquecido e caído nos entreforros de uma estante da biblioteca do seu tio Atanásio. Todos os esforços que fiz para encontrar uma breve referência à raridade bibliográfica foram baldados. Se existiu, não deixou rasto. Mas o Damião era profícuo nestas mirambolâncias. O manuscrito era o resultado de anos de trabalho literário do Damião, reenfabulando porventura uma história inócua, alheia ao sentido que ele próprio resolvera atribuir-lhe. Estava em esboço, com alguns capítulos na sua forma definitiva, outros apenas com breves referências esquemáticas, ou alternativas de desenvolvimento, por vezes contraditórias. Era fácil deduzir que a peça original se confinasse a um só prego, ou dois. Foi-me muito difícil edificar uma apresentação definitiva, a partir do esboço do Damião. Para mais, devo confessar que o li quatro vezes, transferindo para um caderno com a minha caligrafia anotações e tentativas de reconstituição, decifrando um original caligraficamente descuidado e já muito apagado e rasurado. Quando um dia quis retomar a tarefa, o original já não me servia para nada, roído pela humidade e pelos ratos no sotão de um amigo onde fora obrigado a depositá-lo, numa fase mais precária das minhas breves estâncias sedentárias. Mais uma vez o Damião, através de uma artimanha insinuante, que, para mais, me fez sentir traído, deixou-me o encargo de transmitir, já não a história da sua vida, mas o esboço da matriz através do qual quis que a decifrassem. Como se fora eu o autor do sentido que ele próprio lhe quisera atribuir. E não deixo de me sentir tentado a imaginar como haveria o títere Perdigão de se haver com a matéria, no seu estilo tragicómico, se não me tivesse encontrado, mesmo a talhe de foice, naquele derradeiro dia. Tenho a certeza de que comporia uma odisseia. O títere Perdigão em peregrinação circum-cêntrica, em demanda dos

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trilhos que o conduzissem ao berço da génese humana, onde reencontraria o Damião para o guiar no regresso.

Uma conjura
Um episódio hilariante, pensava Cosme. O velho lente espartilhado e empertigado nas suas negras vestimentas, debruadas a escarlate, a cabeça lançada para trás, o monumental cartapácio sob o braço esquerdo bem firmado junto ao peito, os botins a emergirem luzidios, alternadamente, por debaixo da sotaina a cada passo rápido e conciso, a imagem viva da perfeição do universo na

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compostura humana. O negro chapéu de copa alta e troncocónica, insígnia do ambíguo compromisso entre a razão e a magia, a sobriedade e simetria apenas laivada de breves apontamentos de soberba. A dignidade, em pé e ambulante, da própria ciência e das suas instituições. O velho lente tossica, para desagravar a voz das longas incursões pelo latim dos tratados. Não vê ninguém, todos se afastam inclinando discretamente a cabeça. De súbito, parou, rígido como uma vara de salgueiro. Um baque surdo e o estilhaçar dos cacos no lajedo do corredor. Um ar atónito, mais de surpresa e indignação, do que de dor ou de pânico. E despenha-se como se toda a massa sólida do esqueleto se tivesse esvaído de dentro das roupagens, agora esvaziadas do ar que as insuflara. O lente já não existia, pelo chão espalhara-se enrolado em pregas o seu negro invólucro, o chapéu para um lado, os botins para o outro, o livro aberto com as folhas em buliço sopradas pela aragem. Gritos, correrias. Alguém abriu uma porta, uma lufada redemoinhou, a sotaina esvoaçou descobrindo as ceroulas do lente até às partes pudengas e assim ficou porque ninguém teve o arrojo de se aproximar para o compor. Só então se deram irreversivelmente conta de que, por debaixo de um tufo de saias bem vincadas, jazia Dom Francisco Canete, lente de prima de anatomia da venerável Universidade de Coimbra. Todos olhavam agora para cima, para as altitudes de um interminável varandim, em cuja balaustrada os elegantes vasos de majólica polícroma, transbordantes de verduras, se perfilavam impávidos. Um pombo perdido esvoaçava, assustado. Lá vem mais um... Outro... Todos protegem as cabeças com as mãos e é a debandada. Lá fica o lente. Quando de novo se aproxima, por entre os demais, a atenção de Cosme é atraída pela gravura ostentada na página do batente esquerdo do canhenho. Um elegante esfolado, em apolínea compostura, com o cotovelo apoiado num pilar e a cabeça recostada na mão direita, descarnado em vários estratos, músculos e tendões pendurados e alguns ossos expostos. Cosme transfere-se

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para a dimensão da alucinação e já só consegue imaginar uma floreira em majólica a despenhar-se das alturas sobre a cabeça do petulante, que fica estirado por terra envolto em peles, carnes, músculos e humores. Um episódio hilariante, pensou Cosme. Dom Francisco Canete ruíra com a elegância e sobriedade de um esfolado de Vesálio. Se não fora o vento que lhe levantou as saias. Contrariamente todavia ao esfolado, anónimo porque lhe iludiram a identidade da expressão do rosto no pristino esboço da fábrica osteográfica, Dom Francisco Canete, cujo capital apêndice também ficou omisso por debaixo do amontoado das roupas em desalinho, era bem reconhecível pelas insígnias dos adreços, sobretudo pelas páginas do Vesálio folheadas pelos dedos sedosos da aragem. Ele era o antídoto contra Vesálio. Um breve fio de sangue despontou da negritude da massa informe dos escombros do lente, espraiando-se numa ténue mancha. O conteúdo de toda a sua vida esvaía-se naquela cena tragicómica. Dom Francisco Canete não editara uma linha durante os seus cinquenta e oito anos de vida. Tudo o que proclamara, publicara-o pela sua voz tonitruante, que educara disciplinadamente. Aos ouvidos de Cosme afloravam agora os trovões das sentenças com que o lente imobilizara os auditórios. - E então, Senhores, tremeis vós de pânico só porque constatais que alguns aplicam a sua diligência e a nossa ciência a desmanchar a fábrica? Pois, e o que será dos vindoiros, quando presenciarem que a mesma diligência e a mesma ciência seja aplicada, não a decompô-la, que é ao fim e ao cabo o nosso mester, mas a criá-la? A criá-la para a sujeitarem. Para imporem à própria criação a sujeição aos critérios dos vis desígnios do homem. Porque no acto de desmanchar a fábrica inicia-se a jornada que se concluirá na soberba pretensão da sua criação. O que vos proponho que questioneis não é o limite do conhecimento humano, pois para tal não há limites senão os que a

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moral lhe impuser. Mas a moral não impõe limites ao conhecimento, Senhores, tão só à acção que dele possa advir. Ou à acção de que ele possa provir. E então tremeis só de ver os vossos irmãos decompostos nas suas partes, para um lado as carnes e para outro os ossos. Pois, por ora, iniciou-se apenas um perverso processo de análise, que não conhece já limites impostos pela moral. Mata, fere e amputa o homem em várias circunstâncias, com o beneplácito dos reis, dos padres e até dos papas. O teatro anatómico parecer-vos-á porventura um espectáculo bem menos degradante do que o do cadafalso e o do pelourinho, ou o da ira das turbas em fúria nos êxtases das carneficinas. Tremei então porque a análise que se processa hoje no teatro anatómico não se consuma em si própria, como se consumam os outros actos de violência contra os corpos e os seres. As análises que agora vos propõem consumar-se-ão, no futuro, em propostas de sínteses que nem poderemos imaginar. Hoje aplicamo-nos a dissecar e a analisar para conhecer, amanhã aplicaremos o conhecimento para reoperar. E o que será a violência de que o nosso conhecimento provém, face à que dele haverá de advir, quando com ele reoperarmos? E quando com ele nos quisermos substituir ao criador? A Cosme, o descrente, o céptico, pouco impressionavam os vaticínios do lente. Um certo desdém, até, transparecia na sua expressão sarcástica, enquanto pela mente desfilavam alguns apontamentos breves da memória que retivera de três anos de relação com o mestre. Enquanto os sinos dobravam a finados, Cosme, sentado com os cotovelos pousados no parapeito da janela da sua mansarda altaneira, alcantilada sobre os telhados e dominando o rio, aspirava o ar que o chuvisco em contacto com as argilas ressequidas impregnava de um odor acre. Dom Francisco Canete... Se uma floreira lhe não suspendera o fôlego, talvez acabasse esturricado numa fogueira.

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- No fim da Primavera, ou no princípio do Verão, esgueirome para Salamanca. Ou mais para diante. Gritou Cosme, reunindo as mãos em frente da boca, para uma andorinha encavalitada no beirado. O jovem virou-se para dentro e semicerrou as pálpebras, perscrutando com o olhar o espaço amplo da mansarda mergulhada em penumbra, fazendo o inventário dos seus parcos pertences. - Moedas de ouro... – pensou - ou de prata... um bom par de botifarras, bons alforjes em cabedal e a liberdade para correr o mundo todo. Os livros aferrolham-se nas voltas e arquivoltas dos miolos, de cambulhada com as recordações e as saudades, e anda-se livre e leve como um passarinho. Trinta anos depois, Cosme não saberia ainda responder, para si próprio, a uma interrogação que lhe andaria na peugada pelo resto da vida como um cão tinhoso. Porque razão o súbito colapso de Dom Francisco Canete, com o crâneo esmagado por uma floreira em majólica, despenhada das celestes alturas de um varandim pela insinuante mão da tenebrosa mondadeira, subvertera de tal forma a sua vida? Como se o episódio fora somente um desígnio, já não na vida de Dom Francisco, que para mais se finara e concluíra o seu destino, mas na sua própria. Uma sinuosa conjura, em que interviera incautamente um pombo desastrado. Também eu não sei, caro leitor, se Cosme se convencera realmente alguma vez de que a sua mirambolante itinerância eclodira assim subitamente por causa deste pitoresco episódio. Nem nunca consegui que me decifrasse como se precipitara ele, assim também tão subitamente, como se fora mero espectador todavia, no episódio derradeiro de uma vida alheia, que tomara, por paradoxo, como fundador da sua própria.

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Mas tal como sempre a narrou, em várias circunstâncias, é então que se inicia a história da vida de Cosme. Para trás, apenas uma penumbra nebulosa, em que despontam, como se um raio de Sol subitamente rasgasse a massa informe de um nevoeiro permanente, disparando fugazes cintilações de luz e cor, breves e desconexos apontamentos, cujo sentido astuto só mesmo Cosme conseguiu capturar. De sua ascendência, apenas revelou, com alguma ambiguidade, que era filho único de um abastado livreiro, que editou em Lisboa um almanaque de circulação muito restrita, eleito veículo através do qual circularam as mais tenebrosas conjuras e os mais torpes boatos. Foi, afinal, o inesgotável património que lhe amparou sempre os desvarios e a boémia. Em qualquer lugar em que se encontrasse, aparecia-lhe sempre, magicamente, o amparo que lhe permitia prosseguir mais para diante nas suas desconexas transumâncias, como se uma intricada teia de conjuradas cumplicidades lhe vigiasse os passos. Mas, desse gato, nunca Cosme deixou que surgisse sequer um pelo ínfimo da pontinha do rabo. Ora surgiu então Cosme nesta história, como seu protagonista e centro de todas as intrigas, já havia muito baptizado e comungado, com muito livro lido e muita caneca bebida, a testemunhar o óbito de Dom Francisco Canete, como se as profundas gargantas da terra o houveram expelido para a vida naquele momento e lugar, para logo se sumir e reaparecer em Salamanca, à cabeceira de Mestre Jerónimo de Villarroel que se finava entre gemidos e suspiros, vítima de umas cutiladas que lhe desferiram à traição, a coberto do crepúsculo vespertino e do passadiço do mosteiro de Santa Mónica.

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Outra conjura
Andou então Dom Jeronimo de Villarroel sessenta e dois anos à espera que Cosme despontasse nos horizontes salamantinos, portador de uma misteriosa missiva de seu pai, para que, sem mais aviso, lhe caíssem em cima à espadeirada três meliantes encapuçados. Em verdade, nem Cosme se houvera tão cedo aproximado de Castela, se uma floreira não derrubara, do mesmo modo inesperado, Dom Francisco Canete. Só não saberemos se, assim não sendo, Dom Jeronimo passearia ainda pelas praças e vielas de Salamanca a sua serena bonomia de burguês bem enraizado pelo menos durante uns bons dez anos, até que o sopro vital, ele próprio por sua iniciativa, se despedisse. E ora lá expirava Dom Jeronimo entre suspiros e gemidos, assistido dos seus e do inesperado Cosme, enquanto na antecâmara físicos e cirurgiões disputavam em sussurros exaltados e com gestos peremptórios sobre o que se faria ainda para entreter a vida e entupir o caminho da morte, de que ninguém já o livraria. Numa

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narrativa viva, transbordante de pormenores insinuantes, a viúva, ainda incrédula, transmitia aos circunstantes uma virtuosa versão da escaramuça, como se a tudo assistira da plateia de um teatro. Fora o caso que Dom Jeronimo ainda afrontara os celerados com vigor e era certo que eram estrangeiros, talvez flamengos, e escondiam por debaixo dos capotes o fardamento dos esbirros d’El Rei. O velho já mal ouvia o que se dizia em seu redor, mas esbugalhava os olhos, tentando talvez contrariá-la. Os ferimentos, dispersos pelas costas e pescoço, não toleravam todavia qualquer suspeita, o ataque fora de surpresa e à traição e derrubara Dom Jeronimo em meio instante. Mesmo jazente em seu leito, gemendo e suspirando, Dom Jeronimo era um homem de respeito. O peito largo e arfante, envolto na gaze das ligaduras que mal conseguiam conter as poderosas inspirações, invocava um boi bravo agonizante na arena após a estocada derradeira. No delírio da febre, os olhos chispavam cólera e raiva e parecia que subitamente saltaria para fora de lençois e cobertores, brandindo a espada. Abria e fechava a boca como se quisesse ainda vociferar qualquer imprecação, sem contudo pronunciar um som. Mas antes mesmo de expirar, ainda murmurou: - A quarta página... a quarta página... E foi o fim. - A quarta página... A quarta página de quê? Só quando notou que os olhares interrogativos se imobilizaram, como se ninguém se dera conta ainda da indiscreta presença de um intruso, Cosme soube que não interpelara os botões do seu gibão mas os circunstantes, esperando que algum concluísse o que Dom Jeronimo deixara em suspenso. - E Vossa Senhoria vem de onde e em nome de quem?

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Altercou a viúva, dando voz à surpresa de todos. - Eu? Eu sou Cosme, filho de Simão de Castro, livreiro e impressor de Sua Majestade, em Lisboa. Trago recomendações de meu pai para Dom Jeronimo. - Simão! O meu irmão Simão... Ficou assim Cosme a saber que era sobrinho da viúva do finado Dom Jeronimo de Villarroel, livreiro e impressor da Universidade, em Salamanca. - Que terá o meu irmão que ver com tudo isto? - O meu pai, Senhora, tem sempre que ver com tudo, não sei bem porquê. - Vejamos então o que nos diz Simão. E parecia de súbito que ninguém queria já saber de Dom Jeronimo, que jazia no seu leito de olhos escancarados, pois a ninguém ocorrera sequer cerrar-lhos. Foi um dos médicos que, altercando ainda com um cirurgião, o compôs com gestos meticulosos. A longa epístola de Simão de Castro, seis fólios de caligrafia miúda e nervosa, era um intricado ror de subentendidos indecifráveis, que presumia um entendimento exclusivo entre os dois cunhados, uma contiguidade nunca suspensa de que ninguém suspeitara. Tudo fazia crer que Simão de Castro tinha poderosos e profundos interesses na actividade editorial de Dom Jeronimo e, com esse fundamento, o impressor lisboeta contratava com o salamantino o aboletamento de Cosme em sua casa e encarregava o filho da edição castelhana de vários livros que não achava oportuno

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que saíssem em Lisboa. Surpreendeu Cosme que o nome de Dom Francisco Canete fosse citado em vários passos, não se enxergava a que propósito, mas sempre como depositário de algo que ambos os impressores cobiçavam, talvez um manuscrito. A quarta página ficara literalmente em branco, apenas com uma breve insinuação em latim por cabeçalho, sicut de proelio nostro tum dixisti. Era de resto também indecifrável a conexão da intercalação latina com o que lhe ficava imediatamente anterior e posterior. - A quarta página... – deixou escapar Cosme que lia em voz alta. - A quarta página de quê? – interpelou a viúva, como se despertara de súbito. - A quarta página desta carta, claro. - E então?... - Então... haverá de se ver. Uma coisa é certa, Dom Jeronimo não conhecia esta carta, que a trouxe eu e ainda agora aqui cheguei. - O Simão... Como bem diz Vossemecê, meu sobrinho, o meu irmão tem que ver com tudo, ninguém sabe bem porquê. Com que então... a quarta página?... E neste pé ficou a coisa, porque Dom Jeronimo, exangue todavia, passou a reclamar a atenção de todos. E gastou-se mais uma semana para serenar a dor que ficava pela ausência de Dom Jeronimo e para o depositar no pavimento da Capela de São João na Igreja dos Carmelitas, bem encarcerado sob uma pesada laje de mármore, que ostentava uma breve legenda: AQUI JACE DON JERONIMO DE TORRES Y VILLARROEL,

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IMPRESSOR Y LIBRERO DE LA UNIVERSIDAD SALAMANTINA. AÑO MDCX. Ao lado, ficava uma arca vazia e uma laje lisa, sem ornatos nem caracteres, à espera da viúva. E então todos voltaram às coisas práticas da vida. E a primeira delas foi procurar as disposições de Dom Jeronimo. E ninguém imaginara que o seu testamento, firmado por um bem conhecido e reputado tabelião do burgo, incontestável, contribuiria para envolver ainda numa aura de mais sinistro mistério o súbito surgir de Cosme à cabeceira do defunto. Dom Jeronimo e sua mulher Marta de Castro, que haviam contraído matrimónio no estio abrasador de suas vidas, nunca houveram tido descendência, mau grado os rumores acerca de bastardos do impressor, esquecidos em várias estâncias da sua peregrina e irrequieta juventude. Dom Jeronimo raptara Marta de casa de seu irmão durante uma breve estância em Lisboa, episódio que originara amuos e altercações corrosivas entre os dois livreiros, até então amigos do peito. Simão de Castro desfrutava de forte ascendente no seio de uma interminável família de irmãos, cunhados, sobrinhos, primos e compadres, todos associados, por uma ou outra razão, ao mundo dos alfarrábios, desde que se extinguira Simão de Castro Velho, seu pai, um majestoso patriarca de ascendência rabínica. Cosme mal conhecia a extensão da forte influência de Simão, mas percebera já que não tinha limites. De seus tios, apenas conhecia José, tenebroso braço direito de seu pai. Todos os outros alargavam o horizonte do domínio do livreiro lisboeta a remotas fronteiras, Amesterdão, Bruxelas, Antuérpia. Havia alguns médicos e cirurgiões reputados, juristas e até canónicos. Cosme nunca decifrara o mistério sobre que assentava o domínio e ascendente de seu pai, senão que intuíra e deduzira de sussurros que se tratava de compromissos invioláveis, em redor de uma qualquer irmandade legitimada em fins e objectivos alegadamente místicos.

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Ora dispunha então Dom Jeronimo que Cosme entrasse na posse de todos os seus haveres, ficando com o encargo vitalício de sua tia, que manteria todas as suas prerrogativas, bem como os bens de uso pessoal. E para tornar toda a circunstância mais paradoxal, logo que se abriu a primeira gaveta do majestoso bufete de onde Cosme presidiria agora aos assuntos da casa, saíu à luz uma extensa epístola que Dom Jeronimo nunca expedira para o seu cunhado. Seis longas folhas repletas de caligrafia cuidada, excepto a quarta página que tinha exclusivamente por cabeçalho uma breve legenda latina, ut de proelio nostro tum dixi. - Raios os partam! Exclamou Marta e deixou cair os braços em sinal de desconsolo. Recolheu aos seus aposentos e não voltou, durante o resto da sua já breve vida, a dirigir a palavra ao sobrinho. Seis meses depois extinguiu-se, atormentada por fantasmas insondáveis. E ficou Cosme com a encomenda, sem saber bem o que fazer.

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Um enforcado
E da encomenda fazia parte Raquel. Raquel não era nada nem ninguém, era parte da encomenda como o acessório de um móvel, a gaveta de um bufete ou a porta de um armário. Raquel era um acessório ou adereço de Marta, um anel, um brinco ou um pregador, ninguém sabia de onde surgira. O testamento de Dom Jeronimo dispunha sobre Marta, ficava o assunto de Raquel arrumado. Só quando Marta faleceu, Miguel, o sóbrio e impenetrável amanuense de Dom Jeronimo, disparou à queima roupa, encarando Cosme mas interpelando-se a si próprio. - E a filha do enforcado? - A filha do enforcado?... Ora essa... qual enforcado?... - Pois... do enforcado, ninguém sabe nada. A filha é Dona Raquel, a surda e muda. - Surda e muda? - Vossa Senhoria não sabia? Foi encontrada sentada no chão, a balancear-se para trás e para a frente, com um cabaz de romãs no regaço e o olhar perdido num carreiro de formigas sem destino, aos pés de seu pai, que pendia da ponta de uma corda

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suspensa de uma asna, num celeiro. Nunca disse sequer uma palavra e é mouca como uma parede. Dona Marta de Castro recolheu-a, não se sabe onde nem porquê. Para o Senhor Dom Jeronimo nem existia, porque lhe bastava que existisse Dona Marta. Portanto, não consta em rol nenhum e não saberemos o que lhe fazer. Convém todavia que saibais, Senhor, que lê e escreve. Cosme vira Raquel uma meia dezena de vezes, a primeira recolhida num canto obscuro dos aposentos de Dom Jeronimo moribundo, quase esconsa, com uns grandes olhos verdes irrequietos e buliçosos que pareciam captar todos os detalhes, todos os movimentos, mesmo os mais íntimos e furtivos olhares trocados entre os circunstantes. Era uma presença quase imperceptível, que percebia todavia tudo em seu redor. Invariavelmente, aparecia sempre por detrás de Marta, embora Marta parecesse nem notar a sua presença. Nos momentos de maior angústia, contudo, Marta lançava discretamente para trás a sua mão ao encontro da de Raquel, que apertava desesperadamente. Apenas durante um breve instante Cosme registara um encontro fortuito entre o olhar de Raquel e o de Dom Jeronimo, momentos antes do estertor. Parecera-lhe pairar entre eles um entendimento profundo, como se Dom Jeronimo buscasse nos olhos de Raquel o sinal derradeiro de que podia partir pacificado. - E então? - disparou de novo e de súbito Miguel, suspendendo as lucubrações de Cosme. - Então? Então manterá Raquel todas as prerrogativas de Marta, os seus aposentos, o usufruto de seus bens pessoais e os seus rendimentos. - Bem... Não seria altura para consultar o Senhor Simão de Castro sobre o assunto?

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- Meu pai? Ora... Que tem meu pai que ver com a matéria? - Não sei bem... Mas na vida de Dom Jeronimo de Villarroel, o Senhor Simão de Castro tinha que ver com tudo. - Dizes bem. É altura de ter com meu pai uma conversa. Entretanto, fica Raquel no lugar de Marta. Parto depois de amanhã, com o despontar do Sol. Diz-me, Miguel, e com a morte de Dom Jeronimo, que teria meu pai que ver? Como o conheceste? - Dom Jeronimo ia a Lisboa duas vezes em cada ano, tratar dos seus negócios com o Senhor Simão de Castro, até há três anos, que então deixou de ir. Eu acompanhava-o sempre. Dona Raquel também. Nunca soube nada acerca dos particulares dos negócios de Dom Jeronimo com o Senhor Simão de Castro. Eu encarregava-me tão só de contactos comerciais com livreiros e impressores em Lisboa. Mas havia sempre um longo colóquio entre o Senhor seu pai e Dona Raquel, encarcerados os dois sós na sua biblioteca. Não creio que seu pai tenha que ver com a morte de Dom Jeronimo. Mas a morte de Dom Jeronimo bem poderá, porventura, ter que ver com seu pai. Vossa Senhoria deseja mais alguma coisa? - Não, Miguel, podes ir. Velarás para que as coisas corram, enquanto estiver ausente, de acordo com o estabelecido. Prosseguir-se-ão os trabalhos que Dom Jeronimo deixou pendentes. Suspenderás apenas a impressão do Tarot. Veremos o que diz sobre isso meu pai. Miguel retirou-se com uma vénia, mas com um sorriso esquivo de cumplicidade, muito menos formal já do que estivera até então. Após este breve colóquio, entre Cosme e o amanuense

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despontaria de resto uma profunda relação de intimidade quase fraterna. Miguel era um rigoroso conhecedor do complexo mundo dos livros e da imprensa e um excelente tipógrafo, prudente mas vigoroso no trato comercial, e, sob um aspecto contido e reservado, por vezes aparentemente insignificante, escondia-se um sedutor temperamento comunicativo. Raramente tomava a iniciativa de uma conversa que não fosse formalmente indispensável, era ponderado e conciso nas suas intervenções, mas, uma vez que lhe destrancassem a língua, era capaz de discorrer horas a fio sobre um assunto, sem se tornar maçador. Deixava então fluir um humor muito peculiar. A interpelação de Miguel acerca de Raquel fora suscitada pelo Tarot, insondável assunto que deixara Cosme boquiaberto. Um dos trabalhos que Dom Jeronimo deixara em curso, executado em horas de vigília e em segredo num canto reservado dos fundos da oficina, fora a impressão da carta do Enforcado de uma edição dos vinte e dois arcanos maiores do Tarot, dado à luz, peça por peça, por uma incógnita rede de tipografias, desde Lisboa a Antuérpia. Pouco se sabia sobre o caso. Não se conheciam com rigor que impressores estavam envolvidos, de onde e de quem partira o empreendimento, nem onde, quando e como seria o baralho reunido. Na ponderada e reservada opinião de Miguel, tudo partira de Simão de Castro. Porque coubera a Dom Jeronimo a impressão do Enforcado? - Vá-se lá saber... Coisas do Senhor Simão de Castro. Que carta imprimirá o Senhor seu pai?... Concluíra Miguel, simulando fazer grande esforço para velar uma certa malícia. Antes de partir, Cosme seria ainda surpreendido por uma breve entrevista com Raquel. O inverno andara parco em águas, com os dias inundados de luz e cor, um Sol pálido cujos raios pareciam cristalizar em gelo na

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atmosfera, pois as aragens continentais levavam a temperatura aos seus extremos. Nas cristas mais altas das serranias as neves do fim do Outono haviam petrificado. Quando as trevas ameaçavam a Oriente e o astro se tingia de vermelho na linha ocidental do horizonte, toda a terra tremia de arrepio, vomitando gélidas exalações. As ruas ficavam então abandonadas aos cães e aos gatos e toda a humana espécie se juntava aos molhos debaixo de seus tectos, como rebanhos, tentando reunir numa só fornalha os seus naturais calores. No novo lar de Cosme abandonara-se o vasto salão e tomava-se a ceia na cozinha. Ficavam todos depois aconchegados em volta do fogão, como numa plateia, cada um em seus lazeres, uns coloquiando ou altercando, outros dormitando, as mulheres nos seus lavores. Iam-se depois recolhendo um após outro a suas alcovas e ficava sempre ainda Cosme pela noite fora nas suas exaltadas lucubrações. E naquela noite, a penúltima antes da partida de Cosme, após o último se despedir, entrou Raquel. Requebrou-se discretamente numa vénia reservada e sentou-se ao lado de Cosme, olhando de soslaio. Cosme reparou então que mantinha um quase imperceptível jeito de se balancear para trás e para a frente, como se fora a agulha de um diapasão marcando compasso. Durante minutos assim ficaram, sem que qualquer comunicação se estabelecesse. Mas depois Raquel tirou do peitilho uma carta e estendeu-a a Cosme. Estava endereçada a Simão de Castro, fechada e lacrada. Cosme guardou-a. Encarou então Raquel e, mais com o olhar do que com qualquer mímica, perguntou-lhe de chofre: - Quem és tu? Raquel olhou-o longamente, como se tentasse inventar os sinais adequados para comunicar algo muito vago. Então levantouse, foi em busca de um tinteiro e de uma pena ao bufete do salão,

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sentou-se de novo e, num pedaço de papel perdido, escreveu: Não sei... a filha do enforcado... a surda e muda... perguntai a vosso pai. Ele sabe. Só ele. Cosme tomou a pena para interpelar: És minha irmã? Raquel negou, abanando peremptoriamente a cabeça. Cosme interpelou ainda: A quarta página? Raquel teve então uma reacção inesperada. Levantou-se, foi junto de Cosme, ainda começou a gesticular profusa e atabalhoadamente numa mímica sem sequência, as lágrimas correram-lhe pelo rosto e retirou-se. Não chorava de dor, nem de desalento, mas de raiva. Na madrugada da partida, Cosme encontrou sobre o bufete um livrito singelo, impresso no papel espesso e grosseiro dos almanaques, dois pregos apenas em oitavo cozidos com fio de sapateiro, com caracteres esborratados e ilustrado com xilogravuras de traço rude e ingénuo. Por título trazia: Explicaçaom das figuras dos vinte e dous arcanos do Tarot Universal. De novo dado à luz em Lisboa, em Salamanca, em Toledo, em Paris, em Antuérpia e outros lugares da cristandade. E mais não se há de dizer. Ano de 1611, reinando em Portugal Sua Majestade El Rei Dom Filipe. Vendem os cegos em todas as esquinas e portais. Taxado em dois chouriços. Cosme enfiou-o no bolso do gibão e decidiu que lhe animaria a viagem. Merecia uma exploração detalhada. Uma coisa era certa, ia o ano ainda muito imberbe para ter já dado à luz tão bizarro portento. O ano de 1611 andava ali por gralha, ou por logro. Ou por graça.

Um encontro fortuito

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E então... o Tarot. O que interessaria o Tarot a Simão de Castro? A Simão de Castro nada interessava pelo que era em si, em sua própria substância, natureza ou intenção, ou pelo que alguém mais pudera suspeitar sequer que fosse. Se o Tarot interessara a Simão de Castro, só ele soubera porquê. Não havia empreendimento ou mera conduta de Simão de Castro que não obedecesse a um ponderado desígnio ou rigoroso plano, a que subjazia uma ideia ou um alcance a que só ele conferia sentido. Na verdade, havia sempre no caso alguém que podia intuir um remoto significado ou o ritmo da sequência dos acontecimentos que Simão precipitava em seu redor. Mas o alcance derradeiro era insondável, um mistério cuja chave, em última instância, só ele possuía. Cosme habituara-se a imaginar a oficina de seu pai como uma ambígua instituição, imbuída de mistério. Como impressor e livreiro de Sua Majestade, Simão de Castro gozava de um estatuto quase inviolável. Dos seus prelos saíam para a rua para além dos alvarás, leis, posturas, éditos, regimentos, cartas de mercê, avisos, um ror de papelada que suportava a administração do reino, ainda um sem número de documentos que respeitavam a instituições religiosas e particulares, mosteiros, confrarias, irmandades e mesmo à universidade. Mas era à sua porta que batiam também todos os mecenas e diletantes, os bispos, os abades, médicos, juristas, antiquários, filólogos, memorialistas e poetas. Para lá do trabalho tipográfico, a loja de Simão de Castro era depósito de todas as novidades literárias e científicas dadas à luz por toda a Europa. Havia as que se vendiam às claras e as que saíam, para visitantes muito especiais, das portas esconsas e fundos falsos dos armários fundeiros, com capas discretas e ostentando títulos fictícios. Simão de Castro era um exímio bibliógrafo e bibliófilo, com uma sólida cultura quase sem limites, e não era raro que emendasse, sobre as próprias provas remetidas pelos autores, discretamente, como se reparasse uma insignificante distracção, a

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citação de um tratado, a nota de roda pé de uma colectânea jurídica, a métrica de um soneto, a sequência das asserções de um enunciado de lógica dialéctica. A oficina de Simão era ponto quotidiano de encontro de todos os ilustres do reino e havia uns que só entravam quando outros saíam. Por lá se confessavam muitas coisas e se planeavam muitas mais, umas em sussurros, outras quase em rebelião exaltada. Simão, que parecia sempre um confessor benevolente, regia na verdade eximiamente uma grande orquestra, que soava sempre desafinada com cada um a tocar para seu lado, pois só ele conhecia as pautas. Mas o que muito poucos sabiam e quase ninguém imaginava era que, por detrás desta insigne instituição, pairava, em contra luz, uma outra muito mais tenebrosa. Ia Cosme alternando entre estes dispersos apontamentos de memória, suscitados pelo inesperado curso da sua vida durante os últimos dez meses, e a exultante atenção aos pitorescos pormenores da paisagem a desabrochar para um novo ciclo. Estava-se nos inícios de um Fevereiro inundado de Sol e claridade e toda a natureza renascia prematuramente das invernais letargias, paulatinamente, espreitando por detrás das fragas, ou acoitada ao abrigo de árvores e raízes, aqui uma flor, ali um pássaro acabado de arribar. Os gélidos ventos continentais batiam ainda com bravura as extensas planuras e bramiam as últimas imprecações nas gargantas mais apertadas, todavia cada vez mais balbuciantes. Os rigores do Inverno começavam a ceder às carícias da Primavera. Numa ou noutra fraga, um sardão madrugador que despertara incautamente do seu sono colava-se à rocha para dela furtar o calor da solheira e esfregava o nariz gelado. Nos pegos de ribeiros e riachos, as mantas de pequenas flores aquáticas, brancas, azuis e amarelas, davam a ilusão de continuidade entre os prados e constituíam verdadeiras armadilhas para os viajantes desatentos. Cosme viajava com uma pequena comitiva de três criados, num percurso cheio de escolhos, ora pelas estradas reais, ora por

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caminhos e veredas, a improvisar o itinerário mais curto para atingir o rio Tejo junto de Abrantes, pois decidira que experimentaria a carreira fluvial daí até Lisboa. O curso do rio fora recentemente alvo de dispendiosos trabalhos de desassoreamento e regularização para alargar os horizontes da sua navegabilidade e alimentar o megalómano sonho do pai de Sua Majestade, ansioso por embarcar um dia em Madrid e inspeccionar de um só fôlego todo o seu ecuménico império, saindo pela barra de Lisboa a fazer a circumnavegação e entrando no regresso pelo Tamisa a desferir umas morteiradas nos ímpios ingleses. O próprio Simão andara exultante com a ideia, rodeado de mapas e roteiros, a imaginar os seus alfarrábios e as suas literárias conjuras a irromperem rio fora por Castela, sem se exporem aos trabalhos e imprevistos cuidados dos penosos caminhos terrestres. Tanto como Sua Majestade, só Simão se interessava por caminhos. E vinha o grupo com três bons cavalos e outras tantas mulas para as cargas, bem aviadas de vitualhas para evitar desvios em demanda de estalagem. Pernoitavam onde calhasse, em casas velhas e abandonadas, no telheiro de uma igreja ou de uma ermida, ou ao ar livre, com as estrelas por cobertores. Cosme era um experimentado andarilho e viajante. Durante cerca de três anos acompanhara seu tio José, a pé e a cavalo, nas suas misteriosas e permanentes andanças de que só ele e Simão conheciam o destino e o móbil. Para Cosme, nesse tempo, eram apenas aventuras. Aqui e acolá apercebia-se de algo, a que não conseguia todavia atribuir significado, senão o de que a sombra de seu pai alcançava lugares muito longínquos. Mas, pouco a pouco, Simão foi-lhe levantando as pontas do véu, pouca coisa, o suficiente para o convencer de que, mais tarde ou mais cedo, quisesse ou não, haveria de o substituir. A reacção de Cosme fora, por receio ou por irreprimível vontade de procurar um destino próprio e autónomo, a de se ausentar e recolher nos seus estudos, longe de todos e com parcos meios.

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Simão encarara o afastamento de Cosme com serena benevolência, até com um certo sarcasmo, inamovível na sua convicção de que não competia ao filho alterar o seu destino, pois aos seus desígnios ninguém lograva furtar-se. Sem que o soubesse, dispôs com todo o rigor todas as peças do jogo em que o jovem iria movimentar-se na sua boémia vida, de forma a que não daria sequer um passo que não estivesse previsto e programado no âmbito de uma sequência ou de um plano. Quando Cosme se pôde aperceber, estava de tal forma intrometido nos assuntos de seu pai, ou por eles cercado, que chegara a imaginar que não era mais do que um inocente espectador da sua própria vida. E então decidiu vivê-la, iludindo simplesmente o significado que pudesse ter para quem quer que fosse. Fora por isso que, no próprio momento em que se confrontou com os escombros de Dom Francisco estatelados no lajedo, decidiu que suspenderia, com uma esquiva e inesperada finta, qualquer plano que astutamente alguém pudesse ter urdido e emboscado no episódio. Iria para Salamanca. Foi quase uma esconjura. Por ingenuidade, não pôde deixar de confrontar Simão com a sua súbita decisão, para ver, com os próprios olhos, até que ponto ficaria perturbado ou surpreendido. Não ficou. Pareceu mesmo que nem esperara, nunca, outra coisa. Teve Cosme que chegar a Salamanca para compreender porquê. Afinal, até levava recomendações de seu pai. E talvez até fosse esperado. E o Tarot?... Seria o Tarot a chave de todo o mistério? Cosme afrouxou o ritmo do trote, enfiou a mão no bolso do gibão e folheou o livrito com ar especulativo. Simplesmente uma daquelas peças que os cegos e os almocreves disseminavam pelas tabernas, pelas praças das vilas e lugares, pelos adros das igrejas em tempo de romarias, juntamente com os almanaques, os tesouros de prudentes, as comédias, os sarrabais, as sátiras. Ninguém sabia onde se imprimiam, nem de que iluminadas cabeças brotavam, mas apareciam de súbito nos alforges

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de todos os andarilhos e nos estendais das bancas e proliferavam como ervas daninhas a galgarem terras de pão. O exemplar que Cosme folheava com desdém estava muito surrado e cheio de notas manuscritas, com algumas dedadas de tinta negra, como se um tipógrafo o tivesse manuseado vezes sem conta na própria oficina. Vinte e duas estampas, correspondentes às lâminas dos vinte e dois arcanos maiores do Tarot, trazendo no reverso sumários repertórios iconográficos. No fim, sumárias explicações sobre diversas maneiras de deitar as cartas, com que qualquer solteirona ou viúva desocupada se iniciaria nas sortes da cartomância para animar uns saraus. Uma peça inócua. E entrementes um dos criados, que seguira cerca de uma légua à frente para preparar cómodos na estalagem junto à barca de Alfanzira, onde Cosme decidira iniciar o seu percurso fluvial, chegava esbaforido: - Está aboletado na estalagem, acabado de passar o rio, o Senhor José de Castro. Espera-vos, Senhor. Cosme levantou a cabeça e pôde ver, recortado no horizonte vespertino, mesmo contra o rubro Poente, o imponente morro e castelo de Abrantes. - E de onde conheces tu o meu tio? - Vosso tio, Senhor, era cunhado de Dom Jeronimo e irmão da Senhora Dona Marta. Ia vezes sem conto a Salamanca. Esteve por lá pouco tempo antes de chegardes. - E então...? Cosme suspendeu, desconsolado, a altercação, convicto de que nem valeria a pena prosseguir com a matéria. A figura de sandeu que faria se perguntasse ao criado por que razão só ele,

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Cosme, sobrinho do Senhor José de Castro e de Dona Marta, não sabia da assiduidade do tio em casa de Dom Jeronimo? Deu com as esporas na barriga do cavalo e num ápice desmontava no terreiro da estalagem, deixando para trás, embasbacados, os criados e as mulas de carga. José de Castro era um homem peculiar. Alto, trigueiro, com o rosto grave e magro curtido pela solheira e pelo pó dos caminhos, os olhos cinzentos de expressão metálica, seco e ossudo, reservado e circunstancial, sempre envolto em largos capotes de peregrino e calçado com boas botifarras, o gesto largo e a voz breve e ríspida de quem não diz mais do que o essencial. Incutia logo, à primeira vista, tanto respeito e confiança, quanta reserva, distância e cautela. Dependia da circunstância. Estava sentado à cabeceira de uma longa mesa corrida, coberta de iguarias rústicas, na companhia de dois cegos e de um almocreve. Era um dos cegos quem falava, contando talvez uma história animada e gesticulando profusamente, e os outros escutavam atentos. Quando viu Cosme na soleira da porta, José levantou-se com ar prazenteiro e veio ao seu encontro, de braços estendidos. - José, meu sempre inesperado tio, - exclamou Cosme com um ar radiante, mas com um quase imperceptível laivo de sarcasmo - disseram-me que me esperáveis. - Eu?... Não. Venho de Sevilha, com uma breve estância em Évora, e já só vou parar em Coimbra. Mas mandou aqui alguém teu pai, para me dizer que vinhas ao meu encontro. Estou às tuas ordens e muito folgo em ver-te. - Eu não venho ao encontro de ninguém, vou para Lisboa a toda a brida e espero ter uma longa conversa com meu pai. Todavia, nem ele poderia saber que eu vinha. Espero aproveitar este fortuito encontro para ter uma longa conversa convosco, também. Anda,

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meu tio, a pesar-me muito a recalcitrante presença de meu pai em todos os passos das minhas caminhadas. Passo a minha vida a tropeçar com ele e raramente o vejo. - A maior porção dos cegos que eu conheço são sujeitos que não querem ver. Podes ter a certeza que mais se espanta teu pai, do que tu, por não o veres. Ou por não quereres vê-lo. Mas teu pai muito te estima e quer e só por essa razão anda empecilhado nos teus passos. Não tanto como julgas, todavia vigia-te com afinco mas descrição. - E vós? Vigiais-me por conta de meu pai. - Eu não tenho nada que ver com essa trapalhada, pouco é o tempo que me sobra para beber um copo de vinho com poucos amigos e companheiros. Vem. Senta-te e serve-te, que a mesa está posta e o nosso apetite derrubado. Hoje, por ironia, vais aboletar-te por conta de teu pai. José riu sinceramente com bonomia e quando ria assim todo o rosto se desanuviava. Era então que suscitava confiança e afecto e uma atracção profunda. E tornava-se mais perigoso. Fez um breve aceno com a cabeça e os restantes elementos da companhia abriram os braços em cruz, espreguiçando-se, esfregaram os bandulhos a acondicionar o repasto, e levantaram-se pachorrentamente esgueirando-se para o exterior. De baixo da mesa desenfiaram-se dois belos e lustrosos cães pastores para guiarem os cegos. Cosme seguiu-os atentamente com o olhar, até se sumirem. - Gente dos caminhos - esclareceu José. - Gente da vossa companhia.

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- Em minha companhia anda todo aquele que os meus passos encontrarem. Muitas léguas engoliste tu, na minha companhia. Diz-me então o que queres saber de mim. Cosme fitou demoradamente seu tio, com o olhar perdido todavia, enquanto o seu espírito deambulava pelos labirintos da memória. José de Castro... o seu insondável tio... Durante a infância e a juventude, José foi o eleito confidente de Cosme, o único ser que lhe dispensou um afecto consequente e incondicional. Sempre a partir e a chegar, mais ausente que presente, foi com José que Cosme aprendeu a desbravar o mundo, a sondar os mistérios da vida e a reconhecer as coisas simples e óbvias. Ensinou-o a ler e a escrever, repreendeu-o, louvou-o, empurrou-o, refreou-o quando foi o caso. Mau grado as suas ausências, José estivera sempre mais presente do que Simão na vida de Cosme. Simão era um sujeito distante, sempre rodeado de alfarrábios ou de gente ilustre, ou enterrado no meio de pranchas e de prensas nos lugares mais remotos da obscura oficina. Sempre que se dirigia a Cosme, ou a qualquer outro de casa, era com matéria prática, imediata e incontestável, sem explicações nem preâmbulos. Sempre que José chegava Cosme exultava de alegria, para se afundar na mais miserável ansiedade quando de novo partia. Até que um dia partiu com ele. E então compreendeu que entre José e Simão havia uma continuidade de que nunca suspeitara. Tudo o que Simão ocultava ou pretendia ocultar, realizava-se através de José. Ele era o tentáculo que transportava a presença de Simão até aos confins dos seus domínios. Era José que distribuía pelos cegos, pelos almocreves e pelos bufarinheiros tudo o que se imprimia em segredo na oficina de Simão. Era José que trazia as novidades e levava os boatos. Era ele que levava as ordens e as encomendas. Que trazia os recados e que

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reunia numa só conjura todos os fios de uma enovelada rede. José era a realização de tudo o que Simão tramava. A oficina de Simão alimentava, através de José, uma complicada rede de peregrinos agentes, cegos, almocreves, bufarinheiros e todos os andarilhos, que podia num ápice fazer chegar uma conjura ou uma notícia aos confins do Reino das Espanhas e mais além. Uma assídua imprensa de proscritos géneros, em folhetos ou simples pregos, almanaques, novelas, comédias, sátiras, pagelas com matéria vária, saía quotidianamente dos esconsos da oficina de Simão para os caminhos, através de uma rede interminável que José regia com mão de ferro. Depois de sair, nunca mais se lhe conseguiria atribuir a origem. Em coordenação com Simão, assegurada por José, as mesmas peças, ou outras que lhe interessassem, saíam simultaneamente em várias oficinas espalhadas por um território imenso, em castelhano, em francês e em flamengo. Na mente de Cosme foi amadurecendo a ideia de que tudo o que o seu pai conspirasse para lhe traçar o destino fá-lo-ia mediante José. - Que quererá, afinal, de mim meu pai? Cosme atirou subitamente a pergunta, como se a fizera a si próprio. - Não me parece que queira alguma coisa. Senão que muito lhe agradaria se quisesses algo dele. Mas, já que falas no assunto, porque me perguntarias a mim e não a ele? - Tendes toda a razão. E que me dizeis a isto? Cosme estendeu para José o livrinho que trouxera de Salamanca. José folheou-o com manifesto desinteresse.

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- Ora. E que queres que te diga. É uma coisa trivial, que se vê todos os dias nas mãos dos cegos. Porque te haveria de interessar. - Não terá sido impresso por meu pai e metido nos caminhos por vós? - Pode ter sido impresso em qualquer lugar. Se fizermos fé no que diz, ainda haverá de ser impresso, ou foi-o há poucos dias. Pode ter sido impresso por teu pai e ter sido metido nos caminhos por mim. Se o fizéramos, fá-lo-íamos exactamente desta maneira, neste papel, com esta tinta, com estes caracteres e porventura com esta data. E todavia não sei porque te haveria de interessar. - E o enforcado? - O enforcado? Ora essa... qual enforcado? - O pai de Raquel, a surda e muda? - Ah... esse... Ninguém sabe quem era. Talvez saiba o teu pai. Pergunta-lhe. - Porque imprimia Dom Jeronimo a carta do enforcado? - Porque lhe foi destinado. Agora imprimi-la-ás tu. - E quem o destinou? - Ninguém sabe. Ninguém sabe de onde partiu e com que fim. Foi uma ordem a que ninguém poderá furtar-se. - Dom Jeronimo tentou furtar-se?

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- É bem possível. - Sereis vós quem reunirá o baralho? - Sem dúvida. E quando o fizer entregar-to-ei em Salamanca, pois foi assim, também, destinado. E saberás tu o que fazer com ele? - Alguém mo dirá? - Não é provável. - Porque me esperáveis? - Para ter a certeza de que vinhas. Não saberia como confortar o teu pai, se não viesses. E agora vai dormir descansado. Nem todas as tuas interrogações e dúvidas têm que ter uma resposta. A maior parte delas nunca virá a ter resposta. Quantas dúvidas e interrogações de teu pai não obtiveram resposta? Quantas minhas? Amanhã já não me verás. Partirei antes de ti. Muito folguei em ver-te, meu sobrinho, e em confirmar que vinhas. Já José se erguera e se dirigia para a porta, quando Cosme, que ficara sentado à mesa, o interpelou ainda. - O que é a quarta página? José parou. Nem se voltou, apenas rodou brevemente a cabeça até ficar a olhar de soslaio, com o sobrolho carregado, deixou passar uns segundos e respondeu já em movimento. - É o verso do segundo fólio. Dorme bem.

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Cosme teve a certeza de que viu assomar aos olhos do tio um instantâneo mas tenebroso brilho. Não conseguiu decidir se exprimia sarcasmo ou apreensão.

A máscara
- Terei, afinal, inventado eu tudo? - Dizei, Senhor? O criado olhava para Cosme com surpresa, com uma truta esventrada numa mão e a navalha na outra, subitamente imobilizado, olhando em redor para localizar o imaginário interlocutor do patrão. Mas junto à proa na coberta estavam sós os dois, Cosme debruçado na amurada com os olhos fixos na própria carantonha, deformada pelo reflexo na irregular superfície da água, e o criado que preparava uma promissora caldeirada. - Chiça, homem! - desabafou Cosme num inesperado acesso de cólera - Será que nem mesmo no meio do rio conseguirei passar uns minutos sem que alguém me espie e me escute?

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Mas mais inesperada ainda foi a decisão que tomou cerca de uma hora depois. Vogavam velozes com as velas frouxas, entregues à corrente do rio, cujo caudal redobrara nos fins de um Inverno copioso em neves que escorriam pelas comissuras das montanhas, numa airosa fragata que Cosme encontrara pela manhã já fretada e carregada à sua espera. Com eles viajavam as montadas que traziam de Castela, excepto as mulas que aguardariam o regresso nas cocheiras da estalagem. José encarregara-se de tudo antes de partir e liquidara todas as despesas. Mas acrescentara às bagagens um grande fardo envolto em pano grosseiro de serapilheira, com a recomendação expressa de que não se molhasse pois continha papelada. Mas pouco depois de passarem o Castelo de Almourol, no lugar da barca, Cosme mandou o barqueiro encostar à margem direita no ancoradouro. Cortou com uma navalha as cintas do fardo que José embarcara e inspeccionou o conteúdo. Eram centenas de exemplares de um tomo volumoso, constituído por cadernos já cozidos mas sem encadernação, acabados de imprimir e exalando o acre perfume das tintas. Por capas serviam então os frontespícios, que anunciavam: Memórias tiradas de uns papéis velhos em que Cosme de Castro lançou a relação das viagens que, por encargo de seu pai, impressor e livreiro de S. M., fez através dos Reinos de Portugal e de Espanha. Do que viu e do que ouviu, da gente ilustre que conheceu e muitos episódios que interessarão não só aos curiosos. Impresso em lugar que não se revela, por não interessar ao caso. Não traz licenças nem vai taxado, porque se há de passar por debaixo do capote e em segredo. Cosme folheou esbaforido e afogueado pela cólera um exemplar, o que lhe bastou para concluir que o miolo confirmava a casca e que a brasa que lhe atiravam agora para as mãos ultrapassara todas as expectativas. O caso apresentava-se sério. Mandou apear a encomenda e atear-lhe o fogo. Passada uma hora estava reduzida a cinzas que cavalgavam os lombos do vento. Depois desembarcou o seu cavalo, arreou-o e lançou-se à estrada.

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Os criados ainda ficaram a olhar atónitos para o rasto do patrão durante meia hora, desembarcaram também as bestas e as cargas e mandaram seguir o barqueiro de regresso. Só lhes restava esperar. - E terei eu então inventado tudo? Não os episódios, porque esses são incontestáveis. Finaram-se Dom Francisco Canete e Dom Jeronimo e eu estava lá. Finou-se minha tia. Encontrei-me com meu tio José que me despachou uma encomenda e trago no meu bolso as memórias das viagens que não fiz. Ou acaso as terei feito? Terei inventado eu a relação entre tudo e todos, o significado de cada passo desta tenebrosa história e o papel de cada um? Estarei eu tão envolvido nela que sou já quem tece a trama e constrói a intriga? E se tudo não passasse de episódios desconexos, sem qualquer ordem nem algum sentido, e não fosse senão eu que os cozesse uns com os outros, no lugar e do modo que convém à minha história, que não sei todavia qual seja nem como se concluirá? E bastaria então que suspendesse eu o meu papel de narrador e protagonista para que tudo prosseguisse ao acaso, sem qualquer finalidade ou sentido, cada episódio rematando-se e concluindo-se em si próprio, cada interveniente no papel que o destino e a necessidade lhe impõem, uma fatídica desordem enfim que ninguém sequer intuíu. E então tanto faria que prosseguisse na viagem em demanda de meu pai, que mal conheço, pois pouco o vi em cerca de quinze anos que com ele morei e outros dez que sustentou, mais ou menos, os meus desvarios. Ou que invertesse o rumo e regressasse a Salamanca ou a Coimbra, ou embarcasse esconso no porão de uma nau que me lançasse nas Índias, Orientais ou Ocidentais, onde ninguém saberia já quem sou, nem que mundo calcorreei por meu livre desígnio ou por encargo de meu pai. Mas não sou eu próprio quem me impõe que procure meu pai e não outro destino, para atribuir porventura a tudo um significado que só eu procuro e de que só eu necessito? E, sendo

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assim, é inevitável que me vá chegando a Lisboa e me reencontre com meu pai, pois só eu sou o sentido da minha própria história. Cosme puxou as rédeas com firmeza para obrigar a montada a suspender o galope, manteve-a a passo ainda durante uma jarda, parou e desmontou numa sombria clareira. Aliviou os arreios ao cavalo extenuado, para que pastasse livremente num pequeno prado que a sombria humidade alimentava, e sentou-se de pernas estendidas numa pedra que ladeava o caminho, esfregando os lombos macerados por trotes e galopadas. Retirou do alforge o exemplar que guardara da relação das suas imaginadas viagens. Fora o único que subsistira ao fogo. Tratava-se da relação de vinte e duas viagens, tantas quantos os arcanos maiores do Tarot, por mero acaso ou pérfido ardil. Tudo num ambiente alucinado e inverosímil, nenhum lugar, nenhuma personagem nem nenhuma circunstância podia ser atribuída a qualquer tópico do mundo real, senão metaforicamente e com muita astúcia. Cosme ficava com a impressão, todavia mal definida, de que, por detrás de toda a trama, se traçava um itinerário rigoroso de visita a uma rede de oficinas tipográficas astutamente decalcada sobre uma rede viária elementar, como se foram estalagens ou estações de muda. - Será que me introduzi, inadvertidamente, no avesso das roupagens do universo? Que passei para o lado de lá do meu reflexo nas tenebrosas águas do rio? Onde irei agora recolher e reunir os fragmentos do meu ser, antes que sejam lançados pela torrente nas ondas revoltas do oceano e por elas quebrados contra as arestas agudas dos baixios? Sentiu-se então, durante alguns instantes, um ser miserável, abandonado a um insondável destino, abatido por uma angústia profunda.

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Reagiu, foi recolher o cavalo entregue às delícias do repasto e da liberdade e partiu de novo. Em breve veria os esteiros derradeiros do rio espraiados através da charneca, lançando no céu o reflexo sanguíneo da luz do astro que tombaria sobre o horizonte e, sem mais anúncio, recortar-se-ia em contra luz o perfil do casario e das torres sineiras da metrópole, dominado pela massa majestosa da obra de São Vicente a cuja sombra repousariam Xabregas e a Madre de Deus. Do lado de lá da morada do mártir, descaindo sobre a Sé, ansioso porventura, sentado no seu cadeirão de alto espaldar junto à janela, seu pai perscrutaria as vielas. Nada foi, todavia, como esperava. Chegou já envolto em trevas, os cascos da besta resfolegante a ecoarem pelas ruas desertas, e quem o esperava, à luz de uma candeia tremulenta, era Frei Boaventura, com o rosto aberto num sorriso alvar de anfitrião cativo do dever de hospedagem. - Vosso pai, Senhor, receber-vos-á amanhã, pela manhã. Não tem andado bem e os médicos prescrevem-lhe que se recolha cedo. Acompanhar-vos-ei enquanto ceais e apresentar-vos-ei vossos alojamentos. Vinde comigo. De toda a comitiva que Simão de Castro aboletava em sua casa, gente de díspar préstimo e condição, mas cada um investido num papel que só ele saberia atribuir e definir, o que mais aborrecia a Cosme era Frei Boaventura. Era um homem altíssimo, rotundo e luzidio, de rosto afogueado e aspecto imberbe, com umas grandes mãos de dedos grossos e inexpressivos, os olhos inquietos de quem se mantém sempre em guarda, tentando adivinhar a disposição dos circunstantes, como se se preparasse sempre para os servir, mesmo antes que se manifestassem. Por vezes aflorava aos seus olhos um ar malévolo que causava calafrios. Ninguém sabia porquê, mas assentara praça em casa de Simão havia cerca de vinte anos e nunca mais de lá saíra. Os Domingos passava-os fora.

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Homem erudito e de certo modo mundano, exímio pregador e ardiloso argumentador, passara a usufruir junto de Simão de uma inquestionável preponderância. Desde que surgira, não havia memória de que o livreiro falasse com alguém sem a seráfica custódia do frade. Exceptuando José, obviamente. Havia uns anos, Cosme interpelara seu tio: - Que faz aqui o frade? Que terá meu pai que ver com ele? José encolhera os ombros e parecera que não responderia. Mas depois fitara Cosme com o seu pardo e insondável olhar inquiridor e resmordera entre dentes: - Que melhores ouvidos e melhores arautos poderia teu pai escolher, senão os andarilhos da Seráfica Ordem? Valem bem por dez confrarias de cegos. Estão em todo o lado e sempre de um para o outro. Cosme não apreendeu, senão algum tempo mais tarde, o alcance da observação do tio, mas notou nela um profundo desprezo. Ora durante a ceia Cosme manteve-se silencioso e reservado, deixando que o frade percebesse o seu amuo por não ser esperado pelo pai e, sobretudo, o incómodo que lhe causava a sua presença buliçosa, a voltear em torno da mesa no afã de o servir, ou de fingir diligência em servi-lo. Fez-lhe um sinal vago, para que se sentasse e sossegasse. Quando Frei Boaventura por fim se sentou, Cosme, enquanto enchia o copo com vinho, perguntou-lhe: - Como sabia meu pai que eu vinha? - E porque estais vós tão certo disso?

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- Parece-me óbvio. Para além do mais encontrei-me com meu tio em Abrantes. - Mas vosso tio, Senhor, está fora há quase dois meses. - Seja. Porque me esperáveis vós, então? - Ninguém vos esperava. Esperávamos vosso tio, desde há três dias. Fiquei surpreendido por chegardes vós. - Meu tio ia para Coimbra. Surpreendido fico eu, Frei Boaventura, por não ver meu pai mas a vós, fingindo todavia que não me esperáveis a mim, mas a meu tio. - E que interessa isso, Senhor Cosme de Castro? Já tomastes vossa ceia, ireis repousar agora em vossos aposentos, amanhã esperar-vos-á vosso pai. Tendes, Senhor, Frei Boaventura às vossas ordens para vos servir, como tem servido vosso pai. - E em que serviria meu pai um sujeito de vossa condição? - Só ele vos poderá responder. Porque manteria vosso pai Frei Boaventura se o não servisse? De manhã, logo que Cosme saíu de seus aposentos, que eram os mesmos desde que se recordava da casa de seu pai, foi conduzido à vasta biblioteca, que ocupava quase metade do andar superior da casa, sobre as oficinas. Uma estreita escada de madeira, que despontava no sobrado através de um alçapão e, no andar térreo, se dissimulava atrás da porta de um armário, permitia a Simão de Castro deambular pelas duas partes da casa, sem que se soubesse, em cada momento, em que lugar estaria. Seu pai jazia repousado em seu natural poiso, um imponente cadeirão de alto espaldar junto à janela, com uma pesada manta de

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lã sobre os joelhos, de olhos semicerrados, ouvindo Frei Boaventura que parecia acocorado, pois mal se via, oculta sob o seu volume imenso e as pregas do burel, uma cadeira pequena que rangia a cada movimento subjugada pelo peso. Calou-se quando chegou Cosme, que se sentou em frente dos dois, numa cadeia igual à de seu pai já preparada para o receber. Durante dois ou três minutos ninguém falou, pois Simão continuou a dormitar ou a fingir que dormitava. E só quando se tornou notória a suspensão do monólogo do frade, abriu então os olhos. Fitou Cosme com uma expressão serena e quase de indiferença, sem surpresa alguma, como se olhasse para alguém que nunca se tivera ausentado daquele lugar. Então disse: - Diz então, rapaz. Sei já que não vens para repousar, ou para tomar o teu lugar em tua casa, mas trazes algo para me dizeres. - E vós, meu pai, não tendes nada que me dizer? - Nada, filho, que não te diga desde que me ouves. Repetirte-ei todavia tudo o que quiseres ouvir de novo. - Ora, pai, o que pretendeis de mim? - Nada pretendo de ti, senão que não esqueças teu pai e a tua casa. E tu, que pretendes tu de mim. - Não sou eu que tropeço em vossos passos, sempre que moveis as pernas. - Eu mantenho-me sedentário em minha casa e não me recordo de te sair ao caminho. Os meus negócios estendem-se a muitos lados através de muita gente e são como tiveram que ser, nos lugares onde tiveram que ser feitos, com a gente que neles se quis meter. Não sou eu exclusivamente dono da minha vida. Mas

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muito estranho que tu, que pareces querer rejeitar-me da tua, continues a tropeçar comigo em todo o lado, como se não tiveras mais caminhos por onde andasses, senão aqueles por onde correm os meus negócios. Não quiseste, por acaso, escapar-te para Salamanca? Apenas te encaminhei para tua tia. Esperavas de mim outra coisa? - Não esperava que morresse meu tio logo que cheguei, depois minha tia que nunca conhecera, que andasse por lá Raquel, a filha do enforcado, e que tivesse herdado eu tudo sem saber porquê. - E que queres tu, filho, que faça? Que erradique toda a gente que já lá estava, de todos os lugares onde resolvas de súbito pernoitar? Não sobe tão alto o meu poder nem a minha condição. Nem que fora el-rei. - E isto, o que é? Cosme estendeu firmemente em direcção a seu pai o livro que furtara da encomenda de seu tio. Simão nem se mexeu, ficou de braços cruzados e recostado a olhar melancolicamente a rua inundada de luz matinal através das vidraças. Foi o frade quem se ergueu e tomou o livro da mão de Cosme. Olhou brevemente o frontespício, entregou-o a Simão e disse: - É a relação das viagens de Cosme de Castro. Por vosso encargo, Senhor. Simão recolheu o livro, passou-lhe demoradamente a mão espalmada por cima, para um lado e para outro, levou-o ao nariz e cruzou de novo os braços com o livro contra o peito. - Uma graça, talvez, ou uma perfídia. Hoje em dia, qualquer um escreve e publica em nome de outrem o que lhe der na real gana,

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sem que daí venha qualquer mal senão o de que nada se toma já por sério. Vivemos uma permanente ilusão. A imprensa e os livros são a mais cabal expressão dela. Se assim não fosse, que faria então Simão de Castro. E que faria seu filho Cosme? - Quereis-me dizer que não fostes vós quem imprimiu esse livro e quem o inventou? Ou que, pelo menos, não foi impresso e inventado por vossa ordem? - E porque haveria de ser? Ou pensas tu que tudo o que se inventa e imprime no mundo sai da cabeça de Simão de Castro? Houve qualquer indício fortuito que fez Cosme subitamente intuir algo de paradoxal em tudo aquilo. Nunca haveria de saber com certeza o quê. Talvez a precipitação de Frei Boaventura ao antecipar-se para receber o livro. Mas algo o obrigou a tomar uma iniciativa. Levantou-se furtivamente, quase sem agitar a atmosfera, moveu-se para a beira de seu pai, do lado contrário àquele em que poisava o frade, e estendeu a mão como se pretendesse a restituição do livro. Os olhos do frade esbugalharam-se de perplexidade. Simão agitou-se inquieto, apercebendo-se de qualquer movimento que não conseguiu localizar com precisão. Cosme sentou-se de novo. Durante cerca de um quarto de hora, ninguém pronunciou uma palavra. Boaventura permaneceu de olhos baixos. Simão continuava a olhar pela janela. - E Raquel, a filha do enforcado? Que farei com ela? - Um dia virás a saber. Entretanto, manter-se-á tudo como está. É um compromisso de honra meu e de tua tia. Não o negarás tu, espero. - Não, meu pai, não o negarei. Vou descer às oficinas, para ver como estão.

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- Vai, filho. Estás em tua casa. Cosme desceu directamente pelas escadas do alçapão. Quando entrou na oficina, sentou-se por momentos num tamborete a refazer-se da surpresa. Simão de Castro era cego. Sempre o fora, ou cegara? Vislumbrou então o papel de Frei Boaventura junto de seu pai. Era a máscara, a presença que lhe permitira ocultar que era cego. Era os olhos de Simão. Em qualquer direcção que Simão olhasse, Boaventura repousava os olhos e a sua voz, emboscada numa conversação natural, transmitia o que viam. Uma exímia sincronia. Porquê? - Será possível que tudo isto me tenha acontecido, assim de rompante? Interrogou Cosme quase em surdina, passando as mãos pelos tipos abandonados sobre uma mesa de composição. - Nada nos acontece de rompante. A trama da vida vai-se tecendo, como a de um brocado no tear. Quando deparamos com o brocado já pronto e acabado, nem sabemos já reconstituir os passos e os gestos que se escondem por detrás de cada ponto, de cada ornamento. Para isso, meu filho, era necessário desmanchá-lo. Mas a vida não se pode já desmanchar. Respondeu Frei Boaventura, que aparecera furtivamente por detrás de Cosme. Cosme iludiu, durante momentos intermináveis, a presença do frade, que permaneceu imóvel, expectante, como um gato diante da gaiola de um pássaro. Levantou-se depois e encarou-o.

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- Suponde todavia, Senhor Frade, que o bordado não está completo, mas em meio, aguardando as agulhas e os fusos, as delicadas mãos da dedicada bordadeira que concluiria a matriz. E suponde ainda que alguém decidiria desmanchá-lo, mas não para trás, desenfiando cada linha e desmontando cada ponto, mas para a frente, subvertendo irreversivelmente a composição. O frade ficou surpreendentemente atônito, desorientado, incapaz de esconder um súbito nervosismo incontrolado. O seráfico rosto não conseguiu mesmo deixar de se abalar por dois espasmos momentâneos. - Tende piedade de nós, Senhor!... – deixou escapar – E seria tão perfidamente astuto vosso pai, meu jovem Senhor, que vos conhece tão bem, que antevira já o momento em que despontaríeis no horizonte do seu rigoroso plano com essas lucubrações. A mente diligente de Frei Boaventura parecia agora fumegar. Em seguida serenou de novo e a candura tomou-lhe conta da expressão. - Todavia, para que pudésseis desmancha-lo, Senhor, mesmo para a frente, teríeis que lhe conhecer a matriz. Cosme retirou do bolso do gibão o compacto volume da história das suas imaginadas viagens, tamborilando sobre ele com os dedos, fitando de frente o frade. -Talvez que não... Parecia agora ter agarrado com firmeza as rédeas à conjura. -Talvez que para desmanchá-lo, melhor fora quem não lhe conheça a matriz.

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- Que destino terá, na mente de vosso pai, esta conjura? A interrogação fluiu como um sussurro por entre os beiços grossos de Frei Boaventura, que se esvaiu, fluindo também, pelo caminho por onde surgira. Nos três dias seqüentes, os encontros entre Cosme e seu pai decorreram silenciosos e pesados, apenas entrecortados por curtos diálogos ou monólogos acerca de novidades triviais. Cosme deambulou pela casa e pelas ruas sem destino, revendo velhos tópicos da sua adolescência, como se não tivera idéia alguma acerca do que o impelira para a súbita visita a seu pai. Na madrugada do quarto dia despertou de tempestuosos pesadelos em turbilhão, com a carantonha rotunda de Frei Boaventura quase encostada na sua, exalando um hálito pesado e flatulento, chamando: - Senhor. Senhor. Cosme assustou-se, rolou sobre o leito para o lado oposto e despenhou-se desamparadamente no chão. O frade, que não esperara tão descontrolada reacção, esgueirou-se para junto da porta e, já daí, quase a sair, disse sem olhar para dentro: - Vinde Senhor. Vosso pai parece falecer. Quando Cosme se abeirou do leito de Simão de Castro, não parecia falecer, já falecera. Jazia de olhos cerrados, lívido mas de expressão serena, como se dormisse profundamente, as mão apenas ligeiramente crispadas sobre o cobertor. Cosme ficou estaticamente sentado na beira do leito durante duas horas, recordando serenamente todos os episódios da sua esquiva relação com o pai. A morte súbita de Dom Francisco Canete, ou a de Dom Jerônimo, ou mesmo a de sua tia, haviam

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porventura causado mais surpresa, ou angústia, do que a de seu pai. Pensou simplesmente, sem mais, que desvendara o desígnio que o impelira tão subitamente para Lisboa. Encarou depois Frei Boaventura, que se mantinha de mãos cruzadas sobre o peito, em oração, de pé, na beira oposta do leito. - Mandareis sepultar meu pai, em segredo, na nave do Convento de São Francisco. Preparareis depois uma carruagem, em que meu pai partirá, à vista de toda a gente, para uma demorada viagem à Flandres, para visitar um irmão, uma irmã, um cunhado, um compadre, quem quiserdes e achardes mais oportuno. Mandareis regressar meu tio. - Sim, Senhor. Servir-vos-ei, como servi a vosso pai. São as minhas ordens. E é o meu desígnio. Entregue ao frade a encomenda, Cosme, que apenas compareceu ao acto derradeiro do depósito do féretro sob o gélido lajedo da nave conventual, pela calada da noite, entregou-se nos dias seguintes, enquanto aguardava o regresso do tio, a uma profunda reflexão e ao vasculhar de vária papelada respeitante aos negócios de seu pai. Nada mais do que coisas formais e inócuas, porque as outras ficavam sepultadas, senão as poucas que Frei Boaventura e José de Castro aferrolhavam nas memórias vinculadas ao segredo. De resto, nem seria Cosme a violar velhos vínculos, porque a parte da conjura já realizada nem lhe dizia respeito. A partitura agora seria outra e escrita sobre pautas virgens. Cosme não duvidava de que em Frei Boaventura poderia confiar sem reservas, porque a confiança que agora lhe exigisse fora planeada por seu pai, ou, pelo menos, o frade assim o entendera. Cosme não fazia ideia do que o pai esperaria que fizesse, mas tinha a certeza de que Simão de Castro sabia que faria tudo de forma inesperada e imprevisível, sem qualquer continuidade e até com displicente desconhecimento do que estava feito.

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O verdadeiro problema, cogitava, seria seu tio. Até que ponto José de Castro, que controlava afinal toda a extensão do território de intervenção do irmão, não estaria preparado para se lhe substituir como mestre da orquestra? Bem, o reencontro de Cosme com o seu tio acabou por decorrer de forma ainda mais inesperada do que tudo o que já ocorrera. José de Castro chegou três dias passados, com o seu irmão já sepultado, ou bem metido nos atalhos para o seu inventado destino de viagem, com a sua comitiva em alarido, no meio de grande exaltação de contentamento pelo regresso, depois de calcorreado meio mundo. Trazia mesmo consigo uma pequena companhia de saltimbancos aperaltados, que alojou nas lojas. Agarrou-se a Cosme com efusão e, antes que alguém o pudesse admoestar, encarou Frei Boaventura com ar grave, de sobrolho erguido. - Venho muito zangado convosco, Senhor Frade. Não devíeis ter deixado partir meu irmão para tão longe, no precário estado de saúde em que se encontra, sem que, pelo menos, o acompanhásseis. - E achais, Senhor José de Castro, que estou em condições de impor o que quer que seja a vosso irmão. Duvido mesmo que vós o conseguísseis. Anunciou-me que partiria e não admitiu réplicas, como seria de esperar. Se achais que ainda seríeis capaz de o demover, mais não tendes do que ir-lhe no encalço. Debalde, penso, todavia. À parte os astutos trocadilhos, claro ficava, por enquanto, que José de Castro aderia à farsa. Com que intenção, ficava por saber. Mas tinha que ser apartado do frade, os dois bem longe um do outro, senão a coisa ia dar em guerra permanente.

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Cosme reuniu-se só com o tio ao cair da noite na biblioteca. José de Castro não deixava transparecer tensão ou expectativa, apresentava-se com o seu jovial encanto, afável e efusivo. Todavia, depois de ouvir em silêncio as primeiras palavras do sobrinho, o olhar carregou-se-lhe daquele brilho metálico impenetrável que causava calafrios no mais temerário dos interlocutores. O jovem, de pois de acomodados, José na velha cadeira de seu irmão e Cosme à sua frente, desfrechou. - Meu tio, muito vos incomodava, como a outros, o suspeitardes que andava pela vida ao desvario, sem que me preparasse para a contingência, mais tarde ou mais cedo eminente, de ter que substituir meu pai, ninguém saberia bem em quê, senão ele e vós, porventura. Fico ainda a suspeitar que os episódios que me impeliram para Lisboa no momento derradeiro da partida de meu pai foram programados mais por vós do que por ele e que, mais do que ninguém, sois quem mais se interroga sobre o que farei de seguida. E terei que vos comunicar que, quaisquer que tenham sido os planos, de meu pai ou de meu tio, sobre o curso das conjuras que tinham em curso, ficam por mim suspensos porque não os conhecia. E se, como penso, posso em esquema intuí-los, vou imediatamente dispor de tudo e de todos para que sejam desmantelados, pois não adiro e tenho os meus próprios. E creio que, nos derradeiros momentos de meu pai, afectado pela descrença, não foram outros os seus planos. A rede será desmantelada. Partireis em breve, recolhereis as impressões em curso que andam por aí, nomeadamente o baralho inteiro do Tarot, que me entregareis em Salamanca em três meses. Por aqui, fica Frei Boaventura com o encargo da administração da casa de Lisboa. Vós mantereis todas a prerrogativas e recursos que tendes tido.

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Eu parto dentro de três dias para Salamanca e conto desposar Raquel, se for esse também o seu desígnio. As novas conjuras, quaisquer que sejam, ficarão por lá sediadas. - Ora... rapaz. E onde foste tu inventar tanta conjura, tantos meandros tenebrosos para poderes atribuir qualquer obscuro sentido a tudo o que se tem precipitado na tua vida sem nexo, que não é mais do que o resultado senão disso, da falta de nexo e de sentido com que deixasses que fluísse o teu destino? E porque me tens que atribuir a mim, ou a teu pai, o nexo ou o sentido que deixaste que faltasse na tua vida? Ou pensas tu que exista nexo, ou sentido, na vida de quem quer que seja? Não existe, nem tem que existir, senão na tua, porque o nexo que procuras não existe senão em ti e jamais na tua vida. Irás desposar Raquel. Pergunta-lhe que nexo encontraria ela na sua desgraçada vida, desde que encontrou seu pai dependurado pelo pescoço de uma corda? - Existe pelo menos um. É que a falta de nexo, ou o nexo ou sentido que procuro para a minha vida, tem a mesma raiz que a falta de nexo que se precipitou na vida de Raquel. Todavia, se de facto entre vós, meu Tio, e meu pai e todos aqueles que reunistes, nunca correu qualquer conjura e se faltava qualquer nexo à vossa acção concertada, passará a haver uma e sou eu quem a decreta. E mais não será do que desmantelar a conjura e o concerto em que vos envolvestes, mesmo que a tenha eu inventado. E passa a ter nexo e sentido, a minha vida, que é o de o negar e desmantelar. Mas se há alguém, para além de meu pai, que soubesse de que conjura falo, sois vós. Eu não sei, mas intuí. E esperaremos então três meses, para que me visiteis em Salamanca desobrigado do encargo com que vos carreguei. Então se falará com mais detalhes de conjuras. E de esconjuras.

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- Ora, meu sobrinho, muito me contraria o nexo ou o sentido com que queres agora carregar a minha vida e destino, que eram tão bons assim, sem nexo, ao desvario pelos caminhos. Não serei eu todavia quem te haverá de contrariar. Far-se-á como ordenares. Mas não venhas, depois de a desmantelares e esconjurares, atribuir à conjura do teu pai, real ou de tua invenção, qualquer nexo ou sentido, ou a falta deles, que queiras dar ao resto da tua vida. Mas tenho ainda que te dizer uma coisa, para que não venhas um dia alegar que não te adverti. O maior mistério que envolve a tua vida fica ainda muito afastado do teu alcance. Mas morou sempre ao teu lado. Não sei se virás um dia a saber quem foi, em verdade, Simão de Castro. - Pois, meu tio, é bem possível que não venha jamais a saber quem foi, em verdade, Simão de Castro, nem mesmo José de Castro. Mas interpelei-vos uma vez já sobre a matéria e interpelo-te de novo. O que é, ou era, ou foi a quarta página? - Foi, é e sempre será o verso do segundo fólio, são das poucas coisas que não mudam, as acepções universais e imediatas dos significados do léxico. O que pode variar é o volume, o tomo, o caderno, de que uma dada página é a quarta. Mas isto, nem é necessário ter andado a estudos por Coimbra ou Salamanca, para sabê-lo. Mais valia que me dissesses tu, a quarta página de quê? - Ora... isso dir-me-eis vós um dia, estou certo. E qual era a disputa, ou proelium, que corria entre meu pai e Dom Jerônimo? - Ah... isso... Acerca dessa matéria, para lá dos dois, só um sujeito sabia... - Deixai-me adivinhar. Dom Francisco Canete? - Dom Francisco Canete, nem mais.

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José de Castro levantou-se, dera o colóquio por concluído e mostrava um enorme cansaço. Dirigiu-se para a porta, despedindose com uma cortesia que contrastava com as efusões de afecto com que se apresentara. Ao sair, virou-se encarando Cosme e disse entre dentes, com ar sinistro. Com que então... a quarta página...

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A filha do enforcado
Cosme chegou a Salamanca na madrugada da Sexta Feira da Paixão do Senhor, após ter reproduzido no regresso o itinerário que

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levara, recolhendo os criados e bagagens que ainda esperavam nas estâncias em que ficaram. Reuniu-se logo pela manhã com Miguel, que encarregou de concertar com Raquel uma entrevista depois do almoço. Entretanto pôs o amanuense, esquematicamente, ao corrente do que ocorrera nas últimas semanas e do que congeminara acerca do que deveria ocorrer a partir de então. Miguel escutou-o, primeiro incrédulo e atônito, depois dando mostras de sincera inquietação. Não perdeu todavia, durante todo o colóquio, o seu bem administrado e reservado humor. Mas quando Cosme lhe comunicou que tencionava desposar Raquel, não conseguiu inibir um divertido entusiasmo pueril. - Promissório matrimónio, entre uma surda e muda e um andarilho com o diabo no corpo. Deixou escapar. Cosme riu-se, para desanuviar a perturbação que o inadvertido arrojo causara visivelmente no interlocutor, que levou a mão à boca, desculpando-se. Raquel apresentou-se vestida de negro, o que Cosme interpretou como simplesmente adequado à conjuntura litúrgica. Raquel causara um profundo abalo sentimental em Cosme, desde o seu fortuito colóquio nas vésperas da partida para Lisboa. Invadiralhe a alma. Levava escrita uma breve e concisa missiva de duas folhas, em que lhe comunicava o sucedido depois que partira e lhe expunha atabalhoadamente a sua paixão. Raquel leu demoradamente, reiniciando repetidas vezes, como se procurasse nexo para as matérias que Cosme lhe comunicava. Ficou depois durante vários minutos com olhar inexpressivo a fitar Cosme, inspeccionando-o com os olhos verdes como se foram lagos de águas imperturbáveis. Subitamente atirou-se ao pescoço de Cosme que enlaçou desesperadamente com os braços. Ria e chorava em simultâneo. Cosme sentiu as lágrimas a escorrerem-lhe pelo peito, inundando-o.

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Depois tomou uma folha de papel e escreveu: Tu e não eu és o filho do enforcado. Alguém me escolheu para carregar com a tua desgraça. O enforcado era Simão de Castro. O meu pai, que tomaste como teu, alguém o escolheu para carregar com o destino suspenso de Simão. Não te posso garantir se foi o frade, ou o teu tio. Antes de te conhecer, já te amava. Não sei porquê. Mas reconheci-te logo que apareceste à cabeceira de Dom Jerônimo, mesmo antes de te apresentares. Tem muita graça. Agora, foste tu quem se recusou a sepultar teu pai, ou o seu espectro, que morreu todavia há quase vinte anos. Raquel entregou a folha a Cosme, esperou que terminasse a leitura, incrédulo, e disse: - Agora podemos coloquiar de viva voz e será a única e última vez, porque prometi a meu pai que jamais o faria, fosse com quem fosse, ou em que circunstância. Não sou surda nem muda. Marta foi a única que nunca aderiu à farsa, Dom Jerônimo aderiu talvez forçado, vivia mutilado entre a lealdade a Marta e a lealdade a quem quer que fosse Simão de Castro. Não sei quem é o Simão de Castro que esteve por detrás de todo este plano, durante estes anos, desde que morreu teu pai. Talvez teu tio. Meu pai era apenas a máscara de alguém. Jamais revelarás, se fores leal para comigo, o que te revelo. Continuaremos tudo como estava, eu sou a filha do enforcado, surda e muda, tu o filho de Simão de Castro, que anda por aí de viagem. Serei tua mulher, não só porque te amo, mas porque, podes ter a certeza, alguém dispôs de tudo para que assim acontecesse. Não te revelarei mais nada. Terá tu que decifrar o teu destino. Tenho medo. Não por mim, porque o meu destino está traçado. Por ti, que terás ainda que decifrar o teu.

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- Revela-me só mais uma coisa, rogo-te, por amor de teu pai e do meu. Quem era, no meio desta tenebrosa história, Dom Francisco Canete? - Dom Francisco Canete... Dom Francisco Canete... Era tão só a razão de teu pai se enforcar. Dom Francisco Canete foi tão só a causa primeira de um plano, ou de uma conjura, a que nunca aderiu e que teu pai quis num dado momento desmantelar sem o conseguir. Por isso se enforcou. É tudo, agora sou de novo surda e muda. Cosme ficou absorto em pensamentos durante quase meia hora, silencioso, meditando. Depois perguntou. - Tu falaste comigo, ou terei eu imaginado? Raquel não respondeu. Cosme tresladou a interpelação para mímica. Raquel não respondeu, de novo. Ficou simplesmente a fitalo incrédula e surpreendida, como se não desvendasse a que matéria se referia. Depois, tomou a folha que suportara o início do colóquio, foi ao fogão e pegou-lhe o fogo. Foi então para Cosme, sentou-se numa cadeira à sua frente, tomou-lhe as mãos e repousou o rosto encharcado de lágrimas entre elas. Profundos soluços percorriam o seu corpo, como espasmos. Nunca mais disse e, porventura, ouviu uma palavra. Durante um mês Cosme preparou Raquel e Miguel para, em concerto, administrarem autonomamente a filial de Salamanca, onde passariam a sediar-se todos os empreendimentos editoriais e comerciais da casa Simão de Castro, incluindo os de Lisboa. Miguel visitaria regularmente Frei Boaventura para coordenar as duas filiais. Raquel surpreendeu Cosme com uma vasta erudição e conhecimento profundo do mundo editorial e livreiro. Os dois

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juntos, ela e Miguel, garantiam uma administração e orientação eficaz e ponderada. Ficava Cosme livre para viajar e calcorrear o mundo, em demanda dos fios soltos da teia, ou véu, que Simão de Castro tecera. No fim do mês celebrou formalmente o matrimónio com Raquel, discretamente, numa paróquia periférica. Restavam-lhe dois meses até que seu tio lhe aparecesse em Salamanca, como haviam concertado, ou, pelo menos, para saber se viria. Entretanto lera com atenção, entre linhas e fora delas, o itinerário das suas fictícias viagens. Ora, Dom Francisco Canete jamais publicara sequer uma página, mas possuía para publicar algo que Simão de Castro, ou o seu espectro, sempre impedira que saísse a lume. Havia algures em Coimbra um livreiro para encontrar. Foi por Coimbra que Cosme iniciou o seu novo itinerário, agora já sem o encárrego de seu pai, mas por sua própria conta. Levou três dias a cobrir a distância entre Salamanca e Coimbra, desafogado de bagagens, com um criado que viajaria regularmente a trazer e a levar os recados e novidades. Realojou-se na altaneira mansarda onde permanecera durante os seus estudos. Em Coimbra seria sempre o filho tresmalhado de Simão de Castro, olhado com desconfiança mas respeitado. Durante uma semana vasculhou e remexeu com diligência nos itinerários quotidianos de Dom Francisco Canete, tentando reconstruir toda a trama da sua vida. Sujeito mais inócuo não haveria em todo o orbe. Entre o teatro de anatomia, os púlpitos da universidade, os livreiros, os corredores e vielas por onde tinha que passar e a sua casa modesta junto à Sé, onde ninguém já morava pois não tinha herdeiros e testara todos os bens ao hospital da universidade, a vida do lente decorrera pelo menos durante duas décadas com os dias enfileirados, cada um igual ao precedente.

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Um livro? Um manuscrito? Nem pensar. Dom Francisco Canete pensava muito, uma mente buliçosa a trabalhar em correria desenfreada, impossível de acompanhar pela caneta. Nem ler. Dom Francisco lera já muito, quase tudo, noutros tempos, bastava-lhe agora pegar num livro, correr pelo prólogo e pelo epílogo, que o resto recitava-o se necessário. Tornara-se preguiçoso, senão para pensar e falar. Com quem falava? Bem, com qualquer um que o ouvisse, ou que tivesse paciência para ficar calado à sua frente, mesmo atormentado pelo enfado. Mas sobretudo com um velho barbeiro, sangrador e meio-cirurgião no hospital da universidade, que era o único que lhe dava réplica. Estava agora quase cego, pouco saía para fora de casa e vivia de uma tença ou reforma, ninguém sabia quem a pagava. Também ninguém lhe sabia o nome, respondia por anexim. O Amolador. Vivia numa casita térrea, para os lados do Mosteiro de Santa Clara. Esse sim, escrevia uns livros, que circulavam em cópias manuscritas de mão em mão, havia muito que não aparecia nenhum. Davam sempre brado, porque a matéria era contundente. Mas também ninguém lera algum, todos tinham ouvido contar. Uma nova embrulhada, para juntar às outras. Encontrar a casa d’O Amolador não foi difícil. Um acanhado casebre no meio de uma horta com vestígios de bons cuidados de exímio hortelão com inesperados conhecimentos de herbanária, num suave terraço da encosta sobranceira ao velho mosteiro, bem batido pelo Sol. Mas d’O Amolador nem rasto. Cosme interrogou vizinhos transeuntes ao acaso, O Amolador estava ausente havia quase meio ano, ninguém sabia aonde se recolhera. Mais uma pista entupida ou suspensa, pensou Cosme, o que havia para investigar sobre a matéria ali se concluía. Dom Francisco Canete era assunto que ficava assim arrumado, sem que, antes que se sumisse, não fosse ainda desencantar outro mistério, um barbeiro escrevinhador.

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Não se deixou prostrar. Ficaria por Coimbra mais uma semana a vadiar, podia ser que surgisse ainda qualquer coisa. Depois, Évora, pois daí saíam os caminhos que o lançavam no encalço de Sevilha. Cosme tomara por guia a interpretação especulativa e alegórica que fizera da relação das viagens que pressupostamente fizera por conta de seu pai e da sua sequência, elas desvendar-lhe-iam, hoje ou amanhã, para o ano ou daí a dez, os contornos do mistério. E estava no quarto dia das deambulações coimbrãs, por mero acaso ou arguto desígnio, andava pelo meio da manhã perdido em bucolismos à beira do rio, entre choupos e salgueiros, arrebatado pela saudade da paixão que habitava em turbilhão a sua alma, sussurrando o nome de Raquel entre rimas e estrofes de velhos sonetos e canções, quando alguém o chamou de longe. - Senhor! Senhor! Era um sujeito corpulento, mal trajado, envolto num capote esvoaçante, com uma cana comprida na mão, em que ora se apoiava, ora brandia para fustigar matos e moitas. Mancava ligeiramente da perna esquerda. Quando chegou junto do jovem causou-lhe uma impressão profunda. Nunca vira um sujeito assim. Os olhos negros, afundados entre as arcadas e os malares, coruscavam. A calote superior da cabeça calva e luzidia. Na base da nuca e por detrás das orelhas eriçavam-se matagais de cabelo crespo, onde nem um piolho conseguiria penetrar. Uma cicatriz encarniçada, mal suturada, partia-lhe do meio da testa, entre os olhos, percorrendo-lhe em alinhamento recto, toda a crista da cabeça até à nuca, onde mergulhava nos cabelos. Teria meia centena de anos, pouco mais. - Senhor, - disse especado em frente de Cosme, arfando ainda – trago-vos algo que me disseram que procurais desesperadamente.

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- Nada procuro desesperadamente, meu bom homem, porque para desesperos me bastam os que, até agora, assolaram já a minha vida. Ando agora é aleijado da alma pela paixão. Para mais ausente. O homem ainda fitou o jovem com desconfiança, como se pensasse que andava era desmiolado, mas foi directo ao assunto. Meteu o braço, até ao cotovelo, no bolso do capote e desenfiou depois a mão com um pequeno caderno manuscrito, já muito descomposto pelo folhear contínuo. Cosme tomou-o, com displicência, como coisa de pouca monta, e analisou-o brevemente. Não conseguiu inibir o rubor que lhe invadiu as faces. - Foi a única peça que me sobrou d’O Amolador, as outras foram servindo para embrulhar uns chouriços. Deve ser, de resto, a única que sobreviveu por aí. - E quem sois vós? - Ninguém, Senhor. Um pobre andarilho que calcorreou meio mundo na companhia de vosso tio o Senhor José de Castro. Quando senti que vosso tio era o diabo encarnado em gente, disselho. Envolvemo-nos numa rixa. Eu era bom pauliteiro, mas o resultado foi ficar com a cabeça aberta de lês a lês por uma paulada que desabou dos céus. O resto perguntai-lhe a ele. Cosme teve a vaga sensação, por um instante, de reconhecer o figurão de velhas andanças com José. Tirou do bolso uma mão cheia de moedas e depositou-lhas na mão estendida, que apertou com calor e afecto. O outro retirouse pelas veredas e matos por onde surgira, mancando e vociferando coisas inauditas. Cosme ainda fixou uma última imprecação.

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- És um tolo, meu caro jovem. Carrega tu agora com esse fardo. Cosme lançou as mãos à boca e gritou ainda: - Foi José de Castro quem te mandou entregares-me isto?! O outro virou-se ligeiramente sem parar e atirou com voz tonitroante: - Não, foi o cego! E seguiu. Nunca mais o viu. Leu então o frontespício. O AMOLADOR / Arauto das novidades / Numero três / Relaçam da autopsia praticada por / Dom Francisco Canete / sobre o cadáver de um sujeito / condenado e enforcado, / que se apresentava quase despedaçado pelos caens vadios / depois de abandonado durante dois dias. / E foi embalsemado e exposto / durante seis meses sem se corromper. / E da lição que proferiu, que causou grande alarido / entre acadêmicos e curiosos. / E tudo se passou em segredo / nos recônditos esconsos do hospital. // A peça contava vinte e duas páginas. As três primeiras descreviam o episódio burlesco da condenação e execução do sujeito e do estado em que se encontrava o cadáver quando foi recolhido, dois dias depois, junto do rio. Terminava-se o episódio com o cadáver já estendido sobre a laje da bancada, os intervenientes munidos de facalhões e bisturis, tudo preparado para dar início ao retalhe. Na quarta página iniciava-se a prelecção do lente, que continuava pela quinta e pela sexta. Estava rasurada com grossos, raivosos e emaranhados traços de tinta, de forma que era impossível decifrar uma só palavra.

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Na margem da quarta página alguém anotara todavia: O autor desta prelecção nada teve que ver com as leituras que dela se fizeram, nem com as conjuras que com base nela se desencadearam. Mas sempre disse o mesmo sobre a matéria e nunca outra coisa. Cosme reconhecia aquela caligrafia e fez um grande esforço mental para a identificar. Sem querer acreditar, primeiro, mas depois com toda a certeza, teve que concluir que era de Raquel. E quem redigira a nota rasurara e erradicara a lição do lente. Ficou ainda com a certeza de que, por entre as rasuras, despontava uma palavra que se convenceu que decifrara, Tarot. Raios, que teria o Tarot que ver com o retalhe de um cadáver? Leu então, sentado numa pequena pedra, o texto todo. O relato da dissecação, que andava no frontespício, porventura para atenuar e disfarçar, como autópsia, era canônico. Para o embalsamar não se enxergava sentido, não apenas para a intenção mas também para os procedimentos, que eram inéditos e Cosme desconhecia. O destino do cadáver após a exposição durante meio ano também não se dava a conhecer, mas, alegórica ou alucinadamente, parecia fazer-se subentender que se esperava algo com o alcance de uma ressurreição ou transmutação qualquer. Em verdade, toda a prosa, rigorosamente encadeada, andava entre o sério da prosápia académica e o jocoso do almanaque. E presumiase também que a lição preliminar do lente servia para estruturar, doutrinariamente, toda a narrativa, a que, em conexão com ela, haveria que atribuir um sentido subentendido. Pela mente de Cosme foi desfilando, ilustrada por fugazes mas relampejantes pormenores, a substância essencial da doutrina que Dom Francisco proclamara dos púlpitos durante os anos em que frequentara as suas aulas magistrais. Parecia-lhe que começava a ultrapassar a mera intuição, na decifração de todos os mistérios da conjura que o cercara. Mas sempre que estava prestes a tirar uma conclusão, irrompia-lhe pelo coração a imagem de Raquel.

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Só lhe faltava agora ter que admitir Raquel intrometida no núcleo das conjuras. Seria a única coisa que não podia acontecer, melhor, não pudera ter acontecido. Se assim fora, mais valeria deixar as coisas como estavam, deixá-las correr como se nada tivessem que ver com ele, alguém haveria de designar o papel em que seria, ou fora já investido. Se assim fora, não havia nada a fazer. Sem saber bem porquê sentiu-se momentaneamente um tonto. Todavia ergueu-se, sacudiu-se com ímpeto, bateu as botas com firmeza no chão para obrigar o corpo a reagir e disse para si: - Levarei a coisa até ao fim, seja o que for que estiver para vir. No dia seguinte, logo pela madrugada, o jovem enviou o criado para Salamanca com uma carta para Raquel, comunicandolhe a matéria d’O Amolador, dando especial ênfase ao facto de ter reconhecido a caligrafia da nota aposta à margem da quarta página. Nada mais adiantava, o resto eram arrebates do coração, expressões de desânimo e angústia causadas pela ausência, promessas de reencontros para breve. Em seguida meteu-se no caminho de Évora, para cumprir o itinerário que estabelecera. Em Évora, não sabia bem ainda o que procurar, mas tinha a certeza de que aí encontraria qualquer conexão entre Coimbra e Sevilha. A viagem durou-lhe quatro dias bem andados, com transposição do rio em Abrantes, de novo. Évora tornara-se uma cidade taciturna durante as últimas duas décadas. Cosme tinha de Évora as referências, arrancadas aos alfarrábios, dos anos áureos da presença da corte e, depois, do Cardeal Infante, seu Arcebispo. Era a primeira vez que visitava a cidade. Pareceu-lhe, simplesmente, alguém amordaçado, surdo e mudo, como Raquel. Mas Cosme sabia, com toda a certeza, que, encafuada numa viela qualquer, encontraria uma oficina gráfica com muita matéria

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para desvendar. Para além do mais Cosme não revelara a ninguém que a sua itinerância passaria por Évora, nem a Raquel, de modo que irromperia inesperado na cidade. Ora o que o jovem não revelara alguém contudo adivinhara. Quando conseguiu, depois de muito trabalho, localizar um certo impressor vagamente aparentado com Simão de Castro, convenceuse de que todos os sujeitos que até então conhecera eram gente trivial. Samuel Rodrigues era um homem baixo e enxuto que rondava os sessenta anos, saltitante, não decorria um instante sem que mudasse de lugar, com olhos irrequietos de pardal, exuberante, que recebeu Cosme interpelando-o num Latim fluente, enquanto o inspeccionava pormenorizadamente como se comprasse uma rês numa feira de gado. Dirigiu-se-lhe para mais como se fosse Cosme de Castro, filho de Simão de Castro, que vinha um pouco atrasado, pois o velho Simão já por ali passara havia uma semana, em itinerância para qualquer destino que não revelara. Cosme perdeu as estribeiras. - Deixai-vos disso, caro Senhor, porque o itinerário que meu pai leva conheço-o bem. Quem por aqui passou foi meu tio José, que foi também quem vos avisou que viria agora eu de seguida e vos encomendou esse sermão. Temos muito que conversar, eu e vós. - Vindes debalde. Tudo o que por aqui poderia haver que vos interessasse foi recolhido por vosso tio, por vosso pai, por quem quer que fosse que por aqui passou antes de vós. Cá por mim, pouco tempo me sobra para ler uns centos de livros que ainda tenho para arrumar na cabeça enquanto me durar a vista, não posso dispensá-lo em comédias. Assim sendo, se quereis ver umas novidades que por aqui vão chegando, matérias várias, filosofias, ciências, arrebatas de poética, tendes a casa à vossa disposição.

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Senão ide andando, porque daqui a Sevilha tendes ainda muito caminho e cheio de pó para engolir. - E como sabeis que levo Sevilha no meu itinerário? - Ora, jovem, através da mesma fonte que me prenunciou a vossa visita. Se assim não fosse, todavia, adivinhá-lo-ia. E podeis anunciar a todos os que andam metidos nesta trapalhada que vou cumprindo o meu papel enquanto não me esgotarem a paciência, enquanto daí resultar algum acréscimo para meus cabedais, enquanto o que me pedem não me roubar o tempo para outras ocupações que orientam a administração do pouco tempo que me resta para cumprir o programa que estabeleci para a minha vida. Sei mais sobre vós do que algum dia, porventura, podereis vir a saber. Sobre vós, sobre vosso pai, sobre vosso tio e sobre tudo o resto. E nunca daqui saí. - E sobre Raquel? - Sobre Raquel? Sobre Raquel… aí é que a porca torce o rabo. Raquel sois vós, vós sois Raquel, nenhum dos dois virá a saber quando é um e quando é outro. Quando é para entrar um e para sair o outro da cena. Sobre vós e sobre Raquel ainda há muito para desvendar, o que sabeis é porventura a parte menos substancial do que vos resta para saber. - E sobre o Tarot, que sabeis? - Sobre o Tarot?... O livreiro deixou então escapar uma estridente gargalhada bem timbrada, em ritmo calculado. Cosme notou então que o que

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mais impressionava em Samuel Rodrigues era o facto de parecer sempre o actor de uma comédia. - Sobre o Tarot… Também me avisaram, ou eu adivinhei, que me interpelaríeis sobre essa matéria. Que sabeis vós, ou quem quer que seja sobre o Tarot? Tudo o que se sabe é que foi pressupostamente um método muito antigo de adivinhação, de vaticínio, mas mormente de intervenção sobre o destino, quer-se dizer uma esconjura que propiciava que algo acontecesse ou deixasse de acontecer. Isso é o que foi, pressupostamente, o Tarot, mas já ninguém lhe conseguiria seguir o rasto ou interpretar o significado. O Tarot, caro jovem, é hoje meramente uma alegoria, ou uma senha. Foi pelo menos como tal que foi invocado por alguém quando o intrometeu nas nossas vidas, como alegoria apta a desencadear uma sequência de condutas. A partir de então basta pronunciar Tarot, pronunciar a senha, para que os acontecimentos se desencadeiem. O vosso nome é também uma alegoria e vós próprios enquanto Cosme de Castro sois uma alegoria e uma senha. O meu também, o de vosso pai, o de vosso tio, o de Raquel. Se o vosso nome passasse a ser Raquel, vosso destino mudaria, porque tudo o que aconteceria em vosso redor seria desencadeado pela alegoria e pela senha contida no nome de Raquel e no que ele, para lá do seu ser, propicia. Para lá do que é, ou do que possa ter sido, em si, por si e para si, uma coisa, ou um ser, é também tudo o que desencadeia e propicia quando é pronunciada ou invocada. Mas também já me avisaram, ou eu adivinhei, que o que quereis em verdade desvendar é o que era o Tarot quando foi invocado ou pronunciado nos meandros de um discurso, ou de um devaneio, de que já só muito poucos conhecem a substância e o encadeamento.

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Porque vos convencestes de que foi sobre essa invocação, ou sobre essa alegoria, que se edificou a alegoria em que se transformou o vosso próprio destino. E basta, a partir de então, que se pronuncie a senha e se diga Tarot, para que vós próprios desencadeeis na vossa vida todos os acontecimentos e todas as condutas que a podem transformar na alegoria que dá sequência a outra alegoria. Mas não faltará por aí quem venha dizer que tudo se iniciou com Cosme de Castro, quando, para atribuir sentido à sua vida sem nexo de vadio itinerante pelos trilhos da fantasia, tomou uma citação inócua e uma inócua sequência de ocorrências que ninguém previra ou programara, como a conjura que estruturaria a sua intervenção no seu próprio destino. Ora, caro jovem, sempre que alguém alegar isso, introduzirá uma nova alegoria na vossa vida. E Raquel é o único ser que vos poderia desvendar este mistério, porque é o único de vossa confiança dos que estiveram sempre intrometidos no núcleo de todos os pressupostos acontecimentos, como mera espectadora porventura. Só ela vos poderia garantir que não fostes vós a raiz de tudo isto e quem o inventou. Ou pelo, menos, vós assim o decidistes. Mas Raquel é surda e muda. É a parte de vós que vos negará sempre a solução que vós próprios já negastes, porque, se assim não fosse, o nexo que quisestes introduzir na vossa vida ficaria subitamente suspenso. - De tanta gente aparentemente desocupada que interpelei, vós, que tendes vosso tempo tão exíguo para cumprir a vossa vida, perdestes já uma boa parte dele a filosofar sobre o destino de um pobre transeunte que, pressupostamente, vos apareceu de surpresa. Revelai-me só mais um mistério, para que eu possa ter a certeza de que não o desvendei já eu. O que tem que ver o Tarot, mesmo como alegoria, com o retalhe de um cadáver?

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- Fostes vós e não eu quem teve o ensejo de seguir, com detalhe e muito empenho, pelo que me contaram, as lições de Dom Francisco Canete. Sempre que Dom Francisco retalhou um cadáver, fê-lo para pronunciar que a decomposição da fábrica era em si um acto inócuo, que em nada adiantava senão como alegoria. Porque, como procedimento de análise estava mais do que concluído porventura há alguns milhares de anos. E só se repetia ritualmente como alegoria, para pronunciar a ideia ou a intenção da composição ou recomposição. A dissecação era para Dom Francisco um acto propiciatório. Ora, até aqui não há mais do que filosofices, de um sujeito sereno com longínquo alcance de vista. Depois, houve um barbeiro que compôs uma relação bizarra de uma dissecação praticada com todo o detalhe por Dom Francisco, que embalsamou e expôs a sua obra, como alegoria para comunicar a sua doutrina a uma dúzia de conjurados neófitos da sua assembléia filosófica. Foi o barbeiro que desencadeou tudo o resto. Porque, então, alguém tomou a alegoria de Dom Francisco como senha de uma conjura de que ninguém ainda alcançou porventura o significado, embora cada um tome e desempenhe o seu papel, como se alguém, incógnito, regesse, imóvel no seu lugar, um concerto. A alegoria de Dom Francisco nada terá que ver com tudo o resto, senão que é o seu sentido filosófico que o estrutura. E, agora, diz-me tu. Quem melhor do que tu conhece na essência a doutrina e a filosofia de Dom Francisco Canete? Não será que toda a trama com que tu edificaste uma conjura, em que intrometeste toda a gente que circulava à tua volta, cada um investido num papel que nem consegue desvendar, foste tu quem a decalcou sobre a alegoria de Dom Francisco Canete? Não terás sido tu quem desencadeou tudo isto, que tomaste depois como desencadeado há muito tempo, mesmo antes de saberes quem eras no meio de toda a trapalhada? É este o único mistério que tens para decifrar, antes disso nada te adianta andares por aí a quereres desvendar outros.

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E uma coisa te digo, se foste tu quem armou esta trapalhada, já ninguém consegue sair dela. Cosme evidenciou uma fugaz surpresa com a transição do tratamento que o livreiro introduzira na alocução, de vós para tu. Talvez por a notar, Samuel Rodrigues continuou. - E nada te garante que sejas filho de Simão de Castro. Para mim serás sempre meu sobrinho, filho de meu cunhado Afonso de Torres, que alguém pôs a substituir Simão de Castro depois que se enforcou, por penas de amor, segundo então disseram. Tanto quanto sabia, Simão de Castro teve uma filha a quem puseram o nome de Raquel, para intrincar mais o teu destino. E nada mais do que isto te posso adiantar. - E agora? - Agora, Cosme de Castro, Cosme de Torres, Raquel de Torres ou Raquel Castro, quem quer que queiras ser na trama que vais continuar a tecer em teu redor, prossegue o teu itinerário para Sevilha, de regresso para Salamanca ou para Lisboa, para o diabo que te carregue. Por aqui ficará Samuel Rodrigues, cunhado de Afonso de Torres, primo direito de Simão de Castro, ocupado em desvendar o alcance derradeiro das filosofices de Dom Francisco Canete, na hermenêutica da sua alegoria. O livreiro fez uma pausa, como o actor que pretende reavivar a atenção do público, dirigiu-se a alguém ausente com um chamamento ríspido e conciso e continuou. - E agora, meu sobrinho? Vamos beber um copo de bom vinho e derrubar um par de chouriços, que tinha preparados para te receber.

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E no caminho para Sevilha, detém-te umas horas na estalagem de uma tal coxa para os lados de Marmelar, porque só lá encontrarás tão bom vinho como este. E algo mais, porventura. Logo verás. Então apareceu um criado com ar taciturno que estendeu sobre uma bancada uma toalha de linho imaculada, sobre a qual dispôs os copos, um jarro e a travessa com os chouriços bem assados. - Nem tudo na vida são conjuras, como vês, de vez em quando paramos e deparamos com as coisas simples, nem que sejam só dois chouriços. Aí se suspende então toda a filosofia. Depois, tem todo o tempo para recomeçar. A personalidade de Samuel Rodrigues, seu pressuposto tio ou comediante que alguém preparara para entrar na cena, perturbou profundamente Cosme, que saiu acabrunhado depois de calorosas despedidas, mais confundido ainda do que quando partira de Coimbra, mas também mais elucidado. Gastou ainda um dia a divagar pela cidade, sem conseguir decidir se deveria procurar de novo Samuel. Decidiu que o que haveria de esbarrar agora com a sua já desconcertada mente o esperaria em Marmelar. De madrugada partiu, com o Sol ainda a esfregar os olhos por detrás do horizonte, de modo que chegou a Marmelar com o estômago a reclamar pelo almoço. A estalagem da coxa era um lugar peculiar, à beira do caminho, um casebre térreo com uma alta chaminé como se fora um campanário, com uma alpendurada em frente da porta larga e escancarada, como se fosse uma ermida. Nas traseiras, um alpendre rústico em madeira, para albergar as bestas. A cerca de vinte metros, num pequeno adro, uma fonte cantarolava jorrando água, que não se entendia de onde brotava no meio de um deserto abrasador. Algumas cabras pastavam soltas pelas imediações.

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Via-se que parava ali muita gente, não se percebia para quê, pois nem uma horta ou árvore de fruto despontara do solo árido. Quando Cosme entrou havia um grupo de quatro viajantes extenuados, que bebiam e comiam e nem lhe prestaram atenção. Aproximou-se então um jovem com ar de lorpa, de gestos descontrolados, e assentou sobre a mesa um jarro de vinho e um copo, como se esperasse ordens para o que haveria de vir a seguir. Como Cosme se manteve silencioso, mirando o outro ainda com surpresa, então disse: - Que ireis comer, Senhor Cosme de Castro? - Escolhe tu, de entre as iguarias que tens para me oferecer. Mas antes diz-me, porque haverei eu de ser Cosme de Castro. - Ora… Senhor, não há por onde as novidades corram mais desenfreadas, como pelos caminhos. Há uns dias já que sabíamos que viríeis. Minha mãe atender-vos-á de imediato. Então, irrompeu a coxa por uma porta fundeira, afastando uma cortina. Era uma mulher miúda e meia corcunda, que mancava acentuadamente da perna direita, com o cabelo desgrenhado caído sobre os olhos, que pareciam dois pontos negros em permanente movimento. Sentou-se em frente de Cosme com um baralho de cartas que cobria com a mão estendida. - Mandou-vos então o velho Samuel para que vos lance as cartas. - O velho Samuel não me mandou senão para beber um bom copo de vinho, mas, pelos vistos, mandou alguém para te encomendar esta matéria. E que cartas me irás lançar.

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- O Tarot, caro Senhor. Que esperáveis? A mulher descobriu então o baralho e começou a dispor as cartas sobre a mesa. Cosme escancarou os olhos, engasgou-se com um golo de vinho que sorvia e teve que ser assistido pelo jovem lorpa, que o fustigava com ríspidas palmadas nas costas. O baralho tinha acabado de sair das prensas, cheirava ainda a tintas frescas. Cada carta, numa das faces apresentava a iconografia canónica dos arcanos, na outra, um após outro, percorria-se toda a sequência dos esfolados que ilustram a Fabrica de Vesalio. O jovem tentou recompor-se. - E como administrarás esse baralho? Perguntou. - Deste lado – e apontou a face que reproduzia a iconografia canónica da carta do Enforcado – administrá-lo-ei eu. Do outro, vós. Só então Cosme notou o mais aberrante aspecto da singularidade do baralho. As gravuras que representavam os esfolados haviam sido esmeradamente abertas a buril, reproduzindo eximiamente as ilustrações de Calgar para a primeira edição da Fabrica. A única diferença era que o rosto de cada esfolado reproduzia, em sucessivos estratos de descarnagem, o retrato de Cosme de Castro. - Aonde foste desencantar este baralho? - Ainda ontem o comprei a um bufarinheiro que por aqui passou. - Basta mulher. Serve-me então o almoço.

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- Sim, Senhor Cosme de Castro. Também ninguém me encomendou que fizesse mais do que ficou feito, senão que vós o solicitásseis. Mas vejo que também já concluístes que, por mais que lançássemos as cartas, jamais conseguiríamos esconjurar, nem sequer adivinhar o destino que já desencadeastes. De qualquer modo, acrescerá à despesa do teu almoço o valor da compra deste baralho. Leva-o, é teu. Estou mais habituado com o meu, que é bem mais simples de administrar. Nem gosto de baralhos novos, porque as cartas empecilham-se umas com as outras. A mulher reuniu o baralho que depositou ao lado de Cosme sobre a mesa e sumiu-se então, Cosme não voltou a vê-la. O jovem lorpa serviu-lhe o almoço, com esforçada cortesia, sem contudo conseguir controlar a natural propensão para a estupidez. Cosme saiu da estalagem reconfortado e com as energias restauradas, em direcção à estância seguinte na direcção de Sevilha, que seria tão longe quanto pudesse alcançar enquanto durasse a luz diurna. Ia definitivamente desorientado, sem saber quando, ou se, de um momento para o outro, inverteria o caminho para regressar a Salamanca. Entretanto, irrompeu-lhe pela mente uma ideia, recordando um pormenor dos seus diálogos, ora escritos, ora mímicos, ora de viva voz com Raquel. Antes de te conhecer já te amava. Reconheci-te logo quando apareceste à cabeceira de Dom Jerónimo, mesmo antes de te apresentares. Escrevera Raquel. Seria que conhecia da oficina de Dom Jerónimo a matriz de impressão da carta do Enforcado? Ou conheceria mesmo todo o baralho e o subentendido sentido que lhe presidira? - Não. A parte mais substancial de tudo isto ainda está por desvendar. Não o sentido, mas a trama da conjura que edificou o

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sentido. O sentido virá depois. Não regressarei a Salamanca sem, pelo menos, passar por Sevilha.

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O cadáver

E em Sevilha então, aonde chegou já exausto, com os poros entupidos pelo pó dos caminhos e a pele do rosto crestada pelas bravuras do Sol andaluz, deixou-se definitivamente prostrar pelo desânimo e pelo desconcerto da alma atormentada. Que procurar em Sevilha, uma verdadeira Babilónia em rebuliço, toda a gente a falar, a cantar e a dançar ao mesmo tempo, parecia ao jovem que em todas as línguas do mundo, menos em castelhano que era a que levava na ponta da sua? Em Sevilha só havia era que meter-se no meio da multidão e ir indo para onde o levassem. De resto, Cosme sabia que o que houvesse para encontrar em Sevilha viria em sua demanda, como acontecera em todos as estâncias de suas andanças. Era esperar. E então deixou-se andar por praças e vielas, perdido entre o mar de gentes. E assim passou a primeira semana e a segunda, até que decidiu regressar a Salamanca. E na véspera de o fazer, passou por acaso junto de uma cigana, que lia a sina na esquina de uma praça. - Senhor, aproximai-vos para vos ler a palma das mãos. - Já sei, também alguém te avisou que passaria por mero acaso Cosme de Castro nesta esquina e do dia em que viria. A mulher não compreendeu o sentido da interpelação do jovem, mas agarrou-lhe nas mãos que estendeu e tacteou demoradamente. Depois fechou-lhas precipitadamente, virando o rosto, como se vira o diabo.

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- Ide! – disse aflita. - Que foi, mulher, que viste? - Oh!... Senhor!... A Filha do Enforcado! - Ora essa! E quem é? - É uma velha lenda. Não conheceis? - Conta, mulher. - Quem desposar a Filha do Enforcado, quem for para isso destinado, terá o poder para reger todos os destinos. É uma velha lenda, que corre de boca em boca e, ultimamente, em dezenas de folhetos e pagelas que os cegos vendem aos centos por aí. - E onde a posso encontrar? - Trago comigo uma, posso dispensá-la. Tirou do bolso da saia um pequeno folheto de um só fólio dobrado pelo meio, perfazendo quatro páginas, e entregou-o ao jovem que lhe deixou cair no regaço uma moeda em ouro. - Não sei se foi para te encontrar que fiz tão longa viagem. - Não foi, com toda a certeza, porque ainda hoje aqui cheguei e venho de muito longe. Cosme chegou então a Salamanca algumas semanas adiantado sobre o prazo que estabelecera a seu tio. Pelo caminho, ocupara-se a analisar com todo o detalhe toda a situação, com a

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distância e o tempo que uma longa viagem, em que não eram esperadas surpresas, lhe permitiu. O que ocorrera em Sevilha fora, com toda a certeza, o mais inesperado. O encontro com a cigana fora mero e fortuito acaso, tinha a certeza, a mulher desempenhara a penas o seu papel de ali estar à espera dos incautos, a quem apresentaria a matéria da moda, pois a novidade deveria ter irrompido pelos caminhos na periferia da cidade pouco antes, ou já depois de Cosme chegar a Sevilha. O jovem tinha mesmo a certeza de que, durante aquele dia, todos os varões casadoiros que passaram por aquela esquina foram erigidos pela velha em regedores de todos os destinos, futuros esposos da Filha do Enforcado, porque era a matéria que estava a dar e lhe encheria os bolsos de moedas. Mas o folheto aparecera em Sevilha porque era o que estava planeado para aí surpreender Cosme. Foi-lhe todavia parar às mãos por acaso fortuito. O que Cosme ficava sem saber era como fora planeado confrontá-lo com a novidade e se a forma, ou o meio, ou o sujeito lhe adiantariam algo mais ainda sobre a matéria. Uma coisa era certa, quem quer que fosse encarregado de lhe apresentar o assunto não o localizara em Sevilha, ou Cosme não se comportara da forma que alguém previra. O episódio em si, como mera demonstração de quebra de um fio da teia, parecia-lhe constituir um indício, porventura carregado de sentido e substância. De qualquer forma o tema previsto para o passo de Sevilha no alegórico itinerário de Cosme era o da Filha do Enforcado. A pressuposta lenda da Filha do Enforcado e do seu destinado esposo, regedor de todos os destinos, parecia a Cosme invenção recente, edificada propositadamente no contexto do plano que edificara todos os outros dos recentes episódios da sua vida. Alguém imprimira propositadamente uns centos de folhetos e os colocara nos alforges dos cegos e caminhantes, para que circulasse no termo de Sevilha quando Cosme aí chegasse.

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A estrutura da lenda era contudo coerente e respeitava os cânones do gênero. Do baralho do Tarot houveram sido erradicados dois arcanos, A Filha do Enforcado e o seu Esposo, regedor de todos os destinos e seu Sacerdote Supremo. Eram os arcanos nucleares do mistério, por isso, uma vez erradicados, o Tarot perdera toda a eficácia e ninguém conseguiria já enxergar-lhe o significado nem desvendar a chave. Só o Esposo era apto a lançar as cartas do Tarot, desde que assistido pela Filha do Enforcado. Como deveria ser reconhecida a Filha do Enforcado, ou seu Esposo? Pela revelação. Ora, quem erradicara do baralho os dois arcanos erradicara também o mistério da forma e do meio da revelação. A única pista que subsistira pronunciava tão só que o sujeito da revelação era o Cadáver. Bem, pensava Cosme, pelo menos ficava estabelecido o fio da ideia que associava o Tarot a Francisco Canete, ao tema da dissecação, de toda a conjura, afinal, e quem a congeminara fazia-a remontar às origens. Viesse agora alguém dizer que era ele quem ia inventando tudo. E se fosse? Bem, agora estava obrigado a inventar um cadáver, ou o Cadáver, cuja revelação o tinha investido nesse papel, de regedor do destino de todos os incautos que envolvera na barafunda. Ou talvez até já estivesse inventado, por detrás da cortina, preparado para irromper na boca da cena. - Raios partam isto tudo, aonde vou eu arranjar agora um cadáver, que venha do princípio de toda esta barafunda e possa agora reaparecer para confirmar o sentido de tudo? E Cosme ria descontraído enquanto se rebolava pelos prados ressequidos pelo estio, envolto em palhas, na pausa derradeira já com Salamanca à vista. E deu consigo a pensar, já não tão risonho, que estava ainda para revelar o destino dado ao

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cadáver embalsamado por Dom Francisco Canete havia quase vinte anos, depois de exposto durante meio. E teve que reavaliar a hipótese de, por lhe ter irrompido pela imaginação tão luminosa ideia, se calhasse, era mesmo ele o inventor de tudo. E se não tivesse sido até então, se calhasse, até poderia passar a ser. E a seqüência das alucinações já não ia parar, o melhor era parar já com os pensamentos, para desatar a imaginar as delícias do reencontro com Raquel. Mas também não conseguia passar para a frente da contingência de ter que confrontar Raquel com muita matéria inoportuna no meio dos arrulhos da alcova. E por fim pensou: - Eu estou é doido. Vamos lá a ver se consigo entrar em casa, comer um bom jantar e dormir uma boa soneca pelo menos, antes de alguém notar. Não comeu um bom jantar mas dois e dormiu duas boas sonecas, tudo só interrompido para afogar as saudades de Raquel nos seus braços e só na manhã do terceiro dia a convocou para o salão, para um longo debate sobre as novidades. Disse então: - Nem me importa agora que me ouças ou não, porque é de viva voz que vamos debater um ror de matérias a que temos que dar arrumo antes de prosseguirmos. E nem importa também sequer que me respondas, porque sobre tudo posso responder em teu lugar. E a primeira e mais desconcertante novidade é que encontrei teu pai, Simão de Castro. - Meu pai, Simão de Castro! – dirias tu agora se pudesses desvincular-te da tua promessa de surda e muda – Mas Simão de Castro era teu pai. O meu morreu há dois meses. O teu há quase vinte.

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- Vou prosseguir na presunção de que estás mesmo certa disso. Pois Simão de Castro não era meu pai, era teu, porque eu sou filho de Afonso de Torres que morreu há dois meses, mas eu meti em viajem sem destino conhecido. Simão de Castro não morreu nem nunca se enforcou, tu apenas sabes que não reconheceste teu pai no sujeito que te plantaram à frente suspenso pelo pescoço de uma corda, aquele não era o teu pai. Todavia, com a idade que tinhas então, sabias lá se teu pai se chamava Simão de Castro, Afonso de Torres, ou mesmo se era Sua Majestade. Apenas sabias que não era aquele. O sujeito que te plantaram à frente tinha sido embalsamado por Dom Francisco Canete, estava enforcado pelo menos havia mais de meio ano, mas eximiamente retocado e conservado pelas mágicas mãos do mestre. Este foi o plano de Simão de Castro, que precisava de se enforcar, de sair das vistas da cena, para reger a orquestra por detrás da cortina. Mas o plano estava muito bem urdido, Simão de Castro tinha que sair da cena e morrer para uns, mas ficar às claras e sobreviver para outros. E sobreviveu por detrás da máscara de Afonso de Torres, seu primo direito. - Isso não é verdade e toda a gente o sabe. O meu pai não era o enforcado, isso eu sei, era Afonso de Torres, até Marta o confirmou. - Marta confirmou-te o que lhe encomendaram que confirmasse, quando foi necessário prever a hipótese de ter que ser revelada, mesmo publicamente, a morte de Simão de Castro há vinte anos. Então, como nunca reconhecerias o teu pai no enforcado, passaste a ser a filha de Afonso de Torres. Eu, do enforcado. Ninguém podia garantir até que momento aceitarias continuar a ser a surda e muda. Ora, como Marta te recolheu durante uma boa

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dúzia de anos, quando te irrompeu pela vida Afonso de Torres por pai, sabias lá já se era ou não. Raquel mantinha-se estática e de olhos escancarados em frente do interlocutor, de boca entreaberta, com um papel e a pena na mão, como se pensasse: - Quando é que acaba esse desvario de falares só contigo próprio e me contas o que se tem passado? Cosme tomou então a folha e escreveu: O Cadáver. Encontrei o Cadáver. Quem rege o destino agora sou eu. Eu e tu, meu amor. Ficarás tu por aqui à minha espera, a assistir-me e aos meus assuntos, e eu ao desvario pelos caminhos, a reger o destino. Raquel leu e respondeu: Estás louco, meu amor. Endoideceste. Amar-te-ei sempre todavia, como regente do meu destino. Cosme interpelou ainda: Que fizeste, ou mandaste fazer à matriz para a impressão da carta do Enforcado? E Raquel de novo: Foi destruída. Será a carta que faltará ao baralho que trouxer teu tio. Cosme entregou então a Raquel o folheto que trouxera de Sevilha, depois de escrever no frontespício: Não, meu amor, faltarão mais duas. E tomou de novo a folha em que iam escrevendo: Em que passo da dissecação se encontrava o esfolado da carta do Enforcado? Foi através dele que pudeste reconhecer-me. Raquel deixou escapar um sorriso matreiro. Era um dos últimos. Mas o rosto permanecia reconhecível. Posso agora até dizer que, antes de te ver pela primeira vez, já te conhecia quase até ao tutano dos ossos.

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Quanto a Raquel, deixou Cosme ficar a coisa assim. Nem havia ele de importuná-la com tudo o que a mais sabia sobre o assunto, nem ela o perturbaria com tudo o que certamente sabia, pois devia ser ele a procurá-lo. E quando então chegou José de Castro, dias depois, não só não trazia consigo baralho algum, mas vinha singelamente de mãos vazias. Vinha para mais só, contra seu costume, sem as bizarras e inesperadas companhias com que sempre aparecia em qualquer lugar. Com ar abatido e taciturno. Disse simplesmente, quase em surdina, com voz sumida: - Meu sobrinho, alguém me empecilhou os passos, tudo o que acontece desde que teu pai partiu já nada tem que ver comigo, fui erradicado de tudo por alguém. Todas as portas se me cerraram. Cosme ouviu, afastou-se para cerca de dez passos de José, encarou-o e interpelou: - Vós não sois meu tio, vós sois o enforcado, Simão de Castro. O outro ficou pregado no chão, estático e de boca escancarada, como se fora varado por uma paulada de alto a baixo. Depois gaguejou durante uns instantes balbuciando algo sem nexo. Logo de seguida a sua mente começou a laborar desenfreada, o seu olhar metálico tornou-se impenetrável. - Suponhamos que sim, que sou o enforcado, Simão de Castro. E agora? - Agora, Senhor Simão de Castro? Agora voltareis a ser o enforcado, o cadáver, regressareis à tumba, deixareis de assombrar os vivos e os seus destinos, porque Simão de Castro passarei a ser eu. Não foi assim que havíeis destinado?

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- Deve ter sido assim que Simão de Castro destinou. Só me resta ter a certeza de que sabes porquê. - Essa certeza compete-me a mim agora tê-la, a partir deste instante. A intervenção de Simão de Castro sobre o fluir das coisas terminou agora. Vós, meu tio, regressareis a Lisboa e por lá ficareis na companhia de Frei Boaventura. A casa de Lisboa confinar-se-á aos seus compromissos e contratos como Imprensa Régia. Isso garantir-vos-á o desafogo para repousardes. - Não desejo outra coisa, meu sobrinho. A minha vida foi até agora muito atribulada. Talvez eu seja Simão de Castro, já nem sei bem. Nem saberás tu. Só saberás aquilo que, a partir de agora, tu próprio inventares e fizeres acontecer à tua volta. - Talvez eu não saiba se vós sois ou não Simão de Castro. Talvez não. Mas que sabeis vós do que pude eu ver e saber durante estes três meses? Porque alguém se intrometeu no meio de tudo e vós bem o sabeis, Simão de Castro perdeu o fio à meada. Sejais vós ou não, perdeu-o. Talvez até que essa fosse a razão de morrer Afonso de Torres. Com que então, não conseguistes reunir o baralho? E sabereis por acaso se alguém decidiu mostrá-lo? Ou se o tenho eu em meu poder? Alguém, meu tio, Senhor Simão de Castro, ou quem quer que sejais, se meteu no meio disto. - Talvez tenhas razão. A vantagem que levo sobre ti é a de saber quem. - Não é essa a vossa vantagem. Pouco me interessa saber quem, interessa-me mais saber porquê. - Pois é, mas só quando souberes quem, saberás porquê.

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- Quem quer que tenha sido, foi alguém a quem não interessou que Simão de Castro voltasse a aparecer, depois de ter morrido duas vezes. - A ninguém interessava que Simão de Castro desaparecesse, ou não voltasse a aparecer de qualquer forma, pela singela razão de que Simão de Castro não existe, ninguém sabe quem é, não tem rosto nem lugar. Se o regedor de todos os destinos não for ninguém, não tiver rosto nem lugar, não incomodará a ninguém, porque então será igual ao destino, como se fosse ele próprio, regendo-se a si próprio. Aquele a quem interessa que Simão de Castro não volte a aparecer, ou a insinuar-se, é o mesmo que pretende alçar-se em regedor de todos os destinos, retomar o fio da meada, com o seu rosto e no seu lugar, onde todos o verão. Uma arrojada empresa, que levantará todos contra ela. Está descansado, meu sobrinho. Teu tio, José de Castro, sai da cena e regressa a Lisboa, onde se regalará numa santificada vida sedentária que nunca conheceu. Mas com Simão de Castro terás ainda que te confrontar. José de Castro pronunciou o último discurso com uma entoação aparentemente conformada, mas os seus olhos tornavamse progressivamente mais impenetráveis. As últimas palavras soaram mesmo como uma rastejante ameaça, ou um sibilino oráculo. - Bem, pelas vossas últimas palavras, meu tio, fico a saber que estais a par de algumas novidades, pelo menos de uma interessante versão da história do Tarot que apareceu recentemente em Sevilha, segundo a qual faltariam, desde há muito, duas incógnitas cartas no baralho. Diria até que é razoável que eu deduza que não sois estranhos à sua formulação.

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- A partir de agora, Cosme de Castro, todas as tuas deduções são válidas, enquanto constitutivas de qualquer fábula que quiseres inventar para regeres o teu destino e te intrometeres nos dos demais. Ficamos por aqui, venho muito estafado, vou repousar e parto de madrugada. E assim se ficou. Cosme, após analisar a conversa com José de Castro, decidiu que teria ainda durante essa noite um breve colóquio com Raquel e partiria de novo para Évora, pois sentia absoluta urgência de prosseguir com Samuel Rodrigues um debate que não ficara concluído. Iniciou a troca de escritos com Raquel confrontando-a com o assunto que se convencera que a obrigaria a desvendar o que quer que fosse que se recusara até então a revelar. Parto esta madrugada de viagem, mas vou-te deixar, para que analises com detalhe e ponderes o que me podes adiantar sobre o seu sentido, o baralho que meu tio não trouxe consigo, mas que eu consegui recolher no meu caminho. Vais confirmar que a carta do Enforcado, cuja matriz de impressão destruíste ou mandaste destruir, também dele consta. Cosme abriu o baralho sobre o bufete. Raquel olhou detalhadamente e leu em seguida a mensagem, sem mostrar contudo qualquer surpresa. Reflectiu um instante e tomou a pena. Pondera simplesmente a hipótese de Simão de Castro nunca ter existido, de alguém o ter inventado. De a vida de Simão de Castro se ter iniciado no episódio da sua morte. Alguém tomou um cadáver, enforcou-o e disse: Este é Simão de Castro e esta a sua filha. E então nasceu Simão de Castro já enforcado, mas, simultaneamente apareceu por Lisboa um impressor de Sua Majestade que disse também: Eu sou Simão de Castro. E apareceu um Simão de Castro para estar por detrás de todo o sentido da morte de Simão de Castro. E era um cadáver desmanchado e embalsamado, ou seja reedificado.

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E de mim fizeram a filha do enforcado. E se tu és o filho de Afonso de Torres, onde vou eu agora inventar um pai? Provavelmente não tenho, ninguém sabe quem é, como filha, ou como ser, fui inventada no mesmo acto em que inventaram Simão de Castro, sou uma peça de uma alegoria, como tu foste inventado no mesmo acto em que inventaram outro Simão de Castro na pessoa de Afonso de Torres. Somos os dois os filhos de Simão de Castro, eu do que se enforcou, tu do que sobreviveu. Fomos os dois inventados, não existimos senão intrometidos na trama de uma fábula. E com o baralho só te querem comunicar que foste alvo de um desmancho, o teu cadáver foi dissecado e o teu ser desmanchado, com o simples propósito de te comunicar que terás tu agora que o reedificar, ou de o reinventar. Porque o Simão de Castro que sobrevivera sumiu-se também, portanto não fazes já sentido como Cosme de Castro, como filho inventado de um pai inventado. Pondera simplesmente nisto, meu amor, porque eu fico por aqui à espera, porque só tu me poderás reinventar a mim também, porque, como invenção, fiquei concluída e à espera desde que meu pai se enforcou. Por isso sou simplesmente a Filha do Enforcado, há quase vinte anos à espera de poder ser outra coisa, não sei bem o quê. E vou-te desvendar a ponta do véu, revelar-te as primeiras palavras da alocução de Francisco Canete, que rasurei e erradiquei de todos os exemplares que sobreviveram da Relaçam d’O Amolador. Dizia tão só, nas primeiras linhas da quarta página: Quando o expuser reedificado, os filhos deste homem que hoje dissecamos e desmanchamos poderão dizer que este é o seu pai? Podê-lo-ão dizer todos os filhos de qualquer homem, em qualquer lugar do orbe. Mas quem poderá ele dizer que é o seu pai? Digo-vos eu: é o filho do enforcado.

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Foi simplesmente com estas palavras que o lente iniciou a sua alocução. E agora, vai e procura o sentido que quem quer que fosse atribuiu a estas palavras e às que Francisco Canete pronunciou de seguida, pelo menos segundo a Relaçam d’O Amolador. Cosme leu e releu a mensagem de Raquel. Interpelou de novo. Sempre soube que, acantonada na tua surdez e mudez, eras a mais lúcida intérprete de todo este amontoado de ambigüidades. Diz-me mais uma coisa: que disputa ou proelium corria entre Simão de Castro e Dom Jerônimo? Raquel rompeu em gargalhadas sonoras, que não conseguiu reprimir. Depois tapou a boca com as mãos e retomou a pena. Não entre Simão de Castro e Dom Jerônimo, entre Afonso de Torres e Dom Jerônimo. Ora, Marta era pressupostamente irmã de Simão de Castro. Sempre que Afonso de Torres invocava o seu parentesco com Dom Jerônimo, para lhe propor obviamente um ascendente que Dom Jerônimo nem sempre aceitava, então este alegava que era cunhado do enforcado. A Marta, irmã de Afonso de Torres, irritava visceralmente essa disputa. Por um lado não reconhecia ao irmão legitimidade para, pela razão de ser seu cunhado, se intrometer nos negócios de Dom Jerônimo, por outro não lhe agradava ser a irmã do enforcado. Era, ao fim e ao cabo, uma disputa pueril, mas, por perversidade, retomava-se ou insinuava-se sempre na quarta página de qualquer troca epistolar, invocando um sentido profundo que remontava à alegoria que fundara toda a conjura, a quarta página da Relaçam d’O Amolador. E assim até parecia aos dois que tinham alguma intervenção sobre ela. Cosme prosseguiu. E quem esteve então, na tua opinião, no desencadear de tudo?

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Raquel não respondeu logo. Levantou-se, andou uns minutos perdida pelo salão a arrumar e perfilar um traste aqui e outro acolá. Depois, sentou-se de novo. Quem poderia ter sido? Quem senão tu? Estarás tu convencido de que, antes de teres irrompido em cena há quase um ano, para trás desse momento, existiu algo que não fosse o natural fluir da vida, o ir e o vir das vagas sobre a falésia, ora mais brandas ora mais bravas, conforme simplesmente às fúrias do vento? E agora vai célere. Desvenda o mistério da conjura que tu próprio armaste contra o destino e esconjura-a. Vai célere, que fico eu à espera que esconjures também o meu. Após ter lido, Cosme, tomando as mãos de Raquel entre as suas, pensou simplesmente: - Pois, fui eu. Quem não o dirá? Porquê? Para quê? E se tivesse sido eu porque ficaria assim, entupido no meio de tudo, sem saber com que prosseguir? Não terás sido tu? A filha do enforcado? Irias então tu por aí, à demanda do sentido e da conclusão de tudo, e aqui ficaria eu à espera que inventasses um para mim.

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O Amolador
E assim sendo, iria ao desvario pelos caminhos, perdido pelo mundo, a irromper ora aqui, ora acolá, interpelando ora este, ora aquele, em demanda de respostas que todos alegariam que só ele poderia dar. E o primeiro então que interpelaria de novo seria Samuel Rodrigues. E quando chegou a Évora e entrou na esconsa oficina do livreiro, não encontrou Samuel Rodrigues mas um ancião bem mais metido pelos anos, de barba branca e pontiaguda, com ar aristocrático de velho rabino. - Procuro, Senhor, Samuel Rodrigues. - Às vossas ordens. Por quem tenho o beneplácito de ser procurado? - Cosme de Castro, Senhor, ou de Torres. Mas vós não sois Samuel Rodrigues. - Talvez tu, meu sobrinho, não saibas bem quem és. Mas eu sou Samuel Rodrigues, podes ter a certeza. - E quem seria então o fulano que aqui encontrei há mais de um mês e me recebeu, com algum enfado mas muita eloqüência? - Ah!... E como era? - Um sujeito miúdo, entrado na sexagésima década, irrequieto e muito atarefado com filosofices.

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O ancião riu-se com espontânea convicção. - Ora... esse... Esse é O Amolador. - O Amolador?! Ora essa... Mas O Amolador é um sujeito quase cego, sangrador e de Coimbra. - O Amolador não é ninguém, é sangrador em Coimbra, palrador em todo o lado, um comediante que nunca está no mesmo sítio e é um sujeito diferente em cada um em que o encontres. Provavelmente em Coimbra é sangrador. Quando pousa em Lisboa, diz ser hortelão e herbanário no Hospital de Todos os Santos. Em Évora é ele próprio, um títere sem outro ofício que não seja ler e disputar filosofias, ferrador e alveitar nas horas vagas. Nem me admiraria que haja um sítio qualquer em que seja juiz, noutro marechal, talvez algum em que o aclamaram rei ou imperador. A identidade de um comediante depende sempre da farsa que representa. - E vós, meu tio, que papel representais nesta comédia, ou na vida, parece-me já ser a mesma coisa? - Eu, jovem, sou livreiro e impressor. Imprimo e lanço nos caminhos o que tem que ser lido e impresso sem licenças, do Santo Ofício ou de Sua Majestade. Para que as licenças façam sentido tem que haver as coisas que se imprimem e circulam sem elas. Toda a gente o sabe, pelo que todos o aceitam, por tácito acordo. Não se pode é falar muito sobre a matéria, para parecer que nem existe. Mesmo assim, aparecem sempre uns sujeitos de vistas mais estreitas, que não alcançam a fatalidade de o nosso papel também ter que ser representado por alguém. Ora aí tens, Samuel Rodrigues, impressor e livreiro, que, presumidamente já nada imprime nem vende, senão uns livros velhos que ninguém já lê.

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- E O Amolador, que faz por cá? - O Amolador? Bem... O Amolador é quem inventa quase tudo o que se imprime e circula por aí sem licenças. - Pensei que fosse meu tio José de Castro. - Sobre esse não sei nada, nem quero saber. Terás que interpelar O Amolador. Bem... e não sei porque recalcitras em chamar-lhe tio. Para que fosse teria que ser irmão de Afonso de Torres, meu primo. Não é. Pode muito bem é ser teu pai. Minha prima, tua mãe, era uma mulher muito disputada e Afonso de Torres deu a José de Castro confianças muito alargadas. Por isso dizes muito bem, Cosme de Torres, ou de Castro. Sabes lá? - E então Simão de Castro? - E então, o quê? - Quem é Simão de Castro? - Se não sabes tu, como hei eu de saber? Era Afonso de Torres, foi um sujeito que se enforcou há quase vinte anos, ninguém sabe o que era antes disso, nem quem poderá ser a partir de agora. Quem é Simão de Castro? - É irmão de José de Castro? - Não me parece. Mais me parece que José seja de Castro para poder ser irmão de Simão. Talvez O Amolador saiba. Porque não lhe perguntas?

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- Aonde? - Quando não pousa em qualquer outro lugar, aboleta-se na estalagem da coxa, em Marmelar - Ah... - Ah... o quê? Que esperavas? - Que quereis dizer com isso? - Ora essa! Chiça, homem! Tem que haver sempre alguém apto para responder às interrogações que só têm resposta porque tu as formulaste? A explosão de cólera de Samuel Rodrigues deixou Cosme embaraçado. Mas o seu sentido era óbvio, parecia haver no meio de tudo algo que só ele, que era quem devia melhor perceber, não enxergava. O melhor era não furtar mais do sossego de Samuel Rodrigues e marchar presto para Marmelar em demanda d’O Amolador. E quando entrou na estalagem estava O Amolador só, sentado num mocho em frente de uma mesa, com muita papelada pela frente, recostado na parede a dormitar. Abriu um olho para espreitar a novidade de quem entrava, viu o vulto de Cosme projectado em contra-luz no vão da porta e quase desabou de espanto. - Tu, outra vez, meu sobrinho? - Vós não sois meu tio, sois O Amolador.

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O Amolador superou num instante a surpresa, a da entrada e a da resposta, inspirou e respondeu. - Seja então O Amolador. E tens a certeza de que por isso deixas de ser meu sobrinho? - Como, então? - Não te prendas com essa ninharia, são coisas fúteis. Sou então O Amolador. E que pretende um sujeito da tua condição, impressor e livreiro de Sua Majestade e da Universidade de Salamanca, herdeiro de Afonso de Torres e de Jerónimo de Villarroel, não sei que mais, d’O Amolador? - Nada pretendo, Senhor, de vós, senão saber o que pretendeis de mim e de toda a gente que metestes nesta trapalhada. - E que poder teria um sujeito como eu para meter tanta gente de condição em que trapalhada fosse? Eu escrevo novelas, fábulas, comédias, algumas tragédias, coisas sem préstimo e sem nexo para entreter, no intervalo de umas ocupações sem mérito e de circunstância. Que culpa me podeis imputar se uma data de sujeitos de condição como tu resolveram representa-las? Fostes vós quem se meteu nas minhas trapalhadas. - Sois vós Simão de Castro? - Não. Eu sou O Amolador. - Quem é então Simão de Castro? - Alguma vez o viste?

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- Não. Vi durante anos Afonso de Torres, meu pai, que se apresentava como Simão de Castro. - Que queres então? Simão de Castro era a forma como teu pai, Afonso de Torres, se apresentava. Não fica o assunto resolvido? - Não. Porque entretanto Simão de Castro fora também um sujeito que se enforcara pouco antes, ou pouco depois de eu irromper no mundo. - E então? Em que ficamos? Simão de Castro não era ninguém, era uma personagem de uma novela ou de uma farsa, representada por vários actores, conforme se enforcava ou sobrevivia. - Quando se enforcou, era representado por um cadáver embalsamado. - Como se fora um boneco de trapos... há farsas que se representam com bonecos. - E quem escreveu a farsa, ou a novela? - Ora essa... O Amolador, claro, que é quem as escreve quase todas. Mas, como sabes, uma farsa, ou uma novela, quando representada, fica sempre alterada. Sempre que se representa, volta a escrever-se. É assim. - Posso ler a que escrevestes? - Não. Quem a representou e representa erradicou todos os exemplares do original.

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- Quando a escrevestes, sabíeis que seria representada? - Obviamente. Sabia até que o seria como foi e é, envolvendo a vida real de muitos sujeitos. - Quem és tu? - Eu sou O Amolador. O que afia as facas com que se disseca e retalha a vida, para se coser então como um boneco, após embalsamada. - És tu então quem está por detrás de tudo? - Não. Eu estou à frente. Basta-me ir por aí à frente a assobiar, que vêm todos atrás perfilados. Alguns saem da fila e perdem-se. Passam então para o meio de outras farsas, por lá ficam, sem contudo saberem de qual fazem já parte. - Quem é meu tio José? - José de Castro...? Sei lá... Talvez teu tio José de Castro só exista por teres querido ser o filho de Simão de Castro... - Então... e quem sou eu? O Amolador irrompeu numa gargalhada tão convulsiva que desabou do mocho, rebolando pelo chão, derrubando a mesa que tinha diante de si. Levantou-se, sacudiu-se, retomou o ar grave e empertigado e proferiu, sem todavia conseguir reprimir um rito de expressão mudo mas ridente. - Tu? Quem és tu? Tu és O Amolador, quem haverias de ser? Procura Raquel e vê se te revela a única coisa que te omitiu, para ver se serias tu próprio a desvendá-la.

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Depois de saíres por aquela porta, jamais me apanharás o rasto. E sumui-se por detrás da cortina, por onde se sumira a coxa, mais de um mês antes. Cosme levantou do chão a papelada que se espalhara quando O Amolador derrubara a mesa. Atirou-a para dentro do alforge. Se era então O Amolador, aquilo pertencia-lhe. Bem, que mais passaria agora a pertencer-lhe, se era O Amolador? Já herdara de Jerônimo de Villarroel, herdara de Afonso de Torres, herdava agora d’O Amolador, só não sabia o quê. E já nem parou em Évora nem em lugar algum, senão para pernoitar em estalagens dos caminhos, a toda a brida de regresso para Salamanca. Mas teve tempo para passar a pente fino a papelada que sonegara a O Amolador. E nem acreditava no que lia. Tratava-se, nem mais, da relação do que ocorrera na sua vida durante os últimos dois anos, em apontamentos soltos, na sequência que lhes daria quem com eles quisera compor uma novela.

Desfolhada

E com todas estas voltas e arquivoltas ia bem adiantado o Outono, os caminhos atapetados de folhas secas varridas pelas ventanias, os dias já curtos, nos tonéis o vinho novo a fermentar, todos, homens e bichos, a atulharem as tocas para os dias em que não se pode sair fora.

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E chegado Cosme pela tarde, com os últimos estertores do Sol já pálido a balbuciar na linha do horizonte, os rebanhos a recolherem aos redis, os primeiros lobos a uivarem ao longe nas serranias, os transeuntes cosidos com as paredes nas vielas, recebeu-o Miguel no átrio térreo da casa, com ar de caso. - Está cá aboletado, há dois dias, o Senhor Frade. - E então? - Então, Senhor, vem com ar muito abatido. Se não se tratasse do Senhor Frade, com o seu rosto de lua cheia irradiante de pálidas quietudes, diria que vem apavorado. - Deixa-te de paráfrases, raio, que quer o frade? - Espera-vos, claro. Parece, de resto, vir só de fugida, com o demo na peugada. - Já veremos o que traz o frade. E minha mulher? - Está no salão, recolhida, com ordem de ninguém entrar, a examinar uns papéis. Cosme subiu e bateu com força na pesada porta do salão, repetidas vezes, até que Raquel abriu. Vinha com o semblante crispado, profundamente abatida e perturbada. Quando encarou Cosme o rosto desanuviou, mas logo lhe romperam os mananciais dos olhos em lágrimas, lançando-se em desesperado abraço. Cosme limpou-lhe o rosto, compondo-lhe os cabelos. Ela afastou-se e interpelou em mímica sobre o que pretendia o frade. Cosme encolheu os ombros, não sabia ainda, logo se veria. Raquel entrou então, apontou o tampo do bufete coberto de papelada em desalinho, comunicando que aquela tralha trouxera-a o

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frade. Cosme não prestou muita atenção, pegou na pena, mergulhou-a no tinteiro e, no verso de uma folha ao acaso escreveu: Sei que tens ainda algo para me comunicar sobre tudo isto, que me tens sonegado, por amor, tenho a certeza. Raquel respondeu, após longa reflexão e depois de rasurar sucessivamente vários rabiscos, tentando encontrar a melhor forma de comunicar algo, ou decidir se o faria. Vou trair compromissos que tinha para comigo própria, pois jurara que jamais intrometeria entre nós este assunto, deverias ser tu a desvendar este mistério. Tu reconheceste como minha a caligrafia da nota aposta à margem da quarta página da Relaçam d’O Amolador. Ora, meu amor, eu, como qualquer um, de resto, reconheceu logo a tua no texto integral do manuscrito. Tudo o que se tem passado desde há cerca de dois anos, tem como móbil a interpretação deste mistério. Cosme teve de imediato uma reacção de cólera incontrolada, quase pueril. Depois recuperou a serenidade. Ora essa, a Relaçam tem quase vinte anos, se já tinha irrompido no mundo, como todavia a escreveria? Raquel estava decidida a concluir aquele assunto. Não. A Relaçam de que falamos não tem vinte anos, o episódio relatado, porventura com alguns acrescentos, ou deformações, terá vinte ou mais anos. Teria corrido na altura uma Relaçam d’O Amolador, que ninguém conhece ou de que ninguém se lembra, pois O Amolador há mais de uma década que não faz sair as suas novidades, dedicou-se a outras coisas, que vão saindo impressas por aí. Devias agora falar com o frade. Raquel aguardou expectante que Cosme terminasse a leitura, depois retirou-se apontando o bufete, como se dissesse, lê. O jovem permaneceu encarcerado no salão durante toda a noite, ora dormitando no cadeirão, ora reflectindo, ora examinando a papelada que o frade trouxera.

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Tratava-se de resmas e resmas de pequenas brochuras, percorrendo todos os gêneros da literatura proscrita, que circulava sem licenças nem referências de sede de edição ou impressão, ou com referências fictícias. Tudo indiciava que todo o conjunto irradiava de duas fontes, em sucessivo e alternado itinerário de respostas e contra-respostas, agora ataco-te com uma farsa, tu contra-atacas com uma novela, eu com um tratado, tu com uma ode, um libelo, um folheto, uma sátira, uma relação, tudo estruturado pelos tópicos da condição das ciências e suas novidades, mormente da medicina, das artes da adivinhação e do esconjuro, quiromancias, astrologias. De um lado pelejava O Amolador, do outro O Trocas. Em duas ou três peças O Amolador insinuava chocarreiramente que O Trocas era anagrama de Simão de Castro, que nem existia, pois há muito se enforcara e o seu cadáver fora rigorosamente dissecado no teatro anatômico por um mestre de Coimbra, ao que ele assistira como seu ajudante. A peça todavia mais paradoxal era uma das mais recentes estocadas d’O Amolador, com a forma displicente de um libelo contestando os métodos e os procedimentos, em que atribuía a O Trocas a vivissecação do próprio filho, com o propósito de o devolver renovado e aperfeiçoado à vida. Tanto a descrição da operação como a contestação dos procedimentos emanavam um realismo de arrepiar os cabelos. Parecia não ter mais do que dois anos. Mas, logo de seguida, O Amolador saíra à liça, a contestar a autoria. Cosme saiu do salão com o romper do dia e os primeiros buliços de gente pela casa e pediu a Miguel que chamasse então o frade. Frei Boaventura apresentou-se com um aspecto mais abatido ainda do que Cosme esperava. Parecia mesmo que passara a noite em vigília, com os olhos mergulhados nas órbitas maceradas.

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- Nunca esperei que vos recolhêsseis aqui em Salamanca, Senhor Frade. Pelos vistos, lá por Lisboa faltou-vos subitamente ocupação. - Nem mais, Senhor. Vosso tio tomou progressivamente o encargo de tudo, sonegou-me tudo, passei a ser seu confessor e digo-lhe as missas pela manhã. - O Senhor José de Castro não é meu tio, bem o sabeis. E que vos confessa José de Castro? - Bem... em verdade não se confessa, parece mais querer confessar-me a mim, ou a vós e a um tal Amolador através de mim. Digamos que me interroga. Com veementes ameaças, por vezes. Chego a imaginar-me estendido numa laje, dissecado com o coração para um lado e os bofes para o outro. - Dissecado? O frade ficou por instantes irrequieto, olhando ora para um lado, ora para o outro, sem se fixar em nada. - Não sabíeis que José de Castro foi, antes de tudo o que se tornou na vida e de começar a calcorrear os caminhos, o discípulo dilecto de Dom Francisco Canete, cirurgião no hospital da universidade? Cosme ficou ainda uns instantes boquiaberto. Depois dirigiu-se ao frade peremptoriamente, como quem não admite mais rodeios. - Vá, Senhor Frade, desembuche de uma vez por todas, deixe-se de volteios, conte o que tem para contar, que me começa a faltar a paciência.

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O frade reflectiu um pouco e, quando respondeu parecia que recobrara o ânimo, com a intenção de ser breve e conciso. - José de Castro não é de facto vosso tio, pode muito bem ser vosso pai, isso nunca o saberemos. Lestes a papelada que vos trouxe. Ora isso foi o que se passou durante muitos anos, uma disputa permanente entre duas confrarias, que teve como protagonistas José de Castro de um lado e O Amolador do outro, sobre um tema qualquer que poucos conseguiram interpretar, mas que tinha a ver com o tema da dissecação, da medicina, do conhecimento, das ciências genericamente e das artes, com o seu móbil e o seu préstimo, com o que se deve e não deve conhecer e como. Tudo corria alegoricamente de forma insinuante, sem ninguém se revelar. Afonso de Torres mascarou durante muito tempo a intervenção de José de Castro, mas num dado momento passou-se para O Amolador. José de Castro tomou conta da oficina de Afonso de Torres, mas Afonso de Torres tinha em Évora um cunhado, com muitas ligações por aí fora, onde ficou sediada a intervenção d’O Amolador. Eu, que tinha uma velha dívida de honra para com Afonso de Torres, fiquei com ele, como seu guia e seu guarda. Muito útil lhe foi, para fazer circular os negócios pelos caminhos, a mobilidade dos meus irmãos de São Francisco. Ora, sobre o âmago da questão não vos posso mais adiantar. Assisti, diligente, à disputa entre duas confrarias sem lhe enxergar o sentido. Vós, penso, estais mais apto para o decifrar. Isso foi o que se passou até há dois anos. Depois O Amolador desatou a insinuar que O Trocas passara a fazer sair como de sua autoria, d’O Amolador, coisas absurdas e desgarradas que confundiam tudo. A nova matéria iniciou-se com uma Relaçam da dissecação de um enforcado, sobre que O Amolador já tinha discorrido vinte anos antes, mas vinha de novo à liça com

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alterações. José de Castro ficou perturbadíssimo, num buliço inquieto pelos caminhos, a conjurar. Planeou então que substituiríeis Afonso de Torres com brevidade. A partir de então, Senhor, só vós sabeis porque não o conseguiu. - Eu? - Pois, vós. É o que mais perturba José de Castro. Ele também não sabe. - Ora, Senhor Frade, porque porventura eu sou O Amolador. Ficareis por cá. Deixaremos a oficina de Lisboa a José de Castro, para que possa continuar a altercar com O Amolador. Cosme parecia dar assim por concluído o negócio, com um sorriso insinuante no rosto, como se não levasse a coisa a sério. Mas o frade tinha ainda uma surpreendente novidade. - Devo comunicar-vos ainda uma novidade. Alguém exumou o cadáver de Afonso de Torres, que foi dissecado e embalsamado, para depois o pendurarem pelo pescoço de um barrote na sua oficina. Uma obra macabra. Garanto-vos que muito poucos, só quase eu e vós, sabíamos sob que laje jazia, na nave da Igreja do Mosteiro. - E que pretenderia, quem quer que fosse, com tal desaforo? - Bem... é óbvio, Senhor. Tão só comunicar que renasce Simão de Castro. Resta saber, desta vez, de quem será pai o enforcado. Cosme apartou-se de tudo e de todos durante uma semana, escreveu muito, rasgou arráteis de laudas e rascunhos, só saía para

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engolir na cozinha fugazes refeições, ou para ficar, por breves mas intensos momentos junto de Raquel, mudos, de olhos fixos um no outro, sondando as profundidades das almas. Depois, um dia pela manhã, saiu com novo ânimo estampado no rosto e procurou Raquel. Levava já escrito o prólogo do mudo diálogo. Eu sou O Amolador, agora e não sei desde quando. O Amolador sai de Évora, passa a ficar aqui aboletado, nos intervalos das suas itinerâncias, e daqui sairá tudo o que tiver que sair com o seu nome, embora conte com mais alguns sítios para se ir imprimindo, mormente a casa de meu tio em Évora. Tu, juntamente com o frade, edificarás a rede dos itinerantes agentes para pôr tudo a circular. Salamanca fica interdita a José de Castro, Miguel velará para que não se aproxime. Raquel demorou longos minutos a ler e deglutir a mensagem, tomando vagarosamente a pena, ao passo que o sobrolho se carregava de uma expressão tensa. E o que é isso d’O Amolador? Qual o sentido de toda esta sucessão de mal-entendidos e escaramuças, entre gente que não é, nem nunca foi ninguém, sediada em lugares que não existem, ou que, pelo menos, nunca os poderiam ter acolhido? O que é isso d’O Amolador? Cosme parecia esperar a interpelação e deu-lhe imediata resposta. Ao fim e ao cabo não entrei nisto, que não sei o que seja, juntamente contigo, ou depois e por tua causa? Que mais poderei eu saber do que tu? Se sem o sabermos interviemos nesta barafunda desde o início, fizemo-lo coordenados não sei bem porquê. E quando digo que sou agora O Amolador, quase pudera dizer somos, porque, em certo sentido, sinto que és e foste tu quem guia e guiou os meus passos. Sabes tu o que é O Amolador? Eu não. O que for logo se verá, o próprio curso das coisas o revelará. Esperemos tão só que

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José de Castro dê o primeiro passo. Logo saberemos qual terá que dar O Amolador. E o primeiro passo que José de Castro haveria de dar não entrara com toda a certeza nas equações de Cosme. Morreu. Pela tardinha de uns dos últimos dias antes do Natal, subia serenamente a ladeira da Sé a caminho de casa e saiu-lhe de uma travessa, numa esquina, um sujeito encapuçado e varou-o com uma paulada de alto a baixo. Ajuste de velhas contas, disse-se em surdina. Cosme recordou-se então do gigante que lhe entregara em Coimbra a Relaçam d’O Amolador. Velho e sábio ditado, quem vai à guerra tanto leva quanto dá. São assim os homens. Nem todos os sermões de Frei Boaventura os fariam mudar. E agora? Interrogou Raquel, quando se soube. Agora? Agora só me resta ser simultaneamente, ora O Amolador, ora O Trocas. Se assim não for, fica O Amolador a falar sozinho. Se alguém urdiu toda esta conjura, fê-lo com todo o esmero e com todo o gênio. Raquel parecia querer, daquela vez, levar a compreensão do assunto até à conclusão. E porque há de continuar esta escaramuça, agora só com um paladino na peleja, ora de um lado, ora do outro do campo? Que sentido tem tudo isto? Cosme ficou muito tempo absorto, até responder. Ora... sei lá eu que sentido tem... O destino estava há muito traçado. Por mim? Por ti? Por quem? A única coisa que sei e te juro é que deixaste de ser a filha do enforcado, esconjuraste o teu destino, és agora a princesa à janela do seu palácio, vendo pelejar no campo os seus dois paladinos. Que sou eu como O Amolador e eu como O Trocas. E durante trinta anos prosseguiu a peleja contínua e buliçosa entre O Amolador e O Trocas, cujo sentido último está ainda por decifrar, mas que inundou os caminhos, através de todos os itinerantes, de Lisboa pelo menos a Antuérpia, onde chegou a sair

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muita matéria. Porventura, o único a alcança-lo terá sido Cosme, que todavia se apresentou sempre como o mais surpreendido de todos, de cada vez que algum desferia uma estocada. Não parava em casa nem em lugar nenhum, nem ninguém sabia, em cada momento, onde pararia. De vez em quando, sempre sem aviso, irrompia em sua casa em Salamanca, para mergulhar os olhos, cada vez mais alucinados, na serenidade aquática e verde dos de Raquel. Nunca se chegou a saber por que razão um dia um pobre franciscano mendicante pelos caminhos o recolheu, depois de o apear do ramo grosso de um carvalho em que se enforcara, à beira de um atalho, às portas de Salamanca. Do último libelo que saiu da pena d’O Amolador, deixo aqui um extracto. Pode ser que desvende a alguém, mais arguto, o sentido de tudo. E considerais vós grande novidade e revolução para as ciências e o supremo conhecimento e felicidade do homem a dissecação de um cadáver. Todos sabemos que só por vergonha, ou medo, não pronunciais a intenção, ou apetite, de esfolardes os vivos. Vesalio foi nesta matéria temerário, mas leal. E os únicos que altercam contra vós continuam a ser os clérigos, alegando que pecais contra Deus, que prometeu restituir, um dia, a vida aos corpos que criou. E aí vós altercais que também vós não pretendeis senão restituí-la. E tudo não parece senão uma peleja entre Deus e os sábios. Mas alterco eu contra vós, porventura como altercaria o demo e com o seu riso escarninho, que grande novidade é a vossa, quando comparada com o que alcançaram os antigos sacerdotes egípcios de Hermes, esfolando os captivos arrebanhados nas carneficinas dos seus faraós, para exercitarem a arte de embalsamar?

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De Raquel, para quem ler
E esta foi narrada e composta por mim, Raquel de Castro, a surda e muda, filha do enforcado, sobre umas notas soltas que Cosme de Castro, ou de Torres, meu quase ausente amor, foi deixando por aqui espalhadas, sempre que irrompia inesperado e fugaz na minha vida. E foi-as deixando porque sabia que eu as reuniria para lhes dar a sequência desta novela, que pretende tão só demonstrar que tudo o que acontece ao acaso na vida, em seu natural fluir, não serve senão para que alguém a possa reinventar e reedificar, nunca

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chegaremos a saber se para lhe atribuir nexo e sentido, ou se para o negar, como a dissecação de um cadáver e o desmancho da Humana Fabrica serve tão só o propósito da ideia, ou intenção, de a poder reedificar, também nunca chegaremos a decifrar, se para o reencontrar ou para lhe negar o sentido.

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De Elmano, para exorcisar o sentido
E que poderia então pretender o Damião ao recolher, desenvolver e reenfabular esta novela, que nem é certo sequer que tivesse alguma vez sido impressa e andado perdida nos entreforros de qualquer estante da biblioteca de seu tio. Para mim foi inventada pelo títere Perdigão, na sua ânsia para atribuir qualquer sentido, ou desígnio, à vida do Damião. Ou foi encomendada ao títere pelo Damião, para emaranhar os vestígios que deixara da sua vida sem sentido e os trilhos sem destino das suas itinerâncias pelo mundo. Ou para me pregar uma partida.

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Post scriptum
E já tinha então concluído este encargo, que me impusera, de trasladar e recompor o romance que o Damião legara em esboço ao títere, quando, vasculhando uns papéis que me legara a mim, me saiu, a talhe de foice, um fragmento de uma peça peculiar que o Damião deve ter feito sair em fascículos, num período qualquer em que lhe despontou na mente retorcida retomar a publicação d’O Amolador. Com que intenção julgará o leitor, mas eu por cá fiquei a pensar que talvez este apontamento auxilie os mais distraídos, entre os quais me perfilo enfileirado, a decifrar o sentido que o astrólogo quisera porventura atribuir à novela. Pelo estilo, este apontamento parece remontar à maturidade e ao maior vigor do Damião. É pois bem possível que esteja na origem da congeminação da novela. Nem me admiraria que o velho impresso eborense que o Damião desenterrou dos armários do tio fosse meramente uma peça satírica d’O Amolador, a partir da qual desenvolveu tanto a ideia da novela, como a do Tratado de Necrologia.

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O Amolador

TRATADO DE NECROLOGIA. OU ARTE E CIÊNCIA DE EMBALSAMAR OS CADÁVERES, COM ENSINAMENTOS PRECIOSOS SOBRE A CORRUPÇÃO DAS PARTES E ORGÃOS E DOS SEUS PRINCÍPIOS. Os fundamentos da arte da dissecação, as drogas e espécies animais e vegetais antissépticas e odoríferas; e um método seguro para vaticinar e adivinhar, pela observação das entranhas. A Medicina Forense e métodos para decifrar a conjuntura, na ocorrência da morte. Segue paralelo ao discurso e exposição da doutrina o relato de três casos, que dão corpo e contexto a todos os ensinamentos. E serve para contestar a ANDREA VESALIO.

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PRÓLOGO

Deglutidores de cartapácios e roedores de notas de rodapé, em afã quotidiano e tenaz mas sempre pouco gratificante, serenos na sua humildade e cultores de génio e diligência alheia, os compiladores foram no passado os imprescindíveis testemunhos de uma transmissão ininterrupta dos saberes e das culturas. Sábios de coisa nenhuma, mas manipuladores intrépidos de todas as artes e ciências, a sua colossal erudição foi sempre proporcional de uma discrição cultivada quase até ao anonimato. Quando todos se alucinavam com o novo, dedicaram-se com empenho sereno mas desempoeirado a salvar o antigo, a assegurar que com uma biblioteca escorreita e seleccionada com astúcia qualquer ignorante pudesse fazer figura de sábio. Num só volume, um compilador adestrado podia reunir quanto bastasse de Hipócrates, Galeno, Averrois, Avicena, Aristóteles, Homero, Xenofonte, Cícero, Plínio, Ovídio, Aulo Gélio, Dante e Santo Isidoro para que qualquer estudante cábula de Coimbra ou Salamanca se pudesse alçar a Físico Mor do Reino e ainda fosse apto a escrever uns vilancetes e animar um sarau de academia de curiosos. Se diligente e aventureiro, ainda escreveria um libelo e corrigiria a alguns mestres. Em verdade, foi o que se passou com Andrea Vesalio. Quando escreveu o De Humana Corporis Fabrica, era um jovem empreendedor e sanguíneo, com o génio suficiente para revolver as mentalidades de contemporâneos e coevos com a sua irreverência e espírito quizilento. Com imperturbável falta de escrúpulos e de horizontes de referência éticos e morais, alguma esperteza saloia mas muito mais estultícia e umas tantas tesouras e facalhões, julgouse capaz de observar nos corpos alheios tudo o que os outros não houveram enxergado.

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Qualquer gourmand bem ilustrado e exercitado, habituado a usar o florete para esfolar e trinchar uma lebre ou uma perdiz, a procurar nelas as partes mais gostosas e mais estimulantes ao paladar e aquelas que se hão de deitar fora, a seleccionar os ossos para a sopa e as tripas para as galinhas, faria uma demonstração mais exuberante da arte e prudência no usar das lâminas. Nem lhe seria preciso ler o grego e o latim, nem conhecer as máximas da dialética de Platão. Vesalio inaugurou então uma disciplina nova por ignorância ou falta de complacência pela prudência dos saberes antigos, porque dispunha com certeza de más compilações, traduções e resumos deficientes. E não chegara a compreender as razões porque os seus mestres não tinham usado ainda de uma consciência tão liberal quando se tratava de meter as facas às carnes, músculos e tendões dos seus conterrâneos. Porque não puderam tratar com lógica tão profana um objecto que continuavam a ter por sagrado. Este tratado não resulta então do trabalho de um sábio ou de um mestre, mas tão só de um compilador. Movido pelas preocupações que já ficaram enunciadas e não mais. E quer apenas enunciar e concluir que a necrologia é uma arte prudente; quero dizer de prudência. E quanto a ciência usa de toda aquela que os compiladores reuniram em cartapácios e colecções, mais algumas descobertas que vão saindo, como qualquer um pode usar para os seus fins próprios. E propõe-se já no primeiro capítulo a doutrina que estrutura a intenção: A cirurgia e ciência de manter vivos os corpos descende da necrologia ou arte de manter os mortos bem viçosos.

LIBELO BREVE, que serve exclusivamente de introdução

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ao assunto do primeiro capítulo. Ao conceber o universo inteiro do homem como um contencioso mutuamente exclusivo entre a vida e a morte, que é a suma de toda a sua dialética, Karl Marx e Friedrich Engels reenunciaram a trave mestra que ininterruptamente firmou o edifício das ideias e conceitos sobre a vida humana. Podê-las-ia compilar nesta máxima: a morte inicia-se exactamente no primeiro instante da vida, pelo que toda a medicina se pode julgar como um esforço estulto e vão para dar aparência de vida exultante aos corpos moribundos. Se a morte não fosse o vector axial de toda a vida, a reprodução, que é um mecanismo compensatório da necrose, seria uma função catastrófica. O fim próprio da vida é realizar a morte. E o da reprodução realizar mais morte, para que o processo de necrose que fundamenta e justifica o universo não se interrompa. A própria história do cosmos é a história do envelhecimento ou necrose e morte das estrelas e galáxias. É a razão porque todo o pensamento religioso projecta a exultação do homem nos seus fins próprios, para a morte que, quando as mentalidades dominantes passaram a sobrevalorizar a vida, nomeou ainda de vida eterna. Ora, todas as ciências da vida descendem de artes da morte e de operar com ela. Quando, onde e porquê ocorreu a subversão nestes princípios que nortearam todo o pensamento humano, é o que pretendemos determinar. Porque é que a necrologia se subverteu em medicina e cirurgia? No século XVI e durante os seguintes, amadurecera uma bizarra e interminável disputa entre médicos e cirurgiões. Cada uma das corporações tratava de reivindicar para si a origem da outra. Em verdade, aos cirurgiões competia nesta querela o papel mais quesilento, porque se tratava de obrigar aos médicos a reconhecer-lhes um estatuto nem que fosse paritário. Foi neste contexto que eles próprios propuseram remontar a sua antiguidade

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e origem até aos antigos sacerdotes egípcios, mestres da arte de embalsamar os cadáveres e a outros necrólogos. A reputação transcendente e divina da sabedoria egípcia, bem como a ideia de que nela se fundamentara o melhor do lustro helénico, estava então em franca ascensão depois que Marsilio Ficino editara os fragmentos alexandrinos que a tradição remontava a Hermes Trimegisto. E a obra de Jamblico De Mysteryiis Aegypciorum tornara-se um breviário. Como se os vestígios materiais das suas intervenções operatórias pudessem ser um medium que transportasse pelos séculos as virtualidades mágicas das suas mãos, o pó de múmia tornara-se uma mezinha (medicina) tão disputada entre os pategos, que os viajantes acusavam as cáfilas magrebinas de acarvarem os cadáveres dos prisioneiros de guerras e razias nas areias do deserto, para impingirem aos estultos venezianos as cinzas. Era ainda à tradição necrológica antiga, que a cirurgia fazia remontar a escola galénica e a sua iniciação operatória. Na época de Vesalio, o melhor do génio de Galeno deixara de se reconhecer no trabalho ordenador que empreendera ao classificar os humores universais; na sua farmacologia ou no papel axial da observação das urinas como ordenador do diagnóstico. O que de Galeno agora se reclamava era a sua anatomia e o método de observação anatómica, que reproduzia as cerimónias e os rituais necrológicos dos sacerdotes do Nilo. Desde o século XII que em Salerno a dissecação de um cadáver se constituíra na cerimónia de consagração e no ritual de iniciação de qualquer magarefe. Tratava-se de superar o timor mortis; a partir de então qualquer cirurgião estava preparado, mesmo para assumir o homicídio como consequência indeclinável do exercício do ofício. O papel sádico e esconjuratório que a anatomia parece ter na configuração da mentalidade médica e mesmo da sua iconografia desde o século XIV, denuncia a corrupção do saber necrológico num espírito de necrofilia mórbida. Anda em todos os manuais de história da medicina, todavia representado como epopeia

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heroicotrágica que ainda retomarei, o episódio de um médico austríaco que no século XVII dissecou o cadáver do filho, que assassinou no êxtase da alucinação por não encontrar outro disponível para o escalpelo. A própria cirurgia amadureceu consciente de ser a corrupção da antiga tradição necrológica do saber humano, num mórbido e alucinatório espírito necrofílico. E o clímax do meu tratado ocorrerá quando demonstrar que, na alucinação esquizofrénica de realizar o paradoxo da vivissecação, Vesalio se constituíra no mais insigne monumento da necrofilia. O que não diria ainda da vivissecação do cérebro?!

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CAPÍTULO PRIMEIRO A cirurgia e ciência de manter vivos os corpos descende da necrologia ou arte de manter os mortos bem viçosos. O mais natural é que qualquer leigo julgue que o exercício de embalsamar um cadáver consiste em interromper o processo de necrose dos tecidos e orgãos que, mesmo após a morte do organismo considerado como um todo e um universo, continuam vivos. Mesmo um labrego sabe que a morte de um organismo não

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determina o cessar imediato e súbito da vida em cada uma das partes, cuja necrose prossegue por tempos ainda difíceis de determinar;. Basta que se tenha, um dia, vivido o espectáculo sempre hilariante e patético de ver uma galinha correr desenfreada por um terreiro com o pescoço pendurado. Os leigos observam sempre as coisas com tanta atenção e astúcia como um sábio. A sua condição revela-se quando passam a julgar sobre aquilo que observaram. Se o processo de embalsamar um cadáver consistisse em interromper a necrose de cada orgão, sistema, ou tecido do organismo já morto como tal, só garantiria que a contradição estrutural entre a vida e a morte iria prosseguir indeterminadamente e de forma muito mais violenta. A condição que daí adviria ao cadáver é impossível de imaginar, mas parece-me que toda a sua massa reverteria numa chaga viva, informe e incontrolável, já incapaz de se sarar. O que o embalsamador pretende é reduzir toda a massa do cadáver ao estado de morte definitivo e radical, precipitando uma morte violenta de cada parte e sistema. A necrologia opera a morte e não a vida, é a ciência ou arte da morte e prossegue o estudo minucioso do processo de necrose dos organismos, para o controlar e precipitar, impedindo que a renitência da vida em não reconhecer a sua precariedade perturbe o repouso da morte no seu triunfo, que é o fim e a causa inexorável de todo o universo. A vida exultante ou renitente é um estado patológico crítico da morte, inadmissível no equilíbrio do cosmos, pelo que deve ser corrigido e sarado. Quando um embalsamador retalha um corpo, é a morte que observa e contempla e o repouso que celebra. Onde encontra o mínimo sintoma de vida, incomoda-se e alarma-se, trata imediatamente de o erradicar, nem que para isso tenha que separar o abcesso do são até que reste exclusivamente o invólucro ressequido e imune. È por isso que as vísceras, onde sob várias formas mesmo alógenas como as bacterianas ou microbianas a vida parece mais renitente, depois de várias ablacções e esconjuras são em geral

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incineradas ou lançadas aos mais necrófilos bichos, como as hienas ou abutres. A incineração é a resolução mais radical dos necrólogos e merecer-me-á ainda comentários detalhados. Porque contemplou o mistério supremo da morte no seu triunfo e foi o seu sacerdote e o agente da resolução definitiva, o embalsamador está prestes a transportar-se para o lado da transcendência, ganha e opera poderes insuspeitados, adivinha e vaticina. Os primitivos cristãos eram ainda sacerdotes necrófagos e necrólogos. Eles ingeriam simbolicamente a carne e o sangue do cordeiro imolado para participar da necrose cósmica e celebravam o Filho de Deus na sua apoteose de cadáver, pois não pode ser outro o sentido da Sua ressurreição e do Seu triunfo na vida eterna. A própria religião cristã subverteu o profundo sentido necrológico da sua teologia, numa paródia de rituais e práticas sociais e culturais de uma necrofilia aberrante. São sintoma disso as crises cíclicas de pânico e histerismo perante a morte com que foi regenerando o seu papel dirigente numa sociedade leviana que celebra estultamente o triunfo da vida e que esconjura a morte através de rituais de alucinação estética pela necrose e sua contemplação. A arte de embalsamar é pois substancialmente uma necrologia, no sentido mais radical da disciplina. É sabido e não merece ser disputado, todavia ainda tratarei de o explicitar mesmo recorrendo ao paradoxo, que os médicos da antiguidade só puderam configurar algumas ideias relativamente operacionais sobre a morfologia do corpo humano e das suas partes, os estados patológicos da vida dos organismos, orgãos ou sistemas e sobre a relação violenta e omnipresente entre a necrose e a vida, no contacto com os sacerdotes necrólogos que dissecavam, estudavam e embalsamavam os cadáveres. Aos poucos foram-se apropriando dos segredos do seu saber e dos seus rituais, para os subverter em medicina. O que tratarei a seguir é de demonstrar que o insucesso na aplicação de todo esse saber hermético à medicina, que é toda a sua

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história, advém do simples facto de os médicos nunca terem assumido ou querido assumir a consciência de que os conhecimentos de que se serviam para prorrogar a vida tinham sido ordenados para precipitar a morte na sua exultação radical. Para compreender a vida e os seus princípios, os médicos e cirurgiões tratavam de contemplar a morte e os cadáveres, segundo os métodos e os ritos que haviam aprendido dos sacerdotes necrólogos embalsamadores. Que poderia decorrer de um tal paradoxo, senão a aberrante precipitação na alucinação necrofílica?

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