UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E DE TECNOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA URBANA

O Movimento Nacional pela Reforma Urbana e o Processo de Democratização do Planejamento Urbano no Brasil

ÉDER ROBERTO DA SILVA

Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Engenharia Urbana, para a obtenção do título de Mestre em Engenharia Urbana. Orientação: Prof. Dr. Ricardo Siloto da Silva

São Carlos Fevereiro de 2003

II

Ficha catalográfica elaborada pelo DePT da Biblioteca Comunitária da UFSCar Silva, Éder Roberto da. O movimento nacional pela reforma urbana e o processo de democratização do planejamento urbano no Brasil / Éder Roberto da Silva. – São Carlos: UFSCar, 2003. 143 p. Dissertação (Mestrado) -- Universidade Federal de São Carlos, 2003.

S586mn

1. Planejamento urbano. 2. Democratização – descentralização. 3. Estatuto da cidade. 4. Política urbana. I. Título.
CDD: 711 (20 )
a

III

Dedico
__________________________________

a minha família a paz a cidade e ao futuro

O que se acha diante de nós é o agora e o aqui, a atualidade em sua dupla dimensão espacial e temporal

Miltom Santos

A meu país. a eng. a paciência e a solidão.por tudo. e claro aos estagiários Juliana. entre outros. fundamentalmente ao idealismo. Às madrugadas.. Ricardo Siloto pela confiança. Simone Malardo e aos arqs.. orientação. A um exemplo de militância. por vocês. pessoa notável.. em nome dos quais agradeço a todos os demais.. Ao Prof. grande incentivador. A humildade. a minha esposa e companheira Márcia. ou pelas linhas e entrelinhas este trabalho. Ao entusiasmo.pelas ajudas sempre providenciais. Felisberto e Aparecida.. Dr. às suas recomendações iniciais fundamentais para mais essa etapa da minha vida acadêmica. Ao professor Jair Bernardes. Renato e Leonardo. pelo incentivo e apoio. . e as minhas duas filhas lindas Lena e Lisa. Ao professor José Cláudio Gomes. pelo carinho presente em todos os momentos deste trabalho: Elaine. e.. Da mesma forma à arquiteta Maria Tavares às valiosas contribuições nas várias discussões sobre a cidade. Augusto Valeri.. A todos os anônimos e sinônimos que de algum modo foram aparteados por mim. Eliana e Júnior...IV Agradecimentos __________________________________ Primeiramente.. Lanchoti e Paula – Divisão de Organização Territorial.. A dois grandes amigos: Rodrigo de Carvalho e Flávio Perboni . A meus colegas de trabalho da Secretaria de Planejamento e Gestão Ambiental de Ribeirão Preto. amizade e fantasticamente a sua serenidade que o faz ser uma pessoa brilhante.. E aos meus irmãos. Ailton Barros de Oliveira. liderança popular do Movimento de Ocupação da Região da Freguesia do Ó nos anos 70/80 em São Paulo... especialmente ao arq.

V

Sumário

Resumo .......................................................................................................... vii Abstract ......................................................................................................... viii Introdução ..................................................................................................... 01

Capítulo 1 – Origens e matrizes discursivas da Reforma Urbana no Brasil Introdução ...................................................................................................... 16 1.1 O Seminário de Habitação de Reforma Urbana de 1963.......................... 18 1.2 A proposta de Lei de Desenvolvimento Urbano – do anteprojeto de 1977 ao Projeto de Lei nº.778 de 1983............................................... 29 1.3 A proposta do Movimento Nacional pela Reforma Urbana apresentada à Assembléia Constituinte nos anos 80 .................. 49 1.4 A propósito de considerações sobre o planejamento urbano .................. 59

Capítulo 2 - Os Movimentos Urbanos e a emergência do Movimento Nacional pela Reforma Urbana – MNRU durante os anos 80 Introdução....................................................................................................... 72 2.1 A Conjuntura Política nas décadas de 60 e 70 .......................................... 74

VI

2.2 Referências da Literatura Técnico Científica sobre os Movimentos Sociais Urbanos .................................................... 76 2.3 O Movimento Nacional pela Reforma Urbana – MNRU surgimento e concepção .......................................................................... 86 2.4 Demandas e reivindicações pró-movimento.............................................. 92 2.5 Uma nova agenda para os Movimentos Sociais nos anos 90.................... 99

Capítulo 3 – A reforma urbana na Constituição Federal de 1988 e no Estatuto da Cidade em 2001 Introdução ...................................................................................................... 103 3.1 O direito e a propriedade imobiliária no Brasil ........................................... 104 3.2 Política Urbana na Constituição Federal ................................................... 110 3.3 O Estatuto da Cidade - Lei Federal nº 10.257 de 2001 – após 11 anos aprova-se a regulamentação dos artigos 182 e 183 da Constituição......... 115 3.4 A Trajetória do Projeto de Lei 5.788 no Congresso Nacional .................... 118 3.5 As novidades e as inovações do Estatuto da Cidade ................................ 126 3.6 Medida Provisória nº. 2.220 de 4 de Setembro de 2001............................ 131 3.7 Limites e possibilidades na aplicação dos instrumentos............................ 132

Conclusão...................................................................................................... 134

VII

Referências Bibliográficas ........................................................................... 139

Anexo I – Resoluções do Seminário - 1963.................................................... 149 Anexo II – Ante-projeto de Lei de Reforma Urbana - 1963 ............................ 157 Anexo III – Ante-projeto de Lei de Desenvolvimento Urbano - 1977 .............. 164 Anexo IV – Ante-projeto de Lei de Desenvolvimento Urbano - 1982 ............. 173 Anexo V – Emenda da Reforma Urbana em 1988 ......................................... 182 Anexo VI – Entrevista .................................................................................... 185

ainda no governo militar. .VIII Resumo Este trabalho analisa origens e desdobramentos do Movimento Nacional pela Reforma Urbana ocorrido em meados da década de 80. destacando aspectos relevantes deste processo até a aprovação do recente Estatuto da Cidade em 2001. Por meio do exame dos movimentos sociais urbanos bem como por determinadas vertentes do planejamento urbanos foi possível remontar a conjuntura política e técnica. relacionando-o ao processo de democratização do planejamento urbano no Brasil. Para encontrar pontos originários e recompor a trajetória da reforma urbana enquanto signatária da função social da propriedade. e o anteprojeto da lei de desenvolvimento urbano proposta em 1982 pelo Ministério do Interior. foram recuperadas as resoluções do seminário Habitação e Reforma Urbana realizada no ano de 1963. em razão dos debates das reformas de base do governo João Goulart. ao qual não somente coube a regulamentação do referido capítulo da política urbana. tendo em vista. que esse movimento surgiu durante a retomada da democracia no país e se constituiu como elemento fundamental para a inserção do Capitulo da Política Urbana na Constituinte de 1988. como também a incorporação de novos instrumentos urbanísticos referenciados em reconhecidos fundamentos da reforma urbana. além da emenda da reforma urbana elaborada e apresentada pelo Movimento Nacional pela Reforma Urbana na Assembléia Nacional Constituinte.

. in reason of the debates of the reforms of base of the government João Goulart. beyond the emendation of the urban reform elaborated and presented by the National Movement for the Urban Reformation in the Constituent National Assembly. detaching excellent aspects of this process until the approval of the recent Statute of the City in 2001. and the first draft of the law of urban development proposal in 1982 for the Ministry of the Interior. To find originary points and put again the trajectory of signatory the urban reform while of the social function of the property. had been recouped the resolutions of the seminary Habitation and the carried through Urban Reformation in the year of 1963. relating the process of democratization of the urban planning in Brazil. as also the incorporation of new references town playing instruments in recognized beddings of the urban reform.IX Abstract This work analyzes origins and unfoldings of the National Movement for the Urban Reformation occurrence in middle of the decade of 80. still in the military government. this movement appeared during the retaken of the democracy in the country and constituted as basic element for the insertion Chapter of the Urban Politics in the Constituent of 1988. in view of that. to which not only fit the regulation of the cited chapter of the urban politics. By means of the examination of determined the urban social movements as well as for flowing of the planning urban it was possible to retrace the conjuncture politics and technique.

. da valorização ambiental. e da dinamicidade tecnológica e informativa. a população das cidades brasileiras era de um pouco mais de 30% do total de habitantes. passa-se a observar as cidades diante dos efeitos da urbanização e o correspondente agravamento dos seus problemas. também tem contribuído para estas mudanças. é cada vez mais urbano. como pela influência que elas exercem sobre o mundo. as novas tecnologias e as comunicações desenvolvidas. que cada vez mais está concentrada nas cidades. Nesse sentido. função determinante da ordenação urbana de então. Por volta do ano de 1940. sobretudo no meio urbano. É na cidade. tanto pela quantidade de população. de acordo com o censo demográfico do IBGE. Paralelamente a estes. sem nenhum tipo de planejamento do território que pudesse comportar grande contingente populacional. O mundo hoje é urbano. não estavam preparadas para suportar esse processo.1 Introdução A escolha da reforma urbana como tema principal deste trabalho foi motivada pelo estudo das matrizes do planejamento urbano e suas correspondências com os movimentos sociais. que a maior parte da população mundial vive. atualmente. O poder econômico.24 % em relação ao total. E adiciona-se a isso o fato de o Brasil ter sido colonizado pela via da exploração. 2000. O Brasil. muitos dos quais influenciam diretamente a vida no campo. Na virada de século essa população chegou a 81. Tem-se a imposição de novos ritmos e a criação de novos hábitos. A estrutura e a dinâmica sociais existentes nas cidades contemporâneas são desafiadas a encontrar novos paradigmas e possibilidades para enfrentar esta realidade. podendo ser facilmente identificados através da homogeneização de costumes. dos costumes e da convivência com as leis. também. por sua vez. a sociedade tem passado por transformações significativas no campo das forças e organizações sociais. Esta inversão populacional provocou uma nova realidade para as cidades. que. A maior parte das cidades foi implantada ao longo das rotas de passagem e dos rios.

o crescimento acelerado ocorrido em muitas cidades se explica evidentemente com a industrialização. como se vê. as cidades se constituíram segundo um padrão litorâneo não só devido ao seu caráter exportador de produtos primários. a carência de saneamento básico. conforme observa o geógrafo Milton Santos. no Brasil colônia. esse tipo de estruturação urbana e as relações do Estado com o urbano deveram-se à função monocultora da produção e ao destino dessa produção. Segundo seus estudos tais regiões são diferentemente alcançadas pela expansão da fronteira agrícola e pelas migrações inter-regionais. com a massa de capitais e. Assim. A partir daí. 1994).2 De acordo com Francisco de Oliveira (1982). Não obstante. boa parte dos problemas urbanos encontrados foi agravada em decorrência de todo esse processo. a degradação ambiental. o qual. verifica-se que atualmente o crescimento demográfico das metrópoles brasileiras vem se reduzindo. Por sua vez. mesmo que haja tal redução. o que vai redefinir o caráter de urbanização existente até então. seguindo o caráter agroexportador da economia. as chamadas cidades médias têm expandido significativamente as suas atividades transformando-se em novos pólos regionais. No entanto. Com a industrialização estabelece-se uma nova divisão social do trabalho. também. mas também devido à divisão social do trabalho. Hoje. segundo os moldes da expansão capitalista. cujas causas essenciais são os progressos sanitários. a violência. de fato. portanto. Contudo. não é tão novo na história das nossas cidades. uma vez que não são iguais os graus de desenvolvimento e de ocupação prévia das diversas regiões. as . A rede urbana brasileira consistia em poucas e grandes cidades. O fenômeno da urbanização não se dá de maneira homogênea. 1982). os mega congestionamentos. o desemprego. que era a exportação. resultado de uma natalidade elevada e de uma mortalidade em descenso. com o processo de acumulação sediado nas cidades (OLIVEIRA. a urbanização intensiva verificada no final da primeira metade do século XX é contemporâneo de um forte crescimento demográfico. elas já estão consolidadas em grandes centros urbanos. Essa nova realidade expansiva das cidades traz. as quais polarizavam as funções de capital comercial e de intermediação entre a produção nacional e a sua realização nos mercados internacionais. a melhoria relativa nos padrões de vida e a própria urbanização (SANTOS. o incremento de problemas como a falta de habitações.

requer não só a unidade habitacional como infra-estrutura urbana e equipamentos sociais de caráter local. Analisando-se os números apresentados na III Conferência das Cidades realizada na Câmara dos Deputados em 2001. 1 Publicação da Câmara dos Deputados e Comissão de Desenvolvimento Urbano e Interior. esse déficit aponta para fatores que vão além da moradia. existem no país 17. indicadores da ausência de saneamento básico.32 % do déficit habitacional do país. Segundo o IBGE-PNAD-1999. a partir dos anos 80. sobretudo. 2001. e 15. III Conferência das Cidades – Moradia digna para todos. tem-se que o déficit habitacional considerado tanto no aspecto quantitativo (carência física de moradias) como qualitativo (moradias com insuficiência de infra-estrutura básica) pode chegar a 15 (quinze) milhões de unidades. Esta. Ela está vinculada diretamente às desigualdades sociais e de renda e às medidas ineficazes realizadas por parte das instâncias governamentais. Nesses lugares. Tal situação se agravou.3 enchentes e o desabastecimento energético. estão entre as principais causas da mortalidade infantil e do alto índice de internações hospitalares provocadas por doenças relacionadas com a falta de saneamento. que formam 63. essas populações foram encontrando suas soluções ocupando terrenos em áreas vazias existentes pela cidade e em edifícios públicos ou privados abandonados. 2000). A falta de habitação consiste em uma das principais questões do meio urbano enfrentada por todas as cidades brasileiras. Mais de seis milhões de domicílios não possuem qualquer tipo de canalização interna de água. . Tais números. A falta de moradias atinge principalmente as famílias com renda de até três salários mínimos. localizados em áreas mais centrais. Nesse tempo. em decorrência da crise econômica e recessão vivida no país. para ser considerada digna. entre outros. a situação ainda é precária. Brasília. De acordo com Nabil Bonduki. de qualificação urbanística (BONDUKI. além dos efeitos da urbanização. cada vez mais evidentes nas cidades.6 milhões de habitantes sem instalações sanitárias mínimas. É nas grandes cidades que também ocorrem os principais problemas sociais.5 milhões não dispõem de qualquer alternativa adequada de esgotamento sanitário. foram se formando as favelas ou cortiços.1 Embora tenha ocorrido uma gradual melhora dos dados relativos ao saneamento básico nos domicílios brasileiros nas últimas décadas.

em geral. enfrenta uma situação de precariedade. bicicletas 7%. Na dinâmica interna. Dentre estes. a degradação ambiental também está presente na poluição do ar e da água através da canalização de esgoto a céu aberto. ganharam destaque no quadro dos problemas urbanos recentemente. ocorrem outras situações devido ao processo de produção da cidade e às relações entre o público e o privado. Se. por um lado. O conjunto de deslocamentos feito por transporte urbano e metropolitano de pessoas no Brasil foi distribuído da seguinte forma: a pé 44%. erosões e deslizamentos. pela priorização das condições do transporte individual em detrimento das demandas de transporte coletivo. pela lógica do lucro individual à revelia do bem estar coletivo. lindeiras aos córregos. intervindo na ordem de prioridades da administração. A conseqüência direta recai sobre o poder público que. transporte público 29%. não raras vezes. do desmatamento indiscriminado para fins de urbanização. enchentes. que transportam 94% de todos os que usam o transporte coletivo. A conseqüência do crescente número de carros e motos é o aumento de . Da mesma forma. A situação tem-se agravado com a ocupação indiscriminada de regiões não edificadas como tem ocorrido nas áreas de preservação permanente. rios e mananciais. Observa-se a crescente supervalorização de novas áreas nobres em detrimento da ocupação de outras áreas já dotadas de infra-estrutura. por outro. De acordo com levantamentos realizados no ano 2000 pela Associação Nacional de Transportes Públicos – ANTP – há 200 milhões de deslocamentos por dia nas cidades brasileiras. bem como de estudos mais aprofundados e adequados de planejamento urbano. Principalmente nas maiores cidades o transporte público urbano. da emissão de gases dos veículos automotores. os trens e metrôs levam quase 5%. o transporte público transporta cerca de 60% do total. dotadas de infra-estrutura. da deposição de resíduos sólidos e rejeitos industriais em locais impróprios sem tratamento adequado. Parte dessas está em áreas de risco sujeitas a cursos de águas contaminadas. a expansão urbana tem sido motivada. por sua vez. e o restante é transportado por barcas. Além dos exemplos citados. sobretudo os ônibus. sendo que metade corresponde a viagens a pé ou feitas em bicicletas enquanto a outra metade é feita por meios motorizados. automóveis 19%. criam-se novas localidades implicando novas demandas.4 Esses fatores. ficam sem ocupação extensas áreas internas a mancha urbana. é onerado por dar suporte a esses novos empreendimentos. por sua vez. sobretudo. aliados à questão ambiental. entre outros. e motos 1%.

e as organizações sociais foram proibidas de atuar politicamente. voltados para o uso do automóvel particular. com a correspondente liberdade de expressão e prática cotidiana da democracia.5 congestionamentos. acidentes e poluição. os escritórios das grandes empresas. O Movimento pela Reforma Urbana. por sua vez. constituem-se na principal fonte de emprego e renda. do movimento social. durante as décadas de 60 e 70. posicionaram-se os movimentos urbanos. também por isso. além de partidos políticos clandestinos e legais desenvolveram a articulação de um amplo movimento nacional para discutir propostas sobre a cidade. como já apontavam os primeiros debates sobre a reforma urbana desde o início até o recente Estatuto da Cidade.do país é gerada no meio urbano e. com vistas a participar de forma organizada do processo que estabeleceria uma nova Constituição. Setores da Igreja Católica. vans e moto-táxis. Deste modo. a volta ao estado de direito. pode-se verificar. As cidades constituíram-se na base da economia industrial. . por sua vez. requer mudanças consideráveis para que se possa ter melhores condições de vida. que. acabam atendendo a necessidades não providas pelo Estado. Período esse. em que os direitos civis foram fortemente restringidos. surgiu na seqüência. Por outro lado. os atuais conflitos existentes entre o transporte regular e os denominados "transportes clandestinos"feitos por lotações de kombis. técnicos da área urbana e entidades organizadas em torno da política urbana. no qual se fundamenta esse trabalho. Este contexto. os investimentos e os recursos destinados a esse setor têm sido canalizados para a implantação e manutenção da infra-estrutura viária. intelectuais. Tal proibição abriu espaço para que as Associações de Moradores servissem como forma de atuação política e iniciassem importantes processos de luta buscando conquistar melhores condições de vida. Ao mesmo tempo. os centros financeiros e os centros culturais. e é também nelas que melhor se evidencia o índice de pobreza e miséria. é nas maiores metrópoles e cidades que se localizam os principais centros de decisão política. A maior parte do Produto Interno Bruto – PIB . que contribuíram de forma destacada no processo de resistência e derrubada da ditadura militar. já em meados da década de 80. por exemplo. Entre as conseqüências.

. a intenção final deste trabalho é buscar as origens desse processo.identificar pontos do Estatuto da Cidade.contextualizar ações desenvolvidas no âmbito do planejamento urbano estreitamente relacionadas com o processo de construção democrática no país. este trabalho tem como objetivo principal analisar a relação entre o Movimento pela Reforma Urbana ocorrido em meados dos anos 80 e o processo de democratização do planejamento urbano no Brasil. a partir da realidade de cada localidade. teve-se a aprovação do Estatuto da Cidade. após a retomada de uma relação política democrática. Assim. sobretudo. Nesse sentido. . As metas empreendidas foram as seguintes: . legislação de âmbito federal. procurar-se-á. aqueles ocorridos no Brasil entre as décadas de 60 e 80 no sentido de relacioná-los aos desdobramentos do cenário político do país. A pesquisa foi desenvolvida com base na adoção dos seguintes pressupostos: . Para tanto. regulamentadora do capítulo da política urbana da constituição federal.examinar os movimentos sociais urbanos. tendo em vista as raízes históricas das matrizes discursivas e os fundamentos originários da reforma urbana. tendo em vista que esse Movimento surgiu durante a retomada da democracia no país e se constituiu como elemento fundamental para a inserção do Capítulo da Política Urbana na Constituição de 1988. Ela poderá ser uma grande oportunidade de correção de rumo para as cidades.6 Na continuidade desse processo. calcados nas discussões sobre a produção e apropriação da cidade em face às desigualdades sociais e territoriais. bem como às possíveis interfaces com a produção do espaço urbano. o campo para investigação e análise de seus propósitos. na aproximação das proposições técnicas com as propostas populares sobre a cidade que já vinham sendo discutidas há décadas na sociedade. na medida em que disponibiliza instrumentos para intervir concretamente.

que o Estatuto da Cidade apresenta novos paradigmas para o planejamento urbano. o fortalecimento da participação social com a inclusão de novos agentes sociais e novas temáticas.que as definições da política urbana estão estreitamente ligadas à conjuntura política nacional e local.que a estrutura social urbana está diretamente relacionada à realidade política e econômica.que o Movimento pela Reforma Urbana foi um espaço de articulação e unificação de reivindicações sobre a questão urbana. destacadamente a instituição da gestão democrática nas cidades. . . . . nesse processo. A hipótese principal deste trabalho é o reconhecimento do Movimento pela Reforma Urbana como elemento fundamental para a inserção do Capítulo da Política Urbana no texto da Constituição Brasileira em 1988. profundamente agravadas em âmbito local e mundial.7 . a nova relação entre o setor público e a iniciativa privada. além da questão ambiental. . apresentam-se outras hipóteses tais como: .que o Projeto de Lei de Desenvolvimento Urbano de 1983 e a Emenda da Reforma Urbana apresentada na Assembléia Nacional Constituinte de 1988 foram subsídios relevantes para a conformação do Estatuto da Cidade.que houve. Secundariamente. sujeita aos diferentes interesses presentes na cidade. com vistas a interferir no texto da Constituição. .que a Reforma Urbana no Brasil se constituiu num novo referencial para se pensar a política urbana. étnica e de gênero. tais como as questões ambientais.

com ênfase na questão habitacional. O Seminário “Habitação e Reforma Urbana” foi evento realizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil IAB e pelo IPASE. o desenvolvimento da pesquisa foi auxiliado pela definição de quatro períodos históricos.8 . por ocasião das discussões em torno das reformas de base do governo João Goulart. no Hotel Quitandinha.que os preceitos contidos no Estatuto da Cidade vão ao encontro das necessidades da maioria dos habitantes das cidades brasileiras.2 com o objetivo de inserir a temática urbana nas discussões dessas reformas de base. . ocorre em 1963. O Seminário serviu como ponto de partida da investigação. prevalecendo fatos e acontecimentos relevantes para a investigação.que o Estatuto da Cidade aprovado contemplou uma demanda política e técnica mais abrangente do que aqueles expressos no ideário da reforma urbana. as quais enfrentam graves problemas. entre outros. que pudesse facilitar as buscas e orientar a sistematização. Convém ressaltar que esse recurso serviu apenas para orientar o alinhamento lógico do trabalho. tendo em vista o conteúdo dos debates realizados com o propósito de diagnosticar e apontar soluções para o enfrentamento dos problemas identificados naquele momento. no Rio de Janeiro. principalmente. Dentro desse contexto. por exemplo. O primeiro período corresponde à eleição do governo Jânio Quadros e João Goulart em 1961 até o golpe militar de março de 1964. na cidade do Rio de Janeiro. fiscal. surgiu a necessidade de se estabelecer uma periodização histórica. bancária e educacional. vários instrumentos de gestão democrática da cidade como conselhos de política urbana. em razão do processo de discussão e negociação entre todos os setores envolvidos que ocorreram nos trabalhos da Comissão de Desenvolvimento e Interior no ano de 1999. Assim. audiências públicas. Os debates foram feitos com base nas experiências de aplicação de políticas urbanas vivenciadas em diversas cidades brasileiras durante a década de 90. Nesse período. o Seminário de Habitação e Reforma Urbana. Logo nos momentos iniciais do processo da pesquisa. foram feitas mobilizações políticas em torno do que se chamou de "reformas de base". termo geral para indicar reformas da estrutura agrária. orçamento participativo. iniciativa popular de projetos de lei e estudos de impacto de vizinhança. 2 . conferências da cidade.

Pela primeira vez na história do país. O que foram os movimentos sociais urbanos ocorridos neste período de enfretamento direto com a ditadura militar? Como eram desenvolvidas as atividades de planejamento urbano neste período? Quais as possíveis relações que esses movimentos localizados tiveram com o surgimento do Movimento pela Reforma Urbana que surgiu alguns anos mais tarde? Nesse sentido. a decisão tomou por base investir na pertinência do tema e no desafio de concatenar os recursos disponíveis. A contextualização. encontravam-se dispersos. Convém ressaltar que o enfoque perseguido e a opção pela abordagem histórica trouxeram razoável nível de dificuldade na identificação e no acesso aos meios informativos mais adequados. Este registrou grande movimentação popular. buscou-se identificar os movimentos sociais urbanos ocorridos até o final da década de 70 e suas possíveis relações com a derrubada da ditadura militar. E.9 A partir do golpe militar em março de 1964 inicia-se o segundo período. tem-se o quarto período. O terceiro período foi compreendido basicamente pela década de 80. Todavia. A base documental desta pesquisa foi fundamentada em fontes primárias e secundárias. foi baseada no acompanhamento da implementação da Nova Constituição. Foram levantadas várias questões para contextualizar o período de acordo com os objetivos do trabalho. instaurando a transição democrática. bem como as possíveis relações dessa conjuntura com o surgimento do Movimento pela Reforma Urbana alguns anos depois. a qual levou ao final da ditadura militar. no processo de regulamentação do Capítulo da Política Urbana pelo Congresso Nacional. tem-se a questão da política urbana presente na Carta Magna. inaugurando um ciclo adverso de mobilizações políticas. Foi marcado por acontecimentos importantes como a campanha pelas eleições diretas. contida por toda a década de 90. as mobilizações pró-constituinte e a aprovação da nova Constituição em 1988. . É nesse contexto. que surge o Movimento Nacional pela Reforma Urbana. além de serem variados. após a promulgação da Constituição no final dos anos 80 até chegar a aprovação do Estatuto da Cidade em 2001. os principais aspectos relativos à produção de planejamento urbano do novo regime. o qual teve atuação destacada no processo constituinte com várias de suas proposições sendo inseridas no texto constitucional. no advento das administrações populares ocorridas no período e na nova agenda do Movimento Social em nível local e internacional. a fim de atingir o resultado almejado. por fim. uma vez que. sistematizadas durante o processo de investigação da forma pela qual passa a ser apresentada neste momento.

e iniciados juntamente com as investigações deste trabalho. A pesquisa utilizou como fontes secundárias: revistas. bem como. bibliotecas como: da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar.10 As fontes primárias utilizadas foram basicamente: documentos de entidades dos movimentos populares e organizações não governamentais. da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo – FAU/USP e do Centro Universitário Moura Lacerda em Ribeirão Preto. resoluções de seminários e congressos. acervos pessoais de lideranças contatadas. Os materiais foram coletados de exemplares avulsos. 2001 e 2002). documentos internos. Foram pesquisados ainda materiais sobre os temas nos arquivos do vereador Nabil Bonduki e da vereadora Ana Martins da cidade de São Paulo. a sede do Sindicato dos Arquitetos do Estado de São Paulo – SASP. no início da década de 80. pareceres e correspondências. destacando-se a sede do Instituto de Formação e Assessoria em Políticas Sociais . e em sítios da internet. da Escola Engenharia de São Carlos – EESC/USP. entre outros. em eventos ou nos arquivos dessas instituições. com intelectuais e técnicos que participaram do processo da aprovação da reforma urbana durante a Assembléia Nacional Constituinte. a sede da Federação das Associações Comunitária do Estado de São Paulo – FACESP/ Confederação Nacional das Associações de Moradores . Os contatos entrevistados foram lideranças ligadas ao movimento de ocupação da cidade de São Paulo. de material disponibilizado pelo deputado federal Inácio Arruda. Foram obtidos diretamente com lideranças e representantes de movimentos sociais. com representantes atuais e ex-representantes do Fórum Nacional de Reforma Urbana. panfletos.CONAM. sobretudo. estadual e federal. e. sobretudo da zona leste e norte. Convém ressaltar a contribuição providencial das disciplinas oferecidas pelo Programa de Pós-Graduação em Engenharia Urbana da Universidade Federal de . Parte das entrevistas foi gravada e transcrita.Pólis. como atas de reuniões. Todos esses contatos foram feitos no decorrer dos últimos três anos (2000. dissertações. livros e boletins correlatos ao tema. o Legislativo municipal (São Paulo). e de contatos verbais realizados por meio de conversas por telefone e internet. periódicos. da reprodução dos arquivos em papel e em mídia. O acesso a esses materiais foi obtido por meio de instâncias governamentais. documentos de divulgação externa como boletins.

na cidade de Ribeirão Preto-SP. a participação no "Encontro Nacional: Reforma Urbana no século XX". o desenvolvimento da pesquisa foi enriquecido com as disciplinas de Habitação Social no Brasil: Revisão Histórica e Perspectiva de Intervenção e Urbanismo e Planejamento no Brasil-Pós 40. promovido pela Prefeitura de Santo André. Outras fontes. na cidade de São Paulo-SP. seminário: Estatuto da Cidade nas Cidades Médias. cursos e aulas assistidas durante esse período foram de grande valia. promovido pela Secretaria Municipal de Habitação e Desenvolvimento Urbano.UFSCar. Do mesmo modo. promovido pelo Fórum Nacional pela Reforma Urbana. ambas cursadas em caráter especial no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo – EESC-USP. no seminário: Experiências Internacionais de Requalificação Urbana – Democratização de Espaços e Oportunidades. na cidade de São Paulo-SP. Também foram visitados os arquivos do jornal Folha de São Paulo e do Sindicato dos Arquitetos de São Paulo. além da introdução e da conclusão. em outubro de 2001. pelos subsídios fornecidos. palestras. ambos localizados na capital. . no Instituto Teológico Pio XI. promovido pelo Sindicato dos Arquitetos e Urbanistas do Estado de São Paulo. Foram traçadas três vertentes principais. Estrutura Urbana e de Planejamento e Desenho Urbano. O trabalho foi estruturado em capítulos. na cidade de São Paulo-SP. O Capítulo 1. no 1º Congresso Nacional pelo Direito à Cidade. em outubro de 2002. Dentre os diversos eventos pertinentes ao tema ocorridos durante a pesquisa destaca-se. na cidade de São Carlos-SP. no ano de 2001. no seminário estadual intitulado: Estatuto da Cidade e Universalização da Assistência Técnica. notadamente nas de Planejamento Urbano. intitulado Origens da Reforma Urbana. promovido pelo Fórum Nacional de Reforma Urbana e pela Frente Nacional de Prefeitos. e no I Simpósio sobre Gestão Pública: Estatuto da Cidade. em julho de 2000. as quais partiram. em setembro de 2002. realizado em outubro de 2001. no Anhembi. promovido pelo Centro Universitário Moura Lacerda. como as anotações dos seminários. na cidade de Santo André-SP. contém os temas originários diretamente relacionados com os objetivos e com as metas estabelecidas para pesquisa.11 São Carlos . em dezembro de 2000.

Este. discorre-se ainda sobre a aprovação do Estatuto da Cidade. sobretudo. como um acontecimento-síntese de todo o período historiado durante as várias etapas do trabalho. Procurou-se caracterizar o Movimento por meio de componentes analíticos adjacentes às instâncias dos movimentos sociais. reforçando a intenção de contribuir com os estudos do planejamento urbano no Brasil. denominado a reforma urbana na Constituição Federal de 1988 e no Estatuto da Cidade. além de considerações sobre o planejamento urbano praticado no período. foram elencadas questões e reflexões sobre as análises aqui arroladas. fez-se uma breve abordagem sobre a evolução do direito da propriedade ao longo do tempo realçando a historicidade do tema e os novos direitos constitucionais incorporados a Carta Magna. Desta forma. das origens históricas das matrizes discursivas dos agentes envolvidos em cada momento e dos fundamentos da reforma urbana. onde. Primeiramente. por sua vez. . buscando interfaces e suas possíveis relações com os temas arrolados no primeiro capítulo. no Capítulo 3. legado relevante da trajetória do planejamento urbano e da construção da democracia no País. ao final apresenta-se a Conclusão deste trabalho. focado como principal objeto de pesquisa. diante da aprovação do Estatuto da Cidade.12 respectivamente. Depois. O Capítulo 2 faz uma abordagem sobre os Movimentos Urbanos e a emergência do Movimento Nacional pela Reforma Urbana na década de 80. Nesta parte.

13 Capítulo 1 __________________________________ Origens e matrizes discursivas da Reforma Urbana no Brasil “Pensar é mover-se no infinito” Lacordaire .

entre 1977 e 1983. A emenda proposta por esse movimento serviu de base para a inserção do Capitulo da Política Urbana na Constituição. com forte viés técnico focado na resolução de problemas urbanos e na qualidade de vida. Nesse sentido. analisa três momentos em que a reforma urbana é tratada como proposição e síntese de uma nova visão de política urbana. em 1963. foi fundamental em todo o processo. a proposta foi apresentada nos marcos da ditadura militar. a semelhança está na motivação reformista do espaço urbana. Por outro lado. em que nem sempre. Vários instrumentos contidos nestes próprio Estatuto da Cidade. Essa articulação. motivada pelas discussões da constituinte. chegou a tramitar como projeto de lei no Congresso Nacional. E a análise da proposta do Movimento Nacional pela Reforma Urbana surgido em meados dos anos 80. Evento esse que teve o objetivo definido de inserir a temática da cidade no contexto das reformas de base do governo João Goulart. recuperar e incorporar novos conceitos.14 Introdução Este primeiro capítulo busca os fatos originários da expressão reforma urbana no Brasil. No entanto. registrou conteúdos que estarão presentes na trajetória da reforma urbana. Desta vez. O ponto de partida foi à análise dos documentos produzidos no Seminário de Habitação e Reforma Urbana. A segunda retomada ocorre em torno da Lei do Desenvolvimento Urbano elaborada por técnicos do governo federal. tiveram os mesmos protagonistas a frente. explora as matrizes discursivas e os correspondentes fundamentos de agentes envolvidos no processo. as situações encontradas revelam conjunturas diferenciadas e adversas. inclusive nos debates da constituinte e no . realizado conjuntamente pelo IAB e o IBASE. Apesar de não ter sido aprovada. em face de descontentamentos e críticas às concepções predominantes. Ao discorrer sobre fatos e acontecimentos relacionados a este tema. estudos foram incorporados aos debates do planejamento urbano posteriormente. uma vez que conseguiu ao mesmo tempo. embora tenha sido interrompido pelo golpe militar. Um propósito que. advindos da realidade dos movimentos populares com a contribuição de técnicos e profissionais.

. Refere-se. A análise se ateve a uma abordagem ampliada da temática. os agentes envolvidos e as políticas produzidas na esfera urbana implementadas ou não nas cidades. a abordagem explorou categorias como a conjuntura política. às concepções e visões presentes no período. Nesse sentido.15 Algumas considerações sobre o Planejamento Urbano no Brasil também compõem este capítulo. buscando referencias presentes no planejamento urbano contemporâneo. de algum modo relacionado com o foco e à temporalidade do estudo desenvolvido.

O propósito era diagnosticar e elaborar soluções para o enfrentamento dos problemas urbanos daquele período. economistas. na cidade de Petrópolis no estado do Rio de Janeiro. Para tanto. as discussões foram feitas em duas etapas. A partir da análise do documento. O Seminário seguiu a dinâmica de dividir os participantes em quatro grupos de estudos. de algum modo. deram origem aos fundamentos da reforma urbana. Esta última. os relatórios de cada grupo. num segundo momento. como arquitetos. depois em plenário com o suporte da comissão de relatoria responsável pelos trabalhos de sistematização. De acordo com o regimento e o temário. No rol das considerações iniciais. líderes sindicais. A esta comissão coube abranger e sintetizar tudo que foi estudado e aprovado na primeira etapa. primeiramente. ajustes e esclarecimentos necessários a fim de formar um todo harmônico. tratada de forma complementar em todo o texto. Deste Seminário participaram.1 O Seminário de Habitação e Reforma Urbana de 1963 O termo “reforma urbana” surgiu pela primeira vez em julho de 1963 no Seminário sobre Habitação e Reforma Urbana. chegava a receber o formato de projeto de lei. setenta profissionais. aproximadamente. no Hotel Quitandinha. de diversas áreas. estudantis e representantes de entidades civis. entre outros. sugeriu uma série de propostas para tratar as questões levantadas.IAB e o IBASE. foi elaborado documento contendo o conjunto dos debates intitulado "Conclusões do Seminário de Habitação e Reforma Urbana". discorreu sobre uma série de afirmações baseadas na análise anterior e.3 O foco principal deste documento foi a questão da habitação e da reforma urbana. sociólogos. Como produto final. havia uma mobilização em torno das reformas de base com vistas a estabelecer uma nova linha política para o país. advogados. com o intuito de inserir a temática do urbano nas discussões das reformas de base de João Goulart. contendo as proposições. procurou-se identificar os itens que. assistentes sociais. o documento aponta que a reforma urbana entrou na pauta . com os devidos acertos. Naquele momento. engenheiros. ele foi dividido em três partes: iniciava tecendo diversas considerações sobre a conjuntura política nacional e internacional.16 1. finalmente. técnicos. realizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil . cabendo a cada um constituir uma comissão de relatoria formada por três membros.

Nesse sentido. já estavam assimilados pelos estudos e debates da situação urbana no Brasil. item 4). denuncia a situação dos centros urbanos que. pelo intenso incremento demográfico desacompanhado de medidas que. a partir da revista “Arquitetura”. em sua maioria. O segundo item confirma a importância remetida à temática. sobretudo. No segundo item. considerando: que nos maiores centros urbanos do País. nota-se que a questão da habitação orienta o diagnóstico e as propostas formuladas pelo Seminário. uma vez que o significativo número de habitações construídas tem se destinado quase exclusivamente às classes economicamente mais favorecidas (Resoluções do Seminário. ordenassem e disciplinassem o surto industrial e as arcaicas relações de produção agrária. que. tanto em números absolutos como relativos (Resoluções do Seminário. tal situação era determinada pela estrutura subdesenvolvida do país. já exibiam as tipologias de habitação que melhor retratavam a gravidade desses problemas que se estendem até os dias atuais. cortiços. mesmo a população que vive em habitações do tipo permanente. caracterizando-se essencialmente. peal desproporção cada vez maior. sobretudo nos maiores centros urbanos. além de denunciar a desigualdade social. entre o salário ou a renda familiar e o preço de locação ou de aquisição de moradia e pelo déficit crescente de disponibilidade de prédios residenciais. foi posicionada a questão da habitação como um dos principais problemas. em relação à demanda do povo brasileiro. no interesse nacional. 3 . considerações iniciais. nos grandes centros urbanos. mocambos. se debate com problemas decorrentes da defasagem entre o crescimento demográfico das cidades e o fornecimento dos mais Documento encontrado no formato de cópia datilografa feito pelo setor de publicações da Universidade de São Paulo-USP. item 2). os efeitos da urbanização e do crescimento demográfico. a população que vive em subhabitações – tais como favelas. Na mesma linha. considerações iniciais. barracos – é grande e crescente. que determinavam fortes movimentos migratórios para os núcleos urbanos. malocas. considerando-se: que a situação habitacional do Brasil é de suma gravidade. nos centros urbanos. considerando a realidade crítica daquele momento. nesse período.17 nacional em decorrência do agravamento da situação urbana provocada pelos altos índices de urbanização existente no país naquele momento. Pelas considerações seguintes. nº15 de julho de 1963. por sua vez. A partir do conteúdo das considerações iniciais. observa-se que.

dentre os direitos fundamentais do homem e da família. considerada como o conjunto de medidas estatais. através da coordenação de esforço e da racionalização de produção (Resoluções do Seminário. 1996). item 4). visando à justa utilização do solo urbano. à ordenação e ao equipamento das aglomerações urbanas e ao fornecimento de habitação condigna a todas as famílias (Resoluções do Seminário. afirmações. a solução do problema habitacional e da reforma urbana está vinculada à política de desenvolvimento econômico e social – através da qual possa ser rapidamente elevado o padrão de vida do povo brasileiro (Resoluções do Seminário. O objeto de intervenção era o espaço nacional por intermédio da ação centralizada. que.18 rudimentares serviços públicos. item 1). item 5). No item 1. afirmações. cada vez mais imprescindível em virtude da crescente complexidade urbana (Resoluções do Seminário. em conseqüência. se inclui o da habitação e que a sua plena realização. a reforma urbana foi vinculada a limitações ao direito de propriedade e uso do solo. É o que pode ser observado nos itens 1 e 5. só poderá ser superada pela atualização da estrutura econômica nacional e por um considerável avanço construtivo. que essa situação contrasta flagrantemente com os conceitos de democracia e justiça social e. exigindo limitações ao direito de propriedade e uso do solo. racionalizadora e redistributiva do Estado (RIBEIRO. afirmações. assim como da não complementação do acervo de moradias como o equipamento de utilização comum. ao se referir à participação popular. o Documento afirma: métodos de . item 5). se consubstanciaria numa reforma urbana. o acesso à habitação foi colocado como direito fundamental do homem e da família. os quais afirmam: que. considerações iniciais. No segundo bloco foram dispostas várias afirmações combinadas com as considerações anteriores. Esta relação seria matéria de debate por várias décadas no planejamento urbano no Brasil. A solução para esses problemas urbanos foi colocada nos marcos do padrão desenvolvimentista presente nesse período. Mais adiante. Por similaridade com as considerações sobre habitação.

a concepção de poder aparece muito centrada em torno do Estado centralizador. também. revela que a desapropriação para fins de reforma urbana. não constando ainda o envolvimento e a incorporação da população às instâncias de gestão. neste período. item 1 da 3 ª proposta). propôs que: Ficarão sujeitas à desapropriação por interesse social os bens considerados necessários à habitação. em dinheiro (Resoluções do Seminário. afirmações. 2ª proposta. afirmações. Nota-se que existe a preocupação com relação à importância da conscientização por parte da população sobre os problemas tratados colocados. Somente neste item. Especificando. de maneira a permitir a desapropriação sem exigência de pagamento à vista. disposto abaixo. ao equipamento dos centros urbanos e ao aproveitamento do território (Resoluções do Seminário. a proposta não chega a aprofundar o tema explicitando. de certo modo vinculado à política habitacional. A proposta implicava mudança constitucional conforme se pode verificar na afirmação: que para a efetivação da reforma urbana torna-se imprescindível à modificação do parágrafo 16º do artigo 141 da Constituição Federal. item 8). que dizia o seguinte: que o Congresso Nacional reforme o parágrafo 16 do artigo 141 da Constituição Federal. Observa-se que. Para tanto. neste momento.19 que é de grande importância para a política habitacional a formação de uma consciência popular do problema e a participação do povo em programas de desenvolvimento de comunidades (Resoluções do Seminário. de acordo como o interesse social (Resoluções do Seminário. . entre outros. em vários lugares do país já existiam movimentos urbanos de favelas como na cidade do Rio de Janeiro e na Bahia. de modo a permitir ao governo a escolha da forma de indenização. por exemplo. já estava presente nesse debate. suprimindo as expressões "prévia" e "em dinheiro". como se daria o processo participativo. No entanto. O item 13. Haja vista que.5). item 13). foi feita uma proposta específica para este item. pág. se refere especificamente à participação da comunidade.

para o financiamento da política habitacional. medidas de emergência destinadas a imediata melhoria das condições de subhabitação. cessão ou doação de lote de terreno compromissado. percebe-se que esse item recebeu um detalhamento especial diante dos demais. . em face do problema habitacional. sugeriu-se a criação de um Órgão Central Federal para executar a política habitacional. Tendo em vista o quadro nacional de extrema gravidade na precariedade das habitações. com autonomia financeira e autoridade para atingir seus objetivos (Resoluções do Seminário. afirmações. afirmava-se a necessidade de uma intervenção eficiente em todo o território nacional. sejam incluídas no plano respectivo. b) a transferência por venda. afirmações. Nesse meio. com definição de estrutura e até normas para constituição de patrimônio. Foram arroladas as atribuições e as características da organização. Pelo texto. sempre anti-social. equacionando-as dentro das realidades sócio econômica brasileira e em bases locais. No sentido de priorizar e atender essa demanda.20 O diagnóstico apresentado também pontuou a especulação imobiliária como responsável nesse processo. por meio de uma ação centralizada e munida de recursos. a criação do BNH foi inspirada nesta proposição. afirmando que: é imprescindível a adoção de medida que cerceiem a especulação imobiliária. Como se vê textualmente abaixo. item18). foram sugeridas medidas de emergência afirmando: que. que afirmava: que para a execução da política habitacional. disciplinado o investimento privado nesse setor (Resoluções do Seminário. se torna necessário à criação de um Órgão Central Federal. afirmações. item 16). item 15). foi proposto também que o Órgão Central administraria um Fundo Nacional de Habitação. Segundo alguns autores. por meio de forte crítica a atividade. inclusive estimulando o esforço próprio à ajuda mútua e o desenvolvimento comunitário (Resoluções do Seminário. Os recursos teriam a seguinte proveniência: arrecadação do imposto de habitação a ser criado incidiria sobre: a) o registro de loteamentos urbanos no registro de imóveis.

aplicando os princípios de planejamento territorial. A superação dos problemas apontados no diagnóstico viria. recreação. cultura. da área total construída. cessão ou doação de unidades residenciais de mais de 100 m² . por venda.21 c) a transferência. item IV-2). E foi mais além. saúde.progressivo. tratou mais a fundo da política habitacional. fundamento presente na definição do denominado imposto predial e territorial urbano – IPTU . Na mesma linha. evidenciando o propósito de criar alternativas para a política habitacional. de certo modo. circulação e transporte. proposta nº3. a prioridade de atendimento e normas de controle – referindo- . como pode ser percebido no texto da primeira das várias propostas constantes no documento final. causando um incentivo indireto para o uso dos imóveis ociosos servidos por infraestrutura. relacionadas com as reformas de base. revela que o grupo ali reunido no Seminário tinha expectativas de poder executá-las de fato. consagrados pelos Congressos Internacionais de Arquitetura (Resoluções do Seminário. Na verdade. pela ação de um Estado forte atuante em todo o território nacional. foi dirigida explicitamente para encaminhamento pelo executivo: que os Poderes da República apressem a promulgação de providências legais e administrativas. propondo a aplicação em imóvel residencial sem uso. a execução da política urbana usaria o emprego da tecnologia para agilizar o processo com o objetivo de rapidamente desenvolver a nação. Trata-se da incidência de imposto sobre o imóvel urbano sem uso. aos aspectos sociais provenientes do desenvolvimento econômico. Nota-se que todas as proposições foram dirigidas diretamente ao governo federal. A terceira proposição. produção e abastecimento. reservas para expansão urbana e de área florestais. por sua vez. educação. o Plano Nacional Territorial dará especial atenção à distribuição demográfica. observa-se a penalidade para a atividade especulativa. Através de 6 subitens bem detalhados propôs a criação de um órgão executor da política habitacional e urbana. aos problemas de habitação. compreendendo terreno inexplorado ou unidade residencial vaga por mais de 6 meses. O que. Convém ressaltar o item “d” anterior. proteção de mananciais e regiões de valor turístico. d) a não utilização de imóvel urbano. portanto. trabalho. proposta nº2). Nos dois casos. a desapropriação para fins habitacionais e de planejamento territorial. imprescindíveis à solução dos problemas examinados por este Seminário (Resoluções do Seminário.

realizado em 1963. racionalizadoras e redistributivas. com ênfase no problema habitacional. e. a arquiteta Ermínia Maricato.Dois aspectos básicos definiam. é preciso reconhecer que em pelo menos um momento da história do Brasil esses profissionais. incluindo os problemas urbanos no interior do ideário das reformas de base e a intervenção em todo o território nacional. Nesse sentido. com especial atenção à distribuição demográfica. reunidos técnicos mais ligados as correntes "progressistas". por intermédio de políticas públicas centralizadas. ou seja. classifica essa proposta como reforma urbana modernizadora: Esse padrão traduz a esquerda à expressão "de esquerda" do padrão desenvolvimentista. o conteúdo desse debate: a politização do diagnóstico desenvolvimentista. Luiz César de Queiroz Ribeiro (1996). aparentemente. a um plano nacional de habitação e à aquisição de imóvel locado. Ao discorrer sobre a trajetória do planejamento urbano brasileiro. o plano nacional territorial –. sob o imperativo da situação econômica. As causas destes problemas estavam caracterizadas pela dependência do país em relação ao imperialismo. Pretende-se aí estabelecer um diagnostico e uma terapêutica que permitia incluir a habitação e acidade como tema das "reformas de base" (RIBEIRO. o tema do planejamento aparece como forma privilegiada de enfrentamento dos problemas sociais.. 1996). portanto. em tom de reconhecimento da realização do referido Seminário. mais democrática e mais igualitária. que consubstanciaram no seminário sobre habitação e reforma urbana. Trata-se de um abrangente diagnostico sobre os problemas urbanos e habitacionais. (.4 Segundo ele.) . ao se referir aos debates promovidos neste Seminário..22 se ao estabelecimento de critérios para a seleção das áreas e populações a serem beneficiadas. ousaram produzir uma proposta para uma sociedade mais moderna. tece as seguintes considerações: Para fazer justiça aos arquitetos e a vários outros profissionais ligados à questão urbana. residia na proposta um certo papel voluntarista a ser exercido pelo estado e pelas vanguardas políticas. hegemonizadas pelo Partido Comunista. com ênfase para esse último. como muitos setores organizados da sociedade brasileira.

caminhou em direção contrária ao ideário arrolado pelo Seminário de Habitação e Reforma Urbana. Adalto L. Flavio Villaça. no seu trabalho Uma contribuição para a história do planejamento urbano no Brasil. de 1963. mas foram abafadas pela ditadura. ainda hoje. destacou-se a retomada das demandas populares que tinham começado a despontar no primeiro Seminário da Habitação e Reforma Urbana realizado em Petrópolis em julho de 1963. conforme discorre Villaça. A aprovação do Estatuto da Cidade reforça a possibilidade de esse instrumento 4 RIBEIRO. menciona o evento fazendo referência à formação da consciência popular nos anos 70 e às demandas populares já despontadas anteriormente: Os anos de 1970 marcam uma nova etapa na consciência popular urbana no Brasil. in RIBEIRO. A princípio. atenta-se ao fato de que a principal razão para que essas formulações não fossem levadas a cabo foram as regras do novo regime. em 1988. No bojo desse crescimento. 1997). com o fortalecimento dos movimentos populares. adesões e atuação. O Plano Local Integrado desenvolvido pelo SERFHAU. esse plano diretor constitucional. levantar as demandas do Congresso do IAB. povo e nação. e PECHMAN. a comparação feita pelo autor com a inserção do plano diretor na constituinte de 88 tem em comum o fato de ter sido proposto pelas forças reacionárias. e CARDOSO. Robert. Já então as forças reacionárias se contrapuseram àquelas demandas.23 Caberia. Maricato. Cidade. No entanto. esses movimentos cresceram muito em organização. Luis César Q. 1995). Luis César Q. o Plano Local Integrado que viria a ser difundido nos anos subseqüentes sob o patrocínio do SERFHAU. Porém. Da cidade à nação: gênese e evolução do urbanismo no Brasil. de controle sobre a terra (o que implica em controle na direção dos investimentos públicos). diferentemente da concepção do Serfhau. vem a ser gerado pelo próprio município dentro de novas condições de autonomia e atribuição para sua confecção. como as demais formulações sobre as reformas de base elaboradas pela sociedade no período foram abortadas pelo golpe militar. em parte reafirmadas na emenda constitucional de Reforma Urbana. também valoriza o fato de que a proposta já previa o controle sobre a propriedade da terra. especialmente com a mobilização estimulada pelas possibilidades – embora limitadas – de influenciar na elaboração da nova Constituição do país. Gênese . Nos anos de 1980. O mesmo se repetira na Constituição de 1988 (VILLAÇA. como forma de democratizar o acesso à moradia (MARICATO. Portanto.

2001). 1996. também compuseram o rol das proposições no sentido de desenvolver a nação. do urbanismo moderno. comprometido com reformas de base. o deputado Inácio Arruda também retoma os debates da década de 60. 2001). Sendo que esta seria desenvolvida prioritariamente para atender a demanda da primeira. este movimento reatualizava. A ênfase principal estaria focada na questão habitacional e na reforma urbana. o Guia do Estatuto da Cidade5 se referiu aos debates ocorridos no inicio dos anos sessenta. deviam ser operadas as alterações necessárias na ordem jurídica e no organograma executivo. os movimentos populares do período militar e o movimento nacional pela reforma urbana. quando. para as condições de um Brasil urbanizado. que foram sendo captadas através da participação do Instituto Pólis nas atividades do Fórum plataforma construída . o governo. De acordo com o deputado: O debate sobre a questão urbana ainda é recente e recebe pouco tratamento oficial.24 favorecer a implementação da reforma urbana como será visto em maior profundidade no capítulo 6. Do mesmo modo. Na declaração de voto. da seguinte forma: Durante o processo de consolidação da Constituição de 1988. Ed. um movimento multisetorial e de abrangência nacional lutou para incluir no texto constitucional instrumentos que levassem à instauração da função social da cidade e da propriedade no processo de construção das cidades. constante no relatório final na Comissão Desenvolvimento Urbano e Interior. Mesmo os empregos de tecnologias avançadas para efeitos imediatos e quantitativos. Civilização Brasileira. com a criação de novos órgãos. Retomando a bandeira da Reforma Urbana. em 1963. A partir da abordagem contida no documento final deste seminário. uma desde os anos 60 no país (ROLNIK. tem-se que a superação dos problemas urbanos diagnosticados naquele momento viria da ação de um Estado forte. promove o Seminário Nacional de Habitação e Reforma Urbana (ARRUDA. como pontos iniciais da construção da plataforma da reforma urbana. Rio de Janeiro. A primeira tentativa federal de sistematização e intervenção mais consistente na política urbana remonta ao período do governo João Goulart. De modo menos evidente. 5 A organização deste guia foi feita para atender simultaneamente a demandas de apoio e leitura de várias ordens.

Segundo esta matéria. que não foi aprovada. e a versão definitiva estava sendo analisada pela Nacional de Reforma Urbana e em encontros. E que várias das propostas levantadas neste fórum. Num primeiro momento. assessorias e cursos sobre o tema. notadamente nas maiores cidades (MALTA. o agravamento da situação social urbana. esse mesmo Jornal. possa ser realizada a reforma urbana. Com o golpe. estão dispostos no Estatuto da Cidade. em 1975. preparado pela Comissão Nacional de Regiões Metropolitanas e Política Urbana.o ante-projeto que pretende melhorar nossos centros urbanos”. 1. evidentemente. acerca da argüição do diagnóstico. seminários. que já se cogitava. Em 27 de setembro de 1976. na íntegra. alguns anos mais tarde. consiste num dos fundamentos principais para que. publica. ressurge o debate sobre o tema.do Anteprojeto de 1977 ao Projeto de Lei nº 775 de 1983 A reforma urbana também foi resgatada durante a ditadura militar. revela que os problemas relativos à habitação decorrem de longa data e continuam entre as prioridades da política urbana no Brasil. dois anos mais tarde. afirmações e propostas extraídas deste seminário permite duas identificações básicas para este estudo. debates. Em segundo lugar. ainda dentro da ditadura. . sobretudo com a criação de novos instrumentos sobre a organização nas cidades. o conceito da função social da propriedade. 1983: MARICATO. a “reforma urbana no Brasil já tem uma proposta oficial”. em 24 de maio de 1977. controlando a ocupação do solo e as construções através de diversas formas de taxação e incentivos fiscais”. 1983). o qual receberá formato de lei. e a expressão “reforma urbana” volta a congregar novas referências sobre o uso e ocupação do solo. de fato. como se vê pela quantidade de favelas e de moradias precárias existentes em boa parte das cidades. o Jornal da Tarde divulgou parte do conteúdo balizador do anteprojeto da lei de desenvolvimento urbano. já estabelecido nesse evento há quatro décadas. Vários instrumentos contidos nesta proposta. As ações e os objetivos do novo regime caminharam em outra direção.2 A proposta de Lei de Desenvolvimento Urbano . na proposta do Projeto de Lei de Desenvolvimento Urbano – PL 775 – de 1983 -. Primeiramente. por ocasião da Aprovação do Estatuto da Cidade. permanecem até hoje nos debates sobre a política urbana. Observa-se. a necessidade de novo disciplinamento para o setor. Após dois anos. O objetivo básico da lei era “a melhoria qualidade de vida nas cidades. tendo em vista. nesse momento.25 A análise do conjunto de considerações. com a publicação de um conjunto de idéias para se resolver os problemas urbanos. o texto já em formato de lei com a manchete “A reforma no Brasil . nos meandros do governo. a reforma urbana não vai além da propositura. E num segundo momento. Porém.

Enquanto Setúbal explorava uma visão mais fiscalista. e a figura da urbanização compulsória. observava que o anteprojeto procurava adequar esse direito à função social da propriedade. O direito de preferência da aquisição de imóveis pelo poder público.seção São Paulo – com a finalidade de debatê-lo e estudá-lo entre os profissionais e a sociedade. prevista no artigo 45. esboçou a integração das ações entre os diferentes níveis de governo do setor do planejamento urbano. Nessa linha. no artigo 44. visando unicamente vantagens individuais. cabendo sua fiscalização ao Poder Público e a iniciativa privada. resguardadas as diferenças entre as definições de ambos no entendimento e aplicação do “solo criado”. A proposta do ante-projeto. e áreas de: “interesse social”. de “renovação urbana”. “uso industrial”. já estava consagrada na constituição atual.26 Secretaria de Planejamento da Presidência da República. De acordo com o Jornal da Tarde.A execução do plano poderá ser cometida a entidades públicas ou privadas. até então considerada como “documento confidencial”. sob formas associativas e comunitárias. Outros instrumentos novos de atuação no âmbito do desenvolvimento urbano também foram propostos. Além do apontamento de vários instrumentos no artigo 47. do Centro Brasileiro de Análise de Planejamento e Eduardo Suplicy. devendo ser ainda discutida pelos especialistas metropolitanos e municipais em política urbana. a Fundação Faria Lima mostrava-se mais preocupada com os aspectos urbanísticos. O anteprojeto foi alvo de críticas e elogios num seminário organizado pelo IAB . anteriormente importada da França pela Fundação Faria Lima. 24/05/1977). Contudo. o . “urbanização” e “conurbações”. Como por exemplo. servia-se da tese do “solo criado”. de “lazer e turismo”. foram dispostos conceitos básicos buscando unificar entendimentos e definições sobre a matéria. daria destinação incompatível com as exigências sociais”. lançada pelo prefeito de São Paulo Olavo Setúbal. tal anteprojeto de 1977. de “preservação cultural” e “áreas de margem de águas públicas”. vantajosas ou prejudiciais à comunidade. vinham no sentido da “preservação de certas áreas a que a iniciativa privada. A partir de uma visão centralizadora. do governo estadual (Jornal da Tarde. mediante características tributárias e fiscalizadoras. foi divulgada em seis capítulos totalizando 58 artigos. que poderiam incentivar ou conter obras ou atividades urbanísticas. No Capitulo dois. Os economistas Paul Singer. a participação da comunidade foi prevista por uma certa ação fiscalizatória presente no capítulo IV destinado aos “Instrumentos de Atuação”: Artigo 39 . conteve inovações que trouxeram polêmicas. da Secretaria dos Negócios do Interior. professor da Fundação Getúlio Vargas. contido no artigo 43. “não edificáveis”. para “urbanização prioritária”. cabendo destaque à reformulação do direito de construir. sempre que tais propriedades forem do seu interesse. A definição de Áreas de Interesse Social. foi justificada pelos técnicos como medida impositiva necessária. Entretanto. de “proteção ambiental”. Para tanto. por sua vez contida no artigo 46. constituindo a velha idéia da formação do banco de terras.

e ignorar totalmente a participação da população na administração municipal”(Jornal O Globo. baseia-se na "descoberta de que o contexto que a propriedade privada se acha inserida é muito mais amplo do que o interesse de seu titula" . devem ser os executores de sua política e que a implantação de órgãos meio. Antônio Tito Costa. com limitações ao direto de propriedade urbana e criando novas fontes de arrecadação para as prefeituras” (manchete estampada pelo O Estado de São Paulo. Por outro lado. 17/10/1977). também manifestou suas preocupações quanto a proposta ao afirmar que: “criar leis sem antes definir quem executa-las é correr o risco de cair no terreno das meras intenções”(Jornal do Brasil. neste mesmo evento.27 consideraram “tão bom quanto impraticável a sua transformação em lei e. pois a maior oferta de terrenos diminui seus preços e. A matéria foi noticiada em caráter exclusivo para os referidos jornais. no seu entender. passando então a estar vinculado ao Ministério do Interior. conseqüentemente. quase concluído. No final de setembro do mesmo ano. porque ele deverá ferir altos interesses econômicos”. o prefeito de São Bernardo do Campo. porque uma lei não resolve problemas cruciais do país das cidades. como a proposta. “O anteprojeto. O arquiteto e ex-prefeito de Curitiba. órgão que até o governo do presidente Figueiredo pertencia à Secretaria de Planejamento. Nesse sentido. ocupando quase duas páginas inteiras em ambos: “Exclusivo . referindo-se a CNPU. Jaime Lerner. Em 27 de janeiro de 1982. a atual política de urbanização daquele momento. num semimario promovido pelo IBAM – Instituto Brasileiro de Administração Municipal sobre o mesmo tema.Como o governo planeja fazer a reforma urbana – o Ante Projeto da Lei de Desenvolvimento Urbano está quase pronto. Outro ponto. recomendou-se ao poder público “o estudo de mecanismos legais e tributários para induzir a utilização racional do solo. “tira a força dos municípios que. especialista em direito constitucional. em comum foi o limite do adensamento. apontando a necessidade de determinar o número máximo de habitantes por metro quadrado. julga que o mais importante seria “estruturar a política urbana no país. na verdade. o Jornal da Tarde e o Estado de São Paulo publicaram com exclusividade o Anteprojeto de Lei de Desenvolvimento Urbano do Poder Executivo. Para ele. Ao final. são instrumentos de esvaziamento dos municípios”. 2/07/1977). “dar conotação exclusivamente física” em detrimento a “aspectos econômicos e políticos do desenvolvimento urbano”. julgou inconstitucional por ferir o direito de propriedade. no sentido de soluções imediatas para “desadensar os grandes centros”. foi preparado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano. na explicação de seus elaboradores.17/10/1977). a sua aplicação. O anteprojeto. o custo final dos imóveis” (Jornal do Brasil. além de. muito mais. principalmente sem prévia consulta a população”. 27/01/1982). governo e empresários do setor da construção chegaram a concordar em pelo menos um ponto: a retenção especulativa do solo urbano é um entrave para a atividade econômica e social.

emergente”. e o capitalismo industrial. “As medidas serão analisadas e debatidas sob a presidência do ministro Mário Andreazza.” (. excoordenador de Planejamento da cidade de São Paulo. Entre os comentários registrados. Para o presidente da ADEMI – Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário. irão para o palácio do planalto para exame da assessoria do presidente João Figueiredo e. O Jornal do Brasil.28 (Jornal O Estado de São Paulo. Referindo-se as medidas necessárias a serem tomadas para a efetivação da reforma urbana afirmou: “espero que nesse confronto. 27/01/1982). foi a partir destas publicações que a matéria ocupou a pauta por vários meses por vários outros veículos de comunicação.. em decadência. era vice-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil – seção São Paulo – e membro da Comissão Justiça e Paz. permitindo a União legislar amplamente sobre a matéria. A leitura das duas matérias leva a perceber que o governo forneceu um texto único para a imprensa procurando uniformizar e precisar o que seria veiculado. No entanto. somente em 28 de janeiro veio a noticiar sobre o anteprojeto por intermédio da a opinião do arquiteto Cândido Malta Campos Filho6. que concede ao proprietário de 6 Nesse momento. 27/01/82). se aprovadas. Constituem o que se chama de Reforma Urbana. dentro da concepção de que se impõe um novo conceito sobre a propriedade urbana no País.) pretende criar uma legislação uniforme para o desenvolvimento urbano.. dia 29. no dia 15 de maio. voltada para a justiça social” (Jornal da Tarde. . por sua vez. dedicou uma página inteira com o título “Lei de Desenvolvimento Urbano em Debate”. a proposta contida no artigo 10º.) “O texto (. A seguir. A folha de São Paulo. os pontos considerados positivos do anteprojeto foram a adoção do Imposto Predial e Territorial Urbano progressivo. diante do grande volume de informações prestadas. colhendo opinião de diferentes segmentos relacionados com a temática. Cândido Malta. o capitalismo industrial – representado pelo espírito do anteprojeto – saia vitorioso”. encaminhadas ao Congresso na segunda quinzena de março.. destacou que o “anteprojeto mostra que no Brasil [simplificadamente] existem duas forças em confronto: o capitalismo comercial..

Por outro lado. sobretudo. arquiteto Cláudio Cavalcanti. implicando numa “reforma tributária sensível” para tal (Jornal do Brasil. todas classificadas como medidas “violentas” ao mercado (Jornal do Brasil. Conforme os estudos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano – CNDU -. 15/05/1983). estão o direito de preempção. como disposto no artigo 3º”. na época presidida por Jô Resende. a proposta vem com atraso no campo do planejamento urbano.29 um imóvel considerado como patrimônio histórico o direito de construção ainda não realizado ser conseguido em outro local. invadindo a autonomia municipal. Na opinião dos presidentes da FAPERJ7 e da FAMERJ8. . Na mesma matéria. entre as inovações que não agradaram o setor. manifestou-se inteiramente favorável. edificação ou utilização do terreno e o direito de superfície. Já a FAMERJ. e a proposta “cria a necessidade. de um “debate que vem sendo exigido pela sociedade brasileira há muito tempo”. as restrições do parcelamento. 8 FAMERJ – Federação das Associações de Moradores do Estado do Rio de Janeiro. e quanto a “debilidade da aplicação da lei na medida que os municípios não dispõem de autonomia financeira para aplicar os dispositivos” previstos. contido no texto. Nesse sentido. entendendo que as leis de zoneamento municipal não são suficientes para manter um disciplina do solo urbano. “o anteprojeto é um primeiro movimento. destacou o reconhecimento das associações dos moradores. por parte do governo. de formularem um plano urbanístico e prepararem recursos técnicos e humanos par realizar o que for decidido”. 15/05/1983). o anteprojeto consiste no reconhecimento. representando efetivamente “a ampliação do espaço democrático de participação popular”. o IAB. humana e. na época presidida por Irineu Guimarães. Em contrapartida. Para a FAPERJ. 9 IAB – Instituto de Arquitetos do Brasil. para os municípios. vista como a “chegada de uma solução democrática sobre o uso do solo urbano. com uma apropriação mais lógica. concordamos”. o anteprojeto vinha no sentido de preparar as cidades para uma outra 7 FAPERJ – Federação das Associações de Favelas do Estado do Rio de Janeiro. um primeiro gesto no sentido de planejarmos melhor o uso do solo urbano. grosso modo. alertou para o “centralismo que passa a ser exercido pela União na aprovação de instalações de grandes equipamentos. justa socialmente”. numa conquista da qual também participamos e. o presidente do IAB9.

dois terços dos 120 milhões de habitantes viviam nas cidades. conforme o que segue: “Não se pode falar em direito de propriedade abstrato. esse volume chegaria a 160 milhões. uma minuta do projeto do anteprojeto em formato de lei e uma lista contendo as principais medidas balizadoras. justificativa. Nesse sentido. 27/01/82). naquele momento. apesar de haver trazido vantagens ao crescimento econômico.30 realidade. Segundo as afirmações Entre outros aspectos contidos nos termos da . é difícil desvinculá-la dos serviços e equipamentos públicos que definem os seus usos” (Jornal O Estado de São Paulo. o parecer técnico apontava para a necessidade de um novo conceito de propriedade urbana. Ambos os padrões geraram aumento do crescimento da infra-estrutura e maiores dificuldades de atendimento. então. novos instrumentos jurídicos deveriam ser introduzidos na legislação para permitir maior controle sobre a propriedade. deu origem à presença de densidades altas em determinados setores e muito baixas em outros. pela necessidade de equipamentos mais sofisticados e altos custos operacionais" (Jornal O Estado de São Paulo. tem-se que: "A malha urbana. a industrial. É preciso. formuladas pela equipe do Ministério. Com base nesse diagnóstico. segundo os técnicos da época.e outra de ordem social – a importância de o Poder Público zelar pela comunidade. Nesse sentido. 27/01/82). a imobiliária. Entre as considerações foram arroladas as razões de ordem jurídica – uma legislação pertinente ao direito urbano entre nós . limitando as regalias dos proprietários urbanos (Jornal da Tarde. O fenômeno da concentração urbana verificada nos últimos 40 anos. no ano 2000. de caráter pleno e absoluto. mas. conceber a propriedade imobiliária urbana. foram apresentadas as considerações e justificativas técnicas. espraiando-se sem limites rígidos pela rápida incorporação de novos espaços ao perímetro urbano original. tendo em vista que. e as previsões indicavam que. determinou um agravamento por desequilíbrios regionais e uma profunda alteração na estrutura interna das cidades. a intelectual. Já não existe uma só propriedade. Atualmente. condicionada pelo fator social. que passaram a crescer de forma desordenada e pobre. a propriedade agrícola. 27/01/1982). sim.

7. decorreria da função social da propriedade em relação ao meio urbano. Nesse caso. não só para a implantação de equipamentos públicos. A intervenção do Poder Público passaria a exigir a obtenção de terrenos. Assim: “A descoberta de que o contexto em que ela se acha inserida é muito mais amplo do que o interesse privado do seu titular” (Jornal O Estado de São Paulo. 2. 3. ou a proibição de fazê-lo. possibilitar ao Poder Público manter áreas urbanas de reserva. . era necessário impor uma nova visão de propriedade cujo conteúdo seria estabelecido em decorrência do interesse comum objetivando o ordenamento da cidade e a melhoria da qualidade de vida nas cidades. 5. 27/01/82). mas também para promover e induzir a estrutura urbana desejada. como a realização de programas de renovação e localização mais conveniente de áreas industriais e habitacionais. modificar critérios de fixação de valores de desapropriação. permitir ao Poder Público o direito de revenda em casos de desapropriação. admitindo-se apenas a correção monetária correspondente ao período decorrido até a data do efetivo pagamento da indenização. a faculdade de edificar. Entre outras medidas balizadoras do anteprojeto destacam-se: 1. desapropriar imóveis para fins de renovação urbana. desvincular o direito de construir do direito de propriedade. ampliar o direito de preempção. 4. promover desapropriações urbanas por títulos da Dívida Pública e não mais em dinheiro. 6. mediante a desapropriação. estabelecendo a preferência para o Poder Público adquirir imóveis em áreas urbanas especiais onde se prevê rápida valorização motivada por obras públicas de grande porte.31 dos autores do anteprojeto.

mas . permitir melhor utilização do potencial de arrecadação do Imposto Predial e Territorial Urbano pela aplicação do princípio da progressividade. tornar possível a cobrança de contribuições de melhoria. a incidir sobre pessoas jurídicas de direito privado em virtude da localização ou expansão de suas instalações em municípios integrantes de região metropolitana. como água. como aeroportos e represas. mesmo não utilizados. determinar a edificação compulsória como forma de evitar a retenção de terrenos não ocupados. transferindo-lhes a construção e operação de serviços urbanos rentáveis. unir os esforços do Poder Público e da iniciativa privada. 17. 14. evitar a especulação imobiliária. . preservar áreas verdes necessárias à população. 15. evitar a ampliação excessiva de perímetros urbanos em detrimento da produção rural. criar novos impostos sobre a propriedade urbana. levando os empresários a assumir parcela dos custos indiretos da localização de suas propriedade. ou seja. 18. 12. 16. entre outros fatores. forçar o aproveitamento de lotes vazios dotados de melhoramentos públicos. entre outros. regular o uso do solo em torno dos grandes equipamentos públicos. por exemplo. com base na diferença entre os valores da aquisição e da alienação do imóvel. 13. sob pena de desapropriação e alienação a terceiros. 9. 11. reservar áreas para futuros equipamentos . não se considera para o seu cálculo apenas o valor do imóvel.32 8. a sua localização. 10. como o de valorização imobiliária.investimentos públicos – urbanos. pela obrigatoriedade do pagamento de serviços. e o Imposto de Localização Metropolitana.

foi colocada uma nota a qual dizia que o assunto ainda estava sendo estudado pelo grupo técnico do Ministério do Interior. Parágrafo Único – O Poder Público poderá prestar apoio técnico e financeiro àquelas associações reconhecidas como de utilidade pública. Ao passo que apenas dois. a regularização fundiária poderá dispor de diversos mecanismos já existentes.33 O capítulo oitavo. Artigo 26 – O Poder Público incentivará a formação de associações comunitárias sem fins lucrativos. Artigo 27 – na elaboração dos planos.quanto às áreas públicas "já foi enviado mensagem ao Congresso Nacional dispondo sobre a entrega ao BNH de terrenos públicos da União e das autarquias federais para a execução de programas habitacionais e regularização fundiária”. O objetivo seria propor medidas necessárias de aperfeiçoamento. possibilitando-lhes o acompanhamento de sua execução. No lugar. diretrizes e programas de desenvolvimento urbano. a negociação e as situações de perda de propriedade por abandono admitidos em lei social (Jornal da Tarde. se reportaram à participação da seguinte forma. denominado “regularizações da ocupação dos terrenos urbanos”.quanto às áreas particulares ocupadas por favelas. . dispostos na íntegra do projeto de lei. . E como se daria a participação da comunidade de acordo com este projeto de lei? A densa parte discursiva exibida pela imprensa ao relatar a nova proposta governamental se ateve às variáveis da argumentação técnica de ordem físico territorial para resolver os problemas urbanos. . sempre buscando não remover as pessoas. de acordo com as seguintes diretrizes: . como o usucapião. dentre os 56 artigos. o Poder Público contará com a participação das comunidades. não foi incluído no texto da íntegra do anteprojeto. a desapropriação por interesse social.buscar soluções com o objetivo de assegurar a propriedade à população já ocupante de áreas. visando ao desenvolvimento urbano. 27/01/1982). simplificação e agilização dos instrumentos e procedimentos para efetivar a regularização fundiária. das normas.

antes de enviar os seus planos de desenvolvimento municipais. também seria alterado o artigo 16. que encaminhará ao Poder Legislativo para exame e aprovação. bem como a garantia de um certo reforço por parte da sociedade para as medidas apresentadas. Dois parágrafos definiam a ação: Parágrafo primeiro – Quando a ação pública de que trata este artigo tiver por objeto a impugnação de um ato. De acordo com o artigo 27. tudo já explicitamente mapeado na proposta. o artigo 27 estava condicionado a não-aprovação do artigo 21. quanto aos objetivos e diretrizes do desenvolvimento urbano. Finalmente. a efervescência dos movimentos sociais naquele momento. O fato encerra possíveis revelações como a existência de controvérsias e contradições internas no governo. tendo em vista o impacto a ser causado na implementação.34 Mesmo assim. ao mesmo tempo em que algum tipo de participação aparece. convém chamar a atenção para as atribuições reservadas ao Ministério Público. será decretada a suspensão liminar deste. aprovação e conteúdo mínimo dos planos de desenvolvimento municipal e metropolitano)”. Portanto. à sua aprovação serão submetidos ao Conselho Deliberativo para fins de compatibilização com o plano metropolitano. Parágrafo segundo – Os municípios que constituem regiões metropolitanas. esse órgão constituía-se em parte legítima para promover ação visando à aplicação e execução da referida lei. para tanto. ao seu lado concorre a sua anulação. previamente. sendo que. Parágrafo primeiro – Os planos municipais de desenvolvimento urbano e suas alterações deverão ser de iniciativa do Poder Executivo. . O texto deste artigo retirava o envolvimento da comunidade: Artigo 21 – Os planos municipais de desenvolvimento urbano deverão atender às diretrizes federais estaduais. em especial as metropolitanas quando parte de uma região metropolitana (alternativa – colocar no artigo 16: Compete a União “prover sobre os procedimentos de elaboração. Parágrafo segundo – Qualquer cidadão poderá representar ao Ministério Público para promover a ação referida neste artigo.

para responder a primeira pergunta.35 Coube ao Ministério Público um papel de substancial relevância na proposta. foi dada ao quadro político no qual se inseria. através da identificação dos agentes políticos diretamente relacionados no processo. portanto. da montagem geral da proposta.a segunda posição reconhece firmemente a existência de problemas de grande importância no interior das cidades. que. 10 Duas questões principais motivaram a exposição: A que se propõe o projeto de lei federal sobre o solo urbano? A quem interessa o projeto da lei federal de uso do solo? A princípio. minimiza a existência de uma desorganização do espaço intra-urbano e procura de qualquer modo culpar unicamente o aumento populacional urbano decorrente do crescimento vegetativo como do excesso de migração campo-cidade. datado de 17 de junho de 1983. ao analisar o referido projeto. a legitimação processual (SUIANA. De certa forma as decisões não mais estariam sujeitas apenas às centralizações executivas. os defensores dessa posição procuram afirmar a inconstitucionalidade do projeto de lei proposto. sendo conferido a ele. Coincidentemente ou não (a nosso ver não é mera coincidência). 1995). não reguladora. como sendo o vetor causa dos problemas de moradia e da falta de infraestrutura persistente nas cidades brasileiras. é crucial ser compreendido melhor por todos nós. além das associações comunitárias. segundo ele. tanto os que estão a favor como os que estão contra o projeto de lei federal do uso do solo urbano. no 10 Artigo do Professor Candido Malta. A grande contribuição desse evento é a metodologia empregada para o conteúdo pretendido pelo autor. as possíveis polêmicas instauradas diante do volume considerável das novas instituições jurídicas teriam endereço certo. . basicamente contra o projeto. . cidades pequenas – cidades grandes. Malta recorreu à distinção de três posições básicas presentes no debate público em curso naquele momento. A ênfase. referente à Análise do Projeto de Lei Federal sobre Uso do Solo Urbano (Projeto de Lei nº 778/83) apresentado a Câmara Federal em Abril de 1983. reconhece também que os mesmos decorrem basicamente de uma especulação. . Cândido Malta apresentou uma análise sobre o PL 775/83 à Câmara do Deputados em Brasília. e evidentemente. Em abril de 1983. portanto. Fazia parte.a primeira.

portanto. mas também a reformulação do modelo econômico vigente. uma terceira posição não vê como suficientes os objetivos governamentais. e insuficiente pela timidez do instrumental proposto que recua em . que bem provavelmente constituiria a maioria. e uma reforma tributária para valer. afirmando que o objetivo do combate à especulação imobiliária exige não apenas o uso de armas urbanísticas. que são bens populares ou de salário. porém. E. porém o entendem insuficiente.os que percebem que dificilmente os problemas urbanos são solucionáveis apenas com a instrumentação urbanística vêem o projeto com simpatia por o considerarem um passo adiante.os que reconhecem a problemática intra-urbana. do mercado interno. . Defende por isso os objetivos do projeto de lei federal que a isso mesmo se propõe. ele destacou que a mesclagem das três evidentemente geraria uma quarta. discutindo o instrumental apresentado em sua eficácia para atingir os objetivos visados.36 mercado imobiliário e que é. uma reforma que volte a dar recursos para os municípios e governos estaduais implicará. exigirá dar-se prioridade aos serviços urbanos. Essa é a posição oficial do Governo da União a propósito do projeto de lei do uso do solo urbano enviado à Câmara Federal. a maioria delas dão ênfases diferentes aos três argumentos básicos de cada posição apresentada: . exclusivamente urbanos. preciso combatê-la. ou melhor. pois as especulações financeiras e imobiliárias são primas entre si. Insuficiente pelo lado da questão migratória. isto é. juntamente com a alimentação e o vestuário. Ao elencar essas posições. em que ele não toca.os que desconhecem ou procuram desconhecer a especulação imobiliária urbana e seus males dão ênfase às questões migratórias e de constitucionalidade. não a vinculam ao processo mais geral do desenvolvimento dão ênfase à necessidade de uma análise da instrumentação urbanística visando objetivos mais restritos. . e que constituem parcela importantíssima. para se aproximar dessas posições mais freqüentes.

foi montado o quadro abaixo. destinada a saber a quem interessa o projeto de lei federal de uso do solo. também. por não vincular a solução das questões urbanas à necessidade da reformulação do modelo econômico. constrói e vende o seu produto no mercado aberto e que pode ser tanto o loteador. uma grande preocupação com produtividade do trabalho da sua empresa por que o preço final sendo fixo. que transforma a terra bruta para o uso urbano. A indústria de materiais de construção não pode ver com simpatia . tanto mais ganhara quanto mais eficiente for o trabalho de produção a ser feito. tão necessários para a eliminação do enorme déficit de serviços urbanos. 3. procurando distinguir os vários agentes envolvidos no meio empresarial ligado ao mercado imobiliário: 1. de acordo com as respostas encontradas por Malta. principalmente. os quais nem merecem citação. O empresário imobiliário que atua por encomenda. que traria recursos aos governos estaduais. tradicionalmente. 2. Nesta análise. Para tanto. é criador de solosuporte de atividades urbanas que é o lote ou pode ser o construtor e vendedor de imóveis especialmente os de usos habitacional. ou seja. o chamado empreiteiro de obras tem. ele procurou identificar e compreender as possíveis relações existentes entre eles. redirecionando-o para o mercado interno. pela não-interligação com outros instrumentos fiscais que atuam sobre o mercado imobiliário. Na verdade.37 relação à proposta anterior do mesmo Governo Federal (como a exclusão quase total do instrumental legal que tem recebido a denominação de "solo criado". segundo o próprio autor. vem a ser a resposta à segunda pergunta feita no início da apresentação. É insuficiente o projeto de lei. acumulados nas cidades brasileiras nos últimos 30 anos. com sete grupos. o que propiciaria a verdadeira e substancial reforma tributária. mais especialmente aos municípios. configurando o cenário dos interesses diretamente envolvidos no processo. que procura implementar de forma prática a contribuição de melhoria). e que é seguramente hoje a maior porção da dívida social nacional. Aquele que trabalha no mercado de risco. inclusive de habitação. isto é. E é insuficiente. como o imposto de transmissão e sobre ganhos de capital em imóveis.

mesmo se limitados aos objetivos propostos. 6. Resumidamente. ainda que de forma acanhada. Quanto ao aperfeiçoamento das instituições jurídicas. enquanto tais. cada vez menos. mesmo para atingir os objetivos limitados do projeto de lei federal sobre o uso do solo urbano. 4. que lhes têm significado uma transferência de uma parcela da renda de setores produtivos. serem crescentemente absorvidos no custo final das edificações pelo pagamento da terra urbana. supervalorizado pela especulação.. 5.38 o minguados recursos destinados a construção imobiliária. ele afirma: (.. Os proprietários de terras. São suas principais vitimas ao subir o aluguel o qual decorre do valor do imóvel. Por isso vai lhe sobrando. como o direito de superfície. Os corretores de imóveis que ganham um percentual sobre o valor nominal da venda. Malta considera que o projeto de lei é fundamentalmente incompleto tanto quanto aos objetivos a serem atingidos como quanto aos instrumentos previstos. poderá contribuir positivamente. seja naqueles que vão se tornando mais centrais e acabam sendo invadidos pelo comercio e pela verticalização dos escritórios e apartamentos. para . proporcionalmente. em uma visão imediatista só podem ser a favor da especulação imobiliária. Afirma que o projeto é centralizador do poder em mãos federais em algumas dos seus pontos. que levanta preços e aquece o mercado. o direito de preempção. Quanto às inovações propostas. Por isso eles se contrapõem ao projeto de lei federal que estamos discutindo. Os proprietários de imóveis construídos também ganham com a valorização imobiliária dos bairros onde habitam seja nos bairros periféricos e novos a medida que se completam e se consolidam. 7. Os inquilinos são evidentemente contra especulação imobiliária. têm ganhado com a especulação imobiliária. é preciso discuti-las em sua eficácia e limitações.) retirando-lhe a centralização excessiva e a possibilidade de uso distorcido contrário ao interesse público desse instrumental renovador. a urbanização compulsória e maiores poderes de atuação da comunidade e dos cidadãos na defesa de seus direitos.

775/83 (ROLNIK. com a inclusão da matéria. o próprio MDU. ainda no regime militar. 2001). que pretende oferecer uma face legislativa à questão urbana. como registra o deputado Inácio Arruda: A distinção. no título Da Ordem Econômica e Financeira. o PL 775/83 foi praticamente deixado de lado. É um momento importante para os movimentos populares urbanos (ARRUDA. que resultaram no PL nº. o capítulo consagrado à política urbana. foi criado o Ministério do Desenvolvimento Urbano – MDU – gerando expectativas positivas para o tema urbano. Elege-se o plano diretor como referência do cumprimento da função social da propriedade. uma sociedade mais justa e por isso mais humana (MALTA. o Poder Legislativo atuou sobre o tema num caminho bem diferente. no entanto o próprio governo extinguiu. além do BNH. esta se refere principalmente aos temas relevantes ali dispostos. detalhado em seus artigos 182 e 183. vem em 1988: fruto do trabalho e debate da sociedade. 1983). o relator faz uma observação importante sobre o objeto em estudo neste trabalho. Há um reconhecimento nos movimentos populares urbanos com relação à inclusão da matéria no texto constitucional por eles motivado. Nesta passagem. foi válida a contribuição do PL 775/83. 2001). Se. materializando politicamente o princípio da função social . a nova Constituição brasileira é promulgada e inclui. mediante a desconsideração da proposta em termos de uma nova formulação de políticas públicas criada e abortada pelo próprio Executivo. Durante o período da Nova República. No entanto. como é o caso da função social da propriedade e dos instrumentos: Em 1983. É a partir da emenda da Reforma Urbana na Assembléia Nacional Constituinte que o legislativo passou a interferir no processo.SFH. De outro modo. Nesse tempo. o Executivo envia ao Congresso o Projeto de Lei nº 775/83.39 desenvolver em nosso país cada vez mais urbano. pelo menos no terreno legislativo e constitucional. o referido projeto tem aspectos relevantes a serem notificados conforme afirma a arquiteta Raquel Rolnik: As tentativas de construção de um marco regulatório a nível federal para a política urbana remontam as proposta de lei de desenvolvimento urbano elaboradas pelo então Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano. O Ministério promoveu um seminário nacional para reformulação do Sistema Financeiro da Habitação . em outro momento.

) nesse período reiniciou-se a intervenção em áreas faveladas.. Ao analisar a atuação das COHABs em relação aos programas alternativos durante a retomada da política de habitação popular na década de 80: (.40 da propriedade e estabelecendo diretrizes e instrumentos de política urbana. 1999). Esses elementos ajudam a montar o quadro conjuntural que gerou o PL 775/83. No entanto.. parcelamento. permite uma discussão mais profunda da problemática urbana. até hoje em vigor. sob a ótica legislativa. (. considera o projeto como expressão de avanço nos campos da política urbana brasileira.. Mas o tom . CASTRO. que dispõe sobre loteamentos. no início de 1982 foram expressão do avanço nos campos da política urbana brasileira (CASTRO. por sua vez..766.) A proposta de legislação. A Lei Federal nº 6766/1979 e o Projeto de Lei de Desenvolvimento Urbano. edificação e utilização compulsórios e direito de preempção. em resposta às reivindicações de movimentos ligados á moradia que exigiam soluções para a posse da terra e a falta de infra-estrutura urbana em favelas e loteamentos clandestinos. a questão do solo urbano e instrumentos inovadores como direito de superfície. como pode ser observado na reportagem do Jornal: As críticas mais freqüentes se referem ao caráter estatizante do projeto e ao fato dele representar uma "ameaça à propriedade privada". as críticas não foram poucas. um outro enfoque sobre o PL 775/83 é apresentado por Carolina Maria Pozzi de Castro (1999) em sua tese de doutorado sobre moradia em São Paulo. A autora contextualiza o referido projeto de lei diante da atuação dos movimentos populares e da política oficial do governo. a oposição ao projeto se deu com mais intensidade por parte dos setores ligados ao setor imobiliário. fruto dessa semente que floresce nacionalmente. Entretanto. Por outro lado. entre outros temas relevantes (ARRUDA. Além disso. 2001). É a partir do PL 775/83 que se passa a discutir. Também o faz ao referir-se à lei nº 6. As mudanças procuraram restringir os processos especulativos sobre a terra urbana e a propagação das formas clandestinas de parcelamentos e ocupação do solo nas cidades. com proposta de recuperação e urbanização.

41 dos documentos que essas entidades enviaram ao governo federal nem sempre foi tão brando. em alguns aspectos. Centro do Comércio do Estado de São Paulo e parte dos empresários da construção civil. as manifestações favoráveis foram divulgadas como descreve a arquiteta Ermínia Maricato: A reação favorável ao projeto ficou por conta de urbanistas conhecidos por atividades desenvolvidas em órgãos públicos o projeto chegou com dez anos de atraso. O IBAM reuniu planejadores e representantes de organismos oficiais de pesquisa e planejamento urbano e entrou na luta em defesa do projeto. não se pode esquecer que a iniciativa foi apresentada no final do regime burocrático-militar o contém em sua essência as principais diretrizes e instrumentos de política urbana. O IAB-SP também discutir e apoiou o projeto. gerou grande polêmica e oposição por parte do capital imobiliário. O PL 775/83 teve um desfecho que por pouco teria comprometido a manutenção da função social da propriedade. o Ministério do Interior . Não é sem razão que a sua apresentação. parece corresponder de modo abrangente à trajetória desse projeto. Embora o projeto de lei nº775/83 apresente. Em maio de 83. Nesse embate. 2/2/1982). traços autoritários e centralizadores. Confederação Nacional do Comércio. mas todos reconheceram sua necessidade (MARICATO. poderá gerar uma convulsão urbana. fundamentalmente a mesma estrutura (SUIAMA. à época. A síntese de Sérgio Gardenghi Suiama (1995). Confederação das Associações de Proprietários de Imóveis no Brasil. Todos apontaram correções a serem feitas no texto da lei. Federação do Comércio de São Paulo. A AELO-SP declara que o teor profundamente socializante do projeto de reforma urbana. além de desanimar a iniciativa privada e impossibilitar o crescimento econômico do país e a consolidação do regime democrático propiciado pelo governo brasileiro (Jornal O Estado de São Paulo. Sua importância reside igualmente no fato de que os projetos de lei de desenvolvimento urbano posteriores seguem. Esses ataques partiram principalmente da AELO – Associação dos Empresários de Loteamentos do Estado de São Paulo. 1983). disposta a seguir. como uma das peças principais da política urbana já posta em debate no país. 1995).

o deputado Bonifácio de Andrada (PDS). apresentou substitutivo que. ao tratar do Estatuto da Cidade. passando o projeto a ser apensado ao PL 5. o Movimento. Com conteúdo um mais abrangente. após mais de vinte anos de ditadura militar. e. fundamentada pela abordagem técnica e conceitual sobre a função social da cidade. fundada por setores ligados a Igreja Católica.788/90 (SUIAMA. 1995). Inicialmente. desfigurou completamente a iniciativa governamental. em que pese ter sido motivado pelo Poder Executivo no governo militar e não ter tramitado regularmente na Câmara. não chegando a ser submetida à aprovação. Porém. A composição dos seus integrantes procurou abranger diversos segmentos que de algum modo estavam relacionados à política urbana. na Câmara dos Deputados. resulta de uma demanda reivindicatória. visando manter intocado o direito de propriedade. No terceiro capítulo. Desta vez foi protagonizada por um Movimento que a incorporou em sua própria denominação: Movimento Nacional pela Reforma Urbana.42 reenviou a proposta de lei ao Congresso Nacional. Todavia. . esse projeto gerou considerável volume de discussão e controvérsia na sociedade. herdou a matriz de uma entidade chamada ANSUR – Associação Nacional do Solo Urbano.3 A proposta do Movimento Nacional pela Reforma Urbana apresentada à Assembléia Constituinte nos anos 80 A terceira retomada da reforma urbana se deu em meados de 80. com o início do processo constituinte a tramitação do projeto ficou truncada. 1. Este por sua vez teve seu surgimento motivado pelos debates da Assembléia Nacional Constituinte convocada para o estabelecimento de novo estamento jurídico. agiu como efeito catalisador de dois fatores determinantes presentes nesse processo: a proposição técnica herdada de outros tempos e a força dos movimentos. por uma outra. por parte dos movimentos sociais urbanos em face da crise urbana presente nas cidades. a reforma urbana ressurge abastecida por reivindicações mais próximas da reivindicação popular e dos ideais da democracia. Na condição de demandatário de uma nova proposição política sobre a cidade. rumo a redemocratização do país. que vinha sendo acumulada desde os meados de 80. Os proponentes da reforma neste momento foram os próprios integrantes do Movimento Nacional pela Reforma Urbana. Porém. o relator do projeto na Comissão de Constituição e Justiça. Desta vez. revisada e abrandada. novas considerações serão feitas sobre o Projeto de Lei de Desenvolvimento Urbano de 1983.

todos esses elementos relacionados ao urbano passaram a ter como ponto de partida o foco da função social. profissional da área jurídica. a abordagem dos direitos civis foi ampliada a partir de outras concepções sobre a função da propriedade. Não têm faltado mesmo hostilidade franca a propriedade. levando o debate sobre a cidade para o contexto nacional. desde que não infrinja os interesses maiores. parágrafo único) (. Nesse sentido. o direito absoluto é superado pelo direito coletivo. terreno em que somam esforços os marxistas e os católicos sociais (PEREIRA. Primeiro remete-se à função social da propriedade garantida pela Constituição. A destinação em termos do uso a ser-lhe dado deverá estar vinculada ao interesse social. A proposta reformista desse movimento foi trabalhada em torno de uma plataforma única de proposições. o principio norteador da propriedade urbana é a sua função social. depois num trecho logo a seguir. A lei garantirá tratamento especial à propriedade produtiva e fixará normas para cumprimento da função social (Constituição Federal. dentro dos parâmetros democráticos. Paradigmaticamente. Assim. De acordo com os termos enunciados por Pereira (1990). Desse modo. Ou seja.. por este princípio. 1990). tem relevância neste momento a observação contida neste trecho de sua publicação. A plataforma da Reforma Urbana conteve três definições básicas: A primeira diz respeito à função social da cidade e da propriedade urbana. técnicos de assessoria aos movimentos urbanos e intelectuais. Os princípios ali estabelecidos foram além das questões locais. de justiça social e de condições ambientalmente sustentáveis. o direito individual deve ser limitado aos direitos expressos pela coletividade.. Nesse sentido.43 lideranças comunitárias. estaria garantido a todo cidadão apropriar-se do território.). Em termos de direito. Sob o prisma do direito à cidade. artigo 185. como justificativa primeira para toda e qualquer intervenção urbana. e certa posição de inimizade aos abastados. é a prevalência do interesse comum sobre o direito individual de propriedade. É claro que o direito de propriedade se mantém. o espaço urbano teria o uso socialmente justo e igualitário considerando-se o equilíbrio ambiental. que colocava a temática da cidade no centro do debate dos problemas urbanos. identifica e relaciona determinados . setores não governamentais.

figura-se ainda em formação.esses direitos mal reconhecidos tornam-se pouco a pouco costumeiros antes de se inscreverem nos códigos formalizados. à informação. Para o autor. aos lazeres. a saúde. a habitação. que devem a ser incluídas num processo social até então distante. à vida (LEFEBVRE. No plano ideológico. é a politização do urbano por meio das pessoas moradoras na cidade. Constitui uma nova realidade. E mudariam a realidade se entrassem para a pratica social: direito ao trabalho. vem a ser uma ampliação da noção de direito pertinente à vida na cidade. A definição da gestão democrática da cidade era entendida como uma nova forma de planejar e governar as cidades submetidas ao controle e participação social. .44 sujeitos. No terceiro item está a gestão democrática da Cidade. o direito a cidade. Entretanto. Na verdade. os quais. sexual. Do mesmo modo. entendido como uma nova lógica que universalize o acesso aos equipamentos e serviços urbanos.. O segundo princípio da plataforma consiste no direito à cidade e à cidadania. entre outros. a educação. Nessa mesma linha do direito à cidade.. podem ser reconhecidos entre os integrantes do Movimento Nacional pela Reforma Urbana. também foram incluídos os direitos ao lazer. ainda da ação paternalista do Estado. cabe ressalvar o processo de amadurecimento e convencimento existente entre o aporte teórico e as reais condições concretas de transformação. continua: . sem qualquer tipo de distinção ou discriminação. em que toda a sociedade tem acesso à informação e conhecimento da realidade contida nos meandros da disputa de interesses presentes na cidade. produto. e que vislumbra a digna condição de vida urbana com a disposição de espaços culturais diversificados e ampla participação das populações das cidades. a instrução. Esta participação popular tende a ser a garantia dos dois primeiros aspectos. cultural e religiosa. 1968). a liberdade de organização. por sua vez. Em Henri Lefebvre (1968) pode-se encontrar fundamentos ajustados a esse princípio da plataforma. o respeito à pluralidade étnica. feita por meio do reconhecimento e da priorização da participação popular.

Pretende impor reformulações nos chamados levantamentos e diagnósticos dos reais problemas urbanos com a participação e envolvimento da população. Orlando dos Santos Junior definiu que: [naquele momento] o objetivo central do ideário da Reforma Urbana era a reconceituação do planejamento como instrumento de democratização da gestão (SANTOS JÚNIOR. de certa forma. Na verdade. passa pela ação do planejamento urbano a efetivação desses novos paradigmas. De algum modo. Nesta sintética definição do autor. Em face às razões que deram origem ao Movimento pela Reforma Urbana e à objetividade expressa em atuar diretamente no processo constituinte. por seu turno. O estatuto da cidade. E a relação entre os três pilares básicos da plataforma está sustentada na participação da comunidade.45 Mas. tem-se que a principal proposta desenvolvida por esse Movimento foi à elaboração da emenda constitucional conhecida como a emenda da reforma urbana. 1996). artigos . ao menos nos termos da lei. vem contemplar essa preocupação. Esse último aspecto será tratado em maior profundidade no Capítulo específico sobre o Estatuto da Cidade. pode-se evidenciar claramente a importância da gestão democrática no desencadear do processo. inserido no título "Da Ordem Econômica e Financeira" da Constituição de 88. a gestão democrática não tem apenas conotação política. colocou no centro do debate os principais aspetos teóricos existentes em torno das condições que de fato determinam a configuração social das cidades. Acerca dos ideais constantes da plataforma da reforma relacionados com o planejamento. Esse aspecto veio reconhecer os limites e imprecisões do atual conjunto de metodologias e técnicas utilizadas para se resolver os problemas urbanos. E. colocando a participação como condição para sua implementação. observa-se que se pretende uma reforma institucional e administrativa na concepção e na forma de se fazer planejamento urbano (SANTOS JÚNIOR. Todas as definições da plataforma da reforma urbana se relacionam diretamente à ação do planejamento urbano. Essa proposição constitucional deu origem ao Capítulo da Política Urbana. 1996).

Teve a assinatura de seis entidades nacionais e mais de 160 mil assinaturas subscrevendo o documento. também. foi escolhida a arquiteta Ermínia Maricato.46 182 e 182. A considerar o grande número de entidades populares envolvidas no processo. A instalação do mecanismo de iniciativa popular legislativa no regimento interno da constituinte foi um fator fundamental para a participação popular neste processo. a tarefa de redigir a Emenda Popular sobre Reforma Urbana sob o estímulo do Plenário Pró-Participação Popular na Constituinte. também em outros momentos as principais defesas de mérito foram feitas pelos intelectuais. o que propiciou a elaboração da emenda foi o estabelecimento da plataforma de princípios feito anteriormente. Aprovada em março de 1987 possibilitou que o movimento popular pudesse elaborar e defender as suas emendas no projeto da Constituição. professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo . A apresentação e a defesa da emenda na Assembléia Nacional Constituinte foi outro passo importante do Movimento Nacional pela Reforma Urbana como expressão de articulação mais ampla nos marcos institucionais. De certa forma.USP. no dia 27 de agosto de 1987. Na fase de debates realizados no Congresso Nacional. Assumiram. o Movimento pela Reforma Urbana conseguiu aprovar seus princípios e instrumentos nas constituições estaduais e nas Leis Orgânicas e Planos Diretores dos principais municípios do país. Entretanto. esse fato revela o destaque que o segmento dos intelectuais mantinha dentro do Movimento. por meio dessas emendas. foram canalizadas as propostas advindas das mobilizações totalizando mais de 12 milhões de assinaturas encaminhadas à Constituinte Federal. A emenda foi elaborada em pouco espaço de tempo devido ao calendário da assembléia nacional constituinte. Assim. as várias entidades e movimentos organizados em torno do Movimento pela Reforma Urbana participaram ativamente de audiências públicas prestando informes e subsídios junto à subcomissão da Questão Urbana e Transportes. Nos anos seguintes. Resultou na sistematização . da cidade do Rio de Janeiro. por intermédio da participação de seus integrantes. Para representar o Movimento e defender a emenda na Comissão de sistematização da Constituinte.

V – Discriminação de terras públicas.do Transporte e Serviços Públicos . lazer e segurança. obrigando-se o Estado a assegurar: I – Acesso à moradia.da Propriedade Imobiliária Urbana. III – Direito de preferência na aquisição de imóveis urbanos. Logo de início. IV – Desapropriação por interesse social ou utilidade pública. transporte público. Incluiu a gestão democrática e retomou este tema em capitulo próprio no decorrer do texto.O direito a condições de vida urbana digna condiciona o exercício do direito de propriedade ao interesse social no uso dos imóveis urbanos e o subordina ao princípio do estado de necessidade. Art. A segunda parte referente à propriedade imobiliária urbana dispôs vários instrumentos.dos Direitos Urbanos. . . VI – Tombamento de imóveis. Art. saúde. 2º . II – A gestão democrática da cidade. educação. demarcou as obrigações do Estado com relação aos direitos urbanos.Todo cidadão tem direito a condições de vida urbana digna e justiça social. assim como preservação do patrimônio ambiental e cultural. 1º . energia elétrica.47 de proposições consensuais dentro do movimento em torno das questões principais da política urbana. nos dois primeiros artigos.da Gestão Democrática da Cidade. saneamento. pelos quais o Poder Público deveria se garantir os direitos urbanos. Disposta em 23 artigos foi estruturada em cinco tópicos: . II – Imposto sobre valorização imobiliária. iluminação pública. Os instrumentos foram dispostos artigo 3: I – Imposto progressivo sobre imóveis. comunicações. VIII – . VII – Regime especial de proteção urbanística e preservação ambiental. .da Política Habitacional.

e segundo Saule Júnior. do mesmo modo que o imposto progressivo. se fundamentam na função social da propriedade. já vinham sendo propostos desde a década de 60. destacando que houve resistência até os últimos instantes do processo de negociação da Comissão de Desenvolvimento Urbano em 2001. propôs a criação e manutenção de uma agência para coordenar as políticas gerais de habitação via legislação federal.48 Concessão do direito real de uso. O que vem a ocorrer com a aprovação do Estatuto. fica o poder público obrigado a formular políticas habitacionais que permitam: I – regularização fundiária e urbanização de áreas ocupadas em regime de posse ou em condições de sub-habitação. De modo semelhante ao Seminário do IAB. IV – assessoria técnica à construção da casa própria. Art. vindo a permanecer no texto definitivo da Constituição. 12º.Para assegurar a todos os cidadãos o direito à moradia. que direito de propriedade territorial urbana não pressupõe o direito de construir. III – regulação do Mercado imobiliário urbano e proteção ao inquilinato. com a fixação de limite máximo para o valor inicial dos aluguéis residenciais. segundo o argumento de que seria necessário uma lei regulamentadora para tal. A política habitacional. já havia sido proposta como condição fundamental para a aplicação dos instrumentos contidos na projeto de lei do executivo em 1983. IX – Parcelamento e edificação compulsórios. devendo ser autorizado pelo poder público municipal. No caso. II – acesso a programas públicos de habitação de aluguel ou a financiamento público para a aquisição ou construção de habitação própria. terceiro bloco. Também a proposta do chamado direito de usucapião urbano compôs este bloco. foi uma das maiores conquistas do Fórum pela Reforma Urbana. teve contestação na sua aplicação. Nota-se que instrumentos foram recuperados de momentos anteriores da trajetória da reforma urbana. . O imposto progressivo sobre imóveis e a desapropriação por interesse social ou utilidade pública. Contudo. tratou de modo genérico a questão. sob o entendimento. praticamente todos eles. remetendo ao poder público a obrigação de formular políticas para o setor mediante diretrizes balizadas na regularização fundiária. No entanto. a desvinculação do direito de propriedade do direito de construir. por exemplo.

diferentemente das outras ocasiões.49 incluindo o controle da população local nesse processo através das suas entidades representativas. os quais passariam a ser atualizados com periodicidade mínima de 12 meses. Assim. E. sem uma gestão democrática. Em relação aos conteúdos direcionados a reforma urbana até então. pagamento de prestações e os débitos de financiamento.Na elaboração e implantação de plano de uso e ocupação do solo e transporte e na gestão dos serviços públicos. De outro modo. Sacramentou novo entendimento sobre a participação popular na cidade. a concretização da reforma urbana ficaria cada vez mais distante. tendo como limite máximo o índice de variação salarial. tanto na fase de elaboração como de implantação: Art. o poder municipal deverá . Assim a participando seria inserida na gestão publica do urbano. os dois últimos blocos dedicados ao transporte e a gestão democrática da cidade.As tarifas dos serviços de transportes coletivos urbanos serão fixadas de modo que a despesa dos usuários não ultrapasse 6% do salário mínimo mensal. Seguindo a mesma lógica utilizada no reajuste dos alugueis na parte da política habitacional. Temas que até então não haviam sido incorporados em nenhuma formulação reformista anterior.Lei ordinária disporá a criação de um fundo de transportes. os aumentos nas tarifas dos serviços de transportes coletivos urbanos foram condicionados a um percentual limite vinculado ao valor do salário mínimo: Art. administrado pelos municípios e Estados para cobertura da diferença entre o custo do transporte e o valor da tarifa paga pelo usuário. § 2º No reajuste de tarifas de serviços públicos será observada a autorização legislativa e garantida a ampla divulgação dos elementos inerentes ao cálculo tarifário. 17º. A expressão gestão democrática significou um novo conceito para a reforma urbana. passando a uma fase de institucionalização e reconhecimento. § 1º . 18º. em que a participação seria a condição de existência para o êxito de sua implementação. a participação da comunidade esta garantida no processo. estabeleceu um teto para o reajuste dos aluguéis residenciais.

definindo instrumentos urbanísticos de controle fundiário e de participação democrática na gestão urbana (MARICATO. poder requerer do Judiciário a determinação e aplicação direta das normas em questão. Por outro lado. Ao contrário. passando necessariamente pelo legislativo. Embora não tenha sido aprovado o conjunto das propostas contidas na emenda. nos meandros das propostas contidas no anteprojeto da lei de desenvolvimento urbano de 83 como no texto do Estatuto da Cidade. conselhos municipais de urbanismo. 1. O fenômeno impõe uma inversão fantástica . Porém. foi atribuir ao Ministério Público. No primeiro caso. além de qualquer interessado. a exigência da participação da comunidade no processo de elaboração e implantação de plano de uso e ocupação do solo. E no Estatuto da Cidade. conselhos comunitários e plebiscito ou referendo popular. e a implicação da responsabilidade penal e civil as autoridades da administração pública quanto à omissão no descumprimento dos preceitos relativos aos mecanismos implícitos na gestão democrática. a inserção do Capítulo da Política Urbana no texto constitucional se deve a duas razões: a existência da emenda da reforma urbana e as articulações feitas pelos integrantes do movimento. até a década de 50 a população do campo era predominante. Nesse contexto. utilizando-se de: audiências públicas.4 A propósito de considerações sobre o planejamento urbano O Brasil entra no século XXI com a configuração mais urbana de toda a sua história. de modo assemelhado a improbidade administrativa previsto no Estatuto da Cidade. os debates e as negociações giraram em torno das questões apontadas pelo conteúdo ali expresso. 2000). além dos dispositivos das audiências públicas e conselhos. em termos numéricos. Ele não incorporou a proposta de obrigatoriedade do plano municipal. em relação à das cidades. Tanto.50 garantir a aprovação pelo legislativo e a participação da Comunidade através de suas entidades representativas. a desmoralização dos planos urbanísticos pode ser constatada no texto proposto pela emenda. Ela foi mais objetiva. não foi assim durante a maior parte dos seus quinhentos anos.

a inversão entre o contingente urbano e rural ocorreu nos anos 50. tem-se cerca de 80% dos habitantes vivendo nas cidades. ao Brasil é reservado desenvolver seu potencial industrial. Pelo lado da ocupação do território. de acordo com o qual a construção de Brasília aparece como operação fundamental no curso dessa estratégia (ROLNIK. Uma realidade que começa a sofrer alterações desde o início da urbanização. evidentemente. Embora o processo de urbanização já tenha se iniciado desde os anos 20.11 Sobretudo. Além. Na condição de país periférico. A 11 Essa conjuntura implica modificações na ordem interna do país compreendida pela relação entre o aparelho estatal e a rede urbana (OLIVEIRA. como também pela interface do Estado com o espaço urbano propriamente constituído. a partir dos anos 50 inicia-se uma fase na economia do país consoante às redefinições internacionais impulsionadas pelos países centrais. In Espaço e Debates. no ano 2000. O sucesso dessa empreitada resultou num território inteiramente interligado.6. nº. 1990). em menos de 60 anos. a partir desse momento. tanto pela expressiva rede de estradas. como pela circulação de mercadorias e meios de comunicação. que. sobretudo com a industrialização. passou de uma cidade de relativa significância no conjunto da rede urbana brasileira. de a maioria das metrópoles se localiza principalmente mais próximo da costa leste do território brasileiro. 1982. com a criação de um mercado unificado por meio de um projeto de interiorização do país. desenvolveu-se o modelo urbano industrial. Entretanto. para se transformar na maior aglomeração da América Latina. . Hoje essa população urbana se encontra espalhada por uma vasta rede de centros urbanos de vários tamanhos por toda a extensão do país. seja pelas novas relações sociais de produção. Ver texto de Francisco Oliveira intitulado “O Estado e o Urbano”. dando sua parcela de contribuição nesse novo espaço de crescimento do capitalismo mundial. 1982). em razão das novas relações que passaram a ser estabelecidas entre o Estado e a cidade. Várias cidades atingem tamanhos enormes com este processo como é o caso de São Paulo. de acordo com a ocupação feita pelas explorações desenvolvidas a partir do litoral adentro. Seja pelo lado da divisão social do trabalho mais perceptível pela interação entre cidade e campo.51 resultando que.

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disposição atual do país retrata esta vasta rede de centros urbanos de vários tamanhos constituída nesse período. A análise dos dados populacionais verificados a partir dos anos 40, conforme o quadro 1, demonstra a inversão entre a populacional rural e a urbana. Com base nos dados obtidos ao longo destas décadas, projetam-se índices de população ainda maiores até 2025.

Quadro 1: População Rural e Urbana no Brasil de 1940 a 2025 (em percentagem)

Ano 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000 2010 2020 2025

População Rural 68,8 63,3 55,3 44,1 32,4 26,1 21,0 17,4 14,9 14,1

População Urbana 31,2 36,2 44,7 55,9 67,6 73,9 79,0 82,6 85,1 85,9

Fonte: FIBGE, 1940 – 1980. FIBGE – CELADE, 1990 - 2025·.

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Apesar de a expansão das cidades ter ocorrido de modo generalizado, o ritmo mais intenso não se deu nas metrópoles, mas nos centros urbanos de cinqüenta a cem mil habitantes. Entre outros fatores causais, observou-se o deslocamento das indústrias para a região metropolitana ou para as cidades do interior, como foi o caso do interior do Estado de São Paulo; as transformações ocorridas na agricultura verificados na região sul (oeste do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e norte do Paraná), a concentração da propriedade e a mecanização, e ao predomínio da produção de grãos para exportação como fortes indutores de fluxos migratórios na chamada frente de expansão, com as populações concentradas nas áreas de mineração em pólos exportadores e junto a grandes obras de infraestrutura regiões Centro Oeste e Norte. É por esses marcos que o quadro da rede brasileira de cidades reflete o projeto urbano da ditadura militar como se vê nos diversos centros urbanos no país. Ao mesmo tempo em que significou a produção, em cada cidade, de uma espécie de cidade paralela – precária, clandestina, ilegal, infra-equipada -, que se constitui nas favelas e ocupações subnormais das periferias urbanas do país (ROLNIK, 1990). Nesse novo período, pós 1964, modifica-se, de forma radical, a prática do planejamento urbano e regional no Brasil, marcado a partir da forte atuação do SERFHAU – Serviço Federal de Habitação e Urbanismo -, criado em agosto do mesmo ano do golpe. Entre outras atribuições mais ligadas à habitação, essa instituição também teve o papel de atuar no planejamento urbano, dando diretrizes e prestando assessoria aos municípios. É a partir desse momento que se define uma política nacional de planejamento urbano, com elaboração de planos feitos a partir de uma metodologia estabelecida por aquele órgão. Os recursos federais destinados aos investimentos urbanos decorrentes desta política foram basicamente viabilizados através da criação do Banco Nacional da Habitação – BNH. Segundo Raquel Rolnik (1990), com o Sistema Financeiro de Habitação – SFH - e o Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo – SBPP considerável volume de recursos foi utilizado para financiar esse projeto. Notadamente a partir da centralização da poupança voluntária e compulsória (Fundo de Garantia por tempo de Serviço) em vigor no país.

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Diante do novo regime, do esvaziamento do legislativo e da desarticulação da sociedade civil, o planejamento foi cada vez mais se tecnificando e isolando da sociedade, enquadrado e limitado pela visão centralizada e tecnocrática que dominava o sistema de gestão do país como um todo (ROLNIK, 1990; FELDMAN, 1996). Surgem, nesse meio, os planos tecnocráticos os quais, segundo a arquiteta Ermínia Maricato, resultaram de um saber especializado que vinha de fora do município, que ignorava a opinião da população e, não pouco freqüentemente, a dos quadros técnicos que compunham a própria administração municipal. Esse modelo foi dominante durante todo o período de vigência do SERPHAU, órgão responsável por coordenar nacionalmente a elaboração de Planos de Desenvolvimento Integrado, durante a ditadura militar, de 1966 até a sua extinção em 1974 (MARICATO, 1997). Porém, de modo mais preciso, também os estudos da professora Sarah Fedldman12 não atribuem à conjuntura política autoritária a produção da “tecnificação” no planejamento urbano brasileiro. Mas, segundo a autora, é em pleno período democrático que se instalam as bases do planejamento tecnocrático, que no regime autoritário será apenas potencializado (FELDMAN, 1996,). Nesse sentido, o mesmo ocorre com o processo de “despolitização” dos problemas urbanos, geralmente identificado a posteriori. Ao longo dos anos 60 e 70, foi se gerando uma periferia autoconstruída e sem infra-estrutura. Esse padrão se expandiu ate o final dos anos 70, quando o "milagre brasileiro" entrou em crise, o projeto do governo militar passou a ser mais questionado e se iniciou a transição democrática. Para Luiz César de Queiroz Ribeiro (1996), de acordo com o seu modelo analítico , a partir de 1950, o urbano entra na era do desenvolvimentismo, e passa a ser tratado sob este ponto de vista. Segundo ele: O objetivismo tecnocrático predomina na formulação da questão urbana, a serviço do nacional-desenvolvimentismo. O projeto de constituição da nação desloca-se para o eixo econômico. Essa ideologia consegue, todavia, articular esse projeto
FELDMAN, Sarah. Planejamento e Zoneamento. Tese de doutoramento. USP. São Paulo, 1996. Neste trabalho, Luis César de Queiroz Ribeiro procura construir um modelo analítico que permita identificar os principais padrões de planejamento urbano historicamente formulados no Brasil e a sua vigência em determinadas experiências. Por padrão, ele entende o conjunto dos princípios que orientam o "diagnóstico da realidade urbana", bem como a definição da forma, objeto e objetivos da intervenção proposta.
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Esse modelo. esse modelo começa a enfrentar dificuldades. O primeiro é a reforma urbana modernizadora.55 com uma pratica de modernização acelerada baseada na internacionalização da economia (RIBEIRO. 1996). Conforme analisa Ribeiro. essa modernização provocou um quadro de tensões sociais significativo no campo da organização sindical e da mobilização em trono das condições de vida. Neste trabalho. todavia. . em meados dos anos 80 quando se busca resgatar o caráter redistributivo presente na proposta de Reforma Urbana de 1963 (RIBEIRO. Enquanto o segundo corresponde à reforma urbana redistributiva: Esse padrão emerge a partir do desenvolvimento de formas de mobilização em torno da apropriação dos benefícios da urbanização e da ação do Estado. No entanto. principalmente a partir da emergência de movimentos sociais na cidade. A causa dessa situação seria a modernização conservadora iniciada com a política dos militares pós64. a dimensão social passa a predominar na tematização da questão urbana (RIBEIRO. 1996). Ao fim do período. uma espécie de desenvolvimento baseado nos moldes do fordismo europeu ou americano. propiciaria a parcelas significativas da população o aumento real dos salários ou as garantias e suporte oferecido pelo Estado. caracterizados como fruto da dependência do país. Já a partir do final dos anos 70. 1996). os acontecimentos do final da década de 70 motivados pelos movimentos deslocam a temática urbana para as demandas sociais das cidades. Sua expressão principal se dará no âmbito das discussões em torno da Constituinte. o autor ainda discorre sobre outros dois padrões relacionados com os objetivos desta pesquisa. na qual o tema do planejamento aparece como forma privilegiada de enfrentamento dos problemas sociais. 1996). que já foi mencionada no primeiro capítulo. Começa a se delinear uma nova conjuntura teórico-política. cujos desdobramentos ainda envolvem a nação brasileira no presente. causando uma acirrada disputa em torno dos benefícios gerados pela ação do Estado (RIBEIRO.

Esse padrão é constituído por meio de associações de técnicos. entidades de assessoria a movimentos populares. de certa maneira. o que se alega é que trazer para o centro da discussão a questão social não deveria ser limitante para as ações nem as repercussões no âmbito jurídico. a estrutura administrativa comporta essa atividade nos órgãos responsáveis pela organização e disciplinamento do espaço físico territorial do município. nota-se que.14 No entanto. e entidades representativas de movimentos populares. como de sindicatos de arquitetos e engenheiros. e por uma postulação de uma presença "protetora" do Estado.4. que se encontraria fixada nos embates dos trâmites legais. 1. traços do populismo. Por outro lado. Visto por esse ângulo. colocando-se como eixo à produção de novos direitos sociais. grandes ou pequenas.56 O diagnóstico apresentado por este padrão é centrado nas desigualdades e nos direitos sociais. A exclusão social e política das camadas populares configura o eixo do discurso. por um lado. o que nos levaria a ver neste movimento. marcada pelo "autonomismo" dos movimentos sociais.1 A esfera técnica e a política da atividade de planejamento A atividade de planejamento urbano tem sido cada vez mais utilizada e difundida nas cidades brasileiras. 1996). a colocação feita pelo autor vai no sentido da necessidade de ampliar a ação ou a representação. Associação Nacional do Solo Urbano – ANSUR – e o Instituto Pólis. O campo de atuação desse padrão é essencialmente o jurídico. Ribeiro faz algumas ponderações sobre esse padrão: Existe uma contradição na sua proposta [da reforma urbana]. Daí que o seu ponto culminante tenha sido a luta em torno da Constituição Federal (RIBEIRO. como a Federação dos Órgãos para Assistência Social e Educacional – FASE -. Entretanto. Geralmente. Ele estabelece uma distinção entre ganhos lícitos e ilícitos na produção da cidade. . bem como entidades representativas das alas progressistas da Igreja.

relaciona as duas expressões: No Brasil a palavra planejamento associada a urbano é mais recente que urbanismo.57 recentemente. 1999) Retornando a Villaça. na década de 1960. a década de 50 é um momento de importantes transformações no campo dos estudos urbanos pela emergência de novos temas. a racionalidade e à eficiência. enquanto urbanismo ainda guardava resquícios do "embelezamento" e sempre foi mais associado à arquitetura e às artes urbanas (VILLAÇA. .. (VILLAÇA. a introdução de novos métodos e a participação de profissionais de outras disciplinas que. os estudos de Maria Cristina Leme em torno da formação do pensamento urbanístico no país destacam um momento significativo para essas definições: No Brasil. 1995). no seu trabalho Uma contribuição para a história do planejamento urbano no Brasil. desenvolve-se no Brasil um discurso da necessidade de integração entre os vários objetivos (e ações para atingi-los) dos planos urbanos. o qual será discutido no capitulo quatro. o nome de planejamento urbano ou planejamento urbano (ou local) integrado. por mais amplo que seja o conceito de plano. 1995).) 14 Esse padrão. a partir da década de 50. Esse enfoque passou a centrar-se (mas não necessariamente a se restringir) na figura do plano diretor e a receber. e sempre teve uma conotação associada à ordem. até aquele momento. corresponde aos integrantes do Fórum Nacional de Reforma Urbana. O professor Flávio Villaça. Parece-nos evidente que só podem ser consideradas da esfera do planejamento urbano apenas aquelas ações do Estado sobre o urbano que tenham sido objeto de algum plano.. tem-se que. novas atribuições relacionadas a gestão têm sido debatidas e encaminhadas por profissionais atuantes nesse campo. Nesse particular. não haviam se ocupado da questão urbana (LEME. (. investigando a trajetória do planejamento urbano das décadas recentes. pelas definições de Ribeiro (1997).

desenvolveu-se entre os engenheiros arquitetos. 1995). A mudança fica por conta dos planos. Assim. Mesmo quando o urbanismo era ensinado nas escolas de engenharia. há uma dificuldade de se aprovar a lei do plano diretor por inteiro. portanto. No entanto. à "arquitetura das cidades". Na prática. segundo o autor. caracterizada por uma suposta visão geral do conjunto (VILLAÇA. como aparentemente em todo o mundo latino. Em outra passagem: No Brasil a palavra planejamento associada ao urbano é mais recente que urbanismo. Villaça define tais planos com a expressão: plano sem mapa..) o urbanismo no Brasil. teoricamente. enquanto urbanismo ainda guardava resquícios do embelezamento e sempre foi mais associado à arquitetura e à arte urbanas. que regula loteamentos. a racionalidade e à eficiência. para assumirem formato substancialmente mais simples. 1995). Essa foi à razão pela qual o ensino do urbanismo nasceu no Brasil junto como ensino da arquitetura.. ficando para um segundo momento discutir e aprovar como seria a implementação de fato daqueles princípios primeiros. tem-se aprovado um plano diretor sem consistência de matéria legalmente regulamentada e. 1995). dispensando o diagnóstico e a grande quantidade de mapas e estatísticas.58 a expressão Planejamento Urbano serve para designar essas formas específicas de ação – ou de discurso – do Estado sobre o espaço urbano. Na década de 70. aparece inicialmente associado à "arte urbana". . Por outro lado. que deixam de dispor de complexidade e de rebuscamento técnico e da sofisticação intelectual até então verificados. Elaborados pelos próprios técnicos municipais. é a que mais se aproximou do que se denomina planejamento urbano. ou seja. e sempre teve uma conotação associada à ordem. políticas e diretrizes. alguns autores consideram que a Lei Federal 6766/79. sem condições de aplicação direta. a cidade continua sem o plano. pois se trata de uma lei especificamente espacial. (. os princípios. com o objetivo de organização do espaço (VILLAÇA. com os planos há uma simplificação do planejamento. Por estas razões. ao "embelezamento urbano" (VILLAÇA. esses novos tipos de plano eram compostos de acordo com objetivos. a história tem demonstrado que apenas tem se conseguido aprovar as diretrizes gerais.

inicia um intenso processo de codificação técnica do zoneamento que realiza deforma experimental no espaço urbano. Por outro lado. ao se referenciar ao zoneamento como atividade de planejamento traz a tona os aspectos preponderantes da legislação urbanística.59 Ao final do seu trabalho.15 Por outro lado. que são estudadas. cumprindo missão ideológica de ocultar os problemas das maiorias urbanas e os interesses dominantes na produção do espaço urbano (VILLAÇA. por um lado. referenciada nas leis americanas. 1995).72). Segundo Sarah Feldman (1996. já era fruto das práticas que vinham sendo construídas sistematicamente ao longo do tempo. por outro. reconhece o zoneamento como um dos principais aspectos do planejamento urbano que está sendo aplicado até hoje nas cidades. o planejamento urbano no Brasil tem sido fundamentalmente discurso.. No caso da cidade de São Paulo..) Entre 1947 e 1957 se constrói uma concepção do instrumento consensual entre os funcionários do Departamento. através de leis que atingem parcelas do território urbano – como um mosaico de leis parciais – e. Enquanto os planos demoram para ser elaborados e mexem com a cidade toda. Nesse sentido ele se exprime: Exceção feita ao zoneamento – o único aspecto do planejamento urbano brasileiro que tem sido vivo e conseqüente. No entanto. O instrumento se constrói. que se colocam como um modelo de organização global da cidade(. embora sabidamente elitista. o zoneamento enquanto instrumento técnico já havia sido absorvido pelos engenheiros do Departamento de Urbanismo desde 1955 (FELDMAN. além ao analisar os primeiros marcos do zoneamento difundido no país também recupera aspectos históricos O estudo de Sarah Feldman compreende o Zoneamento e o Planejamento da cidade de São Paulo entre 1947 e 1972. através da elaboração de propostas de leis abrangentes ao conjunto da cidade. podendo inclusive incidir em partes específicas da malha urbana. desde 1947. analisadas e reproduzidas. embora tenha se reportado a um exemplo. pág. o autor conclui o plano e o planejamento urbano não chegaram a existir de fato desde que surgiram no Brasil. a figura do zoneamento suportada pela legislação urbanística. no entanto. é feita em curto espaço de tempo e não necessariamente precisa abarcar toda a cidade. “a partir de 1947.” 15 . há de se considerar a importância desta cidade. tendo em vista o efeito irradiante provocado nas demais localidades do país. a professora Sarah Feldman. Quando foi aprovado nesta cidade. 1996). em 1972.

discutido no terceiro capítulo. 16 . corresponde a ascensão da legislação como instrumento por excelência de planejamento (FELDMAN. por isso tem sido um instrumento eficiente de planejamento urbano. muitas vezes serve a interesses específicos e fragmentados pela cidade. 16 Ao relacionar o plano ao zoneamento. que. corroborando com Villaça nesse aspecto. Nessa linha. Não exatamente pela profundidade conceitual do planejamento urbano ou zoneamento. ela destaca o papel determinante da legislação urbanística no Brasil por intermédio da legislação referente ao zoneamento. Finalmente. por outro lado. E. levanta a hipótese que a partir dos anos 40 se consolida uma visão legalista do urbanismo brasileiro. esse último aspecto do planejamento urbano referente à legislação urbanística remete a discussão feita pela segunda parte deste trabalho. desenvolvida no depto de arquitetura e Urbanismo – EESCUSP.60 importantes da legislação urbanística. o qual. ela identifica que o processo de declínio da importância do plano como instrumento de intervenção no espaço urbano. 2001). mas pelos aspectos relativos as demandas políticas e técnicas atomizadas em torno do arcabouço jurídico incrementado tanto pela nova constituição em 1988. Nessa linha. Extraído do texto de Sarah Feldman intitulado: Avanços e limites na historiografia d legislação urbanística no Brasil baseado na pesquisa “legislação urbanística e Habitação Econômica no Brasil: Nexos com o Movimento Moderno (1960-1964)”. como pelo Estatuto da Cidade.

61 Capítulo 2 Os Movimentos Urbanos e a emergência do Movimento Nacional pela Reforma Urbana no Brasil na década de 80 “Ver é mais fácil do que pensar” Anhaia Melo .

foram dispostos diferentes atributos no sentido de caracterizá-lo dentro de suas especificidades históricas. A ênfase técnica explicitada no discurso defensores da plataforma reformista foi demonstrada. . entre outros. sugerindo reflexões acerca de suas principais causas.62 Introdução Este capítulo aborda os Movimentos Sociais Urbanos. Maria da Gloria Gohn e Eder Sader. Os efeitos da globalização combinados e a descentralização do processo constituinte a situação se torna mais complexa. destacando-o como principal proponente e defensor da minuta da emenda da reforma urbana. composição. A exemplo do que foi sintetizado na emenda constitucional. Ao final. Para tanto. impondo outros horizontes. procurou-se compreender o papel histórico destas organizações rumo ao processo de redemocratização do país. A par da resistência e do anseio pela liberdade. Autores como Castells. da qual a articulação em torno da reforma também é atingida por outra conjuntura política em nível mundial. Nesse sentido. considerando as diversidades e particularidades de uma conjuntura marcada pela ditadura militar. buscou-se compreender a emergência dos movimentos urbanos ocorridos no Brasil nos anos 70. orgânicas e políticas. ideologia e identidade. em boa parte. entre outros. apresenta-se a década de 90 como uma nova fase para o conjunto dos movimentos sociais. Desta forma. pelo papel cumprido pelas assessorias de profissionais da área aos movimentos. conforme foi visto no primeiro capitulo. procurando melhor compreensão da sua natureza. Foram explorados aspectos relacionados ao surgimento. com destaque para Movimento Nacional pela Reforma Urbana. procurou-se relacionar o Movimento com a conjuntura política estabelecida com a Assembléia Nacional Constituinte. Inicialmente. foram utilizados como referências da literatura técnica científica para estudo dos movimentos sociais urbanos. A contribuição destes trabalhos veio no sentido de fornecer parâmetros e definições sobre a ocorrência dos movimentos urbanos. A análise do Movimento Nacional pela Reforma Urbana coube neste capítulo com o objetivo de explicitar a sua importância na construção de um processo democrático para planejamento urbano.

que. com a eleição indireta de Tancredo Neves. Outros. seguida por tortura e. não raramente. o país teve a maior intensidade de repressão política e violência do regime. a perseguição de 1968 e a dura repressão que se abateu sobre todos os que se opuseram efetivamente ao regime militar geraram a prisão. chegam a ser negativos. representados pelo general Castelo Branco. de processo de redemocratização política. Na segunda fase. A terceira fase começa no ano de 1974. inaugurando um período de exílio. Predominaram os setores mais liberais das forças armadas. escolhido presidente após o impedimento de Costa e Silva. com a posse do general Ernesto Geisel e termina em 1985. O primeiro momento foi o intervalo entre 45 e 64 em que pese à cassação do registro Partido Comunista em 1947. No seu início.63 2. Na economia. o período dos governos militares pode ser dividido em três fases. por morte de várias lideranças políticas. No campo da economia. foi um período de combate à inflação. no início dos anos 80. A primeira ocorre entre 1964 1968 sob o governo do general Castelo Branco e o começo do governo do general Costa e Silva. Esse processo continua com o general João Batista de Figueiredo entre 1979 e1985 quando vão sendo revogadas as leis de excessão concomitantemente ao crescimento das forças contrárias ao regime. Do ponto de vista econômico. sindicais e estudantis. então. período entre 1968 e 1974. sob os efeitos da crise do petróleo de 1973´. do ponto de vista dos direitos civis e políticos. Pela segunda vez tivemos um período no qual aflorava o ideal democrático no país.1 A conjuntura política dos anos 60 e 70 O golpe militar de 1964. de forte queda no salário mínimo e de pequeno crescimento que. tem-se a redução dos índices de crescimento. encaminhada pelo general Geisel. . chamado. Inicialmente diante de contradições entre os próprios militares desenvolvem-se iniciativas menos repressoras para a lógica do sistema. tiveram de abandonar clandestinamente o país. houve o contraste entre o crescimento econômico e a redução do salário mínimo. O comando do país foi reservado ao general Garrastazu Médici. Para melhor compreensão. na maioria das vezes. também perseguidos pelos organismos de segurança do Estado. foi caracterizado por intensa atividade repressiva seguida de sinais de abrandamento. somente em 1968 conseguiu retornar os altos índices registrados na década de 50.

houve um aumento notável na . entre outros. que ousaram desafiar as forças repressivas para protestar contra o que entendiam ferir os direitos de melhores condições de transporte para trabalho. construir um novo regime de liberdade com esperança de uma sociedade democrática. De 1977 em diante. Apesar não estivessem articulados entre si. e o processo de ocupações em bairros periféricos. sobretudo na cidade de São Paulo. Originários da prática da própria luta. e as manifestações de grupos de artistas e intelectuais. Além das reivindicações específicas. A atuação se dava principalmente pela pressão sobre as instâncias governamentais para conseguir melhorias de caráter coletivo para o bairro ou para a comunidade. nesse processo. Na parte final dos anos 70. sobretudo nos anos que precederam a transição para um regime democrático. Aos poucos. despontaram-se pela capacidade de contrapor e reagir às políticas ditatoriais. num momento em que não se permitia outra maneira de agir (MOISÉS. em meados de 74. como resultante do acúmulo de experiências. A espontaneidade também se deu devido a ausência de órgãos legítimos de reivindicação. como produto de formas embrionárias de organização. 1985). as associações profissionais. servindo de resistência e de pólos de aglutinação para a contestação política. outros tipos de movimentos foram ressurgindo ou sendo criados. Também fizeram parte do contexto adverso desse período as revoltas suburbanas ocorridas principalmente nos trens de São Paulo e do Rio de Janeiro. democracia e melhores condições de vida. Destaca-se. havia um objetivo comum bem definido: acabar com a ditadura. Tais movimentos ficaram caracterizados pela indignação truculenta e espontânea dos trabalhadores usuários desses meios de transporte coletivo. tinham em comum a resistência à ditadura militar propondo liberdade. A contestação era por conta da precariedade dos serviços de transportes coletivos. o movimento contra a carestia.64 Os movimentos sociais urbanos se desenvolvem nessa conjuntura e cumprem importante papel. passaram a ter expressão a partir das reivindicações ligadas ao mundo do trabalho e a determinados problemas urbanos. sem ainda uma ligação direta com a política mais geral ou com os demais movimentos populares. sobretudo em função do arrocho salarial e do crescente aumento de preços dos produtos básicos no começo dos anos 70. como o movimento sindical e o estudantil.

18 Nos estudos contidos em A Questão Urbana. diante de uma nova situação de postulações e agentes políticos. articular e elaborar uma proposta global sobre a questão urbana no país com vistas à elaboração da nova constituição. grupos de interesses e lideranças expressivas tais possibilidades. rumores. reações circulares e difusão de idéias. de acordo com os estudos de Maria da Glória Gohn (1997). surge o Movimento Nacional pela Reforma Urbana. a partir da qual seguiram-se quatro greves nacionais entre junho de 1978 e maio de 1981. Segundo ela. A exemplo de uma manifestação de 500 médicos residentes em São Paulo. com o propósito de discutir. os autores clássicos analisavam os movimentos em termos de ciclos evolutivos em que seu surgimento.65 intensidade e freqüência das greves17(BOSCHI. Segundo os estudos de Renato Raul Boschi (1990) foram fundamentais as greves de maio de 1978 na indústria automobilística. Porto Alegre e outras cidades. crescimento e propagação ocorriam por intermédio de um processo de comunicação que abrangia contatos. 1994). as quais contribuíram para o desencadear do movimento de profissionais assalariados de classe média. ocasionando a paralisação de grandes hospitais no Rio. que acumula diversas contradições. o sociólogo espanhol Manuel Castells (1974) analisa em profundidade a natureza e as características dos movimentos sociais urbanos. A década se encerra com um ambiente político tencionado entre as manifestações da sociedade civil e o regime militar. em abril de 1977. São Paulo. Inicialmente define que um movimento social nasce do encontro de uma certa combinação estrutural. As reivindicações geradas pelas insatisfações estavam relacionadas apenas a mudanças rápidas e espontâneas sem capacidade de influenciar o sistema devido a estas próprias características. 2. Os seus fundamentos estavam definidos na sua própria denominação.2 Referências da Literatura Técnico-científica sobre os Movimentos Sociais Urbanos Entre os estudos sobre os movimentos sociais considera-se abordagem clássica aquela feita até os 60 do século XX. reservando apenas aos partidos políticos. Logo no início da redemocratização em 1985. 17 .

em ultima instância no poder do estado (CASTELLS. 1974). um contra-movimento que não é senão a expressão de uma intervenção do aparato político (integração-repressão que tende a manutenção da ordem). Observando que esta linha justa corresponderia a: (. do ponto de vista teórico..66 com um certo tipo de organização. a depender dos interesses de classe representados pela organização numa conjuntura dada (CASTELLS. a análise da bibliografia geral nas ciências sociais usualmente inclui os movimentos sociais como uma sessão dos estudos sócio políticos e tem como denominador analisá-los dentro da problemática da ação coletiva (GONH.. Entre as conclusões que Castells apresenta ao final deste trabalho. Seria. 1997).) a prática política cujo horizonte estrutural corresponde aos objetivos da organização. pela inserção dos agentes na estrutura urbana e na estrutura social. E que. Assim o acúmulo de contradições existentes no sistema urbano e nas relações sociais poderia levar as condições geradoras destas estruturas: Há movimento social urbano quando há correspondência ente as contradições estruturais fundamentais do sistema urbano e uma linha justa de uma organização formada a partir da cristalização de outras práticas. por sua vez. portanto. e de natureza tal. De acordo com Maria da Gloria Gohn. 18 . a um tempo. articular e unificar as ações e as práticas. provoca. por parte do sistema urbano. que seu desenvolvimento faria transformações estruturais no sistema urbano faria uma modificação substancial na correlação de forças e na luta de classes. 1974). resultante de práticas contestatórias e ou reivindicatórias manifestas por agentes urbanos em uma dada realidade. apresenta a seguinte definição para movimento social urbano: por movimento social urbano se entende um sistema de práticas que resulta da articulação de uma conjuntura definida. Mas que estaria fundamentalmente alicerçada por traços organizativos capazes de orientar.

. sendo que tal desprendimento devia-se: (. segundo Castells. retrata os movimentos sociais ocorridos nesse período no Brasil realçando a contribuição dada por eles ao processo de democratização: Não nos resta a menor dúvida de que. Nesse período. 1997). não seria. por volta do mesmo período já referenciado por Castells. Porém. Entretanto. fragmentados. por decorrência de ambas as situações que a exploração seria extinta. a principal contribuição dos diferentes tipos de movimentos sociais brasileiros dos últimos vinte anos foi na reconstrução do processo de democratização do país (GONH. neste caso..67 Tais análise. 1980).. eles cresceram a ponto de alcançar consideráveis níveis de visibilidade e reconhecimento social. e ao Estado e as formas mutantes de representação.) ao enraizamento dos movimentos urbanos na evolução contraditória dos elementos que configuram nossas sociedades em sua relação dialética: o capital monopolista e suas tendências à crise. expressadas numa crise urbana cada vez mais profunda. 1980). 1997). perpassados por outros processos sociais (GOHN. por sua vez. que se prolonga em luta política de classes. assim como não há uma só concepção para o que seja um movimento social. recomendava que as reformas urbanas deveriam ser aprofundadas até a superação da lógica estrutural da cidade capitalista (CASTELLS. 1980). Nos movimentos anos 70 os contribuíram movimentos destacamente sociais para impor outras potencialidades aos parâmetros reconhecidamente tradicionais deste campo de urbanos desenvolveram-se quantitativamente e qualitativamente na maioria dos paises da Europa Ocidental e da América do Norte (CASTELLS. Estas características podem ser observadas nos movimentos urbanos ocorridos no Brasil. Ao final da sua analise a autora afirma que não há uma teoria única. Levando em conta que os movimentos são fluidos. e não há também um só tipo de movimento social. Segundo ele. neste mesmo estudo o autor procura de modo simples apresentar os limites de tais movimentos urbanos comparando-os com as mobilizações em torno de reivindicações salariais. de repressão e de negociação dos interesses sociais que o constituem (CASTELLS. às classes sociais e sua luta em defesa dos seus interesses. Maria da Gloria Gohn. no plano geral.

Nesse sentido. de assalariados agrícolas. Eder Sader procura identificar possíveis particularidades. o autor tece as seguintes considerações: O que talvez seja um elemento significativo. esses movimentos diferentes caracterizam duas fases distintas e complementares entre si. articulação. 1980). estabelecer a transição democrática. O aspecto fragmentário correspondia à existência isolada.1 Os Movimentos Urbanos no Brasil Os movimentos sociais surgidos no Brasil na década de 70 foram gestados a partir das lutas e dos protestos urbanos num contexto bem particular da história da sociedade brasileira. esteve vinculada à diversidade das próprias condições sob as quais eles emergiram (Singer. motivadas pela insatisfação em face do arrocho salarial e das precárias condições de vida dos trabalhadores no período. mais tarde.68 2. de grupos . desde o surgimento. Também foi nesse momento que foram fundamentais para. 1988). Ao se referir ao surgimento dos movimentos sociais nesse período. que diferencia os movimentos sociais da década de 70. Por estas e outras razões. que. de posseiros. esses movimentos foram os responsáveis pelas reivindicações locais ligadas ao cotidiano da vida urbana. as quais estariam presentes desde o primeiro momento em que apareceram. unidade. mas ainda se reproduziram enquanto formas singulares de expressão. Durante esta década. da diversidade e da heterogeneidade social expressa por eles. Inicia-se pelas reivindicações das comunidades de bairro em torno de questões mais pontuais e menos políticas que as da segunda fase. No ambiente da repressão política. não redutíveis a alguma forma superior e sintetizadora (SADER. embora tenham inclusive desenvolvido mecanismo de coordenação.2. Ou seja. A heterogeneidade social existente na sociedade neste momento contribuiu com esse processo na medida em que propiciou diversas formas de manifestações de operários industriais. eles se mantiveram como formas autônomas de expressão de diferentes coletividades. Estas assumiram uma postura mais politizada e abrangente sobre a situação política na qual estavam inseridos. é que eles não emergiram fragmentados. A busca pelas matrizes geradoras dos movimentos sociais ocorridos na década de 70 no Brasil também gerou análises em torno da fragmentação. os movimentos urbanos tornaram-se relevantes para a análise dos processos históricos da política urbana brasileira. de consumidores contra a carestia.

69 mobilizados em torno do nacionalismo etc. a ocorrência dos movimentos urbanos no caso brasileiro se dá de duas formas mais conhecidas. (SADER. Referindo-se a essa nova configuração das classes populares no cenário público. Esses movimentos sociais foram encarados como de modalidades particulares de elaboração das experiências vividas pelos trabalhadores. a identificação da pluralidade existente dentro e fora dos movimentos observados por diversas análises desse período. eram constituídos por associações que aglutinavam desde favelados ou moradores de loteamentos clandestinos até um contingente vasto e variado de camadas populares. no que parece o início de um outro período na história social de nosso país. os movimentos estariam relacionados à deterioração de um setor de serviços públicos de consumo coletivo diretamente ligados às condições urbanas de reprodução da força de trabalho. serviu apenas para indicar as diversas formas de expressão sem caracterizar qualquer segmentação de classes ou camadas sociais. Entretanto. das quais as associações ou sociedades de amigos de bairros seriam exemplares. em nosso caso. nos deparamos com o nascimento de formas discursivas que tematizam de um modo novo os elementos que compõem as condições de existência desses setores sociais (SADER. transporte. de um modo geral. saúde ou saneamento (KOWARICK. Os exemplos mais conhecidos são os “quebra-quebras” de trens suburbanos e ônibus. . 1988). de acordo com a análise de Moises (1985). Não obstante. paróquias ou outras formas de defesa reclamavam por melhores condições de habitação. Neste caso. 1993). 1988). na emergência dos novos atores sociais. das novas configurações e identidades dos trabalhadores no cenário público. como os de 1947. através da ação organizada de amplos setores das classes populares. 1959 e entre 1974 e 1976. A ação direta levada a efeito pela emergência de um protesto repentino e inesperado constituiria a segunda forma. Sader se reporta aos novos atores surgidos: Assim. A primeira. Os movimentos sociais urbanos. entre outros. Tiveram de construir suas identidades enquanto sujeitos políticos precisamente porque elas eram ignoradas nos cenários públicos instituídos. Congregados em torno de entidades de bairro.

1985). o autoritarismo também teve de procurar novas fórmulas de legitimação diante dos descontentamentos generalizados entre as massas populares urbanas. sociais e políticas de profundidade. como indicadores da emergência de novas identidades coletivas. Naturalmente. a ligação entre a massa (MOISÉS. a velha técnica do clientelismo político. que. No entanto. o que de fato não aconteceu (MOISÉS. convém ressaltar que esses movimentos sociais não substituem os partidos e nem podem cancelar as formas de representação política. observam os autores: Cabe observar que nem o populismo “participacionista” dos anos 50 e do início dos 60. os movimentos urbanos cumpriram um papel importante de preparar as condições para uma nova conjuntura de melhores condições de vida para os moradores da cidade. o poder de barganha dos aparatos estatais se baseava em sua capacidade (teoricamente ilimitada) de atender as populações. algum tipo de barganha que. que não estavam em seu horizonte (MOISÉS. ocorridas com maior intensidades entre 1974 e 1976. De fato. nem o autoritarismo pós-64 poderiam resolver os problemas urbanos. Isso pode ser observado no trabalho de José Álvaro Moisés e Verena Martinez-Alier sobre as revoltas dos suburbanos.70 Os movimentos urbanos gerados no curso da década de 70 foram vistos. o que parece salutar nestas reflexões é a identificação das novas possibilidades surgidas diante da realidade social vivida naquele momento pelas populações urbanas. então. na relação elites-massas.1985). um exemplo concreto dessa política pode ser encontrado nas Administrações Regionais de São Paulo. Entretanto. Qualquer solução que fosse encontrada supunha incluir. (o governo) lançaria mão do expediente de fazer revivescer. nesse processo. 1985). Segundo eles: Na impossibilidade de oferecer qualquer solução mobilizatória. em colaboração com alguns vereadores. Por outro lado. Desse modo desempenhariam o papel de intermediários entre as reivindicações populares e o Estado apontando medidas conciliatórias. Além de que. Inclusive foi em função da atuação deles e o Estado . pelos valores que possuíam. pois qualquer solução implicava transformações econômicas. pelas suas linguagens. pelos lugares onde se manifestavam. mesmo que só nas aparências refizessem de alguma maneira. ensaiaram ações para dar respostas às demandas localizadas dos movimentos. De acordo com os autores. em pleno local.

procurando sedimentar sindicatos. Em 1974 ocorrem várias prisões de militantes operários na periferia sul. A segunda fase foi marcada pelo impacto dos movimentos sociais em 1978. 1988). partidos ou outras modalidades organizativas. como fruto da experiência anterior. E. que de algum modo acumulou e reproduziu forças sociais. cabe registrar esta passagem para se ater às condições existentes para as mobilizações políticas tradicionais. Um certo vigor novo de desaglutinação. Porém. De outro modo. reunindo condições e aos poucos ampliando a mobilização para outras áreas de atuação. a espontaneidade dos movimentos urbanos revelaram o lado autêntico e sensível da sociedade descontente. De um lado.71 que as instituições tradicionais como os partidos. que não se restringe aos estudantes. esses movimentos foram se fortalecendo e se tornando mais politizados. Foi o que aconteceu. mas que engloba camadas sociais mais amplas e significativas amplia as potencialidades dos movimentos sociais. aprofunda-se uma consciência sobre os problemas do trabalho e da cidade que parece recusar os estilos de lutas que predominaram até então. Tal populismo trabalhava para continuar impondo intensa manipulação às camadas populares para as quais se acenava com além da capacidade de ocupar o espaço político nas . originado na descrença de um processo de participação que pudesse reverter o quadro e impor outros caminhos. uma das figuras centrais do Clubes das Mães (SADER. artistas. membro da Pastoral Operária e marido de Conceição. expressava-se pelo esforço de se desprender das aparelhagens institucionais do Estado. de outro. pelo descrédito dos vários tipos de cooptação que marcou o período populista. Nesse momento. de modo a se desatrelar das amarras do poder instauradas com o golpe de 1964. Segundo Lúcio Kowarick (1993). No entanto. sindicatos. situações mais adversas. aqueles eram anos em que o obstáculo primeiro era ainda uma repressão arbitrária. como já foi observado por Moisés (1985) anteriormente. e que sempre poderia sufocar no nascedouro de qualquer movimentação das classes populares. Neste ano é preso Aurélio Peres. intelectuais ou grupos profissionais. associações profissionais e entidades civis foram reestruturadas. a exemplo das prisões de vereadores e deputados que atuavam em defesa do movimento popular.

destaca-se o movimento do custo de vida.72 as benesses de um modelo de desenvolvimento que se pretendia redistributivista (KOWARICK. acolhendo. que cresceu estimulado pelas pequenas vitórias dos outros movimentos (e também. 1993). nesse meio. presentes na sociedade. Os movimentos urbanos chegam a atingir uma certa maturidade e começa a ser dissolvido pelo fortalecimento dos novos. procuraram desenvolver uma ação de iniciativa e controle sobre o Executivo. pelo impacto público da dimensão do protesto social expresso nas eleições de 1974) e pela capacidade de organização pela base já existente. 1993). Nessa conjuntura. sobretudo no final dessa segunda fase. além dos sindicatos e associações de base popular que constituem os pólos vitais de representação e reivindicação. expressavam a enorme distância existente entre os mecanismos políticos instituídos e as formas da vida social. foram recolhidas e elaboradas de outro modo pela Aliança Democrática que constituiu a chamada "Nova Republica" (SADER. de defesa dos cidadãos de denúncia e de informação. a imprensa. alguns grupos presentes em instituições básicas para o processo de democratização. 1988). É nesse movimento que o processo de politização entre os seus participantes atingiu um patamar que vai além das questões puramente localizadas. as expressões políticas alijadas pelo . Nesse sentido. Sader relaciona a emergência e a contribuição que os movimentos urbanos trouxeram para a década de 80: Hoje quando a transição política do país se consuma. os movimentos sociais urbanos constituíram-se em elementos fundamentais para o estabelecimento da transição política ocorrida entre 1978 e 1985. além da importância dada pela população à reivindicação levantada. Sinteticamente. As questões postadas se resolveram de algum modo. entre os quais o Legislativo e o Judiciário. a universidade e as entidades científicas e culturais. possivelmente. Difusas aspirações de justiça social e de democracia. processos fundamentais para dinamizar o exercício de uma cidadania que havia sido massacrada em muitos dos aspectos essenciais à vida individual e coletiva (KOWARICK. empenharam-se em criar espaços próprios de atuação. Deste modo. Desse modo. de aprendizado crítico e debate intelectual de repensar o sentido e significação do conhecimento e da arte. o que era promessa tornou-se história. Através de diferentes formas de representação em resposta às demandas políticas de crise econômica e social.

além das reivindicações desses direitos ligados à plena liberdade de expressão e democracia. Nos anos 80. saúde. Por esse lado. Para Gohn. a exemplo da saúde. da terra urbana e do transporte. denotando os dois fenômenos: de um lado a crise de governabilidade das estruturas de poder do Estado. evidenciaram-se os direitos relacionados à cidade e à cidadania. A sociedade.73 sistema repressor. implicando novas formas de organização e de atuação política. Concomitantemente a isso. Os direitos civis. sobretudo os movimentos sociais e as organizações sindicais. cultura e lazer. Nesse sentido. da habitação. Nesse sentido. de expressão. iniciando os trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte. estadual e nacional se consolidaram. também ajudaram a elucidar a situação de crise do país à medida que foram ampliando a dimensão política de suas reivindicações. desgastadas e deslegitimadas pelo autoritarismo. partindo para um período de institucionalização . trabalho. Essas articulações se deram tanto no âmbito específico. a definição destes novos direitos apontou para a elaboração de uma nova carta constitucional. a participação social foi um item importante na agenda política nesse período: Nos anos 80 a temática da participação social era um ponto de pauta na agenda política das elites políticas. de imprensa e de organização. educação. estudantis e de categorias profissionais. foram recuperados após 1985. de modo crescente. se envolveu nesse processo exigindo melhores condições de salário. que passou a ser discutida a partir de 1986. uma nova cultura vai sendo gestada pelo desatrelamento que várias dessas organizações tinham com o Estado. estabelecidos antes do regime militar. de outro a legitimidade das demandas expressas pelos nas esferas municipal. como por meio das federações responsáveis por congregar associações de moradores. A experiência acumulada dos movimentos populares nas décadas anteriores forneceu as bases para que se amadurecessem suas reivindicações e propostas. as organizações populares de muitas delas ainda caracterizadas como movimento. Na agenda dos movimentos sociais. os movimentos sociais passaram a se articular para transformar suas demandas e reivindicações em direitos a serem reconhecidos pelo Estado.

e uma outra. foram absorvidas lideranças até então atuantes no movimento para se dedicar aos trabalhos executivos ligados a governos municipais. em várias prefeituras pelo país. a agenda dos movimentos se modifica com a vigência da nova Constituição Federal e com as novas políticas sociais internacionais provocadas pela intensificação dos efeitos da globalização. o segundo é que em boa parte delas. por parte dos movimentos sociais urbanos em face da crise urbana presente nas cidades. Foi no decorrer dos anos 80 que se desenvolveu a transição democrática entre o fim do governo ditatorial emplacado pelos militares e o surgimento de um regime democrático. na medida em que este estava se democratizando rumo a novas formas de representação junto à sociedade. Aos poucos. mais identificado com os princípios da reforma urbana. 2. Passaram a enfrentar desafios de outra magnitude colocados pelas novas formas de relação do Estado com os setores populares organizados. a aplicação de novos dispositivos constitucionais relacionados aos direitos de participação e cidadania motivou a atuação no plano de espaços institucionais a exemplo do que ocorreu com os conselhos municipais. Aliados a isso. Demandatário de uma nova proposição política sobre a cidade em que dois fatores foram determinantes nesse processo: a proposição técnica e a força dos movimentos. fundamentada pela abordagem técnica e conceitual . Havia uma demanda reivindicatória. Nos anos 90. por volta de 1985.74 movimentos sociais – novos ou velhos – e a conquista de espaços institucionais como interlocutores válidos (GOHN. O Movimento Nacional pela Reforma Urbana surgiu nesse período. gestões com um perfil considerado progressista.1997). os movimentos foram se tornando interlocutores privilegiados do Estado. aquela euforia dos movimentos populares ocorridos na década anterior não se deu do mesmo modo. Dois fatores contribuíram para essa mudança: o primeiro é que foram eleitos.3 O Movimento Nacional pela Reforma Urbana – MNRU – surgimento e concepção O Movimento Nacional pela Reforma Urbana surgiu durante os debates da Assembléia Nacional Constituinte durante a década de 80. que até então convivia com a repressão. que vinha sendo acumulada desde os meados de 80. como se viu no primeiro capítulo. Nesse período.

aliado às precárias condições de moradia das periferias vêm a tona. Os movimentos sociais. desde a segunda metade da década de 70. Houve. 1988). saúde. estudantes e professores entre outros.75 sobre a função social da cidade. Segundo as arquitetas que na época atuavam junto aos movimentos populares. Foram abordadas questões por temáticas como transportes. na faculdade de direito do Largo São Francisco da USP. sindicalistas. habitação. um fortalecimento do movimento popular no sentido de derrubar o regime e restabelecer a democracia. resultando na reestruturação e criação de entidades sindicais e populares como sindicatos de base operária. O primeiro congresso contra a carestia foi realizado ainda no final da década de 70. As mobilizações surgem nesse contexto com as greves que passaram a se alastrar por varias outras categorias. a articulação da reforma urbana apareceu num trabalho apresentado pelo professor Nabil Bonduki. entidades estudantis e outros segmentos como os profissionais liberais e intelectuais. o movimento custo de vida e os protestos públicos nas periferias clamavam por melhores condições de trabalho. Diante dessa situação política. educação e a falta de creches – este último constituiu-se num movimento que buscou permitir que a mulher pudesse se inserir no mercado de trabalho -. na cidade de São Paulo.19 este evento teve a participação de diferentes setores como lideranças de associações de bairros. O déficit habitacional. Ao tratar sobre dilemas e perspectivas dos programas alternativos de habitação popular. ganharam força. o autor discorreu sobre a necessidade da alteração do direito de propriedade da terra urbana como uma exigência atual da sociedade naquele momento. vinham se reorganizando. são traduzidos em protestos nos bairros e chegam às formas mais contundentes – as invasões de terra (TAVARES. esse evento pode ser considerado um dos marcos embrionários para a retomada da reforma urbana nos ano 80. que. Ao final. o governo militar começa a emitir sinais de que a abertura teria que ser feita devido ao iminente risco de descontrole total da situação. seria fundamental criar instrumentos para facilitar o acesso à terra pelos setores populares e munir o Poder Público de meios que garantissem a expropriação das terras urbanas ociosas. Segundo as participantes desse evento. . as arquitetas Valeska Peres Pinto e Maria Tavares. por outro lado. embora de forma segmentada. portanto. o encontro de demandas objetivas com condições favoráveis na conjuntura política que propiciou o surgimento desse Movimento. Para tanto. No 10º encontro anual da ANPOCS. O final da década de 70 e o início da década de 80 foram marcados por duas situações: por um lado. Tais medidas implicariam a articulação de uma reforma urbana cuja formulação integral exigiria um amplo debate entre todos os setores interessados na 19 Entrevista concedida para esta pesquisa. apontava-se para um certo desgaste do regime militar e. abordou-se o tema urbano. Do mesmo modo.

cujo cenário final de discussão seria a Constituinte. na proposta de emenda da reforma urbana como no Estatuto da Cidade. O sistema financeiro da habitação – crítica de uma política anti-social. Extraído do documento “Programas Alternativos de Habitação Popular: dilemas e perspectivas” apresentado pelo professor Nabil Bonduki. dispunha-se que seria necessário: . . mais tarde.reforma urbana com taxação rigorosa dos terrenos e imóveis ociosos. Observa-se.20 A reforma urbana como expressão de política urbana também foi reconhecida no âmbito da realização 1º Encontro Nacional em Defesa da Moradia. através de associações comunitárias livremente organizadas. que não só a expressão “reforma urbana” aparece contextualizada na formulação de novas políticas urbanas como já vem acompanhada de uma série de formulações perpassadas pelo PL 778/83. em 1987. no grupo de trabalho (GT) de Estudos Urbanos: Representações e Políticas Públicas do 10º Encontro Anual da ANPOCS.A. onde se propunham várias medidas a serem tomadas. legislação de uso do solo que preveja dispositivos de preservação obrigatória de mananciais.B. na cidade de Salvador. J.desapropriação sumária dos terrenos de "vazios urbanos"com base nos valores declarados para efeito de IPTU e formação de estoques de terra para utilização em projetos comunitários. neste caso.legalização dos loteamentos clandestinos. prevendo-se a adoção deste instituto em nome coletivo.usucapião simplificado para regularização de terrenos onde se situam favelas ou comunidades do gênero.21 Entre outros documentos em discussão. Associação de mutuários em luta comunitária.76 transformação da atual ordem urbana. 21 Extraído do documento apresentado para discussão no 1º Encontro Nacional em Defesa da Moradia. em 1987. RAMOS. . Entre elas. . com garantia de manutenção das comunidades já assentadas. destaca-se o texto elaborado por um integrante da Associação de Mutuários em Luta Comunitária. em 1986. que irão aparecer. nas medidas contra a especulação imobiliária. 20 .

de acordo com os seus autores. o que. Lei do Inquilinato. Reforma Urbana. Segundo seus diretores. do BNH e do Ministério de Desenvolvimento Urbano outro grupo de entidades também se manifestou publicamente incluindo a reforma urbana entre as prioridades para o debate da Constituinte. destacaram: -garantir que nova Constituição crie as condições mais modernas e democráticas para a legislação ordinária da Reforma Agrária. onde também participou. 22 .e pelo . Elaborou propostas de emenda de iniciativa popular para a coleta das 30 mil assinaturas: uma sobre moradia popular. entre outros. Arq. Reforma Tributária. datado de maio de 1986. outra sobre transporte coletivo e outra mais geral sobre a suspensão do pagamento da divida externa. é formada por Federações. Uniões e Conselhos municipais e estaduais. sob o título contribuição das entidades populares ao debate nacional sobre a reformulação do sistema financeiro da habitação. fundada em janeiro de 1982.23 Na parte de proposições. Debrassi e a socióloga Conceição A. Bongiovani”. foi distribuído em vários fóruns naquele ano. foi protagonizado pela Confederação Nacional das Associações de Moradores – CONAM22 .Conselho Municipal das Associações de Moradores de São Paulo – CONSABs -. dos seguintes profissionais: Arq. Miranda. Junto a outras entidades em nível nacional patrocinou outras duas emendas – a do voto proporcional e a de reformulação do papel constitucional das forças armadas. pela reforma urbana. Arq. além de tratar da moradia autoconstruída. pelo transporte coletivo e contra a fome. Entre outras propostas. dos cortiços e dos conjuntos habitacionais. Rosana H. Vânia Moura Ribeiro. no próprio texto. da subcomissão da reforma urbana. consta a seguinte nota: “as propostas contidas neste documento são a síntese das reivindicações dos movimentos de moradores com a assessoria técnica. entre outras. 24 Idem. logo no primeiro tópico indicaram a aprovação da Lei Nacional de Desenvolvimento Urbano como um dos instrumentos para promover a Reforma Urbana. Entre as principais questões abordadas por este movimento destaca-se quatro como fundamentais: a luta pela moradia. Sérgio Luis Ramos. das favelas.pelo Conselho Coordenador das Associações de Favelas de São Paulo – CORAFASP -. teceram um diagnóstico baseado na situação econômica vivida no país naquele momento. Primeiramente. 23 Na parte final do texto. Lei de Desapropriação e da Lei de Uso e Ocupação do Solo. Arq. era fundamental para entender o desenvolvimento das cidades no país.T. Num segundo bloco.77 Em maio de 1986. abordaram a temática do desenvolvimento urbano. recuperar as propostas da Lei de Desenvolvimento Urbano de 83. Teresinha Maria B. Este documento. No seu 3º Congresso realizado em 1986 reuniu cerca de 7500 delegados de todo o país e priorizou entre várias propostas a atuação na Assembléia Nacional Constituinte. marcado pela crise.24 Para isso propunham. pelo Conselho Coordenador das Sociedades Amigos de Bairros – CONSABs . em meio a treze princípios gerais. A CONAM.

as classes e camadas populares reivindicavam moradia e melhores condições de vida. E. Originariamente. novos fatores contribuem com este processo. o foco de resistência ao regime estava em plano nacional do mesmo modo que a constituinte e a unidade de proposição e ação. passou a ser chamado de Fórum Nacional de Reforma Urbana. o Movimento pela Reforma Urbana propiciou melhor compreensão dos problemas das cidades e envolveu universidades. O Movimento pela Reforma Urbana foi criado por setores da Igreja Católica de tendência progressista. com . setores não governamentais. com suas bases assentadas de início na luta geral contra a carestia quando. mobilizaram-se os setores ligados à questão urbana. Por conta de uma nova Assembléia Constituinte. O movimento social se vê dentro de uma nova fase de elaboração. neste momento cria-se um novo significado nas relações entre o campo jurídico-institucional e os movimentos sociais.78 Nesse contexto ocorre o lançamento do Movimento Nacional pela Constituinte. era necessário um novo tipo de comportamento para o movimento que passa a trabalhar com interlocutores dentro de um plano de negociação permanente. indicava-se que a inserção de qualquer medida seria negociada e dependeria da força social em torno dela. Inicialmente. para tanto. que. E. negociação e inserção diante da realidade política estabelecida. criando-se o Movimento Popular pela Reforma Urbana. posteriormente. Considerando-se que o texto constitucional é matéria unitária. todos os agentes passaram a ter um novo ambiente de tensão e luta. pastorais e entidades profissionais. como a abrangência nacional. Em várias cidades e estados do país. abrindo novas possibilidades de visibilidade e ação aos movimentos localizados. Desta forma. técnicos de assessoria aos movimentos urbanos e intelectuais. reunindo uma série de movimentos e entidades na discussão e politização da questão urbana. finalmente. Para Maria Amélia Silva (1991). Na verdade. os movimentos passam a vislumbrar o aspecto da legalidade em suas demandas. lideranças de movimentos urbanos. passaram a ser articuladas plenárias pro-participação popular na Constituinte. em todo o país. Foi nessa conjuntura que nasceu uma articulação de abrangência nacional que pretendia implantar novos referenciais para a política urbana tendo em vista as desigualdades sociais e territoriais presentes nas cidades. diante do novo tipo de embate colocado pelo processo constituinte. Diversos fóruns e espaços de debate foram constituídos fazendo surgir bandeiras de luta oriundas dos interesses populares.

Alguns integrantes do Movimento apontam que a principal entidade que deu origem ao Movimento pela Reforma Urbana foi a Associação Nacional do Solo Urbano . no entanto não se verificou plenamente. para ser contemplada era necessário que se impusesse as limitações ao direito de propriedade. entre outras. incorporou a demanda de uma articulação de intervenção propositiva no processo constitucional. várias entidades de âmbito nacional participaram desde o início ou foram rapidamente envolvidas devido à pertinência de suas proposituras. 2.4 Demandas e Reivindicações Pró-Movimento Esse movimento trabalhou em torno de uma plataforma única de propostas. sob iniciativa da Comissão Pastoral da Terra – CPT . 2000). .ANSUR. Associação dos Mutuários. em que a demanda. que colocava a temática da cidade no centro do debate dos problemas urbanos. A questão urbana pautou-se em torno da produção e da apropriação do espaço urbano. Esse fato dá relevância ao Movimento pela Reforma Urbana e à sua plataforma política. da disputa ensejada no campo jurídico.79 participação significativa de professores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – USP. Federação de órgãos para Assistência Social e Educacional – FASE. O Movimento.da CNBB (MARICATO. Articulação nacional do solo urbano – ANSUR. que assumiram uma missão pioneira em termos de matéria constitucional brasileira. Coordenação Nacional dos Mutuários. uma série de direitos precisava ser retomada. A primeira reunião com a finalidade de criar esta entidade se deu na cidade do Rio de Janeiro em 1979. Outro aspecto relevante do Movimento pela Reforma Urbana é a questão da legalidade. reservando a este último papel fundamental na nova constituição. Esse aspecto esteve presente e toma considerável importância na vida do Movimento pela Reforma Urbana desde o seu surgimento até a aprovação da Lei Federal do Estatuto da Cidade. Observa-se que a política urbana. Em termos das demandas gerais. A luta por uma nova Constituição apontava para um caminho em que a questão legal estava objetivamente colocada. Durante a trajetória do Movimento. o protelamento da sua aplicação que deveria ser regulamentada por lei especifica e fisicamente definida no plano diretor. como se pode destacar: Federação Nacional dos Arquitetos – FNA. até aquele momento. Instituto dos Arquitetos do Brasil – IAB e Federação das Associações de Moradores do Rio de Janeiro – FAMERJ. ainda não havia pautado nenhuma Constituição Federal em toda a história constitucional brasileira. tendo em vista. portanto. Isto. ou melhor. Federação Nacional dos Engenheiros – FNE. a partir da luta pela derrubada da ditadura militar. Movimento de Defesa do Favelado – MDF. principal impasse para a viabilização de uma cidade mais igualitária e democrática.

Há opiniões que chegam a identificar esse caminho como uma das principais razões para a desmobilização que o Movimento sofreu após a promulgação da Nova Constituição conforme. sobretudo aqueles firmados nos meandros da resistência à ditadura. Essa transformação. a luta era pela resistência à opressão do regime e pela sobrevivência diante da crise econômica do final da década de 70. a fome e o arrocho salarial. Alguns autores consideram que o Movimento pela Reforma Urbana privilegiou demais esse aspecto. quando grande parte da população está e continuará fora do mercado ou sem outras alternativas legais e modernas . mesmo que preservando princípios e propósitos mais estratégicos dos movimentos sociais foi obrigada a se adaptar à nova realidade que eles próprios lutaram para conquistar. afirma Maricato: No entanto. A década de 80 trouxe uma nova realidade para os movimentos. E. quando se formaram os movimentos grevistas e reivindicatórios que impunham a bandeira contra a miséria. sem segurança e sem um padrão mínimo de qualidade (MARICATO. muitos embates foram travados a fim de decidir qual o melhor caminho a seguir para continuar as transformações em curso. Se o processo político já apontava para o fim da ditadura. Antes. Seguiu-se a análise caracterizando as relações e articulações do Movimento em dois planos complementares: um interno e um outro externo.4. no bojo do movimento. aos poucos. passa a ser vislumbrado pelo direito. 2000). qual seria o próximo passo? A questão da garantia dos direitos se impunha naquele momento. O aspecto da legalidade trouxe uma nova concretude às ações políticas. outras demandas foram surgindo forjando novos movimentos e novos enfoques para o movimento popular.isto é.1 Caracterização – Aspectos Internos e Externos . ele [O Movimento] cometeu o equívoco de centrar o eixo de sua atuação em propostas formais legislativas. 2.80 Existem controvérsias e debates sobre esse viés na condução do Movimento. Nessa nova realidade. deixando a pauta do movimento popular em função dessa demanda normativa. como se a principal causa da exclusão social urbana decorresse da ausência de novas leis ou novos instrumentos urbanísticos para controlar o mercado. sendo ampliada com a adesão de mais entidades em torno de uma plataforma unificada de proposições. O Movimento se caracterizou por uma articulação que foi. o que antes era garantido somente diante do fato.

Mais adiante voltaremos a debater esse assunto analisando a atuação do Movimento na década de 90. sobretudo mais ao final do processo. valores e idéias que fundamentam suas reivindicações (GOHN. O ponto de partida de sua análise crítica. Este aspecto trouxe novas dificuldades para o movimento a ponto de haver pouca participação expressivamente popular no período de debates das emendas no Congresso Nacional. Em que pese a importância dos setores técnicos. foi tomando corpo e dando densidade às proposições sobre os problemas da cidade. deixou de ser uma proximidade para se transformar numa junção de propósitos definidos sobre pontos comuns de intervenção política. Entretanto. foram calcados na realidade urbana. O domínio do conhecimento técnico fez sobressair esse segmento nas discussões pautadas no processo constituinte. no intuito de politizar o debate com a apresentação de novos paradigmas conceituais e metodológicos sobre a questão.4. O fato de se ter pela frente um processo de discussão e efetivação de uma nova ordem constitucional foi visto como uma necessidade de unificação de ação com vistas a implementar. aos poucos. pela primeira vez. legitimamente defendida pelos movimentos.1 A Ideologia A ideologia de um movimento corresponde ao conjunto de crenças.1. suas proposições. . denuncia a desigualdade social e territorial presente nas cidades. 1997). Assim. Um outro fator demandatário que contribuiu para essa articulação foi à convocação da Assembléia Nacional Constituinte. o principal fator da articulação externo do movimento foi a divulgação e a ampliação da plataforma construída pelo Movimento pela Reforma Urbana a partir das proposições defendidas pelos diversos movimentos envolvidos. 2. Ao mesmo tempo em que retrata esse diagnóstico caótico. Nesse sentido. A elaboração da plataforma foi um produto importante desta articulação interna. observa-se que no conjunto das ações do Movimento este segmento prevaleceu como principal interlocutor do Movimento. a questão urbana na ordem constitucional.81 O principal fator articulador interno se deu com a aproximação entre o movimento popular e os setores técnicos envolvidos na questão urbana. Logo. o Movimento pela Reforma Urbana teve forte componente ideológico. bem como. essa aproximação-junção. pois abriu novas possibilidades de ação para o outro nível de articulação: o nível externo.

tal como aparece em um de seus primeiros documentos é entendida enquanto uma nova ética social que assume. Petrópolis. é na afirmação da necessidade de justiça social para as cidades que se ancora a bandeira da Reforma Urbana. 1997). RJ. Esse aspecto explicita em que sentido está presente a crença do movimento ao pretender a possibilidade de transformação da realidade denunciada. pode-se recorrer à seguinte frase de Franklin Coelho: 25 É a partir da compreensão da lógica social e espacial de dominação na cidade. da necessidade de unificação das lutas urbanas.82 Reforma urbana. da cidade paralela. 1989. A Reforma Urbana e a armadilha dos Planos Diretores. era politizar a questão urbana pela denúncia e pela crítica da desigualdade espacial a partir da negação da não-cidade. a politização da questão urbana através da crítica e denúncia do quadro de desigualdade social que marca o espaço urbano das cidades do país (AMELIA SILVA. Centro de Defesa dos Direitos Humanos.1991) Em síntese. vai além da denúncia e da crítica ao tratar de justiça social. portanto. Segundo Maria Amélia Silva. Franklin Dias. Apud Ana Amélia Silva. O objetivo. 25 . Desse modo. 1991. acredita-se que é possível existir um outro tipo de relação social na cidade em que a condição de igualdade prevaleça.In: Gestão Democrática da Cidade. portanto. chamando atenção para a importância de se reverter esse quadro (AMELIA SILVA. clandestina ou espoliada (KOVARICK. COELHO. O aspecto ideológico. como valor básico. 1991). e da construção da identidade enquanto cidadão e seu direito à vida na cidade que se retomou a luta pela reforma urbana.

após a denúncia e a crítica. como uma nova entidade. conseguindo se desenvolver e tomar corpo conforme se aproximava o processo constituinte. Todo esse conteúdo ideológico apresentado até aqui foi sistematizado na chamada plataforma da reforma urbana. No entanto.2000). A observação vem no sentido de que faltou força em momentos importantes de discussão nas comissões temáticas do processo (MARICATO.83 Assim. com os partidos políticos e . Assim. Afinal. o Movimento foi se ampliando. se apresenta a construção de novos (ou velhos) referenciais para o ordenamento das cidades. a justiça social será realidade a medida em que forem construídas as condições para que a necessidade se transforme em possibilidade e ação cotidianas na construção de cidades mais democráticas.2 Identidade A identidade do Movimento Nacional pela Reforma Urbana foi de caráter frentista com metas e propósitos bem definidos em escala nacional. Era composto por várias entidades não se caracterizando. a bandeira da reforma urbana implica mesmo uma perspectiva e um imaginário de ruptura ampla da segregação sócio-espacial.1. Dessa forma. Quanto ao seu conteúdo. A própria natureza do movimento caracterizado pela articulação interna de várias organizações e a demanda política sustentada na dimensão nacional colaboraram para isso. onde se afirma que poderia ter sido mais exitoso se tivesse exercido pressão política de forma ininterrupta e mantido as articulações. Era um espaço de articulação entre organizações de nível nacional vinculadas. ele em si. onde uns poucos têm muito. era uma espécie de fórum de articulações múltiplas com o objetivo de unificar vários movimentos em torno de uma plataforma única de proposições. à questão urbana. existem críticas sobre a representatividade popular desse Movimento. Além de conter estes princípios também serviu para articular e unificar o movimento como foi analisado no primeiro capitulo. Seja nas interfaces com os outros movimentos sociais. tal identidade foi marcada pela apresentação de uma nova abordagem para o debate da questão urbana. com os sindicatos. e outros muitos têm muito pouco ou não têm nada. 2. de algum modo. que naquele momento pautava por liberdade e garantia de direitos. durante todo o processo da Constituinte. relacionada com o propósito de interferir no processo de elaboração da nova constituição para o país. com a apresentação de uma nova abordagem para o tema urbano. A possibilidade de se chegar à igualdade de condições numa cidade democratizada será viável a medida em que ocorram rupturas significativas na dinâmica estabelecida. tendo como centro a cidade.4. Portanto. Outros ainda mais ganham em cima destes que continuam sem nada. O plano das articulações externo constituiu-se na principal condição de existência para o Movimento Nacional pela Reforma Urbana.

Tanto pelas assessorias como pelos movimentos populares. a ordem jurídica. ainda é um tema polêmico. a ponto de defenderem publicamente suas opiniões em relação às questões sociais e políticas. o trabalho da assessoria às organizações populares foi feito com a colaboração dos chamados assessores – pessoas que. a capacidade de articulação e negociação tem sido uma constante na sua trajetória. o receio das assessorias existe quando passam a contribuir com o movimento interferindo nas decisões das entidades. A princípio. Apesar da opinião consensual entre os movimentos sobre a importância que tais atividades auxiliares assumiram e tem assumido atualmente. De acordo as lideranças dos movimentos. principalmente após a promulgação da Constituição. Sem dúvida. em função de carências imediatas. elas tendem a reduzir a importância do movimento.4. As assessorias passaram a integrar as questões mais técnicas demandas nas formulações populares para as políticas publicas. Estas instâncias são as organizações da sociedade civil com maior potencial para se transformarem em referências da Reforma Urbana (CARVALHO PINTO. No geral.foram exemplos de temáticas aprofundadas no processo. Esse trabalho foi se modificando com a mudança da conjuntura política e com a maior organização política dos trabalhadores em diversos segmentos. . No entanto. surgem as assessorias técnicas. em torno dos movimentos populares. Por outro lado.1. para capacitar de fato os seus integrantes sem disputar os caminhos políticos do movimento. como a reforma urbana. 1993). independentemente da entidade vinculada. reconhecendo seus méritos apenas pelo que foi incorporado à Constituição. nos encaminhamentos técnicos e políticos. As articulações ocorridas na Assembléia Nacional Constituinte foram o grande teste para o movimento nesse plano de articulações. por sua formação educacional.84 parlamentares. o resultado compreendido pela inserção do Capitulo da política urbana a partir da emenda da reforma urbana registra o mérito obtido nesse aspecto. a assessoria deveria capacitar os dirigentes para que eles mesmos pudessem dirigir o movimento.3 As Assessorias Técnicas aos Movimentos Nos anos 80. Suas ações podem ter repercussão mais ampla. se apropriadamente canalizadas para mudanças estruturais através de instâncias representativas de unificação. 2. De outro modo. a descentralização da gestão municipal. deveria assessorar quem trabalha no movimento. Segundo eles. por sua experiência são importantes. com propostas próprias para o processo político institucional. essa modificação levou algumas dessas assessorias a reivindicarem espaços próprios. por sua militância política. Os temas. cooperativismo. Nessa mesma linha. seja durante as negociações em torno da proposta da reforma urbana. Com isso as entidades avançaram no seu papel de formuladoras da proposta alternativa e apareceram como sujeito próprio. a participação popular. observa-se que os movimentos populares têm tido uma atuação muito fragmentada. várias críticas foram feitas a esse movimento.

Aliás. Na verdade. sediada no Rio de Janeiro. A exemplo de trabalhos desenvolvidos pela FASE26 no Rio de Janeiro e o Instituto PÓLIS em São Paulo. durante a as mobilizações sociais tiveram um grande feito na campanha pelas eleições diretas reunindo centenas de milhares de pessoas em alguns comícios políticos e depois teve o auge desse processo com o processo da Assembléia Nacional Constituinte.85 O Movimento Nacional pela Reforma Urbana 80 também foi auxiliado e muito por essa atividade. Segundo ele. entre outras. o conteúdo da plataforma e a transformação em emenda. desenvolveram algum tipo de assessoria a algum movimento. Dentre essas. bem como a defesa e argumentação em torno das justificativas técnicas foram decorrentes de conhecimento técnico característico das assessorias técnicas. foi dado continuidade às articulações pela reforma urbana. tendo em vista que em razão das constituintes estaduais e das leis orgânicas municipais. . representante integrante do Fórum de Reforma Urbana. esse período não foi diferente somente para a reforma urbana mas para o conjunto dos movimentos sociais. o conteúdo expresso pelo Movimento Nacional pela Reforma Urbana não se resumiu ao disposto no capitulo da política urbana. 27 Entrevista concedida para esta pesquisa em janeiro de 2003. mas também contribuiu para a inserção de outros artigos advindos de outras demandas populares. Atualmente a secretaria do Fórum Nacional pela Reforma Urbana está sob a responsabilidade desta Instituição. no caso do Movimento. Todavia. Tanto que várias lideranças ligadas a esse movimento. oito desenvolviam programas e produziam publicações. 2. perfaz a abordagem destes enfoques relativos a nova constituição de 1988 e as dimensões da legislação com este ordenamento jurídico. o centro dos embates foi transferido para os estados e municípios. Outros direitos também foram contemplados pela nova carta magna. Para Nelson Saule Junior27. a seguir. Anteriormente. o movimento 26 A FASE – Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional. os anos 90 trouxeram uma outra realidade para os vários movimentos em que outras demandas passaram a compor outros elementos na agenda do movimento. Com a constituição federal aprovada. inclusive componente da sua direção.5 Uma nova agenda para os movimentos sociais nos anos 90 Após a promulgação da nova Constituição os movimentos sociais entram num outra fase de articulação e mobilização. como fruto das mobilizações exercidas pelos movimentos sociais na Assembléia Nacional Constituinte. documentação e comunicação para assessorar os movimentos populares urbanos. o quinto capítulo. Diferentemente da década de 80. possuía no início dos anos 90 uma rede com mais de 17 agências espalhadas pelo país.

A reformulação decorreu ainda da necessidade do movimento se preparar e corresponder ao processo institucional. a exemplos mais substanciais nas cidades de Natal e Recife. Porém. aos poucos deixam de ter . que saiu fortalecido com a nova constituição federal. o qual também teve de se adaptar organicamente mudando inclusive sua denominação de Movimento Nacional pela Reforma Urbana para Fórum Nacional de Reforma Urbana ou somente Fórum de Reforma Urbana. no Nordeste. foi no âmbito das leis orgânicas é que a reforma foi mais contemplada. Em alguns estados foram apresentadas emendas populares contemplando as propostas da reforma urbana. Convém destacar que um grande número de administrações populares e progressistas terem sido eleitas nesse período absorveu lideranças geradas pelos movimentos. Em São Paulo e no Rio de Janeiro. entre outras. Os fóruns regionais que ainda se articularam em torno das constituintes estaduais. logo após a promulgação da nova constituição. caracterizado ainda pela dinâmica centralizada que o Movimento Nacional pela Reforma Urbana havia desempenhado anteriormente. que crescentemente fez diminuir as demandas do movimento. refletindo na divulgação da das propostas da reforma urbana em âmbito local ou regional. Houve com isso. Rio de Janeiro e Pernambuco. num primeiro momento se deu em torno de um Movimento. No entanto. praticamente nada foi incorporado às leis orgânicas nesse sentido. os avanços no sentido da reforma urbana ficaram mais fragmentados. como por exemplo na Bahia. Rio Grandes do Sul. inclusive com proposições que não haviam sido incorporadas à Constituição Federal. o Movimento Nacional pela Reforma Urbana elaborou uma carta de princípios para se elaborar o plano diretor e distribuiu para todo o país. Saule explica que a articulação em torno da reforma urbana. Neste momento.86 acabou se descentralizando pelas regiões e pelos estados. neste tópico. sobretudo no que diz a aos fundamentos da gestão democrática. houve um fortalecimento das regionais. e em alguns pontos em Porto Alegre. E outras razões foram levantadas como a necessidade de se viabilizar recursos para as viagens e acompanhamento das regiões.

depois foi o Instituto Polis de São Paulo por quatro anos. Seguindo o rodízio. Nessa linha. a ANSUR. Este material. . Entre os pontos contidos nessa linha. Assim. vilas e provoados. 28 Idem. publicado pela FASE. 1999 e 2000 ficou por conta do acompanhamento da tramitação e discussão do Estatuto da Cidade no Congresso Nacional. Nota-se que a atuação mais recente do Fórum se ocupou em larga escala ao plano político-jurídico. Na Rio 92. nesse processo o fórum passou a ter mais a cara das entidades28 nacionais e regionais que o compõe. o próximo capitulo faz uma abordagem sobre os direitos consagrados na Constituição de 1988 objetivando aprofundar na dimensão jurídica do direito relativa a função social propriedade. influindo diretamente no documento brasileiro apresentado naquele evento. o Fórum lançou o tratado sobre cidades. funcionando como um agrupamento de entidades nacionais. realizada em Istambul. girou mais em torno do direito a cidade. A secretaria executiva foi iniciada pela FASE do Rio de Janeiro. mediante rodízio entre as demais. Assim.87 continuidade. estando atualmente sob a responsabilidade da FASE – Rio de Janeiro. foi incorporado no texto o reconhecimento da moradia como um direito fundamental a todo cidadão. Os demais. e novamente o Pólis entre 1999 e 2000. o Fórum constituiu-se numa organização mais ajustada ao plano institucional. em sua maioria caracterizadas da mesma forma. Assim. junto aos trabalhos relacionados à discussão e aprovação do Estatuto da Cidade. Segundo Saulo. Já a atuação do Fórum nos anos de 1998. a partir das atividades da ECO-92 foi criado o Fórum Nacional de Reforma Urbana. na Habitat II. Principalmente. Somente as articulações do Nordeste. a exemplo do estado de São Paulo não teve continuidade. Foi detectado que seria providencial uma entidade que se responsabilizasse e centralizasse os materiais e as informações. o Fórum teve uma participação importante. dos estados da Paraíba e Rio de Janeiro é que conseguiram se manter atuantes.

Ferreira Goulart . a liberdade e a submissão.88 Capítulo 3 A Reforma Urbana na Constituição Federal de 1988 e no Estatuto da Cidade em 2001 O novo é para nós contraditoriamente.

evidenciando a evolução histórica do conceito da função social da propriedade. após um longo processo de discussão no Congresso Nacional. ressaltou aspectos relevantes sobre a leitura jurídica do direito de propriedade ao longo do tempo. Tendo em vista. encerram a abordagem temática deste trabalho. os novos direitos que foram incorporados a texto aprovado na ocasião. observou-se. sobre o processo de aprovação desta lei federal. inseridos na Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da Cidade aprovado em 200. a presença de interesses conflitantes no processo constituinte. a qual finaliza os trâmites de regulamentação do Capítulo da Política Urbana. Inicia com uma breve abordagem sobre a evolução propriedade imobiliária no Brasil. inclusive. portanto.89 Introdução Os aspectos relativos à política urbana. . procurando elucidar entendimentos jurídicos no regime democrático de direito. sobretudo. No sentido de estabelecer relações entre as proposições da reforma urbana e conceitos dispostos no Estatuto da Cidade foram explicitadas fases processuais da matéria no Congresso Nacional e na sociedade. Na mesma linha. polarizados nos debates da cidade. compreendidos no terceiro capítulo. No tocante a constituição. Discorre.

Posteriormente. O destaque desse aspecto é relevante. cabendo a propriedade imobiliária à coletividade. como é o caso do ex-juiz do 1º Tribunal de Alçada Civil do Estado de São Paulo.1 O direito e a propriedade imobiliária no Brasil A maneira pela qual são estabelecidas as regras jurídicas relativas à questão da propriedade do solo. Historicamente considerada. e os regramentos jurídicos recentes são parte de um processo de luta e disputa de interesses dos diversos agentes sociais. ou tribo. tornou-se necessário o estabelecimento de regras que disciplinassem as relações sociais.90 3. desde a antiguidade. diretamente relacionados com a organização política dada. segundo o qual. políticas. caracterizada como um fato. ao tratar da propriedade: O conceito de propriedade. A inserção do capítulo acerca do tema na redação da Constituição Federal de 1988. antes do direito romano. a forma de tratar a questão da propriedade imobiliária varia no tempo. a fim de possibilitar a convivência social. e nos aspetos tratados neste trabalho. a propriedade tem as primeiras manifestações conhecidas. sofreu inúmeras influências no curso da história dos vários povos. os homens primitivos eram proprietários apenas das coisas móveis de uso pessoal. 2001). A depender das condições econômicas. a fim de compreender que a concepção do direito acerca da propriedade e seu regramento jurídico não são imutáveis ou plenamente desenvolvidos. enfim. sociais e de toda a sorte de influências de cada momento histórico determinado. no direito romano. o Estatuto da Cidade. fonte do direito pátrio. A história da propriedade é decorrência direta da organização política (VENOSA. família. em sua obra. a propriedade era disciplinada segundo as necessidades e segundo as condições da classe dominante . Esta consideração é imprescindível para auxiliar na compreensão do processo em que está inserido o Movimento pela Reforma Urbana. suas limitações. sua ocupação. Com o desenvolvimento da sociedade e a modificação das relações humanas. até atingir a concepção moderna de propriedade privada. Não existe o sentido de utilização exclusiva de uma pessoa ou de poder de determinada pessoa. Há juristas que fazem a análise sob este prisma.

desde que não se faça uso proibido pelas leis ou regulamentos). inclusive no direito pátrio. Com o declínio do Império Romano. Mais adiante. Exemplo disso é o disposto no artigo 2.91 no Império Romano. a propriedade imobiliária passa a ser sinônimo de poder. junto com ela. que pretendeu democratizar a propriedade. no artigo 544: Código de Napoleão.172 do Código Civil Português: A propriedade presume-se absoluta enquanto o contrário se não provar (Código Civil português. Assim. o título e o poder quase absoluto inclusive sobre as pessoas que lhe serviam. Dentro da área de propriedade do nobre. somente poderia ser adquirida propriedade imobiliária pelo cidadão romano e somente o solo romano era suscetível de ser objeto de propriedade. cancelar direitos perpétuos. artigo 2. Trata-se de disposição exageradamente individualista. estendeu-se o direito da propriedade aos estrangeiros e ampliou-se a suscetibilidade da sua aquisição.172) Vê-se na própria dicção do antigo Código Civil Brasileiro de 1916. a influência citada: . que influenciou as legislações que se seguiram na França e nos demais países. destacando-se o Código Napoleônico. abolir privilégios. pourvu qu'on n'en fasse pas un usage prohibé par les lois ou par les règlements. Exemplo desta concepção é o disposto no Código de Napoleão. durante o feudalismo. os benefícios da nascente burguesia. (a propriedade é o direito de gozar e dispor das coisas de modo mais absoluto. enfim. contrapondo aos interesses da nobreza decadente. artigo 544: La propriété est le droit de jouir et de disposer des choses de la manière la plus absolue. o proprietário da área tinha. a Revolução Francesa marca o processo histórico de profundas transformações no tratamento jurídico da propriedade. tudo no sentido de aplicar a igualdade e liberdade no que se refere à propriedade privada. vinculadas à terra. cobrava tributo e era destinatário da submissão dos camponeses. Cedia o uso da terra para o servo cultivá-la e ficava com praticamente toda a produção. declarava a paz. este era o soberano: fazia a guerra. Na Idade Média.

Essa idéia de exclusividade e de absolutismo vem expressamente proclamada pelo legislador pátrio. caracterizando-se esta a exceção da regra. segundo afirma Trabucchi. arcada por profundo sentimento exclusivista e de individualismo. a sofrer restrições com vistas ao atendimento de escopos sociais: De certo modo os legisladores e os aplicadores da lei em todo o mundo. com grau de direito absoluto. mostram-se propensos a atenuar a rigidez do direito de propriedade: . é tratada por renomados juristas: A Revolução pusera termo à concepção medieval. domínio direito do senhor e domínio útil do vassalo. O direito de propriedade assim concebido traz como elementos centrais a noção de um direito absoluto. com a revolução industrial e com as doutrinas socializante. sob o nome de domínio iminente do Estado. e onde o proprietário é considerado senhor único e exclusivo de sua terra. 527 do Código Civil (RODRIGUES. dentro da qual o domínio se encontrava repartido entre várias pessoas. 527). peculiar ao Direito romano. Absoluto no sentido de que o proprietário tem o mais amplo poder jurídico para usar e desfrutar a coisa da maneira que lhe aprouver. no sentido de que perdura no tempo só se extinguindo pela vontade do dono ou expressa disposição da Lei. A influência da Revolução Francesa sobre a concepção de propriedade no direito pátrio. Do conceito da propriedade privada exercida com absoluta liberdade. e havia substituído pelo conceito unitário de propriedade. O exagerado individualismo que predominou no direito começou. passou-se ao longo do tempo. a partir do século XIX. bem como a estreita vinculação das forças políticas. sem participação de qualquer outro e podendo repelir qualquer ingerência alheia. até prova em contrário (Antigo Código Civil Brasileiro. 1978). no art. econômicas e sociais determinando a concepção e o tratamento dado pelo direito à propriedade imobiliária. exclusiva porque exercido apenas e de acordo com os interesses do dono. e perpétuo. exclusivo e perpétuo.92 O domínio presume-se exclusivo e ilimitado. para um processo de estabelecimento de subseqüentes restrições e controles sobre a propriedade imobiliária.

a ordem jurídica abandonou a passividade que guardava entre os conflitos de interesses. que iniciou seus trabalhos sem um projeto anterior. inclusive com a formulação de uma Emenda Popular que teve um papel importante no processo de elaboração da Constituição Federal e teve vários de seus temas tratados no Capítulo da Política Urbana.93 (. Mas. em qualquer circunstância. constatam a influência decisiva dos movimentos sociais organizados na confecção da Lei Maior. Os juristas.. no propósito de promover o bem comum que é uma das finalidades da lei. a ação dos representantes desses agentes privados na Constituinte foi de impedir o . com vocabulário mais ou menos rico. associações de classe. Contudo. e passou a intervir. movimentos e grupos sociais participaram ativamente dos trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte.. sendo objeto de intenso debate político ideológico. reconhecendo embora o direito de propriedade. 1995). sobrepõe-se o social ao individual (PEREIRA. O movimento pela redemocratização que culminou no fim da ditadura militar e foi sucedido da instalação da Assembléia Nacional Constituinte. sendo um dos aspectos marcantes o fato de que a Assembléia Nacional Constituinte não partiu de um texto técnico e previamente elaborado. por sua vez. organizações não governamentais. entre os interesses econômicos imediatos e a idéia da propriedade vista com a finalidade econômica: Com base numa visão restrita da cidade como um bem econômico. a Assembléia convocada em 1987 também preferiu não partir de um projeto já elaborado (BASTOS. consubstanciou-se no marco deste processo. uma observação ressalta com força de uma constante. Um conjunto de entidades. associações civis. razão pela qual formaram-se inúmeras comissões de trabalho que ficaram mais suscetíveis às reivindicações e discussões propostas pelos movimentos: A exemplo da Constituição de 1946. 1990). nos misteres normais a que se destinam. durante aquele período. garante a ordem pública a cada um a utilização de seus bens.) Dentro da variedade de explicações. séria e severamente. a questão sofreu embate. e ainda de assegurar a justa distribuição a propriedade com igual oportunidade para todo admitidas a sobrevivência da propriedade privada como essencial à caracterização do regime capitalista.

impõe limitações à utilização da área. e. passando às lutas institucionais. e outras regras de direito que têm por objeto a aplicação daqueles princípios constitucionais. o Estatuto das Cidades. por inserir no novo texto constitucional um capítulo específico para tratar do tema política urbana. terreno em que somam esforços os marxistas e os católicos sociais (PEREIRA. também. consubstanciam-se em fixadores de princípios e fundamentos para as demais disciplinas. Note-se que os dispositivos constitucionais. Mais uma vez. como é exemplo o Capítulo VI do Título VIII do texto constitucional. com vistas a atender a finalidade social no que se refere à preservação do meio ambiente. Há juristas que constatam este fato: Não tem faltado mesmo hostilidade franca à propriedade. que a propriedade deve atender a sua função social. como normas basilares que são. Assim. a Constituição Federal Brasileira de 1988 é um marco nesse processo de limitação da propriedade como direito absoluto e exclusivo. inclusive. com a presença marcante de diversos agentes sociais. no sentido de ultrapassar outras formas de luta. ao tratar do meio ambiente. fruto da concepção de que a propriedade deve ter uma finalidade social. que. ao estabelecer no artigo 5º inciso XXII e XXIII. e certa posição de inimizade aos abastados. como as ocupações. 1997). vê-se o interesse da maioria impondo limitações à propriedade privada e sua utilização. atuando. do que é exemplo. o que vem disposto no Capítulo II do Título VII da Constituição Federal. 1990). principalmente. Todavia. Além disso. como é exemplo a inserção da função social da propriedade e um capítulo específico da política urbana no texto constitucional: .94 estabelecimento de normas destinadas a regular as atividades urbanísticas que pudessem afetar os interesses dos detentores do capital imobiliário (SAULE. houve um processo de estabelecimento de subseqüentes e crescentes limitações impostas à propriedade imobiliária. existem outros dispositivos da Constituição Federal de 1988 que evidenciam esta função social da propriedade imobiliária.

luz. posto de saúde. além da indispensável necessidade de não haver contradições entre os dispositivos. Outras. 1997). Por este motivo. dependem de regulamentação e especificação para serem aplicáveis. considera o caráter sistêmico do ordenamento jurídico. uma vasta gama de regras que compõem um sistema. etc. Portanto. esgoto. 3. Muitas foram as inovações da Constituição Federal de 1988.2 A Política Urbana na Constituição Federal O artigo 5º inciso XXIII da Constituição Federal estabelece que: a propriedade atenderá a sua função social. um sistema. iluminação pública. trata-se de um encadeado de normas constitucionais. escola. leis estaduais. canalização de córrego. na aferição do conteúdo das normas constitucionais devese considerar que há normas principiológicas. regulamentos. bem como. chamada “Constituição Cidadã”. sendo necessário compreender o direito como um todo. cujo conteúdo deve ser interpretado em consonância com as demais regras da própria Constituição Federal e .95 A busca pelo direito à cidade realizada pela população dos bairros carentes de infra-estrutura e serviços urbanos notoriamente com as Administrações Municipais para obtenção do fornecimento de água. que viabilizou as condições para reorganização político jurídica do país para a instituição de um Estado Democrático através da Assembléia Nacional Constituinte realizada em 1978/1988. Trata-se de norma de caráter principiológico. se somam com o processo geral de democratização do país canalizando esse desejo cívico da campanha das diretas já em 1984. não podendo haver a pura e simples interpretação gramatical de um dispositivo isoladamente. hospital. ainda. com gradação de força. Para a Constituição de 1988 ser interpretada aplicada é imprescindível que a esse processo histórico recentemente vivenciado sempre seja reportado na investigação do significado de seus princípios e preceitos (SAULE. leis complementares. orgânico e lógico. leis municipais. creche. leis ordinárias. enfim.

Título VIII. e é ainda desdobramento do disposto na Constituição Federal. executada pelo Poder Público municipal. a competência para os Municípios executarem. Exemplo de regras inferiores neste sentido é o Estatuto da Cidade. Há.. as quais vão estabelecendo a aplicação prática deste princípio em casos mais específicos. conforme diretrizes gerais fixadas em lei.406/2002 que adequa o disposto no Código ao Usucapião Urbano. Estabelece o artigo 182 da Constituição Federal: Artigo 182 – A política de desenvolvimento urbano. o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade. que será analisado no Capítulo VI. Especificamente no que se refere à política urbana. impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Outra disposição constitucional importante no sentido de impor limitações à propriedade é o artigo 225 e seguintes da Constituição Federal Capítulo VI. que dispõe acerca do meio ambiente. bem de uso comum do povo essencial à sadia qualidade de vida.96 das regras inferiores de direito. o texto constitucional destina o Capítulo II do Título VII para tratar do assunto. segundo diretrizes gerais fixadas em lei. . tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes. tanto no que se refere à função social da propriedade como ao desdobramento da Política Urbana. Desta forma estabelece ainda. disposições de outras leis que incorporam o sentido do texto constitucional. previsto no artigo 183 da Constituição Federal. também. no que se refere à efetivação destas medidas: Artigo 225 da Constituição Federal: meio ambiente ecologicamente equilibrado. Lei nº 10. estabelecendo restrições à propriedade e impondo obrigações aos entes públicos. como é exemplo o Novo Código Civil.

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Outro aspecto importante do que prevê a Constituição Federal é o estabelecimento das competências entre os Entes da Federação acerca do tema da Política Urbana. Pois, de nada adiantaria estabelecer os princípios e as regras sobre o tema e não estabelecer as competências e condições para a aplicação dos preceitos. A Constituição fixou a competência dos diversos entes públicos, para tratar do assunto: Os assuntos urbanísticos são da competência simultânea de todas as entidades estatais (União, Estados-membros, Distrito Federal e Municípios), porque a todas elas interessa a ordenação físico-social do território nacional (MEIRELLES, 1990). Dentro das competências fixadas, é da União a competência para instituir diretrizes para o desenvolvimento urbano e editar as normas gerais sobre urbanismo: Artigo 21 – Compete à União: XX – instituir diretrizes para o desenvolvimento urbano, inclusive habitação, saneamento básico e transportes urbanos. Os Estados, Territórios e Distrito Federal têm competência concorrente, conforme dispõe o artigo 24 da Constituição Federal: Artigo 24 – Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: I – direito tributário, financeiro, penitenciário, econômico, e urbanístico; (...) § 2º - A competência da União para legislar sobre normas gerais não exclui a competência suplementar dos Estados. Convém citar a constatação do jurista mencionado, acerca da inexistência de disposições sobre urbanismo nas legislações estaduais. Segundo ele constata, seria necessário para o estabelecimento de regras gerais que promovessem a integração entre os planos diretores municipais:

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Resulta daí a ausência total de integração dos planos diretores municipais, que vão surgindo isolada e esparsamente, quando é hoje pacífico que a planificação urbanística deve ser feita a vasto raggio, interligando-se os planos menores aos maiores, até obter-se a funcionalidade orgânica prevista na planificação nacional (MEIRELLES, 1990 ). Ainda segundo as regras de competência acerca do urbanismo, fixadas na Constituição Federal de 1988 entre os Entes da Federação, há de se destacar a atribuição dos municípios estabelecida no artigo 30 da Constituição Federal e também no artigo 182 que trata especificamente da Política Urbana: Artigo 30 - Compete aos Municípios: I - legislar sobre assuntos de interesse local; II – suplementar a legislação federal e estadual no que couber; Artigo 182 – A política de desenvolvimento urbano, executada pelo Poder Público municipal, conforme diretrizes gerais fixadas em lei, tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes. Assim, embora não previsto expressamente na Constituição Federal de 1988, a interpretação sistemática do texto nos dá a noção de que cabe aos Municípios atribuição importantíssima na fixação da política urbana: Assim entendem os juristas: Apesar de não haver uma previsão expressa para o Município legislar sobre direito urbanístico, a competência do Município sobre a política urbana é preponderante em relação a competência da União e dos Estados. (...) Esta preponderância decorre da leitura das competências estabelecidas no artigo 30 e nas normas do capítulo da política urbana (artigo 182) que definem o Município como o espaço político institucional, para a realização constitucional das normas dirigentes da política urbana em especial através do plano diretor (SAULE, 1997).

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As especificidades da aplicação dos conceitos e princípios gerais fixados na Constituição Federal, Leis Federais e Estaduais acerca do planejamento urbano, e suas aplicações no município tornam necessária e desejável a atribuição da competência para os municípios estabelecerem a política urbana adequada, a fim de atingir os objetivos e diretrizes fixados. Cabe ressaltar, também, outros aspectos, tais como a ampliação da autonomia municipal nas esferas política, administrativa e financeira, o que vem expresso na Constituição Federal de 1988. A organização político-administrativa da República Federativa do Brasil compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos autônomos, nos termos desta Constituição. (Artigo 18 da Constituição Federal) Exemplo desta maior autonomia conferida ao Município como Ente Público é o disposto no artigo 29 da Constituição Federal quando estabelece que o Município deverá reger-se por lei orgânica aprovada pela Câmara Municipal. O Município reger-se-á por lei orgânica, votada em dois turnos, com o interstício mínimo de dez dias, e aprovada por dois terços dos membros da Câmara Municipal, que a promulgará, atendidos os princípios estabelecidos nesta Constituição, na Constituição do respectivo Estado e os seguintes preceitos. Artigo 29 - Caput da Constituição Federal. Reflete ainda esta maior autonomia do Município, o artigo 35 da Constituição Federal que impede a intervenção dos Estados nos Municípios, admitindo-a apenas em situações excepcionais. O Estado não intervirá em seus Municípios, nem a União nos municípios localizados em Território Federal, exceto quando: (...) Artigo 35 - Caput da Constituição Federal. Estabeleceu-se, ainda, a possibilidade do Município instituir tributos, assim como a União, os Estados e o Distrito Federal, preservadas as suas competências fixadas:

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A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios poderão instituir os seguintes tributos. Artigo 145 da Constituição Federal Ainda quanto à relativa autonomia do Município no que tange à instituição e arrecadação de tributos, a Constituição Federal dispôs a competência do Município para instituir impostos: Compete aos Municípios instituir impostos sobre: I – A propriedade predial e territorial urbana; (...) § 1º - O imposto previsto no inciso I poderá ser progressivo, nos termos de lei complementar municipal, de forma a assegurar o cumprimento da função social da propriedade. A Constituição Federal estabelece ainda as formas de repartição das receitas tributárias. Vem tratado no artigo 158 à parte das receitas tributárias destinadas aos Municípios. Nesse sentido, a Constituição de 1988 representou um avanço no que se refere ao estabelecimento de garantias e direitos aos cidadãos: O princípio da função social da propriedade como garantia do direito da propriedade urbana ter uma destinação social, se integra com os direitos fundamentais norteadores da política urbana e do direito de petição aos Poderes Públicos em defesa de direitos ou contra ilegalidades ou abuso de poder, o direito de não ser privado de liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal, a garantia do contraditório e ampla defesa nos processos judiciais e administrativos são direitos que visam proteger e promover a cidadania e a dignidade da pessoa humana. Essas garantias conferem aos cidadãos proteção constitucional contra atos praticados pelo Poder Público ou agentes privados que ocasionem restrições e lesões aos seus direitos como o direito à cidade. Para essa finalidade podem ser utilizadas as garantias constitucionais do mandado de segurança individual e coletivo, o mandado de injunção, a ação popular, o hábeas data, o hábeas corpus e a ação civil pública” (SAULE, 1997).

Aqui.Lei Federal nº 10. Os questionamentos aliados à necessidade de novos padrões urbanos vêm de uma trajetória de quase quarenta anos. destacam-se três aspectos sobre o fato da aprovação desta legislação: primeiramente porque. ela manteve pressupostos relevantes da reforma urbana. possibilitaram incorporar no texto constitucional uma série de dispositivos que representaram uma profunda transformação na política urbana.257 de 2001 – após 11 anos aprova-se a regulamentação dos artigos 182 e 183 da Constituição O Estatuto da Cidade é o nome dado a lei federal aprovada em 2001. Para efeito desse trabalho. para ser aprovada. Do ponto de vista histórico. inclusive agregando novos temas como foi o caso da questão ambiental. o Estatuto é o resultado de um longo trabalho de discussão sobre a regulamentação do capítulo sobre a Política Urbana da Constituição Federal. Em síntese. Embora tenha prevalecido a roupagem do campo jurídico no último período. iniciada pelo posicionamento dos setores técnicos combinados com as demandas e reivindicações dos movimentos populares urbanos durante toda essa trajetória. entre outras.3 O Estatuto da Cidade . coube analisá-lo como extensão de um processo que teve origem na década anterior. mais do que uma década. no caso do Movimento Nacional pela Reforma Urbana. a aprovação do Estatuto finaliza o trabalho do processo constituinte nesta matéria. o segundo aspecto refere-se ao fato de essa legislação ter incorporado inovações significativas para a política urbana. embora tenha levado tanto tempo e tenha sofrido muita discussão e articulação. e o terceiro fica por conta . reivindicações e pressões das forças vivas da sociedade. ou seja. significa a continuidade e a vivacidade dos conceitos existentes em torno da reforma urbana desde a década de 60 como se viu no primeiro capítulo.101 As influências. o Estatuto da Cidade não é tão somente um novo aparato legal. o conteúdo de crítica e denúncia foi mantido ao longo de todo esse tempo. De certo modo. Por outro lado. sob o prisma de uma legislação tardia que levou onze anos. 3.

órgãos públicos. além de ter maior controle das iniciativas públicas e privadas sobre o urbano. Centro de Documentação e Informação. passou a dar fim a muitas dúvidas lançadas sobre a aplicabilidade dos artigos aprovados na constituição de 1988. também. instrumentos jurídicos de controle da especulação imobiliária. Vem. Tal ansiedade também permeou a classe jurídica que. uma Conquista Histórica. A razão da morosidade para a aprovação pode ser explicada pelo conteúdo da própria matéria adversa e cheia de interesses diversos presentes nas cidades. Inácio. Estatuto da Cidade. também. 2002. Entretanto. relator do referido projeto na fase final de tramitação na Comissão de Desenvolvimento Urbano e Interior. . principalmente no que refere a penalidades para a retenção especulativa do solo urbano. Eles podem contribuir efetivamente para melhorar as condições de vida na cidade. a aprovação do Estatuto foi: Fruto de um difícil e vagaroso processo de negociação entre os diversos setores que atam no cenário urbano – movimentos populares. qual seja. com o Estatuto. o conjunto de instrumentos urbanísticos inovadores contidos no Estatuto abre uma perspectiva positiva para o planejamento urbano atual. e também pelo fato de envolver. Esses aspectos induziram preocupações que serão tratadas ao longo do texto. universidades. prover os municípios de um conjunto importante de instrumentos para a execução da política de desenvolvimento urbano29 (ARRUDA. empreendedores privados – o Estatuto da Cidade vem suprir uma inadmissível lacuna em nosso corpo de leis. a regulamentação do capítulo de política urbana da Constituição Federal. na medida em que normatiza as diversas formas de uso do solo. 2002). entidades técnico-profissionais e. Os diversos entraves e multiplicidade de interesses envolvidos em todo esse processo chegaram a provocar situações de incerteza e insegurança quanto às reais possibilidades de finalização deste trabalho por parte do Congresso Nacional. entre outros assuntos. Câmara dos Deputados. Brasília.102 do contexto urbano vivido pelas cidades no momento em que o Estatuto é aprovado. Para o deputado federal Inácio Arruda. Coordenação de Publicações. A difícil realidade vivida pelas cidades 29 ARRUDA. A aprovação do Estatuto significou um alívio para os defensores da reforma urbana.

4 Trajetória do Projeto de Lei nº 5. teve uma longa e lenta tramitação no Congresso Nacional.788. procurou-se compreender.788 e as devidas justificativas. 5. dos limites da infra-estrutura existente. Nessa linha.788 no Congresso Nacional até chegar a sua aprovação. Através desta passagem.788 no Congresso Nacional Como já foi dito. com base nos elementos apresentados. discorreu-se sobre as inovações contidas no Estatuto e sobre o conteúdo da medida provisória do governo federal. Em seguida. o Projeto de Lei nº. denominado Estatuto da Cidade.5. esta parte do trabalho procurou contextualizar o Estatuto da Cidade ressaltando os vários elementos arrolados até aqui. da especulação imobiliária. chegou a ficar parada por algumas vezes e foi retomada no final dos anos 90 para ser. Primeiramente. A observância da tramitação desta matéria revela controvérsias e conflitos de interesses expressos no debate sobre os caminhos da cidade. do déficit habitacional. Por fim. segue uma breve exposição sobre a tramitação do Estatuto da Cidade enquanto Projeto de Lei nº. de forma mais detalhada. que agora segue instrumentalizada pelo robusto arcabouço jurídico do Estatuto da Cidade. da degradação ambiental e demais problemas urbanos. que contem os vetos ao projeto de lei 5. A matéria constitucional do capítulo da Política Urbana levou mais de 11 anos de discussão. aprovada em 2001. . do crescimento desordenado e oneroso. foram levantados alguns aspectos relacionados com a nova fase da reforma urbana. enfim. a acusação de morosidade e lentidão desta matéria.103 diante dos efeitos da urbanização. A terceira resgata e relaciona antigas formulações do ideário produzidas pelo Movimento pela Reforma Urbana. revelando com maior nitidez os entraves do trâmite processual. 3. passou por várias comissões. passou a depender da ação política e executiva no cotidiano do planejamento urbano.

não havendo recurso para sua apreciação em plenário.788/90 passou a ser o projeto base para as discussões dos deputados30 (SUIANA. A partir de então.788/90 iniciou-se uma longa trajetória por várias comissões. o deputado adiou o prazo para a apresentação das emendas ao projeto. sem contudo alterar a essência da iniciativa do senador Pompeu de Souza. o Projeto de Lei 5. Novembro de 1995. entretanto. 1995). publicação da ANSUR E POLIS. Esse relatório não foi à votação. Atendendo a uma solicitação formulada pelo Ministério da Ação Social. Desenvolvimento Urbano e Interior. 31 Lei Federal nº6. Sergio Gardenghi. o projeto tinha o propósito de regulamentar os artigos 182 e 183 e estabelecer diretrizes gerais de política urbana.788/90 foi encaminhado à Comissão de Viação e Transportes. No ano seguinte. Até então. em seguida foi encaminhado para a Câmara dos Deputados no final de 1990. Somente em agosto. o projeto foi aprovado na íntegra pela Comissão de Mérito do Senado.76631 em vigor e o PL do Estatuto da Cidade. esse Ministério sofreu uma série de reestruturações políticas fazendo com que. anexado aos autos do processo legislativo. Na Câmara. Nesse momento. todos os demais projetos de lei de desenvolvimento urbano passaram para um segundo plano ficando estes apensados a ele. que havia constituído uma comissão especial para propor alterações na Lei 6. A primeira comissão a apreciá-lo foi a de Constituição e Justiça. até junho de 1992. através do número 5. Quando o Senado aprovou o Estatuto da Cidade em agosto de 1990. da política urbana e disposições gerais. 30 SUIAMA. Continuando a ordem de tramitação na Câmara. Entretanto. o relator reabriu o prazo para apresentação de emendas ao projeto.766 de 19 de dezembro de 1979. 6. O deputado Goldman apresentou seu relatório em setembro de 91 propondo sua modificação em sete pontos. O Estatuto da Cidade continha 73 artigos divididos em três títulos: princípios e objetivos. tendo sido. a Comissão constituída ainda não tivesse apresentado suas conclusões sobre a revisão da Lei nº. o Projeto 5. tendo sido nomeado relator o deputado Alberto Goldman (PMDB/SP). que dispõe sobre parcelamento do solo. Avaliação dos projetos de lei de desenvolvimento urbano em tramitação no congresso nacional.766/76. sendo nomeado como relator o deputado Nilmário Miranda (PT/MG). pelo falecido Senador Pompeu de Souza (PSDB/DF).104 O projeto foi apresentado ao Senado em 28 de julho de 1989. . através do nº171/89.

o Estatuto da Cidade foi alvo de uma grande campanha visando sua rejeição. o direito de propriedade é absoluto e não poderia sofrer nenhum tipo de limitação.788/90. O resultado foi imediato fazendo com que 32 parlamentares assinassem emendas em defesa do direito de propriedade. Família e Propriedade (TFP). Sindicato das Indústrias da Construção Civil de São Paulo (SINDUSCON). a qual reduziu e modificou consideravelmente o . O PL 5. foi formado um grupo de trabalho composto por ambos os parlamentares e mais algumas entidades convidadas como o Fórum Nacional pela Reforma Urbana. Em janeiro de 1994. Essa movimentação foi articulada pelo Sindicato das Empresas de Compra.105 Nesta mesma época. O texto foi produto de considerável esforço dos representantes. apresentou também emendas ao projeto. após um amplo processo de discussão nos Estados. Tradição. Neste momento. que estava representada pelo Sindicato das Empresas de Compra. após vencerem muitas dificuldades em face às delicadas negociações até chegar a proposta. pela Comissão. reconhecida como ultraconservadora. aguardando relatório do deputado Ponte. de acordo com a Constituição. o Estatuto da Cidade deveria ser primeiro apreciado pela Comissão solicitante e só então retornar à Comissão de Desenvolvimento Urbano. o deputado Luis Roberto Ponte (PMDB/RS). Indústria e Comércio em novembro de 1992. na forma regimental. Câmara Brasileira das Industrias da Construção Civil (CBIC) e também pela entidade. Venda e Administração de Imóveis (SECOVI). membro da Comissão de Economia. A Mesa da Câmara entendeu que. O Fórum Nacional de Reforma Urbana. por iniciativa do deputado Nilmário Miranda. a Secretaria Nacional de Desenvolvimento Urbano do Ministério da Integração Regional e a Central Única dos Trabalhadores (CUT). vistas do projeto. Tendo em vista a não apresentação do relatório até o segundo semestre de 1993. que conseguiram chegar a um consenso em torno das questões mais polêmicas do projeto. visando introduzir novos instrumentos de política urbana e corrigir algumas falhas de redação e constitucionalidade da proposição. Estas entidades argumentavam que.788/90 foi encaminhado então à Comissão de Economia. a Câmara Brasileira das Indústrias da Construção Civil (CBICC). o grupo de trabalho concluiu a elaboração de um substitutivo ao Projeto de Lei 5. solicitou. Venda e Administração de Imóveis (SECOVI). Indústria e Comércio.

a proposição de sua aprovação. o referido projeto ficou novamente paralisado. naquela conjuntura. Já no capítulo segundo. a terceira. estabelecendo o procedimento para a aplicação das sanções em caso de imóveis subtilizados ou não utilizados. . de maneira bastante genérica. e última parte. 1995). sem nenhuma explicação. com a finalidade de regular o capítulo constitucional da política urbana e introduzir finalmente uma lei urbanística em nível nacional. O texto apresentado também incorporou outros aspectos nesta parte como: o procedimento judicial do usucapião especial urbano. foram enumerados os instrumentos da política de desenvolvimento urbano. preferiu-se apostar na aprovação da Lei de Desenvolvimento Urbano acordada com o setor imobiliário. foram dispostos os princípios. Esse substitutivo ao Estatuto da Cidade foi amplamente discutido pelo Fórum Nacional pela Reforma Urbana nos primeiros meses de 1994. Prevaleceu. as diretrizes e os objetivos da política urbana. o substitutivo procurou regulamentar o parágrafo 4º. Assim. Conforme o cumprimento de acordo feito como o setor imobiliário. O substitutivo passou a ser composto por vinte e nove artigos divididos em cinco capítulos. Embora tenha sido negociado com diversos setores envolvidos com a questão urbana. sem no entanto. foram suprimidos alguns instrumentos importantes do Projeto. No primeiro deles. Isso porque o Fórum considerava que. entretanto. quando requerido por uma coletividade. a instituição de alguns requisitos mínimos para o plano diretor – a fim de evitar que este instrumento se constitua simplesmente em um conjunto de princípios – e a regulação dos institutos da transferência do direito de construir. discipliná-los. Por outro lado. ficou incompleta devido à falta de tempo para que eles pudessem concluí-lo (SUIAMA. logo em seguida.106 Projeto de Lei. da reurbanização consorciada e do direito de superfície. No entanto. e um grupo de entidades chegou a defender que fosse rejeitado do substitutivo acordado por não conter alguns princípios e instrumentos essenciais para a reforma urbana. De acordo com os assessores encarregados de elaborar o Projeto. uma posição mais favorável à reforma urbana não seria hegemônica no Congresso Nacional. artigo 182 da Constituição. dentre eles o direito de preempção. mesmo reconhecendo-se seu conteúdo pouco inovador. o deputado Ponte ignorou sumariamente o produto das extensas negociações e não apresentou o seu parecer na Comissão de Economia. Foram apresentadas diversas propostas de emendas.

foi retirado. Indústria e Comércio (CEIC) e pela Comissão de Defesa do Consumidor. Neste texto. Isso reanimou novamente os setores envolvidos com a democratização da gestão das cidades. ainda tramitava na Câmara. aos poucos. Indústria e Comércio (CEIC). Cabe ressaltar que ela. sendo aprovado em outubro de 1997 nesta comissão. foi encaminhada à Comissão de Defesa do Consumidor. o Projeto de Lei nº. que até então havia tramitado sem deliberação. então. Na seqüência. o texto foi aprovado na Comissão de Defesa do Consumidor. motivo pelo qual seu parecer tem o . o projeto foi distribuído originalmente à comissão de Viação e Transportes. requereu e obteve a redistribuição do projeto. também haviam sido incorporados dispositivos constitucionais pertinentes aos propósitos da reforma urbana. sobretudo em relação à questão ambiental. Nesta Comissão foi aprovado outro substitutivo.788/90 retornou à pauta. foi apresentado o primeiro substitutivo na Câmara dos Deputados. que era a primeira na seqüência processual. o Executivo Federal passou a demonstrar interesse na matéria por meio da então Secretaria de Política Urbana do Ministério do Planejamento e Orçamento. no entendimento de que a aprovação daquele projeto poderia significar um passo muito importante no caminho da Reforma Urbana para o país. A proposição teve audiência solicitada pela Comissão de Economia. A proposição. Meio Ambiente e Minoria (CDCMAM).107 O Estatuto da Cidade voltou a tramitar regulamente em outubro de 1994. Indústria e Comércio (CEIC). incluindo apenas aperfeiçoamentos de algumas emendas. Desenvolvimento Urbano e Interior (que depois foi subdividida em Comissão de Viação e Transportes (CVT) e Comissão de Desenvolvimento Urbano e Interior (CDUI)) e à comissão de Constituição. Justiça e de Redação (CCJR). e o empresariado urbano. o referido Projeto de lei nº 775/83 – Lei de Desenvolvimento Urbano. No mês de julho daquele ano. No final de 1998. começava a perceber o Estatuto da Cidade como instrumento importante no desenvolvimento dos seus interesses econômicos nas cidades. Em 1997. Diante do visível resultado do trabalho do movimento social organizado. Até 1995.5. que aperfeiçoou o texto da comissão anterior. movido precipuamente pelas gestões das entidades que participaram do Fórum Nacional de Reforma Urbana (FNRU). Meio Ambiente e Minoria (CDCMAM). Meio Ambiente e Minoria (CDCMAM). aproveitando o texto do substitutivo da Comissão de Economia. Após intenso debate na Comissão de Economia. novamente por iniciativa do próprio Executivo o referido Projeto. de iniciativa do Executivo.

no plenário do Senado. o substitutivo aprovado na Câmara sem nenhuma alteração33. foram possíveis o estabelecimento de uma parceria entre a própria Comissão e o Fórum Nacional de Reforma Urbana. na cidade de Fortaleza. acatando os aperfeiçoamentos necessários. 34 Cf Declaração de voto do relator. À comissão de Desenvolvimento Urbano e Interior (CDUI). Os motivos do veto serão retomados mais adiante. foi aprovado por unanimidade este substitutivo do Estatuto da Cidade na Comissão de Desenvolvimento Urbano e Interior (CDUI)32. 2001. entre outros. o projeto obteve a aprovação final na Câmara dos Deputados e retornou finalmente para o Senado Federal. foram realizados vários encontros realizados em diferentes locais do país. no Estado do Ceará. No dia 10 de julho de 2001. Polis. 33 SAULE JÚNIOR. São Paulo. com veto referente ao instrumento de regularização fundiária da concessão especial de uso para fins de moradia. Com o intuito de observar o reconhecimento e a amplitude desses eventos. Na passagem do Estatuto da Cidade pela Comissão de Desenvolvimento Urbano e Interior (CDUI). Op cit. como principal Comissão de mérito. Estatuto da cidade: novas perspectivas para a reforma urbana. Após passar por um processo ampliado de debate chegou-se a um substitutivo composto pelos aspectos mais relevantes acumulados neste processo histórico de elaboração. basicamente sem alteração. o desencadeamento de um processo democrático envolvendo diversos atores da sociedade e órgãos governamentais visando a elaboração de um substitutivo regulamentado os instrumentos de política urbana que contemplasse os interesses essenciais de cada setor. Deputado Inácio Arruda (PCdoB-CE). No início de 2001.108 status regimental de parecer de mérito. tendo sido aprovado por unanimidade na Comissão de Assuntos Sociais. conforme registros constantes no relatório final da referida Comissão da Câmara dos Deputados34: . pelo fato da Presidência da Comissão de Desenvolvimento Urbano ter ficado sob a direção de partidos progressistas (Partido Comunista do Brasil e Partido Socialista Brasileiro) e da relatoria do Estatuto ter sido assumida pelo próprio Presidente da Comissão.debate promovido pelo Pacto de Cooperação de Fortaleza em 5 de maio de 1999. 32 . Nelson. foi finalmente aprovado. No final de 2000. foram destacados alguns. coube a análise geral da matéria tratada pelo Estatuto da Cidade. Do mesmo modo. No final de 1999. ele foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Meio Ambiente e Minoria (CDCMAM). agora. 2001. contando. com a De acordo com SAULE (2001). ROLNIK. no ano de 1999. a lei do Estatuto da Cidade foi sancionada pelo Presidente da República. Nos trabalhos desta última procurou-se concentrar esforços no aperfeiçoamento do projeto vindo da Comissão de Defesa do Consumidor. Raquel.

Fórum Nacional de Reforma Urbana (FNRU). Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB). como: Sindicato das Empresas de Compra. com a presença de diversas entidades. Conselho Federal de Engenharia. Arquitetura e Agronomia (CONFEA). Administração de Imóveis e Condomínios (SECOVI-CE). Movimento Nacional de Moradia Popular. . Cearah Periferia: Federação das Associações de Bairros e Favelas de Fortaleza (FBFF). técnicos do setor. Locação. . Federação do Comércio (FECOMÉRCIO). Sindicato das Empresas de Compra. Secretaria de Desenvolvimento Urbano da Presidência da República (SEDU-PR).seminário "Propondo o Estatuto da Cidade". . Confederação Nacional das Associações de Moradores (CONAM). no dia 20 de agosto de 1999. Sindicato das Empresas de Compra. Departamento de São Paulo (IAB/SP). União das Comunidades da Grande Fortaleza (UCGF). Confederação Nacional do Comércio (CNC). lideranças empresariais e comunitárias. Central Única dos Trabalhadores (CUT). Câmara dos Dirigentes Lojistas de Fortaleza (CDL).seminário "Reforma Urbana e o Estatuto da Cidade". Escola de Formação de Governantes (EFG). Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB). Venda. com o apoio de diversas entidades: Universidade Federal do Ceará (UFC). Conselho Federal de Serviço Social (CFSS). Universidade Estadual do Ceará (UECE). na Câmara dos Deputados em Brasília. Venda. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). (SINDUSCON). Conselho Regional de Engenharia. Locação. Administração de Imóveis e Condomínios (SECOVI-SP). Pacto de Cooperação. Pastoral do Solo Urbano. contando com a participação de: Movimento Defenda São Paulo. Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB). Fórum Nacional de Reforma Urbana (FNRU). Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). entre inúmeras autoridades. Venda. . Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). nos dias 5 e 6 de agosto de 1999 . promovido pela Assembléia Legislativa do Estado do Ceará e pela Câmara Municipal de Fortaleza. Confederação Nacional de Associação de Moradores (CONAM).109 presença de vários Parlamentares da Comissão de Desenvolvimento Urbano e Interior (CDUI). em 16 de junho de 1999.audiência pública na Comissão de Desenvolvimento Urbano e Interior (CDUI). promovido pela Câmara Municipal de São Paulo. Federação dos Trabalhadores do Ceará (FETRACE). Instituto Polis. Associação dos Docentes da Universidade Federal do Ceará (ADUFC). Arquitetura e Engenharia (CREA-CE). Locação. Administração de Imóveis e Condomínios (SECOVI-SP).

Sob este ponto de vista. admite-se. a longa trajetória do Estatuto no Legislativo Federal. sobretudo na Câmara dos Deputados foi produto de um processo mais democrático em se tratando de Engenharia. promovido pelo Gabinete da Deputada Estadual Luciana Santos. Fernando Bezerra Coelho. Administração de Imóveis e Condomínios (SECOVI-SP) e pelo Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Habitação e Urbanismo do Ministério Público do Estado de São Paulo (CAOHURB).audiência pública na Câmara Municipal de Salvador em 3 de setembro de 1999. e do Ministério Público. Por fim.110 . pelo Sindicato das Empresas de Compra. Através da CDUI. . que a trajetória valorizou e reconheceu plenamente as contribuições da sociedade ao longo do processo. Instituto de Arquitetos do Brasil . entre as quais: Universidade Federal da Bahia (UFBA). Além desses encontros. Caminhos do Povo". Fundação Mário Leal Ferreira. também foram retiradas determinadas proposições para permitir o trâmite processual. Nessa direção. em Recife. Venda. entre outros. pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). com a presença de parlamentares e de representantes de diversas entidades.ciclo de debates "Governo da Cidade. Essa movimentação gerou várias mudanças na proposta original. Em que pese tais ocorrências. no dia 27 de dezembro de 1999. Locação. Universidade Católica.Departamento da Bahia (IAB-BA). com a presença. em face ao volume de negociações. ocorreram diversas reuniões técnicas entre o Relator e representantes de organizações não-governamentais. complementarmente. foram solicitadas e obtidas sugestões de outras entidades como as propostas enviadas pela Caixa Econômica Federal (CEF) em conjunto com a Secretaria Especial de Desenvolvimento Urbano da Presidência da República (SEDU). do Deputado Fernando Ferro e do Prefeito de Petrolina. pela Associação Nacional do Solo Urbano (ANSUR). de órgãos públicos ligados ao setor. supressões. . Escola de Urbanismo da UNEB. Principalmente. as quais acabaram por deixá-lo mais conciso. em especial o Fórum Nacional de Reforma Urbana (FNRU). como a Secretaria Especial de Desenvolvimento Urbano da Presidência da República (SEDU/PR). por parte da representação do movimento pela reforma urbana. Conselho Regional Arquitetura e Engenharia (CREA-BA). o resultado pode constituir-se de significativo aporte urbanístico. estreitamente compatível com concepções e experiências urbanas existentes no Brasil.

. está presente no Estatuto o reconhecimento de que essa situação é decorrente da desigualdade social e territorial nas cidades. de âmbito regional ou nacional.5 As Novidades e as Inovações do Estatuto da Cidade O Estatuto da Cidade definiu uma série de diretrizes e instrumentos para a ação do Poder Público no planejamento urbano. . o Estatuto manteve os fundamentos dispostos nos capítulos constitucionais fundamentados na função social da propriedade e da cidade. Quanto ao conteúdo.111 das instâncias de poder constituídas no país. e . Como se via no início deste trabalho.sejam integrantes de regiões metropolitanas e aglomerações urbanas. com o poder executivo. nas outras duas ocasiões em que a Reforma Urbana foi pautada. no sentido de enfrentar os problemas existentes nas cidades. teve novidades no sentido de aperfeiçoar essa figura como instrumento de planejamento e ordenamento de áreas urbanas. . de fato.estejam inseridas na área de influência de empreendimentos com significativo impacto ambiental. passou a ser obrigatório também para cidades que estejam na seguinte situação: . também foram incorporados novos elementos inovadores na política urbana brasileira. sobretudo no Projeto de Lei nº 775/83 por meio do Ministério do Interior. de acordo com a constituição de 1988.nas quais o Poder Público municipal pretenda utilizar os instrumentos previstos no parágrafo 4º do artigo 142 da Constituição. e que devem ser dirimidas dentro de uma nova concepção de planejamento urbano para que. Além de ser obrigatório para cidades com mais de 20 mil habitantes.sejam integrantes de áreas de especial interesse turístico. se possa melhorar a qualidade de vida nas cidades. O plano diretor. Além dos instrumentos já previstos nos artigos 182 e 183 da Constituição. a iniciativa esteve vinculada. previsto no artigo 182. Através destes instrumentos. 3. os quais demandavam regulamentação. de algum modo.

por sua vez. na cidade de São Paulo. Desse modo. Cabe ressaltar que na figura do Plano Diretor. elaborado por Nelson Saule Junior. essas exigências produziram efeitos favoráveis para os agentes responsáveis pela especulação imobiliária e efeitos negativos para a promoção da reforma urbana nas cidades. O fato de a Lei Federal de desenvolvimento urbano não ter sido instituída no decorrer mais de dez anos provocou dificuldades aos municípios para aplicar o imposto sobre a propriedade predial urbana. deverá estar aprovado dentro do prazo máximo de cinco anos. As áreas onde poderão ser feitos o parcelamento. edificação ou utilização compulsória deverão ser delimitadas e conter as disposições requeridas. O Plano Diretor. foram sendo incorporadas proposições reformistas no sentido de constituí-lo no parâmetro básico do cumprimento da função social da propriedade imobiliária urbana. Segundo SAULE JUNIOR35. e distribuído no Encontro Nacional de Reforma Urbana. nos termos do parágrafo 4º do artigo 182 da Constituição Federal Brasileira. o acordo condicionava. a aplicação dos instrumentos destinados a conferir uma função social à propriedade urbana. Por outro lado. aos poucos. e prever sistema de acompanhamento e controle de suas determinações. realizado no Colégio Pio XII. menosprezando a essência dos debates realizados no processo constituinte. A relevância dessa observação se dá ao fato de a proposta de inserir o Plano Diretor na Constituição ter sido motivada pelos setores mais conservadores durante a Constituinte. . usando um número estratégico de votos entre os seus pares tentou influenciar e conduzir as votações de acordo com os interesses particulares. Coordenador da Área de Política Urbana do Instituto Polis. a posição do Supremo Tribunal Federal considerava inconstitucional a lei municipal que dispunha sobre a progressividade do imposto sobre a propriedade urbana. por sua vez. nessa época. A aprovação da função social da propriedade foi viabilizada mediante um acordo entre os defensores da reforma urbana e os integrantes do bloco conservador de parlamentares. em junho de 2001. em razão da ausência da lei federal de desenvolvimento 35 Extraído do documento intitulado "Estatuto da Cidade – instrumento de reforma urbana". denominado “centrão”. naqueles imóveis que não cumprem a sua função social. á existência de uma lei federal e do Plano Diretor.112 O Plano passou a ter um conteúdo mínimo e um prazo para ser feito a partir da data de aprovação do Estatuto. progressivo no tempo. mais especificamente pelo chamado "centrão". em relação aos instrumentos de política urbana. Este grupo.

relativo ao artigo 183 da Constituição Federal.113 urbano. jurídicos e urbanísticos para a aplicação imediata nas cidades brasileiras. que visa a coibir a retenção de terrenos urbanos ociosos. com base no artigo 182. Através deste instrumento.imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana – IPTU . da Constituição. especialmente nas áreas ocupadas por cortiços e favelas. . § 4º. edificação ou utilização compulsórios. . Estatuto da Cidade-Instrumento para as cidades que sonham crescer com justiça e beleza. vinculada ao não cumprimento do parcelamento. . Estatuto da cidade: novas perspectivas para a reforma urbana. Efetivada como seqüência da aplicação dos dois primeiros mecanismos. Raquel.parcelamento. da Constituição.progressivo no tempo. que é uma sanção igualmente prevista no artigo 182. as formas de uso e ocupação do solo. Nelson.e o usucapião especial urbano. No entanto. As inovações contidas no Estatuto situam-se em três campos: um conjunto de novos instrumentos de natureza urbanística voltado para induzir. no sentido de combater a especulação imobiliária. A novidade ficou por conta da figura do usucapião coletivo. § 4º. Polis. . 2001. da edificação ou da utilização compulsórios. uma nova estratégia de gestão que incorpora a idéia de participação direta do cidadão em processos decisórios sobre o destino da cidade e a ampliação das possibilidades de regularização das posses urbanas. mais do que normatizar. São Paulo. In SAULE JÚNIOR. Esta lei federal de desenvolvimento urbano vem a ser o Estatuto da Cidade. até hoje situadas na ambígua fronteira entre o legal e o ilegal.desapropriação com pagamento mediante títulos da dívida pública. poderá ser promovida a regularização fundiária nas cidades. ou que tenham as condições de moradia mais precárias. consiste na desapropriação com pagamento em títulos da dívida pública semelhante à realizada para fins de reforma agrária.36 O conjunto de novos instrumentos urbanístico corresponde a: 36 ROLNIK. a maior parte das inovações fica por conta da inserção de novos instrumentos tributários. aprovado em 2001. Também foram regulamentados outros instrumentos vinculados ao Plano Diretor como: .

a exemplo da preservação de imóvel de interesse histórico. proteção ambiental. melhorias sociais e valorização ambiental. o proprietário do terreno passa a poder conceder a outros o direito de superfície. No entanto. este instrumento dispõe sobre a preferência do Poder Público na compra de imóveis urbanos. a partir dos projetos apensados e de planos diretores municipais já propostos ou aprovados. Esse aspecto. ainda. sobretudo no último período. com o objetivo de alcançar. e de investidores privados. entre outras. Neste caso. . Na concepção do Estatuto da Cidade. impõe uma nova atribuição ao prefeito e demais envolvidos diretamente na condução da política urbana. a exemplo da requisição urbanística. transformações e melhorias urbanísticas estruturais. Deve-se notar que alguns desses instrumentos não constam da versão original do projeto.Transferência do direito de construir. incluso no artigo 52 das disposições gerais. No processo de discussão houve. em uma área. o instrumento compõe-se de um conjunto de intervenções e medidas coordenadas pelo Poder Público municipal. moradores e usuários. Este consiste no estabelecimento. Talvez seja o instrumento mais polêmico dentro do conjunto das inovações. . Ou seja. Por fim. Este instrumento consiste na possibilidade de dissociação entre o direito de propriedade do terreno e o direito de propriedade de edificação. verificou-se a construção contínua do consenso. operações urbanas. a questão da improbidade administrativa. . Visa fundamentalmente a flexibilizar a utilização dos terrenos. De acordo com o artigo: . pelo Município. Este compreende a faculdade atribuída ao proprietário do imóvel por lei municipal de exercer em outro local ou alienar o direito de construir ainda não exercido.Direito de superfície. de um coeficiente de aproveitamento de terreno a partir do qual a autorização para construir passa a ser concedida de forma onerosa. de forma gratuita ou onerosa. visando a assegurar a formação de um estoque de terras públicas sem a necessidade de desapropriação. Possibilita várias aplicações. .Outorga onerosa do direito de construir. com a participação dos proprietários. Permite ao Poder Público a cobrança pela utilização mais intensa da infra-estrutura urbana instalada.Operações urbanas consorciadas. de acordo com o conjunto dos relatos constantes nos trabalhos desenvolvidos.Direito de preempção. propostas de inserção de outros instrumentos. tendo sido incorporados nos substitutivos elaborados pelas comissões técnicas.114 .

Em alguns casos. III. inciso II. Estatuto da Cidade: guia para implementação pelos municípios e cidadãos.impedir ou deixar de garantir os requisitos contidos nos seguintes itens referentes ao plano diretor: a promoção de audiências públicas e debates com a participação d população e de associações representativas dos vários segmentos da comunidade. Esse artigo constitui uma das mais significativas inovações presentes no Estatuto.VII e VIII do Estatuto da Cidade. Na verdade.257/2001. lei federal nº.V. que deve promover as medidas necessárias para que a destinação social prevista seja concretizada. investe na vigilância mútua permeando a condução de diferentes instrumentos no sentido de preservar as reais intenções contidas na lei. Instituto Polis/Câmara dos Deputados. 2001.38 3. nos termos da lei nº.geral).6 Medida Provisória nº 2. . a publicidade quanto aos documentos e informações produzidos e o acesso de qualquer interessado aos documentos e informações produzidos.aplicar os recursos auferidos com a outorga onerosa do direito de construir e de alteração de uso em desacordo com a destinação prevista para tal.deixar de proceder. Artigo 52 do Estatuto da Cidade. na medida em que assinala a responsabilidade administrativa no trato com a coisa pública. . o prefeito incorre em improbidade administrativa.IV. em especial a política urbana. .aplicar os recursos auferidos com operações consorciadas em descordo com o previsto para tal. ROLNIK.VI. o adequado aproveitamento do imóvel incorporado ao patrimônio público. no prazo de cinco anos. Raquel (coord. Centro de documentação e Informação.10.115 Sem prejuízo da punição de outros agentes públicos envolvidos e da aplicação de outras sanções cabíveis. também significa que a obrigação para a propriedade urbana ter uma função social passa a ser do Poder Público.220 de 4 de Setembro de 2001 37 38 Artigo 52. . conforme a aplicação do instrumento do direito de preempção. Brasília. quando:37 .8429/92.

7 Limites e possibilidades na aplicação dos instrumentos Haja vista que vários municípios não esperaram a promulgação desta lei federal para instaurar práticas e implementar os princípios expressos na constituição. ao inciso V do artigo 43 que dispunha sobre o referendo popular e o plebiscito. acontecia. finalmente aprovada e sancionada.220/01. visto que a lei nº. 2. Os demais vetos não foram reparados na medida provisória. estadual e municipal. Apenas. A justificativa ficou por conta de que instituir novo permissivo.220. Além. em âmbito local. 9. foram vetados quando da sanção da lei. enquanto se discutia e costurava o estatuto. ou seja. de certa 39 idem . A redação. 4 incisos.116 Atualmente. (5 artigos. são dadas pelo capítulo de política urbana da Constituição de 1988. de tal forma que durante a década de 90. foram onze vetos da Presidência da República. as diretrizes para a política urbana do país nos níveis federal. 3. especificamente para a determinação da política urbana municipal. O primeiro. os artigos de 15 a 20. é claro das legislações municipais.709/98 já autoriza a utilização de plebiscito e referendo popular em todas as questões de competência do município. No total. Dentre esses. em combinação com o Estatuto da Cidade e o texto da Medida Provisória nº. Os artigos do Estatuto que se referiam à regularização de imóveis públicos ocupados. um parágrafo e um item). praticamente justificadas em torno da argüição de inconstitucionalidade ou da inobservância da boa técnica legislativa. foram trazidas a público as razões do veto indicadas pelo Ministério da Justiça.2.39 Os instrumentos de regularização possibilitam novas formas de legalização para ocupações feitas por populações de baixa renda em área que não lhes pertenciam legalmente. dois vetos merecem destaque diante do estudo aqui desenvolvido. um processo rico de renovação no campo da política e do planejamento urbanos. tendo sido parcialmente incorporados à Medida Provisória nº. não observaria a boa técnica legislativa.

. Além. do principal. além de abrir espaço para outros que. pode criar possibilidades magníficas de melhorar ou piorar o que está por aí. 40 41 ibidem. contudo. necessidade não apenas do aparato legal. mas também de substancial disposição para aplicá-lo nas cidades brasileiras. pois carrega as contradições e os conflitos ainda não superados de desigualdade social e de renda. Na verdade. a complexidade da cidade está acima de todas essas áreas de atuação. A política abraça todos esses e. instrumentos que podem ser utilizados isoladamente para uma finalidade determinada. por falta de regulamentação federal. relator do projeto de lei do Estatuto da Cidade na Comissão de Desenvolvimento Urbano e Interior da Câmara dos Deputados. fator de garantia dos princípios estabelecidos neste compêndio de leis urbanísticas. também não é só teoria. No entanto. por sua vez. Há. consagrando práticas e instrumentos já adotados. A cidade vive entre o campo do direito e da legitimidade de poder morar com dignidade. por sua vez. não puderam ser implementados. A necessidade de regulação da questão da função social da propriedade imobiliária urbana é o principal exemplo. evidentemente. trabalha entre tais ditames legais e a intervenção concreta nos problemas urbanos. Declaração de voto do Deputado Federal Inácio Arruda (PCdoB). O conjunto de leis serve à condução social da complexa vida social na cidade. 40 Conforme pode ser visto na declaração de voto do relator: O Estatuto da Cidade surge como ponto de partida.117 maneira incorpora esta experiência local. não basta haver apenas o aparato legal. O arcabouço jurídico. 41 O texto do Estatuto da Cidade aprovado recupera aspectos relevantes que estavam presentes na proposta da lei federal de desenvolvimento urbano de 1982. a depender de sua vontade. um passo importante na pugna pela solução dos problemas urbanos. O planejamento urbano. que podem ser somados ou complementados tendo as diretrizes como fator de aglutinação. que consiste na satisfação das expectativas mais gerais da sociedade – de um Brasil social e economicamente desenvolvido. Há uma amarração no conjunto do estatuto. seguido por demais instrumentos de ordem urbanística.

foi tomado como ponto de partida o seminário sobre Reforma Urbana e Habitação ocorrido em 1963. Embora tenha surgido em uma conjuntura totalmente diferente. Nessas quatro décadas. um outro modo de se pensar e efetivar o planejamento urbano. Nessa trajetória. promulgado em 2001. Desta vez. focadas na questão habitacional. por mais de vinte anos. Liga-se a iminência desta lei à pressão dos movimentos populares que viviam um alto grau de mobilização no período e às contradições evidenciadas no governo como nos próprios . também compôs um diagnóstico crítico sobre a situação urbana indicando a necessidade de medidas eficazes de controle do uso do solo para garantir qualidade de vida para os habitantes das cidades. não só recuperava a terminologia da reforma urbana como também resgatava-se os princípios da função social da propriedade e da cidade. Desta vez. o objetivo foi centrado na imediata solução dos grandes problemas urbanos deixando para segundo plano a questão da habitação. Assim. inicialmente. resgatar os fatos originários da reforma urbana no Brasil. sugerindo uma série de instrumentos no âmbito do disciplinamento urbanístico. embora os seus proponentes também não tenham sido os mesmos. sendo que desde a divulgação ainda enquanto anteprojeto começou a alicerçar parâmetros para os projetos que irão surgir mais tarde com a minuta de emenda constitucional da reforma urbana em 1988. Ao mesmo tempo. as formulações foram se consolidando num continuum de afirmação e renovação até compor o recente Estatuto da Cidade. Este trabalho procurou. As formulações referentes à reforma urbana ali encontrada já se baseavam na função social da propriedade. prioridade de outrora. ao longo do tempo. foi gestada na realidade política entoada pela crítica aos problemas urbanos existentes. A segunda retomada se deu com o lançamento do anteprojeto de lei de desenvolvimento urbano em 1983. entre as diferentes retomadas da reforma urbana. A proposta inovou com ousadia. no entanto. a conjuntura política e as forças políticas modificaram-se consideravelmente a ponto de se instaurar no país um regime ditatorial liderado pelos militares. ao se referenciar nos princípios da função social da propriedade e da gestão democrática.118 Conclusão A reforma urbana no Brasil veio constituindo. motivada por instâncias internas ao governo militar.

muitos dos quais vieram a fazer parte dos debates sobre a política urbana. caminhou paralelamente entre formulações de planos e legislações urbanísticas. no Brasil. para o atendimento de interesses particulares e pontuais. o planejamento urbano mais recente. por sua vez. Uma das reações ao estado ditatorial foi o acirramento dos chamados movimentos sociais urbanos. Assim. O fato de não ter sido aprovado e relegado a segundo plano com a instalação da Assembléia Nacional Constituinte não tira o mérito de ter difundido novos parâmetros. consumados pelas articulações do movimento com vistas a intervir na Assembléia Nacional Constituinte. na história constitucional brasileira. Por outro lado. . nos anos 60 e 70. organizados a partir de associação de moradores de bairro e outros movimentos de perfil reivindicatórios. as adversidades e especificidades fizeram com que tais movimentos urbanos. desempenhassem um papel destacado na derrubada da ditadura militar e no restabelecimento da democracia no país. em face de uma conjuntura política favorável aos movimentos populares e a existência de proposições técnicas discutidas e assimiladas anteriormente. surgiu pelas condições objetivas reunidas neste contexto. Porém. passou a praticar processos mais participativos entre os agentes promotores o que.119 setores ligados a produção da cidade. Ocorridos em vários paises. em que pese à vasta produção intelectual e ações desenvolvidas em torno dos chamados planos. Embora. conseqüentemente. em geral. Entre as razões principais dessa gênese está a aproximação entre as reivindicações dos setores populares com o segmento dos técnicos e intelectuais. pela primeira vez. tenha tido limitações no seu percurso em termos de sustentação e distanciamento das suas bases. inserir um capítulo que tratasse da Política Urbana. o Movimento Nacional pela Reforma Urbana. de certo modo. com a atribuição de organizar o território das cidades. a pauta da legislação urbanística priorizou leis específicas e parciais. O planejamento urbano. inaugura uma nova fase para as suas ações com ênfase na gestão democrática e participativa. sobretudo a partir das chamadas administrações populares já no início dos anos 80. essa aproximação em torno de um propósito bem definido registrou o êxito alcançado pelo movimento ao conseguir polarizar o debate em torno das propostas da reforma urbana e.

como havia ocorrido anteriormente. em estreita identificação e. a exemplo da inserção do capítulo da Política Urbana. destaca-se o fato de que a reforma urbana alcançou reconhecimento na esfera da legislação urbanística brasileira. também foi alvo de críticas em face dos acordos estabelecidos durante as últimas etapas do processo constituinte sobrepondo-se aos debates democráticos realizados nas fases preparatórias. manteve-se vinculada à necessidade de novos parâmetros para a produção e apropriação o do espaço urbano. A Constituição de 1988 representou um marco histórico. No entanto.120 No entanto. onde esse havia sido golpeado pelo estado ditatorial. Nota-se que a reforma urbana. pós Constituição de 1988. em diferentes circunstâncias. Também significou uma outra realidade para as relações políticas. afastando–se do regime militar. inclusive. as vitórias obtidas. na medida em que confirmava o vigor de um novo estado de direito. ela foi recorrentemente mantida e primada por uma cidade mais participativa. a reforma urbana preconizada ao longo das últimas quatro décadas não será efetivada por conta somente do instrumental legal. Nessa direção. democrática e igualitária para todos os habitantes que nela vivem. inclusive. conforme os pontos originários identificados e evidenciados ao longo dessa trajetória. foram possíveis devido às pressões e às estratégias de articulação dos movimentos populares. Por outro lado. Todavia. com capitulo definido e correspondente regulamentação. O Estatuto da Cidade constituiu-se num instrumento importante para a reforma urbana. Mas. indubitavelmente. pela primeira vez na história constitucional. a década de 90 implicou em uma nova fase para os movimentos sociais que não mantiveram a mesma intensidade mobilizatória da década anterior. Os problemas urbanos existentes encontram nessa lei dispositivos inovadores na história da gestão das cidades brasileiras. baseadas na experiência acumulada por várias cidades brasileiras. Assim. Na sua versão final foram. sendo que a maioria delas apontava certa prevalência dos setores intelectualizados em detrimento da atuação junto aos movimentos de base. observa-se que a função social da propriedade e o conceito de reforma urbana têm caminhado juntos por longa trajetória. incorporadas sugestões negociadas pelo Fórum Nacional pela Reforma Urbana. . o Movimento Nacional pela Reforma Urbana também foi alvo de críticas. tendo em vista que.

de modo a possibilitar novos horizontes para a atividade de planejamento urbano. A prática cidadã cotidiana poderá contribuir para a constituição das condições conjunturais e contextuais necessárias para a efetiva implantação do disposto nas linhas e entrelinhas desse documento jurídico.121 O instrumento de o Estatuto aplicado nos termos da gestão democrática poderá resultar em novas relações entre o público e o privado na produção da cidade. de fato. até ser aprovado. Há de se pensar na reforma urbana militante para todos aqueles que defendem uma vida urbana plena. Um exemplo é o envolvimento cada vez maior e mais qualificado da comunidade nas instâncias governamentais e legislativas. Este. cabe às diversas instâncias da sociedade. fazer a sua parte. vivenciaram uma imensa diversidade dos interesses conflitantes existentes que eclodiam no Congresso Nacional. por mais de uma década. tal qual como se vem pensando há quase quatro décadas. adotando uma postura de forte interação com os segmentos sociais. Só assim. reúne as condições necessárias para o estabelecimento de princípios democrático de planejamento. o desafio maior esteja no desprendimento de um posicionamento tecnicista. seja através de conselhos ou outros canais surgidos recentemente. daquilo que se quer com as possibilidades de uma reforma urbana. tal como aponta o ideário da reforma urbana protagonizado pelo Movimento Nacional pela Reforma Urbana. . Talvez. cada uma a seu modo. Vale ressaltar que essa foi adotada pelos integrantes do Fórum Nacional pela Reforma Urbana que. Todos esses instrumentos visam à criação de outras possibilidades para melhorar a vida do povo das cidades. No entanto. poder-se-ão lograr êxitos com a implementação. por todos os envolvidos com o planejamento.

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Vinicius Fonseca – Economista.131 ANEXO – I Texto intitulado “Conclusões do Seminário de Habitação e Reforma – 1963”. malocas. assim como da não complementação do acervo de moradias com o equipamento de utilização comum. 2. tanto em número absoluto como relativos. pela desproporção cada vez maior. mas é o resultado das condições de subdesenvolvimento provocado por fatores diversos. a população que vive em subhabitação – tais como favelas. o fenômeno de urbanização vem se processando de maneira vertiginosa e desordenada. Que a situação habitacional do Brasil é de uma gravidade. 5. para gravar o déficit de habitação na presente conjuntura brasileira. primordialmente. em relação à demanda do povo brasileiro. copiado datilograficamente da revista ARQUITETURA nº15/1963 pelo Setor de Publicações da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. inclusive processos espoliativos a que se acham submetidos os países latino-americanos. o intenso incremento demográfico desacompanhado de medidas que. Que ocorre. 6. Que o Brasil. Que nos maiores centros urbanos do País. nos centros urbanos. caracterizando-se. Conclusões do Seminário de Habitação e Reforma – 1963 Resolução Final O Seminário de Habitação e Reforma Urbana. que determinem fortes movimentos migratórios para os núcleos urbanos. uma vez que significativo número de habilitações construídas tem se destinado quase exclusivamente as classes economicamente mais favoráveis. Para a sistematização das propostas e encaminhamento do texto final das resoluções foi eleita em plenário A Comissão de Relatório. pela iniciativa privada. Jorge Wilheim – Arquiteto. Que o problema habitacional na América Latina não se caracteriza como uma situação de emergência por não decorrer de fatos incontroláveis que tenham construído bruscamente os equipamentos urbanos e a disponibilidade habitacional. os recursos e investimentos necessários ao aumento da oferta de moradias de interesse pelo menos no ritmo em que se processa o crescimento das populações urbanas. cortiços. cada vez mais imprescindível em virtude da crescente complexibilidade urbana. a estrutura subdesenvolvida do país. essencialmente. em sua maioria. Que mesmo a população que vive em habitação do tipo permanente. barracos – é grande e crescente. mocambos. . a incapacidade já demonstrada de obter-se. considerando: 1. entre o salário ou a rena familiar e o preço de locação ou de aquisição de moradia e pelo déficit crescente de disponibilidade de prédios residenciais. no interesse nacional ordenem e disciplinem o surto industrial e a s arcaicas relações de produção agrária. 4. constituída pelos seguintes membros: Clóvis Garcia – Advogado. se debate com problema decorrentes de defasagem entre crescimento demográfico das cidades e o fornecimento dos mais rudimentares serviços públicos. 3. sendo fatores determinantes desse fenômeno.

à margem do seu desenvolvimento econômico. 4. Que essa situação contrasta flagrantemente com os conceitos de democracia e justiça social e os poderá ser superada. regional. mas insignificantes na sua expressão numérica. apenas uma maioria da população brasileira usufrui desses benefícios. O estabelecimento de tipos e dimensões de moradias adequadas à realidade regional. disciplinar as atividades no campo habitacional incentivar quaisquer medidas que visem à solução do problema e suprir diretamente as deficiências que se manifestem. Que a gravidade da atual situação habitacional é confirmada pelos dados estatísticos e por outras fontes para uma avaliação precisa da carência de habitação no Brasil. territoriais e de habilitação. Sua estrutura. mas também um fator condicionante de interação entre seus moradores no seio da família e destes para com toda a sociedade. deve ser relacionada ao desenvolvimento global do país. 11. 7. 10. assim entendidas como a demanda habitacional no momento atual e no futuro. exigindo imitações ao direito de propriedade e uso do solo. enquanto uma parte sempre crescente é compelida a viver em condições de habitabilidade totalmente incompatíveis com o grau de civilização já atingido pelo País. organização. Que se verifica o emprego de tecnologias novas no País. Que a ausência de uma política habitacional sistemática – apesar de algumas medidas e movimentos isolados bem sucedidos. visando à justa utilização do solo urbano à ordenação e ao equipamento das aglomerações urbanas e ao fornecimentos de habitação condigna a todas as famílias. através da coordenação de esforços e de racionalização de métodos de produção. 2. o planejamento territorial e de habitação deve ser devidamente considerado pelos órgãos incumbidos da planificação sócio-econômica.132 7. considerada como o conjunto de medidas estatais. dimensões. o nível de eficiência e as condições culturais. integrados num planejamento global. 9. 3. 6. concedendo apenas. dentre os direitos fundamentais do homem e da família. se inclui o da habilitação e que a sua plena realização. com o objetivo de corrigir a deficiências quantitativas e qualitativas de moradias e equipamentos sociais. paternalisticamente. . 5. por sua vez correlacionada com os níveis de preços das construções e de aluguéis e os níveis de renda real. através de critérios objetivos de prioridade. Que a política habitacional deve concretizar-se através de planos nacionais. baixando de modo sensível o rendimento econômico-social desse mesmo desenvolvimento. ainda que dispersas e limitadas. 8. Afirma: 1. o que supõe a fixação de diretrizes que levam em conta: a) b) A capacidade de amortização ou pagamento das diversas camadas da população. equipamento e estéticas. nos nível nacional. Que tôo plano habitacional deve estabelecer metas de atendimento. devem atender a um mínimo de requisitos que a tornem compatível com o estado de saúde. Que é de grande importância para a política habitacional a formação de uma consciência popular do problema e a participação do povo em programas de desenvolvimento de comunidades. Que. Que o problema da habitação é de responsabilidade do Estado. sendo que a sua intervenção deve ser no sentido de equacionar o problema em sua totalidade. O termo demanda não tem aqui o significado de que os suprimentos de habitação sejam regulados pela capacidade de observação dos consumidores. pela atualização da estrutura econômica nacional e por um considerável avanço construtivo. no nível federal e nos demais. algumas apresentando interessantes características regionais. Particularmente no setor de habitação destinada as populações econômicas do mercado têm-se mostrado incapazes de conduzir às soluções desejadas. Que em conseqüência. 12. graças ao conhecimento e ao espírito de iniciativa dos nossos técnicos. estadual e municipal. a casa. em face das necessidades nacionais vem ocasionando efeitos maléficos ao desenvolvimento global do país. Que a habitação é um elemento fundamental de padrão de vida. Que todo plano habitacional deve fundamentar-se no conhecimento a das necessidades de habitação. exigidos por uma sociedade em desenvolvimento. 8. mas ao contrário. constituindo não apenas o abrigo físico. como até agora tem sido a ação governamental. se consubstanciaria numa reforma urbana. Que. econômica e demográfica. Que a política habitacional do Estado não pode ser de ordem assistencial. 9. Que apesar de já existirem conhecimentos técnicos para resolver o problema de habitação em tempo relativamente curto. as soluções do problema habitacionais e da reforma urbanas estão vinculadas á política de desenvolvimento econômico e social – através da qual possa ser rapidamente elevado o padrão de vida do povo brasileiro.

o Governo deve criar um Órgão Central Federal. com autonomia financeira e com competência de jurisdição sobre todo o território nacional. c) Coordenar. Que para a efetivação da reforma urbana torna-se imprescindível a modificação do parágrafo 16º do artigo 141 da Constituição Federal. sempre que possível. referente às locações urbanas. inclusive estimulando o esforço próprio a ajuda mútua e o desenvolvimento comunitário. 17.133 c) d) As relações entre a moradia. sejam incluídas no plano respectivo.DO ÓRGÃO EXECUTOR DA POLÍTICA HABITACIONAL E URBANA 1. observado o enquadramento prévio de tais planejamentos os planos regionais a que pertencerem. f) Propor e executar medidas legais de desapropriação por interesse social. no sentido de relacionar de forma justa o aluguel à renda familiar. em face do problema habitacional. 13. recursos que facilitam a desapropriação por interesse social. equacionando-as dentro da realidade sócio-economico brasileira e em bases locais. Que para a execução da política habitacional. 2º Proposta: Que o Congresso Nacional reforme o parágrafo 16 do artigo 141 da Constituição Federal. Com autonomia financeira e autoridade para atingir seus objetivos. g) Propor estabelecer e executar medidas legais ou administrativas. Propõe: 1º Proposta: Que os Poderes da República apressem a promulgação de providências legais e administrativas. b) Encaminhar. de maneira a permitir a desapropriação sem exigências de pagamento à vista. Que é importante o estabelecimento pelo Estado de uma política definida em base coerente com os princípios do plano habitacional. 3º Proposta: Que o Poder Executivo envie projeto de lei ao Congresso Nacional corporificando os princípios de Política Habitacional e de Reforma Urbana aprovadas neste Seminário e contendo os seguintes pontos. Que. se torna necessário a criação de um Órgão Central Federal. Esse órgão deve ter as seguintes atribuições: a) Fixar as diretrizes da política habitacional e de planejamento territorial do País. destinados a programas de habitação e de aproveitamento do território. supervisionar e distribuir os recursos e a assistência técnica proveniente de países estrangeiros ou agências internacionais. através da elaboração dos planos nacionais. necessárias à execução da política habitacional do governo firmar convênios com entidades oficiais ou privadas. sua execução. suprimindo as expressões “prévia” e “em dinheiro”. considerando os planos estaduais ou municipais existentes. de modo a permitir ao Governo a escolha de forma de indenização. disciplinado o investimento privado nesse setor. imprescindíveis à solução dos problemas examinados por este Seminário. assessorar e estimular a ação de todas as entidades governamentais. de acordo com o interesse social. sempre anti-social. os planos nacionais. por intermédio do Presidente da República. de duração plurianual tomando todas as resoluções que lhe parecerem necessárias para assegurar o seu pleno desenvolvimento. 18. paraestatais e privadas que exerçam atividade no setor habitacional. Que é imprescindível a adoção de medidas que cerceiam a especulação imobiliária. e) Coordenar. Que a plena utilização de novos e eficientes processos técnicos depende de uma política habitacional que crie um mercado suficiente ao seu desenvolvimento. A fim de disciplinar e coordenar todos os esforços necessários à correção da carência habitacional e de seus problemas de aproveitamento do território. 2. I . . 15. sendo que. d) Centralizar e coordenar os recursos federais destinados à habitação. O custo dos serviços e equipamentos urbanos. o trabalho e os serviços e equipamentos urbanos. deve ser descentralizada. tanto para a habitação como para o planejamento urbano e proporcionar aos órgãos responsáveis pela execução de planejamento territoriais e habitacionais. em dinheiro. territorial e de habitação (tal como são entendidas nos capítulos IV e V da presente proposta) o Congresso Nacional. medidas de emergência destinadas à imediata melhoria das condições de subhabitação. 14. relacionadas com as reformas de base. autárquicas. incorporando-se a ele a Fundação da Casa Popular e o Conselho Federal de Habitação. para sua apreciação e aprovação. 16. territorial e de habitação.

no caso do item 1 deste artigo. composto de técnicas em planejamento e habitação e do dirigente de órgão executor financeiro. quando no perímetro urbano e 1% anualmente quando fora desse perímetro. IV . c) departamentos técnicos. i) Promover. permitindo uma maior maleabilidade na sua ação. O patrimônio do órgão Central deve ser constituído de: a) Bens móveis.no caso do item 4 deste artigo. 4.2% para os imóveis de 150 a 200 m2. dos Estados e de entidades relacionadas ou interessadas no problema habitacional. . administrado pelo Órgão Central. especialmente visando à criação de uma consciência pública do problema. Os loteamentos que apresentem serviços e equipamentos na ocasião do registro terão as reduções seguintes no imposto de habilitação previsto neste item: . d) setores administrativos e regionais. f) os servidores técnicos devem ser admitidos por contrato. j) Promover o entrosamento da política habitacional com a política agrária e com a de Desenvolvimento Econômico. compreendendo terreno inexplorado ou unidade residencial vaga por mais de 6 meses. pertencentes à fundação da casa Popular e ao conselho Federal de Habitação. e) a estrutura e demais atribuições do órgão devem ser aprovadas por decreto. cessão ou doação de lote de terrenos compromissado. de 3% anualmente sobre o valor real do imóvel de acordo com a avaliação do município onde estiver localizado.134 h) Adotar providências necessárias para o incremento da indústria de materiais de construção e desenvolvimento de processo tecnológico. com os seguintes recursos: . direitos e ações sobre imóveis. c) a transferência de mais de 100 m2.5% para os imóveis de mais de 300m2. III .no caso do item 2 deste artigo. bem como os imóveis urbanos pertencentes à União e por ela não utilizados.1% para os imóveis de 100 a 150 m2. por venda.3% para os imóveis de 200 a 300 m2. O órgão central deverá ter uma organização com as seguintes características e normas: a) um Conselho Deliberativo. de 5% sobre o valor de venda de loteamento na época do registro de acordo com a avaliação do município onde estiver localizado. . II . de 3% sobre o valor da transferência de lotes até 300 m2 e mais 1% sobre cada 100 m2 ou fração que exceder. de área total construída. 5. b) um Conselho Consultivo. enquanto bem servir (admitindo renovação) e escolhidos dentre pessoas de notório conhecimentos relacionados com habitação e planejamento. d) a não utilização de imóveis urbanos. tendo em vista a padronização e estandardização desses materiais e a possibilidade de processos de pré-fabricação.A arrecadação do imposto de habitação a ser criado e que incidirá sobre: a) o registro de loteamento urbanos no Registro de Imóveis. . 3. na seguinte proporção sôbre o valor da transferencia de acordo com área total construída: . b) a transferência. b) Imóveis que desaproprie e adquirira a qualquer título. composto de representantes dos Ministérios.no caso do item 3 deste artigo. Para o financiamento da Política Habitacional deve ser criado um fundo Nacional de Habitação. no máximo de cinco membros. imóveis. estimular e divulgar estudos e pesquisas. pelo prazo de 3 anos. .O Imposto de habitação será devido na base das seguintes alíquotas: I .

3. arrecadação proveniente do tributo cobrado na conformidade dos artigos 92 e 95 do Decreto nº 51. A transferência de bens feita em desacordo com os planos nacional. obedecidas às condições especificadas nos planos nacionais territorial e de habilitação.DA DASAPROPRIAÇÃO PARA FINS HABITACIONAIS E DE PLANEJAMENTO TERRITORIAL 1.F. 8. serão aproveitadas como órgão regionais e locais do Órgão central. Poderá o Órgão Central promover a desapropriação do imóvel por interesse social. contribuição de entidades oficiais ou particulares. substituindo o selo comum federal. tomando como valor da oferta inicial o declarado para fins tributários.900. o valor da oferta será fixado. b) . eliminados os conflitos que possam existir em conseqüência da futura Lei de Reforma Agrária. Territorial e de habitação). destinadas ao Fundo Nacional de habitação. dotações orçamentárias. na zona rural. de 10/4/63...E.E. ao equipamento dos centros urbanos e ao aproveitamento do território. c) . rendas de bens. Não havendo valor declarado pelo proprietário. renda líquida da Loteria Federal. às Caixas Econômicas Federais (CEF) funcionarão como banco nacional de habitação. 4. e na zona Urbana. 7. obedecendo às seguintes normas: a) as disponibilidades das C. por avaliação conjunta do Órgão Central.F.transporte coletivo: 20%.esgoto: 20%. Os bens desapropriados pelo Órgão Central dentro dos seus objetivos ser transferidos a particulares. Ficarão sujeitos à desapropriação por interesse social os bens considerados necessários à habitação. a) b) c) d) e) f) g) 6) arrecadação do selo de habitação a ser aposto nos contratos e recibos de locação.Terá isenção do imposto de habitação previsto nos itens 2 e 4 deste artigo. pelo Órgão Central e pelo Município. b) as agências e serviços das C.135 a) .equipamento das vias de acesso: 20%. As verbas do fundo Nacional de habilitação deverão ser aplicadas estritamente em conformidade com os critérios de atendimento que forem estabelecidos para fins de elaboração dos planos nacionais Territorial e de Habilitação. territorial e de habitação. nunca inferiores a 5% da receita bruta da União. com o Órgão Executor Financeiro devem passar à jurisdição do Órgão Central.rede de energia elétrica: 20%. II . somente poderão ser aplicadas nas finalidades dos Órgão Central. será nula de pleno direito. arrecadação proveniente de operações imobiliárias realizadas por pessoas jurídicas. 5. As despesas com o pessoal administrativo do Órgão Central não deverão ultrapassar de 10% (dez por cento) das dotações orçamentais. 2. serviços eventuais.água: 20%. SUPRA e Município. As verbas do Orçamento da União. cobrindo inclusive as despesas com desapropriação. . o proprietário de um único lote de terreno até 500m2 de área e que não possua outro imóvel. e) . nacionais ou estrangeiras (recebidas exclusivamente pelo Órgão Central para a sua aplicação de acordo com os planos nacionais. deverão ser globais e automaticamente registradas no tribunal de Contas. . d) .

seus respectivos planos. aos aspectos sociais provenientes do desenvolvimento econômico. territorial e de habitação. 2. saúde. reservas para expansão urbana e de áreas florestais. o Órgão Central levará em conta critérios de atendimento às áreas e populações a serem beneficiadas. e aos órgãos regionais de planejamento. Quaisquer planos elaborados pelos municípios deverão ser executados segundo as normas gerais do Órgão Central. aplicando os princípios de planejamento territorial. os quais deverão possibilitar a fixação objetiva de um escalão de prioridade. O órgão Central fixará anualmente a lista de município que deverão preparar. territorial e de habilitação. Quaisquer recursos destinados aos municípios integrantes das listas mencionadas no item seguinte. de acordo com os planos regionais e atendendo ao objetivo de atenuação das disparidades regionais do desenvolvimento do País. serviços e equipamentos urbanos. nas condições vigentes no mercado imobiliário. recreação. sua vinculação aos planejamentos de caráter econômico e aos grandes empreendimentos de interesse nacional. no qual serão fixadas as diretrizes gerais do Planejamento Territorial e distribuição demográfica. d) a disponibilidade de recursos e fatores produtivos ociosos. No pertinente às chamadas da população a serem atendidas. Na elaboração dos planos nacionais. quando se enquadrem na política nacional de desenvolvimento. 7. autárquicas e para estatais. 3. produção e abastecimento. entre outros fatores: a) a densidade e o ritmo de crescimento da população. 2. O Órgão Central. b) A possibilidade de retribuição econômica pela moradia proporcionada através do Plano Nacional de Habitação. deverão levar em conta.PLANO NACIONAL DE HABITAÇÃO 1. cultura. fixará normas gerais que deverão obedecer ao planejamento em todos os níveis. dentro do prazo estabelecido.PLANO NACIONAL TERRITORIAL 1. locais ou regionais. V . sob pena de suspensão dos pagamentos mencionados nos itens 4 e 6 anteriores. para elaboração dos seus planos. O Órgão Central elaborará o Plano Nacional Territorial. O Plano nacional Territorial dará especial atenção à distribuição demográfica. O Plano Nacional de Habitação destina-se a corrigir o déficit de moradias e suprir a crescente demanda de habitações. educação. proteção de mananciais e regiões de valor turístico. de forma a obter-se o desenvolvimento físico social integrado e orgânico das diversas regiões do País. f) a existência de planos de habitação. territorial e de habitação. 3. 6. 4.136 III . b) a intensidade da urbanização. Para elaboração desse plano o órgão central terá livre acesso a todas as fontes de informações das diversas repartições federais. 2. os planos nacionais. c) a densidade relativa em sub-habitação. circulação e transporte. aos problemas de habitação. trabalho. uma vez elaborado o Plano Territorial. IV .PRIORIDADE DE ATENDIMENTO E NORMAS DE CONTRÔLE 1. estaduais. deverão considerar. a interligação de diversos planos regionais. Em relação à distribuição geográfica dos atendimentos. só poderão ser liberados após apresentação dos seus respectivos planos municipais ao órgão central. e) a ocorrência de esforços locais ou regionais para o desenvolvimento econômico –social. primordialmente: a) A incapacidade econômica para construção ou aquisição de moradia. 5. municipais. relativas ao seu campo de atuação. os planos nacionais. . O Órgão Central poderá financiar e dar assistência técnica aos municípios. consagrados pelos Congressos Internacionais de Arquitetura.

Os registros imobiliários transcreverão o edifício em nome do adquirente. Será assegurado ao locatário o direito de adjudicação compulsório do imóvel vendido sem observância do disposto no item anterior. 7. O plano nacional de habitação deverá desde logo adotar medidas de emergência destinadas a melhorar as condições de habilidade de agrupamento de subhabitação. mediante seu aproveitamento em oficinas de artesanato e pequenas indústrias locais. 6º Proposta . coordenar as obras de responsabilidade do Poder Público. obedeça as normas no sentido de: a) b) c) organizar as comunidades disciplinando e orientando tecnicamente as construções. . 2. num processo que se baseia na projeção do número de “unidade familiares” sendo cabível circunscrever a projeção de demanda futura com base nas prioridades estabelecidas pela política habitacional. Será assegurada ao locatário do imóvel a venda. satisfeitas as condições constantes da escritura. 12.Que o Poder Executivo envie mensagem ao Congresso Nacional propondo modificações na Lei do Imposto de Renda. O Plano Nacional de Habitação deverá considerar o aproveitamento social das áreas recuperadas das subhabitações.Que se encareça junto ao IBGE a urgência das seguintes providências: a) que seja apurado com a máxima brevidade o Censo de População e Habitação de 1960. na melhoria dos conjuntos de subhabitação. Os imóveis adquiridos. As medidas de emergência serão consideradas uma etapa intermediária entre o estado atual dos agrupamentos de subhabitações e os objetivos do Plano Nacional de Habitação. mocambo. caso em que o financiamento cobrirá apenas o valor da edificação. A alienação ou a locação desses imóveis obedecerá a normas e critérios previamente estabelecidos não sendo permitido ao adquirente sua transferência pelo prazo de10 (dez) anos. constituídos ou financiados para os fins do Plano Nacional de Habitação. ou diretamente mediante desapropriação. 10. devendo a notificação conter o preço e as condições de pagamento. preferência na compra em igualdade de condições pelo prazo de sessenta (60) dias a contar da data da notificação. 8. Os referidos imóveis só poderão ser alimentados ou locados a pessoas que se enquadrem nos critérios de atendimento do Planejamento de Habitação. A alienação dos imóveis enquadrados no Plano Nacional de Habitação poderá ser feita com reserva de propriedade do solo. será cobrado no valor da venda ou locação um acréscimo sobre o preço fixado pelo Órgão Central. tais como. VI . favelas. de modo a permitir isenção de tributação para as economias aplicadas na aquisição da casa própria (terrenos e edificação).Que para o estabelecimento de um Programa Habitacional seja adotada metodologicamente tendo em conta o dimensionamento qualitativo e quantitativo da atual escassez. 6. Os núcleos habitacionais enquadrados no Plano nacional de habitação deverão prever as instalações necessárias aos serviços equipamentos urbanos. a conta da aquisição. nem doadores a particulares. com o aproveitamento também dos próprios recursos dos grupos sociais.137 3. malocas e semelhantes. não poderão ser usado a título gratuito. por parte das pessoas cuja renda real não seja suficiente para a obtenção do primeiro imóvel. Quando as construções referidas no item anterior se destinarem à venda ou ao aluguel a pessoas com suficiente capacidade econômica. 7º Proposta . para execução por seus proprietários. dentro das Leis que atualmente regulam o mercado imobiliário. Nenhuma construção para fins do Plano nacional de Habitação será realizada sem que as obras de urbanização correspondentes estejam de acordo com o planejamento dos municípios onde for executada. 5º Proposta . 5.AQUISIÇÃO DE IMÓVEL LOCADO 1. 4. 4º Proposta . com as averbações cabíveis. 11. tornar produtiva toda a mão de obra ociosa local.Que a política de investimentos estatais. através do Cartório de Registro de Títulos. 9.. desde que o imóvel e o locatário se enquadrem nos objetivos do Plano Nacional.

recolhidos nesse Censo. tendo em vista.Que o Congresso Nacional altere a legislação em vigor. constituída territorialmente por municípios distintos. de modo a que nas áreas de grande concentração urbana. 9º Proposta . particularmente. os princípios e normas estabelecidas neste Seminário. especialmente. tanto do ponto de vista quantitativo como do qualitativo. sejam criados órgãos de administração. d) Que o órgão incumbindo do levantamento destes dados elabore seus programas de atividade em íntimo entrosamento com os órgãos de planejamento e execução da política habitacional. . pelos menos para as cidades importantes e. demonstrou plena consciência de suas responsabilidades neste setor. desde já. levando m conta ainda a qualificação socioeconômico da população atendida. o Seminário dirige-se de forma particular ao IPASE. ao co-patrocionar esta reunião. procuram aplicar. para a solução de seus problemas comuns. as questões de organização do território e as habitacionais. cuja Direção. para a conurbações.Que os órgãos da Providência Social. Neste sentido. mediante execução direta ou financiamento. 8º Proposta .138 b) c) que os dados completos sobre habitação. sejam apresentados. isoladamente. que seja instituído um sistema de levantamento de estatísticas contínuas sobre a habitação. que consorciem as municipalidades. as Caixas Econômicas e outros da esfera governamental que realizam programas habitacionais.

V . autonomia financeira e subordinada à presidência da República.Elaborar o Plano Nacional Territorial. . Arq.setor São Paulo): Sra. Aureliana Bianco (Assistente Social da Prefeitura).Estabelecer e ordenar as relações entre locador e locatário. IV . sua vinculação aos planos planejamentos de caráter econômico e aos grandes empreendimentos de interesse nacional. Carlos ODI (DA sociedade amigos da Cidade) Dr. Capítulo II . Joaquim Guedes do Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento de São Paulo. Estaduais e Municipais.139 ANEXO – II Texto do anteprojeto da lei de reforma urbana do “Seminário de Habitação e Reforma – 1963”. Hely Lopes Meirelles (Advogado Juiz de direito) Arq. natural e humano. destinado a corrigir e déficit atual de moradias e a suprir a crescente demanda habitacional. estabelecer e executar as medidas legais tendentes a regularização e disciplinas do mercado imobiliário.Do Órgão Executivo e suas atribuições Artigo 2º . com sede e foro no Distrito federal. o estudo e determinação de novos processos de financiamento. elaborado pela subcomissão composta dos seguintes Membros ( II parte .A Política habitacional do Governo Federal obedecerá aos princípios estabelecidos nesta lei e as normas de planejamento e execução.Propor.Propor e executar as medidas legais destinadas à desapropriação por interesse social.São atribuições da SUPURB: I .Elaborar o Plano Nacional de habilitação. a ampliação e facilidade do crédito para aquisição da casa própria. fixando as normas gerais a que deverão obedecer ao planejamento regional e urbano objetivando a conservação e a utilização do meio geográfico. Lauro Bastos Birkholz (Diretor do Centro de Pesquisa e Estudos Urbanísticos da FAUSP). Art. pessoal e patrimônio se incorporam a SUPURB. cuja atribuição. a interligações e a coordenação dos diversos planos regionais. compreendidas/ no plano Nacional Territorial e no Plano Nacional de Habilitação com objetivo de corrigir e resolver/sistematicamente os problemas de habilitação e das aglomerações urbanas. Clovis Garcia (Advogado-Coordenador do setor da casa Própria do Setor e da Comissão Regional de Habilitação) Dr. III . fica criada a superintendência da Política Urbana (SUPURB). II .para à execução da Política habitacional do Governo Federal. necessárias a solução ao problema habitacional. VI . destinado a estabelecer diretrizes mestras do planejamento.Estimular e coordenar a elaboração de Planos Regionais. Anteprojeto da Lei de Reforma Urbana – 1963 Capítulo I Artigo 1º . tais como/possibilitar a aquisição pelo locatário do imóvel residencial locado. Artigo 3 . Parágrafo Único – Ficam extintas a Fundação da Casa Popular e o conselho Federal de habilitação.

com as seguintes atribuições: a) executar a Política Habitacional traçada neta lei e sua regulamentação segundo normas estabelecidas pelo Conselho Deliberativo. destinados à habitação provenientes de quaisquer fontes.140 VII . tomar as medidas administrativas inerentes ao cargo. IX .Adotar as providências necessárias ao equipamento.Coordenar.Coordenar a cão de todas as entidades governamentais. reaparelhamento e incremento da produção industrial de materiais de construção.Da Organização da SUPURB Artigo 4º . disciplinar e estimular a ação da iniciativa privada no campo habitacional. Distrito Federal. dentro das condições sócio-econômicas regionais. . métodos e mão de obra locais. para estaduais e privadas que exerçam atividades no setor habitacional.Firmar acordo e convênios. sejam aplicados de modo a ser obter resultados socialmente mais válidos. XIII .O Conselho Deliberativo será composto de 5 membros. assim como e introdução de novos processos tecnológicos tendentes à racionalização e aos barateamentos da edificação. neste setor. Artigo 6º . X . autárquicas.As decisões do CD serão tomadas sob a forma de resoluções. subvenções. para a consecução de seus objetivos. XI . aproveitamento. representar a SUPURB em juízo e fora dele. no sentido de que os seus investimentos.SUPURB será dirigida por um superintendente/ escolhido pelo Presidente da República. em nome da União.Centralizar e coordenar a aplicação de todos os recursos no âmbito federal. determinado a integração dos respectivos programas e aplicação dos seus recursos aos objetivos da Política Habitacional. com a finalidade de obter a promulgação de normas legais e adoções de medidas administrativas objetivando a redução ou a isenção de tributos. VIII . Capítulo III . Parágrafo Único .Promover convênios com os Estados. com entidades ou órgão oficiais/ ou particulares. visando obter e integração da Política Habitacional com a Política Agrária e com a de Desenvolvimento Econômico. tendo em vista a criação de uma consciência pública do problema. do plano emprego de materiais. os Diretores dos Departamentos e o Presidente do Conselho Superior da Caixa Econômica Federal e presidido pelo superintendente da SUPURB e terá as seguintes atribuições: a) traçar as normas e a formulação da Política Habitacional dentro dos conceitos firmados nesta lei e em sua regulamentação. b) c) d) presidir o conselho Deliberativo e cumprir as suas resoluções.Promover e entrosamento com os órgãos de planejamento econômico e de Político Agrária.Promover. XII . bem como criar outros incentivos à solução dos problemas/habitacionais. com base nos trabalhos técnicos e pareceres dos Departamentos da SUPURB.A SUPURB terá a seguinte estrutura técnica e administrativa: a) b) c) d) e) f) g) h) Superintendência – SU Conselho Deliberativo – CD Conselho consultivo – CC Departamento de planejamento – DP Departamento Econômico – DE Departamento de Aspectos Sociais – DAS Departamento Jurídico – DJ Superintendência Regionais – SR Artigo 5º . estimular e divulgar estudos e pesquisas sobre planejamento habitacional. XIV . Territórios e Municípios. inclusive doações. técnicas. contribuições e empréstimos oriundos de organismos nacionais ou estrangeiros. b) tomar as resoluções necessárias ao desenvolvimento da Política Habitacional.

Os imóveis que desapropriar ou adquirir a qualquer título.. que exercerá essa função em regime de tempo integral será correspondente ao símbolo. através de medidas judiciais ou administrativas... constarão de Regulamento a ser aprovado pelo Poder Executivo e ao seu pessoal administrativo e de obra ser admitido no regime da legislação trabalhista..O Conselho Consultivo será constituído por membros representantes de outros Ministérios e entidades relacionadas ou interessadas nos problemas de âmbito desta Lei. 1..A remuneração do superintendente..Da Desapropriação para Fins Habitacionais e de Planejamento Territorial . serviços e eventuais. a qualquer título..A Estruturas e demais atribuições da Superintendência. Os membros do conselho consultivo poderão se reunir por convocação de um dos seus membros e sugerir medidas relacionadas com a Política Habitacional. renda líquida de Loteria Federal... 3. Artigo 9º . poderão participar das reuniões plenárias do conselho Deliberativo sem direito à voto.. para o assessoramento no exame/ de materiais do âmbito desta Lei ou do interesse das classes representadas.. 2. do Código Civil que. Os membros do C.. entidades autárquicas... dotações consignadas anualmente.Serão arrecadados e incorporados ao seu patrimônio pela SUPURB os bens vagos... arrecadação proveniente das operações imobiliárias realizadas por pessoas jurídicas..IAB. obrigando-se a União e incentivar. Os imóveis urbanos que pertençam ou venham a pertencer à União e estejam ocupados..141 Artigo 7º . para a qual contribuirão os recursos provenientes da seguintes fontes: a) b) c) d) e) f) g) h) arrecadação do imposto de habitação.. Capítulo IV – Do Patrimônio e Recursos Artigo 10 . do Conselho Consultivo.. 92 e seguintes do Decreto 47 373. podendo ser renovado o contrato. criado pelo art.. renda de bens... Confederações Nacionais dos Empregadores. arrecadação proveniente do tributo cobrado/na conformidade dos artigos. Superintendências Regionais. porto os meios. por terceiros. inclusive com isenções fiscais e prioridade de licenciamento. a doação de terras para fins de criação de novas unidades residenciais. enquanto bem servir.. na forma dos artigos 589 §2º e 1º do artigo 593 e parágrafo único. não tenham sido efetivamente. Parágrafo único .. 4. Capítulo V .. Artigo 8º .O Superintendente. Artigo 13 . apropriados pelos Estados ou distritos Federal. contribuições dos Governos estaduais e Municipais e de entidades nacionais ou internacionais.. na data da publicação desta Lei. no orçamento da União. 34 desta Lei. Os resultados positivos da execução orçamentária.. e a dos diretores ao símbolo ..Para financiamento da Política Habitacional estabelecida neta lei e para ocorrer as despesas de funcionamento do órgão. de acordo com levantamento a ser feito com o Serviço Patrimonial da União. arrecadação proveniente do acréscimo a que se refere o parágrafo único do artigo 25 desta Lei.. para estaduais e particulares. Artigo 11 . Federação Brasileira de Associações de Engenheiros. e de 7 de dezembro de 1959.A SUPURB poderá receber em doação bens pertencentes a Governos estaduais ou Municipais. do Conselho Deliberativo. e escolhido dentre pessoas de notórios conhecimentos relacionados com a habitação e planejamento. diretoras de departamento e demais servidores técnicos serão contratados pelo prazo de 5 anos.Constituem patrimônios de SUPURB: a) b) c) d) Bens móveis e imóveis. melhoramentos oriundos dos planos habitacionais ou de abastecimento urbano.. fica criado o Fundo Nacional de Habitação – administrado pelo SUPURB. dos Departamentos.C. Artigo 12 .. O Conselho Consultivo poderá ser convocado pelo Superintendente da SUPURB ou pelo conselho/ Deliberativo. Os membros do conselho Consultivo perceberão gratificação Poe sessão a que comparecerem. tais como o Instituto dos Arquitetos do Brasil .... direitos e ação sobre imóveis pertencentes à Fundação de Casa Popular e conselho Federal de Habitação.

o valor da oferta será fixado na zona rural por avaliação conjunto da SUPURB e SUPRA. De cujo capital a União de tenha a maioria. . Parágrafo primeiro . Parágrafo único – O Plano Nacional Territorial dará especial atenção à distribuição demográfica. 141 da Constituição Federal). Parágrafo terceiro .A SUPURB. a União emitirá títulos especiais. Artigo 19 . no qual será fixada a diretriz geral do desenvolvimento territorial demográfico a interligação dos diversos planos regionais. sempre que o credor aceitar em pagamento ações de empresas estatais ou sociedades de economia mista.O prazo será reduzido a 5 (cinco) anos mantidos a forma de parcelas iguais e sucessivas e valor nominal do crédito. circulação. de fora a se obter o desenvolvimento físico-social do país. educação. resgatáveis pela SUPURB até 20 (vinte) anos. pela Prefeitura Municipal e SUPURB.Do Plano Nacional de Habitação Artigo 21º . Parágrafo segundo . integrantes das listas mencionadas no parágrafo 1º deste artigo.A transferência de bens feita em descordo como o parágrafo anterior. dentro dos seus objetivos poderão ser transferidos a particularidades. Artigo 2º .A SUPURB poderá financiar e dar assistência técnica aos municípios para elaboração dos seus planos. empréstimos. Os Títulos seguintes passarão a ter o valor reajustado e assim sucessivamente. abastecimentos.Ficam sujeitas à desapropriação por interesse social aos bens considerados dos centros urbanos e do planejamento territorial. Artigo 15 . aos aspectos sociais provenientes do desenvolvimento econômico aos problemas de habitação. Parágrafo segundo . em função do disposto no art.Os bens desapropriados pelo SUPURB. Parágrafo primeiro . Parágrafo único – Não havendo valor declarado pelo proprietário. em seu orçamento. uma vez elaborado o Plano Nacional Territorial fixará as normas gerais a que deverão obedecer ao planejamento em todos os níveis. Parágrafo terceiro .Os títulos em questão vencerão juros de 6% (seis por cento) ao ano e conterão cláusulas de correção do valor moninativo de cada parcela vencida a qual será reajustada de acordo com a taxa de redução do poder de comprar da moeda.O Plano Nacional de Habitação destina-se a corrigir e déficit de moradias e suprir a crescente demanda de habitação. dotações ou quotas federais destinados aos Municípios. Capítulo VI . Parágrafo quarto .Compete à SUPURB realizar a desapropriação por interesse social no âmbito desta Lei incorporando-se a seu patrimônio os imóveis que desapropriar. enquadrados no parágrafo 1º do artigo 22. proteção de mananciais e regiões de valor turístico.Para cobrir as despesas oriundas da indenização fixada. tomando como valor de oferta inicial e declarado para fins tributários.As despesas de emissão dos títulos correrão contra da União que conseguira a SUPURB.As parcelas vencidas dos títulos de que trata o presente artigo serão aceitas em pagamento de impostos de taxas federais pelo respectivo valor nacional. elaborados para as Prefeituras e Municípios.142 Artigo 14 . sob pena de suspensão dos pagamentos mencionados neste artigo. 21 e seu parágrafo único. para a organização de serviços necessários à elaboração e execução de Planos Locais ou Inter-Municipais. na zona urbana.Quaisquer planos. saúde.Para os fins deste artigo e SUPURB fixará anualmente a lista de municípios que deverão preparar. serviços e equipamentos urbanos. deverão ser executadas segundo as normas gerais da SUPURB.Poderá a SUPURB promover a desapropriação de imóvel por interesse social. Artigo 16 . reserva para expansão urbana e de áreas florestais. sua vinculação aos planejamentos de interesse nacional. recreação. Parágrafo terceiro . Parágrafo primeiro . em parcelas iguais anuais e sucessivas (dependendo de reforma do parágrafo 16 do art. dotação específica e ocorrer ao pagamento de juros e correção do valor referidos no 1º deste artigo. Capítulo VII . Parágrafo segundo . Artigo 20º . seus respectivos planos. dentro do prazo por ele estabelecido. é nula de pleno direito. e transporte.A SUPURB elaborará o Plano Nacional Territorial.A SUPURB poderá firmar convênios com os Municípios interessados. só poderão ser liberadas após a apresentação dos seus respectivos Planos Municipais à SUPURB. trabalho.Quaisquer verbas.Plano Nacional Territorial Artigo 17 .

o financiamento será apenas do valor da construção. locais do aglomerado urbano. de acordo com a lei civil. destinadas a melhorar o estado sanitário de agrupamentos de habilitações anti-higiênicas.143 Parágrafo único – Para elaboração deste Plano e SUPURB terá livre acesso a todas as fontes de informação e dados das diversas repartições federais.O prazo de alienação.Toda edificação financiada ou executada pela SUPURB somente poderá ser ocupada ou transferida. inclusive moradias destinadas aos que vão desempenhar atividade necessárias à funcionalidade do conjunto. por seus próprios meios. Parágrafo quarto . Parágrafo único – Não existindo planejamento nos Municípios onde devam ser construídos conjuntos do Plano Nacional de Habitação a SUPURB. inclusive financiamento e aval. Parágrafo segundo . determinará as áreas e locais mais propícios a estas edificações. será cobrada sobre o valor da venda ou alocação um acréscimo fixado pela SUPURB. mediante acordo com as Municipalidades entendo em vista as características. autárquicas e paraestatais relativos à matéria do âmbito desta Lei.A população do país.A SUPURB estimulará por todos os meios técnicos e financeiros. Neste caso. Parágrafo primeiro . Artigo 30º . acrescido das despesas havidas com administração. Artigo 23 . integrados na região em função do seu trabalho. segundo a capacidade econômica e as características regionais. desde que os interessados se submetam às suas normas. será estabelecido em função da capacidade de pagamento de adquirente. o preço de alienação será estabelecido com base nos valores do mercado.No caso de edificação em terrenos da União ou doados por particulares. a iniciativa privada no setor da edificação.A alienação dos imóveis desapropriados será efetuada a prazo. estaduais.Será permitido o financiamento e edificações em condomínio. não possuam capacidade econômica apara construção ou aquisição de moradia. Artigo 24 . Artigo 28º . na base do valor da desapropriação. malocas e outros semelhantes.Nenhuma construção para a SUPURB será realizada sem que obras de urbanização correspondentes estejam de acordo com planejamento dos municípios onde serão executados. ou diretamente mediante desapropriação.A SUPURB estabelecerá os critérios para a alienação ou locação de imóvel por ela financiado. sujeito a período de carência de 3 (três) anos. Artigo 31º . reservando-se a propriedade do solo.A SUPURB poderá entregar a comercialização de loteamento próprio a organizações particulares que atuarão como administradoras.Os registros imobiliários transcreverão o edifício em nome do adquirente com as anotações respectivas. Artigo 25º Os núcleos habitacionais construídos e financiados pela SUPURB deverão prover a instalações necessárias ao equipamento urbano. por seus proprietários. municipais. Parágrafo único . Artigo 22º .A SUPURB atenderá exclusivamente aos grupos que. tais como favelas. destinada nos grupos previstos no parágrafo 1º do artigo 22º.A SUPURB deverá planejar e aproveitamento social das áreas recuperadas das habitações antihigiênicas para execução.A SUPURB poderá alienar apenas a edificação.A SUPURB estabelecerá as características de habitação. Parágrafo único – As medidas de emergências serão consideradas uma etapa intermediária entre o estado atual dos agrupamentos de habitações anti-higiênicas e os objetivos do plano Nacional de Habitação. . mocambos. mediante justa remuneração. Artigo 26º . projetos e urbanização. Parágrafo único – Quando estas construções se destinarem à venda ou aluguel a pessoas com suficiente capacidade econômica. Parágrafo primeiro . Parágrafo segundo . para efeito de atendimento pelo Plano Nacional de Habitação será classificada em grupos de acordo com a sua capacidade econômica. Artigo 27º . devendo atualizá-las periodicamente. Artigo 29º .As prestações dos imóveis financiados pela SUPURB serão proporcionais à remuneração do contemplado.O Plano Nacional de Habitação proverá desde logo medidas de emergência. Parágrafo quinto . Parágrafo terceiro .

Fica assegurado ao locatário do imóvel à venda. As agências e serviços das Caixas Econômicas Federais serão aproveitados como órgãos locais e regionais da SUPURB. para os imóveis até 300m2 e mais 1% sobre cada 100m2 ou fração que exceder. 3º No caso de letra “c” de 3% sobre o valor da transferência. de 5% sobre o valor do loteamento. preferência na compra em igualdade de condições. 34. 4º No caso da letra “d”. equipamento das vias de acesso: 20%. Artigo 35º . quando no perímetro urbano e de 1% quando estiver fora Desse perímetro. 2º No caso da letra “b”. cedido gratuitamente ou inexplorado. 34 de 3% sobre o valor real do imóvel. pelo prazo de 60 (sessenta) dias da data de notificação. que funcionarão como o Banco nacional de Habitação.A notificação de conter o preço e condições de pagamento. Parágrafo único . Capítulo IX . item 1º do artigo anterior: a) b) c) d) e) água: 20%. previamente fixado pela SUPURB.Fica assegurado ao locatário o direito de adjudicação compulsória do imóvel vendido sem observância do disposto neste artigo. Parágrafo segundo . Os recursos das Caixas Econômicas Federais somente poderão ser aplicados nas finalidades da SUPURB.O imposto de habitação será devido na base dos seguintes alíquotas: 1º No caso da letra “a “do item 1º do Art. satisfeitas as condições contastes da escritura. rede de energia elétrica – 20%. as Caixas Econômicas Federais e o Conselho Superior das Caixas Econômicas Federai. bem como as normas para o funcionamento das Caixas Econômicas Federais. transporte coletivo: 20%.144 Capítulo VIII . 5º No caso do item 2º do Art. 2. através do Cartório de Registro de Títulos e documentos. cessão ou doação. a) b) c) d) Recibos de locação predial Requerimento de registros de loteamentos Na transferência de lote compromissado por venda. Os loteamentos que apresentam serviços e agrupamentos por ocasião do registro terão as reduções seguintes no imposto de habilitação previsto na letra “b”. esgoto: 20%. Na venda cessão ou doação de imóveis residências do mais de 300m2 de áreas total construída. 2º Não se inclui no item 2º o lote de terrenos de proprietário que não possuem outro imóvel.Do Imposto De Habitação (Capítulo sujeito à nova redação) Artigo 34º . 2º Mediante guia quando se tratar de imóvel urbano edificado ou não. vago. obedecendo aos seguintes princípios: 1. para instrumento de sua ação.Fica criado o imposto de habitação a ser recolhido: 1º por selo aplicativo nos seguintes documentos.Da Aquisição Do Imóvel Locado Para Habitação Artigo 33º . . desde que o imóvel e a locatório se enquadram nos objetivos desta Lei.O poder executivo expedirá decreto estabelecendo a forma dessa transformação e integração. de 3% sobre o valor de transferência.Do Banco Nacional De Habitação Artigo 32º . Parágrafo primeiro . na mesma base do selo federal comum.Passam à jurisdição da SUPURB. Capítulo X .

000. Artigo 38º . dentro das dotações concedidas na forma deste artigo. indústria ou a fins sociais. materiais e serviço e encargos. o Superintendente submeterá à aprovação do Presidente da República.Ficam revogados os Decretos-Lei 9.000. a discriminação adequada das despesas da SUPURB. Artigo 39º . não vinculados à exploração de propriedade agro-pecuária. 9.Fica autorizada a abertura de crédito especial até o limite de CR$ 10. 2º Promulgado o Orçamento da República.000. mediante proposta do Superintendente da SUPURB. o Presidente da República poderá lateral a discriminação das despesas do que trata o 2º. . 3º Enquanto não for aprovada a descriminação referida neste artigo.Fica o Poder Executivo autorizada a abrir o crédito especial de CR$ 250. 5º As despesas com pessoal administrativo não poderão exceder de 10% da dotação orçamentária. consideradas ratificadas como aprovação fina os atos expedidos naquele sentido.Disposições Finais e Transitórias Artigo 36º .777 de 06/09/1946.261 de 28/08/1946 9.000. Artigo 16 do Decreto-Lei 6.00 (duzentos e cinqüenta milhões de cruzeiros) destinado a tender aos encargos de qualquer natureza decorrentes desta Lei. Artigo 41º .Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação. os imóveis que se destinam á habitação comércio. Artigo 40º .145 Capítulo XI .218 de 01/05/1956. a SUPURB poderá pô-la em execução.00 (dez bilhões de cruzeiros) para o Fundo Nacional de Habitação no corrente exercício. até 15 (quinze) de Janeiro. 4º Durante o exercício financeiro. serão automaticamente registradas pelo tribunal de Contas da União e distribuídas à Tesouraria da SUPURB.256 de 10/02/1944 e o Artigo 5º da Lei nº 1.O poder Executivo deverá regulamentar a presente Lei e Instalar a SUPURB dentro de 90 (noventa) dias. Artigo 37º . bem como as disposições em contrário a esta Lei.473 de 24/11/1951.Do orçamento da União constarão para a SUPURB dotações globais das verbas para pessoal. para os objetivos desta Lei. 1º As dotações a que se refere este artigo.Consideram-se urbanas. Artigo 42º .

ordenação e controle de sua ocupação. III – prestação de serviços públicos adequados às necessidades d população urbana. III – a melhoria da qualidade de vida. d) e) f) g) o inadequado levantamento do imóvel urbano em relação à finalidade ou localização urbanas. V – a preservação do meio ambiente e do patrimônio cultural.146 ANEXO – III Texto integral do anteprojeto da Lei de Desenvolvimento Urbano preparado pela Comissão Nacional de Regiões Metropolitanas e Política Urbana– CNPU -. pelo Jornal O Estado de São Paulo. observadas as seguintes diretrizes: I – controle do processo de criação. artístico e arqueológico. visando ao estabelecimento de um adequado sistema nacional de cidades. ANTEPROJETO DE LEI DE DESENVOLVIMENTO URBANO DE 1977 Define os objetivos. preferentemente mediante: a) b) c) d) e) prevenção e correção das distorções do crescimento de áreas urbanas. a ociosidade de terrenos edificáveis. II – fomento ao exercício de atividades socioeconômicas e culturais próprias d acidade. publicado em 24 de maio de 1977. paisagístico. . especialmente pelo acesso aos serviços básicos de infra-estrutura urbana e aos equipamentos sociais. c) o parcelamento do solo e a edificação vertical desnecessária excessivos em relação à estrutura urbana existente ou planejada. metropolitanos e municipais. histórico. ordenação e correção das correntes migratórias. expansão e renovação dos núcleos populacionais. contenção de excessiva concentração urbana. histórico. Artigo 2 – O Poder Público promoverá o desenvolvimento urbano mediante ação intergrada de órgãos e entidades federais. em seus aspectos intraurbanos. ou o uso desconforme com normas de zoneamento. IV – controle da utilização da propriedade visando especialmente a impedir: a) b) o uso prejudicial ao desenvolvimento urbano. indução. fixa a diretrizes de atuação. a deterioração de áreas urbanas. a proximidade de usos incompatíveis. Capítulo I – Dos Objetivos e Diretrizes do Desenvolvimento Urbano Artigo 1 – São objetivos do desenvolvimento urbano: I – a distribuição especial dos contingentes populacionais. estabelece os instrumentos para o desenvolvimento urbano nacional e dá outras providencias. vem como indução. II – a integração dos sistemas urbano nacional e regional. estaduais. fixação de áreas de interesse especial. paisagístico. IV – o condicionamento do uso do solo e do e do direito de construir à sua função social da propriedade. com indução e dinamização de sua ocupação urbana. fixação de áreas prioritárias. a desfiguração e a destruição do patrimônio cultural. artístico e arqueológico.

V – posto de saúde. respeitadas as competências estaduais e municipais. bem como a áreas adjacentes que contenham pelo menos três dos seguintes equipamentos: I – rede de abastecimento de água potável em um raio máximo de trezentos metros. considera-se urbanização toda atividade de beneficiamento do solo. IV – reserva de áreas de interesse especial. II – rede de esgotos sanitários ou pluviais. V – incorporação imobiliária. III – rede de iluminação pública ou de distribuição domiciliar de energia elétrica. VIII – participação da iniciativa privada no custeio e execução da urbanização e recuperação. do disposto no inciso VII. núcleos populacionais. desmembramento ou parcelamento de imóveis urbanos. IX – estímulo a participação dos habitantes nas atividades de desenvolvimento urbano. ficando sujeitas à jurisdição municipal. as respectivas áreas passam a ser consideradas urbanas. pela Prefeitura. VII – atuação do mercado visando a assegurar igual oportunidade de acesso à propriedade e coibir o abuso do poder econômico. vilas e povoados. V – ordenação do processo de urbanização visando a proteção total mediante controle da poluição. para formação de loteamentos urbanos. aprovado pelo município.Desde a aprovação. bem como as peculiaridades estaduais. Parágrafo segundo .Lei municipal delimitara os perímetros das zonas urbanas e de expansão urbana.A urbanização em áreas sujeitas à jurisdição militar dependerá da prévia apreciação das autoridades competentes. recreação e serviços. Parágrafo segundo . a uma distancia máxima de mil metros.147 h) a ocupação desnecessária de áreas agrícolas. VI – amembramento. Artigo 6 – Nas cidades. especialmente habitação.Os municípios integrantes de região metropolitana delimitarão suas zonas de expansão urbana e de interesse especial. de seus investimentos. VI – linha regular de transporte coletivo. em área máximo de três mil metros. III – renovação urbana. referente à sede do Município.O disposto no inciso VII dependerá de prévia audiência do INCRA. Parágrafo primeiro . sítios de recreio ou outras destinações urbanas. remembramento. II – construção destinada a atividades urbanas. em conformidade com as diretrizes de planejamento territorial metropolitano. proteção dos recursos naturais e recuperação dos elementos destruídos. . remembramento. conforme previsto nesta lei. vilas e povoados o perímetro urbano abrangerá a área de edificação contínua. VII – o amembramento. VI – utilização de sistema tributário consoante as necessidades do desenvolvimento urbano. Artigo 3 – As diretrizes do desenvolvimento urbano serão recorrentemente compatibilizadas com os princípios e objetivos do Plano Nacional de Desenvolvimento. de expansão urbana e rural. Capítulo II – Dos Conceitos Básicos Artigo 4 – Para os fins desta lei. pelo Poder Público. Parágrafo primeiro . em funcionamento. sob qualquer das formas seguintes: I – execução de obras e serviços de infraestutura urbana. regionais e locais. da Região Metropolitana onde se localiza o município e da aprovação da Prefeitura Municipal. Parágrafo terceiro . em funcionamento. Artigo 5 – O território dos municípios será dividido unicamente em zonas urbanas. IV – escola primária. e seu núcleos populacionais classificar-se-ão em cidade. trabalho. desmembramento ou parcelamento de imóveis rurais. em área máximo de três mil metros. industrialização.

II – induzir ou acelerar a ocupação de terrenos edificáveis nas zonas urbanas e de expansão urbana. artístico ou paisagístico. de expansão urbana e de áreas de interesse especial.As aglomerações urbanas reger-se-ão por legislação federal específica. IV – áreas de preservação cultural. para uso industrial. na forma do artigo 164 da Constituição Federal. ou em projetos de natureza especial. II – adensamento de áreas edificadas. Parágrafo primeiro . artística. não oferecem condições mínimas par construção mínima para construção ou execução de obras. histórico. sujeição a intempéries ou calamidades. II – reutilização de áreas adjacentes a obras públicas. atendidos os requisitos desta lei. não edificáveis. com base nas taxas de crescimento populacional. Artigo 15 – Áreas não Edificáveis são as que. III – promover a implantação de núcleos habitacionais de interesse social. II – as aglomerações urbanas. Artigo 10 – Áreas de Interesse Especial são as que. Artigo 13 – áreas para Urbanização Prioritária são aquelas estabelecidas para: I – promover a implantação de serviços públicos. . II – área de lazer ou turismo. requeiram tratamento específico. climas e outros fatores. com contigüidade. Artigo 14 – Áreas para Uso Industrial são as destinadas à localização de indústrias e atividades complementares. Parágrafo segundo . em especial as referentes a: I – revitalização e recuperação de áreas urbanas deterioradas. instituídas por lei complementar. declividade. vilas e povoados contíguos ou não à zona urbana. nos programas de urbanização ou de investimentos. atual ou potencial. IV – implantar ou expandir núcleos relacionados a programas de desenvolvimento. Parágrafo único – imóvel urbano é o localizado dentro de qualquer dos perímetros referidos neste artigo. Artigo 11 – As áreas de interesse especial classificam-se exclusivamente. adequada às suas necessidades. Artigo 12 – consideram-se Áreas de Renovação Urbana às destinadas à realização de projetos de reurbanização. II – áreas reservadas para urbanização (artigo 4). abrangendo: I – áreas previstas para ocupação urbana no qüinqüênio.As regiões metropolitanas regem-se pela legislação que lhes é própria. histórica. ou com serviços de interesse comum. constituídas por núcleos urbanos de dois ou mais municípios. Artigo 8 – Solo urbano é o contido no perímetro das zonas urbanas. III – área de proteção ambiental. Artigo 9 – Consideram-se conurbações: I – as Regiões Metropolitanas. por suas características de solo. V – ordenar e direcionar expansão de núcleos urbanos de valor cultural. de suas zonas urbanas ou de expansão urbana. V – áreas de margem de águas públicas. por suas características próprias ou por exigências de programas. para urbanização prioritária. paisagística ou arqueológica. em: I – áreas de interesse urbanístico: a) b) c) d) para renovação urbana.148 Artigo 7 – Zona de expansão urbana é a destinada ao crescimento ordenado das cidades.

por localização e características. fluvial ou lacustre. estabelecidas para ordenamento de sua urbanização. transporte coletivo e sistema viário urbano. paisagístico e arqueológico. artigo 180. VI – regulamentar a implantação das Regiões Metropolitanas. VI – estabelecer normas e diretrizes. Capítulo III – Da Promoção do Desenvolvimento Urbano Artigo 20 – A promoção do desenvolvimento urbano compete precipuamente ao Poder Público. observadas as normas e diretrizes desta lei. localização e zoneamento industrial. uso e ocupação do solo urbano e do seu subsolo. proteção ambiental. compete à União: I – definir a Política Nacional de Desenvolvimento Urbano. parcelamento do solo urbano o para urbanos. comunidades bióticas. Artigo 22 . histórico. Artigo 21 – Na promoção do desenvolvimento urbano. patrimônio cultural. nos termos do artigo 40. V – estabelecer Áreas de Planejamento Obrigatório. III – elaborar e fazer cumprir o Plano Nacional de Desenvolvimento Urbano. fluvial e lacustre. aos Estados compete: I – definir a Política Estadual de Desenvolvimento Urbano. II – instituir e implantar o Sistema Nacional de Planejamento Urbano. IV – estabelecer Áreas de Interesse Especial.149 Artigo 16 – Áreas de Lazer ou Turismo são as que. uso do espaço aéreo. formações geológicas e outros elementos de importância para a preservação da ecologia.Observadas as normas e diretrizes desta lei. devam ter seu uso e ocupações sujeitas às diretrizes e normas de programas específicos. II – instituir e implantar o Sistema Estadual de Planejamento Urbano III – elaborar e fazer cumprir o Plano Estadual de Desenvolvimento Urbano. paisagística ou arqueológica. artístico. artística. acidentes geográficos. IX – estabelecer diretrizes e normas geais sobre: a) b) c) d) e) f) g) h) i) j) k) planejamento urbano. histórica. Artigo 18 – Áreas de Preservação Cultural. sobre: . são aquelas sujeitas a regime urbanístico próprio. nos termos do artigo 40. Artigo 19 – Áreas de Margem de Águas Públicas são as contíguas à orla marítima. supletivas e complementares à legislação federal. em todos os níveis de governo. visando à sua preservação (Constituição da República. habitação e saneamento. transformação do uso de solo rural em urbano. V – estabelecer Áreas de Planejamento Obrigatório. definido as limitações nelas incidentes. X – executar as obras e os serviços públicos de sua precípua atribuição. definindo as limitações nelas incidentes. Artigo 17 – Áreas de Proteção Ambiental são as que se caracterizam pela existência de recursos hídricos ou minerais. parágrafo único). VII – regulamentar a implantação das aglomerações urbanas. VIII – orientar a elaboração e implantação de programas e projetos estaduais e municipais que afetem interesses da União. IV – estabelecer Áreas de Interesse Especial. uso e ocupação da orla marítima.

Artigo 25 – Todos os órgãos e entidades federais. V – compatibilizar o planejamento do seu desenvolvimento urbano com o do Estado. bem como: I – aprovar o Plano de Desenvolvimento Integrado das Regiões Metropolitanas. Artigo 30 – O Poder Público incentivará a formação de associações comunitárias. Artigo 27 – O Poder Público poderá organizar empresas urbanizadoras. quanto às Regiões Metropolitanas. II – elaborar e fazer cumprir o Plano Municipal de Desenvolvimento Urbano. Parágrafo único – A indicação da arda. II). bem como executá-lo. VI – compatibilizar o planejamento do seu desenvolvimento urbano com dos municípios limítrofes (artigo 9. deverão atender às normas e diretrizes municipais na localização e execução de suas obras e serviços. Artigo 31 – O Poder Público deverá debater com as comunidades interessadas a elaboração das normas. localização e zoneamento industrial. visando ao beneficiamento urbanístico de determinada área. Artigo 26 – Os órgãos e entidades federais e estaduais. como ou sem participação do Poder Público. compete: I – instituir e implantar o Sistema Municipal de Planejamento Urbano. localizadas na Região Metropolitana. dotadas de personalidade jurisdicional de direito privado. para propor projeto de urbanização aos órgãos públicos competentes. desde que inscrito no Cartório de Primeiro Registro de Pessoas Jurídicas na Capital do Estado. e o da Região Metropolitana se for o caso. estabelecer normas e diretrizes. com atuação em Região Metropolitana. Artigo 23 – Compete. estaduais e municipais. criação e localização de novos núcleos populacionais. VIII – compatibilizar os investimentos setoriais do Estado com as diretrizes do planejamento urbano federal. por qualquer das formas admitidas em direito. para realização de planejamento intermunicipal e prestação de serviços de interesse comum. III – disciplinar o uso e a ocupação do solo de interesse metropolitano. histórico. ainda. Artigo 28 – O consórcio de municípios ou o convênio entre municípios e estados. respeitada a legislação federal e estadual pertinente. Artigo 29 – Os proprietários ou compromissários compradores de imóveis urbanos poderão. sem fins lucrativos. compatibilizando-o com o planejamento estadual. III – estabelecer Áreas de Interesse Especial previstas nesta lei (Artigo 46). IX – executar as obras e serviços públicos de sua precípua atribuição. os benefícios urbanísticos e a forma de participação do Poder Público serão definidos em decreto. padrões de transporte coletivo e sistema viário urbano e interurbano. Artigo 24 – Aos Municípios. ao Estado. VII – executar as obras e os serviços públicos de sua precípua atribuição. terá personalidade jurídica de direto privado. paisagístico e arqueológico. diretrizes e planos urbanísticos possibilitando-lhes o acompanhamento de sua execução. b) c) d) e) f) g) programas e projetos de interesse intermunicipal. microrregional e localização industrial. para exercer atividades de urbanização e as atribuições conexas. metropolitano e municipal.150 a) planejamento e controle do desenvolvimento de aglomerações urbanas. após aprovado. II – estabelecer Áreas de Interesse Especial. supletivas e complementares à legislação federal. IV – estabelecer normas sobre o uso e ocupação do solo. patrimônio cultural. proteção ambiental. ficam sujeitas às diretrizes do seu planejamento. VII – elaborar e promover a execução de planos estaduais de desenvolvimento regional. associar-se.artístico. bem como sobre a prestação de serviços de interesse comum dessas áreas. . estadual. observadas as normas e diretrizes desta lei. com atuação em Municípios que disponha de sistema de planejamento.

como instrumento de atuação. as limitações a que ficarão sujeitas e os organismos responsáveis por sua formulação e execução. cabendo sua fiscalização ao Poder Público e a iniciativa privada. visa à aplicação ordenada de recursos humanos. VII – direito de preferência para aquisição de imóvel. a servidão administrativa. no prazo e nas condições fixadas. a limitação administrativa. Artigo 43 – O direito de preferência para aquisição de imóvel localizado em Área de Interesse Especial. Artigo 42 – A desapropriação. por prazo não superior a doze meses. Parágrafo único . II – servidão administrativa. Artigo 40 – Os órgãos superiores de planejamento da União e do Estado indicarão as zonas e áreas a serem obrigatoriamente planejadas. e.151 Artigo 32 . setorial e outros instrumentos especiais. deverá ser notificado pelo proprietário para manifestar a sua opção e efetuar o depósito em igualdade de condições com o pretendente à aquisição. quando d formulação do Plano de Desenvolvimento Urbano. e dos incentivos financeiros. no prazo. a requisição e o tombamento de bens de interesse urbanístico reger-se-ão pela legislação que lhes é própria. preferentemente. Parágrafo segundo – Os empréstimos. das licenças de construção. o Poder Público utilizará. caberá ao órgão competente para a elaboração do respectivo plano formulá-lo. Artigo 41 – O Poder Público. deverão ser previamente aprovados pelos órgãos superiores de planejamento. VI – tombamento. técnicos e financeiros. será exercido pelo Poder Público decretante que. incentivos e repasses feitos por órgãos federais e estaduais a entidades públicas ou privados. III – limitação administrativa. Regiões Metropolitanas e municípios estabelecerão o seu sistema de planejamento com a finalidade de formular. IV – ocupação temporária. com suspensão liminar do ato impugnado.Todo cidadão deve concorrer para o desenvolvimento urbano e impedir lesão ao patrimônio urbanístico. o planejamento urbano. Artigo 36 – O planejamento urbano será expresso em planos. complementarmente. . executar e controlar a implantação dos planos de desenvolvimento urbano previsto nesta lei. o prazo. sob formas associativas e comunitárias. poderá utilizar os instrumentos seguintes: I – desapropriação. entende-se desinteressado da aquisição. Artigo 34 – O planejamento urbano. Artigo 37 – Elaborados pelos órgãos técnicos competentes. para esse fim. a tributação fiscal e extrafiscal. Planos de Desenvolvimento Urbanos serão Artigo 38 – O Poder Público poderá declarar.O Ministério Público também é parte legítima para promover a ação prevista neste artigo. estadual. os necessariamente aprovados por lei. metropolitano. Capítulo IV – Dos Instrumentos de Atuação Artigo 33 – Para execução desta lei. VIII – urbanização compulsória. parcelamento e desmembramento. programas e projetos de âmbito nacional. para promoção do desenvolvimento urbano. adequados. Artigo 35 – A União. inclusive por meio de ação popular. a ocupação temporária. operando nas Áreas de Planejamento Obrigatório. municipal. a suspensão. Parágrafo primeiro – Decretada a Área de Planejamento Obrigatório. no condicionamento da propriedade à sua função social. Estados. X – decretação de Áreas de Interesse Especial. como atividade do Poder Público. especificando o seu objetivo. regional. para a consecução dos objetivos previstos nesta lei. V – requisição. Artigo 39 – A execução do plano poderá ser cometida a entidades públicas ou privadas. o condicionamento da propriedade à sua função social. IX – constituição de reserva de terrenos. sem a manifestação e o depósito.

e 14 e 19. III – indução do crescimento de núcleos populacionais ou urbanização em Áreas de Interesse especial. II. das obras de urbanização. para o depósito subseqüente. estadual ou municipal. que não cumprirem os encargos urbanísticos. progressiva ou regressiva. serão definidas por decreto federal. requererá o arbitramento judicial previsto nos artigos 606 e 607 do Código do Processo Civil. a: I – execução. ou na em que foram paralisadas. 13. na forma da lei civil. Artigo 46 – As Áreas de Interesse Especial. III e V. em seus terrenos. no prazo de seis meses de sua efetivação. I. solidariamente. com participação majoritária do Poder Público. que delimitará o seu perímetro e indicará as formas de urbanização a que ficam sujeitas. pelo particular. Artigo 44 – A urbanização compulsória incidirá exclusivamente sobre terrenos localizados em Áreas de Interesse Especial e constituirá no cumprimento. pelo Poder Público. V – financiamentos e subsídios. Parágrafo segundo – A aquisição. com cobrança executiva de seu custo corrigido monetariamente. nas condições e prazos fixados pelo Poder Público. especialmente: I – tributação sobre o imóvel e o lucro imobiliário. diretamente ou por contratação com terceiros. . III – contribuição de melhoria. Parágrafo segundo – Se a alienação se realizar sem a notificação prevista neste artigo. III – desapropriação para fins de urbanização. IV – transferência de patrimônio do setor público ou privado. III – arrecadação de imóveis urbanos abandonados como bens vagos. dos encargos impostos para beneficiamento da área. previstas no artigo 10. utilizará instrumentos tributários e financeiros. Artigo 47 – O Poder Público. a administração e a alienação de reserva de terrenos poderá ser cometida a empresas urbanizadoras. Artigo 45 – Mediante lei. Parágrafo primeiro – O proprietário e o compromissário comprador. sob qualquer das formas civis. ficam sujeitos. o Poder Público poderá iniciar a ação anulatória de transcrição. destinada a atender às seguintes finalidades: I – execução de planos e programas de urbanização. com direito de alienação a terceiros que se proponham a executar a obras de beneficiamento. IV – incentivos fiscais e financeiros. Parágrafo único – O município somente poderá decretar Áreas de Interesse Especial as prevista nos artigos 12. II – aquisição. a União. II – taxação progressiva do imóvel até a conclusão das obras. especificando as limitações nelas incidentes e o modo de cientificação dos interessados. Parágrafo segundo – A avaliação para a desapropriação prevista no parágrafo anterior considerará o valor do imóvel no estado em que se encontra na data fixada para início das obras. na promoção do desenvolvimento urbano. depositando o preço constante da escritura. Parágrafo primeiro – A reserva de terrenos será construída mediante: I – desapropriação. II – taxação diferençada. IV – regulação de preços de terrenos no mercado imobiliário. II – construção de habitações de interesse social. Parágrafo terceiro – o prazo para início de urbanização compulsória não poderá ser inferior a um ano e nem superior a cinco.152 Parágrafo primeiro . VI – fundo financeiro para o desenvolvimento urbano.Se o Poder público discordar do preço constante da notificação. o Estado e o Município poderão instituir reserva de terrenos.

área equivalente à do lote. V – interdição da atividade prejudicial à segurança. o Poder Público utilizará as seguintes medidas e sanções: I – fixação de normas para elaboração e execução de projetos. observada as disposições desta lei e as normas federais. Artigo 50 – tem o direito de construir em seu terreno no máximo. será proporcional ao valor da mesma unidade do respectivo terreno no mercado imobiliário. Parágrafo único – A legislação municipal definirá os requisitos caracterizadores de início e conclusão da obra. Parágrafo quarto – A remuneração da licença especial. Artigo 54 – São nulas de pleno direito as licenças expedidas em desconformidade com a legislação urbanística pertinente. atendidas as disposições desta lei e as normas estaduais pertinentes. uma vez quitada. sendo o restante destinado ao “Fundo Estadual de Desenvolvimento Urbano. Artigo 49 – A execução de qualquer forma de urbanização (artigo 4º) depende de licença da Prefeitura Municipal competente.153 Parágrafo único – A utilização dos instrumentos previstos neste artigo reger-se-á pela legislação geral e especial das entidades estatais competentes. Capitulo VI – Das Disposições Finais e Transitórias Artigo 56 – Os denominados “terrenos de marinha”. Parágrafo terceiro – A remuneração da licença especial. instituído e regulamentado por legislação própria de cada Estado”. Artigo 55 – No controle da execução de obras de urbanização e na proteção do meio urbano. inconveniência ou incorreta execução. mediante licença especial da Prefeitura. é transferível. observadas as normas legais pertinentes. ilegal ou perigosa. Artigo 51 – O Município não poderá expedir licença especial para construção de área excedente à do lote enquanto não tiver lei municipal regulando o uso e a ocupação do solo urbano. sujeitando-se as obras a embargo mediante processo administrativo regular. concorrentemente. Parágrafo primeiro – No solo urbano (artigo 8º) em que houver conveniência de maior adensamento populacional. à União. Parágrafo quinto – A licença especial. ao Estado e ao Município. estaduais e municipais pertinentes. III – imposição de multa administrativa. deverão ser iniciadas dentro de um ano da sua expedição. em matéria urbanística. nos termos da legislação que estiver em vigor. para atendimento de suas peculiaridades regionais e locais. por escritura pública e inscrição no Registro Imobiliário competente. sob pena de nulidade. conforme o previsto no artigo 54. Parágrafo Único – O Estado e o Município poderão legislar supletiva e complementarmente. revogação ou cassação de alvará por ilegalidade. VI – embargo de obra clandestina ou ilegal. sob pena de caducidade. lei municipal de uso e ocupação do solo poderá permitir construção de área excedente a permitir construção de área excedente à prevista neste artigo. Parágrafo segundo – A licença especial prevista neste artigo será sempre remunerada. Capítulo V – Do Regime Urbanístico Artigo 48 – A urbanização compete. para construção de área excedente. por unidade de área excedente a ser construída. II – aprovação e fiscalização de projetos executivos. juntamente como terreno. Artigo 53 – Cessam os efeitos de qualquer licença de urbanização após três anos de sua expedição. à saúde ou ao bem-estar da população. IV – anulação. pertencerá integralmente ao município. até duas vezes a do lote. observadas as normas e diretrizes desta lei. Artigo 52 – As obras de urbanização sujeitas à licença. VII – demolição de obra clandestina. ou lesiva ao meio ambiente. sujeitando-se o reinício ou prosseguimento da obra à sua renovação. . compreendidos nos perímetros urbanos e de expansão urbana ficam sujeitos à jurisdição municipal fins de urbanização e tributação.

Parágrafo segundo – As praias. revogadas as disposições em contrário. deverão adaptar suas legislações às normas e diretrizes desta lei. considerados áreas públicas. margens de rios. Artigo 57 – Os estados e municípios. sob pena de invalidade das disposições conflitantes. dentro de trezentos e sessenta dias.154 Parágrafo primeiro – a legitimação de ocupação desses terrenos por particulares será feita pela prefeitura mediante prévio assentimento da União. . para todos os efeitos. de livre acesso a toda a população. Parágrafo único – A elaboração dos planos estaduais contará com apoio financeiro da União durante 2 (dois) anos após a promulgação da presente lei. Artigo 58 – Esta lei entrara em vigor na data de usa publicação. lagos e logradouros paisagísticos serão.

notadamente no sistema viário. . em especial pela disponibilidade de infra-estrutura e dos serviços e equipamentos sociais urbanos. nos transportes. d) a ociosidade do solo urbano edificável. a) a utilização inadequada dos imóveis urbanos. b) proximidade de usos incompatíveis. especialmente mediante: a) a prevenção e correção das distorções e disfunções do crescimento urbano. Artigo 2 – O Poder Público promoverá o desenvolvimento urbano mediante ação integrada da União. Estados. VI – recuperação. f) fortalecimento do direito de posse às populações de baixa renda. nos seus aspectos interurbanos e intraurbanos. Proposta esta.155 ANEXO – IV Texto integral do anteprojeto da Lei de Desenvolvimento Urbano preparado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano do Ministério do Interior. em habitação e em saneamento. c) o parcelamento do solo urbano e edificação vertical excessivo com relação à infra-estrutura e aos serviços e equipamentos sociais urbanos. garantido-se o direito de moradia a todas as camadas da população. pelo poder público. inclusive com vistas a evitar a valorização indevida dos terrenos. que deu origem ao Projeto de Lei nº775/83. e) a deterioração das áreas urbanizadas. IV – controle do uso do solo urbano de modo a evitar. e) subordinação do direito de construir aos interesses urbanísticos. publicado em 27 de maio de 1982 pelo Jornal “O Estado de São Paulo”. ordenação e reorientação das migrações internas. b) justa distribuição dos benefícios e ônus decorrentes do processo de urbanização. inclusive com vistas a evitar a indesejável valorização dos terrenos. c) repressão ao abuso do poder econômico no mercado imobiliário urbano. observadas as seguintes diretrizes: I – redução dos desequilíbrios regionais do desenvolvimento pela ordenação do processo de criação e expansão dos núcleos urbanos. Distrito Federal. Territórios e municípios. preservação e recuperação do meio ambiente e do patrimônio cultural e paisagístico e controle da poluição. regionais e sub-regionais de cidade. b) contenção da excessiva concentração urbana. II – a integração urbano-rural e a complementaridade e interconexão dos sistemas de cidades. III – a melhoria da qualidade de vida nas cidades. II – expansão ordenada e socialmente desejável das zonas urbanas. III – condicionamento da propriedade imobiliária urbana à sua função social mediante: a) igualdade de oportunidade de acesso à propriedade urbana. aos objetivos do desenvolvimento urbano. c) a indução. dos investimentos de que resulte a valorização dos imóveis urbanos. ANTEPROJETO DE LEI DE DESENVOLVIMENTO URBANO DE 1982 Capítulo I – Dos Objetivos e Diretrizes do Desenvolvimento Urbano Artigo 1 – São objetivos do desenvolvimento urbano: I – a adequada distribuição espacial da população e das atividades urbanas. d) regularização fundiária e urbanização específica de áreas urbanas ocupadas por população de baixa renda. VII – proteção. com vistas à estruturação dos sistemas nacional. ou indesejáveis. V – adequação dos investimentos públicos.

Parágrafo único – Na formulação nacional do desenvolvimento urbano. Artigo 3 – A política nacional de desenvolvimento urbano. II – áreas de urbanização limitada. V – renovação urbana. V – áreas de planejamento obrigatório. a) abastecimentos regular de água potável. bem como suas estratégias e programas. d) escola primária em funcionamento.ordenação e direcionamento da urbanização. de suas zonas urbanas ou com infraestrutura e serviços e equipamentos sociais uranos comuns. . Artigo 7 – Solo urbano é o contido nas zonas urbanas e imóvel urbano. autorizado pelo município. III – áreas de regularização fundiária e de urbanização específica. para fins do desenvolvimento urbano: I – áreas de urbanização preferencial. Artigo 8 – O Poder Público poderá estabelecer como de interesse especial. Parágrafo único – A urbanização depende de ato ou de previa autorização do poder público. integração os planos nacionais de desenvolvimento. II – áreas que contenham.implantação prioritária da infra-estrutura e dos serviços e equipamentos sociais urbanos. atual ou potencial. II – parcelamento ou remembramento de imóveis urbanos. Artigo 9 – Áreas de urbanização preferencial são as destinadas a: I. Parágrafo primeiro – Área de expansão urbana é a parcela da zona urbana destina ao crescimento das cidades. IV – áreas de renovação urbana. o que nelas se localiza. com contigüidade. prevista para o período não superior a dez anos (e calculada considerando a densidade média da área de urbanização continua). e) unidade de saúde pública em funcionamento. Parágrafo primeiro – Lei municipal delimitará as zonas urbanas. Parágrafo segundo – Os municípios que constituem regiões metropolitanas delimitarão suas zonas urbanas em conformidade com as normas e diretrizes do planejamento metropolitano e mediante prévia anuência do Conselho Deliberativo de que tratam as Leis complementares nº14. c) iluminação pública e distribuição domiciliar de energia elétrica. de 3 de novembro de 1975. III – execução da infra-estrutura e serviços e equipamentos sociais urbanos. de 8 de junho de 1973 e nº27. respeitadas as competências dos Estados. Parágrafo segundo – A área total das zonas urbanas não poderá ultrapassar a área suficiente para a localização da população urbana e suas atividades. IV – construção destinada a atividades urbanas. deverão ser consideradas as seguintes categorias: a) as regiões metropolitanas. IX – estimulo à participação da iniciativa privada na urbanização. Artigo 5 – O território dos municípios será dividido unicamente em zonas urbanas e rurais e os seus núcleos urbanos serão classificados em cidades. considera-se urbanização toda atividade de: I – expansão das zonas urbanas. c) as cidades de porte médio.156 VIII – estímulo à participação individual e comunitário no processo do desenvolvimento urbano. estabelecidas mediante lei complementar. b) as aglomerações urbanas constituídas por dois ou mais municípios. vilas e povoados. especialmente à habitação. e consideradas as peculiaridades regionais. pelo menos. que poderão conter área de expansão urbana. quatro dos seguintes serviços e equipamentos sociais urbanos. Artigo 6 – As zonas urbanas dos municípios serão delimitadas de modo a abranger: I – áreas de edificação contínua. f) transporte coletivo. II. Capítulo II – Da Urbanização Artigo 4 – Para os fins desta lei. vilas e povoados. das regiões metropolitanas e dos municípios. Distrito Federal e territórios. b) esgotos sanitários ou pluviais. d) outros núcleos urbanos de interesse especial do desenvolvimento urbano e regional. ao trabalho e à recreação e lazer.

i) proteção do meio ambiente.adensamento de áreas edificadas. V . no interesse social. Artigo 10 – Áreas de urbanização limitada são as em que a urbanização deve ser desestimulada ou restringida em decorrência da natureza de sua ocupação. programas e projetos visando à sua execução). especificados no ato de seu estabelecimento e prazo para sua execução. Artigo 17 – Observado o disposto nesta lei. . nos termos do artigo 8. reutilização e a revitalização. à indústria. supletiva e complementarmente à União: I – definir e implementar as políticas de desenvolvimento urbano estadual e micro-regional (e estabelecer as estratégias. d) recursos hídricos. bem como da implantação prioritária dos equipamentos e serviços. programas e projetos visando à sua execução. III – regulamentar a implantação das regiões metropolitanas. c) uso do espaço aéreo e do subsolo para fins de desenvolvimento urbano. j) patrimônio cultural e paisagístico. as áreas de interesse especial (limitar os itens II. em especial as indústrias.promoção da urbanização necessária a programa ou projetos especiais de desenvolvimento. ao comércio. à preservação do patrimônio cultural e paisagístico e à proteção do meio ambiente. e) transportes. calamidades e outras condições adversas ou em vista de necessidades de preservação cultural e paisagística e proteção ambiental. compete aos Estados e ao distrito Federal (no âmbito dos respectivos territórios). Artigo 11 – Áreas de regularização fundiária e urbanização especifica são as habitadas por populações de baixa renda e que devam. Artigo 13 – Áreas de planejamento obrigatório são as assim estabelecidas pelo poder público. II – estabelecer normas gerais e diretrizes relativas aos assuntos a que se referem às alíneas “a” a “j” do item II do artigo anterior. o Poder Público estabelecerá zoneamento da urbanização especificando o tipo da intensidade das atividades urbanas em cada zona. (V – IV – prover sobre matéria de desenvolvimento urbano de interesse interestadual). V – estabelecer e regulamentar as aglomerações urbanas localizadas em território de mais de um estado ou território federal ou que sejam de especial interesse para a execução da política nacional de desenvolvimento urbano (muito vago) e (parágrafo único).157 III. Capítulo III – Da Promoção do Desenvolvimento Urbano. IV – estabelecer critérios para definição (regulamentar o estabelecimento) de aglomerações urbanas (e de cidades de porte médio). Artigo 16 – Na promoção do desenvolvimento urbano compete a União: I – definir a política nacional de desenvolvimento urbano e estabelecer as estratégias. VI – delimitar a região geoeconômica de Brasília e dispor sobre as condições de sua urbanização. II – estabelecer normas gerais e diretrizes relativas a: a) transformação de solo rural em urbano. com base em programas ou projetos de urbanização. de características do solo. f) saneamento. aprovar e implementar os respectivos planos de desenvolvimento. Artigo 12 – Áreas de renovação urbana são as destinadas a recuperação. observado o disposto nesta lei. ser objeto de ações visando à legalização da ocupação do solo e à regulamentação especifica da urbanização. em especial as relativas à habitação. III e V) que sejam de relevância para a execução da política nacional de desenvolvimento urbano. clima. III – regulamentar a implantação (estabelecer) das regiões metropolitanas. Artigo 15 – A promoção do desenvolvimento urbano compete precipuamente ao poder público. particularmente das águas públicas. IV . elaborar. g) habitação.indução da ocupação de terrenos edificáveis. à recreação e lazer. Artigo 14 – Sem prejuízo do disposto no artigo 5º e 8º. vulnerabilidade a intempéries. h) localização das atividades produtivas. no interesse do desenvolvimento urbano. b) uso. VII – estabelecer. ocupação e parcelamento e remembramento do solo urbano.

aos territórios federais. antes de enviar os seus planos de desenvolvimento municipais. possibilitando-lhes o acompanhamento de sua execução (cairá se aceita a alternativa do artigo 21). o Poder Público contará com a participação das comunidades. estaduais e municipais com atuação nas regiões metropolitanas deverão compatibilizar sua atuação com os planos. no que couber. Artigo 25 – Os proprietários ou compromissários compradores de imóveis poderão com ou sem participação do Poder Público. de 8 de junho de 1973. VI – aprovar a localização de novos núcleos urbanos. repasse e financiamento da administração pública. Parágrafo único – O Poder Público poderá prestar apoio técnico e financeiro aquelas associações reconhecidas como de utilidade pública. III e V) que sejam de relevância para a execução de suas políticas de desenvolvimento urbano. V – estabelecer. Artigo 28 – O Ministério Público é parte legitima para promover ação visando à aplicação e execução desta lei. Parágrafo único – O disposto neste artigo aplicas-se. em especial as metropolitanas quando parte de uma região metropolitana (alternativa – colocar no artigo 16: Compete à União “prover sobre os procedimentos de elaboração. direta e indireta. deverão obedecer às diretrizes e normas de ações metropolitanas. . visando ao desenvolvimento urbano. que os encaminhará ao Poder Legislativo para exame e aprovação. Artigo 26 – O Poder Público incentivará a formação de associações comunitárias. previamente à sua aprovação serão submetidos ao Conselho Deliberativo para fins de compatibilização com o plano metropolitano. Artigo 24 – Os municípios de os Estados poderão associar-se para criar empresas públicas ou de economia mista destinadas à realização de obras ou à prestação de serviços de interesse comum no campo do desenvolvimento urbano. todos os poderes concedidos por esta lei ao Poder Público (bem como as demais competências constitucionais e legais relativas ao desenvolvimento urbano). as áreas de interesse especial (limitar aos itens I. (Parágrafo único – Substituído por inclusão de “aprovar” no item III do artigo 17). será decretada a suspensão liminar deste. Artigo 27 – Na elaboração dos planos.158 IV – estabelecer e regulamentar aglomerações urbanas. Artigo 21 – Os planos municipais de desenvolvimento urbano deverão atender às diretrizes federais e estaduais. sem fins lucrativos. mencionados no Artigo 5º da lei complementar nº14. associar-se. Artigo 22 – Todos os órgãos e entidades federais. quanto ao cumprimento dos objetivos e diretrizes do desenvolvimento urbano. das normas. para efeito de compatibilização dos instrumentos incentivos. Artigo 19 – (incluído no 22) – Os planos de desenvolvimento metropolitano. Parágrafo segundo – (alternativa eliminar) – Os municípios que constituem regiões metropolitanas. nos termos do artigo 8. Artigo 18 – Compete aos municípios (no âmbito dos respectivos territórios): (ver alternativas para todo artigo) I – definir as políticas de desenvolvimento urbano e estabelecer a estratégias. II. Artigo 20 – Inclui-se entre os serviços reputados de interesse metropolitano. Artigo 23 – Os órgãos e entidades federais estaduais com atuação nos municípios que disponham de planos de desenvolvimento urbano deverão atender às diretrizes e prioridades nelas estabelecidas na localização e execução de seus projetos e atividades. sob qualquer das formas legais para a execução de projetos de urbanização. Parágrafo primeiro – Quando a ação pública de que trata este artigo tiver por objeto a impugnação de um ato. bem como aos elementos de procedimentos mínimos a serem baixados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano. II – exercer supletiva e complementarmente (à União ou Estados e territórios). diretrizes e programas de desenvolvimento urbano. diretrizes e prioridades do planejamento metropolitano (ver artigo 19). programas e projetos visando à sua execução. a habitação. Parágrafo único – Os planos municipais de desenvolvimento urbano e suas alterações deverão ser de iniciativa do Poder Executivo. aprovação e conteúdo mínimo dos planos de desenvolvimento municipal e metropolitano)”.

e sobre o lucro imobiliário. XII – usucapião especial. IV – ocupação temporária. especialmente: I – tributação sobre o imóvel urbano. o condicionamento da propriedade à sua função social. metropolitanos ou municipais.B – Durante a elaboração de planos de desenvolvimento urbano. no condicionamento da propriedade urbana à sua função social. III – contribuição de melhoria. XI – legitimação de posse. progressiva e regressiva. III – limitação administrativa. o tombamento de bens de interesse urbanístico. regendo-se os demais instrumentos referidos neste artigo peãs disposições constantes desta lei. VIII – edificação ou utilização compulsória. Capítulo IV – Dos Instrumentos de Desenvolvimento Urbano Artigo 28 . Capítulo V – Do Direito de Construir Artigo 29 – O proprietário poderá construir em seu terreno de acordo (o direito de construir será exercido em conformidade) com as normas legais e administrativas pertinentes. Artigo 28 – D – O Poder Público. II – servidão administrativa. Parágrafo único – A desapropriação. VII – direito de preempção. a ocupação temporária. V – requisição. VI – tombamento. a requisição. X – direito real de concessão de uso. como instrumentos de atuação: o planejamento urbano. por prazo não superior a doze meses. o Poder Público utilizará. IX – direito de superfície. Parágrafo único – A utilização dos instrumentos previstos neste artigo reger-se-á por legislação própria. poderá utilizar-se dos instrumentos seguintes: I – desapropriação. a servidão administrativa.A – Para fins desta lei.159 Parágrafo segundo – Qualquer cidadão poderá representar ao Ministério Publico par promover a ação referida neste artigo. II – taxação diferenciada. IV – incentivos fiscais e financeiros. Artigo 28 . V – financiamento e subsídios. Artigo 28 – C – O Poder Público. na promoção do desenvolvimento urbano. a política fiscal e os incentivos financeiros. VI – fundos e recursos públicos destinados ao apoio ao desenvolvimento urbano. mediante lei. . disporá de instrumentos fiscais e financeiros. progressiva e regressiva. a limitação administrativa. o Poder Público poderá suspender. a autorização para urbanização de parcelas do solo urbano. e o direito real de concessão de uso reger-se-ão pela legislação própria.

devendo a notificação ser averbada no registro de imóveis. como os demais direitos reais. quando este tiver valorização em virtude da alteração dos índices urbanísticos relativos ao uso e ocupação (aproveitamento) do solo. Artigo 35 – O não cumprimento da obrigação de edificar ou utilizar. poderá determinar a edificação ou a utilização compulsória de terreno urbano vago. Artigo 41 – Extinta a superfície. com direito de alienação a terceiro que se comprometa a realizar a edificação. mediante processo administrativo ou judicial. devendo tal restrição constar do registro de imóveis (tornar mais geral). Capítulo VI – Do Direito de Superfície (transferência – insconstrutibilidade) Artigo 36 – O proprietário poderá outorgar a outrem o direito de propriedade sobre a superfície de seu terreno (para fins de edificação. do proprietário. realizada no limite máximo dos índices urbanísticos de ocupação do solo. Artigo 33 – Lei municipal poderá determinar compensação pecuniária por parte do proprietário do terreno. Artigo 42 – O direito de superfície. n solo urbano. quando for o caso. . baseada em plano de uso do solo e respectiva legislação. Parágrafo primeiro – Os prazos para início e término das obras serão fixados pelo município. Artigo 34 – Lei municipal. rege-se por esta lei. Parágrafo primeiro – A notificação produzirá os mesmos efeitos da declaração de utilidade pública. por parte proprietário. Parágrafo único – Compensação de igual natureza poderá ser exigida pelo município. constituído por pessoa jurídica de direito público interno. posterior à data da notificação. se onerosa. devidamente registrado no registro de imóveis. sujeitando-se as obras a embargo. registrando-se a transferência. estipularão as partes a forma de pagamento. ou outra utilização) por instrumento público ou particular. Parágrafo terceiro – A alienação do imóvel. impede o desmembramento do terreno. Artigo 40 – Antes do advento do termo resolver-se-á a superfície se o superficiário der ao terreno destinação diversa daquela para a qual lhe foi concedida. a reforma e a demolição ficam condicionadas à licença do município. o proprietário passara a ter o domínio pleno sobre o terreno e benfeitorias nele realizadas. ou por termo administrativo. par os fins de desapropriação. fixando as áreas. Artigo 39 – A superfície transfere-se por ato intervivos ou por sucessão legítima ou testamentária. Artigo 31 – Na licença para construir. em condições especiais. bem como dos órgãos estaduais e federais competentes. se o interessad9 se dispuser a executar e operar os equipamentos referidos neste artigo. ficando vedada a cobrança de qualquer quantia pela transferência da superfície. a contar da notificação do proprietário. Artigo 38 – O superficiário responder’pelos encargos e tributos que incidirem sobre o imóvel. Parágrafo segundo – São nulas de pleno direito as licenças expedidas em desconformidade com esta lei e a legislação pertinente. condições e prazos para sua execução. Artigo 37 – A outorga do direito de superfícies será gratuita ou onerosa. deverá ser considerada a existência ou programação de equipamentos e serviços públicos compatíveis. pela alteração de uso rural para urbano. expressos em planos de uso do solo e respectiva legislação (data da cobrança).160 Artigo 30 – A construção. podendo o Poder Público municipal negá-la caso sua capacidade financeira seja insuficiente para prover aquelas despesas. Artigo 32 – A construção. facultará ao Poder Público a desapropriação do imóvel. não interrompe o prazo fixado para a edificação ou utilização. Parágrafo único – A licença poderá ser outorgada. Parágrafo segundo – A avaliação do imóvel par a desapropriação prevista neste artigo considerará seu valor no estado em que se encontra na data da notificação. independentemente de indenização se as partes não houverem estipulado o contrario. Parágrafo segundo – O proprietário será notificado pela Prefeitura para o cumprimento da obrigação. Parágrafo primeiro – O prazo para início da edificação ou utilização referida no caput deste artigo não poderá ser inferior a um ano. no que não for diversamente disciplinada em lei especial.

o juiz devera considerar o uso efetivo e estado do imóvel à data da definição da área de incidência do direito de preempção.161 Capítulo VII . quanto às áreas públicas. podendo o proprietário realizar a alienação conforme o preço previsto. VII – outras finalidades de interesse social. Artigo 46 – No arbitramento do preço.Do Direito de Preempção Artigo 43 – O direito de preempção confere ao Poder Público preferência para aquisição de imóvel urbano objeto de transação entre particulares. Artigo 47 – A alienação efetuada em desacordo com os preceitos deste capitulo é nula de pleno direito. a desapropriação e as situações de perda de propriedade por abandono admitidas em lei. a parte que não concordar como o preço poderá desistir do negócio. como o usucapião. já foi mensagem ao Congresso Nacional dispondo sobre a entrega ao BNH de terrenos públicos da União e das autarquias federais para execução de programas habitacionais e regularização fundiária. Parágrafo primeiro – O Poder Público definira previamente. VI – constituição de áreas de preservação ecológica ou paisagística. . mencionando o preço desejado para que o Poder Público manifeste sua opção de compra. sem manifestação. por lei. quanto as áreas particulares ocupadas por favelas. simplificação e agilização dos instrumentos e procedimentos para efetivar a regularização fundiária. IV – constituição de reserva fundiária (estoque de terras). com as seguintes diretrizes: buscar soluções com o objetivo de assegurar a propriedade à população já ocupante de áreas. III – realização de obras de infra-estrutura e demais equipamentos urbanos. vem como as adjudicações. poderá requer o arbitramento judicial previsto na lei civil. Parágrafo segundo – As transações referidas neste artigo abrangem as alienações gratuitas e onerosas. no prazo. e nem em composição amigável com o alienante. não se considerando a valorização decorrente de investimentos públicos na área ou da alteração da legislação urbanística. V – ordenamento de expansão urbana. Capítulo VIII – Da Regularização da Ocupação dos Terrenos Urbanos * este capítulo esta sendo objeto de estudo por um grupo de trabalho constituído pelo Ministério do Interiro. responsabilizando o Poder público pelo pagamento das custas. Parágrafo primeiro – Caso o Poder Público discorde do preço constante da notificação. sempre buscando não remover as pessoas. Parágrafo terceiro – Se a desistência for do Poder Público. a regularização fundiária poderá dispor de diversos mecanismos já existentes. entende-se estar o Poder Público desinteressado da aquisição. Artigo 44 – O direito de preempção será exercido para atender às seguintes finalidades: I – realização de projetos habitacionais. Artigo 45 – O proprietário deverá notificar sua intenção de alienar o imóvel. o proprietário poderá realizar a alienação de acordo com o preço previsto inicialmente. II – criação de áreas públicas de lazer. que proporá medidas necessárias de aperfeiçoamento. Parágrafo segundo – Realizado o arbitramento judicial. as áreas em incidira o direito de preempção e que poderão vigorar por prazo determinado ou indeterminado.

* Alternativa do artigo 18: Artigo 18 – Aos municípios. prioridades e instrumentos da política nacional de desenvolvimento urbano. vinculadas ao desenvolvimento urbano. responsáveis pelas ações relativas ao desenvolvimento urbano. IV – as unidades que. territórios. regiões metropolitanas e municípios. o Distrito Federal.propor aos programas anuais e plurianuais de investimentos e a programação do apoio financeiro oficial ao desenvolvimento urbano. como órgãos seccionais. administração metropolitana e municipal. ocupação e parcelamento do solo. observado o disposto nesta lei. estratégias e programas de desenvolvimento urbano.162 Capítulo IX – Do Sistema Federal de Desenvolvimento Urbano Artigo 51 – Os órgãos e entidades da administração direta e indireta. II – Estabelecer normas e diretrizes. compete: I – Definir a políticas. . II – a Secretaria Geral do Ministério do Interior. especificamente os relativos à habitação.355. como órgão de decisão superior. criado pelo Decreto nº83. III – as secretarias gerais dos demais ministérios como órgãos setoriais. objetivando contribuir para a compatibilização ente os programas federais e os estaduais. II . VIII – expedir normas e diretrizes relativas ao desenvolvimento urbano. em cada entidade da administração federal direta e indireta. Artigo 54 – O órgão central do SIDURB articular-se-á com os Estados. vem como os transferidos aos Estados. Artigo 52 – Integram o SIDURB: I – o Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano – CNDU. Distrito Federal. e) f) patrimônio cultural e paisagístico. saneamento básico. os territórios e os municípios. bem como o estabelecimento de convênios e acordos de cooperação técnica com entidades especializadas na matéria. desempenhem as funções de planejamento. a ser exercida peal Secretaria Especial de Desenvolvimento Urbano – SIDURB. VI – aprovar os critérios para a definição das categorias especiais. obedecida a legislação federal e estadual. através de órgãos setoriais do SIDURB. d) saneamento básico. no sentido de promover a integração das ações voltadas para o cumprimento das diretrizes da política nacional de desenvolvimento urbano. Parágrafo único – De acordo com a legislação em vigor. sobre: a) uso. estratégias. através da Secretaria Especial de Desenvolvimento Urbano – SEDURB. c) habitação. Artigo 55 – O Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano – CNDU – funcionará com apoio de uma secretaria executiva. constituirão o “Sistema Federal de Desenvolvimento Urbano – SIDURB”. a serem dispendidos pela União. proteção do meio ambiente. b) transportes e sistema viário urbano. III – aprovar a programação e recursos destinados a programas de desenvolvimento urbano. transportes e sistema viário. VII – propor a legislação complementar necessária à elaboração e implementação da política nacional de desenvolvimento urbano. Artigo 53 – As superintendências regionais de desenvolvimento deverão atuar conforme as diretrizes da política de desenvolvimento urbano. é o Poder Executivo autorizado a criar uma fundação de apoio técnico e cientifico às atividades do CNDU. financeiros e creditícios. V – aprovar a programação de estudos e pesquisas relacionadas com o desenvolvimento urbano. de 20 de abril de 1979. Artigo 56 – Incluir-se-ão entre as atribuições do CNDU: I – propor diretrizes. como órgão central. IV – propor os instrumentos fiscais.

aprovar e executar os planos. V – Compatibilizar o planejamento do seu desenvolvimento como os dos Estados e Territórios ou como o da respectiva região metropolitana ou aglomeração urbana. programas e projetos de desenvolvimento urbano. fixando as limitações nelas incidentes. .163 g) localização e zoneamento industrial. III – Elaborar. IV – Definir e estabelecer áreas de interesse social.

EMENDA DA REFORMA URBANA EM 1988 Capítulo I . que deverá ser autorizado pelo poder público municipal. iluminação pública. e mediante plena integral e prévia indenização em dinheiro. assim como preservação do patrimônio ambiental e cultural. lazer e segurança.O poder público.Dos Direitos Urbanos Artigo 1 . energia elétrica.164 ANEXO – V Texto integral da emenda elaborada e defendida pelo Movimento Nacional pela Reforma Urbana na Assembléia Nacional Constituinte em 1987/198. Artigo 5 . Parágrafo segundo . e cuja sentença. depois do trânsito em julgamento. IV – Desapropriação por interesse social ou utilidade pública.A desapropriação dos imóveis necessária à regularização fundiária de áreas ocupadas por comunidades consolidadas será feita considerando o valor histórico de aquisição do imóvel através de ação judicial. Parágrafo primeiro . em títulos da dívida pública resgatável em 20 anos. Capítulo II – Da Propriedade Imobiliária Urbana Artigo 3 . de equipamentos sociais e de transportes coletivos. reconhecida em juízo. o imposto sobre a valorização imobiliária e a edificação compulsória não poderão incidir sobre o terreno até 300m2. Artigo 2 . respeitado o disposto no art. Artigo 4 . Artigo 8 . descontada a valorização decorrente de investimentos públicos.O direito de propriedade territorial urbana não pressupõe o direito de construir. valerá como título para fins de registro imobiliário. . de cujo depósito dependerá também a imissão provisória na posse do bem. pode desapropriar imóveis urbanos para fins de interesse social. destinado à moradia do proprietário. mediante o pagamento de indenização.Para assegurar a prevalência dos direitos urbanos. envolvendo os imóveis desapropriados sejam realizados subseqüentemente à data das primeiras ocupações da área. comunicações. Parágrafo único – No cálculo da indenização pelo valor histórico não serão considerados os negócios que. o poder público disporá dos seguintes instrumentos: I – Imposto progressivo sobre imóveis.Todo cidadão tem direito à condição de vida urbana digna e justiça social. II – Imposto sobre valorização imobiliária. IX – Parcelamento e edificação compulsórios. VI – Tombamento de imóveis. V – Discriminação de terras públicas. transporte público. saneamento.A desapropriação da casa própria somente poderá ser feita no de evidente utilidade pública. VII – Regime especial de proteção urbanística e preservação ambiental.A declaração de interesse social para fins da Reforma Urbana opera automaticamente a emissão do poder público na posse do imóvel o registro da propriedade. Essa indenização será fixada até o montante cadastral do imóvel para fins tributários. Parágrafo único . educação.O direito a condições de vida urbana digna condiciona o exercício do direito de propriedade ao interesse social no uso dos imóveis urbanos e o subordina ao principio do estado de necessidade.Por interesse social entende-se a necessidade do imóvel para programas de moradia popular. II – A gestão democrática da cidade. para a instalação de infra-estrutura. obrigando-se o Estado a assegurar: I – Acesso à moradia. III – Direito de preferência na aquisição de imóveis urbanos. Artigo 7 . 5 º. sujeito ao procedimento ordinário. Artigo 6 .O imposto progressivo.A valorização de imóveis urbanos que não decorra de investimentos realizados no próprio imóvel mas que seja proveniente de investimentos do poder público ou de terceiros poderá ser apropriada por via tributária ou outros meios. VIII – Concessão do direito real de uso. saúde.

detiver a posse não contestada. Parágrafo primeiro . Artigo 13 . todo cidadão que.As prestações mensais referentes a empréstimos para compra ou construção de habitação própria não poderão comprometer mais de 20% dos rendimentos familiares. com a fixação de limite máximo para o valor inicial dos aluguéis residenciais.Os contratos de compra. Artigo 11 . Capítulo III .Ao ser proposta ação de usucapião urbano. tendo como limite máximo o índice de variação salarial.Do Transporte e Serviços Públicos Artigo 16 . não sendo proprietário urbano. Parágrafo primeiro . Parágrafo terceiro .Na elaboração e implantação dos serviços públicos é monopólio do poder público e será realizado através da administração direta e indireta. Parágrafo terceiro .O direito de usucapião urbano não será reconhecido ao mesmo possuidor mais uma vez. venda.Para assegurar a todos os cidadãos o direito à moradia.165 Artigo 9 . aos Estados e aos Municípios. sendo garantida a participação das representações sindicais e associativas. Parágrafo segundo . 1º.As políticas e projetos habitacionais serão implantadas pelo Município de forma descentralizada. III – regulação do Mercado imobiliário urbano e proteção ao inquilinato.No exercício dos direitos urbanos consagradas no Art. sendo vedado o uso de qualquer moeda corrente moeda fiscal ou cambial. Parágrafo único – Lei ordinária regulamentara o disposto neste artigo. Parágrafo único – É proibida a aplicação de recursos públicos ou sob administração pública para financiar investimentos privados assim como a intermediação financeira na obtenção e transferência de recursos destinados a programa de habitação de interesse social. cuja metragem será definida pelo poder municipal até o limite de 300m2.Os índices de reajuste do aluguel residencial e do pagamento das prestações e os débitos de financiamento dos imóveis serão utilizados com periodicidade mínima de 12 (doze) meses. ficarão suspensas e proibidas quaisquer ações reivindicatórias ou possessórias sobre o imóvel usucapido.Cabe ao poder público municipal exigir que o proprietário do solo urbano ocioso ou sub-utilizado promova seu adequado aproveitamento sob pena de submeter-se à tributação progressiva em relação ao tempo e à extensão da propriedade.Compete ao poder público garantir a destinação de recursos orçamentários a fundo perdido para a implantação de habitação de interesse social.Nas aplicações para compra ou construção de habitação popular não haverá qualquer incidência de encargos financeiros. aluguel de imóveis urbanos terão seu pagamento e forma de reajuste fixados em moeda corrente. Artigo 15 . Parágrafo quarto . sujeitar-se à desapropriação por interesse social ou ao parcelamento e edificação compulsórios.À União. utilizando-a para sua moradia e de sua família. II – acesso a programas públicos de habitação de aluguel ou a financiamento público para a aquisição ou construção de habitação própria.Os terrenos contínuos ocupados por dois ou mais possuidores são suscetíveis de serem usucapidos coletivamente através de entidade comunitária e obedecerá a procedimento sumaríssimo. . cabendo o controle direto da aplicação dos recursos à população. adquirir-lhe-à o domínio.Lei Federal disporá sobre a criação e a criação e a manutenção de agência que coordenará as políticas gerais de habitação. através de suas entidades representativas. Artigo 10 . independente de justo título e boa fé. visando o interesse social. fica o poder público obrigado a formular políticas habitacionais que permitam: I – regularização fundiária e urbanização de áreas ocupadas em regime de posse ou em condições de sub-habitação. Artigo 14 . Capítulo IV . de terras públicas ou privadas. cabem obrigatoriamente adotar as medidas administrativas necessárias à identificação e recuperação de terras públicas e à discriminação das terras devolutas. por três anos. ficando desde já vedado todo e qualquer uso de recursos públicos operados pela iniciativa privada. Parágrafo segundo . IV – assessoria técnica à construção da casa própria. cessão.Da Política Habitacional Artigo 12 .

suspender.O descumprimento dos preceitos estabelecidos neste capítulo sujeitará a administração pública à ação própria.5% do colégio eleitoral. administrado pelos municípios e Estados para cobertura da diferença entre o custo do transporte e o valor da tarifa paga pelo usuário.Na elaboração e implantação de plano de uso e ocupação do solo e transporte e na gestão dos serviços públicos. automaticamente. conselhos municipais de urbanismo. ou. Artigo 22 . Parágrafo segundo . através do veto popular. e implicará na responsabilidade penal e civil da autoridade a quem se possa imputar a omissão.As tarifas dos serviços de transportes coletivos urbanos serão fixadas de modo que a despesa dos usuários não ultrapasse 6% do salário mínimo mensal.É assegurado a um conjunto de cidadãos.Na falta da lei. relativas à vida urbana.No reajuste de tarifas de serviços públicos será observada a autorização legislativa e garantida a ampla divulgação dos elementos inerentes ao cálculo tarifário.Lei ordinária disporá a criação de um fundo de transportes.Da Gestão Democrática da Cidade Artigo 18 . o poder municipal deverá garantir a aprovação pelo legislativo e a participação da Comunidade através de suas entidades representativas. para tornar eficaz uma norma constitucional. que trate de questão urbana. o Ministério Público ou qualquer interessado pode requerer ao Judiciário que determine a aplicação direta da norma. Artigo 21 . conselhos comunitários e plebiscito ou referendo popular. deverá.Fica assegurada a iniciativa popular de leis de âmbito municipal. que represente 5% (cinco por cento) do eleitorado municipal. Artigo 23 .Fica assegurado o amplo acesso da população às informações sobre planos de uso e ocupação do solo e transporte e na gestão dos serviços públicos. Parágrafo único – A lei. Artigo 20 . utilizando-se de: audiências públicas. objeto de veto.166 Artigo 17 . . a partir de sua publicação. ser submetida a referendo popular. mediante proposta articulada e justificada de cidadãos eleitores em número equivalente a 0. se for o caso. Capítulo V . Artigo 19 . a execução de lei urbana promulgada que contrarie os interesses da população. Parágrafo único – A decisão favorável do Judiciário tem força de coisa julgada. Parágrafo primeiro . a sua regulamentação pelo poder Legislativo.

O que havia até meados de 70 eram favelas grandes. Não tinha salário para alugar um outro lugar então as pessoas começaram arrumar as suas próprias formas de ir morar. trabalhador que participava desse movimento. essas comissões canalizaram para grandes movimentos ligados a questão da moradia. Foi nessa época que nos tivemos as chamadas ocupações que ainda não tinha na cidade. o proprietário pedia o imóvel a qualquer momento sem justificativa já dava denuncia vazia e era obrigado a sair. 2. Qual era o principal conflito entre esses movimentos populares urbanos e o governo militar? Ailton . verticalizados. onde se teve inclusive a morte de um companheiro. também gigantesca. mas as pessoas permaneceram lá e construíram as suas próprias casas de alvenaria. Esse movimento foi vitorioso. com mais de 5 mil pessoas. a ocupação 1º de outubro. já no governo do Paulo Maluf.a partir dessa época teve o envolvimento das pessoas que não podiam mais pagar aluguel. gigantesca. Heliópolis. chamado Adão. Atualmente é uma ocupação consolidada. Conjunto Adventista Dois. Quais as principais “ocupações” ocorridas no período? Ailton . integrada no perímetro de Guaianazes. Entrevista 1. . se tornou o chamado Conjunto Adventista construído pelo governo do estado com inúmeros apartamentos. Nela não se construiu prédios verticalizados. assassinado pela repressão durante a ocupação. Barrafunda na marginal e alguns outros agrupamentos de favelas que eram palafitas. integrante do movimento de ocupação da região da freguesia do Ó. e Iapas que pertencia ao instituto do antigo inps que é o INSS hoje – Instituto da previdência. onde ali moram essas 15 mil famílias que ocuparam e terminaram conseguindo concretizar o seu objetivo. Houve a ocupação na zona sul do chamado movimento itupuiapas numa área grande do IAPAS na zona sul com mais de 15 mil pessoas onde houve uma repressão violenta da policia militar. Houve a ocupação do Centreville em Santo André. Era uma fazenda que tinha o nome de Itupu.Era a questão da moradia.As principais e maiores ocupações se deram entre 78 e 79. Então as pessoas se organizaram nesses movimentos. devido a chamada denuncia vazia que houve na época. que foi possível direcionar este movimento que em princípio começou nas comissões de moradores que lutavam pelas questões urbanas.Ailton Barros de Oliveira. E esses movimentos. que foi enorme. liderança popular da década de 70. Teve também na zona leste de São Paulo. Então as pessoas ocuparam lá. que culminou numa grande vitória em 1982 quando o governador Montoro assinou a entrega da área e a construção dos prédios para as pessoas que estão lá até hoje.1 ANEXO – VI Entrevista realizada com o Sr. barracos mesmo! E aí. onde hoje se chama Conjunto Adventista Um. já baseados no exemplo que foram dados pelas comissões de moradores e aí ocupavam configurando as primeiras ocupações. Foi no bojo do Movimento Contra a Carestia que a luta contra a alta do custo de vida. que inclusive foi vitoriosa e o pessoal continua lá até hoje. concedida em 19/06/2002.

às vezes ocupava-se áreas particulares de maneira enganosa porque não tinha certeza se era publica ou particular. com palafita. era ocupar o espaço e construir a casa da maneira que desse. mas jamais se procurava ocupar uma área privada. mediante processo em juízo do proprietário pedindo a reintegração da posse da área. Portanto. 7. sem dúvida. E isso organizou vários movimentos que nos participamos. Dificilmente se tinha margem de manobra com o proprietário. Sabia-se que viria a reintegração de posse e o pessoal já teria investido. com o governo do estado. Então na área do IAPAS. Mas o governo rebatia também com esta argumentação de era área de mananciais. .Ela se deu depois. governo do estado e governo federal.Normalmente o pessoal observava o que era área publica e o que não era. O poder público pode. no bojo dessas lutas vitoriosas foram se dando outras ocupações de áreas públicas e privadas. 6.Exatamente. Porém. a grande maioria das áreas publicas eram áreas de uso comum. foi negociado assim. Então esse foi um processo de luta chamada de regularização destas áreas por interesse social. onde você lutava pela regularização fundiárias das áreas por interesse social. E no caso das áreas privadas seria mais complicado? Ailton Sim.2 3. mas não áreas de uso comum áreas destinadas a construção de equipamentos que inclusive foram ocupadas. ou seja. Isso ocorreu em algumas áreas. o fato de ser área pública dava mais garantias para os movimentos até mesmo negociar as áreas com o governo. 4. Era a chamada regularização fundiária dessas áreas. Nessa época. A partir do final da década de 80. Por exemplo. Só que estas áreas permitiam que você transferência de posse para as famílias. já não podiam. É aí que então o pessoal começou a pensar em ter uma luta mais direcionada pela legalização jurídica. Qual era o critério para ocupar determinada área? Ailton . Os proprietários pediram reintegração de posse mas os advogados dos movimentos propuseram acordo e acabaram fazendo a venda da área para o pessoal que constituiu uma cooperativa para adquiri-la. Mas foram por que achava-se que eram públicas e depois descobria-se que eram áreas particulares. E o juiz determinava a devolução com liminar. e esse é o problema. Porque há dois tipos de áreas publicas: a área de uso comum que é todo povo que para ter outro tipo de uso é passível de lei para que possa transformar em área dominial que permite você alocar para outras pessoas. E você tinha as áreas desapropriadas que são áreas públicas porque estão sobre a guarda da prefeitura. imediatamente de reintegração de posse. foi uma comissão junto com representantes do governo do estado até Brasília para discutir uma solução com o ministro da previdência. sendo passível. vale ressalvar que alguns casos de áreas particulares ocupadas tiveram sucesso também.Sim. construído suas casas e perderiam tudo fatalmente. Além da luta política. Então. a luta estava mesmo na concretização do espaço. existia algum tipo de iniciativa no campo da legalidade jurídica nesse processo das ocupações? Ailton . Foi uma negociação entre ocupantes. Caso as famílias tivessem construído nessa área teriam os seus imóveis derrubados. Já as áreas de uso comum que era a grande maioria das áreas ocupadas. com madeira. Como o Instituto da Previdência é federal. etc? Ailton . E aí não abriam negociação nessas áreas. com o IAPAS. o movimento procurava se orientar para ocupar áreas públicas? Ailton . Então estas áreas deixavam de ser de uso comum para ai então o poder público transferir a posse para as famílias ocupadas. Nesse processo muitas áreas privadas foram ocupadas também. feita com data e hora marcada pela polícia com o oficial de justiça. Isso na época da ditadura militar! 5. os prédios adventistas foram vendidos para as famílias que estavam ali. com tijolo. Precisava fazer um processo de desafetação dessa área com um projeto de lei que teria que passar pela câmara municipal.

sem direito a ter voz. 10.A própria massa que estava participando ali já excluía aquele que por oportunismo já possuíam moradia e vinha pegar uma outra. endereço. que foram levadas ao Congresso Nacional em Brasília. inclusive. franciscanos e dominicanos. em 1976 com o “Movimento Contra a Carestia” isso foi aos poucos sendo quebrado. em setembro de 1978. tendo seu ponto culminante em 1978 com o apoio da igreja católica. etc. Havia algum tipo de cobrança de conduta no próprio movimento? Ailton . A partir de 1974. crianças? haviam algum tipo de cadastro das famílias? Ailton .Sim. nos chamados rincões. o preço do arroz.Desde meados da década de 30 ate 40 com apogeu em 50 já existiram as chamadas “Sociedade Amigos de Bairro”. Quem eram as pessoas que participavam da ocupação? Famílias. 9. Ninguém iria ocupar terra enfrentar a repressão porque queria. em plena ditadura militar. teve o início do “Movimento Contra a Carestia”. E isso ocorria muito. 13. a partir daí que os movimentos populares das associações de moradores se fortalecem. durando até 79.3 8. em áreas de proteção ecológica. reivindicando melhores condições de vida e servindo de resistência a ditadura. as donas de casa contavam com o apoio principalmente da igreja. Os salários estavam arrochados. que lutavam por melhoramentos localizados das vilas e regiões da cidade. em plena ditadura. já durante a década de 40 e 50. Foi então. Não havia outra alternativa. número de adultos. etc. renda familiar. quando se deu a transição para a reorganização partidária. Introduziu um movimento novo que eram os movimentos espontâneos surgidos na periferia no bojo da luta contra a ditadura militar. onde a partir de 74 movimentos começaram a surgir enquanto insatisfação generalizada. muitas vezes em áreas de riscos e esse era outro problema. com força na figura de Ademar de Barros e Jânio Quadros. o custo de vida estava muito elevado. Nesse caso não havia como lutar pela regularização desta área. número de crianças. Desde 1964 a 1976. homens e mulheres. Uma situação que levava as pessoas não terem mais condições de pagar aluguel e terem de ir para as ocupações. exatamente em cima das condições de vida daquela época. 12. e organizaram esse movimento através de um abaixo assinado que obteve 1 milhão e 500 mil assinaturas. Houve uma proliferação das chamadas comissões de moradores que eram grupos de pessoas. bem assistencialista e bem fisiológico. de escola. Somente os abaixo assinados lotaram duas Kombi. que moravam nas vilas e lutavam por melhoramentos da sua rua. e entregue aos parlamentares por uma comissão de representantes. políticos que se elegeram em cima dessas “Sociedades Amigos de Bairro”.Trabalhadores. sobretudo pelos setores mais progressistas como os Franciscanos chamado setor dominicano da igreja católica. esses movimentos foram muito utilizados pelos políticos populistas. Cerca de 40% dessas ocupações se deram em áreas de mananciais o que é pior ainda. assalariados dos extremos da periferia. Qual a relação dos movimentos populares urbanos com as associações de moradores durante o regime militar ? Ailton . participação.. pela conquista do posto de saúde. que se desenvolveu a partir de um núcleo de mulheres que viviam na zona leste da cidade em conjunto com outras da zona sul e norte da cidade de São Paulo. ganhando mais consistência em 76 de forma mais organizada. represas. do feijó. com caráter bem paternalista. um slogan que dizia que o salário subia pela escada e o preço das coisas pelo elevador. um feito fantástico. Havia. uma desproporção muito grande. . Essas Associações foram alvo de ações populistas? Ailton . Então. O que foi o Movimento Contra a Carestia? Ailton .O movimento contra a carestia se deu em função das condições de vida que o povo vivia nessa época. 12 anos. Mas o controle também era efetivo e constante para evitar ao máximo essa situação dada a própria situação de resistência e enfrentamento das ocupações. Porém. No cadastro havia nome. traçando um perfil sócio econômico da família.

padres. o movimento ia muito na base da conversa e da luta. Certamente. culminou numa barbárie.Sim durante a vinda do chamado “governo integração”. na época ele começava como cardeal da arquidiocese de são Paulo. Sérgio Santos e Geraldo Siqueira foram também violentamente espancados. Então. pelo golpe de 31 de março de 64. 16. constituídos na chamada República Velha ocorrida na redemocratização de 1945. É claro que a partir de 1976 já entravamos numa época de distensão política com o governo Geisel.A população do bairro. “Caminhando”. constituída por representantes de 55 Vilas de toda a região da freguesia se organizou e foi despachar com Maluf durante o seu governo no dia 21 de junho de 1980 por ocasião da sua vinda aqui na Freguesia do Ó. dentre outras figuras. a igreja. Este episódio sangrento. local de reuniões. Houve todo um movimento de resistência. através de D. Qual fato marcante poderia caracterizar o enfrentamento desempenhado por estes movimentos ao regime e a situação política daquele momento? Ailton . etc) e intelectuais. Daí. praticamente. 17. Uma comissão de moradores. Qual era o perfil. Ai reside um fato interessante. na vanguarda destes movimentos. a composição social dos integrantes desses movimentos associação de moradores? Ailton . E aí foi o seguinte: os parlamentares vinculados a. evidentemente pelas condições da época. o pessoal se juntou e começou a fazer um trabalho de luta contra o fim do regime militar.. Eram Parlamentares da oposição. Paulo Evaristo Arns. 18. não estavam presentes. donas de casa.. setores de classe média vinculados a áreas estudantis com elementos oriundos da USP.? Ailton . O MDB deixou de ser movimento e passou a ser partido PMDB. nada disso. Qual a relação que existia entre as associações de moradores e os partidos políticos? Ailton . como fruto do regime de exceção.Exatamente por ser um movimento. de repercussão até internacional. Sem dúvida nenhuma. Estas legendas abrigavam lideranças oriundas desses partidos que foram extintos que tinham sua expressão máxima no MDB na figura do então deputado Ulisses Guimarães presidente do MDB e na ARENA. 15. já fazia de forma dirigida para a pessoa que ia recebe-la sem entrar nos pormenores. “Refazendo”. A força dele num primeiro momento vinha exatamente por isso. E a favor da luta pela eleição direta para governador que culminou com a eleição em 1982 do então governador Franco Montoro já por vias diretas e ainda tendo a luta pelas eleições diretas em 1985. quais os agentes que poderíamos identificar? Ailton . dentre varias correntes e tendências ideológicas (“Libelu”. Não tinha presidente. E quando você escrevia alguma coisa. sem a contribuição e a liderança deles dificilmente teria se conseguido caminhar. O que será modificado a partir de 79 com a luta dos sindicatos dos metalúrgicos do ABC. do regime de exceção. Parlamentares como Benedito Cintra. Havia coordenadores de associações de moradores.Nessa época. os partidos tradicionais. eles atuavam com a gente nos bairros. proposta que unia essas 55 Vilas. trabalhadores e estudantes levavam suas reivindicações principalmente era a construção de um pronto socorro na Freguesia do Ó. dois partidos.No entanto. a contribuição do MDB no acompanhamento foi de fundamental importância. a igreja e parlamentares progressistas.. Foram criados dois agrupamentos políticos. Nesse processo.Era basicamente a massa assalariada que morava na periferia em péssimas condições de vida. Delfim Neto e o General Golbey Couto e Silva que era o grande mentor desse bipartidarismo que perdurou ate 1985. Qual era dinâmica de funcionamento. com a reformulação partidária que aí se constituiu o PT. a ARENA e o MDB – Movimento Democrático Brasileiro. representação. Até 1979. De repente. Não lavravam atas. do então governador Paulo Maluf. onde vários companheiros foram violentamente espancados e sendo atendidos inclusive por outros hospitais da cidade. sobressaíram-se Paulo Maluf.4 14. foram extintos de maneira arbitraria. Os sindicatos. . como os sindicalistas não tinham espaço para atuar nos sindicatos. Até porque se vivia numa época difícil e evitava-se de fazer registros de reuniões em virtude do regime que proibia estas reuniões. havia muitas precauções em não deixar estas coisas registradas. de feição mais progressista. já não era mais a linha dura do Médici. de maneira inesperada foram atacados violentamente por uma equipe de choque constituídas por militares e paramilitares que não deixaram essas pessoas se aproximarem da administração regional onde o governador despachava. tiveram papel preponderante na ajuda e na retaguarda. não tinha o caráter institucional.

com uma reestruturação das chamadas leis de zoneamento é possível descaracterizar a preferência de áreas. com o aprimoramento das soluções para os problemas urbanos. aprovadas de dois em dois anos. ligada ao governo Sarney para cooptar as lideranças. nas áreas metropolitanas. que vem legalizando aquilo que está errado. Mas. ligado a direita. atuam nas cidades. momento em que ele junto com a família constrói sua casa. a COBRAN foi se acabando com o próprio desgaste do governo Sarney. restrita ao campo de atuação de alguns grupos ligados ao PT – Partido dos Trabalhadores. em 92 em Belo Horizonte. Em 92. Foi fundada para contrapor a CONAM e a ANSUR. 20. cidade satélite de Brasília foi eleito Edmundo Fontes. esse foi o objetivo da COBRAM. foi fundada em 1982. Na mesma época. Quais suas perspectivas para esse novo milênio? Ailton . Mas com o aumento da inflação. parece que estão valorizando mais o seu habitat. e agora em 2002. Há uma consciência maior nas cidades. na luta pela aprovação do Fundo Nacional para Moradia Popular que. e ascensão dos movimentos essa cobrança hoje ela não existe mais. Portanto. apesar de alguns urbanistas não concordarem com o termo reconstruir não seja adequado. Com a aprovação do Estatuto da Cidade. Duas lutas recentes que teve a marca de alto grau de unidade. atrasado mesmo.5 19. As associações de moradores. transformando a cidade num amontoado de coisas erradas. 23.O perfil da CONAM era um perfil mais de massa mesmo.Esse movimento foi uma articulação importante.Primeiro veio a CONAM. Tudo isso somado. nas questões urbanas. Esta. Portanto. no oitavo congresso foi eleito Wander de São Paulo. os movimentos da CONAM – Confederação Nacional de Moradores e a própria COBRAM – Confederação Brasileira de Associação de Moradores. Em 1983. temos as perspectivas muitas boas para construirmos ou reconstruirmos. esvaziá-la e ser o grande movimento na linha política do governo Sarney. que ainda é uma porta aberta para a corrupção da cidade. constituída durante o governo Sarney. A CONAM. Uma revisão do código de edificação e obras. com um código de obras mais próximo da realidade do cidadão. Falta unidade movimento. onde ele tenha mais conhecimento. como primeira articulação nacional de fato na questão urbana. Claro que conjunturalmente. com. 21. Havia um movimento mais amplo. buscam mais participação. com esquemas de entrega de leite e cestas básicas. foi realizado o 2º congresso em Brasília onde foi eleito presidente. em 99 ele fio reeleito. tiveram influencia decisiva nos mecanismos inseridos no capitulo da política urbana na constituição de 88. Nesse do setor comunitário ela disputa com estes dois segmentos mais a esquerda e centro esquerda. caminha-se para acabar com estas leis de anistia. 22.Acredito que muitas lutas estão por vir. por exemplo. com método assistencialista e fisiológico. embora. ainda não tenha sido aprovado. o importante construirmos uma cidade com uma outra qualidade de vida. Não era esse o perfil da CONAM? Ailton . Depois. com hegemonia do PMDB. em 1986 foi eleito João Bosco em Brasília. com um profissional que o acompanhe no fim de semana. com uma outra condição sócio-econômica mais justa e ecologicamente mais equilibrada. Todos esses grupos. Hoje ele constrói tudo errado e recebe a anistia. em 1989 no quarto congresso no maracananzinho-RJ foi eleito Wladimir Dantas. Se num primeiro momento os caminhos parecem tênues. Porém. Uma tarefa dos arquitetos. Temos que facilitar ao cidadão para não fazer errado. o primeiro presidente foi Almir de Barros. . E o Movimento Nacional pela Reforma Urbana? Ailton . Como se dava a unidade e disputa entre estas (três) entidades? Ailton . em Taguatinga. veio a ANSUR e a COBRAN em 86 na mesma época. liderança ligada ao Quércia. havia também a ANSUR – Articulação Nacional do Solo Urbano. possam desfrutar do convívio da região e de tudo que existe na sua própria região. dos urbanistas e dos líderes comunitários comprometidos com a mudança e com a transformação para que . que era um movimento conservador. entre os movimentos e as entidades de representação? Ailton . Diferente de etapas anteriores em que cada um andava no seu caminho. cooptar lideranças e dividir a CONAM. um conjunto de leis que cria. foi muito parcial. mas percebo que já existe um grau maior de unidade. mas não foi só ele que atuou nessa área. base da CONAM. e isso é importante. São Vinte anos de CONAM. ocorreu no Estatuto da Cidade. as pessoas estão mais preocupadas com a cidade. unificando em grandes zonas mistas fazendo com que as pessoas circulem menos.Eu acho que poderia ser mais unitário. elas são boas.

6 seja possível construir no futuro uma sociedade diferente da que existe hoje. uma sociedade que permite a apropriação individual daquilo que é produzido por todos de modo desigual. .

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