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Tradução - A função heróica- Loic NICOLAS

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Trata-se de uma tradução livre, cujo cunho é subsidiar o grupo de estudos sobre retórica e literatura da Universidade de Brasília, de responsabilidade

do Prof. Dr. José Luis Martinez Amaro – Departamento de Teoria Literária – TEL/UnB.

Tradução - A função heróica: discursos epidídica e questões de qualificação

No capítulo III do primeiro livro de sua Retórica Aristoteles distingue três gêneros de discursos – o deliberativo, o judiciário, e o epidídico – que remete cada qual a seu assunto específico, determinado por seus dominantes temporais, sobre o qual se expressa um orador e pelo qual um público espera “julgar”, tanto no plano substitutivo como na sua formatação. Enquanto que o deliberativo se agarra a isolar entre a multiplicidades das possibilidades, e isso conveniente de fazer num futuro mais ou menos próximo, separando o útil do inútil, do prejudicial; o judiciário considera o justo e o injusto, próprios a certas ações passadas concernente à acusação ou a defesa; o epidídico dispõe quanto a ele mesmo de um definição e de enquadramento de uma obra muito mais ambíguas que o coloca numa espécie de meio-termo, num seio de um espaço caracterizado por sua incerteza temporal. Com efeito, ainda que o orador epidídico se proponha a elogios ou a culpa (uma pessoa, uma cidade, uma nação etc) deveria, como o judiciário, pronunciar sobre aquilo que já foi, a fim de mostrar o valor positivo ou negativo dos fatos já consumados, a tipologia aristotéliana sublinha, ao contrário, que a matéria deixada pública pelo discurso se acha conjuntamente atualizada e excluída de debates contraditórios sobre a factualidade histórica, de maneira que não se trata de argumentar sobre um passado ratificado, mas de tirar partido para verbalizar o aqui e o agora. Portanto, isto que foi dito se aplica primeiro em deixar um presente coerente, e visa, por conseguinte - em adivinhar o que deve (ou deveria) acontecer, isto é que todos esperam – as inspirações de ações futuras. A exposição de Aristóteles, bem mais que perfeitamente clara na sua formulação, reflete essa hesitação constitutiva de gênero, da sua dimensão polêmica, e que confere para ele, ao final das contas, um estatuto a salvo sobre o campo da retórica:

no final das contas. no seio de uma tópica comum. a saber. que está mais conforme as exigências niveladoras do pensamento pós-moderno. pelo menos dentro da sociedade européia. a este respeito. Neste sentido. e assim dizer a desgraça do epidídico desde o fim da segunda guerra mundial e a entrada na era dos Direitos do Homem. de uma definição aristotélica equivocada e reduzida a seu planos de fundo negativo. comemoração de um acontecimento histórico. como escreve Emmanuelle Danblon [heroísmo tornou-se uma fonte de suspeita sobre o modo de ressentimento]. Tal é essa a maneira como o gênero ainda é percebido nos dias de hoje.. em tudo aquilo que é incontroverso. e mesmo reconhecido pelo público. o que sublinha Barbara Cassin no seu brilhante artigo sobre elogio na Grécia antiga. Não se poderia. Assim.. de populismo ou mesmo de oportunismo de desqualificar a análise da palavra. através de um prisma. de uma exibição pública para aqueles em público – reduz a simples estado de espectador passivo (Aristóteles. de talento que falaria.A função heróico [ Esta é em razão dos acontecimentos contemporâneos que todos os oradores elogiam ou culpam.” (apo). mas supostamente oca de “orador”. que está numa dada comunidade pode fazer a economia de uma deliberação. etc) nos convida pois a celebrar. antes de tudo. decerto agradável. de pronunciar um discurso desse tipo sem arriscar uma acusação de anacronismo. o epidídico – gênero por excelência do eloqüente cerimonioso – se concentra. do qual apesar de um vazio aparente de conteúdo. de fazer fundo discursivamente sobre o assunto para provar o conjunto da causa e o porquê. Neste momento oportuno. Rhétorique. Esta situação. para nada dizer. 18. . ação de “demonstrar” “ a partir de. 1392b) – se encontraria convidado “cada vez que a ocasião (kairos)se apresente” para se deleitar do verbo. o epideixis constitui a ocasião de uma “mostração”. característica de um mundo desencantado. Ao passo que o apodeixis. se encontra de fatos já conhecido. se oferece como um processo de verdade obedecendo à ordem formal do encadeamento argumentativo tal qual é praticado na ciência e na filosofia. Agora parece algo difícil. o kairos retórico (retirada de uma decoração. mas geralmente também dispara argumentos do passado invocando o passado e conjecturando o “por vir” ] Segundo as definições de Stagirite. espera e escuta essas belas palavras. minimizar o extremo descrédito. o epideixis – ação de “mostrar” (deiknumi) “diante de” (epi) na presença de um público – se opõe a apo-deixis. II. se explica pela substituição. quase mesmo impossível. da figura de um herói clássico por aquela da vítima. como uma “demonstração fenomenológica”.

Não se trata de dizer. na medida onde este último assunto está sujeito a uma sistemáticas investigação críticas a respeito de suas apostas.a confrontação ao excepcional (acontecimento. destacando a presença simbólica do “sentido” que testemunha. pessoa etc) aparecem daqui em diante como insustentável. da intenção. em outros termos. Também se trata retoricamente de dar uma conclusão ao assunto ou antes de confirmar o que é necessário para “fazer”: um homem. e mais ainda “o que é outro ” – distinção que se torna objeto principal do julgamento. “ignorar como equilibrar e reconhecer como legítimo. trazendo as evidências de sua conformidade com o destinatário (coletivo) da celebração. Nós nos propomos a considerar este negócio como um ato “ formal e convencionalizado pela qual um indivíduo manifesta seu respeito e sua consideração para com um assunto de valor absoluto” breve como uma atividade social ritualizada. um herói. de descrever o que “é” como “estado”. pelo contrário. natural. pela nominação de o que é digno de “ser” louvado ou então. se o epidídico apresenta efetivamente os “estereótipos e traços convencionais”. (e incluído o dedicar-se ao deboche) se os motivos que o sujeito (assunto) da enunciação não oferecesse um pretexto para pegar a palavra. e realiza uma operação de previsão de acordo com a tópica esperada do gênero que convida a motivar a escolha do assunto. um limite arbitrário. negligenciar ao fundo o discurso em benefício de uma forma que só seria digno de interesse.a perder a mesma função de um negócio eminentemente ritualístico . tanto quanto seu “denegrimento”. mas de bem redizer.. ele visa marcar a diferença ontológica com “o que não é”. mas sobretudo para este que ele representa no imaginário coletivo que recusa estrutura sobrecarregadas dessas quadro comum. em consequencia. para efeito de reconhecimento e distinção da existência de uma comunidade. para compreendê-la no “ar”.. para atualizar a definição. O discurso epidídico toda vez faz uma aposta no presente. Propõe-se.nós acreditamos . e se prende primeiramente a desvendar uma separação capaz de justificar e de ratificar “o está lá” dos participantes. situação. um cidadão. voltaria . não somente para este que ele é. O ato epidídico consiste então em uma “mostração” do “ o que é”. ser censurado. de estabelecer durabilidade – para além do tempo do discurso – as propriedades das coisas.. onde se daria a confirmação do sentido para projeto. . Esta ritualização confirma a grande precariedade do dizer epidídico que permite explicar. em parte. No entanto. a muito nítida predominância do elogio sobre a censura . cuja pompa parece constitui um dos elementos mais importantes.

valor de exemplo ou de contra exemplo. numa narração enquadrada mítica (récit-portrait). por contraste. valer para todos e para cada um. Uma tal formação discursiva se aplica pois a confirmar as propriedades que fundamentam essa definição exclusiva (essa da “cidadania”. e pois a exposição que se possa revelar. o que vem reafirmar o que é “belo” num sentido um tanto ético como estético – de dar sua vida pela sobrevivência do nome desta nação que faz prova de reconhecimento. as fronteiras simbólicas ao seio da ordem social. se de tais ações são que são belos.que se transforma em parte improvável do gênero. por este ato fundador de nomeação do real. é sancionar e santificar um estado de coisas”. é. no qual consagra. Por conseqüência. ele está correto de tornar estes soldados “modelos” no qual cada um de todos deveriam pensar da mesma forma. Em outros termos. em outros termos confirmar que de fato há uma nação para aqueles soldados que estão caídos. a inspiração de um desejo de semelhança tanto quanto de pertencimento. . o processo de demonstração se daria para finalidade de deixar o mundo acessível pelo verbo. por exemplo) responsável por limitar tanto quanto por qualificar a realidade. neste sentido. dando uma definição referencial que pode. consagrando as formas simbólicas portadoras de identidade. Este discurso se assemelha. Uma das funções do gênero seria então a de reduzir. A invasão de heróis por efeito do discurso retórico visa. O assunto do discurso epidídico tem por isso. “consagrar. é porque eles foram dignos de elogios. inventando um novo estado de coisa reconhecida e legitimada. Elogiar soldados caídos na partida de um jogo. se o orador faz elogios. a este que Bourdieu chama de “rito de instituição”. Exibi-se as rupturas que são constitutivas de uma relação com o mundo. No caso de nossos soldados mortos para a liberdade de um povo e a honra de uma nação. a final de contas. que não aparece nunca sob o efeito da comparação e do contraste. de fato. a incerteza primeira diante das contingências de um mundo a dizer. a existência de uma dicotomia referencial. dignos de ter seu nome honrado. cujo sentidos se acha completado pela produção discursiva do detentor da palavra. por destinação de essência atemporal e a distribuição de identidade estereotipada. fundadora de um estado de mundo. Esta é a mesma dignidade que vem legitimar as roupas do cerimonial e justificar a conclusão do discurso. por designação de um nome e uma exemplificação de um objeto de valor.

remetendo a questão ao conteúdo teórico da definição aristoteliana. a invenção do “heróis” para projeto. não serve para a compreensão de um gênero que constitui.com . esclarecer as condições de possibilidade deste exercício de qualificação do mundo que empreende de dizer o exemplar e o universal pela marcação do valor de uma figura originalmente singular. de inspiração sócio-histórica procede. a função social e mais ainda ritualística de uma palavra que se dá na sua publicidade. portanto. Cabe-nos. bem como resistir a ocorrência de um enunciado que colocaria a questão de qualificação em perigo? A investigação que a gente vai ler. o pedestal de nossa existência mundana. de outra parte. pelo presente estudo. pois. identificar.Isto é porque que a redução de um tal discurso à sua dimensão estritamente espetacular. de uma dupla ambição intelectual: de uma parte interrogar as condições que deixa possível e a final autorizariam a participação pública – de que ainda hoje. que justificasse a ocultação da trazida sócio-logale do processo em confirmação. apesar dos descréditos nós teríamos mencionado – de uma declaração que vise o elogio e a culpa. assim. Desde então duas questões se coloca: em que condições de nomeação dos “acontecimentos” do mundo ela se acha excluída do campo do ponto de vista e acessa a disponibilidade do sentido para reduzir a incerteza e confirmar a legitimidade do estado das coisas? Como o discurso epidídico consegue – na observância de uma bomba “gramatical” e a submissão ao esperado de uma relação discursiva extremamente codificada – limitar. Tradução: Edison Oliveira – edison_oliveira2003@hotmail.

e que confere para ele. ao final das contas. Enquanto que o deliberativo se agarra a isolar entre a multiplicidades das possibilidades. e isso conveniente de fazer num futuro mais ou menos próximo. bem mais que perfeitamente clara na sua formulação. num seio de um espaço caracterizado por sua incerteza temporal. reflete essa hesitação constitutiva de gênero. ao contrário. uma cidade. tanto no plano substitutivo como na sua formatação. o epidídico dispõe quanto a ele mesmo de um definição e de enquadramento de uma obra muito mais ambíguas que o coloca numa espécie de meio-termo. Com efeito. determinado por seus dominantes temporais. de maneira que não se trata de argumentar sobre um passado ratificado.em adivinhar o que deve (ou deveria) acontecer. a tipologia aristotéliana sublinha. que a matéria deixada pública pelo discurso se acha conjuntamente atualizada e excluída de debates contraditórios sobre a factualidade histórica. sobre o qual se expressa um orador e pelo qual um público espera “julgar”. próprios a certas ações passadas concernente à acusação ou a defesa. ainda que o orador epidídico se proponha a elogios ou a culpa (uma pessoa. A exposição de Aristóteles. isto que foi dito se aplica primeiro em deixar um presente coerente. José Luis Martinez Amaro – Departamento de Teoria Literária – TEL/UnB. um estatuto a salvo sobre o campo da retórica: . Dr. uma nação etc) deveria. o judiciário. e o epidídico – que remete cada qual a seu assunto específico. Tradução . a fim de mostrar o valor positivo ou negativo dos fatos já consumados.A função heróica: discursos epidídica e questões de qualificação No capítulo III do primeiro livro de sua Retórica Aristoteles distingue três gêneros de discursos – o deliberativo. pronunciar sobre aquilo que já foi. de responsabilidade do Prof.Trata-se de uma tradução livre. por conseguinte . do prejudicial. cujo cunho é subsidiar o grupo de estudos sobre retórica e literatura da Universidade de Brasília. da sua dimensão polêmica. isto é que todos esperam – as inspirações de ações futuras. mas de tirar partido para verbalizar o aqui e o agora. Portanto. separando o útil do inútil. como o judiciário. o judiciário considera o justo e o injusto. e visa.

Tal é essa a maneira como o gênero ainda é percebido nos dias de hoje. de pronunciar um discurso desse tipo sem arriscar uma acusação de anacronismo. no seio de uma tópica comum. Assim. Neste momento oportuno. de talento que falaria. Não se poderia. se encontra de fatos já conhecido. se explica pela substituição. característica de um mundo desencantado. a este respeito. espera e escuta essas belas palavras. Ao passo que o apodeixis. em tudo aquilo que é incontroverso. o epideixis – ação de “mostrar” (deiknumi) “diante de” (epi) na presença de um público – se opõe a apo-deixis. que está mais conforme as exigências niveladoras do pensamento pós-moderno. de uma definição aristotélica equivocada e reduzida a seu planos de fundo negativo. 1392b) – se encontraria convidado “cada vez que a ocasião (kairos)se apresente” para se deleitar do verbo. mas supostamente oca de “orador”. de fazer fundo discursivamente sobre o assunto para provar o conjunto da causa e o porquê. o que sublinha Barbara Cassin no seu brilhante artigo sobre elogio na Grécia antiga. decerto agradável. de uma exibição pública para aqueles em público – reduz a simples estado de espectador passivo (Aristóteles. através de um prisma. a saber.. mas geralmente também dispara argumentos do passado invocando o passado e conjecturando o “por vir” ] Segundo as definições de Stagirite. quase mesmo impossível. Neste sentido. minimizar o extremo descrédito. o epideixis constitui a ocasião de uma “mostração”. do qual apesar de um vazio aparente de conteúdo. Esta situação. Agora parece algo difícil. da figura de um herói clássico por aquela da vítima. para nada dizer. 18. o epidídico – gênero por excelência do eloqüente cerimonioso – se concentra. pelo menos dentro da sociedade européia. etc) nos convida pois a celebrar. se oferece como um processo de verdade obedecendo à ordem formal do encadeamento argumentativo tal qual é praticado na ciência e na filosofia. como escreve Emmanuelle Danblon [heroísmo tornou-se uma fonte de suspeita sobre o modo de ressentimento]. de populismo ou mesmo de oportunismo de desqualificar a análise da palavra. ação de “demonstrar” “ a partir de. e mesmo reconhecido pelo público. no final das contas..” (apo).A função heróico [ Esta é em razão dos acontecimentos contemporâneos que todos os oradores elogiam ou culpam. II. comemoração de um acontecimento histórico. e assim dizer a desgraça do epidídico desde o fim da segunda guerra mundial e a entrada na era dos Direitos do Homem. Rhétorique. . o kairos retórico (retirada de uma decoração. antes de tudo. como uma “demonstração fenomenológica”. que está numa dada comunidade pode fazer a economia de uma deliberação.

a perder a mesma função de um negócio eminentemente ritualístico . natural. da intenção. e se prende primeiramente a desvendar uma separação capaz de justificar e de ratificar “o está lá” dos participantes.. em parte. pelo contrário. situação. em outros termos. trazendo as evidências de sua conformidade com o destinatário (coletivo) da celebração. cuja pompa parece constitui um dos elementos mais importantes. um limite arbitrário. mas sobretudo para este que ele representa no imaginário coletivo que recusa estrutura sobrecarregadas dessas quadro comum. pela nominação de o que é digno de “ser” louvado ou então. O discurso epidídico toda vez faz uma aposta no presente. . tanto quanto seu “denegrimento”. em consequencia. de descrever o que “é” como “estado”. onde se daria a confirmação do sentido para projeto. e mais ainda “o que é outro ” – distinção que se torna objeto principal do julgamento. Esta ritualização confirma a grande precariedade do dizer epidídico que permite explicar. mas de bem redizer. pessoa etc) aparecem daqui em diante como insustentável.nós acreditamos . No entanto. e realiza uma operação de previsão de acordo com a tópica esperada do gênero que convida a motivar a escolha do assunto. para atualizar a definição. não somente para este que ele é. ser censurado. se o epidídico apresenta efetivamente os “estereótipos e traços convencionais”.. a muito nítida predominância do elogio sobre a censura . de estabelecer durabilidade – para além do tempo do discurso – as propriedades das coisas. na medida onde este último assunto está sujeito a uma sistemáticas investigação críticas a respeito de suas apostas. voltaria . para efeito de reconhecimento e distinção da existência de uma comunidade. Nós nos propomos a considerar este negócio como um ato “ formal e convencionalizado pela qual um indivíduo manifesta seu respeito e sua consideração para com um assunto de valor absoluto” breve como uma atividade social ritualizada. Também se trata retoricamente de dar uma conclusão ao assunto ou antes de confirmar o que é necessário para “fazer”: um homem. destacando a presença simbólica do “sentido” que testemunha. Não se trata de dizer. ele visa marcar a diferença ontológica com “o que não é”.. (e incluído o dedicar-se ao deboche) se os motivos que o sujeito (assunto) da enunciação não oferecesse um pretexto para pegar a palavra. Propõe-se. O ato epidídico consiste então em uma “mostração” do “ o que é”. um herói. negligenciar ao fundo o discurso em benefício de uma forma que só seria digno de interesse. “ignorar como equilibrar e reconhecer como legítimo. um cidadão.a confrontação ao excepcional (acontecimento. para compreendê-la no “ar”.

e pois a exposição que se possa revelar. se de tais ações são que são belos. ele está correto de tornar estes soldados “modelos” no qual cada um de todos deveriam pensar da mesma forma. Por conseqüência. por exemplo) responsável por limitar tanto quanto por qualificar a realidade. numa narração enquadrada mítica (récit-portrait). Este discurso se assemelha. Uma das funções do gênero seria então a de reduzir. é porque eles foram dignos de elogios. Elogiar soldados caídos na partida de um jogo. por designação de um nome e uma exemplificação de um objeto de valor. a este que Bourdieu chama de “rito de instituição”. valor de exemplo ou de contra exemplo. dignos de ter seu nome honrado. inventando um novo estado de coisa reconhecida e legitimada. a inspiração de um desejo de semelhança tanto quanto de pertencimento. Esta é a mesma dignidade que vem legitimar as roupas do cerimonial e justificar a conclusão do discurso. consagrando as formas simbólicas portadoras de identidade. . Exibi-se as rupturas que são constitutivas de uma relação com o mundo. a existência de uma dicotomia referencial. Em outros termos. por contraste. se o orador faz elogios. cujo sentidos se acha completado pela produção discursiva do detentor da palavra. no qual consagra. o processo de demonstração se daria para finalidade de deixar o mundo acessível pelo verbo. a incerteza primeira diante das contingências de um mundo a dizer.que se transforma em parte improvável do gênero. dando uma definição referencial que pode. por este ato fundador de nomeação do real. fundadora de um estado de mundo. O assunto do discurso epidídico tem por isso. A invasão de heróis por efeito do discurso retórico visa. “consagrar. a final de contas. que não aparece nunca sob o efeito da comparação e do contraste. de fato. valer para todos e para cada um. o que vem reafirmar o que é “belo” num sentido um tanto ético como estético – de dar sua vida pela sobrevivência do nome desta nação que faz prova de reconhecimento. em outros termos confirmar que de fato há uma nação para aqueles soldados que estão caídos. No caso de nossos soldados mortos para a liberdade de um povo e a honra de uma nação. é. por destinação de essência atemporal e a distribuição de identidade estereotipada. as fronteiras simbólicas ao seio da ordem social. neste sentido. Uma tal formação discursiva se aplica pois a confirmar as propriedades que fundamentam essa definição exclusiva (essa da “cidadania”. é sancionar e santificar um estado de coisas”.

assim. apesar dos descréditos nós teríamos mencionado – de uma declaração que vise o elogio e a culpa. remetendo a questão ao conteúdo teórico da definição aristoteliana. de outra parte.com . a invenção do “heróis” para projeto. o pedestal de nossa existência mundana. de inspiração sócio-histórica procede. bem como resistir a ocorrência de um enunciado que colocaria a questão de qualificação em perigo? A investigação que a gente vai ler. que justificasse a ocultação da trazida sócio-logale do processo em confirmação. pois. identificar. não serve para a compreensão de um gênero que constitui. Cabe-nos. esclarecer as condições de possibilidade deste exercício de qualificação do mundo que empreende de dizer o exemplar e o universal pela marcação do valor de uma figura originalmente singular. portanto. Tradução: Edison Oliveira – edison_oliveira2003@hotmail. de uma dupla ambição intelectual: de uma parte interrogar as condições que deixa possível e a final autorizariam a participação pública – de que ainda hoje. a função social e mais ainda ritualística de uma palavra que se dá na sua publicidade.Isto é porque que a redução de um tal discurso à sua dimensão estritamente espetacular. Desde então duas questões se coloca: em que condições de nomeação dos “acontecimentos” do mundo ela se acha excluída do campo do ponto de vista e acessa a disponibilidade do sentido para reduzir a incerteza e confirmar a legitimidade do estado das coisas? Como o discurso epidídico consegue – na observância de uma bomba “gramatical” e a submissão ao esperado de uma relação discursiva extremamente codificada – limitar. pelo presente estudo.

bem mais que perfeitamente clara na sua formulação. isto que foi dito se aplica primeiro em deixar um presente coerente. a tipologia aristotéliana sublinha. e o epidídico – que remete cada qual a seu assunto específico. pronunciar sobre aquilo que já foi. e isso conveniente de fazer num futuro mais ou menos próximo. o judiciário considera o justo e o injusto. por conseguinte . e visa. uma cidade. e que confere para ele. mas de tirar partido para verbalizar o aqui e o agora. Com efeito. que a matéria deixada pública pelo discurso se acha conjuntamente atualizada e excluída de debates contraditórios sobre a factualidade histórica. do prejudicial. o epidídico dispõe quanto a ele mesmo de um definição e de enquadramento de uma obra muito mais ambíguas que o coloca numa espécie de meio-termo. de responsabilidade do Prof. uma nação etc) deveria.em adivinhar o que deve (ou deveria) acontecer. próprios a certas ações passadas concernente à acusação ou a defesa. reflete essa hesitação constitutiva de gênero. o judiciário. num seio de um espaço caracterizado por sua incerteza temporal. A exposição de Aristóteles. ainda que o orador epidídico se proponha a elogios ou a culpa (uma pessoa. sobre o qual se expressa um orador e pelo qual um público espera “julgar”. isto é que todos esperam – as inspirações de ações futuras. José Luis Martinez Amaro – Departamento de Teoria Literária – TEL/UnB. Dr. da sua dimensão polêmica. a fim de mostrar o valor positivo ou negativo dos fatos já consumados. tanto no plano substitutivo como na sua formatação. ao contrário. como o judiciário. Enquanto que o deliberativo se agarra a isolar entre a multiplicidades das possibilidades. Tradução . separando o útil do inútil.Trata-se de uma tradução livre. de maneira que não se trata de argumentar sobre um passado ratificado.A função heróica: discursos epidídica e questões de qualificação No capítulo III do primeiro livro de sua Retórica Aristoteles distingue três gêneros de discursos – o deliberativo. ao final das contas. cujo cunho é subsidiar o grupo de estudos sobre retórica e literatura da Universidade de Brasília. um estatuto a salvo sobre o campo da retórica: . Portanto. determinado por seus dominantes temporais.

antes de tudo. .. de uma exibição pública para aqueles em público – reduz a simples estado de espectador passivo (Aristóteles. do qual apesar de um vazio aparente de conteúdo. mas supostamente oca de “orador”. pelo menos dentro da sociedade européia. se encontra de fatos já conhecido. de talento que falaria. Assim. Tal é essa a maneira como o gênero ainda é percebido nos dias de hoje. em tudo aquilo que é incontroverso. e assim dizer a desgraça do epidídico desde o fim da segunda guerra mundial e a entrada na era dos Direitos do Homem. de pronunciar um discurso desse tipo sem arriscar uma acusação de anacronismo. que está mais conforme as exigências niveladoras do pensamento pós-moderno. para nada dizer. Ao passo que o apodeixis. ação de “demonstrar” “ a partir de. a saber. minimizar o extremo descrédito. se explica pela substituição. o epideixis constitui a ocasião de uma “mostração”. e mesmo reconhecido pelo público. 18.” (apo). comemoração de um acontecimento histórico. se oferece como um processo de verdade obedecendo à ordem formal do encadeamento argumentativo tal qual é praticado na ciência e na filosofia. Neste momento oportuno. a este respeito. que está numa dada comunidade pode fazer a economia de uma deliberação. Rhétorique. de uma definição aristotélica equivocada e reduzida a seu planos de fundo negativo. Agora parece algo difícil. característica de um mundo desencantado. Esta situação.. decerto agradável. Não se poderia. II. de populismo ou mesmo de oportunismo de desqualificar a análise da palavra. no seio de uma tópica comum. Neste sentido. através de um prisma. quase mesmo impossível. o que sublinha Barbara Cassin no seu brilhante artigo sobre elogio na Grécia antiga. mas geralmente também dispara argumentos do passado invocando o passado e conjecturando o “por vir” ] Segundo as definições de Stagirite. como uma “demonstração fenomenológica”. o epidídico – gênero por excelência do eloqüente cerimonioso – se concentra. como escreve Emmanuelle Danblon [heroísmo tornou-se uma fonte de suspeita sobre o modo de ressentimento]. o kairos retórico (retirada de uma decoração. etc) nos convida pois a celebrar. o epideixis – ação de “mostrar” (deiknumi) “diante de” (epi) na presença de um público – se opõe a apo-deixis. no final das contas. da figura de um herói clássico por aquela da vítima.A função heróico [ Esta é em razão dos acontecimentos contemporâneos que todos os oradores elogiam ou culpam. 1392b) – se encontraria convidado “cada vez que a ocasião (kairos)se apresente” para se deleitar do verbo. de fazer fundo discursivamente sobre o assunto para provar o conjunto da causa e o porquê. espera e escuta essas belas palavras.

a muito nítida predominância do elogio sobre a censura .. . No entanto. ser censurado.a confrontação ao excepcional (acontecimento. para atualizar a definição. um limite arbitrário. (e incluído o dedicar-se ao deboche) se os motivos que o sujeito (assunto) da enunciação não oferecesse um pretexto para pegar a palavra. de estabelecer durabilidade – para além do tempo do discurso – as propriedades das coisas.nós acreditamos .. trazendo as evidências de sua conformidade com o destinatário (coletivo) da celebração. situação. pelo contrário. em consequencia. para compreendê-la no “ar”. O discurso epidídico toda vez faz uma aposta no presente. na medida onde este último assunto está sujeito a uma sistemáticas investigação críticas a respeito de suas apostas. Nós nos propomos a considerar este negócio como um ato “ formal e convencionalizado pela qual um indivíduo manifesta seu respeito e sua consideração para com um assunto de valor absoluto” breve como uma atividade social ritualizada.. onde se daria a confirmação do sentido para projeto. pessoa etc) aparecem daqui em diante como insustentável. tanto quanto seu “denegrimento”. um cidadão. e realiza uma operação de previsão de acordo com a tópica esperada do gênero que convida a motivar a escolha do assunto. não somente para este que ele é.a perder a mesma função de um negócio eminentemente ritualístico . cuja pompa parece constitui um dos elementos mais importantes. pela nominação de o que é digno de “ser” louvado ou então. Também se trata retoricamente de dar uma conclusão ao assunto ou antes de confirmar o que é necessário para “fazer”: um homem. em outros termos. Esta ritualização confirma a grande precariedade do dizer epidídico que permite explicar. mas sobretudo para este que ele representa no imaginário coletivo que recusa estrutura sobrecarregadas dessas quadro comum. destacando a presença simbólica do “sentido” que testemunha. em parte. “ignorar como equilibrar e reconhecer como legítimo. natural. mas de bem redizer. Propõe-se. de descrever o que “é” como “estado”. Não se trata de dizer. negligenciar ao fundo o discurso em benefício de uma forma que só seria digno de interesse. ele visa marcar a diferença ontológica com “o que não é”. um herói. voltaria . e mais ainda “o que é outro ” – distinção que se torna objeto principal do julgamento. e se prende primeiramente a desvendar uma separação capaz de justificar e de ratificar “o está lá” dos participantes. O ato epidídico consiste então em uma “mostração” do “ o que é”. se o epidídico apresenta efetivamente os “estereótipos e traços convencionais”. da intenção. para efeito de reconhecimento e distinção da existência de uma comunidade.

Uma tal formação discursiva se aplica pois a confirmar as propriedades que fundamentam essa definição exclusiva (essa da “cidadania”. cujo sentidos se acha completado pela produção discursiva do detentor da palavra. consagrando as formas simbólicas portadoras de identidade. e pois a exposição que se possa revelar. dando uma definição referencial que pode. o que vem reafirmar o que é “belo” num sentido um tanto ético como estético – de dar sua vida pela sobrevivência do nome desta nação que faz prova de reconhecimento. inventando um novo estado de coisa reconhecida e legitimada. por exemplo) responsável por limitar tanto quanto por qualificar a realidade. Elogiar soldados caídos na partida de um jogo. A invasão de heróis por efeito do discurso retórico visa. se de tais ações são que são belos. . Exibi-se as rupturas que são constitutivas de uma relação com o mundo.que se transforma em parte improvável do gênero. por este ato fundador de nomeação do real. valer para todos e para cada um. a incerteza primeira diante das contingências de um mundo a dizer. em outros termos confirmar que de fato há uma nação para aqueles soldados que estão caídos. ele está correto de tornar estes soldados “modelos” no qual cada um de todos deveriam pensar da mesma forma. “consagrar. No caso de nossos soldados mortos para a liberdade de um povo e a honra de uma nação. por designação de um nome e uma exemplificação de um objeto de valor. numa narração enquadrada mítica (récit-portrait). O assunto do discurso epidídico tem por isso. a existência de uma dicotomia referencial. no qual consagra. se o orador faz elogios. que não aparece nunca sob o efeito da comparação e do contraste. Em outros termos. a inspiração de um desejo de semelhança tanto quanto de pertencimento. por contraste. é porque eles foram dignos de elogios. a este que Bourdieu chama de “rito de instituição”. por destinação de essência atemporal e a distribuição de identidade estereotipada. é. a final de contas. Uma das funções do gênero seria então a de reduzir. neste sentido. fundadora de um estado de mundo. o processo de demonstração se daria para finalidade de deixar o mundo acessível pelo verbo. Esta é a mesma dignidade que vem legitimar as roupas do cerimonial e justificar a conclusão do discurso. de fato. as fronteiras simbólicas ao seio da ordem social. Por conseqüência. Este discurso se assemelha. valor de exemplo ou de contra exemplo. dignos de ter seu nome honrado. é sancionar e santificar um estado de coisas”.

de uma dupla ambição intelectual: de uma parte interrogar as condições que deixa possível e a final autorizariam a participação pública – de que ainda hoje. apesar dos descréditos nós teríamos mencionado – de uma declaração que vise o elogio e a culpa. Tradução: Edison Oliveira – edison_oliveira2003@hotmail. o pedestal de nossa existência mundana. de inspiração sócio-histórica procede. esclarecer as condições de possibilidade deste exercício de qualificação do mundo que empreende de dizer o exemplar e o universal pela marcação do valor de uma figura originalmente singular.com . pelo presente estudo. Desde então duas questões se coloca: em que condições de nomeação dos “acontecimentos” do mundo ela se acha excluída do campo do ponto de vista e acessa a disponibilidade do sentido para reduzir a incerteza e confirmar a legitimidade do estado das coisas? Como o discurso epidídico consegue – na observância de uma bomba “gramatical” e a submissão ao esperado de uma relação discursiva extremamente codificada – limitar. de outra parte. portanto. que justificasse a ocultação da trazida sócio-logale do processo em confirmação. Cabe-nos. a invenção do “heróis” para projeto. pois. remetendo a questão ao conteúdo teórico da definição aristoteliana.Isto é porque que a redução de um tal discurso à sua dimensão estritamente espetacular. bem como resistir a ocorrência de um enunciado que colocaria a questão de qualificação em perigo? A investigação que a gente vai ler. não serve para a compreensão de um gênero que constitui. a função social e mais ainda ritualística de uma palavra que se dá na sua publicidade. assim. identificar.

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