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PrecisoLutar-MarciaKupstas

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07/23/2014

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É P R E C I S O LUTAR!- MÁRCIA KUPSTAS
ILUSTRAÇÕES AVELINO GUEDES Prêmio Orígenes Lessa - FNLIJ/1988 Altamente recomendável para jovens

É preciso lutar!, de Mareia Kupstas, aborda dois temas muito próximos: o amor e a ecologia. Para que ambos sejam preservados é preciso carinho, atenção, descobertas e conquistas diárias. Tanto uma árvore como um amor podem contar histórias seculares de encontros e desencontros. Uma velha tipuana conseguirá sensibilizar pessoas muito ocupadas com o seu dia-a-dia? Criança tem capacidade para mobilizar a opinião Pública? Zizi, com sua timidez, conquistará César, o loiro de cabelos cacheados? A união das pessoas será mais forte que o mesquinho interesse dos políticos?

Para Roberto dos Santos *** Uma hora da tarde de terça-feira. Margarida esperava o marido sair do banheiro, ía pedir que ele ajudasse a colocar a mesa. Olhou para o relógio, pensou |consigo mesma que os filhos deviam estar "estourando", do jeito que uma garota de 14 e um menino de 10 anos fazem quando voltam da escola: livros de um lado, mochila de outro, blusa amarrada na cintura, a fome selvagem de quem está em fase de crescimento. Margarida apagou o fogo do arroz, experimentou o feijão, aprovou o gosto... Coisas de todo dia, na casa de Margarida, o marido Juca, os filhos Zizi e Salviano. Tranqüilidade e sossego.... Não era bem assim. Margarida começou a ouvir a discussão, parece que vinda da rua. Então tirou o avental, jogou na cadeira e foi até a sala, uma discreta sala do apartamento onde moravam, no 2.° andar do edifício Cisne Azul. Margarida abriu a janela. — Boa tarde — falou o homem que estava amarrado à árvore, na altura da janela do apartamento de Margarida. — Boa tarde — respondeu uma calma Margarida. Para arregalar os olhos e gritar para dentro da casa: — JUCAAAAAAAA! O marido ouviu, mesmo do banheiro, e também gritou: — O QUE ÉÉÉÉÉÉ? — Tem um homem pendurado na janela! E o homem, tranqüilamente, cuidando apenas para não se esfolar no tronco da árvore ou se esborrachar no chão: — Não, minha senhora. Não é pendurado na janela. É pendurado na árvore. *** Minutos antes, se alguém passasse pela rua Marcelina, presenciaria um acontecimento absolutamente normal: um caminhão de carroceria aberta

— Por acaso aquele Monza preto é seu. mas sua casa era seu quartel-general. olhando para as manobras do caminhão. mais dois na cabine do caminhão. — É aqui — falou o acompanhante do motorista.. — Monza. A gente tem ordem de cortar a árvore. o sobrado tinha mais de 40. Betão — respondeu o motorista. apenas com tufos de cabelo acima das orelhas. alto e barrigudo. número 156. Kanassa já havia morado em muitos lugares. — Rua Marcelina. Dois homens estavam na carroceria. número 156. — Vai ser difícil estacionar.. no número 162. mas estava bem conservado. vai nesse prédio aí. Tenta achar os donos dos carros. Tadeu. . pele avermelhada de quem está sempre no sol. — Kanassa saiu porta afora. Logo os funcionários pediam aos porteiros dos edifícios que localizassem os donos dos automóveis estacionados na rua. E você. — Pois não. Kanassa estava se preparando para almoçar quando tocaram a campainha.. — Deixa que eu vou arrumar uma vaga — disse Betão. — O que está havendo? — Nada não. Não. É só a árvore. *** Kanassa de Moura morava na única casa da rua Marcelina. Betão mostrou agilidade enquanto descia rapidamente da cabine e chamava os dois ajudantes na carroceria: — Luís.ía atrapalhando o já difícil trânsito daquela rua. vai naquele da frente.. — Boa tarde — falou o funcionário de macacão azul. Era um sobrado rosa. o lugar onde cultivava o jardim e mantinha um estúdio. Kanassa ainda não havia entendido: — Árvore? — É. pois era preciso estacionar o caminhão exatamente à frente da tipuana que ficava na calçada da rua Marcelina. Se Kanassa estava com 52 anos. mulato e calvo. velha propriedade que havia herdado do pai.

Trancou a porta e levou a chave. — E daí? Kanassa falava alto. — Que papo é esse de cortar a árvore? O motorista acendia um cigarro. Betão teve de olhar para cima. Baforou uma nuvem branca. Só isso. — Ah. por que o senhor não cuida de sua vida.. — E o que é cuidar de minha vida? É me trancar em casa? — É não atrapalhar o serviço dos outros. Depois se virou para o Luís. até que a empregada atendesse e chamasse pela patroa. — Kanassa andava depressa. Kanassa foi direto ao mulato careca.Agora Kanassa havia mesmo se interessado pela conversa.. . Agora começamos a nos entender. — Ei! — gritou ele para o motorista. porque algumas janelas se abriram e o porteiro do edifício Cisne Azul olhava a cena com muita curiosidade. Eu só dirijo o caminhão. — Daí que a ordem é pra derrubar a árvore. E qual é o serviço que vocês têm de fazer? — O senhor não tá vendo? Olha pro caminhão! — Betão apontou as letras azuis. — disse Betão. o Betão. coçou a cabeça e se livrou do abacaxi: — Quem manda nisso aí é ele. caminhando em direção à sua vizinha. com uma expressão de quem pergunta: "O que esse cara quer? O "esse cara" repetiu a pergunta. que diziam ―Prefeitura – urbanização e jardinagem‖ — Bom. *** O interfone do apartamento de dona Juanita tocou várias vezes. que apalpava o tronco da tipuana e olhava para os galhos com jeito de conhecedor de árvores. — Amigo. Kanassa tinha quase 2 metros de altura. Juanita reclamou. bom. — O senhor pode me explicar o que está acontecendo? Para encarar Kanassa. o funcionário quase corria atrás dele. depois foi atender com mil cuidados para não estragar o esmalte fresco das unhas. Mais alto do que o encarregado gostaria que ele falasse. a árvore. com uma expressão de profundo saco cheio. eu sei ler — falou Kanassa. — Não estou entendendo.

Gregório ainda mandou o "beijinho. Que bom. meu senhor. Vocês vão cortar a árvore.. E Kanassa de Moura. Greg. tinha um bom motivo para manobrar o carro. O esmalte ia secar e depois dar o dobro de trabalho para limpar o excesso em volta das unhas. sim. Só que as malditas flores sujavam tudo. apoiado na janela de seu apartamento.°. a 5 metros do chão. Estou com pressa. o senhor está doido? — perguntou Juca.. agradece. não? Liga pro Plínio.. — O que está fazendo na minha janela? — Eu não estou na sua janela. Pena que não conseguiram a segunda vaga na garagem. 1. Estou na nossa arvore. depois. Juanita entrou e apertou o botão: 3º.. É. mas Juanita estava com pressa... Mas. Agora ia ficar livre da árvore. um Monza preto.° andar. presente de aniversário. Tudo bem? — ouviu alguma coisa que parecia monótona.. vieram cortar a árvore. Ia saindo quando o telefone tocou. com manobristas daquele tipo.. Empurrou a porta com as palmas das mãos. . Juanita ia assoprando as unhas. Juju" com que sempre se despedia da mulher. Eu tenho de tirar o carro da rua. cortou o assunto. 2º. era melhor pagar seguro e deixar o carro na rua. mangas arregaçadas. evitando tocar as unhas em qualquer lugar. Foi até a fruteira e pegou. térreo. os funcionários. — É pra tirar o carro. — Que nossa? — Juca quase gritou. não é? — Agora eu já nem sei mais. sentindo-se muito bem consigo mesma. dona. a tipuana.. — falou Tadeu. pelo menos. O elevador chegou ao 4.. Deu de cara com o porteiro do edifício e com um funcionário de uniforme azul.. amarrado num galho da árvore. — Oi. eu já vou — falou Juanita. era uma pena. Era seu marido. também. *** — Escute. — Tá. Tchau. O elevador também nunca demorou tanto. abaixando os olhos e apontando para o outro lado da rua. as chaves do carro. Mas...— Sim. Um beijo.. onde estavam o caminhão. com todos os mil cuidados.

para dificultar sua queda. Passava a língua nos lábios.. Havia passado uma corda de náilon em torno da cintura... Kanassa tinha um sorriso muito tranqüilo no rosto. uma queixa. Zizi e Salviano se destacavam.. Margarida se colocou mais à frente para falar com Kanassa: — O senhor deve ser louco! Por que não deixa eles. para Kanassa. em tom de voz mais baixo: — Querem cortar a árvore.Margarida estava um pouco atrás dele. com as pernas abraçando o tronco da tipuana. — mexia as mãos. — Isso aqui não é brincadeira! Kanassa respondeu ao funcionário e a Juca ao mesmo tempo: — Brincadeira é esse prefeitozinho cortar a árvore! Quem vocês pensam que são? Esta tipuana é nossa.. Para alguém do seu peso e idade. Nunca em sua vida Juca se sentiu tão confuso. gritando com ele e conversando entre si. Faz um. continuava bastante ágil: subiu no tronco com rapidez e decisão. a mão no queixo e não conseguia falar. — Nós vamos chamar a polícia! — gritou Betão. seu moço. debruçados na janela do apartamento... Kanassa havia conseguido um bom lugar.. — Zizi! Salviano! Venham pra casa. sempre apontando o punho para cima. homem. com os uniformes de escola. — berrou Juca para os filhos. voltando-se para Kanassa: — Pelo amor de Deus. — Ouviu? A polícia! Kanassa gritou para baixo: — Podem chamar! Que venham me prender! É o único jeito de me tirarem daqui! Muita gente estava em volta da árvore. é da cidade. na calçada. — Faz um abaixo-assinado.. — Desce daí. Comigo aqui em cima fica mais difícil. — Aí se virou para Juca. isso lá é coisa que se faça. Sorriram e acenaram para os pais. como se os gestos pudessem ajudar a encontrar as palavras. deixando os funcionários de boca aberta.. Estava suado. Depois.. mas feliz. erguendo o punho num gesto de ameaça. — gritou Betão. como se usasse o corpo do marido para se proteger do louco. .. já! Essas crianças.

— quis saber Zizi. Aí esse cara subiu lá em cima pra não deixar eles fazerem isso.. — ia falar mais uma série de nomes e títulos. cutucando André. O senhor não sabe que isto aqui é Brasil? *** Juanita se esqueceu completamente das unhas pintadas e apertava a chave do carro nas mãos. — Que palhaçada é essa? Por que vocês não cortaram a árvore ? — E quem a senhora pensa que é pra gritar comigo? — gritou Betão. — Por que ele tá na árvore? — perguntou Zizi. o porteiro de seu prédio. — A prefeitura quer cortar a árvore. trepando galhos acima com a rapidez de um moleque de rua. — Eu sou esposa do diretor de uma estatal! Tenho um monte de amigos na prefeitura. . — Só pode ser isso. Luís falou baixinho. Kanassa havia ganho um aliado. Mas voltou a se divertir com a decisão do senhor grisalho e um tanto gordo. e puxava o funcionário Luís pela manga do uniforme: — Moço. louco pra encontrar alguém em quem desabafar a raiva. — E é melhor a senhora sair de baixo que eu boto ovo! — Esse cara está bêbado! — falou a mulher para as pessoas em volta. mas preferiu gritar para Kanassa ouvir: — E quem você pensa que é? — Uma andorinha! — respondeu Kanassa lá do alto. depois tinha até se decepcionado com a volta de Kanassa para sua casa. Um dos xeretas ainda exigiu o "repete". por que vocês vão cortar a árvore? A pergunta do garoto chamou a atenção de outros moradores e xeretas que estavam por ali. de retornar para a árvore com sua corda de náilon. sou.— Até fazer tudo isso a árvore já virou lenha. — Mas por quê? Salviano já havia se antecipado. Ele havia presenciado todo o bate-boca. — Cortar a árvore. André sorria.. Falou tão alto — e tão de perto — com Betão que uma gota de saliva ficou brilhando no nariz do mulato.

** * — Olha aqui. mas esta tipuana significa muito para mim. Mais e mais gente se aproximava.— É que são ordens — falou o funcionário. — Eles não sabem nem o que estão fazendo! — E. Kanassa. mesmo assim. seu Nakassa.. assim não dá. já conseguiu. Ela tem quase a minha idade! Juca suspirou. — Ordens são ordens! — falou o funcionário em voz ainda mais alta. acenando para Margarida. sorrindo para Kanassa. — Você ouviu isso.. que preferia não encará-lo. talvez com medo do que o maluco poderia fazer. se o seu negócio era chamar a atenção. O que eu acho um absurdo é o senhor se pendurar nela desse jeito. — insistiu o menino.. mas "caçar" os filhos pela calçada. por favor? — Jurandir.. Como é o seu nome.. É nome indígena. — Kanassa. — Juca. Kanassa continuava conversando com o pai dos garotos. Betão suava. — Senhor. muito prazer. Não me interessa o que essa árvore significa para o senhor... meu senhor.. — Foi uma luta Kanassa se esticar sobre o tronco para estender a mão. mais alto. assustar a minha mulher.. desculpe — falou Kanassa. querem cortar a árvore — falou o porteiro. já com o esmalte vermelho totalmente borrado. Juca. Agora por que não desce e. afastando-se dali e indo para perto do chefe. — Oh.. e Margarida gritava de novo para seus filhos entrarem no prédio. Juca mal tocou em seus dedos. — imitou o menino. — O senhor deve estar achando estranho o que estou fazendo. ou melhor. interrompendo: — Olha. Zizi? "Ordens são ordens". — Kanassa. Olha. olhando para eles. A careca lustrosa tinha muitos pontos de suor. enquanto enfrentava a fúria de dona Juanita. . — Ordens pra cortar a árvore? Mas por quê. vá lá.

. — e se ouviu o zunzum de muitas pessoas falando coisas parecidas. vendo se algum dos rostos confirmavam sua opinião. — Acho que já fizeram isso. — É. As últimas palavras vieram calmas e definitivas. — A árvore não está podre.. — Não está caindo. falando com o cada vez mais suado Betão. Só percebeu risadas ou curiosidade neutra. afinal de contas? — gritou Kanassa.. E talvez tivesse também uma ponta de simpatia pelo "louco".. O zunzum das pessoas ficou mais alto. — Mas eu não posso. Pra que cortar a árvore? — É mesmo... Não ameaça ninguém.— Não! — dessa vez. PRA QUÊ.. querida. ou Juca. — gritou Kanassa. lá de cima. dona! — Por que não pode? Por quê? Ele é doido. — Juca não gostava de se envolver em problemas... isso é um absurdo! — Margarida puxou o vitrô com tanta força que se ouviu barulho de vidro estalando. Só assim. E mais vozes confirmavam a solidariedade com Kanassa.. fazendo concha com as mãos: — Isso aí!. CORTAR. pra quê? — gritou Zizi. — Quem não entende nada é você.. — Vamos chamar a polícia. Definitiva. vocês não estão vendo? Não é Mesmo? — Juanita falou e olhou em volta. Pra que cortar. Jurandir. Daqui eu só saio quando a ordem de derrubar for cancelada. porque daqui eu não saio. Pode fechar sua janela e vai cuidar da vida. — E pra que cortar a árvore. os olhos de Kanassa tinham uma expressão dura. Betão teve de falar alto também: — São ordens! São ordens! Eu não sei. Um gaiato berrou. — Hem? Isso sim conseguiu mais efeito.. . O QUÊ.. *** — Derruba a árvore com ele lá em cima! Que é que tem? — berrava Juanita.. A maioria estava ali pra "ver no que ia dar". — Ah.

Aí recebeu a vaia: — UUUUUUUUUUUUU! E foi debaixo de vaia e gargalhadas que Juanita voltou ao apartamento. conseguir apoio.. com seus gritos. — Essa árvore está velha.. Aquelas pessoas bem que podiam se voltar contra os funcionários. — Ah.. Os irmãos não aceitavam respostas tortas. como cortar uma árvore sem saber por quê — era uma das respostas mais tortas que os dois já tinham ouvido de um adulto. — Deixa a gente ver. . — Zizi! Salviano! Vocês não me ouviram chamar? — agarrou o braço de cada filho como para ter certeza de que eles não iam escapar. e aquela atitude do funcionário — aceitando fazer uma coisa horrível. — Juanita tentava. para Juanita. Atrapalha. Betão limpou o suor da testa. menina! Você não entende! Zizi e Salviano estavam ouriçadíssimos com a confusão. E algumas também fizeram coro com ele: — Velha chata! — Velha gorda! — Vai cuidar da tua vida! — Quem vocês pensam que são? Gentinha! Baianada! Bando de preto miserável! — Juanita gritava contra a multidão. Suja os carros. *** O "uuuuuuuuuu" da vaia se uniu ao "uuuuuuuuó" do carro de polícia. Tá podre. rebolando o bundão apertado na calça jeans. — Não se mete.. sim. Tá legal! — falou Salviano. — Não tá não! Mulher chata! — gritou Kanassa. ao mesmo tempo em que Margarida alcançava os filhos. afastando as pessoas.— Mas como vocês cortam uma árvore sem saber por quê? — Zizi falou diretamente com o funcionário. O policial chegou até Betão.. mãe.. e então. Algumas pessoas riram. ficou mais aliviado.

— O senhor tem um minuto pra descer da árvore. Nesse momento chegaram duas kombis: uma de um jornal e outra de televisão.. *** — O homem me insultou. Pessoas se questionando. Isso pode ficar perigoso. — E-ele me chamou de velha cha-chata. Greg! Aquele bando de imbecis me. a rua Marcelina. O policial usava um megafone e sua voz abafava outros ruídos. .— Não tem nada que ver aqui. — E se eu não descer? Vocês vão atirar? — gritou Kanassa para o policial. Agindo. O senhor tem de descer — disse o policial.O senhor é que pediu – falou o policial e se dirigiu para a árvore. Conseguindo se unir. estava congestionada. — A gente vai usar a força — respondeu o policial. Eele não quer sair de cima da árvore. — Não se meta nisso. mas nunca se sentiu tão absolutamente certo como naquele instante. Esse cara é doido. Pediu a um colega que o ajudasse a subir no tronco. De gente e de carros que não conseguiam passar. — Só desço daqui se não cortarem a árvore. Zizi não conseguiu mais ouvir o que a mãe estava dizendo. Kanasa nunca tinha sido líder. altura do número 156. — É ordem da prefeitura. — Perigoso é um babaca da prefeitura cortar a árvore sem saber por quê! — respondeu Zizi. .. opinião pública. enquanto se ouvia o "uóóóó" de outra viatura. impedir uma ação. — Por que eu tenho de descer? O que eu estou fazendo de mal? — gritou Kanassa. olhando com prazer a multidão que havia atraído. fazendo careta. Gente. me xingou! — falava Juanita ao telefone. Agora. apertando o lenço nos dedos e tentando controlar os soluços.

com carpete. benzinho. um office-boy apenas para sua seção. Só falou "vou indo" para Margarida e não deu beijo nenhum. . mãe? — falou Salviano para Margarida. — Bem que agora você quer ficar. Se tinham seguro. da casa das amigas. Juju! Não chora. bem que o Monza podia ficar na rua.Psiu. meu bem. — E-eu ainda es-traguei minha unha! — chorava Juanita.. deixa eu ouvir a moça. Confia em mim. O único problema eram as flores que caíam sobre o carro e manchavam a reluzente pintura negra. *** O câmera pediu que as pessoas se afastassem para colocar o material de tevê no chão. já! Para o Plínio.. complete a ligação para o escritório do Plínio. verba de representação que era o dobro do salário declarado — tudo muito bem pago pelos impostos dos contribuintes. Eram 14h20 e ele já estava atrasado para o serviço. Não chore. A repórter sorria para as pessoas. era perto dos shoppings. pode deixar. Gregório dos Santos Almeida Cavalcanti desligou o fone antes que a esposa pudesse se lastimar mais um pouco.. Um escritório luxuoso. quando ouviu o comentário de uma velha de que ela era "mais bonita na televisão". Esse caso tá resolvido. Juju. pelo povo. Juju! Vou ligar agora para o Plínio. verba mensal de milhões de cruzados. — A u-unha quebrooooou.Gregório ia ouvindo a esposa e tamborilava a caneta na mesa do escritório. Não estavam até pensando em mudar?Para um edifício com duas garagens? Mas Juju gostava do bairro. porém. Juca havia descido à rua. que já a conheciam pelo vídeo. — Não fica preocupada com unha. Bem que achava a implicância da mulher com a árvore um tanto exagerada.. — Lúcia. .. Vou ligar a-go-ra. interressada pela agitação que a televisão havia trazido. — Juju. Tinha duas secretárias. móveis estofados. Ficou séria. né..

— Senhor Kanassa. esta tipuana. depois voltou para a repórter. *** — Gregório.Como se a culpa de não ter almoçado também fosse da esposa. A câmera focalizou um mulato que passava a mão pela cabeça. por que não quer descer? A câmera filmou um rosto falando um monte de coisas. Recebi minutos atrás o telefonema do funcionário. A câmera apontou para o tronco da árvore. — Porém um morador da rua. música ambiente e quadros bonitos pelas paredes. A moça fez cara séria e falou para a câmera: — Hoje à tarde. subiu na árvore e está impedindo que ela seja cortada. . Como Kanassa se recusa a descer. Com a chegada da tevê e da imprensa. Kanassa de Moura. Era uma moça bonita e olhava muito sorridente para o chefe. vamos conversar com ele a distância.. mas Kanassa falou que só desce quando a prefeitura voltar atrás em sua ordem e não cortar mais a árvore.. 0 maluco subiu na árvore. estava tudo pronto para a gravação. Preferiu responder à jornalista e fazer cara séria para as fotos. Depois voltou para o rosto da moça. funcionários da prefeitura se dirigiram para a rua Marcelina com a ordem de derrubar esta árvore. pela tarde atrapalhada. — Está difícil ouvir o que ele disse. o policial não subiu na árvore. A moça olhou para cima. É. Agora vamos entrevistar o funcionário da prefeitura. Plínio Fernando da Costa respondia ao telefonema enquanto assinava papéis que sua secretária lhe estendia.. com três mesas amplas. Kanassa acenava alegremente para os fotógrafos. Senhor Roberto. que vocês estão vendo aqui. como se quisesse esconder a careca da televisão. Roberto Mendonça. O escritório era acarpetado. Finalmente.. A câmera focalizou o alto. eu sei.

. A rua Marcelina inteira. se tivesse feito o que estava fazendo agora. Boa mesmo. Tchau. — gritou Betão para o alto da árvore. Ah. os aplausos foram mais intensos.. não esquenta.. O interfone estava tocando e ele encerrou a conversa com o amigo: — Gregório.. muitas pessoas aplaudiram e deram vivas. ele lembrou. espichava o pescoço e sorria por ver o que havia conseguido com sua "molecagem". nenhum carro conseguiria passar. Betão sorriu e ajeitou a postura. Há 18 anos. Amanhã de manhã ou de noite eu mando uns funcionários cortarem a árvore. de acordo com sua consciência? — Escuta aqui. Você ganhou! De novo. Lembranças a Juanita. Kanassa começou lentamente a se desamarrar. Plínio terminou de assinar os papéis. era o que se poderia chamar um homem bem de vida. Desde o dia da caçada. Para surpresa do mulato. Eles vêm aqui.Havia uma geladeira num canto.. por que é tão difícil as pessoas agirem na hora certa. uma necessidade.. do alto da árvore. Gregório. aos 46 anos.. ô maluco. Kanassa. A televisão continuava gravando.. Era o impulso de fazer o que achasse importante. "Boa moça". — Eu sei. . Ninguém vai cortar a árvore... nada de molecagem".. *** Agora não só à frente do número 156 se ajuntava uma multidão. Alguma coisa muito entranhada nele. serviço de copa das 8 às 20 horas. Se tivesse tido essa coragem.. estava tomada pelas pessoas. a secretária se afastou. ele pensou. Recebi também um telefonema da imprensa. verba de representação de alguns milhões de cruzados. Boa tarde. — A gente vai embora. "Não. Quando seus pés tocaram a calçada. Tudo pago — e conseguido — através de muitos anos de serviço público. Plínio. Esse problema está resolvido. se o maluco tá lá hoje enchendo o saco. E estremeceu.. pensou Kanassa. vivas e aplausos. — Recebemos ordens de voltar... nos seus 800 metros. Os olhos de Plínio acompanharam aquele "se afastar" com muito interesse numa certa parte da anatomia feminina. Está bem..

quando eu me mudei para cá ela já existia. e mais ainda dos moradores da rua Marcelina. A notícia do homem que se amarrou no galho pra salvar a árvore chamava a atenção.. dispensou a empregada e.Olha.. REPÓRTER 2 . Sou free lance. agora. — Eu falei que esse homem é louco.Por que o senhor resolveu tomar essa atitude? KANASSA . atento às respostas de Kanassa. devorava uma dúzia de bombons. Isso nem é uma árvore. Greg abraçava uma Juju de olhos inchados e unhas sem esmalte. Com seu gesto. REPÓRTER 3 — Senhor Kanassa. eu nem pensei na ecologia.) Eu pensei.Porque era o jeito mais rápido de impedir a derrubada da árvore. Gregório rolava o copo de uísque entre os dedos. Você ouviu. . Protetor da natureza sem partido nem carteirinha. É uma tipuana de mais de 40 anos. (RISOS. na hora. Juanita levantou depressa e desligou o aparelho. Mal o locutor anunciou outro acontecimento. no grande canal de tevê. Sua pergunta é de uma maldade tão grande que eu tenho vontade de dar um murro no seu nariz. *** A entrevista com Kanassa foi ao ar às 20h30.*** REPÓRTER1 . Greg. o senhor não está querendo se promover? KANASSA — Isso não tem o menor fundamento. o canalha só queria promoção. e de uns anos para cá suas obras estão pouco divulgadas. pois acendia um no outro.O senhor fez isso para defender a ecologia? KANASSA . que tinha alguma coisa de safado nele. Juanita se recusou a jantar.. fora o maço de cigarros. o senhor foi um artista plástico de renome na década de 60.Nãããão. só em defender a árvore.. não ouviu. é um monumento! REPÓRTER 1 — O senhor pertence a alguma entidade ecológica? KANASSA — Eu.

— Isso não é derrota. Deixa com ele. e vai ver. — Isso lá é guerra. estava aí sendo pouco comentado. – Ah! Olha como mudaram o nome de um maluco que mistura tinta e é um filho-da-.. o cabelo comprido dividido ao meio. Greg! É só derrubar uma árvore. — Mas eu fui derrotada! Juanita fazia gestos teatrais : braços abertos. o cara é artista. *** — Tudo é bom quando termina bem — falou Juca..É um pintorzinho idiota. Amanhã ou depois. que o tal Kanassa não queria apenas promoção? — É — completou o pai —. Juanita andou até a janela. Gregório não pôde deixar de sorrir. incomodam..Não gostei dessa última pergunta do jornalista — falou Zizi. e ganha a guerra.. A mãe vinha chegando com uma xícara de café. diante do aparelho de tevê.. Ela estava espichada no tapete.. eles começam a fazer perguntas.. rosto para cima. . É como numa guerra: a gente perde uma batalha. Juanita soltou uns dez palavrões. O marido falava com ela como se falasse com uma criança. — E quem te garante. eu mesma pego um machado e vou botar abaixo essa árvore maldita. Hoje teve muita publicidade. "artista plástico" — ela imitou o locutor.. A esposa era ótima para fazer dramas diante de pequenos problemas. em duas mariaschiquinhas. Imprensa é uma barra.. repetindo o lugar comum e também a sobremesa.. Zizi.. Juju.. . — Juju. que balançava seus galhos embalada pelo suave vento da noite. Eu já falei que o Plínio cuida disso. até que Gregório se levantasse do sofá e a abraçasse. terminou de falar isso encarando a própria maldita. pernas afastadas. Será tãodifícil assim? Daqui a pouco.

— Ele não podia. Juca sorriu para os filhos. Parece que o tal pintor conquistou mesmo vocês — falou o pai. assoprando a fumaça que saía de sua xícara. ele tinha. se era pra chamar a atenção? — E tem mais uma coisa! — Zizi estava resolvida a ser a "detetive" daquele caso.. Havia gravado em . escuros. Estava exausto. Elisa — ou Zizi — era alta.falou Salviano. hem? — É. Eram duas crianças bonitas e saudáveis aqueles seus pirralhos. — Como. mãe! Você queria que ele fizesse o que. um castanhoclaro igual aos cabelos de Margarida. O garoto concordava com a irmã. Ou o superKanassa já virou santo? *** Não..Pai. unindo as evidências com a competência de uma profissional. o super-Kanassa não havia virado santo. como dizia tia Anastácia.. ambos tinham olhos castanhos e cílios longos. sei lá. "Olhos inteligentes". né. — Ai. — Como é que ele podia adivinhar que ia aparecer gente de Televisão? Jornalista? — É mesmo! — completou Salviano. pelo menos. estava virando moça depressa. e por que um árvore?.. Salviano tinha também a mesma cor dos cabelos da irmã. agora ele virou herói mesmo. mas pra mim o cara tem mesmo é um parafuso a menos — completou Margarida.. que desse uns tapas nos caras da prefeitura? Salviano ficou imitando uma briga. Nenhum dos dois havia puxado o azul dos olhos de Juca. Zizi. Margarida sorriu: — Tamanho para isso. — Vocês podem achar o que ele fez uma grande coisa. Não sei como a árvore não despencou com aquele gordo em cima dela. — Onde já se viu. É barrigudo. com o corpo dolorido por ficar tanto tempo agarrado à árvore. O Kanassa não é gordo — falou Zizi. pelo menos nesse assunto. — Gordo. se pendurar em árvore? — Mas era o único jeito. pintar alguma coisa na rua.. com socos e pontapés..

. Ainda não havia descoberto. caindo sobre as orelhas. em coisas dele. Kanassa sorriu. Marina ficava apoiada no muro baixo de sua casa e olhava os garotos brincarem. Lembrava daquela sua atração distante por Marina. divididos em dois rabos-de-cavalo. Talvez nem existisse um motivo mais nobre. Ao lado do sobrado. Kanassa podia fechar os olhos e lembrar do jeito das casas que existiam em frente à sua: sobrados com varanda. Lembrava do jeito atrevido da menina. Kanassa com 15 anos. apenas sobrados. a imagem de Marina era tão nítida. quando um Kanassa ágil brincava nos seus galhos. Num deles moravam os Souza. usou o controle remoto para fazer a fita voltar. Havia uma intensidade em seu olhar. Uma menina de longos cabelos castanhos. como se desejasse correr com os garotos pela rua.. dentro de si mesmo. um jeito que incomodava seu machismo juvenil. cansado. saindo do sobrado com a bola. quando ele ameaçou o repórter com um murro. O que ele era. como um pedaço da infância. mas também se sentisse superior a eles. a rua Marcelina tinha paralelepípedos e não havia um único edifício. aqueles profundos olhos escuros. Um murro! Kanassa sorriu.. Kanassa sorriu.. os dois correndo pela rua. Lembrou do menino que brincava com ele.. grisalho. Barrigudo. sua propriedade. Lembranças. mas era profundamente atraente. com jardim florido.videocassete a sua entrevista na tevê. A tipuana não deixava de lhe pertencer. de um garoto que gostava de pintar mas também gostava de brincar e correr. A ênfase que o câmera havia dado em seu rosto. Marina com 13.. de ver seus olhos perseguindo os meninos. de janelas largas. talvez fosse apenas o pavor de que mexessem em suas memórias... mais "mulher" do que os moleques chutando bola ou usando a tipuana como pique ou recolhendo flores amarelas do chão para fazer a safadeza: puxar o calção de algum menino e encher a bunda dele com flores murchas. de novo se reprisou. De um tempo feliz. a casa de Marina. *** . Um homem de 52 anos. um garoto dois anos mais novo. o motivo de defender a árvore. havia tão poucos carros naquela época.

até que lentamente saísse do sono e se descobrisse sentado em sua sala. de um jeito diluído pela sombra. Sentindo dores pelo corpo. — Eu desliguei a campainha.. Kanassa sentiu que os braços estavam no apoio do sofá. diante do televisor apagado. Kanassa pensou que era um sonho. o rosto de uma garota.. Os jornalistas estavam me enchendo. queria fazer xixi. moro no prédio ao lado. "prefeitura". Não quis acordar os pais — eles não iam ajudar. procurar pelo Kanassa.. Depois. Kanassa andou até a janela e ergueu a persiana. os caras da prefeitura.Primeiro. A menina era real. menina? Quem é você? — Eu sou Zizi. Um bonito sorriso de garota: — Não é só você que é bom pra pular muro ou subir em árvore. amarrava o tênis. Via. Kanassa já havia trocado o pijama pelo jeans e pela camisa. E se tinha dormido sentado. ela tinha certeza — e foi até a rua. Kanassa. Uma menina com olhos escuros e profundos. havia mesmo uma menina batendo no vidro de sua janela. Mas vamos logo.. Diacho. ouviu barulho na rua. Uma garota de cabelos longos.. vão cortar a árvore! No meio do sono.. depressa! Eles voltaram. e se estava agora desperto. Foi o bastante para que o homem despertasse de vez. "caminhão" pareceram flutuar acima dos outros sons. Mas como você entrou? Zizi sorriu. e veio a pergunta sobre onde estava. as palavras "árvore". mas acho que você não ouviu. Sentiu isso. senão eles derrubam a árvore! — Como você entrou aqui? Zizi estava irritada com tanta pergunta. e a garota fazia sinais e batia contra o vidro da janela.. eles voltaram! — O quê. — Como você soube disso. Estão com o caminhão. — Eu toquei a campainha. — Kanassa.. — É. divididos em duas marias-chiquinhas. Aí viu o caminhão. foi olhar pela janela. E muito apressada. .

as coisas se resolveram de um jeito mais tranqüilo. de novo amarrado no galho da árvore. Havia aberto a janela da sala e conversava com Kanassa. naquele momento. — Kanassa alcançou a almofada. a garota não se preocupou com isso. — Kanassa tentava arrumar uma pose melhor. de joelhos sobre um pufe. Mas. Mas. — O repórter perguntou se você fazia isso pra se promover. mas o mulato sabia muito bem no que ia dar aquela briga. — Quer uma almofada. Dessa vez. Os outros tentaram protestar e gritar e ameaçar. — Tem você. foi bobagem. ajeitou-a em suas costas. — Eu não acredito que você fez isso pra promoção. e você ficou bravo com ele. — Por que você fez isso. se apresentou como o "maluco da árvore". estava apenas Betão. — É. — É. — Não sei. Não devia ter ficado zangado. Estava apoiada na janela. . E você continua na árvore. assim melhorou. Kanassa deu um tempo na árvore. E por que não? — Não tem ninguém agora. — Seria bom.*** E lá estava Kanassa. Deram de ombros e foram embora. — Obrigado. Zizi sorriu. que permanecia no galho da tipuana. — Hum. para garantir. às 3h da manhã. Não é estranho eu dizer isso. Já é uma grande companhia. Talvez porque a burrice humana é uma coisa que me irrite muito. Kanassa? Silêncio. Kanassa chegou. sem maiores problemas. era bronca na certa. pediu licença. Mas eu não sei. Zizi pegou a almofada que sua mãe havia bordado dois anos antes. Zizi não havia acordado ninguém. as costas doíam. Dos funcionários do outro dia. Se sujasse. Usava os braços como almofada e encarava Kanassa como se ele fosse mesmo um ser especial. Kanassa riu.

. Zizi. aparecer nos jornais. elogiava minhas pinturas. A almofada quase caiu. Me convidava pra jantar. Não quero ser melhor do que eu sou. Um homem muito poderoso.. essa foi a primeira vez que eu fiz alguma coisa pra defender a natureza. muito interessada... Acho que é porque você ama a natureza. Aliás. Não sou nenhum santo. eu tinha um grande cliente. É gozado isso.. Foi logo no começo da minha carreira. -Escute . O barulho distante de sirene chegou aos seus ouvidos. mas queria muito provar que era um grande pintor... ele me convidou pra um fim de semana na fazenda dele.. . Milionário... Tinha mais uns amigos dele lá. Kanassa. O tipo do cara que fazia um artista virar um gênio ou podia acabar com uma carreira. dono de jornais. ficou em silêncio. porque.Talvez eu esteja numa idade em que a gente se obrigue a repensar muitas coisas. mas . que você. — ele falou. . — Bem. abafar. Zizi quis perguntar que coisa "pior" poderia ser aquela. Você é tão novinha. Zizi o encarava com seus grandes olhos escuros. um "herói". era a minha chance de ficar famoso..Teve um negócio que sempre me incomodou. Kanassa ficou quieto. Eu sei sim. Eu já era rico.. O que é que foi? Kanassa se ajeitou melhor no tronco. Eu não planejei nada. e eu fui. mas ficava bajulando ele. — Não sei se você entende o que eu estou falando.. exagerando a palavra ―herói. dinheiro da família.não acha? Zizi mordeu o lábio. Já faz parte da minha vida. lojas. Ou você pensa que eu virei assim. Ela sempre esteve aqui.Ah. afinal de contas. "Romântica" podia parecer criancice. Eu detestava o cara. Ele ficou em silêncio. — Tenho 14 anos. Mas preferiu deixar o próprio Kanassa resolver se ía contar ou não. — Uma vez... mas o cara gostava de mim. Zizi. E já deixei acontecerem coisas piores. — Kanassa olhava para o céu.. E esta tipuana. Você é muito romântica! A garota ficou vermelha. perto de casa. depois virou-se para Zizi. E aí eu não sei bem quem foi.

Vai ver ficou inconsciente. Aquele verde muito claro. É estranho. uma espécie de lagoa no meio da floresta. — Nós andamos um bom tempo... — Eu queria ver um quadro seu. Dispararam tanto que só restou carne arrebentada. a madrugada. — Está legal a gente conversar. Não falei nada.. Isso foi há muito tempo. — E o que aconteceu? — Zizi se ergueu mais na janela. Kanassa continuou olhando para cima. como se existisse um objeto muito pesado sobre elas. um veadinho. — Claro.. Está bem? Zizi fez uma careta. Agüentei aqueles escrotos sorridentes. até ri com eles. e até hoje. Uma coisa de paraíso. mas não falei nada. Eles apontaram as armas contra o bicho de um jeito. sempre achei nojenta a idéia de matar um animal. mas tenho várias telas sobre caçadas. como se estivesse falando não com uma garota de 14 anos. monstruosa. Eu nunca participei de caçadas.. E por quê? Porque eu dependia deles. — Você não falou nada. nada? — Não. famosos. — ele sorriu para a garota.. Eu vou descer da árvore. bebendo água.. O zumbido de abelhas. — Mas em muitos dos meus quadros eu coloquei um pouco desse horror. as cores que a natureza sabe colocar melhor que qualquer artista. e você vai dormir. Zizi.. Entende. — Kanassa fez um gesto com as mãos. Eu achei a caçada uma coisa. Zizi. Mas acabou obedecendo a Kanassa. E havia uma corça.. Na hora de dormir é que se lembrou que devia ter perguntado por que ele tinha um nome tão estranho. — Daqui a pouco amanhece.. Fui junto com eles. Era muito bonito. — E eu não falei nada. Hoje eles não voltam mais. — foi só isso que uma assustada Zizi conseguiu dizer. qualquer hora dessas. a fanfarronice daqueles idiotas. Porque eles é que faziam meus quadros serem caros. mas não discuti. . mas consigo próprio. com bichos estourados. nem a cabeça do bicho ficou inteira. até um lugar descampado...sugeriram uma caçada. Agora é melhor você ir dormir. — Nossa. Foi um massacre. Eles é que me faziam conhecido.

O pai terminava de se aprontar e Margarida trazia coisas da geladeira para a mesa.. Margarida precisou chamar a filha umas dez vezes. — Zizi falou para o irmão.. Zizi tinha grandes idéias para aquela manhã de quartafeira. Zizi bocejou muitas vezes. tentando escrever suas iniciais no pão. — Disfarça melhor.pensativa. *** . Aí o irmão murmurou um "o que é" tão careteiro que era "dar bandeira" com tanto mistério. 15 pras 7.. porque o Kanassa. — Tenho uma coisa pra te contar.. — É? O que é? — Fala baixo. pô!. Ontem quiseram cortar a árvore. Teriam tempo pra colocar o plano em ação.. Zizi brincava com um dos lados da maria-chiquinha. — Nãããão! E cortaram? — Salviano ía correr até a janela. o cabelo sobre as orelhas. para evitar que a mãe desconfiasse de tanto sono fora de hora. em voz baixa e atenta para que os pais não ouvissem. Tanto ela como o irmão já estavam de uniforme. coisa que nunca havia acontecido. Zizi segurou no seu braço.*** Quando o despertador tocou. o azul-marinho de calça e saia e camisas brancas. lá vem esse Kanassa de novo! — O pai havia chegado por trás deles. sentou à mesa.. Enroscava e desenroscava o cabelo no dedo. — Eeeeeh.. — Não me diz que ele vai se amarrar de novo na árvore! Virou passarinho agora? Zizi piscou o olho para o irmão e desconversou.. — Salviano. Salviano brincava com a maionese.. — Não. mesmo tentando prender o ar. Zizi achou que seria impossível levantar..

— Juju.. ele nem levantou. beijou os filhos e soltou-os na esquina mais acima. Juanita mal conseguira dormir e fez questão de acordar o marido para lhe fazer companhia. — Juju. Só pararam na paracinha. É muito cedo. a garota agarrou o braço do irmão e correram em direção oposta à escola. Ele não chega no serviço antes dos funcionários.. Gregório pegou o jornal e começou a ler. Bastou o cuco cantar oito vezes e ela interrompeu a leitura do marido: — Agora já são oito horas. até parece que você não conhece político! Isso foi coisa pra mostrar a jornalistas. Uma Juanita mal-humorada conseguiu implicar três vezes com a empregada: por uma xícara trincada. *** Juca já havia chegado ao portão da escola.. E nunca foi tão demorado amarrar o tênis. — Eu vi na revista aquela reportagem. Juanita pediu o segundo caderno. Quando o carro do pai virou a esquina e ele não poderia mais vê-los. Zizi começou a amarrar o tênis. E estava também implicando com o marido porque ele se recusava a ligar para o Plínio.. o leite quente demais e a ausência de frutas. mas os olhos de Juanita distraíam-se sempre. Zizi?Pra que tanto mistério? . Juanita suspirou. falando em voz baixa: — Fica aqui. Maria trouxe as torradas para a mesa. uma raridade.Na casa de Gregório e Juanita o dia também começou cedo.. Salviano ia correr para o portão. se serviu de mais café com leite. Fingiram estar interessados nas notícias. Finge que está me esperando. Maria teve pouco tempo para colocar a mesa. Como estava difícil estacionar bem em frente. estranhando que os patrões já estivessem de pé. Pode ligar. indo até o relógio. e ela devorou com prazer. quando Zizi o segurou pelo braço. a três quadras dali.. — O que foi.

. Bom dia. muito importante. Zizi sabia de cor o número do telefone de Débora. pô! Por muito pouco. Gregório se sentiu um idiota por acordar o amigo tão cedo e por um motivo.. — Tem a Débora.... Eu tenho uma idéia muito melhor do que essa. — Desculpe te acordar. eram as manias de Juanita. — Eu cato eles. . Sim.. confirmando com um gesto de cabeça que havia entendido. A voz rouca de Plínio mostrava claramente que ainda estava na cama. sim. — Zizi. Salviano escutou a irmã com profundo intereesse – e irritação: por que a chata não o havia acordado? Por que não havia dado a ele a chance de também participar da aventura? Zizi resolveu aquilo que poderia ser uma discussão de maneira definitiva: — Num dava tempo. é sobre a árvore. mas logo se recuperou enquanto contava ao irmão sobre a aventura noturna. Tá sacando? — Hummmm. Bem.. eu chuto eles.. Plínio.Agora você descobriu! Hoje nós não podemos ir pra escola..... — o garoto mordeu o lábio superior. porque se a gente não ajudar o Kanassa.. — Eu mato eles! — gritou o garoto. Ah.. Salviano. Era só acharem um orelhão. E a mãe dela trabalha fora.. — Você não vai fazer nada disso... ele sozinho não vai dar conta..— Tem uma coisa.. — Pra quem? — Quem estuda de tarde e mora perto da gente? — Hum. temos de telefonar. dando um murro no ar. e ela tem três irmãos. E todo mundo estuda de tarde. *** — Gregório. e eles só têm a empregada na casa... e se eles estiverem lá agora? E se os caras já voltaram e a árvore.. Mas sabe.. .. — Zizi estava sem fôlego.. Primeiro.. a árvore já era. eu.

A árvore está do jeito de antes. curtos. Débora era um ano mais velha que Zizi. Eles deviam ter trabalhado de madrugada. mas nem precisou da resposta para reconhecer o sotaque.. e aparelho nos dentes. — Mas isso não é possível! Eu pessoalmente dei ordem para os funcionários. *** Zizi e seu irmão logo estavam na casa de Débora. — É eu.. Aí Plínio acordou definitivamente. talvez soltasse um palavrão e desligasse. Plínio bateu o telefone com raiva. Também não estava. Ela já devia ter chegado à repartição. Se não fosse o Gregório. assinado o ponto e saído para tomar café.. — Mandei cortar ontem. Não. uma pancada que deve ter doído nas orelhas da faxineira por muitos minutos. baixinha. Sentou na cama e calçou os chinelos. e ainda de pijama e cabelo desgrenhado ligou para sua secretária.. Aliás. Acho que aconteceu alguma coisa. Vocês não viram? — Plínio. Vou cuidar disso agora mesmo. ainda não. a faxineira. A árvore ainda está lá. Morava no edifício Mota Neves.. tá bom. — Nessa madrugada não foi. — E quem atendeu o telefone? — gritou Plínio. marcado para tocar só dali a uma hora. Tentou chamar outro funcionário. Tá. Desloquei um caminhão. — E quem é você? — gritou Plínio outra vez. que era vizinha deles na rua Marcelina. Mas já que estava acordado mesmo. Plínio desligou o telefone. aquela parecia ser a família dos dentuços: os dois irmãos menores também usavam aparelho. A Tatá. seu dotô. — Mas EU DEI ORDEM! O que é que tem essa árvore? É de ferro. — Eu. dei ordem para quatro pessoas fazerem hora extra.Plínio olhava irritado para o despertador... e o quê? Se estou falando. E o assistente de sua secretária? Ah! Esse já havia chegado.. com cabelos castanhos. .

não tem japonês nenhum. — O japonês da quitanda? — perguntou Pedro. — Que raio de japonês. o cara que se amarrou na árvore.. — Você? — perguntou Valério. de 13 anos. de 9 anos. Parecia muito heroísmo por parte de "apenas" uma menina. tem o César. que ficou mais espantado ainda quando a garota contou a aventura noturna. Ele se amarrou na tipuana porque a prefeitura queria derrubar a árvore. só a gente pode fazer alguma coisa. — A gente viu na tevê. Só o caçula. — Nossa. — Agora. o Ígor. tem o Martim..Só o caçula. o Pedro. Vocês não viram na tevê . Que horas são. Valério. mamãe comentou comigo.. mas Zizi não achou a menor graça. sentou no chão para ouvir.. — Não. — de novo. . — É superimportante. Zizi já estava se irritando com a brincadeira do garoto. _ Quem vocês conhecem que não estuda de manhã? — Tem o Filipe. o Kanassa de Moura. — Não foi por enquanto — interrompeu Salviano. com quatro anos. só que a árvore não foi derrubada. como já fez — falava Zizi. ao lado de nosso prédio. — Aaaaaah. sim — falou Débora. o que a gente não pode é deixar a prefeitura atacar de surpresa... — Vocês ficaram sabendo do Kanassa. — O negócio é fazer um mutirão. se interessou pela novidade. preferiu ver televisão. mas o que foi de tão sério assim? — perguntou ela. Pedro. também estava interessado. Ele mora naquele sobrado. estava dispensado dos ferrinhos. poxa! — Ele qualquer hora despenca de lá e paf! Adeus Kanassa — gozou o Pedro... agora? Eram 8h45. reunir os amigos. — O japonês se amarrou na árvore.. logo após os três beijinhos no rosto da amiga. — E sabem por quê? Porque a Zizi não deixou. — Vamos juntar gente. — E também não dá pra ficar botando o Kanassa na árvore a toda hora. — Nós nem fomos na escola — falou Salviano..

tinha se achado uma idiota completa. E era bonito. já estava um rapaz. Tomava um cafezinho e ligava da sala de sua casa. de tarde acaba trazendo muita gente. Plínio não podia ver o homem. Foi. Suas ordens nunca eram desobedecidas. por causa de uma maldita árvore. *** Foi um liga-liga e o encontro de muitas vozes sonolentas. Bem mais alto que os outros garotos.. Zizi poucas vezes tivera a chance de conversar com ele. A gente foi lá de madrugada.Quando Valério tocou no nome do César.. até Plínio conseguir que Betão. tudo parecia voltar-se contra ele? — Não me interessa se o maluco voltou lá! Não me interessa.. nessas poucas vezes. com o coração batendo apressado. E nem que o maluco se enforque na árvore. Tão depressa como naquele momento em que Valério ligava para o amigo e ela ficava sabendo que logo o rapaz estaria lá. era loiro e de cabelo crespo. e gente traz jornalistas. César tinha 15 anos. — Está certo. Esta noite. É uma ordem. Zizi estremeceu. E por que agora. o encarregado daquela terrível tarefa "bota-abaixo". doutor. O raio do homem apareceu de novo.. ficasse na linha. Plínio já estava de calça e camisa. eram 3 horas da manhã. não me interessa. nem dormi esta noite. Entendeu? Betão limpou o suor da testa com a mão. mas se o visse saberia que sua sensível careca estava com muitas gotas de suor — essa parecia sua marca registrada quando ficava nervoso ou enfrentava problemas. suspirou tão fundo que o suspiro passou pelo fone. e. Para que hora eu convoco o pessoal? .. De madrugada. Ou melhor. Nem que vocês derrubem o cara a bala. mas de hoje essa árvore não passa. Doutor. era um homem há longos anos acostumado ao poder. Vocês vão lá esta tarde.. só que ainda sem gravata e paletó. Gostava do poder. e começa tudo de novo. gaguejando e falando bobagens. — Mas doutor.. O homem tá doido mesmo..

E César. não topava com o rapaz. E era ele mesmo. Tinha um jeito de índio ou de mexicano. *** A campainha e o coração de Zizi se agitaram no mesmo momento.. como se diante dele retornasse aos 9.. Ele era tão alto que a garota se achou uma menininha.. mas na verdade sua família vinha de uma mistura danada. apenas para puxar assunto. mas Martim. ou 2. — Você fez tudo isso. e sua maior vingança era encontrar os apelidos mais estranhos para os outros — e normalmente os apelidos que ele punha "pegavam". pra que a ordem seja cumprida. Ela sabia quem era: César. — Zizi — falou Zizi. — Eu tinha visto na tevê — continuou César.— Convoque pra meia-noite. É melhor às 2 horas. interrompeu a conversa: . César ia responder. só para ver a fachada do edifício. Só para ver se. Quantas vezes não espichava o trajeto. para desespero do "apelidado". mesmo? — Elisa — falou Valério. "por acaso". Pode deixar que a essa hora eu também vou pedir reforço policial. muito ouriçado. existia até uma avó chinesa. de pele muito branca. — Babá de madeira — falou Filipe. — Onde você mora? — perguntou Zizi. Ela sabia muito bem onde ele morava: era na rua Inácio. mas ninguém riu.. encarando Zizi. terceira paralela da Marcelina. de cabelos lisos e pretíssimos. Odiava que seus colegas o chamassem de "bicho de goiaba". mas não estava sozinho: no elevador. — falou César. era a paixão. Valério logo colocou os amigos por dentro das novidades.. 10 anos. havia topado com os outros colegas. — Mas nem lembrei que a rua Marcelina é perto de casa. Filipe era loiro. Assim vocês começam a trabalhar lá pela 1 hora. Filipe e Martim.. Martim era bem moreno. Aquele foi um dos raros apelidos que não "pegou". — Que coragem! Como é seu nome.

Estavam saindo quando tocou o telefone.. mas a senhora reparou.Era uma amiga da Débora: conversaram e acertaram que ela se incorporaria ao plano. a senhora sabe. — Aqui na porta do elevador. — Bom dia. foram dez... Zizi. Salviano estava bem visível. são novas regras para o uso do salão de festas. essa amiga aí. Martim. antes de seguirem para a casa de Kanassa. — Mas eu já li. — E André pegou suavemente no braço da mãe dos garotos. sim. quando ele viu Zizi e seu irmão na calçada. correndo junto com outros garotos.. Só podia ser alguma coisa relacionada com a árvore e com o estranho vizinho artista.. . — Ah. A amiga de Débora conchavou mais uma. Olha aqui.Bom. mas o colega de trabalho da noite o informou logo cedo.. na porta do elevador. um pouco mais à vontade por estar à frente de seu "paquera". o que nós temos de fazer? — Sabe o que eu acho? — disse Zizi.Salviano foi contando — eu. . Bolar um plano junto com ele. torcendo para que eles se afastassem logo.. Filipe. — Poxa.. o Kanassa. Na verdade. — Eu também vou! — gritou Ígor... então já somos. Débora e seus irmãos. — Precisamos conversar com o Kanassa. A senhora tem um minuto.. e toda a garotada se encontrou à porta do edifício Mota Neves.. Foi por isso que levou um susto quando viu Margarida aparecer à porta do elevador. ele sorriu. Por isso. dona Margarida? Eu queria mostrar aqui uma nova circular que o síndico pediu para mostrar....— A gente veio aqui pra beber ou pra conversar? — ele gozou com o slogan da propaganda de cerveja. *** André era o porteiro da manhã no edifício Cisne Azul. Ele não havia acompanhado a aventura noturna de Kanassa e sua jovem aliada.. começando a gostar da bagunça.. nove. mesmo se escondendo atrás de um poste.

Adolescentes. achando que o porteiro estava ficando maluco. Ufa! E toda a garotada na casa do Kanassa. — Ainda não. poderia ser confundida com uma boneca. — Voltaram pra derrubar a árvore? — perguntou Kanassa. O que é que tem. Ele não acreditou quando tocaram a campainha e aquele bando invadiu seu quintal. mas porque já tinha algum busto. Margarida saiu do elevador. Zizi ele já conhecia. — Oi.... nenhum sinal de garotada na calçada. prejudica a fachada do prédio e. — Garanto que minhas costas não acharam. com seus imensos olhos esverdeados e um nariz tão pequeno e delicado que. enfrentando com um blablablá apressado as muitas tentativas de Margarida sair dali. quem é? — Débora — respondeu a garota. Mas acho que eles não vão desistir.. mas não os seus amigos. estendendo a mão para Kanassa.. olhe. a senhora sabe. com 11 anos. — E você. e até usava sutiã. — Eu já li... — Estes são meus irmãos: Valério. Para alegria de André. Não sei por que essa tonta não me acordou. — Kanassa se divertia..E o porteiro apontava para um parágrafo qualquer da informação. já saindo pra rua.. — Nem eu — falou Salviano. é uma informação sobre.. Eu nem uso o salão de festas! — Mas veja aqui: é para não pendurar nada nas janelas. meninos. Kanassa recebeu outros sorrisos com aparelhos. tanto de Valério como de Pedro. André. com seu sorriso aparelhado. . se ficasse muito quieta tentando não respirar. Sou o irmão da Zizi. ou "Fafá de Belém" — não porque tivesse busto grande. — Oi — disse César — estendendo a mão para Kanassa... A outra era a Hebe. Pedro. — André! Eu já li isso! — E tem também aqui. olhando de um para outro. E as duas outras amigas de Débora também se apresentaram: a Fátima. — Não — falou Zizi. O baixinho aqui é o Ígor. Eu achei um barato o que vocês fizeram ontem. crianças.

A cidade tem tão pouca árvore. querendo se mostrar inteligente. mas não é um negócio que interesse só pra esta rua. mas concluiu que aquele não era o momento adequado para perguntar uma coisa que não interessava para salvar a árvore.. Bem. — Eu li no jornal o que o senhor fez e. — Quando li sobre o que você fez. eu me perguntei se valia a pena.. que ficou vermelha. outra lá.. então. fiquei muito contente. — É — ajudou Zizi. bem. eu fico. isso aqui já tem tão pouco verde... Zizi lembrou que ainda não sabia por que ele tinha um nome tão estranho. — Ele é o Kanassa. — Eu acho que árvore é importante para todo mundo — falou César. bastante surpreso ao saber que todos queriam ajudar. — Nada de senhor.. abrindo gavetas. pra aprender a se comportar. e todo mundo morre porque o gás carbônico vem e aaaargh. — Pessoal. Quer dizer.. um papo de ecologia. — Então fica sem nenhuma plantinha.. ontem. sentados pelo chão e sofá. Outros "nãos" também se ouviram. depois de dar uma piscada de olho para Zizi.. até comovido com esse interesse. mesmo. eu. Quando subi na árvore.Kanassa ficou olhando seus amigos mirins... mas não deixaram Pedro continuar o "sufocamento" por mais tempo. Derrubam uma aqui. apertando a garganta e se jogando no tapete.. interrompendo Kanassa.. até receber um tranco de Pedro. não esperava que a tipuana acabasse sendo tão importante para vocês também. mas exagerando na cena do sufoco mortal.. . — Isso não! — reclamou Zizi. fuçando nos potes. Aí não tem fotossíntese. Não sei. Martim quis saber de Kanassa como podiam ajudar.... Me chame de você. Ígor era o único que não ficava quieto. — É divertido ver vocês aqui.falou Pedro.. se eu não era um idiota. Era engraçado... eu acho que tem de ser uma coisa mais ampla. César continuou.. eu nem moro aqui. Ajudar como? Estavam na sala do sobrado.

. (Pedro ia reagir. Quero avisar que de hoje a árvore não passa. enquanto ele falava. quando a Zizi apareceu e a gente de novo impediu que a árvore fosse cortada.— Obrigado pela defesa deste "coroa" aqui. ficou andando por entre as crianças sentadas no chão e em almofadas. ou melhor.. sim. — Alô..) Bom. Como vocês estão agora. era uma mistura de sentimentos contraditórios que surgia. se é que se consegue isso. Não sei nem o que a gente pode fazer para salvar a àrvore. Plínio. a gente podia mudar alguma coisa. entendendo. unidos. um filho que morava em outro país. — Juanita. Kanassa começou a falar.. como se pudesse encontrar o filho Roger no brilho dos olhos daqueles garotos. eu comecei a achar algum sentido. Como se visse o filho em todos eles. Ele nunca havia se interessado muito por crianças. — Kanassa se levantou. a falar depressa. para falar com Juanita.. sozinho. Ajeitou o cabelo com a mão e se sentou no sofá. um calor subindo pelo peito. Juanita sorriu de um jeito tão sedutor que até parecia que o amigo podia vê-la. Eu me perguntava se valia a pena. mas um "pssssiu" decidido da sua irmã fez o garoto calar.. *** O próprio Plínio fez questão de discar para a casa do amigo Gregório. que teve como resposta um "vamos conseguir" gritado pelos amigos. um bicho. — A gente vai conseguir.. Não sei muito bem como se conversa com gente da idade de vocês. A turma estava. no meio de um silêncio profundo. — Juanita estalou os dedos para Maria. — Ah. que estava ali perto lustrando os móveis.. Mas de noite. Mas desse jeito. não vai? — perguntou Pedro. Tudo bem.. eu. — Olha. Eles vão cortar a tipuana de madrugada. aqui é o Plínio. Todos juntos. eu sabia que podíamos contar com você. de que vale a atitude de um só cara.. . — O que estou tentando dizer pra vocês é que me senti assim. pra salvar uma árvore. acho que temos de tentar. Uma emoção intensa foi tomando conta de Kanassa.

— Essa maldita árvore vai pro chão. Juanita. começar o trabalho do 1. Você já viu a publicidade que aquele idiota conseguiu ontem. Isso não é bom para mim. fique sossegado. (Leitura. O tal do Kanassa ia descobrir que não se pode ir contra o governo. — Maria. — Claro. Estava feliz. Não comente sobre isso. Resolveram. Era o prédio onde Pedro morava.. um pouco mais longe do sofá. pediu que a empregada alcançasse o maço de cigarros. Sorriso. Era uma Juanita muito contente consigo mesma que foi se aprontar para sair. fala que volto à tardinha. A enorme tipuana alcançava até o 3. — Eu não vou falar para ninguém. Naquela hora. com poucos automóveis. a rua Marcelina estava sossegada.. Se alguém ligar. Edifício Mota Neves. É melhor de madrugada. Não sei se a senhora acompanhou ontem pela tevê. Cada grupo tinha uma missão e precisava dar conta dela o mais rápido possível. Só prepare o jantar. eu vou até o clube.° andar. Andou até a janela. Desligou o telefone. Me dê a caneta.. — Toca campainha daquele lado.) Está bem. MULHER DO 1 — Deixa eu ver. senão o doido arma seu show de noite. *** Haviam se dividido em grupos. Acendeu o cigarro e depois moveu os braços numa ginástica improvisada.Com um gesto.° andar do edifício Cisne Azul. eu sabia que você ia conseguir. Mas no dia seguinte não ia estar mais ali. Eu não venho almoçar. Pedro e César. Isso é um abaixo-assinado e. Vai ser a que horas? De madrugada? — Por favor. Eu gosto de planta. mas a prefeitura quer derrubar a árvore aí da frente e nós não estamos querendo deixar. . eu toco desse — falou César para Pedro. número 187 da rua Marcelina. Sua sombra ia até o outro lado da rua.. então não teve dificuldade em entrar.° ao 6. Apartamento 1: CÉSAR — Minha senhora. bom dia. — Juanita pegou um cigarro.

— Ah! Eu vi sim toda a bagunça que aquele gajo esquisito arrumou. mas eu não assino nenhum tipo de abaixo-assinado.. MULHER DO 4 — Desculpe. MULHER DO 4 — Desculpe. — Então. Tinha um sorriso divertido para o entusiasmo das garotas. e por que iria querer? — Seu José cobrava um maço de cigarros de um homem. Hoje... Prefeitura.. a gente pode conseguir de outro jeito — falou Débora. Débora e Fafá conversavam com o dono. Foi um rebuliço e tanto. Sua mãe está? GAROTO DO 4 . que ficou prestando atenção na conversa. seu José. tá certo. — O senhor quer que derrubem a árvore? — perguntou Fafá.. — Então... . blablablá. mas só meus problemas já bastam. trepando na árvore. garoto. árvore. que começou a ler. meninas.. Bom dia.. Abaixo-assinado.. — Não. rodando-a na altura da orelha. passando o abaixo-assinado para o comerciante. esquina da rua Marcelina com a alameda Santo Onório.Manhêêêê! MULHER DO 4 — O que você quer? PEDRO — Blablablá. *** Padaria Flor do Bairro. mas foi um jeito de não deixar que cortassem a árvore ontem. PEDRO — Por quê? A senhora não acha uma besteira a prefeitura. ora pois. pra marcar a "doidice". — Posso ver isso? — perguntou o freguês... O Kanassa fez uma loucura. o gajo é doido.. pegando a folha da mão do padeiro. — Ah. Pra mim.Apartamento 4: PEDRO — Oi.. A gente não pode deixar que derrubem a árvore. — Seu José fez um gesto com a mão.

Tem algum botânico aí? — Escute... Zizi não tinha a menor vontade de ficar repetindo histórias. — Ela vai ver se acha um tal de Clóvis — falou Kanassa para a garota. Alguns instantes depois: ... daquelas que parecem proteger o papa. seu José assinou a folha. Piscou o olho para Kanassa.. é? E pra quê? A moça que atendeu tinha uma voz azeda. — Bom. deixa eu ver se o doutor Clóvis está na sala dele. eu falo com os fregueses. com a lista telefônica no colo. É da Faculdade de Botânica? — perguntou Zizi. Um momento. Podem deixar aqui o papel. — Não. é um assunto particular e científico.. Obrigada. — Bom dia.. — falou ele com seu vozeirão. — Eu sou o artista plástico Kanassa de Moura e minha secretária parece que não está conseguindo completar a ligação. que a ouvia atento. Depois.. — Olha. seu José! *** — Alô. — Eu queria falar com um botânico.— Eh.. minha senhora. — Deixa que eu assino. meninas.. tá bom. — Ah. tapando o bocal do fone. que só pode ser discutido com quem entende de plantas.. — O freguês colocou seu nome e endereço na folha em branco. tapando o bocal... Kanassa pegou o telefone. engraçadinha.. aqui é uma faculdade e se você acha que botânico é igual a planta. Sim. e os funcionários da padaria fizeram o mesmo. — Acho que não vai dar — falou Zizi para Kanassa. você. É fundamental eu conversar com algum cientista que possa me esclarecer uma dúvida a respeito de uma espécie vegetal. aqui é do setor de Botânica da Faculdade de Biologia. — De noite a gente vem buscar o papel.

Eu sei. Zizi não entendia muito bem aqueles traços e rostos diluídos pelas cores escuras. — Vamos tentar em outra faculdade. Lembro que eu estava muito deprimido quando pintei.. Deram um aperto forte. Que é que vocês estão pensando que esta faculdade é? Lugar de passar trote? — Senhor Clóvis. Algumas vezes.. e pronto. — Este aqui. com apenas o contorno de um rosto de homem e dois olhos brilhante brancos.. num gesto de força transmitir força.. Aproximou-se da garota e estendeu a mão. Os desenhos lhe passavam a idéia de tristeza.. Os dois foram até a cozinha. desenhos do Kanassa. . — Você é casado. foi com uma garota.. — Já fui. — parou de falar. não é uma piada. mas ela não gostava daquilo — não por serem modernos. é isso. por exemplo. Você quer? — Quero.. Era um sobrado muito bonito aquele. — Ele passou uma xícara para Zizi. Eu gosto de você.. Kanassa. Pelo fio do telefone. Esses caras pensam que eu sou doido.. O resto da turma tinha ido arranjar assinaturas.. irritado. Falou isso para Kanassa. Andou até uma pintura em azul-escuro. e passar bem... — Droga! — Kanassa bateu o fone. Não me interessa o que você está querendo. — Eu não acho que você é doido. Zizi. Era arte moderna. — O senhor é aquele pintorzinho querendo publicidade. Talvez numa faculdade particular.— Aqui é o professor Clóvis. Zizi olhava para Kanassa com seus olhos grandes e profundos. — Isso não está adiantando nada. — É. — Com a sua esposa.. O artista acabou sorrindo para ela. — Eu fiz café.. Eu sou. Muitas pinturas pelas paredes. sim. Apenas Zizi e Kanassa estavam na sala naquele momento. apenas o "zzzzzzim" de desligado. com as mãos abraçadas. — Talvez você entenda mais de pintura do que os críticos de arte. Tinha tido uma briga terrível com.

— Um só.. Um jeito de falar consigo mesmo. Por que você quer saber? — Não sei. Kanassa colocou pouco açúcar em sua xícara.. passou os dedos pelo cabelo grisalho. quando contou à garota sobre a caçada. O que entende da vida? Zizi pensou em dizer. a mesma expressão da noite anterior. que já tinha 14 anos. mas foi há tanto tempo. Hoje ele é moço. e depois do casamento. Parecia alguém diferente. — Você não passa de uma pirralhinha. Ele começou a andar pela cozinha. — Conheci Adele quando ela estava com 16 anos. como na véspera. Muitos medos. encarando o "enigma Kanassa". Está na Europa.. — Conhecer mais sobre mim? Para quê? — ele respirou fundo.. — Como é o nome dele? — Roger. apenas ouvir — tentar entender aquele homem cheio de histórias. Sabe quantas vezes eu vi o Roger? Sabe quantas? Umas. alguém que podia fazer coisas maravilhosas. estava na França. Tudo por causa de uma árvore! E eu nem gosto de crianças! — Isso não é verdade! — E o que é verdade? Hem? O que é? — Kanassa largou a xícara com força sobre a pia. ela se partiu. mas agia como se tivesse muitos mistérios. Gostava dele. Mesmo depois que o Roger nasceu as coisas não melhoraram. Só.... nada deu certo. Mora na França. Nós nos casamos contra a vontade da família dela. Nos olhos... Foi um caso de paixão. A gente brigava pra diabo.. mexeu devagar. como se fossem duas pessoas diferentes.. Zizi estava sentada à mesa. Eu tinha uma bolsa de estudos. dez vezes. fazer um discurso sobre Kanassa. Bem. eu voltei. Eu só queria conhecer mais sobre você. Mas preferiu ficar quieta. Do primeiro casamento. falando alto.— E tem filhos. me envolvendo com um bando de crianças. — Nem sei por que estou aqui. Ela ficou na Europa com o garoto.. Você ainda acredita no titio bonzinho? Hem? No Kanassa maravilha? .

deixando-os desarrumados.. muito eufóricos.... . pegando o dinheiro. mas tinha absoluta certeza de que aquilo era uma espécie de teatro. — Vivaaaa! — gritaram os três.) foram diminuindo. Como se a amizade de Zizi pudesse incomodá-lo. Sorriu para Zizi.Ele andava pela cozinha e passava os dedos pelos cabelos. — É. como se Kanassa não quisesse que as pessoas gostassem dele. Kanassa não teve tempo de responder. encarou bem dentro dos olhos escuros de Zizi. César e Pedro invadiram a cozinha. Não entendia bem a mudança de comportamento. O negócio é conseguir muitas assinaturas. Vamos comprar mais papel almaço e cartolina. você está com medo. — E eu vou com você — disse César. — Só no edifício Mota Neves a gente recolheu 30 assinaturas! Kanassa olhava os nomes das pessoas. para afastá-la. Que está gostando da gente. — Olhem! Nós conseguimos! As duas listas estão cheias! – gritou Pedro. medo? E do quê? — De descobrir que você gosta de crianças. tanta gente que também acreditava nele. Zizi sentiu de novo o rosto ficando vermelho. e você sabe muito bem. depois olhou o rosto vermelho de César. o sorriso com ferrinhos nos dentes de Pedro... Kanassa. Kanassa suspirou. — Pode deixar que eu vou à papelaria — falou Zizi. Havia motivos para lutar. Ergueu os olhos dos papéis. também se preocupava em salvar a àrvore. . . Levando a sério uma doidice dessas. Os sentimentos de dúvida dentro dele. — Kanassa. e ele agora quisesse se mostrar mau. Estavam suados e muito. Não é doidice. sentou-se também à mesa. como é importante o que a gente está fazendo.Eu acho que estou é louco. Pegou uma colher e ficou dando pancadinhas distraídas na toalha..Eu. — Não é isso.. isso sim. enquanto Kanassa ia buscar dinheiro. de medo (e como Zizi tinha adivinhado seus medos. Zizi o olhava fixamente.

ontem. com estantes cheias de livros em todas as paredes.. E hoje você não tem mais aulas. com a atitude do artista.. — Hummmmm. — Iiiiih. É uma longa história. rua Marcelina. — Vocês querem um ajudante? — perguntou o professor. venha cá. uma moça simpática sorriu para eles e depois voltou à cozinha. apartamento 21. — Legal. a gente. Um bebê brincava no tapete... Salviano conhecia muito bem aquela pessoa. reparando no uniforme do aluno "cabulador". — Claro que sim! . É uma forma de pressionar o prefeito. o que é tão importante que vocês fugiram da aula hoje? Salviano mostrou o abaixo-assinado. Mas não continuaram.. — Por que você também não ajuda os meninos. — Pois não? — Sabe o que é. Deixa eu assinar — falou ela. — E quem está ajudando vocês? Os garotos explicaram o esquema.. número 20. que lecionava na escola dele. professor. — Salviano! O que você está fazendo aqui? Você não tem aula? — perguntou Osmar. Era um apartamento simples. O bebê engatinhou para ela e acabou no seu colo. Osmar? Você ficou tão entusiasmado. — Bom. Quem atendeu foi o professor Osmar. Gostei do Kanassa. Salviano e Valério tocaram a campainha. — A idéia do abaixo-assinado é muito boa..*** Edifício George Washington. Osmar pediu que os garotos entrassem.. — A moça se aproximou.. já com algumas assinaturas. o mutirão. sorriu.. Clarice. Venha ver o que esses danados estão aprontando. Eu vi na tevê. pegando a caneta. E aquela pessoa também o conhecia. decidido. leu o cabeçalho do abaixo-assinado. é amigo de vocês? — É — falou Valério.

. depois propõem mais uma coisa.. fique endeusando o Kanassa. E depois. como seria natural falar "bom dia" a uma pessoa conhecida. era um doce mormaço. porque "não diz respeito". — Eu acho que ele está com medo de gostar de nós — concluiu a garota. César era o tipo de rapaz que sabia o que queria.. eu até entendo esse medo dele. — Ele tem uma vida muito solitária. mas não sorriu. não começa a mudar isso. e parecia tão absolutamente natural que os dois se dessem as mãos.. Os dois continuavam de mãos dadas. amanhã põem uma lei nova.. Zizi. Se a gente. Zizi concordou com ele. Bem. Aquilo de querer transformar todo mundo em uma coisa só. .. comum. Ficaram contentes quando a balconista contou que já havia assinado uma lista.. um movimento. debochado. César ia separando muitas folhas de papel almaço e conversando com Zizi: — As pessoas ficam nessa de "isso não me interessa". Ele quer que a gente perceba que ele é um cara normal. César reparou nisso: — O que foi? Vocês brigaram? Zizi contou sobre a reação de Kanassa. Saíram da casa de Kanassa de mãos dadas. muito. não muda nunca. — Você fala de um jeito legal.*** Zizi sempre achou que há algo de ridículo nos uniformes. — Mas claro! Só que ele tem de perceber também que podemos gostar dele sem transformar o Kanassa num super-herói. a multidão de camisas brancas e saias azuis. o que ele havia dito sobre o filho.. — O Kanassa é mesmo um cara legal — falou César. César diminuiu o passo. — É. para Zizi. É muita responsabilidade liderar alguma coisa. Porque hoje derrubam uma árvore. Haviam chegado à loja. Mas ao lado de César não se mostrava constrangida. e ninguém faz nada. que é jovem. — E isso não é legal. "aquilo não me diz respeito" — imitou César. De um jeito mágico e saboroso. eu acho que ele também tem medo de que a gente. Eles se conheciam. suas dúvidas. César. O calor das palmas.

porque um trinco de ferro a impedia de abrir completamente. Quando eles pararam de falar. da árvore e coisa e tal. Ficou sério. muito. Eles só viram o rosto moreno de uma moça usando uniforme. mas abaixou a mão e falou. — E por quê? O que ela tem contra a árvore? . A patroa tava falando com os amigos dela. como se estivesse vendo dois malucosmirins. apartamento 4. Ela ficou vermelha e virou o rosto. Depois suspirou: — O raio dessa árvore tá dando mais rolo que num sei o quê. só para ela ouvir: — Gosto de você. — Cortar a árvore? Ela pediu uma coisa dessas? — Hebe não conseguia compreender que motivo uma pessoa teria para fazer uma maldade dessas... Foi ela que pediu pra cortar a árvore. — Mas como é que sua patroa podia saber disso? — Filipe estava ainda mais pálido. Passou os dedos pelo seu cabelo loiro. número 151. A empregada ficou em silêncio durante a explicação. Mas César não riu nem continuou a discutir sobre a participação das pessoas. A patroa num tá não. rua Marcelina. Estavam desistindo quando a porta foi entreaberta. — E por que bobagem? Dona. depois ia encostar nos cabelos de Zizi. Mas se eu fosse vocês largava mão dessa bobagem. como se isso ainda fosse possível para ele.Os olhos claros do rapaz olharam bem dentro dos olhos de Zizi. — Ah. dona Juanita é casada com político.. falou que hoje de madrugada vão botar a árvore abaixo. O papel tremia em sua mão. Filipe e Hebe esperaram muito tempo. se a gente. *** Edifício Mayflower. achar que era uma garota boba. menino. Chegaram até a tocar a campainha de novo.. Zizi. — Num adianta não. andar. — Pois não? Explicaram do abaixo-assinado. ela ainda ficou quieta um bom tempo. muito baixo. mas era verdade. Que droga de ficar vermelha! Ele ainda ia rir dela. 4. menino.

— É que as flores sujam o carro dela. César continuou tocando o queixo da garota. — Eu não quero ficar em casa! Eu não quero ficar longe de você. Zizi? — Ela segurava os rolos de cartolina mal-embrulhados com dificuldade. aquele flash de tempo. do seu irmão. até ouvirem os gritos de Débora. ou de mim? O vermelho estava tão intenso no rosto da garota. — Zizi. quando César se aproximava de Zizi.. eu tenho de entrar. e eles só enxergavam os próprios rostos e só ouviam as batidas dos próprios corações. — O que foi. parando à porta do edifício Cisne Azul. vindo do estômago. ela queria o beijo. e a garota de uniforme escolar.. queria sentir os lábios de César tocando os seus. *** — É melhor você levar as coisas pra casa do Kanassa — falou Zizi para César. — Você tem de conversar com ela.. quase derrubando a papelada. . Zizi não tinha a menor idéia do que dizer. O rosto de César foi-se aproximando.. e depois corrigiu. E suavemente pressionou para que ela erguesse os olhos para ele. quebrando a magia. Ela fechou os olhos. Era um jeito de sonho. do Kanassa. Não sei se ela vai topar essa luta da gente. O rapaz alto. De todos vocês. devagar.. Fala que ele é doido. Foi um instante de magia.. de vocês? Quer dizer. — É a hora que a gente costuma voltar da escola. parados na frente do edifício. o calor subia pelo rosto. porque seria um beijo. Ela não gosta do Kanassa.. César segurou seu queixo. mais vermelha do que nunca — de vocês. — É minha mãe. Mas não adiantou disfarçar.... — ela falou antes de pensar. — E se eu contar a verdade e ela não me deixar sair de casa? Os dois ficaram em silêncio.. Zizi abaixou os olhos e não precisou dizer nada para que César percebesse que ela estava preocupada. segurando um monte de papéis. segundos de tempo que pararam de andar. do coração..

até o português da padaria está colaborando.. Ele ficou de se encontrar com a gente na casa do Kanassa! — falou Osmar. Um menino joga o pombo para o alto e o atirador dispara. Enfiou uma lista nas mãos de Zizi e continuou falando: — Tó. César! Tem muito trabalho pela frente. ganha pontos. *** Valério e Salviano "passavam bem" na casa do professor Osmar. olhando fixamente seus ombros fortes se afastarem ao lado de Débora. Clarice ia dando a sopa para a filhinha. Pode crer que sabe brigar pela natureza... Clarice fez questão de que almoçassem todos juntos e havia caprichado na comida. Pede pro pessoal de sua casa assinar. que horror! — Aquilo tirou um pouco o apetite de Salviano. — Não só as árvores — Osmar ia se servindo e falando. que insistia em cuspir tudo. repetindo a porção de purê. Zizi ficou ainda parada na calçada. — Mas isso não é proibido? . — Pombos VIVOS? — espantou-se Valério. César piscou o olho para Zizi e seguiu a apressada Débora até a casa do artista. e por aí vai. — Grupo ecológico protege as árvores? — perguntou Valério. Zizi. sem perceber que havia interrompido alguma coisa muito importante. sentando-se à mesa. Já enchemos várias listas. como impedir que se usassem pombos vivos numa competição de tiro.. de boca cheia. a colaboração do português da padaria. . existem clubes de tiro que fazem competição com pombos. — Nossa.— Como vocês demoraram! A gente precisa fazer mais listas — falou Débora. — Como assim? — É. Se matar o pombo. — Ele é filiado a um grupo ecológico. — Esse grupo de meu amigo já conseguiu coisas muito importantes.Já liguei pra um amigo meu. — Ele vai ajudar? — perguntou Salviano. hipnotizada pelo vulto do rapaz. E vambora. — e foi falando sobre as listas assinadas. que começou a comer mais devagar. ajudando César rapidamente a carregar os papéis.

O que vocês estão aprontando. Tinha visto César e Zizi à porta. erguendo a rechonchuda Gabi. que insistia em cuspir metade do almoço. mas sempre participamos.. sim. o governo não estava conseguindo impedir a matança.. Agora é bom vocês irem comendo logo. — Ela ficou uma graça com a camiseta de "Salvem as Baleias". inventando que o irmão tinha ido estudar na casa de um amigo. ou falava a verdade. acenando com a cabeça. Como pombo não é selvagem. — Nem eu nem a Clarice somos filiados.. — Até a Gabi já participou de passeata — brincou Clarice.. — Vou falar. quando a gente pode ajudar. a legislação protege a fauna selvagem. — Só quando chegaram jornalistas é que eles pararam de fazer ameaças. fosse alguém tão envolvido com uma causa ecológica.. Tinha visto bastante coisa. você tem de contar mais dessas coisas nas salas de aula. — Escute.. Vocês vêem. — Puxa! Como tem coisa pra gente participar. — Osmar. — Por muito pouco os homens do clube de tiro não atiraram na gente — falou Clarice. hem? — Como assim? O porteiro sorriu para a garota. . — Você também estava lá? — Salviano estava surpreso. Estava bastante dividida: ou mentia à mãe. que concordou. Mas foi uma briga e tanto. Não imaginava que o professor sério..— Existem alguns absurdos. Lá no colégio o pessoal nem imagina que aconteça isso. de voz rouca e com fama de "durão". olhando para Valério. pra gente sair. E se dissesse a verdade e a mãe a proibisse de sair? André chamou por ela. — suspirou Salviano.. Zizi. e também inventava um pretexto pra continuar agindo. O grupo a que meu amigo pertence conseguiu impedir um campeonato se baseando numa lei sobre crueldade contra animais... * * * Zizi continuou parada na portado edifício Cisne Azul.

Seu amigo. mas. — Olha. Nas mãos de meninos e meninas. — Parece que vocês adivinharam nosso problema — falou um sorridente Kanassa.. Faz o seguinte. Gazeteando aula. Como César também tivera. preferiu subir os dois andares pela escada. Zizi suspirou. que é porteiro de um edifício no bairro. Meu horário termina daqui a pouco. ficava uma cabeça mais baixo que Kanassa. Crianças telefonavam. vejo se alguém assina. a gente só quer salvar a árvore. eu também tô do lado do Kanassa. Sílvio era biólogo. Entendeu? — Huuuuummm. tão logo foi apresentado aos dois professores. — Mas tem uma coisa. listas de abaixoassinados chegavam e saíam. Zizi. — André... já esperava por eles. — Parece que todos os botânicos do mundo estão fugindo de mim! — falou Kanassa.. — Se muita gente ficar contra. ele tinha razão.— Foi uma luta eu esconder de sua mãe que você e o Salviano estavam na rua. eu sei que isso tá complicado. sentado em seu automóvel. você é bárbaro! — Zizi abraçou o porteiro. ele quebra esse galho.. Zizi suspirou e nem esperou o elevador. — André. transformada em "operação de guerra": crianças escreviam cartazes de protesto contra a prefeitura. e . O portão do sobrado estava escancarado.. além de participante do grupo ecológico. Não acha? É.. Como Margarida iria reagir? *** O professor Osmar chegou à casa de Kanassa acompanhado de Salviano e Valério. mesmo assim. Olhe! — mostrou o abaixo-assinado para ele. Conta pra sua mãe. estendendo a mão para os dois homens. E tem um amigo meu. eu vou pros apartamentos. a prefeitura desiste. — Vai ser pior se ela descobre depois. Sílvio era alto.. Entraram na sala do sobrado. tá bem? — E se ela. mas. — André foi lendo o cabeçalho. que sorria para ela. o também professor Sílvio. Deixa essa lista aqui.

se algum desinformado passasse por ali certamente ia pensar que a casa de kanassa era uma escola infantil. Até o Ígor ajudava. Ele não sabia escrever, mas era o "botador" de pingos nos is dos cartazes contra a derrubada da árvore. — Vai ser um prazer ajudar. O Osmar aqui já me contou mais ou menos o que vocês estão tramando... — Nunca pensei que me amarrar numa árvore fosse dar nessa maluquice! — sorriu Kanassa, apontando para a dezena de crianças trabalhando. Fora as que estavam na rua, coletando assinaturas. — Eu acabei de observar a árvore — falou Sílvio. É uma tipuana absolutamente saudável. Se alguém da prefeitura está alegando que a árvore ameaça cair logo, isso é mentira. — Puxa, é bom ouvir um especialista dizer isso — falou Kanassa. — Ninguém disse que a árvore pode cair, mas não duvido que a prefeitura invente alguma coisa assim. — Eles não alegaram nenhum motivo! — exclamou Osmar. — É isso que me intriga. A prefeitura não sai por aí botando árvores abaixo, sem justificativa. — A árvore não atrapalha nenhuma garagem — completou Sílvio. — Não oferece risco de cair. Pra que cortar. — Kanassa! Kanassa! — Filipe gritava e corria. Hebe estava logo atrás dele. — A gente... — pegou fôlego — a gente descobriu por que querem derrubar a árvore! — É! — falou Hebe, também sem fôlego. — E a gente descobriu quem é que quer botar a árvore pra baixo! E vai ser hoje. *** Mesa posta, panelas tampadas. O prato vazio no lugar onde Salviano deveria estar sentado. Margarida tinha se servido, mas não comia. Zizi tinha fome, mas também mal tocava na comida, ouvindo a lengalenga da mãe.

— Isso passou dos limites, Zizi! Você fugir de casa à noite... — Eu não fugi — falou a garota, mas a mãe não queria interrupções. — FUGIU, sim! Senão, por que não acordou a gente. Por que não contou, hoje de manhã, sobre a árvore. E que coisa mais doida, você dando minha almofada pra aquele louco se encostar melhor. Zizi suspirou e deixou Margarida continuar o desabafo. Conhecia a mãe. Era bem de seu temperamento estourar, gritar, falar depressa. Mas, geralmente, quando tinha desabafado tudo o que queria, era boa ouvinte. E, muitas vezes, aceitava a crítica. Zizi confiava que dessa vez também acontecesse isso. — Mãe... — falou Zizi, quando Margarida fez uma pausa na conversa e se serviu de uma colherada de arroz. — Tá bom, eu errei. Você tem razão, eu não devia ter escondido. Também não foi legal ter faltado na aula. Eu concordo com você. Mas mãe... pense bem. Se a gente fica sempre nessa coisa de "não me diz respeito"... "eu não tenho nada com isso"... — imitou um jeito debochado de falar. Num estalo, lembrou que usava o mesmo argumento de César. O querido César. — Poxa, mãe... A árvore é derrubada, cada um pode fazer o que quiser porque ninguém faz nada contra... Hoje é uma árvore, amanhã é um imposto, depois de amanhã é o aumento de um negócio ou outro. A gente precisa agir junto, se unir. — Isso é coisa daquele tal Kanassa, não é? O que ele é, comunista? — MÃE! Não fala bobagem! Não é coisa do Kanassa, é coisa da gente — do César, principalmente. Zizi pensou nisso, mas não falou. — Ele só se amarrou na árvore, mas quem foi procurar por ele, quem foi sacando que não podia deixar as coisas assim, fomos nós. Eu, a Débora, os irmãos dela. E tem lá na casa dele um montão de crianças, mãe. Todo mundo está ajudando... Até o dono da padaria botou um abaixo-assinado na padaria dele. — O seu José. Aquele português fominha. Margarida não gostava do comerciante, desconfiava que ele roubava no troco. Era um preconceito dela contra comerciantes; e, agora, saber que mesmo o "fominha" estava dando uma força... Ele podia ser menos interesseiro do que parecia.

— É, mãe. A Débora foi lá e ele topou assinar, está dando a maior força. Você não entende. A gente está conseguindo que todo mundo participe. Não é só um problema com a árvore, é muito mais. Margarida deu uma garfada na comida, agora morna. Zizi acompanhou o gesto da mãe, mas como a fome era grande deu várias garfadas apressadas. — Ah, eu não sei se isso vai dar certo. Se isso não é arrumar sarna pra se coçar... A campainha tocou, não daquele jeito normal, um plim-plom educado. Não. Alguém se pendurava na campainha, numa sinfonia maluca, com os pliiii-plim-plim-plom-plom e mais notas musicais, a ponto de ensurdecer o dono do apartamento. — JÁ VOU! — gritou Margarida, indo depressa até a porta. Salviano e Valério invadiram o apartamento, suados e vermelhos, sem falar oi, sem pedir licença nem nada, passaram pela sala, encontraram Zizi ainda à mesa e já a estavam puxando pelo braço: — Depressa, tem uma reunião na casa do Kanassa! — A gente descobriu, entendeu. — gritava Valério. — Vai ser hoje, de madrugada! — gritou Salviano. - PAREM – foi preciso Margarida dar um grito para os meninos calarem. — Contem direito essa história. — Mãe, o pessoal descobriu... Quem mandou cortar a árvore foi a vizinha da frente, a dona Juanita. Ela é amiga de uns caras da prefeitura, uns caras importantes — falou Salviano. — E sabe por que ela quer cortar a árvore? — Valério fez um segundo de silêncio, "curtindo" o suspense e os rostos curiosos de Margarida e Zizi. — Porque a tipuana solta flor. E as flores sujam o carro dela. O Monza preto. — Nããããão... —A expressão de Margarida era de profundo espanto. Para ela, até agora, a derrubada da árvore só se explicaria por algum motivo correto: ameaçava cair, era perigosa... Imaginar que a tipuana viria abaixo só por capricho de uma madame sem garagem... — O Kanassa convocou uma reunião geral — falou Salviano. — A gente tem de encontrar o resto da turma. Vamos, Zizi!

— Então pode ir. isso pode ser coisa de maluco. Tinha feito sauna.. Margarida se pôs à frente da porta. passando abaixo-assinado. dizendo que já havia almoçado. Maria? — Não.. vocês três vão comer alguma coisa. já pegando o telefone. E terceiro: esperem eu me trocar que também vou nessa reunião — Margarida sorriu. Queria falar com o marido. — Salviano tentou protestar. O suspense era tão grande que se poderia ler a aflição deles no brilho dos olhos. e o rosto normalmente corado da mulher estava um tanto mais vermelho. — Primeiro. Política é só pra quem entende. senhora. . — Isso. — Estou curiosa pra ver o que o Kanassa tem a dizer. e você também. Juanita se preocupou com outra possibilidade: — Você não assinou. — Segundo: Zizi vai tirar o uniforme. Só uns meninos. essa coisa de fazer bagunça. senhora. Nunca assine nada. de comunista. Salviano. não. *** Juanita voltou pra casa às 17 horas.. O abraço que Margarida recebeu dos três foi tão forte que ela teve de se apoiar na porta. Não adianta mais me tapear.Os três já estavam na porta do apartamento. Maria.. quando Margarida deu o grito: — PAREM! Três pares de olhos a encararam do jeito mais desiludido do mundo. fingindo que foram pra escola. Já temperou o frango? — Sim. Sua expressão era feliz. Não se mete nisso. Essas coisas de abaixo-assinado. que é pra não sujar. é? — Juanita jogou a bolsa sobre o sofá. ameaçando sair.. senhora. — Abaixo-assinado. é um perigo. Maria? — Não.. — E sobre o que era? — Mas antes de Maria responder. mas o gesto de mão de Margarida impediu. — Alguma novidade.

— Nossa chance de vitória é ficarmos quietos. Maiores que seguravam menores no colo. E a garotada. *** Na sala do sobrado. eram risadinhas nervosas de quem está se divertindo. Na maioria. Cada um tem de ir para casa e esperar.. assinados por mais e mais gente: gente que se encontrava na sala. o porteiro André e seu amigo do outro edifício. crianças. rubricas e endereços. Talvez mesmo desse de ombros — o assunto nada tinha a ver com ela. na reunião. agora. Talvez tivesse realmente esquecido de contar que os garotos protegiam a árvore. . azuis. Pessoas que uniam sua caneta e sua esperança na vitória contra a derrubada de uma árvore. de pé. Pedro. Papéis que se amontoavam pelos cantos. eles contavam com um grande aliado: o fato de saberem a hora em que a prefeitura ia agir. na casa de Kanassa.. mas estavam lá também alguns adultos: o professor Osmar e seu amigo Sílvio. Era gente. uma tipuana que tinha feito um crime terrível. um representante de entidade ecológica. e todos os outros. muita gente. Até agora. que tinha sido avisado por Sílvio. poltronas. é que ela nada contou à patroa. sentada em almofadas. alguns com os dedos manchados de tinta. Martim. de defesa do verde. amigos de amigos. uma multidão de gente. um motivo pra brigar. Hebe. toda a participação de vocês foi muito importante. crime a ser punido com a derrubada: o de parir flores amarelas. Naquele momento. Margarida. gente que havia descoberto uma causa nova. Valério. todo o barulho que vocês fizeram. Salviano. César. Zizi. sob a forma de nomes. Eram olhos castanhos. ou que aderia há muito tempo a uma idéia de união. Fafá. — Vocês entenderam? — Apesar de tanta gente. conhecidos distantes ou vizinhos. Aquele mundo de rostos de muitas idades e jeitos: Débora. Mas. O mais importante. era rosto sério de quem esperava enfrentar uma guerra. o silêncio era quase completo enquanto Kanassa falava.Talvez Maria não entendesse mesmo de política ou de abaixo-assinados. outros com o cabelo suarento de tanto correr atrás de assinaturas. entretanto. Flores amarelas que sujavam o Monza preto de uma madame. nossa arma é o silêncio.

Estranhando profundamente o silêncio e a ausência de gente.. encontrou sim: a louça suja do almoço. Era como se entre eles houvesse uma cumplicidade que a multidão não conseguia interromper. esperava que Margarida já estivesse com o jantar pronto. sentindo-se uma idiota. porque eles sabiam uma coisa que ninguém mais poderia saber. "Sins". "okays" e bastante barulho foi a resposta. Apenas o barulho do motor da geladeira. O apartamento estava escuro. sentia-se dentro dos olhos claros de César. curtindo o prazer da vitória. as panelas de comida sobre a mesa.Saber esperar é tão importante quanto saber brigar. E também seria normal se Zizi estivesse discutindo com o irmão ou no telefone. Ou melhor. e ainda assim sozinhos. Sabia também que os olhos do rapaz não se fixavam unicamente em Kanassa. Margarida detestava largar serviço por fazer. Nada disso acontecia. E sorriam. Juca foi à cozinha. mas não encontrou nada. e sabiam disso sem precisar de palavras. E Zizi também fazia isso. agitada e nervosa. o eco marcando o final da frase: "Tem alguém em casa?". Deveria haver um bilhete. Só isso. E. Normalmente encontraria o filho vendo tevê num volume altíssimo. com milhares de pessoas em volta. Estava ao lado de César.. como sempre. o mais completo silêncio o recebia. sorria para ela. mas virava-se para Zizi. *** Juca chegou à hora de sempre. — Ninguém tem dúvida? Tudo certo? — perguntou Kanassa. e não ficava como nas outras vezes. César ouvia as palavras do artista. Eles sabiam o que deviam fazer. Precisavam esperar. . às vezes com um ou dois colegas. Dentro do peito. nas longuíssimas conversas com as amigas. E isso era ainda mais estranho. havia uma felicidade tranqüila. Como se eles pudessem estar na arquibancada do Maracanã. Era a hora da despedida. Zizi se sentia feliz. Como se uma eletricidade envolvesse os dois e os isolasse do resto do mundo. e também não havia pressa. O pessoal foi se levantando e falando e rindo.

parece que os pensamentos podem ser lidos. O que é isso? Margarida e Salviano entraram. — Margarida! E a Zizi? Margarida parou na porta da cozinha.. Talvez estivessem se sentindo daquele jeito que só os apaixonados ficam. Juca veio atrás dela. você enlouqueceu? Agora você também. e ambos olhavam para a tipuana. Um RAPAZ. Margarida? — Juca viu que a esposa não o ajudava muito. Juca foi ao quarto. *** Eram 8 horas da noite. Uma tranqüila quarta-feira. — Estava preocupado. Mas para Zizi e César era possível ver. quando ouviu a chave virando na fechadura. carregados de cartazes feitos em cartolina. o que está acontecendo? — Iiiiiih. . É melhor você ligar e encomendar uma pizza. Onde vocês. na porta do edifício.. é claro. andou de novo pela casa. apressado: — Hoje não tem jantar. vestiu o short e a camiseta. pai. Os dois ficavam de mãos dadas.. Depois do banho.. Estavam encostados na grade do prédio. comeu. Estava jogando o miolo da maçã fora. quem sabe a família aparecia. Apenas pelo outro. a rua Marcelina estava em silêncio. Uma noite estrelada — na medida em que a gente pode enxergar estrelas numa cidade poluída e cheia de prédios.. O nome KANASSA aparecia em muitos deles. achou melhor tomar um banho. Acabou catando uma maçã da fruteira. — MARGARIDA! O que deu em vocês? Juca pegou um dos cartazes.... poderia pensar qualquer pessoa que não soubesse dos acontecimentos. respondeu e entrou: — Está lá embaixo com um rapaz...Depois. — Salviano. E o jantar? Margarida foi direto à cozinha. De um jeito que não precisa falar muito. É melhor você sentar que a história vai looooonge. leu: — KANASSA TEM RAZÃO! VAMOS DIZER NÃO!. estava curioso.. um céu estrelado. Margarida. sim. ligou a tevê.. Margarida. com um zumbido nos ouvidos e um sorriso bobo nos lábios. — Com O QUÊ. virou para o filho.. Diacho! Estava com fome.

A grande tipuana. a senhora talvez não saiba do perigo que está correndo. De um jeito apertado. ficam mais bonitas. é importante a senhora continuar viva. Zizi começou a falar: — Dona Tipuana. A gente não pode derrubar tudo só porque a gente quer. — Tem gente que fala com planta. César sorriu para Zizi. ela abaixou os olhos e continuou falando: — Eu nunca pensei muito sobre as árvores. como ambos haviam feito com a árvore. um tronco cheio de riscos e pequenos buracos. que sujam o carro de uma madame. sobre a natureza. a senhora teria morrido. caminhos para as formigas e para a água da chuva. César interrompeu: — E se não fosse também pela coragem de uma garota chamada Zizi. Um abraço apertado. César passou os braços em torno do corpo de Zizi.mas ele não deixou. Os dois continuaram de mãos dadas e uniram seus corpos ao corpo da árvore. Depois. Zizi encostou a mão no tronco. E como testemunha e cúmplice dessa magia. E os lábios de César se aproximaram dos de Zizi. Mas sempre gostei da senhora. finalmente se tocando. o encontro de dois corpos que começavam a se entender e a se gostar. César segurou o queixo da garota. E estavam um diante do outro. Com uma mão apoiada na árvore e outra grudada na de César. Nunca os olhos grandes de Zizi pareceram tão grandes e tão iluminados. É porque a senhora tem flores amarelas. se você conversar com elas. a senhora ontem mesmo já teria virado madeira. a senhora é dona da rua.— Será que ela sabe que está sendo a causa de tanta bagunça? — Talvez — falou César.. se desprenderam do tronco. e não nós. Se não fosse por um homem chamado Kanassa de Moura.. viu? Zizi quis soltar a mão da mão de César. — Vamos tentar? Ainda e sempre de mãos dadas. dando um abraço em seu tronco. Então. olha. E eu sei. dona Tipuana. Sabe. a árvore. feliz. dona Tipuana. César e Zizi se aproximaram da árvore. *** . mesmo sem dar muita atenção a isso. Diz que elas crescem mais. Depois. Ela pensa que pode matar uma árvore só por causa disso. Um abraço.

na madrugada de quarta para quinta-feira. O caminhão fez um pouco mais de barulho. aqueles que se apertam nos bares e nas boates. com os olhos cheios de sono e as pernas cheias de pressa. O logotipo da prefeitura desenhado na porta. indicava que era um carro da polícia. Dois homens na carrocería. depois que as luzes das casas e apartamentos começam a se apagar e o silêncio do sono vai percorrendo as ruas. Primeiro. a cidade noturna está silenciosa e escura. ainda mais porque o silêncio do local acentuava o ronco do motor e do escapamento. A rua Marcelina fazia parte dessa cidade noturna. Existe aquela que desperta às 6 ou 7 horas da manhã. Mas. Aquela que se aperta nos ônibus e trens. — Dessa vez a gente consegue. Era cinza. que vive dentro de milhares de pessoas pelas ruas. poucos carros e um ou outro morador. na maior parte. e o luminoso da capota. Eles pegavam as ferramentas com cuidado — não pelo valor dos objetos. ajeitando um boné na careca. Serra elétrica. Aquela que só começa a existir depois que a multidão se vai. serrotes e cordas foram descidos do caminhão. E existe a outra. A iluminação fazia sombras azuladas e ninguém caminhava pela pequena rua. um fusca estacionou bem em frente do edifício Mayflower. Era lh40. ali sim. comprando e vendendo. Essa outra cidade tem ruas vazias de gente e pouco barulho.Existem duas cidades dentro de uma. — Vamos logo — falou Betão. — Se essa árvore hoje não for pro chão. . dois homens na cabine. que tem um horário para o serviço. mas para não fazer barulho. Os outros dois homens desceram depressa. acho que cai é o emprego da gente — falou o mulato para os ajudantes. que boceja no volante dos automóveis. apenas o frio comum às madrugadas. Não havia vento. Os galhos da tipuana faziam a sombra ser ainda mais acentuada naquele trecho. locais onde a noite é alegre. marcando compromissos e virando multidão. mesmo desligado. tem uma aula ou uma prova.

com uma arma. tinham tudo a ver: VIVA O VERDE! ABAIXO OS CARROS! A PREFEITURA . que saíam dos prédios. E as janelas se abriram: havia dezenas. mesmo sem citar o nome da mulher. balançando cartazes. iluminavam e coloriam a rua Marcelina. Os policiais tentaram ajudar os funcionários. mas nem conseguiam chegar à árvore. todos os gritos. espantadíssimos.Não conseguiram. E logo o caminhão estava envolvido por aquela multidão. a voz forte de Kanassa se fez ouvir: — SURPRESA! — falou para Betão. pelo amor de Deus! O que é isso? Bem diante do edifício Mayflower havia cartazes: JUANITA. mesmo quem não havia ficado sabendo dos abaixoassinados ou da reunião acabou acordando e abrindo janelas. E gritos. ele não esquece mais na vida: as luzes se acenderam imediatamente. Com tanto barulho. gritos. mais nervoso e violento. em vozes de homens. crianças. explicando sobre tipuanas e botânica. iluminando a rua e a árvore com lanternas e velas. por uma chuva de "nãos" e "vivas". centenas de pessoas nas janelas. mulheres. Olha o que tem de criança aqui! Ninguém encostava a mão nos funcionários. e logo mais duas ou três crianças subiram também na árvore. Sílvio grudou num dos policiais. sentaram-se ao lado de Kanassa. mas teve que guardá-la depois que Juca gritou: — Você está louco. mas o medo deles era tão grande que os quatro haviam subido na carroceria. Foi o caso de Juanita e Gregório. VENDE O CARRO. De cima da árvore. comandadas pela voz de Kanassa. e assustados com tanta gritaria e papelada. modificando o visual plena madrugada. — Greg. pessoal! E o que Betão viu. soltando fogos. E depois gritou para os edifícios da rua: — É agora. tentou abrir caminho ameaçando as pessoas. — KANASSA TEM RAZÃO! A ÁRVORE NÃO CAI NÃO! — VAMOS SALVAR A ÁRVORE! — VIVA O VERDE! Os funcionários se viram envolvidos por papéis. eram pessoas que gritavam das janelas. A ÁRVORE É MAIS IMPORTANTE QUE O CARRO DA JUANITA e outros que. sem saber como o "louco" da árvore tinha conseguido contagiar uma multidão. Outro.

abraçado a uma garota. misturada com cartazes. embaixo da árvore. Ia "caçando" aqueles seus amigos recentes. Kanassa. acabou chegando pra saber o que acontecia. O grupo de músicos de uma boate resolveu aderir.ASSASSINA O VERDE. Com tanto barulho. E um dos vizinhos colocou o som no máximo. pediram licença para os quatro apavoradíssimos funcionários e foram — ao vivo — acompanhando a música de carnaval que saía da vitrola. à porta do edifício. gritando contra as pessoas. que a mulher primeiro ficou histérica. tocando música de carnaval. para lhe dar um calmante. Aqueles dois dias tinham sido os mais intensos de toda sua vida. sentado na árvore ao lado de Salviano e Pedro. porque era uma festa fora de hora. . Viu Juca e Margarida.. dançando no improvisado carnaval. ajudado por Fafá e Débora. mas muito importante. Tinha gente que não sabia mais se ali se comemorava um aniversário ou se fazia um protesto. Toda sua arte lhe parecia menor diante da possibilidade de ser o detonador de um movimento tão importante. Kanassa não conseguia ouvir o que Salviano dizia. E gente que estava nos bares e boates acabou aparecendo. Também a padaria abriu fora de hora e começou a vender cerveja. Depois começou a chorar enquanto gritava. muitas crianças foram entrevistadas. E viu também Zizi e César. rádio e jornalistas. Viu Valério e Hebe na janela de um apartamento.. tão importantes para a vitória: localizou o porteiro André. gritos e risadas. E começaram a dançar. tão verdadeiro. Subiram na carroceria do caminhão da prefeitura. Viu Martim amarrando uma faixa num poste. Viu o professor Osmar. E logo chegaram tevê. e só restou ao marido fechar a janela e ligar correndo para um médico. abraçados de um jeito muito feliz. E eram tantos e tanta gente. porque era muita alegria. se dando um beijo. de outras ruas. sem camisa. ali mesmo de sua janela. o Sílvio deu um depoimento botanicamente importante. com dificuldade para soltar um rojão. muito mais do que quando fazia exposições ou viajava ao exterior. sorria. jogando papel picado. E as listas de assinaturas foram mostradas. logo ali. Apenas abraçava os garotos e ia olhando. Mais gente.

Primeiro.. em voz alta. Sabia que o entusiasmo das pessoas precisaria ser renovado. — Hum. — dizia Plínio. — SÃO. SERIA INADMISSÍVEL QUE MANDASSE COR- . — Psiu — falou Margarida. Aquele acabou sendo um feriado inesperado. Foram dormir quando o sol já estava alto e ninguém foi trabalhar ou à escola. EU NÃO NEGO. Kanassa de Moura tomou uma decisão... no noticiário das 16 horas. mas ele ficou. — O MOVIMENTO EM TORNO DO ABAIXO-ASSINADO SE DEU DEVIDO À FORTE PARTICIPAÇÃO DAS CRIANÇAS EM DEFESA DA TIPUANA DA RUA MARCELINA.. para Margarida ouvir a notícia de jornal. sentado no galho da tipuana. E ali. que a união conseguida precisaria prosseguir.... que no dia seguinte eles precisariam ir até a prefeitura entregar as assinaturas. Sabia que ainda não havia vencido completamente. mas que outros ataques poderiam acontecer — não só contra aquela árvore.. MAS EU SOU ADMINISTRADOR DE UMA ÁREA DA CIDADE. — MAS GREGÓRIO E JUANITA SÃO SEUS AMIGOS. mas contra a natureza. E de Kanassa. Sabia que podiam ter vencido hoje. E agora. então é esse o "mandante do crime".E Kanassa sorria. Depois. — insistia a repórter. — A nossa Zizi acabou virando líder. — leu Juca. — falou Juca. em qualquer outro lugar... para ver a entrevista. LIDEROU O MOVIMENTO. DE 14 ANOS.. uma decisão muito importante. apareceu uma entrevista com Plínio. Pedro e Salviano desceram da árvore para participar da farra.. a jornalista relembrou os fatos: falou sobre Kanassa amarrado à árvore. a orgulhosa mãe de Zizi queria saber da filha. — Vai começar o noticiário. Apenas sorria. E de Salviano. A MENINA ELISA RANGEL. ajeitando-se no sofá. mostrou cenas gravadas naquela ocasião. ajeitando a tevê. — INSISTO EM DIZER QUE É UMA CALÚNIA AFIRMAREMQUE DEI ORDEM DE CORTAR A ÁRVORE APENAS POR FAVOR PESSOAL.

. fazendo uma careta. — O prefeito não sabia de nada. — Margarida havia votado nele. a gente tem de pensar se não é por um bom motivo. Juca. — Foi o administrador. ao lado de Zizi e Salviano. — Mas quem escolheu o administrador foi ele. Aí eu me perguntei: Será que é louco mesmo? Só porque não deixou que cortassem a árvore? Então eu acho isso muito importante. Apareceu o comercial. e depois nós encontramos um outro jeito. A segunda parte da reportagem se passava na porta do apartamento 4 do edifício Mayflower. porque se uma pessoa age de um jeito diferente. — A Zizi estava uma gracinha — falou a orgulhosa Margarida. — ESSE É UM EXEMPLO CÍVICO QUE DEVE SER RESPEITADO — falou o prefeito. — Psiu. desde que juntasse bastante gente.. — Eu não cumprimento mais essa mulher. *** ... entregava pessoalmente ao prefeito as milhares de assinaturas contra a derrubada da árvore. olhe! REPÓRTER — E por que você começou a ajudar o Kanassa.. — Agora vem aí posar de bonzinho. — Cínico! — falou Margarida.TAR UMA ÁRVORE APENAS POR CAUSA DO CAPRICHO DA ESPOSA DE UM AMIGO... — É outro safado — falou Juca. O Kanassa só fez aquilo pra proteger a tipuana. Elisa? ZIZI — Porque todo mundo falava que ele era louco. E depois veio a parte tão esperada pelos pais dos garotos: a hora em que Kanassa. A repórter falou da porta. E detestava imaginar que tinha estragado seu voto.. — A maluca chata agora deu no pé — falou Margarida. era louco. mas você. — Bom. porque A EMPREGADA DISSE QUE O CASAL GREGÓRIO E JUANITA NÃO SE ENCONTRA E NÃO PRETENDE DAR ENTREVISTAS. fazendo pose para a câmera.

É sobre você. não? — Falou.Com você como presidenta de honra — falou Kanassa. Quero ver. . .. não como filho.. para o jardim do sobrado. — Vai ser só por uns meses. Tinha prometido regar as plantas todos os dias.. O sobrado ia ser reformado e iria virar uma entidade de preservação da natureza. ajudando-o a cobrir os móveis com lençóis e a guardar os objetos mais frágeis.. com 14 anos. eu sei que está fazendo as coisas certas. conversar com ele..Não. sentir este Brasil. diacho! Eu não consigo deixar de ficar triste. Zizi. viajar. já! — Zizi. Zizi estava na casa do artista. a gente pensa diferente.E depois vem a Fundação Kanassa.. Kanassa havia escrito para Roger.. — Meses! Se fosse só uma semana eu já estava com saudade. Kanassa. explicado coisas que não se explicam. E você fala "meses" como se fosse assim. Depois de uma certa idade. Estou sentindo que começa uma nova fase pra mim. Eu falei com o Roger sobre isto. e agora vinha o encontro.. Falou que gostaria de conhecer o filho. contado sobre a árvore. pra minha pintura.... o tempo parece tão comprido.— Pena que você vai viajar. E depois. Eu te falei da carta. mas viu que a garota continuava triste e distante.. Aproximou-se dela.. Eu sei que você está feliz. a não ser quando alguém toma decisões importantes. Roger havia respondido de um jeito muito legal. seu tonto.. — Durante um mês eu vou estar na França. Quero ficar com meu filho. — Zizi também sabia dessa parte dos planos.. suas cores. Conhecer o Brasil. mas. mas como amigo. Sabia que a decisão de Kanassa era importante. Colocar isso nas telas.. olhando pela janela. Zizi ficou olhando pela janela. é que. mas a saudade já incomodava. — O que é? Brigou com o César? . — Depois nós voltamos para o Brasil. .

Kanassa.. — Tá bom. é isso que faz as pessoas interessantes. Você é uma filha. mas logo outras duas apareciam. quando se lembrou. por que eu fico triste? Por que eu penso em mim. Havia passado um mês desde a "Guerra da Tipuana". deu pra ver que era César. — ela murmurou. Eu sempre associei esse "trazer o fogo" com o fato de ser artista. — Vá passear com ele. achando estranhamente feia a casa esvaziada de objetos e com alguns lençóis tapando móveis. — Vai ver.. Lembrou que.. — Meu pai gostava dos índios e me deu um nome indígena. Abraçou Zizi. como alguns jornais chamaram o movimento. Kanassa e Zizi continuaram abraçados. Gente é essa contradição. Zizi tentou sorrir. Kanassa. Outro abraço. Zizi estava virando a maçaneta. — Kanassa. em vez de pensar no que é melhor para você? — Zizi. mesmo tendo conversado tantas e tantas vezes com Kanassa.. — Ah. — Kanassa passava os dedos pelo cabelo comprido da menina. Você não imagina como ficou importante para mim.. — Sim. dessa vez menos triste.. Zizi. — Sabe que eu nunca perguntei por que você tem esse nome. Gente é muito complicada. Deixa que eu cuido do resto — falou Kanassa.. e agora deixava o cabelão solto nas costas. Kanassa limpou uma das lágrimas.Duas lágrimas se penduravam nos olhos da garota. até ouvirem a campainha.. Da janela. É uma espécie de deus.. Ele largou o abajur que estava embrulhando e olhou para ela. nunca havia perguntado sobre aquilo. — Nossa. e me orgulhava de meu nome por . sabe? Por decisão minha. Ela esfregava os olhos. — Poxa. que trouxe o fogo para os índios.. Ela havia desistido de prendê-lo. só que mesmo assim as lágrimas continuaram molhando o peito do homem. porque é assim mesmo. Se eu sei que você está certo. Zizi caminhou até a porta.

com/ . ainda ficaram olhando a rua.manuloureiro.. a "chama da arte" — ele falou em tom brincalhão. e Kanassa ficou um bom tempo ali. Antes de irem para a casa de Zizi.romancessobrenaturais-loureiro. César sabia que a namorada tinha motivos para ficar triste.blogspot.com/ http://www.. — Kanassa. abraçados. Visite nossos blogs: http://www. — Mas depois dessa briga pela árvore.loureiromania. que nunca havia florido tanto como naquela primavera.romancesdeepoca-loureiro. No edifício Mayflower. Zizi depois olhou para o sobrado. seu abraço.blogspot. Boa viagem. deus do fogo. O casal acenou de volta.. vendo os dois se afastarem. acenando para eles. Pela calçada. viu Kanassa na janela de cima.com/ http://www..blogspot. Zizi abriu a porta e recebeu o beijo delicado de César.livros-loureiro.blogspot. dezenas de flores amarelas pareciam mostrar a alegria da tipuana. guerreiro. a placa de "Vende-se" indicava a derrota definitiva de Juanita. eu acho que prefiro "botar fogo" em outras coisas. Tchau.isso.com/ http://www.com/ http://www.blogspot. É bonito. — Tchau.

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