G r a n d e S e r t ã o : V e r e d a s J o ã o G u i m a r ã e s R o s a

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GUIMARÃES ROSA

GRANDE SERTÃO: VEREDAS

EDITORA NOVA AGUILAR 1994

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

PRIMEIRA E DIÇÃO, 1994 BIBLIOTECA LUSO-BRASILEIRA SÉRIE BRASILEIRA

JOÃO GUIMARÃES R OSA FICÇÃO COMPLETA
EM DOIS VOLUMES

VOLUME II

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

– NONADA. TIROS QUE O SENHOR ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu –; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas,
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almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte. Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele – dizem só: o Que-Diga. Vote! não... Quem muito se evita, se convive. Sentença num Aristides – o que existe no buritizal primeiro desta minha mão direita, chamado a Vereda-da-Vaca-Mansa-deSanta-Rita – todo o mundo crê: ele não pode passar em três lugares, designados: porque então a gente escuta um chorinho, atrás, e uma vozinha que avisando: – “Eu já vou! Eu já vou!...” – que é o capiroto, o que-diga... E um José Simpilício – quem qualquer daqui jura ele tem um capeta em casa, miúdo satanazim, preso obrigado a ajudar em toda ganância que executa; razão que o Simpilício se empresa em vias de completar de rico. Apre, por isso dizem também que a besta pra ele rupeia, nega de banda, não deixando, quando ele quer amontar... Superstição. José Simpilício e Aristides, mesmo estão se engordando, de assim não-ouvir ou ouvir. Ainda o senhor estude: agora mesmo, nestes dias de época, tem gente porfalando que o Diabo próprio parou, de passagem,
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no Andrequicé. Um Moço de fora, teria aparecido, e lá se louvou que, para aqui vir – normal, a cavalo, dum dia-e-meio – ele era capaz que só com uns vinte minutos bastava... porque costeava o Rio do Chico pelas cabeceiras! Ou, também, quem sabe – sem ofensas – não terá sido, por um exemplo, até mesmo o senhor quem se anunciou assim, quando passou por lá, por prazido divertimento engraçado? Há-de, não me dê crime, sei que não foi. E mal eu não quis. Só que uma pergunta, em hora, às vezes, clareia razão de paz. Mas, o senhor entenda: o tal moço, se há, quis mangar. Pois, hem, que, despontar o Rio pelas nascentes, será a mesma coisa que um se redobrar nos internos deste nosso Estado nosso, custante viagem de uns três meses... Então? QueDiga? Doideira. A fantasiação. E, o respeito de dar a ele assim esses nomes de rebuço, é que é mesmo um querer invocar que ele forme forma, com as presenças! Não seja. Eu, pessoalmente, quase que já perdi nele a crença, mercês a Deus; é o que ao senhor lhe digo, à puridade. Sei que é bem estabelecido, que grassa nos Santos-Evangelhos. Em ocasião, conversei com um rapaz seminarista, muito condizente, conferindo no livro de rezas e revestido de paramenta, com uma vara de maria-preta na mão – proseou que ia adjutorar o padre, para extraírem o Cujo, do corpo vivo de
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uma velha, na Cachoeira-dos-Bois, ele ia com o vigário do Campo-Redondo... Me concebo. O senhor não é como eu? Não acreditei patavim. Compadre meu Quelemém descreve que o que revela efeito são os baixos espíritos descarnados, de terceira, fuzuando nas piores trevas e com ânsias de se travarem com os viventes – dão encosto. Compadre meu Quelemém é quem muito me consola – Quelemém de Góis. Mas ele tem de morar longe daqui, na Jijujã, Vereda do Buriti Pardo... Arres, me deixe lá, que – em endemoninhamento ou com encosto – o senhor mesmo deverá de ter conhecido diversos, homens, mulheres. Pois não sim? Por mim, tantos vi, que aprendi. Rincha-Mãe, Sangued’Outro, o Muitos-Beiços, o Rasgaem-Baixo, Faca-Fria, o Fancho-Bode, um Treciziano, o Azinhavre... o Hermógenes... Deles, punhadão. Se eu pudesse esquecer tantos nomes... Não sou amansador de cavalos! E, mesmo, quem de si de ser jagunço se entrete, já é por alguma competência entrante do demônio. Será não? Será? De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de dificel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro, não fantaseia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo
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existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso... Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco – é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso – por estúrdio que me vejam – é de minha certa importância. Tomara não fosse... Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela-já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar... Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças – eu digo. Pois não é ditado: “menino – trem do diabo”? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes. ... O diabo na rua, no meio do redemunho...
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Hem? Hem? Ah. Figuração minha, de pior pra trás, as certas lembranças. Mal haja-me! Sofro pena de contar não... Melhor, se arrepare: pois, num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá a mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma estranhez? A mandioca-doce pode de repente virar azangada – motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas – vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas. E, ora veja: a outra, a mandiocabrava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal. E que isso é? Eh, o senhor já viu, por ver, a feiúra de ódio franzido, carantonho, nas faces duma cobra cascavel? Observou o porco gordo, cada dia mais feliz bruto, capaz de, pudesse, roncar e engolir por sua suja comodidade o mundo todo? E gavião, corvo, alguns, as feições deles já representam a precisão de talhar para adiante, rasgar e estraçalhar a bico, parece uma quicé muito afiada por ruim desejo. Tudo. Tem até tortas raças de pedras, horrorosas, venenosas – que estragam mortal a água, se estão jazendo em fundo de poço; o diabo dentro delas dorme: são o demo. Se sabe? E o demo – que é só assim o significado dum azougue maligno – tem ordem de seguir o caminho dele, tem licença para campear?! Arre, ele está misturado em tudo.
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Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente, aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor – compadre meu Quelemém, diz. Família. Deveras? É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é... Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses. Só que tem os depois – e Deus, junto. Vi muitas nuvens. Mas, em verdade, filho, também, abranda. Olhe: um chamado Aleixo, residente a légua do Passo do Pubo, no daAreia, era o homem de maiores ruindades calmas que já se viu. Me agradou que perto da casa dele tinha um açudinho, entre as palmeiras, com traíras, pra-almas de enormes, desenormes, ao real, que receberam fama; o Aleixo dava de comer a elas, em horas justas, elas se acostumaram a se assim das locas, para papar, semelhavam ser peixes ensinados. Um dia, só por graça rústica, ele matou um velhinho que por lá passou, desvalido rogando esmola. O senhor não duvide – tem gente, neste aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta... Eh, pois, empós, o resto o senhor prove: vem o pão, vem a mão, vem o são, vem o cão. Esse Aleixo era homem afamilhado, tinha filhos pequenos; aqueles eram o amor dele, todo, despropósito. Dê bem, que não nem um ano estava passado, de se matar o
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velhinho pobre, e os meninos do Aleixo aí adoeceram. Andaço de sarampão, se disse, mas complicado; eles nunca saravam. Quando, então, sararam. Mas os olhos deles vermelhavam altos, numa inflama de sapiranga à rebelde; e susseguinte – o que não sei é se foram todos duma vez, ou um logo e logo outro e outro – eles restaram cegos. Cegos, sem remissão dum favinho de luz dessa nossa! O senhor imagine: uma escadinha – três meninos e uma menina – todos cegados. Sem remediável. O Aleixo não perdeu o juizo; mas mudou: ah, demudou completo – agora vive da banda de Deus, suando para ser bom e caridoso em todas suas horas da noite e do dia. Parece até que ficou o feliz, que antes não era. Ele mesmo diz que foi um homem de sorte, porque Deus quis ter pena dele, transformar para lá o rumo de sua alma. Isso eu ouvi, e me deu raiva. Razão das crianças. Se sendo castigo, que culpa das hajas do Aleixo aqueles meninozinhos tinham?! Compadre meu Quelemém reprovou minhas incertezas. Que, por certo, noutra vida revirada, os meninos também tinham sido os mais malvados, da massa e peça do pai, demônios do mesmo caldeirão de lugar. Senhor o que acha? E o velhinho assassinado? – eu sei que o senhor vai discutir. Pois, também. Em ordem que ele tinha um pecado de crime, no
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corpo, por pagar. Se a gente – conforme compadre meu Quelemém é quem diz – se a gente torna a encarnar renovado, eu cismo até que inimigo de morte pode vir como filho do inimigo. Mire veja: se me digo, tem um sujeito Pedro Pindó, vizinho daqui mais seis léguas, homem de bem por tudo em tudo, ele e a mulher dele, sempre sidos bons, de bem. Eles têm um filho duns dez anos, chamado Valtei – nome moderno, é o que o povo daqui agora apreceia, o senhor sabe. Pois essezinho, essezim, desde que algum entendimento alumiou nele, feito mostrou o que é: pedido madrasto, azedo queimador, gostoso de ruim de dentro do fundo das espécies de sua natureza. Em qual que judia, ao devagar, de todo bicho ou criaçãozinha pequena que pega; uma vez, encontrou uma crioula bentabêbada dormindo, arranjou um caco de garrafa, lanhou em três pontos a popa da perna dela. O que esse menino babeja vendo, é sangrarem galinha ou esfaquear porco. – “Eu gosto de matar...” – uma ocasião ele pequenino me disse. Abriu em mim um susto; porque: passarinho que se debruça – o vôo já está pronto! Pois, o senhor vigie: o pai, Pedro Pindó, modo de corrigir isso, e a mãe, dão nele, de miséria e mastro – botam o menino sem comer, amarram em árvores no terreiro, ele nu nuelo, mesmo em junho frio, lavram o corpinho dele na peia e na taca, depois limpam a pele do sangue, com cuia de salmoura.
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A gente sabe, espia, fica gasturado. O menino já rebaixou de magreza, os olhos entrando, carinha de ossos, encaveirada, e entisicou, o tempo todo tosse, tossura da que puxa secos peitos. Arre, que agora, visível, o Pindó e a mulher se habituaram de nele bater, de pouquinho em pouquim foram criando nisso um prazer feio de diversão – como regulam as sovas em horas certas confortáveis, até chamam gente para ver o exemplo bom. Acho que esse menino não dura, já está no blimbilim, não chega para a quaresma que vem... Uê-uê, então?! Não sendo como compadre meu Quelemém quer, que explicação é que o senhor dava? Aquele menino tinha sido homem. Devia, em balanço, terríveis perversidades. Alma dele estava no breu. Mostrava. E, agora, pagava. Ah, mas, acontece, quando está chorando e penando, ele sofre igual que se fosse um menino bonzinho... Ave, vi de tudo, neste mundo! lá vi até cavalo com soluço... – o que é a coisa mais custosa que há. Bem, mas o senhor dirá, deve de: e no começo – para pecados e artes, as pessoas – como por que foi que tanto emendado se começou? Ei, ei, aí todos esbarram. Compadre meu Quelemém, também. Sou só um sertanejo, nessas altas idéias navego mal. Sou muito pobre coitado. Inveja minha pura é de uns conforme o senhor, com toda leitura e suma
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doutoração. Não é que eu esteja analfabeto. Soletrei, anos e meio, meante cartilha, memória e palmatória. Tive mestre, Mestre Lucas, no Curralinho, decorei gramática, as operações, regra-de-três, até geografia e estudo pátrio. Em folhas grandes de papel, com capricho tracei bonitos mapas. Ah, não é por falar: mas, desde o começo, me achavam sofismado de ladino. E que eu merecia de ir para cursar latim, em Aula Régia – que também diziam. Tempo saudoso! Inda hoje, apreceio um bom livro, despaçado. Na fazenda O Limãozinho, de um meu amigo Vito Soziano, se assina desse almanaque grosso, de logogrifos e charadas e outras divididas matérias, todo ano vem. Em tanto, ponho primazia é na leitura proveitosa, vida de santo, virtudes e exemplos – missionário esperto engambelando os índios, ou São Francisco de Assis, Santo Antônio, São Geraldo... Eu gosto muito de moral. Raciocinar, exortar os outros para o bom caminho, aconselhar a justo. Minha mulher, que o senhor sabe, zela por mim: muito reza. Ela é uma abençoável. Compadre meu Quelemém sempre diz que eu posso aquietar meu temer de consciência, que sendo bem-assistido, terríveis bons-espíritos me protegem. Ipe! Com gosto... Como é de são efeito, ajudo com meu querer acreditar. Mas nem sempre posso. O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Diverjo de todo o mundo... Eu
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quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre – o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém! Olhe: o que devia de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem o definitivo a noção – proclamar por uma vez, artes assembléias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim, davam tranqüilidade boa à gente. Por que o Governo não cuida?! Ah, eu sei que não é possível. Não me assente o senhor por beócio. Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias... Tanta gente – dá susto de saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons... De sorte que carece de se escolher: ou a gente se tece de viver no safado comum, ou cuida só de religião só. Eu podia ser: padre sacerdote, se não chefe de jagunços; para outras coisas não fui parido. Mas minha velhice já principiou, errei de toda conta. E o reumatismo... Lá como quem diz: nas escorvas. Ahã.

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Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-omundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar – o tempo todo. Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégios, invariável. E eu! Bofe! Detesto! O que sou? – o que faço, que quero, muito curial. E em cara de todos faço, executado. Eu não tresmalho! Olhe: tem uma preta, Maria Leôncia, longe daqui não mora, as rezas dela afamam muita virtude de poder. Pois a ela pago, todo mês – encomenda de rezar por mim um terço, todo santo dia, e, nos domingos, um rosário. Vale, se vale. Minha mulher não vê mal nisso. E estou, já mandei recado para uma
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outra, do Vau-Vau, uma Izina Calanga, para vir aqui, ouvi de que reza também com grandes meremerências, vou efetuar com ela trato igual. Quero punhado dessas, me defendendo em Deus, reunidas de mim em volta... Chagas de Cristo! Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo. Montante, o mais supro, mais sério – foi Medeiro Vaz. Que um homem antigo... Seu Joãozinho BemBem, o mais bravo de todos, ninguém nunca pôde decifrar como ele por dentro consistia. Joca Ramiro – grande homem príncipe! – era político. Zé-Bebelo quis ser político, mas teve e não teve sorte: raposa que demorou. Só Candelário se endiabrou, por pensar que estava com doença má. Titão Passos era o pelo preço de amigos: só por via deles, de suas mesmas amizades, foi que tão alto se ajagunçou. Antônio Dó – severo bandido. Mas por metade; grande maior metade que seja. Andalécio, no fundo, um bom homem-de-bem, estouvado raivoso em sua toda justiça. Ricardão, mesmo, queria era ser rico em paz: para isso guerreava. Só o Hermógenes foi que nasceu formado tigre, e assassim. E o “Urutu-Branco”? Ah, não me
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primeiro tive o estrito de me desbancar para – 17 – . defronte.Grande Sertão: Veredas fale. Pra quê? Deixa: bobo com bobo – um dia. um pingado de pimenta.João Guimarães Rosa . de que tanto um era ruim. lá em Sete-Lagoas. tristonho levado. terminam por as espinheiras se quebrar – Deus espera essa gastança.. esse. que. não me sombrearem por jagunço antigo.. e em carro de primeira.. Por enquanto. fui. Ah.. de nome me indicado. por mais auxiliar. voltando deste brabo Norte. Se gasteja. que eu penso. Haja? Pois. Antesmente preciso. delegado profissional. no meio. conforme. perto mesmo de mim. O contrário. um secreta. Até as pedras do fundo. neste mundo. Moço!: Deus é paciência. que o riachinho rola. tudo quanto há. Vinha com um capanga dele. como o outro ruim era. por via das dúvidas. às vezes. e eu bem sabia os dois. eu lhe dizia: o ruim com o ruim. de trem. é porque se merece e carece. Vai e acontece. O senhor ouvia. Deus espalha. que foi – que era um pobre menino do destino. Só que. algum estala e aprende: esperta. Tão bem. A verdade que diga. um moço Jazevedão. não arrocha o regulamento. tomou assento. por um exemplo: faz tempo. vão-se arredondinhando lisas. Fui vestido bem.. uma dá na outra.. O senhor rela faca em faca – e afia – que se raspam. Deus não se comparece com refe. para partes de consultar um médico. é o diabo.

melhor ficasse. reluzia um cru nos olhos pequenos. as meias-palavras encrespadas. olhei. Aquela aplicação de trabalho. atendendo. sentado junto. Até as solas dos sapatos dele – só vendo – que solas duras grossas. Daí. e bufava. Uma hora. baixo. mas só no bobo do corpo. presa pontuda de guará. e entreguei a ele. não pensei – até hoje crio vergonha disso – apanhei o papel do chão. Arre. Me fez um receio. e armava um queixo de pedra. sobrancelhonas. falando ou calado. um poucadinho. parecendo ferro bronze.João Guimarães Rosa . O secreta. Só rosneava curto. Como que era urco. sei lá mesmo por que. Não ria. a gente via sempre dele algum dente. não quis. mas aí já estava feito. historiando a papelada – uma a uma as folhas com retratos e com os pretos dos dedos de jagunços. todo perto. não demedia nem testa. trouxo de atarracado. Juízo me disse. não se riu nem uma vez. dobradas de enormes. O homem nem me olhou. digo: eu tive mais raiva. quando prendia alguém. Vinha reolhando. mas. a primeira quieta coisa que – 18 – . Porque eu sabia: esse Jazevedão. não no interno das coragens. xereta. E – lhe falo: nunca vi cara de homem fornecida de bruteza e maldade mais. ladrões de cavalos e criminosos de morte.Grande Sertão: Veredas um longe dali. porque fiz aquilo. do que nesse. caprichando de ser cão. Pois. ficando. mudar de meu lugar. nem disse nenhum agradecimento. uma daquelas laudas caiu – e eu me abaixei depressa. gerava a ira na gente. numa coisa dessas.

precisava? Ah.. Pois. Haja que. por este simples universozinho nosso aqui. depois – negócio particular dele – nesta vida ou na outra.. Mas. Couro ruim é que chama ferrão de ponta. descamba em seu tempo de penar. devia de ter. Senhor pensa que Antônio Dó ou Olivino Oliviano iam ficar bonzinhos por pura soletração de si... quando vier. osga! Entreguei a ele a folha de papel. digo: Jazevedão – um assim. cumprido o que tinha.. dava. o senhor nem tem calo em coração para poder me escutar. cada Jazevedão. precisa.João Guimarães Rosa . Mas só do modo.. com as astúcias. sem ter que dizer. Com minha brandura. desses. e ia pisava em cima dos pés descalços dos coitados. até pagar o que deveu – compadre meu Quelemém está aí. Tanto. fingia umas pressas.. para fiscalizar. ou por – 19 – . e fui saindo de lá. E ele umbigava um princípio de barriga barriguda.. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte. por ter mão em mim de não destruir a tiros aquele sujeito. que me criou desejos. alegre que eu matava.. Carnes que muito pesavam. Deus mesmo. também. por feio instrumento. foi que a jagunçada se findou. as barbaridades que esse delegado fez e aconteceu. Sertão.Grande Sertão: Veredas procedia era que vinha entrando. O senhor sabe: o perigo que é viver. Conseguiu de muito homem e mulher chorar sangue. E que nessas ocasiões dava gargalhadas.. que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal.

Umas duas ou três balas se cravaram na borraina da minha sela. no ribeirão Traçadal. nem sei em que rompe-tempo desatei o cabresto. o medo da gente se sai ao inteiro. ou por sempre ouvir sermão de padre? Te acho! Nos visos. vindo. levantava os braços que nem esgalho de jatobá seco. dá-que.” Ele almou? Nós desigualamos. dá-que. Agüentamos hora mais hora. O cerrado estrondava. Aí. Trape por meu cavalo – que achei – pulei em meu assento. Bala vinha. de bote. perfuraram de arrancar – 20 – . só deponho de um: chamado Joé Cazuzo – foi em arraso de um tirotei’. feito burro bruto. e fechavam para riba de nós o pessoal dum Coronel Adalvino.. no resplandor do Céu. Voei.. e já dávamos quase de cercados. de amarrado em pé de pau.” Gritava não esbarrava. aquele Joé Cazuzo – homem muito valente – se ajoelhou giro no chão do cerrado. e só gritava.Grande Sertão: Veredas rogo dos infelizes.João Guimarães Rosa . com seus filhos de Anjos!. que depois ficou capitão. com muitos soldados fardados no meio centro. comando do Tenente Reis Leme. forte político. urro claro e urro surdo: – “Eu vi a Virgem Nossa. p’ra cima do lugar Serra-Nova. Eu podia escoicear. A gente fazia má minoria pequena. De jagunço comportado ativo para se arrepender no meio de suas jagunçadas.. distrito de Rio-Pardo. um medo propositado.. – “Eu vi a Virgem!.. No mato..

João Guimarães Rosa . Existia cobra nenhuma. entre em mim e a aba da jereba! Tempos loucos. sempre me agarrava – rolava mesmo assim: depois – depois. abraçado em folhagens grossas. nos dedos. de folhas vivas que puxei e masgalhei. Pousei no capim do fundo – e um bicho escuro deu um repulão. sei: pensa no dono. Cavalo estremece em pró. Baleado veio também o surrão que eu tinha nas costas. Aonde? Atravessei aquilo. feito eu estava pendurado em teião de aranha. Eu podia me largar... E outra. e eu já caindo para diante. quando olhei minhas mãos. espichei tudo. Eu não cabia de estar mais bem encolhido. de fuzil.. fui. sem me ferir. rolava para o oco de um grotão fechado de moitas. morto quiçá. me molhou meu cansaço. para fugir.Grande Sertão: Veredas quase muita a paina do encheio. também doido de susto: que era um papa-mel. era um amasso verde. então ali não tinha cobra.. em meio de galope. com poucas minhas coisas. De medo em ânsia. que me balançaram e espetavam. Tomei o lugar dele.. E um pedacinho de pensamento: se aquele bicho irara tinha jazido lá.. ramada e cipós. vida toda.. com um espirro. rompi por rasgar com meu corpo aquele mato. em ricochete decerto. esquentou minha coxa. esse está somente. sei lá – e me despenquei mundo abaixo. Burumbum!: o cavalo se ajoelhou em queda. que eu vislumbrei.. Eu era só – 21 – . tudo nelas que não era tirado sangue. Maior sendo eu. o senhor veja: bala faz o que quer – se enfiou imprensada.

mano-oh-mão.. Melhor. Conforme pensei em Diadorim. Só pensava era nele. Informação que pergunto: mesmo no Céu. como é que a alma vence se esquecer de tantos sofrimentos e maldades. Arfei.. quase na divisa baiana. até-que. vivia para cima e para baixo. arre. E que esse acabou sendo o homem mais pacificioso do mundo.. no recebido e no dado? A – 22 – . dentro. coisas divagadas.. me importei não. ao menos eu guardava a licença de prazo para me descansar. é viajando em trem-de-ferro.Grande Sertão: Veredas mole. Concebi que vinham. No senhor me fio? Atéque. Estou contando fora. Nem fazia mal. moleza. no São Domingos Branco. réis-coado. Mas. com nossa outra metade dos sócandelários.João Guimarães Rosa .. que estava na Serra do Pau-d’Arco. sentimento meu iavoava reto para ele. conforme eu vinha: depois se soube. me matavam. que mesmo os soldados do Tenente e os cabras do Coronel Adalvino remitiram de respeitar o assopro daquele Joé Cazuzo. Pudesse. mas: que esta minha boca não tem ordem nenhuma. para a idéia se bem abrir. Gosto. Um joão-de-barro cantou. Tempos! Por tudo. Eu queria morrer pensando em meu amigo Diadorim. dentro dele. Diga o anjo-da-guarda. mas que não amortecia os trancos. uns momentos. Ai. Com meu amigo Diadorim me abraçava. do coração. fim de fim. Assim.. fabricador de azeite e sacristão. fico pensando.

algum esteve no rancho dele. correndo em deita de cristal roseado. pelo mesmo vau. tem. O pior. De sorte que. Senhor me dirá: mas que ele pronunceia aquilo fora boca. teve de se desarrear da jagunçagem. das cataratas. constante o branquiço nos olhos. não esbarro. Dor do corpo e dor da idéia marcam forte. mas. Vi tanta cruez! Pena não paga contar. adonde tem vagarosos grandes rios. Vai. no real.. com faca cega. de água sempre tão clara aprazível. tão forte como o todo amor e raiva de ódio. Obra de opor. para lá fundo dos gerais de Goiás. e causa para se ver respeitado. é que acabam. qualquer raça de bugre. Todos tretam por tal regra: proseiam de ruins.. e não enxergava quase mais. Pois. dessa doença que não se cura. anos. Mas. se lazarou com a perna desconforme engrossada.. para mais se valerem.” O senhor concebe? Quem tem mais dose de demo em si é índio. ele dissesse: – “Me dá saudade é de pegar um soldado. olhe: o Firmiano. então.. no Alto Jequitaí. e tal..Grande Sertão: Veredas como? O senhor sabe: há coisas de medonhas demais.. E me desgosta. Gente vê nação desses. maneira de representar que ainda não estava velho decadente. De antes. tendo de um dia executar o declarado. mar.João Guimarães Rosa . depois contou – que. Piolhode-Cobra se dava de sangue de gentio. uma ocasião. primeiro. porque a gente ao redor é duro dura.. vira tempo.. três que me – 23 – . por medo de ser manso. se vou. pra uma boa esfola. por apelidado Piolho-de-Cobra. castrar. vem assunto.

isso que me sovaca. é que a ida para o Céu é demorada. formei aquela pergunta. Me apraz é que o pessoal. que se faz.Grande Sertão: Veredas enjoa. Mire veja: o mais importante e bonito. Compadre meu Quelemém nunca fala vazio. não subtrata. Por isso dito.. A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio – essa é que é a regra do rei! O senhor. ia falando: questão. a gente se alimpou tanto. do mundo.. ainda não – 24 – .. sempre tem alguma. Eu confiro com compadre meu Quelemém.. um dia se repaga.. Ah. o senhor sabe: razão da crença mesma que tem – que. bom no trivial.. Malícias maluqueiras. Que me respondeu: que. para compadre meu Quelemém. Geração minha. mas escasseadas. ainda não eram assim. Como a gente não carece de ter remorso do que divulgou no latejo de seus pesadelos de uma noite. por perto do Céu. em antes de querer facilitar em qualquer minudência repreensível. isso tudo.João Guimarães Rosa .. floreou-se! Ahã. Eu. más-artes. é bom de coração. já estou velho. Só que isto a ele não vou expor. o exato. é isto: que as pessoas não estão sempre iguais. que todos os feios passados se exalaram de não ser – feito semmodez de tempo de criança. por todo o mal. Assim que: tosou-se. hoje em dia.. e perversidades. Sujeito assim madruga três vezes. Bom. Isto é. em que não se usa mais matar gente. vai vir um tempo. Ah. verdadeira.

o que sabe me entende. Mocidade. o senhor ouviu. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre.. Somenos. comigo. quase por metade. Aí está: Deus. Visível que. Verdade maior. quando quer – moço! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê... Eli. bom meu pasto. Porque era de noite. montão.. por aquela agüinha escura. O cabo – por não ser de frio metal. aí: da faquinha só se achava o cabo. angico. Também. uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele. lá sei. nessa mesma da tarde. toda quieta. Afinam ou desafinam. Ah. se divertindo. para mais ver. saiba: no outro dia. perdia minha mão-de– 25 – .. eu pintava – cré que o caroá levanta a flor. Isso que me alegra. o que ouviu sabe. É o que a vida me ensinou.. o ferro dela. eu desse de pensar em vago em tanto.. Senhor ache o contrário... A pois: um dia.” – falei. então. só caldo de casca de curtir. mas Deus é traiçoeiro! Ah.João Guimarães Rosa . outra coisa: o diabo. luz nenhuma eu não disputava. barbatimão. se economiza. Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir. Estala. a faca. Deixei. – “Amanhã eu tiro. num curtume. Bem. mas de chifre de galheiro.Grande Sertão: Veredas foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. é às brutas. E. E Deus ataca bonito. aqueles outros tempos. espoleta! Sabe o que foi? Pois. estava sido roído. a faquinha minha que eu tinha caiu dentro dum tanque. não ache que religião afraca. cedo..

o Pacamã-de-Presas. vereda abaixo. no meio de todos. o Quipes. hei coloquei redor meu minha gente. Mais légua. não nem por isso não dou por baixa minha competência. e eu ainda sorteio de acender esta zona. a gente cruza chamado. que raciocinei. sei que servem. Olhe o senhor: aqui. Uns outros. no pé-de-serra. de bando meu foram o Sesfredo. no combate velho do Tamanduá-tão: limpamos o vento de quem não tinha ordem de respirar. E não vou valendo? Deixo terra com eles.. com outras leis. o Alaripe: soubesse o senhor o que é que se preza. num fogo-e-ferro..João Guimarães Rosa . O Fafafa tem uma eguada. Pra não isso. o Nélson e João Concliz.Grande Sertão: Veredas homem para o manejo quente. todo lado comigo. e antes esses desrodeamos. exp’rimentem ver. ai. Inimigo vier. se tanto. Para que eu quero ajuntar riqueza? Estão aí. Até um pouco mais longe. Banda desta mão. Ele cria cavalos bons.. Digo isto ao – 26 – . há-de-o. E sozinhozinho não estou. e penso a eito. de armas areiadas. com más partes. O Triol. se. A ver. e tem o Compadre Ciril. tem o Acauã. Chegassem viessem aqui com guerra em mim. ou com sobejos olhares. se! É na boca do trabuco: é no té-retêretém. Mas. ajuntamos: é hora dum bom tiroteiamento em paz. Jesualdo. E o Fafafa – este deu lances altos. ele e três filhos. hoje. em rifleio e à faca. o Paspe – meeiro meu – é meu. fechamos que nem irmãos. um cearense feito esse! Depois mais: o João Nonato. deles o que é meu é.... pegado.

Vender sua própria alma. penso também – mas Diadorim é a minha neblina. Mal que em minha vida aprontei.. acha fio de verdade nessa parlanda.. de com o demônio se poder tratar pacto? Não. Agora.João Guimarães Rosa . invencionice falsa! E. Bem-querer de minha mulher foi que me auxiliou. muito mais do de dentro. rezas dela. será que se há lume de responsabilidades? Se sonha. o que é? Alma tem de ser coisa interna supremada.. Posso vender essas boas terras. Amor vem de amor. vivo para minha mulher. se um menino menino é... Se tem alma. de fidúcia. Falava das favas. bem: não queria tocar nisso mais – de o Tinhoso. que tudo modo-melhor merece. e tem. propor sossego. De mim.. pessoa. não tem a obediência legal.. às vezes é só feito menino. já se fez. fantasiado de momento. Também. isso sei. que reside na capital federal? Posso algum!? Então. e por isso não se autoriza de negociar. Pois. E a gente. chega. graças. alma. daí de entre as Veredas-Quatro – que são dum senhor Almirante. Em Diadorim. e para a devoção. alma absoluta! Decisão de vender alma é afoitez vadia. não vá pensar em dobro.. do que um se pensa: ah. ela é de Deus estabelecida. Dei rapadura ao jumento! Ahã. Mas gosto de toda boa confirmação. Digo. foi numa certa meninice em sonhos – tudo corre e chega tão ligeiro –. e é só. não é não? Sei que não há. nem que a pessoa queira ou não – 27 – . Mas tem um porém: pergunto: o senhor acredita.Grande Sertão: Veredas senhor. Queremos é trabalhar.

Sua companhia me dá altos prazeres. veio tarde. O senhor me desculpe. comigo. Mesmo que os vaqueiros duvidam de vir no – 28 – . ou perto.João Guimarães Rosa . aqui em casa. então vai. o senhor sério tenciona devassar a raso este mar de territórios. o senhor querendo ir. Visita. Mas. não. além de ter carta de doutor. Hoje. Aqui não se tem convívio que instruir. por aí pena. em idéia firme.. Tempos foram. era uma ajuda. Amanhã. é por três dias! Mas. O senhor não acha? Me declare.. nem não sobra mais nada. que se vai? Jajá? É que não. Se vê que o senhor sabe muito. Viver é muito perigoso.Grande Sertão: Veredas queira. Quase que. franco. os costumes demudaram. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Agora – digo por mim – o senhor vem. não. Não consinto. Depois. peço. Sertão. muito que foi jagunço. mas em empenho de minha amizade aceite: o senhor fica. Em termos. por tanto. para sortimento de conferir o que existe? Tem seus motivos. lhe agradeço. Não é vendível. Os bandos bons de valentões repartiram seu fim. mesmo me deixa sentindo sua falta. hoje ou amanhã. gostava que morasse aqui. Ah. pouco sobra. não. Lhe agradeço. quinta de-manhãcedo. Eh. pede esmola. de legítimo leal.

Cheiro de campos com flores. E até o gado no grameal vai minguando menos bravo. amarelinhas. aí eu ia. então. é à pobreza. Não fosse meu despoder.. Isto – no Saririnhém. frio! Lá geia até em costas de boi..Grande Sertão: Veredas comércio vestidos de roupa inteira de couro. Mas. num afã. e a nhiíca e a escova. gruge. Ou no Meãomeão – depois dali tem uma – 29 – . roxa. forte. em abril: a ciganinha. Sempre. Eu guiava o senhor até tudo. Eh. por azias e reumatismo. O cio da tigre preta na Serra do Tatu – já ouviu o senhor gargaragem de onça? A garoa rebrilhante da dos-Confins. Lua de com ela se cunhar dinheiro.João Guimarães Rosa . cada cachoeira.. reconselho de o senhor entestar viagem mais dilatada. desvém com o resto de curraleiro e de crioulo. sonhe com aquilo. Quando o senhor sonhar. A da-Raizama.. madrugada quando o céu embranquece – neblim que chamam de xererém. onde até os pássaros calculam o giro da lua – se diz – e canguçu monstra pisa em volta. Uma tristeza que até alegra. Cigarras dão bando. espuma próspero. à tristeza. até nos telhados das casas. no gerais.. Lhe mostrar os altos claros das Almas: rio despenha de lá.. acham que traje de gibão é feio e capiau. para uma safra razoável de bizarrices. Quem me ensinou a apreciar essas as belezas sem dono foi Diadorim. Debaixo de um tamarindo sombroso. mais educado: casteado de zebu. só tombos.

Ou – o senhor vai – no soposo: de chuva-chuva..Grande Sertão: Veredas terra quase azul. com pessoa minha no meu lado. a gente se querendo bem.... O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de idéia e saudade de coração. igual um ovo de macuco. A serra faz ponta. diverseia. Senhor caça? Tem lá mais perdiz do que no Chapadão das Vertentes. o Urucuia – tão a brabas vai.. Angical. De em de. Que não que o céu: esse é céu-azul vivoso. Urucuia acima. Ah. Tanta serra. passante entre duas palmas de palmeira.. Diz-se que o Governo está mandando abrir boa estrada rodageira. Ventos de não deixar se formar orvalho.. brota do chão – 30 – . na encosta. Por esses longes todos eu passei. Em um lugar.. Vê um córrego com má passagem.. Na Serra do Cafundó – ouvir trovão de lá..... ou um rio em turvação. pode ser até que chore. No Buriti-Mirim. O senhor vê vaca parindo na tempestade.. de Pirapora a Paracatu. de medo mau em ilusão. esconde a lua. sempre.João Guimarães Rosa . Lembro. como quando foi menino. o senhor tapa os ouvidos. Um punhado quente de vento. Caçar anta no Cabeça-de-Negro ou no Buriti-Comprido – aquelas que comem um capim diferente e roem cascas de muitas outras árvores: a carne.. por aí. A serra ali corre torta. deslembro. de gostosa.. Extrema-deSanta-Maria. e retrovão.

tão verde-mar.. Carecia. rumo a rumo com o Queimadão. antes de se deitar. Muito deleitável. Se caçava. redobra logo na brotação. com estúrdio barulhão. por pavor. Aqueles foram meus dias. Porque a gente vinha no caminhar a pé.. filho do menor chuvisco. Aí foi em fevereiro ou janeiro. em lugares assim. cada um esquecia o que queria. prazer dele era dormir com camisolão e barrete. sombreado e sol. no tempo do pendão do milho.. de de-entre quase cada encostar de duas – 31 – . mazelados. Os lugares sempre estão aí em si. O senhor vá lá. fontes. Fazenda Boi-Preto. ajoelhava e rezava o terço. e com florzinhas as dejaniras. De qualquer pano de mato. é o Urucuia – paz das águas. Semelha com as serras do Estrondo e do Roncador – donde dão retumbos. Hem? O senhor? Olhe: o rio Carinhanha é preto. viçoso no cerrado. Claráguas. de de-comer não faltava. tem um fazendol.Grande Sertão: Veredas um vapor de enxofre. para não acabar os cavalos. meu.. o Paracatu moreno. É vida!. Passado o Porto das Onças. Aquele capim-marmelada é muito restível. em belo. Tresmente: que com o capitão-do-campo de prateadas pontas. se descansou..João Guimarães Rosa .. fora de guerra. vez em quando. verá. o gado foge de lá. Ficamos lá umas semanas. Medeiro Vaz. pescar peixe nas veredas. dum Eleutério Lopes – mais antes do Campo-Azulado. o anis enfeitando suas moitas. para confirmar.

acho que é do seco do ar. aqui se vê.Grande Sertão: Veredas folhas. e araras enrouquecidas. passarinho de bilo no desvéu da madrugada. a garricha-do-brejo. e com mais brilho. A gente dava passeios. saíam em giro as todas as cores de borboletas. que tintipiava de manhã no revoredo. Tardinha que enche as árvores de cigarras – então. não chove. Com assim. em vai sobre vem sob. o suiriri. a rola-vaqueira. nos gerais. Eu estava todo o tempo quase com Diadorim. de tarde. desta luz enorme. o sabiá-ponga. a gente se diferenciava dos outros – porque jagunço não é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas: a bem eles se misturam e desmisturam. Porque.. Beiras nascentes do Urucuia.. se sabe. nós dois. que em outras partes é trivial regular – cá cresce. o grunhatá-do-coqueiro. Assovios que fechavam o dia: o papa-banana. e o bem-te-vi que dizia. o tempoquente. para toda tristeza que o pensamento da gente quer. Diadorim e eu.. mas cada um é – 32 – . E tinha o xenxém. ele repergunta e finge resposta. a doidinha. o azulejo. Ia dechover mais em mais. ali o povi canta altinho. Tal. a mesma raça de borboletas.. o saci-dobrejo. Como não se viu. do limpo. vira muito maior. o bento-vieira tresvoava. de acaso.João Guimarães Rosa . Bom era ouvir o mom das vacas devendo seu leite. rebicando de vôo todo bichinhozinho de finas asas. pássaro esperto. Mas. a gangorrinha.

depois. ninguém nada não falava. por entre as nossas caras. caçoasse. Dissesse um. onde o agrião dá flor. Diadorim me pôs o rastro dele para sempre em todas essas quisquilhas da natureza. com ele calado eu a ele estava obedecendo quieto. digo – podia morrer. Por mim.Grande Sertão: Veredas feito um por si. e besouros graúdos esbarravam. no relume das brasas. não era o capaz de me alembrar. Quase que sem menos era assim: a gente chegava num lugar. aos quadrados. De nós dois juntos. Sempre mediante mais longe. Por mim. Diadorim. E o chiim dos grilos ajuntava o campo. não sei que tontura de vexame. ia escurecendo. Não gosto de ficar em pé. ele falava para eu sentar. Mariposas passavam muitas. Eu não tinha coragem de mudar para mais perto. Som como os sapos sorumbavam. duro sério.João Guimarães Rosa . de tantas minúcias. O ianso do vento revinha com o cheiro de alguma chuva perto. Quase que a gente não abria boca. Puxava uma brisbisa. mas a saudade me alembra. Que nem mais maldavam. eu fui buscar sabugos. Só de mim era que Diadorim às vezes – 33 – . não sou de à parada pouca coisa. Tinham a boa prudência. Que se hoje fosse. eu sentava. Então. Se acostumavam de ver a gente parmente. Diadorim acendeu um foguinho. tão bonito. perto do rego – bicame de velha fazenda. mas era um delém que me tirava para ele – o irremediável extenso da vida. Sei como sei. sua vez. Desse lusfús. só. E estávamos conversando. ele vinha sentava.

nem minha mera vida mesma. não se alterava. ele tresvariava. o dele não podia mais ter aumento: parava sendo um ódio sossegado. tempo de – 34 – . no mais. o senhor sabe? E. mais em mim virando tristeza. Perto de muita água. ia se pegando em mim – mas não como ódio. Durante que estávamos assim fora de marcha em rota. deixava de pensar. Se escutou. E eu – mal de não me consentir em nenhum afirmar das docemente coisas que são feias – eu me esquecia de tudo.João Guimarães Rosa . enquanto aqueles dois monstros não forem bem acabados. Só que coração meu podia mais. Até que viesse a poder vingar o histórico de seu pai. a meia-mão de mim..Grande Sertão: Veredas parecia ter um espevito de desconfiança. num espairecer de contentamento. essa ocasião. adivinha se não entende. aquilo forte que ele sentia. mas. – “Ta que.” E ele suspirava de ódio. banda do rio. – “Não posso ter alegria nenhuma. simples Diadorim tanto não vivia. uma lontra por outra: o issilvo de plim. ranço de desgosto: eu versava aquilo em redondos e quadrados. mas eu quero que esse dia chegue!” – Diadorim dizia. Odio com paciência. Mas sucedia uma duvidação. tudo é feliz. como se fosse por amor. Enquanto os dois monstros vivessem. chupante.. O corpo não traslada. mas muito sabe. mais vindo. que era o amigo! Mas. de mim. De tão grande. ele estava ali.

que marchas se ia amanhecer para dar. dali depois daquele carecido repouso. Diadorim queria o fim. a gente revirava caminho. idosas. Nós estávamos em sessenta homens – mas todos cabras dos melhores. Nunca relatava antes o projeto que tivesse. vozes de osga. ah. Para isso a gente estava indo. nessas escuridões: folha a folha. Medo em alma. Não respondi. ele era dono do dia e da noite – que quase não dormia mais: sempre se levantava no meio das estrelas. Me alembro. matar. sangue manda sangue. tão antigas. calçado com suas boas botas de caititu. Medeiro Vaz. feito eletricidade. nos usos formado. E eu tinha medo. A ramagem toda do agrião – o senhor conhece – às horas dá de si uma luz. junto em junto. Se ele em honrado juízo achasse que – 35 – . Eu olhava para a beira do rego. cabeçona meia baixa. Calados. Ossoso.João Guimarães Rosa . Com o comando de Medeiro Vaz. em passos. Diadorim só falava nos extremos do assunto. Não adiantava. Assim nós dois esperávamos ali. Medeiro Vaz era homem sobre o sisudo. nunca perdia guerreiro. em que eu mais amizade queria. Também. não gastava as palavras. um fosforém – agrião acende de si. Chefe nosso. Sapo tirava saco de sua voz. ia em cima dos outros – deles! – procurando combate. vagaroso. Os sapos. Munição não faltava. tudo nele decidia a confiança de obediência.Grande Sertão: Veredas descanso. percorria o arredor. Matar. com a nuca enorme. nas cabeceiras da noite.

se traçar o sinal-da-cruz e dar firme ordem para se matar uma a uma as mil pessoas. o senhor vem. Vaqueiros? Ao antes – a um. de dois. Saem dos mesmos brejos – buritizais enormes. Mas o sassafrás dá mato. repassado. Com isso minha fama clareia? Remei vida solta. Por lá.. é um barro colador. Desde o começo. :O segredo dele era de pedra. – 36 – . arranca ferradura por ferradura... ainda encontra. Alguma coisa. esses escondidos atrás das touceiras de buritirana. começos do Carinhanha e do Piratinga filho do Urucuia – que os dois.. Tem coisa e cousa.Grande Sertão: Veredas estava certo. Medeiro Vaz era solene de guardar o rosário na algibeira. capaz de escutar. que segura até casco de mula. Ou o mais longe: vaqueiros do Brejo-Verde e do Córrego do Quebra-Quinaus: cavalo deles conversa cochicho – que se diz – para dar sisado conselho ao cavaleiro. se dão as costas. abofa – trinta palmos! Tudo em volta. ao Chapadão do Urucuia – aonde tanto boi berra. e o ó da raposa. Ah.. Cada surucuiú do grosso: voa corpo no veado e se enrosca nele. Creio e não creio. Dali para cá. Sertão: estes seus vazios. O senhor vá. Eu me lembro das coisas. antes delas acontecerem. paz de hora de poder água beber. quando não tem mais ninguém perto. eu estou vivido.João Guimarães Rosa .. Com medo de mãe-cobra. se vê muito bicho retardar ponderado. sucuri geme. eu apreciei aquela fortaleza de outro homem.

por causa da fome de jacaré e da piranha serrafina.. como o céu de estrelas. que peia e pega. dá que dá. feio mirando na gente. ele não largava o fogo de gelo daquela idéia. Cabeça da gente quase esbarra nelas.Grande Sertão: Veredas guardando o poço. Os cavalos suavam sal e espuma. sempre me fez mal. Arrancávamos canela-de-ema. por meados de fevereiro! Mas. e nunca se cismava. uma. Dia quente. De noite. Mutucas! Dá o sol. por ladeiras de beira-de-mesa.João Guimarães Rosa . – 37 – . noite fria.. Bonito em muito comparecer. cheias de mutucas ferroando a gente. para acender fogueira. o que cheira um bom perfume. Jacaré choca – olhalhão. Eh. Se a gente tinha o que comer e beber. rouco roncado. Ou outra – lagoa que nem não abre o olho. crespido do lamal. Muita vez a gente cumpria por picadas no mato. duas. Daí longe em longe. Nas lagoas aonde nem um de asas não pousa. buriti se segue. se é de ser. em deslua. eu dormia logo. chapadão que não se devolve mais. no escuro feito. Aquelas chapadas compridas. Treva toda do sertão. é um escurão. de onda forte. segue. o céu embola um brilho. os brejos vão virando rios. caminho de anta – a ida da vinda. não. as três vezes. Mas eu queria que a madrugada viesse. a luz tanta machuca. Para trocar de bacia o senhor sobe. Buritizal vem com eles. de tanto junco. entra de bruto na chapada. Diadorim. Jacaré grita. É noite de muito volume. Água ali nenhuma não tem – só a que o senhor leva. ele sabe se engordar.

Eu tinha uma lua recolhida. mal ou bem. pasmacez. eu perdia meu bom sentir. em mesmo?” – perguntei a Diadorim. no chapadão.. Quando o dia quebrava as barras. igual – a muita gente ele entristece. Atrás e adiante de mim. perseguindo minha vida em vez. E permaneci duvidando que seria – que era um bem-te-vi.. e estava incerto de feições. eu escutava outros pássaros.Grande Sertão: Veredas Sonhava. – “Gente! Não se acha até que ele é sempre um. E em andemos: jagunço era que perpassava ligeiro. Uns pretos que ainda sabem cantar gabos em sua língua da Costa.exato. mas eu já nasci gostando dele. Dali vindo. por toda a parte. Só sonho. no pardo. Até hoje é assim. a fariscadeira. juriti-dopeito-branco ou a pomba-vermelha-do-mato-virgem. parecia que era um bem-te-vi só. As chuvas se temperaram.. – 38 – . Quando meu amigo ficava assim. é igual. Tiriri. Acho. O chapadão. graúna. livrado.João Guimarães Rosa . Mas mais o bem-tevi.. me acusando de más-horas que eu ainda não tinha procedido.. A tanta miséria. Ele não aprovou. de baixo quilate. visitar convém ao senhor o povoado dos pretos: esses bateavam em faisqueiras – no recesso brenho do Vargem-da-Cria – donde ouro já se tirou. os legítimos coitados todos vivem é demais devagar.

por nome de Ana Duzuza: falada de ser filha de ciganos. que tocavam um boi preto que iam sangrar e carnear em beira d’água. Diadorim não estava perto. tomei um café coado por mão de mulher. num grosso rojo avermelhado.. de baixo.João Guimarães Rosa . minhas pernas doíam. Se chamava Nhorinhá. Ah. Tão bonita. feito casamento. e me mostrou para beijar uma estampa de santa. com talento contra mordida de cobra. Muito foi. e a poeira forte que deu no ar ajuntou nós dois. De repente. Depois ela me deu de presente uma presa de jacaré. Ao que. Nhorinhá. Eu apeei e amarrei o animal num pau da cerca. ela quando ria tinha os todos dentes.. outro longe – na Aroeirinha fizemos paragem. Pelo dentro. tomei refresco.Grande Sertão: Veredas Digo: outro mês. esponsal.. para me reprovar. Mãe dela chegou. dita meia milagrosa. uns companheiros. aos galopes e gritos. e dona adivinhadora da – 39 – . por tanto que desses três dias a gente se sustava de custoso varar: circunstância de trinta léguas. a mangaba boa só se colhe já caída no chão. se ria. limonada de pêra-do-campo. vi uma mulher moça. uma velha arregalada. Recebeu meu carinho no cetim do pêlo – alegria que foi. passaram. vestida de vermelho. Então eu entrei. Na frente da boca. num portal. mostrava em fio. Eu nem tinha começado a conversar com aquela moça.. – “Ô moço da barba feita. para traspassar no chapéu.” – ela falou. só.

.. cá embaixo. isto é coisa diversa – por diante da contravertência do Preto e do Pardo. Eu sabia que estávamos entortando era para a Serra das Araras – revinhar aquelas corujeiras nos bravios de ali além.. não. era um escampo dos infernos..Grande Sertão: Veredas boa ou má sorte da gente.. se? Ah.. mesmo dava sua placença. Depois. Também onde se forma calor de morte – mas em outras condições. aonde tudo quanto era bandido em folga se escondia – lá se podia azo de combinar mais outros variáveis companheiros. jagunços ou tropeiros – não se importava. que tira da Várzea da Ema. Que nem o Vão-do-Buraco? Ah. Ela estava chegando do arranchado de Medeiro Vaz. que por ele mandada buscar. e até – contanto que fosse para os homens de fora do lugarejo. o Tabuleiro? Senhor então conhece? Não. E a Ana Duzuza me disse. Loucura duma? Para quê? Eu nem não acreditei. vendendo forte segredo.. Depois dos cerradões das mangabeiras. ele querendo suas profecias. era o raso pior havente. existe..João Guimarães Rosa .. meu! Eh. que Medeiro Vaz ia experimentar passar de banda a banda o liso do Suçuarão.. Ah. A gente ali rói rampa. naquele sertão essa dispôs de muita virtude. e de em desde a nascença do Peruaçu até o rio Cochá. Se é. Comemos farinha com rapadura. – 40 – . de arte: que o Liso do Suçuarão não concedia passagem a gente viva. Ela sabia que a filha era meretriz. esse ocupa é desde a Vereda-daVaca-Preta até Córrego Catolé.

só. espia só o começo. nos ermos. Ele não indagou donde eu tinha estado. não tem. mãe. Se ele estava com as mangas arregaçadas. – “Seô Medeiro Vaz. a fim de requerer o significado do meu futuro. de bulgariana. Soturnos. nova. Um é que dali não avança. mas quase mais quem fazia isso era Diadorim. Não tem pássaros. Água. e eu menti que só tinha entrado lá por causa da velha Ana Duzuza. eu olhava para os – 41 – . e outra camisa. Ver o luar alumiando. Diadorim também disso não disse. Se emenda com si mesmo.” – ela teve de falar.João Guimarães Rosa . e o demo: esse. Não era possível! Diadorim estava me esperando. na cama daqueles desertos. Com isso. Liso do Suçuarão. Porque eu achava tal serviço o pior de todos. e escutar como quantos gritos o vento se sabe sozinho. ele gostava de silêncios. mão melhor. pra lá. Crer que quando a gente entesta com aquilo o mundo se acaba: carece de se dar volta. nossa. e ela não agüentou a raiva em meus olhos. Ele tinha lavado minha roupa: duas camisas e um paletó e uma calça. Não tem excrementos. nada vezes.Grande Sertão: Veredas Nada.. sempre. pois foi ele mesmo próprio quem me contou. Às vezes eu lavava a roupa. apertei aquela Ana Duzuza. é o mais longe – pra lá.. e também Diadorim praticava com mais jeito.

Grande Sertão: Veredas braços dele – tão bonitos braços alvos. fechada. mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo. me afrontando com a surpresa de que ele já sabia daquilo e a mim não tinha antecipado nem – 42 – . adiante. e a cara e as mãos avermelhadas e empoladas. Viver nem não é muito perigoso? Redisse a Diadorim o que eu tinha surripiado: que o projeto de Medeiro Vaz só era o de conduzir a gente para o Liso do Suçuarão – a dentro. eu devia de perguntar. e passa. não tinha a coragem. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado. até ao fim. conhecesse por detrás o pano do destino? Não perguntei. No momento. É certo” – Diadorim respondeu. não tinha perguntado. que sempre outras vezes em minha vida acontece. Coisa que nem eu comigo não estudava. em bem feitos. foi que eu caí em mim.João Guimarães Rosa . de picadas das mutucas. Também uma coisa. Quem sabe. – “E certo é. podia ser. Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada. E se a Duzuza adivinhasse mesmo. bem diverso do em que primeiro se pensou. que podia ter perguntado à Ana Duzuza alguma passagem de minha sina por vir. Ah. eu estava enfeitiçado? Me arrependi de não ter pedido o resumo à Ana Duzuza. de minha. tem uma repetição.

um dos dois Judas possuía sua maior fazenda. de um amigo se pertence gostar. escuros. A gente suprisse de varar o Liso em boas farsas. Eu sabia que ele. se chegava lá sem ser esperados. a claro. Coração da gente – o escuro. agora aquela hora. lavouras. Essa diferença de regra agora me turvava? Mas Medeiro Vaz era homem de outras idades. contra o querer gostar de Diadorim mais do que. eu não apurava vergonha de se me entender um ciúme amargoso.Grande Sertão: Veredas miúda palavra. de formas que com ele externava os assuntos. com os muitos gados. Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor. de raça – mulher e filhos. Sendo sabendo que Medeiro Vaz depunha em Diadorim uma confiança muito maior do que em nós outros todos. loca Ramiro tinha sido a admiração grave da vida dele: Deus no Céu e Joca Ramiro na outra banda do Rio. Então. só guardava memória de um amigo: Joca Ramiro. Tudo o justo. E veja: eu vinha tanto tempo me relutando. já em tantos terrenos da Bahia. arrastava aquele pessoal por dura surpresa – acabou-se com aquilo! Mesmo quem havia de deduzir que o – 43 – . andava por este mundo com mão leal. Diadorim o resto me descreveu. não variava nunca. e. não fraquejava. Pra por lá do Suçuarão. e lá morava sua família dele legítima.João Guimarães Rosa . a bem dizer.

. Trem.. que eles governavam. ela tirou por tino a tenção dele. Mas me venceu pena daquela Ana Duzuza. e não devia de ter falado as pausas.” Ouvi mal ouvi. pelos pontos de passagem dificultosa.. – 44 – . e perfiz até um arrepio. de sem dentes. Diadorim era assim: matar. de vez mais sério. Eu escutei. Das perguntas que Medeiro Vaz fez. ela com os olhos para fora – a gente podia pegar nos dedos. a gente fosse surgir de sobrevento. Raspava a rapadura com a quicé. caco de velha. pois de arredor decerto tinham vigias.. Coisa que me contou tantas lorotas. Mas Diadorim. Me vim d’águas frias. Truco que. em cada grota e cada ipueira.. reforço de munição e récua de camaradas. para não ser leleira. Essa carece de morrer. ia ajuntando na palma da mão o farelo peguento preto. do lado mais impossível. O judas algum? – na faca! Tinha de ser nosso costume. Eu não sabia? Não sou homem de meio-dia com orvalhos. eles prosperavam em sua fazenda feito num quartel de bronze – com que por outros cantos não se podia remeter. boca que se fechava aboborosa. temperou: – “Essa velha Ana Duzuza é que inferna e não se serve.Grande Sertão: Veredas Liso do Suçuarão prestasse para nele caminho se impor? Ah.João Guimarães Rosa .. de repente... se matava – era para ser um preparo. soflagrar aqueles desprevenidos. não tenho a fraca natureza.

que ela merecia tanto dó? Eu não tive solércia de contradizer. Só previ medo foi de que ele falasse para eu mesmo ir voltar lá. segurava o naco. salivava. As vontades de minha pessoa estavam entregues a Diadorim. então é assassinar! Ah.. então é capaz que matem a filha também. de seguinte.. que o ciúme dele por mim também se alteava. seco. Mais tu há de não me ver!.. se atrapalhou em mim aquela outra vergonha. então.João Guimarães Rosa . pelo resguardar o segredo. A razão dele era do estilo acinte. de – 45 – . A gente engrossava nojo.. entendi o que pra verdade: que Diadorim me queria tanto bem. Mas. Depois dum rebate contente. lambendo. Do que me estremeci... Eu não sojigava tudo por sentir. fizerem. pra todo o nunca. para a gente dá atraso.” Diadorim pôs mão em meu braço.. eu pensei: se matarem a velha Duzuza.” – eu o quanto falei. que se puxou de mim uma decisão. por minhas próprias acabar a Ana Duzuza. Fazia tempo que eu não olhava Diadorim nos olhos. e eu abri sete janelas: – “Disso que você disse. Aí. Diadorim me adivinhava: – “Já sei que você esteve com a moça filha dela. eu saio do meio de vós. desconvenho! Bulir com a vida dessa mulher. Dente de cobra. rechupando.Grande Sertão: Veredas ou.. E eu quase gritei: – “Aí é a intimação? Pois. um estúrdio asco. Nhorinhá. se não.” – ele respondeu. Por que é. quase num chio.

– “Dou!” – falei. feito fosse Cristo Nosso Senhor. E corri lembrança em Joca Ramiro: porte luzido. Todo o mundo. o exato?! E por aí eu já tinha pitado dois cigarros. o topete de cabelos anelados. Sentei em cima de nada. abaixou o rosto.João Guimarães Rosa .” – ele disse – não sei se estava pálido muito. aqui neste confim de gerais?!” – ele baixo exclamou. mas repeli esses alvoroços de doçura. ele tinha – 46 – . e a má-vida da filha dela. todos. queria. era o que eu queria. pretos. Espiei Diadorim. Como que brilhava ele todo. Me cerrou aquela surpresa. Devido o que. Mas era como tivesse uma pedra pontuda entre as duas palmas. para mais perto de mim. Acalmou meu fôlego. o olhar bom e mandante. a dura cabeça levantada. passo ligeiro. a testa muita. depressa. Porque Joca Ramiro era mesmo assim sobre os homens. tinham de viver honrando a figura daquele... de Joca Ramiro. Menos disse. as botas russianas. então. e eu. Mas Diadorim sabia disso. que foi como sempre eu tivesse sabido aquilo. os bigodes. pois então: Joca Ramiro era o meu pai. – “Você já paga tão escasso então por Joca Ramiro? Por conta duma bruxa feiticeira.Grande Sertão: Veredas dentro. E eu cri tão certo. parece que não deixava: – “Riobaldo. Ser dono definito de mim. brilhando. tão bonito tão sério. E tive ira. e depois foi que se avermelhou. a risada. escuta. Me deu a mão.

reduzir a velha – só não podia maltratar era Nhorinhá. eu. fechando. para mim. Vontade minha foi declarar: – Redigo. e eu ambicionando de pegar em Diadorim. por mim. três tranços. de mim eu sabia: o que compunha minha opinião era que eu. quase gritei: – “Por mim. e também. eu bem-queria. Que mesmo. de empapar todas as folhagens. e com a memória de seu pai!. as muitas demais vezes. no fato essa Ana Duzuza fica sendo minha mãe!” – foi o que eu disse. E. E tinha nojo maior daquela Ana Duzuza.. Diadorim: estou com você. rei da natureza.João Guimarães Rosa . sempre. Esperei o que vinha dele. no fim de tanta exaltação. ir lá. pode cheirar que chegue o manacá: não vou! Reajo dessas barbaridades!. assente. Há-de que eu certo não – 47 – . no honrado e no final. ao tanto afeto... carregar Diadorim nos meus braços. gostasse de Diadorim.Grande Sertão: Veredas uma luz.. Ouvido meu retorcia a voz dele. De um aceso. que. Será por quê? Criatura gente é não e questão. corda de três tentos.” Tudo turbulindo. a raiva incerta. meu amor inchou. por ponto de não ser possível dele gostar como queria. que vinha talvez separar a amizade da gente. – “Pois. sendo preciso. recesso dum modo. beijar. Que Diadorim fosse o filho. agora de vez me alegrava. às loucas. me assustava. em todo sistema. Em mesmo eu quase reconheci um surdo prestígio de. pra quem ouvir. Mas foi o que eu não disse.

o Pé-de-Pato. o Galhardo. o Cramulhão. Pois. quando um tem noção de resolver a vender a alma sua. o Duba-Dubá. o Mafarro. mais crônico: que. o Temba..João Guimarães Rosa . ou então – será que pode também ser que tudo é mais passado revolvido remoto. o Sem-Gracejos. dentro da gente. o Indivíduo. Lenga-lenga! Não devia de. O-que-nunca-se-ri. o Tristonho. se não existe. o Sujo. Para isso é que o muito se fala? E as idéias instruídas do senhor me fornecem paz. o Homem. o Azarape. pois é não? O Arrenegado. de que o Tal não existe. o Canho. não existe! E. que é porque ela já estava dada vendida. o Tisnado. o Coisa-Ruim. Dum mau imaginado. o Não-sei-que-diga. o Cão. sem se saber. o senhor me dê o lícito: que. é um segundo proveito: faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo. no profundo. ôxe? Não sei. Falar com o estranho assim.. que bem ouve e logo longe se vai embora. Mire veja: o que e ruim. o Pé-Preto. Não devia de estar relembrando isto. e a pessoa sujeita está só é certificando o regular dalgum velho trato – 48 – . não sei.Grande Sertão: Veredas regulasse. o Rapaz. que me deu. a gente perverte sempre por arredar mais de si. o Coxo. Mas. Principalmente a confirmação. talvez por isto mesmo. meu amigo mas meu estranho. como é que se pode se contratar pacto com ele? E a idéia me retorna. contando assim o sombrio das coisas. O senhor é de fora.

que Deus só pode às vezes manobrar com os homens é mandando por intermédio do diá? Ou que Deus – quando o projeto que ele começa é para muito adiante. ele vem. Minha mulher que não me ouça. então. se vem! E vem obrigado pra – 49 – . faz tempo? Deus não queira. Nem nós vamos com Medeiro Vaz para fazer barbaridade com a mulher e filhos pequenos daquele pior dos dois Judas. Até podendo ser. tão. Mas o que a gente quer é só pegar a família conosco prisioneira. Deamar.João Guimarães Rosa . a ruindade nativa do homem só é capaz de ver o aproximo de Deus é em figura do Outro? Que é que de verdade a gente pressente? Dúvido dez anos. tão bem que mereciam. Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.. a poder de minhas rezas. Os pobres ventos no burro da noite. Não é preciso se haver cautela de morte com essa Ana Duzuza.Grande Sertão: Veredas – que já se vendeu aos poucos. Riobaldo amigo. Ahã. Mas aí. de alguém algum dia ouvir e entender assim: quemsabe. Diadorim respondeu o que eu não esperava: – “Tem discórdia não. a gente criatura ainda é tão ruim. Deus que roda tudo! Diga o senhor. porque ele e os da laia dele têm costumes de proceder assim. eu estava contando – quando eu gritei aquele desafio raivoso.. Relembro Diadorim. se acalme. sobre mim diga. deamo. Deixa o mundo dar seus giros! Estou de costas guardadas.

Agora. se você algum dia deixar de vir junto. Pelo nome de seu pai. eu agora matava e morria. digo ao senhor. e que depois tirou. estes pormenores todos. E. Só faço. eu achava. que é a dela e dela. na ação da pergunta. mas cada uma cumpre sua paga prenda singular. vendo que só mesmo Diadorim era que podia acertar esse tento.João Guimarães Rosa . duma voz mesmo repassada. Mas Diadorim mais não supriu o que mais não explicava.. Tinha tornado a pôr a mão na minha mão. Toda mãe vive de boa. Assim devia de ser. quem sabe para deduzir da conversa.” Na ação de ouvir.” Disse. ah.Grande Sertão: Veredas combates. tive um menos gosto. Mas nunca eu senti que ele estivesse melhor e perto. Joca Ramiro.. minha mãe era a minha mãe. já de si. se lembra certo da senhora sua mãe? Me conta o jeito de bondade que era a dela. Mas. como as asas de todos os pássaros. Abracei Diadorim. Ao que entendi. diversa bondade.. me perguntou: – “Riobaldo. sempre quando outro quer direto saber o que é próprio o meu no meu. A bondade especial – 50 – . Mas desci disso. pelo quanto da voz.. Para mim. Foi um esclaro. Coração – isto é. no começo de falar... O amor. essas coisas. o minuto. que refugo. como juro o seguinte: hei de ter a tristeza mortal. e se espaçou de mim. em sua amizade delicadeza. é algum arrependimento. se bem. E eu nunca tinha pensado nessa ordem.

dois filhos dela já tem. Ninguém discrepa.. é o que a gente vê mais. Orfão de conhecença e de papéis legais. tantas.. algum filho é o perdurado. é um giro-ogiro no vago dos gerais. Eu. – “. E disse com curteza simples. pouco se apega.” – me deu resposta: – “Eu gosto muito de mudar. Eu.. pois nem eu nunca soube autorizado o nome dele. arrancha. nestes sertões. passa: muda de lugar e de mulher. está com uma mocinha cabocla em casa. o melhor meeiro meu aqui. fraseou – só face dum momento – feito grandeza cantável. risonho e habilidoso. que eu menino precisava.. Não me envergonho.. Fosse cego.” – Diadorim prosseguiu no dizer.. A lembrança dela me fantasiou. Por mim. o que pensei...Grande Sertão: Veredas de minha mãe tinha sido a de amor constando com a justiça. Pergunto: – “Zé-Zim. foi: que eu não tive pai. querer-bem às minhas alegrias. Homem viaja. quer dizer isso. isto é – Deus. como todo o mundo faz?” – “Quero criar nada não. Eu dou proteção. Belo um dia. E a de. mesmo no punir meus demaseios. É assim.. por – 51 – . que nem os pássaros de rios e lagoas. igual quisesse falar: barra – beiras – cabeceiras.João Guimarães Rosa .” Está aí. Quem é pobre. O senhor vê: o Zé-Zim. Pois a minha eu não conheci. ele tora. por ser de escuro nascimento. por que é que você não cria galinhas-d’angola. mesmo digo. de nascença.. feito entre madrugar e manhecer.

o Verde que verte no Paracatu. Todos os nomes eles vão alterando. Gente melhor do lugar eram todos dessa família Guedes. O senhor sabe: a coisa mais alonjada de minha primeira meninice. que o senhor já viu que tenho retentiva que não falta. Fica– 52 – . nos trouxeram junto. recordo tudo da minha meninice. que eu acho na memória.João Guimarães Rosa . São Romão todo não se chamou de primeiro Vila Risonha? O Cedro e o Bagre não perderam o ser? O Tabuleiro-Grande? Como é que podem remover uns nomes assim? O senhor concorda? Nome de lugar onde alguém já nasceu.. Porque logo sufusa uma aragem dos a casos. que eu tive de um homem chamado Gramacedo. Hoje. Lá como quem diz: então alguém havia de renegar o nome de Belém – de Nosso-Senhor-Jesus-Cristo no presépio.. com Nossa Senhora e São José?! Precisava de se ter mais travação. Essa não faltou também à minha mãe.. no sertãozinho de minha terra – baixo da ponta da Serra das Maravilhas. Senhor sabe: Deus é definitivamente. Perto de lá tem vila grande – que se chamou Alegres – o senhor vá ver. minha mãe e eu. mas sem saudade. Me lembro dela com agrado. quando saíram de lá. mudou de nome. não há paz. É em senhas. tapera dum sítio dito do Caramujo. Assim é que digo: eu. Boa. o demo é o contrário Dele.. quando eu era menino. foi o ódio. devia de estar sagrado.. foi. atrás das fontes do Verde. Para trás. mudaram. no entre essa e a Serra dos Alegres..Grande Sertão: Veredas baixos permeios. Jidião Guedes.

tinha querido se adiar das restadas chuvas de março – dia de São José e sua enchente temposa – para pegar céu perfeito. ele Jõe Engrácio reparou na quantidade de comidas e mantimentos que a gente tinha reunido. Nos caminhos ainda se lambuzava muita lama de ontem. Jõe Engrácio.João Guimarães Rosa . Declaro que era em abril. Tangemos. em entrar. e daí avançar aquilo que se disse. outros cavalos sob guarda dum sitiante amigo. ali onde o de-Janeiro vai no São Francisco. em tantos burros cargueiros: e que era – 53 – . para o que traçava. Medeiro Vaz. uma noite se passou. do que eu estava contando. ele mesmo logo se ria. ao senhor. e. por nome.. ou jagunz. com os campos ainda subindo verdes. logo conheci.. não achei terrível. da outra banda. o senhor sabe. fortemente. Modo mesmo assim. Eu estava com uns treze ou quatorze anos. esse era homem sério trabalhador. pelo firme.” – aquele Jõe Engrácio falou. todo o mundo sonhado satisfeito. esbarrando dois dias no Vespê – lá se tinha boa cavalaria descansada. do que ele falava. Mas erro era – porquanto Medeiro Vaz sempre soube rumo prático.. depodepois.Grande Sertão: Veredas mos existindo em território baixio da Sirga. De sorte que. mas demais de simplório. pois visto a gente ia baixar primeiro por campinas de brejais. Porque era extraordinária verdade. – “Versar viagem a cavalo sem ter estradas – só doido é quem faz isso..

Então Medeiro Vaz. ele recebera grande fazenda. De tudo. e rapadura. ninguém vereava. o senhor sabe? Quando moço.. vendo o que via. foi impossível qualquer sossego. em terras e gados. – “Bobou?” – foi só o que Medeiro Vaz indeferiu. Somente de mais sisudez. E ele. ao fim de forte pensar. Medeiro Vaz não era carrancista. de resmão. nem faltava sal. reconheceu o dever dele: largou tudo.. O que tinha sido antanha a história mesma dele. Estavam falando todos juntos? Então Medeiro Vaz não estava lá. por amor daquela fartura – as carnes e farinhas. fez o fez-por suas mãos pôs fogo na distinta casa-de– 54 – . perguntou aonde se ia. Às vezes vinha falando surdo. – “Bobei. No derradeiro. se livrou leve como que quisesse voltar a seu só nascimento. dando dizendo de querer ir junto. Não tinha bocas de pessoa. desde em quando aquele imundo de loucura subiu as serras e se espraiou nos gerais. nem café. Mas vieram as guerras é os desmandos de jagunços – tudo era morte e roubo.” – Jõe Engrácio reverenciou. Mas não louvava cantoria. ele sempre aceitava todo bom e justo conselho. e desrespeito carnal das mulheres casadas e donzelas. a praxe. De estado calado. Perdão peço. Podia gerir e ficar estadonho. chefe. Com ele. homem baseado. se desfez do que abarcava. de antepassados de posses.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas despropósito. não sustinha herdeiros forçados.

fazendão sido de pai. escorrido dono de si. relimpo de tudo. de sobregoverno. bisavô – espiou até o voejo das cinzas. avô. para impor a justiça. e saiu por esse rumo em roda. andava. Ele tinha conspeito tão forte. ninguém podia descobrir. A gente era os medeiro-vazes. mas só em favor de amigos perseguidos. De anos. ele montou em ginete. aí foi aonde a mãe estava enterrada – um cemiteriozinho em beira do cerrado – então desmanchou cerca. Por isso. lá hoje é arvoredos. de alívios agora se testava. se compunham. espalhou as pedras: pronto. loca Ramiro era único homem. Quando conheceu Joca Ramiro. para remexer com desonra. par-de-frança. nós todos obedecíamos. Mas Medeiro Vaz era duma raça de homem que o senhor mais não vê.João Guimarães Rosa . mandando por lei. – 55 – . Dizem que foi ficando cada vez mais esquisito.Grande Sertão: Veredas fazenda. doideira em juízo. de beijar a mão dele não se vexava. com cachos d’armas. então achou outra esperança maior: para ele. Daí. rapaziagem dos campos. capaz de tomar conta deste sertão nosso. por valente que fosse. Tenente nos gerais – ele era. que perto dele até o doutor. Fato que Joca Ramiro também igualmente saía por justiça e alta política. o padre e o rico. eu ainda vi. Ao que. e sempre conservava seus bons haveres. Cumpríamos choro e riso. o lugar onde se conseguiam os ossos dos parentes. e homem mais moço. reuniu chusma de gente corajada. Podia abençoar ou amaldiçoar.

o tanto. de repente. prezando. O que ninguém ainda não tinha feito. Boi brabeza pode surgir do caatingal. chegamos numa baixada toda avistada. Ali se chamava o Bambual do Boi.João Guimarães Rosa . descendo esbarrancados e escorregador. desenrolado. afastado um quarto-de-légua.Grande Sertão: Veredas Razão dita. Se viam bandos tão compridos de araras. Como fomos: dali do Vespê. felizinha de aprazível. por antigos plantado. num alto retuso. A parte de mais árvores. dos cerrados. de boa-cara se aceitou. um rebuliço de festejo. esse alvoroço. feito nuvem de abelhas em flor de araçá. que pareciam um pano azul ou vermelho. Lá a gente seria de pernoitar e arrumar os finais preparos. Daí. Dali eu via aquele movimento: os homens. a gente se sentia no poder fazer. com uma lagoa muito correta. no ar. e cutucar de guerrear nos fundões da Bahia! Até. e um ranchinho. cresce no se caminhar para as cabeceiras. belimbeleza. e um bambual. enxergados tamanhinho de meninos. rodeada de buritizal dos mais altos: buriti – verde que afina e esveste. Depois subimos. e. quando conforme Medeiro Vaz com as poucas palavras: que íamos cruzar o Liso do Suçuarão. se desceu mais. esfiapado nos lombos do vento quente. tresfuriado com o que de gente nunca soube – vem feio pior que onça. Eu estava de sentinela. que o tempo viera destruindo. houve. E tinha os restos de uma casa. tocamos. como tirando roupa e correndo para aproveitarem – 56 – . numa alegria.

Mas uns dez tinham de sempre ficar formando prontidão. rir e gozar seu exato. quase igualmente. Diadorim veio me fazer companhia. Eu cá não madruguei em ser corajoso. você lembra de sua mãe. os marrecos. de tardinha.João Guimarães Rosa . Ah. Em hora de desânimo. naqueles tempos eu não sabia. digo ao senhor. de donde fugiam espantados todos os pássaros – as garças.Grande Sertão: Veredas de se banhar no redondo azul da lagoa. Eu estava meio dúbito. eu lembro de meu pai. quem tivesse mais receio daquilo que ia acontecer fosse eu mesmo. E.” Não fale nesses. os companheiros agora queriam só pular. isto é: coragem em mim era variável. nas palmas dos buritis. aquilo mesmo que a gente receia de fazer quando Deus manda. que Medeiro Vaz assim mandava. – “Olha. O Danador! Mas Diadorim estava a suaves. roladas uma por uma.. e uns bandos de patos-pretos. Talvez.. Semelhava que por saberem que no outro dia principiava o peso da vida. hoje é que sei: que. era um fino soprado seguido. caminhou com os pés da idade. depois quando o diabo pede se perfaz. para a gente se transformar em ruim ou em valentão. Confesso. Então. E. quando voltou o vento. com seus rifles e granadeiras. ou cara de ruindade! Mas minha competência foi comprada a todos custos. Riobaldo” – me disse – “nossa destinação é de glória. Som bom de chuvas. – 57 – . os jaburus. ah basta se olhar um minutinho no espelho – caprichando de fazer cara de valentia. E o bambual.

tão impossível. Medeiro Vaz. sempre havendo. que tapava os pés deles. e pios e cantos – a gente toda discorria. e enqueridos nas costas dos burrinhos. nos meigos olhos dele. e Joaquim Beiju conhecia cada recanto dos gerais.. para adiante. me adoecido. Os cavalos ainda pastavam um pouco.Grande Sertão: Veredas Diadorim. Joaquim Beiju e Tipote – esse Tipote sabia meios de descobrir cacimbas e grotas com o bebível. e na capanga o diário de se valer com o que comer – paçoca. De manhãzim – moal de aves e pássaros em revôo. referido – 58 – . Primeiro. foi uma turma de cinco homens.. depois de não dizer nada. a patrulhazinha. Dormiu-se bem. o leve. o Suzarte desempenhava um faro de cachorro-mestre. se esparramava. atarefados. Também tínhamos trazido jumentos. para não ter de tolerar de ver assim o chamado. do capim-grama.João Guimarães Rosa . Que vontade era de pôr meus dedos. de leve. deu ordem de seguida. Se dizia muita alegria. de dia e de noite. Cada um pegava também sua cabaça d’água.. Constante que com a gente estavam três bons rastreadores – Suzarte. ocultando. Ficar calado é que é falar nos mortos. aquela beleza verde. Os bogós de couro foram enchidos nas nascentes da lagoa.. ajudando para o derradeiro. até que ponto esses olhos. só modo para carregar. Me faltou certeza para responder a ele o que eu estava achando.

que mesmo as moitas daquele de prateados feixes. com a gente se afastando. Um gavião-andorim: foi o fim de pássaro que a gente divulgou. Dia desdobrado. naquelas paragens pardas. A ver. Acabava o grameal. semoventes. por cima de matos. vindo aos poucos. Ali onde o campo largueia. E as árvores iam se abaixando menorzinhas. Depois. pois. De vir lá. só algum tatu. arregaçavam saia no chão.Grande Sertão: Veredas deletreado. quisesse podia mapear planta. A gente olhava para trás. em pulo de avanço. que lequelequeia. Mas o terreno aumentava de soltado. Aquilo. Acabou o sapé brabo do chapadão. Os urubus em vasto espaceavam.João Guimarães Rosa . Daí. Saímos. Seis novilhos gordos a gente repontava. longe na banda de trás. que desciam para seus lugares. se estava – 59 – . em ponto. a papeagem no buritizal. aquela grandidade. indo sem volvência. e o sol. no descampante. até perto de hora do almoço. se acabavam as mangabaranas e mangabeirinhas. capins assins. rebentava. Vi a luz. serviam para se carnear em rota. e paus espinhosos. os pássaros todos voltavam do céu. por mel e mangaba. Achante. dava um peso extrato. nas frescas beiras da lagoa – ah. o mundo se envelhecendo. Se acabou o capinzal de capim-redondo e paspalho. De repente. Em o que afundamos num cerrado de mangabal. castigo. o sol não deixava olhar rumo nenhum.

um sujeito dos companheiros. porque.. fofo ocado. confinante? O sol vertia no chão. Ele se quis com o Capiroto. um amarelo vapor. E o que era para ser. De longe vez. remedante. capins mortos. adiante. um João Bugre. Por quê? Juro que: pontual nos instantes de o raso se pisar. ou disse a outro.. se não for uma galinha puxando barrigada de leitões. Expondo ao senhor que o sucedido sofrimento sobrefoi já inteirado no começo. O pacto! Se diz – o senhor sabe. sem razão. louca. me disse. e chama fortemente o Cujo – e espera. Bobéia. O Hermógenes tem pauta.Grande Sertão: Veredas naquela coisa – taperão de tudo.João Guimarães Rosa . com o ar. E fogo começou a entrar... e arre se comparece uma porca com ninhada de pintos. e lagoa de areia. com sal. em meia-noite. daí só mais aumentava. Ao que a pessoa vai. e uns tufos de seca planta – feito cabeleira sem cabeça. Se sendo. esfaiscava.. Era uma terra diferente... do meu lado: – “ . As-exalastrava a distância. nos pobres peitos da gente. a uma encruzilhada. O que é pra ser – são as palavras! Ah. sem completação. Onde é que seria o sobejo dela. arrevesso.. O senhor – 60 – . Tudo errado.” Eu ouvi aquilo demais. há-de que vem um pé-de-vento.

Era ele mesmo.Grande Sertão: Veredas imaginalmente percebe? O crespo – a gente se retém – então dá um cheiro de breu queimado. queimando pessoas ainda meio – 61 – . para digerir o que se come. A gente viemos do inferno – nós todos – compadre meu Quelemém instrui. furando os olhos. bom atormentar. e até respirar custa dor. Sim só isto. Muito mais depois. Senhor quer crer? Que lá o prazer trivial de cada um é judiar dos outros. em as trevas de véspera para o Terceiro Dia. O Hermógenes tem pautas. Introduzi. Duns lugares inferiores. atirando na inocência do gado.” Provei. Se assina o pacto.João Guimarães Rosa . O senhor vê. se forma! Carece de se conservar coragem. tão monstromedonhos.. esfaqueando.. é preciso de esforçar no meio. cortando línguas e orelhas. Se assina com sangue de pessoa. O pagar é a alma. Se creio? Acho proseável. Repenso no acampo da Macaúba da Jaíba. superstição parva? Estornadas! “. e o calor e o frio mais perseguem.. E o dito – o Coxo – toma espécie. e outros – as ruindades de regra que executavam em tantos pobrezinhos arraiais: baleando. com fortes dores. que Cristo mesmo lá só conseguiu aprofundar por um relance a graça de sua sustância alumiável. soante que mesmo vi e assaz me contaram. e nenhum sossego não se tem. e. estripando.. não economizando as crianças pequenas. Com ele ninguém podia? O Hermógenes – demônio.

sobre ninguém – que vamos padecer e morrer por aqui. valentes somos. Medeiro Vaz se estugasse adiante. Se vê que subiram de lá antes dos prazos. Daí. Digo. Mas mor o infernal a gente também media.” Os medeiro-vazes. Caminho não se havendo. se repraçava um entranço de vice-versa. junto com os que rastreavam? Será que de lá ainda se podia receder? De devagar. constante que morrem. Viver é muito perigoso. e o miolo mal do sertão residia ali. A igual.. Como que falasse: “Hê. Os companheiros se prosseguindo.. com espinhos e restolho de graviá. Depois. era um sol em vazios.. que muitos retombam para lá. de áspera raça. exemplação de nunca se esquecer do que está reinando por debaixo. igualmente. figuro que por empreitada de punir os outros. verde-preto cor de cobra. Esses não vieram do inferno? Saudações. Em tanto. Diadorim – sempre em prumo a cabeça – o sorriso dele me dobrava o ansiar. na beira de estrago de sangues. sem firmeza. vi visagens. só prosseguindo.. trasla um duro chão rosado ou cinzento. receei de ter – 62 – . e calcava o reafundo do areião – areia que escapulia.. gretoso e escabro – no desentender aquilo os cavalos arupanavam.. A gente progredia dumas poucas braças. puxando os cascos dos cavalos para trás. As chuvas já estavam esquecidas.Grande Sertão: Veredas vivas. corruscubas..João Guimarães Rosa ..

noite sem boca. nem nada. A com légua-e-meia de andada. Riobaldo. Onde era que os animais iam poder pastar? Noite redondeou. nem a destravar os burros de albarda. em cruz: que Medeiro Vaz estava insensato? – e que o Hermógenes era pactário! Tomo que essas traves fecharam meus olhos. se viu o sol de um lado deslizar. sem mudança nenhuma. assim ouvi: – “Pois dorme. no tosta-sol.Grande Sertão: Veredas um vágado – como tonteira de truaca.João Guimarães Rosa . Nem auxiliei a tomar conta dos bois. nenhuma árvore nem barranco. no mesmo padrão de lugar. Ah.. meu medo. Noite essa. a cavalo ou a pé.. astúcia que tive uma sonhice: Diadorim passando por debaixo de um arco-íris. Desarreei. Mas. De Diadorim. Agüentei. peei o animal. e a noite armar do outro. Tanto tudo o que eu carregava comigo me pesava – eu ressentia as correias dos correames. pois caminhadas piores eu já tinha feito. aí jaz que descansando do meu lado.” Antes palavras que picaram em mim uma gastura cansada. – 63 – . eu pensava desconjuntado. tudo há-de resultar bem. ainda intruji duas coisas. da cabaça – eu tinha avarezas dela.. caí e dormi. Alguma justa noção não emendei. bebi meu primeiro chupo d’água. Até que esbarramos. Medo. Até que.. no extremo de adormecer. mas a voz dele era o tanto-tanto para o embalo de meu corpo. os formatos. eu pudesse mesmo gostar dele – os gostares. Havia eu de saber por quê? Acho que provinha de excessos de idéia.

no seguinte. vivido. Os – 64 – . E os outros. só agora pior. circunstavam. e o trabalho custoso de suas passadas. imaginado. Do sol e tudo. o pesadelo. e produzia uma maldade – feito pessoa! Não destruí aqueles pensamentos: ir. na brumalva daquele falecido amanhecer. Os cavalos venteando – só se ouvia o resfol deles. Jagunço é homem já meio desistido por si. vir – e só. Eu abaixava os olhos. companheiros. Capim não havia. para o senhor. sem esperança em uma. a dor do calor em todos os corpos que a gente tem. que trancados não alteravam. é ter sido. A debeber os cavalos em cocho armado de couro. o estufo. mostrando tudo o que cangavam de esforço. Nem menos sinal de sombra. sempre existido doidante.. Água não havia. A calamidade de quente! E o esbraseado. o senhor pode completar. se destapava – era o que eu tinha rompência de gritar. para não reter os horizontes. Pesadelo mesmo. em desde que as barras quebraram. e dosar a meio. sem o simples de passarinhos faltantes? Fomos. e cada restar de bebida carecia de ser poupado. e que Medeiro Vaz estava demente.. eles olhavam como para seus cascos. cavalanços. Se ia. de delírios. o que não pode. que é que os outros pensavam? Sei? De certo nadas e noves – iam como o costume – sertanejos tão sofridos.João Guimarães Rosa . Só saiba: o Liso do Suçuarão concebia silêncio.Grande Sertão: Veredas Como vou achar ordem para dizer ao senhor a continuação do martírio. eles esticando os pescoços para pedir. e ir.

Valentia vale em todas horas? Repensei coisas de cabeça-branca. tábua – 65 – . Desde uns versos: Buriti. Saudade se susteve curta..João Guimarães Rosa . Aquela gente toda sapirava de olhos vermelhos. cabeceira de vereda – na Fazenda Santa Catarina. entreguei alma no corpo. minhas vistas bestavam. olhos de onda do mar. Meu amor de prata e meu amor de ouro. Até minhas testas formaram de chumbo. Ou eu variava? A saudade que me dependeu foi de Otacília. minha palmeira. E nós estávamos perdidos. se rezava. arroxeavam as caras. lá na vereda de lá casinha da banda esquerda. procurando. Nenhum poço não se achava. Tive pena do pescoço do meu cavalo – pedação. A luz assassinava demais. e não achei acabar para olhar para o céu. Moça que dava amor por mim. existia nas Serras dos Gerais – Buritis Altos. Já tinha quem beijava os bentinhos. E a gente dava voltas. os rastreadores farejando. como a diguice duma música. Me airei nela. numa quebreira. se embaçavam de renuvem. De doer. Otacília. Já pouco forneciam. debruçado para a sela. ela queria viver ou morrer comigo – que a gente se casasse.Grande Sertão: Veredas cavalos gemiam descrença. Mas os olhos verdes sendo os de Diadorim. De mim.. outra água eu provava.

sem uma moita. o chão fresco remexido pela fossura duma anta..João Guimarães Rosa ..” – falou.. e os poços não se achavam. um pássaro voando sem movimento. Mas mesmo depois. eu não gostava mais de ninguém: só gostava de mim. deserteio de jaguncismo. não se matou a Ana Duzuza.. – “Riobaldo. padecente. O Miquim... Caso que arredondava a testa. – 66 – . “Saio daqui com vida. No escaldado. pensando. Ah. E adverti memória dos derradeiros pássaros do Bambual do Boi. o que era que aquilo me importava – de malfeitos e castigos? Eu ambicionava o suíxo manso dum córrego nas lajes – o bom sumiço dum riacho mato a fundo. antes de dar à casca. o cabecear das árvores. vou e me caso com Otacília!” – eu jurei. Adivinhou que eu roçava longe dele em meus pensamentos. cada um asia sua sombra num palmo vivo d’água. E eu não respondendo. Aqueles pássaros faziam arejo. Nada de reprovável não se fez. Voltar para trás. Gritavam contra a gente.. Dia da gente desexistir é um certo decreto – por isso que ainda hoje o senhor aqui me vê. O senhor sabe o que é o frege dum vento. um pé de parede pra ele se retrasar? Diadorim não se apartou do meu lado. O melhor de tudo é a água. Agora.. para as boas serras! Eu via. do proposto de meus todos sofrimentos. o riso do ar e o fogo feito duma arara. Alguém já tinha declarado de morto. naquela hora. queria ver.Grande Sertão: Veredas suante. de mim! Novo que eu estava no velho do inferno.

. – “Nós temos de voltar. se sofreu o grito de um. se engasgavam. E outro: todo empretecido. um rosnou.” – “Tal tempo!” – truquei. Aí.João Guimarães Rosa . eu pude pegar a rédea do animal de Diadorim – aquelas peças doeram na minha mão – tive que fiquei um instante no inclinado. Outro também. deste mesmo de lugar. e se agoniou. Os cavalos bobejavam. De repente. Riobaldo. Acabou de falar. Tom bom. – “Pois vamos retornar. a gente sofreasse. – 67 – . adiante: – “Estou cego!. chefe?” – Diadorim solicitou.. Credo como algum – até as orelhas dele estavam cinzentas. rouco como um guariba.. espalhado no chão. Vi uma roda de caras de homens. mais forte.” Mais aquele. que muito valia em guerreio. Eu apeei do meu. num aspeito repartido. para nós..Grande Sertão: Veredas um rapaz sério sincero. esbarrou e se riu: – “Será que não é sorte?” Depois. cão que olha. Medeiro Vaz a nada não atendia? Ouvi minhas veias.” – mas falei. Suas as caras. Pessoal companheiro. Diadorim pareceu em pedra. Que vejo que nada campou viável. virado torto... – “Daqui. mais não vou! Só desarrastado vencido. Foi aí que o cavalo de Diadorim afundou aberto. e sangrava das capelas e papos-dosolhos. o do pior – caiu total. mas se via que Medeiro Vaz não podia outro querer.. e parou um gesto. Contanto me mirou a firme. reclamou baixo. em redor. pelo o resultado. Medeiro Vaz estava ali. com aquela beleza que nada mudava. a rumo. embaraçando os passos das montadas..

Diadorim apalpou meu braço. Peguei minha cabaça.Grande Sertão: Veredas a não ser o que Diadorim perguntava. Medeiro Vaz. destrincharam.João Guimarães Rosa . Isto é. do estralal do sol. por meio do regular das estrelas. sem maiores estragos. e mais muitos dos cavalos. toda. Pra trás. e entendi. E – o senhor mais saiba – de supeto já eu estava remoçado. Como Deus foi servido. quartearam e estavam comendo. uns homens mortos. e a carga quase toda. bebi gole. disposto! Todos influídos assim. a idéia de se atravessar o Liso do Suçuarão. Mais não vi. Mor que depois eu soube – que. Mais não se podia. num pintar de aurora. de nada não poder fazer. sempre dá o prazer. E em lugares deerrados. para que contar ao senhor. Deus me disse. os homens tramavam zuretados de fome – caça não achávamos – até que tombaram à bala um macaco vultoso. são. a gente perdemos. e ele esteve de ombros rebaixados. amargo de felém. Mesmo o mais grave sido que restamos sem os burros. ele Diadorim era que a Medeiro Vaz tinha aconselhado. o mais que se mereceu? Basta o vulto ligeiro de tudo. pudemos sair. Vi: os olhos dele marejados. fugidos por infelizes. no tinte. – 68 – . então – por primeira vez – abriu dos lados as mãos. E foi. Saímos dali. Só não acabamos sumidos dextraviados. Mas. Céu alto e o adiado da lua. de lá. com os mantimentos. Mas era mesmo o final de se voltar. Com outros nossos padecimentos.

é a fome?” – uns xingavam. comi. Mas outros conseguiram da mulher informação: que tinha. qualidade que dizem que é de bom aproveitar. A mulher. fincada de joelhos. não achavam o rabo. nem farinha não tinham. Diadorim não chegou a provar. Isto é. – “Aí. Medeiro Vaz se prostrou. Para acompanhar.” Não se achou graça. o corpudo não era bugio não. Era homem humano.Grande Sertão: Veredas Provei. e manducando. morador. mas o filho também escapulia assim pelos matos. Outros também vomitavam. só o pepego esquisito. Não. Me deu. Foi assombro. Algum disse: – “Agora. que está bem falecido. chorando e explicando: era criaturo de Deus. mais não comeram. Mas uns já enchiam até capanga. um mandioca) sobrado. por vingança. A mulher rogava. sem achar sabor.. que nu por falta de roupa. – “Arre que não!” – ouvi gritarem: que. Por quanto – juro ao senhor – enquanto estavam ainda mais assando. de ser mandiocabrava! Esses olhavam com terrível raiva. um chamado José dos Alves! Mãe dele veio de aviso. a mulher ensinasse aquilo. de certo. obra de quarto-delégua de lá.. pois ela mesma ainda estava vestida com uns trapos. com tor– 69 – . não puderam. diversos perrengavam. E eu lancei. Nesse tempo. modo de não morrermos todos. e enganava o estômago.. por da cabeça prejudicado. o Jacaré pegou de uma terra. invocava. se come o que alma não é.João Guimarães Rosa . tanto não. com febre. então. e gostosa. se soube. Melhor engolir capins e folhas..

... Dum geralista roto. – “Em minha terra. Muitos estavam doentes. Santas águas. as flores do capitão-da-sala-todas vermelhas e alaranjadas. e na Lagoa Suçuarana. de reflexo. e ela servisse. inchadas. sempre ajudava. ali se pescou. outros tinham dores.. no correr do baixo campo. que me venha!” – Diadorim garantiu. sacudiu a cabeça... pensaram que carne de gente envenenava. a coitada.” – 70 – . Nós trouxemos aquela mulher.. perto de nós. e que verte no Rio Pandeiros – esse tem cachoeiras que cantam. Depois Medeiro Vaz passou mal. que papagaio voa por cima e gritam.João Guimarães Rosa . ganhamos farinha-de-buriti. entusiasmado. rebrilhando estremecidas. Diadorim comeu. o nome dessa” – ele disse“é dona-joana. E seguimos o corgo que tira da Lagoa Suçuarana. Mas o leite dela é venenoso. E longe pedra velha remeleja. e com manchas vermelhas no corpo. e danado doer nas pernas. A mulher também aceitou. Matou-se capivara gorda. – “Quem quiser bulir com ela. vi. garrava a ter nojo de mim no meio dos outros. – “É o cavalheiro-da-sala. Mas o Alaripe. de vizinhas. por fim. e é d’água tão tinto.Grande Sertão: Veredas rão daquela terra. Eu cumpria uma disenteria.. sem acordo: – É verde! É azul! É verde! É verde!. Mas pudemos chegar até na beira do dos-Bois. o tempo todo. ela temia de que faltasse outro de-comer. sangrando nas gengivas. E era bonito.” – Diadorim falou. do lado dele. e que recebe o do Jenipapo e a Vereda – do-Vitorino. – “Que só venha!” – eu secundei.

pedir em casamento. não desfazia mais nele. acho mesmo que ninguém se dizia de dar por assim. isto é que é. Pra ele a vida já está assentada: comer. beber. a gente tem devassalar. sortimos arranjados animais de montada. mandado de virtude. se carecia de tomar repouso e aguardo. e viemos vindo atravessando o Pardo e o Acari.. E todo o mundo não presume assim? Fazendeiro. E despaireci meu espírito de ir procurar Otacília. brigar.. depois de ser cinza. Ah. me esquecia. do que mal houve. também? Querem é trovão em outubro e a tulha cheia de arroz. algum.Grande Sertão: Veredas Esbandalhados nós estávamos. Mas eu gostava de Diadorim para poder saber que estes gerais são formosos. apreciar mulher. arranchamos dias numa fazenda hospitaleira na Vereda do Alegre. filhos do dia. em toda a parte a gente era recebida a bem. Jagunço não se escabreia com perda nem derrota – quase que tudo para ele é o igual. Esmorecidos é que não. Tornava a ter fé na clareza de Medeiro Vaz. Fui fogo. também. Confiança – o senhor sabe – não se tira das coisas feitas ou perfeitas: ela rodeia é o quente da pessoa. escatimados naquela esfrega. Tardou foi para se ter sinal – 71 – . e o diabo sai por toda parte lambendo o prato. Talmente. Por meios e modos. Tudo que eu mesmo. Nunca vi. e o fim final. Nenhum se lastimava. Olhe: Deus come escondido.João Guimarães Rosa . Jagunço é isso. digo.

nem consentia em desatinos de seus homens. em comidas. que é fundo. Sebastião Vieira. se passava: ou no Vau da Mata – 72 – . E Medeiro Vaz pensava era um pensamento: a gente mamparreasse de com eles não guerrear. Dando meias andadas. esperasse. Dono de lá.Grande Sertão: Veredas dos bandos dos Judas.João Guimarães Rosa . outros presentes. nós chegamos num ponto-verdadeiro. E o Ricardão? Estivesse. o Hermógenes beirava a Bahia de lá. Se passava o Piratinga. defloravam demais. como os buritis ensinam. Vereda em vereda. não tomava nada à força. Na ocasião. a gente varava para após. num Buriti-do-Zé. determinavam sebaça em qualquer povoa) à-toa. tinha curral e casa. não se esperdiçar – porque as nossas armas guardavam um destino só. e eram um mundo enorme de má gente. E guardava munição da gente: mais de dez mil tiros de bala. se soube. Por que foi que não se fez combate. Tenente Ramiz e Capitão Melo Franco – esses não davam espaço. davam o que podiam. de dever. esquipávamos. as pessoas vinham. Major Oliveira. depois naqueles meses todos? A verdade digo ao senhor: os soldados do Governo perseguiam a gente. Esbarrávamos em lugar. renitiam feito peste. Medeiro Vaz não maltratava ninguém sem necessidade justa. Mas os Hermógenes e os cardões roubavam. Mas a vantagem nossa era que todos os moradores pertenciam do nosso lado. Escapulíamos.

Ah. nos rios. outros carregavam suas coisas – sacos de mantimentos. Mundo esquisito! Brejo do Jatobazinho: de medo de nós. subíamos beira desse. como vieram com todos. o padre com seus petrechos e cruz e a imagem da igreja – tendo até bandinha-de-música. os velhos. trouxas de roupa.” Uns tocavam jumentos de almocreve. ou então. até às nascentes. se chegava até no Jalapão – quem conhece aquilo? – tabuleiro chapadoso. tão longe. mulheres. Tem quebracangalhas e ladeiras terríveis vermelhas. eles mesmo dizendo: “. despenha. que marchava de mudada-homens. o São Domingos. as crias. também. O menino recebeu nome de Diadorim. no Vau do José Pedro. saiba o senhor: população de um arraial baiano. O padre. Pois lá um geralista me pediu para ser padrinho de filho. com chapéu-de-couro prà-trasado.. inteira. o chapadão por lá vai terminando. proporema. rede de caroá a tiracol. Por aí.. parecendo nação de maracatu! Iam para os diamantes. pegando mais por baixo. no São Dominguinhos. extremando. quando militar vinha cismado empurrando.João Guimarães Rosa . um homem se enforcou. Olhe: muito em além. A ser o importante. que se tinha de estudar. É preciso de saber os trechos de se descer para Goiás: em debruçar para Goiás... Só era uma – 73 – . quem oficiou foi o padre dos baianos. era avançar depressa nas boas passagens nas divisas. vi lugares de terra queimada e chão que dá som – um estranho.Grande Sertão: Veredas ou no Vau da Boiada. Se não.

indo da miséria para a riqueza. O senhor vá lá. Raciocinei isso com compadre meu Quelemém. Lá venta é da banda do poente. até à hora de cada uma morte cantar.. lá se levantava enorme igreja. Rezavam. e ele duvidou com a cabeça: – “Riobaldo. madrugada boa gelada. já – 74 – .. No sertão. na Jijujã. no escuro. nem ambição. Todos vinham comparecendo. pelo prazer de tomar parte no conforto de religião.” – ciente me respondeu. mês de junho. acompanhamos esses até à Vila da Pedra-de-Amolar. O cortejo dos baianos dava parecença com uma festa. com o plequeio das alpercatas. na seca. dado logo. em algum apropriado lugar. Vai agora. para se viver só em altas rezas. E. Senhor vê.Grande Sertão: Veredas procissão sensata enchendo estrada. a colheita é comum. gente cantável. às poeiras. mas o capinar é sozinho. fortíssimas.João Guimarães Rosa . no tempo-daságuas. Às vezes eu penso: seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem. as velhas tiravam ladainha. no meio dos gerais. e todo sofrimento se espraiava em Deus. A estrelad’alva sai às três horas. um quebrapeito – e é ele mesmo. até enterro simples é festa. não havia mais crimes. Compadre meu Quelemém é um homem fora de projetos. o vento vem deste rumo daqui. É tempo da cana. louvando a Deus e pedindo glória do perdão do mundo.

na capital. aleijados por horríveis formas. feridentos. loucos acorrentados. por armagem de sonda. o que minha vocação pedia era um fazendão de Deus. que mesmo pessoa muito alegre ou muito triste gosta de poder conversar com ele. engenhando o seu moer. Senhor enxergasse aquilo. os cegos mais sem gestos. já tinham surgido vindo milhares desses. diz-se que lá ela foi cativa de comer. se braseando incenso nas cabeceiras das roças. ora cá ora ali lá. Senhor imagina? Gente sã valente. O senhor bebe uma cuia de garapa e dá a ele lembranças minhas. o senhor desanimava. Se tinha – 75 – .João Guimarães Rosa . em redor dela começaram milagres. idiotas. baldearam a moça para o hospício de doidos. coração tão branco e grosso de bom. Aquilo não era o que em minha crença eu prezava. Todo assim. Tinham o direito? Estava certo? Meio modo. essa desistiu um dia de comer e só bebendo por dia três gotas de água de pia benta. acho que foi bom. Mas diverso do que se vê. héticos e hidrópicos.Grande Sertão: Veredas risonho e suado. os doentes condenados: lázaros de lepra. finalizando. Homem de mansa lei. Como deu uma moça. até os pássaros e bichos vinham bisar. no Barreiro-Novo. colocado no mais tope. o povo entoando hinos. Porque. num estalo de tempo. querendo só o Céu. para pedir cura. de tudo: criaturas que fediam. trouxe os praças. Mas o delegadoregional chegou. determinou o desbando do povo.

Mire veja: um casal. doutor rapaz. se espantava da seriedade do mundo para caber o que não se quer. se perdia qualquer coragem. rezavam alto.. O sertão está cheio desses. discorreu me dizendo que a vida da gente encarna e reencama. e a vida é burra.. desesperavam de fé sem virtude – requeriam era sarar. só os tocos. para estorvar que se tenha dó. que explorava as pedras turmalinas no vale do Araçuaí. Arre. praxe de ir em movimento. exigiam saúde expedita. Como não ter Deus?! Com Deus existindo. Eu sei: nojo é invenção. Será acerto que os aleijões e feiezas estejam bem convenientemente repartidos. E aquela gente gritava. Mas. por progresso próprio. no teso das marchas. tudo dá esperança: sempre um milagre é possível. no Rio do Borá. só porque marido e mulher eram primos carnais. É o aberto perigo das – 76 – . os quatro meninos deles vieram nascendo com a pior transformação que há: sem braços e sem pernas. daqui longe. Guerra diverte – o demo acha.João Guimarães Rosa . Estremeço. discutiam uns com outros.Grande Sertão: Veredas um grande nojo. há-de a gente perdidos no vaivem. se não tem Deus. do Que-NãoHá. Só quando se jornadeia de jagunço. não desejavam Céu nenhum. nos recantos dos lugares. não se nota tanto: o estatuto de misérias e enfermidades. Vendo assaz. o mundo se resolve. Se não. mas que Deus não há. nem posso figurar minha idéia nisso! Refiro ao senhor: um outro doutor.

. o senhor me corte. Como é que se pode gostar do verdadeiro no falso? Amizade com ilusão de desilusão. Vida muito esponjosa. Tendo Deus. é menos grave se descuidar um pouquinho. Deus existe mesmo quando não há. pois no fim dá certo. eu trouxe uma pedra de topázio. Mas. mas de ver nascimento. dos meninos sem pernas e braços.. dá em aleijões como esses. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe. a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. Isto.João Guimarães Rosa . – 77 – . Medo mistério. Meu modo é este. então. Se eu estou falando às flautas. medo tenho não é de ver morte.Grande Sertão: Veredas grandes e pequenas horas. sabe o senhor por que eu tinha ido lá daqueles lados? De mim. De Araçuaí. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo. não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. aí é que ele toma conta de tudo. se não tem Deus. O senhor não vê? O que não é Deus. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. Dor não dói até em criancinhas e bichos. Nasci para não ter homem igual em meus gostos. e nos doidos – não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah. é estado do demônio. O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. conto. O que eu invejo é sua instrução do senhor.

por mimo. que me afadigavam. Diadorim restava um tempo com uma cabaça nas duas mãos. destino da gente. Voltei para os frios da razão. lá era favorável de defender que os cavalos se espairassem – por ter manga natural. o senhor veja: eu trouxe a pedra de topázio para dar a Diadorim. em si. em véspera. e hoje ela se possui é em mão de minha mulher! Ou conto mal? Reconto. Desta vez. a prazer. Nem para se definir calado. Dele eu queria saber? Só se queria e não queria.Grande Sertão: Veredas Eu passava fácil.. e currais falsos. mas tinha sonhos.. cabo de várzea. sem poder sono. um assunto contrário absurdo não concede seguimento. de pegar gado brabeza. Diadorim era aquela estreita pessoa – não dava de transparecer o que cismava profundo. Natureza bonita. Agora.João Guimarães Rosa . de tudo. Até. Acho que eu também era assim. a gente tange guerra. brejal. Ao que nós acampados em pé duns brejos. como sempre quando assim. o capim macio. “Seja por ser. sem – 78 – . Pior foi quando peguei a levar cruas minhas noites. O amor? Pássaro que põe ovos de ferro.” – pronunciou. eu olhava para ele. Dos de que a gente acorda devagar. Mas balançou a cabaça: tinha um trem dentro. que em breve rompemos adiante. daquele dia-a-dia. nem o que presumia. o que me deu desgosto. Riobaldo. onde se encostar. taco de ferro. ficou sendo para Otacília. um ferro. Me revejo.

Mas a água. e com cheias palmas. estacado. eu peguei meu copo de corno lavrado. Mas. suspendia uma folhagem. e fomos apanhar água num poço. A vai. Todas as palmas tão lisas. ou ovalado. remedando choupã de índio. como me deu sede. – 79 – . tão juntas. ia catar água. E eu tive decepção de logro. E ficava toda-a-vida com a cabaça nas mãos. Ele não contestou. Diadorim!” – eu disse. Em tal. mesma. desenhada de capricho. Eu? Asco! Diadorim parava normal. – “Bota isso fora. Era por esconso por uma palmeira – duma de nome que não sei. que não quebra nunca. Sofismei: se Diadorim segurasse em mim com os olhos. que ele me disse. observando tudo sem importância. guardou o pedaço de ferro na algibeira. me declarasse as todas as palavras? Reajo que repelia. quase. E. e me olhou de um hesitado jeito. fechavam um coberto. mas regrossa. Aí a gente se curvar. coração meu foi forte. O poço abria redondo. azul. de curta altura.Grande Sertão: Veredas serventia. ali intrim. por conta desse sensato silêncio? Debrucei. Como no recesso do mato. Assino que foi de avistarem umas assim que os bugres acharam idéia de formar suas tocas. só para produzir gastura na gente. Nem provia segredo. era uma cabaça baiana fabricada.João Guimarães Rosa . lá entrava. toda luz verdeja. reviradas para cima e depois para baixo. que se eu tivesse falado causa impossível. mas que agora sendo para nojo. dum azul que haja – que roxo logo mudava. até pousar no chão com as pontas.

por lá. no come-calado. discordes. Ah. todos eu achava muito ignorantes. acenando especial. sem menos.João Guimarães Rosa . demos para trás. esses estavam jogando buzo. que chamavam. os diversos lotes de burros. de sempre às vezes desaparecer e tornar a aparecer. grosseiros cabras. Resumo que nós dois. Pois fomos. dentuço?” – Medeiro Vaz exigiu certeza. que vinham de São Romão. se viu um bicho – rã brusca. dessas da vida.Grande Sertão: Veredas qual. providenciei para mim uma jacuba. Por simples que a companheirada naqueles derradeiros tempos me caceteava com um enjôo. A tanto. por aí. feições compridas. que à lisa cacheavam. – “Ele era alto. ver o que. levavam sal para Goiás. enchendo folga. ligeiro. subindo pelo resfriado. Somente que na hora eu queria a frouxa presença deles – fulão e sicrão e beltrão e romão – pessoal ordinário. Passava era uma tropa. e se sumiu. consoante a esquisitice dele. Diadorim desconversou. – 80 – . quem faz isso não é por ser e se saber pessoa culpada? No que vim para um grupo de companheiros. na virada que principiava a vertente – onde é que estavam uns outros. feiosa: botando bolhas. sob num tempo. E o arrieiromestre relatando uma infeliz notícia. E quis – que até me perguntei – pensar na vida: “Penso?” Mas foi no instante em que todos levantaram as caras: só sendo um rebuliço. mesmo sem fome. muito. acolá.

. Sesfredo? Você agüenta o existir?” – perguntei. de tanto riso.. porque aí se exalou. De inventar )ouco se ganha. a alma descansasse.” – e ele alargou as ventas.. Aqueles tropeiros. em volta.” A gente. – “Agora alguém carece de ir. Febres? Ao menos. antes de morrer.Grande Sertão: Veredas – “Olhe. – “E você não volta para lá. amém! – nós apreciávamos. A gente tirou chapéus. Eu espiei.” – Medeiro Vaz decidiu.. chefes em nosso favor na outra grande banda do Rio.” – nem bem cem braças andadas eu já pedia a ele. pois era” – o arrieiro respondeu – “e. se consternava. me fala nesse acontecer. no Cururu.. só.. que morria urgente. e enterrado. para às vezes ter saudade. Regra do mundo é – 81 – .. Vi que a estória da moça era falsa. Era como se eu tivesse de caçar emprestada uma sombra de um amor. caçando Diadorim. Mais não propôs dizer. – “Sesfredo. Berimbau! Saudade. deu o nome: que era Santos-Reis. Comandante. E o Santos-Reis era o homem que vivo fazia mais falta – ele estava viajando para trazer recado e combinação. o senhor creia. me conta. olhando salteado... – “Guardo isso.João Guimarães Rosa . nós tivemos grande pena.. que ali que era a mocinha de cabelos louros. tinham acendido vela. em voto todos se benzendo. mais. da parte de Só Candelário e Titão Passos. tinham achado o Santos-Reis.

Titão Passos? Ah. E sabia assoviar seguido. eu tinha de atravessar as tantas terras e municipios. perseguido por uma soldadesca. E as descrições que deu foram de todas as piores. de esguelha. Passamos. Era para vir alguém. Só mesmo – 82 – . próprio. Daí a cinco madrugadas. não há onde eu não tenha aparecido. Assim conheço as províncias do Estado. Sabíamos: um pessoal nosso perpassava por lá. meia geral. O velhozinho era amigo. jogamos uma viagem por este Norte. até à Serra Branca. numa barca. preso. copiando o de muitos pássaros. Só Candelário? Morto em tiroteio de combate. executou o recado. chamada hoje Monte-Azul. De madrugada. O Sesfredo comia muito. por riba da cintura. A que viemos: por Extrema de Santa Maria – Barreiro Claro – Cabeça de Negro – Córrego Pedra do Gervásio – Acari – Vieira – e Fundo – buscando jeito de encostar no de São Francisco. levado para a cadeia de algum lugar. tivera de se escapar para a Bahia. Ao viável. na Jaíba. Novidade não houve.João Guimarães Rosa . quem veio foi João Goanhá. brabas terras vazias do Rio Verde-Grande. O Alípio. retornamos. Só sempre bater para o nascente. pela proteção do Coronel Horácio de Matos. metralhadoras tinham serrado o corpo dele. acordamos em sua janela um velhozinho. direitamente em cima de Tremedal. dono de um bananal.Grande Sertão: Veredas muito dividida.

No formato da forma. mas com aqueles não terçavam? – “Se diz que eles têm uma proteção preta. É o demônio rabudo quem pune por ele.” Nisso todos acreditavam. Mal a gente se tocou. com triste raciocínio: por que era que os soldados não deixavam a gente em paz.. Medeiro Vaz precisava de nós.Grande Sertão: Veredas João Goanhá era quem ainda estava. Onde era que o perigo. reforçados.” – João Goanhá me esclareceu: – “O Hermógenes fez o pauto.. Comandava saldo de uns homens.João Guimarães Rosa . me senti pior de sorte que uma pulga entre dois dedos. para acabar com ele de uma vez. os poucos. e esbarramos com tropa de soldados – tenente Plínio. Mas coragem e munição não faltavam. Fogo no Jatobá Torto – sargento Leandro. mesmo segurava uma vara– 83 – . Mas não pudemos. Volteamos. Porque ele sabia que os Judas. Fogo no Jacaré Grande – tenente Rosalvo. A verdade que diga... Sobre aí. acho que eu fui o primeiro que cri. Fugimos. – “E os Judas?” – perguntei. Ainda disse João Goanhá que estávamos em brevidade. no país de lá. Eu era um homem restante trivial. Foi fogo. eu não era o valente nem mencionado medroso. para a Cachoeira do Salto. e marcharem em cima de Medeiro Vaz. eu bem defronte de mim se portava. Pela fraqueza do meu medo e pela força do meu ódio. tinham resolvido passar o Rio em dois lugares.

Grande Sertão: Veredas de-ferrão.. o Sesfredo comigo vai. dei passo: – “Se sendo ordens.. Aí em tanto eu não devia de me calar. que me ora vinha ranger na boca. de despique gandaiado. o melhor e mor. eu gostava era de ir.. eu estava me lançando. Ah. Apartei minhas vistas. se curvava sem querer. Me encarou.” Medeiro Vaz limpou a goela. deixar alheia a escolha do segundo. Estava amarelo almecegado. necessitavam de mim. pelo bom atirador que eu era. e despachou. mas outro igual eu não conheci. Requeri..” – ele propôs. haviam de querer me mandar escoteiro. então.João Guimarães Rosa . Medeiro Vaz aprouve. que não me competia? Ah. Medeiro Vaz – o Rei dos Gerais. e diziam que no verter água ele gemia. dizedor de mensagem? E aí se deu o que se deu – o isto é.. ânsia: que eu não queria o que de certo queria. – 84 – . Chefe.” – falei. Medeiro Vaz concordou! – “Mas carece de levar um companheiro. por esse tempo... em duríssimo: – “Vai. e que podia se surtir de repente. já acusava doença a quase acabada – no peso do fôlego e no desmancho dos traços. E a vontade de fim. e no caminho não morre!” A ser que Medeiro Vaz. demais. me levou num avanço: – “Sendo suas ordens. Quero ver o homem deste homem!. Nem olhei Diadorim...... mas mais negaceando prosápia: duvidoso d’ele consentir. Chefe. A meio. considerei nele certo propósito.

Acertasse eu com o que depois sabendo fiquei. Mas me confessei com sete padres. No me despedir. Vingar Joca Ramiro.. o repetido. baixinho: – “Por teu pai vou. A gente vive repetido. não é possível. meu suor não esfria! O senhor me releve tanto dizer. Constante eu puder. e. que só duma coisa. para de lá de tantos assombros. só no último derradeiro é que clareiam a sala. Posso. mesma.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas Por que era que eu estava procedendo à-toa assim? Senhor. Minha vida não deixa benfeitorias. amigo. Mire veja o que a gente é: mal dali a um átimo. Mas. afetando a espécie duma vagueza. tive precisão de dizer a ele. acertei sete absolvições. também. num mim minuto. Um está sempre no escuro.. não me queixo de nenhuma coisa. mano-oh-mano. Sim. Diadorim me espreitava de longe. escorregável. Mesmo fui muito tolo! Hoje em dia. Não tiro sombras dos buracos.” – 85 – . eu selando meu cavalo e arrumando meus dobros. não há jeito de me baixar em remorso. E dessa. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. eu acho até que o bom remorso não se pode criar. Enquanto se tem medo. e já me muito entristecia.. já está empurrado noutro galho. No meio da noite eu acordo e pelejo para rezar. sei? O senhor vá pondo seu perceber. o que tenho é medo..

de ser sempre jagunço não gostava. Que ele. Pesares que me desenrolavam. Galopando junto com Sesfredo. E então eu decifrei meu arranque de ter querido vir com o Sesfredo. tinha deixado. que um se repinta e se sarrafa? Tudo sobrevém. à alegria fingida no coração?: Olererê. – ? – 86 – . tanto toda-a-vida. então.. Será? Medida de muitos outros igualasse com a minha. é do influimento comum.” Despedir dá febre. em terras do Jequitinhonha. Acho. Como é. fazia muitos anos. larguei aquele lugar do Buriti das Três Fileiras. oh baiana! e volto do meio pra trás. acho. adulatória. e achava que não tinha nascido para aquilo. indo em bando por estradas jornadas. esses também não sentindo e não pensando.. por que era que eram aqueles aprontados versos – que a gente cantava. baiana.. E boa-sorte.Grande Sertão: Veredas A fraqueza minha.. uma moça que apaixonava. Mas ele respondeu: – “Viagem boa.. sazão. se sabia. Tanto um prazo de travessia marcada. Riobaldo. e do tempo de todos.. Se não. como os meses de seca e os de chuva.João Guimarães Rosa . eu ia e não vou mais: eu faço que vou lá dentro.

que eles tinham botado para a certa informação. em roda dali. Mas fomos lá. tu quer! Seguidos por ali entraram. os tremedais. vem. Para guerra grande. às pressas espalhamos de lugar os ramos verdes de árvore. já viu algum? O chão deles consiste duro enxuto. Dos nossos. mortes diversas.. Seja sem espera. tropa com cavalos. acolá. vai avançando. debaixo da crosta seca. cá e cá. por valentão e verdadeiro.João Guimarães Rosa . João Goanhá dispôs que a gente se amoitasse – três golpes de homens – tocaiando. Pois. Assim a gente experimentava. E. por disfarçação. normal que engana.Grande Sertão: Veredas João Goanhá. Iscas! Cavalaria dos praças se – 87 – . Ao de manhã. Pessoa muito leal e briosa. quem não sabe o resto. primeiro passaram os do sargento Leandro. da gente não sei o que vai ser.. Ele me disse: – “Agora. Arre. uns. Os campos-gerais ali também tem. Ei! Porque. por conhecer o caminho firme. ah. rebole ocultado um semifundo.. tenente. nem carecia de estadear orgulho.. eu acho que só Joca Ramiro é que era capaz. treme escapulindo. aquilo sucrepa: pega a se abalar. falseando fuga. mesmo ignorante analfabeto.” Ah. e um guia pagavam. Tenente. pisa. quando já estão meio no meio. Tombadores. vinham os do tenente. feito gema de ovo na frigideira. de brejão engolidor. esses eram os menos. ronca. terríveis mindinhas idéias... de repente ele tirava. mas João Goanhá também tinha suas cartas altas. Homem de grito grosso. No depois. sei não de onde. deram tiros. cavalama.

A gente. Lá. que pegos presos – se disse que foram acabados! Doideamos. perdiam ligeiro essa graça. até qualquer molambo de sujeito. Gerais da Pedra. ei eram só soldados. Furadodo-Meio. dos lados e adiante da gente. se rachou em cruzes. vi. o Sucivre. Elisiano. Eu não atirei. Não tive braçagem. montão. uns a esmo desfechavam mosquetão.. Mas encalcados se afundando. se abraçavam com os animais caintes. o Clange. às vezes. Mortos mais uns seis. Arduininho morreu. mirava. daí se encachorraram mais em nós. se gerando. Coisas que vi. se queria. Solón Nélson morreu. pra não mais. Córrego do Poldro..Grande Sertão: Veredas avexou. o Campelo. Os cavalos entornados – era como despejar prateleiras cheias – e os soldados aiando gritos. Pedro Bernardo – acho que foram esses. Corrijo: com outros. por beber vinganças. De campos e matas. Ave. todos. de repente foi: a casca de terra sacudia.João Guimarães Rosa . Achavam de tomar regalia de desforra na gente... A Bahia estava cercada nas portas. estalando. em muitos metros – balofou. Dávila Manhoso. PescoçoPreto. Talvez tive pena. ainda acertava neles. Toquim. Chapada do Sumidouro. Tanto por tanto. Deovídio. Ah. Chapada do Covão. o Eleutério se – 88 – . Passagem da Limeira. vi – oi. BatataRoxa. Serra do Deus-MeLivre. Morreram o Figueiró. paisano morador. e pronto. ou com o ar. em cada ponto para trás. vargens e grotas.

O capiau então chamou. Eleutério virou para trás. Nem munição nem de-comer não sobravam. parecia um santo. e foi. Se esparramavam os goanhás. bateu em porta duma cafua. com o facão. deu as costas. ele morreu mansinho. De forma que a gente carecia de se separar. que cresciam. para reunião: na juntura da Vereda Saco dos Bois com o Ribeirão Santa Fé. pregou o capiau na taipa da cafua. e levou na cara e nos peitos o cheio duma carga de chumbo fino. errada. todo se sarapintando das manchas vermelhas. Dentro da cafua também restavam outros soldados. Ficou lá. E a soldadesca atirava. O capiau se encobriu detrás do forno de assar biscoito – de lá fazia pontaria com a espingarda – e balas nossas levantavam terra ao redor dali. umas cem braças. arreganhava os braços. O cabelo dele aumentou em pé. veio andando uns passos.Grande Sertão: Veredas apartou da gente. Ataliba. Até em um ponto de a salvo conversarmos. ensinou alguma coisa. e na beira do cerrado. Serra Escura. quem vivesse viesse para cá do Rio. Nós – eh – bom. De si por si. cada um por seu risco. que deram contas a Deus. entrupicado. espetado. a pé. de emboscados no mato do córrego. Cegou. Ou ir – 89 – . Conseguimos aragem. da outra banda. feito um ciscado de cachorro grande. por esclarecer. rodou. O capiau surgiu. como pudesse caçar escape. para ouvir o que havia.João Guimarães Rosa . Eleutério agradeceu.

como nem de crime nenhum. O ar todo do campo cheirava a pólvora e a soldados.Grande Sertão: Veredas de direto para onde estivesse Medeiro Vaz. Nossas armas. de não se cumprir de ir. Ou. ali onde o Ribeirão Gado Bravo é vadeável. o Sesfredo comigo também. Só se. não agasta: igual lobisomem verte a pele. etcétera de traição não sopra escrúpulos. viemos. no viver tudo cabe. Aí. não longe do Araçuaí. a gente – 90 – . meu. cabra velho guerreiro: ele boiava língua em boca aberta. sarado. desafasto. vim. Escorregando sem rumo. Se despedimos. Por durante um tempo. então no Buriti-da-Vida. companheiros sobrantes.João Guimarães Rosa . saímos fora da roda do perigo. Gente sendo dois. Por que não ficamos lá? Sei e não sei. campeamos um seguro lugar. São Simão do Bá. Chegamos no Córrego Cansanção. nunca terminava de atar as correias do gibão um Cunha Branco. Diante de mim. Algum remorso. medi muito maior. deixamos escondidas. que estava na mineração. Ao que João Goanhá mandou. A pressa era pressa. de desertados? Não vê que não. Sesfredo esperava de mim toda decisão. Com a graça de Deus. garante mais para se engambelar. ou mais em riba. E medo. a gente se ajustou no meio do pessoal daquele doutor. eu fui. com parte das roupas. carecíamos de ter algum serviço reconhecido. caso o inimigo rondasse perto demais. que eu já disse e o senhor sabe.

rosalgar – indivíduo. o senhor sabe: clareado.. Pois ia me esquecendo: o Vupes! Não digo o que digo. adiante. Talvez. leandrado.João Guimarães Rosa . alto-lá comigo. Ou nem não tinha. os dias mal. Suasse saudade de Diadorim? A ponto no dizer. que assim falseio. por conta de Otacília – continuação de amor. se o do Vupes não orço – que teve. Desengoli. caçar de voltar dali para a casa-grande de Selorico Mendes. Aí. Esse um era estranja. o mesmo é.. Vamos?” – eu disse para Sesfredo. Quis não. alemão. na Fazenda São Gregório. Ah. Em mês de agosto. Só como o céu e as nuvens lá atrás de uma andorinha que passou. que foi juvenescendo em mim uma inclinação de abelhudice: assaz eu queria me estar misturado lá. Araçuaí não eram os meus campos. podia flauteado comparecer no Buritis Altos. demais!” – o Sesfredo me respondeu.. buriti vinhoso. isto sim. rança o descrédito de se ser tornadiço covarde. – “Tempo de ir. Mas eu podia rever proveito.Grande Sertão: Veredas amiúda no ajuizar o desonroso assunto. eh e não. menos. com os olhos azuis. mesmo. as noites cambando para o entrar das chuvas. ver o fim de tudo. como em outro tempo. Temeriam! Assim e silva.. esporte de alto. – 91 – . com os medeiro-vazes. eu acho. constituído forte. também. – “Vamos. tãomente. Viver é um descuido prosseguido. exigir meu estado devido.

Me reconheceu devagar. Hê... e ia desempenhando seu negócio dele no sertão – que era o de trazer e vender de tudo para os fazendeiros: arados. Senhor estar bom? Folgo. Conservava em si um estatuto tão diverso de proceder. loja.” E eu gostei daquela saudação. hê. o senhor conheceu ele? Õ titiquinha de mundo! E como é mesmo que o senhor fraseia? Wusp? É. conforme prosperou. ele tomava empreitada de armar. Sujeito escovado! Me olhou. desses moinhos-de-vento de sungar água. enxadas. e até papa-vento. as que agradáveis foram. Homem sistemático. mas abastado. Diz-se que vive até hoje.. na capital – e que é dono de venda grande. e ele não somava com nenhuma coisa: viajava sensato. do Curralinho. exatão. mas parece que escolhidas só as peripécias avaliáveis. debulhadora.. com toda a confusão de política e brigas. latas de formicida.João Guimarães Rosa . ferramentas rógers e roscofes.. salutar na alegria séria. a gente se acha de voltar aos passados. com torre. no Curralinho. Wupsis. me disse: – “Folgo. como me conhecia. arsênico e creolinas. – 92 – . por aí. Pois esse Vupes apareceu lá. Seo Emílio Wuspes. Alemão Vupes ali. Sempre gosto de tornar a encontrar em paz qualquer velha conhecença – consoante a pessoa se ri. e eu recordei lembrança daquelas mocinhas – a Miosótis e a Rosa’uarda – as que.. Ah. facão de aço. Vupses. logo vai me reconheceu.Grande Sertão: Veredas Pessoa boa. que todos a ele respeitavam.

Tanto pensei. A gente às vezes ia por aí.. Ah. tudo. Então. era – 93 – . pai de família faminta. cidade São Francisco. Coisas sem continuação. direto. nem repara na pobreza de todos. espremendo seu medo. Ele pitava era charutos. muito valente. cisco.. gente braba. São árvores que pegam poeira. Pobre tem de ter um triste amor à honestidade. Eu precisar de homem valente assim. o homem queria comprar um punhado de mantimento.. um sujeito magro. vou forte. civilizadamente. saía da algum canto.Grande Sertão: Veredas eu pensava que tinham sido as minhas namoradas.” Destampei. nem vê. os cem. Senhor também estar bom? Folgo. aquele era casado.João Guimarães Rosa . e vinha.” – que eu respondi. gente no duro ou no desânimo. – “Seo Vupes. sertão agora aqui muito atrapalhado. vai. Um jagunceando. Assim que é vida assoprada. ri que ri. O senhor sabe: tanta pobreza geral. eu também folgo. viajar meu. farraposo: com um vintém azinhavrado no conco da mão. de ouvir. prezei a minha profissão.” Para falar.. Mas o mais garboso fiquei. duzentos companheiros a cavalo. tinindo e musicando de tão armados-e... o bom costume de jagunço. amarelado.. perguntei: – “Para que banda o senhor tora?” E o Vupes respondeu: – “Eu. vivida por cima. quinze dias.. Mais me disse: – “Sei senhor homem valente. nem com uma pontinha de dedo ele não bulia gesticulado.

. quando se topava com uma casa mais melhorzinha. a saudade de Diadorim voltou em mim. O Vupes vivia o regulado miúdo. acoroçoado. Cavalo que ama o dono. até respira do mesmo jeito. uns ovos. outra acolá – uma moranga. e ele formava conforto. farto real. Brejo das Almas e Brasília. grelos de bambu. tudo virava iguarias! Assim no sertão. de afogo de chegar. outra coisinha ali. ele naquilo não tinha próprio destaque. aí. me custando seiscentos já andava. o Sesfredo não presumia nada. dele aprendi. Saiba-se! Deixamos o homem no final. e perto estar. ele encomendava pago um jantar ou almoço. e eu cuidei bem dele. Bela é a lua. depois de tanto tempo.. e para tudo tinha sangue-frio. pratos diversos. O – 94 – . que tinha demonstrado a confiança minha. E. O senhor imagine: parecia que não se mealhava nada. trouxemos o seu Vupes. depois. lualã. passamos. muito. que torna a se sair das nuvens.Grande Sertão: Veredas mesmo meu rumo – aceitei – o destinar! Daí. Viemos pelo Urucuia. sem confrontos de perturbação. mas ele pegava uma coisa aqui. Meu rio de amor é o Urucuia. chegar. falei com o Sesfredo. Demos no Rio. ele mesmo ensinava o guisar. mais redondada recortada. que quis também. Com as graças. o que queria. Tal por essas demarcas de Grão-Mogol.João Guimarães Rosa . Mas os caminhos não acabam. umas ervas – e.

que verte no Rio Preto. que quer tirar é instantâneo das coisas. nem boi não gosta. eh não. E isso de que me serve? Águas. ali tem três lagoas numa. Tocamos. aproximar a natureza. águas. os gerais. aumentável. porque muito ribeirão e vereda. com quatro cores: se diz que a água é venenosa. Vaqueiros todos vaquejando. com o capim verdeado. Daí. descritamente. não traga. esconso lugar.. Esbarramos num varjeado. deles ninguém não sabia bem.. – “Os muitos! Uma monarquia deles. azula muito: quem conhece fala que é a do mar. por entre o daGarapa e o da-Jibóia. o primeiro Preto do Rio Paracatu – pois a daquele é sal só.João Guimarães Rosa .” – os vaqueiros respondendo. a corja! – “A tantos quantos?” – eu pondo meu perguntar. Estou entendido. com suas boiadas espatifadas. O gado esbravaçava. fim que o mundo tivesse. o tempo-das-águas de chegada. Só Preto. Ar que dá açoite de movimento. os nossos. já molhei – 95 – . E tanta explicação dou. Assim como o senhor.Grande Sertão: Veredas chapadão – onde tanto boi berra. faz raiva. O senhor verá um ribeirão. nos contornados por aí. trovoada trovoando. redobra nome. que verte no Canabrava – o que verte no Taboca. Mas Medeiro Vaz não se achava. Quando um ainda não aprendeu. Ali é que vaqueiro brama. vige salgada grossa. Só deerrávamos. A mal que as notícias referiam demais a cambada dos Judas. se atrapalha.

por aqui.. Assim. até aos pouquinhos matar. um – 96 – . isto sim. ou dinheiro falso moedado. E algum ribeirão. o senhor já viu: Rio é só o São Francisco. no Riacho Cizlá se afundou uma boiada quase inteira. Santa Catarina. munição. tesouro e armas. Por gosto de rebuliço. O senhor deve de ficar prevenido: esse povo diverte por demais com a baboseira. O resto pequeno é vereda. onde tinha um cômodo quase do tamanho da casa. Parece que todo o mundo carece disso. São Pedro. Agora. socavado no antro do chão – lá judiaram com escravos e pessoas. Da Ponte.João Guimarães Rosa . e perseguindo tudo. uns dez. Queremporque-querem inventar maravilhas glorionhas. se deslambendo em vento. Mas. Reconditório de se ocultar ouro. o senhor vá ver a fazenda velha. lhe digo: eu nisso não acredito. O sertão é do tamanho do mundo. deu para se ver.. Verde. que apodreceu. por debaixo dela. Tamboril. uns cinco. E uns sete por nome de Formoso.Grande Sertão: Veredas mão nuns dez. depois. muitos. do cafofo. para não mentir. Do Pacari. em noites. dum traque de jumento formam tufão de ventania. também. Eu acho. olhe: tem um marimbu – um brejo matador. que. E agora me lembro: no Ribeirão Entre-Ribeiros. ou da Vaca. deitado a fora. depois eles mesmos acabam crendo e temendo. Do Boi. o Rio do Chico. uma porção.

Ela foi num morrote.Grande Sertão: Veredas milhão de lavareda azul. cantigas rimaram: do Fogo-Azul-do-Fim-do-Mundo. A estúrdia forca de enforcar. esquadriada. mandou obrigado – 97 – . eu vi – forca moderna. que o mundo ia se acabar naquele ponto. dos Freitas ruivos da Água-Alimpada. então. por via do padre não ter consentido de casar um filho com sua própria mãe. e endoideceram de correr fuga. Hê. e pajear criminoso por viagens era dificultoso. Gente que não sabia. Só que um pobre veio morar próximo. em épocas. porque não tinham recurso de cadeia. em madeira de boa lei. hê?. parda: sucupira. Aí. Semelhante não foi. Agora. No mais nada. Rudugério de Freitas. em cada útil caso. quando um homem. avistaram.. quase debaixo dela. da redondeza. perto da banda da mão-direita do Pripitinga. dando seguida cavava a cova e enterrava o corpo. a cavalo.. tirava as pessoas de seus serviços. de jãdelãfo. para a forca. usavam.João Guimarães Rosa . terem castrado um padre. viajou mais. falavam que era sinal de castigo. causa de. com cruz. cobrava sua esmola. ali perto umas vinte léguas. construída. aprovada ali particularmente. vinham até trazendo o condenado. fogo-fá. do que eu ou o senhor. pública. a forca. depois do São Simão do Bá. Às vezes. A que. até. se duvidar. Pois essa estória foi espalhada por toda a parte. arvorada bem erguida no elevado.

a gente ajudou. Daí. Tal. a melhor naquele trecho. Aí. Demos julgamento. conforme cada vez. oi. buscar para matarem. de telhas. em pufo. e obraram dito e feito. então. o rumo das coisas nascia inconstante diferente. urdindo com cordões de embira e várias flores. o irmão combinou com o irmão. naquele tempo. para a Nossa Senhora em adiantado remitir o pecado que iam obrar. Os dois irmãos responderam que tinham executado aquilo em padroeiragem à Virgem. já era – o senhor saiba Zé Bebelo! Com Zé Bebelo. E enqueriram o cadáver paterno em riba da casa – casinha boa. A pegar. prisioneiros nossos. o chefe nosso.” E o pessoal todo tirou os – 98 – . Ao que. esse outro. eu prestes vi que ele estava se rindo por de dentro. A papo: – “Co-ah! Por que foi que vocês enfeitaram premeditado as foices?” – ele interrogou. empolo. Assim. que roubou sacrário de ouro da igreja da Abadia.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas um filho dele ir matar outro. disse: – “Santíssima Virgem. tal. distribuído de foiçadas. Tudo que Zé Bebelo se entesou sério. mas sem rugas em testa. em vez de cumprir o estrito.. Mas porém. que iam levando para distante vender. Mas primeiro enfeitaram as foices. Mas foram logo pegos. enviava imediato os dois para tão razoável forca.. os dois vieram e mataram mesmo foi o velho pai deles. reuniram o gado. fosse Medeiro Vaz.

Se o senhor não conheceu esse homem. arvoado. E desse caso derivaram também uma boa cantiga violeira. no meio do triste sertão. embolsamos. Nossa Mãe!” – Zé Bebelo decretou. Autorizava que era preciso se respeitar o trabalho dos outros. zureta. Mas. como os dois irmãos careciam de algum castigo.. pimpão. Aquele queria saber tudo. em alto respeito. Zé Bebelo – ah. como apreciava: – “Perdoar é sempre o justo e certo.. sem admitir apelo nem revogo. pelo exemplo pela decência. ele requisitou para o nosso bando aquela gorda boiada. poder tudo.” Aí mais Zé Bebelo disse. legal e lealdado. e entusiasmar o afinco e a ordem. Mas eu perdôo. – “O pai não queria matar? Pois então.. Mas deponho que Zé Bebelo somente determinou assim naquela ocasião. Seguro já nasceu assim. ele cobrava só imposto de uma ou umas duas reses. quando a gente encontrava alguma boiada tangida. eu não sei. a qual pronto revendemos. Absolvo! Tenho a honra de resumir circunstância desta decisão. em nome dela – a Puríssima. para o nosso sustento nos dias. deixou de certificar que qualidade de cabeça de gente a natureza dá.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas chapéus. morreu – dá na mesma. se ela perdoa ou não. – “Pois. conformemente!.” – pirlimpim. Trepava de – 99 – . Não esbarrava quieto. dispor de tudo. criatura de confusão. Normal.. tudo alterar. raro de vez em quando.

Um homem consegue intrujar de tudo. o Leôncio Du decidiu deixou o facão cair. mas com uma autoridade muito veloz. caminhou para o Leôncio Du. e se entregou. só não praticava de buzo nem baralho – declarando ter receios. entendia dos cavalos. Soava no que falava. conforme as quantas. se – 100 – . no tremeluz. dançava as danças. diferente na autoridade. só de ser inteligente e valente é que muito não pode. assoviava musical. Zé Bebelo apontou nos cachos dele a máuser: estampido que espatifa – as miolagens foram se grudar longe e perto. Sem menos. fré!” Ao de que. Chegou um brabo. artes que falava. Atual. No regular. Zé Bebelo pescava. A gente pegou cantando a Moda-do-Boi.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas ser o mais honesto de todos. indagava de cada coisa. tocava violão. Como gritou: – “Você quer vermelho? Te racho. o cabra confessou: que tinha querido vir drede para trair. juazeiro!” – Zé Bebelo a faro saudou. por atreito demais a vício e riscos de jogo. Senhor ouve e sabe? Zé Bebelo era inteligente e valente. sentar nele uma surra de peia. Desarmado. E Zé Bebelo pegava no ar as pessoas. em empreita encobertada. caçava. uma vez. recomendado. exortava a gente. cabra da Zagaia. ou o mais danado. E mandou amarrar o sujeito. – “Tua sombra me espinha. laçava rês ou topava à vara. que tinha afastado todo o mundo e meneava um facãozão.

por exercício.. de si.. requerendo: – “Não faz vivalei em mim não.. nunca. revólver ainda em mão. perseguir quem achasse. – 101 – . Acabando um combate. – “Viva a lei! Viva a lei!. seu Zebebel’. se achando trotando por um caminho completo novo. E era. por perdão. saía esgalopado. com despropósito. Ou: – “Paz! Paz!” – gritava também. tecia seu divertimento. Dou-lhe qual: que. Considerava o progresso de todos – como se mais esse todo Brasil. louvava a chuva. de dar conselhos. trapo de minuto depois. horas.. nenhão. e bala: se entregaram mais dois. E era mas que ele estava perdido. a fama correu. só aos brados: – “Viva a lei! Viva a lei!. deerrado de rota. quando retornou de Goiás.. na garupa!” – trouxe o outro para com a gente jantar. sucinto. mas. que lei.. ele corria a cavalo. E. o que houvesse: choveu. prezava o sol.” – e era o pipoco-paco. para ele. exclamou: – “Ei. Certo dia. territórios – e falava. pulou de joelhos na estrada. O passado. – “Vim de vez!” – disse. era mesmo passado. môr-de-Deus. uma vez. há.João Guimarães Rosa ..” – sério. parte de fraco não dava.” Há-de-o. com ele.Grande Sertão: Veredas entusiasmava com qual-me-quer. gritou: – “Amonta aqui. alguém soubesse? Tanto aquilo. irmão. Gostava. há. que quilate.. não vogava. Ah.” E Zé Bebelo jogou para o pobre uma cédula de dinheiro. até o feio da guerra podia alguma alegria. e um veredeiro que isto viu se assustou. que as serras estas às vezes até mudam muito de lugar!. horas.

Ao quando encontramos o bando. tromba: chuvão que come terra. espetado numa estaca. inchou o tempo. Quem mede e pesa esses demais d’água? Rios foram se enchendo. foi uma das pessoas nesta vida que eu mais prezei e apreciei. A tristeza e a espera má tomavam conta da gente. Medeiro Vaz morreu.. Mesmo dava um frio vento. próximo. Pois porém. Amigo.João Guimarães Rosa . tinham levantado um boi – o senhor sabe: um couro só. – “O mais é o pior: é que tem inimigo. foi ali. o Sesfredo e eu chegamos no Marcavão. Para Zé Bebelo. melhor minha recordação está sempre quente pronta. de campinas a campos. tocaiando. O barulhim do rio – 102 – .Grande Sertão: Veredas Esse era ele. Apeamos no Marcavão. Nós chegamos em tempo. talvez por isso a alegria comum não pôde se dizer. Antes de lá.. Fiquei sincero. Esse era um homem. com umidades. Muito chovido de noite-as árvores esponjadas. A ser que. nem Diadorim me abraçou nem demonstrou um salves por minha volta. Acampávamos debaixo de grandes árvores. areiões e varjas. a gente vendo.” – Alaripe me disse. beira do do-Sono. Chuva de desenraizar todo pau. Medeiro Vaz já estava mal. ao fim retomo. emendo o que vinha contando. por morros. por resguardar a pessoa do rumo donde vem o vento – o bafe-bafe. naquele país fechado. para chover. Para agasalhar Medeiro Vaz.

que o chefe está no fatal!” Medeiro Vaz. Debruçando por debaixo dos couros. às despejadas. como miolo de formigueiro.João Guimarães Rosa . Ao menos Diadorim me chamou adeparte. Os olhos – o alvor. Riobaldo. como era que um daquele podia se acabar?! A água caía. Avesso fiquei. ajoelhados. Medeiro Vaz jazente numa manta de pele de bode branco – aberto na roupa. Era quase sonoite. cheio de cabelos grisalhados. ele tramava as lágrimas. arquejando. escorria nas caras da gente. E deu a panca. meio sem jeito. podia-se ver o fim que a alma obtém do – 103 – . aí armou no se aprumar. como de propósito.. pelejando para me ver. o peito. para proteger a morte dele.. Reunidos em volta. que eu imaginei em você esse prazo inteiro. Quando vislumbrou de mim. a cara – arre de amarela. mas não era de hidropisia. em fios pingos. arriou os braços. Demorava. grandes momentos. o amarelamento: de palha! Assim desse jeito ele levou o dia quase a termo. Era de dores. Uma chuva de arrobas de peso. Ah. cumprindo tudo. a gente segurava uns couros abertos.” – e apertou minha mão. e mediu o chão com suas costas. Medeiro Vaz – o rei dos gerais . E o queixo dele não parava de mexer. – “Amizade. chamaram: – “Acode. A barriga dele tinha inflamado muito.Grande Sertão: Veredas era de bicho em bicheira. Aí. Mas se abriu. troz-troz forte. “Está no bilim-bilim” – eu pensei. A tarde foi escurecendo.

como quem cantasse um coreto: Meu boi preto mocangueiro.. e me escolhia... Foi dormir em rede branca. o toco.. Eu tinha passado por um susto. no sarrido. desnorteado na vontade de falar aqueles versos.Grande Sertão: Veredas corpo. Era seu dia de alta tarefa. e gaguejou: – “Quem vai ficar em meu lugar? Quem capitaneia?. As veias da mão.” Vi meu nome no lume dele. Agora. Ele avermelhava os olhos? Mas com o cirro e o vidrento. que ralava. Eu não queria ser chefe! “Quem capitaneia. Rolou os olhos. Coração me apertou estreito. Só se trouxe uma vela de carnaúba..” Com a estrampeação da chuva. Quando estiou a chuva. travou com esforço o ronco que puxava gosma de sua goela.João Guimarães Rosa . E Medeiro Vaz. A morte pôde mais. os poucos ouviram. a meio a vertigem me dava. procuramos o que acender. e um brandão de tocha. Com que luz eu via? Mas não pôde.. Deu a venta. Ele só falava por pedacinhos de palavras. Mas eu vi que o olhar dele esbarrava em mim. árvore para te apresilhar? Palmeira que não debruça: – 104 – . E ele quis levantar a mão para me apontar. se governando mesmo no remar a agonia.

. uma carga de chumbo grosso ou chuvas-de-pedra. todos. não queria...Grande Sertão: Veredas buriti – sem entortar. cortadas molhadas. e Diadorim me disse.João Guimarães Rosa . mão de mando.. Não sirvo. Eu não queria. assovio mais fino que o relincho-rincho dum poldrinho.” – 105 – . Alguma anta assoviava. Me queriam governando. Aquilo revi muito por cima de minhas capacidades.. como que respondi às gagas. Os sapos gritavam latejado.. isto disse: – “Não posso. tu comanda. que eu não desejava arreglórias. Avante por fim. Tomou-se café. de milhares. A desgraça.” Todos estavam lá. de João Goanhá não ter vindo! Rentemente. De aurora. Medeiro Vaz te sinalou com as derradeiras ordens. até ao quebrar da barra.. me gelei de não poder palavra. cavacamos uma funda cova.. A terra dos gerais é boa. Fizemos quarto. Deviam de tocar os sinos de todas as igrejas! Cobrimos o corpo com palmas de buriti novo. Assim estremeci por interno. firme: – “Riobaldo. os brabos. me olhantes – tantas meninas-dos-olhos escuras repulavam: às duras – grão e grão – era como levando eu. O sapo-cachorro arranhou seu rouco. Aprovavam. Engoli cuspes.

para brincadeiras. Assim. sendo Tatarana um apelido meu. o pior é que é a calma. que eu tinha.. Diadorim dispunha do direito de fazer aquilo comigo? Eu. mas.João Guimarães Rosa . não quero! Digo definitivo! Sou de ser e executar. mas nós sabemos a tua valia. Diadorim se – 106 – . neste vale de lágrimas. Assim instava. Pensei um nome feio.Grande Sertão: Veredas – “Mano velho. Temi. Senhor conheceu por de-dentro um bando em-pé de jagunços – quando um perigo poja? – sabe os quantos lobos? Mas. Riobaldo: tu crê que não merece. – “Mano velho... não me ajusto de produzir ordens. Tudo rosna.. roda-a-roda. Todos esperando com suspensão. O que achassem... a pique de coisinha. denotavam assentimento. uma sisudez das escuras. por átimo. que sou eu. o senhor pode entornar seu respeito. ver. uns aos outros. Onde é que os outros.” – Diadorim retornou..” Tudo parava. – “Tatarana! Tatarana!. eh. bati o pé: – “Não posso. Não que matem. não. tu pode!” Tive testa. achassem! – mas ninguém ia manusear meu ser.” – uns pronunciaram. Entremeio. Riobaldo. mão erguida.. Terçava o grave. sobrar desmoralizado para sempre.

. nesse repente. Diadorim.. não. se algum achar que não acha. vigiou o ar de todos. mas porfio no que quero e prezo. conforme vocês todos também.. a gente isto decide a ponta d’armas. era que eu não podia aceitar aquela transformação: negócio de para sempre – 107 – . Nunca que eu podia consentir. com tenção! Mas.João Guimarães Rosa . O melhor não sou. nimpes nada. feito um mau amor oculto – por mesmo isso. o poder seco da pessoa é que vale. de astuto se certificar só com um rabeio ligeiro de mirada – tinha gateza para contador de gado. desinterno de mim um nego forte se saltou! Não. e concebia por ele a vexável afeição que me estragava. Aí ele era mestre nisso. A regra de Medeiro Vaz tem de prosseguir. E muito disse: – “A pois. nisto. Num nu. Deixou de me medir. então. ele conhecia os caminhares.. eu tomo a chefia. ali. Ah. Em jagunço com jagunço. Nanje pelo tanto que eu dele era louco amigo. Diadorim belo feroz! Ah. haviam de querer morrer por ser chefes – mas não tinham conseguido nem tempo de se firmar quente nas idéias.Grande Sertão: Veredas maisfez. oxente. o justo.” Hê. mandacaru! Oi. avançando passo. E os outros estimaram e louvaram: – “Reinaldo! O Reinaldo!” – foi o aprovo deles. Muitos.

disse um também: – “Discordo!” Por me estimar. decerto que saldavam antipatia de mim. os companheiros. primeira. achassem que eu agora não tinha mais direito de parecer. botada na agulha da automática – ah. repugnados por eu estar seguidamente atrapalhando as decisões. Visivo só vi Diadorim – resumo do aspecto e esboço dele para movimentos: as mãos e os olhos. alguém. nhem. de reguarda. Diadorim comigo – que antes como irmãos. algum – Diadorim não – digo. inesperado assim. Quem sabe. Não. pois a chefia própria eu enjeitara. séria pessoa: – “Tem de que.” Endireitei os chifres. Deixa o Riobaldo razoar. hem.. clamei – que como um sino desbadala: – “Discordo. para pacificar minha aflição. Os calados. E o Alaripe. os outros. de quantos tiros eu tinha para à queima-bucha dar – e uma balazinha. será se praziam no poder ver nós dois. hem? Nulo que eu ia estuchar. não se buliram. até ali – a gente se estraçalhar nas facas? Torci vontade de matar alguém. não tremi. eu estava com milho no surrão! De devagar.” Todos me olhassem? Não vi. ele me secundava. Só o Sesfredo.. doendo de Diadorim ser meu chefe. Chapei: – 108 – . Decerto isso em mim eles perceberam.Grande Sertão: Veredas receber mando dele. tanto esperavam. Como em relance corri cálculo.João Guimarães Rosa .

. assim mesmo. firme: – “Com gosto. mesmo. Amém. Mediante que é o mais velho. aprovavam. depois de mim. E: – “Tresdito que é a vez de se estar contornados. e. Sempre sendo que falou. estabeleci que eu tinha acertado solerte – dei na barra! Mas. Pude mais do que ele! Se riu. valente. aí.Grande Sertão: Veredas – “Vejo. Diadorim? De olhos os olhos agarrados: nós dois. voz a voz. demais de mais velho. Marcelino Pampa é quem tem de comandar... Asneira. eu naquela hora supria suscitar alto meu maior bem-querer por Diadorim. Melhor do que Marcelino Pampa não tem nenhum. e consabido de ajuizado!” Cara de Marcelino Pampa ficou enorme.João Guimarães Rosa .. Afinal. concordantes. Do que constei dos outros.. Diadorim abaixou as vistas. falou assim: – 109 – .” – o Alaripe inteirou. unidos sem porfiar. desde que ele brabasse. que empurrou morros para passar. Marcelino Pampa então principiou. Não ambicionei poderes. todos. eu arcava em cru com o desafio..” Falou como corajoso. Tempo instante. desde que ele puxasse. mesmo.

As pessoas. soberbo satisfeito! Ser chefe – por fora um pouquinho amarga. eu desconheço o arruído rumor das pancadas dele. aí observei: como Marcelino Pampa desde o instante expunha outro ar de ser. aquilo. Assentes que vamos. é rosinhas flores. agora aquela ocasião. e essas misérias. por dentro. Meu era um alívio. qualquer um não havia de desgostar de responsabilidade? Ã. de repente. Alípio Mota. falou coisas de admiração. pois Marcelino Pampa possuía talentos minguados. Ouvi. sem importância. Ao que. mas.. mel de melhor. Hoje. Tem horas em que penso que a gente carecia. muito de afeto leal. e – 110 – . Somente pensei que ele estava pondo um peso no lombo. Eu precisava. careço do bom conselho de todos que tiverem.. em melhores tempos. sem noção. o que obrigação minha é. por sacrifício.João Guimarães Rosa . de acordar de alguma espécie de encanto. Até enquanto não vem algum dos certos... aprazia bem capitanear. Titão Passos. por precisão nossa. de realce maior: João Goanhá. copos a fora. A tanto. a sisuda extravagância.Grande Sertão: Veredas – “Aceito. mas. ouvi. a gente por baixos. Diadorim veio para perto de mim.” Sobre mais disse. Mesmo não duvidei de meu menos valer: alguém lá tem a feição do rosto igualzinha à minha? Eh. de primeiro meu coração sabia bater copiando tudo. segura fiança.

o que o senhor acha? Pois.João Guimarães Rosa . todos os dois estavam vivos. E como é que havia de ser possível? Hem?! Olhe: conto ao senhor. bem remediado de posses – Davidão era o nome dele. E o Faustino aceitou.Grande Sertão: Veredas as coisas.. Que tal. mire e veja: isto – 111 – . Ah. Vai. durante os meses. pelo seguinte. no poder de feitiço do contrato ele muito não acreditava. as nossas almas já vendemos? Bobéia. pensou. alteração nenhuma não havendo. pobre dos mais pobres. mas. Parece que. chamado Faustino: o Davidão dava a ele dez contos de réis. coisas dessas que às vezes acontecem. a gente adverte incertas saudades? Será que. em lei de caborje – invisível no sobrenatural – chegasse primeiro o destino do Davidão morrer em combate. esse Davidão pegou a ter medo de morrer. Se diz que. Então. fechou. contra os soldados do Major Alcides do Amaral. A de ver? Para nenhum deles não tinha chegado a hora-e-dia. tinha um grado jagunço. escapos.. nem feridos eles não saíam. recebeu. o Davidão e o Faustino. Safado. um dia. minha. propôs este trato a um outro. nós todos. no bando de Antônio Dó. deram um grande fogo. e assim e assim foram. não são de verdade! E de que é que. Combate quando findou. sitiado forte em São Francisco. então era o Faustino quem morria. com efeito. a miúde. em vez dele.

Apreciei demais essa continuação inventada. ferravam numa luta corporal. ferveram nisso. o Faustino se provia na faca. queria revogar o ajuste! Devolvia o dinheiro. por sua própria mão dele. de Davidão e Faustino. e outras vantagens de mais pagar. conseguiu do Faustino – 112 – . no confuso. E ele me indagou qual tinha sido o fim... A fino. que falecia. vindo com outros num caminhão. Disse isso ao rapaz pescador. um dia. muito inteligente. A vida disfarça? Por exemplo. A quanta coisa limpa verdadeira uma pessoa de alta instrução não concebe! Aí podem encher este mundo de outros movimentos. O fim? Quem sei.João Guimarães Rosa . a faca cravava no coração do Faustino. com certas promessas. Do discutir. caprichado. não queria. de ceder uns alqueires de terra.Grande Sertão: Veredas mesmo narrei a um rapaz de cidade grande. sem os erros e volteios da vida em sua lerdeza de sarrafaçar. Mas. Mas que precisava de um final sustante. Soube somente só que o Davidão resolveu deixar a jagunçagem – deu baixa do bando. foi um: que. embolados. O final que ele daí imaginou. investia. para se compor uma estória em livro. o Faustino pegava também a ter medo. na verdade de realidade. para pescarem no Rio. Sabe o que o moço me disse? Que era assunto de valor. por forma nenhuma. Mas o Davidão não aceitava. e. a quem sincero louvei. os dois rolavam no chão.

e viesse morar perto dele.Grande Sertão: Veredas dar baixa também. sempre. não atacam.. nem acabam. hoje mesmo é capaz que sejam de vir em riba de nós. disse. Ou.. por bem de seu dispor. se souberem a notícia que Medeiro Vaz morreu. quero toda razoável opinião. é dois: ou se fugir para o chapadão.” Assim ele. que Medeiro Vaz havia de fazer? E Joca – 113 – . as confusões dessas horas me encostavam. – “Mas. caçar João Goanhá e os outros companheiros. de menos longe. Mas vão fechando modo de rodear a gente. porque a quantidade deles é à farta. e sabem da gente. dá erro contra a gente. forçar tudo e experimentar um caminho por entremeio deles: se vai para a outra banda do Rio. Recurso. O que era. e estava muito certo. as coisas acabam com menos formato. na situação. Mais ainda não sei. ele me chamou. Mais deles. No real da vida. A tento de se acertar nos primeiros rumos de se mexer. de nós a umas quinze léguas. que eu acho. – “Os Judas estão aqui mesmo. Marcelino Pampa.João Guimarães Rosa . Não se queira. A que.. que Marcelino Pampa. o que logo vi.. com este tempo de todas chuvas e ribeirões cheios. não dava altura... Deveras atacar. mais João Concliz...” – foi o que João Concliz achou. Eu não atinava com o que dizer.. então. Melhor assim. enquanto tempo – mas é perder toda esperança e diminuir da vergonha.. Pelejar por exato. Viver é muito perigoso. ignoro.

foi que reconheci como súcia de homens carece de uma completa cabeça. a regra de nenhum meio-termo. fui para perto de Diadorim.Grande Sertão: Veredas Ramiro? E Só Candelário? Ao esmo. Comandante é preciso. Sem ação.João Guimarães Rosa .” – ele mal disse – “você está vendo que não temos remédio. hoje será que sei. Para ter jeito de chegar perto deles. Quente quero poder chegar junto dum dos Judas.. isso tudo pouco adianta. debulhando. que foi que determinaram de se fazer?” – me perguntou. Por seus grandes olhos. Ai de.” – assim ele desabafou. com uma mão por cima da outra. Foi. de tarde. – “Quem sabe. Você está mal satisfeito?” Ele endireitou o corpo. logo depois. para aliviar os aflitos. falou: – “Sei o meu. depois de muitos silêncios e poucas palavras. Cá por mim. cri que armasse – 114 – . – “Riobaldo. Dali. esbarrou. esses pensamentos em mim.. Respondi: – “Hoje de tarde é que se toma decisão. se.. mais tristeza. Também. Não sabia. onde aquilo redondeou.. Marcelino Pampa resolveu que... três. até se não era melhor. para terminar!” Eu sabia que ele falava coisas de pelejar por cumprir. pensou um tempo. – “E vocês. Diadorim. e recolhido num estado de segredo. em trago. eu podia gastar ali minha vida inteira. Atontados.” Aí. nossa conversa ia ter repetição. Eu tinha mais cansaço. para salvar a idéia da gente de perturbações desconformes.

. que traziam um vaqueirinho. Ah. em cheio. Gostei. não. semelhante. quando estávamos outra vez reunidos – Marcelino Pampa... Que vieram quase correndo. Qualquer loucura. mais disse: – “Foi você. de cada dia. soprante. Afe. estaquei na ponta dum pensamento..” – e empurraram um pouco o vaqueirinho. De medo – a gente olhava para ele – e de nossos olhos ele se desencostava.. Aí ele tem grande coisa pra contar. que este tal passou. eu e João Concliz. e soluceou: – “É um homem. às fugas. Cada hora. porém. escoltado. mesmo. de escutar isso. o chegar. Só sei.” Era. É um homem. bebeu gole de ar.João Guimarães Rosa . quem governou tudo. Você escolheu Marcelino Pampa. temi. Pegamos. você decidiu e fez. e as feições dele mudavam-de mestre pavor. Sendo assim o Feliciano e o Quipes. – “Arte. e agudo temi.. o xaxaxo de alpercatas. meio arupa.. – não se teve nem o tempo de principiar. hoje. a gente aprende uma qualidade nova de medo! Mas. depois de janta.. Mas. O vaqueirinho não devia de ter mais de uns quinze anos.Grande Sertão: Veredas agarrar o comando.. Pelo que ouvimos: um galope. Riobaldo. por meio de acender o bando todo em revolta. por fim.. o riscar.” – 115 – . era a dele. o desapeio.

...... numa balsa de buriti... Ele desceu o Rio Paracatu. Avançaram do mato. O homem e os cinco dele estão a pé. no rancho. mais duns trinta. que semelhança de figura é que ele tem?” – “Ele? O jeito que é o dele... Homem terrível. O homem. Aqui você está livre e salvo. É um homem. Os outros eram montão..João Guimarães Rosa ... Tinham matado um veadinho campeiro.... Escaramuçados. Aonde é que está indo?” – Marcelino Pampa regrou. não é velho. para a casa de meu pai.. me deram naca de carne. Largaram três mortos..’ – ele mesmo disse. mocinho. não é moço. Desceu o Rio Paracatu numa balsa de buriti.... deram fogo contra os outros.. – ‘Estávamos em jejum de briga. Ah.. – “Deu fogo. Falou que vai reformar isto tudo! Vieram pedir sal e farinha. O que os outros falam e tratam: `Deputado’. Ei! E estavam a cavalo. com mais cinco homens. Veio de Goiás.. uns feridos.. Mas fugiram. Emprestei.....” – “Que foi mais que o homem fez?” – então João Concliz perguntou.” – “Qual é que é o nome dele? Fala! Como é que os outros dizem? Aí e que jeito. Vou indo pra longe.. Homem branco. que ele tem? Em é mais baixo do que alto. Ele e seus cinco deram fogo feito – 116 – .Grande Sertão: Veredas – “Te acerta. é um homem. – “É briga enorme.

” – “Está a favor da gente.Grande Sertão: Veredas feras. ele chegou. Desceram. Valia ver. Gritavam de onça e de uivado. pois até à hora de escurecer não tinham aparecido. Mas: aquele homem... aqueles eram gente do Alto Urucuia. Pelos modos.. De manhã. pelas roupas. zuretado. – “Onde é que estará? Na Pavoã? Alguém tem de ir lá. trozante. Dia da abelha branca.... Nem cavalo eles não têm.. e com cheias cartucheiras. então.” – “É ele. – “E é. E... Pobres..” – “É ele! Mas é ele! Só pode ser.. De chapéu desabado.” – foi a palavra de Marcelino Pampa. nós formávamos.. – “Temos de mandar por ele.” – aí alguém lembrou. em nosso campo... seguinte de nosso comandante.. Catrumanos dos gerais.. com uma braça de sol. Repegava a chuva... mas atravessados de armas. está do nosso lado!” – outro completou.. Disse: vai remexer o mundo! Desceu o Rio Paracatu numa balsa de buriti. acompanhado de seus cinco cabras. mas mesmo assim o Quipes e Cavalcânti montaram e saíram por ele.” E era. E ele sabe guerrear. De certo não acharam fácil. avantes passos.. veio vindo. da Pavoã no rumo. – aquele homem: era Zé Bebelo.João Guimarães Rosa . É ver a vida: quem pensava? E é homem danado. E. ninguém não dormiu direito. – 117 – . na noite. Marcelino Pampa caminhou ao encontro dele... Essas cerimônias. para que o senhor saiba.

– “A pois.” De nomes e caras de pessoas ele em tempo nenhum se esquecia.” – “Aqui soube. mano?” Os dois grandes se saudavam..Grande Sertão: Veredas – “Paz e saúde.” – Marcelino Pampa respondeu... chefe! Como passou?” – “Como passou. Medeiro Vaz ganhou repouso. – “Em boa veio. Aí Zé Bebelo reparou em mim: – “Professor. desriu. que a vida em outro tempo me salvou de morte. disse: – “Vim cobrar pela vida de meu amigo Joca Ramiro... que a gente até se comoveu.. num ar de exemplo.” – “Deus com ele.. E liquidar com esses dois bandidos.João Guimarães Rosa . Salve Medeiro Vaz!.. não me dando por traidor nem falso. Refez pé para trás.... amigo.. De repente.. chefe! É o que todos aqui representamos. que desonram o nome da Pátria e este sertão nacional! Filhos da égua. – “Vim de vez!” – ele disse.” – e Zé Bebelo tirou o chapéu e se persignou.” – e ele estava com a raiva tanta. disse desafiando. que – 118 – . Depois. Lux eterna. quase. Riu redobrado. parando um instante sério. Vi que me prezava cordial.. ara viva! Sempre a gente tem de se avistar.

crescia sozinho nas armas. por que é que não combinamos nosso destino? Juntos estamos. A gente quisesse brigar. ajuntar. e declarou forte o seguinte: – “Vim por ordem e por desordem. Marcelino Pampa cobrou de si suas contas.. o consumado: – 119 – .” – “Amizade e combinação. Depressa deu.Grande Sertão: Veredas tudo quanto falava ficava sendo verdade. num mando de mão. Este cá é meus exércitos!. ouvir o estabelecido.. aceito. demorou dentro dum momento. Mas ele entendeu o que cada vontade pedia. Só sei ser chefe. aquele homem era em frente. amigo. mano velho.. Só obro o que muito mando. Vez de Marcelino Pampa dizer: – “Pois assim. Nada não se disse. então. seus brabos. estamos irmãos. Mas Zé Bebelo rodeou todos. Já. E esses homens?” Os urucuianos não abriram boca.” Prazer que foi. Repuxou testa.. Circulou os olhos em nós todos. nasci assim.” Sobre curto. seus companheiros. não. – “Pois.João Guimarães Rosa . juntos vamos.

” – ele definiu. parecia até que esperava mesmo aquele voto. dos gerais. que é o deles.. – “De todo poder? Todo o mundo lealda?” – ainda perguntou. Nós respondemos. todos falaram: – “Acordo!” Aí Zé Bebelo não discrepou pim de surpresa... agora.. É o duro diverso. Diadorim disse.” Com coragem falou.. ringindo seriedade. Então ele quase se aprumou nas pontas dos pés. A gente em redor dele.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas – “E chefe será.. farinha na cuia!. Desse nome. Ninguém ria. deu aquilo feito um viva. meus filhos. apanhando um por um de nós no olhar.” – ele aprovou. pé da gente apalpa a terra.” – explicou João Concliz. Baixamos nossas armas. João Concliz disse. Adiante: – “Pois estamos. – “Acordo!” – eu disse. Mas os assassinos de Joca Ramiro vão pagar. meu povo. Confirmamos. Como quando trovejou: desse trovôo de alto e rasto. misturando em meio nosso os cinco homens do Urucuia. – “Arre. – “Assassinos – els são os Judas. com seiscentos-setecentos!. E assim era que Zé Bebelo era.. entrementes antes dos gotejos de chuva esquentada: o trovão afunda largo.. vote: dois judas. Tomo posse!” Podia-se rir. podemos romper as aleluias! Aleluia! Aleluia! Carne no prato. esperamos vossas ordens. como olhou para a gente outra vez. e nos chamou: – “Ao redor de mim. Conforme foi: – 120 – .

num toques. por detrás de tanta papagaiagem um homem carecia de ter a valentia muito grande. Mas. nessa hora. o cantil revestido. merecido. era capaz de se morrer. Mesmo por isso.. munição para nem meia-hora. Marcelino Pampa dobrou de ar. Marcelino.Grande Sertão: Veredas trovejou de cala-a-boca – e Zé Bebelo tocou um gesto de costas da mão. não esbarrou mais. o morto não tendo parentes. somenos. Alguém disse que o cavalo grande. Desse fato em diante. facão. respeitoso disse: – “Isto é comigo. nesse dia. por Zé Bebelo. o capote. Porque eu ainda estou para ver outro com igual siso e caráter!” Apertou a mão dele.” A gente reconheceu mais a coragem dele. as cartucheiras de trespassar.. essas determinou que. Zé Bebelo guardou somente o – 121 – . Isto é. para si mesmo. Achou de ir ver o lugar da cova. perturbado. Chamou Marcelino Pampa. devia de ficar sendo dele mesmo. a ele fez donativo grave: – “Este animal é vosso. qualquer um de nós sabia que aquilo podia ser mentira. a automática de rompida e ronco.” Do que se tratava.. murzelo-mancho. as capangas e alforjes. A cômodo ele começou. com os meus. ele o seguinte revelou: – “Tudo eu não tinha. Não quis. então para os melhores mais chegados como lembrança ficassem: as carabinas e revólveres.João Guimarães Rosa . retorno e conto. punhal. e as armas e trens que Medeiro Vaz deixava..

Dimas Doido. ainda sobravam nove – serviram para esquadrão adeparte. escolheu: Marcelino Pampa. o Acauã. resumo da vida. vendo.Grande Sertão: Veredas pelego berbezim. Jiribibe e Jõe Bexiguento.João Guimarães Rosa . Só que. Rasgaem-Baixo. Repartiu os homens em quatro pelotões – três drongos de quinze.. por bom – 122 – .. qualquer oficio de habilidade. dito Alparcatas. o de vinte – nesse figuravam os cinco urucuianos. Repassou os cavalos.. Sesfredo. ficou com o maior. disquirindo. Marimbondo.” – vivia dizendo. Coscorão. ferraduras! Isto é que é importante. – “Ferraduras. de forrar sela. Ele mesmo tinha um apito. e um de vinte – em cada um ao menos um bom rastreador. tomar conta dos burros cargueiros. quantos combates. João Concliz. de um em um.. Diadorim. examinando. que de muito longe se atendia. Mão-de-Lixa. Aprendeu os nomes. para os avisos. Olhou e contou as pencas de munição e as armas. – “Carecemos de quatro buzinas de caçador. e eu. Marruaz. Joaquim Beiju. o Quipes. e um bentinho milagroso. o Credo. Pessoalmente.” – reclamou. levou a eito. e que gostos tinha. e o Fafafa. prezando os mais bem ferrados e os de agüentada firmeza. tidos todos repartidos. com petrechos e mantimentos. em três baetas confeccionado. O testa deles foi Alaripe. Para capitanear os drongos. e em que lugar nascido. pendurado do pescoço. Daí.

” O acampamento da gente parecia uma cidade. ou esbarrados firmes em formatura. – “Trabucar duro. para lá e para cá. manobrava as patrulhas. vai enchendo. vai tendo. O mais eram traquejos. Assuntos principais. vai-te. para dormir bem!” – publicava.. volta-te...” Sujeito muito lógico. por animar. melhor que tudo é se cuidar miudamente trabalhos de paz em tempo de guerra. teve cargo de guardar sempre um surrão com remédios. assoviando. gente! Capricha. Aos esses. se compra. se acha. o senhor sabe: cega qualquer nó. Somente: – “Arre. e os outros ajudavam. e deduzia ordens. Mas Zé Bebelo não se atontava: – “Aí em qualquer parte.. a cavalo. Ao um modo.. não havia nenhum. remédio. O que eu quero é ver o surrão à mão. depois. Doristino. mesmo. se comediu obrigação: Quim Queiroz zelava os volumes de balas. Mas. Dava uma esperança forte. vai apanhando folha e raiz. Zé Bebelo fazia lição.. meu filho. ferrador dos animais. no fim.. todo tempo devia de dizer o de comer que precisava ou faltava.” – e ria: – “Mas eu não morro..João Guimarães Rosa . E – engraçado dizer – a gente apreciava aquilo. temos nenhum tempo. por ora. então Zé Bebelo perequitava. tratador deles. depois vocês descansam.Grande Sertão: Veredas que fosse para tudo ser. o jacaré exercia de cozinheiro. que entendia de curas e meizinhas. Gostadamente: – “Morrendo eu. – 123 – .. mas Raimundo Lê..” Sempre. O que.

Arranchar no mercado da Diamantina. o grau de fundo dos marimbus e dos poços.. em grandes cidades! Aqui o que me faz falta é uma bandeira.. levando vocês. Diadorim. os mandembes onde se esconder. de outros currais! Bem eu desejasse ter nascido como ele. Aí.. mas estava era sujeitando a exame o morro. no haja vinho.. Sucinto que gostava de caçar. e perguntando e ouvindo avante. naquela altura. Bem eu conhecia Zé Bebelo. ali.João Guimarães Rosa . vamos no Paracatudo-Príncipe!. o urucuiano Pantaleão. figurava. Como Zé Bebelo simplificava os olhos. Com pouco. vice-mandantes. Mas heide! Ah. tudo representado. João Concliz... A sério. discriminando. O mato e o campo – como dois é um par. saía. Estava aprendido.. Ia organizando aquilo na cabeça. e tambor e cornetas. Eli. Às vezes riscava com ponta duma vara no chão. e outros dez espalhados na vertente. por caçar. que vamos em Carinhanha e Montes Claros.Grande Sertão: Veredas levantava demais o braço: – “Ainda quero passar. se podia impedir a passagem – 124 – . Todos tinham de expor o que sabiam daquele gerais território: as distâncias em léguas e braças. que o apito: apitava. os vaus. os mais fartos pastos. sabia mais do que nós juntos todos. a cavalos..” Que boca.. Veio e foi. e o Fafafa.. ele me chamava para o lado dele. metais mais. tomava a opinião da gente: – “Com dez homens. e ia mandando vir outros – Marcelino Pampa.

. o que outro cozinhou quente demais. – 125 – ... em bom pasto: – “Menininhos.João Guimarães Rosa . quase que. Só por festa... responsabilidade de cangalhas em vocês.. como geral. frio.. Qual é o caminho certo da gente? Nem para a frente nem para trás: só para cima.. só nisso ele pensava. Feito os bichos fazem. Oi. Diadorím alegre. sobre hora. que bem-meviam todo tal tempo. E. se informar do meximento dos Judas. Zé Bebelo determinou que tudo e tudo fosse pronto. Transato no meio da lua. se calando. Eu peguei aquela escuridão. mas aí sabia que já gostava em sempre. Esse! Vige mas não rege. nunca não vi. digo ao senhor: é lamber. O senhor já sabe: viver é etcétera. Vinha a boa vingança. dando a retaguarda. Mas. e eu não. afirmo ao senhor. que dos claros rumos me dividia.. trazer notícias vivas. Ou parar curto quieto. suindara! – linda cor. Ao que os burrinhos comiam amadrinhados. O demônio diz mil. Diadorim também.. dum jeito condenado. Sendo que expedia. Os bichos estão só é muito esperando? Mas.. Dando o dia. Gostava de Diadorim. nem pensava mais que gostava. Com outros alguns. alguém adiante. alegrias dele. carregando a nossa munição!” – Zé Bebelo mandou. de manhã. de repente. para uma remarcha em exercícios.” Nesfartes. homem feliz.Grande Sertão: Veredas de duzentos cavaleiros. então. quem é que sabe como? Viver. pelo resfriado. os pássaros. E.. Vingar. feito Zé Bebelo naquele tempo.

parecia que íamos atravessar o Paracatu.. Para isso. Rompemos. sempre a ferramenta se tem. A lá. Vamos.Grande Sertão: Veredas montado.” – já vai que falava. doze. Daí.. Mas Zé Bebelo atalhou: – “O São Francisco é maior. Tudo aquele homem retinha estudado.” Com ele tudo era assim.. pela beira. desmancho empapado de chão.. Quero é atacar!”. Melava de chover baixo. extravagável. a lua não era boa. a chuva ainda enxaguando? Convinha esperar regras d’água. companheiros. mimelava. de perturbar. declarou: – “Meu nome d’ora por diante vai ser ah-ohah o de Zé Bebelo Vaz Ramiro! Como confiança só tenho em vocês. meus amigos: zé-bebelos! A vez chegou: vamos em guerra. O resto maior é com Deus. viemos. A gente ia para o BuritiPintado.. – “Na hora. Ele disse: – “Melhor. por desbarranco de estradas lamentas. Trovejou. consta de dez léguas. O drongo dele. mirar bem e atirar. Só uma boa surpresa é que rende. Só com estes – 126 – .. cada um deve de ver só um algum judas de cada vez.João Guimarães Rosa .. – “O Rio Paracatu está cbeio. dou surpresa. – “Para um trabalho que se quer. vamos. distribuiu as patrulhas. Até o derradeiro do momento. Quem põe praça de cavalhadas.. sempre o Paracatu à mão esquerda..” Saímos.” alguém disse. rebentar com aquela cambada de patifes!. solertes entes. e não queria conversas de cutilquê. Não atravessamos..

. abrimos nossa calamidade neles. passamos o rio Soninho. Animais de carga. Todos cavalos ruços ou baios – cor clara também aumenta muito a visão do tamanho deles.. – Ei. Primeiro. descansamos. num lugar de remanso. para a frente e para trás. tibes. iam fazendo de conta que desprevenidos. Quando os outros vieram. Duma banda. seus cavaleiros: que estavam muito juntos.. com seus quinze. em pontos bons. mas o principal dos combates vamos dar é bem a pé. Sei. o Fafafa recruzou.. demos fogo. e gritavam. Assaz os judas atiravam mal. Só três homens tomavam conta.” Na beira do rio Soninho. Não se disse guavai! Supetume! Só bala de aço. só à ligeireza. Outro levantou o corpo – 127 – . bala em boca. discordados. então. – “Dou duelo!. de três lados. numa bocaina na balsa... do modo por que um bando de cavaleiros ou cavalos dá ar de ser muito maior do que no real é. – “Eu é que escolho a hora e o lugar de investir.. do lado onde o Jiribibe estava: triste daquele. E. de lugar para lugar. Aí Zé Bebelo tinha meditado tudo como um ato.. a ponta de mulas. Pessoal do Hermógenes. sem ensolvar.” Só o quanto de se quebrar galho e rasgar roupagem.” – Zé Bebelo disse.Grande Sertão: Veredas cavalos. de poleiro pego prévio. De manhã. ficaram botados escondidos. nadinha nem. de desenho. Um judas correu errado.João Guimarães Rosa . embolados. Aí. nós todos já estávamos bem amoitados. – “Ouh!” – foi o que ele fez de contrição perfeita.. Ah.. no escuro. João Concliz avançou.

Ou o senhor pensa que é em alegre mal. ele antes tudo traçava e guerreava. Sonso parecia um gato. Como era que Zé Bebelo já sabia? – 128 – .. tocamos. depois de derrubar o tal.. no inteiro mesmo de sua cabeça. Vitória. Se vendo que. tocamos. Outro fugia esperto. Ai deles. Tínhamos de cair em riba do grosso da judadas. – “Tu! Tu pensa que tem Deus-e-meio?!” – Zé Bebelo disse. Ele cheirava até o ar. mesmo com aquela cavalhada adestra. o inimigo estava emboscado dos dois lados. feito numa caçada? Descansar? Quem disse. por causa de caridade. nas paredes. Lá tem um lajeiro – largo: onde grandes pedras do fundo do chão vêm à flor. Mas o próprio pessoal de João Concliz tinha segurado mão nos cavalos daqueles. baixo.” Não. Seja por um exemplo: havia uma cava grande. – “Toquemos na mão do norte: lá a cara do chão é minha mais. o caminho era da banda contrária. é isto.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas um pouco demais. No Oi-Mãe. nos socavões. vagarosinho. Chegamos de sobremão. Por resfriados e atalhos. deixei de numerar. Zé Bebelo recomendava.” Os que enviei. lado a lado. não foi ouvido. Estrada capaz de quatro. feito rondando quarto de doente. – “Vou lá deixar essa cambada birbar por aí em sossego?! Bis. – “Tem talento nos pés. minha gente! Vamos neles!” – Zé Bebelo se frigia. com um tiro de nhambu...

às pragas. Mas daí voltamos. pois é.. Assim era pena. Sempre. nosso pelotão rastejou para os altos. Mesmo viemos negaceando de recuar. o senhor sabe. demais se assustaram. Urubus puderam voar cererém – uns urubus declarados. então. até onde estava a nossa mulada.João Guimarães Rosa . feito veados para se matar. Zé Bebelo variava de se viajar uma hora quase todos juntos. até chega estávamos por cima dos beiços da cava. transcruzando nos inferiores: – “Lá vai obra!.” Hê-hê! Deu de abelhas de pau oco: os das socavas entornaram o sangue-frio. correndo em fuga maior debaixo de tiros. dos diabos! – 129 – . com seus cavaleiros – surgiam inocentemente.. outra hora despedidos espalhados. sempre.... xingos. de recacha. João Concliz levou seus homens muito adiante de lá. desatravessando outra vez o Soninho. Dado tempo. Mas – há! – então por de riba da cava desfechamos demos urros e o rifleio. por suma vantagem disso.. demos um tiroteio ganho. com munição e o mais. para enganar no que vissem. na fazenda São Serafim. na borda do campo. João Condiz. sustância nossa não dava para se acabar com aqueles judas de uma vez. descuidado à mostra.Grande Sertão: Veredas Orçando longe volta. Ainda. Ah e aí o Fafafa veio vindo. mas carecíamos de flautear desse jeito.

Mesmo. Boi vem do campo. O mal ou o bem. se esfrega naquelas paredes. Deitam. a gente escuta a qualquer entrar o borbolo rasgado dos morcegos. Tem até sobrado. As casas vazias. De noitinha. Escutei um barulho. Lugar não onde. Cachorros que já lamberam muito sangue. forte tempo. me entende. não. Não tinha ninguém restado. mas muito para baixo. estão é em quem faz. Deu capim no telhado da igreja. É o que ao senhor lhe peço. os morcegos pegam a recobrir os bois com lencinhos pretos. Senhor vá. senhor veja. o espaço é tão calado. Em toda a parte é desse jeito. têm de caçar seu de-comer. que ali passa o sussurro de meianoite às nove horas. Quando se dá um tiro.Grande Sertão: Veredas Rumo a rumo de lá. O Paredão existe lá. Hoje ninguém mora mais. Malham.João Guimarães Rosa . minha mãe não tinha rezado – por mim naquele momento? Assim. feito no Paredão. não é no efeito que dão. Rendas pretas defunteiras. os cachorros latem. o senhor não ouviu. é um lugar. Tem uma encruzilhada. Só vi um papagaio – 130 – . Lugares assim são simples – dão nenhum aviso. O senhor ouvindo seguinte. Mas a água só é limpa é nas cabeceiras. Mas aqueles cachorros hoje são do mato. É um arraial. Eu disse. Agora: quando passei por lá. Estradas vão para as Veredas Tortas-veredas mortas. Bicho que guarda muitos frios no corpo. Tocha de carnaúba estava alumiando. Nem torne a falar nesse nome.

Os revoltosos depois passaram por aqui. Aquele arraial tem um arruado só: é a rua da guerra. Desemendo. Agora. reclamavam posse de todos animais de sela. Tenho meu respeito firmado. as pedras retiradas – ele dizia: aqueles todos anéis davam até choque elétrico. Guerras e batalhas? Isso é como jogo de baralho. O senhor é homem de pensar o dos outros como sendo o seu. porque é o meu jeito de contar. vez em quando.. A pátria é dos velhos. Na feira de São João Branco. Não crio receio.... Sei que estou contando errado. soldados de Prestes.. E meus feitos já revogaram. Da vida pouco me resta – só o deo-gratias.” Discordo. O demônio na rua. Sei que deram fogo. aonde – 131 – . Coisas dessas não se perguntam bem. Eu estou contando assim. disse ao senhor quase tudo.. na lei do comum. sou anta empoçada. Bobéia. os dedos cheios de anéis velhos sem valor. na barra do Urucuia.Grande Sertão: Veredas manso falante. verte. reverte. Não. e o troco. para dormir ali voltava? E eu não revi Diadorim. no meio do redemunho. pelos altos. ninguém me caça. Era um homem maluco. não pense. prescrição dita. O senhor não me pergunte nada. De grave. não é criatura de pôr denúncia. que esbagaçava com o bico algum trem. vinham de Goiás... Mas não é por disfarçar. Esse. em São Romão.João Guimarães Rosa . um homem andava falando: – “A pátria não pode nada com a velhice. mais.

Essa Nhorinhá tinha lenço curto na cabeça. um roceiro vai lavrar um pau. O que vale. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras. cada um com seu signo e sentimento. acho que. alinhavado. filha de Ana Duzuza: um dia eu recebi dela uma carta: carta simples. Ela tinha botado por fora só: Riobaldo que está com – 132 – . O senhor mesmo sabe. Contar seguido. Carta que se zanzou. em tantas algibeiras e capangas. de recente data. De cada vivimento que eu real tive. cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa.João Guimarães Rosa . mandou a carta. são outras coisas.Grande Sertão: Veredas aportou um vapor do Governo. escrita. Escreveu. encontra balas cravadas. O senhor é bondoso de me ouvir. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos. cheio de tropas da Bahia. por lindo nome Nhorinhá. assim é que eu conto. meretriz. de alegria forte ou pesar. eu já estava casado. para um lado longe e para o outro. por outra alheia mão. nesses gerais. Muitos anos adiante. Mas a carta gastou uns oito anos para me chegar. por tantos bons préstimos. quando eu recebi. feito crista de anu-branco. Assim eu acho. pedindo notícias e dando lembranças. Sucedido desgovernado. nesses sertões. só mesmo sendo as coisas de rasa importância. Mire veja: aquela moça. uns com os outros acho que nem não misturam.

os oito anos se baldavam. Quando conheci de olhos e mãos essa Nhorinhá. muito entrançado. ia levando seu gado de volta dos gerais para a caatinga. Mas o senhor vai – 133 – . até daquele tempo pequeno em que com ela estive. E veio trazida por tropeiros e viajores. Ultimo.Grande Sertão: Veredas Medeiro Vaz. vi que estava gostando dela.. logo que chuva chovida. sempre gostei. no São Josezinho da Serra – no indo para o Riacho-dasAlmas e vindo do Morro dos Ofícios. Eu já estava casado. por medo da doença do toque. Senhor subentende o que isso é? A verdade que. Quando recebi a carta. Quase não podia mais se ler. De lá para lá. recruzou tudo. Quando ela escreveu a carta. de certo. ela estava gostando de mim. que me veio com ela. ela tinha aumentado de ser mais linda. e hoje mais. quase por engano de acaso. e conheci.João Guimarães Rosa . de tão suja dobrada. com linha preta de carretel. em minha memória. Uns não sabiam mais de quem tinham recebido aquilo. Nem estavam. e aí já estivesse morando mais longe. agora não gostasse mais de mim. na Aroeirinha. concernente amor. Nhorinhá. em canudo. mas gostando de todo tempo. Eu sei que isto que estou dizendo é dificultoso. Mesmo tinham enrolado noutro papel. mesmo. magoal. era um homem que. quem sabe até tivesse morrido. gostei dela só o trivial do momento. se rasgando. Gosto de minha mulher. gosto bom ficado em meus olhos e minha boca. de grande amor em lavaredas. De certo..

Vou lhe falar. se. veredazinhas. Eu queria decifrar as coisas que são importantes. Queria entender do medo e da coragem. Ao doido. Ninguém ainda não sabe. sensato. por direito. fiel como papel. e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos. se abriu.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas avante. dar corpo ao suceder. me devolvendo minha razão. Só umas raríssimas pessoas – e só essas poucas veredas. Um grande sertão! Não sei. No porto do Rio-de-Janeiro – 134 – . O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção. um dia. O primeiro. e não sabe. Lhe falo do sertão. mas a matéria vertente. Depois o senhor verá por quê. doideiras digo. é como conto. faz tanto. pensa e repensa. Tínhamos vindo para aqui – circunstância de cinco léguas – minha mãe e eu. Mas o senhor é homem sobrevindo. então me ajuda. Se deu há tanto. Assim. O que induz a gente para más ações estranhas é que a gente está pertinho do que é nosso. seja se for jagunço. não sabe. não sabe! Sendo isto. Invejo é a instrução que o senhor tem. E estou contando não é uma vida de sertanejo. e rediz. Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Do que não sei. o senhor me ouve. Foi um fato que se deu. imagine: eu devia de estar com uns quatorze anos.

A vida aqui é muito repagada. tanto recordo. Pois. Porto. lá é o porto do seo Josozinho. porque a cheia vem e tudo escavaca. um curral e um paiol de depósito. melhoramento não se pode pôr. onde não dá febre de maresia. naquela ocasião. com as correntes presas na raiz descoberta dum paud’óleo. Quem quer bandear a cômodo o São Francisco. muita vez. o senhor concorde. que se chama. Tinha também umas duas ou três gameleiras. com uma venda. Cereais. é certo. passa o deJaneiro em canoa – ele é estreito. Dezembro dando. o senhor viu. carregando sacos pesados. Rosmes!. verá. Outro. verdade. de outrora. porque outro nome não há. lá como quem diz. não estende de largura as trinta braças. mais alto. as canoas ficam esperando.. bem reto ele vai. Quem carece. formam uma esquadria. que tem. o negociante. O de-Janeiro. já era quase do jeito. A descida do barranco é indo por a-pique. Assim sendo. também principia ali a viagem. às vezes já em suas primeiras águas de novembro. alto em grosso. Tinha até um pé de roseira.João Guimarães Rosa . meu tempo. dali abaixo meia-légua. entra no São Francisco.Grande Sertão: Veredas nosso. no sertão: é uma beira de barranco. Hoje. O porto tem de ser naquele ponto. o que é que não havia de ser? – 135 – . Todo o tempo. então. Depois o senhor vá. uma casa.. ver as pessoas descerem na lama aquele barranco. Dá dó. O São Francisco represa o de-Janeiro.

mata alta. naquele parado. Dois ou três homens de fora. se podia ver um carro-de-bois parado. Mas eu gostava. por entre as árvores. queria novidade quieta para meus olhos. Ora. Mas. De descer o barranco. comprando alqueires de arroz. até perfazer um tanto – metade para se pagar uma missa. Daí. a folha nova – verde e amarela pelo comprido. por causa de uns metros de – 136 – . todos os dias. nas canoas. lugar de tirar esmola era no porto. como ainda hoje é. Mãe me deu uma sacola. que lá fui. Eu ia. Lá era. Cada saco amarrado com broto de buriti. que se jogava no São Francisco. Mas espiava as cabaças para bóia de anzol. e minha mãe feito promessa para eu cumprir quando ficasse bom: eu carecia de tirar esmola.Grande Sertão: Veredas Pois tinha sido que eu acabava de sarar duma doença. E esperava por lá. a fim de ir. até esbarrar no Santuário do Santo Senhor Bom-Jesus da Lapa. que na beira do rio tudo pode. Terceiro ou quarto dia. Arcavam com aqueles sacos. em alguma igreja. raro que alguém vinha. ainda. apareceu mais gente. sempre dependuradas na parede do rancho. me dava receio.João Guimarães Rosa . os bois que mastigavam com escassa baba. Bahia abaixo. o senhor veja: tanto trabalho. para o outro lado do de-Janeiro. metade para se pôr dentro duma cabaça bem tapada e breada. meio a meio. e passavam. indicando vinda de grandes distâncias.

e que moravam num lugar chamado Os-Porcos..” – ele me respondeu. com voz muito natural. Mas arroz este ano não plantou. e era um menino bonito.. Antes fui eu que vim para perto dele. levam muitos dias. e se ria para mim.. por borco. com a testa alta e os olhos aos-grandes. Até hoje é assim. nos gerais de Lassance. de sujigola baixada.. o senhor veja. – 137 – . Aí pois.João Guimarães Rosa . – “Lá é bom?” – perguntei. e continuou explicando: – “Meu tio planta de tudo. encostado numa árvore. pouco menos do que eu. de repente. Ao que. ou devia de regular minha idade. Não se mexeu. meio-mundo diverso. Ali estava.” Assim parecesse que tinha vergonha. Aquilo ia dizendo. para vencer o que em horas o senhor em seu jipe resolve. vi um menino. claro. que aquele comprador era o tio dele. Então ele foi me dizendo. onde não tinha nascido. – “Demais.Grande Sertão: Veredas água mansinha. verdes. mais. Menino mocinho. com um chapéude-couro. porque enviuvou de morte de minha tia. de estarem comprando aquele arroz. só por falta duma ponte. no carro-de-bois. menos longe daqui. pitando cigarro. Muito tempo mais tarde foi que eu soube que esse lugarim Os-Porcos existe de se ver.

Mas ele apreciava o trabalho dos homens. As canoas eram algumas. com um prazer de companhia. chamando para eles meu olhar. que a gente só podia responder que sim. Porque ele falava sem mudança. tive vergonha de estar esmolando. Tudo fazia com um realce de simplicidade. Fui recebendo em mim um desejo de que ele não fosse mais embora. nem intenção. que ele também se simpatizava a já comigo. e um pedaço de rapadura.João Guimarães Rosa . mesmo em fé de promessa. gostei daquelas finas feições. sobre as horas. escavacadas cada qual em tronco de pau de árvore. fazia de conversar uma conversinha adulta e antiga. mas ficasse. para me ajudar a descer o barranco. muito aprazível. elas todas compridas. e assim como estava sendo. Ele me deu a mão. Escondido enrolei minha sacola. sem sobejo de esforço. com um jeito de siso. como nunca por ninguém eu não tinha sentido. muito leve. modo meu de menino. tanto desmentindo pressa. sem parolagem miúda. aí tanto. Achava que ele era muito diferente. como as de hoje. a voz mesma. Me perguntou se eu vinha. comprou um quarto de queijo.Grande Sertão: Veredas Mas eu olhava esse menino. Disse que ia passear em canoa. sem brincadeira – só meu companheiro amigo desconhecido. Senti. Uma – 138 – . A ser que tinha dinheiro de seu. Não pediu licença ao tio dele.

quase sem água nem lama nenhuma no fundo. O menino tinha me dado a mão para descer o barranco. Eu não sabia nadar. Bom aquilo não era. Sentei lá dentro.Grande Sertão: Veredas estava ocupada. de olho-de-boi e de outras – 139 – . quentando sol. macia e quente. luziam um efeito de calma. feito à régua regulado. e nós escolhemos a melhor das outras. foi remando. se via um vivente desses – em cima de pedra. apipada passando as sacas de arroz. paredão. o de-janeiro é de águas claras. em pé. Eu estava indo a meu esmo. Foi o menino quem me mostrou. perturbado. Nem em minha mãe eu não pensava. balançando no estado do rio. Era uma mão bonita. Saiba o senhor.” – ele prezou. Ele se sentou em minha frente. estávamos virados um para o outro... Olhei: aqueles esmerados esmartes olhos. que até me repassasse. Resolvi ter brio. E chamou minha atenção para o mato da beira. Se olhava a lado. da laia da gente. um menino também. No alto. Só era bom por estar perto do menino. de pinto em ovo. ou nadando descoberto. botados verdes. O vacilo da canoa me dava um aumentante receio. O remador. Notei que a canoa se equilibrava mal. eram muitas flores. E é rio cheio de bichos cágados. tão pouca firmeza.João Guimarães Rosa . subitamente vermelhas. – “As flores. agora eu estava vergonhoso. exato. de folhudas pestanas.

E – quê-quê-quê? – o araçari perguntava. – 140 – . não dava minúcia de pessoa outra nenhuma. Nhambu? E periquitos. A bem dizer. o senhor vê. porque se estava no mês de maio. ansiado. As roupas mesmas não tinham nódoa nem amarrotado nenhum. mas asseado e forte – assim se fosse um cheiro bom sem cheiro nenhum sensível – o senhor represente. chegávamos no do-Chico. recebe para si o de-janeiro. aquela terrível água de largura: imensidade. A feiúra com que o São Francisco puxa. bandos. era dessemelhante. Mas. sem espera. no corpo dum rio grande. que é um feijão bravo. do mucunã. o menino.João Guimarães Rosa . Eu queria que ele gostasse de mim. se moendo todo barrento vermelho. com pouco. calado e sabido. Comparável um suave de ser. quem não pôde plantar. – “Daqui vamos voltar?” – eu pedi. e as roxas. é de vir canoando num ribeirãozinho. quase só um rego verde só. já disse. ele pouco falasse. não fuxicavam. e tudo nele era segurança em si. Aquele menino. O senhor surja: é de repentemente. Medo maior que se tem. e dar. Um pássaro cantou.Grande Sertão: Veredas trepadeiras. passavam voando por cima de nós. Ele. como eu ia poder deslembrar? Um papagaio vermelho: – “Arara for?” – ele me disse. Não me esqueci de nada. Se via que estava apreciando o ar do tempo. Até pelo mudar. digo – tempo de comprar arroz.

percebi que. Amanheci minha aurora. porque com a cabeça aprovava. Aqueles olhos então foram ficando bons. Mas a vergonha que eu sentia agora era de outra qualidade. do canoeiro. com tom. O canoeiro. daquele dia. que remava.João Guimarães Rosa . decerto de mim. repontando de seu orgulho. avistei. em pé. o menino tirava aumento para sua coragem. desse a minhas carnes alguma coisa. Arre vai. E o menino pôs a mão na minha. – “Para quê?” – ele simples perguntou. Mas eu agüentei o aque do olhar dele. moda de copla que gente barranqueira – 141 – . de me ver tremido todo assim. O chapéu-de-couro que ele tinha era quase novo. Era uma mão branca. minha vida. foi quem se riu. tu: tem medo não nenhum?” – ao canoeiro o menino perguntou. Encostava e ficava fazendo parte melhor da minha pele. de maior. Aí o menino mesmo avançação enorme roda-a-roda – o que até hoje.. Aquele. pegavam um escurecimento duro. – “Sou barranqueiro!” – o canoeirinho tresdisse.Grande Sertão: Veredas O menino não me olhou – porque já tinha estado me olhando. por duvidar se não satisfaziam termo. retomando brilho. – “Ah. o canoeiro cantou. eu sabia e hoje ainda mais sei. Eu também. no profundo. As remadas que se escutavam. em descanso de paz. a gente podia contar.. – “Você também é animoso. Mesmo com a pouca idade que era a minha.” – me disse. De tal o menino gostou. feio. como estava. Os olhos. foi aquele rio. com os dedos dela delicados.

Ele mesmo.” Mais não conversasse. isto é. só descemos. na vargem. Estava pitando. nessa maior turvação: vim te dar um gole d’água.. apanhava talos de capim-capivara. Sempre os mosquitinhos era que arreliavam. Acabou de pitar.. me acanhava. a de lá. ele determinou: – “Há-te. fica tomando conta!” – ele falou para o canoeiro. Sentamos. fomos. isso faz. o vulgar. e eu reparei. o desejado. e mastigava. rodeado por áspero bamburral. Sendo de permanecer assim..Grande Sertão: Veredas usa: “. com pedras.. Ao ver. no meioavermelhado do capim-pubo. é dele que a capivara come. – 142 – . e eu disse. Assim quando me veio vontade de urinar. vai ali atrás. Meu Rio de São Francisco. sem prazo. mas fui andando. Aonde o menino queria ir? Sofismei.” Aí. o quase calados. – “Amigo.João Guimarães Rosa . o menino mandou encostar. E me deu a rapadura e o queijo. desde que amarrou a corrente num pau-pombo. só tocou em miga. quer de comer? Está com fome?” – ele me perguntou. junto das dele. arribamos na outra beira. num lugar mais salientado. longe de mim. tinha gosto de milho-verde. somente. por fim... comparando como eram pobres as minhas roupas. mas pedir tua benção. que seguiu de cumprir aquela autoridade. – “Você não arreda daqui.

o senhor sabe: quando o do-Chico sobe os seis ou os onze metros.” Aduzido fungou. sem malícia e sem bondade. regular uns dezoito ou vinte anos.... era um rapaz. e se curvou. até meigo muito. uê. mulato. – “Tem nada não. menos fundas. sem avisos. Esse não semelhava ter tomado nenhum espanto. ele disse isto: – “Vocês dois. com as feições muito brutas. O canoeiro. brincando de rodar mansinho. Por certo algum trilho passava perto por ali. bateu um figurado indecente. com a canoa passeada. então. me deu um susto somente. Depois. – “Mas. Olhei para o menino. À fé.Grande Sertão: Veredas Antojo. Beiras sem praia. para o rumo de acima. tudo parecendo meio podre. Com o mau jeito. sem seguir resolução.” – ele falou. E se deu que o remador encostou quase a canoa nas canaranas. e. a canoa desconversou. Eu disse um grito. hem?! Que é que estão fazendo?. na barra. social com seu prático sorriso. por detrás de nós. Eu me apeguei de olhar o mato da margem.. mas altado. Não piscava os olhos. então. Debochado.João Guimarães Rosa . – “Hem. apareceu a cara de um homem! As duas mãos dele afastavam os ramos do mato. foi entrando no do-Chico. surdo sentado ficou. hem? E eu? Também que se sorriu. forte. entre duas águas. vocês – 143 – . queria quebrar um galho de maracujá-do-mato. a deixa. o menino também tinha se levantado. mão no fechado da outra. varejava ali. o homem escutara nossa conversa. na beirada. lameada ainda da cheia derradeira. tristes.

encostar um dedo que seja. O ódio que – 144 – . Mas. com que prazo se ir até lá? Medo e vergonha. se diz – a ariranha – essas desmergulham. até sobre se sair no seco.” – eu me queixei. longe. quando canoa vira. em bando. sério naquela sua formosa simpatia. Não pensei nada. Tive medo. de estudo. e uns sussurros de desamparo. e o risco extenso d’água. para se ter tenência. É canoa de peroba. de esfrio.João Guimarães Rosa . traiçoeira – o rio é cheio de baques. Eu disse isso.” Me deu uma tontura. Eu tinha o medo imediato. Apertei os dedos no pau da canoa. e aí ir seguindo. Mas eu tinha até ali agarrado uma esperança. do outro lado. não me lembrei do perigo que é a “onçad’água”. modos moles. com uma palavra só. firme mas sem vexame: – “Atravessa!” O canoeiro obedeceu.. e só aquele estrape.. E o canoeiro me contradisse: – “Esta é das que afundam inteiras. Longe. fechei os olhos. Sabe? Tudo foi isso: tive medo! Enxerguei os confins do rio. Tinha ouvido dizer que.Grande Sertão: Veredas fiquem sentados. E tanta claridade do dia. Não me lembrei do Caboclo-d’Água. A aguagem bruta. Alto rio. O arrojo do rio. deu ordem ao canoeiro. e é bastante a gente se apoiar nela.. e becam a gente: rodeando e então fazendo a canoa virar. de parte a parte. fica boiando. a constância de não afundar. Canoa de peroba e de pau-d’óleo não sobrenadam. Ele se sentou..

.João Guimarães Rosa .. Visse que vinham minhas lágrimas? Dói de responder: – “Eu não sei nadar. quando se tem medo?” – ele indagou.. ouvi a bonita voz do menino dizer: – “Você. de dizer. E.” Aí o bambalango das águas.” Sereno.. o que eu menos esperava. Quieto..” Ao que meio pasmei. satisfeito.. que não estávamos fazendo sujice nenhuma. Ele respondeu: – “Costumo não. e a gente tinha escolhido aquela.. Via os olhos dele. passado o tempo dum meu suspiro: – “Meu pai disse que não se deve de ter. não pude ter raiva. sereno. Até fosse crime. produziam uma luz. era aquilo? E o mulato. de madeira burra! A mentira fosse – mas eu devo de ter arregalado doidos olhos. aro!” – o mulato veio insistindo. de imburana.” A fala. – “Que é que a gente sente. o menino me via. fabricar dessas. Eu vi o rio. eu consegui falar alto.. Então. estávamos era espreitando as distâncias do rio e o parado das coisas. confronte. Afiançou: – “Eu também não sei. mas não estava remoqueando.. o jeito dele.Grande Sertão: Veredas eu quis: ah. vinhático ou cedro.. Meu pai é o homem mais valente deste mundo. contestando. tantas canoas no porto.” – ele me disse. Mas.” O menino sorriu bonito. – “Você nunca teve medo?” – foi o que me veio. de faveira ou tamboril. chega aqui. por aí. meu nego? Está certo. imitavam de mulher... caminhou para se sentar juntinho dele.. – 145 – . Ainda ele terminou: – “. composto. – “Carece de ter coragem..” – e. boas canoas boiantes.

O mulato podia voltar.João Guimarães Rosa . E não olhava para trás. Tornou a pôr na bainha. a ponta rasgando fundo. Meu receio não passava. A lâmina estava escorrida de sangue ruim. Urutu dá e já deu o bote? Só foi assim. encarecendo que a gente fosse logo embora. se ouvia aquela corredoura.Grande Sertão: Veredas Ah. daí a mais um pouco? Ao menino ponderei isso. de nós o que seria..” – ele me moderou. medo do mulato. esses – se riscam tão depressa. me chamando para voltarmos. Varou o mato. Carece de ter muita coragem.. de seu pai. O menino abanava a faquinha nua na mão. pessoas engraçadas: o remadorzinho estava dormindo espichado dentro da canoa. em fuga. Não. então. – “Carece de ter coragem. Mulato pulou para trás. gemido urro. você mora é com seu tio?” Aí ele se levantou. Tinha embebido ferro na coxa do mulato. garrucha. nem de ninguém. – “Quicé que corta. a si dizendo. ter ido buscar uma foice. vagarosinho até aonde a canoa. com – 146 – .” – foi só o que disse. ô de um grito. Tem de tudo neste mundo. Mas o menino não se aluía do lugar. Mas veio demorão. e nem se ria. ele não conhecia. Indaguei: – “Mas. Me alembrei do que antes ele tinha falado.. tão gentil. a reunir companheiros. E limpou a faca no capim. com todo capricho. olhar da gente não acompanha. tem lances..

me pareceu depressa demais. Se alegrou com o resto da rapadura e do queijo. pesável. muito diferente. que coragem – 147 – . Agora. Mas não carecia. De longe.. o senhor escute.Grande Sertão: Veredas os seus mosquitos por cima e a camisa empapada de suor de sol. Menos que. tantos anos todos. e escute desarmado. Dando fim. Só uma transformação. da estória toda – por isto foi que a estória eu lhe contei eu não sentia nada.. O senhor não me responda. no meio do rio até mais cantava. depois. declarou assim: – “Sou diferente de todo o mundo. Nem sabia o nome dele. Tive de ir com ela. Meu pai disse que eu careço de ser diferente. eu sei. – “Você é valente. Por que foi que eu precisei de encontrar aquele Menino? Toleima. sem me encarar. Mais. não lhe dou desenho – tudo igual. Dele nunca me esqueci. por vez. Dou. virei. que o senhor ouviu.João Guimarães Rosa . Dessa volta. me escute mais do que eu estou dizendo. esteve tempo pensando. ele acenou com a mão. nos trouxe remando. nem pude me despedir direito do Menino. por mim. Minha mãe estava lá no porto. sempre?” – em hora eu perguntei. de. Eu? O sério pontual é isto. Muita coisa importante falta nome. eu respondi. O menino estava molhando as mãos na água vermelha. perguntas faço. O sério é isto. igual.” E eu não tinha medo mais.

extrema. Os gerais desentendem de tempo. ajuntando esmolas para o Senhor Bom-Jesus. Por que foi que eu conheci aquele Menino? O senhor não conheceu. no Nazaré. eu acho que.” Bolas. beira até Goiás. a dele? De Deus. com minha capanguinha na mão. Sertão é onde homem tem de ter a dura nuca e mão quadrada. idade minha sendo aquela. criminal. repense o bem pensado: para que foi que eu tive de atravessar o rio. Sabe o que o pai dele temperou? – “Filho. Senhor vê. foi desfeiteado. e matou um homem. no dever de pagar promessa feita por minha mãe. do demo? Por duas. Na velhice. milhões de milhares de pessoas não conheceram. nem o compadre meu Quelemém não me ensina. ora. depois. defronte com o Menino? O São Francisco cabe sempre aí. passa.. isso é a tua maioridade.. capaz. onde é bobice a qualquer resposta. não dei de mim esse indagado. por uma. compadre meu Quelemém não conheceu. – 148 – . isto que eu vivo pergunta de saber. Sonhação – acho que eu tinha de aprender a estar alegre e triste juntamente. correu em casa. Mas. já tenho defesa. nas vezes em que no Menino pensava. Sertão é o penal. E o que era que o pai dele tencionava? Na ocasião. O Chapadão é em sobre longe. Mire veja: um rapazinho. Mas. o senhor sabe. Matou.Grande Sertão: Veredas inteirada em peça era aquela. O senhor pense outra vez. para quê? por quê? Eu estava no porto do de-Janeiro.João Guimarães Rosa . de quem me vingue. é aí que a pergunta se pergunta.

como compadre meu Quelemém. Ela morreu. pelo jeito de ficar calado alto. Mais hoje. Agora. fiquei com aquelas miserinhas – miséria quase inocente – que não podia fazer questão: lá larguei a outros o pote. até hoje em dia. uma caçarola bicuda e um alguidar. um cobertor de baeta e minha muda de roupa. como Joca Ramiro. num dezembro chovedor. Morreu. que fico pensando: por aí. De herdado. uma tristeza do meu direito. quer ver que o senhor põe uma resposta. o senhor já me compraz. a lembrança de minha mãe às vezes me exporta. que viaja diverso caminhar. Ao quê? Não me dê. era como ela se chamava. as esteiras. a bacia. Adiante? Conto. Assim. Mas uma tristeza que todos sabiam.Grande Sertão: Veredas para me sarar de uma doença grave. um caneco-de-asa pintado de flores. De desde. Puseram para mim tudo em – 149 – . Zé Bebelo um tanto sabia disso. O seguinte é simples. chocolateira. mais amanhã. como Medeiro Vaz. eu vejo que o senhor me divulga. Deveras se vê que o viver da gente não é tão cerzidinho assim? Artes que foi. uma imagem de santo de pau. somente peguei minha rede. Amanheci mais. e saber não queria. dês. como a minha vida mudou para uma segunda parte. panela. uma fivela grande com ornados. Minha mãe morreu – apenas a Bigri. aí foi grande a minha tristeza.João Guimarães Rosa . mas sabia sem saber.

por aí arriba. possuía três fazendas-de-gado. – “Ah. de meu padrinho Selorico Mendes. ainda fazendeiro graúdo se reina mandador – todos donos de agregados valentes. Ele era rico e somítico. como coube na metade dum saco. Aqui também dele foi. e potentes chefias. purgo meus arrependimentos.” – foi a sincera primeira palavra que ele me disse. onde as serras vão descendo. Tanto que cheguei lá. me olhando antes. que aqui já é terra avinda concorde. Política! Tudo política. Mas gostava de conversar. Nunca falou em minha mãe. para a Fazenda São Gregório. também quase não falava. adiante. Nas coisas de negócio e uso. por causa das chuvas numa viagem durada de seis dias. Altas artes de jagunçosisso ele amava constante – histórias. na beira da estrada boiadeira. Até que um vizinho caridoso cumpriu de me levar. estes anos todos. meu padrinho Selorico Mendes me aceitou com grandes bondades. a maior de todas. roncice de paz. Levei dias pensando que ele não fosse de juizo regulado. no lidante.. entre o rumo do Curralinho e o do Bagre.Grande Sertão: Veredas trouxa. A pena. Mas. do cidadão do sertão. – “De não ter conhecido você.João Guimarães Rosa . contava casos. turmas de cabras do trabuco e na carabina escopetada! – 150 – . e sou homem particular.. a vida vera é outra.

Nisto que na extrema de cada fazenda some e surge um camarada. cruzando para – 151 – . Xiquexique e Sento-Sé. O pessoal que eles numeravam em guerra comprazia uma babilônia. Ei. Urubu. no Alambiques. Dona Adelaide no Campo-Redondo. o Coronel Camucim nos Arcanjos. de sentinela. com carta firmada pelo Capitão Severiano Francisco de Magalhães. que era companheiro combinado do Neco.Grande Sertão: Veredas Domingos Touro. Malhada e Manga – fez como quis. cada lugar é só de um grande senhor. no Vau-Vau dona Próspera Blaziana. que sobraça o pau-de-fogo e vigia feito onça que come carcaça. seus jagunços mil. tantos. Major Urbano na Macaçá. Pilão Arcado. nas eras do ano de 79: tomou todos os portos – Jatobá. comarca de Rio Pardo. cheias de homens com bacamartes. e se descer esse São Francisco.João Guimarães Rosa . Botavam até barcas. Carinhanha.” Demais falasse. tendo conhecido o Neco. com sua família geral. Mesma coisa no barranco do rio. Simão Avelino na Barra-da-Vaca. os Silva Salles na Crondeúba. – “Estive lá. e tantos. se lembrava de quando Neco forçou Januária e Carinhanha. Januária. que era a terra dele. e pôs sede de suas fortes armas no arraial do jacaré. que aprova. Mozar Vieira no São João do Canastrão. ordeiros: ver São Francisco da Arrelia.

que tinha mandado forjar para próprio. Me deu logo um punhal. quando entravam numa cidade. a gente ouvia gritos e tiros. foram esperar melhor sorte em Pedras-deMaria-da-Cruz. almocei.João Guimarães Rosa . quase do tamanho de espada e em formato de folha de gravata. saindo para distâncias marcadas. Contava que em tempos tinha sido valente. Queria que eu aprendesse a atirar bem. Naquela dita ocasião. Debaixo da chefia dele. de recontar isso ele sempre se engrandecia. só obedeciam e rendiam respeito. se gabava. arrancavam o dinheiro em coletoria. Abriam festa de bomba-real e foguetório. Arrombavam a cadeia. e ceiavam em Casa-daCâmara.. Dia e noite. Cavalaria de jagunços galopando. hóspede do Neco.Grande Sertão: Veredas baixo e para cima o rio.” Meu padrinho Selorico Mendes era muito medroso. Mandavam tocar o sino da igreja. estrepoliu mais do que João Brandão e os – 152 – . – “Sentei em mesa com o Neco. de parte a parte.. me deu até um facão enterçado. e manejar porrete e faca. bebi vinho. goga.” Meu padrinho. ou o Lióbas. me deu uma garrucha e uma granadeira. todas as pessoas importantes tinham fugido da Januária. desamparadas de poder-de-lei. – “Neco? Ah! Mandou mais que Renovato. soltando os presos... Mais tarde. paravam uns oitocentos brabos.

Você não é habilidoso.João Guimarães Rosa . e sempre gostei do bom e do melhor. Lá eu não carecia de trabalhar. com escrita de Neco – era recibo de seis ancorotes com pólvora e uma remessa de iodureto – a assinatura rezava assim: Manoel Tavares de Sá. que de seguida formei em pergunta. Mas eu não sabia ler. de forma nenhuma. porque para cuidar do trivial você jeito não tem. cujo Gervásio Lê de Ataíde era o verdadeiro nome social. usando muito bico de palavreado. me agradando e dizendo que estimava como um favor.. um tempo – era homem de tão – 153 – ..Grande Sertão: Veredas Filgueiras. a despesa não era pequena. A ser que. porque padrinho Selorico Mendes acertava com Nhô Maroto de pagar todo fim de ano o assentamento da tença e impêndio. Eu comia muito. Então meu padrinho teve uma decisão: me enviou para o Curralinho.” E meu padrinho me mostrou um papel. Vai. acontece. Nunca neguei a ele meus pés e mãos. alguma vez. ele me disse: – “Baldo. Nhô Maroto me pedia um ou outro serviço. Nhô Maroto. ao Mestre Lucas. Ele me olhou. Bom homem. para ter escola e morar em casa de um amigo dele.” Isso que ele me disse me impressionou. você carecia mesmo de estudar e tirar carta-de-doutor. e mesmo não era o nenhum trabalho notável. até de botina e roupa que eu precisasse.

e mesmo assim nenhum de nós não tinha raiva dele. mais velha do que eu. de vida contentada. e muito ladino. Passei lá esses anos. nem com o passado não somava. ah essas meninas por nomes de flores. e aquela moda de azedar o – 154 – . Tanto sendo bizarro atencioso. diversas vezes me convidou para almoçar em mesa. Curralinho era lugar muito bom. filha de negociante forte. casa grande.” E. dono da venda O Primeiro Barateiro da Primavera de São José – ela era estranja. eu explicava aos meninos menores as letras e a tabuada. ele me determinou de ajudar no corrido da instrução.Grande Sertão: Veredas justa regra. Mas o mais certo de tudo é que um professor de mão-cheia você dava. Com os rapazinhos de minha idade. recheio bom em abobrinha ou em folha de uva. desde o começo do segundo ano. arranjei companheirice. turca. eles todos turcos.João Guimarães Rosa . O que apreciei – carne moída com semente de trigo. armazém grande. e de tão visível correto parecer. ele me agradava.. outros guisados. A não ser a Rosa’uarda – moça feita.. Aí. namorei falso. que não poupava ninguém: às vezes teve dia de dar em todos os meninos com a palmatória. asnaz. não separei saudade nenhuma. dizia que meu padrinho Selorico Mendes era um freguesão. seo Assis Wababa de tudo comerciava. Assim Mestre Lucas me respondeu: – “É certo. seo Assis Wababa.

Dez vezes mais me desse. nem desgostava. ele que criara amparado amor ao seu dinheiro. ele aproveitava para tratar de vender bois e mais outros negócios – e trazia para mim caixetas de doce de buriti ou de araticum. também. irmãozinhos de Rosa’uarda.João Guimarães Rosa . mas com tamanha diferença de idade. me ensinou as primeiras bandalheiras. e que tanto avarava.Grande Sertão: Veredas quiabo – supimpas iguarias. requeijão e marmeladas. Cada mês de novembro. que juntos fizemos. e as completas. fiz com muito anseio e deleite. Pois. num esconso. e me dava de tudo. Assim mesmo afirmo que a Rosa’uarda gostou de mim. Só o que me invocava era a linguagem garganteada que falavam uns com uns. e me chamava de: – “Meus olhos. a aravia. e não se valia. Toda a vida gostei demais de estrangeiro. Eu não gostava dele. Mais certo era que com ele eu não – 155 – . também. várias viagens. e até os meninos. Sempre me dizia uns carinhos turcos. duma formosura mesmo singular. dona Abadia. Os doces. e extraordinários pretos. mandava me buscar. Hoje é que reconheço a forma do que meu padrinho muito fez por mim. Estimei seo Assis Wababa. Nunca ralhou comigo. me ver – na verdade.” Mas os dela era que brilhavam exaltados. ele veio ao Curralinho. a mulher dele. no fundo do quintal. Mas eu nunca pedi coisa nenhuma a ele.

por razão outra. a curtir arrependimento por ele. em má lua. no São Gregório. que eram seis. Disso não fiz conta. Certa madrugada. Acabei. velho. o senhor vai ver. Ali entraram com uma aragem que me deu susto de possível reboldosa. Acho que nós dois éramos mesmo pertencentes. Era mês de maio. não por fraca saúde. já estava pondo para dentro da sala uns homens. alguém estava batendo. com a lamparina na mão. definitivo. fugindo do São Gregório. eu. mas por preguiça mal corrigida. quando tão moço. Mesmo o que recebi eu menos merecia. Admirei: tantas – 156 – . grande fato se deu. todos de chapéu-grande e trajados de capotes e capas. meu padrinho Selorico Mendes. E. Agora. E me deixou por herdeiro. nem entendo. Depois pouco que voltei do Curralinho. o frio fiava. ficou entusiasmado. derradeiramente.Grande Sertão: Veredas soubesse me acostumar.João Guimarães Rosa . Só o São Gregório foi que ele testou para uma mulata. duas peguei. eu custava muito para me levantar. que ao senhor não escondo. com que no fim de sua velhice se ajuntou. ele penou remorso por mim. destaco: quando velho. Assim que saí da cama e fui ver se era de se abrir. Nunca mais vi meu padrinho. Decerto. Mas por isso ele não me desejou mal. arrastavam esporas. em folha de testamento: das três fazendas. quando teve notícias de que eu era o jagunço. os cachorros todos latiram.

E vi que era um homem bonito. um dos homens – Alarico Totõe – estava expondo. aprovando com a cabeça. logo entendi. Todos continuavam sem tomar assentos. com uma admiração toda perturbosa. o chapéu dele se desabava muito largo. Ele. o principal. Mas para quem ele sempre estava olhando. gente de bem. caprichado em tudo. eu parei.Grande Sertão: Veredas armas. E o senhor sabe quem era esse? Joca Ramiro! Só de ouvir o nome. até a sombra. Mas eles não eram caçadores. Vi que era homem gentil. pojava volume. Meu padrinho mandou eu ir lá dentro. depois eu soube – que seus segundos. Dele. que a lamparina arriava na parede. chamar alguma das mulheres. por uma questão política. Um. Quando voltei. Meu padrinho escutava. era para o chefe dos jagunços. com seu irmão Aluiz Totõe. ombreavam com ele dois jagunões. que coasse café quente. com – 157 – . pessoas finas. se chamava Ricardão: corpulento e quieto. se trespunha diversa.João Guimarães Rosa . explicando. Alarico Totõe sendo um fazendeiro do Grão-Mogol. conhecido de meu padrinho. Ao que farejei: pé de guerra. na imponência. Tinham encomendado o auxílio amigo dos jagunços. na maior suspensão. Dos lados. Adrede Joca Ramiro estava de braços cruzados.

pouco. num fechado. onde a tropa dos homens passasse o dia que vinha. Pouco.. não notei de uma vez. me lembro mal. se arrastava – me pareceu – que nem queria levantar os pés do chão. mas. mas atrás de muitas fumaças. Naquela hora. enfolipavam em dobrados. que se que uma cabaça na cabeça.. O Hermógenes: ele estava de costas. até aonde o poço do Cambaubal. E mandou que eu fosse guiar aquela gente. O outro – Hermógenes – homem sem anjo-da-guarda. quando ele caminhou uns passos. compunha o ar de um fazendeiro abastado. Na hora.” – meu padrinho consentiu. – 158 – . Alarico Totõe pediu que precisavam de um recanto oculto.João Guimarães Rosa . As pernas. eu estava querendo que ele não virasse a cara. muito abertas. As calças dele como que se enrugavam demais da conta. dando surpresa e desmanchando rastro. com o chapéu raso em cima. fui receando. A sombra do chapéu dava até em quase na boca. mas chapéu redondo de couro. a cacunda amontoava. – “Tem ótimo reconditório. Reproduzo isto. No terminar. e fico pensando: será que a vida socorre à gente certos avisos? Sempre me lembro dele. Virou. enegrecendo. pois que viajavam de noite. mas umas costas desconformes.Grande Sertão: Veredas um modo simpático de sorriso. mato caapuão. Aquele homem se arrepanhava de não ter pescoço.

Aí mês de maio. eles dois a cavalo. baciadas. E os grilos no chirilim. o pêlo deles. De repente. e estribeira. E deviam de ser perto duns cem. antes de poder ver eu já pressentia. mais o outro homem – um cabeça-chata alvaço. Alaripe se chamava. os cavalos dão de orelha ou batem com o – 159 – . viemos até onde estavam esperando os outros. do aflor. Couro raspa em couro. semeado das poeiras do sertão. aquela gente estava toda calada. Um estado de cavalos. O orvalho pripingando.João Guimarães Rosa . e pôs as mãos nos bolsos. Ricardão ria grosso. enchia espaço aquela massa forte. de suor velho. Assim Joca Ramiro corria pronto os olhos. de certa distância. a cara muito galharda. E aquele Hermógenes veio para sair comigo. Nenhum não tinha desapeado. quando o animal lambe o freio e mastiga.Grande Sertão: Veredas Primeiro. até hoje se chama. com muita viveza no olhar. sorrindo franco. eu a pé. Mas uma sela range de seu. A bem dizer. com a estrela-d’alva. ou o coscós. tomou-se café. Adonde o movimento esbarrado que se sussurra duma tropa assim – feito de uma porção de barulhinhos pequenos. Os cavaleiros. Em que. no baixo da estrada. estribo. em tudo ali. que nem o dum grande rio. Respirei: a gente sorvia o bafejo – o cheiro de crinas e rabos sacudidos. dois passos. desse gostei. falei. tine um arreaz.

escutava o orvalho.” – o cabeçachata falou aviso. bridava.Grande Sertão: Veredas pé. de – 160 – . se via um cavaleiro. montados. entreluz da aurora. Veio vindo para cá. E os chapéus rebuçados. mais o siô Hermógenes. Mas os cavalos mantidos. Soubesse sonhasse eu? Decerto de guarda. Daqui. o mato cheio de cheiroso. E um cavaleiro ou outro tocava manso sua montada. o cavalo dele era escuro. estalinho de estrelas.. escorrido. feito árvores crescidas lado a lado. parados contrapassantes. é eu. apartado dos mais. Grandeúdo. mudando de lugar. se divisava. as pontas dos rifles subindo das costas. aos poucos. – “A bom. em cima dos cavalos teúdos. era um alazão de bom pisar.. o formar daqueles cavaleiros. E. divulgava os vultos muitos. dali. Eu não sentia os homens. Ali deviam de estar alguns dos homens mais terríveis sertanejos.João Guimarães Rosa . um sopro. Dava o raiar. inteiro. É diferente. A gente se encostava no frio. Alaripe!” – o de lá respondeu. o deduzir dos grilos e a cavalhada a peso. Porque eles não falavam – e restavam esperando assim – a gente tinha medo. um meio-arquejo. quando o céu branquece. – “Capixum. Ao o ar indo ficando cinzento. avançando naquele bolo. sabia só dos cavalos. E o senhor me desculpe.

– “Aoh. que o Hermógenes tratou de sié-Marques. puxando todos para o Cambaubal. Presumi que estavam muito contentes de ganhar o repouso de horas. mas assim desgovernada desigual. agora. De junto com o Capixum. Assim – fantasia de dizer – o ser de uma irara. pois tinham navegado na sela a noite toda. uê.Grande Sertão: Veredas estar retrasando em tantas minudências. cadê a moça virgem?” Largamos a estrada. Sem mais delongas nenhumas.” – o Hermógenes contestou. é saudade. e. Um falou mais alto. alguns riam. no capim molhado meus pés – 161 – . também. de sotochefe. se aproximou outro um. irmão?” – aquele sié-Marques perguntou. Amigo que veio mostrar à gente o arrancho. o que é. esse empurro continuado.João Guimarães Rosa . alguém. saí. tratando de minha pessoa. caminhando ao lado do cavalo do Hermógenes. Mas. diziam graças. achassem que eu era abelhudo... aquilo era bonito e sem tino: – “Siruiz. voz que se safava. Mas até hoje eu represento em meus olhos aquela hora. com seu cheiro fedorento. eles conversavam. o regular. Atrás de nós. – “De paz. Deu ainda um barulho de boca e goela. mano velho. qual um rosno. O Hermógenes tinha voz que não era fanhosa nem rouca. Eu não queria virar e espiar. eu ouvia os passos postos da grande cavalaria. tudo tão bom.

Grande Sertão: Veredas se lavavam.. esperar a chegada da tropa de burros. e eu fui. Algum. Vim de lá... cantou. Um lote de dez mulas. com os cargueiros. convido meu coração. Corro os dias nesses verdes.. Dia de maio. Lembrança da gente é assim.. Mas vinham com os cincerros tapados. volto mais não. eu disse. viola da solidão: quando vou p’ra dar batalha. volto mais não?. Vinham quebrando as barras.João Guimarães Rosa . adiante. com orvalho.. meu boi mocho baetão: buriti –água azulada. palavras diversas.. com o Alaripe. Me emprestaram um cavalo. mais idosa do sertão: padroeira. na boca da ponte. carnaúba – sal do chão. Remanso de rio largo. Não tardava já vinham aparecendo.. para mim a toada toda estranha: Urubu é vila alta. tafulhados – 162 – . aquele Siruiz. minha vida – vim de lá.

Padrinho Selorico Mendes mandou que eu fosse no O-Cocho. Meu padrinho insistiu. ele nem sabia de nada. E esse Rozendo Pio era tratantaz e tolo. O dia já estava clareando completo. No caminho. só eu mesmo merecia confiança de ir. me trouxe outra vez para casa. e os Totões. E era para ele vir. quase não conversava. Se separavam em pequenos golpes. Guiamos os tropeiros também para o Cambaubal. meu padrinho chegou. Não vi mais o acampo deles. Mas eu tinha de levar um cavalo adestro. buscar um homem chamado Rozendo Pio. durasse seis ou sete. esse homem – meu padrinho me disse – rastreava. o bando estava pronto para sair. de jagunços. não quis dar demonstração. Sendo assim. debaixo de todos os segredos. para o homem. Ricardão. o que. três léguas e meia longe. modo de caber em duas noites. aí. na vinda. com Joca Ramiro. – 163 – .João Guimarães Rosa . as esporas tilintim. com desgosto.Grande Sertão: Veredas com rama de algodão: afora o geme-geme das cangalhas. Fui. Nem fazia prazer naquilo. sem perigo maior. Não pude. Três léguas. era o anoitecido. Mas. Quando chegamos. Meu coração restava cheio de coisas movimentadas. não faziam nenhum rumor. se não. com desculpa de arranjos. Meu padrinho tinha mandado amarrar os cachorros todos da fazenda. tapejar o bando de Joca Ramiro por bons trilhos e atalhos. Demorou muito. na Serra das Trinta Voltas.

fole de mão. com vários sortidos flames de sangrar cavalos adoecidos. os barulhos. podia impor caráter ao Governo. As lutas dos joca-ramiros. as manhas traçadas para se ganhar em combate. maço de estórias de toda raça de artes e estratagemas. o de se ver. ferramenta exata. com sua tendinha e os pertences: uma bigorna e as tenazes. Parecia que ele queria se emprestar a si as façanhas dos jagunços. aquele dormir de ordem. De ouvir meu padrinho contar aquilo. e capanga de alveitar. Semanas seguintes. meu padrinho só falou nos jagunços. Meu padrinho levara aquele dia todo no meio deles. Nem nada faltava. caixote com pães de sabão para cada um lavar a roupa e o corpo. As sacas de farinha. aquela autoridade enorme no entremeamento.Grande Sertão: Veredas Se foram. Contava: o cuidado nos arranjos. a munição bem zelada. as coisas todas regradas. de que tinha ouvido sincera narração. E as mais coisas meu padrinho descrevia com muito agrado. começava a dar em mim um enjôo. Até tinham um mestre-ferrador. tivesse sorte. Dito que Joca Ramiro era um chefe cursado: muitos iguais não nascem assim – dono de glórias! Aquela turma de cabras. tantas e tantas arrobas de carne-de-sol. se comprazendo sem singeleza. Achei mesmo que tudo tinha perdido a graça. e que Joca Ramiro estava ali junto de – 164 – .João Guimarães Rosa .

não digo. meus e meus. que eu achava. nenhum.Grande Sertão: Veredas nós. que reinou para mim no meio da madrugada. Meu padrinho era antipático. Agora. Aire. assim. Pois foi – que eu escrevi os outros versos. Num lugar parado. Ficava mais sendo. O que eu guardo no giro da memória é aquela madrugada dobrada inteira: os cavaleiros no sombrio amontoados. Eu achava. Eu mesmo por mim não cantava. na roça. Selorico Mendes. versos naquela qualidade. montão. Não me lembro de nenhum deles. de minha saudade e tristezas. o refinfim do – 165 – .João Guimarães Rosa . ah. O que me agradava era recordar aquela cantiga. não deram cinza. o senhor reflita. Fiz muitos. e meus beiços não dão para saber assoviar. muito recitados repetidos. obedecendo mandados. Não estou caçando desculpa para meus errados. todos sentidos por mim. em mim bem morreram. remidos. de espírito. me adoçou tanto. e que a total valentia pertencia a ele. feito bichos e árvores. sim. porque nunca tive entôo de voz. que na ocasião prezei. estão goros. Mas reproduzia para as pessoas. por mesmo eu não saber. carece de a gente de vez em quando ir alterando os assuntos. não. tiro sua atenção para um ponto: e ouvindo o senhor concordará com o que. Simples digo ao senhor: aquilo molhou minha idéia. estúrdia. e todo o mundo admirava. que dei para inventar. Então? Mas esses. dos verdadeiros assuntos.

que eu desouvia. os grilinhos do campo. fugi de lá. Fizesse ou não fizesse. Assim já tinha ouvido de outros. querer querendo. acabei me esquecendo quem – me disseram que não era àtoa que minhas feições copiavam retrato de Selorico Mendes. No São Gregório. Não desesquentei a cabeça. ditos e indiretas. Uma coisa ele não tolerava. de algum encoberto jeito.Grande Sertão: Veredas orvalho. não. eu daquilo já sabia. Perguntar a mais pessoa nenhuma. Que ele tinha sido meu pai! Afianço que. minhas armas. dois punhados de farinha no bornal. a estrela-d’alva. Com isso eu nunca somei. Fui até na cozinha. de trabalhar seguido. Pareceu até que. E. no escutar. chegava. eu nem carecia. Alguém há de achar algum regime melhor? Mas. e era só: que alguém indagasse justo quanto era o dinheiro que ele tinha. Perguntar a ele. Ajuntei meus trens. aos pedacinhos. mas não me louvava. meu padrinho me apreciava. em roda de mim o tonto houve – o mundo todo me desproduzia. selei um cavalo. conduzi um naco de carne.João Guimarães Rosa . do razoável de tudo eu dispunha. fosse? Ah. Achasse – 166 – . Algum significado isso tem? Meu padrinho Selorico Mendes me deixava viver na lordeza. não sou especula. Eu vivia com o meu bom corpo. eu não podia. um dia – de tanto querer não pensar no princípio disso. o pisar dos cavalos e a canção de Siruiz. numa grande desonra.

o vexame que me inçava não me dava rumo para continuação. que tinha uma filha chamada Miosótis. Arremessei o cavalo.João Guimarães Rosa . feito o vicio dum ruim prazer. A lá. agora por muitos momentos eu achava consolo em que ela me visse – que soubesse: eu. estrangeira inteira! Só fosse um pouco para ver a Rosa’uarda. Eu queria o ferver. Assim. muito estrangeira. Toquei direto para o Curralim. mais aí nas delícias dela minha idéia não podendo se firmar – porque aumentava o desamparo de minha vergonha. acho que de bês não pensei não. Virei bem fugido. pegava. Raiva bem não era. tinha dado revolta – 167 – . perto da casa de Mestre Lucas. às tantices. isto é: só uma espécie de despique a dentro. não. com minhas armas matadeiras.Grande Sertão: Veredas algum dinheiro à mão. Não ia para a casa de Nhô Maroto. Ante antes ia para o seo Assis Wababa – aquela hora eu queria só gente estranha. Eu fazia minha raiva. galopei demais. desarrazoado. morava um senhor chamado Dodó Meireles. Gostasse da Rosa’ uarda. aí a confusão e desordem e altos desesperos. Único reger era me empinar e assoprar em esta minha cabeça. eu pensava claro. à parva. essa assim eu amava? Ah. Quase mesmo aquilo me engrossava. Ia para a escola de Mestre Lucas. disso eu não tinha nenhum escrúpulo. Razão por que fiz? Sei ou não sei. De as. essa mocinha Miosótis também tinha sido minha namorada.

Vinha. – 168 – . Tive outras lágrimas nos bobos olhos. a Mestre Lucas eu tinha de dar uma explicação. Sosseguei as esporas. aturar remoque sei lá de todos. me prometendo tudo.João Guimarães Rosa . De repente. aos gritos. Mas aquilo se fingia mal. gostava era de Rosa’uarda. no São Gregório nunca tinha pensado nela. pelo cerrado a fora. Eu não gostava daquela Miosótis. Viemos a passo de marcha. em rogo de misericórdia. me repartir no miudinho de cada dia. ah. gritei. ela era uma bobinhã. Ele viesse. caçar meio de vida. espécie de minha vergonha esteve sendo maior. danado no animal. Como o cavalo. com todo querer. Eu tinha medo por causa de minha vida. ele. saíra de casa. capaz de capaz! Daí. escureceu o pêlo de todo suor. E não viesse? Se demorasse a vir? Aí. Não me importava. Mas Nhô Maroto havia de logo saber que eu tivesse chegado no Curralim. então. me pedisse para voltar. quando entramos no Curralinho. até nos meus pés se ajoelhava. tão penoso aborrecido. e meu padrinho ia ter o pronto aviso. e afirmei alto que seria só por conta dela que eu estava procedendo pelo avesso. o que era que eu ia fazer. cresceu minha raiva. eu sabia: o que eu estava querendo era isso mesmo. Adramado pensei em minha mãe.Grande Sertão: Veredas contra meu padrinho. Mandava alguém me buscar. A bis.

o Curralinho então se destinava ser lugar comercial de todo valor. que o senhor diz. aquela noite. para se casar com um Salino Cúri. pelos motivos pessoais. tristeza e alívio – aquele amor não seria mesmo para mim. No que jantei. me deram trato regozijante. ele já era meu conhecido. senhor-sim. trouxe canjirão de vinho. que eu disse – seo Emílio Wusp. Nublo em que me vi. mas me governei: trancei as pernas. Me alembro: eu entrei no que imaginei – na ilusãozinha de que para mim também estava tudo assim resolvido. ri. Assumi. assim fossem cuidar que essa minha viagem era por tramar importante encargo para o meu padrinho Selorico Mendes. acautelado sisudo. nos derradeiros meses para lá vindo.Grande Sertão: Veredas Em casa de seo Assis Wababa. Só a praga duma surpresa me declararam: a de que a Rosa’uarda agora estava sendo noiva. Seo Assis Wababa oxente se prazia. Tresdobrado homem. Das vezes que viera a passar pelo Curralinho. outro turco negociante. senhor-não. conversei. Alemão Vupes. com o que o Vupes noticiava: que em breves tempos os trilhos do trem-de-ferro se armavam de chegar até lá. se fosse verdade. Seo Assis Wababa se engordava concordando. em trela. comecei cara de falar pouco. Mas estava lá o Vupes. – 169 – . Mesmo vi como seria bom. o progresso moderno: e que eu me representava ali rico. estabelecido. e indagando dos grandes preços.João Guimarães Rosa .

me senti rebaixado demais. no sertão. vinha andando e – 170 – . dizia: – “Níquites! Desarmado eu completo. por eu.. eu tinha pegado a pensar – o que resolvia minha situação era trabalhar para ele. Sempre o espírito é que acerta.. mas seo Assis Wababa e o Vupes me olhavam a menos. Assim vim andando. oh. me despedindo bem. a bem. segurar de não respirar. porque atira com espírito. Mordi boca. com toda a velocidade. e me louvou. já tinha falado. estava lá o Vupes. Idéia nova que imaginei: que.João Guimarães Rosa . em seu serviço?” Minha bestice. o senhor não quererá me ajustar. “Níquites!” – conforme que o Vupes constante exclamava. vira mais rude e reprovante.Grande Sertão: Veredas Sendo que entendia tudo de manejar com armas. A contra mim tudo contra. com desconfianças. na horinha. num desastre de instante. Mas. descaroçador de algodão. agora aquela hora. Dali logo saí. uma vez. eles todos mesmo vão muito mais me respeitar.. garantindo que era por gracejo.” Ele me viu afinar mira. se viajar vendendo ferramentas por aí. Nem ponderei. mesmo pessoa amiga e cortês. Aonde? Só se fosse ver o Mestre Lucas. Mesmo dizia: – “Senhor atira bem. saber tão bem. virando patrão da gente. mas disse: – “Seo Vupes.. mediante desespero. Me alembro. e em mim eu já estava arrependido.” Soante que dissesse: sempre o espírito é que mata. assim foi. o só ensejo das coisas me sisava. Ali nem acabei de falar. Ainda quis emendar. mas viajava sem cano nenhum. de nascença. Porque. eu assim.

Ao que. As vezes essa idéia me põe susto. todas. para começar vida – 171 – . pergunto: em sua vida é assim? Na minha. um clim de clina de cavalo. como me recordei. tivesse negócio. Dum modo senti. por cabelo por um fio. Isso. lindas pernas as lindas grossas. eu casava contigo e o prazer era nosso. as coisas importantes. Ah. ela no vestido de nanzuque. ele me saudou. em caso curto de acaso foi que se conseguiram – pelo pulo fino de sem ver se dar – a sorte momenteira. eu estava era cansado. E. Achei também tudo o natural.. tempos. mas totalmente. não tivesse sido.. expliquei que não: que eu tinha merecido licença de meu padrinho.Grande Sertão: Veredas agora era que eu pegava a pensar livre e solto na Rosa’uarda. quando foi arte se cantar uma cantiga: Seu pai fosse rico. tão natural.João Guimarães Rosa . que não conforma respostas. digo ao senhor. depois. Mas. às vezes. quando Mestre Lucas me perguntou se eu vinha era de passeata. agora é que vejo. nunca havia de ser para meu regalo. o senhor veja: cheguei em casa do Mestre Lucas. ou de recado da fazenda. e se não fosse. cada acaso. qual é então que teria sido o meu destino seguinte? Coisa vã.

Eu queria ir? – “O senhor acha que eu posso?” – perguntei. para o seguinte: dois camaradas do dito fazendeiro estavam ali no Curralinho. lápis. agora me levavam. esperando decisão. era homem de sua situação. arimética. mulher – 172 – . Um entusiasmo nosso me botava brioso. que deixasse alguém dando escola no lugar dele. claro. ele estava remexido no meio de um assunto. Digo: ele me ouviu. altas beiras do Jequitaí. cartilha e gramática – e borracha. Melhor que era para logo.João Guimarães Rosa . Já que estava acondicionando numa bruaca os livros todos – geografia. Com urgência. Aceitei. Dizendo o que disse. – “Ei. régua. para principiar qualquer tarefa. tinteiro. não podia. por uns tempos. quase que eu sozinho nunca tive coragem. isso. pode!” – o Mestre Lucas declarou. para o ensino de todas as matérias estava encomendando um professor. tudo o que pudesse ter serventia. garantia boa paga. e disse: – “Riobaldo. no Curralim. no Palhão. justo. Assim queria que Mestre Lucas fosse. a fito de desenvolver mais estudos e apuramento só de cidade.Grande Sertão: Veredas própria em Curralinho ou adiante. que preparava o desejo dele para aí me acreditar. eu mesmo jurava que Mestre Lucas não ia acreditar. Mas acreditou. naquele dia. pois você chega em feita ocasião!” Aí me explicou: um senhor. até melhor. na fazenda Nhanva. Sabe o senhor por quê? Porque. Dona Dindinha.

mas no meio dos tocadores vinham três soldados. no despedir. em maiores me vi. Tinham outras ordens.. e com braços que pareciam demais de compridos. Meus companheiros quase que não me informavam. bom tempo beirando o Riachão e enxergando à mão esquerda os vultos da Serrado-Cabral. fui vendo coisas calculosas. me deu umas lágrimas de bondade: – “Tem tanta gente ruim neste mundo. meu filho. de longes olhares. – 173 – . Patrulhas de cavaleiros em armas. nem cheguei a ver aquela menina Miosótis. me deram toda consideração. A Rosa’uarda. de nada ou nada.. vestido de brim azul e calçando botas amareladas. eram capangas. com grandes currais e um terreirão. Mas sujeitos de seu trato. Era nervoso. Os dois camaradas. mesmo antes da gente entrar em terras do Palhão. me abraçou. tão bonito. e uma tropa de burros cargueiros. Mais perto. de tanto que podiam gesticular. dei meio para duvidar. Ele era imediatamente estúrdio. E você assim tão moço.” Aí. um pouco mais para baixo do que o tamanho mediano.Grande Sertão: Veredas de Mestre Lucas. Mas. magro.. sem altos-e-baixos nem as maiores asperezas.João Guimarães Rosa . Viajamos juntos quatro dias. troco de conversa de vigiação. em tanto percebi. quase trinta léguas. Vi logo o dono. A Nhanva enxameava de gente homem – pralaprá de feira em praça. Chegar lá declamava surpresa. E era vistosa fazenda assobradada. vi..

Apressei o passo. aprazava engano.. consumia jornais. e tudo foi – 174 – . A fixe de fato. Me fiz mouco. me vem. E gritou. Uma doidice. E aquele cabelo bom. o destempo de estar sendo debochado se irou de mim. Ah-oh-ah. com as mãos nas cadeiras. deu risada – de certo nem estava sabendo quem eu era. ele já soubesse. Me avisou. Quis antever os cadernos. mas.” A alegria dele. caçoando: – “Me vem com o andar de sapo. saudou. Estudante sendo ele mesmo. Me ferrou do braço. subiu a escada comigo. lá dentro. Mas ele veio para mim.. virava diferente adiante. pegar com as mãos. Adiado eu disse: – “Sou o moço professor. foi estupefacta. tirava mais para fora uma real novidade.João Guimarães Rosa . me levou para um quarto. também. O comum. de quê? Ah. me ouvindo. ah – esse quem era – o homem? Zé Bebelo. Remexeu. para mim. Engano. ele veio vindo. tarabuz. o grande revólver na cintura.. então. e as quatro contas. com um modo sensato de simpatia.. livros.Grande Sertão: Veredas Fui indo. parecia até que querendo me esconder de todos. topete arrepiadinho. Esbarrei. Disse ao senhor? – eu estava pensando que ia dar escola para os filhos dum fazendeiro. tudo nele. ligeiro. com porção de falas e agrados. com Zé Bebelo. Me olhou frenteante. e ele esbarrou. um lenço no pescoço dele esvoaçava. despenteado alto. Assim ler e escrever.

Corrido. Cochilão me vem: então espairo o livro. que me durmo. Mas. e me deito. senhor-jesus-cristo que assoviava. nunca achei quem outro. O que ele queria era botar na cabeça. e de repente se levantava ele. duma vez. O pessoal corria. até que estico um cochilão. ministrava aquela brama de ordens: dez. Ele era a inteligência! Vorava. a gente começou. simples. me fazia de queima-cara um punhado de perguntas. Queimava por noite duas. três velas. Ele mesmo falava: – “Relógio não vou olhar. estávamos debulhando páginas. bom teatro. me fino fiz.João Guimarães Rosa . Sobrevinha com o livro. De dia. parecia ter até raiva de eu saber e não ele. sabia muito mais do que eu mesmo soubesse. e poder de entender demais. com menos de mês.” Nesse mesmo ido dia. Mas – e aí comigo falou sério – naquilo se tinha de sungar segredo: eu visse. – “Vamos constar é que estou assentando os planos! Você fica sendo meu secretário. aquilo semelhava um circo. o que os livros dão e não. contra-fim. o cantarolado. passava de lição em lição. Zé Bebelo se tinha senhoreado de reter tudo. estudo. – 175 – . Aí. ô. vinte executações duma vez. cumpriam.Grande Sertão: Veredas arrumando na mesa grande do quarto. eh. chegava na janela. reperguntava. Aí estudo. a alegria dele ficou demasiadamente. Ao tanto eu demorava. Ânsia assim e anfa. e perguntava.” Pela sua vontade dele. despeitos de ainda carecer de aprender. Aquele homem me exercitou tonto. apitava num apito.

até o último.. mostrar no livro que eu estava falso. Certo. próprias de sua idéia lá dele – e sendo feliz de nessas dificuldades me ver. Porque eu estava sabendo que – 176 – . estou todo: entro direito na política!” Antes me confessou essa única sina que ambicionava. já tomei os altos de tudo! Mas carece de você não ir s’embora. foi que ele ficou gostando de mim. me dar quinau. Me deu um abraço. eu )a ignorante. caloteava. Como estava reunindo e pervalendo aquela gente. por grandes fatos. e eu não gostei.. expendia outras normas. errando a esmo. em comando de grande guerra. O fim de tudo. me fez firmes elogios – “Siô Baldo. digo. de muito coração: e era de ser deputado. me gratificou em dinheiro. Norte. que seria: romper em peito de bando e bando. – “Somente que eu tiver feito. mas antes prosseguir sendo o secretário meu. relimpar o mundo da jagunçada braba. liquidar com os jagunços. enche que ventava. para sair pelo Estado acima. não. Pediu segredo. Se espocava às gargalhadas..” Soprou. corrigir o dito. espalmava mão.João Guimarães Rosa .. esmorecido e escabreado. Aponto que vamos por esse Norte. acabar com eles. siô Baldo. Porque ele tinha me estatutado os todos projetos.Grande Sertão: Veredas treteava no explicar. que você não se arrependerá.. só. más bandas. Só aí.” – me disse – “. Ai-ai-ai d’ele atalhar as minhas palavras..

. já está falecido. era José Rebelo Adro Antunes. ou cada parente de medo. o pessoal todo não regateava a ele a maior dedicação de respeito. nos espíritos solertes de onça acuada. causa que. e medo. Se dizia. Mas. Ô homem couro-n’água. mesmo desse jeito. era Joãozinho Bem-Bem. siô Baldo. laçava e campeava feito um todo vaqueiro. ele cuspia em riba e desconhecia. amansava animal de maior brabeza – burro grande ou cavalo. O mundo é assim. de redondeante fama. em verdade. e botava paz em qualquer rutuba. tinha estudado a vida dele. de nome.João Guimarães Rosa . Contavam: ele entrava de cheio. Ah. sem parar de pôr. para ele. sempre certeira a pontaria. e ai de quem pensasse em poitar olho de chacotas: morria vertiginoso... – “O único homem-jagunço que eu podia acatar. desfrutável e escurril. pessoalmente.Grande Sertão: Veredas todos já aventavam aquela toleima. por detrás dele até antecipavam alcunha: “o Deputado”. com tanta devoção especial. Agora. duelava de faca. que ele falava. – 177 – . das Aroeiras.. Zé Bebelo era o do duro – sete punhais de sete aços. parecia não ter nada impossível. temos de render este serviço à pátria – tudo é nacional!” Esse que já tinha morrido. enfrentador! Dava os urros. E mesmo... trouxados numa bainha só! Atirava e tanto com qualquer quilate de arma. nos pormenores. Por via de sua macheza. Com tanta bobéia assim. que até um apelido em si se apôs: Zé Bebelo.

por muitos homens. a sobre-corja? Deixa. depois. gozar senhoras casadas. então reluzia perfeito o Norte. arrasar o comércio. estável que abolisse o jaguncismo. Zé Bebelo tinha de se esbarrar. e ofender as donzelas e as famílias. repunha: – “Ah. siô Baldo. daqui a uns meses. voltava para perto de mim. a apitar o apito. com fogo que puxava de si. que. Só eu que sou capaz de fazer e acontecer.João Guimarães Rosa . de cara para trás. barrear com estrumes humanos as paredes da casa do juiz-de-direito. com lata amarrada na cauda. preenchendo a – 178 – . Daí. A gente devia mesmo de reprovar os usos de bando em armas invadir cidades. neste nosso Norte não se vai ver mais um qualquer chefe encomendar para as eleições as turmas de sacripantes. botando pontes. cujo vou.Grande Sertão: Veredas – “Sei seja de se anuir que sempre haja vergonheira de jagunços. escramuçar o promotor amontado à força numa má égua. do civilizado e legal!” Assim dizendo. com ira razoável. remediando a saúde de todos. saquear na sebaça. baseando fábricas. e ainda a cambada dando morras e aí soltando os foguetes! Até não arrombavam pipas de cachaça diante de igreja. na verdade sentava o dizer. só para tudo destruírem. ou isso de se expor padre sacerdote nu no olho da rua. e deputado fosse. ditar as boas ordens. o marido obrigado a ver? Ao quando falava. ia até na varanda ou na janela. vou. mais renovado. desentrando da justiça. Sendo porque fui eu só que nasci para tanto!” Dizendo que.

com regra. mais tinham de baratear. tantas. roupas e calçados para os melhores. o muito instruído no jornal. mais de cinqüenta.Grande Sertão: Veredas pobreza. era ruim ou era boa? Se melhor era. de tudo ali se prazia fartura confortável! Abastada comida. De um. armamento de primeira.” – isto explicava. durava um tempo. estreando mil escolas. eu ia com os companheiros. entrei de amizade com os capangas.João Guimarães Rosa . Zé Bebelo aprovava: – “Onde é que já se viu homem valer. se não eles por si providenceiam. Porque completava sempre a mesma coisa. Elas vinham vindo.. Sempre chegavam pessoas de fora. Nas folgas vagas. Demais. minha vida na fazenda. E o cobre para semanal de pagamento. se não tem à mão estadas raparigas? Ond’é?” Mesmo cachaça ele fornecia.. em missão. obra de légua dali. Mas. pois nenhum daqueles – 179 – . Não faltava esse bom divertir. gente de cidade. Ia me enjoando. E ele me apresentava com a honra de: Professor Riobaldo. patuléias. Arre. aonde estavam arranchadas as mulheres. eu soube que era delegado. Aí lordeei. que conversavam em sozinhos com Zé Bebelo. monte de munição. Me acostumei com o fácil movimento. eu estava feito um inhampas. quase todo dia. dão logo em abusos. Começava por aí. – “Melhor. que. crescendo voz na fraseação. secretário sendo. no Leva.

pronta comida. repassava daqui p’r’ali. Com eles eu estava vindo. Parecia. veio o dia de se sair.João Guimarães Rosa . Digo que fui. então. De glória e avio de própria soldadesca. por vales e montes. se ia à noite noutro. era só opor um aceno. Acompanhado dos chefes-de-turma – que ele dava patente de serem seus sotenentes e oficiais de seu terço – Zé Bebelo. mas ajeitando seu meio de viver. A passeata forte. e cavalos que davam até medo de não se achar pasto que chegasse. um araral. o senhor vê. Vinha. tudo o que podia – 180 – . números e diversos. revôo avante de pássaros – o senhor mesmo nunca viu coisa assim. o alarido! Aos quantos gritos. eguando bem. e ele dava baixa e alta de me ir m’embora. vistoriava. O teor da gente se distraía bem. para conhecer esse destino-meu-deus. enfim. diversidade de terras. Oi. Me chamou para junto. O que me animou foi ele predizer que. Se amanhecia num lugar. digo que gostei. companheiragem. a gente toda. montado num formudo ruçopombo e com um chapéu distintíssimo na cabeça. amanuense.Grande Sertão: Veredas homens estava ali por amor-de-deus. e o pessoal perto por uns mil. Diziam que era dinheiro do cofre do Governo. quando eu mais não quisesse. guerreiramente. A tal que. só em romance descrito. para por ordem dele assentar nomes. bons repousos. eu tinha de ter à mão um caderno grosso. Eu avistava as novas estradas.

no meio. encostando ombro no São Francisco. logo que um estafeta vier relatar qual foi nossa primeira vitória. em vez de estafeta. beira do Água-Branca. e foi festa. para reunir os municipais do lugar e fazer discurso. homem de muita raposice. tinha composto seu povo em avulsos – cada grupo. Zé Bebelo mandou dispor uma tábua por – 181 – . seguindo o traço do Córrego Felicidade. cada rumo. que vínhamos mais Zé Bebelo mesmo em capitania. Um pelo São Lamberto. rompemos. Sabia o que queria. você espera. Só que. da mão direita. a galope.” Se deu. outro tomou sempre à mão esquerda. não. há-de dará é para diante.. outro pegou o Riacho Fundo e o Córrego do Sanhar. Dum batalhão para outro.João Guimarães Rosa . Era o enfim. Não por medo. Mas Zé Bebelo me mandou: – “Tem paciência. – “Mais. Passamos perto de Vila Inconfidência. veio Zé Bebelo mesmo. Já no sair da Nhanva. E tudo correndo bem. viemos acampar no arraial Pedra-Branca. o que se disse. Eu não vi essa célebre batalha – eu tinha ficado na Pedra-Branca. E foi. Era.Grande Sertão: Veredas ser ranço ou discórdia consigo restava para trás. peixe grande por pegar. mais. indo o Ribeirão da Barra. Arrastávamos uma rede grande. outro se separou da gente no Só-Aqui. quando se formar combate!” – uns proseavam. mas nós. se expedia gente com ordens e recados.. Zé Bebelo querendo. Eu tinha ficado com ruma de foguetes. para soltar.

E falar muito nacional. para perto futuro prometeu muita coisa republicana. encalquei. – “Tem dó não. notou moleza. própria. quase todos sujos de sangues secos – se via que não tinham esperança nenhuma decente. de certo. Mas como ia não ter pena? O que demasia na gente é a força feia do sofrimento. Iam de leva para a cadeia de Extrema. tinham volteado um bando de jagunços – o com o valentão Hermógenes à testa – e derrotado total. Depois. Para lá do Rio Pacu. azombados. quando se estava no depois do almoço. conforme ele ali subiu e muito falou. São os danados de façanhosos. infelizmente só..” Ah. não é a qualidade do sofrente. Zé Bebelo. – 182 – .. olhando. e de lá para outras cadeias. Disso eu sabia. vieram cavaleiros nossos. – “Você deve de citar mais é em meu nome. ele me abraçou. Tive de. O povo eu acho que apreciava. no município de Brasília. deu viva ao governo. foi que aquele Hermógenes conseguira de fugir. O que um homem assim devia de ser deputado – eu disse. tangendo o troço de presos.Grande Sertão: Veredas cima de um canto de cerca.João Guimarães Rosa . enxeriu que eu falasse discurso também. Daí. era.. Cumpri. cansados. Mais de dez mortos. Acabei.” – se me se soprou. Mas não podia ir a longe! Ao que Zé Bebelo elogiou a lei. o que por meu recato não versei. até para a da Capital. Referiu. mais de dez cabras agarrados presos.. Senti pena daqueles pobres. me olhou.

entremeados disfarçantes. Calei a boca toda.. é uma idéia que vale. Mire veja o senhor tudo o que na vida se estorva.. que se apeavam. com a tendinha e as ferramentas. das peripécias que meu padrinho dizia que Joca Ramiro inventava no dar batalha. Daí me deu um gosto. não sei: – “E Joca Ramiro?” Zé Bebelo tiscou de ombros. – 183 – . aprendi. e o tudo mais versante aos animais. no avanço. que já ia contar mais. A metade dos nossos. Zé Bebelo esbarrou.Grande Sertão: Veredas Pensei que agora podíamos merece maior descanso. parece que não queria falar naquele. Tocamos..João Guimarães Rosa . ora veja! Isso a gente tem de conceber também. é o bom exemplo para se aproveitar. Ah. perfazia ato de traição. de explicar como era fabuloso o estado de Joca Ramiro. razão de pressentimentos. – “Ah. Aí. Porque eu estava achando que. se foi a fogo. Conversando. então eu como me concertei em mim. E eu. A gente não sabe. eu perguntei..” – Zé Bebelo chamou. Traição. suas armas em arte – escamoteados pelas árvores – e de repente ligeiros se jazendo: para o rastejo. No entre o Condado e a Lontra. a gente sabe. vi. e até que trazia um homem só para o oficio de ferrador. Desencurtamos os cavalos.” – ele atinou. mas por quê? Dei um tunco. como tudo ele sabia e provia. se contasse. Tem mais. O que ouvindo. do diverso. e calei a boca. no caminho. sim? – “Montar e galopar. Tem. de menor maldade.

Apreciei a excelência dele. só faltando cães! E demos inferno. Assim eu quis que o ar de paz logo revertesse. só se tomou prazo breve. o Ricardão já tinha tido fuga. que é rimbombo Tive noção de que morreram bastantes. nem estive. era o bando do Ricardão. porque recombinaram por diante os projetos e desarrancamos para a Terra Fofa. farejavam.João Guimarães Rosa . Arranjado o preciso. que quase próximo. desde de nascença? Só avistei isso um instante. Se travou. no meio do cerrado: se diz que é estampido. Não desci de meu animal. Vencemos. – “Eh. epa! Não consinto covardias de perversidade!” – Zé Bebelo se danou. reviramos volta. que cercamos. toda a vida! Aqueles sabiam brigar. O que era. Mas lá não cheguei. de jeriza. demais. De longe e sossego eu careci. o povo gritando menos. Em certo ponto do caminho. no fim. Sendo que seguindo Zé Bebelo. Mas mais não se aproveitou. eu resolvi melhor minha vida. no sistema de não se matar. para o Gameleiras. como o galope se desabriu: os homens perseguindo uns. de jeito nenhum. com os oito prisioneiros feitos queriam se concluir. o alimpado. Se teve pouco. – 184 – . Para acuar. Nem prestei. que com o mesmo Ricardão se escapavam. Aquele dia tinha sido forte coisa.Grande Sertão: Veredas com as cabeças. onde houve o pior. Então os nossos. quase na demarca com o GrãoMogol. Tiro estronda muito.

me governou um desgosto.. De manhã cedo. De repente. restei escondido retardado. e mais não pensei exato. Vai. eu vi que não podia mais. Ali não dava maleita. Vim-me. Não sei se era porque eu reprovava aquilo: de se ir. vim. Só isso.Grande Sertão: Veredas Fugi. declaro de retornar para o Curralim. foi que me encostei para o Rio das Velhas. e sem as trapalhadas maiores. em trosgas. a conversação. mas sem sustância narrável. desdizer: – “Desanimei. Nem eu não estava para ter confiança nenhuma em ninguém. matando e prendendo gente. na hora mesma em que eu a decisão tomei. eu estava bem armado. que muito me agradou – o marido dela estava fora. Viajei.João Guimarães Rosa . Meu cavalo era bom. lá tu almoça – 185 – . O senhor sabe. A bem: me fugi. à vista da barra do Córrego Batistério.” Não podia? Mas. se desprocede: a ação escorregada e aflita. na constante brutalidade. na redondeza. Meu rumo mesmo era o do mais incerto.. Debelei que descuidassem de mim. logo me deu um enfaro de Zé Bebelo. pelo ajustado. eu tinha dinheiro na algibeira. vagaroso. com tanta maioria e largueza. acho que eu não tinha vontade de chegar em nenhuma parte. Com vinte dias de remanchear. Dormi com uma mulher. Podia chegar perto de Zé Bebelo. eu não carecia de fazer assim. Isso que. Virei. a mulher me disse: – “Meu pai existe daqui a quarto-de-légua.

com o jeito de tirar da gente a conversa que ele constituía. alguém mais avistando havia de poder desconfiar. eu quero.João Guimarães Rosa .. porque meu seguimento era por loca Ramiro. Fogueira – uma fogueirinha de nada.. Eu disse. eu fui. quem encara no falar mas pisca os olhos para ouvir. Aí.Grande Sertão: Veredas e janta. não gosta muito de soldados. – “E Joca Ramiro?” – ele me perguntou. Me deu almoço.” Ela falou: – “Ao que não posso. ali onde o rio tem mais troas. um pouco por me engrandecer e pôr minha prosa. e os bois. Que. E notei que ele no falar me encarava e no ouvir piscava os olhos.” Ela falou: – “Quem sabe eu acendo. com cavalhada pastando. é que eu não podia ficar com Zé Bebelo. em – 186 – . dando avisos. então. e geria uns bons pastos. contei: que dos zé-bebelos não tinha querido fazer parte. que já tinha servido Joca Ramiro. De noite.. Malinácio dito. eu te chamo. casa-de-telha e caiada – era na beira. Mas o pai dessa mulher era um homem finório de esperto. me pôs em fala. o que era a valente verdade. eu cá venho. Aos poucos.” Eu falei: – “Assim mesmo. mesmo por isso. Se chamava Manoel Inácio. A casa dele – espaçosa. e.” A gente sérios. nem se sorrindo..” Eu falei: – “Você acende uma fogueira naquele alto. Eu estava querendo ser sincero. eu enxergo. e com ele conversado. se meu marido não tiver voltado...

Acordei só no aquele Malinácio me chamando para jantar.João Guimarães Rosa . Por um instante. me botou lá à Ia vontade. Mais coisas decerto eu disse. segredos frescos contados não são para todos. Deu jeito de aconselhar que eu fosse embora. Eu queria esperar. eu tinha gostado muito da filha dele casada. e em Aluiz e Alarico Totõe. Mas o Malinácio começou a glosar e reproduzir minha conversa tida com ele – disso desgostei. para ver se a fogueira por minha sorte se acendia. E o arrieiro dono da tropa – que era o de cara redonda e pra clara – me fez muita interrogação. – isso pareceu ser de seu agrado. o sabido do homem se tardou no que fazer. E falei no méu padrinho Selorico Mendes. Que ali miasmava braba maleita. eu. requerendo um lugar para armar minha rede na sombra. e estavam assim vestidos e parecidos. abraçado com minhas armas. Me levou para um quarto. e descansar – eu disse que não andava bem de saúde. onde tinha um jirau com enxergão. Não acertei.Grande Sertão: Veredas coração em devoção. e de como foi que Joca Ramiro pernoitou em nossa fazenda do São Gregório. só se fazendo de sossegado. e dei com outros três homens. Disseram de si que tropeiros eram. Cheguei na sala. e aquele homem Malinácio me ouvia. Ferrei. Não estive em boas cócoras. fechou a porta. Mas eu percebi que ele não estava. Mas. Construí de desconfiar. Não do fato d’ele tal – 187 – .

Agüentei aquele nos meus olhos. fica sábio: dizendo como pude.João Guimarães Rosa . semelhantes grandes. pois sabe o senhor quem. parecia a maior alegria. Soflagrante. na soleira da porta. e recebi um estremecer. a gente estatela e não entende. mesmo? Era o Menino! O Menino. E ele se chegou. tropeiro também. mas ah! – enquanto que me ouviam. por que então eu não tinha caçado jeito de trotar para o Norte. a fito de com o pessoal ramiros me juntar? Quem desconfia. Ele queria saber para onde eu mesmo me ia além. Queria saber por que. o lembrável das compridas pestanas.Grande Sertão: Veredas encarecer – pois todo tropeiro sempre muito pergunta . conheci. eu do banco me levantei. se eu punia por loca Ramiro. mas do jeito como os outros dois ajudavam aquele a me ver. numa bamba canoa. muito confirmei. o que atavessou o rio comigo. que dirá o – 188 – . a boca melhor bonita. daquilo que lhe contei. O moço. era. de tudo perseverado tomando conta. em susto desfechado. mas quem. Ah. toda a vida. mais um homem. mas confirmei acrescentando que chegara até ali por dar volta cautelosa. Os olhos verdes. o nariz fino. aquele do porto do de-Janeiro. afiladinho. Arvoamento desses. tão variado e vistoso. Mas era um susto de coração alto. e mesmo para sobre ter a calma de resolver os projetos em meu espírito. e estava em armas. senhor sim. vinha entrando.

visual. porque as outras pessoas o novo notaram – isso no estado de tudo percebi. dentro dela se esteja.João Guimarães Rosa . Os olhos nossos donos de nós dois.Grande Sertão: Veredas senhor. sobrefalseado. depois é que eu pude reunir relembrado e verdadeiramente entendido – porque. O Menino me deu a mão: e o que mão a mão diz é o curto. – “Essas são as horas da gente. a gente sente mais é o que o corpo a próprio é: coração bem batendo. às vezes pode ser o mais adivinhado e conteúdo. num rejeito. são as horas de todos” – me explicou o compadre meu Quelemém. Mas me reconheceu. Para que referir tudo no narrar. para abraço. de todo tempo. por menos e menor? Aquele encontro nosso se deu sem o razoável comum. Ele se chamava o Reinaldo. isto também. e que tudo ajunta e amortece – só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela. E ele como sorriu. Digo ao senhor: até hoje para mim está sorrindo. Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água. Sei que deve de ter sido um estabelecimento forte. mas minhas coragens não deram. como do que só em jornal e livro é que se lê. Do que o que: o real roda e põe diante. de acanhamento. Porque ele faltou com o passo. Digo. enquanto coisa assim se ata. As outras. Mesmo o que estou contando. eu contando só assim? Eu queria ir para ele. feito um milagre: – 189 – .

. ninguém não sabe. Rinchei. Então. minha confusão aumenta. gargalhadas dava. Ventava em todas as árvores. no portal – 190 – . Sabe. Desfechei. uma vez: no Tamanduá-tão. e vai. Eu era alto.Grande Sertão: Veredas peixinho pediu. Reinaldo – ele se chamava. para não me responder: – “Você é o rei-dos-homens?. maior que o miúdo. que.João Guimarães Rosa . no ramerrão. quando é destino dado. o amor pega e cresce é porque. a gente quer que isso seja. querendo e ajudando. se não. mas. de mim mesmo eu rindo. Amor desse. Conto.” Falei e ri. nem eu. caceteio. na idéia. feito um cavalão bravo. sei. eu vencendo. e é um só facear com as surpresas. Muito falo. Era o Menino do Porto. chus! Nem o senhor. maior do que eu mesmo. Por quê? Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém. carecendo de querer. E desde que ele apareceu. Mas meus olhos viam só o alto tremer da poeira. Peço não ter resposta. Mas porém é preciso. o senhor me responda: o amor assim pode vir do demo? Poderá?! Pode vir de um-que-não-existe? Mas o senhor calado convenha. moço e igual. brota é depois. que eu mais não me reconhecia. no barulho da guerra. já expliquei. a gente ama inteiriço fatal. Que eu de repente me perguntei. cresce primeiro. Pois então. e.. E mais não digo. de certo jeito. aí estremeci num relance claro de medo – medo só de mim.

ir me separar da companhia dele. numa mão e noutra. eu. sei.João Guimarães Rosa . era toda exata. Se sem peso e sem paz. por lei nenhuma. filha de Ana Duzuza – eu nunca supri outro amor. Mas quando foi que minha culpa começou? O senhor por ora mal me entende. Se pode? Vem horas. com um retardo custoso. Sei que tenho culpas em aberto. assim como sendo. como veio. Todo tormento.. amor com amor. quase. sim. as regências de uma alguma a minha família. podia? O que entendi em mim: direito como se. nos Buritis-Altos. Comigo. A Fazenda Santa Catarina.Grande Sertão: Veredas da porta. o senhor verá.. tudo tem o tempo. estilo dela. o amor podia vir mandado do Dê? Desminto. da Aroeirinha. então – o outro?. eu tivesse acertado de encontrar. Digo: afora esses dois – e aquela mocinha Nhorinhá. quase. Mas a vida não é entendível. E Nhorinhá eu deamei no passado. Depois lhe conto. para o todo sempre. quando eu lhe contar – ela eu conheci em conjuntos suaves. no reencontrando aquela hora aquele Menino-Moço. é que eu tive de compesar. digo: se um aquele amor veio de Deus. Tormentos. as coisas não têm hoje e anfontem amanhã: é sempre. Mas. No passado. criatura de belezas. nenhum. Otacília. se diz: quando os anjos e o vôo em volta. eu não podia mais. Ah – e Otacília? Otacília. suspendendo. se é que no fim me entenderá. por meu próprio querer. tudo dado e clareado. doendo e vindo. – 191 – . Mas o mal de mim. cabeceira de vereda.

Sertão! Logo que o Reinaldo me conheceu e me saudou. Mas uma delas três. com os três lotes de bons animais. – 192 – . Três croas e uma ilha. Ao quase sem sobejar palavras. e que todos tanto conheciam. lá dentro. tropeiros não eram. e estralando surdo. antes de sair pelos Gerais com mão de justiça. que os remadores do das-Velhas botavam. o rio possuía as croas de areia – cada qual com seu nome.Grande Sertão: Veredas digo e sei. E a tropa? Essa. Defronte da casa dele. era para levar munição. que se estava para seguir porquanto pra o Norte. ele afiançou o meu valimento. ilha de terra. Casas. e para cima e para baixo. mesmo. eu soube. na parte de baixo.João Guimarães Rosa . também sendo meio ilha: isto é. não tive mais dificuldade em dar certeza aos outros de minha situação. De fato. Medeiro Vaz. Nem tiveram mais prevenimento de esconder isso de mim. que passava por arrieiro da tropa e se chamava Titão Passos. desamparadas. eu incendiei: eu ficava escutando – o barulho de coisas rompendo e caindo. botou fogo em sua casa. sou assim: relembrando minha vida para trás. só curtindo desprezo e desgosto é por minha mesma antiga pessoa. eu gosto de todos. maior. para aquele mestre de cara redonda e bom parecer. Aquele Malinácio era o guardador: com as munições bem encobertadas. por ordem minha aos bradados. nem das cinzas carecia a possessão. mas pessoal brigal de Joca Ramiro.

feito cachorro magro que espera viajantes em ponto de rancho. afetados de tropeiros. A gente. que é conforme se diz. que acabavam de enquerir a carga na mulada. Menos pensei. capim. sendo ó Triol e João Vaqueiro. Se vinha sem beiradear. sem a dura decisão. vazio de um meu – 193 – . só de areia. Titão Passos comandava. já se estava de saída. baldear a munição. Mulher assim de ser: que nem braçada de cana – da bica para os cochos. A andada de noite principiava como sobre algodão – produzida cuidadosa. Aquilo era munição de contos e contos de réis. e mais Acrísio e Assunção. Pois fomos. Os outros companheiros. dos cochos para os tachos. e croa.João Guimarães Rosa . o alecrim viçoso remolhando suas folhagens nágua e o bunda-denegro verde vivente. e suja de matinho. que aonde estava o oculto. de sentinelas. Eu mesmo pensei. Jenolim e Admeto. filha do Malínácio. Uma croa-com-ilha. A Croa-comIlha do Malinácio. Nem tive pesar nenhum de não esperar o sinal da fogueira da mulher casada. a gente ia em canoa. na parte de cima. jantou-se. e Vove.Grande Sertão: Veredas com grandes pedras e árvores. Conheci que estava chocho. a gente prezava grandes responsabilidades. dado no mundo. De seguir assim. dita. para toda viagem. o senhor quem sabe vá achar que eu seja homem sem caráter. E ela era bonita. mas sabendo o rio. sacudida. A lá. Eu ia com eles.

uma mulher. e com ela em vez de me alegre ficar. e não caçava minha companhia. Se eu não tivesse passado por um lugar. e descoroçoamento era modo-de-matéria que eu já tinha aprendido a protelar. – 194 – . Assaz as seriemas para trás cantaram. enfileirados naquela paciência. não guardava fé e nem fazia parte. não se chegou para perto de mim. descampando mato. Deus sabe. a combinação daquela mulher acender a fogueira. o preto já levantado para o trabalho. tinha topado com o Menino? – era o que eu pensava. Veja o senhor: eu puxava essa idéia. esbarramos num sitiozinho. se avistou um preto. Sorte? O que Deus sabe. e se estralar da outra banda a barra da madrugada.João Guimarães Rosa . Eu vi a neblina encher o vulto do rio. eu nunca mais. Mas o Reinaldo vinha comigo. Ao que. nem vez. transtornei um imaginar. no mesmo lote. por ter tido tanta sorte. naquele tempo. Tudo. na escuridão da noite eles tudo enxergavam. O preto era nosso. eram pessoas matando e morrendo. nesta vida. não dava sinal de prosseguir amizade. e de cada banda que eu fosse. Abalado desse tanto. fizemos paragem. Só não quis arrependimento: porque aquilo sempre era começo. A gente descarecia de cuidar dos burros. um por um.Grande Sertão: Veredas dever honesto. eu sofria o meu. numa certeza. vivendo numa fúria firme. e eu não pertencia a razão nenhuma.

de vigias. melhor de todos – conforme o Reinaldo disse-o que é o passarim mais bonito e engraçadinho de rioabaixo e rio-acima: o que se chama o manuelzinhoda-croa. eu nunca tinha ouvido dizer de se parar apreciando. em seu começar e descomeçar dos vôos e pousação. Até aquela ocasião. topetudo. enquanto se desalbardava e amilhava. o pato-preto. e seus filhinhos deles. O Reinaldo se dizendo ser um deles. ali estava re-cheio em instância de pássaros. mergulhão. por prazer de enfeite. O rio. A gente ia ao menos dormir o dia. ou a cangalhada iam arrumando. Aquilo era – 195 – . não se achava. a vida mera deles pássaros. tudo em mim era nervosía.Grande Sertão: Veredas Dali. a carga toda se pôde resguardar – quase que ocupou inteira a casinha do preto. quantidade. rezei minha ave-mariazinha de de-manhã. o pato-verde. marrequinhos dançantes.João Guimarães Rosa . o jaburu.O qual era tão pobre desprevenido. com uma croa de areia amarela. O comum: essas garças. de nada. e até uns urubus. Outros escovavam os burros e mulas. não tinha sono. tivemos até de dar comida a ele e à mulher. e uma praia larga: manhãzando. com aquele triste preto que mancha. de toda brancura. mas três tinham de sobreficar. martimpescador. objeto assim a gente observou. E notícia nenhuma. Mas. enfileirantes. O Reinaldo mesmo chamou minha atenção. eu tive coragem de oferecer também que ficava.

” Eu olhava e me sossegava mais. não. o bem-querer sem propósito. brabo bem jagunço – eu não entendia! Dum outro. botava surpresa. foi um contente meu maior.Grande Sertão: Veredas para se pegar a espingarda e caçar... O que houve. falar a – 196 – . os bandos de patos se cruzavam. assim. P’ra e p’ra. que eu ouvisse. Mas. está aqui um que empulha e não culha. Depois... de escutar aquelas palavras. tinha vargem e lagoas. conversamos de coisas miúdas sem valor alheio. peitudos. o pássaro mais bonito gentil que existe é mesmo o Manuelzinho-da-croa. Mas o Reinaldo gostava: – “É formoso próprio. E a macieza da voz. escrupulosos catando suas coisinhas para comer alimentação.” – o Reinaldo disse. – “Vigia como são esses. – “É aquele lá: lindo!” Era o manuelzinho-da-croa.” – ele me ensinou. Achando que eu podia gostar mais dele. Mas o dito.. Machozinho e fêmea – às vezes davam beijos de biquinquim – a galinholagem deles. o caprichado ser – e tudo num homem-d’armas. desempinadinhos. indo por cima da areia lisa.João Guimarães Rosa . esteiadas muito atrás traseiras. e eu tive uma influência para contar artes de minha vida. De todos. do Reinaldo. eles altas perninhas vermelhas. – “É preciso olhar para esses com um todo carinho. as ilhas estando claras. eu pensava: frouxo. Do outro lado. O sol dava dentro do rio. Sempre me lembro. Era.. sempre em casal.

me abrir em amáveis. Não escondi nada não. um vice-versa de tristeza. o foguetório que soltei e o discurso falado. donos da vazante. o Reinaldo. Eu fui contando minha existência.. na Pedra-Branca. você é valente.. Relatei como tinha acompanhado Zé Bebelo. para toda seriedade certa proporcionado. pincho no em que já estava. E. bom. os nomes de nós dois.. para mim virava sete vezes.. tão brancos. os pobres presos passando. o combate dado na beira do Gameleiras.. Ao em tanto que. de pitar se carecia: porque volta-emeia abespinhavam a gente os mosquitinhos chupadores. palavras essas que se repartiram: para mim. aí desde aquela hora. – “Riobaldo. eu não necessitava de prolongares. Dão par. Reinaldo.” – ele no fim falou. – “Riobaldo. Sopesei meu coração. de alegria. conheci que. com as camisas e as caras sujadas de secos sangues.” A de dar. me cri capaz de altos. tantos de se despertar.. Que por quê? Assim eu ainda não sabia... uns mosquitinhos dançadinhos.. para ele. não acerto como podia conservar os dentes tão asseados.João Guimarães Rosa .. – 197 – . também. se diz. Tudo me comprazia por diante.. O Reinaldo pitava muito. Você é um homem pelo homem.Grande Sertão: Veredas esmo leve.” – de repente ele deixou isto em dizer: – “. qualquer coisa que ele falasse.. povoado enchido.

A luzinha dos santos-arrependidos se acende é no escuro. Depois quis cortar o meu. depois larga. com lavores e três botóezinhos de abotoar. O que nela guardava era tesoura. rendidos na vigiação. espelho. o que é que vale e o que é que não vale? Tudo. Conto para mim. ainda que quisesse. Acontecendo tudo com risadas e ditos amigos – como quando com seu arreleque por-escuro uma nhaúma devoou. Assim é que a velhice faz. Mire veja: sabe por que é que eu não purgo remorso? Acho que o que não deixa é a minha boa memória. sabão verde. que já estava cortado baixo. mandou eu fazer a barba. Ao quando bem não me entender. Teve grandes ocasiões em que eu não podia proceder mal. Então. Esta vida é de cabeça-para-baixo. o Reinaldo e eu não estávamos com sono. ninguém pode medir suas perdas e colheitas. pente. Por quê? Deus vem. me espere. que estava bem grandeúda. guia a gente por uma légua. lembro de tudo. Aí nesse mesmo meio-dia. ou quando – 198 – . tesourinha.João Guimarães Rosa . dos lados. Me emprestou a navalha. conto para o senhor. ele foi buscar uma capanga bonita que tinha. sei que estou falando demais. tudo resta pior do que era antes. Dependurou o espelho num galho de marmelo-do-mato. Resvalo.Grande Sertão: Veredas Desculpa me dê o senhor. Mas. pincel e navalha. eu. Mas conto. acertou seu cabelo. Também.

mais o receio de aranhas – 199 – . Não me espantei. e com o cabelo de cidadão. No que era verdade. por animação. Só. De estar folgando assim. Ele não ia. eu tinha vergonha de que me vissem com peça bordada e historienta. lenço e par de meia. sujeitos de corpo-fechado. mas guardei aquilo com muita estima. E o Reinaldo. ele tomava banho era sozinho no escuro. Desde esse dia. Pessoa limpa. essas coisas todas.João Guimarães Rosa . pensa limpo. e pelos barrancos. desconforto de esbarrar nos garranchos. o senhor vê: até hoje sou homem tratado. Depois. doutras viagens. que perto pastava. Sempre eu sabia de tal crendice. era uma felicidadezinha que eu principiava. às tatas na ceguez da noite. o Reinaldo disse: eu fosse lavar corpo. O Reinaldo mesmo. como alguns procediam assim esquisito – os caborjudos. naquela dita capanga.Grande Sertão: Veredas eu pulei para apanhar um raminho de flores e quase caí comprido no chão. comprou de alguém uma outra navalha e pincel. não se diferenciando um ai dum ei. Às vezes. no sinal da madrugada. nunca deixei de cuidar de meu estar. Seja. lajes escorregadas e lama atolante. no rio. no mais tempo. me disse. e a cara raspada lisa. ou quando ouvimos um him de mula. me deu. me deu outros presentes: camisa de riscado fino. Somente o senhor tenha: tanto sacrifício. Eu acho. por acostumação.

Cheguei a tirar a roupa. lei ladra. comigo se passou. e voltei para a casa do preto. Tornei a me vestir. o poder da vida. Cheguei a encarar a água. Está certo. Estou contando ao senhor. Direitinho declaro o que. um rio é sempre sem antiguidade. o Rio das Velhas passando seu muito. sei. e era um prazer fofo e perturbado. Destapei raivas. Então – o senhor me perguntará – o que era aquilo? Ah. A gente vive. Mas ponho minha fiança: homem muito homem que fui. tão leve e leve pertencidamente. Eu não pensava em adiação – 200 – . devia de ser hora de se comer a janta e arriar a tropa para as estradas.João Guimarães Rosa . Aquela mandante amizade. o sem preceito. “Agançagem!” – eu pensei. e homem por mulheres! – nunca tive inclinação pra aos vícios desencontrados. Repilo o que. alegrias do ar em meu pensamento. eu acho. A senvergonhice reina. às vezes menos. sempre mais. Pensar mal é fácil. é mesmo para se desiludir e desmisturar. que por primeiro não se crê no sincero sem maldade.Grande Sertão: Veredas caranguejeiras e de cobras! Não. que carece de um explicado. A ponto que nem queria avistar o Reinaldo. eu não. durando todo tempo. Agora o que eu queria era ímpeto de se viajar às altas e ir muito longe. e me deixou na beira da praia. Mas então notei que estava contente demais de lavar meu corpo porque o Reinaldo mandasse. porque esta vida é embrejada. Mas o Reinaldo me instruiu aquilo.

dia mais dia. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. por exemplo. Mas não. O senhor vá ouvindo. quando eu me lembrava daquelas mãos. mais ajuizado não seria se enviar só um. espiar o que se desse e colher outras informações? – 201 – . E em mim a vontade de chegar todo próximo. Assim mesmo. Era ele estar perto de mim. com que olhos era que eu olhava? Eu conto. E eu mesmo entender não queria. Era ele estar por longe. quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele. dos braços. Outras artes vieram depois.João Guimarães Rosa . Acho que. Muitos momentos. Aquela meiguice. e nada me faltava. desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. Mas eu gostava dele. mais gostava. concebi fundamento para um conselho: na jornada por diante. que às vezes adivinhei insensatamente – tentação dessa eu espairecia. ir passar a Serra-daOnça e entestar com a travessia do Jequitaí. Feito coisafeita. por onde podia ter tropa de soldados. Conforme. quando ele cortou meu cabelo. até lá. Sempre. e eu só nele pensava. naquele estado exaltado em que andei. do jeito como se encostavam em meu rosto.Grande Sertão: Veredas nenhuma. aí rijo comigo renegava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. a gente tinha de deixar duma bando o rio. de pior propósito. Do demo: digo? Com que entendimento eu entendia. Era ele fechar a cara e estar tristonho. e eu perdia meu sossego.

E nós ficamos esperando a volta deles. rebuçado viajou o Acrísio. Mas logo me reduzi. certo nas idéias. novas ordens. cortando palmito e – 202 – . Sempre fui assim. de sua Lagoa-Grande. desmedi satisfação.Grande Sertão: Veredas Titão Passos era homem ponderado em simples. Aquela munição era de ida urgente. e caçando. não me arrependo retratando? Os dias que passamos ali foram diferentes do resto de minha vida.João Guimarães Rosa . que era posteiro em terras da Fazenda São Joãozinho. que sangue. vendo o fim do sol nas palmas dos tantos coqueiros macaúbas. mas também valia mais que ouro. descabido. e a vida tão séria em cima. Todos acharam. andávamos pelos matos. se carecia de todo cuidado. com grande regozijo e repouso. de um coronel Juca Sá. Fui louvado e dito valedor. Até hoje. na casa do preto Pedro Segundo de Rezende. o Jenolim saiu em rumo do Jequitaí. e. com a mesma tenção. Ao senhor confesso. no ouvir aquilo – que a assoprada na vaidade é a alegria que dá chama mais depressa e mais a ar. achou boa a minha razão. cinco dias lá. com todos os ouvidos bem abertos. atinando que minha opinião era só pelo desejo encoberto de que a gente pudesse ficar mais tempo ali. naquele lugar que me concedia tantos regalos. Em horas. até Porteiras e o Pontal da Barra. Assim um rôo de remorso: tantos perigos ameaçando. e eu mexendo e virando por via de pequenos prazeres. Para assuntar e ver com ver. desamarrado. Mas meu querer surtiu efeito.

deixo de dizer. Sou deste jeito. nós somos amigos. Bons homens no trivial. de neblim. Mas Titão Passos. Só um bom tocado de viola é que podia remir a vivez de tudo aquilo. eu vi as cores do mundo. Nunca mais. acho que sempre desgostei de criaturas que com pouco e fácil se contentam. e o ouricuri retorce as palmas. companheiros conosco. pois eu morro e vivo sendo amigo seu!” – eu respondi. Então. E foi ele mesmo. apreciei. pousados nas croas e nas ilhas. Os afetos. De manhã. Não por orgulho meu. Quando que conversamos. sei. E até peixe do rio se pescou. de destino fiel. Dos outros. digo. amigos?” – “Reinaldo. nunca mais eu vi o Reinaldo tão sereno.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas tirando mel da abelha-depoucas-flores. Doçura do olhar dele me transformou para os olhos de velhice da minha mãe. uns assim. perguntei a ele se Joca Ramiro era homem bom. – 203 – . Ele achava o Norte natural. que arma sua cera cor-derosa. porque o que salvava a feição dele era ter o coração nascido grande. Tinha a quantidade de pássaros felizes. o rio alto branco. Desmexi deles. cacundeiros simplórios desse Norte pobre. até o derradeiro final. cabedor de grandes amizades. no cabo de três dias. Como no tempo em que tudo era falante. tão alegre. ai. mas antes por me faltar o raso de paciência. quem me perguntou: – “Riobaldo.

Anta entra n’água. primeiro mandava suave. Ah. fui conhecendo também que ele não era sempre tranqüilo igual. se rupeia. foi quem disse.” O senhor sabe: preto. Talvez também seja.Grande Sertão: Veredas Titão Passos regulou um espanto: uma pergunta dessa decerto que nunca esperou de ninguém. Mas eu concordava. que às vezes a gente tem. de ter me escolhido para seu amigo todo leal. Mas o preto de-Rezende. ele gostava de mandar. e isso bastava. que estava perto.João Guimarães Rosa . em tanto. assim no sistema pelintra. sem tal nem razão. não. o Reinaldo. era que eu gostava dele. Aquela força de opinião dele mais me prazia? Aposto que não.. moleza no diário. visto que não fosse obedecido. com as sete-pedras. Com o tempo dos dias. Era. feito antes eu tinha pensado. no ouvir falar de Joca Ramiro. o Reinaldo se aproximou. é a gente que existe que sabe ser mais agradecida. quando é dos que encaram de frente. depois. Gostava dele quando eu fechava os olhos. E ele. risonho bobeento: – “Bom? Um messias!. Parecia que ele não gostava de me ver em comprida conversa amiga com os outros. Mas. Acho que nem nunca pensou que Joca Ramiro pudesse ser bom ou ruim: ele era o amigo de Joca Ramiro. tão governandor. que preenchia em mim uma vaidade. Um bem-querer que vinha do ar de meu nariz e – 204 – . quem sabe por essa moleza. Era não. Ao que. era tão galhardo garboso. coisa que até me parece ser parente da preguiça.. ficava quasezinho amuado.

Riobaldo. Para mim.. com aqueles olhos quando doces. agora ainda não me entende. Pensei. Repenso. Daí. Perguntei ao compadre meu Quelemém. E o mais. sem menos dessossego nem mais receio. serra para cima. outra hora. era me a mim contando logro – jigajogas.. uma hora. pelos caminhos tencionados. o indicado dito. – “Do que o valor dessas palavras tem dentro” – ele me respondeu – “não pode haver verdade maior. não era sempre completa verdade. Guardei. Repensei. Retornou o Jenolim: o Jequitaí estava passável. O senhor entenderá. Minha vida. Fim do bom logo vem.. no coração.Grande Sertão: Veredas do sonho de minhas noites. E perfez: – “Não sabe que quem é mesmo inteirado valente.” – o Reinaldo veio dizendo. – “Você vai conhecer em breve Joca Ramiro. com três – 205 – .” Compadre meu Quelemém está certo sempre. E saímos simples com a tropa.João Guimarães Rosa .. hora grave me veio. O Acrísio retornou: pasmaceira na barra do rio. – “Vai ver que ele é o homem que existe mais valente!” Me olhou. a nenhuma novidade. E o senhor no fim vai ver que a verdade referida serve para aumentar meu pejo de tribulação. que eu estava criticando. mas. Mais eu pensando nisso. Não podia ser. esse também não pode deixar de ser bom?!” Isto ele falou.

a respeito de Zé Bebelo. me fazia as perguntas com natureza tão honrosa. tudo ia se abrir a ser para nós todos campo de fogo e aos perigos de mortes. Como eu ia depor? Podia? Tudo o que eu mesmo quisesse. de seus aprovados costumes. suas forças e armamentos. caçando gente.Grande Sertão: Veredas léguas de marcha. Mas. Nem podia. fui mal-respondendo. falando o que era vasto. para sempre..João Guimarães Rosa . Para melhor pensar. que eu não tinha ânimo de mentir.. não. me calando. atravessando o Jequitaí. traição. Mas a munição tem de chegar em poder de loca Ramiro!” Eu podia pensar tranqüilo na minha morte por ali? Podia pensar no Reinaldo morrendo? E o que Titão Passos queria saber era tudo que eu soubesse. O saber de uns. no pior me vi. morrer.. nem de me caber calado.” – o Reinaldo disse.. As turmas de cavaleiros de Zé Bebelo campeavam naquele país. – “. pois todos queriam aproveitar a ocasião para se acabar com os jagunços. Titão Passos começou a me perguntar. a gente sem luxo se cede. Mazelas de mais pesares. mandasse a eles envio de denúncia. sopitando. Tudo o que eu falasse. das malasartes que ele usava em guerra. podia ajudar. – “Morrer. vigiando. – 206 – . a morte de outros. De lá mais adiante. desconfiando de nós. Titão Passos era homem liso bom. Do povo morador. E donde menos temi. não faltava quem.

oculto. Eu não podia. Lembrei que ainda tinha.. quem é que eu era? De que lado eu era? Zé Bebelo ou Joca Ramiro? Titão Passos. Nem era por retente de dever. Titão Passos disse: – “Você pode ser de muita ajuda. não contasse. minhas caras deviam de estar pegando fogo.Grande Sertão: Veredas Não.João Guimarães Rosa . Que se eu contasse. como uma bicha-fêmea não pode fugir deixando suas criazinhas em frente da morte.. com sombras mais apresentadas. o Reinaldo. peguei. cacei em mim um esforço de me completo me esquecer. Tudo dentro de mim não podia. num caderno. Andando. de Zé Bebelo.. Riobaldo. guardada estreito comigo. Falei e refalei inútil. rasguei em pedacinhos. Eu não queria querer contar. Eu era de mim. sabia não. aquela lista. Mas eu não podia. de tudo que a respeito do resto eu sabia. consoante. essas ânsias. Eu devia? Não devia? Vi vago o adiante da noite.. como um bicho não pode deixar de comer a avistada comida. Dou vendido em pecas riquezas o que eu cansei naquela hora. Depois. Aquelas águas me lavavam. Alguma valia aquilo tinha? Não sei. Eu. por lei honesta nenhuma. taquei tudo no arrojo dum riacho. Se a gente topar com a – 207 – . Eu. E. De ninguém eu era. de nomes e coisas. e quer ver que Titão Passos aceitava aquilo assim? Me acreditava. ou floreado de noção.

De pensar isso. você entra de bico – fala que é um deles. por ele eu também padecia e pagava.” Ouvi retardado. o senhor sabe. No caso. Medo que já – 208 – . Oi. Me amargou no cabo da língua.” Com isso. por culpas de desertor.. são sujeitos para quererem logo te matar imediato.. Burros e mulas do lote de tropa. pensando mais. Tem diversas invenções de medo. Homem? É coisa que treme. depois esvazia. eu havia de prestar toda a minha diligência e coragem. eu sei.João Guimarães Rosa . eu desfrutei um orgulho de alegria de glória. de ser capaz de auxiliar e pôr efeito. Pior de todas é essa: que tonteia primeiro. E nem fazia mal que eu não relatasse a respeito de Zé Bebelo mais. que esta tropa você está levando. Medo.. me conformei. barros de água do Jequitaí. me disse: – “Tudo temos de ter cautela.Grande Sertão: Veredas zebelância... e te encontram. no bando de loca Ramiro. Foi que Titão Passos. O cavalo ia me levando sem data... que passaram diante de minha fraqueza. como o justo companheiro. Bananeira dá em vento de todo lado. porquanto o prejuízo que disso se tivesse. Se eles já souberam notícia de que você fugiu. eu tinha inveja deles. não pude dar resposta. Em esquina que me veio. fazia parte. A que. Medo que maneia. Mas ela durou curta. mesmo compunha uma alegria.. Aos poucos. em vista de que agora eu estava também sendo um ramiro.

O senhor me entende: costas do mundo.João Guimarães Rosa . veio para perto de mim. Minha tristeza é uma volta em medida. E a viagem em nossa noite seguia. Sempre que estou entristecido. eu devia de pensar tantas coisas – que de repente podia cursar por ali gente zebebela armada.Grande Sertão: Veredas principia com um grande cansaço. Purguei a passagem do medo: grande vão eu atravessava. o Reinaldo veio. puxa as orelhas do teu jumento.. e dar relembro do que eu sabia. Não pude. Por causa da minha tristeza. rendido. o Reinaldo. é que os outros gostam mais de mim. Em tanto.. Aí. Por quê? Nunca falo queixa. aconselhou brincando: – “Riobaldo. atirado para morrer com o chão na mão. Em minhas fontes. não pensava demarcado. Ele bem-me-quis. de nada. sem salves. cocei o aviso de que um suor meu se esfriava. Eu atravessava no meio da tristeza. demorando vingança com toda judiação. por mal. das maldades deles capazes. me pegavam: por al. Devia de me lembrar de outros apertos. eu estava soflagrante encostado. mas minha alegria é forte demais. Medo não deixava. A tristeza. sei que de mim ele mais gostava. Medo do que pode haver sempre e ainda não há. de ódios daqueles homens querentes de ver sangues e carnes. de minha companhia.” Mas amuado eu – 209 – . na paragem. o miolo volteado. Mudei meu coração de posto. Eu estando com um vapor na cabeça.

De repente. Compadre meu Quelemém. Fui indo.. e de rejeitar – 210 – . gastura e cansaço. Desespero quieto às vezes é o melhor remédio que há. sete dias seguidos. Mas primeiro tenho de relatar um importante ensino que recebi do compadre meu Quelemém. Com o senhor me ouvindo. Homem como eu. a energia e paciência forte de só fazer o que dá desgosto.João Guimarães Rosa . O Reinaldo comigo par a par. me ensinou que todo desejo a gente realizar alcança – se tiver ânimo para cumprir. Respondi somente: – “Amigo. Que alarga o mundo e põe a criatura solta. Nem a pessoa especial do Reinaldo não me ajudava. eu deponho. sempre nas estreitas horas – isso procuro. de sozinho careço. Sozinho sou.” – e não disse nem mais.. grandes idéias. nojo. Medo agarra a gente é pelo enraizado. E conheci o que é socorro. de repente. Eu queria mesmo algum desespero. muitos anos depois. Conto.Grande Sertão: Veredas não estava. tomei em mim o gole de um pensamento – estralo de ouro: pedrinha de ouro. eu carecia de sozinho ficar. sendo. de feito. Com toda minha cordura. e a tristeza do medo me eivava de a ele não dar valor. Mas. tristeza perto de pessoa amiga afraca. E o senhor depois verá que naquela minha noite eu estava adivinhando coisas.

com novas coisas mais altas. me argumentou todo. Esta vida está cheia de ocultos caminhos. carece de se ter algum costume. por forte que fosse o vício de minha vontade. Se o senhor souber. sabe. ainda. rezar. nem conversa. Resolvi aquilo. nas Lagoas do Córrego Mucambo. no dia que amanhecia. os juros dele não obedecem medida nenhuma. não me – 211 – . E não ia dormir. Mas ensinou que. Isso é do compadre meu Quelemém. achei. O medo já amolecia as unhas. de per mim. e paga e repaga. Lá nós tínhamos pastos bons. Fiz. aquele dia me carregou. Ideiazinha.João Guimarães Rosa . é que a gente abre os olhos. é. o que de tudo mais prezava. eu não conseguia. Até para a gente se lembrar de Deus. Nisso nem pensei. cumpri. Diz ele. eu creio. Ah. maior e melhor. E dar tudo a Deus. Só um começo. Cabeça alta – digo. Espécie de reza? Bem. eu não ia pitar. Mas foi aquele grão de idéia que me acuculou. não sabendo. Aos pouquinhos. e me alegrei. E não ia caçar a companhia do Reinaldo. Íamos chegando numa tapera. aquela noite. que de repente vem.Grande Sertão: Veredas toda qualidade de prazer. O que resolvi. no fim. O medo se largava de meus peitos. de minhas pernas. nem descansar sentado nem deitado. abreviei o poder de outras aragens. E foi: que. se rejeitar até mesmo aquele desejo principal que serviu para animar a gente na penitência de glória.

Até queria que viessem. por outra. – 212 – . mas matar à mão curta. tris. mas que tanto quer se transformar em jagunço valentão – e esse homem afia sua faca. então. que se diz e se faz – que qualquer um vira brabo corajoso. ia e voltava. Nem não tinha sono nenhum. a pessoa mesma é quem carece de matar. pelo definitivo. enorme sangue. comigo se conferir. duma vez. desmenti fadiga. se enche das coragens terríveis! O senhor não é bom entendedor? Conto. Deus governa grandeza. a onça. que vindo. bastantemente. Ao que. quando os passos escutei. capaz que mate a onça. feito eu tivesse ira de todo o mundo. e vai em soroca. Aí. O que há.Grande Sertão: Veredas entenderá. me vinham uns rangidos repentes. vi: era o Reinaldo. que tem muito medo natural de onça. Agüentei. ainda um exemplo lhe dou. o coração come. Me achavam. Sobejante saí caminhando. Ele queria direto. se puder comer cru o coração de uma onça-pintada. Reproduzi de mim outro fôlego. ah. É. com firmes passos: bis. por aí se vê. Eu aceitava qualquer vuvu de guerra. mas.João Guimarães Rosa . De não pitar. e ia em cima. Me deu vontade de beber a da garrafa. e me achavam. Medo mais? Nenhum algum! Agora viesse corja de zebebelos ou tropa de meganhas. Andei mais. eu já vi: um sujeito medroso. ferro por ferro. com muita inimizade. a ponta de faca! Pois. Rosnei que não.

e eu não estava. Quanto mais eu tinha mostrado a ele a minha dureza... mais amistoso ele parecia. Escuta: eu não me chamo Reinaldo. Ah. isso pensei. pelo tanto respondi alguma palavra só. amigo. digo ao senhor. Dei a nenhuma resposta. Isso ele não via. Tenho meus fados.. Queria me trazer consolo? – “Riobaldo.. O Reinaldo se chegou para perto de mim. E ele curtia um engano: pensou que eu estava amofinado.João Guimarães Rosa . graças-a-deus. pois tem um particular que eu careço de contar a você. Momento calados ficamos. Acho que olhei para ele com que olhos. A vida nem é da gente.” – 213 – . em hora comum. ele tomou por mãmolência. Mas.. de verdade. Ele. carece de você não me perguntar por quê. – “Riobaldo. o que ele falou foi com a sucinta voz: – “Riobaldo. que pastavam à bruta no capim alto. não se ofendeu. O que era sisudez de meu fogo de pessoa. Eu estava respirando muito forte. não notava. inventado por necessidade minha.. maldando.. com muito menos que isso a gente marfava. Sabia disso.” – ainda gracejou.. Este é nome apelativo. não calculei que você era genista.Grande Sertão: Veredas Eu não podia tão depressa fechar meu coração a ele. Na vez.” – me disse. ele me queria-bem. com pouca paciência para o trivial. se ouvia o corrute dos animais. e que esconder mais não posso. A vida da gente faz sete voltas – se diz.

Diadorim!”com uma força de afeição. Aí tive o fervor de que ele carecesse de minha proteção.. digo e peço.. punindo por ele. E ouvi: – “Pois então: o meu nome. quase tristes de grandeza.. Sempre... garantindo. Sol-se-pôr. toda a vida: eu terçando.. eu recebia certezas. verdadeiro. eu era menino. quem sabe se com tico de pesar e vergonhosa suspensão. Muito fiquei repetindo em minha mente as palavras. mas sendo que não me enfraqueciam. Desde aquele dia é que somos amigos. é Diadorim. mais antes com pressa. era tão singular. para o Canabrava e o Barra. eu confirmei.. Atravessamos o rio na canoa. Os olhos que ele punha em mim.. saímos e tocamos dali.João Guimarães Rosa .” Assim eu ouvi. Ao mais os olhos me perturbavam. Dos olhos. Diadorim. Daquela mão. – “Você era menino. E ele me deu a mão. gostava. quando sozinhos a gente estiver.. Adivinhei o que nós dois queríamos – logo eu disse: – “Diadorim. gostava.. – 214 – .” Que era. tão externos. Deu alma em cara. Riobaldo. E eu gostava dele. modo de me acostumar com aquilo.Grande Sertão: Veredas Ele falava aquilo sem rompante e sem entonos. é de Diadorim que você deve de me chamar. Nos topamos naquele porto. Ele sério sorriu. Guarda este meu segredo.

E amizade dada é amor. tudo certo. ver o quê. Íamos por um plaino de varjas. Reinaldo. Eu vinha pensando.João Guimarães Rosa . e que só eu esse nome verdadeiro pronunciasse. Mas havendo o ele querer que só eu soubesse. verso isso: emendo e comparo. Que é que é um nome? Nome não dá: nome recebe. Sertão é isto. Bem que eu conheci – 215 – . sem encalço. me pertencia. me dizendo que este era real o nome dele – foi como dissesse notícia do que em terras longes se passava. fosse. Alimpo de lua. Minha Otacília. lua lá vinha. ou devoção a um santo-forte. no comum. Caso de algum crime arrependido. Era um nome. vou dizer. Como toda alegria. Dia da lua. Todo amor não é uma espécie de comparação? E como é que o amor desponta. Diadorim. no mesmo do momento. A amizade dele.Grande Sertão: Veredas Aquele dia fora meu. feito toda alegria em brados pede: pensando por prolongar. O luar que põe a noite inchada. Entendi aquele valor. fuga de alguma outra parte. Hoje em dia. Da razão desse encoberto. ele me dava. Vizinhança do sertão – esse Alto-Norte brabo começava. mas bate suas asinhas no chão. Até aquela-alegria sem licença. nascida esbarrada. Amizade nossa ele não queria acontecida simples. Passarinho cai de voar. nem resumi curiosidades. o senhor sabe: tudo incerto. – Estes rios têm de correr bem! – eu de mim dei. abre saudade.

viemos procurar o poder de Medeiro Vaz. eu – 216 – . digo ao senhor – vereda acima – até numa Fazenda Santa Catarina se chegar. Aos Buritis-Altos. só se apareceu no parapeito da varanda – parece que estava receoso de nossa forma. com Alaripe e com João Vaqueiro mas Jesualdo.João Guimarães Rosa . nem mandou dar nada de comer. Mas o primeiro encontro meu com ela. Fomos chegando de tardinha. Depois após. Mas o dono não estava. Assim que desta banda de cá a gente tinha padecido toda resma de reveses. A gente tinha ciência de que o dono era favorável do nosso lado. única esperança que restava. e sor Amadeu o graça dele era. se chamava Nhô Vô Anselmo. então nós passamos. buriti cresce e merece é nos gerais! Eu vinha com Diadorim. Nos gerais. ainda que esteja contando antes da ocasião. mas disse licença d’a gente dormir na rebaixa do engenho. noite fechada. noitinha já era. Quem acudiu e falou foi um velhozinho. noite. e mesmo com a confusão e os latidos de muitos cachorros. em tanto que ele falava.Grande Sertão: Veredas Otacília foi tempos depois. só ia vir no seguinte. já santificado de velho. desde já conto. Avô de Otacília esse velhinho era. conforme o senhor ainda vai ouvir. depois se deu a selvagem desgraça. Ah. e o Fafafa. Agora não é que tudo está me subindo mais forte na lembrança? Pois foi. Mas. e que soubemos que os judas também tinham atravessado o São Francisco. não solicitou de se subir. lá se devia de esperar por um recado. não.

a mocidade da gente reverte em pé o impossível de qualquer coisa! Otacília. Eli.. Que jurei em mim: a Nossa Senhora um dia em sonho ou sombra me aparecesse. vou me rir. Águas para fazerem minha sede. brabejando. cobra jararacuçu emendando sete botes estalados. outras coisas. entre compridos cabelos.. lá dentro. Artes que morte e amor têm paragens demarcadas. me entende? O Reinaldo.. figurinha de rosto. Suspa! O senhor viu onça: boca de lado e lado. raivável. Era que ele gostava de mim com a alma. O prêmio feito esse eu merecia? Diadorim-dirá o senhor: então. Moça de carinha redonda. o que mais foi. Ah. o senhor é pessoa feliz. me querer-bem? Não. bando doido de queixadas se passantes. no enquadro da janela. Essas coisas – 217 – . pelos filhos? Viu rusgo de touro no alto do campo. que não – fio e digo. E. às vezes. qual que uma luz de candeia mal deixava. foi um sorriso. que não se via. dando febre no mato? E o senhor não viu o Reinaldo guerrear!..Grande Sertão: Veredas divulguei. a doçura de uma moça. ele sabia ser homem terrível. em cima de alguma curva no ar.. podia ser assim – aquela cabecinha. Mas senti: me senti. me olhar.João Guimarães Rosa . eu não notei viciice no modo dele me falar. No escuro. mitilhas.. O senhor duvida? Ara. Diadorim. Isso chegasse? Às vezes chega. digo. Há-de-o.

O demônio na rua. A ver o que eu contava: quem não conhecia o Reinaldo. tudo na deslei da jagunçagem bargada.. lá era um cafarnaum. Entramos no meio deles. toda conversa é miudinhos tempos. quantas vezes quero?! Assim ao feito quando logo que desapeamos no acampo do Hermógenes. dos homens. aos poucos para se historiar. contentes por topar com tanto número de companheiros em armas: de todos. Digo.. O que eu estava meio transtornado da viagem. misturados. para acocorar e prosear caçamos um pé de fogo. nós o nosso: roteiro todo da viagem. conferi que era o inferno. Nós tínhamos em fim chegado. Mas Diadorim sendo tão galante moço. Aí. – 218 – . ainda mais que pensavam que ele era novato. Diadorim. no meio do redemunho. Algum explicava os combates com Zé Bebelo.João Guimarães Rosa . Se estavam entre o Furado-de-São-Roque e o Furado-do-Sapo. e quando! Ah. as feições finas caprichadas. sem soberba nenhuma. todos eram garantia. com três dias. Um ou dois. por fim da Mata da Jaíba. rebeira do Ribeirão da Macaúba. Falo! Quem é que me pega de falar. Moxinife de más gentes. Às primeiras horas. Novidade nenhuma. ficou pronto conhecendo. o senhor sabe – em roda de fogueira. A lá chegamos num de-tardinha.Grande Sertão: Veredas se acreditam. Assim loguinho. não achavam nele jeito de macheza. me acostumei.

. vi e mais vi: ele apropriar espaços. se arredou de perto da fogueira. Oap!: o assoprado de um refugão. um se chamava de alcunha o Fancho-Bode. gandaiados. E o outro. Consoante falou soez. cantarolando pelo nariz: Pra gauder. e Diadorim entrava de encontro no Fancho-Bode. e já se curvou em cima: e o punhal – 219 – . vinha querer dar umbigada. Diadorim se esteve em pé.. numa dança de furta-passo. com soltura. com propósito na voz.. muito comparsa. veja o senhor. se dizia Fulorêncio. A fumaça dos tições deu para a cara de Diadorim – “Fumacinha é do lado – do delicado. Se levantou.. Mas esse Fancho-Bode era abusado. A gente. O outro.... mas. Mau par. tratantaz.Grande Sertão: Veredas começaram. estumou.” – o Fancho-Bode teatrou. Deu com o Fancho-Bode todo no chão. Desses dois. assim como fingiu falsete. eu já sabia. um tribufu. tudo foi um ão e um cão. meteu um sopapo: – um safado nas queixadas e uma sobarbada – e calçou com o pé. aí. mengando e castanhetando. fazendo xetas. E aqui pra o Fulorêncio?. quietos. arrumou mão nele. Gaudêncio.João Guimarães Rosa . Se vai lá aceitar rixa assim de graça? Mas o sujeito não queria pazear. e se mexeu de modo. lambuzante preto.. se fez em fúria. o que havia de haver. Aquilo lufou! De rempe.

Aquele Fulorêncio instantâneo esbarrou com os acionados indecentes. Acho que notaram. viesse melhor se desempenhar! Mas o Fancho-Bode se riu.Grande Sertão: Veredas parou ponta diantinho da goela do dito. que cresciam por todo lado. manovelho. da parte de riba. pelo peso. com a cara suja de maus cabelos. daí não quis me encarar mais. Dava nojo. amistoso safado. mais queria mesmo era matar. jagunço também: é no quem-com-quem. patrício!” Estava escabreado. Homem é rosto a rosto. Ao que. bem encostado no gogó. Aqueles dois homens não eram medrosos. que. e eu também tinha agarrado meu revólver. Farejaram pressentindo: como cachorro sabe. só que não tinham os interesses de morrer tão cedo assim. – “Coca. me menos olhou uma vez. Notaram. respeitosamente.João Guimarães Rosa . o Fulorêncio me – 220 – . bronco!” – Diadorim mandou o Fancho se levantasse: que puxasse também a faca. O fechabrir de olhos. Comprazendo conosco. para se cravar deslizado com bom apoio. como tudo tivesse constado só duma brincadeira: – “Oxente! Homem tu é. de belisco. se carecesse. E eles dois não estavam ali muito estimados. E mesmo. e o pico em pele. eu não queria presumir de prevenir ninguém. um fato se dava. Arre. Ninguém não se meteu. era só se soltar. Guardei meu revólver. por gracejo cordial. ele. para avisar do gosto de uma boa-morte. pois desapartar assim é perigoso. outros companheiros deram ar de amizade. nunca tive medo. em hora justa e certa.

se não. me compra o que eu sonhei hoje?” Divertindo... dormi conseguintemente. porque era seu dia. Adiante falaram que eu aquilo providenciei.. no ferver do tiroteio. mas riso de velho.” Todos riram. nem praga roguei. nem fiz.. Cá pensei. ou para os netos dos nossos filhos. o que morreu foi só um. fica o assunto para os nossos netos. me ofereceram: bebi da januária azulosa – um gole me foi.. O Fulorêncio riu também. Nem quis. – 221 – . deles. em fito de tirarem desforra. O outro foi pego preso – eu acho – deve de ter acabado com dez anos em alguma boa cadeia. E esses dois homens.João Guimarães Rosa . silencioso. não é verdade. Aquela noite. também. no circundar da confusão. silenciosinho: “Um dia um de nós dois agora tem de comer o outro. eu atiro bem. cachaça muito nomeada. o senhor sabe: quando bala raciocina. bateram a bota no primeiro fogo que se teve com uma patrulha de Zé Bebelo. motivo de evitar que mais tarde eles quisessem vir com alguma tranquibérnia ou embusteria. Nego isso.. Sempre disse ao senhor. De mim não riram. Fancho-Bode e Fulorêncio. Por aquilo e isso.” Tudo em mais paz. alguém falou que eu mesmo tinha atirado nos dois. para o ar dei resposta: – “Só se for com dinheiro da mãe do jacaré. de boa questão. Ou. Até. por exemplo. Assim.Grande Sertão: Veredas perguntou: – “Mano Velho. Morreram. A cadeia de Montes Claros.

Achavam que eu era esquisito. Não sou assassino. e mesmo sendo de ordem e paz. para com a gente aprontarem. mais Diadorim. Mas. no costumeiro real. não é desse jeito? A ver. trabuco. nos livros. fuzil reiúno. Inventaram em mim aquele falso. por certo – 222 – . quando é a gente que está vivendo. noutra vida. sei o que digo: em toda a parte. clavinote ou rifle. clavina. qual. é capaz que ficasse muito e mais engraçado. sempre houve muitas pessoas que tinham medo de mim. o senhor sabe como é esse povo.Grande Sertão: Veredas quem sabe. Naquele tempo. em surpresas constantes. bem alvejado. em ocasião. Honras não conto alto. Por meu bom.João Guimarães Rosa . como atiro bem: que vivo ainda por encontrar quem comigo se iguale. dom dado. completo. Alemão Vupes pouco me ensinou. Pelo que compadre meu Quelemém me explicou: que eu devo de. Nas estórias. já eu era. alguma traição ou maldade. para se contar. Só o que mesmo devo de dizer. espingarda. Agora. é o inimigo traiçoeiro terminar logo. iam passar o resto do tempo todo me tocaiando. antes que alguma tramóia perfaça! Também. eu concordo: se eles não tivessem morrido no começo. esses floreados não servem: o melhor mesmo. e peripécias. conforme sou. porque acho que acerto natural assim é de Deus. com uma coisa. Dono de qualquer cano de fogo: revólver. de desde mocinho. em pontaria e gatilho. por onde andei.

por fim. na idéia. nem encostar dedo no taco. É de ver que.. amolecia barriga e taqueava o meu chofre. que sou tão no taco. com o Escopil. O menos é no olho. mesmo do jeito.. total. compasso. conforme dizia. E pois. Cerzidor. ladeio perfeito. Combinado ficou que o Advindo pudesse me superintender e pronunciar cada toque. entrei num salão. ter trabalhado muito em mira em arma. o senhor concorde. mor de inteirar a parceiragem. retruque e recompletas. depois Tatarana.Grande Sertão: Veredas em encarnação. efeito produzido e reproduzido. querendo aquilo no verde . não bobeei um ceitil: o Advindo me lecionava o rumo medido da vantagem. quiseram pôr apelido em mim: primeiro.João Guimarães Rosa . os companheiros careciam que eu jogasse.” Aceitei. com palavras e noção de conselhos. mas sem licença de apoiar mão em minha mão ou braço. Mas firme não pegou. Seja? Pontaria. Será: eu nunca esbarro pelo quieto. jogam de contra-lado. – “Faz mal nenhum” – o Advindo disse. Aquele Vupes era profeta? Certa vez. Tinha nunca botado a mão naquilo. num feitio? – 223 – . Bilhar – quero dizer. e eu encurvava o corpo. lagarta-de-fogo. – “Você forma comigo... é um talento todo. com recuanço. era o justo repique – umas carambolas de todos estalos. Eu não sabia. por meu tiro me respeitavam. eu me reprazia mais escutando rebrilhar o concoco daquelas bolas umas nas outras. Em mim. deslizadas. apelido quase que não pegava. João Nonato.

no acampo do Hermógenes. cidadão. Azombado. Se vivia numa jóvia. que primeiro até fiquei. por zanzar ou estar à-toa ou parar formando rodas. ninguém se perturbou com perigos de tanta gravidade. Digo: bons e maus. medindo mãos. De boa entrada. mas daí quis assuntação. em vavavá e conversa de festa. que todos curtidos no jagunçar. Aqueles eram mais de cento e meio. E a situação nossa era de guerra. Tiba. isto é. rafaméia. achei. Aqueles não desamotinavam. tomando tempo. Por um que ruim seja. logo mais para adiante se encontra outro pior. divulguei: até sujeito com cinta larga de lã vermelha. naquele arranchamento. pessoal do Hermógenes. na vagagem: manga de homens. como boi malha. Assim. Propriamente. uns pelos outros. Assaz toda espécie de roupa. de tantos atrás do ar. me acostumei com meiosó meu coração. no que me vi. assim. Mesmo com isso. ao que me gasturei. Cabralhada. só que de branco vestido não se tinha: que com terno claro não se guerreia. mesmo sem chuva nenhuma. sofreúdos. outros com coroça e bedém. a meu cômodo. a peito pronto. outro com chapéu de lebre e colete preto de fino pano. ou uns dormindo.João Guimarães Rosa . ali. no vendo. ou deitados no chão sem dormir – só aboboravam. A ajunta.Grande Sertão: Veredas No que foi. mera gente. como neste mundo se pertence. Mas jamais ninguém ficasse nu-de-Deus – 224 – .

por tempero de propensão. então. de falação mal. trem objeto que um tivesse e menos quisesse. Tinham lá até cachorros. ferrando queda de braço. com muita demora. Ou cuidavam do espírito da barriga. aboiavam sem bois. picando ou dedilhando fumo no covo da mão. convinha não judiar com cão. de rapa-tachos. Cantavam cantarol. e pitando. era perigar morte. isso não e não. gala mestra. assoando o nariz. E tudo o mais que faziam. Sendo que eu soube que eu era mesmo de outras extrações. ou. jogando jogos. mas meio atalhados. por conta do dono.Grande Sertão: Veredas ou indecente descomposto. Aventes baldrocavam suas pequenas coisas. por me arrediarem. E ninguém furtava! Furtasse. o mais. que custou barato. vadiando geral. O serviço que cumpriam era alimpar as armas bem – marcadas as cruzes nas feições das coronhas. sempre no proseio.João Guimarães Rosa . uns. como logo entendi: eles queriam completo ser jagunços. Ao às-tantas me aceitaram. porquanto me achando deles diverso? Somente isto nos princípios. por alcanço. conforme o que avistei. que fosse coisa de sem-oque-fazer. mas o dono de cada um se sabia. Andando que sentados. Semelhante por este exemplo. Por isso – se dizia – que ali corresse muita besouragem. mascando fumo forte e cuspindo longe. – 225 – . Se o que fossem mesmo de constância assim. no meio dos outros.

Agüentava. Os que lavravam desse jeito: o Jesualdo – mocinho novo. num canto. Os outros dois. O Araruta procedia sozinho. sem ver. igual.Grande Sertão: Veredas seguinte. com uma pedra. também. essa atarefação. para refrescar.João Guimarães Rosa . que era uma faca de cabo de niquelado. os que ensinavam a eles eram o Simião e o Acauã. Nem o senhor não pense que para esse gasto tinham instrumentos próprios. dava até aflição em – aflito. por amor de remedar o aguçoso de dentes de peixe feroz do rio de São Francisco – piranha redoleira. com um caneco de água com pinga. Assim um uso correntio. o Araruta e o Nestor. abobante. fazia aquilo sentado num calcanhar. apontar os dentes de diante. Ao mais gemesse. o tratear. comum que babando. estavam uns. dava alojo e apresso. no abre-boca. O Jesualdo mesmo se fazia. ou ferro lixador. e batia no cabo da faca. ao tanto. Ah. pelo que verdadeiro muito doía. com sua simpatia –. Não: aí era à faca. às vezes sangue babava. repuxando a cara. então ele bochechava a breve. batendo na faca – 226 – . Pois não era que. alguma liminha. rela releixo. e isto que eles executavam: que estavam desbastando os dentes deles mesmos. Sem espelho. a poder de gume de ferramenta. a cabeça-de-burro. Aviava de encalcar o corte da faca nas beiras do dente. medidas pancadas. aperfeiçoando os dentes em pontas! Se me entende? Senhor ver. Assim esquentasse demais. permanecidos todos se ocupando num manejo caprichoso.

lá nele. pois tu não quer?” – o Simão. me perguntou.” – conciso declarou. que chegando veio. foi outro falar.. próprio.” Mas. e ele sendo de sertão do mesmo nome.. não carece de figurativos. Repontei: – “Eu acho que. de descasear dentaduras. companheiro. em minha terra. mole. em gracejo. com um martelinho para os golpes. E era um Luís Pajeú – com a facapunhal do mesmo nome. mas de anelados cabelos.João Guimarães Rosa . para se ser valente. das comarcas de Pernambuco. era quem raspava. que ele mais não tinha.. se – 227 – . que no instante também ouvi: – “Uê. assim mesmo achou de se reagir: – “São gostos. que já era bom conhecido meu. Onde era que o Luís Pajeú havia de ter deixado aquela orelha? – “Será gosto meu não. moreno bem queimado. Ah. que exercia lâmina nos do outro. – “Arrenego!” – eu disse. Alto e forte. não: para ele. um outro. era uma orelha. – “Deveras? Então. – que rente cortada fora. Sujeito despachado. Me fez careta. Mas não será o meu!” Olhei para esse. pelo sinal. Abrenunciei. de outro. mano-velho. falou o mais seco: – “Tudo na vida são gostos.Grande Sertão: Veredas com a prancha de outra. mas o que faltava. ele não possuía. falava meio cantado.” O Acauã. e – acredite o senhor: ele.. o Simião. O Nestor. dente mais nenhum nas gengivas – conforme aquela vermelha boca banguela toda abriu e me mostrou. fino. mas decerto o Nestor ao outro para isso algum tanto pagasse... que me deu o apoio. e com uma coragem terrivelmente.

A sebaça era a lavoura deles.João Guimarães Rosa . trolado demais franco. era o Fafafa. aqueles – 228 – . tomaram conta de São Francisco. quase com homens mil e meio-mil. que estavam ali em seu emprego de cargo? Ah. para mais depois. e desempenado cavaleiro. Foi ou não foi? Mas. nestes derradeiros anos. para os escondidos de Joca Ramiro. tanta. a cavalo. o povo de São Francisco soube. e deram fogo de defesa: diz-que durou combate por tempo de três horas. de través – brigaram como boa população! Daí. De donde vinha tudo. quando Andalécio e Antônio Dó forcejaram por entrar lá. na boca das ruas – com tapigos. quando os serranos cismaram e avançaram. é touro. e árvores cortadas. tinham armado tranquias. para satisfazer àquela cabroeira vivente. a gente parando assim quase num deserto? E a munição. Dele tenho. perto do arraial do Bró? E a jorna. Fiz conhecença. que nem precisaram da que tínhamos trazido. ixi!” E esse um. Gêneros e bebidas boas. Ao que lá não faltava a farta comida. montes de areia e pedra. pelo que logo vi. e que foi levada mais adiante. tinham roubado. em redondezas tão pobrezinhas. se reuniram. saqueado muito. falavam até em atacar grandes cidades. sem prazo nem pena.Grande Sertão: Veredas afia guampa. Mas. mire e veja o senhor: nas eras de 96. grassavam.

pois por aí eu já estava retirado para ser criador. se recordava sempre com tremores: de quando. guerrearam noites e dias. para salvar o Major.” Tudo gelava. cercados numas duas ou três casas e um quintal. Assim que salvaram. senhores da cidade quase toda. o senhor sabe: “Carinhanha é bonitinha. uns quatorze juntos numa cova só! Essas coisas já não aconteceram mais no meu tempo. foi logo de se emendar depois do barulhão em Carinhanha – mortandades: quando se espirrou sangue por toda banda. no tiroteio de inteira noite. Andalécio comandava e esbarrava.João Guimarães Rosa . Aí. porque antes o Major Amaral tinha prendido o Andalécio. recentemente. quase. e lavrador de algodão e cana. Andalécio – o que.Grande Sertão: Veredas retornaram.. mais de sessenta mortos..” – uma verdade que barranqueiro canta. de só se escutar. para contar bem. isto é. A ver.. quem trouxe socorro. conforme guerrearam contra o Major Alcides Amaral e uns soldados. por vingar. Mas o mais foi ainda atual agora. cortado os bigodes dele. para gritar feroz: – “Sai pra fora. de fazendeiros da política do Governo. arremeteram mesmo. mandaram desenterrar. Carinhanha é que sempre foi de um homem de – 229 – . Sei de quem ouviu. cão! Vem ver! Bigode de homem não se corta!.. com punhadão de outros jagunços. foi o delegado Doutor Cantuária Guimarães. remador. vindo às pressas de Januária. de nome real: Indalécio Gomes Pereirahomem de grandes bigodes.

Mas eu achava aquilo tudo dando confuso. tempo de jagunço tinha mesmo de acabar. cidade acaba com o sertão. com uns seus cabras. na Vargem Bonita. E tinha um grupo de brabos do Ricardão. O Hermógenes. ele se chegou.João Guimarães Rosa . certa vez. Ah. Luís Pajeú. Assim – sendo uma sabedoria sutil. era nãostante muito respeitado. acima de todos – Joca Ramiro – falado aquela hora em Palmas. perto duns cinqüenta – nesse meio o Acauã. E o sistema diversiava demais do regime com Zé Bebelo. tinha uma feirinha lá. Titão Passos. o quando no meio deles se trança um ajuste calado e certo. beira da Bahia. cabo-de-turma com poucos homens à mão. Simão. formaram grupo calados. Antônio Dó eu conheci. no começo. com os seus. eram dele. Andalécio foi meu bom amigo. Acaba? Atinei mal. Onde era que estava o Ricardão? Reunindo mais braços-de-armas. com quem era que mandava em nós todos. com semelho. com o governo de bando – 230 – .Grande Sertão: Veredas valor e poder: o coronel João Duque – o pai da coragem. Se esperava o chefe grande. muito custoso de eu poder explicar ao senhor. mas mesmo sem juízo nenhum falável. Jesualdo e o Fafafa – obedeciam a João Goanhá. Olhe: jagunço se rege por um modo encoberto. Se esperava também a vinda de Só Candelário. Mas. mal comparando. arredados.

num varjal. eu nunca – 231 – . E. eu ficava num descômodo. foi ordem: ajuntar todos os animais. Joga fora. Ao tanto que a carne-de-sol não faltasse. do lugar. a bolsa da sela.. bereu. e cheiro bom de carne no espeto. panela em gancho de mariquita. exemplo. fumaça de alecrim. A farinha e rapadura: quantidades. Um dia. iam ser levados para amoitamento e pasto. torrada se assando..João Guimarães Rosa . Carregar os trens não podia – chegava o peso das armas..Grande Sertão: Veredas de bichos – caititu. Muitos misturavam a jacuba pingando no coité um dedo de aguardente. que repartiam. boi.. Mas tive de entregar meu cavalo. Perguntei a um. Bota em algum lugar.. De noite. eu tinha a capoteira. dependurava a sela num galho de árvore. botava por debaixo dela o dobro com as roupas. em paz. dormia ali perto. mesmo amiúde ainda saíam alguns e retornavam tocando uma rês. entre serras. e batatas e mandiocas. eram fogueiras de se cozinhar. – “Eh. até o endereço que diziam. onde era que tudo se depositava. Agora. no Ribeirão Poço Triste. E tem as pequenas coisas que aperreiam: enquanto estava com meu animal. devia de ser mentira. como sem segurança nenhuma.. a pé. faziam todo segredo. tu carrega ouro nesses dobros?. Para mim. podia guardar meus trecos. completo no contragosto. boiada. As mantas de carne-ceará.” Quê que se importavam? Por tudo. Oxe... de sela e de carga. Me senti. de coisas. os alforjes. e das balas e cartuchame. sempre quentes no soborralho.

um refogado de caruru com ofa de angu. às vistas. Tudo era falado a todos. Os usares! A ver. Disso.” Assistir com Diadorim. Cismei que maldavam. que Zé Bebelo sempre me pagou – 232 – . como o Fafafa abria uma cova quadrada no chão. Diadorim notou meus males. moradores das grandes distâncias.João Guimarães Rosa . mesmo. Mas. Aquele povo estava sempre misturado.Grande Sertão: Veredas tinha avistado ninguém provar jacuba assim feita. todo o mundo. apartados dos outros. eu me acostumei. direto no brasal mal-assasse pedação de carne escorrendo sangue. Sem receio de ser tirado de meu dinheiro: que eu empacotava ainda boa quantia. tem tempos melhores. Diferente melhor. do comum: às mostras. só pelo chiar. Senti padecida falta do São Gregório – bem que a minha vidinha lá era mestra. e ouvir uma palavrinha dele. definitivo não gostei. por fim. Me disse consolo: – “Riobaldo. foi quando estivemos com Medeiro Vaz: o maior número lá era de pessoal dos gerais – gente mais calada em si e sozinha. desconfiassem de ser feio pegadio. achei que ali convinhável não era se ficar muito tempo juntos. ajuntava ali brasas grandes. Mas. me abastava aninhado. um se acostuma. A saudade minha maior era de uma comidinha guisada: um frango com quiabo e abóbora-d’água e caldo.. pouco e pouco revirava com a ponta do facão.. estamos acuados em buraco. isto é. Por ora.

Surgidamente.” – eu informei. só que atochadas sempre. de quatorze tiros – e dava gala de entremez... põe o dez no onze. Até gostavam de ver: – “Tatarana. bala no olho de um castiçal eu acertava. a certa pessoa. por festar. então eu esbarrava sossegado. Num aquele alvo só – as todas. até. principiou um desejo que tive – que era o de destruir alguém. Se não. quis que soubessem logo como era que eu atirava.Grande Sertão: Veredas no pontual. é aviso. Para rebater. – “Vem um cismo de fio de cabelo no ar.João Guimarães Rosa . O senhor sabe: nome-da-mãe. E. aí. Sobre o fato. Eu sei.” – me pediam. e gastar eu não tinha onde. que eu acerto. é esse mesmo que não presta: e leva o puto nome-da-mãe. não me importo. Ao que. O senhor pode rir: seu riso tem siso. Mas não quero que me venham me contar! Quem vier contar. e der notícias. e o depois. por que era que já me vinha a idéia desejável: que joliz – 233 – . Social eu andava com minhas cartucheiras triplas. De duzentas braças. Se eu cortasse? Nunca errei.. Recontei.” Sobrefiz.. quer dizer – meu pinguelo. – “Se alguém falou mal de mim. eu pegava o rifle – tive rifle de winchester. Aí. não se esquecerem. Matar a aranha em teia. todas! Assim então esbarrei aquilo com que me aperreavam. olhe: tudo quanto há. para de mim não desaprenderem. – “Corta aquele risco Tatarana!” – me aprovavam. Eu quero é que o senhor repense as minhas tolas palavras. me gabavam e louvavam. reproduzia tudo a revólver. os coscuvilhos. e de que é filho!.

Grande Sertão: Veredas havia de ser era se meter um balaço no baixo da testa do Hermógenes? A bronzes. Eu tinha receio de que me achassem de coração mole. – “E Deus. mesmo em tempo de paz. mesmo assim sendo eu marinheiro de primeira viagem. Digo ao senhor que aquele povo era jagunços. que se prezava de bondoso. que tinha pena de toda cria de Jesus. todo o mundo envenenava do juízo. para estropelias.João Guimarães Rosa . por umas criaturas. com silenciozinho todo natural. que tinha vindo à traição. prática da vida. Já vai que o Hermógenes era ruim. eu queria bondade neles? Desminto. Entendi o estado de jagunço. até ao vago do ar. ruim. Ser ruim. Eu não queria ter medo dele. sempre. nunca bobo fui. espreitar a gente por conta dos bebelos. Mas. Ele me olhou. soubessem que eu não era feito para aquela influição. O senhor vigie esses: comem o cru de cobras. Só por isso. Me entristeceu. Eu não era criança. com o tempo. que seus homens saíssem fossem. em resposta: – “Doca – 234 – . daí disse. Diadorim?” – uma hora eu perguntei. até Só Candelário. O ódio pousa na gente. agarraram um homem. aquilo. Carecem. Um dia. às vezes é custoso. para o pessoal não se abrandar nem esmorecer. Assassinaram. carece de perversos exercícios de experiência. mandava.

me perturbava. flagelo com frieza. mesmo para comer. ele deixava a boca própria se abrir alta no meio. Mas. o pobre ficou lá.João Guimarães Rosa .. olhava o pé dele – um pé enorme.. Eu acabava achando que tanta ruindade só conseguia estar naquelas mãos. ele mandou: – “Guardem este. Com aquela mão ele comia. afiando a faca.” Mas o Hermógenes era fel dormido. encarar aquele carangonço. Nem contava valentias. Mas. entre as árvores duma capoeirinha. outra vez. olhava para elas. mais. com muita saúde. estava sentado. Eu não queria olhar para ele. O Hermógenes não tinha pressa nenhuma. Olhava as mãos. Levaram aquele homem.” Sei o que foi. Nessa hora. nhento. quando um inimigo foi pego. Então. cheio de coceiras. boca de dor. como sem vontade. aquela mão ele dava à gente. Depois dum tempo.Grande Sertão: Veredas Ramiro deu cinco contos de réis para o padre vigário de Espinosa. calmoso? Consumia horas. recostado. amarrado na estaca. eu comparava com Zé Bebelo aquele homem. pé-pubo. ou rir. A gente podia caçar a alegria pior nos olhos dele. passado aquilo: ele estava contente de si. sozinho. descalço. ou falar. ia lá. Eu ficava vendo o Hermógenes. vivia dizendo que não era mau. frieiras de remeiro do rio. Ele gostava de matar. por seu miúdo regozijo. quase como um – 235 – . Entremeando. eu gostava de Zé Bebelo. com asco. Dizia gracejos.

E entrei em máquinas de tristeza.João Guimarães Rosa . Puxei conversa com Diadorim. As tantas coisas me tonteavam: eu em claro. no cabo do meu coração. mas estava tudo traindo. Zé Bebelo devia de vir. Por que era que Joca Ramiro. ou é com colher-de-pau? Você queria homens bemcomportados bonzinhos. De repente. Assim uma coisa eu estava escondendo. mas leal de toda confiança.Grande Sertão: Veredas filho deve de gostar do pai. encostei minhas costas numa árvore. com todo rigor. Tinha perdido meu bom conselho. dormia com a traição. por fora. Você acha que a gente corta carne é com quicé. de nobres costumes. Alheio. tal duvidou de meu juízo: – “Riobaldo. forte viesse: liquidar mesmo. sendo chefe tão subido. – 236 – . porque era ele quem estava com a razão. no nem mesmo. Um nublo. traidor. Aí eu não queria ficar doido. nesse dia calei. consentia em ter como seu alferes um sujeito feito esse Hermógenes. ao que. para com eles a gente dar combate a Zé Bebelo e aos cachorros do Governo?!” A espichado. a rãs. remarcado no mal? Diadorim me escutou depressa. com o inferno da jagunçada! E eu estava ali. cumprindo meu ajuste. onde é que você está vivendo com a cabeça? O Hermógenes é duro. eu via que estava desejando que Zé Bebelo vencesse. mesmo de Diadorim: que eu já parava fundo no falso.

. que Diadorim tivesse tido. de seguida. esse Reinaldo gosta de ser bom amigo. – “Comeu. beber. brigar. eles sacolejavam bestidades. Ao quando o Leopoldo morreu ele quase morreu também.João Guimarães Rosa . essa história me remoía. Aquele povo da malfa. Por meu bom. mesmo tão antes. manejavam. – “Mulher é gente tão infeliz. um disse: – “Eh. eu estava com ela – 237 – . lobo?”E vozear tantas asneiras. mesmo de Diadorim e de mim já pensavam. vai. esse nome de um Leopoldo. almiscravam. no dia e noite de relaxação.. eu era diferente de todos ali? Era..” – me disse Diadorim. constante comer. Até que. – dizia um – “qualquer uma que seja. depois que tinha ouvido as estórias. Dai. Um dia. bonita moça. eles tinham aca. um amigo companheiro.” Desentendi. mediante meu querer. Com não terem mulher nenhuma lá. E eu era igual àqueles homens? Era. não me escapole!” Ao que contavam casos de mocinhas ensinadas por eles. uma vez. Aqueles homens... quando estavam precisando. Mas não me adiantou. aproveitavelmente. persistentemente. – “Saindo por aí”. cresci naquela idéia: que o que estava fazendo falta era uma mulher. Tomava por ofensa a mim. que foi. A primeira. Achavam.Grande Sertão: Veredas Então. dos demorados pesares. Deus me livrou de endurecer nesses costumes perpétuos. em horas safadas..

em todo tempo nanja que não desconfiou. – 238 – . num sítio perto da Serra Nova. é porque acho que é sério preciso. levava essa moça comigo. que xingava. não fosse o coração dela rebater no meu peito. Mas eu não podia esbarrar.João Guimarães Rosa . de repente vindo. Digo ao senhor. não lhe disse: o pai dela. Agora: o tudo que eu conto. Daí. Pelas ocasiões que tive. a moreninha miúda. sempre formosa. e essa se sujeitou fria estendida. Para mim. depois. ela estremeceuzinha. sonhos meus. ofereço que Deus me dê alguma minha recompensa. era que nem eu nos medonhos fosse – e. Tanto gritava. abriu os olhos. tanto me mordia. Às almas fugi de lá. eu mesmo roguei pragas. arfou seus prazeres. a moça – fechados os olhos – não bulia. que pude. e de lado deixei.Grande Sertão: Veredas somente. e as unhas tinha. eu entrevia medo. Feito com a Rosa ‘uarda. Assim tanto. larguei com ela o dinheiro meu. a filha de Assis Wababa. que era forte negociante. para mim ficou de pedras e terra. o senhor crê? – a mocinha me agüentava era num rezar. fiel. era como eu tivesse os mais amores! Pudesse. e que a qual. Contanto que nunca mais abusei de mulher. pelo meu ser. filha de Ana Duzuza. Ao cabo. tempos além. Mas. foi uma outra. Ah. turcamente. aceitou minha ação. Feito com aquela moça Nhorinhá. Mas o senhor releve eu estar glosando assim a seco essas coisas de se calar no preceito devido. O que eu queria era ver a satisfação – para aquelas. constituído milagre.

alguém dizendo a um que ele é demônio de ruim. é um saber definido o que quer.João Guimarães Rosa . com mania de aforrar dinheiro. Afirmo ao senhor. Só quase a boa gente.Grande Sertão: Veredas Permeio com quantos. o Testa-em-Pé. Ei. Juvenato. chupava muito. e comia carne de qualidade nenhuma. e que nunca dizia de onde era e viera. para que que eu fui querer começar a descrever? Dagobé. ele ria de não querer ser. queria sempre que se desse resto de comida à gente pobre com vergonha de vir pedir. o que rimava verso com ele: Sesfredo. capaz até de nessa raiva matar o outro. O Diolo. o Paspe. Dadá Santa-Cruz. tantos. mesmo. O Catocho. Fonfredo – que cantava todas as rezas de padre. conforme que os anjos-da-guarda. o Eleutério. com uns poucos me acompanheirei. o Carro-de-Boi. baiano ladino. do que vivi: o mais difícil não é um ser bom e proceder honesto. estes: Capixum – caboclo sereno. gago. dificultoso. mulato claro – era curado de bala.. o homem mais habilidoso e serviçal que já topei nesta minha vida. Adalgizo. José Amigo. daqueles jagunços. dito “o Caridoso”. o Sangue-de-Outro. Pescoço-Preto. preto de beiço maior. chapadeiro minasnovense. e ter o poder de ir até – 239 – . Amigo? Homem desses. filho dos gerais de São Felipe.. removido no estatuto deles. desse já lhe contei. por todos. Sendo que são. gago. viajado. vaqueiro jaibano. Lindorífico.

tocava. lá chegaram. aí. De manhã cedo. E o Luzié. eu soube: tinham até dançado. – “Dança? Aquilo é pé de salão.” – quem respondeu foi o – 240 – . bom café e uma barrica de bacalhau. dez homens. Ah. para a parte do poente. Daí. e que Batatinha somente morreu porque disso sabia. andamos mais de três léguas e tanto. o pobre dum cafuz magrelo.. aquela véspera. alagoano de Alagoas. forjicavam muita cilada e enredos de desconfianças. Muito vi que não estávamos fazendo isso por escapulir. Ezirino matou um companheiro. Traziam cargueiros com mais sal. fomos rondar os caminhos de porventura dos bebelos. mais a coberto. com esquadra. que Batatinha se chamava.João Guimarães Rosa . – “Diadorim. antes acharam de combinar aquilo. mas que o Hermógenes. pago por sua traição. só que tinha o danado defeito de contrariar qualquer coisa que a gente falava. com satisfação de todos. em distância: obra de sete léguas. Todo o mundo andava encrespo. no meio da noite retornamos. Titão Passos e João Goanhá.Grande Sertão: Veredas no rabo da palavra. e. Ezirino caiu no mundo. Delfim era um daqueles. você dança?” – logo. perguntei. eu saí. Mudamos para outros lugares. Nesse dia.. a Só Candelário pertencidos. em suas conversas – era o arrumo para melhores combates com Zé Bebelo. começou voz que ele tinha fugido para se bandear com os zé-bebelos.

era um mocorongo mermado. na beleza dele. Eu queria estar-estâncias: dos violeiros. dum lugar chamado Morpará. em couro de veado macho. Diadorim se levantou. Fiz: fui e me deitei no mesmo dito pelego. O Garanço. O Garanço era sanfranciscano. com a cabeça num feixe de capim cortado. Mais o Garanço dava de procurar a companhia nossa. a gente ria. Hás-de. o revólver rouxinol. Ouvindo o que. às vezes parecia criança pequena. com estúrdias feições. num pelego. Depois. na cama que ele Diadorim marcava no capim. o de olhos de porco. Diadorim não dizia nada. Às vezes. a clavina era berra-bode. minha cara posta no próprio lugar. Ele tinha idéias. Ali naquele lugar ele contumaz dormia – Diadorim menos gostava de rede. ele me produzia jeriza. aquele tempo ele vinha costumeiro para perto. como naquilo. só com o violeiro – 241 – . guapo tão aposto – surgido sempre com o jaleco. me sobrou um enjôo. uma coisa eu necessitei de fazer. meio momento. que tocavam sentimento geral. e pessoa muito agradável de seu natural. De repente. queria que a gente escutasse ele recontar compridas passagens de sua vida. Com ele.João Guimarães Rosa . Guardei os olhos. minha e de Diadorim. e com as calças de vaqueiro. Nem me fiz caso do Garanço. que ele tirava nunca. ia em alguma parte. sempremente. Aquilo aborrecia. verdadeira. estava deitado de costas.Grande Sertão: Veredas Garanço. curtido com aroeira-brava e campestre. Punha nome em suas armas: o facão era torturum.

no justo momento. naquelas lembranças. devem de ter acontecido coisas meio importantes. de feito. não. no São Gregório.João Guimarães Rosa . Refiro que perguntei ao Garanço. O senhor sabe?: não acerto no contar. O que eu queria saber não era próprio do Siruiz. Mesmo hoje não atino com o que foram. moça branca. Fé que não é. Mas – 242 – . da cozinha grande com fornalha acesa. Por não querer meu pensamento somente em Diadorim. As vezes não é fácil. mas peguei saudade dos passarinhos de lá. forcejei. na ocasião. dos cômodos sombrios da casa. meu coração. Ou quero enfiar a idéia. que eu não notava. mas da moça virgem. meus confins. dos currais adiante. não surpreendi em mim. Mas. do poço no córrego. perguntada. Eu já não presenciava nada. porque estou remexendo o vivido longe alto. demear. e dos pés-de-verso como eu nunca tive poder de formar um igual. caminho do que houve e do que não houve. A zangarra daquela viola.Grande Sertão: Veredas somei. nem escutava possuído – fiquei sonhejando: o ir do ar. Mire veja: naqueles dias. me lembrei em madrugada daquele nome: de Siruiz. achar o rumozinho forte das coisas. querendo esquentar. por aquele rapaz Siruiz. com pouco caroço. que cantava cousas que a sombra delas em meu coração decerto já estava. Aí pensei no São Gregório? A bem. do batido do monjolo dia e noite. da varanda de ver nuvens.

lá como quem diz. na PedraBranca.. não.. Nessa vez. O Siruiz já morreu. eu tinha restado longe por fora.. guerrear e cantar. Mas eu guardava triste de cor a canção recantada.. vi que não gostou. nosso bando. baiana. Morreu morto no tiroteio. certo estava de que ele Garanço não sabia nada do que tivesse valor.” O senhor aprende? Eu entôo mal. – “Quem sabe se era. passado para cá o Pacuí. fui arriando para um desânimo. O Garanço.” Eu.Grande Sertão: Veredas o Garanço já tinha respondido. toda a vida: “Olererêêê. entre o Morcego e o Suaçuapara. oh baiana. Como se assim ele tivesse falado: “Siruiz? Mas não foram vocês mesmos que mataram?. Era um sujeito de intenções muito parvas. ô... Não por boca de ruindade. sou homem de gostar – 243 – . E Siruiz tinha morrido. Viver perto das pessoas é sempre dificultoso.. meu parente. Eu ia e não vou mais: Eu faço que vou lá dentro. eh.. que era cantiga de se viajar e cantar. Nem eu quis indagar o mais. Sou ruim não. de toleima... – “Eh.” – eu respondi.João Guimarães Rosa . Então me instruíram na outra. na face dos olhos.. Perguntou se o Siruiz não seria meu amigo.. e volto do meio p’ra trás. não vi combate. Como era que eu podia? O Garanço tomava rapé.” Do choque com que ouvi essa confirmação de notícia.

o em conseguinte: que Joca Ramiro talvez fazia mal em estar tanto tempo por longe. daí. acabou por me dar a entender. alguns de bofe ruim já calculavam que ele estivesse abandonando seu pessoal. Vai. que Joca Ramiro era rico. Esse Antenor. acho que era coração – de-jesusense. vinha querendo deixar em mim uma má vazante: me largar em dúvida. Não tenho a caixeta da raiva aberta. Ele era homem chegado ao Hermógenes – se sabia dessa parte. sou de tolerar. De diz em diz. que estava por chegar? O giro dos assuntos – ele me tenteava a fala. rodeava a questão. quando não me aperreiam. doutor Mirabô de Melo. deles recebia dinheiro de munição e paga: seô Sul de Oliveira. Um. coronel Caetano Cordeiro. comigo erraram. os outros todos. e se arranchava passando bem em casas de grandes fazendeiros e políticos. E. na miudez das normas. Rixava com nenhum. Notei. começou a temperar conversa. Queria saber que apreço eu tinha por loca Ramiro. Um pai-jagunço chamado Antenor. por Titão Passos. aceitava o regime. sagaz de fiúza.João Guimarães Rosa . curtamente.Grande Sertão: Veredas dos outros. Que era que eu achava? – 244 – . em horas de tanta guerra. sempre louvando e vivando Joca Ramiro. Se eu conhecia Só Candelário. ali. Não era? Aquilo eu inteligenciava. devagar. dono de muitas posses em terras. notei. errou.

no que ele tinha suso dito. traiçoeirinha como um rabo de gota de orvalho. por se defender – 245 – . em mim. é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada. onde é que alguma jaratataca acuou.João Guimarães Rosa . Esse sujeito Antenor sabia coçar queixo de cobra e semear sal em roças verdes. ah. Palavra pegante. João Goanhá – fortes no fato valor e na lealdade. A bem dizer. com a boa noção vinda de sua redondice de atinar. e nesse meio-tempo punha toda confiança no Hermógenes. em Titão Passos. Ações? O que eu vi. Mas. e do Ricardão. para mim. uma árvore: lugar fedido. aquilo tudo era – era assim como um lugar com mau-cheiro. Disse só que decerto Joca Ramiro estava formando gente e meios para vir em ajuda de nós. aquele Antenor concordou. em paz regalada mas por igual nos combates. cedo tomei experiência de homens por homens. Vulto perigoso. jagunços em lei. Aquele Antenor já tinha depositado em mim o anúvio de uma má idéia: disidéia. Gabei o Hermógenes.Grande Sertão: Veredas Eu escutei. sempre. aprovou o quanto eu disse. não acreditei. no campo. nas ações – o Garanço me preveniu. que vai rompendo rumo. bispei. Sou lá para achar nenhuma coisa. a que por minhas costas logo escorreu. dada ou guardada. principal. Mas realçou mais altamente a fama do Hermógenes. Não tinha nascido no ontem. Que explicação dou ao senhor? Acreditar. Com isso. Respondi? Ah. também – esses dois seriam os chefes de encher a mão.

eu tinha recebido. depois que o castigo passou e veio. nem o nome dele não podia à toa se babujar. sem tino nem prosápia. somente vivia pensando em lucros. ferro! Cacei Diadorim. foi de ouvir que alguém pudesse duvidar do proceder de loca Ramiro: loca Ramiro era um imperador em três alturas! loca Ramiro sabia o se ser. Diadorim não deu a devida estimação às minhas palavras. do novo e do velho. Eu acho que. um raio de momento. falei. um bom jagunço. cabo-de-turma. E o Ricardão.Grande Sertão: Veredas do latido dos cachorros. por via disso. E grande aviso. eh. dono de fazendas. mas menos do que ouvi. mal foi que falei: em zanga – desrazoadamente – e de primeira entrada. Aviso? Rompe. não é para se evitar o castigo. mas desmerecido de situação política. Diadorim. real. O Hermógenes? Certo. Ricardão? Sem Joca Ramiro. mas só para se ter consolo legal. Alheio. governava. do Ricardão – 246 – . De que valeu? Aviso. eles num átimo se desaprumavam. rico.João Guimarães Rosa . naquele dia. Só ojerizado em estilos ele esteve. quase toda a vez que ele vem. do que do que eu tinha de certo modo adivinhado. Mas eu estreava umas ânsias. E aqueles outros: o Hermógenes. Acho que. Como fosse. deste mundo desapareciam – valiam o que pulga pula. querendo dinheiro e ajuntando.

. e que não sei em que mundo-de-lua eu entrava minhas idéias. O Hermógenes tinha seus defeitos. se carecesse – eh. se é ou se não é. para o enfim?” Aí. recontar seus brabos entre as mãos e os dedos. Se sendo etcétera.João Guimarães Rosa . Mas. deixando de farear o mudar do tempo? Viesse.. Sou é muito cauteloso. Quem sabe Joca Ramiro. e fechou a boca forte. Mais em paz. por que é que não vamos levar informação sutil a loca Ramiro. mas puxava por Joca Ramiro.Grande Sertão: Veredas era que ele gostava menos: – “Ele é bruto comercial. Ao que eu ainda não tinha prazo para entender o uso. eu mais uns dias esperasse. não estava esquecido de conhecer os homens. Diadorim foi me desinfluindo. que eu desconfiava de minha boca e da água e do copo. Nasci devagar. Mau não sou. ao tanto que escondi minha raiva. na lei da caminhação. devia de mandar embora aquele monstro do Hermógenes. Diadorim pôs muito os olhos em mim.. comigo mais. Eu então disse. Joca Ramiro podia detalhar o podre do são. Diadorim. vi que com um espanto reprovador. fiel – punia e terçava. Que.. Podia. e ia ver o ganho do sol – 247 – . não me achasse capaz de estipular tanta maldade sem escrúpulo. Cobra? – ele disse? Nem cobra serepente malina não é.” – disse. refalei muito. uai: se matava!. pelo conseguinte: – “A bom e bem. feito fosse cuspir.

no meu. e os todos sacrifícios. do igual o igual. ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. barganhando ajudas. é diferente. Sei. era o Fafafa. para mim. Mas a natureza da gente é muito segundas-e – sábados. a mor – disso crio razoável lembrança – era o significado que eu não achava lá. Que eu não entendia de amizades. Amigo era o braço. Ou – amigo – é que a gente seja. Sesfredo. Digo ao senhor: nem em Diadorim mesmo eu não firmava o pensar. Amigo meu era Diadorim. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro. no meio onde eu estava obrigado.Grande Sertão: Veredas nascer. desarmado. e saírem por este mundo. Mesmo repensando as palavras de Diadorim. então. e receber. Voltei da raiva. Só isto. versáveis. é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar. Ele não quis me escutar. e o aço! Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah. naquele grau de gente. para mim. Tem dia e tem noite. não. eu gostava. o Alaripe. permanecente. eu não gostava dele? Em pardo. Amigo. Gostava e não gostava. O de que um tira prazer de estar próximo. amigo.João Guimarães Rosa . Antes o que me atazanava. eu apurava só este resto: – 248 – . Naqueles dias. em amizade de amor. quase. sei que. mas sem precisar de saber o por que é que é. no sistema de jagunços.

a alguma coisa. estragando minha mocidade. vinha por sobre mim. Só Diadorim. Quase tudo o que a gente faz ou deixa de fazer. Só é possível o que em homem se vê. Nos soturnos. Longe é. mesmo depois. Nas larguezas do sono da gente. deslealdades. me sujeitava àquilo? Eu iame embora. Aí. igual palpite de amor. Nunca. do sofrimento dos outros. como naquele tempo. Eu sabia.João Guimarães Rosa . sonhei coisas muito duras. não é. foi que de verdade eu acreditei que o inferno é mesmo possível. homem que tirava seu prazer do medo dos outros. E mesmo forte era a minha gastura. de conversar e mais ver. Malagourado de ódio: que sempre surge mais cedo e às vezes dá certo. traição? Há-de-o. Quem era assim para mim Diadorim? Não era. aquela ocasião. no fim. pelo próprio dito de estar perto dele. Sem rumo. fosse no que fosse. por via do Hermógenes. Mas era por não agüentar o ser: se de repente tivesse de ficar separado dele. vi. e por que causa. Ele estava caranguejando lá. E aquele inferno estava próximo de mim. Tinha de ir embora. E eu não tardei no meu querer: lá eu não podia mais ficar. e. sem paga de preço. a alguém. – 249 – . Em escuro. o Sem-olho. Traição? Traição minha. arre.Grande Sertão: Veredas que tudo era falso viver. Estava arriscando minha vida. pelo nunca mais. Esse Hermógenes – belzebu. o que por homem passa. O Hermógenes. Donde eu tinha vindo para ali. eu nunca soube tanto disso.

sem encaminhamento nenhum.. também. Diadorim. se era que andava. que ia m’embora. para isso. aquela graça. Ah. A vivo. Assaz. Que é que queria? Não quis o que estava no ar. gostava da banda de fora de mim. no tolher. na sala do teatro. Maiormente. não me entendia. testalto. Foi mesmo aquela vez? Foi outra? Alguma. Só os olhos negavam. como quando carrega para toda chuva. foi. mas. Teve um instante. sério. eu tinha percebido? Eu estava me sabendo? Meu corpo gostava do corpo dele.. Diadorim me esbarrava. era um nome só. ficar assim. acho que me acuso: que não tive um ânimo de franco falar. Se engrotou. nem eu. Diadorim não me entendeu. naquela hora eu gostava dele na alma dos olhos. fugia. bambeei bem. Onde é que estava Diadorim? Nem eu não imaginava que pudesse largar Diadorim ali. Mas. bobamente. quando ia.João Guimarães Rosa . Decerto vinha com o nome de Joca Ramiro! Joca Ramiro. Vi – ele mesmo não percebeu nada. ele me olhou – os olhos dele não me deixaram. Falei sonhando: – “Diadorim. comigo tinha de ir. me alembro. sem autoridade nenhuma avistável. Meu corpo gostava de Diadorim. lorpa. andava por longe. As tristezas ao redor de nós. Esse nem a gente conseguia exato real. Ele era meu companheiro. mandei vir uma idéia de mais longe. você não – 250 – . Estendi a mão. Se fosse eu falasse total.Grande Sertão: Veredas A já. para suas formas. o arisco do ar: o pássaro – aquele poder dele. Eu podia pôr os braços na testa. Tive um gelo.

De tristeza. ele não tinha: – “Só tenho Deus. de sem-tempo. e você. fui abaixando os olhos – – 251 – . o que é o cão e a criatura. para o Curralim. chamado Os-Porcos. Riobaldo.Grande Sertão: Veredas tem. – “Até te falaram nele. juntos. Aos tantos. de meu falar... eu já soubesse demais – que Joca Ramiro se realçasse por riba de tudo. de uma sede.... Mas pude ter a língua sofreada. o que muda melhor.” Aquilo. Diadorim?” – voz minha. reinante.” – ele declarou. tristes águas. que resposta? Sei quando a amargura finca. ou para aquele lugar nos gerais.. rompe para diante na parede.. de correta amizade. – “Leopoldo? Um amigo meu. Hê. – “Diadorim. não terá alguma irmã. nem sei porquê.. que morreu seu amigo?” – eu indaguei. eu perguntei. Sei lá se ele riu? O que disse. para o porto do de-Janeiro.. – “Vamos embora daqui.. Antes já eu estava para trás de ter perguntado. onde seu tio morava. palavras fora da boca. São-Gregório. para o sertão do baixio. então quem foi esse moço Leopoldo.João Guimarães Rosa . Irmã nem irmão.” De arrancar. Diadorim? Vamos para longe. mas de alegria ele bate inteiro e duro. coração posto na beira. Joca Ramiro. eu não estava pensando naquilo.” – e Diadorim desfez assoprado um suspiro. Riobaldo? Leopoldo era o irmão mais novo de loca Ramiro. de medo. Riobaldo. que até dói. coração bate solto no peito.

era ele primeiro perguntar: – “E o Reinaldo?” . com anuídos. porque já estava acostumado com eu e Diadorim sermos dois. me seguia em tudo. em dei. e vamos!” – e que Diadorim era para vir depois. e fazendo uma cara de entender. Não conseguia.. esse ia comigo. Estava cozinhando pequis. era pobre homem à espera de qualquer ordem cordial. eh. – 252 – . Ele me ouvia. O que eu tinha falado era umas doideiras.” – ele assim dizia. Diadorim esperou. Assombrei de mim. Estava lá. Ele era irrevogável. mas era: que carecia era de alguma amizade. nós!. querendo esquecer ligeiro o atual. Então. eu saí dali.Grande Sertão: Veredas constando que Diadorim me agarrava com o olhar. Segredo. cabeçudo como uma cigarra. Isto ele mesmo nem sabia. numa lata. Então. corre que um silêncio de ferro. por alguma banda de sua natureza ele se desapartava da jagunçagem. servia de companheiro para fugirmos. Ao que bastava um meu maior cochicho. curvado. Ladeei conversa. e o Garanço vinha. Minha cara estava pegando fogo. eh. o Garanço.João Guimarães Rosa . de desprezo. desdenhado. eh. Garanço. Bom. O mais que pudesse haver. Andei. Só conseguia demonstrar os tamanhos de sua cabeça. de duvidar da minha razão. até que lembrei: o Garanço. e ele querer ser o três. O Garanço tinha alguma diferença. eu respondi: – “Segredo. – “Eh..

Mas teria sido? Agora. Que era que eu ia fazer. governado por meu querer e por minha idéia. O senhor sente? Desmente? Eu desminto.João Guimarães Rosa . às fugas com aquele prascóvio. eh. Em Diadorim era que eu pensava. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balancê. como o rio redobra. que era criatura de simples coração. Contar é muito. Desse no que desse.. no que eu riscasse. Quero sombra? Quero eco? Quero cão? Não. nós. Aceitei não. não expliquei nada. O Garanço se regalava com os pequis. tão satisfeito. O que eu falei foi exato? Foi. acho que nem não. de fugir junto com ele era que eu carecia. daquilo não provo: por demais distraído que sou. Algum dia.” – o Garanço reproduzia. Digo ao senhor: naquele dia eu tardava. mais um tempo.Grande Sertão: Veredas Mas eu não cheguei a falar. – “Eh. muito dificultoso. sempre receei dar nos espinhos. mas falo falso. no meio de sozinha travessia. com ele eu não me fazia. podia Diadorim mudar de tenção. melhor esperar. eu ia ficando. um companheiro assim não aumentava segurança minha nenhuma. São tantas – 253 – . Minha amizade sobrou um pouco para ele. Ah. craváveis em língua. nos sertões da Jaíba? Ele só sabia cumprir obediência. não quis.. de se remexerem dos lugares. pelo sul e pelo norte. relando devagar nos dentes aquela polpa amarela enjoada.

João Guimarães Rosa . Não valia? Não fiz. As razões de não ser. me matassem? Morria com um bé de carneiro ou um au de cão. madrugada. e menos idéia. calado. Sempre tive. Quem sabe nem pensei sério em Dia~ dorim. encostava no São Francisco bem de frente da Januária. Hoje. chegava em terra cidadã. passava o São Felipe. estava no pique. Quanto pior mais baixo se caiu. Ou me pegassem no caminho. De mim. Medo de – 254 – . foi em vezo de desculpa. toda mentira aceito. as Vinte-e-Uma-Lagoas. varava mais dez. mesmo. tantas coisas em tantos tempos. varava dez léguas. aventurando? Acho que eu não tinha conciso medo dos perigos: o que eu descosturava era medo de errar – de ir cair na boca dos perigos por minha culpa. passava. pensei algum. tinha escapulido. Mas eu fui sempre um fugidor. as serras. em enormes voltas e caminhadas. tudo miúdo recruzado. Medo de errar. isso sim. aventurando. ou. me escondia do largo do sol. Como ia poder me distanciar dali. sei: medo meditado – foi isto. mas tinha sido um mais destino e uma mor coragem. Ao que fugi até da precisão de fuga. O senhor não é igual? Nós todos. Se eu fosse filho de mais ação. daquele ermo jaibão. no estar da noite.Grande Sertão: Veredas horas de pessoas. Desculpa para meu preceito. maismente um carece próprio de se respeitar. certamente. bebelos ou Hermógenes. meiamente. O que foi que eu pensei? Nas terríveis dificuldades.

o Delfim tocando a viola. com o Diodolfo. companheiro tropeiro. O senhor tece? Entenda meu figurado. Conforme lhe conto: será que eu mesmo já estava pegado do costume conjunto de ajagunçado? Será. e douradinha e douradão.” – saudavam.Grande Sertão: Veredas errar é que é a minha paciência. a gente estava salva. um bentinho com virtudes fortes.. Leocádio dançava um valsar. dito de sãossalavá e cruz-com-sangue.. que depunham por mim com uma estima diferente. Lindorífico me cedeu. Aí a troça em beirada de fogueiras. O senhor fia? Pudesse tirar de si esse medode-errar. E o Elisiano caprichava de cortar e descascar um ramo reto de goiabeira.. Eu nem sabia. ele que assava a carne mais gostosa. a gordura chiando cheio. as beiras tostadas. E o Fonfredo cantava loas de não se entender. o Ventarol roncasse – ele possuía uma rede de casamento. com chuva de rendas rendadas. o Duvino de tudo armava risada e graça. o vuvo de falinhas e – 255 – . dormindo o tempo todo. de bom algodão.João Guimarães Rosa . fio e sovela: consertou minhas alpercatas. só porque se tinha viajado juntos. por cima de couros de rês. Gostar ou não gostar. vindo do dasVelhas: – “Viva. e Geraldo Pedro e o Ventarol que queriam ficar espichados. e João Vaqueiro.. Aí e o Jenolim e o Acrísio. Um ainda não é um: quando ainda faz parte com todos. Assim que o Paspe tinha agulhas grandes. Ao que se jogava truque. isso é coisa diferente. sei. Mal. por troco de espórtula. O sinal é outro.

sempre atencioso. Tudo em contra. por paz e por guerra. eu pouco visse Diadorim. Saísse dali. amizade nossa padecesse de descuido ou míngua.. gente vivendo sorte. não queriam ir embora? Reflita o senhor nisso. o senhor esteja crendo que. que todos iam contando. Pode até ser. Com os casos. Saísse de lá.João Guimarães Rosa . a afeição nossa era duma cor e duma peça. Diadorim. se cumpria o grosso de uma regra. esmarte. escapulas milagrosas. constante um não muito longe do outro. Diadorim e eu. De manhã à noite.. perigos tantos vencidos. Não carecia de calcular o avante de minha vida. é o justo. Ali eu estava no entremeio deles. Com tantos. a gente parava em som de voz e alcance dos olhos. Artes que havia uma alegria. Homem foi feito para o sozinho? Foi.Grande Sertão: Veredas falas. que foi o que depois entendi vasto. Alegria. altas coragens. por termo havia de vir um ganho. no arrancho do acampo. no encorpar da noite. por meu desmazelo de contar. Mas eu não sabia. de cor para a morte. a qual era aquela. correto em seu bom – 256 – . Desistir de Diadorim. esse negócio. foi o que eu falei? Digo. Aquilo. eu não tinha contrafim. como não havia de ter desfecho geral? Por que era que todos ficavam ali. era uma gente. com eles. e não se desmanchava o bando. tudo virava obrigação minha trançada estreita. desdigo. O engano. de combates e tiroteios.

” Mas. Comum de benquistar e malquistar. – “Eta. por tudo. depois. nesta conversa minha abreviã? Veja o senhor. Coitado do Garanço. não foi estrito. E só.João Guimarães Rosa . Toda tardeza dele não deixava. então.Grande Sertão: Veredas proceder. jalofo e bom. e você já matou seus muitos homens. de bondade e amizade. não desprevino. Seja? E. que eu salto isso. muitos anos. vai não vendo o que é bonito e bom. acho que nunca duvidou de coisa nenhuma. no Serem. o tempo – em repetido igual. Tão certo de si. Tive três filhos.. não lhe envergonho o desse. mesmo afirmo. que deixo de lado? Acho que o espírito da gente é cavalo que escolhe estrada: quando ruma para tristeza e morte. olhe: o que eu dele disse.. como não devia de. aquele Garanço. Sou algum medroso? E mecê encomenda o que. então... – 257 – . Por que é. o que é muito e mil: estou errando. que descobri. mano velho! Eh. me falava: – “Fui almocreve. eh. trivial – assim era que eu explicava ao senhor aquela verdadeira situação de minha vida. ele queria relatar. nós. no rifle que está em minha mão. não senti. Só senti e achei foi em recordação... em resumo. que sorte de jagunço recluta era ele – assim meninoso. Sei que. Estivesse contando ao senhor. Garanço?” – pois perguntei. naquela vez. Por que é. somente o que Diadorim viveu presente mim. ele repousava qualquer mau ânimo.” O Garanço. O riso dele ficava querendo ser mais grosso: – “Eh.

” – “Dele não me temo!” – eu respondi. Aí. Dado que eu nunca ia retribuir! Queria eu lá viver perto de chefes? Careço é de pousar longe das pessoas de mando. com dádivas e gabos. me chamava. Sou peixe de grotão. condizia um gracejo amistoso ou umas boas palavras. e caixas de balas. Riobaldo. nem parecia ser o bedegueba. Aquele Hermógenes me fazia agradados. Eu podia xingar com os olhos. Sempre me saudando com estimação. Quando gosto. Fiquei de ensombro. Diadorim notou. Me irava. o Hermógenes me presenteou com um nagã. pelos eternos – razão de mais distâncias. Aquele homem. Eu criava nojo dele. mesmo de muita gente conhecida. me deu conselho: – “Modera esse gênio que você tem. não percebia! Queria conversa. eu tinha de ir – ele era o chefe. Cuspi. também. carecia algum daquele. Nojo. não me transforma. Aversão que revém de locas profundas. tão enorme? Por insistências dele. Por cortesia e por estatuto. Nem olhei nunca nos olhos dele. demo que ele gostava de mim. quando desgosto. Estive para nem aceitar. com aquilo fiquei. mesmo. não estava definitivo. para mim. de tanto só cano. Mas. Eu já possuía revólver meu. As pessoas não são tão ruins agrestes. E arre que ele não desconfiava. Aquele Hermógenes era matador – o de judiar de – 258 – . depois.Grande Sertão: Veredas O senhor entenderá? Eu não entendo. em mal. é sem razão descoberta.João Guimarães Rosa . já disse ao senhor. eu tinha de responder. Ninguém.

Mas logo fomos para acomodar. lá pernoitamos. Buritis Altos. nas serras dos gerais. esse Hermógenes – eu padecia que ele assistisse neste mundo. era assim que eu sentia. O senhor tolere e releve estas palavras minhas de fúria. por o mal aceso de uma lamparina. Tudo cabe. Acho que. numa rebaixa de engenho-de-pilões. nascente de vereda. nem sei se sou assim mais. João Vaqueiro e Jesualdo. Alaripe. disto. sofria. e os compridos cabelos. Conforme contei ao senhor. Que quando só vislumbrei graça de carinha de riso e boca. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas. com Diadorim.. Ah. Meus ouvidos expulsavam para fora a fala dele. quando Otacília comecei a conhecer.. Eu era assim. Quando ele vinha conversar comigo. entre os todos olhos. é até com ajuda do ódio que se tem a uma pessoa que o amor tido a outra aumenta mais forte. Do ódio. Eu. Hoje em dia. às vezes.João Guimarães Rosa . para dele me apartar. Coração cresce de todo lado. mas. Fazenda Santa Catarina. No que repontávamos de – 259 – . e descarregar nele tiros. no silêncio da minha raiva eu pedia até ao demônio para vir ficar de permeio entre nós dois. Coração mistura amores. Minha mão não tinha sido feita para encostar na dele. sei. sendo. Eu podia rechear de balas aquele nagã próprio. num enquadro de janela. e o Fafafa.Grande Sertão: Veredas criaturas filhos-de-deus – felão de mau. matas e campinas.

para o céu. A Fazenda Santa Catarina era perto do céu – um céu azul no repintado. E a fogo-apagou sempre cantava. o frio de saúde. Mas eu dormi com dois anjos-da-guarda. com florezinhas amarelas. num tombado. com uma vontade vã de ser dono de meu chão. Venho vindo.Grande Sertão: Veredas dura viagem: tudo o que era corpo era bom cansaço. de donde descem borboletas brancas. sempre.João Guimarães Rosa . a gente não vê o virar das horas. as flores no campo. trabalho de segurar a alma e endurecer as mãos. A frente da fazenda. Figuro que naquela ocasião tive curta saudade do São Gregório. que passam entre as réguas da cerca. tinha só um gramado limpo e uma restinga de cerrado. respeitava para o espigão. E – 260 – . Ali. o canto da fogo-apagou tem um cheiro de folhas de assapeixe. na tiração de leite. e no vassoural comido baixo. Depois de tantas guerras. nas galinhasd’angola ciscando às carreiras no fedegoso-bravo. Quero bem a esses maios. até hoje. A gente estava em maio. pelo gado e pelos porcos. Para mim. o sol bom. Entre os currais e o céu. com as nuvens que não se removem. num papudo que ia carregando lata de lavagem para o chiqueiro. os finos ventos maiozinhos. de velhas alegrias. O que lembro. tenho. meu por posse e continuados trabalhos. eu achava um valor viável em tudo que era cordato e correntio. Estas coisas eu pensava repassadas.

. Aquela visão dos pássaros. amuado. Otacília eu revi já foi na sobremanhã. Principal que eu via eram as pombas. aquele assunto de Deus. Essa principiou a nossa conversa. avô. altas. mas. O ar dos gerais. cruzando do mato. que tratavam de seu voar antes do mormaço. em xicrinhas. já passaram mais de vinte verdadeiras. Otacília era a mais. Fui eu que primeiro encaminhei a ela os olhos.Grande Sertão: Veredas estava lá. E as verdadeiras. pombas bando. a tão. Ela era risonha e descritiva de bonita. hoje-em-dia. Minha Otacília. – “Ah. com escolha de poucas flores. regrei minha língua. Trouxeram café para nós.. o senhor sabe. o senhor bem entenderá. em seu realce de mocidade. é branca e delicada. depois de uma conversa com o velhozinho. mimo de alecrim. nos gerais. na beira da alpendrada. que contava. Aí. tinha um canteirozinho de jardim. outra vez.” – palavras de Otacília. Tomamos farto leite. me dava pejo de muito dizer. longe num emperreio. Salvo uns risos e silêncios. Toda moça é mansa. Ao que ficamos por ali. a firme presença. Molhei mão em mel. Das que sobressaíam. Mas. era – 261 – . à-toa. fina de recanto. Ela apareceu. falei dos pássaros. nem ficava bem conveniente. Dioadorim era quem tinha me ensinado. No bebedouro. Mas Diadorim agora estava afastado.João Guimarães Rosa .

e eu urgido quase aflito. Consoante. – “Casa-comigo. boca cheirosa.” – Otacília baixinho me atendeu. me virei para onde lá estava Diadorim. respondem: – “Dorme-comigo. plantam dela em porta da casa-defazenda. as mulheres livres. “Assim era que devia de haver de ter de me dizer aquela linda moça Nhorinhá. E essa flor é figurada. porque era de sentimento. se chamava – mas para os namorados respondido somente. pensei. outras. Nhorinhá prostituta.Grande Sertão: Veredas uma flor branca – que fosse caeté. De propósito plantam. Confusa é a vida da gente. Aí. a flor do amor tem muitos nomes. Não – 262 – . eu disse: que estávamos falando daquela flor. Chamei Diadorim – e era um chamado com remorso – e ele veio. se chegou. Porque. pimenta-branca. filha de Ana Duzuza. E. e que também gostou de mim e eu dela gostei. no meio do momento. Ou não era? Daquele curto lisim de dúvidas foi que minou meu maisquerer. mas o tiritozinho de sua voz eu guardei e recebi. o bafo de meninopequeno. tirou de mim os olhos.. Ah. como esse rio meu Urucuia vai se levar no mar.. para resposta e pergunta. nos Gerais confins. Eu nem sabia. por alguma coisa dizer. tal. o senhor sabe? Morada em que tem moças. dadas. Indaguei o nome da flor.. E o nome da flor era o dito. no dizer. e parecia um lírio – alteada e muito perfumosa.João Guimarães Rosa ..

. qual sendo? – perguntou inocente.Grande Sertão: Veredas estávamos? E Diadorim reparou e perguntou também que flor era essa. vi que ela não gostava de Diadorim.João Guimarães Rosa .. altaneira disse. quando em olhar eles dois não se encontraram. O que informou. meio abertos’ meio fechados? E essa moça de quem o senhor gostou. morto à mão.. tão esmerado e prezável.. – “Ela se chama é liroliro. – 263 – . tinto todo de seu sangue. antipatias. Diadorim era mais do ódio do que do amor? Me lembro. E Diadorim? Me fez medo.” – Otacília respondeu. semelhava um milagre. os olhos dum terminado estilo. Aquilo. Digo ao senhor que alegria que me deu. Ele estava com meia raiva. Diadorim. Ela não gostava de Diadorim – e ele tão bonito moço. para mim. Não gostava? Nos olhos dela o que vi foi asco. e os lábios da boca descorados no branquiço. O que é dose de ódio – que vai buscar outros ódios. Como foi que não tive um pressentimento? O senhor mesmo. o senhor pode imaginar de ver um corpo claro e virgem de moça. esfaqueado. nesse dia. lembro dele nessa hora. que era um destino e uma surda esperança em sua vida?! Ah. E tantos anos já se passaram. tão remarcado.

. amarguras e perigos. Riobaldo. falou: – “Promete que temos de cumprir isso. e serviu aos companheiros quase todos. e era perfumada. bem que se esforçava. Você cruza e jura?!” Jurei. a que me suplicou os carinhos vantajosos. por altos e baixos. até. Afiançado.. Mesmo. O senhor sabe o que isso é? Desdeixei duma roxa. malandragem. enquanto a gente estivesse em oficio de bando. E outra. feito jurado nos Santos-Evangelhos! Severgonhice e airado aveio servem só para tirar da gente o poder da coragem. jejuei de nem não ver mulher nenhuma. fazia tempo. Diadorim guardou raiva de Otacília. Quase desde o princípio. Tive penitência. E uma rapariga. me intimou a um trato: que. ressalvo é as poesias do corpo. Por um prazo. Vai. que nenhum de nós dois não botasse mão em nenhuma mulher. E. O senhor espere o meu contado. e vem. só aos poucos é que o escuro é claro. proseava gentil sobre as sérias . mas valente em qualquer praça. que passou de viagem.Desde esse primeiro dia. e tantas. E mesmo eu podia ver que era açoite de ciúme. eu já sabia. Não convém a gente levantar escândalo de começo. Prometi. naqueles meses todos. das de luxo. a gente vivendo em par a par. Mas Diadorim dava como exemplo a regra de ferro de Joãozinho Bem-Bem – o sempre sem mulher. o roer daquilo ele não conseguia esconder. Que Diadorim tinha ciúme de mim com qualquer mulher. Se nem toda a vez cumpri.

ele me pagava com seu respeito.. fosse eu caso perdido de lei. De meus sacrifícios. Me dava raiva. ele soube. Que direito um amigo tinha. Tenho minha força de homem!” Gritei. ele quase viu: eu tinha gozado hora de amores. Um modo. Um dia. Mas entramos num arraial maior. Diadorim não me acusava. na asperidão sem tristeza. de querer de mim um resguardo de tamanha qualidade? Às vezes. para formas. não. com uma mocinha formosa e dianteira. mas Diadorim me vigiava. Não acreditei em juramento. me disse nada menos nada. Desabafei. Diadorim me olhasse com um desdém. tinha beleza. disse a ele coisas pesadas. descorrigido em bandalho. sempre tive fogo bandoleiro. com mais. falseando. não me importava. e com mais amizade. disse.. – “Não sou o nenhum. mas padecia. mesmo ofendendo. não sou frio. no não poder. Ele saiu para longe de mim. nem naquilo de seo Joãozinho Bem-Bem. até ele chorasse. Diadorim soube o que soube. De déu em demos. – 265 – . morena cor de doce-de-buriti. eu mesmo foi que uns dias calado passei.João Guimarães Rosa . Ao que me acostumei. E era para eu ter pena? Homem não chora! – eu pensei.Grande Sertão: Veredas imoralidades. tínhamos viajado muito para longe de onde ela morava. Então. eu ia deixar para a boca dos outros aquela menina que se agradou de mim. desconfio que. e que tinha cor de doce-deburiti e os seios tão grandes?! Ah. essa agora não estava a meu dispor.

sensata mas de muita ação. E ainda falhamos dois dias na Fazenda Santa Catarina. apartado da gente.João Guimarães Rosa . hora em mais hora embelezava. O senhor releve e não reprove. Minha alma. para mim. numa venda. Naquele primeiro dia. cinturinhazinha. Se chamava o lugar: São João das Altas. e um homem tirou instantâneo nosso retrato. o Fafafa. foi. Otacília não estava noiva de ninguém. sou senhor. E eu – como é que posso explicar ao senhor o poder de amor que eu criei? Minha vida o diga. que eu tive. Saí alegre do bordel. Foi melhorando. destinado. que me fez bem. naquele arraial. Sor Amadeu chefiava largo: grandes gados em léguas de alqueires. Ela não tinha irmão nem irmã. de mim. Demasias de dizer sobem com as lembranças da mocidade.. no hospedado daquilo usufruí muito. Diadorim firme triste. eu pude conversar outras vezes com Otacília. me lembro. acinte. Ele gostava. E – 266 – . Mulher esperta.Grande Sertão: Veredas com progresso de bordel. comercial. Depois. Se amor? Era aquele latifúndio. Conheci que Otacília era moça direta e opiniosa. que. e minha idéia esbarrada. Diadorim tomou conta de mim. Não estou contando? Pois minha vida em amizade com Diadorim correu por muito tempo desse jeito. perguntou se não tinham chá de mate seco.. Eu ia com ele até o rio Jordão.

para Medeiro Vaz.Grande Sertão: Veredas ia gostar de mim? De moça-de-família eu pouco entendesse. E que não tinha em minhas costas crime nenhum. o senhor sabe: de bel-ver.João Guimarães Rosa . Revirei meu fraseado. Aqueles? Diadorim e os outros? Eu era diferente deles. dei. sorrindo santinha no alto da alpendrada. pensamentos eu pensava. donde?” Se sorria. não cuspo no prato em que o bom já comi. A ser. assistindo na São Gregório. Quis falar em coração fiel e sentidas coisas. E eu não medi meus alforjes: fui contando que era filho de Seô Selorico Mendes. nem estropelias. a Rosa’uarda? Assim igual eu Otacília não queria querer.. guardada macia e fina em sua casa-grande. sem precisão de armas e golpes. E ela queria saber tudo de mim. – 267 – . bel-fazer e bel-amar. – “Donde é mesmo que o senhor é. Mas era o que eu sincero queria – como em fala de livros. mas que somente por cálculos de razoável política era que eu vinha conduzindo aqueles jagunços. sete. O que uma mocinha assim governa. salvante assente que da Rosa’uarda nunca me lembrei com desprezo: não vê.. dono de três possosas fazendas. Sete voltas. o bom foro e patente fiel de todos estes Gerais. mais ainda me perguntava. Poetagem.

porque até hoje tenho isso tudo do momento riscado em mim. com o garrulho de grandes maracanãs pousadas numa embaúba. Os de todos lindos olhos dela estavam me assinalando o céu com essas nuvens. Da banda do serro. sendo a noite. tinha o quintal. deitados em couros e esteiras – nem se tinha – 268 – . como que com eles fossem fazer um seu branco ninho. nas beiras matas escuras e águas todas do Urucuia. e nesse céu sertanejo azul-verde. Vindo na vertente. Eu tinha renegado Diadorim. que mais daí a pouco principiava a tomar raias feito de ferro quente e sangues. Nem nada não acreditava? Mas Otacília mudou para séria a feição do rosto. Daí. Digo. e o mato. algum vento suspendia e levava rabos-de-galo. e nas mangueiras. muito longe. que o sol dourejava.Grande Sertão: Veredas Fiquei esperando o que ela desse em resposta. aos pardos gatos. ermo dos Gerais. Outra nossa noite. se pegava no céu azul. de parte do poente. meu senhor? Lhe ensino: porque eu tinha negado. como a mente vigia atrás dos olhos. O sol entrado. renegado Diadorim. Já era para entardecendo.João Guimarães Rosa . não queria mais de minha vida só assim meiamente indagar. enorme. Mas. e por isso mesmo logo depois era de Diadorim que eu mais gostava. travei o que tive vergonha. A espécie do que senti. na rebaixa do engenho. Por que. com aquelas peças nuvens sem movimento.

O Jesualdo. – que gemia nas almas. amigo!. Dela devia de ser. sem saber se ela sim-se. Deitado quase encostado em mim. percebi que ele ansiava raiva. era que em alguma parte a lua estava se saindo.. pitou um cigarro.” – eu falei.. escutei um entredizer.João Guimarães Rosa . a mão-da-lua suspirou o grito: – Floriano. Fafafa e João Vaqueiro não esbarravam de falar. De repente. Daí.. quem é que sabia? – “Aquilo é poço que promete peixe. Diadorim formava um silêncio pesaroso. repesavam as vantagens da Santa Catarina. não toque no nome dessa moça. você está gostando dessa moça?” – 269 – . no escuro. deviam de estar agora desqueixelados.. mais o Alaripe também. Ninguém deu resposta. a mãe-da-lua pousada num cupim fica mirando. Então. Alaripe ainda esteve lá. Assim eu ouvindo o ciciri dos grilos. – “Riobaldo. foi. mexendo em tição.. No que eu pensava? Em Otacília.. Eu não queria conversa. foi. apaixonada abobada. Diadorim perto de mim. Na beira da rebaixa. Por longe. Eu parava sempre naquela meia-incerteza. – “Amigo. o que cada um sonhava. a fogueira feita sarrava se acabando. eles viam que era a sério fatal. foi.” – o Jesualdo disse. Ao que nós todos pensávamos as mesmas coisas. as idéias que já estavam se acontecendo eram maiores.Grande Sertão: Veredas o espaço de lugar onde rede armar.

E ele devia de estar mordendo o correiame de couro. Diadorim encolheu o braço.. meio deitado meio levantado... Deu para eu ver que ele estava branco de transtornado? A voz dele vinha pelos dentes. de estar brilhando. – “Você sabe do seu destino. naquela extrema hora. Cumpri como se deu. Aí estava ajoelhado na beira de mim. Como o diabo obedece – vivo no momento. eu não disse o nome de Deus? Ah. – 270 – . não sei. outra vez. – “Não.. Não tive medo de morrer. Tremi não. Diadorim.João Guimarães Rosa . o assopro do rosto dele me procurando.” – eu disse.. se defastou e deitou de corpo.Grande Sertão: Veredas Aí era Diadorim. com o punhal. – “Se nanja. O demônio sabe.” – eu respondi – “Pergunta. Deu para eu ver o punhal na mão dele.” Me diga o senhor: por que. sei não. não fiz esconjuro. – “Você sabe do seu destino. Riobaldo?” – ele reperguntou. meio ocultado. Estou gostando não.. Riobaldo?” Não respondi. neguei que reneguei. Os olhos dele dançar produziam. Só não queria que os outros percebessem a má loucura de tudo aquilo. Não me lembrei do poder da cruz. minha alma obedecia.

me vigiava. Nunca posso ter medo das pessoas de quem eu gosto. me enrolei bem no cobertor. feito uma gatazinha branca. e até as seriemas podiam se atontar de gritar. outro tempo. Saí. Esperei mais. jogado de dormir. E. Ilusão minha. e esperanças. adiantado na noite. Daí. entre claridade e sombras. vim voltando. Eu tinha dó de Diadorim. Só olhava para a frente da casa-da-fazenda. a fantasiação. Tornei a entrar na rebaixa. Com muito. Bebi água do rego. Mas lá não estava pessoa nenhuma.Grande Sertão: Veredas Assisado. com o frio da noite ela corria morna. com todas as novas dúvidas e idéias. eu ia com meu pensamento para Otacília. me levantei. rezada. Mas a lua subia estada. as estrelas se sumiam para dentro. no claro de uma espertina. do vulto de árvores da mata cercã. Ao que fiquei bom tempo encostado no cajueiro da beira do curral. senti a respiração dele. Não tive receio. imaginando Otacília deitada. Me balanceei assim. Diadorim. no cavo dos lençóis lavados e soltos. fosse? Não virei a cara para ver. Era da borda-do-campo que a mãe-da-lua sofria seu cujo de canto. de repente. abençoando redondo o friinho de maio. Diadorim permanecia lá. Tomei a altura do sete-estrelo. em tanto piongo. Quando a lua subisse mais.João Guimarães Rosa . ela devia de sonhar assim. mas não adormeci. De perto. Digo. remissa e – 271 – . em tanto gaio. pressenti que alguém tinha vindo por detrás de mim.

excelentes produções. como eu. Nós almoçamos e montamos. e que o tempo que carecesse me esperava. ia tomar seu banho em poço de córrego. Desde o que. para o trato de nosso casamento. da Vereda-Funda para a Ratragagem. depressa eu tornei a me dormir. até que. e que não desgostava que eu viesse a ficar neto dele. Não que eu acendesse em mim ambição de teres e – 272 – . cedo no amanhecer. devo de ter adormecido – porque acordei quando Diadorim no mexe leve se levantou. disse que havia de gostar era só de mim. por alegria minha. e com notícia urgente: que o grosso do bando de Medeiro Vaz recruzava. Alaripe. e pedi meu destino a Otacília. Não fosse um. Por breve – pensei – era que eu me despedia daquela abençoada fazenda Santa Catarina. Diadorim. das barras no clarear. tempo-doverde no coração. Mas eu cacei melhor coragem. Saí de lá aos grandes cantos. com o vago. Mas. Eu aí gostava dele. e nós tínhamos de seguir. eu pudesse vir com jus. disse a Deus que esse ente eu abraçava e beijava. No que Nhô Vô Anselmo me deu um dito afeiçoado e diferente – entendi que o velhozinho sabia de alguma coisa. o sor Amadeu tinha chegado. e o Fafafa. levando a capanga. Jesualdo e João Vaqueiro se retiraram em adiantando. supraditamente.Grande Sertão: Veredas delicada. saiu sem rumor.João Guimarães Rosa . sem folga. E ela. E. de lá a quinze léguas.

Mas. por onde queria. Sentimento preso. sempre uma parte de mim ficou lá. A poeira das estradas pegava pesada de orvalho. sofria. que apartasse – destinado para nós dois – um buritizal em dote. minha vontade de amor. desde vez? Por que era que eu precisava de ir por adiante. – 273 – . nas roupagens. nestes Gerais meus? Destino preso. às vezes me lembrava. eu pensava: nas rezas. o sor Amadeu.João Guimarães Rosa . no meio do solene. Otacília. Por que eu não podia ficar lá. com um significado de paz. com Diadorim e os companheiros. pai dela. Vim. atrás de sorte e morte. às vezes mais. Destino. desse dia desde. na mesa grande com comedorias e doces. eram mesmo meus fortes pensamentos. com toda sua roxidão. consoante é da vida. Às vezes menos. Diadorim e eu viemos. Às vezes me esquecia. O birro e o jesus-meu-deus cantavam. Foram esses meses. roxura. de amizade de todos. e. quando eu pensava em Otacília. sabia.Grande Sertão: Veredas haveres. Diadorim adivinhava. o mais. Mas. foram anos. e do que sei. com Otacília. queria era só mesma Otacília. Mas. Mas Diadorim. O melosal maduro alto. vim. de rota abatida. me levava. na festa. Diadorim nada não me disse. Tenho que. Pensava nela. conforme o uso dos antigos. de sossegadas boas regras.

Vinham por nós. mas a sobre-coisa. o sim.Grande Sertão: Veredas Essas coisas todas se passaram tempos depois. por aí. em minha história. obra de seis léguas. Medo. no meio dos Hermógenes. Todo o tempo eu vinha sabendo que nosso fim era esse.João Guimarães Rosa . Não sei contar direito. É ignorância. Agora. Mudamos de acampo. Respeitava a finura dele – Zé Bebelo: sempre entendidamente. Eu não converso com ninguém de fora. Légua.. – “É agora! É hoje!. não. mas perdi a vontade de ter coragem. O senhor tolere minhas más devassas no contar. Eu não podia imaginar que ia entrar em fogo contra os bebelos.” O Hermógenes reunia o pessoal.. no meio do dia. com o senhor. a outra-coisa. quase. E eram só uns sessenta. para perto. não era verdade – mas. Como eu estava. todos. Talhei de avanço. neste dia nosso. eu prezava Zé Bebelo como amigo. A gente carecia de levar o préstimo maior de – 274 – . mas ele quer saber tudo diverso: quer não é o caso inteirado em si. patrulhão de cavaleiros. com o senhor mesmo – me escutando com devoção assim – é que aos poucos vou indo aprendendo a contar corrigido. Aprendi um pouco foi com o compadre meu Quelemém. para perto. eles estavam chegando. Destaque feito: Zé Bebelo vinha vindo. E para o dito volto. E tivemos notícia: a légua dali. E uma coisa me esmoreceu a torto. mas mesmo assim foi feito surpresa. De certo modo.

Diadorim.. não foi? Agarrei minha mochila. Ele joga seguro: por aí perto. Mas era.. Titão Passos. de mais próprio respeito. aquele tempo. Tudo estava sendo determinado decidido.. deve de ter outra tropa de guerra. prezável de passeata. me cortou de fazer mais perguntas.” – Diadorim me respondeu.. Da voz de homens e do tinir de armas em má véspera. para aquilo. Era? Hoje eu sei que não. não se podia deixar de receber um lufo de dureza. – “Zé Bebelo é arisco de aviso. Às armas. por um gesto. no arranchamento do Hermógenes.Grande Sertão: Veredas munição. Eu sei bem – essa a norma dele. João Goanhá. porque eu pensava que era. Que era que. Diadorim ia. uma coisa não referi ao senhor. traição. – “Eles sabem. sem pepa de barro nem pó de turvação. e disse. Aonde? Diadorim. comi fria a minha jacuba. Toda guerra é essa. Ah. Carece de prevenir o Hermógenes. e muita coisinha se empequenava.João Guimarães Rosa . até o que a gente tinha de fazer depois. que eu tinha de zelar por vida e pela dos companheiros. Agora. Riobaldo. depois mais do tudo que houve.. que se pudesse.” – eu não retive. prontos para virem dar retaguarda. em esconso.... minha amizade com Diadorim estava sendo feito água que corre em pedra. isto também sim: era. E eu estava sabendo que eu já dizer aquilp era traição. Aí João Goanhá apartava o pessoal em punhados – 275 – .

.João Guimarães Rosa . limpavam a boca com as duas mãos. Quem quisesse rezar. – “Não é medo não. Foi minha mãe-de-criação quem costurou para mim. Pelas caras dos homens. e fez os passos de dança. que ainda careciam de ir por suas necessidades. parecia muito e pouco. eu nunca tinha dado fé daquele Feijó? – “A vamos. contritos. acompanhavam.Grande Sertão: Veredas de quinze ou vinte: cada um desses. por sola das alpercatas e peito dos pés.. Restantes risadas davam. tinha praça. ele manobrava rifle de três canos. um sacudido oitavão. eu via que estavam satisfeitos. tive medo de castigo de Deus.. Terminou. a gente ouvia o gugo da juriti como um chamado acabado..” – um se exaltava assim. Daquele lugar.” Ajudei. vazio de moradas e de terras lavradias.. junto com lobo guará já dando gritos de penitência. é o trivial do corpo!” – explicavam alguns. devia de se reunir em lugar certo comum. amigos. zampando. Mas eu carrego dois. Outros ainda comiam. – 276 – . podia. íamos ter de brigar em pequenas quantidades.. outros. Era um montesclarense – acho que o cujo nome esqueci – que queria passar tiras de pano. acabado o fogo. Ao que faltava nem meia-hora para o sol ir entrando. aqui. Que simpatia demonstrada era essa.” Era o Feijó. Riobaldo. Daquela hora em diante. Com regozijo. reforçando. – “Presta uma demão. Hoje se faz o que não se faz. – “Toma este breve. maneiro nas juntas. um golinho se bebeu.

nas contravertentes.João Guimarães Rosa . de surpresa. e queria sair. já como o escuro. Conto que chegou o Hermógenes. ele que – 277 – . Ao menos ele sabia aonde ia levar a gente. quando passava. Um outro me esbarrou. até na beira do córrego Dinho. Aquele rapaz pensava alguma coisa? – “Riobaldo?” – Diadorim me disse – “arruma jeito de mudar de lugar. por má-sorte. Deu resumo do traço. na arte vagarosa. porqual os espias nossos rondavam. E põe cautela: homem rasteja por entre as moitas. disso. no durado da noite. sempre que puder. Se algum topasse com inimigos. na hora. gastar.Grande Sertão: Veredas assobiava. Mas. em volta.” Diadorim sorria sério. Que todos cumprissem. Podiam ter espalhado sentinelas muito longe. relampeando faca. A voz do Hermógenes. Cada um de seu Ponto melhor. andar. no clarearzinho da madrugada. logo se ia saber. Onde era que a viola ele ia poder guardar? Eu apertei a mão de Diadorim. Tudo tinha de valer Pm cnnsagato e finice. antes. ou para lá. Era o Delfim. e o que queria. violeiro. O que se tinha era de chegar. Só íamos abrir fogo. e engatinhar às ladeiras. até se carecia de respirar só por metade. que todos soubessem! A partida dos zebebelos estava com posição no Alto dos Angicos – tabuleirinho de chã. e vem pular nas costas da gente. dando ordens de guerra – já disse ao senhor? – ficava clara e correta. um podia dizer: que até ficava.

eu. devagar. e. catei o sentido de tudo já na primeira razão. e tudo repetia. de cada vez que ele repetia.” Para que vou mentir ao – 278 – . Porque nosso prazo seria acabar com todos. – “Riobaldo. Por jeito? Com o que se deu. mas só depois do Hermógenes – que era quem era o dono: – o primeiro tiro ele dava. e estava definido o rumo de tarefa por onde cada um devia de se pôr no chão e começar a engatinhar. virada arriba. Já vai que o Hermógenes explicava. à emboscada. para um reforço. mochilão. Peguei a sentir. que eu não contava. eu já estava lá. no próximo de meu cochicho. Me fiz fácil nas armas. Careço de três homens bons. ou dependesse na faca: atirar com arma é que não podendo. eu reproduzia – em minha idéia os acontecimentos se passando. mais antes que outros deles pudessem vir. Mas. com brevidade. e rastejava. me aprontava. num tombador de pedra.João Guimarães Rosa . de matar exato. com paciência: o dever absoluto era que até o mais tonto aprendesse. Mesmo assim. rede passada e um cobertor por tudo cobrir – ele estava parecendo até um homem gordo. O Hermógenes me chamou. Como cada qual tinha de atirar com sangue-frio. tu vem. Aí – as cintas e cartucheiras. Titão Passos ia com uns trinta companheiros reguardar o caminho de vinda. Sendo que podendo. Tatarana. Lugar nosso vai ser o mais perigoso.Grande Sertão: Veredas escorresse como pudesse.

. obedecia a uma regra alta. eu!” Joca Ramiro é que era – a obrigação de chefia.. Pensei em Joca Ramiro. Riobaldo.Grande Sertão: Veredas senhor? Com ele me apartar assim. E nem ele. fechado na idéia. que digo. Nem precisava mais de ter ódio nem receio – 279 – . que foi. fui sendo outro – eu mesmo senti: eu Riobaldo. Natureza da gente bebe de águas pretas. jagunço. Dentro de mim falei: – “Eu. um certo aprazimento me deu. homem de matar e morrer com a minha valentia. Mas Joca Ramiro parava por longe. que forte era.. fechado no couro. homem. acheguei meus dentes. sem pai. E. sem pertencências. eu. por cima de mim e dele. sem mãe. uma lei determinada. era feito uma lei. estava Joca Ramiro. Eu estava fechado. agarra gosma. naquela hora. como um escrúpulo. A pessoa daquele monstro Hermógenes não encostava amizade em mim. forte. sem índole nem gana. que espremi de minha sustância vexada. me conferindo valia. uma pancada de mar. só uma obrigação de chefia. não era. Com a dureza de querer. eu fiquei inteiriço. Quem sabe? Eu gostei. Mesmo com aversão. Pesei o pé no chão. Pensei nele só. Mas. aí. Riobaldo. Pensando: – “Joca Ramiro! Joca Ramiro! Joca Ramiro!.” A arga que em mim roncou era um despropósito. sem apego nenhum. A gente – o que vida é : é para se envergonhar. não obedecia àquele Hermógenes. Eu era feito um soldado..João Guimarães Rosa . Era um nome.

. – 280 – . mas deviam de ser só dois. Refiro ao senhor: mas tudo isso no bater de ser. desfeitos aos dois. no meio do combate. por Diadorim era que eu não dizia. pelos perigos que eu visse virem a ele. E Diadorim? – o senhor perguntará. E fui desertando da cobiça de mimar o revólver e desfechar em fígados. era noite.. para aquele montesclarense apontando. E assim respondi: que então o Garanço e o Montesclarense iam com a gente. Porque era como eu estava. Ah. Noite da Jaíba dá de uma asada. leão coração? Se sei. o pensamento nele me repassava.Grande Sertão: Veredas nenhum. viemos vindo. a conta já estava. duro ferro diante do Hermógenes. e este. é o que eu mesmo não sabia.João Guimarães Rosa . Já a já. Por quê? Por que. ele tinha que eu escolhesse os para vir juntos. Bem que eu queria também o Feijó. Aí. aqui!” – completei. ou seria que a lembrança de ter Diadorim junto. – “.. Só. me desgostasse.” – eu disse. naquilo. por me enfraquecer. O tempozinho todo. Como saímos. aos três. Dessas boas fúrias da vida. Eu? Ele estava me experimentando? E não tardei: – “O Garanço. naquele soflagrante. sei. E estúrdio: eu principalmente não queria Diadorim perto de mim. para as horas. aos sozinhos.. agora eu assim. Seria que me desvalesse a presença dele comigo.

pedindo tabaco-bom. Bobice dele – não via que o perigo torna a vir. Isso. toda vez ia se abaixar dez braças mais adiante. com grandes risadas. Nem o Garanço também. O caminhar da gente se media em silencioso. Digo ao senhor o que eu ia pensando: em nada.João Guimarães Rosa . Era assim: eu ia indo. Nisso mesmo era que eu não pensava. A quando o vulto dela assombrava em frente da gente no ar. Minha pessoa tomava para mim um valor enorme. gerados da noite – tantos bacuraus insensatos: o sebastião que chamava a fêmea. que sabe bem aonde vai. sabe sem barulho. De tantos matos baixos. Descarecia. eu a eles agradecia. Por lá a coruja grande avoa. nem o das alpercatas não se ouvia. do jeito mesmo. Aquele pássaro mede-léguas erguia vôo de pousado no meio da estrada.Grande Sertão: Veredas uma pancada só. carrascal. – 281 – . sempre? Digo tudo. não dizia palavra. pode ter conversa? Só esses pássaros de pena mole. eu fechava os olhos três vezes. Há-de: que se acostumar com o escuro nos olhos. em meu sentir. Conto tudo ao senhor. nem o Montesclarense. disse: matar-e-morrer? Toleima. conforme de comum esses fazem. O Hermógenes rompia adiante. esperando a novidade de cada momento. Só esforçava tenção numa coisa: que era que devia de guardar tenência simples e constância miúda. o chio dos bichinhos era um milhão só. Quem vai morrer e matar.

que esse. enxergava por nós. se jura sabença: o que preza o chão – o pé que adivinha. No outro lado. olhar assim. puxando. A gente espera vozes. mas lá se temia que tivessem botado sentinelas. Eh. Con chegamos. Caminhar de noite. Que olhos. Ali era o lugar pior: um estremecimento me desceu. o que viesse vinha. pulando pelas alpondras. em certas horas. No seguinte: como é que curiango canta. tudo não é sina? Nanja não queria me alembrar. Eu estava atrás – 282 – . senti o espaço da minha nuca. E com as mãos apalpávamos uns os outros. tinha de chegar num lugar. acontecia o seguinte. sabíamos de uma estiva. a noite barrava bruta. atravessamos o córrego. nenhuma. tudo é mesmo possível.João Guimarães Rosa . O Hermógenes. o Hermógenes esbarrou. mais para baixo.Grande Sertão: Veredas cumprindo ordens. Do escurão. por um trilho. A gente imagina uns buracões disformes. Dali em diante. É preciso não roçar forte nas ramagens. não partir galhos. era junto a junto. que nem o de suindara. Cada um com punhal a ponto. Digo ao senhor: a noite é da morte? Nada pega significado. Que o curiango canta é: Curí-angú! A obra de umas cem braças do riacho. no breu. aperrar as armas. Deitamos. de nenhum. o Hermógenes sussurrou ordens. Saiba o que eu mais pensei. Com meia-légua andada. descascavam de dentro do escuro qualquer coisa. Pouquinhas estrelas dando céu.

uma almêcega.João Guimarães Rosa . eles acordam com o cheiro da cara da gente. fazia parte. Naquela espera. carecíamos de persistir horas. Por isso mesmo. não concedem sossego. Fosse coisa de comer. Mais atrás de mim. O que eu queria era que tudo sucedesse. e eu não sou capaz de dar narração: retrato de pessoas diversas. toma. Desde fiquei. aquela resina de ici-í. – 283 – . A noite é uma grande demora. Era para se esfregar na cara e nas mãos. Aceitei. passante por suas pedras. Ah o que os mosquitos infernizavam. o riacho. não agradeci. direi. Nada não disse. a água perto.. os pensamentos que tive foram os que nem merecem.” – ouvi. coisas em vago das viagens que eu tinha feito.Grande Sertão: Veredas duma árvore. mal ou bem aquela noite tivesse termo de terminada. Era o Hermógenes. A noite durava. Aquilo era do serviço de armas. que a mosquitada não deixava? Mas não seria de mim que pudesse ferrar no sono assim perto daquele homem. era que Hermógenes tinha escolhido ali: que ninguém pegasse no sono.. pois então. príncipe das tantas maldades. ressalte de conversas tolas. Ao que os mosquitos deixaram de me ferroar. não aceitava. dando tempo. E esfreguei. bem. um taco de fumo me dando. Acender cigarro e pitar. que em forte cachaça ele tinha acabado de empapar. não se podia. me divertindo de beliscar a casca da almêcega. – “Tá aqui. os mosquitos vêm. Daí. Assim.

sobre toda a parte: a gente mal chega. As juntas da gente estalam. por mais de. eles vão se esparramando de acender. no chão.João Guimarães Rosa . Qualquer barulho sem tento. – estando com polaina não adianta. cotovelo e joelho é que transpõem. tem que ser. verte perigo. O que nós estávamos fazendo era uma razão de loucura muita. dá aviso ao inimigo. Carece de repartir frouxo o peso do corpo. sabe?: sem querer. o senhor vira o corpo num lado: e olha. coisa que só mesmo em guerra é que se quer. que se assusta forte a vôo. vai – sendo serepente – de gatoem-caça. e vai. no capim. O punhal travessado na boca.Grande Sertão: Veredas Haja de contar o que foi – o todo de se escorregar para cima a encosta – até ao ponto. Pássaro pousado em moita. donde a espera de tocaia devia de ser? Aquilo o igual. que se faz. Tudo um ai de vagar. sempre sendo. esses são mil demais. Às guardas. Um homem se arraiga em terra. o senhor tem de ficar o comprido que pode. qualquer mato ameaçava que ia bulir: com o inimigo vindo dele. na grama em redor é uma esteira de luz de fogo verde que tudo alastra – é o pior aviso. Pior são os que têm ninho feito. que chega aporreia. De cada vez. Se coça a canela com o calcanhar. escuta. no mesmo lugar – dão muito aviso. – 284 – . semelhante fosse nadando. o senhor mesmo escuta. Não vale arranco de pressa. a gente rosna. às vezes esvoaçam aos gritos. Aí quando é tempo de vaga-lume.

O inimigo pode estar engatinhando também. Pior é a surucucu. nunca se tem certeza. que passeia longe. traiçoeiramente. que ia entrando no buraco. eu figurava que era das estrelas remexidas. Era um tatu. e eu no rés dele. minha cabeça eu encolhi. O capim escorria. é preciso de saber quando é que é melhor se calcar no estrepe firme com gosto – que é o que mais defende d’ele não se cravar. do sereno da noite. Rezei a jaculatória de São Bento. vez mais atrás. Quando de sem– 285 – . da macega. e aquele avultar deitado de bicho duro. Que modo quê? Rastejando de minha banda da direita. versa por detrás. A água do sereno me molhava.Grande Sertão: Veredas Árvores branquiçadas. Tatu-peba. Capim de beira em fio. eu sentia o bafo duma boca. O Garanço e o Montesclarense espigavam vez mais adiante. num corisco de momento. afastaram a erva alta.João Guimarães Rosa . se pode premer mão numa rodilha grossa de cascavel. o Hermógenes rompia. caindo por minhas costas. das folhas. Ah. braço por braço. – é o que digo ao senhor. numa certa morte dessas. lagrimado. O cheiro de terra agoura mal. que corta a cara. noturnazã. me desgostava. titique delas. Raio de um repente. E uns gafanhotos pulam. têm um estourinho. tlique. fungou e escutei o esfrego de suas muxibas. e cobra? Pensar que. A gente amassa com a barriga espinhos e gravetos. Trabalhos de unha. monstro: essa é o que há com mais doida ligeireza neste mundo.

que horas que se passaram? Aí eu podia medir. Quietei. eu em firme rejeitava. Dormi. Aquilo que cochilei – dormir. que eram para daí a pouco. Não queria.” – ele redisse. o pensamento dele assanha – feito um berreiro. calado curto. Por descuido de querer. eu não olhei para o céu. que a gente tem de enxotar da idéia: eu parava ali para matar os outros – e não era pecado? Não era. O Hermógenes. não era. próprio. – “É aqui mesmo. Cochilei.João Guimarães Rosa . Pensei: será se eu fosse adoecer?. já estavam na cabeça do Hermógenes.. O senhor acha que é natural? Osgas. no escabro. mesmo? Eu não era o – 286 – . e os macios pássaros da noite? – pensei. Danado desuso disso é o antes – tanto antes. descendo no rumo de seu poente.. eu não estava só obedecendo? Pois. digo ao senhor.. elas viravam. um sofre o festo da noite. ror. o chão esfriava.. Eu não tinha nada com aquilo. um homem existente encostado no senhor. Ele falou um murmo – me cochichou de mão em concha. Até que o dia deu. pelas estrelas que vão em movimento. que é que foi do meu tempo. não era? Ao que. Não podia.Grande Sertão: Veredas menos. Eu tinha fechado os olhos. um longe de dor-dedente já me indispondo. o meu primeiro fogo tocaieiro. tenho. Onde era que estavam as estrelas dianteiras. Assim espichado. o Hermógenes me esbarrou. O cheiro dum araçá-branco formava bolas. Aquelas mortes. Mas. eu resumi: – Osgas.

. povo reunido na beira do Jequitaí. Nada.Grande Sertão: Veredas chefe... mas pensava mais. Mandava matar. tão ligeira. Ou um cachorro grande. o madrugar clareava. Eu tinha de obedecer a ele. tão direitinha. Lá tem uns órfãos meus. Dali a pouco.. em sua capatazia.. que disse: – “Aquele? Hoje ele não existe mais.. com sombras vermelhas. tinha raiva nenhuma deles. é que é num átimo..? Bem. dessa. coisa como uma careta preta? É erro. em bró de fantasia: ele grosso misturado – dum cavalo e duma jibóia. oi.. O exemplar da morte. Tive de matar o pai deles. a noite. Vezo de falar do Geraldo Pedro. Assaz. Meu querer não correspondia ali. feito tropa de soldo.. Eu nem conhecia aqueles inimigos. eu tinha de ver o dia vindo. Matei. contando doutro: – “. mandante perto... Por que era que eu – 287 – ..” Por que era que falavam essas perversidades. As coisas que eu nem queria pensar. elas vinham. Não.. virou sombração. Pessoal de Zé Bebelo. Eu ia matar gente humana..” E o Catocho. entre ele o crico de grilos e tantos bichinhos divagados. Por que é que falavam. lá . por ganhar seu dinheirinho fiel. por conta nenhuma. loca Ramiro queria aquilo? E o Hermógenes. nada.. fazer o que mandasse. Como era o Hermógenes? Como vou dizer ao senhor.. Quantos não iam morrer por minha mão? Andante que perpassou um vento.João Guimarães Rosa . Dito por uns: no céu..

À fé: aqueles zebebelos também não tinham varado o Norte para destruir gente? E pois?! O que tivesse de ser. emparelhado com um capiauzinho bondoso. às voltas. O Hermógenes mandava em mim. somente sendo. de todo jeito morresse muita gente. Agora.Grande Sertão: Veredas tinha de obedecer ao Hermógenes? Ainda estava em tempo: se eu quisesse. nós dois largávamos a jagunçada. beira de vereda.. a gente ria. aí mesmo era que o fogo feio começava. a cavalo. e corria. para uma fazenda. para os altos Gerais tão ditos. Que que quer. era um estado de lei. companheiro qualquer. Ah. O que eu tinha de querer era que nós dois saissemos sobrados com vida. bem certo. viver em grande persistência. aqueles outros. ia para um moinho. por todas as partes. primeiro de todos morria eu. ele era mais forte! Pensei em Diadorim. numa madrugadinha.João Guimarães Rosa . os contrários. – sonhos que pensava. ladeira abaixo. gastava nele um breve tiro. se pitava. – 288 – . acabasse a guerra. não estavam também com poder de me matar? À asneira. nada: então. eu ia levando meio saco de milho na garupa. sem maldade. desses todos combates. no Buriti-do-Á. por uma estrada de areia branca. Mesmo estava sem remédio. Não era nem o Hermógenes. conversava de tantas miúdas coisas. sacanhava meu revólver.. nem dele não era. caçava de meu sumir nesse vai-te-mundo. para berganhar o milho por fubá. íamos embora. E eu ia.

– 289 – . todos cumpriam.. então torci o de dar cãibra. depois com o Montesclarense – mostrava a eles os lugares em que deviam-de. A ver. Diadorim. a cavalo. fui ficando soporado. agora veio da outra banda. voltou para perto de mim. Garoou. chato no chão. Matar. indo.. Posso? Aos poucos.” Eu vi quando o Garanço rojou. Me lembro do que me lembro: o Hermógenes cruzou. Ah. repensava. digo ao senhor: dessa noite não me esqueço. A gente estava de costas para as barras do dia. obra de cinco metros para a minha frente. acabar com aqueles zebebelos. Numa minha perna. Como clareia: é aos golpes. Depois. a gente ia indo. dez metros de chão de flor. me dizia. para a aurora. Arre. Pensar em Diadorim. matar.. relando barriga em macio. nem bom nem ruim.Grande Sertão: Veredas eu cumpria. nós dois. Disse: – “Tento..João Guimarães Rosa . o campo cheirava. tirei a dureza dos dedos. no céu. Por que que eu ia ter pena dos outros? Algum tinha pena de mim. pegou postura na proteção dum cupim grande. que que me importava? Dessa noite esquecer não posso. estava cochichando na cabeça do Garanço. adiante. “Vou para os Gerais! Vou para os Gerais!” – eu dizia. era o que me dava cordura de paz.? Cabeça de homem é fraca. O que se carecia justo de fazer era acabar logo com a guerra. Riobaldo. indo. Aquele homem era danado de tigre. a escuridão puxada aos movimentos.

Eu ainda mudei distância de uns passos: aproveitei tapação duma árvore de boa grossura – um araçáde-pomba. alguns podiam vir descendo. rumo a rumo. Com pouco. outros. E. cosidos nas parnaíbas. Sendo somente que o acampamento dos bebelos devia de estar a uma hora dessas cercado exato. E apareceram vultos de outros. folheando. que só espiavam: na obrigação – refleti. para tudo. vir às brabas? Ah. a peitica. um tiriri cantou. dos companheiros. com o menorzinho ralo de luz eles se contentam. para mim. o Hermógenes não me largava. levantantes. Tantos homens amoitados. fechado. Asneiras que pensei: – 290 – .João Guimarães Rosa . nós quatro havíamos de restar mortos. e um formato de homem. Apertava a necessidade. Olhei adiante. não se podia. Aí passarinhos que já vão voando. lá era que eles estavam: por entre umas árvores pequenas. Só logo no primeiro entremear com os bebelos. Por que não se avançava de uma vez. dava réstia de claridade. Alegre. buscar mais água no corguinho. não se sabia. divulguei o Montesclarense. Triste. No não longe. curto. à roda toda. De sovigia. mesmo aquele principiozinho de madrugada. triste. em boa distância. se carecessem. Tudo era paciência. Ele ia acender fogo. Até achei bonito.Grande Sertão: Veredas pouquinho para esta banda da esquerda. para seu só isso de caçar o de comer. Doesse na gente. agora. Vinha um ventozinho. contravisto.

e escutei meu tiro. A gente quer porções. digo ao senhor. Digo ao – 291 – . – “Riobaldo. Festa de guerra. A morte? A coisa que o que era xô e bala.. não vê que a vida é só brabeza. Não tremi. Aí. Falavam os rifles e outros: manlixa. D’o Hermógenes ali junto estar. Tatarana! É o é. naquela hora. Estrondou. Que qual. e o do Hermógenes. deles todos. agora não se podia mais ter outros lados. caso quisesse.. e o ar se estragou. Desamarrei mão. rolou na má poeira. trançado de assovios de ferro metal. por medo ter? Eu não campeava a morte. e o homem alto caiu certo morto. Revém ramo cortado de árvore.João Guimarães Rosa . gostei. Demais é que se está: muito no meio de nada.Grande Sertão: Veredas será que eles gastaram muita água? Será que um esmorece. a gente esbarra e espera: espera o que vão responder. Mais digo ao senhor? Atirei. de vez pronta: eu já tinha resumido pontaria: eu tive consolo duma coisa. dele. E em toda a parte. que era que aquele homem alto não podia ser Zé Bebelo. Agora era só gritar ódio.. de repente.” – ele me governou. minhas vezes.. aí e o comum que cavacam poeiras e terras. O senhor já viu guerra? A mesmo sem pensar. tomei ar. a sobre. sou feito. Me deu uma raiva. Aceitei. o tiroteio tinha começado. O senhor ali não tem mãe. Seguro nasci. granadeira e comblém.

. Se o senhor já viu disso. se não sabe.. Cão. Ri mais. Para que conto isto ao senhor? Vou longe. “Agora. Os tiros peguei a querer contar. Aquilo era. vai! Tu não quer?!” – foi o que arranjei vontade de gritar com o Hermógenes.. demorava um oco. tu mesmo vai lá. sabe. dou conversa. Homem sozinho. Se todos passam mão em arma e fecham volta de tiroteio. o Hermógenes era um como eu. uns contra os outros. repetente. E aqueles bebelos tinham feito madrugada para levar fogo.Grande Sertão: Veredas senhor. Aquilo como durou. que por minha mente marinhavam. igual. Aquele povo inimigo nosso esperdiçava muita munição. Em isso ele me crendo endoidado. Artes que carreguei o rifle. como vai saber? São coisas que não cabem em fazer idéia. Não queriam morrer por nossa mão. Mas eu estava era de repente pensando em meu padrinho Selorico Mendes. Eram só tolicezinhas. que ele.João Guimarães Rosa . até pior atirava. “. – 292 – . com sua carabina em mãos.. Ri me ri. escorei. O dia tinha clareado saído: eu todo podendo descrever o Montesclarense. atiravam com nervosia. não queriam.” – acho que pensei. e o Hermógenes me chamou com assombro. igual. então o mundo se acaba. atrás dum toro de pau e moitas de anduzinho. Fiquei meu.

Queriam costurar. Ser menos. cujo descuido. que a gente não rastejava alterando de lugar. Mas só aqueles que para morrer estavam com dia marcado. Como não. e as horas não acabavam. Ao que. E mais de um. O sol encostava na nuca da gente.João Guimarães Rosa . sem desguar. Tiro de lá chama tiro de cá. Aí. debaixo eu suava. e vira em vira. jaculação minha. Quase que só quando se pega no defendimento é que isso é de se fazer: para pensarem que se vai em número maior que a verdade. O Garanço tinha – 293 – . mais valia garantir o bom do posto. ali quase em minha frente. ia servir só para mostrar mais alvo. solão. nem. pelo que sei. era catando mover alheio. que não era o caso. Minto? O senhor releve idéias. aí. Então. combate grande. Nem cento – e-cinqüenta braças era o eito. eu atirava. Aquilo servia até para carga de bocamorte. Sol. eu etcétera. mesmo. pelo que vejo. eu descansava meus olhos nas costas do Garanço. em riba dum trecho só. Os outros picavam forte. transpirava dos cabelos. Era assim. o fogo deles não desmerecia. de sentir as cócegas grossas no meio do lombo. os muitos tiros se assanhavam. Não se ia avançar? Não. Cachorrada! Xingar. como malandro malandreia. de prão.Grande Sertão: Veredas Combate quanto. Deu vez de. e pelo dentro das roupas. Disparo que eu dava. e essas dormências numas partes do corpo.

” – eu peguei a dizer. com minúcia de valentia. “Bala e chumbo.. iam de coronhada e faca. Três. investiram – contra o contra! Ao que. ele era amigo meu. nele balearam. E. e. na camisa.... bute!” Raspa que eles por lá entraram. alargada. Caiu. aos gritos. uns homens dos nossos deram figura.. de repente: bem apartado. sacudia o corpo. Então. no meio das costas dele. Garanço.. da banda esquerda de nós. Não se atirou.. “Bala e chumbo. o Hermógenes me segurou tente: que o Montesclarense – coitado! – também tinha crescido para avante.João Guimarães Rosa . “Bala e chumbo.. se pulando para diante. roncavam em poeira deles. vai. só com a camisa de xadrezim.Grande Sertão: Veredas arrumado no chão o bissaco e o cobertor. Chumbo e bala.” O lugar do coração me apertando – eu era carne muita e calor bravo – “O que foi? Que é?” – o Hermógenes me perguntou. no igual. catando cacos. Bala e chumbo... Rapaz de como se querer. que se danando no vespeiro dos bebelos.. aquela nódoa escura ia crescendo. Deu doidice? Antes aí. Pobre. – “Diá!” – o Hermógenes rosnou: – “Deu a fúria nesses. suspendemos fôlego. os outros nossos. eram dois. Eu vi o suor minar em mancha. decerto se acabavam – 294 – .” Estrumes! Pelo que foi. homem de leal qualidade... também. de lá. – “Nada não!” – respondi. O Garanço disparava.. arredondada.. eu atirava.. estava sem jaleco.

Meio peguei um pensamento: se o Hermógenes sungasse raiva. Andando que aquele ataque nosso não servia para resultado nenhum. Guardei meu cuspe. a fino de faca. Mas.Grande Sertão: Veredas estraçalhados que nem coelho com a cainça. ver. tive um tempo de coisa. se o Ele desse nele.” Aquele homem fazia frio. Combate sem cabimento! Só o tiroteio. gasta munição não. de quantos tinham morrido ou estavam mal. te trava. Só cobrar o dizmo. dos deles e dos nossos. Tomara tivessem aprontado seus alguns! Assim aquilo sossegou. No ferrenho. nós todos tínhamos de avançar? Então. guerra que não se sabe terminar? Assunto que apostaram os mil tiros para cima de nossa redondez de lugar. Descansava de todo desânimo. A ver que tive sede. no – 295 – . repetido reproduzido. sem querer meu. Eu queria saber. Aquilo não ia ter pique de ponto. povo nosso demos raiva de fogo – aí é que foi atirar. eu descansava. esses assoviaços. espécie de mais medo. morresse. O Hermógenes me resignou os ímpetos: – “Tatarana. Triplavam. por um vir? Que mandasse avançasse. saber de qualquer contagem de balanço. não dá de esquentar arma.João Guimarães Rosa . eu estava ali era feito um escravo de morte. Só os tiros bons poucos. e eu carecia de avistar os outros. o que um não confessa: vara verde. mas minha cabaça não dava gota mais. feito caramujo de sombra.

e agradece ao corpo um poucado. Que me disse: – “Tatarana. logo senti. minha coragem regulada somente para diante. Ele atirava. O que estava me dando. Eu..” Há-de que estava me oferecendo a capanga. Ah. paçoca de carnes. Escorei o cano do rifle. e o Hermógenes estava deitado ali. Tanto que os tiros tinham esbarrado quase em completo. nas costas do Garanço... que mastiguei daquela carne. somente para diante.Grande Sertão: Veredas puto de homem. Eu olhava aquele bom suor. – 296 – . tendo comida minha. – “Mano velho. Aí. desfechar? Podia não. toma. na cabacinha. em mim encostado – era feito fosse eu mesmo. bebe. come.. no bornal. nem fome acho que não tinha direito. no danadório! E eu não podia virar só o corpo um pouco. coração quejando. no surrão. Tudo tinha me torcido para um rumo só. e munição minha de balas. era água com cachaça. A vida era assim mesmo. engoli daquela farinha? E pedi água. Eu atirava. de matula. Tem um ponto de marca. em partes. Até me caceteou uma lombeira. que dele não se pode mais voltar para trás.” – ele riu. abocar minha arma nele Hermógenes. e toda hora ele estavas sempre estava. Bebi. por que foi então que aceitei. Eu carecia lá do Hermógenes? Mas. Limpei os beiços. num duro de moita. que esta é competente.João Guimarães Rosa .

Eu olhei.. do arrocho grosso. – “Demo!” – eu repontei. Soante que atiravam. Ânsias. fogo por salvas. a mancha. o trabalho está desandado. sempre empinado com a frente do corpo. Tatarana.João Guimarães Rosa . Temos.” Homem atilado. – “Seja que sabidos vieram. Era sangue! Sangue que empapava as costas do Garanço – e eu entendi demais aquilo. Mais disse: – “O diabo deu em erro.” – o que o Hermógenes disse. por ora. ela. eu estava escutando. Mas ele não entendeu minha soltura. imposto. ao em que bola me vinha goela arriba. – “Tu. então era outra partida de zé-bebelos que deviam de estar chegando. onde nossa gente com Titão Passos estavam escondidos para a esparrela – foi um tirotear forte. Olhava para as costas do Garanço.. drongo deles. daí. cavaleiros. Ah. o tiroteio foi mudando de feição. que às vezes em lágrimas nos olhos se transforma. O suor vermelho. semelhando que o cupim ele tivesse abraçado.. O Garanço parado quieto.. O Hermógenes esticou o pescoço. cachorral. eh.Grande Sertão: Veredas E.. deu-se.. rijo ouvindo. – 297 – . pressentiram! Sei se.. Soprou: – “A muita cautela. sucedidos. A bobagem. A morte é corisco que sempre já veio. Da banda de longe – lá pelo tombador de pedra... – “Tou gostando não.... Riobaldo: agora é a má hora!” – era o Hermógenes prevenindo. estava ficando de outra cor.” Aí.

Dei para trás. feito um traste roto. Três tantos. Anda que vinham vôo os mosquitos chupadores.” E era. que estamos no amém estreitos!” – que. Ele estava defunto de não fechar boca – aí. em afogo. sem o zumbo frisso. perto no ar. agora. mais longe. Peguei.Grande Sertão: Veredas que se foge em boa ordem: os que estão chegando vêm rodear a gente. – “Vem. esse Hermógenes. adivinhava o seguinte vivo das coisas. carecia de ver se o Garanço podia ter ajuda. enfezado. tu vem. E a vez era esta: que o Hermógenes encheu os peitos. Ele estava dando a retirada. e soltou um rinchado zurro. Atirei. E nem um momento de vela acesa o Garanço não ia poder ter. com meus braços: não adiantava – era corpo. os metros. o Hermógenes chamou. defunto airado. outros o mesmo onco-e-rincho copiavam. O perigo saca toda tristeza. teúdo. Mas não se deixa um cristão amigo deitar seu sangue no capim das moitas. Atiramos. Por outros lados. e mosca-verde que se ousou. – “Arre.João Guimarães Rosa . o sangue dele a mofos cheirasse. caititu caçado. forte fogo!” – o Hermógenes me mandou. fogo. Ao que os – 298 – . vão dar retaguarda. Porque os tiros. dos de jumento velho em beira de campo. Como que esse maldito tudo sabia. trapaças! Mas ainda me prezei: quem é que me segurava de ir?! – rastejei de esquinado. Te cuida!” – ouvi o rispe do Hermógenes – que eu não me desgraçasse. Todo vejo. – “A p’a trás. mano.

fui. Entramos no cerrado.. acompanhei o Hermógenes. Vim. para meu cão de corpo. Desunir. beiramos uma ipueira. na desordem de mente do alvoroço. de rastros apagados. – “Tu tem tudo. nós. às vezes se subiam do bamburral baixo. bem. Porque. feito acãoada codorniz.” Agora ele falasse grosseado. era assim. Aí. pulei. no Cansanção. Caminhamos prazo dentro de – 299 – . – “Tenho. Ainda divulguei. nesse entrequanto. rojamos para baixo. Mas. E fomos para cinco léguas. embora. A bala com bala ripostavam. cumpre também. aqui e ali. nos abertos entre árvores. Tatarana? Munição. lugar aonde um punhado dos da gente devia de se engrupar. homens que corriam. está certo.. Acharam? E sei. aquela hora era só no Hermógenes que eu via salvamento. Viemos. meus iguais. com modo de chefe e mando. as armas?” – o Hermógenes me indagou. Assaz à retirada se estava rinchando. mas os inimigos não sabiam: carecia que eles pensassem que a gente ia dar um ataque final. entre o norte e o poente. se tenho!” – eu respondi. assim.Grande Sertão: Veredas companheiros todos atiravam. Repassamos o corguinho do Dinho. mas virei e esperei. Quem que diz que na vida tudo se escolhe? O que castiga. eu já estava para lá dele. E ele para mim: – “Então.João Guimarães Rosa . rompemos o arvoredo. A lanço a lanço. mesmo. nas sofraldas descentes. Para lá fomos. verga pior do que avançar.

por uma cacimba de grota. O jagunço Riobaldo. se tinha avistado o Reinaldo sem perigo? A meio perguntei.João Guimarães Rosa . que quando se alcançou o nosso bom esconder. então. de nosso pisado com ramos as marcas desmanchamos. De tudo não falo. Estava com sangue numa perna de calça.. diversos. – “. já achamos companheiros outros. o jagunço. Fui eu? Fui e não fui. Não fui! – porque não sou. Será. foi nada. desse dia. No mais. e que chegavam separadamente.. na retirada. que dela nunca posso achar o esquecimento. Não tenciono relatar ao senhor minha vida em dobrados passos. depois se retrasou.. Um era o Feijó. Por causa que só em Diadorim era que eu pensava.. vindos de armas. bem conseguido. arranho à-toa. naquela satisfação de vida salva. Por daí. e o mais do caminho se seguiu por muitos diversos rodeios. Para mim. Narrei miúdo. Deus esteja! E dizendo vou. careço de que o senhor escute bem essas passagens: da vida de Riobaldo.” O que me ensombreceu – então Diadorim – 300 – . dessa noite. para depois lhe pedir um conselho. não quero ser. servia para quê? Quero é armar o ponto dum fato.Grande Sertão: Veredas riacho. O Feijó em tanto tinha notado: Diadorim. depois escolhemos para pisar pedras. num boqueirãozinho.

Acho que. e depois tudo. eu queria calado a conseqüência dele. Mas. Pena. quem tem dois tem um. espaço disso me alegrava. uma boa perna-de-pau. daqui. quem tem um não tem nenhum. eu quis lavar os pés.João Guimarães Rosa . vive repetindo e dizendo: – “Ai. Logo esses – o senhor sabe. ou do sujeito altão e madrugador – quem sabe era o pobre do cozinheiro deles – na primeira mão de hora varado retombado? Em tenho que não. beirávamos o riachinho do Jio. somentemente. que muito me doíam. um que foi desse rio de São Francisco. foguista de vapor. assim. Diadorim estivesse ali. eu mesmo esbarrei. vereda abaixo. para conduzir. Ao modo que eu nem conhecia bem o estorvo que eu sentia. talvez por se ter sacolejado um pouco do juizo. molhei minhas fontes. Olhe: légua e outra.. de cansado. Aí. em quem dela carece.Grande Sertão: Veredas estava ferido. ele nunca mais quer sair de casa. Remorso? Por mim.” Todo – 301 – . nem se levanta quase do catre. eu não havia de querer conversar reportório de tiros e combates. por minha culpa dos dois – eles eu era quem tinha escolhido. Dos homens que incerto matei.. estava também com dores redondas de cabeça. então. Comprou-se para ele. depois cá herdou uns alqueires. digo e nego. Quase com um peso. o senhor segue comigo. tigre canguçu estragou e arruinou a perna do Sizino Ló. Cansaço faz tristeza. Dó que me dava era do Garanço. e o Montesclarense.

azo de que tivesse perdido alguma coisa. pesados no sono. Os outros no estar. sobrechamado o Alpercatas esse era homem de estranhez em muitos seus costumes. e pratos e panela. E não havia a coisa nenhuma.João Guimarães Rosa . com pouco. Os alguns faltavam. Que caso que eu carecia de pensar. chamado também o Jio. nessa antecedência em dois jumentos ele tinha trazido mantimento de feijão e arroz. e que Diadorim ia chegar a vir também. nem vulto nem barulho. estufando suas redes penduradas de árvore em árvore. E cheguei no CansançãoVelho. nas más horas é que vem bom consolo: para o Jio tinha tocado. e o meu não era. cada um em seu recanto. quase não se morre? E. o Braz. que não fosse que na morte do Garanço e do Montesclarense eu não devia nenhum dolo. mesmo. Mas daí a logo acordei. como se vez fosse. a gente era doze. Lá. Num ponto me agradei: então. E isso é remorso? Desgraça a mando era que eu cumpria. – 302 – . dos que eram para se reunir ali. em guerra. de antevéspera. Dormi impado. o Jõe Bexiguento. aonde estávamos. Só vi um. dito. se cozinhou um jantar. mão no rifle. mais tardar no romper da aurora? Dormi. mas decerto ainda vinham vir. Tanto que comi.Grande Sertão: Veredas o mundo ri. e toucinho para torresmos. Porque dó de amizade é num sofrerzinho simples. deitei.

Jõe Bexiguento parecia não estar querendo ir dormir. com muitos. virei para o outro lado. Agora eu estava cismado. Não sei se dei alguma resposta. tinha ficado na beira do fogo. veio para o pé de minha rede. na sala grande. tornei naquele mau susto de acordar.. tinha ouvido falar: jagunços que pegam esse condão. noutros lugares. as contas de juros. quem sabe perto já rastejavam. Em todos o momentos. coraçãoados. remexendo as brasas. Atual isso comigo? Que os bebelos rodeavam para ali. – 303 – . Isso aconteceu três vezes. num fusco em vermelho. e eu colhia o aviso? Não é que. e em como a vida é cheia de passagens emendadas. na mesa grande. mas. com outros minutos. E ele pitava. tem galo já cantando.” – ele falou.Grande Sertão: Veredas conforme se dizia e era notado. sentou no chão.. em Zé Bebelo sempre pensei. ensinando lição a ele. ditado e leitura. reformadas. Adormecer. depois. Eu. pude. era atreito a esses palpites de fino ar. mais do que todos. João Goanhá. adivinham o invento de qualquer sobrevir. Ou se fosse que algum perigo se produzia por ali. Zé Bebelo mandava neles. Meigo repus o rifle. – “Horas destas. O Hermógenes. na Nhanva. de noite. por isso em boa hora escapam. se comia canjica temperada com leite. dava para a cara dele se divulgar. dose disso sucedesse? Eu sabia. Jõe Bexiguento reparou em meu dessossego.João Guimarães Rosa .

tudo tinha outra ordem: eu podia pôr meu afinco o – farto destravado. Então.. no querer combater. antes era uma certeza que minava fininha. se não era agouramento? E ele me apaziguou: que anjo aviso não vinha desse jeito. Sendo que não fosse ele em sua pessoa. – “Fofo faço. siô Baldo: acabar para uma vez com essa cambada canalha de jagunços!” – ele referia.João Guimarães Rosa . sempre fui assim. cruzando morte. com Zé Bebelo. e convidei Jõe Bexiguento para se botar mais lenha no fogo. comandando armas de esquadrões. era eu também – Zé Bebelo vinha de lá. brigar. eu vi que era isso que me dava uma repugnância. dada definitiva às altas. ficava sendo também de acabar comigo. se ele no meio não estivesse. açúcar. convém acender nem vela de cera preta. canela e manteiga-devaca. Ele disse: – “Convém não. com minha vida. agora. Mas eu prezava Zé Bebelo. coco-da-baía. bebendo seu coité de chá-decongonha. que de tão quente pelava. amendoim. sobra da esquentação curtida nas horas de – 304 – . Contei ao Jõe o que eu estava sentindo estúrdio.. Ocasiões assim. minha simpatia é uma só. Mas. sem razoado nem discussão.” Enrolei um cigarro.Grande Sertão: Veredas queijo. naquela ocasião. com rompante e festa no dizer. e em prazo. Levantei da rede. e o que ele tinha jurado. em minha inteligência. O que eu purgava era ranço nervoso. de dentro da idéia da gente.

. Mas outra coragem não tive. medo de guerra não conheço. Que foi com ele? Deu o fim. legal? Acho que esse sempre se esteve meio caipora.. – “Assim.. duns meses. digo: o Reinaldo. mas. mesmo na barra da velhice.. pela rama. – 305 – . me disse. depois de cada forte fogo.” Ainda ouvindo as palavras. erisipelava e asmava. assim. Jõe Bexiguento achava que não tinha mais sustância para ser jagunço. que estou na jagunçagem..” Pela causa. Que desconversei: – “Caipora se cura. naquela comprida noite..João Guimarães Rosa . Que isso é que sertanejo pode.. – “Cedo aprendi a viver sozinho. Faltou razão para mim. Jõe? Você sabe rezas fortes?” – por aí devo que indaguei.. essa desinquietação me vem. comparando mal. o dito. conheci que tinha perguntado pelo Garanço só para depois perguntar por Diadorim. passado cada fogo. na noite. mesmo. derrubo lá um bom mato. É uma coceira na mente. era que ele não vencia dormir nem um pisco.” Era o projeto em tal. me dá esse porém.” – “Você era amigo do Garanço. Faz regular uns seis anos. Jõe?” – em manso perguntei.. – “Trabalhar de amassar as mãos. e nem experimentava. – “Comigo. não me livro disso. Ele mesmo sabia que era. que ele formava vez em quando...Grande Sertão: Veredas tiroteio. P’ra o Riachão vou.. disse. andava padecendo da saúde.

. nos tempos. que sensata resposta podia me assentar o Jõe.. – “Uai?! Nós vive. com feitas ofensas. a gente estava com Deus? Jagunço podia? Jagunço – criatura paga para crimes. rejeitando. quente. Mas. – “. Discuti alto. sem sede. sem fome. nós. Nem o ouro do corpo eu não quisesse. assim jagunços..” – foi o respondido que ele me deu. que estava com sua rede ali a próximo. Baixei.Grande Sertão: Veredas bobéia minha.” – ele me repositou. Mas desses ensalmos quis aprender não. duvidando. impondo o sofrer no quieto arruado dos outros.. queri. sem querer nenhum. mas fui ponteando opostos. aquela hora não merecia: brancura rosada de uma moça. Que isso foi o que – 306 – . de certo acordou com meu vozeio. Questionei com ele. vagância de pecados... e xingou xiu. matando e roupilhando.” Pecados. Memória que Deus me deu não foi para palavrear avesso nele. disso. Porque eu estava sem sono. por pura toleima. se estava em permissão de fé para esperar de Deus perdão de proteção? Perguntei. Um.. Mas eu não quis aquilo. – “A que cujo. sem paciência de estimar um bom companheiro. assunto.. Não aceitei. depois do antes da lua-de-mel.João Guimarães Rosa . se caipora não curasse? Todo o mundo dela tem. Que podia? Esmo disso. broeiro peludo do Riachão do Jequitinhonha? Que podia? A gente.

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sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado... Mas Jõe Bexiguento não se importava. Duro homem jagunço, como ele no cerne era, a idéia dele era curta, não variava. – “Nasci aqui. Meu pai me deu minha sina. Vivo, jagunceio...” – ele falasse. Tudo poitava simples. Então – eu pensei – por que era que eu também não podia ser assim, como o Jõe? Porque, veja o senhor o que eu vi: para o Jõe Bexiguento, no sentir da natureza dele, não reinava mistura nenhuma neste mundo – as coisas eram bem divididas, separadas. – “De Deus? Do demo?” – foi o respondido por ele – “Deus a gente respeita, do demônio se esconjura e aparta... Quem é que pode ir divulgar o corisco de raio do borro da chuva, no grosso das nuvens altas?” E por aí eu mesmo mais acalmado ri, me ri, ele era engraçado. Naquele tempo, também, eu não tinha tanto o estrito e precisão, nestes assuntos. E o Jõe contava casos. Contou. Caso que se passou no sertão jequitinhão, no arraial de São João Leão,
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perto da terra dele, Jõe. Caso de Maria Mutema e do Padre Ponte. Naquele lugar existia uma mulher, por nome Maria Mutema, pessoa igual às outras, sem nenhuma diversidade. Uma noite, o marido dela morreu, amanheceu morto de madrugada. Maria Mutema chamou por socorro, reuniu todos os mais vizinhos. O arraial era pequeno, todos vieram certificar. Sinal nenhum não se viu, e ele tinha estado nos dias antes em saúde apreciável, por isso se disse que só de acesso do coração era que podia ter querido morrer. E naquela tarde mesma do dia dessa manhã, o marido foi bem enterrado. Maria Mutema era senhora vivida, mulher em preceito sertanejo. Se sentiu, foi em si, se sofreu muito não disse, guardou a dor sem demonstração. Mas isso lá é regra, entre gente que se diga, pelo visto a ninguém chamou atenção. O que deu em nota foi outra coisa: foi a religião da Mutema, que daí pegou a ir à igreja todo santo dia, afora que de três em três agora se confessava. Dera em carola – se dizia – só constante na salvação de sua alma. Ela sempre de preto, conforme os costumes, mulher que não ria – esse lenho seco. E, estando na igreja, não tirava os olhos do padre.
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O padre, Padre Ponte, era um sacerdote bom-homem, de meia-idade, meio gordo, muito descansado nos modos e de todos bem estimado. Sem desrespeito, só por verdade no dizer, uma pecha ele tinha: ele relaxava. Gerara três filhos, com uma mulher, simplória e sacudida, que governava a casa e cozinhava para ele, e também acudia pelo nome de Maria, dita por aceita alcunha a Maria do Padre. Mas não vá maldar o senhor maior escândalo nessa situação – com a ignorância dos tempos, antigamente, essas coisas podiam, todo o mundo achava trivial. Os filhos, bemcriados e bonitinhos, eram “os meninos da Maria do Padre”. E em tudo mais o Padre Ponte era um vigário de mão-cheia, cumpridor e caridoso, pregando cora muita virtude seu sermão e atendendo em qualquer hora do dia ou da noite, para levar aos roceiros o conforto da santa hóstia do Senhor ou dos santosóleos. Mas o que logo se soube, e disso se falou, era em duas partes: que a Maria Mutema tivesse tantos pecados para de três em três dias necessitar de penitência de coração e boca; e que o Padre Ponte visível tirasse desgosto de prestar a ela pai-ouvido naquele sacramento, que entre dois só dois se passa e tem de ser por ferro de tanto segredo resguardado. Contavam, mesmo, que, das primeiras vezes, povo percebia que o padre ralhava com ela,
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terrível, no confessionário. Mas a Maria Mutema se desajoelhava de lá, de olhos baixos, com tanta humildade serena, que uma santa padecedora mais parecia. Daí, aos três dias, retornava. E se viu, bem, que Padre Ponte todas as vezes fazia uma cara de verdadeiro sofrimento e temor, no ter de ir, a junjo, escutar a Mutema. Ia, porque confissão clamada não se nega. Mas ia a poder de ser padre, e não de ser só homem, como nós. E daí mais, que, passando o tempo, como se diz: no decorrido, Padre Ponte foi adoecido ficando, de doença para morrer, se viu logo. De dia em dia, ele emagrecia, amofinava o modo, tinha dores, e em fim encaveirou, duma cor amarela de palha de milho velho; dava pena. Morreu triste. E desde por diante, mesmo quando veio outro padre para o São João Leão, aquela mulher Maria Mutema nunca mais voltou na igreja, nem por rezar nem por entrar. Coisas que são. E ela, dado que viúva soturna assim, que não se cedia em conversas, ninguém não alcançou de saber por que lei ela procedia e pensava. Por fim, no porém, passados anos, foi tempo de missão, e chegaram no arraial os missionários. Esses eram dois padres estrangeiros, p’ra fortes e de caras coradas, bradando sermão forte, com forte voz, com fé braba. De manhã à noite, durado
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de três dias, eles estavam sempre na igreja, pregando, confessando, tirando rezas e aconselhando, com entusiasmados exemplos que enfileiravam o povo no bom rumo. A religião deles era alimpada e enérgica, com tanta saúde como virtude; e com eles não se brincava, pois tinham de Deus algum encoberto poder, conforme o senhor vai ver, por minha continuação. Só que no arraial foi grassando aquela boa bem-aventurança. Aconteceu foi no derradeiro dia, isto é, véspera, pois no seguinte, que dava em domingo, ia ser festa de comunhão geral e glória santa. E foi de noite, acabada a benção, quando um dos missionários subiu no púlpito, para a prédica, e tascava de começar de joelhos, rezando a salve-rainha. E foi nessa hora que a Maria Mutema entrou. Fazia tanto tempo que não comparecia em igreja; por que foi, então, que deu de vir? Mas aquele missionário governava com luzes outras. Maria Mutema veio entrando, e ele esbarrou. Todo o mundo levou um susto: porque a salve-rainha é oração que não se pode partir em meio – em desde que de joelhos começada, tem de ter suas palavras seguidas até ao tresfim. Mas o missionário retomou a fraseação, só que com a voz demudada, isso se viu. E, mal no amém, ele se levantou, cresceu na beira do púlpito, em brasa
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vermelho, debruçado, deu um soco no pau do peitoril, parecia um touro tigre. E foi de grito: – “A pessoa que por derradeiro entrou, tem de sair! A p’ra fora, já, já, essa mulher!” Todos, no estarrecente, caçavam de ver a Maria Mutema. – “Que saia, com seus maus segredos, em nome de Jesus e da Cruz! Se ainda for capaz de um arrependimento, então pode ir me esperar, agora mesmo, que vou ouvir sua confissão... Mas confissão esta ela tem de fazer é na porta do cemitério! Que vá me esperar lá, na porta do cemitério, onde estão dois defuntos enterrados!...” Isso o missionário comandou: e os que estavam dentro da igreja sentiram o rojo dos exércitos de Deus, que lavoram em fundura e sumidade. Horror deu. Mulheres soltaram gritos, e meninos, outras despencavam no chão, ninguém ficou sem se ajoelhar. Muitos, muitos, daquela gente, choravam. E Maria Mutema, sozinha em pé, torta magra de preto, deu um gemido de lágrimas e exclamação, berro de corpo que faca estraçalha. Pediu perdão! Perdão forte, perdão de fogo, que da dura bondade de Deus baixasse nela, em dores de urgência,
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antes de qualquer hora de nossa morte. E rompeu fala, por entre prantos, ali mesmo, a fim de perdão de todos também, se confessava. Confissão edital, consoantemente, para tremer exemplo, raio em pesadelo de quem ouvia, público, que rasgava gastura, como porque avessava a ordem das coisas e o quieto comum do viver transtornava. Ao que ela, onça monstra, tinha matado o marido – e que ela era cobra, bicho imundo, sobrado do podre de todos os estercos. Que tinha matado o marido, aquela noite, sem motivo nenhum, sem malfeito dele nenhum, causa nenhuma ; por que, nem sabia. Matou – enquanto ele estava dormindo – assim despejou no buraquinho do ouvido dele, por um funil, um terrível escorrer de chumbo derretido. O marido passou, lá o que diz – do oco para o ocão – do sono para a morte; e lesão no buraco do ouvido dele ninguém não foi ver, não se notou. E, depois, por enjoar do Padre Ponte, também sem ter queixa nem razão, amargável mentiu, no confessionário: disse, afirmou que tinha matado o marido por causa dele, Padre Ponte – porque dele gostava em fogo de amores, e queria ser concubina amásia... Tudo era mentira, ela não queria nem gostava. Mas, com ver o padre em justa zanga, ela disso tomou gosto, e era um prazer de cão, que aumentava de cada vez, pelo que ele não estava em poder de se defender de
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modo nenhum, era um homem manso, pobre coitado, e padre. Todo o tempo ela vinha em igreja, confirmava o falso, mais declarava – edificar o mal. E daí, até que o Padre Ponte de desgosto adoeceu, e morreu em desespero calado... Tudo crime, e ela tinha feito! E agora implorava o perdão de Deus, aos uivos, se esguedelhando, torcendo as mãos, depois as mãos no alto ela levantava. Mas o missionário, no púlpito, entoou grande o Bendito, louvado seja! – e, enquanto cantando mesmo, fazia os gestos para as mulheres todas saírem da igreja, deixando lá só os homens, porque a derradeira pregação de cada noite era mesmo sempre para os ouvintes senhores homens, como conforme. E no outro dia, domingo do Senhor, o arraial ilustrado com arcos e cordas de bandeirolas, e espoco de festa, foguetes muitos, missa cantada, procissão – mas todo o mundo só pensava naquilo. Maria Mutema, recolhida provisória presa na casa-de-escola, não comia, não sossegava, sempre de joelhos, clamando seu remorso, pedia perdão e castigo, e que todos viessem para cuspir em sua cara e dar bordoadas. Que ela – exclamava – tudo isso merecia. No meio-tempo, desenterraram da cova os ossos do marido: se conta que a gente sacolejava a
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caveira, e a bola de chumbo sacudia lá dentro, até tinia! Tanto por obra de Maria Mutema. Mas ela ficou no São João Leão ainda por mais de semana, os missionários tinham ido embora. Veio autoridade, delegado e praças, levaram a Mutema para culpa e júri, na cadeia de Araçuaí. Só que, nos dias em que ainda esteve, o povo perdoou, vinham dar a ela palavras de consolo, e juntos rezarem. Trouxeram a Maria do Padre, e os meninos da Maria do Padre, para perdoarem também, tantos surtos produziam bemestar e edificação. Mesmo, pela arrependida humildade que ela principiou, em tão pronunciado sofrer, alguns diziam que Maria Mutema estava ficando santa. E foi isso que Jõe Bexiguento a mim contou, e que de certo modo me divagasse. Mas, foi ele acabar de contar, e escutamos o assovio combinado dos nossos, e demos resposta: era um que chegava – o Paspe – se aparecendo macio dos escuros, com alpercatas sem barulho e o rifle em bandoleira. Ele tinha formado, para a esparrela, com Titão Passos, agora vinha trazer notícia dos dele, seguidos para se ajuntarem ao covo do Capão; e pedir ordens. Rio de homem, esse Paspe: que não temia nem se cansava. Contou: que, aquilo que era para estratagemas, deu foi em por água-abaixo, porque os bebelos tinham botado espiação, ou tomado o faro. Assim, o inimigo contornando, em vez de vir
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simples: e tochando resposta antes de pergunta, fogo feio – dois mortos, dos titão-passos, companheiros bons; mais três muito feridos. Guerra tinha disso também. – “Ah, e Zé Bebelo mesmo estava lá, no comando daqueles, em sua dita pessoa?” – perguntei. – “Decerto que estava. A cujo!” – o Paspe falou; e pediu logo quem tivesse um golinho de cachaça. Devo, então, que perguntei por Diadorim. Puro por perguntar, sem esperanças de informação. E mesmo, más notícias eu ainda tinha o receio de ouvir. Serviço que me foi, o Paspe me respondeu: – “Vi, esse por mim passou, até me deu um recado, uail: e para você mesmo: – Vai, diz por mim ao Riobaldo Tatarana: que eu tenho um quefazer, ao que vou, por dias poucos, com breve estou de volta... – foi o que falou. Assim passou, a cavalo – onde terá sido que arrumou montada? Decerto conseguiu algum animal dos bebelos mesmo, que restou no meio de tirotei’...” Ouvi e não cri. Ele, Diadorim? Aonde ia, sem mim então, não podia ser ele, foras de norma. E ao Paspe reperguntei,

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pedindo o exato. Era. Mas não seria, então, que ele estivesse ferido, numa perna? Ao que nem não nem sim – mais pelo não que pelo sim... – o Paspe completou. Não tinha reparado, no relance de tempo. Só viu que o arreio era um socadinho, quase novo, e o cavalo alto, desbarrigado, mas pronto de si, riscando com todas as ferraduras, murzelo-andrino... Aí, ai, oi, espécie de dor em meus cantos, o senhor sabe. Agora eu pateteava. Que que era ser fiel; donde estava o amigo? Diadorim, na pior hora, tinha desertado de minha companhia. Às certas, fuga fugida, ele tinha ido para perto de Joca Ramiro. Ah, ele, que de tudo sabia em tudo, agora assim de tenção me largava lá sem uma palavra própria da boca, sem um abraço, sabendo que eu tinha vindo para jagunço só mesmo por conta da amizade! Acho que me escabreei. De sorte que tantos pensamentos tive, duma viragem, que senti foi esfriar as pontas do corpo, e me vir o peso de um sono enorme, sono de doença, de malaventurança. Que dormi. Dormi tão morto, sem estatuto, que de manhã cedo, por me acordarem, tiveram de molhar com água meus pés e minha cabeça, pensando que eu tinha pegado febre de estupor. Foi assim.
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Vou reduzir o contar: o vão que os outros dias para mim foram, enquanto. Desde que da rede levantei, com aquele peso anoitecido, amanhecido nos olhos. Tempo de minha vazante. A ver como veja: tem sofrimento legal padecido, e mordido e remordido sofrimento; assim do mesmo que tem roubo sucedido e roubo roubado. Me entende? Dias que marquei: foram onze. Certo que a guerra ia indo. Demos um tiroteio mediano, uma escaramucinha e um meio-combate. Que isso merece que se conte? Miúdo e miúdo, caso o senhor quiser, dou descrição. Mas não anuncio valor. Vida, e guerra, é o que é: esses tontos movimentos, só o contrário do que assim não seja. Mas, para mim, o que vale é o que está por baixo ou por cima – o que parece longe e está perto, ou o que está perto e parece longe. Conto ao senhor é o que eu sei e o senhor não sabe; mas principal quero contar é o que eu não sei se sei, e que pode ser que o senhor saiba. Agora, o senhor exigindo querendo, está aqui que eu sirvo forte narração – dou o tampante, e o que forde trinta combates. Tenho lembrança. Pelo tempo durado de cada fogo, se é capaz até do cálculo da quantidade de balas. Contar? Do que se agüentou, de arvoados tiros, e a gente atirando a truz, no meio de pobre roça alheia, canavial cortante, eito de verde feliz ou palhada de milho morto, que se pisava e
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quebrava. De vez em que rifle trauteava tanto, e eram os estalos passando, repassando, que, vai, se aconchava mão em orelha, sem saber por que, feita uma esperança de se conseguir milagre de algum barulhinho diverso outro, qualquer, que aquele não fosse, na ensurdescência. E quando toró de chuva deu bomba, desmanchando a função de briga e empapando todos, ensolvando as armas. De se olhar em frente o morro, sem desconfiança, e, de repente, do nu do morro, despejarem descarga. De um entrar em poço, atravessando, e mesmo com água quase até pelos peitos, ter de se virar em direção, e desfechar. De como, no prazo duma hora só, careci de ir me vendo escorando rifle e alvejando, em quentes, em beira de mato e campo, em virada de espigão, descendo e subindo ramal de ladeirinhas pequenas, e atrás de cerca, debaixo de cocho, trepado em jatobá e pequizeiro, deitado no azul duma laje grande, e rolando no bagaço doce de cana, e rebentando por dentro de uma casa. E de companheiro em sopas de sangue mais sujeira de suas tripas, lá dele, se abraçando com a gente, de mandado da dor, para morrer só mesmo, seja que amaldiçoando, em lei, toda mãe e todo pai. E como quando, no refervo, combatendo no dano da mormaceira, a raiva de fúria de repente igualava todos, nos mesmos urros e urros, uns e uns, contras e
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contrários – chega se queria combinar de botar fora as armas-defogo, para o aproximaço de se avir em mãos às duras brancas, para se oferecer fim, oferecer faca. Isso é isto. Sobejidão. O senhor mais queria saber? Não? Eu sabia que não. Menos mortandades. Aprecio uns assim feito o senhor-homem sagaz solerte. Vir voltemos. Aqueles dias eu empurrei, mudando em raiva falsa a falta que Diadorim me fazia. Aí, curti amargos. Por me ver casca em chão, que é o figurado de desprezo, e mais tudo o que em ocasiões dessas se sente, conforme o senhor decerto conhece e sabe. Mas o pior era o que eu mesmo mais sentia: feito se do íntimo meu tivessem tirado o esteio-mor, pé-decasa. E, conforme sempre se dá, segundo se está assim em calibre de cão, e malquerente, repuxei idéias. Me alembrei do que tinha soprado em intriga o Antenor, e dei razão à cisma dele: quem sabe, mesmo, Joca Ramiro estava no propósito de deixar a gente se acabar ali, na má guerra, em sertão plano? E então Diadorim disso sabia, estava no enredo, agora tinha ido para junto de loca Ramiro – que era a única pessoa que ele bastantemente prezava? Fiquei em mim desiludido, caí numa lazeira. Mas cuspi três vezes forte no chão, e risquei de mim Diadorim. Homem como eu não é todo capaz de guardar a parte de amor, em desde que recebe
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muitas ofensas de desdém. Só que, depois, o que há, é a alma assim meio adoecida. Digo, fiquei lazo. Me veio de pensar em falar com o Antenor. Não fiz. Dúvidas dessas, eu não ia repartir com estranhas pessoas. E não gostei nunca de homem intrujão, com esses não começo conversa: não hio e não chio. Tanto que mesmo foi o Hermógenes que um dia me chamou, veio caçoando: – “Eh, valente tu é, Tatarana! Gosto dessa sua bizarria...” – “S’as ordens, s’or...” – eu só falei. Porque, ele, pelo jeito, logo entendi que ia me fazer algum espontâneo obséquio, ou me dar alguma boa notícia; todo que um, assim, nessas horinhas, logo muda de modo: antes, aproveita um tico para falar de cima, jeitoso de dono bom ou de pai que cede. E foi que não errei. O que o Hermógenes queria me prometer era que em breve iam estar acabados aqueles riscos de trabalho e combate, com liquidados os bebelos, e então a gente ficava livre para lidar melhormente, atacando bons lugares, em serviço para chefes políticos. E que, nessa ocasião, ele queria me escolher para comandar uma parte dos seus, por ser isso de minha rija competência – cabo-de-turma.

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Tanto gabado elogio que não me mudou, não me fez. Descarei. Experimentando o homem, só aproveitei foi para uma deixa: – “Joca Ramiro...” – eu disse, com uma risadazinha minha velhaca, que entre dois podia pegar qualquer incerto significado. E me esperei. Mas o Hermógenes se saiu em só dizer, sério, confioso: que Joca Ramiro era maludo capitão, vero, no real. Sonsice de Hermógenes? Não, senhor. Sei e vi, que o sincero. Por que era que todos davam assim tantas honras a Joca Ramiro, esse louvo sereno, com doado? Isso meio me turvava. Mas, do Hermógenes, então, me atormentou sempre aquele meu receio, que eu carecia de pôr em raiva. Assim, por isso, falei em mim comigo: – “A ele nego água, na boca do pote!” Esconjurar desse jeito leve me trouxe sossego. Ao que eu carecia. Tanto mesmo que eu não queria ter de pensar naquele Hermógenes, e o pensamento nele sempre me vinha, ele figurando, eu cativo. Ser que pensava, amiúde, em ele ser carrasco, como tanto se dizia, senhor de todas as crueldades. No começo, aquilo me corria só os calafrios de horror, a idéia minha refugava. Mas, a pouco, peguei às vezes uma ponta de querer saber como tudo podia ser, eu imaginava. Digo ao senhor: se o demônio existisse, e o senhor visse, ah, o senhor não devia de, não convém espiar para esse,

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nem mi de minuto! – não pode, não deve-de! São se só as coisas se sendo por pretas – e a gente de olhos fechados. Ao tanto com o esforço meu, em esquecer Diadorim, digo que me dava entrante uma tristeza no geral, um prazo de cansado. Mas eu não meditava para trás, não esbarrava. Aquilo era a tristonha travessia, pois então era preciso. Água de rio que arrasta. Dias que durasse, durasse; até meses. Agora, eu não me importava. Hoje, eu penso, o senhor sabe: acho que o sentir da gente volteia, mas em certos modos, rodando em si mas por regras. O prazer muito vira medo, o medo vai vira ódio, o ódio vira esses desesperos? – desespero é bom que vire a maior tristeza, constante então para o um amor – quanta saudade... ; aí, outra esperança já vem... Mas, a brasinha de tudo, é só o mesmo carvão só. Invenção minha, que tiro por tino. Ah, o que eu prezava de ter era essa instrução do senhor, que dá rumo para se estudar dessas matérias... Daí, eu caçava o jeito de me espairecer, junto com todos. Conversas com o Catocho, com Jõe Bexiguento, com o Vove, com o Feijó – de mais sisudez – ou com Umbelino – o de cara de gato. Se ria, fora de aperreio de combate muito se vadiava. Assim-assei, naquela influição. Vinha ordem, então a gente se
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reunia em bando grande, depois tornava a em grupozinhos se apartar. A guerra era a igual. E ali dava de se sentir o faltoso e o imperfeito, como no mais acontece, em quantidade maior. O São Francisco não é turvo sempre? E o que se falava mais era em mulher? Isso fazia muito boa falta. Cada um queria delas, no que só pensava. As mocinhas próprias de se provar, ou rua alegre cheia de alegria – o bom sempre melhor, o bom. Amigo meu, o Umbelino – esse que dizia: que, por não ter mulher ali, se tinha de muito lembrar. Ele era do Rio Sirubim, de um lugar para trás das cachoeiras. Valia como companheiro, capaz d’armas. Que que pequeno, era bom. Relembrava: – “Já tive uma mulher amigável só minha, na Rua-do-Alecrim, em São Romão, e outra, mais, na Rua-do-Fogo...” Essas conversas, com o calor. Calor em que cão pendura a língua, o senhor sabe. Já viu, por aí? Em Januária ou São Francisco, tinha estação de tempo em que não se podia deixar um ovo guardado: com umas duas ou três horas, já se estragava. Todos contavam estórias de raparigas que tinham sido simples somente; essas senvergonhagens. Mas, de noite – é de crer? – a gente sabia dos que queriam qualquer reles suficiente consolo. E eram brabos sarados guerreiros, que nunca noutro ar. Coisas. Canta que cantavam, de dia, nenhum sabia pé-de-verso direito, ou não queriam ensinar, era só aquela
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invenção, e cantando fanhoso no nariz. Ou ficavam dizendo graças e ditérios. Nem feito meninos não sendo. Por esse semquefazer, a gente ainda mais comia, quase que por divertimento. Os uns iam torar palmito, colher mandioca em mandiocalzinho sem dono, dono tinha fugido longe. Gostei de favas do mato, muito murici, quixaba e jaca. O Fonfredo tinha um blilbloquê, a gente brincava de jogar. Tudo jogado a dinheiro baixo. Os espertos, teve quem pôs a jogo até bentinho de pescoço, sem dizer desrespeito. E faziam negócio desses breves, contado que alguns arrumavam até escapulários falsos. Deus perdoa? O senhor podia perguntar: Deus, para qualquer um jagunço, sendo um inconstante patrão, que às vezes regia ajuda, mas, outras horas, sem espécie nenhuma, desandava de lá – proteção se acabou, e – pronto: marretava! Que rezavam. Jõe Bexiguento, mesmo, quis que diversos tomassem parte em novena, numa mal rezada novena, a santo de sua redobrada tenção, e a qual ele nem teve persistência para nos dias medidos completar. E – mas – o Hermógenes? Sobreveja o senhor o meu descrever: ele vinha por ali, à refalsa, socapa de se rir e se divertir no meio dos outros, sem a soberba, sendo em sendo o raposo meco. Naqueles dias ele andava de pé-no-chão, mais com uma calça apertada nas canelas e encurtada, e mesmo muito
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esmolambado na camisa. Até que de barba grande, parecia um pedidor. E caminhava com os largos passos, mais o muito nas pontas, vinha e ia com um sorrizinho besteante, rodeava por toda a parte. Nem eu no achar mais que ele era o ferrabrás? O que parecia, era que assim estivesse o tempo todo produzindo alguma tramóia. Estudei uma dúvida. Ao que será que seria o ser daquele homem, tudo? Algum tinha referido que ele era casado, com mulher e filhos. Como podia? Ai-de vai, meu pensamento constante querendo entender a natureza dele, virada diferente de todas, a inocência daquela maldade. A qual que me aluava. O Hermógenes, numa casa, em certo lugar, com sua mulher, ele fazia festas em suas crianças pequenas, dava conselho, dava ensino. Daí, saía. Feito lobisomem? Adiante de quem, atrás do quê? A cruz o senhor faça, meu senhor! Aí eu acreditei que tivesse de haver mesmo o inferno, um inferno; precisava. E o demônio seria: o inteiro, louco, o doido completo – assim irremediável. Ah, me aluei? O Hermógenes, esquipático, diverso. Comigo eu começava numa espécie, o ror, vontade de ir para perto, reparar em tudo que fazia, dele escutar suas causas. Aos
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Que ele era assim – eu fiquei em pausas –: e os companheiros todos sabiam do ser. pitando cachimbo e trançando peneiras. eu estava também muito confuso... eu pressentia: que do demônio não se pode ter pena.. – “Será. perguntei. querendo abraçar e grossas caretas – boca alargada. O Hermógenes – ele dava a pena. não viu ar de mulher-davida nenhuma. naqueles dias. Tem fêmeas. é a baixada do Brejinho – lá tem logradouro. me parece. eu não tirava isso da cabeça. o incutido do incerto me acostumando. e a razão está aí. o senhor pára próximo – aí então ele desanda em pulos e prezares de dança.” – algum outro atalhou.. – “Eh. ou foi outro. Mas. Mas o Catocho desafirmou: que tinha estado lá. por eu ter o assunto.” Esse que disse era o Dute. já um vinha: – “Daqui a seis léguas.João Guimarães Rosa .. Apreceia não. ora vez. demais.Grande Sertão: Veredas poucos. tanto tristonho. nenhuma. Todo perigo. dava medo. o Hermógenes também gosta de mulheres?” – eu careci de saber. E. e. só uma vendinha de roça e uma velha pitando cachimbo. falando grosso.” – um disse. se fazendo de apeado. Acho que ele gosta demais é só nem dele mesmo. Só se não gosta. – “Quá. no batente duma porta. Porque ele é – é doido sem cura.. Que que– 327 – . e achavam então que ato assim era possível natural?! Como que não achavam? Até. demais. O demônio esbarra manso mansinho.

tenha sido. Um me disse que eu estava estando verde. O Paspe. outros desafiavam outros para brigar. feito o que não é feito. a gente precisa melhor delas. porque é ao caso de virarem. sempre supria raiva. as mulheres vinham dar umbigadas. Em que era que eu podia achar graça? De manhã. naqueles dias. já disse ao senhor. em algum ao lugarejo. Viver é muito perigoso. com as faces do corpo. eu estive muito maltrapilho. má cara de doença – e que devia de ser de figado. dessas belas bondades. eu também. tiravam a roupa. Pode que seja. o propuxado das sanfonas. mas danam.Grande Sertão: Veredas riam mulheres principalmente a fim. Para quê? Por que não gozar o geral. Eu queria. No mais. estava certo. para baixo de lá: do que batucavam. Mas o Lindorífico lembrava um pagode. cavalheiros levavam damas nas moitas. quando eu acordava. Renego não. mas também com entender um carinho e melhorrespeito – sempre a essas do mel eu dei louvor de meu agradecimento. sem as desordens? Saber aquilo me entristecia.João Guimarães Rosa . mulheres que são as mais nossas irmãs. mal me lembro. no escuro do sebo. Feito a garapa que se azeda. mas sei que. mas com educação. cachaça muita. o que me é de doces usos: graças a Deus toda a vida tive estima a toda meretriz. que cozinhava. Tem coisas que não são de ruindade em si. cozinhou para mim os chás: o de – 328 – .

por me valer. o de losna. eu entendi o casco de uma coisa. Que. E todas as pessoas. me lembrei dum conselho que Zé Bebelo. Hoje. produzida. O senhor me crê? E foi então que eu acertei com a verdade fiel: que aquela raiva estava em mim. como coisa solta e cega. e eu ficava achando que. ainda que fossem muito mais minhas amigas e eu em outras horas delas nunca tivesse tido quizília nem queixa.Grande Sertão: Veredas macela. o que um dia tivessem falado.João Guimarães Rosa . na Nhanva. Dor. fico me indagando: será que é a mesma coisa com a bebedice de amor? Toleima. quando eu estava assim. seguidas. que meu pensamento ia pegando. As pessoas não tinham culpa de naquela hora eu estar passeando pensar nelas. O senhor ainda me releve. Oi. um dia me tinha dado. eu ia sentindo ódio delas. do mesmo jeito. seria por me ofender. Do que de uma feita. era minha sem outro dono. mas raiva – 329 – . bastava eu mudar querendo pensar em outra. soflagrante. nenhuma eu não tinha. para passar a ter raiva dessa outra. cada de-manhã. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem. na ocasião. com raiva de uma pessoa. e punha significado de culpa em todas as conversas e ações. mesmo. que enfim eu medito mais nessa agenciação encoberta da vida. Mas. Somente perrengueava. uma por uma. Mas o sarro do pensamento alterava as lembranças. também. o de erva-doce. igualzinho.

Diadorim vindo feito um milagre alvo. em força para não esparramar raivas. sozinho. Cumpri. dei fé. limpei a goela. ele o que devia.João Guimarães Rosa . pela pancada do meu coração. Riobaldo? Não está contente por me ver?” A boa surpresa. mas um resto de dúvida: a inteira dúvida. Aí eu à paz – com vontade de alegria – como se estimasse recebendo um aviso. que me embaraçava real. Esperei as primeiras palavras dele. – 330 – . Demorei bom estado. Ao que. e avistei: era Diadorim que chegando. com o sorriso sentido: – “Como passou. De repente. não fiz mostra nenhuma. Eu era o que tinha. Mais falasse. em beira d’água. ele já parava perto de mim. retardei. o que isso era falta de soberania. é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente. Entendi. permaneci. Lembro que naquela manhã também o calor era menos. Aí. escutei o fife dum pássaro: sabiá ou saci. fazendo finca-pé. e farta bobice. em a minha satisfação. Retente.Grande Sertão: Veredas mesma nunca se deve de tolerar de ter. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto – inteligência só. Ele mesmo me disse. quando se curte raiva de alguém. então. e fato é. Digo: reniti. Porque. e o ar era bondoso.

Aquela amizade pontual. A real que estando ofendido. ele pronunciando: – “Você também não está bom de saúde. escolhida para toda a vida. e os olhos. com parte na fingida estória? As incertezas que tive. se mal pergunto?” – aí falei. perto do joelho. recolhido nas brenhas.João Guimarães Rosa . ou mato. de querer bem. por que era que não havia de vir para o meio da gente. que não tive. Você derradeiramente não tem passado bem?” – “Vivendo minha sorte. não consentiam de quadrar nenhum disfarce. para se tratar dum ferimento. sido só de raspão. empalidecido muito. quasso. para receber ajuda e ter melhor cura? Doente não foge para um recanto. com lutas e guerras!” Ao que Diadorim me deu a mão. tiro que pegara na perna dele. Menos entendi. Aquilo podia não ser verdade? Afiguro. de ver e de mostrar. estou vendo. dita a minha nos grandes olhos. Magro ele estava.Grande Sertão: Veredas – “A pois. que malamal aceitei. Assaz ele falava assim afetuoso. Segundo tinha procurado aqueles dias sozinho. tão sem outras asas. e que feia ação para aprontar. feito bicho faz. Por onde andou. solitário consigo. até ainda um pouco man- – 331 – . Riobaldo. E ele disse de contar. aí bem que criei suspeitas: aonde Diadorim não teria andado ido.

Sendo que a sorte também prevalecia do nosso lado. uns cinqüenta. logo tornamos para tornar em guerra. Agora eu tinha Diadorim assim perto de afeto. A vida não dá demora em nada. tratando o machucado com emplastros de raízes e folhas. com meu coração nos pés. que vinham ao descuidado. saímos. num descomum.João Guimarães Rosa . gostando ainda mais do que antes. comendo o quê? Assunto de fome e toda sorte de míngua devia de ter penado. Que vida penosa não era capaz de ter levado. aí vi: a morte é para os que morrem. no fazer meu particípio de jagunço.Grande Sertão: Veredas cava. A pois. o que ainda valia mais no meio desses perigos de fato. De formas que perdi o semelhar de tantos manejos e movimentos e a certa razão das ordens que a gente cumpria. sem o auxílio de ninguém. o que sempre não é assim? Além do que era sazão de sentimento sereno: arte que a vida mais regateia. E de repente eu estava gostando dele. e dele o tempo todo eu tinha gostado. com assanhamentos. Será? Ao que. Mas fui me endurecendo às pressas. com João Goanhá de testa-chefe. fiquei caminhadiço. Amor que amei – daí então acreditei. por pisável. pegar uma tropa de cargueiros dos bebelos. tantos dias. Nos seguintes. no Bento-Pedro – lugar num – 332 – . de noite.

trigueiro azul.. Sus.. de tornar a amontar nos animais. arrozal. tivemos mando. A gente recebia a noticia. Acinte bebi água de de-dentro dum gravatá em flor. de repente. e Zé Bebelo?” – perguntei. Daí. os cavalos que rinchavam bem. onde tem carrascais e caminhos de caatinga pobre. aos estropes. com gentes de nuvens gentes. – “Berimbau!” – um disse – “Agora é gozar gozo. – “Ah. com aqueles muitos homens. Ao tanto levamos os lotes de burros para esconder no Capão dos Ossos. Esse era alto. a poeirada que levantavam. Só era Só Candèlário.” Mas. Surpreender custou barato.. terras arribavam: – “Eta.. foi só pôr em fugida. uma riqueza – tinha de tudo. Aquelas aranhas grandes armavam de árvore para árvore velhices de teia. arruá que chegando. Aí – cavalaria chusma. com lagoas secando: as ipueiras verdolengas.Grande Sertão: Veredas braço de brejo. – 333 – .” A desléguas. se guerreava. no Poço-Triste. que o corpo dele se encurtou pela metade.João Guimarães Rosa . até cachaça de pago imposto: as caixas de quarenta-eoito garrafas cada. Aquilo era uma alegria. Um Federico Xexéu. bobearam as sentinelas. Apareceu. Minha alma estava: o troteio. que vinha de recado. esbarrou o cavalo tão de repente. Aquela carga era enorme. Só Candelário. Parecia que a guerra já tinha se terminado bem. maior em dobro. botava o fácil desânimo: – “Ih! Zé Bebel’? Evém ele. sem se haver um grito-de-armas. é?!” Sendo que era não.

João Guimarães Rosa . Se apeou. em volta da casa dum sitiante. Homem forçoso. no Timba-Tuvaca. a gente tem lá meios para guardar prisioneiro vivo? Se degola é da banda da direita para a esquerda. os mais fugiram sem após. quem seria que ia cumprir de dar o fim n’aquele pobre moço? O – 334 – . Aí chegaram os bebelos – uns trinta? Tiroteamos na suspensão deles. como foi que se passou. Uns em grota. O Fafafa.. ele tinha razão. numa ocasião terrível. Só Candelário era o para enfrentar Zé Bebelo. – “Que é que vão fazer com ele?” – eu perguntei. o que ele pois então me falou.. Mandou que mandava. bramava o burro. pulava à frente de todos.Grande Sertão: Veredas quase preto. Pois.. Tomou a chefia geral. ficou um demorado tempo de costas para a gente. os quantos que matamos. Ah. acho que sim. Saudei o Fafafa. Em hora de fogo. na lama dos porcos. homem de fúria. Nem tinha nenhum ferimento. matamos. mas o que eu antes não contei: o do preso. amigo. Um ficou preso. o Alaripe e o Fafafa tinham outra vez aparecido. uns em altos de árvores.. debaixo dele o Hermógenes parecia um diabo coitado. tinha gente até dentro de chiqueiro.” – o que o Fafafa me respondendo. casa caiada. Salvante que seria para tudo. Antes. Mas. com bigode amarelecido. casa-detelhas. Será que iam matar? – “É verdade. que era homem também dele: com os de Só Candelário. como estávamos em bons escondidos. No que dizia.

Luís Pajeú. esperando ver vir misturado o sangue vermelho dele – e que eu não era capaz de deixar de beber. por necessidade nossa – porque. a que iam matar o homem. então eu carecia de uma realidade no real. pavão de penas. feito um cachorro. Vendo como levavam o rapaz. apalpei o nó na goela.Grande Sertão: Veredas Hermógenes? Decerto era ele. um cavalo. um Adílcio. seguindo para aquilo com seus dois pés. minha barriga devia de estar inchada. Cocei os olhos. igual um saco de todo tamanho. Imaginado. ardi. O outro. eu queria saber e não saber. então só sonho. que decerto iam para matar. sem divago! Ajoelhei na beirada. Ânsia de dó. – 335 – . não vi o Hermógenes. igual a de um sapo. Acho que eu estava com uma febre. e eu espiava para a água. Um. ele tornava a se juntar com os outros. bebi água com encostando a boca. estavam esfaqueando o rapaz. como ele caminhava normal. com a cara. eram outros. onde o córrego atravessava a capoeira. os que passavam. que ia morrer. Vim para a beira do córrego. ou. depois. debrucei. lá nas primeiras árvores da capoeira. Aquilo fosse sonho mero. A sede não passava. Sabia nem o nome. se solto.João Guimarães Rosa . como se chamava o rapaz. dar relatórios. assim. não fosse. com vaidade de ser capaz da maldade qualquer. assim no meio de toda boa ordem. Essa injustiça não podia ser! Assim. A umas cem braças para cima.

o preso. Ah. Só Candelário tinha favorecido perdão a ele. feito ato. Assim o que me contaram: que não ia morrer. em carne e toucinhos. Aquilo que lavorava em minha cabeça – ah. mas. – “Tocar ligeiro. se ia para o É-Já.. Diadorim me puxou. porção que se levava. – “Ele é baiano. aquele não oferecia perigo mais de tornar a se juntar com os outros bebelos e vir outra vez de armas contra a gente: porque se tinha providenciado de rezar nele uma reza de tirar a coragem de guerra.. Conforme mais me deram explicação. para lá. aí. dali. mandraca de se abobar! Tudo tinha graça. – “Vamos. aquele. mas porque iam ajudar a retalhar o porco. vamos levar mais adiante.. para a Bahia volta. iam matar não. para se soltar. eu tinha bebido àtoa gorgol d’água. esses passaram com as facas-de-arrasto. Mas. Riobaldo!” – Diadorim me atanazando.” Assim Diadorim me empurrou. p’ra lá do Bró. Montei. em todo o seguir. vivo e exato. quem é que eu vi? O rapaz.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas Aquele grande gritar. Se deu – 336 – . do modo que vi? Pois. aforçurado regendo: a pronto ele queria o punhadão de homens. de se estremecer. pisei um estribo. Só Candelário subido em sela. então.. e o Luís Pajeú e o Adílcio. Riobaldo! É para se esperar Joca Ramiro. Sem tento. o outro o meu pé não achava.” Me alegrei de estrelas. Também montado num cavalo. não. por causa de sua mocidade.

” – “Rezinga não.” – foi o que ele perfez. era verde capim em beira fresca. Riobaldo. Os grandes segredos. Mas conheço Joca Ramiro. Se ia – feito o rei dos ventos. Mas.Grande Sertão: Veredas galope. lá.. O lugar onde esbarramos.. aguada e pastos bons. Conheço Só Candelário – que só comparece é em fecho de forte decisão.” – fui falei. Como o que reprovou: – “Sei de nada. aqui. A horas destas. Riobaldo. Riobaldo.. hem. sozinho que pensa as partes. Atrevi que quis: – “E Joca Ramiro?” Mas Diadorim se compôs: – “Agora. Ter. eu debiquei: – “Ah. no É-Já. até me deu desengano. sabe. o tudo era para só ser a desatinada doidice.. Diadorim sempre me apeava. mau vau. me importa! Não é o que é se ver Joca Ramiro? Pois eu estou vendo.” – 337 – . Mas tudo. mas nem um bebelo não tem licença quieta de passar!” Diadorim a tanto impante. eu em ojeriza: – “Você sabe. é o ponto: inimigo vindo. no redor. que estando esburacada: atravessamos mais embaixo... Só Candelário galopava em frente de todos. em passos desses. Joca Ramiro deve de estar investindo aqueles.João Guimarães Rosa . por espirro de águas e escorrego em lisas pedras soltadas. morremos. Atrás disso. a partir disso. era logo depois da ponte de pau. no ribeirão lajeal. ainda não tinha ninguém. Me pareceu que daí adiante. e tudo destralhado vencendo. Sei o que você pode saber também.

E olhava para os horizontes. Acho que nem dormia. desde vi.. aprendi os rasgos daquele homem. que eu não divulguei bem..” Aí.” E foi andando. donde vindo? Me disseram: desses desertos da Bahia. por um seu instante.” – ele falou – “Tu atira bem. Só Candelário me divisou.Grande Sertão: Veredas Ao que era. Ocasião. sempre me viu. sua forte cachaça. eu sei. – “Riobaldo. às pressas.. quase constantemente. Donde ele era. comia o nada. pitava o tempo todo. Tatarana. Mas o Alaripe foi que me contou. não me olhava.. e prezando muito. muita guerra. chefe. apagando de serem aqueles olhos encarniçados: e isso figurava de ser um riso. Só Candelário – como vou explicar ao senhor? Ele era um. tem o adestro d’armas. sem paciência neles... que tomavam um sério bom. por um ponto ou outro. Por quê? Digo ao senhor: ele tinha medo de estar com o mal-de-lázaro.”amizade nas festas. Diadorim a ele me mostrou: – “Este é o meu amigo Riobaldo. parecia querer mesmo: guerra. então. acho que dele ainda ouvi: . E bebia. Nos dias em que tivemos de montar guarda nos lajeiros e lajeados.”? Conseguia nem ficar parado..João Guimarães Rosa .. nada. uma coisa que todos sabiam e nela falavam. Rir sorrir ele não sabia – mas sossegava um modo nos olhos. Pai dele – 338 – .. Passava.. E. ele tinha algum estilo de ar de parecença com o próprio Zé Bebelo. Que Só Candelário caçava era a morte. a guerra. Que conhecia Diadorim.

Vivia em fogo de idéia. que cantava – 339 – . Tanto que o inimigo não dava de vir. feito perna de jaburu. Aos dava. As favas fora. de em sangue se arranhar. coçava a pele. a ponta do cotovelo. ele. depois e depois. nu. possuía o sabido motivo.João Guimarães Rosa . espiar seus braços. era? Quem não é. os que eram mais velhos. A gente sabia que ele tomava certos remédios – acordava com o propor da aurora. Porque. Doido. e os irmãos dele também. bebia a triaga e saía para lavar o corpo. em poço. Castigo. forcejava por se sarar. que penso. do mesmo jeito. no mesmo do tempo. eu estimava. Sendo que queria morrer.Grande Sertão: Veredas tinha adoecido disso. Danado de tudo. Alguns. e matava. aquilo podia variar de aparecer. Só Candelário tinha um sestro: não esbarrava de arregaçar a camisa. pois bem. ao menos. para a beira do córrego ia indo. em qualquer hora. Lepra demora tempos. nu. por conta futura da lepra. de todas as pessoas Só Candelário é o que mais entendo. E carregava espelhinho na algibeira. retardada no corpo. de repente é que se brota. aquele homem. o primeiro. só dava resultado que mandava mortes. mesmo eu ou o senhor? Mas. e. a gente ficava em nervosias. Lepra – mais não se diz: ai é que o homem lambe a maldição de castigo. de quê? Disso é que decerto sucedia um ódio em Só Candelário. Feito aquele Luzié. nele furtava sempre uma olhada. Hoje. ele perseguia o morrer. não.

Às vezes. – “Você tem saudade de seu tempo de menino. E. desempenho.Grande Sertão: Veredas sem mágoas. próximo da gente. cantarolava. quando ouvindo. Vida devia de ser como na sala do teatro. mas sem fidalguia. como um relato sem pés nem cabeça. fio que com boa voz. a canção de Siruiz. formal. A ver que também fiquei sabendo que os outros não consideravam naqueles versos de Siruiz a beleza que eu achava. só por precisão. se eu pudesse possível. eu tinha vontade de brincar com eles. os que eu não esqueci nunca. por falta de sisudez e alegria. O que eu queria era ser menino. mesmo. Era o que eu acho. Em desde aquele tempo. ela era que podia ter cantado para mim aquilo. quando eu estava explicando o que era o meu sentir. Mas. cigarra de entre-chuvas. Diadorim. nunca que ele queria. Nem Diadorim.João Guimarães Rosa . Por certo que eu já estava crespo da confusão de todos. mas agora. pedi que ele cantasse para mim os versos. A brandura de botar para se esquecer uma porção de coisas – as bestas coisas em que a gente no fazer e no nem pensar vive preso. Adiantes versos. eu já achava que a vida da gente vai em erros. naquela hora. cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel. é o que eu achava. quando cuidava que sozinho estivesse. – 340 – . Riobaldo?” – ele me perguntou. Tinha saudade nenhuma. Nem não. Minha mãe.

. o ponto às voltas. para logo alcançar os dois. – “Arre. Mas.. Montei. que sobre se viu quase nos olhos e nas orelhas dele. Do vento. Do vento que vinha. não sei. vai. se viraram nas selas. Eu ia estugar. queria um meio-galope. fui eu quem quis: na hora. eu assumia que ele estava sério prezando minha valia de atirador. encarado. Diadorim e o Caçanje iam já mais longe. a gente tem de ir por ela. e se enrolam. a dar que dava escuro. estamos sem noticias.Grande Sertão: Veredas Ao do jeito de Só Candelário? Esse variava raja. folharada. fui trotando travado.João Guimarães Rosa .. meu cavalo filosofou: refugou baixo e refugou alto. era uma folha seca esvoaçada. o doido espetáculo. Mas. colher do que houvesse. no alto. mesmo entrar no mundo para se buscar!” – isso Só Candelário quase exclamava. A poeira subia. regulado umas duzentas braças. Mandou três homens que saíssem a cavalo. Diadorim levantou o braço. se puxando para a beira da mão esquerda da estrada.” Quando ele falava Tatarana. – “Tu Tatarana. à frente dei o passo. olhei muito para ele. bateu mão. O quando um esbarra com outro. até a uma légua. rodopiado. que vê. e ramaredo quebrado. também.. esporeei. que estava assombrando o animal. Arte que perceberam que eu vinha. A notícia. espiar os espias. estrada avante. E o que era. Redemoinho: o senhor sabe – a briga de ventos. Me mandou. no – 341 – . aí. por pouco não deu comigo no chão. a bem dizer.

Senti meu cavalo como meu corpo. esconjurando.. ditado nessas palavras. dentro viajava. o Ocultador. Mas Diadorim e o Caçanje se estavam lá adiante. tocamos. Nem pensei mais no redemoinho de vento. para Só Candelário? Notícia é coisa que se tira.” – Diadorim disse.. O demônio se vertia ali. ficamos lá até o sol entrar. não ri? Pensei. a desejo. – “Vento que enviesa. Aí. me escute. na rua.. Até à barra dos dois riachos. O que pensei: o diabo. Na hora. Como é que se podia trazer notícias.. onde tem a cachoeira de escadinhas. – “Redemonho!” – o Caçanje falou. que o senhor nunca deve de renovar. O demo! Digo ao senhor. Estive dando risada. que vinga da banda do mar. Ao então. na cachoeira.João Guimarães Rosa . rio meio do redemunho. A gente vamos chegar lá. chegamos na barra dos riachinhos. se torcendo turvo. Acho o mais terrível da minha vida. que viaja. embora. Aquilo passou. por me esperar chegar. o que a gente pode ver em folha dum espelho preto. o ró-ró. do fim do sol? Lá tinha um capão-de-mato. esgarabulhando. Mas o Caçanje não entendia que fosse: redemunho era d’Ele – do diabo. A gente dava graças a Deus. E até o Caçanje e Diadorim se riram também. Ou – 342 – . nem no dono dele – que se diz – morador dentro. Mas.Grande Sertão: Veredas estalar de pios assovios. o Sujo: o que aceita as más palavras e pensamentos da gente. e que completa tudo em obra.

E que! Dali a lá. debaixo de fatos machos e zuo de balas. a gente em festa se alegrava Só Candelário subiu no jirau de varas-que tinha – 343 – . Me lembro do espaço. notícias tivemos. em lote e réstia. Assim eu aproveitei para olhar para a banda de donde ainda se praz qualquer luz da tarde. No outro dia. A fantasia.João Guimarães Rosa . no esporão da serra. surgindo de dentro da mocidade. Disse: – “Nhô Ricardão deu fogo. lambendo o que viesse. Titão Passos pegou trinta e tantos deles. que fino chegou. no Ribeirão do Veado. Noitezinha. nas árvores.. viemos. digo. Primeira coruja que a ãoar. Um Sucivre. as notícias todas andaram de vir. o senhor me diga: preto é preto? branco é . com um escarcéu de galinheiro. eu era capaz de acertar nela um tiro. branco? Ou: quando é que a velhice começa.. Os coatis desciam espirrando. esgalopado. num bom combate. A tanto. Se não. e os jacus voavam para outras árvores. vontade de morar em cidade grande. se empoleirando para o sono da noite. O riacho cão. Tristeza é notícia? Tanto eu tinha um aperto de desânimo de sina.Grande Sertão: Veredas era mata. Mas que cidade mesma grande nenhuma eu não conhecia. pensamentos em minha cabeça. minha agora. nesta conversa – o senhor me atalhe. O coqueiro se mesmando.” Os bebelos se desabelhavam zuretas. muito velha. de sua sesta deles. Mas Só Candelário não era tolo nas meças.

chorava: dizia que nunca tinha chefiado pessoal tão valente feito nós.João Guimarães Rosa . Vez. Donde. Assim os bebelos tinham de passar de fugida por ali no É-Já. e se assobiava cruzado. de repente.. Daquilo tudo eu gostei. que veio sozinho pastando e deu a cara comprida. feito um gavião querendo partir em vôo. até à beira da madrugada. – “Tudo que é estúrdio comparece em tempo de guerra. veio o Adalgizo: – “Seô Hermógenes passou. Combate vem é feito raio cai. resvés. – 344 – . só um boi loango. estariam rompendo as aleluias. no capinzal bom.” Nossa hora de fogo estava perto. Só Candelário chega exclamava. com muita fome e pouco sono. A redobrar as sentinelas. obra de seis léguas. Todas as horas tocaiadas. com tantas capacidades. Agora.. que das armas não se largava. vais!” – algum disse. ali foras d’hora. e de noite com um olho só se ia dormir.Grande Sertão: Veredas mandado fazer. Vote. deram até tiros: mas nada não era. Tudo era alarme dado. logo. espiava as paradas distâncias. em ave-marias e alvorada. E teve gente que se riu disso. nele era que dormia sem repousar – e assim espiou esquecido tempo. o inimigo vindo. daí. era a guerra. gostava cada dia mais. cuquiada: um pontapé em tição. lá por lá. logo. E queria.. vai dar combate.. Fui aprendendo a achar graça no dessossego. o punhado de terra jogado para apagar as fogueiras. mesmo. Aprendi a medir a noite em meus dedos.

estava bem. quase tudo manosvelhos baianos. a sombra da gente uma só uma formava. no abre-vento. Como era que eu ia poder raivar com aquilo? E. Nós todos. Deu um galope. Eram de ser uns duzentos. Só Candelário era o chefe ao meu gosto. empiquetados. gente nova trazida. Diadorim e eu. na cavalhada geral. Gritavam vivas para a gente. Aí o mundo de homens anunciando de si e sobre o vasto chegando.João Guimarães Rosa . Como a gente estava.Grande Sertão: Veredas Achei que em qualquer hora eu podia ter coragem. Vi um sol de alegria tanta. Só Candelário pulou em sela. como eu imaginava. com ferragem de cascos no pedregulho. Amizade. em encontro. assim como ele sempre era: mola de aço. nos olhos de Diadorim. de começo. Joca Ramiro! – “Doca Ramiro!” – se gritava. da banda do Norte. e Joca Ramiro? Antes foi uma coisa acontecida repentina: aquele alvoroço. tu vai ver como ele é!” – Diadorim exclamou. se abraçou comigo. a toda cavaleirama chegando. – 345 – . Eu tinha ciúme? – “Riobaldo. na lei dela. Isso que vem. Parecia uma criança pequena. dormida com a gente encostado em coronha de sua arma. com uma risada boa. de mansinho. naquela bela resumida satisfação. Ah. assim irmãos. ficamos atarantados. até me apoquentou. O que carece é acompanheiragem de todos no simples. cachaça aos goles.

Grande Sertão: Veredas saudavam. do serão. em redobro de marcha – iam para ferrar fogo. cortasse. em lugar e hora determinados – semelhante se soube. na gente. Aí o forte bando tinha de se aluir para adiante. quando ele saía. corada muito. de Jequié. A figura dele. Os chefes tinham apeado dos cavalos. Uma voz que continuava. como agrado em lembrança. em balbúrdia com sensatez. Numa sela bordada. não sei de que trançado. anelados? O chapéu bonito? Ele era um homem.João Guimarães Rosa . A gente olhava. com tanta aspereza da vida. Mas Joca Ramiro veio de lá. Uma voz sem pingo de dúvida. a cara grande. Nem tinha mais outra coisa em que se reparar. sem pousar os olhos. com grandes gestos. num cavalo branco – cavalo que me olha de todos os altos. Era ele. aqueles olhos. Só Candelário não arredava pé de Joca Ramiro. E. Como é que vou dizer ao senhor? Os cabelos pretos. Tempo de beberem um café. As rédeas bonitas. e explicava as diversas coisas. em alargados vagarosos – 346 – . ferisse. todos. em lavores de preto-e-branco. nem tristeza. E Joca Ramiro. e os homens. machucasse aquele homem maior. E ele era um homem de largos ombros. Sobre o no meio daquele rebuliço. grossas. menos colhi de ver e de escutar. era a voz. A demora era pouca. quase ele não dava conta de se falar. A gente tinha até medo de que. o que ficava mais. Liso bonito.

para você. tornando a me ver. Diadorim me olhava. a palavrinha que fosse. com um contentamento. Joca Ramiro me obsequiava! Digo ao senhor: minha satisfação não teve beiras. pegou a mão de Joca Ramiro. o senhor sabe? Meu amigo. com um calor diferente de amizade. os que eram mais moços. que estávamos. E eu fiz como Diadorim – nem sei porquê: peguei a mão daquele homem. Joca Ramiro. um dito de apreço e apraz. deu um à-frente.. Com aquilo. A tento. saudar um e outro. se virou para nós. Joca Ramiro. A quantia que ele gostava de Diadorim! – e pousou nas costas dele um abraço..Grande Sertão: Veredas passos. e um cabra chamado João Frio foi lá nos cargueiros. e trouxe. mas o docemente achável.” Isto Diadorim disse. que firme contemplando. Todos. queria correr o acampamento. Decidido. seja. fraseou: “Tatarana.João Guimarães Rosa . Riobaldo. só um instante. beijei também. Os mais velhos tinham vergonha de beijar.. beijou..” Mandou vir o dito. você tem as marcas de conciso valente. como o de ninguém. Era um rifle reiúno. e também tinha lágrimas vindo por caso.. pêlos bravos. Pudessem afiar inveja em mim. Diadorim olhava.. peguei: mosquetão de cavalaria. O andar dele-vi certo: alteado e imponente.. pudessem. – “Este aqui é o Riobaldo... A alcunha que alguns dizem é Tatarana. Acho que tenho um trem. Riobaldo. Me – 347 – . Ao que.. Meu filho.” Disse mais: – “Espera. beijavam.

Diadorim e eu – 348 – . Desde ver. por ninguém se queixar. andaram. A alta poeira. de avançar. ele procedia mais de ficar de longe. ao assaz. a figura dele tinha parado no meio da gente. agora podia desequilibrar a boa regra de tudo. Vi que ele com os olhos caçou Diadorim. Joca Ramiro deu uma despedida. Seria para ficar de espera. Era. Segundo disse – que Só Candelário. mas teve de aceitar ordem de ficar. que demorava. em aos três ou quatro piquetes. Mas eu não percebi o vivo do tempo que passava. noutra coisa não se falava. Aí em festa feita a gente tramava nas armas: Joca Ramiro entrava direto em combate. Eles já estavam indo de saída. em rotas e vantagens!” E. Assim. por aquela ânsia e soência.Grande Sertão: Veredas chamou de lado. mesmo sendo assim querido e escolhido de Joca Ramiro. Vi que. – “Não é que ele é mesmo o chefe de todos? Não é que é mandante?” – Diadorim me perguntava. para valer de vigiar bem os vaus e suas estradas. todos esporaram. mais.” – Diadorim me explicou. Só Candelário gritou: – “Viva Jesus. então ia ser o fim da guerra! – “Só Candelário queria ir também. Joca Ramiro tinha mandado: que nosso grupo se repartisse.João Guimarães Rosa . Montado no cavale branco. não acharem que ali havia afilhadagem. tapando o mundo aos que aqui o mundo quisessem. a avançar... Aquilo parecia uma música tocando. num bufúrdio.

duma vez. Escoramos as armas. O vento vinha bom. Terrível. não. aí todos os dois morreram de repente. Não se crê que é. Demos fogo. com os gravatás poeirentos e uns levantados de pedra. que a cara da caça se apareceu. se matava. Tão de repente. que a água se esguichou farta. Meu senhor: tudo numa estraga – 349 – . Conto já ao senhor. A que parecia mesmo de propósito.Grande Sertão: Veredas fizemos parte duma turma dessas. chefia de João Curiol – fomos para a baixa dos Umbuzeiros. tido. Surpresa a gente sempre tem. Passaram o ribeirão. à parva. e não se vê. Ao que. o senhor sabe. de formas que o galope pronto se ouviu. no cata. o cavaleiro não agüentava na rédea. os cavalos patatrás! Dada a desordem. mas os homens no chão. Vi homem despencado demais. duns quinze homens. Só cavalo sozinho podia fugir. veio. Partindo desse vau. a gente atirava! Se morria.João Guimarães Rosa . vero bonito aquilo no sol. com tanta pressa. a gente pega uma chapadinha – a Chapada-daSeriema-Correndo. Mas teve um. Aquilo. terrível. com todo o efeito. chegaram até perto de nós. cata. da parte d’eles chegarem. Do que podia suceder. lugar feio. matava? Os cavalos. Porque foi lá. mesmo em espera: dá a vez. à de se doidar. Assim que eles eram uns vinte. se espinoteava. por causa da ligeireza com que aquilo veio.

Eles deviam de ser uns quatro. Um se mostrou. – “A fogo! A crevo!” – isto João Curiol gritava. Aqui eu não sei o que o senhor não sabe. também. Era quem eu não queria para ser. mesmo. Eu tinha sabido. Antes do depois. só partiam escalhas. gritava. Aí deviam de ser uns seis – que é a meia-dúzia. A gente. carujo! Roncolho!” – isto era a voz de Zé Bebelo.Grande Sertão: Veredas extraordinária. Diadorim também atirava calado.João Guimarães Rosa . sabe quem está lá. Afa que gritavam. Ainda deviam de ser uns dez. os sobrantes deles se desapearam e rastejaram. Anhãnhãe. cão. comandando?” – o rastejador Roque me disse. xingando todo nome. quando sinal de homem tremeluzia. em febre de ódio. berrávamos fogo. – “Tralha! Lá vai obra. Munição deles – quase nenhuma. As balas rachavam as pedras. neles a gente ia ir a pano de facão. Eu não gritei. respondendo ao fogo. Ah. Munição deles era pouca. eu sabia. A gente atirava. – “Sabe quem?” Ah. puderam tomar oculto atrás de outras fragas de pedra. o em desde o primeiro momento. ou uns oito. não podiam. Mas aqueles eram homens! Trampe logo que puderam. Fugir. ou três. caiu logo. O cano do – 350 – . – “Aoê. Era Zé Bebelo! Assim eu condenado para matar. nisso a gente não conseguiu ter mão.

Senti. com minha ajuda.. diziam também. aos pulos de vida e morte. caiu muito ferido. chefe?” – o Sangue-de-Outro perguntou. Gritei firme. macia mesmo. Redigo – que. eu menos atirava do que pensava. verdadeiro. coisa fraca em si. – “Arre.” A que nem não sei como tive o repente de isso dizer – falso. Só bala ou outra.Grande Sertão: Veredas meu rifle esquentava demais. Como era possível.. Aquela culpa eu carregava? Arresto gritei: – “Joca Ramiro quer esse homem vivo! loca Ramiro quer este homem vivo! Joca Ramiro faz questão!. Respondiam pouco. a morte dele? Um homem daquela qualidade. gritou. assim.. até João Curiol: – loca Ramiro quer este homem vivo!” – “É ordem de Joca Ramiro!” De lá não atiravam mais.João Guimarães Rosa .. o corpo dele. A bala era de Zé Bebelo... – “Roncolho! Toma. Deviam de ser. Um homem.. inventado. os quantos? Digo ao senhor: eu gostava de Zé Bebelo. Atiramos. Eles deviam de estar – 351 – . nosso. Os outros companheiros aceitavam aquilo. em minha goela. grosso. só. João Curiol respondeu que não. Nessas coisas eu pensei. repeti. a idéia dele. à unha. Sempre – Zé Bebelo – a gente tinha que pensar.. tudo que eu sabia e conhecia. no meio das duras pedras.” Um Freitas. Eles respondendo.

na outra uma garrucha grande. rastejando para perto de mim. atirava: queria. – “Joca Ramiroquer o homem vivo! Joca Ramiro quer. me-amargo. sem martírio de sofrimentos.Grande Sertão: Veredas reservando balas para um final.” – ainda eu disse. para depois judiarem com ele. O que ele tinha numa mão. o fato. O que eu havia de desmentir? E não vi direito. era o punhal. Todos aprovaram. aí. eu não tinha pensado tudo. – 352 – . me abri. travando em meu braço. de repente. para acabar com ele de uma vez... matarem de outro pior jeito. Todos me aprovaram – e. Eu sei. eu sei? O senhor agora vai não me entendes. atirando no chão. o real?! O que era que eu estava fazendo. O como são as coisas. Tanto tudo ia sendo sempre’ por minha culpa! E daí pedi tudo ao rifle é às cartucheiras. – “Ordem de loca Ramiro: é pegar o homem vivo. assim todos. que era que eu estava querendo – que pegassem vivo Zé Bebelo. garnisé. Ali Zé Bebelo eu salvasse. Arrancou poeira.João Guimarães Rosa . fogo-central. extraordinariamente. mesmo. então. alcançar um tiro em Zé Bebelo. Mas descarregou a garrucha. Assim contra mim. – “Tu está louco. Eu atirava. O que? Mas. perto dos pés dele. a fácil?! Minha raiva deu em mim. O que vi foi Zé Bebelo aparecendo. Riobaldo?” – Diadorim gritou. em carnes e ossos. Me mordi. deu ordem!” – todos agora me gritavam. eu dei um salto de espírito. por toda a lei.

João Guimarães Rosa . depressamente. Eu parei quieto. desarmaram do punhal. poeira de entupir o narii e os olhos. objeto. Olhei. ah não queria que ele me reconhecesse. dava pensamento assim – aprumado. – “Homem danado. não sei quem. Meus olhos firmavam no chão. sempre maior. Ele mesmo estava querendo morrer à brava. de briga. Ah. olhei. por se firmar. jogou o laço. O que eu estava era envergonhado. A roda de cavaleiros tantos.Grande Sertão: Veredas Por trás daquela poeira ele reapareceu.. escutei os brados de Só Candelário. no mesmo meu lugar. Aos quais: era Joca Ramiro. De atirar nele.” – ouvi o que um dizia. Tocavam para o acampamento. Lampejou com o punhal. sentado lá. voz que gritou: – “Canalha! Canalha!” Mas todos foram nele. – 353 – . Algum soprou o buzo do corno de boi. e esperou. agora eu via que tremia. de todo jeito não tive coragem. e mais João Curiol. Zé Bebelo mal ainda bateu com um pé. – “Ipa! Zé Bebelo. Subiu pó e pó. e caiu. no raso. Agarrei de mim. vago. O fuzuê se fez um enorme. por ouros. se me estranho. e também ali ele devia de ter perdido algum trem seu. Sobrevinha o tropel grande de cavaleiros. não tinha! E um dos nossos. Sendo que chegavam também os outros grupos nossos.. pelos mortos e feridos que também tínhamos. atrás do pedação de pedra. arrastado. com sua gente total. Não queria. Mas Diadorim estava me caçando. teso.

A vinda geral. A mais. ganhou patente. prevenir os que faltavam. Aí Joca Ramiroconsentiu.. – “Aposto que sei. e foi. Joca Ramiro apreciou bem que a gente tivesse pegado o homem vivo. não entendi. Os do Ricardão já aos tantos chegavam. a ir em longe arredor.João Guimarães Rosa . Agradeci mesmo isso. ou e n tão eu exijo julgamento correto legal!. Mas o João Curiol virou e disse: – “Matar não.. apraz-me. O homem estúrdio! Foi defrontar com Joca Ramiro. Aí foi ele mesmo quem quis... aqui. A gente de Titão Passos e do Hermógenes mandava aviso de estarem em caminho. Eu não queria retornar logo. o todo alegre.Grande Sertão: Veredas oxém. mento.” Aquilo me rendia pouco sossego. brabo gritou: – Assaca! Ou me matam logo. com esses de João Concliz.. a cisma não era para pôr peso em meus peitos. às quase danças: – “Vencemos. Fui... e. assim agarrado preso. Ao menos Diadorim raiava. E depois? – “Para que.” – “Julgamento?” – não ri. Riobaldo! Acabou-se a guerra. do jeito como desgraçado estava. para me dar a explicação. É estragador!” Eu falei: – “É?” – e neste entretanto.. prometeu julgamento já. Vão dar julga. Saí. Diadorim? Agora matam? Vão matar?” Mal perguntei. – 354 – . Fiz questão. Saímos ainda com João Concliz.” – isto o que falou João Curiol.

e seguro por dois homens. Zé Bebelo empinou o queixo. Estou. Montamos e sumimos por aqueles campos.João Guimarães Rosa . preso. – “Homem engraçado. não enxergar Zé Bebelo eu achava melhor.. sem chapéu nenhum.” – Joca Ramiro respondeu. o que o senhor vê não é o que o senhor vê. O senhor está diante de mim.. Mas. em seu alto cavalo branco. com surpresa de todos. Tinha sido aquilo: Joca Ramirochegando. como foi?” E me deu notícia. com as mãos amarradas atrás. Mas.. mas eu sou seu igual. mesmo assim. rasgado e sujo. Zé Bebelo também mudou de toada. real. homem doido!” – Diadorim ainda achava. e defrontando Zé Bebelo a pé. Mas. chefe. Dê respeito!” – “O senhor se acalme. O senhor está preso.” – 355 – . o grande cavaleiro. esses pequizeiros. pois sei que estou.. sem levantar a voz. Daí disse: – “Dê respeito. inteirou de olhar aquele.. então. compadre: é o que o senhor vai ver. com um engraçado atrevimento: – “Preso? Ah. para debicar. essa estrada. – “Sabe o que ele falou. cima a baixo.Grande Sertão: Veredas com os outros..

João Guimarães Rosa . no acampo. vamos ver.. É. é outra coisa. debaixo de forma. – “Ei. – “Está certo. e gostou: – “É e é. é o mundo à revelia!. Arte. Azougue vapor. Se estou preso.. manhã cedinho estávamos lá. o julgamento? O que isso tinha de ser.” – foi o que ele citou.” – foi o que disse Titão Passos. Cacei de escutar os outros.. Também o que eu não entendia possível era Zé Bebelo preso.” – “O que. preso.. E todos que ouviram deram risadas. Tanto que voltamos.. Ele não era criatura que se prende. E ia ter o julgamento. agora é julgamento!” – os muitos caçoavam.. pessoa coisa de se haver às mãos.Grande Sertão: Veredas – “Vejo um homem valente. está direito. Certo..” – isso foi o fecho do que Zé Bebelo falou.. o que não sendo dos usos. – “Melhor. disse com consideração. O Hermógenes me’ ouviu. Vamos ver... mano velho?” “. – “Isso.” – aí o que disse Joca Ramiro. mesmo.. Assim isso. em festa fona. Toleimas todas? Não por não.... Carece de se terminar o mais definitivo com – 356 – . achei logo que ninguém ao certo não sabia. Joca Ramirosabe o que faz-..

Só depois se espalhou voz. – “Aonde é que vamos? Onde é que esse julgamento vai ser?” – perguntei a Diadorim.Grande Sertão: Veredas essa cambada!” – falou Ricardão. miam. E onde estava Zé Bebelo? Apartado. bebiam. e agora ele não havia de ser meu pesadelo. – “Homem. quando surpreendi os suspensos de se ter saída.. porque Joca Ramiro mesmo se desacostumava de dormir em barraca. Só Candelário tinha remetido dois homens. que ficava lá dentro. que iam e vinham. Eu apreciava tanto aquele homem. O de que eu carecia era de que ele não botasse olhos em mim. estávamos no acampamento do É-Já.” –. Agora estavam todos mais todos reunidos. e estivesse deitado num couro de vaca. jagunços de toda raça e qualidade. feito guardado. bafafavam. a cavalhada pastando. co. que no fim teriarA de pipocar. pitando e pensando. Gostei. só para comprarem foguetes. longe. E só Candelário. Ao que se ia para a – 357 – . numa tenda de lona – essa única que se tinha. Diadorim disso não sabia.João Guimarães Rosa . não sei. quem é que pode!” Ao espraia as margens. Contaram que ele aceitava comida e água. onde ali mal tanto povo cabia.. vinha exclamando: – “Julgamento É isto! Têm de saber quem é que manda. que agora não se apeava. Não se podia ver o prisioneiro. no São José Preto. recolhido de toda vista. por o abafo do calor. e lotes e pontas de burros.

Estava certo? Saímos. a gente podia ver resenho de toda geração de montadas. Zé Bebelo lá ia. Zé Bebelo. Me dava travo. Mas. ladeando o bando bonzinho de jegues orelhudos. e mantimentos de comida. que fiz a viagem toda na rabeira. Assim que Joca Ramiro fazia questã de navegar três léguas a longe com acompanhamento de todos os jagunços e capatazes e chefes. coisas tomadas. em conduzido. rumo do Norte – tudo por glória. Ia com as mãos amarradas. Eu não quis ver. de trabuz. aquela a do doutor Mirabô de Melo. Aquilo com aquilo – aí a minha idéia diminuía. lá preso demais. tirei por tino. A pobreza primeira deles me consolava – os jumentinhos. rodeado por cavaleiros de guarda. pelo que não disse e disso. Mas ainda pensei: – ele bom ou ele ruim. me ensombrecia. e g prisioneiro levado em riba dum cavalo preto. como de uso? Amarrar as mãos não adiantava. pessoal de Titão Passos. por que causa iam dar com aquele homem tamanha passeata? Carecia algum? Diadorim não me respondeu. com munição.João Guimarães Rosa . e todas as tropas. Fui ficando para trás. No naquele.Grande Sertão: Veredas Fazenda Sempre-Verde. ressenti um – 358 – . podiam acabar com Zé Bebelo? Quem tinha capacidade de pôr Zé Bebelo em julgamento?! Então. O julgamento. logo na cabeça do cortejo. Mas. que fechavam a marcha. também. depois da Fazenda Brejinho-do-Brejo. feito meninos. Tanto o antes.

então. Riobaldo. – “Não carece de se abrir. de voz em voz. Estavam pensando que eu viesse com um recado. Só mesmo Zé Bebelo era quem pudesse me entender.. Passei quase para a frente de todos. – “Que foi. A Fazenda Sempre-Verde era a casa enorme. Aquele mundo de gente. assim chegamos na Sempre Verde. não arrombassem. Assim passamos pelo Brejinho-do-Brejo.. viemos saindo da estrada e entrando nas cheganças. que foi?” – gritou para mim Diadorim. Parecia um mortório.João Guimarães Rosa . repinchando dessas angústias. Nem não importei mais que Zé Bebelo me visse. Que me deu.” – era uma ordem que todos repetiam. os currais-de-ajuntamento. fomentado. Antes passei. de repente? Esporeei e galopeis para dianteira. Vim. o que acontecia maior.. Sem mais Zé Bebelo. com tantos os nossos cavalos. A casade-fazenda estava fechada. que de nascença sabiam todas as estradas. catar tudo nos olhos. aquilo era de amigos.. Eu queriá sobressalto de estar ali perto. Aí fomos chegando. Não carece de se abrir. pessoa ali não me entendia. que fazia vulto. afanhou a porteira. Dei nenhuma resposta. o doutor Mirabô de Melo. aí fomos enchendo os currais.Grande Sertão: Veredas fundo desânimo. o restado consolo só mesmo podia ser aqueles jericos baianos. – 359 – . Ave.

Só Candelário. sim. Daí. feito algemas. nele se sentou. no meio de tudo. – “Oxente!” Para diante de Joca Ramiro. cruzou as pernas. Esbarramos no eirado. mas adiante do corpo. sim. feito um rodear de gado – fecharam tudo. mesmo. só deixando aquele centro. ligeiro. todos! Aquilo. caso não. Só ele sentado. Titão Passos. num alteamento – feito quando o peru estufa e estoura – e caminhou. João Goanhá. ele estava com as mão amarradas. Zé Bebelo. no mocho. em direitura. o que. o Hermógenes. numa confa. Só Candelário em pé. de couro de capivara. Que era que aquela gente pensavam? Que era que queriam? Doideira de todos. maluqueira só. João Goanhá. Que que pequeno. tinham trazido um mocho. Mas Zé Bebelo não estava aperreado.João Guimarães Rosa . o assento de couro. Ao que. E: – 360 – . grande. – “Oxente!” – se dizia. o Hermógenes. Tomou corpo. era um tamborete de tripés. A jagunçama veio avançando. Caminhou. Ricardão em pé. eles todos reunidos no meio do eirado. Aí tinham apeado Zé Bebelo do cavalo. de tanto tamanho. Outro se chegou. que sendo um atrevimento. – “Ata amarra os pés também!” – algum enfezado gritou. Joca Ramiro. com Zé Bebelo sentado simples e Joca Ramiro em pé. Titão Passos. deixado botado lá. no meio do eirado. liso. o Ricardão.Grande Sertão: Veredas mesmo ausente. com uma boa peia. era bom: homem às graças.

não iam aturar aquela zombaria. com vênias e acionados. os outros se franziram.” – ainda falou. De coisas de tarasco. Foi aquele falatório geral. e aqueles gestos de cotovelo. a gente não gostava? E até os outros chefes.João Guimarães Rosa . querendo mostrar o chão em roda. de repente. com pontapé. Mas. todo. assim. jogou para um lado o tamborete. Arte em esturdice.. e correu por todos um arruído entusiasmado. Se abanquem. Foi um silêncio. no chão. diante de Joca Ramiro. defronte de Zé Bebelo.. todos. um por um. Se fez. Aquilo tudo tinha sido tão depressa. dando aprovação. aceitou o louco oferecimento de se abancar: risonho ligeiro se sentou. para o espaço ficar sendo todo maior. Joca Ramiro.. Joca Ramiro para tudo tinha resposta: Joca Ramiro era lorde. não podiam ser assim desfeiteados. A modo que – Zé Bebelo – sabe o senhor então o que ele fez? Se levantou. homem acreditado pelo seu valor. Mandaram a gente abrir muito mais a roda. senhores! Não se vexem.. nunca vista. Os dois mesmos se olharam. de papeata. contente. O que vendo. o dele. faiscando. e a esforço se sentou no chão também.Grande Sertão: Veredas – “Se abanquem. Acho que iam matar. astuto natural. – 361 – . Ah.

bom para a forca. Criatura assim sente tudo adivinhado. Que até capivara se senta é para pensar – não é para se entristecer. com ansiedade de ver e ouvir o que se desse. Ar que inchou o peito e o queixo levantou.João Guimarães Rosa . como o piscar de olho dum papagaio. E rodou aprumada a cara. vistoriando as caras de tantos homens. mas foram ficando moleados ou agachados.Grande Sertão: Veredas mudaram de jeito: não se sentaram também. Eu sabia: dele havia de vir o pior. Vigiei o Hermógenes. – 362 – . formaram uns silêncios. Ao que o povaréu jagunço. com voz cheia. Aquilo fazia sentido? Mas ele não estava lorpa nem desfeliz.” – ele perguntou. Aquele povo – rio que se enche com intervalo dos estremecimentos.” Assim Zé Bebelo respondeu. valendo se valendo. se espremendo em volta. todo o mundo parado. por nivelar e não diferir. Com o que. regular. sem remangar das armas. de relâmpago. – “Toda hora eu estou em julgamento. Joca Ramiro ia falar as palavras consagradas? – “O senhor pediu julgamento.. Menos no mais. Eu tinha confiança nele. em beleza de calma. na ponta dos olhos da gente..

que para cada hora livrava. Mas. Saranga ele não era. paciência Joca Ramiro nunca perdia. Os jagunços em roda não entendiam o escutado.Grande Sertão: Veredas – “Lhe aviso: o senhor pode ser fuzilado. duma vez. então.” – Joca Ramiro fraseou. motejou. A pois! Ele mesmo tinha inventado exigido esse julgamento. com toda a ligeireza. Perdeu a guerra. Sabem lá? Que foi que tiveram de ganho?” O puro lorotal. muito. de repente. Serviu algum?” – “Sempre serve. lá para cima – me disseram. e agora torcia o motivo: como se em fim de um julgamento ninguém competisse de ser fuzilado. e uns indicavam por gestos que Zé Bebelo estava gira da idéia.. E atrevimento. Só que. está prisioneiro nosso. por sorte. Ao que bastava Joca Ramiro perder um ponto da paciência. Sabença aprendida não adiantou para nada.. outros quadrando um calado de mau – 363 – .... De ouvir. um pouco. chegou neste sertão.. dividi o riso do siso. o que nunca tinha visto.João Guimarães Rosa . não mais: – “Adianta querer saber muita coisa? O senhor sabia. chefe: perdi – conheço que perdi. Mas estava brincando com a morte. para que tanto requifife?” – Zé Bebelo repostou. Vocês ganharam. viu tudo diverso diferente. – “Com efeito! Se era para isso.

Aqueles muitos homens. o senhor. e as tantas caras.. Não é da terra. com um modo manso muito proveitoso: – “Meus meninos. Joca Ramiro não reveio logo. nessa sossegação.. o que já está de si desencaminhado. desencaminhar os sertanejos de seu costume velho de lei. e falar. cercando o oco em raia da roda.. eles podiam referver em imediatidade.Grande Sertão: Veredas sinal. num zunir: que vespassem.” – “Velho é. os de cá e os de lá.” – “O senhor não é do sertão. Ou fazer aquele bom sorriso. Mexeu com as sobrancelhas. como falava constante. – 364 – . Joca Ramiro tinha poder sobre eles..” Agora. Nanja. que se fie! O que fosse. Até o que disse: – “De lá não sai barca!” Assim se diz..João Guimarães Rosa .. completamente. com as coronhas no chão. o banguelê. O velho valeu enquanto foi novo. daí: – “O senhor veio querendo desnortear.” – “Sou do fogo? Sou do ar? Da terra é é a minhoca – que galinha come e cata: esgaravata!” Que visse o senhor os homens: o prospeito. advai que aquietavam. debaixo dos bigodes. Só.. como sacudiam as cabeças.. com os chapéus rebuçantes. Bastava vozear curto e mandar.. no estatuto.. Meus filhos. Joca Ramiro era quem dispunha.

exata. ficado em pé. Uns descombinavam dos outros. eles gostam de alguma demora. e Titão Passos se desacocorou. os cabras estavam desejando querendo o sério divertimento. quase de tolo. Atual Zé Bebelo foi começando a conversar comprido. soubesse tudo. e cumpriam seus manejos no geral. esses com suas responsabilidades. Conforme vi. João Goanhá. Estudei foi os chefes. aquele ar sonsado. com a mão num ombro. Eles pensavam. sacudia o moroso das pernas. que devia de ter algum machucado.Grande Sertão: Veredas Estavam escutando sem entender. Em tudo. Um.João Guimarães Rosa . mas a montoeira deles. O senhor mal conhece esta gente sertaneja. no sutil. esses. O Hermógenes botava pontas de olhar. mesmo. no grosso do semblante. Mas. que é que notava? Nada. o senhor reparasse. ao que menos: expunham um certo se aborrecer. Por mim. vi: assim serenados assim. com o Hermógenes. some escuro. o Ricardão da outra. Só Candelário duma banda de Joca Ramiro. nuns visos. O Hermógenes fez beiço. por si. os chefes cabecilhas. Naquela hora. Só Candelário. segundo seja? Cada um conspirava suas idéias a respeito do prosseguir. estavam ouvindo missa. na taramelagem como de seu gosto – aí o Ricardão armou um bocejo. de nada não sabia. – 365 – . com Titão Passos e João Goanhá.

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Joca Ramiro deve de ter percebido aquele repiquete. Porque ele sobre se virou, para Só Candelário, ao de indagar: – “Meu compadre, que é que se acha?” Sô Candelário fungou, e logo abriu naqueles sestros que tinha, movimental. Sendo por ele querer se desengonçar e não podendo: como era alto e magro duro aquele homem! Sarre os onhos olhos amarelos de gavião, dele, hem. Não achou as palavras para dizer, disse: – “Ao que a ver! Ao que estou, compadre chefe meu...” A lesto que Joca Ramiro assentiu, com cabeça, conforme se Só Candelário tivesse afirmado coisas de sincera importância. Zé Bebelo abriu muito a boca, tirando um ronco, como que de propósito. Alguns, mais riram dele. Em menos Joca Ramiro esperou um instante: – “A gente pode principiar a acusação.” Aprovaram, os todos, todos. Até Zé Bebelo mesmo. Assim Joca Ramiro refalou, normal, seguro de sua estança, por mais se impor, uma fala que ele drede avagarava. Dito disse que ali, sumetido diante, só estava um inimigo vencido em combates, e que agora ia receber continuação de seu destino.
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Julgamento, já. Ele mesmo, Joca Ramiro, como de lei, deixava para dar opinião no fim, baixar sentença. Agora, quem quisesse, podia referir acusação, dos crimes que houvesse, de todas as ações de Zé Bebelo, seus motivos; e propor condena. Rés o que começasse, quem? O Hermógenes limpou a goela. De primeira entrada eu vinha sabendo – esse Hermógenes precisava de muitas vinganças. Ele era sujeito vindo saindo de brejos, pedras e cachoeiras, homem toda cruzado. De uns assim, tudo o que escapa vai em retinge de medo ou de ódio. Observei, digo ao senhor. Carece de não se perder sempre o vezo da cara do outro; os olhos. Advertido que pensei: e se eu puxasse meu revól-. ver, berrasse fogo nele? Se acabava um Hermógenes – estava ali, são no vão, e num átimo se via era papas de sangue – ele voltava para o inferno! Que era que me acontecia? Eu tomava castigo mortal, de mão de todos? Deixasse que tomasse. Medo não tive. Só que a idéia boa passou muito fraca por mim, entrada por saída. Fiquei foi querendo ouvir e ver, o que vinha mais. Demarcava que iam acontecendo grandes fatos. Desde, Diadorim, conseguindo caminho por entre o povo, aí chegou, se encostou em mim; tão junto, mesmo sem conversar, mas respirava, como
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era com a boca tão cheirosa. Há-de haja! – o Hermógenes tinha levantado, para falar: – “Acusação, que a gente acha, é que se devia de amarrar este cujo, feito porco. O sangrante... Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele – a ver se vida sobrava, para não sobrar!” – “Quá?!” – Zé Bebelo debicou, esticando o pescoço e batendo com a cabeça para diante, diversas vezes, feito pica-pau em seu oficio em árvore, Mas o Hermógenes com aquilo não somou; foi pondo: – “Cachorro que é, bom para a forca. O tanto que ninguém não provocou, não era inimigo nosso, não se buliu com ele. Assaz que veio, por si, para matar, para arrasar, com sobejidão de cacundeiros. Dele é este Norte? Veio a pago do Governo. Mais cachorro que os soldados mesmos... Merece ter vida não. Acuso é isto, acusação de morte. O diacho, cão!” – “Ih! Arre!” – foi o que Zé Bebelo ponteou. Assim contracenando, todo o tempo – medo do Hermógenes remedou, de feias caretas.

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– “É o que eu acho! É o que eu acho!” – O Hermógenes então quase gritou, por terminar: – “Sujeito que é um tralha!” – “Posso dar uma resposta, Chefe?” – Zé Bebelo perguntou, sério, a joca Ramiro. Joca Ramiro concedeu. - “Mas, para falar, careço que não me deixem com as mãos amarradas...” Nisso não havendo razão ou dúvida. E Joca Ramiro deu ordem. João Frio, que de perto dele não se apartava, veio de lá, cortou e desatou a manupeia nas juntas dos pulsos. Que era que Zé Bebelo ia poder fazer? Isto: – “P’r’ aqui mais p’r’ aqui, por este mais este cotovelo!...” – disse, batendo mão e mão, com o acionado de desplante. E riu chiou feito um sõim, o caretejo. Parecia mesmo querer fazer raiva no outro, em vez de tomar cautela? Vi que tudo era enfinta; mas podia dar em mal. O Hermógenes pulou passo, fez menção de reluzir faca. Se teve mão em si, foi por forte costume. E Joca Ramiro também tinha atalhado, com uma aspação: – “Tento e paz, compadre mano-velho. Não vê que ele ainda está é azuretado...”

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– “Ei! Com seu respeito, discordo, Chefe, maximé!” – Zé Bebelo falou. – “Retenho que estou frio em juízo legal, raciocínios. Reajo é com protesto. Rompo embargos! Porque acusação tem de ser em sensatas palavras – não é com afrontas de ofensa de insulto...” – Encarou o Hermógenes: – “Homem: não abusa homem! Não alarga a voz!...” Mas o Hermógenes, arriçado, crível que estivesse todo no poder bravo de uma coceira, falou para Joca Ramiro – e para todos que estávamos lá – falou, numa voz rachada em duas, voz torta entortada: – “Tibes trapo, o desgraçado desse canalha, que me agravou! Me agravou, mesmo estando assim vencido nosso e preso... Meu direito é acabar com ele, Chefe!” Vi a mão do perigo. Muitos homens resmungaram em aprovo, ali rodeando, os tantos, dez ou vinte círculos, anéis de gente. Rentes os do bando do Hermógenes chegaram a dar altas palavras, de calca pá. Questionou-se a respeito disso? Tinham barulhos na voz. Mesmo os chefes entre si cochicharam. Mas Joca Ramiro sabia represar os excessos, Joca Ramiro era mesmo o tutumumbuca, grande maioral. Temperou somente:

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– “Mas ele não falou o nome-da-mãe, amigo...” E era verdade. Todo o mundo concordou, pelo que vi de todos. Só para o nome-da-mãe ou de “ladrão” era que não havia remédio, por ser a ofensa grave. Com Joca Ramiro explicar assim, não havia jagunço que não aceitasse o razoável da ponderação, o relembrado. O Hermógenes mesmo se melou na atrapalhação das ligeirezas, e aí tinha de condizer. Nada ele não disse: mas abriu quadrada a boca, em careta de quem provou pedra de sal. E Zé Bebelo mesmo aproveitou para mudar o aspecto – para uma certa circunspecção. Se via que ele pensava a curto ganho no estreito, por detrás daquele sonsar. Trabalho de idéia em aperto, pelo pão de salvar sua vida da estrosca. Imediato, Joca Ramiro deu a vez a Só Candelário, não deixando frouxura de tempo para mais motim: – “Hê, e você, compadre? Qual é a acu. sação que se tem?” Sobre o que, sobreveio Só Candelário, arre avante, aos priscos, a figura muita, o gibão desombrado. Sobrava fala: – “Com efeito! Com efeito!...” – falou. Vai, vai, forteou mais a voz: – “Só quero pergunta: se ele convérn em nós dois resolvermos isto à faca! Pergunto para briga de duelo... É o que acho! Carece mais de discussão não... Zé Bebelo e eu – nós dois, na faca!...”
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Só Candelário mais longe não conseguia de dizer, só repetia aquilo, desafio, e no mais se mexer, feito com são-guido ou escaravelho. Sem raiva quase nenhuma – notei; mas também sem nenhuma paciência. Só Candelário sendo assim. Mas aí Joca Ramiro remediou, dizendo, resistencioso, e escondeu o de que ria: – “Resultado e condena, a gente deixa para o fim, compadre. Demore, que logo vai ver. Agora é a acusação das culpas. Que crimes o compadre indica neste homem?” – “Crime?... Crime não vejo. É o que acho, por mim é o que declaró com a opinião dos outros não me assopro. Que crime? Veio guerrear, como nós também. Perdeu, pronto! A gente não é jagunços? A pois: jagunço com jagunço – aos peitos, papos. Isso é crime? Perdeu, rachou feito umbuzeiro que boi comeu por metade... Mas brigou valente, mereceu... Crime, que sei, é fazer traição, ser ladrão de cavalos ou de gado... não cumprir a palavra...” – “Sempre eu cumpro a palavra dada!” – gritou de lá Zé Bebelo... Só Candelário olhou encarado para ele, rente repente, como se nos instantes antes não soubesse que ele estava ali a três passos. Só assim mesmo prosseguiu:
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– “... Pois, sendo assim, o que acho é que se deve de tornar a soltar este homem, com o compromisso de ir ajuntar outra vez seu pessoal dele e voltar aqui no Norte, para a guerra poder continuar mais, perfeita, diversificada...” Ressaltados, os homens, ouvindo isso, rosnaram de bem, cá e lá: coragem sempre agradava. Diadorim apertou meu braço, como sussurrou: – “Doideira, dele. Riobaldo, Só Candelário está doido varrido...” Aí podia ser. Mas eu tinha relanceado um afio de onde ódio que ele mirou no Her-, mógenes, enquanto falando; e entendi: Só Candelário não gostava do Hermógenes! Sendo que ele podia até nem saber disso, não ter noção firme de que não gostava; mas era a maior verdade. Sucinto, só por conta disso, eu apreciei demais aquele rompante. Só Candelário esbarrou de falar, secado. Só aos bufos, surdo de se ver que ele tinha feito o grande esforço todo, sopitante. Se afundava para os altos. – “Apraz ao senhor, compadre Ricardão?” – Joca Ramiro solicitou, passando a vez. Aquele retardou tanto para começar a dizer, que pensei fosse ficar para sempre calado. Ele era o famoso Ricardão, o

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homem das beiras do Verde Pequeno. Amigo acorçoado de importantes políticos, e dono de muitas posses. Composto homem volumoso, de meças. Se gordo próprio não era, isso só por no sertão não se ver nenhum homem gordo. Mas um não podia deixar de se admirar do peso de tanta corpulência, a coisa de zebu guzerate. As carnes socadas em si – parecia que ele comesse muito mais do que todo o mundo – mais feijão, fubá de milho, mais arroz e farofa –, tudo imprensado, calcado, sacas e sacas. Afinal, ele falou: fosse o Almirante Balão: – “Compadre Joca Ramiro, o senhor é o chefe. O que a gente viu, o senhor vê, o que a gente sabe o senhor sabe. Nem carecia que cada um desse opinião, mas o senhor quer ceder alar de prezar a palavra de todos, e a gente recebe essa boa prova... Ao que agradecemos, como devido. Agora, eu sirvo a razão de meu compadre Hermógenes: que este homem Zé Bebelo veio caçar a gente, no Norte sertão, como mandadeiro de políticos e do Governo, se diz até que a soldo... A que perdeu, perdeu, mas deu muita lida, prejuízos. Sérios perigos, em que estivemos; o senhor sabe bem, compadre Chefe. Dou a conta dos companheiros nossos que ele matou, que eles mataram. Isso se pode repor? E os que ficaram inutilizados feridos, tantos e tantos... Sangue e os sofrimentos desses clamam. Agora, que
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vencemos, chegou a hora dessa vingança de desforra. A ver, fosse ele que vencesse, e nós não, onde era que uma hora destas a gente estava? Tristes mortos, todos, ou presos, mandados em ferros para o quartel da Diamantina, para muitas cadeias, para a capital do Estado. Nós todos, até o senhor mesmo, sei lá. Encareço, chefe. A gente não tem cadeia, tem outro despacho não, que dar a este; só um: é a misericórdia duma boa bala, de mete-bucha, e a arte está acabada e acertada. Assim que veio, não sabia que o fim mais fácil é esse? Com os outros, não se fez? Lei de jagunço é o momento, o menos luxos. Relembro também que a responsabilidade nossa está valendo: respeitante ao seo Sul de Oliveira, doutor Mirabô de Melo, o velho Nico Estácio, compadre Nhô Lajes e coronel Caetano Cordeiro... Esses estão agüentando acossamento do Governo, tiveram de sair de suas terras e fazendas, no que produziram uma grande quebra, vai tudo na mesma desordem... A pois, em nome deles, mesmo, eu sou deste parecer. A condena seja: sem tardança! Zé Bebelo, mesmo zureta, sem responsabilidade nenhuma, verte pemba, perigoso. A condena que vale, legal, é um tiro de arma. Aqui, chefe – eu voto!...” A babas do que ele vinha falando, o povaréu jagunço movia que louvava, confirmava. Aí, nhães, pelos que davam mais
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demonstração, medi quantidade dos que eram do Ricardão próprio. Zé Bebelo estava definito – eu pensei – qualquer rumorzinho de salvação para ele se mermando, se no mel, no p’ra passar. Mire e veja o senhor: e o pior de tudo era que eu mesmo tinha de achar correto o razoado do Ricardão, reconhecer a verdade daquelas palavras relatadas. Isso achei, meio me entristeci. Por quê? O justo que era, aquilo estava certo. Mas, de outros modos – que bem não sei – não estava. Assim, por curta idéia que eu queira dividir: certo, no que Zé Bebelo tinha feito; mas errado no que Zé Bebelo era e não era. Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado. Eh, bê. Mas, para o escriturado da vida, o julgar não se dispensa; carece? Só que uns peixes tem, que nadam rio-arriba, da barra às cabeceiras. Lei é lei? Loas! Quem julga, já morreu. Viver é muito perigoso, mesmo. Nisso, Joca Ramiro já tinha transferido a mão de fala a Titão Passos – esse era como um filho de Joca Ramiro, estava com ele nos segredos simples da amizade. Abri ouvidos. Idéia me veio que ia valer vivo o que ele falasse. Aí foi:

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– “Ao que aprecio também, Chefe, a distinção minha desta ocasião, de dar meu voto. Não estou contra a razão de companheiro nenhum, nem por contestar. Mas eu cá sei de toda consciência que tenho, a responsabilidade. Sei que estou como debaixo de juramento: sei porque de jurado já servi; uma vez, no júri da Januária... Sem querer ofender ninguém – vou afiançando. O que eu acho é que é o seguinte: que este homem não tem crime constável. Pode ter crime para o Governo, para delegado e juiz-de-direito, para tenente de soldados. Mas a gente é sertanejos, ou não é sertanejos? Ele quis vir guerrear, veio – achou guerreiros! Nós não somos gente de guerra? Agora, ele escopou e perdeu, está aqui, debaixo de julgamento. A bem, se, na hora, a quente a gente tivesse falado fogo nele, e matado, aí estava certo, estava feito. Mas o refrego de tudo já se passou. Então, isto aqui é matadouro ou talho?... Ah, eu, não. Matar, não. Suas licenças...” Coração meu recomprei, com as palavras de Titão Passos. Homem em regra, capaz de mim. Cacei jeito de sorrir para ele, aprovei com a cabeça; não sei se ele me viu. E mais não houve rebuliço. Só que notei estopim os homens ficando diferentes. Agora tomavam mais ânsia de saber o que era que iam decidir os manantas. O pessoal próprio de Titão Passos era que formavam
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o bando menor de todos. Mas gente muito valente. Valentes como aquele bom chefe. “De que bando eu sou?” – comigo pensei. Vi que de nenhum. Mas, dali por diante, eu queria encostar direto com as ordens de Titão Passos. – “Ele é meu amigo...” – Diadorim no meu ouvido falou – “... Ele é bisneto de Pedro Cardoso, trasneto de Maria da Cruz!” Mas eu nem tive surto de perguntar a Diadorim o resumo do que ele pensasse. loca Ramiro agora queria o voto de João Goanhá – o derradeiro falante, que rente dificultava. João Goanhá fez que ia levantar, mas permaneceu agachado mesmo. Resto que retardou um pouco no dizer, e o que disse, que digo: – “Eu cá, ché, eu estou p’lo qu’ o ché pro fim expedir...” – “Mas não é bem o caso, compadre João. Vocês dão o voto, cada um. Carece de dar...” – foi o que Joca Ramiro explicou mais. A tanto João Goanhá se levantou, espanou com os dedos no nariz. Daí, pegou e repuxou seu canhão de cada manga. Arrumou a cintura, com as armas, num propósito de decisão. Que ouvi um tlim: moveu meus olhos.

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– “Antão pois antão...” – ele referiu forte: – “meu voto é com o compadre Só Candelário, e com meu amigo Titão Passos, cada com cada... Tem crime não. Matar não. Eh, diá!...” Rezo que ele falou aquilo, aquele capiau peludo, renasceu minha alegria. Rezo que falou, grosso, como se fosse por um destaque de guerra. De ripipe, espiei o Hermógenes: esse preteou de raiva. O Ricardão não acabava de cochilar, cara grande de sapo. O Ricardão, no exatamente, era quem mandava no Hermógenes. Cochilava fingido, eu sabia. E agora? Que é que tinha mais de ter? Não estava tudo por bem em bem terminado? Ah, não, o senhor mire e veja. Assim Joca Ramiro era homem de nenhuma pressa. Se abanava com o chapéu. Ao em uma soberania sem manha de arrocho, perpasseou os olhos na roda do povo. Ant’ante disse, alto: – “Que tenha algum dos meus filhos com necessidade de palavra para defesa ou acusação, que pode depor!” Tinha? Não tinha. Todo o mundo se olhava, num desconcerto, como quem diz lá: cada um com a cara atrás da sela. Para falar, ali não estavam. Por isso nem ninguém tinha esperado.

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Com tanto, uns fatos extraordinários. Haja veja, que Joca Ramiro repetiu o perguntar: – “Que por aí, no meio de meus cabras valentes, se terá algum que queira falar por acusação ou para defesa de Zé Bebelo, dar alguma palavra em favor dele? Que pode abrir a boca sem vexame nenhum...” Artes o advogo – aí é que vi. Alguém quisesse? Duvidei, foi o que foi. Digo ao senhor: estando por ali para mais de uns quinhentos homens, se não minto. Surgiu o silêncio deles todos. Aquele silêncio, que pior que uma alarida. Mas, por que não davam brados, não falavam todos total, de torna vez, para Zé Bebelo ser botado solto?... me enfezei. Sus, pensei, com um empurrão de força em mim. Ali naquel’horinha – meu senhor – foi que eu lambi idéia de como às vezes devia de ser bom ter grande poder de mandar em todos, fazer a massa do mundo rodar e cumprir os desejos bons da gente. De sim, sim, pingo. Acho que eu tinha suor nas beiras da testa. Ou então – eu quis – ou, então, que se armasse ali mesmo rixa feia: metade do povo para lá, metade para cá, uns punindo pelo bem da justiça, os outros nas voltas da cauda do demo! Mas que faca.e fogo

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houvesse, e braços de homens, até resultar em montes de mortos e pureza de paz... Sal que eu comi, só. Abre que, ah, outra vez, Joca Ramiro reproduziu a pergunta: – “Que se tiver algum...” – e isto e aquilo, tudo o mais. Me armei dum repente. Me o meu? Eu agora ia falar – por que era que não falava? Aprumei corpo. Ah, mas não acertei em primeiro: um outro começou. Um Gu, certo papa-abóbora, beiradeiro, tarraco mas da cara comprida; esse discorreu: – “Com vossas licenças, chefe, cedo minha rasa opinião. Que é – se vossas ordens forem de se soltar esse Zé Bebelo, isso produz bem... Oséquio feito, que se faz, vem a servir à gente, mais tarde, em alguma necessidade, que o caso for... Não ajunto por mim, observo é pelos chefes, mesmo, com esta vênia. A gente é braço d’armas, para o risco de todo dia, para tudo o miúdo do que vem no ar. Mas, se alguma outra ocasião, depois, que Deus nem consinta, algum chefe nosso cair preso em mão de tenente de meganhas – então também hão de ser tratados com maior compostura, sem sofrer vergonhas e maldades... A guerra fica sendo de bem-criação, bom estatuto...” Aquilo era razoável. A ver, tinha saído tão fácil, até Joca Ramiro, em passagens, animou o Gu, com acenos. Tomei
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coragem mais comum. Abri a minha boca. AI, mas, um outro campou ligeiro, tomou a mão para falar: Era um denominado Dosno, ou Dosmo, groteiro de terras do Cateriangongo – entre o Ribeirão Formoso e a Serra Escura – e ele tinha olhos muito incertos e vesgava. Que era que podia guardar para dizer um homem desses, capiau medido por todos os capiaus do meu Norte? Escutei. – “Tomém pego licença, sós chefes. Em que pior não veja, destorcendo meu desatino. É-que, é-que... Que eu acho que seja melhor, em antes de se remitir ou de se cumprir esse homem, pois bem: indagar de fazer ele dizer ond’é que estão a fortuna dele, em cobre... A mó que se diz – que ele possederá o bom dinheiro, em quantia, amoitado por aí... É só, por mim, é só, com vosso perdão... Com vosso perdão...” Riram, uns; por que é que riram? – rissem. Dei como um passo adiante, levantei mão e estalei dedo, feito menino em escola. Comecei a falar. Diadorim ainda experimentou de me reter, decerto assustado: – “Espera, Riobaldo...” – tive o siso da voz dele no ouvido. Aí eu já tinha principiado. O que eu acho, disse, supri neste mais menos fraseado:

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com as ordens destes famosos chefes. E é chefe jagunço. notando que recebia tanto olhar. Saí. amassado de não poder outra coisa. todos aqui sabem... que honra o raio da palavra que dá! Aí. nenhum de si! Por isso... e inteiro. Da banda de cá. Mas. Então. Saí de lá. abaixou a cara. Eu conheço este homem bem. esse. sem nem escolha minha. eu afirmo: Zé Bebelo é homem valente de bem. meio fugido. Não pôr as capas dos olhos nem a idéia no Hermógenes – que Hermógenes nenhum neste mundo não tivesse. com meu cano e meu gatilho. prendi minhas vistas só num homem.. e vim guerrear aqui. o salteio de que todos a finque me olhavam. eu não aceitei niw guém. um pardo. que calado não posso ficar. Zé Bebelo. Senti outro fogo no meu rosto. nunca menti que não estive. porque quis. No eu falando: –. mas de me abrandar não tinha prazo nem jeito – eu já tinha começado. Estive do lado dele. vós. agora.. Joca Ramiro. nenhum para mim.. e dei mão leal.. Coração bruto batente. de primei– 383 – .Grande Sertão: Veredas – “Dê licença. e porque estava bem por minha frente. um que foi o qualquer. por debaixo de tudo. Pobre.” Digo ao senhor: que eu mesmo notei que estava falando alto demais. o que eu não queria era ver o Hermógenes.João Guimarães Rosa . que licença eu peço! O que tenho é uma verdade forte para dizer. foi que briguei. grande chefe nosso.

Isto. no fim. nem matar os inimigos que prende..” Tirei fôlego de fôlego. nem consentir de com eles se judiar. hão de se dizer que aqui na SempreVerde vieram se reunir os chefes todos de bandos. Sei que me desconheci. A guerra foi grande. pelo Norte dos Nortes. até em outras partes.. latejei.. e com o sobregoverno de Joca Ramiro – só para. Nela todo o mundo vai falar... Suspendi do que estava: –. em Minas e na Bahia toda.. Pois então. Testemunhei. mesmo não merece de morrer matado à-toa.. E isto digo. Por tanto.. Vão fazer cantigas. e por meu cabo-chefe Titão Passos!. fim. Joca Ramiro. ele merece um absolvido escorreito. relatando as tantas façanhas. constantes anos. é vergonha. com seu cabras valentes. o quanto fosse um boi de corte? Um fato assim é honra? Ou é vergonha?. montoeira completa. encheu este sertão.. afirmo! Vi..Grande Sertão: Veredas ra.João Guimarães Rosa . – 384 – . se acabar com um homenzinho sozinho – se condenar de matar Zé Bebelo. sem ter ruindades em cabimento.” – “Para mim...” – o que em brilhos ouvi: e quem falou assim foi Titão Passos. xente. que digo. e cumprindo a licença dada por meu grande chefe nosso.... como dever que sei. porque de dizer eu tinha. durou tempo que durou..

Aí.João Guimarães Rosa . em tanto terminei de pensar: que meu receio era tolo: que. foi Só Candelário. Mas. então não iam gostar de escutar aquilo de mim. que Joca Ramiro não estava aprovando meu saimento. nem olhei para Joca Ramiro – eu achasse. isto a mais.. porque nem não tive tempo – porque imediato senti que tinha de completar o meu. não sei. se a gente der condena de absolvido: soltar este homem Zé Bebelo. raios danados que seja!. ligeiro demais.. A ver. jagunço. Tudo tão aos traques de-repente. que podia parecer forte reprovação.. Aos brados bramados de Sô Candelário. é fama grande. temi perder a vez de tudo falar.” . a mãvazias. quase que nunca pensa em reto: eles podiam achar normal que da banda de cá os inimigos presos a gente matasse. porque. – 385 – .. eu acho. punido só pela derrota que levou – então. pelo que é.. que decerto ia ser para piorar – o que foi no eu dizer que Zé Bebelo não matava os presos. se do nosso lado se matava.” – assim. eu nem acabei o relance que me arrepiou minha idéia: que eu tinha feito grande toleima. e depois soltamos. Aí. e quem gritou. Fama de glória: que primeiro vencemos. assim: – `..Grande Sertão: Veredas – “Vergonha! Raios diabos que vergonha é! Estrumes! A vergonha danada.

tivesse deixado em vida os companheiros nossos presos. Ricardão fazia que cochilava... às pasmas.” – Ele estava mandarino. Somente que. eu achei? Não. por a ele darem espaço. de arrompe: os de perto se afastando. Seja fama de glória! Só o que sei. Agora o Hermógenes havia de alguma coisa dizer? O Hermógenes experimentava os dentes nos beiços. Chagas de Cristo!. Todo o mundo vai falar nisso. assunto de sair até divulgado em jornal de cidade. consoante sossegado estúrdio recitou. Desadorou-se! Senhor de bofe bruto. Só Candelário era de se temer inteiro. – “. sapateou. Seja a fama de glória.. louvando a honra da gente.. ele Só Candelário espiou para cima. assim em tom – a bonita voz... Eu disse. Gente airada.. Hão de botar verso em feira..Grande Sertão: Veredas mas apreciavam também que Zé Bebelo. Aí eu pensei... que perigo que – 386 – . E. o ligeiro..” – eta Só Candelário tornou a atalhar.. como contrário. que a gente esperasse. mesmo.. por muitos anos.. Disse o verdadeiro. o de não se esperar para dizer: – “. e que ninguém bridava. por muitas partes e lugares.. em vez do trestampo. depressa..João Guimarães Rosa . de espírito: – “.

e também assim com tanta vontade de falar. em desde que não fique em terras daqui nem da Bahia. tornar a ficar nenhum. Titão Passos levantava a testa. Num esfrio. Ele mesmo não há de querer tornar a vir. avindado de repente.. Ele... Tomei uma respiração. Mas Titão Passos trucou. pudesse dar capacidade de tantas constâncias? – 387 – . que comecei a temer.. Melhor é se ele der a palavra de que vai-s’embora do Estado. mansice. – “Tenho uns parentes meus em Goiás. Eu quis. de repentemente. me vesti de pavor. eu não possuía vênia para discorrer no que para mim não era de minha alta conta. ninguém.. então queria que eu calasse absolutamente a boca.Grande Sertão: Veredas tem? Se ele der a palavra de nunca mais tornar a vir guerrear com a gente. que alguns muito se riram. num átimo. E falou quando não se aguardava.” – eu disse. safado humildezinho. caminhos de cobra. decerto cumpre. senhor-moço. e aí vi que eu tinha terminado.João Guimarães Rosa . Isto é. É o justo.” – Zé Bebelo falou. O que olhei – Joca Ramiro teria estado a gestos? – Joca Ramiro fazendo um gesto. Eu não ri. para bem longe. que no normal falava tão pouco. disse mansinho mãe..

Crime maior ele teve? Pelos companheiros nossos.. É o que eu voto por justo. que quase me abraçava: – “Riobaldo.. perde o que não acha. tenho muito dó. coronel Caetano. e então. não apontavam o eu ter falado o forte solene. isso não é culpa de chefe nenhum. agora. tu disse bem! Tu é homem de todas valentas_” Mas. Digo.” Titão Passos disse: – “. Era de Zé Bebelo e de Joca Ramiro.. ele indo para bem longe. perto de mim... É o que eu acho. O silêncio todo era de Joca Ramiro.. eu não existisse mais existido? Só Diadorim...João Guimarães Rosa .” – Titão Passos terminou. e os outros – hão de concordar com a resolução que a gente tome.” Só Candelário disse: – “. para todos os de lá.. E mortes tantas. em desde que seja boa e de bom proveito geral. Às ordens. Chefe. Então.. E mais que esses grandes de nossa amizade: doutor Mirabô de Melo. para que é que a gente é jagunço?! Quem vai em caça.. Ninguém não reparava mais em mim. desterrado. o terrivelmente. os outros. Mas morrer em combate é coisa trivial nossa.Grande Sertão: Veredas Titão Passos disse: – “. que morreram ou estão ofendidos passando mal.. está punido. por que era que – 388 – .

Rente que nesse resto de tempo decerto cruzaram palavras.. senhor chefe Joca Ramiro. com as palavras: – Gostei de ver! Tatarana! Assim é que é assim! Só. devia de ter tido.João Guimarães Rosa . Foi discorrendo vagaroso.. Vi e vi: ele estava só apalpando o vau. este sincero julgamento. Já um pouco descabelado. Demarco idade de – 389 – . Zé Bebelo. ele colhia e entendia no ar – estava com as orelhas por isso. é meu nome: José Rebelo Adro Antunes! Tataravô meu Francisco Vizeu Antunes – foi capitão-de-cavalos. Sujeito finório.. nem agências de adulação! Eu. exportando uma espécie de autoridade que em mim veio. que não deram para eu ouvir. Mas serenou sota. acendido. coisa sem coisa.Grande Sertão: Veredas não me davam louvor. que eu tinha pronunciado bem.. Agradeço sem tremor de medo nenhum. José. para diante. de entremeado. do que pelo rompante brabo com que falei. e o em meio. – `. aquela cabeça sobrenadando. Diadorim mais me disse: e que tinha sido menos por minhas tantas palavras. se mediam. Altas artes que agradeço. Pois porque Zé Bebelo teve ordem de falar. Principiou. Aí o qualquer zunzo que houvesse. esta bizarria... A licença. Que era que ele de mim devia de estar pensando? E Joca Ramiro? Esses se fronteavam: um ao outro. E para Zé Bebelo eu não tinha olhado.

com guerra e gastos. minha guerra. Se eu alcançasse. foram estes: Joca Ramiro. Estou vendo que a gente só brigou por um mal-entendido. de vós.... Coisa que eu queria era proclamar outro governo... Para que a tanta sensaboria toda. mas com a ajuda. também.. uns aqui presentes. mas pedia ao grande Joca Ramiro que encaminhasse seus brabos cabras para – 390 – . à frente de meus homens. sem o remonstrar nem os reviretes: – “. Agradeço os que por mim bem falaram e puniram.. Briguei muito mediano. não nasci gostando de soldados. Vim para o Norte.Grande Sertão: Veredas quarenta-e-um anos. não obrei injustiça nem ruindades nenhumas. maximé. nunca disso me reprovam. e nasci na bondosa vila mateira do Carmo da Confusão.. essas filosofias? Mas porém ele pronunciava com brio.... entrava para a política. e tantos outros afamados chefes. Joãozinho BemBem. Desfaço de covardes e de biltragem! Tenho nada ou pouco com o Governo. sou filho legitimado de José Ribamar Pacheco Antunes e Maria Deolinda Rebelo. contra homens valentes quis dar o combate.João Guimarães Rosa .” Oragos. Vou depor. pois vim. Sou crescido valente. outros que não estão. sem as papeatas de em antes. depois.... Só Candelário!. Não obedeço ordens de chefes políticos. em nomes. Não está certo? Meu exemplo.

Prova de que vós nossos jagunços do Norte são civilizados de calibre: que não matam com o distrair de mão um qualquer inimigo pegado.. o que não creio. Ah. E viva sua valente jagunçada! Mas. aí..” Anda que fez um gesto bonito. Não – 391 – . seus outros chefes. Isto aqui não são essas estrebarias.. Dou viva Joca Ramiro. Sou de altas cortesias. fartura para todos. Perdi.. vim guerrear.. e estar defronte de julgamento. Ao que. e que me praz. Mudei para adiante! Perdi – isto é – por culpa de má-hora de sorte. Agora perdi. por um desguardo. A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele a dentro. com escondidos e logro. no em mesmo. para deputado.João Guimarães Rosa .. Uê.. nunca tive. Não vim socolor de disfarces. se espiritou.. Só que medo não tenho. Estou a cobro de desordens malinas.. Altos descuidos alheios.. este Norte em remanência: progresso forte. a alegria nacional! Mas. o afã de política. Estimei. Estou preso. Não por má chefia minha! Não devia de ter querido contra Joca Ramiro dar combate.. foi grandeúdo: – “..Grande Sertão: Veredas votarem em mim. no travável.. comandantes de seus terços. não devia-de. com estrondos. Assaz. de peito aberto. De ter sido guardado prisioneiro vivo. eu tive e não tenho mais. homem sou.. isto é que eu louvo. de vez.

foi um momento movimentado.João Guimarães Rosa .. encolhido ao mais. Mas agradeço. pedir. Mas minha palavra dando. porque minha regra é: tudo que fiz. Se a condena for às ásperas. Zé Bebelo. acabando nas palavras.Grande Sertão: Veredas confesso culpa nem retrauta. Chefes. Era uma bolinha de gente. ali sentadinho ficou. digo. Agora. Julgamento – isto.. com minha coragem vos agradeço. pequenininho. mas não condizia bem. – 392 – . É meu consueto. sei: não deviade. Perdão. Careci deste julgamento. Já um pouco descabelado. minha palavra as mil vezes cumpro! Zé Bebelo nunca roeu nem torceu. merece é meia-vida e dobro de morte. E. neste nobre julgamento. com a minha coragem me amparo. que com arma ainda na mão pedi. espero vossa distinta sentença. é o que a gente tem de sempre pedir! Para quê? Para não se ter medo! É o que comigo é. só por verem que não tenho medo. Mas. Também não posso me oferecer de servir debaixo d’armas de Joca Ramiro – porque tanto era honra. se eu receber sentença salva. hoje.. e que deste grande Joca Ramiro mereci. Fechou-se um homem. repequeno. não peço: que eu acho que quem pede.” Digo ao senhor. Isto é: depende da sentença que vou ter. Chefe. valeu por bem feito. de sua alta fidalguia. fortemente.. sem mais por dizer. Julgamento. para escapar com vida.

Meu povo me honra. A decisão. Mas Joca Ramiro encurtou tudo num gesto. ele tão aposto homem tão bom.. nem cacundeiro. O Hermógenes e o Ricardão – e Joca Ramiro para eles sorriu. O senhor reconhece?” – 393 – . Joca Ramiro ia decidir! Sobre o simples. O poder dele veio distribuído endireito em Zé Bebelo. para um dizer em orelha. – “O sujeito machacá! Assopres!” – “Arre. Capaz que castra garrote com as unhas dos dedos. ligeiro. em frente da barriga – só esperava o nada virar coisas. Só Candelárioconforme seus conformes. mas não sou criado deles.” Não o que Diadorim não disse – mas ele estava assim por pálido. que foi bom: conheci que era. A sentença vale.Grande Sertão: Veredas Olhei. Vai. olhei.. Acontecesse o que. Eles conversaram um circuitozinho. vi os chefes. O quando falou: – “O julgamento é meu. seus compadres. Só a gente mal ouvisse o sussurro de todos lá..João Guimarães Rosa . O Ricardão e o Hermógenes – eles dois eram chouriço e morcela. avançante-Joca Ramirosorriu para Só Candelário.. maluco é – mas frege. Só Titão Passos espiava desolhadamente. Era a hora. sentença que dou vale em todo este norte. O jeito de João Goanhá – richarte. Sou amigo dos meus amigos políticos. o Hermógenes ainda ia se debruçar. tão sério: com as mãos ajuntadas baixo.

e vai?” Zé Bebelo demorou resposta.João Guimarães Rosa . E que. eu viaje daqui sem vigia nenhuma. com firmeza de voz. ele já descabelado demais. pois: – “A palavra e vou.” Ao que Joca Ramiro disse: – “Topo. e as minhas armas. Chefe. Reconheço! Reconheço. Se fez que as três vezes.” – estreques estalos de gatilho e pinguelo – o que se diz: essas detonações.. ou licença de vir comigo.” – “ .” – “A falando?” – “Que: se ainda tiver homens meus vivos. E. como compertence. Só solicito que o senhor determine minha ida em modo correto. mas o senhor me fornecendo animal-desela arreado.” – 394 – . – “Bem.Grande Sertão: Veredas – “Reconheço” – Zé Bebelo aprovou.... tendo nenhum. Se eu consentir o senhor ir-se embora para Goiás. Topo... legal. ou boas outras. até: – “Reconheço. igualmente. Mas foi só minutozinho. mais o de-comer para os três dias. nem guarda. com alguma munição. que tenham ordem de soltura. presos também por aí. o senhor põe a palavra...

Aquele pessoal tribuzava.. Diadorim me chamou. quando ele levantava. cozinhando de tudo o que vale a valer. Topo!” – “.Grande Sertão: Veredas Ao que aí Joca Ramiro assim três vezes: – “Topo. com sua licença. Reinou zoeira de alegria: todo o mundo já estava com cansaço de dar julgamento. ou não der contra-ordem. parecia – as pessoas. Tinha sempre algum batendo mão-de-pilão.. ao em um tempo – feito um boi só. o chão. ou um relincho de cavalo.” Mas Diadorim por certo não me ouviu bem.. as árvores desencontradas. Levantaram campo.. engolindo de boca fechada. fomos caminhando. nem na Bahia? Por uns dois.” – Joca Ramiro ai disse. no meio da queleléia do povo. – “Diadorim” – eu disse – “esse Hermógenes está em verde. pelo que começou dizendo: – “Deus é servido. Mas. puxava as coisas consigo. e se tinha alguma certa fome. três anos?” – “Até enquanto eu vivo for.. agora.” Não sosseguei. a pergunta faço: pelo quanto tempo eu tenho de estipular. não por – 395 – .. Mesmo eu vi o Hermógenes: ele se amargou. em final. sem voltar neste Estado.João Guimarães Rosa . Então. num de repente.. nas portas da inveja.. Digo. O encarregado da Sempre-Verde abriu cozinha: panelas grandes e caldeirões. Ah. E todos também. E se levantou. ou um gado em círculos. honrado vou.

Estava? Pois. com uma tristeza fechada aos cantos. como cão que consome raivas. para desfazer na decisão de Joca Ramiro. na hora do julgamento. desarrear e escovar.. pedi espera a Diadorim. mas. tudo estava passado.Grande Sertão: Veredas nada não. De como primeiro ele. o sol na beira. e escutar. Um dizer ouvi: – .. só escancarava muito as pernas. Virando que eu quis ir lá.João Guimarães Rosa . se upou na sela. E o bornal com matlotagem. Saiu em marcha de estrada. Deram que levasse carabina. Aí já tinha jantado. sem bom preceito. e cruzcruz cartucheiras. mas depois ficou artimanhado. na beira do rego. “Mamãezada. sem olhar para trás. Assente. enfim. Zé Bebelo estava dando as despedidas. eu queria cuidar do meu cavalo. soturno. Dei com o Hermógenes. não se sobressaía. rebolando que nem apostemados. Se viu. “Mamãezada”?Mais não ouvi. Dito. arreado com sela boa de MinasVelhas. facãozão na mão. terminado. – 396 – . Se foi. mas pelo exato ser: eu tinha estalando nos meus olhos a lembrança do Hermógenes. quando esbarrou de cochilar. aqueles olhos grossos. eu cacei onde estava o Hermógenes. a bem. Sobre o cavalo se houve.” Ao que seria? O Hermógenes não era nenhum toleimado... Com pouco. montado num bom cavalo de duas cores. relembro que não sei direito. tempo parei perto dele. dissesse. E o Ricardão? Esse: uma pesadureza na cara toda. quase quis. suas outras armas.

seguindo o rego. Daí. escornados até quase debaixo do mijo dos cavalos pastantes. fez pouca poeira. as coisas que falavam e faziam. E assaz muita cachaça se tomou. Quem quisesse sopa. no cavalo de duas cores. que eram essas grandes abundâncias. o passar da água canta friinho. e a gente aprecia o cheiro do musguz das árvores. entalagados. permeio. O senhor havia de gostar de ver aquela ajuntação de povo. torresmos. era só ir se aquinhoar na porta-dacozinha. enfunando as redes. Nós estávamos no jaz ali. estávamos todos pegando o que comer. na vadiação. Me deu certa tristeza. abóbora-moranga cozida. fui com Diadorim para o rumo dos pés de fruta. Homens deitados no chão. Com a entrada da noite.Grande Sertão: Veredas Só o Triol devia de prestar acompanhamento a ele. todos bem comidos. Disso não esqueço? Não esqueço. feito meninos. para sempre.João Guimarães Rosa . Mas a minha satisfação ainda era maior. queria um bom sono. escureceu. por o uso de resguardado território. que Joca Ramiro mandou satisfazer goles a todos – extraordinária de boa. de uma légua. Daí. A gente estava desagasalhados na alegria. e em toda fogueira assavam mantas de carnes. – 397 – . A ver. engrossa. Angu e couve. o jeito como podiam se rir. Zé Bebelo tinha ido embora. Eu estava que impava. A quantidade de pratos era que faltava. repimpados.

– “Para ele.. Riobaldo. você prezava de ir viver n’Os-Porcos. Aí quando eu acabei até à pontinha meu – 398 – .. Zé Bebelo. Que eu dizia e pensava numa coisa. sei.” Dei que sim. Agora me expulsassem? Do jeito. Eu tinha vindo quase sem mesmo notar que vinha – mas presado.. Mundo à revelia? Mas. a basba do basbaque. bobéia disso. mas Diadorim recruzava com outras – “. como todos uma hora vêm. mesmo enquanto que essas palavras. para o sertão do Norte. não tem dia nem noite: vai seu rumo. precisão de agenciar um resto melhor para a minha vida.. que falou: – “Riobaldo.” Disse a Diadorim..João Guimarães Rosa . Diadorim: que é que você achou daquele homem?” – ainda indaguei.Grande Sertão: Veredas Eu tinha vindo para ali... Ao dar. ficamos.” – foi o que Diadorim me respondeu... que lá é bonito sempre – com as estrelas tão reluzidas?. E ficou pensando. Não me esqueci daquelas palavras dele: que agora era “o mundo à revelia.” Toleima.. de agora. desse jeito mesmo é que o mundo sempre esteve.. lugar dele de crescimento? Mas. isto é.. Como ia querer dizer diferente: pois lá n’Os-Porcos não era a terra de Diadorim própria.. Teve sorte! Entestou foi com Joca Ramiro – com sua alta bondade.. tinham repelido para trás Zé Bebelo. eu pensasse que Diadorim podia ter me respondido. assim nestas fações: – “. fazendo a viagem. Mas Diadorim menos me respondeu.

numa ponta do dito de Zé Bebelo.. confirmei. o que quis me dizer foi em tanto segredo. Deus não queira. e eu sentia minha barriga demais – 399 – .. meu medo.. não me recordo. Cabras que. sei lá bem porque. no sereno da noite. Depois.Grande Sertão: Veredas cigarro.. Por causa de Zé Bebelo ter ido embora. quem salvou Zé Bebelo de morte? Pois. tirava meu poder de pensar com a idéia em ordem.. Diadorim estava triste. mas fiel.” Prometi outra vez.” Eu queria que ele tivesse explicado o fato de outro jeito..João Guimarães Rosa . tomou figura Só Candelário – homem esquipático e enorme de si. ele terminou assim: – “..” Depois. avançam e matam e matam. A ser que você viu o Hermógenes e o Ricardão.. abaixo de Joca Ramiro.. esses me dão receio. por começar foi ele Zé Bebelo mesmo. Desde.... ainda perguntei: – “A ver. você mesmo me prometeu. Riobaldo: a gente persiste por aqui. Por quê? – há-de o senhor querer saber. na voz. Eu também estive. gente estarrecida de iras frias. é o mundo.. para a gente falar quase cara a cara: – “Ah.. por um gesto dele. e aquilo era motivo? Depois de Paracatu. Zé Bebelo ido. que ele puxou a beira da minha rede. Agora. Mas Diadorim estava prosseguindo: – “. quem salvou Zé Bebelo da morte?” Diadorim. e que põe mais de trezentas armas. não se conversou mais. Ao enquanto Joca Ramiro pode precisar da gente.

Por isso mesmo é que fiz questão de relatar tudo ao senhor. Como é que eu ia poder ter pressentimento das coisas terríveis que vieram depois. eu cri em Joca Ramiro. só serve para chamar soldados e dar atrásamento e desrazoada despesa. demais de tantas comidas e bebidas. na hora. neste meio do sertão. Porque. com tanta despesa de tempo e miúcias de palavras. – “O que nem foi julgamento legítimo nenhum: só uma extração estúrdia e destrambelhada. Zé Bebelo.” – o senhor dirá. Zé Bebelo não era réu no real! Ah. o julgamento tinha dado paz à minha idéia – por dizer bem: meu coração.. o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juizo! Daquela hora em diante.João Guimarães Rosa . Pois: por isso mesmo. adeus disso. mas. estava sendo maior do que pessoa.. no centro do sertão. naquela ocasião. com um dia mais. – 400 – . conforme o senhor vai ver. Dormi. Por causa de Zé Bebelo. Eu gostava dele do jeito que agora gosto de compadre meu Quelemém. que já lhe conto? Curtamente: dali da Sempre-Verde. Só o que me consolava era ter havido aquele julgamento. desapartamos. O bando muito grande de jagunços não tem composição de proveito em ocasião normal. O julgamento? Digo: aquilo para mim foi coisa séria de importante. gostava por entender no ar. com a vida e a fama de Zé Bebelo autorizadas. doideira acontecida sem senso. Por isso.Grande Sertão: Veredas cheia.

” – foi o que disse. saímos. montamos. Arreamos. mas nossa tarefa era de muito encoberto empenho e valor: pelo que tínhamos de estanciar em certos lugares. ginete – ladeado por Só Candelário e o Ricardão. e fez o sinal-da-cruz. Naquela mesma da hora. igual iguais galopavam. e mais. Mas. Diadorim olhou. e em acontecer de vigiar algum rompimento de soldados. Alaripe ia vir com Titão Passos. cordial. Ao que reluzia o bem belo. em caracol. Joca Ramiro dava partida também. nesse dia mesmo. e que o Antenor seguindo rumo em beira do Ramalhada. Se tinha um roteiro. deveras. com o fito de receber remessas.João Guimarães Rosa . um destravo de grande povo se desmanchar. por quê? A gente não ia junto com Joca Ramiro. muitas ordens. até para lá do Jequitaí. ele me botou a benção. – “Assim. sendo para ser: o mais encostado possível no São Francisco. dobramos nove léguas. – 401 – . em caso. de volta para o São João do Paraíso. com maior ajuda. que para o Norte entrassem. com um punhado dos Hermógenes.. Saíam os chefes todos – assim o desenrolar dos bandos. aos gritos de vozear. em caso de lhe a ele podermos valer. Lá ia ele. mão a mão? Ah. em nossos cavalos tão bons.Grande Sertão: Veredas Constava que João Goanhá torasse para a Bahia. em seu cavalão branco. Aquilo. Titão Passos chamou a gente: Diadorim e eu.. Novas ordens. Dá sempre tristezas algumas.

Sertão é isto: o senhor empurra para trás. num campo solteiro. Sertão é quando menos se espera. Titão Passos determinou uma esquadrazinha deles – com Alaripe em testa: fossem para a outra banda do morro. para chegar numa cachoeira no Gorutuba. agradáveis. Subimos. a garrixa-do-brejo. em varjaria descoberta. As garças. gaivotas. até à Lagoa do Amargoso. E sete. Mas. não se carecia de fazer nada. comigo. sim senhor. mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. – 402 – . Nós estávamos em vinte e três homens. saímos. digo. elas em asas. e muitas idas marchas: sertão sempre.Grande Sertão: Veredas As nove.João Guimarães Rosa . As muitas águas. Ali era bonito. livre rolador. E dez. O marrequim. Mas saímos. para demora. O manuelzinho-dacroa! Diadorim. Ao quando um belo dia. tem horas em que me pergunto: se melhor não seja a gente tivesse de sair nunca do sertão. Ali era bom? Sossegava. O rio desmazelado. Lugar perto da Guararavacã do Guaicuí: Tapera Nhã. a gente parava em macias terras. E aí esbarramos parada. nome que chamava-se. pasto de muito gado. frangos-d’água. Com mais dez. Os verdes já estavam se gastando. Não se tinha perigos em vista. arranchando entre Quem-Quem e Solidão. Eu tornei a me lembrar daqueles pássaros.

cresce por si: de ouvir boi berrando à forra. esperar o que não acontecesse. O que. cozinheiro era o Paspe – fazia pirão com fartura. E as malocas de bois e vacas que se levantavam das malhadas. era: bondosos dias. por minha vida. Madrugar vagaroso. Imaginei esses sonhos. o sol vinha todo forte. pescado fácil: curimatã ou dourado. parados. vadiado. nunca faltava tempo para à-toa se permanecer. onde o capim era lindo verdejo. sestas inteiras. Gavião dava gritos. de acabar de dormir. ou refrescavam dentro d’água. O que é de paz. suspendendo corpo sem rumor nenhum. como um açúcar se derretendo no campo. de irmãos e irmãos. no meio-escuro. Aí então aquelas fileiras de reses caminhavam para a beira do rio. a sobre. Todo dia se comia bom peixe novo. se escutando o grito a mil do pássaro rexenxão – que vinham voando. Às vezes chegavam a nado até em cima duma ilha comprida. e passavam.João Guimarães Rosa . aquelas chusmas pretas. amanheciam duma restinga de mato. sem necessidade nenhuma. até o dia muito se esquentar. por começo. até brilhantes. ali. me vinha idéia de tudo só ser o passado no futuro. Dormi. Também razoável se caçava. enchiam a praia. corria destino para a gente. Me lembrei do – 403 – . Quando não ventava. e dividia a cachaça alta.Grande Sertão: Veredas baixada própria da Guararavacã. Nós ficamos. A vigiação era revezada.

escapado.. Eu tinha culpa de tudo. Eu queria uma mulher. que até um referver de mau desejo. que é a sem razão demotivo. na minha vida. que até um corguinho que defrontei – um riachim à-toa de branquinho – olhou para mim e me disse: – Não. a vão.João Guimarães Rosa . De pensar assim me desvalendo. – e eu tive que obedecer a ele. qualquer. O tanto assim. nem aonde eu extenso ia. isso até me serviu de bom consolo. serve como beneficio.” – foi o que pensei. e não sabia como não ter. da pior de todas. E marchei duas léguas.. O – 404 – .. querendo pessoas. O mundo estava vazio. Boi e boi e campo.Grande Sertão: Veredas não-saber. Boi e boi. no meio da quebreira. Apertou em mim aquela tristeza. Atravessei um ribeirão verde. parece que entro mais no sozinho do vago.. diferente. sem dizer o que a quem. O riachinho me tomava a benção. com os umbuzeiros e ingazeiros debruçados – e ali era vau de gado. Era para eu não ir mais para diante. Apeei. que. Arte que eu caçava outra gente. de coisa nenhuma deste mundo – o senhor pode raciocinar. e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo. Tem trechos em que a vida amolece a gente. montei a cavalo e saí. Um dia. E eu não tinha notícia de ninguém. quando notei que estava com dorde-cabeça. na ocasião. E eu nem sabia mais o montante que queria. Eu tocava seguindo por trilhos de vacas. “Quanto mais ando. tanto.

é um diabo menino. Eu vinha tão afogado. O que sinto. O calor do dia abrandava. E sei que em cada virada de campo. Aquele verde. alumiando com lanterninha. sei. Um que é o romãozinho. Ouro e prata que Diadorim aparecia ali. que corre adiante da gente. não consigo. feito ele mesmo. só igual a ele mesmo nesta vida. como a água de todos os rios em seus lugares ensombrados. que não dá movimento. querendo me contar coisas que a idéia da gente não dá para se entender – e acho que é por – 405 – . não falou nada. arenoso. não cri: tudo o que é bonito é absurdo – Deus estável. tinha me rastreado. Dormi. deitei. em o meio certo do sono. quieto.Grande Sertão: Veredas bom da vida é para o cavalo. Não sorriu. por tanto é que refiro tudo nestas fantasias. que vê capim e come. a uns dois passos de mim.João Guimarães Rosa . repondo minhas lembranças. me encontrado. tinha muita velhice. vira flor. Hoje. me vigiava. nos ventos. Sério. Dormi. Mas eu estava dormindo era para reconfirmar minha sorte. vira de tudo: vira pedras. Eu também não falei. Naqueles olhos e tanto de Diadorim. Quando acordei. mas tão moço. e esforço em dizer ao senhor. está dia e noite um diabo. tomando conta. Tinha notado minha idéia de fugir. baixei o chapéu de tapa-cara. Então. muita velhice. e debaixo de sombra de cada árvore. Quando a gente dorme. o verde mudava sempre. deitado num pelego.

Será que tem um ponto certo. Apanhei foi o silêncio dum sentimento. Acho qqe nem coisas assim não acontecem mais. Se um dia acontecer. feito um decreto: – Que você em sua vida toda toda por diante. Naquele tempo. e ficar esbarrado ali. digo ao senhor como foi que eu gostava de Diadorim: que foi que. Não me alembro. De Diadorim ter vindo. o mundo se acaba. não encontra – de derradeiro.. o mundo quer ficar sem sertão. era para se dar feliz risada. vez nenhuma. Riobaldo. O senhor vá escutando. As grandes coisas. era engraçado. ali se chama é Caixeirópolis. e dizem que lá agora dá febres. ouvi dizer. sempre!. Mas.João Guimarães Rosa . o senhor escreva. Não dei. antes de acontecerem. Nem pude nem quis.Grande Sertão: Veredas isso que a gente morre. não tem mais. Guararavacã. Montamos. Agora. – 406 – . dele a gente não podendo mais voltar para trás? Travessia de minha vida. Caixeirópolis. A Guararavacã do Guaicuí: o senhor tome nota deste nome. E. Guararavacã – o senhor veja. viemos voltando. no tempo dito. – que era como se Diadorim estivesse dizendo. Mas foi nesse lugar. que meus destinos foram fechados. tem de ficar para mim. não dava. esperando meu acordar e me vendo meu dormir.. pegado em mim. em hora nenhuma. eu nunca tive vontade de rir dele.

Me a mim. fiquei sabendo que gostava de Diadorim – de amor mesmo amor. Por lá.João Guimarães Rosa . na baixada do rio. Melhor alembro. quando é ameaço de tempestade. rancho velho de tropeiro. no intervalo.Grande Sertão: Veredas Aquele lugar. eu mandava a morte em outros. na ida duma vereda em capim tem-te que verde. Arrepio que fuxicava as folhagens ali. lá na – 407 – . Com aquelas. banhador. termo da chapada. Primeiro. Mas. foi de repente. não achei ruim. saudade dos Gerais. como estava sendo. O senhor vê: o remôo do vento nas palmas dos buritis todos. Como é que. esfriava um pouco. se podia mandar o amor? O rancho era na bordada-mata. e ia. Alguém esquece isso? O vento é verde. por pejo de vento – o que vem da Serra do Espinhaço – um vento com todas almas. pardo. o ar. mal encoberto em amizade. Aí. balançar esfiapado o pendão branco das canabravas. dum mesmo jeito. Eu sou donde eu nasci. de cuidadas tão bem. nas beiras. Eu estava sozinho. cantava era o joão-pobre. dessas que respondem ao vento. com a distância de tantas braças. num repartimento dum rancho. minhas armas. eu estava deitado numa esteira de taquara. Me deu saudade de algum buritizal. Ao perto de mim. Saudades. que aquilo se esclareceu: falei comigo. o senhor pega o silêncio põe no colo. não me reprovei – na hora. lá adiante longe. Não tive assombro. Sou de outros lugares. De tarde. reluzentes nos canos.

cheiro de boi sempre alegria faz. Ele tinha vindo quase endireito em mim. Ele deu um susto. cada um por si. Daí. por pouco entrou no rancho. macucando: aquilo ele ciscava no chão. permeio às reses. fugiu-se. no liso do campo claro. meu vizinho. Eu ri – “Vigia este. Me abracei com ele. joguei no lado donde ele. Me olhou.. trazendo as asas para diante. Ele não estava. Aquele pássaro procurava o quê? Vinha me pôr quebrantos. nas árvores. vero. caminhou primeiro até de costas.Grande Sertão: Veredas Guararavacã. permaneceu em mim. Mas retardei. que eu tinha falado. O macuco me olhou. rolou os olhos. Não dei. de cabecinha alta.João Guimarães Rosa . Mel se sente é todo lambente – “Diadorim. Mas. de um macuco – sempre solerte. sarandando. feito quisesse esconder a cabeça. E escutei o barulho. Era mês de macuco ainda passear solitário – macho e fémea desemparelhados.” Como era que eu podia dizer aquilo? – 408 – .. E o macuco vinha andando. corriam. O nome de Diadorim. aos casais. Peguei só num pé de espora. eu estava bem. pica-pau bate e grita. Eu podia dar nele um tiro certeiro. vindo do dentro do mato. pensei que Diadorim estivesse em voz de alcance. feito galinha de casa. Diadorim!” – eu disse. catavam. foi caçar poleiro para o bom adormecer. cambalhota fosse virar. Os quem-quem. entrou outra vez no mato. meu amor. O gado ainda pastava.

Grande Sertão: Veredas Explico ao senhor: como se drede fosse para eu não ter vergonha maior. e quase sem espairecimento nenhum. eu abraçava com meu corpo aquele Diadorim-que não era de verdade. desmisturado de todos. por fantasma. que doía e prazia. levantei. eu pudesse morrer. sem mais perceber. O que sei. no meio de tantos jagunços. – 409 – . de estropelias e guerras.João Guimarães Rosa . agora. manava em hora. o sentir tinha estado sempre em mim. Daí. mas amortecido. Mas. Não era? A ver que a gente não pode explicar essas coisas. o claro que rompia. o pensamento dele que em mim escorreu figurava diferente. Eu não sabia. Sobrestive um momento. com outras minhas forças. rebuçado. fechados os olhos. Aquela hora. Mas. rebentava. de todas as outras pessoas – como quando a chuva entreonde-os-campos. me fazia crescer dum modo. no fofo dum costume. um Diadorim assim meio singular. com minha mente. sufruía aquilo. apartado completo do viver comum. Aquilo me transformava. Eu devia de ter principiado a pensar nele do jeito de que decerto cobra pensa: quando mais-olha para um passarinho pegar. Mas – de dentro de mim: uma serepente. Eu tinha gostado em dormência de Diadorim. não me importava. Era e era. Tudo tem seus mistérios. Um Diadorim só para mim. tinha sido o que foi: no durar daqueles antes meses.

acendi um cigarro. que eu tinha inventado. de saber se era firme exato.” – eu expendi. Só o que a gente pode pensar em pé – isso é que vale. eu carecia de olhar. com o certo espanto. por lei de rei..Grande Sertão: Veredas Levantei. por paz de honra e tenência. Aí fui até lá. “Se é o que é” – eu pensei – “eu estou meio perdido. voltei. fazia todas as estradas. – “Ao que foi?” – me gritaram pergunta. com o Drumõo. uê.” Acertei minha idéia: eu não podia. você carece de alguma coisa?” – ele me perguntou. para o rancho. Daí. Olhei bem para ele. eh. sacar esquecimento daquilo de mim. Ia. eu num átimo punha barra em tudo. pisava nos espaços. até gastar a imagem falsa do outro Diadorim. na beira dum fogo. fiz de conta estivesse olhando Diadorim. devagar. então eu estava meio salvo! Aperrei o nagã. onde Diadorim estava. – 410 – . admitir o extrato daquilo. Eu pedi um tição. sempre riam do tiro tolo dado. que acho que errei.. ah. o Paspe e Jesualdo. Tanto também. precisei de dar um tiro – no mato – um tiraço que ribombou.João Guimarães Rosa . mas então eu devia de quebrar o morro: acabar comigo! – com uma bala no lado de minha cabeça. Ou eu fugia – virava longe no mundo.. passos que dava. quemme-vê. Riobaldo. – “Hê. por uma precisão de certificar. – “Acho que um macaquinho miúdo. Rangi nisso – consolo que me determinou. Ah. de carne e osso. pudesse não. Se não..

Bom ermo.. Nada não chegava em envio.Grande Sertão: Veredas encarando. de um sujeito ainda moço. daí a obra de duas léguas. De por diante. se ele quisesse alugar a mulherzinha dele para a gente. O senhor dorme em sobre um rio? Segundo digo. Ah. encostando o ouvido no chão. E eu mesmo acreditei. se escuta barulho de fortes águas. quando perto de Diadorim eu estava. do que fosse para chegar. o morro se esclarecia.João Guimarães Rosa . fizemos grande redondeza.. para duro. vermelho.. bem caros preços que eu pagava. que vão rolando debaixo da terra. De noite. a gente cruzou as vizinhanças todas. me dizer: “Nego que gosto de você. tinha uma lavourinha. mas só como amigo!. trazia as tristes fumaças.. calado comigo. trocávamos recado de avisos com o pessoal do Alaripe. acostumei a me dizer isso. suspiroso. Mas quem vinha eram os meninos do – 411 – . sempres vezes. Notícia. se sucedeu a queima dos campos: quando o vento dava para trás. que era amigo nosso. Da banda de cá.” – assim o que dizia o Paspe. meu senhor! – como se o obedecer do amor não fosse sempre ao contrário. no mal. O senhor vê. asgrava em labaredas e brasas. De lá.” Assaz mesmo me disse. o tempo que paramos na Guararavacã do Guaicuí regulou em dois meses. Da outra banda do rio. num rumo... nos Gerais longe: nuns lugares. Todo dia. – “Ah. nenhumas. Gosto.

quando o céu empoeirado. João Vaqueiro sabia tudo.. – “Olha.João Guimarães Rosa . Chega passava a mão nas tetas de uma vaca – capins – 412 – .. vinham em dois cavalos magros. Pousavam no pindaibal do brejo. todos. A gente ria. vigia: o manuelzinho-da-troa já acabou de fazer a muda. e deu ao menino mais velho: – “P’ra tu leva de presente. Às vezes. o Paspe pitou de sal um quarto dela. lambiam o chão nos pés da gente. amontados. até carregava os menorzinhos. um dia uma vaca deu corrida em alguém. Os urubus espaceavam.. levava para mostrar a eles os pássaros das ilhas do rio. Os meninos receavam o gado: ali no meio tinha reses muito bravas. até morreram alguns.” Um dia. Esses meninozinhos. dá à tua mãe. enrolou em folhas. pegava um por cada mão. querendo bater. com o secar. agarrados uns nos outros. se chegavam. ia desatolar os bois que podia.. para vender para a gente. depois. e eram cinco ou seis meninos. queriam todo o tempo ver nossas armas. de magros e fracos os bois se atolavam no embrejado. Diadorim gostava deles. Uns eram mansos: por um punhado de sal. montados num cavalo magro. uns mesmo não se sabia como podiam. em que tínhamos caçado uma paca bem gorda. de tão mindinhos. pediam que a gente desse tiros. fala que quem mandou fui eu.Grande Sertão: Veredas lavrador. João Vaqueiro chamava a gente.” – ele recomendou. Mas. traziam feixes de cana.

– 413 – . Sempre só um de nós era que ia lá – para não desconfiarem.Grande Sertão: Veredas tão bons. muito forte.. para sé lavar corpo. cada um encomendava o que queria. cantavam pelo nariz. Ia o Jesualdo. de mocinha faço ela virar mulher. geléia de mocotó. de sair por aí. e nóivo. prezado peço em casamento. quando não padece. marmelada. O dono da venda tinha duas filhas. como elas eram.” – o Vove disse. E o Liduvino e o Admeto cantavam coisas de sentimento. fumo bom. pego uma das duas. Que jagunço amolece. e se esse vendeiro for contra nós. no começo do cerradão. ah. – “O que tu não faz! Porque o que eu quero é o exato: que eu vou’ lá.. – “A gente carecia era de dar um fogo. eu vou lá.. de dia é de noite. Vendiam licor de banana e de pequi. A quase meio-rumo de norte e nascente.. a quatro léguas de demorado andamento. por combate. que de guerra se tiver licença. o Jesualdo cada vez que voltava carecia de explicar à gente. – “Ei. que quando vier o tempo. ah. Diadorim mandou comprar um quilo grande de sabão de coco de macaúba. A gente outorgava a ele o dinheiro.” – sensato se dizia. formosuramente.” – o Triol contestou. o senhor crê? – algumas ainda guardavam leite naqueles peitos. tinha uma venda de roça...João Guimarães Rosa . toucinho.

De tão bobas tristezas. gosto não. Requeijão é com café bem quente que é mais gostoso.. aumentamos o rancho. As garças é que praziam de gritar. deu um sutil trovão. Cortamos paus. Mas não se deve de tentar o tempo. folhagem de coqueiros. Daí. e o socó-boi range cincerros. – “Sei não. Cantigas muito velhas. voltou aquele vaqueiro Bernabé. Dada a primeira estiada. o garcejo delas. Aquele vaqueiro Bernabé voltou. a gente se ria. em seu cavalinho castanho.João Guimarães Rosa . Esses eram homens tão simples.Grande Sertão: Veredas Ao que perguntei: e aquela canção de Siruiz? Mas eles não sabiam. e o socó latindo sucinto. Aí pelo mato das pindaíbas avante. Bateu o primeiro toró de chuva. Trovejou-se. no renovame. Os dias de chover cheio foram se emendando.. outro. – 414 – .” – eles desqueriam. Coquexavam. no friinho de entrechuvas. pensaram que a gente estava garimpando ouro. que se tinha incumbido a ele. As tanajuras revoavam. Tudo igual – às vezes é uma sem-gracez. outras diversas vezes. levaram as novilhas em quadra de produzir. e que por dinheirinho bom se pagou. E vieram uns campeiros. e vinha trazer requeijão. rever o gado da Tapera Nhã. tudo era um sapal. – “A vida tem de mudar um dia para melhor” – a gente dizia.

– 415 – .. Ele tinha tomado muitas chuvas. Achamos que fosse mesmo ele. ei. que de mais norte chegava. um feio dia. quase gritou: – “Mataram Joca Ramiro!. Aí. feras! Que no céu. um cafuz pardo. de sonome o GaviãoCujo. As vertentes verdes do pindaibal avançassem feito gente pessoas.” Aí estralasse tudo – no meio ouvi um uivo doido de Diadorim : todos os homens se encostavam nas armas.Grande Sertão: Veredas Ah. Titão Passos bramou as ordens.. nem cabeceava. só um moído de nuvens. o cavalinho castanho dava toda pressa de vinda. e pelos vazios do cavalo. vai. mas palavra logo não saiu. na boca da estrada que saía do mato. O que era? O Gavião-Cujo abriu os queixos. dos copos do freio à boca da bota. não era. Diadorim tinha caído quase no chão. só vi tudo quieto. – “Te rogaram alguma praga?” O Gavião-Cujo levantou um braço. lá ele apontou. Aí. Esbarrou e desapeou. ele gaguejou ar e demorou – decerto porque a notícia era urgente ou enorme. se via que estava ancho com muitas plenipotências.João Guimarães Rosa . À fé. meio amparado a tempo por João Vaqueiro. e. – “Ar’uê. num pronto ser. então?!” – Titão Passos quis. Era um brabo nosso. Se gritava – o araral. que tudo era lamas. pedindo prazo.

ai. Assim os companheiros num estupor.Grande Sertão: Veredas Caiu. o pobre Diadorim. sozinho se sentou. me doeu. e em mais vermelho o rosto. A vez de ser um desespero. Ao que não havia mais chão. muito feroz. eu corri. Não quis apoio de ninguém. todo apertado em seus couros e roupas. numa fúria. Antes mais. Até atravessado. Alheio ele dava um bufo e soluço. e Diadorim voltou a seu si. orço que outros – 416 – . o mundo nas juntas se desgovernava. para ajudar. na barriga. chefe. eu surpreendi eriço de tremor nos meus braços. num alerta. Mas eu nem pude dar auxílio: mal ia pondo a mão para desamarrar o colete-jaleco. chefe: que mataram Joca Ramiro. Assaz que os belos olhos dele formavam lágrimas. Recobrou as cores. O Paspe pegou uma cuia d’água.João Guimarães Rosa . que com os dedos espriçou nas faces do meu amigo. nem razão. Titão Passos mandava. – “Repete. Secou todo cuspe dentro do estreito de minha boca. Gavião!” – “Ai.” – “Quem? Adonde? Conta!” Arre. feito um morto estava. tão pálido como cera do reino.. o Gavião-Cujo falava. Ele. e me repeliu. de pancada. se levantou..

... beira da Jerara – lá onde o córrego da Jerara desce do morro do Vôo e cai barra no Riachão. – “. que estavam persistindo lealmente.. O ódio da gente... na Jerara..... Matou foi o Hermógenes. feito um relâmpago em fato. Morreram os muitos....João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas olhos. O Antenor. Aquilo foi à traição toda. O Hermógenes. Muitos. Diz-se que foi sido de repente. Os homens do Ricardão..” – “Arraso. sozinho surdo nos ermos da Guararavacã. não se esperava. – 417 – .. Joca Ramiro podia morrer? Como podiam ter matado? Aquilo era como fosse um touro preto.. mas que era de todos.. Riachão da Lapa. terras do Xanxerê.” – constante não havendo quem não exclamasse. se suspendia nas sussurrosas ameaças. para retardar o surgir do medo – e a tristeza em cru – sem se saber por que. urrando no meio da tempestade. em verdade... – “. armava um pojar para estouros. – “Mas. ali. Assim Joca Ramiro tinha morrido. Aí. adonde onde!?” – “A desgraça foi num lugar. cão! Caracães! O cabrobó de cão! Demônio! Traição! Que me paga!. unidos malaventurados. E a gente raivava alto.. Tudo tinha vindo por cima de nós.

Aí foi ele quem me mandou trazer este aviso.João Guimarães Rosa . mas o grosso dos bandos dele se acha nos pertos da Lagoa-do-Boi. uns quinze.. Clorindo Campelo. e ond’é então que estão?!” – “Ah. Zé Inocêncio. Sendo que se despachou um positivo também para dar parte a Medeiro Vaz. o Bicalho. com vinte e tantos companheiros. mas Deus é grande!” – 418 – . na Serra dos Quatis. em juramento. no de lado de lá do Rio. mas o pessoal do Hermógenes e do Ricardão era demais numeroso. Luís Pajeú. nas desafrontas? Se tem. e ajudar a gente na vingança agora. Só Candelário ainda está para o Norte. atalhou a narração.. Sei que o sertão pega em armas.. fugiram corretamente. Já foi portador para lá. nos Gerais.” Mas Titão Passos.. para rachar Ricardão e Hermógenes. Os todos os outros: João Goanhá. João Goanhá pára com porçanheira de homens.. Leôncio Fino. diá! Mas quem é que está pronto em armas. sim.. o Cambó. chefe. quem pôde. de arrompe... Silvino Silva conseguiu fuga.Grande Sertão: Veredas mortos: João Frio.. Leite-de-Sapo. Até se deu um tiroteio terrível.. Dos bons..... ele agarrou o Gavião-Cujo pelos braços: – “Hem. Só Candelário.

Artes que o Gavião-Cujo ainda contava mais. pelas costas. que é perto de Grão Mogol. Diadorim tanto empalidecesse. com falsos propósitos. atiraram em Joca Ramiro. então: graças a Deus! Ao que. então. ele pediu cachaça. lá mesmo.. carga de balas de três revólveres. para a Serra dos Quatis. O Hermógenes distanciou Joca Ramiro de Só Candelário. Aquilo dava um sutil enorme. por certo. Que não sabia-o GaviãoCujo respondeu. a um lugar dito o Amoipira. Ah. Teremos de ir. na Jerara.. Hermógenes. Tomou. mas que decerto teriam enterrado.Grande Sertão: Veredas – “Louvado. como saía ansiada... e todos responderam reluzentemente. Aí. mais o pessoal do Ricardão. – “Um homem de – 419 – ..” – Titão Passos se cerrou. se sabia.. as miúcias – parecia que tinha medo de esbarrar de contar. Todos tomamos. E estava. Joca Ramiro morreu sem sofrer. – “E enterraram o corpo?” – Diadorim perguntou. está bem..João Guimarães Rosa . Que o Hermógenes e o Ricardão de muito haviam ajustado entre si aquele crime. Tínhamos de tocar. – “Teremos de ir. Titão Passos não queria ter as lágrimas nos olhos. sem atraso. numa voz de mais dor. conforme cristão. A gente ficávamos aliviados..” – falou Titão Passos. Era a outra guerra. conduziu Joca Ramiro no meio de quase só gente dele.

– “De tudo nesta vida a gente esquece. Mão do homem e suas armas. Você acha então que vão logo olvidar a honra dele?” – me perguntou. Riobaldo.. agora. Mas. vivendo no meio de gente tão ruim. Porque Diadorim completou: – “. Desamontou. na descambada. tanto desespero que nunca vi.” – ele me disse. A daí. Serra acima. Eu restei ficando tomando conta do ca– 420 – . Devo que retardei muito em responder. pela gente do Alaripe. foi andando sem governar os passos... me entregou á ponta do cabresto para segurar. a glória do finado. A mesmo estava o céu encoberto. cada um engolia suas palavras. Do que se finou.. Vi que ele fervia ali assim no pego do parado.Grande Sertão: Veredas tão alta bondade tinha mesmo de correr perigo de morte. Diadorim me reteve. fomos.João Guimarães Rosa . dizendo num modo que parecia ele não fosse também jagunço. dele. carecia fosse alguém do lado de lá do morro. Ao no galope. tudo principiava terminado. Mas. Selamos os cavalos. só restava a guerra. Riobaldo!” – Diadorim se pôs. A gente ia com elas buscar doçura de vingança. – “Pois vamos. como era de se ser.. como o rominhol no panelão de calda. tapado pelas moitas e árvores. com cara de não compreensão. e um mormaço. Joca Ramiro morreu como o decreto de uma lei nova. mais cedo mais tarde..” E dizia aquilo com uma misturação de carinho e raiva.

– “Trago notícia de grande morte!” – sem desapear eu declarei. para me escutar. estavam todos reunidos. até minha volta. – “Mas. – “Seu tio. será?” – Que era. de acordo com o mormaço. apertou os olhos no choro. esporei e vim puxando o cavalo dele adestro. Se aprontaram num átimo. E estava chovendo. e evitar atraso. para prevenir os alaripes. – “Joca Ramiro era seu parente. para o ar. virou o rosto.. Me amargou. falei. para o que havia ver. agora. Mas demorou tanto a volta. – “Diadorim!” – chamei. Pensei que ele tivesse ido a lá.Grande Sertão: Veredas valo..João Guimarães Rosa . Então. Ao que quase todos choraram. em gesto. esbarrei e disparei tiros. por meu feliz. Cheguei lá. em querelenga. E aí o que vi foi Diadorim no chão. – ele deu. deixasse ele ali. deitado debruços. e ele atendia. meus consolos. eu gritei: – “Viva a fama do nosso Chefe Joca Ramiro. por necessitar. que eu resolvi tocar atrás. – “Ah. Entreguei a ele o cabresto do cavalo. pela tristeza que estabeleceu minha voz. no cabo da língua. e continuei ida. Falei. sim. temos de vingar a morte do falecido!” – eu ainda pronunciei. A doideira. Eles todos tiraram os chapéus.. me pedindo que sozinho fosse..” – ele me respondeu. muito me entenderam. com muita cordura. – 421 – . umas vezes. sem se aprumar. com uma voz de pouco corpo. Ele.. Diadorim?” – eu indaguei.. Soluçava e mordia o capim do campo. Em certa distância. “ E. era.

e falavam muito bem do falecido.João Guimarães Rosa . cada rio roncava cheio. e ocupando a cheio todas as estradas. A terrível notícia tinha se espalhado assaz. os cavalos já afracavam. Assomando de dia por dentro de vilórios e arraiais. Deixamos para trás aquele lugar. Aí. as várzeas embrejavam. feito flecha. Você tem sustância para ser um chefe. muito branco. Os córregos estavam sujos.. você sabe. do nunca mais. rumamos. no romper das barras.Grande Sertão: Veredas para comigo vir. mesmo. mudado triste. Desmenti. os mares de calor. Mas nós passávamos. João Goanhá. sem nenhum escondimento: a gente queria que todo o mundo visse a vingança! Alto do Amoipira. que disse ao senhor. e tantas cordas de chuva esfriavam a cacunda daquelas serras. em tralha e torto. De ser chefe. tem a bizarria. os olhos pisados. depois.. – 422 – .” – no caminho o Alarípe me disse. a boca vencida. em todas as partes o povo fazia questão de obsequiar à gente. – “Mano velho Tatarana. saímos tocando. era o que eu tinha menos vontade. por aquele afora – a gente ia investir o sertão. para mim tão célebre – a Guararavacã do Guaicuí. feito fogo. Mas assim se deu que. Redeando. quando terminamos lá. feito faca. Diadorim do meu lado. Varamos todos esses distritos de gado. no seguinte dia.

Grande Sertão: Veredas em toda economizada estatura. João Goanhá ia na vaca e no boi: não estava com por’oras. por Luís de Abreuzinho comandados. com seus trinta e cinco cacundeiros – o que carregava nome de fama por todo o Rio VerdeGrande. Mesmo assim. Veio até quem não se imaginou: como aquele Nhão Virassaia. E Só Candelário. chegava a ser uma boiada. Com sacas de farinha. e açúcar preto e café – até em carro-de-bois os mantimentos de fubá e – 423 – ... Ele estava com próprios trezentos guerreiros. No que achamos bom conselho.João Guimarães Rosa . com pressa de chamado. para onde portador seguira. seus. Agora é que vai ser a grande briga!” Disse que com três dias se saía em armas... para se abater e se comer. que era dele filho-natural. piorado doente. surrão de sal. também. Meu irmão Titão Passos. crescente. que mandou. E o velho Ludujo Filgueiras. montesclarense.. oferecendo peito de ajuda. trinta e tantos capangas. com prestança em ponta. – “Meu irmão Titão Passos. E sempre outros chegavam. E outros vinham chegando. foi ver a gente vindo e abriu seus bons braços. para aos dois judas traidores dar batalha. onde era que estava? Só Candelário.. – “E vocês todos. com vinte e dois atiradores. valentes cabras. E o grande fazendeiro coronel Digno de Abreu.” – ele falou. João Goanhá desnecessitava de esperar por ele. devia de estar um tempo desses nos Lençóis. E o gado em pé que se provia.

Grande Sertão: Veredas arroz e feijão entregados. então? Ah. E da existência desse me defendo. A simples íamos cercar bonito os Judas. o mal-encarado. é o que minha alma soletra. atravessassem o rio. aquele – o-que-não-existe! Que não existe. debaixo do comando de Alípio Mota. Tudo o melhor fizemos.João Guimarães Rosa . e Titão Passos se entristeceu de não poder ter trazido a nossa. o debo. Mas a lei de homem não é seus instrumentos. beijando a barra do manto de minha Nossa Senhora da Abadia! Ah. cunhado de Só Candelário. Nós não estávamos forte em frente. em pedras pontudas ajoelhado. Só em quantidades de munição era que a gente não produzia luxo. Deus não devia de ajudar a quem vai por santas vinganças?! Devia. Desarma do tempo. Aindas que se escapassem para o poente. da Lagoa-do-Boi. do norte. encontravam ferro e fogo: lá estava Medeiro Vaz – o rei dos Gerais! Saímos. com a coragem esporeada? Estávamos. Saímos em guerra. sobre. ei. ah. segundo se diz. não tinham escape. Ãhã. o carocho. sobrevinha também o bastante da rapaziada dos baianos. na Guararavacã tão em vão esperada. então: mas tem o Outro – o figura. do pé-depato. o cramulhão. só Ela – 424 – . e tudo no fim desandava. que a gente tinha de purgar. e o mais. o morcegão. Mas descemos no canudo das desgraças. hora de paga e perdas. saiba o senhor. o tunes. que não. que não. fomos. Mas. com troca de avisos.

naquele tempo. para o São Francisco. indicando todo rumo. Quando protege. O Hermógenes. Contra o demo se podia? Quem a quem? Milagres tristes desses também se dão. oco de alma. por causa que só tem um curto prazo. e não vimos.Grande Sertão: Veredas me vale. Como é que podia saber? E foram esses monstros. da manhã à tarde. como é que ele pode me ver?! Digo isto ao senhor. calados. Montado. Não é. Ele vem no maior e no menor.João Guimarães Rosa . seu – 425 – . para espiar o primeiro das coisas. protege com sua pessoa. dentro do ouvido do Hermógenes. como a noite atravessa o dia. não soubemos. Contra ele a gente ia. Se a Santa puser em mim os olhos. quarto-delégua. légua. sem a gente perceber. nas costas do Hermógenes. E esse trabalha sem escrúpulo nenhum. por tudo ouvir. se diz o grão-tinhoso e o cão-miúdo.. mas finge de ser. Pois eles escapuliram: passaram perto. Atravessaram por nós. Como eles conseguiram fugir das unhas da gente. com toda sua jagunçama. Mas. o sobredito. Redondinho no lume dos olhos do Hermógenes.. eu não sabia. ganhando o mais poente. Do tamanho dum bago de aí-vim. e digo: paz. mole. não ouvimos. escorregando pelos matos. Avançaram. Sertão. se escaparam – o Ricardão e o Hermógenes – os Judas. vem. que – por valente e valentão – para demais até ao fim deste mundo e do juízofinal se danara. mas vale por um mar sem fim. tivemos jeito nenhum para cercar e impedir.

é ver cachorrada caçante. Pois – aquela soldadama viera para o Norte era por vingar Zé Bebelo.João Guimarães Rosa . o que eles estavam era ajudando indireto àqueles sebaceiros. um capitão Carvalhais. tantas tropas. naquela sanha. só geringonciável na capital do Estado? – 426 – . com muitos mais outros. Sofremos. que éramos de Joca Ramiro. Os soldados. maior da marca. que vinham em máquina enorme de cumprir o grosso e o esmo. a distância deles já era impossível. por sua ação. quando o demo leva o estandarte. E veio depois. e agora. se presume. rolamos por aí aqui. tendo as garras para o pescoço nosso mas o pensante da cabeça longe. que tinha livrado a vida de Zé Bebelo das facas do Hermógenes e Ricardão. se rolou. de supetão. e Zé Bebelo já andava por longes desterrado. Quando pudemos saber. hem? E pois demore o senhor para o pior: o que veio em sobre!: os soldados do Governo. quem era que podia explicar isso tudo a eles. e agatanhavam. esse bebia café em cuité e cuspia pimenta com pólvora. Tenente Reis Leme. Soldados do Tenente Plínio – companhia de guerra. Duro de desanimável.Grande Sertão: Veredas pretume dela escondido no brancor do dia. Nós estávamos pegando o ar. Surgiram de todos os lados. vida é vez de injustiças assim. e nisso eles se viravam contra a gente. Mas. soldadesca. outra.

Grande Sertão: Veredas De contar tudo o que foi. Tenente Reis Leme nos escaramuçando: queria correr com a gente a pano de sabre. Consoante começou. Tomando o tempo da gente. onde nos pegaram num relaxo. Sofrimento passado é glória. Nunca me queixei. mais forte – porque o tempo todo das águas estava no se acabar. e: Córrego Estrelinhas. no Curral de Vacas. Córrego da Malhada Grande. sabiá deu cria. Ribeirão Traçadal – tudo foram as feiezas. Ah. bem. Fogo demos daí no Cutica. depois. me retiro. Recito frente ao senhor: e é rol de nomes? Para mim ficaram em assento de sustos e sofrimento. De tanta maneira Diadorim assistia comigo. gameleira pingou frutinhas. o pequi amadurecia no pequizeiro e a cair no chão. Serra da Saudade: a gente se desarranjou. pitanga e caju nos campos. como um gravatá se fechou. mesmagem. na Chapada Simão Guedes: mas rodaram com a gente. o vento principiou a entortar rumo. Ato que voltaram as tempestades. Milho crescia em roças. é sal em cinza.João Guimarães Rosa . depois de grande fogo. os soldados remexiam este mundo todo. o que da vida é bom eu dele entendia. mas entre aquelas noites de estrelaria se encostando. – 427 – . de retruz. Combatemos o quanto mais pudemos – está aí. e isso de guerra é mesmice. Fugimos. o senhor está cansado de ouvir narração. fugimos. perto do Morro do Cocuruto. veio veranico. Semeei minha presença dele. Daí.

Questionou-se nisso. Mas. dando um dia. repartidos em miúdos grupos.. João Goanhá. pedra-cristal quase de sangue. Isto que digo. Estávamos em terras que entestam com a Bahia. Se pensou e falou em tudo por fazer e não fazer.João Guimarães Rosa . sei de cor: brigar no espinho da caatinga pobre. cinco vezes. Chegamos até no cabo do mundo. conforme retouçavam. Diadorim mascava. deviam de ir desmanchar os rastos na caatinga. uns cinqüenta ou cem homens. me esconjuro. Ah. amanhã não é consolo.. com sangue de urgência – aquela luta de morte contra os Judas – e que era briga nossa particular. onde o cãcã canta. Chão que queima.Grande Sertão: Veredas Matou-se montanha de bons soldados. Não se tendo recurso competente. para Medeiro Vaz. cada qual de lado seu. Parecia que a gente ia ter de passar o resto da vida guerreando com os praças? Mas nosso constar era outro. Resultado foi este: que o principal era a gente mandar reforço. Alípio Mota e Titão Passos. Enquanto tanto. Quadrante o que havia. a gente teve certas notícias: os do Hermógenes estando senhores arranchados. – 428 – . da banda de lá do Rio do Chico: nas vertentes da beira da mão direita do Carinhanha. caçando jeito de safança por entre os lugares perigáveis. branco! E aqueles cristais. Eu mesmeava. no Chapadão de Antônio Pereira. Em Bahia entramos e saímos. Para ódio e amor que dói. sem render as armas.

o Cruzeiro-das-Embaúbas. Era certo. com Diadorim. a Fazenda Riacho-Abaixo. A ver. Deus em armas nos guardava. Travessia. eu vinha alegre contente. mas o que bastava o balseiro se chamar: – “Hô. Era para o outro lado. o Barreiro do Muquém. com tantos soldados vizinhantes. e o Fafafa. comprei roupas. vim. Já era o do Chico – o poder dele – largas águas. o Mocó. por uns tempos. o Sassapo. passador! Hô. podia ser perigosa. Estive com o melhor de mulheres. o Poço d’Anjo. tirei minha desforra: faceirei. E era bom e era justo. o Dôminus-Vobíscum. Dele eu ainda mais gostava. seu destino. até que a soldadesca se espairecesse.” – 429 – . Nesse meu. a Santa Polônia. com o seguinte risco: o Imbiruçu. por uns atalhos: o Córrego Assombrado. Na Malhada. De mim. o porto-debalsa. caminho fazendo. o Mingu. O vau do mundo é a alegria! Mas Diadorim não se fornecia com mulher nenhuma. passador!. E daí. a Lagoa da Jabuticaba.. só se em sonhos. que distava pouco. a Lagoa dos Marruás. O Brejo dos Mártires. A gente se apartar? Ah. Severgonhei.João Guimarães Rosa . a Serra do Pau-d’Arco. era para os meus Gerais. em fazendas de donos amigos.Grande Sertão: Veredas e depois se esconderem. ali. Alaripe. E saímos.. o Detrás-das-Duas-Serras. a Cachoeirinha Roxa. sempre sério. Jesualdo e João Vaqueiro. E então se deu que tínhamos esbarrado em frente da Lagoa Clara.

A gente esperava o que acontecesse. a cara-de-pau que tinha no bico da frente era uma cabeça de touro. em nome de Nosso Senhor CristoJesus. O balseiro só avistando João Vaqueiro e o Fafafa – estes ele então podia passar. andamos beira-rio. até na prancha de Pirapora! – “Vau do mundo é a coragem. Ali mais adiante.. Somente ficados com um cavalinho só. encostaram. Lá a gente se encontrava. com os rifles escorados.Grande Sertão: Veredas – ele viesse. e disse: – “Eu cá sou amigo de todos. quem governa é o remador!” Bem que rio-acima é que era. Da outra banda. no Urucuia. que se teve. repostando: – “Amigo de todos? Rio-abaixo. Alaripe e eu. E. Eu?! Com ele em qualquer parte eu embarcava.João Guimarães Rosa . aceitamos. acenamos para uma grande barca – aquela.. no vagarosamente.. com o cavalo. com cinco dos cavalos. Jesualdo disse. era nada – as arrobazinhas. João Vaqueiro e o Fafafa fossem levando os cavalos para um lugar para cima da barra. mas com – 430 – . Riobaldo?” – Diadorim me perguntou. boa-sorte nos dava.” E o Alaripe aceitou dele um gole de cachaça. na canoa.. depois que o patrão nos saudou. Assim. E nós entramos. Diadorim e Jesualdo. chamado o Olho-d’Agua-das-Outras. para uma invenção. era um portode-lenha. segundo a minha condição.” – eu disse. – “Você tem receio. A gente os quatro. falavam que era para uns caçadores. O barqueiro tocou um berro no buzo.

e os que vêm do poente – em caminho para se encontrar com o sol. Mentiras d’água. o velejo. por isso pagamos uma gratificação. – 431 – .João Guimarães Rosa . o pau-desangue. – “Por onde os senhores vieram?” – o patrão indagou. vento em pano – nem remeiro com o varejão não carecia de fazer talento. o meu Urucuia. Ah. – “Viemos da Serra Rompe-Dia. e demos com a primeira vereda – dividindo as chapadas –: o flaflo de vento agarrado nos buritis. sombroso. era até florestas! Montamos direito. suas abas. no Olhod’Agua-das-Outras. E o folha-larga. O barqueiro não acreditou. Tanto fazia dizer que tínhamos vindo da de São Felipe.. E ainda por ele entramos. franzido no gradeai de suas folhas altas.Grande Sertão: Veredas remeiros muito bons esforçados. O sertão nunca dá notícia. tão urucuiana. num ponto sem praia. o aderno-preto. Eles serviram à gente farta jacuba. Aí constante. Rios bonitos são os que correm para o Norte. Essa gente estava tão devolvida de tudo. O Urucuia. Pediram notícias do sertão. e. subindo légua e meia. Mas levou a gente travessia fácil. deu o zé de ombros. E vi meus Gerais! Aquilo nem era só mata. as águas dele são claras certas.. andamos.” – respondemos. onde essas altas árvores – a caraíba-de-flor – roxa. o pau-paraíba. frenteando a boca do Urucuia. que eu não pude adivinhar a honestidade deles. E descemos num pojo.

Que’s borboletas! E era em maio. e aguadas que molham sempre. E como cada vereda. calcando o sapê brabão ou areias de cor em cimento formadas. Fomos. E que. fomos. Dando no meu corpo. um cheiro que refresca. O senhor me ouviu. acenava para a gente um fino sossego sem notícia – todo buritizal e florestal: ramagem e amar em água. Em como Otacília e eu ficamos gostando um – 432 – . como sutil suave. e cruzando somente com gado transeunte ou com algum boi sozinho caminhador. que avançamos rompidas marchas. Mas. pousamos lá dois dias. quando beirávamos. Vento que vem de toda parte. com nosso cansaço. por seu resfriado. sem eu nem saber.João Guimarães Rosa . como conforme. e que ninguém não ensina: o beco para a liberdade se fazer. Assim pois foi. aquele ar me falou em gritos de liberdade. Sou um homem ignorante. nos Buritis-Altos. me diga o senhor: a vida não é cousa terrível? Lengalenga. no conhecimento meu com Otacília. Tem uma verdade que se carece de aprender. Mas liberdade – aposto – ainda é só alegria de um pobre caminhozinho. duramente no varo das chapadas. cabeceira de vereda. viemos subindo até chegar de repente na Fazenda Santa Catarina. do encoberto. no dentro do ferro de grandes prisões. em seguir. o roteiro de Deus nas serras dos Gerais. flor de tudo.Grande Sertão: Veredas sassafrazal – como o da alfazema.

Ver belo: o céu poente de sol.. combinados no noivável. Em nome da Santíssima Trindade. mandando passar as ordens. com Diadorim e os outros. e Diadorim beijou aquela mão. ela com sua cabecinha de gata. Cujo eu me disse: – “É bom homem. A um assim. no Bom-Buriti. E tinha quartel-mestre. Me alembro. conforme já disse. em cata do grosso do bando de Medeiro Vaz. a roséia daquela cor. exatos. conversamos. aquela pessoa sisuda. Subindo em esperança. de tardinha. Flores pelo vento desfeitas. E lá é cimo alto: pintassilgo gosta daquelas friagens. num lugar chamado o BomBuriti. me dando a luz de seus olhos. Medeiro Vaz. e de lá me fui. economizando rumo.. Cantam que sim. E de como viemos. naquela bocaina de campo. Medeiro Vaz. alva no topo da alpendrada. Revejo. a gente podia pedir a benção. meu é.Grande Sertão: Veredas do outro. num ressaco. de lá – 433 – . e na sobremanhã eu me despedi. circunspecto com todas as velhices. que dali a quinze léguas recruzava. Medeiro Vaz tomava rapé.João Guimarães Rosa . retrata]. barbaça. com grande chapéu rebuçado. Quando rezo.” E ele beijou a testa de Diadorim. se prezar. da Ratragagem para a Vereda-Funda. Na Santa Catarina. O que o seguinte foi este: o encontro da gente com Medeiro Vaz. e com eles nos ajuntamos. sem nem velho ser. penso nisso tudo. ele no meio de seus fortes homens.

eu estou feliz!. meu senhor. só buriti ali. passamos um rio vadoso – rio de beira baixinha. Naquele trecho. é pôr atenção no que contei. O só que Medeiro Vaz comandou foi isto: – “Aleluia!” Diadorim tinha comprado um grande lenço preto: que era para ter luto manejável. e herdou brioso comando. – 434 – . Sertão bravo: as araras. que menos mais. e o que debaixo de Zé Bebelo fomos fazendo. o senhor então já sabe. E a flor de caraíba urucuiã – roxo astrazado. em suas miúdas feições. um roxo que sobe no céu. o que lhe basta. funo guardado em sobre seu coração. Chapadão de duro. que já relatei ao senhor. na Fazenda São Serafim. isso. para conhecer o resto que falta. bem dado e bem ganho.Grande Sertão: Veredas saímos.João Guimarães Rosa . Diadorim se virou para mim – com um ar quase de meninozinho. para chão e sertão. com cinco homens. também me lembro. Daí.. Dei um sim completo. Aqui eu podia pôr ponto. Para tirar o final. e sofrimentos. descendo o Rio Paracatu numa balsa de talos de buriti. – “Riobaldo. bimbando vitórias.” – ele me disse. Só sim? Ah.. mas o que eu acho é que o senhor já sabe mesmo tudo – que tudo lhe fiei. E foi assim que a gente principiou a tristonha história de tantas caminhadas e vagos combates. Mas. os buritis calados. acho que eu disse até um fogo que demos. se não me engano até ao ponto em que Zé Bebelo voltou.

Deus é que deixa se afinar à vontade o instrumento. Deus no meio. Não esperdiço palavras. o senhor ache.João Guimarães Rosa . Urubu? Um lugar. antiqüíssimo – para morarem famílias de gente. para o que digo: eu queria ter remorso. referi minha má cedência. por orvalho.. Não é só no escuro que a gente percebe a luzinha dividida? Eu quero ver essas águas. Gosto de ser. que é das de Carinhanha. Mas minha padroeira é a Virgem. Sertão é o sozinho. Compadre meu Quelemém diz: que eu sou muito do sertão? Sertão: é dentro da gente. Minha vida teve meio-do– 435 – . O senhor pense. ao que crer posso.. Vai assim. Macaco meu veste roupa. Porque não narrei nada à-toa: só apontação principal. O senhor me acusa? Defini o alvará do Hermógenes. vem outro café.Grande Sertão: Veredas remexer vivo o que vim dizendo. Assentado nesta boa cadeira grandalhona de espreguiçar. um baiano lugar. Travessia. Serve. se pita um bom cigarro.. por isso. velhas. com as ruas e as igrejas. Serve meus pensamentos. Do jeito é que retorço meus dias: repensando.. até que chegue a hora de se dançar. não tenho. O senhor ponha enredo. Quando foi que eu tive minha culpa? Aqui é Minas. Tenho saquinho de relíquias. Mas o demônio não existe real. altas cidades. lá já é a Bahia? Estive nessas vilas. Sou um homem ignorante. a lume de lua.

fez uma promessa. depois de queimar sua casa-de-fazenda. zás de raio – 436 – . destes meus Gerais. com lua no céu. Vem cair no São Francisco. Lá. nas pontas do Urucuia.Grande Sertão: Veredas caminho? Os morcegos não escolheram de ser tão feios tão frios – bastou só que tivessem escolhido de esvoaçar na sombra da noite e chupar sangue. Por que é que todos não se reúnem. nos confins do Chapadão. Pergunto coisas ao buriti. mas quem de repente aprende. e o que ele responde é: a coragem minha. Saí.João Guimarães Rosa . mediante o madrugar.. minha mãe. os rios verdes. entre escuros. Não voltei? Travessias. claro. O diabo é sem parar. como um vivo demais de fogo e vento. meu padrinho Selorico Mendes tivesse de ir comprar arroz. dia depois de dia. e não se aparta de sua água – carece de espelho. Buriti quer todo azul. conforme já comparei. Zé Bebelo ia e voltava. voltei com Diadorim. de uma vez? Eu queria formar uma cidade da religião. nalgum lugar. A lua. O meu Urucuia vem. como o touro sozinho berra feio. por morte de minha mãe? Medeiro Vaz reinou. Diadorim. Zé Bebelo me alumiou. O São Francisco partiu minha vida em duas partes. Mestre não é quem sempre ensina. uma vez: touro preto todo urrando no meio da tempestade. vim. rio capital. para sofrer e vencer juntos. Medeiro Vaz morreu em pedra. o luar: vejo esses vaqueiros que viajam a boiada. A Bigri.. Deus nunca desmente.

em chão arenoso salgado. mesmo em quando ainda parava vivo. Ao que Joca Ramiro pousou que se desfez. Só Candelário não era. Me alembrei dela. sãojosés. Diadorim – eu adivinhava.. para mim. A Rosa’uarda.. A mocinha Miosótis? Não. enterrado lá no meio dos carnaubais. Nonada! A mais. de certo modo. Mas. todas – 437 – . o senhor sabe? Diadorim me veio. de meu não-saber e querer. aí tem um sapo roncador. Assim era Joca Ramiro. lágrimas-demoça.João Guimarães Rosa . Uns talismãs. tanto que eu via as baronesas amarasmeando no rio em vidro – jericó. Meu coração é que entende. Compadre meu Quelemém outrotanto é homem sem parentes. parente do compadre meu Quelemém. Otacília. provindo de distante terra – da Serra do Urubu do Indaiá. não era rejeitã. com aquela grandeza. era como se para mim ela estivesse no camarim do Santíssimo. e os lírios todos. ajuda minha idéia a requerer e traçar. os lírios-do-brejo – copos-de-leite. que. feito itamotinga. a singeleza: Nhorinhá puta e bela. E ela rebrilhava. A Nhorinhá – nas Aroeirinhas – filha de Ana Duzuza. Só Candelário? Só Candelário se desesperou por forma. Ela quis me salvar? De dentro das águas mais clareadas. tão diverso e reinante.Grande Sertão: Veredas veloz como o pensamento da idéia – mas a água e o chão não queriam saber dele. Ah. era como se já estivesse constando de falecido. Sonhei mal? E em Otacília eu sempre muito pensei.

Grande Sertão: Veredas as minhas lembranças eu queria comigo. Voltam. que a gente avista e vai guardando para trás.João Guimarães Rosa . Só se pode viver perto de outro. O senhor se alembra da canção de Siruiz? Ao que aquelas troas de areia e as ilhas do rio. o Valtei. Tudo isso posso vender? Se vendo minha alma. Diadorim vivia só um sentimento de cada vez. estou vendendo também os outros. para o total. eu percebi a beleza daqueles pássaros. no Rio das Velhas – percebi para sempre. Os cavalos relincham sem causa. Todos os sucedidos acontecendo. os homens sabem alguma coisa da guerra? Jagunço é o sertão. Todos estão loucos. Os dias que são passados vão indo em fila para o sertão. Mistério que a vida me emprestou: tonteei de alturas. sem perigo de ódio. neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só. como os cavalos: os cavaleiros na madrugada – como os cavalos se arraçoam. O manuelzinho-da-troa. O senhor pergunte: quem foi que foi que foi o jagunço Riobaldo? Mas aquele menino. e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça. se a – 438 – . Até o Jazevedão. o sentir forte da gente – o que produz os ventos. ele pedia socorro aos estranhos. na hora em que o pai e a mãe judiavam dele por lei. muito maiores diferentes. e conhecer outra pessoa. e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas. Antes. capaz. vinha com brutalidade de socorro. estivesse ali.

Um sentir é o do sentente... Otacília sendo forte como a paz. Viver é muito perigoso. Deus estava mesmo vislumbrante era se tudo esbarrasse. toda a hora a gente está num cômpito. Ele está sempre longe. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde. Eu penso é assim.João Guimarães Rosa . Deus está em tudo – conforme a crença? Mas tudo vai vivendo demais. e um dia tivesse de ouvir os horrores do Hermógenes em confissão. então?! Arrenego. Ouvindo uma violinha tocar. um descanso na loucura.. o senhor se lembra dele. O pacto de um morrer em vez do outro – e o de um viver em vez do outro. O demônio na rua.Grande Sertão: Veredas gente tem amor. se remexendo. e não é não. Sozinho. Como é que se pode pensar toda hora nos novíssimos. Ah. de virar-virar. a gente estando ocupado com estes negócios gerais? Tudo o que já foi. Nem sei explicar estas coisas. O que eu quero. é na palma da minha mão.. é o começo do que vai vir. com Deus – 439 – . mas que é rio de braveza. Pacto? Imagine o senhor que eu fosse sacerdote. por uma vez. na paridade. feito aqueles largos remansos do Urucuia. O Reinaldo era Diadorim – mas Diadorim era um sentimento meu. E se eu quiser fazer outro pacto. Deus é que me sabe. Igual aquela pedra que eu trouxe do Jequitinhonha. pacto não houve. Uma musiquinha até que não podia ser mais dançada – só o debulhadinho de purezas. Diadorim e Otacília. mas outro é o do sentidor.

e que culpa tem o homem? Às vezes não aceito nem a explicação do Compadre meu Quelemém. Digo ao senhor: tudo é pacto. quero – 440 – . Mas. o armar do trovão. Todo caminho da gente é resvaloso. É preciso de Deus existir a gente. Neste mundo tem maus e bons – todo grau de pessoa. e sofre sem saber mais porquê. Tenho medo? Não. Medo tenho é porém por todos.João Guimarães Rosa . em ventos. O sertão tem medo de tudo. cair não prejudica demais – a gente levanta. para o prazer e para ser feliz. cuja perna. mais então. então. e fúria.Grande Sertão: Veredas mesmo – posso? – então não desmancha na rãs tudo o que em antes se passou? Digo ao senhor: remorso? Como no homem que a onça comeu. É preciso negar que o “Que-Diga” existe. não se carece: bicho tem dor. todos não serão bons? Ah. danando em raios. tenho. mais. Que é que diz o farfal das folhas? Estes gerais enormes. a gente volta! Deus resvala? Mire e veja. e do diabo divertir a gente com sua dele nenhuma existência. Mas. para penar. a gente sobe. as feias onças. Mas eu hoje em dia acho que Deus é alegria e coragem – que Ele é bondade adiante. Estou dando batalha. também. que acho que alguma coisa falta. formar alma. na. todos são maus. O que há é uma certa coisa – uma só.consciência. mediano. Mas. medo. Que culpa tem a onça. Mas. é que é preciso a gente saber tudo. diversa para cada um – que Deus está esperando que esse faça.

E meu coração vem comigo. Vemos voltemos. cota o canto-clim. Aí quando muito vento abriu o céu.João Guimarães Rosa . Mas eu com aquilo já tinha inteirado costume. de nós. Ali chovia? – 441 – . O sol. a gente se fervia – debaixo desses extraordinários de Zé Bebelo – a gente lambia guerra. chapadão voante. no entremeio do se encher de rios tantos. Às artes que fugiam. ou aí subindo e descendo solaus.Grande Sertão: Veredas dizer. Ao pé das chapadas. no que eu tive culpa e errei. longes. o Oi-Mãe. com Zé Bebelo de bota-fogo. a gente estava na erva alta. No borrusco. O chapadão é sozinho – a largueza. O senhor escute o buritizal. a Fazenda São Serafim. As arvorezinhas ruim-inhas de minhas. e o tempo deu melhora. Se ia. Assim expresso. O céu de não se querer ver. com outros. dos Hermógenes – por matar. por perseguir. seja. Aviavam vir os periquitos. A diversos que passavam abandoados de araras – araral – conversantes. sempre. Era ruim e era bom. O verde carteado do grameal. aos vintes e trintas. recebendo o empapo de chuva e mais chuva. o senhor vai me ouvir. Zé Bebelo Vaz Ramiro-viva o nome! A gente vinha sobre o rastro deles. O Buriti-Pintado. o rio Soninho. no quase liso de altas terras. o Hermógenes corria. As duras areias. por acabar com eles. Agora. mal esquecidos.

é um horror de quente. Eu. não rola enxurrada. no gozo de minha idéia. Mesmas vezes eu ria. juntos. era que o amor virava – 442 – . Diadorim às vezes gostava. comprido e povooso. a gente queimava folhas de arapavaca. Soprávamos o fogo. feito um azeitezinho entrador. dois dedos no queixo. O fevereiro feito. Ademais que ele contava casos de muito amor. Alegria minha era Diadorim. Mas Diadorim sabia era a guerra. rio quase preto. a gente acha reunidas as todas estrelas do ano todo. esse rareamento de águas. cabra destemido. quando estia.Grande Sertão: Veredas Chove – e não encharca poça. Homem dorme com a cabeça para trás.chapadão. quando tição aceso estala seu fim em faíscas – e labareda dalalala. Era o Pitolô. mas era nascido no barranco. o senhor isto sabe. e de madrugada se escorropicha o frio. chapadão. mas para a noitinha refresca. muito imponente. ajoelhados um frenteante o ao outro. O chão endurecia cedo. A gente ria. No Carinhanha. De dia. Aquilo bonito. Para extraviar as mutucas. sei lá. Assim que fevereiro é o mês mindinho: mas é quando todos os cocos do buritizal maduram. e no céu. Um Pitolô.João Guimarães Rosa . não produz lama: a chuva inteira se soverse em minuto terra a fundo. A fumaça vinha. Chapadão. com crimes nos maniçobais perto para cima de Januária. engasgava e enlagrimava.

Aqui e aqui.. o em que se estava. – “Andorinha que vem e que vai.Turvei. Otacília. que toram trilhas largas no cerradão por aonde. Eu tinha súbitas outras minhas vontades. para esgaravatar terra e com eles os bichinhos comíveis catar. não era para gente: era um espaço para os de meia-razão. no laranjal de lá. entrando e saindo até dos velhos currais de ajuntar gado.João Guimarães Rosa . Um dia. que era um escondido. Mundo. A fim. de passar devagar a mão na pele branca do corpo de Diadorim. aqueles usos-frutos. eu não pensava? No escasso. – 443 – .” – o Pitolô falava. E era nessas boas horas que eu virava para a banda da direita. Ou o zabelê choco. A chapada é para aqueles casais de antas. Mas levei minha sina. tanto.. com ela passeava. Hoje sei. quando o ermo melhorava de ser só ermo. os tucanos senhoreantes. de mim a um tiro de pistola – isto resumo mal. em rancharias sem morador? Isso. eu voltasse para a Santa Catarina. para ser minha mulher. E em Otacília. chamando seus pintos. enchendo as árvores. Para ouvir gavião guinchar ou as tantas seriemas que chungavam.Grande Sertão: Veredas senvergonhagem. pensei. o birro e o garrixo sigritando. por dormir meu sensato sono por cima de estados escuros. Se ela por mim rezava? Rezava. Nela. e avistar as grandes emas e os veados correndo. e sem saber de ninguém assopram sua bruta força. quer é ir bem pousar nas duas torres da matriz de Carinhanha. mel do alecrim.

O traquejar. nesses dias. nem mortalma. E que o Hermógenes só fizesse por se fugir toda a vida. Zé Bebelo me indispunha com algum enjôo. que estimava irmãmente os cavalos. e o sabiá-preto canta bem. aí assim e assaz eu airei meu pensamento. Desde o raiar da aurora.Grande Sertão: Veredas Ah. que tu vê!” – oco da paciência. andante. isso ele não entendia. Os tamanhos. Dias inteiros. A antes uma conversa com Alaripe. quando falava. somente simples. estava esperdiçando o consistir. Amor eu pensasse. nem codorniz. de se navegar sertão num rumo sem termo. aquela mente de prosa já me aborrecia. mestre em doma e em criação.João Guimarães Rosa . Se não. vai. nem pássaro. O senhor sabe o mais que é. Ainda que. Otacília era. toda firmeza se dissolve. Digo que. No mais. sem juízo de raiz? Não se tem onde se acostumar os olhos. Veredas. minha noiva? Mas eu carecia era de mulher – 444 – . ele resmungou. deles tudo entendia. a bem-dizer. ou com o Fafafa. Isto é assim. – “Vai cavacando buraco. A alma deles. nada. Zé Bebelo só tinha graça para mim era na beira dos acontecimentos – em decisões de necessidade forte e vida virada – horas de se fazer. eu não queria ouvir. amanhecendo cada manhã num pouso diferente. o sertão tonteia. Amormente. no cível trivial. ou. ao adiável. A monte andante. Mas Zé Bebelo. tudo o nada – nem caça. ele menos falasse.

De Diadorim eu devia de conservar um nojo. como ele segurava a rédea e o rifle. quente. homens guerreiros também têm suas francas horas. meu senhor. desses acordados em sonho: e via.” – ele disse. ninguém não tinha viola nem nenhum instrumento. o reparado – como ele principiava a rir. da vaca e do leite. eu ia aos poucos perdendo o bom tremor daqueles versos de Siruiz? – 445 – . repondo a gente pequenino. homem sozinho sem par supre seus recursos também. De mim. Ah. redomão. com a gente... Como se eu estivesse calçando par de chinelo muito flote. naquelas mãos tão finas. se ocultando atrás de fechadas moitas. na gente. brancamente. beleza por ser tudo tão grande. No peso ruim do meu corpo.João Guimarães Rosa . Mas eu aos poucos macio pensava. botim reiúno. como ele falava meu nome com um agrado sincero. Surpreendi um.Grande Sertão: Veredas ministrada. Agora – e os outros? – o senhor dirá. nos olhos. antes de expor o riso daquela boca. eu não tinha perguntado explicação. Esses Gerais em serras planas. Ali. o Conceiço. ou dele? As prisões que estão refincadas no vago. momento que raro se vê. que jazia vadio deitado. e eu queria um sinapismo. nenhum cantava. – “É essa natureza da gente. duro. O que eu queria era um divertimento de alívio. feito o cagar dum bicho bravo.

Saí no grande orvalho. eu estava quieto. que eu estava no nãoacontecido nos passados. a pé caminhei em redor do arrancho. de tudo me prostrei. aquela mocinha Miosótis. Só os pássaros. minha força esperdiçada. sair de tudo o que eu era. Anda que levantei. não queria existir em tenção soez. deitado. não dormia. antes do romper das horas d’alva. A noite que houve. confesso. e em mim tonto sonho se desmanchando. não tinha coragem.João Guimarães Rosa . Porque eu desconfiava mesmo de mim. Ao que me veio uma ânsia. para entrar num destino melhor. Pois. Eu não dizia nada.Grande Sertão: Veredas Então eu forcejei por variar de mim. Mas o mundo falava. O que tinha era uma esperança? Mesmo parava tempos no pensar numa mulher achada: Nhorinhá. queria pôr a mão onde ele tinha pegado. Cobiçasse de comer e beber os sobejos dele. Agora eu queria lavar meu corpo debaixo da cachoeira branca dum riacho. por quê? Eu estava calado. Ali se madruga com céu – 446 – . Eu estremecia sem tremer. em que eu. feito neblina noruega movente no frio de agosto. que se esfiapa com o subir do sol. O senhor me entende? De Diadorim não me apartava. vestir terno novo. com dura mão sofreei meus ímpetos. a minha moça Rosa’uarda. pássaro de se ouvir sem se ver.

porque num homem que eu nem conheci – aquele Siruiz – eu estava pensando. Mas. Urucuia – rio bravo cantando à minha feição: é o dizer das claras águas que turvam na perdição. quando o dia clareou de todo. esperei a escuridão se afastar. eu estava diante do buritizal.Grande Sertão: Veredas esverdeado. com suas futuras benfeitorias. para ajuntar com os antigos.João Guimarães Rosa . podia referir tudo que fosse de bem se guerrear e reger essa política. conforme na memória ainda guardo. Versos ditos que foram estes. Consegui com o frio. Um buriti – tetéia enorme. Zé Bebelo podia pautear explicação de tudo: de como a gente ia alcançar os Hermógenes e dar neles grave derrota. para a beira da vereda. descontente de que sejam sem razoável valor: Trouxe tanto este dinheiro o quanto. no meu surrão. E vim vindo. Vida é sorte perigosa – 447 – . Aí sendo que eu completei outros versos. De que é que aquilo me servisse? Me cansava. p’ra comprar o fim do mundo no meio do Chapadão.

estória sem final. na horinha em que se quer. O correr da vida embrulha tudo. e dessa movimentação – 448 – . Sentimento que não espairo. Acho que porque eu mesmo tinha inventado o inteiro deles. e na estreitez da porteira embola e rela. não valesse a pena. deu de se recolher de novo em mim. Assim. por que se agüentava aquilo. Ao clarear do dia. prazidos. no meio da alegria. que em sustos se revolta para o curral. a vida é assim: esquenta e esfria. aperta e daí afrouxa.Grande Sertão: Veredas passada na obrigação: toda noite é rio-abaixo. a modo que o truso dum gado mal saído. em beira do café. Mas estes versos não cantei para ninguém ouvir. todo dia é escuridão. também. e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente.. A virtude que tivessem de ter. Aí o senhor via os companheiros. um por um. de propósito – por coragem. pois eu mesmo nem acerto com o mote disso – o que queria e o que não queria. Será? Era o que eu às vezes achava. Nem eles me deram refrigério. era por causa da boa camaradagem. O que ela quer da gente é coragem..João Guimarães Rosa . O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais. sossega e depois desinquieta.

e que não sediava folga nem cansaço. que com o Sesfredo porfiava. segundo em chefe. o senhor me ouça bem: Zé Bebelo. o Quipes. o Mão-de-Lixa. nosso chefe. Com todos. feito boi geralista ou buriti em broto de semente. cavalos que haja. que achava os lugares d’água. o Acauã. o Reinaldo-que era Diadorim: sabendo deste. Joaquim Beiju. de todos esses sertões dos Gerais sabente.Grande Sertão: Veredas sempre. este nunca se esquecia de nada. perigoso nos repentes quando bebia um tanto de mais. o Suzarte. não tive questões. capaz de abrir num dia suas quinze léguas. que era de ferro e de ouro. desejo dele era tornar a ter um pedacinho de terra plantadeira. feito cão cachorro ensinado.João Guimarães Rosa . quase todos. Freitas Macho. o senhor sabe minha vida. outro rastreador. Marcelino Pampa. um roxo esquipático. e de minha melhor estimação. Gente certa. que eram. e assim – 449 – . contava ao senhor qualquer patranha que prouvesse. o Queque. o Alaripe. eu bem combinava. o Marimbondo. cumpridor de tudo e senhor de muito respeito. porreteiro. rastreador. que sempre tinha saudade de sua rocinha antiga. o Tipote. assoviando imitado de toda qualidade de pássaros. boa pessoa. João Concliz. faquista. só de se olhar para ele se via o vulto da guerra. grão-mogolense. e de carne e osso. E no entre esses. que nas mãos dele era a pior arma. indo à frente. sujeito ligeiro. nunca largava um bom cacete.

competente sujeito. que doido mesmo não era. José Gervásio. o Jequitinhão. o senhor já sabe. dizia-se que entendia de toda mandraca. para ele mandar para a mãe. – 450 – . só que muito soberbose ofendia com qualquer brincadeira ou palavra. pai e mãe dele tinham sido escravos nas lavras. o Marruaz. que ganhava em todo jogo de baralho. até recortado de folhinha ou de jornal.João Guimarães Rosa . antigo capataz arrieiro. o Feliciano. o Sidurino. homem desmarcado de forçoso: capaz de segurar as duas pernas dum poldro. Timóteo chamado. o senhor acabava acreditando que fosse verdade. rapaz cordato – a ele fiquei devendo. só valente e esquentado. filho dum lugar que se chamava a Capelinha-do-Chumbo: esse sempre dizia que eu era muito parecido com um tio dele. quase menino. amigo em tanto. filho de todos no afetual paternal. o Coscorão. mas constante que era canhoto.Grande Sertão: Veredas descrevia. caçador muito bom. cozinheiro nosso. que tinha sido carreiro de muito ofício. o Nélson. Cavalcânti. era do sertão do Abaeté. caolho. em não sei onde moradora. guardava numa sacola todo retrato de mulher que ia achando. o Moçambicão – um negro enorme. José ]itirana. o Preto Mangaba. o Conceiço. o jacaré. quantia de dezoito mil-réis. que me pedia para escrever carta. da Cachoeira-do-Choro. Dimas Doido. Guima. sem me lembrar de pagar. Jesualdo. Jiribibe. que só se dizia por ditados. João Vaqueiro.

o Osmundo.Grande Sertão: Veredas tudo o que ele falava divertia a gente. o Liberato. entendido de curar qualquer doença. de acender velas e ajoelhar adiante. o Araruta. o irmão de um. Chico Vosso. José Micuim. E os urucuianos que Zé Bebelo tinha trazido: aquele Pantaleão. João Bugre. Felisberto. Nhô Faísca. cobra. Acrísio e o Tuscaninho Caramé. o Jósio. os outros. que da munição dava conta. no São Bom Jesus da Lapa. Pacamã-de-Presas. que nos dedos conto: o Pitolô. Pereirão. Remigildo. e Quim Queiroz. Pedro Afonso. puçanguara. Amostro. E Diodolfo. Nestor. o Fafafa. Zé Paquera.. já sabe. caolho também. deste qual o senhor. o Cajueiro. Todos juntos. Durval Foguista. Leocádio. Pedro Pintado. Domingos Trançado. Rasga-em-Baixo. o Jalapa. dizia que nunca tinha conhecido mãe nem pai.João Guimarães Rosa . E – que ia me esquecendo – Raimundo Lê. Simião. sempre cheirando a suor de cavalo. um José Quitério: comia de tudo. que queria qualquer dia ir cumprir promessa. se deitava no chão e o cavalo vinha cheirar a cara dele. ferrador e alveitar. o Testa-emPé. um infeliz Treciziano. e o Justino. o Trigoso. José Félix. Zé Beiçudo.. Jõe Bexiguento. recital. Afora algum de que eu me esqueci – isto é: mais muitos. A mais. sobrenomeado “Alparcatas”. Zé Geralista. aquilo – 451 – . João Vereda. o Duzentos. para o senhor ver que eu me alembro. um Salústio João. até calango. gafanhoto. com movimentos desencontrados. Pau-na-Cobra. Zé Onça. Zé Vital.

. a gente tinha topado com turma de inimigos. Só que. Assim de loguinho não aprovei. A ser. depois de dois dias. de raspaz. E bastantes morreram. ambos e todos. com pano duma camisa rasgada.. porque. Além de que Zé Bebelo comandava. o braço me – 452 – . numa volta do Ribeirão-do-Galho-da-Vida. na carne do braço. movimentação. comedindo pompa com sua grande cabeça. não duvidei. aquilo vinha a ser até um consolo. vamos. na hora melhorei.Grande Sertão: Veredas tranqüilizava os ares. retornados para lá por espiação. meu filho. todos prestaram em mim amizade de atenção. guardo dentro daqui o resumo bem traçado!” – e ele pontoava com dedo na testa. mas eu levei uma bala. Apreciei a delicadeza dele. Tudo já pensei e repensei. Atual. A verdade que com Diadorim eu ia. que eu estou senhor dos meus projetos. no final. O que eu podia não saber era se eu mesmo estava em ocasiões de boa-sorte. A liberdade é assim. – “Agora coage tua cisma. esta terra. Acreditar eu acreditasse. perdi muito sangue. Esse sertão.” – Zé Bebelo preluzia. – “Ao que vamos. e impor ao Hermógenes o combate.João Guimarães Rosa . Professor: arrumar esses bodes na barranca do rio. Aí foi curto fogo. Diadorim amarrou bem. então ele imaginou que eu estava descrendo. Raimundo Lê banhou com casca de angico.

Visitamos o fazendão vazio. Aí Raimundo Lê garantiu cura com erva-boa. sem explicação. e nos dedos da mão. Muito temi por meu corpo. às duras marchas. lá esbarramos – é na beira da Lagoa Raposa. isso me perturbasse. E do Rio-do-Chico longe não se estava. na coxa e na perna. não tinha almaviva de se ver. Desconheci. num quarto meio escuro.” – era outro meu receio. cama-de-vento.” – Zé Bebelo menos disse. – “Se eu tiver de atirar. mas a natureza dele era limpa. O que me sofria até nas margens do peito. com coisa nenhuma não me importei.. não me concedendo movimentos. Riobaldo. o ofendido secava por si.. passada a Vereda do Enxu.. – “Pode que nunca mais você me veja. e então nem viúva minha você não vai ser. porque o José Félix também tinha tido ferimento. Admirei.. Assim a primeira vez que me sucedia um a-mal. – “Retém as forças..Grande Sertão: Veredas doía inteiro e inchava. para atacar? – “Sei de mim. com isso rente se sarava.” Uns recomendavam arnica-do-campo. nem parecendo ser. “Ah. sei que a inchação me cansasse muito. minha Otacília” – eu gemi em mim. então como é que faço? Não posso.. sei. Mas onde era que erva-boa se ia achar? À Fazenda dos Tucanos chegamos.João Guimarães Rosa . sempre eu queria esbarrar pra água beber. Cacei um catre. Assim então por que era que não se avançar logo. Vou campear o – 453 – . outros aconselhavam emplastro de bálsamo.

” – Zé Bebelo respondeu. e do juiz de Direito.. é o que eu ouvi dizer. ali ficamos comendo palmito e secando em sol a carne de dois bois. damos. do Coletor.” Zé Bebelo. o boiadeiro não acertava dizer. Se o boiadeiro sabia o nome do Promotor de Vila Risonha. que com seus camaradas viajando. Sim. Chefe?” – o boiadeiro perguntou. do Delegado. se aquilo. mano velho?” Soldadesca pronta. A quieto.. No primeiro dia... Tinha uma garrafa de vinho depurativo na bagagem.Grande Sertão: Veredas remédio. o boiadeiro então achou que devia de as novidades relatar. com palavra merecida e vontade de estar bem com todos. Os soldados! – “Os que soldados. Chefe.” – Diadorim falou. Que se estava em meio de perigos. amigos. O do Oficial comandante da tropa. mais de uns cinqüenta. e mais outros deles vão vindo chegando. Só quis mais saber. Assim onde era que estavam? – “Ao que estão em São Francisco e em Vila Risonha. do Governo. me presenteou – 454 – . Aquele boiadeiro era homem sério. de tardinha. redondamente. Por que tinham riscado aquela grande volta? – “O senhor dá paz à gente. nesses matos. – “Dou paz. A gente nos Tucanos ia falhar dois dias. apareceu um boiadeiro. Se isso. esses. em caminhada para Morrinhos... escutando. do Vigário.João Guimarães Rosa . Vinham de Campo-CapãoRedondo.

a casa-dos-arreios. para a beira dos cochos. e entraram no curral. no outro dia se foram. Até por dentro do eirado. que tão depressa passaram. Essa era enorme – o corredor de muitos grandes passos. pendurado na parede da sala-grande. E era verdade. eu senti meu braço melhor.” – João Vaqueiro declarou. me fez bem. pegou nele. chegou na varanda. lajeado. valia a pena.João Guimarães Rosa . – 455 – . vi aquela fazenda. gado reboleiro. Aí João Vaqueiro viu um berrante bom. enfeite de abandono. e tocou: as reses entendiam. Os dois dias ficaram três. Tinha as senzalas. esse pátio de fora sendo largo. – “Não faz mês que o povo daqui aqui ainda estava. Pois tinham desamparado um gato. muito cedo.Grande Sertão: Veredas com um gole. na esperança de sal. e com um cruzeiro bem no meio. ali esquecido. na raia do pátio de dentro. o qual veio para perto do jacaré cozinheiro. mansejavam uns bois e vacas. Nesse entremear. Pousou lá. Mas o capim crescia regular.. e. na do de fora. e estive mais disposto. uma ou outra respondendo. com efeito. Nos Tucanos. Andei andando. o engenho. muitas moradas de agregados e os depósitos. pois na despensa muita coisa se encontrando aproveitável.. suplicar comida. em redor. Não de todo.

no amiudar. no em que se ia partir dali. Aí o que pasmava era a paz. Não gostei. tomar – 456 – . os cavalos na madrugada. Até que escutei assoviação e gritos. o conforto das arcas de roupa. Aquela moradia hospedava tanto – assim sem donos – só para nós. já tinha se levantado antes e desaparecido do quarto. Ainda persisti numa madorna. os trastes grandes. Diadorim. que dormia num colchão. as barras quebradas. Virei para o canto. O pessoal chegava com os cavalos. corri. – “A gente vai pegar a cavalhada. assim eu estava apreciando aquele catre de couro. Os cavalos enchiam o curralão. Pensei por que seria tudo alheio demais: um sujo velho respeitável. que estava dormindo no mesmo cômodo e tacteando se levantava. mais o Fafafa e Doristino. Afoito. Só assim acordei. eu acordei ainda com o escuro. estavam bons para o orvalho dos pastos. aquilo eu carecia de rever.. Então vou?! Quem é que rala a minha mandioca?” – repontei. áspero. e a picumã nos altos.Grande Sertão: Veredas Madrugada.João Guimarães Rosa . Pensei bobagens.” – de repente me lembrei. encostado na outra banda. tropear de cavalaria. antiqüíssimo. – “Estou enfermo. por um rumor. compareci numa janela – era o dia clareando.. o bolor. Respirar é que era bom. a cal nas paredes idosas. Mas me chamou. prazentes. “Ah. Aquele mundo de fazenda. Vamos?” – ele disse. os cavalos!. O Simião decerto ia. seria o Simião. sumido nos sussurros.

João Guimarães Rosa . O que eu tinha era fome.” Assim era. aprontado. Deram muitos tiros.” Simião? Perguntei: – “E o Doristino?” – “Ãã? Homem. me fiz nas minhas armas. e já estava embalado. não sei. mais longe. virei: – “Ah. Fafafa está é matando!. O que eu tinha era fome.. em carreira.. Mataram o Simião. sobre o instante. Apertei minha correia na cintura. Riobaldo.. em minha frente.. Saí da janela. – “Mataram o Simião e o Aduvaldo. verdadeiramente de repente. Antes de saber o que foi... E deram um tiro. isto – 457 – . Respirar a alma daqueles campos e lugares. um homem esbarrou em mim. os Hermógenes!” – Diadorim aparecido ali. de rifle.. O que eu soube. e o Fafafa?” O que ouvi: – “Fafafa. não. Às tantas o senhor assistisse àquilo: uma confusão sem confusão. Deram um tiro. Sempre sei quando um tiro é tiro – isto é – quando outros vão ser. outros bramaram.Grande Sertão: Veredas todos os cheiros.” E eu ralhei: – “Basta!” Mas. Aonde.. inimigos terríveis investindo... Outros? Só Zé Bebelo – as ordens. o quê? Todos eram mais ligeiros do que eu? Mas ouvi: – “. de sobrevoz. – “São eles. Apertei minha correia na cintura.” – alguém me respondendo. real. caído como chuva: o rasgo de guerra. o seguinte emendando: que nem sei como foi.

e é tolo. ligeiro demais. Aquele me apatetar – saiba o senhor – não deve de ter durado nem os menos minutos. eu sabia mesmo exato: a gente já estava debaixo de cerco.Grande Sertão: Veredas falou. fosse mandar eu ter coragem! Ele nem disse. até ele anoitecer em meus olhos. o tanto. Diadorim sacripante se riu. Respirei depressa demais. o assoviar e o dar das balas – que nem um saco de bagos de milho despejado. essas comuns tranqüilidades. Me salvei por um espetar de pensamento: que Diadorim. pus a mão no ombro dele. No átimo.. encolheu um ombro só. E.” Assim enquanto. na folha da orelha. – 458 – . Para ele olhei. E raciocinei a velocidade disto: “Ser pego. diferente. eu escutando. num só destorcer. agora.João Guimarães Rosa . na tocaia. – “Eh. Mas eu me inteirei. Atiravam nas construções da casa. Medo nem tive. cenho franzindo. Eu não era eu. é diverso de tudo. Atiraram um horror. o sanguefrio maior. no corredor.” – inventei na mente. tiros e tiros que estavam contra nós desfechando. pois vamos! É a hora!” – eu declarei. Feito cuspissem – o pôr e pôr! Senti como que em mim as balas que vinham estragar aquela morada alheia de fazenda. não deu para ter – foi outra noção. Respirei os pesos.. estamos perdidos sem socorro. duma vez.. “Agora. supri a claridade completa de idéia. por aí. as minúcias recontadas: as passadas dos companheiros. o tanto..

Arranjos de guerra – esses são engenhados sempre com uma graça variada. diversa dos aspectos de trabalho de paz – isto vi. carregavam um caixote também.. eu dividido naquela alarida. – “Riobaldo.. com sacos de sabugos. Com outros. mais outro. Tatarana: tu toma conta desta janela. nem relaxa. Você ali. Você dessa banda. lá embaixo avistei Marcelino Pampa indo para as senzalas. sujeitos maneiros. Meus peitos batendo tresdobro forte. Ação em que qualquer um anda – nessas semelhantes ocasiões – só encostado nas paredes – “Você fica aqui.. e você. feito – 459 – .” – arrumação ele ordenava. por via nenhuma.João Guimarães Rosa . ansiado cauteloso. Ainda reconheci o Dimas Doido e o Acauã. você-aí acolá. Um daqueles urucuianos apareceu. Freitas Macho corria para a tulha. Mais homens..” Arredado. limpo. traziam balaio grande. foram buscar outros sacos. dito “Alparcatas”. Daqui não sai.. mais você.. e para o engenho uns junto com Jõe Bexiguento... com algodão em rama. A grave escorei meu rifle. o senhor vê: homens e homens repulam no afã tão unidamente. tamboretes. arma minha. cangalhas e arreios. amásia. por entranqueirar o pátio de fora: tábuas.Grande Sertão: Veredas Achei especial o jeito de João Concliz vir. uma mesa de carapina retombada... deitados atrás do cruzeiro do pátio. com uns cinco ou seis companheiros. Tudo eles estavam transportando.

picando – 460 – . ele ajudado por alguns. amistoso. aí me cismei: e fiz. pus o olhar. entornadamente. Aí ergui mão para coçar minha testa. Ixe de inimigo que não se avistava. Da janela da outra banda.João Guimarães Rosa . Sustentava. comigo junto. outra vez. em seu posto em praça. mas sim porém sucinto pela boa morte – ao que a morte é o sobrevir de Deus. o pelo-sinal. como era que estava sentindo meu braço. mandado guarnecer ali. era o Preto Mangaba. Somente eu queria saber era se agüentava manejar. com todo o respeito. Ao menos alguém fungou e me cutucou. Atirei. espiei o desdém do mundo.Grande Sertão: Veredas o meigo do demo assoprasse neles. arrastavam um couro. Preto Mangaba me oferecia dum pão de doce-de-buriti. distâncias. Diadorim onde estivesse? Soube que ele parava em outro ponto. ou até mesmo os espíritos! Suspirei. Sei que o cristão não se concerta pela má vida levável. contra o espaço da casa. Abalavam fogo contra a gente. Eu então me alembrei de que estava com fome. Mas Quim Queiroz trazia mais munição. arrastavam no assoalho do corredor. A aragem. repartia. Atiravam. o couro esse cheio repleto de munição. Isso não é isto? Nonada. de bestagem.

Todo lugar não era lugar? Não se podendo esbarrar. – “Espera!” – ele mandou. ficarem dependurados de cortinado bambo. meio grosso – com o que era uma voz de combinação. junto com o Fafafa. que a cada. o Marruaz. aí. mais baixo. ouvia menos. Esses couros inteiros eram para a gente pregar lá em riba. isto de ferro – as balas apedrejadas. socavando com ferramenta. assazmente. com Alaripe. Pelo que vinham também o Pitolô e o Moçambicão. nas manivelas da guerra. no arrebentar. a fito de abrir torneiras nas paredes – por onde buraco de se atirar. no próprio do coração. nas padieiras. Ah! E então. João Concliz tornava a vir. puxando uns couros de boi.. não era a voz de autoridade. Assim é que é. Assim.João Guimarães Rosa . me transpor – 461 – . Tatarana. Zé Bebelo chegou. se encostou quase em mim. vem cá. Eu e eu. assim. Guima e Cavalcânti. no súbito aparecer. o achispe..” – ele falou. – “Riobaldo. de jeito nenhum. na barra da varanda. Aprendi os momentos. zelante. À mira de enviar um grão de morte acertado naquelas raras fumaças dançáveis. nos vãos das janelas. A de ver.Grande Sertão: Veredas alvos a para a frente. Mas o dos outros: assovios bravos. Depois. Até meus estalos. o que ele quisesse de mim? Para eu passar avante na posição. o Pacamã-de-Presas mais o Conceiço. José Quitério e Rasga-em-Baixo. Aquela guerra ia durar a vida inteira? O que eu atirava.

Antes isto. Mas o pensar de Zé Bebelo – ansiado eu sabia – era coisa que estralejava. assentei. Desentendi. E ele nem me olhou.” – ele falou..” – ele. o constante revirar e remexer da guerra. de maior marca? Andei e segui. como que não entrava a guerra. – “Mais antes larga o rifle aí.João Guimarães Rosa .. esquinado de través. inventaste e forte. Mesa de madeira vermelha. Mesmo me levou. eu fui e principiei. Ofereceu a cadeira. com recosto. cheirosa. Zé Bebelo de revólver pronto na mão.Grande Sertão: Veredas para um lugar onde se matar e morrer sem beiras. O depor meu rifle? Pois botei. o que se via era uma mesa.” Caí num pasmo. numa hora daquelas? O que ele explicado mandou. de pau. mano. pequeno. que sei. com Zé Bebelo. respeitável. Ali era um quarto.. pois ele. Era? Não sou cão. para se ter ódio da vida: que força a gente a ser filho– 462 – .. tudo carecia mais era de ser depressa. não sou coisa. em beira de mesa. Se era para sentar. sem cama nenhuma. Mas me levou foi para um outro cômodo.. cadeira alta. Escrever. Ali se tinha lápis e papel.. que obedecer é mais fácil do que entender. botei com o todo cuidado. – “Senta. em cima da mesa. mas que não contra mim – o revólver era o comando. presente que. e me disse: – “Escreve. Dentro daquele quarto. deposita.

Sem determinação tomada de ir. – 463 – .. quem tinha falado era Zé Bebelo... O homem.” – ouvimos. por ali devia de ter.João Guimarães Rosa . as costas amparadas na parede.Grande Sertão: Veredas pequeno de estranhos. – “Companheiro ofendido. de sorrogo. alguns vinham da cozinha.. com a mão esquerda era que ele suportava sua testa. para ver. Tinham de caçar mais papel.” O zunzum da guerra acontecendo era que me estorvava de direito pensar. Enquanto isso. qualquer. que o asno rifle ele não tinha largado. caído sentado. O Leocádio. eu também já estava lá. isso é que é capaz de me matar. era pouco.. Sem-modos se precipitado. para o que carecia. em outra ocasião.. atrás dele. – “Ao que foi?” Uns gemidos. E Zé Bebelo não estava ali não era para isso. o que eu não entendo. o papel. mas com a direita ainda segurava o rifle. Zé Bebelo avançou para ali. E ouvimos praga de dor. o primeiro ferido... eu cumprisse de escrever. mesmo. despautados. as pernas estendidas para diante. para pensar por todos? Como que fosse.” – me lembrei dessas palavras. Mas palavras que. “Ah. na seca mão da necessidade. Conforme Raimundo Lê já tinha exigido. – “Escreve.

” – ele regendo. menino. tu agüenta ainda brigar?” – Zé Bebelo quis saber. O teor era aquilo mesmo. pois falar era o que para ele custava e maltratava.. vamos ver. para se escrever.. O Leocádio. Segurou meu braço. revólver na mão.. suscitado de se voltar para a mesa. o que posso!” Sempre sendo a careta sem gracejo. Zé Bebelo se endemoninhava. garantiu que podia: – “O que posso. E da lei. Pelo discorrer. amanuense. em minha fantasia. vamos. faz vingança!” – Zé Bebelo aforçurou.. que fez careta. que ele estava me ameaçando. – “Apresta. outro para o excelentíssimo juiz da comarca de São Francisco. Que tenho esquadrão reiúno: esses é que vão vir me dar retaguarda!” – ele falasse. do Leocádio. o vermelho brabotava e pingava. faz vingança. Eu escrevesse. às vezes achei.João Guimarães Rosa . Escrevi. Em nome de Deus e de meu São Sebastião guerreiro. se os – 464 – ..Grande Sertão: Veredas trazendo as latas d’água. com mais urgência. – “E da Lei. outro para o presidente-dacâmara de Vila Risonha. ai. – “Meu filho. Raimundo Lê lavava a cara do homem ensangüentada. também.. Esse estava atirado pelas queixadas. o simples: que. então. outro para o promotor. Acertei. – “Ei. Semelhante só botasse apreço nos fatos por resultar. Ah. A massa do volume deles também dá valor. má bala que lhe partira o osso. Os bilhetes – missiva para o senhor oficial comandante das forças militares.

à justa. era que ele.João Guimarães Rosa . jaguatirica e onça – de toda a jagunçada maior reinante no vezvez desses gerais sertões. no grude dos olhos. sempre mais. de rota abatida. os tristes e alegres sofrimentos da gente. a célebre morte de Medeiro Vaz. Assim. eu conseguia a alumiação daquela desconfiança. a vingança em nome de Joca Ramiro? Nem eu sabia ao certo. reunida – de lobo. Daí. e esbarrei. cidadão e candidato.Grande Sertão: Veredas soldados no soflagrante viessem. sem repouso. foi: aquilo não seria traição? Rasteiro. depois. o pior. todos? Diadorim e eu. sem esperdiçar minuto. E nós. não podia esbarrar de pensar inventado para adiante. tive que olhei Zé Bebelo. tão claro e aligeirado pensei – os prefácios. Soubesse. somenos se cumprida a viagem de ida até em Goiás. o extrato da vida de Zé Bebelo. não podia esbarrar de pensar. viva a Paz e a Constituição da Lei! Assinado: José Rebelo Adro Antunes. no correr de tantos meses. agora formada. A gente estava por conta dele – e sem – 465 – . por oficio e por espécie. A em pé. Aquele tinha sido homem pago estipendiado pelo Governo. No pique dum momento. A rasa. o que ele tinha realmente feito. agora os soldados do Governo com ele se encontravam. Em que maldei. então aqui na Fazenda dos Tucanos pegavam caça grossa. perdi e achei minha idéia. e cerrar com fecho formal: Ordem e Progresso.

ele mesmo já não teria enviado. Ouvi a guerra. A cada bala. como quando onça de-lado pula. – “Te apressa. Eu já tinha preenchido – 466 – . tinha querido falhar os três dias naquela fazenda atacável. – “Oi. sem se rasgar. Decerto eu estava exagerado. tinham pendurado igualmente um daqueles couros de boi: bala dava. E ele tinha trazido o bando cá para perto do São Francisco. “Traição?” – eu não queria pensar. Ah as balas que partiam telhas e que as paredes todas recebiam. desde tempos? Idéia. careci de querer a calma. só com mossa feita. daí perdia a força e baldava no chão. quando a canoa revira.. balangava e voltava no lugar. safado capaz. para isso era que o couro servia.” – ele escarnecendo disse. Nem se desprazia. quando cobra chicoteia. Tatarana. no ter o choque.Grande Sertão: Veredas repouso nenhum também. xô! P’ra esses. essa. Desse de ser? Ao caminho dos infernos – para prazo! Aí. Cacos caindo. que nós dois temos também de atirar!” Alegre dito. Antes Zé Bebelo havendo de ser mesmo o chefe para a hora.João Guimarães Rosa . o recado para os soldados virem. Assim ele amortecia as todas. brando. empurrando o couro. o couro se fastava. O tiroteio já redobrava. então. zaque-zaque. quando as descargas vieram em salva mais forte – o fiufiu e os papocos.. Quem sabe. ali. Na janela. munição não falta?. nenhum – o portanto. do alto. Arre de espanto – ah.

Grande Sertão: Veredas três cartas.. num vigente fevereiro. ou a banda de trás. filho. remédios. xingatório. – “Escreve. os recibos.João Guimarães Rosa . o que daquele dia em minha cabeça não me esqueço. – 467 – . de tempos idos. A fatura de negócios com escravos. Outras cartas. adejante. 11. por Nicolau Serapião da Rocha.. escreve. Que era que estava escrito nos papéis tão velhos? Um favor de carta. reverso dita. no nome dele com respeito se falava. esgueirados para a janela. eu esbarrei. achado por ali. que sempre duro e mole no ar se repetia. quando ainda se tinha Imperador. compra. Assim como não pude. Advindo que algum me trouxe mais papel. algodão trançado tinto. seu vez-em-quando a ponto atiravam. Não é do tutuco nem do zumbiz das balas. na torração. de tinta firme. ligeiro.” A traição. E noticiando chegada em poder.. no meio da desbraga do quanto combate.. nos quartos. mas a gente podendo aproveitar o espaço embaixo. o Duzentos e o Rasga-em-Baixo agora ombreavam armas. Só coisa escrita já. mas do bater do couro preto. de remessa de ferramenta. outra vez – e encarei Zé Bebelo sem final. em remexidas gavetas. Aqui mesmo. então? Altamente eu escutava os gritos dos companheiros.

no demoroso. que ele esteve pego.. dos meus olhos. como o senhor outrora mesmo declarou?. a expedição de minha dúvida. “Traição”.” – eu cacei contra. Às vezes. de se espantar no ar. Por que é que o senhor não se assina. porque a vida é miserável. Muito alta e sincera é a devoção. não se pode. quase’que.. – “A pois.Grande Sertão: Veredas – “Que é? Que é lá?!” – ele me perguntou. no usual de seu modo. Uma bala no couro assoviou soco. outra entrou atrás. Simples.. ah.. hã-an. recachou. reperguntando. prazido consigo. Conforme. assim.João Guimarães Rosa . mas o exato das praxes impõe é outras coisas: impõe é o duro legal.... e me disse. porque fui... A letra saía tremida. Também pensei. ao pé: Zé Bebelo Vaz Ramiro.” Aí. Tanto que pensei. mas. – sem querer eu fui lançando no papel a palavra. um atraiçoa. me engambelando: – “Ah. mas risquei. Meu outro braço também recomeçava a doer. também. entrou com o couro – 468 – . fui. fui escrevendo. mesmo melhor do que o que eu sabia de mim.... Ato visível. Devia ter me deduzido. Conheci... sem nem saber o que é que está produzindo-às falsas hajas! Mas ele não tinha surpreendido a verdade do meu indagar.

Deus azado ajudasse. ele muito falou. então era resumo certo que a soldadesca se movimentava de vir. – “Que erro que foi?” Não viu. Apareciam. no escuro feito.João Guimarães Rosa . os trapezavam. cada um levava ruma igual daquelas cartas. arrebentavam com os Hermógenes! – “E a gente?” – eu perguntei. – “Ãe? A gente? A ver.. apropositavam. porque eu já tinha riscado. então. que você não me entendeu? A gente obra jeito de se escapar. que era muito difícil – eu repostei. quente. Assim. furando o cerco. perto da gente.. eu esperei o pispissiu de alguma outra bala. Sumamente. De noite. naquela Casa. Ali na parede. tinha um chifre de boi de se dependurar roupa. deu na parede defronte. e eles ou ao menos um deles conseguisse. Ia explicando. dos mais espertos viajeiros. ia mandar dois cabras. Soubesse por quê? O pensar caladíssimo de Zé Bebelo me perturbava. eu queria.Grande Sertão: Veredas levantado. – 469 – . para rastejarem por ali. Mas ele disse: – “Que é que é?” – se debruçando. no cererê da confusão. tanto.” Antes. até armador de rede era de chifre de boi. Mas. ricocheteou e veio cair.

se os soldados chegarem. Se não. é que estão.João Guimarães Rosa . a gente forçar um escape. tomaram tudo quanto há de melhor. nessas posições. sim. algum lucro se – 470 – . mas fato é que eles chegaram a surdas. Aí quem era que podia com a idéia daquele homem. pois. pensa – esses Hermógenes não são mais valentes do que nós. meu filho. sem alcance nenhum para se matar um bom poucado desses inimigos. Mas pego. Asseados. pode ser que se tenha sorte – mas mesmo assim sofrendo muitas mortes. com respeito. se foge. e sem meios para descontar essas. se outra. dificultoso é. e nos cercaram. brigando e matando. Então. no questionar. fazendo neles muito estrago. assim ele me respondeu: – “Pois era. é o nosso recurso. Ao menos. que saldo é que temos?” – e Zé Bebelo. Tatarana? Olhe: escuta. do dito. nesta hora. Aí. Mas tinha esquecido que estava era encostado em Zé Bebelo. Eu disse isso. Agora. sagaz se rigozijava. eu disse que a gente podia experimentar de fazer isso mesmo agora: furar uma saída. Tu entende? Mas. nem estão em quantidade maior.Grande Sertão: Veredas – “Ah. quem era que se sustentava? A foro. por entre os Hermógenes. têm de dar o forte fogo primeiro contra os Hermógenes. com tenção só na escapula.

daí. descrendo do enfado de responsabilidades. me pisou. E. na hora de os soldados sobrechegarem. eu sendo cinza. eu abocava nele o rifle. era capaz. e forçando os companheiros para a impossível salvação. em a-cu atôo de acuado?! Um ror de meu sangue me esquentou as caras. só uma vez. ele fizesse feição de trair. Daí eu tomava o comandamento. o que tu também quer. Aquilo por amor do rijo leal eu fazia. eu parava perto de Zé Bebelo. Riu? Eu sendo água. pelo certo que a vida deve de ser.. e me ressoprou. Mais fiz. me bebeu. e ficou formado um decreto de pedra pensada: que. tu vê o que se quer? Ah. fiquei sabendo: me queimassem em fogo. Desconheci antes e depois – uma decisão firme me transtornava. E eu vi. Mas fazia. eu sendo capim. dava. em chão. efetuava. O senhor acha que menos acho? Mais digo..João Guimarães Rosa .. espremi as tábuas do assoalho. Ah. o redor dos ouvidos. pois não quer?!.. eu estava ali. eu dava muitas labaredas muito altas! Ah. e que. o que eu pensei – o que seguinte ia ser. Mesmo não gostando de ser chefe.. “Aí.Grande Sertão: Veredas teve.” Não nas artes que produzia.. Ah. que cantava pancada. Se riu. qual. Eu apertei o pé na alpercata. pego a faca-punhal e o facão – 471 – . o competentemente – eu mesmo! – e represava a chefia. Antes veja. não! Então. Matava. cachoeira. mas no armar de falar assim – ele era razoável.

eu estive todo tranqüilizado e um só. Até chegar a hora... E ele se sustou. a verdade duma coisa. E eu mesmo senti. que mesmo acho que aquele. o senhor é amigo dos soldados do Governo. eu não ia falar disso com pessoa nenhuma. com a alegria que me supriu: – eu era Riobaldo. fez espantos.” E eu ri. foi o ponto e ponto e ponto. Riobaldo! A quase que gritei aquele este nome. Riobaldo. procedia. riso de escárnio. assim.” – 472 – .” – tornei a pensar. e terminei de escrever o derradeiro bilhete. para me constar. um desprezo de dizer. e insensato resolvido tanto.João Guimarães Rosa . forte. ah. que de homem ou de chefe nenhum eu não tinha medo.. e soldado não tem amigo.. O que regeu em mim foi uma coragem precisada. Ele disse: – “Tenho amigo nenhum. nem com Diadorim.” Eu disse: – “Estou ouvindo. na minha vida. ri. chefe.. meu coração alto gritou. direitinho. E entreguei o escrito a Zé Bebelo – minha mão não espargiu nenhum tremor.Grande Sertão: Veredas grande. quando eu experimentei os gumes dos meus dentes. o que disse: – “O senhor. Mas fazia. Arre então..

pensou bem. de que você está desconcordando de minha lealdade. estão juntos.. Mas se o senhor se reengraçar com os soldados. O senhor é da política. se eu achasse o presumido.. pobres jagunços... e te apreceio. e feio ri.Grande Sertão: Veredas Ele disse: – “Eu tenho é a Lei. porque estava com vontade. Mas ruim não foi. para vantagem – 473 – .” Eu disse: – “É.” Eu disse: – “Pois nós.” Ele disse: – “Minha lei. A sorte do dia. com certeza.” Ah.” Eu disse: – “Então.” Ele disse: – “Mas agora minha lei e a deles são às diversas: uma contra a outra. o Governo lhe repraz e lhe premeia. Tatarana? É a sorte dos homens valentes que estou comandando. Agora. por malícias. eu cutucava. Fechou a boca. não temos nada disso. Aí pensei que ele fosse logo querer o a gente se matar.. Ele disse: – “Escuta. no carregoso. velhaca.. sabe qual é que é. E soldado tem é a lei. a coisa nenhuma.... porque vislumbrei tua boa marca. Zé Bebelo só encurtou o cenho. a gente. Tatarana: você por amigo eu tenho.João Guimarães Rosa .. ou de que você quer me aconselhar canalhagem separada. Pois não é? Õ gente – deputado. Riobaldo.

” Eu tossi. morte de homem é uma só. a vamos.. mordi meus beiços por essa causa.. disse: – “Eles estão querendo pôr mãos e pés no chiqueiro e na tulha. e escorei meu rifle. Se eu soubesse disso. aliviado. Se assanham!” Eu disse: – “Dê as ordens. certo. Agora. Chefe!” Eu disse gerido. Daí. eu não disse copiável.. com macacos e bananas! A cá.Grande Sertão: Veredas minha e sua.. disse: – “O Jósio está morrendo. Sei que Zé Bebelo sorriu. cujo varei os peitos.João Guimarães Rosa . com um tiro no pescoço. por cima da palha de buriti que cobria uma casa de vaqueiro. À janela.” Alaripe entrou. na sala-dejantar. Mas cacei..” – ele instou. Adesfechei: e vi arrebentar em pedaços o casco daquilo.” Eu disse: – “Chefe. olhe. correndo vindo. Ele tossiu. – “A vamos. arma capital. lá dele. que afoitos! Ao tanto eu – 474 – . E aqueles sujeitos estavam loucos? Cabeça de um se bolou.. redondante. era o da banda do braço que doía.. duas balas. Diodolfo. Outro afundei logo. a dor me doeu no ferimento do braço.. Agachei. Ave. era obrar... Zé Bebelo botou a mão no meu ombro. feito um coco. com outra bala certeira. meu filho.

Pena. aceitavam o poder da morte que eu mandava. não são para que eu alembre. Eles. respondia até na barriga. dever finezas a escorpião! Pena de errar algum. mas não errava. derrubei mais um. para um canto da cerca. ou mas quando retomba mesmo por desmanchado. Ria. – “Aperta esta minha parte de natureza. Mortes diferentes. veja – 475 – . parecendo que um fogo desenraizava tudo. mais vizinho. com um pano. ai dor doía. de arrancado. Menos. Esse ia pulando em lanço. até a hora do almoço – meiadúzia. não se deve. sim: é de declaração. dos ocos. companheiro!” – eu supliquei. mortes iguais. Que eu ali. agora. me passou dobras daquelas tiras. quando se encolhe somente ferido. não gosto de relatar. Essas coisas. forcejava minha careta. rasgou uma colcha de cama. só. ah. chorejava. se tive? Vá se ter dó de canguçu. Também.João Guimarães Rosa .. Deixa que deixavam só uns dois dedos de corpo em descoberto lateral – e minha bala se comportava. jajão. A cada que eu dava um tiro. e apontava. Trastanto. Conheço quando homem só disfarça. é até ao desamargado dos sonhos. com um cabresto.. sei. arrochadas. doesse que doesse. Alaripe. de. eu ter podia. esse deu um grito soltado. esse repulou no ar. que me importava? – arrasos em redor de mim. servente. caíam. Os outros uns.Grande Sertão: Veredas gemia. despois. Ao senhor. Como aquele meu braço me doendo. urubu já bicou. Esse. Fiz conta: uns seis. em um e um.

afora as pintas. todos em minha pontaria punham prezado valor. quando junto com as balas. eu catasse de querer espécies de homens. carne-seca. como foi que eu achei gosto naquela comida. de muitos. e de asas de andor. E então conto o do que ri. assim repicava o espairar. Ainda demos um tiroteio varredor. antes entrada janelas a dentro. em boa hora.. me gabou: – “Tu é tudo. a vida salvei: pelo medo que de mim tomavam.João Guimarães Rosa . que se riu: uma borboleta vistosa veio voando. o vôo de reverências. bebi restilo. não achasse o que achasse – e era uma borboleta dessas de cor azulesverdeada.. para alvejar. Seria só por desconto de um começo – 476 – . desandavam. O imaginar o senhor não pode. Riobaldo Tatarana! Cobra voadeira.Grande Sertão: Veredas e mire. Ela era quase a paz. Aí. ali mesmo me trouxeram. às saúdes. ainda batemos. às ganas. para não avançar nos lugares – pelos tirázios. o tanto também bebeu. A comida para mim. Mas mais. maria-gomes e angu. que era: de feijão. muita. O café que chupo. Assim pararam. que o couro de boi levantavam. Alto ela entendesse. até para o almoço. E Zé Bebelo. feito se por cabeça ganhasse prêmio de conto-de-réis.” Antes Zé Bebelo me ofereceu mais restilo. Ao que bebi água. eles desistiram para trás. revindo. o balançar da guerra parou. viva. arroz. maria boa-sorte!” – o Jiribibe gritou. – “Ara.

” – aprontado ele falou. na grande cidade de Januária. tão socialmente. Amigo? Eu era.. Pensei: eu visse que traindo ele estivesse. Amigo? Eu. Alembrado de que no hotel e nas casas de família. mas só até uma parte – não entendia o depoisdo-fim. Morria da mão de um amigo. do lado de Zé Bebelo. A ver. Jurei. calado. ele morria. pensei. A passeata das bonitas moças morenas. desde. na Januária.João Guimarães Rosa . de um homem. uma flor – 477 – . Zé Bebelo – cortador de caminhos.Grande Sertão: Veredas de remorso. alguma delas com os cabelos mais pretos rebrilhados. eu no meio. o confrontante. Assemelhado a ele. juntos. naquela hora. onde eu queria comparecer. A ser: que entendia meu sentimento. e se conversa bem.. E amigos somos.. Aquele homem me sabia. mas Zé Bebelo não estava do lado de ninguém. outros em descanso comedido. a minha idéia se avançou por lá. é o que ele esconde. cheirando a óleo de umbuzeiro. E. nem acompanhamentos. entendia meu sentimento. Ao que resposta não dei. por me temer em consciências? A gente sabe mais. mas sem glórias de guerra nenhuma. sim senhor. o povo morador. no triunfal. na forte cidade de Januária. Desejei foi conhecer o pessoal sensato. – “Ah: o Urutu Branco: assim é que você devia se chamar. se usa toalha pequena de se enxugar os pés. a gente vai entrar. uns em seus pagáveis trabalhos.. um dia. ali.

vinham e caíam. Datado que Deus... Assim essas cachaças – a vinte-e-seis cheirosa – tomando gosto e cor queimada. mais Diadorim. As raivas. sem querer ser estorvado. que me livrou. a gente esperando toda no porto. – “Vamos levar para a capela. para em provisão dele se acender? – “Quem tem um rosário?” Mas. Ao menos. como perfeito se faz. demasiadas. revoantes: eram os bandos de balas. daí desajoelhei e vim para a alpendrada. Devia de ter se passado sem tribulação. avistar o que se passava com Diadorim. a seu comprazer. naquela varanda. porque meu rifle certeiro era que tinha defendido de tomação o chiqueiro e a tulha. morto no meio. nos assaltos. Agora não caçavam uma vela. livrava também meu amigo de todo comezinho perigo. vi. o tempo. ver o vapor chegar com apito. sem deszelar. À Januária eu ia.” – Zé Bebelo mandou.Grande Sertão: Veredas airada enfeitando o espírito daqueles cabelos certos. atravessado. pensei que assim em pouco descanso. torto. a rapaziada suava. nas grandes dornas de umburana. Tiros altos. no sobrevento.João Guimarães Rosa . Ali. o Cavalcânti se exclamou – 478 – . Assunto que era o Acrísio. Assunto de um homem que estava deitado mal. Diadorim guerreava. cuidando nos alambiques. e eu estipulava meu direito de reverter por onde que eu quisesse. e então até a Casa.

sem saber. Tiravam poeira de qualquer pedra! Iam caindo. e as crinas sacudidas esticadas. no esparrame. cães aqueles. como urro de onça. o rasgável da alma da gente – no vivo dos cavalos. os pescoços. no desembesto – naquilo tudo a gente viu um não haver de doidas asas. sacolejados esgalopeando. numa tremura. que não tinham culpa de nada. Aí lá cheio o curralão. rinchavam de dor – o que – 479 – . e o relincho de medo – curto também. se deitando uns nos outros. os de tardar no morrer. Iam caindo. que era o destapar do demônio – os cavalos desesperaram em roda. quase todos.. Alt’-e-baixos – entendendo. de raiva – rinchado. o grave e rouco. Curro que giraram. abrindo as mãos. batendo com uma porção de cabeças no ar. espinhosas: eles eram só umas curvas retorcidas! Consoante o agarre do rincho fino e curtinho. que reboldeou.Grande Sertão: Veredas – “A que estão matando os cavalos!. retombados no enrolar dum rolo.” Arre e era. ver aquilo. tão sadios todos. trompando nas cercas. se viravam para judiar e estragar. com a boa animalada nossa. e todos. escouceantes. achatavam no chão. soprado das ventas todas abertas. as mãos cascantes. sem temor de Deus nem justiça de coração. a torto e direito. os pobres dos cavalos ali presos. uns saltavam erguidos em chaça. e eles.. só os queixos ou os topetes para cima. agora.João Guimarães Rosa . fazendo fogo! Ânsias.

aí. vinha de apertos. o bicho largando as forças. nem a gente podia ver como terminava. eles. a matança. de outros zunido estrito nos dentes. não – 480 – . um ponto – as nádegas ancas mostrava para cá. os Hermógenes. tinham querido vir por se proteger mais perto da casa. os nossos cavalos! Agora começávamos a tremer. um cavalão claro. ficou suspenso. e terrível – por no escasso do tempo não caber. por arruinar. Não se podia ter mão naquela malvadez. de uns como se estivessem quase falando.João Guimarães Rosa . alheio. Onde se via. Se aprumou. À tala. roncado. cochilasse debruçado na régua – que nem que sendo pesado em balança. se afundou para lá. A pura maldade! A gente jurava vinganças. Atiravam até no gado. de sufocados. Só um. tão mansos. que era o de Mão-de-Lixa e se chamava Safirento. nos bois e vacas. Como a gente toda tirava lágrimas. Onde olhar e ouvir a coisa inventada mais triste. E. ou saído com custo. mal morridos. João Vaqueiro chorava.Grande Sertão: Veredas era um gemido alto. eles não tiveram fuga. não havia remédio. desde o começo. – “Os mais malditos! Os desgraçados!” O Fafafa chorava. nas alças. os animais iam amontoando. aquele rincho não respirava. matavam conforme queriam. grossas carnes. A cerca era alta. depois tombou para fora. que.

em seus avessos. com a dramada deles acabar. – 481 – . mas a fé nem vê a desordem ao redor. Antes estavam perguntando por piedade. Ah. eram aqueles assombrados rinchos. com pontaria caridosa. mesmo uma voz de coisas da gente: os cavalos estavam sofrendo com urgência. porque isso consumava loucura. e o rinchar era um choro alargado. A gente – e as areias. Aturado o que se pegou a ouvir. despregado.João Guimarães Rosa . – “Arre. esbarrando uns nos outros. para. Nós rogávamos as pragas.. para morrer e não morrer. todos tinham sido distribuídos derrubados! Aquilo pedia que Deus mesmo viesse. Não dava dois passos no eirado. uma voz deles. que levantava os couros. aquele rinchado medonho dos cavalos em meia-morte. que era a espada de aflição: e carecia de alguém ir.Grande Sertão: Veredas se divulgava mais cavalo correndo. carnal. Mas não deixamos. eu vou lá. Mas não podíamos! O senhor escutar e saber – os cavalos em sangue e espuma vermelha.” – foi o que o Fafafa bramou. eles não entendiam a dor também. Acho que Deus não quer consertar nada a não ser pelo completo contrato: Deus é uma plantação. em um e um. os olhos formados. de corposo sofrimento.. apagar o centro daquela dor. eu vou lá. livrar da vida os pobrezinhos!.

– 482 – . O senhor não sabe: rincho de cavalo padecente assim. E quando a gente ouve uma porção de animais. em grande martírio.” –. as dores. Abaixado. A gente tinha de parar presa dentro de casa. noite-e-dia. esfregante. o sobregelo.. Ah. para não se agüentar. excomungadamente. ou que desafina. fogo. Mesmo mestremente ele comandava: – “Apuremos fogo. tão bons. a menção na idéia é a de que o mundo pode se acabar. enquanto a ruindade enorme acontecia. cavalinhos nossos.João Guimarães Rosa . que é que o bicho paga? Ficamos naquelas solidões. inda ora há pouco esses eram. no fim de alguma hora.. ah. dia-e-noite. de repente engrossa e acusa buracões profundos. e se pensa que eles viraram outra qualidade de bichos. se ser. sertanejos. e que agora estraçalhados daquela maneira não tinham nosso socorro. em balas se varava. e às vezes dão ronco quase de porco.Grande Sertão: Veredas e ele morria fuzilamento. que é que o bicho fez. traz a dana deles no senhor. daqui. O senhor abre a boca. Agarramos segurado o Fafafa. Não podíamos! E que era que queriam esses Hermógenes? De certo seria tenção deles deixar aqueles relinchos infelizes em roda da gente. o pêlo da gente se arrupeia de total gastura. e se entrar no inferno? Senhor então visse Zé Bebelo: ele terrivelmente todo pensava – feito o carro e os bois se desarrancando num atoleiro. Alembrar que tão bonitos. combatendo no possível... dia-e-noite.

se estava: o despoder da gente. disse ao senhor. esperava... o Marruaz disse: – “A bom. em ira de compaixão. para a eles dar paz. Que eles – quem havia de não crer? – que eles mesmos agora estavam atirando por misericórdia nos cavalos sobreferidos.. não são os cavalos todos que estão rinchando – quem está rinchando desgraçado é o Hermógenes. Ao que estavam. “A faz mal.Grande Sertão: Veredas dali. Assim. A pois. Com pranchas de munição que a gente gastasse. – “As graças a Deus!. alumiado. trescortado. vigia: olha lá.” Assim o relincho em restos. O duro do dia.. no sombrio do corpo. Agarrávamos o Fafafa. Mas. com um alívio de – 483 – . não faz mal. Adiantava nada. e que eu esperava. ele guerreiro. por meu conforme. No que se estava. não alcançávamos de valer aos animais.. no arranhar dos órgãos. me subi para fora do real. rezei! Sabe o senhor como rezei? Assim foi: que Deus era fortíssimo exato – mas só na segunda parte. segurado. esperava. com o curral naquela distância.” – exclamou Zé Bebelo. como até as pedras esperam.João Guimarães Rosa . sempre temos de ser: ele o Hermógenes. não tem cavalo rinchando nenhum.. nas peles de dentro. Atirar de salva.. mais de repente. meu de morte – eu militão.” O que era. então.. no inimigo amoitado. d’hoje-em-diante doravante. Aqueles cavalos suavam de derradeira dor. como um dia vai ser. não rendia.

Ele existe – mas quase só por intermédio da ação das pessoas: de bons e maus. com as duas mãos apertando os lados da cara. mais prazo – até que o som e o silêncio. e cheio chorou. devagarinho. um tempo grande. graúdo e miúdo.Grande Sertão: Veredas homem bom. depois. se esperou. Mesmo eu – que. Durado de um certo tempo. e tudo. nem um tirozinho não se deu. Mesmo quando o arraso do último rincho no ar se desfez de vez. E nisto. Mas o Fafafa nem nada não disse. O intervalo para deixar a eles folga de matarem em definitivo nossos pobres cavalos. sim. descansamos os rifles. para algum longe. tudo recomeçou de novo. reviro retentiva com espelho cem-dobro de lumes. não conseguia: o quanto pôde. Assim seja que o senhor uma idéia se faça. Altas misérias nossas. – 484 – . a gente ainda se estarrecia quietos. O grande-sertão é a forte arma. se assentou no chão. então. que conto ao senhor.João Guimarães Rosa . se vê o sertão do mundo. depressa. o senhor já viu. Que Deus existe. é marmo!” – o Alaripe exclamou também. – “Ah. Deus é um gatilho? Mas conto menos do que foi: a meio. com a valentia ele agora se chorava. Daí. feito criança – com todo o nosso respeito. por em dobro não contar. Coisas imensas no mundo. em mais bravo. Aí. pudessem se enralecer embora. e a lembrança daquele sofrer. guardo – mesmo eu não acerto no descrever o que se passou assim.

só. Aí era um tempo no tempo. Só que alargou demora de anos – às vezes achei. no zuo de um minuto mito: briga de beija-flor. Vá de retro! – nanje os dias e as noites não recordo. o senhor saiba – é lavar ouro. que mais idoso me vejo. O senhor sabe o que é se caber estabelecido dessa constante maneira? Se deram não sei os quantos mil tiros: isso nas minhas – 485 – . Só o poder do presente é que é furiável? Não. Quem me entende? O que eu queira. por causa. não minto mais? Só foi um tempo. Isto. Digo os seis. também. Então. de mim. a lisa e real verdade? A ser que aqueles dias e noites se entupiram emendados.. num ataranto. se compõe. e acho que minto. se der por os cinco ou quatro. isto o que é.Grande Sertão: Veredas passamos. Esse obedece igual – e é o que é. a lembrança demuda de valor – se transforma. os em vir. pelas balas dos capangas do Hermógenes. acho que se perpassou.João Guimarães Rosa .. onde é que está a verdadeira lâmpada de Deus. A bobéia? Pois. A gente povoava um alvo encoberto. Consegui o pensar direito: penso como um rio tanto anda: que as árvores das beiradas mal nem vejo. Os fatos passados obedecem à gente. servindo para a terrível coisa. ou às vezes também. cercados guerreantes dentro da Casa dos Tucanos. em uma espécie de decorrido formoso. já aprendi. Agora. e quanto mais remoto aquilo reside. por diverso sentir. confinado.

É coragem. proprial. mandando se atirar economizado e certeiro. Para não se ter medo? Ah. traziam as quantidades de balas.. era o que para a gente antepunha defesa. e qué’pe-te! que o morto morrido e matado não agride mais. carreou para mim. Aí os judas xingávamos. de bondoso. aquela fazenda em quadradão. o que o senhor vai é – ouvir toda a estória contada. para a gente se sortir.João Guimarães Rosa . hora em que pensei. O Moçambicão e Quim Queiroz. eles iam acabar arriando tudo. o gotejado – 486 – . Assentes o reboco e os vedos. Morreu mais o Berósio.. Um pudesse narrar – falo para o senhor crer – que a casagrande toda ressentia.” Aí cada um gritava para os outros valentia de exclamação. pipocava. Morreu o Cajueiro. Não foi. Alaripe me cedeu. para que o medo não houvesse.. estralejava. A sebo! De dor do calor de inchação. para não se ter medo é que se vai à raiva. – “Ah. Matem só gente viva!” – ele trestampava – “. meus filhos: não vão desperdiçar. aquele meu braço sempre piorava. torcia por cima do braço. Ao por mim.. rangendo queixumes. eu molhava bem um pano.Grande Sertão: Veredas orelhas aumentou – o que azoava sempre e zinia. Não foi. uma vasilha com água fria. em entremeio de atirar. como logo o senhor vai ver. as linhas e telhas da antiga casarona alheia. oé. Rente Zé Bebelo andava em toda a parte. Porque. e em seus escuros paços se esquentava.

O que tinha os olhos miudinhos em cara redonda. quando o tiroteio batia forte. Isso.João Guimarães Rosa . Semi-sério ele se riu. Solevei uma desconfiança. Notei. seria só por acasos? O urucuiano.. sua bizarrice... homem muito feioso. Um urucuiano. deles. boca mole e sete fios de barba compridos no queixo. Comparsa urucuiano dos olhos verdes. Arreliado falei: – “Que que é? Tu amigou comigo?! Tatu – tua casa. daqueles cinco urucuianos de Zé Bebelo. O senhor é atirador! É no junto do que sabe bem. Um companheiro sempre me ajudando. de repente: aquele homem. e deixei deixada – gesto de jagunço. que o Salústio se chamava. fazia tempo que não se arredava de mim.. salteação. Se riu. de lá. Ainda nada não disse. que pegava o rifle. no instante.Grande Sertão: Veredas frescor de alívio. Sempre o vulto presente daquele homem. sempre me seguindo. Não desgostei da companhia dele.. para os bastantes silêncios. conforme agradeci. Eu bati com a minha mão direita por cima da canhota. estranhei. e daí de repente estiava – aquilo servia um pesado. que a gente aprende o melhor. por perto.” A verdade com que ele me louvava. coçou a barriga com as costas dobradas da mão – gesto de urucuiano. Surdo pensei: aqueles Hermógenes eram gente – 487 – . Apertei com ele: – “Ao que me quer?” Me deu resposta: – “Ao assistir o senhor. Assim é o que digo: que..” – para ele. muito sincero.

até pouquinho tempo reunidos companheiros. para eu não contar aos – 488 – . apostei. O ódio quase sem rumo. Zé Bebelo me queria vigiado. Atirava e fechava os olhos. A prova que era: de que Zé Bebelo despachava traição. queria ver alguém vivo? Sosseguei. não. Quando abria outra vez. Do Hermógenes e do Ricardão? Neles eu nem pensava. para espreitar meus atos. se diz – irmãos. Agora. com a perna muito para trás. a força unida da gente mamava era no suscenso da ira. Será que fosse para o urucuiano Salústio no primeiro descuido meu me amortizar? Tanto. Atual ele se ajoelhava dobroso. por me valer. As espumas dele me espirravam. Mas. Pois o urucuiano Salústio João mais olhei. O pensar assim produzia mal – já era invocar o receio. sem porteira.Grande Sertão: Veredas em tal como nós. por quê? Então o mundo era muita doideira e pouca razão? De perto. eu tinha de me ser como os outros. havia de ir esfriar sozinho. ajoelhado. a doideira não se figurava transcrita. naquela vontade de desigualar. Aí eu não devia de pensar tantas idéias. ele mirava e atirava. Ali. Porque. então.João Guimarães Rosa . a outra muito para diante. eu sobrava fora da roda. e agora se atravavam. Antes pensei outra vez foi no embuste do urucuiano. Aquele homem – achei – estava mandado por Zé Bebelo.

o perigo podia vir a ser maior. Mas Zé Bebelo carecia de mim. isso era desgraça sem mão mandante. tempestade – parecesse? Eu ia ter raiva dos homens que não enxergava? Podia ter? Tinha. Zé Bebelo temia que eu candongasse. Daí. a gente tendo perdido a certeza dos horários do dia. balaços de tantos rifles. Aprendendo eu estava? Não sabia pensar com poder – por isso matava. era dos que eu matava bem. chefes de homens. era só. – 489 – . em hora de começo de fogo. toda. Ora bem. Eu aqui – os de lá do lado de lá. Mas nem bem não era mesmo raiva. acontecer de trovões e raios. Ah. e eu também não precisava dele – da cabeça de pensar exato? Ao que. mediante trevas.João Guimarães Rosa . que uns companheiros tinham avistado os bilhetes eu escrever – o fato esquisito. ofensa sem nenhum fazedor – quase feito uma chuva-de-pedra. pegava um cansaço. Fechasse a noite. o sol piscou. era só confirmação. A anhanga que em riba da gente despejavam. rogando que viessem. Agora. com retaguarda e reforço. Traidor mesmo traidor. eu não sabia pensar com poder. assim.Grande Sertão: Veredas outros a verdade. Desse jeito foi que entardeceu. Os Hermógenes não iam investir. mas por certo pensavam que era para fazendeiros amigos nossos. Aí mandou o urucuiano fazer a minha sombra. balas que quebram tetos e portas. enquanto o cerco de combate desse de durar. Afã de dessossego. naquele tempo.

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para um fim ali dentro, de coronha e faca? Morreu mais o Quiabo. Outros atestavam uns ferimentos. Por se necessitar da capela, os defuntos a gente foi levando para um cômodo pequeno e sem janela, que era pegado na escadinha do corredor. Alaripe apareceu com uma vela, acendeu, enfiada numa garrafa. Vela sozinha, para eles todos. Aí as lamparinas e candeias não bastavam? Debaixo dum alumiar de candeia, Zé Bebelo estava me convidando. Arte que logo entendi. Ele tinha mandado vir Joaquim Beiju e o Quipes, para um segredado. Agora, aqueles dois, era para surtirem, saindo rastejando, conforme o quiçá; e cada um levava seu punhado de bilhetes, enviados. Por uma banda um, o outro da outra: o que Deus aprovasse, chegava. Assim eles aceitaram de cumprir, e motivos não perguntaram. Tudo em encoberto. Então – se Zé Bebelo guardava uma tenção honesta – por que, dito e feito, era que não punha todo o mundo ciente do tramado? Ainda esperei. Mas – dirá o senhor – por que era que eu também não delatava aquilo, os efeitos e projetos, ao menos a Diadorim e Alaripe eu não contava? Deponho que não sei. Aos perigos, os perigos. Só duma coisa eu forte sabia... Só que eu ia vigiar sempre Zé Bebelo. Ele trair, vivo, eu não deixava. Zé Bebelo tinha sua espécie de natureza – que servia ou atraiçoava? Ah, depois eu ia ver.
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Ah, eu ia ver se, no engasgo da hora, ele ia querer se estrapafar. Joaquim Beiju e o Quipes ainda foram na cozinha, cortar um de-comer, arranjar matula. Por essa volta, o jacaré mesmo combatia também, às vezes em que não estava cozinhando, e vinha atirar, da beira duma janela, com o Mijafogo. A noite breava própria; o mais escuro ia ser regulando em antes das dez horas, que quando depois podia subir um caco de lua. Aos poucos, foi dando um tão respeitável silêncio, não se atirava de parte nem de outra, a gente mesma ficava na cautela de não se fabricar rumor nenhum, de não se pautear sem necessidade. De noite, o clarão das pólvoras marca denúncia do lugar do atirador. – “Noite é p’ra surpresas de estratagemas, noite é de bicho no usável...” – o Alaripe baixo falou. O cearense bom: esse permanecia em tudo igual, com ele a gente desproduzia qualquer remorso, o brigar parava sendo obrigação de vivente, conciso dever de homem. Por uns assim, eu punia. Por uns, assim, eu devia de ser inteiro leal, eu mesmo. Mas, então, eu carecia de encostar Zé Bebelo, o espremer na franca fala. A que ele soubesse de minha lei: a que ele sem um aviso não se desgraçasse. Mesmo por causa da gente – porque Zé Bebelo era a perdição, mas também só ele podia ser a salvação nossa. Então,
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com ele eu ia falar, o quieto desafio. Adiantava? Aí não adiantasse. Mas, então, eu carecia de armar um poder, carecia de subir para cima daquele homem. Eu tinha de encher de medo as algibeiras de Zé Bebelo. Só isso era o que valia. Contra o quanto, ele lavorava em firmes, pelo mais pensável, não descumpria de praxe nenhuma. Determinou o pessoal, para sono e sentinela, revezados. Onde perto de cada um dormindo, um parava acordado. Outros rondavam. Zé Bebelo, mesmo, ele não dormia? Sendo esse o segredo dele. Dava o ar de querer saber o mundo universo, administrava. Ao quase, que. A água para a serventia da casa vinha num rego, que beirava a cozinha, encostado, no lateral, descia e passava ainda por baixo da coberta. A gente podia encher as latas, sem arrisco. – “O que eles hão-de, é de demover o rego, lá em riba, botar fácil a gente a seco...” – Zé Bebelo ponderou. Mandou reservar quantia repleta: as vasilhas achadas e procuradas. Fizemos. Mas, de destorcerem o veio do rego, nunca que sucedeu aquilo. Até o derradeiro final, correu água bastante, todo o tempo, fresca abarulhava. Ao se fossem também empeçonhar o de beber? Toleima. Aonde iam ter sortimento de veneno, para águas correntes corromper?

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Deus escritura só os livros-mestres. Na noite Zé Bebelo saiu, engatinhando por mais escuro, e revestido com as roupas bem pretas que arranjou, dum e doutro. Ele devia de ter ido até longe, como rato em beira de paiol – que coruja come. Queria era farejar com os olhos o reprofundo. Voltou, aí deu ordem de outra coisa: que todos aproveitassem o sem-lua para suas necessidades boçais, aquelas tapadas estâncias. A gente ia, num vão de buracos, da banda das senzalas. Assim Zé Bebelo instruiu; e se virou para mim. – “Inimigo que faz igual numeração, ou menor do que a nossa. Por via disso é que não tomam coragem de dar assalto, e é também que eles não conhecem o interior desta boa casa...” Falou o tanto, comigo. Por que era que ele me escolhia, para os sussurros segredar? Me achava comparsa? – “... Os beócios, sem idéias... Não chegam a ser contrários para mim!” – ele muxoxou, até desapontado. A modo que eu, em Zé Bebelo, quase que tinha perdido toda minha fiança. A amizade dele eu para longe de mim já encostava – porquanto que, por mão minha, no incerto, ele podia ainda vir a precisar de ser matado. Eu estava em claro. Eu tinha preenchido aqueles bilhetes e cartas, amanuense, os linguados de papel – eu compartia as culpas. A invencionice de ambicioneiro. – “Riobaldo, Tatarana, tu vem comigo, porque tu é
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ponteiro bom, fica de estado-maior meu...” – ele avolumou. Me inteirei. Ali, era a vez. Ali era a alçada para eu fazer e falar o que já disse, que eu estava com essa razão na cabeça. Se tanto, pensei: “É a minha viveza...” Pelo que repontei: – “É. Eu vou, com o senhor, e o urucuiano Salústio vem comigo. Vou com o senhor, e esse urucuiano Salústio vem comigo, mas é na hora da situação... Aí, na hora horinha, estou junto perto, para ver. A para ver como é, que será vai ser... O que será vai ser ou vai não ser...” – alastrei, no mau falar, no gaguejável. Senhor sabe por quê? Só porque ele me mirou, ainda mais mor, arrepentinamente, e eu a meio me estarreci – apeado, goro. Apatetado? Nem não sei. Tive medo não. Só que abaixaram meus excessos de coragem, só como um fogo se sopita. Todo fiquei outra vez normal demais; o que eu não queria. Tive medo não. Tive moleza, melindre. Agüentei não falar adiante. Zé Bebelo luziu, ele foi de rajada: – “Ao silêncio, Riobaldo Tatarana! Eh, eu sou o Chefe!?...”

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Saiba o senhor – lá como se diz – no vertiginosamente: avistei meus perigos. Avistei, como os olhos fechei, desvislumbrado. Aí como as pernas queriam estremecer para amolecer. Aí eu não me formava pessoa para enfrentar a chefia de Zé Bebelo? Agora, pois. Mas agora não tinha outro jeito. Ah? Mas, aí, nem sei, eu não estava mais aceitando os olhos de Zé Bebelo me olhar. “No mundo não tem Zé Bebelo nenhum... Existiu, mas não existe... Nem nunca existiu... Tem esse chefe nenhum... Tem criatura nem visagem nenhuma com essa parecença presente nem com esse nome...” – eu estabeleci, em mansas idéias. Aceitei os olhos dele não, agarrei de olhar só para um lugarzinho, naquele peito, pinta de lugar, titiquinha de lugar – aonde se podia cravar certeira bala de arma, na veia grossa do coração... Imaginar isso, no curto. Nada mais nada. Tive medo não. Só aquele lugarzinho mortal. Teso olhei, tão docemente. Sentei em cima de um morro de grandes calmas? Eu estava estando. Até, quando minha tosse ouvi; depois ouvi minha voz, que falando a dável resposta: – “Pois é, Chefe. E eu sou nada, não sou nada, não sou nada... Não sou mesmo nada, nadinha de nada, de nada... Sou a
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coisinha nenhuma, o senhor sabe? Sou o nada coisinha mesma nenhuma de nada, o menorzinho de todos. O senhor sabe? De nada. De nada... De nada...” Ao dito, falei; por quê? Mas Zé Bebelo me ouviu, inteiramente. As surpresas. Ele expôs uma desconfiança perturbada. Esticou o beiço. Bateu três vezes com a cabeça. Ele não tinha medo? Tinha as inquietações. Sei disso, soube, logo. Assim eu tinha acertado. Zé Bebelo então se riu, modo generoso. Adiantava? Ainda falou: – “Ah, qual, Tatarana. Tu vale o melhor. Tu é meu homem!...” – para alargamentos. Murmurei o sosso de coisa, o que nem era palavras. – “A bem, vamos animar esses rapazes...” – amém, ele disse, espetaculava. Daí desapartamos, eu para a cozinha, ele para a varanda. O que eu tinha feito? Não por saber – mas somente pelo querer – eu tinha marcado. Agora, ele ia pensar em mim, mas meditado muito. Achei. Agora, ele ia não poder trair, simples, mas havia de raciocinar as vezes, dar de rédea para trás – do avançado para traição. A certa graça, a situação dele, aparvada. Eu estava com o bom jogo. Aquela noite, meu quinhão dormi; no amiudar-do-galo o tiroteio já principiava renovado. Mas só os tiros espaços – para não esperdiçar, e render – porque eles estavam procedendo
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como nós, o igual imediato. A guerra fina caprichada, bordada em bastidor. Fui ver o madrugar a manhã: uma brancura. O senhor sabe: no levante, clareou o céu com o sol das barras. Mas o curralão já estava pendurado de urubus, os usos como eles viajam de todas as partes, urubu, passarão dos distúrbios. E, quando dava que rondava o vento, o curral fedia. Mas – perdoando Deus – tresandava mais era dentro da casa, mesmo sendo enorme: os companheiros falecidos. Se taramelou o quarto, por tapar a soleira da porta se forrava com algodão em rama e aniagens. O fedor revinha surgindo sempre, traspassava. A tanto, depois, a gente ouviu miados. – “Sape! O gato está lá...” – algum gritou. Ah, era o gato, que sim. Saiu, soltado, surripiadamente, foi tornar a se ocultar debaixo dum catre, noutro cômodo. Carecia de se oferecer a ele de comer, que quem bem-trata gato consegue boa-sorte. No menos, na saladefora, ocupei meu oficio, de mosquetear. A ganho, conforme as vazas, mais de um homem derrubei, que rolou, em réu, sei que defini. Avistante que os urubus já destemiam o se combater dos tiros, assaz eles baixavam, para o chão do curral, rebicavam grosso, depois paravam às filas, na cerca, acomodados acucados. Quando pulavam de asas, abanassem aquele fedor. O dia andando, a catinga no ar aumenta. Aí eu não queria provar de
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sal, roi farinha seca, com punhado de rapadura. Na casa toda, como que não se achava um litro de cal, um caneco de creolina, por vil remédio. Morreu o Quim Pidão, se botou o corpo por cima dum banco na sala, provisório: ninguém não queria mais coragem de ir abrir com presteza o quarto dos defuntos. O dia envelhecia. A roubo, estive perto de Diadorim, quase só para espiar, quase sem a conversação. De ver Diadorim, com agrado, minha tenência pegava a se enfraquecer. Outros receios eu concebendo. O prazo que ali assim íamos ter de tolerar, no carrego da guerra. A gente até carecesse, no derradeiro durar, de comer somente os couros assados – conforme o caso terrível de Dutra Cunha, de um diabo, que, em sua fazenda do Canindé, resistiu ao cerco de Cosme de Andrade e Olivino Oliviano. Esse Dutra Cunha era o homem de um olho só. Zé Bebelo bem sabia a história dele. Agora, de Zé Bebelo eu risse. Montante de outras coisas ainda podiam suceder, de desde a madrugadinha até à viração da tarde? Mas ninguém falava em Joaquim Beiju e no Quipes. A uma hora dessas, ou eles já estavam arriados pelo inimigo, ou então, traquejando nos caminhos, a rumo de cidades. Assim – entardecer, anoitecer – galopassem em algum cavalo arranjado nos campos, e o tempo da gente eles estendiam. Será que haviam de vir os soldados? Aquele outro
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dia, morreu mais o Acerejo. A tudo, o cheiro de morte velha. – “O mau-fétido que vai terminar mazelando a gente...” – sempre um dizer. A dita morrinha, até a água que se bebia pegava na boca da gente, e rançava. A Casa dos Tucanos agüentava as batalhas, aquela casa tão vasta em grande, com dez janelas por banda, e aprofundada até em pedras de piçarrão a cava dos alicerces. A Casa acho que falava um falar – resposta ao assovioso – a quando um tiro estrala em dois, dois. De embiricica, entrantes as balas vinham, puxavam um fio de ar. Eh, lascassem! Mas os companheiros por conta à-toa riam, não acrescentavam cangalha aos pesares. Mesmo, quando se sobrecarregava um rir, os que estavam mais longe mandavam saber o porquê, ou gritavam por perguntar, em empenho de combate. A resto, um Zé Vital deu ataque: o qual era um acesso sacramentado de feioso, principiando depois que ele se queixava de sentir o nariz quente, ele mesmo já sabia a data – e daí proclamava um grito de porco com frio, e caía estatelado no chão, duro como um cano de arma; mas atazanava batendo com os braços e pernas, querendo às ânsias coisa ou criatura em que se agarrar, o onde esbugalhava os olhos, a boca aspumada, escumando. Se disse: – “Isto é doença velha pertencida, isto não é fato de guerra...” Acesso que passava a estado meio
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semimorto, num vago – pois deitaram o Zé Vital numa canastra de couro. Ao para a tarde, para a noite. Aí tudo navegava. A Casa estava se enchendo de moscas, dessas de enterro, as produzidas. A cada que cada, elas presumiam o sujo, em penca maior, pretejavam. Para as coisas que há de pior, a gente não alcança fechar as portas. Desdenhei Diadorim. De ver Diadorim, que, em febre de acertar e executar, não tomava consigo muita cautela, só forcejava por vingança – punições maravilhosas. Diadorim, mesmo, a cara muito branca, de da alma não se reconhecer, os olhos rajados de vermelho, o encovo. Aquilo era o crer da guerra. Por que causa? Porque Joca Ramiro constava de assassinado morrido? A razão normal de coisa nenhuma não é verdadeira, não maneja. Arreneguei do que é a força – e que a gente não sabe – assombros da noite. A minha terra era longe dali, no restante do mundo. O sertão é sem lugar. A Bigri, mulher minha mãe, não tinha me rogado praga. Alta manhã – em tudo repetido o igual: o cantar do rifleio, afora o feder ruim dos mortos e cavalos, e a moscaria, que se esparramava. Mesmo com a minha vontade toda de paz e descanso, eu estava trazido ali, no extrato, no meio daquela diversidade, despropósitos, com a morte da banda da mão esquerda e da banda da mão direita, com a morte nova em
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minha frente, eu senhor de certeza nenhuma. Sem Otacília, minha noiva, que era para ser dona de tantos territórios agrícolas e adadas pastagens, com tantas vertentes e veredas, formosura dos buritizais. O que era isso, que a desordem da vida podia sempre mais do que a gente? Adjaz que me aconformar com aquilo eu não queria, descido na inferneira. Carecia de que tudo esbarrasse, momental meu, para se ter um recomeço. E isso era. Pela última vez, pelas últimas. Eu queria minha vida própria, por meu querer governada. A tristeza, por Diadorim: que o ódio dele, no fatal, por uma desforra, parecia até ódio de gente velha – sem a pele do olho. Diadorim carecia do sangue do Hermógenes e do Ricardão, por via. Dois rios diferentes – era o que nós dois atravessávamos? Do lado de Diadorim restei, um tanto, no afã de escopetear. O inimigo nunca se via, nem bem o malmal, na fumacinha expelida, de cada uma pólvora. Arte, artimanha: que agora eles decerto andavam disfarçados de mbaiá – o senhor sabe – isto é, revestidos com moitas verdes e folhagens. Adequado que, embaiados assim, sempre escapavam muito de nosso ver e mirar. Ah, mas, deles, tiros vinham, bala estripitriz, e o trapuz de nossas telhas se despencando. A mãe morte. Quem devia mais, esse morria? – “Õ xente! Não é que pegaram em mim, e eu
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estou passando, estou ficando cegado?...” – exclamou o Evaristo Caitité, quando descuidou a meia-banda e levou em si uma carga total. Ele já estava sem jogo nenhum no corpo, as partes das pernas se esfriavam. Antes quase rindo se acabou; ficou tão de olhos. – “O que é que ele vê? Vê a vitória!...” – Zé Bebelo se cresceu no dizer. A vitória e os urubus, que a farto comiam, e o Manuelzinho-da-Croa, meu cavalinho pedrês, que eu nele não ia poder nunca mais amontar. Assustava era o alopro dos companheiros, que não se sujeitavam mais de dormir, estavam pertencidos perturbados. A caso de se ter mão na nervosia deles, que queriam dar saída e lanços, avançar no ar. Doidagem desses comuns repentes, o desfazer do ajuntado. – “A firmeza, meus filhos. Fôlego e paciência, a gente sempre tem – é só requerer e repuxar, mais um dedo e outro dedo dobrado...” – Zé Bebelo media os modos de valer. Assim sendo, agora, só o remedeio, com as esperanças, extraordinárias. A um jeito de se escapar dali, a gente, a salvos? Zé Bebelo era a única possibilidade para isso, como constante pensava e repensava, obrava. E eu cri. Zé Bebelo, que gostava sempre de deixar primeiro tudo piorar bem, no complicado. Um gole de cachaça me deu bom conselho. Sem a vinda dos soldados – se viessem – a gente não estava perdidos? Zé Bebelo não era quem tinha chamado os soldados? Ah, mas,
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agora, Zé Bebelo não ia mais trair, não ia – e isso só por minha causa. Zé Bebelo carecia de rédeas de um outro diverso poder e forte sentir, que tomasse conta, desse rumo a ele. Assim eu estava sendo. Eu sabia. Zé Bebelo, mesmo nos relances de me olhar, fingia não conhecer minha vigiação, afetava. Mas ele se estreitava em meus palpos, conscienciado. Agora, ele tinha de especular, de afinar a cabeça, para o trabalho de imaginar maior, achar alguma outra invenção – para resolver o final com acerto para a vitória de nós todos – sem traição nem airagem. A tanto, cri, acreditado. Sabia que Zé Bebelo era muito capaz. Só não ri. “Ao menos outro deles, dos Hermógenes, quero ver se resgato de abater, até vir o sereno do anoitecido...” – eu meditei. Não deu. Não pude. O que houve, o conseguinte, foi que Zé Bebelo pegou em meu ombro. Ele mudou de lugar, e pôs a cara no meio da luz. – “Aí, está ouvindo, Tatarana Riobaldo, está ouvindo?” – ele disse, com um sorriso de tão grandes brilhos, que não era de ruindade e nem de bondade. Aquilo foi num dia, devia de estar sendo por volta de umas três da tarde, pelo rumo do sol. Ouvi! Mas, então, a soldadesca tinha vindo, alcançada, estavam chegando? Era. Era! Remexendo um rebuliço, de nós todos, mesmo porque os mais não conheciam aquele motivo, de nada não soubessem o tencionado. Os praças? O tiroteio deles,
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pegando os Hermógenes de supetão, surpresa bruta, de retaguarda. Os tiros, que eram: ... a bala, bala, bala... bala, bala, bala... a bala: bá!... – desfechavam com metralhadora. Aí arrejarrajava, feito um capitão de vento. Até destroçavam também nas custas da Casa? – “Apre, meninos, faz mal não. A vantagem do valente é o silêncio do rumor...” – Zé Bebelo sentenciava. Zé Bebelo trepava em altas serras. Duvidava de nada. Que vencia! Quem vence, é custoso não ficar com a cara de demônio. Dele de perto não saí, a atenção e ordem ele recomendava. O cano de meu rifle era tutor dele? Antes de minha hora, no que ele mandasse opor e falasse eu não podia basear dúvidas. Mas, desde vez, aquilo a vir gastava as minhas forças. Ali – sem a vontade, mas por mais do que todos saber – eu estava sendo o segundo. Andando que Zé Bebelo falecesse ou trastejasse, eu tinha de tomar assumida a chefia, e mandar e comandar? Outro fosse – eu não; Jesus e guia! É baixo, os homens não iam me obedecer; nem de me entender eles não eram capazes. Capaz de me entender e de me obedecer, nos casos, só mesmo Zé Bebelo. A jus – pensei – Zé Bebelo, somente, era que podia ser o meu segundo. Estúrdio, isso, nem eu não sabendo bem por que, mas era preciso. Era; eu o motivo não sabendo. Se fiz de saber, foi
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pior. O que é que uma pessoa é, assim por detrás dos buracos dos ouvidos e dos olhos? Mas as pernas não estavam. Ah, fiquei de angústias. O medo resiste por si, em muitas formas. Só o que restava para mim, para me espiritar – era eu ser tudo o que fosse para eu ser, no tempo da quelas horas. Minha mão, meu rifle. As coisas que eu tinha de ensinar à minha inteligência. Agora, o que era que se esperava? Só Zé Bebelo decerto podia responder, mas ele não dava senha de mudança. Onde o normal. Aí já se via o dia quase em fim, com as cores do sol. Voavam uns guaxes. Dos soldados e dos judas, quase que não se ouvia empipoco de arma, só os tiros salteados, a cá e lá, como se escasso quisessem briga. A gente sobrossosa, nesse ensino de onça, traiçoeiros todos. Astúcias que manobrando em esconso deviam de estar, para trás e para os lados, pelo jeito melhor de pegarem o encoberto dos lugares, querendo enrolar os outros, para o remate de dar bote. – “Soldado pede é cautela, e o dobrosoldo...” – acho que um disse. Aquela era a ocasião mais arriscada. Ao que jagunço é isto – o senhor ponha letreiro. Ao encosto no rifle e apreparo nas patronas – isso era o que bastava. Nenhum dos companheiros estava desinquieto, nem ralava apreensão. Nenhum conversava precisando de saber a maneira de escapulir vivos dali, da Fazenda dos Tucanos. Com a chegada
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da soldadesca, o que parecia moagem era para eles era festa. Assim uns gritaram feito araras machas. Gente! Feito meninos. Disso eu fiz um pensamento: que eu era muito diverso deles todos, que sim. Então, eu não era jagunço completo, estava ali no meio executando um erro. Tudo receei. Eles não pensavam. Zé Bebelo, esse raciocinava o tempo inteiro, mas na regra do prático. E eu? Vi a morte com muitas caras. Sozinho estive – o senhor saiba. Mas, nisso, conforme o acontecido exato, uma coisa muito inesperada se deu. Da banda do mato, de repente, por cima das moitas de lobolobo, alguém levantou um pano branco, na ponta de uma vara. A gente não tinha licença de abrir fogo no alvo daquele trapo. Apraz que a gente ia consentir em negócio com os judas? Aqueles, para mim, guardavama definitiva marca, e só o que podiam trazer era a maldição. Mas Zé Bebelo, maneiro em presteza, já tinha amarrado um grande lenço branco na ponta de um rifle, e mandou que o Mão-de-Lixa aquilo erguesse e sacudisse no ar. – “A regra que é regra!” – Zé Bebelo disse. – “A solenidade de embaixador sempre se tem de consentir; até para herege, até para bugre...” Aprovavam, os outros, deram razão. Achei que estavam com a vontade de saber que notícias eram, o que vir vinha. Com o que mais admirei: a mensagem daqueles
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ele sendo réu. e homem de certa valia. feito se a gente estivesse no céu. e saudou normal. e um dos nossos disse.João Guimarães Rosa . Mas o Lacrau teimava. devia de ter passado por um rombo feito na cerca. em outroras. parecia que estava mandando o Lacrau ir s’embora. reconhecendo: – “Ah. Como tudo nesta vida carece de se acertar direito.. Depois. De ver os dois. surgiu mais um: – “É o Lacrau!” E o Rodrigues Peludo virava para trás. diante da gente.” O qual era dos Gerais do Bolor.” Que era. e veio. te vira de costas!” – Zé Bebelo regrou. E que. nas decididas condições. dond’ é que está se comparecendo esse Lacrau? Faz tempo que não se tinha ciência nenhuma dele. escada acima. de lá e de cá. que era – os outros companheiros concordaram. tinha esfaqueado na sala de júri um promotor.. Atrás desse. Caboclo claro. e presentes em pé. perto. – 507 – . terra jequitinhonha... durou um certo tempo. A certa distância estava. Daí disse: – “Seô Chefe. falava qualquer coisa. meio engatinhando também.Grande Sertão: Veredas panos brancos. achei muita esquisitice. homem devoto do Ricardão. é o Rodrigues Peludo. seguia acompanhando o outro. do capim. – “Xente... um sujeito apareceu.” – “Homem. Rodrigues Peludo levantou os olhos. assim pessoas. no eirado.

Seô Chefe. se não era mais aproveitável.João Guimarães Rosa . Que – se serve. impondo ordem de resposta: que mandatela eles traziam? Do lado meu. mão em revólver. Um homem falar seu recado. de costas.. que de qualquer longe recanto um soldado talvez estivesse em poder de derrubar por belprazer.. e o José Gervásio sussurrou: – “Tramóia. Momentos que foram. E Zé Bebelo perguntou. – 508 – . estou trazendo estas palavras. no meio dos contrários.. que para repetir ao senhor fui mandado: – Que. em vistas desses soldados.Grande Sertão: Veredas No assim simples eles obedeceram. ou valor tem.” Mas Zé Bebelo regia tudo. E por essa oferta é que venho. Mas estavam muito armados. de se fazer trato de paz. sem rasgo de tremor na voz: – “Com sua licença dada. e do mais. por uns tempos.. para uma parte e outra. Afiguro o que pensei. tanto um. eu louvei a coragem calma daqueles dois. Porque os soldados não pertenciam nessa cerimônia. e nos usos. o Diodolfo chiava boca num dente. tanto o outro. por ordens. que é contra todos. conforme sestro dele. na boca de tantas armas – o senhor já presenciou essas circunstâncias? Assim o Rodrigues Peludo deu conta. o dito – pergunta faço.

o Lacrau meio ajoelhado ficou. que era de fuzil. mudando de estar. sempre de costas. Agora eles estavam entre trincheiras. do mato do grotal.. estralejou um tiro.João Guimarães Rosa . que.” Rodrigues Peludo. se agachou.” – “Que chefes?” – Zé Bebelo indagou. mesmo assim.” Em boa distância.” – “E eles então estão querendo paz?” – “Estão propondo um acordo correto. Rodrigues Peludo demorou um ponto. Zé Bebelo disse: – “Homem. O que aquilo me constou era que era falta de respeito. – 509 – .. E contestou: – “Nhô Ricardão. me dando a resposta que queira dar. E seô Hermógenes. fazendo menção de virar o rosto. muito estampidos. para eu levar para os meus chefes.. mas o que deixou em tempo de fazer. o Preto Mangaba. sem tom de nenhuma malícia. depositou o rifle no chão. E uns outros.Grande Sertão: Veredas e se o senhor há de estar ou não de acordo. no rumo do coração. vocês podem abaixar o corpo. ajuntados os muitos companheiros brabos. com a bafagem da boa cachaça: o Marruaz que representou a dedo o sino-salomão no peito. Mas... Agora a roda nossa. Tiros que não beiravam por aqui..

amor é a gente querendo achar o que é da gente. Diadorim queria sangues fora de veias. São as palavras? Mas aí espiei para Diadorim. nela um suave de ser era que me pertencia. – “O palavreado. quem é que devolve vida em nossos cavalos?!” Aí o Moçambicão. e ele despertou do que tinha se esquecido. E ele estava sombrio. E o Fafáfa. é como querer ficar à beira d’água. os olhos riscados. atrás de mim. como um boi reconhecendo minhas costas. por detrás dos dentes. Só remontei um pasmo e um consolo expedito. de sua mão. sombrio em sarro de velhas raivas.João Guimarães Rosa . aquela mão é que merecia todo entendimento. eu nem virei a cara. pensar na pessoa que se ama. e como com o vento da seca é que as árvores se entortam mais. Demediu minha idéia: o ódio – é a gente se lembrar do que não deve-de. E eu não concordava com nenhuma tristeza.Grande Sertão: Veredas esbarrou em mim – do que me lembro e sei. pousoso esbarre – 510 – . e Diodolfo cuspiu forte – soluçou dos estômagos. destes!” – Diadorim chiou. a coisa macia somente. alguma hora. esperando que o riacho. por si. quase num repelão de repugno. deixado. pegou a mão de Diadorim. me ressoprou. porque doeu em meu braço. porque a guerra era o constante mexer do sertão. descabelado de vento. que ele retirou da minha outra vez. um calor. Mas minha mão. repontante: – “Em paz. Mão assim apartada de tudo. Mas.

. e o que mais?” – “Era tudo o que eu já falei.. Ao que peço vossa resposta. Ah. as mãos na cinta. e então?!” – “Ao que vim ajustar é propostas.” – 511 – . As ambas.. para conduzir. – é a gente. Ao para salvo e lucro das nulas partes. Caso se Ossa Seoria se concorde. para com meu juramento fechar trato.. que conto ao senhor. e atacando?” – “O em usos. feito uma a cobra. Isto era. O que disse. para viver um punhado completo. – “Ah. Isto é. Porque Zé Bebelo.. o quanto: – “Homem. se encurtava frio em siso. com a clara voz de quem está mais cumprindo do que querendo. – “quem é que está rodeando e vexando os outros. só mesmo em instâncias assim. que é de bom respeito. Até inveja eu tive dele: porque. E do modo de um prosseguir sem partes..João Guimarães Rosa .. – “Antes bem” – Zé Bebelo glosou.Grande Sertão: Veredas de correr. as ordens tenho... seô. se compartiu de caber em pouquinhos minutos instantes. Chefe. E Alaripe buliu no bissaco.” – o Rodrigues Peludo compôs o confessar. E em caso de algum acordo.. estava recheando de novo as suas cartucheiras. Mas isto tudo.” – foi a resposta de Rodrigues Peludo.

Constado que produziam isso.João Guimarães Rosa . e agora o que se depositava deles era o assunto de lembranças. Ali. aos dez. aos cinco. Revés – que. desse Rodrigues Peludo. dos meus companheiros. morrendo se matando. por resgate da morte de J oca Ramiro. mas. também. Mas. e cá fora se torrando couros com folhas polvreadas. agora se ia gastar o tempo inteiro em guerras e guerras. Mediante os estoques desse mau-cheiro.Grande Sertão: Veredas Somenos aprumo. nem o tom. os de lá – os judas – não deviam de ser somente os cachorros endoidecidos. surunganga. E que podia conceber sua outra razão. jagunços em situação. mas enxuto e comparado. que às horas repontava. que companheiros eram. Assim que. os homens todos mais valentes do sertão? Uma poeira dessa dúvida empoou minha idéia – como a areia que a mais fininha há: que é a que o rio Urucuia rola dentro de suas largas águas. quando as chuvaradas do inverno. aí. foi um ter-tem de existidas lealdades. aos seis. entrapadas as frestas da porta. também. feito nós. mesmo estando amontoados no cômodo soturno. persistia só inimigo. inimigo. por certo Rodrigues Peludo e o Lacrau iam orçar a boa conta de nossos – 512 – . Assim que. a terrível que fosse. tantos mortos. contra-homem sem o desleixo de si. e aquele amassado e envelhecido feder. pessoas. o que gravei. então. de tudo seja. em tanto. Acaso.

pensando no Hermógenes – só por precisão de com alguém me comparar. o Gerais responde com esses urros. O ódio de Diadorim forjava as formas do falso. mesmo eu – era – 513 – . leves e graves. Odio a se mexer. Ali ninguém não tinha mãe? Redigo ao senhor: quando o raio. com os altos olhos afirmados.João Guimarães Rosa . mas. o Quim Pidão.Grande Sertão: Veredas mortos. Mas Zé Bebelo anteteve de mandar chamar Marcelino Pampa. que ele não havia de em vida. Com os vivos é que a gente esconde os mortos. quando arraso. em certo e justo. Assim. e o apinho e apessoar. aprazava efeito de bando significado. Tudo por culpa de quem? Dos malguardos do sertão. entortado prestes. Zé Bebelo. João Concliz e muitos diversos outros. À-toa. o Acrísio. com pedaços de sangue pendurados do nariz e dos ouvidos. A culpa daquele Rodrigues Peludo. e Evaristo Caitité. afora os feridos. numeroso. eu me comparar. que estava relembrando o Hermógenes. E. por um exemplo? Desmenti. que nunca nem tinha enxergado tremde-ferro. volta-e-outra a perguntar como seria. era o meu. no pormiúdo de honesto. Aqueles mortos – o Jósio. nosso. para ser. Agora. com Zé Bebelo. repousado numa agência quieta. até. ombros em ombros. esse sempre sido prazenteiro no meio de todos. eu – eu. na dita ocasião. mais eu não podia. eu daquilo sabia só a ignorância.

. seja lá quem. – 514 – . concedendo um foral: – “Resolvo. reponho que nenhum de nós não sabendo se a decisão de Zé Bebelo era justa e convinhável. Sendo em séria fiança. De curto ponto. ninguém disse mote de dúvida nem de aprovo. De três dias: digo! Agora. eu aceito o intervalo de armas.” – “A vou.” – o Rodrigues Peludo se prometeu. Isso ele soubesse? Ah. Nisso. com o prazo demarcado de três dias. já no jeito de que ia engatinhar descendo a escada. então de lá um dê três tiros. Às vozes do ruído. o que Zé Bebelo pensava era o útil. homem.” O Rodrigues Peludo repuxava bandoleira do rifle e salvava saudação. no olho do silêncio. o seco. – “Se sendo em séria fiança. Mandava a vontade de um. e a pressa..João Guimarães Rosa . Assim assente para esta noite: no instinto em que a primeirinha estrela se frisar!” – “A vou. pra o trato fechado. ainda era só o que me prevalecia. naquela cabeça grande. Rodrigues Peludo botou o rifle no sovaco. ele disse. tu vai – remete isto ao que estiver o seu chefe.Grande Sertão: Veredas quem estava botando debaixo de julgamento.

.” A acarra daquilo.Grande Sertão: Veredas sabente de si. se sepreponha o senhor de me aceitar. que tinha persistido quieto feito ouvindo santa-missa perto do altar. meu braço ofereço. Ânimo nos ânimos! A quanto. o Lacrau. Menos eu. aí. de abalo. Chefe. Mas. isto é – eu resguardava meu talvez. Assomo assim de frechar surpresa. o Lacrau se empinou em-pé.João Guimarães Rosa . meu Chefe! – a que vim para isto. ele surge se viravirou. assim mesmo. Tudo o que ele disse. para se segurar com trincheiras. A gente preenchia. a gente capistrou.. eu fico no meio de vós. ele tinha os feios olhos de todo pensar. grossamente. mire veja. o concitado. O que era fato imponente. mas. pelo repente. mire veja. Sou homem que sempre fui: do estado de Joca Ramiro – ele é o das próprias cores. tão exclamaste. ele – 515 – . a gente em aperto de cerco. deixou o silêncio se perfazer da questão anterior – a suplicação.. a forte palavra. a traque disse: – “Aqui. digo ao senhor. esse Lacrau não se comportava sem consciência sisuda. no amor mais à-mão. Zé Bebelo mandava.. A por tudo quanto. Onde mais. Agora. semelhavelmente. eu. e sem fala.

puxando pelo sair assim. que te aceito. para não se virar para espiar para o Lacrau.. Estou inteiro. o Rodrigues Peludo esbarrou. se foi. contar é que não é plausível. Alguém ficou como pasmado? Zé Bebelo. Em tanto que o Lacrau. ré que de lá.” Ninguém respondeu palavra. o instante. contra quem eu seja. escorregou adiante o corpo. A tanto. – “Aqui me praz. Trás isso. que na regra estou. e. arma que de patrão não ganhei. mente pouco. pronunciou: – “Estou na regra. tio mano. somando o aprovado. quem a verdade toda diz.João Guimarães Rosa . para sócio. Mas.Grande Sertão: Veredas tinha querido vir. Numa roda-morta. Sendo que o Rodrigues Peludo deixou de contravir. A guerra tem destas coisas. meio mostrando o rifle. também se respondeu desfechando.. como senhor de minhas ações. da dobrada duma ladeirinha. os três tiros eles deram. se esperou. para a gente Zé Bebelo disse: – “Sou lá o maluco? Aqueles outros não têm a constância de observar. mas endurecendo a cabeça. rapaz!” – Zé Bebelo deferiu. E a carabina – porque sempre foi minha de posse. Aí. tresmente. não. – 516 – .

não nego que eu. Como é que? Mas ele abria lugar demais. que Zé Bebelo me semiolhava espreitado avulso. sobre papel que não era o pra ele. Só eu era que guardava minha exata esperaçao. e pela necessidade. nas horas vespertinas. no posto-que? Do que ele tinha pensado e principiado – as tramóias de trair – ia poder largar. a meu parecer. mesmo por estima. O raciocínio. O que fiz. porém. nessa conjunção? Mas. Medonho e esquisito achei. queria que ele bem acertasse na tarefa de meter seu siso.Grande Sertão: Veredas não merecem a palavra dada. o perto demais.João Guimarães Rosa . sob receios e respeito. O teatral do mundo: um de estadela. misturava as matérias. Pelo que eu tinha precisão de me livrar. os outros ensinados calados. O senhor – 517 – . uma idéia tão comprida. que fosse para ter de matar completo Zé Bebelo. de remerecer. Sempre sendo. O que era que Zé Bebelo ia proceder. os prezados ditos. foi encaminhar o que vamos pôr em obra. em todo o caso. e achar feição para outro salvamento. agora. Até Diadorim. constante de admiração. que dele eu gostava. E aceitei nossa vitória!” Seja ou não se aquele negócio entendessem. Seja Zé Bebelo levantava a idéia maior. daquele movimento sem termo nem nenhumas outras ociosidades. o que me engraçava. afora ele. os companheiros aprovavam. ali. Só eu.

Dizendo que o inimigo se formava em tanto de uns cem. que decerto em pronto não viessem. sem quilates. Deu razão das coisas perguntadas. e dos morrotes cerradeiros. eu pouco pensei. A este ponto. até a noitinha se ilustrar!” – Zé Bebelo determinou. por estorvo dos soldados. mas a quanta parte deles de jagunços mal assentados. Onde o que o Lacrau teve para relatar era pouco. ainda aguardavam outra gente por vir. onde existiam uns valos. Com o que. no ablativo do mandado. primeiramente para o aviável do matinho dos pastos e da baixada. Mas Zé Bebelo reservou que eu estivesse com ele e mais Alaripe. a gente se prezasse de atirar. Nisso não sabia contar das pessoas nem dos maiores motivos do Hermógenes e do Ricardão. tão versado. agora eu louvo e a todos gabo. pra paga. pouco. de refrescos.João Guimarães Rosa . por se pôr o Lacrau em conversa deposta. – “Amigos. cada um qual melhor. por sustos e estragos. que. o Freitas Macho para a tulha. nem acerca da morte de loca Ramiro aumentava passagens mais do – 518 – . Marcelino Pampa ia retornar para as senzalas. por se possuir basta munição. e para o engenho o Jõe Bexiguento. sobrenomeado “Alparcatas”. E então vamos voltados: papocar fogo.Grande Sertão: Veredas me organiza? Saiba: essas coisas. no lazer de um momento.

para espiritar na gente o pavor e a ação de acerto. – “Os soldados?” – era o que mais se perguntava. Outros contam de outra maneira. A ordem não era-de? Desígnios esses. nesse comenos.. o jacaré veio avisando. coisas que só estão é fornecendo espelho. Sendo que uma criatura. A vez da má verdade. ele Lacrau aliviado se gracejou de rosto. relembrei o dito do Lacrau: que Zé Bebelo o que era.. a gente pensa que é por causas: por isto ou por aquilo. sabia tanto? O que o medo é: um produzido dentro da gente. Excogitei – “Diadorim. um depositado. no que Zé Bebelo e Alaripe se afastaram no corredor. Fomos. Tinham esbarrado tiroteio. Daí. o dia estava gastado. de Zé Bebelo. a gente não escutava o costurar. Fui. agunço sabe. tira o leite do medo de outra. A ordem de se jantar. e que às horas se mexe. como falou: – “O esmarte homem que é este chefe nosso Zebebéo! Outro não vi. Sucinto em cada puxada de gatilho. esta noite. Tomei mais. A vida é para esse sarro de medo se destruir. Aí. no começo – 519 – . só a presença. que era o mais corajoso. A pra efetuar fogo.Grande Sertão: Veredas que as de todos já entendidas. Comi a pura farinha.João Guimarães Rosa . Medido nas suas partes. sacoleja. beirava o prazo da decisão. Diadorim mesmo.” As agudezas. Para o recanto duma janela.

de reger. amigo. eu não ia explicar a eles coisas tão divagadas. os ossos de feder. em outro sobrecalor de – 520 – . De qual deles. aí tornou a doer. comigo. sozinho por si. só a lástima. as tantas espécies. A ele me fiz. no novo não conseguiam de se nortear. eu não tinha o tato mestre. agora. Ainda pensei no Alaripe. nem a confiança dos outros. nos curtos momentos. que modo que eu ia enfrentar um homem assim? Ah. eu ia cobrar e arrecadar? Acauã ou o Mãode-Lixa. Ora veja.. Porque – eu digo ao senhor – eu mesmo duvidava. e que podiam mesmo não vir a ter fundamento nenhum.Grande Sertão: Veredas da hora. Três tristes de mim! Ali eu era o indez? Noção eu nem acertava. me assiste.João Guimarães Rosa . o julgamento no Sempre-Verde tinha sido relaxado em brando – para valer preços. Zé Bebelo. – “A de paga. Mesmo meu braço do ferimento.. que já estava muito melhorado por si. Adrede. Será que eu tivesse por dever de peitar pessoas? Ah.” – o Alaripe divertido me achou. atravessar o projeto dele se o caso fosse. em tanto que isto se passava. você vem para perto. apurei o ruto de nossos cavalos. Tivesse de vigiar no estreito Zé Bebelo.” Mas Diadorim contradisse de querer saber que modos meus que eram. nem o cabedal de um poder – os poderes normais para mover nos homens a minha vontade. no retorcer do vento. ou Diodolfo? Todos seguiam caminho de seus costumes. no injusto.

de lá a grande espaço se tinha vista para o morro.João Guimarães Rosa . malazarte. com seus matos.. seja que eu secundei.Grande Sertão: Veredas regimento. me entendia. com o efeito de uma amizade.. Zé Bebelo pegou o caneco. Assim escutei: ele falava comigo. Ali eu não tinha risco..” Só mostrei meus ombros. me temesse? – “Riobaldo. você é um que aceita o matar ou morrer. Conto os extremos? Só esperei por Zé Bebelo: – o que ele ia achar de fazer. com outras palavras tais. simples igualmente.” Ali me levou para uma janela da cozinha..” – eu quis. Deu comigo. Ali alguém ia me chamar de Senhormeu-muito-rei? Ali nada eu não era. Também bebi.... – “Rapaz. eu sei.. que encheu no pote d’água... só a quietação. Tatarana.” Anda que me encarava. servisse para governar os arrancos do sertão? “Não me importo. – “Riobaldo. Aquele. sem sinal nem prova. de suas proezas. ufano de si. Tatarana. – 521 – . quero ver a opinião. vem comigo. – “A tão bom: que é que eles agora vão fazer. os da banda contrária?” – aí ele indagou de mim. Não me importo. os sagazes olhos piscados. você é desabusado na coragem melhor – que é a da valentia produzida.

– “A bem.. Todo tempo me gasta. Hem? O que eles fazem é que. estão no desembargar.. vamos é rente por essa cava. e dela os pertos – a cava –. para aquele morro.. declaradamente.. a seu seguro: – “Te põe no lugar. E estou em dúvida. escrevo. salvante a sapata do morro. via torta. nós. que foram surgir.. tempo de partida! A gente. Aquilo tudo eu estava pondo de remissa.Grande Sertão: Veredas – “Ora. o que é que a gente agora vai fazer?” – perguntei para cima.João Guimarães Rosa .. maximé? – e os soldados? Andam tomando contas daí. repontei: – “Estou em claro. meu filho. A resposta não dei. a estas horas. que é aonde soldados não apertam cerco. hem. é – a gente . se sabe!” Noves e nada eu não dissesse. De lá foram por esse sul abaixo. O que não sei. Sem tardada-porque daqui a pois sai é a lua. e saber quero. Ã e nós?” – Zé Bebelo tornou a indagar.” – 522 – . – “Ah. de madruga já por lá. porque lá. que são lugares rededores. Outro tal. Só que Zé Bebelo queria não ouvir. paravam com os tiros sobre si. Riobaldo. no Buriti-Alegre. Agora.” – isto assim dito. conforme a boa regra de razão. Oh.

O truztruz. Anoitecido. os todos homens se apessoando. Zé Bebelo expunha o que recomendava. nos pretos altos. a alguma matula. e muitos assim aproveitavam. A uma estrela se repicava. Sempre uma ou outra lamparina se acendeu. dava dó era a quantia de munição de se largar ali. presada com correia ou corda. então. Com pouco. Mesmo. no cumprir. para os companheiros empalidecidos. os movimentos com energias. concabia tiros em boa dose.João Guimarães Rosa . se saía por uma porta. ou eu? Será. A estrelinha. um inventou uma fronha de cama: a que. entreguei os destinos. logo não restou fronha a dispor. no se pôr em salvo. daí. o que vi em virtude. Arte e tanto. patronas e cartucheiras. Mas não bastava. também. nesse passo. Desde aí.Grande Sertão: Veredas Ao que. tudo o que possível se encheu. O quanto a noite se atravava de bom grosso. Assim – quem era que tinha podido mais? Zé Bebelo. de balas e caixas – os bornais e capangas. para tiracol. A ser que. Adiante primeiro foram mandados João – 523 – . quem era que tinha vencido? Quite com isso. Assaz. lume. sem os recursos. se devia. no corpo daquele corredor – as fileiras em mexemexe desde a sala-defora até à cozinha. já se estava no ponto. sobre mais entre os conspirados silêncios. por garantir. lume. Agora a gente ia romper a pé. no concorrer.

fizemos passagem. Soformamos diversos golpes. Aquela cozinha grande. para reconhecerem se estava limpo o caminho. no regozijo de poupados de qualquer espreita ou – 524 – . e contei os companheiros. as respirações. iam um ante outro – como um rio a buscar baixo. e saímos também. avante mais. sem o estorvável. mesmo o Nicolau. Saíram os de primeiramente. cão. Toda a hora eu esperava um tiro e um grito de alto-lá-o-rei! Mas era só o tremer daquela paz em proporção. e com o Acauã. ali o acostumar os olhos com o outro mudar. se queixavam em condições. Livrados! No escuso.João Guimarães Rosa . que acompanhavam comigo. A gente demorava. Dos dianteiros. que não careciam de se rezar a eles adeus. ou um cão. o tudo ajudando. Diadorim e eu entramos no derradeiro. Abaixamos. que se escorava no rifle e às vezes se retardava. Saíram outros e outros. Semoveu-se. acho que cinco. que enterrassem. até que se cobrou veras de perigo não haver. nem se percebia rumor. Admirei Zé Bebelo. com o comando do próprio Zé Bebelo. no cabo do negócio. Moçambicão e Suzarte. de sobreleve. o Fafafa. Só ficando na Casa os mortos.Grande Sertão: Veredas Concliz. Tempo que andamos. muito aprisionava. os soldados amanhã que viessem. que havendo. rumo de fuga. Ponto que os poucos feridos. A vez nossa chegada. soprando o sangue para se esfriar. contracalados. Alaripe e Sesfredo.

A lá é a Casa. o cheiro fartado. me lembrei de Nossa Senhora. o do poente mesmo. Com foras e auroras. Antes da manhã. risonho. e eu limpei o haver: ele estava pegando na mão do meu caráter. estávamos outra vez no público do campo. pegando na minha mão: – “Riobaldo. pela esquerda e rumo do norte. Aquela à-morte fazendagrande dos Tucanos.. Se esbarrou. Aquilo. agora se passava a Vereda-Grande. pois saiba: no meio daquele luar. aclarava – era o fornido crescente – o azeite da lua.Grande Sertão: Veredas agredimento. botei fora minha ocasião última de engordar com o Governo e ganhar galardão na política. falou. enunciou em meu lembrar o mau-cheiro dos defuntos. Andávamos. observou assim.. – “Ah.” Era verdade. segredando comigo. bom.” – outro se pôs. em rompendo a luz toda da manhã... Aí. demais. de folhas folhagens e do capim do campo. se chegou no sítio dum Dodó Ferreira. entramos.João Guimarães Rosa . – 525 – . Vai. Ao que. Saiba o senhor.. e eu em mim – como um boi que se sai da canga e estrema o corpo por se prazer. escuta. Desde o depois. espiou para trás. no Vaudos-Macacos. E Zé Bebelo.” – um. A de entre. de verdade. eu.. que agora próprio no meu nariz eu nem não aventava mais. um sueto de uns momentos. para ar. onde a gente bebeu leite e os meus olhos pulavam nas árvores. – “Não é que o gato ficou lá.

Mas os caminhos é que estão se jazendo em tudo no chão.. sempreverde. Sobre mesmo a pé. retorce que os falsíssimos do demo se reproduzem. – 526 – . Subindo para terreno concertado. o Nicolau e o Leocádio iam ficar acoitados lá. O senhor vá me ouvindo. Nós. não. com esta alegria. No sítio desse Dodó Ferreira. aquelas ladeiras de chapadas. porque lá se tinha resguardada uma boa cavalaria. Contra a mera vontade. então. menção de cativeiros. caminhar pelos Gerais parecia que pouquinho me cansava. para renovame. vá mais me entendendo. marmelada.Grande Sertão: Veredas Assim foi que. que meio me lembro. que foram: mimoso. pelo que aquilo nem foi viagem: era rojão de escabrear. minhas léguas arrependidas. Desgraça de estrada. é ser: despesa grossa.João Guimarães Rosa . que de amor achei. sempre uns contra os outros.. cada tabuleiro que o fim dele é dificultoso. riscamos de rota abatida para o Currais-do-Padre. De que desde dali. agrestes e gramade-burro. eu tornei a me exaltar de Diadorim. À força de inchar pé e esmorecer pernas. Alforria é isso. nesse arraiar de instantes. De que serve eu lhe contar minuciado – o senhor não padeceu feliz comigo – ? Saber as revezadas do capim? Ah. A caminhada é assim. rifles nas costas. até que pudessem sarar de todo somenos. Diadorim – o nome perpetual. e com o peso completo. as pedras do mundo. o abalo.

estranhador. no desânimo. O vento endureceu. Dormir remolhado. a gente saudava o buritizal e se bebia estável. Sabia. por lá a esperança não acompanha. com tristeza agora bota valesse menos que alpercata. Aí passa gavião. De madrugar. que tempesteava. Os muitos campos. O pobre sozinho. O fumo de pitar se acabando repentino na algibeira de uns e outros – bondade dos companheiros era que acudia. com a lama da friagem. – 527 – . Mas. esses Gerais comem. permanece. se andava. ainda tinha araticum maduro no cerrado. por um bem: se caçou boi. se dormia. de todas as estirpes deles – o que gaviãozinho quiriquitou! E lá era que o senhor podia estudar o juízo dos bandos de papagaios. sem um cavalo. mesmo fome não curtimos. em sua beira de vereda. para balear uma rês da solta. nas campinas altas. O quanto em toda vereda em que se baixava. fica no seu. Homem a pé. A mais.Grande Sertão: Veredas pior do que batoqueira de caatingal. circulando as marcas. apanha guincho. depois. por ser um gado estruso. embaixo dos pequizeiros. divididos. se achava era pé de onça. A gente se escondendo. E a gente ia. sei. E deu daquele vento trazedor: chegou chuva. Tão território que não foi feito para isso. era o mister de toda sorte e diligência. recomeçado.João Guimarães Rosa . feito numa croa ou ilha. Assim que a madotagem desmereceu em acabar.

era uma fantasia. somente. Mas. Que viesse sentido. feito um bem. isso eu é que estava crendo. sofrido também. então. Aí mesmo assim. Assumi que ele estava cansado. alguma coisa nele doesse. se pudesse. Continuando. soturno? Não era.Grande Sertão: Veredas Diadorim vinha constante comigo. do que a consciência escuta e se espanta. que ó dele era. que me dava. Até. e que a brio pelejava por espertar. Tanto que me vinha a vontade. essa idéia. com seu poder e seus segredos. Por um sentir: às vezes eu tinha a cisma de que. percebesse meus cuidados. O que brotava em mim e rebrotava: essas demasias do coração. eu disse: – 528 – . entendi que o emburro era mesmo meu. que sutil. nessa caminhada. com esquivança de qualquer pensar. Diadorim caminhava correto. e também em razão de que a gente mesmo deixava de excogitar e conhecer o vulto verdadeiro daquele afeto. só de calcar o pé em terra. Depois. ele não me negava estima. e no próprio sentir me agradecendo. porque a gente guardasse cada um consigo sua tenção de bem-querer. o que me alegrava. num determinado. Saudade de amizade. Mas. livre de tudo. assim como se ele.João Guimarães Rosa . nas minhas costas. e quase dois dias enganoso cri. com aquele passo curto. era do carinho meu. assim é que hoje eu penso. e nem me perturbava. escasso no sorrir. nem o valor de seus olhos. por não sei que modo. não. eu carregava Diadorim.

Diadorim entrefez o pra-trás de uma boa surpresa.. um mimo eu tenho.” – o qual era a pedra de safira. e sem querer parou aberto com os lábios da boca. com estilo de silêncio para palavras. Ao que. se transteve sério. e entreguei a ele o mimo. e que à espera de uma ocasião sensata eu vinha com cautela guardando. até de tarde. eu saquei a mochila.Grande Sertão: Veredas – “Diadorim. quando ninguém não viu. que do Araçuaí eu tinha trazido. e de que nunca fiz menção. Aí. para você destinado. dentro dum saquitel igual ao de um breve. desfiz a ponta de faca as costuras. corguinho deitado demais. apertou os beiços. assim apertando comigo com perguntas. enrolada numa pouca de algodão. enquanto que os olhos e olhos remiravam a pedra-de-safira no covo de suas mãos.João Guimarães Rosa . de água muito simplificada. que sem aperreio deixei de responder. tornou a me dar a pedrinha. Diadorim quis muito saber o presente qual era. De desde que falei. e. costurado no forro da bolsa menorzinha da minha mochila. sem razão sensível nem mais.. se sofreou no bridado. só dizendo: – 529 – . quando fizemos estância. A parança que foi – conforme estou vivo lembrado – numa vereda sem nome nem fama.

a palidez de espécie.. ainda restei com a pedra-de-safira na mão.Grande Sertão: Veredas – “Deste coração te agradeço. O que durou só um átimo. e mesmo antes. agora. eu li com hagá. Delongando. Não chegam os nossos que morremos. Nesse dia. Até em quando se tenha terminado de cumprir a vingança por Joca Ramiro. conciso com um suspiro. e os judas que matamos. Aí guarda outra vez. quando apontou no rosto dele. para documento do fim de loca Ramiro?!” Ah foi ele me ouvir e se encurtar. você teme?” – 530 – . tanto que ele teve mão em seu gênio. mas não acho de aceitar um presente assim. de arrevés. Diadorim: vamos embora da jagunçagem. por um tempo. aquilo dado-e-tomado. eu recebo. e vingança não é promessa a Deus. que nem ossos. Ao crespo de um com a afronta a meia-goela – e os olhos davam o que deitavam.. que já é o depois-de-véspera.João Guimarães Rosa . então. Riobaldo. que os vivos também têm de viver por só si.” Isso. nem sermão de sacramento. Donde declarei: – “Escuta. para o avermelhar de cor. mas mesmo me retrouxe remoque: – “Riobaldo. em duro que revi.

depois melhor botei.. conforme meu sistema nesses procedimentos.. – “Tem que temerei! Você.” Arredei: – “Tu diz missa.” – ele botou-se adiante.Grande Sertão: Veredas Tomei sem ofensa. Mas muita era minha decisão. Diadorim respirava muito. E eu nunca imaginei um desenlace assim.. põe tento no que estou pedindo: tu fica! E tem o que eu ainda não te disse. é meu pressentir: que você pode – mas encobre. quando você mesmo quiser calcar firme as estribeiras.João Guimarães Rosa . que eu já tinha aperfeiçoado lá na Fazenda dos Tucanos.. você é leal. de nossa amizade. Eu tinha a quanta razão.. – “Riobaldo. Eu guardei a pedrinha na algibeira. de uns tempos. quando se tivesse chegado no Curraisdo-Padre. a guerra varia de figura. refavas. no bolso do cinto.. aí faz o que em seu querer esteja. que. e que só vinha esperando para executar com mais regimento de ordem..” – 531 – . Eu viro minha boa volta. mas que. contei minhas favas.. você pensa bem: você jurou vinga. Isso comigo não me toca. Diadorim. Dele foi o relance: – “Riobaldo.” Dar o mal por mal: assim.

Eu sabia. retenteia! Coragem faz coragem. Ninguém nem mal me ouvia. Eu disse: nãozão! Me desinduzi. a prosável diguice. Então eu ia crer? Então eu não me conhecia? Um com o meu retraimento. achar de levantar em sanha todas as armas contra o Hermógenes e o Ricardão. como dono? Mas o sertão era para.” Demais eu disse: – “Sou Capitão-General?!. Todos que malmontam no sertão só alcançam de reger em rédea por uns trechos. achavam que eu era zureta ou impostor.. sem cabo – 532 – . ele me tentava. A conversa dos assuntos para mim mais importantes amolava o juizo dos outros. agora. Mesmo eu não era capaz de falar a ponto. eu via. aos instigares? Rebulir com o sertão. que eu ficasse preso naquele urjo de guerra. de nascença. Diadorim disse: – “Ei.” Antes tantas astúcias. caceteava.Grande Sertão: Veredas Da maneira. que sorrateiro o sertão vai virando tigre debaixo da sela..João Guimarães Rosa . A pra.. Com baboseira. em empalhar que eu não fosse embora. não era para à força se compor. queria abrandar minha opinião. se ir obedecendo a ele. ou vago em aluado. deserdado de qualquer lábia ou possança nos outros – eu era o contrário de um mandador. Eu nunca tinha certeza de coisa nenhuma. aos poucos e poucos. em arma qualquer.. Talento meu era só o aviável de uma boa pontaria ótima.

filha do dono daquela grande fazenda. tu casa. com outra ombrada: – “Vou e vou. e que maçava. Com ela.” – 533 – .. Cês dois assentam bem.. pega essa prenda jóia. Nem maldisse Diadorim. de que não se calava. Riobaldo. A mão dele. Temi afracar. de presente de noivado..João Guimarães Rosa .. Recachei. A mais. zombariazinha: – “Então. e ingratidão não. leva dá para ela. de motejo. de leve na minha. nos gerais da Serra. E em duro repostei. vai. que quer mesmo ir. Eu sou assim amor-com-amor. E trovejo no mundo.. Só inda acompanho é até o Currais-doPadre. Se menos pensei em Otacília..Grande Sertão: Veredas nem ponta..” Nonde nada eu não disse. com palavras cordatas. sem costas nem frente..” Verdadeiro meu propósito era esse. Lá eu requeiro para mim um cavalo bom. na Santa Catarina. Eu não caturrava. eu sei que você vai para onde: relembrado de rever a moça clara da cara larga. mas por fim disse. doçura de dada. como se combinam. pirraçou: – “Vai-te. E bem por isso Diadorim não persistiu. como está dito.

Acolá era a vereda. que é a caraíba mesma – árvore que respondia à saudade de suas irmãs dela. dá açúcar e sal a todo passante.. que soubesse mais do que eu mesmo o que eu produzia no coração. nas boas beiras do Urucuia... eu tinha dó. De verdade. Riobaldo. E tudo neste mundo podia ser beleza. Ou quem sabe você resolve melhor mandar de dádiva para aquela mulherzinha especial.Grande Sertão: Veredas Demorei no fazer um cigarro. De ver. nessas jornadas. Com o tempo se refrescando. por que era que ele falava no nome de Nhorinhá. Nhorinhá – florzinha amarela do chão. Nós estávamos na beira do cerrado. entardecia... Mas. Derradeira arara já revoava. com tão cravável lembrança? Ao crer. A por perto. buriti revira altas palmas. o encoberto e o esquecido. mas Diadorim escolhia era o ódio.João Guimarães Rosa . a da Rama-de-Ouro. se ouvia a algazarra dos companheiros.” Não era na Rama-de-Ouro – era na Aroeirinha. Por isso era que eu gostava dele em paz? No não: gostava por – 534 – . – “. filha da feiticeira. que diz: – Eu sou bonita!. crescidas em lontão.. minha pena sincera de Diadorim.. Arte que essa mais serve.. ela faz o gozo do mundo. e o desabafo do ar. cimo donde a ladeirinha do resfriado principia. a gente parava debaixo dum paratudo – pau como diz o goiano.

Só que. de sonsom.. ele cai seus cocos na vereda – as águas levam – em beiras. peço a Deus que ela te tenha sempre muito amor. de saia cor-de-limão. tão juntos. sei de mim. feito se imaginasse sempre.. de um lado e do outro se alinhando. filha de Ana Duzuza. O senhor estude: o buriti é das margens. prendido nos cabelos dela um botão de bogari. Era? Agora falava devagarinho. para todos formosa. reconheço. o que as mulheres tanto se vestem: camisa de cassa branca. dai o buritizal. prostitutriz. Estou vendo vocês dois juntos. fosse do antigo do ser. ela é bonita. eu ainda não sabia. Dela vivendo o razoável de cada – 535 – . Ah. Igual gostava de Nhorinhá – a sem-mesquinhice. com a moça da Santa Catarina. com muitas rendas. com o alvo véu de filó.Grande Sertão: Veredas destino.” Diadorim mesmo repassava carinho naquela fala. Como se eu nem estivesse ali ao pé. A noiva.. se sei.... gentil moça paçã. Melar mel de flor. a si mesmo uma estória recontasse. donde vem a conta dos prazeres e sofrimentos. o coquinho as águas mesmas replantam. acompanhando. que nem que por um cálculo.. Vocês vão casar. E me embebia – o que estava me ensinando a gostar da minha Otacília. de que gostava de Nhorinhá. Riobaldo. Altas borboletas num desvoejar.João Guimarães Rosa .. – “. Ele falava de Otacília. Você se casa.

que decerto íamos ter. Ao relançar das labaredas. com João Concliz.João Guimarães Rosa . e o refreixo das cores dando lá acima nos galhos e folhas. essas trocavam tantos brilhos e rebrilhos. Com o coração que batia ligeiro como o de um passarinho pombo. vaidosa de se feliz e de tudo. descambava numa sonhice. e já aprontada para a noite. Otacília penteando compridos cabelos e perfumando com óleo de sete-amores.Grande Sertão: Veredas dia. Sidurino e João Vaqueiro. Ao tanto. agora só ficava ouvinte. No tempo. não apareci no meio daquilo. muito definitiva. deusdadamente ele discorresse. do Jequitinhonha e da Diamantina. em camisola fina de ló. rezando ajoelhada diante de imagem. com mais realce que todas as pedras de Araçuaí. Mas me lembro que no desamparo repentino de Diadorim sucedia uma estranhez – alguma causa que ele até de si guardava. de dourado. vermelhos e alaranjado às brasas. que ajuntaram lenhas e armaram um fogo bem debaixo do paratudo. e que eu não podia inteligir. Otacília indo por meu braço às festas da cidade. de nossos filhos. Até que vieram uns companheiros. Uma tristeza meiga. no estar. essas esplendências. Assim foi que foi. E Otacília tomando conta da casa. Era dia-de-anos daquela árvore? Ao – 536 – . De meu juízo eu perdi o que tinha sido o começo da nossa discussão. para que minhas mãos gostassem deles mais. em seu vestido novo de molmol. Otacília no quarto.

me chamou. esqueci fora do rendimento. de Diadorim. socorridos de tudo quanto careciam. Inda que avante. que valessem. saímos. foi assim. pouco somente. que era só por picardia. eu queria recordar muito mais coisas. e balangava às esquerdas-edireitas as abas enfunadas do chapéu. Na surgida manhã. ele pensava as mil coisas. Mesmo mais indiretas disse. nesses cálculos de meditação. Noção dos inimigos nossos. modo nenhum. certa hora. puxavam posse de sua munição e de suas montadas e cargas. Coisas que se deitaram. Acho que é porque ele estava sempre tão perto demais de mim. e às vezes assoprava sem ser por can– 537 – . e eu gostava demais dele. Zé Bebelo mesmo devia de estar curtindo más e piores: fio que ele amargava a vitória que tinha inventado. para a parte final da caminhada. Direto. ele ligeiro sobrezumbia com os beiços.Grande Sertão: Veredas quando bem anoiteceu. no dizer. do esquisito e do trivial.” – eu tirei liberdade para dizer. e isso me realiviou. que. A gente só sabe bem aquilo que não entende. seja lá por onde. O senhor veja: eu.João Guimarães Rosa .. O que renovar e ter eu não consigo. Em tanto. hoje em dia. Zé Bebelo não me respondeu. disso. – “Um Hermógenes quer tomar conta do sertão dos Gerais. Zé Bebelo.. mas não posso.

reconheço. deixa a gente ir e vir. Sapo sem-colarinho. era o capim melhor milagroso – que o que deixava de ser provisório rico era o meloso de muito óleo..” Do Hermógenes discursava – orçamento do Hermógenes. do que provava um muito forte prazer. ele tem tido uma sorte. isto é. O lugar que não tinha curral nenhum. Mas o ao em redor. engordados. De lá vinham saindo renascidos. a não ver uns fios de santa-luzia azul. nos altos com pedregal.. nem padre: só o buritizal.Grande Sertão: Veredas saço de marcha. Mas. Nem eu não queria arreliar Zé Bebelo. que é com as nuvens e os urubus repartido. Assim achei. que os ovos e dúzias ele paga!. vai. e.. e que agora herdávamos. Ainda não entendo. reigordo. em grandes pastos. tanto me certificava. Aí. Aí fiquei a menos. para mim.. e do duro-do-brejo. Deponho: de que é que aquilo me adiantava? E chuvas dadas..João Guimarães Rosa . o jasmim-da-serra. ele estava muito errado: pelos passos e movimentos.. Mas. e por isso não tinha boa razão para um resultado final. E.. de ouvir que a sorte do Hermógenes existia alta.. derramadas. os que tinham sido de Medeiro Vaz.. – 538 – . era que ele referia: – “Ainda não entendo. isso me penou. os nossos cavalos. porque gostava prático da guerra. nas baixadas. com um morador. espiando o alto céu. Regozijei. O que das idéias sobrava.. chegamos no Currais-do-Padre. Até agora.

Era para espera. e dei em erro.João Guimarães Rosa . Já disse ao senhor? – dia a dia ele raiava. Porque estávamos quase todos montados em pêlo. em formosura. tudo o que eu tivesse de resolver. na Virgem– 539 – . eu vi inverno tamanho demorado. Zé Bebelo pôs ordem de se ir. porque ele era meio sendeiro e historiento. que não sabia ler nem escrever. de minha vida. recolhido em certo vexame. Além de que. estava mandando urubu voar para casa. que madrugou tarde: boi nos cinzentos. Daqui veio que o nome que teve foi de “Padrim Selorico”. onde se tinha quantidade grande de arreios guardados. Nunca. assim mesmo possuía um livro. animal vistoso. de romance. Os cavalos pastavam com mais pressa. muito extraordinárias. Foi o primeiro desses que encontrei. e me ver. eu achei. acastanhado murzelo. em todos meus tempos. que bem me pareceu. que envinha. fui deixando para os seguintes. Diadorim moderava o falar comigo. para buscar munição. Mesmo assim.Grande Sertão: Veredas Escolhi um. Mas o dono do sítio. porque antes eu só tinha conhecido livros de estudo. celheado. e que pedi para deletrear nos meus descansos. E os pássaros de passagem precisavam de gritar muito uns para os outros. daí. Dia de ser de chuva. E chuva alta. que se chamava o “Senclér das Ilhas”. capeado em couro. Nele achei outras verdades. Depois. receoso. carecíamos de tocar para o Curral Caetano.

que com léguas andadas vira cinzento e vira azul – daí. no viável. Zé Bebelo. em assarapanto. Prazo não se perdia. parede de morro se faz. Rumos que eu menos sabia. foi que se pegou o primeiro caminho achado. Os rios estavam sujos. Mas nunca chegamos nem na Virgem-Mãe.Grande Sertão: Veredas Mãe. Pra mais onde? Ah. até os dedos da mão dele não deixavam de se perpassar. Afiguro. Disso. se chorar. para se passar. Bem baixamos. Que andávamos desconhecidos no errado. empapados. em que tanto boi berra. creu de se levar tudo para a – 540 – . de sopega. contando rosário nas tiras da rédea. que estava dando para dela se sentir falta. em espumas. aonde os altos bons: o Chapadão do Urucuia. Aos caminhos barrancosos. como perdidas criaturas. em tantos dias: longe lá. Aos barros fomos. Como a serra que vinha vindo. depois.João Guimarães Rosa . E – mas o senhor sabe o que isso é? – aqueles nossos cavalos não tinham ferraduras. tarde se soube – quem que guiava tinha enredado nomes: em vez da Virgem-Mãe. desde o começo desconfiei de que estávamos em engano. de repente os olhos da gente percebem um fio de tremor – se vê é um risquinho preto. Não havendo a ajuda de Joaquim Beiju. No arquear dali. enquanto para ela eu ia indo. feito torrão de açúcar preto se derretendo. de se rir.

acolá. quando estiou o tempo. beiras amarelas. dava vento. Nelas mais não falo. por esses lugares. aonde lá. Até. Porque está chegando hora d’eu ter que lhe contar a$ coisas muito estranhas. de vez. montão deles. que o nome não se soubesse. o boqueirão de um rio. perfazendo indagação. Esses meses do ar como que estavam desencontrados. vá ouvindo. clareado. até. logo lugar outro. Ia fazendo receios. De repente. no meio de serras de parte-vento e suas mães árvores. Mas isto eu refiro depois.. O senhor já que me ouviu até aqui. com – 541 – . se bem fosse que parecia: largo rio Abaete. nunca não encontra. Descemos por umas grotas. O Abaeté não era. pegou a mazelar. era o sertão churro. Mas já era tarde.o próprio. o sertão vem. no escalavrado. o senhor querendo procurar. Mas. E chuvas que minha língua lambeu. Mas. ainda se lembra dele. Aí. no sítio que tem engenho-de-pilões.João Guimarães Rosa . vereda muito longe para o sul.Grande Sertão: Veredas Virgem-da-Laje. – se diz –. Aquele rio fazia uma grande volta. quem sofreu e não morreu. Sertão. Quadrante que assim viemos. Trovoou truz. Doenças e doenças! Nosso pessoal. por si. A estrada de todos os cotovelos. O pongo de um ribeirão. mesmo. não sei se foi melhor: porque bateu de começo a fim dos Gerais um calor terrível. quando a gente não espera.

de solidão. Isso foi até onde o morro quebrou. de corta campo. bicho passeado sem dono. sim. E mais maninhava. Mas não endireitamos para ele. vi muitos: tinha vez que pulavam. me sombreava. Veado.João Guimarães Rosa . com andada de três dias. na porta de uma choça. Isto é. Topar um vivente é que era mesmo grande raridade. Ali era um lugar longe e bonito. que a qual falava toda palavra que tem á. aí na subida dela houvesse coisas.Grande Sertão: Veredas a vista de uns coqueiros. Faltava era o sossego em todo silêncio. Uns galhos de árvores colocados – ramalhos e jaribaras – forma de sinal: para não se passar. que estava fumando o pito de barro. Outro homem quis me vender uma arara mansa. correndo. Nós estávamos em fundos fundos. Mas esse aviso havia de ser particular. E o gado mesmo vasqueava: só por pouco acaso um boi ou vaca. porque o rumo determinado era outro. Outra velha. como que me acenava. Tinha uma estrada. tanto tantos – uns dois. num sonhoso. consoante. Um homenzinho distante. não se ajuizaram os olhos dela. não se percebeu mais ninguém. uns três. lenhando. torando desviado muito. faltava rastro de fala humana. uns vinte. já depois. Mas ela enrolou a cara no xale. nos arrampadouros. Aquilo perturbava. de buriti toda. roçando. para o uso de outros. em grupos – mateiros e campeiros. ou uma mulher= zinha fiando a estriga na roca ou tecendo em seu tear de pau. não para – 542 – .

Eram uns dez a quinze. Mas os outros. que não obedecemos. Os quantos homens. E enxergamos um homem – no alto da virada – uns homens. se redobrou o achado daquelas ramas verdes. quase que não possuíam o respeito de roupas de vestir. começaram a ficar estramontados. entendendo que do caminho não desgarrávamos. Um. Já estávamos pelas rédeas. Mas. e pensavam que três cavaleiros menos valessem.Grande Sertão: Veredas o nosso destino. aos menos trapos: nem bem só o esporte de uma tanga esfarrapada. de jeito nenhum. Não respeitamos. Esbarramos. instruindo o caminho. a ver a espécie de colete. eram só molambos de miséria. que dava ordens: um roceiro brabo. e. mas também dar recuada podia ser uma vergonha. Não consegui sentido no que eles ameaçavam. que agitavam manejos para voltarmos de donde estávamos. No entrar numa guapira. Eu vinha adiante. para outra subida de ladeira: mas aí escutamos o latir de cachorros. Um eu vi. – 543 – . arrastando as calças e as esporas. com o Acauã e o Nélson. Esses estavam com espineardas. Fomos indo. de estranhoso aspecto. logo. Queriam cobrar portagem? Andavam arrumando alguma jerimbamba? Não convinha avançar assim por cima deles. chusmote deles. e vi que estavam aperrando as armas. Por certo não sabiam quem a gente era.João Guimarães Rosa . de couro de jaguacacaca. em lugar de camisa.

.” – o Nélson disse. contrabaixo. conforme eu nunca tinha divulgado nem ouvido dizer. e aqueles seus olhos permeando. com uma voz de qualidade diversa. o banglafumém.João Guimarães Rosa . ali confrontes. Um. bo- – 544 – . mesmo quando falava.. Olhei para todos. na vida. Pode não.Grande Sertão: Veredas neles quase encostados. costumada daquela terra de lugar. Todos estavam com alguma garantia: que eram lazarinas. devia de ter sido assim. para primeiro se presenciar. Nos tempos antigos.. O das esporas foi se amontar num jumento – esse era o único animal-de-sela que ali tinham... Gente tão em célebres. mesmo em dia de horas tão calorosas. Pode não. acho que por falta de outra vestimenta prestável.. Acho que montou para oferecer à gente maior vulto de respeito..” E renuía com a cabeça. Íamos esperar o resto do pessoal. tocava batendo palma de mão na anca do jegue.. Só um disse: – “Pode não. não explicavam razão nenhuma. Ver a ver o sacerdote! – “Ih! Essa gente tem piolho e muquiranas.. veio vindo. pode não.. E eles.” – com o vozeio soturno. ele estava trajado com uma baeta vermelha. comprida. e os outros renuindo também: – “Ah. Um tinha a barba muito preta.

Para o nosso juízo. mas um escuro com sarro ravo. Que viviam tapados de Deus. Artes vezes ele guinchava. Esse. mesmo assim não tomavam bastante receio de nossos rifles. escopetas e trabucão – peças de armas de outras idades. de dar pena. o Acauã sabia deles. e armamento tão desgraçado. Que o que acontecia era de serem só esses homens reperdidos sem salvação naquele recanto lontão de mundo. troncudo.Grande Sertão: Veredas cudas baludas. amarelos de tanto comer só polpa de buriti. O quanto feioso. e um porongo pendurado a tiracol por uma embira. de beber tanta saeta. desvalimento de gente assim. no manobrar aquele cacete. assim nos – 545 – . feito o demônio gemedeiro. zambo. curtidos muito. estragada a boca grande demais. podiam escolher ofício de salteador? Ah.João Guimarães Rosa . garruchas e bacamartes. mas devia de ser de braço terrível. cochichava com os restantes uma séria falação: a qual uma espécie de pajelança. groteiros dum sertão. segurava somente um calaboca. Todos eles. que tinha uma foice encabada muito comprido. Como é que. Outro. O Acauã que explicou. que por nome de Constantino acudia. com seus saquinhos chumbeiros e surrões. os catrumanos daquelas brenhas. mas não eram. constado chato o formo do nariz. e polvorinhos de corno. e fio que estavam bêbados. Um. Quase que cada um era escuro de feições. eles eram doidos. em três.

às vezes não tinham gordura nem sal. queimando e matando o atirador. grande pena. deu alguma intimação para o da foice. acho que porque essa é a forma de declararem seus espantos. E às vezes essa pólvora bruta fazia as armas rebentarem. Tanteei pena deles. calados. Nem não saíam dos solapos. era o falador. O do jegue. ralado salitre das lapas. beira de brejo. fedorenta. Como era que podiam parecer homens de exata valentia? Eles mesmos faziam preparo da pólvora de que tinham uso. e subiram a primeira ladeira.João Guimarães Rosa . Que era uma pólvora preta. enchendo os lugares de fumaceira. porque eles não se aluíram do ponto onde estavam. em dobras de serra ou no chão das baixadas. aquele tropeado de guerreiros. Cafuas levantadas nas burguéias. Mas foi não. em socavas. Teofrásio. seus meninos pequenos. às vezes formando mesmo arruados. e – 546 – . em tão grande número numeroso. só que olhavam para o chão. esse que o Dos-Anjos se chamava. dando cria feito bichos. Como era que eles podiam brigar? Conforme podiam viver? E enfim os companheiros apontaram em vinda. do susto então dos catrumanos. que era quem capitaneava. que estrondava com espalhafato.Grande Sertão: Veredas ocos. manipulando em panelas. segundo refleti. Quase eu queria me rir. Mas por ali deviam de ter suas casas e suas mulheres. Aí plantavam suas rocinhas.

saudar Zé Bebelo e render explicação: – “Ossenhor uturje. Não temos costume... mestre. Mas povoado da gente é o Pubo – que traslada do brejão. – “Ossenhor uturje. relatar bobagens.. Veio um.. ossenhor com os seus passaram perto de lá. a gente vinhemos. no graminhá. deveras retornou.... encomendação de mortos. A gente vinhemos..Grande Sertão: Veredas que foi quem veio adiante... dando sua placença. valor distante meia-légua. era tôo que nem de se responder em ladainha dos santos. cuidando..... cuidando.. Que estamos resguardando essas estradas..João Guimarães Rosa . no graminhá. com recado. Ossenhor uturje. mestre.” Ossos e queixos. Ossenhor é Vossensenhoria? Peste de bexiga preta.. O povo de Sucruiú – estão dizendo : nem não estão enterrando mais os defuntos deles.. que estão com a doença.... As mulheres ficaram. Pode querer vir algum... e aquela voz que o homem guardava nos baixos peitos.. Não temos costume.. Cercar os caminhos.. trazendo a doença. De não vir ninguém daquela banda: povo do Sucruiú. Faz três dias. querendo pedir auxílios. responsório. não demos passa – 547 – . essas mogúncias e brogúncias.. e esta é a razão.. Ossenhor é grande chefe. Mas teve de voltar. que pega em todos.

apareceu com um dinheiro na palma da mão. e eles desconfiaram. – 548 – . e abria os braços. da vista da gente não se ter. antigo do Imperador. como em paga por perdoamento. mestre: convém desemendar deste lado. para Zé Bebelo e para a moeda.” E aquele homem o Dos-Anjos tinha largado a foice no chão. que só arregalados espiavam. oferecendo a Zé Bebelo. Castigo de Deus Jesus! Povo do Sucruiú.. respraz. Os outros deles.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas gem. rejeitou aquele dado dinheiro. com os olhos todos fechados. com ele ofertado na mão. magro.. gente dura de rúim. a urros. A que era um dobrão de prata. Porque um. Ossenhor uturje. mas que na Januária por ele dão dois mil-réis. devagarosamente tinham vindo se chegando também. seguro que por não se rir sem caridade. Zé Bebelo. aquele semblante serioso.. não passar no Sucruiú. Assim os outros não entrediziam palavras. na capital. com alta cortesia. depois ficou de mãos postas. armou rosto reverso. botou o pé em riba. ainda com senhoriagem de valer até os dez.. e o catrumano velho não bem entendeu.. acho que estava produzindo algum feitiço. Estão com a maldição. Bexiga da preta!. Ele era magro. pelo que permaneceu um tempo. que era velhusco e estava com o chapéu-de-palha corroído nas todas beiras. Mas Zé Bebelo.. desses de novecentos – e-sessenta réis em cunho.

mesmo indagou: – “O que mal não pergunto: mas donde será que ossenhor está servido de estando vindo. sem motivo justo. o velho beobobo sumiu seu dobrão de prata em alguma algibeira. Que aqueles homens.Grande Sertão: Veredas olhavam como se estivessem prestando conta de suas fortes invejas. alta graça.. Como que o senhor visse os catrumanos rir! O da foice tornou a apanhar a foice. – “Vim departir alçada e foro: outra lei – em cada esconso. o no jegue ficou segurando o chapéu em respeito. Riam. era de banda. que no comum tinham medo pessoal de tudo neste mundo. com tantos agregados e pertences?” – “Ei. iam ficando era mais escuros. quando pegavam receio. era todo. as tantas grandes bocas. o da foice criou ânimo. às vezes.João Guimarães Rosa . Cônscio.. chefe cidadão. deles. nas toesas deste sertão. agora mas para nos agradar. O jeito de estremecer. amigo!” – Zé Bebelo cantou resposta. do Brasil. e respiravam com roncado rumor.” – 549 – . e não temor – pois. isto é. quietos ali. mas aquilo sendo da natureza constante do corpo. e não tinham quase nenhum dente. A mais eles todos riram. eu pensei: que nem mansas feras.

. Ora vi as derradeiras caras daqueles catrumanos. de tantos grandes jagunços donos de arejo d’armas. retomada a estrada.” Donde um deles. ainda gritou um conselho: que a gente então principiasse volta. descrendo de temer o que eles anunciavam. que mostravam por nossa causa muitos pasmos de admiração. de um tal de seor Abrão. era só se andar as sete léguas.. isto é lazarinha moderna?. a fito somente de que os seus outros vissem que ele bem possuía coragem também de dar voz. Mas Zé Bebelo. da banda da mão direita – por via de se evitar de passar por dentro do Sucruiú – e que. no quebrar da mão esquerda. completo de escutar e ver. eu pelo tom e jeito bem entendi: gritou.. Isso aquele homem recomendou. que por receio de atrevimento nunca perguntavam. no fim assim. e abriu a marcha. num sítio se chegava.Grande Sertão: Veredas O velho agiu o pelo-sinal. num vau perto da mata virgem.João Guimarães Rosa . – 550 – . Mas Zé Bebelo. no buritizal duma lagoazinha. deu não com a mão. que era hospitaleiro. e a cobiça que tinham de fazer cento-e-dobro de perguntas. do arraial onde estava alastrando a varíola reinante. Ia remenicar alguma outra coisa. Tocamos. perante presença nossa. não por serviço de préstimo. em reto em diante em frente.. deu ordem de seguirmos. Só dos rifles: – “Úixe-te. o montado no jegue.

a gente carecia de achar os ases naquele povo de sujeitos. e de como assim estavam menos arredados dos bichos do que nós mesmos estamos: porque nenhumas más artes do demônio regedor eles nem divulgavam. A hora tinha de ser o começo de muita aflição. Mas eu não ri. eu pressentia. que viviam só por paciência de remendar coisas que nem conheciam. e conversado com eles. não ri honesto nunca mais. cujos modos e usos. tinham capacidade para um ódio tão grosso. e isso com os poderes da pobreza inteira e apartada. eu até estremecia. o que se ria. daí. Como que marquei: que a gente ter encontrado aqueles catrumanos. que a regra da lua tomava conta deles. onde está a raiz da alma. dava soloturno sombrio. Ah. De pensar nisso. de muito alcance. Raça daqueles homens era diverseada distante. por conosco não avirem medida. haviam de ter rogado praga. que não custava quase que esforço nenhum deles. desobedecido a eles – isso podia não dar sorte. Esses. De mesmo com as penúrias e descômodos. o que estremecia em mim: terreno do corpo. Aqueles homens eram orelhudos. E para obra e malefícios ti– 551 – . Mas mais que.Grande Sertão: Veredas Rir. mesmo no trivial. As criaturas. em minha vida. Só o mau fato de se topar com eles. mal ensinada. Apunha algum quebranto.João Guimarães Rosa . e dormiam farejando.

. nele com data de três meses ficava sendo uma sepultura. e a ele fazer mal.. sem abrir. Parar o bom longe do ruim. eles estão com vida cerrada no costume de si. depois. o são longe do doente.João Guimarães Rosa . ou guardavam um punhado de terra no fechado da mão. Aqueles catrumanos pedindo por maldição. e secar a árvore. De homem que não possui nenhum poder nenhum. Tem muitos recantos de muita pele de gente.Grande Sertão: Veredas nham muito governo. E foi o que eu pensei. o rico longe do pobre. ou de rosnar palavras em buraco pequeno que abriam no chão. para ninguém não ver. O que assenta justo é cada um fugir do que bem não se pertence. Aprendi dos antigos. tapando depois: para o caminho esperar a passagem de alguém. como era que eu podia deixar de pensar – 552 – . dinheiro nenhum. e com as suas duas mãos o senhor puxe a rédea. sem largar: e quando jogavam fora aquela terra. elas o senhor fecha bem. no prazo de três noites e três dias. Aprendi dos antigos. O senhor não descuide desse regulamento. Mesmo que maldade própria não tenham. Numa o senhor põe ouro. o senhor é de externos. Capatazia de soprar quente qualquer ódio nas folhas. na outra prata. no sutil o senhor sofre perigos. o frio longe do quente. o senhor tenha todo medo! O que mais digo: convém nunca a gente entrar no meio de pessoas muito diferentes da gente. em algum lugar. o vivo longe do morto.

montoeira. De doente. ou ferido perdendo meu sangue. Como é que iam saber ter poder de serem bons. Duvidava dos fojos do mundo. enchiam os caminhos todos.Grande Sertão: Veredas neles? Há-de. eu apeado e precisado. para vigiação sem descanso. tomavam conta das cidades. seguro que bebiam as cachaças inteirinhas da Januária. hom’essa. que eu estivesse. Por quê? Por sustos. Amargo que acabavam comigo. vinham se desentocando e formando. Haviam de querer usufruir depressa de todas as coisas boas que vissem. decerto me matavam. E pegavam as mulheres. por castigos? E de repente aqueles homens podiam ser montão. porquanto eu era desconhecido e forasteiro. as coisas e minhas roupas. nem da razão bruta do que por necessidades fazem e desfazem. para roubar minhas armas. haviam de uivar e desatinar. tão perto de outros. com pouco nem se tinha – 553 – . mesmo que quisessem ser? Nem achavam capacidade disso. com regra e conformidade.João Guimarães Rosa . que nem tinham. sem escrúpulos. do brenhal. algum deles ia ser capaz de me ceder gole duma cuia d’água? Draste eu duvidava deles. aos milhares mis e centos milhentos. e bebiam. acomodados na vida. E por que era que há de haver no mundo tantas qualidades de pessoas – uns já finos de sentir e proceder. Ah. e puxavam para as ruas. que nem sabem de seu querer. que se eles tivessem me pegado sozinho.

no estufo do calor vingante. Isso foi o que eu pensei. Bobéia minha? Porque os companheiros. Zé Bebelo.Grande Sertão: Veredas mais ruas. a passo por aqueles ruins campos. Era preciso de mandar tocar depressa os sinos das igrejas. então levantei o meu entender para Zé Bebelo – dele emprestei uma esperança. O sertão: o senhor sabe. muito redoído. Da marca de um homem solidado assim. nenhum não punha tento em dessas idéias. urgência implorando de Deus o socorro. que estava mal-invocado por aqueles catrumanos do sertão. Então era só eu? Era. montado no meu cavalo ruim chamado Padrim-Selorico. que era – 554 – . por cima da pior miséria. Mas em tanto. até se chegar perto do povoado do Sucruiú. indo cuidando de seu ramerrão comum. chefe como chefe. onde que estava arranchada a horrorosa doença. em testa.João Guimarães Rosa . Do fundo do sertão. como executava nossa ida. apreciei uma luz. Eu. nem roupinhas de meninos. Dei tino. E adiantava? Onde é que os moradores iam achar grotas e fundões para se esconderem – Deus me diga? Nem me diga o senhor que não – aí foi que eu pensei o inferno feio deste mundo: que nele não se pode ver a força carregando nas costas a justiça. e o alto poder existindo só para os braços da maior bondade. nem casas. E foi por durante quase uma hora.

com o remo na mão. e para o sertão retroceder. eu via. Com Zé Bebelo da minha mão direita. se ia. Viajar! – mas de outras maneiras: transportar o sim desses horizontes!. Carece de ter muita coragem.João Guimarães Rosa . Porque Zé Bebelo previa de vir. e. era só que podia se repor nossa guarda de amparo e completa proteção. queria... semelhavam no rigor umas pobres infâncias na relega – que deles a gente precisasse de tomar conta. feito pusesse o sertão para trás! E era o que íamos realizar de fazer. no atravessar o rebelo dum rio cheio. Se ia. respeito era. cá embaixo... Sei que amava.” – eu relembrei. Cavalo selado. duro de temporal. e Diadorim da minha banda esquerda: mas.. montado.. Da pessoa dele. rosável mocinho antigo. – “Carece de ter coragem. naquelas constâncias. eu. e mandava: tal a guerra. não amava? Os outros. no escuro sertão. da grande cabeça dele. por confrontação. Eu tinha. os companheiros outros. O cavalo pombo de Zé Bebelo era o de mais armada vista. e muito chão adiante. Diadorim vindo do meu lado. Para mim. sofrido de tudo mas firme. e que era estima e fiança. o maior de todos.Grande Sertão: Veredas sempre alvissareiro. ele estava sendo feito o canoeiro mestre. – 555 – . o que ele pensava. Por ele eu crescia admiração. o que é que eu era? Eu ainda não era ainda.

como já entrávamos no perto do Sucruiú. de beiras de terra preta. no entremeio da fumaça. lá se chegava. de passagem. conforme as léguas que os cascos de nossos cavalos contando. E certo que não se tinha medo maior. no corguinho rabo serelepe que passamos. Aquele desgraçado lugar devia de estar lá acolá. porém. O sol carregando de envelhecer antesmente as folhagens – o começo do mês de junho já dava parecença de alto fim de agosto. Donde é que decorre a peste? Até o ver o ar. Antes todos queriam avistar de perto. no pião alto do campo. feito andassem por lá renovando pastos desfora de tempo. De que valeram as tantas chuvas? Aí este mundo de sertão tinha se perdido – eu mesmo me disse. só os animais foram que beberam a toda sede: que. em seu sempre. Mas nenhum de nós teve sobrosso. porque subia para o pedaço de céu um povôo de fumaças.João Guimarães Rosa . em reto. com tanto fogão. era de ver que voz Zé Bebelo dava. mesmo da água corrente a gente se receava. Gente? Não se divulgava. Ah. Fazia fole de calor. O que era. Mas. se queria em reto ou atalho. – 556 – . E como deviam de estar cozinhando. foi. Obra de um tiro de carabina. entre as vertentes. pelo legal. Aquele ano declarava de não se ter nem frio. sem os realces. O qual eram as cafuas em suas construções. Azul desbotado puído. Essas choupanas.Grande Sertão: Veredas Desde. nós. Como que íamos atravessar o Sucruiú. era. A poeira e miséria.

no entrecho de minhas rezas.Grande Sertão: Veredas o que aquilo de verdade fosse. Voz nem choro não se ouviu. E de repente correu aviso que Jõe Bexiguento e o Pacamã-de-Presas sabiam reza para São Sebastião e São Camilo de Lélis. no vagaroso. para lá da fumaça verdolenga se vislumbravam os vultos. Como se ter? Como se aprender. que isso bastava. e até os cachorros. cuspi. Assim aqueles dois iam praticar resumida a oração. Assim foi que fizemos. da gente. mas mal se enxergavam aquelas casas. constantemente. Em frente delas todas. Algum dia. nos soturnos. Ao demais rezando. feito fosse decreto de todas as pessoas mortas.João Guimarães Rosa . de um em um. Casas – coisa humana. o que estavam era queimando pilhas de bosta seca de vaca. Arruado que era até bem largo. E a poeira que demos fez corpo com aquele fumegar levantante. Aí tossi. Só que se tinha confiança nos bentinhos e verônicas. Mas pessoas mor que houvesse: por trás da poeira. hei de esquecer aquilo. enchia. as fortes ave `orarias e padre-nossos. se virando para trás nos cavalos: que não se carecia. também? Tempo não dava. nem outro rumor nenhum. cada morador. a fumaça acinzentada e esverdeada. e as tristes caras deles. consigo reproduzisse. que – 557 – . O que subia. depois de hoje. ao real vendo – eu vim. Avante eu rezei. tanto tapava. que livram de todo mal vago. e cada um. Mas – o que vieram dizendo.

no vaporoso pardo-azulado. Aquela travessia durou só um instantezinho enorme.João Guimarães Rosa . eles sabiam ter quanta cláusula. quando todos rezando sozinhos em cima deles. Não se perturbou palavra. A reza reganhei. Olhei o ilustre do céu. Soubesse eu onde era que estavam gemendo os enfermos. Onde os mortos? Os mortos ficavam sendo os maus. tantas máscaras. Mesmo que os cavalos nossos indo iam devagar. Sofriam a esperança de não morrer. que era uma cortesia de bondade. no exalante. de seus lugares não saíam. com um fervor. não ver de enxergar o fim daquelas casas. Dado dava de um estar soto-livre. Deus que tornasse a tomar conta deles. e a mormaceira. Aos homens e mulheres. seriam os que estavam jogando todo o tempo mais rodelas de bosta seca nas fogueiras – isso que deviam de ter por todo remédio. apartados tão estranhos. E foi que dali acabamos de surgir – da arrepoeira e fumaça de estrume. do Sucruiú. Do perigo mesmo que estava maldito na grande doença. daquele transformado povo. Não espiei para trás. E o que rogava eram coisas de – 558 – . conseguido se soltar das possibilidades horrorosas.Grande Sertão: Veredas branqueavam. devagar duma procissão. e o corusco de labareda alguma. que é como se vai. caladamente. Revi todos e Diadorim. Nem davam fé de nossa vinda. que condenavam. não saudavam.

não podia: e esse um era o Hermógenes! Aí dele me lembrei. e as que mal tinha visto. o do Pubo – os catrumanos escuros. Todos? Não. meu mestre Lucas.. ah. que em minha lembrança eu carecia de muitas horas para repassar. filha de Ana Duzuza.. aonde não houvesse sufocação em incerteza. agora. dos cavos do continuado – 559 – . Eu levava Diadorim. além de que a agradecida formosura da boa moça Rosa’uarda. e Zé Bebelo. Todos.. todas as demais pessoas. e meu padrinho Selorico Mendes. o Vupes – Vusps. Mas. para terras que não sei. Igual.. na hora: e esse Hermógenes eu odiasse! Só o denunciar dum rancor – mas como lei minha entranhada. Depois. o comerciante Assis Wababa. os cachorros. de meu conhecimento.. os bois. Só um era que eu não levava. E que para o outro lugar levava restantes os cavalos. não vi. e mesmo a velha Ana Duzuza. levava. os pássaros. costume quieto definitivo. dona Dindinha.. tão grande: eu queria poder sair depressa dali. a mocinha Miosótis.Grande Sertão: Veredas salvação urgente. o povo do Sucruiú.João Guimarães Rosa . os companheiros todos. não fui sentindo que queria poder levar também Otacília. e aquela moça Nhorinhá. onde era que então se estava. Todos. terras que não fossem aqueles campos tristonhos. Alaripe. e. de começo. os lugares: acabei que levasse até mesmo esses lugares de campos tão tristes.

de dentro. Era uma boa casa. vi o céu nos roxos. Senti um cansaço. e tenteávamos pelo encontrável. Adiantamos ligeiro. no capim cacheado. para essa aversão não carecia de compor explicação e causa. no meu juízo. saíram. para responder ao senhor: a ofensa passada se perdoa.João Guimarães Rosa . eu era assim. onde o campo largueia. Nem. no mover desses futuros. ninguém tenha.Grande Sertão: Veredas que tem na gente. Que ódio é aquele que não carece de nenhuma razão? Do que acho. de – 560 – . Mas. Misturamos numa baixada. O maior direito que é meu – o que quero e sobrequero : é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim! São os momentos. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros. nos vermelhos. Juro de ser. se sei. Ah. Daí. no retiro do Abrão. Era feito um nojo. mas era assim. todos perigam – o contagioso. como é que a gente pode remitir inimizade ou agravo que ainda é já por vir e nem se sabe? Isso eu pressentia. E. eu. um menino tremor. Tivesse medo? O medo da confusão das coisas. depois que passado o vau da mata-virgem. que tudo é desordem. mas. lá se estava. O sol ia entrando. enquanto houver no mundo um vivente medroso. por ser. Umas lavourinhas.

pois. demorou. tivesse chupado na boca um gole quente de café demais. uns homens. que fugiam corridos.João Guimarães Rosa . Um rapazola retinto. Nu da cintura para os queixos. Num átimo. por todo engano de pressa. Sendo que Zé Bebelo assim na dianteira sempre cavalhava. Arfava chiado. tinha tirado do bojo do saco o que estava lá: que era um pé de – 561 – . um menino. nem neles se atirasse por comprazimento. Pois não foi que um deles. e perdeu as facilidades. errando no abrir da fuga. por dizer. como que tinham até sacos. Só acertei. andavam cai’caindo. As calças. eu reluzi quem que eles podiam ser. Era um pretinho. quando se notou. então. rotas em todas as partes. – “A benção!” – pois disse. mal aperfeiçoado. se soube. às vezes faz assim. O que estavam era em mão de roubando. mais deitado do que ajoelhado. quase debaixo dos cavalos. ele apertou perna em perna. Bezerro doente. para carregar dentro as coisas. Cuido que por não perder de todo as calças como vestimenta. de mal-de-ano. superintendeu que não perseguíssemos aqueles tais. como quem. ele se ajoelhou – chato no chão. veio do nosso lado. por suas portas.Grande Sertão: Veredas repente. E a idéia dele rodou ligeira. vente. feito ratos se escapulindo do toucinho de um jacá. embrafustado.

é do Sucruiú.. – “Donde é que vocês vieram. que nem o mijar dum sapo...” Isso tudo se deu curto. sim senhor.João Guimarães Rosa ..Grande Sertão: Veredas alpercata de homem. que nem boldrié – que tudo jogou fora. Tenho nada... e com isto dizendo. arquejado: – “Tirei não. e dum modo tal inocente. temia. nhor sim. um candieirozinho pequeno. E em coisa tão tola declarada assim a gente até crê razão. Minha graça é essa. por ser tão afã de absurdo. dond’é?” – Zé Bebelo indarguiu. Que nome era capaz de ter? – “Guirigó. ele tornou a atar melhor o resumo de embira. o longe que pôde.. Tenho nada. de quem visse risse... – “A gente quer voltar para casa. sim. nada não.. E se encolhia. Seguinte o que. Sou filho de Zé Câncio.. e se ria. para uma banda. desses que vinham da Bahia.. uma escumadeira de cozinha e um arranjado envernizado de couro preto.. seu criado..” Arte que a aproveitar.” – 562 – .. mostrou à gente o saco vazio.. Semos. que cinturava aqueles molambos de calças.

que ali dentro não pudesse caber. como que receando em si o que não podia ser bom.. por livração. o preto no meio dum enorme branco de mandioca descascada.. qu’é que vieram caçar aqui? Fala!” – “O que qu’ a gente veio caçar.Grande Sertão: Veredas Tão magro.. – “Mas o – 563 – . mostrando a língua à grossa. era capaz da bondade de desfechar nele um tiro certo. trestriste. pensando que padecia agonia. – “Guirigó. em bezerro pesteado. à primeira. Menino muito especial. era de beiços. do jeito. aquele menino já devia de ter prática de todos os sofrimentos. e tremia pelo miúdo. E quando espiava para a gente. Buscar de comer. e que carecesse dessa ajuda. que’s. O couro escuro dele era que tremia. sim senhor? Eles vieram. que não que não. Jagunço distraído. vendo um desses.” – “Ih. se vê assim. menino! Quem te vê comer essa tralha que você amoitou aí no saco.. Olhos dele eram externados. que parecia ter gosto de poder negar assim. mas como se fosse uma língua demasiada demais.. às vezes. tão descriado..João Guimarães Rosa . constante.” O pretinho espichado no chão sacudia a cabeça. eu também vim. colada no assoalho da boca.

Qual. ele fizesse logo isso. nem estava ali. até que a doença brava estivesse matando o povo do Sucruiú. De mais. que fosse logo embora! – Zé Bebelo consentiu ordem. como numa abocada. a lagrimazinha só. renegava: até que tivesse tido mãe.” Havia de negar tudo. se sumiu por onde carecia de ir. – 564 – . conforme mesmo era. queria escape.. – “Coitadinho. nascido dela. fácil. por um momento que fosse. os parentes todos dele.. que ele aparou. sem fungar. Não pensei que fosse tão pequeno. Ah.. – Que podia. E aquele menino.Grande Sertão: Veredas de comer todo se acabou. E ainda jogou um pedaço de rapadura. O que ele afirmava. e se entristecesse. os dentes dele estavam alumiando de brancos.João Guimarães Rosa . nem aceitava regra nenhuma devida do mundo. não queria saber. Ah. a gente ficava tranqüilizados. Se abraçava com qualquer poeira. no descaramento firme de seu gesto. A gente queria que aquele traste de menino sentisse em si.” – Diadorim disse. – “Pra tu adoçar essa tua tripinha preta!” – foi o que Zé Bebelo gritou. a gente ficava desconsolado e legítimo no triste. era que nem era ninguém.. sem olhar para trás. queria salvar seu corpo. o menino preto negava. maneiro e leviano. pulou em rumo. por tantas suas desditas chorasse uma lágrima. defronte dos cascos dos cavalos da gente.

E.Grande Sertão: Veredas – “Hem? Hem?” – Zé Bebelo falou. mas com a mão não cheguei a bulir. uma coisa alguma em que se pegar. tomamos conta de tudo e entramos naquela casa. uma vasilha. uma lamparina de folha. uma esteira. pensando no menino pretinho. por todas as quatro bandas. um gancho de rede. de se espalhar os de vigia. com o determinado costumeiro.João Guimarães Rosa . nunca vi nada tão remexido e roubado. Eram só as mesas. porque isso me pareceu falta de caridade. Total o que era de jeito de se carregar. os catres. uma raspadeira. e que no comum duma casa remediada se acha. Tinham limpado a carne daquele costelame. uma folhinha na parede. Por onde andaria o dono? Mas se ficou sabendo que o nome dele não era em verdade Abrão. Consoante o diploma de patente. um cabresto pendurado. mais o movimento de procura dum pasto bem fechado e conveniente. o em arcas e em trouxas. os bancos. mas Habão. Virgem! – digo ao senhor: o interior dela dava pena. – 565 – . – “O que imponho é se educar e socorrer as infâncias deste sertão!” Eu ia fazer o sinal-da-cruz. que assim se chamava. faltava. Não se encontrou uma peça de roupa. para ver o visível e se fazer fogo de aprontar nosso jantar na fornalha de sua grande cozinha.

Vai. E nós. que estava com suas poucas imagens e um toco para se acender. de vela-benta. Ah. um oratório em armariozinho. Cada dia é um dia. que era no seu manto como uma boneca muito perfeita. num canto. dentro de lá. em válidos títulos. Sobravam só os passarinhos. e cachorros e o mais. Aquele retiro se chamava o Valado.Grande Sertão: Veredas que no chão. Com pouco mais uns dias que se passassem. Para não falar que. nem sinal se divulgava. Se comeu. como de toda parte no igual. que era a Minha Nossa Senhora Mãe-de-Todos. de gado. então. soltos. mas só por lei duma idéia – 566 – . fico me rindo. cada um depois dum. sediava. pelo acabar da tardinha. avistei. alegres assim no empobrecido. Se acordou. bem o digo. lavrado preenchido cerimonial. O senhor nem não diga nada. galinhas e porcos. de que esse Habão era Capitão da Guarda-Nacional.João Guimarães Rosa . que piaram uns momentos. Nisso não tinham desrespeitado de mexer. muito recanto. E o tempo estava alisado. viemos ao quarto-do-oratório beijar a santa maior. por seus esteios e caibros. o pessoal do Sucruiú era capaz de desmanchar até o prédio da casa. no escuro que já fazia. “Vida” é noção que a gente completa seguida assim. construido pregado na parede. se dormiu. Triste é a vida do jagunço – dirá o senhor. num quarto.

aonde devia haver. Aqueles rastros tinham vigorado por cima da derradeira lama da derradeira chuva. ordens já para antes do vir da aurora se cumprir. tudo tradiziam. Ora. canalha inteirado ou razoável homem-de-bem. E foi se saber: o Suzarte e o Tipote. guardava molde marcado dos cascos de muitíssimas reses. Pelo comido pastado das reses. Capaz de divulgarem até os usos e costumes das criaturas ausentes. calcados para um rumo só – um caminho eito. e na altura da cheia já rebaixada. dos – 567 – . vendo espiado o que de graça no geral não se vê. e outros. dizer ao senhor se aquele seô Habão era magro ou gordo. também. E – de quantidade e de quanto tinha chovido – eles liam. para se lamber. seria forreta ou mão-aberta. Porque. no capim e nos regos de enxurradas. Mas o gado. As pessoas da casa tinham viajado para a banda de oestes. com o João Vaqueiro. dali Zé Bebelo já tinha dado. Aos passos dos cavaleiros e cachorros.João Guimarães Rosa . em pouquinhas horas. rastreavam redobrados. tudo sabiam. pegara ida espaçada mais virante acima. escolhendo por si e sem tocada. mas depois de solto por boa regra. mais. beiradas do ribeirão. em lugares. onde em redor. muito se reconhecia. salinas de barreiro. a deixa.Grande Sertão: Veredas falsa. E bastantes outras coisas eles decifravam assim. Tudo eles achavam. Cada dia é um dia. O chão. remediando o mundo a alho e faro.

só com o Tipote e o Suzarte o senhor podia rechear livro. e procedi sério feito um pau do campo. em errei. ao menos ali. até pede para não se atrapalhar o devido. Conheci. Um bom entendedor. Zé Bebelo suscitado determinou. uns meus tempos. Senti assim. Mas Zé Bebelo duvidou de ficar. Mas o – 568 – . do risco de doença e morte: achando que o povo do Sucruiú podiam ter trazido o mau-ar.João Guimarães Rosa . se tem. ali. Medo dele era da bexiga. meu destino. Dormindo com um pano molhado em cima dos olhos e com a nuca repousada numa folha de faca. Assim mesmo. explica.Grande Sertão: Veredas centos milhares de assuntos certos que parecem mágica de rastreador. mas ajudar. Estava. sussurra. num bando. Crendice? Mas coração não é meio destino? Permanecer. e que mesmo o Sucruiú ainda demeava vizinho justo demais. o Valado. ainda me valia. Mas ri por de dentro. disso não sabia. Zé Bebelo pegou a principiar medo! Por quê? Chega um dia. E aquele lugar. faz muita necessidade. E ainda antes do meio-dia subir. Ele concebia medo. Tanto ri. de noite o destino da gente às vezes conversa. carneadas fartas para a nossa refeição. para ficar. eu quis. eu aceitei – o senhor preste atenção! . que a gente fosse mais para adiante. desemalocaram duas gordas novilhas.

do misturado viver de todos. porque um bicho daqueles por lá cruzou. mas. a coragem sua redobra e tresdobra. é que era justo. que não tinha nome verdadeiro anterior. pois nenhum não estava mais em sua saúde. Chapadas de ladeira – 569 – . o que eu queria. me esquentando perto do borralho de um fogão. Era para ir? Fôssemos. Alguém estiver com medo. Nós. e galo de manhã cantando em algum terreiro.Grande Sertão: Veredas cabedal é um só. Pois Zé Bebelo. em invernia de chuva fria esfriada. real. próximo. e. aquele algum seô Habão também tinha se ido. Carecíamos? Merecer logo ao menos uma semana de quieto. tendo tudo por seguro. e as coisas cumprem norma. e que com o cansaço é que se tapa o desânimo. e assim chamamos. Eu sei que um se mexer a esmo é sempre fácil. no nosso. Descemos a Vereda do Porco-Espim. eles sim. se o senhor firme agüentar de não temer. de jeito nenhum. que mal vareia. por exemplo. Pelo que umas cinco léguas andamos. que até espanta. o medo dele quer logo passar para o senhor. Mas. era estar sarado de alguma demorada doença. conforme decerto. agora bambeava. Eu comecei a tremeluzir em mim. comendo aos poucos o meu caldo com angu. meio.João Guimarães Rosa . Disso deslavava. cercados da banda outra pelos catrumanos. Esses homens do Sucruiú. que sempre se suprira certo de si. De modo. ei que só podiam achar espaço por estes lados.

E aquele situado lugar não desmentia nenhuma tristeza. estavam presos. Foi o que assim de leve eu mesmo me disse.. Um homem. porque a suindara é tão linda. de tristes gargalhadas. sua água sem-cor por sobre de barro preto. e a velhice da casa. O que é que buriti diz? É: – Eu sei e não sei. mais mor.Grande Sertão: Veredas pouca. Bobice de todos. que com a machadinha na mão e sua cabaça a tiracol tratava de desmelar cortiço num pau do mato. mesmo. no avistar o redondo daquilo. Ali eu não devia nunca de me ter vindo. demais. com o cerradão. redizendo o que foi meu primeiro pressentimento. E por fim viemos esbarrar em lugar de algum cômodo. Depois. Essas veredas eram – 570 – . Que mesmo como coruja era – mas da orelhuda.. uma lomba.. mas feio.. como feio não se vê. por consolo. Na Coruja. – eu pensei. esse indicou tudo necessário e deu a menção de onde é que estávamos.. parado. Até os buritis. um retiro taperado. lá eu não devia de ter ficado. um outro corgo-vereda.. eu ponho: que era por minha sina o lugar demarcado. E ali. por cima de riscas sedas de brancura. Que é que o boi diz: – Me ensina o que eu sabia. começo de um grande penar em grandes pecados terríveis.João Guimarães Rosa . nela tudo é cor que nem tem comparação nenhuma. – Tudo é gerais. A vereda dele demorava uma agüinha chorada. Só esta coisa o senhor guarde: meia-légua dali.

em cada anoitecer. A qualquer narração dessas depõe em falso. O senhor não escutou.. E o senhor não esteve lá.. Agouro? Eu creio no temor de certos pontos.Grande Sertão: Veredas duas.. Até os pássaros. onde o senhor encosta a palma-da-mão em terra. Tem. tão fechado de moitas de plantas. travessia da gente? – 571 – . A gente joga um punhado dela nas costas – e ela esquenta: aquele chão gostaria de comer o senhor. formavam um tristonho brejão. em que falhamos na Coruja. e logo depois. O senhor não pode estabelecer em sua idéia a minha tristeza quinhoã.. Uma encruzilhada. no meio do cerrado.. conto malmente. Elas tinham um nome conjunto – que eram as Veredas-Mortas. por uma ou por outra. Ou são os tempos. Ali eu tive limite certo. Aí mire e veja: as Veredas Mortas. e pois! – o senhor vá guardando. o castigo do tempo todo ficado.. consoante os lugares. a lugugem do canto da mãe-da-lua. O senhor guarde bem. No meio do cerrado. ah. vão sendo muito diferentes. uma perto da outra. e ele cheira a outroras. Os ruins dias. tão apodrecido que em escuro: marimbus que não davam salvação.João Guimarães Rosa . para a gente dividir de lá ir. se via uma encruzilhada. porque o extenso de todo sofrido se escapole da memória. alargadas. e sua mão treme pra trás ou é a terra que treme se abaixando.

como a água – 572 – . de em antes. que também me baqueou. E quase que todos os companheiros já estavam adoecidos. me davam por normal. Agora. de mim. Febres. Nessas horas da noite. por falta de sinal. – “É do fígado.Grande Sertão: Veredas Daí. Remédio que valesse. Nela eu pensava. no começo achei que era fantasia. em que eu restava acordado.João Guimarães Rosa . mas que. espalhada em tudo. Tudo o que me vinha. Eu pensava. eu ainda não digo. os homens perdiam a natureza. minha cabeça estava cheia de idéias. Dormia pouco. mas. Refiro ao senhor que. frouxa nervosia. com a intermitente. Pior não estive. instantantemente. vezmente. ansiado ou em brando. de dia em dia eu ia ficando demudado. Aquilo afracava.. Todos. conforme eu era. da bexiga-brava. era só entreter um planejado. sei. a maior parte dos companheiros tremiam em prazos. se encorpava. com esforços. como pensava. não. a gente devia de ter arranchado no sezonático. Com uma raiva.” – me diziam. mais retardo de relatar. Coisa cravada. despropositou o frio. Mas de outras enfermidades. e agora. eu.. e ia tomando conta do meu juízo: aquele projeto queria ser e ação! E. Feito num traslo copiado de sonho. de todo faltava. com o seguido dos dias. como o quem-quem remexe no esterco das vacas. E um andaço de defluxo. no diário. Em algum trecho. eu preparava os distritos daquilo. o que era. que.

Tinha preceito. Digo! comecei. Ao que.João Guimarães Rosa . Só o que demandava era uma fúria de quente frieza. assim. pouquinhos. A maneira que quase sem saber o que eu estava fazendo e querendo. Como é? Aos poucos. eu tateava. o que eu tinha de proceder. o que eu vinha era adiando aquilo. meio às tantas. Um gole que era fogo solto na goela e nos internos. No que eu confiei que estava pronto para ir – 573 – . eu tinha de levantar. mesmo desfazendo de esclarecer no exato meus passos e motivos. mas tinha! Em tal já sabia do modo completo. e é. não se beba. sistema que tinha aprendido. mas aquilo.. nesses sertões todos. Ah. por terrível que fosse. adiando. as astúcias muito sérias. como a baba do boi cai em tantos sete fios. a mais medonha responsabilidade possível – ato que só raro mas raro um homem acha o querer para executar. um dia. O que seja – primeiro. na moleza. Ao que era por tanto negrume e carregume. se bebe cachaça. perguntando em conversa a uns. não se coma. Quis.. Vai. De em desde muito tempo. no arrevesso. eu quis.Grande Sertão: Veredas das beiras do rio finge que volta para trás. escutando de outros. Não quebrava o jejum do demo. Antes. um rompante de grande coragem. dura nos dentes. me lembrando de estórias antigo contadas. Custoso pior não sendo.

eu reproduzi tudo com uma qualidade de remorsos. Tanto o engano. O porque era pior. A vida era muito normal. mesma. sempre achei: por causa de minha costumação. até à hora. os moços olhos. e por causa dos outros. aceitei a companhia dele. Ah. aquelas decisões. A aguardar. Engano meu. Os três dias passados. Mas. – 574 – . Diadorim. com as pestanas compridas. naquelas outras coisas não queria pensar. O mais que eu podia ter sido capaz de pelejar certo. Diadorim conversou. que é que eu era? Um raso jagunço atirador.Grande Sertão: Veredas avante: no que eram obras de chão e escuridão. pauteei. Sonhei coisas muito duras. trastejo. por ter começado e não ter tido firmeza para levar a acabado. então. de ser e de fazer. Comi tanto. e certa bem que estava. Aí foi um instante: Diadorim estava perto de mim. agora. por quê? – eu pensava. vivo como pessoa. trançar o vazio. E a herança de minhas queixas antigas. relaxei aqueles propósitos. e. Conforme eu pensava: tanta coisa já passada. cachorrando por este sertão. e meu corpo agradecia. com aquela forte meiguice que ele denotava.João Guimarães Rosa . e no real eu não conseguia. Deixei. Desde aí. Os outros. zampei. Logo larguei meu começo de mão. dormi. Só a continuação de airagem. e ri. que eu tomei sombra vergonhosa. Cacei comida. eu carecia de não deixar que nem um fiozinho de idéia comum em mim esvoaçasse.

nem chegava a quatro palmos – e com poder de acabar – e o Gregoriano morreu. em pobres horas. Não digo por um Zé Vital. E – 575 – . se não. a certeza de se ser.João Guimarães Rosa . Tudo o que acontecia. com ele? Sendo o que a um assim não podia permitido. que tornava a dar ataque. tinha gastado as vantagens. só se perdesse de todo o siso.Grande Sertão: Veredas os companheiros. era. Apartado. Logo vi. desestribados. pois. era a má-sorte. Doença. A não ser por essa malacafa. De que é que adiantava. e tinha cisma de todo o mundo. eu tinha grande desprezo de mim. a segurança destemida. aquele atrasamento geral. Assim em impossibilidades. e viviam perto da gente demais. nada que falava era mais de se reproduzir. Mas uma jararaca picou o Gregoriano: era aquela. dos de entortar boca escumante e se esbracejar e espernear com madeira de braços-e-pernas que de quem eram. De Zé Bebelo. e o alto destino possível da gente. Por isso. Zé Bebelo. até que os adoecidos sarassem. a rastejo no capim e nas folhas caídas. mais do que de todos. que viviam à-toa. Ei. para mim. aqueles exageros bonitos e tamanhos rasgos. Zé Bebelo murchava muda na cor. desgovernavam todaa-hora a atenção. Só dizendo que tínhamos de esperar mesmo ali. Zé Bebelo doente não estava. estatuto de jagunço? Ah. ele estava caipora. Daí tinha conta a nossa reles perdição. não existia mais em viço para desatinos.

O nariz entupia. E horror de se ver.Grande Sertão: Veredas mais conto o que com um Felisberto se dava. fazia já alguns anos.João Guimarães Rosa . ficava mal. com o intervalo dos meses. feito flor de joaninha-silva em muito sol. a raleza de projetos. Daí. então. Assaz em aparências de saúde. Mas que em desregra a gente se comportava. Dizia naquelas horas que estava sem visiva. a cara desse Felisberto se esverdeava. até os dentes. uma mancha só. Aquilo era para poder sarar? Quando que? A tosse dum garrote entisicado. de azinhavres. se dizia – que estava encravada na vida de seus encaixes e carnes. Ao que os olhos inchavam. o metal do esverdeio. Ele tossia. nem de ódio constante de repensar nela. o muito grande. como fosse menos-emais para aproveitar a carne fresca e de-sol que na campeação se conseguia. na Coruja. sem razão entendível nenhuma. Aí. mas tendo sido baleado na cabeça. e de repente. inchado. nada não enxergava. não carecer de imaginar onde era que tal pessoa estava. uma bala de garrucha – a bala de cobre. do meio-dia para a tarde. em ponto onde ferramenta de doutor nenhum não alcançava de escrafunchar. Sempre Zé Bebelo não desistia de palavrear. virava era azul. como faz-de-conta. tudo fuscado em verde. A maior felicidade era ele não saber quem tinha acertado nele aquela bala. as boiadas daqueles sertões. de parar ali envelhecendo os dias. A – 576 – .

naquela hora. devem de poder servir.. e era dado com bondade. si mesma. A ser. em ajuntado. carregação-do-peito. – “Até estas aqui. por doença. só que não se sabe. me dava um desalento pior.” Alaripe pegou a gabar a virtude mezinheira das mais raízes e folhas. de remédio para algum carecer. meias-dores. eu conferi como era usual a gente estimar os companheiros. O que me coçava. mói assim mesmo. As doenças se curassem? Minhas dúvidas. Raimundo Lê cozinhou para mim um chá de urumbeba.. quem não pegara a maleita padecia por outros modos – malde-inchar..” – ele disse.. Isso mesmo foi o que eu disse a Raimundo Lê. mas não me certifiquei: apalpar lugar de meu corpo.Grande Sertão: Veredas mó de moinho. esfiada em tantos espetos. o fígado. mói. e a pavoã por perto crescida. que. em doses. me desvali. Ali. por uma moita rosmunda de frei-jorge. teve até agravado de estupor.João Guimarães Rosa . agradecido: – “É um recurso para aliviar meu achaque. duvidar. Diadorim – que graças-a-Deus estava de todo são – com os cuidados todos depunha assisado por mim. Era um recurso para aliviar meu achaque. e estou vendo que é dado com bondade. Adiantemente. mói. que me doía. Aí. que nem se eu tivesse provado lombo de capivara no cio. E o Sidurino disse: – “A gente carecia agora era de um vero tiroteio. nela não caindo o que moer. para exercício de não se – 577 – .

. Mas. entendi uma dúvida..” Ao assaz confirmamos. depois. se ajudando uns aos outros com sinceridade nos obséquios e arriscadas garantias. de outra gente. Aqueles. por obediência saudável e regra de se espreguiçar bem. mal acabei de pronunciar. em ninguém. Aprovei. e o que me picou foi uma cobra bibra.. A verdade dessa menção. com madrinhas e mães – eles achavam questão natural. Ah. o que eu agradecia a Deus era ter me emprestado essas vantagens. Mas. num instante eu achei e completei: e quantas outras doideiras assim haviam de estar regendo o costume da vida da gente.João Guimarães Rosa . de arpejo. ali. confiança eu mais não depositava. mesmo não refugando a sacrifícios para socorros. eram com efeito os amigos bondosos. O horror que me deu – o senhor me entende? Eu tinha medo de homem humano. eu despertei em mim um estar de susto. todos estávamos de acordo com o sistema. de se dar fogo contra o desamparo de um arraial.. gente como nós. também. de ser atirador. de uma vez! Aí. vadiando.Grande Sertão: Veredas minguar. e eu não era capaz de acertar com elas todas. – 578 – . que podiam ir salientemente cumprir. A alguma vila sertaneja dessas. e se pandegar. para mim – que não tenho rebuço em declarar isto ao senhor – parecia que era só eu quem tinha responsabilidade séria neste mundo. por alguma ordem política. no fato.

em povoado qualquer. sujeito à instância dessa jagunçada? A ver. falou: – “O inimigo é o Hermógenes. Esquecer. então. Arte de docemente. para mim.. que quando ferrava não largava. me indagou. o Muito-Sério – o cão extremo!” Eles acharam divertido. como está dito. Eu também. e pensei ligeiro. o que eu reproduzi. fosse.João Guimarães Rosa . me olhou. se isso sendo assim possível.. é quase igual a perder dinheiro. Ah. para poder ser instruído e inteligente! E tudo conto.Grande Sertão: Veredas por isso me respeitavam. feito o senhor. para agradar o meu espírito.” – um deles. eu sem querer disse alto: – “... Mas eu ficava imaginando: se fosse eu tivesse tido sina outra. sendo só um coitado morador. eu só queria era ter nascido em cidades. teimei e inteirei: – “Só o Que-Não-Fala.” E: – “Uém?. Só o demo. espantado. como era pois que agora eles podiam estar meus amigos?! O senhor releve o tanto dizer.. podiam chegar lá. Algum fez o pelo-sinal. Então? Mas. aqueles que agorinha eram meus companheiros. Aí.” Disse. o que eu não pensei. façanhosos. Ateado no que pensei. firme: – 579 – . Mas Diadorim. Seja. avançar em mim. mas assim foi que eu pensei. cometer ruindades. Não gosto de me esquecer de coisa nenhuma.. o Que-Não-Ri.

Mas. Mas quem me instruiu disso. ao mau respeito. nos gerais da Bahia. aquela escuridão queria mandar os outros embora. E. foi o Lacrau.” Vigiei Diadorim. mas redito que possuía gados e fazendas. se tinha sabido daquilo.. definitivamente por morte. A terra dele. ele me respondia. por que sinais se – 580 – . certo! O inimigo é o Hermógenes. todo o mundo sabe. neste sertão. Assaz de contente. O que Diadorim reslumbrava. aquele que à custa de riscos conseguira nos Tucanos se baldear para o meio de nós. enquanto Deus dura. o que a gente acabava de fazer. Reponho: em tanto já estava noitinha. Vi como é que olhos podem. escurecendo. entestando nos fundos. o que se contava? Pois era – o Lacrau me confirmou – o Hermógenes era positivo pactário. até em escritos no jornal já saiu o nome dele. para lá do Alto Carinhanha. ele levantou a cara. muitas coisas. era o julgamento do Hermógenes. Hermógenes Saranhó Rodrigue Felipes – como ele se chamava. hoje. Desde todo o tempo. entre nós dois. e no Rio das Fêmeas. na ocasião. sem ninguém saber.. me lembro de hei-de me lembrar. Se era verdade.Grande Sertão: Veredas – “Que sim. A ele dei de perguntar. consoante relatei. Diadorim tinha uma luz. e no Rio do Borá. nem nós mesmos no exato. não se tinha noção qual era.João Guimarães Rosa . veja.

quero lá não navegar por detrás das coisas. nunca perdia nem adoecia.. Lacrau. o que é que vale? Que é que a gente faz com alma?. que essas coisas são por um prazo.. – 581 – . sempre sobrevinha para corrigimento alguma revirada. tudo. Ele me dizia que a natureza do Hermógenes demudava.. Ora. não favorecendo que ele tivesse pena de ninguém. não. não é para marcar a meia-noite nessas encruzilhadas.. era capaz de fechar desse pacto?” – eu indaguei. se avezando por cima de todos.João Guimarães Rosa . arrumava. nem respeitasse honestidade neste mundo.. medonha mais forte que a de reza-brava..... Se diz. muito mais própria do que a de fechamento-de-corpo. – “Ah.” Mas a valência que ele achava era despropositada de enorme. no instinto derradeiro. Assinou a alma em pagamento. ele foi sempre muito pontual. e.. você. Pactário ele era.” O Lacrau se ria.Grande Sertão: Veredas conhecia em favor dele a arte do Coisa-Má. sendo que. só por acento. sangrado sem razão. com tamanha proteção? Ah. o que queria. Coragem minha é para se remedir contra homem levado feito eu. O que é porque o Cujo rebatizou a cabeça dele com sangue certo: que foi o de um homem são e justo. E como era a razão desse segredo? – “Ah. – “Você. mano. no fim de qualquer aperto. – “Pra matar. que não cede nenhum valor à alma. pois porque ele não sofria nem se cansava.

com a roupinha nova e o chapéu novo de couro. quando se vê quando se vem da banda da Mãe-dos-Homens – surgido alto nas nuvens nos horizontes. Só o Hermógenes. o Reinaldo.João Guimarães Rosa . Rúim. até de acabar com Joca Ramiro.” Calado. para toda certeza. Outras informações ele disse. Esse Lacrau tirava a sensatez da insensatez. Às parlendas. então não houvesse. na canoa – 582 – . Ele. de tudo tinha sido capaz. a maldade pura.. arrenegado. O fato fazia fato. Diadorim. O medo. essas criaturas. que todos acabavam tendo do Hermógenes. cri.Grande Sertão: Veredas enfrentar a Figura. me lembrei dele como menino. um homem. legítimo. considerei comigo. mas inteirado. bobéia. era que gerava essas estórias. o resto. Mas. no existir dessa gente do sertão. O senhor não é como eu? Sem crer. em tantas alturas. Assim eu discerni. guiando meu ânimo para se aventurar a travessia do Rio do Chico. o quanto famanava. muito estudantemente. Nem birra nem agarre eu não estava acautelando. que havia. Em tudo reconheci: que o Hermógenes era grande destacado daquele porte. sorrateiro. Mas Diadorim era quem estava certo: o acontecimento que se carecia era de terminar com um. um homem mais homem? Os outros. Até amigo meu pudesse mesmo ser. por bem dizer. destemido. senhoraço.. igual ao pico do serro do Itambé.

Grande Sertão: Veredas afundadeira. Mas em tanto. sem honradez costumeira. a esquecida formosura. pois. Sei que eu queria uma saudade. A ser que se nublando a sustância da recordação. do Pactário! O que era o direito. e eu. lá na Santa Catarina. Assim a nossa conversação de amor. cada vez.João Guimarães Rosa . ditas conforme digo – não toco no nome de Otacília? Nela eu queria pensar. O que eu pensei. a possibilidade capaz. Mas eu achei. de minha extração e da minha pessoa: a certeza de que o pai dela nunca havia de conceder o casamento. Esse menino. que se tinha. escutada de outra pessoa contar. com as mudanças e peripécias. Mas rebotei de lado aquelas orações. as coisas vão enqueridas com muita astúcia: um dia é todo para a esperança. a razão. o seguinte para a desconsolação. O senhor não quer. Para isso rezei. não me davam nenhuma cortesia. é que éramos destinados para dar cabo do Filho do Demo. Elas. As quantias por paga! O senhor entende. deu de ser assim. entalado na perdição. a todas as minhas Nossas Senhoras Sertanejas. A razão maior. nem tolerar meu remarcado de jagunço. o que conto assim é resumo. Só um vexame. achava mais custoso. o senhor não está querendo saber? – 583 – . mas mal que. era uma. na água fina e no ar dos ventos. no afinco de tudo lhe referir. era feito eu lavrasse falso. na ocasião. não consistisse mais do que em uma estória alheia. no estado do viver. aí.

sem motivo para não. Nem. Aquilo. deveras. Alguma coisice por principiar. engasga. mesmo em tendo vontade. para satisfazer honra de minha opinião. pudesse se dar alguma visão.. somente que fosse. Não é que. no passo daquilo. já está ciente o senhor? Aquilo.” – era como eu me aprazava. acertar aquela fraqueza. antes da hora. Ah. E veio mesmo outra manhã. por mim – só a invenção de coragem. agora. E eu me enviava pelo sério. alguma espécie aquilo continha? Na verdade real do Arrenegado.. sem assunto.João Guimarães Rosa . qualquer dia destes. Duma meia-noite. de sopesar minhas seguidas forças. como quem saca sua faca para relumiar. que falei. O que eu tinha. com isto. – “Ah. esperar o Maligno – fechar o trato. eu decidi comigo: – É hoje. Delonguei. Nem eu cria que.. Aquilo – era eu ir à meia-noite. na encruzilhada. Ao que. eu não cria. Só para confirmar constância da minha decisão. qualquer hora... E. como quem pula a largura dum barranco. pois digo. fazer o pacto! Vejo que o senhor não riu. Sem motivo para sim. a célebre aparição. Uma precisão eu encarecia: aí. hoje. Também tive. que eu ainda não tinha sido capaz de executar. o resto.. ah – tomara eu ter! Rir. O que – 584 – . não foi de medo. O dum dia. Mas dessa vez eu ainda remudei. duma noite.Grande Sertão: Veredas Aquilo.

cujo a Coruja era que era o nome. Diadorim. por um desses impossíveis de Zé Bebelo. passa um bando de papagaios. Mas os papagaios estão voando já longe. e o rumor deles. faz que nem estivessem retornando. por aquele tempo eu quase não abria boca para conversação. e se representando. balançando chapéu vermelho emplumado. e como se despedia. conforme o vento. por entre chorinhos e estados austeros. no estrondo e forte enxofre. na morte das horas. medonho como exigia documento com sangue vivo assinado. canhim. Só que não falasse. o senhor pensa que eles levaram de sua pessoa alguma diversão. mesmo quando estremecia. Com isso. por que era que eu não ia poder? E o mais – é peta! – nonada. o tempo mais parava. fazia mais de mês que a gente estava naquela tapera de retiro.João Guimarães Rosa . – 585 – . manquinho. esse. e daí erguido sujeito diante de homem.Grande Sertão: Veredas algum tivesse feito. Eu não acreditava. nunca teve instante desiludido. depois. Sempre eu gostava muito dele. Ao que mais foi que aconteceu ali? Bem. por cima dos pés de bode. soforma dalgum bicho de pêlo escuro. Também. beiçudo. Do Tristonho vir negociar nas trevas de encruzilhadas. T’arreneguei.

com simpatias ou com desprezos. outra vez. cavalo de cara alta. junto com um miúdo comportamento. estava curvado para o chão. Aí logo se soube: era o dono daqueles lugares. Olhares de dono – o senhor sabe. cavalo que debruça bem e que em poço bebia remolhando a testa. Mas o cavalo – esse me entusiasmou: era um animal gateado. um deles se vendo que sendo patrão. seô Habão se chamava. Bem. e respirava para dentro dos peitos a maior quantidade de ar que desejava. mas seguro com a mão esquerda na rédea de seu cavalo. E vigiava os traços simples do arredor. Seô Habão estava conversando com Zé Bebelo. notei que tinha boa catadura. como era que estavam em que pé.João Guimarães Rosa . e calçando pretas botas joelhudas. quando dei fé. Quando levantou o olhar. com imponência e todo brio. por quantas ventas tão largas ele tinha. ele já tinha se apeado. não perdendo azo de reparar em todas as coisas. grande. conforme já disse. vestido com brim azul encorpado escuro. e ele. Admirei a noção dele: que era uma calma muito sensata e firmada. Ele sabia olhar redor-mirado a gente. Era um homem de boa idade. E – 586 – . dele depois lhe conto. do retiro do Valado. principalmente. de beiço mole. Ali. e mais tarde o senhor verá o que ele era. de rabejo vasto. quando não se esperava.Grande Sertão: Veredas E se deu que chegaram lá dois homens. e o outro algum vaqueiro de seu serviço.

como por uma regra. Mas. patrício meu amigo. dali a umas vinte léguas de lonjura. estava desprevenido. nem deixando o outro estipular: – “Ah. com seus modos guerreiros. à fidalgamente. ele havia de fornecer ademais um auxílio.. não transportava consigo o dinheiro razoável. na vertente do Resplandor. Zé Bebelo abriu um gesto. que sua boiada toda estava às ordens. mais ou menos. de sobra. Por aí. E ele falou aquilo com tantas sinceras medidas – a gente se capacitando do profundo que o dinheiro para ele devia de ter valor. he.” O homem depressa pronunciou que tinha prazer naquilo.João Guimarães Rosa . perguntou assim mesmo quantas cabeças. a – 587 – .. isso não. que temos carneado. na ocasião. mas. mas absolutamente! A gente não é gente da desordem. em espórtulas. vi que ele era adiantado e sagaz.. Mas que. E favor..Grande Sertão: Veredas assim foi que ele declarou a Zé Bebelo que. nós já devemos ao senhorpela pousada em suas terras e pelas cabeças de gado de sua posse. é a primeira que ouve e se sacode e corre – e mesmo em quando tenha razão. se a gente desse a ele o gosto de seguirmos até à verdadeira sua fazenda-grande que possuía. por precisão de sustento. no chapadão. Porque: ema.

e espiava gerente para tudo. mas que jagunço não passa de ser homem muito provisório. O que me dava a qual inquietação. sutil. Serras que se vão saindo. Assim ele dava balanço. é só a fazer outras maiores perguntas. de jagunço chefe famoso. mais. como se até do céu. Tem de todas as coisas. e das doenças sucedidas. com a idéia na lavoura. que escutava com respeito. Eu pensei: enquanto aquele homem vivesse. Por causa que o outro era diferido. se aprende.João Guimarães Rosa . mas o que se aprende. E ele era sertanejo? Sobre minha surpresa. Em como Zé Bebelo aos poucos mais proseava. e daí. composto em outra séria qualidade de preocupações. inquiria. devagarzinho pegava a fazer perguntas. Vivendo. – 588 – . e do vento suão. nos trabalhos perdidos daquele ano. que era de ver: conheci que fazendeiro-mor é sujeito da terra definitivo. E seô Habão. que era. homem carecesse de cuidar comercial. com ensejos de ir mostrando a valia declarada que tinha. a gente sabia que o mundo não se acabava. Fiquei notando. para destapar outras serras. se reconhecia da parte dele um certo desejo de agradar ao outro.Grande Sertão: Veredas gente já tinha consumido. por desando das chuvas temporãs e do sol grave.

Mas. Eu. que somente a estância dele. quando se falava em loca Ramiro. em frente. que não se destorce. ou. no feijãoda-seca e nos arrozais cacheando. era para se querer longe da gente. da formosa cidade de São Francisco – que é a que o Rio olha com melhor amor. Ele só entendia de assuntos triviais. Com efeito. Daí. conferia e reprovava. seô Habão. digo – me disse: que um homem assim. não tinha sincero jeito possível: porque ele era de raça tão persistente. E. no mais. pois. o certo foi que não sosseguei até poder me – 589 – . mas cuidava deles com uma força vagarosa. então. fincado sempre para o seu arrumo. não sei o que Zé Bebelo sentia nem achava. de boi-decoice. era um toco de pau. só por um doente desejo de necessidade de ver bem se aquilo era.João Guimarães Rosa . Porque seô Hahão.Grande Sertão: Veredas E Zé Bebelo mesmo se cansava de falar demonstrado. que logo se exigisse e deportasse. já media. e nas boas leiras de vazante. nos intervalos daquela dividida conversa. verdadeira. no Hermógenes e no Ricardão. assim ia sendo que. em tiroteios com os praças e na grande tomada. mansoso e manso. apesar de toda a cortesia de respeito. mesmo sem sentir. Do contrário. em que os passarinhos de Deus viram em a má praga. o próprio Zé Bebelo se via principiando a ter de falar com ele em todas as pestes de gado. sem glória nenhuma. por quinhentos cavaleiros. nem ouvia. no diverso da nossa. sei lá.

fazendo como se menos quisesse. – “. e que – 590 – .Grande Sertão: Veredas presenciar com ele.. E nem custoso não me foi. O que eles deixaram em pé. Dei um jeito.. Ele nem deu ar de interesse no fato. Seô Habão me olhou com tantã norma desusada. e vim em fala.” – eu disse. Disse: .” E o que indagou foi se eu soubesse se tinham feito muitos estragos nos canaviais. E contei a ele que a referida patente eu tinha por cautela apanhado do chão e guardado dentro do oratório.João Guimarães Rosa .. que tinha aprontado para declarar. e inventar conversação. Assim. Estou ciente dos que morreram: foram só dezoito pessoas. e num relance eu conheci que estava também tendo de falar o p’r’ agradar. na casa do Valado. por detrás das imagens dos santos. – “Seô Capitão Habão. o que dissertei foi que eu sabia do título de capitão que ele usufruía.. que de roubos a furtos a gente do Sucruiú tinha devastado. por ter relido o diploma. que eu senti minhas falsidades. perguntou nada.“A bexiga do Sucruiú já terminou. quase que o dia todo... não me agradeceu por isso. E esqueci as palavras primeiras. porque ele passou ali com a gente muitas horas. perto a perto.

.. Ao que. O feijão.” Agora ele conservava os olhos sem olhar. eu. lá. para capinar e roçar.. sem calor nenhum. Zé Bebelo. – “Para o ano. aqueles do Sucruiú. circunspecto. Mas eu não tinha raiva desse seô Habão. criaturas de toda proteção apartadas.. sempre há-de dar uns carros. e aquele seô Habão olhava feito o jacaré no juncal: cobiçava a gente para escravos! Nem sei se ele sabia que queria. que seria meditável. se Deus quiser. De ouvir ele acrescentar assim. Eu tinha era um começo de certo desgosto.. deu em mim. que ele não era antipático. pensava aqueles capítulos. que a gente pudesse dar os braços.Grande Sertão: Veredas lobo ou mão-pelada não roeram. E espiou para mim. fossem juntas-de-bois em canga. com aqueles olhos baçosos – aí eu entendi a gana dele: que nós. num vagar vago. com a mesma voz. Ao que a rapadura havia de ser para vender para eles do Sucruiú. arriscando a vida. era um desadoro. Diadorim. feito jornaleiros dele. se move moagem. muito arroz. que depois pagavam com trabalhos redobrados. que nós éramos.João Guimarães Rosa . foram umas nervosias. boto grandes roças no Valado e aqui. Os jagunços destemidos.” Ele repisava.. Acho que a idéia dele – 591 – . de repente. milho. e colher. que o que se podia estender em lavoura. Até enjoei. e todos os companheiros. mesmo. Disse que ia botar os do Sucruiú para o corte da cana e fazeção de rapadura. juro ao senhor.

Nós íamos virando enxadeiros. esse não se entusiasmava. Estava picando fumo no covo da mão. Pudesse. muito diferente da de jagunço. e sangue – 592 – . E ele cumpria sua sina. porque jibóia constraga mas não tem veneno. Porque ele era um homem que estava de mim em tão grandes distâncias. precisava de todos como escravos.João Guimarães Rosa . ah. um seô Habão. havia de ser costumeira e surda. um condescendido: vinte. garanto ao senhor que não esperdiçava nem o átomo dumas felpas.. A alegria dele era uma recontada repetição. trinta carros de milho. com a chuva. ligeiro logo era capaz de ficar cheio de influência: exclamar que assim era assim mesmo. Zé Bebelo. Nós? Nunca! Mas. eu antes queria ver chegar duma vez os do Hermógenes. Mas a natureza dele queria. cada coisa obedecia. para esse ô-Brasil! Em peta.. E ele dava ordens. em galopadas e gritos. cada bicho. e ai para se ouvir. os mil alqueires de arroz. para se transformar aquele sertão inteiro do interior. de reduzir tudo a conteúdo.Grande Sertão: Veredas não arrumava o assunto assim à certa. A raiva não se tem duma jibóia. Cada pessoa. para um bom Governo. Ordem que dava. berrando rifles em todo fogo. Ainda confesso declarado ao senhor: eu não tivesse raiva daquele seô Habão. Era só os carros-de-bois carreando a cana. que esses projetos ouvisse. economizava até com o sol. com benfeitorias. então. que.

tudo aquilo de que era dono – e ele havia de choramingar. seô Habão. o senhor conhece meu pai. fazendeiro Senhor Coronel Selorico Mendes. feito quem esquenta mãos por cima dum fogo fumacento. com a estirpe daquele seô Habão. A misericórdia. e tatear. Natureza da gente não cabe em nenhuma certeza. Seô Habão sacudia em sim a cabeçona. Aí era que iam saber o que sebaceiro é! E. eu quase tive. tirassem dele. que nem criancinha sem mãe. facilitado. – “Dou notícia. Mas. foi que acertei meu correão com as armas. feito ceguinho catando no chão o cajado.. e pronunciei: – “Duvidar. Do que destapei: que um desses. devagar. diante de mim. surpreendido mas circunstante. Aquele olhar eu agüentei. do São Gregório?!” Pensei que ele nem fosse acreditar. Regozijei.. tomassem. recrescer e tornar a minguar – isto tudo no meu juízo – nem sei – 593 – . mas não regozijei completo. De ver o homem.. juro ao senhor: ele me olhou com muitos outros olhos.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas para quem ver pudesse.. como era. por um despique. de repente.” – ele quase que se lastimou. também. Nem sei se ele sabia que meu Padrinho Selorico Mendes fosse. toda a vida. Dou notícia. em pé. muito mais fornecido de renome e avultado em posses. conforme até por estes sertões do gerais se contava.

e se foi. que acompanhava o seô Habão. como que à espera de destino.. em entre o Fazendão Felício – que é na beira da estradamor para esse poente todo – e o Porto velho da Remeira. menos dia. em conversa distraída com algum ou com outro. todo o mundo acaba vindo chegando. E. com uns outros... Isso com a certa alegria se ouviu. andavam parapassando. Depressa então falaram o assunto ciente para Zé Bebelo. no rumo torto do Valado. por acasos mencionou que um bando de uns dez homens. ei. com pouco. dois próprios. Sobre assim. jagunços também. de rompido. para lá. porque eram novidades acontecendo. pelo dito e visto. Pois foi que o vaqueiro tal. pela descrição: – “Chagas de Cristo! É eles. no rebaixar do sol. mais dia. – 594 – . ele tornou a amontar no seu cavalo gateado. belo. Só pode que pode ser é mesmo o João Goanhá.. aí corria no meio dos nossos um conchavo de animação.Grande Sertão: Veredas de que estimas me esquecia e de que outras me lembrava. egüei. no rio Paracatu – aonde. que reconheceu. fato que ao senhor retardei: devido que mesmo um contador habilidoso não ajeita de relatar as peripécias todas de uma vez.João Guimarães Rosa . que tocassem ligeiro como sem senões e voltassem trazendo os comparsas amigos.” E instantâneo expediu.

fuscava. nunca mais eu ia receber coragem de decisão. o Solto-Eu. Somente com a alegria é que a gente realiza bem – mesmo até as tristes ações. Eu ia. em espécie de necessidade. e que a gente carecia de sair de novamente por ali. De Zé Bebelo. eu firme estava. Fazia muito tempo que eu não descabia de tão em arrojo. Pensei naquele seô Habão. o Manfarro. Quem que não existe. O aquilo. E tanto mesmo nas idéias pequenas que já me aborrecendo. Senti esse intimado..Grande Sertão: Veredas Afora eu. Agora. Eu pensava na vinda de João Goanhá. e em aquele dia. Achado eu estava. A resolução final.. demais: que ele havia de – 595 – . o Tendeiro. que – agora eu ia! Um tinha de estar por mim: o Pai do Mal. A não me apartar à-toa dali – das VeredasMortas! Sombra de sombra. dia contra dia. e por causa de tantos fatos que estavam para suceder. soberbo? Da mão peluda. Retrocedi de todos. que tomei em consciência. E essas coisas desconvinham em mim. Ah. Ao que eu estivesse destemido. por quê? Tem alguma ocasião diversa das outras? Declaro ao senhor: hora chegada. o Ele. feito naquela hora. por terras e guerras. Dou: que nunca. que nem num transtorno? Mais não sei. Porque eu estava sabendo – se não é que fosse naquela noite. foi entardecendo.João Guimarães Rosa .

essa lembrança branda.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas desconfiar. Ali esvoaçavam as estopas eram uns caborés. depois. no singular de meu coração. Depois. Ah. E eu ia estudando tudo. Varei a quissassa. A noite viesse rodeando. por meu querer. De Diadorim refugi. Um caminho cavado. dou dito: o que eu gostava tanto de Diadorim. deixa a agüinha das grotas gruguejar sozinha. Eu caminhei para as Veredas-Mortas. Deus deixou que eu fosse. friazinha. como nenhuma outra árvore nomeada. Há-de. Aí. então eu subi de lá. era o cerrado mato. como fui. sai de seu escondido e vem pastar. dizer o que era desordens que cabeça de homem não cogita. de minha ação. Deus me tenha! Adjaz o campo. E escolher onde ficar. tinha um escrúpulo – queria que ele permanecesse longe de toda confusão e perigos. E. noitinha – hora em que capivara acorda. tinha um lance de capoeira. Deus é muito contrariado. e de ramos muito voantes. conforme o senhor sabe. fui surgindo. Ainda melhor era a capa-rosa – porque no chão bem debaixo dela é que o Careca – 596 – . em pé. Lugar meu tinha de ser a concruz dos caminhos. O que tinha de ser melhor debaixo dum pau-Cardoso – que na campina é verde e preto fortemente. minha Nossa Senhora ainda marque em meu favor.

querendo. Viesse. Esperar. que mesmo com o escuro e as coisas do escuro. a escuridão deu. Eu fosse um homem novo em folha. E ele vinha para supilar o ázimo do espírito da gente? Como podia? Eu era eu – mais mil vezes – que estava ali.Grande Sertão: Veredas dança. O que eu estava tendo era o medo que ele estava tendo de mim! Quem é que era o Demo. com o estado e aspecto. e que por isso de caparosa-dojudeu nome toma. O – 597 – . Eu não queria escutar meus dentes. do que eu vinha em cata. em que não cresce nem um fio de capim. A encruzilhada era pobre de qualidades dessas. E eu não percebia nada. Mas eu tirei de dentro de meu tremor as espantosas palavras. o Sempre-Sério. Isto é. Cheguei lá. tudo devia de parar por lá. vinha para me obedecer. viesse. e por isso ali fica um círculo de terra limpa. Desengasguei outras perguntas.João Guimarães Rosa . Primeiro. Minha opinião não era de ferro? Eu podia cortar um cipó e me enforcar pelo pescoço. Trato? Mas trato de iguais com iguais. Não havia. o Pai da Mentira? Ele não tinha carnes de comida da terra. Talentos de lua escondida. Medo? Bananeira treme de todo lado. pendurado morrendo daqueles galhos: quem-é-que quem que me impedia?! Eu não ia temer. não possuía sangue derramável. próprio para afrontar relance tão desmarcado. Destes meus olhos esbarrarem num ror de nada. era o poder meu. eu era que dava a ordem.

Ele tinha que vir. acho que não queria mesmo nada. De repente. quem copia o riso da coruja. Arrepia os cabelos das carnes. entregue ao que outro queira fazer. das reformas do Inferno – ele já devia de estar me vigiando. Como é possível se estar. demorão ou jajão.João Guimarães Rosa . Tinha de vir. espojeiro de bestas na poeira rolarem. aí é que bate o ponto. E por isso eu não tinha licença de não me ser. para mais medo. ah. não tinha os descansos do ar. eu já estava perdido provisório de lembrança. de quase tudo quanto fosse diverso. o que era que eu queria? Ah. Arre. E. Mas. em que formas? Chão de encruzilhada é posse dele. nem cansaço. de – 598 – . Nem eu queria me lembrar de pertencências. ele podia se surgir para mim. desarmado de si. que eu tinha comparecido ali. e da primeira razão. e mesmo. ou momenteiro com o silêncio das astúcias. A minha idéia não fraquejasse. o cão que me fareja. Nem eu pensava em outras noções. Feito o BodePreto? O Morcegão? O Xu? E de um lugar – tão longe e perto de mim. o gritado. com um catrapuz de sinal. se existisse.Grande Sertão: Veredas chirilil dos bichos. existia. E não conheci arriação. no se desmedir de tapados buracos e tomar pessoa? Tudo era para sobrosso. por qual era. Naquela hora.

” – eu mesmo sozinho conversei. quase encostada em mim. A vulto. – já tinham afundado. eu queria. mas que o desconhecido era. E qualquer coisa que não vinha...Grande Sertão: Veredas tanto que eu queria só tudo. Ao que não vinha – a lufa de um vendaval grande. o surro dos ramos. até que descendo. Eu queria ser mais do que eu.. a coisa. como era que eu queria. E em troca eu cedia às arras. sentado de estadela bem no centro. mas o cruzeiro ainda rebrilhava a dois palmos. Não vendo estranha coisa de se ver. tudo – 599 – . nem as três-marias. Carecia. contravisto. de que jeito. tudo meu. Uma coisa. “Deus ou o demo?” – sofri um velho pensar. Decidi o tempo – espiando para cima. uma árvore mal vestida. feito tudo: que eu então havia de achar melhor morrer duma vez.° esta coisa: eu somente queria era – ficar sendo! E foi assim que as horas reviraram. até. caso que aquilo agora para mim não fosse constituído. O que eu agora queria! Ah. Mas. permanecer. Ser forte é parar quieto. – “Estou rouco?” – “Pouco. Tossi. duvidável. acho que o que era meu. – eu quis falar. que? Feito o arfo de meu ar. com Ele em trono. para esse céu: nem o setestrelo. eu podia. O cote que o frio me apertava por baixo.. Ah.João Guimarães Rosa . – A meia-noite vai correndo.

toda. eu mero me lembrava – feito ele fosse para mim uma criancinha moliçosa e mijona. Do Hermógenes.. do que o pavor d’Ele – e lamber o chão e aceitar minhas ordens. eu queria. mesmo. Eu muxoxava. e isso figurei mais por precisar de firmar o espírito em formalidade de alguma razão. e desalma. Como era que isso se passou? Naquela estação. Aheu. eu nem – 600 – . eu podia. Eu esperava. eu! “Deus ou o Demo – para o jagunço Riobaldo!” A pé firmado. Feito Ele. existido. aquela firmeza me revestiu: fôlego de fôlego de fôlego – da mais-força. Nós dois. na rua. aquela crista eu repuxei. tirada a mando. Ah. Cobra desfecha desferido. A já que eu estava ali.João Guimarães Rosa . de setenta e setentas distâncias do profundo mesmo da gente.. p’r’ ali.. no meio do redemunho.. ri. a formiguinha passeando por diante da gente – entre o pé e o pisado. o Danado – sim: para se entestar comigo – eu mais forte do que o Ele. eu ali ficava. no dobar. ele não. e tornopio do pé-devento – o ró-ró girado mundo a fora. e do mundo em maior. o Diabo. em seus despropósitos. A que vem.. Deus e o Demo! – “Acabar com o Hermógenes! Reduzir aquele homem!.. Somei sensatez. funil de final..Grande Sertão: Veredas o mais – alma e palma. Ele – o Dado. desses redemoinhos: . Mas. de maior-coragem. Cobra antes de picar tem ódio algum? Não sobra momento. se deu. amassava. Espremia.. eu. dá bote. eh! De dentro do resumo.” –.

Digo direi. de passarinho ninhante mal-acordado dum totalzinho sono. esta vida. para o desenlace desse passo.” Só outro silêncio. Ele não existe. e o sapo-cachorro. Não. Foi. – “Lúcifer! Satanás!.” – aí eu bramei. Nada. tão arranhão. E que termina num queixume borbulhado tremido.João Guimarães Rosa . Então. Ah. O que a noite tem é o vozeio dum ser-só – que principia feito grilos e estalinhos.Grande Sertão: Veredas sabia maiores havenças. eu espantava qualquer pássaro. é terrível bonita. de verdade: eu estava bêbado de meu. e não apareceu nem respondeu – que – 601 – . ele não queria existir? Existisse. desengolindo. Viesse! Chegasse. Remordi o ar: – “Lúcifer! Lúcifer!.. E foi aí. às nãovezes. horrorosamente. esta vida é grande. assim. – “Ei. Sapateei. demais.. Lúcifer! Satanás.. em mim tudo era cordas e cobras. O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo. e a hora em vão passava. eu. então me assustando de que nem gota de nada sucedia. dos meus Infernos!” Voz minha se estragasse..

daí umas tranqüilidades-de pancada.. pronto de parir. A mor. esbarrado lá. avante. que corrubiam. ou. bem na descida. com efeito. branquejavam aqueles grossos de ar. que medeia.” Assim parava eu.João Guimarães Rosa . Aquilo foi um buracão de tempo. que lubrinam. de meus íntimos esvaziado. fechou o arrocho do assunto.. no burro do lugar. Porque a noite tinha de fazer para mim um corpo de mãe – que mais não fala. Ao que eu recebi de volta um adejo. eu querer saldar: que isso não é falável. das – 602 – . Mas como que já estivesse rendido de avesso. a conforme a ciência da noite e o envir de espaços. As coisas assim a gente mesmo não pega nem abarca. Mas eu supri que ele tinha me ouvido. Como que adquirisse minhas palavras todas. me reduzindo. Me ouviu. Cabem é no brilho da noite.Grande Sertão: Veredas é um falso imaginado. Vi as asas. Lembrei dum rio que viesse adentro a casa de meu pai. Aí podia ser mais? A peta. a gente não entende? Despresenciei. naquele átimo. – “E a noite não descamba!. Aragem do sagrado. nem firmava em nada minha tenção. As quantas horas? E aquele frio. Absolutas estrelas! Pois ainda tardei. um gozo de agarro. Dos marimbus. por reles desânimo de me aluir dali. quando o que fala. Arquei o puxo do poder meu.

Eu jazi mole no chato. saí. piorava aquele desleixo de frio. A claridadezinha das estrelas indicava a raso a lisura daquilo. no folhiço. os passarinhos na madrugança. O ermo do lugar ia virando visível. Desentendi os cantos com que piam. Anta por ali tinha rebentado galhos.. feito se um morcegãocaiaria me tivesse chupado. Curvei. no mermar da d’alva. bebi. a bem dizer por um caminho sem expedição. de retorno. fiquei permanecendo. Ao perto d’água. no me rigir. Meu corpo era que sentia um frio. para a beira dos buritis. E. Desci. aonde o pano d’água. e estrumado. O não sei quanto tempo foi que estive. Nunca em minha vida eu não tinha sentido a solidão duma friagem assim. assim mesmo me requeimava forte sede.Grande Sertão: Veredas Veredas-Mortas. E a água até nem não estava de frio geral: não apalpei nela a mornidão que devia-de. um pé de breubranco. de si. nos casos de frio real o tempo estar fazendo. fui vindo m’embora. com o esboço no céu. Garoa da madrugada. tinha derreado as forças comuns do meu corpo.João Guimarães Rosa . bebi.” Soporado. Eu encostei na boca o chão.. Só levantei de lá – 603 – . E se aquele gelado inteiriço não me largasse mais. Abracei com uma árvore. Foi orvalhando. frior de dentro e de fora. Eu tinha tanto friúme. As barras quebrando. – “Posso me esconder de mim?. Ali era bebedouro de veados e onças.

. Ao alembrável. desperdiçado. no momento. pegou da maleita?” – algum me perguntou. quando o jacaré estava terminando de coar café. o desatino daquela noite. E mesmo com o sol saindo bom. cacei um cobertor e uma rede. e eu queria aliviar da recordação. Aquilo se arruinava. O demônio é o Dos-Fins. Isso era um sinal? Porque os prazos principiavam. pelo chão. senhor – o senhor não puxa o céu antes da hora! Ao que digo. nem pudesse. Aí mesmo. nem p’ra que. assaz alguma vez raciocina. o Severo-Mor. cisado. no baixo do pau-de-vaca. de lá em diante. Sonhar. Assaz a gente vive.João Guimarães Rosa . que de primeiro antecipava meus dias e noites. Senhor. ainda avistei uma meleira de abelha aratim. só. não. ligeiro. era que eu pensava sem querer. no meio das folhas secas e verdes. não digo? Cheguei no meio dos outros. o que eu fazia. fui ecogitando: que a função do jagunço não tem seu que. Arte – o enfim que nada não tinha me acontecido.Grande Sertão: Veredas foi com fome. o Austero. aquele jogo fácil de costume. o mel sumoso se escorria como uma mina d’água. Tudo agora – 604 – . – “Que os carregue!” – eu arrespondi. Aporro! Sabendo que.. perdi pago. – “Tu treme friúra. o pensar de novidades. E. Assim eu estava desdormido. jamais nunca eu não sonhei mais.

Tatarana? Quem te veja. normal. não voltava. por imitação de troça. Mas. nesse falar.João Guimarães Rosa . E fui vendo que aos poucos eu entrava numa alegria estrita. voltou não. E eles. com o seguinte. eu repetia os ditos vezeiros de Zé Bebelo em tantos discursos..Grande Sertão: Veredas reluzia com clareza. como que o trivial da tristeza pudesse retornar. quase sem esbarrar. contente com o viver. assim. tão falante. – “Uai. e pensava o qual. relatando mediante certos floreados umas passagens de meus tempos. sem nem que fosse por minha própria vontade. ocupando minhas idéias. Eu estava. por oras. Até eu não puxava por isso. Nos começos. assim mesmo. Ah. o Alaripe perguntou. e depois descrevendo. E. o todo tempo. Será que de mim debicavam. aquilo bem que achei esquipático. Mas. os benefícios que os grados do Governo podiam desempenhar. neles eu topava outra razão. os companheiros. remediando o sertão do desdeixo. os sestros de Zé Bebelo.” – me perguntaram. de fatos esquecidos em muito remoto. A dizer. vim aceitando esse regime. por justo. com efeito. eu não me afoitei logo de crer nessa alegria direito. o que eu pelejava era para afetar. por diversão. não me – 605 – .. e de tantas coisas passadas diversas eu inventava lembrança. mas apressadamente.

– “Os mestres.” – o Àlaripe dissesse. por um súbito medo que nele deu. de que de alguma noite pudesse não saber mais como se acordar outra vez.. mano-velho. nesta vida? Pois eu nem costumo nunca xingar ninguém de filho daquela ou dessa. de repente.Grande Sertão: Veredas entendiam. e no inteiro de seu sono restasse preso.” Assim a eles eu disse.. – “Certo de que. e logo pegaram a rir. E eu relanceei. que está certo. numa fungação.. está certo. amigo. e falei o que era que a gente precisava: – 606 – .João Guimarães Rosa ..“Deveras. de miséria melhorada. Tanto. inteirou. nos Aiáis. apreciando me ouvir. e fuxicando o nariz. Mais me acudiam dessas fantasias. . Aquilo não tolerei. Esse vesgueiro Rasga-em-Baixo. eu contei a estória de um rapaz enlouquecido devagar. não longezinho da Vereda-daAldeia: o qual não queria adormecer. o qual entornava de lado a cabeça. gastando ar demais.. o que respirava três vezes forte. que foi só entenderem. Aí riam. o Rasgaem-Baixo.” – outro. Desentendi e impliquei. Tanto enquanto riam. por receio de que seja mesmo verdade..

para se terminar com a maleita. Portador foi. Com Zé Bebelo. e daí todos aprovaram. o dizer: – 607 – .Grande Sertão: Veredas – “Urgentemente é se mandar portador. por cima das minhas palavras. e remeter para a gente as notícias e deixar traço nos lugares.” – Zé Bebelo me contestou.. a lugar de farmácia. Eu tinha enjôo de toda pasmacez. que há. falei: – “Chefe. de imediato. me dava raiva. curto.João Guimarães Rosa . Do fim. por um exemplo.. que cace de entrar para o bando dos Judas. mais Zé Bebelo com aquilo concordou. Tatarana. porque eu naquela hora achava Zé Bebelo inferior. Ou que mesmo dê jeito de liquidar mãomente o Hermógenes – proporcionando venenos..” – “A maluqueira. isso que você está definindo. para no meio deles observar o serviço que se passa. o que se tem de obrar: enviar algum comparsa esperto. Mas só é maluqueira depois que se sabe que não acertou!” – eu atalhei. comprar adquirido remédio forte. em definitividade!” Disse.. – “Maluqueiras – é o que não dá certo. que alguém falasse contra. e porque. Zé Bebelo retardou em me rever.

sem meio medir o razoado.. Esse era maneirasgrossas. daí.... sentado perto de seus pertences. Eu queria rixar? Figuro de cientificar ao – 608 – . todos tinham mesmo de ser sinceros..João Guimarães Rosa . ou você mesmo..” Mas.. O Balsamão estava ali junto.. para a façanha assim. Só eu.” A dado sincero... Má vontade me veio. quando retornarem para casa.” – “Sol procura é as pontas dos aços. caso se um de vocês tem mulher bonita e nova.Grande Sertão: Veredas – “Um homem. Ao perante diante de minhas presenças. Olh’ lá.. me entendendo bem. Só nos olhos das pessoas é que eu procurava o macio interno delas.” Isso podia ser razão de desguisado. tu é um homem de estúrdia valia... Mas a gente somos garrotes remarcados. torto. Derradeiramente eles estavam muito amigos. eu disse: – “Assunto aí não é capaz que haja? Torto.. nasceu morto. Tatarana.” – eu cortei. Ao tanto que Zé Bebelo completava: –. de dizer. só mesmo se. homem de muito sobrecenho. ele fechou assim: – “Riobaldo. só nos onde os olhos. eu senti. mesmo porque os dois eram da mesma terra – geralistas das campinas. O José Vereda cachimbava.

O que não digo. Apondo em balança. o senhor verá: como é que Diadorim podia ser assim em minha vida o maior segredo? De manhã.João Guimarães Rosa . é fácil. Agora. Daqui veio que Diadorim mesmo estranhou aqueles meus modos. Não ter vergonha como homem. riram. Foram deixando de lado aquela mexida igrejeira. A entender me deu.” Os que riram.. é um tigre leão! Conferindo que nem vergonha eu tive. Mas Diadorim perseverou com os olhos tão abertos sem resguardo. aí. dificultoso e bom era poder não se ter vergonha feito os bichos animais. naquele mesmo dia. E. que é que isso me representava? Tudo eu palpava com os pés. era que eu me espiritava só para arrelias e inconveniências. quando uns estavam querendo tirar oração. não estive que não falasse: – “Reza é começo de quaresma. e eu reminiquei. Amor é assim – o rato que sai dum buraquinho: é um ratazão. ele tinha conversado. com soltura de palavras: como é que ia tolerar conselho ou contradição? Agravei o branco em preto.Grande Sertão: Veredas senhor: o costume meu nunca tinha sido esse.. eu mesmo um instante no encantado daquilo – num vem-vem de amor. nisso eu respingava um tardar. por ser dia de domingo. de me dizer: – 609 – .

coisa que significava.. de outra parte.João Guimarães Rosa . no sertão. Por que é que separação é dever tão forte?.. de longe a longe. Mas.. Diadorim. a gente..... você e eu. E uma vez ele mesmo tinha falado: – “Nós dois. o pai dele? Um mandado de ódio. de fugida.” Aquilo de chumbo era. por cativa em seu destinozinho de chão.. mas Diadorim sentia ódio. o senhor sabe como um rio é bravo? É. Otacília – quando eu pensava nela. Não venci as ácidas picuinhas. esse. deve de andar lá por entre o Urucuia e o Pardo. o Chefe. Mas Diadorim pensava em amor. é que árvore abre tantos braços. no relembrar: – “Aquele.. eu gostava que você pudesse ter nascido parente meu. Parente não é o escolhido – é o demarcado. Um nome rodeante: Joca Ramiro – José Otávio Ramiro Bettancourt Marins. O Hermógenes. de outra parte. dava para tristeza. rolando essas braças águas. hora destas. eu tinha escolhido para o meu amor o amor de Otacília. Eu vim.” – 610 – . era mesmo como estivesse escrevendo uma carta.. No que eu sabia. O parente dele? Querer o certo.” Isso dava para alegria. Riobaldo. toda a vida.Grande Sertão: Veredas – “Riobaldo. Diadorim pertencia a sina diferente. do incerto.

Chefe. por isso. eu já estava carecendo de declarar aos companheiros todos os erros que vínhamos pagando.. que tivessem ido buscar a munição nesse lugar. aos pingos. E. Sem tenção de descrédito ou ofensa. mas duvido de que bem fizemos em restar todos aqui.. Mais ajuizado certo não seria se ter remetido meia-dúzia de cabras. no centrozinho dos olhos. depressinha. Revi que era o Reinaldo. Tremeu. a Virgem-Mãe. em relance em mais.” Zé Bebelo em mal amargo – ele espinoteou com a cabeça. que guerreava delicado e terrível nas batalhas. Como era que era: o único homem que a coragem dele nunca piscava. mas diabrável sempre assim. semelhasse maninel. comprando cura de doenças. Desde. Aquilo era de chumbo e ferro. que isto de mim escutou: – “. e a gente estava mais garantidos. dos sãos. com modos. como eu agora eu estava contente de ver.. foi o único cuja toda coragem às vezes eu invejei. Disse. por motivo do ultimamente.João Guimarães Rosa . me explicou a – 611 – .Grande Sertão: Veredas Ele acinzentou a cara. e que. conforme agora eu ladino deduzia.. arejou os queijos. ao próprio Zé Bebelo. e trazer? Munição já estava aqui. Diadorim.

“Barzabu! Aquieta. estavam ajuntando a cavalhada. Porque ele de tudo já soubesse: foi então que me disse que o extravio nosso tinha sido mais completo. cavalo sempre relincha exagerado. trouxeram reunidos todos os animais. Aí porque a cavalaria me viu chegar. orçado o sol. eu achava até divertido. e eles redondeavam no aprazível – tropilha grande. Mesmo pus a mão no – 612 – . Assim ficaram. com palavras baixas. eu pulei para o meio deles: . então. em vez da Virgem-Mãe para a Virgem-da-Laje. com uma raiva tão repentina. Em outras ocasiões. pondo poeira. que uns suavam. Regulava subida manhã. e. porque a gente tinha vindo em má rota. Mas.João Guimarães Rosa . Figuro explicando ao senhor: desde por aí. que com as orelhas apontavam. e já escumavam e retremiam. dessa viagem. Ardido aquele nitrinte riso fininho. Fiz um rebuliz? Dou confesso o que foi: era de mim que eles estavam espantados. servia para maiores movimentos. Com essas levezas eu seguia a vida. uma notícia dessas era capaz de me perturbar. O que é que cavalo sabe? Uns deles rinchavam de medo. Eu escutei. como não podiam se escapulir para longe. Me avaliaram. e se estrepoliu. tei. dado o alvoroço de muitos cascos. Quando.Grande Sertão: Veredas maior razão. quando. tudo o que vinha a suceder era engraçado e novo. mas murchando e obedecendo. cambada!” – que eu gritei.

juro ao senhor: é fato de verdade. o gateado formoso.João Guimarães Rosa . chicoteou alto no ar. como onça fêmea no cio mor. formados no costume de jagunços. conforme terminou o bufo de bufor. Isto. dos cavalos e as minhas maneiras. deu que veio se esbarrar ante mim. que chegava. . arrufava a crina. O seô Habão estava ali. E o animal dele. o Das-Trevas. estroteantes – gentinha trabalhosa. que emagreceu à vista. Me obedecia. lão. me desentendeu nos olhos. solto da mão do dono. no meio de todos. pôs pernas para adiante e o corpo para trás. Ele ficou a vermelho. esses cavalos. que é de frouxas essas leviandades. Mas eu acho que. E o cavalão. encurtando e baixando a cabeça. que de volta aceitavam minha presença.“Barzabu!” – xinguei. -“Tu sendo peão amansador domador?!” – que o Ragásio caçoou comigo.Grande Sertão: Veredas lombo dum. Notei que os companheiros reparavam a estranhez daquilo. e já se ouvia outro tropel: era aquele seô Habão. Foi o seô Habão saltando em apeio. Mas eu me virei. “Barzabu!” – ô gente!. o cabresto. homem só vendido ao dinheiro e ao ganho. rente. Só que se riam. lão. às vezes são os que percebem primeiro o – 613 – . feito fosse minha certeza. e ele se empinou: de dobrar os jarretes e o rabo no chão. E eu parava. Vinha com três homens.

com a ligeireza mais sutil. Lhe dou. fosse. com caçambas de pau.. como ele pisava peso no chão. deviam de estar com invejas. e assim revestido. quase que nem me conhecia? Aos que projetos ele engenhava em sua mente. amigavelmente. Meu o bicho era. Melhor me disse: . Se ele praz ao senhor.” Não acreditei? Reafirmo ao senhor: meu coração não pulsou dúvidas. e pela tábua-do-pescoço a fora. Agora. Aquele homem me temia? Da admiração de meu povo todo. borborinho com que me rodeavam. e como ocupava tão grande lugar! Até passeei um carinho nas faces dele. que possança minha ele adivinhava? A pois. me calejo! Só por causa – 614 – ... peguei a ponta do cabresto. Certo. com suas manchas e riscas – ah.Grande Sertão: Veredas atiço real das coisas.. daquela hora. dividido o instante. conforme estava – que era com um Bocadinho bom... é topar firme as invejas dos outros restantes. que um para ser alto nesta vida tem de aprender. Agradeci. era meu o cavalo grande.“Se este praz ao senhor. eu que não era amigo nem parente dele. dei fé. que não me devia obrigação. Fosse! E a mãe!.. Ele não gaguejou. A primeira coisa. Mas sendo que.. com meu brio.. eu já ali pensei: por que seria que o seô Habão se engraçava de me presentear de repente com uma prenda dum valor desse. com bom agrado: assim como ele está. por posse.. Me rejo.João Guimarães Rosa . moço. ele é seu.

Ah.” Só dissessem. eu fui ficando mais e mais. Merecer e ter. . Ao que: oferecer e receber um presente daquele. Nome que dou a ele. ligeiro. as coisas influentes da vida chegam assim sorrateiras.. com o que não tinha refletido...“A não. ... e as peças dos arreios chapeadas de belo metal..” . Disfarcei meu regozijo. Disse logo foi a tenção de maiores idéias em desejos – segundo a como apeirado aquele eu já queria: que arreado à gaúcha. Não me riram.. naquelas condições.. -“É deveras. farto e manteúdo..Grande Sertão: Veredas daquele cavalo.“Ainda bem que foi bem empregado. era a mesma coisa que – 615 – .. sem tempo nenhum para pensamento. enfrentava. é este – quem que aprender. e eu atinei. Animal de riqueza: graúdo. Tatarana: o nome que ele vai se chamar é mesmo Barzabu?” – algum caçoou de me perguntar.“Ara. com peitoral com pratas em meia-lua.” .. d’ora em diante. até. ladroalmente.João Guimarães Rosa . aprende! – que é: o cavalo SiruizL.“Sorte é isto. Pois Zé Bebelo estava aparecendo ali. Montei. que assim ouvi.” – assim foi que eu respondi. meu compadre torto! Sossega a velha. conferido.

Mas eu tinha dado uma ordem. se me seja que gostou pouco. mesmo só inteligência. Choveu para o meu arrozal! Ah. Desapeei. acabando de saber o acontecido. era que que era aquele homem. Em hora!.. queremos havemos de te ver garboso. mirou em mim. Assim me refiz. esperei. Professor... só.. a razão do seô Habão? Pensei o dito. e eu não me importei. amilha e escova.. guerreando as boas batalhas. Teria sido uma tenção dessas. Aí. para solércias. conforme em mim.“Tal te fica bem. Um qualquer chefe de jagunço havia de ter ímpeto de resolver aquilo fatal. que tanto gostava simples de cavalos. num ínterim. dei o cabresto ao Fafafa. Mas não tirei para trás. tu trata dele.João Guimarães Rosa .” – foi o que ele disse. E pensei pontudo em minhas armas.Grande Sertão: Veredas forte ofender Zé Bebelo.. e isso fiz. Reconheci. em mesmo que dele não sendo. Disse: – “Tu desarreia. É de ver que. Não desapeei. Um dom de tanto quilate tinha de ser para o Chefe.” . poupado risonho: . E o seô – 616 – . aí. Como por um rasgo. amontado nesse estampo. porque o Fafafa. nesses enquantos. eu já devia de estar fitando Zé Bebelo com um certo desprezo. de arder a desordem no meio nosso. era o prestante para cuidar dum animal. Mas Zé Bebelo. somente. Ia haver o que ia haver.

isto como foi. num relance. direto. Diadorim meu amigo estava. Zé Bebelo me chamou adeparte. leve. eu ia poder me esquecer? Aquele dia era uma véspera. Ele podia. disse: seria só? Olhei para cima: pegaram nas nuvens do céu com mãos de azul. Ao senhor eu conto. me agredir de morte. glorial.Grande Sertão: Veredas Habão tinha trazido também boa quantidade de remédio para se tomar pela maleita. O que o Drão – o demonião – me disse.João Guimarães Rosa . quem ia conseguir audácias para atirar em mim? As deles haviam de amolecer e retombar.. me expondo especializado diversas coisas que pretendia reformar de fazer. feito de poder correr o mundo ao redor.. Raimundo Lê repartiu com os carecidos as pastilhas de remédio. assim mesmo. assim permaneci. Esbarrei em meu caminhar. E dessa derradeira conversa quero – 617 – . fiquei assim parado. eu podia dar as costas para todos. de cousas tão forçosas. Aquela firme possança. das pastilhas mais amargosas. uns passos. outro tempo. Eu estava dando as costas a Zé Bebelo. Em tanto o seô Habão jantou com a gente. – atentei. com emortecidos braços. Será que. assegurado. acendido. me atirar por detrás. Alaripe conversou comigo. Eu leve. Saí. Todo o mundo recebia. O medo nenhum: eu estava forro. num dia tão natural.

pois então eu já sabia.” . o Misuso. tu erra. sem ninguém me ensinar – já fiz. pois então basta que tu me pague só uns vinte mil-réis. Mas. eu pensava insultado era: . conforme o que eu defini?” – indagou o José Misuso..” – 618 – . pois. se falou muito nessas orações de curar a gente contra bala de morte. Um José Misuso uma vez estava ensinando a um Etelvininho. mesmo por mim.Grande Sertão: Veredas referir ao senhor. como é que se faz a arte de um inimigo ter de errar o tiro que é destinado na gente. no fim.” – o Etelvininho respondeu... tu erra. Alaripe então contou uma estória.“Igualzinho justo. pois então” – o José Misuso cortou a questão . a bala sai vindo de lado... só issozinho. e um grito pensar. umas muitas vezes.“Ara. e em breves que fecham o corpo... se encarar o outro. Foi que. fazia tempos.João Guimarães Rosa . se é só isso.. eu desejando saber. aí.“Ah. não acerta em mim.“E fez igualzinho. Do que deu o preceito: . no giro do sertão. tu erra..“. . seu filho duma cuia!.. filho de uma cã!. eu puxando.” Assim ele ensinou ao Etelvininho.. na horinha. somente: Tu erra esse tiro.“. duvidando. tu erra.. O qual era o seguinte.. Só que. . Só o sangue-frio de fé é que se carece – pra. caso sucedido. a troco de quarenta mil-réis.. o Etelvininho reclamou: . executei assim.

e eu não tinha escutado aviso de sentinelas. muito preta. Ao que eram. . no esquipado.. Assim era. Luar que só o sertão viu. quem podiam esses ser? Todos os companheiros nos rifles. A madrugada com luar. Com pouco o fogo se acendia. se encompridando se encurtando.João Guimarães Rosa . o Paspe. o compadre Ciril. chegaram as voltas da noite. Drumõo. pulando de minha rede. um cantou o sebastião. Mansinho.. alegrias sobejavam. Levantei. que tinha a rede dele armada da minha a uns três passos.” – disse Diadorim. Madrugada essa boa claridade. gordo. Acordei.. e que travavam repentino com áspero estremecimento os cavalos: br’r’r’uuu. Vim dele. Todo o mundo falava.. Tornar a encontrar companheiros desses. aí é que se põe significado na vida.. acordei com o rumor de cavaleiros que vinham chegando. A hora a ser de satisfa. para algum almoço. forte. Se caçoou. o Isidoro. Calculei: uns dez. Veio do luar. – 619 – .“Aí é o nosso João Goanhá.Grande Sertão: Veredas A gente muito rimos todos. chegou bom. a gente se abraçava. Era a dele uma barba muito fechada. com os cabras. O João Goanhá. para o café. Enquanto isso. mãe. o Bobadela. me lembro. barbudo.. João Goanhá. se bebeu. Dormi com a cara na lua.

O Urucuia. ele. conforme foi que se passaram. Recolhe e semeia areias. O rio não quer ir a nenhuma parte. Diadorim. O que eu fui. Casinha que eu fiz. ele corre. pedia notícias por interrogação. Antes. E esses velhos chapadões – dele. verde a verde. mais fundo. do Couto. Fui cativo. Mais não sei? Mesmo não tinha botado idéia na cabeça. Rebebe o encharcar dos brejos. horas novas. Estas árvores: essas árvores. com as marrecas chocas. marimbus. Conversa. Me recordo de que as balas em meu revólver verifiquei. o mais rompante que pudesse. acabando de despertar de meu sono. a sombra separada dos buritizais. O Urucuia é um rio. uma palmeira só me dá minha casa.Grande Sertão: Veredas Zé Bebelo. as verdades. de Antônio Pereira. eu sei que o Urucuia está sempre. Diadorim era o que estava alegrinho especial: só se ele tinha bebido. dos Arrepiados. formado em pé. Eu queria a muita movimentação. o rio das montanhas. veredas. que eu rastreio a flor de tuas passadas. no meio das varas do juncal. o que eu fui. pequena – ô gente! – para o sereno remolhar. de meu amor – põe o pezinho em cera branca. essas. para ser solto? Um buraquinho d’água mata minha sede. Zé Bebelo: conversa. Mesmo na hora em que eu for morrer. o chapadão derredor dele. ele quer é chegar a ser mais grosso. dos Couros. Como os rios não dormem. as coisas comuns.João Guimarães Rosa . – 620 – .

e mas fora de mim eu vejo um sonho – um sonho eu tive. no meio do luar da lua – lasca de breu. Um para o outro olharam. Em. de me comparecer com as doidivãs bestagens. João Goanhá – duro homem tão simples. ô gente. que um tinha de ser o chefe.Grande Sertão: Veredas do Arrenegado. Sei por quê? Só por saber. Zé Bebelo ou João Goanhá. e quem-sabe por excessos daquela minha mania derradeira. eu dei mais um passo à frente: tudo agora era possível. porém. De forma nenhuma eu não queria afrontar ninguém. vindo por meio de dificuldades e distâncias. . parlapatal.João Guimarães Rosa . agora quem aqui é que é o Chefe?” Só perguntei. como um – 621 – . boto machado em toda árvore. Até com preguiça eu estava. soberbo e opinioso. Não era de propósito. A verdade. Eu caminhei para diante. Ei. O fim de fomes. caçar a lei da companhia da gente.“Ah. Não exclamei.“Agora quem é que é o Chefe?” Somente eu estava por cima da surpresa deles? Zé Bebelo – o pensante. Um homem é escuro. . não pronunciei. só disse. desde a outra banda do rio. Nem não fizeram espantos. o senhor não julgue. Dentro de mim eu tenho um sono.

– 622 – . o principal deles. José Félix: ele tremeu muito lateral. outro tiro eu também tinha dado.“Quem é que é o Chefe?!” – repeti.. esse. olhar e estar.Grande Sertão: Veredas costume necessário. O Chefe era eu mesmo! Olharam para mim. oculto inimigo meu – que buliu em suas armas. Com meus olhos. livrou o ar de sua pessoa. E.. Nenhum deles. E eu – ah – eu era quem menos sabia – porque o Chefe já era eu. fechavam roda. no a-golpe. Zé Bebelo ainda fosse? Esse pardejou. Ao que o pessoal.“Quem é qu’. em quente e frio. não soubessem.. E foi esse Rasga-em-Baixo.João Guimarães Rosa . bala justa. . Meu revólver falou. diante das minhas vistas-nem não tinha ossos: tudo nele foi encurtando medidagesto. tomei conta. os companheiros todos. eu vi aquele mestre quieto se mexer. luziu faca. pelo que era. convocados. fala. E aí o irmão dele. o Rasga-em-Baixo se fartou no chão. . o João Goanhá. semeado. Eu felão.. Não me entendessem? Foi que alguns dos homens rosnaram. Me olharam.. não podiam como responder: porque nenhum deles não era.” E.. Sanha aos crespos... que sem isso ele não conseguia direito se pertencer. pelo visto. Saber... já sem ação e sem alma nenhuma dentro.

se sentiram. decerto que acertaram: pelos altos de nós dois. foi com muita serenidade. o Fafafa.. Isso eu exigia. mais em pé que um outro qualquer. para ver o que fazer mais vagarosamente.“Quem é-que?” – eu brando apertei. com ele de barba a barba. Ao então. João Goanhá se riu para mim. era a hora..” Ato de todos quietos permanecidos. Sidurino. o Acauã.“ . jaguarado. de repor o medo mor. Eu não aceitava muita parlagem: . meu nome era Tatarana! E Diadorim. esbarrados com tanta singelez de choques. Pacamã-de-Presas – e outros e outrosjá formavam do lado da gente. Zé Bebelo retardou. Zé Bebelo sacudiu uns ombros. – Tenho de chefiar! – eu queria. era um sangue ou sangues. Ali. – 623 – . eu. eu pensava. Assim. Compadre Ciril. Conheci que ele tardava e pensava. Se quis.“Quem é que é o Chefe?” – eu quis.. E eu frentemente endireitei com Zé Bebelo.. encostado. Eu social. o Nélson.João Guimarães Rosa . e porque logo aí Alaripe. o etcétera que fosse. Ele veio marechal. Ah. é o Chefe?!. Se viram. .Grande Sertão: Veredas . Zé Bebelo não conhecia medo. se asava e abava.

chefe.“A rente. e ninguém crê. noutro ar.. Aí ele não tremeu. tu me desculpe. só. é porque já estavam ficadas prontas. baldeados mortos. companheiros. Ao que vale!. por estar achando cacete. mire e veja. no sucinto dos olhos. velho.. é: tu o Chefe fica sendo. No que eram com solenidade. Só aqueles dois amaldiçoados irmãos. Aos gritos.” – ele dissezinho fortemente. eu nunca tinha avistado tantas tristezas. Acham que é um falso narrar. todos aprovavam..João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas Eu sabia do respirar de todos.. eu. O Chefe Riobaldo. mesmo mudado em festivo. a gente vai departir. aquilo eu já largava. Ali. Mas eu temi que ele chorasse. tantos homens. – 624 – . O senhor.. Amém.. em rosto de homem e de jagunço. Assim aprovaram. . por me cansar. e eles me aceitavam. enterrar aqueles dois seria faltar a meu respeito. A esses resultados. Zé Bebelo se encolheu um pouco. a pois. Minha vontade estroina de paliar: – Seu Zé Bebelo. eu sei como tudo é: as coisas que acontecem. sinceridade.” – eu falei para em volta. – eu calei. Tudo dado em paz. Tantos. Agora. Tudo me dado. no sabugo da unha. Rejuravam.“Sendo vós. Riobaldo! Tu o chefe. o senhor: a verdade instantânea dum fato. na ponta de unha. os nos rifles.. Durasse mais. . glo riando um fervor.. Antes.

Riobaldo..” – ele me atalhou.” Daí. que nem um urutu branco. Tu é terrível. riu. agora ainda me viessem e dissessem Riobaldo somente.“Mas.“Tenho de tanger urubu. entusiasmados: .. ou aquele apelido apodo conome. eu chefe. era um nome. romperam em risos. Contanto que logo gritavam. e disse.. nem segundo. Até porque mais não seria que.. . que era de Tatarana. Assim.. você revira o sertão. juro ao senhor. Arte que virei chefe... Achei. Acertar com ele. o Urutu-Branco!... você é o outro homem. .“Não.Grande Sertão: Veredas e com efeito tudo é grátis quando sucede..João Guimarães Rosa . mesmo cortês: . agora.“O senhor. – 625 – . Minha fama de jagunço deu o final. Sei não ser terceiro.. na rudeza deles.“O Urutu-Branco! Ei.” – eu quis dizer. meu. eles tinham muita compreensão. Assim exato é que foi. . achava. depois que João Goanhá me aprovou.” Assim era que. revi os aspectos de Zé Bebelo.” O nome que ele me dava. Outros é que contam de outra maneira. Ao fim. no reles do momento. Os todos ouviram.. rebatismo desse nome. no m’embora.

Tantos e tantos. se aprontando para saída. quem tinha dado e baixado. selavam os cavalos. Ah. Aí – 626 – . o julgamento era ele. De seguida. por maior sossego de meu reger. e um cargueiro – com mantimento. com pena de ver que ele ia-s’embora. mesmo. Para o sul. Aí vendo que o pessoal meu já me obedecia. Zé Bebelo ia s’embora. coisas. ele pegou caminho. O divertido havia de ser. Dali a hora.João Guimarães Rosa . através desse através. Homem como aquele. eu sabia o nome e o defeito maior de cada um daqueles homens. ele mesmo. o tempo de todas as doideiras estava bicho livre para principiar. para um prazo de fôlego. Vi quando ele se despediu e tocou – com o bom respeito de todos . sacudiam no ar os baixeiros. Agora. Como que corriam e mexiam. Tudo estava sendo repetido. não se matava. da vez dessa. de sotenente. parado persisti. deste sertão. munição melhor. por julgamento. e agora eu estava quase triste. conseguintemente. de levar Zé Bebelo comigo. expulso. Aí eu mandava.Grande Sertão: Veredas Vai. homem como aquele. por um raio de momento. e eu. pouco obedecia. eu tinha concebido que carecesse de tirar a vida a Zé Bebelo. A ele mandei fornecer mais um cavalo. no futuramente. e fiquei me alembrando daquela vez. sim isso. de quando ele tinha seguido sozinho para Goiás. Mas. e tantos seus braços e tantos rifles e coragens. prático mesmo antes da hora.

quando eu mandasse uma coisa. Por perigos. Eu contava. No Valado chegamos. Dei galope. que por diante estivessem. Aí eu desfechava. e as extraordinárias cousas. Era primeira viagem saída. Esbarramos parada. E vi um itambé de pedra muito lisa. Minha influência de afã. Sinal como que me dessem essas terras todas dos Gerais. Gente. a limpo de meus tristes passados. segundo ã regra exata.João Guimarães Rosa . O que eu carecia era de uns instantes sempre meus. em vinham. os cabras deram vivas. muito estarrecido. com a vontade muito confiada.“Tenho resoluto que!” – e montei. o tôo dos cascos. eles outros esperavam. subi lá. conforme íamos retornar. levou bala. Dali a gente tinha logo de sair. eu estava em precisão de fazer. de qualquer jeito. Os outros me viessem? Cantava o trinca-ferro. De despiço. então tinha de se cumprir. quase. não padecesse de se estorvar em monte de pessoas nenhumas. nos rodeou. olhei: eles nem – 627 – . pertencentes. Aquele seô Habão. para que todos admirassem e vissem. incluso.Grande Sertão: Veredas eu estava livre. prazido. Uma arara chiou cheio. De galope. por assim. como está dito. eu aumentava os quilates de meu regozijo. para estribar meu uso. alegria em artes. ah. À fé. Mandei os homens ficassem embaixo. gentinha. . roceiros em seu serviço. Eles vinham. Estradeei. Nem olhei para trás. Atrás de mim. de nova jagunçagem.

esse! Ele queria me oferecer dinheiro. não. em desde que possam pedir à gente perdão com muita seriedade. para viver e para morrer. não. ele já me sussurrava. umas coisas eu resolvia.. O senhor havia de gostar de ver o ar daquele seô Habão. As medalhas. Ao que me seguissem. O que foi o que eu pensei.. onde tanto boi berra. Fiquei lá em cima. Agarrei o cordão de meu pescoço. umas delas que eu tinha de em desde menino. Antes. com todas aquelas verônicas. Digo ao senhor: ele beijou minha mão! Ele – 628 – . mas que não disse: – Assim não. não! de mim ele é que tinha de receber. em cata do Hermógenes? Ah. forçado de aceitar pagamento do que nem eram correntias moedas de tesouro do rei. assim. tinha de tomar. macio. rebentei. E veio perante minha presença o seô Habão. um tempo. era que valiam.João Guimarães Rosa . mas. na mão dele. primeiro. Ah. com seus meios queria me facilitar. mas costumeiras prendas de louvor aos santos. Quando desci. atarefadinho. Homem. mais antecipado que todos.Grande Sertão: Veredas careciam de ter nomes – por um querer meu. Ele estava em todos tremores – conforme esses homens que não têm vergonha de mostrar medo. Ah. Fiz gesto: entreguei. Aonde se ia. para o Chapadão do Urucuia. Tinham me dado em mão o brinquedo do mundo.

João Guimarães Rosa .. não. não adiantava. e que consagrava um pedido de benção à minha Nossa Senhora da Abadia. ah. em pedaço de toalha de altar recosturadas. que conservava pétalas de flor. E nem não adiantava: mendigo mesmo. duro tristonho. Esse eu fora não botava. Que. ele havia ainda de obedecer de só ajuntar. em hora e hora. não podia obrar de outra forma. pensei. Para o começo de concerto deste mundo.. e fosse largar o cujo bem longe de lá. naquela hora.. tornei a pendurar. que debaixo dele meu peito todo torcesse que nem pedaço quebrado de má cobra. até à data de morrer. ele havia de ter de pedir esmolas. ajuntar.. Isso. Comigo só o escapulário ainda ficou. mais tarde. indas que assim requeimasse a pele de minhas carnes. dito. tantos meus malfeitos. Ah.Grande Sertão: Veredas devia de estar imaginando que eu tinha perdido o siso. Assim mesmo. e guardou com muito apreço as medalhas na algibeira. num fio oleado e retrançado. de migas a migalhas. inda que ele me reprovasse. agora podia desdeixar não. As verônicas e os breves ele vendesse ou avarasse para os infernos. Aquele escapulário. mesmo. em estranhas terras. me agradeceu bem. Matar aquele homem. até porque. – 629 – . adonde ele fosse preta-e-brancamente desconhecido de todos: então. que é que adiantava? Só se a gente tomasse tudo o que era dele.

Mas somente prezar que eu era Riobaldo. o senhor escute. e isso era próprio encargo para ele.. da bolsa do cinto.. tão bonita.João Guimarães Rosa . aquele meu formoso cavalo Siruiz.” E mais disse: que era para entregar. em qual eu estava amontado. Porque. nem citando chefia de jagunços. com o seô Habão.. eu já estava pensando: o que eu ia fazer com ele. e mesmo um barão de presente dele tinha sido.. a qual era minha sempre noiva. de minha parte.“Seô Habão. já e já. que do Araçuaí eu tinha trazido. de uma coisa. Mas não dando razão de nomear minha pessoa pelos altos títulos. Tirei o embrulhinho. Aí. por alguma alvíssara de mercê. e era. em fato. cabendo em sua marca de qualidade. Porque ele tinha vesprado em reconhecer meu poder. Me lembrei da pedra: a pedra de valor. siga rumo dos Buritis Altos.. que Otacília se chamava. num reverter de mão. para a Fazenda Santa Catarina. zelando com os dedos todos de suas mãos. fazia tanto tempo. antes de outro qualquer. o senhor cumpra: pega este mimo. Eu falei: . com meus homens. à moça da casa.Grande Sertão: Veredas E.. cabeceira de vereda. e eu a ele devia. ele merecia. num bom animal. Apresentei a ele. me lembrei. trazendo glória e justiça em território dos Gerais de todos esses grandes rios que do – 630 – . o senhor viaje.

a meio. Da amizade de Diadorim eu possuía completa certeza. Mas ele também tinha alguma espécie de chefia. até. tem tempo. dele.. Eu virei a cara. me atanazava. tem tempo. “Dei’stá’.“O que eu tolero e desentendo. O que ele dizia. andei três passos.” – pensei.” – falei. não: em Deus não falasse. tão grandonas. perto mais perto. porque. esse homem: que é. carecia de ser repetido. esfiando o as sunto nas pontas dos dedos. teus duros olhos moles. Ser rico é um diverso dissabor? Que um pudesse se acautelar assim. não.. eu tive de experimentar com a mão o tamanho medido das minhas. Eu não tinha tido dó de Diadorim. por todas as partes? Melhor. Diadorim. sem querer. por causa da pedra de topázio? – eu reconheci. Melhor trazer esse sujeito comigo.. E mais – 631 – .Grande Sertão: Veredas poente para o nascente vão.. desde que o mundo mundo é. enquanto Deus dura! Ah. o melhor seria desmanchar a presença dele em definitivas distâncias. dando com Diadorim. ele cogitava. tostões. teu nariz. O quanto. – eu pensei. Seô Habão pôs atenção.. condenado que era de tristeza que não quer ceder suas lágrimas. Mas vi um adejo sombrio no meu amigo. não se consegue ter raiva nem ter pena.. perturbado mas sisudo.João Guimarães Rosa . para poder vigiar. – Não vou comer teus peitos. . Quem era? O que por primeira vez reparei: que ele tinha as orelhas muito grandes.

.” – – 632 – . Mas o seô Habão não queria ter terminado: negócio que carecia ainda de algum ponto. acenei que sim: disse que fosse. Dei licença. eu não – rio. de rota abatida.“O senhor vá logo. como coisa sempre inesperada.. se eu não prazia de enviar por ele algum recado também para o senhor meu pai. em Otacília.. à gente. Ingratidão.. Otacília estava sendo uma incerteza – assunto longe começado. verdadeiro eu quase nem cuidava de sentir. mesmo. espanta e rebate. E de lá não quero nenhuma resposta. De sorte que. Trasmente que. dono do São Gregório. De manhã cedo. e de outras boas e ricas fazendas?. de ter saudade. logo. viesse. coração dá tantas mudanças.. a vida do mundo ia vivendo. E eu estava naquelas impaciências. nem ceitil não recebi.. O pássaro que se separa de outro. aquietado – até mediante sorriso. Ah. reproduzisse a minha saudação.. E então foi que o seô Habão levantou a cara. muito forte. para o mais-tarde. levava a pedra de topázio. Selorico Mendes. riachos! – não me amofinava.Grande Sertão: Veredas não me amofinei. eu determinei: . sonseante: . meus dízimos eu pagava. o senhor esbarra para pensar que a noite já vem vindo? O amor de alguém.. vai voando adeus o tempo todo.. Ele perguntou. para corrigir em siso a tranqüilidade daquilo.João Guimarães Rosa . O seô Habão ia. Visse. Eu achei graça. o que desse. Aquela tristeza de Diadorim eu não aceitei. não..

Dand’ ordens: . despachado. Onde que.. lá lá. Ou quanto mais que. Me trouxeram. sem necessidade de caráter. em boa alarida.João Guimarães Rosa . eles. Do Sucruiú. trazer as mulheres também. decerto não acharam ou acharam. se prazia e mandava? Eu. os meus.. em caçar. Festa? Eu já estava resolvendo o contrário. gritei. senhor.“A rodar por aí. o Urutu-Branco. arre melhor! P’r’ apreparo. era o que de si desejavam. Ah. Com que as músicas. só mesmo o mover por me agradar. e aquela minha lei era divertida.. eu: por meu renome. A com a gente.“Quem tiver instrumento – a toque! Quem gostar de dançar. Ao pois. rebanhal. não. Aquilo valia? Os outros não falaram. de ver como ele me obedecia expresso.Grande Sertão: Veredas enquanto ri.. uns pouquinhos – alguns com as caras – 633 – . Mas trouxeram. mal dele livre me vi. quem era que ordenava. os todos possíveis. de lá. me trazerem os homens!” Que’s homens? Os todos que fossem e houvesse. . e formar todos de guerreiros. a que viessem.” Tudo tinha de semelhar um social.. só. espalhados sendo. Mas reunir aquela porção de homens. Saíram. pelos demais..

acho que. outros um ou outro de semblante liso fresco.João Guimarães Rosa . Ao depois. com temor ouviam minha decisão. esses escapos de não terem tido a doença. à mansa força. Até que fiz. Isso era perversidades? Mais longe de mim-que eu pretendia era retirar aqueles. achavam mais favorável querer ter vindo por próprio conselho. Ah. os catrumanos iam de ser. todos. Aquela gente depunha que tão aturada de todas as pobrezas e desgraças. más marcas. malabriam boca em risos. .“Filhos-da-mãe!” – eu declarei. Haviam de vir. Eles. destorcidos de suas misérias. como se por soldados reconhecidos. Os que fingiam não me temer. para meter em formatura? Tanto todo o mundo achava graça. solertes. mas. Iam. para guerra serviam.Grande Sertão: Veredas secando os brotes das bexigas. de ser chamados e reunidos. mire e veja: a quantidade maior eram aqueles catrumanos – os do Pubo. queriam se alinhalinhar. eles estavam alertando em si o sair de um pavor. Seriam eles assim bons no ruim. Ah. Tive de repente fé naqueles desgraçados. em vozes. feito mijo na areia. com suas desvalidas armas de toda – 634 – . que nem onças comedeiras! Não entendiam nada. mesmo. Ou o senhor não pode refigurar que estúrdia confusão calada eles paravam. junto. assim atarantados. quando dei brado. Dei que pronto todos provassem gol d’alguma cachaça. de refrescos. meus jagunços queriam pagode.

feito um bezerro ou um porco. é longe daqui!” – eu defini. entendiam em mim uma visão gloriã. e panelas de pólvora escura e fedor de fumaça ceguenta. era um homem sem pescoço. Adivinhei a valia de maldade deles. Aquele outro.João Guimarães Rosa . Respondeu que se chamava Assunciano. iam de dedo em dedo me passando para o daquelas pernas de fora. soube que eles me respeitavam. rapaz moço. e indicou outro – que era o pai. Tomou um esforço de beira de coragem.“O mundo. aquele bronzeado jumento – que tinha. Ah. meus filhos. Mais adiante não deixei. Eles não arcavam. e só não desamontava do jegue por ordem minha. para me responder. – 635 – . Visli a sorrateira malícia nos jeitos deles. permanecendo de perfil. que Osirino era. Não queriam ter cobiças? Homens sujos de suas peles e trabalhos. Deixasse. que em antes eu tinha-dado. em que mal se entendia nada. o ho mam por nome Teofrásio. as pernas forradas de lama seca. esses melhor se sabiam se mudos sendo.“Dou louvor. Respondeu que Sinfrônio se chamava.Grande Sertão: Veredas antiguidade. Dei brado. Indaguei dum. ou para o que coçava suas costas em pau de árvore. Esse aquele era o do chapéu encartuchado. conjunto. o pai. E mais o do jegue – no jegue amontado. feito criminosos? . Ao vavar: o que era um dizer desseguido. – Se queriam também vir? – perguntei. Ele me disse: . E indicou outro. e cabaças na bandola. Em tudo.

jagunceando. declarei mais: .. Daí. espingolado. nesse mundão de ausências? Quem cuida das rocinhas nossas. vos obedecemos. em debaixo de meu sapé. meio chefim deles. O homem Teofrásio limpou a goela. o sem pescoço.” – e era um homem alto.. na desengraça.“Vamos sair pelo mundo. e objetos e as vantagens. .” E mesmo um outro.” E eu concedi – que o Teofrásio. Que um. Pra os roçados? Pra os plantios.” – escutei.. – I j’ Maria. com todos os remendos em todos os molambos. baixinho descoroçoou. observou: . por fora. e de lá se virou o focinho branco do jumento. chefe.“Assim vós prazido. de Cristo.. tomando dinheiro dos que têm.. dum.. Pedimos vossa benção. de toda – 636 – ... de mãos postas como que para rezar.“Pois vamos! As famílias capinam e colhem...Grande Sertão: Veredas chefe.. seô?” – indaguei. nós..” – eu determinei.“Dou de comer à mea mul’é e treis fi’o’. Se chamava Pedro Comprido.” O que falou. aí. . em trabalhar pra o sustento das pessoas de obrigação?..“Como é a tua graça. Daí houve porém. tinha falado por todos.” – ele disse. o do jegue: que o jegue pudesse trazer. Mas.. completo.João Guimarães Rosa ...“. . é ver. eu já tinha pensado.“. enquanto vocês estiverem em glórias. guerreando para impor paz inteira neste sertão e para obrar vingança pela morte atraiçoada de loca Ramiro!. . choramingou: . mas com respeito.. Quem é que vai tomar conta das famílias da gente..

Pecador sem o que fazer.“Tu é devoto?” . reluzindo aprovação. . Aquele era o bom rumo do Norte.“Estou no meu canto. Um cego. E só vamos sossegar quando cada um já estiver farto.” Apontou com o dedo. escreiento.“Responde... quase todos. ele tinha direito de não tremer. que da banda da minha mão direita devia sempre de se emparelhar. meu senhor. É assim. de certo não sabiam – que um desses. Fiz gesto.. então. adivinha a vinda das – 637 – . Eu ia transformar os regimentos desses foros.. tu velho. . pelo que riram. e já tiver recebido umas duas ou três mulheres. pede padre. com meu contentamento.“E o Borromeu? E o Borromeu?” – ainda perguntavam. Queria o que só me faltou – que foi que o jumento do homem zurrasse. pede preto. a esmo. que os cegos fazem. geral.” Cego. eu sei é pedir muitas esmolas. Mesmo os meus homens. . Não vi nada.” Ah. Quem era que esse Borromeu? Mandei vir.. Alguns riram. moças sacudidas.. cá. por ser cego. Levei os olhos. viajando parceiro com a gente. Mandei que montassem o dito num cavalo manso. Estou me acostumando com o momentozinho de minha morte.. oh e eles: que todos.. . ô gente..“Pecador pior. meu senhor.. viesse. Borromeu: que é que tu faz?” .João Guimarães Rosa . transformado..Grande Sertão: Veredas valia. E. ele era muito amarelo. Convoquei todos nas armas. p’ra o renovame de sua cama ou rede!. que viesse também o Borromeu..” Pois.“Ah.

com marcha de dez léguas. com olhares demais. a gente ia encher os espaços deste mundo adiante. na noite não preguei os olhos. meu povo! Todos tocamos. que na casa do Valado a gente tinha surpreendido. Ah. de sentinelas. mesmo com o cansaço em que estava. Mas conversei surgidamente com os que paravam. ou nu?” Como que não vinha? Aprontaram um cavalo para ele só. que devia de se emparelhar com o meu. Ele se chamava Guirigó. do menino pretozinho. mordia e perneava. tinha não. Quando foi pego. Ele estava amoitado. com os entusiasmos. Há-de há. animais alheios a gente topasse. E tiveram de campear esse menino. Os muitos vinham a pé. E. da banda de minha mão esquerda. no topo da cabeça minha. por diante. com a boca no chão. xingava. e vão defastando o mau poder delas. mas. no meio do mandiocal. muito espertos. assim mesmo. Pernoitamos. de repentinamente. o tempo todo. Cavalos que chegassem. e mandei acender foguinhos de assar mandioca e fogueiras de iluminar. Terçando um total de projetos. tu vem vestido. poder não pude dormir. a laço e mãos. conforme aprendi dos antigos.João Guimarães Rosa . mais me lembrei. – 638 – . para se assenhorear. aqueles catrumanos ainda meio vigiados. Ver o seguinte. espalhados. Eu queria esses campos. que furtando num saco o que achava fácil de carregar. por nada. bastados. “Guirigó.Grande Sertão: Veredas pragas que outros rogam.

Outra vez. galopando. João Goanhá. João Concliz. que dão mais assunto à luz das estrelas. Ao entrementes.. Que eu recordava de ver o rio meu – beber em beira dele uma demão d’água. lá em sua frente o senhor encontra o mau.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas Aonde é que jagunço ia? À vã. quadrando que primeiro. lhe conto. de estar em toda a parte. Ah. eu em minha lordeza. mesmo em silêncio singular. e. inimigo. O dia ia ser lindo de leveza! – pelas beiradas do céu. Forramos o estômago. no Pé-da-Pedra. eu sentia que estava caminhando. mais para o norte: para o Chapadão do Urucuia. E o que aí foi. eu quis. eu achei graça: em que o Alaripe. e nada nenhuma não me sombreasse. eu digo: tem botim novo flote. Em perto de sete léguas. Tinha minha vontade. e – 639 – . Marcelino Pampa. E o Hermógenes. Algum medo não palpitava frio por detrás de meus olhos. o senhor dê um passo. e chinelo velho redomão.. Conforme assim. os Judas? Ara. Mesmo deitado. Mas. fazenda da Barbaranha. por via disso. e essas estradas de chão branco. à vã. e mesmo Diadorim. eu de todos era o chefe. com o merujo do orvalho. aonde tanto boi berra. Eu não tinha todo tempo? Safra em cima. Eu pensei. chegamos. Quando a madrugada bateu as asas. deslizando com a manhã. O que eu via: altos de mata e além! As coisas todas eu pensava... e saímos. em que rumo qualquer. eu já estava abotoando a espora.

por medos.“A pois: no primeiro fogo que se der. àquele sacizinho de duas pernas. Cautelas. que preto reluzente afora os graúdos olhos brancos. A outra receita que descumpri. encarapitado sobre seu alto cavalo. – 640 – . Guirigó? Que é que tu acha de maior boniteza?” Assim eu perguntei. A falta de mantimentos. a cuja senvergonhice: “De todas as coisas. Razão e feijão. se tu não abrir boca e choro bué.” Segundo tinha botado desejo no meu punhal puxável de cabo de prata. só mesmo o que servia era à solta a lei da acostumando.. eles me seguindo. não carecessem de formar conselho.. Aí. Eu fosse ter cautela. presenteada. travar o passo? A toleima. As lérias. a polpa de buriti e carnes de rês brava. Que não. da banda de minha mão canhota sempre viesse. eu indo.. não viessem me dizer que a gente estava só com três dias de farinha e carne-seca. para engolir. Todo boi. . de metal. .“Tu está vendo o tamanho do mundo. Meu direito era contrariar as regras todas do chefe que antes fora. Às léguas. me remedando. para mim. a dita faca tu ganha. enquanto vivo. pegava medo.Grande Sertão: Veredas outros mais velhos. A coragem que não faltasse. Toleima. era a de repartir o pessoal em turmas.João Guimarães Rosa .. boniteza melhor é dessa faquinha enterçada. todo dia dão de renovar.. E ele. mesmo só no começar.. por isso eu ia encurtar rédeas. que o senhor travessa na cintura.” eu prometi. pasta. o dioguim.

. meu Chefe? Isto é ofício bonito. De a de lado. Podia dar conselho? .. pelos ocos. passeata para a – 641 – . Todos eles passarem. os chapéus deles quase todos bem engraxados com sebo de boi e nata de leite. Mas vento que vem dos amáveis.. nós todos... cavalaria! Cortejo que fazia suas voltas.João Guimarães Rosa . tropeando.” – continuou respondendo. Com qual seguimento? Só. Cavalo. o que esperava a gente. está gostando destes Gerais..Grande Sertão: Veredas Coragem é matéria doutras praxes. por desfrute.“Arte de jagunço.” – ele me respondeu. e aqui a gente merece tudo – vento que não vareia de ser.. Aí o crer nos impossíveis. . uma continuação grande. não devo. o rumor constante dos cascos. Mas. a forma duma mistura de gente amontada. era o pouso para jantar. Ele gostava de conversar.. eu detestava de obrar. da minha outra banda. O que não vejo. de esquadrão. para o vivo. a tiracol.. Por causa que o que me prazia mais era contemplar o volume profundo da ida deles.“. perguntei.” O ditado desses. por oras. pelos ermos. solevando para adiante o aprumo de meus homens. Chefe: é sempre amanhecendo manhã. noutra quietação diversa. pelos altos.“Seo Borromeu. mas também preparava no silêncio. hem seo Borromeu?” – ao cego. só somente para rir eu aceitava. não consumo. Ia sacolejando em cima da sela do animal.“Ah. só. dividir minha gente. em ponta os canos dos rifles de guerra. .

de seu longe e de seu perto. Me prazia. vigiando com seus olhos escondidos no mato em beiras de estrada. fuga fugia. dando de rédeas sem descanso. Mas. A poeira avermelhava e branqueava: poeiras que punham o vento mais áspero. e muita má gente matar. Até os bichos. em repente de receio. ocultos no rareamento. Naquilo. não. do que um falava. os pássaros sempre já tinham revoado. Uns homens em cavalos e armas. afirmo que me lembro de – 642 – . era em alguma grande verdadeira cidade. nenhuns. outros ainda falavam. eu tinha amanhecido. corria: tinham de temer. Mas. Comi carne de onça? Esquipando. Aquilo – para mim – que se passou: e ainda hoje é forte. que escutam o começo de tudo. digo. daquele jeito. outro mal ouvia e ria. Só às vezes. eu ainda olhei em vão – com as presenças de Zé Bebelo me cismava. eu bem que tinha nascido para jagunço. Eu estou galhardo. olhava – e eram aqueles: que muitas estrepolias ainda iam decerto agir. Ah. do que esses se riam. Se o que sei. Com um arranco de freio. Me prazia o ranger o couro das jerebas. raciocinado. como por um futuro meu. Prosapeavam. do cerradão.João Guimarães Rosa . Quem visse. Aos dez e dezes. eu queria que a gente entrasse. derrubei dos ombros aquele meu costume. Só os meus homens. Zé Bebelo terminara. assim não se viam.Grande Sertão: Veredas estrela-da-tarde. aquele chio de carne em asso. não se achavam. e logo sabem esperar. Escutava.

bridando bem. comuns assim. desde que tinha companhia de outros animais. em seu jegue. Até os capiaus e os catrumanos copiavam o comportamento. freio de ferro. era Diadorim – montado à baiana. Nem é por me gabar de retentiva cabedora. Até o catrumano Teofrásio. e iam pegando o exato. como prestável jumento. que era o Menino. os animais dando dos quartos. silha forte e silha mestra – e o par de coldres! Assaz. um. com estribos curtos e rédea muito ponderada. outros restantes apressados mesmo a pé. mesmo como sempre. nome por nome. vou destacando a contagem.João Guimarães Rosa . ao alcance de qualquer minha mão. nesta minha conversa nossa de relato. Os filhos nascidos de distritos de lugares diversos. cavalo de olhos pretos conforme como a noite – Diadorim. que era o Reinaldo. mas agora debaixo da minha estima completa. E o Guirigó e o Borromeu. dever de coração enérgico. Esses passam e transpassam na minha recordação. Eu? Nos estribos de ferro. gineta. que não tiram arredondamentos da magreza. Mas. que. uns amontados. às upas: cavalo bulideiro. cantaram: – 643 – .Grande Sertão: Veredas todos. em seu argel travado. cumpria bem seu ir. Sempre. então. E eu. O senhor me entende? A mesmice dos cabras jagunços – no contemplar a cavalhada – no passo. eu meando os dois. que não fazem penachos. mas para alimpar o seguimento de tudo o mais que vou narrar ao senhor.

soturno sorridente.. de voz. respeitante. Soubessem que esse seo Ornelas era homem bom descendente. no atual. com muitos passados.João Guimarães Rosa . Mas acrescento que o dono. que. O que eu já disse ao senhor.Grande Sertão: Veredas Olererê. Eu faço que vou lá dentro. em um lugar redondo e simples. era um seo Ornelas – Josafá Jumiro Ornelas. por nome todo. a Barbaranha dita.. e se chegou na fazenda cercã. então amanhã é o São Pedro. posseiro de sesmaria. . Baiana. fomos entortando. desse jeito.. eu ia e não vou mais. entre as duas chapadas..“De uns três dias foi o São João. no Pé-da-Pedra. e ainda valesse. Ora vez. – 644 – .. Antes. e volto do meio p’ra trás. tinha valido.. oh Baiana. Ao demais eu ouvi.” – alguém disse. que era por lá. compadre que era do Coronel Rotílio Manduca em sua Fazenda Baluarte. encalço da estrada do rio. por causa de políti ca.

mentos.João Guimarães Rosa . os modos calmos. No mastro.“Aí falam em sessenta ou oitenta mortes contáveis. Apreciei a soberania dele.“Ao que ele tem..Grande Sertão: Veredas . e ainda não esmoreceu os ânimos. me deu grandes recebi. os cabelos brancos. Só aqueles formosos cheiros das quitandas e do forno quente varrido. mesmo.. e o céu por cima dali estava muito sereno. Na fazenda tinfiam levantado um mastro.” Chegamos. . Bom homem. convidar para a hospedagem. Mas não desordeei nem coagi. senhor dali. na frente do pátio. de dentro saiu. Eu não estava com gosto de aperrear ninguém. por nobreza. tirei meu chapéu e conversei com pausas..” o Marcelino Pampa afiançou “. muita coragem?!” – eu me fiz. veio saudar.. E o fazendeiro. Para ele. mexiam com feixes verdes de mariana e vassourinha e carregavam as latas pretas de assar biscoitos. na boca do forno fumaçando. vi movimentos de gente. abalável... mas tem. já confortavam meu estômago. que era arvorado para honra de bandeira do santo. eu amarrei o cabresto do meu cavalo. com proceder seguro. – 645 – . não dei em nenhuma desbraga. As mulheres.

com regalias de comida em mesa. João Concliz. também falei: . João Goanhá. e o menino pretinho Guirigó mais o cego Borromeu – em cujas presenças todos achavam muita graça e recreação. Alaripe e uns outros. Sem se franzir nem sorrir. requer e merece. e com gosto eu cedo. Acho que tenho para coisa de uns cinco ou sete. meu senhor. Diadorim. meu chefe..“Dou todo respeito. Mas a gente vamos carecer de uns cavalos. Aquietei o susto delas.João Guimarães Rosa .. bem orvalhosas. para ela pedindo em voz alta a proteção de Jesus. e nenhuma falta de – 646 – . lá na sala. a valer: a casa velha é sua.“Amigo em paz? Meu chefe.Grande Sertão: Veredas . em antes de vir a amolecer as situações e estorvar o expediente negócio a boa conversação cordial. O homem não treteou. A dona fazendeira era mulher já em idade fora de galas. Sendo que galinha e carnes de porco. casadas ou moças.“O senhor.. Mas. Eu disse que sim. Onde tive os usuais agrados. mas tinham três ou quatro filhas. e outras parentas. me respondeu: . em estado regular. vossa. Marcelino Pampa. entre. farofas. para evitar algum acanhamento e desajeito.” – ele pronunciou. sentados.. mais tarde.” E eu entrei com ele na casa da fazenda.. eu. bons quitutes ceamos.” Assim logo eu disse..

Espécie de medo? Como que o medo. para principal.Grande Sertão: Veredas consideração eu não proporcionei nem consenti. então. assumi incertezas. A ceia indo principiando. ele conseguia as ponderadas maneiras.” – essas palavras. isso. que outros e outros caminhos logo tomava. tarde seria para bem aprender.. Conforme jagunço de meio-oficio tinha sido. ainda que eu pelejasse constante. que se representava. abastado em suas propriedades. cidadão. que. mesmo porque meu prazer era estar vendo senhoras e donzelas navegarem assim no meio nosso. Seo Ornelas me intimou a sentar em posição na cabeceira. e com toda cortesia social. garantidas em suas honras e prendas.João Guimarães Rosa . pelo que disse. e amigo hospedador. Aquela hora. Só faltava lá uma boa cerveja e alguém com jornal na mão. Verdade era? Aquele velho fazendeiro possuía tudo. era um sentido sorrateiro fino. para alto se ler e a respeito disso tudo se falar. – 647 – . Aos poucos. somente falei também de sérios assuntos. Na verdade. que eram a política e os negócios da lavoura e cria. Medeiro Vaz tinha regido nessas terras. eu.. quando passou. .“Aqui é que se abancava Medeiro Vaz. De ser de linhagem de família. essas coisas tiravam minha vontade de comer farto.

que sacudia.” E eu bem que já estava tomando afeição – 648 – . Tudo aqui é perdido. cochilava afundado em seu lugar. feito esta. é só dar um saco vastoso na mão dele.Grande Sertão: Veredas ..“O sertão é confusão em grande demasiado sossego. e umas cartucheiras apropositadas. iam passando os ossos para eu presentear aos cachorros. para dentro e para fora: capaz de supilar os recheios e pertences todos duma casa-grande de fazenda.. assim riam todos. Cada cachorro sungava a cabeça.. com a maior devoção por mim. Vai pelos proveitos e preceitos.“Duvidar. Ou.“Tu é existível.“O sertão é bom... às vezes eu fazia de conta que não estava ouvindo. consentidos. então.. e janela para pular.” – eu caçoava. Assim eu mesmo ria. Guirigó.. perto da mesa com toda atenção. . O menino Guirigó comeu demais. Aquele menino já tinha pedido que um dia se mandasse costurar para ele uma roupa.. e aparava certeiro seu osso. despertava com as risadas. bem abocava.” – ele seo Ornelas dizia. rompia fala de outras diversas coisas.. salvo que seja. tudo aqui é achado. Para encorpar minha vantagem. que até não era pequena. que ali nas margens esperavam. E joguei os ossinhos de galinha para os cachorros.João Guimarães Rosa . Mas eu dei de ombros. chega estalavam as orelhas.” Essa conversa até que me agradou.. Aí caçoei: . e simpatias. e prover um chapéu-decouro para o tamanho de sua cabeça dele. E todos. .

era como se ele reprovasse minha decisão de trazer para a mesa semelhantes companhias. eu sentia assim: feito se estivesse pego numa ignorância – mas que não era de falta de estudo ou inteligência. .João Guimarães Rosa ... o senhor vai. elas perdessem o acanhamento de falar. por criança... como em teatral em circo em pantomima bem levada. Só. O moderativo de ser. O senhor retorne. À puridade. se carece dele.Grande Sertão: Veredas àquele diabrim. consoante que quiser. mais uma minha falta de certos – 649 – . de outras mais arredadas terras – sei se sei. Mas o seo Ornelas permanecia sisudo. Pois. faço que ele afetava de propósito não reparar no menino. como que só com ele.“As colheitas.” Solei um vexame. a esta casa Deus o traga.“Oxalá. E quase não comia. vez outra. as senhoras e moças conversavam e brejeiravam. O sertão carece. Pelo tudo.. o apertado ensino em doutrinar os cachorros. o senhor venha.. e a justa. por não saber a resposta concernente. .. Homem sistemático.. nuns casos como esse – resposta que eu achava que devia de ser uma só. ele obrava tudo por um estilo velhoso. ambulante. jogava na boca um punhado seco de farinha. O que é igual quase um calar. um homem forte.” – seo Ornelas supracitava. com o Guirigó. Isto é. sestronho. O menino e o cego Borromeu – aqueles olhos perguntados.

um pouco enfurecido. sem sobrosso de perturbação. é um que deve de estar presentemente embarcando cargas.“. quem mais abre e mais acha!” – assim eu disse. que conheço..João Guimarães Rosa . Dobrei. meu Chefe: que em posto de dono. a outra ocasião. Assim ele havia de sentir o perigo de meu desprazer.. o Urutu-Branco.” – ele glosou.“Senhor saiba. no ContaBoi. Adiante comandava em frente. que a alma dele Deus haja. . ao que Medeiro Vaz mesmo foi que entre todos me escolheu. Tolomeu Guilherme.Grande Sertão: Veredas estados. nos olhos da morte. castanheteei para os cachorros. mas faltava em barba que cofiasse. Contra os de um Tolomeu Guilherme.” – o homem descrevia. Enterramos os melhores mortos. de mim. Mas sou. Defunto amigo Medeiro Vaz. ele expunha os cabelos brancos. Riobaldo que Tatarana já fui... para o exemplo... .. me determinou para capitanear e dar governo.. . .. – 650 – . mesmo nada tencionando dizer. mudei de cara.“Pois maior honra é a minha. de costas.. Amigo meu Medeiro Vaz. somente homens de alta valentia e valia de caráter se sentaram. daqui a duas léguas. A ver: e que é que achava de mim aquele surdo velho? Ah.. no porto em Pirapora. na pobreza desta mesa.. travou combates.“Eu sei!” – eu disse.. O que são bobéias: limpei goela.. o senhor terá ouvido? Aí o mais esse sertão tem de ver...

Assussurrada. Isso foi o que me satisfez. me faça obséquio da bondade.. E mal nem ouvi o nome com que ela me respondeu. A mocinha essa de saia preta e blusinha branca. o leve medo de tremor.“É minha neta. chamei: .” E ela avermelhou as faces.Grande Sertão: Veredas havia de recear. Ela estava parada. Mas. um lenço vermelho na cabeça – que para mim é a forma mais assentante de uma mulher se trajar. quase encostada na parede. só gostei de ver como ela se mexia por ficar quieta – vergonhosa como uma coalhada no prato.João Guimarães Rosa . no rever do instante. quando o burro dá as ancas!. Aquele homem. Aí. mas veio. visconde e portoso em tudo. das que estavam servindo. recuante. a mais vistosa de todas. chega aqui mais perto. de mim.” – foi seo Ornelas quem disse. em pé. O olhar de Diadorim era que estava me indicando: que para aquela mocinha ia meu admirar. A ela perguntei a graça.. nos tons do velho Ornelas.. – 651 – .“A senhora meninazinha... . Administrado. aquilo – como o outro diz: . reparei que tinha as mãos aperfeiçoadas bonitas... eu tinha divulgado um extravago de susto. que me juntavam com uma das mocinhas de lá. mãos para tecer minha rede. ah.. percebi os olhos de Diadorim. no meio das outras.

Os olhos de Diadorim não me reprovavam – os olhos de Diadorim me pediam muito socorro. Diadorim. fechando praia de mar. e meus homens estariam ali. mas que. A menina-mocinha. Aquilo tardou assim: feito o tamanduá a língua põe. a boniteza dela esteve em minhas carnes. ele eu desarmava. que eu agarrava nos braços. eh. A mocinha. Certo que. feito quem quer comungar. Aquela formosura. achei em minha idéia. por igual. com seu parado de águas. era uma quanta– 652 – . também. adiada. eu – pronto! – o Ornelas estava caído muito a morto. por amor. Diadorim não imaginasse isso. feito ela fosse. filha minha. caso fosse. com uma bala entrolheolho. Não perigou: no instante. A avaliar o de Diadorim. por um exemplo. A mocinha me tentando. Aqui digo: que se teme por amor. eu gostava de dar a ela muito forte proteção. como mostrava – outros olhos – o arregalo de ciúmes. em toda segurança. então podiam mesmo ser assim. é que a coragem se faz.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas pelo mulheriozinho de sua casa ele não encobria o comprado. uma razão maior – que é o sutil estatuto do homem valente. todos de pé. Deu silêncio. Seo Ornelas empalidecido. aquela delicadezazinha. sua família dele. eu de repente queria. antes de notar sequer que eu tinha pensado em arisco de mover nas armas. Ela perigou. num rebimbo de raio.

que nesse intervalo de instantes – 653 – .Grande Sertão: Veredas coisa primorosa que se esperneia. conforme tu merece e eu rendo praça. tu há de ter noivo correto.. de vantagens de bondades. Não vou estar por aqui. no dia. vocês. os altos da cabeça. Será que será. Como que. em todo tempo. que votos faço. atrás do que falei. carecendo.João Guimarães Rosa . bem apessoado e trabalhador. nos meus olhos de Diadorim. era um homem danado diverso. digo ao senhor: e Deus mesmo baixa a cabeça que sim: ah.. Mas. sosseguei – e melhor. agora sochupei aquele vapor fresco.“Menina. por aquele próprio velho homem. que está prometida – igual eu fosse padrinho legítimo em bodas!” Alto estive. no ar. ainda mais ao avermelhar. Ao que debati. E eu também mercês colhi – da alegria veraz. há-de-o.. podem mandar chamar minha proteção. quando for hora. Assim retido. por sempre.. Segurei meus cornos. Donde o que eu quis foi oferecer garantia a ela. no azeite em corpo de meu sangue todo. sem capacidade nenhuma. depois do fogo de ferver. era. outra vez. que por contentar profundo Diadorim eu tinha feito aquilo resoluto? Ou por outra. seo Ornelas. Mas eu não quis! Ah... eu – aquele jagunço Riobaldo. Ela se assustou. . fortíssimo. quanto e qual não quis. para festejar.

por me confirmar.. De Zé Bebelo. nem do Ricardão. perante as voltas todas que o mundo dá e der!” Realmente. pois era um que viajava amiúde – 654 – . esse. deveras foi afoito que eu quis com ele outras conversas. numa tigela grande. Minha gente junto comigo escutava. O mundo ali tinha de ser de se recomeçar. não digo.. Célebre.Grande Sertão: Veredas dizendo estava: . então eu virei para ele. me desfiz de ser. com capricho desenhada.” – foi o que ele respondeu. minha filha.. Mas. e prezei a amizade daquele homem dos sertões transatos.. as todas palavras deste grande Chefe. Aceitei o chá de laranjeira. uma hora.“O senhor tem noção de quem Zé Bebelo é?” – eu indaguei..” – ele externou. . tudo naquela parte dos Gerais era ilusão de haver e não se saber. ele não citou.. Mas figuro que. O quanto fiz perguntas. daí.“Zé Bebelo? Pode ser. então. com que sempre dei bem. ele não sabia nem a preposição. O chefe próprio dele. feito se eu ignorasse o qual era. não.“Sou de pouca política. .“Agradece. meu senhor.. nem do Hermógenes. também – e que o senhor pode ter conhecido igualmente. nunca ouvi. E.. . Ao que – isso era um fato possível? Ele não sabia. que é declarado sagrado nosso amigo.João Guimarães Rosa . esse nome.

O qual se deu da parte da banda de fora da cidade da Januária. pois a lembrança dum inimigo deixa qualquer homem agastado. mas variado em sabedoria de inventiva. nessa ocasião. Hilário. o que se diz: umas duzentas mortes! Conheceu. só mais para variação de conversa. tinha amizade com o delegado dr.. Mas de desde mais de uns dez anos que cortamos conhecimento. foi o seguinte. e capaz duma conversação tão – 655 – . espigadinho. vem a ser até parente de minha mulher. se bem que famanado homem de cabras em armamentos.. na política de jagunçagem. rapaz instruído social. mudando o propósito. conforme vou reproduzir para o senhor. Dele sozinho.Grande Sertão: Veredas até no Rio de janeiro. por esquipático mesmo no simples. com mãozinhas pequenas. o seo Ornelas relatou à gente diversos casos. Seo Ornelas. Em resposta assim ouvi: .” E como eu atalhei o assunto. pezinhos – e do ar sempre assustado constantemente. Mas aí eu perguntei a respeito daquele seô Habão. paz.“Esse um. vestido cidadão. por convinhável nas boas normas. Aquele – sequinho. o senhor? No barranco do São Francisco – o Coronel Rotílio Manduca – em sua Fazenda Baluarte! Agora. de muita civilidade. E o que em mente guardei.João Guimarães Rosa . e longe meu aparentado.

. por osséquio.“Me ensinou um meio-mil de coisas. amigo. sem assinalamento nenhum.... em roda com o dr.. Hilário mesmo indicou um Aduarte Antoniano. – 656 – ..Grande Sertão: Veredas singela. – o dr..” Seo Ornelas departia pouco em descrições: . Sempre só depois do final acontecido era que a gente reconhecia como ele tinha sido homem no acontecer. – O doutor é este... agarrado na ganância e falado de ser muito traiçoeiro. e que tinha um pau comprido num ombro: com um saco quase vazio pendurado da ponta do pau. Hilário mais outros dois ou três senhores. veio vindo um homem. De repente.João Guimarães Rosa . o senhor doutor delegado?-ele extorquiu.. Nele não se via fama de crime nem vontade de proezas. Aí. que à paisana estava. suplicou informação: – O qual é que é. viajor. que era uma simpatia com ele se tratar. . que estava lá – o sujeito mau. A coragem dele era muito gentil e preguiçosa.” Ao que.“. com o saco mal-cheio estabeleci do na ponta do pau. ou da Sambaíba. Sendo que mesmo a miseriazinha dele era trivial no bem-composta. Um capiau a pé. antes que um outro desse resposta.“. Semelhasse que esse homem devia de estar chegando da Queimada Grande. pois. o dr. Mas. e o soldado ordenança.. aqui. e se aproximou para os da roda. Hilário.. apareceu aquele homenzém. seo Ornelas – segundo seu contar – proseava nas entradas da cidade. numa tarde. .. do ombro.. mó que pergunte.

. aquele menino Guirigó.. e muito se vê. mas a gente não pode ser um outro.. Pelo que. – 657 – . apreciador dos exemplos. e o Aduarte Antoniano socorrido. – o dr. com o tardio da noite. Hilário completou. sendo eu um chefe. Ante o que. mas fui fora. Hilário. de faveira para faveira. e desceu o dito na cabeça do Aduarte Antoniano – que nem fizesse questão de aleijar ou matar. mas sem a gravidade maior. com insensata rapidez. deixei com ele a mão. ainda que às vezes eu ficasse em dúvida: se competia. E também. por todo o seroar. para o segundo sono. e. com o melor e sangue num quebrado na cabeça.. caçar o meio da minha gente. guiando a fala. – Um outro pode ser a gente.” Tal. contou o seo Ornelas. o dr. ei – e nisso já o homem.. perto dos currais. por sinal que armei rede por entre cajueiro e jenipapeiro. Mas. Acho que esta foi uma das passagens mais instrutivas e divertidas que em até hoje eu presenciei. falsificou. nem convém.João Guimarães Rosa . Reperguntei qual era o mote. e outras.. A trapalhada: o homenzinho logo sojigado preso. e eu teimei em rejeitar oferta de cama em catre em quarto ou sala. Apre. só me disse: – Pouco se vive..Grande Sertão: Veredas para se rir. lá para dentro duma cerca. mudei de rearmar. senhor de prosa muito renovada.. aturar que um outro fiasse e tecesse. veio a hora de se desapear da mesa. desempecilhou o pau do saco. na mesa.

quase com aquelas mesmas palavras.. inteirado no sono. e agora ele estava indo para se deitar no limpo e fofo. ele mesmo disso não soubesse. pesado como um de maioridade. Chefe. eu aplico. retribuí a ele. e eu consenti que as mulheres carregassem o coitadinho diabinho. A vida inventa! A gente principia as coisas. nem aproveitasse. Mas só porque o compadre meu Quelemém deduziu que os fatos daquela era faziam significado de muita importância em minha vida verdadeira. por entre colchão e lençol. regozijado e bem servido. Assim eu tinha trazido o pretinho Guirigó. – 658 – . e entradamente o caso relatado pelo seo Ornelas. nos braços das jovens e donzelas carregado. tinha adormecido completo antecipadamente.João Guimarães Rosa .” – assim seo Ornelas me saudou. que se deram ou não se deram. Ao que eu. no não saber por que.Grande Sertão: Veredas na senvergonhice inocente de sua pouca geração. do Sucruiú. do que em sua existência dele era que estava se sucedendo. . e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos. boa noite o senhor tenha.“A pois. por todos remexida e temperada. ali na Barbaranha. com um aprazível amanhecer. não por vezo meu de dar delongas e empalhar o tempo maior do senhor como meu ouvinte.. e levassem para dormir sei lá onde. As partes. Somente que.

João Guimarães Rosa . com o meu povo. em estradas de muita areia. e a limpo seguimos – a manhã ainda com diversas claridades. outros assim tão bons e melhores. Além do que quis que eu falhasse. cujos por bem uma meia-dúzia. No outro dia. Semeei para trás de mim o bom ensejo. Seo Ornelas externou as despedidas. exato. Ao que. Deciso. Rompemos umas duas léguas. Aí. puxei em frente. para a festa. a gente agradeceu. Achamos. Sincero o dito. Hilário se tinha formado. gloriando o mastro com a bandeira do santo. mas achei mais sobressaído ir mesmo embora. para poder ser de vir a colher. acordei com a boca amarga e doce. rédea e pernas. e o través de baixar alguma ordem comandando. O senhor me releve e suponha. os cavalos que pudemos – o que foram os dez. O que nesta vida muda com mais presteza: é lufo de noruega. Mas eu já estava agastado. O pessoal deu vivas. pelo mais. mais para diante. conforme se lembrou de mandar começar a soltação. com o x’totó de foguetes. esse dia com essa noite não se pertencia. caminhos de anta em setembro e – 659 – .Grande Sertão: Veredas que com a lição solerte do dr. O seo Ornelas honrava os atos. de recrutagem. os burros e mulas também contados. narro. subindo todos em selas. pondo meu cavalo: com espora.

Chamei para ele vir.. e negócios dos sentimentos da gente. A culpa minha. e o cuspe não cabia em minha boca. de vaqueiro de gado tangedor. com retardo. achei asperezas até na goela. Aí então. com a maneira da idéia da gente! Se sério.. Alaripe. pegava na gente. essas pessoas andavam em minha desilusão: de repente todos estavam endoidecendo.“. assim feito doença. Deu por paz. estou lembrado. opor seus olhos. essa paz – 660 – . debaixo daqueles telhados.“Ah. O tanto que. daí depois. Alguma instância. salgado como um suadouro de cangalha. Isso de estimar os outros.. Alaripe? Coração dele aguou. A opinião das outras pessoas vai se escorrendo delas. mesmo sem a gente saber. como ia em pensar. muito ligeiro. ei. Apartado de todos – era a norma que me servia – no sutil e no trivial.” – blasonei. drede em amouco. guardava o balanceio brando no coxim da sela. e se mescla aos tantos.Grande Sertão: Veredas outubro. hem. sorrateira. . então. no acaso da presença dele. era meu costume de curiosidades de coração. o velho entregou os cavalos. maior. vendo como vi o Alaripe de mim a curta distância – e que.. em tudo comedido. defeito esse que me entorpecia.. . das outras pessoas. Assim.João Guimarães Rosa . eu achei: que a conversa com aquele seo Ornelas tinha me rebaixado. um tinha de apertar os dentes. de repente. A cuspir para diante.. Do agravo. Aos poucos eu tivesse perdido a vigiação de minha alçada.

” . E a gente ia indo. em caminho não se descansou um dia. meu chefe... Eu estava chamando umas bizarrias.” . eu inventava em fala.João Guimarães Rosa ..“Pode que seja. para ter meus eixos..“Tudo tu vê.” . eu esbarrado em pé – isto é. ou cava de buraco..“E mas só o medo da guerra é que vira valentia. meus aços. diante de mim. mal completada. aquela comprida cavalhada.“Pois não é? Só quando se tem rio fundo. como é que ela enjoa. Força dessa minha maneira: eu estava pelo calor de tudo. Todo o mundo passou.. mas deve de ser. é que a gente por riba põe ponte. viemos. é deveras.. assim mesmo?” “Natureza da gente..” .. Agora eram os brejos da beira do Paracatu. Um ribeirão raso e estreito se passou – nem bem seis braças. A virar o ar. a cavalo..Grande Sertão: Veredas não te enjoa?” . A boca do boi quer sal – o sal do barro vermelho. é o que sucede.” .“Mal bem não entendo. Somente quis. conforme perseguia..” Assaz essas coisas.” .. Alaripe: eu acho que o enjôo da paz será também algum outro medo da guerra.. Dispor do ror daquilo eu não conciliava. Riacho desses que os que vão morrer chamam de rio-Jordão.. Mas eu tinha conseguido encher em mim causas enormes. custoso. A uns.“Mas a paz não é boa? Então. nem podia dizer aos outros o que – 661 – . por tanto.“Ah. vermelho meu.

não. e como eu ia poder levar em altos aquela tristeza? Aí – eu quis: feito a correnteza. Desde que eu – 662 – . menos vi Diadorim: ele era o em silêncios. seguintes: Hei-de às armas. que se puxaram.. só por bazófias – mas rogando no estatuto daquela letra e retornando meu rompante.. e todas as cachaças. Travessia dos Gerais tudo com armas na mão. fechei trato nas Veredas com o Cão. não quis. os meus. somente então uns versos dei.. Depois os outros à fanfa entoaram – mesmo sem me entender. O Sertão é a sombra minha e o rei dele é Capitão!.João Guimarães Rosa .. Hei-de amor em seus destinos conforme o sim pelo não.. Ao de que triste. de repentemente. cantavam melhor cantando. Em tempo de vaquejada todo gado é barbatão: deu doideira na boiada soltaram o Rei do Sertão. De todos.Grande Sertão: Veredas queria. Arte que cantei.. Daí.

Oi. e do que eu não me tonteava. Por ponto de meu corpo. Aquelas pedras brancas.Grande Sertão: Veredas era o chefe. em seus couros. Estrela gosta de brilhar é por cima do Chapadão. Esses dias em ondas. nunca esbarra. assim eu via Diadorim de mim mais apartado. estando. longe.“Aqui. Tanta doideira fiz? A prazo. As caraíbas estavam dando flor. grita. o suceder deste meu coração copia é o eco daquele tempo. Assim atravessamos. Vai. viemos. um vaqueiro pessoalmente. O Chapadão: céu de ferro. viemos. Os outros me acompanharam. a festo. Quieto. aqui é aqui?” Ao que ele confirmou: . E era a luanova. araraúna. E já se estava antefrente do Paracatu – que também recovava o pouco e escasso. Assim eu entrei dentro da minha liberdade. que de noite tanto esfriam. para a tua voz desenrouquecer! O Chapadão é uma estada.” Aos campos. Esbarrei não. E ainda hoje. Somente eu sabia respirar.João Guimarães Rosa . Sei só as encostas que subi. Como aquela vista reta vai longe. arara.“Amigo o amigo. medi o enrolar dos longes ventos.. e qualquer fio de meu cabelo branco que o – 663 – . nem examinei o adiante. muito quieto é que a gente chama o amor: como em quieto as coisas chamam a gente. meu senhor. o senhor. Sumo bebi de mim.. os senhores estão nos andares do rio Urucuia. Sentei que estava. A esse. Demiti meu cavalo n’água. Aí se viu. perfiz: . Só estive em meus dias.

.. ele me puxou. que depois lhe relato. Mas alguém me impediu. extremamente.“Ah... Acho que foi assim. naquelas.” Eu disse: “Pois. pegando em meu braço. e para o poente vinham.” – 664 – . só no azul do anoitecer é que o Chapadão tem fim. Diadorim me chamou.Grande Sertão: Veredas senhor arranque. fala. temeu por minha salvação. Ou era que mesmo desse jeito tinha de ser? Urubus perpassaram. Assim. te vejo mesmo. Ah. paz!” Ele disse: . Ah. Ali eu diante de portas abertas. o propósito para trás. às larguras de claridade. por livre ir.. a minha perdição. Diadorim vigiou aquelas diferenças: ele temeu. no se costear um barrocão. não. eu segurado. daquilo – sem traslado.“A uma coisa eu te digo.João Guimarães Rosa . Nas grimpas. Riobaldo!” Eu disse: ..“Estou aqui. Ou foi que minha Nossa Senhora da Abadia mandou que assim tivesse de ser? Mas Diadorim tirou o açoite de minha ação. Foi na descida de algumas ladeiras. declara o real daquilo. Riobaldo. Diadorim disse: . o significado duma coisa tive.

E mesmo eu sempre tive diversas saudades. mão mansa.“Vai dizendo!” . falei uma segunda palavra. No eu no meu. que. fiz de ficar indignado. a sina tristezinha do pouco povo. só pobreza. Eu não era pascácio. para a jagunçagem. de tardinha. – 665 – . Riobaldo. A testa dele merujava. assim obedecessem. coisas grossas gotas – mesmo me temesse? – aquele suor devia de se gelar. adonde se ajustar pagas e alugar muitos divertimentos. que ele queria me fornecer? Aí eu não queria ouvir o que fosse. Aí era um aviso. pelo que faltava de água naquelas chapadas. Um chefe carece de saber é aquilo que ele não pergunta. A pobreza daquelas terras.“Por querer bem é que eu falo. não tivessem de me dar a toda aprovação? Ao redor de mim. que caminhava em triste achar. Por certo. os Gerais mal serviam. eu não queria.. descabelando o buritizal. Aonde o povo no rareado. seria que se atravessasse o do-Chico – ir em cata de vilas e grandes arraiais. Eu disse: .. Conforme no renovável servisse: ir aonde houvesse política e eleição.Grande Sertão: Veredas Diadorim disse – a voz dele se paliava: .” – feito o sussurro. de repente eu não queria. nessas veredas. Desejar de minha gente.João Guimarães Rosa . Sabia disso. A chefia sabe chefiar. e a brabeza do gado.

vinha uma boiada. que nos extremos dele a gente pode esperar o lãolalão de um sino. – 666 – . suor nosso. o Acauã e o Fafafa: meus contra-guias. Diadorim. A mal o mundo serenava. Por exemplo. com coqueiral de macaúbas. a gente recruzava. esses com os laços enrodilhados nas garupas. haviam-de. em muitos adiamentos – ao homem da branca barba. Amor em perto. para mim. então.. Diadorim não me entendesse? Ele entendia? Assim. por ali mesmo. na areia roxa. e que. Diadorim havia de me entender. os Judas? Sim. cujos campais de gado. no bombalanceio. no meu ir eles iam vir. e o mimoso pássaro que ensina carinhos – o manuelzinho-da-troa. que passou. Em qualquer parte eu não podia arvorar bem fincado meu mastro-deguerra? Primeiro. eu gostava dele? Tem muitas épocas de amor.. . Seguindo. Mas. por prazer. Ou silêncio tão devassado. Mas. sobre morro.“Tempo de guerrear!” – eu disse. quando os jaós cantavam. Mas eu estava acontecido. Aqueles vaqueiros. completo. às vezes sossega. sei. Sabia isso era eu no coxim da sela. eu tivesse muito ódio. para tomar o instinto do ar. e o grande revôo baixo da nhaúma. de tardinha. meio do mato. o Pacamã-de-Presas. no raso e no monte. das areias tirando brilhos. dirá o senhor: e o Hermógenes? A guerra não era para ser contra o Hermógenes.Grande Sertão: Veredas Reprazia. um dia reverter para o rio das Velhas.João Guimarães Rosa . eles. para Alaripe.

Apreciei de ver como todos souberam jeito de esconder o medo que de mim deviam de ter. Mulher tão precisada: pobre que não teria o com que para – 667 – . Mas a minha sina formava o rebrilhar. essa mulher assistindo num pobre rancho. digo ao senhor. só não alembro se era um couro de boi ou um tranço de buriti. em tudo. por em si desencontradas. Boiada com rumo na barra do Paracatu. Deles até carneamos duas reses. Dada a mais cachaça ao menino Guirigó e ao cego Borromeu: para eles falarem coisas diferentes do que certas. lua me esperou lá fora. tanto tempo se esbrazeando para estorricar. só por si punha a boca da gente aguando. Conforme fatos houve. Da mulher – que me chamaram: ela não estava conseguindo botar seu filho no mundo. pois que tinha porta. salvante que mudassem de roteiro. Abri. Mas a gente ia por lados contrários. que – consoante o senhor escrito apontará – sobejam nesses campos. E era noite de luar. Nem rancho. Entrei no olho da casa.Grande Sertão: Veredas aboiavam. Se assou carne na moda do povo dos Gerais – que era com espeto de vara de folha-miúda. Eu fui. destapei a porta – que era simples encostada. o naco de carne se torrava como um fumo. Conselhos me davam? Mesmo só o igual ao que pudesse dar o cajueiro-anão e o araticum. e o gosto daquele cheiro se supria forte. diversas de tudo.João Guimarães Rosa . só um papiri à-toa.

– 668 – .João Guimarães Rosa ..” Digo ao senhor: e foi menino nascendo.Grande Sertão: Veredas uma caixa-de-fósforo. e falei: . Alto eu disse.“Minha Senhora Dona: um menino nasceu – o mundo tornou a começar!. no pouco chão. filha de Cristo. Diadorim não visse? Ah.“Toma.. conselho de amigo só merece por ser leve.. . feito aragem de tardinha palmeando em lume-d’água. senhora dona: compra um agasalho para esse que vai nascer defendido e são. Eu tirei da algibeira uma cédula de dinheiro. E era o que Diadorim agora desfazia em mim.. Com as lágrimas nos olhos. da esteira em que estava se jazendo.... Riobaldo. Você quer dansação e desordem.” – e saí para as luas. Aquelas obras. E ali era um povoado só de papudos e pernósticos... A mulher me viu. no me despedir: . O amor dá as costas a toda reprovação.“Repuno: que você está diferente de toda pessoa. e que deve de se chamar Riobaldo. olhos dela alumiaram de pavores.” Mexi meu cuspe dentro da boca. então.. aquela mulher rebeijou minha mão. no amargoso.

Perguntei.João Guimarães Rosa ... E. que?! Malfiz?!.” Diadorim disse. Eu ia aceitar essa repreensão? Ah.Grande Sertão: Veredas . Instruí o homem que levasse um recado. com o arrieiro de uma tropa.. A bem é que falo. não se agaste mais. desaguardadamente. Amizade de amor surpreende uns sinais da alma da gente. que passara por nós.“Um recado. a qual é arraial escondido por detrás de sete serras? Aí. Agora.“O segredo. de mim? Aí hei. . as certas sinceridades. E o que está demudando.. nos sertões menores. contra: . com o velho arrieiro da tropa. rumava para o Abaeté.. que se falaram – era de minha pessoa?” Essa tropa. e a voz dele. Riobaldo. eu queria saber.” .“ . num porto.. adeparte.“Aquele levou um recado meu. me rodeou. mantas de borracha. que Diadorim tinha tido. pouca coisa. Fossem atravessar o rio.. nunca... é o cômpito da alma – não é razão de autoridade de chefias. em você. eu atinei com outro motivo. iam passar por terras minhas conhecidas. dias antes. Diadorim... com carga de fumo.. couros de onça e de lontra e cera de palmeiral. para opor: a extratada conversa.” – 669 – . demorei. ecosa.

era de se pegar mais munição. então. que carece de existência. que nem precisava. Não vê. naquela ocasião. E eu estava livre limpo de contrato de culpa. A haver a coisa que de – 670 – . O pacto nenhum – negócio não feito. o que se carecia. com uma decisão de silêncio.Grande Sertão: Veredas . por desânimo de ser. não soubesse. fino.” Dizendo. no ermo da encruzilhada.. Vez minha de dar comando e estar por mais alto. nas Veredas Mortas. foi. o que fiz. Só eu não queria abusar.“Um recado. na dita madrugada de noite. rezo o bendito! Trastempo. mesmo. Agora.. mais outras coisas sobrevinham. era que o Demônio mesmo sabe que ele não há. Zé Bebelo tinha de todo desaparecido. Eu tinha guardado meus ouvidos. podia carregar nômina. tão pois. Mais tu não pergunte. Eu não queria escutar o reto. não guardo lembrança. Riobaldo: que. Todos deviam de me obedecer completamente. mas por roda normal do mundo. Aquilo não formava meu segredo? E. Por que não queria? Ah. da arte em que eu tinha ido estipular o Oculto. ninguém podia afiançar o contrário. A prova minha. eu estava em dúvidas. Até por isso era que eu estremecia. no ouvir certas menções. Diadorim se arredou de mim. só por só. O que ele soubesse.João Guimarães Rosa . não tinha sucedido. Apus pedra por sobre pedra. não tinha ciência de coisa nenhuma. Eu era o chefe. Diadorim tinha citado alma.

De que tivesse neste mundo um tal nhô Constâncio Alves. não desgostei de prosear com um antigo assim. A dar. que topamos no Chapéu-do-Boi. três léguas depois daquele. mesmo assim. um que disse se chamar nhô Constâncio Alves. era do seguinte: tinha sido o que aconteci com um sujeito senhor. feito o vem-vem das nuvens de chuva. As coisas vãs. – 671 – . esparramáveis.Grande Sertão: Veredas longe me ameaçasse. Aí ele tomou café. compatrício. Queria recompensas? Aos princípios. que o homem foi se avontadeando. Isso me disse aquele nhô Constâncio Alves. com a gente. podia me marcar? Se não fosse. que vieram vindo. Mas disse que podia ser de ter me conhecido. E também do desgraçado do homenzinho-na-égua. eu mesmo dava jeito para que ele tomasse coragem. quando eu menino. como era que Diadorim viesse vir com aquelas palavras? Acho que eu não era capaz de ser uma coisa só o tempo todo. também. Foi bem tratado. o que era que eu ponderava com isso? Mas ele mesmo ali loguinho falou: que era nado no pé da serra de Alegres. com o cachorro dele. Do que Diadorim se estranhava. e sendo da minha primeira terra.João Guimarães Rosa . O demo. encompridando as respostas. asseado em suas roupas e bem-vindo.

João Guimarães Rosa . mas. do sobredentro de minhas idéias – do que nem certo sei se seja meu – uma minha-voz.“Iô chefe. Em tão curta ocasião que teve.Grande Sertão: Veredas Até que. aonde o demônio não consegue espaço – 672 – . Pois não era? Aí. um certo momento. mas. miúdos remansos... Mas matar. um recanto tem. esfreguei bem minhas mãos. eu pensei no capeta. – assim eu defini. Ah.” – arenga do menino Guirigó. por má lei. Com o poder de quê: luz de Lúcifer? E era. ia apalpar as armas. sem prazo... tresmatado. Aquele homem tinha quantia consigo: tinha consciência ruim e dinheiro em caixa. eu vislumbrei. somente sei.. Foi. e escutar. o pretinho Guirigó se chegou sorrateiro. vozinha forte demais. Ah. suministrou um cochicho. adivinhado. de repente. que às vezes bem não regulava. A porque. Daí. Aí tive até um pronto de rir: nhô Constâncio Alves não sabia que a vida era do tamanhinho só menos de que um minuto. e emitiu em minha orelha. só de olhar para ele. eu entendi. se esquentou em mim o doido afã de matar aquele homem. O capeta – ele falou no capeta? Ou então. que nem era por conta do tal dinheiro: que bastava eu exigir e ele civilmente me entregava. . matar assassinado. quem mandava em mim já eram os meus avessos.. Aquele homem merecia punições de morte. O desejo em si. então. que era do capeta. de tão fraca. essa vozinha me deu aviso.

Ah. e estribei minhas forças energias. Riobaldo: que o diabo fincou pé de governar tua decisão!. No coração da gente.. O instante que é. Agarrei tudo em – 673 – . Aí resisti o primeiramente. só? Em nome de mim. Como que tivessem espalhado. e era o que eu mesmo queria. Mas. é – o senhor nele se segure.” A anteguarda que ouvi. mas. que teve. ombro com ombro. contra o que o demônio-mestre tinha determinado..João Guimarães Rosa .. e de mim quisesse por valia me entender. de minhas idéias. Meu sertão. masquei meus beiços. é o que estou figurando. mil e mil. Só eu sei.. toma tento. eh. eu arrebentasse. Sendo que mal resisti. os diabinhos. Vi que acabava tendo de matar. Só orçava. Ru. pelos inteiros cabíveis do Chapadão. o demo então era eu mesmo? Desordenei quase. então. Que como? Tem então freio possível? Teve. aquilo de ruim-querer carecia de dividimento – e não tinha. tocando lindas violas – para acabar com o que eu mesmo me falasse. cautela. por aí. eu não matava? Só forcejei por sobrenadar alto em mente o mando daquela vozinha. Eu matava um tiquinho... meu regozijo! Que isto era o que a vozinha dizia: . nas últimas. o senhor ver: quem é que era e que foi aquele jagunço Riobaldo! Pois em instantâneo eu achei a doçura de Deus: eu clamei pela Virgem.“Tento. e ouvi seteado.Grande Sertão: Veredas de entrar. saiba o senhor. E é preciso. em meus grandes palácios.

Nhô Constâncio Alves percebeu o mal-amém... Aí a pergunta seguinte: . mas esse eu nunca vi. no azo daquilo. aí. recebia perdão. O conforme foi: que isto eu espiritei: que fazia a ele uma pergunta. Respondesse a mal.“Gramacedo? Sinto dizer. o senhor é parente dele?” Só esperei. Confuso como se – 674 – . e. que nem morrão de candeia. E assim. Súbito sendo – pois. de resposta: . levando a salvo comigo o desgraçado nhô Constâncio Alves. brandamente. com obrigação minha mesma.“Se sendo que o senhor é de minha terra.Grande Sertão: Veredas escuros – mas sabendo de minha Nossa Senhora! O perfume do nome da Virgem perdura muito.João Guimarães Rosa .” A minha mão já tinha estado para o revólver. Mas nhô Constâncio Alves era para ganhar. por quanto a salvação dele mermava.. de outro jeito. pois – que um recurso eu tive. e por uma greta me saí. mas. eu tinha para sempre combinado. por eu não poder não-matar.. às vezes dá saldos para uma vida inteira. morria. nem dele ouvi falar. morresse. Tenho parentescos com ninguém de tal nome. pelo que deu. a pois: conheceu um homem que se chamava Gramacedo? Será. Ele dissesse que tinha conhecido o outro.

que aquele homem merecia viver – por causa de uma grande beleza no mundo. então. deixei que fosse embora. me presenteava. bem enroladas e embrulhadas num pano.Grande Sertão: Veredas rebaixou um pouquinho no tamanho: ele devia de estar abrindo os joelhos.“Perdoei este. traiçoeiro. Eu ia cumprir? – 675 – . Agora. o primeiro que se surgir. e assim me dava. eu tinha decidido. Eu? Assim. eu tive de falar alto: . à repentina. Aproximei o cobre. Ah. aí. que abriu: estava cheio de notas. Um anjo voou dali? Eu tinha resistido a terceira vez. Mas. mas. O que em seco ele foi engolindo: que podiam ser as contas todas dum terço. Tinha ou não tinha. não! –. paga!” Eu disse. nhô Constâncio Alves estava delivrado de perigo. O medo mostrado chama castigo de ira. Aí ele mesmo então achasse que carecia de muito morrer? – num pingo eu pensei. O ele. por tremor de medo nas pernas. novo. para me pacificar e enterter o Outro. Só que eu gritei: “O senhor tem seu dinheiro?” Ligeiro. noutro repingo: arejei que toda criatura merecia tarefa de viver. o homem caçou com suas mãos o surrãozinho. Nem espiei – para dele não ver as costas. Mirei aquele triste pescoço. destas estradas. nhô Constâncio Alves.João Guimarães Rosa . e só para isso é que serve. mas – ah.

com alguma altura. O homem tinha cara de focinho. Mas. assim achei. Aqueles arreios. nesse ofício que quase todo cão tem. Nem merecia dó. deveras eu mato?” . aparecido viajor.João Guimarães Rosa . Ele vinha numa égua.“Senhor mata? Senhor vai matar?” – o pretinho só se saiu pelos olhos. Essa égua era acastanhada. mas o outro de sedenho. E foi numa várzea. pelo que seus aspectos indicavam. A égua também cambaiava. avançando o formato dos ossos da boca: não tinha queixo. quase no se inteirarem três léguas. este. Desgraçado desse homem.Grande Sertão: Veredas De seguida. com uns boizinhos ali bem pastando. O cachorrinho pegou a latir. por perguntar: . ele estava pecando de pavor. logo mais adiante. Conforme houve fatos. o primeiro veio. num só relance ele transformou três caras. O homem bambeou de si. Demos com um sujeito. na companhia dele. E para o pretinho Guirigó me virei. vinha também um cachorrinho. de ser presumido valente. em cima da égua. coisa que se passou. de velhos. atrás. era que desfaziam. Como que. Eles esbarraram.“Aqui. Um cabo da rédea estava sendo de couro. pelo que em sua vida ia ser. – 676 – .

e um espírito de silêncio ele gemia. do meu dever de crime. por desconfiar de que eu não fosse querer cumprir. forro de qualquer castigo. Ah. o demo bem me conhecia! Devia de estar no astuto. Sabia que eu estava até com enjôo da situação daquele homem da égua.João Guimarães Rosa . E o homem da égua o nada de tudo espiava. que os meus cabras tinham escutado e glosado. assim é: sempre escolhe seus estilos.Grande Sertão: Veredas Ao que escutei queixos e dentes do homem bater. ali por perto. não. Com ele. Mas sabia igual que eu estava na estrita obrigação de matar – porque eu não podia voltar atrás na promessa da minha palavra declarada. Agora. a vontade de matar tinha se acabado! Sei e soube: por certo que o demo. Súdito indivíduo assim não tinha ação de voz nem tirava um suplicar. Aí onde era que estava o anjo-da-guarda dele? Aí tinha de – 677 – . por mais inteiriço não se ser se forcejava. feitor. Ao mais. agora. ele adivinhava. dessa vez. escondia sua intenção. só por preencher o lugar que devia de ser o do nhô Constâncio Alves? Ah. se pagodeando de mim: querendo ver bem boa execução. Previsse que ia morrer só para indenizar do perdão dum outro. meu senhor. ele sabia que não carecesse de me azuretar. Tudo o que não sabia. meu gosto era permitir que ele fosse s’embora.

inventava de fazer? Eu tinha a preguiça de falar perguntas.Grande Sertão: Veredas morrer. por apreciar. e latiu. anunciado de pobre. Os outros. parados em volta.“Seja o que. me agravou. numa urgência assim. A afleima de assim loguinho ter de botar e ouvir minhas palavras no ar. O cachorrinho por sua vez entendia isso. E foi então. esperavam. e rico? Aquilo era justiça? Vai ver. nem soubesse quem fosse. – 678 – . companheiro velho? E eh lá isso?. sadio em bojo. por novas voltas. e porque outro ao-menosremédio não havia. Mas eu estava pensando redobrado.. O que era que Zé Bebelo. que ao cego Borromeu eu indaguei: . Como era que eu ia matar aquele sujeito. Era justiça? Era possível? Eu pensei. de pedir avisos a um cego. assim. ele nem conhecesse o nhô Constâncio Alves. porque o diabo..João Guimarães Rosa . no arco. e matar em vez de um outro. ganiz.” Atabafado. mais conseguido do que o dono ele sabia dar de gemer. eu tivesse de me vexar. mirei e vi. para retardar os momentos. Até porque. Consideravam de espreitar meu procedimento. Ninguém não tinha pena do homem da égua. cainhava. em públicas varas. no nó de compromisso tinha me pegado. Carecia de morrer.

mesmo no magoar do terror. nem donde era que era. Antes ligeiro.João Guimarães Rosa . pelo malaventurar. em cima da égua.” – eu ralhei. Adforma que eu tinha de resolver. . dá nas armas. não-sei-que-diga! Vai sebo. Ao que eu tinha trazido aquele comigo. Aí o Acauã.“Senhor mesmo é que vai matar?” – o menino Guirigó suputou. . por um gesto de aviso meu. Chefe? A-hem? Se é o que mecê sumeteu.. se quebrava das formas e cor. O demo? – 679 – . decerto. assestava nele. Um naqueles casos. sensato sério. encarapitado – o pobre. por vez um se assopra de adoido. amontado sempre. o homem condenável. para os meus homens não me acharem aparvo. chorava por si mesmo. Agarrado todo na égua. . entre isso. sobrestante. o ter crescido de sua longe meninice. Nem perguntei o nome dele. chorava. Mas. e perpassava – ele era um ser com a cara desmanchada.. só encolhido. dá bote. Ou o demo. para a nenhuma utilidade. A cara dele.“Se é se é.Grande Sertão: Veredas . porque.“Vai sebo!” – eu tornei a xingar o menino-de-infância. Onde os outros riram rabo. de nada carecia nem necessitava. sem-razão.“Te acanha. o diabo falou como uma flauta. enhém? Senhor quer que seja que se mate um tal?” – sem-termo do cego me respondeu. dioguim.

que semelhava com os ombros debaixo de todas ventanias? A cachorrinha perturbava os cavalos. Ou eu temi também o Tranjão. O homem nas costas da égua. e ele estava se rindo de mim. por reboliz. que eu mesmo ajustara por meu vigiador? Seja o que. que se sujava? Às caçoadas.“Oé. mesmo. o cachorro. hoje mais rezo. Decerto porque. sobre assim. Ah.João Guimarães Rosa . os cavalos de uns desgostavam e se empinavam. Aperto do dever que eu tinha de cumprir. e os arreganhos. Ah. não desbobeava. Só Zé Bebelo servia para apurar um – 680 – . Se via? Se o homem dera de obrar. por resguardo de seu dono. Daí. desinquieta. O homem. eh. constavam de querer ver aquilo. ele já está se deixando!” – algum reparou. como era que eu podia atirar numa triste pessoa daquelas. o Cujo. todos riram mais: . Mas. Agora esse se prespiritava por lá. no que percebe aquele humano pavor alheio. os cavaleiros bramando: recordação de Zé Bebelo. era que se franzia. o Tibes. Os cavalos saltando assim. as remotas vezes. sabível mas invisível. mesmo permeando para a sela. de editada palavra. animal de montada.Grande Sertão: Veredas Ainda que muito eu sei. Conseguinte que. no não dizer. meu próximo. o todo desprezo ao cavaleiro está obrigado a demonstrar. e Zé Bebelo! – repentino relembrei. agrediu os cavaleiros – com qual a latição dele. que agora dava debate. não! Somei que tive pena do homem? A cachorrinha se latia.

A tanto que sei. Não deixem ela uivar. Agora.. No que uma peia. cachorro a gente enforca. às patas – eu disse. então o Pacamã-de-Presas e o Jiribibe arrumaram uma jarda de fina corda. pelo modo ele tinha medo de uivado de cachorro. gente. fazendo meu cavalo também se arquear e empinar.. arre crinas. .” – o menino – 681 – . na arroubagem de arruaça. do Demo – naquele instante – agora era eu quem ria! . que bradei – num entusiasmamento daqueles mesmos de Zé Bebelo – a fala igual à de Zé Bebelo. digo ao senhor: dele. no deslindar.” Só um assarapanto de silêncio. Todos entenderam. um laço ou um cabresto. Onde ele? Ah! Ah e foi aí – então – que estouradamente achei: fortes idéias! Rapatrás..” – foi o que o cego Borromeu disse. e avistei.. Daí. porque minha palavra prenhada não foi com ele: quem eu vi... na baralhada em pompa dos animais. segura o cão!” – dei ordem. se esbrabejava. foi esse cachorrinho!.“Ei-ei. eu.“A bom.Grande Sertão: Veredas impedimento desses. me vivavam.. primeiro.João Guimarães Rosa . Eu pronunciei: . me admiraram.“Não deixem ela uivar. com ela se amarrou o bichinho num pé de assa-leitão. Disse..“Rai’-a-puta-pô! Não tenho que matar este desgraçado. . eram desconformes para isso. Num trêstempo a cachorrinha estava pega.

não. eu também já tinha aprendido – das sutilezas. Até porque ele se cessava sem entendimento das coisas. Do Demo. não tirei noção.. mesmo. sem ação. quando se enforca. essa é que foi – a que primeiro deu nas minhas vistas!” Real. não! Ah.. com simples voz. Mandei que esse menino fosse para mais longe. para ir exilar os dois em boa conveniente distância. ficava sendo. Transes que em instante temi: aquele homem morresse.” – foi o que o Alaripe disse. quem é que ia me contrariar? Eu era senhor dali e daqui: eu falando. Mais. Divertidos. Agora eu estava com outra pressa. pensei. Deram uma palmada na anca do cavalo dele. Pelo tanto que a cachorrinha se prezava correta. matar aquela cachorrinha? O que menos eu pudesse.“Desapeiem o homem. mudando o propósito – e para que isto bem se entenda.João Guimarães Rosa . chora lágrimas – os olhos dele regulam com os de gente. A tudo. . Fio que me aprovaram. só mesmo por pragas. . que o João Vaqueiro puxou. latindo tão relatado. por aí. perder as influências.. rebaixado – 682 – . E nem não foi essa cadela. A égua.. não matava. roqueado no medo. mandemos embora.“Um cachorro. Ah. Tornei a transdizer: “Adoude!. Agora. todos. que se vá!” – em ato ordenei.Grande Sertão: Veredas Guirigó deu atrevimento de ensinar.

estava definitivo: só sendo nas extremas do fim do Inferno. não se chora. e saiu. Ah. As graças d’arte – sabe o senhor : na escuridão.João Guimarães Rosa . igual se fosse criança pequena. o destino de lugar.. com aquele homem. o que ria o riso principal era ele. e o homem quase nem se impunha de ficar em pé. – 683 – . eu tinha procedido de demorar assim. Não quis e nem pude. Arrochei. conforme os ombros dele se sacudiam. Assim foi em arrebrusco: sobreveio em mim a estúrdia arfagem de chorar também – eu nas margens do mar. por causa da judiação que eu. para dentro. Aquilo não tinha nenhuma sensatez e me dava gastura. com bem de choro: estava chorando soluços fortes. Aborrecidos.. tive de gritar. então. Por um momento. os do meu pessoal gritaram com ele. desamontaram o homem. davam em escuro. devia de estar chorando.“Tu foge fora daqui. Ânsia que meus olhos. astúcia que remexia com minhas resistências. Aí ele entendeu. sem espiar para trás.Grande Sertão: Veredas dessa forma – então. outra vez. uns dos meus cumpriram meu mandado. desgostei de mim. mesmo por querer salvar a vida dele. por não se ver.. Com isso. pensei que fosse correr. aí. tu te vai embora!” – eu disse. que tornou a pegar a correr. O Tisnado! Assim. Agora era que achava pranto. o demo. com asco. Com jeito.. . Antes tivesse logo matado. ah. no final da vez. para mim. ao tom dos brados. como não se pita cigarro. Mas esbarrou. Ainda esbarrou.

para saber de sua cachorrinha. mesmo com a contrariedade. Agora eu colhi em mim um estado de desânimo. Ali estava aquele magro animal. Tanto ela não latia mais. que. assim esperavam que eu desse cabo dela. E a cachorrinha estava ali. que o Fafafa segurava. essa. numa desgraçada pessoa. eu pensei: eu dava para Diadorim. A tanto. que se debruçava de pernas abertas. segundo tinha sido a minha decisão. roupeada? Como é? E o homem não tinha vislumbrado de espiar para trás. por meus desmandos. que todos tinham se esquecido dela. quem sabe eu ia ter. e mirar o tiro na testa da égua. preso somentemente no cabresto. Suficiente sacar garrucha. A cachorrinha. ou que mandasse outro fazer. pois? – 684 – . calado durante tudo. era a hora de minha acertação. se acabando.João Guimarães Rosa . A ser. que perto todo o tempo tinha ficado. eu mesmo. daí já tinham desarreado a égua. porque eu tinha começado a desastrada estória. pois. E. de pagar. e o lombilho e os baixeiros botaram dependurados num galho de árvore de beira estrada. Ao dito. com graves castigos? Algum tempo estava se passando. por conta daquele homem. mais para adiante.Grande Sertão: Veredas Como é que se podia desrespeitar tudo desse jeito. bem amarrada na dignidade. que um final razoável carecia de ter.

não vendia a vida da égua ao Fafafa. então. Instante em que me prazia ouvir o meu pessoal discordar daquilo.. Ela tinha de receber a morte. virou para mim. não estava em meu regulamento resolver. eu mesmo. a ver que reprovavam minha decisão. Resumi um recurso. por aí alerta.” Aonde que ele disse. A egüinha não é de todo ruim. e disse: . em seguida. não. gostei. porque até o Fafafa me atravessava. com a égua. não. Vender.. outros secundaram: eu deixasse.. solerte.“Nosso Chefe.” – 685 – . que seja poupado. assim. com vênia eu peço: o senhor aceite de eu pagar em dinheiro o preço deste inocente animal. por tanto que a minha palavra decidida era de se matar um homem! Não executo. Os demais..Grande Sertão: Veredas Ao que o Fafafa. que não teve poder em si de se consentir silêncio. E que? Ah. A alçada da palavra se perdeu por si e se gastou – pois não está dito? Acho e dou que o negócio veio ao terminado. como eles queriam. não é cabível que se mate a égua..João Guimarães Rosa . não é pessoa que existe. Repente meu foi meio irado.. Só que. de que a égua se matasse. Ah. O que foi como pronunciei: “Delibero o certo: o primeiro que eu vi. foi essa égua. Ah. A gente revoltosa? Ah. Do demo era que eles discordavam! Rapaziada boa. a frio e por fria razão. mas égua não é gente. que.

e tornar a entregar a ele o que é dele. na sombra dum pau-doce. foi que todos me aprovaram. fiquei ouvindo os gabos que os em redor de mim me dessem. caçava moitas de capim. Porque essas coisas. Ou seja que me admiravam em real.“Trazer. Contente. em tempo de campear outra vez esse homem. uma na outra. foram pelo homem.. . já que se estava por descanso e espera.. como arras de procedimentos maiores. me tiravam o poder do chão... – 686 – . Sentei. comigo. se dar de comer e um café. e descontente. Mas. o Chefe tira mais finíssimas artimanhas do que o Zé Bebelo próprio.” – um disse.” – eu disse. era que eu estava. e mesmo nem sabiam que essas minhas espertezas eram cobradas da manha do Tentador.João Guimarães Rosa . torcendo em galope. .“Aí. para pastar.“Tal a tal. tanto. de certo modo.Grande Sertão: Veredas Verdadeiramente.. A égua. e se tinha boa aguada na vereda perto.. o jacaré armou a trempe e coou café. pela esperteza de toda solução que eu achava. que se soltou. Com o que. José Gervásio e Jiribibe. . correr alguém.” Eu falava era por devolver a égua. a modo de se dar a ele dinheiro. eu limpei o seco de minhas mãos. com alegria. E o Suzarte.

” – assim rendiam explicação. amarrada mesmo. sossegava a minha perturbação.Grande Sertão: Veredas . demo. A cachorrinha. Alembro que eu ainda podia caber nesse domingozinho de tranqüilidade. com o suave rumor que assopra e faz.. sem mais tardanças. Jiribibe e José Gervásio já retornavam. medo dele era medonho. pelo que eu ia aproveitar para uma sesta de soneques. o melhor de tudo! – era que o Anhangão não aparecesse. Mas.. Que é que se podia remediar? Seguir nossa marcha. a pouco. mais aduloso. eu estimava meus homens.. não se visse porfiando no meio de todos. carregando com o rastro. Aprazia escutar o ventinho do chapadão. – 687 – . por não ter nenhuma existência.. não competir.” – outro falou. Sujeito se sumiu nesse mundo.. Aquela hora. Suzarte. sem o resultado algum. Isso.. Só achamos o nada dele. se sujeitava de não latir: figuro que alguém estava dando a ela pedaços de carne-seca. O melhor – ah. que falassem. que vivessem.. nas folhas do bate-caixa. que determina com a mesma justiça que-Medeiro Vaz. Tirei minha madorna. pensei.João Guimarães Rosa . para afirmar idéia e respeito de que eu estava em minha chefia independente. e que mesmo o mais certo era d’ele.“À fé..“. com o vazio tido. bom louvo. mandei que aquietassem. A gente largava a égua ali. .

e o arreio do homem. A égua ficou lá. Será – mal pergunto eu ao senhor – que viajei este sertão com o Outro sendo meu sócio? Vá retro! Mas não tenho modo de entender como Diadorim estranhou meus semblantes. pendurado no ramo de árvore. Meante o que. Amontamos. Eu ia. ele melhor respondeu: . ou dela por boca de outros tinha notícia. no caminho contrário. do que derradeiro ele me disse. pastando. adiante. me ficou um retardo.João Guimarães Rosa . há-de asas! Foi ela em longe desaparecer. de seguro ela vai se encontrar com onde estiver o dono. Do que discuti com Diadorim. Aquele passo me envergonhava.. não pensava.“Reinaldo. não me instava. – 688 – . até as moscas do campo já se ajuntassem nele. e nós tocamos. E por via disso é que tinha sido a nossa conversação – por causa do de que agora lhe dei conta miudamente. Trotei.. à meia~ rédea.Grande Sertão: Veredas acaso algum dia o homem voltava. Do que acontecido. Valia o senhor ver o raio de amor que tangeu a cachorrinhazinha: que latiu suas alegrias e airada correu. como um espantalho. E a cachorrinha? . feito fosse para um pronto destino.” E ele mesmo desatou. sem nenhuma demora.“Só convém se soltar a coitadinha. essa tu quer?” – perguntei a Diadorim. me senti muito livre.

Disse assim: . para a filha do fazendeiro da Santa Catarina. Deu o que me deu. Diadorim esperou. O amor dele por mim era de todo quilate: ele não tartameava mais de ciúme nem de medo. será?” . sentido. O recado aquele.. pedi ao arrieiro para dar a uma mulher. perguntei: . Em que é que você malda?” Ao que. então que segurança de si é que a gente tem? Diadorim me olhava. sempre com serenidade. eu relutei no freio. então foi para uma moça. Até o campolino meu cavalo assumiu um espanto. e que é minha noiva.“O recado mandado. Diadorim.“Riobaldo. é que eu a duras exijo – o que me reverte!.Grande Sertão: Veredas Como ser? Eu queria e não queria ouvir – não queria e queria.“Ah. – 689 – .“Pedi a ela que rezasse por você. tu diz. e eu vim.“Sou teu amigo. por praga. Teu falar no exato. perguntar forçado... Porque surpreendi o mundo desequilibrado rústico.João Guimarães Rosa .” . que tivesse.. o que me pertencia e o que não me pertencia. Se a vida coisas assim às horas arranja. Riobaldo. tinha de ser acusação. que Otacília é. E eu quis.” . dever de toda lealdade. pois foi. Resto de toda resposta.

“Acho. mesmo antes dele falar. O que era que me transtornava.. aí. tu.. recebi surto de meu sangue. Ao que bem pensei: – Hás-de! Rezas essas. assim para não insultar Diadorim com nomes que fossem da maior ofensa. Diadorim?” . ... Com um tapa na rédea. o todo tempo. rapaz! Careço é de menos amizades. por essa fraseação? – 690 – . por costume antigo...“Acha tua vida. o contra? Atira. mesma. Demais.” No argame. mor. Rude que ainda reperguntei. vi que. e logo doeu no meu beiço o que eu estava me mordendo.. me apartando.. com chumbo fino. de manhã à noite. em anta. do meio para o fim.. que não esbarrasse de rezar. eu tirei de perto dele a cara de meu cavalo. Nem sei mesmo se alguém te botou o malefício. Assim pela esperança de saudade que ela tivesse. no esquisito desgosto de meu espírito.. não! Ah. por minha ajuda. – e ri mamente. eu já sabia que aquilo era – o que ele não evitava de me dizer. forte. que estivesse viva..” Mor. no corpo da cara e na beira das orelhas. Riobaldo. Tua mãe.Grande Sertão: Veredas Riobaldo. mesmo assim: “Ah. você acha que eu careço de suas rezas orações.João Guimarães Rosa .. achava.” – ainda eu maldisse...

Grande Sertão: Veredas Sendo que. trastempo que agora.. sem um ente próprio – feito remanchas n’água. O que era para haver. E o senhor sabe no que era que eu estava imaginando. – 691 – . esse sistema. eu fiz questão de não querer prosa nem presenças de ninguém. se houvesse. Ele é? Ele pode? Ainda hoje eu conheço tormentos por saber isso. Ah. à meia-noite. quando esperei. para que vissem que eu estava pensativo de projetos. quando esbarramos a caminhada do dia. quando as idades me sossegam. A saúde da gente entra no perigo daquilo. Eu. num frio. As muitas sérias coisas referi comigo quando eu estava provando a fresca da tarde. Se pois o Cujo nem não me apareceu. feito num calor. por meu comando. não: não declaro. chamei por ele? Vendi minha alma algum? Vendi minha alma a quem não existe? Não será o pior?. mas que não houve: esse negócio. A gente parava no findar do Chapadão.João Guimarães Rosa . depois logo. em quem. e raivoso. E o demo existe? Só se existe o estilo dele. Tristonho. segundo se ia indo. solto.. assim eu menos penso. Atravessei meus fantasmas? Assim mais eu pensei. nas Veredas Mortas. então? Ao que fui. Por curto: minto. na encruzilhada. longe no poente. se não conto que estava duvidoso.

quer dizer: me alembro. não sabe encontrar. por si. Eu tive pena de minhas velhas roupas. Compadre meu Quelemém me dá conselhos.. Em presente e futuros. Não assinei finco. Eu não vendi minha alma. a vida de todos ficava sendo – 692 – . Sempre sei. esse norteado. mas abaixa meio ouvido. É o que tanto digo. De hoje em dia. e o chão não quis minha queda. Como que algum santo ainda não há de vir. Só o que eu quis. A que era: que existe uma receita. que era raramente. E rezo. sozinho. era uma só coisa – a inteira – cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. no estado do Chapadão. estreito.” Eu sei. tem. o que eu pelejei para achar.Grande Sertão: Veredas Desgarrei da estrada. alguém ia poder encontrar e saber? Mas. Rezo. Se não. O que ele renova é: . eu penso. de tranqüilidade. a norma dum caminho certo. Escuto o claro riso dele.“. mas retomei meus passos. como é que. eu purgo.João Guimarães Rosa .. reinando de alto sino. Tem que ter. realmente. Para a minha reza. brancas torres. todo o tempo. Queria ver ainda uma igreja grande. de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo.. das beiras deste meu Urucuia? E o diabo não há! Nenhum.. O senhor segurado não acha? Ao que tropecei. Diadorim só desconfiava de meus mesmos ares. no comum. Deus dá as costas. Diadorim não sabia de nada.

é maluqueira. como é que ela podia ser minha? O senhor reza comigo. em teatro. só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. do verdadeiro viver: que para cada pessoa. porque aquela outra é a lei.. Remedeio peco com pecado? Me torço! Com essa sonhação minha.. meu senhor: então. já foi projetada. que antes já foi inventada. Todos não vendem? Digo ao senhor: o diabo não existe. a gente vende. veja. não há.Grande Sertão: Veredas sempre o confuso dessa doideira que é.. fica sendo falso. ou que cacei errado. é sem nenhum comprador. o que o beltrano fizer. – 693 – . eu acho. Aquilo está no encoberto. Então.. e é o errado. não sei se vendi? Digo ao senhor: meu medo é esse. tudo o que eu fizer.. só que fui demais. E que: para cada dia.João Guimarães Rosa . Ah. Olhe: tudo o que não é oração. Miséria em minha mão.. e cada hora. e a ele eu vendi a alma. Mas minha alma tem de ser de Deus: se não. eu quis. Meu medo é este. E procurar encontrar aquele caminho certo. a alma. A qualquer oração. fora dessa conseqüência. Ora. o que todo-o-mundo fizer. o que o senhor fizer. forcejei... ou deixar de fazer. escondida e vivivel mas não achável. sua continuação. só. A quem vendi? Medo meu é este. mas. compadre meu Quelemém concorda. num papel. como o que se põe. para cada representador – sua parte.

Essas coisas que pensei assim. O palpite meu. pois. em madrugadas. o frio ali é tal. Na Serra dos Confins.Grande Sertão: Veredas Divulgo o meu. não deixou nem nublo: melhor fugiu. O desar que ele tinha falado e feito. Aonde eu ia. de todo. aquela ruim conversa nossa. Porém mais além. desisti. mas pensei abreviado. Menos que não guardei raiva de Diadorim. Sobre como é que a coruja conseguiu modo de poder voar sem se escutar o rumor do vôo? Ao que eu estava sofismado. era de chegar até na Serra do Meio – cruzar na Cachoeira-do-Urucuia. Na Serra do Tatu. Mas. lá já está sovertendo o laçaço dos ventos. E o resto já vinha. O senhor verá. torci direto para o norte. de minha lembrança. desencontrados. fujo de – 694 – . Dalgum modo. a gente necessita de uns três cobertores. a travessia. foi no Lagamar. Será que eles não sabiam que eu não sabia aonde ia? Isto é – digo – isto é. nem sentimentos. Não soubessem os começos e os finais. de agosto. meados de julho. por amor de ter algum claro juizo – espaço de três credos. Daí. Chefe é chefe. primeiro. todos achavam natural.João Guimarães Rosa . como que venta: árvores caídas. que. eu estava indo e sabendo. De repente. O que era como eu tivesse de furtar uma folga nos centros de minha confusão.

montado num bom cavalo amarelo.. de ver um companheiro assim se aparecer. veja. pitando maço de cigarros de fábrica. como passou? E dond’ é que soube de nós?” – eu em atiço perguntei. . se arrecadou a exata munição. a gente ganhava mais mocidade.“Ao que pois. em Morrinhos. Tatarana: em faltas de notícia. Ainda antes se dando. depois de tantos meses. Já estive em Ingazeiras. de ausências. na Barra-da-Vaca. que a gente tinha recebido uma boa surpresa. O Quipes! Assim o Quipes.João Guimarães Rosa . mesmo. e tinha comprado coisas: até trempe e caçarolas. . E. adestros. formei meu pião por aí.. Lampeiro. dias. de lá ondonde estávamos cercados em combates. e açúcar real e chocolate em pó. – 695 – . Arte que puxava um burro e uma burra. no Lugar-doTouro. na Fazenda dos Tucanos – o senhor se alembrará.“Ara.Grande Sertão: Veredas dizer: que. que retornava.. De desde que tinha cumprido a ordem de sair por travesso socorro. O Urucuia não é o meio do mundo?” – assim ele se temperou. antes. o Quipes entrado em boas roupas. rico feito um Mascarenhas.. no OiMãe. Ao fagueiro. Ele vinha certo e alegre. pujante.

Grande Sertão: Veredas O que não era toda a verdade. fazendeiro com posses. Ser o que não dava realce – qualquer um podia. e ainda não prezava o meu nome. Nem não tinha nenhum sinal do Joaquim Beiju. O que ele estava era recémchegando. e a tralha. Devia de. E me tratou de Tatarana. entrei..” – ainda proseou.” Desajuizado gastador. assim como aviso de outras novidades do mundo não deu. e do Coronel Rotílio Manduca – em sua Fazenda Baluarte. na venda do José Vassalo. Tal que disse: . esse o Quipes. gozando de minha pessoa de paz. muito macambúzio. ou o dinheiro para tudo adquirir. a burra e o burro. Indagou por Zé Bebelo.ser verdade... e pois de Zé Bebelo mesmo ele tudo não sabia. Só. adformas que vinha agora na ignorância de que eu é que era o Chefe. se gabou de ter tido duas ofertas: para servir de jagunço de Dona Adelaide. . mão em – 696 – . no Capão Redondo. Tanto ouvi. O seja que tivesse vivido esses tempos tangendo urubu.João Guimarães Rosa . em comando.. Onde que então. por terminar. Assim como verdade completa que.. até nas cidades de Januária e São-Francisco..“Isto eu bem comprei.“Ah. Nem o parar do Hermógenes. Eu – o Urutu-Branco! Ser Chefe de jagunço era isso. ele devia de ter roubado tomado em terra de riquezas. eu varava mundo.

O que dá fama.Grande Sertão: Veredas políticas. Ao meio do meio duma coisa eu tinha certeza: que Diadorim não ia me mentir. em sua casa. adiante de meus cabras. enraivecido. viemos beirando o Ribeirão da Areia. a decisão dele de tanto absurdo. por força. Diadorim me compassava. e que só tem a razoável explicação para quem está mesmo longe dos motivos. que sincera me aguardasse. digo – o recado enviado. O amor só mente para dizer maior verdade. era porque ele soubesse. O sertão tudo não aceita? A minha pessoa era nada. que era para eu bem estranhar. glória de Zé Bebelo era nada. no zelo de seu coração. E tanto igual sabia também de mim? Naqueles dias. dá desdém. Narro que não rendi melindres do feito de Diadorim. O que eu carecia era de dar primeiras batalhas. A reto. Tinha o norte.João Guimarães Rosa . que então Otacília me tinha amor. Ou será que já estavam mas era se aplicando no vagavagar? – Cigano sou? – eu pensei. em seu – 697 – . de rota abatida. Abrandei minha lembrança em Otacília. O menos de me importar. numa poeira danã. à vez. era. daquilo. Dei ordem. para a gente. Mas. O que era que eu tencionava fazer? O senhor espere. balancei uma inquietação. Essas desordenadas da vida da gente: tudo o que estoura manso e guampa quieto. Aí torcemos caminho. Suspender a alta coragem. Mas. para mandar à minha Otacília assim aquela embaixada.

nem foi um pensar. Até. Assim. Agora eu ia indo às avessas de lá. E eu declarava a grandeza real dela.Grande Sertão: Veredas meigo estar. por todos os pousos deste sertão. mas. Arremedo de sonho. da Santa Catarina. não seria de ser. rumo de profecias. E isso variou em meu pensamento. Então. é muito cantável.. a seguir. definida bem do meu lado. nesta vida. Ah.. Otacília – me alembrei da luzinha de meio mel. no demorar dos olhares dela. Aquelas mãos. emendando de novo o vero juízo. me querendo-bem – a mais de meu merecimento – e crendo que eu enfrentava os duros riscos. por um vão imaginar: que. por meu nome perguntando. que ninguém tinha me contado – 698 – . na frente do grande bando de meus homens. de jeito tão desigual do comum. a bem notado.. aparecia de repente. também. inesperado de ligeiro supor. que. ela Otacília pudesse praticar o estouvamento gentil de se fugir de casa e vir aventurada em minha cata. tive um receio: por causa que aquilo podia ser aviso do que estivesse por vir. ela vinha. minha vida granjeava outros fortes significados. minha intenção de saudade vinha voltando. de arribada. Ato do que meio confuso imaginei.João Guimarães Rosa . por um afino de momento eu me arrepiei por trás da testa. montada num bom cavalo corcel. Tudo..

e não faltava frescura d’água em nenhumas todas as léguas e chapadas.. viajasse. sem ser por motivo ou razão.. nem somente nos vastos imaginados. para mais apartado de donde ela assistia. toleima. E pelo sim receei: será tivesse Diadorim falseado fala. E a doidice da voz: que a gente depois viajasse. mire veja. junto com o pai e a mãe. Ao cada dia mais distante. Otacília estava guardada protegida. então é que o senhor não pode mesmo ser chefe de jagunço. para gozo e sentimento. mais longe neste mundo.Grande Sertão: Veredas que assim eram assim.João Guimarães Rosa . que era de se ver e logo decorar exato. e. eu mais Diadorim. bastava ele me olhar com os olhos verdes tão em sonhos. O senhor saiba – Diadorim: que. com a família. lá naquele lugar para mim melhor. que eu dela muito carecia? Divulgo o desuso disso. E eu. na casa alta da Fazenda Santa Catarina. nem na menor metade só de um diazinho. que era extravagâncias. Mas o senhor acreditando que alguma coisa humana é de todo impossível. Se Otacília viesse. Ora essas! – digo. e o recado na verdade fosse outro – o para ela vir. Isso tudo então não era amor? Por força que era. afoitamente. por mesmo de minha – 699 – . cada dia tocava com a minha gente por contrárias bandas. aparecesse lá em no meio de nós – que seguimento de coisas havia de suceder? A bobéia. O corpo – em lei dos seios e da cintura todo formoso.

se eu não tinha ainda ela toda pronta. pergunta de como era que ela e os parentes iam passando. à Otacília. eu quis escrever uma carta. Essa minha carta. saudações de lembranças. ele ia levava em mão. viu?! Pois isto eu digo por riso. dos ligeiros. se estava no veredal das cabeceiras de um córrego. para medir? Ah.João Guimarães Rosa . mas também para lhe indicar importante – 700 – . O senhor vai ver. por uns dias. trazia a resposta. Por quê? Pois. Era uma sinceridade muito dificultosa. E tive vontade de traçar uns versos também: mas que a aragem não ajudava a deduzir. Me lembro. adonde os cavalos usufruírem descanso. por graça. Eu era dois. diversos? O que não entendo hoje. Escrevi metade. eu podia destacar um homem. Isto é: como é que podia saber que era metade. por oras. lugar de desmedidas pastagens. Admiro que achei natural de não falar coisa de minha glória de chefia. O que eu cogitei de escrever era muito singelo: as notícias de minha saúde. do morno que a mão dele passava para a minha mão. A lá esbarramos e paramos.Grande Sertão: Veredas vergonha. escondido de mim mesmo eu gostava do cheiro dele. naquele tempo eu não sabia. minha noiva. Máximo me lembro é de que. do existir dele. na minguante.

os passarinhos se piam de distância. por outra: o dia vindo depois da noite-esse é o motivo dos passarinhos. tem força completa demais.“Te arreda desta minha – 701 – . como é que eu ia dizer: . guarde. eu somente terminei de escrever. lá acolá é a caatinga. Guarde o senhor: não pude completo. A ele vazio assim. e remeti. em certas ocasiões.Grande Sertão: Veredas fato: que a carta. Já conto. E. Falo por palavras tortas. O mato é dos porcos-do-mato. Quem entende a espécie do demo? Ele não fura: rascrava.. Tinha o Maligno? Às vezes. Mas não se avexe.. quase em data dum ano muito depois. que não entendi. O senhor nunca pense em cheio no demo. Um boneco de capim. vestido com um paletó velho e um chapéu roto. O sertão aceita todos os nomes: aqui é o Gerais. O senhor é homem muito ladino. aquela. Demorar comigo ele podia. penso. o que não existe de se ver.. não queira chuva em mês de agosto. já venho – falar no assunto que o senhor está de mim esperando. Mas. Conto minha vida.. e com os braços de pau abertos em cruz.João Guimarães Rosa . não é mamolengo? O passopreto vê e não vem. lá é o Chapadão. é. de instruída sensatez. Homem. Digo o porquê? Próprio porque não pude. E escute.. no arrozal..

Ah. não vinha a ser chefe de nada... na carta. tive raiva dele? Pensei nele? Em vezes. Riobaldo. guardei na mochila aquela metade. a igualzinha repetição daquilo de Diadorim: – que ela rezasse por mim. e então de repente tive vergonha. o que eu ia pondo. era quase que uma ordenada lembrança.. ali durante. Diadorim era um impossível. Um homem é um homem. Ele rondava por me governar? Mas.. desgostei de estar querendo escrever aquela carta. não. O que era em mim valentia. então. Ah. no que não vê e no que consome. Aí eu queria fazer um projeto: como havia de escapulir dele. houve. O demo. eu não era o Urutu-Branco.. no esfriar do dia. diabralmente. não deixa o diabo te pôr sela. –. Otacília.Grande Sertão: Veredas conversa!”?.. mas. em minha rede. Ou então. e. Amoleci mão antes de coração: não pude.. desarrazoado – por outras fortes ordens. ainda melhor. Ao que. Demiti de tudo. governar pudesse. orações rezasse. coisa – 702 – . pois. Não pude. no madrugal. por seu remorso. Ia. aí. eu não merecia. não pensava. que eu tinha mal chamado. logo no instante em que eu acordava e ainda não abria os olhos: eram só os minutos. e o que pensava produzia era dúvidas de me-enleios. que então até é o dia mesmo. eu preluzia tudo claro e explicado..-isto eu divulgava. A quando é o do sol entrar. Otacília.João Guimarães Rosa . Desisti. Repensava. do Temba. Assim: – Tu vigia.

Num arranco.Grande Sertão: Veredas nenhuma! Ah. Com o que peguei. não dava pé. me obedecia mais. o costume de pular. presença de beija-flor. aos poucos. só perpassava. De que modo? Mas acontece que o instante entre o sono e o acordado era assaz curto. eu carecia dum jeito. cada dia. feito fosse para evitar aquela inteligencinha benfazeja. que vai começa e já se apaga – e daí já estava inteirado no comum. que parecia se me dizer era mesmo do meio do meu coração. igual a um secar. quando voltava. nas meias-alegrias: a meia-bondade misturada com maldade a meio.João Guimarães Rosa . e mais me exaltavam. Saía sozinho. encontrava o pessoal se aprontando. E eu mesmo estava contra mim. cavalo para alvoradas. dum esperto socorro. a clareza logo cessava. Daqueles avisos e propósitos. Agora levantava. puxava e arreava meu Siruiz. Eu não podia me firmar em coisa nenhuma. para tentear com o Sujo em suas próprias portas. num átimo. Sair na escuridão. Não estava? Todo o mundo. café já coado. Sempre eu ia até longe. o montante movimento do mundo me delia. desfazia aquilo – faísca de folga. – 703 – . e mediante me pôr livre de fim fatal. o resto do tempo. o senhor sabe: aqueles galhos de árvores batendo na cabeça da gente. da rede.

leproso mesmo. um terminado. Arte de que as goiabas de todo – 704 – . O homem tinha vindo lamber de língua as goiabas maduras. que as ramagens da árvore enroscaram um rumor de vento forte. Não gritou. adonde fosse. no pé. Será que possuía sobra dalguma voz? Eu tinha de esmagalhar aquela coisa desumana. já de dentro do meu ouvido. Isso contavam. Aquele de repente se encolheu. na hora.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas cavalaria em fila para a viagem. Medeiro Vaz. Quase levei o susto. me lembrei: do que tinham me contado. do que nas outras. da vez em que Medeiro Vaz avistou um enfermo desses num goiabal. feito uma cobra ararambóia. que era justo e prestimoso. no alto duma árvore. Uns assim fazem. Para não ver coisas assim. Ele se achava como que tocaiando. onde estivesse. não disse nada. lambuzava pior do que lesma grande. com o fito de transpassar o mal para outras pessoas. por se esconder. por uma e uma. tremido. e tudo empestava da doença amaldita. Uma vez. jogo meus olhos fora! Promovi meu revólver. Dum fato. acabou com a vida dele. e tremeu tanto depressa. ânsia forte: o lázaro devia de feder. E era um homem em chagas nojentas. A quizília que em mim. E dei com o lázaro. inda mais longe fui. que depois comessem delas.

ele tinha dois olhos.” – ele ia dizer . com escondidos de não ter testemunhas... num sutil. “Estou aqui. Porque. eu armei minha pontaria. tem tento!”.João Guimarães Rosa . tudo clareado. Riobaldo. foi que vi e repeli o que que é ódio de leproso! Na cabeça daqueles olhos. Quem vinha? Em já madruga-manhã. assim. no meio das folhas da folhagem.. podia mesmo – 705 – .. E ouvi o vir dum cavaleiro. Diadorim me perseguia? “Vigia.. eu estava catando tal anúncio de acusação: – Tu traz o Arrenegado. sem razão. eu ente. Mas. apontando o esconso do leproso. aí.Grande Sertão: Veredas goiabal viravam fruta peçonhenta. Diadorim: tu pune por este?!” – eu havia de indagar. Muito coitado ele era – o senhor esteja de acordo. Acho que insultava era por de certo modo retardar meu dever? Ele não respondeu.. Eu e ele – o Dê?! Então. Em ante mim. te vejo é você mesmo.“Ô guaimoré!” – xinguei. como uma brasa chia em dentro de vasilha d’água. . Assim estremeci.. de Medeiro Vaz. ninguém não respondesse? Mas fincava de me olhar: ah.“. Esperei. do bafo mesmo de minha idéia vã.. reconheci: Diadorim! Embolsei a arma. Riobaldo.. Não dissessem que eu tinha baleado à traição o maldelazento. – e d’eu dar no gatilho: lei leal essa. A imaginação dessa conversa. eu pensei de relance.... E gritei pulhas.

para não falecer. ele me parecia mais alto de ser. Meu espírito era uma coceira enorme. Diadorim estava acolá. Montado sempre. A nega. fomos.. E Diadorim tropeava chegando. Não vi o demo. esse. – 706 – . com brado. meu cavalo sacudiu o pescoço todo. Espinoteei na sela. Por certo ele tinha enxergado a coisa viva.João Guimarães Rosa . Que é que adiantava que. eh dião. E o lázaro? Ah. diogo! dianho!. estacado parado no lugar. e estava desentendendo meu espaço. Retos. Contemplei Diadorim.. riso.Grande Sertão: Veredas ser que ele quisesse estar tomando conta de mim? – Aí. que parecia entrado dentro de mim. esses desatinos.. até com a mão. perto da árvore do homem. que um quarto-de-légua quase.. que se espertasse.. nem! – eu rosnei. Nós três? Que eu pensei. feito acordado dum cochilo de cão. pesando em meu estômago e apertando minha largura de respirar? Aí eu carecia de negar pouso a ele. -Eh.. e não bulia. que fugisse.. àquela hora. meu animal cumprindo: rompemos em galope que era um abismo. nem nunca. daquela distância. Mas eu virei rédea e roseteei. por tanto. Eu quis! Eu quis? Como olhei. E esbarrei. Eh diogo.... teso de consciência. por mim avistado. Espiei em roda. Como eu ia poder contra esse vapor de mal. por doidejo. desabalando.

mas para emendar o defeituoso. Como era que. Que aquele homem leproso era meu irmão.Grande Sertão: Veredas os passarinhos cantassem. sabendo de um lázaro assim. o sangue do coração dele é são e quente. aquele estrago de homem estava. neste mundo. Esporeei. por trás do podre.João Guimarães Rosa . ele já estava era morto. mas exclamação que havia de ser em duas vozes. tudo restava em doente e perigoso. ou não deixava o mal dar logo cabo dele? Homem. eu ia poder prezar meu amor por Diadorim. acabando de amanhecer o campo sertão? A enquanto sobejasse de viver um lázaro assim. conforme homem tem nojo é do humano. Vim feito. mesmo muito longe. uma muito diferente da outra. Condenado de maldito. Mas completei. que nem se exclamasse. criatura de si? Eu desmentia. que dissesse.. Que o que Diadorim dissesse. por não desprezar.” Encostar nele a ponta de minha franqueira de cabo prateante? – Toma! Tu cai no – 707 – . aquilo que Diadorim decerto ia me responder: “Riobaldo. igual. ao menos. então por que era que ele não dava cabo do mal. mas. voltando. por Otacília?! E eu não era o Urutu-Branco? Chefe não era para arrecadar vantagens. eu mesmo. sua culpa! Se não. remarcado: seu corpo. Tornei a empunhar o revólver. por toda lei.. tu mata o pobre. mata com tua mão cravando faca-tu vê que. “Não sou do demo e não sou de Deus!” – pensei bruto.

Joguei – ou foi um ramo de rompe-gibão que relou arrancando a arma de meu pulso. Cheguei. Mas Diadorim. ele deu um bufo de burro. na pessoa dele vi foi a imagem tão formosa da minha Nossa Senhora da Abadia! A santa.João Guimarães Rosa . Sobre o que juro ao senhor: Diadorim. E tudo meio se sombreava. Do leproso. joguei fora meu revólver. Mas repeli aquilo... como o de nenhum pasto. Como que eu estava separado dele por um fogueirão. dum verde dos outros verdes. conforme diante de mim estava parado.. batia mão. e mais o realce de alguma coisa que o entender da gente por si não alcança. com inteiro respeito. tive um cansaço enorme. Meu cavalo. esbarrei. por alta cerca de achas. rapava. com uma beleza ainda maior. pode que seja por não saber se matava ou não matava. mas só de boa doçura. caso ele ainda estivesse lá. tão airoso.. fora de todo comum. por – 708 – . Os olhos-vislumbre meu – que cresciam sem beira. Visão arvoada. Reforço o dizer: que era belezas e amor.Grande Sertão: Veredas chão. Mas o leprento tinha ganhado para se ir. Agalopando assim. Vi Diadorim. nas asas do instante. graças que não assisti à arriação dele: decerto descendo às pressas. reluzia no rosto. se escapando de gatas nas moitas de feijão-bravo. Desse.

A meio em ânsia. eu tive de fazer uma coisa. a voz dele era que mais significava. meu de natureza igual. . macho em suas roupas e suas armas. abri à berra meu jaleco e a minha camisa. não sei. O sertão não tem janelas nem portas.João Guimarães Rosa . Como foi que peguei o vivo de tal idéia. eu ainda estava respirando muito ligeiro demais. Aí peguei o cordão. Mas enfiei mão: por entre armas e cartucheiras. Ia me fazer alguma pergunta. ou o sertão maldito vos governa. e correias de mochilas. – 709 – . meio em astúcia. Aquilo eu repeli? Antes que Diadorim mesmo abrisse boca para me sorrir. voltar – que o povoão está de minha espera!” – eu enfim disse. que aparou na mão.“Hei-á. Ele tinha a culpa? Eu tinha a culpa? Eu era o chefe. como resumo.. Isto é. De que jeito eu podia amar um homem. em gesto.. meio em raiva. como se deu de que me alembrei daquilo? Homem. por não poder arrebentar – e joguei para Diadorim. porque eu primeiro falei. me falar. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão. espalhado rústico em suas ações?! Me franzi. por larguez enorme dum rio em enchente.Grande Sertão: Veredas profundo valo. o fio do escapulário da Virgem – que em tanto cortei. que eu não consenti.

Mas cheguei lá foi para ter ocupação de uma estúrdia novidade. portanto que meu cavalo soberbo não dava alcance para ele se emparelhar. e ele já via vôo. calado eu agradeci à amizade dele essa fineza. numa balsa de talos de buriti. cantei. sujeitos de furtadas palavras. Apertei. Com os urucuianos. Diadorim estava indo lá. Sempre longe em frente. que não era possível concernente. Daí. vez de logo vir. vim. Um – 710 – . e que com ele desceram o Rio Paracatu. catrumanos também. Num repousozinho de coração. a ver. Os primeiros que com Zé Bebelo tinham vindo surgidos. me canteipor causa que via que. Agora eles comigo queriam um entendimento. soturnos homens. modo de caçar e recolher o revólver. àquela hora. À paz! Mas Diadorim. por quietos e certos. Sustentei em esbarro meu Siruiz. O senhor estando lembrado: aqueles cinco. Nem meu cavalo carecia disso: era eu encolher um pé. dos Gerais. que de minha mão tinha caído. um palmo. como convinha. chegamos de volta no arranchamento. Mesmo mal. querendo as curiosidades.João Guimarães Rosa . tocou em contrário. bem procedidos. cabras do AltoUrucuia.Grande Sertão: Veredas Assim eu dava era ordem. era que Diadorim tomava mais sorrateiro poder em meu afeto. medeando tão grandes silêncios. Daí. Esses sempre mereceram pouca história da gente. Entre isso. podia medir três braças. Para mim. Eu não estava de francamentes.

“Praz vosso respeito. Praz vossas ordens. Queriam conversa comigo em só. Só tinha a barbazinha que tem um queixo de cavalo. Tive de ver bem suas feições. Eu apreciasse aqueles homens.. Mas aqueles cinco me condiziam. O homem não coçou a cabeça.. para o cabecilho. esse era o cabo deles. O nariz dele era bem grande. Sisudez deles ainda semelhava maior. nesta vida.João Guimarães Rosa . Diodato. puxando a parlagem. a gente decidiram. feito prontos para pedestre viagem. Chefe. – 711 – .. as pessoas também. Então constituí meus ouvidos. assim mesmo. nariz que não se empinava. mas reperguntei. casmurro com serenidade. A valentia deles estava por dentro de muita seriedade. Urucuiano conversa com o peixe para vir no anzol – o povo diz.. apartada. Admirei de ver que eles todos ainda estavam a pé. Formou em frente dos outros. Entendi... As lérias.” – o homem me disse. mas com dobros e bissacos nas costas. A gente vamos’embora.Grande Sertão: Veredas Diodato. . uma cara assim se examinava aos poucos. Sei lá. Como contam também que nos Gerais goianos se salga o de-comer com suor de cavalo. sei? Um lugar conhece outro é por calúnias e falsos levantados. Olhos de santo de madeira.

era doideira. Chefe.” – o homem meio respondeu. mal. A conforme a gente carece.João Guimarães Rosa . Por que é que iam. porque eram deles. Firme disse. como tinham de primeiro vindo a pé. A cara dele mesmo dava um ar honrável.. careciam. por mal que com manchas. Ah. Pegavam era um tanto de matula – trivial de farinha e carne-seca. – 712 – . sim. com macias abas e formato muito composto. Queriam irs’embora. meio acontecidos.. distantes brenhas. semelhando nódoas de caldo de caju.Grande Sertão: Veredas O homem não coçou a cabeça. As armas. que era de couro de veado suaçuapara.” – ele disse. mas. praz vosso respeito. circunspecto. “Sua graça. sarro de alguma velha moléstia. eles não devolviam. . de brancura. disse. duma vez. toda.. Doideira tencionarem vagar reto dali donde estávamos. de batismo: e o Pantaleão..“Diodato Nariz. Conheci como eu nunca tinha dado tento d’atenção naqueles homens. Reparei no chapéu na cabeça dele.. é Diodato de quê?” – indaguei. senhor.“A isso.. alto ermo. bastante sincero. largavam bem agora os cavalos. achei. eles bem que conheciam a regra: que um jagunço sai do bando quando quer – só tem que definir a ida e devolver o que ao chefe ou ao patrão pertence. e rapadura. nem esperando eu desse minha primeira ganhada? . cuja valia. para uns três dias. Assim que eles eram. por alcunha. Mesmo assim.

Ari nos.. que são lugares. mesmo. Cambaúba. Naquela hora.João Guimarães Rosa . Nunca mais tive notícia desses. senhor sim. João Tatu e O-Bispo... demorão. Tinham sido. Remei minhas perguntas. Virgens.” Cabras dessa Dona Mogiana? Eram. das Cobras. era que eu punha tino. mas não queria me ofender sem a razão.. senhor sim. Mas o homem Diodato. Roças do rio São Marcos. Para cima da Bazra-da-Vaca. Em sertão são. Mas com sua labuta de plantações.. para principiar. que gabo e questão não são regra de se negociar. quando Zé Bebelo deu com eles. Hoje. E que é que me adiantava saber que tinham suas ocas por lá? O que eu inventei de conhecer era donde tinham estado. eu cogitava jeito de conservar todos em companhia. e refuguei para não ter falado. num desajeito. Fazenda duma Dona Mogiana.. Naquela hora... crimes de boa inerência? E por que era que tinham querido vir com Zé Bebelo? Isso eu quis perguntar.“Desses córregos. esbarrou vez... que vinha voltando de Goiás. Que qualidades de crimes eles tinham feito. repenso. E ele comigo não tinha ajuste. Tamboril. no Esparramado.. Isso. distanciado duma minha pergunta dessas.“Ah.” Do Buriti-Comprido. ele fungava. .. Mata-Cachorro.Grande Sertão: Veredas Salústio João. nas beiras.“Por via de que é que vocês desespiritaram de seguir vinda com a gente?” Falei. Donde que eram? . O que de repente perguntei: . – 713 – .

“A pois?” .. Eu disse: ... a gente gastou o entendido. Agora. que acenavam devagar com as cabeças... praz vosso respeito: as coisas demudaram. fora de tudo o mais.” . Falou muito razoável..“..” .“Não se diz. Mas muito razoável falou. mas numa maneira brandazinha de sonsa.. Vai.“Ara.Grande Sertão: Veredas Chega olhou para os companheiros..“O que Zé Bebelo falou. Que viemos com siu Zé Bebel’.. A gente viemos..” ..“Agora...“Não vê. . A gente gastou o entendido. senhor sim.. a gente gastou o entendido. a gente não sabe mais. para não se entender se é sestro ou anuído – que é do jeito comum como essa gente costuma.. .“Ele prometeu vantagens?” .... Falou misturado. a gente esquecemos....” – por fim ele falou resposta: .“E o que é que falou?” .. Chefe.” – ele disse. senhor..” – 714 – .João Guimarães Rosa . Quando chamou.. sim. e estava quase meio envergonhado. Chamou.“A foi. quando chamou vocês?” .... com perdão vosso. Falou muito razoável. que a influência esmoreceu.

tive um recurso. de afleima.“Deixamos o tempo dos outros passar. podiam ir.. Aquele homem. dei o discutir: . os com as ventas largas para baixo. Se foi por minha voz.. por uns astutos indícios. por que é. A bobéia. Ah. como de inesperadamente de repente eu muito disse: – Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Senhor vendo como foi.“Pois. Não temos questão. o tanto que retardou para responsar. Se ele em fato estranhou. se apartando. foi somente por causa do tom de minha voz... para avaliar em prova a dúvida deles. Para sempre. Despedidos estavam. que não foram logo. arregalado conforme me olhava e naquilo ouvido não acreditava. cada-um um cão – o que era que eles achavam em meu ser? Repensei: ah! Ah. ele desconfiasse de mim.. com Zé Bebelo. Não temos questão. quando Zé Bebelo se foi?” . então.. o supetão de susto que ele teve. A manha. os do todo sertão. Aqueles outros homens.. o: . Ah. todo baixo. Ah.. das brenhas.Grande Sertão: Veredas De irritado.João Guimarães Rosa . então. foi – 715 – .. não.” Mirei e vi: o que desde de antes me invocava..

roça também se semeia. por conta. deixei levarem os cavalos. Aqueles urucuianos não iam em cata de Zé Bebelo. Estúrdio é o que digo. no afã de querer pronunciar sincero demais o santíssimo nome.” A vida é um vago variado. conforme sem nem satisfação fiquei sabendo.João Guimarães Rosa . conforme desisti de sobreguardar esses homens. em qualquer parte se planta. tão – 716 – . eu livre longe deles... Eles foram embora. Reparti com eles alguma quantia.Grande Sertão: Veredas porque. desaluídos é que eles estavam comigo. então só me serviam era na falsidade. de que é que me valiam? O contrato de coragem de guerreiros não se faz com vara de meirinho. E Zé Bebelo era assim instruído e inteligente. e com alegria se arregalaram: dinheiro é sempre amigo-seja. eu quisesse com gana o préstimo deles... e homem e mulher vão vir. O senhor me entende? E digo que eles eram homens tão diversos de mim... Do jeito. O senhor escreva no caderno: sete páginas.. mas. Fino que me abespinhei. E eles iam s’embora... não é com dares e tomares. E o mais? Era como alguém dizendo: .. eu mesmo tinha desarranjado fala – essas nervosias. Não baboseio.“Vai declarar seca.. Quartel de mandioca. Voltavam de volta para os seus recantos.. eram de Zé Bebelo. dado. Ao que aqueles homens não eram meus de lei. e o senhor derruba um mato. nesta verdade – que. por esse Norte. faz um chão bom. em salão de fazenda? Desisti.

dias de caminho. na Santa Catarina?. Às vezes as melhores haviam de ser as rezas de mais longe. então não podia encaminhar a Deus. por contar o que achei: que devia de ter pedido a eles a lembrança de muito rezarem por meu destino. será que era um agouro? Não sei... Um do outro lado do rio. que duvido mesmo um padre aquilo entendesse. de outros. achei de querer e não querer. em contrários instantes: que rezassem por mim. O que juro.. por miM. que. ela me devia mercês. novenas.. Que sei? Tive fé em mim sozinho.. a rogo e paga.“Só será que o arrieiro passa e vai. no povoado dos papudos. Mas. ora. Achava. e que sei.. mediante o arrieiro de uma tropa. Adiante. me servia. desguisada. Ou a mulher que teve seu meninozinho parido no chão do rancho. singela.. desconhecidamente.João Guimarães Rosa . de minha meninice. é que tucano tem papo!. Pois. Me lembrei de um homem. para minha Otacília. que mais me valesse-essas avemariazinhas. de desertarem de mim.Grande Sertão: Veredas suportados nas coisas deles.” – 717 – . e desse licença. Pelejei por afirmar a idéia nisso. Assim conforme Diadorim tinha expedido o recado. então. nem um louvamém? . O sujeito que escondia uma oração tão entremunhada.. que próprio depois eu enxotava. Reza boa.

Mas eu não falava sozinho.“. Tarde foi que entendi mais do que meus olhos. porquê. quando tudo encurtou. eu pelejava contra o meu socorro. feito morro padastro? Tinha mãos e ações. num lavarinto. o que Diadorim disse. quem podia afrontar minha presença. pois sei. Aquilo.. separado de meus sobejos. não me fez mossa. nesse dever. A muita coragem. nos repontos. Dou exemplo. no Carujo... Vaqueiro pode laçar o lugar do ar? Às voltas e revoltas.. A coragem. uma vez. Se carece de ter muita coragem. um arraial triste. eu sabia.. Riobaldo. que o senhor vai me ouvir. ele tinha falado solto e sem serviço.. Eu gostava de Diadorim corretamente.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas Isso perguntei a Diadorim. de tarde. Eu queria pensar nisso. Diadorim me respondeu? . O povo dali fugiu. O que perguntei era por uma opinião. Mas. fecharam a igrejinha com um morto lá dentro. por demais. Figuro que estava em meu são juízo. Hoje. No que não perguntei. que davam para lavar meus trajes. De assento. Dei decreto de fim em essas esquisitices. Mas logo esse sossego manso me largava – nuvenzinha dele. davandito.. eu sei. era só uma – 718 – . eu? Aí quem era que me vencesse. Do que houve e se passou. Só que andava às tortas. entre as velas. Só depois. em antigos tempos. depois das horrorosas peripécias.. gostava aumentado.” Ah. por alguma guerra ou pressa. alirolé.

a assaz claridade – o mundo limpava que nem um tremer d’água. só se a valentia deles for enorme. mas que era para todos. Ao por tanto. a boca de amor. par a par. sendo para mim. Matéria daquilo – 719 – . Lá tinha um caminho novo. conjuntamente. bate falso. Diadorim e eu. Porque. mas o orgulho dele condescendia uma tristeza. se não. que se ia. mas em outros passados. de primeiro. depois de uns meses..João Guimarães Rosa . Terras muito deserdadas. a vai-a-vida inteira. Que: coragem – é o que o coração bate. Arte que eu achei o meu projeto. Caminho de gado. viver é muito perigoso.. Aparecia que nós dois já estávamos cavalhando lado a lado. a igreja. o defunto tinha se secado sozinho. Ou. no reabrirem. como já disse..Grande Sertão: Veredas recordação. avermelhadas campinas.. desdoadas de donos. Ali naquele lugar. Só aquele sol. Só digo como foi: do prazer mesmo sai a estonteação. nós dois. o Carujo. Travessia – do sertão – a toda travessia. O que não fosse destinado para ele nem para mim. então. ditado da vida. Sertão foi feito é para ser sempre assim: alegrias! E fomos. o rosto dele era fresco. assim um fraseado verdadeiro. como que um perde o bom tino. de mãos dadas. Diadorim. Homem com homem.

– 720 – . Qu’ é que me acuava? Agora. O sertão é dele. em quantidades. Essas ladeiras era que me atrasavam. que podiam rebentar os rabichos dos arreios. Do demo? Se é como corujão que se voa. Porque o senhor está pensando alto. Eh! – o que o senhor quer indagar. o senhor saiba qual era esse o meu projeto: eu ia traspassar o Liso do Suçuarão! Senhor crê. eu mesmo. Ainda hoje. Eu já estava chefe de glórias. Diadorim ainda cria mais no meu fervor em se ir perseguir o Hermógenes. no ali descer os cavalos muito se agachavam de ancas. motivo esse que me entristeceu? A nenhum.João Guimarães Rosa . eu velho. pegando rato-mestre. e assoprado. Ladeiras areentas e com pedras. Desse jeito a gente ia descendo ladeiras. feito se os pescoços deles se encompridassem. de silêncio em silêncio. Depois dali. conheço que naquele tempo eu girava leve demais.Grande Sertão: Veredas que me desencontrava. Eh. vejo: quando cogito. eu ia ter muita pressa demais. no despenhado. para mim. Deus deixou. e montões de pedras para baixo rola vam. eu peço espantos. com os abismos dos lados. quando relembro. sem estar esperando? Tal que disse. disso. Agora. e tão a pique. Deus é urgente sem pressa. Nem Diadorim não duvidava do meu roteiro – que fosse para encontrar o Hermógenes. eu sei. Até ri.

livre de arma de caçador. Daí. como é que pudesse? A invenção minha era uma. não se passando no Vespê e no Bambual-do-Boi.Grande Sertão: Veredas o qual carrega em mão curva. os minutos todos. aindas que não faltem as boas trilhas de descida. Pasmo deles ia ser. entre as moitarias de xaxim. que formam mato muito matagal. da pior: febre.João Guimarães Rosa . tivesse um relógio. fui ficando airoso. é coisa. nenhum de meus homens não tirou palpite desse propósito. e com tantos enormes degraus de florestas. E num vão desses o senhor fuja de descer e ir ver.. Mas o que eu falo é por causa da maleita. Ia. Por forma como a gente rodeou outra volta. no barranco matoso escalavrado. A atravessar o Liso do Suçuarão.. Indo. é grossa. – 721 – . oculto no fundo do fundo. Ao certo que lá embaixo dá onças – que elas vão parir e amamentar filhos nas sorocas. o rio passa lá no mais meio. e anta velhusca moradora. uns desconfiavam. Isto é um vão. de se estar onde estávamos. ali no oco. E a gente dava a banda da mão esquerda ao Vão-do-Oco e ao Vão-do-Cuio: esses buracões precipícios – grotão onde cabe o mar. o raso enorme – por detrás dos morros. Donde a perto dele umas poucas cinco léguas: o desmenso. No nada disso não pensei. só sob o bolo de árvores pretas de tão velhas.

e eu não soubesse. Tem as neblinas de Siruiz. em quentes me regendo. tu achasses que. antes do prazo de uma semana. Tem artes. te desconheço?! Me chamo não é Urutu-Branco? Isto. Terçã maligna.João Guimarães Rosa . que pode matar perfeito o senhor. maximé!” Diadorim persistiu calado. O que na hora achei. Assim ele acudia por me avisar de tudo.“Mano meu mano. pega o senhor. Tem as caras todas do Cão. em sombra de amor. Se escondeu. foi que Diadorim estivesse me relembrando de Medeiro Vaz não ter conseguido cruzar a travessia do raso. Homem. que hei-de já. Não sabia que nós dois estávamos desencontrados. e que fosse sobrosso eu pensei. uma coisa mal principiada. O que era uma estúrdia queixa. isto é: padeci. a terçã brava. No que eu no meu destino não pensei. e as vertentes do viver. algum dia pode que terá bom fim feliz?” Ao que eu. sei? A vida é muito discor dada. abirado. por meu castigo. Mas Diadorim. não dei tino. Diadorim. Hoje. também. foi que me perguntou aquilo: .Grande Sertão: Veredas mesma. e eu. guardou o fino de sua pessoa. não adivinhou meu – 722 – . reagi: . Tem partes. eu sei.“Riobaldo.

de mim. fortíssimo no meu segredo. Reprazer cru dessa espiritação – eu ardia em mim. As forças me amanheceram acordado. aonde nenhum outro antes de mim tivesse! Respinguei dessas faíscas constantes. duns brejos. mas movido merecido. Um meu primeiro sono. ia atacar a – 723 – . mesma. Adiante da gente. Também eu não ia naquilo sem alguma razão. Era numa curta vereda. Por conta do Hermógenes? Nossos dois bandos viajavam em guerra e contraguerra. por aquela conta. Descia e subia a fumaça da noite. Pois. foi ondas. e em satisfa contente. Aí mal dormi. se caçando. o raso. tendo em nada aqueles perigos. Então. fantasia forra. feito fosse véspera duma patusqueira. eu só não me desconheci. sim. das mais. Só que o sertão é grande ocultado demais.Grande Sertão: Veredas espírito. em sim. Aí o Liso do Suçuarão – em fundo e largo. O resto. as cinqüenta léguas e as quase trinta léguas. eu ia. Eu. por esses Gerais. e desenrolando caminhos. Depois. Esbarramos. porque bebi de mim – esses mares.João Guimarães Rosa . o mangabeiral. Aquela hora. não: o cujo do orgulho. varava o Liso. Sobre o que eu era um homem. cães. era que eu queria. do impossível. Ninguém me fazia voltar a seco de lá. Acendemos fogo. capaz do caso. buritizalzinho. Para vencer vitória.

Ele. para saber daquela novidade. Todos me entenderam? Em fila – as caras todas ficando iguais.Grande Sertão: Veredas Fazenda dele. nenhum não tinha ar do que ia ser.” Guerreiros em minha presença! Com certo rebuliço. nem o Alaripe. Ao que. de disposto. – 724 – . E cuspi no branco leite duma maria-brava. quando dá para risã.João Guimarães Rosa . para melhor acerto. o senhor não olhe e nem veja o inimigo. Marcelino Pampa. Era a hora. Me seguissem? Ah. que toda às sãs cheirosa florescia. com a cor de velho. e coruja só agoura mesmo é em centro de noite. por debaixo das moitas de caculucage. Nem João Goanhá. volte para a sua obrigação. como todos vieram. . Equei os meus homens. esse não tinha sido o arrojo de Medeiro Vaz? O dia parava formoso. sim. E a bem. Vi o chão mudar. Diadorim me olhou tremeluzentemente: de coragem. e as lagartixas que percorriam de leve. Para vencer justo. João Concliz. Ovo é coisa esmigalhável. Mas eu dava as costas à cobra e achava o ninho dela. O pessoal meu não devia de estar com inquietação? Vi uma coruja – mas corujinha entortadeira. Repuxei os freios. com família. Nem Diadorim. bem esbarrando. gente. e que fazia tantos dias eu tencionava. mesmo o vento suspendido. suando sol.“Aqui. Declarei a eles.

dele. nem o Tipote para trilhar e entender. Eu não era o do certo: eu era era o da sina! E nem enviei adiante nenhuma patrulha de farejadores – nem Suzarte. chão aventesma – mas sem preparativos nenhuns. e o carro indo por sua lei buscar a colheita. nem bogós de couro-cru derramando de cheios. nem cargueiros repletos de bom mantimento.. que tapejassem.. para pernoitar lá dentro. cada um que me seguisse.Grande Sertão: Veredas Mas. sem nada! Aprofundar naquele raso perverso – o chão esturricado. Nélson ou o Quipes. o que eu estava mandando. nem tropa de jegues para carregar água. não pensei – mas meu coração pensava. é sua.” – eu determinei.João Guimarães Rosa . para colherem por si. nem Medeiro Vaz mesmo não teria sido capaz de crer: eu queria tudo. e tudo. e as enxadas saindo sozinhas para capinar roça. os outros? Seria que medissem meu mor atrevimento? Era feito se eu estivesse aloucado extenso. “Agora vamos entrar. – 725 – . Porque. Para que eu carecia de tantos embaraços? Pois os próprios antigos não sabiam que um dia virá. o que não é o homem. solidão. quando a gente pode permanecer deitada em rede ou cama. nem bois tangidos para carneação. Se o cada um que se valesse. obediência? Isso. ver se divulgava os socorros: alguma grota duvidável d’água. e as foices.

“Teu destino dando em data. que esperei a resposta deles... e como foram se animando. Ah.“Se amanhã meu dia for. jagunço não despreza quem dá ordens diabradas. hora de sua morte está marcada!” .” Esse era um menino. Rédeas às ordens. Valentes que eram. Se não. A gente andou no comum. por meus brancos ossos. por que era então que ele para tudo tinha vindo? Os outros. em depois-d’amanhã não me vejo.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas Só era se aviar. Transe. secundando os cabecilhas.” . . Mas o menino Guirigó. Só melhor sozinho eu ia. ao meu melhor em redor. para que em lugar seguro deixassem? No ar não fiz. eu não devia de mandar alguém conduzir o Guirigó de volta. – 726 – . dar de mão de minha tenção? Nuncas. Ao que me obedeciam. tempo. se estava. se esbarrava.“Antes de menino nascer. até ao fim do grameal. mal me ouvindo. da meia-noite tu vivente não passa. Aí. Ia. Dei a palavra! Meus homens. eu havia de voltar de lá. falou: “A gente? A gente. frente a frente com o Liso. não me cumprissem.” Os que diziam assim eram todos eles. A gente se moveu.

sem mesmo se percurar? De melhor em bom. As estrelas pareciam muito quentes. pensei. salvo a um seguinte. O senhor vê e vê? Alguém a alto me levou. Só o real. usufruíam quinhão da minha andraja coragem. todos me acompanhando. no cujo interior. O que era. tirante um. sem em-errar ponto. nem refiro que fosse difícil-ah. Eu pensei em Otacilia. vagarosos. todos. Soltando rédeas. O chão sem se vestir. O que era – que o raso não era tão terrível? Ou foi por graças que achamos todo o carecido.João Guimarães Rosa . E os cavalos. A fortes braços de anjos sojigado. Aonde entrei. essa vez não podia ser! Sobrelégios? Tudo ajudou a gente. bem. nãostante no ir em rumos incertos. Todos. o caminho mesmo se economizava. o Liso do Suçuarão? – era um feio mundo. que quase sem seus tufos de – 727 – . alguém.Grande Sertão: Veredas Sol em glória. atravessamos. exagerado. Assim fomos. sem os maiores notáveis sofrimentos. Ah. nem eu não tive incerteza em mente. entrei nos horizontes. Que conto. Rasgamos sertão. Se passou como se passou. como se um beijo mandasse. na areia cinzenta. Águas não desmanchavam meu torrão de sal. a em passo em passo. por si. O digo? Os outros. Nos nove dias. viajavam como dentro dum mar. Aí eu em frente adiante.

. Sempre ouvi zum de abelha. formigas. o que deu pronto mormaço. Ali. A gente estava encostada no sol. também: uma regra se teve. que tinha de tudo. pra um mistério do ar. ou que de lá não sabiam sair. por seu miudinho viver? Eh.. E até barrancos e morretes.Grande Sertão: Veredas capim seco em apraz e apraz. Todo o tanto. o frouxo. palmo de areia de cinza em-sobre pedras. De justiça. em az. Ali tinha carrapato. Os trechos de plano calçado rijo: casco que fere faíscas – cavalo repisa em pedra azul. Qual foi que a – 728 – . e refresco.João Guimarães Rosa . que de sede não se penou demais. e que se ia e ia. achamos reses bravas – gado escorraçado fugido. Porque. o céu enuveou. até nãoonde a vista não se achava e se perdia. um gado que assiste por aqueles fins. solerte subitamente. digo. Que é que chupavam. No que nem o senhor nem ninguém não crê: em paragens. abelhas do mato que indicavam flores. Tudo de bom socorro. sobrechegamos assim.. com a sorte nos mandada. Mas também dois veados a gente caçou – e tinham achado jeito de estarem gordos. com plantas. que se acostumaram por lá. Depois. O dar de aranhas. em paragens. então. Com tudo.. tinha de tudo? Afiguro que tinha. e que como veados se matava. sem se saber de quem foi que veio a idéia dessa combinação. Mas. A uns lugares estranhos.

chamando os outros para novidade boa. cobrejando com suas lagartonas. não era só capim áspero. esgarço no chão. aquilo que. e começavam as folhagens – que eram urtigão e assa-peixe. Ou o xiquexique espinharol. ou planta peluda como um gambá morto. Mesmo. mas depois a tinta-dos-gentios de flor belazul. Então. o cabeça-de-frade pintarroxa. em chuvas. viável. e o neves. orvalho pesa tanto: parece que as folhas vão murchar. que é o anil-trepador. um mandacaru que assustava. Digo – se achava água. conservada. em lugar onde foi córrego morto.Grande Sertão: Veredas gente se apartou. podia dar sinal. em grupos de poucos. não. assim. bicho luís-cacheiro. Ou cacto preto. muito melindrosa flor. que também guarda muito orvalho. de flor dói em branco. para os cavalos. amarelas. pespingue de orvalhosas. Mas. E a quixabeira que dava quixabas. cacto azul. quando um avistasse qualquer coisa diversa. onde só faltava o buriti: palmeira alalã – 729 – . alegria. Ah. Mas que.João Guimarães Rosa . jornadeando com a maior distância aberta. Cavalos iam pisando no quipá. Eu que digo.. O que não em-apenas água de touceira de gra vatá. E ervacurraleira. cacimba d’água.. e a sinhazinha. e até essas sertaneja-assim e a maria-zipe. que até rebaixado. E tinha até uns embrejados.

O que me mortifica.“Deixa. o senhor sabe. mesmo. Daí. esse pensamento – então tive. indas que pouco altaneiras: simaruba. Diadorim. O senhor sabe. que quanto de mim ia tirar cobro? . certa hora. raça de UrutuBranco. água que dava prazer em se olhar. eu apalpei os cheios. o anis. os riobaldos. só de gameleira. árvores de mata. e o mais. Assim achado. canela-do-brejo.. daí. de fugida. nas beiras – o senhor crê? – se via a coragem de árvores. Diadorim se chegou.” – que eu disse comigo. Os jagunços meus. de tanto nele falar... e gameleira. – 730 – . no fim me ajeito. O respeito que tinham por mim ia crescendo no bom entendido dos meus homens. O demo! Que tanto me ajudasse... que a bula dele é esta: aos poucos o senhor vai. na beira do riachão. um pensamento – que raro já era que ainda me vinha. Devido que. sem sobranço nem desgosto. que. muito me lembro. Além! Mas. A gameleira branca! Como outro-tempo se cantava: Sombra.Grande Sertão: Veredas – pelas veredas. com uma avença. tudo. Do que não lembrei ou não conhecesse.João Guimarães Rosa . todo formosura. pau-amarante. Triste engano. o pombo. Para meu sofrer. E buraco-poço.. crescendo e se esquecendo.

escuta: vamos na estreitez deste passo..!”-o que bramava. Picapau voa é duvidando do ar. uma coisa.. Do que Diadorim mais me disse. Que tal Zé Bebelo – na hora me lembrei – quando mal irado.“Riobaldo. Só sei que. Daí... com o amor no fato das palavras. vou contar a você. que era de amor – hoje sei. Ouvi.. Eu estava longe de mim e dele. Dentro de muito sol. Assim figuro. mas prevenido sempre contra o Maligno: que o que rança. no limpo do campo caçando o que roer. desentendi metade. assaz pelos cardos. quando tudo estiver repago e refeito. ..Grande Sertão: Veredas . eu ia por meu constante palpite.. Usando de toda ajuda que me vinha.. Mas Zé Bebelo era projetista. mas mentido. e de medo não tremia. Eu ouvi. um segredo. Eu não tinha de tomar tento em coisas mais graves? Mire veja o senhor.João Guimarães Rosa .” Ele disse.“. o cumprir de nossa vingança vem perto. um jegue já selvagem caatingano.“Norte de Minas! Norte de Minas. As traças dele – 731 – . ou quando conforme querendo impor medo a todos: ..” – ele disse. o que azeda. no meio reino do sol. Riobaldo.. E ele estava com a razão. eu estava reparando uma cena: que era um jumentinho. Eu. era feito parássemos numa noite demais clareada.

da maneira que gritou – à briga. feito cavalo que pressente fúria de boi.” – me prometi. Mas tudo era frisado ligeiro. isto é: pensei dizendo. e povoadas tantas. troncudo. em qualidade: um. Aí escutei a voz – a voz dele tremia nervosa.. genista. Então eu não sabia?! Ah.. são que nem os tins de areia grãoindo em areal. só a cajado. Eu não queria somar com aquilo nenhum. paz. Ali esse Treciziano era fraco de paciências.Grande Sertão: Veredas são novas sempre. Não faço conta. Levei os olhos. porque cheirava ao Cujo: esses estratagemas. O bruto. Era do demo. quem o homem era. Tico tanto pensei. eu estava em todo o meu siso.. Eu estava em manhas. Ah. Um desfeliz. digo. “Não faço caso!” – eu disse. ou será que estivesse curtindo mais sede do que os – 732 – . “. eu já sabia. Estive que estive no embalançar. ele se chamava Treciziano.João Guimarães Rosa . “Pois. Rebém que desconfiei do demo. então... Quem ele era. filho não sei de que terra. para falar com ele. ligeiro. como de cabrito.. Eu sabia. Por meu bem. Até mais.. quando o homem rosnou.” – eu falei. casta de gente? Ah. não. Assim. – eu tirei um enredo. em equilibrável. quase que eu estava cogitando nisso.. me falei. pardaz.

. um incha. senhor de minhas inteligências. próprio pessoa! – 733 – . próprio por autoridade minha.Grande Sertão: Veredas outros – segundo esse tremor das ventas – e pegou a malucar? Diziam que ele criava dor-de-cabeça. a gente perde o tino por dez anos. Era o Demo. chega fica cego... Eu queria tolerar. Que dessa – chefe eu – o O não me pilhava. Eu. Com a sede sofrida. primeiro: porque o demo não era homem para mandar em mim e me pôr em raiva. eu acautelava evitando a jerimbamba. Como que por distraído: num dividido de minuto. o mudar das caras. mas não estipula.“Siô. gritou uma ofensa. depois. Eu estava podendo refletir. e padecia de erupções e dartros. Aí.. o punhal que sobressaía muito na cintura. Ele era o demo.” – falei para mim mesmo... . reclamando. e daí repreendia esse Treciziano. Mas vi. de mim diante. o monho. por escarnir. O que houve. revoltoso. esbraseia os olhos.. que sei que brilhava. Que vi. tenteador. como fica dito. em passo de jumento. O Demo!. com palavras de energia boa.. Vi: ele – o chapéu que não quebrava bem. Mas – ah! – quem diga: um faz. padece nas vistas... mas sem pau nem pedra. que se deu. Fez uma careta. Estava falando contra comigo. Homem zuretado. Foi num átimo. era só eu forçar calma.João Guimarães Rosa . deixa o padre of recer missa.

. Cerrei com ele. deu o assovião esguichado. um mero. Cortei por cima do adão.” Esse luzluziu a faca. peguei por baixo o outro. por um mau movimento.. terrível. Ah-oh! Aoh. danou-se! Como vinha.. morreu com a goela roncando na garganta! E o que olhei? Sangue na minha faca – bonito brilho.. feito um verniz veludo. Tirou uma estocada. mas ninguém não vê o demônio morto.. O demo? Em mim.Grande Sertão: Veredas E ele endireitou pontudo para sobre mim. E ele: estava rente aos espinhos dum mandacaru-quadrado.. para diante todo. Às asas que eu com a minha quicé. se debruçando. afiafe. encorteirecortei desde o princípio da nuca – ferro ringiu rodeando em ossos. a lambe leal – pajeuzeira – em dura mão.“E-hê!. naquele agredimento de boi bravo.. e mijou alto o sangue dele.João Guimarães Rosa . nas coisas e trens que eu tinha na cintura e a tiracol: se prendeu ali.. no se lesar o cano-do-ar.. Conforme tinha sido. A ponta daquela pegou.. jogou o cavalo. que estava ali.. Levantei nos estribos... Ele Outro caiu do cavalo. O defunto. e urrou de ódio de enfiar e cravar. já veio antes do chão com os olhos duros apagados. Morreu maldito.. era mesmo o do Treciziano! – 734 – . .

Dentro de pouco. num cavalo preto galopeiro. das coisas de valor – 735 – . E era. longe mas que era o mais perto. Aí Alaripe esclareceu: “Ao que sei. que estava ali. se aparecendo a toda carnança. o sapo leiteiro! Uns estavam remexendo nele – não tinha um pêlo nos peitos. só esmo. daí por diante. Fosse de tiro. de nervosia. eu queria pensar nele. este era da Serra d’Umã. Um frio profundíssimo me tremeu.Grande Sertão: Veredas A morte dele deu certo. todos iam ficar cientes da proeza daquele homem tão morto: das beiras do corte – lá nele – a pele subia repuxada. que eu tinha. porque a minha fama no gatilho já era a qual. Somente todos me gabaram.. um escutou ou viu. Nem no pobre do Treciziano. a outra para baixo tinha descaído tamanhamente.João Guimarães Rosa . com elogios e palavras prezáveis.. e veio... tanto não admiravam a tanto. Nem nunca mais. segundo tinha de ser? E tinha de ser. mocinho Jiribibe.. deixavam formado o buraco medonho horrendo. degolal. Era o Jiribibe. quase nas maminhas até.” O de tão longe. Diadorim tinha disparado tiro. por tanto que o demo não existe! As tramóias.. armadilhas. fiz! E do outro grupo. Sofri os pavores disso – da mão da gente ser capaz de ato sem o pensamento ter tempo. eh. à faca. da banda da mão esquerda. Assim queriam desaliviar aquele corpo. porque a minha chefia era com presteza.

em minha roupa. com meus joelhos no duro chão. desgostoso de sangue. como todos me louvaram? Sendo minha a culpa – a morte. Medo de cego não é o medo real. Antes o que era que eu tinha com isso. Sangue é a coisa para restar sempre em entranhas escondida. não. o corpo ali ficava.. Sangue. Só aí.João Guimarães Rosa . Morte daquele cabra era em ramo de suicídios“A modo que morreu? Ele foi para os infernos?”-indagou em verdade o menino Guirigó. pelos terços e responsos. de bom metal. a horinha? Como que o cego Borromeu garrou um fanhoso recitar. adiante. Do que alguém disse que ele guardava: um dixe. mas deixava.Grande Sertão: Veredas principais. Do sangue alheio que grosso me breava. mal me alimpei o queixo. Por mais. Diadorim me olhava – eu estivesse para trás da lua. Será por isso também que imensa mais é a oculta glória de grandeza da hóstia de Deus no ouro do sacrário – toda alvíssima! – e que mais venero. a plasta vermelha fétida. Não turveei. eu. meussenhor: a horinha em que foi. há-se que tocávamos. mas o senhor me diga. Aquele. Até às aleluias! – 736 – . joiazinha de prata. e as esporas eram as excelentes. para o ar do raso. pois ali me salteou o horror maior. À viajadamente eu ia. Sumimos de lá. de sinal? Ah. isso sei. revi o sangue.. desconversei meu espírito. a espécie para nunca se ver.

Ah! – choca mal.João Guimarães Rosa . Aquele Treciziano tinha redobrado destino de tristefim de louco. o povoal ia existindo sem questão.. Somente seguimos. a gente saía do Liso. Adiante vim para pedir gole d’água. quem sai do ninho. Dado dia e meio – descrevendo no rumo que certo achamos logo – se havia de ter a casa da raça do Hermógenes! Lei de que íamos dar lá.Grande Sertão: Veredas Que. Aí era o meu contrabalanço. como conto. em hora recruzando meus antigos rastros. no luzir d’alva. pegando todos desprevenidos. por isso. como que a ponto: dávamos com uma varzeazinha e um esporão da serra. no rancho de um solteiro. digo. estes rasgos ele não adivinhava. em movível supetão. Pois o Hermógenes parava longe. dez léguas em volta. não tivessem a primeira notícia da gente. – 737 – . daí depois. Pois nem bem três léguas andadas. não tardamos. Ao que. Se estava no para ver esses campos crondeubais da Bahia. esse deu informação de que. a gente tinha passado o Alto-Carinhanha – lá é que o Rei-Diabo pinta a cara de preto.. vencemos uma grande noite – e demos lá. todo pacífico. chapadas. madrugando madrugada. Não se tomou nem um dia de fôlego. Dali antes. Apeei na terra cristã. A trote e a chouto. Onde chegados na aproximação do lugar que se cobiçava.

No fim.Grande Sertão: Veredas Abarcamos as condições do lugar. A casa da fazenda – aquele reto claro caiado. por meio de avisos: que eram canto de acauã e assovio de macaco. a surto. Do que fiz. Demos fogo. nem provaram resistências: deles mal ouvi uns tiros. Digo franco: feio o acontecido. o senhor me completa. estouramos para o centro. enganando. fazia tempo que não se dava combate. feito rodeio de vento. Varejamos o total a tiro. essas ferocidades assim. em cerco. sugre. não gloso. Aí. Aqueles que estavam lá eram homens ordinários – derreteram debaixo do pé de meus exércitos. só se esperou o listrar da primeira barra e a ponta da manhã estremecente.. Assaz. Todos não fizeram? Volvido. Sei.. desisto. destrambelhando na polvorada. até parecia torta. Mas. feio o narrado. Segundo nosso uso.João Guimarães Rosa . receei que Diadorim não me – 738 – . entendidos uns com uns. mas era um casarão acabando o tope do morrete. e o que se gritava!: azurradamente. E a gente. Por via disso mesmo resumo. nós. Daí. Porque sempre eles deviam de ter alguns curimbabas na defesa: capangas e carabinas. e o propor da gente era tribuzana. O que foi um desbarate! Como que já estavam de asas quebradas.

comeu. À vez. até boi manso que lambia orvalhos. Aquela mulher sabia dureza. E. E de lá saímos. pelos quinze cantos mortos. nos festejos da mocidade. tardezinha. O mal regeu.. O que se matou e estragou – de gente humana e bichos. e. Mas.João Guimarães Rosa . caiu o pano preto. Ela discordava de todo destino. Deram a ela de comer. estreitos finos beiços. Devia de ter sido bonita. A gente traspassava de cansaços.. sentou. que se queria tanto – a mulher legal do Hermógenes. mas Diadorim concordou com os fatos. tochamos fogo na casa. como um pau de umburana branca. em armas.. Nunca encurtou a respiração. – 739 – . Deixaram: ela sentar.Grande Sertão: Veredas aprovasse. e sobra de sono. De beber. A curto. surrado muito desbotado. já em muito nosso poder. respondeu a algumas duas ou três coisas. Deus que de mim tire. estava a merecida. e ela não se importou de ficar descabelada. riscava. que tinha enlaçado na cabeça. De seguida. na manhã que veio.. trazida presa. quando o fogo rareou. logo depois de falar. apertava demais a boca fechada. em frente. bebeu. Mas falava quase assoviado. de uma vez. Armou incendião: queimou. até porco magro em beira de chiqueiro. Deus que me negocie. acampou-se em beira-d’água de sossego. Assim estava com um vestido preto. ainda era.

Se arranjou para ela par de alpercatas.João Guimarães Rosa . decerto por causa da hora e confusão em que tinha sido pega. Tive um receio de vir a gostar dela como fêmea. para alimpar o chão. e assim devia de ser fora do uso. pudesse. sem semblantes. mas os olhos diferiam de tudo. com resignação em quieto ódio. na cara fina de palidez. seca. ou porque pedisse esmola a Deus. Ser chefe. sem concessão de se matar.Grande Sertão: Veredas Figuro que não mascava fumo nem cachimbava. escuros secados de toda boa água. de palmas para cima – como se para sempre demonstrar que não escondia arma de navalha.. Mas eu já estava com ela – com os olhos dela. Não me disse palavra nenhuma. certo não temi abrir razão de praga. Lembro – 740 – . E a boca marcava velhos sofrimentos? Para mim. Aceitou meu olhar. mas não passava a sola do pé. ela nunca teve nome. com as mãos abertas. como é costume de se fazer. Adverti que estava descalça. mas mesmo assim cuspia em roda. para a minha memória. às vezes é isso: que se tem de carregar cobras na sacola. e eu não disse a ela. por cima. Ela soubesse que não se pertencia com a gente. Meio receei ter um escrúpulo de pena. seca.. E ela ficava assim embiocada. Magreza. nessas condições. Enrolou a cara num xale verde. até com as unhas dos pés me matava. verde muito consolado. Muito melhor que ela não carecesse de vir. eram pretos repentinos e duráveis.

indas que só em breves e poucos... os buritis dos buritis – assim aos cachos. uns lembrares e sustâncias. mesmo Goiás a baixo. animado de espírito.. E nave guei salaz. O Jalapão me viu. Os que. Raiva-porque eu não era delas. Eu podia lá torcer o azul do céu por minhas mãos?! Virei os tigres. a Bigri minha mãe me ralhando. por exemplo. mas viemos contornando – só extorquindo vantagens de dinheiro. Essa. Tem as telhas e tem as nuvens.Grande Sertão: Veredas dessa mulher. Aqueles distritos que em outros tempos foram do valentão Volta-Grande. a vago.. mas mesmo virei sendo o Urutu-Branco. Rodeando por terras tão longes. por demais. o – 741 – . que eu desconhecia.João Guimarães Rosa . como me lembro de meus idos sofrimentos. os todos Gerais me viram demais. produzido. mas eu tinha raiva surda das grandes cidades que há. Somente que me valessem. com gentinha pobrejando. Depois. é que nem braços de balança. E duro capitaneei. que fomos buscar na Bahia.. É de ver que não esquentamos lugar na redondez. os seguintes eram: a cantiga de Siruiz. mas sem devastar nem matar – sistema jagunço. para enormes efeitos de leves pesos.. na idéia do sentir. A esses muito desertos. Mas o sertão está movimentante todo-tempo – salvo que o senhor não vê.

que iam apanhar água na praia do Rio de São Francisco. de ver o Teofrásio. e a minha Otacília. enquanto assim se vinha. e demos volta. burro só não gosta é de principiar viagens. eh. sem tempo para grandes tristezas. Isso. apontando em homem malandro – 742 – . na cabeça. adiante. Ao que inventei. Por que será que.João Guimarães Rosa . com bilhas na rodilha. andadamente. aos poucos eu estive amaestrando os catrumanos. muito salvadora.Grande Sertão: Veredas existir de Diadorim. na vastança. atrás das mulheres mães deles. o senhor está lembrado deles. Tempos escurecidos. pode ser o que vou ter de sofrer no dia depoisd’amanhã. para as coisas de armas. O que meus olhos não estão vendo hoje. nuzinhos como os anjos não são. No sirgo fio dessas recordações. principal deles. Eles já prometiam puxo. era rumo de onde ela agora morava. os meninos pequenos. nessas ocasiões. sim. ensinando aqueles catrumanos. do que houvesse de pior. de apropósito? Por lá. acho que eu bateava outra espécie de bondade. Devo que devia também de ter querido outra vez os carinhos daquela moça Nhorinhá. eu não formei a clareza disso. por pobres lugares. Aprovei. Mas não conheci. aí. a imagem de minha Nossa Senhora da Abadia. a bizarrice daquele pássaro galante: o manuelzinho-da-croa.

pelo fato d’eu não conseguir conhecer a intenção da existência dele. tão feroz. o homem em quem o catrumano Teofrásio com sua garrucha antiqüíssima apontou. Socorrido assim. conforme vinha. só. salvei a vida. A mais. de se fazer excessos? Ali. Desse. num definitivo mau silêncio. era que dava a ela certeza de si. o ódio então era bom. dela não se ouviu queixa ou reclamação. Deus que dele me livrasse! Mas. Tinham dado a ela um chapéu-de-palha de ouricuri.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas inocente. sua razão de sua consciência. Zé Bebelo havia de admitir assim. com os dois canos encavalados. a cara desaparecida pelo xale verde. Assim. O que eu desentendia nela era aquela suave calma. com a velha garrucha que era a dele. escanchada em seu cavalo. em choça muito de – 743 – . com ela agarrada em mãos. era um velho. não consenti. na razão desse sentido: que às vezes é feito uma esperança já completada. que atirasse. Essa mulher. nem mesmo palavra. certo havia de ter algum dia notícia do que eu estava executando: que a gente trazia a Mulher. ele ainda vivesse. se ia necessitar o Hermógenes a dar combate. eu digo. que seria aferrada em esperar. essa capacidade. Ele morava numa burguéia. quem se lembrava de Zé Bebelo eram minhas horas de muita inteligência. Se o ódio. por se tapar do forte sol baiano. Mas.

que falava no tempo do Bom Imperador. na porta da choupã dele mesmo.João Guimarães Rosa . gostavam de gozar com essa melhora de inocência. goiano-baiano. tinha subido no tope do morro. era só uma saudade a se guardar. a mente minha era poder verificar muitos horizontes. Dela eu ainda não tinha podido receber a carta enviada. do Tebá – quero dizer: Morro dos Oficios – redescendo. Além. barba de piaçava. como é que era de tantos homens? Mas..Grande Sertão: Veredas solidão. De lá do alto. Meio sarará. com os olhos tão dela mesma. meu espírito me negou. E os homens. digo o dito. porfiados. que era de espalhaventos. Hoje é que penso. demos com o velho. Homem no sistema de quase-doido. entre as touças da sempreviva-serrã e lustro das folhagens de palmeira-pindoba. ficava lá. mire veja: em quinze léguas para uma banda. E. Nhorinhá. Para mim.. que não tinha as três espigas de milho em seu paiol. Baiano. a filha de Ana Duzuza. e os cabelos dele eram uma ventania. onde agora estava assistindo Nhorinhá. era o São Josezinho da Serra. A barba. Perguntei uma coisa. com outros. Assunto que. na ocasião. Então. no vir de cimas desse morro. além. era bonita. terra florescida. de capinzal sujo. se ela não tinha valia. era a que era clara. O pobre. namorã. Eu. que recebia todos. que ele não – 744 – .

em fim me pediu um punhado de sal grande regular. em tão dilatado viv