A Rainha Margot Alexandre Dumas. Editora Planeta De Agostini, Lisboa, 2004. Romance.

Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destina-se unicamente à leitura de pessoas portadoras de deficiência visual. Por força da lei de direitos de autor, este ficheiro não pode ser distribuído para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente. Digitalização: Fernando Jorge Alves Correia Correcção: Dores Cunha A Rainha Margot Original da tradução: Lello Editores, Lda. presente edição: Editora Planeta De Agostini, S. A. Lisboa - 2004 ISB N: 989-G09-074-02 Depósito legal: 213827/04 Capa: Manuel Quina Ilustrações: Paulo Meunier Viana Revisão gráfica: Laurinda Brandão Paginação: Maria Esther - Gabinete de Artes Gráficas, Lda. Impressão e encadernação: Cayfosa - Quebecor, Santa Perpètua de Mogoda (Barcelona) Printed in Spain - Impresso em Espanha ÍNDICE I O latim do Sr. de Guisa 5 II - O quarto da rainha de Navarra... 13 III Um rei poeta 21 IV - A tarde de 24 de Agosto de 1572. 29 V Do Louvre, em particular, e da virtude em geral... 35 VI - A dívida paga . 43 VII - A noite de 24 de Agosto de 1572. . 50 VIII Os assassinados. 60 IX - Os assassinos 68 X Morte, missa ou Bastilha... 77 XI - O espinheiro do Cemitério dos Inocentes. 86 XII - As confidências 93 XIII As chaves que abrem as portas a que não são destinadas 99 XIV Segunda noite de noivado. ... 106 XV - O que a mulher quer, Deus o quer ... 113 XVI O corpo do inimigo morto sempre cheira bem 122 XVII O colega de Mestre Ambrósio Paré ... 129 XVIII As almas do outro mundo. ... 135 XIX A habitação de mestre Renato, perfumista da rainha- mãe. ... 141

XX - As galinhas pretas. ... 149 XXI O quarto da baronesa de Sauve... ... 155 XXII Senhor, vossa majestade há-de ser rei! ... 161 XXIII Um novo convertido ... 165 XXIV A Rua Tizon e a Rua do Sino Rachado... . 175 XXV A capa cor de cereja. ... 183 XXVI Margarida. ... 190 XXVII A mão de Deus... ... 196 XXVIII - A carta de Roma... ... 200 XXIX - A partida... ... 204 XXX Maurevel... ... 208 XXXI - A caçada... ... 213 XXXII Fraternidade ... 219 XXXIII - A gratidão do rei Carlos IX. ... 224 XXXIV- Deus dispõe ... 229 XXXVA noite dos reis. ... 237 XXXVI Anagrama. ... 242 XXXVII - A volta para o Louvre ... 246 XXXVIII - Interrogatórios ... 253 XXXÍX - Projectos de vingança ... 259 XL - Os Atiradores ... 270 XLI - O horóscopo ... 277 XLII - As confidências. . 283 XLIII - Os embaixadores... ... 290 XLIV - Orestes e Pílades... ... 295 XLV - Orthon ... 302 XLVI - A hospedaria da Estrela Brilhante... ... 309 XLVII - De Mouy de Saint-Phale... ... 317 XLVIII - Duas cabeças para uma coroa ... 322 XLIX - O tratado de montaria ... 330 L - A altanaria. ... 336 LI - O pavilhão de Francisco I . 342 LII - Investigações ... 348 LIII - Actéon ... 355 LIV - Vincenas... ... 361 LV - A figurinha de cera. ... 366 LVI - Os escudos invisíveis ... 374 LVII - Os juízes... ... 379 LVIII - O tormento doBorzeguim ... 385 LIX - A capela... ... 392 LX - A Praça de S. João de Grève. . 395 LXI - A torre do pelourinho ... 399 LXII - O suor de sangue. ... 406 LXIII - A plataforma do torreão de Vincenas ... 409 LXIV - A regência. ... 412 LXV - O rei morreu: Viva o rei!... 415 LXVI - Epílogo ... 419 I O Latim Do Sr. De Guisa Na segunda-feira, do décimo oitavo dia do mês de Agosto de

1572, havia grande festa no Louvre. As janelas do antigo palácio real, ordinariamente tão sombrias, estavam ardentemente iluminadas; as praças e as ruas próximas, habitualmente tão solitárias desde que davam nove horas em S. Germano L'Auxerrois, estavam, embora fosse meia-noite, atulhadas de povo. Toda essa concorrência ameaçadora, apertada, ruidosa, assemelhava-se, na escuridão, a um mar sombrio e agitado, cujas ondas se tornavam em vagas sussurrantes; esse mar, que assoberbava o cais, onde desaguava pela Rua dos Fossés S. Germano e pela Rua de L'Astruce, vinha bater com o seu fluxo no sopé dos muros do Louvre, e com o refluxo na base do Palácio de Bourbon, que se erguia defronte. Havia, a despeito da festa real, e talvez por causa dela, o quer que fosse de ameaçador nesse povo, porque ele bem percebia que a solenidade a que assistia como espectador era o prelúdio de outra, adiada para daí a oito dias, para a qual seria convidado, e em que se divertiria de modo a satisFazer plenamente os seus desejos. A corte celebrava o consórcio de Margarida de Valois, filha do rei Henrique II e irmã do rei Carlos IX, com Henrique de Bourbon, rei de Navarra. O cardeal de Bourbon havia unido de manhã os dois esposos, com o cerimonial usado nos casamentos dos infantes de França, num pavilhão armado à porta da Nossa Senhora de Paris. Este casamento causara admiração a todos, e dera muito que pensar a algumas pessoas que eram mais atiladas do que outras: mal se compreendia a aproximação de dois partidos que tanto se odiavam naquele momento, o partido protestante e o partido católico; e perguntava-se como era que o príncipe de Condé havia de perdoar ao duque de Anjou, irmão do rei, a morte de seu pai, assassinado em Jarnac por Montesquieu. Perguntava-se como era que o duque de Guisa havia de perdoar também ao almirante Coligny a morte do pai, assassinado em Orleães por Poltrot de Mère. Ainda mais: Joana de Navarra, a corajosa esposa do fraco António de Bourbon, que acompanhara seu filho Henrique aos régios esponsais que o esperavam, tinha morrido havia apenas dois meses, e tinham- se propagado boatos singulares acerca dessa morte repentina. Por toda a parte se dizia baixinho (e em alguns lugares muito alto) que ela surpreendera um segredo terrível, e que Catarina de Médicis, temendo a revelação desse segredo, a envenenara com luvas aromatizadas, que tinham sido feitas por um florentino chamado Renato, habilíssimo na matéria. Este boato tanto se espalhara e confirmara, que, depois da morte da grande rainha, a pedido do filho, dois médicos, dos quais um era o famoso Ambrósio Paré, foram autorizados a abrir e examinar o cor po, mas não o cérebro. E, como fora pelo olfacto que

Joana de Navarra tinha sido envenenada, o cérebro, única parte do corpo excluída da autópsia, era que havia de apresentar os vestígios do crime. Dizemos crime porque ninguém duvidava que se havia cometido um crime. Não é ainda tudo: o rei Carlos, particularmente, empregara neste casamento, que não só estabelecia a paz no seu reino, mas também atraía a Paris os principais huguenotes da França, uma persistência que se assemelhava a uma teimosia. Como os noivos pertenciam, um à religião católica, e o outro à reformada, fora necessário impetrar dispensa de Gregório XIII, que ocupava então o trono pontifício. A dispensa tardava, e a demora inquietava muito a defunta rainha de Navarra e ela exprimira um dia a Carlos IX o receio de que a dispensa não chegasse, ao que o rei respondera: - Não lhe dê cuidado, minha boa tia; eu venero-a mais do que ao papa, e amo minha irmã mais do que o reino. Não sou huguenote, mas também não sou tolo, e se o Sr. Papa se fizer firme eu mesmo pegarei na mão de Margot e a levarei a casar com seu filho à Igreja protestante. Estas palavras espalharam-se do Louvre pela cidade, e, causando muito prazer aos huguenotes, deram muito que pensar aos católicos, que perguntavam em segredo uns aos outros se o rei os atraiçoava realmente, ou se estava representando uma comédia, que uma bela manhã ou uma bela noite teria o seu desenlace inesperado. Era principalmente para com o almirante Coligny que havia cinco ou seis anos fazia uma guerra encarniçada ao rei, que o procedimento de Carlos IX parecia inexplicável; depois de haver posto a cabeça a preço de cento e cinquenta mil escudos de ouro, o rei já não jurava senão por ele, chamando-lhe pai e declarando em voz alta que ia confiar a ele só, daí em diante, a direcção da guerra; a coisa chegara a tal ponto, que a própria Catarina de Médicis, que até então regulara as acções, as vontades e até os desejos do jovem príncipe, parecia começar a inquietar-se deveras; e não era sem motivo, porque, num momento de expansão, Carlos IX dissera ao almirante, a propósito da guerra da Flandres: - Meu pai, há ainda nisto uma coisa em que se deve ter todo o cuidado: é que a rainha-mãe, que quer meter o nariz em tudo, como sabe, não venha a ter notícia desta empresa; conservemo-la tão secreta que não dê por ela, porque, enredadeira como é, estragar-nos-ia tudo. Ora, por mais prudente e mais experimentado que fosse, Coligny não pudera conservar secreta tamanha confiança e, embora houvesse chegado a Paris com muitas suspeitas, e na sua partida de Châtillon se lhe houvesse lançado aos pés uma camponesa, bradando: Oh, Senhor, Senhor, nosso bom amo! não vá a Paris, porque se lá for morrerá, e todos os que forem

consigo, essas suspeitas haviam-se-lhe desvanecido gradualmente no coração, e a Teligny, seu genro, a quem o rei, pela sua parte, mostrava muita amizade, chamando-lhe irmão, como chamava ao almirante pai, e tratando-o por tu, como fazia aos seus melhores amigos. Os huguenotes, alguns espíritos tristes e desconfiados, estavam pois inteiramente animados e a morte da rainha de Navarra passava por ter sido causada por uma pleurisia, e as vastas salas do Louvre haviam-se enchido de todos os bravos protestantes, a quem o casamento do seu jovem chefe Henrique prometia uma reviravolta de fortuna muito inesperada. O almirante Colign la Rochefoucauld, o príncipe de Condé filho, Teligny, enfim, todos os principais do partido julgavam- se triunfantes por verem omnipotentes no Louvre e tão bem-vindos a Paris, aqueles mesmos que, três meses antes, o rei Carlos e a rainha Catarina queriam mandar enforcar em forcas mais altas que as dos assassinos. Apenas um, o marechal de Montmorency se buscava debalde no meio de todos os seus irmãos; porque nenhuma promessa pudera seduzi-lo, nenhum sen blante pudera enganá-lo, e conservava-se retirado no seu castelo de L'Isle-Adam, dando como desculpa do seu retiro a dor que sentia ainda pela morte do pai, o grande condestável Anne Montmorency, morto com um tiro de pistola na batalha de São Dinis, por Roberto Stuart. Mas como esse acontecimento se dera havia mais de dois anos, e a sensibilidade era virtude pouco em moda naquela época, cada um julgava desse luto prolongado tão fora do costume o que muito bem queria. 6 E ninguém dava razão ao marechal de Moncmorency o rei, a rainha, o duque de Anjou e o duque de Alençon faziam maravilhosamente as honras da festa real. O duque de Anjou recebia dos próprios huguenotes cumprimentos merecidos acerca das duas batalhas de Jarnac e de Moncontour, que havia ganho antes de chegar à idade de dezoito anos, mais precoce neste caso do que tinham sido César e Alexandre, aos quais o comparavam, dando, bem entendido, a inferioridade aos vencedores de Isso e de Farsália. O duque de Alençon observava tudo isto com o seu olhar terno, mas falso; a rainha Catarina estava radiante de alegria, e, desentranhando-se toda em amabilidades, cumprimentava o príncipe Henrique de Condé pelo seu recente casamento com Maria de Cleves; os próprios Srs. de Guisa sorriam para os terríveis inimigos da sua Casa, e o duque de Maiena discorria com o Sr. de Tavande e o almirante acerca da próxima guerra que mais que nunca se tratava de declarar a Filipe II. Andava de um lado para o outro, no meio destes grupos, com a cabeça inclinada e de ouvido atento a todas as falas, um rapaz de dezanove anos, de olhar sagaz, cabelos pretos muito curtos, sobrancelhas espessas, nariz recurvado como o

bico de uma águia, sorriso astuto, e bigode e barba a despontar. Este rapaz, que não se havia ainda feito notar senão no combate de Arnay-Le-Duc, onde fizera proezas, e que recebia parabéns sobre parabéns, era o discípulo querido de Coligny, e o herói do dia; três meses antes, isto é, na época em que a mãe vivia ainda, chamavam-lhe o príncipe de Béarn; agora chamavam-lhe rei de Navarra, enquanto lhe não chamassem Henrique IV. De tempos a tempos, passava-lhe pela fronte uma nuvem sombria e rápida; recordava-se certamente de que havia apenas dois meses que a mãe lhe morrera, e mais do que ninguém desconfiava de que fora envenenada. Mas a nuvem era passageira, e desaparecia como uma sombra flutuante porque os que Lhe falavam, os que o felicitavam, os que o acotovelavam, eram os mesmos que haviam assassinado a corajosa Joana de Albret. A alguns passos do rei de Navarra, quase tão pensativo, quase tão inquieto quanto ele queria mostrar-se alegre e sincero, o duque de Guisa conversava com Teligny. Mais feliz do que o bearnês, aos vinte e dois anos a sua fama tinha atingido quase a do pai, o grande Francisco de Guisa. Era um elegante rapaz, alto, de olhar arrogante e orgulhoso, e dotado da majestade natural que fazia dizer, quando passava, que ao pé dele todos os outros príncipes pareciam povo. Embora fosse muito moço, os católicos viam nele o chefe do seu partido, como os huguenotes viam o chefe deles no jovem Henrique de Navarra, de quem acabámos de traçar o retrato. Tinha usado primeiro o título de príncipe de Joinville, e pegado pela primeira vez em armas no cerco de Orleães, sob o comando do pai, que lhe morrera nos braços, designando-lhe o almirante Coligny como seu assassino. Então, o jovem duque, como Anz'ba1, fizera um juramento solene: era vingar a morte do pai no almirante e na sua família, e perseguir os da religião, sem tréguas, prometendo a Deus ser na Terra o seu anjo exterminador, até ao dia em que fosse exterminado o último hereje. Não era pois sem profundo espanto que se via este príncipe, ordinariamente tão fiel a sua palavra, estender a mão aos que jurara considerar seus eternos inimigos, e conversar familiarmente com o genro daquele de quem prometera a morte ao pai moribundo. Mas já o dissemos, esta noite era a das surpresas. O facto é que, com o conhecimento do futuro que falta felizmente aos homens, com a faculdade de ler nos corações, que desgraçadamente não pertence senão a Deus, o observador privilegiado que tivesse a permissão de assistir a esta festa, gozaria certamente do mais curioso espectáculo que fornecem os anais da triste comédia humana. Mas esse observador que faltava nas galerias interiores do Louvre, continuava na rua a olhar com os olhos chamejantes e a bramir com a voz ameaçadora; esse observadoz era o

povo, que, com o seu instinto maravilhosamente acicatado pelo ódio, seguia de longe as sombras dos seus inimigos implacáveis, e traduzia as suas impressões tão sinceramente como o pode fazer o curioso diante das janelas de uma sala de baile hermeticamente fechada. A música embriaga e dirige quem dança, ao passo que o curioso vê só o movimento, e ri desse manequim que se agita sem razão; porque o curioso não entende de música. A música que embriagava os huguenotes era a voz do seu orgulho. Os clarões que passavam pelos olhos dos Parisienses naquela noite, eram os relâmpagos do seu ódio, que iluminavam o futuro. E, todavia, continuava tudo risonho lá dentro, e até nesse momento corria por todo o Louvr um murmúrio mais doce e mais lisonjeiro; o caso era que a noiva, depois de haver largado o seu vestido de noivado, o manto de arrastar e o comprido véu, acabava de entrar na sala de baile acompanhada pela linda duquesa de Nevers, a sua melhor amiga, e pelo braço de seu irmão Carlos IX, que a apresentava aos principais convivas. Esta noiva era a filha de Henrique If, era a pérola da coroa de França, era Margarida de Valois a quem, na sua familiar ternura por ela, o rei Carlos IX não chamava senão minha irmã Margot. Nunca decerto nenhum acolhimento, por mais lisonjeiro que fosse, fora tão merecido como o que nesse momento se fazia à nova rainha de Navarra. Margarida, nessa época, tinha apenas vinte anos, e já era objecto dos louvores de todos os poetas, que a comparavam, uns à Aurora outros a Citereia; era, efectivamente, a beleza sem rival da corte em que Catarina de Médicis reu nira as mulheres mais lindas que pudera encontrar. Tinha os cabelos pretos, a tez brilhante, os olhos voluptuosos e com compridas pestanas, a boca rubra e fina, o corpo elegante e flexível, e perdido num sapato de cetim um pezinho de criança. Os Franceses, que a possuíam, tinham orgulho em ver desabrochar no seu solo tão esplêndida flor, e os estrangeiros que passavam pela França saíam de lá deslumbrados pela sua beleza, se a tinham visto somente, aturdidos pelo seu saber, se haviam conversado com ela. Margarida era não só a mais bela, mas também a mais instruída das mulheres do seu tempo, e citava-se a frase de um sábio italiano que lhe fora apresentado e que depois de ter conversado com ela uma hora em italiano, espanhol, latim e grego, a deixara, dizen do com entusiasmo: - Ver a corte sem ver Margarida de Valois, é não ver nem a França nem a corte. Não faltavam por isso discursos ao rei Carlos IX e à rainha de Navarra; os huguenotes eram muito faladores. No meio desses discursos, foram destramente feitas ao rei alusões ao passado e petições para o futuro;

mas a tudo isso ele respondia, com os lábios pálidos e o seu sorriso astuto: - Dando minha irmã Margot a Henrique de Navarra, dou minha irmã a todos os protestantes do reino. Palavras que faziam sossegar uns e sorrir outros, porque tinham realmente dois sentidos: um paternal, e com que, em boa consciência, Carlos IX não queria sobrecarregar o seu pensamento; o outro, injurioso para a noiva, para seu marido e mesmo para o que o dizia, porque recordava alguns escândalos surdos com que a crónica da corte já achara meio de manchar o traje nupcial de Margarida de Valois. Entretanto, o Sr. de Guisa conversava, como dizemos, com Teligny; mas não dava à conversação atenção tão seguida que não se voltasse às vezes, deitando um olhar para o grupo de damas no centro do qual resplandecia a rainha de Navarra. Se o olhar da princesa encontrava então o do jovem duque, parecia que uma nuvem lhe escurecia a fronte encantadora, em torno da qual estre las de diamantes formavam uma trémula auréola, e algum vago intuito se manifestava na sua posição impaciente e agitada. A princesa Cláudia, irmã mais velha de Margarida, que havia alguns anos casara com o duque de Lorena, havia notado essa inquietação, e aproximava-se dela para lhe perguntar a causa, quando, desviando-se todos para deixar passar a rainha-mãe, pelo braço do príncipe de Condé, a prin cesa foi impelida para longe da irmã. Houve então um movimento geral, que o duque de Guisa aproveitou para se acercar da Sr. a de Nevers, sua cunhada, e por conseguinte de Margarida A Sr.a de Lorena, que não perdera de vista a jovem rainha, viu então, em vez da nuvem que lhe notara na fronte, assomar-lhe às faces uma chama ardente. O duque continuava a aproximar-se, e quando chegou a dois passos de Margarida, esta, que mais parecia senti-lo do que vê-lo, voltou-se, fazendo um violento esforço para mostrar no rosto serenidade e indiferença; então o duque cumprimentou-a respeitosamente e, ao curvar-se diante dela, murmurou a meia voz: - Ipse uttuli. O que queria dizer: Trouxe-o eu mesmo. Margarida correspondeu à cerimónia do duque e, ao erguerse, respondeu também a meia voz: - Noctu pro more. O que significava: Esta noite como de costume. Estas meigas palavras, absorvidas pela enorme gola engomada da princesa como pela voluta de um porta-voz, não foram ouvidas senão pela pessoa a quem foram dirigidas; mas, por mais curto que houvesse sido o diálogo, abrangia sem dúvida tudo o que os dois jovens queriam dizer, porque, depois dessa troca de duas palavras por três, separaram-se, Margarida de fronte mais pensativa, e o duque de fronte

mais radiante, do que antes de se haverem aproximado. Esta cena realizava-se sem que o homem mais interessado em a notar parecesse dar-lhe a menor atenção, porque, pela sua parte, o rei de Navarra não tinha olhos senão para uma pessoa que reunia em torno de si uma corte quase tão numerosa como a de Margarida de Valois: essa pessoa era a Sr. de Sauve. Carlota de Beaune Semblançay, neta do desditoso Semblançay e mulher de Simão de Fizes, barão de Sauve, era açafata de Catarina de Médicis, e uma das mais temíveis auxiliares desta rainha, que ministrava aos seus inimigos o filtro do amor quando não ousava ministrar-lhes o veneno florentino; pequena, loura, ora cintilante de viveza, ora lânguida de melancolia, sempre disposta para o amor e para o enredo, os dois negócios magnos que, havia cinquenta anos, ocupavam a corte dos três reis que se tinham sucedido; mulher, em toda a acepção da palavra, e com todos os encantos apropriados, desde os olhos azuis lânguidos, onde brilhavam chamas, até aos pezinhos travessos e metidos em sapatos de veludo, a Sr. de Sauve apoderara-se, havia meses, de todas as faculdades do rei de Navarra, que se estreava então na carreira amorosa e na carreira política, por modo que Margarida de Navarra, beleza magnífica e real, nem havia sequer encontrado admiração no fundo da alma do esposo; e o que espantava toda a gente era que Catarina de Médicis, persistindo no seu projecto de união da filha com o rei de Navarra, não tinha deixado de favorecer quase abertamente os amores deste com a Sr de Sauve. Mas, a despeito deste poderoso auxílio e dos costumes fáceis da época, a bela Carlota resistira até então, e desta resistência desconhecida, incrível, inaudita, ainda mais do que da beleza e do espírito da que resistia, nascera no coração do Bearnês uma paixão que, não podendo saciar-se, se enroscara sobre si mesma e devorava no coração do rei a timidez, o orgulho e até a incúria, meio filosófica meio preguiçosa, que constituía o fundo do seu carácter. A Sr.a de Sauve acabava de entrar havia minutos na sala do baile; ou fosse despeito ou fosse dor, resolvera primeiro não assistir à vitória da sua rival e, a pretexto de uma indisposição, deixara o marido, secretário de Estado, apresentar-se sozinho no Louvre; mas, ao ver o barão de Sauve sem a mulher, Catarina de Médicis informara-se das causas que afastavam a sua querida Carlota e, sabendo que era apenas uma leve indisposição, escreveu-lhe algumas palavras a chamá-la, e às quais ela se apressou a obedecer. Henrique, embora triste a princípio, por causa da ausência dela, respirara contudo mais livremente quando vira o Sr. de Sauve entrar só; mas, no momento em que, não esperando de forma alguma essa aparição, ia, suspirando, aproximar-se da amável criatura que estava condenado, senão a amar, a tratar como esposa, viu surgir no extremo da galeria a Sr.a

Deus me livre! é . Senhor. . Pela sua parte.Não sabe que é o meu sol de dia e a minha estrela de noite?. travava com ela.Pois com esses lindos olhos não viu mais longe.Quero dizer que quem possui a mais linda mulher de França. uma conversação muito menos mis teriosa.e eu supunha que essa pessoa era o ludíbrio e o escárnio do rei de Navarra. .replicou asperamente a baronesa (se é que pode alguma vez parecer áspera a voz da mulher que nos ama e nos exprobra por não a amarmos). . em francês muito inteligível. e eu não me deixo lograr pelos seus ditos espirituosos.veio no momento em que me estavam dizendo que se achava doente. ficou então como que pregado no sítio. . e em vez de continuar a avançar para a esposa. dirigiu-se para a Sr. de olhos fitos nessa circe que o encadeava como um laço mágico. não tiveram a coragem de se opor a que se juntassem e afastaram-se condescendentemente.replicou o Bearnês. e que o despeito é a máscara do amor.de Sauve. Então crê que sou eu que me caso? Oh! não! não sou eu! . Vossa Majestade ama Margarida. faz-me uma censura injusta. . .Então foi uma peça que lhe preguei. . e eu não lhe levo isso a mal.Bem sabe que a minha ventura está nas mãos de uma pessoa.a de Sauve fazer-me crer que lhe custava muito perder essa esperança? . .disse ele -.Menos isso. . Henrique ficou aterrado com essa atitude hostil.Pretenderá Vossa Majestade . minha querida? . não.Oh! . de modo que.disse ele . no próprio instante em que Margarida Valois e o Sr. baronesa? Não. alumiou tudo repentinamente. eu supunha-me na mais profunda escuridão. chegando ao pé da Sr. . . reflectia que ela denunciava despeito.Em verdade .respondeu a Sr.Ora! é a religião reformada que casa com o papa. não é Henrique de Navarra que casa com Margarida de Valois. porque é na escuridão que a ventura nos espera. de Guisa trocavam as palavras latinas que citámos.Ah! minha querida! . de quem era já conhecido o coração inflamado. os cortesãos.Então sou eu. por um acto de hesitação que mais parecia espanto do que medo. e não compreendo como tão linda boca possa ser ao mesmo tempo tão cruel. quando há pouco a senhora apareceu. a única coisa que deve desejar é que desapareça a luz para dar lugar à escuridão. contudo. e que essa pessoa ri e mofa do pobre Henrique.Então quem é? . Na verdade. se acercava da linda Carlota. e em que perdera a esperança de a ver.a de Sauve. vendo que o rei de Navarra.tornou a baronesa .a de Sauve.perguntou Henrique. . não? . querida Carlota.Assim o creio! . e. Henrique. menos isso.Que quer dizer.

Ah! se fizer isso.bem bonita. Real Senhor.De ciúme.me.tornou o rei.Pois. . mas não há senão um Henrique de Navarra. baixando a voz e os olhos. Henrique de Condé. .Que diz! . e Vossa Majestade os seus gentishomens. fez-me desesperar sempre.Dentro de uma hora? Que quer dizer? E de que morte morreria? .Baronesa .Há quatro Henriques nesta sala. .Não compreendo Vossa Majestade!.se o rei de Navarra não mandasse embora esta noite os seus gentis-homens?.disse ele -.Se eu o amasse. no auge da alegria por ouvir essa confissão. . a rainha de Navarra despedirá as suas damas. .murmurou Carlota. não tem direito para isso. Porque. olhando para o rei com um espanto que desta vez não era fingido . o pensamento que a preocupa.Não compreendo.está dizendo coisas impossíveis.disse a Sr. não! É impossível que se furte à ventura que o espera. .Certamente. e tem direito a ser amada. parece-me que quer questionar comigo e. Henrique reflectiu um instante e. dentro de uma hora.Que hei-de fazer para que as acredite? . .E daí? Se a senhora tiver Henrique de Navarra toda a noite ao pé de si. . porque casou hoje com outra. e não pode dar-ma. minha querida? . . terá então a certeza de que ele não estará ao pé de outra?. Não.respondeu a Sr. Henrique de Guisa. que lha hei-de dar! exclamou o rei. por Santo Henrique. minha adorada . devorando a baronesa com um olhar abrasado de amor. . toda a noite. que fez para impedir que eu casasse com Margarida? Nada. . Real Senhor! .E . Ora diga. e mais que tudo incríveis. 10 .a de Sauve levantou os seus grandes olhos. .Sim.exclamou a Sr.exclamou Henrique. . a primeira que recebera .Toda a noite? .a de Sauve. húmidos de .Não digo isso. .Havia de me dar a prova.Henrique de França.a de Sauve. . . A Sr. .Vossa Majestade .Ah! casei com ela porque a senhora não me ama.É esse na verdade.E fiz muito bem! . .E daí? . tinha de morrer dentro de uma hora. contudo. se o amasse. esse pensamento me preocuparia horrivelmente. encrespou-lhe os cantos da boca um astuto sorriso. muito pelo contrário. . baronesa. Digo que. enquanto reflectia.a de Sauve.Palavra que faço.

Ah! palavra! confesso que entro em luta com o desejo. e pouco depois começaram as salas a despovoar- . .Tomo nota da sua promessa em favor de Darfole para o dia em que for rei de França. Uma hora depois da dupla cena que acabámos de contar.a de Sauve.a de Sauve.tornou Henrique -.Mas.que é que deseja de Daríole? . e depois. Carlota sorriu. quando for rei de França. Então Henrique apartou-se da Sr.Oh! se eu quisesse. . . A Sr. ou uma criada em quem confie?. . . Henrique soltou um grito de alegria.Pouca coisa para ela. .a de Sauve guardou silêncio por alguns minutos. . . ela abrirá. querida baronesa. baronesa! pois não tem uma aia. Baterei de mansinho três pancadas.disse ela .se eu quisesse apanhar Vossa Majestade em mentira.Vamos .Noctu pro more. .Deixe-se vencer.Então há-de dizê-lo.Mas que é? . fitou a vista no grupo onde estava a rainha-mãe. Era exactamente no momento em que este grito saía da boca do Bearnês que a rainha de Navarra respondia ao duque de Guisa: . minha querida. olhando em redor de si para não ser ouvida. diga a essa rapariga que hei-de fazer a fortuna dela.Oh! por Deus. experimente.Pois.Fica. um verdadeiro tesouro. .a de Sauve. porque já a esse tempo estava fundada a reputação gascã do Bearnês relativamente às suas promessas.Oh! tenho Daríole. retiraram-se para os seus aposentos o rei Carlos e a rainha. 11 . .mãe.O seu quarto não fica por cima do meu? . como os astrólogos mo predizem.respondeu Carlota . cujo coração se encheu de inebriante alegria.nesse caso direi que sou verdadeiramente amada por Vossa Majestade. embora fosse por um instante. . tão venturoso como o duque de Guisa ao separar-se de Margarida de Valois.Então . como? .murmurou a Sr. quando as mulheres são mais fortes é depois da derrota.Que ela espere atrás da porta. tudo para mim. porque assim sucederá. . Esta noite como de costume. tanto bastou para que Catarina e a sua açafata trocassem um olhar. nesse caso que dirá? . e sorriu para o rei. .disse a Sr.Experimente.Oh! nesse caso. mas. com voz de sereia que teria feito derreter a cera nos ouvidos de Ulisses . e a senhora terá a prova que lhe ofereci. que me é tão dedicada que se deixaria cortar em pedaços por minha causa. .voluptuosas promessas.

que lhe chegavam ao meio das coxas. embrulhou-se num capote escuro.Mais do que isso. habituado a estas mudanças de trajo. escoltados por gritos de alegria e aplausos do povo. única escolta de que quis ir acompanhado. calçou botas altas.disse o duque. Fazes-me o favor de me dizer quais foram as pessoas que entraram aqui durante a minha ausência? . falei-lhe. Germano. uns calções e um gibão cinzento e preto. pôr um capote e armar-se com um punhal curto e agudo. as suas cores favoritas. nenhum desastre sucedeu no caminho ao aventuroso príncipe. dirigiu-se ao seu quarto para mudar de fato. e leu o seguinte: Quero que o Sr de Guisa não volta esta noite ao Louvre.a de Sauve habitavam no Louvre. Senhor. .Ah! ah! . E tens a certeza de que esteve aqui Du Gast? Viste-o? . . tomou o caminho do Louvre. 12 II O QUARTO DA RAINHA DE NAVARRA O duque de Guisa acompanhou a cunhada. defronte da Rua de Brac. Du Gast.Ah! ah! Bem me parecia a mim que conhecia a letra. entregando a espada a um pajem. acabava de anunciar uma hora da madrugada o velador de S. Depois retiraram-se também Henrique de Guisa. mas. e ele chegou são e salvo diante da . voltando-se para o aio singular aviso. que bramia à sua passagem. os cavalheiros lorenos e os católicos. Henrique de Navarra e a Sr. Embora estivesse adiantada a noite. Margarida de Valois. O duque vestiu então a cota. ao seu palácio.Só uma. pôs na cabeça um gorro de veludo preto sem plumas nem pedrarias. vestiu depois. mestre Robin. dos que se usavam sem espada. por cima. achou um bilhete metido entre o ferro e a bainha. .O Sr. meteu um punhal no cinturão e. de anéis tão flexíveis que a urdidura do aço não era mais espessa do que veludo. Senhor. se voltar que terá aprecaução de levar uma cota de malha e uma boa espada. e fossem pouco seguras as ruas naquela época. e.se e as galerias a deixar ver a base das suas colunas de mármore. .Bom. Abriu-o. Quando ele transpunha os umbrais do antigo palácio real. L'Auxerrois.Quem? . acompanhados de quatrocentos fidalgos huguenotes por entre a multidão. então seguirei o conselho. que era situado na Rua da Chaume. trouxe uma e outra coisa. quando ia buscá-lo à mesa onde estava. a duquesa de Nevers. depois de a haver entregue às criadas. Dá cá a minha cota de malha e a minha espada. ou. O aio. O almirante e o príncipe de Condé saíram.

Sobre ele tornou a seu lugar o varão. sempre guiado pela confidente. acessível se não fosse o fosso. aberta numa parede. nem nos aposentos de baixo nem nos corredores. em cima da erva do fosso e da parede. que. Gillonne? . a essa hora formidável. mas apareceu uma mão. levantou um dos varões desprendidos antecipadamente e deixou cair. O quarto de Margarida era no primeiro andar. a cujas janelas o acompanhara muitas vezes do mesmo modo. que era nada mais nada menos do que a filha de Jacques de Matignon. que o levava pela mão. um cordão de seda. fechouse a janela. que levou a cabo sem novidade. O príncipe prendeu uma das extremidades da escada ao cordão que estava pendente. o que não obstou a que o Sr. e o pajem. . ouviu-se o rumor de uma janela do résdo-chão que se abria. . embrulhado no seu capote. fora do alcance dos amantes e dos ladrões. abrindo o capote. e . para o qual dava a maior parte dos quartos dos príncipes alojados no palácio. o duque fez sinal ao pajem. onde todas as luzes se haviam apagado sucessivamente. Nenhuma luz ficara. Gillonne puxou a escada para si. de silêncio e de escuridão. ficava. chegou a uma escada em espiral. A noite estava escura. Em frente do palácio real havia um fosso profundo. 13 Mas o primeiro andar.Sim senhor . e que se eriçava.tu. e dizia-se que no número dos mistérios que a sua incorruptível fide lidade encerrava. de Guisa descesse resolutamente ao fosso. havia-os tão incríveis que eram estes que a forçavam a guardar os outros. por causa dele. deitou-se. e.Está bem. que não tinha segredos para com ela. tépidos e volumosos. começou a escalada. O duque de Guisa seguiu a pessoa que o guiava.Está à sua espera. com inflexão ainda mais baixa. elevado cerca de trinta pés. O duque.bisarma do antigo Louvre. . amarrou-a solidamente.perguntou o duque em voz baixa. e das nuvens carregadas de enxofre e electricidade caíam alguns pingos de água. No mesmo instante. Essa janela tinha grades. desenrolou uma escada de corda. por conseguinte. depois de haver afivelado a espada ao cinturão. .respondeu uma voz de mulher. pela abertura. A estas palavras. e o príncipe.E Margarida? . e só de tempos a tempos um lampejo lívido iluminava os quartos sombrios com um reflexo azulado que desaparecia imediatamente. marechal de França. depois de ter visto entrar pacificamente o amo no Louvre. era a confidente de Margarida.

.perguntou ela em voz baixa. toda a época contemporânea deles. Henrique!. tinha corrido ao encontro dele. na própria noite das bodas. . na noite do casamento.Aqui estou.E é o senhor quem o diz. Quando chegou ali. . . enquanto Gillonne. ele virá. mas também no cofre de prata que lhe trago. não em o escolher.Contente. minha Senhora! .exclamou Margarida . o duque distinguiu na sombra a própria rainha que. que é de todos quem sabe o contrário do que diz! Se eu tivesse o desejo que me supõe. duque? . . que ficara à porta.Trouxe o que a rainha deseja? .Venha pois. com leve inflexão de despeito .tornou Margarida. e aí parou. . não me dirá? . .disse então no meio da escuridão uma voz que fez estremecer o duque.disse ele. Margarida. . porque desejava acabar com todos os vestígios do passado.de 14 que pertenço a um homem que.que conduzia. não. porque reconheceu ser a de Margarida. e muito mais se a senhora o deseja. tranquilizav a sua real ama.respondeu Margarida. e sem perda de tempo! . estava completamente às escuras. .respondeu o duque de Guisa -. Como se houvesse compreendido as ciosas inquietações do duque. levantando-se ao mesmo tempo um reposteiro de veludo violeta com flores-de-lis de ou ro.Oh. Não. Tocou então a Margarida de Valois a vez de servir de guia ao príncipe nesse quarto. e o passado vivia não só no meu coração.Trouxe . mas em o aceitar para esposo.disse o duque com tristeza sossegue. . E.E porquê. . olhando fixamente para o duque. impaciente. A antecâmara.o senhor. minha Senhora?.Pediu-me que viesse ao Louvre.Por esta prova que lhe dou .Quer que Lhe diga uma coisa.Então? . . aliás mui to conhecido dele. que nem sequer veio agradecer-me a honra que lhe fiz. tinha-lhe porventura pedido que viesse ao Louvre? . mas cujo reflexo não acabará! Porque os amores das pessoas da minha jerarquia iluminam. mas não o entregarei senão a Sua Majestade. Margarida conduziu-o a seu quarto de dormir.perguntou este . tão pouco caso de mim fez. por uma porta secreta e invisível. e muitas vezes devoram.É que o senhor me está parecendo mais um estudante do que um duque! Eu nego lá que o amei! Eu posso lá extinguir uma chama que pode vir a apagar-se. à antecâmara de Margarida. levando o dedo à boca. como as outras salas inferiores. Henrique? . minha Senhora .perguntou-lhe ela .está contente. Gillonne parou.

como se Margarida temesse que fosse possível ir buscar às cinzas o imprudente aviso. mas não me perdoaria a revelação de um segredo como este. Onde está essa carta? . . minha Senhora? . . .É verdade . 15 O príncipe meneou a cabeça com tristeza.Ei-la . .E amo-o ainda. e o cofre que ela lhe deu. mas para lhe salvar a vida. numa dúzia de cartas. Henrique. Henrique: meu marido não só não me .E que carta procura. soltou uma exclamação de alegria e chegou-a à luz de uma vela. quando ela acabou. .Estou.Para desculpar a sua infidelidade? Margarida encolheu os ombros. mostrando-lhe duas espadas: Com esta mata Henrique de Guisa esta noite. Perdê-la-ia por acaso? Porque.Digo-lhe e repito. mas quando acabou o exame olhou para o duque e disse-lhe. certificou-se de que era a que reclamava. . agora que o senhor casou com a princesa de Porcian. com mão trémula. para a ter entregado. tirando-a do peito: Margarida quase que lha arrancou das mãos.meu duque! Pode conservar as cartas da sua Margarida. uma após outra. Aquela em que lhe dizia que o rei. A chama comunicou-se imediatamente ao papel. ou eu te mato amanhã com aquela. Das cartas que o cofre contém. Margarida? .Aquela em que lhe dizia que se casasse quanto antes. escolha a que quiser destruir. e depois.disse. Rainha. a sua memória lhe recordasse o que as cartas continham.Sim. pôslhe o pé em cima. . que na minha fraqueza pelo senhor não tive a força de lhe ocultar. como se. mulher.Tudo é seu . que ardeu num instante. o bastardo de Angoulême. . não tenho trono.Então. nesse tempo amavame. mandara vir seu irmão. não tenho marido.Está agora satisfeita? . pálida: .A senhora? .disse o duque -. vendo o nosso amor e os esforços que eu fazia para que não se realizasse a sua futura união com a infanta de Portugal. e lhe dissera. O duque de Guisa seguia com os olhos a amante durante todo esse acto febril. só pela inspecção deles. só lhe pede uma. a que procuro não está aqui.Senhor. .disse o duque de Guisa -. porque nunca mais do que hoje careci de um amigo sincero e dedicado.Não.disse o duque de Guisa. e é porque essa carta é tão perigosa para si como para ela. eu. tanto ou mais do que nunca. Margarida esquadrinhou rapidamente no cofre aberto e. de que se contentou em olhar para os sobrescritos. abriu-a avidamente. pegou. porque meu irmão há-de perdoar-me o seu amor. .

abrindo a porta e levantando o reposteiro. apareceu sorrindo à porta do quarto. Margarida. saio do gabinete. .Não senhor . não tardará. penetrar nos cantos mais sombrios dele.respondeu Margarida -. e depois. minha Senhora? . e se se pode contar com o que prometo uma vez.Minha Senhora. minha Senhora. . levantou-se e estendeu a mão como para ordenar aos pajens que ficassem. e demais. porque ainda ontem me disse que sabia muito bem que o nosso casamento era uma aliança política. mas odeia-me. . é escusado. como se houvesse querido. parece-me que a sua presença.E eu digo-lhe . despreza-me. . disse-lhe com voz muitíssimo serena: . Henrique.que não vem.Não é tarde. Henrique. apesar do reposteiro que o tapava. Margarida disfarçou a sua perturbação.disse Margarida. . Gillone. correndo a tomar-lhe o passo não. para o que lhe tenho a dizer. .Está doido! entre. deixe-me retirar.Oh! bem lhe dizia eu que ele vinha! . escoltado por dois pajens.Fá-lo-ei. com voz breve e pegando na mão do duque -.ama. o rei de Navarra precisou de tempo para despedir os seus gentis-homens e. . fazendo uma profunda reverência. se ainda é tempo. quereria antes que estivéssemos a sós.Henrique .Quer que chame as criadas? . entre para esse gabinete. deitou um olhar rápido e profundo para o gabinete.exclamou Margarida. saiba que à primeira demonstração de amor que ele lhe der. e então. dirigindo-se para a sua linda esposa. . se assim o deseja. . o rei de Navarra.Esperavame porventura? .exclamou Margarida com despeito crescente . que estava sentada.Minha Senhora! O rei de Navarra sai do quarto! . e que o senhor nunca me constrangeria.perguntou o Bearnês.Não está ainda deitada.Minha Senhora . . com a sua fisionomia aberta e jovial.bradou Gillonne. retira-te e fecha a porta. vai ver se sou mulher de palavra. desgraçado dele! . entre. isso não é razão para que não conversemos um pedaço.exclamou o duque de Guisa. . se não veio ainda. . que traziam oito tochas de cera cor-de-rosa em dois candelabros. E empurrou o duque para o gabinete.perguntou o rei. pálida de terror. Mal a porta do gabinete se fechou sobre o príncipe. O Bearnês sabia o que queria saber. respondo por tudo. é uma prova desse ódio e desse desprezo. a esta hora. e estou pronta a ouvir.Não! . porque. Era tempo. no quarto em que ele devia estar. conquanto lhe confesse que. sou eu que lho digo. E o rei de Navarra encaminhou-se para o gabinete.Muito embora.

Como aprouver a Vossa Majestade .. e Catarina de Médicis odiava muito minha mãe para não me odiar a mim. caindo na cadeira que o marido lhe indicava.continuou -. . . .Minha Senhora . poderá acaso pensar?.Então que é isso. .Dizia eu. queria fazer parar cada palavra nos lábios do Bearnês.continuou Henrique de Navarra. certo que o nosso casamento não é mais do que um pretexto ou uma cilada. minha Senhora. .disse Margarida com vivacidade. aí está porque ouso dizer-lhe que me não logram nem as caricias que me faz a Casa de França. Margarida estava visivelmente num suplício. minha Senhora. Margarida estremeceu.Não quando duas pessoas conversam a sós . porque talvez também esse pensamento se lhe houvesse apresentado ao espírito.Oh. Eu sou seu e a senhora é minha.disse Margarida. .Devemos.Mas . quão grande é a sua penetração. sem parecer que notava a hesitação de Margarida -.tornou o rei -.A verdade. o duque de Alençon odeia-me. nem as que me faz a Casa de Lorena. . . . . e quero assegurarme de que a minha esperança é fundada. . . minha Senhora. sei quão semeado de perigosos abismos é o terreno da corte. . persuado-me que o nosso casamento foi um casamento em regra.perguntou Henrique.replicou o rei. Senhor! que diz! . digam o que disserem.continuou o rei de Navarra. Não é desta opinião? 17 . . pa ra não julgar que me lograram com o assassínio do Sr. o duque de Anjou odeia-me. minha amiga? .Nesse caso.Discursos desses são muito perigosos. uma vez que jurámos hoje aliança perante Deus.Mas qual das duas coisas será? . Em que campo. Senhor. .exclamou Margarida.disse a princesa.Oh! Senhor. ou antes. proceder um para com o outro como bons aliados. e com os modos mais serenos e mais risonhos que pôde . quisera que estivesse aqui alguém que pudesse ouvir-me. Senhor! .Bem sei.O rei odeia-me. sentando-se. e quisera. devo eu colocar a mulher que usa o meu nome e que me jurou afeição ao pé do altar? . tenho grande número de inimigos.Oh. e embora nunca fizesse mal a ninguém. minha Senhora . espero. O Bearnês acercou-se dela.E aí está porque estou falando com toda a franqueza. portanto .bem sabe que estamos aqui sós. de Mouy e o envenenamento de minha mãe. . . mas Henrique continuou com a sua aparente simplicidade. conversemos um instante.Meu Senhor! meu Senhor!. . aterrada.Sem dúvida. ora eu sou moço. minha Senhora. sorrindo também.Não penso nada.

a senhora bem o sabe.Dizia eu que estava ameaçado por todos os lados: ameaçado pelo rei. que não tarda que se tornem ataques. voltando também sem querer os olhos para o gabinete. ameaçado pelo duque de Alençon. enfim.Certamente. beijou-a gentilmente e.Bem! creio em si. disse: . posso arrostar com tudo. é amada pela rainha Catarina. sem que ninguém a isso nos force.Mas minha amiga. Henrique pegou-lhe na mão. Casaram.Mas . mas. . é amada pelo duque de Guisa. pelo duque de Maiena. é assim que o entende? . mais por um desejo de investigação do que por um sentimento de ternura. . . como a primeira prova de uma aliança franca é a mais absoluta confiança. e aceito-a como aliada. . ameaçado pelo duque de Guisa.nos sem que nos conhecêssemos. nunca.Senhor. o plano que formei de combater vitoriosamente todas essas inimizades. se se tornar minha inimiga. minha Senhora.Quero concluir o que já disse. . . posso defender-me com o seu auxílio. nos mais secretos pormenores. se a senhora vier a ser.disse Margarida. estou perdido.Então .replicou Henrique de Navarra com a maior simplicidade -.Pode ser.replicou Margarida.Sim senhor . . a senhora .continuou o Bearnês com os olhos sempre fitos na porta do gabinete -.Oh! sua inimiga. Percebe-se isto instintivamente. sem que nos amássemos. casaram-nos sem nos consultarem.murmurou Margarida. .Eu? . .. porque a senhora é amada por todas as pessoas que me detestam. a senhora é amada pelo rei Carlos. enquanto o Bearnês. 18 E Margarida voltou-se e estendeu a mão ao rei. Pois de todas estas ameaças. e confirmo esta noite o que lhe disse ontem. . sim. . oprimida -. ameaçado pela rainha-mãe. aliemo-nos como dois corações leais que se devem protecção mútua e se aliam. pelo cardeal de Lorena. Amar os parentes e os irmãos é viver como Deus deseja que se viva. Mas aliemo-nos livremente.E minha aliada? . mas minha aliada. não digo minha amiga.exclamou Margarida. ameaçado por toda a gente.disse Margarida. Senhor? .murmurou Margarida.Sim. diligenciando retirar a mão. ameaçado pelo duque de Anjou. também nunca? . que admira que todos a amem? Os que eu acabo de citar ou são seus irmãos ou seus parentes. . Senhor! .Então?. conservando-a entre as suas. é amada (e acentuou a palavra) pelo duque de Alençon. vendo bem .Senhor. Não devemos pois nada um ao outro como marido e mulher. vou dizer-lhe. que quer concluir. A senhora vê que vou mais longe do que naturalmente esperava.

disse ela. .disse o Bearnês sorrindo a seu modo -. mas nunca ouviu dizer que por um tubo introduzido no tecto ou na parede se pode ouvir tudo? . Vou. a comoção. e boa noite. sorria. e neste momento . .Franca e leal .Senhor! . elevando a voz. Margarida .sucedida a sua astúcia. meu Senhor. Conto consigo como a senhora pode contar .dê-me licença que respire. .. sim .disse Henrique -. Embora me falte o seu amor. Vou tranquilo.É verdade que me não ama.Muito bem. confusa. Depois. . silêncio! meu Senhor! tenha dó de si! murmurou ela. continuou: . havemos de falar de tudo isto lá mais para diante .murmurou Margarida. queira aceitá-los como lhos ofereço. Pode ficar sossegada. confesso que careço mais da fidelidade em política do que em amor.não quero importuná-la por mais tempo.Então. reconheço que é mulher de bem. Então o Beurnês dirigiu-se para a porta. bom. .Aliança política. sufoco.Nesse caso . E depois.Está combinado . porque era eu que me denunciava. O facto é que Margarida estava pálida e trémula como se fosse cair em cima do tapete.continuou.disse ardentemente Henrique. quando nos conhecermos melhor. Margarida levantou para seu marido um olhar brilhante de reconhecimento.replicou o Bearnês . mas uma fiel aliada.murmurou Margarida. . minha Senhora? .Eis o que vou fazer .perguntou Henrique.. respira melhor agora.acrescentou o Bearnês sorrindo -. sem dar mostras de notar a perturbação da princesa. . Devia-lhe os meus respeitos e alguns cumprimentos de boa amizade.Sim. 19 . minha Senhora . não me disse que estávamos sós?.Obrigado.Quero dizer que. .respondeu a rainha. Esta janela dava para o rio. Senhor? .Bom. atraindo o olhar de Margarida como fascinada. Sei agora que está aqui escondido alguém. obrigado! É uma verdadeira princesa de França. . Fezme parar. .exclamou Margarida. . não me há-de faltar a sua amizade. de todo o coração. o calor. porém. franca e leal? . Henrique caminhou para uma janela que estava a bastante distância e abriu-a. se fosse capaz de me atraiçoar.Silêncio. levantando-se com vivacidade e travando do braço do rei . ter-meia deixado continuar.Oh. Margarida seguiu-o.Sim senhor. e estendeu-lhe também a mão.disse com vivacidade e baixinho o Bearnês. que a senhora é uma esposa infiel. quando caiu o reposteiro entre eles e o quarto de cama: .Senhor.Que quer dizer. . . minha Senhora! . em voz baixa -.

Henrique é o fraco e os senhores são os fortes. vamos. Achou o duque à porta do gabinete: esta vista inspirou-lhe quase um remorso. com passo ágil.respondeu a rainha -. Henrique de Navarra subiu a escada que conduzia ao quarto da Sr. esteve a escutar? . Adeus.Senhor . o duque de Guisa. em boa fé. se se oferecer ocasião. voltou para o seu quarto. salvando-lhe a vida.Bem. um amante ou ambas as coisas? Na verdade. eu posso não amar meu marido.disse ele -. . com o qual voltou para o Palácio de Guisa. meneando a cabeça -. . . o duque de Anjou. com a breca! esta Margot. sem que Margarida fizesse um gesto para o deter. sua esposa?. e que Darfole me espera. dizendo consigo no corredor: Quem diabo estará lá? Será o rei. um irmão. mas como não se devia portar a amante do duque de Guisa.Com a diferença que passa de um campo para o outro. minha Senhora. . não importa: há-de perder alguma coisa.a de Sauve. . é costume restituir os mimos que um ao outro ofertaram. apertando-lha meigamente.Ah.Vamos. atraiçoaria o senhor os segredos da princesa de Porcian.Margarida é hoje neutra . Bem vê que represento sempre o mesmo papel. percebo.Foi um direito que adquiri. Margarida seguiu-o com os olhos até ele desaparecer e tornou para o quarto. e como. minha Senhora.disse Margarida.comigo. minha Senhora . o duque estava com um aspecto grave e os seus sobrolhos denunciavam uma amarga preocupação. e depois. quase que estou com pena de ter pedido esta entrevista para agora à baronesa.Que queria que eu fizesse neste gabinete? . Pela sua parte.Não. e ficaremos quites. Margarida será hostil dentro de oito dias. porque. E Henrique beijou a mão da esposa. .O rei era o forte e os senhores eram os fracos. com um passo que denunciava ligeira hesitação. também eu lhe salvarei a vida.E entende que me portei como se não devia portar a rainha de Navarra? . mas. uma vez que lhe dei a minha palavra. mas ninguém tem o direito de exigir de mim que o atraiçoe. Senhor. por eu ter passado pelo quarto de minha mulher para ir ter com ela. como lhe chama meu cunhado Carlos IX. que o conduziu até à janela do rés-do-chão. E dito isto o duque curvou-se e saiu. Na antecâmara encontrou Gillonne. . o duque de Alençon. Diga-me. . é uma criatura adorável. receio-o muito. Vejo que já me não ama como nos dias em que me contava o que o rei tramava contra mim e contra os meus. . e nos fossos o seu pajem. quando dois amantes quebram as suas relações. E.disse o duque. .

foi pôr-se à janela. vindo da Torre de Madeira e subindo para o engenho da Monnaie. e tinha a cabeça tão perdida que se esquecera uma noite. ocupação a que se dava ordinariamente depois das duas horas da tarde. pensativa. tanta a reacção em favor da religião reformada. Parecia que o rei Carlos se divorciara da sua melancolia habitual. Margarida ouviu a canção sorrindo com melancolia. durante duas horas. a arvorar divisas e a ostentar-se defronte de certas varandas como se fossem católicos. Na noite em que o almirante teve este incrível esquecimento dos seus hábitos. 20 III UM REI POETA Os dias seguintes passaram-se em festas.Queria. danças e torneios. quando. começavam a vestir gibões de seda. Continuava a operar-se a mesma fusão em todos os partidos. e quem pode dar-me notícias dele? .Então o Senhor Almirante não vem esta noite? Quem o viu hoje. O próprio almirante.respondeu o rei de Béarn -. Margarida.é muito madrugador para noivo. deixara-se apanhar como os outros. fechou a janela e chamou Gillonne para a ajudar a deitar. Os huguenotes. apesar da sua experiência. Eram carícias e ternuras de fazer perder a cabeça aos mais acirrados huguenotes. em toda a parte. jóias e colares. interrompendo-se. Tinha sido visto o Tio Cotton jantar e dar-se a desregramentos com o barão de Courtaumer. depois de acabada a ceia. e o amante deixa-me! Neste momento passou pelo outro lado do fosso. cantarolando uma modinha de amor. . o rei Carlos IX convidou para cearem em família Henrique de Navarra e o duque de Guisa. e ali lhes explicou o engenhoso mecanismo de um laço de lobo que havia inventado. não esteja Vossa Majestade com cuidado. de mascar o palito. porque o vi esta manhã às seis horas e esta noite às sete.Eu . e. E a rainha-mãe estava tão jovial e tão entretida com bordados.murmurou ela. Henrique! . que perdia o sono. e o duque de Guisa subir o Sena na companhia do príncipe de Condé num barco com música. perguntou: .disse o rei de Navarra -.disse o rei. Que noite de bodas! . indagar . momento em que tornava a sentar-se à mesa para cear. meu Senhor . cujos olhos um instante distraídos se fitaram com penetrante curiosidade no cunhado . Era.O esposo foge-me. que se podia acreditar que ia fazerse protestante toda a corte. um tanto abrandados por esta nova Cápua. foi com eles para a sua câmara. . e já não podia passar sem o seu cunhado Henrique.Durante este tempo. um estudante de mão na cintura.Ah. ah!. . e depois. quando a voz do estudante se perdeu ao longe.

. traga. mas conheço-os. . Era disso que estávamos falando. rindo.De La Mole? não é um Lerac de La Mole?.disse o duque de Guisa. .tornou o rei.E espera muitos? . . contanto que sejam valentes. com o seu sorriso amarelo quantos mais forem. Mas quem são esses gentis-homens? São valentes. que misturavam no seu espírito huguenotes e católicos. se os meus gentis. 21 O duque. . . . meu Senhor. Henrique. de gentis-homens e valentes. fizera uma cara tão indiferente que chegara a causar admiração ao próprio duque de Guisa. e eu reúno em torno de mim todos os do meu país e dos arredores que creio poderem ser úteis a Vossa Majestade.replicou o Bearnês -. e que se chama de La Mole. . meu Senhor. ou os do Sr. que me é recomendado por Teligny como cavalheiro completo. O duque de Guisa carregou os sobrolhos. os do Senhor Duque de Anjou. concedera o favor de entrar na câmara sem ser anunciado. pouco me importa. . como vê. que sabe tudo.Não sei.respondeu o rei. muito versado na ciência genealógica. o fman atrai o ferro.interrompeu o rei -.E eu . meu cunhado de Navarra e meu primo de Guisa esperam reforços para o seu exército. traga. .Bom! bom! .Fala-se de guerra. . abrindo os braços. tinha oitocentos no dia do seu casamento. porque até vou buscar ao Piemonte todos os católicos seguros que posso encontrar. à excepção de um. e sei que hão-de fazer o que puderem. o almirante! .Católicos ou huguenotes . e que acabava de ouvir as últimas palavras de Sua Majestade. e chega.exclamou Carlos IX. não posso dizer.Um provençal? . . fala-se de uma empresa sobre Flandres.Mais dez ou doze. para dizer estas palavras. se alguns gentis-homens que espero estão já a caminho para cá. até recruto na Provença.disse o almirante.Meu Senhor .Meu Senhor.Como se chamam? . com um sorriso irónico vou mais longe ainda do que Sua Majestade o Rei de Navarra. recordando-se do projecto de que o Bearnês falara a Margarida no dia do casamento. e todos os dias vêm mais! Quer invadir-nos? disse o rei. mais contentes estaremos nós.Ah! aqui está meu pai.homens valerão tanto como os de Vossa Majestade.do almirante.Exactamente. O rei. . .E esses reforços estão a chegar . de Guisa. . a quem o rei havia alguns dias. não são? .Mais gentis-homens?. escutou com mais atenção. e. não me lembro agora dos nomes.Vossa Majestade está falando dos nossos flamengos? disse o almirante.

andou trinta e duas léguas num dia. Olha.disse Carlos IX. meu pai. e chegará amanhã ou depois a Paris. O Sr. graças à posta. Sou verdadeiramente rei desde que minha mãe não é rainha. Os bons conselhos é que fazem os bons reis. . .Bravo.disse o almirante -. defronte de Orleães! Coligny ficou impassível a este tiro do duque de Guisa. para saber assim o que se passa a trinta ou quarenta léguas de distância? Eu por mim desejaria saber com a mesma certeza o que se há-de passar. meu filho. Mostre a estes rapazes que foram o saber e a idade que lhe fizeram brancos a barba e os cabelos. seu pai. eles que falem dos seus torneios e dos seus amores. não sem suspeitar que o almirante houvesse aconselhado o crime. que aludia evidentemente à morte de Francisco de Guisa. meu pai. acercou-se dele e. e não sabem outra coisa senão exterminar. Montmorency não pensa senão na caça. redobrando de expansão.Teve noticias deles. de La Mole. . morto defronte de Orleães por Poltrot de Méré. depois de uma fria revrrência. Os outros são muito dissolutos. Coligny seguira-os com os olhos com certa inquietação. e seria capaz de atraiçoar o rei por um tonel de malvasia. sou feiticeiro todas as vezes que quero saber positivamente o que importa aos meus negócios ou aos do rei. Aqui está a magia toda. tenho que conversar com o almirante. a rainha Catarina. meu pai. meu pai. mas também quero dar força aos da Religião. Com ela não há paz possível. e falemos nós das nossas guerras. excepto dos meus novos amigos! A ambição de Tavannes é-me suspeita. o rei de Navarra primeiro. ou o que já se passou. não só quero pacificar. bem respondido! . queres que te fale com franqueza? . Carlos IX compreendeu o que se passava no seu espírito. e passa o tempo no meio dos seus cães . anda só dez por dia. e só pode chegar a 24. estava ontem em Orleães. 22 Os dois rapazes saíram.continuou Carlos IX.Demónio! Então o Senhor Almirante é um feiticeiro. Eu. Vamos.perguntou o Bearnês. pelo contrário.acrescentou ele. mas à porta cada um tomou para o seu lado. .Sim. estou aqui para o manter em obediência e respeito. de La Mole.Não receie. Senhor? .. . .É uma enredadeira.Oh! Sire . porque nunca via aproximar esses dois ódios bem arraigados sem temer que espirrasse alguma nova faísca. Vieilleville não gosta senão de bom vinho. Senhores. O meu correio chegou de Orleães há uma hora e. e ela não é rainha desde que Coligny é meu pai.Senhor . e especialmente do Sr. o duque de Guisa depois. que viaja a cavalo. . disse-lhe: . Estes católicos italianos são raivosos. com frieza e com dignidade -. e escandalizam-me com os seus amores e os seus desregramentos. encostando o braço ao seu.Desconfio de todos quantos me rodeiam.

não posso. longe da bulha.Bravo.Sei mais de coisas de guerra do que de poesia.senão eu. tu para a Flandres. Coligny sorriu. O mais que me deixam fazer é caçar à vontade em São Germano e em Rambouillet. Não nasci para rei. ainda há alguns dias eu o dizia ao meu mestre. meu pai. Deus me perdoe! . Meu cunhado de Navarra é muito novo e muito pouco experiente. possam fazer. e depois da vitória o conselho. . falaremos das coisas de Deus. Na segunda-feira partiremos. contanto que minha mãe não faça parte dele. mas parece-me que esses versos valem os melhores que Ronsard. Pois seja. ao murmúrio dos regatos. meu pai. quem há-de comandar? Se comandas. ou mandar-te para a guerra como general. é preciso primeiro vencer. porque. Sire! bravo! . Mas eu estou encadeado ao trono e não posso comandar os exércitos. única compensação que há neste mundo para as coisas dos homens. Ouve: tenho de responder neste momento a um novo madrigal que o meu grande e querido poeta me enviou. os Guisas. meu pai?. nasci para poeta. pelos quais o convido a vir ter comigo. . na verdade: ter-te aqui para meu conselheiro. fiz esta manhã uns versos. . longe dos maus. chanceler de França. Não há senão tu. se isso fosse verdade!. quem me há-de aconselhar? . pois.Sire . Olha. ambos. que governará enquanto estiveres em guerra. que as mulheres perderam sempre. Por isso não sei o que hei-de fazer. à sombra dos bosques. e lá.disse Coligny -. e com uma espécie de canto cadenciado recitou os versos. e.Ah! meu pai . à borda do rio. E parece-me que tem muito de seu pai.disse Coligny -.disse Coligny. . e é para não ser perturbado nas minhas relações com elas. porque estou farto de bulhas e de festas.e dos seus falcões.Depois de ti. são lorenos. também em verso. dar-te agora todos 23 . O conde de Retz é espanhol. Se me aconselhas. e eu para Amboise. o título de poeta é o que eu ambiciono acima de tudo. que eu quero pôrte à frente de todas as coisas. . .exclamou Carlos IX -. Farás uma espécie de conselho. que és a um tempo bravo como Júlio César e sábio como Platão. Carlos IX passou a mão pela fronte amarela e polida como marfim.Vossa Majestade sai de Paris? . Dorat e até o Sr.Sire .Saio. sou um pensador. António. .É a tua opinião. Não há verdadeiros franceses em França senão eu. Miguel de L'Hospital. olha. depois de ti. Já mandei dizer a Ronsard que viesse ter comigo. mas ignorava que houvesse feito delas o seu principal conselho. meu cunhado de Navarra e tu. Proceder-se-á conforme a tua opinião. eu sabia que Vossa Majestade conversava com as Musas. Não sou homem de acção. quando o rei terminou. tudo irá bem.

Carlos IX entrou. Era esse o gabinete preferido do rei. Carlos IX seguiu-o com os olhos enquanto pôde vê-lo. como era seu costume.Adeus. O almirante saiu. Carlos conservou-se por um momento de pé.A sua mão. como dissemos. meu velho guerreiro. . cuja beleza vigorosa era realçada pelo trajo das camponesas dos arredores de Caux. que se curvou. . sobre o meu coração. abafados pelo tapete. era aí que dava lições de esgrima com Pompeu. e pega em todos os papéis que achares em cima desta mesa. cair a cabeça pálida em cima do ombro. e se porventura eu estiver fazendo versos. e depois de haver fechado a porta principal. a cor é brilhante. e passou vagarosamente da câmara em que estava para a sala de armas. foi erguer um reposteiro que mascarava uma porta que dava para um quarto. quando não viu e não ouviu mais nada. não se voltou e continuou a rezar. . aliás. deixou. . e os passos do rei. onde estava rezando uma mulher ajoelhada num genuflexório. apurou o ouvido enquanto pode ouvi-lo. pensativo. contíguo ao . que nada ouvira. encerrado no meu gabinete de trabalho. e não te enganarás. limpando uma lágrima. alabardas.Às dez horas.A que horas. por onde entrara. lanças. Usava o toucado alto que foi tanto da moda da corte de França durante o reinado de Isabel de Baviera. Sire? . a mulher ajoelhada. Tinha aí reunido uma grande colecção de armas ofensivas e defensivas das melhores que pudera encontrar. vem! E Carlos IX. chegou-lhe os lábios aos cabelos brancos. Como esse movimento se fizera lentamente. não ressoaram mais do que os de um fantasma. em cujo cano estava incrustada em prata uma quadra que o poeta real havia feito. Por isso as paredes estavam todas cobertas de achas-dearmas escudos. como ainda hoje os coletes das camponesas de Nepttuno e de Sora. metidos dentro desta pasta encarnada. e a contemplá-la. pistolas e mosquetes. e depois. .Adeus. Era uma mulher de trinta e quatro a trinta e cinco anos. e o seu colete encarnado era todo bordado de ouro. Hei-de procurar tudo isso. meu pai. pois. e lições de poesia com Ronsard.Que dizes! a minha mão? Nos meus braços. Há. e entregar-to-ei amanhã pela manhã. entra do mesmo modo.os papéis que são necessários para te pôr ao facto da importante questão que me espera de Filipe II. e nesse mesmo dia um armeiro lhe levara um magnífico arcabuz. é que é o teu lugar! Vem. O quarto que ocupava havia vinte anos. vou escrever a Ronsard. puxando para si Coligny. Sire. nesse gabinete. uma espécie de plano de campanha que fora feito pelos meus ministros.

Carlinhos? . A ama levantou-se. e a choupana as suas ao palácio. fala.disse -.Que me queres. aproximou-se da porta. manda-o entrar.disse ela. fez festas a um galgo que lhe seguia todos os passos. A boa mulher saiu pela mesma porta que lhe dera entrada. tornou a erguer-se o reposteiro. . . de olhos pardos e falsos.Há meia hora.disse ela.Bem. era um livro velho. Carlos levantou-se. 24 . Carlos deitou uma das mãos ao cabo de uma pistola que ficava por trás de si. e que desfechava com o auxílio de uma pedra preta em contacto com uma roda de aço. meio rasgado. e depois. oferecia um misto singular de elegância e rusticidade. e depois. em lugar de desfechar com auxílio de uma mecha. . o palácio dera as suas cores à choupana. e forrado de veludo com franjas de ouro. O caso era que.Sim. chegou à janela. Mal se encostara. A mulher ajoelhada levantou a cabeça. De modo que este quarto era um meio-termo entre a simplicidade da aldeã e o luxo da dama aristocrática.Anda cá. parando quando o dono parava. anda cá. Tudo estava em proporção com o genuflexório e a bíblia. o rosto tentou exprimir respeito. voltando para a ama: . ama. sorrindo a esta voz familiar.disse o rei. como os que se encontram nas casas mais pobres. nariz recurvado como o bico de uma coruja. erguendo-se: .Aqui estou . sacudiu o pó dos troféus de armas. e a bíblia (porque essa mulher pertencia à religião reformada) a bíblia em que ela lia as suas orações. meu filho! . em proporção quase igual. és tu. .Já veio o homem que mandei chamar? . E tanto assim que o genuflexório em que ela estava ajoelhada era de carvalho maravilhosamente esculpido. de faces salientes. e mirou com um olhar . olhou se alguém estava espreitando.quarto de dormir do rei. continuando a andar quando o dono tornava a mover-se. e o rei foi encostar-se a uma mesa em cima da qual se viam armas de toda a qualidade. Era um homem dos seus quarenta anos. com uma familiaridade que podia nascer da ternura maternal que a mulher sente pela criança que amamentou. apurou o ouvido para se certificar de que ninguém estava a escutar. . Carlos IX deixou cair o reposteiro e foi recostar-se nos braços de uma poltronna. e entrou o indivíduo que o rei esperava.Madelon! . A ama aproximou-se. e responde em voz baixa. mas não pode dar senão um sorriso hipócrita nos lábios desbotados pelo medo. mas a que os panfletos do tempo dão origem infinitamente menos pura.Ah.

embaciado a personagem que acabámos de pôr em cena. fitando em Maurevel um olhar que. embora aquele a quem dirigia a palavra estivesse quase escondido na sombra.Isto .continuou Carlos.exclamou Maurevel -.A propósito . desenhava-se-lh no rosto uma expressão de crueldade quase feroz -.que Vossa Majestade é o pai do seu povo.O senhor chamava-lhe pai. . que tamanha guerra tem feito aos huguenotes? Maurevel caiu de joelhos. . durante este exame assobiava com uma certeza e até com uma melodia notável um dos seus cantos de caça favoritos.Era um digno oficial . Maurevel curvou-se.Quis vê-lo.contraria-o ao senhor. e o sustentou. Passados alguns segundos.E que tanto são meus filhos os huguenotes como os católicos? Maurevel ficou mudo. .Sou eu mesmo.continuou Carlos IX. durante os quais o rosto do recém-chegado se decompôs cada vez mais. a tremura porém que lhe agitava o corpo tornou.que boa vontade tinha de matar em Moncontour o Senhor Almirante que saiu daqui. se ia tornando quase chamejante . .Comandante de petardeiros? .continuou o rei . disse-lhe o rei: . creio que passou segunda vez para os príncipes. e que tomou serviço aí na companhia do Sr. 25 .continuou Carlos IX. de Guisa no caso de matar o almirante?.Phale. nosso irmão. .balbuciou -. enfim. era um digno oficial. o vestiu.Sim senhor. . e ligava-o terna amizade ao jovem de Mouy. à proporção que falava. .continuou o rei -. e que então passou para o exército do duque de Anjou. curvava-se cada vez mais. esmagado pela palavra de Carlos IX de pé. sem compaixão -. e. Maurevel soltou um suspiro de desespero. seu filho.Creio .É o senhor que se chama Francisco de Louviers-Maurevel? .continuou o rei.Sei . de Mouy de Saint.balbuciou Maurevel . creio eu . de vidroso que era a princípio. que o acolheu como filho. não eram dez mil escudos que havia de receber do Sr.Um bravo fidalgo picardo. creio que lhe falhou o golpe. pode crer. impassível e semelhante a uma estátua de que só os lábios tivessem vida.Sire. . . . .Sabe . acentuando cada palavra . Maurevel. não me martirize! . sempre de joelhos. Sire .se visível para o olhar penetrante do rei.Oh! Sire!.Sire . .que eu amo do mesmo modo todos os meus súbditos? .

Olhe lá. . passado um instante -. em boa política como em boa religião.Ainda ontem mo pediu o jovem de Mouy. Foi assim. porque de Mouy. o senhor acompanhava-o um dia a un reconhecimento que ele ia fazer a Chevreux. confesso que me havia de ver muito embaraçado.Mas.Tem razão. consternado. fitando os olhos em Carlos para se assegurar de que não estava zombando. era conquistar as 26 . não foi? E como Maurevel permanecia mudo a esta acusação.Sire . agora que fiz as pazes com os huguenotes. .exclamou Maurevel. Carlos IX tornou a assobiar com a mesma certeza e a mesma melodia o mesmo canto de caça. eles são tanto meus filhos como os católicos. Durante estas palavras. embora seja va lente capitão. como eu Lhe respondi. portanto. não há meio de resgatar o meu crime? . Maurevel levantou-se sobre um joelho e uma das mãos. meteu-lhe uma bala nos rins. se eu estivesse no seu lugar (que não estou. seu bom pai. . . faça dela o que quiser. seu assassino . na situação extrema em que está.continuou o rei. . . O senhor. vendo-o morto (porque o matou com o tiro) fugiu no cavalo que ele lhe tinha dado. devia fazer o que me pedisse o meu primo de Guisa. . e eu não daria por ela um real. de Mouy.Creio que havia de escapar .disse Maurevel. enquanto de Moú se curvou. saiba que tenho desejos de o mandar enforcar! . e na verdade eu não sabia o que lhe havia de responder.No que respeita ao Sr.E tanto mais justo que. que ia só com ele. com o olhar suspenso dos lá bios de Carlos. . e se ele me pedisse a vida de um homem de que o outro me pediss a morte.murmurou Maurevel. a minha vida está nas mãos de Vossa Majestade. sem dúvida . De Mouy deixou cair o chicote e apeou-se para o apanhar. Maurevel pôs as mãos.Estimo muito o jovem de Mouy. depois. como o senhor há pouco dizia. sou o pai do meu povo e. Maurevel ia-se erguendo vagarosamente e como um homem que voltava à vida.disse ele.Ora o que lhe convinha.Se estivesse no meu lugar. graças a Deus! ). . batia com a fronte no chão. Entretanto. .Não sei que haja. . tirou então uma pistola dos coldres e. Sire. cujos pormenores eram verdadeiros. mas estimo tambén muito meu primo de Guisa. . Sire .continuou o rei -. Mas. porque o pedido era justíssimo.Oh! Majestade!.O assassino. está muito abaixo em comparação com um príncipe da Lorena. completamente desanimado -.perguntou o assassino -. .

Amanhã. .Eu sei lá! . lembrome de uma coisa que ele ontem me contou. . deixaram-lhe cair estas palavras: . ou se ao menos por um instante tomasse o lugar dele.boas-graças de meu primo de Guisa. que todas as manhãs. esse não. Sire . o Sr. às dez horas. .Mas passa muita gente defronte dessa janela! Digne-se Vossa Majestade indicar-me qualquer sinal.disse Maurevel .replicou Carlos IX -. esmagando o miserável com o seu olhar de desprezo.disse-me ele -. desbotados ainda pelo terror. . Sire . reservo-o para mim.Mas.Se fosse o Diabo. . mestre Maurevel? continuou Carlos.disse o rei -.Oh! é muito fácil. quer experimentar um? . passa na Rua de S. . Vejo pois passar todos os dias o meu inimigo. por exemplo. voltando do Louvre.Disse-lhe que todas as manhãs.disse -. Maurevel deu um passo para o rei.exclamou Maurevel. com os quais acerto num escudo de ouro a cinquenta passos. se bem me lembro. Responde-se porventura a perguntas dessas? Devem adivinhar os que não querem ser enforcados. . .Abriu-a contudo.Mas .Não pergunte . Mas outro à sua escolha. onde espero servir-me dele.Mas porque o hei-de reconhecer? . Germano L'Auxerrois.Tenho dez arcabuzes neste quarto . isso não daria gosto a meu primo de Guisa? Maurevel recuperou o seu infernal sorriso e os lábios. avançando para o que estava a um canto. o meu inimigo mortal. Maurevel desprendeu de um troféu um arcabuz. e que nesse mesmo dia tinham levado a Carlos IX. Sire? . E. . quase sossegado -.perguntou o assassino.disse Carlos IX . de Guisa.Esse não . atiro ainda melhor ao arcabuz do que à pistola. . Já não tem essa pistola?. . é a janela da casa do meu antigo preceptor Pedro Piles. passava defronte da janela do cónego.respondeu Carlos IX. . com muito gosto! .pistola ou arcabuz pouco importa.precisaria de uma arma em que pudesse confiar. . ao bravo de Mouy. Sire.Oh! Sire.Oh! . às dez horas. Dirme-á que foi com uma pistola.Há-de perdoar. porque talvez fosse necessário atirar de longe.replicou o bandido. e tenho a certeza de que meu primo de Guisa não questionará acerca da escolha do meio. eu não tenho o poder de abrir a terra.E quem é esse inimigo. . Que lhe parece. Hei-de ir um dia destes a uma caçada. O rei encolheu os ombros.Eu perguntarei ao Sr. levará debaixo do .Imagine. de Guisa não lhe responderá. e todos os dias peço ao Diabo que o leve para as entranhas da terra. vejo-o de uma janela de grades do rés-do-chão. . a propósito.

.Oh! com mil demónios! Peça antes ao Diabo. Agradou-lhe decerto o nome. e. 28 IV A TARDE DE 24 DE AGOSTO DE 1572 No capítulo precedente. Sempre ouvi dizer que a Rua da Árvore Seca era no Bairro do Louvre: e embora o estabelecimento não corresponda à tabuleta.Adeus. . por minha alma. e a que.Ainda tem o cavalo que lhe deu o Sr.uma estalagem que se anuncia bem. de Maurevel: saiba que. de qualquer modo.Sire. fico aqui maravilhosamente. Este gentilhomem. conservaremos o nome moderno. e um homem de capote encarnado estendia para esse astro de nova espécie os braços. à boca da noite de 24 de Agosto de 1572. um pândego divertido. . parou no extremo da Rua de Bresec. parou segunda vez para ler estas palavras: A Estrela Brilhante escritas como legenda por baixo de uma pintura que representava o simulacro mais lisonjeiro para um viajante esfomeado: era uma ave rutilante no meio de um céu negro. a bolsa e os desejos. . a sua ária favorita. Sire. como o almirante o anunciara. esperado com alguma impaciência por Henrique de Navarra.Adeus.braço uma pasta de marroquim encarnado. Sire.Basta. porque entrou ali. E Carlos IX tornou a assobiar tranquilamente. a Ponte de Nossa Senhora e seguido ao longo dos cais. . com acompanhamento de campainhas. porque não é senão pela sua protecção que pode escapar à corda. Eis . deitando o seu olhar bastante desdenhoso para as numerosas hospedarias que ostentavam à direita e à esquerda as suas pitorescas tabuletas. que entrara pelo outro extremo da rua. e mais afinada do que nunca. o Petit-Pont. que é dos mais velozes. e que corre tanto? . e como à esquerda lhe chamava a atenção uma placa de folha rangendo no varão que a sustinha. Sr. falámos de um gentil-homem chamado La Mole.Oh! não me dá cuidado o senhor! Mas é bom que saiba que o convento tem uma porta para trás. . ou se não se ouvir falar depois. depois de ter atravessado a Praça Maubert. deixou entrar o cavalo ofegante no centro da cidade. como o leitor decerto se recorda. . Ah! a propósito. Sire.disse consigo o fidalgo . tenho um da Berberia.Muito obrigado. se ouvir falar no senhor amanhã antes das dez horas da manhã. 27 . de Mouy. há um calabouço com alçapão no Louvre. Enquanto o recém-chegado se dava a este monólogo. outro cavaleiro. entrava em Paris pela Porta de São Marcelo. de que se fez depois a Rua da Árvore Seca. para maior facilidade dos leitores. Agora peça a Deus por mim. onde. isto é. e o estalajadeiro deve ser.

. E daí. cor acobreada. . com a pele branca. quando. pelo menos de nome. Entretanto.Sabe dizer-me. dentes brilhantes. cabelos mais ruivos do que louros. olhos azuis. com efeito. à mais pequena contrariedade. montava um cavalo branco de raça espanhola. creio que o senhor teve o mesmo gosto que eu: é muito lisonjeiro para mim. as calças esticadas e as botas de feitio antigo. com um sorriso meigo e melancólico. um gentil cavaleiro na acepção vulgar da palavra. a estatura alta e os ombros 29 largos.respondeu o outro com uma pronúncia provençal que não ficava atrás da inflexão piemontesa do seu interlocutor -. abria uma boca de forma singular e da maior distinção.pela Rua de Santo Honorato. como dissemos. E se passarmos do vestuário ao semblante.disse ele com a horrível pronúncia de montanhês que à primeira palavra faria reconhecer um piemontês no meio de cem estrangeiros -. creio. pode ser que eu me deixasse tentar pela sua presença. Sob o chapéu de abas reviradas apareciam. espada de punho de ferro cinzelado. beiços finos. ao examinarem essa fisionomia que num minuto tomava dez expressões diferentes. as mulheres tinham olhado muito para ele. uns olhos pardos com fogo tão resplandecente que se diriam pretos. Senhor . Quanto ao segundo viajante. Mas há-de confessar que aquela pintura é linda.Senhor . e um punhal dessa mesma qua lidade. parava e ficava em êxtase diante da tabuleta da Estrela Brilhante. salva todavia a expressão benévola que caracteriza sempre o semblante de um provinciano embaraçado. formava com o primeiro um completo contraste. ainda pergunto a mim mesmo se terei a honra de ser da sua opinião. os homens. bigode ruivo e dentes admiráveis. Dos dois. e. . Foi ele quem se dirigiu primeiro ao outro cavaleiro que. que parecia que lhe iluminavam a cara. que teriam bastante vontade de rir ao ver-lhe o capote sem roda. e durante uma hora. O capote era de veludo violeta escuro. Era. em que andara com o nariz levantado para todas as janelas. a pretexto de procurar tabuletas. o que conhecemos. diremos que era um homem dos seus vinte e quatro a vinte e cinco anos. e vestia um gibão preto enfeitado de vidrilhos. . que esta hospedaria fica perto do Louvre. Estou-me consultando. bastos e ondeados. começando por um Guarde-o Deus! dos mais graciosos. O resto da cara compunha-se de uma tez rosada. usava botas de couro preto. bigode fino. debaixo dos cabelos.Então não está ainda resolvido? Mas a casa tem boa aparência. para sorrir. brilhavam-lhe. se estamos aqui perto do Louvre? Em todo o caso. olhava para a estalagem Estrela Brilhante. acabavam esse riso. em suma.

Ó seu patife! . entregaram as rédeas a um moço de cocheira. La Mole ficara para trás. deram o braço um ao outro e.tornou o piemontês . Entremos. contra o costume desta gente. tenho muita . Este pareceu acordar então sobressaltado. . segurando as espadas. dêmos o braço e entremos juntos.Meus Senhores . puxou pela manga do estalajadeiro. Senhor Conde? .porque se o dono da hospedaria me fornece uma ave menos bem assada do que a da tabuleta. em vez de dizer simplesmente Senhor diga. Mas era fácil de ver. ponho-a eu mesmo no espeto e não a largo sem estar convenientemente acerejada. atraídos pela bela pintura da sua tabuleta. O resultado desta proposta conciliadora foi que os dois jovens. . e saiba-me as horas. Queira entrar primeiro.disse o estalajadeiro -. o digno proprietário pareceu que não lhes dava a mais pequena atenção. .disse o provençal rindo. embrulhado num capote cor de castanha como um mocho nas penas. um seu criado. não é?..Oh! coa fortuna! devia ver-nos.Nesse caso. Mas. impacientado pela pouca importância que lhe davam a ele e ao seu companheiro. dirigiram-se para a porta da hospedaria.É verdade. . pelas sobrancelhas carregadas. já é melhor. voltando-se para La Mole que fez um sinal afirmativo com a cabeça. e despediu o seu interlocutor com um Até mais ver. 30 . desejamos cear e dormir em sua casa.não vê que temos que falar com você! . .disse Cocunás.O Senhor Conde e eu. .Bem. . . que Cocunás. que se apearam dos cavalos. não os via. Senhor Conde. Senhor! por minha alma isso não faço eu. Disseram-me que Paris está cheia de trapaceiros. .disse Cocunás .E eu não sou senão o conde José Jacinto Bonifácio de Lerac de La Mole. porque não sou senão um humilde criado: o conde Aníbal de Cocunás. . . Venha logo. por estar entretido a falar com um sujeito magro e amarelo.perguntou o estalajadeiro com a maior serenidade. que parecia que tomara este negócio a si. e trapaceia-se com uma tabuleta tão bem como com outra coisa. Os dois fidalgos tinham-se chegado tanto ao pé do dono da casa e do sujeito do capote cor de castanha com quem conversava. que estava pronto para o auxiliar quando fosse preciso.Ah! os senhores queiram ter a bondade de desculpar disse o estalajadeiro -. entremos.Pouco cuidado me dão a mim as trapaças . deixando falar Cocunás. e agora. mas é exactamente isso o que me faz duvidar da realidade. se faz favor. a cujo limiar estava o dono da casa.Oh.O senhor acaba de me decidir .Então que deseja. que nos viu.

de La Mole! .Mas está zombando connosco . Ora.Porquê? .Para os senhores não fazerem maus juízos. para saltar às chicotadas no estalajadeiro. . e assim ficar-meiam vagos dois quartos. que nada tinha de animadora da parte dos dois fidalgos. Sr.Ora essa! . . e agora não basta um! Então não queres dar-nos quartel. .Gregório..Pois responde.Não. . de modo que serão os senhores os espancados. o meu cavalo está estafado.iremos ficar a outra parte. o animal. . meus Senhores..Eu fico. faria melhor se dissesse com polidez: Entrem. tanto. mas há só um quarto. .Com todos os demónios! . não lhe parece que devemos desancar este patife.Se é só um.perguntou Cocunás. .disse Cocunás voltando-se -. disse motejando: . quarto de criados tanto. preparando-se. Em Paris passou a moda de desancar os estalajadeiros que recusam alugar quartos.Sr.exclamou Cocunás exasperado -. como o seu companheiro. arrisco-me muito a não alugar os outros.disse Cocunás. ainda há pouco éramos muitos. porque enquanto nós aquecermos.Melhor! . . . conservando sempre a mesma fleuma impertinente.disse o estalajadeiro. podendo pôr depois na conta: quarto de amo. coa breca! . e se gritam muito vou chamar os meus vizinhos.respondeu o estalajadeiro.Porque os senhores não trazem criados.disse La Mole . não posso alojá-lo. . uma vez que. se lhes dou os quartos que lhes são próprios. Os fidalgos é que são desancados e não os burgueses. não tenho remédio senão responder-lhes com franqueza. dirigindo-se ao criado com os modos com que lhe diria: Traz cadeiras para estes senhores. não . se nós não temos criados. dá cá o meu arcabuz! . aqueça. Tomo pois o quarto. .Eu prefiro não ter a honra de os alojar. de La Mole . . . para se meter em casa. contentandose com recuar um passo.Pois quê! acha.pena. mas trata mal os viajantes. Em vez de nos dizer brutalmente: Meus Senhores. que pareciam tão resolutos. desembainhando a espada . traste! .disse La Mole. o estalajadeiro não se assustou e.exclamou Cocunás .Nessa não caio eu. -Acho que o dono da casa A Estrela Brilhante tem razão.mas. . apesar desta dupla demonstração. esfriará a ceia. Mas. não os quero cá. .Ah! isso é outra coisa . principalmente se são fidalgos. e receio que não lhes convenha.Vê-se que os senhores chegam da província.tem sua graça.bradou Cocunás. . tratamento muito indigno de dois fidalgos.Não acho mau . mas avia-te. uma vez que o Senhor Conde não o quer.exclamou Cocunás. tencionamos tomá-los. . cheio de ira.

preciso sair. não vai? .Dizendo estas palavras. diga-me. As ordens que recebi foram terminantes. Senhor Conde .Diga-me.disse o estalajadeiro.Ora. . paciência! Todas as estalagens estão cheias de fidalgos atraídos a Paris pelas festas do casamento ou pela próxima guerra da Flandres.Parece-me que este tratante está à escuta do que nós . e que seja depressa . E com um sorriso que faria tremer os seus hóspedes se eles o vissem.Enquanto nos arranjam o quarto.Pois. Cocunás também quer lá ir. Chegar o mais depressa possível a Paris e. La Mole empurrou suavemente o estalajadeiro. voltando-se para La Mole. Talvez os Parisienses tenham medo da trovoada. . disse: . em voz baixa.Tarde ou não.Não importa .respondeu Cocunás.Qual! . . e meneando a cabeça. se o criado não vergar como junco. . aqui não falta nada. meu fidalgo .disse La Mole . afiando numa pedra a faca que trazia à cinta . custa-me meter a espada na bainha antes de me assegurar de que morde como as lardeadeiras deste patife. e que. Ao nome do duque de Guisa. . iremos daqui juntos. conde.pode estar descansado. o estalajadeiro aproximou-se muito atento. meu querido companheiro .Como lhe aprouver. se quiser. fez passar Cocunás e entrou atrás dele. .disse La Mole -. ir ter com o duque de Guisa. certamente. os trastes estão tão insolentes depois do casamento do seu Bearnês com a princesa Margot!.Pois apraz-nos. Depois. . e a cama dura. interrompendo os apartes do estalajadeiro.respondeu ele.disse La Mole -. ora.disse Cocunás -. mal chegasse. se a comida for má. . Veja como o céu está carrancudo e como o ar está pesado.Paciência. parece que não vi aqui ainda senão caras assustadas ou desabridas. e talvez seja costume em Paris receber assim os estranhos que chegam. . se o vinho não tiver três anos de engarrafado.murmurou Cocunás.Vou.perguntou asperamente Cocunás. o senhor vai ao Louvre. 31 não acharíamos outro alojamento. Senhor Conde: achou porventura Paris uma cidade alegre? . . mas creio que o Sr. que já deitava a mão ao arcabuz.Mas que o maroto tome cuidado consigo.Então vem ou não vem a ceia! .Palavra que não . murmurou: É algum huguenote. acrescentou: Oh! oh! tinha sua graça que viessem cá ter huguenotes. sim. . . .pois não é tarde para sairmos?. abrandado decerto pelo último pensamento que lhe ocorrera. Depois.Coa breca! como o senhor é paciente! . torcendo de raiva o bigode ruivo e fulminando o estalajadeiro com os seus olhares.

mas é menos comprido . Então não se diverte a gente muito em Paris? .disse La Mole. estou a escutá-los . contentou-se com tocar ao de leve no barrete. . mas conheço-os eu . contendo-se: .Para a festa .Ah! desculpem . mas é de esperar que haja muitos divertimentos. mestre.Esses não conheço . curvando-se.La Hurière . . Ouço falar do grande duque de Guisa. .Demaisacrescentou -. de La Mole. sem responder ao Sr. com um singular sorriso.Sim senhor. como te chamas tu? .Não.perguntou La Mole. e como quem cá me traz é Henrique de Navarra. .respondeu o estalajadeiro.dizemos . banquetes. Sem falar em Henrique de Condé.respondeu o estalajadeiro.perguntou Cocunás. crês que o meu braço seja menos pesado do que o do Sr. mestre. os senhores são talvez da religião.Parece-me que não há senão um . disse: . Senhor Conde respondeu o estalajadeiro -. segundo tenho ouvido. 32 . pelo menos até agora. E depois.disse o estalajadeiro. porque. mas há outro. cavalhadas. para as festas.Qual história! Sou católico como o nosso Santo padre o Papa.replicou La Hurière. de quem te convido a não dizer mal: é Henrique de Navarra. O estalajadeiro. é preciso dizer-lhe que esse grande Henrique é o ídolo dos Parisienses.respondeu o estalajadeiro. . tornaste-te obsequiador. sim senhor . Senhor Conde.Para quê? . e vem decerto para. . e continuando a dirigir olhos meigos para Cocunás. que tem o privilégio de te tornar tão polido? .Então o senhor vai falar ao grande duque de Guisa? O senhor é um fidalgo muito feliz.respondeu arrebatadamente La Hurière. La Hurière voltou-se para La Mole como para o interrogar.Qual Henrique? .Eu.Hás-de perdoar. . mestre La Hurière.As bodas de Sua Majestade o Rei de Navarra atraem muita gente a esta cidade .Pois. meus fidalgos? . Diz lá. levando a mão ao barrete -.Deverias dizer. . de insolente que eras.exclamou Cocunás. mas é para os servir. .disse La Mole -.Ora! moderadamente. amiguinho. .Muitos huguenotes.Pois sim.disse -. da religião? . . Em que posso servi-los.Ah! ah! o nome é mágico ao que parece. . porque Paris trasborda de festas. .disse Cocunás. convido-te a não dizer mal dele na minha presença. pelo menos não se fala senão em bailes. e corro. que na sua qualidade de piemontês era muito iracundo e não podia perdoar ao dono da Estrela Brilhante o modo pouco civil por que recebia os viajantes.disse ele. . que também tem merecimento. de Guisa. .

ou não julgou a propósito responder. talvez.Mas isso é verdade? .É provável.perguntou mestre La Hurière.Então venha.disse Cocunás.talvez eu ceie com o rei de Navarra.Não nos zanguemos por causa duma palavra. mas espera-se que as balas estivessem envenenadas. . voltando as costas a La Mole. miserável! . desejava saber onde ele mora.disse -. . 33 .disse Cocunás. .Se não conhece Sua Majestade o Rei de Navarra.exclamou La Mole.É como tenho a honra de lhes dizer. porque o vi passar há um instante com duzentos gentis-homens. . meus Senhores respondeu o estalajadeiro. vou ao Louvre sem perda de um momento. . . . . . como lhe venho recomendado.exclamaram a um tempo os dois fidalgos. ao passar pela Praça de S. . de Cocunás . .disse Cocunás.É possível.respondeu o estalajadeiro com uma satisfação íntima que não pôde ocultar.E morreu? . .disse La Mole -.disse La Mole. com estupefacção dolorosa.Morava? . deste mundo.Que anteontem. .Ah! . porque mora lá.prosseguiu o estalajadeiro. Germano L'Auxerrois.disse Cocunás.murmurou La Mole.mas ou La Mole não lhe compreendeu o olhar.Morava na Rua de Béthisy aqui à direita . Sr.Espera-se? .Pois quê! o Sr. talvez conheça o Senhor Almirante.Nada. equivoquei-me. radiante.E eu vou também ao Louvre . mestre La Hurière .disse La Mole . E eu . deitou a língua de fora a Cocunás do modo mais chocarreiro. defronte da casa do cónego Pedro Piles. . E mestre La Hurière. depois de ter seguido com os .Quero dizer.Mas a vossa ceia.perguntou La Mole .lhe senão com uma pergunta. de Cocunás .Nesse caso . julga-se . Ouvi dizer que o Senhor Almirante estava nas boas-graças da corte e. .exclamou La Mole.Como. .É verdade? .disse o estalajadeiro. . com o duque de Guisa . acompanhando este gesto com um piscar de olhos de quem se entendia. Encontrarei o rei Henrique? .O almirante mudou-se deste mundo? .replicou o estalajadeiro.Sim. .Acompanho-o. o tiro partiu-lhe o braço e cortou-lhe dois dedos.é do partido do duque de Guisa e ignora isso? . .Encontrarei lá o duque de Guisa? .então mudou? . Senhor Conde .E eu. com um sorriso maligno . meus fidalgos? . o almirante recebeu um tiro de arcabuz? .Isso? o quê? .Que dizes! .

Sem dúvida hei-de ser bem recebido. . E DA VIRTUDE EM GERAL Os dois fidalgos.Ah. Não sou excessivamente tímido. para as janelas estreitas e coruchéus agudos que de repente se lhe apresentaram aos olhos. parando à vista do velho palácio. porque obedeci com rigorosa pontualidade.Palavra que não sei . um homem que conversava com o oficial do posto.continuou ele. O Louvre estava bem guardado. que tomaram o caminho do Louvre vou limpar a celada. que.Bem! bem! isso é outra coisa. mas. por mercê dele. de Guisa? . as ordens que recebi recomendam-me presteza. Nesse momento. mas a aparência é de fidalgo. O nome pareceu que produzia o efeito desejado. interrompeu a conversação e perguntou-lhe: . e que ouvira a Cocunás reclamar a sua admissão no Louvre.Então faça-se ao largo.respondeu Cocunás. . sorrindo.Mas eu recebi uma carta de aviso para me apresentar em Paris. carregar o meu arcabuz e afar a minha partasana. . chega de muito longe? . olhava com certo espanto para as pontes levadiças. tomaram pela Rua de Averon. chama-se. . recebeu uma carta de aviso? .olhos os dois fidalgos. agitados cada um pelo sentimento que haviam experimentado.Que tem? .Conde Aníbal de Cocunás. e acharam-se em breve defronte do Louvre.não sei o que isto é. não sei porquê.disse o soldado. . Rua de S. ensinados pela primeira pessoa que encontraram. .Quero falar-lhe . que havia notado que o nome do duque de Guisa era uma espécie de talismã para os Parisienses. Germano L'Auxerrois. Não se sabe o que sucederá. todos os postos pareciam dobrados. O Sr. percorrendo com os olhos o seu fato de viagem -. cujas torres começavam a confundir-se com as primeiras sombras da noite. este palácio parece-me sombrio. aproximou-se de uma sentinela e. Depois. 34 V DO LOUVRE. mas sinto-me com uma alegria desusada. . E os dois mancebos continuaram o seu caminho.Sim senhor. O meu trajo está um tanto enxovalhado .perguntou Cocunás a La Mole. Mas Cocunás.disse Cocunás . . .Ah. . servindo-se desse nome omnipotente.Chego do Piemonte. perguntou se. poderia entrar no Louvre. meu fidalgo! .É impossível! está agora com o rei. o soldado perguntou se tinha a senha e Cocunás foi obrigado a confessar que não. Os nossos viajantes viram-se a princípio muito embaraçados. e direi mais: terrível. bate-me o coração. entretanto.disse La Mole -.Que quer ao Sr. chego de muito longe.Pois eu . EM PARTICULAR. .

Não admira que não conheça. bem . acabo de chegar de muito longe.Com uma carta.Sou Pesme. . meu fidalgo .Da provença. que eu me responsabilizo.Como o senhor é tão obsequiador . pela porta do Louvre paralela à que dera passagem a Besme e a Cocunás. vão radiantes.Mas dê-me a carta . não tem de que pedir desculpa. estendendo a mão para Cocunás.Para o Sr. entrou no Louvre. quando se quer ser leal.Ah! é o Sr. Desculpe-me a hesitação. de Guisa? .Eu não sou da casa do rei de Navarra . como o conde de Cocunás. que era um fidalgo alemão. .disse de Besme -. que hesitava.me da sua carta. Pode dar-lhe a carta. . . aproximando-se também -. o filho. pertenço à casa do Senhor Duque de Guisa.disse La Mole falando com os seus bo tões .disse La Mole. . Sr. La Mole ficou só.Sim senhor. Aníbal. como acaba de o fazer com respeito à do meu companheiro? .Bom! bom! Dê cá a carta.35 .Conde Lerac de La Mole. voltando as costas a La Mole. para Sua Majestade o Rei de Navarra. .exclamou Cocunás -. Naquele momento. .Não conheço. de Besme . desconfiado . de Besme. e como foi também ele que matou o pai de Mouy. . . Não tenho a honra de conhecer o senhor. .Com uma carta? .Não senhor. .respondeu de Besme com uma frieza súbita . quereria ter a bondade de se encarregar da minha carta.é de Mouy e os seus huguenotes. fazendo aceno a Cocunás para que o seguisse.não poderei eu achar outro assim para me apresentar ao rei de Navarra? .não conheço esse nome.e portanto não posso encarregar. . Mas deve-se hesitar.E donde chega? . . Talvez o rei lhes prometesse a morte do assassino do almirante. de uma .Conde Lerac de La Mole? . com muito gosto. . porque sou de fora e. dê cá.Como se chama? . não acha? .murmurou Cocunás . Ora aqui está o que é um homem obsequiador .disse a sentinela para o seu camarada .disse a sentinela.continuou o interlocutor de Cocunás. saiu um grupo de uns cem cavaleiros. .Pesme. tenho ouvido falar muito no seu nome! Aqui tem a carta.replicou o piemontês. .não sei se deva.É o Sr. E Besme.Ah! .A pronúncia enganou-o.Bem.Ora essa! .

eu o conduzo aos seus aposentos. mas sem obter melhor resultado do que da primeira vez.Disse.E os que o acompanhavam eram. fez-se reconhecer pela sentinela e. de Mouy? .disse de Mouy.Que é? Mas primeiro. E falavam-me de uma etiqueta muito severa. meu fidalgo. De Mouy apeou-se do cavalo. não disse que aquele oficial era o Sr. caminhou para a porta. . . Auriac. animame a pedir. Bateu.O seu nome. com tochas. ficando só.Venha. Disse.Mil vezes obrigado! . e provavelmente não pode recebê-lo. Os dois mancebos cumprimentaram-se. e apareceram dois pajens. atirou com a rédea às mãos do criado. porte majestoso. e uma das portas interiores estava aberta. alumiando uma mulher de figura imponente. Senhor Conde . .Nada mais fácil do que entrar no Louvre.cajadada. Esta carta é para o rei de Navarra. de Mouy. Reinava o mais profundo silêncio nesta parte do Louvre.Obrigado . e mais que tudo de uma beleza admirável. Como poderei entregar-lha? Como poderei entrar no Louvre? . . retirou-se.interrogou La Mole. e sou portador de uma carta do Sr. o pior é que o rei de Navarra está agora muito ocupado.Era o que eu queria saber. E dirigindo-se imediatamente ao chefe dos cavaleiros. Deu alguns passos. e ninguém lhe respondeu. Mas não importa.respondeu o oficial com polidez. sem parecer fazer caso do termo de desprezo empregado pela sentinela. governador da Provença.agradeceu La Mole.Acabo de saber que é o Sr. e traz notícias importantes e urgentes. . . e informe-se. Não estava ninguém na antecâmara.Ao conde Lerac de La Mole. chamou. E cumprimentando La Mole. O resto é lá com o senhor.Sim senhor . abriu-se a porta oposta àquela por onde entrara. abrindo a porta do quarto do rei. Senhor Conde replicou de Mouy -. . . De repente. dirigindo-se ao soldado -. disse a La Mole: . disse: .Eram parpalhotes. E meteu-se por um corredor escuro. se quer seguir-me. .disse de Mouy. a quem tenho a honra de falar? . . e achou-se no corredor.lhe um favor. muito conhecido entre os da religião.Queira dizer. dará cabo de dois coelhos.Há-de desculpar . . . La Mole.Queira entrar. Entra a gente e sai deste palácio como se fosse uma praça pública! E tornou a chamar. olhou em redor de si. Deixa-me lá andar para diante: hei-de chegar a encontrar alguém. Senhor Conde .Acabo de chegar de Aix.

se a esperam com tanta pressa.disse Margarida. admiro. minha Senhora. Sei que o senhor é esperado. Mas não importa. . Estive agora com o Sr. . creio que está no quarto do cunhado. minha Senhora. . O que lhe peço é que se não demore. E meteu no corpete todo bordado e cheio de diamantes a carta que saíra do gibão do mancebo.disse ela. eu procurava o rei de Navarra. Oh! meu Deus! teria a ventura de ser conhecido de Vossa Majestade o meu nome? .perguntou ela ao mancebo com uma voz que lhe soou aos ouvidos como uma música deliciosa. que ficou imóvel. . 37 . porque me esperam no quarto da rainha-mãe. peço-lhe que me desculpe. o senhor já me não dá cuidados.Oh! minha Senhora.Mas .Eu sou a rainha de Navarra .Pois quê! . Já não penso.disse Margarida -. Senhor . . se alguém se dignasse apresentar-me.pensou que eu era uma das minhas damas. minha Senhora . . como La Mole tinha parado. .Sim. acabava de proceder como requintado cortesão.Sim.replicou La Mole -. onde está ela? Entregar-lha-ei. . e a meu irmão o duque de Alençon. sem o saber. baixando os olhos -. de Mouy. mas a sombra da bela Diana de Poitiers. Num abrir e fechar de olhos.Ouvi-o pronunciar ao rei meu marido. Estou incapaz de juntar duas ideias.A luz deu em cheio em La Mole. . .Está na presença dela. e que ainda estava . Não me disse que trazia uma carta para o rei? Não era necessário.Sua Majestade não está aqui. . La Mole fez um movimento tão arrebatado de admiração e susto que a rainha sorriu. minha Senhora.Diga depressa. abriu La Mole as agulhetas do gibão e tirou do peito uma carta encerrada num invólucro de seda. Mas.Vamos .Esperarei. e esperar-me-ão. de La Mole? . . a sua vista deslum brou-me.Não é o Sr. não poderia dizer à rainha? . .perguntou ela.Torne a si . há-de fazer fortuna na corte. Disseram-me que aparecia no Louvre.exclamou La Mole. decerto.disse ela -. porque me seria impossível falarlhe neste momento. A mulher parou. que me fez o obséquio de me conduzir até aqui.continuou Margarida .Não. .disse la Mole. na sua ausência. .Que quer o senhor? . Margarida avançou cheia de graça e de beleza para o mancebo que. mas.Oh! perdoe-me. Margarida pegou na carta e olhou para a letra. se não cumprimentei logo Vossa Majestade com todo o respeito que tem direito a esperar de um dos seus mais humildes servos.Oh! minha Senhora . permita-me que me afaste.

e que também parecia esperar. ou por acaso. disse: . quando se viu próximo do outro fidalgo . E encontrou o Sr. praguejo em casa do rei! Mas. ou o diabo me leve!. de Mouy. ora! parece que o rei pragueja ainda mais do que eu. entrou e. . Introduziu-o o Sr.não é uma mortal.É aqui que deve esperar. A estas palavras. Então estamos no Louvre?. Margarida continuou o seu caminho. seguindo o pajem . e até nas igrejas.murmurou ele. de La Mole. Oh! . de Besme? . embriagado. Et vera incessu patuit dea. La Mole aproximou-se. desceu um andar. abriu uma porta. La Mole perfilou-se de encontro à parede. . quem lhe serviu de guia? . e.é o Sr. 39 Já a tarde começava a fazer cair largas sombras do alto das abóbadas e. que passeava. ficando um aroma activo por onde ela passava. que a saia de seda roçou pelo fato do mancebo. de Besme. um alemão encantador o Sr. O pajem seguiu adiante de La Mole. e olhava-o com espanto igual àquele com que era olhado. como o pajem lhe indicava o caminho por onde Margarida acabava de seguir. não podiam distinguir os rostos um do outro. cuja porta se tornou a fechar. La Mole estremeceu todo e. Safa! o que estou fazendo!.la.Agora . obteve audiência do rei de . vendo que ia cair. encostou-se à parede. Na galeria só estava um cavalheiro. . sim . O piemontês já se havia voltado ao ruído dos seus passos. Deus me perdoe! .Com a breca! . e o donaire da rainha de Navarra era tamanho.Oh! sim. é uma deusa! E. Conduzi-lo-á um dos meus pajens.quente do calor do peito dele. La Mole seguia avidamente com os olhos todos os movimentos de Margarida.é o Senhor Conde de Cocunás que encontro aqui. E o senhor.Sim senhor. La Mole entrou na galeria. como diz Virgílio Marão.disse o pajem encarregado de conduzir La Mole à galeria de baixo.desça à galeria de baixo. ao chegar ao alto da escada.disse-lhe ela . porque. avistou-a no andar inferior. embora a distância que separava os dois homens não fosse além de uns vinte passos.Como vê.exclamou . Bem lhe dizia eu que os huguenotes também não eram malvistos na corte. . Margarida desapareceu como uma visão.Ainda não.disse ele. Margarida levantou a cabeça. Mas a passagem era estreita. ou porque ela lhe ouvisse o ruído dos passos.Queira seguir-me . parando no limiar. . tornar a encontrá.O Sr. Com efeito. e ele pode vê-la segunda vez.exclamou La Mole. E ao senhor. apressando-se. esperava. e espere até que lá vá alguém da parte do rei de Navarra ou do duque de Alençon. de Guisa? .

que tem o senhor? Parece preocupado.disse La Mole. quando estivesse na corte. mas o lugar onde estamos faz-me nascer no espírito um sem-número de reflexões.Está filosofando.Pois . de Cocunás. O Senhor Conde conhece Plutarco? . . soaram passos e viu-se na escuridão . e para provar a sua admiração por Plutarco.me ele.Prepon esti tênpsuchên odunê on degastéra semô askenn. . porque. Mas.poderia também falar gascão com o rei de Navarra. advirto-o. Na ocasião em que o senhor entrou.Sabe grego.Sei . o Sr. de Cocunás? .continuou Cocunás. estremecendo.Pois.respondeu La Mole -. . é muito apreciável. tem certa a sua fortuna. discursasse acerca da virtude.Não tenho.Mas pareceu-me que se lhe iam os olhos pela ave da tabuleta da Estrela Brilhante.E . . tem excelente ocasião para utilizar os seus argumentos acerca da virtude. .Não sei. mas não pode tardar.Navarra? . . . disse.disse açodadamente La Mole. e falará grego com a rainha Margarida. . . ao passo que considera a virtude como uma planta balsâmica de inextinguível aroma e de suprema eficácia para a cura das feridas. e recomendou-me muito que. não é assim? Outro tanto me acontece a mim. assaltaram-me o espírito todas as recomendações do meu preceptor. e que estaremos ao lado um do outro no festim. na verdade! Há duas horas que a sorte nos emparelha.acrescentou La Mole. mas o meu preceptor sabia-o.não tenho nada. fará versos com o rei Carlos IX.não me parece que esse homem se engane quando compara os dons da Natureza a flores brilhantes mas efémeras. A propósito: tem vontade de comer? . sorrindo . abriu-se a porta da galeria que ia ter ao quarto do rei.Ora essa! o senhor sabe grego? .Não. Eu não posso comigo de debilidade. . Sr. fitando o seu interlocutor. Conduziram-me para aqui e disseram-me que esperasse.exclamou Cocunás. com gravidade . o meu preceptor ensinou-mo.disse La Mole. 40 Neste momento. .Com a breca! nesse caso.Ora essa! . . porque esse grande escritor diz algures: Bom é costumar a alma à dor e o estômago à fome.é um dos autores meus predilectos. rindo .Verá que nos vão dar alguma ceia magnífica. Que singular acaso. Estou portanto couraçado no assunto. efectivamente. estava ainda como que deslumbrado pela visão que lhe aparecera . estupefacto. . Isso.Eu? .

venha ao Louvre.Onde mora? . ao entrar em casa de mestre La Hurière. Ouça. Sua Majestade manda-lhe dizer que não pode recebê-lo neste momento mas que talvez esta noite o mande buscar. E se eu esperasse pelo conde de La Mole? Para quê! provavelmente ceia com o rei de Navarra. Em todo o caso.E se a sentinela não me deixa entrar? .disse La Mole consigo quando se viu fora do paço. Com a senha. Essa sombra tornou-se um corpo. de Cocunás? . e. .Na hospedaria da Estrela Brilhante Rua da Árvore Seca.Esta noite. abriu uma porta e achou-se com ele no primeiro degrau da escada. A senha é Navarra.perguntou o pajem. e depois fez-lhe sinal para que o seguisse. a primeira cara que o nosso fidalgo viu foi a de Cocunás. de Besme. se amanhã não tiver recebido recado.Espere.aproximar uma sombra. .Bom! bom! é a dois passos daqui. . parou. Neste meio-tempo abriu-se uma porta da galeria que dava para os aposentos do rei de Navarra. meu fidalgo. olhando de redor. e depois para cima e para baixo. .Mas a que horas devo vir? . . com uma cruz branca no chapéu.disse Cocunás.Rua da Árvore Seca.Oh! provavelmente ficou ceando com o duque de Guisa. Tenho ordem para o acompanhar até à porta do paço. Cocunás cumprimentou La Mole com a mão. volte cá. E Cocunás dirigiu-se para a Rua da Árvore Seca. .Bem! esta noite. . Mas.Onde mora. afastou-se. . De Besme conduziu Cocunás à extremidade da galeria. E cale-se! Nem pio! .Bom! é à porta do Louvre. Queira recolher quanto antes à hospedaria. e dirigiu-se um pajem para La Mole.Sou.Ah! tem razão. O corpo era o do Sr. perguntando a si próprio: Que diabo quer isto dizer? e a propósito de que é que se tocará a rebate? Não importa! persisto na minha opinião: este Sr. Sr. Encarou com os dois mancebos para reconhecer Cocunás.Virei imediatamente . Olhou de novo em torno de si.O senhor é que é o conde de La Mole? . na Estrela Brilhante. e esta noite.perguntou Cocunás. e todas as portas se lhe abrirão. que estava . para onde o atraía como um íman a tabuleta da Estrela Brilhante. para que se não perca dentro do Louvre. . de Besme é um tedesco encantador.Quando ouvir tocar a rebate. E. . . . diga esta palavra. A propósito: e Cocunás? . perguntou: . cumprimentando de Besme.Muito obrigado. Chegando aí. .

rindo às gargalhadas parece-me que o senhor jantou tanto com o rei de Navarra como eu ceei com o Sr. que ela não tornara a ver depois da noite do casamento. .Oh! oh! . falar da virtude é para quando se está no Louvre e há receio de que se ouça o que dizemos. . E desataram ambos a rir. ceavam na hospedaria da Estrela Brilhante uma omeleta de carne. sentada a uma mesa. hem? .Não sei. A viúva de Henrique II trajava o luto que não largara depois da morte do marido.disse La Mole. não pode deixar de ser. Ora esta porta e aquela saída conduziam ambas a um corredor que ia ter aos aposentos da rainha-mãe. de Cocunás não pôde ver o Sr.Nem eu.Em todo o caso. por amor de Plutarco. em vez de cearem no Louvre faisões. graças ao cosmético fornecido pelo florentino Renato. ainda notavelmente bela.Senhor Conde .Nada disso.sentado à mesa diante de uma enorme omeleta de carne. de La Mole não foi recebido pelo rei de Navarra. A escada que Margarida descia tinha uma saída. . o duque Henrique de Guisa. . de Guisa. e porque ambos. com o cotovelo apoiado a um livro de Horas entreaberto.Creio que sim.E chegou-lhe a vontade de comer? 41 . e vamos a comer. honrando o mais possível a omeleta de mestre La Hurière.Pelo que vejo.Onde? . Pernoita aqui? . perdizes e cabrito-montês. Catarina de Médicis estava só. há-de ter a condescendência de entrar connosco no antigo palácio dos reis e de seguir a rainha Margarida de Navarra. de Guisa. . estava no gabinete do rei.Onde o senhor a passar. de repartir com quem não tem.A despeito de Plutarco. de Guisa havia uma porta. No gabinete onde estava o Sr. Plutarco diz noutro lugar que quem tem. . . porque o Sr. Era nessa época senhora de . 42 VI A DÍVIDA PAGA Agora. .exclamou Cocunás. Quer. decididamente a sorte torna-nos inseparáveis. bem sei eu onde hei-de passar a noite.mãe. repartir a sua omeleta comigo? Falaremos da virtude enquanto comermos.verdade. que reunia o duplo cargo de perfumista e envenenador da rainha. Catarina de Médicis. se o leitor tem curiosidade de saber porque o Sr. . Enquanto Margarida descia essa escada. e nós temos o estômago vazio. Sente-se. rindo -. e a cabeça encostada à mão. que La Mole perdera de vista à entrada da grande galeria.

corre tudo mal? . graças à sua frescura. conforme a ocasião. e reconheceu o duque de Guisa. que lhe fazia desabrochar nos lábios pintados com carmim um sorriso lento e cheio de hesitação. . voltou-me as costas para ir dar ceia aos cães.E fez bem. . Tudo nele era sombrio: estofos. que é melhor. as mais opostas expressões. um homem abriu a porta. o povo deve suspeitá-lo como autor do assassínio cometido no meu segundo pai. se vamos esperar que os ponha na rua para levarmos a cabo a grande empresa. . os meus cães têm fome. . móveis. paredes. . . e olhando com aquele olhar que é só dele: Senhor Duque.Eu. Henrique? .E quem o há-de tentar? . De súbito. e no momento em que a rainha-mãe parecia imersa no mais profundo pensamento. está com o Sr. era um quarto de viúva.O quê.Tentei.Não.perguntou Catarina. e a que sabia contudo dar tão bem. O seu quarto. de Tavannes. e que. dito isto. . Ou antes. .disse ela. temos de esperar ainda muito. rodeado da divisa grega que o rei Francisco I lhe dera: Phôspherei ê de kai aisbzên. mas. O rei está só? . o Senhor Almirante. defenda-se como lhe aprouver. achava-se pintado um arco-íris. e não são homens. 43 . Mas respondeu-me com aquela voz que lhe conhece.E não tentou detê-lo? .Que foi então que aconteceu? .Que quer dizer.E que lhe respondeu meu filho? . onde nesse momento dormia deitada a galga favorita da rainha-mãe (que lhe havia sido dada por seu genro Henrique de Navarra.Tentar um último esforço. para que eu os faça esperar.Ainda há pouco perguntei pela vigésima vez a Sua Majestade se continuaríamos a suportar as bravatas a que os senhores da religião se atrevem. por mim saberei defender-me se me insultarem.cinquenta e três anos. . E eu vim preveni-la. levantou o reposteiro e mostrou o rosto pálido. e recebera o nome mitológico de Febe). como de costume. E.Espere-me aqui. siga-me de longe.Corre tudo mal! Catarina levantou a cabeça. Eu.Respondeu-me: Senhor Duque. conservava as feições da primeira beleza. e talvez para sempre. depois do ferimento do seu almirante. e que se pode produzir: Dá luz e serenidade. dizendo: . .Mas que se há-de fazer? . Por cima de uma espécie de dossel que cobria uma poltrona real.perguntou Catarina. conservando o rosto sereno que lhe era habitual. .Quero dizer que o rei cada vez se mostra mais afecto aos malditos huguenotes.

fitando na mãe o seu olhar envidra çado que. e principalmente o mais destro.disse Carlos. em ti mais para diante. 44 .te licença para me retirar para um dos meus castelos.Mas. se tornava tão penetrante. o mais forte. .disse o rei. de Guisa hoje. com uma tremura de voz tão bem fingida que fez estremecer o rei. Pode aturar-se isto. .disse Carlos IX.Esperar. mas simplesmente da substituição do filho Henrique II pelo filho de António de Bourbon? . seja qual for. minha Senhora? . não lhes faltará a justiça. uma primeira lágrima. .Oh! sossega. em certas ocasiões. de Mouy a essa pobre gente.Oh! meu filho . com uma expressão cheia de convicção -.Catarina levantou-se imediatamente e dirigiu-se à câmara do rei. . O maior. sobre tapete da Turquia ou almofadas de veludo. Aproximou-se sem fazer bulha de Carlos IX. Esta palavra reúne em si todo o saber humano. .Oh! minha Senhora . minha Senhora? .Porque estou recebendo todos os dias novos insultos dos senhores da religião.Meu filho . voltando-se com vivacidade. entregando-se toda à violência dos seus pensamentos -. que dava aos cães bocadinhos de bolo cortado em partes iguais. meu filho . não vês que não se trata já da morte do Sr. olhe que quiseram matar-lhes o almirante.tornou Catarina. é preciso que haja justiça no reino. minha mãe! Lá está caindo nas suas exagerações habituais! . com a qual Carlos IX se divertia a apa nhar passarinhos no jardim do Louvre e no das Tulherias. vamos.Que tem.disse Catarina -. os seus galgos predilectos.respondeu Catarina -.disse Catarina. em que rolava uma última. Em poleiros metidos na pared viam-se dois ou três falcões escolhidos e uma pega parda. eles a farão a seu modo: no Sr.Qual é então a tua opinião. onde estavam. ou da religião católica. em mim amanhã.E porquê.perguntou Carlos IX. acredita nisso? . No caminho. meu filho? . E já um infame assassino matou o bravo Sr.Vamos. a rainha-mãe foi compondo um rosto pálido e cheio de angústia. minha mãe?. minha mãe .Meu filho! . ou melhor. . ou da do Senhor Almirante ou da religião protestante. Francisco de Guisa.disse Carlos IX. porque hoj ouvi os protestantes ameaçarem-te até dentro do Louvre. . . peço. deixando transparecer na voz uma primeira inflexão de dúvida -. e não quero tornar a assistir a espectá culos dessa ordem. que se começavam a construir. porque. minha mãe! Esperar. se lha recusares. contanto que fique muito distante de Paris. é o que sabe esperar. .

de Montgomery pela morte de meu pai e seu marido. acima de tudo. . de tenção deliberada. embora essa morte fosse um simples desastre?. .E para me divertir .disse Catarina. preparava-se para voltar para a sua câmara.disse ele . os teus súbditos huguenotes farão como o javali a que se não mete a alabarda na goela: deitarão abaixo o trono. Tavannes.Que faço?. fazendo sinal ao duque de Guisa. aproximando-se da porta. saiu. mas sem a tornar a chamar. estomagada -. dito isto. os huguenotes são tão meus súbditos como os católicos. mas eu não esperarei. Tu estás sob a protecção de Deus.perguntou o conde.Unicamente para obviares a que te faça mal . E. . não falemos mais nisso. . . .disse Catarina -. . Catarina. mas não me divertiria matar os meus súbditos. de nada se arreceia. . Senhor Conde .Bem .Minha mãe é um verdadeiro espírito real . que fazia festas à pega parda do rei -. com um sorriso que indicava a coragem levada até à ferocidade -.. minha mãe? .Venha cá.disse ela para Tavannes. e cedo. . enfim. . matar algumas dúzias de huguenotes. de Mouy e a sua gente?.Diz lá. que Deus desampara sem dúvida por causa dos meus pecados. que te há-de dar força.Que faz Vossa Majestade na caça quando o javali se volta para si? . . pois acabo de estar com eles. para que ficasse no seu lugar e empregasse um último esforço. . espero-o de pé firme . Catarina tornou a aproximar-se. mas que me pediu de Mouy que não fosse justo? Pediu-me a morte do assassino do pai e do assassino do almirante. e diga ao rei o que entende que se deve fazer. mas eu. E não punimos nós o Sr. Dito isto. De repente interrompeu-se. Catarina fez uma mesura e.disse o rei.Mas que é preciso fazer. que entrava neste meio-tempo. com outra mesura.Ora! .acrescentou Catarina. sabedoria e confiança. Ora vão lá.murmurou o duque de Guisa. e queria que todos ficassem contentes comigo.disse Carlos IX -.Então. meu filho . pobre mulher.Espera então.disse. . . porque.Vossa Majestade dá-me licença? . com uns modos que indicavam não acreditar muito nas profecias da mãe. assobiando uma ária de caça. Carlos IX seguiu a mãe com os olhos. diz lá.disse o rei.Em verdade. vi-os. porque vieram pedir justiça! Então não estarão no seu direito? . e depois pôs-se a fazer festas aos cães.porque eu sou justo. Carlos IX deteve-a.Sim.Algumas dúzias? .Mas não viste hoje o Sr. . tenho medo. e meto-lhe na goela a minha alabarda.

não digo que não! . se está tão forte. Eu tenho os suíços. Vossa Majestade ver-se-á amanhã livre de todos os seus inimigos. que se deixou esfolar em vida! . .Pois. .Mas.Um belo santo . . mas com um riso tão velhaco.respondeu o duque de Guisa -.Mas .preciso saber se. estamos hoje a 24 de Agosto. tanta maior zanga há-de ter aos seus algozes. de Guisa! E o rei desatou a rir. a rainha de Navarra. e amanhã não restaráá um para lhe exprobrar a morte dos outros. Somos vinte contra um. e passou a entreter-se enrolando e desenrolando as orelhas de um galgo. sem que Carlos IX visse Catarina. e o rei cederá.interrompeu o rei -. .Insista. E o rei voltou-se para os cães. está-me pondo a faca na garganta. estás fatigando Margot. ah! então. está aí..homens.E é o primo . uma palavra. não é razão para que todos lhe façam festas. mil e quinhentos gentis. os caçadores a cavalo.disse ela ao duque. coa breca! então não sou eu o rei? .prosseguiu o duque. e os burgueses. .á amanhã.Sim. primo Henrique. põe-na no poleiro. se se dissesse a Vossa Majestade: Sire. primo.Em verdade. Ah! ah! ah! tem graça. fazendo o que desejo.disse o rei . . porque diabo vem azoinar-me os ouvidos com isso! Não se importe comigo.Melhor! Quanto mais ele sofreu.disse o rei -. e está tudo pronto.Sire. estremecendo ao ouvir esse riso que nada tinha de humano. desembaraçar-se-á de todos os seus inimigos a um tempo. E Vossa Majestade tem os seus guardas. E o reposteiro tornou a cair. os seus amigos. mas hei-de resistir.E por intercessão de que santo se faria esse milagre? . e ande para a frente!. que o eco do quarto o repetiu lugubremente. Um sinal. Porque tem o nome de minha irmã. . Sire .Então. só uma! . . Levantou-se então o reposteiro. Sire. mas. .Ah. se quiser. Sr. ou pelo menos desse mostras de a ter visto. fingindo que o via pela primeira vez. Sire. serei agradável a Vossa Majestade.Ainda não. e tornou a aparecer Catarina.Tavannes . a nobreza católica. Bartolomeu. sê-lo. . . .A coisa vai bem . algumas dúzias.disse o duque de Guisa .disse o rei. .Sire. uma insignificância! Ah! se alguém me dissesse: Sire. 45 Tavannes pôs a pega no poleiro.que com a sua espadinha de copos de ouro há-de matar daqui até amanhã dez mil huguenotes?. seria por intercessão de S. Senhor Duque?. .

nem eu me lastimo a mim.Ficando de fora. e amanhã me dará notícias dele. deixando Tavannes e o duque de Guisa quase que sem saberem o que haviam de fazer. vão. Muito felizes são os homens em poderem sair assim. E Carlos IX saiu. . foram saindo as suas damas e os seus cortesãos. e apareceu Henrique de Navarra. para aí voltara. . o que lastimo é a condição das mulheres em geral.respondeu Margarida -. que. . mas de cada vez um pensamento sombrio lhe recalcou para o fundo do peito as palavras prestes a saírem-lhe dos lábios. Pensava até encontrá-los aqui fazendo-lhe a corte. minha Senhora . . não tardou que só estivesse junto dela Margarida. . uma vez que aprova. e entrou para a sua câmara.Tavannes .respondeu Henrique -. não digo nada.Não ceia no Louvre? . Passava-se entretanto uma cena de outro género no quarto de Catarina. Catarina sorriu. sentada num cofre ao pé da janela aberta.Vá.Ora essa! . minha Senhora? .disse Catarina. que dormia em cima do trono. é um bom exemplo.Talvez. . meu filho? . estremecendo. Anda cá.O senhor aqui. deu um pulo e correu para ele.Eu não aprovo nada. .disse ela -.. Actéon. Não é verdade. não vês que estás fazendo zangar o meu cão?. minha filha? . Mande embora.Vai ver o Senhor Almirante. a rainha-mãe abriu a boca para falar.exclamou o duque -. depois de dar ao duque de Guisa o conselho de insistir. minha Senhora. irmão de Vossa Majestade.Pois vão . olhava para o céu absorta em seus pensamentos. Ah! E depois acrescentou com voz que mal se percebia: . a liberdade é coisa tão bela e tão agradável! . Quando regressou. depois de se ver só com a filha. A galga. ergueu-se o reposteiro. com uma impaciência muitíssimo bem fingida -. achando já reunidas as pessoas que habitualmente lhe assistiam ao deitar. . Duas ou três vezes. meu filho? .Não. . . sem querer ouvir mais.perguntou Henrique.Sire . mande embora. . Catarina tinha o rosto tão risonho quanto o tivera descomposto quando partira. Pouco a pouco. no meu Louvre?.Isso quer dizer que eu lhe prendo a liberdade. curvando-se diante da mulher.É verdade . eles saem esta noite para uma orgia com o duque de Alençon.disse Catarina.Não senhor. que.matariam também o rei de Navarra. o príncipe de Condé.disse o rei. vamos passear esta noite pela cidade com os Srs. como antes. de Alençon e de Condé. quem é que está aí?. anda cá.Irei. . 46 Neste meio-tempo.continuou Carlos IX . Mas.

A Sr. pode ir divertir-se pela cidade. mas no mesmo instante ergueu-se o reposteiro.Minha Senhora .Anda cá. Nesse momento voltou-se Catarina. não vás para o teu quarto. de Cláudia . Cláudia? . empalideceu de um modo assustador. . que se aproximou de Catarina com todas as obsequiosas civilidades dos servidores florentinos.perguntou Catarina. podes recolher-te ao teu quarto. minha mãe.Ao pé do cunhado. e de que se viram todos os compartimentos cheios de pós e de frascos. não perdera coisa alguma da pantomina da rainha. O príncipe corou levemente. junto da qual estava em pé o rei de Navarra. ó Cláudia. . esperando não ser pressentida por Catarina. que. está aí Renato.disse Henrique à esposa. como um homem que procura livrar-se de um deslumbramento. . No mesmo instante entravam duas pessoas: uma anunciada. Catarina pegou-lhe na mão. pálida e trémula. de mão na fronte. e foi encostar-se à janela. .Que lhe disseste tu. quase no mesmo instante. A galga soltou um gemido. a de Sauve. voltandose. não saias daqui. e outra que não carecia de o ser. sem ouvir. o Sr. que te salva como tu o salvaste. irmã mais velha de Margarida. . Acabavam de pronunciar o nome do assassino da mãe. e Henrique olhou de revés. Entrou por uma portinha secreta que ia ter ao gabinete do rei e. foi sentar-se ao lado de Margarida. carregando o sobrolho. A segunda era a Sr.murmurou.E onde está a formosa duquesa? 47 .Para lhe dar as boas-noites e muitas recomendações da duquesa de Nevers.a de Lorena. apertando o pulso da filha a ponto de a fazer gritar. disse: . Cláudia obedeceu. e viu-se a cabeça loura da Sr. A primeira era Renato.disse a Margarida -.Minha irmã. Margarida levantou-se. que abriu. levava uma caixa. indiscreta? . . e disse-lhe em voz baixa e com volubilidade: . o perfumista. de Guisa.Henrique deu um passo para a porta para cumprir a ordem de Catarina.Hem? que dizes. Pensou que o rosto lhe denunciava a comoção. . que Vossa Majestade mandou chamar.a de Lorena pegou na mão de Margarida. . e depois. . em nome do duque de Guisa. Meu filho. a de Sauve o conteúdo da caixa que Renato levava. que examinava com a Sr.disse ela -.Minha Senhora . Catarina deu um olhar tão rápido como um relâmpago para Henrique de Navarra. Catarina olhou para as duas filhas com modos suspeitos e.Nada.Minha filha .Falaste em voz baixa a Margarida. o perfumista.

concede-me a honra de me dar a sua mão a beijar? Margarida estendeu-lhe a mão trémula. foi a Sr.Não admira.Excepto da do rei de Navarra . . mas à luz deste relâmpago. cambaleando e procurando .Obrigado . . Henrique adivinhou uma conspiração. boa noite. Senhor. apesar dos esforços que fazia. .Não. voltando-se para a mais nova. Boa noite. atrevidamente. abaixando-se para poder chegar os lábios àquela mão.Desculpe-me.a de Sauve.Sim senhor. .Tem razão. mestre Renato.respondeu o envenenador com o seu pérfido sorriso. .e de Margarida -.Que eu preciso de perfumes . .replicou Henrique rindo. . porque se diz. Neste momento irrompeu em soluços a Senhora Duquesa de Lorena que. .exclamou Margarida.disse Margarida -. .Há mais ainda .Muito bem. Margarida retirou-se.Não me ouviste. trémula e pálida -. tem uma febre nervosa. Em nome do Céu. minha Senhora .disse Margarida. foi encostar a mão ao ombro do florentino. porque você é o fornecedor de todas as testas coroadas de França e do estrangeiro.disse -. que foi rápido. que também era sua freguesa.disse Catarina. e leve-me as suas melhores perfumarias. não pôde conterse.Então.disse Catarina. . e depois. não saia também! Não passou dum relâmpago. . E. correndo para Cláudia -. .Que lhe disse ela? . meu filho. Henrique nem sequer se voltou.E eu espero que o teu desejo seja satisfeito. desejo a Vossa Majestade uma boa-noite. muito bem . que Mazzilo lhe recomenda que trate com aromas.disse ele. disse-lhe: .Que não saísse.Minha irmã . mestre Renato . E o certo é que minha mãe. mestre Renato. dizer que te recolhesses ao teu quarto? Se não basta isso ordeno-to.murmurou Henrique.O Sr. . Vá amanhã ou depois aos meus aposentos. E apertou outra vez e com mais força do que da primeira o braço da filha mais velha. como vão os negócios comerciais? . .Não está desacertado . Margot.observou o florentino. passando por diante da mulher desolada. minha mãe? Foi Margot? . sorrindo -. que tens? . de La Mole? . mo recomendou quando morreu. aqui tem uma carta que trouxe um fidalgo provençal. Quem lho disse. metendo-se no meio delas -. pegando na carta e metendo-a no gibão.Nada .

. mas parece-me. minha Senhora. 48 Houve um instante de silêncio. enquanto Henrique se afastava. que em vez de nos dei tarmos e de fazermos esperar os que hão-de mandar-nos buscar.disse Catarina à Sr. Henrique? .Sempre sai? . Estes admiráveis perfumes embriagam-me.Muita vontade tinha de o fazer. Febe. mas estava a porta fechada. Mas hei-de tratar de fazer fortuna com isto. e creio que me fazem perder a memória.E o senhor. e é tudo quanto possuo.Chame-a. e ela não pôde senão meter o focinho por baixo do reposteiro. Depois de Henrique sair. melhor seria pedirmos cartas e jogarmos. de La Mole? . tenho pouco dinheiro. nesse caso. o mais que tenho são cem escudos de ouro na mala. .debalde encontrar um olhar do marido. porque é possível que venham acordar-me de noite. minha Senhora. Amanhã me dará notícias do almirante. Carlota . pela sua parte. sem falar.Ah! é verdade . porque não quer deixar-me sair. .disse Catarina. mas via a cena num espelho fingindo que estava pondo no bigode uma pomada que Renato acabava de lhe dar. Até à vista. para acompanhares a duquesa de Lorena.E a mim também .disse Cocunás -. a cadelinha. Assim estaríamos prontos. não é assim? . . . com o rosto tão sereno e tão risonho como se não conhecesse no fundo no coração que corria perigo de vida. pegou na cadelinha pela coleira e segurou-a. solta por Catarina de Médicis.Febe! . que é isso! . e volta com eles. já me esquecia que o duque de Alençon e o príncipe de Condé estão à minha espera. soltando um uivo lúgubre e prolongado.exclamou o rei de Navarra -. que está incomodada.De boa vontade aceitaria a proposta mas.disse a rainha com impaciência. correu para ir ter com ele. saboreando um derradeiro copo de vinho. que nem sequer se voltou para o lado dela. de Guisa e Tavannes. encostou o cotovelo à mesa e. Sr. Cocunás fez girar a cadeira num dos quatro pés. olhava de mãos postas para a mãe.Vai deitar-se já. .Agora. durante o qual Catarina se conservou de olhos fitos na duquesa de Lorena. vai chamar os Sr.Até à vista. estendeu as pernas. Henrique estava de costas voltadas. . que estão no meu oratório. A rainha-mãe levantou-se. Então. que.Pode contar com elas. 49 VII A NOITE DE 24 DE AGOSTO DE 1572 Quando La Mole e Cocunás acabaram a sua pobre ceia (porque as aves da hospedaria Estrela Brilhante só fulguravam na tabuleta). para jogar. perguntou: . de Sauve -. .

e depois o primeiro favor que recebermos. . pertencendo ao rei de Navarra. a seis escudos.É muito engenhoso. a palavra de um cavalheiro vale dinheiro.Decerto. e quiser continuar o jogo. mas espero que não tardará que a tenha! Graças a Deus. Joguemos pois até aos seus seis escudos e.exclamou Cocunás .Então qual é? .Não vejo nisso senão um inconveniente. como eu não tenho a mesma confiança na minha estrela amorosa. . e joguemos o primeiro favor da nossa amante. Por isso.É. ou da corte. mas até atarracada. 50 . . não sou assim tão desastrado que me faltem mulheres. mas pertencem a mestre Mercandon. . creio que seria roubá-lo aceitar essa aposta. não é assim? . como lhe disse.Muito bem! isso é que é falar. O meu património pessoal limita-se. .Pois eu tinha imaginado jogarmos primeiramente o nosso dinheiro. sorrindo.É que eu não tenho amante.Pois foi.Nem eu tão-pouco. Tenho aqui na algibeira cem dobrões.Viemos ambos a Paris com o mesmo propósito. .disse La Mole. . o senhor é cavalheiro. . podia perder. . dependerá provavelmente a nossa vida toda.Qual é? .Então como se há-de jogar? . porque do primeiro favor que o senhor receber e eu. .vi-o tirar da algibeira uma bolsa que me pareceu não só bem recheada.É exactamente por isso que eu queria jogar.O senhor conta com o seu como eu conto com o meu. mulheres não lhe hão-de faltar. nada posso receber do Senhor Duque de Guisa. de Cocunás.Cada um de nós tem o seu protector poderoso.. não foi? . . .tornou La Mole . muito mais quando esse cavalheiro tem crédito na corte. . creia que eu não arriscaria pouco jogando com o senhor o primeiro favor que venha a receber. mas. que suspeito que é também um tanto huguenote como o senhor. não é? . . Tem razão.Decerto. na verdade! .e lamenta-se? Coa breca! pois eu não tenho senão seis. ou da nossa amante.Ah! isso é para dar cabo de uma antiga dívida que me vejo obrigado a pagar a um velho amigo de meu pai.Mas confesso que não sou tão jogador que arrisque toda a minha vida numa partida de cartas ou de dados.Ora! .Então deixemos o primeiro favor da corte. tenho. mas eu não poderia ganhar. . se por infelicidade sua os perder. porque. Sr.Cem escudos de ouro? . E tive uma ideia.É. e a sua palavra vale dinheiro. .

que quero ir com o senhor! . . La Hurière fez um gesto tão expressivo. é com o rei de Navarra. limpando o velho capacete .tornou Cocunás. Jogaremos nós também arcabuzadas? . e joguemos com confiança.A religião.Não espero. .Então espera que a fortuna venha ter com o senhor enquanto dorme? . Odeio profundamente o huguenotismo. . rindo -. exactamente no momento em que o indiscreto . . .disse Cocunás -. Depois de Cocunás dizer que ia buscar fortuna ao Louvre. tenho esta noite uma audiência particular do grande duque de Guisa.Joguemos pois .Sim.E suponha que pertenço! .tinha-me dado o cheiro. . é moda. sou eu que hei-de ir ter com ela. porque.Pois joguemos.Tem senha? . . entretido com o jogo e com a conversação.Não. e demais.Aonde? diga-me. não notava.Isto é miraculoso! . .Como quiser . . . e dali lhe fazia sinais.Tenho.Ah! parpalhote! . . . . que o piemontês. ainda que eu perca cem escudos de ouro como os seus.murmurou o estalajadeiro.exclamou La Mole . baralhando as cartas que o criado acabava de lhe trazer -.Volta lá esta noite? .A quê? . mas não detesto os huguenotes. A estas palavras do piemontês. pegando nas cartas e arranjando-as na mão.e o senhor tinha razão de dizer que nós nascemos sob a influência da mesma estrela.Eu? . . Também eu tenho esta noite uma entrevista no Louvre. . hei-de ter amanhã com que os pagar. decididamente . seja o que for. sorrindo. La Hurière deixara de limpar o capacete e fora colocar-se por trás da cadeira de La Mole. sirva de testemunha a arcabuzada do Senhor Almirante.Então.disse La Mole.Volto.Um sinal de reunião? 51 . E interrompeu-se para fazer o sinal da Cruz. o senhor pertence.Oh! graças a Deus.disse La Mole.Sim .replicou La Mole. de modo que só Cocunás pudesse vê-lo. mas não é com o duque de Guisa. o senhor.Ao Louvre. A minha senha é. Para mim é indiferente. o que eu quero é jogar. não.Tem alguma coisa contra nós? .Pois tenho eu.

nós não somos valentes e não temos boa aparência.isto perfaz exactamente os seus seis escudos.fidalgo levantava a cabeça. Sr. porque não podia compreender os gestos continuados de mestre La Hurière. pondo um dedo nos lábios para recomendar discrição a Cocunás. Tenho desejos de me fazer huguenote. mas não viu senão o estalajadeiro atrás de si. Guisa? Cocunás dirigiu a vista para a cozinha e viu os olhos da La Hurière. contanto que nos apresentemos pontualmente na guarda. é verdade. E falemos alguma coisa de si. Ao ver o espanto que se pintava na cara do seu parceiro. La Mole voltou-se.De boa vontade .Disse. meu querido Sr. baralhando as cartas . Quer a desforra sobre a sua fortuna futura? .Mas. . E. . o diabo me leve. mais estupefacto do que nunca. antes de se comprometer mais: não me disse que tinha uma entrevista com o Sr.Que tem? . . Sempre ouvi dizer que os huguenotes eram felizes ao jogo.Também eu . e tendo na cabeça o capacete que um momento antes lhe vira limpar. enquanto La Mole dava as cartas. que Cocunás estacou petrificado. porque. de boa vontade. .Coa breca! é verdade.interrompeu La Mole.disse La Mole . de La Mole. mas não é ainda a hora. Cocunás olhava para o estalajadeiro e para o seu companheiro sem responder. La Hurière viu que devia ir em auxílio dele. meu Deus! Senhor Conde: sou sargento de uma companhia da milícia burguesa. aquele senhor admirou-se decerto de ver na minha cabeça de burguês um capacete. Fidalgos valentes como o senhor é que fazem reluzir capacetes dotados e espadas finas. com uma bondade admiravelmente representada e um movimento de ombros cheio do sentimento da sua inferioridade -. mas Cocunás. dito isto. .gosto muito do jogo. Os olhos de La Hurière cintilaram como duas brasas. . La Hurière retirou-se.perguntou La Mole a Cocunás.tu tens guarda? . mais por esse gesto do que pela partida em que acabava de perder três escudos. de Cocunás. que repetiam a mesma advertência.disse Cocunás -.Estás bonito! . de braços cruzados.Oh.Ah! ah! .replicou La Hurière. entretido com o jogo.Bem! . não reparou nele. Esta precaução foi decerto causa de ele perder a segunda partida quase tão rapidamente como acabava de perder a primeira. nós. . e como me havia chegado para presenciar o lance que o fez ganhar. ou lhe vou ganhar outros seis escudos. ou muito me engano.disse rapidamente .Oh! Senhor . . dando uma gargalhada. .Creio que faríamos melhor em falar do jogo. .exclamou La Mole. .

Mas não.Quer vinho.O senhor vai indispor-se com o estalajadeiro. e tenho . conde . dirigindo os olhos para a cozinha. a pesar do seu amor pelas cartas. mestre La Hurière. desde que estamos com as cartas nas mãos: o senhor joga jogo franco. de La Mole.Meu querido Sr.Caluda! . tão pura!. la Hurière estava tão pálido. será bem recebido entre nós. . E disse-lhe ao ouvido: . Mas. asseguro-lho. desde que o rei também não é muito aferrado a ela.perguntou La Mole. .Está conversando com. desta vez. . de Guisa não me satisfizer. 52 .E é uma religião tão bela. porque não sou muito aferrado à missa. porque. .Que está ele a fazer? . Coa breca! que entusiasmo! Olá. E pode ficar descansado: se uma vez me fizer huguenote. e. serei mais huguenote do que Lutero.disse La Mole . É certamente da religião. voltando-se para La Mole. .disse Cocunás .e se esta noite o Sr.Oh! é verdade! . . é ele! .disse Cocunás . e do que todos os reformistas da Terra. O diabo me leve!.Se eu tivesse a certeza de que a sua felicidade provinha disso.perguntou La Mole. conquanto o modo por que lhe ache a vocação seja singular. . que não o podia ver do seu lugar. dar-se-á o caso que também faças política?. . . pegando apressadamente na mão de Cocunás.Essa espécie de ave nocturna com que estava conversando quando nós chegámos. Cocunás coçou a orelha. a resposta de mestre La Hurière foi um gesto tão enérgico e tão imperioso que. . Já perco cinquenta escudos. . peço-lhe que me dispense.e. do que Calvino. disse-lhe: .e dá fortuna ao jogo.Então que é isso? .Faça-se huguenote. e o homem do gibão amarelo tão lúgubre.Que faz? .Ele. o homem do gibão amarelo e capote cor de castanha. tão simples. que Cocunás sentiu como que um estremecimento e.Silêncio! silêncio. .Deve-me mais seis escudos .Vai ser servido.Ah! como me está tentando!. Cocunás levantou-se e foi direito a ele.E está em moda .disse La Mole tranquilamente. está muito ocupado neste momento. quem? . Gregório! vinho para estes senhores. ele não nos ouve.disse La Hurière.disse La Mole. e eu tenho-o observado. . Estou infeliz esta noite. do que Melâncton. . meu fidalgo? . o diabo me leve! os azes são só para o senhor. o senhor não trapaceia. .Que faço? Peço-lhe amanhã que me apresente ao rei de Navarra. pela sua vida! e despeça o seu companheiro..disse Cocunás.

Para não fazer esperar Sua Alteza um só momento.Mas quem é o senhor.disse Cocunás. Mestre La Hurière.Coa breca! sou todo ouvidos. sentando-se em outra. o homem misterioso travou do braço de Cocunás e. Sr.E do capitão de Mouy. faça o que quiser. amigo! E La Mole desapareceu na escada.disse Maurevel. de Maurevel. felizmente. . Maurevel contou.perguntou Cocunás.disse o piemontês com os seus botões passa-se aqui o quer que seja de extraordinário.Pois Maurevel sou eu. . e portanto é um instante. Cocunás ficou de ouvido à escuta. para me falar com esses modos de comando? . faz-me o favor de me ensinar o caminho do quarto. Demais.disse Cocunás. .Ouvi.Caluda! . uma cadeira a Maurevel e. .Ouviu porventura falar alguma vez em Maurevel? 53 . dá cá uma tesoura e papel branco. ouça.E tu.disse ele. Davam onze horas em S. cada badalada.Gregório! . Boa fortuna. Ofereceu então uma cadeira a Cocunás. Agora estamos sós.gritou La Hurière .Boa noite. voltando-se para Cocunás.disse La Mole -. depois a porta do corredor. Então. pronto . pode falar. correr-lhe os ferrolhos e voltar precipitadamente para junto dos dois interlocutores. puxando-o para si.Pronto.Ouça-me. Mestre La Hurière. Deus quis que a sua boca se fechasse a tempo. Ouviu-se neste momento o estalajadeiro fechar a porta de um quarto. . todo arrepiado à vista das precauções que os dois homens tomavam -.O assassino do almirante? . pois. e uma tesoura para cortar o envelope! Decididamente .Senhor Conde? . não se me dará de me deitar um pedaço na cama. . Germano L'Auxerrois.disse La Mole. . . Mais uma palavra e eu deitava-o por terra com tiro de arcabuz. disse: . . que ressoava vibrante e lúgubre no meio da noite.Está tudo bem fechado. de Cocunás! . pondo um dedo na boca. . .Oh! oh! . . mestre La Hurière.Senhor .medo de me comprometer mais. acordame.papel branco para escrever uma carta. e quando a última se desvaneceu no espaço: . uma após outra. Fico vestido. disse-lhe com vulubilidade: .O senhor ia revelando mais de uma vez um segredo de que depende a sorte do reino. vou preparar o sinal.Se vierem chamar-me da parte do rei de Navarra. Sr. acompanhado pelo estalajadeiro. . . .É como eu . o senhor é bom católico? .

transformado em guerreiro. não é .respondeu Cocunás. para todos os bons católicos.continuou Maurevel . 54 . há banquete real. e de.disse Cocunás. a senha. . admirado .Sim senhor. o sinal de aliança.Previno-o. Bom! bom! às mil maravilhas! Há já tempo de mais que eles se lá apresentam. meu fidalgo.exclamou .E a nós também. Maurevel sorriu.Pois é verdade? .Sim. .Pouco lhe importe.Aonde? .Não questionaremos a esse respeito. bem se vê que não está como nós cansado das insolências desses presunçosos herejes. .a entrevista. esse banquete.é dedicado ao rei? . comecemos por ir convidar o principal campeão deles. . porque começava a compreender. quer dizer. Aestas palavras. o Guardeão deles.continuou Cocunás.O Senhor .E aí tem. de que à meia. .O senhor . .disse com voz estridrnte mestre La Hurière. eram para toda a gente. de Guisa espera-me. é. disse: . uma a Cocunás.De alma e coração. por que eu polia a minha celada.Ora esta! . La Hurière pregou a sua no capacete.Então há festa no Louvre. Venha connosco.essa festa.exclamou Cocunás . o velho Gaspar. . e Maurevel pregou também a sua no chapéu. que errei como um imbecil. vai acompanhar-nos. há festa no Louvre . Maurevel sorriu. . cor eles lhe chamam. tirou do gibão um punhado de cruzes de um tecido branco. . .Isso mesmo.exclamou Cocunás.É lá exactamente que nós vamos. Senhor . se o senhor quer ser dos nossos. e levando Cocunás à janela. E mais: serão os heróis da festa. Ofende-me até com essa pergunta. Cocunás estremeceu e fez-se muito pálido..Creio que sim . . Senhor. e tirou uma para si.Levou muito tempo para adivinhar. e os huguenotes serão convidados para ele. afiava a minha partasana e amolara as minhas facas . deu uma a La Hurière. um tanto aborrecido por quinhoar da honra da sua audiência com Maurevel e mestre La Hurière.e querem excluir os cães dos huguenotes. . . .E o senhor encarrega-se de ir a casa do almirante.E nós também. banquete real. e talvez a sua vida.disse Maurevel -.disse Maurevel -. . vai-se. .noite tenho que fazer no Louvre. Depende disso a sua fortuna.Mas eu tenho uma senha particular . . embora atirasse contra ele com o próprio arcabuz do rei.O Sr. pagarão o banquete e.Mas tenho um sinal para ser reconhecido. . .

Quando ouvir tocar o sino de S. . . Hoje estamos mais civilizados. comandados por Toquenot. olhe para esse grupo de cavaleiros que passa no cais. reconhece-lhe o chefe? .Pois é a pessoa com quem vai ter uma entrevista à meianoite no Louvre. . .Por ordem do rei e do Sr. de Besme.disse Maurevel -. .E quando? . e não de soldados! .OSr. ex-preboste dos comerciantes. de Besme me disse que corresse ao primeiro toque de rebate? . uma cruz no chapéu. como é que se chama?. . Há para todos os gostos. pode escolher rapazes. um grupo que se esconde silenciosamente na sombra? .toda a gente a pé para ir matar um velho huguenote? Coa breca. preboste também.E daí? E daí.Olhe. de Guisa. como mestre La Hurière. Em outro tempo deixava-se a Deus o cuidado de distinguir os Seus. e poupamos-lhe essa tarefa. se cheguei a Paris esta tarde?.. .Mas vão ser mortos todos? .exclamou Cocunás. É então por isso que o Sr. Os que o escoltam são Marcel. é negócio de estranguladores. us huguenotes.Ah! é então por isso que esse amável alemão que pertence ao Sr. . é uma companhia de suíços dos pequenos cantões. Choron. de Guisa.Uma cruz branca. . têm a vida dura. . Germano L'Auxerrois. . J.Vejo.Como quer que o reconheça . .Ele mesmo. moços ou velhos. e chegará a ocasião de nós sairmos. como sabe. Se despreza punhais.Mas. Os dois últimos vão fazer erguer as suas companhias de burgueses. .Agora. semelhante à que nós temos nos chapéus. porque os huguenotes não são gente que se deixe estrangular sem se defender e.Por ordem do rei? .O duque de Guisa? . Mas. e saiba que esses senhores dos cantões são amigos do rei.Oh! oh! . por detrás da igreja. .Meu rapaz . como eu.disse Cocunás.Está batendo em todas as portas.disse Cocunás. e de cada casa saem burgueses armados. vê no largo. aí tem o capitão do bairro que entra na rua: veja bem o que ele vai fazer.Há-de bater à nossa porta como às outras. . que é que têm as portas em que ele bate?. como o senhor. . Olhe. . . se lhe repugnam os velhos. .Mas todas as portas a que bate se abrem.Todos. vai esperá-lo lá.Os homens que constituem esse grupo têm. pode servir-se da espada.Exactamence.disse Cocunás . E olhe. tremendo todo -. ao fim da rua.

. o senhor? .Sim. meu rapaz? . Cocunás. . .O senhor viu o Sr.E os senhores? . . de Maurevel lhe disser.Diga-lhe duas. e não haverá amanhã um único hereje no reino. .repetiram juntos Cocunás e Maurevel. .disse ele. Foi ele quem me fez entrar.Olhe. .Ouve-o? . . o que procura? .Vá-se embora. .disse Maurevel -.disse Maurevel. .A minha lista aqui está .Ah! bom.Guisa e Lorena! .Pode sossegar. bom. com uns vinte homens. . de Besme! .Que é? .disse de Besme.Se tem algum inimigo particular. de Cocunás. não tenha receio.Ah! é o Sr. ponha-o na lista e passará com os outros. . . Que hei-de fazer? .disse Maurevel.Ouço . . pode sossegar.Procuro a hospedaria da Estrela Brilhante para prevenir um certo Sr. que nós lá iremos como cães.Onde? . se tanto é preciso .55 .No Louvre. É um bom católico. que não se levante da segunda.Sim senhor.Aqui estou.O que o Sr. rindo.Trezentos.Coa breca! é ele mesmo. Está pronto? . de Maurevel.Silêncio! . . que tomava posições formidáveis. e quem me. que não se me dava. de Besme? . . ainda que seja de todo em todo huguenote. . e desta vez. .Estou. Maurevel abriu devagarinho a janela.Eu vou dizer uma palavrinha ao almirante. que tirava sossegadamente um papel da algibeira. e encaminhe-me bem esse rapaz.Por minha alma. .Mas o Sr. Besme passava efectivamente. .Sim senhor. se se levantar da primeira. os Cocunás são excelentes cães de caça.disse La Hurière.perguntou Maurevel. . olhava ora para o estalajadeiro. Sr.Eu? . De Besme afastou-se.Ouve-o. de Besme onde vai? .Quer falar-lhe? . de Maurevel.Adeus! . e Maurevel fechou as janelas. a décima parte da tarefa que eu hei-de fazer.Comece a caçada.disse o rapaz. e falei-lhe. . Sr. Que cada bom católico faça. . esta noite. ora para Maurevel. quem me deu a senha. mais aturdido do que nunca com tudo o que via e tudo o que ouvia.respondeu Cocunás. .Vi-o. .

. o Sr.exclamou Maurevel. de La Mole? . fica com as contas saldadas. há-de pagar-lhe.Vamos! vamos! é aviar. como prometemos. ao menos não está aí ninguém que escarneça de mim. Cocunás subiu a escada atrás de mestre La Hurière. de La Mole ceou comigo.disse o estalajadeiro. à .bradou La Hurière. um tiro de arcabuz.Começa a coisa . carregando o sobrolho. mas acabemos com isto.exclamou Maurevel -. que em breve alcançou. a caminho! . .Esperem-me. os meus patos e os meus frangãos .em que lhe ganhou cinquenta escudos. o Sr.Nunca matei senão os meus coelhos. Melhor! Quando se trata da glória de Deus e do rei.vai fazer sofrer o pobre rapaz. Quero estar lá para acabar com ele.O Sr.disse Cocunás -. tenho a certeza disso. e obstar a que lhe roubem o dinheiro. uma martelada. mais valem os relógios que se adiantam que os que se atrasam. . de La Mole está condinado. Foi por intenção dele que afiei a minha partasana. seja o que for. E.exclamou Cocunás . e roubá-lo talvez. uma coronhada. . o Sr. . Não quero que me estrangulem a mulher e os filhos enquanto eu estiver fora. 56 . como um relâmpago.Sem falar .Antes de entrarmos em campanha.Oh. Cocunás passou pela fronte a mão húmida de suor. mas o Sr.replicou o digno estalajadeiro .exclamou Cocunás com um sobressalto. Pouco depois ressoou um primeiro tiro e quase imediatamente a luz de muitos archotes iluminou. Senhores . O facto é que se ouviu soar lugubremente o sino da igreja. . e se nós o não matarmos. asseguremo-nos da pousada. oh! . .Ouviu-se vibrar a primeira badalada de rebate em S.Eu já lá vou! . . .Um momento. . .O Sr.Então é antes da hora marcada? Tinham-me dito que era à meia-noite. . e se eu o matar. Se não for obra bem acabada.Sim. um momento! . matá-lo-ão outros. se tanto for necessário. para ajudar o Sr.Coa breca! .disse o piemontês.disse o estalajadeiro .Sim! o parpalhote veio meter-se na boca do lobo. mas lealmente.objectou Cocunás. .Lealmente ou não.Coa breca! é duro! . de La Mole é um hereje . porque. Cocunás deu um suspiro. a da Árvore Seca. de La Mole é meu companheiro. . movido por esta ideia.O sinal! . como se diz na guerra. de Guisa em casa do almirante.gritou Maurevel -. se queremos chegar a tempo. . . Há aqui um huguenote. Germano L'Auxerrois. de La Mole jogou comigo.É verdade .e não sei muito bem o que hei-de fazer para matar um homem. .disse Maurevel -. Pois vou fazer a experiência neste.

desfechou uma das suas pistolas. . mestre La Hurière. La Mole tê-lo-ia esperado decerto. La Mole correu pois para um gabinete e fechou a porta. que não esperava aquilo.Ah! patife! . ouviram.gritava Cocunás. tu. Se ele estivesse só. abrindo as ventas como uma verdadeira fera que fareja o sangue . espera! Quero retalhar-te . .Ah! querem assassinar-me. Viu-se então La Mole. serenou e meteu a porta dentro com um vigoroso pontapé. furioso.acuda-me.Com mil diabos! . No momento em que chegava à porta. . que tornara a carregar o arcabuz.Acuda-me! .disse Cocunás. pôs-se de joelhos e a bala passou-lhe por cima da cabeça. Arranje-se como puder. Mas La Mole tinha observado a pontaria e.gritou La Mole . ao que parece! .disse Cocunás. sabendo que estava armado com um bom arcabuz.Diabo! .gritou La Mole. rangendo os dentes feriste-me. E sentiu-se La Mole saltar da cama abaixo e o sobrado estalar sob os seus passos. de Maurevel! acuda-me! . E se ele o matasse.disse Cocunás -.se muitos tiros na rua. cujos olhos chamejavam. Sr.gritou Cocunás. de La Mole . correu para La Mole. vamos! avante! .E vai defender-se? . um tanto atrapalhado creio que está acordado! . . combatamos. dei xou-se ficar no lugar onde estava. .Oh! oh! .espera.gritou La Hurière. . teve tempo para se livrar do tiro. batendo na porta com os copos da espada. .murmurou La Hurière.Acuda-me.proporção que subia. desembainhando a durindana. fazendo também pontaria. mas Cocunás tinha atrás de si mestre La Hurière. para satisfazer o convite do estalajadeiro. e a bala roçou-lhe pelo ombro.Hum! hum! . sem dúvida por efeito da reflexão.É capaz disso. mas Cocunás.isto vai-se tornando interessante. seguido sempre por Cocunás. Parece que se matam esta noite os huguenotes em nome do rei. já que assim o queres! E. sem contar com Maurevel que. La Hurière demorava o passo. de Cocunás! 57 . sem chapéu.Parece-me que sim . com a espada entre os dentes e com uma pistola em cada mão. que não o perdia de vista. neste negócio. e entrincheirado por detrás do leito. Sr. mestre La Hurière? Olhe que era uma peça bem pregada. . mas vestido. subia os degraus da escada a quatro e quatro. . Vamos.Ah! traidores! ah! assassinos! então é isso! esperem lá. Mas. La Hurière. é não o agredir. Sr. . E La Mole. no momento em que o tiro partiu.O mais que posso fazer. miserável! Mestre La Hurière não respondeu a esta apóstrofe senão baixando o seu arcabuz e fazendo pontaria para o mancebo.disse o estalajadeiro.

e estou habituado a correr sobre o gelo. .exclamou Cocunás -.disse Cocunás .Eu não . para não o ferir pelas costas.Ah. porque estava já ferido.gritou Cocunás.disse Maurevel -. . Cocunás precipitou-se no gabinete.repetiu La Hurière. subiria com ele até ao Céu. ou está agora longe. sito na Rua de Béthisy. e recompensas-me metendo-me uma bala no ombro!. .Olhe! . era morte certa! .o corpo com tantas cutiladas quantos escudos de ouro me ganhaste esta noite! Ah! venho para evitar que sofras. guardo a minha pólvora para melhor caça.A casa do almirante! . Espera. . 58 .exclamou Cocunás. venho para que te não roubem. O gabinete estava vazio e a janela aberta. . .ou ele morreu.A casa do almirante! uma vez que assim o querem . tomasse o caminho que tomasse para lá chegar. passando uma perna por cima do parapeito da janela. e dirigiram-se para o palácio do almirante. morreu.berrou Cocunás. e se esse Lhe escapa. some. e quanto mais depressa melhor. ou desceria até ao Inferno. E saíram todos três da hospedaria Estrela Brilhante que ficou guardada por Gregório e pelos outros criados.disse Cocunás. . . espere! . Era um homem sem gibão e sem cinto. lhe .se ele! E correu em perseguição do desgraçado. patife! espera! Neste meio-tempo aproximou-se mestre La Hurière.Morte aos huguenotes! Preciso vingar-me.Quem vai lá? .disse o estalajadeiro -. e com uma coronhada do seu arcabuz fez saltar a porta em pedaços. mas foi bater com o nariz na parede. De mais.A casa do almirante! . Guiava-os para esse lado uma chama brilhante e o estrondo das arcabuzadas.se sobre ele. na intenção de ir no encalço de La Mole naquele terreno escorregadio e escarpado.disse Maurevel . que tem arcabuz! . venha connosco.Atirou consigo à rua .disse também Cocunás. . que em breve alcançou. e como estamos no quarto andar.Então tu.gritou Maurevel.Atire-lhe o senhor.Tem razão . Deixem-me cá! . La Hurière! . sim! esperemos . achará mil para o lugar dele. .disse Maurevel. Mas no momento em que.É um que se safa . Mas Maurevel e La Hurière precipitaram. .Olhe que se tem saltado.sou montanhês.disse o estalajadeiro. e trazendo-o para o quarto: . fazendo pontaria.Está doido! . .Espere. quando um homem me insulta uma vez.Ou fugiu pelo telhado da casa contígua .exclamaram ambos a um tempo. . E desceram todos três a escada como uma avalanche. e enquanto esperamos.Qual! .

gritava: Volte-se, volte-se! ouviu-se a detonação de um tiro de arcabuz, assobiou uma bala aos ouvidos de Cocunás e o fugitivo caiu como uma lebre ferida na mais rápida carreira pelo chumbo do caçador. Cocunás ouviu um grito de triunfo atrás de si, voltou-se e viu La Hurière agitando a sua arma. - Ah! desta vez - bradou ele - estreei-me! - Sim, mas por uma unha negra que não me atravessas a mim de meio a meio! - Tome cuidado, meu fidalgo, tome cuidado! - gritou La Hurière. Cocunás deu um pulo para trás. O ferido levantara-se sobre os joelhos e, todo ele vingança, ia cravar o seu punhal em Cocunás, no próprio momento em que o aviso do estalajadeiro prevenira o piemontês. - Ah! vívora! - exclamou Cocunás. E, atirando-se ao ferido, enterrou-lhe três vezes no peito a espada até aos copos. - E agora - bradou Cocunás, deixando o huguenote debatendose nas convulsões da agonia -, a casa do almirante! a casa do almirante! - Ah! ah! meu fidalgo - disse Maurevel -, parece que lhe tomou o gosto!... - Palavra que sim - disse Cocunás. - Não sei se é o cheiro da pólvora que me embriaga, ou a vista do sangue que me excita, mas, coa breca, estou tomando gosto à carnificina. Isto é como que uma montaria aos homens. Nunca entrei senão em montarias aos ursos e aos lobos e, pela minha honra, a montaria aos homens parece-me mais divertida. E desataram a correr todos três. 59 VIII OS ASSASSINADOS O palácio que o almirante habitava Ficava situado, como dissemos, na Rua de Béthisy. Era um casarão no fundo de um pátio, com duas alas que davam para a rua. Um muro aberto num portão de grades dava entrada para o pátio. Quando os nossos três partidários do duque de Guisa chegaram à extremidade da Rua La Béthisy, que é continuação da Rua dos S. Germano L'Auxerrois, viram o palácio cercado de suíços, soldados e burgueses em armas; tinham todos na mão direita, ou espadas, ou chuços ou arcabuzes, e alguns, na mão esquerda, archotes, que derramavam nesta cena uma claridade fúnebre e vacilante que, seguindo o movimento impresso, se espalhava pelo chão, subia pelas paredes ou cintilava por cima desse mar vivo, onde cada arma lançava o seu lampejo. Em roda do palácio e nas Ruas Tirechappe, Étienne e Bertin-Poirée, estava em acção a obra terrível. Ouviam-se gritos prolongados, crepitava a mosquetaria e, de tempos a tempos, passava algum desgraçado, meio nu, pálido,

ensanguentado, saltando como um gamo perseguido num círculo fúnebre, onde parecia que se agitava um mundo de demónios. Num instante, Cocunás, Maurevel e La Hurière, assinalados de longe pelas suas cruzes brancas e acolhidos por gritos de boas-vindas, viram-se no mais compacto dessa multidão arquejante e apressada como uma matilha. Não poderiam certamente passar, mas algumas pessoas reconh ceram Maurevel e deram-lhe passagem. Cocunás e La Hurière seguiram-no; e puderam todos três introduzir-se no pátio. No meio do pátio, cujas três portas haviam sido arrombadas, estava de pé um homem em torno do qual os assassinos deixavam um espaço respeitoso e, encostado a uma espada desen bainhada, fitava os olhos numa varanda à altura de cerca de quinze pés e corrida diante da janela principal do palácio. Este homem batia o pé com impaciência, e de vez em quando voltava-se para interrogar os que estavam mais perto dele. - Ainda nada - murmurou. - Ninguém. É que o avisaram e fugiu. Que lhe parece, Gaspar? - É impossível, meu príncipe. - E porque não? Não me disse que um instante antes de nós chegarmos tinha vindo à porta um homem sem chapéu, de espada desembainhada na mão e a correr como se fosse perseguido, e que lhe haviam aberto a porta?. - Sim senhor; mas quase ao mesmo tempo chegou o Sr. de Besme, foram arrombadas as portas e o palácio cercado. O homem entrou, mas com toda a certeza não pôde sair. - Se me não engano - disse Cocunás a La Hurière -, está ali o Sr. de Guisa. - Não se engana, meu fidalgo. É o grande Henrique de Guisa em pessoa, que espera sem 60 dúvida que o almirante saia para lhe fazer o mesmo que o almirante fez ao pai. Todos têm o seu Martinho, meu fidalgo; e, graças a Deus, é hoje o nosso. - Olá! Besme! olá! - gritou o duque com a sua voz possante - então ainda não?. E com a ponta da espada, impaciente como ele, fazia chispar faíscas da calçada. Neste momento ouviram-se como que gritos no palácio, e depois tiros, e depois um grande tinido de armas, a que sucedeu novo silêncio. O duque fez um movimento para se precipitar dentro de casa. - Meu príncipe - disse-lhe Du Gast, acercando-se dele e detendo-o -, a dignidade de Vossa Alteza manda-lhe que não saia daí, e espere. -Tens razão, Du Gast, e obrigado! esperarei. Mas, na verdade, morro de impaciência e de inquietação. Ah! se ele me escapava!. De repente, aproximou-se a sapateada. os vidros do primeiro andar iluminaram-se com reflexos parecidos com os de um incêndio. A janela para que o duque tantas vezes levantara

os olhos abriu-se, ou melhor, saltou em pedaços, e apareceu na varanda um homem de rosto pálido e a gola branca suja de sangue. - Besme! És tu? Que há? que há? -Aqui está! aqui está - respondeu com firmeza o alemão que, baixando-se, se tornou a erguer. imediatamente, parecendo querer levantar um peso considerável. - Mas os outros? - perguntou o duque impacientemente. - Os outros onde estão? - Os outros estão dando cabo dos mais. - E tu? tu que fizeste? - Eu? vai já ver; recue alguma coisa. O duque deu um passo para a retaguarda. Neste momento pôde distinguir-se o objecto que Besme puxava para si com possante esforço. Era o corpo de um velho. Ergueu-o acima da varanda, deu-lhe por um instante balanço no parapeito e atirou-o aos pés do amo. O ruído surdo da queda, as golfadas de sangue que jorravam das feridas e salpicavam o chão à distância, causaram impressão sinistra ao próprio duque; mas este sentimento durou pouco, e a curiosidade fez com que cada um avançasse alguns passos e que sobre a vítima viesse bruxular a luz dum archote. Distinguiu-se então uma barba branca, um rosto venerando, e as mãos inteiriçadas pela morte. - O almirante! - exclamaram ao mesmo tempo vinte vozes, que se calaram imediatamente. - Sim, o almirante. Não há dúvida que é ele - disse o duque, aproximando-se do corpo para o contemplar com alegria silenciosa. O almirante, o almirante! - repetiram a meia voz todas as testemunhas desta horrível cena, empurrando-se uns de encontro aos outros e aproximando- se timidamente do velho derrotado. - Ah! pagaste, Gaspar! - disse o duque de Guisa, triunfante. - Fizeste assassinar meu pai, vinguei-o. E pôs o pé no peito do herói protestante. Mas os olhos do moribundo abriram-se a custo, a mão ensanguentada e mutilada contraiu-se pela última vez, e o almirante, sem perder a dignidade, disse ao sacrílego com voz sepulcral: - Henrique de Guisa, também um dia hás-de sentir sobre o teu peito o pé de um assassino. não matei teu pai. Amaldiçoado sejas! O duque, pálido e trémulo, mau grado seu, sentiu percorrerlhe o corpo um calafrio, passou a mão pela testa, como se quisesse expulsar a lúgubre visão; e depois, quando ousou olhar de novo o almirante, os olhos deste estavam fechados, a mão inerte, e às terríveis palavras que a sua boca acabava de proferir havia sucedido uma porção de sangue negro, que dessa boca escorrera para a barba.

61 O duque ergueu a espada com um gesto de resolução desesperada. - Então, Senhor? - disse-lhe Besme -, está satisfeito? - Estou, meu bravo, estou - replicou Henrique -, porque vingaste. - O duque Francisco, Alteza, não é verdade? - A Religião - replicou Henrique, com voz surda. - E agora - continuou, voltando-se para os suíços, soldados e burgueses que atrancavam o pátio e a rua - mãos à obra, amigos! Mãos à obra! - Viva o Sr. de Besme! - disse então Cocunás, acercando-se com uma espécie de adniração do alemão, que, continuando na varanda, limpava tranquilamente a espada. - Foi o senhor que lhe deu cabo da pele? - gritou La Hurière, extasiado. - Como foi, meu digno fidalgo? - Oh! muito simplesmente, muito simplesmente. Ele ouviu barulho, abriu a porta e atravessei-o com a espada. Mas creio que não é tudo, creio que Teligny apanhou o que quer seja. ouço gritar. E neste momento ouviram-se gritos de aflição dados por uma voz de mulher, e reflexos avermelhados iluminaram uma das salas que formavam a galeria. Viram-se fugir dois homens seguidos por uma longa fila de assassinos. Uma arcabuzada matou um; e o outro, encontrando no caminho uma janela aberta, e sem medir a altura, sem se importar com os inimigos que o esperavam em baixo, saltou intrepidamente para o pátio. - Mata, mata! - gritaram os assassinos, vendo a sua vítima prestes a escapar-se-lhes. O homem ergueu-se, apanhando a espada, que na queda lhe caíra das mãos, continuando a correr de cabeça baixa por entre a multidão, deitou a terra três ou quatro, atravessando um a espada, e, no meio do fogo das pistolas, no meio das imprecações dos soldados, furiosos de o haverem errado, passou como um relâmpago por diante de Cocunás, que o esperava jà de punhal na mão. - Apanhei-te! - gritou o piemontês, traspassando-lhe o braço com a lâmina fria e agreste. - Cobarde! - respondeu o fugitivo, batendo com a folha da espada na cara do seu inimigo por falta de espaço para lhe dar uma estocada. - Oh! com mil demónios! - exclamou Cocunás - é o Sr. de La Mole! - O Sr. de La Mole? - repetiram La Hurière e Maurevel. - Foi o que preveniu o almirante! - gritaram muitos soldados. - Mata, mata!. - bradaram de todos os lados. Cocunás, La Hurière e dez soldados correram em perseguição de La Mole, que, coberto de sangue e chegado ao grau de exaltação que é o último reduto do vigor humano, saltava apenas sem outro guia além do instinto. Atrás dele

esporeavam-no, e parecia que lhe davam asas os gritos dos seus inimigos. Às vezes assobiava- lhe aos ouvidos uma bala e imprimia-lhe de repente nova rapidez na carreira prestes a esmorecer. Não era respiração, não era hálito, o que lhe saia do peito, mas um estertor surdo, mas um uivo rouco. Dos cabelos escorriam- lhe suor e sangue, e caíam-lhe misturados no rosto. O gibão tornou-se-lhe em breve muito apertado para as pulsações do coração, e arrancou-o. A espada tornou-se-lhe em breve pesada de mais para a mão, e atirou com ela para longe. Por vezes parecia-lhe que os passos se afastavam e que ia escapar aos seus carrascos; mas, aos gritos destes, outros assassinos, que se achavam no seu caminho, e mais próximos, deixavam a sua luta sangrenta e acorriam. De repente, viu o rio, que corria silenciosamente à esquerda; pareceuque experimentaria, como o veado encurralado, um prazer indizível em se precipitar nele, a força suprema da razão o pôde conter. À direita ficava o Louvre, sombrio, imóvel, mas cheio de rumores surdos e sinistros. Pela ponte levadiça entravam e saíam capacetes e couraças que reflectiam em lampejos deslavados os raios da Lua. La Mole pensou no rei de Navarra, como tinha 63 pensado em Coligny. Eram os seus únicos protectores. Reuniu todas as suas forças, olhou para o Céu, fazendo o voto de abjurar se escapasse à carnificina, fez perder, com um subterfúgio, trinta passos à matilha que o perseguia, correu direito para o Louvre, lançou-se na ponte com os soldados, recebeu outra punhalada ao longo das costas e, apesar dos gritos de Mata! mata! que ressoavam por detrás dele e em volta, apesar da atitude ofensiva das sentinelas, precipitou- se como uma seta no pátio, pulou para o vestíbulo, galgou a escada, subiu dois andares, reconheceu uma porta e apoiou-se a ela batendo com os pés e as mãos. - Quem está aí? - murmurou uma voz de mulher. - Oh! meu Deus! meu Deus! - murmurou La Mole - lá vêm eles. ouço-os. ei-los! vejo-os. Sou eu! sou eu!. - Quem é? - tornou a voz. La Mole recordou-se da senha. - Navarra! Navarra! - gritou. Abriu-se imediatamente a porta. La Mole, sem ver, sem agradecer a Gillonne, irrompeu um vestíbulo, atravessou um corredor, duas ou três casas, e chegou por fim a um quarto alumiado por uma lâmpada suspensa do tecto. Por baixo de cortinas de veludo com flores-de-lis de ouro, num leito de carvalho esculpido, abria os olhos fixos de espanto uma mulher meia nua, apoiada a um braço. La Mole precipitou-se para ela. - Minha Senhora - exclamou - matam, estrangulam os meus correligionários! Querem matar-me, querem estrangular- me também! Ah! a senhora é a rainha. salve-me! E caía-lhe aos pés, deixando no tapete largo vestígio de

sangue. Ao ver esse homem pálido, abatido, ajoelhado diante dela, a rainha de Navarra levantou-se espantada, escondendo o rosto nas mãos e gritando por socorro. - Minha Senhora - disse La Mole, fazendo um esforço para se levantar -, em nome do Céu, não chame por socorro! porque se a ouvem estou perdido! Perseguem-me assassinos. Subiam a escada atrás de mim. Ouço-os. ei-los aí! ei-los aí! - Socorro! - repetiu a rainha de Navarra, fora de si socorro!. - Ah! a senhora matou-me! - disse La Mole, desesperado. Morrer por uma voz meiga, morrer por uma mão tão bela! ah! julgava-o impossível! Abriu-se a porta no mesmo instante, e precipitou-se no quarto uma turbamulta de homens arquejantes, furiosos, com os rostos manchados de sangue e de pólvora, e de arcabuzes, alabardas e espadas em punho. À frente ia Cocunás, de cabelos ruivos eriçados, os olhos azuis deslavados e extraordinariamente dilatados, a face retalhada pela espada de La Mole, que lhe havia traçado nas carnes um rego de sangue: assim desfigurado, o piemontês causava horror. - Coa breca! - exclamou - ele cá está! ele cá está! Ah! até que o apanhámos! La Mole procurou em torno de si uma arma e não a achou. Deitou os olhos para a rainha e viu-lhe desenhada no rosto a mais profunda compaixão. Então compreendeu que só ela podia salvá- lo; correu para ela e cingiu-a com os braços. Cocunás deu três passos para a frente, e com a ponta da sua comprida espada ainda fez furo no ombro do seu inimigo, e algumas gotas de sangue tépido e vermelho salpicaram con o orvalho os lençóis brancos e perfumados de Margarida. Margarida viu correr o sangue, sentiu estremecer esse corpo enlaçado no seu, e saltou com ele para o espaço que ficava entre a cama e a parede. Era tempo. La Mole, extenuado, era incapaz de fazer um movimento para fugir ou para se defender. Apoiou a cabeça livida no ombro de Margarida, e os dentes hirtos filaram, rasgando-a, a fina cambraia bordada que lhe cobria o corpo como uma onda de gaze. 64 - Ah! Senhora! - murmurou com voz moribunda - salve-me! Foi quanto pôde dizer. Os olhos, velados por uma nuvem semelhante à noite da morte, fecharam-se-lhe; a cabeça, pesada, caiu-lhe para trás, os braços estenderam-se-lhe, as pernas vergaram-lhe e tombou no chão sobre o seu próprio sangue, arrastando a rainha consigo. Neste momento, Cocunás, exaltado pelos gritos, embriagado pelo cheiro do sangue, exasperado pela carreira ardente que acabava de dar, estendeu o braço para a alcova real. Mais um instante, e a sua espada traspassaria o coração de La Mole, e talvez ao mesmo tempo o de Margarida. À vista do ferro nu, e mais

ainda talvez à vista dessa insolência brutal, a filha dos reis ergueu o corpo todo, e soltou um grito tão cheio de espanto, de indignação e de raiva, que o piemontês ficou petrificado por um sentimento desconhecido: é verdade que se esta cena se prolongasse, passada entre os mesmos actores, esse sentimento desfar-se-ia como a nuvem matinal ao sol de Abril. Mas de repente, por uma porta oculta na parede, entrou correndo um rapaz de dezasseis para dezassete anos, vestido de preto, pálido e des Há -Fra, minha irmã, espera! gritou ele - aqui estou! aqui estou! - Francisco! Francisco! socorre-me! - disse Margarida. - O duque de Alençon! - murmurou La Hurière, baixando o arcabuz. - Coa breca! um infante de França - resmungou Cocunás, recuando um passo. O duque de Alençon lançou um olhar em redor de si. Viu Margarida desgrenhada, mais bela do que nunca, apoiada à parede, rodeada de homens de fúria nos olhos, suor na testa e espuma na boca. - Miseráveis! - exclamou ele. - Salva-me, meu irmão! - disse Margarida, extenuada. Querem assassinar-me! Pelo rosto pálido do duque passou uma chama. Embora estivesse sem armas, sustentado decerto pela consciência do seu nome, avançou de punhos fechados contra Cocunás e os seus companheiros, que recuaram espantados diante dos lampejos que lhe jorravam dos olhos. - Também são capazes de assassinar um infante de França! Vejamos! - disse. E depois, como continuavam a recuar diante dele: - Venha cá, capitão da guarda, e mande-me enforcar todos estes facínoras! Mais aterrado à vista deste rapaz sem armas do ue se visse uma companhia de soldados, Coconaz correu para a porta. La Hurière descia as escadas como um gamo, e os soldados abalroavam uns com os outros no vestíbulo para fugirem o mais depressa possível, achando a porta demasiado-a pequena para o muito desejo que tinham de se verem no meio da rua. Neste meio-tempo, Margarida havia instintivamente deitado sobre o rapaz desmaiado a sua coberta de damasco e tinha-se afastado. É Depois de desaparecer o último assassino, o duque de Alençon voltou-se. - Minha irmã! - exclamou, ao ver Margarida salpicada de sangue - estás ferida? E correu para a irmã com uma inquietação que faria honra à sua ternura, se essa ternura não houvesse sido acusada de ser maior do que convinha a um irmão. - Não - disse ela -, não me parece; ou, se estou, é levemente. - Mas esse sangue. - disse o duque, percorrendo com as mãos

trémulas todo o corpo de Margarida - esse sangue donde vem? - Não sei - disse a princesa. - Um desses miseráveis pôs a mão em mim, e talvez estivesse ferido. - Pôr a mão em minha irmã? - bradou o duque. - Oh! se mo tivesses apontado, se me tivesses dito qual era, se eu soubesse onde o encontrava!. - Cala-te! - disse Margarida. 65 - E porquê? - perguntou Francisco. - Porque se te vissem a esta hora no meu quarto. - Um irmão não pode visitar sua irmã, Margarida? A rainha olhou para o duque de Alençon com uns olhos tão fitos e tão ameaçadores que o mancebo recuou. - Sim, sim, Margarida - disse ele -, tens razão; vou para o meu quarto. Mas tu não podes ficar só toda esta noite terrível. Queres que chame Gillonne? - Não, não, ninguém. Vai-te, Francisco, vai-te por onde vieste. O príncipe obedeceu; e, mal ele se sumiu, Margarida, ouvindo um suspiro que saía detrás do leito, correu a porta da passagem secreta, fechou-a à chave, e depois correu à outra porta, que também fechou, exactamente no momento em que um grupo de archeiros e de soldados perseguiam outros huguenotes que moravam no Louvre passava como um furacão pela extremidade do corredor. Então, depois de haver olhado com atenção em volta de si para ver se estava só, voltou ao espaço que ficava entre a cama e a parede, levantou a coberta de damasco que escondera o corpo de La Mole às vistas do duque de Alençon, puxou com esforço a massa inerte para o meio do quarto e, vendo que o desgraçado ainda respirava, sentou-se, encostou-lhe a cabeça aos seus joelhos e atirou-lhe com água ao rosto para o fazer tornar a si. Foi só então que, tirado pela água o véu de poeira, de pólvora e sangue que cobria o rosto do ferido, Margarida reconheceu nele o belo fidalgo que, cheio de vida e de esperança, tinha ido três ou quatro horas antes pedir a sua protecção para com o rei de Navarra e, deixando-a meditabunda, saíra deslumbrado pela sua beleza. Margarida soltou um grito de terror, porque o que sentia agora pelo ferido era mais do que compaixão, era interesse; e, com efeito, o ferido, para ela, não era um simples estranho, era quase um conhecido. Debaixo da sua mão, o lindo rosto de La Mole não tardou a reaparecer todo, mas pálido, desfalecido pela dor; com um tremor mortal, e quase tão pálida como ele, pôs-lhe a mão sobre o coração, e o coração pulsava-lhe. Então, estendeu essa mão para um frasco de sais que estava em cima de uma mesa próxima e deu-lho a respirar. La Mole abriu os olhos. - Oh, meu Deus! - murmurou - onde estou eu?

- Salvo! sossegue. Salvo! - disse Margarida. La Mole voltou com esforço o olhar para a rainha, devorou-a por um instante com os olhos e balbuciou: - Oh! como é linda! E, como deslumbrado, tornou a fechar imediatamente as pálpebras, soltando um suspiro. Margarida deu um grito. O mancebo empalidecera ainda mais, se possível, e ela julgou por um instante que esse suspiro era o último. - Oh! meu Deus, meu Deus! - disse - tende compaixão dele! Neste momento bateram violentamente à porta do corredor. Margarida fez um esforço para se levantar, sustendo La Mole por baixo dos braços. - Quem está aí? - perguntou ela. - Minha Senhora, minha Senhora! Sou eu, sou eu! - gritou uma voz de mulher. - Eu, a duquesa de Nevers. - Henriqueta! - exclamou Margarida. - Oh! não há perigo, é uma amiga, ouve, Senhor? La Mole fez um esforço e levantouse sobre um joelho. - Veja se se senta, enquanto vou abrir a porta - disse a rainha. La Mole pôs a mão no chão e conseguiu conservar o equilíbrio. Margarida deu um passo para a porta; mas estacou de repente, tremendo de terror. 66 - Ah! não vens só? - exclamou, ouvindo um rumor de armas. - Não; venho acompanhada de doze guardas que me deixou meu cunhado, o Sr. de Guisa. - O Sr. de Guisa! - murmurou La Mole. - Oh! assassino! assassino! - Silêncio! - disse Margarida. - Nem uma palavra! E olhou em redor de si para ver onde poderia esconder o ferido. - Uma espada! Um punhal! - murmurava La Mole. - Para se defender?... é inútil; não ouviu? Eles são doze, e o senhor é um. - Não para me defender, mas para não lhes cair vivo nas mãos. - Não, não - disse Margarida -, não, salvá-lo-ei eu. Ah! aquele gabinete! Venha, venha. La Mole fez um esforço e, sustido por Margarida, arrastou-se até ao gabinete. Margarida fechou a porta e, metendo a chave na algibeira, segredou-lhe pelo buraco da fechadura: - Nem um grito, nem um suspiro, e está salvo. Depois, pondo um capote, foi abrir a porta à sua amiga, que se lhe atirou aos braços. - Ah! - perguntou ela - não lhe aconteceu nada, minha Senhora? - Nada - respondeu Margarida, cruzando o capote para que não se vissem as nódoas de sangue que lhe sujavam o penteador.

Creio que não . instalou os seis guardas no corredor e beijou a duquesa. . Estes herejes produzem muito. começou a ter medo e a tentar voltar prudentemente para a hospedaria. e será dos nossos. que.Diga lá.Oh.Do Louvre.E onde vão? . onde residia na ausência do marido. mas.disse La Hurière.disse Maurevel. de Cocunás .replicou La Hurière -. que a tarefa não o comprometa. e Cocunás acabava de sair do Louvre. meu Deus! à Rua Montorgueil. o outro à do lobo. o senhor conhece os lugares bons. ainda assim. Mas. precipitara-se. e eu quero ir também. .Tanto melhor.O Senhor Duque de Alençon não é senão de quem lhe interessa pessoalmente. Margarida não se atreveu a recusar.Donde vem? . uns inteiros. não vai com essa gente. porque ele ia bem. voltou para o palácio do duque de Guisa.disse uma voz que fez estremecer Maurevel -. em todo o caso.Então? . 67 IX OS ASSASSINOS Cocunás não tinha fugido.Oh! eu tenho um bico-de-obra. com os outros seis. quando desembocava da Rua da Árvore Seca para a Rua d'Averon. outros aos pedaços. ..O Senhor Duque de Alençon. . . .Ah! é o nosso piemontês! . La Hurière. como o Senhor Duque de Guisa me deu doze guardas para me acompanharem ao seu palácio. Resultou daí que La Hurière estava já na Praça de S. que se baptizara a si mesmo com o nome de matador real. Germano L'Auxerrois. onde. e não pode tardar aí. . meu estalajadeiro? E que diabo fez do nosso fidalgo piemontês? Não aconteceu desastre? Era pena.Quem? . Sr. deixo seis a Vossa Majestade. ponha-lhe tratar os seus dois irmãos mais velhos como huguenotes. mas. Seis guardas do duque de Guisa valem mais esta noite do que um regimento inteiro do rei. . a tanto.E o senhor onde vai? . La Hurière não tinha fugido.É o Sr. Um desaparecera à maneira do tigre. deparou com um grupo de suíços e de caçadores a cavalo: era o que Maurevel comandava.Julgava que me seguia. devo dizer. . há lá um ministro huguenote do meu conhecimento que tem mulher e dois filhos. e não vá sem mim .acabou já? Volta para casa. Hurière? . vendo-se só com o seu arcabuz no meio dos cadáveres que caíam das janelas. nos receberam cruelmente. retirara. Não é dos nossos? . .exclamou este. Há-de ser curioso. e não preciso de tamanho cortejo.

linda mulher. A caminho! a caminho! . aí.Mas onde diabo nos conduz? .Oh! eu . que é difícil apanhá-lo.Diga-me . depois de Teligny. Tenha paciência. porquê? .Conduzo-o a uma expedição brilhante e ao mesmo tempo útil.excelente ocasião para se ver livre da dívida! . não lhe acertei.Mas o senhor diz que vem do Louvre.. esse figurão parecia-me um carácter muito rancoroso.Como? . e chegavam à Rua Saint-Avoie. coa breca! Ainda não matei senão três ou quatro. 68 . e seria capaz de me não perdoar toda a vida. ..Quer então vir comigo? .Eu enviei-lhe um tiro de pistola no momento em que ele apanhava a espada no pátio do almirante. Então o seu huguenote tinha-se refugiado lá? . . Quem quiser afogar esses miseráveis parpalhotes.Oh. E vi-o cair nos braços da princesa Margarida. a quem esta longa marcha sem resultado começava a enfadar. antes de abrirem os olhos. Na Rua do Chaume é que é o negócio. não sei como foi. mas. que trago para isso na algibeira.disse Maurevel . ao qual meu pai me recomendou que entregasse cem dobrões.acertei: dei-lhe nas costas uma espadeirada tal que a folha da espada ficou molhada a cinco polegadas de distância da ponta. . há-de atirá-los à água como os gatos. os caçadores a cavalo e os suíços tomaram a Ferraria enquanto Maurevel. Destacaram-se três suíços e vieram juntar-se a Maurevel. a Rua do Chaume não é perto do Templo? . depois dos príncipes huguenotes. não dizia que ia algures?.. lá mesmo! . um tal Iamben Mercandon. não podia oferecer-lhe coisa melhor. Os dois grupos marcharam ao lado um do outro até às alturas da Rua Tirechappe.O que eu quero é não estar parado.Aí tem! . dê-me três homens e vá com o resto acabar com o seu ministro.disse Maurevel ao comandante da força -. e quando esfrio dói-me o ombro. e depois.Cos demónios! você corre tanto. Depois do almirante. meu Deus! sim. La Hurière e os três homens seguiam pela Rua Trousse-Vache. eu desviei-me um pouco da linha recta para ir atirar ao rio com um terrível rapazote que gritava: Abaixo os papistas! Viva o almirante! Desgraçadamente.perguntou Maurevel. Cocunás. coa breca! Mas não se me daria de ter a certeza de que estava morto.Capitão .É porque mora aí um antigo credor da minha família.É. Mas.perguntou Cocunás -. e estamos aqui estamos lá. .disse Cocunás . .disse Cocunás. . . creio que o patife sabia nadar.

Exactamente! O senhor La Hurière.E se vier para a rua? . será com algum dos filhos ou dos sobrinhos.. está toda a gente a dormir.É tal qual .. O Sr. ou o diabo me leve! O facto é que o próprio Palácio de Guisa parecia tão sossegado como nos tempos vulgares. isto é. Maurevel parou. . não é assim? . Entregue o seu arcabuz ao Sr. pelo que vejo. há-de ser. e avise de Mouy do que se passa. Mercandon é huguenote? . à esquina da Rua do Petit-Chantier e da dos Quatro Filhos.continuou Maurevel. o senhor também tem um credor no Bairro do Templo. fingindo-se huguenote. ressoando no silêncio da noite.Aqui está a casa da pessoa que procuramos . pedir-Lhe-ei que meça a sua espada com a minha. 69 .Como! uma casa que parece dormir um sono tão sossegado.Por minha alma! é proceder como um bravo . as pancadas.disse Cocunás . há uma hora que ele o está namorando. parece que se está na província. .disse Cocunás -.Ah! ah! .Na verdade . La Hurière foi sem replicar bater à porta. . eu não podia deixar de vir aqui.percebo. e eu tenciono fazer o mesmo exactamente com Lambert Mercandon. de Cocunás.disse La Hurière. Se lhe abrirem a porta.Como os senhores me acompanham. . estava cheio de soldados. . . Um pouco além do Palácio de Guisa.É hoje o dia de ajustar as contas antigas. . Essas cabeças recolheram-se imediatamente. isto é.Que palácio é esse com um pavilhão para a rua? . e só uma luz brilhava por detrás das gelosias da janela principal do pavilhão que havia chamado a atenção de Cocunás quando entrara na rua.Caluda! chegamos..disse Cocunás -. uma vez que vim para Paris tento o patrocínio do grande Henrique. fizeram abrir as portas do Palácio de Guisa e sair algumas cabeças pelos postigos: viu-se então que o palácio estava sereno à maneira das cidadelas. e se for muito velho. peça para falar ao Sr.perguntou La Hurière. coa breca! está tudo muito sossegado para estes sítios.Oh! oh! . vai utilizar a cara de homem de bem que o Céu Lhe deu por equívoco. . adivinhando . o mais que se ouve é o rumor das arcabuzadas.disse Cocunás . . de Mouy.Se vier. . meu caro. .Suba.percebo. . e virá para a rua.disse ele. todos nós a procuramos. .Da pessoa que o senhor procura. ele é valente. Todas as janelas estavam fechadas.O Palácio de Guisa. batendo à porta dessa casa. Mas.

.gritou esse homem.. Ah! não devia ter deixado os meus bravos camaradas. e soprando a mecha para se certificar de que estava acesa: . de Mouy. . de Mouy? .continuou La Hurière . também está avariada? Cocunás soltou uma espécie de rugido. .E a cara .perguntou Cocunás.Então mora ali o Sr. . venha! .exclamou de Mouy . amigo. Mas eu também gostava de me bater. Muito daria eu para que Lambert Mercandon estivesse aqui para servir de segunda testemunha ao Sr.segredou aos suíços.perguntou o estalajadeiro.exclamou ele .perguntou Maurevel -. . . . que amabilidade! proporcionar-lhe ocasião de jogar a espada debaixo dos olhos da sua bela! Então seremos testemunhas do duelo. com voz carinhosa. Estrangularam o almirante. .Ah! .É ele .exclamou Cocunás . .Quem está aí? . .Sou eu. tirando o arcabuz das mãos de Cocunás.murmurou Maurevel. La Hurière continuava batendo à porta. em ceroulas e sem armas. E.Não.Vem à rua. lá vou! Espere-me. enquanto Cocunás se cosia com a parede. vem à rua! . que se meteram para um canto.lá sai a Lua de uma nuvem para ser testemunha deste duelo. La Hurière . andam matando os correligionários nossos irmãos.Olha. .o senhor não sabe o que se passa?. mostrando com a mão a casa onde La Hurière continuava a bater. . e algumas súplicas ternas. sim. Lá vou.certamente do que se tratava. e na varanda apareceu um homem de barrete de dormir. Tenho o ombro a arder.acrescentou para o estalajadeiro.bem desconfiava eu de que se tramava o que quer que fosse para esta noite. que se havia retirado para o grupo . pela qual saíram alguns gritos de mulher aterrada.Coa breca. o Sr. é a casa da amante dele. sem tornar a fechar a janela. e depois. que há? .Ah! é o Sr. estremecendo de alegria.Oh! . . abriu-se uma janela do primeiro andar. de Mouy? . se não fosse isso. de Mouy procurou o seu capote e as suas armas.é provável que La Mole esteja morto.toma lá outra vez o teu arcabuz.murmurou Maurevel.Coa breca! .. Pouco depois.Coa breca! .Estejam vocês com atenção! . Maurevel fez sinal aos suíços. eu era capaz de voltar ao Louvre para acabar com ele. Venha depressa em socorro deles. pálido de alegria.

A ordem de batalha de Maurevel foi mudada desde que viu que de Mouy não sairia. vendo que nada vinha: .O Sr. vejo brilhar a mecha de um arcabuz! É uma cilada! . Sr. De Mouy. Avancem vocês continuou. Eu posso decerto matar aquele sujeito . estacou.mas aquele sujeito pode também matar-me ao mesmo tempo. fazendo sinal aos suíços para que se chegassem à porta -.Oh! oh! . de Mouy só por si vale dez homens. Ora. e não nos há-de dar pouco que fazer a nós seis para nos vermos livres dele. olhando para estes preparativos . esperou que o inimigo aparecesse de novo à janela. que havia entreaberto já a porta.disse Maurevel.Então? . Avisador. Aqui estou. . . com alguma certeza. La Hurière guardou silêncio. correndo o fecho. Não teve que esperar muito.Sobe. por um resto de cavalheirismo. reflectiu prontamente que as balas do huguenote não tinham que andar mais para chegarem à rua do que a bala do seu arcabuz para chegar à varanda.disse . que já fazia pontaria para ele.parece que a coisa não se passa como eu esperava. a fim de lhe darem para baixo quando ele sair. De Mouy avançou. De Mouy deitou um olhar em redor e avançou furtando o corpo. que esqueceu o seu arcabuz à minha porta. que me quer? Ah! . quando a senhora.disse Cocunás consigo . Maurevel e La Hurière avançavam nos bicos dos pés.replicou resmungando a voz do mancebo .Vejo luzir espadas.Ora esta! . esperem! .Esperem. estalajadeiro de profissão. esta reflexão determinou-o a retirar-se e a buscar um abrigo à esquina da Rua de Braque. a linha que a sua bala devia seguir para chegar a de Mouy. não era soldado senão eventualmente. precedido de duas pistolas de comprimento tão respeitável que La Hurière. muito afastada para poder ter dificuldade em achar aí. de arcabuz em punho.continuou de Mouy . como um homem que se prepara para um duelo. Cocunás esperou um instante. enquanto que. principalmente à noite. trancando-a e.vamos ver o que isto quer dizer. em que já não pensavam.disse ele com os seus botões . e La Hurière. mas.parece. Já se ouvia o ruído da tranca que de Mouy tirava. Cocunás ficava no seu lugar. Maurevel não respondeu e os três suíços deixaram-se estar quietos.Oh! oh! . e depois.amigos ou inimigos. .aquilo é que é um bravo! . Maurevel e La Hurière.disse Cocunás. . mestre La Hurière. não vêem que estou à espera?. quem quer que sejam. como no fim de contas. sobe! . vendo que ninguém .70 . E fechando de novo a porta. Os suiços tinham saído do seu esconderijo para tomarem lugar ao pé da porta. apareceu também na varanda e soltou um grito terrível ao ver os suíços. Os suíços foram postar-se do outro lado da rua.gritou a senhora. tornou a subir.

em vez de voltar as costas! Este senhor aceita. ou. olhe! aí tem a prova. achando-se sem armas. bom. Sr. a cada tiro de pistola ou .Está chamando por mim. Rua do Chaume. Oh! coa breca! avance. que ia bater ao Palácio de Guisa para aí buscar um reforço. fazendo sinal a um homem já velho que.Acuda-me. que à vista desta algazarra estremecia de prazer e esquecera o seu credor.. fazendo pontaria para Maurevel. de archote na mão. o assassino de meu pai! Maurevel. procurava ver alguma coisa nesta confusão. atirado para o meio do grupo. . que. de uma janela que acabava de se abrir defronte do Palácio de Guisa. avançou até ao meio da rua e. nós não estamos aqui para um assassínio. de Mouy viu apontar para si o arcabuz de La Hurière. . meu bravo Mercandon! . E.exclamou de Mouy. que deseja bater-se com o senhor para terminar cavalheirosamente uma questão antiga.Sr. deixou o seu posto. Sr. de Mouy? . os guardas que tinham conduzido ao palácio 71 a duquesa de Nevers. é com todos os protestantes! E. Isso é consigo? . saíram acompanhados de três ou quatro gentis-homens com os seus pajens e avançaram para casa da amante do jovem de Mouy. tirou-lhe o chapéu com uma bala. disse-lhe: . enquanto. neste momento. enquanto Maurevel. como pode crer.. mas para um duelo. de Mouy. O tiro partiu. aos gritos de Maurevel.sustentava a conversação encetada por de Mouy. tirando o chapéu.Maurevel? . o matador real! Oh! se aceito!. pelo menos com armas inúteis. O facto é que.exclamou Cocunás. .Maurevel. Ao ruído da explosão. segundo a índole pacífica ou belicosa dos moradores. de Mouy. Entretanto começavam a abrir-se as janelas nas proximidades e. diligenciava deitar fogo à casa.Mercandon! . tornavam-se a fechar ou cobriam-se de mosquetes e arcabuzes. cada um de nós tem um homem com quem se haver. mas a quem esta apóstrofe de de Mouy o lembrava Mercandon. logo que se arrombaram as portas. de Maurevel. e a bala foi quebrar um vidro por cima da sua cabeça. é com o senhor.É comigo.exclamou de Mouy . Eu acompanho um dos seus inimigos. porque as suas pistolas estavam descarregadas e os seus adversários fora do alcance da espada. Segundo tiro de pistola.gritou o velho. agachou-se na varanda. se travava um combate terrível contra um só homem. fez cair morto o soldado que estava mais perto de Maurevel. é isso! Ah! mora aqui. após o que. . E enquanto a gente do Palácio de Guisa metia dentro as portas da casa onde estava de Mouy. mas o mancebo teve tempo de se agachar.

trazendo por um braço a sua amante. meter dentro a porta de Mercandon. ele. sem fazer caso desse esforço solitário. recolheu-se e fechou as portas do palácio. foi apanhado nessa árdua tarefa. que não acabara ainda de arrombar a porta de Mercandon. chamejante pelo movimento de rotação que ele lhe imprimia. tendo chegado à . a fazer recuar a gente de Maurevel e os do Palácio de Guisa. acabara por sair como verdadeiro herói da sua casa. Esgrimiu da direita para a esquerda. Maurevel! Maurevel. insultando-o com os mais injuriosos epítetos: Chega-te. pedia para ambos os lados que o poupassem. que acabaram por se acantoar no palácio donde tinham saído. De Mouy aproveitou-se desta circunstância. Neste momento apareceu Mercandon. tornava a ganhar o terreno perdido. e voltava a aproximar-se da casa cercada. todo esse bairro deserto e escuro se viu iluminado como às horas do dia. repelido por de Mouy para Cocunás. Cocunás. i com os seus criados e os seus amigos. Então. começou não só a defender-se. repelida. dando em amigos e inimigos. A sua espada. embora empregasse nisso toda a diligência. Cocunás tentava com o auxílio de uma pedra. meia nua e quase sem sentidos. caiu de rosto para baixo. arcabuzava da janela o mais que podia. À proporção que a sua espada traspassava um peito e o sangue morno lhe sujava as mãos e a cara. com gritos tão terríveis que dominavam todo aquele barulho. mas também a atacar. No meio da luta. ébrio de sangue e de ruído. reconheceu-o pela bandeira branca como um assassino. meteu pela Rua do Paraíso e desapareceu. Encostando-se então à parede. Partiu o tiro. A resistência dos huguenotes foi tanta. conforme a lua lhe prateava a folha ou um archote lhe fazia reluzir a humidade do sangue.a cada espadeirada. porque. De Mouy depois de um combate terrível na escada e no vestíbulo. acabavam de carregar furiosamente e começavam. com medo de que os sitiassem e aprisionassem. onde estás tu! Apareceu. traçava círculos brancos ou vermelhos. ventas abertas e dentes cerrados. La Hurière soltou um grito. até alcançar em roda de si um largo espaço desimpedido. La Hurière. deixou cair 72 o arcabuz e. sustentados pelo fogo das janelas. que estava a arder. do Palácio de Montmorency seis ou oito fidalgos huguenotes. que. e povoado como um formigueiro. estendeu os braços. Cocunás. não cessava de gritar. que não o reconhecia e o recebia à ponta de espada. enfim na rua. deitava um inimigo por terra. que a gente do Palácio de Guisa. de olhos dilatados. depois de haver diligenciado chegar-se à parede para se agarrar ao quer que fosse. e tirando a espada da bainha. e segurando um punhal com os dentes. Maurevel fugira.

exclamaram a uma voz. exactamente . e esqueceram-se de o pedir ao preboste. seguido pelo filho e pelos dois sobrinhos. com o vigor dos cabritos-monteses que tantas vezes perseguira nas montanhas. e sobre o piemontês. O que notou foi que os ouvidos lhe zuniam menos.quero ajustar as nossas contas. um instante! . Tão depressa sossegou da surpresa. Para prender a gente é preciso um mandado de prisão. . e atemos-lhe as mãos . nada vira. Uma mulher! . caiu-lhe aos pés um ramalhete. .. a janela debaixo da qual Cocunás procurava abrigo. apareceu-lhe uma mulher. Abriu-se no mesmo instante.disse o velho aos rapazes que o acompanhavam. e em torno de si casas a arder. Cocunás estava no meio da rua. companheiro de teu pai? .se conheço!. em vez de um inimigo. tome sentido! .Pois. cruzou a espada com o mancebo que estava mais próximo dele e deitou-lhe o pulso abaixo. Cocunás levantou-se. em quem julgava reconhecer La Hurière.Ó miserável! . Foram curtíssimas as tréguas porque. e receando ser cercado por esses quatro homens que o atacavam a um tempo. abriu-se a porta da casa que ele debalde tentara arrombar com a pedra. temendo um ataque por esse lado. não é assim? . . deu um salto. . que tratava de ganhar fôlego. a coragem se torna loucura. em vez da arma homicida que se preparava para combater.Um instante. E.. . nada ouvira.Sim. mas não com tanta rapidez que o punhal .não me conhece? .Agarremo-lo.disse Cocunás. Cumprimentou a dama com a espada e curvou-se para apanhar o ramalhete. caiu o velho Mercandon. principalmente para os naturais do Meio-Dia. um pulo para trás e ficou encostado à parede do Palácio de Guisa. .Tome sentido.respondeu Cocunás . no momento em que ia aproximar-se desse homem. como dizes.disse .Ei-lo aqui! ei-lo aqui! . mas. rangendo. pôs-se em guarda e tornou-se motejador. e abaixando a ponta da espada. não viu ao pé de si senão um homem deitado.disse Cocunás rindo. que as mãos e o rosto se lhe secavam alguma coisa. de face mergulhada num regato de sangue. . deu.exaltação em que.disse. seu credor.Um ficou pronto! . queres-me mal? a mim o amigo.exclamou o velho huguenote . e que por seu mando correram para a parede.exclamou a dama. bravo católico.Ah! ah! Tio Mercandon! . dizendo estas palavras.E seu credor. O desgraçado recuou gritando.

Anda. e uma velha. anda! . Em frente de Cocunás. tinha deitado fora a pistola descarregada e. velho de sessenta a sessenta e dois anos. 73 . do outro pelas palavras de alento. tranquilizou-a com o mesmo gesto e atirou-se ao segundo sobrinho. . mas habituado às armas mas mais irritado do que enfraquecido pelas três ou quatro arranhaduras que havia recebido.Espere. A cena estava.mas cuidado com a gente! . Quase ao mesmo tempo. Cocunás agradeceu-lhe. por socorro. Cocunás. minha Senhora! disse Cocunás. e a outra com os vasos.Ora esta! é um inferno de mulheres! umas a meu favor e outras contra . bravo cavaleiro! . por conseguinte. . A dama da janela soltou um grito. ferido sim. mas em todo o vigor dos seus vinte e quatro anos. ensoberbecido com a sua dupla vitória. embriagado de . não ajoelhara senão para evitar a bala.Obrigado. que lhe fez frente. rapaz de dezasseis a dezoito anos. pálido.gritou o mancebo. a mãe do rapaz. muito mudada e aproximava-se do desfecho. e agitava. armado somente de um punhal e de um arcabuz descarregado também.disse a dama do Palácio de Guisa.disse o velho Mercandon .disse Cocunás . excitado de um lado pelas ameaças. obrigado! .Coa breca! acabemos com isto. que lhe bateu por cima do joelho. inútil. Enfim.gritou a dama do Palácio de Guisa. tinha na mão um pedaço de mármore e preparava-se para atirar com ele. gritava. . com efeito. mulher. . minha mãe. Se isto continua. espere! . . . já não restavam senão Mercandon.Vou pedir socorro. A dama soltou um grito agudo. atirou-lhe com um vaso de flores. . partiu da janela da casa de Mercandon um grito de raiva. Sr.disse Cocunáz. louro e enfezado. Neste momento. que caiu sobre um joelho. uma espada com metade do tamanho da do piemontês. este. na janela defronte. o pai. tremendo. . que pela cruz e pela banda branca reconheceu Cocunás como católico. Uma velha. mas Cocunás tornou a levantar-se. de Cocunás.O melhor é assistir a este espectáculo até ao fim. Cocunás caiu-lhe em cima com a rapidez do tigre e traspassou-lhe o peito com a espada. o filho do velho Mercandon atirou quase à queima-roupa um tiro de pistola a Cocunás. mas escorregou no sangue à segunda investida.uma atira-me com flores.Bom! . e o filho. . se ele a interessa.Não vale a pena incomodar-se por isso.Vou mandar atirar tiros para as janelas.Muito bem! muito bem. e verá como o conde Aníbal de Cocunaz arranja os huguenotes. são demolidas as casas. que foi esburacar a parede a dois pés da bela espectadora.do segundo sobrinho lhe não furasse o capote e não lhe roçasse no outro ombro.

. carregando o sobrolho e chegando ao peito do adversário o ferro acerado e cortante. não o mate! . para paralisar o duplo ataque do velho Mercandon.a esperança única da nossa velhice! Não o mate. como o último dos Horácios.morrer. de Cocunás! .Perdão! perdão. e o seu nome figurará todas as manhãs e todas as noites nas nossas . Então. . e da mãe do rapaz. sentiu duplicar as forças e. Cocunás. agarrou no seu adversário em peso. Mas Cocunás.disse a meia voz a mulher do Palácio de Guisa -.exclamou o velho. tenho dez mil escudos de ouro: dar-lhos-ei.Senhor .bradou o pai. . suplicou. voltando-se para a senhora que estava na janela do Palácio de Guisa .gritou Cocunás às gargalhadas . . tenho as jóias de minha família: serão suas.continuou Mercandon.É meu filho! meu filho! . para que os projécteis atirados das janelas pudessem alcançá-lo com mais certeza.respondeu Cocunás. e prontamente perguntou ao rapaz: . e prometo-lho.Oh! Senhora Duquesa! .pólvora e sangue.gritou a mãe . Mercandon diligenciou repelir Cocunás. angustiosamente . Dois golpes bastaram para lha fazer saltar das mãos.murmurou o rapaz. . Então Mercandon cessou de ameaçar. . tão doloroso e tão profundo. de mãos postas -.Nesse caso. correu para ele e cruzou em cima da sua espada pequena a sua terrível e ensanguentada partasana. exaltado pela ideia de que con batia debaixo dos olhos de uma mulher que lhe parecera tão superior como a sua jerarquia lhe parecia incontestável.E eu tenho o meu amor . não o mate! . acudam-me! E a voz começou a perder-se-lhe num estertor surdo.Morrer? . que diligenciava atravessá-lo com o punhal. alumiado pela reverberação de uma casa em chamas. o meu querido filho? E ressoou um grito de mãe.Ah sim?.Mete-me as costelas dentro! Acudam-me. tenho em casa a obrigação de dívida 74 assinada por seu pai: dar-lha-ei.que não o mate! E então que me quer ele fazer com a sua pistola?. que fez vacilar por um momento a selvagem resolução do piemontês.perdão! é o meu único filho! .disse .interceda por nós. apresentando-o a todos os golpes como um escudo e sufocando-o com o seu braço hercúleo.exclamava o rapaz. tens de morrer! . mas não o mate.És huguenote? Sou . Senhor.Acudam-me! acudam-me! . vendo o rapaz hesitar. Sr. que tentava esmigalhar-lhe a cabeça com a pedra que se preparava para lhe atirar. Cocunás reflectiu por um momento. . .

de Cocunás. e ajoelhou também. rojando-se aos pés de Cocunás.gritaram Mercandon e a mulher.repetiu o rapaz. O pai foi o primeiro que obedeceu. .Então morre . Cocunás atirou aos pés do velho a bolsa que. .abjura.disse a dama do Palácio de Guisa. antes de partir. Dizendo estas palavras.disse o rapaz. E. Cocunás percebeu o movimento. O mancebo soltou um grito.gritou Mercandon.disse o rapaz. .Seja .Abjurem todos a um tempo! .berrou Mercandon .Palavra que não . .Ah! carrasco! . .. levantando a adaga -. uma enorme massa fendeu o ar assobiando.Sou protestante .De joelhos então! e que teu filho repita. ou por acaso ou por cálculo. ergueu-se convulsamente num joelho e tornou a cair.orações. veio bater em cheio no chapéu do piemontês. três almas e uma vida! .gritou a mãe ..disse a dama do Palácio de Guisa. tome cuidado! . .gritou a mãe. fingindo que não.Não nos deixes morrer sós na Terra. Mercandon e a mulher viram brilhar a lâmina terrível como um relâmpago por cima da cabeça do filho. . já que não queres a vida que essa linda boca te oferecia. . . Mas.Ah! traidor! E cravou-lhe a adaga no pescoço. . .E tu aí tens a tua morte! . palavra por palavra. . mal viu a arma ao alcance da mão. no momento em que o rapaz tocava com as pontas dos dedos contraídos o punho da espada.Seja .Por um Credo.. o pai lhe entregara para pagar a dívida ao credor. aí a tens. Sr. sem cessar de repetir as palavras de Cocunás.Tome cuidado. Mas. Mas.. -Abjura.e a prova.Meu Filho! meu Oliveiro! .disse Cocunás . dizendo: . morre.gritou Cocunás. da janela. abjura!..Então que se converta! . o jovem Oliveiro ajoelhara junto do local para onde lhe tinha voado a espada. estendeu o braço para o apunhalar. meu querido filho! .. Cocunás começou então a ditar-lhe em latim as palavras do Credo. . a oração que eu vou recitar. morto. antes que Cocunás pudesse voltar a cabeça para obedecer a este aviso ou para fugir a esta ameaça.Estou pronto .exclamou Cocunás.dás cabo de nós para nos roubares os cem dobrões que nos deves! . . correu para ele e deitou-o ao chão.

e entrou trazendo numa das mãos a caixa e na outra um jarro de prata dourada e uma toalha de fino pano de Holanda. enquanto aquela a quem chamara Senhora Duquesa. para Cocunás sem sentidos. Mas diga-me. Nas outras feridas não vale a pena falar.Oh. . contemplava os vestígios de sangue espalhados pela cama. que. Gillonne obedeceu. pela minha alma! juro.Cala-te. La Mole deixou-se cair de joelhos. MISSA OU BASTILHA Margarida.lhe que está aqui em segurança. com inflexão de voz que indicava a suprema importância do silêncio. bela de uma beleza terrível à luz do incêndio. vendo brilhar as partasanas e as espadas. La Mole conseguira levantar-se e chegara-se à janela. Gillonne! . aturdido. porque.Vamos ver isso . Mas entrando aí. 76 MORTE.Não se agite por esse modo! . Gillonne . surpreendido. esse!. se debruçava da janela para gritar aos recém-chegados.Ah. traz a minha caixa de bálsamos.exclamou ao ver a rainha. como dissemos. tentando fixar em dores principais a dor errante que sentia por todo o corpo -. esse. . porque. Gillonne calou-se. um cavalheiro de gibão roxo. Sim. creio que recebi um golpe de adaga no ombro e outro no peito.disse Margarida -. deslumbrante de pedrarias e diamantes.disse La Mole.Ali! ali! defronte de mim.Ainda lhe corre o sangue. pelos móveis e pelo tapete. sem que pudesse ouvir os gritos de alegria e de aflição que se soltavam da direita e da esquerda. é uma divindade! . . Gillonne.Gillonne. viu Gillonne. derrancado. . mas abriu-se nesse momento a porta do Palácio de Guisa. como está pálido. fugiu.Não tenha receio .disse Margarida. Achara à mão um pequeno punhal.Minha Senhora . abriu a porta do gabinete e mostrou com o dedo o mancebo à sua aia. e o velho. . palpitando. .Oh. havia fechado a porta e entrado para o seu quarto. o desgraçado .75 partiu-lhe a espada na mão e estirou-o no chão. minha Senhora! é para mim mais que uma rainha. Margarida tirou então da algibeira uma chavinha dourada. dos que as senhoras usavam nesse tempo. Mercandon correu imediatamente.disse Margarida. Oh! vê.disse a rainha Margarida -. inclinada com terror para a porta do gabinete. minha Senhora! . . com um braço estendido para Cocunás: . de punhal na mão. levantando-se em auxílio. onde é que está ferido? . minha Senhora! então ele morreu? . e agarrara-o ao ouvir abrir a porta.exclamou Margarida.Ajuda-me a levantá-lo. .

fez estancar o sangue que saía do ombro e do peito de La Mole. Margarida. com outro punhal. ou melhor. agarrando no punhal que se soltara da mão de La Mole. enquanto Gillonne. não posso consentir.De um cirurgião católico. perdendo os sentidos segunda vez.Podemos salvá-lo.tornou Gillonne.acabou por perder as forças.que nós. A do ombro era profunda. . que podia começar pela compaixão e acabar pelo aborrecimento. fechou os olhos e deixou cair a cabeça para trás. todo cheio de pudor feminino. que é rainha.continuou a rainha. com uma expressão que la Mole compreendeu e o fez estremecer. tão bela e tão amada.balbucíou -.Minha Senhora . . com uma voz e um sorriso de indizível meiguice . . Então. 77 Margarida cruzou o capote sobre o penteador de renda todo salpicado de sangue. pelo menos no dizer dos lisonjeiros.perguntou a rainha.Ignora então . sujar as mãos num sangue indigno como o meu. Oh! nunca! nunca! E recuou respeitosamente. valemos tanto como os melhores cirurgiões do mundo. .disse Margarida. rasgava as mangas do mancebo. sondava a ferida com toda a delicadeza e perícia que mestre Ambrósio Paré poderia desenvolver numa circunstância daquelas. minha Senhora. recordou a La Mole que tinha tido nos braços e apertado contra o peito essa rainha tão invejada. . e seria um crime deixá-lo morrer. Cambaleou. Esta luta não serviu senão para lhe esgotar de todo as forças. porque o nosso dever. somos ensinadas a conhecer o valor das plantas e a fazer bálsamos. enquanto Margarida. Gillonne.O seu sangue.disse la Mole .prefiro morrer a ver a senhora. como mulheres e como rainhas. não pode entregar-me aos cuidados de um cirurgião? . e essa recordação cingiu-lhe de um rubor fugitivo as faces lívidas.Oh! . infantas de França. foi.estou envergonhado. . mãos à obra! La Mole queria tentar resistir ainda. meu fidalgo .Tenha paciência . quer?. Este gesto.exclamou La Mole . a do peito escorregara sobre as costelas e atravessara tão-somente a carne. Gillonne. . aliviar as dores? Por isso. com um pedaço de pano molhado em água fria. com uma agulha de ponta redonda. . em todos os tempos. Não lhe chegou aos ouvidos a minha reputação a este respeito? Vamos. . descosia.Mas. cortou rapidamente o atacador que lhe apertava o gibão. sorrindo -. tornou a dizer que preferia morrer a dar à rainha esse incómodo. nenhuma delas penetrara na cavidade da fortaleza natural que protege o . já sujou o leito e o quarto de Sua Majestade.

fechando a porta do gabinete. pelo menos com o ódio.Quem será.perguntou Gillonne. e ao pescoço assombreado por anéis espessos. aterrada. pondo as mãos. tornando a abrir os olhos.A Senhora aqui? . .a de Sauve! .exclamou ela. inclinando-se e reunindo forças. olhando não tanto para a sua obra. O movimento acordou La Mole. Mas Gillonne.Dá-me o bálsamo e faz fios.disse Margarida.Pobre mancebo! . acha frescura em vez de chamas devoradoras. que soltou um suspiro e. ao voltar à vida.Minha Senhora . Margarida tornou a entrar no quarto e.murmurou a bela e sábia cirúrgica. se soubesse! a falta .coração e os pulmões. cada vez mais espantada. mas com uma voz imperativa.a de Sauve! . Gillonne. e outro tanto Lhe fizera aos braços. a quem a rainha acabava de dar esta nova ordem já tinha enxugado e perfumado o peito do mancebo. 78 Neste momento ouviu-se o barulho de muitas pancadas a uma porta. .disse Margarida. graciosamente inclinados para trás.disse Margarida -. deveríamos levantá-lo e deitá. .Não é verdade que é belo? .perguntou Margarida com uma franqueza real. . minha Senhora! .Fica tu ao pé dele. .A Sr. tão verdade é que uma mulher nunca perdoa outra mulher o tirar-lhe um homem. E as duas mulheres. como para aquele em quem a empregara.Vou ver .murmurou Gillonne. . . começou a experimentar o incrível bem-estar que acompanha todas as sensações do ferido quando. Mas parece-me que. e que mais parecia pertencer a uma estátua de mármore de Paros do que ao corpo mutilado de um homem moribundo. senão com o terror.continuou Margarida. que abriram para lhe dar ar. tens razão.Ferida dolorosa e não mortal: Acerrimum humeri vulnus non autenz lethale .A Sr. . em vez de o deixarmos assim deitado no chão. minha Senhora? . . a que Margarida respondeu com um sorriso pondo o dedo na boca.Sim . modelados por um desenho antigo. mas. e não o abandones um único instante. perdoe-me! Reconheço quanto sou culpada para com Vossa Majestade.disse esta. Carlota caiu de joelhos. aos ombros. . .Batem na passagem secreta .disse -. Murmurou algumas palavras entrecortadas. minha Senhora. .Sim.lo na cama de descanso a que está apenas apoiado. . embora não o ame. levantaram La Mole e depuseram-no numa espécie de sofá grande de costas esculpidas que havia defronte da janela. e perfumes de bálsamo em vez do morno e nauseabundo cheiro do sangue. recuando com vivacidade e com uma expressão que se parecia. .Sim. foi abrir a da passagem que dava para os aposentos do rei e da rainha-mãe.

continuando de joelhos e com um olhar quase transviado -. com a energia que só dá a paixão -. Eu disse-lhe que não saísse. porém. Não se encontra.disse Carlota.Não está. mil vezes mais! . e depois mandou-me retirar. quem! de quem fala a senhora?. e o rei de Navarra é o chefe dos huguenotes. uma ordem expressa da rainha nãe. perguntei a toda a gente. como de costume.A Sr. não está no Louvre. . para lhe perguntar se ele estava aqui.Levante-se . perdoe-me. porque. Só um soldado me respondeu que lhe parecia que o tinha visto no meio de guardas..E a rainha-mãe.a senhora aterra-me! É impossível! .E embora talvez o sentimento que a dirige seja uma ofensa mais para .tornou a Sr. .exclamou a Sr. . . minha Senhora .Minha Senhora .oh! tinha-me esquecido disso! E não podia crer que um rei pudesse correr os mesmos perigos que os outros homens.a de Sauve.Ah! minha Senhora! . .Do rei.Obrigada.Oh! . minha Senhora Fui para o meu quarto e. diga-me porque veio. . .Esperou meu marido? . .exclamou Margarida.Não. Então.Oh! meu Deus! Porque andam dando cabo dos huguenotes. com uma explosão de dor desgraçado dele! porque a rainha-mãe jurou a sua morte.Oh! . Sairia ele? . procurei-o por toda a parte.exclamou Carlota. minha Senhora.disse Margarida . E se não está aqui. e como não penso que viesse na esperança de se justificar para comigo. Então. e a carnificina começou há uma hora. .Não apareceu. esperei. de Guisa e o Sr.disse Margarida. na verdade. .Aqui.disse Margarida -. de Tavannes. que estavam no seu oratório. não compreendo.a de Lorena tinha-me prevenido. .não é toda minha.E porquê? . . sem responder a todos estes ataques e sem dar sequer mostras de que os sentia . sabe muito bem que ele não está! .continuou a baronesa de Sauve. .Mais.disse Margarida.Do rei? Persegue-o até nos meus aposentos? E.A sua morte? Ah! .a de Sauve. . . contudo. minha Senhora. que 79 o acompanhavam de espadas desembainhadas algum tempo antes de começar a carnificina.ah! prouvera a Deus que ele aqui estivesse! . onde está? -A rainha-mãe ordenou-me que chamasse o Sr..a de Sauve e obrigando-a a levantar-se . agarrando na mão da Sr.Vim. digo-lhe que não se sabe onde está o rei de Navarra. minha Senhora! . .

de Guisa.Vou ter com a rainha Catarina . dando ordens. curvou-se e. Margarida estendeu-lhe a mão. ou fidalgos de capotes rasgados.Oh! então perdoe-me. minha Senhora! .e que Deus guie Vossa Majestade! Margarida correu pelo corredor. A Sr. obrigada! . activa como se não tivesse mais de vinte anos. O rei de Navarra está sob a minha salvaguarda.Oh! Henrique! . saiu com os seus guardas. recebendo cartas.Vá. Margarida não encontrou senão guardas com partasanas ensanguentadas e vestuários sujos de sangue. abrindoas. escrevendo. àqueles um sorriso. rosto enegrecido pela pólvora. em vez da multidão de cortesãos açodados que ordinariamente abria filas diante da rainha saudando-a respeitosamente. remoçada pela acção. que não deixavam entrar senão as pessoas que davam certa senha. Margarida tentou debalde transpor essa barreira viva. uns entrando. depois de haver feito três tentativas inúteis perante os alabardeiros. pela abertura.Então recorrerei a meu irmão. Viu a porta abrir-se e fecharse muitas vezes. cada vez mais repetidos. e hei-de falar-lhe. voltou-se. para se certificar de que a Sr. deixando a passagem livre a Margarida . . e voltava para a carnificina. . prometi-lhe aliança.disse ela . Mas essa antecâmara era guardada por duas filas de soldados. a de Sauve não ficara para trás. acabava de anunciar à rainha a morte do almirante. Estava tudo mudado. portadores de ordens e de despachos. minha Senhora. avistou Catarina. e de cada vez. e para quem sorria mais amigavelmente era para os que estavam mais cobertos de poeira e sangue.disse Margarida consigo.Se hei-de estar a perder aqui o meu tempo. Margarida não deixou de continuar o seu caminho e chegou à antecâmara da rainha-mãe.exclamou Margarida .disse.e voltarei para o meu quarto ainda mais animada com o seu perdão. Mas chegando ao fim dele. . Não posso conseguir falar com ela .a de Sauve seguia-a.E se não a deixarem falar à rainha-mãe? . A rainha de Navarra viu-a tomar pela escada que conduzia ao seu quarto e continuou a dirigir-se para o quarto da rainha-mãe. vá . e hei-de ser fiel à minha promessa. dirigindo a estes uma palavra. . sem responder.onde está o rei de Navarra? O duque olhou para ela com um sorriso de espanto. Neste momento passou o Sr. . .mim.disse Carlota. vou ter com meu irmão. porque não me atrevo a seguir Vossa Majestade nem de longe. outros saindo: todas essas idas e vindas faziam um formigueiro terrível e imenso nas galerias. No meio do grande tumulto que havia no Louvre e dos ruídos aterradores. ouviam-se os tiros de arcabuz na rua.Recolha-se ao seu quarto. .

de Tavannes! . E foi bater à porta dos aposentos do rei. Tavannes! . E continuou o seu caminho. não ouvira senão a indicação principal . peço-lhe mil desculpas. depois do modo por que se portou para comigo.exclamou Margarida . minha Senhora . parou.Creio . .disse ele em voz alta .acrescentou com uma contracção que se parecia mais com um ranger de dentes 80 do que com um sorriso . não posso deixá-lo perecer.Eu. vá bater à porta da sala de armas do rei.respondeu este -. E voltou as costas a Margarida.Bela Majestade. .Oh! pouco me importa.não creia isso. minha Senhora. . a rainha de Navarra? eu. . sai do quarto de minha mãe. de cumplicidade com a rainha Catarina. minha Senhora.disse Margarida.disse Margarida. . se quer ver aquele para estar em cujo lugar eu daria a minha vida. . mandava carregar os arcabuzes aos soldados. . que de tudo quanto Tavannes lhe havia dito. Depois. tão baixo que só Margarida pudesse ouvi-lo: .Sua Majestade o Rei de Navarra não é meu amigo.disse o oficial. reconhecendo o perfumista de Catarina . uma palavra só.Oh! Sr.disse o perfumista. sua irmã? . Diz-se até .. murmurando: Oh! depois do que lhe prometi. envenenado sua mãe.Não! não! .que anda pela cidade com os Srs.obrigada! para lá vou.onde está o rei de Navarra? .exclamou Margarida. . . avançando com vivacidade. de Alençon e de Condé. não pertenço aos guardas de Sua Majestade.que ousa acusar-me de ter.Nem eu?.Margarida correu para um capitão que ia a sair do Louvre e que.Não se entra nos aposentos de el-rei! .é o senhor.uma palavra.Oh! obrigada. . quanto é ingrato Henrique estava escondido no gabinete.. minha Senhora! .Ah! meu querido Renato! . mas estavam guardados interiormente por duas companhias de guardas.perguntou ela .Onde está Henrique de Navarra? .exclamou Margarida .A ordem é geral.O rei de Navarra? .Nem o rei de Navarra nem os seus são para temer nesta ocasião. . . que passava. meu bom Renato! . . suplico-lhe! Tavannes. antes de partir. de Tavannes! Sr. deve lembrar-se disso.As ordens que tenho não fazem excepção.Não sei. .perguntou Margarida. Sabe o que é feito de meu marido? .

o pressentimento desta noite fatal. Até que à primeira badalada do sino de S. bateu à portinha. onde o esperavam uns vinte huguenotes. quando não inspiravam vingança. Deus dos cristãos.. batendo à porta iluminada por um pensamento súbito . O rei de Navarra contou assim. Oh! está perdido! . que o conduziu a uma pequena galeria contígua aos aposentos do rei. A ama do rei meu irmão. depois da sua conversação com Renato...Sim. Germano L'Auxerrois. a boa Madelon. quando de repente. depois da saída do quarto da rainha-mãe. havia algumas horas. quisera opor-se a pobre pequena Febe Henrique de Navarra encontrara alguns fidalgos católicos que. depois do aviso que lhe fora dado por Margarida. a pretexto de o honrarem. vendo. escutando com progressivo terror a bulha do sino tocando a rebate e o estrondo das arcabuzadas. anunciou a Henrique que o rei Carlos IX queria falar-lhe.está aqui!. Era um canção. e esses gritos . eu sou o laço onde se apanham e se estrangulam os huguenotes. cheia de esperança. os fugitivos e os assassinos. sim. assustada pela vista dessas caras sinistras. Ouviam. como um génio bom. duas horas mortais. que. seguiu Tavannes. sem armas e com o coração cheio de desconfiança. no meio de um silêncio de morte. à qual... está aqui! exclamou Margarida. . tão monótono era. que uma voz trémula cantava no quarto próximo. por um postigo de vidro. Henrique. Oh! hei-de entrar. ajudai-me! E Margarida. ainda que me matem! E Margarida corria como louca pelos corredores e pelas galerias. quase lúgubre. as galerias e corrredores estalar debaixo dos pés dos soldados reunidos. ao clarão do incêndio. que 81 não devia tornar a ver. que ressoou em todos os locais como um som fúnebre. passando diante de uma portinha. ouviu um canto meigo. tanto pairava no Louvre. onde o deixou só. entrou Tavannes e.. à luz dos archotes. minuto por minuto. percebo tudo. Não havia resistência que tentar. passar... que não o queriam deixar.. e ninguém pensou em tal.se os tectos.exclamou Margarida.. ali reunidos. serviam-se de mim como isca. o haviam levado outra vez para o seu quarto.E o oficial tornou a fechar a porta. em número de cerca de dois mil. exprimiam inflexibilidade. não compreendendo esses clamores de homicídio. tanto nos pátios como nos aposentos. Tinham-se conservado pois ali sem que tentassem incomodá-los. O facto é que. depois de se despedir dos seus amigos.

com as mãos nos braços dela e de cabeça caída no peito. . e compreenderá. não.tornou Carlos IX. não é verdade. ou. Henrique olhou em volta de si com inquietação. segundo todas as probabilidades. abriu-se a porta como por encanto. levantando os cabelos louros e limpando ao mesmo tempo a testa . Sire . puxando para si o cunhado.de aflição.Mas. estrangulavam ou afogavam as vítimas que lhes levavam a cada instante.então que é isto esta noite! . Ali. . que estava então na sala de armas. e não podendo supor. Carlos IX levantou-se num repente. Carlos IX caminhou. La Chastre.Sire. veio um capitão buscar o príncipe e conduzi-lo por um corredor ao quarto do rei. Henrique! .livram. para melhor dizer. Estas duas horas foram pois talvez as duas horas mais cruéis da sua vida. enfiado . Vê além.exclamou Henrique. da rainha-mãe e do duque de Guisa.respondeu o rei de Navarra -. por cima do Palácio de Bourbon. e quando Henrique começava a compreender que. tinha a pujança moral: temendo o perigo.me de todos os huguenotes.disse Carlos IX . e sem responder ao cumprimento de Henrique.Esta noite . mostrouos assassinos. Durante ele. afrontava-o sorrindo.Olhe. tenho sempre muita satisfação em estar ao pé de Vossa Majestade. o capitão levou Henrique à presença de Carlos IX.disse Henrique. que a harmonia estridente das trombetas e a voz surda e vibrante dos tambores acompanham. dentro de um bote. ali estava sem armas. O capitão obedeceu. em nome do céu! . deu um pulo numa janela que estava aberta.Mais contente do que se estivesse na rua. Ao ruído que fizeram os recém-chegados. .Boa noite. tinha mais do que isso. que. só. apesar do conhecimento que tinha de Carlos IX. continuando a seguir o seu pensamento.está contente por se ver ao pé de mim. se tratava de uma carnificina organizada. .Com a fortuna! . Henrique não tinha só a coragem física. o rei estava sentado numa enorme poltrona.Decerto. que não lhe deixava ver senão o inimigo que podia arrastar-se até ele e o ferro que queria feri-lo. Quando se aproximaram. hem? .Deixanos. . mas o perigo do campo de batalha. No mais forte do tumulto. o perigo ao ar livre e às claras.disse o rei brutalmente. Carlos IX ergueu a fronte na qual Henrique viu correr o suor em volumosos pingos. perdido numa quase escuridão. não compreendo . Houve um momento de sombrio silêncio. .disse. E. o horrível drama que se estava representando nesse momento. Henrique? . Com um movimento rápido. . aquele fumo e aquelas chamas? São o fumo e as chamas da casa do . Quando entraram. Depois. o perigo aos olhos de todos. e viu que estava só com o rei. fechado. cada vez mais espantado.

coa fortuna! e tu? .exclamou o rei de Navarra.A minha majestade mata e degola a esta hora todos os que não são católicos. . e eu não quero senão católicos. cuja cólera subia incessantemente como uma maré terrível.respondeu Henrique. sábios no conselho.Ah! tu julgas que me dei ao incómodo de oferecer a missa aos que estão sendo estrangulados lá fora? . .Sire .Mas. procurando inutilmente o punho da sua adaga e tremendo ao mesmo tempo de vergonha e de cólera.Oh! que quer dizer isto? . encostado à parede. todos esses não me tinham servido bem? Não eram bravos no combate. . que está a arder. e sempre dedicados?. . dando uma gargalhada sinistra . Carlos agarrou no braço do jovem príncipe. porque via que o estavam motejando e ameaçando. Sire. disse-lhe: . . Henrique. E todos esses. sereno na .almirante.E daí? . Eram todos súbditos úteis. não vejo a razão por que o rei de Navarra havia de fazer o que tantos fidalgos ou pobres diabos não fizeram.Compreendo. .acrescentou. Sire. Henrique!.bradou Carlos.perguntou Carlos IX.Então compreendes-me. assim me apraz. furioso.E daí.exclamou Carlos IX. mostrando com o dedo a cidade -. Vossa Majestade. recorde-se das suas palavras: Que importa a religião de quem me serve bem? Ah! ah! ah! .Pois também eu.que me recorde das minhas palavras. e pegou com mão trémula num arcabuz que estava em cima de uma mesa. Henrique? . graças ao império que conservava sobre si mesmo. Henrique conservou-se mudo. . Se esses desgraçados morrem todos. o cadáver do seu amigo Teligny. Vossa Majestade não quer morrer na religião de seus pais? .disse Henrique. é decerto porque lhes foi proposto o que Vossa Majestade me propõe e recusaram.Quer dizer . e fitando nele um olhar cuja atonia se mudava pouco a pouco em feroz irradiação. entende. Carlos soltou um rugido de raiva. soltando o braço -. Sire! . mas. com o suor da angústia na fronte. olha . dizes tu. .disse Henrique -. mas eram huguenotes.Sire .Quero. Vê aquele corpo que bons católicos arrastam em cima de um colchão rasgado? É o corpo do genro do almirante. como eu recuso.que eu não quero mais huguenotes em roda de mim. O senhor é católico? exclamou Carlos. sem transição e descorando de um modo 82 aterrador . Verba volant como diz minha irmã Margot. Henrique? Não sou rei? Não estou no meu direito?.

tão imóvel como uma das figuras da tapeçaria a que se encostava. de pálido que estava.disse de repente uma voz por trás dos príncipes . Voltou vagarosamente os olhos para a parte do quarto onde estava Henrique.quer-me matar. que era uma das mais possantes faculdades da sua organização. como se vê. tornou-se lívido. é meu parente.Morte. sem dúvida nenhuma se essa resposta fosse negativa.Oh. e batendo o pé com furor cego: .Minha Senhora . durante o qual fez ouvir um rugido surdo. ou Bastilha! .exclamou. sem hesitação . contudo. voltou-se para a janela aberta e apontou o arcabuz para um homem que corria pelo cais fronteiro. soltando gritos de alegria todas as vezes que os tiros acertavam.disse com os seus botões o rei de Navarra .disse-lhe . mas Henrique permaneceu mudo. . e daí fitou em Carlos um olhar que queria dizer: Então porque está vivo?.berrou Carlos. a mim. .está tudo arranjado? Era Catarina de Médicis. Carlos IX abalou as abóbadas do Louvre com a mais terrível praga qe tem saído dos lábios de um homem e. Sire! . com mil trovões do Inferno! . . porque.tudo provém de si.É preciso. Catarina não respondeu. E dando o tiro. lívido como um cadáver. . Animado então por um tremendo ardor.exclamou Carlos IX. Carlos carregou e deu incessantemente tiros de arcabuz.Está vivo.Não.está vivo. .aparência. depois de um momento de hesitação. está vivo. deslumbrando Henrique com o espelhar da arma fatal. seu cunhado? Henrique acabava de iludir com o seu espírito incomparável.murmurou Carlos IX. como imediatamente depois dos últimos paroxismos da fúria vem o começo da reacção. Henrique viu esse sorriso.Não. e reconheceu que era principalmente a Catarina que precisava combater.Então? .exclamou Henrique . Catarina sorriu. fazendo pontaria para o rei de Navarra. porque. e que lhe respondia. mata-me a mim. que compreendia perfeitamente esse olhar.quando lhe não aparecer mais quem mate. missa. . que eu mate alguém! . atirando o seu arcabuz pela casa fora. a resposta que Carlos IX lhe pedira. seguia todos os movimentos do terrível monarca com o ávido espanto do pássaro fascinado pela serpente. . . 84 Henrique soltou um gemido. deitou ao chão o homem que corria. Carlos engatilhou o arcabuz. . Por isso. . Carlos IX não repetiu a pergunta que acabava de dirigir ao príncipe de Navarra e.Queres a missa? . Estou bem arranjado! . o cabeçudo. não quer!. bem vejo. Henrique estaria morto. e cujos olhos se injectaram de sangue. que entrara durante a última detonação sem que dessem por isso.exclamou.

meu irmão. o instrumento de que se serviram para os perder a todos.Pois sim .Sire . o dever de uma mulher é quinhoar a fortuna de seu marido. é que Margot tem razão: Henrique é meu cunhado. Catarina lançou um olhar significativo para Carlos. e Catarina de furor. Ora. falando também ao ouvido do filho -.bradou Henrique. . no meio do olhar imperioso de Catarina e do olhar suplicante de Margarida. Eu própria.disse Carlos IX. se o prenderem. . e tinha e não tinha razão.disse o rei ao ouvido de Catarina -.Sim. tão bem como Carlos IX.disse Margarida para Henrique -. mas se o não fosse.Ah. senão com amor. mas.disse Carlos IX.respondeu Margarida.Minha filha! . Carlos IX. porque eu sou. ao mesmo tempo.A verdade. Se o exilarem. as suas últimas palavras acusavam-me. .exclamou Margarida.Meu irmão . . esbaforida e apaixonada.Margarida! . .exclamou outra voz. acompanhá-lo-ei ao exílio. . que. não peça uma cobardia a um príncipe da sua casa. se o matarem. em que Henrique pegou. com a alta dignidade que lhe era tão natural -.Margot! . pelo menos com reconhecimento. lembrei-me do meu dever. morrerei. 85 XI O ESPINHEIRO DO CEMITÉRIO DOS INOCENTES Voltando para o seu quarto. foi a senhora quem pensou em fazer de sua filha a isca que devia perder-nos a todos. foi a senhora quem me separou de minha mulher para que ela não tivesse o desagrado de me ver matar. creia-me: por si mesmo. devo a vida ao acaso. minha Senhora . porque eu ignorava que caminhavam para a perda. com efeito. aqui onde me vê.e nada de meu cunhado Carlos.Melhor seria que lhe dissesses que se fizesse católico! . E estendeu ao marido a mão. por fim resolveu-se.murmurou Catarina. minha pobre Margot! . .Senhor . e que fez estremecer Carlos IX de surpresa. foi a senhora quem teve a ideia de me fazer cair numa cilada. . tão depressa soube o perigo em que o senhor estava. pense nisto: foi Vossa Majestade que fez dele meu esposo. e que havia acabado com o terrível conselho de vida ou de morte que predominava naquela ocasião. Não tinha razão. como entre dois princípios opostos. .respondeu Catarina. far-me-ei cativa. . Tinha razão. permaneceu indeciso por um momento. mas isso não há-de acontecer! . . Margarida debalde diligenciou adivinhar a palavra que Catarina de Médicis tinha dito em voz baixa a Carlos IX. que Henrique reconheceu no mesmo instante. compreendia a terrível pantomima de Catarina -. talvez ao esquecimento de minha mãe.

de cruz alçada. era a perda de um trono. e que. uma cena de desolação. de jurar. Esta espécie de assentimento dado pelo Céu à carnificina redobrava o ardor dos assassinos. em cada encruzilhada. ressoando no meio do homicídio e dos incêndios. Entreabriu a porta do gabinete. o príncipe de Condé e La Mole. Descansada acerca de La Mole. porque só três pessoas podiam entrar por essa porta: o rei. Estava no mais íntimo das suas reflexões. recomendou com . Mas em seguida a esse sentimento outro menos puro penetrara no coração da rainha. O primeiro sentimento que se apoderara da esposa. sem dúvida. como na véspera ela dissera. que viam neste acontecimento um milagre. com os huguenotes da França por súbditos. eram talvez mais tristes à luz do Sol do que o havia sido o som fúnebre da noite precedente. cujas feridas. um sentimento de leal compaixão para com um homem ao qual acabava. Os huguenotes eram mais do que nunca perseguidos. em cada praça. e do outro pelos reis de Espanha. A perda de Henrique para ela não era só a perda de um marido. Margarida vira quase que uma realeza certa no seu casamento com Henrique de Bourbon. e a outra em decifrar o enigma que o seu espírito se recusava a compreender. E enquanto a cidade continuava a oferecer em cada rua. faziam Deus seu cúmplice. pela popularização desse milagre. podia ser que Henrique de Bourbon realizasse as esperanças de coragem que havia dado nas raras ocasiões que desembainhara a espada. como de costume. como dissera o próprio Bearnês. havia-se dado um caso singular: um espinheiro que florira na Primavera. e que. Graças ao seu espírito tão fino e tão elevado. retalho a retalho. Margarida não se preocupava senão com uma coisa: salvar a vida do marido que continuava a estar ameaçada. iam em procissão. era. vir a ser um reino real. Não era tudo. senão amor. quando ouviu bater à porta do corredor secreto. o Louvre servia de túmulo a todos os protestantes que se haviam achado encerrados no momento do sinal. Só lá estavam vivos o rei de Navarra. ao Cemitério dos Inocentes. era para o Te Deum que se celebrava em todos os templos. Margarida entrevira e calculara tudo isto. perdera os seus odoríferos atavios no mês de Junho. O rei de Navarra ficara prisioneiro no Louvre. e os católicos. Margarida era ambiciosa. Estremeceu. reflorira durante a noite. A Navarra. que. a rainhamãe e o duque de Alençon. eram perigosas mas não mortais. e os sons joviais desse bronze. ambicionada de um lado pelos reis de França. pelo menos aliança. tinham acabado por lhe tirar metade do território.Uma parte da manhã foi empregada por ela em tratar de La Mole. Já não era a rebate que tocavam os sinos. onde esse espinheiro florescia. À terrível noite sucedera um dia de carnificina mais odioso ainda.

Por um instante Margarida se lembrara de reclamar a sua intercessão em favor do rei de Navarra. . que. . O casamento tinha sido feito contra vontade dele.Não foi somente para me fazer essa narração que vieste visitar-me. aproximando a cadeira da da irmã -. espero. . e não conservava a neutralidade em favor do Bearnês senão porque estava convencido de que Henrique e sua mulher se conservavam estranhos um ao outro.Não . com o amor do sangue que lhe era peculiar e a seus dois irmãos. mais do que se visse o rei Carlos IX ou a própria rainha-mãe.Tens alguma outra coisa a dizer-me? . Aproximou-se da irmã para a beijar. porque não conhecia o príncipe de Béarn quando mo propuseram para esposo. Desde a véspera que não era criança.perguntou Margarida. ferido por uma bala. e apesar da leve tremura que lhe agitava a extremidade das mãos. aproximar-lhe do peito um dos três punhais que o ameaçavam. minha querida Margarida . mas detivera-a uma ideia terrível. estava vestido com a sua costumada elegância. em vez de desviar. ou no Louvre. encerrava no fundo do coração algum sentimento jovial.o dedo silêncio a Gillonne e a La Mole. que o casamento com o rei de Navarra era contra tua vontade? . como o faria ao rei Carlos ou ao duque de Anjou. Margarida estremeceu portanto ao ver o jovem príncipe. regozijou-se com as minúcias sangrentas da noite. apesar da sua palidez. começou a contar à irmã as notícias sanguinolentas da noite. carregou. Do fato e da roupa branca exalavam-se os perfumes que Carlos IX desprezava. Somente olhos práticos como eram os de Margarida podiam notar que. . tendo dito tudo. A visita era o duque de Alençon. Até que. a morte lenta e terrível do almirante. e foi abrir a porta à visita. Então.Que esperas? . a morte instantânea de Teligny. mas de que o duque de Anjou e ele faziam continuado uso. A sua entrada foi o que costumava ser.respondeu o duque -. O duque de Alençon soltou um suspiro e chegou os lábios descorados à testa que Margarida lhe apresentava. por consequência. Margarida curvouse e ofereceu-lhe a testa. Margarida deixou-o dizer. meu irmão? . sentando-se. não se diria que se passava nada de insólito na cidade.tornou o duque. Demais. deu imediatamente o último suspiro. Demorou-se. tão belas e tão bem tratadas como mãos de mulher. maior que de costume. Mas em vez de lhe apresentar a face.Disse. O duque d'Alençon sorriu. ao vê-lo.Não me disseste. calou-se. Francisco detestava Henrique. não é verdade. Um sinal de interesse dado por Margarida em favor do esposo podia.

Sei-o. deixando mau grado seu um raio de alegria iluminar-lhe o semblante -.murmurou o duque .as noites? . . com uns modos de melancolia bem fingidos.Mas de que hei-de eu regozijar-me? . .Isso é assim.Não era tua opinião que esse casamento ia fazer a tua desgraça? .Sabe-lo melhor do que ninguém. porque tinha interesse em sabê-lo . .Separada? . meu irmão? . O duque de Alençon diligenciou suportar o olhar da irmã. mas não tardou que os olhos se lhe desviassem dela confusos.E depois de o conheceres.Vejamos isso. Margarida começava a compreender o que Catarina tinha dito em voz baixa a Carlos IX.Sem dúvida.respondeu o príncipe. meu irmão.Que queres dizer? .É para me lembrares que aqui ninguém me ama e se importa comigo: os que a natureza . espero. mas não tinha feito mistério da sua religião. . porque tem passado quase todos os dias na tua companhia. .Então. ora no jogo da malha. . .É que . fitando os olhos nos do príncipe.tornou o duque -. 87 ..exclamou Margarida. mas as noites? Margarida calou-se. que tem feito Henrique? .perguntou Margarida reconhecendo que tinha de responder alguma coisa.Que manifestes a tua alegria.Separada? .continuou o duque de Alençon . é quase sempre a suprema dor. que queria obrigar o príncipe a dizer todo o seu pensamento. .tornou Margarida. . a tua liberdade! Vais ser separada do rei de Navarra. mas fingiu que ignorava. e como é que tencionam separar-nos? . minha irmã . . mas depois do casamento. . Francisco.Como é que o sabes? . .É. não me afirmaste que não sentias amor algum por ele? . minha querida Margarida.Henrique é huguenote. empalidecendo e amarrotando nervosamente os bordados das suas mangas.Esta ocasião inesperada que se te oferece para recuperares a tua liberdade.Disse-te. . porque muito estimo que me dês ocasião para profundar esse negócio.repetiu Margarida. e sabiase isso quando nos casaram. é verdade. . ora na caça.As noites? . ora no jogo da péla. .disse Margarida.disse o duque.Mas que esperas? diz. e chegou-lhe a vez de abaixar os olhos. quando um casamento não é a suprema felicidade.Os dias.Meu caro Francisco. como te dizia.Porque me dizes isso.A minha liberdade? . . .a de Sauve. .perguntou.Quero dizer que tem passado as noites na companhia da Sr. sim .

quando as circunstâncias se apresentem assim. Vi-o ontem com um desses acessos de furor dos quais cada um lhe tira dez anos de vida. minha irmã .não me fazes uma traição maior em preferir um estranho a teu irmão? .exclamou o duque .me deu para protectores.Eu? Enganas-te. 88 lhe dão agora muito a miúdo. que és não só a mulher mais bela de França. chegando mais a cadeira à da irmã -. eu amo-te e protejote.interrompeu o duque de Alençon. podem amparar-se com o concurso de um povo e o apoio de um reino. Que tens que dizer a isto.E daí? . Estendia a mão ao rei de Navarra porque era.A causa do rei de Navarra? . juro-te! Que é que pode fazer-te crer nisso? . mas a melhor cabeça do reino? . olhando-o fitamente -. teu marido.perguntou Margarida. por desgraça. Perdão! dizendo teu marido.Tornou-se impossível. como o que a igreja me deu para esposo? . Concordaram vinte vezes em que não se podem elevar e até sustentar-se senão um pelo outro.Porque o rei tem os seus projectos acerca de teu marido.Sim. tens alguma coisa para me dizer da parte da rainha-mãe? . Mas estão matando os huguenotes.Explica-te. falemos com franqueza. segundo todas as probabilidades. e tenho a dizer que. e dentro de oito dias não restarão cinquenta em todo o reino.Tenho a dizer que conheço nosso irmão Carlos.E porquê? . e que se trata de eleger para o seu lugar um príncipe da Casa de França. no momento do combate. tenho que dizer que acaba de morrer o rei da Polónia.tornou o duque de Alençon.disse Margarida. com fingida ingenuidade.Pediste ontem ao rei a vida do rei de Navarra.E tu . . equivoco-me: é acerca do rei de Navarra que queria dizer. Mas não é teu marido. estupefacto. deu duas ou três voltas no quarto com modos desarvorados e depois pegou na mão de Margarida. o que faz com que. Francisco! em quê. Francisco. O duque levantou-se precipitadamente. . tenho que dizer que esses acessos. sem dúvida. Olha. minha irmã.disse com vivacidade o duque de Alençon. . . . . Essa aliança. . Eu aliava-me com os huguenotes porque julgava que os huguenotes eram bem vistos.Meu irmão . e como te traí eu? . A nossa mãe adivinhou tudo. é que abandonas a causa do rei de Navarra. nosso irmão Carlos não possa viver muito tempo. que. . não é bom ensejo para abandonar aliados.O que pode fazer-me crer é que quebras a amizade que te ligava a meu marido.És injusta . tu.

de Guisa. . Margarida. porque a ideia de que era ela o instrumento de um assassínio causava-lhe um terror que não podia vencer.disse ele.o Sr. supõe agora três coisas.E é o filho de Henrique II que reconhece como seu rei um duque de Lorena? .Há só uma coisa que pode impedir a realização desse plano.Ninguém. . .Qual é? . . tão depressa o perdeu de vista no corredor.Adeus.Não salvarás o teu melhor e o teu único aliado? .Ouve. que lhe parecia querer abrir-se.perguntou. . . . .O que está feito está feito . e depois. como os tens do rei de Navarra? .disse o duque de Alençon.Então quem amas? . rainha dos católicos. fizeram o Sr. . . Margarida escondeu a cabeça nas mãos. Destruindo os huguenotes. deslumbrada pela profundeza de vistas deste adolescente. de Guisa é eleito rei da Polónia.É que eu já não amo o duque de Guisa. e é que amanhã. . esquecia-me de te dizer uma coisa. e não percebes nada. a esta hora. Viu sair o duque de Alençon sem fazer um sinal para o demorar. Margarida soltou um grito. e se tiver de ter ciúmes do duque de Guisa. 89 . ele voltou atrás. e Guisa não é mais imortal do que o rei de Navarra.disse Margarida.Então quem é? .Não estás hoje nos teus dias felizes. Margarida. Margarida.perguntou depois de um instante de silêncio . pois. a quem ninguém na corte ousava chamar uma inteligência. com voz surda -.Confesso que é debalde que procuro ler no teu pensamento. tu és de tão boa casa como a Senhora Princesa de Porcian.De ontem para cá. tu. mas. e saiu do quarto dando um suspiro e apertando com a mão gelada a testa. estará morto o rei de Navarra. .E tu não obstarás a essa morte? . todas possíveis: a primeira é que o Sr. a segunda. mas ficou imóvel no seu lugar. não te queixes pois senão de ti nas desgraças que te puderem acontecer. minha irmã! . .Esta mão estava hirta e gelada. levantando-se. O duque de Alençon olhou para Margarida com a admiração de quem não compreende. e tu. tive-os.não tens ciúmes do Senhor Duque de Guisa. meu irmão .Não quiseste compreender-me. não é meu aliado o rei de Navarra.Minha irmã. de Guisa rei dos católicos. Margarida descorou. que tu me amas como eu te amo. que eu sou rei de França.Mas .

Era o do almirante. O clero. o cortejo ia pôr-se a caminho. gritando: . Entraram no Cemitério dos Santos Inocentes pela porta que abria defronte dos Chaps. e quem o tinha feito era a rainha Catarina e o duque de Guisa. se queria descer. seguindo o cortejo como uma onda que sobe. Mas o pensamento de que essa saída podia darlhe ocasião de saber alguma novidade acerca da sorte do rei de Navarra. que. que indicavam a parte que cada um tinha tomado no sinistro acontecimento que acabava de se dar. trocou um olhar com ela. actualmente dos Déchargeurs. À vista do rei. Margarida fez um sinal com a mão a Gillonne. quando a rainha Catarina lhe mandou perguntar se não queria ir com a corte ao espinheiro do Cemitério dos Inocentes. se lhe mandassem ajaezar um cavalo. prevenido da visita do rei e da rainha-mãe. e Margarida compreendeu que a amante do marido tinha o quer que fosse para lhe dizer. . Mas a Sr. juntara-se o povo. O duque de Guisa e o duque de tllençon iam unir-se para tirarem daí o maior proveito possível. encontraramse com homens que arrastavam um cadáver sem cabeça. O primeiro impulso de Margarida foi recusar fazer parte da cavalgada. para lhe recomendar o ferido. onde não teria sequer a triste dor de chorar um esposo que nunca tinha sido seu marido. Bartolomeu. Já estava a cavalo o rei. para se aproximar da rainha de Navarra e pedir-lhe permissão para lhe beijar a mão. Cinco minutos depois. apoderar-se-lhe-iam do trono. Ao chegarem às alturas da Rua das Prouvelles.Viva o rei! Viva a rainha! Morram os huguenotes! Esses gritos eram acompanhados pela agitação de espadas ensanguentadas e de arcabuzes fumegantes.a de Sauve estava. Morto o rei de Navarra. Começava a situação a desenhar-se-lhe aos olhos clara e exacta. A Sr. esperava Suas Majestades para lhes fazer discursos. Margarida ficava viúva. sem poder. portanto. Esses homens iam pendurá-lo pelos pés em Montfaucon. Pensava nisto. resolveu-a. A morte do rei de Navarra era consequência natural dessa grande catástrofe. sem trono. Puseram-se a caminho para a Rua Santo Honorato pela Rua de Lastruce. Margarida deitou um olhar rápido para esse grupo que se compunha de cerca de vinte pessoas: o rei de Navarra não estava ali. restando-lhe por única perspectiva um convento. Respondeu. veio um pajem anunciar-lhe que.a de Sauve aproveitou o momento em que Catarina ouvia o discurso que lhe dirigiam.Margarida ficou só e pensativa. e desceu. acompanharia Suas Majestades da melhor vontade. a rainha-mãe. da rainha e dos principais católicos. o rei tinha deixado fazer o S. Tavannes e os principais católicos.

Vejamos! que venha receber os nossos cumprimentos. Depois de responder ao discurso que acabava de lhe ser dirigido. A Sr.disse a rainha mãe.Minha filha . mais teria feito. bem. exterminando os meus inimigos. minha Senhora.a de Sauve aproximou os lábios da mão da rainha e. que parou defronte do rei.Ah! ah! .A duquesa de Nevers! . . de modo a fazer compreender a Margarida que.disse Catarina.Sim. .Tenho tantos ciúmes do rei de Navarra como o rei de Navarra me tem amor. novos peregrinos chamaram a atenção da augusta assembleia.Sire . Amo quem me ama e detesto quem me odeia. A duquesa de Nevers fez-se muito corada. que se chegasse para ela. Catarina deu por ele. sorrindo . neste momento. Margarida obedeceu. Sem isso. gritava em altos gritos: . tens muita intimidade com a Sr.a de Sauve afastou-se de Margarida. Faz-se o que se pode. vindo ajoelhar diante do rei -. escoltado por um grupo de gentis. e voltou para o seu lugar ao pé de Catarina. . minha Senhora! . na sua algaravia italiana -.tens naturalmente ciúmes! . Chegava o duque de Guisa. dando ao seu lindo rosto a expressão mais amarga que pôde. .Bem. o outro. Demais. mas permaneceram ambas impassíveis. foi que tive a fortuna de recolher um católico ferido.disse ela em voz baixa.exclamou Carlos IX. O que sei é distinguir os meus amigos dos meus inimigos. minha prima? Que da sua parte deu caça aos huguenotes. 90 . e que matou um com uma pedrada. e tenho a certeza de que. Neste meio-tempo. As duas mulheres viram esse olhar que as deslumbrava como um relâmpago.a de Sauve? Margarida sorriu. a Sr. socorrendo os meus amigos. se tinha algumas suspeitas.respondeu Margarida. Catarina acenou sorrindo para a rainha de Navarra. as suspeitas tinham-se desvanecido. há dois modos de me servir: um. Por mais rápido e mais dissimulado que fosse este acto da Sr. o povo. e voltou-se no momento em que a sua dama de honor beijava a mão da rainha.homens ainda exaltados pela carnificina recente. beijando-lha meteulhe na manga um papelinho enrolado. . . Escoltavam uma liteira ricamente forrada. minha prima.Engana-se.a de Sauve. não foi isso o que sucedeu. minha mãe: a serpente veio morder-me na mão. que via a harmonia que reinava entre a Casa de Lorena e Carlos IX. se mais pudesse. essa linda e severa católica! Sabe o que me disseram. seria eu sua filha? Catarina sorriu.Margarida estendeu o braço para ela. .

e voltando-se e tornando a voltar-se logo. e depois. . Margarida tocou com o cotovelo na sua amiga. .leve daqui a rainha de Navarra.. salvo se Vossa Majestade o ordena. Margarida. que compreendeu imediatamente este sinal. fingida ou real.Ver livros gregos raríssimos e curiosíssimos. com um riso mais sinistro do que uma ameaça.disse Carlos IX. minha Senhora.A minha liteira.a de Sauve.disse Margarida. a duquesa de Nevers entrou também e tomou respeitosamente o lugar da frente. .respondeu a duquesa de Nevers. estamos às ordens de Vossa Majestade. Catarina lançou um olhar de desconfiança para as duas amigas.continuou. que foram encontrados em casa de um pastor protestante.perguntou Catarina. Henriqueta? .Não te dizia eu que tinhas ciúmes? . que a observava. Mas terá de me acompanhar ao Louvre.Leva-me daqui depressa. fimterceptou-o.De muito boa vontade. respondeu: .Que procuras? .É o lugar dos bons franceses. Catarina e os seus gentis-homens regressaram ao Louvre pelo mesmo caminho por onde tinham vindo. já não vejo . . com modos muito preocupados. porque tenho que sair com Sua Majestade a Rainha de Navarra.perguntou a rainhamãe à bela duquesa.A Sauve .Vem ao Louvre connosco. Mas durante todo o trajecto viu-se a rainha-mãe falando incessantemente ao ouvido do rei. A rainha Margarida entrou para a liteira.Vossa Majestade dignar-se-á entrar para a minha liteira? . que já não vês? .disse ela. vamos.Melhor fariam se fossem atirar os últimos huguenotes do alto da Ponte dos Meuniers . curvando-se também para a sua amiga. os meus criados.Voltaria ela para o Louvre? . 91 A duquesa fez uma reverência a Carlos IX e a Catarina.Viva o rei! Viva o duque de Guisa! Viva a missa! . Esta inquietação. não escapou a Catarina. . . Margarida fingiu ainda que olhava em torno de si. e a um sinal que ela lhe fez. e que foram transportados para a Torre de Saint Jacques-la-Boucherie respondeu Margarid a. isto é. . encolhendo os ombros . inclinando-se diante da rainha de Navarra: .Quem procuras. Tenho que te dizer coisas da mais alta importância.Vamos.Não. Henciqueta! . . .respondeu a duquesa -. e designando-lhe muitas vezes a Sr. . O rei ria de vez em quando como ria Carlos IX. . se aprouver a Vossa Majestade . olhou com inquietação em redor de si.Procuro.E que vão fazer ambas? .disse Catarina ao ouvido da filha.Iremos. disse-lhe ao ouvido: . e depois. e eu .

Não! . Henriqueta. . Tenho visto muita mortandade de ontem para cá.perguntou Margarida. e não sepreocupe com a minha vida na resolução que tiver de tomar. Vou.Mas.Então de quem é essa carta? . Conduzias-me pois. . como diz meu irmão Carlos. nem perfídias de amor. Henriqueta! Vamos para tua casa.Não é à Ponte dos Meuniers.E Margarida.. e que não tinha que recear a penetrante investigação de Catarina.não! nem meu cunhado. Reflicta vossa Majestade.Ao Palácio de Guisa. Estou livre.Ah. Margarida? . mandas. . se não decidir outra coisa.exclamou a duquesa. Não há dúvida . com uma alegria que lhe fez cintilar os lindos olhos cor de esmeralda .a de Sauve. entende? Compreende quanta ventura há nesta palavra: livre?. duquesa! tenho muito que te dizer . nem meu marido.a pobre mulher é o instrumento de que se querem servir para nos perder a todos. Não é isto.. teu marido não estará também? . minha rainha. . se faz com tanta facilidade uma freira. sua respeitosa criada perante o mundo. tudo . sim . venho.Vossa Majestade prometeu-me entrarmos em confidências.murmurou Margarida . Mas veremos se da rainha Margot. sorrindo. minha Senhora? Não é isto.perguntou a duquesa de Nevers. . E intimam-me para que uma vez no meu quarto o conserve aí até às seis horas da manhã.Nem rivalidades de Casas. como a nuvem.respondeu Margarida.Sim. apontando para o papel que Margarida acabava de ler e reler com tamanha atenção. rasgando o bilhete em bocadinhos. e leu o seguinte: Receie ordem de mandar entregar esta noite duas chaves ao rei de Navarra: uma é a do quarto em que ele está encerrado. a outra a do meu. nem ninguém. minha querida Henriqueta. Livre. decida Vossa Majestade.Não. suponho eu. o duque de Guisa não está lá.Tomei a liberdade de conduzir Vossa Majestade. a minha majestade pede-te que esqueças Sua Majestade.Ainda a minha majestade! Nós vamos zangar-nos.Primeiro que tudo. 92 XII AS CONFIDêNCIAS . livre como o ar. .disse a rainha. não. tua louca confidente a sós. como a ave. Vamos. . logo que viu que a liteira se movia. . então esqueceste os nossos ajustes? . aonde é que nós vamos? . tu estás muito alegre para que seja só isso. vens. tirou da manga com vivacidade o bilhete da Sr. É só isso? A tua liberdade só te serve para isso?. . . mando! Ah! pobre rainha! não é livre! e por isso. afinal.Não. -Vais.

. minha duquesa! isso mesmo. . nós. . Diz-me: fazes tu diferença entre huguenotes e católicos? . Henriqueta. bom era que ambos nós mudássemos de ideias. tudo bom.Ah! tranquilizas-me. é necessário que eu esteja casada. .Aí é que está o busílis. e não de política. E. .Conheces alguém que diz Coa breca. . Duquesa. .Eu falo de amor. . loura e risonha.Pois muda tu. minha bela rainha: falemos de outra coisa. E para renovar o pacto. o que te tranquiliza espanta-me a mim. a outra rosada. e podes ter a certeza de que ele mudará. essa efémera que se chama felicidade. e eu começarei.disse Margarida. com o propósito único de encontrarmos e agarrarmos se a encontrarmos.E em amor? . ou simulássemos. daqui até amanhã. . no que . e uniram os lábios. .perguntou Margarida rindo. . e não me importo com ele.Absolutamente.Em política. somos tão pagãs que. porque eu estou menos disposta a mudar do que nunca.Em duas palavras: o rei de Navarra está apaixonado. como podiam unir os pensamentos. Acaba. duas encantadoras cabeças: uma pálida e cheia de melancolia.Então há alguma novidade? . não se importa comigo. admitimo-las todas. que havíamos mudado.Muito bem. .Interrogas-me sempre. .De religião.perguntou a duquesa.Faço. quando és tu quem deve falar. tua mãe. .Coa breca! (como diz alguém que eu conheço) é triste! . contudo. fitando em Margarida um olhar agudo e curioso. enfim. ofensiva e defensiva. tudo franco. Eu não estou apaixonada. tenho um escrúpulo. Mas nós temos vinte anos.Um escrúpulo de quê? . dá cá um beijo.Só em relação a teu marido? . no que toca a seitas. . E aproximaram-se graciosamente. rindo. .Com quem? .Minha querida amiga.Pois.Ora essa! que me dizes! Pobre amiga! E é necessário? . Quando nós tivermos a idade da Catarina.Não é tudo novidade há dois dias? . e. uma aliança.Quem é? .Henriqueta.bem. . as mulheres.Conheço. Vamos. casada deveras? 93 . faremos política.Em política? .

.Oh! oh! e tu não o havias de certo modo convocado?. Mas parece-me que quem te felicitou foi meu irmão Carlos. Não ouviste a minha resposta? . é um grande caçador que toca a buzina todo o dia.escolheste um huguenote. Pois tranquiliza-te! Para sossegar a tua consciência. .Procedamos bem. .Bom! . eu abster-me-ia.respeita a deuses.Melhor. . . e que se refugiou no meu quarto.Mas é coisa incómoda um huguenote ferido! principalmente em dias como estes em que nos achamos.Sim! .E que tal é o teu huguenote? . e asas. . e deixemos falar. Eu recuso por isso até os seus cumprimentos.Mas tu tens um modo de orar exclusivo.Um pobre mancebo.Mas que tal é? Isso não te impedirá de mo dizeres. eu . Coa breca! viva a devoção! . se a pedra de que meu irmão Carlos falava fosse histórica. não? .Está gravemente ferido.Teu irmão Carlos.disse a duquesa. sim? .disse a rainha. reconhecemos muitos. .sim: o que se chama Eros-Cupido-Amor sim.Coa breca! . é moço. . .Pobre rapaz! Não rias assim. como as melhores acções se transformam passando pela boca do vulgo! . uma venda nos olhos. Margarida.replicou a duquesa. Tu esconde-lo no teu gabinete. tenho bastante medo.É belo. quero salvá-lo. E respondi a teu irmão Carlos.Então está doente? . e provavelmente nunca me há-de ser nada. esse huguenote muito ingrato será se não for muito reconhecido! . é mais do que eu desejaria.Bem. . falavas tão baixo!.É que. belo como o Niso de Benvenuto Cellini. o que tem uma aljava. sabes quanto sou curiosa. porque neste momento está ainda entre a vida e a morte. prometo-te escolher também um na primeira ocasião. .Acaba.Já o é. .É que . queres salvá-lo. .Está no meu gabinete. 94 . . mais novidades tenho que te dar. Mas fique isso para o fim da confidência. Ah! Margarida! como as melhores ideias. o que o faz emagrecer. .Não. é que. Henriqueta. está ferido. e o que hás-de tu fazer desse huguenote ferido que não te é nada.Não o escolhi. e que nunca te há-de ser nada? . . com um olhar cintilante de paganismo .Em um só. atiras pedras à cabeça dos huguenotes.O vulgo?.Ah! parece que desta vez tomaste um católico? . escondi-o. bem! percebo. rindo -. é um mancebo que me não é nada.exclamou Henriqueta .

). quando estiver curado. chego a distinguir o homem. se pudesses achar um meio de esconder o pobre mancebo. estremecendo a cada tiro que o ameaçava. socorro! Vieram os guardas. e vejo. não menos patética do que a tua.Foi exactamente o que respondi a teu irmão. foi uma comoção de um quarto de hora. e aí está por que falavas tão baixo que não te ouvi. querida rainha. No meio dos tiros e gritos. não tens nem cunhado nem marido que te espione ou te incomode. somente. uma voz de Estentor. esse pobre mancebo? .Não há senão uma dificuldade. minha pobre rainha! é essa virtude que nos perde sempre a nós mulheres! .Ouve. Vou à janela. quando de repente ouço gritos de mulheres e pragas de homens. 95 . Entusiasmo-me. é que a gaiola está ocupada. . é uma história admirável. enquanto ele estiver doente. há um grande gabinete como o meu. quando o meu herói desapareceu. tem. um herói. o rei. o duque de Alençon. Admiro essa folha furiosa (eu gosto do que é belo!. querida Henriqueta.Não.E como? .Não gracejes! . fico palpitante.Ah! a humanidade. felizmente para ti. não menos bela.Debaixo de uma pedra que lhe atirou uma velha. se pudesses conservar-lhe a vida que eu salvei. Tu és livre no Palácio de Guisa. . e. estava eu arquejante. .Sim. Pois empresta-me esse gabinete para o meu huguenote. com a condição de to restituir quando estiver curado? . e tu compreendes que. podem entrar no meu quarto. como julgava que não as havia.Por humanidade. agarraram-no. . e estava vendo saquear e queimar uma casa que não fica separada do palácio de meu irmão senão pela Rua dos Quatro Filhos. levantaram-no e . e gritei: Acudam. . . Margarida. Mas. por detrás do teu quarto. as abrir-lhe-ás a gaiola. minha rainha.disse Margarida. e o pássaro voará. não é isso. Por isso. e vejo uma espada cujo fogo só por si parecia que alumiava toda a cena. minha mãe e até meu marido. então. confesso-te que muito to agradeceria.E interessa-te. depois procuro naturalmente distinguir o braço que a fazia mover e o corpo a que esse braço pertencia. .Queres pedir-me que te guarde o teu huguenote.Pois quê! também tu salvaste alguém? .. Ouço uma voz. direito de entrar. suspensa ainda. como eu nunca havia experimentado. onde ninguém. de um momento para o outro. recuperei a voz. juro-te que não preparo as coisas de tão longe. como Ciro.Ah! compreendo. Depois de te haver deixado seis dos meus guardas entrei com os outros seis no Palácio de Guisa.

Está dito. O Sr. permita-me que lhe faça as honras do Palácio de Guisa como devem ser feitas à rainha de Navarra. . dando uma gargalhada. minha rainha! Estamos chegadas ao palácio.Então o meu protegido não pode ser recebido no Palácio de Guisa. . Que campeão. disselhe em italiano: .Sempre a melhorar .Oh! não há perigo. que caminhou majestosamente precedendo a duquesa.Chama-se Aníbal de Cocunás? . não careço de pôr na rua o Sr. .Entremos. mostrando-lhe com a mão a porta do palácio guardada por duas sentinelas.Obrigada . E.disse Henriqueta. e o outro no da esquerda.Com a diferença. o teu huguenote recebeu no peito um golpe que faz com que não se possa quase mexer.respondeu esta. . são capazes de se devorar. .Aqui. .disse Margarida. e conservando esta a sua atitude humilde enquanto podia ser vista. é negócio decidido. um como protestante e o outro como católico. recomenda-lhe que guarde silêncio acerca de religião. Esta manhã.Então para que hei-de pôr a máscara? . como vai o Senhor Conde? . . não me pareceu tanto. tenho pena. que. apertando a mão à sua amiga. minha Senhora. .Porque quero mostrar-te o meu herói. demais. à luz do dia. chamando a camareira. querida Henriqueta disse Margarida -.É um nome terrível.Mas.transportaram-no para o quarto que me pedes para o teu protegido.Mica.disse a duquesa de Nevers .É belo? . E a duquesa. quase que pôs um joelho em terra para ajudar Margarida a apear-se também.Qual história! Pode vir para cá esta noite. a duquesa fechou a porta e. . confesso. .Compreendo muito bem essa história.. que está tomando . apeando-se da liteira. coa breca! e quanto sangue ele fez correr! Põe a máscara. de arcabuz na mão. creio.E que é que faz? . . .. Aníbal de Cocunás. torna a ser majestade . Um deitar-seá no quarto da direita. de Cocunás recebeu na cara um golpe que quase o não deixa ver. e depois. minha Senhora. e tudo correrá às mil maravilhas. minha rainha. servindo o rei e a Religião. se se reconhecerem. Quando chegou ao quarto.Neste momento. porque era o último lugar onde viriam procurar um huguenote. . . não é verdade? .e portanto.tornou Margarida. É verdade que era à luz das chamas. seguiu a alguns passos a rainha. Pois aquele a quem pertence é digno dele. que é quase a minha história.Pareceu-me magnífico durante as suas batalhas. . Mas persuado-me de que não hás-de des gostar. siciliana das mais espertas.

. A rainha Margarida tomou o lugar da amiga. Mica.Prometes-me não lhe pronunciar o nome diante dele? .Pois sim! leva-me lá.disse Margarida. porque eu olhava para o que ele perseguia. minha bela rainha! Margarida sorriu.Lerac de La Mole.Que é? . o Sr.Então.perguntou a duquesa espantada.E como se chama o que ele perseguia? .disse a duquesa .Está sentado à mesa . .E que tal o achas agora? . .é o que queria matar o meu huguenote. e aproximou do buraco da fechadura um olho. se tens a tua máscara? . . como já o viste na faina. bom sinal é.É impossível!.Que te importa. .Ele quem? .O Sr. . Não! Sim! Oh! pela minha alma! é ele! .Qual é? . .continuou a duquesa.Prometo. pelas mãos. para velar por nós.Não sei . A duquesa travou da mão de Margarida. queria vê-lo sem ser vista. não é belo? .queres ir ter com ele. de La Mole? . . e de rosto voltado para aqui.Agora . que o perseguiu até ao meu quarto.Ah. diz-me lá. é verdade! esquecia-me de que és discípula de Ambrósio Paré. estava sentado a uma mesa admiravelmente servida.Cala-te! . Mica saiu.Olhar pelo buraco da fechadura: . 96 . . Vem cá. Cocunás.Oh! meu Deus! .disse Margarida -. e que chegou a feri-lo nos meus braços! Oh! Henriqueta! que bom foi que ele me não visse! . por uma jóia. como a duquesa dissera.Oh! como está prudente desde que está casada. .Confesso que o acho.exclamou Margarida.Pode-me reconhecer pelos cabelos. ou queres que o mande chamar? .Nem uma coisa nem outra. segurando-se e pegando na mão da duquesa .Sim.Bem . e que as feridas não o impediam de honrar. conduziu-a a uma porta sobre a qual havia um reposteiro. curvou um joelho e chegou um dos olhos ao buraco da chave.Não. . . .alguma coisa. . .disse Margarida -. . o apetite que volta. Podes-te retirar.disse ela -.Mas não me ocorre senão um meio .Manda-la embora? . de Cocunás. recuando.

a de Sauve. vamos. lá mais para diante.Cupido Amor. Esta chave era a do quarto em que Henrique estava encerrado. venha para o quarto da rainha de Navarra. .O triplo nome do triplo deus: Eros. . Margarida. ainda não. depois de um momento de silêncio. com um fim qualquer. tomou tinta. com grande espanto seu. cambaleando ainda. .a de Sauve. e tornou a cair sobre o canapé de que lhe haviam feito leito. . não pode conservar o equilíbrio. levando uma chave que lhe dera a rainha-mãe.replicou Margarida.Quando houveres dado ao teu outro quarto. . e desatou a rir. voltou-a e tornou a voltá-la nas mãos. . Ao vê-la. de que o Bearnês passasse essa noite no quarto da Sr. Feito isto. Depois enrolou o papel. Margarida pensou no pobre ferido.Está dito . e escreveu num papel: Em vez de ir esta noite para o quarto da Sr.disse a duquesa. introduziu-o no buraco da chave.Não.que o meu huguenote não lhe deve nada. . E as duas mulheres separaram-se depois de se haverem beijado pela segunda vez. o que vejo é que não podes perdoar-lhe a ferida que fez ao teu huguenote. 97 . passou-as letra por letra no seu espírito. e podemos harmonizálos. ele tentou levantar-se. .a de Sauve. rindo . e apertado a mão uma à outra pela vigésima.E a senha para nos reconhecermos. mas. olhou também para ela.a de Sauve.Vamos. Margarida pegou na chave. e ordenou a Gillonne que. fosse meter esta chave por baixo da porta do prisioneiro.Amizade sincera sempre . e.Quando? .respondeu a rainha. Tinha lá ido a Sr. Exigiu que Lhe dissessem até a mais insignificantes palavras da Sr. e julgou que compreendera o projecto de Catarina. Era evidente que a rainha-mãe carecia. tão depressa anoitecesse. Pegou numa pena.Mas parece-me . Manda-me o teu ferido. 98 XIII COMO HÁ CHAVES QUE ABREM AS PORTAS A QUE NÃO SÃO DESTINADAS A rainha de Navarra. quando tornou a entrar no Louvre.Qual? Margarida olhou para a sua amiga que. o que o prova a ferocidade com que lhe sublinhou o olho. entrou no gabinete. se carecermos uma da outra? .Interrompeu-se. achou La Mole vestido com o seu fato todo rasgado e sujo de sangue. Fechou todas as portas.Então não devem nada um ao outro. . achou Gillonne muito aflita.E mais aliança do que nunca! .

sem amigos. há no meu coração um sentimento de reconhecimento que durará toda a minha vida. .respondeu La Mole . vêem-selhe tremer as pernas! A sua ferida do ombro ainda esta manhã deitou sangue. é pior do que a ingratidão.Minha Senhora . tantas graças dei a Vossa Majestade por me haver agasalhado ontem à noite.Ah. . descorando levemente .disse Margarida.a culpa não é minha. Senhor! Há decerto fora do Louvre alguém a quem a sua ausência inquieta cruelmente. está pálido e sem forças. é noite. O homem que me perseguia é a primeira pessoa a quem falei nesta cidade. ou. 99 . onde ninguém me conhece. olhando com espanto para o mancebo. Porque não o disse imediatamente. depois. Eu pedi. .exclamou La Mole.se é só em Paris.Mas . e eu compreendo isso. de La Mole.engana-se redondamente. Gillonne sorriu e retirou-se. e o senhor morre pela perda de sangue. . compreendo! desculpe-me. espantada -.e porque é que tão mal cumpre as ordens do médico? Recomendei-lhe repouso. é natural.Deixar o Louvre? .disse Margarida.murmurou La Mole. Sou quase só no mundo.Oh! sim. minha Senhora! . .Mas que é isto. pondo as mãos creio que. Senhor? . como é que eu não tinha pensado nisso? É dever. admirada . que via serem sinceras . que baixava os olhos .Mas . longe de ser ingrato.Oh. faz exactamente o contrário do que lhe ordenei? . e Vossa Majestade a primeira mulher que me dirigiu a palavra.perguntou Margarida .porque é que se quer ir embora? . .Mas preciso sair do Louvre ..Então não dura muito tempo! . . não sei como classificar tão louco propósito. melhor. quando se exerce a hospitalidade.Porque a noite passada Vossa Majestade não teve o mais pequeno repouso.continuou Margarida . ou as suas feridas tornam a abrir. . minha Senhora! . quanto lhe suplico que haja por bem permitir-me que parta hoje. e esta noite.disse Margarida. proteger as afeições do hóspede como se lhe curam as feridas.Gillonne . fitando-o com o seu olhar límpido e profundo.Então .disse Gillonne .Oh! minha Senhora! . Sr. supliquei ao Senhor Conde que não fizesse essa loucura. . . porém. . e em vez de me obedecer. Margarida corou. ou o reconhecem como huguenote e não dá cem passos na rua que não acabem consigo.disse Margarida.respondeu o mancebo -.disse ela -. e completamente só em Paris. creio que é tempo de ires levar a chave. é impossível! O senhor não pode andar.Precisa? .mas. É justo. declarou-me que não se demorava mais tempo no Louvre. comovida por aquelas palavras. e tratar da alma como se trata do corpo.porque.disse Margarida. ele.

já o Sr.Minha Senhora. . . pensei em minha mãe.Sim. amigos ou conhecidos.Em primeiro lugar. que era católica. minha Senhora.Ah! . a perturbação da sua voz e os seus modos embaraçados.disse ela ..Minha Senhora. 100 . de Guisa mo tinha dito. . mas chegue eu à Praça do Louvre. a da Menina Gillonne com a Sr.Não fala já nele. Vossa Majestade ama seu esposo..Então que ouviu? .Sim. Mudando de religião. a de Sauve. minha Senhora. minha Senhora. Deus fez mais do que conservar-me a vida.exclamou Margarida. seria indiscreto. . Não devo ouvi-los. . É verdade .que há-de fazer? .Com Francisco? . não devo. em voz alta: .Mas o senhor não pode andar. com uma cruz na mão. .Vossa Majestade . pareceu-me que a via andar diante de mim no caminho do Louvre. Falar-lhe-ádos seus segredos. e fiz voto. empalidecendo atingiu a verdadeira causa da minha partida. Sei que o rei de Navarra corre os maiores perigos. e. se Deus me conservasse a vida. a conversação que Vossa Majestade teve esta manhã com seu irmão.ouviu deste gabinete tudo quanto até agora se disse naquele quarto. e que toda a sua influência como infante de França mal bastará para lhe salvar a cabeça. que depois pode suceder o que suceder. fiz hoje experiência no gabinete.Ouve-se tudo no gabinete onde estou. de seguir a religião de minha mãe. . principalmente. iluminaram Margarida como uma revelação súbita. perdeu o desejo de entrar para o seu serviço? . como vieram o Senhor Duque de Alençon e a Sr. . .. enviou-me um dos Seus anjos para ma fazer apreciar.Que quer dizer. e reflectiu profundamente. minha Senhora. . não o quero ser! A inflexão em que La Mole pronunciou as últimas palavras. e vai cair sem sentidos antes de dar cem passos. e não posso.respondeu La Mole.E foram só essas duas conversações?. E depois. Seu esposo há-de vir também. Enquanto era perseguido.disse intencionalmente. e de que perigos me fala? . depressa se arranjam. corando. sim..E o rei de Navarra? . é verdade.E quer partir esta noite para não ouvir mais nada? .Com o duque de Alençon.a de Sauve. ando devagar e com incómodo. e depois de Vossa Majestade sair. Casada há oito dias apenas.murmurou Margarida consigo mesma . . Margarida encostou a cabeça à mão. Estas palavras mal foram suspiradas. Senhor.

. porque Vossa Majestade o lastima.Pobre mancebo! -. . Desta vez foi Margarida quem baixou os olhos e quem sentiu vibrar o golpe no mais profundo do seu coração. A resposta de Gillonne. meu irmão? . . minha Senhora! .. comovida a ponto de tremer.Minha Senhora . . apoiada às costas da cadeira. . o seu olhar encontrou o de Margarida.Ah! sim. se Vossa Majestade houver por bem permitir-mo.Então considera-se incapaz de guardar um segredo. Margarida amarrotara a seda da sua algibeira de esmolas.disse Margarida. desconfio de mim mesmo.disse ela. Neste momento tornou Gillonne a entrar.Então recusa ver o rei de Navarra? . não..No mesmo instante minha Senhora. a ventura do rei de Navarra! Pobre Henrique!.Feliz?. . de Guisa.Porque. sorrindo.. não sou ainda católico bom para ser amigo do Sr. Espantado com uma resposta tão meiga quando esperava alguma resposta desabrida. gozava a ventura de ler correntemente nessa alma. . não sabendo dizer se as palavras de La Mole eram para ela carinhosas ou de censura. Margarida interrogou-a com os olhos. de La Mole? .perguntou Margarida. não! Menos ainda o Senhor Duque de Alençon do que o rei de Navarra.o Senhor Duque de Alençon..disse La Mole -. . foi afirmativa. e arrancara-lhe os fios de ouro. de Alençon e do Sr. conservando-se impenetrável.exclamou La Mole com vivacidade..Porquê?. . meio escondida por um reposteiro espesso. contida também num olhar. Tinha conseguido fazer chegar a chave às mãos do rei de Navarra. disse Margarida com singular inflexão de dó. . La Mole levantou timidamente a cabeça. . minha Senhora! . e ficou preso como por um poder magnético sobre o olhar límpido e profundo da rainha.Mas o duque de Allençon.A ventura de quem? . .disse em voz baixa Margarida que. .Oh. Sr. e a ventura dos outros faz-me mal. embora já muito mau huguenote para ser servidor dedicado de Sua Majestade o Rei de Navarra.. eu sou de um feitio esquisito.Receio importunar Sua Majestade neste momento. .Sim.exclamou La Mole .É coisa decidida no seu espírito? . ..Bem vê que ele é feliz.

Mas. e quis curvar-se diante dela em sinal de que estava às suas ordens.Mas cale-se. disse: . de La Mole é soberbo.Já? . tornou a fechar a porta e.disse Gillonne. bem vê que ainda precisa de mim! 101 Agitou os lábios de La Mole um movimento que mal se percebeu. Então vou falar e. .Abro? .Silêncio então. e. que pegou nela com as duas mãos e a chegou aos lábios. nada quer ouvir.interrompeu Margarida. saindo do gabinete. saiba que a amo. é de presumir que me mande pôr fora da porta. La Mole levantou-se. encostando-se à parede. .Minha Senhora . .exclamou Margarida. Bem vê .Ouve. e eu hesito em lhe fazer uma proposta que decerto recusará. . minha Senhora. sim? morto ou vivo! Tenha dó de mim! Oh não me responde. Depois. em voz tão baixa que esperava que só Gillonne as tivesse ouvido.murmurou Margarida. que estava diante dela indeciso. . que achava infinito encanto em ouvir as recriminações do mancebo cale-se! . deu um passo para Margarida. . porque mando eu! . que se tornou forte com as poucas palavras que a rainha pronunciara. . . mas arrancou-lhe lágrimas dos olhos uma dor profunda. assustada. agarrou-se a um reposteiro. minha Senhora! .murmurou La Mole. .disse Margarida. . correndo para ele e segurandoo nos braços -.Cale-se.Oh! sim! .Margarida tornou a pôr os olhos em La Mole. de joelhos lhe suplico! faça-me sair. . Há-de ser o rei de Navarra. sentindo que ia cair. que não achava decerto na voz de Margarida o rigor que esperava -.disse Margarida.Espera. Mas então. depois de eu ter falado. minha Senhora? .Oh. repito-lhe: ouve-se tudo neste gabinete.tornou La Mole. comprimindo com a mão trémula as pulsações do coração. a nada quer atender. de cabeça caída para o peito e pálido como um homem que ao mesmo tempo sofre do corpo e da alma.O Sr.Silêncio! silêncio! . desgraçado! . não seja criança! Que rebelde é este que não quer obedecer à sua rainha. tapando com a sua mão perfumada a boca do mancebo. . como do dia que vejo! Neste momento ouviram-se três pancadas à porta de Margarida.minha Senhora. Oh! não me faça morrer dessa morte que os mais cruéis algozes não ousariam inventar.como do ar que respiro.murmurou ele . . aguda.exclamou La Mole. .Oh! a senhora não tem compaixão.

.Falemos agora discretamente. olhando em roda de si com uma nova desconfiança. desarmado.Mas . Sire . . . pelas mãos de quatro mulheres . eu não consinto ainda. não é verdade? acrescentou Margarida.disse a rainha. é morrer atraiçoado por sua mulher.Sim. . Basta que saiba que passou pelas mãos de quatro mulheres antes de chegar às suas. É fundado o boato que hoje corre de que Vossa Majestade consente em abjurar? .disse Henrique.Abre. enquanto Henrique parecia querer ler-lhe até ao fundo do coração. e que Vossa Majestade ama. .Sire .Mandou-me chamar. prisioneiro. e que um dia vira brilhar nel a estrela da coragem. há-de mudar de linguagem quando souber que tudo quanto se faz neste momento é obra de uma pessoa que o ama. confesso. e mais que tudo sejamos francos. . foi na noite do nosso casamento. que era o determinado para a minha morte. foi ontem. da Sr. Henrique entrou a meditar neste enigma. o rei de Navarra não tem senão um meio de morrer de modo que dê nas vistas.O boato é infundado.disse Margarida -. disse comigo no mesmo instante.Mandei. que me dizia que viesse: Sem amigos. de Gillonne e as minhas..Oh! tranquilize-se. . não o nego. rodeado de inimigos encarniçados e de amigos talvez mais perigosos ainda do que os inimigos. a carta mandei-lha eu. .a de Sauve. minha Senhora.disse Margarida as da rainha. Mas a chave. Henrique quase que recuou a estas palavras. minha Senhora? . 102 . Senhor .E não sem alguma inquietação. e esse dia. e os seus olhos pardos e penetrantes. que em breve se desvaneceu. de morte que a história registe. lembrei-me de que uma noite vira radiar nos seus olhos o sentimento da generosidade. .respondeu Margarida -. ao ler a sua carta. não tenha a pretensão de supor que essa pessoa seja eu! .disse Henrique -. foi a senhora que me mandou esta chave. espirituosa e um tanto inquieta do rei de Navarra. Gillonne! Gillonne saiu do quarto e. com espanto.E daí. Vossa Majestade recebeu a minha carta? . . é outra coisa. Mas. e que me escreveu esta carta. interrogaram a rainha com curiosidade.De quatro mulheres? . sorrindo. E vim. Senhor.disse Margarida.E confesso que não foi sem espanto! . poucos momentos depois.disse o rei de Navarra a Margarida.mãe. sorrindo -. ergueu o reposteiro a cabeça esguia. Senhor? . .Confesso-lhe que sim. pensando em tudo isto.A letra é minha.E daí. .exclamou Henrique.

ou antes. depois de haver renunciado à sua coroa. que despertaria suspeitas num rito menos subtil do que era o rei de Navarra. Mas. . .disse Margarida. se me ocultassem nesta questão que prende com o meu trono. A ambição mordeu pois o seu coração de mulher.E minha mulher. o amor não tem dessas . Porque não fariam dela também um ludíbrio.respondeu Henrique. não é assim? Henrique não pôde reprimir um leve sorriso. Essa resignação pela sua situação. Pensou que talvez Carlos IX. Catarina e o rei de Navarra houvessem combinado anular o casamento. Margarida olhou para Henrique de um modo tão singular.A senhora bem sabe que neste mundo não pode haver certezas.E tem a certeza de chegar a esse resultado? . depois de haver renunciado à sua religião. essa renúncia às coisas deste mundo.Mas está disposto a isso? .Certeza. minha Senhora. vencendo esta comoção com a rapidez do relâmpago. e talvez que eu teimasse em me conservar rei dos huguenotes. tenho de me contentar com o viver. quando ama. e. a minha honra e a minha vida. Que quer? quando se tem vinte anos e se é quase rei. . . não. ou uma vítima? Porque era irmã de um e mulher do outro? A experiência ensinara-lhe que não era razão em que pudesse fundar a sua segurança. muito superior às fraquezas vulgares para se deixar arrastar a um despeito de amorpróprio: em toda a mulher. de que neste momento não tenho livre arbítrio. . coa foctuna! há coisas que valem bem uma missa.Nesse caso? Talvez diversificasse. ou como penitente nalgum convento. como sabe. Estas palavras tinham em si uma significação tão profunda que Henrique estremeceu. Hei-de fazer portanto o que o rei de França me ordenar.Queira lembrar-se.tornou Margarida . sim. de rainha. . a vida. por 103 medíocre que seja.Ando em consulta comigo mesmo.. a basear o meu futuro nos privilégios que me dá o nosso casamento forçado. -Tenho alguma reserva para com os meus aliados porque. aterraram Margarida. professa tanto desinteresse que.E entre essas coisas. No que me diz respeito.Não me diz tudo quanto pensa.perguntou. acrescentou: . não . mau grado seu. Sire? . como eles Agora. .E sua mulher.É verdade . é provável que renuncie (e pelo menos há quem assim o espere) à sua aliança com uma infanta de França.que Vossa Majestade manifesta tamanha moderação. . nós não somos por enquanto senão aliados: se a senhora fosse a um tempo minha aliada. Sire! . preferiria ir enterrar-me como caçador nalgum castelo.

Margarida encolheu os ombros com uma expressão impossível de descrever. . . . Perdemos a Navarra. e tudo dormia ou fingia que dormia no Louvre.exclamou Margarida. disse: . nem a sua liberdade.Mas. Margarida não pôde deixar de sorrir. Henrique deu três passos para a porta. por estar escondida na tempestade que paira por cima de mim. o que não podia fazer quando havia nesse gabinete alguém que a escutasse. o que nego é o seu poder. se me não engano. Margarida levou . . Margarida calou-se.continuou Henrique -. Conquanto estivesse preocupadíssima. .disse Henrique. A mulher não é realmente poderosa senão quando nela se reúnem em partes iguais o amor e o interesse. nem a sua vida? Cego! pobre louco! Não viu na minha carta senão uma entrevista. julgou que Margarida. com voz surda. porque o amor verdadeiro também é uma ambição..Disse o seu poder. e repito a palavra. bem sei. ofendida com a sua frieza.. não a posso ver. . Mas a Navarra pouco é.Quer dizer. Ora.não tem confiança na estrela que irradia por cima da fronte dos reis. e pegando no braço do marido. como se só então se recordasse da circunstância que o levara ao quarto da rainha.A propósito. porque já tinham dado onze horas. e depois parando de repente. No mesmo instante sentiu-se à porta secreta um rumor desusado. não o posso negar a senhora apareceu no lugar da cena como a divindade antiga. em comparação com a liberdade que lhe é restituída de poder falar alto no seu quarto.E se o sopro de uma mulher desviasse a tempestade. exactamente a tempo de me salvar a vida.O senhor nega a existência dessa mulher? .É muito difícil .Oiça .por mais que neste momento procure a minha. que havia servido de penhor para a destruição dos meus partidários. espantado confesso.Desgraçado! . se só um desses sentimentos a preocupa. não posso contar com uma mulher assim. .Parece-me que Vossa Majestade . . desejava uma reparação? . minha Senhora: não tinha que me dizer o quer que fosse? Ou queria tão-somente oferecer-me a ocasião de Lhe agradecer o serviço que ontem me prestou com a sua presença na sala de armas de el-rei? Na verdade.disse Henrique. Eu.Então não vê que nada está salvo. Era o mais urgente. devia cuidar em salvar a minha vida.disse Margarida com modos zombeteiros .fraquezas. Germano L'Auxerrois a senhora devia cuidar em reconquistar a sua liberdade. . estranho. a sua vontade. é vulnerável como Aquiles. O rei de Navarra já se havia levantado para voltar para o seu quarto. ao último toque do sino de S. nem a sua coroa.disse Henrique .Ah! . minha Senhora .Não. e tornasse essa estrela brilhante como nunca? .

.disse Henrique -.É ela. . Margarida pulou com a agilidade de uma pantera para o gabinete em que estava La Mole.Servem lá de alguma coisa o ferro e a couraça! .Ouça .a de Sauve fugia. aproximando-se dele tanto que o seu hálito embalsamado lhe cobriu o rosto com um vapor húmido .perguntou Margarida. E. que a Sr. mas é a rainha-mãe sozinha. . tirou o toucado. que ele ouviu com uma atenção cheia de espanto. procurou o mancebo e.silêncio! Depois.exclamou Margarida. saindo de sob o cortinado de penteador branco. como se a houvesse assustado essa inesperada irrupção no seu quarto.exclamou Margarida. que lhe brilhou imediatamente na mão como uma víbora ao sol. saltou fora da cama e.. 104 . e que Henrique reconheceu no mesmo instante ser a da Sr. . cortou com o punhal as prisões do vestido e deitou-se na cama. . E imediatamente. .E eu receava-o . . fez ver a Margarida uma fina túnica de malha de aço e um comprido punhal milanês. . e a prova está aqui.Eu tinha a certeza disto .disse-lhe.Oh! oh! .Quem está aí? . .Vem ao quarto de Vossa Majestade. -Mas. o roçagar de uma saia de seda provou.Silêncio! . é verdade. 105 Iv SEGUNDA NOITE DE NOIVADO .o rei até ao pé dessa porta. disse-lhe em voz baixa algumas palavras. afastando-se. abriu a porta. .murmurou uma voz atemorizada. sobre o peito.A rainha-mãe sai do quarto . com uma surpresa tão bem fingida que a florentina não podia deixar de acreditar nela.disse Margarida. Era tempo: a chave dava volta na fechadura. Catarina tinha chaves para abrir todas as portas do Louvre. veio.exclamou Henrique. reconhecendo Catarina. sinto-a. E com um gesto rápido abriu o gibão de veludo preto e. Pela sua parte. silêncio! E inclinando-se para o ouvido de Henrique. E imediatamente Henrique se escondeu por detrás do cortinado do leito.a de Sauve. . Sire! Esconda o punhal: é a rainha-mãe. beijar a mão de sua mãe.disse-lhe. pegando-lhe na mão e apertando-lhe: . Margarida.E onde vai ela? . voltando para o quarto e tornando a fechar a porta. enquanto Catarina dispunha à porta uma guarda de quatro gentis-homens que a tinha acompanhado.Vamos.

mas felizmente Catarina não reparou nisso. só esta noite soube que teu marido não tem para contigo as atenções que deve haver não só para com uma mulher bonita. . tão bela e tão sedutora. notam que Henrique de Navarra todas as noites 107 se engana no quarto. e que. que não pensávamos que a repugnância do rei de Navarra para contigo. decidiram o teu casamento. . que a chaga do teu coração não pode. disse: .Margarida.pode curá-la a mão de uma mãe. pelos teus ditos amargos acerca da Sauve. a não ser assim. mas também para com uma infanta de França. convenceram Catarina de que realmente despertara sua filha. sentemo-nos e conversemos.disse Catarina . de compreenderes quanto teu irmão e eu aspiramos a fazer-te feliz.A rainha-mãe deitou a vista em redor da câmara com maravilhosa rapidez.É tempo . As chinelas de veludo ao pé da cama. cumprimos decerto um desses actos de política que muitas vezes são recomendados por graves interesses de quem governa. . Que irá ela dizer-me? pensou Margarida. . julgando fazer a tua felicidade. a ador escandalosamente. na sua solicitude para contigo. e do teu merecimento. os vestidos de Margarida por cima das cadeiras e os olhos que esfregava para afugentar o sono. é tempo. aqueles que não podem permitir que um régulo como ele ofenda a todo o momento uma mulher da tua beleza. minha filha. a despeito dos teus esforços.Casando-te . e despreze por isso a mulher que houvemos por bem conceder-lhe. puxando uma poltrona.Sou toda ouvidos. fechando os olhos com o vagar das pessoas que reflectem ou dissimulam profundamente -. é desgraça.Só esta noite soube .Que o rei de Navarra tenha publicamente amores com uma das minhas damas. Margarida soltou um suspiro e Catarina. cruzando o penteador.Essa chaga .continuou Catarina . . teria aqui vindo mais cedo). Mas devemos confessar. animada por esta muda adesão. Aqueles que. continuou: .continuou a florentina -. Então sorriu como uma mulher que consegue o que quer e. Margarida estremeceu: um leve movimento agitara o cortinado. uma cerimoniosa mesura à mãe. com o desdém da tua pessoa e o desprezo da sua posteridade.disse Catarina. minha querida filha. sangrar sempre para dentro.Há muito tempo . se conservaria tão pertinaz. . tão nova.que eu vejo. minha pobre filha. pelos teus olhos vermelhos. Margarida baixou a cabeça. da tua jerarquia. O exórdio era assustador para quem conhecia Catarina. Margarida levantou-se e fez.disse Catarina . .(porque.

de um modo a um tempo mais digno de ti e da tua posição. Margarida deixou que a mãe contemplasse por um momento esse quadro que produzia nela o efeito da cabeça de Medusa. contra aquilo que dele esperávamos. Ao proferir estas palavras. deitado em cima da cama em desordem. Ligou no seu pensamento activo a imagem dessa fronte pálida. andando nas pontas dos . à mãe. depois para Henrique. o teu futuro. e que me enchem de prazer e de honra. esses não terão direito de assegurar.disse ela -. que a informaram mal. Catarina olhou primeiro para Margarida. e aproximando-se mais de Margarida: . aproximou da cama uma vela de cera cor-de-rosa e. e neste mesmo momento. essa louca e insolente cabeça se revoltará contra a nossa família. com o corpo deitado para trás. Catarina ergueu a voz . parecia na realidade dormir tranquila e profundamente. a despeito dessas observações em que tanto respira o amor de mãe.Até pode acordar meu marido. mostrou.Ele . Catarina não deu um grito.respondeu Margarida -. levantando o cortinado. teu esposo? Pois para ser marido e mulher basta a bênção da Igreja. como se um abismo se lhe tivesse aberto aos pés. mas até. minha Senhora . o perfil altivo. mas um rugido surdo. e tu verás. enfim. poderias dar-me essa resposta. ao sorriso de Margarida. Pálida. desses olhos rodeados de um ligeiro círculo negro. . e te expulsará de sua casa. deixando entreaberto o roupão de dormir. minha Senhora! Mais baixo. de olhos espantados. cujas mangas curtas lhe deixavam ver um braço nu.Bem vê. por quem é! . tomarei a liberdade de notar a Vossa Majestade que o rei de Navarra é meu esposo.Oh! fale mais baixo. do mais puro modelo.Até o quê? . vem comigo: esta chave abre a porta do quarto da baronesa de Sauve.vem. Catarina fez um gesto colérico. se tu fosses a baronesa de Sauve. minha Senhora . sorrindo.disse Margarida porque não somente se engana Vossa Majestade. que ao primeiro vento que julgar favorável. separando-o do seu. é outra que ele dá esses direitos. desde que concedeste a Henrique de Navarra a honra de te chamar sua mulher. os cabelos negros e a boca entreaberta do rei de Navarra que. . . Mas. Depois deixou cair o cortinado e. levantou-se Margarida com voluptuosa graça e.disse Margarida -. teu esposo? Oh! minha filha.Contudo. . húmida. A consagração do casamento estará só nas palavras do padre? Ele.aqueles que vêem. e mordeu os delgados lábios com silencioso furor. e a mão verdadeiramente régia.

Vossa Majestade esquece-se que a esta hora 108 sofre e geme por sua causa uma mulher a quem deve a vida? A baronesa de Sauve . parodiando as palavras que.disse Margarida -. . . que insensivelmente iam subindo já aos braços.Entremos nele.fezlhe o sacrifício do seu ciúme mandando-o para aqui. depois. vendo-o em trajos tão caseiros. lhe faça também o da vida. Vinha simplesmente em calções e cota de malha. . .pés. e talvez depois de ter feito por causa de Vossa Majestade esse sacrifício.disse Margarida. dirigira à mãe -. esquecia-me de que provavelmente não sou eu quem terá de gozar o fim desta interessante cena.Mais baixo. quando vinha ao Louvre avisar Vossa Majestade do perigo que corria.disse apaixonadamente Henrique. tornou a abrir-se o cortinado e Henrique. Abriuse a porta e Henrique ficou estufacto ao ver um homem nesse . porque Vossa Majestade sabe. . baixando a voz .Oh! oh! .respondeu a rainha.Ah. Quando se extinguiu o ruído dos seus passos. fez um gesto para sair. meio risonho.Oh! mas reflectindo bem . levantando-se.Nada .. a respiração oprimida e as mãos trémulas. Na verdade.disse ela. e sentando-se: . de maneira que Margarida.Dizia então Vossa Majestade.lhe que não fale tão alto.Senhor .disse Henrique. melhor que ninguém. . dez minutos antes. mais baixo . Margarida. meio sombrio.acrescentou ela. com admirável galanteio -. e como não sou inteiramente livre. Deram-lhe a chave sem a menor indicação. Henrique estremeceu e. . voltou para onde estava a mãe. peço.respondeu ela. .Se se dignasse esquecer. porque quero ter a honra de apresentar a Vossa Majestade um fidalgo valente que foi ferido durante a carnificina. o meu espírito tranquiliza-se. com os olhos brilhantes. .. ouvem naquele gabinete o que Vossa Majestade diz. Henrique seguiu-a. como se o seu olhar penetrante se tivesse embotado no sossego de espírito da filha: . Aquele gabinete. A florentina procurou. durante alguns momentos. veio ajoelhar-se aos pés de Margarida. Senhor . A rainha dirigiu-se para a porta. não pôde deixar de rir ao mesmo tempo que lhe apertava a mão com sinceras demonstraçôes de afecto. quanto é de recear a cólera da rainha Catarina.Oh! se dou. minha Senhora! ah! Margarida! como poderei pagar-lhe um favor tão valioso? E cobriu-lhe a mão de beijos. E saiu apressada do quarto de Margarida. e presumir-se-á que Vossa Majestade me deu esta noite a preferência. sondar a ingenuidade de Margarida. Senhor. recuando pouco a pouco -.

. .disse o rei.disse Henrique . dos quais o parceiro contrário ainda não ganhou senão um.Por certo que sim. de repente. ainda que católico.gabinete predestinado às surpresas. enrique lançou um olhar irónico a Margarida. tomando e lendo a carta -.balbuciou o rei -.Senhor . de Auriac.Então. Mas la Mole ainda ficou mais maravilhado ao achar-se.E porque não cumpriu essa recomendação? . se se visse no meu lugar . é pena . Senhor. a rainha entregou-me a sua carta.Deu. e é possivel que.é verdade.disse Henrique em voz baixa .Se eu quisesse passar para o lado dos seus adversários - .Senhor. e que entrego à sua protecção. recomendando-me que a entregasse a Vossa Majestade logo que chegasse. uma notícia tão importante que não se atrevia a confiá-la a qualquer mensageiro.Porque. como já tive a honra de dizer a Vossa Majestade. com um olhar interrogador . e que lhe foi recomendado por esse pobre de Teligny.Tive ordem do Sr. mas o governador Lauriac não lhe deu também uma carta para mim? .disse Henrique a Margarida.disse Margarida -. .Em vez de perder o tempo lamentando o passado. porque a estas horas estaríamos em segurança nalguma boa planície. por mais diligência que fizesse ontem não pude chegar. mas Vossa Majestade estava tão ocupado que não pôde receber-me. segundo me assegurou. de Auriac de não a entregar senão a Vossa Majestade porque continha. que Vossa Majestade esperava. . 109 .Com efeito .ainda teria esperanças? . o que não tem remédio remediado está . . como governador de província. diante do rei de Navarra. temo que matem mesmo no meu quarto esse fidalgo.Ah! minha Senhora! . morto ao meu lado. que é dedicado ao serviço de Vossa Majestade. Ah! porque não me entregou esta carta há três dias em vez de ma entregar hoje? .disse o rei -.Senhor . . era meu amigo sincero. que se conservou impassível. e consideraria o jogo começado como uma partida em três pontos.disse Margarida em voz baixa. O Sr. era para me dizer que saísse daqui e e me retirasse para Béarn.disse então o mancebo -. tivesse alguns indícios do que se passou. .se eu tivesse a certeza de que Vossa Majestade seria minha parceira no jogo!. . sou o conde de Lérac de Ia Mole. com dois ou três mil cavalos em roda de nós. -Ah! . vim ao Louvre ontem à noite. mas porque não me mandou a carta? . . pense em tirar o melhor partido do futuro.É verdade .Senhor. É pena.

este fidalgo não pode ficar no seu quarto sem a incomodar enormemente.Então que voto foi esse? . que me guiava para o Louvre com uma cruz na mão. minha Senhora. Explique a elrei. Senhora . relendo a carta que lhe trouxera La Mole .Tem razão . pareceu-me ver a sombra de minha mãe. calou-se também.Ah! Senhor! . ainda hoje se pode remediar tudo. de La Mole. mas Vossa Majestade acolheu tão friamente as minhas explicações a este respeito . de La Mole não poderá achar um cantinho na casa de Vossa Majestade? . e não conhecendo ainda o terreno escorregadio de uma corte tão cheia de perigos como a de França.observou La Mole . Mas a rainha queria que Henrique lhe pedisse o que ela desejava obter dele.disse La Mole -. Deus conduziu-me aqui. Quanto a La Mole. vendo essa reserva da sua protectora.respondeu La Mole -. . de adoptar a religião de minha mãe. era católica e que a essa circunstância é devida a amizade que lhe dispensa.Senhor . . .verdade. que não ousei. . Não se tratava dalguma coisa semelhante ao que deseja el-rei? . como muito bem diz Vossa Majestade.porque isso não era da minha competência. Então fiz voto. Sr.desejo a Vossa Majestade as maiores venturas.tornou Henrique.respondeu Margarida -.Mas . Henrique começou a sorrir com esse sorriso de campónio astuto que só foi bem compreendido na corte no dia em que ele foi rei de França. mas já não existe o Senhor Almirante. olhando para La Mole com atenção -.O Sr. . sem armas e quase morrendo em resultado dos meus ferimentos. Senhor? Vossa Majestade sabe que sou em tudo e por tudo da sua opinião.disse Henrique -. . Que destino tenciona dar-lhe? . se escapasse com vida.a de La Mole. Senhor.não me falou num voto que o fez de mudar de religião? As minhas ideias confundem-se a este respeito.disse Margarida . . . sou um ingrato e. perseguido por assassinos.Mas.E o Senhor Conde . parece-me que não me teria demorado tanto tempo no campo de Vossa Majestade.difícil. Sr. auxilie a minha memória. onde me .tornou ele. explique. a quem Deus permitiu que saísse do túmulo para me servir de guia nessa noite horrível. e sem se expor a desagradáveis surpresas.Não o poderemos fazer sair do Louvre. como se tivesse ainda um povo. responderia logo: Ele é católico. e no entanto sabe que já estou meio convertido.Ah! minha Senhora! Vossa Majestade continua a tratar-me como se eu fosse ainda rei dos huguenotes. Outra que não fosse Margarida. .o Senhor Governador da Provença diz-me que sua mãe.

disse ela -. não podemos deixar descansar o Sr.perguntou Henrique. A sua resposta não se ressentiu. talvez de mais. toda a desesperação que se manifestava nessa fraqueza.Senhor . 110 Sentia. convém.Ordene.O Sr. vou chamar Gillonne e deitar-me. mas eram as últimas palavras de Margarida. demais. Compreendeu que aquela que o exilava do leito conjugal tinha adquirido esse direito com a indiferença que ele lhe manifestara. com sua delicadeza de mulher. O rei não quer encarregar-se do meu protegido disse consigo Margarida. Henrique franziu a testa. deixou-se cair numa cadeira. . que ele ouvira e interpretara.Que honra. e será obedecida. . quebrado de dor e de fadiga. La Mole conservava-se entretanto tímido e constrangido entre as duas vontades contrárias. os seus amigos e inimigos exprobraram-lha em época menor. que o faziam empalidecer. e Vossa Majestade dormirá nesta cama. sorrindo -. Eu mesma estou caindo de sono.Bem. de nós três. compreendia bem a abjuração por interesse. Margarida acabava de vingar-se dessa indiferença salvandolhe a vida. visto que veio aqui para lhe anunciar a morte do almirante e depois falhou no momento de ser ferido. . esquecemo-nos de que este pobre ferido carece de repouso. A minha vida foi salva milagrosamente.encontro sob a protecção de uma filha de França e de el-rei de Navarra.Senhor . se meu augusto esposo o permite acrescentou Margarida. de La Mole dormirá esta noite aqui mesmo. mas duvidava muito da abjuração pela fé. Veja como ele empalidece. minha Senhora? . . que arriscou a vida para salvar a do seu rei. minha Senhora . Henrique tinha viveza. Quanto a mim. não au quem menos careça de descanso. Céptico como era. porque. Estou pronto a fazer-me católico. convém que Vossa Majestade dispense a este fidalgo. de amor- . La Mole empalidecia realmente. sem bem o poder explicar a si mesmo. nada mais fácil. resta-me pois somente cumprir o meu voto.disse Henrique -. digo. o ridículo da sua posição. de La Mole? O mancebo dirigiu a Margarida um olhar de súplica e. Foi Margarida que. não obstante a presença de duas testas coroadas. que Vossa Majestade lhe dispense uma honra da qual se mostrará agradecido toda a sua vida. juro-lhe.disse ela -. . Margarida compreendeu todo o amor que havia nesse olhar. pois. Senhor. . o tirou dessa situação desfavorável. aos pés de Vossa Majestade.

ouviu uma chave dar . que pouco depois adormeceu. é preciso que amanhã. meu irmão. Em seguida.próprio. La Mole talvez pudesse ter dormido como el. de La Mole tenha amanhã um protector no Louvre.rei. de La Mole se julga no estado de ir para o meu quarto. a esta hora. É bem novo . tem lindíssimos olhos. Em lugar de entrar no seu quarto.respondeu Margarida . sem esperar pela resposta de el-rei. enquanto Darfole velava na antecâmara. sem ter o poder de a desenredar. deseje vir aqui antes das oito horas da manhã.balbuciava Margarida. A baronesa de Sauve estava esperando por duas visitas. o duque de Alençon. Deitada meio vestida. Ele fugia. entrou no seu quarto e. chamou Gillonne. subiu directamente ao da sua dama. Davam duas horas no Louvre. . mas se não fosse valente!. mandou preparar as almofadas para pôrs pés de Sua Majestade e a cama para La Mole. começando logo a ressonar.Minha Senhora . E. tendo aferrolhado bem todas as portas deitou-se na cama. Esta aproximou-se. e a prudência exige que Vossa Majestade fique aqui até amanhã. seja qual for o pretexto.torna-se necessário que o Sr.replicou ele -. como se estivesse deitado no seu leito de couro do Béarn.Gillonne . é pena: o sonho começava bem. . mas Margarida não dormia: virava-se e revirava-se na cama. DEUS O QUER Margarida não se enganou: a cólera de Catarina.Creio que sim .mas o quarto de Vossa Majestade. que esperava as suas últimas ordens. 112 XV O QUE A MULHER QUER. que se mostrava tão contente e satisfeito com a honra que teria jurado que já não lhe doíam as feridas. não pode proteger nem um nem outro. chamou Gillonne. no meio da sua vigília é bem tímido. talvez amanhã se arrependa. a de Henrique e a da rainha-mãe. no entanto. ofereço-lhe a minha cama. e confiemos no tríplice deus dessa boua Henriqueta. se o Sr. . deixemos caminhar as coisas.disse a rainha em voz baixa -. precisava recair sobre alguém. e aquele que hoje finge nada ouvir. 111 muitos atractivos.disse Margarida consigo . talvez mesmo que seja bisonho. Margarida cortejou o rei cerimoniosamente. que todos temiam. e esse ruído perturbava as ideias e o sono do mancebo. reconcentrada no fundo do coração por toda a comédia cuja intriga ela via. La Mole falou por algum tempo em política com el-rei. abjura. figura elegante. vamos. Agora .

ou uma refinada dissimulação. sem que a sua voz indicasse alteração.. bem sabias.Sim. .replicou a dama. . Carlota mia? .Eu.E viu-o? . e encostada à mão. . esperou. O que dava a Carlota o valor de mentir daquele modo era a certeza que tinha da mais terrível vingança. bem o sabias. reunindo interiormente todas as forças da alma para fazer frente à tempestade que silenciosamente se preparava. . e que pareciam pesados. durante o qual Catarina fixava a baronesa como a serpente fixa a ave que quer fascinar. estremecendo. não reconheceu.perguntou Catarina.Mas. supões-te . estremecendo só com esta suposição -. e a pobre Carlota ficou pregada no mesmo lugar.disse ela com um sorriso sardónico -. e depois aproximar-se alguém a passos lentos. minha Senhora. . ao ver Catarina. quis saltar da cama.parece-me que Vossa Majestade não mo disse. quando ouvi dar volta na fechadura. porém a baronesa de Sauve. Mas estas eram pronunciadas com os lábios cada vez mais descorados. e até supus. com o mesmo riso silencioso e cruel. mas espero-o. que era ele que chegava.Supões-te formosa .Sim.perguntou a baronesa. Esta parecia tranquila. não lhes abafasse o som um espesso tapete..Fez com que entregassem a chave ao rei de Navarra? perguntou Catarina. pois. costumada a estudá-la havia dois anos.respondeu Carlota. que anunciava na baronesa de Sauve ou uma perfeita confiança. que aquele andar fosse o de Henrique: lembrou-se que teriam impedido Darfole de a advertir. não escreveste ao rei de Navarra. talvez. aparecer Catarina de Médicis. com os olhos e os ouvidos atentos.exclamou Carlota. Carlota. que o rei de Navarra não viria esta noite.E apesar de tudo . O reposteiro levantou-se. Catarina não pôde reter um ligeiro movimento de cólera.O rei de Navarra? .volta na fechadura.respondeu Carlota.. .Não. porém esta levantou a mão para lhe fazer sinal de ficar.Não. sabia isso? . com um acento admirável de ingenuidade. com uma voz que forcejava por tornar tão natural como a de Catarina. e a jovem dama viu. A baronesa de Sauve. com um acento de verdadeira surpresa.. . .Quem? . .Mas se não vem . minha Senhora. Aesta resposta. será porque. . minha Senhora . cruéis pensamentos. esteja morto?. .disse Catarina -. . no caso de ser descoberta a sua pequena traição. minha Senhora. percebeu logo quanto aquele aparente sossego ocultava sombrias preocupações e. 113 . Houve um momento de silêncio.

.Ora desce ao quarto da rainha de Navarra.esperta. sem que para isso fosse agora obrigada a qualquer esforço -.tornou a baronesa.É assim. .Pois bem. não é assim? . ao pé de minha filha Margarida. ciosa como uma italiana. se assim é.replicou Catarina. . Carlota. .Eu to direi . numa palavra: que sejas muito ciosa.Mas. minha Senhora.Mas. quando se trata tanto da minha formosura como da minha perspicácia.continuou a rainha-mãe. .Sim. como te sacrificas por mim. Catarina encolheu os ombros. ser verdade.continuou Catarina -. sei apenas que Vossa Majestade tem por muitas vezes sido indulgente para comigo. sufocada em soluços.respondeu Carlota. minha Senhora . . não posso negálo. como quer Vossa Majestade que eu tenha ciúmes do rei de Navarra senão por amor-próprio? Eu não amo o rei de Navarra senão o preciso para servir a Vossa Majestade. estou com curiosidade de ver os ciúmes de uma francesa. enfim. não és mais do que uma mulher ignorante.pode. minha Senhora. . e lá encontrarás o teu amante. Catarina fixou-a um momento com olhos pensativos.exclamou a baronesa. considero-me muito desgraçada. e conhecerá se o é. minha Senhora! isso é verdade. .Ordene. minha Senhora! .Ah! . . . reunindo todas as suas forças. quem a persuadiu disso? .tornou Catarina... . . cravando como um duplicado punhal os seus olhos no coração da pobre baronesa de Sauve.perguntou Carlota. não há dúvida . e eu mentia se to dizia. o rei de Navarra dá maior preferência a minha filha que a ti. animando-se enganavas-te se acreditavas nisso. .Pois bem .O que acabas de me dizer . minha Senhora. de que maneira se é ciosa como uma italiana? . .Não. .respondeu Carlota -. é necessário mesmo que.Vossa Majestade lê no meu coração. próximas a abandoná-la.E esse coração é-me inteiramente dedicado? .Eu? .Porém. .Assim . porque. te dediques completamente ao rei de Navarra.Ah.Ah.murmurou ela .Terás por acaso ciúmes? .replicou Catarina. por mim. pelo contrário. . . e não é isso o que tu querias nem o que tínhamos convencionado. tu.

os bons-dias a este último. depois. olhando de soslaio. disse-lhe: . não obstante a luz da lâmpada. tomando a capa das mãos de Margarida. perguntou-lhes as novidades da corte e da cidade. Margarida. não respirou livremente senão quando ouviu fechar a porta por onde a rainha-mãe tinha saído. traz uma cadeira para junto da minha cama e passa a noite aqui. Mas tranquilizese . No momento em que o cumprimentavam fingiu reparar que tinha esquecido a capa sobre a cama da rainha. como tinha entrado. porém a baronesa. e abrindo depois a porta que. que as circunstâncias neste dia tornam solenes. Carlota. Margarida. sem mesmo dar à sua respiração a liberdade de se fazer ouvir. voltando-se para os recém-vindos. chamou as criadas e fez introduzir na antecâmara os gentis-homens do serviço ordinário do rei de Navarra. desculpou-se portanto para com eles de os haver recebido assim e. encerrava Henrique e La Mole.Daríole . a! hoje a última vez que porei Vossa Majestade em tão cruel situação.ajuntou -. deixou-a 114 sem pronunciar uma só palavra. Todavia. quando Daríole veio dizer-lhe que a terrível aparição estava de todo desvanecida. Ergueu-se logo. notava a admiração que .E depois de ter feito dois ou três movimentos de cabeça de alto a baixo. . perturbada pelo claro brilhar dos olhos de Catarina. Darfole obedeceu. O rei de Navarra sorriu e ordenou que fizessem entrar os seus gentis-homens. e chamando por seu marido. debaixo da mesma chave. posto não ter adormecido senão quando o dia começara a despontar. e começou a vestir un vestido tão singelo como pretensioso. com um olhar afectuoso.Vamos. sem que aquela dilatação lhes fizesse perder nada da sua profundidade. convém ainda que convença toda a sua corte da perfeita inteligência que há entre nós. acordou ao som das trombetas e ao primeiro ladrar dos cães. apesar da companhia da criada.disse ela -. tanto lhe ecoava ainda nos ouvidos o acento metálico da voz de Catarina. não pôde conciliar o sono senão de manhã. e dê o justo valor às minhas palavras. deu. não me atrevo a ficar só. dilatados como os do gato da pantera. saiu silenciosamente. Senhor. corada de pejo. que mandou ficar acesa para se animar. pô-la nos ombros. não basta fazer acreditar a minha mãe o que não é.

Não quero. Fez-se pálido. .Senhor . meu irmão . eu lhe exigisse alguns minutos de atenção? Uma tal interrogativa era tão rara na boca de Margarida. viu a cama desarranjada.causava àqueles fidalgos a intimidade que acabava de se manifestar entre o rei e a rainha de Navarra. para os afastar. não derrubasse os que o precediam. enquanto Margarida compunha o rosto.E é porventura Sua Majestade que faz a honra de me convidar? . porque haviam sucedido tantas e tão graves coisas depois da última partida que tinha jogado com o rei.Sim. O que irá ela dizer-lhe? pensava consigo Henrique.Muita. mediu todo o quarto.Não. apesar disso.disse ele para Henrique -. minha irmã. as duas almofadas na cabeceira e o chapéu do rei sobre uma cadeira. que exprimia a mais profunda serenidade. recuperando o sangue-frio: Meu irmão . com certo ar de riso. voltou-se para ele: . Margarida.Retira-se já? . meu irmão? . Margarida só teve o segundo. . que pouco faltou que. O duque. se quiser. perturbado . que o irmão olhou para ela corando e tornando-se pálido ao mesmo tempo.Lá vou. não menos admirado do que o duque de Alençon.disse Henrique.disse com um sorriso encantador -. pois. Para que ele viesse não foi preciso mais do que dizer-lhe Gillonne que o rei tinha passado a noite com sua mulher.replicou o duque. importuná-lo segunda vez com a expressão de um desejo . o rei não me falou a esse respeito . -Tem muita pressa? 115 . que não era de admirar que Carlos IX tivesse mudado de parceiros.disse o duque.E se. mas. Francisco entrou com tanta precipitação. porque o segredo que tenho a comunicar a meu irmão já o senhor deve sabê-lo porque a súplica que ontem lhe fiz a respeito desse segredo foi quase desatendida por Vossa Majestade. como se houvesse adivinhado o pensamento do esposo. -Venha . vai esta manhã jogar a péla com o rei? . com outro olhar vago mas investigador. O seu primeiro olhar foi para Henrique. .perguntou Margarida. Henrique correspondeu-lhe com uma profunda cortesia. pode ir ter com o rei. quando entrou um porteiro seguido por três ou quatro gentis-homens e anunciou o duque de Alençon. .mas não é da sua vida ordinária? Henrique sorriu.perguntou Henrique ou isso é apenas uma amabilidade da sua parte.

de La Mole. reunindo as minhas às suas instâncias. meu irmão. que há-de ser útil a quem o souber empregar. . metade protestante por oposição. de La Mole tem um amo poderoso. . Margarida prendia-o ao mesmo tempo pelo ciúme e pelo amor. ao descobri-lo. Neste tempo é bom rodearmo-nos de amigos. não é assim? Vamos. para indicar a Francisco que.que a meu irmão ocorra alguma ideia que lhe permita dar asilo ao Sr.. Senhor. . sentiu nascer no fundo do coração um novo terror. que não é conveniente que este mancebo se conserve tão perto do meu aposento. sinto não estar livre. minha Senhora.Pertence-lhe. depois de ter dito a Henrique: . reservava ainda para ele uma importante porção do seu pensamento. Mas se não posso dar ao Sr.Mas que é? .que pareceu desagradar-lhe. Abriu então a porta do gabinete e fez sair o jovem ferido. o que será melhor que tudo. a pessoa por quem se interessa. apesar daquela confidência.acrescentou -. se o aceitar. Francisco. não quero deixar de recomendar a meu irmão. respondo por este mancebo.. e o Sr.ajunte ainda. ao contrário de Henrique.Minha irmã .Além disso .. o duque de Alençon que. tinha La Mole saído do gabinete e achava-se em pé defronte dele.disse ela -.perguntou Francisco olhando admirado para ambos. dentro .exclamou Henrique. o motivo da chegada de La Mole a Paris.. de Auriac. e tiver a desgraça de não ser senão um terceiro filho de França. corando de despeito . tão sedutor pelas palidez e formosura. e talvez mesmo . Em duas palavras. . para dar mais força às palavras que acabámos de sublinhar .ajuntou baixando a voz de maneira que só o duque de Alenson a ouvisse .. e. . talvez julgue.os dois juntos vão fazer o que cada um de per si não faria. junto da senhora. achará nele um servo afeiçoado.próprio.Ah! .Meu irmão . de La Mole. explicar a meu irmão por que motivo nos interessamos por este mancebo. sobretudo . Quando o duque voltou o rosto. e como tinha sido ferido na ocasião de lhe levar uma carta do Sr.quem for ambicioso. Henrique contou ao duque de Alençon. se convier ao Sr. pálido e tão formoso.já sei o que quer dizer..disse Margarida consigo mesma . de La Mole uma hospitalidade que não lhe oferecia segurança. aqui mesmo. como Henrique.disse com vivacidade Francisco -. Na verdade. vamos . E pôs um dedo na boca. por consequência. metade católico por prudência.

Não me tinha enganado . e com tanta mais razão que o rosto de Catarina insensivelmente começava a desanuviar-se.continuou ela. era uma grande festa para o bairro onde se dava o acontecimento. os católicos tornavam-se cada vez mais ferozes. Dois ou três dias decorreram ainda. . portanto. A maior parte estavam mortos. No último caso. mas ia acabando. Com efeito. A sua desconfiança. Se for meu amigo. onde suponho não ter nada que recear. completando o seu pensamento: Vamos . Francisco mentia. que viu franzirem-se as sobrancelhas de Henrique. . com mais agilidade do que se podia esperar de um ferido. é preciso que um seja conduzido pelo outro.. entrava pela porta principal. A carnificina continuava.de meia hora achar-se-á acomodado em minha casa. De quando em quando levantava-se um grande clamor num ou noutro bairro: era quando se descobria um desses infelizes.Muito bem. que só se decidiu a comer ovos cozidos à sua vista. porque longe de acalmarem com a extinção dos seus inimigos. A execução era então particular ou pública. e subia para o quarto da baronesa de Sauve. outros conservavam-se escondidos. completamente catequizado por Margarida. Henrique chegou mesmo a ver uma manhã assomar-lhe aos lábios um sorriso de benevolência. 116 E depois. e a beber água que ele mesmo viu tirar do Sena. se o desgraçado se achava encurralado em algum lugar sem saída. sê-lo-ei dele. conversava com ela alguns momentos. Muito bem. Margarida! dirá Henriqueta.murmurou consigo Margarida. aescada que conduzia ao quarto do duque de Alençon. muitos tinham fugido. porém. para que ambos se conduzam bem. e nesse dia foram tão grandes os seus receios. redobrava para com a rainha-mãe. tinha renunciado entre as mãos do confessor do rei e ouvia todos os dias a missa que se dizia ao Louvre. à vista de tão repetidos avisos. À noite tomava ostensivamente o caminho do quarto da esposa. saía pela porta oculta. porque no fundo do coração detestava já La Mole. a qual não tinha deixado de o prevenir da visita de Catarina e do perigo incontestável que o ameaçava. ou se podia fugir. beijava a extremidade do seu vestido e subia. mostrando-se ainda mais encarniçados na perseguição desses . tinham sido assassinados tantos huguenotes que o seu número diminuiu bastante.. Henrique obtivera não fazer abjuração pública. durante os quais parecia fortificar-se cada vez mais a boa harmonia entre Henrique e sua mulher.Ah! agora vejo que. meia hora depois La Mole.

Tomara eu ter a certeza de não morrer senão por causa disso. Hei-de enterrar todos desta casa. Assim. deleitava-se com o ruído que faziam os que continuavam na caçada. e depois. Ambrósio Paré bem to diz. . . e tem razão. que era. minha mãe. minha mãe. é melhor que fique a visita para amanhã.disse ele. sempre tive vontade de tornar a vê-lo depois que soube que o santo homem tinha morrido.Ora essa! deixe-os falar . que os cães tinham feito dela o seu banquete de noivado? Mas não aconteceu assim. para fazer uma visita a um homem da importância do Senhor Almirante é preciso convidar toda a corte.disse Catarina. Vossa Majestade imaginava como eu. minha mãe. que.Iria de boa vontade. minha Senhora. . montaremos a cavalo e iremos a Montfaucon.tornou Carlos IX -. Veremos quem vai e quem fica em casa. Um dia.E depois? . Adeus.disse Carlos. . radiante de prazer e seguido dos seus cortesãos do costume. ou melhor será não convidar ninguém. é um exercício demasiado violento para ti. quando já os não podia apanhar por suas mãos. e isto feito. entrou no quarto da mãe.Minha mãe .disse Catarina. Carlos IX sentia-se satisfeito com a caçada feita aos huguenotes. o meu querido povo. . O meu povo.E depois . -Tem razão. Se quer.É o que lhe digo. Será uma excelente ocasião para os curiosos fazerem observações de interesse.restos desventurados. minha mãe.disse ela -. há-de ser um dia herdeiro de nós todos. sinto-me como nunca me senti. . e mesmo Henrique. segundo anuncia Nostradamus. . voltando de jogar a malha. desconfia especialmente das coisas que te parecerem impossíveis e entretanto toma cuidado em ti.Olha que te fadiga muito. que. . bem como o jogo da péla e a caça. irá quem quiser. enforcou o almirante no gancho de Montfaucon. . abraçando a florentina. Catarina franziu as sobrancelhas. Faz bom tempo. Diremos somente que vamos. 117 . faça os seus convites.Meu filho . tudo hoje me parece florescer. meu filho . vou tocar trombeta.Deveras? . e depois. . O ar está cheio de vida e de perfumes. não é assim. ao notar esse prazer. também teve uma ideia. se não tivesse combinado uma entre vista a que não posso faltar. que se julgava perdida. boas notícias! Má peste os leve! Sabe que mais? Achou-se a ilustre ossada do Senhor Almirante. o seu prazer preferido. eu farei os meus. já procurava adivinhar a sua causa -. minha mãe.disse Catarina -. o meu bom povo.

E Carlos IX saiu do quarto da mãe.Ah. entrou na sala de armas. . que diz que todos os meus três filhos reinarão?.Esperava-te com impaciência.. .Mas nem por isso deixaste de renovar o sacrifício. veio falar-lhe ao ouvido uma das damas. . acabava de entrar no oratório da rainha.resmungou Catarina. podia sair sopro tão valente. Vossa Majestade sabe muito bem que as coisas não modificam os destinos. porque o meu primeiro dever é obedecer a Vossa Majestade. não é assim? .Tocarei só duas ou três vezes para divertir os meus cães. O florentino Renato.E depois? . minha Senhora. As coisas modificaram-se muito nestes três dias. pobres animais! Era bom que os tivesse arremessado sobre os huguenotes.Minha Senhora .Infelizmente.balbuciou Catarina. . e parece-me que é possível que os destinos se tornassem menos ameaçadores.. . meneando a cabeça -.O mesmo.. cortejou as pessoas que lhe faziam a corte e acompanhou a mensageira. A rainha sorriu. como dissera ao filho.Mudança de dinastia. isso tê-los-ia alegrado. minha Senhora. a mesma . .disse-lhe Catarina. como te disse. Renato? . . és tu.Como! o cordeiro preto tornou a dar os três gritos? . Catarina esperava efectivamente alguém. minha Senhora. que governa as coisas. e de lábios tão pálidos. minha Senhora. aquele a quem o rei de Navarra fizera um acolhimento tão diplomático na noite mesmo de S.respondeu Renato. . Não se compreendia como de um corpo tão débil e caquéctico. é o destino. assim é. . a mesma. levantou-se. Logo que ele saiu.Renovaste. Bartolomeu. pelo contrário. .Depois. havia nas entranhas esse singular deslocamento do fígado que notámos nos dois primeiros.Sinal de três mortes cruéis na minha família? . a experiência do horóscopo que tirou Ruggieri e que concorda tanto com a profecia de Nostradamus.Tornou. . que morrem de tédio. pegou numa trombeta e começou a tocar com uma força que teria feito honra ao próprio Rolando. .Recebeste ontem um bilhetinho que te mandei? .Renovei. Renato inclinou-se.E que resultado tiveste? . e que se inclinava em sentido inverso. Renato. .Tive essa honra. Sempre a mesma coisa.

morieris reformidata. 118 . que parecia conhecer a resistência dos áugures. tem talvez agora. . quem sabe o que o futuro reserva à sua raça sobre a Terra? Catarina era supersticiosa em excesso. o que também é verdade. e sem nenhuma transição além do trabalho mudo do pensamento: . . Catarina parou. amor e respeito muito sinceros.Lembro-me.Minha Senhora. temida (e nós zombamos dela).disse Catarina -.E morreu temida? . . como explicas isso? .Justamente. como rainha márttir.É esse o teu parecer? . . aterrava-a mais talvez o sangue-frio de Renato. e a Sua Grandeza repousa num túmulo onde nos não lembrou de pôr o seu corpo. minha Senhora. . como rainha te engrandecerás.Daqueles de que tanto gostava a rainha de Navarra? perguntou Renato. .que o destino é que governa.respondeu ele . minha Senhora? Vossa Majestade sabe agora tanto como eu. Renato abanou a cabeça. minha Senhora: morrerás temida. minha Senhora. concordo quanto ao viverús honrada.Pois olha.Manda-me uma caixinha cheia.Já disse a Vossa Majestade . é preciso combater isso. não é assim. serás maior do que foste sendo rainha. ..É. ou tu serás maior do que todos quando rainha. Renato. A rainha de Navarra viveu bem.E tanto.Não é preciso prepará-los. . e.Chegaram perfumes de Itália? . que não teria morrido se Vossa Majestade dela não tivesse medo. minha Senhora.Bem . minha Senhora. por isso que era pobre.disse Renato -. disse bruscamente a Renato. -e ela morreu. a coroa do Céu. . . penso eu . regina amplificaóere. em troca da coroa mortal. e como para ela um mau passo era ensejo para encarar com mais ânimo a situação.Nada mais fácil. do amor de seus filhos e do respeito dos seus partidários. que já me esqueceu. enquanto viveu. sim.Lembras-te do horóscopo de Joana d'Albret? . além disso.Daqueles. pois que gozou. viver desonrada (e faltava o preciso à ìpobre mulher! ) morrerá. . Vossa Majestade traduz mal o vives honorata. . sim.De quais? . . . mas morieris re Ormidata. minha Senhora.perguntou Catarina. porque. .Chegaram.O que quer dizer.respondeu Catarina -.Vives honorata ..Repete-o..

transmitidas por um homem de cinquenta anos que ignorava ou fingia ignorar o interesse que mereciam a La Mole as menores coisas que diziam respeito a Margarida. mudando a vítima. a fim de terem um acompanhamento honorífico para o cadáver do almirante. mas não o tornara a ver.Vossa Majestade não manda mais nada? . delicados e encantadores de duas mulheres cuja lembrança lhe devorava sem cessar o pensamento. . quando chegou ao convalescente a notícia dessa reunião esplêndida de toda a corte. que tinham sido poupados para um dia de festa. Gillonne tinha ido vê-lo uma vez.Nada mais . para obedecer aos desejos de Margarida. pensativa.Parece-te que sim? . O duque de Alençon. A notícia desse passeio foi.Ah. .Se porém. O duque nem perguntou se La Mole se achava em estado de .. La Mole tinha passado o dia mais triste do mundo. onde a esperavam as damas a quem anunciou a romaria de Montfaucon para o dia seguinte.O que é verdade é que produzem bom efeito. . e saiu. previne-me logo. e os fidalgos as armas e os cavalos de aparato. Renato cortejou. Viuse subitamente abandonado. minha Senhora! muito receio que. pois. Esta visita produzira o efeito de um raio de Sol numa masmorra. em seu nome. mas essas notícias. Catarina ficou um instante sentada e pensativa. pediu licença ao duque de Alençon para o acompanhar.Faz o que te digo. já se sabe.disse Catarina. . aparecer alguma novidade nos anúncios. e os vadios e paroleiros de gentalha mataram aqui e ali alguns huguenotes. o tema geral do palácio e da cidade.perguntou o perfumista.tornou Catarina. Os mercadores fecharam as lojas. A propósito: talvez seja melhor deixarmos os cordeiros e experimentarmos as galinhas. . As senhoras mandaram preparar as mais luzidas galas. É verdade que recebeu notícias de Margarida pelo cirurgião Ambrósio Paré que ela lhe mandara. durante toda a noite. e para saber notícias do ferido. privado dos cuidados ternos. conquanto embora tivessem passado dois dias. tinha-o 119 admitido nos seus aposentos. . Assim. eram bem incompletas e insuficientes. depois levantou-se e entrou na sua câmara. Foi uma algazarra contínua até alta noite. esperando a cada momento uma segunda aparição. e a esse sucederam-se mais três ou quatro nada menos tristes. e La Mole tinha ficado como deslumbrado. nada mudem os presságios. a qual porém não se realizara.

um Sol de Agosto. Margarida iria sem dúvida ao passeio: tornaria a vê-la. pareceu-lhe que estava bem vestido. a despeito de todos os cosméticos então na moda. ambas as feridas estavam fechadas. Era o que desejava La Mole. ia o melhor possível. graças ao ardor do Sol. sucedia outra do mesmo género no Palácio. O nosso fidalgo não ficou pouco satisfeito com este arco-íris que fazia sobressair o resto do rosto. Vestiu-se apressadamente. exceptuando certa fraqueza originada pela perda de sangue. afogueou-se de tal modo o fidalgo. metia o chapéu. Dêem-lhe um dos meus cavalos. pôs-se a passear por espaço de dez minutos. mirou-se ao espelho. dardejava os seus raios no pátio. e por fim. Passados dez minutos. uma tríplice camada de pó. parte do dinheiro que lhe dera a família na compra do melhor casaco de cetim branco. E depois. De resto. expondo-se voluntariamente a essa chama devoradora que caía do céu em torrentes. lembrou-se de uma coisa. de cabelo ruivo. tanto a do peito como a do ombro. mas como a aplicação era insuficiente. nada lhe aconteceria. e assegurou a La Mole que. examinava a um espelho uma ferida avermelhada que desagradavelmente lhe atravessava o rosto. O cirurgião cobriu-as com tafetá gomado. Enquanto ocorria esta cena no Louvre. La Mole empregou. a felicidade moral iria calar os incómodos físicos. e capa com o bordado mais rico que lhe pôde fornecer um alfaiate. apesar de sentir ainda dores bastante vivas. e quando se lembrava do bem que lhe tinha feito a visita de Gillonne. E como um Sol ardente. e só esta o magoava alguma coisa. conheceu que. de maneira que La Mole não teve muita razão de queixa.Muito bem. que nessa época estava em grande voga para esse fim. que o sulco vermelho não estava em harmonia com o rosto. dando rapidamente algumas voltas ao quarto. uma vez que não fizesse muitos movimentos no passeio que ia dar. estendendo ao mesmo tempo sobre esse doloroso rego. O cirurgião Ambrósio Paré veio curá-lo como de costume. La Mole não cabia em si de contente. pintava e perfumava o bigode. como convém que estejam as feridas em estado de cura. pois. não punha em dúvida a eficácia muito maior da presença de sua ama. La Mole expôs-lhe a necessidade em que estava de montar a cavalo. e pediu-lhe que arranjasse com todo o cuidado o curativo. e com o nariz no ar e os olhos fechados. bem penteado e perfumado. que. se obstinava a reaparecer. um fidalgo alto. em consequência de uma camada de vermelhão com que o cobrira. e um leve atordoamento devido a essa causa. . Ambas estavam vermelhas. Esse mesmo lhe arranjou também as botas de couro perfumadas que se usavam nessa época levando-lhe tudo com meia hora somente de espera além da hora prometida.suportar essa fadiga. mas à vista do todo parecia amarelado. respondendo apenas: .

mas a vitória não tinha sido alcançada sem ruído. Ainda assim.e.Sr. o cavalo. tornando-se flexível e obediente. como moda esplêndida. assim satisfeito quanto à sua cara. e deve estar fraco. desceu ao pátio. na Rua de S. por muito brilhante que seja. ainda não tinham sido transformados nos vestidos singelos e tristes que estavam . numa das recentes lutas civis. e não quereria por coisa alguma deste mundo que sofresse algum incómodo.disse a duquesa. E a duquesa. de quem os nossos leitores sem muito custo já adivinharam o nome. e pôs-se a afagar um cavalo preto. vamos para o Louvre. aos seus sucessores. perdendo-se entre as duas fileiras de casas sombrias como um imenso réptil de cintilantes estrelas. pode dar uma ideia desse espectáculo. que. e fez retumbar o pátio do Palácio de Guisa com os relinchos do seu corcel. paramentou-se com um magnífico fato que um alfaiate lhe levara ao quarto antes que o tivesse encomendado. montou um quarto de hora antes de todos. reconhecia. onde era a reunião geral.Sabe . de honrarias e de galas. Bartolomeu. armado de ponto em branco. o legítimo domínio do cavaleiro. Isso faria rir os huguenotes. porque está ferido. . Passado um instante. minha Senhora . e sei mesmo que esta manhã ainda comeu com melhor apetite do que nos outros dias. encantado com o cavalo como estava consigo mesmo. ricos e brilhantes.disse ela -. uma espada de bom aço. E voltando-se para o seu camarista: . completamente domado. Nenhum acompanhamento. e que se sorriu para ele da maneira mais agradável. que Francisco I legara. de Cocunás. Cinco minutos depois mandou a duquesa de Nevers chamar o seu mordomo. Os trajos de seda.Deram. Enfeitado. Dinis. e peço-lhe que não perca de vista o Sr. que lhe têm raiva depois dessa aventura na noite de S. lhe tinha dado.Muito bem . esse fidalgo. montando a cavalo. que o nosso domador de cavalos saudou profundamente. do mesmo modo que ao amo.se deram um bom almoço ao Senhor Conde Aníbal de Cocunás? . partiu radiante para o Louvre. cuja beleza seria sem igual se não fora um pequeno 120 golpe. desembocando no ângulo do Cemitério dos Inocentes. . de Arguzon .perguntou-lhe ela . e esse ruído (e era com isso que contava talvez o fidalgo) tinha feito chegar à janela uma senhora. almiscarado. 121 O Corpo Do Inimigo Morto Sempre Cheira Bem Eram duas horas da tarde quando surgiu uma fila de cavaleiros reluzentes de ouro.respondeu o mordomo -.

e devo fazer tudo quanto exigir a minha nova religião. O povo seguia. escoltava e precedia. que iria visitar a forca de Montfaucor ou antes. Nos nossos dias nada há que se possa comparar com semelhante cortejo. A princípio. Pajens. Tinha sido de manhã.continuou ele -. O seu rosto comprido e característico. compreendeu. a sua familiaridade com os inferiores.em voga no reinado de Henrique III. de maneira que o trajo de Carlos IX. porque as magnificências dele reduzem-se à simetria e ao uniforme. porque não hei-de ir? Sou católico.Ouvia-a ontem. expunham-no aos curiosos. e ouvi-la-ei amanhã. ouvia-a hoje. o porte um tanto vulgar. voltando-se para Carlos IX: . o corpo mutilado do almirante. na verdade .disse -. que marchavam nos flancos e na retaguarda. Henrique. vá ouvir missa! 122 Ao que Henrique respondia: . Henrique viu esse sorriso. E depois. . esse huguenote feito católico. fidalgos de baixa linhagem. menos rico. esse rei sem reino. quis Henrique dispensar-se de tomar parte na visita. faziam do régio cortejo um verdadeiro exército. havia povo por toda a parte. familiaridade que levava a extremo e que era devida aos costumes montanheses da sua mocidade (e que conservou até à morte). e gritava ao mesmo tempo Noel e Haro! por isso via no acompanhamento alguns calvinistas renegados. cães e cavalos. Às primeiras palavras que proferiu exprimindo a sua repugnância. O homem para quem na cavalgada se olhava com mais curiosidade era esse filho de Navarra. E lançou em redor um olhar rápido para ver quantas sobrancelhas se franziam.Conte Vossa Majestade comigo . escudeiros. e mudando logo de tenção: . diante de Henrique de Navarra. que ali estava enforcado.Mas. Era aí que o esperava Catarina. gritando alguns destes: . para melhor dizer. parece-me que não é pouco. em presença de Catarina e do duque de Guisa. brilhava com a mais perfeita harmonia. mas mais elegante que o das épocas precedentes. e o povo é rancoroso.Vá ouvir missa. Atrás desse exército seguia o povo ou. que Carlos IX dissera como coisa natural. trocou ela um olhar e um sorriso com o duque de Alenson. terei sempre muito prazer em acompanhá-lo onde quer que se dirija. Ora vamos.

para não estar de acordo com os irmãos Carlos e Henrique. esmaga-nos! Manda meter em forma os teus camaristas.. Não o vejo. . e o teu mata-gente. grande como um elefante. anda naturalmente enamorado. tão rosada.E o seu huguenote . É um cavaleiro temível. montada num cavalo branco.perguntou ela -.disse ela. eram para a sua companheira. como sabes. E depois .disse Margarida rindo . Há tempo a esta parte veste-se com muito esmero. que sacudia orgulhosamente a cabeça como se se ufanasse do peso que levava. duquesa! senão. do qual algumas notas. Permiti-lhe que assistisse à cerimónia por pensar que o teu huguenote teria a prudência de ficar em casa.respondeu Margarida. a. .olha. . . E depois. olha que aquele será infalivelmente atropelado. e que assim não havia o menor receio de nenhum encontro. . . e não desejava vir. com um acento intraduzível e encolhendo os ombros -.O homem quis tomar parte na festa. a duquesa de Nevers. parece-me que nada havia a recear.Então. que acabava de tomar lugar ao lado dela.perguntou Henriqueta. se inclina para os huguenotes. cumpre confessá-lo. duquesa? .Não há dúvida. . tão elegante.Na verdade . talvez que nós o tomássemos por huguenote sendo ele brâmane.respondeu Henriqueta em voz alta. tão formosa. Há-de ser ele que vem pela Porta de Montmartre.não tem mão em si. que ele estivesse aqui ou não. mas não passa daí. e todos se desviam. disseram-lhe que el-rei poderia interpretar mal a sua ausência e decidiu-se a vir. vem no cavalo de batalha do duque de Nevers. e não um milhafre: arrulha.Oh! é o meu valente! . É um belo rapaz o meu huguenote. olha! Cocunás tinha saído da forma para se aproximar da . vem guapo. é uma pomba. grita-se para aquele lado. Mas.Oh! lá por isso .Que novidades há? .Na verdade.disse Henriqueta..Não há-de tardar.Nada.Onde está o duque de Alençon? . que fizeste dele? .respondeu Margarida -. baixinho: . é ele . e a estes. . mas como é sabido que.bradou a duquesa . . a religião proíbe-lhes pelejar: é pecado mortal derramar sangue. mas não morde.perguntou a rainha de Navarra. estava doente dos olhos esta manhã.Margarida estava a cavalo. que eu saiba . que a admiração pública gravitava em redor dela como um concerto. Ora vê como é bom ser príncipe de sangue: galopa atropelando todos. que é feito dele? -Arranjei-lhe um asilo quase seguro .

disse a rainha com um sorriso aniquilador. E depois. picou o cavalo e foi reunir-se ao séquito do duque de Alenson. ao passar. La Mole leu. foi tomar lugar no séquito do duque de . teve mão no cavalo.bradou a duquesa. tinham de passar por diante de Margarida e da duquesa de Nevers. O choque fez vacilar o piemontês sobre o colossal corcel. com desdenhoso sentimento não me tinha enganado. um cavaleiro da comitiva do duque de Alençon. Cocunás. ao voltar-se.olha para ele. . . chegando-se ao ouvido da sua amiga . Oh! esta é de mais.Meu Deus! .vamos ver bonitas coisas! olha como eles se medem! Com efeito. . La Mole recobrou as forças e.Oh! oh! .exclamou Margarida.é La Mole! . .respondeu a duquesa com comiseração.disse Margarida.Oh! . Mas Margarida voltou a cabeça com altivez. Durante os poucos segundos que foram os suficientes para que esses dois homens exibissem os sentimentos que nutriam. tirou o chapéu. .disse Henriqueta à rainha .É bem bonito! . La Mole. firmando-se na sela. e conservou-se descoberto à espera que Sua Majestade o honrasse com um olhar. de maneira que os seus fidalgos. mas vendo que La Mole se retirava sem dizer palavra. E mordeu os beiços até fazer sangue. . e sentiu subir-lhe o sangue. para se lhe reunirem. sem dúvida. e de pálido que estava tornou-se lívido.Sim. Nesse mesmo momento ocupava o duque de Alençon o seu lugar por detrás do rei e da rainha-mãe. que em vão diligenciava sofrear o cavalo. sim! aquele mesmo que esteve a ponto de estender por terra o teu piemontês. a expressão de desdém pintada no semblante da rainha. no momento em que o cavalo atravessava a espécie de muralha exterior que separava a rua do bairro.duquesa de Nevers. . foi dar em cheio sobre Cocunás. inclinando o corpo até tocar no pescoço do cavalo. tendo La Mole olhado em redor. ou pelo menos tê-lo posto fora de combate por muito tempo. Cocunás ficou firme por um instante no mesmo lugar.Ah! ah! . conheceu La Mole. La Mole também conhecera Cocunás. foi colocar-se também entre os fidalgos da duquesa. e o chapéu saltou-lhe da cabeça. e a surpresa fizera-lhe largar a rédea do cavalo porque supunha ter morto o seu antigo companheiro.disse a duquesa . saudou a rainha.Aquele formoso rapaz pálido? . e conhecido sem dúvida que não era aquele o lugar para uma explicação. Para não cair do cavalo teve de se agarrar à crina. cruel! vê que desmaia.Não faltava mais nada! . . e voltouse furioso. mas.Trouxeste alguns sais? A duquesa enganava-se. fitaram-se de um modo que fez estremecer as duas 123 damas. sem poder conter a primeira impressão.

fugiram grasnando desesperadamente. os corvos. levantado e estreado em honra de Marigny. pousados sobre o patíbulo. aparentemente pelo menos. um cadáver preto. O patíbulo levantado em Montfaucon oferecia de ordinário. ao todo dez mil pessoas. Os meirinhos e os guardas marchavam na frente. e por sua palidez. Nunca. que iam meditar sobre as tristes vicissitudes da fortuna. Os meirinhos e os guardas tinham afugentado os cães e os corvos. o desses elegantes fidalgos e formosas damas desfilando como uma procissão desenhada por Goya no meio desses quadros enegrecidos e dessas forcas de braços compridos e descarnados. tanto maior era o contraste que fazia com o lúgubre silêncio a fria insensibilidade desses cadáveres. e os salteadores tinham-se confundido na multidão para realizarem alguns desses lances que são as probabilidades de risco do ofício. Era um espectáculo ao mesmo tempo lúgubre e extravagante. por grande que fosse o poder que tinha sobre si mesmo. e aos salteadores filósofos. o duque de Alençon. da rainha. depois. não pôde conter-se por mais tempo. e todas as damas que acompanhavam o chamado esquadrão volante. por detrás das colunas. manchado de sangue e lama. como então. Para cúmulo do vilipêndio. e formavam um grande círculo em volta do recinto. o qual. se viu ali tanta gente. com todos os camaristas. de algum garoto que conhecia o costume do almirante. um paraíso aos cães. Muitos suportavam com grande custo esse horrível espectáculo. outros fidalgos. os escudeiros. O préstito avançava. ao lado de Catarina. Quanto mais vivo era o dos visitantes. O cortejo avançava. após eles seguiram-se o duque de Anjou. que. o povo. À sua chegada. os criados e o povo. e já se avistava o perfil do lúgubre patíbulo. em Montfaucon. nem cães. o rei de Navarra e o duque de Guisa. branqueado por novas camadas de poeira. Da forca principal pendia uma massa informe. estava parado diante dos restos do almirante: . podia 124 distinguir-se no grupo de huguenotes regenerados o rei de Navarra. nem salteadores. os pajens. e o grau de dissimulação com que o dotara o Céu. lembrança sem dúvida. sempre engenhoso. a rainha Margarida. Pretextando o cheiro infecto que derramavam esses restos humanos. a duquesa de Nevers. tinha-lhe posto uma cabeça de palha mascarada com um palito na boca. e finalmente.Alençon. chegando-se a Carlos IX. objectos de zombaria que faziam estremecer aqueles mesmos que zombavam. atraídos por presas frequentes. O rei e a rainha-mãe foram os primeiros a chegar. Nesse dia não havia.

. apesar dos perfumes com que estava coberta. sem dúvida. o modelo do que o homem pode inventar de mais hediondo. fingiu não ouvir.Não precisamos dele para isso .disse Carlos IX -. que. . Fez com a cabeça um gesto irónico. de que a gente não tenha de separar-se. que lhe parecia seguramente.exclamaram todos os fidalgos católicos. mestre de poesia de Vossa Majestade: aqui mesmo teria composto o epitáfio do velho Gaspar. ao mesmo tempo que os hugue notes renegados franziam as sobrancelhas sem dizer palavra. começava a enojar-se com o cheiro. o corpo de um inimigo morto sempre cheira bem. . Digamos adeus ao Senhor Almirante. vamos. no momento em que era honrado com a presença dos príncipes. que estava conversando com Margarida e com a duquesa de Nevers.Senhor . como fazemos quando nos despedimos de um amigo.. A multidão foi seguindo os passos da realeza para gozar até ao fim das magnificências do cortejo e de todos os pormenores do espectáculo.Bravo! bravo! . . Um fidalgo montado num cavalo preto. não acha Vossa Majestade que esse pobre cadáver cheira muito mal para estar mais tempo aqui? . O Sol declinava. com os olhos que brilhavam de prazer feroz. . enfim.. a forca. . contemplar a seu gosto esse tronco informe e enegrecido. Quando dizemos ninguém.Parece-te. enganamo-nos. teria sido bom que se tivesse convidado Pedro Ronsard. de maneira que dez minutos depois da partida do rei já não havia ninguém em redor do cadáver mutilado do almirante. não há companhia. e voltemos para Paris. nós mesmo o faremos.Vamos.disse Tavannes -. e que pudera.. Senhor .Parece-me. depois de ter reflectido um instante.. Henriquinho?. Senhor .disse Catarina.perguntou Carlos IX. . a ele. ganchos e pilares de pedra. e. Os ladrões acompanharam a multidão. Henrique. . que acabava de chegar a Paris e que ignorava os aperfeiçoamentos que na corte se dá a tudo.disse ele. por boa que seja.Ora.Vamos. . formando a testa da coluna. como Vossa Majestade sabia que vínhamos fazer uma visitinha ao Senhor Almirante. meus Senhores . e o cortejo foi desfilando diante do cadáver de Coligny.. . e.Pois olha não sou da tua opinião. tinha ficado para trás e entretinhase a examinar minuciosamente as correntes. e recitou quatro versos torpes. voltou para trás. Lá vai..disse ele -.

extremamente absorto. sem perderem a menor circunstância. Por uma clareira viam tudo o que sucedia. Margarida apeou-se e o mesmo fizeram a duquesa de Nevers e Gillonne. e as quatro pessoas tomaram por esse atalho e foram esconder-se atrás das árvores que ficavam mais próximas do lugar em que ia ocorrer a cena que pareciam querer presenciar. uns trinta passos desse ponto àquele em que Cocunás. Os olhos vivos de uma mulher em vão o tinham procurado na cavalgada. E logo a dama. de La Mole? . Cocunás.respondeu Margarida. de La Mole lá vai ter com ele. Tocou então às duas princesas a sua vez de saírem da fileira: a ocasião era das mais favoráveis. . voltou para o patíbulo. e pegou nas rédeas de todos os cavalos. como reconhecemos que o fidalgo do cavalo preto era Cocunás. A duquesa de Nevers disse uma palavra ao ouvido do seu capitão. e disse-lhe: 125 .então temos obra. o fidalgo do gibão de cetim branco deixou o caminho que seguia o préstito.se vigorosamente nos últimos reflexos do Sol. descrevendo uma curva. como as princesas muitas vezes desejam sem o poder conseguir. passava-se diante de um atalho orlado de altas sebes que se elevava e ficava a trinta passos do patíbulo. Margarida voltou-se e viu que La Mole se retirava. Margarida: o piemontês ficou para trás. Mas essa mulher não era a única pessoa que procurava o Sr. O capitão apeou-se também. debalde tinham querido descobri-lo no cortejo. Sr.disse ele . que desaparecia no horizonte. tendo descrito o seu círculo. gesticulava diante do almirante. rindo . notável no seu gibão de cetim branco e linda pluma. e o Sr. Um fidalgo. Uma relva fresca e espessa oferecia às três senhoras um lugar para descansar. O piemontês voltou-se. Confesso que estimo poder mudar de opinião a respeito dele. Havia.Enganámo-nos ambas. . tocou-lhe no ombro. La Mole. lembrou-se de olhar para trás e viu a alta estatura de Cocunás e o seu gigantesco corcel desenhar. depois de ter olhado para a frente e para os lados. Então.então não foi um sonho? Ainda vive. e estendendo a mão. Margarida fez um sinal a Gillonne. que reconhecemos ser a duquesa de Nevers.Deveras? . tomou por um atalho e. de Cocunás. como dissemos. extasiava-se diante da obra de Enguerrand de Marigny. veio colocar-se a passo detrás de Cocunás. como dissemos.Escusado é dizer aos leitores que este homem era o nosso amigo Cocunás.Oh! . chegou-se a Margarida.

foi um voto prudente e doulhe os parabéns. sobretudo para um huguenote. sim senhor .respondeu La Mole.. Tinha minhas cócegas de lhe quebrar essa disforme cabeça com uma destas pistolas. ali. estava o senhor mais pálido do que está hoje.Sim .Conde . por baixo do Senhor Almirante. vê? naquele preguinho. os seus olhos verdes lançavam chamas.disse La Mole -. ainda vivo. .E pode saber-se que voto foi? . .tornou o piemontês -.Não . Sr.perguntou Cocunás.pois o senhor converteu-se? Concordo é sagaz!..Pois montarei no seu cavalo.. de Cocunás. .disse Cocunás..disse ele gracejando . . Sr.E eu também o conheço . meu grande mata-gente! respondeu La Mole..Senhor . de La Mole... não é..disse La Mole. . buliçoso como aqui me vê?.. apesar da sua palidez.Boa! .É interessante.Com todos os demónios! bem vejo que é o Sr. desatando a rir .Com certeza . já não sou huguenote: tenho a ventura de ser católico. Cocunás mordeu os beiços mas. mas . A última vez que nos vimos estava o senhor mais rosado... afagando o cavalo com a mais perfeita serenidade de espírito. . de La Mole. meu querido Sr. 126 . . Quando lha fiz. ainda vivo. pensa que se podia impunemente assassinar a gente sob o pretexto leal e honroso de ser cem contra um? Não vê? chega um dia em que encontramos o nosso homem.respondeu La Mole -. Não fez mais nenhum? .respondeu La Mole -. inclinando-se -. . .O de pendurá-lo ali.Fiz. que parece destinado a sua pessoa. depois de lhe ter atravessado o corpo com esta espada.Conde . . A culpa não é sua. .respondeu La Mole -.fiz voto de me converter se escapasse à carnificina. .Assim mesmo. e ainda haverá homens exagerados que nos acusem de não termos poupado nem os huguenotes de mama! .continuou La Mole.exclamou Cocunás.. poder ver o almirante enforcado nesse gancho de ferro. Cocunás fez-se da cor da púrpura. mas enfim. naquele prego.Então . Aníbal de Cocunás. com a mesma seriedade e polidez .Ah! a.Acho-o muito pequeno para isso. ali. . parecendo decidido a continuar a conversação. e parece-me que esse dia veio hoje. naquele prego?. disse em tom de ironia: .há-de ser ali. meu menino! .. apesar dessa linha amarela que lhe enfeita o rosto.

eram obrigados a reprimir um grito doloroso arrancado pelas antigas feridas. que. É que ambos.te que o Sr. chegando-se ao ouvido de Margarida. Senhor Conde! puxe da espada! . de Cocunás seja feio? . ao estender o seu. silêncio! vejamos.disse Margarida. porque ainda me ardem as mãos das feridas que o Sr. olha que o negócio torna-se sério. As princesas não tinham podido conter-se quando viram os dois adversários esfregando a omoplata e fazendo caretas.Qual! é encantador . que. La Mole avançava a passos curtos.exclamou ele. .. estavam feridos no ombro e sentiam dores terríveis quando faziam qualquer movimento. de La Mole injusto. e um e outro. .e sou obrigada a dizer-te que o furor torna o Sr.balbuciou a duquesa de Nevers. deixe-os .Deixe-os. olha: dir-se-ia que transpiram fogo!. que julgavam não ter testemunhas. E na verdade. No entanto.Suponho que o teu huguenote lhe disse que tinha a cabeça disforme . porém firmes e secos. e vão-se esfolar se nós os não chamarmos à ordem.. como já tinha visto Cocunás pelejar. saltando do cavalo. . de entre a moita. a boca entreaberta.balbuciou Cocunás.. voltando-se. . salte. Mas. quando faziam um movimento mais vivo.. ao estender o braço. Eh lá. e Cocunás cruzou o ferro com um leve-te a breca! dos mais acentuados.disse Henriqueta. . .Ai! . os dentes cerrados. como os leitores se lembrarão.Olha. La Mole tornou a pôr-se em guarda. . Puxou da espada. viram as duas damas. hem?. de Cocunás me fez traiçoeiramente. julgava que ele se sairia daquela luta com La Mole com a mesma facilidade com que se saíra das mãos da família Mercandon. meus Senhores! eh lá! basta de graças! gritou Margarida. .A terra! salte. que começara por motejos e provocações. e pôsse em guarda.Parece. firme como se fosse um autómato. e que. Ambos desconfiavam das suas forças.Que tal. o combate. .A minha disforme cabeça? . Essa risada chegou aos ouvidos dos dois fidalgos. E ouviu-se. tornara-se silencioso apenas os dois adversários cruzaram os ferros.Ui! . sobre o seu adversário. La Mole tinha-se apeado com uma indolência que contrastava singularmente com a rapidez com que Cocunás saltara do cavalo. com os olhos fixos e ardentes. uma risada mal reprimida. .bradou Cocunás.talvez não faça boa pontaria.Oh! são realmente belos naquela posição .disse Margarida rindo .

127 Desta vez ambas as damas deram dois gritos que se confundiram num só. de maneira que ambos rolaram no fosso. sobreveio-lhes uma grande convulsão. afrouxaram as mãos dos terríveis adversários. . deixando cair as espadas. vendo que. lhes faltaria o equilíbrio. . La Mole! .bradou Margarida.Ânimo! . que se foi tornando cada vez maior. ainda procuravam trucidar-se um ao outro. La Mole ouviu esse grito. aproveitando um furta-ferro demasiado largo de La Mole. deixou-se cair sobre la Mole. não podendo conter por mais tenpo a sua admiração. de boca aberta. . mas enfim recuava. e que via que as forças se lhe iam comsumindo.exclamou dolorosamente Margarida. . nem um nem outro caiu. uma nódoa encarnada.balbuciou a duquesa. La Mole reuniu também todas as suas forças. do outro lado do qual se achavam os espectadores. deu-lhe com a rapidez do raio um golpe recto: e no mesmo instante.Diga. aturdido com o golpe. minha Senhora: já viu leões mais intrépidos?. moribundos..Kconhecendo nele um mestre-de-armas. e apertou-o com um braço.. . arrastando na queda o adversário. ao menor movimento que fizessem. bravo. como se a sua retirada tivesse sido meramente um cálculo para se aproximar da sua dama. Margarida e a duquesa de Nevers. e reconhecendo que.Ah! valoroso Cocunás! . Ali. levantou a mão e deixou cair o punho da espada na testa de Cocunás. Por fim. correram para eles acompanhadas pelo capitão das guardas. ao fazer um círculo fingido. passo a passo. Fez Cocunás pé firme e. enquanto que com o outro procurava tirar o punhal.Ah! pobre La Mole! . deitou à rainha um desses olhares que penetram mais profundamente no coração do que a ponta de uma espada e. o piemontês. cuja ferida era mais perigosa que a do seu adversário. recuava. diga. Ambos chegaram assim à borda do fosso.Ah! perdoa-me. . Mas. Uma onda de sangue espumava em torno deles. antes de elas chegarem. . ambos ficaram em pé. embebeu o gibão de cetim verde de La Mole.Oh! bravo. os seus olhos fecharam-se e. que. E desatou em soluços. caiu. abriu-se sobre o seu adversário. perdoa-me por ter suspeitado! E os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. A ponta da espada de La Mole apareceu tinta de sangue nas costas de Cocunás: tinha-o varado de lado a lado! E ainda assim.bradou a duquesa de Nevers.

respondeu o homem. . estenda na carreta as rédeas dos nossos cavalos e siga-nos vagarosamente com estes dois fidalgos para o Louvre.disse o capitão. destreza e valor do piemontês.Pois eu sou a rainha de Navarra. e vinha pendurar naqueles ganchos alguns sujeitos para fazerem companhia ao Senhor Almirante. mas sem contender nenhum dos órgãos principais. e o fôlego que saía da ferida faria agitar a luz de uma vela. mas depois do que acabava de passarse. seguindo o grupo que a guiava. examinando os dois corpos: . Mestre Ambrósio Paré declarou que não respondia pela vida de Cocunás. fora ela que. procurando estancar o sangue. mas eu ainda as faço melhores. confiando na força. Pagou-se bem ao condutor. impedira que Margarida se opusesse ao combate. .. A Sra de Nevers estava desesperada. La Mole era o menos maltratado. podia o marido chegar repentinamente de Roma e estranhar a instalação de um intruso no domicílio conjugal. e parou no Louvre.Você não vê que estes fidalgos precisam de socorro?. inclinando-se até ao chão -.Safa! valentes estocadas! . a fim de lhe renovar nesta segunda ocasião os cuidados que negara na primeira. .Então quem é você? . sou o mestre carrasco de Paris. ainda nenhum deles tinha tornado a si. desceu e. 128 XVII O COLEGA DE MESTRE AMBRÓSIO PARÉ A carreta que conduzia Cocunás e La Mole tornou a tomar a estrada de Paris.Oh! não ouve? venha quando o chamam. . cujo exterior asqueroso e semblante rude formava singular contraste com a meiga e buliçosa cantiga que entoava. Cocunás tinha o pulmão atravessado.Bem boas feridas . O homem da carreta. a estocada tinha-o ferido por baixo do sovaco direito.Eh lá! quem quer que é que vem aí. que começava a divisar-se por entre a cerração da noite. apresse-se! Estas palavras eram dirigidas a um homem sentado numa espécie de carreta pintada de encarnado. . transportaram-se os feridos para casa do duque de Alençon e mandou-se chamar Ambrósio Paré.perguntou Margarida. homem! repetiu o capitão. parou o cavalo. Quando este chegou.Minha Senhora . Largue aí os seus cadáveres. tinha Margarida mandado levar os dois mancebos para um dos aposentos do . De bom grado mandaria ela conduzir Cucunás para o Palácio de Guisa..disse ele -.. . Para ocultar a causa das feridas. que sem dúvida o milagre do Cemitério dos Inocentes lhe inspirara. que corria a jorros. e que vinha cantarolando uma velha canção. sentindo certo terror que não podia vencer.

que tão cruelmente o atormentava. como dissemos. que repartia por eles os seus cuidados. Coconás. O fato. viu depois. quando ele. julgou-se conveniente afastá-lo da vista do ferido.irmão. mal abriu os olhos. estando todo manchado de sangue. viu-o depois andar pelo braço do cirurgião. bem morto. testemunha do combate. La Mole. e que no seu sonho tornava a encontrar o inimigo que por duas vezes julgara ter morto: a diferença era que o sonho se prolongava excessivamente. mas a verdade foi divulgada pela admiração do capitão. que Cocunás tomou pela expressão de um escárnio infernal. pela fraqueza e pela dor. onde já um deles estava instalado. talvez ainda mais enfermo do que o corpo. de que Cocunás quisera fugir. Cocunás. dizendo serem dois fidalgos que tinham caido do cavalo. não obstante. fixou-os em La Mole com uma expressão capaz de provar que o sangue perdido pelo piemontês em nada havia diminuído as paixões desse temperamento de fogo. coisa espantosa. havia mesmo nas suas feições um sentimemto de doçura e de compaixão. andar e. contemplava todos esses diferentes períodos da convalescença do companheiro com um olhar ora espantado. que tinha sido primeiro posto sobre uma cadeira. acompanhada de espantoso delírio. a sombra levantarse. La Mole. depois encostado a uma bengala. fora depois levado dali. reconhecia a sombra de La Mole deitada numa cama igual à sua. sempre valente. Depois de ter visto La Mole tratado como ele pelo mesmo cirurgião. e com ela ferir esse corpo ou essa sombra de La Mole. podia até dizer que por duas vezes. foi direita a ele e parou à sua cabeceira. Cocunás. A única preocupação de Cocunás foi a de obter uma arma. do qual ninguém se lembrava . essa sombra. ou não tinha por nenhum sinal dado a entender que o vira. ora furioso. saindo do letargo. ainda que fosse para o fundo do Inferno. Posto que encerrado na mesma câmara em que estava Cocunás. depois finalmente por seu pé. foi o primeiro que recobrou os sentidos. viu-o sentar-se na cama. mas sempre ameaçador. CuCunás só tornou a si depois de uma febre terrível. Cocunás cuidou sonhar. Para ele. Tratados pelo mesmo cirurgião. que era o menos gravemente ferido. 129 Tudo isto apresentava ao ardente espírito do piemontês um misto horrível de fantástico real. La Mole estava morto. pelo contrário. Acendeu-se então nesse espírito. de pé e observando-o. encaminhar-se para o seu leito. os dois enfermos seguiram as diferentes fases da convalescença provenientes da maior ou menor gravidade das feridas. porque. estava ainda pregado pela febre. uma cega sede de vingança. não viu o companheiro. mas tinham deixado ficar sobre a mesma cadeira o punhal. e logo se soube na corte que dois novos espadachins acabavam de aparecer em triunfo sobre as asas da fama.

lhe faltaram as forças e desmaiou. meu fidalgo. cuja presença parecia uma anomalia no Louvre. lhe cobria toda a parte inferior do rosto. viu alguma coisa incrível até então: a sombra de La Mole.Guardou-se para bem tarde. um gorro da cor das meias. com cabelos negros que lhe caíam até às sobrancelhas. abanando a cabeça. como por uma fascinação singular. Trazia vestido uma espécie de gibão de couro cheio de nódoas pardas. cobriu a cabeça com um chapéu de abas largas. desgraçadamente. Por duas ou três horas circulou-lhe o sangue nas veias mais calmo e mais fresco do que nunca tinha estado desde o momento do duelo. disse: . tendo-se tornado cada vez mais viva. calções vermelhos. duas ou três voltas em roda do leito. abriu a porta. porém. No dia seguinte. robusto. pôde chegar-lhe. em vez de se aproveitar o jumento albardado a quem chamam Ambrósio Paré. pegou-lhe com as pontas dos dedos inteiriçados e. enquanto que ele. pôs sobre uma cadeira o capote pardo em que vinha embuçado. e cingia-lhe o corpo um largo cinturão. grossos sapatos de couro que lhe vinham acima do tornozelo. Eu disse-o a essas senhoras. talvez. Na quarta noite. do qual pendia uma faca embainhada. Se se tivesse seguido o meu receituário. Cocunaz viu o punhal. consumia as suas no trama eterno do atentado que devia livrá-lo dela.Eu não podia sair mais cedo . pôs o capote. que parecia tomar diariamente novas forças. . mas não quiseram ouvir-me. Era um homem de cerca de quarenta anos. e posto que La Mol estivesse só. finalmente. gordo. e barba da mesma cor. já os senhores estariam há muito em condições de ir juntos em . continuavam constantemente a fixar-se em La Mole.Valha-o Deus! mandasse-me chamar. julgou-se livre do seu fantasma. La Mole tornou a entrar passadas duas horas. um dia de ausência de La Mole teria restituído os sentidos a Cocunás. Esquecia-me do lugar em que estávamos. meias cor de sangue. Esta célebre personagem. enquanto La Mole dormia. . ocupado sem cessar pela terrível visão. contra a moda do tempo. que ficara a alguma distância.que ele tão cedo tivesse desejo de servir-se. deu. com ar pensativo. a qual. baixo. e em três noites sucessivas tentou. a sombra de La Mole. Olhou para o doente e. Cocunás respirou.Ah! é verdade. cingiu a espada. .Por quem? . dando um gemido provocado pela dor.disse La Mole. mas o recém-chegado parecia importar-se pouco com as aparências. E entretanto esse companheiro merecia bem que olhassem para ele. estender a mão para lhe pegar. e chegou-se brutalmente à cama de Cocunaz cujos olhos. escondeu-o debaixo do travesseiro. oito dias curá-lo-iam. Cocunás não olhou uma única vez para o companheiro. Esta entrada foi para o piemontês uma verdadeira punhalada. por três vezes.

sorrindo de um modo singular . . creio que ele há-de poder recompensá-lo generosamente. Esta mesma noite lhe mandarei uma beberagem já pronta para lhe dar três vezes de hora em hora.Juro-lho. .Pode contar. o perfumista. Enfim! veremos. . Não há tempo a perder.Por quem quiser. .À fé de fidalgo! . Miguel? . a minha profissão. .disse ele -.Está previsto. ou antes.O homem sorriu. ou de tornarem a trocar outra estocada.Muito bem. sem diploma.Não se incomode.Deixe ver a língua. . fazendo uma tão horrível careta a La Mole.Realmente . . Mas . . Cocunás deitou a língua de fora.Derramá-lo-ia até à última gota. Está dito: o portador dirá que vem da parte de mestre Renato. outra às duas horas.acrescentou. como poderá falar com o senhor? . . .O senhor mesmo?.Sim senhor. . meu fidalgo. visto que ele o não tem tido de exercer por tantas. o perfumista. . a pessoa que o trouxer.Não muito.E pode ficar descansado.Também à fé de fidalgo?.E se algum médico quisesse subtrair-lhe qualquer pequena dose para a decompor.Porém.Então . Ele tem licença ampla para entrar no Louvre a toda a hora do dia e da noite.Justamente. uma vez à meia-noite. essa licença é a menor que lhe dispensa a rainha-mãe.Mas quem lhe há-de aplicar esse remédio? .Quanto à paga. e ver de que ingredientes é formado?. .Eu também o creio.Dá-me a sua palavra? . . . . que o examinador abanou segunda vez a cabeça. outra à uma.como o reconhecimento não é habitual nas pessoas que têm negócios comigo. uma vez restabelecido. Não devo ter escrúpulos em tomar uma vez o seu nome. Dirá que vem da parte do Sr. .Por quem lhe hei-de mandar o remédio? . nós arranjaremos isso com o fidalgo quando estiver de pé.Hum!. se tivessem vontade nisso. não me admiraria que o doente. . . Renato.O florentino que mora na Ponte de S. não se dignasse . se esquecesse.contracção dos músculos. .busca de aventuras. O seu amigo está em seu juízo? 131 .disse La Mole -. .resmungou ele . .Eu. conto com o senhor.

mostrando-lhe o remédio.. pois. de maneira que apenas percebeu a palavra meianoite. de La Mole. dar uma ou duas voltas no quarto. sempre ameaçador.Ah. Vem!. fora tudo quanto lhe ferira o ouvido. Ah! ameaçasme. e La Mole ficou só com o seu companheiro Cocunás. Viu então . vem!. uma sede inextinguível consumia as goelas abrasadas. de hora a hora.coisa horrível! . Sr. começando à meianoite. e depois seguir para ele. Cocunás resmungava: . és tu? Ainda tu. mas sem perceber nada dela: um ruído confuso. Continuou. A esse forte e repentino estrondo. La Mole ia-se aproximando. Vem... Repetido isto.. o despertador do relógio deu doze pancadas.respondeu La Mole.lembrar-se de min. Vem.. e tomada esta precaução. daí o parecer-lhe que uma voz lhe repetia aos ouvidos: Meia-noite! meia-noite! meia-noite! Passado algum tempo. Esta acção de La Mole deu algum repouso a Cocunás. Cocunás estendeu a mão para o punhal. sempre tu!.Como quiser. e o seu pálido clarão fazia dançar mil fantasmas à trémula vista de Cocunás. tomou-o pelo cabo e preparouse para estripar o seu inimigo.. Cocunás tinha escutado toda a conversação. a dirigir o seu ardente olhar para La Mole. . pé ante pé!.. o ardente fôlego que lhe saía do peito devorava-lhe os lábios secos. que permaneceu no seu quarto passeando com ar pensativo. Julgo que entendeu bem: deve ser tomado em três doses. um vago rumor de palavras. por entre as secas pálpebras continuava a ver esse La Mole. que eu te ponho as tripas ao sol! . nesse caso eu lhe reavivarei a memória. La Mole foi pô-lo sobre um pequeno esquentador de prata. mas o seu letargo febril era apenas uma consequência da vigília delirante. Cocunás tornou a abrir os olhos inflamados. como faz o gavião diante da ave que quer fascinar. Continuas a aproximar-te devagarinho. 132 O doutor desconhecido teve palavra: à hora prometida mandou o remédio. deitou-se. sempre motejador. saiu. mostras-me o punho. sorrindo também -. Então adeus. vem para cá..La Mole descer da cama.. . vinha acometê-lo de noite. sorris. Daqui a duas horas terá o remédio. tentou também fechar os olhos. O mesmo fantasma que o perseguia durante o dia.Deixe isso por minha conta . como era costume. a lamparina estava acesa..

levantandolhe a pouco e pouco a cabeça. Quando no dia seguinte mestre Ambrósio Paré veio . Coconás recobrou a razão. O doente não respondeu. o instinto: sentiu um alívio como nunca tinha experimentado. depois adormeceu.E. ou antes. . deixando-se cair sobre o travesseiro . pela primeira vez com alguma tranquilidade. se quiser beber três chávenas como a que acabo de lhe dar.se uma ligeira humidade. que o sustinha nos braços e sorria para ele. porém. e pela superfície da pele ardente espalhou. rolou uma lágrima imperceptível pela face ardente. e que este tomara por um punho ameaçador. e se não tiver mais esses maus sonhos. e chegando-lhe aos lábios uma chávena -.exclamou Cocunás por entre os dentes. com efeito. Cocunás fez cintilar de entre os lençóis a lâmina do punhal. de La Mole. Era realmente uma chávena que La Mole apresentava a Cocunás. meu pobre camarada. a mão débil deixou cair a arma e o moribundo tornou a cair sobre o travesseiro.Vamos. La Mole. e de um desses olhos. o piemontês. olhou com ar inteligente para La Mole. há-de ser meu amigo! . constituído em enfermeiro. mas o esforço feito pelo piemontês para se levantar. Desta vez.disse La Mole -. vamos . recebeu-a com os braços abertos. que ele limpou com avidez. humedecendo os lábios e refrescando o peito. os membros. O peito do doente começou a deixar 133 passar uma respiração regular. até então hirtos ganharam flexibilidade. e obedecendo pontualmente às prescrições do doutor desconhecido. levantou-se segunda vez. o braço estendido para La Mole parou a meio do caminho. até então contraídos por um sombrio furor. beba. e engoliu a beberagem com deleite. posto que ainda anelante. porque está ardendo em febre. no momento em que La Mole se inclinava para ele. deitou nova porção de licor numa chávena e levou-a a Cocunás.se escapo desta. . em lugar de a esperar com o punhal na mão. Sr. o que tanto havia sobressaltado o exausto cérebro do ferido. Mas ao macio contacto do benéfico licor. Uma hora depois. O efeito da terceira chávena não foi menos maravilhoso.disse baixinho La Mole.E há-de escapar.Por minha vida! . meu camarada . acompanhando com o gesto esta surda ameaça. quebrou-lhe as forças.

feridas novas e velhas. o primeiro que se restabeleceu. um só e mesmo pensamento atormentava os dois mancebos. a outra. não deixou de ter uma certa poesia de natureza bem terna. Lhes era menos dolorosa.visitar o ferido. em substância. que talvez importava no eterno esquecimento. mas nem por isso esta ausência. à vista de todos. mas nem La Mole se atreveu a falar a esta em Margarida. ficaram bem persuadidos de que nem Margarida nem a Sr. os quais. cunhada do duque de Guisa. serviu-lhe de arrimo para andar quando começou a poder suster-se nas pernas. para com ele todos os cuidados próprios da doçura da sua natureza e do coração de um bom amigo. no delírio da febre. É verdade que Gillonne. promoveram uma convalescença mais rápida do que se podia esperar. mas que. e foi muito além da de Orestes e Pílades. e como de seu moto próprio. Bartolomeu. dar um sinal tão público de interesse por dois simples fidalgos? Não. também como coisa sua. ambos eles. semiburlesca.a de Nevers tinham entrado no quarto. teve. sorriu com satisfação dizendo: .a de Nevers. podiam elas. tudo se foi curando com admirável progresso. tinha feito outro tanto. Uma era mulher do rei de Navarra. julgaram ver aproximar-se-lhes as damas a quem haviam dado os corações. pelo contrapeso de cinco estocadas e un tiro de pistola repartidos pelos dois corpos. não quis sair do quarto enquanto Cocunás não ficou inteiramente bom. É verdade que o fidalgo que assistira ao combate tinha vindo uma vez por outra. profundas e leves. fiel à sua missão de enfermeiro. coadjuvados pelo vigor do piemontês. Ajudou-o a sentar-se na cama enquanto a fraqueza lhe não permitia levantar-se. de Cocunás e não será esta uma das menos notáveis curas realizadas por mim. No entanto. La Mole. Era esta certamente a resposta que La Mole e Cocunás deviam dar um ao outro. começada na hospedaria da Estrela Brilhante e violentamente interrompida pelos acontecimentos da noite de S. nem Cocunás ousou perguntar àquele pela Sr. por acaso. enfim. dessa cena resultou prosseguir desde então com mais vigor a amizade dos dois fidalgos. se se atender à ferocidade dos costumes de Cocunás. 134 . Da cena semidramática.Desde este momento respondo pelo Sr. saber dos feridos. e isto é fácil de compreender. Fosse como fosse. mas depois que recobraram a razão.

La Mole. . após os quais se aparta quase sempre do seu confidente muito satisfeito do entretenimento. havia desaparecido anunciando provavelmente. apesar da loucura de suas esperanças. não lhes faltou um vestuário completo. e todavia a esperança é um sentimento que está tão profundamente enraizado no coração do homem que. tinha a beleza da distinção. que antes lhe valera tantos sarcasmos pela sua prismática semelhança com o arco-irís. conservarem uma presença agradável. o único pensamento que os preocupava trasbordou-lhes dos lábios. de que se aproveitaram. Cocunás. isto é. porque esse prlncipe não só os não visitara. bem-talhado. à medida que se restabeleciam. Para este fora a doença uma vantagem: estava mais magro. No dia em que puderam levantar-se. como o fenómeno diluviano. cada um deles achou o competente trajo caseiro sobre a cadeira mais próxima da cama. que em certas circunstâncias deixe de ter com o seu espelho conversações mudas e sinais de inteligência. porém. sem a qual a amizade não existe. um tanto descorado e até o famoso nariz. robusto. na firme tenção de a restituírem a seu tempo ao protector desconhecido que assim previa as suas necessidades. bem entendido. uma série de dias puros e de noites serenas. Ora os nossos dois rapazes não estavam no caso de deverem recear dos seus espelhos um conselho desagradável. Não deixavam. mas. possuía a beleza da força. num dia de expansão. Este protector desconhecido não podia decerto ser o príncipe em cuja casa habitavam. Uma esperança fugitiva dizia secretamente a ambos os corações que o protector desconhecido era a mulher por cada um deles amada. Ainda mais: na algibeira de cada um dos gibões havia uma bolsa bem recheada. poderia desde muito ter-se posto em campo. ou antes. finalmente. Havia para os dois pobres amantes alguma coisa assustadora nesta distância quase invencível que os separava do objecto dos seus desejos. ainda o mais indiferennte às vantagens físicas. boa cor. Não há homem. Estavam perdidos de amores: um por uma princesa. mas uma espécie de convenção tácita ligava a sua sorte à do amigo. e no dia em que puderam vestir-se. pálido e elegante. La Mole. Portanto. por uma inteira confiança. os dois feridos esperavam impacientes pelo momento de sair. e ambos estreitaram a sua amizade por essa última prova. eles esperavam. de empregar todos os meios para adquirirem. mais forte e mais bem curado do que Cocunás. delgado de corpo. como nem mandara saber deles. outro por uma rainha.XVIII AS ALMAS DO OUTRO MUNDO Os dois fidalgos guardaram por algum tempo religiosamente o segredo que encerravam no peito.

já providos de resignação para os rigores do Inverno. havia dado esse atestado. como se vê. Sabia que o seu amigo o conduzia à casa do doutor desconhecido da poção. como preparava filtros e dava oráculos. ao menos em bom caminho para uma perfeita cura. tendo o hábil cirurgião reconhecido um dia que os dois enfermos estavam. Junto do antigo chafariz. e mesmo sem reflexão. e no lugar designado pelo nome de Carreau des Halles havia um edifício octógono de alvenaria. unindo ao seu título de perfumista o de mágico. os dois amigos saíram de braço dado os portões do Louvre. pela das Prouveries e brevemente chegou à Praça das Halles. La Mole seguiu pela Rua de L'Astruce. com admiração dos seus habitantes. porque a impaciência que tinham levava-os por vezes a quererem apressar esse dia. A terceira. num desses belos dias de Outono que Paris apresenta algumas vezes. uma sentinela postada à porta lhes tinha constantemente embargado a passagem. Ora. e é este o termo apropriado. Dissemos de reclusão. mas nem por isso deixava de estar bem contente de viver. isto é. posto que o seu autor não apresentasse um privilégio de invenção. à hospedaria do defunto mestre La Hurière. porém. ao doutor desconhecido. Finalmente passados dois meses de convalescença e de reclusão. pela Rua de Santo Honorato. Tinham feito dois montes do dinheiro que achou na bolsa. declarando-lhes que não sairiam enquanto não apresentassem um atestado de mestre Ambrósio Paré. rematado por um zimbório de madeira. quando todas as drogas do mestre Ambrósio Paré o iam matando lentamente. onde ambos tinham deixado a roupa e o cavalo.Estava ajustado que a primeira saída teria por fim três visitas. não só vendia cosméticos e venenos. o havia curado numa só noite. ao florentino Renato. La Mole tinha-se arvorado em guia de Cocunás. de recompensar o seu salvador. portanto. A segunda. 135 A primeira. Cocunás não temia a morte. o qual. tratava. senãocompletamente curados. o qual se deixava levar sem resistência. dos duzentos nobles à la rose dos quais destinara cem para recompensar o esculápio a quem devia a cura. e pela volta das duas horas da tarde. que terminava por um telhado . chegou esse dia tão desejado. cuja doce beberagem tinha operado tão notável melhoria no peito inflamado de Cocunás.

brotado ao pé dessa espécie de torre. Era a casa do carrasco. era um dos ladrões que por acaso fora preso. a cabeça e as mãos do condenado ou dos condenados que se expunham numa ou nalgumas daquelas oito aberturas.Olé!. abertos para este fim. 136 . Estava um homem exposto fazendo caretas a quantos passavam. divertia-o portanto muito o que se passava: só quisera que. que tinha uma rosa gravada no reverso. porque lhe pareceu ter visto essa cabeça .perguntou Cocunás.Para que viemos então? . e na qual havia um homem encostado. .. E La Mole conduziu Cocunás em direitura à pequena janela da casa pegada à torre. tinha. próximo à forca de Montfaucon. se atirassem pedras ao condenado. no exercício de suas funções. do mesmo modo que a peça heráldica que se chama faixa atravessa o escudo. que não tinha outro análogo entre os que o rodeavam. dizendo-lhe a meia voz: 'Moeda inglesa antiga. .respondeu La Mole. . era o pelourinho. . .Sejam bemvindos.se. Cocunás quis acompanhar o movimento da multidão.Quem é este homem? .disse o homem. uma espécie de roda de madeira dividida pelo meio para receber nos chanfros. Os dois amigos tratavam-se por tu desde o dia imediato à famosa noite em que Cocunás quisera furar as tripas a La Mole. Esse edifício singular. alquebrada. Por isso. Este zimbório de madeira apresentava oito aberturas. e misturou-se com a turba dos amadores que respondiam às caretas do paciente com vaias e vociferações. em vez de se fazer este alarido. Cocunás julgou que o seu amigo o conduzia para ver este curioso espectáculo. à maneira de um cogumelo.Vais sabê-lo .Não foi para isto que aqui viemos.pontiagudo no cimo do qual se movia um cata-vento. cuja insolência ia a ponto de fazer caretas aos nobres senhores que o honravam com a sua visita. Uma casa informe.perguntou Cocunás. Cucunás era naturalmente cruel. mas La Mole fê-lo parar. que atravessavam. levantando o seu gorro vermelho e mostrando a cabeça coberta de negros e espessos cabelos caídos até às sobrancelhas. procurando recordar. cujo telhado musgoso se semelhava à de um lagarto. de ouro. logo que o zimbório movediço girou sobre a base para que o paciente fosse visto do outro lado da praça. e que a multidão seguiu o movimento do zimbório. são os senhores? .. torta e esburacada.

.disse Cocunás . . . é você quem faz os tratos. . Agora.Não sou inteiramente o Diabo . . . oh! quanto estimo conhecê-lo! . quem corta as cabeças. .Não me falta ouro.. agradeço-lhe a honra que se digna querer fazer-me.declaro que ainda que fosse o Diabo. mas é provável que. meu caro amigo .Oh! oh! . meu amigo. ... .respondeu La Mole -. aquele que te levou ao Louvre essa bebida refrigerante que te fez tanto bem. . porém muitos (e não sucede isto poucas vezes) antes quereriam ver o Diabo do que a mim. Mas o homem. quem esquarteja. perdesse esse desejo.perguntou Cocunás. . olhando com curiosidade para o carrasco -. E estendeu-lhe a mão.. . .Então quem é o senhor? . .. eu tenho os meus ajudantes. . .Sou mestre Caboche.Essa é boa! .disse Cocunás.observou mestre Caboche.É o teu salvador. em vez de corresponder a este movimento com um gesto igual.Senhor . meu amigo . assim como os senhores fidalgos têm os seus criados para certos serviços..Eu estimaria mais que só me tivesse dado a mão . se me conhecesse. endireitou-se e. então é outra coisa. desde o primeiro até ao último. . Assim mesmo! E Cocunás tirou da algibeira a soma de ouro destinada para o seu médico anónimo. e depô-la na mão do carrasco. ainda que me leve o diabo! Estenda-a. não cedo a ninguém a honra da execução com todos os pormenores. e sim mãos que apertem a minha.Deveras?. quem quebra os ossos!.Quero-a bem aberta. .Não! hei-de apertar-lhe a mão. a não ser o senhor..Com que então. porque.nesse caso.durante um dos momentos da febre. deste modo.respondeu mestre Caboche -.Mais aberta. como por exemplo o senhor e o seu companheiro.respondeu o homem de gorro vermelho -. eu me confessaria seu obrigado. eu não faço tudo por minhas mãos..exclamou Cocunás. estaria morto a esta hora.Ei-la. e que aviam a canalha. desde ..Não lho dizia eu?.Ah! . . carrasco do prebostado de Paris.Senhor .. isto é..disse mestre Caboche abanando a cabeça.disse ele a Cocunás -. se por acaso se trata de fidalgos.exclamou Cocunás . quem roda. ficou apartado dos dois amigos pela distância que ocupava a curva do seu corpo. mais. que fazem o trabalho grosseiro.

Prometo-lho. esse está morto e bem morto. ou ao cadafalso do Sr. e vendo que a multidão voltava com o volver do zimbório. que soou como se batesse no sino grande da Igreja de Nossa Senhora. que este apertou timidamente. posto que se tornasse visível o desejo de lha apertar com desembaraço. Cocunás e La Mole esperavam achar a casa em desespero.respondeu Cocunás .vez . e deixei-o estendido no regato com o sangue que lhe saía pelo nariz e pela boca.disse Cocunás -. oferecendo sempre ao viajante o seu fogão de gastrónomo e a sua apetitosa legenda. . os dois amigos chegaram à Rua da Árvore Seca e dirigiram-se parr a a tabuleta da Estrela Brilhante que continuava impávida no mesmo lugar. sem poder explicar o motivo. sorrindo. que realmente tinha tanto desejo como La Mole de findar esta cena. e que o fio de aço lhe roçava pelo pescoço. aqui está a minha mão como sinal de que aceito a sua promessa. E estendeu para o carrasco uma das mãos. É bom ter amigos em toda a parte. . . puxava-o pelo capote. sentiu pelo corpo um violento calafrio.Oh! quanto ao pobre mestre La Hurière . Cocunás empalideceu alguma coisa. de Nemours.disse La Mole. mestre. .hás-de confessar que se respira melhor aqui que na Praça das Halles. e se aproximava deles.Por minha vida! .disse Cocunás -.mas. A este simples tocar. ninguém me há-de tocar senão você.Pois bem. mas a boca conservou o mesmo sorriso. . 137 La Mole. pela inclinação natural do seu carácter. fez um aceno com a cabeça e retirou-se. Mas Cocunás venceu essa emoção. querendo despedir-se de mestre Caboche com um último gracejo. mas não foi pequena a sua admiração quando viram tudo em plena . Cocunás. . ao passo que La Mole. Conversando assim. incomodado. disse-lhe: . estou bem contente por conhecer mestre Caboche. se entranhara mais do que quisera. teve a mesma sensação. ouvi o choque da bala. Cocunás.Confesso . apesar disso.disse La Mole. na qual. quando chegou com o seu companheiro à cruz do Traboir . a viúva de luto e os moços de cozinha de fumo no braço.a tortura até à degolação.Mesmo na hospedaria da Estrela Brilhante . de que se envergonhava e. tomo nota da sua palavra: quando chegar a minha vez de subir à forca de Enguerrand de Marigny. é um amigo que temos no outro mundo. Supondo que seja um amigo. Eu vi a chama do arcabuz. apesar de todo o seu ânimo. parecendo-lhe que já as cunhas de ferro lhe comprimiam as pernas.

disse La Mole -. .In nominepatris. respondendo com um grito igual. Gregório. algumas cebolas que estava refogando. deitando sangue pelo nariz. . 138 . mas nem por isso foi a pancada menos rija. . . que vimos reclamar. chamar meu marido. depois de ter tentado recordar-se -. Os dois mancebos estalaram de riso vendo aquela grotesca figura.Pois o senhor não morreu? . levantando o barrete e mostrando a cabeça. .exclamaram os dois mancebos. Deixeio estirado no regato. de Cocunás e de La Mole! . La Huriere. .já se tornou a casar.Ah! os senhores riem!. pelada como um joelho .é que não me ficou um cabelinho. quando vivo. vou. . que lhe quebrava alguma coisa. já está curado dos seus gostos bélicos? . contudo.Leve-me o diabo . mestre La Hurière.Ouvi o estrondo da bala. Deixámos aqui dois cavalos e duas malas.disse o homem. movendo a colher como um hissope . quem tal diria.Ele quis matar-me . e os rapazes mais alegres do que nunca.Pois os senhores estão vivos? . deixou cair a caçarola.disse La Hurière.actividade: a Sr. o quê não sei. a La Hurière muito louçã. um pouco sossegado . e a prova .acrescentou La Hurière.Oh! que infiel! . o homem levantou a cabeça e.filli et spiritus sancti . apareceu um homem com uma caçarola na mão. que era o laboratório onde se aprontavam os pratos que mestre La Hurière. pela boca e até pelos olhos!. cham o patrão! Gregório passou da primeira cozinha. ficando só com a colher de pau na mão.disse Cocunás.bradou Cocunás. se me dão licença. La Mole e Cocunás soltaram um grito de surpresa. para a segunda.então não vêm com más intenções?.patroa . que era o pandemonium geral. . E dirigindo-se depois à nova Artemísia: .perguntou o estalajadeiro.E o senhor. . com uma colher de pau. .Mestre La Hurière! . . .disse ele -. nós somos dois fidalgos do conhecimento do pobre Sr. Sr. como não tenho a honra de conhecêlos. .Os Srs. de Cocunás. na qual mexia. Mal tinha La Mole pronunciado estas palavras. se não me faz pena ver esta casa tão alegre quando devia estar tão triste! Pobre La Hurière.disse La Hurière.respondeu a dona da casa. mas perdoo-lhe de todo o coração. julgava dignos de serem preparados por suas sábias mãos.Mas eu vi-o cair! . esse estrondo que ouviu foi o da bala batendo na minha celada.Tudo isso é verdade como o Evangelho. A este grito.resmungou Cocunás -.Meus Senhores .disse La Mole . . sobre a qual felizmente se achatou.

disse o estalajadeiro. .foi só o que estava dentro. .Decerto.. .. .E as nossas malas? . .Sim senhor.Valha-me Deus! . estou bem certo. hem? . . coçando a orelha.Não te parece um grande velhaco este sujeito?.Julguei. não será este seu humilde criado quem se atreva a desmenti-lo. apanhando a caçarola com ar inocente -.Pois julga isso?. . . -E agora.Sim. . e nos seus quartos duas malas. Esta ameaça pareceu produzir grande efeito em mestre La Hurière.disse La Hurière. Senhores. Senhor Conde. .Não julgo.disse Cocunás . . . Sr. Não seria mau dar-lhe um ar às tripas. . como os senhores morriam sem testamento.continuou La Mole. .respondeu vivamente La Hurière .Ouve .Pois aí está!. La Mole? .Ambas no quarto.. na cavalariça.Oh! cos diabos! .Por minha fé que sim! E agora.Mas os senhores sabem que.Julgámos. com uma bala que me passou duas polegadas acima da cabeça. eu podia também enganar-me.disse La Mole -.Bravo! .E hão-de convir que. .Que dizes.O senhor diz dois cavalos?. . . . pois me lembro que num movimento de loucura tive a audácia de o ameaçar.Agora fiz voto de não ver outro fogo senão o da minha cozinha. . visto que se enganaram. de La Mole . julgo que haverá meio de arranjarmos isto.Que foi que julgou? vejamos. . . julgaram-me morto.Diga o resto.Julgando-nos mortos também? Estava no seu direito. é? . .Julguei que podia ser vosso herdeiro.Olá!. Bem vejo que fiz mal.prosseguiu Cocunás.Se está certo. não foi? .disse Cocunás.isso é o mais prudente. não senhor.Que sucedeu então? .Então vendeu os nossos cavalos. . creio que sou eu que tenho mais razão para me queixar dele. . . .Mas nem por isso deixo de estimar muito que os senhores estejam vivos. .Mas. . . que se arriscou a dizer: 139 .disse La Hurière.Oh! quanto às malas. .bradaram os dois mancebos. continuou mestre La Hurière.E duas malas. . Mas vamos ao que importa: nós deixámos na sua cavalariça dois cavalos.

disse o fidalgo -. -Qual é? . La Mole . Senhor? e quando foi isso? . façanos uma omeleta. e ainda assim estas cinco pontes só desembocavam na Cité.Pois não! . se não me engano.bradou La Hurière . mas também com uma pequena condição.É que entregará ao Sr. muito bem!. que entregou a La Mole.disse La Hurière. meu fidalgo?. . . E foi direito ao armário.Pois bem . passá-las aqui ou noutra parte. . têm corações de príncipes e podem contar comigo para a vida e para a morte. é o mesmo.Temos ainda que esperar três horas. . um por um.Concordo. meus fidalgos.Ah! já entendo . a Ponte do Troco. voltando-se para o relógio: . não é assim? .Eu. PERFUMISTa DA RAINHA-MÃE Na época em que se passa a história que narramos aos nossos leitores.A não ser. Depois. . cinquenta escudos. pela minha parte não te reclamo nada. E os dois rapazes tornaram a ir ocupar na mesa e na pequena sala do fundo o mesmo lugar em que tinham estado nessa famosa noite de 24 de Agosto de 1572. . outras de madeira.na verdade.Como. estamos no caminho da Ponte de S. Miguel. durante a qual Cocunaz propusera a La Mole o jogarem a primeira amante que viessem a ter. Senhor .. e não poupe a manteiga nem o toucinho.Muito bem. concorda na negociação? .exclamou La Hurière . senão cinco pontes.Nesse caso . . do qual tirou.Está tratado.Com a melhor vontade do mundo. Eram a Ponte dos Moleiros.Ai! ai! . . . que nem um nem outro tinham nesta noite a lembrança de fazer uma igual proposta ao seu companheiro. em honra da moralidade dos dois mancebos.faça-nos a omeleta. de La Mole cinquenta escudos.Oh! . 140 XIX A HABITAÇÃO DE MESTRE RENATO.Um quarto de hora antes de vender o meu cavalo e a minha mala.com todo o gosto! Às suas ordens. . Tanto mais que. . que eu lhe devo e que você recebeu de mim. La Hurière fez um sinal de inteligência.Por minha vida! tens razão. E o Sr.disse La Mole -.disse ele. umas de pedra. Confessemos.A não ser um jantar para mim e para os meus amigos. a . às suas ordens! .disse ele. para se passar dum para o outro lado de Paris. todas as vezes que vier ao teu bairro. meu fidalgo. Os cinquenta escudos serão para mestre Gregório. não havia. de Cocunás prosseguiu o estalajadeiro -.disse Cocunás .

passava ainda por bastante sólida. havia barcas que. e entre esse friso e a janela do primeiro andar via-se uma larga faixa. como é ainda hoje a Ponte Vecchio em Florença. porém. logo que mestre Renato se estabeleceu na Ponte de S. apesar da sua aparente solidez. pintada de azul. que separava o rés-do-chão do primeiro andar. foi reedificada também de madeira. bem aferrolhada. que tem cada uma a sua história. esta solidão e este abandono. tinham abalado um após outro. larga. e. mas durante a noite de 16 de Dezembro de 1547 foi outra vez destruída. pelo ano de 1550. representava uma multidão de diabinhos em atitudes cada qual a mais grotesca. bem ou mal. com este letreiro: RENATO. No meio das casas que guarneciam a linha da ponte deFronte do ilhote onde tinham sido queimados os templários. o que provava que alguns entes frequentavam essas casas. Destas cinco pontes. mas ainda mais que pelos ferrolhos era ela defendida dos ataques nocturnos pela espantosa reputação do inquilino.Ponte de Nossa Senhora. PERFUMISTA DA RAINHa-MÃE A porta desta loja estava. Pela única janela que se abria no primeiro andar. FLORENTINO. julgando certamente muito perigosa tal vizinhança. como já dissemos. e ouvia sons como de quem solta gemidos. Miguel. vinte e dois anos antes de época em que nos achamos nesta história. Miguel. com ricas molduras douradas. só nos ocuparemos neste momento da de S. a Ponte Pequena e a Ponte de S. via-se um clarão avermelhado que atraía o olhar dos que fitavam essa fachada baixa. como se tivessem medo que o cheiro das perfumarias lhes chegasse por transpiração através das paredes. substituíam as pontes. por cima duma janela e duma porta dos quartos do rés-do-chão. a ponto de que todos os que atravessavam a ponte nesse lugar faziam-no quase sempre descrevendo uma curva que os levava para a outra fileira de casas. de maneira que as duas casas contíguas à dele ficaram desertas e fechadas. Estas cinco pontes eram guarnecidas de casas. hermeticamente fechados. e onde está edificada hoje a Ponte Nova. Ainda mais: os vizinhos da direita e da 141 esquerda. Miguel tinha sido construída de pedra em 1373. o que se não sabia . posto que já tivesse precisão de reparo. Não obstante. Nos outros lugares onde a circulação era necessária. Miguel. Uma espécie de friso. sobre aqual se abaixava um amplo telhado como a pálpebra dum imenso olho. via-se uma casa de madeira. dizia-se que quem por ali passava a horas mortas divisava por entre as adufas fechadas dessas casas vazias certos raios de luz. A Ponte de S. em 1416 fizeram-na de madeira. abateu em parte por um trasbordamento do Sena em 31 de Janeiro de 1408. também pintada de azul. isto é.

Uma dá para um pequeno quarto que recebe a luz do tecto. Esta câmara é do mesmo tamanho que a do rés. é que ela ouve e vê o que se passa na câmara. convidá-lo-emos a entrar connosco nessa habitação. porém. mas esta porta é invisível. e de manhã passeiam diante da porta até que se abra. Só Catarina e Renato é que sabem o segredo desta porta. abalando como eles de semelhante lugar. já não crê em magia nem em mágicos. de alambiques e de cadinhos: é o laboratório do alquimista. e há nela duas portas. A outra dá para . a outra é exterior e visível do cais. A loja do rés-do-chão é sombria e deserta desde as oito horas da noite. não dormem na casa. Ambas conduzem à câmara do primeiro andar. com o ouvido ou com os olhos aplicados a alguns furos abertos neste armário. É bastante larga e funda. que mestre Renato adquirira geralmente. de imitarem a prudência dos seus antigos vizinhos.do-chão. A esse privilégio de terror. Daqui resultava lembrarem-se de vez em quando os inquilinos das duas casas contíguas a essas. Estes aprendizes. preparados pelo hábil químico. pregado a ela. Uma destas é encostada à parede e lateral. que é ajudado por dois aprendizes nessa venda por miúdo. pela sua qualidade de compatriota e de perfumista. os unguentos e cosméticos de todas as qualidades. às vezes no dia seguinte: é ali que se vendem diariamente as perfumarias. saem à noite um momento antes que se feche a loja. Além de que nem as pa trulhas nem os vigias se atreveriam a incomodar um homem duplicadamente prezado por Sua Majestade. como dissemos sombria e deserta.se ainda duas portas. chamado hoje dos Agostinhos. porque a cobre um alto armário entalhado. devia ele por certo ser o único que podia conservar luz em casa depois do toque de recolher. No fundo do primeiro repartimento está aberta a porta que dá para a escada exterior. armado de ponto em branco pelo filosofismo do século dezoito. e na face lateral do segundo a que dá para a escada secreta. cada uma das quais dá para uma escada. que naquela época de crenças supersticiosas espalhava na vizinhança tão profundo terror. é por ali que a rainha sobe e desce. dormem na Rua da Calhandra. e da praia chamada Cais dos Ourives. Nos lados deste segundo compartimento vêem. e que não tem outra mobília além dum grande fogareiro e de grande número de retortas. Como supomos que o leitor. que a acompanha no abrir e fechar. é pois. Esta loja do rés-do-chão.era se eles pertenciam a este ou ao outro mundo. momento em que se fecha para se tornar a abrir senão muito tarde. mas está dividida em duas partes por um pano de Arrás estendido na direcção da ponte.

todos agudos ou cortantes. e cuja ponta é fina como a duma agulha. uns luzem como espelhos. exactamente iguais. Se vem. encostou o ouvido à porta. queimando um óleo perfumado. por onde se vê o correr das águas escuras do Sena. nem são elas.disse ele . Ouviram-se ao mesmo tempo três fortes pancadas. Voltemos à câmara do meio. mas não abriu. abanando a cabeça. que vai desembocar num cano. que a grande custo saía duma nuvem negra que parecia passar no álto do campanário da Igreja de Nossa Senhora. Renato. nas quais corre ao longo do muro uma espécie de rego. Repetiram-se as três pancadas. Ora aí está . as múmias com faixas douradas.esqueceu-me voltá-la. onde estão suspensas por três correntes denegridas. haverá tempo para tudo. os velhos alfarrábios empoeirados e veneravelmente roídos dos ratos. Tudo isto é alumiado por duas pequenas lâmpadas de prata. presas uma à outra pelos pés. são de cor cinzenta embaciada ou azulados. depois de longa e dolorosa meditação. param defronte da porta. ou da igreja Dei-Servi de Florença. É ali que se recebe a plebe dos consultantes. e porque toda a mobília consiste numa espécie de altar de pedra. daqui a uma hora ou hora e meia. à dos dois compartimentos. as caveiras com os olhos vazados e dentes 142 abalados e. São passos de homens. pelo contrário.não é ele. Por detrás da cortina estão frasquinhos. finalmente. isto é. acrescentou: Nove horas. como costuma. vêm para cá. passeava a largos passos pelo segundo compartimento da câmara do meio. com os braços cruzados.um cubículo mais singular do que o resto da casa. Renato desceu rapidamente. que parecem roubadas de algum altar de Santa Maria Novela. caixinhas de segredo e ânforas de sinistro aspecto. Este cubículo é o santuário do áugure. Renato aplicou o ouvido ao orifício dum longo tubo. do qual uma extremidade abria para a rua em forma de buzina. Olhando então para a Lua. portanto. e. . apresentam à vista dos visitantes essa confusa mistura donde resultam as diversas emoções que obstam a que o pensamento siga o seu verdadeiro curso. Pelas paredes estão pendurados instrumentos de feitio singular. Num canto esvoaçam duas galinhas pretas. Neste momento ouviu-se um rumor na ponte. e que. Não .disse ele . porque não tem claridade alguma. o crocodilo balançando no tecto. parou defronte duma ampulheta. espalham um clarão amarelado do alto da sombria abóbada. virá. é ali que as cegonhas egípcias. só. e o gume afiado como uma navalha de barba. e talvez que há muito passasse toda a areia. outros. O chão é um lajedo inclinado do centro para as extremidades.

disse ele por fim -. há-de curar-se. diga-me portanto se ficarei estropiado pela minha ferida. Renato aproximou o ouvido do peito de Cocunás. meus Senhores. . . .disse a mesma voz que já tinha falado.Ah! não sabia . ouviu-se a respiração sibilante de Cocunás. Senhor Conde? .Queira perdoar. Neste intervalo. que pela primeira vez se fazia ouvir.E demais. nem comer omeletas de toucinho.disse outra voz. La Mole. . meu fidalgo .Mestre Renato . puxando os ferrolhos e tirando as trancas.Daquela que repete a cada instante o que o Senhor Conde acaba de dizer. esperem. Mestre Renato esperava que algum dos dois mancebos se explicasse. .Está . já lhes falo. ao entrar.Como é que o sabe? . Cocunás olhou para cada coisa de per si e. . tornando-a apenas a fechar com a chave logo que eles entraram. 143 .Quem é? . se hei-de ter sempre esta respiração curta que me não deixa nem montar a cavalo.disse ele -.Não. .disse Renato.respondeu Cocunás. E atirou-se para uma cadeira. .disse Cocunás . isto é.desejo saber se estou verdadeiramente enamorado.Dá-me muito gosto. vejo que preciso sentar-me. Houve novo silêncio. quis abri-la.respondeu Renato.Deveras? . os visitantes que me fazem a honra de entrar aqui só gozam desta parte da casa. o conde Lerac de La Mole . Senhor Conde . . deparando no meio do exame com a porta do cubículo.Não deseja mais alguma coisa.Esperem.É preciso que digamos os nossos nomes? . com a sua voz grave.Afirmo-lho. e conduzindoos depois pela escada exterior.É indispensável . estava pálido e tremia-lhe a mão sem que pudesse reprimir esta fraqueza. Renato. E ao mesmo tempo.Nesse caso.Coa fortuna! julgo que tem razão. .Porque o Senhor Conde o pergunta. . eu sou o conde Aníbal de Cocunás . . . sei que é homem hábil. . fez o sinal da Cruz por debaixo do capote.E eu. Houve um momento de profundo silêncio. ainda não bem curado. e escutou atentamente o movimento dos pulmões.perguntou uma voz. introduziu-os no segundo compartimento. . abriu a porta aos dois mancebos. nem jogar as armas. Mas de quem? . e pondo a mão sobre a de Cocunás -.. .Pois não! .respondeu Renato.perguntou mestre Renato.

queria dizer-lhe duas palavras. O ferro não é íman. Renato . realmente. pela dedicação à dama em que unicamente se pensa.. que só mestre Renato ouviu o rumor. e visto que principiei. saber o que deve pensar.disse o florentino. .Então devo desesperar? .balbuciou La Mole. Agora La Mole.que o Sr. tão levemente. mas diga-me se serei amado.disse baixinho La Mole -.Decerto. Sr.disse Cocunás.Não há duvida .disse La Mole.me mostrar o Duque? .E que mais se há-de fazer do que provar.fala. tudo que a princípio me dava esperança torna. .E não há perigo algum nessa experiência para a vida e para a saúde da pessoa que se ama? . . que ela é verdadeira e profundamente amada?.observou Renato -. muito ardentemente. hei-de ir até ao fim.Infalível.disse Cocunás estupefacto .O Senhor Conde sabe . mestre Renato.Não. é isso um meio? . porque sei que o estou. não quero perguntar-lhe se estou enamorado.respondeu La Mole -.Não . . .Ora vamos.. .Deseja. .disse Cocunás . e isso mesmo . . imperiosamente. Tenho ouvido que se fazem umas figuras de cera semelhantes ao objecto amado.Queres que eu principie? . Renato é habilíssimo.Oh! .Tentemos pois. Neste momento bateram levemente à porta da rua. La Mole corou. é preciso nesse caso recorrer à ciência.se agora contra mim.Talvez que o Senhor Conde não tenha da sua parte feito tudo o que devia fazer.Nenhum.Pois bem. Sr. e ficou embaraçado. Senhor Conde. porque. .morro por isso. e talvez que isso desse ânimo a La Mole. estou disposto .Que diabo é isso! .Tenho realmente pena. simpatias que se podem forçar. Há na natureza humana antipatias que se podem vencer. Renato. .Eu.Se tem essa repugnância . .que essas demonstrações são às vezes bem pouco significantes. . Sr.Não.Falemos francamente. mas repugnam-me todas essas conjurações. . pelo respeito. . . e não o oculto.. mas sendo tocado no íman atrai o ferro. vamos! queres-te agora fazer criança?. de La Mole? perguntou o florentino.disse Renato . . .exclamou La Mole . pode.Fale . e o que lhe compete fazer. . cuja voz se fortaleceu pouco a pouco -. . decerto . não devia cá vir.

una os seus beiços aos da estátua. viu mestre Renato diante de si com uma pequena figura de cera mal trabalhada.Pois bem . saiu sem fazer bulha pela escada exterior: um instante depois.Resuma então agora o seu desejo. . . Queimou depois o papel. . Renato. sentia gotejar-lhe um suor gelado pela raiz do cabelo. . para o tubo de que falámos. e com essa agulha picou a estatuazinha no lugar do coração. La Mole abriu a boca para lhe pedir que não fosse mais adiante. . levantando-se. . O calor da agulha derreteu a cera que estava em redor. porém La Mole. ainda que isso me deva custar a vida. passando para o primeiro compartimento. amo-te! Margarida! La Mole obedeceu. La Mole.porque decerto já o esperava. pronunciando várias palavras latinas. ainda que seja necessário perder a minha alma . que vira o movimento. dizendo: Margarida. ria pela surdina e zombava em voz baixa. Coisa incrível! no orifício da ferida apareceu uma gotinha de sangue. tomando com as pontas dos dedos algumas gotas de água dum jarro. .Agora . . mas um olhar de escárnio de Cocunás embargou-lhe a voz.Deste modo . e secou a gotinha de sangue.Mas para quê? . e que lançou sobre a cabeça da figura.disse Renato -.É preciso uma plena e inteira vontade .Baptizo esta pequena figura com o nome da pessoa a quem ama.Quer ser amado sempre pela sua real amante? . Renato traçou sobre uma pequena bandeirola de papel vermelho alguns caracteres cabalísticos. Cocunás. amante e supersticioso. e chame pelo objecto amado. e fazendo algumas perguntas ociosas a La Mole.Que está fazendo? .Para estabelecer a simpatia.Quero.perguntou o perfumista. pela força da simpatia. .respondeu La Mole. na sua qualidade de espírito forte. e aplicando o ouvido. . .disse ele. La Mole pôs-se de joelhos como se falasse a uma divindade e Renato. esperou.disse Renato -. atravessou-os com uma agulha de aço. 144 Encaminhou-se sem afectação.Continue .perguntou ele. o seu amor penetrará o coração da mulher a quem ama. .disse o florentino. a figura trazia manto e coroa.respondeu La Mole. La Mole estremeceu. ouviu-se um leve rumor de passos no sobrado da loja. viu que se cometia um sacrilégio. a que pareceu dar atenção. percebeu alguns sons de vozes.

mestre Renato. .a de Nevers e o sorriso um tanto mordaz de Margarida.disse Cocunás . vendo pela abertura o pasmo da Sr.Que é. rasgou com ele a espessa tapeçaria.Neste momento ouviu-se abrir a porta da segunda câmara.La Mole.disse Renato. mais obediente e mais fiel servo. que tivera tempo bastante para dirigir a si mesmo algumas perguntas filosóficas e para afugentar o espírito maligno com o auxílio desse hissope a que se chama incredulidade. .disse Cocunás .perguntou La Mole. Cocunás. . foi direito a Margarida. e você.Minha Senhora. ao qual responderam dois gritos de mulher. com grande espanto da minha parte. e um rumor de passos que se aproximavam. incrédulos?.balbuciou La Mole. como o Senhor Chanceler de L'Hospital. que mestre Renato lhe tirou das mãos. com um grave sorriso . se tentasse levantar o pano de Arrás. Margarida desatou a rir.Faz o que te digo. e que eu recomendo ao meu amigo. tome sentido . . de Nevers. Cocunás teve um momento de alucinação. imitando o modo por que nas barracas das feiras se apresenta o grande Ataxerxes.a duquesa de Nevers e a rainha Margarida estão ali. puxou do punhal. e fez sinal a Henriqueta que passasse para o outro lado.a de Nevers. Sombra da rainha de Navarra. curioso e incrédulo. Cocunás. e compreendendo que se pode dizer a respeito dum amigo aquilo que se não ousa dizer em favor de si próprio. . soltou um grito de susto. Renato lhe fizesse a mesma observação que lLhe fizera quando quis abrir a porta. e receando que. neste instante. apareceu a sombra de Vossa Majestade acompanhada por um corpo que me é bem caro. e pensa que a minha vida corre risco se não persuadires a sombra da Senhora Duquesa de Nevers de que sou o seu mais dedicado. a um figurou-se que os feitiços de mestre Renato tinham evocado 145 o fantasma de Margarida. quase deixando cair a figurazinha de cera. achou facilmente a explicação deste prodígio no mundo vulgar e material. conheceu que o momento era decisivo. . meu amigo! .Então. digne-se Vossa Majestade dizer ao corpo da sua companheira que passe para o outro lado da cortina. a pedido do meu amigo.Que é isso! . Cocunás.Mas. ora. e pondo um joelho em terra. o outro.duvidam ainda da força da simpatia? La Mole ficara petrificado ao ver a rainha. Enquanto La Mole se benzia e suspirava de modo capaz de enternecer as pedras. . mestre Renato evocava a sombra de Vossa Majestade. . hem? .sê eloquente como Demóstenes. em vez de se dirigir à Sr. reconhecendo a Sr. o Conde de La Mole. e aplicando os olhos à abertura. disse com um certo acento que não era destituído de força: . vendo semiaberta a porta pela qual tinham entrado os encantadores fantasmas. como Cícero.

falando com a filha do rei Henrique II. o fidalgo assim desencorporado perdeu todo o corpo. quando não. bradando: 146 .que não venham estorvar-nos. alma abrasada pelo fogo dos olhos de Vossa Majestade. com a minha espada atravessarei de lado a lado o corpo de mestre Renato. E fazendo seguir a acção às palavras. passando-lhe a mão por detrás da cabeça -. estendeu a mão para Cocunás. Margarida não deixara de sorrir. que por várias vezes lhe enterrou algumas polegadas de ferro no ventre. minha Senhora. atónito e tremendo como um vime. porém a Sr. tenho a dizer-lhe que essa sombra me suplica que use da faculdade que os corpos têm de falar inteligivelmente para dizer a Vossa Majestade: Bela sombra. Renato fez o que lhe pedia Cocunás. Ame um pouco aquilo que já foi o belo La Mole. pelo rigor dos olhos de Vossa Majestade. Se Vossa Majestade estivesse presente em carne e osso. Tenha portanto compaixão desta pobre alma. a praticar o que talvez não conviria ao decoro duma sombra respeitável como me parece a de Vossa Majestade. não . sem que a mão tentasse fugir dessa doce união. para que. agora aproxime esse belo rosto trigueiro à branca e vaporosa mão que lhe apresento. . que se tinha colocado diante da rainha como Eneias descendo aos Infernos. . já disse. A esta peroração de Cocunás. Rogue pois ao seu corpo. chega-te imediatamente.disse Margarida. em virtude do poder que ele tem nas sombras. Este pegou-lhe com delicadeza. com a irmã do rei Carlos IX. e. Faça o que lhe peço. guardando o silêncio que em tal convinha a uma sombra.Tenho a dizer-lhe.disse Cocunás. ainda trémula da aparição inesperada dos dois fidalgos. sirva-se do gesto. use o sorriso. que a sombra do meu amigo (porque é uma sombra.Quero ouvi-lo. não se agastam quando as amam. minha Senhora. É uma alma muito inteligente a do meu amigo: há-de entender tudo. e a prova é que não profere a menor palavra). Margarida não pôde suster uma gargalhada. todo o movimento. e com a esposa do rei de Navarra. fogo mil vezes mais devorador do que todos os fogos do Inferno. que tem a dizer-me? . e se Vossa Majestade já não tem o dom da palavra. Cocunás uniu aquela fina mão à boca de La Mole. . e conservou-as um instante respeitosamente juntas uma à outra.Por minha vida! vejo que é homem de espírito . que ame um pouco a alma deste pobre La Mole. La Mole obedeceu. que ele já evocou tanto a tempo. obrigue a de Vossa Majestade.Sombra do meu amigo. mais depressa pediria eu a mestre Renato que me submergisse nalguma caverna sulfúrea. a de Nevers. e chamou La Mole. Mas as sombras são despidas de todo o orgulho mundano.Bem . do que me atreveria a exprimir-me por tal arte. alma atormentada como nunca houve outra alma primeiramente martirizada pela amizade.

não é mais do que um homem.permita que uma alma. que o atravesse. a quem está vendo. repare os desvarios dum corpo todo absorvido por uma amizade material. pediu-me ainda mais uma coisa: é que. e de lhe dizer que ele depõe a seus pés o seu coração e a sua alma. este campeão. Se bem que este fidalgo me dirija. se bem que a Senhora Duquesa o tenha visto dar as mais famosas estocadas de toda a França. fascinado por este olhar. O seu estado agravava-se ainda com toda a febre do ciúme que acabava de nascer. não se atreve a falar a uma mulher. porém mortal como todos: ominu carofoenzun. de Cocunás. e confiando a Cocunás a mão de Margarida. persuasivo e humilde da súplica que La Mole acabava de fazer. voltaram-se para Cocunás. aos seus dedos rosados e abrasadores que o chamem com um sinal. apesar do deleite em que se embriagara. surpreendeulhe o relampejar ameaçador dos olhos e. O Sr. e abrasado pelos fogos do mesmo fluido . desde pela manhã até à noite.se é . Foi por este motivo que ele se dirigiu à sombra da rainha. conheceu o perigo que o seu amigo corria. que pede aos seus divinos olhos que o contemplem com piedade. as mais fervorosas ladainhas a respeito da Senhora Duquesa. homem certamente agigantado. pois. que o atravesse segunda vez com a minha espada. solta do seu grosseiro envoltório. no caso de que ele não tenha forças para enternecer a Senhora Duquesa.Isto é verdade? . que é uma folha verdadeira. porque as espadas não têm sombra senão ao sol. porque lhe parecia que Cocunás não deveria esquecer assim os seus negócios pelos dos outros. La Mole viu-lhe a contracção das sobrancelhas. Os olhos de Henriqueta. e adivinhou o que devia tentar para o livrar. Levantando-se. a quem disse. a fim de verificarem se a expressão do rosto do fidalgo concordava com a oração amorosa do seu amigo. a quem ela ouvira atentamente. encarregando-me de falar ao belo corpo da Senhora Duquesa. um físico agradável. que até então estiveram fixos em La Mole.Se é verdade! . com um sorriso que fez aparecer dois fios de pérolas engastadas em coral: . porque ele não poderá viver se a Senhora Duquesa o não autorizar a viver exclusivamente para a adorar. foi tomar a da duquesa de Nevers. O capricho pretensioso que se notou no discurso de Cocunás contrastava singularmente com o sensível. à sua voz vibrante e harmoniosa que lhe diga palavras que se não esquecem. e não das sombras) .exclamou Cocunás.Ó mais bela e mais adorável das mulheres! (falo das mulheres vivas.sorria. .e aqui dirigiu um olhar e um terno sorriso a Margarida . segunda vez com a minha espada. pondo-se de joelhos. disse a Cocunás. ruborizando-se e respirando a custo. digo. tão eloquente para uma sombra. Parece que ficou satisfeita porque.

Amantes que se contentaram com a minha palavra. 148 XX AS GALINHAS PRETAS Os dois pares fugiram a tempo. .disse-lhe Renato. Catarina metia a chave na fechadura da segunda porta no momento em que Cocunás e a Sr.É verdade. puxando La Mole para si.Sim. Todos quatro voaram. fazia com o seu amigo um chass croúé amoroso. e ao entrar ainda ouviu o ranger dos degraus sob os passos dos fugitivos. meio enlaçados um no outro.silêncio! E ouviu-se. .disse Catarina a meia voz. .bradou ele. . minha Senhora. estendendo-lhe a mão com uma indiferença que era traída pela ternura dos olhos. quando lhes certifiquei que se amavam.Mas . minha Senhora. Henriqueta e Cocunás. .Para poderes ler os livros preciosos que os Hebreus escreveram a respeito dos sacrifícios. 147 Neste momento apareceu Renato à porta do fundo.Ninguém.disse Margarida com altivez .Silêncio! . chamado por um gesto de Margarida. e inclinado diante dela. . ao menor rumor indiscreto. como os Romanos.Judeu. minha Senhora. minha Senhora.disse Catarina. com um tom que apagou toda aquela chama . senão Vossa Majestade e eu. . que os Hebreus procuravam os presságios: era na disposição dos miolos. enquanto La Mole.parece-me que ninguém tem o direito de quando nós aqui estamos. ao ouvido. Cocunás atirou ao ar o seu gorro de veludo. e soube que não era nem no coração nem no fígado. e na configuração das letras que neles foram traçados pela mão omnipotente do destino. também ouvi dizer isso a um . através da parede.disse Henriqueta.Ah! se tu fosses judeu!. não há mais ninguém aqui? . .Deixemos isso .Fizeste o que te disse? . Mandei traduzir um deles. e fixando finalmente um olhar desconfiado sobre Renato. Margarida precipitou-se imediatamente pela escada exterior.Estão prontas. disse: . o ruído duma chave que dá volta. como voam. encolhendo os ombros -. para quê? . . Sim. .A respeito das galinhas pretas? . verdade pela sua vida verdade pela minha morte! . e o ranger duma porta abrindo-se.verdade.Nem mesmo a rainha-mãe?. . e dum salto veio ter ao pé da duquesa. as avezinhas que se acham sobre um ramo florido. Lançou em redor um olhar perscrutador.Então venha! .Quem estava ali? .a de Nevers desapareciam pela saída do fundo. fugiram seguindo-lhes a pista. que estava de pé.

Vamos para lá. Bartolomeu. O que unicamente os sábios caldeus recomendam.disse René. Renato desprendeu a galinha morta. . sempre para a esquerda. se os presságios da segunda vítima coincidem com os da primeira. Que belo.Difícil. entre todos os instrumentos de sacrifício. não podia fazer mais do que esvoaçar sem mudar de lugar. deve-se crer nele. três sinais de morte. minha Senhora! Vossa Majestade bem sabe que isso é impossível. . E prendeu a galinha sobre o pequeno altar a duas argolas postadas nas extremidades.velho rabino meu amigo. e mais simpáticos com a vontade de quem os consulta. por isso que são mais desenvolvidos. . . vendo que a rainha hesitava em continuar.Há . minha Senhora. que num canto volviam inquietas os seus olhos dourados.disse Catarina -.Ah. 149 ora nauseabundo e fumoso. porque. e cujo cheiro. Catarina escolheu pela sua mão.Recomendam. conservemo-nos no círculo do possível.Por onde começaremos? . não me há-de esquecer. .Está. revelava a introdução de diferentes matérias.E o fígado pendendo sempre para a esquerda . . sabes o que isto significa. .Sempre três pios . principalmente se esses resultados combinarem com os já obtidos. A câmara dos sacrifícios está pronta? .perguntou Renato. . .Seja . que entrou após ele para o cubículo.a para um .disse Catarina -. minha Senhora. Renato? Três mortes. e atirou. .disse Catarina .Qual há-de ser o processo? . Catarina abriu-lhe o peito dum só golpe. que manifestam uma vida profética toda inteira. Depois abriu o corpo.continuou ela -. uma faca de aço azulado polido. com essa vela alumiou Catarina.Interrogaremos os fígados duma e os miolos da outra.Pela experiência do fígado. A galinha piou três vezes. enquanto Renato foi buscar uma das galinhas. seguidas duma deposição. e expirou depois de esvoaçar muito tempo. . No entanto. deitado de costas.caracteres tão bem desenhados. ora subtil e penetrante.É preciso ver. Renato! que abundante colheita! O primeiro condenado. se nós tivéssemos sabido isso pelo S. sim. o quê? . Se as duas experiências nos derem o mesmo resultado. É horroroso! . de modo que o animal.Recomendam que a experiência se faça em cérebros humanos. Renato acendeu uma vela composta de elementos estranhos. ao menos .

exclamou ela. aterrada . . três filhos!. com um suspiro de desesperação -.não podendo piar três vezes. atirando com a faca .perguntou Catarina.Há-de reinar . Foi depois direito à outra que.Vês.disse a rainha .disse ele.canto. e separando as duas partes de modo que ficassem a descoberto os miolos. até que. Todas estas almas. há-de reinar! . tentou escapar correndo à roda do cubículo. voou por cima da cabeça de Renato.Que letra é esta? .Um H .Então? então? é ou não é?.disse Catarina. Morrerão todos três. Catarina abateu então a lívida crista do animal. Olha.Repetido quantas vezes? 150 Renato contou. porque vou cortar-lhe a cabeça duma só vez.sempre o mesmo! e desta vez o prognóstico é mais claro do que nunca.é assim que se extinguirá a nossa dinastia.tornou ela surdamente. Quando voltou. . com o seu sopro. acrescentou ela tristemente e a meia voz. pálida como um cadáver. .Agora .disse Catarina .Quatro . Bem o vejo: isto quer dizer. . e foi torná-la a acender ao quarto do lado. .sou amaldiçoada na minha posteridade. e inteiriçando as mãos ensanguentadas. . a fará desaparecer da superfície da Terra. Mas na última convulsão o bico abriu-se três vezes. E assim foi. e nesse voo apagou a vela mágica que Catarina tinha na mão. Renato aproximou-se. designando-lhe um sinal. três filhos. sempre três. . alumiada pelo lúgubre clarão da vela mágica. viu a galinha com a cabeça metida no cano da pedra. vendo-se quase presa num canto. julgando da sua sorte pela da companheira.hei-de evitar-lhe os pios. deu três suspiros. Catarina cortou-lhe a cabeça. . antes de partirem. Fazia horror ver o semblante dessa mulher. Contudo. como dissera. e fechou-se para não mais se abrir. batendo com as mãos uma na outra . esta expressão lúgubre esvaeceu-se quase imediatamente das feições de Catarina à luz dum pensamento que parecia brotar-lhe no fundo do cérebro.Há-de reinar . .disse Catarina. Vejamos agora os sinais dos miolos. Três. logo que René prendeu a galinha. Oh! . Renato? .Vês? . Renato tomou-lhe da mão a vela mágica. . . A morte. Contudo. Henrique IV. pôs-se a examinar se havia alguma letra formada pelas sinuosidades sanguíneas traçadas pela divisão da polpa cerebral. contam e chamam até três. abriu cautelosamente o crânio.Sempre o mesmo! . sepultado em profunda meditação. duma só vez.repetiu Renato.respondeu René.

com a vela na mão.pela sua raridade.Vossa Majestade tem algumas ordens a dar. no dia da execução. por meio duma pomada. estendendo a mão para o florentino. com a vela na mão. encadernado do mesmo modo. e o terceiro é esse. Hás-de emprestar-mo. .me para novos sacrifícios? .Que é isto? . Ambos saíram então do cubículo. Renato esperou respeitosamente. fechando o livro -. lhe desse novas ordens. e ao clarão dessa chama azulada leu ela algumas linhas a meia voz. Catarina abriu-o. Esperaremos poder haver às mãos a cabeça de algum condenado. . Passemos para a outra câmara.disse daí a pouco.Ah! sim. a fim de receber o outro livro.disse Catarina . .Bem . e sem voltar a cabeça.disse ela. Levantou-se.E esse amante era. enquanto com a esquerda lhe entregava o que primeiro recebera. subiu a uma cadeira.Possuo um livro velho que trata dela . . não.Renato . não há uma história terrível dum médico de Perúsia que duma só vez.perguntou o flo rentino. folheou-o um instante e entregou-lho aberto. mas como não preciso dele. E estendeu a mão direita para Renato. . outro que foi comprado pelo avô de Vossa Majestade. . que a rainha. Enganei-me. ou lhe fizesse novas perguntas.Ah! perdoe-me. por agora estou suficientemente convencida. e oferecido depois por Pedro de Médicis ao rei Carlos VIII.Venero-o . .continuou Catarina. já sei o que queria saber. Renato. é verdade . . . É todavia um livro preciosíssimo. das estantes onde estavam os livros. . . e levando unicamente no espírito o pensamento que nele havia germinado e que devia amadurecer. Renato inclinou-se em sinal de assentimento. Renato não se enganou desta vez: era realmente o livro que ela queria. tirou um e deu-o à rainha.Não. Catarina foi sentar-se a uma mesa.. deixando o livro sobre a mesa. . isto é um tratado de montaria feito por um sábio luquês para o famigerado Castruccio Castracani. enganei-me.respondeu Renato. minha Senhora. entender-te-ás com o carrasco. quando este passou por Florença. e Renato fechou a porta. sempre pensativa. torno-to a dar. minha Senhora.disse ela. depois aproximou-se. envenenou a filha e o amante dela?.Sim. não existem senão três exemplares no mundo: um que pertence à Biblioteca de Veneza. que tinha inclinada para o peito -. Lourenço.Tens alguma obra que dê os pormenores desta história. minha Senhora. Renato pôs junto dela a vela mágica. que parecia prestes a retirar-se. . Estava ao lado do outro.Era o rei Ladislau. .disse ela. O perfumista desceu.

aquele que se há-de chamar um dia Henrique IV. .Ele quem. aquele que há-de suceder aos nossos três filhos. Renato .Eu. . minha Senhora. disse: . talvez .a de Sauve tem belas mãos e belos lábios .perguntou Renato. De dia estou ocupada com as minhas rezas.Entretanto.disse Renato .Há entretanto magia nisto.Nunca?. que não tem fama de constante.Sempre. e hei-de levar-lhos amanhã.Confessa que fizeste algum filtro para ela. .disse Catarina -. e tu sabes que tenho a pele muito sensível ao frio. redondos e fixos como os duma ave de rapina. ele. Renato. E Catarina acompanhou estas últimas palavras com um suspiro que fez arrepiar Renato.disse Renato. com ar de indiferença -.Esse maldito Henrique. ele tinha preparado para a rainha de Navarra. e alguns instantes depois ambos se acharam na loja. .perguntou Renato.Ele continua sempre a ir lá? . estarei no Louvre às nove horas. Parando depois de repente diante de Renato. senhora? .Já me ocupei disso. talvez que também espere ser rainha de França.Sim. E dirigiu-se para a porta do fundo. pois que tinha a certeza de estar só.Comédia. . porque ele ama-a como um louco.Bem. porque lhe recordava as luvas que. veremos. mergulhando outra vez na sua meditação. julgando decerto inútil descer pela escada secreta.A Sr.. .Para quem? . .Para as mãos? .disse Catarina.Amanhã à noite não me encontras antes das nove ou dez horas. comédia. e fazendo-se eco da terrível suposição de Catarina. . . estremecendo.152 Catarina deu alguns passos com a cabeça inclinada.disse ela -. que creme usa ela? . .Para a Sauve. eu julgava que o rei de Navarra se tinha voltado de todo para a esposa. por ordem de Catarina.Tinhas-me prometido novos cosméticos para as mãos e para os lábios. . . . e que entretanto é filho de Joana d'Albret.. mas sei que tudo se reúne para me enganar. . minha Senhora? . minha Senhora.Enfim . . Não sei que fim tem tudo isto.Juro-lhe pela minha alma! . A minha própria filha Margarida declara-se contra mim. e levantando para ele os olhos. e com o dedo na boca e em silêncio.nunca! . talvez que espere também a morte dos irmãos. Renato foi adiante. . o Inverno está a chegar.

isto é.Obrigado. . levá-la-ei eu mesma.disse ela -.Creme de heliotrópio. pois.respondeu Catarina -.Aqui está. dá-me também pomada para as mãos. . e foram até à esquina da Rua da Barillerie. dispostas em fileira. tirara uma das caixinhas e a escondera debaixo da manta. levando a vela. com um rápido movimento.Renato ..Não leves o opiato à Sr. .disse Renato. . . Mas não se voltou tão devagar que não julgasse ver que Catarina. os meus fidalgos esperam-me lá com a liteira. não falemos mais nisso. primeiro para as mãos. que o compus expressamente para ela. . havia dentro uma pomada rubra como o mais lindo carmim.disse Catarina. . como disse Vossa Majestade.Quando uma mulher ama . . dedica-se porventura a alguém a não ser ao amante? Tu compuseste-lhe algum filtro.Vossa Majestade quer que a acompanhe? . Tirando. E dispôs-se para sair. essa criatura é formosa . minha Senhora. Catarina ficou por um instante pensativa. Renato afastou-se.disse ela -. redondas. não teve o descuido de mostrar que dava fé do que ela acabava de fazer. . Catarina abriu uma dessas caixas. quero experimentá-lo primeiro. e foi procurar num compartimento particular o que a rainha lhe pedia.disse ela.disse Renato. Renato chegou-se a uma prateleira. e encolheu os ombros. .Aliás. Ambos saíram. fechada num papel ornado de flores-de-lis.Sim. porque tem os lábios tão delicados. que tanto o sol como o vento lhos crestam. e mostrou a Catarina seis caixinhas de prata do mesmo feitio. .Para os lábios vai servir-se dum novo opiato que inventei. respondendo sempre ao seu pensamento oculto.Está bem.Aqui está o único filtro que me tem pedido .E principalmente muito dedicada a Vossa Majestade. Renato . a pomada pedida. ao menos pelo que me parece . porque se me acabou a que tinha. E depois dum instante de silêncio: . minha Senhora. Mostra-me esse novo opiato que deve tornar-lhe os lábios ainda mais frescos e rosados. 153 Catarina sorriu.É verdade.E para os lábios? .a de Sauve senão daqui a oito ou dez dias. . . disse: .disse Renato.Não há nada que admirar nessa paixão do Bearnês. Renato? .Juro-lhe que não.Só até ao fim da ponte . Familiarizado como estava com estas acções da rainha-mãe. . e do qual contava levar amanhã uma caixinha a Vossa Majestade ao mesmo tempo que a ela.

do género das que os príncipes dão aos seus familiares nos palácios que habitam. mal deixava penetrar uma fraca luz. mas a porta aberta por Daríole a Henrique fechava-se hermeticamente apenas ele entrava. uma pequena porta que abria para uma espécie de oratório. Esta excursão era feita ao princípio com o maior segredo. No Inverno era preciso ter aceso um lampeão desde as três horas da tarde. como já dissemos. de Vénus e de Adónis. estava apenas separado da parede por um pequeno espaço onde se via um espelho guarnecido de prata e dois quadros dos Amores. se elevava um genuflexório. Uma pequena antecâmara forrada de damasco de seda com grandes flores amarelas. e em . onde. de sorte que o teatro dos misteriosos amores do Bearnês é-nos completamente desconhecido. três ou quatro pinturas do mais exaltado espiritualismo. por cima do quarto de Henrique. Entrando em casa. a fim de os terem à mão.a de Sauve.a de Sauve. apagava-se logo às dez horas da noite. indo todas as noites ver a Sr. e concorria assim para que os dois amantes estivessem com mais segurança logo que chegava o Inverno. defronte dum toucador com todos os acessórios. mas. e a porta dava para um corredor. Entre essas pinturas. e que. Nas paredes desse oratório estavam pendurados. que a rainha de facto era a Sr. uma sala de visitas forrada de veludo azul. tal era pousada (hoje dir-se-ia o ninho) da encantadora açafata da rainha Catarina de Médicis. mesmo nos dias mais claros do ano. cuja extremidade recebia luz por uma janela oitavada com pequenas vidraças encaixilhadas em metal. encontrar-se-ia ainda num canto escuro dessa câmara. no segundo andar. como não lhe deitavam maior porção de azeite do que no Verão.onde quatro fidalgos a cavalo e uma liteira sem armas esperavam Catarina. de Sauve. Procurando bem. o primeiro cuidado de Renato foi contar as suas caixinhas de opiato. como para servirem de correctivo aos dois quadros mitológicos de que falámos. 154 XXI O QUARTO DA BARONESA DE SAUVE As suspeitas de Catarina não eram infundadas. Faltava uma. sobre dois degrauzinhos. Dissemos duas palavras no começo desta história a respeito dos aposentos da Sr. Ficava. cujo leito de colunas retorcidas e com cortinas de cetim cor de cereja. Henrique prosseguiu de novo nos seus hábitos. mas a amante foi a pouco e pouco perdendo o receio e desprezou as precauções a ponto tal que não custou muito a Catarina certificar-se de que Margarida só era rainha de Navarra no nome. um quarto de cama. era mais pequena e menos cómoda do que seria qualquer outra situada na cidade. Essa morada.

Gascão! . como vimos. .a de Sauve.Não tenho nada que lhe ocultar.Vejamos. e apresentava-lhe. que sou um simples bearnês. responderá às minhas perguntas? . explique-me. Nessa noite. . Pela sua parte. uma vez por todas. .pregos dourados. olhava muito para Henrique. como é que. diz-me que nunca se deve jurar.Senão as vezes que lhe disse.Vejamos.Certamente .a de Sauve.Mas a religião católica. Henrique exprimia-lhe o seu reconhecimento. . enfim.disse Henrique -. . minha amiga . a Sr.disse o rei -. meneando a cabeça. sentada no quarto de dormir num divã.respondeu a Sr.Decerto.E nunca lá tornará a entrar sem mo dizer? . depois dessa resistência desesperada que precedeu o meu casamento. . e às vezes serviam-se delas com a mesma destreza.Agora. com o Sr. A Sr. cujos dogmas estou aprendendo. e Henrique mostrava-se extremamente reconhecido.Se eu lhe perguntar alguma coisa.disse Henrique. passara no quarto da mulher. Carlota . se tornou menos cruel para mim.Nunca. um príncipe demasiado pobre. . seja franco! durante a noite passada no gabinete de Sua Majestade a Rainha de Navarra. . vestida com um simples roupão de cambraia. a fim de ver se os olhos estavam de acordo com as palavras.Seria capaz de jurá-lo. como prova desses receios e desse amor. estava pensativo. Bartolomeu. Henrique. Mas. porque nessa época de misteriosos enredos as mulheres usavam armas como os homens.Mas o quê? . de La Mole aos pés. .a de Sauve. havia suspensas alguma armas próprias de mulher. Carlota . noite que Henrique. que era a do dia imediato àquele em que se passaram em casa de mestre Renato as cenas que narrámos. um provinciano ridículo.. não lamentou que esse fidalgo estivesse entre o gabinete e o quarto de dormir da rainha? . a baronesa de Sauve. e onde sou tão feliz neste momento. porque me era preciso absolutamente passar por essa câmara para ir àquela onde estou tão bem. que acabara por adoptar este amor ordenado por Catarina.a de Sauve estava encantadora nessa noite.disse a Sr.E nunca mais ali entrou depois? . Por seu lado. .. comunicava a Henrique os seus receios e o seu amor. . se fosse ainda huguenote. No meio de tudo. 155 a dedicação que ela lhe mostrara na famosa noite que se seguira à de S.Decerto. como Henrique amava realmente. para conservar resplandecentes os diamantes da coroa? . falemos de si.

deixando cair a sua bela mão na do amante.disse Henrique.Agora.Henrique . . Henrique. que sou marido de sua filha. sim . . e provou o pomo fatal.tornou ele.a de Sauve -. Diga-me.disse Carlota -. Não pode. Henrique apertou-lha. A senhora de Sauve corou.Ama-me. ao que parece. minha querida amiga .Marido de Margarida? . Vivemos agora em família. dessa boa mãe. Adão. Henrique. Mas bem sabe que sempre falta alguma coisa para se ser feliz.respondeu a Sr.disse a Sr.E se eu ..Carlota ama-me . fora generosa comigo. Se me dissesse a verdade. para me ajudar a encontrar a minha incógnita.Mas. . poder-seia desconfiar dela.Fale também mais baixo. em recompensa da dedicação que eu mostrara por ela. é real. . Carlota? . como bons irmãos. ..perguntou Henrique. com um sorriso encantador.que tem? É o laço que nos une a todos. . como quer que eu lhe dê a decifração do enigma que os filósofos de todos os países procuram decifrar há três mil anos? Henrique. somos os melhores amigos do mundo. . ..Oh! . se essa generosidade.disse Henrique. como bons cristãos. e considero-me o homem mais feliz do mundo.continuou Henrique -. pois.outrora. e pela intervenção de S.a de Sauve. quando nos não dávamos bem. prosseguindo o seu pensamento tivesse decifrado esse enigma que os filósofos procucam descobrir há três mil anos. se não foi a rainha Catarina quem primeiro lhe disse que me amasse.disse Henrique . por conseguinte não tenho outra coisa a perguntar-lhe. que nos deu a todos a miserável precisão de curiosidade que faz com que não haja quem não ande em procura de alguma incógnita.disse Carlota corando.a de Sauve 156 se iludiu . . ela é apenas um laço de convenção fácil de quebrar. tinha-me dito que a rainha de Navarra.Henrique . fale mais baixo quando falar da rainha-mãe. Pois bem: fui tocado da divina graça. mas hoje. contente-se em perguntar-lhe se o ama. minha amiga. pela qual eu lhe votei tão grande reconhecimento. pelo menos relativamente a Carlota?. nunca pergunte a uma mulher porque é que ela o ama. Que é que se queria? Que me fizesse católico.E a rainha Margarida? . não se julgou completamente feliz. firmar-se em semelhante base. no centro do Paraíso. Bartolomeu torneime católico.Amo-o. que sou marido de sua filha. porque ainda não conseguiu impor-se a . com uma confiança e indiferença com que a própria Sr. . pois.A rainha Margarida? . .

disse Henrique. é a amizade duma madrasta. não lhos confiarei. seja como for. e que. é nessa base que me firmo. . Agora. Meu Deus! tantas coisas! tantas coisas! tantos boiõezinhos de perfumes.que nem mesmo Deus sabe o que é que Henrique pensa. Henrique. . mas. Sentiu arrasarem-se-lhe os olhos de água a esta resposta. Carlota. e nesse caso não me amará mais.disse Henrique.Então põe-me fora esta noite. quer arrancar-me os olhos. Henrique puxou uma cadeira. pois. também a amo. uma vez que Carlota julga que existe essa intimidade. quando estas duas vozes lhe falam.Aí está. bem entendido. enganou-se . porque a amizade da rainha é mutável. tantos .Penso. . que de princípio foi Catarina que lhe disse que me amasse. com receio de a comprometer. minha amiga . disse: . e formosa para mim. . que o seu coração lhe disse depois o mesmo.a de Sauve -. Carlota só escuta a do seu coração. é mesmo por isso que quando eu tiver segredos.disse Carlota . tínhamos concordado em não falar nunca da rainha de Navarra.Vamos. quanto a mim. disse: . é porque Madame Margarida éverdadeiramente sua mulher.Como quiser .a de Sauve suspirou. estando eu triste. que é melhor retirar-se. estou triste. eu tenha às vezes cruéis desejos de lhe arrancar os olhos. . há-de conceder-me a graça de me deixar estar aqui mais um momento: .sempre eu consigo impor-me a alguém com esta pretendida intimidade.Mas a rainha Margarida. há-de achar-me insípida.Henrique. . tantos a tuchos de pós. O meu serviço obriga-me a ir amanhã muito cedo para o quarto da rainha-mãe.Retirar-me-ei.Carlota .Parece-me . e é há três meses o travesseiro a que me encosto.Senhor. e foi sentar-se defronte do toucador. Henrique sorriu. são horas de me deitar. e como nesse momento deram dez horas. se o exige.ninguém com essa pretendida intimidade. parecialhe que esse véu que se estendia entre ela e o amante todas as vezes que queria sondar os abismos desse coração sem fundo.disse a Sr. Não era este modo de falar que agradava a Carlota.Então .Não obstante. Senhor. quero vê-la fazerse formosa. . e parece-me que esta noite não temos falado senão dela. . apesar de eu ser rei.respondeu Henrique com seriedade -. tomava a consistência duma muralha e os separava um do outro. Bem vê. visto que há momentos em que Carlota. levou-a para junto de Carlota e. A Sr.disse Henrique -. e que fazem com que. . apesar de rei que é. e de toda a minha alma. minha amiga? . Henrique! eis um desses sorrisos que me desesperam. pousando os braços nas costas da que ela ocupava. minha Carlota. . há-de estar à sua espera. apesar de tudo o que tem dito.disse Henrique . .Então.

mas neste momento ouviu-se na porta da antecâmara uma forte pancada que fez estremecer os dois amantes. se vem ao seu aposento.disse Henrique -. apesar do seu poder sobre si mesmo. metendo a cabeça por entre o reposteiro.Batem. entretanto. Henrique e Carlota olharam inquietos um para o outro. . sorrindo . tão fino.tornamos a cair na política? Deixemos essas coisas.É. é bem pouco. onde já por mais duma vez achara refúgio.perguntou Carlota. .É para traçar a risca dos cabelos. Senhora .Oh! isso é uma remessa de Renato: é o famoso opiato que há tanto tempo me prometeu para adoçar mais estes lábios. porque mestre Renato.Eu? .adivinhou logo à primeira vista. Carlota levou a mão à caixinha que acabava de ser o objecto da precedente explicação. sabe portanto que estou aqui. que. o perfumista. . é mestre Renato. tão delicado? Não será para pintar as sobrancelhas do meu Júpiter Olímpico?. uniu os seus lábios àqueles que a baronesa mirava com atenção ao espelho. como para confirmar o que acabava de dizer a encantadora mulher.Mas Vossa Majestade não tem alguma razão para que a presença deste homem lhe seja dolorosa? . que Vossa Majestade tem a bondade de achar às vezes bem doces. para mostrar certamente a Henrique de que maneira se empregava a massa vermelha.frasquinhos.Então quer-se esconder? .disse ela -. .respondeu a Sr. . porque com tudo isto ainda não achei o meio de reinar sozinha no coração de Vossa Majestade.Minha Senhora . sabendo tudo. E Henrique.E este lindo pente de marfim? .Não quer que o mande entrar? .E esta delicada caixinha de prata.Parece muito . é porque tem razões para o fazer.disse Henrique.Por modo nenhum . Senhor . . .disse Henrique . Que pincelinho é este.disse Daríole.disse Henrique -. quando Daríole tornou a aparecer. Ao ouvir este nome. . tão bem lavrada? . e já aquele tratava de retirar-se para o oratório. não pôde inteiramente dissimular . Henrique carregou o sobrolho e mordeu involuntariamente os lábios.Então que é isso? . . fazendo um esforço.Vai ver quem é.disse Carlota suspirando -. tantas caçoilas!. mestre Renato pensa sempre no que faz. cujo rosto se desanuviava à medida que a chamavam para o terreno da galantaria. 157 .Pelo contrário . para isso mesmo. . . e volta. a de Sauve.

e que era em tudo igual às que ele tinha no seu armazém. A Sr. semelhante a um sexto sentido.Sim. .a de Sauve a Daríole.Mande entrar . Renato? Que tem? . voltouse para ele e.eu? nenhuma. e que tendem a torná-las mais bonitas. foi só hoje.a de Sauve. Henrique. sorrindo.venho pedir-lhe as minhas desculpas.. antes de me despedir da Senhora Baronesa. disse: . ao passo que o rosto do florentino se conservava iluminado. . O semblante de Renato tomou uma expressão pensativa.. Adivinhei! disse Renato. que não escapou a Henrique. meu Senhor .repetiu Renato. disse: .perguntou a Sr. e Henrique na sombra.a de Sauve. é verdade. . que lançou um olhar com o qual abrangeu toda a câmara.Ah! sim . Carlota estava no lugar iluminado..Ora.disse o perfumista. . Então precisa das minhas palavras para saber que o vejo com tanto prazer? Renato olhou em redor de si. e. e que se semelhava a uma luta no ânimo do perfumista.Por ter prometido há tanto tempo trabalhar para esses lábios.Não sei.Então que é isso. . e não. e à noite.disse Renato.disse Renato com respeitosa familiaridade .E não ter cumprido a sua promessa senão hoje. como para sondar com os olhos e os ouvidos as portas e as tapeçarias.E de quê.Minha Senhora .disse Henrique. Um instante depois apareceu Renato. que se passava neste momento alguma coisa extraordinária. advertido. com essa condescendência que as senhoras formosas têm sempre com a multidão de fornecedores que as cercam. graças a esse admirável instinto que. estávamos um pouco frios. . Bartolomeu reconciliámo-nos.Espero humildemente que Vossa Majestade me dirija a palavra. que recebi aquela caixinha que me mandou.Senão hoje? . . olhando dum modo estranho para a caixinha de opiato que estava em cima da mesa da Sr. mas depois do S.disse Carlota. a meia voz.perguntou o rei. .Eu? nada. . continuando a ficar na sombra.E já se serviu dele? .Ainda não. 158 .a de Sauve e Henrique. o guiara durante toda a primeira parte da vida no meio dos perigos que o cercavam. parando de novo e pondo-se de forma que pudesse abranger com o mesmo olhar a Sr. . ia experimentá-lo quando o senhor entrou. .a de Sauve conservou-se defronte do toucador. . deixemo-nos disso! . Henrique tomara de novo o seu lugar sobre o divã. a quem poucas coisas escapavam.disse a Sr. não é assim? . deu volta ao quarto. Renato? .

um que parecia . . toda entregue aos cuidados do toucador..Qual é. . no divã. experimentar diante dele a sua nova produção. minha Senhora . como todos os do jovem rei. meu Senhor . sorrindo. mas com os olhos fixos e ardentes. e ficou como imóvel. 159 Henrique tornou a sentar-se. abrindo a caixinha de opiato é realmente um homem admirável.Então procurava-me? . nem o mais leve estremecimento dele. e olhando para a ponta do dedo. vou. sem ruído. não compreendendo nada desta linguagem misteriosa que se falava junto dela. Carlota fez um gesto de espanto. dando um passo para trás.disse ela.Mestre Renato . quando Renato lhe susteve o braço. .Eu. Renato estremeceu. aproximou o opiato da boca. e visto que o seu autor está presente. . Carlota corou.disse Renato. este opiato não devia empregar-se sem algumas recomendações particulares. no próprio momento em que Henrique se levantava para fazer o mesmo. tinha dois lados. um ar de quem. julgo-me muito feliz por tê-lo encontrado. com um sorriso constrangido -. desejo porém saber uma coisa. com a caixinha de opiato na mão. tomou. esta massa tem uma cor maravilhosa. pois. interrompendo a conversação: . A baronesa.respondeu Renato.Espere um pouco. passou a ponta do dedo da outra pela superfície da massa rosada que devia ir do dedo para os lábios. enrubescida pela massa encarnada. porque temia que a revelação que o perfumista parecia querer fazer fosse relativa ao seu procedimento para com Henrique. Henrique levantou-se e.insistiu Henrique. E pegando na caixa com uma das mãos. nada tinha ouvido e.Não.Talvez. . movido por um pensamento que. .Pelo menos.Dentro em pouco. não perdia nem um só movi mento dela. a esta hora? -Terei a desgraça de incomodar a Vossa Majestade? respondeu o perfumista. .Tem alguma coisa a dizer-me? . meu Senhor? -Julgou encontrar-me aqui? .Estava certo disso. Henrique.Renato aqui.E quando? . para honrá-lo. Só faltariam algumas linhas para que Carlota tocasse com a massa nos lábios. logo que terminar o que tenho a dizer a Sua Majestade o Rei de Na varra.E quem me dará essas recomendações? . sempre na sombra. Renato empalideceu. .

disse o florentino a Henrique -.disse Carlota. O florentino pareceu armar-se de toda a sua resolução e voltou-se para Henrique. . Minha Senhora.E então? de que se admira? sim. satisfaça o seu desejo. Carlota apresentou a mão a Henrique.Não me admira .Acaba de chegar de Florença um amigo meu muito dado à astrologia. nesse impenetrável pensamento.exclamou Carlota.Espere .disse Renato a Henrique -. . por isso que descende do conde de Clermont. mais convencido do que nunca de que se passava no espírito do florentino alguma coisa de extraordinário. sim? . queira lavar as suas belas mãos com este sabonete de Nápoles. esfregando as suas delicadas mãos com a espuma nacarada que saía do balsâmico sabonete.a de Sauve. quero ouvi-lo. E tirando do envoltório prateado um sabonete de cor esverdeada pô-lo numa bacia de prata dourada. que a beijou.Ah. meu Senhor. foi tomar a mão com que Carlota tirara a massa e fez um movimento para a levar aos lábios. . . .interrompeu Henrique -.disse Henrique -.Reunido aos primeiros sábios do mundo. . continuou: . que me esqueci de mandar-lhe com o opiato.Oh! que delicioso aroma! . que enxugou as mãos. tentando ler. VOSSA MAJESTADE hÁ-DE SER REI! .a de Sauve. tirou ele os horóscopos de quase todos os grandes da Europa. .disse Henrique.Deveras.De perfumes? .superficial.E como a Casa de Bourbon é a primeira das mais distintas. Renato olhou fixamente para Henrique. venho falar-lhe duma coisa de que me ocupo há muito tempo. .disse Henrique. espere um pouco. e enquanto ela se voltava um pouco sobre a cadeira para ouvir o que Renato ia dizer. mestre Renato! estou-o desconhecendo . Renato desempenhou até ao fim as suas funções de respeitoso criado. deitou-lhe água e com um joelho em terra apresentou tudo à Sr. é assunto que sempre me interessou muito. sorrindo. quinto filho de . e outro que era profundo.Meu Senhor . . sei que é uma paixão florentina.disse vivamente Renato -. tem galanteios que deixam a perder de vista todos os leões da corte.Então? . de perfumes respondeu Renato com um gesto singular de aquiescência.Agora. . . mas vendo que era coisa inteiramente impossível. o rei de Navarra foi ocupar novamente o seu lugar. e apresentou uma toalha de Fino linho de Frísia à Sr.Fale. 160 SENHOR. mau grado as suas palavras. e que tenho a honra de lhe trazer. . meu Senhor .

e quem diz lisonjeiro. . como eu não sou rico. .prosseguiu Renato. . hei-de poder tratar-me como rei. aguardam a Vossa Majestade os mais brilhantes destinos. com um gesto irónico.disse a Sr. meneando a cabeça .Sim. . chegado esse momento.Meu Senhor.Meu Senhor . mas há-de reinar. .disse Henrique -. não se esqueça Vossa Majestade de que já contraiu um compromisso com Daríole. Luís. conto que. . .Senhor . Renato? Uma tal profecia.Então o seu amigo . . Mas um observador menos ocupado dele do que estava Renato. .Meu Senhor . . não se sobrecarregue de promessas. renovou-o em Paris . não? 161 . . o horóscopo anuncia coisa melhor. segundo os termos desse horóscopo.Todos os oráculos italianos são lisonjeiros .disse Henrique . principalmente em semelhantes tempos. bem vê que não havia de esquecer tirar-se o de Vossa Majestade.E lembra-se desse horóscopo? .disse Henrique.Mas.Que tal! querem ver que hei-de ser conquistador?. sorrindo com afectada indiferença.disse Henrique. Vossa Majestade há-de ser rei. meu Senhor.Oh! .Anuncia que hei-de ganhar batalhas à frente dum desses exércitos. e os outros cinco recebê-los-á quando a profecia se cumprir.disse Henrique.observou Henrique. mas o seu brilho apagouse quase ao mesmo tempo numa nuvem de indiferença.não o sou eu já?.Melhor do que isso. se vier a ser imperador. Os olhos brilhantes do mancebo relampejaram involuntariamente. .E. diz mentiroso.disse Renato -. meu Senhor.disse friamente Renato -. darei o dobro.disse o rei de Navarra. com o mesmo ar de zombaria . .Deveras? .Meu Senhor. não é verdade. Mas. darei agora cinco escudos ao seu amigo.S. . Henrique prestou ainda mais atenção. . reprimindo uma violenta palpitação no peito . o meu amigo sabe o que promete: não só Vossa Majestade será rei.Pois ainda não disse tudo? . Não houve já quem predissesse que eu comandaria exércitos?.precisa de dez escudos de ouro. .Meu Senhor. teria percebido o esforço que Henrique fizera para rir assim. eu continuo. o meu amigo voltou de Florença com este horóscopo. Renato. de Sauve -.Bem.o horóscopo de Vossa Majestade não é daqueles que se esquecem. com mil demónios! . e que todos se darão por satisfeitos se eu cumprir metade do que tenho prometido. E o príncipe desatou a rir. . tem direito a boa paga. Senhora . .

Uma leve crispação de nariz foi o único indício da crescente atenção do rei de Navarra a essa súbita digressão que a conversa tomava.disse Henrique consigo. Renato.Então queira falar .Um segredo de interesse para Sua Majestade? . sim. .disse Henrique. . .Este amigo tem um conselho a pedir a Vossa Majestade.Há oito dias.E como é que me vem confiar um segredo de outrem. sem mostrar a menor alteração no semblante ou na voz.Deveras? E quando foi isso? Renato olhou fixamente para o rei.Explique-se. tendo uma demanda. . . de Condé o segundo. . e eu não. Renato. meu Senhor.Assim o creio .De que se trata? . .disse o florentino.disse Henrique.E daí? .disse o florentino. . pesando todas as palavras uma por uma .sabe alguma coisa desses envenenamentos? . simulando perfeita admiração. Renato.A mim? .perguntou vivamente Carlota. .Meu Senhor.Meu Senhor.prosseguiu com curiosidade a baronesa de Sauve. . .disse Henrique . e segredo tão importante? . com o ar mais natural que pôde afectar.E que admiração é essa.E esse florentino seu amigo . meu Senhor? Não se lembra Vossa Majestade desse veterano de Actium que. Vossa Majestade era ainda o primeiro chefe do partido calvinista.Pois quiseram envenenar o príncipe de Condé? . .Sabe. se quer que o entenda . quando o meu amigo me confiou este segredo. . . meu Senhor. pediu um conselho a Augusto? . sem ajudar em nada a Renato .parece que a coisa é difícil de dizer.de todos esses boatos de envenenamentos que de certo tempo para cá têm ocorrido na corte.com o mesmo resultado e confiou-me um segredo.Trata-se .Este amigo esperava que Vossa Majestade empenharia toda a sua influência com Sua Alteza o Príncipe de Condé para lhe rogar que lhe não fosse hostil. . e respondeu estas únicas palavras: . e o Sr.disse Henrique.Augusto era letrado. uma só palavra bastará para que Vossa Majestade me entenda: este amigo 162 sabe de todas as particularidades da tentativa que se fez para envenenar Sua Alteza o Príncipe de Condé. Está estudando as palavras . .perguntou Henrique.

os seus perfumes valem mais. .E . Recebeu-o da mão do portador.respondeu Renato. e cheirou-o para lhe conhecer o aroma e a virtude. E Carlota tornou a estender a mão para a caixinha de opiato.Não era somente junto do príncipe de Condé que Vossa Majestade podia.Minha Senhora .Isso não . o seu amigo faria portanto mal em dirigir-se a mim. certamente. envenenaram o azeite e foi asfixiado pelo cheiro. . um inimigo que Vossa Majestade conhece.Decididamente. ser útil ao meu amigo. uma chaga viva que lhe devorou a face. e era por isso que ele queria saber se Vossa Majestade teria bastante influência no príncipe de Porcian para obter dele o perdão do assassino do irmão. sendo eu já semicatólico.Algum inimigo? . uma inchação gangrenosa do rosto. deixe-me dizer-lhe os maus efeitos que os malévolos podem tirar dele. a sua conversa é mortuária. sim. parece-me que ouvi falar disso. .Ora. mestre René! . mas ignoro os pormenores. Já é tarde. Está requerendo fora de propósito. Henrique torcia as mãos enraivecido. . mas compreendeu que Renato queria ferir um alvo que se não tinha patenteado ainda. mas.respondeu Henrique -. antes de experimentá-lo. meu Senhor .. está hoje muito fúnebre! disse a baronesa.perguntou o rei. uma extravasação de sangue. .disse Carlota . perdi toda a influência no príncipe de Condé.respondeu Henrique -. foram o preço da sua dedicação ou o resultado da sua imprudência.Desgraçadamente . o seu amigo faria portanto mal em dirigir-se a mim. . . . e que conhece Vossa Majestade. .Portanto . mestre Renato. .sabe também os pormenores do envenenamento do príncipe de Porcian? .Ofertaram um pêro de cheiro ao príncipe de Condé.respondeu Renato -.disse Henrique -.as suas histórias parecem arranjadas para meter medo.Exactamente. pela sua influência. não é assim? . meu Senhor. irmão do que foi envenenado. . não tenho influência alguma no príncipe de Porcian. Dois dias depois. o seu médico estava em casa dele quando lho trouxeram. sendo eu ainda semi-huguenote. mas também junto do príncipe de Porcian.Sabia-se que ele costumava dormir tendo um lampeão aceso junto da cama. felizmente. . aquele a quem chama seu amigo sabe não só os pormenores desse envenenamento. com voz concentrada -. os quais parece que o seu amigo me quer referir. mas até quem é o autor.Sei.Desgraçadamente .disse Renato -.Com efeito .disse ele. e resolveu levar a cabo essa conversação que lhe despertava tão dolorosas recordações. .prosseguiu . Henrique franziu o sobrolho.

. que a dama se voltou para esconder a sua vermelhidão e para evitar o encontro dos olhos de Henrique. que. bradou porém: . de representar Deus na Terra. em suma.disse Renato. porquanto Carlota. estendera outra vez a mão para a caixinha do opiato. ou filho do príncipe de Condé. com a mão trémula enxugou a testa. estou certo de que o meu caixeiro se enganou quando lha trouxe.Como posso eu conhecer as disposições em que eles estão. dê-me essa caixinha. se havia carregado de ameaças. faria como Deus faz: perdoaria.No lugar deles.Minha Senhora .Em nome de Deus! responda. disse: . . não.Vossa Majestade pode interrogar o seu próprio coração disse o florentino com tranquilidade. Renato. se Vossa Majestade fosse irmão do príncipe de Porcian.Mas. isto é. amenizou o semblante. UM NOVO CONVERTIDO . meu Senhor. e tornou a aproximar o opiato dos beiços. de mistura com as necessidades mais ou menos cruéis que a todos nos impõem os deveres da natureza ou as provas que Deus nos manda.Na minha vida. tão sensível. Henrique fez um esforço supremo sobre si mesmo. respondeu no meio do silêncio que suspendia até a respiração de Renato e de Carlota: . mas desta vez não o embaraçou nem com a palavra nem com o gesto. Senhor: se Vossa Majestade estivesse no lugar deles. pondo-se ao toucador para ocultar a inquietação que esta conversação lhe causava. Amanhã lhe mandarei outra. repartindo a sua atenção entre Henrique e Carlota. Carlota soltou um pequeno grito. e mudando em vaga meditação a nobre dor filial que Lhe apertara o coração. que faria? Henrique reconcentrou-se. . ou assassinado seu pai. enquanto falara o florentino.Não há na vida de Vossa Majestade algum acontecimento tão doloroso que seja uma pedra-de-toque para a generosidade? 163 Estas palavras foram pronunciadas com um acento que fez estremecer a própria baronesa: era uma alusão tão directa. Renato viu o movimento. como para excitar um e reter outra. e pondo-se majestosamente de pé. Renato constrangeu-se também. . um acontecimento tenebroso?. Renato? Deus não me concedeu (ao menos que eu saiba) o privilégio de ler nos corações. por onde lhe filtravam algumas gotas de suor frio. da minha juventude só me lembram as loucuras e os desvarios. e tivessem envenenado seu irmão. não. . e se eu tivesse a certeza de ser rei. arrebatando o opiato das mãos da Sr.Mas o que julga Vossa Majestade das disposições de Suas Altezas os Príncipes de Condé e o de Porcian? .a de Sauve -.

Às oito horas menos um quarto estava o cavalo aparelhado. mas o qual desejava experimentar primeiro. e recuou outra vez com tanta vivacidade como da primeira.Sei. Germano.De Mouy! .Desgraçado! . o Bearnês sobressaltou-se.Não há dúvida. e fingindo examiná-lo. . desceu Henrique. ao passar por diante dum soldado suíço.Mas como pôde servir-se deste uniforme? . continue a sentinela. selado um pequeno cavalo de Béarn. porque viu que partilhava esse risco a que o ardente mancebo se expunha. como dissemos. um motivo bem forte para que o Sr. que tencionava oferecer à Sr.Sim. e a geada cobria o chão. pois. . dizendo: .disse ele baixinho. Na volta farei por lhe dizer .disse o rei. Só ontem é que soube que Vossa Majestade tinha de experimentar um cavalo esta manhã. e principalmente ao acento da voz. posto.Guarde Deus Sua Majestade o Rei de Navarra! A esta continência. Henrique empalideceu um tanto. e deu um passo para trás.Que veio fazer aqui? . de sentinela. estou aqui. . Mudando imediatamente de modo. . de Mouy viesse assim meter-se na boca do lobo. Voltou-se. Henrique ordenara que lhe tivessem pronto para as oito horas da manhã.Que me quer? . .Então. soberbo e fogoso. meu Senhor: de Mouy. . de sentinela à porta. Estão-nos vendo.Tome o seu mosquete.E então? . O tempo estivera frio. aproximando-se dele . esse soldado lhe apresentou a arma. . e então vim estacionar à porta do Louvre. Tinha visto o duque de Alençon a uma janela. 165 .não sabes que arriscas a cabeça? . O cavalo.No dia seguinte devia haver grande caçada no bosque de S.Era preciso. quando. ouriçava as crinas e campeava no pátio. Lançou.Procuro Vossa Majestade. apesar da sua pequena marca. . Henrique tomou o mosquete da mão de de Mouy.O capitão da companhia é protestante e meu amigo. às oito horas em ponto.lhe: . disse. decerto. isto é. Henrique dispôs-se a atravessar o pátio em direcção ao lado das cavalariças onde o esperavam o cavalo e o palafreneiro. um olhar desconfiado em torno de si. É por isso que há oito dias tenho feito todos os esforços para me encontrar com Vossa Majestade.Preciso falar a Vossa Majestade.a de Sauve.

prosseguiu o duque de Alençon. Há conselho entre o rei.Mas que tem a bela Carlota? .Ah! .chegariam notícias da Polónia? E depois.Parece-me que chegaram ofícios muito importantes do Sr. uma fraqueza geral. uma espécie de abatimento. e que nada há que me possa fazer perder uma.Verdadeiramente. saberei ao menos de quem é escudeiro.Mas isso não é cavalo para homem.disse Henrique. . em voz alta: .uma palavra.continuou Henrique. . . . não me faça parar. .. visto que falava do fundo da câmara -. é inútil que eu me arrisque mais tempo nesta geada. Ah! .E porquê? .É um cavalo que vou experimentar. mano. Até logo.E porquê? . . porque Sua Majestade acaba de me mandar dizer que não pode realizar-se a caçada. E montou no cavalo.Nesse caso .pobre Sr a de Sauve! . e fazendo-o descrever um círculo de picaria -.disse Henrique com ar muito contrariado. . .. não vá ser indiscreto.continuou ele -.Cautela. segundo me disse Daríole. a rainha-mãe e meu irmão o duque de Anjou. lançando o cavalo a meio galope.E isso privar-nos-á da companhia de Vossa Majestade? perguntou o duque. . um grande peso na cabeça. porque a dama a que me refiro está muito indisposta.perguntou o duque de Alençon. depois de se ter voltado e de conversar um instante com alguém que ficara invisível para Henrique. da janela.observou o duque.disse d'Alençon rindo . . E parando o cavalo defronte de de Mouy disse: .Por isso o destino a uma formosa dama. e por isso não pode sair esta manhã. de Nevers.disse Henrique consigo .Oh! . Henrique .Que cavalinho é esse? . . . Adeus.Qual! não há-de sabê-lo . mas se eu lhe não falar. e Henrique dirigiu-se para onde estava o cavalo. enfim. com a sua afectada bonomia -.disse Henrique . Henrique. . e se eu não souber de quem Vossa Majestade é cavalheiro. De Mouy continuou a passear como fazem as sentinelas.Vossa Alteza sabe que eu sou doido por caçadas. não sei . .Francisco! Francisco! Vossa Alteza é que é indiscreto.Entretanto há-de perder esta. porque nós havemos de ver essa formosa dama na caçada.

e voltando-se depois para Henrique.disse Henrique -. porque o duque de Alençon tinha desaparecido da janela. De Mouy obedeceu imediatamente. disse: .O outro é um rapaz de minha Casa.perguntou ele. mas Gillonne disse-me que ela estava cansada e que já dormia.É o senhor. pois não. . . Ajuda o palafreneiro a desaparelhar este cavalo. o rei de Navarra com direcção ao seu quarto.Vou agora saber dela. Não havia meio de levar a conversação mais longe. tinha que ir ao Convento da Anunciada. Henrique.Quem é? .respondeu de Mouy -. como está? . Um verdadeiro suíço estava no lugar de de Mouy. segundo disse. apenas ele voltara o passadiço.respondeu uma voz que Henrique conheceu pela de de Mouy -. . mano? 166 . põe o selim à cabeça e leva-o à casa do ourives da selaria. Vossa Majestade pode. vendo que lhe era impossível . D'Alençon olhou com grande atenção para a nova sentinela. .Meu amigo. Estamos sós. . há três meses que reflicto.É possível . Tem que lhe pôr uma guarnição que não pode ficar pronta para hoje.Agora não a encontrará nos seus aposentos. como se se contentasse com esta resposta.disse o duque. Henrique fez um movimento de sobressalto. trago a resposta do ourives da selaria.Não a vê desde ontem? .Meu Senhor .Estou ouvindo. já basta. a quem fiz assentar praça nos suíços. mandou entrar o mancebo e tornou a fechar a porta. Henrique parecia unicamente decidido a responder. de Mouy! .Não tema nada. restituir-nos tudo quanto os acontecimentos do ano fizeram perder à causa da religião. sejamos claros. e serei breve. foi levar um recado que lhe dei. Senhor.Não era com esse homem que estava conversando há pouco. . e era evidente que concebera alguma suspeita: E realmente.. devo agora mexer-me.E Margarida. .Eu esperava que reflectisse. .Ah! . Logo que os dois cunhados se separaram. porque os momentos são preciosos. Os dois cunhados separaram-se portanto: o duque de Alençon para ir saber as notícias. sejamos francos. apareceu o duque de Alençon. . sejamos breves. . com uma só palavra. saiu. bateram à porta do quarto de dormir de Henrique.Não. Fui ao seu quarto esta noite por volta das onze horas. Vem depois trazer-me a resposta. . visivelmente perturbado. meu bravo de Mouy . chama um dos teus camaradas para acabar a sentinela.Senhor . .disse Henrique.respondeu Henrique.

disse Henrique.É verdade .Mas. . . . de Mouy.. o Rossilhão e o Béarn só esperam uma palavra para se mexerem.Bem. que a esta proposta tinham luzido.É verdade ter Vossa Majestade abjurado a religião protestante? . Basta que Vossa Majestade me diga que o seu catolicismo é conveniente.disse o mancebo.tornou de Mouy -. sou genro da minha boa mãe. confessemos uma coisa. . . sim: Vossa Majestade atraiçoanos. como fazia sempre em casos semelhantes -. dizem-me que o rancor de Catarina. .evitar a explicação. Senhor . porque dentro de dois meses Vossa Majestade poderá optar entre Navarra e a França. meu amigo. mas foi da boca para fora ou do coração? .tornou de Mouy -.Bem. procedendo assim. Vossa Majestade abjurou para que el-rei o deixasse viver. não a aproveitará para reassumir sua liberdade de existência e de consciência? Pois.prosseguiu de Mouy -. e Deus salvou-me visivelmente do cruel perigo que corri. em que é que se deve acreditar? Dizem-me que o casamento de Vossa Majestade não está consumado. e eu respondo pelo futuro. sou esposo de Margarida sou irmão do rei Carlos. é forçado. a rainha Catarina. . a seu pesar -.respondeu Henrique. Pesando as responsabilidades destas diversas posições. na Guiena só se ouvem gritos de guerra. calculei não só as vantagens que daí me provinham mas também as obrigações que assumia.É que a sua abjuração não proveio da convicção. e não porque Deus lhe conservou a vida. mentira! .Qual é? . não é menos certo que sou católico. mas o poder. abandona-nos. Senhor . quando Ele nos salva a vida . com o coração oprimido por essa resistência com que não contava .Senhor . Essa querida . com risco de vida.disse Henrique.Não se força um príncipe da minha estirpe. meu caro de Mouy: o que fiz foi com toda a liberdade.Mas. Senhor. Senhor. mas sê-lo-á sempre? Se se oferecer uma ocasião. porque muitos de nós viemos. atraiçoanos?. . .De Mouy .Qualquer que seja a causa da minha conversão.Ninguém deixa de se mostrar reconhecido a Deus.interrompeu vivamente o Bearnês. dizem-me que Vossa Majestade é livre no fundo do coração.Mentira. de Mouy respondeu Henrique -. .Vossa Majestade não se lembra que. torcendo a questão. um trono sua escolha. .. 167 Henrique ficou impassível.Sim . mas do cálculo. estou salvo. sou católico. . Enganaram-no impudentemente. ouve bem? não só a liberdade. Temos tudo preparado para lhe dar um trono. para salvar a honra e a liberdade de Vossa Majestade. baixando os olhos. apresenta-se essa ocasião: a Arrochelle está levantada.

e conheceu o duque de Alençon embuçado num capote. De Mouy voltou-se vivamente. Sr. um sorriso quase desprezador lhe assomou aos lábios. Acredite no que lhe digo: o seu sangue pode ser muito mais bem empregado do que em manchar o limiar do rei de Navarra. de Mouy! . empurrou até à antecâmara o mancebo. talvez mesmo que o Sr.Pelo contrário .Silêncio.devo levar essa resposta aos meus irmãos.estou perdido! . E Henrique reconduziu.Margarida é realmente minha mulher. Apenas ele fechou a porta. de Mouy encontrasse o que procura. a fim de o manchar para sempre com o meu sangue. o rei vai sair do conselho. Adeus. por falta de pessoa em quem o fizesse. meu amigo: deixe a política. bradou: . antes. o duque abriu de par em par a porta da câmara que até ali conservava cerrada.disse uma voz que saía por uma porta entreaberta . . cujo pasmo começava a ceder o lugar ao terror.disse o príncipe a meia voz -. Sr.silêncio! porque poderia outrem ouvilo. cuja porta o duque de Alençon fechou com tanta rapidez como o tinha feito o rei de Navarra. el-rei Carlos IX é realmente senhor absoluto da minha vida e do meu coração. conversar à vontade. . entrou de Mouy a machucar o chapéu nas mãos.Portanto. de Mouy. estendendo a cabeça para o corredor. como parecia desejar.ei que o rei de Navarra estende a sua mão e dá o seu coração àqueles que nos degolaram. pisando-o aos pés como o touro faz à capa do matador.Meu caro de Mouy . Dir-lhes.disse Henrique -. De Mouy estremeceu. depois atirou-o ao chão e. E entrou no quarto. portanto. e cumpre que me informe por ele das razões que o fizeram adiar objecto tão importante como uma caçada. a fim de se certificar se estava a sós com de Mouy.disse ele.Este quarto é de dois dos meus fidalgos . ou. Senhor .Pela minha morte! nunca vi um príncipe tão miserável! Tinha gosto que me matassem aqui. ninguém virá estorvar-nos aqui. e tentando sondar com os olhos a escuridão daquela alma . poderemos.exclamou de Mouy . e a prova é que não quero que se deixe matar aqui. estupefacto. não podendo resistir ao desejo de se vingar nalguma coisa. . Mouy . Venha. deixando cair os braços com desanimo.disse o duque -. . 168 .Estou às ordens de Vossa Alteza .disse o conspirador. dir-lhes-ei que ele se converteu em adulador da rainha-mãe e que é o amigo de Maurevel. Catarina é realmente minha mãe. Permite-me. E a estas palavras. .O Senhor Duque de Alençon! . volte-se para o rei e ouça missa.

o olhar frio e fixo do jovem duque Francisco fez sobre o capitão huguenote o efeito desse espelho encantado que desfaz a embriaguez. . De Mouy continuou a calar-se.Vossa Alteza. meu caro de Mouy. Fale pois. Ofereceu ou não a meu cunhado Henrique. que o senhor é. .Sim senhor.acrescentou de Mouy com um ar que procurou tornar indiferente . Demais .disse ele -. onde sabe que a sua cabeça vale tanto ouro quanto pesa? Porque ninguém ignora.me. Sr. se entendi bem.De Mouy tinha entrado furioso e desesperado. com o rei de Navarra e o príncipe de Condé...De bagatelas? .Vamos. . é mister convencê-lo. . com afectuosa insistência.Porque quer que eu proceda assim. eu.continuou o príncipe. Verá se me engano. o seu auxílio e o dos seus partidários para o fazer reassumir o trono de Navarra?.Digo-lhe que sei tudo . De Mouy franziu a testa.. Senhor: a religião reformada proíbe que se façam juramentos.De bagatelas pelas quais o senhor julgou que devia expor a sua vida tornando ao Louvre.observou o duque.Não jure. e quando apresentou armas a meu irmão Henrique. e principalmente falsos.Se Vossa Alteza está certo disso. não é assim? . creia no que lhe digo..Apesar do seu disfarce. Que é isso então. Vossa Alteza quer falar. Senhor? .Bem. De Mouy olhou perturbado para o duque de Alençon. .tornou o duque.tratava-se de bagatelas. de Mouy .Senhor . . um dos principais chefes dos huguenotes. de Mouy? Não está contente com o rei de Navarra? .Senhor!. . . quando já lhe disse que era seu amig? Diga-me portanto a verdade. e ainda há pouco (o duque apontou na direcção do quarto do Bearnês). mas. . fale afoitamente. conheci-o perfeitamente. . As coisas em que eu tinha a ocupar o rei de Navarra dizem respeito a interesses que Vossa Alteza não poderia compreender.Eu não sei o que hei-de dizer a Vossa Alteza.disse de Mouy -. Talvez não suponha que sou seu amigo. juro-lhe. pouco a pouco.Sim.Quero. Senhor. .Duvida? . o filho da rainha Catarina. . proceda comigo como deve fazê-lo o irmão do rei Carlos.Senhor . julguei conhecê-lo. . . .respondeu Francisco. .

Sim senhor. terceiro filho de Henrique II. . meu bravo de Mouy.disse o duque de Alençon sem mudar de parecer. Sr.. eu posso fazer-me protestante. . e porque.Nada mais simples.O senhor não invocou então a sua antiga amizade.E então eu.E é ainda do mesmo parecer? . tão brilhante que ele mesmo ficou deslumbrado. não estou bem informado? Foi isto que veio propor ao Bearnês. e não continue a atormentar assim o punho da sua espada. bem o sabe. . pela terceira vez lhe digo que está com um amigo. Ouça-me. espero pois que me explique.Decerto. ao ouvir essa terrível ameaça. a lembrança da religião comum?.Ah! é verdade.E o senhor. que eu pergunto neste momento a mim mesmo se não devo dizer a Vossa Alteza que mente.O segredo distinguir-se-á melhor vivendo ambos do que morrendo um de nós. e confesso-o. tanto isso é assim.disse de Mouy -. Meu irmão Carlos mata os huguenotes para reinar mais à sua vontade. não serei capaz de mandar os soldados do seu partido.Mais do que nunca. eu.. . chefe dos huguenotes? . e vou dizer-lhe em duas palavras a política de nós todos. provocar neste quarto um combate desapiedado e assegurar assim.. de Mouy? Responda. pisando aos pés o chapéu. a extinção deste terrível segredo! . Confessa-o.. de Mouy. com a esperança de alcançar até a coroa de França? Diga lá. Meu irmão de Anjou deixa-os matar. . não foi assim? De Mouy ficou pasmado. O rei de Navarra não recusou tudo quanto o senhor lhe ofereceu? . ou não? . . sem fazer mesmo o menor movimento. que ele era um príncipe cobarde e indigno de continuar a ser chefe do seu partido? . . Senhor? Vossa Alteza.É verdade. porque tem de suceder a meu irmão Carlos. finalmente? . . Senhor. não exclamou.Propostas que ele recusou com terror. eu. E julga que sou bastante leal para que esse partido possa confiar na minha palavra? . Não lisonjeou mesmo o rei de Navarra com uma esperança brilhante.Vossa Alteza. . disse isso. porque esta confissão só me pode comprometer a mim.Devagar. pela morte de um de nós.Senhor . Filho de França. Senhor. devagar! . Sr.Confesso. Senhor. 169 Responda portanto como faria a um amigo. Henrique fez-se católico. ao sair do quarto.E porque não? É a época das conversões..

de Mouy? . Mas eu. . a nenhum reino. têm uma espada e um nome. de Mouy. filho de França. que no entanto tenho um coração tão nobre como meus dois irmãos mais velhos. uma vez que meu irmão recusou os seus oferecimentos. Ora aqui está o que eu quero. pois. pois. por brilhante que seja a oferta. e não como príncipe a quem se lisonjeia. reconhece claramente que esse reino de Navarra não é mais do que uma ficção. Então.. tudo ficaria já terminado se eu fosse o único de quem dependesse a sustentação das minhas ideias. Trate-me. eu. havemos de ter muitos obstáculos que superar. que diz deste oferecimento.De Mouy. mais ainda do que a lei da natureza. eu. ouça: Quero ser rei de Navarra. não pelo nascimento.como o senhor sabe. e se sepulta no torpor.Dou-lhe a minha palavra. de Mouy? . porque eu não sou um usurpador. deve ter reconhecido a minha integridade. Mas repito-lhe. de princípio. de Mouy. talvez mesmo por esta causa. Senhor. Pela maneira com que até aqui tenho procedido. meu irmão adoece repetidas vezes. . comigo. que não devo ter pretensões a nenhuma afeição de família. afasta do trono. como lhes quiser chamar.Isso é outra coisa. a quem o ódio de minha mãe e de meus irmãos. Senhor. quero ver se com a minha espada talho para mim um reino.Senhor. a nenhuma glória. visto que tenho dois irmãos mais velhos antes de mim. que me é indispensável combinar com os chefes. de Mouy.Digo que me deslumbra. acoberta todos os seus cúmplices. Não se mostre. de Mouy. eu. que nunca hei-de reinar em França... Com Henrique de Béarn. Senhor. E note que não tem nenhuma objecção a fazer a isto. a meu respeito há muita diferença: eu. mas por eleição. os chefes do partido não adiram a ela sem algumas condições. nesta França que eles alagam de sangue. mas nós temos um conselho e. . de Mouy. e a resposta é própria dum coração honesto e dum espírito prudente. tão exigente e tão difícil para com um filho de rei e um irmão de rei que se lhe apresentar. pelo menos. Vossa Alteza tem-nas todas desde que o rei de Navarra rejeitou o oferecimento que vim fazer-lhe. da sua parte como homem a quem se estima. Haverá algumas probabilidades a meu favor. Francisco de Alençon. Sr. pois que Vossa Alteza quer ouvir o meu parecer.. . os seus partidários não têm mais nada.

De Mouy . . mas pegou na dele e apertou-a. vamos. O duque não só estendeu a mão para de Mouy. . e porque. Diz então que esta noite... virei ao Louvre. Sr.me também.O quê? . Senhor.Vamos. Senhor.Agora. de Mouy antes de me dizer quando me dá a resposta dos seus chefes? . pergunta-me ao mesmo tempo onde estão os chefes. sem o que.E porquê? .Senhor. aqui. Dizendo estas palavras com um gesto de desconfiança. . .Sim senhor. está por isso? .Faça o que entender . parece-me que é imprudência voltar eu ao Louvre. um salvo-conduto passado por mim.Este quarto é habitado? . ficaria desonrado.Porque se Vossa Alteza me conheceu. Eu não posso servi-lo em coisa alguma senão com a condição .E porque me diz isso. neste quarto. . disse: . . mas quando me dá a resposta? De Mouy olhou silencioso para o príncipe. porque o tempo urge.Um salvo. e que se ocultam na cidade. Parecendo depois tomar uma resolução.Senhor dê-me a sua mão.respondeu de Alençon -. Mas queira dizer-me onde. dirá que Vossa Alteza não concorrera para isso de forma alguma. encontrado nas suas mãos à noite.respondeu o duque -.Se formos traídos.É. de Mouy?. Vossa Alteza saberá que os chefes estão em Paris.Porque. Preciso de que a mão dum filho de França aperte a minha para ficar certo de que não serei atraiçoado. .disse o mancebo huguenote. se eu lhe digo esta noite. se Vossa Alteza me conceder o que vou pedir-lhe. Esta noite. Sr. perde-me e não o salva.No Louvre. Conhecer-me-á mais tarde.disse de Mouy mostrando com os olhos as duas camas que ali estavam fronteiras uma da outra.conduto. por pouco que Vossa Alteza entrasse nessa traição.171 . de Mouy. Mas eu não posso exigir imediatamente do senhor uma confiança plena. podem outros ter tão bons olhos e conhecerem. Nós vamos ficar ligados por uma comunidade de interesses que o livrará de toda a suspeita. . . por dois dos meus fidalgos. estou tranquilo . perguntando-me quando lhe dou a resposta. ainda está receoso. . de Mouy fixava os olhos penetrantes no olhar falso e vacilante do príncipe. Não obstante. .

pode ter outro igual esta noite. não se esqueça disto. provada a minha mãe ou a meus irmãos. forte. Livre.ia a vida.a pergunta é singular! Quem está aí. bordada a ouro. O duque tinha realmente corrido todo o quarto com os olhos. tendo uma das mãos no ferrolho e outra na fechadura. ei-lo ali. O senhor está pois acobertado pelo meu próprio interesse. um casquilho do melhor gosto. cor de cereja. desde o momento em que eu me tiver comprometido com os outros como me comprometo com o senhor neste momento. Venha esta noite ao Louvre. Isto só serve para os vestíbulos ou para os pátios. Vou dar-lhe a morada do alfaiate que lho fez. este gorro e este gibão? . finalmente.E quem. enquanto me conservar impenetrável. Com o meu trajo próprio. de La Mole a cem passos quando o traz. é ainda mais perigoso.É o Sr. O nome do fidalgo é La Mole. . sendo desconhecido. pergunta-se-me quem está aí!. pois. vestuário que nesta ocasião estava estendido em cima da cama. Sim. senão eu? Mas o senhor. e num gorro com pluma branca guarnecida de margaridas de ouro e prata entremeadas e. garanto a todos. .Eu também estou vendo. correndo à porta e fechando-a com o ferrolho. custar-me. e que consistia numa capa magnífica. Mas apenas o duque de Alençon acabava a recomendação. num gibão de cetim de alvadia e ouro.disse o duque pertencem ao Sr. pagando-lhe o dobro do custo. e conhece-se o Sr. à vista de quem quer que seja. isto é galante: quando quero entrar em minha casa.bradou o duque. . . ouviu-se um rumor de passos. e procurava descobrir quem era o novo hóspede.. de La Mole? . Este trajo tem dado brado na corte. e estes fixaram-se no vestuário rico de La Mole. que se aproximavam no corredor. Deveras. estranhos um para o outro. voltava-se rapidamente o duque de Alençon. A menor relação de minha parte com o senhor. na minha esfera de acção. de La Mole. . .Vê esta capa. quem é? Enquanto La Mole exprimia a sua admiração por achar o seu quarto habitado. e o ranger duma chave na fechadura. pois que todos me conhecem aqui. e não me disfarça em nada.de que seremos. hem? . 172 um dos meus fidalgos.Mas como quer que eu aqui venha? Com este trajo não devo arriscar-me a vir aos seus aposentos.respondeu uma voz da parte de fora . um último apelo ao seu valor. .Quem vem aí? . pergunto eu também. não se esqueça. Faça. tente sob a minha palavra o que tentava sem a palavra de meu irmão..Que tal é esta.

Senhor .E ele conhece-o? -Julgo que não.Desculpe. demais. desculpe-me! . . se não estiver. porque perdi os que trazia esta noite no Cais da Greve.exclamou La Mole. recuando de surpresa.disse ele -. de La Mole? . espero-o antes da meia-noite neste corredor.Conhece o Sr. O duque de Alençon olhou ainda uma vez para de Mouy e.perguntou ele a de Mouy. acharemos outro.disse o príncipe sorrindo e dando pela sua mão a La Mole o que ele pedia -. Se o quarto dos meus fidalgos estiver desembaraçado. . e entretanto ele devia estar de serviço esta manhã. 173 .O Senhor Duque! . mas logo que este mudou de fato. e dos quais eles se serviam para toda a espécie de enredos. porém. porque La Mole começava a impacientar-se e batia com toda a força.. porque se aproximou da porta e disse: . mas um soldado. vendo que estava de costas voltadas.Perdoe-me. e trate de imitar aquele ar inimitável.Realmente. .Não senhor. De Mouy obedeceu sem responder. saudou-o e saiu para mudar de roupa na antecâmara. Precisei do seu quarto para falar com uma pessoa. que ia enfraquecendo sucessivamente. . La Mole recebeu da mão do duque a capa e o gorro. não lhe importando o que o duque fazia no seu quarto. que estão em cima da cama. antes da meia-noite.Não é nada. abriu. .Em todo o caso. Senhor Duque: Vossa Alteza não encontrou o conde de Cocunás? . . .Fá-lo-ei o melhor que puder.Sim senhor. Senhor Duque. e depois. e ambos se puseram à escuta para saberem quando La Mole acabava e saía. foi o próprio que lhes tirou o trabalho. De Mouy aproximou-se então do duque.Veja-o andar . porque era costume no Louvre serem os aposentos dos fidalgos uma espécie de hospedaria para os príncipes a quem estavam ligados. .Portanto. . falando consigo e afastando-se. Digne-se. Senhor Conde.me.Não. está bem malalinhado! Parece que teve de haver-se com ladrões bem teimosos. abrindo a porta e puxando de Mouy para si: . . recebê-lo-ei nele. disponha dela. Então assassinaram-no" disse La Mole. permitir-me que leve a minha capa e o meu chapéu. até logo. O duque pôs-se a escutar o rumor dos passos.Então tudo vai bem. faça que está olhando pela janela. infelizmente não sou um donzel.Essa é boa! Vossa Alteza é o dono da casa. .

como tinha dito ao Sr. e pôs-se a esquadrinhar Paris para dar com o pobre Cocunaz. e vozes brutais que mandavam arredar. posto que não seja isto o que . e um almoço oferecido com muito agrado. macia como o cetim. lhe haviam embargado o passo no seu passeio nocturno. apesar do seu desassossego. minha Senhora . e achou aqui alguns vestígios perdidos?. qual delas a mais bela. e considerava-o com ar piedoso. abria as cortinas. meu caro Senhor.O Sr. quando ouviu soar pesados passos que se aproximavam dele. como aquele marido que procurava a mulher afogada. mas nesta ocasião são os meus próprios vestígios que encontro. minha Senhora. o último fragmento que sobrevivera.respondeu La Mole -. Primeiro que tudo foi à casa de mestre La Hurière. La Mole não encontrou nada em casa de La Hurière. de La Mole? .Sim. na ausência da do espírito. Levantou a cabeça e viu uma liteira precedida por dois pajens e acompanhada por um escudeiro. . conheceu o lugar onde. de La Mole..Sim. na Rua da Árvore Seca.disse uma voz doce que saía da carruagem. porquanto lembrava-se de ter ouvido o piemontês citar um adágio latino que tendia a provar que o Amor. se houvesse instalado na Estrela Brilhante.está porventura enamorado. Baco e Ceres são deuses de primeira necessidade. de La Mole com uma pluma na mão. Chegando ao Cais da Greve. subindo o Sena. não se esqueça de balançar bem o braço direito quando andar.continuou a senhora da liteira . antes da meia-noite. mas nem por isso deixou de apanhar aquela. de Mouy. . La Mole tinha dez plumas. e muito. para seguir o aforismo romano. La Mole pôs-se outra vez a caminho. ou antes. . e tinha esperança de que Cocunás. .Até logo.Olhe cá. é um costume particular que tem o Sr. Ficara-lhe no campo da batalha um bocadinho de pluma do chapéu. além da lembrança da obrigação. o que não era raro num Paris vinte anos menos velho do que aquele em que Boileau acordava ao som duma bala que lhe furava a janela. de Alençon. O fidalgo não se tinha enganado. estou enamorado. eu mesmo . depois duma noite que devia ter sido para o seu amigo não menos tempestuosa do que fora para si. Ora o sentimento da posse é inato no homem. 174 XXIV A RUA TIZON E A RUA DO SINO RACHADO La Mole saiu do Louvre a correr. três ou quatro horas antes. Recobrada a tranquilidade do estômago.O Sr. enquanto uma alva mão. . .respondeu La Mole inclinando-se. que o nosso fidalgo aceitou com grande apetite. La Mole julgou conhecer a liteira e arredou-se vivamente.

. perguntar-lhe em que convento? . . a pluma é minha. Mas...Nada mais simples. . procuro o meu amigo. .disse Margarida. não lhe parece. de que se admira? Sim senhor.E porque não.disse Margarida. .Perdoe-me Vossa Majestade: ainda não tinha recolhido. achei esta pluma. porque me esquecera a espada na casa onde passei a noite. enfim. e que La Mole teve a fatuidade de achar adorável . Margarida reprimiu um vivo movimento de terror.disse La Mole. sucede isto provavelmente porque passei esta noite em retiro. ao menos pelo que me pareceu. . é como lhe estou dizendo.excelente. minha Senhora. É grotesco.Oh! conte-me isso . quando quatro sicários desembocaram da Rua da Mortellerie e me atacaram com espadões de desmesurado comprimento. como já tive a honra de dizer a Vossa Majestade.procuro. em retiro. . fugindo das mãos de quatro malvados que me queriam assassinar a todo o custo. Mas que faz o senhor aqui. olhando para Margarida dum modo estranho. o sítio é mau. Ainda que fosse estripado. muito obrigada.Que é dele.e vai agora procurar a espada? La Mole olhou para Margarida. não? Mas assusta-me deveras com respeito ao seu amigo. com esse ar todo espantado? . perdida por volta das cinco horas e meia nesta praça. e andando a procurá-lo.Ah! em retiro . . minha Senhora? Mas.. minha Senhora .Ah! entendo . cinco horas da manhã. reputar-me-ia cem vezes mais feliz do que mereço. Senhor? Não faço mistério disso.. Vossa Majestade permitir-me-á. que lhe peça novas da sua saúde? . com ar de admirável singeleza .E então. que desapareceu. 175 . parece-me que nunca estive melhor. . Tive de fugir. .disse ela. de La Mole! recolher-se às cinco horas da manhã!. .E poderei. como quem lhe passava uma suspeita pela ideia. com um sorriso que para todos era malicioso.disse La Mole. . porém. enfim: recolher-me tarde ou cedo. como Vossa Majestade quiser. Sr.Pois às cinco horas da manhã já tinha saído? interrompeu Margarida.Nem eu me queixo.Oh. No Convento das Anunciadas.Minha Senhora. inclinando-se respeitosamente.recolher-se tão tarde! Merece esse castigo. Eram. pouco mais ou menos. .Tranquilize-se Vossa Majestade. sem ser indiscreto.

..Esta linha unicamente: Esperam-no na Rua de Santo António. .Se é preciso.Oh! mais. .exclamou La Mole com entusiasmo. sem dúvida com o seu amigo.Ambos iguais? . . estando eu a cear com o meu amigo em casa do mestre La Hurrièr. Vejo-a daqui. olhando segunda vez para Margarida com esse ar de desconfiança que já se lhe notara -. . tenho curiosidade de saber o que é que os esperava na Rua de Santo António.. . . . minha Senhora! cem vezes mais! .Isso é que é singular! A sua história é um perfeito romance. .Hei-de ir procurá-la decerto.Conte sempre.. minha Senhora. e leve-me a breca se suspeito mesmo onde seja. quando entrou um homem que entregou a cada um de nós um bilhete. mas três palavras.Vossa Majestade manda?.Realmente.Obedeço.Sim. Vossa Majestade bem há-de supor que .Mestre La Hurière.Então conte-ma. .Primeiro que tudo. não há ninguém mais crédula do que eu.. . e cumpriram o que prometiam? .. Senhor? Pois não sabe onde é a casa em que passou a noite? .Eros-Cupido Amor. são três nomes doces. minha Senhora .Não. que prometiam três vezes a mesma coisa. . . minha Senhora. cada uma com o seu lenço na mão para nos vendar os olhos.E que continham? . isto é.Nenhuma. com um ar perfeitamente natural. . quem é esse mestre La Hurière? perguntou Margarida.disse La Mole.É um tanto extensa. . é completo.Duas medianeiras. defronte da Rua de Jouy. com o meu amigo Cocunás. . Então ceava em casa de mestre La Hurière. e até de muito boa vontade. três palavras encantadoras.E principalmente muito difícil de acreditar-se.E não tinham assinatura alguma? . .E que palavras eram? . . uma tríplice felicidade. .Como é isso. é o dono da hospedaria Estrela Brilhante na Rua da Árvore Seca. em frente da Rua de Jouy.Bem.E decerto.Exactamente iguais. mas não sei onde é a casa. Tenho tempo. nem . 176 . mando.Continue. .. . minha Senhora.Não faz mal. Ontem à noite. porque a minha espada é uma excelente folha.

prosseguiu La Mole . a do meu amigo fê-lo voltar para a direita.disse ela. O mancebo obedeceu.Duo puerz et unus egues.E depois? . A minha guia fez-me voltar para a esquerda.Porque achei gente no meu quarto.Optime baróari . o meu coração palpitou de alegria e apanhei-o. a sua demasiada curiosidade. . . seriam quatro horas e meia. minha Senhora: Vossa Majestade tem o dom de adivinhar. .Crivaram-me.Infelizmente não. no que se refere à minha ventura. talvez. minha Senhora. . no jogo da péla e em outros lugares honrosos. afastou a capa.E donde o baniu.Gente no seu quarto? . minha Senhora . Ora. Quem era? 177 . e é não saber o que é feito do meu companheiro.Não sei . Quanto a mim.disse Margarida. achando aqui um bocado da minha pluma. mostrando assim o gibão cheio de rasgões pelos quais se via o forro. Estendemos o pescoço denodadamente.Qui ad lecticam meam stant? . Esperava eu pelo dia com impaciência. . esses cinquenta passos. e acompanhando-as com um gesto doloroso. .Cale-se! . e achei-me na Rua de Santo António. . . . para ver onde estava. visto que voltou lá? .perguntou ela a La Mole. . .disse Margarida. quando.Porque não mudou de gibão no Louvre. veja! . prometendo a mim mesmo guardá-lo como uma lembrança desta ditosa noite. Contei. conduziu-me para fora. Para o Inferno talvez. vendou-me outra vez os olhos. na rua de Ouro. minha Senhora. Dizendo estas palavras. acompanhou-me cerca de cem passos e fez-me jurar que não descobriria os olhos senão depois de contar mais cinquenta. que não desgostava de poder jactardo perigo que correra.Sua Alteza. guem inveneris . Procurei-o em toda a parte onde ele podia estar.Die Moles. cujos olhos exprimiram a mais viva admiração. tão pouco de Cocunás. o que sei é que a minha me levou a um lugar que eu tenho pelo Paraíso. acertou com a palavra . pois. atormenta-me uma coisa.Vejo que o crivaram todo .disse La Mole. Veja. e separámo-nos. mas nem um pedacinho de Aníbal.interrompeu Margarida. fez-me prometer que não procuraria tirar a venda. Mas. .perguntou a rainha. entrou a mesma medianeira. .continuou Margarida. que parecia decidida a levar a investigação até ao fim. não? -Justamente.nos não opusemos a isso. La Mole abriu os braços.Então não se recolheu ao Louvre? . defronte da Rua de Jouy.aonde a guia do meu amigo o conduziu.continuou La Mole -.

a ele e a Cocunás. podia jurá. e contado depois vinte passos. A casa estava situada na Rua de Sino Rachado. a rainha pôs um dedo na boca.Franciscum ducem. senti os pregos da porta. eu vinha buscar a minha .portanto não tornou a encontrar Cocunás? . portanto repetiu o mesmo movimento. não podendo ter por fim recomendar-lhe silêncio.disse Margarida sorrindo.lo.continuou ela.Quo cum? .in cubiculo tuo? . esse homem que corria gritando "acudam". sem pensar evidentemente no que dizia. Ah! . guarnecida de grandes pregos e com postigos. Fora ali que na véspera as duas mensageiras lhe vendaram os olhos.perguntou o porteiro. No meio do muro havia uma porta com alpendre. vá. rua pequena e estreita. Meu amigo continuou ele.parece-me que é suíço. Vejamos. o mancebo compreendeu que este gesto encantador. que o conduziu à Rua de Santo António.Acho isso muito natural . A liteira e os que a acompanhavam puseram-se a caminho. no intuito de prosseguir a investigação. . Ora. por detrás do qual se via uma casa. Estendendo a mão. . ou antes dum muro. mas não sei porque me está parecendo que há-de aparecer sem que seja preciso procurá-lo. passava quando eu punha o pé no primeiro. . Defronte da Rua de Jouy parou. e depois desci dois degraus. procure-o. como tinha a honra de dizer a Vossa Majestade. morro verdadeiramente de inquietação. Tinha voltado à esquerda. não quero distraí-lo mais tempo. como a bela Margarida não tinha confiado nenhum segredo.. que começa na Rua de Santo António e desemboca na Rua do Rei da Sicília. e que mataram na Rua do Rei da Sicília. quando saía.Portanto.las ist da. . vá.é ali. La La Mole foi direito à porta e bateu. Portanto. Não importa. devia ter outra significação..disse La Mole .Cum ignoto. Dizendo isto. . .disse Margarida . Abriu-se a porta e apareceu o porteiro.disse La Mole . .É singular! .Agentem? . e achou-se defronte duma casa. continuou seguindo ao longo do cais até à Rua da Ponte Comprida.. e La Mole. nem feito confissão alguma a La Mole. 178 pensando nes maneiras do mundo -. não há dúvida.. s? . minha Senhora.Nescio guid. Com todos os diabos! .

Esteve por um momento tentado a comprar outra espada e a estripar o miserável porteiro que teimara em não falar senão alemão. pôde entrar para ele. continuar o seu caminho até à Rua do Rei da Sicília: tomou à direita. tornou a seguir para o Louvre por volta das duas horas da tarde. in continenti. portanto. portanto. mas lembrou-se de que esse porteiro estaria ao serviço de Margarida. e que. e foi bater à porta para fazer a mesma reclamação que fizera na outra vez. . . Não podendo acreditar no que estava vendo. e a outra pela rua Tizon. e era isso de bastante urgência por causa do seu gibão. . a fim de substituir por aquele o velho gibão alvadio. nem lhe dizia onde estava o seu amigo. bastante deteriorado. de que a casa tinha duas entradas. e o muro. encontrasse o quarto devoluto. virou-a e revirou-a. por mais lógica que fosse. Dir-se-ia que a Rua do Sino Rachado se tinha virado para o ver passar. desagradável ver-se privada dele. ninguém abriu. que deixei. Mas essa conclusão. uma pela Rua do Sino Rachado. ficará para outra vez.Ich verstehe nicht. Ainda mais: apenas deu uns trinta passos. Resolveu. não lhe restituía a espada. como era natural. deu cerca de cinquenta passos. desta vez. cada vez mais maravilhado: não lhe restou a mínima dúvida. ficou boquiaberto ao ver junto desse gibão a famosa espada que deixara na Rua do Sino.espada.Por minha vida! . Mas não a tenho. se ela o escolhera tal. como a rainha lhe fizera observar. pois.respondeu o porteiro. Deu ainda duas ou três vezes o mesmo giro. direito à cama. La Mole reflectiu então que talvez tivesse tomado o seu lado direito pelo esquerdo. A minha espada. Foi. . . pequena rua paralela à do Sino Rachado e semelhante a ela em todos os pontos. por mais que batesse. que deixei nesta casa.disse La Mole . de boamente atravessava este maganão!. nesta casa.Gehe zum Teufel! E bateu-lhe com a porta na cara. Como.disse outra vez La Mole. depois do qual ficou intimamente persuadido.repetiu o porteiro.A minha espada. onde passei a noite. ser-lhe-ia. .se tivesse aqui a espada que reclamo. La Mole pegou na espada. . tornou a encontrar a pequena porta com grandes pregos. tomou outra vez à direita e achou-se na Rua Tizon. alpendre e postigos. que estava. tinha decerto razões para isso.Ich verstehe nicht . ceder à tentação. onde passei a noite. Mas desta vez. que deixei. Receando. pois. . Ora La Mole não quereria por coisa alguma do mundo praticar uma acção desagradável.Ich verstehe nicht .

que o conduziu à esquina da Rua Godofredo. no pátio. acompanhada por uma criada. E depois. Dizendo isto. Ao suíço parecia-lhe ter visto entrar o Sr. Eram cinco horas da tarde. com os olhos vendados. guiado por uma mulher. pouco mais ou menos. disse-lhe essa mulher que contasse cinquenta passos. abriu-se a porta que dava para a Rua Tizon. saiu por essa porta que lhe fora aberta por uma mensageira duns quarenta anos. E que será feito do pobre La Mole? Corramos ao Louvre.parece que anda aqui feitiçaria. . Meia hora depois. talvez que lá saibam dele.Quero que me enforquem se sei onde estou!. foi-se indo ligeiramente até 179 à Rua do Rei da Sicília. e que então tirasse a venda. olhando em torno de si.Safa! . ouvindo o relógio da Igreja de Nossa Senhora. e abriu a porta precipitadamente. Cocunás desceu a Rua da Mortellerie. Lembrou-se então de La Hurière. e saiu pela porta do mesmo palácio que dava para a Rua Velha do Templo. e por conseguinte noite fechada. Uma mulher. bateu a uma porta do Palácio de Argenson. Ali.. saía pela mesma porta da mesma casa. tirou o lenço que lhe cobria os olhos. . de La Mole de manhã. e nada tinha visto. o que lhe duplicou ainda a inquietação. abriu essa porta com uma chave que tirara da algibeira e desapareceu. mas não o vira sair. Seis horas! acrescentou admirado. atropelou e derribou na sua passagem essas filleiras móveis de bravos burgueses que passeavam tranquilamente à roda das lojas da Praça Baudoy e entrou no palácio.disse ele consigo . um mancebo.Lasnier e da Moteflerie. mas somente lá encontrou o gibão de La Mole todo lacerado. ao chegar ao número convencionado. A sentinela estava no seu posto apenas há hora e meia. interrogou o suíço e a sentinela. que se abriu imediatamente. e chegou às portas do Louvre em menos tempo do que gastaria um cavalo ordinário. Ali. alcançou uma outra mais pequena e secreta do Palácio da Guisa. dando um suspiro: Oxalá que se pudesse achar o pobre Cocunás como acabo de achar a minha espada! Duas ou três horas depois que La Mole terminara a sua ronda circular em torno da pequena duplicada. Correu então ao quarto.. O mancebo cumpriu escrupulosamente a recomendação e. de comprida capa forrada de peles.bradou ele. e correu a casa do .E esta! .

o qual. La Mole. dum lugar por onde infalivelmente ele devia passar. No espaço duma hora correu Cocunás todas as ruas vizinhas do Cas de Greve.me! sou eu. Que demónio é isto! A minha voz não é das piores.. A famosa capa cor de cereja tinha feito tanto espalhafato na corte que não era possível qualquer engano com ela. Germano L'Auxerrois.digno estalajadeiro da Estrela Brilhante. que esteve à mesa até às oito horas. 180 a capa vermelha. Cocunás estava com as duas disposições precisas para cear bem: tinha o espírito tranquilo e o estômago vazio.gritou Cocunás tornando a correr espera. Confortado com duas garrafas de vinho de Anjou. a Rua de Santo António e as ruas Tzon e do Sino Rachado. E nessa esperança. a capa vermelha parecia que levava asas. hei-de alcançá-lo. Cocunás pôs-se a correr com toda a ligeireza das suas pernas. era o passadiço do Louvre. resolveu. pensando que La Hurière tinha visto La Mole. e que acabava de sorver com uma sensualidade que era traída por amiudadas piscaduras de olhos e lambeduras de beiços. finalmente. já semelhante a uma sombra. num instante galgou até ao segundo andar. por força! Como tenho as pernas tão boas como a voz.ah. havia de ouvir.desta vez é ele. ceou pois tão bem. à incerta claridade dum grande lampião levantado junto da ponte levadiça do Louvre. ir esperá-lo debaixo de um passadiço até que ele entrasse. quando descobriu ao longe. La Mole! . Lembrouse. Durou isto uma hora. coa breca! Com efeito. Ei-lo que entra. acompanhando essa nova exploração por entre a multidão com pontapés e socos proporcionados ao acréscimo de amizade que lhe inspirava o estado de satisfação em que sempre se fica depois de ter comido bem. onde julgava que o seu amigo poderia ter voltado. desaparecia por debaixo do passadiço do Louvre agradecendo a continência à sentinela. de que gostava muito. Cocunás. que ele já tinha atirado ao chão na Praça de S. tornou a ir em busca de La Mole. não me queres esperar? . o porto do Carvão. e ajudava a pôr de pé uma mulher. pois. que parecia também muito apressada. desapareceu por debaixo do pórtico. Por minha vida! ..gritou Cocunás . Cocunás ficou pois inteiramente sossegado. a capa de veludo cor de cereja e a pluma branca do seu amigo. e como tinha muita fome. Olá olá. La Mole amigo!. no momento em que punha os pés na entrada. por mais diligências que fizesse. e num instante chegou ao Louvre. Porque diabo corres assim! Parece que queres fugir.bradou Cocunás . que havia almoçado em sua casa. pediu de cear. já não . Não estava a mais de cem passos do Louvre. mas. -Ah.

disse de La Mole -. Mas. Então é outra coisa. não poderei parar aqui. viu a capa cor de cereja seguir a rainha para o quarto. Era em baixo.Nem lá entrei! . De repente saiu desse quarto uma mulher. foi Cocunás sentar-se num banco de veludo postado no patamar. e. quem sabe?.Sais do teu quarto? . onde te tenho esperado impacientemente há duas horas.Do quarto da rainha?.Não eras tu a pessoa atrás de quem corri no Louvre? . ao ver Cocunás. que Cocunás estendeu imediatamente o pescoço para o lado de onde partiram os sons. acompanhado duma cançoneta tão familiar ao seu amigo. na escada. no quarto da rainha de Navarra. . Faz um frio de todos os diabos. Eu saio agora do meu próprio quarto. Então. Olá . Está bem . Pois vai para o diabo! eu por mim já não posso mais. já vejo por que não me quis responder. Bom. e o meu caro La Mole está num desses momentos.Ora! deixa-te de petas. . onde era o quarto. La Mole não deixava de lá ir.Sim.Oh! e esta! és tu? . que vinha do andar superior. posso esperá. . e quando já começava a pôr em execução a resolução que delas resultava.Meu caro Aníbal . seguindo-o todavia com os olhos por entre as voltas da escada. desceu a quatro e quatro os degraus que o separavam ainda dele. que Cocunás praguejava assim ao fugitivo. E encostandose ao corrimão.disse este .disse Cocunás . .Do quarto da rainha. Era La Mole.queres nada comigo?.Saio. Mal pronunciara estas palavras. a quem desistira de seguir com as pernas. depois de algumas palavras em voz baixa. E subindo devagarinho os degraus. ouviu por cima do tecto um rumor de passos rápidos. se lançou nos seus braços. . .disse Cocunás. .Quando? . bom! . terminada esta corrida. ficou a olhar pela abertura da escada. .Não.em lugar de ir ter com ele. tu tresvarias.aquela criatura dá-me todos os ares da rainha Margarida. estás zangado!. esperarei. talvez que lá se demore muito tempo. e que. . não digo dessa casa.E por onde diabo saíste? . Era certamente outra coisa. e que chegara até à altura do quarto de Margarida. do quarto da rainha de Navarra.disse ele consigo .lo! Ainda que o Diabo lá estivesse.não me enganava. e tomou pelo braço a pessoa atrás de quem corria Cocunás. Há momentos em que nos é importuna a presença do nosso melhor amigo. .Por onde? Pela rua do Sino Rachado. Nada! vamos até ao quarto.Então donde? .

A dama que introduzira para o seu quarto o cavaleiro de capa cor de cereja era a rainha de Navarra.Não. e suspenso entre o respeito e o ciúme. Preferiu. Atirou-se para a porta.Não me oponho . . .disse La Mole. mas não batas com tanta força para não a espantar. reflectindo e empalidecendo haverá já traição?. La Mole. .Não foste tu que desapareceste por debaixo do passadiço há dez minutos? 181 .Não.disse La Mole.Não és tu que acabas de subir esta escada como se fosses perseguido por uma legião de diabos? . Quem sabe. receando ver-se traído por um grito de Margarida. . cremos que o leitor já terá adivinhado que era o bravo de Mouy. como se oferece ocasião. tão pálido como a pluma que lhe sombreava a fronte -. porta que. a qual puxou tudo isso por esta porta dentro. se andam almas do outro mundo pelo Louvre.disse Cocunás . é a da rainha Margarida.Fora! . . e até o teu braço em ar de balancim. apenas ali estivesse.Não sei . La Mole hesitou um momento. a tua pluma. mas sempre tive muito desejo de ver isso e. . . o caso é engraçado. apertando a cabeça com as mãos.o vinho da Estrela Brilhante não é tão mau para me virar a cabeça a este ponto.Vamos expor-nos a ser presos . . . o mancebo viu que havia algum engano. viu que a observação era assisada e continuou a bater mas devagar.bradou Cocunás .disse Cocunás. fazendo um estrondo que se não harmonizava com a majestade do lugar em que estava.Não. que desconfio muito ser a rainha de Navarra. se não me engano. mas não se atreveu a dizer nada.. pois.mas não importa. apesar de tão desesperado. Digo-te que acabo de ver a tua capa cor de cereja e a tua pluma branca debaixo do passadiço do Louvre. hei-de fazer tudo o que puder para me encontrar face a face com essa que tu viste. La Mole. quanto ao cavaleiro. eram esperados aqui por uma dama. deixar-se conduzir até aos quartos. Ao conhecer a rainha de Navarra.disse Cocunás -.Diabo! . que corri atrás duma e doutra até ao princípio desta escada. era senhor de dizer à sua . .Pragueja quanto quiseres. XXV A CAPA COR DE CEREJA Cocunás não se havia enganado.Há um instante. mas o ciúme venceu. na qual desatou a bater com toda a força. e que a tua capa.Isso é outro caso! . mas não me digas mais que me engano.

Não. minha Senhora. . . um dos mais fiéis partidários de el-rei meu marido. escapou a Margarida.disse a meia voz Margarida -. entre. . minha Senhora: julgo que Vossa Majestade se engana e que. pelo contrário.Sabe latim.bela condutora: Silêncio por silêncio. . onde havia mais luz do que na escada.disse ela recuando um passo. pode ficar certo da minha discrição. Esse gritozinho que o prudente huguenote tanto receara. para me lisonjearem decerto. e se achou na câmara.Eu mesmo. há algum tempo . minha Senhora! . Como. é isto o que principalmente desejo. tinha-lhe dito em latim: . pois é possível que eu me enganasse! .perguntou ela.E por que razão mudou desta manhã para cá? . Sr. minha Senhora. de Mouy .É .julguei-o até aqui 183 um dos mais firmes chefes do partido huguenote. extremamente admirada . e isso explica-se facilmente.Como! . . e muitos. de Mouy? . e inclinando-se-lhe ao ouvido.disse Margarida.Ai.Oh! Sr. quase no escuro.Ouça.. . ignora completamente.Estou só. . de Mouy! . de Mouy . .pois não procura o rei de Navarra? .Desculpe-me. mas já me esqueceu.Sr. porque ainda esta manhã eu era tudo o que Vossa Majestade disse.disse ela -. Sr.disse de Mouy . deixou-se conduzir. ter-me-ei enganado? . ofereço-lhe os meus serviços para o conduzir com pressa à sua presença.tenho o pesar de lhe suplicar que se digne nada dizer a Sua Majestade a respeito da minha presença no Louvre. mas apenas se fechou a porta. . Vossa Majestade julgou que eu era o rei de Navarra! tenho a mesma pluma branca..disse admirada Margarida . Margarida olhou fixamente para de Mouy. meu querido. julgo quem é a pessoa que procura no Louvre. Com efeito. Margarida apertara docemente o braço daquele a quem. Margarida sorriu.O Sr.disse de Mouy -. minha Senhora: e suplico a Vossa Majestade que me permita continuar o meu caminho sem dizer nada a pessoa alguma da minha presença no Louvre.Soube. até dizem que tenho o mesmo ar.respondeu o mancebo -. tomara por La Mole. de Mouy! . Margarida conheceu que não era La Mole. porém. De Mouy sem responder. .

devo calar-me. ..Vai ver.Minha Senhora . pensativa e inquieta.Mas os antigos não têm também alguns direitos sobre o Sr. nos momentos menos perigosos.exclamou ela. Desta vez não tinha Margarida perturbação alguma a esconder.a e permita-me que lhe apresente os meus respeitos.respondeu de Mouy -. Não ouve? . Viu.Minha Senhora . ..Por onde vem? . de Mouy .. eu ousasse pedir-lhe uma palavra de explicação. . ia decerto responder com uma nova interrogação. . mas não pode exigir que eu atraiçoe os meus novos amigos. minha Senhora. deu alguns passos para a porta por onde entrara.E quem é? .É impossível. e volta. tomo a liberdade de fazer observar a Vossa Majestade que se o rei de Navarra me vê a esta hora. havia ainda mais forte razão para que não deixasse de ser profundamente observador.Batem? . . quando Gillonne entrou apressadamente no quarto. sim. e com este trajo. numa atitude respeitosa mas firme. no Louvre. .O rei de Navarra! . porém. Quanto a Henrique. à porta de que Vossa Majestade fala. Senhor. . Creio que se poderia fiar na minha palavra.Aqueles que se conservaram fiéis. .Pelo corredor secreto. estou perdido. e é preciso que este dever seja bem real para que eu não tenha respondido a Vossa Majestade.Aqui fica tão bem protegido como em casa. . . entrou com essa minuciosa desconfiança que.disse ela.Se.. Margarida pegou rapidamente no braço de de Mouy e levou-o para a porta do famigerado gabinete. apareceu Henrique. .disse de Mouy -..Vossa Majestade pode perder-me.Minha Senhora .Faz que este senhor saia pela outra porta. . De Mouy entrou precipitadamente e. . apenas se fechou a porta. pois. porque fica sob a fé da minha palavra. não.Sim. e nas circunstâncias em que se encontrava. de Mouy?.Não sei. lhe fazia notar até as mais pequenas coisas. Margarida. aqueles que não só nos abandonaram... no mesmo instante. . . digne-se dispensar-me de responder. Sr.disse de Mouy inclinando-se -.Entretanto. a nuvem que obscurecia o . mas que até se entregaram ao abandono. E de Mouy. mostrava-se apenas que o amor estava a cem léguas do seu pensamento.Entre para aqui.

. minha Senhora? . Henrique foi o primeiro que o rompeu. a um estado medíocre? . estava pensativa.. . e só peço uma coisa. minha Senhora. mas praticando o contrário do que Vossa Majestade faz.Minha Senhora .. se houvesse quem se atravessasse entre os nossos planos. quer oculta.Sim senhor.E tinha razão. pois que procura a solidão. Vossa Majestade tem a faculdade de entrar a toda a hora no quarto do Sr.Diria que estava. sim senhor. quer abertamente.Tinha que fazer. -Julgo ter compreendido também que em todos os planos que eu pudesse fazer de elevação acharia em Vossa Majestade. minha Senhora. não . e era que.semblante de Margarida. fino e forte como aço. a Vossa Majestade e a mim. eu vim expressamente para lhe comunicar os meus pensamentos. . dizendo: . apontou-lhe para uma poltrona e sentou-se numa cadeira de ébano lavrado.Senhor. seu irmão. .Que diria. como eu estou. e creio que não supôs um instante que eu perdesse de vista o plano cuja execução resolvi no mesmo dia em que. é que. 184 Margarida fez ao rei um sinal como de quem estima muito a sua chegada. e tenho fé não só nas predições dos astrólogos como no génio de Vossa Majestade.Eu?. de que todas as minhas ideias a respeito do futuro tinham um ponto comum com as suas. tive quase a certeza de que me salvou a vida. eu penso que o descuido é apenas um disfarce em Vossa Majestade. e nos ameaçasse de nos reduzir. . contra quem quer que seja. . minha Senhora. . me dê brevemente ocasião de me mover também. não só uma fiel. portanto.Muito me apraz achá-la nessas disposições. de Alençon. tratando quanto antes Vossa Majestade de pôr as coisas em movimento.continuou Henrique -.disse ele. minha Senhora: as meditações convêm-lhe. . Vossa Majestade. pronta a lutar de acordo com Vossa Majestade. separados como esposos.Não me tenho esquecido. . desejávamos entretanto conservar sempre ligados os nossos bons ou maus destinos. Houve entre os dois esposos um momento de silêncio.É verdade. mas ainda uma activa aliada. A minha ideia também não é ociosa. graças à sua corajosa intervenção.

de Mouy receoso de todos estes preâmbulos. tome cautela que ninguém nos oiça. Margarida. não é justo. e designando com o dedo o gabinete. foi revistar a cama. Que faria Vossa Majestade se eu me vingasse. com surpresa misturada de alegria .Ele? . queria a todo o custo .disse Henrique . Minha Senhora . pelo menos. 185 Mal acabava Henrique de falar. minha Senhora.Não senhor. Henrique... adeus todos os nossos projectos.continuou Henrique.Com de Mouy. entrou Gillonne como fora de si e disse ao ouvido de Margarida umas palavras que a fizeram saltar da cadeira. Margarida correu ao gabinete. sem se importar com a causa que a chamava fora do quarto. é o Sr. Enquanto ela corria para a antecâmara com Gillonne. de Mouy . de La Mole?. conduziu-o sem preâmbulos à presença do rei de Navarra. as tapeçarias. todo o vão que esta deixava em roda.Vossa Majestade atraiçoa-me não obstante a sua promessa. . . . o qual. dizendo. voou à antecâmara e ali achou-se defronte de La Mole. apertando a mão do mancebo .. esse gabinete está tantas vezes habitado. .ou. .. Senhor? .então não está no quarto do duque de Alençon? Oh! mande-o vir.Oh! oh! . mau grado as muitas súplicas de Gillonne. se for assim.ainda alguém? Na verdade.Ao menos ainda é o Sr. . que torna o seu quarto inabitável.perguntou ela. abriu-o e. há-de ouvir-me antes disso. fazendo ao mesmo tempo um sinal com os olhos e com os lábios. deixe-me falar com ele. batendo-lhes com as pontas dos dedos. saindo do quarto de dormir.Senhor.disse Margarida. de Mouy.E porque quer saber isso? . Margarida sorriu. Permitir-me-á perguntar-lhe se neste mesmo momento não está ele em conferência secreta com alguém? Margarida estremeceu.E com quem. . dirigindose à rainha -.. todos os meus. . e sondar as paredes. tomando de Mouy pela mão.Não se há-de vingar. ao menos. fale baixo .interrompeu Henrique.tem? Possui a sua confiança. minha Senhora! .perguntou Henrique. e ele tem-lhe uma viva amizade.perguntou Margarida.bradou Henrique.. Quanto ao Sr. -Ah.disse o jovem huguenote com um acento de repreensão mais triste que amargo . -Porque. . tratava de se certificar se a sua espada poderia desembainhar-se com prontidão. . reprimindo a sua emoção.

entrar no quarto de Margarida. Cocunás estava por detrás dele, pronto a fazê-lo seguir para diante ou a sustentar a retirada. - Ah! é o Sr. de La Mole; mas que tem? Porque está assim pálido e trémulo? - Minha Senhora - disse Gillonne -, o Sr. de La Mole bateu à porta de tal modo que, apesar das ordens de Vossa Majestade, fui obrigada a abrir-lha. - Oh! que é isso? - disse a rainha com severidade - é verdade o que está ouvindo, Sr. de La Mole? - Minha Senhora, é que eu queria prevenir Vossa Majestade de que um estranho, um desconhecido, um ladrão, talvez, se havia introduzido no quarto com a minha capa e o meu chapéu. - Está louco, Senhor! - disse Margarida. - Vejo-lhe a capa nos ombros, e parece-me, Deus me perdoe! que também lhe estou vendo o chapéu na cabeça, apesar de estar falando com uma rainha. - Oh! perdoe-me, minha Senhora, perdoe-me! - exclamou La Mole, descobrindo-se vivamente. - O que porém me falta, tomo a Deus por testemunha, não é o respeito. - Não; é a confiança, não é assim? - disse a rainha. - Mas que quer Vossa Majestade que eu suponha, quando sei que está um homem no seu quarto, quando sei que esse homem entrou para aí trajando como eu, e talvez tomando o meu nome? - Um homem? - disse Margarida, apertando docemente a mão do pobre enamorado. - um homem!... É modesto o Sr. de La Mole. Chegue a cabeça à abertura do reposteiro, que háde ver dois homens. E Margarida entreabriu o reposteiro de veludo bordado de ouro, por entre o qual La Mole reconheceu Henrique conversando com o homem da capa vermelha. Cocunás, curioso como se tratasse da sua pessoa olhou também, e viu e reconheceu de Mouy; ambos ficaram pasmados. - Agora, que o vejo tranquilo a este respeito (pelo menos cuido que assim deve estar) - disse Margarida -, ponha-se à porta do meu quarto e, pela sua vida, meu caro La Mole, não deixe entrar ninguém. Se mesmo se aproximar alguém do patamar, avise. La Mole, fraco e obediente como uma criança, saiu, olhando para Cocunás, que também olhava para ele, e ambos se acharam fora sem terem ainda bem tornado a si do seu espanto. - De Mouy! - exclamou Cocunás. - Henrique! - disse La Mole.

- De Mouy com a tua capa cor de cereja, com a tua pluma branca e o teu braço em ar de balancim! - Mas aqui há o quer que seja - continuou La Mole. Uma vez que se não trata de amor, trata-se certamente dalguma conspiração. - Com mil demónios! eis-me outra vez na política disse Cocunás resmungando. Felizmente não vejo em tudo isto a Sr.a de Nevers. Margarida tornou a ir assentar-se entre os dois interlocutores; a sua desaparição não tinha durado mais do que um minuto, e esse tempo foi bem aproveitado por ela. Gillonne de vedeta na passagem secreta, os dois fidalgos de sentinela à entrada principal, afiançavam-lhe toda a segurança. 186 - Minha Senhora - disse Henrique -, haverá receio de que, por qualquer modo, possa alguém ouvir o que dissermos? - Nenhum - disse Margarida -, as paredes deste quarto estão forradas de coxins, o tecto quanto soalho têm dois forros. - Entrego-me ao seu juízo - respondeu Henrique sorrindo. Voltando-se depois para de Mouy: - Vejamos - disse o rei em voz baixa, e como se, apesar da certeza que Margarida lhe dera, ainda não estivessem desvanecidos os seus receios -, que vinha fazer aqui? - Aqui? - disse de Mouy. - Sim, aqui, a este quarto - repetiu Henrique. - Não vinha para aqui - disse Margarida -, eu é que fiz com que ele entrasse. - Então sabia. - Adivinhei tudo. - Bem vê, de Mouy, que se pode adivinhar. - O Sr. de Mouy - continuou Margarida - esteve esta manhã com o duque Francisco no quarto dos dois fidalgos da sua casa. - Bem vê, de Mouy - repetiu Henrique -, que se sabe tudo. - É verdade - disse de Mouy. - Bem certo estava eu - disse Henrique - que o Sr. de Alençon se apossara do Sr. de Mouy. - Por culpa de Vossa Majestade. Porque recusou Vossa Majestade tão obstinadamente o que eu vinha oferecer-lhe? - Pois recusou? - exclamou Margarida. - Era pois real essa repulsa que eu pressentia? - Minha Senhora - disse Henrique abanando a cabeça -, e tu, meu bravo de Mouy, ambos me fazem rir com as vossas exclamações. Pois quê! um homem entra no meu quarto, filame de trono, de revolta, de destruição, a mim, Henrique, príncipe tolerado, uma vez " que me apresente com humildade, huguenote a quem conservaram a vida com a condição de representar de católico, e eu havia de aceitar, quando essas propostas me são feitas num quarto de fora do qual se podia ouvir tudo? Por Deus, que nos ouve! parecem-

me crianças, loucos! - Mas, Senhor, Vossa Majestade não podia deixar-me alguma esperança, quando não fosse pelas suas palavras, ao menos por um gesto, por um sinal?. - Que lhe disse meu cunhado, de Mouy? - perguntou Henrique. - Esse segredo não me pertence, meu Senhor. - Ora adeus! - prosseguiu Henrique com uma certa impaciência, por ter que tratar com um homem que compreendia tão mal as suas palavras - não lhe pergunto quais foram as promessas que ele lhe fez, pergunto-lhe unicamente se ele escutava, se ouviu. - Escutava, Senhor, e ouviu. - Escutava e ouviu?. é mesmo o Sr. de Mouy quem o diz! Que fraco conspirador que o senhor é! Se eu tivesse dito uma palavra, o senhor estava perdido. Eu, se não tinha a certeza, desconfiava ao menos que ele estivesse ali, e senão ele, algum outro: o duque de Anjou; Carlos IX, a rainha-mãe. O senhor não conhece as paredes do Louvre, de Mouy; foi por causa delas que se criou o provérbio de que as paredes têm ouvidos; e conhecendo eu tais paredes, havia de falar?. Ora Sr. de Mouy! faz muito pouca honra ao bom senso do rei de Navarra e admiro-me de que, me elevando um pouco mais no seu espírito, viesse oferecer-lhe uma coroa. - Mas, Senhor - observou ainda de Mouy -, mesmo recusando essa coroa, não podia Vossa Majestade fazer-me um sinal? Não julgaria eu então tudo desesperado, tudo perdido. - Meu Deus! - disse Henrique - se ele escutava, não podia também ver? E não se pode ficar 187 perdido tanto por um gesto como por uma palavra? Olhe, de Mouy - continuou o rei, a lançar uma vista em roda de si -, a esta hora, tão perto da rainha e do senhor, que as minhas palavras não transpõem o círculo das nossas três cadeiras, ainda receio ser ouvido quando digo: de Mouy, repita-me as suas propostas. - Mas, Senhor - disse de Mouy desesperado -, agora estou comprometido com o Sr de Alençon. Margarida bateu raivosa com as suas formosas mãos uma na outra. - Então é já tarde de mais? - disse ela. - Pelo contrário - respondeu Henrique -, nisso mesmo é visível a protecção de Deus. Não se desligue do compromisso que tomou, porque o duque Francisco é a salvação de todos nós. Crê que o rei de Navarra poderia proteger as cabeças dos seus partidários? Pelo contrário, seriam todos mortos do primeiro até ao último, logo que houver a menor suspeita. Mas um filho de França é outra coisa; exija provas, de Mouy, peça garantias. Mas, o senhor é um néscio. comprometeu-se talvez de coração, bastando- lhe porventura só uma palavra.

- Oh, Senhor! - exclamou de Mouy - acredite que foi a desesperação, pelo abandono em que Vossa Majestade nos deixava, que me lançou nos braços do duque; foi também o receio de ser traído, porque ele estava senhor do nosso segredo. - Torne-se também senhor do dele, de Mouy; isso depende de si. Que deseja ele? Ser rei de Navarra? Prometa-lhe a coroa. Que quer ele? Sair da corte? Forneça-lhe os meios de fuga, trabalhe para ele, de Mouy como se trabalhasse para mim, dirija o escudo para que ele apare os golpes que se dirigirem para nós. Quando se tratar de combater e de reinar, serei só. - Desconfie do duque - disse Margarida -, é um espírito sombrio e penetrante, sem cor nem amizade, sempre disposto a tratar os amigos como inimigos, e os inimigos como amigos. - E ele espera-o, de Mouy? - disse Henrique. - Sim senhor. - Onde? - No quarto dos seus dois fidalgos. - A que horas? - Até à meia-noite. - Ainda não são onze horas - disse Henrique. - Não há tempo perdido; vá, de Mouy. - Nós temos a sua palavra, Senhor - disse Margarida. - Basta, minha Senhora - disse Henrique, com essa confiança que ele sabia mostrar bem com certas pessoas e em certas ocasiões -, com o Sr. de Mouy essas coisas nem se perguntam. - Tem razão - respondeu o mancebo -, mas eu preciso da sua palavra, porque convém que eu diga aos chefes que a recebi. Vossa Majestade não é católico, não é assim? Henrique encolheu os ombros. - Não renuncia ao trono de Navarra? - Eu não renuncio a trono algum, de Mouy: reservo-me unicamente para escolher o melhor, isto é, aquele que nos convier mais. - E se, entretanto, sucedesse ser Vossa Majestade preso. promete-me não revelar coisa alguma, mesmo no caso em que se violasse com a tortura a majestade real? - Juro-o por Deus, de Mouy. - Uma palavra ainda, meu Senhor: como poderei tornar a vêlo? - De amanhã em diante terá uma chave do meu quarto, no qual pode entrar quando e às horas que quiser. O duque de Alençon é que responderá pela sua presença no Louvre. No entanto, suba pela escada particular; eu mesmo lhe servirei de guia. Durante este tempo, a rainha introduzirá aqui o homem de capa vermelha semelhante à sua que estava há pouco na antecâmara. 188

Não convém que se diferencem os dois, e que se saiba que há uma duplicata; não é assim, de Mouy? Não é assim, minha Senhora? Henrique pronunciou estas últimas palavras rindo e olhando para Margarida. - Sim senhor - disse ela sem se perturbar. - Porque, enfim, esse Sr. de La Mole é da casa do duque meu irmão. - Pois bem: procure ganhá-lo para o nosso partido, minha Senhora - disse Henrique com seriedade perfeita. - Não poupe nem ouro nem promessas. Ponho todos os meus tesouros à sua disposição. - Então - disse Margarida, com um desses sorrisos exclusivos das mulheres de Bocácio -, uma vez que é esse o seu desejo, farei o que estiver ao meu alcance para o auxiliar. - Bem, bem, minha Senhora. Sr. de Mouy adeus; torne para junto do duque e segure-o bem. 189 XXVI MARGARIDA Durante a conversação que acabámos de referir, La Mole e Cocunás faziam a sua sentinela: La Mole um pouco pesaroso, Cocunás um pouco inquieto. Era porque La Mole tivera tempo de reflectir, e Cocunás tinha-o ajudado nisso maravilhosamente. - Que pensas tu de tudo isto, meu amigo? - tinha perguntado La Mole a Cocunás. - Penso - respondeu o piemontês - que anda por aqui alguma intriga da corte. - E se assim for, estás disposto a representar um papel nessa intriga? - Meu caro - disse Cocunás -, ouve bem o que te vou dizer, e aproveita o que entenderes. Em todas essas tramóias de príncipes, em todas as maquinações reais, nós não podemos nem devemos passar senão como sombras; onde o rei de Navarra deixar um bocado da sua pluma, e o duque de Alençon um palmo da sua capa, deixaremos nós a vida. Perde pois a cabeça por amores, meu caro amigo, mas não a percas pela política. Era um prudente conselho, e foi pois ouvido por La Mole com a tristeza dum homem que, colocado entre a razão e a loucura, sabe que desprezará aquela e seguirá esta. - Mas eu amo a rainha, Aníbal, amo-a! e, desgraçada ou felizmente, amo-a de toda a minha alma. Dir-me-ás que é loucura; admito, estou louco. Mas tu, que tens juízo, Cocunás, tu não deves pagar as minhas tolices e o meu infortúnio. Volta para junto do nosso amo, e não te comprometas. Cocunás reflectiu por um instante e, levantando depois a cabeça, respondeu: - Meu caro, tudo quanto acabas de dizer é perfeitamente

justo; estás enamorado, procede como enamorado. Quanto a mim, sou ambicioso, e penso que a vida vale mais que um sorriso de mulher. Quando arriscar a minha vida hei-de estabelecer condições. Tu, pobre Medor, procura também estabelecer as tuas. Dito isto, Cocunás apertou a mão de La Mole e partiu, depois de ter trocado com o seu companheiro um último olhar. Havia quase dez minutos que ele saíra do seu posto quando se abriu a porta. Margarida aproximou-se com precaução, tomou a mão de La Mole e, sem dizer uma palavra, levou-o do corredor para o lugar mais interior do quarto, fechando ela mesma as portas com uma cautela que indicava a importância da conferência que ia haver. Chegando à câmara, parou, sentou-se na cadeira de ébano e, pegando em ambas as mãos de La Mole, disse-lhe: - Agora, que estamos sós, conversemos seriamente, meu bom amigo. - Seriamente, minha Senhora? - disse La Mole. 190 - Ou intimamente. como quiser; prefere esta expansão? Pode haver coisas sérias na intimidade, especialmente na intimidade duma rainha. - Conversemos então. sobre essas coisas sérias, com a condição de que Vossa Majestade não se há-de enfadar com as loucuras que vou dizer- lhe. - Não me enfadarei senão por uma coisa, La Mole, e é se continuar a tratar-me por senhora ou por majestade. Para o senhor sou unicamente Margarida. - Sim, Margarida! sim, Margarida! - disse o mancebo, devorando a rainha com os olhos. - Assim mesmo - disse Margarida. - Com que então tem ciúmes, meu belo fidalgo? - Oh! a ponto de perder a razão! - Ainda? - A ponto de enlouquecer, Margarida. - E de que tem ciúmes? vejamos. - De todos. - Mas especifique. - Primeiramente do rei. - Parecia-me que, depois do que tem visto e ouvido, devia estar sossegado por esse lado. - Desse Sr. de Mouy, a quem vi esta manhã na companhia do duque de Alençon, e a quem venho achar tanto na sua intimidade. - Do Sr. de Mouy? - Sim, minha Senhora. - E donde provêm essas suspeitas a respeito do Sr. de Mouy? - Ouça. conheci-o pela sua estatura, pela cor dos cabelos, por um sentimento natural de rancor; era ele que estava esta manhã no quarto do senhor de Alençon.

- E daí? Que relação tem tudo isso comigo? - Não sei; mas em todo o caso, minha Senhora, seja franca; na falta de outro sentimento, um amor como o meu tem bastante direito para exigir a franqueza em troca. Veja, lanço-me aos seus pés. Se o que lhe tenho inspirado é apenas um sentimento passageiro, restituo-lhe a palavra, as suas promessas, renuncio nas mãos do Sr. de Alençon os seus favores e o meu cargo de gentil-homem; vou procurar a morte no cerco de Arrochela, se o amor me não acabar a existência antes de lá chegar. Margarida ouviu, sorrindo, estas palavras cheias de encanto, seguiu com os olhos essa acção cheia de graça e, reclinando depois a bela cabeça de pensativa sobre a mão ardente de La Mole, disse: - La Mole, ama-me? - Oh, minha Senhora! mais do que a minha vida, mais do que a minha salvação, mais do que tudo! Mas. por minha desventura, não sou amado, não, não o sou. - Pobre louco! - disse ela a meia voz. - Louco. sim, minha Senhora - exclamou la Mole, sempre a seus pés -, já lhe disse que o estava. - O primeiro objecto com que então se ocupa na sua vida é o amor, caro La Mole? - É o único, minha Senhora. - Pois seja assim: de tudo o mais não farei senão um acessório a esse amor. Ama-me, portanto, e quer conservarse junto de mim? - A única súplica que faço a Deus é que Ele nunca me tire do lado daquela que tanto amo. - Pois bem; não se separará de mim; preciso do senhor, La Mole. - Precisa de mim? O sol tem precisão dum vágalume? - Sabendo que eu o amo, La Mole, ser-me-á inteiramente dedicado? - E não o sou eu já, minha Senhora, não o sou inteiramente? 191 - Pois sim, mas ainda desconfia, Deus me perdoe! - Oh! Faço mal, sou ingrato... ou antes, como já lhe disse, e como já o repetiu, sou um louco. Mas porque estava o Sr. de Mouy aqui no seu quarto esta noite? Porque é que o vi esta manhã em casa do Sr. de Alençon? Para quê essa capa cor de cereja, essa pluma branca, essa afectaÇão em imitar o meu ar?. - Desgraçado! - disse Margarida - desgraçado, que se diz zeloso e que não adivinhou ainda. Não sabe, La Mole, que o duque de Alençon o mataria pelas suas mãos se soubesse que está aqui esta noite, a meus pés, e que eu, em vez de o fazer sair deste lugar, lhe digo Fique onde está, La Mole porque o amo meu belo fidalgo; sim, ouve bem? amo- o! Creia-me: ele matá-lo-ia!

- Grande Deus! - exclamou La Mole, inclinando-se para trás e olhando para Margarida com terror - seria possível! - Túdo é possível, meu amigo, no tempo em que vivemos e nesta corte. Agora, uma única palavra: não era por minha causa que o Sr. de Mouy, coberto com uma capa igual à de La Mole, com o rosto oculto por um chapéu como o dele, vinha ao Louvre. Procurava o Sr. de Alençon; mas como eu não estava prevenida, tomei-o pelo meu caro La Mole. Já vê que ele está senhor do nosso segredo, e que portanto convém não o desgostar. - Prefiro matá-lo - disse La Mole -, é mais breve e mais seguro. - E eu, meu bravo fidalgo - disse a rainha -, quero antes que ele viva e que o meu La Mole saiba tudo porque a vida dele nos é não só útil, mas necessária. Ouça e pese bem as suas palavras antes de me responder: estimaria que eu viesse a ser verdadeiramente rainha, isto é, senhora dum verdadeiro reino? Ama-me bastante para desejar que isso suceda? - Ai, minha Senhora! - bradou La Mole - amo bastante Margarida para desejar tudo quanto ela puder desejar, ainda que esse desejo devesse fazer a desventura de toda a minha vida! - Bem. E quer-me ajudar a realizar esse desejo, que o tornará ainda mais feliz? - Oh! nesse caso perdê-la-ei, minha Senhora! exclamou La Mole cobrindo o rosto com as mãos. - Não, pelo contrário; em vez de ser o primeiro dos meus servos, tornar-se-á o primeiro dos meus súbditos. Eis a diferença. - Oh! longe de mim o interesse... longe de mim a ambição, minha Senhora... não queira ser a própria a manchar o sentimento que o coração me inspira a seu respeito... Dedicação, nada mais do que dedicação! - Excelsa natureza! - disse Margarida. - Pois bem, sim, aceito a tua dedicação, e saberei reconhecê-la. E estendeu-lhe as duas mãos, que La Mole tomou avidamente nas suas. - Então? - disse ela. - Sim! - respondeu La Mole - sim, Margarida, começo a compreender esse vago projecto, de que já se falava entre nós, os huguenotes, antes do S. Bartolomeu; esse projecto, para cuja execução eu fora chamado a Paris, com tantos outros mais dignos do que eu. Esse trono real de Navarra, que devia substituir um trono fictício, é agora cobiçado por Margarida; Henrique impele-a para esse trono; de Mouy conspira com ambos, não é assim? Mas, que faz o duque de Alençon em todo este negócio? Onde está em tudo isto um trono para

ele? Não o vejo. Ora, será o duque de Alençon tão seu... amigo, para os ajudar em tudo isso sem exigir nada em troca do perigo que corre?... - O duque, meu amigo, conspira por sua conta. Deixemo-lo transviar- se: a sua vida responde-nos pela nossa. - Mas eu, eu, que estou ligado a ele, posso porventura atraiçoá-lo? - Atraiçoá-lo? e em quê? que lhe confiou ele? Não foi ele, ao contrário, quem o atraiçoou dando a de Mouy uma capa e um chapéu iguais aos seus, La Mole, como meio de poder ir-lhe 193 falar sem risco?. Diz que está ligado a ele! pois não era meu antes de ser dele, meu fidalgo? E deu ele a La Mole uma prova de amizade maior do que a prova de amor que este recebe de mim? La Mole levantou-se, pálido e como assombrado por um raio. Oh! - disse ele consigo - bem mo dizia Cocunás. A intriga enleia-me todo; há-de acabar por me sufocar. - Então? não responde? - disse Margarida. - Respondo - disse La Mole - e eis a minha resposta: Corre, e eu o ouvi dizer na outra extremidade da França, onde o seu nome tão ilustre, a sua reputação de beleza tão universal, me tinham vindo, como um vago desejo do desconhecido, tocar o coração; corre que Margarida tem amado algumas vezes, mas que o seu amor sempre foi fatal àqueles em quem se empregou, tanto que a morte, zelosa por certo, lhos arrebatou quase todos. - La Mole!. - Não me interrompa, ó Margarida, pois acrescentam ainda que conserva em caixas de ouro os corações desses fiéis amigos, e que às vezes confere a esses tristes restos uma recordação melancólica, um olhar piedoso. Suspira, minha Senhora? anuviavam-se-lhe os olhos. Pois bem: torne-me o mais amado e o mais feliz dos seus favoritos. Aos outros tem traspassado o coração, e depois guarda esse coração; de mim ainda faz mais, expõe-me a cabeça. Pois, Margarida, jure-me diante da imagem desse Deus que me salvou a vida aqui mesmo; jure-me que, se eu morrer por sua causa (como um sombrio pressentimento mo anuncia), jure-me que guardará, para lhe lançar algumas vezes um olhar, esta cabeça que o algoz há-de separar-me do corpo; jure, Margarida, e a promessa de tal recompensa feita pela minha rainha, tornar-me-á mudo, traidor e cobarde, se for preciso; isto é, inteiramente dedicado, como deve sê-lo o seu preferido e o seu cúmplice. - Que lúgubre loucura! - disse Margarida - que fatal pensamento! - Jure. - Quer que jure?.

Mas.Ainda uma palavra.Oh! não temas nada . Jure. para a qual. as suas faces empalideciam. Finja que está gravemente doente. acompanhar-me-ás. . bem o sei.Pois bem! . Não obstante. Adeus.exclamou Margarida.disse Margarida -. por mim só. à medida que eles morriam. se eu partir. se o rei não quiser levar-te. como poderá resistir? ' Trazia ela um grande donaire com algibeirinhas em roda. enquanto eu viver. Esse donaire pendurava-se todas as noites num gancho fechado a cadeado por detrás da cabeceira da cama. . que me tranquilize também com respeito à minha vida. Desta noite em diante. O rei de Navarra pode ser rei.Meta-se na cama. darei ao menos à tua pobre alma a consolação que pedes.disse Margarida . e não receba amanhã visita de ninguém. visto que com uma palavra me tranquilizou a respeito da minha morte.Meu amado La Mole . Carlota. Posso morrer. e é em ser rei. e nesse caso o rei levá-la-á consigo: esse voto de separação feito entre os dois romper-se-á um dia e produzirá a nossa. a este desejo sacrificaria ele agora tudo o que possui e com muito mais razão o que não possui. não partirei eu. Henrique não pensa agora senão numa coisa. e que hás-de ter bem merecido. estendendo novamente a mão sobre a cruz do pequeno cofre -. mas também posso viver: podemos talvez colher um êxito feliz. e se não puder salvar-te no perigo em que te lanças por mim. a sua fronte pesada inclinava-se às vezes para o chão. La Mole não foi mais um favorito vulgar. sobre esta cruz te juro que estarás sempre junto de mim. Peçolhe.. pois tinha o cuidado. sobre este cofre de prata rematado por uma cruz. viva ou morta estava reservado um tão doce porvir. 194 . . portanto. sob qualquer pretexto que seja. Margarida. meu caro La Mole. e a austera meditação abria as suas rugas entre os sobrolhos desse mancebo rapaz tão alegre noutro tempo.a de Sauve quando se apartara dela: . nas quais metia caixas com os corações dos seus finados amantes. de lhes mandar embalsamar o coração. agora já estou tranquilo a respeito da minha morte.Sim. vivo ou morto. 195 VII A MÃO DE DEUS Henrique tinha dito a Sr. Margarida pode ser rainha.se (o que Deus não permita) os teus sombrios pressentimentos se realizarem. Margarida. tu não conheces Henrique. . e pôde trazer levantada a cabeça. agora tão venturoso. minha cara Margarida. .

no fundo dos corações.repetiu Catarina. encostou os cotovelos à mesa e a cabeça à mão. . dizendo que queria estar só. queixou-se duma fraqueza geral e tornou-se a deitar. Começava ela a habituar-se às suas excentricidades.prosseguiu a princesa. sabia que Henrique guardava no coração segredos que não dizia a ninguém. . Henrique estava muito inquieto de espírito. Esta indisposição. pois. impaciente. e às suas fantasias. Pôs esse livro sobre uma mesa. No dia seguinte fingiu querer levantar-se. como se diria hoje. mas. . posto que invisivelmente. que atravessava o pátio após a entrevista que teve com de Mouy. e só ficaram três ou quatro. abriu-lhe o fecho. . Demais. e vendo Henrique.mãe logo que se levantava. como se dizia então. nessa mesma noite a Daríole dum grande peso de cabeça acompanhado de vertigens. fraqueza . sem que um só múscculo do rosto desse a entender o interesse que ela tomava na sua resposta. cujas folhas amarrotadas mostravam que era repetidas vezes consultado. virou-se para a janela.Carlota obedeceu. Catarina fechou a porta. abriu a porta de corrediça e tirou um livro. minha Senhora .Algum cansaço de preguiçosa. foi a primeira nova que deram a Catarina.que meu filho Henrique está hoje mais pálido do que costuma? E não era assim. de que Henrique já tinha informado o duque de Alençon. Logo que o último cortesão saiu. despediu-as. obedecia.respondeu a Sr. ainda as mais singulares.Está doente . Foram-se retirando pouco a pouco as pessoas que costumavam vir todas as manhãs saber da rainha.Queixa-se de violentas dores de cabeça e duma grande fraqueza que a não deixa pôr de pé. Queixou-se.perguntou ao capitão das guardas . Catarina não respondeu nada. dirigiu-se para um armário secreto. Catarina. como era costume. impelida por essa consciência que borbulha sempre.Não lhe parece . dor de cabeça. certa de que as suas ideias. tinham um fim. ao levantar-se.Não. . Eram os sintomas que Henrique lhe recomendara que acusasse. quando ela. 196 aberto num dos tabiques do quarto. ainda nos mais endurecidos no crime: . perguntou. portanto. e no pensamento projectos que temia revelar mesmo em sonhos. cegamente a todas as vontades do seu real amante. por que motivo a Sauve não se apresentara. sem indagar os motivos que poderia ter o rei de Navarra para lhe fazer essa recomendação. de Lorena. isto mesmo . para ocultar certamente a sua alegria. porém muito são de corpo. levantou-se para o examinar melhor e. mais familiares do que as outras. com ar tranquilo. que se achava ali na ocasião.Está doente? . mas apenas pôs o pé no chão.dizia ela lendo -.

como é que ele está ainda de pé? Porque é homem. desde a manhã da véspera que ela afastara Ambrósio Paré.vai concluir junto dela. Dizia-se que a Sr. Henrique não saiu do seu quarto nem apareceu ao jantar do rei. para a agonia. doente em São Germano. a pretexto de ir tratar dum dos seus criados favoritos. porque talvez tomasse alguma bebida depois de a beijar. sim. e o boato da doença de Henrique. Catarina mandou-o seguir. doze. Não se falou ainda senão de dores de cabeça e de fraqueza. tendo velado uma parte da noite passada. Seria preciso recorrer então a um homem criatura sua. e se alguma declaração de envenenamento viesse assustar essa corte. não tardarão os outros sintomas. dores de olhos. a obra duma morte que um infeliz acaso deixou talvez incompleta. O rei de Navarra tinha realmente ido para o quarto da baronesa. depois continuou. espalhado mesmo por Catarina. Se. decerto. ao todo trinta e seis horas.disse a rainha consigo . mas que passam pelo ar. Logo que deixou de ouvir o ruído dos vacilantes passos de Henrique.muito pronunciada. Catarina esperou a hora de jantar com impaciência. Veio. envolve o coração como com um círculo de fogo e faz estoirar o cérebro como um raio. Catarina aplaudia-se. mas a meia voz: Para febre seis horas. para o curativo da Sr. ela contava muito com a bulha que fazia o ciúme de Margarida no teaan dos amores do marido. porque tem um temperamento robusto. E continuou: Depois a inflamação ganha a garganta. queixou-se também de agudas dores de cabeça. Henrique . onde já tinham soado tantas declarações semelhantes. quarenta e oito horas devem bastar. não comeu nada e retirouse logo depois que se levantaram da mesa. Agora suponhamos que a absorção seja mais lenta do que a deglutição. estende-se para o estômago. e esse homem não diria senão o que ela quisesse. Em toda a manhã do dia seguinte. contra toda a expectativa. mas era para lhe dizer que continuasse a representar o seu papel. que se manifestara em . corria como um desses pressentimentos cuja causa ninguém explica. Mas Henrique. em vez de trinta e seis horas teremos quarenta e oito. Tornou a ler para si o mesmo período. para a inflamação geral. de Sauve e de Henrique. dizendo que. fosse chamado algum outro doutor. de Sauve estava cada vez pior. Henrique jantava todos os dias à mesa do rei. e limpasse os lábios depois de beber. esta noite. doze. seis. Vìeram dizer-lhe que o rei de Navarra tomara o caminho do quarto da baronesa de Sauve. para a gangrena. Não se deve esquecer que ela já havia falado muito desse ciúme. inflamação do céu da boca. precisava muito deitar-se.

Henrique .Minha Senhora . Quanto a Catarina. minha Senhora . diante de muitas pessoas: . 197 . turbou-se. Posto que no semblante mostrasse.Parece-me que tens ciúmes. minha Senhora. não perdeu essa primeira vista de olhos que lhe bastava nas circunstâncias difíceis. sorrindo verdadeiramente desta vez.Sim?.Não faz ideia. da satisfação que me causa vêlo tão bem disposto. Margarida. se bem me lembro. Deram quatro horas da tarde. Aceitou maquinalmente o presente de Henrique. tranquilidade. De repente abriu-se a porta.interrompeu vivamente Catarina. . felicitouo pelo seu bom parecer e acrescentou: . ao que parece. .disse Catarina.várias ocasiões. como sempre. pois há-de ensinar-me a receita.disse o capitão das guardas -.Estive realmente muito doente. Algum contraveneno . o momento em que se abrisse a porta e em que aparecesse algum criado pálido e turbado gritando: . . .Então que é que me vinha dizer? . Esperava ela.disse ela por entre os dentes - . procurando sorrir -.Doente? . Sua Majestade.Minha Senhora! o rei de Navarra está a morrer e a Sr. de Sauve morreu. distribuindo migalhas de biscoitos a alguns pássaros caros que sustentava pela sua mão. Catarina acabava a sua merenda no viveiro. .Que o rei de Navarra está aí.Traz a Vossa Majestade um macaquinho da mais rara espécie. era algum pretexto para que o deixassem em sua liberdade e ao mesmo tempo descansar. . mas com uma ironia que não pôde disfarçar. Henrique sorria ao entrar. e afagando um uistiti deitado nela.respondeu Henrique. estava muito pálida e a sua palidez crescia à medida que ia vendo circular o vermelhão da saúde nas faces do mancebo que se aproximava dela.Não. como na do passeio no qual dissera a sua filha. A rainha-mãe ficou aturdida com este choque. o rei de Navarra está. pois. . pois me haviam dito que estava doente. graças a Deus. e que minha mãe me deixou.Curei-me porém desta indisposição com um remédio específico usado nas montanhas. Neste momento entrou Henrique com uma cestinha na mão. e. e parecia todo entregue ao lindo animalzinho que trazia. creio que o meu filho mesmo se queixou diante de mim duma indisposição. o coração batia-lhe com violência ao menor ruído. com um semblante composto.Que me quer ele? . passa maravilhosamente. mas. meu filho. por mais preocupado que parecesse. Mas agora entendo ajuntou ela.

correndo com os olhos todos os outros pontos do quarto. com a boca rosada e semiaberta. pôs a lanterna sobre um dos móveis. a bela dama dormia ainda quase risonha. estendida numa grande poltrona. finalmente. de sorte que uns e outros perguntavam quais podiam ser os pensamentos que agitavam esse rosto de ordinário tão imóvel. mas estremunhada. pegou numa lanterna. estremecendo antecipadamente ao aspecto dessa lívida palidez. porque 198 decerto algum sonho encantador lhe fazia assomar aos lábios o sorriso. Catarina abriu a porta com cautela. de que ela supunha atacada a Sr. Esse leito estava inteiramente fechado com as cortinas.pensaremos ou será melhor que não. enquanto o outro. enfiou um comprido roupão preto. levantou-se. Retiraram-se todos. porque havia uma lamparina acesa junto da doente. Catarina saiu então detrás do cortinado e. pastéis e dois copos. tranquila. de Sauve. Mas. Vendo a Sr de Sauve doente. A rainha-mãe escondeu-se por detrás do cortinado do leito. estava estendido sobre a coberta de damasco carmesim. escolheu entre todas as chaves a que abria a porta da Sr de Sauve e subiu ao quarto da açafata. Daríole. em vez de tudo isto. Catarina não pôde conter um grito de surpresa que acordou por um momento Daríole. Todo o serão esteve inquieta. deve-se crer que a mão de Deus está estendida sobre este homem. Catarina chamou as criadas para a despirem e deitou-se. um leve sopro. dormia junto do leito da ama. fruta. Daríole abriu os olhos. Catarina esperou a noite com impaciência. a donzela cerrou as pálpebras e tornou a adormecer. Ao jogo perguntou por ela. e à face o brilhante colorido dum bem-estar que nada perturba. quando tudo dormia no Louvre. com os olhos brandamente cerrados por suas brancas pálpebras. responderam-lhe que estava pior. que Catarina cuidou por um instante que ela já não respirava. desconfiou decerto.a de Sauve não apareceu.se como uma sombra no quarto de dormir. e introduziu. ou dessa devoradora púrpura duma febre mortal. e com uma alegria maligna foi levantar a cortina para verificar por si mesma o efeito do terrível veneno. Ouviu. fresco e nacarado. Sem procurar mesmo no seu espírito entorpecido a causa por que acordara. com a face húmida e docemente reclinada sobre um dos braços graciosamente torneados. atravessou a antecâmara. viu em cima duma pequena mesa uma garrafa de vinho de Espanha. Henrique tinha decerto ceado no . A respiração da baronesa era tão fraca. Preveria Henrique esta visita? Estaria ocupado no seu quarto? Estaria oculto nalguma parte? O certo é que a dama estava só. entrou na sala. Realmente. A Sr. depois.

não podia deixar de apreciar toda a gravidade. .quarto da baronesa. não a entregando senão na mão daquele a quem era dirigida. porque logo nesse dia chamou o capitão das guardas. Catarina esperou um quarto de hora. entrou no Louvre uma liteira acompanhada por vários fidalgos com as cores de Guisa. Margarida recebia então a visita da Sr. O animal. revolvendo no espírito um novo pensamento. na Rua do Cerejal. Era a primeira vez que a bela baronesa saía depois da sua pretendida doença. Margarida felicitava-a pela sua convalescença e pela felicidade que tivera de escapar do súbito acesso dessa moléstia singular. ou ao menos uma igual à que ela tinha mandado entregar a Carlota. Oh! fatalidade! está claro. Seria Renato?. minha Senhora . cuja terça parte estava vazia. capitão de petardeiros do rei. veremos experimentando o ferro.o meu cão Brunot morreu inchado num minuto. entregou-lhe uma carta.Mas. Dirigindo-se imediatamente ao toucador. não sei se estarei bastante restabelecida. Zombaram de mim.Espero que há-de ir a essa grande caçada que já foi adiada uma vez . na sua qualidade de filha de França. o tempo está muito sereno. Com a ponta dum alfinete de ouro tirou dessa caixinha uma porção de massa da espessura duma pérola. a de Sauve. . engodado pelo cheiro. se ele deve reinar. e que se há-de fazer definitivamente amanhã. e enroscando-se no seu cestinho adormeceu. de Louviers de Maurevel.disse Margarida -. Soubera ela que a rainha tinha manifestado ao marido um grande desassossego por essa indisposição que. é impossível. servira de assunto nas conversações da corte. voltou ao quarto e apresentou-a ao macaquinho que Henrique lhe dera nessa mesma noite. junto do tirsenal. da qual. a qual passava visivelmente tão bem como ele. pegou Catarina na caixinha de prata. E Catarina deitou-se. e vinha agradecer-lhe. Então foi Henrique. Todos os nossos caçadores afirmam que será um dia dos mais favoráveis. Era exactamente a mesma. Essa carta era para o Sr. ordenou-lhe que a levasse ao seu destino. que seja o veneno que não tenha força para os acabar. não pode morrer. durante uma semana. que se achou certamente completo no dia seguinte. Talvez.disse a baronesa -. Apesar de ser Inverno. devorou-a avidamente.disse Catarina . 199 VIII A CARTA DE ROMA Dias depois dos acontecimentos que acabámos de narrar. Renato. . Com a metade do que ele acaba de comer . porém. e foi-se dar parte à rainha de Navarra que a Senhora Duquesa de Nevers solicitava a honra de cumprimentá-la.

disse Margarida com um sorriso ..disse a duquesa -. não o teria aceitado. que a baronesa compreendeu que as duas mulheres tinham que conversar juntas. Foi neste momento que anunciaram a Senhora Duquesa de Nevers. de Sauve subia a escada. mas ignorava que esse cavalinho estivesse destinado para a honra de ser oferecido a Vossa Majestade.Ai! . 200 Margarida estendeu-lhe a mão. irei. Seria. sentou-se sem cerimónia. baronesa . .a de Nevers trocava com a rainha alguns cumprimentos cerimoniosos que deram tempo a retirarem-se os fidalgos que a tinham acompanhado até ali.gritou Margarida logo que a porta se fechou -. nesse caso.Por orgulho.perguntou a Sr. .A propósito. nunca se exaure.Até amanhã.Oh! quanto me assusta esse ai. . será porventura demasiado respeitoso. Estou louca por ele.Minha cara rainha . querida rainha.tornou Margarida -. Enquanto a Sr. E tu. minha Senhora.continuou Margarida. vai? . certa de que ninguém viria estorvar essa intimidade convencionada entre ela e a rainha de Navarra. minha Senhora. .Então. minha Senhora. .exclamou Margarida com um suspiro. porque temos de falar de negócios muito sérios.E em particular? . mas até lhe agradeço.Então até amanhã . . e levantou-se para se retirar.disse a duquesa -. vê que ninguém nos estorve. . como eu sou uma guerreira. de resto. A esse nome deixou Margarida escapar um tal movimento de alegria. esse belo La Mole?.Ao contrário. O seu espírito é incomparável.Então como vamos? . despedindo-a com a mão -.que é feito do nosso matador? . . de Sauve.Oh! em particular. baronesa? .Gillonne . e que a conduzirá maravilhosa mente e sem receio algum. Visto que mo ordena.disse Margarida.Sim .Então Vossa Majestade permite. fez uma profunda reverência e saiu. pela minha alma! um ente mitológico. . depois. devo confessá-lo.Sim. Ainda não ouviu falar dele? . a não ser isso. Tem saídas que fariam rebentar de riso um santo no seu nicho. visto que estou horrivelmente zelosa.É muita honra que Vossa Majestade me faz. saltando como um cabritinho que se vê solto. lembre-se de que em público detesto-a. . é o pagão mais furioso que se tem cosido numa pele de católico. autorizei o rei a dispor dum lindo cavalinho do Béarn que eu devia montar. esse homem é. por humildade. . não só lhe perdoo. demasiado sentimental. a baronesa beijou-a com respeito.Pois faça um esforço . a Sr. que fazes do teu Apolo? . . . E puxando uma cadeira.

eu falarei a La Mole.inteiramente o contrário do seu amigo Cocunás. 201 . e este ai não se refere senão a mim. Realmente. me faz medo a mim mesma. .exclamou Henriqueta. dizia-lhe eu: Aníbal. . É tão doce. A propósito: indaga se o teu Aníbal é tão dedicado a meu irmão como me parece. querida e douta rainha.Oh! tanto melhor! . então bem. Assim. ele teve razão. e julga o homem: E a senhora . porque. digo-te eu.Crês nisso? . vê tu. será dedicado a teu irmão. repousar o espírito pelo coração. . ele tem os seus momentos .Pois atreveu-se a ameaçar-te. não me engane.Deveras? . munido duma unha cortada a modo de lança. dedicado até a um certo ponto. Julguei que ele ia responder-me: Eu. Pois sabes o que me respondeu?.Pois não! uma coisa das mais interessantes. o sorriso!. a sua fisionomia era tão sinistra. Não tinhas nenhuma outra coisa a dizer-me? . . tome conta. e por causa . minha pobre rainha. apesar de ser princesa.Que vida alegre nós vamos passar! Amar pouco era o meu sonho. não só com os olhos. Informa-te disso.É como te digo. pois não é?. Ah! Margarida. .Não. não se atreva a faltar às promessas que lhe fizer. E dizendo estas palavras. dedicado a alguém ou a alguma coisa? Bem se vê que não o conheces como eu.Palavra de Margarida.Sério? .Quer dizer.Não. Henriqueta? . cara duquesa.disse a rainha. tome conta também. e ter. Margarida. é verdade. etc. . . há momentos em que esse leão. . Se teu irmão é homem que lhe possa fazer grandes promessas. depois do delírio.respondeu ele . teu irmão que se acautele! . de contrário. é importante sabê-lo.Então veremos . com a qual me chegou quase ao nariz. porque se me enganar. ou antes. seco e pontudo. O outro dia. Confesso-te que naquele momento.disse Margarida pensativa -. Toda esta política me preocupa horrivelmente. mas com o seu dedo.disse Margarida -.Que quer ele dizer então? . até a um ponto muito incerto. . pelo contrário (não sei como isto é) vejo as coisas por entre um véu negro. tenho o pressentimento de que vamos passar um bom ano. enganá-la? eu? nunca! etc. amar muito era o teu.Eu to digo.se me enganar. Se se dedicar alguma vez a alguma coisa. .Ele. Eu também o ameaçava. . apesar de ser filho de França. mas que teu irmão.como te digo.Eu. que tenho um medo horrível de o amar deveras. há-de ser à sua ambição e a mais nada. Por fim de contas. que ainda tremo quando me lembro dela! E entretanto tu sabes que não sou medrosa. ameaçava-me. que eu tenho domesticado.

mas no fim da Ponte de Nossa Senhora.Oh! por vida minha! não sei de outros além dos que te transmito. vou dar-te uma carta do Sr. Depressa.observou Margarida.Sim.Vai às mil maravilhas. a menos que o homem que seguia o nosso correio. dia e noite. sem parar um instante! . . versos atrozes.Mas esse homem de quem me falavas há pouco? . o nosso correio tomou à direita. a de Nevers entregou a carta à rainha.Obrigada.E como recebeste esta carta? . que trouxe para que lhe faças chegar à mão por intermédio de La Mole. que tinha ordem de tocar no Palácio de Guisa antes de ir ao Louvre. Marcel. aqui a tens.continuou a rainha. . um correio de meu marido. Toma. Chegaram ambos ao mesmo tempo à barreira de S. não é como esse monstro do Cocunás. Presentemente não há em todo o Paris senão o rei. . Não. os pormenores! .Espera. Margarida abriu-a vivamente e correu-a com os olhos. ambos desceram a Rua MouflEetard a todo o galope. são notícias bem . Demais. Mas que queres? vieste falar. desta vez. Espera. correu sete dias. que tinha mudas como ele e que corria tão veloz como ele. E a Sr.Oh! que horrível mister! Esse desgraçado correio chegou estafado. e tinha escrito ao Sr. não é isto: isto são versos de Aníbal. . . ei-la aqui. ambos atravessaram a Cité.Que homem? . ainda não é isto: isto é um bilhetinho meu. tu e eu. . e de me entregar esta carta antes da do rei.E então? o negócio da Polónia. quem saiba esta notícia. quando o outro voltava à esquerda pela Praça do Châtelet e voava como uma seta pelo cais do lado do Louvre.Sim. minha boa Henriqueta. . . . esse pobre correio esperava a cada momento uma bala de pistola pelas costas.E tu não me dizias isso? . Eu sabia a importância que a minha rainha ligava a esta notícia. obrigada! . por todo esse espaço de quatrocentas léguas. de Nevers. Nunca os fez doutra maneira.Então o papa ratificou a eleição? .Por um correio de meu marido. Toma. desfeito. .disse Margarida. mas efectivamente não dizia mais do que o que ela já sabia pela boca da sua amiga. minha querida. Constantemente seguido por um homem de semblante feroz.da qual eu vim principalmente. Não. minha pobre Margarida.De Roma? .Tu tinhas razão. de Nevers para que se conduzisse assim. e tu vais provavelmente dentro em pouco ficar livre do teu irmão de Anjou. Ah! cá está: agora é a carta em questão.me de coisas mais interessantes ainda! Recebi notícias. coberto de pó. Bem vês que obedeceu. depressa.

de La Mole . escolhe um cavalo fogoso. a de Nevers saiu. .Procure saber dele se introduziu no quarto de seu amo um homem todo enlameado. para que dispare e possamos assim estar sós.disse-lhe a rainha. dê-mo. .disse a duquesa de Nevers a rir. fica descansada. .disse Margarida olhando para o marido . pode dizer-me quem está hoje de serviço no quarto do Sr. e pôs-se a vê-lo com tanta atenção que.disse La Mole. de La Mole .Não se poderia .interessantes. Henrique sentou-se a uma mesa. sobre a qual estava um livro alemão com gravuras de Alberto Drer. .Se lhe der este bilhete. vou mandar chamar o Sr. Margarida contou-lhe depois a história do segundo correio.Sim. não. creio que não deverá recear isso. mudo de surpresa. . E partiu. pareceu não o sentir. Gillonne.disse Henrique. Senhor . ficou de pé no limiar da câmara. dê-mo . Dir-te-ei esta noite o que convém que trates de saber do teu Cocunás.disse ele. vendo o rei no quarto de Margarida. de Alençon? . o qual veio correndo. . estou certo que não. 202 A Sr. e nem mesmo levantou a cabeça.Cocunás. .Não.Da duquesa?.Oh! oh! .É verdade . e empalidecendo de inquietação. Até esta noite.Com este bilhete respondo-lhe por tudo. quando chegou La Mole.Talvez fosse para a rainha-mãe. não é assim? .Sr. . . . mas como sabê-lo? .Saberemos amanhã se o duque de Alençon está instruído do . O mancebo. de La Mole. minha Senhora. Gillonne partiu. e saber por ele. sossegada com a proposição do marido -. minha Senhora . .mandar chamar um desses dois fidalgos. . na Rua Tizon. minha Senhora! receio bem que ele mo não diga: há dias que o vejo mui taciturno. não é assim? E amanhã. . .Ah. Margarida caminhou para ele. e que parece que fez uma longa jornada correndo a toda a brida.disse Henrique -. .disse La Mole muito alterado.perguntou ela -.disse Margarida. Gillonne! A dama apareceu.Diz bem. eu vi-o entrar no Louvre.Preciso falar já com o Sr.deve ser. . porque eu fui postar-me no corredor e não vi passar ninguém. Retira-te agora.Não. Para quem seria esse outro correio? Hei-de sabê-lo. .disse Henrique indiferentemente . . recebê-la-á a tempo. na caçada. .Não te esquecerás da minha carta? .Então .Para seu irmão de Alençon. Margarida mandou logo chamar Henrique. e condu-lo aqui.Vai procurá-lo. e deu-lhe a carta do duque de Nevers.

o rei de Navarra põe-se em movimento. um belo sol avermelhado. a mulher. no dia seguinte. arrebitando as orelhas e soprando fogo pelas ventas. nervoso. verá que. . dum negócio de importância. segundo ele diz. tem dinheiro. não sei porquê. Deus me perdoe! como se o soubesse.Valha-me Deus. que o coadjuva. tudo. porque ontem contei com o meu florete onze botoeiras no seu gibão.pois julga que o seu intento será matar-me.Ouça. voltando-se para Henrique. nós somos os únicos que sabemos da próxima chegada dos polacos. Catarina. mas ele estava menos impaciente ainda do que o dono. Carlos . ele está de inteligência com os huguenotes. roendo as unhas e dando com o chicote nos seus dois cães favoritos.negócio da Polónia . E quanto a meu irmão de Anjou. compra cavalos e armas. da qual sempre desconfiei. com pernas de veado. bem sabe que ainda atira melhor do que eu. Os embaixadores vão chegar.dizia Catarina -. revestidos de cotas de malha para que a tromba do javali não achasse presa e pudessem eles arrostar impunemente o terrível animal. Na frente dessas cotas viase um pequeno escudo das armas de França quase semelhante aos usados pelos pajens.tornou Catarina -. pelo santo sacrifício da missa! hei-de fazer-lhe a fortuna. como acontece nos dias privilegiados. e não trate ligeiramente o que lhe diz sua mãe. os quais por mais duma vez tinham invejado os grandes privilégios desses bem-aventurados favoritos. se levantou por detrás das colinas que circundavam Paris. mas sem raios. segundo dizia. quando é certo que nunca o teve. posto que delgado. a mim ou a meu irmão de Anjou? Nesse caso.disse tranquilamente Margarida. batendo com o pé. ou pelo menos tão bem. que o retivera na passagem para lhe falar. . desde as duas horas estava já em movimento no pátio do Louvre. Um magnífico cavalo da Berberia. Carlos IX agitado. sobre as quais as veias se cruzavam como uma rede. minha mãe! . Estavam ambos na galeria envidraçada. Apesar da sua abjuração. esperava no pátio por Carlos IX.Esse Sr.e. Henrique há-de fazer tudo quanto puder para lhes cativar a atenção. Carlos . fria. Não tem notado como ele sai a miúdo de certos dias para cá? Demais. ainda precisará dalgumas armas.Note bem. No entanto. e nos dias de chuva exercita-se na esgrima desde pela manhã até à noite. de La Mole é na verdade um guapo servidor disse o Bearnês com esse sorriso exclusivo dele . . pálida e impassível como sempre.disse Carlos IX impacientado . demorado por Catarina. que não tem senão seis. . não se há-de também esquecer de ir . apenas eles estiverem em Paris. 203 XXIX A PARTIDA Quando. Ele é insinuante e dissimulado.

Ah! isso não . Veremos.disse Carlos.tagarelar com eles. Neste momento deram dez horas.Valha-o Deus. na Bastilha.Meu filho . . quer que o mande matar.prosseguiu Catarina -. Há realmente dias em que a não entendo.Isso é outra coisa. 204 . está bem! .Carlos .Quero que seja posto em segurança enquanto estiverem aqui os polacos. Carlos (e bem sabe que nunca me engano) é que anda aqui alguma trama.Mas então que quer? diga depressa! .Ora aí está: sete horas! . em nome de Deus! e não barateie assim a sua fortuna e a da França. no Louvre. Catarina viu que o momento era propício e que não devia deixá-lo passar. nove. onde nada pode fazer que nós não saibamos imediatamente? . faz-me perder bastante tempo. . Os enviados não chegam senão amanhã ou depois. Carlos deixou de prestar atenção à mãe e pôs-se a contá-las. por exemplo. de Maurevel. Sem ele. E parou. Ora adeus. porque me está fazendo ferver o sangue. nós temos provas de que o Sr.disse ela -. . esta noite. grego. Henriquinho é um dos meus melhores companheiros. minha mãe! Parece que Vossa Majestade não pensa senão em contrariar-me! . Não terá bastante tempo para caçar quando os seus deveres de homem e de rei estiverem todos cumpridos?. meu querido filho! Eu não digo que seja esta manhã!. adeus caça. ouça-me. Hoje vamos nós bater o javali.expliquemo-nos depressa. um grito de viva dor. Prendamo-lo unicamente depois da caça.Está bem. depois da caça talvez me resolva. Creio que nos basta isto para que ele nos seja mais suspeito do que nunca. Leve-te o demo. . viu-o. Risquetout. O que lhe digo.Por isso mesmo não é o seu desterro que eu peço. Falaremos outra vez nisso. uma para chegar ao ponto. batendo nas botas com o cabo do chicote.uma para ir. minha mãe.Que o mande então desterrar? Mas. .exclamou ele . de Mouy voltou a Paris. O Sr. . não é assim? . chega. pálido de impaciência . Só me fala de caça!. de lhes falar latim. Não podia voltar senão por causa do rei de Navarra.Ora aí está outra vez a contas como meu pobre Henriquinho. Salta para baixo. esta tarde. como não vê que desterrado ele será muito mais para temer do que nunca o será aqui à nossa vista. que o meu filho bem conhece. soltar a matilha e desencovar. Adeus. cachorro! Salta para baixo! E uma violenta chicotada assentada no costado do molosso fez soltar ao pobre animal. só poderemos abrir a caça às nove horas Deveras. . . .Oh! não. todo espantado de receber um castigo em troca dos seus afagos. minha mãe.exclamou Carlos IX -. húngaro e não sei que mais. faz oito. Vamos.

fez assomar a vermelhidão às suas faces pálidas. um pergaminho. As trombetas ressoaram imediatamente. e o rei saiu do Louvre acompanhado do duque de Alençon. da Sr. minha mãe. a de Nevers. lhe disse ao ouvido: . ir buscar o selo e pergaminho. É escusado dizer que La Mole e Cocunás eram da partida. meu filho. Assim. o selo e uma vela acesa. creio que o melhor seria assinar já a ordem de prisão. foi saudado pelos vivas dos caçadores. E saltou para fora do gabinete seguido dos seus cães.Risquetout! também te amuas agora? . depois de três ou quatro galões. de Cocunás em pessoa à presença do Sr. de Margarida. O rei tomou o pergaminho e correu-o rapidamente com os olhos: Ordem. o rei acenou com a cabeça ao duque de Alençon e com a mão a sua irmã Margarida. Apenas feita uma saudação à brilhante companhia reunida no pátio. para ser preso e conduzido a Bastilha o nosso irmão Henrique de Navarra. empurrou uma porta que dava para o seu gabinete e apresentou ao rei um tinteiro. extasiou-se. assinando sem hesitar.disse ele. e montou o cavalo da Berberia.Carlos . contudo.Não. de Tavannes e dos principais senhores da corte. que nunca faço esperar ninguém? Isso de forma nenhuma! .Bem.Assinar. etc. de Alençon. etc. lesta como se apenas tivesse vinte anos. quando me esperam para a caça. impaciente. pelos relinchos dos cavalos e pelos latidos dos cães. Quanto ao duque de Anjou. Adeus. havia três meses. que. estava. Quando se estava esperando pelo rei. retendo-o pelo braço e arriscando-se à explosão que podia resultar dessa nova demora -. logo que ele apareceu. senão de tarde ou à noite. Carlos foi jovem e ditoso pelo espaço dum segundo. no cerco de Arrochela. do rei de Navarra. Todo esse estrondo. E Catarina. não se executando ela. eu. da Sr. 205 Carlos IX era esperado com impaciência. passou por diante do rei de Navarra sem mostrar que dava fé dele. um quarto de hora antes que o enviado do duque de Nevers fosse .disse Catarina. começou a corcovear. a qual. ao mesmo tempo que respondeu ao cumprimento.O correio que chegou de Roma foi conduzido pelo Sr. quem o ama como eu não pode querer demorar-lhe o seu prazer. a de Sauve. e como era sabida a sua pontualidade em matéria de caça todos se admiravam desta demora. pelas trombetas dos picadores. . . exultando por se ver tão facilmente livre de Catarina. de novo. uma pena. todo esse alvoroço. está pronta . lavrar uma ordem. conheceu o cavaleiro e acalmou. previ tudo: entre no meu quarto. aqui tem. tinha ido Henrique saudar sua mulher. Mas.

apesar do seu disfarce.Nenhuma. . meu Senhor? . A Sr.disse o Bearnês por entre dentes . e a respeito do lugar onde ele havia estabelecido o covil.Deve sabê-lo . bearnês de nascimento. disselhe: .Não tem resposta.apresentado ao rei. senão dizeres-me se o achaste. e vir ter comigo a Bondy. e o qual ele empregava como mensageiro ordinário nos negócios de amores. e podes então ir. fosse vista por mais de duas ou três . fazia mil travessuras para que as senhoras rissem. que me espere. bamboleou o selim do cavalo em que ia o rei de Navarra. Não entregues a chave senão a ele. Quanto a La Mole. que entre no meu quarto. enquanto o fiel servo ganhava a do Templo. Quando Henrique se reuniu ao rei. que tu sabes que mora na Rua dos Quatro Filhos. já tinha achado duas ou três vezes ocasião de beijar a mantinha branca. Dinis e depois ao arrabalde. . que se deite sobre a minha cama enquanto não chego. . Polónia e Navarra. com franjas de oiro. que era um solitário. sem que se repare. porque Cocunás. toma esta chave e vai levá-la à casa do primo da Sr. lhe brilham os olhos. O criado fez um sinal de obediência e afastou-se. demónio! Antes de sairmos de Paris. e parecia-lhe descobrir nos olhos do 206 irmão um certo embaraço todas as vezes que encarava com Henrique.Então sabe ele tudo . e se eu aí não estiver.Sim senhor. feita com a destreza ordinária dos amantes. Puseram-se todos em marcha pela Rua de Santo Honorato. estava Carlos empenhado com o duque de Alençon numa conversa tão interessante a respeito do tempo. tornou para o seu lugar e. da idade do javali emprazado. e tudo se passou como se combinara entre ele e o amo. diz-lhe que sua prima lhe deseja falar esta noite. levar o recado. sem contar o javali! Saudou a mulher. de Margarida. a de Sauve. eminentemente jovial nesse dia. fica para trás. passaram à de S. . chamando um dos fâmulos. entendes? . ao chegarem à Rua de S. cujos avós já estavam ao serviço dos seus havia um século.disse Henrique. demais lance uma vista para ele e veja como.caça hoje três peças: França.disse Margarida -.Orthon. o qual continuava a seguir com o cortejo real pela Rua dos Recoletos. Orthon correu. hei-de chamar-te para me apertares as cilhas do meu cavalo. sem que essa acção. que não percebeu.Espera. ou fingiu não perceber. Pudera não! . Lourenço. que Henrique tinha ficado um instante para trás. de Nevers ia toda entregue a uma alegria louca. não vás já. se eu tardar. Margarida observava de longe o ar de cada cavaleiro.

Estava pronta uma colação. à conta de Deus! O picador que dirigia o cortejo fez um sinal. e à cinta uma excelente faca de caça espanhola. . deixando descoberto somente o outro. e era acompanhado por vinte ou trinta fidalgos equipados como ele.pessoas. O javali estava no covil. e todo entregue à sua impaciência.sabe alguma coisa de novo? . a não ser que meu irmão Carlos o está olhando dum modo célebre. contra o estilo observado pelas pessoas chamadas à corte. O rei bebeu um copo de vinho da Hungria. chegou o duque de Guisa. Enquanto o rei dava o seu passeio. aguçada como uma agulha e com a qual furo dobrões. . enquanto uma barba grisalha lhe cobria a parte inferior do rosto. ao menos na aparência. . afiada como uma navalha de barba. mandava que introduzissem no seu gabinete o homem a quem alguns dias antes tinha o capitão das suas guardas levado um recado à Rua do Cerejal. marcharam para o ponto designado. se espalhava como dourado turbilhão pela estrada de Bondy.perguntou-lhe ele . ver as casas dos couteiros e suas dependências. Além de que. que nunca tinha montado outro melhor nem mais forte. tinha-se chegado ao covil. e mostrando entre as duas salientes maçãs do rosto a curva dum nariz de abutre.Tomou as suas precauções? .respondeu Margarida -. Vinha mais armado em guerra do que à caçador. recomendando que não lhe desaparelhassem o cavalo visto. montando a cavalo.respondeu Henrique. convidou as senhoras para a mesa. Henrique achou outra vez meio de aproximar-se da mulher.disse Margarida -. foi procurá-lo e voltou conversando com ele. Um grande penso de tafetá. enrolando o precioso pergaminho em que o rei Carlos acabava de pôr a sua assinatura. cobria um dos olhos desse homem. Durante o caminho. Uma . e todos. 207 MAUREVEL Enquanto toda essa mocidade alegre e descuidosa. . disse ele. debaixo da qual facilmente se adivinhava haver um arsenal completo. Catarina. foi. Às nove horas em ponto deu o rei em pessoa o sinal. Perguntou imediatamente onde estava o rei. semelhante a um selo fúnebre. Trazia uma manta comprida e grossa.Então? . Bairro do Arsenal. O primeiro cuidado de Carlos IX foi informar-se se o javali tinha esperado.Então . e o picador que o tinha emprazado respondia por ele. tinha à cintura uma comprida e larga espada de grandes copos.Tenho sobre o peito a minha cota de malha.Já percebi isso . tocando a desencovar. Chegou-se às oito horas e um quarto a Bondy. para empregar o tempo.Não .

em que tão assinalados serviços nos prestou. duvido. e como não achará duas na sua vida. .E em que parte do Louvre? . minha Senhora. .Ah! até que enfim chegou . que diria do Louvre. minha senhora? Na verdade. .disse Catarina. por exemplo? . receio unicamente pelo preâmbulo. ou.fique certa de que. . estou às ordens de Vossa Majestade.Como! .Onde lhe parecer melhor. não é esse o meu dever? . se precisos forem. Agradeça-me pois.Confesso que sim. minha Senhora. . .Oh! se Vossa Majestade me permitisse. .Bela ocasião para o senhor. E apresentou-lhe o pergaminho.Ah.Estou esperando. Esta de que lhe falo seria invejada pelos Tavannes e até pelos Guisas.Pois então.E que tem isso de extraordinário? . . .Graças sejam dadas a Vossa Majestade .Compreendo: em algum palácio real. seria grande favor. compreendo. . fui eu que a fiz nascer.Um rei.Não sei ainda.Pois sim.Se Vossa Majestade ordenar. prenda-o no Louvre.das mãos estava oculta.Sem dúvida.tornou o sujeito .Leve doze homens seguros. . qualquer que seja. minha Senhora! . . Sr. não o deixar desocupado? Apresenta-se uma ocasião.Pois então leia . depois do S.Como fará? . . receio não ser fidalgo de conveniente hierarquia. .ordem de prender o rei de Navarra? . mas onde hei-de prender o rei de Navarra? . bem quisera que Vossa Majestade me aconselhasse. obedecerá? .Num lugar cuja própria santidade me protegesse.Que seja violenta a comissão? Pois não é de comissões destas que são ávidos os que querem progredir?. e por isso lhe fico muito agradecido.A minha confiança constitui-o o primeiro fidalgo da minha corte.Então obedecerei. O sujeito descorou à medida que o ia lendo.Minha Senhora. .disse a rainha sentando-se. se possível fosse. de Maurevel . .Então. .disse Catarina.disse o assassino. para melhor dizer. ordeno. agradeço humildemente a Vossa Majestade respondeu o homem com uma discrição igualmente baixa e insolente. Sabe que lhe prometi. Bartolomeu. . mais. tão comovido que parecia hesitar. Vossa Majestade permite-me que tome todas as precauções e vantagens.exclamou . e não largava por baixo da manta o cabo do comprido punhal.Receia que lhe resistam? . aproveite-a pois. . .

não é provável. . . .Mau! . e essa ordem diz respeito a um simples fidalgo. não é assim? . minha Senhora.Pelo contrário.. e supunha que ainda se não tivesse esquecido. . minha Senhora? . e procurar matá-lo. .disse Catarina.Pois o senhor ignora que o rei de França no seu reino a ninguém deve atenções. mas enfim. . insistirei num ponto.Já lhe disse. minha Senhora. como.Sem a menor dúvida. isso é certo.Não se pode exigir dum valente que se deixe matar sem se defender. .se.E quando. não reconhecendo em ninguém jerarquia que se aproxime da sua? Maurevel inclinou-se outra vez. . quer isto dizer que o rei de França é o único rei. não se há-de deixar prender. . Maurevel empalideceu. .Sobre as atenções devidas à sua jerarquia. e defendendo. .Assim receio.matar o rei de Navarra?.Em que caso? .No seu próprio quarto.O senhor há-de defender-se .disse . quando representa o rei e acha resistência. . que tudo vai bem. Maurevel inclinou-se.e nesse caso? .Há-de contestá-la? . ou antes. .Mas quem lhe fala em matá-lo? Onde está a ordem de o matar? O rei quer que o levem à Bastilha.Oh! oh! . os mais elevados não passam de simples fidalgos. recusar-se-á a obedecer. Senhor.O que faz quando está encarregado duma ordem de el-rei. e que. Maurevel descorou.Esta tarde. . pois ia compreendendo.disse então . Deixe-se ele prender.continuou Catarina. mas. que devo fazer? . .Muito bem. . depois dele. . que quer? Há-de acontecer o que tiver de acontecer! Compreende-me. porém.Permito. . minha Senhora. se todavia Vossa Majestade mo permitir. Maurevel.E por consequência.Sim. sim senhor.E resistirá? . .Se o rei contestar a autenticidade da ordem.É provável. como há-de resistir. . agora digne-se Vossa Majestade informar-me somente sobre uma coisa.Atenções? jerarquia? . que o rei de França 210 não reconhece jerarquias no seu reino.perguntou Catarina com olhar fixo.Qual? . .Quando recebo a honra de semelhante ordem. Sr. isto é.Entretanto.No caso de ele resistir. esta noite. mato-o. . e a ordem só diz isso.

Bonita majestade essa.Vossa Majestade disse-me que levasse doze homens.Em que é que o que eu disse embaraça a execução? . não sabe? Pois lá lhe levarão o almoço.Acha agora tudo regular? . . só o devo prevenir de que não desejo que saia do Louvre. que não só é um rapagão fiel.Mas como entrar no quarto? O rei tem sem dúvida alguma suspeita e fechar-se-á por dentro. . para reunir os homens. se estiver abalado.disse Catarina -. E encolhendo os ombros. digo-lhe que o que um rei ordena deve. já que sem isso não acha exequível a comissão.Mas. .Pois pedirei licença para somente levar seis. .Porque.Tenho uma outra chave de todas as portas . para haver mais certeza. minha Senhora. Vou dar ordem para que o conduzam à sala de armas de el-rei. ser executado.Tome lá . . minha Senhora. peço somente a Vossa Majestade que me deixe a inteira disposição da empresa. Catarina abriu com uma das mãos o pergaminho e com a outra escreveu: morto ou vivo. . 211 E sem dar a Maurevel tempo de lhe responder. até logo. . comprometeria a honra do rei: isto é sério.Sim senhor. de Maurevel. que nenhuma desculpa é aceite.respondeu Maurevel -. Sabe onde é a sala de armas de el-rei. . Catarina . . . . enquanto que não haverá ninguém que desculpe a doze guardas o não terem deixado morrer metade dos seus camaradas antes de porem a mão numa majestade. como até me tem ajudado em empresas semelhantes. . e um mau resultado. quando meu filho voltar da caçada. facilmente desculparão a seis homens o terem tido receio de perder um preso. Por última recomendação. que nem reino tem!. .E porquê? . é o nascimento. não é o reino que faz o rei.disse ela. sim. Sr.Minha Senhora . antes de tudo. depois das palavras Ordem deprender acrescente morto ou vivo?.Sempre há-de ter por aí algum sargento a quem dê essa incumbência.Sim.Tenho o meu criado. acontecer alguma desgraça ao príncipe. O lugar reanimar-lhe-á o espírito. e da de Henrique já foram tirados os ferrolhos. minha Senhora. e de lá poderá dar as suas ordens. entrará no meu oratório e aguardará a hora. .Pois mande-o chamar e entenda-se com ele. minha Senhora . . Depois.Confesso.disse Maurevel -.. se.Pois seja. que assim desapareceriam os meus escrúpulos. como é provável. . Adeus. um simples revés. .Então quer que eu.Pois então proceda como lhe parecer.

chamou pelo Sr. de Nancey, seu capitão das guardas, e ordenou- lhe que levasse o Sr. de Maurevel para a sala de armas. Ora pois! - dizia Maurevel acompanhando o seu guia - vou subindo na jerarquia do assassinato: dum simples fidalgo a um capitão; dum capitão a um almirante; dum almirante a um rei sem coroa; quem sabe se um dia não chegarei a assassinar um rei coroado. 212 A CAÇADA O monteiro, que tinha encovado o javali e que tinha afirmado ao rei que o animal não havia deixado o recinto, não se havia enganado. Apenas soltaram o cão no rasto, meteu-se pela mata, e duma moita de espinhos fez saltar o javali, o qual, como havia sido reconhecido pelo monteiro, que estudara as pegadas, era um solitário, isto é, um animal dos maiores. Largaram-lhe prontamente a primeira matilha, e uns vinte cães se precipitaram atrás da presa. A caça era a paixão de Carlos. Apenas o javali atravessou o caminho, desatou o rei a galope, acompanhado do duque de Alençon e por Henrique, a quem um sinal de Margarida havia indicado que não saísse de junto do rei. Todos os mais caçadores seguiram atrás do rei. As coutadas reais estavam longe de ser, na época em que se passa a história que contamos, como são hoje, grandes parques plantados e cortados por caminhos de rodagem. Então, o aproveitamento das matas era quase nenhum: os reis não tinham tido ainda a lembrança de se fazerem negociantes e de dividir as suas matas em cortes regulares. As árvores, semeadas não por hábeis florestais, mas pela mão de Deus, que soltava a semente ao capricho do vento, não estavam dispostas em xadrez; cresciam, porém, à vontade, e como ainda hoje nos matos virgens da América. Em suma: uma floresta nesses tempos era um covil, onde formigavam javalis, lobos, veados e ladrões; e apenas uma dúzia de veredas, partindo dum centro, estrelavam a de Bondy, que uma estrada circular envolvia como um círculo abrange os raios duma roda. Levando a comparação mais longe, o cubo representaria sofrivelmente a única encruzilhada situada no centro da floresta, e em que se reuniam os caçadores perdidos para daí se arrojarem ao ponto em que aparecia outra vez a presa. Ao cabo de meia hora, aconteceu o que sempre acontecia em caso semelhante: obstáculos quase insuperáveis tinham-se oposto aos caçadores; as vozes dos cães tinham-se perdido ao longe, e o próprio rei voltara à encruzilhada, vociferando e praguejando como costumava. - Então, de Alençon? Então, Henriquinho? - disse o rei. Estão para aí assim quietos e sossegados como freiras que

acompanham a abadessa! Olhem que isso não é caçar! O Sr. de Alençon está tão cheiroso, que se passa entre a presa e os meus cães é capaz de lhes fazer perder o faro. E o senhor, Henriquinho, que fez do venábulo e do arcabuz? - Meu Senhor - disse Henrique -, para que é preciso um arcabuz? Sei que Vossa Majestade gosta de atirar à presa quando a tem segura pelos cães. E quanto ao venábulo, sou muito desajeitado para me servir dessa arma, que não é usada nas nossas montanhas, em que caçamos ursos só com o punhal. - Por minha alma, Henrique! quando voltar para os seus Pirenéus, há-de mandar-me uma 213 boa carroçada de ursos, pois há-de ser uma boa caçada a que se faz assim corpo a corpo com uma fera que nos pode matar. Escutem! parece-me que ouço os cães. Não; era engano. O rei pegou na trompa e deu um certo toque. Responderam-lhe repetindo o mesmo toque de vários pontos. De súbito, um monteiro apareceu e fez ouvir outro toque. - À vista! à vista! - bradou o rei. E precipitou-se a galope, acompanhado por todos os cavaleiros que se lhe haviam reunido. O monteiro não se havia enganado. À medida que o rei prosseguia, começava-se a ouvir o latir da matilha, composta então de mais de sessenta cães, porque tinham sido soltos, uns após outros, todos os que se haviam disposto nos lugares pelos quais já havia passado o javali. O rei viu-o passar outra vez; e, aproveitando um espaço em que as árvores eram altas, meteuse por entre elas tocando a trompa com toda a força. Os príncipes acompanharam-no por algum tempo. Tão robusto, porém, era o cavalo do rei, que no impulso do seu ardor precipitava-se por caminhos tão íngremes por matas tão densas, que, a princípio as senhoras, depois o duque de Guisa e os fidalgos, e, por fim, os dois príncipes, foram obrigados a abandoná-lo. Tavannes ainda o acompanhou até certo ponto; mas por fim também ele teve de renunciar. Todos, pois, excepto Carlos e alguns monteiros, que, excitados pela promessa duma recompensa, não queriam deixar o rei, acharam-se de novo ao pé da encruzilhada. Os dois príncipes estavam ao pé um do outro numa comprida alameda; a cem passos deles tinha parado o duque de Guisa com os seus criados; no centro da encruzilhada estavam as senhoras. - Não pareceria - disse o duque de Alençon a Henrique, mostrando-lhe com o canto do olho o duque de Guisa - que aquele homem, com a sua escolta coberta de ferro, é o verdadeiro rei? Pobres príncipes que somos! Nem nos faz a honra de olhar para nós! - Porque nos há-de ele tratar melhor do que nos tratam os nossos próprios parentes? - respondeu Henrique. - Ora, meu irmão, não estamos nós ambos prisioneiros na corte de

França, como reféns do nosso partido? O duque Francisco estremeceu ao ouvir essas palavras e olhou para Henrique, como para provocar mais ampla explicação; Henrique, porém, que se havia adiantado mais do que costumava fazer, calou-se. - Que quer dizer, Henrique? - instou o duque Francisco, evidentemente aflito por ver que o cunhado, não continuando, obrigava-o a ele a encetar essas explicações. - Digo, meu irmão - tornou Henrique -, que aqueles homens tão bem armados, que parecem ter por encargo não nos perderem de vista, têm toda a aparência de guardas incumbidos de obstar a que fujam duas pessoas. - Fugir para quê, e como? - perguntou de Alençon, representando admiravelmente o espanto e a ingenuidade. - Vossa Alteza tem um magnífico ginete - disse Henrique, prosseguindo no seu pensamento, e parecendo ao mesmo tempo mudar de conversação -, estou certo de que ele andaria sete léguas por hora, e vinte léguas daqui até ao meio-dia. O tempo está belo. tudo convida, palavra de honra! a largar a rédea. Veja que lindo atalho! Pois não se tenta, Francisco? Pela minha parte, as esporas abrasam-me. Francisco não respondeu nada; corou e fez-se pálido sucessivamente; depois aplicou o ouvido como para perceber onde estavam os caçadores. A notícia da Polónia está dando de si - disse Henrique - e o meu querido cunhado lá tem o seu plano. Bem quisera ele que eu fugisse; engana-se, porém, pois não hei-de fugir só. Mal acabava essa reflexão quando muitos recém- conversos, que havia dois ou três meses tinham voltado à corte, chegaram a galope e cortejaram os dois príncipes cheios de amabilidade. 214 Provocado pelas confidências de Henrique, o duque de Alençon não tinha senão que dizer uma palavra, que fazer um gesto; e era evidente que trinta a quarenta cavaleiros, reunidos nesse momento em redor deles como para fazer oposição ao grupo do Sr. de Guisa, favorecer-lhe-iam a fuga; voltou porém a cabeça e, levando a trompa à boca, tocou sem cessar a reunir. Entretanto, os recém-chegados, como se houvessem julgado que a hesitação do duque de Alençon provinha da inesperada presença da gente de Guisa, tinham-se a pouco e pouco metido entre ele e os dois príncipes, e formado com uma habilidade estratégica que revelava a longa prática da guerra. Com efeito, para chegar ao duque de Alençon e ao rei de Navarra, teria sido preciso esmagá-los primeiro, enquanto que se estendia a perder de vista diante dos dois irmãos uma longa estrada perfeitamente livre. De repente, entre as árvores, a dez passos do rei de Navarra, apareceu outro fidalgo, a quem os dois príncipes ainda não tinham visto. Henrique procurava adivinhar quem

era, quando ele, tirando o chapéu, se lhe deu a conhecer pelo visconde de Turenne, um dos caudilhos do partido protestante, que supunham estar no Poitou. O visconde arriscou até um sinal, que queria dizer: Então, vem? Mas Henrique, depois de haver bem consultado o rosto impassível e os olhos desanimados do duque de Alençon, volveu duas ou três vezes a cabeça nos ombros, como se o estivesse incomodando a gola do gibão. Era uma resposta negativa: o visconde compreendeu-a e, dando de esporas ao cavalo, sumiu-se. No mesmo momento ouviu-se a matilha aproximar-se; depois, pela extremidade da alameda em que estavam, viu-se passar o javali, e logo após os cães, e atrás deles, semelhante ao caçador infernal, Carlos IX, sem chapéu, com a trompa na boca, tocando a ponto de arrebentar os pulmões; acompanhavam-no três ou quatro monteiros. Tavannes tinha desaparecido. - El-rei! - bradou o duque de Alençon. E seguiu atrás dele. Henrique, tranquilizado pela presença dos seus bons amigos, fez-lhes sinal que não se retirassem e dirigiu-se para as senhoras. - E então? - disse Margarida, dando alguns passos para ele. - Minha Senhora - disse Henrique -, estamos caçando javalis. - E mais nada? - Mais nada; o vento mudou de ontem de manhã para cá; julgo, porém, que lhe havia predito que assim sucederia. - As mudanças de ventos são ruins para as caçadas, não é assim? - perguntou Margarida. - É exacto - disse Henrique -, confundem às vezes todas as disposições que se haviam adoptado, e obrigam a combinar novos planos. Neste momento começaram a ouvir-se os latidos da matilha, aproximando-se rapidamente, e um como tumultuoso ruído avisou os caçadores que se pusessem atentos. Cada qual levantou a cabeça e aplicou o ouvido. Quase imediatamente o javali apareceu, e em vez de se meter pela mata, seguiu a estrada que ia direita à encruzilhada em que estavam as damas, os fidalgos que as acompanhavam e os caçadores que haviam perdido a caça. Atrás dele, e quase que tocando-lhe, vinham trinta ou quarenta cães dos mais valentes, e após eles, a distância, quando muito, de vinte passos, o rei Carlos, sem nada na cabeça, sem capa, todo roto pelos espinhos, com a cara e as mãos cobertas de sangue, acompanhado somente de dois monteiros. O rei não largava a trompa senão para excitar os cães, não cessava de os excitar senão para fazer ressoar a trompa. O mundo inteiro havia desaparecido aos seus olhos. Se o cavalo houvesse afrouxado, teria bradado, como Ricardo III:

A minha coroa por um cavalo! 215 Mas o cavalo mostrava-se tão ardente como o cavaleiro: as patas mal tocavam no chão e as ventas deitavam fogo. O javali, os cães e o rei passaram como uma visão. - Halali! halali! - bradou o rei ao passar. E levou a trompa aos lábios ensanguentados. A poucos passos dele vinha o duque de Alençon e apenas dois monteiros; os cavalos dos outros tinham afrouxado, ou haviam-se perdido. Todos foram em seu seguimento, porquanto era evidente que o javali não tardaria muito que não tomasse a ofensiva. Com efeito, mal passados dez minutos, o javali deixou o caminho por onde ia e atirou-se para o mato; chegando porém a um claro, encostou-se a um rochedo e voltou-se para os cães. Aos gritos de Carlos, que o seguia, todos correram. Estava-se, enfim, no momento mais interessante da caçada; o animal parecia resolvido a uma defesa desesperada. Animados por uma carreira de mais de três horas, os cães arrojavamse contra ele com encarniçamento, que dobrava com os clamores e alaridos do rei. Todos os caçadores formaram círculo; o rei um pouco adiante, tendo atrás de si o duque de Alençon, armado com arcabuz, e Henrique, que só tinha uma simples faca de caça. O duque de Alençon desprendeu o arcabuz e acendeu a mecha; Henrique tirou a faca da bainha. Quanto ao duque de Guisa, que desdenhava dos exercícios de montaria, tinha-se desviado um pouco com os seus fidalgos. As damas, todas reunidas, formavam um ranchinho, que fazia simetria com o do duque de Guisa. Tudo quanto era caçador ficara com os olhos fitos no animal, numa expectativa cheia de ansiedade. Um pouco atrás, estava um monteiro forcejando por conter os dois molossos do rei, que, cobertos com saias de malha, uivando e precipitando-se com tanta força, que a cada instante pareciam arrebentar as correntes, esperavam pelo momento de acometer o javali. Este fazia prodígios: atacado ao mesmo tempo por uns quarenta cães, que de todos os lados procuravam filar-lhe a pele rugosa coberta de duras sedas arrepiadas, de cada focinhada atirava a dez passos de altura um cão, que caía com a barriga aberta, e que, com as entranhas de rastos, se confundia de novo na matilha, enquanto Carlos, com os cabelos eriçados, os olhos inflamados, as ventas abertas, curvado sobre o pescoço do cavalo coberto de suor, fazia ressoar um frenético halali. Em menos de dez minutos, vinte cães estavam fora de combate. - Os dogues! - bradou Carlos - os dogues! A este grito, o monteiro tirou as correntes aos molossos,

que, rápidos, saltaram ao meio da caniçaria, derrubando tudo, desviando tudo e abrindo com as férreas armaduras caminho que os levou ao encontro da fera, sobre a qual se arrojaram, filando-se-lhe cada um a uma das orelhas. O javali, sentindo-se seguro, rangeu os dentes cheio de raiva e de dor. - Bravo, Duredent! bravo, Risquetout! - bradou Carlos. Ânimo, meus cãezinhos! Um venábulo! um venábulo! dêem- me um venábulo! - Não quer antes o meu arcabuz? - disse o duque de Alençon. - Não! - exclamou o rei - não se sente entrar a bala, não há gosto, enquanto um venábulo sente-se quando vai entrando. Um venábulo! Apresentaram ao rei um, endurecido ao fogo e terminando numa ponta de ferro. - Meu irmão, cuidado! - exclamou Margarida. - Vá, vá, meu Senhor! - exclamou a duquesa de Nevers - Um golpe rijo nesse hereje! 216 - Deixe estar, duquesa - disse Carlos. E pondo em riste o seu venábulo, acometeu o javali, que, seguro pelos cães, não pôde evitar o golpe. Entretanto, ao ver o lustroso venábulo, fez um movimento para o lado e, em vez de lhe penetrar no peito, a arma escorregou e deu de encontro ao rochedo a que se havia encostado o animal. - Com todos os diabos do Inferno! - bradou Carlos - errei!. Outro venábulo, depressa! Outro venábulo! E recuando, como faziam os cavaleiros quando abriam campo, atirou a dez passos de distância o venábulo que pusera fora de serviço. Um monteiro correu a oferecer-lhe outro. Porém ao mesmo tempo, como se previsse a sorte que o esperava e tivesse querido subtrair-se-lhe, o javali, com orelhas dilaceradas e com os olhos injectados de sangue, horrível, todo arrepiado, com a respiração ruidosa como um fole de ferreiro, fazendo estalar os dentes, precipitou-se, com a cabeça inclinada, para o cavalo do rei. Carlos era tão destro caçador que havia previsto esse ataque; e por isso fez empinar o cavalo; tendo, porém, calculado mal a pressão do freio, o cavalo, urgido por ele, ou talvez levado de susto, deixou-se cair para trás. Todos os espectadores soltaram um grito de terror: uma das pernas do rei tinha ficado presa. - Largue as rédeas, Senhor! largue as rédeas! - disse Henrique. O rei largou as rédeas, agarrou na sela com a mão esquerda, procurando com a direita tirar a faca de caça: esta, porém, apertada pelo peso do corpo, não quis sair da bainha. - O javali! o javali! - bradou Carlos. - Acode-me, de Alençon, acode- me! Entretanto, o cavalo, entregue a si mesmo, como se compreendesse o perigo em que estava o dono

entesou os músculos, e já havia conseguido levantar-se sobre três pernas, quando, ao chamado do irmão, Henrique viu o duque de Alençon empalidecer horrivelmente e depois encostar ao ombro o arcabuz; em vez, porém, de ferir o javali, que estava a dois passos do rei, a bala foi quebrar o joelho do cavalo, que caiu outra vez ao chão. No mesmo momento, o javali, com uma focinhada, rasgou a bota do rei. Oh! - disse consigo de Alençon com os lábios descorados - julgo que o duque de Anjou é rei de França, e que eu sou rei da Polónia. Com efeito, o javali procurava rasgar a coxa de Carlos, quando este sentiu que alguém lhe levantava o braço, e viu depois brilhar um ferro agudo, que se cravava e desaparecia até ao cabo na espádua do animal, enquanto uma mão calçada de luva de ferro lhe desviava o focinho já fumegante de sob o fato do rei. Carlos, que, no movimento que fizera o cavalo, tinha conseguido desembaraçar a perna, levantou-se pesadamente e, vendo-se coberto de sangue, empalideceu como um cadáver. - Senhor - disse Henrique, que, sempre ajoelhado, tinha seguro o focinho do javali, ferido no coração - não é coisa de cuidado; pude desviar a tempo os dentes da fera, e Vossa Majestade não está ferido. Depois levantou-se, largando a faca, e o javali imediatamente caiu, deitando ainda mais sangue pela boca do que pela chaga. Carlos, rodeado de toda a gente, aflita, acolhido por gritos de terror que teriam vencido a coragem mais impassível, quase que caiu ao pé da fera agonizante. Dominou porém esse impulso e, voltando-se para o rei de Navarra, apertou-lhe a mão com um olhar em que brilhava o primeiro ímpeto de sensibilidade que no espaço de vinte e quatro anos lhe havia feito palpitar o coração, e disseLhe: - Obrigado, Henriquinho! - Meu pobre irmão! - exclamou de Alençon, aproximando-se do rei. 217 - Ah! és tu, de Alençon? - disse o rei. - Habilissimo atirador, que é feito da tua bala? - Há-de ter-se achatado, repelida pelo couro do javali. - Oh, meu querido! - exclamou Henrique com surpresa admiravelmente simulada - veja, Francisco, como a sua bala foi quebrar a perna do cavalo de Sua Majestade! é singular!. - Hem? - disse o rei. - É verdade? - Pode ser - disse o duque consternado -, a mão tremia-me tanto!. - O facto é que, para um hábil atirador, deu um tiro singularíssimo, Francisco! - disse o rei carregando o sobrolho. - Ainda uma vez, obrigado, Henriquinho! Meus

Senhores - prosseguiu o rei -, voltemos; já estou farto desta caçada. Margarida aproximou-se para felicitar Henrique. - Ah sim, Margot - disse-lhe Carlos - felicita-o e com toda a sinceridade pois, a não ser ele, o rei de França chamarse-ia Henrique III. - Ai, minha Senhora! - disse o Bearnês - o Senhor Duque de Anjou, que já não é muito meu amigo, vai ficar-me com maior ódio. Mas que quer? faz-se o que se pode; pergunte-o ao Sr. de Alençon. E, abaixando-se, tirou a faca do corpo do javali e cravou-a duas ou três vezes no chão para a limpar do sangue. 218 II FRATERNIDADE Salvando a vida de Carlos, Henrique tinha feito mais do que salvar a vida dum homem: tinha impedido que três reinos mudassem de soberanos. Com efeito, morto Carlos IX, o duque de Anjou passava a ser rei de França, e era muito provável que o duqe de Alençon passasse a ser rei da Polónia. Quanto à Navarra, como o duque de Anjou era amante da Sr. de Condé, a sua coroa pagaria provavelmente ao marido a excessiva condescendência da mulher. Ora, em toda essa grande transformação nada haveria de favorável para Henrique: apenas mudava de senhor, e em vez de Carlos IX, que o tolerava, via subir ao trono de França o duque de Anjou, que, formando com Catarina, sua mãe, uma só cabeça e um só coração, jurara matá-lo e não deixaria de cumprir o juramento. Todas estas ideias juntas lhe ocorreram ao espírito quando o javali se atirara a Carlos IX, e vimos o que resultou dessa reflexão, rápida como o raio, que à vida de Carlos IX estava vinculada a sua própria vida. Carlos fora salvo por uma dedicação cujo motivo era impossível ao rei descortinar. Porém Margarida havia compreendido tudo, e admirara a extraordinária coragem de Henrique que, semelhante ao raio, só brilhava no meio da tempestade. Infelizmente não bastava ter evitado o reinado do duque de Anjou, era preciso fazer-se rei a si próprio. Era preciso disputar Navarra ao duque de Alençon e ao príncipe de Condé; era preciso especialmente sair dessa corte em que caminhava entre dois precipícios, e sobretudo sair dela protegido por um filho de França. Henrique, ao voltar de Bondy, vinha meditando profundamente nesta situação, e ao chegar ao Lhouvre o seu plano estava feito. Sem mudar de fato, e tal como estava, ainda coberto de sangue e de poeira, foi ter com o duque de Alençon, a quem achou agitadíssimo, passeando a passo largo pela câmara.

Ao vê-lo, o príncipe teve um sobressalto. - É verdade - disse-lhe Henrique pegando-lhe nas mãos -, compreendo, meu bom irmão, que esteja agastado comigo por ter sido eu o primeiro que fiz com que o rei reparasse que a sua bala havia ferido a perna do cavalo em vez de ferir o javali, como era a sua tenção. Mas que quer? não pude reprimir uma exclamação de surpresa. Além de que o rei sempre o havia de vir a saber, não é verdade? - Certamente - disse de Alençon. - Todavia, não posso deixar de atribuir a má intenção essa espécie de denúncia que fez de mim, e que, como viu, não teve menor resultado do que tornar suspeitas a meu irmão Carlos as minhas intenções e pôr-nos em discórdia. 219 - Conversaremos logo a esse respeito; quanto à minha boa ou má intenção para com Vossa Alteza, venho de propósito tomá-lo por juiz. - Bem! - disse de Alençon com a sua costumada circunspecção - fale, Henrique, estou-o escutando. - Quando eu tiver falado, Francisco, verá quais são as minhas intenções; ora, a confidência que venho fazer-lhe exclui toda a discrição e toda a prudência, e quando eu lha tiver feito, com uma só palavra poder-me-á perder. - Então que é? - disse Francisco, começando a perturbar-se. - E entretanto, muito tempo hesitei antes de lhe vir falar acerca desse objecto, especialmente vendo como hoje se fez surdo e despercebido. - Na verdade - disse Francisco empalidecendo -, não sei o que quer dizer, Henrique... - Meu irmão, os seus interesses são-me tão caros, que devo preveni- lo de que os huguenotes se dirigiram a mim. - Dirigiram-se a si? - perguntou de Alençon - e para quê? - Um deles, o Sr. de Mouy de Saint-Phale, o filho do valente de Mouy, assassinado por Maurevel. (creio que sabe quem é). - Sei. - Pois esse veio ter comigo, expondo a sua vida, para convencer-me que eu estava em risco de ser preso. - Ora essa! e que lhe respondeu? - Meu irmão bem sabe que amo extraordinariamente Carlos, que me salvou a vida, e que a rainha Catarina foi para mim uma segunda mãe; rejeitei, pois, os oferecimentos que me vinha fazer. - E que oferecimentos eram? - Os huguenotes querem reconstituir o trono da Navarra, e como na realidade me pertence esse trono por direito de herança, ofereciam-mo.

em vez da adesão que vinha solicitar.Todavia . por mais bravo e leal que seja.continuou Henrique . .perguntou Francisco com vivacidade. e venho submetê-las a Vossa Alteza. .E para onde? .os huguenotes estão divididos.. A conspiração vai por diante. seria preciso reunir os dois partidos. . é evidente que há outro partido que quer coisa diversa do que quer o Sr. . julguei perceber que. pelas considerações que me fez. De modo que para o êxito ser completo.Reparei. .disse Francisco .Não senhor. há. conheceu-o? . . é provável .atalhou de Alençon.Não sei. ou por um . como a um amigo. Francisco fez-se lívido. tendo hesitado na primeira ocasião. Não tenho aspirações. e é bem triste a situação dum príncipe cuja riqueza é limitada por um marco no campo paterno. descontente de mim. repito. Sim. meu irmão? .tornou Henrique -. de Mouy lançava para outra parte as suas vistas. que o estou escutando. não perdeu a esperança de pôr no trono esse Henrique de Navarra que.Sim? e o Sr. como a um irmão . . convidaram-no a que fugisse.. de Mouy.. Vossa Alteza não reparou nos homens que compunham aquele grupo que se aproximou de nós na caçada? .Diga antes: como a um irmão. tenho meios de conhecer de modo infalível o chefe que ele escolheu. . Porém depois. . .Arrependeu-se.. que não é para desprezar. nem ambições nem tenho capacidade. pode depois ter reflectido.tornou Henrique. só se espera um sinal. de Mouy. Turenne e de Mouy. devo expor-lhe o estado da minha alma..Conheci. Ora. o Sr. era o visconde de Turenne. meu caro Francisco. . talvez para o príncipe de Condé. não sou mais que um bom fidalgo do campo.Sim.Primeiro que tudo. .Pois fale. e de Mouy.Que me queriam? compreendeu-o? . pobre e tímido. . e fortíssimo. recebeu a sua desistência. que de mim exige pronta solução.Oh. . as forças estão designadas.O chefe.Sim. . só representa metade do partido.Então .disse o duque. por escrito mesmo.Oh! cada dia tenho mais provas disso. . eram fidalgos conversos. o ofício de conspirador apresenta-me desgostos mal compensados pela perspectiva ainda que certa duma coroa.. meu irmão! . 220 . .disse Henrique a Francisco inquieto -. ponderei atento as duas resoluções entre as quais hesito.Pois julga.. .Compreendi. nessa posição suprema.Formal.não faz justiça a si próprio. que me fez um sinal.Mas .prosseguiu Henrique. Ora essa outra metade.

se julgasse ter um amigo verdadeiro. com o rosto cheio de manchas vermelhas e lívidas. Não direi nome nenhum.Em seu lugar. meu irmão. demitir-me-ia em seu favor do poder que me quer conferir o partido que de mim se ocupa. Oh! não a tinha o almirante? não a tinha Teligny? não a tinha o senhor?. e 221 aproveitaria. parece-me que protegeria os imprudentes. Por isso. por certo! A não ser Vossa Alteza. como todos quantos tiverem tido relações directas ou indirectas com eles. . pode ser funestíssimo à França. Henrique?.Meu Deus! . que faria? . francês. ninguém vejo que me seja afeiçoado. que aconteceriam tantas desgraças? Tendo a palavra de el-rei. Henrique como que reflectiu um instante. na verdade. por exemplo. Francisco sacudiu ironicamente a cabeça. depois talvez para o rei. . . que é a única esperança do partido.O que lhe digo é todavia tão verdade. herdeiro presuntivo da coroa. .exclamou de Alençon.acrescentou suspirando -.Em meu lugar. um acontecimento que. indigno.disse Henrique com o tom da mais perfeita ingenuidade . e mal converso (ao que se acredita) ao menos. Não acredito. príncipe de França. Bartolomeu contra todos os calvinistas do reino? Sabe que a rainha Catarina só espera uma ocasião dessas para exterminar tudo quanto da primeira vez escapou? E trémulo. pôr-me-ia à frente do movimento para o dirigir. um huguenote converso. o senhor.julga.Quem sabe? talvez se engane. ficam perdidos. . apertava a mão de Henrique para lhe suplicar que renunciasse a essa resolução que o perdia. meu irmão. no que diz. que. depois da morte do almirante. Henrique! se tal fizesse.Se eu fosse um príncipe importante na corte. mas . não falarei em lugar. nem em data. ir inteirar-me de tudo quanto ocorre o rei meu irmão. não só eles. Francisco. outro seria o meu proceder. prefiro. Em seu lugar.Não. primeiro para mim. Oh. . . levantaria o cutelo sobre os seus irmãos? Henrique. . O meu nome e a minha influência responderiam para a minha consciência pela vida dos sediciosos. não tenho amigos. se se passar de outro modo. pois.homem na carreira das honras.A palavra do rei Carlos IX. De Alençon escutou estas palavras com uma alegria . em vez de deixar abortar em horríveis dilacerações uma tentativa que talvez faça aparecer algum homem. sabe que provocaria um novo S. Henrique! sou eu quem lho diz: se faz isso. meu irmão.Como! .que está dizendo! O senhor. não podendo reprimir o seu terror . mas prevenirei a catástrofe.

que sempre mostrou aos da religião. não é isso que ia dizer? Francisco olhou para Henrique com um certo terror.disse Francisco . .continuou Henrique -.Ouça.Há fardos . pois.Mas esses nomes. . . dar-me-ei por feliz. sim . .demasiadamente pesados para certas mãos.Sim. um pobre terceiro filho de rei. desse modo. vivendo no meio da sua família. e que nos poupe todos os desastres que prevê? .disse Henrique. que não será mais que um dos florões da sua coroa. e que um capricho pode mandar para a Bastilha. . sim senhor .que esse meio seja praticável. e.Reinar na Navarra? .disse Francisco . o seu exterior modesto.disse de Alençon . Francisco corou de prazer. Francisco: para que nada lhe escape.Julga . quem mos descobrirá? . e depois.disse Francisco -. e uma floresta para eu caçar. a benevolência. meu irmão . e pelo receio em que ficariam de que Vossa Alteza. . Francisco. . provém isso talvez de ser Vossa Alteza perseguido como eu. . comigo e com minha mulher. .Eu. cos demónios! . já lhe disse que só de Vossa Alteza gosto nesta corte. Vossa Alteza aqui para tomar conta da herança justamente no dia em que o rei da Polónia souber que o trono está vago.disse Henrique sorrindo . enfim. estará. aceito-o.Pela confiança que em mim têm os chefes. levam-nos a servi-lo.Os huguenotes amamno.Se o duque de Anjou for nomeado rei da Polónia?. Aqui. e há quatrocentas de Paris a Cracóvia. tronco de reis. tão bem que não compreendo como renunciar ao plano que me propõe. o que é? Um pobre príncipe perseguido. reine na Navarra.Acredite-me.não há divisão no partido? Os que são pelo senhor serão por mim? . escravo dos dois mais velhos. Então. sabendo os nomes deles. percebo isso muito bem.Quais são? . se o duque de Anjou for nomeado rei da Polónia. minha mulher também lhe tem uma afeição sem igual. . contanto que me conserve um lugar na sua mesa. se estiver satisfeito comigo.Mas . .mas se.Pois ouça. o receio do cansaço tira-me a vontade. dar-me-á o reino de Navarra. incumba-se desse negócio.Encarrego-me de lhos conciliar por duas razões. Então nada palpita aqui? E o duque de Alençon pôs a mão sobre o coração de Henrique. há somente duzentas léguas de Pau a Paris. e se seu irmão Carlos.E fará isso? .Julgo. a sua posição ao mesmo tempo elevada e interessante. que Deus conserve.extraordinária. vier a morrer. O pior que lhe pode acontecer é ficar lá na Navarra. Francisco. é precisamente nessa hipótese que eu raciocino. Não procurarei levantar este. .

Dá licença que mostre a Henrique o lindo presente que acaba de me dar? .esta noite: às nove horas. E acrescentou em voz baixa: . não lhe dê cuidado. mas isso não basta. que será para o meu filho.Então renuncia deveras. . . Não cearemos pois hoje em comum: cada um de nós será servido no seu quarto. meu bom irmão! . segundo o seu costume. E quando se acalmaram estes entusiasmos. e acredite que Carlos e eu tratamos de fazer alguma coisa que nos desobrigue para com o meu bom Henrique. . . .disse Francisco. Henrique respirou como o atleta que na luta sente dobrar-se o adversário. Ah! Henrique. Depois recuou alguns passos. Henrique? . a lista dos chefes e o plano da empresa estarão em seu poder. e duplica-lhe o valor consentindo que lha ofereça. sem se anunciar. minha Senhora.Pelo sentimento de haver cumprido o seu dever . meu caro irmão . .estou agora certo de que não parto sozinho. Neste momento entrou Catarina na câmara de d'Alençon. inclinandose.disse consigo Henrique ao retirar.disse sorrindo .Está ouvindo. esquecia-me cumprimentá-lo pela sua coragem e pela sua destreza.E prová-lo-ei . para deixar que Catarina falasse em liberdade com o Filho. o seu irmão Carlos está muito cansado da queda. em tais circunstâncias. enquanto de Alençon empalidecia de susto.disse . em meu nome e no seu. . é necessário prová-lo.Se esta noite ouvir bulha no quarto do seu bom irmão Henrique. há-de ser por isso galardoado.se . e confundiuse em agradecimentos. .Mas. Francisco.disse Henrique com o maior sangue. e disse: . A rainha-mãe tirou então da bolsa uma jóia magnífica.Minha boa mãe deu-me esta linda fivela.Juntos? . Henrique extasiou-se sobre a beleza da fivela. e vai fazer outro tanto. acaba de achar uma .Ainda mais: dê-lha. . Depois inclinou-se e saiu.disse de Alençon -.que bons irmãos! . faço-lhe presente dela para o cinto da sua espada. Henrique? . salvou o seu rei e o seu irmão. não basta dizê-lo. que já tinha um corpo. e a conspiração. disse Catarina: .disse Henrique.Já o disse a de Mouy.. e por isso vou deitar-me. 222 Francisco tomou a mão de Henrique e apertou-a cordialmente.Já o estou.Esta fivela veio de Florença.Tudo quanto me vier de minha mãe e de meu cunhado será bem-vindo.Procuro sê-lo.frio. minha Senhora! .Meu filho sinto-me um tanto incomodada. Francisco tomou a mão da mãe. pois tenho encomendada outra igual.tornou Catarina -. minha Senhora . e repito-o a Vossa Alteza. Ah.

mal se havia recolhido para mudar de roupa.Ó ama. dormirei esta noite só. A ama obedeceu.cabeça e um coração. e como ainda não era chegada a hora de executar o seu projecto. depois. tudo havia compreendido. E. este. Dominado por esta ideia. Tendo. 223 II A GRATIDÃO DO REI CARLOS IX Maurevel tinha ficado parte do dia na sala de armas do rei. porém. Cos diabos. e vai dizer à rainha Isabel que. fecha bem todas as portas. Carlos bateu à porta da entrada. e dizendo-Lhe ela que era o mesmo que uma noite fora encarregado de lhe apresentar. Oh! oh! . porém. deram nove horas quando Carlos julgava serem apenas sete. Naturalmente foi cear com Margot . mandara-o entrar para o seu oratório com os esbirros que se lhe tinham vindo juntar. saiu pela porta secreta que tinha mandado abrir no madeiramento. Catarina promete-me recompensas. tomando o manto e o chapéu. Cos diabos! . ao menos pelo que me pareceu. dando com o rei. a princípio.disse Carlos . Carlos foi direito ao aposento de Henrique. Agora o que é preciso é ter cuidado! Catarina dá-me presentes. e saíra imediatamente. hei-de conferenciar esta noite com Margarida. mostrara-se irritadíssimo por ter havido alguém tão ousado que introdu zisse pessoas estranhas nos seus aposentos. ficou tão espantada . Carlos pôs-se a fazer versos. Carlos IX. Quando se recolheu. Cocunás e La Mole. e cuja existência era até ignorada por Catarina.disse consigo o rei estava hoje muito de bem com ela. deu alguns passos para ir ter com a mãe. assim. mandado à ama que Lhe indicasse as feições desse homem.disse . e lembrando-se da ordem que nessa manhã Lhe havia sido extorquida por sua mãe. quando Catarina vira aproximar-se a hora da volta da caçada. o rei reconhecera Maurevel. E encaminhou-se para os aposentos de Margarida. um tanto incomodado pela queda que dei. . Era a ocupação em que mais depressa corria o tempo para o rei. antes trabalhe cada um de nós por seu lado. avisado pela ama de que um homem passara parte do dia no seu gabinete. é ocasião mal escolhida. e à última levantou-se. Gillonne foi abrir. mas deteve-o um pensamento.é justamente a hora oportuna. Margarida tinha levado para os seus aposentos a duquesa de Nevers. e com eles estava ceando doces e pastéis.no mesmo dia em que ele me salvou a vida. se lhe falo nisto aí temos travada uma discussão que não terá fim. depois da sua conversação com de Alençon. Contou uma após outra as badaladas do sino.

Pobre Henriquinho! disse consigo .Estamos salvos! . . E levantou-se.Mau! .disse Henriqueta. . que estava a um canto com a duquesa de Nevers . sossegue . .exclamou Margarida.Sua Majestade!. deixou passar o rei sem dar outro sinal além do grito que soltara.Silêncio! . esse rosto tinha produzido nela impressão igual à que produziria a cabeça de Medusa. havia reconhecido Carlos. Levantou-se. e com voz que ia tomando formidável tom de impaciência. Enquanto os outros convivas sentiam como vacilar-lhes nos ombros as cabeças.aí temos nova complicação. minha Senhora. levantando o reposteiro e mostrando um rosto risonho.Pois sou algum desmancha.Safa-te! safa-te! .Henrique.disse a voz do rei de Navarra. . Mas. pegando na mão que supôs ser a de Cocunás . Sou eu .E eu deixá-lo-ei ficar no engano. . pois. ao pôr o pé no quarto de dormir. . foi de encontro a um homem que entrava pela passagem secreta. Cocunás foi o único que não perdeu a sua.prosseguiu em voz alta. encostou-se à parede e.disse Henrique.está-se divertindo sem saber o que o aguardava.exclamou ela espavorida.disse Cocunás. para que a minha presença cause todo esse barulho? Vamos Henriquinho! Henriquinho! onde estás? responde-me. entrou na sala de jantar. O rei atravessou a antecâmara e. . a baixela e as luzes. . . Margarida deu um grito terrível. largando com vivacidade a mão que segurava.disse a meia voz Margarida. . .Aqui. responda-me: onde está? . meu Senhor! . para se esconder no gabinete que lhe era tão conhecido.Com todos os diabos! que estão para aí a cochichar! exclamou Carlos.disse Carlos no escuro. e com ela os cristais.disse Henrique. . Os dois homens estavam com as costas voltadas para o rei. orientando-se com as mãos.Meu Deus! .Que quer dizer isto? . bem que risonho. e com tão estudado desleixo que fez cair a mesa. . e em vez de correr a ir dar parte a sua ama da augusta visita que ia receber. Sentada defronte da porta. respondendo no mesmo tom à rainha.' Carlos IX desposara Isabel de Áustria. 224 que mal pode fazer-lhe uma mesura.disse Cocunás a La Mole .o rei pensa que meu marido estava connosco. foi procurando o quarto de dormir. .prazeres.e ânimo! La Mole não esperou segunda recomendação. Durante um momento houve escuridão completa e silêncio de morte. filha de Maximiliano. guiado pelas gargalhadas que ouvia.Então estamos duas vezes perdidas .

Pela minha parte .disse de repente Margarida.Meu Senhor .disse Henrique. alumiava toda esta cena.Sim. de La Mole não está aqui. Henriquinho.perguntou a Henrique. deitei ao chão a mesa.Que horrível balbúrdia! . apertando o braço do marido. com mil diabos! não entendes o que te digo?. Será porventura o Sr.Ah.Estou pronto. vou ao meu quarto pôr outro manto e volto imediatamente.disse Margarida -. Margot. de Cocunás. .Como.tornou Henrique -.disse Henrique. . apanhou no meio das ruínas um candelabro. Mas Carlos dirigiu os olhos para Cocunás. meu irmão . que tudo adivinhou -. que alguma coisa extraordinária se passava. Carlos IX lançou em torno de si um olhar profundo e investigador.Não senhor .Desculpe-me. .Não é preciso.Quem é este fidalgo? . . quero hoje desencaminhar-te. a duquesa de Nevers estava sozinha a um canto.Cocunás. . Empresta. pois teria tido a honra de apresentá-lo a Vossa Majestade ao mesmo tempo que o Sr. chegou-se ao braseiro. . de La Mole? Quem lhe falaria em La Mole? disse Margarida para consigo. e Cocunás.disse Carlos IX. ao relancear ele a vista. . Henriquinho! Pois vem comigo.Vossa Majestade farme-ia a honra. tinha reflectido que por fim de contas haviam de se acender as velas. Vamos.tornou o Bearnês. Cocunás lançou para o rei de Navarra um olhar que parecia dizer: Ainda bem! isto é que é um marido entendido! 225 .disse Henrique . O quarto ficou alumiado.Mas. esse manto serve muito bem. o susto foi tal que. . e achando que quanto mais depressa melhor seria. Henrique estava ao lado de sua mulher. . . ao levantar-me. com o castiçal na mão. meu irmão! para isso não carece de licença. vá! . Senhor. muito nos assustou . audaz a ponto de ser imprudente. assoprou numas brasas e nelas acendeu o pavio da vela.mo. . sim.E por isso Vossa Majestade. . que continuava o seu ofício de alumiador acendendo outras velas. vamos acabá-la noutra parte. medindo de alto a baixo o piemontês. são dois inseparáveis. seu amigo. meu Senhor! . . e ambos . como pode ver.disse Henriqueta.Tens a ceia no chão. pode fazer o que lhe aprouver. vem comigo! . e sinto-o muito. pois lera nos olhos de Carlos. em pé no meio do quarto. amanhã de manhã to restituo. largou a mão da duquesa de Nevers.Digo-te que não voltes ao teu quarto. .Sim: a minha majestade faz-te a honra de te conduzir hoje para fora do Louvre.disse Henrique -. o Sr. não o esperávamos. . meu Senhor .

Henriquinho. ficando só no meu quarto?.disse o rei.Ah! ah! ao nosso hábil atirador! . Davam dez horas. de Alençon façam a corte a tua mulher? . dando-lhe o braço.prosseguiu o rei. sim senhor.o que sucederá a de Mouy. . vieram reunir. que os fidalgos do Sr. não estou bem certo se foi de Cocunás ou de La Mole que me falaram.disse Margarida. E com os seus grandes olhos fazendo uma última investigação pelo quarto.disseram-mo. Dizendo estas palavras. de Cocunás namora alguém. .Pura maledicência. respondo pelos sentimentos de minha mulher. e juntos meteram-se pelo interior da cidade.bem! E depois.Posso afiançar a Vossa Majestade que é verdade o que lhe estou dizendo.Então . Carlos abraçou Margarida e levou o rei de Navarra. quando o rei e Henrique se retiraram -. que julgo que por fim não hei-de poder estar sem ti.Quando respondes por alguém.disse Carlos . meu Senhor. bem! antes quero ver-te assim do que de outro modo. fiquei muito assustada.acrescentou . Henrique quis parar para falar com alguém. Henriquinho.Então esse Cocunás não lança um olhar terno para Margot? . de Alençon.Nem um nem outro. depois do que hoje fizeste. Entretanto. cos diabos! acredita no que te digo. reflectindo -. depois de Henrique e ele terem passado a ponte levadiça . . E esta! .pertencem à casa do Sr. .se-lhe. Carlos desatou a rir às gargalhadas. .Como assim.disse Henrique. . o rei pôs-se a assobiar dum modo particular: quatro fidalgos. .não te importa. Deus queira que o ar que não é bom para mim não seja pior para ele!. . franzindo a testa: .que venha o Sr. Henriquinho. meu Senhor . .Vamos! vamos! Sai depressa.Ora! . .Ora bem! .disse Henrique -. ficará para outra vez. Na porta do Louvre.tornou o rei .disse ele .Pois deveras? . Mas .Esse de La Mole .Respondo por ele como por mim próprio.Bem. o Sr. Viva a . palavra de honra! és tão bom rapaz. meu Senhor . bem quisera ver esse Sr.disse a duquesa -.Quem disse isso a Vossa Majestade? . . de Nevers. mas é a Sr.Não . E. que esperavam ao canto da Rua de Bauvais. meu Senhor! . .disse Henrique a meia voz .Converso.Bem . que eu lhe retorquirei 226 contando as façanhas da irmã. Henriquinho! Digo-te que o ar do Louvre não é bom para ti esta noite.não é huguenote? . de La Mole. de Guisa com os seus falatórios. voltemos para a mesa. não há mais que duvidar.

que está o senhor procurando assim por baixo das mesas.disse o piemontês. meu Senhor . de Nevers -. tivemos a honra de ser elevados a criados.Sim.Ah! ah! . . entretanto. . Sr.São apenas dez horas. . fez-me a honra de me olhar de revés quando soube que eu era do Sr. em que ficamos? . .Estou procurando o meu amigo La Mole .disse uma voz do meio do escuro -. porque estamos de serviço a Sua Alteza Real.disse Cocunás.chegam muito tarde. pelo contrário: despeçam-nos a todos imediatamente.disse a duquesa.Ora! ficamos na sobremesa. . Os dois mancebos cumprimentaram.E pode-se saber onde vão? . . bem sabes.Esse é outro caso. e que temos de acompanhar as peregrinas. todos no Louvre já estão recolhidos. e os nossos valentes podem servir-se das espadas. julgo que as senhoras querem fazer uma romaria para os lados da Rua do Rei da Sicília. e eis-nos às ordens de Vossa Alteza. já sei. .disse a Sr. .É por de mais curioso .Não viu nada. . .Deveras? . de Alençon e ainda mais quando soube que eu era teu amigo. E Cocunás entrou no quarto. levou consigo o marido.Presumes que Lhe têm falado mal de mim? . E os dois amigos foram expor à rainha e à duquesa a obrigação em que estavam de assistir pelo menos ao recolher do duque. Sr.Pois bem . dentro dos armários. Os dois mancebos foram cumprir as ordens. há aí um gabinete. O duque puxou pelo relógio.Sim. não me lembro que de fidalgos que éramos.Bem.Cos demónios! é verdade! Esqueço-me sempre do serviço.Não. O duque parecia esperá-los no gabinete. é impossível. . Mas. .É como te digo. partiremos nós.perguntou Cocunás.E o rei Carlos? .Como impossível! .disse Margarida -. . . .É verdade. quer que introduzamos os fidalgos do serviço do quarto? . .disse .Qziaere et invenies. . E ainda mais.Procure do lado do meu quarto.Então . de Co cunás? . meu Senhor.Antes receio que lhe tenham falado excessivamente bem.casa da Rua do Sino Rachado! Aí não se pode entrar sem um assédio regular. meus Senhores.E o rei de Navarra? . de Cocunás . Não é porém disso que se trata. 227 . e subiram apressados ao aposento do duque de Alençon. e depois voltaram .Mas.

o rei e Henrique corriam pela cidade.Sair a esta hora? . e não a criada. ao que parece. em procura das duas damas.disse Gillonne -. está no seu quarto.Não. Margarida e a Sr. . tinha encomendado orações pelo bom resultado de certa empresa importante. Tinha. encomendar em certas ocasiões rezas e missas cujo fim só Deus sabia.Minha Senhora .para junto do duque. a rainha de Navarra. .Foi assistir a uma sessão de alquimia. os acontecimentos imprevistos que lhe tinham prometido. Com efeito.Saibam se minha filha. sentada à cabeceira.eu mandei chamar a ama.e para onde iria? .perguntou a rainha-mãe. . Era o costume de Catarina. tomaram as capas e as espadas que usavam de noite e saíram precipitadamente do Louvre. de Sauve. lia-lhe alguns contos italianos. Cocunás e La Mole tinham saído atrás delas. no pavilhão em que habita a Sr.disse Cocunás -. . depois de haver consultado o médico e ter regulado as contas quotidianas da casa. podem retirar-se até amanhã. costume aliás todo florentino. De há muito que não se mostrava Catarina tão alegre.Bom! bom! . que deve ter lugar no Palácio de Guisa. segundo dizia. O pajem a quem era dada essa ordem saiu. meus Senhores. E os dois fidalgos subiram a correr a escada.disse baixinho Cocunás ao ouvido de La Mole toda a corte dorme hoje fora do paço. para a felicidade dos seus filhos. por fim. Entretanto.E quando volta? . 228 DEUS DISPÕE Como havia dito o duque aos dois mancebos. esperava. e daí a um instante voltou acompanhado por Gillonne. e a Sr. . fechado na sua câmara. por fim. o duque de Alençon ficava no seu aposento na ansiosa expectativa dos acontecimentos que lhe havia predito a rainha-mãe. digam-lhe que venha fazer-me companhia. Catarina havia-se deitado. o duque de Allençon. e escolhido entre as suas odoríferas bolsinhas e no seu rico sortimento alguns novos artigos. reinava no Louvre o mais profundo silêncio. de Nevers. Depois de ter ceado com as damas. .Ora essa! . e. com grande apetite. de Nevers tinham ido à Rua Tizon.Senhor Duque . .tornou Catarina carregando o sobrolho . . julguei que devia eu própria vir dizer a Vossa Majestade que a rainha de Navarra saiu com a sua amiga a duquesa de Nevers. . de que muito se ria a boa rainha. Vossa Alteza vai sem dúvida recolher-se ou trabalhar. com os olhos muito abertos e o ouvido à escuta. com quem se encontraram na Rua do Coq-Saint-Honoré. e se estiver.disse a rainha-mãe . tornado a ver Renato.

Leia. imprecações!.disse a dama empalidecendo -. a baronesa de Sauve fitou na rainha um olhar investigador. Tem amigas e é rainha. leia. por isso é provável que Sua Majestade fique até amanhã de manhã em casa da sua amiga.e porque deixou de ler. . .disse esta. . minha Senhora. .E um tiro . tem coroa.Quer. Depois desta exclamação.disse Catarina.Haverá meia hora. e a Sr de Sauve continuou a ler. levantando o braço para dar mais energia à sua ordem. Era o sinal esperado por Maurevel.Quem me defenderia se houvesse algum perigo? Hão-de ser alguns suíços embriagados que estão a brigar. Além de que não é coisa muito extraordinária no Louvre um grito e um tiro. .Um grito? um tiro? .Continue a ler. então afirma que saiu? . minha Senhora! .disse Catarina . ecoou até ao régio quarto e fez arrepiar os cabelos de todos os presentes. e não tem súbditos. Carlota.acrescentou o capitão das guardas.Um grito! . fique .Ah! a propósito .disse a rainha. escute. formava tão notável contraste que.ouvem-se passos. mandem retirar os guardas da galeria. Como é feliz!. que vá ver o que é? .exclamou Catarina. A Sr.Mas.perguntou Catarina. oposto ao terror que adejava em toda a assembleia. .O quê? .Que é isso? . tratam-na por majestade. . minha Senhora. e não se animando a sair sem ordem da rainha . pela minha parte. Passados dez minutos. Catarina atalhou a leitura.disse Catarina.. sem interrupção.A sessão há-de ir até alta noite. 229 . de Nancey estava em pé com a mão na espada.prosseguiu Catarina -. Tinha lido durante um quarto de hora pouco mais ou menos.Não senhor. Executaram a ordem de Catarina. .Eu. pois não ouviu? . . Ouviu-se em seguida um tiro de pistola. Carlota? . Carlota . O sossego da rainha. de Sauve prosseguiu. . já que saiu. retire-se. Gillonne inclinou-se e saiu. não ouvi nada. .disse o capitão das guardas.E demais . quando um grito terrível. que fez sorrirem a furto os que a ouviam: .Como é feliz a rainha de Navarra! . enquanto o Sr. por mais tímida que fosse. .Tánto melhor.disse -.Minha Senhora . profundo.

Enfim. apesar do poder que tinha sobre si. espero que. dirigindo-se ao Sr. Henrique havia julgado conveniente fazer uma visita a Margarida. enfiado na cinta as suas pistolas. o livro caiu-lhe das mãos e desmaiou. levantou-se também. começavam singularmente a agitar-se. 230 Eis o que havia. que era brocada. Vimos como. com um alfinete havia tirado o papel.Mas. dir. se houve escândalo no palácio.. A Sr. irei eu própria ver o que há. de Mouy tinha vestido uma armadura cuja solidez em mais duma ocasião experimentara. direita. representava-lhe um terrível perigo suspenso sobre uma cabeça que lhe era tão querida. pois estava murmurando uma oração .Meu Deus! meu Deus! . .se-ia que estão matando alguém!. o que tinha havido: Pela manhã. De repente.Fiquem todos aqui. Nesta chave. depois de alguns minutos desse combate. o pensamento. Orthon havia-lhe verbalmente trazido um convite de Henrique. dois tiros fizeram estalar os vidros. fará amanhã castigar com severidade os culpados. antes de se recolher ao quarto. Era o santo-e-senha do Louvre para essa noite. havia afivelado a espada.Que tola! . numa imobilidade que muito se assemelhava à prostração. Carlota. cobrindo tudo com a famosa capa cor de cereja de La Mole. com os olhos dilatados. passos rápidos e pesados abalaram o corredor. Além disso. Às nove e meia. por cima tinha abotoado um gibão de seda. havia de Mouy recebido das mãos de Orthon a chave de Henrique. que a voz deixou de ser inteligível. E Catarina recostou-se sobre as almofadas.disse a rainha.Está acabado! está acabado! . e no momento em que o capitão das guardas ia sair da câmara agarrou-lhe no braço.Capitão prosseguiu. e Catarina. a bulha vem do lado do seu quarto. dizendo: . de Nancey -.disse Catarina. errando sobre outros objectos. minha Senhora . achou-se tão opressa pela comoção e pela etiqueta. tinha visto um papel embrulhado. pálida. espantada dessa luta mais prolongada do que cal culara. porém só estavam ocupados os olhos e a voz. Continue a ler. pois repararam os assistentes que lhe inundavam o rosto grossas gotas de suor. para ir ter com ele ao Louvre às dez horas. de Sauve obedeceu a essa ordem formal. e como tinha chegado pela escada secreta justamente a tempo de ir de encontro a La Mole no quarto de dormir de Margarida. cujos lábios. .exclamou ela -. de Sauve encostandose à cadeira.exclamou a Sr. ou antes. .Pode ser que o rei de Navarra. .que tola! Em tudo vê o seu rei de Navarra! . ouviu-se um ruído mais violento.E a quem haviam de matar? . e .

Achou na antecâmara Orthon. pôs na banca da cabeceira as pistolas e estendeu-se na grande cama de cores escuras que guarnecia o fundo do quarto.capitão. o andar de La Mole.de tomar o lugar dele aos olhos do rei. e mais ainda à famosa capa cor de cereja. Era precisamente nesse momento que. Foi então que seis homens. entregou-se a um sono pesado. na sala de jantar. seguras à cinta por fivelas de prata. que o fizesse entrar e lhe pedisse que o esperasse. O mancebo subiu imediatamente ao quarto do rei de Navarra. . De Mouy roncava como um soldado. parou. aproveitando o convite de Henrique. certo de que não o surpreenderiam.disse o imediato.Sr. . .disse Maurevel -. desculpado demais pelas leis da familiaridade que então havia entre os príncipes e os seus fidalgos. Enfim. e é se está em casa a pessoa que procuramos. . Isso.disse-lhe o montanhês -. . se introduziram em silêncio pelo corredor que dava por uma portinha para os aposentos de Catarina. De Mouy entrou sem querer mais explicações. Um desses seis homens ia adiante. somente o ocupou um quarto de hora e. chegando. o rei saiu.Estão bem certos de que não há sentinelas no corredor? perguntou ele ao que parecia ser o seu imediato no comando daquela gente que vinha sob as suas ordens. porém. pôs-se a contar as postas que havia de Paris até Pau. além da espada desembainhada. levantou-se e tornou-se a sentar. Se se demorar muito. pois o que lhe acabava de dizer Orthon não era mais do que a repetição do que lhe havia dito pela manhã. .Mas. ordenou-me. saiba que ele o convida a descansar na sua cama. esfregou os olhos. de Mouy atravessava a grade do Louvre. como costumava.Bem . com as espadas nas mãos e pistolas à cinta. pois estava um criado na antecâmara. graças à senha que Henrique lhe mandara. esse quarto é o do rei de Navarra.Nem uma só está no seu posto. segurando na mão que Maurevel levava à fechadura da porta . agora só nos resta saber uma coisa. de Mouy tomou uma pena e tinta e. não soube mais em que se entreter. porém. que o esperava. de Mouy . sentou-se. Para aproveitar o tempo. abriu a boca. Deu duas ou três voltas pelo quarto. e dum punhal forte como uma faca de caça. trazia mais umas pistolas de confiança. e por uma porta grande para os de Henrique. cuja bulha em breve despertou todos os ecos da alcova. Chegando à porta da antecâmara de Henrique. Esse homem era Maurevel. pôs a espada desembainhada ao lado da perna e. . imitando. e nesse ponto teria porfiado com o próprio rei de Navarra.se para um excelente mapa de França pendurado na parede. acabado esse trabalho.

Estes inclinaram-se com respeito. . e que sem uma ordem assinada pelo próprio punho do rei Carlos IX. .Quem são? .disse Maurevel. sim. dois homens na porta exterior. . .replicou Maurevel.Coitado do rei de Navarra! . a menor infracção a esta ordem é punida de morte. diria que a coisa é muito séria.exclamou o que parecia ser o segundo-chefe prender alguém a esta hora no Louvre.Bem . entregoua ao imediato. . No mesmo instante.Está escrito lá no Céu que não poderá escapar. eis o plano: dois de vocês hão-de ficar nesta porta. se eu lhes disser que quem vamos prender é o próprio rei de Navarra? . . ouvindo a ruidosa respiração do que dormia .Ouçam-me. entrou com os outros quatro na antecâmaca. desse Maurevel. ele tem carta branca .perguntou o imediato. .Em nome do rei . .Eu. a quem chamavam o matador do rei.disse Orthon. . onde está teu amo? .ajuntou Maurevel.respondeu este depois de ter lido . E tirando do gibão a ordem que lhe dera Catarina.nada mais tenho a dizer.. tomando das mãos do imediato a ordem de Catarina e metendo-a no seio.Leia .O rei de Navarra não está no paço . .disse Maurevel.disse um dos homens. Depois meteu na fechadura a chave que lhe dera Catarina e deixando.Temos ordem de impedir que o preso chame.tornou Maurevel -. grite ou resista. e colocando-se diante da segunda porta: .É como diz .disse Orthon . o criado fiel recuou.disse 1laurevel -.prosseguiu Maurevel.Quem diz o contrário? . como resolvera. mas deu com os cinco homens armados que ocupavam o primeiro quarto. Orthon. e deram um passo para trás. .Ah! ah! .Oh! oh! . foi ao seu encontro. pensando que era o amo que se recolhia. 231 Os esbirros olharam atónitos uns para os outros.E que dirão . e os outros dois entrarão comigo. dois na porta do quarto de dormir.E aqui na Terra também .disse Maurevel.Sim. À vista desse rosto sinistro. capitão.e que querem? .E está decidido? . dirigindo-se aos outros esbirros.parece que acharemos aqui o que procuramos.Estou. pois.disse o imediato ao homem designado para com ele acompanhar Maurevel ao quarto do rei. . . . . .E vocês? .Sim.Meu amo? . o rei de Navarra. nos aposentos do rei de Navarra? .E depois? .

Às armas! às armas!. e um dos guardas que se achavam atrás do chefe. viram a cama. e um homem. caiu morto. isto é. A luz duma lâmpada que ardia em cima da mesa de cabeceira. apareceu sentado. mentira! Vamos! para trás! Os Bearneses são teimosos. armado de couraça. mas.Vamos! a ele! . No mesmo instante. Maurevel tapou-lha com a mão.Não entra! . Apenas o viu. e como se se tivesse achado diante dum espectro. tendo na cabeça um desses elmos que desciam até aos olhos. e indo a abrir a boca para gritar. os que tinham entrado com Maurevel no quarto do rei. e sem se intimidar: . . tornou-se de hedionda palidez. . ferido no coração. encheu-se-lhe de espuma a boca. arrancaram-no da ombreira da porta a que se segurava.defendendo mais do que nunca a entrada -. precedidos de Maurevel.O rei está ausente. este ajoelhou ao mesmo tempo que de Mouy puxava o gatilho: a pistola disparou. não podem portanto entrar. ao mesmo tempo que ele as proferia. depois.Oh! oh! . dois deles ficaram nessa segunda porta. De Mouy levantou-se de repente. um grito rouco. este rosnou como um cão das suas montanhas. e os outros três entraram. a pistola levantou-se à altura da cabeça de Maurevel. que mais parecia o rugido dum leão.Pretexto. e que ficara descoberto.disse de Mouy com voz abafada . deu um passo para trás. que de repente se abriram.Ah! malvado! . reconheceu Maurevel que era o cavaleiro de Mouy e sentiu arrepiarem-se-lhe os cabelos. Orthon mordeu com fúria o assassino. os quatro homens agarraram no recalcitrante. saiu debaixo dos cortinados. A esta voz. e o que ameaçava parecia fugir. e deu para diante um passo igual ao que Maurevel havia dado para trás.vens para me matar. . Os assassinos passaram-lhe por cima. E agarrou-se à porta. porém a bala foi achatar-se na couraça de de Mouy. foram os únicos que ouviram essas palavras terríveis. e com os 232 copos da espada deu na cabeça do fiel criado uma pancada tão forte que este vacilou e caiu. de modo que o que estava ameaçado parecia perseguir.parece-me que não ouço ressonar.disse. Maurevel correspondeu. .disse o imediato . . com duas pistolas nas mãos e a espada desembainhada. Maurevel fez um gesto. gritando: . como mataste meu pai! Dois dos esbirros. Os cortinados estavam fechados.disse Maurevel. . que tirou a mão dando um grito abafado.

233 . Aí deu com o pé num cadáver. foi direita ao corredor. caindo para trás. minha Senhora . aproveitando a escuridão. saltou com um pulo dez degraus.disse Catarina com voz mais imperativa do que da primeira vez -. que se apagou. de Mouy. Enfim. e saiu gritando: . deram-lhe dois tiros de pistola: porém as balas. De Mouy hesitou um momento. saiu do quarto.Fique. . porém brevíssimo.Então. fique! Há sempre ao lado dos reis uma protecção mais eficaz do que a espada do homem. até desaparecer pela Rua do Coq sem levar um arranhão.Vão lá acima. Catarina chegou à porta da entrada. repetindo o santo-e. O combate foi terrível. cuja porta lhe parecia que acabava de abrir-se. pois ainda tinha uma pistola carregada. travou-lhe da espada.disse ela consigo . Maurevel sentiu logo na garganta o frio do ferro. ordena-me que a acompanhe. sem saber se devia fugir para os aposentos do Sr. para os aposentos do rei de Navarra. diante da cama. ofenderam só as paredes do corredor. Então Catarina tomou a lâmpada. foi andando a toda a pressa. o perigo a que Vossa Majestade se expõe. mal dirigidas. Ah ah! . tomando impulso. desde esse momento ficou salvo. além dessa espada que despedia golpes tão terríveis. que eu vou ver o que é. voltando-se para Maurevel. um homem. repeliu o outro e passou como um raio por entre os esbirros que estavam de guarda à porta exterior. que. deu um grito sufocado e. com o rosto pálido como o dum cadáver. que estão matando gente por conta do rei! E aproveitando o pasmo que. fez cair um dos guardas. O capitão obedeceu.cá está o pajem. decidiu-se por este último partido. e caminhou. daqui a pouco havemos de achar o amo. abaixou a lâmpada: era o do guarda que tinha ficado com a cabeça partida. e. Tudo havia voltado ao silêncio. transpôs o limiar e viu logo na antecâmara Orthon desmaiado. e medindo a distância. continuou na sua carreira.respondeu o capitão -. Senhor . vigoroso e ágil como um herói de Homero. ainda cheio de fumo. por um momento demorada. precipitando-se de cabeça baixa para a antecâmara. fria. meteu os pés descalços numas chinelas de veludo. Era neste momento que Catarina detinha o capitão da guarda dizendo: . E passou à segunda porta. de Alençon. abriu o crânio do outro guarda. estava morto. chegou à grade. e a soltar o último suspiro. deitou ao chão a lâmpada.Fique.senha. Imediatamente. de Mouy com um golpe da sua larga espada.Mas. as suas palavras haviam causado à guarda. perdendo sangue . impassível como um espectro. junto aos tiros de pistola. Três passos adiante deu com o imediato ferido pela bala. ou se devia tratar de sair do Louvre.

que correra atraído pelos tiros. Vendo entrar homens armados no quarto do rei de Navarra.Fala! . Aos primeiros passos que ouviu no corredor. desta vez ficou não só mudo.Recolha-se para o seu quarto. Um calafrio correu pelas veias de Catarina. uma espuma avermelhada cobriu-lhe os lábios. viu deserta a cama. Era Maurevel. Mas que é isto. agarrando-se com as mãos convulsas. os tiros e os passos apressados de alguém que fugia tinham-lhe chamado a atenção. mas até imóvel. Francisco.Sim. fez depois um esforço violento. meu Deus? . e comparando esse facto com as palavras de Catarina. .perguntou o duque. Maurevel reconheceu Catarina. e fez de novo ouvir alguns sons inarticulados. forcejava por se levantar. . e sacudiu a cabeça em sinal de dor e da impossibilidade de responder. mas um silvo ininteligível foi o que unicamente lhe saiu da ferida.onde está ele? que foi feito dele? Desgraçado! deixou-o escapar? Maurevel procurou articular algumas palavras.lhe um papel do gibão. e estendeu para ela os braços com um gesto de desespero.fala! ainda que só me digas uma palavra! Maurevel mostrou a ferida.por uma dupla ferida que lhe atravessava a garganta. e tinha visto no espaço luminoso deixado pela abertura da porta da escada desaparecer uma capa vermelha. 235 . que lhe era tão familiar que não podia deixar de a reconhecer.exclamou Catarina . e um silêncio de morte pairava sobre toda essa cena. mas sem o despertar. e debalde procurou entre esses três homens estendidos sobre o seu próprio sangue. Catarina tirou-lha e escondeu-a no seio.Então? . pusera-se à escuta. olhou em torno de si. .disse ela a meia voz . o sangue corria em ondas pelo quarto. Neste momento ouviu Catarina algum rumor atrás de si. com que só conseguiu dar um ronco. era a ordem de prisão assinada pelo rei. Catarina olhou então em volta de si. estava rodeada só de cadáveres e de moribundos. e desmaiou. os olhos dilataram-se-lhe de modo horrível.O senhor aqui? . . voltou-se. . Logo depois. o cadáver que ela esperava. depois saberá o que houve. Dirigiu ainda uma vez a palavra a Maurevel. saía. minha Senhora. e que estava fascinado pelo espectáculo que tinha diante dos olhos. e viu à porta do quarto o duque de Alençon.disse-lhe a rainha. adivinhara o que ia haver e tinha-se felicitado por ver um amigo tão perigoso destruído por mão mais forte do que a sua. De Alençon não estava tão ignorante do que ocorrera como Catarina supunha.

dirigira-se às portas do Louvre. subiu rapidamente ao quarto dos dois mancebos.de Mouy no quarto do meu cunhado de Navarra!.Quando saio do Louvre . passou a mão pela testa e compôs um sorriso banal. minha Senhora? . E voltando para o teatro do combate. . Com a palidez no rosto. . respiro. que Maurevel. de Sauve. por estar somente ferido. Estava vazio. e era então de Mouy. simulando obediência e sossego.escapou ainda desta vez. .exclamou de repente a Sr.perguntaram todos os presentes menos a Sr. ao abrir a porta do quarto. mas se esse desejo se tornar excessivo. mas em um dos cantos viu pendurada a famosa capa cor de cereja. .exclamou .cada um dos passos de Vossa Majestade deixa um vestígio de sangue no tapete! 236 A NOITE DOS REIS Entretanto Carlos IX ia andando ao lado de Henrique. Enganou-se . Desesperada por ver inútil esta nova tentativa.Então que era. .disse consigo.respondeu Catarina -. pois minha mãe gosta tanto de ti que não pode . Aí tinham-no informado que a capa cor de cereja escapara a salvo. eu compreendo muito bem que tenhas desejo de para lá voltar.Pois sim.disse Henrique. Catarina chamou o capitão das guardas e mandou que se retirassem os corpos. é impossível!.disse Francisco a meia voz . Ficou então inquietíssimo.disse o pobre rei -. e dando-lhe o braço. Oh! . A mão de Deus defende este homem: há-de reinar! há-de reinar! Depois. apontando com o dedo para o chão . Não. Cessaram então as suas dúvidas. Seria o conde de La Mole?. não era La Mole.é por conta da rainha-mãe. sou livre.Nada . Henriquinho. achou Catarina vagueando como uma hiena entre cadáveres.Vossa Majestade havia de gostar de viver nas minhas montanhas do Béarn . tenho uma sensação análoga à que sinto quando entro numa bela floresta. vejo. é um conselho que te dou. apesar das ideias tumultuosas que lhe agitavam o espirito. Por ordem da mãe. acompanhado pelos seus quatro fidalgos e precedido por dois criados com archotes. muito assustada para poder fazer perguntas. toma todas as cautelas.De Mouy! . lembrou-se de que o mancebo lhe havia sido recomendado pela própria Margarida.Oh! . e ordenou que não acordassem o rei. Henrique sorriu. . o mancebo recolheu-se ao seu quarto. e querendo ficar certo se era ele que acabava de passar. fosse levado para sua casa. anunciando que se estava matando gente no Louvre por conta do rei. tremendo que fosse descoberto o huguenote e atraiçoasse os segredos da conspiração. de Sauve. ruído apenas. recolhendo-se e com a cabeça inclinada sobre o peito .

perguntou o rei de Navarra. ou.Então.disse o rei -.perguntou uma voz que fez estremecer Carlos e o seu compa nheiro. com todos os diabos! . Henriquinho. .disse o rei -. de Condé? .Quero apresentar-te uma pessoa. .Que tenciona Vossa Majestade fazer esta noite? perguntou Henrique. .Pois não conheces o companheiro? .Oh! oh! . meu Senhor. hás-de-me dizer depois o que pensas dela.acrescentou o rei com um sorriso -. Oh! oh! seria divertido. Henriquinho.disse Carlos . Acompanhados das duas escoltas.isto merece alguma atenção. meus Senhores . . Não ouviram. . viram dois vultos cobertos com grandes capotes saírem por uma porta falsa.O quê? . faz muito mal. mas sem dizer nada . esperem! 237 . que. se o irmão de Vossa Majestade.Mas quem está com ele? . nada mais simples. com trezentos diabos? .Meu Senhor . .Olá.Não.repetiu o rei.conheces agora aquela voz? .Mas quem disse a Vossa Majestade que aqueles homens vinham de casa da Sr. . tirando o braço para fora do capote. e que dali se não movem.Não é por ti. não estivesse na Arrochela. . e parem . . os dois reis tinham passado a Rua da Saboaria.Tenho um pressentimento. .disse Henrique -. . se está.Para a direita! para a direita! vamos à Rua das Barras. deram alguns passos para se afastar. Olá! já disse que esperem .Os senhores pertencem à polícia urbana para nos mandarem parar? . . mas o teu primo de Condé não está certo da sua. que um deles fechou sem fazer bulha. Henriquinho? . E caminhou direito para os dois homens que. havia de jurar que era ele quem acabou de falar. tu estás ceguríssimo da tua mulher . olhava também.Pois é de estatura que não deixa dúvidas. desviando aquela perigosa conversação. segundo o seu costume.Porque diz isso Vossa Majestade? . Depois. certo corte da capa do mais pequeno deles.Suponham que fazemos a ronda . Espera.disse o rei a Henrique.Pois é que não está na Arrochela. quando.É connosco que falam? . o duque de Anjou. vendo então que era a eles que se dirigiam. . que o vais conhecer.absolutamente passar sem a tua companhia.Estou às ordens de Vossa Majestade. que se encostaram à porta logo que nos viram.Uma lembrança que me ocorreu: vamos ter com eles.disse o mais alto dos dois vultos. A imobilidade dos dois vultos. . na altura do Palácio de Condé.

Desculpe-me Vossa Majestade: era irmã que eu devia ter dito. com o seu sorriso mofador . que iam trotando a par. como todos os da corte.Ficá-lo-ei conhecendo .disse Carlos. a Sr de Condé.Ah! ah! o duque de Guisa! .disse o mais alto.disse o duque -. a rainha Isabel. . acabou a confidência com uma gargalhada. descobrindo já não só o braço mas o rosto.perguntou o duque de Guisa com altivez. meu irmão! .Que a rainha de Navarra pode livremente ir onde lhe parecer.disse o rei de Navarra. . Vossa Majestade não o conhece.respondeu o rei em tom de mofa -.disse Henrique. . Margarida. Henrique corou um tanto.Os senhores são oito . . . . . acompanhada por dois pintalegretes. ora! . 238 quando vínhamos. . abrindo o capote e inclinando-se com mal disfarçado despeito. há só uma porta em Paris.Perdoe-me. haviam de passar de largo.O rei! .disse o rei.só sei que tem uma. Depois. duvido todavia que tenha saído do Louvre a estas . .perguntou Carlos . E inclinando-se ao ouvido do rei. Henrique! é o senhor? Mas não.Meu Senhor . acabava de fazer uma visita à minha cunhada. Quanto à outra personagem. Senhor . Ainda porém que fossem duzentos. Henrique? .Vais ver o vulcão lançar chamas . Meu irmão decerto não ignora que Anjou não iria ter com pessoa nenhuma antes de estar comigo para os príncipes de sangue que entram na capital.disse o rei . .quando lho ordenam. . vimos passar na sua liteira.Qual cunhada? . a quem.Perdoe-me. falando ao ouvido de Henrique: .Ah! nosso primo de Lorena! .Ora. . aquelas palavras levaram-no a envolver-se ainda mais na capa e a ficar imóvel.disse-lhe o rei. . .Porque não iria eu visitar minha cunhada? O Senhor Duque de Allençon não visita também a sua?.exclamou o duque.disse o duque de Anjou -. mas que fazia o meu irmão no Palácio de Condé? .disse o duque de Anjou.Pois . . cada qual à sua portinhola. havia-se acostumado a tratar com aspereza o pobre rei de Navarra.o que Vossa Majestade dizia ainda agora.Sim? e trouxe consigo um dos seus fidalgos.dá-se enfim a conhecer! que felicidade! . peço a Vossa Majestade que desculpe uma leviandade. E dirigindo-se ao outro vulto.Ah.Então que é? .Que responde a isto. fez sinal a um dos dois criados que se aproximasse com os archotes.Deveras? . qual deles? . . pois. tendo antes descoberto a cabeça respeitosamente. não pode ser! estou enganado.disse o duque de Guisa -. a do Louvre.Senhor .

esteja na partida. como sabe. não .Posso. .Pelo contrário .E eu também . queimar-se-á. oferecimentos e ameaças. Vendo que insistiam.disse o rei -.e voltou o dedo na direcção do Palácio de Guisa -. a liteira parou na Rua do Sino Rachado.Poderá conhecer o lugar? . e por sinal parou a liteira na Rua do Sino Rachado. que queria arranjar o negócio entre as pessoas da família. de Guisa o ameaçasse em puríssimo alemão. .disse Carlos -. uma à Rua de Santo António. quero tirar a limpo tudo isso. o caso foi diferente: era guardada por um porteiro alemão. . Quanto à terceira. invoquemos a justiça do rei para que ele acabe. despediu os fidalgos da comitiva. por mais que Carlos se atrevesse e dissesse que era tenente da guarda urbana. Carlos. . não é assim. são inseparáveis. dizendo-lhes que dispusessem do resto da noite mas que estivessem ao pé da Bastilha às seis horas da manhã. não a daqui . meu Senhor.disse Henrique . . vamos nós mesmos examinar o caso. pois deixámo-las juntas e.disse Henrique mostrando o Palácio de Condé -. .Pois vamos lá. Só havia três casas na Rua do Sino Rachado.Pois eu tenho a certeza .Não entendo o que Vossa Majestade quer dizer .horas. a busca era tanto mais fácil quanto em duas se prestaram facilmente a abrir-Lhes as portas: eram as que ficavam contíguas. demonstração . nada há tão claro.deixe descansadas as Sr.Ora. e eu tenho inteira confiança em minha mulher. e se for preciso queimar-se a casa para sabermos quem está lá dentro.respondeu o duque de Guisa. por mais que o Senhor Duque de Anjou lhe oferecesse uma bolsa cheia de ouro. de Condé e de Nevers. Com estas disposições tão pouco favoráveis à tranquilidade das pessoas de que se tratava. outra à Rua do Rei da Sicília. sim senhor. Paris parecia estar destinado à oferecer essa noite os mais extraordinários exemplos de fidelidade doméstica. .disse o duque de Anjou -. e de modo a tornarem-se importunos. o bravo alemão desprezou sugestões.Sim. e este mostrou-se pouco tratável.tornou o Sr. de Guisa. . Por mais que o Sr. O rei não está inquieto por causa de sua irmã. primo? . meteu por entre as barras de ferro o cano dum arcabuz. mas a dali . dirigiram-se para a Rua de Santo António os quatro principais fidalgos do mundo cristão. e também por isso havia um pintalegrete correndo de cada lado da liteira.Não.Então é mister que sua cunhada.Pois se há escândalo da parte da rainha e das minhas cunhadas. por quem é! . Quando chegaram à Rua do Sino Rachado. . com dois cavalos. .

. . As damas animavam os sitiados e davam-lhes projécteis. atirar-lhes à cabeça todos os projécteis que acharam à mão. o duque de Guisa com um quarto de veado. abrir as janelas. que se sucediam como chuva de pedra. atirou a pedra de encontro à porta. ao levar na cabeça com um tamborete que lhe enterrou o chapéu até aos olhos abram imediatamente.disse Margarida em voz baixa a La Mole. o guardaportão. e Cucunás. com uma salva contendo doce de laranja e de cidrão. O duque de Guisa aproveitou a ocasião: verdadeira catapulta viva. levou num ombro com uma bacia de prata. atirando ao chão o alemão. Na esquina da Rua de Santo António achou o duque o que procurava. que. o duque de Guisa fingiu retirar-se com os companheiros. porém. Justamente neste mesmo momento estava La Mole traduzindo com Margarida um idílio de Teócrito.Ich verstehe nicht. não podendo tornar-se oblíqua por causa das barras de ferro. que davam unicamente pelas paredes. tais foram os meios de que imediatamente lançaram mão Cocunás e La Mole.cujo resultado foi fazer rir três das quatro visitas (Henrique de Navarra tinha-se afastado como se não tivesse interesse no negócio). Télamon e Diómedes. A fechadura voou. A conversação científica foi violentamente atalhadas. . que. que o duque de Guisa amarrara à porta e que respondia com o seu eterno: . fazendo sinal aos companheiros 239 que o acompanhassem.O rei! . sem ainda ter tido tempo de a aferrolhar. isto é. estava fazendo perguntas em voz baixa ao guarda-portão. o mais exaltado dos assaltantes. a não ser assim. corria risco de ser surpreendida. chegar-se a elas e ver no escuro quatro homens.Meu irmão!.disse esta a Cocunás. Vendo que não podia intimidar. o duque de Anjou. deu rebate a toda a guarnição. a fim de exterminar o duque de Guisa. Exactamente nesse momento. Apagar as velas. porque a arma. fazer muita bulha com as espadas.Cos diabos! . bebia vinho de Siracusa com Henriqueta.disse este a Henriqueta. A porta abriu-se. com um grito terrível. pô-la ao ombro e voltou. que ia arrastando um baú para a janela. a pretexto de que era também grego. levando parte da parede a que estava presa. fechava a porta. quando não mando enforcar a todos quantos estiverem aí em cima! . corromper nem comover o porteiro. . que tinha visto retirarem-se os indivíduos que tomara por malfeitores. uma pedra como essas que há três mil anos tomavam por armas fiax. não foi longa. .exclamou Carlos IX.O rei! o rei! . a retirada. só era perigosa para o cego que se achasse defronte dela. Só Henrique não apanhou com coisa nenhuma. Carlos.

Chegaram ao primeiro andar. e tendo reparado que essa porta era muito mais fraca do que a primeira. . os trastes da sala em completa desordem. . e imediatamente os acenderam. e todos quatro.se a casa não tiver duas saídas.disse o rei. Entraram no salão. É o rei.Mas. 240 Os criados aproximaram-se. feito em pedaços.disse o rei.disse o duque de Guisa.perguntou o duque de Guisa. O quarto de dormir estava ainda mais mudo. Na sala de jantar acharam os restos da ceia.disse o rei -.Ou antes reconheceram a voz de meu irmão e safaram-se disse o duque de Anjou. depois de fecharem a porta. E Henriqueta. vá buscar outra vez a sua pedra e abra a outra porta como abriu esta.com quem.Venha comigo.Estão talvez preparando algum estratagema . venha! .O rei?.E sem demora.Para onde? .Então. Carlos pegou num e deu o outro ao duque de Anjou. meteu-a dentro com um pontapé. mas não ouviram mais bulha. pois fora à ceia que especialmente ministrara os projécteis. sem o conhecer. toca a retirar! . eis o que acharam. Os candelabros estavam pelo chão. Aí não acharam mais informações do que na primeira sala acerca da identidade das personagens.Primo . Esperaram ainda alguns minutos.julgo que a praça se rende.disse o duque de Anjou. pegando-lhe pela mão. Estava acesa uma lamparina num globo de alabastro suspenso do tecto. e tudo que não era baixela de prata. . Henrique fechou a marcha. . torno a dizer-lho! Cocunás largou o baú e olhou espantado. La Mole e Margarida já se safaram. .Isso é . . . O duque achou que era inútil recorrer a tais meios. com a espada na mão. terão de passar por aqui . . . conduziu-o à porta secreta que dava para a casa contígua. mas eles traziam todo o necessário para fazer fogo. . .Sim. mas parecia que nem tinham entrado nesse quarto.disse Carlos .Mas onde será? .Os archotes! os archotes! .É provável . safaram-se pela saída que dava para a Rua Tizon. . alguns instrumentos de música. Livros gregos e latinos. O duque de Guisa entrou adiante.Oh! oh! . . Os archotes estavam apagados. o rei. mais particularmente se batia.Há segunda saída .tornou o duque de Anjou .disse o rei. . para isso.

Assim . torno a dizer-te. Aí. E tomando este último pelo braço: .disse o rei. erguiase uma casinha isolada no meio dum jardim fechado por altos paredões.Já não está lá .disse Carlos ao ouvido do rei de Navarra. .Quem o desataria? .disse Carlos -. .Com todos os diabos! . sem tratar de fechar a porta.disse o rei . Carlos tirou da algibeira uma chave. . engano-me: e o homem. . é irmos. põe-se-lhe por baixo das pernas um fogozinho bem esperto .Qual!. que cedeu logo.Procuraram por toda a casa mas não a acharam.perguntou com estranheza o duque de Guisa.Bom. . de Guisa.Não.disse o duque de Guisa. depois.Não. o melhor que temos a fazer. obrigado. teimoso duma figa! Já que te digo que venhas. Vossa Majestade quer vir connosco? .Onde está o guarda-portão? .Não há-de querer responder. .disse de Anjou com vivacidade. o peixe na água.Com efeito . perguntou o rei a de Anjou e a Guisa: . eu tratar da minha contusão.disse -. dando alguns passos para a Rua da Mortellerie. . .Pois não recolhemos ao Louvre? .disse Carlos -. de Anjou limpar-se da calda de laranja e Guisa fazer desaparecer essa gordura. tem medo que o mande espiar . .Amarrei-o à porta da entrada . .Onde vão os senhores? . estendia-se à esquerda e à direita a Rua das Barras. na extremidade desta. pois estava fechada só com uma volta. e abriu a porta. Chegando a Rua de Santo António. esta noite ceias comigo. 241 ANAGRAMA Ao meio da Rua Godofredo Lasnier vinha dar a Rua Garniersur-LEau. tendo mandado entrar Henrique e os criados que traziam os . Henriquinho .Sim .Vamos a casa de Nantouillet. E levou Henrique para a Rua Godofredo Lasnier. a Escritura no-lo diz: há três coisas que não deixam vestígios: o pássaro no ar. e há-de falar por força.disse Henrique -. para o qual se entrava por uma única porta. vamos para o lado oposto. Não. que nos espera para cear. e a mulher.Interrogue-o. E depois saíram. .ainda desta vez não ficaremos sabendo nada! . . Henrique olhou com toda a atenção pela janela. e.É verdade . querem um dos meus criados de archote? . meu Senhor .disse para o rei. Vossa Majestade está vendo que nada prova que estivessem nesta casa minha mulher e a cunhada do Sr.disse o rei rindo -. vem para onde te levo.atalhou Henrique -. primo.Vem.Obrigado. .

. Henrique aproximou-se. muito me felicito por ver que Vossa Majestade me achou digno de o acompanhar na sua viagem ao céu. e cujos pezinhos ela segurava com ambas as mãos.Olha . .depois que o soube. . quando aqui entro.quem é aquela encantadora menina? . .respondeu Carlos IX. Só numa janela se via luz. . . entro no paraíso. disse-te que quando saía do Louvre saía do inferno. enquanto os seus compridos e anelados cabelos louros soltos brilhavam como fios de ouro. Senhor. mas isso mesmo serve à comparação disse o rei. subindo por uma pequena escada. pouco mais ou menos. por mim só.disse este. Era uma senhora de dezoito para dezanove anos. a voz e o rosto do rei haviam tomado uma expressão de doçura que estava tão longe do carácter habitual da sua fisionomia. depois outra.Pois vais entender. No entanto.O anjo do meu paraíso. . Dir-se-ia um quadro de Albano representando a Virgem e o Menino Deus. pois amou-me antes de saber que eu era rei. O rei de Navarra olhou para Carlos com espanto. Henriquinho. e parou no limiar.continuou o rei -. e ficou com os olhos fitos num dos mais belos quadros que tinha visto. ainda me ama. tendo-os encostados aos lábios.Vais vê-lo .disse Henrique -. que não parecia o mesmo.E depois que o soube? . meu Senhor! . . . o único ente que me ama por mim somente.Oh. . fechou outra vez a porta. .E qual é o anjo que guarda a entrada do Éden de Vossa Majestade? . assim o julgo.Meu Senhor .disse Carlos com um suspiro que mostrava quanto essa ensanguentada realeza lhe era por vezes pesadíssima . Carlos apontou-a com o dedo a Henrique.Depois que o soube.disse Carlos. E fazendo sinal a Henrique para que o acompanhasse sem fazer bulha. Henriquinho. . .disse o rei de Navarra . abriu uma porta.O caminho é estreito. não entendo.Mas.archotes. 242 Henrique sorriu. O rei aproximou-se devagarinho e depositou na face em flor da formosa senhora um beijo tão leve como o da abelha no lírio. a dormir com a cabeça encostada aos pés da cama duma criança igualmente adormecida. ela acordou.Sim.Henriquinho . sorrindo.

. .não veio só. . minha boa Maria. diga ao rei seu irmão que me desculpe. Senhor? . . pegou na mão de Henrique e beijou-a.Prestei-lhe igual serviço.. se fosse legítimo.disse Henrique . Maria. Chega-te. caiu de joelhos.Ora essa! . . Henrique III. meu Senhor . muito bem . Ouve. Henriquinho. . . meu rei. suprimia. enquanto a mãe. dum leal amigo.Meu Senhor .disse Maria -. Maria deu um grito.continuou a dama. porém mais desgraçado que eu. Carlos pegou-lhe na mão direita. muitas talvez no futuro. Ele chegou-se à cama em que dormia a criança.disse . muitas coisas na actualidade.Oh! . Henriquinho. agasalhava com ' Com efeito. A tudo dá Deus compensações. . e a rainha chama-me senhor. é tão bom dormir quando se não tem sonhos!. .O quê.se este robusto menino dormisse no Louvre em vez de dormir aqui. Os dois reis entraram para a sala de jantar. minha filha. . dirigindo-se ao rei de Navarra -. Henrique olhou para Carlos com espanto. não se ofenda Vossa Majestade.chama-me Carlos.disse Carlos. pois saiba que Carlos não quer ser servido senão por mim.te e vê. .Um dia saberás o que quero dizer. .exclamou a dama . aproxima.disse o rei -. . dorme melhor.disse Maria apontando com a mão para uma das portas do quarto. Se não fosse esta mão.De ter despedido os criados.Não. . o nosso filho ficaria hoje sem pai. vamos cear. entretanto.Se não fosse esta mão. porque não tem uma Maria Touchet. .Pois não perturbemos o seu sono . Quis trazer-te outro rei.acho que tem muita razão. . nesta casinha da Rua das Barras.Oh! .Olha para esta mão.disse ela abrindo os olhos. que não era outro senão o famoso duque de Angoulême. . solícita e inquieta.De quê? . Henrique IV Luís XIII e Luís XIV 243 . se haviam de mudar.disse o rei . mais feliz do que eu.Então. este filho natural. Maria: é dum bom irmão. O rei de Navarra aproximou-se.perguntou Maria.Muito bem. . Maria.Vês? . sim? .Tens razão. mas gosto mais de o ver dormir aqui.Meu querido Carlos.É o rei de Navarra? .Carlos! . meu Senhor?. Maria.Ele próprio.E que fez Vossa Majestade para lhe agradecer? . pois não tem coroa.

que. que aprecio mais do que ninguém a felicidade de Vossa Majestade. Na corte (não é pouco o que te vou dizer) traz a todos iludidos. desculpe-me. . Henrique . que não vá à corte e.Pois sim. mas senta-te aqui ao pé de mim.uma coberta mais quente o seu Carlinhos.Faz sobretudo anagramas que é uma maravilha. .que eu os sirva. e afirmo-te que o fará. Henrique tirou da algibeira a carteira.disse Carlos -.disse Carlos ter um cantinho no mundo em que nos atrevemos a beber e a comer. e não há grande merecimento em tê-lo achado. voltando-se para Maria: . .Não exagero nada.Pois não ouves?. Maria veio ter com eles. .Não achas. . vê o mal que me vais causar. que talvez ficasse com ciúmes de qualquer outro amor . .Um dia virá em que hão-de conhecer-te. entre nós ambos. meu Senhor. rasgou-lhe uma página.Como assim.Consintam Vossas Majestades . a rainha Catarina ama Vossa Majestade com tanto extremo. Depois deu a folha à jovem. tão invejado pelo pai.disse Maria.Acredite. Henriquinho .respondeu Henrique. que. para continuarmos sempre assim felizes. meu Henriquinho. Diz-lhe que faça um do teu nome. Depois. .disse Carlos.O anagrama deste nome é facílimo. só eu consegui penetrar-lhe. . graças ao bom sono de criança.disse Maria . mais que tudo. .(encanto tudo). meu Senhor? . duvide do meu coração. .E por isso diz-lhe e repete-lhe. Carlos. mas no espírito. . sinto que.Só dois talheres? .Maria . .Estás vendo?.Desculpe-me. não tinha acordado. exagerando Vossa Majestade assim o meu espírito. .disse o rei. apresento-te um dos homens mais sagazes e mais espirituosos que conheço. não no coração.disse o rei -.Ah! ah! pois já está feito? .Olha. cumpre que ela não se envolva em política. desculpo-te. cumpre que não seja conhecida por minha mãe.disse o rei.disse Henrique -. . .Meu Senhor . Trouxe um talher.Ora! que poderá ele achar no nome duma pobre mulher como eu? Que delicado pensamento poderá sair do nome de Maria Touchet? . que é bem bom . sentou-se entre os dois reis e serviu-os. .Obedeço . sem termos necessidade de que alguém prove antes o nosso vinho e a nossa comida? . . e por baixo do nome de Maria Touchet escreveu: Je charme tout . achando este subterfúgio para evitar a perigosa confiança do rei.Com efeito. . Henriquinho.

Com efeito. pois o maldito ronca que mete medo. o montanhês afeito a tudo. a frase -Je charme tout. . arranja-te como puderes.disse. Boa noite. A dama estava na cama. mas olha.acrescentou.Meu Senhor. e em breve justificou a precaução tomada pelo cunhado de o pôr bem distante de si. Ao raiar do dia seguinte foi acordado por Carlos. não perdeu tempo ao toucador. E saiu. hei-de dar-ta escrita em brilhantes. se acordares antes de mim.Onde vamos? .por tua vida. Maria? Nunca a houve mais bem merecida. que não podia preterir uma tal recomendação.ver se o duque de Anjou voltou só para a Sr. Henriquinho. Henrique. Carlos fez sinal a Henrique que montasse a cavalo. . sobretudo para voltares ao Louvre. e se me acontecer alguma desgraça. meus anjos . disse-lhe: . 244 Depois. . ambos dormiam com o sorriso nos lábios.exclamou ela -.Agora . distante de nós. Mas . o menino no berço. tomando pelos Boulevards exteriores. Henrique havia suspeitado tanta coisa no que não compreendera. depois. .perguntou Henrique. o rei estava feliz e risonho como nunca estivera no Louvre.respondeu Carlos . Quero que seja a tua divisa. parece impossível! . saltou na sela. Ambos passaram outra vez pelo quarto de dormir. Carlos olhou para eles um momento com infinda ternura.Então que achou ele? . letra por letra.No nome de Maria Touchet. chegando-se para o rei de Navarra e pondo-lhe a mão no ombro . lembra-te desta criança que ali está dormindo no seu berço. vai darlhe uma poltrona em que ele possa dormir até amanhecer. como tinha ficado vestido. voltando-se para o rei de Navarra. não me atrevo a repeti-lo. há. se algum dia vieres a saber que serviço te prestei esta noite.. Carlos IX entrou no quarto. ouve bem! não saias daqui sem mim. ou se tem no coração tanta ambição . Henriquinho. pois às seis horas havemos de estar na Bastilha. fazendo do I um J. Esperavam-nos na Bastilha cavalos seguros pelos fidalgos a quem Carlos IX havia dado ordem de ali estarem. Maria. como é uso. e Henrique. Henrique acompanhou-o pensativo. As horas que passava aquela casinha eram as suas horas de sol. acomodou-se numa poltrona.Vamos . de Condé. em paga do meu anagrama.Até mais ver.Realmente . beijando-os ambos na testa. A ceia concluiu-se.disse Carlos -. Depois.perguntou Carlos. sem dar a Henrique tempo de lhe fazer perguntas: . davam duas horas na Igreja de Nossa Senhora. ouves. desperta-me. . Obrigado. e saiu pelo Jardim de Arbalète.Henriquinho. . letra por letra.

parecia protegido por algum poder invisível. Carlos mostrou a Henrique. . e podia-se ver. sem que Catarina houvesse podido fechar os olhos. e tamanha a decepção. os sujeitos de mantos pardos e barretes de peles quem são? E nesse carro que trazem? . precedendo uma carroça carregada com muito peso. escapando continuamente às suas ciladas. soaram.perguntou Henrique -.Ah. de ordinário mortais. e tomando o caminho da Porta do Templo . .são os embaixadores polacos. Henrique nada entendeu da explicação. que o não pôde fazer. Enfim. que vinham a cavalo. e como que abrigado pelas estacadas. homens envoltos em grandes capotes e cobertos com barretes de peles. esses homens tomavam uma forma mais distinta. Ao chegar aos pauis. e procurou dormir. a cavalo como eles e conversando com o que parecia chefe. Mas o abalo havia sido tão forte. lhe entregasse o seu inimigo.disse Carlos sorrindo .bem o presumia. Senhor! não me engano: esse cavaleiro de capote pardo é o duque de Anjou.continuou ele. A lembrança de que a notícia desta nova tentativa. decerto que com o estilete florentino que trazia à cinta teria zombado dessa fatalidade tão favorável ao rei de Navarra. pois era cerca da meia-noite. pois. espalhando-se dentro e fora do Louvre. levantou-se. e no carro trazem uma coroa.Os sujeitos . contra o qual lutava tão infaustamente. no seu espírito cheio de visões. As horas da noite. pois já vi quanto queria ver. que os mortos tinham sido levados. e acompanhou Carlos sem dizer mais nada. despediu as criadas. Um mundo inteiro de projectos novos desenrolou-se. do que eu duvido muito. ia dar a Henrique e aos huguenotes confiança ainda maior no futuro. por entre a névoa da manhã. desesperava-a.como amor.Ah! ah! . outro homem. E agora . afasta-te um pouco para que nos não veja.Mas . de largo manto pardo e com a cabeça coberta com chapéu à francesa. durante essas horas nocturnas.Ele mesmo . ao raiar do dia. descobria-se tudo quanto então se chamava Bairro de S. .retiremo-nos. e naquele momento.disse Carlos .disse Carlos IX -. Esse aborrecido Henrique. bem que no íntimo do seu coração uma voz lhe dissesse que o verdadeiro nome desse poder era o destino. se esse acaso. que Catarina persistia em chamar acaso. umas atrás das outras. Henrique. que Maurevel fora transportado para sua casa e que se haviam lavado os tapetes. metendo o seu cavalo a galope. . 245 VII A VOLTA PARA O LOUVRE Quando Catarina julgou que tudo estava acabado no quarto do rei de Navarra. Lourenço. vestiu-se . À medida que avançavam. essas horas tão vagarosas para quem espera ou para quem perde o sono.

não.dizia Henrique -.tornou a ama -. levantaram-se e foram lamber as mãos de marfim de Catarina. Em vez de com ela discutir sobre a prisão do cunhado. .Ama.saiu!. ama.respondeu Carlos. minha Senhora. e os dois galgos. e esperou. que era a sala de armas. a ama apresentou a chave a Catarina. pois. . . quando viu enfim recolher ao Louvre um rancho de cavaleiros. que vou muito provavelmente ter por tua causa uma renhida discussão com minha mãe. não abrirei a porta sem ordem formal de Vossa Majestade. .Meu filho? . achou acordada a ama de Carlos.Minha Senhora. . . deixaram-na passar. um dia talvez o saibas. mas por ora é um mistério. No quarto não havia ninguém. na janela que dava para o pátio do Louvre e da qual se descobria a grade principal. diga-me porque me fez sair daqui e que serviço foi que me prestou. que escute os rogos duma pobre mulher e não entre. a cuja frente reconheceu Carlos e Henrique de Navarra. ama. acostumados a vê-la entrar na câmara do rei a toda a hora do dia e da noite. a porta cedeu.Essa proibição não se entende comigo.sozinha e dirigiu-se ao aposento de Carlos IX. . Fica somente sabendo. agora. a antecâmara e alcançou a sala de armas. a uma pequena pressão. Sua Majestade proibiu que entrassem no seu quarto antes das oito horas.perguntou a rainha. a cama de Carlos estava intacta. mais respeitada. Cego! cego! cego! murmurou ela. Os guardas.Pois abra. bem sei . porém. Carlos tinha-o levado consigo. porém Catarina não precisava dela. quero falar com meu filho. por agora. suplicarlhe-ei. atravessou. Ah! . abriu a fechadura da porta da câmara do filho e. pois. deitados sobre a pele de urso estendida aos pés da cama. . Carlos abriu o reposteiro . que nos achamos no Louvre. Ouvindo essa voz. Aí.disse a rainha carregando o sobrolho .disse a rainha. Catarina sorriu.Não. imóvel e pálida como uma estátua de mármore. Acabando de dizer essas palavras. Havia duas horas que aí estava. sorrindo -.Sim. Henriquinho .Mas Senhor . . Daí a um momento ouviram-se passos na câmara contígua. e assim o salvara. Tirou uma chave da algibeira.Minha Senhora. e especialmente mais temida no Louvre do que a do próprio Carlos. Então compreendeu tudo. bem sei que ninguém aqui tem direito a pôr obstáculos a Vossa Majestade. E foi sentar-se. quero e mando . pensativa e sombriamente reconcentrada.Entende-se com todos. Esperarei por ele. . e ainda não deram.

disse Carlos IX carregando o sobrolho.Senhor.A mim? .que Lorenzino!. . e por cima do ombro. não conspiram todos nesta encantadora residência real chamada Louvre? . minha mãe . . pois é coisa de grande embaraço?.Pois sim deixa-nos . ouça: há um meio de me provar que me engano. e nesses prometo ajudá-la. que lhe lembrava uma das mais sanguinolentas catástrofes da história florentina -.Que manhoso! . é a sua eterna acusação. ainda que me ajudasse.Agora. . Que tem a senhora contra Henriquinho? 247 . não se trata de peça. melhor.disse Catarina. quanto mais depressa for. . vai ouvir missa por minha intenção. . muito ou pouco. anuviando-se ao ouvir esse nome.disse o rei -. pois sou bom filho.Eu já o deixo .e achou-se frente a frente com Catarina. minha Senhora . procurando meter à balha o ocorrido -. . . .Então. Vossa Majestade está enganado.Vamos lá . espera-me para ralhar comigo.disse Henrique. Vossa Majestade fez de propósito falhar um plano que nos devia conduzir a uma grande descoberta. mas mal há-de reconhecer isso comigo.disse. aparecia a cabeça pálida e inquieta do Bearnês. Deus castiga os filhos que têm questões com as mães: como prova. .Vamos.respondeu Carlos . pois ele já está prevenido. . não é assim? Irreverentemente. Carlos IX antecipou-se ao que a mãe lhe poderia dizer. mas. e confesse depois que a peça foi bem pregada. eu fico ouvindo o sermão. Henrique cumprimentou e saiu. acabemos com isto. aí temos meu irmão Francisco II. seria tarde. . ou mil raios me partam.Senhor . . Perdoe-me pois francamente. e demais . e portanto acautelado. Por detrás dele.Sim.acrescentou baixinho -.Bom! um plano.e. pois sim.Estou.disse Carlos.Pois sim. voltando-se para o cunhado -. .Ouça . . . já que és católico. mas a sós. e é tanto mais perigoso quanto ninguém o percebe. minha Senhora? .Mas ele conspira mais do que ninguém.Ah! está aqui. Em vez dele formará vinte. Não queria também pôr-me em luta com Vossa Majestade.disse Catarina -. Henriquinho. já que não havia meio de evitar a entrevista.disse Carlos . .Bem compreendo. . meu filho .disse Catarina -. tenho que lhe falar. fiz que falhasse o seu projectozinho! Ah! com todos os diabos! eu não podia deixar que prendessem e metessem na Bastilha o homem que acabava de me salvar a vida.Tenho que está conspirando.

na capa cor de cereja muito elegante com que estava coberto.E quem os pôs nesse estado?. . de Maurevel. à primeira volta viu uma sombra. o Sr. . Apenas. Houve sangue derramado? . distraído e assobiando uma ária de caça. .E então? . Não lhe dê cuidado a ausência de Orthon. estou pronta a confessar que me enganava.Por Gog e Magog! era um valente! . tomei conta dele. sem que reparassem em alguma parte do seu trajo. . Esse homem não havia de fugir assim sem deixar algum vestígio. . . Senhor! ei-lo são e salvo!.Saiu são e salvo. porém. pelo menos por Henrique. levando a mão ao punhal. . .Mas por sua intervenção. e se o disser. . . mulher.Mulher que matou dois dos seus guardas e que feriu. 248 . .E tem razão. .Apenas se notou um. .disse Catarina. tinha tomado a escadinha particular de que já falámos mais duma vez. . .disse Henrique.Sim. . que lhe era familiar.Mulher? .Sim. minha mãe.Mas. e que levava ao segundo andar.E depois? . minha mãe? . esta noite? . em vez de ir pelo corredor ordinário..Então que houve? .Ah! ah! uma capa cor de cereja! Só conheço uma na corte. Parou.Oh! oh! oh! .a coisa vai sendo séria. .No quarto dele. subiu quatro degraus.Pois desde já lhe digo que não o há-de conhecer.exclamou Carlos. disse-lhe agarrando-lhe na mão: . minha mãe. não podemos exigir.disse Catarina -.Louvado seja Deus. que os galgos vinham lamber de cada vez que parava. . talvez mortalmente. passeando pela câmara. que se tem notado por dar muito nas vistas. tinha saído do aposento do cunhado muito inquieto e. e uma voz encantadora. tive tanto susto por Vossa Majestade!. que eu vou ver se as minhas ordens foram executadas.Se o disser. Deus sem dúvida acolheu as minhas súplicas.Três homens ficaram estendidos no chão. espere-me aqui. Quanto a Henrique.Pergunte a Henrique quem estava esta noite no quarto dele.disse o rei . se fosse alguma mulher. Catarina saiu e Carlos ficou só.Qual é. logo reconheceu que era uma mulher.Sabê-lo-á quando se recolher ao seu quarto. quero conhecê-lo. com uma das mãos no gibão e deixando caída a outra.Então .perguntou Carlos. .Justamente .

Então que houve? que sucedeu a Orthon? Esta pergunta não podia infelizmente ser ouvida pela Sr. Henrique. Mas de Mouy! que fizeram de de Mouy?.Não me chame pelo meu nome. fria do suor. não foi sem comoção que Henrique prosseguiu no seu caminho.exclamou o Bearnês . Entretanto. vamos depressa. alcançou o corredor. . e. Francisco? . precipitou-se no quarto do duque de Alençon. .Ah. pois ela já estava longe. estava uma mesa quebrada.Silêncio! . olhe bem para todos os lados que o não espreitem. como esses fantasmas que nos teatros se somem por alçapões. Com a breca! . com Henrique. Chegou à porta do quarto e escutou. não ouviu bulha alguma. então muda. nada porém ainda lhe indicava o que tinha havido.E a dama desceu apressada. manchas avermelhadas cobriam o soalho. e entre no meu quarto.disse . ah! é Vossa Alteza.Recolha-se. e tudo quanto tinha ouvido lhe pressagiava uma desgraça. essa superstição da mocidade. como se fosse por acaso que o houvesse encontrado na escada. depois de lançar um derradeiro e triste olhar para os objectos que o rodeavam. meta-se pelo corredor. Isto é singular! . passou a mão pela testa. E desapareceu também pela escada. ele tinha a sensibilidade. depois. saiu do quarto. cuja porta estará entreaberta. Apesar da água com que fora inundado.Orthon não está aqui. Com efeito . como Carlota lhe havia dito que se recolhesse.disse consigo Henrique.disse a sombra. I. Além de que. examinou se estava bem solitário e. estava ela solitária. e disse a meia voz: Ah! compreendo agora o serviço que o rei me prestou. . Aí tudo lhe foi explicado. No alto da escada viu Henrique aparecer de súbito outra sombra. ançou um olhar rápido pela antecâmara. .o enigma continua. Tudo se reflectia com clareza nessa alma de superfície lisa como a dum espelho. que depois fechou com todo o cuidado. Entrou no outro quarto. decerto! E tão pressuroso de saber notícias quanto estava o duque de Alençon de lhas dar. de Sauve. mas essa era a dum homem. mas já que a explicação está no meu quarto. . Os miseráveis mataram-no. era evidente que nada havia que recear recolhendo-se. empurrando a porta mal cerrada. e mãos ensanguentadas tinham-se encostado à parede deixando nela o seu terrível sinal. tudo anunciava que esta câmara. um espelho de Veneza havia sido despedaçado por uma bala. Henrique foi colhendo com os olhos espavoridos todos esses fúnebres sinais. os cortinados da cama golpeados como por espadas. e sabê-lo-á. tinha sido teatro duma luta mortal. quiseram matar-me.Então que houve? .

perguntou Henrique com ansiedade. Ninguém suspeitará de de Mouy com semelhante capa. pode bem ser outro. . completamente solitário. estava um homem.Pois estava alguém no meu quarto? . seria antes. acudi. Segundo ele me disse.Decerto. falei com o cirurgião que o trata.Ah! valente de Mouy! . levará mais de oito dias sem que possa dar uma palavra. .Então que houve? .Maurevel levou uma cutilada na garganta. Quando ouvi bulha. para um gabinete do torreão.Pois acha? . Pegou-lhe pela mão e levou-o.Com efeito . . . pois eu próprio. fugiu depois de ter ferido perigosamente Maurevel e morto dois guardas. duvidei.Então é que o sabia.disse Henrique.disse de Alençon -. mas já era tarde. . .Quiseram prendê-lo. e por isso livre de toda e qualquer espionagem. meu irmão! . E não concluiu. pondo-lhe um dedo na boca.O duque estava-o esperando na primeira câmara. onde estava? .E porquê? 249 . . e dizer-lhe que tinha cedido todos os meus direitos ao trono de Navarra.Seria antes do Sr.Então.disse Henrique -.Acho: o homem desapareceu tão depressa.A mim? . .disse Henrique. pois Maurevel há-de falar.disse de Alençon empalidecendo -.disse-lhe .Não. de La Mole . .Além de que .Sim senhor. Henrique viu que tinha sido indiscreto. .Presumo que sim . se não estava no seu quarto.perguntou Henrique. se for descoberto . estamos perdidos. . . .pois tinha-o emprazado para entender-me com ele acerca da fuga de Vossa Alteza.Oito dias! É mais do que o tempo necessário para de Mouy se pôr a seguro.Ah. .disse de Alençon -. .E o homem foi preso? . que só lhe viram a capa cor de cereja. e não de Mouy.Certamente. e se alguém suspeitasse . .O rei levou-me ontem à noite a passear pela cidade. .perguntou Henrique como se o ignorasse. .Não.Não sei. quem era que lá estava? . uma capa dessa cor mais assenta em qualquer gamenho do que num soldado.disse . . Mas. . . que vi fugir o sujeito.exclamou Henrique.Pois era de Mouy? . . . .que horrível noite!.disse com vivacidade de Alençon.Sim.

Até perante a justiça?. bem vê. ao menos. e a prova é que.disse de Alençon. estou convencidíssimo de que era ele. e por Henrique. . pelos duques de Anjou e de Guisa. pode bem ser que venha a pagar capital e juros.Se o acusar . nada que tenha alguma importância.respondeu Henrique -. pois aí está uma fulminante reputação de valentia dada a esse mancebo. Sem dúvida. desatado da grade por La Mole e Cocunás. 250 . não havia prova alguma que a pudesse comprometer.perguntou Francisco. meu irmão . . . ter-me-ia vindo trazer algum recado da parte de Margarida.disse de Alençon -. ela faria mal em nos desmentir. .Interessa-se muito? . que foi ela quem lhe recomendou? . . que não o hei-de desmentir. a rainha de Navarra não estava mais sossegada do que o marido. . que se interessa muito por ele. vai o caso causar muito desgosto à rainha. .Mas a rainha. a expedição nocturna contra ela e contra a duquesa de Nevers.Nada absolutamente. . . .perguntou de Alençon. . fui buscar-lha ao quarto e escondi-lha.. a rainha. Pela sua parte.Pois então. não teria dúvida em o acusar.Ora.perguntou de Alençon cheio de confusão.Sem dúvida.isso é que é o cúmulo da prudência. da estatura desses a quem La Mole e Cocunás tinham resistido. .disse Henrique .Mau! . mano. bem podia ser o Sr.Ah! sim. Mas quatro grandes fidalgos. saiu rapidamente e desapareceu pela escada que dava para os aposentos de Margarida. mas.Lembra-me . e por isso quisera ser-lhe agradável. deitou a cabeça fora da porta que dava para o corredor.disse o duque -. .Ele não sabe nada? . e vendo que ninguém estava espiando.Se eu tivesse a certeza de ser apoiado pelo testemunho do mano . sem grande dispêndio seu. mano.se for ele. e agora já não aposto: juro que era ele.disse o duque com voz abafada -. tinha afirmado que nada dissera. .Neste mundo nada se alcança às mãos lavadas. o guarda-portão. . dirigida pelo rei. . não se haviam desviado do seu caminho ao acaso e sem saber por que .Por certo que sim.Eu me encarrego da comissão. de La Mole.É necessário saber o que ela fará. porque a compra a crédito. para que o não comprometesse a capa vermelha.Oh! oh! . .disse Henrique .Vossa Alteza duvidou? Com efeito. E saudando de Alençon com a mão e com um sorriso. . Pois não se lembra. . . Francisco. que se lhe há-de fazer?.Olhe. inquietava-a muito.disse Henrique. a quem havia reconhecido.

Não estava.Sim. .Por causa do ocorrido esta noite. mas não os conheço. não estava nos meus aposentos. .Ao senhor? . .Oh! quem pode adivinhar os motivos dum espirito tão profundo como o de nossa mãe?. . Margarida compreendeu o olhar do marido. Foi no auge dessa ansiedade que ouviu bater à porta secreta: depois de ter mandado por Gillonne ver quem era.Oh! felicito-a. Apesar do poder que Margarida tinha sobre si mesma.disse Henrique com admirável ingenuidade. mas não podia dormir. . tinha-se imediatamente deitado.Qual deles? . A senhora adivinhou.disse então Henrique -. nada anunciava nele o marido ofendido. Respeito-os. achava-se lá outra pessoa. Ontem à noite. Margarida tinha pois voltado para o paço ao alvorecer.O conde de La Mole? . .o faziam. .Mas como é valente esse provençalzinho!.Parece que era o conde de La Mole. depois de haver passado o resto da noite em casa da duquesa de Nevers. disse: .O conde de La Mole comprometido? e porquê? . Por fim.Pois então que houve? . o rei convidou-me para o acompanhar num passeio pela cidade.disse Henrique . a mim. Senhor? . pousava-lhe nos lábios o seu costumado sorriso. por mero acaso. .Não senhor. e nenhum dos músculos do rosto revelava os terríveis abalos por que acabava de passar.Houve que a nossa boa mãe mandou o Sr.perguntou Margarida.disse Margarida atónita.pois não ouviu a bulha que esta noite houve no Louvre? . Minha Senhora . ordenou que mandasse entrar.Um dos nossos criados mais queridos acha-se neste momento muito comprometido. de Maurevel com seis guardas para me prenderem.O nosso querido conde de La Mole. Mostrou interrogar com os olhos Margarida para saber se Lhe consentia ficar a sós com ela. fazendo um esforço.Prova isso que tem muito bom sono. Mas se eu não estava. Faça ideia que .E quem era? . minha Senhora .Que notícia é essa.E por que motivo? . . e muito receio trazer-lhe uma triste notícia. .Como! . Henrique parou à porta. . sei quanto é afeiçoada aos seus amigos. . e à menor bulha estremecia. não pôde deixar de corar. .Que foi então que sucedeu? .E o senhor não estava nos seus aposentos? 251 . e fez sinal a Gillonne que se retirasse.

Enquanto que o Sr.perguntou com vivacidade Margarida. e essa exclamação mo prova. .Senhor . sabe quem é. Senhor? .Como! . outra pessoa conheço eu que também a tem.Sim. . por exemplo. pode ficar certo de que ele nada dirá.Como! põe em dúvida a sua coragem? . . que passou a noite em companhia destas ou daquelas senhoras. .disse Henrique . . quando mesmo do seu silêncio lhe resultasse a morte! .calar-se-ia. não se passará o dia sem que ele seja preso e interrogado.Não é só o Sr.Sem dúvida.feriu Maurevel e matou dois guardas!.tornou Margarida cheia de confusão porque estava em outra parte. . mas digo que o Sr. .Já se retira. estamos perdidos. . .Provas? quais? . se é esse o seu único receio. do bem mais precioso: a vida.exclamou a .Então tudo vai optimamente . .disse Margarida -. Mas eis aqui o que acontecerá. . pois já lhe disse tudo quanto tinha a dizer.Onde ele esteve! . . Infelizmente..Não. retiro-me.. .Em descobrir meios e modos de sairmos todos da dificuldade em que nos colocou esse homem de capa cor de cereja. . . .tornou Henrique -.Oh! meu Deus! meu Deus! pobre mancebo!.Há-de calar-se. de La Mole que tem a capa dessa cor.disse com vivacidade Margarida.. de La Mole que estava nos meus aposentos. porque. . . .disse Henrique levantandose. matou dois guardas? não pode ser! .Sem dúvida.Meu Deus! .Porque.Sim.Eis o perigo: a senhora o percebe como eu.Sabe-o decerto? . a menos que o não julgue capaz de inventar alguma história de dizer. compreendo isso.Afianço-o. . Conversemos pois agora como duas pessoas que falam da coisa mais apetecida que há: de um trono.Feriu Maurevel.E vai ocupar-se. era esse outro sujeito de capa cor de cereja: Ora esse homem. de La Mole a ninguém compromete.Ah! se puder prová-lo . como há provas. .O homem que opôs essa resistência desesperada tinha uma capa cor de cereja.. de La Mole não podia estar nos seus aposentos. . Se não era o Sr. é outro caso: dirá onde esteve e ficará salvo.Porque não podia? . Preso de Mouy. e eu também.

de La Mole! Cumpre-me mandar chamar Henrique e o duque de Alençon. de dia para dia mais insolentes se tornam esses meninos. chamar o Senhor Duque de Alençon. hão-de dar-nos melhor ocasião de os descobrir e castigar. Então saberemos tudo. a faísca alumia. Se deixar respirar os culpados. Para um espírito firme e inflexível como o seu. As suas respostas foram das mais positivas. Interrogá-los.la ao seu fim. enquanto para si tomara o bom humor e a alegria do filho. é dar-lhes suspeitas. como a duma porta que arrombam. . ou faísca.disse por fim . bem. estava. depois. esta mesma noite não se atreveram dois deles a resistir-nos. . embora parecesse desviá-la. se quiser. como o seu aposento dava para o mesmo corredor que o do rei da Navarra. levá. Além disso.dizia Carlos -. mas nada ficará sabendo. Henrique.Chame-os. Carlos passeava indeciso. como estou. de La Mole for inocente. qualquer incidente podia. ignorava completamente os acontecimentos dessa noite.O Sr. porque esse mancebo era huguenote. Catarina sentou-se.Na verdade . O duque de Alençon entrou. o Sr. bastante sossegado. a senhora pode ficar. mas depois duma conversação de dez minutos com a mãe ter-se-ia dito que ela lhe havia cedido a sua palidez e a sua cólera. estando. angustiada e torcendo os braços. enquanto matavam os meus guardas no Louvre e me insultavam a mim próprio na Rua do Sino Rachado. cercado de fantasmas. é um gentil criado. e depois Henrique. mas desejo muito saber onde estava esta noite o Sr. . . acoroçoados. pois. não! .Não. De qualquer choque resulta. Quero interrogá-los em separado. melhor seria a experiência lenta e segura de alguns dias. o coração mordido pela suspeita. Somente. ou ruído. porque o tem ao seu serviço. primeiro uma bulha. O ruído guia.rainha. imprecações e tiros. a sua conversação com Henrique havia-o preparado para a entrevista. Henrique e Francisco (até me causa horror pensá-lo) estão mais ligados do que parece. e vira fugir um homem de capa vermelha. devorando a sua cólera com a mão convulsa. Vão. meu filho. de la Mole. tinha julgado ouvir. meu filho. Prevenido pela mãe que ficasse no paço. o duque de Alençon. de La Mole . .disse Henrique retirando-se -. a rebelarem-se contra nós!. o querido conde de La Mole! 252 VIII INTERROGATÓRIOS Carlos tinha entrado no paço risonho e mofador. Então apenas se arriscou a abrir um pouco a da sua câmara.não quero esperar. triunfantes. fazendo-o curvar com a sua mão poderosa. se os deixar persuadir que escaparam à sua vigilância. Se o Sr. Não sabe o que é esperar. pois.

O Sr.Eu tinha-o dispensado . Henriquinho tem direito de pedir uma explicação. 253 . . à minha boa mãe Catarina.É isso. era prender que se queria.Senhor . .Pois seja. queria aproveitá-la . por aqui. que. Henrique.E como se chama esse fidalgo? . que crime cometi eu para ser preso? Se sou culpado. pois agora sei que assim me salvou a vida. .disse Catarina -. acareiem-me com eles! . sentindo a superioridade da sua posição. Depois do meu casamento com Margarida não me tenho havido como bom .disse Carlos -.Sim.disse ele -. Carlos não queria que se encontrassem Henrique e Francisco. . . ainda o sou esta manhã tanto como ontem à noite. a um sinal de Carlos.disse com vivacidade Catarina -. . O duque de Alençon dirigiu-se para a porta por onde havia entrado. . de La Mole.disse Henrique. digam-me os seus nomes. não é isso. qual é o meu crime? Carlos olhou para a mãe sem saber o que havia de responder. consta que o senhor se dá com gente suspeita. de La Mole junto de meu irmão. como determinava o seu serviço? .Está bem.Meu filho .E essa capa não o fez suspeitar quem poderia ser? De Alençon reuniu toda a sua força para mentir com o modo mais natural. à primeira vista.Porque não estava o Sr.Devo confessar a Vossa Majestade que. julguei que era a capa dum dos meus fidalgos.Não era assassinar . apareceu Henrique.Pois digam-me quem são esses suspeitos. Diga-me Vossa Majestade.disse o duque.Sim senhor.Com efeito . .disse Carlos. de capa vermelha .peço-a ao meu bom irmão Carlos. .disse Carlos -. .tornou de Alençon.tornou Henrique. Carlos franziu a testa.Por aí não .E peço-a! .Começo por agradecer a Vossa Majestade o haver-me levado ontem à noite consigo. . Vossa Majestade fez bem em me mandar chamar.De capa vermelha?. pode ir . pois eu ia descer para pedir justiça. .E esses suspeitos comprometem-me. . . . ignorava que já tivessem estado juntos um momento. E indicou-lhe a que dava para o quarto da ama. minha Senhora? . Não esperou este que Carlos o interrogasse.Carlos e a mãe olharam um para o outro. Após de Alençon. Mas que é que eu fiz para que tentassem assassinar-me? . e que havia bastado esse momento para que os dois cunhados se combinassem.disse o rei. justiça . .

Quem era esse homem.E o homem que tratou do modo que me disse os meus guardas e o Sr. quando o javali furioso se voltava contra Vossa Majestade. . de Maurevel.Mas enfim. mas que queres? dizem que conspiras. .Contra quem? . ...disse Henrique. minha Senhora? Como se chama? .disse Catarina . de La Mole é da casa do Sr.. Não posso dizer que não fosse o Sr. de La Mole é um cavalheiro muito dedicado à rainha de Navarra. . não serei eu quem responda pelos outros. quem estava no seu quarto esta noite? . . . de La Mole que estava no seu quarto. em que poucos se animam a responder por si. minha Senhora. 254 e às dez meu mano Carlos levou-me consigo. se eu tivesse conspirado contra Vossa Majestade.disse Henrique -. era o Sr. de Alençon.Justamente . nem que não. trazia capa vermelha? . ou do próprio Senhor Duque.Contra mim. pois.Como quer Vossa Majestade que eu saiba? Não digo que sim.Traz.O Sr. não se podia levantar. Henriquinho? . bastava-me que deixasse correr os acontecimentos. quando o seu cavalo. . . o Sr.esposo? perguntem-no a Margarida.Isso é verdade. a quem foi recomendado por sua filha. .não é menos positivo que alguém da sua casa matou dois guardas de Sua Majestade e feriu o Sr. e que me traz muitas vezes mensagens de Margarida. a quem é grato por o ter recomendado ao Sr. de Alençon. Saí do meu aposento às sete horas da tarde.Todos acusam o Sr. Não podia. . reconheceram-lhe a capa vermelha.Oh! com todos os demónios. de La Mole traz capa vermelha? .Senhor. . minha mãe. .Mas enfim . O Sr.Minha Senhora . neste tempo.disse Catarina -. com a perna quebrada. olhe que ele tem razão. . de Maurevel. como bom católico? perguntem-no ao meu confessor. .Da minha casa? . de La Mole não é da minha casa.perguntou Henrique. de La Mole.Mas .disse Carlos.disse Carlos -. . como bom parente? que o digam quantos assistiram à caçada de ontem. estar ao mesmo tempo com Sua Majestade e saber o que se passava nos meus aposentos.Era ele . Henriquinho.Pois o Sr.. toda a noite estive com ele. de La Mole.

quiseram prendê-lo injustamente.Meu filho .. Henrique inclinou-se e saiu. porém. . em qualquer prisão do Estado que Vossa Majestade houver por bem indicar-me. temo-o.tornou Henrique -.Senhor . se conspirasse contra mim. .Minha Senhora. a ordem dizia que me prendessem? . em vez de me mandarem chamar a mim. eu não saio do Louvre. . porque nos venceu? .Bravo. Enquanto.tornou o Bearnês. recebendo uma simples ordem verbal de Vossa Majestade. contra quem não era dirigida essa ordem. era o Sr.continuou Henrique -.Isso não .disse Henrique .disse Catarina. eu não o desprezo. que não estava no paço. não digo também bravo?. . voltando-se para Carlos IX: ..Se fosse eu quem. houvesse resistido.disse a mãe -. minha mãe. Henriquinho! .devo observar uma coisa a Vossa Majestade. . neste caso. seu .disse Catarina -. seria culpado e mereceria todos os castigos. a menos que se me prove que conspiro. . como ele disse.Pois sim . . até estou pronto a apresentar-me.Mas parece-me que. . e ele me toca. para que o duque de Anjou. . e. e que o ho mem que estava no meu quarto conspira comigo.Bravo. tenho jus de dizer-me e dir-me-ei fidelissímo súbdito.Dizia . em vez de obedecer. defendeu-se. vendo uma ordem assinada pelo meu rei. faz mal em desprezar este mancebo.Entretanto.disse Catarina.. de La Mole quem deveria ter sido chamado. .E porque o não hei-de eu aplaudir? Quando juntos esgrimimos.Pois então . a quem quer que estivesse no meu quarto? . apertando a mão de Carlos IX -.. E com uma dignidade que até então nunca mostrara. esse homem é inocente. Somente . até mesmo defendeu-se com algum excesso. visto ser ele que estava nos meus aposentos. .Declarava mais que prendessem. Henriquinho é meu amigo. como dizem.Qual? . foi um desconhecido.Pois faz mal. 255 ... mas não fui eu.disse Catarina. mas estava no direito de o fazer. foi Sua Majestade que a assinou. servidor e irmão de Vossa Majestade.Nada tenho que dizer .disse Catarina. Minha mãe. caso não me achassem.disse Carlos quando viu desaparecer o rei de Navarra. Depois. não se apresentar a prova do contrário. bastava-lhe que deixasse agir o javali.. .

fosse rei de França.Sim.É provável. e adivinhando que ia resultar algum esclarecimento do que Margarida lhe ia dizer. a quem ele pertence. minha Senhora: o Sr. por isso que não estava nos aposentos do rei. Ela retirouse. o Sr.É com efeito esse o crime que lhe imputam. quem manda prender é o rei. . . contentou-se. em cruzar as mãos no peito.Ele dirá onde e com quem esteve. de Maurevel? . que tenho eu que ver com os motivos pelos quais Henrique me salvou a vida! E. minha Senhora. . . Margarida estremeceu.Pois enganam-se. Quanto a esse Sr.Esta manhã venho ter com Vossa Majestade para lhe dizer que vai cometer uma grande injustiça. com todos os milhões de diabos! não quero que o moloestem. .disse Margarida -.disse Catarina com um sobressalto de alegria.Já sei. . bem que tivesse a certeza do contrário. de La Mole não o cometeu. de La Mole.é a minha filha? Ontem à noite mandei-a chamar. procurando dar certa fixidade às suas errantes suspeitas.Vai mandar prender o Senhor Conde de La Mole.Qual? . minha mãe .disse a rainha .olha! . . de La Mole.Onde estava então? . por sua pouca importância. minha filha. .Como acusado de ter estado esta noite no quarto do rei de Navarra. Vai ser preso o Sr. tinha saído. .respondeu Margarida. não é assim? . vou entender-me com o duque de Alençon. . Ao entrar na sua câmara. .se prenderem o Sr. e não eu. porém. nem pode ser culpado.inimigo pessoal. não é. .Minha mãe. Era uma maneira de Carlos IX despedir a mãe. nos meus.Nos meus aposentos.Não percamos tempo com jogo de palavras. achou Catarina também esperando-a sua filha Margarida. e o interrogarem. . .disse. de ter morto dois guardas e de ter ferido o Sr.Nos seus? . . eu não mando prender ninguém. cumpre que não seja preso o Sr.Não o cometeu? . de La Mole não era suficiente para o que ela pretendia. quando tão sérias são as circunstâncias.E esta manhã?. . tem razão.E. Catarina devia com um olhar fulminante acolher essa declaração duma princesa. depois de breve silêncio .Já que assim é. minha filha. pareceulhe que havia no modo pelo qual sua mãe proferira essas . . de La Mole.Está enganada. de La Mole.Não . .

minha filha. sabe quem era. minha mãe . . 256 . E em virtude deste raciocínio. Henrique e Margarida estão combinados contanto que a mulher se torne muda. tinha que objectar.respondeu Margarida com voz pouco firme. . de la Mole.perguntou Carlos.é minha mãe? .Não.perguntaram os dois príncipes. esse negócio. Margarida saiu. de La Mole quem estava nos aposentos do rei. de Alençon estava enganado.Torno a dizer. ou forme seis letras. .Em quê? .ligam-se. Margarida calou-se. . não mostre meia confiança. Além de que. bem .Porque não acrescentou outra vez? Assim ficaria completo o seu pensamento.á em lugar seguro. . porém.Ah! .disse Carlos franzindo a testa . Ah! .E essa outra pessoa. nada.Deveras? .Então quem era? . de La Mole que estava no quarto do rei de Navarra. mas havemos de sabê-lo quando Maurevel puder falar. . .palavras um sentido misterioso e terrível. . dia virá em que Maurevel fale ou escreva. Pode retirar-se sossegada. minha mãe. e creia que sua mãe não se descuida de proteger a sua honra. se não era o Sr.Ainda o não sabemos. Ah! são muito espertos estes meus filhos. . ou profira um nome. Procurar-se-á saber. Deixemos. que mais dia menos dia ficará esclarecido. e nesse dia tudo ficará sabido.disse Francisco empalidecendo.disse Catarina -. era decerto outra pessoa.exclamou Catarina .O que está no meu pensamento só a mim pertence.Não era o Sr. . Que me quer? Diga depressa. pois lhe era outorgado o que pedira. a quem achou em conferência com de lllençon. Catarina voltou para os aposentos do filho.Bem. ainda mesmo para falar com Catarina. o marido faz-se cego. . Sim. O que há de melhor é desuni-los imediatamente. . o culpado pôr-se.Vamos. mas a força deles está na sua união. mas daqui até esse dia. que não sei quem era respondeu Margarida empalidecendo. Carlos.disse a mãe com ar de indiferença.Mas então . minha filha? disse Catarina. .disse o rei com esse tom austero e carrancudo que às vezes tomava. pois. e ocupemo-nos com o Sr. e julgam-se muito fortes. que eu preciso quebrar. .Quero-lhe dizer que quem tinha razão era o meu filho. minha Senhora .

.foi então ele quem se defendeu esta noite contra nós. .disse de Alençon tornando-se lívido como um cadáver..perguntou o rei. nada teria que lhes dizer. meu irmão . e lhe descia até ao joelho .Então que lhe quer.disse o rei -.No da rainha? . porém. meus filhos . Mas não é com juizes e carrascos que se pune esta espécie de delitos contra a régia majestade.Oh.disse ela -. são porém príncipes.Têm razão.. pois basta uma indiscrição desse mancebo para causar horrível escândalo e perder uma princesa de França! Basta para isso um momento de embriaguez. ela tem uma casa na cidade.disse Catarina. sem mostrar que percebia qual o sentimento que fazia falar os seus dois filhos -. e ter-mo ela própria recomendado. .miserável!.E eu o ajudarei.Na Rua do Sino Rachado? . .Com todas as legiões de diabos! . . . . Guisa disse-me que encontrou a liteira de Margarida. . parando de súbito . . Se os meus filhos fossem simples fidalgos..No da rainha? ..retirome. minha mãe. não podem. e que tinha em cada extremidade uma borla. minha mãe? Se ele não estava no quarto do rei de Navarra.E agora me ocorre.Oh! é de mais . E atirou o cordão aos pés dos dois príncipes. .disse Carlos . . desatando o cordão de seda preta que lhe dava três voltas à cintura. da rainha.disse Catarina. por certo.Creio que sim . Vinguem-se como príncipes.. vou pensar nisso. .Ou de vaidade . .Por certo. . sim! .. . pois. têm razão.Não estava no quarto do rei .disse Francisco.disse Catarina -. pois ambos são valentes..Meu filho .. parece-me que é na Rua do Sino Rachado. . mas estava no.Isso não . mas deixo-lhes isto para me representar.repetiu Francisco . quem me atirou à cabeça uma bacia de prata! Miserável!.disse Catarina -. .. .tem razão. ouça bem o que lhe digo: há crime e pode haver escândalo. .E eu .disse Carlos soltando estrondosa gargalhada.. entregar a causa a juízes. a não ser que Henrique consinta em apresentar-se queixoso. não podemos...É isso mesmo . pondo a mão no ombro de Carlos e carregando-a por modo 257 assaz significativo para chamar toda a atenção do rei para o que lhe ia propor -.disse de Alençon cravando as unhas no peito -. ir cruzar a espada com a dum homúnculo..disse Francisco.disse o rei.disse Catarina.

havia de por força lhe escrever. Quanto a Orthon. és um excelente rapaz.exclamou Henrique correndo para o rei. a que sucumbira.Eu mesmo!. . para ir ter com a Sr.Não. tu. andando a passear. que. . do lugar para onde se retirara. vou eu próprio ter com ele. chamando um oficial das suas guardas. não tinham feito mais caso dele. Depois. não falo desse. e quando Henrique souber que sua mulher o atraiçoa. Então mandaria Orthon levar a resposta a de Mouy. Henrique pediu a Carlota que guardasse o mancebo até que tivesse notícias do valente de Mouy.Senhor! Vossa Majestade penhora-me completamente. tinha voltado para os seus aposentos. . adopta o parecer de nossa mãe? .disse Carlos.o morto.disse de Alençon .Não.Ah! ah! . entende-te com de Anjou e com Guisa. Encontrara aí Orthon. Henriquinho.disse Henrique -.disse Henrique.Por certo! . de Alençon.disse de Alençon apanhando-o. e sinto que cada vez te estimo mais.Este cordão. . E saindo da câmara. mandou que trouxessem Henrique à sua presença. Henriquinho. falo doutro.Qual? o que Vossa Majestade já muitas vezes me exprobrou . quando de repente se abriu a porta e apareceu o rei. pois acrescentou. Assentado esse plano. e somente acrescento: não seria fora de propósito falar de tudo isto a Henrique. seguiu pela escadinha em caracol que ia ter ao segundo andar e à porta de Henrique. . E saiu.disse -. de Sauve. completamente restabelecido do seu desmaio. . de Sauve ao seu aposento.. . reflectindo porém melhor: . E como voltara a si no intervalo da retirada da rainha-mãe. voltando-se para o rei -. .entendo.nada mais fácil. não .Vossa Majestade? . Na verdade.Explique-se Vossa Majestade . porém Orthon nada lhe pudera dizer senão que alguns homens tinham caído sobre ele. Assim. sem saber que cravara mil punhais no coração de Alençon.disse Carlos . de preferir a caçada de montaria à caçada ao voo?. Henriquinho. 258 PROJECTOS DE VINGANÇA Henrique havia aproveitado o momento de folga que Lhe dava o interrogatório que tão perfeitamente sustentara. . . à chegada do capitão dos guardas incumbidos de limpar o quarto tinha-se refugiado no aposento da Sr.É o castigo e o silêncio . vendo pelo . Catarina tinha-o visto desmaiado e julgara. e que o chefe desses homens lhe tinha dado uma forte pancada.Em todos os pontos .disse Catarina vitoriosa -. e filosofava. . e em vez dum homem dedicado poderia então contar com dois.Só tens um defeito.

Senhor. -Talvez seja . também não o quiseste acreditar.Quero dizer. como acreditar que a irmã de Vossa Majestade cometesse semelhante imprudência? . teimoso? Digo-te que Margot te engana. saberemos quem era quando esse pateta do Maurevel puder falar ou escrever.disse Carlos . é outra coisa. . e que esta noite havemos de enforcar o objecto de suas afeições! Henrique recuou de surpresa. de Anjou com uma compoteira na cabeça e de Guisa com um quarto de javali na cara. estou escutando. Não se trata. Senhor.és bem capaz disso. . Henriquinho.Senhor . não estava aqui!. cos diabos. de La Mole estava na Rua do Sino Rachado.Eu não vi nada. não o quiseste acreditar. que eras cego. vi dois homens e duas mulheres. Porém. fazer na Terra o que fez Deus no Céu.Ah! ah! .Deveras? dar-se-á o caso que eu seja míope sem o saber? . trata-se de que Margot te engana. levei eu no ombro com uma bacia de prata. e a luz foi feita.Pior do que isso.Mas então . ontem à noite. com todos os diabos! queres acreditar-me uma vez. não estava aqui. de modo a não ter a mais pequena dúvida.disse Henrique -.Não . . Em todo o caso.Pois sim. .É que. .sorriso de Carlos que ele estava de bom humor -. que uma dessas duas mulheres era Margot. .disse Henrique . 259 . . vou eu abrir-tos. te disse que tua mulher havia passado escoltada por um pintalegrete. mas não será quando fecho os olhos que me acontece semelhante desgraça? .Ora anda lá.Quando Guisa. .disse o Bearnês -. Vossa Majestade é o representante de Deus neste mundo: pode. .Não te dizia eu que eras mais do que míope. e olhou para o cunhado estupefacto. não vês bem.Qual! . que uma princesa de França arrisque assim publicamente a sua reputação? . não viste duas mulheres e dois homens? . . mas. Margot vai gritar.Como supor. se o Sr. confessa que não te é isso pouco agradável. . e procurarei emendar-me.Deus disse: Faça-se a luz.Quando ele te disse que tua mulher tinha ido à Rua do Sino Rachado. porém.disse Henrique -.não creia Vossa Majestade em maledicentes! . Vossa Majestade deve lembrar-se de que eu estava interrogando o guarda-portão. da pessoa que aqui esteve. muito pior: és cego. pois. pior para .Ah! se Vossa Majestade viu. Mas agora sei. tendo bons olhos como tens.disse Carlos -. como cem mil diabos. vi-os eu! . e um desses dois homens era de La Mole.Quando cercámos a casa da Rua do Sino Rachado.

Henriquinho.Realmente. porém. és mais do que meu irmão. mas. hão-de falar de Bion de Mosco.Vejamos. ao menos leva um bom punhal. Eu.Não quero que te molestem. de Alençon e Guisa. tu.Sim. como sabe. Enganaram-te.disse Henrique . e Margarida. de La Mole a deitar a língua de fora! . Se. e um príncipe soberano. isso é coisa realmente assentada? . decidida.tanta bondade confunde-me. Senhor . e ainda agora o dizia eu a minha mãe.Senhor . . Um rei. não fica por isso desdourada. Senhor. resolvida. que te escarneçam.Senhor!. Fazem versos juntos. Condé é meu inimigo. sou tão interessado na ocorrência. é outro caso: a minha cooperação faz dum acto de justiça um acto de vingança. O pintalegrete não terá de que se queixar. que ainda me persuado de que é inocente. é culpada. que a minha intervenção seria tida por ferocidade. porém. reflectindo. Há bastante tempo que és ludibriado por toda essa súcia de peraltas que vêm das províncias para apanharem as nossas migalhas e fazerem a corte às nossas mulheres. . Henrique.O quê? . bem quisera eu ver esses versos 261 desse mequetrefe. Ora.Oh! como é que eu sei? Parece que o tratante se gabou. . sem falar de ti. e dir-se-á amanhã: Com mil diabos! parece que o rei Carlos gosta muito do seu irmão Henriquinho. . minha mulher não é já caluniada. pois esta noite obrigou o Sr. mas juro-te que hás-de ter uma satisfação completa.disse Henrique -. que se . o que tu dizes é ouro. incumbimo-nos da execução. .Sim. e dá-lhe o golpe de misericórdia.ela! Não quero que ela te faça desgraçado.Assentada. apunhala-me esse birbante dum modo real. E Carlos olhou comprazendo-se para o cunhado. és meu amigo. pouco me importa. Não é já um castigo merecido. é um assassinato. . . de Anjou. . Vossa Majestade vinga a honra de sua irmã num fátuo que se gaba caluniandoa: nada mais simples. tu. tens espírito como um demónio. Às vezes vem ter com ela ao Louvre. . pois hás-de ser da empresa. outras vezes vai à Rua do Sino Rachado. Seja Condé enganado por de Anjou.disse Henrique -. Estar lá pessoalmente não seria próprio. . dois príncipes de França. hão-de fazer alternar Dáfnis e Córidon.Eu? . és meu irmão. pode isto suceder a qualquer. tomar eu parte na empresa.Vossa Majestade compreenderá que não me posso achar em semelhante expedição. .Mas.Como! sem falar de mim?. enquanto nós o enforcarmos. Hão-de ser pastoris.

que a obra não há-de ficar mal acabada. depois tinha-se levantado e tinha ido passar uma hora nas casas de banho que estavam na moda. Recolhido às três horas da manhã. toda essa grande trovoada tinha.Entretanto .Ora.ou eu estou muito enganado. egoísta? . Pelas sete horas da tarde do dia em que todos esses acontecimentos se haviam passado. Carlos saiu. que somos tão bem-casados! E Henrique pôs-se a rir como ria quando ninguém o podia ver nem ouvir. o outro era o seu camarada Cocunás. . acabava de se vestir. não ficas? .Tudo quanto faz Vossa Majestade é bem feito . . pois nunca o encontro.inclinou em resposta ao seu cumprimento. tendo-lhe renovado os seus protestos de amizade. para ir.É verdade que jantei.O que Vossa Majestade fizer está bem feito. sem que ele o suspeitasse. Ao lado dele dormia. e com muito apetite. que não quis acordarte. ou antes. ela já não sabe o que há-de inventar para nos desavir a mim e a minha mulher. como costumava. . e de quem talvez então ainda mais se ocupassem. 262 . Com efeito. ou esta diabrura é toda ela obra da rainha-mãe. um belo mancebo. Na verdade. que acabava de tomar um banho.acrescentou Carlos -. Com todos os diabos! . cantando por entre dentes uma cançoneta. Não te esqueças de .Bem. . assobiando uma ária de caça de que era apaixonado. de quem tanto se haviam ocupado nesse dia. outro mancebo. tinha ficado deitado até às três da tarde.perguntou-lhe Cocunás bocejando.disse o Bearnês seguindo Carlos com os olhos .Parece-me que pelas nove horas da noite. de volta para o Louvre. Antes de eu chegar. . diante dum espelho num quarto do Louvre. hoje por volta da meia-noite a empresa estará concluída. Agora cearás.A que horas? . deixa o caso por minha conta. penteava-se e perfumava-se com satisfação. meio pensando.se amontoado em redor dele sem que lhe ouvisse os roncos ou lhe visse os fuzis. estavas tão ferrado no sono.E porque não me levaste contigo. E tendo cordialmente apertado a mão de Henrique. Senhor disse Henrique. . visitar Margarida. bem.Bem. .Diz-me somente a que horas vai ele ter com a tua mulher. e construindo castelos nessa areia movediça a que chamam futuro. tinha ido jantar em casa de mestre La Hurière e. Um era o nosso amigo La Mole. .Cerca das onze. .respondeu o Bearnês. meio dormindo. descansa. nós. ficas bem contente se eu te livrar desse birbante. em vez de jantares. descansava sobre a cama.E dizes que jantaste? .

disse Cocunás.Ora. o duque de Alençon.procura tu. .Agora me lembro .É assim mesmo . mas não sei o que me mandarão fazer. Mas. e La Mole pôs a capa. .Para quê? Ainda tenho seis escudos.Não.Como! .Encontrar-te-ei aqui à noite? . meu Senhor .É verdade . .Seria imprudência. tendo revolvido tudo.ora enfim.Oh! . ela cá está! . se eu fosse jantar à nossa casinha da Rua do Sino Rachado. .Como queres que to diga? .disse Cocunás -. .disse Cocunás -.disse o pajem.Com efeito. . La Mole começava a vociferar e a invectivar contra os ladrões que até no Louvre se metiam.disse Cocunás. .exclamou La Mole . . não nos fizeram empenhar a nossa palavra em como nunca lá voltaríamos sós?. em que assentas? . depois do que sucedeu esta noite.Não. Dá cá a minha capa. és ruim de contentar. . mas se Sua Alteza ainda a quer.Pede-o. . depois de ter olhado para todos os cantos . . .vou fazer uma visita à rainha. eu não a vejo. Neste momento.A sua capa. .não a procurava senão porque queria sair com ela.Pois serve-te da minha.disse La Mole.E tu para onde vais? . . Arranja-te como quiseres.Não sei.disse La Mole .Sua Alteza havia-a mandado buscar para verificar exactamente a cor dela por causa duma aposta que tinha feito.Ah! . apareceu um pajem do duque de Alençon com a preciosa capa. onde diabo está a tua capa?.disse La Mole -. noto que de algum tempo a esta parte te trata com toda a amizade. . A rainha gosta mais de me ver com essa. . Além de que. já não é precisa. Dás-me a preta. só te digo isto. e eu quero a vermelha.não a vês? Mas onde estará então? . . . quando. espantado de que o amigo lhe fizesse semelhante pergunta . tinha-me esquecido disso. meu amigo. acharia lá os restos da ceia de ontem e um certo vinho de Alicante.É bom? . Ah! cá está. O pajem saiu.Então não sabes o que hás-de fazer daqui a duas horas? .Pois sim! uma capa amarela com um gibão verde? Para me ficar parecendo com um papagaio! .Talvez a vendesses. .Eu? .Não é essa.disse La Mole .A duquesa de Nevers? . Senhor Conde. .E então .Bem sei o que hei-de fazer. Aníbal.pedir a mestre La Hurière um certo vinho de Anjou que recebeu ultimamente. .Pois então .

La Mole estava radiante.um filho segundo!. . nunca se mostrara tão belo. e um volume de Isócrates.Grego! . não sabes onde estarás esta noite? .me? . Este duque . de La Mole? . . e isso não levou muito tempo.Então vai sair? . Fez sinal a La Mole que a deixasse concluir um período. porém.A que horas? . . Quem é que o sabe? Mas julgo que ainda estou com vontade de dormir.tão boa vontade tem ele de ser o mais velho.Quem fosse mais vaidosa do que eu.Ah! é o Sr.disse Cocunás . far-lhe-ia acreditar num improviso. vou apresentar as minhas homenagens à rainha de Navarra. mas hei-de ter que lhe dizer esta noite. encontrou-se com o duque de Alençon. . inclinando-se respeitoso.disse La Mole rindo.Terei a honra de me apresentar a essa hora a Vossa Alteza.é coisa singular! E bateu à porta da rainha.Não sei. que o Céu talvez faça um milagre em seu favor. conto com o senhor. Gillonne. atirou com a pena e convidou o mancebo a sentar-se ao pé dela.uma oração de Isócrates! Que pretende fazer disso? Oh! oh! neste papel. depois.E a que horas tenciona sair. 263 .Assim é preciso. pois.respondeu La Mole. que parecia esperar pela sua chegada.tem momentos em que fica pálido como um defunto . dirigiu-se para os aposentos da rainha. tendo concluído. Ao chegar ao corredor que conhecemos. Quanto a La Mole. vai-te para o diabo. mas para com o meu Jacinto não seria eu .Pois então.disse este. . nunca tão alegre.Entre as nove e as dez.Como pode. .Pois sim! .Bem. .Oh! . Pois vai falar a esses bárbaros em latim? .Então tens a fortuna feita . La Mole inclinou-se e prosseguiu o seu caminho. . .em querer sempre que lhe digam onde se há-de estar.Sim. estar fazendo a resposta sem ter ouvido o discurso? . E tornou-se a deitar.Não senhor.. . Esta estava ocupada com um trabalho em que se mostrava muito empenhada. já que não entendem francês. Assim. levou-o para onde se achava Margarida. de La Mole? .disse Cocunás .exclamou olhando para o livro . por ora. . Sr.Tem Vossa Alteza algumas ordens a dar.Não. latim! Ad Barmatiae legatos reginae Marguritae conscio. Este La Mole é terrível .disse La Mole .disse . príncipe . tinha diante dela um papel cheio de garatujas e borrões.

capaz de tal engano: comunicaram-me de antemão o discurso, para preparar a resposta. - Pois já estão para chegar esses embaixadores? - Ainda mais, já chegaram. - Mas ninguém o sabe. - Chegaram incógnitos. A sua entrada solene julgo que fica para depois de amanhã. Afinal - prosseguiu Margarida, com um arzinho de satisfação, com algum pedantismo - o que hoje escrevi é um tanto cicerónico. Deixemos, porém, estas futilidades: conte-me o que lhe aconteceu. - A mim? - Sim, ao senhor. - Que me aconteceu, a mim? - Ora! por mais valente que se queira mostrar, acho-o um tanto amarelo. - Então é por ter dormido de mais! Humildemente me acuso disso. 264 - Vamos! vamos! não se faça fanfarrão; eu sei tudo. - Tenha então a bondade de me inteirar de tudo, minha pérola, pois eu pela minha parte não sei nada. - Vejamos, responda-me com franqueza. Que lhe disse a rainha-mãe? - A rainha-mãe, a mim? pois tinha algo que me dizer?. - Como! não a viu? - Não, minha Senhora. - E o rei Carlos? - Também não. - E o rei de Navarra? - Ainda menos. - Mas viu o duque de Alençon. - Esse vi; encontrei-o agora mesmo no corredor. - E que lhe disse? - Que tinha algumas ordens a dar-me das nove para as dez horas. - E nada mais? - Nada mais. - É singular!. - Mas o que é que é singular? diga-me. - Que não ouvisse falar de coisa alguma. - Que houve então? - Houve que todo o dia de hoje, desgraçado, o senhor esteve suspenso sobre um abismo! - Eu? - Sim, o senhor. - E porquê? - Ouça. De Mouy, surpreendido esta noite nos aposentos do rei de Navarra, a quem queriam prender, matou três homens e fugiu, sem que dele reconhecessem mais do que a capa vermelha.

- Que tem isso? - Tem que essa capa vermelha, que até uma vez me enganou a mim, enganou também a outros. Foi o senhor suspeito e acusado por essas três mortes. Esta manhã queriam prendêlo, julgá-lo. talvez condená- lo. pois, para se salvar, talvez que o senhor não quisesse dizer onde tinha estado, não é assim? - Dizer onde tinha estado? - exclamou La Mole. Comprometer a minha pobre rainha? Oh! tem razão, eu morreria cantando só para poupar uma lágrima aos seus formosos olhos! - Ah, meu pobre La Mole! Estes belos olhos bastante têm chorado. - Como serenou, porém, semelhante tempestade? - Adivinhe-o. - Como posso eu sabê-lo? - Só havia um meio de provar que o senhor não estava nos aposentos do rei de Navarra. - Qual? - Dizer onde tinha estado. - E então? - Disse-o eu. - A quem? - A minha mãe. - E a rainha Catarina. - A rainha Catarina sabe que o amo. - Oh, minha Senhora! depois de ter feito tanto por mim, pode exigir tudo do seu escravo. 265 Oh! é realmente grande e nobre esse procedimento, Margarida!. Oh, Margarida! a minha vida é toda sua! - Espero que sim, pois arranquei-a aos que a queriam. mas agora está salvo. - Salvo, e pela minha adorada rainha! - exclamou o mancebo. No mesmo momento, fê-los estremecer inesperado estrépito. La Mole recuou cheio de inexplicável pavor. Margarida, dando um grito, fitou os olhos no vidro quebrado duma janela. Por esse vidro tinha entrado uma pedra do tamanho dum ovo, e ainda rolava pelo chão. La Mole viu então no vidro quebrado a causa do estrépito. - Quem é o insolente! - exclamou. E correu para a janela. - Espere - disse Margarida -, a essa pedra parece que está presa alguma coisa. - Sim - disse La Mole -, parece ser um papel. Margarida precipitou-se para o singular projéctil, e tirou a delgada folha que, dobrada à maneira de fita, envolvia a pedrinha. Amarrava esse papel um barbante, que saía pelo vidro quebrado.

Margarida desdobrou a carta e leu. - Infeliz! - disse ela. E apresentou o papel a La Mole, pálido em pé e imóvel como a estátua do Pavor. La Mole, com o coração apertado por doloroso pressentimento, leu estas palavras: Esperam pelo Sr de La Mole com espadas epunhais no corredor que vai ter aos aposentos do Sr de Alençon. Talvez lhefosse melhor sairpor esta janela e ir ter quanto antes, com o Sr de Mouy em Nantes. - Ora! - perguntou La Mole - essas espadas de que falam serão mais compridas do que a minha? - Não; mas talvez sejam dez contra uma. - E quem é o amigo que nos manda este bilhete? Margarida tomou-o das mãos do mancebo e, fitando nele um olhar ardente, disse: - É a letra do rei de Navarra! e se ele dá aviso, é que o perigo é real. Fuja, la Mole, fuja, sou eu que lho suplico! - Como quer que fuja? - disse la Mole. - No bilhete não se fala desta janela? - Mande, minha rainha, e, para lhe obedecer, saltarei desta janela, ainda que corra mil riscos de me fazer em pedaços. - Espere um pouco, espere - disse Margarida -, parece-me que este barbante traz um peso. - Vejamos - disse La Mole. E ambos, puxando a si o objecto amarrado a essa corda, viram, com indizível alegria, aparecer a ponta duma escada de clina e de seda. - Ah! está salvo! - disse Margarida. - É um milagre do Céu! - Não, é um favor do rei de Navarra. - E se, pelo contrário, for uma cilada? - disse La Mole. Se essa escada tem de rebentar com o meu peso?. Não confessou hoje a senhora a afeição que me tinha? Margarida, a quem a alegria havia restituído as cores, tornou-se de mortal palidez. - Tem razão; pode muito bem ser. E precipitou-se para a porta. - Que vai fazer? - exclamou la Mole. 266 - Verificar se com efeito o estão esperando no corredor. - Nunca, nunca! para que a cólera deles se dirija contra a senhora! - Que hão-de eles fazer a uma mulher e princesa de sangue? Sou duas vezes inviolável. A rainha disse estas palavras com tanta dignidade que La Mole, com efeito, compreendeu que ela nada arriscava, e que a devia deixar proceder como entendesse. Margarida entregou La Mole à guarda de Gillonne, deixando à sua sagacidade, conforme o que ocorresse, ou esperar pela sua volta, ou fugir apressado, e meteu-se pelo corredor que, ramificando-se, ia ter à biblioteca e a algumas salas

de recepção, e que, seguindo em todo o seu cumprimento, terminava nos aposentos do rei e da rainha-mãe, e nessa escadinha oculta pela qual se subia aos aposentos de d'Alençon e de Henrique. Ainda que mal fossem então nove horas da noite, estavam todas as luzes apagadas, e o corredor, além dum longínquo fulgor que recebia da ramificação, estava na escuridão mais completa. A rainha de Navarra caminhou com passo firme; quando, porém, se achou a um terço do corredor, ouviu um ciciar de vozes que, pelo cuidado com que as procuravam abafar, tomavam um tom misterioso e assustador. Imediatamente, porém, esse rumor cessou como por ordem superior, e tudo voltou ao silêncio, e até à escuridão, pois essa luz de que falámos, posto que já bem fraca, como que ainda diminuiu. Margarida continuou o seu caminho para o lugar onde o perigo, se o havia, a estava esperando. Aparentemente, estava sossegada, bem que as suas mãos convulsas indicassem violenta comoção nervosa. Ao passo que se ia aproximando, aumentava esse silêncio sinistro, e uma sombra, semelhante à dum braço, encobria a trémula e quase extinta luz. De repente, ao chegar à ramificação do corredor, um homem deu dois passos ao seu encontro, e descobrindo um castiçal de prata dourada que trazia na mão, disse: - Ei-lo aqui! Margarida achou-se frente a frente com seu irmão Carlos. Detrás dele, em pé, com um cordão de seda na mão, estava o duque de Alençon. No fundo, no escuro, dois vultos, um a par do outro, eram unicamente revelados pelos reflexos da luz sobre as espadas que tinham nas mãos. Com um rápido olhar ficou Margarida senhora de todo o quadro. Fazendo o maior esforço, respondeu, sorrindo: - Vossa Majestade quer dizer: Ei-la aqui! Carlos deu um passo para trás, todos os mais ficaram imóveis. - Tu, Margot? Onde vais a esta hora? - A esta hora? - disse Margarida. - Pois é assim tão tarde?. - Pergunto-te onde vais. - Buscar um livro das orações de Cícero, que julgo ter deixado nos aposentos de minha mãe. - Assim, sem luz? - Julgava que o corredor estivesse alumiado. - E vens do teu quarto? - Venho. - Que estás fazendo esta noite? - Preparando o meu discurso aos enviados polacos. Não há conselho amanhã, e não se assentou que cada um apresentaria a sua oração a Vossa Majestade? - E não tens quem te ajude nesse trabalho? Margarida concentrou toda a sua força.

- Tenho, meu irmão - disse -, o Sr. de La Mole, que é muito sábio. - Tão sábio - disse o duque de Alençon -, que eu lhe havia pedido que quando saísse dos aposentos de Vossa Majestade, minha irmã, viesse também aconselhar-me a mim, que não tenho o seu talento. - E estava esperando por ele? - disse Margarida com a maior simplicidade. 267 - Estava - disse de Alençon com impaciência. - Nesse caso - disse Margarida - já lho mando, meu irmão, pois já acabámos. - E o livro? - disse Carlos. - Mandá-lo-ei buscar por Gillonne. Os dois irmãos trocaram um sinal. - Pois vá - disse Carlos - e nós continuaremos a nossa ronda. - A vossa ronda? - disse Margarida. - Então que procuram? - O homenzinho vermelho - disse Carlos. - Não sabe da tradição do homenzinho vermelho que aparece às vezes no velho Louvre? Meu irmão de Alençon diz que o viu, e estamos à procura dele. - Sejam bem sucedidos! - disse Margarida. E retirou-se olhando para trás. Viu então na parede do corredor as quatro sombras reunidas como que conferenciando. Num segundo, achou-se à porta dos seus aposentos. - Abre, Gillonne, abre! Gillonne obedeceu. Margarida entrou no quarto, e achou La Mole, que a esperava tranquilo e resoluto, porém com a espada na mão. - Fuja! - disse - fuja, sem perda de um segundo. Esperam-no no corredor para assassiná-lo. - Mande - disse La Mole. - Sim, é preciso que nos separemos para nos tornarmos a ver. Durante a excursão de Margarida, La Mole havia firmado a escada na janela; saiu por ela; mas antes de pôr o pé no primeiro degrau, beijou com ternura a mão da rainha. - Se esta escada for uma cilada, e eu morrer, Margarida, lembre-se da sua promessa. - Não é uma promessa, La Mole, é um juramento. Nada receie! adeus. E La Mole, animado, deixou-se escorregar, e não descer, pela escada. No mesmo momento bateram à porta. Margarida acompanhou La Mole com os olhos na sua perigosa descida, e não se voltou senão depois que o viu pôr o pé no chão. - Minha Senhora - dizia Gillonne -, minha Senhora! - Que é? - disse Margarida. - O rei está batendo à porta.

- Pois abre. Gillonne obedeceu. Os quatro príncipes, sem dúvida impacientes com a demora, estavam em pé no limiar. Carlos entrou. Margarida dirigiu-se para o irmão com o sorriso nos lábios. O rei lançou um rápido olhar em torno de si. - Quem procura meu irmão? - perguntou Margarida. - Procuro. - disse Carlos - procuro. ora, cos diabos! procuro o Sr. de La Mole. - O Sr. de La Mole? - Sim; onde está? Margarida deu a mão a Carlos, e levou-o à janela. Nesse momento, dois cavaleiros partiam a todo o galope, dirigindo-se para a torre de madeira: um deles desatou a sua faixa, e em sinal de adeus fez tremular o alvo cetim no meio das trevas; esses dois homens eram La Mole e Orthon. Margarida mostrou-os com o dedo a Carlos. 268 - Então - perguntou o rei -, que quer aquilo dizer? - Quer dizer - respondeu Margarida - que o duque de Alençon pode guardar na algibeira o seu cordão, e os Srs. de Anjou e de Guisa meterem na bainha as suas espadas, pois o Sr. de La Mole não tornará a passar esta noite pelo corredor. 269 XL PROJECTOS DE VINGANÇA Depois que chegara a Paris, ainda Henrique de Anjou não tinha estado com Catarina, sua mãe, de quem, como é sabido, era o filho predilecto. Para ele, esse encontro não era uma vã satisfação de etiqueta, nem um cerimonial custoso de preencher; mas o cumprimento dum dever bem doce para esse filho que, se não amava a mãe, tinha ao menos a certeza de ser por ela ternamente amado. Com efeito, Catarina preferia esse filho, ou pela sua bravura, ou talvez mais pela sua beleza (pois em Catarina havia, além da mãe, a mulher) ou, enfim, porque, segundo algumas crónicas escandalosas, Henrique de Anjou recordava à florentina certa época feliz de misteriosos amores. Catarina era a única que sabia da volta de Anjou a Paris, volta que até Carlos IX teria ignorado, a não ser o acaso que o levou à frente do Palácio de Condé, justamente quando dele saía seu irmão. Carlos não o esperava senão no dia seguinte, e Henrique de Anjou esperava ocultar-lhe os dois motivos que tinham antecipado um dia a sua viagem, e que eram a sua visita à bela Maria de Clèves princesa de Condé, e a sua conferência com os embaixadores polacos. Este último passo, sobre cuja intenção Carlos tinha ficado incerto, era o que o duque de Anjou tinha que explicar a sua mãe; e o leitor, que, como Henrique de Navarra, estava certamente em erro a respeito desse passo, aproveitar-se-á

da explicação. Por isso, quando o duque de Anjou, tanto tempo esperado, entrou no aposento de sua mãe, Catarina, tão fria, tão compassada de ordinário, Catarina, que depois da ausência de seu predi lecto filho, só abraçara com efusão Coligny, que devia ser assassinado no dia seguinte, abriu os braços ao filho do seu amor, e apertou-o ao peito com um impulso de afeição materna que causava admiração achar ainda nesse árido coração. E depois afastava-se dele, e encarava-o, e punha-se de novo a abraçá-lo. - Ah! minha Senhora! - disse-lhe por fim o filho - já que me dá o Céu a satisfação de abraçar, sem testemunhas, a minha mãe, consolo o homem mais desditoso e mais infeliz deste mundo. - Oh! meu Deus! - exclamou Catarina - que lhe aconteceu, meu filho? - Nada que minha mãe não saiba; amo e sou amado; mas este amor, que faria a ventura de outro qualquer, faz a minha desgraça. - Explique-se, meu filho. - Oh! minha mãe! esses embaixadores. essa partida. - Sim - disse Catarina -, esses embaixadores já chegaram, essa partida urge. - Não urge; porém meu irmão torná-la-á urgente, pois detesta-me; faço-lhe sombra, e quer ver-se livre de mim. 270 Catarina sorriu. - Dando-lhe um trono, pobre infeliz coroado. - E que vale isso, minha mãe? - respondeu Henrique com angústia - não quero partir. Eu, um príncipe de França, educado no que há de mais fino na polidez, junto da melhor das mães, amado por uma das damas mais formosas do mundo, hei-de ir para o meio dessas neves, para o fim do mundo, morrer lentamente entre essa gente rústica, que leva dia e noite a embriagar-se, e que mede a capacidade dos seus reis pela dos seus tonéis?. Não, minha querida mãe não quero. Se partisse, morreria! - Vejamos, Henrique - disse Catarina apertando as mãos do filho -, vejamos! é essa a verdadeira causa? Henrique baixou os olhos como se nem à própria mãe se atrevesse a confessar o que lhe ia no coração. - Não haverá outra - prosseguiu a mãe -, menos romanesca, mais razoável. mais política?. - Minha mãe, não é culpa minha se esta ideia me ficou no espírito, e talvez mais o preocupe do que deveria; mas não foi minha mãe a própria que me disse que o horóscopo consultado no nascimento de meu irmão Carlos o condenava a morrer moço? - É exacto - disse Catarina -, mas um horóscopo pode mentir; e a esta hora faço votos eu própria para que todos

esses horóscopos se não realizem. - Mas, enfim, o seu horóscopo não dizia isso? - O meu horóscopo falava dum quarto de século; mas não dizia se era para a sua vida ou para o seu reinado. - Pois então, minha mãe, consiga que eu fique; meu irmão tem vinte e quatro anos; daqui a um ano a questão estará resolvida. Catarina reflectiu profundamente. - Pois sim - disse ela -, assim seria melhor, mas era se pudesse ser. - Oh! pense, minha mãe - exclamou Henrique -, que desesperação para mim se eu trocasse a coroa de França pela da Polónia! Ser atormentado nesse desterro pela lembrança de que podia reinar no Louvre, no meio desta corte elegante e ilustrada, ao pé da melhor das mães, cujos conselhos me teriam poupado metade do trabalho e do afã, que, acostumada com meu pai a carregar com uma parte do peso do Estado, teria tido a bondade de me prestar igual auxílio. Ah! minha mãe! como eu viria a ser um grande rei! - Ora, ora, meu caro filho! - disse Catarina, para quem esse futuro tinha sempre sido também a mais suave esperança - não se aflija assim. Pois não pensou alguma vez em qualquer expediente para vencer essa dificuldade? - Oh! decerto que sim; e foi especialmente por isso que voltei dois ou três dias antes de ser esperado, deixando todavia que meu irmão Carlos acreditasse que era por causa da Sr. de Condé; fui ao encontro de Lasco, o mais importante dos enviados; disse-lhe quem era, e fiz quanto pude nessa primeira entrevista para me tornar aborrecido: espero havê-lo conseguido. - Ah, meu caro filho! - disse Catarina - foi mal lembrado: cumpre pôr o interesse da França acima de todas essas repugnanciazinhas. - Pois, minha mãe quererá o interesse da França que, caso suceda alguma desgraça a meu irmão, seja rei o duque de Alençon, ou Henrique de Navarra? - Oh! Henrique de Navarra nunca, nunca, nunca! - murmurou Catarina, deixando a inquietação cobrir-lhe a fronte da tristeza e dos pesares que a envolviam cada vez que se apresentava essa questão. - Pois olhe - continuou de Anjou -, meu irmão de Alençon não é melhor do que ele, e não a ama com maior desvelo. 271 - Enfim - tornou Catarina -, que disse Lasco? - O próprio Lasco hesitou quando instei com ele para que pedisse audiência. Oh! se ele pudesse escrever para a Polónia, e cassar essa eleição!. - Loucura, meu filho, loucura! O que uma dieta consagrou é sagrado. - Mas enfim, minha mãe, não se poderia obter que esses polacos aceitassem em meu lugar o meu irmão?

- É, senão impossível, ao menos difícil - respondeu Catarina. - Não faz mal; veja, experimente, fale ao rei; atribua tudo ao seu amor pela Sr. de Condé; diga-lhe que estou apaixonado, que enlouqueço. Ele até já me viu sair do palácio do príncipe, com Guisa, que me presta todos os serviços dum bom amigo. - Sim, para fazer a Liga; e meu filho não vê isso, mas eu vejo-o muito bem. - Vejo, sim, minha mãe; entretanto, vou-me aproveitando dele. - E que disse o rei quando os encontrou? - Mostrou acreditar no que lhe disse, isto é, que só o amor me havia trazido a Paris. - Mas do resto da noite, não lhe pediu contas? - Sim, minha mãe; mas fui cear a casa de Nantouillet, e fiz um barulho escandaloso, para que se espalhe a notícia desse escândalo, e o rei saiba, sem a menor dúvida, que estive lá. - Então não sabe da sua visita a Lasco? - Ignora-o absolutamente. - Bom, tanto melhor. Verei, pois, se lhe falo em seu favor, querido filho; mas bem sabe que nesse génio áspero não há influência segura. - Oh! minha mãe! minha mãe! que felicidade seria se eu ficasse! Como eu havia de a amar ainda mais do que amo, se isso fosse possível! - Se ficar, será decerto mandado para a guerra. - Isso pouco me importa, conquanto que eu não deixe a França. - Estará exposto a morrer. - Ora, minha mãe, não é a guerra que mata. morre-se de dor e de desgosto. Mas Carlos não há-de consentir que eu fique; detesta-me. - Tem inveja do meu belo vencedor, é coisa sabida; mas porque é o meu filho tão valente e tão feliz? Porque apenas aos vinte anos tem ganho batalhas como Alexandre e como César?. Entretanto, a ninguém se descubra; finja estar resignado, apresente-se respeitoso ao rei. Hoje mesmo há reunião do Conselho Privado para examinar os discursos que têm de ser proferidos na cerimónia; faça o papel de rei da Polónia, e deixe o resto por minha conta. A propósito: e a sua empresa de ontem à noite? - Foi mal sucedida, minha mãe; o sujeito estava avisado, e safou-se pela janela. - Ah! - disse Catarina - hei-de um dia saber que génio mau é esse, que assim contraria todos os meus projectos. Entretanto. já desconfio quem seja. ai dele! - Sim, minha mãe?. - disse o duque de Anjou. - Esse negócio fica por minha conta. E beijou com ternura os olhos de Henrique, que saiu do

quando Catarina o deteve. Que dia se marca para a sessão pública? . pelo contrário. ia Carlos entrar na sua ferraria para concluir um venábulo que ele próprio estava fazendo. Carlos estava de muito bom humor. que tinha quase completamente de fazer outro discurso. minha mãe?. Esquecemo-nos dessa palavra. irritou ainda mais os espíritos. Esta sessão. que não tinha notícias do rei de Navarra depois das que ele lhe dera à custa dos vidros da janela. saiu para ir trabalhar.Ainda mais uma palavra. . Carlos. no aparente esquecimento de Vossa Majestade. há profundo cálculo. pois a presença de espírito da sua Margot mais o alegrara do que o afligira. como se tal cena não tivesse ocorrido. . A antipatia que sempre tivera a La Mole havia-se transformado em ódio.Então. e surpreendido entre ele e a mãe um olhar de inteligência. cada qual discutiu o que responderia. Enfim. a quem não tornaram a falar da cena da véspera.gabinete. parou e fitou nela os olhos.Ah. porém.que no próprio silêncio. excepto Carlos.Não há . e todavia ela é importante. sentando-se outra vez -. que pressentia que ia encontrar na mãe alguma oposição à sua vontade. pois esforçou-se em retocá-lo e emendálo. Pouco depois chegavam aos aposentos da rainha os príncipes do seu sangue. sem todavia promover um rompimento. e. Margarida estava ao mesmo tempo pensativa e atenta. leu os discursos. para pensar no que lhe parecia a revelação dalgum novo plano.acrescentou Catarina tranquilamente .disse o rei.Porque . quanto. sim . que tinha lido a hesitação nos olhos de seu irmão de Anjou.respondeu Catarina . voltou para os seus aposentos na esperança de que ele viria. Senhor.me parece que não seria conveniente que os polacos nos vissem correr . Os deputados polacos haviam mandado o texto dos discursos que tinham de proferir. De Alençon estava.Julgo .disse Carlos -. Falemos a esse respeito. ao discurso de Henrique de Anjou. Margarida. desde que soubera que La Mole era amado por sua irmã. pois tinha de lembrar-se e de vigiar. e porque o havia de haver. que mais temos? . 272 Margarida. A de Alençon mostrou severa censura quanto ás palavras. tinha-o esperado com algum empenho no corredor por ser isso uma espécie de caçada. De Alençon. Carlos deixou Margarida responder como lhe parecesse. Não queria mal a La Mole. preocupadíssimo. mostrou-lhe mais do que má vontade. retirou-se. Henrique de Anjou. . minha mãe: que dia quer que se marque? .

Pelo contrário. mas o seu não é talvez o mesmo.Então só falta uma coisa. . é necessário um desenvolvimento considerável de forças. Catarina estremeceu. e noutro deixar de a ter. .Pelo contrário. Assim. nunca porém previdente. para . Mas. Tenho um milhão e quatrocentos 273 mil escudos na Bastilha a minha caixa particular deu-me de sobras oitocentos mil escudos.Minha mãe . mas que muito certamente lhe paga em glória e em dedicação. virá reunir-se aqui em poucas horas. a minha companhia de archeiros chegou ontem da Bretanha. violento. A cavalaria ligeira. que vieram a marchas forçadas de Varsóvia até aqui. . mas. . quando meu irmão sair de França. e em caso de urgência. é admirável. Honra por honra. .Seis semanas? . já que tem tão boa resposta a dar a cada uma das minhas objecções. dotá.com tanta sofreguidão atrás dessa coroa. e essa há-de achar-se.Bem . eu previ o acontecimento e prepareime.disse Carlos -.Desculpe. -Queé? .Pode ter razão Vossa Majestade num sentido. apressando-se assim. poderá Vossa Majestade dar a audiência daqui a seis semanas.Ah!. recearia que o acusassem de aproveitar com demasiada diligência a ocasião que se apresenta de aliviar a Casa de França do fardo que lhe impõe seu irmão de Anjou. Nantouillet tem mais ao meu dispor trezentos mil escudos. . Mandei vir dois batalhões da Normandia.É. . espalhada na Touraine. . minha mãe.Bom! Vossa Majestade pensa em tudo. que julga do poder dos Estados pelos sinais exteriores. . rendo-me. .Minha mãe. tudo podia estar pronto para hoje mesmo. para receber esse povo guerreiro. é seu parecer que audiência pública deve ser apressada?.lo-ei tão ricamente que ninguém se atreverá a pensar o que receia que se diga. minha mãe: foram eles os sôfregos. Em rigor. . um da Guiena. que. pois. e por pouco que se apressem os alfaiates. delicadeza por delicadeza. dir-lhe-ei. minha Senhora .Bem sabe que eu não dou pareceres senão os que podem concorrer para a sua glória. os ourives e as bordadeiras estão trabalhando desde o dia em que foi sabida a eleição de meu irmão.Dinheiro. que guardei no meu tesouro do Louvre. e enquanto julgam que só tenho quatro regimentos. .respondeu Carlos IX. e julgo que não as há suficientes nas vizinhanças de Paris.disse Catarina atónita. . os ourives e bordadeiras. . sim. os alfaiates. posso apresentar vinte mil homens.disse Catarina -. minha mãe.exclamou Carlos. pois até então conhecera Carlos arrebatado. Julgo que não está muito fornecido.

Ah meu irmão de Anjou é muito hábil e é um bravo que os levará a baterem-se de manhã até à noite. dou-lhe mais três dias ou quatro.que não haja alguma falta.exclamou Catarina . povo de soldados.exclamou ela . mata. Amar meu irmão! porque o hei-de amar?. e fará com que morram com todo o sangue-frio. não é? . há alguém que me tenha amado?. e seja quem for que reine nesse país. diga que não ama seu irmão! .que quer afastar Henrique de Anjou. e que é.E ver no trono da Polónia um príncipe de França é o seu maior desejo? . Denodado acossa. mal lhe zunisse ao ouvido a primeira bala. já que assim me descobre o seu coração.pois adivinhou que eu queria afastá-lo? Adivinhou que eu não o amava? E quando isso assim fosse? que tinha?. . ah! ah! ah! está brincando?.Bem. E não me importo que meu irmão faça outro tanto.Ah! ah! ah! .Oh! . isso é lógico. e de Maria Touchet. Então é essa a honra feita à Casa de França que mais o lisonjeia.disse Catarina. desde o primeiro até ao último dia do ano. que glória! será uma morte soberba! Catarina estremeceu. da minha ama. minha mãe. De Anjou é o que lhes convém: o herói de Jarnac e de Moncontour serve-Lhes como uma luva. porém. Quem quer que eu lhes dê? De Alençon é um cobarde.está ainda mais apressado do que eu julgava. fere. animando-se também -. o sustentáculo natural do trono. é a coisa. a pé ou a cavalo. e não o homem. manda sair do reino o seu primeiro irmão. sempre marchando para a frente. que bem triste ideia iria dar dos Valois! Fugiria. . São destros e valentes. que o preocupa. derruba. . Talvez que na lide sucumba. . animavam-se-lhe de febril rubor as pálidas faces. Estará pois no seu papel. esses homens! Nação militar. o nosso querido Henrique! Eia! eia! ao campo de batalha! Bravo! já soam as trombetas e os tambores! Viva o rei! viva o vencedor! viva o grande general! Proclamam-no três vezes por ano imperador! Será admi rável para a Casa de França e para a honra dos Valois.Certamente.Senhor .Diga antes .Não. . Não. . digno de lhe . tomam para rei um grande capitão. . Henrique de Anjou tem mais que se lhe diga! Sempre com a espada na mão. já lho disse.E ama-me ele? E ama-me a senhora? E além dos meus cães. não. só me amo a mim. em todos os pontos. meu filho. Está procedendo como rei fraco e monarca mal aconselhado. não! não amo meu irmão. com a breca! Fiquemos onde estamos! Os Polacos acertaram.É isso mesmo.Honra por honra. E à medida que falava. cumpre que lhe abra o meu. os olhos relampejaram-lhe. . .disse Carlos com nervosa gargalhada .Então é o facto.

cobarde . Catarina ficou como aterrada. entende? 274 . chamei meu filho a esse que ia deixar-me. como Rómulo!. de Alençon é moço incapaz e fraco. E sou capaz de jurar que ele. se acontecesse alguma desgraça. E quando eu morresse. E incapaz duma traição contra mim.exclamou ela . . trémulo de cólera e com o olhar cintilante. . tem razão! o rei de França. e passados alguns segundos disse: . o rei de França tem somente súbditos. . que tua mãe te defenderá. Somente não lhe há-de acontecer escapar. não tem mãe. devo-lhe uma indemnização. melhor para mim!. nada tomaria a não ser da sua mão.Henrique de Navarra? Henrique de Navarra rei de França.exclamou Carlos que me importa o que há-de acontecer quando eu já não existir? O Bearnês ergue. e em redor de mim só vejo olhos refalsados. gosto de Henriquinho. havia de chorar. fá-lo-ia rei de França e de Navarra. se não apagar a ameaça que vejo nos seus olhos. É porventura crime desejar uma mãe que seu filho a não deixe? . porque. sim.Senhor. O rei de França não tem irmãos. esse não é seu filho. mas se viesse a adoecer. segundo ouvi dizer. porém.E eu digo-lhe que ele a há-de deixar! que há-de sair de França.Ah! pobre filho! . abaixou a cabeça. Amo-o mais neste momento.teu irmão quer matarte. mas quer que lhe obedeçam imediatamente. de La Mole. em vez de rir da minha morte.suceder.exclamou Carlos. enganava-me. Catarina. tem a mão tépida. e eu então que sou! algum filho de loba.Seu filho. vejo que interpretou mal as minhas palavras.Oh! com todos os milhões dos diabos! . deixando nesse caso em completo abandono a sua coroa. . mais do que fraco. coitado! foram pessoas de minha família. Dispensa que o amem. que há-de ir para a Polónia! e isso dentro de dois dias! e se Vossa Majestade acrescentar mais uma palavra. Com esta ameaça. em prejuízo dos meus filhos? Ah! Santa Virgem! havemos de ver! E é então para isso que pretende afastar meu filho? . pela primeira vez. O rei de França não precisa de ter sentimentos: tem vontades. como dizia. há-de partir amanhã! se a senhora não abaixar a cabeça. não é o que diz? Ora.Seu filho. gosto dele esse bom Henriquinho tem um ar de francueza. jurá-lo-ia! Além do mais. como se escapou o Sr. ou pelo menos havia de fingir que chorava. como fariam meus irmãos. mas daí a pouco reergueu-a.e o Bearnês ergue-se por detrás dele. não quisera que saísse de ao pé de mim.se por detrás de meu irmão. sossega. chamá-lo-ia. Dizia ainda agora que de ninguém gostava. enforco-o esta noite! como Vossa Majestade queria que ontem à noite fosse enforcado o predilecto de sua filha. porque é ele quem neste momento mais receio perder. . só aperto mãos geladas. Felizmente eu gozo de saúde. envenenaram-lhe a mãe.

. mas depois. que o seguira. Catarina encontrou na sua câmara Renato. que a esperava. ou queira ou não queira. Ao chegar. matam-me! . antes de todos. meu Carlos? .E como vai? . e num pulo saiu da câmara.Agora . e não esta noite.disse o rei. há-de ser já!. e levantou Carlos.exclamou a boa velha.Pois bem! pelo sangue de Cristo! há-de morrer.exclamou Carlos. viu-o? .Vi. depois de olhar inutilmente em volta de si para procurar o que pedia. 276 XLI O HORÓSCOPO Saindo do oratório. há-de conceder alguma demora. arrancou-o da bainha de couro incrustada de prata. Tinha-lhe ela escrito na véspera. Ao mesmo tempo. onde acabava de comunicar ao seu filho predilecto tudo o que se havia passado. E deixou o rei. Miguel. ama. que esperava com ansiedade no oratório o resultado dessa entrevista para ele de tanta importância. . viu o punhalzinho que a mãe trazia à cinta. .Quem é então que te mata? Carlos soltou um fraco suspiro. . Hum!. e desmaiou de todo. . não daqui a pouco. E Carlos. Estendeu os braços. ao vestíbulo. chamada a si. de cortesãos.Então .Jesus! que me matam! acudam-me! acudam-me! Catarina. . aparecera uma mulher que afastou os espectadores. lavado em suor e sangue. porém. impassível e sem se mover. . as forças. precipitou-se sobre ele. pôs-se a gritar: . não pelo amor materno. superexcitadas além do poder humano. deixou cair a arma aguda.disse consigo a implacável Catarina -.O rei teve um acidente! acudam! acudam! A este grito.Matam-me.Ah! afrontam-me? . que se cravou no soalho. .disse o médico Ambrósio Paré. e Renato vinha em pessoa trazer a resposta do bilhetinho que recebera. Oh! uma arma! um punhal! uma faca!. mas pela dificuldade da situação. . Mas. lívido como um cadáver.perguntou a rainha -. para ir matar Henrique de Anjou onde quer que estivesse. o sangue rompeu-lhe em abundância pela boca e pelo nariz. soltou um grito lamentável e caiu rolando pelo chão.Matam-te. olhou para ele um momento. viu-o cair. percorrendo todos os rostos com um olhar ante o qual até Catarina recuou. 275 . a quem mandaram imediatamente chamaro rei está muito mal. Era a primeira vez que a rainha se encontrava com o astrólogo depois que o visitara na sua loja da Ponte de S. de repente abandonaram-no. de oficiais. para ir ter com o seu segundo filho. correram para ao pé do rei um mundo de criados.

dir-lhe-ia que julgo o Sr. Está em sua casa.Julgo. para poder servir o rei com dedicação. ele mesmo fez todos os esforços.Ferida no coração? . teve a veia jugular aberta.disse Renato -.disse Catarina. porque não há verdadeiro amor sem ciúmes.Minha Senhora . 277 . Renato tirou um papel da algibeira e apresentou-o a Catarina. a espada atravessou-lhe a laringe. . e no entanto sempre duvida.Existe.É porque também a ciência me traiu . que suportou admiravelmente esse olhar. Ontem salvou-o da morte arriscando a honra e a vida.disse Catarina . . . e sobretudo demasiadamente apaixonado pela rainha de Navarra. mas apenas pôde traçar duas letras quase ilegíveis e desmaiou. . . .Fala? . .Tenho-as aqui.E essa figura existe ainda? . devia fazer com que ele escrevesse. .Estou certo disso.E viu essas letras? . minha Senhora.Pode-se dizer que melhor.Em minha casa? Seria curioso . minha Senhora. olhando fixamente para Renato. de La Mole? .Tentei isso. . . limitámo-nos à figura de cera. .Não.E quando? . mestre Renato. .Da ciência.Fui. e a perda de sangue tirou-lhe todas as forças.Já foi procurado por ele. .disse ela.Um e um O.De quê? . . foi o que eu lhe disse. e toda essa comédia de Margarida não passaria dum meio de desviar suspeitas?.Vossa Majestade está tão habilitada como eu para o julgar. de La Mole demasiadamente apaixonado para se ocupar seriamente de negócios políticos.Ferida no coração.E julga-o profundamente apaixonado? . . . mestre Renato? .E a rainha de Navarra ama o Sr.Ama-o a ponto de se perder por ele. Vossa Majestade está vendo estas coisas.Seria com efeito esse La Mole. algum filtro? . que o abriu apressadamente..que essas preparações cabalísticas tivessem realmente a influência que se lhes atribui. .Julga isso? . . se eu ousasse emitir a minha opinião num objecto sobre o qual Vossa Majestade hesita em formar a sua.Nesse caso.E pediu-lhe ele alguma beberagem.Não. .

a experiência deve fazer-se precisamente à hora do nascimento. minha Senhora. quando são empregados por mim. Catarina sorriu e abanou a cabeça. . e que se dispunha a sangrá-lo se continuasse a mesma agitação nervosa. primeiro que tudo.Essa pessoa nasceu de dia ou de noite? . porque a baronesa de Sauve. a Sr a de Sauve tem os lábios cada vez mais frescos e rosados. . se lhe disser a idade que tem e o dia em que nasceu.E se eu lhe levar essa porção de sangue e de cabelos. .Está bem. se lhe disser sob que signo essa pessoa viu a luz. talvez. .disse Catarina -. Renato . procurarei obter o sangue.Oh! você bem o sabe. . e saiu.Renato. passando por outras mãos. .Poderei. da minha parte. . lá estaremos.disse Catarina -.Saber. que fosse o sábio e não a ciência. nunca me falou nesse opiato.Que é necessário para apreciar a duração provável da vida duma pessoa? . Agora. sem parecer ter notado o lá estaremos.Está bem . minha Senhora. . porém. poderia dizer-me a época provável da sua morte? .E depois? . depois da recomendação que Vossa Majestade me fez. o dia em que nasceu.Não sei o que Vossa Majestade quer dizer . .Bem. .O seu opiato fez maravilhas. menos uma.. . mas é possível que.disse ela -. contra o seu costume. . indicava que. usando do direito que têm todas as mulheres formosas de terem caprichos. . minha Senhora. as suas perfumarias perderam completamente o aroma? . no mesmo estado em que Vossa Majestade as deixou. julguei que me cumpria não lhe mandar. entretanto. só com diferença dalguns dias. No dia seguinte. As caixinhas estão ainda todas em minha casa.respondeu o florentino.Não é ao meu opiato que se deve atribuir esse resultado. Renato . Já tenho os cabelos.Não o perdem.Pois esteja amanhã às cinco horas em minha casa.Às cinco horas e vinte e três minutos da tarde. À meia-noite tinha ela 278 mandado saber dele. nem para que fim. que. Catarina não iria só. voltaremos talvez a esse objecto. Renato cumprimentou a rainha. que desapareceu sem que eu saiba quem a tirou. a idade que tem e sob que signo viu a luz. foi Catarina à câmara do filho.Obter uma porção de sangue e de cabelos dessa pessoa.Ouvirei. falemos doutra coisa. ao romper da manhã. e eu. . e tinham-lhe respondido que mestre Ambrósio Paré estava ao seu lado.

Perguntou pois à ama se o médico não tinha sangrado o filho como lhe tinha mandado dizer que o faria. ainda pálido com a perda de sangue. mas pensou que. não durmo mais. saiu do quarto. é a Senhora.. Portanto. para o fazer adormecer. tornou depois a entrar.Não. Carlos dormia com a cabeça apoiada no ombro da ama fiel. ama . como se tivesse cedido a este conselho. que lho tinha dado como se faz para consolar um doente ou uma criança.disse Catarina -. que será amanhã. Catarina teve por um momento a lembrança de se apossar desse lenço. fechou os olhos. encheu do vermelho licor um frasquinho que trouxera para esse fim. Mas apenas ouviu fechar-se a porta. .Ah. não teria talvez a mesma eficácia. Chamando então a si. o médico tinha recomendado que o guardassem. como após um sonho. mudado de posição. tornou a encostar ao seu ombro a cabeça do rei. para examinar os fenómenos que apresentasse. que tinha alguns conhecimentos de medicina. Na cabeceira da cama estava um lenço cheio de nódoas de sangue. Estava esse sangue numa tigela. Carlos. havia três horas. no gabinete ao lado da câmara. com uma terna violência. estando o sangue misturado com a saliva. A rainha-mãe. como todas as princesas dessa época.disse ele -. a ama respondeu que sim.Meu querido Carlos . escondendo na algibeira os dedos. Catarina foi examiná-lo. e Catarina. Carlos sentouse na cama.. Bem. disse: . bradou: .. não. não tinha. a corte!. e examinando-o. pode dizer ao seu filho predilecto. No momento em que ela reaparecia na entrada do gabinete. pediu o sangue para ver.Ainda estremecendo durante o sono. e de repente. Chame essa . todos os seus pensamentos impregnados de rancor. com medo de interromper o descanso do seu caro filho. a qual. ao seu Henrique de Anjou. nada era mais fácil. com uma voz sufocada pelo acesso que ainda lhe durava. será quando quiser. e. os selos. cujas extremidades podiam denunciar a profanação que acabava de cometer. que a ama enxugava com uma toalhinha de cambraia bordada.. mandem vir aqui tudo! A ama. De vez em quando aparecia nos lábios do enfermo uma espuma subtil. tentou acalentá-lo como fazia quando ele era criança. Carlos abriu os olhos e deu com a vista na mãe. encostada à cama.O meu chanceler. sossegue e durma. . e que a sangria fora tão abundante que Carlos desmaiara duas vezes.

No entanto. não ouve como ele geme. os eventos do destino sobre que se consultava o oráculo.Aqui os tem.Fez esta noite as suas observações? . Quando Carlos falava assim era preciso obedecer. . . Mandaram-se chamar as pessoas que o rei designara e fixou-se a sessão. o qual. dessa visita. como à roda do seu leito de morte se . destinada a representar. que estivera muito clara. Será assim. Em cima do altar estava preparado o livro das sortes. . à hora convencionada. estava em brasa uma lâmina de aço. E Catarina entregou ao nigromante um anel de cabelos louros e um frasquinho de sangue. e durante a noite.Trouxe os cabelos e o sangue? . remexeuo. . prevenido. como se sabe. como pede socorro? Não vê como tudo se converte em sangue em torno dele? Não vê. que imediatamente se extravasou em desenhos fantásticos.Oh. a rainha-mãe e o duque de Anjou dirigiram-se para casa de Renato. finalmente. A mãe chegou depois. isto é. viveu já perto dum quarto de século. ela mesmo não o teria conhecido. quero trabalhar esta manhã.bradou Renato . e se não 279 soubesse antecipadamente que era o filho que a esperava ali. e num grande fogareiro.vejo-o torcer-se com acerbas dores. minha Senhora! . tinha preparado tudo para a sessão misteriosa.disse Catarina. pelos confusos arabescos que a ornavam. minha Senhora . trazia máscara. cabelos postiços e vinha embuçado num grande capote. o coração ardente e uma altivez sem exemplo. e a resposta dos astros já me deu conta do passado. É poderoso. a dos sacrifícios. e deixou cair sobre a lâmina em brasa uma boa gota desse fluido. Aquele a respeito de quem Vossa Majestade me interroga tem. mas para daí a cinco dias. e tem até agora alcançado do Céu glória e riqueza. Catarina tirou a máscara e o duque de Anjou conservou a sua.disse ele -.perguntou Catarina a Renato. Para que o não conhecessem. não para o dia seguinte. minha Senhora? . tinha Renato podido estudar o movimento e o aspecto das constelações. para misturar bem a serosidade do sangue com as outras partes. como todas as pessoas nascidas sob o signo de Câncer.gente. o que era impossível. Henrique de Anjou foi o primeiro que entrou. apesar dos privilégios que o rei lhe tinha conservado.Fiz. Renato pegou no frasco. Na câmara da direita.Talvez . mesmo a ama. às cinco horas. não ousava opor-se às suas ordens.

aqui estão as espadas.E durará isso muito? .perguntou Catarina -. palpitando com uma emoção indizível. inflamaram-se os cabelos. finalmente.. estava inclinada sobre a primeira. o dístico seguinte: Ainsi aperi ce gue lón redoutait Plutôt trop tôt si prudence tait. Entretanto. e leu. e só uma mulher o há-de chorar. que parece ter uma criança nos braços. que parecia de mulher. das quais ele mesmo nada en tendia. . com uma voz cuja alteração não pôde reprimir. empregando nessa acção um fervor e uma convicção tal que lhe incharam as veias das fontes e teve convulsões proféticas e es tremecimentos nervosos. Mas apenas Renato acabara de falar. tudo se apagara gradualmente. apesar de toda a sua força. ali na extremidade da lâmina. e lançou no braseiro todos os cabelos. farpada como uma língua vermelha. Catarina abriu então o livro à sorte. pronunciando uma frase cabalística composta de palavras hebraicas.E a respeito daquele que sabe . Levantou-se. como os que atacavam as antigas pitonisas sobre a trípode. ordenando depois a Catarina que abrisse o livro à sorte. Renato foi para junto do altar. minha Senhora. A não ser que se não vença o destino por meio duma luta de Deus com Deus. clara.Florescentes como sempre. a quem uma ávida curiosidade fizera dobrar-se sobre o braseiro. . e as perseguiam até no leito da morte. e retendo a mão de Henrique de Anjou. e com outra o anel de cabelos. derramou em cima da lâmina de aço todo o sangue. tomou com uma das mãos o frasco. . ainda cheio nas três quartas partes. Catarina olhou para o filho.Um ano! . o futuro é certamente desse homem. Ao mesmo tempo. Outra figura. . pareceu perguntar-lhe quem eram essas duas mulheres. a placa de aço tornouse branca.bradou Renato . rápida. e que olhasse para o primeiro lugar que se apresentasse.Uma das estrelas que compõe a sua plêiade esteve.Entretanto o quê? . e esse homem morrerá. e anunciou que tudo estava pronto. dando uma só labareda. quais são os sinais deste mês? . ainda está outra mulher. ali. e como mãe que era. Um profundo silêncio reinou algum tempo em torno do braseiro.perguntou Catarina. O duque de Anjou e Catarina viram imediatamente estender-se sobre a lâmina uma figura branca como a dum cadáver amortalhado.preparam grandes combates? Veja: aqui estão as lanças. Mas não. durante .. e disse uma oração cabalística.apenas um ano.

.Sim. dando de propósito ao filho um título que devia derrotar as conjecturas de Renato. eis um sangue tão puro.Venha. Mas é bem possível que um acidente. não obstante. Renato ajoelhava..continuou Renato . para um sábio. que promete longos anos ao corpo donde saiu.Quatrocentas léguas andam-se em oito dias. Havia pois alguma esperança? .Ah! . se as coisas seguissem o seu curso natural. tão cheio de sucos animais.o tempo das minhas observações. para o próprio mestre Ambrósio Paré -. Durante esse tempo.um acidente.uma nuvem negra.Pois sim..Oh! não pense mais nisso. toda essa vida deve extinguir-se antes dum ano! Catarina e Henrique de Anjou tinham-se voltado e escutavam. um acidente. ao passo que só nós podemos ler o passado e o futuro. . uma gota do sangue que tinha ficado no fundo do frasco. . é impossível. e se ele se der...exclamou Catarina . .perguntou o duque de Anjou. conde .. .para um médico. não estarei cá. e falou-lhe em voz baixa.razão de mais para ficar. obrigado. coberta com uma nuvem negra.Ah! .disse Catarina a Henrique . estarei a quatrocentas léguas.Tão certo como estarmos aqui três pessoas vivas que um dia descansarão também no seu túmulo. derramando sobre a mão. todo esse vigor deve desaparecer bem depressa. Catarina levou o filho para longe do clarão do braseiro. . e que prova quão pouco sólidos são os testemunhos da ciência simples que praticam os homens vulgares! Para outro que não fosse eu . Os olhos do príncipe luziam através da máscara. disse: .. ouve? . e. E partiram.Obrigado . ouvi-lhe dizer que esse sangue promete uma longa vida.. mas sabe se aquela gente me deixará voltar?.De quem fala. .Ah! .. minha Senhora? . .Ah! sim... e...Entretanto.disse Henrique ..Então .bem vê. E voltando-se então para Renato: .persiste em crer que ele morrerá antes dum ano? . tão fecundo. . meu filho. tome esta bolsa.disse este . minha mãe ..Oh.disse Catarina. .continuou Catarina . ouvi-lhe dizer que o sangue era puro e fecundo.. . . à claridade da chama.disse o mancebo disfarçando o metal da voz -.Estranha contradição.é porque aos sábios ordinários sópertence o presente. . .

não se admirando muito. finalmente. A aflição de Cocunás era. Enquanto os provava. começando a sua investigação pela hospedaria da Estrela Brilhante passando da hospedaria da Estrela Brilhante à Rua do Sino Rachado. lhe dissera.Ah! por amor de Deus. meu filho. Quanto a Cocunás. Miguel. pois julgara por um instante que todos esses reis e príncipes lhe tinham morto o seu amigo.se o acidente de que fala Renato não é esse que desde ontem obriga o rei a estar num leito de dor? Ouça. tinha morto o primeiro e ferido os outros dois..Que pena não poder esperar minha mãe!.Quem sabe . De Alençon acabava de receber uma carta. de o não ter visto recolher-se em toda a noite. duma espada com punho de ouro. Vá. . 282 XLII AS CONFIDÊNCIAS A primeira coisa que soube o duque de Anjou quando chegou ao Louvre. eu vou passar pela porta da Travessa do Claustro das Agostinhas. Com efeito. e que o haviam lançado para algum subterrâneo ou enterrado nalgum canto. da Rua Tizon à Ponte de S. que suscitou entre ele e três senhores da corte explicações que acabaram à moda da época: no campo. começara pela manhã a sentir alguma inquietação. Cocunás. Isto a ponto de que o último. da Rua do Sino Rachado à Rua Tizon. que o rei tinha encomendado para ele. Os alfaiates e joalheiros esperavam o príncipe com magníficos vestuários e soberbos adereços.Pobre la Mole! sabia tão bem latim!. e tome cuidado em não irritar seu irmão caso o veja. que era o barão de Boissey.. Miguel ao Louvre. varie um pouco! diga ao menos que ele sabia grego. e dum precioso anel que Carlos lhe tinha mandado nessa mesma manhã. foi que a entrada solene dos embaixadores estava marcada para o quinto dia. a minha comitiva espera-me nesse convento.disse Catarina . . vá para o paço. perguntava pelo seu amigo a todos os ecos do Louvre. empregara para com as pessoas a quem se dirigiu um modo tão original. tão exigente (o que é fácil de compreender conhecendo-se o carácter excêntrico de Cocunás). por esse motivo. Nessa investigação. por isso saíra em busca de La Mole. como é bem de supor. e. com uma cólera que lhe arrasava os olhos de água. da Ponte de S. o boato da aventura do corredor tinha-se espalhado. e tinha-se fechado no quarto para a ler à sua vontade. isto é. Finalmente. Cocunás mostrara nesses recontros a consciência que mostrava ordinariamente em casos semelhantes. caindo: . dizendo: . extrema. Henrique. aprazia-se Henrique de Navarra com a posse dum magnífco colar de esmeraldas.

De Alençon abanou a cabeça. depois de reflectir. sei bem suportar uma notícia triste. de La Mole. Senhor. pois. digne-se levar a sua benevolência até ao fim. e bem desejara eu conhecer esse amigo para lhe provar o meu reconhecimento. humilhado porque apanhou com um quarto de javali na cara. De Alençon teve bons desejos de pôr na rua o atrevido que vinha tomar. meu bravo Cocunás. dou-lhe a minha palavra de príncipe. há-de haver quem o tire de lá.juro. . Demais. Meteram-no em alguma masmorra. que. Fica por minha conta. A partida falhou. que tinha. pois que Vossa Alteza quis ter a extrema bondade de me dizer o começo da história. furioso por ter levado com uma bacia no ombro.disse Cocunás.lhe que hei-de saber onde está! . empalidecendo de novo . as pedras não são duras para todos. em vez de se entregar ao primeiro movimento. arranjaram uma partida para matarem o Sr. diz Vossa Alteza. quero dar-te um conselho de amigo.disse ele -. Ele despreza sempre os meus conselhos.bradou o piemontês. não é assim? Tanto melhor.Ouve . mas não o mataram. tanto desejo como Cocunás de saber onde estava La Mole -.lhe conta das suas acções. diga-mo. é que. o teu amigo desapareceu sem que se saiba para onde foi. . e o duque de Guisa.Soube ele que de Alençon fora da partida. foi procurá-lo. mas um amigo do seu amigo desviou o golpe. a aventura dos três duelos em menos de vinte e quatro horas tinha dado tanta importância ao piemontês. O Sr. o que deixou crer a Cocunás que esse amigo não era senão o próprio príncipe. . respirando como um fole de forja à vista da certeza que o príncipe lhe dava da existência do seu amigo. . Senhor . isso torná-lo-á circunspecto. depois desta aventura. esquecendo a majestade que rodeava o príncipe de sangue. mas Cocunás falava com tanto desembaraço. e. é o que se chama uma boa acção.prosseguiu ele -. para lhe pedir uma explicação como o faria para com um simples fidalgo. descontente por lhe haverem lustrado os cabelos com uma compota de laranja. respondeu ao seu gentil-homem com um sorriso encantador: . é verdade que o rei. Senhor. 283 que o duque de Anjou. referindo-me o mais que se passou.Ah! isso. mas sorriu ainda com mais agrado do que já tinha feito. Que fizeram então dele? Tenho bastante ânimo.Ainda que fosse para o Inferno! .O pior de tudo . de Alençon não respondeu nada. mas por motivos bem diferentes.Meu querido Cocunás.Ah! . os olhos flamejavam-lhe de tal modo. .disse de Alençon. Quiseram matá-lo.

Não digas que vais da minha parte: se cometesses essa imprudência. Foi. . excelente príncipe. Bom príncipe. sabendo das façanhas por que esse desespero se havia manifestado. que sentia sempre em presença da rainha. Isto apenas satisfazia em parte Cocunás: por . ao menos.Diga.disse ele -. diga. e logo que tiveres notícias. e que provinha mais da superioridade do espírito do que da hierarquia. Margarida sorriu e. e compadeça-se da minha desventura por intercessão dalgum desses heróis que acabo de citar. receava achá-la em pranto. Senhor. pois.Vai procurar a rainha Margarida. serei mudo como uma estátua ou como a rainha-mãe. . não me atrevia. Quanto ao lugar da sua residência. dá. depois de ter obrigado Cocunás a prometer-lhe que guardaria segredo. ou Orestes sem Pílades. e que Sua Majestade deve saber onde ele está.disse Cocunás . eu lho juro.disse o duque Francisco -.mas. porque tivera notícias do seu desespero e. contou-lhe a fuga da janela. Suponha Euríalo 284 sem Niso.Vai. vai .Minha Senhora .De quê? . porém Margarida recebeu-o com um sorriso que logo o tranquilizou. pela sua vida lhe suplico que me restitua o meu amigo. Dámon sem Pítio. .disse Cocunás -.Senhor .que já tinha pensado nisso. uma vez que Vossa Alteza me recomenda segredo a esse respeito.. introduzido no aposento da rainha logo que lhe mandou dar parte de que estava ali. porque realmente estou tão inquieto como tu. ou que. à qual o piemontês se não tinha dirigido por causa duma grande desavença que entre eles existia havia dois ou três dias. porque. por mais instantes que fossem as súplicas do piemontês. guardou sobre este ponto o mais profundo silêncio. . porém.Confesso a Vossa Alteza . meu amigo. além do indizível respeito que me impõe a rainha. porque sem ele não posso viver. Lembra-te porém duma coisa. me diga o que é feito dele. quase que perdoara a Cocunás o modo um tanto brutal com que tratava a sua amiga duquesa de Nevers. talvez não viesses a saber nada. vou armar-me de valor e vou ter com ela! . e cujos corações. não ganhavam em ternura ao meu. . visto que Vossa Alteza me assevera que La Mole não morreu. Margarida esperava Cocunás. que ela deve saber o que é feito dele. príncipe magnânimo! foi dizendo Cocunás no caminho para o aposento da rainha de Navarra. Cocunás entrou sem poder vencer o embaraço de que tinha falado a de Alençon. Mas. Cocunás.

aquele em que vê ou possui -. senão venturosamente cheio. Por seu lado. Margarida. à noite. insensível às minúcias que para as almas ternas constituem a mais doce. considerava agora o seu dia. As grandes dores são situações anormais. a de Nevers. sobre pontos de diplomacia da mais alta importância. Mas. daí resultou ver Margarida claramente que o duque de Alençon tinha uma boa parte nesse desejo que o fidalgo da sua casa manifestava de saber o que era feito de La Mole. E. ela. da minha parte. tudo o que posso dizer-lhe é que aquele a quem procura está vivo. Margarida entregava-se toda à ventura de ser amada com tão pura dedicação. Creia na minha palavra. a mais apetecível de todas as felicidades. por volta das nove . Ainda mais: o espírito melancólico e romanesco de La Mole achava um certo encanto neste contratempo. quando ao chegar à janela. e sofre enquanto dura a ausência. a fuga do rei de Navarra. mas para saber dela o que não pudera saber de Margarida. de cuja opressão o espírito se subtrai logo que pode. que não choraram. A ideia de se apartar de Margarida tinha desde o primeiro instante dilacerado o coração de La Mole. e daí resultou tornarem-se ambos a ver. como o amante verdadeiramente ferido não é feliz senão por um momento . que é o único que tem direito de falar. Pela parte que lhe tocava. Cocunás retirou-se. Assim. minha Senhora. julgando que nada havia que acrescentar a uma frase que tinha a dupla vantagem de manifestar o seu pensamento e de exprimir a alta opinião que formava do mérito de La Mole. passara toda a tarde à janela. ela.disse a rainha -.Creio numa coisa ainda mais certa. tratou de dispor o mais breve possível o acontecimento que devia restituir-lha. isto é. . que desprezava as frioleiras do amor vulgar. ardendo em desejos de tornar a ver Margarida. como se uma voz oculta lhe tivesse noticiado a volta do mancebo. sem o querer. isto é.Pois bem . logo no dia seguinte. e foi mais para salvar a reputação da rainha do que para preservar a sua própria vida que ele condescendera em fugir.isso alargou-se. . não por causa dela pessoalmente. ao menos venturosamente terminado. espírito varonil. pergunte ao rei de Navarra. tinha ele voltado a Paris para ver Margarida na janela. pensando numa reconciliação com a Sr. se quer absolutamente saber alguma coisa positiva a respeito do seu amigo. experimentando essa ventura que acompanha os gozos proibidos. a mais delicada. Exprobrava-se muitas vezes daquilo que considerava uma fraqueza. La Mole. nos seus belos olhos.

Espero. um cavaleiro cuja mão pousava nos lábios ou no peito. veja o modo com que eu possa dar-lhe um destes abraços que lhe envio. . o negócio é urgente. que. E no reverso da segunda. e recolheu-se para a ler. ouviu a voz de Henrique de Navarra. e que se repetiam todas as noites desses dias que se passavam à espera da recepção dos embaixadores. Espero. Margarida persuadiu-se logo que a missiva devia conter alguma coisa particular. no qual ia embrulhada alguma jóia preciosa. muito mais preciosa ainda por ter pertencido àquela que a mandava do que pela matéria que lhe dava o valor. cair aos pés da Real Senhora. e meio oculto na sombra. A rainha separou imediatamente as folhas da carta. mais apressado do que costumava. descobria no cais. que era forçado a correr a toda a brida quando vinha. respondia servindo-se do mesmo expediente. o qual. Apenas a viu. Algumas vezes era também um bilhete atirado com força por uma pequena mão. e perguntava a Gillonne se podia entrar. 285 que duravam desde a sua fuga. fora adiada por alguns dias por ordem expressa de Ambrósio Paré. apertava-a contra o peito. semelhante a um milhafre. que se podiam isolar das primeiras separando as duas folhas: Minha Senhora e minha rainha. ao qual. como se viu. e Margarida não saía da varanda senão quando já não podia ouvir os passos do cavalo. era então uma tosse significativa o que ia levar ao amante a recordação da voz amada. não obstante. O bilhete dizia no reverso da primeira folha: Minha Senhora. ela recusava obstinadamente qualquer outro encontro além dessas entrevistas à espanhola. com a sua reserva habitual. batia à porta comum. Margarida abriu a janela e foi à varanda.disse ela. La Mole. preciso de falar ao rei de Navarra. La Mole caía então. e que na volta parecia de matéria tão inerte como o famoso colosso que perdeu Tróia. foi à janela. não esperou pela carta que sempre se lhe atirava: enviou a sua. vestida com um simples roupão branco. liam-se estas palavras. Na véspera da recepção.horas. por volta das nove horas da noite. fechou-a e correu para a porta. que veio. quando todos no Louvre se ocupavam com os preparativos para o dia seguinte. recepção. . Eis o motivo por que a rainha não estava inquieta pela sorte de La Mole.Pode entrar . com a destreza habitual. sobre essa presa. meteu uma no seio e a outra na algibeira. e que ia tinir na calçada a alguns passos do mancebo. Mal acabava Margarida de ler esta segunda parte da carta.

e é por esse motivo que eu vinha perguntar-lhe o que pensa do Sr. O que me admira unicamente é não ouvir falar de de Mouy. minha Senhora? .Vossa Majestade tem razão em se inquietar pelo silêncio de meu irmão. Se fica. que há dias anda a fugir de mim. tinham quase adquirido. Mas o rei de Navarra não era um desses tiranos que proibem às suas mulheres o fresco ou contemplarem as estrelas. senhor? . porque.Apesar de Margarida ter fechado a janela sem o menor ruído. visto que é pouco vigiado. pode-se voltar. preciso de três vezes mais garantias do que precisaria para partir com 286 seu irmão.respondeu Margarida. o mais depressa e habilmente que era possível. e o que me parece é que. Tenho pensado nisso todo o dia. minha Senhora.Então. o duque de Anjou rei da Polónia.Certamente .disse Margarida admirada . . ele mudou com elas. porventura os nossos interesses não são sempre os mesmos? . tendo mudado as circunstâncias.Seja.disse Henrique. Não será isso um meio para poder partir só. não é assim? . salvar a vida a La Mole?.respondeu Margarida -. não querem ver!.disse ele -.Justamente. quis eu vir trocar com Vossa Majestade algumas palavras acerca dos meus negócios. enquanto todos os nossos cortesãos provam os seus trajos de gala. não se dignou Vossa Majestade. e quando entrei achei sobre o tapete uma espécie de bilhete. no meio dessa sociedade de que ele sempre desconfiava tanto. cujos sentidos.Minha Senhora . não desestimaria conservar-se em Paris para guardar à vista a coroa de França. a exímia sensibilidade a que são levados no homem que vive no estado selvagem.Sim.Eu tinha deixado a janela aberta. . ou um meio para não partir? Digne-se de me dar o seu parecer. . .Eu. para me dar gosto. . . Não teria tido por acaso alguma notícia dele. Esse mancebo devia ter ido a Nantes. . a ponto de se conservar retirado em São Germano desde anteontem. que Vossa Majestade continua a encarar como seus. Não é seu costume estar assim sem se mover.e como quer Vossa Majestade. de Alençon. o movimento fora percebido por Henrique. vendo ele o rei Carlos doente. Henrique estava risonho e gracioso como de costume. para partir só. isso muda todo o nosso plano. . sempre aplicados.E que tinha isso.disse Henrique. não é isto? . .Ah! eis o que me explica um enigma cuja decifração não podia achar . É o mais que eu podia desejar .Quer dizer que. confesso-lhe que ele será para mim de grande peso. minha amiga? Nada haveria mais natural. e quando se lá vai. cujo nome e presença na empresa me serviriam de salvaguarda. .

que não custou muito a achar. estava fechada num armário do famigerado gabinete. tornem a tomar esse caminho. . E leu: Minha Senhora.disse Henrique -.diz que espera.Aí está .Que ordena então Vossa Majestade? .Pois. é ela mesma.disse ele.E como há-de subir? . Espero. O rei correu-a com os olhos.Não importa. .Crê isso? . entregando ao rei a folha de papel que tinha metido na algibeira. Meu Deus! quero que ele venha! .respondeu Margarida -. . Isto é muito simples. Agora. de La Mole? . ameaçado? que ele venha! diz Vossa Majestade. .disse Henrique. .Que quero?. preciso de falar ao rei de Navarra. . Se for de Mouy que espera (o que estou inclinado a crer).Não tive razão talvez. . .Não há nada mais simples . acabou o meu pensamento.Mas que quer Vossa Majestade? .Bem vejo. fixando no marido os seus belos olhos admirados . o negócio é urgente.Vossa Majestade não guardou a escada de corda que lhe mandei? Se o não fez. enquanto 287 ela procurava a escada. .Não sei . .como pode Vossa Majestade dizer semelhante coisa? Um homem a quem o rei quis matar.Obrigados a fugir pela janela.Esta letra não é do Sr.disse Margarida. . Henrique pegou na vela para alumiar Margarida.Então não falta nada . .. corando de prazer com a ideia de se tornar a ver junto de La Mole.respondeu Margarida. e se esse digno amigo quiser subir. o talhe pareceu-me contrafeito.disse Margarida. e ao qual não liguei importância alguma . quem sabe se ele não virá desse lado.continuou Margarida.Então não vê?. ate-a à varanda e deixe-a cair. minha . pois isso é possível? Fizeram-se acaso as portas para aqueles que foram. . não tardará a fazê-lo.disse Henrique -. vejamos o que diz .bradou Margarida.Um bilhete do qual nada compreendi a princípio. que está assinalado. é isso que quer dizer? .Que ele venha? . se eles sabem o caminho da janela. E sem perder nada da sua fleuma. desmentiu a sua previdência habitual. Posso ver esse bilhete? . .Tenho-a ali .Justamente.respondeu Henrique -. se assim é.disse Margarida. Senhor . . .perguntou a rainha.acrescentou Henrique.Sem dúvida. .Pois que dificuldades lhe acha? . . ousarei mesmo dizer que é provável. visto que não podem absolutamente entrar pela porta. .É possível .continuou Henrique .

de La Mole. apresentando uma cadeira a La Mole.disse Henrique. hei-de segui-lo. . . preveni-o disso. Angoulême e Bordéus. La Mole ficou por um instante absorto. mas bem sabe que convém que o Sr.não é de Mouy.disse Henrique. agora mostre a escada. de Alençon estiver pronto a partir.Vossa Majestade tem a minha palavra .Porque os melhores conspiradores são os mais prudentes.disse ele graciosamente . . . . . Sr. Com efeito. de Mouy achar-se-à na Ponte de S. . Talvez que se ainda estivesse suspenso na escada.disse Henrique. e.Senhora.Aí .Quanto te amo! . e Vossa Majestade também estará? Os olhos de La Mole pregaram-se nos de Margarida com profunda ansiedade. apertando vivamente a mão do mancebo.Então que temos.disse a rainha -. de Mouy. . .Oh! .Que deixei o Sr. Nada de estabelecer meio termo com ele: ou nos serve. e se se sabe que ele esteve nos aposentos de Vossa Majestade.disse Margarida. galgou as grades da janela. Boa noite. convém portanto apressarmonos. ou nos atraiçoa.Minha Senhora . e se amanhã à noite o Sr. . e não Vossa Majestade? . e daí ganhará Vossa Majestade Blois.Que vem comunicar-me?.Devia receber há dias uma carta do Sr. vendo que a rainha não ia ao seu encontro.Ainda não.disse Margarida. de La Mole. esperar-nos-ão quinhentos em Fontainebleau. Margarida sorriu e atou a escada.respondeu La Mole -. Henrique foi fechar a janela. é o Sr.Ele sabe alguma coisa deste projecto. e ele deseja saber se Maurevel falou. não nos movamos. meu Senhor. . mas não tardará. . Senhor? . na falta de Margarida. de Alençon parta ao mesmo tempo que nós. apareceu-lhe Henrique. Marcelo com cento e cinquenta homens. bem vê. . em vez de pousar em cheio sobre a janela.Porque hei-de ser eu. peço-lhe que ate esta escada à varanda. . por minha parte estarei pronto amanhã. e aqui o tem. um homem. ficou hesitante alguns segundos. .O senhor desejava falar com o rei de Navarra sobre negócios urgentes . seja para onde for. . A vista dum homem perturbaria talvez o meu amigo.disse Margarida -. Mas. de Mouy na barreira . de La Mole? perguntou Henrique. se não é abusar muito da sua condescendência. Belo! estou que de Mouy vai subir. passados dez minutos. ficando oculto no canto do quarto -. ébrio de alegria. queira entrar. Sr. voltando-se para a rainha -. esteja bem à vista. caísse para trás. se hesitar.A opinião de Vossa Majestade é a dele.

de La Mole . Venha. . Senhor. .disse Henrique -. Sr. pode-se precisar dela quando menos se esperar.Trate de se lhe reunir. . não é assim? . À direita ou à esquerda de Vossa Majestade. para ir explorar o caminho. Henrique saiu. Senhor Conde.. visível ou invisível. 289 .disse Henrique . eu tenho o meu: embuçar-nos-emos ambos. se ficarmos. e não se sabendo que se expunha assim por minha causa.Orthon está-me esperando no cais. Poderá Vossa Majestade intercalar no seu discurso a frase esperada. . venha.Não se esqueça .disse Henrique -. . se fugirmos. .Realmente . eu estou em guarda.Não lhe dê isso cuidado.Oh! quando a tornarei a ver? . La Mole inclinou-se respeitosamente diante da rainha.Se não pode entrar no Louvre. . desejo dar algumas ordens particulares a Orthon. é um objecto precioso para conspiradores.disse La Mole. Como se poderá dar uma resposta a de Mouy? . . . Margarida obedeceu. na casa da Rua do Sino Rachado.respondeu Margarida. uma destas noites. isso é bom para os casos extremos. Poderiam vê-lo. pode sair comigo.disse Henrique .disse Margarida -. de Mouy que esteja no seu posto e faça por ouvir. o Sr.Não há nada mais fácil .disse Henrique.Lá há-de estar. entrando -. de La Mole. amanhã. .Amanhã à noite. Senhor . vou ver se está alguém nos corredores.Vá então levar-lhe a minha resposta. se ele deve fugir ou esperar. . ele há-de lá estar: basta uma palavra no discurso da rainha que lhe dê a entender se Vossa Majestade consente ou não. La Mole ficou a sós com a rainha. iria comprometer a rainha.disse Henrique -. . de Mouy é um homem precioso. procurarei amanhã o Sr. Oh! pela janela não. de La Mole não é um servidor comum. desconfie. de Alençon. de La Mole. Demais. meu Senhor?. com o ar mais natural do mundo. Se o duque de Alençon recusar ele só pede quinze dias para reorganizar tudo em nome de Vossa Majestade. e atravessaremos a rede sem dificuldade. Espere aqui.de guardar bem a escada de corda.e não me falou em coisa alguma!.Desconfie. . não há ninguém. Tem certamente nas imediações do palácio um cavalo e um criado. minha Senhora? 288 .Dê-lhe a sua mão a beijar . Sr.Que tal! .Sr. durante a recepção dos embaixadores. que tenho a senha. meu Senhor.Mas. O senhor tem o seu capote. . pode vir. por onde.Bem .Sossegue.

um corpo de cavaleiros vestidos de vermelho e amarelo. Além das poucas palavras que proferira. meio guerreiro. Ao lado do bispo vinha o palatino Lasco. revestir o esplêndido manto real. excitaram a estrondosa aprovação do povo. que estava condenado. quando ela viu Carlos. eram completamente eclipsados por esses recém-chegados. quando abriu os olhos no momento em que a mãe saía do gabinete. não obstante a riqueza das suas equipagens. de ouro e pedras preciosas. poderoso senhor tão chegado que possuía a riqueza e tinha o orgulho dum rei. por caminhos que o mau tempo havia tornado quase impraticáveis. Após os dois embaixadores principais. ajaezados de seda. Um desses embaixadores era o bispo de Cracóvia. e começou a crer que o partido mais seguro para Henrique de Anjou era o magnífico exílio a. pálido como um espectro. assentou que convinha dobrar-se na aparência a essa vontade de ferro. que. Os oficiais marchavam nos flancos da linha. vinha grande quantidade de senhores polacos. em número de quatro. Catarina esperara até ao último momento que a recepção fosse outra vez adiada. na altura da Abadia de Santo António. O seu cavalo branco. parecia lançar fogo pelas ventas. ninguém diria que havia um mês que aquele pobre animal andava quinze léguas por dia. representavam magnificamente o mais mitológico dos reinos cavaleirosos do século xvi. por onde se havia decidido que os embaixadores fariam a sua entrada. os cavaleiros franceses. que continuava. Uma ala de suíços sustinha a multidão.XLIII OS EMBAIXADORES No dia seguinte. e ainda os mais ousados . e destacamentos de cavalaria protegiam a circulação das carruagens dos senhores e das damas da corte que iam ao encontro do préstito. cujos cavalos. Não tardou a aparecer. Todos sabiam no Louvre que tinha havido uma terrível altercação entre eles. toda a população de Paris tinha corrido para o arrabalde de Santo António. Precedia ele os embaixadores. que eram acompanhados por dois palatinos de alta linhagem. e que a decisão do rei cedesse à sua fraqueza. Trazia um vestuário meio pontifical. sem penetrarem a causa. equipado com um luxo verdadeiramente oriental. ainda Carlos não tinha falado a Catarina depois da cena que produzira a crise a que ele por pouco não sucumbira. a quem desdenhosamente chamavam bárbaros. e a passo de manejo. com gorros e capas forradas de peles. mas resplandecente de ouro e de pedras preciosas. Realmente. de longas crinas soltas. e empunhando sabres largos e curvos como alfanges turcos. Na retaguarda deste primeiro corpo vinha outro. Mas logo que chegou o dia.

esse velho. Começaram os discursos. quanto ao mais. cujos olhos negros e vivos faziam sobressair. justamente defronte de Margarida e de Henrique de Navarra. que assentisse a que a coroa da Polónia fosse oferecida a um príncipe da Casa de . bom número de homens embuçados em grandes capotes. ou por seus próprios meios.tremiam dessa frieza e desse silêncio. com os do velho. Tinha-se preparado a sala grande de recepção do palácio. mas inutilmente: La Mole não estava ali. e todos tremiam. sob um disfarce qualquer. Quanto a Paris. Sabia-se que Catarina havia quase tremido. mas como para uma cerimónia lúgubre. a actividade dos verdes anos. prevenido por La Mole que de Mouy devia. ou ajudado pelos esforços dos companheiros. A obediência de cada um tinha sido triste e passiva. Lasco pedia. Os seus olhos depararam. naturalmente simplórios e de bocas abertas. fora dada ordem às guardas e sentinelas para deixarem entrar com os embaixadores todo o povo que as salas e os pátios pudessem conter. e pareciam receber as ordens dum velho venerando. Com efeito. graças à complacência do chefe dos suíços. olhava para todos os lados. muito pouco católico apesar da sua conversão. eram dos primeiros que o seguiam. reconheceria entre os grupos compostos desses honestos burgueses. conseguiu ser dos primeiros que se introduziu no Louvre e. apesar da barba branca e das sobrancelhas grisalhas. Henrique. isto é. aquele que considerasse bem nesse dia a população da capital. fixou o olhar da rainha em de Mouy. Um sinal de de Mouy desvanecera todas as dúvidas do rei de Navarra. movimento e curiosidade. e não o deixaram mais. correspondendo-se por olhares e acenos quando estavam a distância e trocando em voz baixa algumas palavras rápidas e significativas todas as vezes que se aproximavam. finalmente. achou meio de se postar por detrás dos embaixadores. que o próprio Henrique duvidara que esse homem de barbas brancas pudesse ser o mesmo intrépido chefe dos huguenotes que cinco ou seis dias antes se defendera com tanto denodo. O primeiro foi dirigido ao rei. pronunciada ao ouvido de Margarida. assistir à sessão. mostravam-se muito entretidos com o préstito. digno huguenote. procurava La Mole. e como semelhantes sessões eram ordinariamente públicas. o seu aspecto era sempre o que a grande cidade apresenta em circunstâncias semelhantes. como tremem os pássaros da calma ameaçadora que precede a tempestade.lhe. Os seus belos olhos alongaram-se depois para todos os cantos da sala. 290 No entanto. Uma palavra de Henrique. tudo se tinha preparado no Louvre. não como para uma função. Porém. em nome da Dieta. porque de Mouy estava tão bem disfarçado. Esses homens.

não tivessem sido guiados por duas estrelas. está coroado rei da Polónia. partindo de Varsóvia no meio da mais profunda noite. O duque respondeu na mesma língua. e ainda mais felizes do que estes. inclinou-se. e enquanto dois senhores polacos revestiam o duque de Anjou com o manto real. Imediatamente. seu irmão. Carlos respondeu com uma adesão precisa. imóveis e ameaçadores como os duma águia. como era uma galantaria que lhe fora concedida para fazer brilhar o seu belo génio. duque de Anjou. Quando o duque de Anjou acabou. da Síria à Arábia Pétrea. que devia ser em latim. podia-se ver que o rei chegava à boca um lenço. terminou dizendo que estava . com os lábios cerrados e os olhos fixos nele. como os reis Magos. que lhe apresentaram numa almofada de veludo carmesim. cedera à admiração que a todos inspirava a bela rainha de Navarra. e que reconheciam agora serem os dois belos olhos da rainha de Navarra.França. no qual lhe oferecia o trono em nome da nação polaca. Por todo o tempo que seu irmão falou. De Anjou veio ajoelhar-se diante dele. nem ele nem os seus companheiros dariam certamente com o caminho se. do Evangelho ao Alcorão. Já dissemos que era composição de Margarida. O discurso da bela rainha fora guardado para o último lugar. Enquanto. com uma voz acompanhada de certa emoção (que em vão buscava conter) que aceitava com reconhecimento a honra que se lhe fazia. dizendo. Carlos esteve de pé. depôs ele a coroa nas mãos de Carlos. de cujo valor ele fez grande elogio aos enviados polacos. e Carlos pôs-lhe por suas mãos a coroa na cabeça: feito isto. empregou o estilo de Ronsard e disse que. e um intérprete traduzia a sua resposta no fim de cada período. trocaram os dois reis o ósculo mais odiento que dois irmãos jamais trocaram. bradou um arauto: 291 Alexandre Eduardo Henrique de França. todos prestaram grande atenção à resposta. Lasco voltou-se para o duque de Anjou. como então se dizia. porém. Apesar de sármata. que de todas as vezes vinha tinto de sangue. Carlos fez um sinal a seu irmão. Quando terminou a resposta de Carlos. de Nazaré a Meca. Falava em francês. e começou um discurso latino. O discurso de Lasco foi mais um elogio do que um discurso. Servindo-se da língua de Ovídio. cujo fulgor se tornava mais vivo à proporção que eles se aproximavam de França. apresentando o duque de Anjou. Viva o rei da Polónia! Toda a assembleia repetiu num só brado: Viva o rei da Polónia! Lasco voltou-se então para Margarida. Ora. final mente. Lasco pegou na coroa. falava esse intérprete. Passado.

de Mouy escutava com profunda atenção estas palavras. Acompanhar-te-ão a nossa esperança e os nossos desejos. nos prende a nós nesta cidade. e da parte dos que não entendiam. tão brilhantes sob . Ora. julgando que. arrancavam os olhos. Margarida continuou: Adeo dolemur a te dividi ut tecumprnsá maluissemus. mas esse gesto. porém. os seus olhos pretos. enquanto ele olhava para Margarida. ao mesmo tempo que respondia ao embaixador. Sed idemfatum guo nunc sine ulla mora Lutetia mora cederejuberis hac in urbe detinet Profscere ergo. Henrique não deixara por duas ou três vezes de fazer um sinal negativo com a cabeça para que o jovem huguenote compreendesse que de Alençon tinha recusado. dirigidas aos embaixadores. A vossa presença inesperada nesta corte encher-nos-ia de júbilo. porque partilhavam a opinião do orador. se não viesse pro duzir um grande infortúnio. 2 1. os quais. não havia mais nada no mundo que valesse a pena admirar.pronto a fazer o que faziam os ardentes sectários do Profeta. a mim e a el-rei meu marido. caro amigo. Este discurso foi coberto de aplausos da parte daqueles que falavam latim. dirigindo-se a de Mouy. isto é. que podia ser um efeito do acaso. Parte. sciscentem seg'uuntur apes et desideria nostra. 2Desespera-nos ficarmos separados de ti. caro irmão. frater proscere amice: proscere sine noóis. começou nestes termos: Quod nunc hac aula inesperatx adestis exultaremus ego et rex conjux nisi ideo immineret calamitas. 292 Como é de crer. e fixando depois os olhos em de Mouy. e parecia ser todo ouvidos. não só a perda dum irmão como a dum amigo. parte sem nós. parte. o mesmo destino que te manda sair de Paris sem demora. Carlos não se recordou de haver lido esta frase no discurso que lhe fora mostrado alguns dias antes. se as palavras de Margarida o não tivessem confirmado. mas não ligava grande importância às palavras de Margarida. logo que haviam tido a ventura de contemplar o seu túmulo. que sabia não serem mais do que um discurso de simples cumprimento. Prof. scilicet non solumframs sed etiam amici oróitas. Demais. Margarida dirigiu primeiro uma graciosa reverência ao galante sármata. ele compreendia muito mal o latim. Por isso fez este último uma saudação em sinal de reconhecimento. que. Estas palavras tinham dois sentidos. pareceria insuficiente a de Mouy. depois do gozo duma tão bela vista. eram proferidas só para e ele. pois. podiam ser aplicadas a Henrique de Anjou. quando muito desejávamos acompanhar-te. porque queriam afectar o contrário.

Não esperou que lho repetissem: perdeu-se por entre a multidão e desapareceu. percebeu tudo.Quem será este homem que olha com tanta atenção para Margarida. que estremeceu como o faria recebendo um choque eléctrico. Vá. e pôde escrever o nome do homem que estava no quarto do rei de Navarra. na língua dos sinais.Justamente. pouco atento ao discurso de Margarida. Henrique. Ao ver os olhos da rainha-mãe tão encarniçadamente pregados em de Mouy teve receio. continuando a compor o semblante conforme as leis do cerimonial. Vá postar-se na porta do Louvre com dez homens. e que. não vê por detrás dele um velho de barbas brancas. aquele que está falando. que ele lhe dava parte de que tinha chegado muito tarde. que estava ao seu lado. . Catarina ficou com os olhos fixos e a boca aberta. . aquele velho.Olhe. quando o mestre de cerimónias se chegou por detrás dela e lhe entregou um saquinho de cetim perfumado. . segure-o e traga-o morto ou vivo.Oh! eu tinha um pressentimento que era ele. disse-lhe: . tirou o papel e leu estas palavras: Maurevel ganhou algumas forças depois de tomar um cordial que lhe dei. conduza-o para um quarto e conserve-o preso. convide-o para jantar da parte do rei de Navarra. Mas Henrique não ficou sossegado senão quando viu o Sr. que continha um papel dobrado em quatro partes. e ao verlhe dar uma ordem ao capitão das guardas. fuja imediatamente! De Mouy percebeu esse gesto.respondeu o capitão.É aquele a quem o rei de Navarra está fazendo um sinal? . Foi nesse momento que fez o gesto que o Sr. mas de modo que se não perceba.Vejo.Bom. Esse homem é o Sr de Mouy. de Nancey voltar para junto de Catarina. e que não deixou mais de olhar para esse lado da sala. Se ele aceitar. que rematava tão bem a porção que lhe coubera do discurso de Margarida. e que ela e o rei de Navarra tanto encaram? A rainha de Navarra continuava entretanto o seu discurso. Catarina quebrava a cabeça querendo adivinhar o nome daquele belo velho. . Inclinando-se depois ao ouvido do capitão das guardas.disse ela consigo. De Mouy. pela contracção do rosto da rainha-mãe. que desde então não continha mais do que a resposta aos cumprimentos dos embaixadores. de Nancey surpreendera. vestido de veludo preto?. . por Deus! aquele velho é. e percebeu.disse a rainha consigo. vá já! Felizmente. minha Senhora . Mas. Não o perca de vista. e quando ele sair. Lasco. Se resistir. Que figura tão célebre! . queria dizer: está descoberto. sim. para o Sr. estava olhando para Catarina sem perder uma só expressão do seu rosto. chamaram a atenção de Catarina. Abriu o saquinho.sobrancelhas grisalhas. . .

esse filho da Terra que perdia as forças levantado nos braços de Hércules. só não lhe levava a bem uma coisa: era a sua indiferença pela volataria. retirou. Margarida trocava ainda algumas palavras não oficiais com Lasco. não há-de estar lá muito tempo. pode dizer-se que a paz e a felicidade voltaram a sentar-se no Louvre. 294 ORESTES E PÍLADES Logo que partiu o duque de Anjou. em ar de súplica. acompanharam. pondo. meu filho . Assim. rogo-lhe. haverá incessantemente na minha cavalariça um cavalo selado. Quanto ao duque de Alençon. Catarina. . arrebatado por esses bárbaros do Norte.disse Catarina -. Uma vez fora das fronteiras. Achou-a não menos sombria e não menos preocupada do que ele mesmo.Meu filho .no. e falando de caça com ele nos dias em que não podia caçar. . O novo rei da Polónia sentia-se perdido. e Henrique. nesse bearnês. quebrantado sob o manto real.se para os aposentos da rainha-mãe. estava qual outro Anteu. Longe da mãe.Minha mãe. Ao ver o filho predilecto pálido sob a coroa.bradou o rei da Polónia . pálida de cólera. O rei levantou-se com dificuldade.Oh! minha mãe! . os seus inimigos e os seus obstáculos.Sossegue. que se não tinham desviado um só instante do duque de Anjou. e na minha antecâmara um correio pronto a partir para a Polónia. Carlos.eis-me condenado a morrer no exílio! . porque não pensava senão nesse semblante sagaz e escarnecedor que não perdera de vista por todo o tempo da cerimónia. caçando com Henrique.disse Catarina. já se esqueceu tão depressa da predição de Renato? Sossegue.A audiência estava acabada. em vez de acompanhar o rei. que não se tirava de ao pé dele desde o acidente que lhe sobreviera. mudo de dor. 293 Os olhos de Carlos. dizendo-lhe que seria um príncipe perfeito se soubesse . sem dizer uma palavra. tinha ficado completamente no escuro durante a cerimónia. ao lado dessa família de atridas. cumprimentou a todos e saiu encostado ao ombro de Ambrósio Paré. esquecendo a sua melancolia. príncipes assassinos. Catarina levantou-se e foi ao seu encontro. recobrava a sua vigorosa saúde. à primeira suspeita de que a coroa de França esteja para vagar. . o duque de Anjou considerava-se excluído para sempre do trono de França. varrendo em torno dele reis. . que me previna ao primeiro sinal. com toda a instância.Até ao dia que ambos esperamos. a quem o destino parecia abrir lugar. as suas belas mãos que se pareciam com as da mãe. nenhuma vez se empregaram nele.

convalescente na sua casa da Rua do Cerejal. Margarida continuava nos seus amores à espanhola. não tinha ela poupado para com La Mole os raios dos seus olhos de esmeralda. e em todas as cartas lembrava o mancebo à sua bela rainha a promessa que esta lhe fizera de alguns doces instantes. Todas as noites abria a janela. em prémio do seu exílio. como sabia ensinar galgos e perdigueiros. a seu pesar. presentemente tão calmo. diante dum canjirão de bom vinho. 295 Este estado de coisas obrigou Henriqueta. Era certamente já alguma coisa para ele. Não era porque ela detestasse o provençal. pelo contrário: arrastada pelo instinto irresistível que faz com que toda a mulher seja travessa. principalmente quando esta é sua amiga. de Nevers.adestrar os falcões. a vir um dia procurar Margarida. com que o provençal havia corado. como pretexto de que Maurevel fora ferido no cumprimento duma ordem sua. agradável para as Sr. os gerifaltes e os açores. devemos confessá-lo para vergonha da humanidade. todo o sossego de espírito que Margarida dava a Cocunás a respeito da sorte do amigo comum. tão sossegado. mas Cocunás. A Sr. Mas toda a ventura desses entretenimentos a sós com a bela duquesa. não valiam aos olhos do piemontês uma hora passada com La Mole em casa de La Hurière. na Rua do Sino Rachado. Uma única pessoa estava só no Louvre. e correspondia-se com La Mole por sinais e por escrito. carinhosa para Henrique e Margarida. de Nevers e de Sauve. a fim de lhe suplicar que . tinha tão poucos ciúmes de La Mole. que não faria cerimónia alguma para esganar quinze pessoas por um só piscar de olhos da sua dama. ou duma dessas aventurosas excursões feitas por todos os lugares de Paris. que muitas vezes. em virtude dessas inconsequências da duquesa. suportava com impaciência essa rivalidade de La Mole. Catarina havia-se tornado boa mãe: dócil para Carlos e para de Alençon. na bolsa ou no gibão. onde um honrado fidalgo podia apanhar alguns rasgões na pele. levou a bondade da alma ao ponto de ir visitar por duas vezes esse oficial. a quem a ausência de La Mole privava de todas as vantagens que lhe procurava a companhia de Cocunás. com o amante doutra mulher. Essa pessoa era o nosso amigo conde Aníbal de Cocunás. o saber que La Mole vivia. isto é. e Cocunás teria razão de invejar os francos apertos de mão e o dispêndio de amabilidades feito pela duquesa a favor do seu amigo. não duvidara fazer-lhe ao ouvido certas confidências. da sua inexaurível jovialidade e dos seus insaciáveis caprichos de prazer. nesses dias de capricho em que o astro do piemontês parecia amortecer-se no céu da sua bela amante. era muito continuar a ser o preferido da Sr de Nevers. a mais jovial e fantástica de todas as mulheres. e.

do que duma boca torta como a dele.Ora.Oh! ainda La Mole! . . isso já é um pouco mais agradável de ouvir. . e a ter de aturar enfados e repreensões. não deixou de lá ir.disse a duquesa -. mas sempre. Margarida. e com tenção de vir direito aqui. . que é isso que tem no gibão? é sangue? . e não o fiz antes porque estou hoje de serviço junto do Sr. não obstante. . que o convidava para a Rua Tizon às nove horas e meia.Por isso parti do Louvre às nove horas.Então bateu-se? . .disse-lhe ela -. . sem o qual o espírito e o coração de Cocunás se evaporavam diariamente.disse Cocunás . . . a senhora é que me está perguntando porque cheguei tarde. conveio em encontrar-se com Henriqueta no dia seguinte na casa das duas portas.Ah! e eu também. bastante agastada por ter chegado primeiro.Está bem . o que (di-lo-ei de passagem) faz com que me não possa demorar aqui mais de uma hora. O Sr. Dizia então que tinha saído às nove horas do Louvre? . que ambos andámos muito adiantados. Mas. sempre compassiva.disse Cocunás . meu caro!. Sr.Atrevido! . . olhando para a esquina da Rua de Grenelle.lhe restituísse esse parceiro obrigado.Não.Decerto. Mas.O que decerto estima bastante. de Alençon. aposto que não são mais de dez horas. mas uma mulher! . de Alençon é um amo muito enfadonho e impertinente. e demais a mais excitada pelas rogativas de La Mole e pelos desejos do seu próprio coração. parece-me que não é muita cortesia fazer esperar assim. pelo contrário. com sua licença ou sem ela.Esperar? .Está hoje impaciente.Mas o meu bilhete dizia às nove e meia.Não só ainda.Juro-lhe que não.Bravo! . descobri um homem que me pareceu La Mole. e já ali achou Henriqueta. a fim de tratar ali a fundo dessas matérias numa conversação que ninguém pudesse interromper. Cocunás não recebeu com muito bom humor o bilhete de Henriqueta. sim. mas.Eu.Bravo! mais outro que me salpicou ao cair. já não digo uma princesa. pois era eu que devia chegar primeiro?.isso é mesmo seu! Eu aposto. Cocunás . mas acabe com as suas histórias. antes quero recebê-los duma linda boquinha como a da Senhora Duquesa.É verdade.Não sou eu que peço para as contar. . .E a senhora não espera por ninguém? .tornamos aos nossos galanteios? . . continue: descobriu então na esquina da Rua de Grenelle um homem que lhe pareceu La Mole. . .

e que entre essas espécies há alguma que se deve preferir: a vela cor-de-rosa.De amores? .Basta! basta! .Ia fazê-lo. que é um cavaleiro completo de longe.Basta! . e a gente que se juntara para me ver bater. . de Cocunás! isso é ser atrevido.E então por quem quer que me bata? por uma mulher?. Ao ouvir isto. Olhe. ao menos? . perguntei a todos.por se atrever a parecer-se de longe com o meu amigo Sr.isso é realmente para agradecer! . caiu salpicando-me de sangue. a vela gasta-se. . ao passo que a estrela brilha sempre. . ao ouvir o alarido de toda essa canalha. estou certo que era La Mole. o que me fez perder algum tempo.disse a duquesa . puxou da espada. . mas qual! tudo foi inútil.Não.seja a cor-de-rosa -. Achei a comparação: o amor é apenas uma vela. quando a vela está gasta. o amor. e eu fiz o mesmo. duquesa. Neste comenos desaparecera o cavalo.É ser insolente. Ao terceiro bote (veja que desastrado! ).Sim.Pelo seu La Mole? . não tem razão. mas. . apesar dessa linda cor. Olhe. por exemplo . .me-á que há diferentes espécies. Finalmente. dei a cor do cavalo. Não era ele. só assim é que depararia com alguma comparação pela qual a senhora pudesse conhecer a fundo o meu pensamento. . ninguém havia reparado. Talvez que a senhora me responda a isto que. . Infelizmente o cavalo ia a galope. Fui à procura dele.E acudiu-lhe.Sr.Muito obrigada! .Bem feito! . não tendo mais que fazer.É ser descarado. porque de perto bem se vê que não é senão um grande tolo. põe-se outra no castiçal. de velas. mas saiu-lhe caro o negócio. Dir.lhe eu . vim para cá. ao passo que o amor. Eu quisera possuir o espírito ou a ciência desse pobre amigo.Sigo o tal homem que tinha o desaforo de se parecer com o meu amigo. . Receando.Ouça. correu atrás de mim. e examino-o à luz duma loja.Que dúvida! . é a melhor. atirando-se negligentemente para uma poltrona -. a senhora vai tornar a mortificar-me por causa do pobre La Mole. passo-lhe adiante. a amizade é uma estrela. querida duquesa . Pus-me a correr atrás do cavalo. quando passou um cavaleiro. de La Mole. O senhor é muito tolo disse. que me tomassem por um ladrão que fugia. Ah! desta vez.. Alcanço-o na Rua Coquillière. pois se o fizer.Não tendo mais que fazer!. . tive de me voltar para a dispersar.disse Cocunás. a amizade.

respondeu Margarida. Olhe.perguntou La Mole. . fazendo cair a poltrona em que estava sentado e a mesa que havia no caminho. disse: . disse: . Ouse ser franco.que não dependeu de mim torná-la a ver mais cedo. se prefere a mim alguma coisa no mundo.acrescentou ele. E voltando-se depois para La Mole. advirto-o de que.a. postado dentro do quadro dessa porta como um belo retrato de Ticiano na sua moldura dourada. . Aníbal.E então. Cocunás. duquesa. se o meu nome.Só aos seus rogos . .O senhor já não me ama. diga-me que o prefere. com toda a verdade lhe afirmo . .disse subitamente uma voz estranha. . foi ajoelhar diante de Margarida e beijoulhe a barra do vestido.Minha Senhora.Então. e ao mesmo tempo dirigindo-se à duquesa de Nevers. E uma cortina de damasco.Bem respondido! .disse a duquesa -. que não me faça perguntas indiscretas. não cumpri a minha palavra? Aqui o tens. Mas. idolatrá-la e nas horas vagas fazer o elogio do meu amigo.Prefere-o a mim! isso é indigno. querê-la. previno-a de que me vai fazer lamentar três vezes mais a ausência de La Mole. duquesa mais do que todas bela! peço-lhe.Pelo contrário. Henriqueta .Então chama horas vagas àquelas em que está junto de mim? . e que lhe havia aproximado um candelabro do rosto para o ver bem à sua vontade. pronunciado entre Vossa Alteza e o meu amigo. Durante este tempo. que tinha abraçado dez vezes o seu amigo. . meu amigo! meu caro La Mole! E lançou-se nos braços do seu amigo. levantada diante duma grande porta corrediça.La Mole.La Mole!. pôde algumas vezes alterar a encantadora inteligência em que ambos estão. deixou ver La Mole. que quer? o pobre La Mole está continuadamente na minha ideia. permito-lhe que não acredite uma só palavra do que digo.bradou Cocunás.Ora ainda bem .disse Margarida por sua vez -.Perdoe-me. sem reparar em Margarida nem tratar de lhe agradecer a surpresa que ela lhe tinha preparado . olhando com ternura para Margarida . Mas. detesto-o. posso amá-la. . . agora começará a . . . que abria uma comunicação entre os dois quartos. correspondendo com efusão aos seus abraços.. Aníbal.Henriqueta. 297 . mas amo La Mole mais do que todos os homens. Amo-a mais do que todas as mulheres. . que tinha andado vinte vezes à roda dele. vejo que não entende nada disto: idolatro. pelo seu próprio sossego.Foi então só aos rogos da Senhora Duquesa que devi esta ventura? .La Mole. La Mole. minha Senhora.

. As duas senhoras passaram então para a sala do lado. muito fácil de comover. .Nosso amo . 299 . obter um sorriso natural e uma palavra doce dos belos lábios de Henriqueta. Depois que o ouvi.vou achá-la. por mais que dissesse ou fizesse.bradou Cocunás . sentia estremecer-lhe todo o corpo. não te foste refugiar nos aposentos do nosso amo? O duque. por mais desejos que tivesse tido de tornar a ver o seu amigo. que a este respeito. Assim teria eu continuado a estar junto de ti. não desestimaria que a ternura de Cocunás fosse menos exagerada. Henriqueta é a rainha das belas e Margarida é a mais bela das belas rainhas. devagar! . com esse tom meio sério meio faceto que só ele sabia tomar -. e de me dar tanto cuidado. iludiria do mesmo modo esses papalvos da corte. minha rainha. o piemontês. venha. não tinha olhos senão para ele. Os primeiros pormenores que Cocunás exigiu do seu amigo foram.Olá! devagar Cocunás. já que eu faço a asneira de amar esta ruim cabeça. Os dois amigos ficaram a sós. de sárma tas e de outros bárbaros hiperbóreos.o duque de Alençon? . fiquei certo que foi a ele que deveste a vida. como era de supor.achar-me suportável. eles têm mil coisas a dizer um ao outro que viriam transtornar a nossa conversação. como diz o seu amigo La Mole. Faça isso por amor de mim.O quê! .disse La Mole . que te havia defendido. É duro para nós.bradou Cocunás .E porque é que . . . Aníbal. em vez de correres pelos campos.Não me desdigo . como sabemos. . e a minha tristeza.e então Margarida. os dessa fatal noite em que ele por um triz que não perdeu a vida.Oh! . Neste intervalo.disse La Mole em voz baixa . posto que fingida. o qual. como sempre. não era.perguntou ele -. minha bela rainha.respondeu La Mole. todo entregue à ventura de tornar a ver o seu caro La Mole. Cocunás tentava. onde estava posta a ceia. À proporção que La Mole ia narrando o que lhe acontecera. .Sim. Margarida disse algumas palavras ao ouvido de La Mole. . Mas.estás certo disso? . não deixaria de te dar asilo.A vida devo-a ao rei de Navarra . o piemontês. como fizeste. adorável! A diferença é que lho hei-de dizer de muito melhor vontade. oxalá tivera eu aqui uma trintena de polacos. deixemos por uma hora estes bons amigos para conversarem a seu gosto. à força de protestos.bradou Cocunás. mas previno-a de que é o único remédio capaz de sarar completamente o Sr. para os obrigar a confessar que a duquesa de Nevers é a rainha das belas.Venha.

É muito justo.Tens razão.Certíssimo.cerimónia.Licença sem limite. Vou escrever. . . E daí. . .Pois passearei como tu.Felizmente! porque se o estivesse. previne-o de que te separas dele. que faria o duque de Alençon no meio de tudo isso? . Não tenho tanta importância para que haja um trama concertado contra mim. isso não há-de ficar assim! .. La Mole? O quê! pois esse príncipe desbotado. havemos de lhes dar que fazer.De sangue? do sangue do meu amigo. atreveu-se a querer estrangular o meu amigo? Com mil diabos! prometo-te que amanhã ele há-de saber o que eu penso duma tal acção.Eu? nada: vagueio por aí.Aníbal . esse fraldiqueiro. isto foi mesmo a Providência. volvendo os seus grandes olhos trágicos .Nesse caso. Mas.Oh! bom e excelente rei!. Mas não importa.Escrever-lhe? isso é muita sem. Fico aqui. . Estava escrito que eu devia achar-te para te não largar mais. Pois cuidas .daqui a alguns dias não precisará nem do príncipe nem de ninguém.Estás doido? .Bem me importa a mim o serviço dele! Conte com isso. que está aviado! O meu serviço!.Que fazes agora? . e que estás de serviço esta noite. . atende a razão.estás certo de que dizes.bradou Cocunás . . Volta para o paço. sossega. O serviço é uma coisa sagrada. Concordo. Cocunás.Mas pede-lhe licença. e lembra-te de que já deram onze horas e meia. . porque irá connosco se quiser. poderia fazer outra. desgraçado. É uma bela ocupação.Trazia a corda para me estrangular. .Mas reflecte um pouco. e nisso ficou tudo: eram os príncipes que se queriam divertir aquela noite. ou uma resolução seguida. passeio.bradou Cocunás. Com efeito .Ah! cão! .que eu faço caso de etiquetas?.Basta.lhe.Voltas tu comigo? . servir um homem que trazia corda? Tu estás brincando! Não.Creio que não.disse La Mole consigo . Que venha para cá o insecto do teu duque: hei-de pregá-lo como uma borboleta na parede! . Cocunás. . . esse gosmento. . lançava fogo ao Louvre. . se te atacarem. .Isso é impossível. Eu. . a um príncipe de sangue!. somos dois. . .Querer-te-iam ainda matar? . pois creio que não estás ébrio. Quiseram matar-me num momento de capricho.tornou La Mole -.

Anibal conde de Cocunás.De nós? . que se fundava. Aníbal de Cocunás. amanhã de manhã mando a carta. no dia seguinte. . que encolheu os ombros. O meu amigo la Mole não é menos desditoso do gue Orestes e eu não sou menos terno do que Pilades.perguntou Cocunás.perguntaram as duas princesas ao mesmo tempo em que ponto estão Orestes e Pílades? . mesmo depois da recusa deste.respondeu La Mole . . no .Cocunás pegou portanto na pena sem mais oposição da parte do seu amigo. mandarei a minha carta ao Louvre pelo nosso estalajadeiro. 301 XLV ORTHON A amizade de Henrique para com o duque de Alençon. ou que afectava não o ver. é-me impossível separar-me dele. Foi com efeito mestre La Hurière quem. se Vossa Alteza não mandar o contrário. Ele tem neste momento grandes ocupações que exigem o meu auxilio.disse La Mole. que eram dois heróis famigerados pelas suas desventuras epela amizade 300 que os unia. versado como é nos autores da Antiguidade não saiba a história tocante de Orestes e de Pilades.que o Sr. . leu-a Cocunás em voz alta a La Mole. levou a respeitosa carta do Sr. amigo inseparável do Sr de La Mole. Por aqui fará Vossa Alteza ideia de quão grande é a violência que me arranca do seu serviço.Bem. .Pois suceda o que suceder. pois estou resolvido a ligar-me à fortuna dele.Antes isso do que nos estrangular separadamente. de Vossa Alteza Real humilíssimo e obediente criado. que não vira o movimento. Onde vamos nós ficar quando sairmos daqui? . e escreveu expeditamente o seguinte: Senhor Duque: Não é crivel que Vossa Alteza.Então? que te parece? . . Terminada esta obra-prima.Então? . no pequeno quarto onde tu me quiseste apunhalar quando não éramos ainda Orestes e Pílades.Estão morrendo de fome e de amor. minhas Senhoras respondeu Cocunás.À hospedaria de mestre La Hurière. . seja onde for que a sorte me conduza. Neste momento abriu-se a porta de corrediça. portanto.uma coisa não embaraçará talvez a outra.Digo . creio que te lembras. em virtude da qual não desespero de alcançar o meu perdão. Isto me obriga a tomar por algum tempo uma dispensa de serviço.Oh! . e ouso continuar a considerar-me com o maior respeito. de Alençon se vai rir de nós.Conjuntamente. rindo . além de tudo. às nove horas da manhã. . .

que era nesse tempo a corte mais dividida em interesses e opiniões. e recobrava a vida ao calor do Sol. Não havia ninguém no jardim. que nada via. empregou.perigo que corria a sua própria vida. Desde o dia em que tomou essa resolução. posto que um tanto frouxo em virtude do seu padecimento. deixou o baluarte grande à esquerda. que. Catarina concluiu dessa intimidade que não só os dois príncipes se entendiam. que conservava uma cadência militar. e a rainha de Navarra. que era o mais enredador dos pequenos Estados dessa época. A florentina não teve pois outro fio que a dirigisse senão esse instinto de enredadora que trouxera da Toscana. um homem pálido. e esse sentimento de rancor que bebera na corte de França. e pela sua parte voltou-se um tanto para a mãe. a vem arrastando insensivelmente até que o envolve por todos os lados. pelos compridos bigodes. porque. se por ali estivessem alguns espectadores. o homem pálido despertar-lhes-ia decerto algum interesse. como se depreendia do seu nome. enquanto estavam na expectativa desse acontecimento. se era possível. Mas.lo. encostado a uma bengala e andando a custo. Junto à Porta de Santo António. O duque Francisco percebeu esta reduplicação de carinhos. a dos besteiros. que sabia como ninguém evitar uma explicação arriscada. porém Margarida era sua digna filha. tornara-se ainda maior. para pôr o filho em estado de sítio. Henrique fingiu. Interrogou Margarida a este respeito. uma manhã em que o Sol nascera rosado e destilando o brando calor e doce perfume que são prenúncios dum belo dia. quando sucedia abrir-se . Ela viu logo que uma parte da força do Bearnês provinha da aliança dele com o duque de Alençon. 302 Não obstante (que singularidade! ). e depois de ter torneado o passeio que rodeava os fossos da Bastilha como um prado pantanoso. deixou-a mais embaraçada do que nunca. porém. livrou-se de tal modo das perguntas da mãe. por conseguinte resolveu isolá. e entrou no Jardim da Besta. cujo porteiro o recebeu com grandes cortesias. do que fora até então. Ora. depois de responder a todas. saiu duma pequena casa situada por detrás do Arsenal e tomou pela Rua do Petit-Musc. pertencia a uma sociedade particular. mas que até conspiravam juntos. pelo passo. e vigiou o seu aliado de mais perto do que o fizera até então. certo para uns e provável para outros. bem se via que era algum oficial recémferido que procurava fortalecer-se com um passeio moderado. lançando a rede longe do peixe. Cada um esperava um acontecimento. toda a paciência e habilidade do pescador que. o qual.

Pode falar. apesar do calor que começava a sentir-se. apesar da extraordinária palidez de que estava coberto. lhe batia com a bainha pelas pernas descarnadas e trémulas. por colossal que era. sendo o mais moço. e que a custo chegou a uma espécie de caramanchão que dava para os baluartes.disse Orthon. e já por vezes levara à boca a tigela de louça. completando este arsenal ambulante. viam-se-lhe duas compridas pistolas pendentes dos fechos de prata do cinturão. Oculto no caramanchão. além disso. o qual prendia. dos quais estava apenas separado por uma cerca espessa e por um pequeno fosso. Foi assim que esse homem se entranhou no jardim. em quem o leitor já deve ter reconhecido o capitão Maurevel. . . senão. vindo do lado da Cruz Faubin por uma vereda.Bem . chegou pelo caminho chamado depois Rua dos Fossos de S. Maurevel observava e mesmo ouvia sem custo uma conversação que não podia deixar de ser da maior importância para ele. para onde o guarda do estabelecimento. Maurevel sustinha o fôlego. como se quisesse inquirir cada uma das alamedas. e depois espera no Louvre.lhe este bilhete. as cercas e os fossos. Ali. quando. que. estendeu-se sobre um banco de relva próximo duma pequena mesa. Tu não te apresses.disse de Mouy -. hás-de ir a casa da Sr. Se te derem resposta. apenas tivera tempo de sossegar um pouco do abalo que sofrera. Havia dez minutos que o doente estava ali. lhe trouxe daí a um instante uma espécie de cordial. porque tenho muito que fazer todo o dia. lançava a cada passo em torno de si um olhar perscrutador. cujo conteúdo ia bebendo aos goles. Ambos olharam em torno de si com minuciosa atenção. e sustinha uma espada que ninguém diria que ele pudesse desembainhar. e quando o homem pálido. vem procurar-me esta noite ao lugar que te mostrei e donde saí há pouco.Eu vou-me embora. que. era dos dois o que tinha menos receio -. .Bem sei .disse Orthon. se a não achares.o capote com que esse homem estava coberto. visto que o cavaleiro era de Mouy e o mancebo de sobretudo era Orthon. e que. que reunia o título de porteiro e a indústria do taberneiro. porque não é necessário. um grande punhal. Ainda mais: como adição a todas estas precauções. o rosto lhe tomou repentinamente uma expressão medonha. e reuniu-se ao cavaleiro. de Sauve entregar. Senhor . basta que . Cinco minutos depois. posto que solitário. que é hoje a Rua de Nápoles. parou junto do baluarte e esperou. põe-no atrás do espelho onde o rei costuma pôr os seus. . leva-a para onde sabes. Acabava de descobrir um cavaleiro embuçado num grande capote. ninguém nos vê nem ouve. Nicolau um mancebo vestido com um sobretudo de pajem.

procuravas a Sr de Sauve para lhe agradecer o cuidado que teve por ti durante a tua convalescença. e entrava no quarto da Sr. ganhou o cais e entrou no Louvre. em risco de se lhe tornarem a abrir as feridas.disse então Catarina . entrou em casa. sem mais testemunhas do que esse ladrãozinho. Catarina sabia tudo quanto acabava de se passar. Exalando. No primeiro ímpeto tirou uma pistola e apontou-a para de Mouy. Vai-te são e salvo. mandou selar um cavalo e. Neste momento cruzou de Mouy o capote sobre o rosto. Orthon tornou a tomar o caminho dos fossos que conduziam à margem do rio. Orthon entrava no Louvre. diz que. Se te perguntarem alguma coisa. depois de ter falado com muitos comensais do palácio.ou eu me engano muito. mas um movimento deste.escapas-me ainda esta manhã. vai. fosse mais importante do que a própria vida do chefe huguenote. ou que batesse em algum lugar do corpo onde a ferida que fizesse não fosse mortal. 303 Ah! . e afastou-se rapidamente na direcção dos pauis do Templo. se eu te não perco. ferido como estava. com mais vigor e agilidade do que se podia esperar. em quem o meu segundo tiro ficaria tão bem empregado! Mas neste momento Maurevel lembrou-se de que talvez o bilhete dado a Orthon. Cinco minutos depois de ele ter desaparecido por debaixo do passadiço. Vai. de Sauve. tomou a galope pela Rua de Santo António. Só Daríole é que estava no quarto da baronesa. Demais.chegues ao Louvre antes que ele lá chegue.não poder dar cabo dele aqui. mesmo assim fraco.tornou ele . Vai. como já estás bom. poderia facilmente dar cabo dele. lembrou-se que de Mouy. donde saíste para me perder. há-de chegar a minha vez amanhã. Que pena . e Maurevel recebia os mil escudos de ouro que lhe haviam sido prometidos pela imediata prisão do rei de Navarra. Catarina tinha-a mandado chamar para lhe copiar umas cartas de . cabelos eriçados e banhado em suor. e eu creio que ele está dando hoje lição de volataria. deixara-lhe ver por baixo uma cota bem segura e bem sólida. Maurevel levantou-se então. voltou à Rua do Cerejal. rapaz. Maurevel escutava de olhos fixos. um suspiro. que lhe entreabrira o capote. robusto e bem armado. de Sauve. e que este devia entregar à Sr. Um quarto de hora depois de Maurevel. Oh! . pois. ainda que tenha de te seguir até ao Inferno.disse ele consigo . tornou a pôr no seu lugar a pistola já apontada para o huguenote. Era portanto provável que a bala se achatasse em cima da couraça. e não pareças acanhado. apresentando-se como de Mouy lhe recomendara. ou é de Mouy a tal mancha negra que Renato achou no horóscopo desse maldito Bearnês.

de Sauve para dar toda a liberdade ao mancebo. sabendo que eu me atrevera a resistir às ordens de Vossa Majestade. Vendo soldados. . minha Senhora. depois de se certificar que estava só. fingindo ignorar o que acontecera ao rapazito. esperas inutilmente.De todo o meu coração. No mesmo instante. receoso por essa vinda inesperada da rainha-mãe.perguntou Catarina . minha Senhora. . esperarei. recearia passar por um ingrato. . combinava as suas ideias para ver se aquilo não encobriria alguma trama contra o seu amo.importância e havia cinco minutos que ela estava no quarto da rainha.Vossa Majestade não estranhará decerto isso. . minha Senhora. E. . sabendo que a Sr. por cima deste quarto.disse Catarina .pois eu tomo a mim 304 esse negócio. E Catarina. . se me demorasse mais em vir agradecer-lhe. segundo dizem. por lhe parecer que o olhar rápido e penetrante da rainha-mãe se havia logo dirigido para o espelho com certa preocupação.pois foste ferido? . . tive tanto medo que gritei e chamei. o mancebo entrou no quarto de dormir da baronesa e.Na mesma noite em que iam prender o rei de Navarra.Pobre rapaz! Mas agora estás inteiramente bom. o rei de Navarra. porque ela está no meu gabinete. .E quando foi isso? . aproveitando-se da familiaridade que tinha na casa.E quando foi que ela teve esse cuidado por ti? perguntou Catarina.Amas então muito a boa Carlota? . minha Senhora. .Bem . de Sauve teve por mim um cuidado que eu não merecia sendo apenas um fiel famulo. um deles deu-me uma pancada na cabeça que me fez cair desmaiado. esperas pela Sr.disse Catarina com uma intenção cheia de interesse. . .Deveras? . e não te pode falar agora. há muito tempo que a não vejo e. entrou no gabinete da Sr. No momento em que retirava a mão. de Sauve? . Orthon sobressaltou-se e empalideceu. não estás? .Sim.Não.Sim. . pequeno? . .Que fazes aí. minha Senhora. pôs o bilhete atrás do espelho.E procuras então o rei de Navarra para o tornares a servir? . despediume sem piedade. . minha Senhora.disse Orthon -.Estou.Oh! pobre pequeno! . pensando que Orthon não tivera tempo de esconder o bilhete atrás do espelho. e quando Orthon. Se.não procuras a Sr. entrou Catarina.E és fiel.Quando fui ferido. de Sauve. sim. porém.

.respondeu Orthon. . Apenas caiu o reposteiro da porta por onde saíra Orthon.Que determina Vossa Majestade? . uma revelação misteriosa o iluminou. que não era muito própria para lhe desvanecer as suspeitas.Haverá um instante. Essas três pancadas fizeram-no estremecer.disse ele. Esta vista. .Sim. se não resistir.Orthon. Catarina voou ao espelho.Viu sair um pequeno. Remexeu. e não para o pôr. viu-o correr para o espelho. eu não lhe queria mal. pôs Orthon um joelho em terra.Estava na antecâmara? . minha Senhora! . Se não quiser vir. sondou: nada!.Não poderá ainda estar muito longe. no meio da escada. Preciso falar-lhe imediatamente. Oh! desgraçado! . onde estava o capitão das guardas. pois. . O Sr. Catarina seguia por entre uma abertura de tapeçarias todos os movimentos de Orthon.porque é que esperas? Não te disse já que ficava por minha conta a tua colocação? Duvidas duma coisa que eu te digo? . um rapazinho? . trémula de impaciência.porque se não irá ele embora. Uma criança convertia-se num homem desde o momento em que tinha de lutar com ela. . beijou-lhe a barra do vestido e saiu rapidamente. mas não soube se era para pôr o bilhete ou para tirar.disse ela .Ainda estás aqui. traga-o à força. era o sinal que ele devia dar ao amo em caso de perigo.entretanto. de Nancey acudiu ao chamamento. . minha Senhora. . Fora pois para o tirar. tirando o bilhete. estava de vigia. mas foi sem resultado. não fez mais do que aumentar-lhas. Eh! Sr. de Sauve. pensou que desta vez era para ele o aviso. Ao passar pela antecâmara. acarreta a sua desgraça. não achando bilhete algum. E contudo estava ela certa de que vira o rapaz aproximar-se do espelho. Que demora será esta? . Não o assuste porém.bradou ela . olhou. pequeno? .Irá. quando muito. . viu o capitão das guardas. que esperava Catarina. é ele que.Deus me livre disso. e quando ele.disse consigo a impaciente florentina . . quando este estava no quarto da Sr. Orthon. ao espelho e tirou o bilhete que lá tinha posto. correu. E aproximando-se da rainha. de Nancey. com o semblante risonho.Chame-o.ouviu bater três pancadinhas no tecto. A fatalidade dava uma força igual aos seus adversários. E tornou a entrar na câmara. porque a sua mão. chegue aqui! A voz vibrante da rainha-mãe atravessou a sala e penetrou na antecâmara. procurou e tornou a procurar.Como se chama ele? .

Ouviu chamarem-no e sobressaltou-se. Catarina precisava do bilhete. E eu quero o bilhete.continuou ela. Era ainda muito novo para ser perfeitamente senhor de si. porém.isto seria astúcia de esbirro. Vossa Majestade fez-me a honra de me mandar chamar.disse ela . lembrouse de acusá-lo de roubo. sem dificuldade. Tornou portanto a pôr a jóia no seu lugar.Mas eu tenho muita pressa . mandá-lo revis tar e apossar-se do bilhete de que sabia ser ele o portador. Não. de Mouy para o rei de Navarra. e uma só palavra a tal respeito faria com que Henrique tratasse de precaver-se. que se fugisse deitava tudo a perder.respondeu o capitão das guardas saltando os degraus. com uma força de reflexão superior à sua idade. Porque não pôs esse diabinho o bilhete onde o devia pôr?. por consequência. mas reflectiu que o meio era arriscado. que não deixaria de prevenir o amo. porque descia devagar na esperança de encontrar ali ou de descobrir em algum corredor o rei de Navarra ou a Sr de Sauve. O mancebo enxugou o suor que lhe corria pela testa e tornou a subir. 305 O seu primeiro movimento foi o de fugir.O capitão das guardas saiu correndo. porque um bilhete do Sr. .Quem me chama? . de cuja subtracção queria fazer carga ao rapazito. sem dúvida.Minha Senhora . O capitão seguiu-o.disse Orthon. o Sr. a notícia não deixaria de se espalhar no Louvre. mas. franzindo a testa. e falando tão baixo que mal podia ela mesma ouvir o som das suas palavras.disse ele -. Ela podia. . Portanto parou. .Da parte de Sua Majestade a Rainha-mãe . má ideia. por mais em segredo que a prisão se fizesse. mandá-lo levar para algum calabouço. não . Contudo. a culpa é dele. .Eu. de Nancey. .tornou o Sr. e já tinha tirado de cima do toilette um broche de diamantes. Henrique desconfiaria então. pois despertava as suspeitas de Orthon. devia conter uma conspiração completa.E Entretanto. compreendeu logo. em que poderei servi-la? O semblante de Catarina iluminou-se como se acabasse de . Mas por um bilhete. de Nancey . que talvez não tenha valor algum . não é por minha culpa. terrível. Orthon ainda ia com efeito no meio da escada. O aspecto de Catarina era. Neste momento tornava a entrar Orthon. chegando ao pé dele. e uma vez desconfiado não se atreveria a dar um passo em que se expusesse. um bilhete mandado com tantas recomendações. O primeiro plano que Catarina havia formado consistia em prender Orthon. porque o mancebo parou no limiar empalidecendo.

em Roma. somos geralmente classificadas de esquecidas. as rainhas. quero cumprir sem demora a minha promessa. . O nosso coração não tem culpa se o somos. . entrou depois dele e fechou a porta.perguntou Catarina ao pequeno. . Orthon sentiu correr um arrepio pelos ombros. Catarina andando adiante.disse Catarina. . mandou a Orthon que passasse para diante. achou-se Catarina encerrada com o mancebo nesse corredor escuro. ganhou a escada de caracol.Pára! .Então vem ao meu gabinete.Mandei-te chamar porque gosto do teu modo. Esta voltou-se subitamente. e Orthon tornou a ver-lhe no rosto a mesma expressão sombria que lhe notara dez minutos antes. um frio mortal. Este recuou. . segue-me.Vamos. semelhante ao dum manto de gelo.Estou às ordens de Vossa Majestade. sim. lembrei-me de que os reis têm em suas mãos a fortuna dos homens e chameite. . de Nancey. Nós. Ambos deram uns vinte passos. se nos podemos servir dessa expressão.Sei.Onde está o bilhete que te mandaram entregar ao rei de Navarra? . redondos como os dum gato ou duma pantera. .Sabes montar a cavalo? . O Sr. como um reparo. Os olhos. certa porção dos quartos do rei e da rainha-mãe. um asilo disposto para caso de perigo. Era como o corredor do Castelo de Santo Ângelo. Orthon seguindo Catarina. 306 cuja chave ninguém tinha senão ela e o rei. e postou-se todo trémulo de encontro à parede.receber um raio de Sol. Fechada a porta. caía dessa abóbada. Vem. ì pareciam flamejar-lhe na escuridão. E foi andando seguida de Orthon. contemplava grandemente admirado essa excessiva ternura de Catarina. . depois entranhou-se no corredor dos quartos do rei e do duque de Alençon. O pavimento estava sombrio como a lousa dum sepulcro. Essa galeria cercava. abriu uma porta que dava para uma galeria circular. em Florença. pequeno. Vou dar-te um recado para levares a São Germano. menino . .Mande-me aprontar um cavalo. de Nancey que tomava esta cena ao sério. e penetrava no peito do pequeno. que nos é constantemente arrebatado pelos acontecimentos. e como te prometi tratar da tua fortuna. O Sr. e do Palácio Pitti. A rainha-mãe desceu um andar. minha Senhora.disse ela. de Nancey saiu. mas sim o espírito. Isto posto. O olhar de Catarina era agudo.

.Está bem. .lho.disse ela rindo.Dez mil escudos. e dá-lhe parte de que me ficas servindo de hoje por diante. depondo a bolsa na mão do pequeno.Então Vossa Majestade perdoa. .Muito obrigado.. Vai. . não te disse já que te podias ir e que. que terminou com um sorriso. . . porém.disse Catarina -.disse Orthon .balbuciou Orthon. a mão à algibeira.Vamos. eu faria a tua fortuna?. . Quando os reis querem dar a sua confiança a um servo.afirmo a Vossa Majestade que está enganada. . que fazer.. que ficara espantado ouvindo-a. vejo que és fiel. . como a maré do coração. é justo que experimentem se ele a merece. . Orthon não sabia.Sim. um belo mensageiro de Cupido. Não podia crer que já estivesse longe o perigo que tão iminente se apresentara. se o não tenho.disse Orthon . .Basta.Mentes! .O bilhete? . Orthon.Dois mil escudos. de que teu amo está à tua espera. deu alguns passos para diante e encostou a mão à parede. não tremas assim . dá-me o bilhete e cumprirei a promessa que te fiz.Não tenho bilhete algum . .me? . . . rapazinho . . se quisesses voltar. se o rei não estivesse no quarto. tu és um bom portador de cartinhas de amor. . Catarina adivinhou-lhe o intento e susteve-lhe a mão.Ainda mais. E Catarina.É impossível. minha Senhora . lembrou-se de que não havia senão um meio de salvar o seu amo.Qual. pois.Se mo deres receberás mil escudos de ouro. recompenso-te. Agora já sei em que devo ficar a teu respeito. minha Senhora? . . para a fronte da rainha.disse Orthon.O bilhete que de Mouy te entregou há uma hora por detrás do Jardim da Besta.Far-te-ei rico. Catarina deixou ouvir um rangido de dentes.Eu minha Senhora? .disse Catarina -. Ou pôr atrás do espelho.tornou o rapazito. Vai levar esse bilhete ao teu amo. porém.não sei o que Vossa Majestade quer dizer. não posso dar.. minha Senhora. que se abre por dentro.Não tenho bilhete nenhum. podes sair sem mim pela porta por onde entrámos.Não tenho bilhete algum. . Toma aqui tens a minha bolsa como primeira recompensa. Levou. que via a cólera subir. que era engolir o bilhete. esqueceste. minha Senhora . Orthon.

disse o Sr. O rapaz é muito simples. desde que existia. soltou um grito horrível e desapareceu submergindo-se num subterrâneo do Louvre. Se vier não responda nada. correndo para a porta. subiu. empurrou o cadáver com o pé e aplicou o dedo polegar a uma outra mola. o cavalo está pronto segundo as ordens de Vossa Majestade.Meu caro barão . Catarina entrou nessa cova húmida e nauseativa. achou o capitão das guardas à entrada do corredor. Mas apenas deu três passos. certificou-se de que era realmente a que desejava possuir. que era Orthon? Um coração fiel. sedenta duma curiosidade que lhe ministrava o seu ódio. deu busca ao corpo.tenho agora que descer cento e cinquenta degraus. sem dúvida. abrindo. Lido o bilhete. parte do fundo cedeu. chegou a uma porta girante toda de ferro. desapareceu na direcção do rio. fechou a porta. que.307 . uma alma dedicada. Que maçada! . estendeu as duas mãos. de muitas quedas semelhantes a esta. nada mais. . Catarina sorriu ao ler o bilhete. vinham tocar no fim da escada.Ah! é verdade . abriu a porta duma escada de caracol que parecia ir até às entranhas da terra e. se não vier diga não ao portador . mas palpitando ainda. Feito isto. Mas também. Era ali que jazia o pobre Orthon. Escorregou.disse Catarina por entre os dentes . Ao descer.disse Catarina -.se na sua câmara e leu o bilhete. a de Sauve e pô-lo atrás do espelho. todo ensanguentado.disse o mancebo. um belo rapazinho. testemunha. tomou a carta. que a rainha-mãe acabava de abrir por meio duma mola disposta para esse fim.se em forma de tampa. fechou. Tornou ao corredor. É bem de crer que isto não podia fazer pender por um instante a concha da fria balança em que se pesam os destinos dos impérios. não me atrevo a confiar dele o que . esquecendo-se completamente do preço por que a comprava. só pensava na vitória que ia alcançar. já não é preciso. Catarina subiu imediatamente ao quarto da Sr.De Mouy Saint-Phale. que dizia assim: Esta noite às dez horas na Rua da Árvore Seca. que dava entrada para o fundo do subterrâneo. Por detrás da muralha ouvia-se o rolar das águas do Sena. faltou-lhe o chão debaixo dos pés. puxou ao seu lugar a mola que fizera abrir o alçapão do subterrâneo. Catarina foi ao seu quarto e acendeu uma lanterna de furtafogo. por inflilração subterrânea. Hospedaria da Estrela Brilhante. . e o cadáver. graças ao emperramento deste menino.Minha Senhora . de Nancey -. escorregando em virtude do seu próprio peso. moído e esmagado por uma queda de cem pés de altura.

foi direito ao espelho e tirou o bilhete. Catarina estava encantadora e. subiu para o seu quarto. . 308 XLVI A HOSPEDARIA DA ESTRELA BRILHANTE Duas horas depois do acontecimento que referimos. O homem apeou-se. Portanto. que estava todo enlameado. que tinha acabado o seu trabalho na câmara da rainha-mãe.disse o homem. nem mesmo no semblante de Catarina. como se se tratasse duma entrevista amorosa. sabendo por Daríole que Orthon o tinha procurado. que gracejou muito com Henrique sobre os descuidos que tivera pela manhã na caçada ao voo.Pau . pediu a Margarida que lhe fizesse companhia todo o serão. subiu à Rua de Saint Jacques e ali despediu-os. No canto da Rua dos Maturinos. Henrique perguntou por Orthon. prometeu a Carlos que havia de estudar a volataria. a Sr de Sauve. Às oito horas chamou Henrique dois fidalgos e saiu com eles pela Porta de Santo Honorato. Henrique entrou após ela e.E o recado? . Era ele concebido nos termos que já dissemos e não trazia sobrescrito. o recado que ele tinha de levar? Vossa Majestade quer que o leve eu. Henrique desculpou-se com o ser homem de montanhas e não de planícies. Henrique não deixará de ir .Sim. . e do qual não ficara vestígio algum. fez um longo rodeio. achou um homem a cavalo.queria. aproximou-se dele. quando muito.Qual recado? . como costumava. ao levantar-se da mesa.disse Catarina -. E Catarina não se havia enganado sobre este ponto.Mantes . passou o Sena na barca de Nesle. montou . mas como achou o bilhete no seu lugar. Supus que fosse lacaio e é. . um palafreneiro. tornou a entrar pela Torre de Madeira. Daríole disse-lhe que ele tinha saído com a rainha-mãe. contando ter nessa noite em suas mãos a sorte do maldito rei de Navarra.repetiu Catarina. o senhor e a sua gente hãode ter esta noite outra coisa que fazer.dissera Catarina . ou alguém da minha gente? . à mesa do rei. não .respondeu o rei. Henrique embuçou-se no capote. de Nancey. não teve o menor receio. embuçado num capote. ainda que deseje fazer o contrário. .porque. não encontrará o portador para lhe dizer não. Jantou pois. .disse o Sr. E Catarina entrou para a sua câmara.Não. e sabia não ser o pobre pequeno capaz duma traição. dei-lhe algum dinheiro e mandei-o sair pelo passadiço pequeno.

pagá-lo-ei à parte.Não alugo quarto de amo sem quarto de criado .está aqui um fidalgo que o procura. . mas espero tomar um logo que faça fortuna. . e levou o cavalo para a estrebaria.disse La Hurière. . e escrevia uma longa carta de amores.Sou um fidalgo da Gasconha e venho a Paris para me apresentar na corte.disse La Hurière . desceu o cais. batendo com as botas no soalho como para esquentar os pés adormecidos. o suposto viajante entrou. convidei um amigo para vir comigo. que me foi recomendada por um fidalgo da minha terra. tomou pela Rua da Árvore Seca e foi esbarrar na porta de mestre La Hurière. . já se sabe a quem.disse La Mole sem interromper a sua escrita .É o seu convidado? . Como é pontual. e como o seu capote de pano grosso não lhe inspirava grande veneração: . Ah! justamente: aí está o meu convidado. passou novamente o rio na Ponte dos Moleiros. 309 .Quem é o senhor? . que estava alagado de suor. .perguntou ele ao rei.traz criado? Era esta.Quarto e ceia. meu amigo! Isso é bem raro em quem acaba de fazer uma jornada de duzentas léguas.Nem o Bearnês o bebe melhor. Tem bom vinho de Arbois? .disse La Hurière.Bem.Nem se eu lhe der já uma peça pelo quarto e pela ceia.Não. Miguel. que vinha arrastando um grande espadão. meu fidalgo! .Que quer então? . La Hurière acudiu ao chamado. mediu Henrique dos pés até à cabeça. Cocunás estava na cozinha com La Hurière.Olá. voltou pela Rua da Harpa. . vendo assar seis perdigotos e discutindo com o seu amigo estalajadeiro sobre o grau de cozedura em que convinha tirá. olhando com ar desconfiado para Henrique.Como é generoso. além do que lhe pagar amanhã? . é que eu. .Este senhor não lho disse já? . mestre La Hurière! . atravessou a Ponte de S. La Mole estava na sala nossa conhecida. A porta acabava com efeito de abrir-se e de dar passagem a outro fidalgo. .Olá. . a pergunta do costume. . . .los do espeto. Foi nesse momento que Henrique bateu. como se sabe.perguntou La Hurière. enfiou pela Rua Bartolomeu.respondeu Henrique -.no cavalo. na crença de que passaria a noite na sua hospedaria.observou Henrique apontando para La Mole. Gregório foi abrir. um tanto mais idoso do que o primeiro.Não trago .Hum!. .

disse-lhe Cocunás . que foi adiante alumiando.Mande pôr a ceia na mesa.disse La Hurière. .viste?. .Onde quiser. . livre-nos destas caras de huguenotes.disse o que chegou primeiro. La Mole aproximou-se dele. . . meus Senhores. e temos que falar de negócios que nos interessam.Julgas isso? . que contava que fossem o melhor prato do seu jantar.Ele mesmo .O quê? .La Mole.E que vêm eles aqui fazer? . .Também. .. chamou por mestre La Hurière para os tirar do espeto. nem eu nem Cocunás poderíamos dizer uma palavra diante deles. isso é lá com eles.Aqueles dois fidalgos. viu Cocunás.Também os conheceste? 310 .Mestre .Qual! estás doido! . .E então? . mas não muito alto.Decerto. de Alençon. Há pouco juraria. .Quem? . agora aposto. eu antes quero cutiladas do que esses namoricos.E eu digo-te. o piemontês.Tenho a certeza. .Seria capaz de jurar que são.disse Cocunás -. . .Jura se quiseres. cuja cabeça saía da cozinha. . .Subam. arranjem-se como puderem. voltando-se então. Henrique e de Mouy estabeleceram-se no quarto que La Hurière lhes destinara. Grandes olhos fixos e uma boca escancarada davam a essa cabeça um ar notável de espanto.Ponham a ceia no quarto n. se conspiram. .Que se trata dalguma conspiração. Os dois viajantes seguiram Gregório. . . E como os perdigotos pareciam ter chegado ao grau de cozedura em que Cocunás gostava deles.Aqui mesmo ou no seu quarto? .Com mil demónios! .Pois não adivinhas? .Digo-te que.O quê? . já não estou ao serviço do Sr.Também tens razão. dirigindo-se para o mancebo do espadão e apertando-lhe a mão. Neste intervalo. 2 do terceiro andar .disse La Mole chamando La Hurière -. . . Com efeito .O rei de Navarra e o homem da capa vermelha.Tratar de algum namorico? . La Mole acompanhou-os com os olhos até que desapareceram e.

Sem dúvida. que lhe disse o duque de Alençon? . e contar-me-á o que se passou quando sairmos.Não. porque a rainha-mãe chegou quando ele estava no quarto. mas há-de atraiçoar-nos na primeira ocasião que tiver.Não.Podemos então conversar sobre o que nos importa com todo o sossego? .Que homem? . Explicou-se claramente a esse respeito. dispus tudo a favor de Vossa Majestade.de vir buscar-me aqui.Então atraiçoa-nos? .Oh! não há perigo.Para ter provas contra nós e não as dar contra si. excepto a fracção do príncipe de Condé. e reunir-se-ão pela estrada de Pau. eu fiz uma leva de mil e quinhentos. de Alençon não quer partir. . estou certo de que ele lhe há-de dar que entender. já o viu? . e que por isso se foi embora sem esperar por mim.Que coração tão fraco! que espírito tão pérfido! Porque não respondeu às cartas que eu lhe escrevi? 311 . era por Vossa Majestade. . .O Sr. meu Senhor.Pelo contrário. . . com quem afectava pôr-se em relações. meu Senhor. A eleição do duque de Anjou para o trono da Polónia e a indisposição do rei mudaram todos os seus desígnios. . não é assim de Mouy? .Então. Demais. meu Senhor .Decerto.O homem que me emprestou o cavalo e o capote. Bastavam a Vossa Majestade cem homens para fugir com o duque de Alençon. e sim retirada.disse de Mouy logo que La Hurière acabou de pôr a mesa -. mas li o bilhete que ele pôs no espelho.E você. de Mouy. ele é esperto. que dentro de oito dias estarão prontos. Isto posto. Não será fuga. Bastar-lheão mil e quinhentos homens. Além de que La Mole está sempre de vigia. está tudo perdido. mas hei-de tornar a estar com ele esta noite: à meia-noite há. . porque disse-me Daríole que a rainha-mãe o fizera falar muito. Vossa Majestade bem sabe que todo o partido. senão como duma salvaguarda. Creio que o pequeno teve medo. No entanto.E o homem que estava no canto da Rua dos Maturinos? .Ainda não. . apesar de a rainha-mãe saber o que faz. Senhor. e julgar-se-á Vossa ..perguntou Henrique.Bom. . desde o dia da recepção dos embaixadores. .É um dos mais seguros que temos. e não se servia do duque. falou a Orthon? . Fiquei um tanto inquieto. podemo-nos fiar nele? .Foi ele portanto que fez abortar o nosso plano? . tudo está ganho.Então. ele não conhece Vossa Majestade e ignora com quem teve de entender-se.

tenho provas disso. há-de correr em sua perseguição. e bateu-lhe no ombro. não é assim? .Então.Hoje mesmo. de la Mole dar de esporas.De oito em oito. . Olhe com ternura para a rainha-mãe.E a rainha servir-nos-á francamente? . é preciso ter a convicção de que o resultado será tal como se deseja. .disse ele -.Está dito. já lhe abrasa a fronte. trate com bastante agrado o duque de Alençon. Demais. incisiva. e para que a decisão seja rápida.Quando foi a última caçada? .Fica descansado.E tu. há-de acreditar-me. de Mouy .Ouça então. Parece-me que tudo está agora perfeitamente tranquilo. meu Senhor. diga-lhe sempre que não pode partir sem ele. . mas eu conto que os seus cavalos normandos nem ao menos verão as ferraduras dos nossos cavalos da Berberia e dos nossos ginetes de Espanha. três dias antes dessa caçada mande.me dizer onde é que ela se realiza.Bem sei.Oh decerto. Mas quando se conspira cumpre ser bem sucedido. leve o mais que puder. mas acredita em tudo quanto lhe diz a rainha. em que dias é que vão caçar? . e quando vir o Sr. o que é mais difícil.continuou de Mouy -. ela é ambiciosa.Tem dinheiro. . de Mouy. tanto de montaria como de alcanaria. siga-o e nada de afrouxar. se é em Bondy. e és o único que o sabes. Diga-me agora. meu Senhor .Bem: ou seja de Vossa Majestade ou dela. já se não pensa nele. A primeira condição para um bom êxito é a decisão. franca. mas julgo que Margot tem. o duque de Anjou partiu. ou de dez em dez dias. as perseguições contra nós quase que acabaram. meu Senhor? Henrique fez a careta que em toda a sua vida fizera a esta pergunta. .Com toda a certeza. dizendo-me também que está pronto a partir. se a rainha-mãe quiser havê-los às mãos. em São Germano ou em Rambouillet. e espero que dentro em pouco toda a França o saberá como eu. Uma vez fora do bosque.Bem. faça especialmente com que ele o acredite. .E pensa que ele confia em Vossa Majestade? . de hoje a oito ou dez dias haverá outra. . . .Tu bem sabes. . o rei melhora diariamente da sua doença.Creio que não. . . que vais fazer entretanto? . .Majestade seguro com um exército? Henrique sorriu. e talvez ainda antes. .Não tenho muito. e essa coroa de Navarra que ainda não possui. que o rei de Navarra não é por natureza tão assustado como o julgam.

o que dará a esse facínora mais cinco ou seis dias para se restabelecer. apareceu pálido e agitado. e prometo-lhe estendê-lo na relva com quatro boas cutiladas.exclamou Henrique levantando-se . . A propósito. que é dedicado a Vossa Majestade de corpo e alma. deixarei Paris com o coração mais aliviado.Ouça. bravo.na.Ah! se pudéssemos entretê-los ao menos por cinco minutos . abriu-se a porta. disse-me ontem que encontrou ao pé do Arsenal esse malvado Maurevel. . sim! compreendo . Ouviram-se passos na escada. há-de satisfazê-la como rei. e aquele de quem nesse mesmo momento se tecia o elogio.Ah compreende?.Ah. . que é um rapaz muito inteligente que eu recomendo a Vossa Majestade. e se Vossa Majestade quer seguir-me. Bom. permitir-me-á que trate um pouco dos meus? 312 . arranja os teus negócios.Há um que já me serviu a mim. . quando todos os nossos pequenos negócios estiverem arranjados. e com o qual pode contar como se fosse eu. depois de me haver ocupado com os negócios de Vossa Majestade. . ao que parece. . mas cumpre que ambos se apressem.Oh! . Orthon. .Alerta. Vossa Majestade há-de ser algum dia rei. de Mouy pode seguir-nos também se quiser. Que quer fazer contra cinquenta homens? . há-de pois acompanhar-nos para a Navarra. hei-de também dar um passeio para os lados do Arsenal.temos batalha.disse de Mouy tirando as pistolas do cinto .Cercada? . tão activamente. Senhor! . acordaremos no que se há-de fazer para o recompensar. graças aos cuidados de Renato. logo que lá estivermos.disse o rei -.Oh! é um mancebo admirável. feito isso.Pois não! é mesmo uma bela ocasião para pegar em pistolas e falar de batalhas. e se tiver alguma vingança do género da minha a satisfazer. . . Mal acabara Henrique de dizer estas palavras.É muito tarde . Eu sou soldado.bradou ele . para melhor dizer.E principalmente discreto. meu amigo. devo vingar-me como soldado.disse Henrique.Arranja os teus negócios.Agora. mas que negócios são esses? .O Sr. como vê.Como quiseres. e se houvesse qualquer meio de retirada. .Ele tem razão . e que se aquece ao sol como uma serpente que é.por quem? . que está restabelecido. Portanto.alerta! A casa está cercada! . meu Senhor. de Mouy. .E de Mouy? . não é assim? . acompanhandoas dum sorriso maligno. arrombaram. estás satisfeito com la Mole..Pela guarda de el-rei.disse Henrique. ou.

disse Henrique enternecido.Então encarregue-se de o salvar. tomando o rei pelo braço e puxando-o para a escada.Ah! . enquanto nós nos vamos pôr a salvo!. a luz dos archotes começava a mostrar-se já ao longo das paredes da estreita escada. Senhor. que eles já sobem. disse ao rei: . estamos em terra firme. E La Mole saltou da janela para o telhado.Não tenha receio. primeiro que tudo.Venha. eu responderia pelo rei! .disse de Mouy -. Já andei todo este caminho. achou-se no alto duma escada e. vamos! para diante! .disse La Mole . e este corredor conduz à rua. abrindo a janela dum gabinete.Vossa Majestade tem medo de excursões por cima de telhados? . Sr.as coisas vão caminhar por si.Agora . entendo . em que gotejava o suor.Eu? um caçador de camurças?.De Mouy! meu bravo de Mouy! . E enxugou o pálido rosto. . . seguiu por uma borda larga. que eu os entreterei. disse-lhe: . meu Senhor! cuidado! .bradou La Mole. que eu o sigo. sim. vá. empurrou a porta dum quarto.Venha.ainda bem. vai entregar-se à prisão. e vou guiá-lo.disse La Mole -. Senhor. e. De Mouy beijou-lhe a mão. Vá.E que há-de ser de ti? . numa noite muito mais horrível do que esta.Senhor . Senhor. 313 Com efeito. Mas quem diabo nos atraiçoaria! .disse Henrique. eu sei o caminho.disse Henrique -. .. tinha chegado defronte duma janela que dava para o pátio da hospedaria da Estrela Brilhante. . .Vamos. para afectar que estava sozinho à mesa. estendendo a mão ao mancebo. fez-lhe subir dois andares.disse Henrique . . o celeiro dá para uma escada que vai ter a um corredor. ganhou a porta mal fechada.Bem.Vá andando. donde partiam as goteiras.Sim.disse La Mole. então siga-me Vossa Majestade. .bradou La Mole -. . venha. que tornou a fechar com o ferrolho. e ouvia-se em baixo uma espécie de tinido de espadas. abriu-a. Na escada fronteira viam-se soldados correndo. venha! . de esconder o prato.disse Henrique -. fê-lo sair do quarto e fechou a porta com o ferrolho. pondo na mão do rei a corda que servia de corrimão. meu Senhor. . vá andando . meu Senhor. Henrique parou no meio da escada. . meu Senhor. e aí encontrou uma trapeira sem portas que dava claridade a um celeiro vazio.Cuidado. de La Mole . . La Mole entrou pela trapeira. . o guardanapo e o copo do rei.Venha. E de Mouy tratou. E guiando o rei na escuridão. vá. chegou a um côncavo formando dois telhados.disse o rei. .

de La Mole .disse Henrique .bravo e dedicado coração! .Nesse caso.perguntou La Mole. de Nancey que atravessavam a Praça de São Germano L'Auxerrois. Se Cocunás for alguma vez agarrado.E como diabo quer que eu entre? . Mas como hei-de eu prevenir a rainha? .Vossa Majestade é tão bom atirador de pedras!. realmente. de Cocunás. no meio dum grupo. e se me vêem entrar depois dele.disse Henrique .De perder a cabeça .que ar sossegado que ele mostra.Nada há mais fácil.uns com espadas. . será uma probabilidade de que eu estava na sua companhia. entre no Louvre sem ser pela porta. . . inclinando-se com respeitoso reconhecimento .respondi-lhe eu.Pobre rapaz! . Tinha entregado a espada e descia tranquilamente. .respondeu La Mole. comandada pelo Sr.Pois eu também.Veja Vossa Majestade . .Nesse não tenho cuidado algum. mas.Corremos algum risco? . ao chegarem à Rua dos Polés. segundo parece.Conto. viram 315 de Mouy e a escolta. Henrique e La Mole não acharam outra dificuldade senão a onda de povo que obstruía a rua. .Tem razão.Oh! . Diabo! hão-de fechar as grades. . e repare que até ri! Medita decerto alguma boa peça. meu Senhor.Ah! . meu Senhor. e hão-de tomar decerto os nomes dos que entrarem. 316 XLVII .tudo vai bem.Então . Ao ver os soldados. o rei de Navarra viu aparecer de Mouy. que acudiu ao barulho. De repente. . porque Vossa Majestade bem sabe que ele ri muito poucas vezes. só me disse estas palavras: .disse Henrique .O Sr. Ambos conseguiram escapar-se pela Rua de Averon. tratemos de chegar ao Louvre.conduzem-no para o Louvre. .E juro-lhe que se há-de salvar. Sr. de Cocunás? .disse La Mole .disse Henrique.E contas salvar-te? . . o Sr. E. .Sim.Vossa Majestade não tem a janela da rainha de Navarra? .E o mancebo que estava com o senhor? . A rua está cheia de povo.E eu que nem me lembrava disso!. outros com archotes. pode Vossa Majestade ficar certo de que é porque lhe conveio deixar-se agarrar. que é feito dele? . embucemo-nos nos capotes e saiamos. . meu Senhor. julgarão que também somos curiosos.

Tinha. Carlos fez perguntas a Catarina. sempre conjurações. . e eu estava empenhada em mostrar-lhe que a tinha. e que pôs a cabeça viva e inteligente no joelho do seu senhor. que já não sou nenhuma criança. que já estou em idade de saber tomar conta de mim. digo-lhe que faz mal se continua deste modo. que julgava impossível falhar-lhe o resultado. Intrigado pelo ar de triunfo que.Não senhor. Ao cabo de alguns minutos.Então acabaram de matar um homem? .disse Catarina -. bem convencida. sobre o ventre como uma cobra. que Catarina passou com os olhos fixos e o ouvido atento. o verdadeiro inimigo de Vossa Majestade. e chamando com um assobio o seu grande galgo.perguntou Carlos.Não é nada . que não preciso de andadeiras. não lhe pode fazer mal. minha mãe.Oh! .perguntou Carlos franzindo a testa. . esperou. foi para concluir uma empresa começada há muito. já o único. . ao mesmo tempo que o galgo se levantou dum salto arrebitando as orelhas. se quer reinar! Mas aqui.Só uma coisa posso dizer a Vossa Majestade. que correu para ele de rastos. é a última vez que me intrometo nos seus negócios.E que quer dizer esse sinal? . e é que esta noite se há.Meu filho . ouviu-se um tiro de pistola no pátio do Louvre.DE MOUY DE SAINT PHALE Catarina tomara desta vez tão bem as suas medidas. 317 Neste momento pararam muitos homens no vestíbulo. olhando para a mãe com aquele olhar de senhor que quer dizer que o assassinato e o perdão são dois atributos inerentes ao poder real. não obstante a costumada dissimulação. portanto. e dirigira-se ao quarto do rei para lhe pedir que se deitasse mais tarde essa noite. para não quebrar a cabeça.bradou Carlos a meia voz . tornava sumamente alegre o semblante da mãe. não passa dum sinal. sem que o rei seja ouvido! Irra! eu creio.disse Catarina -. de que a rainha de Navarra ignorava o que se tramava contra o marido. . . acabam unicamente de prender dois. que lhe respondeu somente estas palavras: . o que realmente era verdade.de ver livre dos seus dois mais cruéis inimigos. .Que estrondo é este? . .sempre ocultos. e ouviuse o descansar de alguns mosquetes no lajedo. Carlos fez o movimento de franzir a testa que faz o homem que diz consigo: Pois sim: veremos. na qual Vossa Majestade nunca me deu razão.Quer dizer que desde este momento. despedido Margarida por volta das dez horas. . Se agora o fiz. nem de testeira. Vá para a Polónia com o seu filho Henrique.

disse Carlos carregando o sobrolho -. . e entregou a espada à primeira intimação.Ele estava só. admirada desta audácia. minha Senhora. Carlos não respondeu nada.Que entre .pois não prendeu senão um? . . de Mouy? . .então que quer isto dizer. Cinco minutos depois entrou de Mouy.Quem? . ou. me prometera a punição do matador. meu Senhor.Confesso que teria nisso muito gosto. disse-lhe: . o assassino de meu pai e do Senhor Almirante.respondeu de Mouy com perfeita tranquilidade -. recuou um passo. de Nancey entrou. Catarina. . ceava com muito sossego num quarto. eu ignorava que existisse uma ordem de Vossa Majestade. como de então para cá se tinham passado graves acontecimentos.Era o senhor? .Eu mesmo. não vi senão uma coisa. e atirei aos soldados da sua escolta como a salteadores. Sr. resistindo às ordens de Sua Majestade como um rebelde que é. .bradou Catarina muito perturbada . fez uma reverência ao rei e.Vai já ver . . de Maurevel. de Mouy. . . ora.Pois bem. voltando-se para Catarina. assentei que o rei fora desviado. de Maurevel. meu Senhor. nesta mesma câmara. vendo Maurevel tão perto de mim. não pude deixar de crer que era o Céu que mo enviava. Vossa Majestade deseja sabê-lo? . Sr. e. matou dois soldados da guarda e feriu o Sr. para melhor dizer. de Nancey. eu lho digo: chama-se de Mouy de Saint-Phale. e falando comigo. sobre ele como sobre um assassino. durante a noite de 24 de Agosto. um homem: o Sr.E resistiu? .E como .disse Carlos IX . foram cumpridas as ordens de Vossa Majestade: está preso. do cumprimento dos seus desejos.perguntou o rei. e que nessa mesma noite. .Está.Primeiramente. Senhor? . far-lhe-ei a mesma pergunta.bradou o rei . mande entrar o preso. Lembrei-me então de que havia ano e meio que Vossa Majestade.Em vez de fazer essa pergunta ao rei . sem o querer. quem era esse homem que estava certa noite no quarto do rei de Navarra.Instantes depois mandou o Sr. depois.Sr. tenha a bondade de dizer a meu filho. caí. a sua amizade para com Henrique havia-lhe feito ver bastantes coisas sob um aspecto diverso .Sim .disse Catarina.Se Vossa Majestade mo permite . poderá dizerme o nome desse homem. .se atreveu a resistir às ordens do rei? .disse Catarina -. . pois. .Sim.Não.Minha Senhora. O Sr.De Mouy! . minha Senhora. . de Nancey pedir licença ao rei para entrar na sua câmara.disse Carlos vivamente.

Continue. .continuou de Mouy . mau grado todo o poder que tinha sobre si.E meu irmão de Alençon sabia-o? .disse Carlos -. meu Senhor .isso é uma história comprida. não é mais do que fazer voejar essa coroa de Navarra por cima de todas as cabeças. . reconhecem mais do que ninguém esse princípio de suserania que o rei acaba de emitir.Que diz ele! . meu Senhor. os fiéis súbditos de Vossa Majestade que professam a religião protestante.disse Carlos. E por isso contavam eles convidar Vossa Majestade para fixála numa cabeça que lhe é cara.Sossegue.A não ser que houvesse oposição da parte de Vossa . Catarina fez um sinal a Carlos IX. e por mais duma vez com terror. e especialmente da magnânima Joana d'Albret. Actéon. .disse de Mouy -.disse Carlos . . como se eu não tivesse nada com ela!.disse ela . e devorou de Mouy com um olhar flamejante. o golpe inopinado que a feria. rogando-lhe que houvesse de desistir dos seus direitos à coroa de Navarra. de Alençon. Bartolomeu. não perco uma palavra. . não obstante.Da cabeça do Sr. receber. .Vamos a ouvir .Para aqui. os da religião assentavam que deviam dar-lhe uma prova da sua deferência. 318 Catarina sentou-se. em memória de seu pai António de Bourbon.com que então.disse este -. que não podia.E aceitava essa coroa? .que ia fazer a semelhante hora ao quarto do rei de Navarra? .disse Carlos . .respondeu de Mouy inclinando-se.Oh! .bradou Catarina. Por Deus! de que cabeça quer o senhor falar? Não o entendo. fixando no jovem chefe um olhar inquieto.disse de Mouy . mas que.A mim? . . .Obedecerei. meu Senhor.Sim.Bravo! . . . de Mouy continue. fale. Sr.Mas .Para prevenir o rei de Navarra . eu fui ao aposento de Sua Majestade o Rei de Navarra como deputado dos nossos irmãos. A rainha-mãe havia registado na memória proposições emitidas por seu filho a respeito dos acontecimentos de S. . . .Quero . mas se Sua Majestade quer ter a paciência de ouvi-la. sem clamar. O cão tomou de novo o lugar que ocupava antes da chegada do preso.daquele com que as encarara de princípio. Catarina fez-se pálida como a morte.numa cabeça que me é cara?.de que a sua abjuração lhe fizera perder a confiança do partido huguenote. . e que pareciam remorsos. cujo nome é caro entre nós.Meu Senhor .Os huguenotes. minha mãe .

em virtude do qual receei ter caído no desagrado de Vossa Majestade. deve o senhor possuir essa renúncia. para quem ele nos remetia. hei-de vê-lo com muito prazer no paço. mas na hospedaria. a amizade de el-rei Carlos.acrescentou o rei. minha Senhora. E de Mouy tirou da algibeira uma renúncia do duque de Alençon. se não fosse esse desgraçado acontecimento do Louvre. . minha Senhora: trago-a comigo por acaso. . Catarina mordeu os beiços de cólera e torceu as suas belas mãos. de Mouy . . .Eu não. . se tudo estava concertado entre o senhor e o rei de Navarra.Não há dúvida. . indemnizá-lo-ia amplamente da perda duma coroa. E eu que não tinha pensado nisso! Obrigado. para que foi a entrevista que teve esta noite com ele? . .disse Catarina. . minha Senhora? com o rei de Navarra? .Conheceu certamente esse fidalgo? . minha Senhora. assinada por ele e datada. . o Sr. . depois de estirar dois guardas da escolta.Ah! .Nada. .Que pedia então Henrique em troca desta renúncia? . minha Senhora.E quem era? . julgo que da véspera. minha Senhora.E está tudo em forma .observou Catarina -.disse Catarina . de Nancey . sempre que tiver lembranças semelhantes. Vossa Majestade pode chamá-lo.disse vivamente Catarina -. de Mouy estava absolutamente só na hospedaria da Estrela Brilhante? . não.Eu. . e a sua renúncia estava pronta.Não sei quem era o companheiro do Sr.Meu Senhor. dissenos ele.Bem. O capitão das guardas tornou a entrar.Então . Vossa Majestade estaria há muito informado de todo este projecto.Nesse caso . escrita e assinada por Henrique.perguntou Carlos IX.Sr. .realmente é uma coroa que assentaria muito bem em nosso irmão de Alençon. . de Nancey! . mas sei que se evadiu por uma porta do fundo.Tudo isso é perfeitamente exacto. de Mouy obrigado.Majestade.O oficial que me prendeu é testemunha de que eu estava só.Oh! . sim. minha Senhora.bradou o rei. mas os meus fiéis guardas conheceram-no.tornou a rainha-mãe -.e quem era o seu companheiro? . de Mouy minha Senhora.disse de Mouy.disse Carlos depois de ler. .No quarto. . 319 . .Sim.O rei.disse Carlos . mas que dizia o rei de Navarra desse projecto? perguntou Catarina. submetia-se ao desejo de seus irmãos. .Com data anterior à cena do Louvre? . e com a data indicada.Sr.

de Nancey deixe passar o Sr. quando se passou esse desgraçado sucesso com o Sr. que quando trazemos a nossa não tira os olhos dela.E para outra vez lembre-se duma coisa. Sr.Parece que é essa a vontade de Deus! Sr. e de que só deve obedecer a mim. de Cocunás.Meu Senhor. e cumprimentando respeitosamente.. Bartolomeu?. Houve um instante de silêncio. meu Senhor? . mas isso é negócio entre Deus e mim. O Sr. de Mouy vá. . . . Senhor. de Mouy. Vá.O Sr. .disse Carlos.Senhor . . Carlos afagava o cão. . Sr.Sim . O Sr. . meu Senhor? . . gentil-homem do Senhor Duque de Alençon .De que está ao meu serviço. .disse o rei. e diga-lhes que. Desde este momento a Navarra é um reino. Peço unicamente oito dias para que meu irmão possa sair de Paris com a pompa e esplendor próprios dum rei. minha mãe? .Contra Henrique. de Maurevel.Tencionava levar as coisas pela violência? . a Navarra pode e deve ser um reino separado. 320 E estendeu a mão ao jovem huguenote. ou contra mim.De quê. visto. De Mouy sorriu com ironia para Catarina.Aníbal de Cocunás! . . o acordo de seu irmão. Sim. . a quem castiguei talvez um pouco. permita-me Vossa Majestade.Contra quem. asperamente. o duque de Alençon. o qual teve sempre tanto desejo de possuir uma coroa. está solto.Bem.O Senhor Conde Aníbal de Cocunás.aquele que fez tão horrorosa matança nos huguenotes pelo S. De Mouy pôs um joelho no chão e beijou respeitosamente a mão do rei.Que lhe parece. . de Mouy. contra Francisco.Mas qual era o seu fim.Não vejo mal em tudo isto. . Ainda mais: esse reino parece feito expressamente para dotar meu irmão de Alençon. o rei de França cede aos seus desejos. . e o seu soberano chama-se Francisco. A rainha torcia o colar. Sr. que Henriquinho renuncia voluntariamente. nós tínhamos a renúncia de seu cunhado.disse Carlos IX.continuou Carlos. de Mouy? .disse o Sr. de Nancey retirou-se andando para trás. pode voltar para os seus irmãos. .Voluntariamente.repetiu o rei pensativo . O único obstáculo a essa entronização era o direito de Henriquinho. porém.disse de Mouy dando um passo para diante -. de Mouy estava no seu direito pedindo um rei. visto desejarem para rei de Navarra a meu irmão. de Nancey. e estávamos a ponto de solicitar a autorização de Vossa Majestade. bem .

faça justiça por suas mãos: autorizo-o para isso. abrigado pelas muralhas de Mantes. Deixe Vossa Majestade o negócio por minha conta. o mancebo respirava em segurança. Atravessou os corredores. mal se viu fora do Louvre. assobiando uma cançoneta de caçador. de Alençon que me venha falar . de Mouy. . Mas nem por isso deixou de ir à presença do irmão com uma prontidão calculada. Satanás disse ela consigo . Catarina.Sim. retirou-se. Ao entrar. que deseja Vossa Majestade? . voltou à sua câmara. também não sei onde ele está.disse Carlos ao capitão das guardas despediu a mâe. O Sr. fique descansado.bradou de Mouy . depois de cortejar respeitosamente o rei Carlos e a rainha Catarina. foi num pulo do quarto de Carlos ao do irmão. meu Senhor. ganhou rapidamente o passadiço. sem que os guardas que o haviam conduzido lhe impedissem a passagem. para lhe fazer a vontade.Não sei onde ele está. Lembre-se de qual é a coisa em que mais . e. que. da qual passou para a de Margarida. retendo-o quando ele ia a levantar-se -. mas.disse Carlos. e com ar de quem se vai enfiar na cama. porque anda oculto. graças ao qual.Sim.Vá dizer ao Sr. devorando a sua cólera. .acode a uma pobre rainha em favor de quem já Deus não quer fazer nada. Sr.. O duque de Alençon sobressaltou-se: tinha sempre tremido diante de Carlos. para recompensar a grande amizade que me tem. a não obedecer daí por diante senão a ele. mas hei-de achá-lo. ao senhor. se o encontrar.A mim? .Espere . o duque de Alençon surpreendeu nos olhos envidraçados de Carlos um desses olhares rancorosos que eram tão seus conhecidos. Carlos estava de pé. e transmitiu-lhe simplesmente a ordem que acabava de receber.Ah! meu Senhor! . estou decidido a conceder-lhe hoje aquilo que mais deseja.Recebi ordem para lhe vir falar Senhor.eis o que põe o remate a todos os meus desejos. . e principalmente depois que pelos seus passos para uma conspiração criara motivos para o temer. três horas depois de sair de Paris. e de muito boa vontade. . Aí achou Henrique em trajo caseiro. conforme a observação que o rei lhe fizera. . de Nancey disposto.Dizer-lhe. não me pediu o castigo desse facínora do Maurevel?. 321 XLVIII DUAS CABEÇAS PARA UMA COROA . meu bom irmão. foi num pulo da Praça de São Germano L'Auxerrois à hospedaria da Estrela Brilhante onde achou o seu cavalo. E de Mouy.

de Alençon. à testa dum partido que nos guerreia há trinta anos. porque meu irmão é muito discreto: mas houve quem desejasse e pedisse por ele.disse o rei -.Pois chama a isso um desterro.se sem o conseguir -. nem tão-pouco pedi. .Não desejo nada. graças a Henriquinho. juro-lhe que nunca. dum javali furioso que me ia dilacerando. e passo de maneira tal. e uma ardente vermelhidão veio queimar-lhe as faces. eu sou irmão . . depois. afectando bondade julgava-o menos popular. e principalmente entre os huguenotes. Senhor .pensa de certo tempo para cá.E que mais? . e buscando serenar. É sua. Pois bem. . desejar outra coisa além da continuação da minha saúde. e que é incapaz de me trair. isto é.tornou Carlos impacientandose -. Senhor. Só o pobre Henriquinho é que não será mais do que meu amigo.Deseja. . que ninguém reclama.tornou ele. deseja a coroa de Navarra. Isto vai como por encanto tranquilizar tudo. o favor que o rei lhe fazia desesperava-o num tal momento. . refluiu de repente para as extremidades. com o primeiro para que a renunciasse. juro a meu irmão que nada mais desejo do que a continuação da boa saúde do rei. .Não jure. . que mais quer? Henriquinho renuncia.Ora! que mais. de Mouy transmitiu-me a sua súplica. Francisco . Henrique é apenas seu cunhado. Demais.Senhor. e esse título. visto que se entendeu com Henriquinho e de Mouy. nada que se assemelhe a isso. Senhor! Vossa Majestade engana-se. Esse título reclamo-o eu.Mas. que é excelente. Que esperava então mais? De Alençon mordeu os beiços de desesperação. que não tenho inveja ao mais sadio do meu reino. Senhor.Por minha fé! .É possível . é bem difícil de contentar. visto que eles o pedem. além de que seremos todos reis na família. Pode. desapareceu. pois. porém.Oh. . . Mas ele não é ambicioso.Meu Senhor . De Alençon empalideceu horrivelmente. eu não desejei. 322 . meu irmão. . palpitando de emoção.disse Francisco -. . ninguém tem mais direito a ele. com o segundo para que lha obtivesse. .perguntou de Alençon com voz trémula. Escapei. sem ser mau irmão.Mas. Francisco? Que tal!. irmão por aliança.Então deve estar satisfeito. . de Alençon: a indisposição que tive quando os polacos chegaram. eu nada podia desejar tanto como ter uma pessoa minha. e essa coroa que ambicionava. deseja. que me ama. devo confessar que me enganava. e conte com ela.continuou Carlos. o sangue que lhe acudira ao coração e que quase lho despedaçara. tomálo-á ele. Vossa Majestade quer desterrar-me?.

e de. porque bem vejo que o perturba.Sim. Cos diabos! uma bala cravada mais acima ou mais abaixo pode mudar muito a face dum governo. é melhor caçarmos um 323 longe do outro. . sei isso. seria fazer a sua desgraça. Senhor! perdoe à emoção . do que temos um exemplo na . um javali que passou a vinte passos. que se tornara lívido. Francisco. e então mataria o cavaleiro em vez do cavalo. e tanta a sua emoção. não há nada que faça levantar o braço como é a emoção.Vossa Majestade nunca achará um companheiro tão fiel como eu. que eu aprecio pelo seu justo valor. .disse o rei -. que. a última vez que caçámos juntos. Senhor. . sim . de errar. e há-de convir que tenho toda a razão para temer que na outra caçada lhe sobrevenha uma nova emoção. esse perigo dar-lhe-á um verdadeiro prazer. especialmente quando há tais emoções.Como assim! . . isto com qualquer arcabuz.Oh. tanto melhor: não nos convém muito caçarmos juntos.Que é tal o gosto que tem em caçar comigo. sei bem o que é a emoção. não obstante chegar a sua destreza ao ponto de matar uma pega a cem passos. . com uma arma com que está acostumado.Nada. Oh! que belas caçadas que vai fazer. teve a infelicidade. Reflicta nisto. meu irmão. eu cá me entendo. Francisco . ora. É perigoso. esperam o animal. .tornou Carlos -. . . mas como meu irmão é valente.de Vossa Majestade pelo sangue. empina-se nos pés.Oh! lá por isso não . ele vem direito ao caçador. Francisco! olhe que isto dá que cismar! . e também que não tenho deixado de o desejar algumas vezes mais longe de mim. que lhe digo agora: Francisco. Que diabo. assim como fez Henrique ao javali na última caçada. que inveja que lhe tenho! Não sabe que se caçam os ursos nessas diabólicas montanhas como aqui os javalis?. Que belas peles que nos há-de mandar! Há-de saber que essa caça é morta a punhal. nada!.Sei isso.disse Francisco.Ah! Vossa Majestade redobra o meu pesar. o rei em vez do animal. . e ainda mais pelo coração. ainda por cima. porque nunca mais terei o gosto de caçar na sua companhia. e é mesmo por causa dessa emoção. Desde a minha infância nunca me separei de Vossa Majestade.Por mil razões.Que quer Vossa Majestade dizer? .Isso não.respondeu Carlos -. não na minha presença. quebrar uma perna ao meu melhor cavalo. mas quando estiver só. rogo-lhe encarecidamente que me deixe ficar ao pé de si. e nesse momento crava-se-lhe o ferro no coração.Que quer dizer Vossa Majestade? . excitam-no. desesperam-no.

e continuou: . meu irmão. divertir-se a seu gosto. para melhor dizer. Carlos pareceu não o perceber. . e a nossa resolução é imutável: há-de partir. Carlos tinha fixado nele os seus olhos de águia. esmagado. . como se o coração fosse um livro aberto. aspirando por assim dizer cada uma das sensações que se sucediam no coração do mancebo. Poder. com uma voz toda impregnada de rancorosa firmeza: . graças ao estudo aprofundado que tinha feito da sua família. Ele quer rir.Quero que a Navarra se ufane de ter por príncipe um irmão do rei de França. Sustentara ele a luta enquanto o pôde fazer. mas. imóvel e mudo. e pela primeira vez sentiu de Alençon o remorso.disse de Alençon . ou.disse ele -. engrandecia aquela.Aceite. e assim como ele. recebendo esse último choque. O duque sentiu correr-lhe o suor pela testa durante esse choque tão terrível como imprevisto. .Senhor. resigne. encobrindo a sua cólera com um ar de galanteio. Quando Montgomery matou nosso pai Henrique II por acidente. À medida que este se exacerbava. o pesar de ter concebido um crime que não pudera consumar. Deus tirou o mundo do nada. e depois. estava ainda talvez mais terrível do que se tivesse deixado trasbordar a fervente lava rancorosa que lhe devorava o coração. De Alençon fez um movimento.Vossa Majestade esquece-se do seu bom amigo Henrique.Henrique? pois não lhe disse já que ele não queria nada do trono de Navarra? Não lhe disse que lho cedia?.disse ele . também me há-de bendizer de longe. . dobrou a cabeça. e nosso pai Henrique para S. Era impossível que o rei pudesse mais claramente dizer que se adivinhara tudo. por emoção talvez.se. . Carlos. e talvez mesmo lhe traga um trono.Mas . nada lhe há-de faltar. . como nós estamos condenados.nossa família.Vossa Majestade manda que eu trate. achar-se-lhe-á uma mulher digna dum filho de França. a sua vingança parecia proporcionada ao rancor. Deixou-o assim por um instante. Dinis. honras. Henrique é um mancebo jovial. sob o peso das coroas.Meu irmão . demos-lhe conta da nossa resolução. que nas pessoas de natureza terna solta os diques ao pranto. ou antes.Então . e não definhar. E todas essas sensações se lhe manifestavam com tanta precisão. Logo que for rei. e não uma carinha pálida como Francisco. cerá tudo o que convém ao seu nascimento. Mas não importa: para as bênçãos não há distâncias. como teve seu irmão. basta-lhe portanto muito pouca coisa para fazer muito. e Carlos viu assomarlhe aos olhos essa chama devoradora. Mas de Alençon era daqueles que só choram de raiva. o golpe levou nosso irmão Francisco II para o trono. De Alençon suspirou.

minha Senhora. sufocou imediatamente as suas dores e tentou sorrir. pelo que parece. com efeito. Pode retirar-se. Menos feliz do que Henrique de Anjou.Assim parece.Então.Decerto. contristou-me ter que despojar deste modo o rei de Navarra. Francisco. posto que. mas simplesmente uma aliada.. eu mesmo arranjarei tudo.Nós não éramos reis.Creio.Não. enfim.Sei que se trata de fazê-lo rei.E crê que ele corresponda verdadeiramente à sua amizade? . por dissimular com ela. pois não! . . pois. Aproximou-se portanto de Catarina com um semblante em que apenas havia um leve vestígio de desassossego.há porventura irmãos entre reis? .. porque para fazer boas alianças cumpre empregar-se mutuamente uma boa e variada dose de engano. não é verdade? .Mas deve lembrar-se. que tudo está combinado. quando nos ligámos assim. na realidade. mas até quase irmãos. era a Vossa Majestade que o deveria. que nós não só somos príncipes. .É uma grande bondade da parte de meu irmão. e a rainha-mãe procurava-o. . Francisco. . 324 mas não encontrou senão Catarina. meu querido Francisco. especialmente entre príncipes. pode retirar-se. Henrique fugia de conversar com ele. não era a mãe que ele buscava em Catarina. .E sou quase levado a crer que devo repartir com Vossa Majestade uma parte do meu reconhecimento. .Então. Ele fervia por encontrar Henrique.Qual! . . Não havia nada que responder a isto. minha Senhora. ao ver Catarina. Não se embarace com coisa alguma.. meu filho. O duque. . Catarina deixou escapar um esquisito sorriso.disse ela . hei-de tratar de fazer com que a coisa se torne pública quanto antes. . As amizades de corte passam por pouco sólidas. é decerto bem edificante. eis por que nos amávamos. há algum tempo que estamos intimamente ligados. e partiu ardendo em raiva. para conversar com ele sobre o que acabava de se passar.Semelhante amizade. meu filho tem muita amizade a Henriquinho. se fosse Vossa Majestade quem lhe tivesse dado o conselho de me fazer presente dum trono. descanse em mim como num bom irmão. não. não sabe as grandes notícias que há? . nem tínhamos mesmo probabilidades de o vir a ser. minha mãe. quer diga quer não aos seus amigos o que se acaba de passar entre nós. Começava. E agora. porque. minha mãe. O duque cumprimentou.

De Mouy? . que guarda os seus segredos muito melhor do que Francisco. levantou-se ao dizer estas palavras. .Aquilo que uma boa mãe deve dizer a seu filho. os mais bravos soldados do mundo..Dum dos mais magníficos da cristandade. responda-me ainda a uma coisa. Disse-lhe ele. porque seu irmão Henrique. o huguenote de Mouy de Saint-Phale. que ignorava que seu filho Francisco soubesse a este respeito tanto e até mais do que ela. porque o seu amigo. é um senhor muito fino e muito astucioso. Francisco reteve-a. poderá Henrique fazer uma guerra bastante séria para inquietar a minha família? . Visto que Vossa Majestade se digna iniciar-me na sua política.disse ele -.disse o duque .saiba que ele é sustentado por talvez mais de trinta mil homens.Eu . saiba que no dia em que ele disser uma palavra. e esses trinta mil homens são huguenotes.. dispondo-se a fazer uma saída majestosa.que é que está dizendo? . aquele mesmo que quase matou o Sr.disse Francisco . ele tem uma protecção que Francisco não tem percebido ou não tem podido conciliar. alguma vez. . . pela vermelhidão que lhe invadiu o rosto.Sim.Oh! . e sendo tão pouco conhecido. debaixo da sua aparência de franqueza. E dizendo estas palavras. 325 Catarina.E qual é? . diga-me: como é que com tão fracos recursos. juro-lho. decerto. . E depois. viu Catarina que a seta que disparara fora bater em cheio no coração.Bem mudadas? . meu filho.Quero acreditá-lo. mas as coisas estão bem mudadas actualmente. e correndo a França e a capital em diferentes trajos. de Maurevel e que clandestinamente.Sim. . .Sim. que de Mouy era o seu procurador?. como lhe chama. isto é. . e em que o meu filho Francisco tem pensado por mais duma vez. por exemplo. e como se fora a primeira vez que ouvira pronunciar este nome em tal circunstância. Catarina cravou o seu olhar como um estilete na alma de Francisco. trama e levanta um exército para sustentar Henrique contra a nossa família. minha Senhora. quem lhes diz agora que não serão ambos reis? Pelo sobressalto nervoso do duque. .Ele? ..Criança .não tenho pensado em nada.Henriquinho rei? e de que reino? . aparecerão subitamente esses trinta mil homens como se saíssem debaixo da terra.disse a rainha sorrindo . .Minha mãe .bradou de Alençon empalidecendo .disse ele com surpresa.

quer achá-los fora da sua família. .Quer-me obedecer cegamente a respeito de Henrique. e por despeito de Francisco. . que por ciúme de seu irmão da Polónia.Espere. por mais que me diga? De Alençon sorriu. e por isso sabia que não era a Deus. minha mãe. decerto.. . . (sim. retirou-se para o seu quarto.Na manhã da próxima caçada venha aqui buscar o livro.disse Catarina. .Engenhoso em agradar-lhe em tudo. de Alençon? . Porque esse mesmo Henriquinho.Confia em mim. põe-se de rastos como um cão que lambe a mão que o castigou! . deixe estar.Obedecerei.E a quem eu detesto . ..Mas eu procurei e não achei. a Providência ou o acaso. 326 Que quererá ela dizer? . . . .espere. sim . é preciso dar-lhe esse livro.Pois hei-de achá-lo eu.O rei? pois crê nisso.E que resultará daí? . que o impele.Bem .Sim.Tem o rei.Pois não tem percebido que ele adora Henriquinho.ia ele pensando ao subir a escada .Tanto que. foi ontem) se eu não tinha alguns livros bons que tratassem desta arte.E que é correspondido por ele?. o seu Henriquinho? . mas não se atreveu a acrescentar uma palavra..Confio. Francisco conhecia bastante a mãe. à Providência ou ao acaso que ela costumava ceder a tarefa de satisfazer as suas amizades ou os seus rancores. minha mãe?. fará o resto. . o rei. esquecendo-se de que seu cunhado o queria arcabuzar no dia de S. E foi por isso que me perguntou. já o tenho notado: meu irmão Henrique é bastante humilde com meu irmão Carlos.disse Francisco por entre dentes -. como homem que aceita a comissão de que o encarregaram. . que o ama. quer tratar de estudar a volataria. Francisco? . cujos olhos luziram como se uma ideia súbita lhe tivesse atravessado o espírito . . bem. dar-lho-ei para o levar ao Henrique. hei-de achá-lo. minha mãe. a quem não ama. E que lhe respondeu. o rei. .disse Catarina -.Deus. e fazendo uma cortesia. e há-de dar-lho depois como coisa sua. -E.continuou Catarina. Bartolomeu.Decerto. . . Mas estes sucessores que cego que é Francisco se o não vê! . procura sucessores em torno de si. despeitado pela zombaria que o rei faz constantemente da sua ignorância das caçadas com falcões.Que eu o procuraria na minha biblioteca. .

como dissemos. Neste intervalo. apenas a Sr. Continha as seguintes linhas: Senhor: chegou o momento de dar execução ao nosso projecto de fuga. sem que se proceda a indagações.. . uma carta de de Mouy com sobrescrito para o rei de Navarra.exclamou ele.Leia depressa. em objectos políticos. de que não tornámos a falar desde o momento em que o leitor a viu efectuar-se tão tragicamente para o pobre Orthon. correu com a rapidez duma sombra e introduziu-se na antecâmara do rei de Navarra. . não se perde ordinariamente assim um Famulo. recebia Margarida. depois de ter olhado com atenção para todos os lados. à vista mesmo do rei e da rainha.mãe: perguntou por Orthon a toda a gente. haverse como entender. mas todas as perguntas e todos os passos foram infrutíferos. e tão afeiçoado ao pobre fâmulo ausente. . Por estes cinco dias haverá .não entendo. e que era em consequência dessa maquinação que ele estivera a ponto de ser preso com de Mouy na hospedaria da Estrela Brilhante. desde a sentinela do passadiço do Louvre até ao capitão das guardas que velava na antecâmara do rei.respondeu Margarida. Outro que não fosse Henrique guardaria silêncio a este respeito. Deixemo-la. porque. sem que se trate de procurá-lo. E apresentou-lhe o papel aberto. pois. aproveitando-se da escuridão que começava a cobrir as paredes do Louvre. É porém claro para mim que ela trabalha em tudo isto contra um inimigo comum. sim . Essa antecâmara não era guardada por pessoa alguma depois da desaparição de Orthon. Não estava pois ninguém na antecâmara. mas Henrique calculava tudo: viu que o seu silêncio poderia atraiçoá-lo. mas nenhuma delas sabia mais do que ele. que declarou expressamente que o não substituíssem enquanto não adquirisse a certeza de que havia desaparecido para sempre. em virtude dos quais estava Henrique perfeitamente convencido de que o pobre rapazito fora vítima dalguma maquinação da rainhamãe. porque teria tido medo de falar. Essa desaparição. Foi o que Henrique fez.Vossa Majestade aqui? . Julgou-a decerto interessante. havia inquietado muito Henrique. de Sauve lhe dera alguns esclarecimentos. um confidente. segredo algum entre si. subiu a escada de caracol e. Abria-se ele a esse respeito com a Sr. Como os dois ilustres cônjuges não tinham.Eu. introduziu-se Margarida pela passagem secreta. de Sauve e com a esposa. abriu ela a carta e leu-a. e Henrique mostrou-se tão ostensivamente afectado por esse acontecimento. por intermédio de La Mole. no mesmo instante. Henrique ouviu-os e voltou-se. Por mais leves que fossem os passos da rainha. quando Margarida se apresentou no quarto de Henrique.

a rainha compreendera tudo. se for só. é Vossa Alteza.Disse o quê? . não é difícil. Henrique! . meu irmão.perguntou a meia voz. do qual temos a chave.Estamos sós. cinja a sua melhor espada e monte no cavalo maisfino que tiver. e guando o rei largar atrás dofalcão.Como? descobertos?. . Adeus. se os seus estiverem cansados. se ela o acompanhar. Cinquenta dos nossos estarão escondidos no Pavilhão de Francisco I. sto e no maior calor da caçada. meu Senhor Não se descuide: esteja pronto. não serei eu quem a desminta. porque hão-de entrar de noite e asjanelas hão-de estar fechadas. e saiu primeiro do que ela para explorar a passagem.caçada comfalcões ao longo do Sena desde São Germano até Maisons. Vá a essa caçada. que beijou a mão de Margarida. torne-se herói. Que há de novo? Parece-me muito perturbado. minha Senhora . . à direita dessa alameda.E disse tudo ao rei. afaste-se sozinho.Que há de novo? Há que estamos descobertos. estarão os Srs.E há-de estar . numa pequena quebrada. A precaução fora boa: no momento em que ele abria a porta da câmara de dormir o duque de Alençon abria a da sua antecâmara. Por volta do meio-dia. as mesmas palavras que César pronunciou nas margens do Rubicão. Senhor. vista por baixo do gibão uma boa cota de malha.Já sei. 327 . . arranje-me um bom trono disse a filha de Henrique. posto que seja de altanaria. Seja muito bem-vindo. na qual hei-de estar eu de vigia. . que nós o estaremos também.Perfeitamente sós.disse Margarida.Seja. e correra para um gabinete de toucador.Vamos.respondeu Henrique -. Passe pela Alameda das Violetas. . depois de mil e seiscentos anos. de Mouy foi preso. meu irmão? . com a rainha de Navarra. O duque de Alençon entrou com passos temerosos e mirando tudo em roda de si. . Henrique fez um sinal com a mão a Margarida. com dois cavalos à mão para muda. Um imperceptível sorriso correu pelos finos lábios do Bearnês. . Isto é em toda a extensão dafloresta. proferindo. Ao sinal do marido. ninguém saberá que eles ali estão. . não tem mais do que seguir o seu caminho. .Sim. e disse depois em voz alta: . de La Mole e de Cocunás. cuja porta estava coberta por uma espessa tapeçaria.Ah.

para não ficar separado dum irmão a quem amo. . o rei gracejou comigo.Esteve decerto com o rei. estou bem em toda a parte. .Oh! pois não! fique certo disso .respondeu Francisco.Então fique . se tomar alguma nova resolução. . .Eu mesmo não o sei. .Eu por mim não considero um revés da fortuna ficar aqui. apenas saiu de Alençon. .Conservemo-nos duros. visto que foi a Vossa Alteza que ele falou.Ah! cos diabos! .de sorte que aí o temos comprometido. . Que julga que devo fazer. . . por dedicação. . Apesar de ser tão senhor de si. Henrique deixou escapar um movimento de alegria. . a nossa vida depende disso. não deixe de ma comunicar. .Disse que eu desejava o trono de Navarra. .Pois se Vossa Alteza fica. Francisco surpreendeu-o na passagem. como quiser .Bem. . não é assim? . Eu só partia para o acompanhar.Entretanto. . Vossa Majestade cede. não tenho eu motivo nenhum que me obrigue a sair. levantou-se essa tapeçaria e Margarida tornou a aparecer. meu irmão. Siga a sua inspiração.tornou Francisco -. não deixe de vir à minha câmara amanhã à noite. fugir ou ficar? . estão perdidos todos os nossos planos. Contava decerto arrancar-me uma confissão.Que pensa desta visita? .respondeu Henrique. 328 De Alençon não insistiu mais e retirou-se.perguntou Henrique.disse de Alençon -. e que conspirava para o alcançar.E que julga que haverá? .disse Henrique . por este motivo. e posto que imperceptível. não falemos mais nisso.Que há alguma coisa de novo e importantte. mas hei-de sabê-lo.disse o Bearnês. . o caso é grave.Então deve ter-lhe lido o pensamento. porque houve um momento em que julgou ver mexer a tapeçaria do gabinete do toucador. graças ao meu carácter pachorrento. Com efeito. Pois não conviemos em que não haveria segredos?.Eu antes queria ficar . ao mesmo tempo que afectou oferecer-me o trono de Navarra. meu pobre irmão! E como é que ainda não foi preso? . por Deus! fez bem! .Estive.E.E entretanto?.. . pensativo.Ainda não sei. vim pedir-lhe o seu parecer.E Vossa Majestade? . mas eu não disse nada.disse de Alençon -. ao primeiro revés da fortuna.Portanto . sem resistir. .Sim .disse Henrique. só o que lhe peço é que.

Ainda recusa partir? .disse Catarina -. saiu ela dum gabinete onde ninguém mais entrava. .Então? .disse Henrique. quando o duque de Alençon se dirigiu ao aposento da mãe. entrou ao mesmo tempo que a rainha-mãe o cheiro penetrante dum acre perfume. como o que produz qualquer aroma queimado. conforme haviam concordado. que tive de lançar um pouco de zimbro no braseiro. caso fosse procurá-la.Digo que parte. duma dessas doenças .Não só o deixo partir. .disse Catarina. beijando com amabilidade a mão da mulher. mas. e exalaram tão mau cheiro.Que velhaco! .. o mesmo que me deu o tratado de caça que o meu filho lhe vai levar. Passados alguns instantes. ainda digo mais: é necessário que parta. asseverou-me que o rei de Navarra estava para ser atacado duma tísica.Absolutamente. minha Senhora .Ouça bem o que lhe vou dizer. . A rainha-mãe não estava na sua câmara. como era costume nos dias de caçada.Não a entendo.Crê que sim? . minha Senhora? . 329 O TRATADO DE MONTARIA Tinham-se passado trinta e seis horas depois dos acontecimentos que acabámos de narrar.disse Catarina. . escondendo nas largas mangas do roupão as mãos cobertas de pintas amareladas . O duque não pôde reprimir um olhar de curiosidade. De Alençon inclinou-se. Francisco.Que diz. . ou viesse impregnado no fato. 330 . queimei alguns pergaminhos velhos. mas tinha deixado ordem para que o filho a esperasse. e pela abertura dessa porta notou de Alen çon um denso vapor. . .Então abandona-nos? .E Vossa Majestade deixa-o partir? . minha mãe.Tornei.Conto não faltar. . que flutuava como uma nuvem branca no laboratório donde a rainha saía. .que há de novo desde ontem? . e que era destinado às suas operações químicas. Começava a romper o dia. minha mãe. Um médico muito hábil.Tornou a ver Henrique? .É verdade .Tenho a certeza. mas já tudo estava acordado no Louvre. Ou fosse pela porta entreaberta.Nada. E Margarida entrou para a câmara com as mesmas precauções com que saíra.Exactamente .

A reunião é na floresta de São Germano.disse Catarina .Que livro é esse. feito por um homem muito sábio.Parte . se ele tem de morrer de tão cruel enfermidade. está isso acordado. porque não é possível fazê-lo senão molhando o dedo para abrir folha por folha. segundo me disse (este ou outro semelhante).Já lhe disse.disse Catarina. Mas.Está aqui . minha Senhora? Está certa disso? .disse ela.inexoráveis para as quais não há remédio algum. abriu a porta.Pelo menos assim mo asseverou o médico que me deu o livro de que falámos. . De Alençon olhou com algum terror para o livro que a mãe lhe apresentava.disse o duque -. Porém.disse de Alençon estremecendo. o rei considerará essa morte como um castigo do Céu. . ora. Margot voltará para a corte. Não o procure ler.Oh! .E onde está esse livro. . viúva e livre. Como ele vai hoje à caça com o rei. . está bem certa de que partirá? . . provavelmente por estar fechado há muito tempo. para se instruir na volataria.E principalmente a seu irmão Carlos . é melhor que seja longe de nós do que à nossa vista.Oh! não me atrevo a isso . falcões e gerifaltes.é um livro como todos os livros. .Já tomou todas as medidas para o fazer.Porquê? . Castruccio Castracani.respondeu Catarina -.minha irmã Margot parte com ele? . bem vê que.Tem razão.E que devo fazer dele? . o que gasta muito e dá muito trabalho.disse Francisco com admiração -. a única diferença é ter as páginas quase todas pegadas umas às outras. meu filho. . tirano de Luca. que lho pediu.Levá-lo ao quarto do seu bom amigo Henriquinho. minha Senhora? Catarina voltou com passos vagarosos ao gabinete misterioso. isso contristar-nos-ia bastante. minha Senhora? .Também.Realmente . Cinquenta huguenotes devem servirlhe de escolta até Fontainebleau.exclamou de Alençon com uma breve hesitação e uma palidez visível . só um homem que tiver grande desejo de se . .E Henrique morrerá. Se. . entrou e tornou a sair daí a um instante com o livro na mão. porém. onde o esperam outros quinhentos.perguntou o duque estremecendo. logo que Henrique morrer. minha mãe . . na corte. Henrique morrer depois de o haver atraiçoado. ele deve partir. Francisco. . . a fim de lhe provar que segue os seus conselhos tomando lições. que é um tratado para aprender a criar e adestrar os açores. pelo Sr. não deixará de ler algumas páginas. . O principal é entregá-lo a ele mesmo.

Exactamente. uma vez que eu lhe pego.lá está já Henriquinho no pátio. . e algumas cinzas espalhadas pela lareira. Esta precaução não bastou para de Alençon. . pedira dinheiro ao seu tesoureiro e queimara papéis que o podiam comprometer. minha Senhora.disse de Alençon . com o livro na mão à porta da câmara do rei de Navarra. Já introduzimos algumas vezes o leitor nos aposentos do rei de Navarra. De Alençon pegou com a mão trémula no livro que Catarina lhe entregou com mão firme. regadas de vinho pela orgia. depois de haver sondado com o . .disse Catarina -. meu filho.instruir é que poderá perder esse tempo e tomar esse trabalho. vejo que compreende.Oh! . lá o encontrará.Então dê-mo cá.Já lhe disse que não me atrevo. que embrulhou o livro na sua capa.disse Catarina -. e faz mal que esteja aberto? 331 . Esta convicção deu por certo uma nova força ao mancebo. .Eu estimaria mais que lho desse em mão própria. minha Senhora. e fizemo-lo assistir às sessões que ali se passaram. não estava lá ninguém para inquirir com vistas curiosas ou indiscretas a acção que ele ia cometer. Mas talvez que nunca essas paredes salpicadas de sangue pelo assassínio.Tome. Os primeiros raios do dia alumiavam o quarto. diziam claramente a de Alençon que o rei de Navarra tinha vestido uma cota de malha. tivesse visto aparecer um rosto mais pálido do que o do duque de Alençon.disse Catarina. minha Senhora. E o duque saiu. Minha mãe não se enganou . nunca esse canto do Louvre. conforme o estado risonho ou ameaçador do génio protector do futuro rei de França. vou já. enfim. vou aproveitar-me da sua ausência para lho pôr no quarto. o meu filho está com luvas. o velhaco atraiçoava-me. Pelo chão estavam dispersos alguns anéis duma cota de malha. segundo contara o duque. não há perigo algum. Na parede estava dependurada a espada que de Mouy aconselhara a Henrique que levasse. era mais seguro . juntas a esses outros indícios. . não se demore. Francisco.Pois vá. . . não obstante. que estava completamente só. . E. demais. mas ponha-o bem à vista.Pô-lo-ei no lugar mais visível. Dê-me cá o livro. .Não se demore . tome .Tem razão. Em cima duma mesa estava uma bolsa bem recheada e um pequeno punhal. titubeando de emoção. festivais ou terríveis. por isso que.disse de Alençon -. . Henrique pode subir dum momento para outro. quando voltar.Não faz. embalsamadas de aromas pelo amor.

que ainda ardia. lhe provaram que ninguém o espiava. com uma hesitação que lhe traía o susto. a lembrança dominava-o contra sua vontade. encostando-o a uma estante de carvalho. De Alençon esteve ali até que o fogo consumiu inteiramente a luva. tornou-se-lhe portanto mais firme a convicção de que era ele que tinha subido e entrado. estendeu o braço. para que o duque apenas olhara. tinham-lhe ficado impressos no espírito. e. O duque sentou-se. mas foi debalde que pegou. . parecia-lhe que estava vendo através das paredes o que se passava. e que acabava de devorar os papéis. Era um fidalgo a cavalo que.olhar todos os cantos da câmara. A pancada das fontes retinia. como sucede num sonho ou num êxtase magnético. chamando o falcão e correndo a toda a brida por cima dum pantanal. abriu um livro e tentou ler. Correu depois para a janela. desde Faraó até Henrique II. palpitando-lhe muito o coração. depois de haver levantado os reposteiros. lançou-a no braseiro. sobre a estante de carvalho. Ao entrar nele. olhando para a estampa. enrolou depois a capa em que havia embrulhado o livro. em todas as suas armas. todos os pormenores daquela gravura. Por mais violento que fosse o desejo do duque. E demais. descalçando a luva. e em pouco tempo não ficou dela mais do que um resíduo negro e eriçado. com a luva calçada. o seu olhar penetrava no quarto de Henrique não obstante o tríplice obstáculo que o separava dele. sentiu passos na escada de caracol. era o rei de Navarra aproximando-se do livro. profundamente alterado. em todas as suas jóias. para cuja publicação el-rei Carlos havia concedido privilégio logo que subira ao trono. e não duvidando que fosse Henrique que voltava. A pele branda crepitou sobre as brasas. Aberto o livro. torceu-se e estendeu-se como o cadáver dum grande réptil. a febre da espera queimava-lhe as artérias. tirou o livro de baixo da capa. o duque procurou fixar os seus noutra coisa que não fosse o livro terrível. que contou cem vezes. não era só o livro que ele via. Era uma história de França. aberto. abriu o livro no lugar em que havia uma estampa de caça. atirava a negaça. 333 Mas o espírito do duque não estava ali. de Alençon recuou imediatamente uns três passos. colocou-o rapidamente em cima da mesa em que estava a bolsa. no lugar da estampa. depois que a grande bulha que havia nos pátios e o profundo silêncio que reinava nos aposentos. mas da janela apenas se via uma parte do átrio do Louvre. depois afastou-se. fazendo o serviço dum simples falcoeiro.lhe no cérebro. fechou precipitadamente a porta. e. Henrique não estava nessa parte do átrio. e voltou apressado para o seu quarto. Para desviar o objecto trágico que julgava estar vendo com os olhos do pensamento. uma por uma. meteu-a debaixo do braço.

de Alençon viu Henrique atravessar o pátio. Bem . Um suor frio passou pelo rosto de Francisco. De repente. cortou diagonalmente o átrio. decerto que não. que começara a encher-se de fidalgos. E a essa vista.disse consigo. enquanto com a outra cobria os olhos.Será acaso um veneno de rápido efeito? Não. . De Alençon não pôde conter-se mais. ia começar agora. o Bearnês parou um instante ao pé dos criados. De Alençon abriu a porta da sua câmara. meus Senhores .eis o que se passa agora: atravessou a antecâmara. De Alençon estava imóvel no seu lugar. O que ele julgava acabado. e foi pôr-se à escuta na do corredor. embaraçado pelo obstáculo que elas opunham. gasto segundo por segundo.tentando voltar as folhas e. Não era pois Henrique quem tinha subido pela escada secreta. e chegou ao quarto de dormir. depois a bolsa. Esse espectáculo era o seu próprio pensamento. que não eram mais do que o dinheiro e os aprestos para a jornada. a primeira sala. . titubeando. A porta da câmara de Henrique abriu-se. achou o livro aberto na estante. fictícia e fantástica como era. Que livro é este? . vou à câmara de elrei. e depois.Quem me traria este livro? Depois. depois de dar algumas ordens. e fornecendo cada um desses segundos todos os terrores insensatos que inventa a imaginação. Assim se passaram dez minutos: um século de agonias. finalmente. Desta vez não se enganava. e dirigiu-se visivelmente para a porta da entrada. era com efeito Henrique. Irá ele chamar por alguém? . visto que minha mãe me disse que ele havia de ir definhando lentamente até morrer. procurando virar as folhas. via-se obrigado a segurar-se com uma das mãos a uma mesa. ali procurou com os olhos a espada. De Alençon reconheceu-lhe os passos e até o tinido particular das rosetas das esporas. ter-se-á aproximado.Bom dia. Tinha portanto o duque sofrido inutilmente todas essas agonias por que passava havia um quarto de hora. terá visto essa estampa que representa um cavaleiro chamando o seu falcão.disse ele -. que estavam carregando duas mulas com as provisões para a caça. De Alençon entrou para a sua e atirou-se para uma poltrona.terá ele dito consigo. de Alençon. e há-de ter querido ler. ou quase a acabar. levantou-se e atravessou a antecâmara. . triunfando do obstáculo molhando o dedo e obrigando-as a separar-se. Este pensamento tranquilizou-o um pouco. como se com os olhos cobertos não visse ainda melhor o espectáculo de que queria fugir. depois o punhal. um mundo de visões. .disse ele . e tornou-se a fechar.

a sala e a câmara de dormir sem encontrar ninguém. é o senhor. Parecia embebido num trabalho que o preocupava.Ah. mas sem dar um passo nem para diante nem para trás.seja muito bem-vindo. E o rei tornou a levar o dedo aos lábios. mas não julgava que o houvesse em França.disse Carlos .balbuciou de Alençon.disse o rei. pensou. Mas que ia lá fazer? Não o sabia.E. um sorriso medonho assomou-lhe aos lábios descorados. e empurrou a porta que dava para ela.exclamou subitamente o rei . Que tinha a dizer-lhe? Nada! Não procurava Carlos. e virou outra vez uma folha rebelde. e venha ver o mais belo livro de montaria que já saiu da pena dum homem. e desci para o vir ler à minha vontade. de Alençon desceu 334 efectivamente à câmara do irmão. De Alençon aplicou o ouvido e deu mais um passo. encontrei este tesouro. que Carlos estivesse na sala de armas. . Francisco atravessou sucessivamente a antecâmara. tinha as costas voltadas para a porta por onde Francisco entrara. finalmente.Senhor. mas um pensamento infernal pregou-o no seu lugar. O livro sobre que o rei estava inclinado era o mesmo que de Alençon tinha ido pôr na câmara de Henrique. passou a mão pelos olhos como se tivera a vista turva. .Malditas folhas! .Não há nada mais simples. para iludir a inquietação que o devorava. .Cos demónios! .que livro admirável! Tinha ouvido falar muito nele.parece que lhe colaram as folhas para esconder aos olhos dos homens as maravilhas que contém. levando o dedo aos beiços. e que sentiu por todo o corpo uma agonia terrível . para preparar talvez um alívio. andava decerto pelos canis e estrebarias. Carlos estava lendo. O primeiro movimento de Alençon foi arrancar o livro das mãos do irmão. e procurando com ele assim molhado separar a folha que tinha lido da que se lhe seguia . O duque aproximou-se na ponta dos pés. cujos cabelos se eriçavam. fugia de Henrique. De Alençon deu um pulo para diante. nos dias de caçada não havia nem etiqueta nem ordens especiais para vigiar os que entravam. Os guardas deixaram entrar o duque sem dificuldade. Carlos estava sentado a uma mesa. . numa grande poltrona. Subi há pouco à câmara de Henriquinho para ver se ele estava pronto. de Alençon? . mas em lugar de o encontrar a ele. Tornando depois pouco a pouco a si. Escapou-lhe um grito surdo. . disse: . já o não achei no quarto.Como veio ter este livro às mãos de Vossa Majestade? .

Francisco . ou para melhor dizer. . ainda antes de o rei da Polónia saber da morte de meu irmão. como partiu o rei da . ou porque o veneno começasse a produzir efeito . mas foi com pesar. Oh! .Meu irmão. .que coisas aqui se vão passar! Como! pois eu hei-de partir. e podendo num pulo estar na capital. hei-de ir em busca dum trono imaginário. Na sua curiosidade. disselhe: .cos diabos! não venhas outra vez falar-me na mesma coisa. Francisco enxugou com a mão trémula o frio orvalho que lhe filtrava pela testa. Era essa fatalidade perseverante que parecia guardar Henrique e perseguir os Valois. aderia à folha seguinte. cumpria que Henrique ficasse. como o irmão lhe ordenara. eu esperei.Deixe-me acabar este capítulo. Todo o seu plano acabava de mudar num instante a respeito de Henrique. já estará mudada a dinastia? É impossível! Tais eram os pensamentos que haviam dominado o primeiro sentimento de horror involuntário que levara Francisco a deter Carlos. ou por causa da humidade a que haviam estado muito tempo expostas. enquanto Henrique. Era Carlos e não Henrique quem tinha lido o livro envenenado. cujo desfecho fatal só ele podia entrever. cujas faces pálidas se iam fazendo rubras a pouco e pouco ou pelo grande ardor que tinha empregado na leitura.Ah! cos diabos! . devorava as folhas do livro. eu vinha dizer. não deixará de vir para alguma praça forte a vinte léguas de Paris. Hás-de partir.lhe. e cada uma delas. já devorei. porque tenho coisas da mais alta importância a dizer-lhe. portanto. e logo que o rei levantou a cabeça. que ele acabasse de ler o capítulo.Meu irmão vai morrer! Veio-Lhe então ao pensamento a existência dum Deus no Céu que não era talvez o acaso. porque Henrique era menos de temer preso em Vincenas ou na Bastilha. 335 Carlos continuava a ler. hei-de desterrar-me. e contra a qual o duque ainda queria outra vez lutar. Henrique devia partir. de sorte que. O duque de Alençon esperou.disse Carlos. e depois diga-me tudo quanto quiser.dizia ele consigo . Já li. condenado. à primeira notícia da enfermidade de Carlos.disse Carlos -. ou por qualquer outro motivo. cinquenta páginas! Já tomou vinte e cinco doses de veneno! . e esperou silencioso. espreitando a presa que o acaso nos entrega.Senhor.disse Francisco consigo. do que o rei de Navarra à frente de trinta mil homens. . De Alençon acompanhava com os olhos espantados esse terrível espectáculo. que Carlos acabasse o seu capítulo. porque Vossa Majestade mo ordenou. Desde o mo mento em que a fatalidade acabava de o salvar outra vez..

o rei de Navarra ganhará a floresta de São Germano. cruzando as pernas e olhando para de Alençon como quem. meu irmão .me de ti. e nem mais uma palavra a tal respeito! . Então ainda não acham que é tempo de o deixar sossegado? .Uma conspiração? . algum novo boato? Alguma acusação matinal? 336 . acusados não só de visionários. eu e minha mãe. que vai reconhecer. que é a minha dedicação a Vossa Majestade como irmão.Ouça .Que em nome da nossa fraternidade Vossa Majestade me escute.. Uma certeza. mas advirto-os.disse Francisco -.Isso já eu esperava . a si e a minha mãe.Vejamos a conspiração. e tomo muito a peito provar-lhe que não sou traidor. mas até de caluniadores. levantando a voz: . não precipite as coisas.Chamem o rei de Navarra! Um guarda fez um movimento para obedecer. que só a minha ridícula delicadeza é que me não tinha deixado comunicar-lhe. e a minha fidelidade como súbdito. quero ainda uma vez afectar que acredito nas suas invenções.Porém. Proceda de sorte. se arma de paciência -. hei-de livrar. Carlos levantou-se. desse modo não saberá nada. depois seremos nós. . quando chegar a noite. enquanto Vossa Majestade estiver caçando com os falcões junto do rio.Como assim! .Que é que pede então? .disse Carlos. na planície do Vesinet..disse Carlos. dará um sinal: os seus cúmplices serão avisados e desaparecerão. Vossa Majestade feriu-me no meu sentimento mais profundo e mais delicado. uma conspiração.Mais uma boa caluniazinha contra o meu pobre Henriquinho!. . ao menos para se certificar se o que tenho a honra de lhe dizer é ou não uma calúnia. mas Francisco reteve-o com um gesto. pondo os cotovelos sobre o livro.Polónia. . .Porque. . Livrei-me dele. . e há-de fugir com eles. .disse Carlos. . que o verdadeiro criminoso.Vamos . Henrique nefará. de que esta vez há-de ser a última.Mau expediente.Senhor . que em nome da minha dedicação.disse ele -.continuou Francisco -. meu irmão . não é da minha partida que eu lhe quero falar mas da partida de outrem.Vossa Majestade não precisará de esperar muito tempo.disse ele -.Não senhor. contra o seu costume. Um corpo de amigos espera-o aí. . Depois. já o nosso cunhado terá partido. . senhor. que há dois anos atraiçoa com .

Era a hora em que o rei devia descer para o pátio. mas duma estampa. como por acaso. Actéon gritou com a dor.A ideia é boa . . Senhor . e apitou. e refugiou-se debaixo duma mesa coberta com um pano. alguns picadores levavam . foi a uma janela e abriu-a. Bem desejara ele que esse livro. e esta mesma não era do texto. do qual não existiam no mundo. por exemplo) se poriam em marcha e bateriam toda a floresta até ao Pavilhão de Francisco I.Eu. Depois. O castigo foi proporcional ao delito. De Alençon tirou do seu gibão um apito de prata pendurado num grilhão de ouro. visto que já tinha cumprido a sua terrível missão. afectando que seguia o meu falcão. despedaçando-a às dentadas e dando saltos de contente. e viu com prazer que só lhe faltava uma folha. Essa presa era nada menos do que o precioso livro de montaria. como já dissemos. onde o apanharia com todos os seus cúmplices.intenção a Vossa Majestade. Entrou o Sr. a uma hora ajustada (às onze. . e daria de esporas para o ponto designado. Os monteiros tinham nos punhos os falcões encapuzados. veria afastar-se Henrique. Carlos dirigiu-se a ele.Chamem o meu capitão das guardas. de Nancey. que estava cheio de cavalos ricamente ajaezados. saísse quanto antes do poder de Carlos. disse: . Fechou-o cauteloso num armário onde Actéon não podia chegar. que lhe serviu de abrigo. Francisco. o sangue invadia-lhe o cérebro.disse o rei. e castigado como merece. seja finalmente reconhecido culpado por uma prova infalível. Deram seis horas. De Alençon estava vendo com inquietação o que ele fazia. enquanto o não tem podido atraiçoar por obras. Carlos pegou num chicote e deu-lhe de modo que o animal ficou por vezes enrolado no açoite.disse de Alençon -. os quais. e pôs-se a arrastá-la pelo quarto. de homens e de senhoras magnificamente vestidos. Carlos voltou-se e rogou uma praga terrível. o seu grande galgo Actéon achara uma presa com que se entreter. e deu-lhe as suas ordens em voz baixa. . que eu. Neste intervalo. Carlos não respondeu nada. Voltando-se por fim vivamente. mandaria cercar a floresta de São Germano por três destacamentos de cavalaria ligeira. 337 Carlos apanhou o livro.Então que é que faria? Fale. designaria para ponto de reunião ao jantar. senão três exemplares.

inquieto e pensativo no seu cavalo mais branco que a neve. nada mais. que saudava o jovem rei. minha amiga.Isso é do tempo . as estrondosas saudações de cem pessoas reunidas.Partamos. À ordem de Carlos. . e seguiu pela estrada de São Germano. . tanto se amavam. parou e levou a mão à testa. . no meio das aclamações do povo. sinto a pele seca.Cumpre que a caçada comece às nove horas! Catarina via tudo isto por uma janela do Louvre. . tendo primeiro fechado o seu gabinete de armas. Este estava ao pé de Margarida. viu-o meter a chave na algibeira. os gritos dos caçadores. Mas ao chegar ao pátio. e que queria dizer. cansado da altanaria. . O seu primeiro olhar fora para procurar Henrique. produziram em Carlos o efeito costumado. Ao ver Carlos.Receio. e com um tom quase ameaçador. mas o corpo. As pernas do duque de Alençon tremiam não menos do que as do rei.Então sabe dalguma coisa. em Março? .Tempestade.está doido!. está montado como para correr veados. Não: tenho vertigens. Henrique chegou as esporas ao cavalo. e em três galopes achou-se ao pé do cunhado. vestido de preto.disse Carlos .disse Carlos -.Admirou a finura do meu cavalo.Oh Henriquinho! . Os dois excelentes esposos pareciam que se não podiam separar. O rei desceu. quisesse correr um veado ou um cabrito-montês. passando por entre a gradaria do Louvre.Nada mais.disse Carlos -. estou cansado. Respirou mais livre e satisfeito. Depois.continuou o rei com o sobrolho carregado.Nada mais? . creio que teremos tempestade. desaparecia na penumbra. que lhe seguia todos os movimentos com um olhar. partamos . Enquanto descia a escada. toda essa multidão deslumbrante de magnificência desfilou do pátio.balbuciou o duque -.perguntou Margarida a Henrique. De Alençon. Henrique desanuviou o semblante com um desses sorrisos finos que costumava empregar. principalmente para Margarida: Sossegue. Pois não sabe que hoje só temos altanaria? E sem esperar a resposta: . . mas acho-me fraco. Uma cortina levantada deixava ver esse rosto lívido.Que lhe disse ele? . . . o ar fresco da manhã. .Sejamos prudentes. a meia voz: Hão-de acabar por matar-me com os seus ódios e as suas conspirações. .Não sei que tenho . . meus Senhores. como às vezes lhe sucedia. .trombetas a tiracolo para o caso em que o rei.

seguiu pelo corredor. pôs-se em marcha. Atravessaram a ponte de madeira situada nessa época defronte da árvore chamada ainda hoje o carvalho de Sully". tão diferente do acolhimento costumado. logo que a comitiva saiu do pátio do Louvre. os seus estremecimentos nervosos e as suas conferências em voz baixa com Margarida. finalmente. e que tomou subitamente o aspecto dum grande pano de Arrás. Desta vez . não tendo o ânimo sanguíneo.disse ela consigo Foi prudente. Tinha. E desceu. por esse magnífico prado que pende do cume selvoso de São Germano. depois de ter esperado um quarto de hora para dar tempo a que toda a comitiva saísse de Paris. Henrique estava pálido porque. o impressionara vivamente. sobretudo no que respeitava a política. Entretanto prosseguia o rei o seu caminho para São Germano. passou das mesas para as estantes.338 Quanto a Catarina. com o rei à frente. todo o sangue. nem mesmo subiram ao velho castelo. Mas não lhe escaparam a palidez de Henrique. Mas Catarina interpretava as coisas de modo inteiramente diverso. cuja franja prateada era representada pelo rio espumante sobre as margens. animada por interesses tão diversos. com o olhar penetrante. e com a sua chave abriu o aposento do rei de Navarra. Mas foi em vão que procurou o livro por toda a casa. porque. saiu ela da sua câmara. como sabemos. lhe refluía ao coração em vez de lhe subir ao cérebro. das estantes para as prateleiras. que se erguia sombrio e majestoso no meio das casas dispersas pelas montanhas. a mulher e o marido haviam formado uma aliança ofensiva e defensiva. conferenciado com Margarida. Depois deu-se o sinal para que se pusessem em movimento as barcas destinadas a facilitarem a passagem do rei e das pessoas da comitiva. . Sofria estremecimentos nervosos porque a maneira por que Carlos o havia recebido.creio que está aviado esse querido Henriquinho.disse ela por entre dentes com o seu sorriso florentino . quase certa de que o seu projecto não tinha falhado desta vez. Foi inutilmente que. No mesmo instante. toda essa mocidade alegre. onde chegou hora e meia depois de rápida carreira. coberto de personagens matizadas de mil cores. deixou cair a cortina. e destas para os armários: em parte nenhuma descobriu o que buscava. Naturalmente de Alençon já o levou . nas diferentes circunstâncias em que a sua vida estava em risco. E para se certificar se tudo se passara como desejava.

surgiu repentinamente do sombrio oceano em que se havia mergulhado. julgou-se por um instante que ia descer. Haw Bico de Ferro. dando um pio prolongado e lamentoso.Ah. a fim de não perder um instante de vista os dois pássaros .bradou Carlos.bradaram todos para animar o pássaro. Nesse momento.bradou Carlos. e o que este precisara para se habituar à luz. todos aqueles olhos ardentes.Hawhaw Bico de Ferro! .bradou Carlos. que continuava sempre a subir. O falcão. levantou-se uma garça de entre os canaviais. animando o seu falcão prova-nos que és de raça! E como se tivesse percebido que a excitavam. batiam os canaviais que bordavam o rio. sempre no seu cavalo branco e com o seu falcão favorito no punho. Um dos seus raios fez resplandecer todo aquele ouro.Na frente do rei. tu foges! . a garça. os quais.. a ave partiu como uma seta. tirando o caparão ao seu falcão e soltando-o atrás da fugitiva. Então. aproveitou o tempo que o rei gastara em descobrir os olhos do falcão.. e tendo achado nas regiões elevadas o ar necessário para as suas potentes asas. O falcão. Daí resultou estar já ela a mais de 339 quinhentos pés quando o seu inimigo a descobriu. ou antes. largando o seu cavalo a galope.lo. como se quisesse desaparecer no éter. deu três voltas sobre si. voou rapidamente para ela. . percorrendo uma linha diagonal que devia encontrar a vertical seguida pela garça. descobrindo depois subitamente a garça. iam os monteiros. Mas. todas aquelas jóias. seguindo a caça tanto quanto podia. como se a fugitiva pudesse ouvi. ferido como se levara uma punhalada. . descrevendo um círculo sem avançar nem recuar. subia rapidamente. o Sol. que. A distância entre os dois pássaros encontrava-se rapidamente.Haw haw! . Entretanto. O ponto era saber qual ficaria de melhor partido nesse primeiro ataque. detendo com a voz uma meia dúzia de perdigueiros. deslumbrado um instante pela luz.Hawhaw.. e como se apenas tivesse esperado por esse momento para que um belo sol viesse alumiar a sua derrota. e de toda essa luz fez uma torrente de fogo. altura. girou sobre si mesmo. .ah tu foges! Mas Bico de Ferro é de raça. ganhando espaço. espera. se havia levantado a mais de cem passos dos monteiros. com os seus casacos verdes muito justos e calçados com grandes botas. semelhante ao guerreiro que se . espera!. A luta era realmente curiosa. com a cabeça deitada para trás. inteiramente atordoado. como pássaro prudente. até então coberto de nuvens.. .

levanta mais terrível depois de ter provado o ferro do inimigo.bradou Carlos. nem um nem outro disse Henrique. Carlos e a sua comitiva já não seguiam as duas aves senão com a vista.Vejam! vejam! . confesso que os não vejo. Todos se haviam conservado nos seus lugares.bradou Carlos . fizera um ângulo para o lado da floresta. fechou as asas e deixou-se cair como uma pedra. Henriquinho. mal o rei pronunciara estas palavras.Por mim. .Mas. . o falcão caiu-lhe em cima. com efeito. partiu diagonalmente sobre a garça.vais vê-los descer mais depressa do que subiram. desceram do céu à terra.Nem eu também . Bravo. começaram-se a descobrir os dois pássaros. dando um pio em sinal de vitória que cobriu o pio de derrota do vencido. . podes ouvi-los . . dominada. meus Senhores: . pela ave de rapina. . tentando desta vez ganhar espaço e escapar pela distância em vez de escapar pela altura. De repente. No fim de dez segundos dessa du licada luta. atordoou-a com uma última bicada. Descia rapidamente. e o Falcão parecia um ponto negro que cada vez se tornava mais imperceptível. A garça não fazia maior vulto do que uma cotovia. dois ou três pios lamentosos. E realmente. .disse Margarida. como já antes tinha feito. o falcão feria-a sem cessar e ela só respondia com pios.Ao falcão! ao falcão! . mas pela diferença de volume que havia entre eles era fácil de ver que o falcão vinha vitorioso. mas o seu adversário fez o mesmo e quando a fugitiva quis tornar a voar. Bico de Ferro. que só ouvidos muito afeitos poderiam aperceber. com os olhos pregados na fugitiva e no seu perseguidor.Olha! olha! .Bico de Ferro está senhor dela! A garça. e no 340 momento em que chegou ao chão. Ouves? ouves? Com efeito.disse Carlos. mudando a direcção do voo. Vejam! vejam. Continuou a queda rolando sobre si. Mas o falcão era uma ave de raça nobre que tinha um voo de gerifalte. nem mesmo tentava defender-se. Eram dois pontos negros unicamente. se os não vês. Esta tirara partido da vantagem obtida e. que deu dois ou três pios em sinal de aflição e tentou subir perpendicularmente. .bradou Carlos. Repetiu a mesma manobra. bravo. os dois pássaros como que desapareciam nas nuvens. bradou subitamente Carlos. deu um pio agudo e ameaçador e tornou a voar para a garça.

Os cortesãos olharam espantados uns para os outros e seguiram o rei. parou. com efeito. Henrique chamou o monteiro que levava a garça e.Tenho . ao tocar com os pés no chão. Mas.disse Carlos . Soltem. . vamos à caça.Então que diz.Então.Que temos ainda de novo? . . .Meu irmão! meu irmão! . No entanto. Sentiu grande vontade de vomitar. tinham pegado e encapuzado novamente o falcão. Chegaram todos ao lugar em que os dois pássaros tinham pousado. agarrou-se com uma das mãos às crinas do cavalo. e no mesmo instante cinco ou seis falcões partiram na direcção da caça. levantou-se . com o rosto inflamado e com os olhos espantados -. largou as rédeas.perguntou Henrique a Margarida. e pareceu admirado de não ver sair fogo de entre os lábios. não viu meu irmão? Estava escarlate.disse Henrique. e que se o rei não voltar. .E lançou o cavalo a galope na direcção do lugar em que os dois pássaros haviam descido. O falcão já estava devorando os miolos da garça.que tem! . . ficou ele só para trás. não é nada. a terra andava-lhe à roda. .Nada sei . vamos. minha Senhora? . Ao chegar. mas parecia que me atravessavam o estômago com um ferro em brasa.perguntou Henrique a Margarida. De Alençon empalideceu. ou se é alguma cousa. e com a outra agarrou o estômago. é o sol que me racha a cabeça e que me cega.bradou Margarida . todavia. costumado a isso .disse Margarida -. enquanto toda essa multidão dourada e ruidosa descia ao vale. podemos daqui mesmo alcançar a floresta com muita facilidade. não é nada .Que a ocasião é boa . os caparões. como se examinasse o corpo do vencido. enquanto toda a comitiva tornava a seguir para a margem do rio.respondeu esta . e todos se haviam reunido em torno de Carlos. soltem tudo! Bravo! temos divertimento! Tiraram-se.mas.Não é nada. Mas quando ninguém o esperava. Vamos. teve de segurar-se ao selim.o que devia ter Pórcia quando engoliu as brasas: estou ardendo. .Não é. . então! que quer dizer isto? Meu Deus! não é nada. Carlos saltou do cavalo para ver o combate de mais perto. parece-me que respiro fogo! E ao mesmo tempo soltou Carlos a respiração.disse Carlos. Nesse momento. E tornou a meter o cavalo a galope. como se quisesse rasgar as entranhas. e como para lhe vir em auxílio. deu um grito. meus Senhores. A esse grito acudiram todos os cortesãos. Vamos.

e cada um. mas uma arte. mas não tanto que dela não se veja a estrada.Que conspiram. . comprida arcaria de folhagem. a profunda inteligência dum verdadeiro conspirador. tendo por baixo do corpo um capote de viagem.E agora . extraordinariamente daqui. de Mouy. Um deles estava apoiado sobre um joelho e numa das mãos e. cem anos depois. enquanto o gamo erradio levanta a cabeça coroada de aspas. ainda há pouco.Repara. . abre as ventas e escuta. a declarar que não censuro tanto como tu o Sr. estamos conspirando. por ela esperava eu. há uma clareira. tinha o pretexto duma caçada particular. 341 LI O PAVILHÃO DE FRANCISCO I Era uma bela coisa a caçada feita pelos reis. por ele dirigida. pela elegância do trajo. pois. Cheguei a ouvir os gritos dos caçadores que animavam o falcão.disse o outro.que a caçada se aproximou. quando até reconheço em todos os preparativos desta empresa. À direita da Alameda das Violetas. quando os reis eram quase semideuses. . . afastaram-se decerto. meu caro Aníbal. Devemos.disse o outro -. Henrique largou-lhe o falcão. como uma das lebres ou um dos gamos de que ainda agora falámos. com esses alegres conversadores dos contos do Decâmeron. . No meio dessa clareira. Atrever-me-ei.um faisão. Bem te havia eu dito que era péssimo o lugar para a observação. a que então davam o nome de peitrinal. retiro opaco em que entre os tojos e alfazemas uma lebre inquieta levanta de vez em quando as orelhas. uma comprida espada e um mosquete de grande boca. Salvador Rosa copiava nas suas paisagens.disse ele .Parece-me . deixar esse régio espectáculo. para penetrar num lugar da floresta em que todos os actores da cena que acabámos de contar vão em breve reunir-se. mas também não se vê. Ora eu só conheço as velhas faias e os seculares carvalhos como os únicos capazes de satisfazer convenientemente essa difícil tarefa. eis aí proferida a palavra. o que vem a dar na mesma coisa. que nos era preciso pôr a recato os nossos dois cavalos e mais as nossas duas mulas. com esses bandidos que. espreitava. servimos o rei e a rainha. é certo.não ouço nada. entretanto. tão carregadas que não sei como nos hão-de acompanhar.Não conspiramos. . para se apartar da caçada geral. bem distante para que da estrada a possam ver. de perto. dois homens deitados sobre a relva. pela ameaça das suas armas. e o caçar não era já um simples divertimento. ao pé de si.Bom . que parecia esperar os acontecimentos com muito mais filosofia do que o seu colega . . Não se é visto. pareciam-se de longe. Visto isso.

disse Cocunás abrindo a boca -.Acolá. .São eles! . . Oh! é singular que assim me palpite o coração só com a lembrança de que ela vem aí! . a inconsciência deste .. E falando assim. levantando-se e pondo a mão no braço de La Mole . .Silêncio!. era um longínquo galopar de cavalos. mas logo que o ouvido se encostou ao chão.É singular! por mais que escute.disse . La Mole olhou para o gamo. e não me engano. depois. a vivacidade do piemontês parecia ter passado para o coração de La Mole. escutava atento. E Cocunás mostrou-o com o dedo. . .Cocunás. Em breve ergueu a cabeça. já to disse .disse La Mole. a mim o coração não me palpita nem muito nem pouco. e voltou os ouvidos para o lado donde vinha a bulha. e mais nada. Com a cabeça inclinada como se fosse pastar. .Aconteceu que ainda não é meio-dia. . enquanto.E então? . .disse Cocunás.tornou La Mole -. é singular . não te obrigo por forma nenhuma a acompanhar-me numa aventura que me faz ter a peito um sentimento particular. estendeu-se sobre o seu capote. nem podes partilhar. . como quem vai juntar o exemplo à palavra.disse La Mole . . Mas pensas que te deixarei ir sem te acompanhar. pelo contrário.Não ouves nada? .julgo que tens razão.disse La Mole . Com efeito.Não é ela . carregada de soberbos galhos. não oiço nada. partiu rápido como um relâmpago. não conheço homem algum capaz de obrigar Cocunás a fazer o que ele não quiser.Aonde? . e que temos ainda tempo para dormir um sono.Espera.E quem é que te diz que tu me obrigas? Primeiro que tudo.perguntou este. especialmente vendo que é o Diabo que te leva?. fazendo a La Mole sinal de que se calasse.alerta! Cocunás levantou-se também.Nada.Aníbal! Aníbal! . é porque ouve o que tu não ouves.disse Cocunás -. um rumor abafado e quase imperceptível corria incerto pela relva. . 342 . . de repente. .Que é? . porém mais tranquilamente.Pois olha. . levantou o dedo. que tu nem partilhas.Pois . para cavaleiros.Logo. La Mole levantou-se logo.Oh! oh! . desta vez oiço alguma coisa. sem causa aparente.julgo que vejo lá ao longe a sua égua branca. para ouvidos menos experimentados teria sido vento. se ele deita a fugir . porque o gamo deitou a fugir. Cocunás.olha para aquele gamo.Que aconteceria? Parece-me que tudo estava ajustado para o meio-dia.

disse La Mole . fez-lhes um sinal inteligível e desapareceu. .Ela fez assim com o braço .O sinal quer dizer: Fujám. . . levantando-se. chegou ao pé dos dois fidalgos. de Mouy! . não devemos lá ir .disse La Mole.Se estamos descobertos. mas pela mesma estrada. 343 .A rainha! . uma mulher. que eu fico.disse La Mole. .Oh! oh! o caso vai-me parecendo sério .O Sr. e pela alameda passou.exclamaram ambos. proceda cada qual como entende em sua convicção: retira-te tu.E a rainha? . quando um cavaleiro passou como um raio por entre as árvores. e.Pelo contrário.O sinal quer dizer: Esperem-me.Depressa! depressa! .disse Cocunás. Cocunás levantou os ombros e tornou a deitar-se. Mas a voz do mancebo perdeu-se no espaço: de Mouy já estava . um era levado pelo entusiasmo. e agora mais apressado do que La Mole. . . O relinchar dum cavalo fez que arrebitassem as orelhas os cavalos que estavam a dez passos deles.Vamos ao Pavilhão de Francisco I. . de Mouy fugindo!. No mesmo instante.perguntou Cocunás. o outro arrastado contra vontade. . um bando de cavaleiros. pois que é o ponto marcado para a reunião de todos. em sentido inverso do caminho por onde seguia a rainha. quase furiosos. já estava longe quando acabou e. . Sim. Vamos! a galope! E como não havia deixado de correr enquanto proferia estas palavras. que nesta conjuntura.Pois então .O Sr. Mal havia Cocunás proferido estas palavras.disse La Mole -.como que tomava conta do seu amigo. Os seus cavalos saltavam como os gafanhotos de que fala Job: apareceram e desapareceram. .Ela fez assim .exclamou Cocunás inquieto. como um alvo fantasma.Que quer aquilo dizer? . que tudo está perdido! Desviei-me do meu caminho para lhes dar esta notícia. com a rédea solta.fujam. dirigir-se-á a atenção do rei. . que. quando La Mole e Cocunás compreenderam perfeitamente o sentido delas. saltando fossos. Em breve chegou aos ouvidos dos dois amigos um rumor igual e cadenciado.disse Cocunás . para esse pavilhão.disse Cocunás. ardentes. sebes e barreiras.o que quer dizer: Retirem-se. especialmente.Desta vez parece que tens muita razão . que os dois amigos viram ser protestantes. . voltando-se para eles.gritou o huguenote . Então? há perigo? . Tinha em cada uma das mãos uma pistola. .o que quer dizer: Daqui a pouco. passou. por consequência. e só com os joelhos guiava o ginete nessa frenética carreira. .

viemos aqui para alguma coisa. Cocunás tinha-se decidido. todos podem fugir. meu caro. La Mole! .A de ter por amigo o carrasco.disse La Mole . a acompanhar com os olhos de Mouy desaparecendo por entre os galhos. Jacinto.Vamos. atirou as rédeas do outro a La Mole e preparou-se para galopar. meu caro: não me oponho e até te convido a que o faças. Enquanto La Mole ficava imóvel. E de Mouy é homem que sabe o que diz. e faremos nós dois o que cinquenta homens não se atreveram a fazer.respondeu Cocunás -. Pois eu só direi uma palavra: Quando Foge o Sr.Vamos ter com a rainha. puxou-os. A galope. 344 . . correu aos cavalos.Qual quê. Adivinho: queres fazer discursos de retórica sobre a palavra fugir: . que se abriam para o deixar passar e depois se fechavam por detrás dele. vamos! repetirei o que disse de Mouy: A galope!. em suma: que fazemos aqui? . .falar de Horácio. e partamos. .Qual? .Mas. meu caro Cocunás. .Aonde? . mas decerto havemos de encontrálos.Vamos. . Salva a tua vida.disse Cocunás com um suspiro . salva-te a ti somente. a cavalo. La Mole! . de Mouy de Saint-Phale não ama a rainha Margarida disse La Mole. façamos com que nos enforquem a ambos. foge. aconselho-te que não percas tempo. .E bem faz ele. meu caro! .Foge tu. mas decerto. . que volta morto no seu. e não: Cocunás. os Pelo rabo do tinhoso como diz o rei Carlos nós conspiramos.a tal distância que não podia ouvir. .Começo a ver . A tua vida é mais preciosa do que a minha. não é para fidalgos como nós. de Epaminondas. se esse amor deve ser causa de loucuras como as que te vejo estar pensando.Se não foi para nos fazermos enforcar .exclamou este com impaciência.Espera . .que não foi má precaução que tomei.Não sei. . .O Sr.Despertas o meu amor-próprio. Levem quinhentos mil diabos para o fundo do Inferno um amor que pode custar a cabeça de dois bravos fidalgos. a galope. . montou no seu.É melhor dizeres: Cocunás. é mau sinal. A galope. Vamos ter com o rei.disse La Mole -.Aonde? . e quem erra em conspirações. .Não sei. . de Mouy de Saint-Phale. e menos ainda responder-lhe.a forca é só para a plebe. . que atira fora o escudo.Estás sinistro.

Cocunás e La Mole olharam um para o outro: o nome do seu inimigo. não era muito para os tranquilizar.exclamou Cocunás. e só estendeu a mão a Cocunás. havia uma espécie de . Um como rugido abafado foi a resposta de La Mole. edificado no tempo de Luís XII. de Alençon o dirá. Cocunás. Ao lado deste lindo pavilhão. que. Senhores.Façam alto! entreguem-se! Ao mesmo tempo..Que crime cometemos? .Meus Senhores . foge! . não nos hão-de acertar.Por entre as árvores é difícil fazer pontaria. quando. E. com as minhas respostas. tendo-se apeado. apareceu um vulto.a -. . enquanto que.Perguntem-no ao rei de Navarra. nesse momento. convidado a apear-se.Que querem os senhores? .disse La Mole . Depois. e partamos. O tenente mandou fazer pontaria sobre os dois amigos. esse cavalo e essas mulas comprometê-la-iam. . foram ambos colocados no meio dos soldados e dirigiram-se todos para o Pavilhão de Francisco I. Cocunás prosseguiu baixinho: . descobrindo por entre as árvores as paredes do lindo edifício gótico.Que é? . Os soldados levantaram os mosquetes. Entretanto. E depois a La Mole: .não podemos levar connosco o cavalo de Margarida e as mulas. falando em voz alta para o tenente e em voz baixa para La Mole. Eram soldados da cavalaria. .Não querias ver o Pavilhão de Francisco I? .disse Cocunás. e outro. uma voz imperiosa bradou: . voltando-se para os soldados: . . . meu amigo. desviarei todas as suspeitas. mostra-te como tantas vezes te vi. punha o pé no estribo.disse Cocunás a La Mole.disse o piemontês.Ora até que enfim! La Mole voltou-se para segurar na sela. desembainhando a espada e levantando. Os soldados estavam ainda a trinta passos dos dois amigos. . 345 La Mole nada respondeu. porém.Mas antes digam-nos: porque é que nos prendem? . . nenhum dos dois opôs resistência. por detrás dum carvalho. Foge tu.Que tinha eu dito?.Parece que o vais ver agora. . haviam vindo de gatinhas por entre as sebes batendo a mata. obedeceu sem a menor observação.O Sr. entregámo-nos.Ora. e chamado de Francisco I porque este sempre o escolhia para ponto de reunião nas caçadas. .Monta depressa.Não pode ser! .continuou. e depois outro. La Mole! cos diabos! ainda é tempo. até trinta. não disparem as armas: arriscam-se a matar amigos.

tinham espalhado algumas sentinelas. Brás. e havia reparado que o vasto círculo cada vez mais se apertava de modo a envolver o lugar do encontro ajustado. Depois. para os ver sair ambos da cabana em que mandara guardar todos quantos se achassem. e uma vez até lançara sangue. A estas palavras do rei. tirem-me todos esses parpalhotes do covil: é hoje dia de S. de Mouy cravando as largas esporas no ventre do seu ginete. . de Alençon galopava ao pé do rei. Cheio de confiança.disse o rei ao chegar . tinha visto essas faixas vermelhas caminhando sorrateiras. Escondeu-se. pois. Mas o rei de Navarra. vamos! . de Nancey. Cortara então o ar em cruz com o chapéu. o que era o sinal ajustado para dizer que tudo estava perdido.despachemo-nos com isto. Agora esclareçamos a situação tão nebulosa. deitara a fugir. as quais haviam sido sem resistência surpreendidas pela cavalaria ligeira do rei. como também na floresta. tenho pressa de voltar para o Louvre. Margarida e de Mouy não estavam lá. como dissemos. rodeando o pavilhão. cujo mau humor era ainda aumentado pelas dores agudas que sofria. ao mesmo tempo. Duas ou três vezes estivera a ponto de desmaiar. mas de Mouy. viu despontarem os penachos brancos e brilharem os arcabuzes da guarda do rei. o rei tinha voltado para trás e desaparecera. e logo se lhe tornaram suspeitas. contando o que havia ocorrido. primo de S. para não ser visto. Ora. Os soldados tinham continuado os seus varejos. no fundo da alameda principal. escoltado por de Alençon. e esta como que se sumia escondida por um montão de mosquetes. Os fidalgos protestantes tinham-se reunido. especialmente para os dois amigos. o rei. Senhores da floresta. que reparara no desaparecimento de Henrique e de Margarida. como é sabido. cuja chave. Enfim. e na fuga mandara a La Mole e a Cocunás as palavras de aviso de que demos conta. . de espadas. Para essa cabana tinham levado os presos. mediante a mu dança das suas faixas brancas por faixas vermelhas. precaução devida ao zelo engenhoso do Sr. no pavilhão de Francisco I. Sem esperar por mais nada. como fora ajustado.Vamos. não só no pavilhão. e obrigaram a sair da cabana um por um todos os huguenotes que tinham sido presos. reconhecera o rei Carlos. de partasanas. A este sinal.cabana para os monteiros. como um covil de toupeiras por baixo da seara amarelenta. chegava. que. havia de Mouy arranjado. enquanto do lado oposto vira Henrique de Navarra. todo esse formigueiro de chuços e arcabuzes se pôs em movimento. esperava o rei na extremidade da Alameda das Violetas. Bartolomeu. ao menos segundo julgavam.

somente. de Nancey Nem se quer os vimos. que largou as rédeas e. de Alençon. Pois ainda escapará! disse a meia voz de Alençon.Donde vem o senhor? . enfurecido. como não eram reis. desfilar todos os fidalgos encerrados na cabana. mandou examinar os arredores e conseguiu que descobrissem La Mole e Cocunás no esconderijo em que se achavam.O rei e a rainha de Navarra? . deu gritos iguais aos do homem que delira. tenham sido vistos. empalidecendo. Ele e de Alençon acompanhavam com ávido olhar cada movimento. apareceram Henrique e Margarida. Fora porém frustrada a sua expectativa. e chegados amorosamente um ao outro com tanta arte. mesmo quando uma só vez. meu irmão . apertando o ventre com ambas as mãos.Donde?. pois instintivamente desejava que tudo quanto o irmão o obrigara a fazer recaísse sobre ele. Com efeito. quando na extremidade da alameda viram aparecer Henrique e Margarida. mas enquanto percorrera os duzentos passos que o separavam do rei.disse o rei . sentiu o rei tão fortes dores nas entranhas. com o demo! quero que mos descubra. .. Por isso. não menos unidos do que eles.onde está Henrique. . Cocunás muito vermelho.disse ele. La Mole estava muito pálido. eles ali estão! . onde está Margot? O senhor prometeu entregar-mos. fraternalmente unidos. e que os guardas foram tirando para fora cada um por sua vez. Henrique chegou-se pressuroso. cumpria saber o que havia sido feito dele. ambos com o falcão em punho. de Nevers.disse a Sr. Neste momento. meu Senhor.disse o Sr. embora viessem a galope. e. era pouco. tão sossegados como se nada houvesse. na extremidade duma alameda que dava para o rio. da caçada.Mas. . . 346 Foi então que de Alençon. deram a sua entrada no círculo formado pelos guardas. 347 LII INVESTIGAÇÕES O espectáculo que chamou a atenção dos dois mancebos ao entrarem no círculo foi daqueles que nunca se esquecem. de Alençon empalideceu e Carlos sentiu dilatar-se-lhe o coração. Isso. como dissemos. esperando ver também sair o rei de Navarra. . que os seus cavalos. já Carlos se havia restabelecido. um só momento. naquele mesmo instante.Então? . Também eles. porém. pareciam estar-se afagando. Carlos IX tinha visto. não tinham podido tomar tão boa posição como Henrique e Margarida.perguntou-lhe o rei com voz tão áspera que Margarida estre meceu.

. mas nunca ao meu juiz. que me parece tudo isto singularíssimo. dir-lhe-ei. não acha? E Henrique.Não obstante. E depois. . que responderia ao meu irmão e ao meu amigo. 348 .E se lhe dissesse que é realmente um interrogatório. .E aonde está o faisão? .perguntou Henrique. entretanto. e ao rei o haver-lha dado. com a maior ingenuidade.O Sr. de Mouy . . Há-de sem dúvida ser isso. fazendo parte da caçada. . é um belo macho.que nunca o hei-de ser.Está entre os presos o Sr. pois é o nascimento e não a coroa que constitui a realeza. dir-se-ia (perdoe-me Deus) que estou passando por um interrogatório.Se alguém os convidou não fui eu.E todos esses fidalgos . e ficá-lo-á sabendo Vossa Majestade.disse de Alençon -. .disse Carlos a meia voz. de modo que.disse com altivez Henrique -.Eu? .Viva o duque de Alençon! Viva o rei Carlos IX! . . Senhor . no momento em que ficávamos para trás a ver a garça. . azul e ouro. quando descemos à beira do rio vimos Vossa Majestade a meia légua de distância.Tragam o Sr.exclamou o duque. . tomando já para a floresta. Henrique . não a queríamos perder. porque.Sim. Senhor. lançando em redor de si um olhar interrogador. .tornou Carlos -. . .. não anunciou ontem que estava rei de Navarra? Pois os huguenotes.haviam também sido convidados para ela? .Hum.disse o rei de Navarra com firmeza -.Senhor .E espero . saber uma vez na minha vida em que devo ficar . que responderia? .Bem quisera. .Não sou rei dos huguenotes . que o pediram para rei.Que sou rei como Vossa Majestade.Porque ele tomara o voo para a coutada. de Alençon. . lançando a furto os olhos para Carlos: .bradaram vinte vozes.O meu falcão tomou voo sobre um faisão.tornou Henrique.tornou Carlos .acrescentou .Sim! sim! . hum.Mas a caçada era à beira do rio. e não pela mata dentro. de Alençon? E como assim! . . de Mouy? . Henrique teve um momento de inquietação e trocou um olhar . empalidecendo de cólera. E logo que caçou o faisão.disse Francisco.tornou Henrique -. apresentou a Carlos o pássaro de púrpura. vieram naturalmente agradecer-lhe o haver aceitado a coroa.Talvez fosse o Sr. porque não veio ter connosco? . pusemo-nos então a galopar para onde estava Vossa Majestade.Está aqui. . meu irmão .Que fidalgos .perguntou o rei.Ora! Os huguenotes! .

meus Senhores. e com cuja penetração julgava poder contar .Peço humildemente perdão a Vossa Alteza: eu estava montado no meu.É certo que esses senhores .disse o duque furioso. . pela vossa palavra de soldados disse Cocunás.disse Cocunás.aqui estão dois fidalgos do Sr. alguns soldados julgam tê-lo visto. essas duas mulas carregadas? .disse o tenente . Digam. felizmente já disse a Vossa Majestade que há alguns dias que estes fidalgos não estavam ao meu serviço. de Nancey -. . .perguntou o rei. O rei olhou para os dois amigos e estremeceu ao ver La Mole. . .pois tenho a desgraça de não .Mas esses dois cavalos de muda. que tinham assistido a esse diálogo.disse de Alençon.Sempre o mesmo sistema . interrogue-os Vossa Majestade. voltando-se para os que o haviam prendido -. se houvéssemos receado ter de algum modo incorrido no desagrado de Vossa Majestade. . .E até poderíamos ter fugido. prestes a fugir? .disse o Sr.disse o duque. sobre proezas de guerra e de amor.respondeu o tenente.Como! .perguntou Francisco. é que talvez se assustasse e fugisse. meu Senhor .Então. .disse Alençon. de Cocunás se apeou.E que temos nós com elas? . não acham que.Não se encontrou mais ninguém . mostrando La Mole e Cocunás.Conversávamos.Ah.Por terem longe os cavalos . poderíamos ter fugido? .O Sr de Mouy não está entre os presos .Que faziam quando foram presos? . eles hãode responder. 349 . Senhor.É assim. .disse Margarida.disse Cocunás . O duque sentiu o golpe.não fizeram o menor movimento para fugir. . . . Vossa Majestade está mal informado: estávamos deitados à sombra duma faia. de Alençon. mas esse momento durou pouco.Ah! estavam deitados à sombra duma faia. armados. não se pode exigir dessa gente a presença de espírito dum fidalgo. mas não têm a certeza.com Margarida. Senhores? . e o meu amigo La Mole tinha na mão as rédeas do seu. .Foi ao ver-nos que o Sr.Não. rangendo os dentes -.A cavalo.Toma-nos Vossa Majestade por alguns criados de estrebaria? Mande procurar o criado que tomava conta disso.Mandei-os positivamente prender para provar que não são meus . . . Senhor! . . se tivéssemos querido.Nenhuma voz respondeu. .Oh! oh! ainda esse provençal! Cocunás inclinou-se com graça. . meu Senhor. .Sim. . De Alençon proferiu a meia voz uma blasfémia.

ou não estava na floresta.Que é que ele está a dizer? . que conservo. Onde estão os presos?. .disse Francisco.Voltemos.perguntou o rei. e recolha-se preso aos seus aposentos. num corredor do Louvre. acharam-no? . ou fugiu. .entreguem as vossas espadas. Imediatamente o mancebo entregou a espada ao capitão que lhe ficava mais próximo.esperava que Vossa Alteza me houvesse perdoado uma carta escrita no primeiro impulso de mau humor. esta sorriu. dá-me a sua palavra que não foge? .prosseguiu. iam sucessivamente dele para o rei e do rei para ele. pois era o único que sabia qual a causa do mal que torturava o irmão. dirigindo-se aos dois fidalgos . Mandaram buscar uma . graças a Deus e que por fortuna minha aqui trago. . enforcar o meu amigo La Mole. Francisco.E o Sr. que mais três pessoas. com a poderosa intuição que às vezes o tornava por assim dizer iluminado . .Então volte para Paris com o Sr. o rei de Navarra. meu Senhor . desviado dos mais.quem sabe se me não vai resultar alguma felicidade de não ter podido fugir. dilatados pela surpresa. Já não vejo. depois. . enxugava o suor da testa.Dou-a a Vossa Majestade. Ah! ah! . largando as rédeas do cavalo e estendendo os braços. caiu para trás.disse o Sr. sustentado pelos cortesãos espavoridos com esse novo ataque. Os senhores . 350 Desta vez estava o rei sem sentidos. de Nancey -.disse consigo. Pois já é noite? Ah! misericórdia! estou ardendo! Acudam-me!.Julguei a princípio que Vossa Alteza estava só continuou ingenuamente Cocunás .Ah! .Tanto pior .atalhou o rei.Silêncio! .disse o rei.disse o rei . . Cocunás fez outro tanto.Senhor. acudam-me! E o mísero rei. La Mole olhou para Margarida. há-de ser por se ter encolerizado . -Talvez seja. Por outro lado.disse ele ao rei de Navarra -. e melhor do que ninguém o sabe o senhor. de Mouy. a vista ofusca-se-me. quando soube que Vossa Alteza havia querido. porém. . .pertencer mais à casa de Vossa Alteza? . Henrique . já entregue à guarda do Sr. pois deu-me a sua demissão numa carta assaz impertinente.Não. considerava toda aquela cena com a maior curiosidade. Estou com frio e tenho vertigens. . . de Nancey.estamos suficientemente informados. de Nancey. E olhou para Margarida.soube.disse Cocunás .Por certo. cujos olhos.

quer em latim ou em francês. Assim. isso quer dizer que a coisa não vai bem para nós.maca.disse o tenente. Notaram todos que ele estava muito sério. o rei tinha voltado a si do desmaio e recuperado alguma força. Em Nanterre até quis montar a cavalo. quis aproveitar o tempo da espera. Senhor . Cobriram-no com um capote que um dos cavaleiros tirou dos ombros.Preferiria qualquer outro destino. Por consequência bateu as palmas.Mandem chamar mestre Ambrósio Paré . doença tão repentina. e cujos sintomas eram em parte os mesmos que se observaram em seu irmão Francisco II algum tempo antes de morrer. não falando com pessoa alguma. poderei saber para onde nos levam? . . Apeou-se da liteira. e.A caminho. quer seja em hebreu. tão singular e tão aguda. sentou-se numa espécie de canapé. mas. meus Senhores! . enfim! nem sempre a gente vai para onde quer. recebi logo ou um tiro em qualquer parte.disse Carlos ao chegar ao Louvre.Não receies nada. não causou espanto a ninguém. se tinha visto sair um rei alegre e conspiradores diligentes. donde.Disse-me que nada receasse . ou uma estocada no corpo. ou um vaso de flores na cabeça. reflectindo que mestre Paré talvez não estivesse em casa e tardasse a chegar. O que queria dizer: . quer em grego.tornou Cocunás -.Que te disse ela? .Julgo que para Vincenas . Carlos entrou na câmara de dormir.murmurou o piemontês -. apareceu um guarda. subiu a escada descansado no braço de Tavannes e recolheu-se à sua câmara. .respondeu La Mole.Mê déidé.Sem ser indiscreto. a proibição a quem quer que fosse. onde não quis que ninguém entrasse. tanto pior. A misantropia era a base do carácter deste príncipe. .disse o tenente. e depois passou tão perto de La Mole que este pôde colher estas duas palavras gregas que ela proferiu: . . Nada receies. fez um pequeno sinal de inteligência ao marido. menos a mestre Paré. pela manhã. que em tudo isso não perdera a sua liberdade de corpo nem a sua liberdade de espírito. . e em que se via agora entrar um rei moribundo e rebeldes presos. em que o deitaram. e o cortejo tomou tranquilamente o caminho de Paris. sempre tem significado para mim: toma cuidado! . No caminho.perguntou Cocunás. . porém não lhe consentiram.Tanto pior . encostou a cabeça nas almofadas. Todas as vezes que alguém me tem dirigido essas palavras em tom de animação. . pelo caminho havia profundamente reflectido. Era evidente que não o preocupava senão a doença. de entrar no quarto do rei. não se ocupando nem da conspiração nem dos conspiradores. Margarida.

.Que verdade há na acusação do duque de Alençon? Vamos. e eu acompanhá.Sim. O rei de Navarra esperou que se fechasse a porta. ficara porém na antecâmara. Vossa Majestade esquece-se de que já não sou seu irmão. pelo contrário.disse Carlos. Vossa Majestade mandou-me chamar: aqui estou. .Fale.. dela e dos que a cercam.lo. O guarda inclinou-se e obedeceu.Metade somente. . porém dos que me detestam. vê no meu quão profunda afeição tenho para com o meu irmão e meu rei. 351 .que não é natural fugir de quem se ama e de quem nos ama.Estou pronto para cumprir a promessa. e bem fiz em desconfiar.disse Carlos -. . No meio desta sonolência. . de Alençon e a rainhamãe. . Bem sabe Vossa Majestade que a desgraça dos reis não é tanto serem muito mal. Carlos voltou-se para trás. Henrique? . que lê nos corações. . .O Sr.disse ele -.Vão dizer ao rei de Navarra que lhe quero falar . bebido uma garrafa de água.disse Henrique deixando cair os dois braços -. sem matar a sede. quando estivéssemos sós.É justamente por isso que desconfio dela. mas a rainha-mãe presta-lhe todas as atenções.Ah! é verdade .Pois está descontente comigo.Dela? . Henrique. . O rei estremeceu ao ouvir aquela voz. responda. O Sr. .Não senhor. só tenho que me louvar de Vossa Majestade.Eu também não fugia dos que me amam. meu Senhor. de Alençon quem devia fugir. de me responder com franqueza. O rei deitou água fria na mão e levou-a à testa. . uma espécie de nuvem sanguinolenta flutuava-lhe diante dos olhos. . .Meu Senhor . um peso horrível de cabeça mal lhe deixava a faculdade de ligar as ideias umas às outras. abriu-se a porta e apareceu Henrique.disse Carlos . de Nancey tinha-o acompanhado. e até agora me lembro que me prometeu. e Deus. . obrigado por mo haver recordado.E porque o acompanhava? .perguntou Carlos. de Alençon.Os que aqui me detestam são o Sr. não o nego.Senhor . mas muito bem servidos. a boca estava árida e já tinha. Senhor: era o Sr. Senhor.Parece-me . Consente Vossa Majestade que lhe fale com o coração nas mãos? . mas seu prisioneiro. Henrique. Depois aproximou-se do rei. queira pois interrogar-me. e fez o movimento maquinal de estender a mão.

pouco a pouco. duas vezes esteve Vossa Majestade em risco de chegar a esse auge de desesperação.Com um opiato.As dum homem que bem admirado ficaria de se ver confundido com ela: de Renato.E porque não me disseste isso tudo há mais tempo? 352 . . Não é esse o seu ofício. já me disse.Duas vezes só à Providência devo o ter ficado com vida. Senhor. Henriquinho.E como é que se envenena com opiatos? . é da . sim . Henriquinho . deve desejar que eu viva. .disse o rei com um sorriso.Apre! és feliz.Como assim? .Isto é. pergunte-o Vossa Majestade a Renato. que Deus te ajudará.Quiseram. pois. desanuviou-se-lhe o rosto. é outra coisa: sou acusado e defendo-me.perguntou o rei. . um milagre de bondade da parte de Vossa Majestade. É verdade que da segunda vez a Providência tomou as feições de Vossa Majestade.Continue.Se eu dissesse estas minhas palavras ontem. .Renato salvou-me do veneno. .Tão certo como da segunda. Vossa Majestade salvou-me do ferro.Suponha que ainda me ama.Com quê? . . seria um denunciante. Carlos franziu a testa. meu Senhor. . . .Hoje.Amando-me. pois prometeu dizer-me tudo. meu Senhor: um milagre de arrependimento da parte do florentino. amava-o antes da sua traição. . por motivo deste axioma: . .E da primeira.Ficaria no auge da desesperação se te acontecesse alguma desgraça. . . . e quis fugir. . meu Senhor. não é assim? .Quiseram envenenar-te? .. Henrique? . que uma dor aguda veio transformar em contracção nervosa. que feições tomou? .Sim. .E Renato? . .E dizendo-mas hoje? . me salvaram.disse como se falasse consigo mesmo -. .Vossa Majestade ama-me. pois lembrou-se de noite em que levara Henrique à Rua das Barras. Pois bem: confesso que tenho medo que se canse o Céu de fazer milagres. Carlos carregou o sobrolho.Ajuda-te.Pois. porém.Explique-se.Pois sim.Estás certo dessa primeira tentativa. . . até envenenam com luvas.Dois milagres. .Ora.E Vossa Majestade bem vê que estou cumprindo o que prometi.

Meu Senhor.Estou. que hão-de ser punidos os que te querem mal.Livre para sair de Paris. . porém. .disse o rei . .Pois então.Então. de Nancey como um homem a quem a sua cólera não deixa um mês de vida: é o meio de eu o poder amar mais tempo. está Vossa Majestade satisfeito com a minha franqueza e acha que lhe disse tudo? . Senhor.Oh! pois não vê Vossa Majestade que é a sua amizade que me perde? . . Senhor. .perguntou Henrique. estou. Agora. .Um ódio aparente. não sei qual é o teu fim.É porque sabem que te amo. Henriquinho. muito me hei-de admirar. mas se os teus desejos não se cumprirem.nature-za de todo o ente criado fugir da morte.Pois queres antes o meu ódio? . .À fé de fidalgo.A de não me conservar a título de amigo. enquanto me julgarem mal-aceite de Vossa Majestade.Henriquinho . Senhor.Já mandei chamar mestre Ambrósio Paré.Podes.Então retiro-me mais sossegado. Vossa Majestade devia ter mandado chamar o médico: esse incómodo pode ser mais grave do que pensa. que ordena Vossa Majestade? . meu Senhor? . 353 . vou ver a matilha e meter-me na cama. Sossega. recomende-me ao Sr. menos pressa terão de me ver morto. . e que ainda fazem novas tentativas? . Entretanto. Oh! com todos os milhões de diabos! preciso de ter ao pé de mim alguém que me ame.Então estou mais sossegado.disse Carlos -. . todas as noites me admiro de ainda estar vivo! . bem sabes que não posso dispensar-te. estás livre. se Vossa Majestade me quer junto de si.Por minha alma! .Senhor de Nancey! . Esse ódio salvar-me-á. se não alcançares o teu fim.Não.É essa a opinião de Vossa Majestade? . . E então julgas que os que te queriam mal ainda se não cansaram. queira conceder-me uma graça.E agora. . não sei o que desejas. ouves.Como assim! preso? . és um bom rapaz.Volta para a tua câmara. . Henriquinho: eu estou sofrendo bastante.julgo que de toda a minha família és o único que realmente me ama. . mas de preso.Qual? .Posso então contar com a severidade do rei? . .bradou Carlos. Henriquinho? que te querem matar. Porque não fará pois a inteligência o que faz o instinto? . .Senhor.

e havia querido morrer com a cabeça apoiada nesse objecto que lhe representava um amigo. Carlos reflectiu que talvez houvesse alguma traição e calou-se. saiu atrás do Sr.disse o rei. Mas. o mísero estava frio e inteiriçado. Actéon não veio ao seu encontro. como a luz da vela alumiava um dos cantos do gabinete. E Henrique. presos como estão nas suas grandezas. com ar consternado. tinham-lhe corrido algumas gotas de fel misturadas com uma baba espumosa e sanguinolenta. os olhos vidrados. O cão tinha achado no gabinete um barrete do seu dono.e Actéon está ainda amuado por causa da chicotada que lhe dei esta manhã. Deu quatro passos para diante e.O capitão das guardas entrou. Então Carlos pegou numa vela e entrou no quarto da ama.disse o rei -. invadiu-o outra vez uma dessas crises que já o haviam acometido. Devorava-o uma sede inextinguível. sentiria que o seu dono tinha voltado da caça e latiria para o chamar. quis gritar. pegou outra vez na vela. O rei aproximou-se desta porta. uma porta do quarto de Madalena dava para a sala de armas. admirava-se de não ter visto chegar nenhum dos seus fiéis: esses dois fiéis eram a ama Madalena e o cão Actéon. a cólera ferveu-lhe nas veias. Depois. Então ajoelhou-se diante do cão e examinou-lhe o cadáver com olhar de homem experimentado: viu-lhe a língua coberta de pústulas e vermelha. O rei sofria como se lhe revolvessem as entranhas com um ferro em brasa. Como o leitor se há-de lembrar.Oh! Actéon! Actéon! . de Nancey. que pusera em cima duma mesa. a sua cabeça responde-me por ele. chamou-o. . mas o cão não se moveu. . e entrou no gabinete. bebeuo dum trago e achou-se um pouco aliviado. porém. no trajecto. A ama foi naturalmente cantar os seus salmos com algum huguenote conhecido . viu nesse canto uma massa inerte deitada no chão. Era uma doença singular e que fez com que o rei estremecesse. tendo ficado só. Este espectáculo fez-lhe esquecer as suas próprias dores e restituiu-lhe toda a energia.Entrego às suas mãos o maior criminoso do reino . Viu em cima da mesa um vaso de leite. Carlos assobiou. Tê-lo-iam fechado? Nesse caso. Da boca. os reis têm a liberdade desse primeiro impulso que os mais homens aproveitam para a sua paixão ou para a sua defesa. contraída pela dor. E de novo assobiou. 354 LIII ACTÉON Carlos. mas ele não apareceu. A boa velha não estava lá. . Carlos correu para ele e apalpou-o. Com grande espanto seu.disse consigo o rei .

quero que nestes dez minutos esteja aqui! Monte um dos meus guardas a cavalo. à porta do rei. não é? .Mandei. pois essa estampa representava um fidalgo caçando. levantou os beiços lívidos do cão para lhe examinar os dentes e viu nos interstícios alguns fragmentos esbranquiçados.quando mesmo me fosse preciso pôr todos a tormento. Carlos dirigiu-se para ele com ar imperioso e os lábios trémulos. que espere.Senhor. o florentino bateu timidamente. Há certas consciências para quem nunca está puro o céu. se chegar. com o suor na testa.E sabe o que sabem os médicos mais doutos? . Olhe . e a pele como queimada por vitríolo.continuou. Daí a dez minutos. estas dores.Vossa Majestade mandou-me chamar? . Depois.disse Carlos. Carlos olhou atento em torno de si. dirigiuse para a porta do gabinete. e Actéon havia-a arrancado do seu livro de caça. Depois. para mais depressa estar de volta. com as mãos trémulas e o peito arfando. O perfumista entrou. . reunindo todas as suas recordações: . 355 Ao pé desse papel a inflamação era mais violenta. examine o que . Estou morto! Carlos ficou algum tempo vergado ao peso dessa pavorosa ideia. e antes quis consultá-lo que a qualquer outro.disse empalidecendo .o livro estava envenenado. Tirou esses fragmentos e viu que era papel.disse Renato todo a tremer. que tinha tirado e enfiado na cinta. e não sem inquietação.Vossa Majestade exagera.bradou . mostrava ser uma estampa. Corram à Ponte de S. maior do que as outras. hei-de saber quem deu esse livro a Henriquinho! E. e leve outra à mão.Mestre Renato! . Miguel e tragam-me o florentino. . descobrindo o cadáver do cão -. . estes vómitos!. confio no seu saber. . as gengivas estavam ingurgitadas. No chão havia duas ou três parcelas de papel semelhante ao que reconhecera na boca do cão: uma dessas parcelas. Um guarda partiu a galope em cumprimento da ordem recebida. e de todas as vezes levei-o à boca para o molhar. . Estes desmaios. erguendo-se com um bramido abafado. Os cabelos de Carlos eriçaram-se-lhe.mestre Renato!.Tornou a calçar as luvas. . Além de que. Ah! . Você é um hábil químico. Quanto a Ambrósio Paré.Com mil demónios! .murmurou Carlos .Não.exclamou .Entre! . minha mãe tem-mo dito. Carlos ficou com os olhos fixos no cadáver do cão. Ah! .toquei com o dedo em cada página.

.perguntou o rei. sim. . são tristes sintomas. e com a ponta extraiu da boca do cão as parcelas de papel aderentes às gengivas. debalde procuro qual o motivo dessas perguntas. . . abriuo. abriu dum golpe o peito do cão.Grande dor de cabeça. .Eu. a palavra que devia ser a sentença da sua morte ou o penhor da sua salvação.E teria sede? . tanto para dissimular o seu abalo como para obedecer ao rei.Manchas rubras e herborizações no estômago. é o que eu designava pelo nome de herborizações. como se houvesse comido brasas.E que sentiria o homem que.E com que veneno? .Pode ter a certeza de que foi envenenado? . .Suponho que com algum veneno mineral.Pois abra. É isso. com os olhos fitos nesse homem. muito atento. que me parecem raízes duma planta. com a vela na mão. responda somente. Estas manchas rubras são as que lhe anunciei. este cão foi envenenado. que sintomas acharemos? .É preciso chamar alguém que me ajude. . por casualidade.Sede inextinguível.Ajudá-lo-ei eu . .Interrogue-me Vossa Majestade. e quanto a estas veias sanguinolentas. Enquanto.Senhor.ele tem entre os dentes e diga-me de que morreu. . Acho tudo quanto procurava. .Sim . Renato.disse -. é isso mesmo disse consigo o rei. com o escalpelo.Pois comecemos. tivesse bebido do mesmo veneno? . alumiava com a mão convulsa e trémula.Assim o receio. dores de entranhas e vómitos. . veja: aqui estão sinais evidentes. Renato se abaixava até ao chão. . .Sem dúvida: abrindo-o e examinando-lhe o estômago.Que contraveneno deve ser administrado a quem houver . en quanto Carlos. fácil de compreender.Mui provavelmente. E se estiver envenenado.Vossa Majestade? . meu Senhor. Carlos sentiu um calafrio correr-lhe pelas veias e penetrar-lhe no coração.disse a tremer -. . afastou com força os lados.Nem lhe é preciso sabê-lo. Carlos. não quero ficar com a menor dúvida. Senhor . .Visto isso.disse Carlos. Renato tirou da algibeira uma espécie de escalpelo. .Sim senhor. pondo-se a examinar durante algum tempo. em pé.Veja. não é assim? . ardores internos.Com veneno mineral? . . . com um joelho no chão. esperava com impaciência. .Senhor . o sangue e o fel que destilavam de cada ferida.disse Renato -. o cão foi envenenado? .

disse Carlos. porém mata infalivelmente. rasgou com os dentes uma folha dum livro. .balbuciou Renato. .Sim.Mas não mata imediatamente . . ao vê-lo.E Vossa Majestade tem esse livro? .disse o rei. conheces esse livro? . pondo a mão no ombro de Renato -. .Está certo disso? .Seria preciso que fosse administrado logo.Não. o papel inflamouse.disse Carlos -.Senhor.Esta . Vossa Majestade tem alguma ideia do modo por que foi o cão envenenado? .disse o rei.disse. Senhor? . e um forte cheiro a alho espalhou-se no gabinete. caso contrário. . mas. chegou-a à vela.Eu. . é um veneno terrível! .Quisera.disse.Renato .Está aqui . . .Caso contrário. . .O melhor e o mais eficaz são claras de ovo batidas em leite.disse Renato empalidecendo. Renato fez um movimento de surpresa. . envenenaste o príncipe de Porciano com o fumo dum candeeiro. que não escapou ao rei.bebido a mesma substância que o meu cão? Renato reflectiu um momento. .Sim . se não me disseres de quem é este livro.Como! . antes de responder.Senhor. tentaste envenenar o Sr. juro. O florentino viu que não podia brincar com a cólera de . Carlos encostou-se à mesa de mármore.Sim. às vezes até há cálculo no tempo que leva a matar.Rasgue. .Consinta Vossa Majestade que eu rasgue outra. . .não lhe conhece remédio? . com uma tenaz em brasa. lanho por lanho. tu.Foi envenenado com um misto de arsénio. de Condé com uma maçã de cheiro.disse Carlos -.disse Carlos.Bem .Há muitos venenos minerais . .E o contraveneno? 358 Renato sacudiu a cabeça. . .Uma folha dum livro? .Comeu uma folha deste livro?. . . atraiçoaste-te.Mas o quê? . tirando o livro de caça da estante em que o colocara e mostrando-o a Renato. ouve bem isto: tu envenenaste a rainha de Navarra com luvas.Como se eu próprio o houvesse preparado. mostrando a folha rota. com voz rouca . . Far-te-ei arrancar a carne. saber de qual deles se trata. Renato rasgou uma folha.

.Se eu disser a verdade.disse Renato com voz espavorida. é meu. que pedira ao Sr.Nada . . escreve neste livro. Agora percebo tudo.Sim. quem me afiança que não serei mais cruelmente castigado do que se me calar? . dando-se por feliz por se ver livre por tão pouco preço. Nesse momento Carlos teve uma tosse violenta e seca. .O livro pertence-me. que o esgotou dum trago. dá-me de beber. e resolveu recorrer à audácia. . Senhor? . cumprirei a palavra.Mas com que intenção? .Oh! .disse Carlos. Carlos. . tomando uma pena e molhando-a na tinta -. e sou eu a vítima dela. . a que sucederam novas dores de entranhas.Oh! por aí nada tenho que ver: se te atacarem.Pela minha parte.disse Renato -. de Alençon algum livro em que aprendesse a arte da montaria.Senhor. .Vossa Majestade prometeu salvar-me a vida.Sim. .À fé de gentil-homem. 359 O florentino assinou. defendete. E. meu Senhor. Catarina de Médicis. deu dois ou três gritos sufocados e caiu sobre uma cadeira. o livro estava na câmara de Henrique. só tenho sede.Carlos IX. terás salva a vida.Julgo que pretendia mandá-lo ao rei de Navarra.A rainha-mãe? . poderei sair de França quando julgar ameaçada a minha vida? .exclamou Carlos . . Há uma fatalidade. recuando e olhando alucinado para o envenenador. o florentino inclinou-se e saiu. Senhor. . . encostou o dedo aos lábios lívidos. . .E agora assina. Por detrás dele apareceu a ama à porta do quarto.Eu. .Mas . Com efeito.Sua Majestade a Rainha-mãe tirou-mo de casa.É teu! . Renato tomou a pena e escreveu. . . .exclamou Carlos. carregando a sobrancelha.O quê. . por parte da rainha-mãe? . Renato encheu um copo de água e apresentou-o com mão trémula a Carlos.Que tem.Agora . meu Senhor? .é isso mesmo.A isso responder-te-ei daqui a quinze dias. Entretanto.E como saiu das tuas mãos? .O que te vou ditar: Este manual de montaria foi por mim dado à rainha-mãe.Dá-me Vossa Majestade a sua régia palavra? .Oh! pode ficar descansado.disse Carlos. meu Senhor. . . .disse Carlos -.

de Nancey -. Henrique foi nessa mesma noite levado para o bosque de Vincenas. Era um dos meus melhores amigos. quero ir para a cama. . ama . Dá-me o braço. ninguém suspeitará de nada. Ah. 360 LIV VINCENAS Como fora determinado por Carlos IX. e dez portas que.É porque estou muito fraco. tratam-no como cabeça coroada.Senhor .disse Carlos -. . O Sr. abriu a liteira.Quer Vossa Majestade acompanhar-me? . A propósito. caminhava adiante. de Nancey. sempre precedido pelo Sr. A ama chegou-se com vivacidade.Com efeito. de Nancey. se fechassem. Qualquer residência lhe era mais segura do que o Louvre. estás muito amarelo. meu Carlinhos.respondeu o Sr.disse Nancey .mais dois ou três andares não me teriam por forma alguma humilhado.disse Henrique consigo .É que andei em lugar molhado e fez-me mal. A viagem fez-se em liteira. claras de ovo batidas em leite. Manda ele que o .disse o rei de Navarra .disse o rei -. o Sr. o pobre Actéon morreu. . .o senhor bem sabe que aqui não se trata do que quero nem do que não quero. Henrique obedeceu sem fazer a menor observação. fechavam-se entre ele e Catarina de Médicis..Entretanto.Ah.Senhor.Que tens. . amanhã de manhâ manda-o enterrar num canto do jardim do Louvre. À entrada do torreão pararam. para prendê-lo. . e convidou respeitoso o rei a que descesse. Cos diabos! . . meu Carlinhos? . . subiu um andar.Dir-lhe-ás que estou melhor e que não preciso dele. o capitão das guardas.Com a breca! . fragmento que basta para dar uma ideia da sua grandeza passada.E se vier mestre Ambrósio Paré? . depois. Era assim que então se chamava o famoso castelo.Agora . de Nancey apeou-se. porém do que manda meu irmão Carlos. ama. passou as três portas inferiores do torreão e as três portas inferiores da escada. portador da ordem que devia abrir a Henrique as portas da prisão protectora. O real prisioneiro atravessou a ponte levadiça entre dois soldados.se a ela e entrou na câmara. queira Vossa Majestade parar aí.parece que me fazem as honras do primeiro andar. Ficarei aqui muito bem. que queres tomar? . do qual só resta um pedaço colossal. iam quatro guardas de cada lado. se tiver tempo. disse Henrique parando . mandar-lhe-ei fazer um túmulo.Um remédio muito simples . Chegados aí. deitar-me-ei sozinho.prosseguiu -. disse-lhe: . fechada a cadeado. vendo que ele se dispunha a subir outra escada. Carlos encostou.

exclamou o rei.Ah! . .que é isto? E apontou para uma espécie de sulco escavado na pedra húmida que ladrilhava o chão. e que diabo está aqui fazendo? .Ah é você. que julgava ter reconhecido a voz. que.Quais?. . Henrique. acabo de receber a minha nomeação de governador da Fortaleza de Vincenas. chove sangue.disse ele -. em cuja extremidade havia uma sala bastante vasta. e que mais visível e palpável se tornava à medida que dela se aproximavam. mas antes de Vossa Majestade já recebi dois fidalgos.Sim senhor. A atenção com que olhou em torno de si fez que Henrique não olhasse para o chão. mas sem perder nenhum dos por menores desse hediondo aparato.Nesse caso. Mas a sua proximidade dos assentos bem indicava que aí estavam para esperar os membros dos que se sentassem. . .Atravessamos a sala dos tormentos. . corriam em redor da sala. meu caro amigo.Onde estamos? . já chegámos .tornou Beaulieu -. aos pés desses assentos. havia argolas de ferro seguras à parede com a simetria imposta pela arte torcionária. . Beaulieu . e até nos próprios assentos. Henrique lançou em torno de si um olhar não isento de inquietação. meu Senhor .Perdoe. . por primeiro preso um rei! Não começa mal.muito bem. a sua estreia faz-lhe honra.disse uma sombra que se desenhava no escuro.É a goteira. talvez seja indiscrição.disse . . Henrique continuou o seu caminho sem dar uma palavra. e por cima desses assentos. deu alguns passos e reconheceu o vulto.Não me recomendaram segredo: são os Srs. escrevia nas paredes a história da dor. .Sim. e tro peçou. de La Mole e de .Ah.Senhor. além disso. por assim dizer. acompanho-o. .disse Henrique . Meteram-se por uma espécie de corredor. Ainda nos falta muito para chegar ao meu quarto? . meu Senhor. assentos de pedra.Não senhor. E olhou atento. meu Senhor. Havia toda a casta de instrumentos nesta sala: cavaletes e potes para o tormento 361 da água. para os míseros que esperavam pelo suplício.Ah! . de paredes escuras e de aspecto perfeitamente lúgubre. .Pois aqui chove? .Ah! . Oh! desculpe. cunhas e malhos para o dos borzeguins. .acompanhe? .

que quase se fica sufocado! E Cocunás. Pobres mancebos!. O chaveiro pôs-se a caminho.disse Beaulieu. pôs dois soldados à porta e saiu. nesse quarto andar queria ele estar.Vamos.Está aqui.Número 2 . abram. o chaveiro abriu sucessivamente três portas.Cocunás. de La Mole. Ao chegar a esse quarto andar. tenho pressa de me ver nele.Por minha alma! entendo melhor o que geme do que o que canta.Eu não disse. Pelo que vejo. deu um salto do lugar em que estava para a porta. esse número 1 evidentemente que o preocupava. .Isso agora é outro caso .Então quem é? . . Henrique deu um suspiro. o outro triste. no quarto andar. vi-os prender.Qual é o que geme? .Não insista Vossa Majestade. . a prisão não é coisa muito alegre. pois serei obrigado. e porque não é o número 1? . . E em que andar ficaram? .Oh! sim. que era um preso. introduziu Henrique no quarto. Com mil precauções oratórias. Senhor. . cansado como estou das tribulações deste dia. . Senhor . cada qual enfeitada com duas fechaduras e três enormes argolas. deu-lhe todas as desculpas pela falta de cómodos. tenha a bondade de me indicar o meu quarto. calando-me. E tornou-se mais pensativo do que estava. 362 .Ah! parece então que espera algum preso de maior nobreza do que eu. Quanto ao mais.De modo em tudo oposto: um alegre.Porque está tomado. de Beaulieu.disse Henrique -.disse o governador ao chaveiro .vamos aos outros. a faltar-lhe à obediência que lhe devo. . o outro geme. um canta.Com mil diabos!. mostrando a Henrique uma porta aberta. Atravessaram outra vez a sala dos tormentos. chegaram à escada e subiram três andares. passaram o corredor.Por cima de todos. pois. Sr. .Agora . Mal chegaram à terceira porta. quando não seja senão para entrar ar fresco! Este forno está tão quente. ouviram uma voz alegre que gritava: . o governador não desmentiu a sua primeira polidez. que o leitor sem dúvida já reconheceu pelo seu modo jovial. . .disse Henrique. . E como suportam essa desgraça? .O Sr.

.disse Cocunás. de Nevers. não venho para o tirar daqui. lhe dera a Sr.Visitá-lo.disse Beaulieu.O Senhor Governador? . e um suspiro foi o primeiro rumor ouvido pelos visitantes. que ficara imóvel com a cabeça nas mãos. La Mole estava sentado a um canto. vermelho de raiva .Senhor . e apesar da visita.os homens de bem que limpam a gente na Ponte Nova estão ao serviço de el-rei? Injustíssimo era eu para com eles. Filetes ogivais partiam de cada canto da sala e iam reunirse no meio do tecto. que era uma belíssima esmeralda que. A última porta abriu-se. Atravessaram uma câmara vazia.disse o piemontês .Com mil diabos! . de La Mole . venho apalpá-lo.Tem jóias? . Demais. . venho para entrar com o Senhor Governador.disse La Mole -. O Sr. pois vou entregar-lhe tudo que tenho.Tenho um anel.É fazer-me muita honra. levando o anel de Cocunás. e logo comprimiu o cordial sorriso de Cocunás com um desses cortejos glaciais que pertencem exclusivamente aos governadores de fortalezas. O mancebo levantou lentamente a cabeça.o que lhe vale é estar na cadeia e eu também.Boa tarde.exclamou Cocunás. como se nada tivesse ouvido. que iam diminuindo do interior.Não senhor .. .Chaveiro. Quatro frestas compridas e estreitas.perguntou ele ao preso. .É inútil .E que vem ele cá fazer? . . . e olhou um momento para o preso.Espere.Então . aos carcereiros e aos carrascos. O governador retirou-se.disse saindo.Vamos ao outro . . . efectivamente. meu fidalgo . seja bem-vindo o Senhor Governador.Dá licença que o apalpem? . O governador parou no limiar. . . . feche a porta. e o jogo das três portas.disse Cocunás. cruzadas com tal arte que a vista fosse de contínuo detida por uma linha opaca. .Boa tarde. O quarto era de aspecto ainda mais lúgubre que aquele donde acabavam de sair. .Sofrerá tudo a bem do serviço de el-rei.continuou o governador -. .O senhor tem dinheiro? . em que se abriam em florão. barras de ferro. . Sr. 363 .disse o chaveiro -. para lhe lembrar a cor dos seus olhos. impediam que por essas frestas pudesse o preso ao menos ver o céu. das seis chaves e dos nove ferrolhos foi repetido.disse Beaulieu. fracamente alumiavam essa triste morada. pois até agora tomava-os por ladrões. aí continuou.Boa noite . de Beaulieu entrou. .

. a palavra do homem de bem é sagrada. não tinha porém nenhum direito ao retrato que encerrava. mas. . . mas a miniatura estava literalmente reduzida a pó. fingiu deixá-lo cair e.Dê cá.Aqui tem. Mas quase imediatamente acalmou-se. Então.Senhor .E essa fita que lhe passa pelo pescoço? . . que eu saiba. desatou a suposta relíquia. no meio do sossego doloroso e digno que o distinguia.Tenho ordem de somente lhe deixar a roupa do corpo.O rei queria ter essa jóia . o governador levá-los-ia agora com essoutros trezentos. fé-lo em mil pedaços. desviando-se como para se aproximar da luz. depois de o ter por diversas vezes beijado.Cerca de trezentos escudos e as minhas jóias. .E que tem? . ora uma relíquia não é roupa. E abaixou-se para ver se podia livrar da destruição o objecto desconhecido que La Mole queria subtrair-lhe.disse o governador. como me pagou adiantado e lhe prometi que havia de estar com o seu camarada. E sem se despedir do preso com uma única palavra. La Mole saiu do quarto e achou-se diante de Cocunás.Isto não é uma jóia. Senhor.Não tem mais nada? . tanto para seu como para meu bem. Aí tem agora o medalhão.Bem. venha. pode levá-lo. O chaveiro deu alguns passos para sair e. apoiando com força a bota em cima dele. .Senhor! . disse: . la Mole fez um movimento de cólera que. queixar-me-ei ao rei. Somente. e a minha consciência não me consentiria servilo mais. La Mole voltou para fora o forro dos bolsos. não conversem em política. tirou-o do medalhão e levou-o aos lábios. de Beaulieu já descia os primeiros degraus de escada. . vendo que o Sr. Senhor! bem avisado fui quando pedi que me desse adiantados os cem escudos.Dê cá. . se lhe for possível. tirou os anéis dos dedos e arrancou a fivela do chapéu. pareceu ainda mais terrível a essas pessoas acostumadas a comoções violentas. . mediante os quais lhe deixo falar ao seu companheiro. a qual não era mais do que um medalhão com um retrato. Os dois amigos lançaram-se nos braços um do outro.Nada mais. que contava as lajes do seu. pois se mos não tivesse dado. . . é uma relíquia.disse La Mole -.Por minha alma. . . retirouse tão irado que deixou ao chaveiro o cuidado de fechar as portas sem presidir a essa operação. vou dar-lhe o que pede.disse Beaulieu -.Como! exige. mas.

Como a ti também. empurrou os dois amigos cada qual para o seu quarto e fechou-lhes as portas. Nesses ataques dava às vezes berros que eram ouvidos com terror pelos guardas que estavam na antecâmara. La Mole ia replicar.Pelo abominável duque de Alençon.Como a ti.Eu do que tenho medo é dos. Razão tinha eu de lhe querer torcer o pescoço. despertados de há muito tempo por tantos rumores sinistros. com dinheiro conseguiremos tudo que quisermos dele.Oh! deixa estar. 365 Havia oito dias que Carlos se conservava de cama com uma febre que o prostrava.respondeu La Mole.perguntou assustado La Mole.E tirou-te tudo? . . .Calar-te-ás? . . .Então.Compreendes agora o que se está passando? .Por quem? . prostrado de .Tenho medo.Oh! eu pouco tinha: um anel de Henriqueta e nada mais. . chegou apressado. . . . ou antes. quando o carcereiro.Sim. já te fez a sua visita esse abominável governador? .Ah! eis-te aqui! .E dinheiro? . entrecortada por acessos violentos semelhantes a ataques de epilepsia. . segundo presumo. que não fosse ele próprio surpreendido.E julgas que a nossa situação é grave? . com rubor febril. .Eu guardarei silêncio . coisinhas que hão-de tirar por algum tempo ao Sr. repetiam espavoridos nas suas profundidades. 364 .exclamou Cocunás. e saiu para vigiar que não fossem os presos surpreendidos.Pois também lhe pagaste? . Passados esses acessos.O chaveiro fez como se enxugasse o canto dos olhos.Ah! ah! . . para nos reunir um momento.. . e devemos esperar que dinheiro não nos há-de faltar.disse La Mole . de Alençon a vontade de dormir. e que os ecos do Louvre. se Deus me der força. .Que dirás tu se chegarmos a esse ponto? -E tu? .Que dirás então? . se praticarem tal infamia.Perfeitamente: fomos atraiçoados.. .Não te nego que já me lembrei disso. .Tinha dado todo o que possuía a esse bom chaveiro. .disse Cocunás.parece que recebe dos dois lados. que sem dúvida ouvira alguma bulha. . tormentos. .Pois eu .Decerto.Tanto melhor que o nosso chaveiro seja um miserável.disse Cocunás -. afianço-te que hei-de dizer muitas coisas.

Catarina e de Alençon respiravam. ninguém. se apresentaram. tivera licença de o visitar. e era esse o seu único alimento. e julgavam-no perdido. nem sequer Margarida. cada um por seu lado sem comunicar os seus pensamentos. Carlos sentiu-se mais forte e quis que deixassem entrar toda a corte. ou para melhor. continuava. com pouco intervalo uns dos outros. de Allençon e Margarida tiveram aviso de que Carlos recebia. Tinham. que não podia senão ajudar a bebida particular receitada pelo perfumista. Dizer o que Catarina de Médicis e o duque de Alençon. caía nos braços da ama com profundo silêncio que denunciava espanto e terror. Todos três.cansaço. Uma manhã. seria querer pintar esse fervilhar hediondo que incessantemente se agita no fundo dum ninho de víboras. Henrique tinha sido encerrado no seu quarto e. Catarina sentou-se à cabeceira da cama do filho sem reparar . e Margarida abatida. que horríveis estragos tinha feito no jovem monarca a doença desconhecida que o atacara. com os olhos amortecidos. pois. no meio das eternas alternativas da doença que experimentava. prescrito um regímen calmante. esperando ser esquecido. pela palidez das faces. Catarina. pois. e nada haviam conseguido. como era o costume. ou pelo menos para lhes mandar um bilhetinho. de Nevers tudo haviam tentado para ir ter com eles. e pode-se reconhecer. de Alençon sorrindo. Margarida e a Sr. dizer o que um e outro revolviam no fundo do coração. as portas. Carlos recebia-a três vezes por dia da mão da ama. pela chama febril que lhe saltava dos olhos fundos e rodeados dum círculo escuro. Aos olhos de todos tinha caído em completo desfavor. apesar da doença do rei. La Mole e Cocunás estavam em Vimcenas no mais rigoroso segredo. e Henrique comia e bebia. que. Abriram-se. pela recomendação que ele próprio fizera a Carlos. Mestre Ambrósio Paré e o seu colega Mazille tinham reconhecido uma inflamação de estômago. ou para pior. Catarina sossegada. tomando por causa o que era apenas o seu efeito. pois a mãe e o filho mais se evitavam do que se procuravam. pelo amarelado da testa de marfim. Na corte ninguém suspeitava a causa da enfermidade do rei. A régia câmara estava cheia de cortesãos e interessados. a apresentar-se no paço todos os dias à hora do levantar.

a caça. porém. pelo silêncio e pela meditação. meu irmão . Carlos nem tinha já ao menos a felicidade de duvidar. a quem nada escapava. conhecia muito bem o carácter de La Mole para saber que podia contar com o maior segredo. também lhe havia de fazer bem.disse consigo Carlos. um sentimento interior.disse Catarina -. Sabia perfeitamente a quem e a que atribuir a sua morte. apertou-a.E que dizem os médicos? .Havia .Os médicos? oh! são grandes doutores. minha mãe. Por si nada temia. inteirado pelas confissões de Renato. Carlos havia dito estas palavras de modo tão extraordinário. e estendeu para o filho a mão fria como o seu olhar. De Alençon fez um movimento para se aproximar do irmão. meu caro filho .Melhor. Margarida encostou-se a uma mesa e. bebendo com vivacidade o remédio. .E que lhe mandam tomar. . quando Catarina se chegou para a cama. como se acha? . suspendeu-o. A última. porém.O que seria bom. Confesso-lhe que tenho supremo prazer ouvindo-os discutir acerca da minha doença. Boa Margot! . ouviu esse suspiro. minha mãe . tremia pelo amante. e depois ainda talvez melhor. e os olhos fundos do rei.disse Francisco -. alumiou ele o rosto da pobre rainha de Navarra.disse Carlos com um sorriso cuja expressão o duque não pôde penetrar. os fidalgos perceberam que estava acabado o recebimento. meu filho? . melhor. ela receava pelo marido. fez-me muito mal. de que tanto gosta. conservando o seu lugar à cabeceira da cama.disse Carlos desatando a rir. Ama.Então. ou talvez mesmo nada houvesse querido dizer. O duque de Alençon ficou em pé junto da cama.Ora quem é que lhes entende as preparações? .respondeu o rei. Por mais imperceptível que fosse esse sinal. e fez com a cabeça um sinal imperceptível a Margarida. a quem Henrique não tinha tido tempo de dizer coisa alguma.no olhar que ele lhe deitava. vendo o rosto pálido e macilento. .se e aproveitar o belo sol. ele estremeceu e teve medo. recuou para a extremidade da cama. era poder levantar. . beijou-a e depois retirou-se. É que. com o sentimento de terror com que se recua diante duma serpente. . Carlos. Depois fez um sinal de cabeça. . vendo-se a sós com ela. cumprimentou-o e saiu. A ama trouxe a Carlos uma xícara da sua bebida usual. e retiraram-se uns após outros. Por isso. Só ficou Catarina. que a conversação ficou suspensa. dáme de beber. não pôde conter um suspiro e uma lágrima. Carlos. Margarida pegou na mão descarnada que o irmão lhe apresentava.

disse Carlos.E ainda afirmo. .E como fazem bem em não a ensinarem aos reis!. . . meu filho . .Pois não! diga. mas se a senhora tivesse ouvido o que disseram. . na arte mais profumda.Na arte médica? .respondeu Catarina.Fale.Oh! que arte sublime! .disse Catarin a.tornou Carlos atónito .respondeu Catarina -.De modo que tratam o sintoma.disse ele.exclamou Carlos. . tivesse resolvido acabar conscientemente o que começara sem o saber.Fico.Parece-me que esses doutores todos não compreendem a sua doença.Nada. . vale a pena estar doente só para ouvir tão sábias dissertações! . ouvido dizer que há inimigos secretos cuja vingança de longe assassina a vítima. tenho que lhe falar sobre objectos importantes. Carlos estremeceu. recuando ainda mais.Escute.Com ferro ou com veneno? .Pois fica. Julgou que a mãe. como não convém ao meu coração nem ao bem do Estado que fique tanto tempo doente. . e trago a Vossa Majestade o remédio que lhe deve curar o corpo e o espírito. pois que o moral poderia por fim alterar-se.Tiveram.Qual? . na arte que permite ler não só nos corpos. meu filho .Por minha alma! . . . . . . .Deveras? . meu caro filho. minha mãe. pensando que ele ainda vivesse muito. levantando-se sobre o cotovelo e olhando para a mãe.Pode ser .disse Carlos.Entretanto.julgo que tem razão.Senhor. minha Senhora .. . senão também nos corações. em vez de tratarem o mal.Com meios muito mais certos. .Vêem talvez um resultado. .perguntou Carlos. quer que eu lhe diga uma coisa? .Está na própria doença . .Não. . sem perder um instante de vista a fisionomia impassível da mãe. Realmente. .E onde está esse remédio? . reuni os mais sábios doutores. .Tem. que fizeram eles depois da sua doença? 367 . minha Senhora? .disse Catarina -. sem dúvida. na verdade.Mas que é a doença? . meu filho . ouvi Vossa Majestade afirmar ainda há pouco que os seus médicos eram grandes doutores.Pois eu.O que eu esperava.Pois. mas não lhe penetram a causa. . minha Senhora. E as suas consultas tiveram algum resultado? .disse Catarina. não compreendendo ao que a mãe pretendia chegar.disse-lhe ele. muito mais terríveis .

.Meu filho . sim! é verdade. que não se teria atrevido a atacá-lo de frente.Mandei-o prender e levar para Vincenas por causa da travessura de que se trata. Dirigiu contra a pessoa de Vossa Majestade uma conspiração. porém.Se esse conspirador que quero designar. procurava eu provas duma acção mais importante.O seu irmão de Alençon. . mancebo inexperiente. e quanto eram invisíveis os fios dessa misteriosa conspiração.Qual irmão? . . felizmente. . conspirou na sombra. .Nunca duvido do que minha mãe me diz . meu filho.Mas como tentaram matar-me? Tenho curiosidade de saber. ele.Um inimigo de Vossa Majestade. . . ninguém talvez houvesse penetrado a causa dos sofrimentos de Vossa Majestade. felizmente.disse Carlos. . . levado pelo asco que já lhe causava o seu papel de observador. minha Senhora . .Procure bem.lembre-se de certos projectos de fuga que deviam assegurar a impunidade do assassino..Talvez que meu filho duvide. . 368 . só procurava os vestígios duma conspiração ordinária. tem fé nas práticas da cabala e da magia? Carlos comprimiu um sorriso de desprezo e de incredulidade. . eu não.Ah sim? Mas dir-se-ia.disse Carlos. que tenho toda a certeza. .Do assassino? . minha Senhora? . . . dar-se-á porém o caso que ele seja ainda mais culpado do que eu o julgava? .exclamou Carlos . indignado com tamanha astúcia. tanto mais terrível quanto não tinha cúmplices. . ele revelou a Vossa Majestade o lado material da conspiração. . as provas duma travessura de rapaz.disse Carlos.Explique-se. seu irmão estava vigilante. e que no fundo do seu coração já Vossa Majestade designou.Ah!.me. minha mãe? O olhar de Catarina revolveu-se hipocritamente debaixo das pálpebras.disse com vivacidade Catarina. mas. querendo ver até onde ia a dissimulação da florentina.perguntou Carlos. tendo tudo disposto.do assassino. pois conheço o alcance do espírito do culpado. .Depois. meu filho .Explique-se. tivesse conseguido fugir. Catarina abaixou com hipocrisia os olhos. diz? Então tentaram assassinar.respondeu com acrimónia o rei. sorrindo com amargura.Que. Enquanto. .disse.disse Catarina . minha mãe.Por mágica.disse ele. esqueço-me sempre de que tenho irmão .Pois daí vêm os seus sofrimentos .perguntou a florentina -. e estando certo do bom resultado.Muita . que está falando do rei de Navarra.Oh! oh! .

Sou eu? . . . como sabe a senhora descrever todo o meu sofrimento? . .Digo não .Veja o que tem na cabeça . é simplicíssimo . . . que se fechava constantemente sempre que julgava que se podia ler nela. .É uma coroa. Se tivesse querido torná-lo louco.disse a florentina -.E as dores agudas de cabeça que lhe passam pelos olhos para lhe chegarem ao cérebro como outras tantas setas? . . . é exacto.E quem foi que fez esse boneco? . franzindo a testa. veja que letra está escrita no papelzinho que tem na extremidade. não se reconhece? . por cima. .Sim. pronto para o rei de Navarra. como ao rei Carlos VI fez o duque de Bretanha.. . cansado com toda essa comédia. e que significa essa estatuazinha? . Diria sim se Vossa Majestade me tivesse feito a pergunta por outro modo. da altura de seis polegadas.Vejo um .disse Carlos.Foi sem dúvida o rei de Navarra? .Então.Sente a febre que o devora? .disse Catarina. de La Mole? .perguntou Carlos.Também sinto.Bem. E então? . .Sente o fogo que lhe abrasa o coração e as entranhas? .disse Carlos. olhe mais para a agulha de aço que atravessa o coração. teria cravado na cabeça o alfinete com a letra .tornou Catarina . em casa do homem que no dia da última caçada tinha as rédeas dum cavalo seguras na mão. Mas.Exactamente.tornou Carlos.continuou Catarina -. 369 Carlos não respondeu. oh! sinto tudo isso!. o encantador escreve assim o seu voto na própria chaga que faz. pouco mais ou menos. . . e se quiser. também de cera.Não? então já não a entendo. e. cada vez mais terrível.Sim.Ora. sim.no coração? . .disse Carlos. olhe.Senhor . E tirou debaixo do corpete um objecto que apresentou ao rei.disse Carlos.perguntou Catarina. Este boneco trajava um vestido com estrelas de ouro. procurava penetrar todos os pensamentos dessa alma tenebrosa. um régio manto da mesma matéria. é Vossa Majestade com a sua coroa e o seu manto! . . é a fórmula mágica. minha Senhora . MORTE.Não senhor.Isto é. Senhor.Em casa do Sr.Uma agulha. Era uma estatuazinha de cera amarelada. esta estátua foi descoberta pelos cuidados do seu procurador-geral Laguesle.porque Vossa Majestade quer saber do facto positivo.Sinto. minha Senhora .

E é essa a causa da minha doença? Mas que devo fazer então? . e que ao clarão dela se descubra a verdade. o Sr. .Não. . pois .Ora! bem vê que não sou mágico .disse a meia voz Catarina . e portanto a quem devo punir. acha. o Sr.e se não falar. . com o punhal ameaça o coração.tornou Carlos ironicamente. e saiu sem ouvir a risada sardónica do rei e a terrível e abafada imprecação que acompanhou essa risada. O rei perguntou a si mesmo se não haveria perigo em deixar assim essa mulher.Desejo-o. ao contrário da senhora.Pois não sabia isto? . minha Senhora . . Depois. louvado seja Deus! . em vez de M. Sei agora. .A senhora conhece tudo isso perfeitamente.Assim. O rosto de Catarina desenrugou-se.E havemos de punir. que toda a sua vida se ocupou disto.disse Carlos -. .disse o rei. e se tiver cúmplices. . que em poucas horas poderia fazer tanto .disse Carlos atónito.Completamente.Assim. que quem ameaça a minha vida é o Sr.Pois sim. de La Mole.Decerto.A morte do inventor destrói o encantamento. como a senhora sabe. .L.O Sr. e quanto antes melhor. Sim .Deveras? . é do fundo do coração.E a convicção vai expelir a inquietação? . de La Mole. há o braço que o impele. 370 Catarina apertou a mão do filho sem compreender o estremecimento nervoso que agitou essa mão quando tocou na sua. minha mãe.disse Catarina. . faz-se com que fale.Louvado seja Deus! .disse Carlos. É urgente que se faça luz. está Vossa Majestade convencido? . . a quem atribuir o estado em que me encontro. não me disse que era ele o culpado? .Sim. mas eu.exclamou ela. mas além do punhal.Dá pois licença que comece o processo? . comecemos por ele. .Disse que era o instrumento. em voz alta e levantando-se: . de La Mole? . como se alguma vez tivesse acreditado em tal. . Todas essas crises que me acometem podem fazer nascer em torno de nós perigosas suspeitas. minha Senhora. .E agora. . acabará a sua doença .Serve-me admiravelmente como culpado.Não é por condescendência que está falando? .respondeu Carlos -. é o mais importante.Sim senhor. No dia em que o encantamento for destruído. . de La Mole primeiro. . temos para isso meios infalíveis. ignoro tudo que diz respeito a mágicas e cabalas. há-de falar.

Ele que lho pediu? .Primeiro Henrique. . ter-se-ia dito que tinham medo até de se escutarem.disse Margarida.Que pessoa é essa? . que o ama. . . Senhor. Margarida.Ela quem? . que é o seu verdadeiro amigo.disse Margarida atónita -. olhos alucinados e peito opresso mostravam a mais violenta comoção: . . ouviu por detrás de si um leve roçar e.Porque ele próprio mo pediu. em tanta segurança quanto aquela em que pode estar um homem por quem Beaulieu me responde com a cabeça. . .Julgas isso. mas por quem. pobre Margot. Talvez esteja enganado. o que disse a nossa boa mãe? .Senhor. . ele não é o culpado do segundo. .Ah! . cuja palidez. enfim. talvez tenha razão.disse Carlos -. não me atrevo porém a dizê-lo ao meu rei.E foi isso. Mas. . . .Então ele está em segurança? . . quando era culpado só dum crime.perguntou Carlos. meu irmão.exclamou. Neste momento. estando a olhar para a porta pela qual saíra Catarina.disse Carlos. é por certo terrível uma filha acusar a mãe. meu irmão .disse Margarida . . que cometeu dois.Oh! Senhor.Mas . como o mandou prender e levar para Vincenas? . .Ah! compreendo agora .bem sabe que ela mente.disse Carlos.mal que não fosse possível depois remediá-lo. . mal me atreveria a dizer o seu nome a meu irmão. precipitando-se para a cama do irmão . por quem talvez faça mal em interessar-me. se está certo disso. pela minha vida. todavia. porém. voltandose. e só por milagre escapou à sua vingança. . quanto a Henrique.Pois eu também . poupe-me. me interesso. o seu querido Henriquinho. mas. Margot? . mas logo desconfiei de que ela ficava aqui para ainda os perseguir. .Senhor. que erguia o reposteiro da porta que dava para o quarto da ama. viu Margarida. uma das suas ideias é que está mais seguro no meu desfavor do que na minha amizade.perguntou Carlos.Há outra pessoa. Mas. longe do que perto de mim. .Sim.Que mais? . em Vincenas do que no Louvre. .Ouça. estou certíssima. não ouviste. Margarida.Ora.É o senhor de La Mole. não é? .Então.Persegui-los? quem persegue ela? Ambos falavam baixo por instinto.Obrigado. tem ideias extravagantes esse Henriquinho. pela sua.Ah! Senhor! Senhor! . Carlos.Vossa Majestade já o quis matar uma vez. que lhe é dedicado mais do que ninguém neste mundo. pelas almas de nós ambos! digo-lhe que ela mente.

. 371 .exclamou Margarida. já lhe disse que ela mentia! .Contra Vossa Majestade? . meu irmão.disse Carlos -.E isso que me importa! .Não sabes que foi achada uma estatuazinha de cera no quarto do Sr.Que essa estatuazinha tem o coração varado por uma agulha.Meu irmão! .disse Margarida. de La Mole.Chama-se Margarida .disse Carlos.Não quer dizer morte Senhor. . abaixando a voz -. .Impossível?.Se te dissesse que conheço o verdadeiro criminoso?.Também sei isso.tornou Margarida.Sei.Mas esse M? . Margot. pode também ser ouvida. quer dizer o nome da mulher amada pelo Sr. . e não um malefício para matar um homem. . . Olha para mim. .Sim. tanto como tu sabes.O verdadeiro criminoso? . representa uma mulher e não um homem. levantando a cabeça. . tomando-lhe a mão nas suas e encostando nessa mão o seu rosto lavado em pranto. . . voluntário ou involuntário.E essa mulher chama-se. A rainha olhou para o irmão e estremeceu. silêncio! .Margot! e se eu te dissesse que sei.Que essa estatuazinha. de La Mole? .Impossível! .Sim .Se eu te dissesse que sei que o Sr. . vendo-o tão pálido. . olhando para todos os lados com a vista chamejante e com aspecto carregado silêncio! que assim como ouviu. . Carlos . . ajoelhando aos pés do rei.disse a rainha de Navarra.Oh! já lhe disse.Contra mim. ..Então que quer dizer? .Pois então houve um crime? . de La Mole está inocente?.Pois então. .Minha irmã. e a agulha que lhe atravessa o coração? . sei. que tens que dizer? .Oh! que não esteja aqui o mundo inteiro para me ouvir! Diante do mundo inteiro eu declararia que é infame abusar do amor dum homem para nodoar a sua reputação com a suspeita dum assassinato. que tem um manto régio nos ombros e uma coroa na cabeça. o que é verdade e o que é falso?. e que esta agulha tem uma bandeirazinha com a letra M? .Quer dizer. como pretende a rainha-mãe. um crime foi cometido. .É um encanto para se fazer amar por essa mulher.Sabe-o? .

. Contar-te-ia.exclamou ela . e retirou-se toda .E conhece Vossa Majestade o criminoso? .Margot. foi por ele dado a uma sua patrícia. . . ali está no meu gabinete. de Alençon?. de La Mole.O senhor. mas é necessário que o julguem culpado.Sim.Quem? . foi pedir-lhe um livro de montaria que ele tinha na biblioteca. e verás que esse livro.Sim.disse Carlos. .. não é ele. então. por exemplo.Renato? .exclamou ela. que um veneno subtil foi deitado em cada página desse livro. Perdão.Ou então. a morte do teu amante. . é pouco.isto é impossível! . não poderei durar mais de três meses.é necessário que acreditem que morro por arte mágica.Margot. . . bem sei. . .Vossa Majestade disse que não era o Sr. nossa mãe?.disse Carlos .É pena que não esteja aqui Renato para te contar a minha história. a quem ele nada pode negar. Carlos calou-se. que contém ainda nas suas folhas a morte de vinte pessoas. perdão! bem sabe então que ele está inocente. caiu prostrada. . .Não. Margarida curvou a cabeça.disse Margarida. . Mas.Talvez. Margarida abaixou a voz como espavorida do que ia dizer: . meu Carlos? .Ou então. compreendendo que nada havia a fazer para salvar La Mole por esse lado.Bem vês agora que devem acreditar que morro por arte mágica.Meu irmão. se queres ver o livro. .Mas é iníquo! é abominável!. estou envenenado! Margarida deu um grito.disse a meia voz Margarida. . .Cala-te! . que uma mulher. meu irmão? tu.Também não. Carlos! silêncio! . lendo-lhe nos olhos tudo quanto neles procurava. Margarida olhou para ele e. . com um riso estridente. e escrito pela mão do florentino.Nem por certo Henrique.Conheço-o. na falta de Renato. nas mãos doutra pessoa que não eram as daquela a quem fora destinado. pois. destinado não sei a quem. que o veneno. .Oh! meu Deus! meu Deus! . . Sofre. para que o segredo morra comigo.Meu Deus! seria então.Impossível? . bem vês que eu sofro a morte. por casualidade ou por castigo do Céu.Silêncio. para salvar a honra da casa de França. . 372 . caiu.

estava persuadido que. conforme as instruções de Catarina. sem contar. e que lança em todo esse negócio sanguinolento muita luz. os interrogatórios tinham versado sobre os desígnios do rei de Navarra. e escrevia ao procurador Laguesle uma carta que a História conservou integralmente. quando viu que de súbito tomava o interrogatório outra direcção. Henrique e Margarida não tinham feito tentativa alguma de fuga. Catarina não perdia um só minuto. 373 LVI OS ESCUDOS INVISÍVEIS No dia seguinte àquele em que Catarina havia escrito a carta que se acaba de ler. sem contar que. o processo tomaria bom caminho: a acusação não era mais concludente contra eles do que contra os mais. como livros e papéis. e isso contra o rei. pois. Cocunás foi convidado a descer à sala em que o procurador Laguesle e dois juízes o esperavam para o interrogatório. dispunha-se ainda para responder do mesmo modo. Textual. Tratava-se de uma ou de muitas visitas feitas a Renato. Ei-la: Senhor Procurador: deram-me esta tarde como certo que La Mole cometeu um sacrilégio. o governador entrou no quarto de Cocunás com aparato mais respeitável: ia acompanhado de dois alabardeiros e de quatro homens de togas negras. La Mole e ele. Nos oito dias decorridos depois da prisão. . ficar muito comprometidos em negócios em que ficavam livres os principais culpados. Cocunás tinha respondido constantemente com profunda sagacidade. Entretanto. Em sua casa. Cocunás ignorava que Henrique estava na mesma fortaleza que ele. com alguma destreza. e de antemão tinha preparado todas as suas explicações. dizemos. e assentado na mais absoluta negativa. como Carlos tinha previsto. que sem nada lhes haver dito lhes havia outorgado essa mercê. em Paris acharam muitas coisas que o comprometem. sobre os projectos de fuga e sobre a parte que nela podiam ter os dois amigos. não por certo devido exclusivamente à sua filantropia. reunidos um momento por mercê do chaveiro. Cocunás havia reflectido muito. que La Mole e ele tinham ajustado como haviam de proceder.chorosa. e a condescendência do seu chaveiro dizia-lhe que por cima da sua cabeça adejavam protecções a que chamavam escudos invisiveis. não tendo mais esperança senão nos seus próprios recursos. não podiam eles. Até então. o mais depressa possivel o processo da estatuazinha de cera à qual traspassaram o coração. Catarina. Rogo-llhe que comunique isto ao primeiro presidente e que organize. de um ou de muitos bonecos de cera mandados fazer por La Mole. todos os dias.

quando um bilhete. O procurador meteu na algibeira o bilhete. pois. a letra quase que o . Interrogaram-no sobre as suas visitas a Renato: respondeu que uma única vez tinha ido à casa do florentino. 374 Fizeram-no então descer. viu. mas em prosa já se haviam repetido muito essas palavras. Julgo que tudo vai bem" disse consigo. La Mole. entregue ao procuradorgeral. cortou a dificuldade. respondeu que Renato lhe havia mostrado essa estátua já pronta. quase tão dolorosa como uma decepção: esperava que o bilhete fosse de Margarida. Perguntaram-lhe se não representava ela um homem: respondeu que representava uma mulher. porém. O bilhete dizia assim: Se o acusado negar recorram aos tormentos. Os juízes olharam uns para os outros como indecisos. como Cocunás. a resposta. estou desarmado. de quem não tinha notícia desde que estava preso. em vez de ser uma traição ao rei. que de há muito nem ele nem o seu amigo brincavam com bonecos. e ainda por cima essa estátua tinha apenas oito a dez polegadas de altura. Perguntaram-lhe se dessa vez não havia encomendado uma estatuazinha de cera. . e viu um bilhete. Essas perguntas foram feitas. La Mole voltou para a masmorra quase tão alegre como Cocunás. a acusação abandonar a sua primeira direcção. sorriu para La Mole e despediu-o com polidez. bem capacitado de que o mensageiro não podia ser senão o chaveiro. a todas as perguntas. Daí a uma hora ouviu passos. de mil modos diferentes. muito alegremente. para quem ele fazia todo esse espalhafato. e Cocunás pôde capacitar-se que tinha meio desarmado os juízes. Concluído o interrogatório. veio-lhe ao coração uma esperança. Perguntaram-lhe se o encantamento não tinha por fim matar esse homem: respondeu que tinha por fim fazer-se amar por essa mulher. não sabendo bem o que dissessem ou que fizessem. por mais que se repetissem. com espanto. sem ver que mão lhe dava movimento. e fazendo tanta bulha. Cocunás julgou que a acusação muito perdia da sua intensidade.C.Embora preparado. e com prazer observou que muitas das suas respostas tiveram o privilégio de fazer rir os juízes. pois eles tinham sorrido. já não se tratava senão duma estátua de rainha. Vendo o bilhete. teve de tirar as mais felizes conjecturas. que La Mole. foi constantemente a mesma. repetidas e revolvidas. diante de tal simplicidade. que se introduzia por baixo da porta. pois. Apanhou-o. Ainda não se tinha dito em verso: Ri. Apanhou-o todo trémulo. Respondeu. subiu para o seu quarto tão alegre.

. faziam estalar o coração duma mulher meio reclinada sobre almofadas de veludo. tenha fé no que o piemontês chamava os seus escudos invisíveis que levemos o leitor a essa casinha. parava de repente. Ah! se ela está vigilante.Interrogaram-nos esta manhã sobre a fuga do rei. mesmo formosa e sofrer o que sofro .Querido La Mole!. como Cocunás.exclamou La Mole.Pois sim. levantava-se pálida e. esmigalhou-o. Anteontem foram apalpados.se está vigilante. tantas doces recordações. com o rosto lavado em pranto. Ser rainha. forte. . De repente.E pensaste no nosso projecto? .oh.Oh! bem sabia eu que nada diriam.Antes.Ah! .Pelo chaveiro? . no meio da sua agitação.Tenho notícias deles. estou salvo! É necessário.fez morrer de alegria. ouviu-se um roçar de seda e apareceu a duquesa de Nevers.E então? . mas nós havemos de salvá-los. levantava-se. rica.exclamava essa mulher . . e agora mesmo está ela em Vincenas. . e para que. e nada disseram.exclamou Margarida . . Ânimo! (dizia o bilhete) estou vigiando.De ontem para cá não me ocupei de mais nada. cobrindo de beijos o papel em que tocara tão querida mão . é impossível! Depois. . .Aníbal escarneceu dos inquiridores.E os nossos queridos presos? 375 .E Renato? . estão todos os dias juntos por algum tempo.Então. torcia os braços com gritos de angústia e tornava a cair prostrada sobre alguma cadeira. em que tantos perfumes mal evaporados. . mas esse silêncio mataos como se falassem. . que notícias há? . andava. a esse quarto. sobre os seus projectos de rebelião na Navarra. Oh! minha .Bom Aníbal! Que mais? .Antes de lhe poderes falar? . em vez de entregar o teu retrato.és tu! com quanta impaciência te esperava! E então.Acabo de concluir o ajuste com Beaulieu.Foi preso. o reposteiro que separava o quarto da Rua do Sino Rachado do quarto da Rua Tizon levantou-se. transformadas em angústias. . .Como sempre. . encostava a testa abrasada ao mármore frio dos trenós.E então? . . La Mole. para que La Mole compreenda esse bilhete. .Más! más! minha pobre amiga: a própria Catarina preside ao processo.

.Perfeitamente. eu.O ricaço. . exclamou: Por três beijos.Esse mesmo..disse em voz baixa Margarida. pois .De graça.Por esse preço teria achado mil .exclamou a duquesa.Pelo mesmo preço? .E achaste homem que sirva? . .É verdade . . . foi simplesmente por quinhentos escudos. Há-de pagar o rei de Navarra. Henriqueta? .E depois. não. . e há-de pagar meu irmão Carlos. . . um na fronte e os outros sobre as fontes (ornato que lhe assenta muito bem).respondeu Henriqueta. Esqueceste-te de que é necessário que haja um homem morto? . e só pede a vida dum homem e trezentos mil escudos? é de graça!.Oh! isso não obsta. o duque de Alençon há-de pagar também. toucada com três rubis.Olha.querida rainha.Para todos. o usurário? .continuou Henriqueta -.Boa! .Por tão pouco achaste quem consentisse ser morto? .Assim..E como os obtiveste? . e trezentos mil escudos?. que homem ambicioso e difícil! Há-de custar a vida dum homem e trezentos mil escudos. vendo passar certa senhora loura. no lugar em que estão esses rubis. sorrindo. com um tom ingénuo que dá ideia do século e da mulhereu também gosto do meu Aníbal!. de olhos verdes.perguntou Margarida. o dinheiro e o homem estão prontos. Ora um dia.Depois. E apertou-lhe a mão.Oh! Henriqueta! Henriqueta! . estás falando como uma louca! Os trezentos mil escudos já eu os tenho.O homem? Que homem? .tê-los-á roubado? . faria eu nascer três brilhantes de cem mil escudos cada um! . e já estão vendidos. .É segredo? .Oh! meu Deus! . .O que tem de ser morto.Tu? .disse Margarida. dizes tu. graças aos nossos três brilhantes.Vais saber como foi. . minha querida. ou senão. Não. sorrindo e corando ao mesmo tempo -. 376 . menos para ti.Sim. gostas muito dele e até com excesso.Eu cá sei! . os brilhantes nasceram. o ricaço. Lembras-te daquele horrível Nantouillet? . e não sabendo que essa senhora era uma duquesa. . . . Todas as tuas jóias e todas as minhas não chegam a tanto. o usurário.Dizes que é difícil e ambicioso.disse Margarida sorrindo no meio de lágrimas .

nem podia esquecê-lo. dar-lha-á Aníbal.Ouve: a capela é o único lugar da fortaleza em que podem entrar as mulheres que não estão presas. . e.Oh! bem sei isso. cada uma de nós atira a capa ao seu. rindo. saem da Ilha de França e vão para Lorena.Má! bem merecias que eu me calasse.Mas se te virem nos arredores de Vincenas. e minha mãe? . .Mas . . há muito tempo. . Cocunás fere o chaveiro. fugimos com eles pela portinhola da sacristia. assim. o nosso homem receberá dos dois lados e repetirá a fábula do pelicano.Sossega.Pois ouve: o chaveiro a quem está confiada a guarda de La Mole e Cocunás é um soldado velho que sabe o que é uma ferida. esteve mais alegre. dada com jeito. .Já te disse qu