CORNELIUS RYAN

O DIA MAIS LONGO
Tradução de MARIA DO CARMO OLIVEIRA Título do original: The Longest Day Copyright by Cornelius Ryan

DIFUSÃO EUROPÉIA DO LIVRO Rua Bento Freitas, 362 Rua Marquês de Itu, 79 SÃO PAULO 19 6 3

Direitos exclusivos para a língua portuguesa Livraria Bertrand, Lisboa e Difusão Européia do Livro, S. Paulo

"Acredite-me, Lang, as primeiras vinte e quatro horas da invasão serão decisivas... Delas dependerá o destino da Alemanha... Tanto para os Aliados como para nós esse será o dia mais longo."
O Marechal Erwin Rommel ao seu ajudante de campo 22 de abril de 1944

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............................................. 9 SEGUNDA PARTE ............................. 8 PRIMEIRA PARTE ...A Noite .O Dia ..................ÍNDICE Prefácio ..................................... 216 ....A Espera ....................... 78 TERCEIRA PARTE ........................................................................................................................ 137 APÊNDICES ...............

a OPERAÇÃO OVERLORD. Juno e Sword. ao longo da costa francesa. após martelamento maciço. estendiam-se cinco praias de desembarque. para estas praias. Eram os batedores. Gold. Neste momento preciso. A partir das seis horas e trinta. patinhando. avançaram. O que se segue não é um relato militar. As forças aerotransportadas traçaram assim as linhas do campo de batalha da Normandia. Cinco minutos mais tarde. pequeno grupo de homens da 6ª divisão aerotransportada inglesa fizera o mesmo. a cerca de setenta e cinco quilômetros. Durante as horas que precederam a aurora. dia que conservaria eternamente na História o nome de "D-Day" (Dia D).ª e 82. encarregados de balizar as zonas onde desceriam os pára-quedistas e onde aterrariam os planadores que transportavam a infantaria. batizadas: Utah. dos inimigos que eles combateram. alguns milhares destes homens. começou precisamente à meia-noite e quinze do dia 6 de junho de 1944.ª divisões aerotransportadas americanas saltaram dos seus aviões no luar da noite normanda. constituindo a primeira vaga da invasão. Entre elas. alguns homens cuidadosamente escolhidos e pertencentes às 101. É a história dos homens das Forças Aliadas. Omaha. enquanto os pára-quedistas se batiam nos obscuros caminhos baixos da Normandia. o exército mais colossal que o mundo jamais conhecera começava a reunir-se ao largo destas praias — cerca de cinco mil navios transportando mais de duzentos mil soldados e marinheiros.Prefácio A INVASÃO da Europa pelos Aliados. . aquela que pôs fim à demente tentativa de Hitler de dominar o mundo. dos civis que foram surpreendidos pelo caos sanguinário do Dia D — uma história humana —. a do Grande Dia que marcou o início da última batalha. naval e aéreo.

La Roche-Guyon estava calma — tão calma que parecia abandonada. Embuçadas nos capotes de camuflagem. o sino de Saint-Samson. com as suas muralhas de pedra luzindo de umidade. La Roche-Guyon era. uma capela do século XV pertencente ao castelo. Chamava-se La Roche-Guyon e dormitava docemente há doze séculos num anel do Sena. aproximadamente a meio caminho entre Paris e a Normandia. Por trás das persianas corridas havia pessoas que esperavam que um sino tocasse. o sino marcaria o fim do recolher e o começo do milésimo quadringentésimo qüinquagésimo primeiro dia da ocupação alemã. Tinha instalado o seu quartel-general no castelo de La Roche-Guyon. Nessa manhã. para cada quinhentos e quarenta e três habitantes do aglomerado e dos seus arredores campestres. este silêncio era um logro. não passara de uma aldeia que se atravessava. Já há muito que as ave-marias não lançavam só um apelo à meditação. que pôs fim à calma existência de La Roche-Guyon. Um desses soldados era o marechal de campo Erwin Rommel. Nessa manhã acinzentada. Contudo. os metralhadores podiam ver tudo o que se passava na aldeia mais ocupada de toda a França ocupada. em guaritas encostadas às falésias calcárias e às ruínas vacilantes dum antigo torreão que dominava o castelo. .PRIMEIRA PARTE . larga e deserta. mas nada se movia ainda nos dois grandes pátios empedrados. estendia-se a estrada nacional. o castelo dominava tudo. berço dos duques de La Rochefoucauld. Às seis horas em ponto. e na aldeia os guarda-ventos das casas de telhas vermelhas permaneciam fechados. E foi este castelo. a voz de bronze tinha um significado bem simples — os aldeões de La Roche-Guyon benziam-se e murmuravam uma oração. nas trincheiras construídas em cada entrada da aldeia. a força mais potente de que a Alemanha dispôs no Ocidente. tocaria as ave-marias. Em tempo de paz. comandante-chefe do grupo de Exército B. Estavam prestes a soar seis horas. A sua única curiosidade residia no castelo. visto que. na realidade. Durante anos. uma prisão.A Espera CAPÍTULO I NA ÚMIDA madrugada de junho a aldeia estava silenciosa. estavam de guarda nos gradeamentos do castelo. havia mais de três soldados alemães. Viam-se sentinelas por todo o lado. Sob a sua fachada pastoril. contra um cenário de falésias. Lá do cimo. debruçado dum cume rochoso por cima da aldeia. Para além dos gradeamentos.

Neste quinto e crucial ano da segunda guerra mundial. Já há alguns meses que as tropas de Rommel aguardavam. defendendo cerca de mil e quinhentos quilômetros de costa.º Exército. Nada acontecia. um Rommel tenso. Estava-se a 4 de junho de 1944. gracejavam amargamente. Noite após noite. por assim dizer. ocupava um setor extremamente calmo e que nunca tinha. . repetindo que o 7. com os nervos arrasados pelos bombardeamentos constantes. Sob o seu comando. mais de meio milhão de homens mantinham a Muralha do Atlântico. a sua unidade mais importante. nada deixava adivinhar um próximo desembarque. O 15. Os veteranos do 15. Em La Roche-Guyon. nessa madrugada calma e enevoada de domingo. os bombardeiros aliados martelavam a região. desde os diques da Holanda até às praias meridionais da Bretanha. entrincheiradas atrás de inextricável selva de defesas de concreto e de campos de minas. sido bombardeado. acantonado na Normandia.° Exército. estava concentrado frente ao Pas-de-Calais. quase desesperado. o ponto mais estreito entre a França e a Inglaterra. preparava-se para comandar a mais terrível batalha da sua carreira.° Exército. Mas nenhum navio vinha sulcar as águas cinzentoazuladas da Mancha.

Partiria de carro. mas fora a custo que se decidira a gozá-la. Lucie-Maria. o vira dormir mais de cinco horas. Nunca ninguém. ao fim de muitos meses. de trinta e cinco centímetros de comprimento. A sala era ampla e de teto alto. dizimada. perto de Ulm. poucos mais móveis havia. mas mantinha-se infatigável. outrora tão poderosa. Manfred. conversível preto. as forças russas invadiam a Polônia. forrado de veludo vermelho. Seria a sua primeira licença. Numa outra. Além de algumas poltronas sobre o chão encerado e de espessos cortinados nas janelas. nem de seu filho de quinze anos. Aliás. O Terceiro Reich de Hitler sofria catástrofe após catástrofe. Nada. Rommel carregava sobre os ombros a pesada responsabilidade de repelir o ataque aliado. Nessa manhã. levaria oito horas para chegar a Harrlingen.CAPÍTULO II No SALÃO do rés-do-chão que utilizava como escritório. Nem mesmo recordações das vitórias alcançadas nos desertos da África. A Alemanha . levantara-se antes das quatro horas.. Rom-mel estava só. onde e quando se desencadeasse. Hitler tinha estritamente proibido aos seus generais que andassem de avião. Rommel parecia mais velho do que era. dia e noite milhares de aviões aliados bombardeavam a Alemanha. a figura altiva do Duque François de La Rochefoucauld — o autor das Máximas — julgava o mundo do alto da sua pesada moldura dourada. sobretudo de Rommel. Uma tapeçaria dos Gobelins de cores desbotadas cobria uma das paredes. Tomaria então o pequeno almoço com o seu estado-maior e partiria em seguida para a Alemanha. e sempre escoltado por caças". Rommel não gostava de aviões.. nem fotografias de sua mulher. no seu Horch. cedia terreno. (Rommel só tinha empunhado uma vez esse pesado bastão de ouro. constelado de águias douradas e de cruzes suásticas de esmalte negro: no dia em que o recebera. também ele. os exércitos aliados estavam às portas de Roma — em todas as frentes a Wehrmacht. Aos cinqüenta e um anos. A lendária "Raposa do Deserto" estava mais misteriosa e longínqua do que nunca: se saísse dessa sala não deixaria nela o menor rasto da sua passagem.) Não tinha sequer mapas indicando a colocação das suas tropas. aguardava impacientemente as seis horas. Sentado a uma grande secretária Renascença. além de si próprio. como de costume. E agora. trabalhava à luz de um único candeeiro. nem sequer o suntuoso bastão de marechal de campo que Hitler lhe dera com entusiasmo em 1942. a menos que se tratasse "dum aparelho trimotor. do grupo de Exércitos B. Aguardava esta licença com ansiedade.

aos gritos de "Abaixo Churchill e os judeus". mas o desembarque aliado decidiria do resultado da guerra.. quartel-general de von Rundstedt.. A 27 de abril: "Os ingleses e os americanos.. Em menos de quatro meses. sentia grande necessidade de repouso.". comandante-chefe dos exércitos do Oeste.ainda estava longe de ser vencida. o moral está baixo. Desde o dia em que chegara a França... embora tivesse corado se o confessasse. Como todos aqueles que defendiam a frente da invasão. nessa manhã.. Há meses que sonhava passar na Alemanha os primeiros dias de junho. O destino da Alemanha ia ser jogado. semana a semana... Havia numerosas razões que o levavam a acreditar que poderia ausentar-se nessa altura e. ficaram surpreendidos com o aspecto de Rommel. não nos vão dar o prazer de vir num futuro próximo".. para lhe pedir autorização. Dia e noite. ninguém o sabia melhor que Rommel... Só nos restam . procurava prever as intenções dos Aliados — como se lançariam ao ataque. Julgo que somente algumas semanas nos separam dos acontecimentos decisivos. formulava uma idéia sobre o próximo ataque.. o velho marechal Gerd von Rundstedt. Fizera em seguida uma visita de cortesia a Saint-Germain-en-Laye.. E no entanto. As greves sucedemse. Começo a crer que estão perdendo a confiança". A 15 de maio: "Agora já nem posso fazer longas deslocações (de inspeção). tinha-lhe escrito mais de quarenta cartas e.. prontamente concedida.". Telefonara alguns dias antes ao seu superior.. escrevia: "O mês de março está prestes a terminar e os anglo-americanos não se lançam ao ataque. para fazer esta viagem.. A 30 de março.. Rommel estava efetivamente fatigado e preocupado. ou no fim do mês. Lucie-Maria.. onde tentariam desembarcar e.. A 26 de abril: "Na Inglaterra. a fim de se despedir.. Talvez no dia 15 de maio. A 6 de abril: "Aqui. A 6 de maio: "Sempre sem sinais dos ingleses e americanos. constantemente. Rommel preparava-se para voltar para casa. dia a dia.. a questão da data e do lugar do eventual desembarque aliado constituía fardo opressivo. reivindicam a paz cada vez com mais força. São maus presságios para lançar uma ofensiva". Aguardo o combate com confiança. a tensão aumenta de dia para dia... Von Rundstedt e o seu chefe de estado-maior. sobretudo. julga-se. Tornamonos mais fortes.. em quase todas. tinha vivido longo e estafante pesadelo. porque ninguém sabe quando se irá dar a invasão. quando? Um só ser no mundo conhecia o resultado desta prova. um homem que precisava seriamente de passar alguns dias em casa com a família". Rommel só se abria com a mulher. o General Günther Blumentritt. nos fins de 1943. Blumentritt recordaria mais tarde que o achara "fatigado e preocupado.

. para o OB. No entanto. . fazia das intenções dos Aliados.. Desta vez. antes que isto comece a animar aqui no Oeste". não é assunto que possa ser considerado". A decisão de partir de licença foi fundamentalmente motivada pela idéia que Rommel. Tinha então à sua frente o relatório semanal do grupo de Exércitos B. julgo eu. o relatório seria anexado à exposição geral dos campos de operações e remetido ao quartel-general de Hitler. seriam expedidos ao meio-dia para o quartel-general de von Rundstedt. Rommel anunciava que os Aliados tinham atingido "altíssimo grau de preparação" e que havia "nítido aumento de mensagens destinadas à Resistência francesa". meticulosamente estabelecidos. ao OKW (Oberkommando der Wehrmacht). o assunto foi considerado. A 19 de maio: "Espero poder adiantar um pouco os meus projetos. De momento. Neste relatório. acrescentava.algumas semanas. isto não indica que esteja iminente um desembarque". Mas. (mas) pergunto-me se poderei descansar alguns dias em junho. Rommel enganava-se. ou antes. Os seus comentários. Daí. "pelo que posso deduzir de experiências passadas. como se dizia em gíria militar. após alguns ajustes e floreados. Oeste (Oberbefehlshaber West).

ajudante de campo de Rommel. Lang consultou o relógio: faltavam alguns minutos para as seis. Não haveria escolta. Nessa manhã. O pobre Lang nunca sabia ao certo o que convinha pedir na cozinha. pegou no relatório diário. de modo a poder discuti-lo com o seu estado-maior durante o pequeno almoço. Havia sempre um problema que se punha: o almoço do marechal de campo. Quase toda a gente parecia estar convencida disso. com um pouco de sorte. Como de costume.CAPÍTULO III No GABINETE do chefe do estado-maior. De qualquer modo. chefe do gabinete de operações do grupo de Exércitos B. O . somente dois carros. por trás das portas fechadas. seria lá. Muitas vezes. Rommel preferia assim: detestava atrasar-se devido às momices protocolares. não faça cerimônia. excetuando os bombardeamentos constantes na região do Pas-de-Calais. o Capitão Hellmuth Lang. Mas nessa manhã nada havia de especial: a frente do Atlântico continuava calma. ao verificar com Lang os preparativos de uma longa viagem. De um lado e de outro. Rommel riscava com um traço a lápis a ementa proposta e escrevia com grandes letras negras: Para comer na cozinha rolante. os diversos governadores militares das regiões que deveriam atravessar não haviam sido avisados da passagem do marechal de campo. Por vezes. Rommel não fumava. que os acompanharia. chegariam facilmente a Ulm por volta das três horas. Já não havia dúvida: não levando em conta as outras indicações. Se tencionavam desembarcar. percebia o murmúrio das conversas e o matraquear das máquinas de escrever. Assim. este bombardeamento monstruoso mostrava que era esta região que os Aliados escolheriam para lançar a ofensiva. ao bater de tacões dos comandantes dos setores e às escoltas de motociclistas à entrada e saída das cidades. raramente bebia e pensava tão pouco na comida que freqüentemente se esquecia de comer. embaraçava Lang ao máximo. tinha mandado preparar alguns sanduíches. o de Rommel e o do Coronel Hans George von Tempelhof. de trinta e seis anos. tinha a certeza de que Rommel não pensaria em almoçar. Lang deixou o escritório e percorreu o longo corredor de lambris de carvalho. dizendolhe: — Se desejar mandar acrescentar uma costeleta ou duas para você. Rommel gostava de receber cedo este relatório. além dum termo de caldo. Era sempre o seu primeiro gesto matinal. situado ao fundo do corredor. Partiriam às sete horas em ponto e fariam boa média.

pensava ele. Estava de tal modo absorvido com os papéis que tinha à frente que pareceu não se aperceber da presença do seu ajudante de campo. Mesmo sem ter marcado antecipadamente uma entrevista.. Como Hitler e o Alto Comando alemão. que conhecia as mudanças súbitas de opinião e os impulsos do seu chefe. ativar os trabalhos. O relatório. marechal. De tal modo estava convencido disso que marcara uma data para terminar o programa de defensiva. Lang. a fim de que um desembarque durante a maré baixa só seja possível à custa de pesadas perdas para o inimigo. preparado pelo coronel professor Walter Strobe. Rommel não fazia a menor tenção de anular a viagem. Rommel não levantou os olhos.. O boletim das cinco horas.quartel-general do grupo de Exércitos B fervia de atividade. Lang pousou os papéis sobre a secretária e saiu. Schmundt julgava que poderia ser entre o dia 6 e o dia 9. Por fim. Lang pensava algumas vezes como poderiam dormir com todo este barulho o duque e a duquesa. que ocupavam os aposentos do primeiro andar. esperava ver Hitler. Ao fundo do corredor. pedindo-lhe uma entrevista. para esperar Rommel no corredor. Rommel calculava que o desembarque se efetuaria ao mesmo tempo que a ofensiva de verão do Exército Vermelho ou imediatamente a seguir. — Bom dia. duvidava se partiriam realmente pela manhã. Esta ofensiva russa. Aliás. sabiamno... Fato característico. Bateu levemente. Lang. Lang parou diante de uma porta maciça. No quartel-general de von Rundstedt tinham simplesmente anotado que Rommel iria gozar alguns dias de licença em casa. Rommel estava persuadido de que poderia abandonar o quartelgeneral sem qualquer inconveniente. isto é. Lang não se atreveu a interrompê-lo. nunca antes do fim de junho. . No Oeste. o desembarque não se daria nas próximas semanas. não poderia ser desencadeada antes do degelo da Polônia. O marechal de campo parecia extremamente ocupado nessa manhã. virou a maçaneta e entrou.° Exércitos: "Importa que tudo esteja a postos para acabar a edificação dos obstáculos. o tempo estava mau há já vários dias e ameaçava piorar. Rommel levantou a cabeça. Todos os marechais tinham acesso junto do Führer e Rommel tinha telefonado ao seu velho amigo o General Rudolf Schmundt. — Bom dia. ajudante de campo de Hitler. ninguém estranho ao seu estado-maior pessoal sabia que tencionava encontrar Hitler.º e 15. O mês de maio passara — e o tempo fora especialmente favorável a uma ofensiva aliada — portanto. Esperou. o relatório sobre a sua conclusão deverá estar comigo até dia 20 de junho". Sobre a secretária estava uma ordem dirigida aos 7.

vinda da Mancha. ventos fortes e chuva. Na aldeia de La Roche-Guyon. Eram seis horas da manhã. altas janelas abriam para um roseiral.chefe da seção de meteorologia da Luftwaffe em Paris. . Rommel duvidava bastante que os Aliados ousassem lançar uma ofensiva durante os dias mais próximos. de flores mortas e de ramos. Nesse momento. Também em La Roche-Guyon o tempo mudara durante a noite. Lang — disse como se ainda não tivesse visto o seu adjunto. Pouco antes da madrugada. uma ligeira trovoada de verão. Pouco restava das rosas. o sino de Saint-Samson tocou as avemarias. O vento dispersava as sonoridades do bronze. varrera a costa francesa antes de se lançar impetuosamente para o interior. previa nuvens baixas. — Bom dia. rajadas fortes varriam a Mancha a cinqüenta quilômetros por hora. As aléias estavam juncadas de pétalas. nessa manhã. Rommel abriu a porta do escritório. Frente à secretária de Rommel. — Estamos prontos para partir? Os dois homens foram almoçar juntos.

Só em raros pontos estavam acabadas as fortificações de cimento armado e aço. Viviam juntos há longos meses. não deixava perder um minuto. nos principais portos e estuários. Estava eriçada de enormes canhões. se deveria considerar Rommel como seu sucessor. outro dia a Bélgica. desde o norte do Havre. tal como estava. ficou profundamente humilhado ao ver chegar Rommel com um "Gummibefehl". responsável pela defesa da Europa Ocidental. quartel-general do Führer. Em certos pontos. Pouco depois da sua chegada. Contudo. — Só tenho um inimigo — dizia Rommel a Lang. Von Rundstedt ficou tão humilhado e desapontado com a chegada do jovem Rommel — chamava-lhe Marschall Bubi (Marechal Bebê) — que perguntou ao marechal de campo Wilhelm Keitel. von Rundstedt. e na entrada dos estreitos. no dia seguinte a Normandia ou a Bretanha. Nada daquilo lhe parecia suficiente para deter o formidável assalto que Rommel — que não esquecia a pungente derrota que Montgomery lhe infligira na África do Norte no ano precedente — esperava com firmeza. e o que viu horrorizou-o.CAPÍTULO IV EXISTIA certa amizade entre Rommel e Lang e as suas relações desprezavam qualquer protocolo. Keitel mandou dar-lhe a resposta de que "não devia tirar conclusões erradas" e que. "apesar das suas altas capacidades. obstinado. Rommel não poupava ninguém. nem ele nem os seus homens. chefe da OKW. E isso durava desde o dia em que fora enviado para França. a Muralha do Atlântico representava uma barreira formidável. Lang reunira-se a Rommel em fevereiro e quase não se passara um dia sem inspeção. O marechal de campo. até a Holanda. Em vez de tropas. Nos outros lugares. pedira reforços a Hitler. em novembro de 1943. isto é. ou "ordem elástica". Para vencer o tempo. Nesse outono. autorizando-o a inspecionar as fortificações costeiras — a célebre Muralha do Atlântico — e a apresentar o seu relatório diretamente à OKW. O seu espírito crítico via a Muralha do Atlântico tomar o aspecto duma . O comandante-chefe da frente do Oeste. Geralmente punham-se a caminho por volta das quatro e meia da manhã. Rommel não tinha envergadura para assumir semelhante cargo". ambicioso Rommel de idéias fixas. deram-lhe o audacioso. estava tudo por fazer. Um dia seria a Holanda. e rodavam erre grande velocidade até aos mais longínquos postos controlados por Rommel. não havia bastantes. os trabalhos sequer tinham começado. Rommel procedeu a uma inspeçãorelâmpago da Muralha do Atlântico. na opinião de Rommel. aristocrata de sessenta e oito anos. mais ou menos. Mas. — é o tempo.

Após o esmagamento da França. e já os países da Europa Ocidental caíam um a um. Hitler. o Luxemburgo. precisamente em vinte e sete dias. Denunciava-a como uma fantasia saída da enevoada imaginação de Hitler. a Grã-Bretanha começou a erguer-se. frente à Inglaterra. só faltava a Inglaterra. O tempo correu. doravante. as fortificações eram inexistentes. certo de que os britânicos pediriam a paz de joelhos. A Noruega. Que teria Hitler feito de uma muralha? Hitler não invadiu a Inglaterra. que começava nos gelos do Ártico para terminar na costa de Espanha. Desde o outono de 1941. estendia-se ao longo de cerca de quatro mil e quinhentos quilômetros. ante os olhos incrédulos do mundo inteiro. Mesmo no local mais estreito da Mancha. Halder.fortificação de teatro. lentamente mas com segurança. A Áustria e a Tcheco-Eslováquia haviam sido anexadas antes de começar a guerra. Exprimiu a opinião de que essas fortificações. Depois. lançaram os ingleses ao mar. e a situação mudou rapidamente. Desde 1939 que a Polônia fora partilhada entre a Rússia e a Alemanha. esta frente. "se alguma vez viessem a ser necessárias". a Bélgica. em Dunquerque. A guerra não começara ainda há um ano. a França e. A Dinamarca fora invadida num só dia. Mesmo sem contar com os recortes da costa. as tropas de Hitler invadiram a Holanda. quase risível. um ponto fraco. Com a ajuda americana. uma fenda na couraça... O General Franz Halder. em maio e junho. que não perdoava ao Führer ter-se recusado a invadir a Inglaterra. o Führer e os seus arrogantes nazis estavam de tal modo certos da vitória que não sentiam a necessidade de aumentar as fortificações. sapada pelo interior. Até 1942. resistira mais tempo: seis semanas. mas. . Mas Hitler estava obcecado pela sua idéia de fortaleza. Os seus generais instigavam-no a isso. E nesse mês de dezembro. mas ele preferiu esperar. que o Führer propusera aos seus generais fazer da Europa uma "fortaleza inexpugnável". como maçãs demasiado maduras. então chefe do Alto Estado-Maior alemão. Podia-se dizer que dois anos atrás esta Muralha não existia. Hitler delirou e bramou aos quatro ventos: "Uma faixa de bastiões e fortificações gigantescas cobre a costa desde Kirkenes (na fronteira finonorueguesa) até aos Pireneus. sem qualquer aviso. Tomei a decisão inabalável de fazer com que esta frente seja impenetrável a todo e qualquer inimigo!" Fanfarronice demencial. mostrou-se extremamente reticente. excessivamente comprometido na frente russa — atacara a União Soviética em junho de 1941 — acabou por compreender que a costa da França já não era um trampolim para uma ofensiva. quando os Estados Unidos entraram na guerra. nunca esqueceria a primeira vez que Hitler o pusera a par do seu insensato projeto. Os estandartes de cruzes gamadas flutuavam por toda parte.

Apesar de tudo. o Führer começava a temer uma segunda frente. Pelos fins de 1943. Na Rússia. fora do tiro dos canhões da marinha de longo alcance". abandonou-se a uma cólera incrível. As perdas canadenses elevaram-se a novecentos mortos e cerca de três mil feridos. embora a Muralha estivesse longe de estar terminada. como todos os outros oficiais-generais do alto comando. durante a qual mais de cinco mil heróicos canadenses desembarcaram na França: levantar de pano sangrento do desembarque. por cima. senão as tropas seriam esmagadas lá mesmo. O desembarque foi desastroso. só alguns fortins foram equipados com torrinhas giratórias.. Milhares de trabalhadores requisitados apressaram-se dia e noite. Hitler lançou-se com ímpeto para uma mesa sobre a qual estava aberto um grande mapa e. mas sabia. Conseqüentemente. Foram encomendadas quantidades astronômicas de aço. face a incessantes ofensivas soviéticas. Batendo com os punhos sobre o mapa. disse esganiçando-se: — As bombas e os obuses cairão ali. Mas as tropas estarão perfeitamente ao abrigo no interior! Em seguida. que. atrás. e teve de resolver outro problema angustiante: encontrar divisões para ocupar estas fortificações. Bramou aos seus generais e rugiu que a Muralha do Atlântico deveria ser construída a toda velocidade. sairão para se bater! Halder não respondeu. mas havia tão pouco disponível que os engenheiros tiveram que passar sem ele. visto estas toninhas necessitarem de aço. trabalhou-se sem entusiasmo nestas fortificações. enquanto a Wehrmacht tentava manter uma frente de três mil quilômetros. quando a sorte da guerra começou a mudar.deviam ser edificadas "longe do litoral. de tal forma que em toda a Europa foi impossível encontrar concreto ou cimento para outros trabalhos. um desembarque. E foi-o. Hitler não ignorava que o desembarque era inevitável. a despeito das vitórias embriagadoras do Reich. e até ali. trabalhavam nela mais de meio milhão de homens. ainda retinha alguns milhares de . Utilizaram-se milhões de toneladas de concreto.. as divisões eram destruídas e dizimadas uma apôs outra. as fortificações transformavam-se em ameaçadora realidade. diante da Muralha. o campo de alcance das peças ficou portanto forçosamente restrito.. em benefício da Muralha do Atlântico. Os Aliados souberam assim até que ponto os alemães tinham fortificado os portos. Seguiu-se a incursão de Dieppe. os comandos britânicos assaltaram a famosa fortaleza "inexpugnável" da Europa. mas Hitler teve dificuldade em se recompor. A Itália. Em 1942. durante cinco minutos. posta fora de combate depois da invasão da Sicília. Tantos materiais eram ao mesmo tempo indispensáveis e impossíveis de encontrar que chegaram a desmantelar a linha Maginot e a linha Siegfried. Era preciso "fanatizar" a construção..

soldados alemães. Hitler foi portanto obrigado, em 1944, a reforçar as guarnições do Oeste com tropas bastante curiosas: velhos reservistas e crianças, os restos das divisões aniquiladas pela frente russa, os "voluntários" arrancados aos países ocupados (polacos, tchecos, húngaros, romenos, iugoslavos, para não falar de outros) e até duas divisões constituídas por russos que preferiam bater-se pelos nazis que apodrecer em campos de prisioneiros. Por mais duvidoso que fosse o valor destas tropas, serviam para tapar buracos. Existiam contudo sólido núcleo de batalhões bem treinados e de blindados. No Dia D, as forças de Hitler no Oeste deviam elevar-se ao número imponente de sessenta divisões. Nem todas estas divisões contavam com efetivos completos; assim tinha de ser, mas Hitler confiava sempre na sua famosa Muralha. Esta Muralha mudava tudo. Contudo, homens como Rommel, que se tinham batido — e que haviam sido vencidos — noutras frentes, ficaram aterrados quando a viram. Rommel deixara a França em 1941. Como muitos outros generais alemães, acreditara na propaganda de Goebbels e julgava estas fortificações quase terminadas. As brutais denúncias que fez sobre as insuficiências da Muralha não espantaram von Rundstedt, na OB. West. Partilhou a opinião de Rommel. Foi sem dúvida o único momento em que esteve de acordo com Rommel. O velho von Rundstedt, na sua sagacidade, nunca confiara nas defesas fixas. Tinha dirigido o cerco magistral da linha Maginot, que levara à derrota da França em 1940. Para ele, a Muralha do Atlântico não passava dum monumental blefe "destinado mais ao povo alemão do que ao inimigo... e o inimigo, graças aos seus agentes de informações, sabe mais do que nós sobre a Muralha". As fortificações "aborreceriam temporariamente" os Aliados, mas não dominariam a ofensiva. Nada, na opinião de von Rundstedt, poderia impedir o sucesso dos primeiros desembarques. O seu plano, a sua contraofensiva, consistia em juntar o maior número possível de tropas em pontos relativamente afastados da costa e em atacar depois do desembarque. Era nesse momento que seria preciso assestar o golpe: na altura em que o inimigo estava ainda fraco, em que seu abastecimento não estava organizado e em que não tinha tido tempo para consolidar a sua cabeça de ponte. Rommel combatia energicamente esta teoria. Para ele, só existia um processo de repelir o assalto: de frente, cabeça baixa. Não teriam tempo para mandar vir reforços maciços da retaguarda. Os comboios, estava certo, seriam destruídos pelos incessantes ataques aéreos e pelos bombardeios navais. Na sua opinião, tudo deveria estar a postos, no local, desde as tropas de infantaria até as divisões blindadas. O ajudante de campo de Rommel lembrava-se bem do dia em que o marechal lhe expusera a sua estratégia. Estavam numa praia deserta e Rommel, silhueta maciça e atarracada dentro

do pesado capote, com um lenço ao pescoço, andava para trás e para diante agitando o bastão de marechal "oficioso", um chicote negro de botão de prata donde pendia uma borla de seda preta, branca e vermelha. Mostrava o areai com a ponta do chicote. — A guerra será ganha ou perdida nestas praias — disse. — Só temos uma possibilidade de repelir o inimigo, e é quando estiver na água, chafurdando e lutando para chegar a terra. Os nossos reforços nunca chegarão aos locais de ataque e seria loucura esperar por eles. A Hauptkampflinie (a principal linha da resistência) estará aqui. Todas as nossas forças devem encontrar-se ao longo destas praias. Acredite-me, Lang, as primeiras vinte e quatro horas da invasão serão decisivas... Tanto para os Aliados como para a Alemanha, esse será o dia mais longo. Hitler aprovara o projeto de Rommel no seu conjunto e, a partir desse dia, von Rundstedt passara para segundo plano. Rommel executava as ordens de von Rundstedt unicamente quando estavam de acordo com as suas idéias. Para levar a sua avante, usava um argumento irrefutável. — O Führer deu-me pessoalmente ordens explícitas. Nunca dizia isto diretamente ao digno von Rundstedt, mas ao seu chefe de estado-maior, Blumentritt. Apoiado por Hitler e com o acordo enfadado e reticente de Rundstedt ("Este boêmio cabo de Hitler — dizia o chefe do OB. West — só toma decisões com que ele não está de acordo"), o obstinado Rommel empreendera a revisão total e a remodelação de todos os planos de defesa contra a esperada invasão. Em poucos meses apenas, a sua teimosa persistência transformou tudo. Em todas as praias que considerava propícias a um eventual desembarque, conseguiu que os seus homens, ajudados pela mão-de-obra recrutada no local, erigissem vastas obstruções formadas por diversos engenhos: tetraedros de aço de arestas agudas, paliçadas de dentes de serra, estacas de madeira pontiagudas, cones de concreto, entre as linhas da praia e a baixamar. O todo estava semeado de minas. Se falhassem, seriam substituídas por obuses, que explodiriam ao menor contado. As estranhas invenções de Rommel (ele próprio as concebera quase todas) eram ao mesmo tempo simples e temíveis. Tinham por objetivo trespassar, arrombar as embarcações e os lanchões de desembarque, ou imobilizá-los o tempo suficiente para as baterias costeiras os exterminarem. De qualquer modo, pensava Rommel, as tropas inimigas seriam dizimadas muito antes de alcançar terra firme. Mais de meio milhão destes mortais obstáculos submarinos estavam espalhados por toda a costa. No entanto, Rommel, o minucioso, não se dava ainda por satisfeito. Na areia, nas dunas, em todos os caminhos e barrancos que davam para as

praias, mandou instalar uma infinidade de minas de todos os tipos desde os grandes discos capazes de fazer saltar um carro de assalto até às pequenas minas S, contra o pessoal, que, assim que eram pisadas, saltavam e explodiam à altura da cintura. Mais de cinco milhões de minas deste tipo infestavam a costa. Rommel esperava que no momento do desembarque houvesse mais seis milhões. A sua ambição era instalar sessenta milhões de minas no setor ameaçado*.
* Rommel estava fascinado com as minas, como armas de defesa. Durante uma inspeção, o General Alfred Gause, primeiro chefe do estado-maior de Rommel, apontou para um campo semeado de flores selvagens e exclamou: — Não é encantador? — Tome nota, Gause — replicou o marechal de campo com um abanar de cabeça. — É preciso cerca de mil minas neste local. De outra vez, a caminho de Paris, Gause propôs que visitassem a fábrica de Sèvres e espantou-se ao ver Rommel aceder. Mas Rommel não se interessava por porcelanas. Ao atravessar a passo de carga as salas de exposição, limitou-se a dizer a Gause: — Veja se podem fabricar revestimentos estanques para as minhas minas.

Dominando as praias, por trás deste enredado de minas e obstáculos, as tropas de Rommel esperavam nas pillboxes, abrigos de concreto ligados entre si por galerias de comunicação e protegidos por arame farpado. Destas posições, todas as peças de artilharia que o marechal de campo pudera encontrar batiam as praias e o mar, sobrepondo os seus campos de alcance. Algumas peças formavam baterias sobre as próprias praias, nos abrigos de concreto, sob vivendas de férias de aspecto inocente, não podendo atirar ao largo, mas destinadas a atacar de enfiada as tropas que desembarcassem. Rommel tirava partido de todas as novas técnicas e invenções. Se tivesse falta de canhões, instalava lança-foguetes ou morteiros. Em certo local, chegou mesmo a colocar carros-robot em miniatura chamados Goliaths. Estes engenhos, capazes de transportar mais de meia tonelada de explosivos, seriam teleguiados das fortificações e lançados sobre as praias para explodir mesmo no meio do exército invasor. Nada faltava no arsenal medieval de Rommel, a não ser os vasos com chumbo fundido para despejar sobre os assaltantes, mas havia o equivalente moderno: os lança-chamas automáticos. Em certos recantos da costa havia uma enorme rede de tubagens ligadas a cisternas cheias de petróleo, camufladas nas entradas das praias. Premindo um botão era possível afogar em chamas os assaltantes. Rommel não esquecera igualmente a ameaça dos pára-quedistas e das forças transportadas pelos planadores. Por trás da zona fortificada, as terras baixas estavam inundadas; até dez quilômetros da costa, enormes estacas cobriam todos os espaços livres. Estas estacas estavam ligadas por fios. Desde que os tocassem, explodiam imediatamente milhares de minas. Rommel preparara uma recepção sangrenta às tropas aliadas. Nunca na

história das guerras modernas se vira um emprego de defesas tão poderoso, tão ameaçador e tão formidável. E Rommel ainda não estava satisfeito. Exigia mais pillboxes, mais obstáculos nas praias, mais canhões, mais homens. Acima de tudo, exigia a aproximação das divisões blindadas aquarteladas no interior. Tinha ganho batalhas memoráveis com os panzers, nas areias do deserto africano. Mas nesta época crucial, nem ele nem von Rundstedt tinham poder para deslocar os carros. Era preciso uma ordem de Hitler. O Führer empenhava-se em mantê-los sob a sua autoridade. Rommel necessitava pelo menos de cinco divisões blindadas sobre a costa, prontas a contra-atacar a ofensiva aliada desde os primeiros minutos. Só havia uma forma de as obter: falar com Hitler. Rommel afirmara a Lang muitas vezes: — Com Hitler, o último a falar tem sempre razão. Nesta pesada manhã de junho, em La Roche-Guyon, enquanto se preparava para tomar o longo caminho da Alemanha, do seu lar, Rommel estava mais resolvido do que nunca a ter razão e a ganhar a partida.

E era conhecedor do seu ofício. Mas a que acabava de passar fora a pior de todas. Era mais um indício. Várias vezes ao dia estudava com minúcia os montões de relatórios. nos últimos tempos. dirigia ainda a única seção de contra-espionagem da frente de invasão. Mas cada homem era um especialista. O núcleo desta organização era um serviço de interceptação radiotelegráfica de trinta homens que trabalhavam por turnos sem um instante de interrupção. os rádios de Meyer já não captavam qualquer apelo. na certeza de que se tratava de engano. em suma: o inacreditável. Os M. recebido ao crepúsculo: URGENTE FLASH ASSOCIATED PRESS NYK QG EISENHOWER ANUNCIA DESEMBARQUE ALIADO NA FRANÇA. durante a noite precedente. com ar cansado e olhos vermelhos. O seu trabalho consistia em escutar. Os homens de Meyer eram de tal forma peritos. um só balbuciar de morse lançado sobre as ondas pelos Aliados. um homem via com alegria o nascer do sol do dia 4 de junho. Ora. Além das suas funções de oficial de informações do 15. num abrigo de concreto abarrotado de instrumentos de precisão. Além dos numerosos relatórios dos agentes. a juntar àqueles que já possuía. e o seu equipamento tão aperfeiçoado. eram pormenores deste tipo que permitiam a Meyer fazer uma idéia das intenções dos Aliados. O Tenente-Coronel Hellmuth Meyer estava sentado à secretária. um telegrama de Imprensa urgente. Meyer ficou sufocado. o anormal. O fato não deixava de ser significativo: o silêncio fora imposto ao rádio. que não deixava escapar uma só palavra. Mas conteve-se. O seu primeiro movimento incitou-o a pôr de alerta o quartel-general.º Exército. procurando o insólito. estafante e perigosa para os nervos. americanos e britânicos. Nunca a esqueceria. Desde o primeiro de junho que não dormira uma noite inteira. conversando entre si pelo rádio ao dirigirem as colunas de tropas. . P. tinham-no auxiliado grandemente a estabelecer uma relação das diversas divisões acantonadas na Inglaterra. Mas. a mais de quinhentos quilômetros do local onde se encontravam. para supor que o desembarque não tardaria. que conseguiam captar as mensagens emitidas pelos postos de jipes militares na Inglaterra. falando fluentemente três línguas. acalmou-se.° Exército. o suspeito. no quartel-general do 15. os seus homens tinham captado o inacreditável.CAPÍTULO V ACENTO E OITENTA quilômetros deste lugar. junto da fronteira belga. Tal fato era uma grande ajuda para Meyer. Meyer cumpria uma função ingrata. nada mais.

O Sargento Walter Reichling pôs imediatamente o magnetofone em movimento. tê-lo-ia sabido imediatamente. Reichling arrancou os auscultadores e saiu repentinamente do abrigo. — Les sanglots longs des violons de l'automne.° de junho. que achava exasperante não conseguir decifrar frases tão enigmáticas como "Não haverá guerra de Tróia". durante o mês de janeiro o Almirante Wilhelm Canaris. em seguida ouviu-se. em francês. a fim de estar certo de não deixar escapar as verdadeiras. ou "Sabina acaba de ter sarampo e papeira". Mas a mensagem pessoal que se seguiu ao boletim de informações das vinte e uma horas. que os Aliados empregariam. Houve uma pausa. O sargento irrompeu pelo gabinete do chefe e . os seus homens. sabia por experiência que as fontes de informação de Berlim se enganavam noventa vezes em cem. Meyer estava seguro que Berlim não se enganava.º de junho. Possuía um processo de relatórios falsos que apoiavam a sua tese. — Queiram agora escutar algumas mensagens pessoais — anunciou em francês a voz do locutor.Duas razões ditavam-lhe esta certeza. em direção ao gabinete de Meyer. para pôr alerta as forças da Resistência antes do desembarque. destinadas à Resistência. dinamarquês e norueguês. "João tem grandes bigodes". a ausência total de atividade na frente de invasão: se houvesse uma ofensiva. disso tinha a certeza. na tarde de 1. a embaralhar as pistas. Ao princípio. após o boletim de informação. Canaris era categórico: Meyer devia captar todas estas mensagens. os Aliados pareciam ter saturado todos os agentes alemães. de Estocolmo a Ancara. Só algumas estariam relacionadas com o Dia D. as outras seriam falsas. Meyer compreendeu-a muito bem. durante os meses que precedessem o ataque. Na noite de 1. Segundo. Diariamente. afirmava Canaris. Parecia-lhe insensato fiar-se numa só e única mensagem. Os Aliados. acabavam de captar a primeira parte da mensagem dos Aliados — tal como Canaris lhe anunciara. "Amanhã o melaço pertence à aguardente". Esta mensagem não diferia em nada das centenas de frases em código que os operadores de Meyer vinham interceptando há muito. a BBC difundia instruções camufladas. Primeiro. Mas desta vez. estes relatórios não concordavam uns com os outros. destinadas a enganar o inimigo. com "pormenores" sobre a data e o local do desembarque. Além disso. lançariam centenas de mensagens para a Resistência. Meyer ficara céptico. então chefe do serviço de informações alemão. após meses de escuta. holandês. A maior parte das mensagens eram incompreensíveis para Meyer. dera a Meyer os pormenores duma mensagem inacreditável em duas partes.

significava que "a invasão começaria dentro de quarenta e oito horas. Por seu lado. o aviso dado por Canaris estava correto: este flash devia ser falso.°. e não deu o alerta. estes versos deveriam ser transmitidos "no dia um ou quinze do mês. A aproximação da . já o tinha feito. A segunda parte da mensagem seria o seguimento da primeira estância do poema: "blessent mon coeur d'une langueur monotone". Os Aliados.. Mas este deixou-a sobre a mesa. Meyer preveniu o chefe do estado-maior do 15. Passado o primeiro instante de pânico. vai acontecer qualquer coisa. O 7. o telegrama da Associated Press. o que inquietou Meyer. pensou também que o quartel-general de Rommel tinha emitido a ordem necessária*. — A primeira parte da mensagem foi transmitida — disse. é manifesto que não lhe deu importância. tal mensagem só seria transmitida uma vez. Esta frase. os primeiros versos do célebre poema de Verlaine. Assim que ouviu o registro do primeiro verso da Chanson d'Automne. Segundo Canaris. Assim. mas. chefe do gabinete de operações. que dominava a costa da Normandia. a mensagem foi comunicada ao General Alfred Jodl. não ouviu falar da mensagem e não tomou quaisquer providências. a BBC repetiu a primeira parte da mensagem. um só exército ficou de alerta: o 15. Nas tardes de 2 e 3 de junho.. na costa. calculava.°. — Agora. sempre segundo a opinião de Canaris. Era isso mesmo: a mensagem que Canaris lhe anunciara. Hofmann transmitiu imediatamente o sinal de alerta ao 15. no máximo da excitação: — A primeira parte da mensagem! Chegou finalmente! Juntos. Segundo as informações que tinha. — Registramos a mensagem.gritou. repetiam o sinal para ter a certeza de que a Resistência o ouviria bem.. Von Rundstedt. mas Rundstedt. Em seguida telefonou para o quartel-general de von Rundstedt (OB. West) e para o de Rommel (grupo de Exércitos B). pensou. Meyer expediu a mensagem por teletipo à OKW. e representariam a primeira parte duma mensagem anunciando o desembarque anglo-americano". — Tem a certeza absoluta? — inquiriu Hofmann.. a contar da meia-noite a seguir à transmissão da mensagem". Na OKW. Estava esgotado mas exultante. Na noite de 3 de junho.° Exército.° Exército. por seu turno. fiando-se nas suas convicções sobre as intenções dos Aliados. * Rommel devia ter tido conhecimento desta mensagem. o General Rudolf Hofmann. uma hora após a terceira difusão da mensagem. voltaram para o abrigo do rádio e Meyer escutou o registador. Meyer decidiu confiar em Canaris.

como nunca tinham estado. Meyer e os seus homens estavam atentos. O esmagamento das tropas de invasão. Meyer sentia-se ultrapassado e submergido pelo seu significado dúbio. Só restava aguardar a segunda parte da mensagem principal. a cento e oitenta quilômetros. E. Meyer desejava de todo o coração que os seus superiores compreendessem também a importância da mensagem. enquanto esperava. a própria sobrevivência da pátria dependiam da rapidez com que os seus homens e ele próprio captassem a mensagem e avisassem a defesa. que poderia ser lançada de um momento para o outro. . o comandante-chefe do grupo de Exércitos B preparava-se para partir para a Alemanha. a vida de centenas de milhares de compatriotas.alvorada e a calma persistente da frente davam-lhe mil vezes razão.

Cada oficial fora cuidadosamente escolhido por Rommel e era-lhe inteiramente dedicado. A única pessoa do quartel-general de Hitler que tinha conhecimento da visita que Rommel planejara era o ajudante de campo do Führer. Rommel apertou as mãos aos seus oficiais.. A seu lado. Daniel — disse Rommel. — Vamos. Rommel estava absolutamente encantado por deixar La Roche-Guyon na triste manhãzinha enevoada desse domingo. ao lado do motorista. tratava-se realmente duma família. tinham. muitos oficiais superiores de Rommel tentaram explicar a sua ausência da frente. que indica a data e hora exatas. presidida pelo pai de família. O General Walter Warlimont. Tinha uma razão especial. disse algumas palavras ao seu chefe de estado-maior e sentou-se. nem Keitel. 4 de junho. para sua mulher. aguardava diante do alpendre. o General Rudolf Schmundt. Nessa manhã. esta foi realmente o dia 4 de junho. tinha o seu brilhante chefe de estado-maior. havia uma caixa de papelão com um par de sapatos de fino fabrico. Lang e o Coronel von Tempelhof instalaram-se atrás. Era o dia do seu aniversário*. Quanto à data em que Rommel partiu para a Alemanha e deixou a Normandia. artigos e entrevistas. para seguir em direção a Paris. a prova irrefutável está no diário do grupo de Exército B. Daniel. Eram sete horas. Rommel não dissera grande coisa.° 37. tinha pressa de partir. nos dias 4 e 5 de junho e no começo do Dia D. à mesa do pequeno almoço. E. * Depois da guerra. o motorista de Rommel. . disse-me que nem Jodl. dir-se-ia uma mesa familiar. a subir para o Horch. na aldeia. então adjunto do comandante-chefe da OKW. o General Hans Speidel. Viu as horas: — Meus senhores — disse bruscamente — tenho de partir. um a um. Não faziam qualquer cerimônia durante o pequeno almoço. O carro contornou lentamente o grande pátio principal. junto à porta aberta do carro. A data da viagem não poderia ter sido melhor escolhida. 6 de junho. em antílope cinzento n. e outros oficiais. como de costume. Nenhum embaraço limitava a conversa. Rommel convidou o Coronel von Tempelhof. De momento. O carro de Tempelhof iria atrás. C. sempre meticulosamente em dia. À sua frente. passou sob as dezesseis tílias. limitando-se a escutá-los. Em diversos livros. nem ele próprio sabiam que Rommel se encontrava na Alemanha. podadas em forma de cubo. e bem humana. até certo ponto. para querer estar a seu lado na terça-feira. No próprio Dia D. declararam que Rommel partira a 5 de junho. Não é verdade.CAPÍTULO VI O MARECHAL de campo Rommel estendeu cuidadosamente uma fina camada de mel numa fatia de pão com manteiga. único oficial do seu estado-maior que o acompanhava com Lang. virou à esquerda. Warlimont estava certo de que Rommel se encontrava no seu P. informado Rommel dos diversos assuntos que esperavam vê-lo discutir com Hitler. da grande aléia. transpôs o gradeamento e. no banco do carro. dirigindo as manobras.

Eisenhower. há já algumas horas. seria o Dia D. dia 6 de junho.Na Inglaterra. adiara de vinte e quatro horas o desembarque aliado. Se as condições fossem propícias. que não ficava distante. dormia profundamente. mensagens em código por telefone. Do seu quartel-general.) Num reboque. pelo correio e pelo rádio. eram oito horas. (Havia uma hora de diferença entre a hora de verão inglesa e a hora alemã. a terça-feira. depois de ter passado quase toda a noite de pé. o General Dwight D. tinha tomado uma decisão fatídica: devido às desfavoráveis condições meteorológicas. comandante-chefe dos exércitos aliados. ao fundo de um bosque perto de Portsmouth. pouco mais ou menos à hora em que Rommel se levantara. . eram transmitidas. Eisenhower.

O comboio avançava lentamente. veículos e munições. a menos de quarenta milhas. na enseada de Plymouth. Calculando os intervalos entre os navios e conhecendo o seu número. surgiria ao largo das praias da Normandia uma incrível frota de cinco mil navios. na noite anterior. ou partiriam da Inglaterra nesse mesmo dia. os contratorpedeiros de escolta. carros. guiados pelo navio que ele próprio comandava. ou os dois simultaneamente. O comboio que comandava tinha partido . Precedendo-o. Hoffman admirava o espetáculo. uma larga procissão de navios de desembarque. estava munido dum balão. destinadas a cortar os arinques das âncoras das minas para as fazer explodir à superfície. canhões. Parecia-lhe inverossímil que já tivessem conseguido chegar tão longe sem terem sofrido o menor ataque. observava pelo binóculo a infindável coluna de navios que sulcavam regularmente as águas da Mancha. Mas. visto que de minuto a minuto mais profundamente entravam pelas águas inimigas. estendendo-se a perder de vista. navegava o comboio. a menos de quatro nós. empurrados pelo vento do largo. deduziu que a cauda deste desfile fantástico deveria ainda estar na Inglaterra. Atrás dos draga-minas vinham os esbeltos perfis dos "pastores". Seguiam pontualmente o percurso previsto. dentro de momentos: um ataque aéreo ou submarino. maciços e inestéticos. seis pequenos barcos formados em diagonal. mais atrás. seguindo uma rota sinuosa. E estes balões de proteção. Pela manhã. a estibordo. sabia que oferecia ao inimigo um alvo de primeira.CAPÍTULO VII O CAPITÃO-DE-CORVETA George D. pesadamente carregado. que. observando o mar pelo binóculo. Hoffman. Hoffman fervia de impaciência. convergiriam para o estuário do Sena. aos trinta e três anos. Cada um desses barcos. um comprido cabo de aço munido de grandes tesouras. seguro por um sólido cabo. arrastando cada um. Esperava pelo menos encontrar campos de minas. E existiam muitos outros comboios semelhantes. Dezenas deles deviam ter aparelhado ao mesmo tempo que este. dando a sensação de que todo o comboio se inclinava para um lado. A costa da França erguia-se diante deles. flutuavam à mesma altitude. e tinha coberto mais de oitenta milhas desde que havia aparelhado em Portsmouth. E. Mas presentemente Hoffman preparava-se para o pior. O jovem comandante — em menos de três anos passara de simples tenente-de-mar-e-guerra a comandante do Corry — sentia-se imensamente orgulhoso por comandar tão magnífico comboio. seguiam os draga-minas. transportando tropas. Nessa noite. comandava o contratorpedeiro americano Corry.

Escutou por momentos. "Omaha".ª e 29. Junto à costa. Como se encontrasse à testa. Hoffman voltou-se e viu que os contratorpedeiros que o seguiam mudavam de rumo e navegavam contra os lados do comboio. O seu trabalho. depois perguntou: — Tem certeza? A mensagem foi repetida? Hoffman escutou por mais uns instantes. Teriam recebido a mensagem? Antes de tomar uma resolução. muito próximo. visto que eram obrigados a guardar silêncio absoluto. — Alcancem os draga-minas! Armem o projetor! Enquanto o Corry aumentava de velocidade. chamada em código "Utah". A vinte quilômetros a sudoeste. à força de sinais luminosos. atendeu. e o dos contratorpedeiros. O mesmo acontecia com os contratorpedeiros. mas Hoffman. Que se estaria passando? Teria o desembarque sido anulado? Hoffman olhou os draga-minas pelo binóculo. Hoffman tinha primeiro que se ocupar dos draga-minas. Rapidamente. O radiotelegrafista Bennie Glisson não se tinha enganado. Mostrou o registro ao comandante. que estavam várias milhas à frente. Não podia contactá-los pelo rádio. nunca ouvira falar: uma extensão de areia batida pelos ventos. Eisenhower. Hoffman ignorava que. que estava mais próximo do aparelho. Transportava parte da poderosa 4. .da Grã-Bretanha muito cedo. Incrível: o comboio devia voltar para Inglaterra. frente às estâncias balneárias de Vierville e Colleville. só autorizara que uma quinzena de comboios se fizesse ao mar durante a noite. O comandante do Corry esperava ver outros comboios a seu lado. pensava. Depois. dirigem-se também para a Normandia outros comboios das Forças U e O. até ao local do rádio. em meia-lua. na costa oriental da península de Cotentin. como milhões de outros americanos. mas a Mancha parecia pertencer-lhe. Não tinham mudado de rumo. Um dos oficiais de dia estendeu o braço. não estava inquieto. Hoffman galgou de quatro em quatro a escada para a ponte. — Para a frente a toda velocidade! — ordenou Hoffman.ª divisão americana. destinada a desembarcar num local de que Hoffman. consistia agora em fazer o monstruoso comboio dar meia volta sem perda de tempo. Contudo. visto ser o que deveria fazer o maior percurso.ª divisões. onde desembarcariam os homens da 1. nessa manhã. inquieto. enorme praia prateada. subiu a escada de ferro. e sem explicações. na ponte inferior. dizendo: — Verifiquei duas vezes para ter bem a certeza. devido à instabilidade do tempo. encontrava-se a outra praia americana. decidiu ver a mensagem com os seus próprios olhos para ficar descansado. em seguida desligou. Subitamente. o telefone da ponte tocou.

Se se tratasse de simples adiamento. Anulava-se o Dia D por eles o conhecerem? Como milhares dos seus semelhantes. . milhares de soldados aliados que se tinham preparado para desembarcar na Normandia a 5 de junho. na angústia. O jovem operador de vinte e três anos ligou outro aparelho para pegar Rádio Paris. mas quem o saberia? Bennie tinha ainda outra razão para se pôr à escuta. Nessa manhã. I double dare you to venture too near. Não teriam já sido assinalados? Só um milagre poderia dissimular a difícil evolução à atenção do inimigo. Mas assim que acabou de o registrar. As suas gabarolices eram divertidas. Mas tinham escrito nova letra para a música. Bennie vira os imensos preparativos. os alemães teriam ainda mais tempo para descobrir a esquadra aliada. e que deviam esperar. pois parecia confirmar-lhe uma suspeito lancinante: os Alemães estavam a par do plano de invasão. Bennie não pôde escutar durante muito tempo porque primeiro teve que receber um interminável boletim meteorológico. Bennie e. Take off your high hat and quit that bragging. esta letra pertinente e cheia de ameaças: I double dare you to come over here. como lhe chamavam grosseiramente. Bennie Glisson continuava a receber de quarto em quarto de hora a mensagem que adiava o desembarque.empreenderam o trabalho monumental de obrigar o comboio a voltar-se sobre si próprio. a extraordinária concentração de tropas e de material em todos os portos. Bennie reconheceu imediatamente os primeiros compassos duma cançoneta. a estação de propaganda alemã. era a pior notícia que recebera de há muito. Axis Sally tocou o primeiro disco da tarde. A "Pega de Berlim". até mesmo por serem ridiculamente exageradas. Queria ouvir a voz quente e rouca de Axis Sally. Cut out that claptrap and keep your hair on. No lugar do rádio. I Double Dare You. Para ele. com a música de I Double Dare You. Can't you take a dare on? I double dare you to venture a raid. parecia possuir infindável reserva de canções em voga. em todos os recantos da costa. mais vinte e quatro horas. Ao ouvi-la. compreendeu que o seu maior medo era justificado. e pensava que não poderiam deixar de ser vistos pelos serviços de reconhecimento da Luftwaffe. I double dare you to try and invade. de Land's End a Portsmouth. os comboios. Hoffman pensou com apreensão que se encontravam perigosamente perto da costa de França: apenas a trinta e oito milhas. um pouco antes das oito horas. ouviram.

/ Deixa-te de fitas e não percas a cabeça. . / Vê se te atreves.And if your loud propaganda means half of what it says. I double dare you to come over here. / Tira o chapéu e baixa a proa. / Não és capaz de te atrever? / Vê se te atreves a arriscar uma ofensiva. / Vê se te atreves a vir até aqui. Vê se te atreves a vir até aqui. / E se toda a tua propaganda corresponder à metade do que diz. I double dare. / Vê se te atreves a tentar a invasão. / Vê se te atreves a aproximar-te demais.

O mapa revelava. empoleiradas em bancos de rodas. Dez metros abaixo. encoscorado no inconfortável posto central do X-23. uma encantadora "tenente" das WREN. não só de manobrar nas barbas do inimigo e voltar sulcando as águas minadas. amontoavam-se nos diversos portos e bases navais da costa sudoeste da Inglaterra. Pareciam calmos. deslocavam sobre o mapa pequenas marcas coloridas. de vinte e quatro anos. mas a tensão em que estavam era inegável. das WREN. o Tenente-de-Mar-eGuerra George Honour. Dois mantinham-se contudo invisíveis: dois submarinos de bolso. alguns oficiais do estado-maior pertencentes aos diversos aliados. aguardava-se o regresso dos comboios. O vento já soprava na Mancha a mais de cinqüenta quilômetros por hora. interrogava-se sobre o tempo que seu marido levaria a voltar à base.CAPÍTULO VIII No ENORME gabinete de operações do quartel-general naval aliado de Southwick House. de teto alto e revestida de papel branco e ouro. Naomi Coles Honour estava ligeiramente preocupada. duas ajudantes. A todo o momento. Uma tempestade podia ser desastrosa para os pesados navios carregados de homens e de material. assinalando a posição dos navios que faziam meia volta. via-se neste mapa a posição de todos os navios aliados. mas ainda fazer face a outro perigo: o mau tempo. * A uma milha da costa da França emergiu da água um periscópio. embora os seus amigos da sala de manobras parecessem nada saber sobre a posição do seu marido. Os comboios tinham. o mar encapelava-se e as ondas atingiam quase dois metros. Num gabinete vizinho. o X-23. lentos e difíceis de conduzir. Uma das paredes estava totalmente coberta por grande mapa da Mancha. o . Em grupos de dois ou três. viam-nas trabalhar em silêncio. nos arredores de Portsmouth. comandante de um desses submarinos de dezenove metros. Num simples relance. E os serviços meteorológicos anunciavam agravamento das condições atmosféricas. Pareciam ter desaparecido por completo do mapa. Havia intensa atividade na ampla sala. Longas filas de marcas subindo o mar da Irlanda juntavam-se na vizinhança da Ilha de Wight. Alguns levariam certamente todo o dia para alcançar o porto. de minuto a minuto. o regresso ordenado dos comboios. mas por enquanto não muito inquieta.

na embocadura do Orne. Estes cinco homens. Thin. estamos quase em cheio no alvo! De certo modo. e os seus passaportes. . dirigiu-se ao Tenente Leonel G. Estava tão perto e o periscópio tinha tal potência que Honour viu fumegar as chaminés das casas e. A missão do X-23 era particularmente delicada. estavam equipados com roupas de homens-rãs.Tenente George Honour atirou o boné para a nuca. senhas de abastecimento com todos os carimbos oficiais. Diante do X-23 estava o setor anglo-canadense. Cada um tinha uma falsa carteira de identidade francesa completa. cartas e outros documentos. Nem o Tenente Honour nem a sua tripulação ignoravam o significado desta data. meus senhores. Num outro dia 4 de junho. explorar a costa da França. Foi um grande momento na existência do jovem tenente-de-mar-e-guerra de reserva. frente à pequena aldeia de Hamel — subiriam audaciosamente à superfície a fim de servirem de balizas. O primeiro barco e os primeiros homens das forças aliadas estavam a postos. no caso de o X-23 ir a pique ou ter de ser abandonado. ao fundo. a invasão já tinha começado. cuidadosamente escolhidos. teriam iludido a vigilância da mais suspeitosa das sentinelas alemãs. balizando o percurso que milhares de compatriotas iriam em breve seguir. perto de Caen. Vinte minutos antes da hora H. um avião que decolava do aeroporto de Carpiquet. na qualidade de batedores. que embarcara especialmente para esta operação: — Dê uma olhadela. frente à costa normanda. e ainda autorização de trabalho. magistralmente falsificados. o X-20 — que se encontrava vinte milhas mais a oeste. a fim de tentarem pôr-se em contacto com a Resistência francesa. Havia mais: fascinado. com fotografia. os tripulantes poderiam nadar até à costa e. a menos de trezentos quilômetros do local onde se encontravam. escapar ao inimigo. Lyne. Dentro do X-23. quatro anos antes. Lembra-se de ter dito na altura: — Bem. o tenente distinguiu a pequena cidade adormecida de Ouistreham. Formavam a vanguarda britânica e vinham. o submarino de algibeira e o seu gêmeo. Se as coisas corressem mal. cinco ingleses. protegidos pelas falsas identidades. contemplou alguns soldados alemães que trabalhavam tranqüilamente na instalação dos obstáculos na extensa praia de areia. os últimos trezentos e trinta e oito mil soldados do corpo expedicionário britânico deixavam em chamas um porto chamado Dunquerque. quando a camada deformante de água cintilante desobstruiu a objetiva. Afastando-se do periscópio. e se déssemos uma olhadela? Encostando um olho à borracha do visor do periscópio fez girar este lentamente e. sentiam-se profundamente emocionados e orgulhosos. encoscorados no único e minúsculo compartimento do X-23.

levando consigo um pequeno projetor. dividida em três praias: Sword. Ao mesmo tempo. Nada fora esquecido. Honour pensava que tal bandeira seria um magnífico alvo para os alemães. Honour não se enganara. Reconhecera rapidamente diversos pontos de referência: o farol de Ouistreham. Para facilitar mais ainda a abordagem. O que não o impedia de hastear uma segunda: a "insígnia branca" da Royal Navy. Como medida de proteção. Estavam quase "mesmo no alvo". do X-23. o navio era fácil de assinalar por aviões de reconhecimento que voassem a baixa altitude. a alguns quilômetros. o X-23 içaria grande bandeira amarela.delimitando os extremos da zona de desembarque anglo-canadense. Os sinais luminosos dos submarinos e destes botes permitiriam que a frota determinasse com exatidão a localização das três praias. Honour e os seus homens aceitavam ser bombardeados pelos canhões do inimigo. equipado com um projetor. visível a mais de cinco milhas. de um metro e sessenta de altura. apenas a três quartos de milha da posição que deveriam tomar. Juno e Gold. Honour bem o sabia. dois outros campanários. e muitos outros objetos heteróclitos. Uma baliza hertziana automática emitiria sinais contínuos assim que subisse à superfície. que se afastaria um pouco em direção à costa. A frota que transportava as tropas britânicas e canadenses abordaria a costa utilizando uma dessas emissões. pequeno mas potente. que seriam captadas por escutas. o campanário da igreja. Mesmo submerso. À tripulação normal de três homens. nestas águas pouco profundas. mas não queriam ser afundados pelos seus. já de si bastante exíguo. os das aldeias de Lagrune e de Saint-Aubin-sur-Mer. . ou por vedetas de patrulha. um sanar enviaria ondas submarinas. No caso contrário. Cada submarino de bolso possuía também um mastro-telescópico de seis metros. nem mesmo o perigo que os minúsculos submarinos corriam de ser abalroados e afundados pelos navios de desembarque. um metro e trinta de largura e somente dois metros e cinqüenta de comprimento. Todo este equipamento. tinha sido comprimido no bojo. cada submarino dispunha de um bote de borracha que podia transportar um homem. A atmosfera era sufocante e tomar-se-ia quase irrespirável enquanto aguardassem o anoitecer para subir à superfície. juntaram-se dois navegadores experimentados. A luz verde significaria que os submarinos estavam a postos. e o risco aumentava com a emersão periscópica. a luz seria vermelha. Deviam seguir um plano complicado e preciso. o que fazia com que só muito dificilmente se pudessem mover no único compartimento do submarino. O Tenente-de-Mar-e-Guerra Lyne fez o estudo topográfico da área. ou ambas.

a essa mesma hora. . "sacrificar um peão na abertura". No dia seguinte. Tinham levado pouco menos de dois dias para percorrer as noventa milhas desde Portsmouth. lamentava secretamente que não tivessem escolhido outro nome para esta operação. Mesmo não sendo supersticioso. A operação "Gambit" começava bem. Submergidos. A travessia fora longa e penosa. Honour e a sua tripulação ignoravam que o desembarque fora adiado por um dia. no xadrez. Iam agora ocupar a posição prevista e assentar no fundo. Contudo. — Recolham o periscópio! — ordenou. a maior parte das vezes através de campos de minas. o jovem comandante sentira cortar-se-lhe o coração ao procurar a palavra "gambit" no dicionário e ao descobrir que queria dizer.Para Honour foi um alívio estar tão perto. Honour lançou um último olhar aos soldados alemães que estavam na praia. sem qualquer contacto com a base. o inferno seria desencadeado nessas praias.

completamente desconhecido fora de pequeno círculo de amigos. como toda a gente. Dawe. difíceis e complicados. Todos os dias. era esperado por dois homens. Leonard Sidney Dawe era um homem tranqüilo e discreto. no entanto. O seu universo limitava-se aos locais de reunião. Do outro lado desta cortina. palavras . Dawe tinha extremo orgulho neste fato. Teria ficado estupefato ao saber que. no Surrey. mas os fanáticos de Dawe replicavam que os problemas do Telegraph nunca tinham repetido a mesma definição.I. Desfrutava. um professor de Física.CAPÍTULO IX Às ONZE da manhã. Havia mais de vinte anos que Dawe era o melhor compilador de palavras cruzadas do Telegraph. Já não pertenciam à terra firme e estavam estranhamente suspensas entre o mundo familiar da Inglaterra e as "terrae incógnitae" da Normandia. cerca de um milhão de leitores debatia-se com o problema de palavras cruzadas que ele compunha. isoladas do resto do país. a brisa aumentava sobre a Mancha. Alguns entusiastas da modalidade pretendiam que as palavras cruzadas do Times eram mais difíceis.I. Uma espessa cortina de ferro separava-as do mundo. Dawe — disse um dos homens ao começar o interrogatório — durante o mês passado. desde o dia 2 de maio. de Londres. o M. os seus problemas tinham inquietado e terrificado muitos dos estados-maiores do Alto Comando aliado. mas que poderiam querer dele? — Sr. as forças de invasão enregelavam. de vasto público. Durante um mês. passeava o cão. a vida continuava como de costume. ouvira falar do M. para o Daily Telegraph.5.5 tinha finalmente resolvido ter uma conversa com Dawe. que ultrapassava de longe o de uma estrela de cinema. aos aeroportos e aos navios. era alvo de inquérito discreto e por parte do serviço de contra-espionagem da Scotland Yard. Na pequena cidade de Leatherhead. Ao longo das regiões costeiras interditas da Grã-Bretanha. Nesse domingo de manhã. de cinqüenta e quatro anos. também professor. Havia gente que labutava no trabalho quotidiano sem suspeitar que centenas de milhares dos seus semelhantes aguardavam uma ordem que marcaria o começo do fim da segunda guerra mundial. o M. Quando voltou do passeio. e os seus problemas.I. tinham exasperado e seduzido milhões de amadores.5. certo número de palavras de código altamente confidenciais apareceram nas palavras cruzadas do Telegraph. magro e franzino. com o seu amigo Melville Jones.

Haveria uma explicação? Dawe só podia dar uma: uma série de coincidências fantásticas. 2 de junho. e acrescentou: — Como poderia eu ter adivinhado que tinha um significado em código? E como poderia saber se esta ou aquela palavra não é empregada? Os dois agentes do M. era Overlord (grande senhor feudal). * . Dawe não conseguiu dar qualquer explicação para a escolha destas palavras. datado de 27 de maio. Ora.5 mostraram-se corteses. a resposta à designação: "Um entre quarenta e oito" (17 horizontal) era Utah (Estado da América do Norte). Aliás.5 tirou uma lista do bolso e prosseguiu: — Gostaríamos especialmente de saber como foi levado a escolher esta palavra. Pousou o dedo sobre a lista. Reconheceram que era evidentemente impossível sabê-lo. o agente do M. Ora. O problema de palavras cruzadas do Telegraph. E a solução do 15 vertical. que veio no Telegraph da antevéspera. estupefato. No problema do dia 2 de maio. A resposta ao 3 vertical. Mulberry designava em código dois portos artificiais que deveriam ser montados ao largo das praias de desembarque. Poderá dizer-nos o que o levou a empregá-las e onde as obteve? Antes que Dawe. e a resposta era Mulberry (uma célebre cantiga de roda infantil que faz andar as crianças à volta do silvado de amoras. Há que acreditar que estas palavras obscuras podiam ser compreendidas pelos admiradores de Dawe. ou mulbery-bush). "Compartilha o seu reinado com Britânia". compreendia a seguinte definição (11 horizontal): "Esta importante personagem roubou várias vezes" (alusão à definição precedente). do dia 22 de maio. era Netuno. do problema do primeiro de junho. Overlord era a designação em código de todo o plano de invasão dos Aliados. Fez notar que tal palavra se encontrava freqüentemente em livros de história. sob os olhos míopes do professor estupefato. mesmo assim. estranho que num só mês aparecessem tantas palavras de código? Percorreram a lista. Respondeu que não podia explicar por que e como tinha escolhido aquela palavra.I. A resposta. observou. Tais perguntas espantaram-no e até o indignaram. pudesse responder. Mas não seria. era Omaha. designação em código do conjunto das operações navais do desembarque. estes problemas podiam ter sido compostos seis meses antes.I.referentes a determinada operação aliada. O problema de 30 de maio incluía a seguinte definição (11 horizontal): "Provoca revoluções nas creches". "Pele-Vermelha sobre o Misúri". Dawe não sabia de que operação estes homens queriam falar.

o comandante-chefe dos Exércitos Aliados nada pôde fazer por ele. Contou a amigos civis que os seus homens estavam treinando para alcançar certo objetivo. Durante um coquetel no Claridge de Londres. já tinha descoberto o significado da palavra de código Overlord. no correio central de Chicago. Noutro ponto da Inglaterra. violaram inconsideradamente o segredo. a despeito dos avisos constantes da contraespionagem e dos sucessivos avisos sobre a presença de agentes alemães nas Ilhas Britânicas. fizera chegar a informação a Berlim. em West Point. Interrogaram os funcionários encarregados da separação. abrira-se na mesa de separação um volumoso embrulho mal acondicionado. mas identificou a letra da etiqueta: era a do seu irmão. que foram em seguida aconselhados a esquecer o que tinham visto. um general americano e um coronel inglês. O assunto foi prontamente abafado e resolvido pelos seus superiores. o caso do general teve grande publicidade e voltou a ser ventilado quando mais tarde se aposentou. Os agentes da contra-espionagem invadiram o correio. exibindo um maço de documentos suspeitos. E Berlim tinha inteira confiança em Cicéron. Um dos seus agentes. o Abwehr. Tal segredo foi tão escrupulosamente guardado que até ao fim de abril apenas algumas centenas de oficiais aliados o conheceram. igualmente inofensivo. Seguiu-se a vez da destinatária: uma rapariga perfeitamente inofensiva. de Eisenhower tivesse sido posto a par da indiscrição do coronel inglês. em janeiro. Tinha-se enganado no sobrescrito e enviara o embrulho à irmã. o coronel foi ainda mais tagarela. * Embora o general americano tivesse sido colega de curso do General Eisenhower. G. mas em seguida retificara-o. que pertencia ao quartel-general americano de Londres.Tinha havido outros alarmes terrificantes. com a patente de coronel. que trabalhava como criado de quarto na Embaixada Britânica na Turquia. Este pequeno incidente poderia ter tomado proporções gigantescas. Cicéron fora incapaz de descobrir o grande segredo de Overlord: o local e a data do Dia D. Este inglês foi mais tarde membro do Parlamento. se o Supremo Estado-Maior dos Aliados tivesse sabido que o serviço de informações alemão. Foi incapaz de dizer por que lhe eram endereçados estes documentos. Após o desembarque. Três meses antes. Doze funcionários dos correios pelo menos tomaram conhecimento destes documentos: tratava-se duma operação batizada Overlord. Os dois oficiais foram imediatamente demitidos e destituídos das respectivas patentes *. Cicéron dera ao plano o nome de Overlock. Ao princípio. dois oficiais superiores. . e deu a entender que tal objetivo se encontrava na Normandia. Nada deixa supor que o Q. o general confiou a alguns camaradas que o desembarque se daria antes de 15 de junho. mais conhecido por Cicéron. Mas no decurso desse mês. um albanês chamado Diello. jovem sargento.

A gigantesca engrenagem do desembarque estava em movimento. para aumentar a sua velocidade como operador. entreteve-se a praticar numa maquina inutilizada. A fita perfurada transportando o seu flash imaginário foi incompreensivelmente introduzida no começo do comunicado diário da frente russa. aliado recebeu um golpe no coração ao ter conhecimento de novo deslize. enquanto as horas passavam lentamente e as condições atmosféricas pioravam. não encontrando nada melhor para fazer. o G. 4 de junho. mais perigoso que os precedentes. O "boletim" que chegou aos Estados Unidos era o seguinte: FLASH URGENTE ASSOCIATED PRESS NYK QG EISENHOWER ANUNCIA DESEMBARQUE ALIADO NA FRANÇA.Depois. Durante a noite. mas o mal estava feito. Por mais graves que pudessem ser as conseqüências desta mensagem. era demasiado tarde para fazer fosse o que fosse. na memorável tarde deste domingo. um teletipista da Associated Press. Foi anulado trinta segundos mais tarde. a mais colossal de todas as forças aéreas e anfíbias jamais reunidas aguardava a decisão do General Eisenhower.G.Q. Agora. Confirmaria Ike a data de 6 de junho como a do Dia D? Ou seria que a tempestade sobre a Mancha — a mais violenta dos últimos vinte anos — forçá-lo-ia a adiar mais uma vez o desembarque? .

Havia ainda uma cozinha minúscula. As forças britânicas e canadenses atingiam um milhão de homens e o resto era formado pelos contingentes de franceses livres. tchecos. Raramente utilizava o escritório e a sala. de vinte e um anos. só uma estreita fita de condecorações sobre o bolso do peito e. no curso da História. Contudo. Alguns dias antes. John. nem assumido tão pesadas responsabilidades. o americano que tinha de tomar esta grave decisão debatia-se com o problema e tentava descansar no seu reboque modestamente mobiliado. polacos. Além das quatro estrelas da patente. Eisenhower recusara-se a fazê-lo. bronzeado e de sorriso comunicativo. que eram imediatamente reconhecidos por certa particularidade no vestir. escritório e salinha. belgas. Queria aproximar-se o mais possível dos portos onde as suas tropas embarcavam. Havia uma pilha de romances do FarWest junto da mesa de cabeceira e duas fotografias emolduradas: sua mulher. G. Mas o comandante supremo nunca ficava parado o tempo suficiente para gozar inteiramente do seu reboque. e seu filho. aviadores e guarda-costas. O reboque de Eisenhower. Deste reboque. dos quais mais de metade eram americanos: aproximadamente um milhão e setecentos mil soldados. pelo corte de cabelo excêntrico ou por uma bateria de condecorações vistosas. tinha mandado edificar um pequeno quartel-general de campanha: algumas tendas para o reduzido estado-maior e diversos reboques. bastante parecido com um caminhão de mudanças. Era o reflexo da sua personalidade. envergando o uniforme de cadete de West Point. Só o quarto parecia habitado. uma pequena bateria de telefones. incluindo o que ocupava e a que chamava o seu "circo ambulante". Ao contrário de outros célebres chefes aliados. marinheiros. a três quilômetros do Q. Mamie. nada deixava suspeitar estar neste homem do Middle-West. no ombro. Eisenhower faziase antes notar pela sua discrição. Nunca. as "privadas" de fossa química e nas traseiras uma varanda envidraçada. que serviam de quarto. compreendia três pequenos cubículos. longo e baixo. naval de Southwick House. o comandante supremo das Forças Aliadas. apesar da amplidão da sua missão e do seu poder absoluto. um americano comandara tantos homens pertencentes a tantas nações diferentes.CAPÍTULO X Ao FUNDO de um bosque molhado de chuva. Eisenhower comandava cerca de três milhões de soldados aliados. Embora pudesse instalar-se mais confortavelmente na ampla residência de Southwick. As reuniões do estado-maior eram geralmente realizadas numa das tendas mais espaçosas. o escudo . noruegueses e holandeses.

Muito antes de Eisenhower ter sido nomeado comandante supremo das Forças Aliadas. havia três telefones da maior importância e de cores distintas. nenhuma bandeirola. Que poderia dizer ou fazer na altura? Quatro meses antes. Eisenhower chamava-lhe "uma grande cruzada". O seu ajudante de campo naval. no quarto. (Nessa altura. qualquer sinal da sua alta autoridade. ninguém podia ainda imaginar o alcance da barbárie nazi. os milhões de torturados. os grandes chefes de estado-maior de Washington tinham-lhe especificado a sua missão num único e sucinto parágrafo: "Desembarcará no continente europeu e.G. pôr termo de uma vez para sempre à monstruosa tirania que mergulhara o mundo na mais sanguinária das guerras. sob o comando do general inglês Sir Frederick Morgan. Mas. O vermelho estava reservado para as comunicações urgentes com Washington. Eisenhower foi posto ao corrente do envio do falso flash referente ao desembarque. que devia. Se falhasse. conta que o comandante supremo se limitou a resmungar entre dentes. no número 10 da Downing Street. O próprio reboque de Eisenhower não tinha qualquer distintivo. um pequeno grupo de oficiais anglo-americanos. Nada disse ao receber esta notícia.) O objetivo da grande cruzada não era somente ganhar a guerra mas também destruir o nazismo. Mas. que tinha aniquilado um continente e reduzido à escravatura mais de trezentos milhões de homens. os milhões de trabalhadores forçados arrancados à terra natal. Butcher. do corpo expedicionário aliado). Duravam há mais de um ano os preparativos deste desembarque com que contava o mundo inteiro. e com os outros generais do Alto Comando aliado. tinha estabelecido os primeiros planos da ofensiva. a derrota final da Alemanha requeriria talvez longos anos. o incalculável número de homens e mulheres que jamais voltariam.. o verde diretamente ligado à residência de Churchill. organizará operações para atingir o coração da Alemanha e destruir as suas forças armadas. os milhões de mortos nas câmaras de gás e fornos crematórios de Heinrich Himmler. não continha mapas.G.. de mortos pela fome. pondo fim a uma era de selvajaria sem precedentes na História.. com o Q. para confirmar as suas suspeitas. de reféns executados. para todos os aliados. Foi através do telefone preto que. . o General Walter Bedell Smith." A finalidade e o propósito da ofensiva estavam contidos nesta simples frase. e o preto punha-o em comunicação com o seu brilhante chefe de estado-maior.com a espada flamejante do SHAEF (G. nem fotografias com dedicatórias dos grandes homens que freqüentemente o vinham ver. Mas primeiro era preciso que o desembarque tivesse êxito. em ligação com as outras Nações Unidas.. o Capitão Harry C. junto à mesa de cabeceira. tratava-se de outra coisa além de simples operação militar.Q. O problema era árduo. na nota que lhe outorgava a autoridade suprema.

restaurantes e pubs ingleses foram bruscamente invadidos por tropas vindas de todos os Estados da América do Norte. incrível torrente de homens e material despenhou-se sobre a Inglaterra.. Em breve houve tan tos soldados americanos nas cidades e aldeias da Grã-Bretanha que ultrapassaram em número os autóctones.ª e 9. o sul da Inglaterra assemelhava-se a gigantesco arsenal. as armas. jipes. Nos bosques e florestas estavam dissimuladas pilhas de munições. revistos e desenvolvidos. carros blindados. autometralhadoras. Em maio. os meios de transporte. que pretendiam ser possível ir do norte ao sul e do leste a oeste da Inglaterra sem sequer ser preciso decolar. não só para o ataque. Onde e quando deveria dar-se a ofensiva? Quantas divisões seria preciso utilizar? Estas X divisões poderiam ser treinadas. constituíram o plano Overlord. do Mediterrâneo e dos outros teatros de operações? Quantos campos de aviação seriam necessários para receber os milhares de aparelhos indispensáveis para o ataque aéreo? Quanto tempo seria preciso para reunir o material. o equipamento. caminhões. mais navios. mais material do que qualquer outro operação militar da História. Por toda parte surgiram campos de aviação. desde as barracas Nissen até às pistas de aterragem. Colossal empreendimento! Antes mesmo que o plano tivesse tomado a forma definitiva. reunidas e estar prontas a atuar na data Y? Quais os meios de transporte necessários? Que forças deveriam ser empregadas no bombardeamento naval e nas escoltas? Onde se encontrariam os barcos e lanchões de desembarque? Poderiam ser destacados do Pacífico. mas também para o que se seguisse? Entre milhares de outras. mais aviões. Os comboios chegavam em tal número que na primavera já tinham trazido quase dois milhões de toneladas de víveres e material. os víveres? Quais as quantidades a prever.. poucos precedentes militares e muitos pontos de interrogação. depois de Eisenhower ter tomado o comando. Começou a juntar-se uma frota de cerca de novecentos navios. canhões antiaéreos. Os portos estavam engarrafados. desde os couraçados até às vedetas. as munições. Finalmente. bulldozers e . hotéis.havia poucos dados.ª Forças Aéreas. Os campos estavam cobertos de obuses. a ponto de terem de ser montados duzentos e cinqüenta quilômetros de carris novos para os transportar. de tal modo que se tornaram num motivo de brincadeira entre os aviadores da 8. capota contra pára-choque. modificados. intermináveis filas de veículos. Nas charnecas comprimiam-se. Havia mais de cinqüenta mil. Para uma ofensiva aérea tão importante urgiu construir-se cento e sessenta e três bases suplementares. os seus estudos e projetos. Os cinemas. e exigiram mais homens. montões de peças soltas e de material préfabricado. ambulâncias. carros half-tracks. eram estas algumas das perguntas angustiantes às quais os estrategistas aliados tinham que responder.

Cada um destes portos. que seriam imergidos lado a lado. cargueiros tão importantes como os Libertys-ships descarregariam a sua carga em batelões que fariam a ligação entre as praias e o porto. outros equipados na dianteira com enormes chicotes de correntes para bater o solo e fazer explodir as minas. As aldeias. Ao vê-lo atrás dos rebocadores dir-se-ia um prédio de cinco andares deitado de flanco. Comboios carregados de tropas e de material obstruíam todas as vias secundárias. verdadeiros milagres de técnica e engenho. guarnecidos de uma floresta de tubos para lançar a mais recente das armas modernas: o foguete. mas a intendência. O maior destes caixotões continha abrigos para a tripulação e peças antiaéreas. compreendiam primeiro um quebra-mar exterior.escavadoras. Para além dos Mulberries. chamados Mulberries. A coisa mais extraordinária era sem dúvida os dois portos artificiais destinados a serem rebocados até às praias da Normandia. Seguiam-se cento e quarenta e cinco caixotes de concreto de diversos tamanhos. todo o Sul da Inglaterra ressoava com o surdo roncar dos caminhões. Carros capazes de flutuar. teria a superfície do de Dover.P. a M. Nestes ancoradouros artificiais. na calma das noites de primavera. desde os comprimidos contra o enjôo até às vinte e quatro mil camas de hospital. o matraquear dos carros e a voz característica dos americanos. Durante todo o mês de maio chegaram aos portos e pontos de embarque homens e material. outros carregados com enormes cilindros recobertos de ripas que serviriam para transpor as valas anticarros ou para escalar as paredes. esse maldito lugar perdido? . constituído por enormes flutuadores de aço. As embarcações de mais fraca tonelagem desembarcariam o seu carregamento sobre pontões de aço. Também havia estranhos engenhos da guerra moderna. sessenta blocos de cimento constituiriam um quebramar suplementar. Mas o espetáculo mais impressionante era o dos vales pejados de longas colunas de material ferroviário: cerca de um milhar de locomotivas absolutamente novas. vinte mil vagões-cisternas e vagões de mercadorias. Os comboios bloqueavam as estradas. cobriam-se de uma poeira fina e. Estes portos. que pareciam só ter uma pergunta a fazer: — É ainda longe. onde estariam à espera caminhões que o transportariam para terra ao longo de extensas estacadas flutuantes. O engarrafamento das estradas levantou graves problemas. os mais humildes lugarejos. e as estradas de ferro britânicas realizaram o milagre de conduzir tudo e todos sem estorvo nem demora. uma vez no lugar. Havia barcos chatos. um dos grandes segredos da operação Overlord. vestuário e medicamentos. esperando o momento de convergirem sobre a costa. destinados a substituir o material francês que fora destruído. para formar um paredão interior. Os armazéns abarrotavam de víveres.

As filas de esfomeados. A 17 de maio decidira que o Dia D só poderia ser escolhido entre três dias de junho: 5. antes do fim do dia: dar ordem de prosseguir ou adiar mais uma vez o desembarque. Só durante estes três dias haveria dois fatores a favorecer o desembarque: um tardio nascer de lua e. ao longo do litoral. Era pois indispensável um nascer de lua tardio. Já não faltava muito para a hora soar. atingiam por vezes mais de um quilômetro. pouco depois da alvorada. foram precisos cinqüenta e quatro mil homens. Os números ultrapassavam a imaginação.ª e 82. Dormiam em tarimbas de três e quatro andares. Os regimentos eram tão numerosos que.ª divisão britânica. Eisenhower e os seus oficiais tinham feito tudo o que era concebível a fim de que a vitória pudesse ser alcançada com a menor perda de vidas humanas. dos quais quatro mil e quinhentos eram cozinheiros. A infantaria aerotransportada e os pára-quedistas abririam o assalto. E ninguém o podia substituir para tomar tal decisão. . Desse momento em diante. só lhe restava aguardar e esperar que o tempo melhorasse. surgiram do solo. quer militar. seria forçado a tomar uma decisão. para salvaguardar o efeito de surpresa. O desembarque por mar deveria efetuar-se com a maré baixa. os homens começaram a embarcar com o material. 6 ou 7. cidades inteiras de barracões Nissen e tendas para receber os homens que não paravam de chegar. O horário de toda a operação dependia desta maré. tais forças pareciam invencíveis. quer política. Os chuveiros e os abrigos ficavam muitas vezes bastante longe e os homens faziam fila para esperar a vez.Numa noite. Pesava sobre ele a responsabilidade. mas. O sucesso ou malogro da operação dependiam da sua decisão. Eisenhower encontrava-se perante terrível dilema. unicamente sobre ele. E esta arma incrível — a juventude do mundo livre. só para o serviço das instalações americanas. Durante quase todo o dia 4 de junho. para que os obstáculos de Rommel fossem visíveis. pesada de conseqüências. à hora das refeições. fosse ela qual fosse. os reforços que desembarcariam muito mais tarde teriam igualmente necessidade de uma maré baixa — e deveriam chegar antes da noite. a operação Overlord estava à mercê dos elementos. após meses de minuciosa preparação. E. Pela última semana de maio. Eisenhower tinha as mãos atadas. todas as disponibilidades do mundo livre — aguardava a decisão de um só homem: Eisenhower. ou pouco mais.ª divisões americanas e à 6. uma maré baixa. para complicar mais ainda o trabalho dos meteorologistas. Mas. Precisavam do luar. Eisenhower isolou-se no reboque. acontecesse o que acontecesse. cerca de dezoito mil homens pertencentes às 101. era necessário que chegassem sobre as suas zonas pela noite escura.

Entre estes três dias favoráveis ao desembarque. a necessidade de reabastecer de combustível certos navios impediria o lançamento da ofensiva no dia 7. podiam ser mantidos isolados e encerrados durante semanas. para identificar as praias. data em que a maré seria novamente favorável. as probabilidades contrárias pareciam tomar proporções astronômicas. campos ou terrenos de aviação sem que o segredo da ofensiva não se escoasse. Finalmente. se houvesse que o adiar. e Eisenhower ainda menos. aliado ninguém ousava ter esperanças em condições atmosféricas perfeitas. tinha-se dedicado a reconhecer e a pesar todos os fatores que lhe dariam um mínimo de condições aceitáveis para desencadear a ofensiva. A 19 não haveria luar. Nesse domingo tempestuoso. era desejável um vento do largo soprando a baixa altitude. Mas não era tudo. treinados e escalonados. pudesse lançar a ofensiva a 6. Havia muitos mais elementos a tomar em consideração. e três destes dias não tinham luar. Não contando já com o perigo que um mar cavado representaria para os navios. os aviões de reconhecimento da . havia dez probabilidades contra uma de que a Normandia oferecesse em junho o mínimo de requisitos. Durante longas sessões de treino com os meteorologistas. Uma calmaria absoluta era igualmente necessária. em barcos.Estes dois fatores críticos — o luar e a maré — irritavam Eisenhower. Não viam como mais de duzentos mil homens. "despedaçava-lhe o coração". No G. Em terceiro lugar. segundo os peritos. só no seu reboque. Eisenhower escolhera o dia 5 a fim de que. antes mesmo de terem posto pé em terra firme.Q. os Aliados precisavam de três dias de calmaria antes do Dia D. e para facilitar o rápido embarque dos homens e do material. examinava todas as hipóteses. Mas se desse a ordem de desembarcar no dia 6 e fosse mais uma vez obrigado a anulá-la. Ou então Eisenhower podia esperar pelo mês de julho. E mesmo que não houvesse qualquer deslize durante este período. Ficava só uma alternativa: adiar o desembarque para o dia 19 de junho. diria ele mais tarde. que varresse a fumaça das praias e pusesse os obstáculos bem à vista. Mas. o enjôo ameaçava pôr fora de combate muitos homens. eram precisos dias longos e boa visibilidade. A eventualidade dum adiamento tão prolongado horrorizava de tal forma os que rodeavam Eisenhower que os mais prudentes dos seus oficiais estavam prontos a arriscar o ataque no dia 8 ou 9. mas os exércitos aerotransportados seriam então forçados a atacar na escuridão. para reduzir os riscos de abalroa-mento entre os cinco mil navios que evolucionariam quase costado a costado na baía do Sena.G. Primeiro. enquanto Eisenhower. a fim de a marinha e a aviação reconhecerem os alvos. mas esta demora interminável. Só a maré reduzia a seis o número de dias propícios para o desembarque.

G. Para toda a gente. algumas poltronas fundas e dois canapés. Mueller teria muitas perguntas a fazer ao comandante supremo dos exércitos aliados. os agentes de informação alemães já tinham forçosamente recebido indicações a este respeito. E sem esperar por Mueller. nessa noite. as costas curvadas. as janelas estavam escondidas atrás de cortinas duplas. se tal não tivesse já acontecido. Eisenhower calava-se. não queria ser importuno e dizia de si para si que a ocasião não era propícia. Em pequenos grupos. Ao voltarem ao acampamento e quando Eisenhower disse "até à vista" a Mueller. 0 correspondente lembra que "Ike estava totalmente absorto pelos seus pensamentos.. Foi um passeio estranho e silencioso. mergulhado nos seus problemas. avançado: Merril "Red" Mueller. chefe do estado-maior de Eisenhower. o comandante supremo vinha de tempos a tempos à entrada do reboque e erguia os olhos para as grandes nuvens baixas que esmagavam a copa das árvores. vestia calças de bombazina e uma camisa de gola alta. mãos nos bolsos. Por causa do black-out. como se cada uma das quatro estrelas que tinha sobre os ombros pesasse uma tonelada". estava o impetuoso Almirante Ramsay. Estes homens . Junto do fogão. mas nessa tarde viu um dos quatro correspondentes de guerra acreditados juntos do Q. comandante das forças aéreas. mas conteve-se. pouco antes das nove e meia. comandante naval inter-aliado. abafavam o crepitar da chuva e os gemidos do vento. ampla e confortável divisão com uma grande mesa coberta de pano verde. os oficiais de estado-maior e os seus ajudantes de campo reuniram-se na biblioteca de Southwick House. fumando sem parar. o Marechal-do-Ar Leigh-Mallory. Ike partiu com o seu passo largo. Mas cabia a Eisenhower tomar a decisão. da NBC (cadeia de rádio americana). Nessa noite. encarregado de dirigir a ofensiva no Dia D. Eisenhower parecia que nunca via ninguém. sempre de mãos nos bolsos. sempre magro. Ao pôr do sol. Red — disse bruscamente. conversava com o Marechal-do-Ar Tedder. grande fumador de cachimbo. muito próximo. "curvado sob o peso das suas preocupações. Dir-se-ia que esquecera a minha presença a seu lado". Por vezes saía e andava de trás para diante na clareira. O General Smith recorda-se que só um dos oficiais não estava fardado: Montgomery. o General Bedell Smith. pesadas e escuras. a idéia de um adiamento para data tão distante parecia impossível. o correspondente viu-o subir a escada de alumínio do reboque. Mueller teve de correr para o alcançar já no bosque. os oficiais discutiam a meia voz. e. Três das paredes estavam cobertas de estantes de carvalho. — Venha dar uma volta.. Durante os seus passeios solitários.Luftwaffe não deixariam de descobrir a imensa frota. mas havia poucos livros e a sala parecia curiosamente nua. Sentado junto deles.

os bancos de nuvens formar-se-iam de novo e o céu ficaria coberto.. mas uma máscara preocupada substituiu-o bem depressa. que talvez trouxesse ao ansioso Eisenhower e aos seus oficiais um fraco raio de esperança. de forma inesperada. aprazado para as nove e meia. capitão de grupo (coronel). Responderam o melhor que podiam e foram-se . Qualquer preâmbulo seria supérfluo. Às nove e meia precisas a porta abriu-se. a situação desenvolve-se muito depressa. Esta melhoria de condições manter-se-ia durante todo o dia seguinte e continuaria pela manhã do dia 6 de junho.. Explicou que nova frente atmosférica se deslocava em direção à Mancha e podia. Seu célebre sorriso passoulhe brevemente sobre o rosto quando saudou os velhos companheiros.. os ventos acalmar-se-iam de forma apreciável e o céu ficaria limpo — o suficiente para permitir que os bombardeiros entrassem em ação na noite de 5 para 6 e na manhã do dia 6. J. e mostravam-se tão otimistas quanto possível nas suas previsões. o tempo pioraria novamente. Seguidamente. mas é impossível prever o tempo com segurança absoluta. Nessa ocasião. Durante a esporádica melhoria. precedidos pelo seu chefe. Stagg. ouviriam as últimas previsões dos serviços meteorológicos.. Stagg e os seus colaboradores foram bombardeados por uma série de perguntas. Eisenhower surgiu.transmitiriam a ordem de atacar. Assim que acabou a exposição. Todos os olhos estavam fixos em Stagg.. Resumiu rapidamente as condições atmosféricas no curso das últimas vinte e quatro horas e em seguida disse. muito calmamente: — Meus senhores. em poucas horas. Em suma anunciava a Eisenhower que podia contar com um período de tempo relativamente bom. da Royal Air Force. Fez-se silêncio quando Stagg começou a exposição. os cálculos refeitos. e isto durante um pouco mais de vinte e quatro horas. O relatório tinha sido cuidadosamente verificado. quando Eisenhower a desse. N. impecável no seu fardamento de campanha verde-escuro. Todos conheciam a gravidade da decisão que era preciso tomar. bastante acima do mínimo indispensável.. Os três meteorologistas da operação Overlord entraram a seguir. Pelo meio-dia. Tinham a certeza das suas previsões? Não havia possibilidade de erro? Tinham colhido informações suficientes? Tinham verificado com atenção os relatórios? Não poderia o tempo continuar a melhorar durante alguns dias depois do dia 6? Para os meteorologistas era impossível responder a algumas dessas perguntas. iluminar provisoriamente a zona de desembarque. assim que iniciou a conferência. Podia sempre surgir uma perturbação. De momento. aguardavam com os ajudantes de campo e os oficiais de estado-maior — estavam ao todo na sala doze oficiais generais — a chegada do comandante supremo e o início da conferência.

e as chamas da lareira refletiam-se no chão encerado. impressionou-se com "o alheamento e a solidão" do comandante supremo. o relógio marcava nove horas e quarenta e cinco. seria o Dia D.. um a um. Se estas forças aparelhassem e tivessem de voltar às bases. confirmaria a decisão que acabara de tomar: a terça-feira. sob as ordens do Contra-Almirante A. O General Smith. Em seguida Eisenhower ouviu a opinião dos seus subordinados. Tedder e Leigh-Mallory temiam que as nuvens baixas e as nuvens previstas impedissem que a aviação operasse eficazmente. apressados agora em pôr em movimento a monumental ofensiva. enquanto pesava os prós e os contras.embora. durante breve reunião para examinar os últimos relatórios meteorológicos. era "arriscado". Durante um quarto de hora. para que a operação Overlord pudesse ser desencadeada na terça-feira. sem ser suficientemente apoiada pela aviação. as mãos cruzadas sobre a mesa. 6 de junho.. mas urgia tentá-la. — Eu — disse — sou de opinião que se parta. 5 de junho. Ike voltava a ter a palavra. dia 7. Eisenhower levantou-se. Kirk. Na sua opinião. Houve longo silêncio. . Chegara o momento em que tinha de tomar sozinho uma decisão definitiva.. sobre o fogão. tinha sido adiado. O General Smith pensava que a ofensiva devia ser desencadeada a 6: era desafiar a sorte. Por fim Eisenhower ergueu um rosto crispado e murmurou lentamente: — Estou persuadido de que devemos dar a ordem. deviam receber ordens dentro de meia hora. Os comboios americanos destinados às praias de Omaha e Utah. a cabeça baixa. Não gosto disto. que o observava. O Almirante Ramsay insistia sobre a urgência de tomar uma decisão. Julgo que não podemos escolher.. sentado. outros cinco. planava sobre a mesa verde uma nuvem de fumo azul. Seis horas mais tarde. G. seria impossível fazê-las reexpedir na quartafeira. Passaram minutos. Parecia esgotado. Eisenhower saiu da sala com os seus oficiais. Montgomery mantinha a decisão que tomara na véspera. quando o Dia D. no silêncio da biblioteca. mas a tensão quase lhe desaparecera do rosto. Eisenhower e os seus oficiais deliberaram. O problema do combustível atenazava Ramsay. Atrás deles. nesse caso. alguns dizem que dois. mas enfim. Parecia-lhes que a ofensiva se daria.

tinha-se confessado e comungado durante a missa. Com um gesto rápido.° divisão aerotransportada. resolveu voltar à partida de craps. em São Francisco. Estava contente. . continuara sob a asa de um avião e atingia agora o auge no hangar que tinha sido transformado em amplo dormitório.. de notas inglesas e de notas azul-esverdeadas novinhas em folha de origem francesa.. para que dispusesse de quinhentos e conservasse o resto: bem precisava deles. seria morto. Nesse instante. apanhara o rosário e enfiara-o no saco que contava deixar na base. para todos os credos. Dutch resolveu não correr o risco. talvez nunca voltasse a ter ocasião de perder tanto dinheiro. Agora. o 505. Durante os vinte e um anos da sua existência nunca vira tanto dinheiro. Não sabia quanto ganhara. que tinha na mão mais de dois mil e quinhentos dólares. para que a turba de amigos trocistas não o visse. E Dutch era quem mais embolsara durante a tarde. na base. se guardasse o dinheiro. Quando rasgou o sobrescrito. Pela manhã. Fez mentalmente a distribuição. da 82. subindo e descendo entre as camas e ao longo das galerias. escorregou dele um rosário que lhe caiu aos pés. o seu dinheiro tinha sido bem colocado.°. A sério? Por que razão lhe vinha constantemente à cabeça o incidente da manhã. A partida tinha mudado de um lado para o outro. "Dutch" Schultz. assim que chegassem a Paris. Física e moralmente. dentro do próprio dormitório. Deixaria mil dólares no cofre do vagomestre. mais do que o dinheiro que ganhava num ano.CAPÍTULO XI ERAM dez horas da noite quando o soldado Arthur B. Outros mil dólares seriam enviados à sua mãe. Dutch. E agora a lembrança do rosário levantou de repente uma pergunta em que nunca teria pensado: por que razão jogava em tal momento? Olhou as notas machucadas na mão. O jogo de dados durava desde que tinham anunciado que o desembarque fora adiado de vinte e quatro horas. pela espessura do maço de dólares amarrotados. Começara numa tenda. causando-lhe tal mal-estar? Pelo correio da manhã. Mas adivinhava. sabia bem o que ia fazer do que ganhara. o soldado Schultz teve a certeza de que. Quanto ao que sobrasse. recebera uma carta da mãe. que era católico. ser-lhe-iam úteis quando voltasse de licença à Inglaterra. O jovem pára-quedista sentia-se bem. — Apertem-se um pouco — disse bruscamente — e deixem-me jogar. tinha feito tudo para se preparar para o grande salto. haviam celebrado serviços religiosos. saberia empregá-lo: serviria para pagar uma "farra" memorável com os camaradas de regimento.

Na parede.lembrarem-lhe que não se tratava de uma tarde como as outras. Como seriam as praias? Seria o desembarque tão difícil como se previa? Ninguém podia imaginar o Dia D. Schultz não foi o único a conduzir-se de forma bizarra. Ignoravam que dentro de vinte e seis horas somente soaria o Dia D. via as enormes ampliações fotográficas das posições alemãs nas praias normandas. Tais posições seriam os objetivos do Herndon no Dia D. Farr tinha confiança. que a comandava. mas cada um antevia-o a seu modo. Nas águas sombrias e agitadas do mar da Irlanda. atirou o boné para o chão e gritou: — Santo Deus. da 101. retido no porto devido ao baixo moral da sua tripulação. nos filhos. e cada hora que passava moía-lhes a paciência. Na enseada de Belfast.Viu as horas e perguntou a si mesmo quanto tempo precisaria para perder dois mil e quinhentos dólares. Era ainda demasiado cedo para terem conhecimento da notícia. Tinha havido bastantes piadas sobre os que escapariam e os que não regressariam. nas noivas. em toda a Inglaterra. nas mulheres. Mas mesmo assim estava contente por ter escrito longa carta ao filho . tinha apostado dez contra um como o Herndon não voltaria. O General Pratt levantou-se dum salto. mas Pratt não voltou a sentar-se na cama.G. fosse o que fosse. os homens estavam mais que preparados e a demora exasperava-os. Enquanto conversavam. a tripulação do Corry. com ele a bordo. parecia tentado a desafiar o destino. isso dá azar! Toda a gente rebentou a rir. os soldados aguardavam que algo acontecesse. A noite desceu. Enervados pelos meses de treino intenso. Farr pensou que o Herndon seria também o objetivo deles. a bordo do destroyer americano Herndon. nessa noite. Faziam exatamente o. sentou-se na cama. Assim. o barco gêmeo do Herndon. em plena solidão. Havia dezoito horas que a partida fora adiada. no Q. o General Maxwell D. O jovem oficial estava quase certo de que sobreviveria ao Dia D. tinha reunido os seus oficiais para longa conferência oficiosa. na ansiedade e no medo. que tirou o boné e o atirou para a cama. e um deles.. Ninguém. Na sala estavam talvez uma meia dúzia de homens.° Exército na Normandia. o oficial Bartow Farr tentava concentrar-se no seu problema de bridge. na noite sibilante desse domingo. E todos falavam da batalha que os esperava.° divisão aerotransportada. os exércitos de invasão aguardavam. Junto de Newbury. A tripulação do Herndon respondera fazendo correr o boato de que o desembarque seria feito sem o Corry. Era difícil: havia fatos em demasia a. chegou outro oficial. Tinha de conduzir os planadores do 101.. Taylor. o General Don Pratt. dos simples soldados aos generais. que o mundo podia imaginar: pensavam nas famílias. O Herndon regressaria são e salvo.

Via ainda o olhar ferido de Hilda. o Cabo Reginald Dale. tinham sempre desejado ardentemente um filho. Era convicção sua que o desembarque não tardaria e que nele tomaria parte. Um dos voluntários. A partir desse instante. da praia de Sword e os seus objetivos em Ouistreham. Hilda tinha-lhe anunciado que estava grávida. Mas era demasiado tarde. a espera parecia intolerável.ª Exército na África e tinha desembarcado nas praias da Sicília. e em vão tentou adormecer.ª divisão britânica. Estirou-se na tarimba. Agente de ligação no momento de Dunquerque. Hollis era uma exceção. que a época tinha sido mal escolhida. A próxima ofensiva não o inquietava de modo algum. durante a retirada. a estudar a maqueta. dormiam profundamente. o Sargentochefe Stanley Hollis era um deles. estava sentado na cama e preocupava-se com sua mulher. Casados em 1940.ª divisão britânica. na foz do Hamble. Ana. Para Hollis. alguns dias antes. No seu acampamento. Por ocasião da última licença. Separado da sua unidade. em Nova Iorque. homens. Hollis enganara-se no caminho e passara por uma parte da cidade que os alemães acabavam sem dúvida de atravessar.que ainda não nascera. No fim do Dia D. As paredes e pavimentos estavam crivados de balas. Dentre os milhões de homens acantonados na Inglaterra. Para o comandante Philippe Kieffer e os seus cento e setenta e um voluntários do comando francês. o seu desgosto. como milhares de outros. Tinha pressa de estar na França e de poder matar mais alguns alemães. Dale ficara furioso. combatera no 8. Hilda. Tinha abatido mais de oitenta. eles passavam o tempo a verificar as armas. Sabia com o que podia contar. de espuma de borracha. da 3. Na 50. tratava-se de assunto pessoal. Havia outros que também tinham pressa em chegar às terras da França. Aguardava o desembarque com impaciência. mulheres e crianças. Os Farr tiveram um rapazinho no mês de novembro. não tinham ninguém de quem se despedir. Dissera a sua mulher. um espetáculo que jamais esquecera. Há muito que aprendera a dormir quando queria. Excetuando raros amigos que tinham conhecido na Inglaterra. que acabavam de ser metralhados. Fora evacuado de Dunquerque. Nem sequer lhe podia telefonar. Contudo. alguns homens dotados de nervos de aço e de sangue-frio a toda prova.) Num acampamento perto de Newhaven. e maldizia-se por ter deixado escapar tais palavras. (E tinha razão. Nunca lhe passara pela cabeça que sua mulher. vira em Lille. Encontrou-se subitamente num beco onde jaziam corpos ainda quentes de alguns civis franceses. e de forma bastante seca. viria a fazer o centésimo segundo risco no cano da sua "Sten". pudesse dar à luz uma menina. As respectivas famílias tinham ficado na França. o Conde . Stan Hollis só pensava em matar alemães.

do 2. quando o sargento se apresentou.º batalhão de "rangers".° e 5. ao ser rendido. Deviam escalar as abruptas falésias da Ponta do Hoc. Do outro lado da baía. no acampamento da 4. Toda a gente parecia ter querido escrever longas cartas à família. um dos chefes de seção de Kerchner. Kerchner mandou chamar Johnson e. Mas em caso algum poderia esta carta passar pelas vias ordinárias. alemão bem defendido. Um tal prospecto irritou especialmente o sargento. A carta era um folheto publicitário dos sapatos de tacão alto "Adler". Os homens de sua seção eram todos tão baixos que lhes chamavam os "Anões do Brown". estava ocupado por um P. Tinha visto muitas vezes brincadeiras deste tipo em filmes de guerra. a bordo do transporte de tropas New Amsterdam.° "rangers" tinham herdado uma das missões mais difíceis do Dia D. A duzentos quilômetros do local. ninguém. O Cabo John Gwiadosky acabara de decidir pagar as dívidas. O alferes ficou completamente embasbacado ao ler a carta de Johnson. Isto é. — Não vá ficar com idéias. Todos estavam preparados para sofrer grandes perdas — alguns falavam em sessenta por cento — a menos que os bombardeiros ou os canhões da marinha conseguissem destruir as peças antes da chegada dos "rangers". — Fá-lo-ei com o maior dos prazeres — tinha dito o comandante. até mesmo a zona da praia de Utah. entregou-lhe a carta. perto de Plymouth. que.ª divisão de infantaria americana. orgulhoso dos seus galões de sargento. Enquanto perguntava a si mesmo quem poderia ter indicado o seu nome à Sapataria Adler. — Perdi fortunas nessa boite. executava uma estopada: a censura do correio. será melhor que você mesmo ponha isto no correio . — Meu caro Larry. Os 2. de cerca de trinta metros de altura. exultou ao saber que o plano tinha sido ligeiramente modificado: o seu pelotão devia desencadear o ataque ao cassino da praia. O Sargento Brown não percebeu nada ao ver o outro estender-lhe solenemente o seu dinheiro. julgava-se. mas nunca pensara que tal lhe pudesse acontecer. Acontece simplesmente que não quero vê-lo a perseguir-me até ao inferno reclamando o seu quinhão. qualquer que fosse a sua data. exceto o Primeiro-Sargento Larry Johnson. aproximou-se dele um dos seus homens.Guy de Montlaur. ninguém pensava que esse assalto fosse "canja". Os "rangers" tinham precisamente trinta minutos para efetuar esse trabalho. O correio só seria expedido depois do desembarque. a fim de reduzirem ao silêncio uma bateria de seis canhões de longo alcance: peças tão perigosas que eram capazes de atingir a praia de Omaha. o Alferes George Kerchner. O sargento era o mais alto e media um metro e sessenta e cinco. o Sargento Harry Brown. Nessa noite havia muito. encontrou uma carta que o esperava. De qualquer modo.C.

Estavam amontoados uns sobre os outros. Alguns já aí se encontravam há mais de oito dias. Juntamse em grupos e falam das jovens que conheceram.).. Dulligan. estava de tal modo sobrecarregado que o Tenente-Coronel Clarence Hupfer. A jovem vivia em Paris.. a Ann e a Pat". Para eles. divertem-se e gracejam.. no quente e bem alimentados.. Kerchner pensou que nada seria impossível enquanto o exército contasse com otimistas como Johnson. Ao ver partir o sargento. O Capitão John F. escrevia à sua mulher: "Gosto destes homens. O LCT 6. Havia uma luta constante entre a náusea e o enjôo. Foram numerosos os que exprimiram o seu pensamento de forma pouco habitual entre homens. pensou que iria afundar-se.ª divisão americana. Fumam. varriam-na de ponta a ponta e caíam em cascata pela popa. . na ponte. que não andavam nem para trás nem para a frente em quase todos os portos. de latrinas entupidas e de vômito. da 1. nos aeroportos e nos portos de embarque. as tripulações incrivelmente miseráveis. A cozinha ficou inundada e os homens tiveram de comer as refeições frias — se o conseguissem. Nada disto acontecia com os soldados dos barcos de desembarque de fundo chato. a batalha começara muito antes de deixarem a Inglaterra. Durante a invasão da Sicília tinha tanto que fazer que o medo desapareceu. vamos desembarcar numa praia francesa e em seguida só Deus sabe o que acontecerá.. destinado a desembarcar na praia de Omaha. da 4. Dormem por todos os cantos do navio. O mar subia até à armadura. Quase todos os homens das forças de desembarque escreveram a alguém durante as prolongadas horas de espera. A bordo do LCT 777* o soldado de segunda-classe George Hackett estava atemorizado ao ver vagas tão altas que escalavam a proa da embarcação. os melhores do mundo. Estavam fechados há tanto tempo que as cartas funcionavam como válvulas de escape. Os mais afortunados eram os que se encontravam a bordo dos grandes navios de guerra ou dos barcos de transporte. marcando um encontro para os primeiros dias de junho.quando chegar à França. a ti. A maioria lembra-se ainda hoje do cheiro destes barcos. do T. das suas famílias e das suas recordações (geralmente relacionadas com moças. As condições variavam de navio para navio. jogam cartas. Antes do desembarque no Norte da África estava inquieto e sentia certo medo. e por vezes passava-lhe por cima.. (N. (1) LCTs Landing craft tanks: batelões para o desembarque de carros. mas a seco.. Peço a Deus que me poupe e que permita que volte a encontrá-los.ª divisão de infantaria. nos veículos. um batelão britânico.) São bons soldados. Quero que saibas que te amo acima de tudo no mundo. um cheiro pestilento de resíduo de petróleo. Johnson tinha escrito a uma moça. Tais barcos estavam superlotados e eram nauseabundos. numa confusão total.. Desta vez.

estava a tal ponto superlotado que os homens andavam uns por cima dos outros. estafados. A tripulação dos guarda-costas estava convencida de que a falsa partida não passava de mais um estratagema. . O vento continuava em rajadas. Durante todo o dia. tentava reconfortá-los prognosticando com ar solene: — Esta unidade nunca verá um combate. Acabavam de regressar ao porto e de conhecer a razão do adiamento. Dirigiu-se ao posto e. — Ao ver-vos — disse Bennie — dir-se-ia que é a vossa última refeição! Bennie quase que tinha razão. o LCT 97.º corpo de engenharia. encontrou boa dúzia de homens a jantar — nessa noite havia peru bem guarnecido. Bennie Glisson. Em breve a notícia se espalhou pela tripulação. Desta vez já não se tratava de dar meia volta. da 29.ª divisão canadense. Mas os homens que mais sofreram durante este período de espera foram os dos comboios que tinham voltado para trás. quando lá chegou. tinham sido sacudidos sobre as águas tumultuosas da Mancha. Hoffman sentia grande lassidão. as vedetas dos guarda-costas e os destroyers começaram a juntar novamente os comboios. Metade dos que ali se encontravam iriam ao fundo com o Corry.a divisão de infantaria. o radiotelegrafista. Perto deles.ª brigada especial do 5. Ao largo da enseada de Plymouth. O soldado de segunda classe William Joseph Phillips. E agora tinham de estar prontos para partir de novo ao primeiro sinal. E há de ser para ir caiar as falésias brancas de Dover! À meia-noite. da 3. o balanço era tal que aqueles que tinham tido a sorte de conseguir uma cama só a custo conseguiam ocupá-las. Às vinte e três horas. todos os comboios tinham regressado ao porto. Estava frio. de todos os tamanhos e formas. o moral estava igualmente baixo.O Sargento Keith Bryan. um trabalho de Hércules. Estamos na Inglaterra há tanto tempo que só seremos chamados quando a guerra acabar. recorda-se de que o seu batelão. Os barcos de fundo chato batiam na água e voltavam a cair no côncavo das vagas. que vinham ancorar um a um. Segundo disse o Sargento Morris Magee. a bordo do LCT 408. soube-a quando ia ficar de quarto. do Corry. contemplava do alto da ponte as intermináveis filas de sombras negras. Estava tão doente que não conseguia vomitar. os movimentos do seu barco eram "piores do que os de um bote de recreio no meio do Lago Champlain". nos primeiros minutos a seguir à Hora H. Ensopados. as colunas de escuros navios. o comandante Hoffman. Todo o mundo parecia deprimido. aferravam-se tristemente aos parapeitos dos pesados navios. da 5.

Era o indicativo. Entreolharam-se.. Não esperou muito. o submarino de bolso X-23 veio lentamente à superfície. escutou mais uma vez. Ergueu os olhos.. Deu a notícia aos outros. Ninguém disse uma palavra. Padfoot. e que se resumia numa palavra.. . de semblantes pesados: tinham em perspectiva mais um longo dia debaixo d'água. ao minúsculo compartimento para levantar a antena. 5 de junho.850 quilociclos e pôs os auscultadores. nem quis acreditar no que ouvia. Mas não se enganara. Quando ouviu a mensagem que se seguiu..* Ao largo das costas da França. o Tenente James Hodges regulou a rádio nos 1. Era uma hora da manhã.. O sinal chegou muito fraco: Padfoot. com um dos seus homens. O Tenente George Honour desaferrolhou rapidamente o painel da escotilha e subiu. Padfoot. Embaixo..

Quase toda a gente ignorava o nome destas aldeias: Vierville. bem-vindos mas apavorantes. assim como burgos e aldeias. O camponês normando tinha-se adaptado conforme podia. Chef-du-Pont. que ensopava tudo. represálias contra as redes de Resistência. odiando os alemães com uma obstinação tipicamente normanda e aguardando estòicamente o dia da libertação. La Madeleine.O. Para eles. a ocupação manifestara-se de diversas maneiras. de casas apertadas em torno de grandes campanários quadrados. e a Gestapo. com os S. Mas estes bravos camponeses nada faziam além do estritamente necessário. Em casa de sua mãe. Era um espetáculo pasmoso: a sólida garupa do cavalo. as gamelas saltitantes e o boné quadrado do soldado coroando o todo. Impossível esquecer a guerra. para além das praias. Entre as grandes cidades estendia-se o campo. Luc-sur-Mer. em prados irregulares onde se tinham travado tantas batalhas e que viriam a conhecer tantas mais. os bombardeamentos aliados. Arromanches. esses famosos caminhos tortuosos que desde o tempo dos romanos serviam de fortificações naturais tanto para os defensores como para os assaltantes. Sainte-Marie-du-Mont. um jovem advogado de trinta e um anos. nesses campos quase despovoados. Milhares de homens e mulheres tinham sido arrancados às suas aldeias pelo S. a ocupação revestia-se dum significado que não tinha nas cidades. Sainte-Mère1'Église. numa colina que dominava Vierville. Hardelay viu o alemão atravessar a aldeia. através da janela da sala. os dois portos que enquadravam a zona do desembarque. com suas casas de tetos de palha ou telhas vermelhas. e os que ficavam eram muitas vezes obrigados a trabalhar para o inimigo. Aí.S. sobretudo de Caen e Cherbourg. e voltar a descer em direção ao muro de . um soldado ale-mão cavalgando um corpulento percherão pela estrada à beira-mar. paredes caiadas e vigas à mostra. observava pelo binóculo.CAPÍTULO XII A CLARIDADE do dia nascente. Do selim pendiam algumas gamelas. a uns vinte quilômetros para o interior das terras — a ocupação fora dura. as praias da Normandia estavam veladas de bruma. Há quatro anos que os normandos viviam com os alemães. havia todos os dias prisões de reféns. Os • campos estendiam-se sob a chuva. e Caen. passar frente à igreja de esguio e delicado campanário. Colleville. Viviam o dia-a-dia.T. Michel Hardelay. Nas três cidades principais — Havre e Cherbourg. o dos caminhos tortuosos. Por entre os campos surgiam grandes quintas. A chuva intermitente da véspera transformara-se numa chuvinha regular.

Às seis e meia Hardelay ligou o rádio para escutar a BBC. apeou-se e pegou nas gamelas. Não era tudo. Precisavam de tijolos e de pedra. a voz do G. os alemães tinham-nos avisado de que a demoliriam no devido tempo. na faixa onde as areias terminavam. Agachou-se. no final do boletim informativo. nunca se sabia com que contar. Com os alemães. deixando só uma presa ao selim. mas também porque os alemães necessitavam de madeira para os seus abrigos. Manteve-o em surdina. O alemão nunca chegava atrasado. tinham demolido o alinhamento de encantadoras vivendas de férias "com vista para o mar". segunda-feira. Aí chegado.G. O alemão agarrou na última gamela. Tinha-os visto semear a praia de obstáculos e plantar milhares de minas mortais. Das noventa que tinham existido. Das sete casas que ainda estavam de pé. raspavam e aplanavam ao longo das dunas. fui encarregado pelo Alto Comando de .concreto que separava a estrada da praia. diante dele. o "Coronel Britain" (Douglas Ritchie. só restavam sete. não viria a dar uma contra-ordem. escalou o muro e dirigiu-se para a grande vivenda cor-de-rosa rodeada de árvores. Esta cena repetia-se todas as manhãs.Q. algures. Há alguns meses que Hardelay vigiava as tropas alemães e os trabalhadores requisitados que escavavam. debaixo da casa. Mas a alegria de Hardelay tinha um travo amargo. hoje mais do que nunca. odiava os alemães. Com uma consciência encarniçada e meticulosa. Sempre achara cômica esta cena. apareceram como por magia três ou quatro soldados vindos das dunas. em parte devido à figura do soldado e em parte porque se divertia ao ver a tão louvada organização técnica dos alemães ser reduzida a zero quando se tratava simplesmente de levar aos homens o café matinal. a maior — em alvenaria — pertencia à família Hardelay. Ia sabê-lo melhor nas próximas vinte e quatro horas e sairia da incerteza. Hardelay perguntava a si próprio se alguém. Levava sempre à mesma hora o café para os postos avançados. visto que lhe tinham dito que a casa seria arrasada no dia seguinte. Como de costume. e a gamela passou entre duas mãos que surgiram ao nível do solo. uma terçafeira. no extremo da praia. 6 de junho. Não tinham sido destruídas com o fim único de ampliar o campo de tiro dos artilheiros. De repente. Alguns dias antes. 5 de junho. O dia já tinha começado para os artilheiros escondidos nos pillboxes e abrigos camuflados no topo da praia: uma plácida extensão de areia dourada que no dia seguinte seria conhecida pelo mundo inteiro com o nome de Omaha Beach. Michel Hardelay sabia que eram exatamente seis horas e quinze. junto ao passeio. Como todos os normandos. Apossaram-se das gamelas e desapareceram como tinham surgido. aliado) leu importante comunicado: "Hoje.

os habitantes entregavam-se aos seus afazeres costumeiros. os óculos de banda. A linda Anne-Marie. mas nem sempre poderemos fazê-lo a horas fixadas com antecedência. Nunca o esquecera. Em 1914. pedimos-lhes para nos escutarem a todas as horas do dia. sua filha. os dois países ocupados. à saída da aldeia. às seis e meia. como quase todas as famílias de Vierville. Na devida altura. Os Dubois e os Davot. Ao longo de toda a costa normanda.vos dizer o seguinte: Temos agora. que era belga. em 1939. Broeckx. voltaria imediatamente para casa de bicicleta. É menos difícil do que parece. cuidavam dos animais e podavam os pomares. à beira do pequeno caminho térreo. com estas emissões. estava sentado no estábulo úmido. um americano alto e magro. apenas a oitocentos metros do mar. do Estado de Rhode Island. Fixara-se na Normandia há cinco anos. Na terça-feira. deixara o emprego no escritório e refugiara-se na Normandia com sua mulher e filha. onde estariam a salvo. de dezenove anos." Hardelay adivinhou que tais "instruções" deveriam andar relacionadas com o desembarque que toda a gente aguardava. frente à quinta de seu pai. não ouviram esta emissão. do lado de Dunquerque ou Calais... a cabeça inclinada contra o flanco de uma vaca e dirigia o jato de leite para um balde. Fernand Broeckx. tios e avós tinham vindo de longe e sobretudo de Paris. Tinham-se deitado tarde na véspera. quando a guerra foi declarada. Numa quinta. Assim. as famílias parisienses retomariam o comboio da manhã. Pensava que os Aliados atacariam pelo ponto mais estreito da Mancha. Nesse mesmo dia. No lugarejo de La Madeleine. pois no Calvados ainda se podiam encontrar provisões com relativa facilidade. Os festins deviam durar três dias. um processo de comunicar diretamente entre o Comando Supremo e vós. Para todos era mais um dia de ocupação igual aos outros. De qualquer modo. a quinze quilômetros de Vierville. porque fora o dia da primeira comunhão. na estrada de Colleville. Tencionava passar as férias com os pais e como a jardim de infância onde trabalhava fechava no dia seguinte. Os fazendeiros trabalhavam nos campos. onde existiam portos. desembarcava na praia. As famílias seriam retidas em Vierville durante quatro meses. como todas as manhãs. A sua quinta erguia-se sobre um pequeno montículo... ser-vos-ão dadas instruções capitais. Primos. que habitavam Vierville. De há muito que não descia até à praia — desde que os alemães tinham edificado a Muralha. tinha visto destruírem-lhe a casa. Nas aldeias abriam-se as lojas. aninhado atrás das dunas da praia que . Conseqüentemente. era vigilante de crianças em Bayeux. que Anne-Marie nunca vira na vida e que viria a desposá-la. Mas estas férias normandas iam durar muito mais tempo. não para os seus lados.

enterrada no coração de uma colina. o doutor Jeanne veio examinar o doentinho e disse ao pai: — Não tem razões para se preocupar. Stobe telefonou para o número 20 da Avenida Vítor Hugo. Duvidava grandemente que os aviões aliados se mostrassem nesse dia. em Saint-Germain-en-Laye. Stobe conversou com o seu oficial de ligação. aguardava o primeiro freguês. Um dos amigos de Gazengel. Sentado na venda. Antes da guerra. e os poucos soldados alemães que era forçado a servir. Em seguida. tinha nessa manhã outras preocupações. — Não — respondeu Caldron. Na clínica do doutor Jeanne. o tempo estava mau demais. Tão mau que. Marthe. seria enviado para Inglaterra a fim de ser interrogado. cem metros de comprimento e vinte de profundidade. o meteorologista Hermann Mueller. Mas presentemente. Caldron pôs-se a caminho da aldeia de Sainte-Marie-du-Mont. estava sentado à cabeceira do filhinho de cinco anos. em Carentan.ª divisão no dia do desembarque. — Julgo que a mãe ficará mais feliz se o levar esta noite. junto de Utah Beach — onde as tropas pára-quedistas deveriam operar a ligação com os homens da 4. o negócio não ia muito mal. Pierre. receberam dispensas sem demora. embora os clientes rareassem. da OB. No Q. Ao meio-dia. de três andares. chefe meteorologista. Jeannine. no Q.G. ignorando que no dia seguinte partiria de viagem. instalado no palácio de Luxemburgo.C. Meia hora mais tarde. que acabava de ser operado das amígdalas. para alimentar sua mulher.seria conhecida pelo nome de Utah Beach. o padeiro Pierre Caldron. Pode levá-lo para casa amanhã. Gazengel só podia contar com a fraca clientela do lugarejo. West levavam muito a sério os boletins meteorológicos.G. o General Blumentritt. disse aos seus oficiais. Gazengel gostaria bastante de partir. durante uma conferência matinal. e a filha. Nada aconteceu e nada aguardavam. com o filho nos braços. von Rundstedt. que ponderara o assunto. Os homens da D. junto duma escola para meninas: o quartel-general da OB. sete famílias ao todo. West. de doze anos. o Coronel Walter Stobe. em Paris. que tomou conscienciosamente nota do boletim e o transmitiu ao seu chefe de estado-maior. Tudo corre bem. e . da Luftwaffe. Juntamente com todos os homens da aldeia. que podiam descansar um bocado. Tratava-se de enorme casa fortificada. Paul Gazengel abriu como de costume a sua venda.A. * Também para os alemães o dia foi calmo e sem incidentes.

Foi neste escritório que discutiu com o seu chefe de estado-maior e aprovou o relatório sobre as "Prováveis intenções dos Aliados". O relatório sossegou Blumentritt. A frente de invasão será provavelmente setor compreendido entre Escaut.. Em todos os P.. Mas não se pode por enquanto prever onde tenciona o inimigo efetuar o desembarque nesta região. em todas as zonas costeiras de ocupação. É possível que a costa norte da Bretanha seja atacada. von Rundstedt e o filho foram almoçar no restaurante favorito do marechal de campo." Dispondo deste relatório vago — onde se previa que os Aliados desembarcariam num ponto qualquer duma costa de quase duzentos quilômetros de extensão —. Von Rundstedt.. na Holanda. o Coq. acompanhado de seu filho. as defesas costeiras da Normandia. Em Saint-Germain poucos conheciam a existência da casa. von Rundstedt dormiu até tarde (o velho marechal já nunca se levantava antes das dez e meia) e pouco faltava para o meio-dia quando desceu para se instala no escritório do rés-do-chão.. Os repetidos ataques aéreos sobre Dunquerque e sobre a costa até Dieppe parecem indicar que o esforço aliado incidirá neste setor. haviam verificado que os Aliados nunca tinham tentado um . a inspeção poderia ser feita no dia previsto. Tal relatório constituía mais um característico erro de previsão: "A sistemática intensificação dos bombardeamentos aéreos indica que o inimigo está pronto. o Professor Karl Sonntag. Estudava os últimos pormenores do itinerário dum dia de inspeção que o comandante-chefe projetava. Baseavam o seu raciocínio sobre as condições atmosféricas verificadas durante os anteriores desembarques dos Aliados. soaria o Dia D.C. que devia ser transmitido no mesmo dia à OKW. Entrava-se por um corredor expressamente cavado e dando para o liceu. em Bougival. Dentro de doze horas. um jovem tenente.. Hardi..Blumentritt esperava por este impacientemente. Os diversos estados-maiores tinham a certeza de que não haveria qualquer ofensiva nos próximos dias. no Norte da África. 6 de junho. tencionava visitar na terça-feira. o mau tempo agia como um soporífero e um tranqüilizante. na Rua Alexandre Dumas. A vivenda era circundada por um muro e o portão estava permanentemente fechado. por trás do liceu na Rua Alexandre Dumas.. a iminência do desembarque parece pouco provável. e mais raros eram ainda os que sabiam que o todo-poderoso marechal de campo vivia numa modesta vivenda. Pouco passava da uma hora. ou então por uma pequena e discreta porta de serviços. Como habitualmente. na Sicília e na Itália. Contudo. e a Normandia. As condições tinham variado em cada caso mas meteorologistas como Stobe e o seu superior em Berlim.

começando por um assalto de tropas pára-quedistas e seguido de um desembarque por mar. como este tinha sido pára-quedista. oficial de informações. Tinha encomendado várias garrafas de excelente Chablis. sobretudo para as operações « aéreas. E de momento não era nada favorável. o comandante Wilhelm von Schramm. de manhã cedo. pois. Speidel confiara a Schramm: — Vamos realmente passar uma bela noite a discutir! Em Saint-Lô. achou que estava tudo suficientemente calmo para poder oferecer um pequeno jantar. que começariam na terça-feira. um manuscrito de vinte páginas. preparava-se para dar outro gênero de recepção. Tinham planejado esta surprise-party noturna visto que Marcks devia partir de madrugada para Rennes. Já era bastante grave que os comandantes de setores da Normandia e da península de Cotentin estivessem todos ao mesmo tempo ausentes dos seus postos. Para alguns. No Grupo de Exército B. este Kriegsspiel inquietava o General Max Pensei chefe do estado-maior do 7. o Major Friedrich Hayn. os oficiais tencionavam surpreender o comandante do seu corpo. E a . cujo aniversário era a 6 de junho.G. Ambos tinham uma fé cega neste trabalho. Representaria "os Aliados". No seu quartel-general de Mans tinha pensado nele durante toda a tarde. do 84. regozijava-se de antemão com o jantar. o escritor Ernst Junger e um velho amigo. Contudo. Esfregando as mãos. à meia-noite. a literatura francesa. Esperava que discutissem sobre o seu assunto preferido. Marcks divertia-se com o papel que desempenharia. Marcks devia tomar parte em grandes manobras no mapa. e o General Speidel. que Junger tinha entregue secretamente a Rommel e Speidel. a vida continuava como se Rommel não tivesse partido. Havia ainda outro assunto interessante de conversa. Este Kriegsspiel tinha sido organizado pelo General Eugen Meindl e. Rennes ficava bastante afastado dos respectivos acantonamentos. Juntamente com os outros comandantes dos setores da Normandia. O espírito metódico dos alemães não admitia que esta regra tivesse uma exceção: o tempo devia ser favorável ou então os Aliados não atacariam. Todos pensavam que o exercício seria apaixonante: o desembarque teórico seria feito na Normandia. e o general temia que fizessem tenção de abandonar a frente antes da aurora. Speidel. o intelectual. Era nada mais nada menos que um plano para dar a paz ao mundo.º corpo.C. o Doutor Horst. depois de Hitler ter sido ou julgado por um tribunal alemão ou assassinado. um dos correspondentes de guerra oficiais.desembarque sem estarem certos de conseguir um tempo favorável. o auge do exercício seria um "desembarque".° Exército. no Q. Convidara o cunhado. em La Roche-Guyon. chefe de estado-maior. o General Erich Marcks. Mas tal fato poderia tornar-se muito perigoso se passassem uma noite fora dos respectivos P.

" Depois do almoço. o Alto Comando Militar alemão decidiu transferir as últimas esquadrilhas da Luftwaffe que estavam na França para pontos donde não poderiam atingir as praias da Normandia. enquanto os oficiais responsáveis estavam dispersos pelos quatro cantos da Europa. e do mesmo modo procedeu o General Karl von Schlieben. foram todos forçados a ouvir quatro horas de Wagner. A razão fundamental desta decisão residiu na necessidade de esquadrilhas para a defesa do Reich. oficial de informações de von Rundstedt. e almoçou às quatro horas. mas poder-se-ia acreditar que um capricho do destino preparava a sua partida. O Führer encontrava-se em Berchtesgaden. e nunca come carne. Os aviadores ficaram aterrados. o primeiro assalto seria feito ao amanhecer.ª divisão aerotransportada. O Führer bebeu um chá de tília e dormiu uma pequena sesta. alguns já tinham partido. o Almirante Karl Jesko von Puttkamer. os oficiais generais de Rommel abandonaram as suas posições na própria véspera da batalha. Decidiu prevenir todos os que tomariam parte nas manobras. chefe de onerações do grupo de Exércitos B.ª divisão. que. ao meio-dia. Nestas condições. comandante da 243. O Almirante Theodor Krancke. pediu desculpa às senhoras pela falta de carne na refeição e concluiu com o seu comentário usual. Todos tinham fortes razões. partiu para Rennes. Se o desembarque se viesse a realizar na Normandia. lembra-se de que Hitler se levantou tarde.madrugada era a preocupação constante de Pensei. teve nova conferência às onze da noite e mandou chamar as senhoras um pouco antes da meia-noite. depois de ter prevenido von Rundstedt de que as suas patrulhas não podiam abandonar o porto devido ao meu tempo. de há meses. Rommel encontrava-se na Alemanha. O Tenente-General Heinze Hellmich. Se a memória de Puttkamer não falha. comandante naval no Oeste. estava de licença e foi impossível encontrar o chefe do estado-maior de uma das divisões. da 709. assim como von Tempelhof. "O elefante é o animal mais potente do mundo. Hitler ficou de tal modo chocado com a coincidência destas partidas simultâneas que fez questão de abrir um inquérito para averiguar se os serviços secretos britânicos não tinham sido em parte responsáveis pelo assunto. que ocupava a península de Cotentin. presidiu à conferência diária. * Depois do Dia D. de Lehar e de Strauss. Hitler. O General Whilhelm Falley. o grupo passeou pelo jardim e nele permaneceu. por este ter partido para a caça com a amante francesa *. sofria o ataque incessante dos bombardeiros aliados. preparava-se por seu turno para partir. alguns altos dignitários nazis e respectivas esposas. chefe da "dura" 91. E foi assim que um a um. além da amante Eva Braun. partiu para Bordéus. A verdade é que Hitler não estava mais preparado para a ofensiva do que os seus generais. Tinha consigo. O Coronel Wilhelm Mayer-Detring. Neste momento. que era vegetariano.ª divisão. O seu ajudante de campo naval. Expediu por teletipo a seguinte ordem: "Os generais e outros oficiais superiores que participam no Kriegsspiel não deverão pôr-se a caminho de Rennes antes da madrugada de 6 de junho". o Alto Comando considerou imprudente deixar estes aviões indispensáveis ficarem expostos . Mas era demasiado tarde.

Hitler tinha prometido aos seus generais que um milhar de aviões da Luftwaffe defenderiam as praias no dia do desembarque. onde tinham ficado dois únicos aparelhos. O comandante da esquadra aérea nada podia fazer além de protestar. e quando se cansou de bramar sozinho foi telefonar. Tinha fama de dizer das boas aos generais. A maioria deles estava em Paris. Que é que acontece se o inimigo atacar durante a transferência? Tanto o material como o reabastecimento que me são destinados não chegarão às novas bases antes de amanhã ou mesmo depois de amanhã.em terrenos franceses às bombas da aviação aliada. A terceira já partira para o Sul da França. donde comandavam vastas e complicadas redes. e não longe da frente. velavam e rezavam só um punhado de homens e mulheres sabia que o desembarque estava iminente. conhecido na Luftwaffe pelas suas cóleras súbitas e pelo mau gênio. calmamente. Mais vale começar por nos embebedarmos rapidamente! * Entre os milhões de seres que por toda a Europa esperavam. que abandonou as regiões costeiras durante a tarde. não decolaria. de Lille. de pé no meio do terreno. Estão todos loucos! — Ouça. — Se os outros desembarcam é possível que nos peçam aos dois para repelir o ataque. Eram ao todo menos de uma dúzia e trabalhavam nas suas ocupações. Tal plano parecia agora irrealizável. A 4 de junho. um dos grandes ases da Luftwaffe (tinha noventa e seis vitórias no seu ativo). o lugar das esquadrilhas é na costa. Priller era um piloto de sangue quente. havia em todo o território francês apenas cento e oitenta e três caças de dia. o seu e o do Sargento Heinz Wodarzyck. a 26. Era na verdade um verdadeiro exército. A segunda esquadrilha preparava-se para decolar em direção a Reims.C.° Exército. No seu P. — Que podemos fazer? — disse Priller a Wodarzyck. no setor do 15. Sobre a sua cabeça roncava uma das esquadrilhas. O tempo está mau demais! Priller desligou de forma grosseira. para berrar ao comandante de grupo: — É uma loucura! Se estamos à espera de um desembarque.ª esquadrilha de caça. Regressou ao campo. dos quais cento e sessenta estavam disponíveis. como nos outros dias. E destes cento e sessenta foi destacada uma esquadrilha de cento e vinte e quatro. que se dirigia para Metz. Priller — respondeu o comandante de grupo — não podemos admitir a hipótese de um desembarque. o Coronel Josef "Pips" Priller. Tal calma e aparente indiferença faziam parte das suas funções: eram os chefes da Resistência francesa. com postos de .

às dezoito horas e trinta. Mas. Havia comandantes de regiões. o índice decisivo seria dado quando os Aliados ordenassem a execução do plano de sabotagem pré-organizado. os chefes das redes da Resistência aguardavam febrilmente o segundo verso e outras mensagens que confirmassem as informações já recebidas. comandantes de setores. a mesma passagem que os homens do Tenente-Coronel Meyer do 15. de setor ou de seção tinham sido avisados de que deveriam estar à escuta e aguardar estas mensagens. A primeira mensagem. há mais de quatro anos. Agora. Algumas destas mensagens anunciavam a iminência do desembarque. Nele residia a força da Resistência. Todos os chefes de região. desencadearia o Plano Vermelho: a destruição das linhas e cabos telefônicos. Este exército secreto de homens e mulheres lutava em silêncio. o dia para que tinham lutado chegar enfim e a hora por que esperavam soara para todos. Nenhum grupo sabia o que fazia o vizinho. Faz calor em Suez". esta organização compreendia tantos serviços diferentes que parecia inutilmente complicada. entre elas os primeiros versos do poema de Verlaine Chanson d'Automne. Os dados estão na mesa.ª Exército alemão tinham captado no dia 1. embora os da base não o soubessem ainda. em combates pouco espetaculares mas sempre perigosos. Mesmo nessa altura. Os comandos ofereciam uma maior proteção na medida em que se interligavam. as múltiplas redes de ação asseguravam o sucesso de cada operação e o plano geral era tão secreto que os chefes de redes só se conheciam por pseudônimos. E mesmo com todas estas precauções. a BBC transmitiu. em maio de 1944. provando que Canaris dissera a verdade. ainda mais sobrexcitados que Meyer. até à espionagem e ao assassínio. Em teoria. a primeira mensagem: "Faz calor em Suez. Faz calor em Suez. desde a coordenação das operações dos sabotadores aliados lançados em pára-quedas. a segunda. Na segunda-feira à noite.comando. os chefes das redes não ficariam ainda a saber o local exato da ofensiva. Este caos aparente era intencional. as medidas de represália alemãs eram tais que. pronunciou o locutor . Milhares de "resistentes" haviam sido executados e outros milhares tinham morrido durante a deportação. segundo os cálculos dos chefes. Durante os últimos dias.. um bom "resistente" só dispunha de seis meses para viver. o Alto Comando da Resistência tinha captado centenas de mensagens em código emitidas pela BBC. Para o conjunto da Resistência. desencadearia o Plano Verde: a sabotagem das estradas de ferro e do material ferroviário." de junho. Estas não deviam ser difundidas muito antes do desembarque. chefes de seções e milhares de homens e mulheres. véspera do Dia D.. Assim era necessário para que a Resistência sobrevivesse. serviços inumeráveis e uma administração que se ocupava de tudo.

quando a ouviu. Saint-Lô e Paris.. tinha por missão destruir as comunicações da Normandia: a sua rede de quarenta homens devia cortar o cabo principal da linha telefônica que servia Cherburgo. que dissimulara na adega do seu armazém de bicicletas. O tempo corria e a ofensiva só poderia começar de noite. Albert Auge. chefe de Caen. Ouvira as duas mensagens que lhe diziam respeito. Os dados estão na mesa".. Cada rede tinha o seu próprio plano e sabia o que havia de fazer. merceeiro em Cherburgo. As palavras atordoaramno. chefe das informações para a zona costeira da Normandia.. estava acocorado diante do posto de rádio. Perguntava a . Mas ao longo de toda a costa. Surgiram problemas para certos "resistentes". todas elas repetidas duas vezes: "O chapéu de Napoleão está na arena. em Bayeux. as redes de resistência tomavam conhecimento da notícia através dos seus chefes imediatos. Não sabia ainda quando e onde seria o desembarque. Yves Gresselin. na foz do Vire.. situada quase a meio caminho das futuras praias de Omaha e Utah. Havia muitos mais.. A Flecha não passará. os homens estavam a postos e todos pensavam que o ataque se daria no setor que ocupavam. o chefe de seção Jean Marion estava de posse das informações capitais que deviam ser transmitidas para Londres. duas vezes. entre Vierville e Port-en-Bessin (a zona de Omaha Beach). proprietário de um café em Lieu-Fontaine. John ama Mary. A Resistência ia ter muito que fazer.solenemente. que se distinguira por diversas vezes na Volta à França. As outras destinavam-se a diversas redes. Houve um silêncio. por toda parte. ao lado de Isigny.. disseminadas por toda a França." Mercader desligou. Na pequena cidade de Grandcamp. Seguiu-se uma longa série de mensagens.. Sabia que os alemães não o fariam parar. Madeleine: — Tenho de sair. mas ao cabo de tantos anos chegara enfim o dia. Presentemente. André Farine. Galgou os degraus a quatro e quatro e gritou para a mulher. Guillaume Mercader. Esta noite venho tarde! Em seguida tirou da loja uma bicicleta de corrida e saltou para o selim a fim de ir prevenir os chefes de seções. Mercader era um antigo corredor ciclista normando. Foi para ele um momento inesquecível. tinha a tarefa mais pesada: a destruição com dinamite duma rede de vias secundárias entre Cherburgo. devia destruir com os seus homens os depósitos de água da estação e demolir os coletores de vapor das locomotivas. em seguida chegou a segunda mensagem que Mercader aguardava: "Os dados estão na mesa.. Tinham-lhe dado um salvoconduto especial a fim de treinar. entre a Bretanha e a Bélgica.

ª e 101. dispunha duma carta atestando que ele trabalhava na Muralha do Atlântico. a setenta e cinco quilômetros do Vire!. no cimo das enormes falésias da Ponta do Hoc. Simplesmente. a Mercader em Bayeux. que ainda perguntava a si mesmo por que razão a sua unidade de D. Mas Kistowski estava habituado a tais movimentos súbitos. Marion não podia abandonar o setor a que pertencia: tinha muito que fazer. se ainda fosse a tempo. Para ter a certeza. Esta atividade frenética inquietou Marion. Simplesmente a confirmação das numerosas mensagens que tinha enviado. Contudo. sozinha. que os alemães dispunham de forma a dominar a região. para onde enviar a informação. comandante do 1. Jean Marion procurava febrilmente a solução do seu problema.. entre os numerosos documentos falsos que tinha. Ao começo da tarde. os seus homens tinham-lhe indicado a chegada de nova bateria antiaérea. Este processo levaria horas. Marion notou que os serventes se apressavam febrilmente a colocar as baterias em posição. Mercader havia certamente de conseguir fazer chegar a informação a Caen.C.G. Tratava-se de um grupo de assalto motorizado. para as peças pesadas. Ainda estavam a caminho.º regimento de defesa antiaérea.A.. Marion foi surpreendido pela importância e extensão da unidade.. Como faria chegar a informação capital ao Q. secreto de Léonard Gille.A. ligeiras e mistas. Marion queria confirmar para Londres que os canhões ainda não haviam sido colocados. Havia cinco baterias. (Apesar dos esforços desesperados . Não era tão importante como a posição das baterias de D. mas. Já nada o espantava.si mesmo o que fazer. a sua unidade tinha sido destacada para o Cáucaso. ninguém achara conveniente falar do assunto ao Coronel Werner von Kistowski. sabia que poderia passar. Uma vez. Mesmo que encontrasse uma patrulha. Passando lentamente de bicicleta diante dos soldados atarefados. por estafetas.C. Marion fora calmamente de bicicleta ver as peças. que ia da foz do Vire às proximidades de Grandcamp. Talvez significasse que o desembarque se viria a dar ali e que os alemães já o sabiam. Decidiu portanto arriscar tudo por tudo e transmitir a mensagem. como se trabalhassem contra relógio. a três quilômetros das posições previstas.ª divisões aerotransportadas deveriam seguir dentro de poucas horas. se alguma vez o Alto Comando alemão tinha sido informado da ofensiva. Havia outra coisa de que Marion queria informar Londres. de dois mil e quinhentos homens. sobre as posições previstas. vinte e cinco canhões ao todo. comandante-adjunto das informações militares da Normandia. Marion ignorava que as peças cobriam exatamente a rota que os aviões e planadores das 82. equipado com peças antiaéreas pesadas. durante os últimos dias. em Caen. fora destacada para aquele local. apenas a um quilômetro.

sentada nas tábuas da cama. em Paris. À menor indiscrição. Se se previsse o desembarque na Normandia. abatidos no Norte. noiva de Gille. com os seus superiores. a data inquietava-o. Amélie Lechevalier. defrontaria o pelotão de execução.A. Gille preparava-se para descarrilar de um momento para o outro. Era um trabalho perigoso e ingrato que lhe punha os nervos em frangalhos. pelo menos no seu setor. no Dia D os "rangers" americanos iam perder cento e trinta e cinco homens dos duzentos e vinte e cinco destacados para a heróica tentativa de reduzir ao silêncio as baterias que jamais foram montadas. 6 de junho. que ignoravam a iminência do desembarque. Para Léonard Gille esse dia coincidiria com uma reunião. Em três anos de resistência ativa. tinha escondido no pequeno apartamento que ocupava num rés-dochão da Rua Laplace mais de sessenta pilotos aliados. pensava quando seriam executados. anunciara-lhe categoricamente que o desembarque seria feito na madrugada de 6 de junho. um dos trabalhadores da quinta denunciara-os. revestia-se de outros aspectos. os seus superiores teriam certamente anulado a reunião. Até à data. . Janine Boitard. e ela haviam sido presos pela Gestapo a 2 de junho. Para Amélie Lechevalier. as informações deste homem tinham sido sempre exatas. Contudo. em Caen. esperava impacientemente pela terça-feira. Tinham vivido quinze dias em sua casa. Mas Gille estava certo de que o desembarque não se daria na terça-feira. Depois de terem ajudado mais de uma centena de aviadores aliados. Gille pensava mais uma vez no assunto. o dia 6 de junho podia significar tudo ou nada. de acordo com o Plano Verde de sabotagem. Nesse momento. Dar-se-ia o caso de receber as informações diretamente de Moscou? Parecia no entanto inconcebível que os russos se arriscassem deliberadamente a fazer falhar o plano aliado fornecendo assim segredos militares. filiado num subgrupo comunista. ela e o marido. Passada a terça-feira respiraria um pouco mais à vontade — até que recolhesse mais um aviador aliado — porque nessa terça-feira Janine devia acompanhar até ao caminho da evasão dois pilotos da R.F. na cela da prisão de Caen.de Marion para avisar Londres.) Para alguns "resistentes". um dos chefes de seção de Gille. Louis. Durante a tarde. Janine esperava continuar a ter sorte. Seu marido. Outros viram a sorte abandoná-los. Em Caen. a terça-feira. Sentado calmamente num compartimento do comboio de Paris.

a vanguarda da frota mais gigantesca que jamais se reunira. pelo Almirante Samuel Eliot Morison. O Ataque Pela Mancha. Progrediam lentamente no horizonte. pequenos paquetes. Esquadrilhas de caça evoluíam sob as nuvens. pesados e inestéticos. vedetas. armas. material e víveres. apareceram ao largo da costa francesa uns doze pequenos barcos. Nos flancos. navegam os couraçados ingleses Nelson. embarcações de cabotagem e enxames de deselegantes rebocadores. cinco mil navios de todos os tipos. o poder e a fúria do mundo livre. Este número compreende as embarcações de desembarque transportadas pelos navios grandes. A maior parte deles.CAPÍTULO XIII Um pouco antes das vinte e uma horas. trazia também embarcações destinadas a assaltar as praias. sobre os quais flutuavam os balões de barragem antiaérea. uma falange de navios dirigia-se rumo à Europa hitleriana: desencadeados. o Augusta transportara o presidente Roosevelt até uma discreta enseada da Terra Nova. e o altivo Nevada que os japoneses tinham afundado e pensavam ter destruído em Pearl Harbour. Havia transportes de assalto novos e rápidos. Havia colunas intermináveis de navios de desembarque de fundo chato. . tão perto da praia que as tripulações podiam distinguir nitidamente as casas normandas. navios-hospitais. de Gordon Harrison (historiador militar oficial do Exército americano). Ramillies e Warspite. vaga após vaga. estão ambas de acordo ao citarem cinco mil. Na verdade. vinham draga-minas. Precedendo os comboios. carros de assalto e veículos. para o primeiro dos seus numerosos e históricos encontros com Churchill. indica o número mais reduzido de quatro mil e quinhentos. pavilhão de guerra flutuando ao vento. como os grandes transportes. baliza-dores e chalupas a vapor. estava de guarda uma formidável armada de setecentos navios de guerra*. sulcando as águas cinzentas e encapeladas da Mancha. o Capitão-de-Fragata Kenneth Edwards. os americanos Texas e Arkansas. que chegavam a ter mais de cem metros de comprimento. nesse momento. que conduzia as forças americanas — vinte e um comboios — em direção às praias de Omaha e Utah. numa frente de trinta quilômetros. protegendo este desfile fantástico de navios carregados de homens. Chegavam. Quatro meses antes de Pearl Harbour. munições. Estes barcos passaram despercebidos. Mas na Operação Netuno. petroleiros antiquados. Havia o pesado cruzador americano Augusta. Eram draga-minas britânicos. cargueiros enferrujados. * O número exato de navios que compunham a frota de invasão é muito discutido. barcos-correios da Mancha. enfim. Cumpriram a sua missão e afastaram-se. e A Invasão da França e da Alemanha. arvorando o pavilhão do Contra-Almirante Kirk. da Royal Navy. E envolvendo. mas as obras mais dignas de crédito sobre o Dia D.

depois da batalha do Rio da Prata. e convergiam para o local de concentração. os britânicos Enterprise e Black Prince. estes cinco trajetos dividiam-se em dez caminhos. por toda parte. levando ao lado um dos mais célebres cruzadores ligeiros da Inglaterra. da 29. viam-se navios. pesadamente. corvetas pesadas. Os homens. havia os canadenses Qu'Appelle. avançava o cruzador Scylla. Viam-se ainda outros cruzadores célebres — os americanos Tuscaloosa e Quincy. Os navios largavam dos portos da Grã-Bretanha. Dentro dos transportes e embarcações de fundo chato. Destes percursos. o Ajax. grandes e pequenos. costeavam o litoral através de canais. O Major Thomas Spencer Dallas. Saskatchewan e Ristigouche. cinco partiam do ponto de concentração. viu-se promovido a pastor de todos os credos.ª divisão. pareciam menos tensos. Um oficial judeu. Agora. que sem demora fora batizado de "Piccadilly Circus". ao sul da Ilha de Wight. o francês Georges-Leygues — vinte e dois ao todo. jogavam cartas. chalupas graciosas. o homem que perseguira o couraçado alemão Bismarck. um dos três navios que tinham contribuído para a perda. canhoneiras esguias como a holandesa Soemba. Os comboios eram enquadrados por uma variedade infinita de barcos.° regimento de infantaria pertencente à 4. Estes P. toda a gente tinha pressa de que aquilo começasse e acabasse. perguntou ao capelão Koon se quereria dirigir as . de antenas de radar e rádio. dois para cada praia. arvorando o pavilhão do Contra-Almirante Sir Philip Vian. recorda com humor que "os capelães faziam magníficos negócios". a fim de rumar em direção às respectivas praias. mais inesquecível" jamais contemplado. o norueguês Svenner e até um polaco. embora ainda estivessem inquietos. escreviam cartas à última hora. caçadores de submarinos e. o Capitão Irving Gray. que se dirigiam para Sword. As tripulações e as tropas falam ainda desta armada como do espetáculo "mais impressionante. um padre. couraçados e cruzadores. do orgulho da frota alemã. eriçavam-se. flutuantes seriam os centros nervosos da expedição. na baía de Montevidéu. Fazia-se então uma seleção e cada barco incorporava-se num comboio. Juno e Gold.ª divisão.C. vedetas rápidas. Ao largo da costa da França. esbeltos destroyers. o Poiron. seguindo um trajeto balizado com bóias. o Graf von Spee. segundo um horário elaborado de forma jamais tentada. em dezembro de 1939. Logo atrás da vanguarda dos draga-minas. o Capitão Lewis Fulmer Koon. esta frota extraordinária atravessava a Mancha. cinco transportes de assalto. capelão do 12. um reservado para a navegação rápida e o outro para o tráfego lento. Para onde quer que se olhasse. Além dos ingleses e americanos.À frente dos trinta e oito comboios anglo-canadenses. A bordo de um navio de desembarque superlotado. discutiam com azedume. Lentamente.

só nos inquietamos com a batalha quando estamos no banho. protestantes e católicos. o soldado de segunda-classe Joseph Steinber. coitado. que era manequim. E ao tombar do crepúsculo. sou eu que te digo. aproximou-se dum veterano dos desembarques no Norte da África. mas só um de nós vencerá. Depois. centenas deles confessaram que não tinham medo de reconhecer o seu terror. Estava muito preocupado. — Talvez seja. de Wisconsin. da 1. "ao Deus em que todos acreditamos.orações de toda a companhia. o soldado Bill Mac Hugh. a acreditar nas recordações do quartel-mestre artilheiro William Sweeney.° batalhão de "rangers". na ponte do velho paquete da Mancha Isle of Man. voltemos todos sãos e salvos aos nossos lares". Petty voltou-se para Mac Hugh e disse-lhe: — Não temos a menor probabilidade de voltarmos vivos. Mas. e de falar sem vergonha dos assuntos mais íntimos. para que a nossa missão seja cumprida e para que. Alguns tentavam ler. queria divorciar-se. Mac Hugh não se deixou impressionar: — Quando é preciso ir — disse simplesmente — vai-se mesmo. conversou com um major médico. 0 Cabo Alan Bodet. A formidável escolta de navios que os rodeava não o tranqüilizou. Estava sentado com um amigo. o transportador Samuel Chase transmitiu por sinais ópticos: "Vai-se dizer missa". A maioria dos homens passou as primeiras horas de viagem com calma. 0 garoto notou que estava a cantar melhor do que nunca e isso parecia dar-lhe muito prazer. Na ponte molhada e escorregadia do seu barco. um novo recruta. a nosso lado. A bordo do Empire Anvil. Numerosos foram os que se debruçaram sobre o passado e revelaram coisas que os homens geralmente guardam para si. do 2. O pensamento voava-lhe para as falésias da Ponta do Hoc. Durante esta estranha noite aproximarase uns dos outros e confiaram-se a homens que nunca tinham visto. amigo! Nunca devemos pensar que nos podemos deixar matar.ª divisão. e relata-nos a conversa íntima que tiveram: — O "doutor" tinha aborrecimento em casa. Dizia que ela devia esperar que ele voltasse. e perguntou-lhe: — Achas que temos na verdade alguma probabilidade de nos safarmos? — Quê? Claro que sim.ª divisão americana. judeus. na Sicília e na Itália. da 1. e contemplava o céu encoberto. começava a ficar seriamente inquieto. A mulher.º batalhão de engenharia. Lembro-me também que. O Sargento Bill Petty. a bordo duma vedeta dos Coast Guarás. o soldado Earlston Hern. estava um miúdo que trauteava sozinho. de quem nunca veio a saber o nome. do 146. Nesta companhia. começou a ler o . se Ele assim o quiser. — És um chato e um pessimista — replicou Mac Hugh. Koon acedeu com agrado. o Cabo Michael Kurtz.

a bordo do transporte Empire Anvil. em latim. ficou estupefato ao ver um oficial da marinha britânica a ler as Odes. — Não havia processo de se conseguir ficar de pé nas pontes de aço e. A bordo do transporte Ben Manchree.ª divisão canadense. . A bordo de outro navio. a bordo dum barco que balançava de tal modo que toda a gente estava enjoada. Muitos homens. passou a noite a ler a Vida de Miguel Ângelo. a areia dos baldes de incêndio tinha sido despejada e estes estavam cheios — lembra o Sargento William James Wiedefeld. Também havia alegria e despreocupação. abriu o único volume apropriado para essa noite. da 1.° regimento de infantaria." Nem todos estavam tão solenes. diversos canadenses da 3. malabarismos e coros. mas este "tudo" revelava-se insuficiente. ouviam-se tipos que diziam: "Tanto pior se tivermos de ser mortos. alguns "rangers" prenderam largos cabos aos mastros e começaram a trepar por toda parte. sortes de prestidigitação. por toda parte. — Os sacos para vomitar estavam cheios. O Sargento James Percival "Paddy" de Lacy. os bonés estavam cheios. emocionou-se de tal modo ao ouvir a Rose de Tralee tocada em gaita-defoles. do King's Regiment. com recitação de vários poemas. levantou-se e fez um brinde a Eamon de Valera. para grande espanto da tripulação inglesa. 0 capelão Lawrence E. de Horácio. mas que nos tirem destas malditas banheiras". característicos do Exército: Saco para vomitar.ª divisão. Deery. esperavam agora com impaciência o momento de pôr pé na praia. que eram horrorosamente sacudidos. Em outro comboio. da 3.. como macacos.. leu em voz alta o Salmo 23: "O Senhor é o meu pastor. Seria suficientemente estanque.ª divisão deram um espetáculo teatral. quando o conduzisse através de mais de um metro de água? O artilheiro Arthur Henry Boon.ª divisão. "que nos evitou a guerra". O enjôo atacara os cinqüenta e nove comboios como uma peste. que esqueceu onde se encontrava. um. Tudo fora previsto. que tinham passado horas a perguntar a si próprios se escapariam vivos. de Henry Bellamann. Para acalmar os nervos excitados. da 29. a bordo de um navio carregado de tanques. de Symond. e ainda de um artigo que era designado nas folhas de embarque em termos precisos. Todos os homens se tinham servido dos comprimidos contra o enjôo. que devia desembarcar em Omaha na primeira vaga de assalto com o 18.Kings Row. o Capitão James Douglas Gillan. um canadense. tentava terminar a leitura de um livro de bolso de título aliciante: Uma Jovem e Um Milhão de Homens. A travessia revelava-se ainda mais terrível do que o terror que tinham dos alemães. nada me faltará. Mas o próprio Deery. e os dum companheiro de armas. mas tinha dificuldade em se concentrar na leitura por estar preocupado com o seu jipe. sobretudo a bordo dos navios de desembarque.

A bordo do transporte de assalto Charles Carroll. para descansarem um pouco. os homens estavam tão doentes que ameaçavam — mais para "marcar uma atitude" do que a sério. em 1642: — Meu Deus — rezou Kieffer — Vós sabeis que hoje vou ter muito que fazer. Um dos seus camaradas surrupiou da despensa uma lata com cinco litros de salada de frutas e comeram-na entre quatro.ª brigada especial de engenharia. A bordo do Prince Charles.ª divisão de "rangers". de madrugada. Tinha vinte e dois anos. A despeito dos males e medos. Se eu Vos esquecer. lembra-se de que. no barco em que seguia. com dois ovos a cavalo. Um voluntário do Royal Marines.ª divisão. assim como os apetites. agarrou-se de tal forma à cintura de um camarada que este teve de lhe suplicar que o largasse. E.ª divisão de "rangers". os homens que. da 3. O alferes Donald Anderson. lembrou-se da oração de Sir Jacob Astley na batalha de Edgehill. lembra-se de que o raio de sol que atravessou as nuvens.. variavam de barco para barco.Em certos barcos. da 1.ª divisão canadense. que andava de mão em mão.° batalhão de engenharia. sem dúvida — lançar-se ao mar. o Capitão Carrol B. Por toda parte. o Sargento Avery J. Quando se enroscou nos cobertores. do 112.ª divisão. cantaram Uma noite sonhada para descer de barco o Mississipi. da 29. assim como o Sargento Keith Bryan. Thornhill. Smith. Devorou sanduíches e café e declarou que ainda tinha fome. iluminou toda a frota. que sentia saudades da terra natal. não Vos esqueçais de mim. da 29. da 5. aproximadamente uma hora antes do anoitecer. serviu-se por três vezes de bouchés à la reine e sentiu-se bem.. evitou todos os inconvenientes. Puxou o cobertor até ao queixo e adormeceu quase imediatamente. os homens da companhia F rodearam-no e cantaram o Parabéns a Você. as recordações de todos estes homens mantêm-se espantosamente vivas. Tinham sido tomadas providências de modo a servir aos homens a melhor cozinha possível. para o simples soldado de dezenove anos Robert Marion. o Sargento Russel John Wither. seguindo-se um sorvete de baunilha e compotas. a bordo de cada navio da imensa frota. empurrava toda a gente para correr até à amurada. Engoliu de um só trago toda a ração de comprimidos contra o enjôo e dormiu profundamente durante toda a travessia. comeu um enorme bife. O enjôo fez com que os homens perdessem a melhor refeição dos últimos meses. Duas horas mais tarde. do único comando francês. a que os soldados chamaram a "refeição do condenado". O alferes Joseph Rosenblatt. Os cardápios especiais. da 2. os famosos sacos tinham ficado todos cheios e só restava um. O soldado de segunda-classe Gordon Laing. meu Deus. Em honra do Sargento Tom Ryan.ª divisão. iam escrever uma página da História. acomodaram-se o melhor que podiam. . da 5. o comandante Philippe Kieffer.

°.° Exército: "Teletipo n. De notar que nem o 7. Meyer não tinha que os prevenir. 16. Assim.. governadores militares da Bélgica e do Norte da França. O mistério aumenta quando se pensa que no fim da guerra os alemães pretenderam ter interceptado e interpretado corretamente mais de quinze mensagens relacionadas com o Dia D. de Rommel.C. Segundo as nossas informações. 81. por seu turno. Tinha na mão a mais importante das mensagens que os alemães haviam interceptado.ª Exército estivesse alerta. De posse de tal informação. quer dizer "Preparem-se para desembarque nas próximas quarenta e oito horas. 5 de junho ser-vos-á transmitida.A.B. Meyer irrompeu pela sala de jantar onde o General Hans von Salmuth. A frota aliada levaria ainda quatro horas para atingir as zonas de desembarque ao largo da costa normanda.° Exército não foi avisado*. tal como figura nos arquivos do 15. West não considerou conveniente dar o alarme a todas as forças alemãs na frente do Atlântico. Meyer e os seus subordinados deram imediatamente o alerta para o Q.* Passava um pouco das vinte e duas horas e quinze quando o TenenteCoronel Meyer. Ofegante. 2117/26. saiu a correr do gabinete. dezoito mil homens desceriam de páraquedas sobre os campos e caminhos sinuosos.a divisão D. uma vez mais.° Exército alemão.ª Exército. A título documental. no meio do silêncio noturno — no coração de uma zona ocupada pelo único exército alemão que não tinha sido avisado do Dia D. Meyer gritou-lhe: — Meu general! A mensagem! A segunda parte! Foi transmitida! Von Salmuth refletiu um instante. preveniu a OKW. Meyer sabia agora que o desembarque se daria nas próximas quarenta e oito horas. Tal responsabilidade cabia ao Q. eis o texto exato do teletipo enviado às várias regiões.C. durante toda a segunda guerra mundial. chefe da contra-espionagem do 15. dentro de três horas. Urgente. para os 67.° corpo figuram nesta lista. ainda podiam rechaçar os Aliados de novo para o mar. E.G. visto estas unidades fazerem parte do grupo de Exércitos B. adiantada uma hora em relação à hora alemã. Almirantado da Mancha.° e 89.115. para Meyer. comandante do 15. Luftwaffe da Bélgica e Norte da França. grupo de Exércitos B. 82. da Holanda até à Espanha. Todos os outros setores foram simultaneamente informados por tele-tipo. jogava bridge com o chefe do estado-maior e outros dois oficiais. A mensagem transmitida pela BBC à Resistência francesa era a continuação do poema de Verlaine: Blessent mon coeur d'une langueur monotone. * Todas as horas indicadas neste livro representam a hora de verão inglesa. a contar das 00 horas de 6 de junho".° Exército. von Salmuth retomou as cartas e murmurou: — Sou um macaco velho e não vou excitar-me só por isto. em seguida deu ordem para que todo o 15.G. o 7. 2. o maior mistério reside na razão pela qual a O. Uma vez de volta ao gabinete.B.°. Enquanto Meyer se apressava em fazer cumprir a ordem. nem o 84. Mensagem da B. . Este.. As mensagens Verlaine foram as únicas que encontrei nos arquivos alemães.° corpos. eram vinte e uma horas e quinze quando interceptou a mensagem. Contudo. de von Rundstedt por telefone.

Decidira por fim levá-lo consigo. passou junto a Columbi e devolveu-lhe o relógio: — Toma lá. Dutch olhou para o relógio. Nesse momento alguém gritou: — Até que enfim! Vamos partir! Dutch pegou no equipamento e.ª divisão. estava rapado à iroquês. em Newbury. Ao subir para o caminhão. Tinha passado mais de uma hora a falar aos homens e preocupava-se mais com a operação aerotransportada do que com todas as outras fases da ofensiva.ª divisão aerotransportada. amigo de Dutch. Tinha à volta o seu material. com um pequeno tufo de cabelos no cimo do occipital. comandante da 101. o crânio. Eisenhower. Dutch só tinha agora o rosário que a mãe lhe mandara. só lhe restavam vinte.ª divisão aerotransportada. O soldado Gerald Columbi. e deu-lhe os últimos vinte dólares. as tropas aerotransportadas subiram para os aviões e planadores. era de ouro e no interior tinha gravado o nome de Columbi e uma inscrição de seus pais. Eisenhower despedira-se do General Maxwel D. abandonou uma partida de dados que continuava num canto e correu para Dutch: — Empresta-me depressa vinte dólares! — Para quê? Se calhar vais-te matar! — Toma. A cara estava enegrecida com carvão de madeira. segurando no braço direito um pára-quedas. Os aviões que transportavam exploradores. já tinham decolado. encarregados de balizar as zonas de descida dos pára-quedistas. Dwight D. — Está bem. Alguns dos seus oficiais generais pensavam que este ataque teria o saldo de oitenta por cento de perdas. Não queria que o comandante . que levava os seus homens para a batalha. Como toda a gente no campo de aviação. encontrava-se a postos. pronto — disse Dutch. com um pequeno grupo de oficiais e quatro correspondentes de guerra. as costas muito direitas. Os caminhões rodaram lentamente em direção aos aviões. Dos dois mil e quinhentos dólares que ganhara algumas horas antes. Taylor afastara-se a passos rápidos. Os homens esperavam agora pelos caminhões que os conduziriam aos aparelhos. estava equipado para saltar. Não preciso de dois. Por toda a Inglaterra. via os primeiros aparelhos entrarem na pista de decolagem. com os outros pára-quedistas. deixou o hangar. o comandante-chefe supremo. Schultz. Columbi precipitou-se de novo para o jogo.* O soldado de segunda classe Arthur B. Estava a postos. dou-te isto — respondeu Columbi tirando o relógio. conhecido por Dutch. Taylor. Na 101. co mo o de todos os pára-quedistas nessa noite. da 82.

da NBC.supremo soubesse que tinha rasgado um ligamento do joelho direito a jogar ao squash. um a um. vaga após vaga. o guarda-marinha Bartow Farr. O barulho intensificou-se. de olhos fixos nas trevas. voltou-se para o comandante supremo. o correspondente Red Mueller. Em seguida o trovão dos motores ensurdeceu. levantavam a cabeça. incapazes de pronunciar uma palavra. ' De mãos nos bolsos. Eisenhower levantou os olhos para o céu negro. em direção à frota. Eisenhower seria capaz de o impedir de partir. E. passaram. na Mancha. para desaparecerem na noite. transmitiu em morse: três pontos. As formações levaram muito tempo a desfilar. Eisenhower tinha os olhos rasos de lágrimas. Na passerelle do Herndon. Lentamente. quando a última formação lhes passou por cima. Alguns minutos mais tarde. um traço — V de Vitória. uma luz ambarina cintilou por entre as nuvens. vagarosamente. as tropas de invasão ouviram o roncar dos aviões. os oficiais de quarto e Tom Wolf. Descreveram um circulo sobre o campo de aviação e dispuseram-se em formação. a garganta cerrada. correspondente da NEA. na tarde desse próprio dia. Eisenhower via agora os aparelhos rodarem lentamente sobre a pista de decolagem e elevarem-se no ar. enquanto a enorme formação roncava ainda sobre o campo antes de se dirigir para a França. . E depois.

De súbito todas as baterias da D. dirigindo-se precisamente para a aldeia. por cima dela. Mme Levrault correu a refugiar-se debaixo de uma árvore. Os aviões chegavam rapidamente. estendiam-se. A professora calçou os sapatos e vestiu um roupão. a velha senhora compreendeu que estava olhando para os reflexos difundidos pelo espelho grande do roupeiro. ouviu os aviões aproximarem-se. Ignorava . da região entraram em ação. estranhamente suspensos no céu como balões. verdes e amarelos das balas tracejantes.SEGUNDA PARTE . vindo do céu. plácidos e tranqüilos. Ao longe. Mal dera alguns passos pelo jardim. Mme Levrault sentou-se do leito e olhou fixamente. entrevistei Mme Levrault em junho de 1944. Mme Levrault ficou presa ao chão*. das explosões abafadas e do estalar seco dos obuses da D. Precipitou-se para a janela. a trinta e cinco quilômetros de distância. Mme Levrault pensou que Cherburgo. abriu lentamente os olhos. para ir às "privadas". a lua foi coberta por uma sombra e o soldado Robert M. estava ainda sendo bombardeada e congratulava-se por viver na pequena e tranqüila aldeia de Sainte-Mère-1'Église. As nuvens estavam debruadas de vermelho. na direção da costa. viu um páraquedas com qualquer coisa volumosa a balançar-se por baixo. Foi então que a velha senhora ouviu um murmúrio estranho. viu very-lights.A. tudo recaiu no silêncio. Murphy. como se nada tivesse acontecido.C. Levantou os olhos. O jardim estava absolutamente calmo. As luzes cintilantes pareciam escorrer pela parede. O barulho tornava-se ensurdecedor. uma professora de sessenta anos. o roncar dos motores calou-se. Durante um segundo. Ao longe viam-se repuxos de fogo rosa-vivo e os rastos laranja. os tiros cessaram e. voando baixo.A.C. quase de repente. cortados por sombras alongadas. Qual imenso nenúfar. O luar e os very-lights iluminavam como em pleno dia. Em frente à cama deslizavam vagarosamente traços luminosos vermelhos e brancos. * Na qualidade de correspondente de guerra. ladeados de sebes vivas. atravessou a cozinha e desceu ao jardim. Mme Angèle Levrault. Aterrorizada. Ao acordar melhor. Nesse momento ouviu ao longe o roncar surdo dos aviões. Os campos vizinhos.ª divisão aerotransportada.º regimento da 82. dando uma cambalhota no jardim. caiu com um baque surdo a vinte metros da velha senhora. Depois. rodeados de explosões de obuses. do 505. de Sainte-Mère-1'Êglise.A Noite CAPÍTULO I O LUAR inundava o quarto.

tirou uma faca da bota.tudo sobre o homem e a unidade a que ele pertencia. enchendo o céu de balas e explosões de obuses. Com um gesto rápido. consistia em balizar as "zonas de aterragem" numa área de oitenta quilômetros quadrados na península de Cotentin. Foi então que viu Mme Levrault. desde o início. mas mostrou-me três carregadores de metralhadoras.ª e 101. Enquanto descia lentamente. disse-me que.ª divisões aerotransportadas. Gavin. de dezoito anos. Acabava de ver um dos primeiros americanos que desceram na Normandia. . Arregaçando a comprida camisola. que o pára-quedista deixara cair. Os Dakotas apareceram com tal velocidade que ao princípio os alemães tomaram-nos por caças. só consegui falar com uma dúzia dos primeiros exploradores americanos. A missão desta vanguarda. quando comecei a escrever este livro e interroguei todos os participantes do Dia D que pude encontrar. pequeno grupo de corajosos voluntários. Mas. para as 82. A idosa senhora franzia os olhos e achava o jovem pára-quedista estranho e assustador. o pára-quedista. foram os exploradores submergidos pelas encrencas. enquanto a velha senhora se mantinha atordoada incapaz de fazer um gesto. Um deles.A. e desapareceu. Surpreendidas pela rapidez do ataque. ainda metidos nas respectivas caixas. "depois de ter tocado no solo. correu para casa como uma louca. atrás da praia de Utah. tirei da bota a faca de mato e desembaracei-me do pára-quedas.ª divisão. — Quando vocês saltarem na Normandia — dissera-lhes — terão um só amigo: Deus Nosso Senhor. intimando-a a guardar silêncio. alguns duma altura de cem metros apenas. Eram zero horas e quinze. a estranha aparição pousou um dedo sobre os lábios. Achou "realmente muito bonito". Por toda a região tinham saltado pára-quedistas. Tinham ordem para evitar encrencas a todo custo. contemplava com grande desprendimento "os graciosos arcos multicores das balas que vinham de terra". Mergulharam em pleno caos. sob a direção do General James M. O Dia D fora iniciado. da 101. O relato de Murphy corroborava portanto o que Mme Levrault me fizera quatorze anos antes. Sem dar por isso. Murphy. da terça-feira. as baterias da D. O espetáculo lembrava-lhe os fogos de artifício do 4 de junho. desembaraçou-se do pára-quedas. Em 1958. que é atualmente um eminente advogado em Boston. M. abriram fogo ao acaso. Tinham treinado num campo especial. apanhou um grande saco e levantou-se. Vacilava sob o peso do equipamento e das armas. cortei os cordões dum saco de pano que continha trezentos cartuchos". O sucesso da missão dependia da rapidez e silêncio com que agissem.C. Depois. Era alto e magro e a pintura de camuflagem que lhe mascarava a cara acentuava-lhe as maçãs e o nariz. o Sargento Charles Assay. Só então Mme Levrault recuperou os movimentos. dia 6 de junho de 1944.

O mapa de Blumentritt mostra claramente as razões por que aguardavam um desembarque no Pas-de-Calais: era o ponto mais próximo da fronteira alemã.Todo o alto comando alemão esperava que o ataque se desenvolvesse na direção marcada pela flecha. . Este mapa foi composto a partir de desenhos do chefe do estado-maior de von Rundstedt. General Gunther Blumentritt.

Durante os primeiros minutos. Doss não foi atingido. ribeiros e pântanos. Os outros ficaram dispersos por quilômetros de distância. mas a sacola ficou com enorme buraco "pelo qual tudo pirou". Os dois exploradores que estavam bem treinados não se atreveram a ripostar. Acenou-lhes mas não obteve resposta. O soldado de primeira-classe Frederick Wilhelm estava tão confuso ao tocar terra que. se precipitou sobre ele. da 352. Esmagaram-se nas árvores. ficou horrorizado ao ver-se rodeado de balas trace-jantes. a mais de oito quilômetros do ponto de descida previsto. mas por pouco não atingia Jones.C. Ia atirar. Dos cento e vinte exploradores. os exploradores também surpreenderam e aterrorizaram os poucos alemães por quem foram vistos.A. Estes homens eram na maioria veteranos.C. por pouco não revelou a sua posição. Autêntico rosário atravessou o equipamento que lhe pendia à frente. pelos aviões e pela D. Saltou da cama. O Capitão Frank Lillyman. Düring. somente trinta e oito aterraram nos locais indicados.C. do Capitão Ernst Düring. acantonada em Brevands. foi tal que diversos aparelhos manobraram de forma a esquivar-se. E quando o soldado Adrian Doss caiu. onde distinguiu a alguns metros duas silhuetas humanas. E funcionava. sobrecarregado com um peso de mais de cinqüenta quilos de material. quando o corpo se revelou com um surdo mugido. Abriu fogo imediatamente e varreu a rua com a metralhadora Schmeisser.No momento preciso em que o soldado Delbert Jones ia saltar. O campo iluminou-se de repente. esquecendo que se encontrava atrás das linhas inimigas. Os campos eram menores. Foram parar em campos. Estas cruzavam-se-lhe por cima da cabeça e Doss sentiu os puxões do pára-quedas quando a seda foi esfarrapada. Wilhelm teve tanto medo como se o inimigo tivesse aberto fogo sobre ele. os caminhos baixos mais estreitos do que os que tinham estudado durante meses em maquetas. vestiu-se com tanta precipitação que trocou as botas (do que só se apercebeu no fim do Dia D) e saiu para fora. mas não ficaram menos desorientados quando tentaram reconhecer o local. para ver se ainda funcionava. A intensidade da barreira da D. que comandava uma companhia de metralhadoras pesadas. Se se assustaram a si mesmos e se atemorizaram os normandos. A granada esborrachou-se sem fazer grandes estragos. Caiu num campo e encontrou-se frente a frente com um enorme vulto negro que.ª divisão alemã. jardins. Por milagre. carregou no botão de uma das enormes balizas luminosas que transportava. tinha sido acordado pelos foguetões.A. as sebes mais altas. Dois pára-quedistas caíram mesmo diante do P. os homens agiram de forma estranha e por vezes perigosa. nas sebes e nos telhados. na escuridão. chefe das equipes da 101. Evaporaram-se na noite e .ª divisão. o aparelho em que seguia foi rudemente atingido.

sem dúvida. ouviu um tiroteio súbito vindo da direita. também vira os foguetões. o pai de Alain. entre . Devorchak. o soldado Leonard Devorchak. pai e filho puderam ver os aviões que sobrevoavam os campos vizinhos. sob as espetaculares girândolas de verylights. Düring precipitou-se novamente para o P. mas de súbito René Doix notou que os aviões não faziam qualquer ruído. das munições. Alain Doix. e dirigiam-se agora para dois braços de água paralelos. trovejava e ribombava. o céu reluzia de obuses e balas tracejantes.F. o primeiro americano morto no Dia D. Saberia mais tarde que um amigo seu. do mesmo modo que Murphy. chegavam à costa seis aviões carregados de exploradores ingleses e seis bombardeiros da R. Por todos os arredores. a cerca de oito quilômetros de Ranville. que dormia a seu lado. uma a seguir à outra. Deslizavam silenciosamente de sebe em sebe. — Fallschirmjaeger! (Páraquedistas!) Outros exploradores tiveram menos sorte. os exploradores tentavam orientar-se. Fora acordado pelo bombardeio e olhava agora. na parte leste da Normandia. horrorosos à vista. Duas pontes bem guardadas. o canal de Caen e o Orne.C. Na pequena aldeia de Ranville. — Levantem-se depressa! Vistam-se! Acho que vai começar a dança! Da janela. das minas. o reflexo multicor que cintilava no espaldar de cobre da cama. a uma altitude de mil e quinhentos a dois mil metros. René Doix. dos painéis fluorescentes.desapareceram. A oitenta quilômetros. ao norte de Sainte-Mère-1'Église. quanto mais não fosse para provar do que era capaz". Sacudiu a avó. irrompeu pelo quarto. saía do jardim de Mme Levrault arrastando o saco (que continha um radar portátil) a fim de se dirigir à zona em que deveria ter caído. No momento em que o soldado Robert Murphy. transpunham os dois cursos de água. compreendeu e exclamou: — Santo Deus! Não são aviões! São planadores! Como enormes morcegos.ª divisão. desajeitados dentro dos pesados uniformes. À sua frente. procurando os pontos de reunião. e chamou o comandante do batalhão: — Fallschirmjaeger! — ofegou ao telefone. a alguns quilômetros de Caen. Dispunham apenas de uma hora para balizar as zonas onde o grosso das tropas aerotransportadas devia desembarcar à uma hora e quinze.A. transfigurado. como acontecera a Mme Levrault. dos postos de radar. rebocando planadores. Mathilde Doix. — Vovó! Vovó! Acorda! Parece que está acontecendo alguma coisa! Nesse instante. da 82. que julgara "ganhar uma condecoração. tinha então sido morto. desciam em silêncio. os seis planadores. foi. que brilhavam ao luar. Tinham sido largado sobre a costa. vacilando sob o peso das armas. um rapazinho de onze anos. De repente. transportando cada um cerca de trinta homens.

antes de os guardas terem tempo de as fazer ir pelos ares. O silêncio era impressionante. como disse Gray. Brotheridge. Alguém clamou: — Vamos. Os alemães. D. lançaramse sobre as espingardas e metralhadoras que possuíam e começaram a disparar ao acaso. Os homens. preparavam-se para aterrar brutalmente sobre as entradas das pontes. surpreendidos.ª divisão de infantaria aerotransportada britânica. Junho à porta. Os alemães não disparavam. sobre as silhuetas difusas que pareciam ter nascido do solo como por magia. A surpresa impunha-se. "com o focinho nos arames farpados. Quase na mesma altura. que se tinham dado os braços e retinham a respiração. rapazes! Seguiu-se o estrondo da aterrissagem. Foi um inferno. O único barulho era o do vento soprando ao longo de enorme engenho. conhecido por Danny. nos planadores que murmuravam suavemente na clara noite de junho. que seguia a bordo de um desses três planadores. ainda meio adormecidos. Gray lembra-se de que o seu chefe de seção.Ranville e Bénouville. atravessou o solo semeando faíscas. a alguns quilômetros. cerrou os olhos e inteiriçou-se para resistir ao choque. A perigosa missão que lhes fora destinada consistia em ocupar as referidas pontes e aniquilar as respectivas guarnições. teve tempo para gritar: — É agora. rapazes! Os homens saltaram para terra. Os que dormiam. pronto a abri-la no momento em que o planador aterrasse. A parte inferior da fuselagem rasgou-se. que dirigia o ataque. e o pesado planador. estava o Major John Howard. ficaram desorientados. impedindo que os reforços e blindados alemães viessem do leste para atacar de flanco as forças de invasão anglo-canadenses. Todos se precipitaram para a ponte. O soldado Bill Gray. o Tenente H. acordaram em sobressalto e encontraram-se frente a frente com metralhadoras Sten. os ingleses tinham imaginado uma estratégia audaciosa e arriscada. o esmagamento ensurdecedor. atropelaram-se à porta. Estas pontes eram indispensáveis para permitir alargar a zona de desembarque e urgia conquistá-las intactas. do cockpit voaram estilhaços. Cortariam assim uma das principais vias de comunicação entre Caen e o mar. Assim. Após um último e aterrorizante balanço o aparelho estacou. quase sobre a ponte". Gray e . Explodiram granadas dentro dos abrigos. Outros. e constituíam os objetivos deste pequeno grupo da 6. caindo e levantando-se na terra branda. qual caminhão louco. composta por voluntários pertencentes a unidades tão famosas como o Oxfordshire e Buckinghamshire Light Infantery e os Royal Engineers. Enquanto um grupo reduzia a resistência à entrada da ponte. os dois outros planadores aterraram e vomitaram o resto do grupo de assalto.

aquartelados atrás das linhas inimigas. repetiu infatigavelmente a mensagem em código: — Ham and jam. Tinha terminado a primeira batalha do Dia D. Gray disparou a metralhadora à altura da anca e pensa que todos os seus companheiros fizeram o mesmo. mas os explosivos ainda não haviam sido colocados. "Tinha um ferimento na garganta — relata Gray — sem dúvida causado por uma granada de fósforo. A sentinela caiu no momento preciso em que o foguete se incendiava acima da ponte. a fim de se apoderarem da outra extremidade. junto à ponte sobre o canal.. O estranho silêncio que se segue sempre a uma batalha surpreendeu os homens. no momento preciso em que os planadores de Howard aterravam. pronta a disparar um foguete de alarme. espantados por ainda estarem vivos e cada um perguntando a si mesmo quem mais teria sobrevivido. O Major Howard e os seus cento e cinqüenta homens. não poderiam fazer saltar as pontes. Os sapadores britânicos descobriram-nos numa cabana próxima. e entre eles o tenente de vinte e oito anos. A blusa ainda fumegava. vinha demasiado tarde. preparavam-se para conservar estas pontes indispensáveis.. a mais importante. sabiam onde estavam. apressouse a procurar o chefe de seção. Pelo menos. o saldo de primeira classe Edward Tappenden enviou o sinal de vitória.. na margem do Dives. O mesmo não se poderia dizer da maior parte dos sessenta pára-quedistas exploradores que haviam saltado de seis bombardeiros ligeiros às 0:20 horas. As duas pontes foram conquistadas simultaneamente. É curioso notar que. Foi o último gesto desse corajoso soldado. Gray descobriu o corpo de Danny diante de um pequeno café. A guarnição já tinha sido facilmente reduzida. atravessavam-na a passo de carga. conduzidos pelo Tenente Brotheridge. Gray viu uma sentinela alemã segurando na mão direita uma pistola Very. (Presunto e geléia). tendo o terceiro aterrado dez quilômetros mais longe. Estes homens tinham a seu cargo uma das mais perigosas missões do Dia . mesmo que para isso tivessem tido tempo. a algumas centenas de metros mais longe. Mas havia mortos. Surpreendidos pela rapidez do ataque.. embora o assalto só tivesse sido feito por dois planadores. O jovem Gray. Não durara mais de um quarto de hora. cortadas provisoriamente de todo e qualquer reforço. aturdidos com a rapidez dos acontecimentos.cerca de quarenta homens.. os alemães não tiveram sequer possibilidades de se defender." A pouca distância dum pillbox capturado. O alarme. feliz pela sua participação no ataque. que tinha visto dirigir o ataque sobre a ponte. Ham and jam. Tinham preparado tudo.. Danny Brotheridge. Ham and jam. Com a boca colada ao microfone do seu walkie-talkie. destinado sem dúvida aos alemães de guarda na ponte sobre o Orne. A meio caminho.

Ranville. durante quatorze atrozes minutos. tal tarefa parecia impraticável. Os pára-quedistas de Varanville aterraram bastante perto do objetivo. Os exploradores dispunham de meia hora para cumprir a sua missão. radares e outros aparelhos de precisão. a letra K. a menos de cinco quilômetros da costa. descobriram o que pensaram ser a ponte prevista e alguns minutos mais tarde lançaram um sinal errado. antes de lançar os seus pára-quedistas. Estes desapareceram na direção do vale de Dives. situavam-se junto a três pequenas aldeias — Varanville. nenhum desceu onde devia. Mesmo na Inglaterra e em pleno dia. o soldado James Morrissey. Tais zonas. Mas no meio da noite. aproximadamente a oito quilômetros a leste de Caen. Uma brisa imprevista soprava (que os exploradores americanos não tiveram de enfrentar) e alguns locais estavam mergulhados na bruma. incontestavelmente. teria sido difícil reconhecer estas zonas e balizá-las em meia hora. que estava alagado e espelhava ao longe com o luar — . Também eles ficaram dispersos e a aterrissagem foi ainda mais caótica. descrevendo círculos. e Touffréville. Alguns voltaram para trás. também não atingiu o seu objetivo. os mais infelizes foram os de Touffréville. Mas. obstinou-se em ir e voltar sob um fogo intenso. Os pilotos afastaram-se instintivamente das rotas e. Os aviões que transportavam os exploradores britânicos foram obrigados a atravessar grandes tiros de barragem. e passearam sobre a região antes de lançar os pára-quedistas. As encrencas começaram com as condições atmosféricas. viu com horror uma rabanada de vento arrebatar para oeste seis dos seus camaradas.D. Constituíam a vanguarda da 6. os pára-quedistas ingleses começaram a descer. De cada dez homens. os ingleses encontraram logo dificuldades. conseqüentemente. ou caíra noutra parte. A maior parte dos exploradores caiu com o equipamento em lugares errados. somente quatro desceram sãos e salvos. ultrapassaram e erraram os seus objetivos. localizadas num retângulo de cerca de trinta quilômetros quadrados. Um deles. Os homens juntaram-se sem grande dificuldade. mas logo notaram que o material se partira durante a queda. em território inimigo e num país que não conheciam. Às zero horas e cinqüenta. Dois grupos de dez homens deviam balizar este setor com focos que projetassem no céu. A segunda equipe. destinada a Touffréville. Um avião. Uma das equipes caiu no setor de Ranville. ficaram dispersos por vários quilômetros. Dos que pertenciam a Ranville. voando muito baixo. não longe das pontes agora ocupadas por Howard e seus homens.ª divisão aerotransportada britânica e tinham-se oferecido como voluntários para saltar sobre o desconhecido e delimitar três zonas de aterragem a oeste do Orne com balizas luminosas. em morse. Do mesmo modo que os seus camaradas americanos situados a oitenta quilômetros.

Antes de mais urgia saber exatamente onde se encontravam. Às apalpadelas na noite normanda. Morrissey não voltaria mais a vê-los. bateram-se uns com os outros nos campos e caminhos sinuosos. Os outros quatro homens tinham caído muito próximo de Touffréville. Dois exploradores surgiram do céu negro mesmo em cima do relvado do P. Aqueles que caíram no local previsto reconheceram facilmente os pontos de referência que tinham estudado na Inglaterra em mapas e maquetas. Windrum subiu a um poste de sinalização. riscou um fósforo e descobriu que Ranville. Reichert jogava cartas com alguns oficiais quando os aviões os sobrevoaram e precipitou-se para a entrada da casa. quinhentos e setenta . tudo estava calmo. à volta de fazendas em trevas. Atordoado. tão calmo que os homens viveram pesadelos devidos unicamente à sua imaginação. Enquanto os levavam para serem interrogados. meu amigo. do General Josef Reichert. nas entradas de aldeias adormecidas. ficou mais estupefato. Aqui e ali. alguns homens surpreenderam sentinelas que fizeram fogo.região inundada pelos alemães para reforçarem as suas defesas. mas caímos aqui absolutamente por acaso. o seu ponto de reunião. foi abatido por tiro vindo precisamente da zona que deviam assinalar. houve inevitavelmente alguns mortos e feridos. se Reichert ou os exploradores.C. Os oficiais de informação do general agarraram os dois homens. Outros ficaram irremediavelmente perdidos. Morrissey e os outros dois decidiram montar as balizas no campo de trigo onde tinham aterrado. ficava apenas a alguns quilômetros. Reichert só conseguiu dizer: — Donde saíram vocês? Ao que um dos exploradores respondeu. a tempo de ver aterrar os dois ingleses. durante estes primeiros minutos de confusão. desarmaram-nos e levaram-nos até à entrada da casa. Qual motorista que se engana na estrada numa noite sem lua. com o aprumo dum homem que chega a um coquetel sem ser convidado: — Sinto muito. poucos exploradores experimentaram o fogo do inimigo. para combates encarniçados mal chegassem à terra. de modo geral. Tinham-se preparado para um fogo intenso. comandante da 711. os exploradores e duzentos e dez homens das vanguardas de batalhões tentaram orientar-se. Alguns instantes mais tarde. o fato mais angustiante foi o total e ameaçador silêncio do campo. julgando cada um que o outro era um alemão. Contudo.ª divisão alemã. Nalguns casos. O Capitão Anthony Windrum resolveu o problema muito simplesmente. Juntaram-se e o soldado de primeira classe Patrick O'Sullivan afastou-se em reconhecimento. Todavia. Seria difícil dizer qual deles. Para falar a verdade.

constituindo as primeiras forças de libertação. montavam os cenários para a batalha do Dia D. Por todas as zonas de aterrissagem começavam já a nascer fogueiras que rompiam a noite de junho.pára-quedistas ingleses e americanos. .

comandante da segunda bateria. — Deve ser mais uma incursão de bombardeiros. o alerta não tinha sido dado. Sentou-se um momento à borda da cama. o Major Block. Pluskat resolveu não obedecer ao superior. O cão Harras acompanhava-os. junto da aldeia de Sainte-Honorine. A seus pés. um observatório de concreto-armado construído nas falésias. O Tenente-Coronel Ocker. Do seu P. Quando o soubermos. Irritado. com um olhar distante. o cão-pastor alemão Harras dormia calmamente. Escassos minutos bastaram a Pluskat. Apertaram-se no Volkswagen em forma de jipe e Pluskat . Dê o alerta aos seus homens e dirija-se imediatamente para a costa.A.ª divisão alemã — vinte canhões ao todo. Meio adormecido. da divisão e falou com o oficial de informações da 352. De fato. ao Capitão Ludz Wilkening. tinha-o acordado e o instinto dizia-lhe tratar-se de algo mais que um bombardeio. Respondeu-lhe em tom glacial: — Meu caro Pluskat. Telefonou para o Q.C. Dois anos de amarga experiência na frente russa haviam ensinado ao major a fiar-se cegamente no instinto. Pluskat precipitou-se e ouviu a voz tranqüila do Coronel Ocker: — Foram assinalados pára-quedistas na península. O estrondo dos aviões e da D.ª divisão. Pluskat — disse-lhe Block. após tantas noites movimentadas. Pluskat desligou. estava desagradavelmente calmo.G. Havia vinte minutos que aviões roncavam no céu iluminado por foguetões. Talvez seja o desembarque. a seis quilômetros da costa. superior do major. bombardeando a costa a leste e a oeste. estava ainda de ceroulas. e ao Tenente Fritz Theen. seu diretor de tiro.C. E desligou secamente.C de Etreham. O major não se deu por satisfeito com a resposta. Mas Pluskat estava agora demasiado acordado para readormecer e não se sentia nada à vontade. Estas peças atingiam metade da praia de Omaha. A final de contas.CAPÍTULO II QUE é que aconteceu? — rugiu ao telefone o Major Werner Pluskat. Tudo estava tranqüilo no castelo. Perguntou a si mesmo se não se teria mostrado demasiado impulsivo. pareceu ficar irritado com o telefonema de Pluskat. Súbito. sentindo-se um tanto ridículo. tocou o telefone de campanha. não sabemos ainda o que se passa. O setor comandado por Pluskat. comandava quatro baterias da 352. era uma das raras em que os seus homens haviam recebido autorização para descansar. avançado. mas Pluskat ainda ouvia ao longe o roncar dos aviões. informá-lo-emos. para partirem para o P. pelo contrário. — Ainda não se sabe muito bem.

o General Marcks. desceu uma escada de cimento-armado. podia-se ver toda a baía do Sena. e por toda parte havia oficiais tentando tirar deles algumas conclusões. Era o único acesso. mas não se notava nada de anormal. O observatório não poderia estar melhor situado: dominava a trinta metros a praia de Omaha. mas ainda pode acontecer qualquer coisa. por toda a Normandia. Alguns dias antes.° corpo de exército. com o luar. receberá mais munições do que poderá utilizar.° Exército. pouco claros e tão dispersos que mesmo os oficiais com maior experiência permaneciam cépticos.C. * Aos P. do seu regimento. Seguido pelos seus homens e levando Harras à trela. seguiu por um túnel sinuoso e entrou finalmente numa ampla divisão guardada por três soldados. Lentamente. Com bom tempo. O suficiente para criar a pior das confusões. tiros acolá. Havia uma leve neblina. E mesmo neste momento. tinha inspecionado as baterias e respondido a algumas perguntas de Pluskat: — Se alguma vez se der um desembarque no seu setor. atormentado por um mal-estar indefinido: — Vou ficar aqui. montados num pedestal. Pluskat desfrutava uma visibilidade notável. o Volkswagen alcançou SainteHonorine. mas o que indicavam? Tinham descido em pára-quedas apenas quinhentos e setenta homens. quase no centro do que ia ser a cabeça de ponte normanda. Talvez se trate de um falso alarme.lembra-se de que durante os poucos minutos de trajeto ninguém falou. Chegado quase ao cimo da falésia. diante de uma das duas seteiras do abrigo. Quantos homens . Nem uma luz. no entanto. desde a ponta de Barfleur. à direita. Pluskat subiu lentamente um atalho íngreme até chegar ao P. O atalho estava ladeado de arames farpados. mas não distinguiu um único navio. Rodando ao longo das defesas costeiras. Por fim. — Não há nada — disse ao Tenente Theen. do 94. à esquerda. um pára-quedista pendurado numa árvore noutro sítio. afastou-se. chegavam agora relatórios vagos e contraditórios. o solo estava minado dos dois lados. Nuvens negras velavam de vez em quando a lua resplandecente e lançavam grandes manchas de sombra sobre o mar. nem um só ruído. do 7. fez girar os binóculos da esquerda para a direita. percorrendo a baía.C. o major deixou-se escorregar por uma estreita galeria. As informações eram muito escassas: silhuetas confusas aqui. O major observou longamente a baía. até ao Havre e ao cabo de Hève. Eram indícios.C. Pluskat dirigiu-se imediatamente para os potentes binóculos de artilharia. ligando para o P. Os relatórios eram truncados. acrescentou.

ª divisão aerotransportada. Falley não compreendia como poderia chegar a tempo ao Kriegsspiel se não partisse mais cedo. Reichert julgou tratar-se de uma incursão dirigida contra o seu P. escolheu este momento para se pôr a caminho. preparava-se para o imitar. estava tudo pronto para a festa de aniversário do General Erich Marcks.G. Uma só coisa parecia clara: à luz de tantos relatórios incompletos. Precipitaram-se para fora. Um terceiro. mas também um homem austero e pouco comunicativo. Iam abrir a porta do quarto do general quando subitamente ouviram uma bateria da D. pusera o vinho no gelo.º corpo. embora todos se sentissem um tanto infantis. o Tenente-Coronel Friedrich von Criegern.G. do 15. da 711.ª divisão. A notícia chegou muito tarde ao Q.° Exército aos oficiais generais de partirem antes da madrugada. vizinha abrir fogo.C. Era considerado um dos melhores generais da Normandia. Em Saint-Lô. no Q. Provavelmente devido ao mau tempo.C. tudo estava a postos e. O Major Friedrich Hayn. Todos indagavam como reagiria o severo Marcks.G. chefe do estadomaior. E os minutos correram. do 7. No entanto. Apesar da interdição feita pelo Q. o General Friedrich Dolmann dormia. o eficiente e consciencioso Major-General Max Pemsel. os oficiais do estado-maior dispunham-se a fazer triunfar o seu projeto.º Exército. oficial de informações.A. berrar: . deitara-se cedo. Os comandantes de companhias refletiam duas vezes antes de dar o alerta ao batalhão. nem mesmo aqueles que. Fatigado. O seu chefe de estado-maior. que perdera uma perna na frente russa.° Exército. como o General Reichert.A. Primeiro enviavam patrulhas de verificação. Já tinham sido dados tantos falsos alertas que todos desconfiavam. e assinalou-o no relatório que apresentou ao comando do corpo. da 91. tinha anulado um exercício de alerta que devia ser dado justamente nessa noite. Esta decisão ia-lhe custar a vida. em Mans. o escalão inferior de comando do exército. haviam deparado face a face com pára-quedistas. Hayn.haviam descido? Dois ou duzentos? Seria a tripulação de um bombardeiro abatido? Tratar-se-ia de ataques da Resistência francesa? Ninguém tinha a certeza de nada. do 7. ninguém quis tomar a responsabilidade de dar o alerta: um alerta que podia muito bem ser infundado. e diversos oficiais superiores deveriam irromper pelo quarto do general quando o campanário da catedral de Saint-Lô desse a meia-noite (uma hora segundo a hora de verão inglesa). No Q.G. Os comandantes de batalhão tomavam ainda mais precauções antes de informar os seus superiores. a tempo de ver um bombardeiro aliado despenharse em chamas e ouvir os homens da D.C. onde foi inscrita com o lacônico comentário: "Sem detalhes". Dois generais já tinham deixado a península de Cotentin para assistir ao exercício de Rennes. do 84. o General Wilhelm Falley.

"A perna artificial estalou-lhe — conta-nos Hayn — quando se levantou para nos receber. e o pequeno grupo. Os sinos da catedral começaram a tocar. Houve um silêncio quando Marcks levantou a cabeça e os inspecionou calmamente através dos óculos. com o Major Hayn à frente levando a garrafa de Chablis e os copos. Abriram as garrafas e o pequeno grupo perfilou-se à roda do general de cinqüenta e três anos. pôs todos à vontade. Os oficiais levantaram os copos e beberam à sua saúde. ignorando totalmente que a sessenta quilômetros dali desciam sobre a França quatro mil duzentos e cinqüenta e cinco pára-quedistas ingleses.— Acertamos-lhe! Acertamos-lhe! O General Marcks não saiu do quarto. . entrou no quarto do general. talvez um tanto solene." Fazendo com a mão um gesto tranqüilizador. para desejar-lhe um feliz aniversário.

ª divisão aerotransportada lutava contra relógio. Os "Diabos Vermelhos" dispunham de cinco horas e meia para se estabelecerem sòlidamente e "ancorarem" o flanco esquerdo das forças de invasão. os pára-quedistas deviam primeiro proteger as zonas de aterragem contra um ataque inimigo. As primeiras vagas de assalto inglesas e americanas abordariam as cinco praias das seis horas e trinta para as sete horas e trinta. maiores que os DC-3. vacilavam em direção a este toque dezenas de silhuetas com bonés. ouviu-se um som estranho. que deviam agir com rapidez. em particular a dos blindados. vestindo fardamentos camuflados. os Hamilcars. A bizarra cacofonia vinha da região de Ranville. Às três horas e vinte. Para as centenas de homens da 6. era preciso transformar os . incôngruo. fazer saltar outras cinco sobre o Dives e bloquear assim a chegada dos reforços inimigos.CAPÍTULO III ATRAVÉS dos campos banhados de lua da Normandia. sacolas e equipamento. Para fazer aterrar os sessenta e nove planadores. a leste das pontes estratégicas. apoderar-se das pontes sobre o Orne e o canal de Caen. Nunca até então os comandantes de pára-quedistas haviam reunido os seus homens de tal modo. De repente. Quatro deles.ª divisão aerotransportada britânica tinha sido dado o sinal de batalha. Mas as armas ligeiras dos pára-quedistas não bastavam para deter uma ofensiva de blindados. Esses toques de trompa constituíam os sinais de reunião de dois batalhões da 5. A divisão tinha diversas missões complexas a cumprir e cada uma exigia cronometragem perfeita. Devido ao seu volume e peso. rouco e insólito: o lamento desolado de uma trompa de caça inglesa. ao longo das sebes. eram tão grandes que podiam transportar carros ligeiros. Os planadores eram enormes. O sucesso da operação dependia. pois. só por si. trazendo homens. O outro tinha por missão ocupar Ranville e manter-se nessa posição. nos ribeiros. Através dos campos. de minuto a minuto. A sua chegada constituía. O primeiro devia levar socorros ao pequeno grupo comandado pelo Major Howard. veículos.ª brigada de páraquedistas. os canhões só podiam ser conduzidos por comboios de planadores. inteiramente da rapidez de execução e da pronta chegada dos canhões antitanques e das munições capazes de furar as blindagens mais fortes. sessenta e nove planadores deviam invadir o céu da Normandia. Os pára-quedistas deviam ocupar as elevações a nordeste de Caen. um problema colossal. A trompa repetia a chamada. Em seguida. carregados de sacos. que dominava as pontes. Outras trompas retomaram a chamada. soou um clarim. material pesado e as preciosas peças. mas nessa noite a velocidade era fundamental. A 5.

o tiro da D. Guiados pelos lamentos modulados das trompas de caça. das 3.º batalhão. ou seja. Batten saltou da árvore o mais depressa que pôde e dirigiu-se em direção às trompas que tocavam a reunir. derrubar uma floresta de troncos minados e de travessas de caminho de ferro numa noite sombria — e tudo isto em duas horas e meia.A.C. mas milhares de pára-quedistas caíram a distâncias que variaram de cinco a cinqüenta quilômetros dos seus objetivos. Apesar disso. os homens vacilavam às apalpadelas no meio da noite. Indefeso. mas. sem saber se a silhueta escura era de alemão ou de outro pára-quedista. o roncar dos aviões e. a 5. Batten ouviu de súbito aproximar-se o gaguejar seco duma pistola-metralhadora Schmeissen. Outra missão. ao longe. Das duas brigadas. como eu esperava que pensasse. Um minuto depois.prados semeados de obstáculos em gigantesco campo de aviação. embora se encontrasse muito perto da sua zona. balançando-se suavemente a três metros do solo. Nada podia fazer a não ser ficar sem me mexer e o tipo. — Quem quer que fosse — diz hoje Batten — o tipo aproximou-se e mirou-me.C. Caíram em quase toda parte. O soldado Raymond Batten. Alguns tiveram sorte. os comandantes de companhia levaram quase duas horas para reunir metade dos efetivos. nada podia fazer para obedecer. A maioria dos homens foram largados não longe do seu objetivo de Ranville. do 13.ª divisão aerotransportada recebera ordens para neutralizar essa bateria antes das cinco horas da manhã.. Os agentes aliados de informações estavam convencidos de que as suas quatro possantes peças poderiam atormentar a frota de desembarque e massacrar as tropas que desembarcassem em Sword. junto de Merville. em direção ao local de reunião. Batten despenhara-se num pequeno bosque frondoso e ficara pendurado numa árvore pelas correias do pára-quedas. ouviu a trompa. num vasto perímetro.ª brigadas de pára-quedistas. julgandome morto. O mesmo terreno seria utilizado por um segundo comboio de planadores esperado à tarde. houve um ruído de folhas e ramos quebrados e alguém aproximou-se prudentemente em direção a Batten. No entanto as suas atribulações ainda não . vítimas de erros de navegação de aparelhos transviados pela D. Quatro mil duzentos e cinqüenta e cinco soldados.ª teve mais sorte. Este perdera a Sten durante a queda e não tinha revólver. por uma balizagem deficiente das zonas e por rajadas de vento. O bosque estava muito calmo. No momento em que empunhava a faca para se libertar das correias.ª e 5.A. talvez a mais importante: destruir uma bateria de artilharia pesada. A 6. desceram na Normandia para levar a cabo estas diferentes tarefas. mantinha-se suspenso. resolveu ir embora. e Batten podia distinguir o som sincopado das metralhadoras.

homens como Batten encontraram-se imediatamente mergulhados nas duras realidades da guerra. um irlandês. "Mata-me. Para o soldado do 12. agravadas ainda pelo medo e pela imaginação. assaz delicadas mesmo em pleno dia. berrando como um louco: — Mataram o meu amigo! Mataram o meu amigo! E. A. do 1. mas levantou-se e abandonou o local antes que o vidro acabasse de cair". prometendo enviar-lhe socorros. O avião passou-lhe sobre a cabeça como um cometa ébrio e explodiu num campo a mil e quinhentos metros. que lhe implorou docemente que o matasse. do 1.tinham acabado. Durante estes primeiros minutos. nessa noite. Ajoelhou junto de um pára-quedista gravemente ferido. . Içou-se graças às correias do pára-quedas e partiu para o local de reunião como se fosse a coisa mais natural deste mundo. O avião "corria a todo vapor. Outro enfiou-se com precisão impressionante num poço. Tal foi o caso do soldado Godfrey Maddison. parecendo não notar que o cano do fuzil que segurava convulsivamente na mão estava dobrado em dois. Andava. rapaz. Instalou o ferido o melhor que pôde e partiu.º batalhão canadense. Em muitos locais. mas que de noite e em território inimigo tomavam proporções aterrorizantes. caído a quilômetros do seu objetivo. O soldado Percival Liggins. em chamas por toda parte" e parecia ir de encontro a ele. viu um dos Dakotas de transporte ser atingido pela D. o primeiro ruído de guerra foi um gemido no meio da noite. Tait perguntava a si mesmo se os pára-quedistas que nele seguiam já teriam saltado. largando imensos pedaços.º batalhão.º batalhão canadense) caiu sobre uma estufa. "lançando estilhaços de vidro por toda parte e fazendo um barulho dos diabos. Por toda parte houve homens que tiveram de se desvencilhar de situações incríveis. esbarrou com um homem que o ultrapassou na estrada.º batalhão Colin Powell. ao juntar-se ao grupo que se dirigia para o ponto de reunião. para terminar. C. mas "as munições começaram a explodir e não nos pudemos aproximar". Batten deu por si ao lado de um soldado que parecia completamente ausente. Tait e alguns companheiros quiseram tentar salvar os que talvez estivessem no avião. do 8." Powell foi incapaz de o fazer. também viu um avião em chamas. de olhar fixo. suplico-te. muitos homens ficaram a dever a vida unicamente às suas próprias iniciativas. Enquanto tentava desesperadamente livrar-se das correias do pára-quedas. o soldado de primeira classe Harold Tait. de vinte e dois anos. como um autômato. Na orla do bosque deparou com o cadáver de um jovem cujo pára-quedas se não abrira. Um pára-quedista (o Tenente Richard Hilborn. Em seguida. Mas o aparelho sobrevoou-o e esmagou-se num campo mais atrás.

maravilhosamente treinado. Todo um batalhão de setecentos homens. No mesmo instante. viu o referido sargento cair num buraco com água. disseminou-se por oitenta quilômetros de pântanos e bosques. O soldado Henry Churchill. Alguns destes homens iriam levar vários dias até regressarem à sua unidade. quando percebeu que ninguém o tinha notado. Maddison começou a tentar libertar-se. e o peso do equipamento — cinqüenta e seis quilos. — estava muito escuro e tinha a certeza de que me iam acertar em cheio. "Fui primeiro tomado de pânico — disse. que se encontrava numa vala próxima.Estava na orla de um prado.° batalhão canadense. e depois. Tinha as duas pernas presas nos fios. tomaram a foz do Dives como sendo a do Orne e largaram os homens sobre um labirinto de pântanos e lagos. As precauções de Rommel. Um forte contingente da 3. E este batalhão. libertar-se das correias do pára-quedas e olhar desesperadamente em volta. aprisionado numa rede de arames farpados. Eram estátuas de pedra. As águas e pântanos do vale do Dives inundado representavam perigos mortais. lenta e dificilmente.°. De ' repente viu um grupo de pessoas no relvado. Alguns pilotos. com a única diferença de as estátuas serem de carne e osso. o Major Donald Wilkins. esperou. passado um minuto. Mas por fim conseguiu livrar-se e partiu em direção aos sons de trompa." Durante alguns instantes não se mexeu. A Sten do sargento ladrou e "abateu os dois de uma só rajada". As silhuetas sombrias não fizeram o menor gesto. durante estes primeiros minutos do Dia D. levantou-se resmungando para ir certificar-se das suas suspeitas. Um sargento pertencente à mesma unidade viveu aventura semelhante. porém a natureza." brigada caiu nessa região como confeitos lançados de um saco. Outros não voltariam mais. as suas defesas contra os desembarques aéreos. mostraram-se eficazes. o 9. Sucederam-se desventuras trágicas. o inimigo mais sinistro do homem não foi o exército alemão." Os homens aproximaram-se e as suas vozes eram indiscutivelmente germânicas. . recebera uma das mais importantes e perigosas missões daquela noite: a destruição de Merville. que deveria ter descido sobre uma área de um quilômetro quadrado. Wilkins examinou-as atentamente e. "O sargento esperou — conta-nos Churchill — tentando identificar se eram ingleses ou alemães. Contudo. Deitou-se imediatamente por terra e ficou imóvel. enquanto se aproximavam dois homens. ouvido alerta. incluindo quatro obuses de morteiro — enterrara-o tão profundamente que estava quase totalmente preso. do 1. incapaz de fazer um movimento. escalava o que pensava ser uma pequena fábrica. desorientados pelo nevoeiro. Pareceu-lhe que levava horas a desprender um braço para poder pegar no alicate preso à cintura.

Esperava aterrar nos pomares próximos de Varanville. "Estava a vê-lo quando. desapareceu — lembra-nos Humberstone.° batalhão. Perguntava a si mesmo qual seria a extensão das perdas. Alguns conseguiram atravessar os pântanos." John Gwinnett. uns aqui. e não era ninguém. . apareceram pequenos grupos de homens. Enquanto Otway avançava rapidamente no meio da noite. sem dúvida para lhe indicar o caminho.Nunca se virá a conhecer o número de infelizes mortos nos arredores do Dives. Eram canadenses do 1.º batalhão. Fora largado a quilômetros do local de reunião e sabia que a sua unidade estava espalhada pelos campos. pudéssemos fazer fosse o que fosse para salvá-lo. encontrava-se completamente perdido. dissera-lhes: — O medo bateu à porta. viu dois homens na margem oposta. comandante do 9. Os sobreviventes dizem que os pântanos estavam cortados por uma intrincada rede de valas cheias de lodo peganhento.° batalhão. Caiu num pântano. Gwinnett ainda não o sabia. debatia-se com uma cólera atroz. mas afogaram-se no rio. Entre Varanville e ele sucediam-se os pântanos e o Dives transbordava. Humberstone gritou-lhes: — Que devo fazer para atravessar? — Não há perigo — respondeu-lhe um dos soldados. capelão do 9. Era sua convicção que o ataque a Merville seria sanguinário e queria estar junto dos seus homens. com água quase até à cintura. Depois. e o silêncio que o envolvia tinha qualquer coisa de angustiante. confirmando as suas piores suposições.ª ambulância de campanha aerotransportada. No mesmo momento. No campo de aviação. Enquanto procurava um processo de transpor o rio. chegou à margem do Dives. — Não gritou. outros ali. na outra margem. a alguns metros de terra firme. nem nada. era incapaz de sair de lá. Patinhando através dos prados inundados. escapou por pouco a morte semelhante. Também ele caíra nos pântanos. A Fé abriu. As mochilas molhadas pesavam o dobro e os homens tinham de as abandonar. Um homem isolado. O canadense entrou na água. Afogou-se sem que eu ou o seu companheiro. mas ia levar mais de dezessete horas para sair dos pântanos. mesmo à sua frente. mas caíra muito mais para leste. da 224. Gwinnett estava absolutamente decidido a sair dali. entorpecido pelo peso das armas e do equipamento. imediatamente antes de decolarem. com mais de três metros de profundidade e cinco de largura. não fazendo a mínima idéia do local onde se encontrava. o Tenente-Coronel Terence Otway. Um nevoeiro úmido envolvia a paisagem e Humberstone nada ouvia à sua volta além do coaxar das rãs. O soldado Henry Humberstone. distinguiu o barulho característico de água corrente. de repente.

Mesmo que tudo corresse bem. penetrar através de uma sebe de arames farpados de quatro metros de largura. mas valia a pena correr o risco. era considerada pelos alemães como impenetrável. permitindo assim um ataque simultâneo por ar e por terra. com os Bangatores para destruir os arames farpados.° batalhão tinha de atravessar campos de minas. Otway não pensava do mesmo modo e elaborara um plano de ataque extremamente preciso e incrivelmente minucioso. Esta praça-forte. Isto é. Atiradores de primeira. Estava cercada por formidável cintura de defesas profundas. Tal era portanto a estratégia. guardada por duzentos homens. o mais tardar. enquanto Otway se dirigia angustiado para o local de reunião. torpedos Bangalore (tubos cheios de explosivos para destruir os arames farpados). se o sinal de vitória não fosse lançado de Merville às cinco horas e trinta. três planadores repletos de soldados viriam despenhar-se mesmo em cima da bateria. os canhões dos navios de guerra interviriam. A bateria seria primeiro bombardeada com bombas de duas toneladas. Algumas patrulhas partiriam em reconhecimento. Para atingir a bateria propriamente dita — quatro canhões pesados dentro de fortificações de concreto — o 9. O plano requeria uma precisão de minutos. atravessar outros campos de minas e abrir uma passagem num labirinto de trincheiras repletas de metralhadoras. havia sido dito a Otway. não tinham chegado os . nada querendo deixar ao acaso. pois não se tratava duma bateria ordinária. transpor valas antitanques. a primeira parte do plano já tinha falhado. Depois de terem recuperado ô material.O seu comboio de planadores especiais ter-se-ia também dispersado? Otway precisava urgentemente dos canhões e do material transportado pelos referidos planadores para atacar Merville. diversas equipes desentulhariam os campos de minas e marcariam as passagens livres. O plano de Otway reservava uma surpresa final: no momento em que as tropas se lançassem ao assalto. morteiros e até leves escadas de alumínio. Se falhassem. metralha-dores e homens com morteiros por-se-iam finalmente em posição para desencadear o assalto propriamente dito. Seguir-se-iam outros grupos. Este plano apresentava detalhes quase suicidas. Otway e os seus homens dispunham apenas de uma hora para levar a cabo a missão. O ataque aéreo dera-se às zero horas e trinta e resultará num malogro total: nem uma só bomba atingira a bateria. Mas. canhões antitanques. divididos em onze grupos. o bombardeio começaria e Otway deveria bater em retirada. lançadas de cem Lancasters. Por outro lado. lança-chamas. Depois. pois os canhões de Merville podiam matar aos milhares os soldados ingleses que desembarcassem em Sword. detectores de minas. os homens de Otway lançar-se-iam ao ataque. Os comboios de planadores trariam jipes.

Pluskat ouvia outra coisa: um roncar surdo de aviões. Pluskat pensava que deviam ser centenas de aviões. Mas o telefone não tocava. do seu abrigo dominando a praia de Omaha.planadores que deviam trazer o material indispensável. O mal-estar não o abandonava. Pluskat estava cada vez mais convencido de que se tramava qualquer coisa. A partir do momento em que os ouviu ficou aguardando um telefonema do seu regimento. tinham passado inúmeras formações aéreas. ao longe. * No centro do setor de desembarque. parecendo que aviões se aproximavam de Cotentin vindos do oeste. que ia aumentando. desde a primeira ligação. Via as cristas brancas das vagas. para o lado direito. E depois o mesmo rugir. confirmando-lhe as suspeitas e anunciando o desembarque. Pluskat ficou mais perplexo do que nunca. Pouco depois de ter chegado ao abrigo. Ocker não dera mais notícias. desta vez pela parte de trás. . Nada à vista. o Major Werner Pluskat continuava a observar. A baía estava completamente vazia. Maquinalmente. e nada mais. Nesse momento. espreitou outra vez pelos binóculos. à sua esquerda. roncando sobre a costa. bem ao contrário.

do outro lado da praça. estava em chamas. Pareceu-lhe que os aviões atacavam as baterias de Saint-Marcouf e de Saint-Martin-de-Varreville. é muito importante. sentia a terra tremer. o bombardeio parecia muito próximo. expôs rapidamente a situação ao sargento de serviço que. Apareceram pessoas.CAPÍTULO IV EM Sainte-Mère-1'Église. Estavam rodeados por uns trinta soldados alemães. onde pesadas vigas ofereciam alguma proteção. Simone. Este mandou o sacristão tocar o sino a rebate. lhe concedeu a autorização pedida. Antes de chegar à porta compreendeu o que se passava. armados com fuzis e Schmeissers. Renaud conduziu a mulher. colocados em duas filas. o pequeno largo com os seus castanheiros e a grande maciça igreja surgiam brilhantemente iluminados. fazendo ao maire sinal para que o acompanhasse. maire da pequena cidade e farmacêutico de profissão. enquanto ele próprio acompanhava o maire e alguns populares para acordar os habitantes e pedir-lhes ajuda. O maire correu para a kommandantur. Renaud deixou a família na habitação. Renaud lembra-se da hora (para ele meia-noite e dez) porque nesse momento bateram à porta com insistência. e preocupava-se com a cidade e os seus habitantes. Aguardava-os Mme . pois a ordem de recolher proibia-os de saírem de casa. no meio de toda esta confusão. Ao mesmo tempo. Era uma hora e dez quando a família se reuniu no abrigo improvisado. passavam baldes de água de mão em mão. — Deve ser uma bomba incendiaria perdida — disse sem preâmbulos. Através da vitrina. Renaud lembrase de. Não pode pedir à kommandantur que levante a ordem de recolher? Vamos precisar de homens para fazer cadeia. Alexandre Renaud. O sino começou a tocar a rebate sobre a cidade. a alguns quilômetros. — Preciso falar-lhe. à sua responsabilidade. meio vestidas. atravessou a farmácia e às escuras entrou no armazém que dava para o largo da igreja. o chefe dos bombeiros estava à sua frente. — O fogo está-se propagando rapidamente. De boné na cabeça. Renaud abriu a porta. o cura o ter chamado à parte. A vivenda do Senhor Hairon. Conduziu Renaud à cozinha do presbitério. em trajes menores. e dentro em pouco mais de uma centena de homens e de mulheres. o alemão destacou alguns dos seus homens para vigiar os voluntários. e os três filhos através do corredor junto ao salão. Renaud foi em seguida ao presbitério e acordou o prior. Estes só se podiam abrigar nas adegas ou nas trincheiras cavadas nos jardins. Louis Roulland.

Estes soldados. Arrebatados pelas rajadas de vento. Traziam holofotes acesos e voavam tão baixo que as pessoas se agacharam instintivamente. e eu via chamar e alemães correndo por todos os lados. transportando treze mil homens. Seguidamente os canhões do burgo entram em ação e a balbúrdia tornou-se estonteante.C. No largo de Sainte-Mère-1'Êglise. Durante a sua ausência. sempre impassíveis. As chamas subiam cada vez mais alto. do 506.ª divisões aerotransportadas americanas. Em seguida partiu correndo para o incêndio. As vagas de aviões sucediam-se asa contra asa. e contra as espingardas e metralhadoras ali colocadas caprichosamente pelo destino. olhava a multidão febril. E o toque a rebate não cessava. através do tiro de barragem. todas situadas a alguns quilômetros de Sainte-Mère-1'Église. Renaud julgava viver um pesadelo. as formações sobrevoaram a localidade. das 101. Com voz trêmula. transfigurados. ouviram um barulho incôngruo no meio do tumulto da batalha: um sino de igreja tangendo na noite.ª e 82. O Tenente Charles Santasiero. talvez menos. um pára-quedista.º regimento da 101. Estava em estado impressionante.. E enquanto balançavam no céu aqueles que deviam descer nas vizinhanças da localidade.ª divisão. No largo reinava uma confusão total. mas tentou acalmá-la: — Não se inquiete — disse. Feixes de fagulhas caíam sobre as casas mais próximas e algumas começavam já a arder. numerosos soldados foram arrastados para o inferno do largo da igreja. juntando ao tumulto geral a sua voz de bronze. Os homens saltaram dos aviões. os primeiros aviões da mais gigantesca operação militar aerotransportada jamais tentada — oitocentos e oitenta e dois aparelhos ao todo. Vaga após vaga. anunciou-lhes: — Um homem. a velha professora. armados de fuzis e metralhadoras. e o incêndio foi esquecido. acompanhado pelo ribombar da D. Um verdadeiro inferno. stick após stick.A. O barulho vinha do oeste — um rugido surdo que ia aumentando. "Estávamos a uns cento e cinqüenta metros de altitude." . encontrava-se à porta do avião quando este sobrevoou Sainte-Mère-1'Église e não esqueceu o que viu. dirigiam-se para seis zonas. à medida que uma bateria após outra abriam fogo contra a formação. os soldados alemães. — Volte para casa e não torne a sair. Estático.C. Renaud lembra-se de que os aparelhos "projetavam enormes sombras sobre o solo e por dentro pareciam iluminados de vermelho". Foi então que todos ouviram o roncar dos aviões.A. Para muitos. foi o último barulho que ouviram. A D. mesmo por cima das cabeças. e as armas ligeiras faziam fogo e toda aquela pobre gente estava presa no meio. as caras congestionadas dos bombeiros. o barulho e a confusão tinham continuado a aumentar. todos os rostos se ergueram.Levrault. caiu nas minhas ervilhas-de-cheiro! Renaud já tinha bastante preocupações.

e os habitantes da cidade. olhos abertos. em vez de cair numa zona balizada. Balançando preso às correias do pára-quedas. urros. Acorreram reforços e. se dirigia para o centro de uma aglomeração com todo o aspecto de estar queimando. Foi então atingido por qualquer coisa que lhe deu a sensação "de um golpe com uma faca afiada". nos setores . pensaram certamente estar mergulhados no coração de importante batalha. um pára-quedista caiu sobre uma árvore e tentou imediatamente livrar-se das correias. À sua volta. viu que estava sendo arrastado precisamente para o pontiagudo campanário da igreja. Caiu com estrondo num dos castanheiros. tentando evitar a multidão do largo. notou que. gemidos. dos explosivos que transportava. o soldado de primeira classe Ernest Blanchard ouviu o sino tocar e viu a tromba de fogo subir e envolvê-lo. o povo aglomerado na praça esqueceu-se da poderosa esquadra aérea que não cessava de voar-lhe sobre a cabeça. A alguns metros do maire. Mas tanto bastou para lançar o pânico na guarnição alemã. a nordeste da localidade. quase a tocá-lo. Acabava de receber uma bala num pé. Por cima de Steele. o soldado John Steele. Steele teve a impressão de que a maior parte deles levantava a cabeça para o ver. Milhares de homens saltaram sobre as zonas da 82. e de repente viu-o "explodir e desintegrar-se completamente à minha vista". no máximo — que caíram na localidade. composta por menos de cem homens. Frenèticamente. Dois segundos mais tarde. e não mais do que vinte no largo ou à sua volta. tomado de pânico. incapaz de se afastar. Depois saltou da árvore e correu sempre em frente.° regimento da 82. mas já tinha sido descoberto. do 505. sem dúvida.ª divisão. que ali ficou. enquanto as rajadas de metralhadoras se aproximavam. como se contemplasse as próprias feridas". não notando sequer que decepara a cabeça do polegar. À vista de Renaud. alguns soldados perderam a cabeça. "uma meia dúzia de alemães despejaram os carregadores sobre o rapaz.Mal tinha acabado de saltar do avião. Blanchard cortou as correias. horrorizado. no meio do sangue e do fogo. Havia gritos. Prisioneiro do massacre que se desenrolava à sua volta. Blanchard começou a sacudir desesperadamente as correias do páraquedas. na opinião de Renaud.ª divisão aerotransportada. vítima. Em seguida viu soldados alemães e civis franceses que corriam em todas as direções. suspenso. desciam homens atingidos pelas rajadas das metralhadoras. apinhados no largo. poucos foram os americanos — uma trintena ao todo. lamentos: Blanchard jamais os esqueceria. Mas era demasiado tarde. Na verdade. Os alemães devem ter tido a impressão de que Sainte-Mère-l'Église fora completamente submergida por um assalto de pára-quedistas. olhou o homem que se balançava. E Steele viu algo que o alarmou ainda mais. chegados ao largo. caindo bruscamente num cenário infernal.

A maioria destes homens pertencia à companhia F. Via os alemães e americanos fuzilarem-se no largo e nas ruas. enrolado no campanário da igreja. Mantinha-se suspenso. mas não sobre ele. carregados de munições. e entre Sainte-Mère-1'Église e a praia de Utah. o soldado Steele agarrava-se a uma vida que se mantinha literalmente por um fio. Steele tentara cortar as correias. havia metralha-dores alemães que atiravam em tudo o que viam. e há uma pequena e patética nota nos respectivos registros. via as balas passarem.ª divisão.° batalhão. constituía o obstáculo principal.ª divisões. fulgurantes. Embora a comuna fosse um dos principais objetivos da 82. o Douve.° regimento. feridos e desaparecidos. que. tão perfeitamente "morto" que o Tenente Willard Young. como as divisões inglesas. a leste e a oeste. apenas a alguns metros dele. O páraquedas. se lembra ainda do "cadáver suspenso do campanário da igreja". e pensa que um deles era o soldado White. Aos americanos cabia manter o flanco direito da futura cabeça de ponte. E. mas não sabia da faca. Ouviram-se breves e em seguida um estrondo de cartuchos e explosivos.ª e 82. visto que as 101. Um pequeno rio. Mas os pára-quedistas americanos tinham uma responsabilidade muito mais pesada: deles dependia o sucesso do desembarque na praia de Utah. contudo. Os oficiais . Steele ouvia os gritos e urros.ª divisão aerotransportada. Bryant. Muitas coisas aconteceriam primeiro. caíram precisamente sobre a casa em chamas. de granadas e de explosivos de plástico. até que os alemães o soltaram e fizeram prisioneiro. e soldados pertencentes a quase todos os regimentos foram como que deportados para o holocausto da praça. foi puramente acidental*. Mas calculam-se as perdas em cerca de doze mortos. onde se lê: "O Tenente Cadish e os seguintes homens caíram sobre a cidade e foram mortos quase instantaneamente: Sheare. Um ou dois destes soldados. da 82. que desceu no auge da batalha. No telhado da igreja. Blankenship. não deixou de lhe badalar aos ouvidos. O soldado John Steele viu dois homens caírem dentro da casa em chamas.do 101. no plano de conjunto. 505. O terror e a dor causada pela ferida no pé foram tais que não conserva a mínima recordação do sino. O pequeno combate em Sainte-Mère-1'Église constituiu um prelúdio da ofensiva americana aerotransportada. 2.° regimento. Steele manteve-se nesta posição durante mais de duas horas. lutavam contra o tempo. à semelhança do que os seus camaradas britânicos faziam com a ala esquerda. Mas os saltos eram muito escalonados. a verdadeira batalha de Sainte-Mère1'Église deu-se mais tarde. à sua volta e cruzarem-se-lhe sobre a cabeça assobiando. porque na cidade a fuzilaria continuou até ao assalto que a fez cair nas mãos dos Aliados. mas. Van Holsbeck e Tlapa". No meio de todos estes horrores e desta confusão geral. * Nunca consegui saber ao certo quantos homens tinham sido mortos ou feridos no largo. que saltou atrás dele. paralisado de terror. Decidiu que a única esperança era fingir de morto. pendia graciosamente até as goteiras. da sua própria seção.

desaguarem na Mancha. os alemães inundaram tantos terrenos. dominando algumas estradas. recentemente chegada. assim como do seu principal afluente.número. alguns quilômetros acima de Carentan. ao sul de Carentan e dentro da área de tiro ou quase.ª. curto e largo. A península e suas barreiras naturais estavam dominadas por três divisões alemães: a 709. As forças da 4. Mas os alemães não faziam a mínima tenção de deixar que o invasor penetrasse até tão longe. Excetuando as baterias costeiras da marinha. E estas sofriam o fogo dos canhões alemães. acima de Carentan. No caso de se dar o desembarque pela costa leste. a 243. atravessando a península. no meio e na base. os ocupantes estavam em posição de rodear as eventuais forças de invasão e aniquilá-las. Estes dois cursos de água banhavam a base da península e atravessavam as terras baixas antes de se lançarem no canal de Carentan e. canhões. Tal era. forças alemães que atacassem pelo norte e por oeste podiam facilmente fechar o cerco e rechaçar o invasor para o mar. veículos e equipamento) só tinham um processo de abrir passagem para o interior: seguir as cinco estradas construídas em terrenos pantanosos. Foi neste setor poderosamente defendido que a 101.ª ao norte e na costa leste. Manobrando as velhas represas de La Barquette. estava acantonada uma das melhores e mais temidas unidades da Normandia: o 6.ª do Major-General Matthew B.º regimento de páraquedistas do Barão von der Heydte. pelo menos. Estas divisões deviam abrir caminho à 4. que Cotentin ficara quase isolada do resto da Normandia. em caso de ataque aliado. já de si pantanosos. tinham inundado cerca de vinte quilômetros quadrados de terrenos baixos.ª divisão e mantê-lo livre até serem rendidas.ª diante da costa oeste e a 91. na razão de três contra um. Taylor e a 82. o dedo grande nas represas de La Barquette. No mapa. algumas pontes e algumas represas. e o calcanhar para lá dos pântanos do Merderet e do Douve.ª divisão aerotransportada do Major-General Maxwell D. Os pára-quedistas americanos eram excedidos em. medindo vinte quilômetros de . os contingentes antiaéreos da Luftwaffe e as restantes unidades acantonadas nas vizinhanças de Cherbourg. como proteção suplementar.ª divisão de infantaria (incluindo tanques. os alemães estavam em posição de lançar cerca de quatro mil homens quase de um momento para o outro. a estratégia. paralelamente ao Vire. com os dedinhos ao longo da costa. a cabeça de ponte aérea assemelhava-se à pegada de um pé esquerdo. Ridgway tiveram a perigosa missão de conquistar e manter uma "cabeça de ponte aérea" — uma ilha de defesa que ia desde a praia de Utah até um ponto bastante setentrional. o Merderet. atrás das dunas da costa leste. Além disso. Assim. Utah estendia-se quase ao centro desses lagos artificiais.de engenharia de Rommel haviam tirado dele um magnífico partido.

Tropas e veículos a serem embarcados para três batelões de desembarque. Um território muito vasto só para treze mil homens e que devia ser ocupado em menos de cinco horas.comprimento por doze de largura na região dos dedos e seis no calcanhar. em Brixham. . De notar as plataformas rígidas destinadas a facilitar o embarque das pequenas embarcações de desembarque.

Em cima. Embaixo. dirigem-se às praias. protegidos pela barragem de balões cativos e por uma escolta de destroyers. os comboios. um pelotão de pára-quedistas da 101. (Wide World) .Destino Normandia.a Divisão procede às últimas verificações antes de subir a bordo do DC 3.

ª da 82. morteiros e munições. a alguns metros de Utah Beach. Um único regimento.ª divisão tomassem os seus objetivos. Desde o início.ª divisão. Pior ainda. Estava deitado na areia. Do avião seguinte. Um stick completo da 101. a fim de impedirem os contra-ataques no flanco da cabeça de ponte. Numerosos foram os que se afogaram. os soldados de Ridgway ocupariam e dominariam o calcanhar e o lado esquerdo do pé. e irromper por quatro das cinco estradas construídas nos pântanos entre a costa e o lugarejo de Pouppeville. desciam nos pântanos traidores do Merderet e do Douve. defenderiam as passagens sobre o Douve e o Merderet. foram perder-se na Mancha. fazê-lo cedo demais era pousar entre a costa oeste e as regiões inundadas. por vezes em menos de um metro de água. No mesmo momento. compreendendo mais de cem aparelhos. O primeiro vôo. quando ouviu gritos ao longe. Merlano soube mais tarde que os gritos vinham da Mancha. Merlano ouvia o marulhar das ondas. o 505. nas trevas. tal como acontecia com os ingleses. deviam ser tomadas ou destruídas. estava previsto para as quatro horas da manhã. o Cabo Louis Merlano caiu numa praia mesmo defronte de uma tabuleta indicando: Achtung! Minen! Fora o segundo a saltar. Desceram a quilômetros de distância dos pontos de referência conhecidos e ficaram desesperadamente sós e desorientados. Os homens das divisões aerotransportadas tinham outra missão capital: era preciso desalojar o inimigo dos campos de pouso previstos para os numerosíssimos planadores que viriam trazer reforços antes do amanhecer e. fazê-lo durante a própria noite. tomariam SaintMère-1'Église e apoderar-se-iam das posições ao norte da localidade. Centenas de homens. os homens sofreram graves perdas. Ganhava coragem para se levantar. os americanos tiveram de lutar contra um destino adverso. levavam somente doze minutos para atravessar a península. quase diretamente atrás da praia de Utah. pesadamente sobrecarregados. situada em Saint-Martin-de-Varreville. incluindo a maior parte dos rádios. Saltar demasiado tarde significava cair na Mancha.ª divisão — quinze a dezoito homens — conheceu tal sorte. onde os últimos onze pára-quedistas do seu avião se estavam afogando.Os homens de Taylor tinham por missão conquistar uma bateria de seis peças. as suas divisões foram tragicamente dispersadas. Outros. Enquanto os "Águias Uivantes" da 101. nomeadamente as represas de La Barquette. Alguns sticks foram tão desgraçadamente largados que caíram mais perto da costa oeste do que da sua zona. avançando de poente para nascente. no sopé das dunas. desceu no devido lugar. Como os britânicos. as passagens e pontes do Douve e o canal de Carentan. a leste. rodeado pelos obstáculos antidesembarque de Rommel. Perdeu-se sessenta por cento do material. . Ao longe. Os aviões. saltando demasiado tarde.

começou a mergulhar para recuperar os objetos de culto. para o depor em terra firme. o capelão Sampson. O padre sentiu-se preso ao fundo pelo pesado equipamento. rasgou-o cuidadosamente e. obstinadamente. da 6. guiados. Escalou uma barreira de arames farpados e abrigou-se atrás de uma sebe. Como o seu colega John Gwinnett.ª divisão britânica. ao recordar as suas atribulações. Um lança-chamas regava a sebe que acabava de transpor e iluminava a silhueta de um camarada pára-quedista. os homens lutavam contra os lúgubres pântanos. Alguns nunca mais voltaram à superfície. Por fim. o pára-quedas. Esgotado. incluindo os objetos de culto. ficou estendido no lodo uns vinte minutos. desvencilhou-se do equipamento.Merlano apressou-se a deixar a praia. Encontrou-os na quinta tentativa. capelão da 101. Com frenesi. caiu em mau local. Voltou-se. Merlano. Petrificado. se lhe mantinha aberto sobre a cabeça. Ouviu então atrás de si um urro de dor. Em seguida. Merlano encontrava-se no centro da cintura fortificada. rodeado de alemães por todos os lados. notou que o ato de contrição que fizera às pressas enquanto se debatia debaixo da água era afinal o Benedicite! Muitos americanos avançaram de noite através de prados. cortando desesperadamente as correias dos pára-quedas e do equipamento que podiam levá-los de novo para o fundo. enquanto o pára-quedas. Atravessou a estrada correndo e começou a trepar por um muro de pedra.ª divisão americana. Muito tempo depois. mas pelos . de campos e de regiões inundadas. as pequenas luzes dos fardos de material cintilavam e brilhavam estranhamente sobre as águas paradas. Do outro lado vinham gritos de soldados alemães e o crepitar de uma metralhadora. Preparava-se para vender caro a pele. As águas fecharam-se sobre ele. Merlano não parou. tirou-o da água e elevou-o ligeiramente até a superfície. lutando pela vida. tirou do bolso um pequeno manual contendo os códigos e as senhas para três dias. Outros levantaram-se meio afogados. Na outra extremidade da zona. Francis Sampson. comeu-o todo. que pertencia a uma unidade de sinalização. a cem metros dali. funcionando como uma vela de barco. Os pára-quedistas desciam do céu em grupos tão compactos que quase caíam uns sobre os outros. mas quis primeiro cumprir um dever. a oitenta quilômetros dali. o capelão regressou ao ponto onde caíra e. chafurdavam na água e patinhavam. enfunado pelo vento forte. Havia pára-quedistas de todas as cores espalhados pelo Merderet e pelo Douve. desprezando o crepitar das metralhadoras e os tiros de morteiro que se começavam a ouvir. não pelas trompas de caça. página a página. Já lá estava alguém. ignorando as minas. Merlano acocorou-se junto ao muro.

batalhões e regimentos. sabiam o que os esperava. Schultz correu para ele. O Major-General Maxwell D. que participavam pela primeira vez num lançamento de combate. para objetivos de que. saíam de valas e contornavam muros. saiu de novo em reconhecimento. a fim de se reconhecerem e juntarem. Os da 101. Soldados pertencentes às duas divisões lutaram lado a lado. não queriam fazer figura de fedelhos ao lado dos "ilustres" companheiros mais velhos. experimentados nos desembarques da Sicília e de Salerno. Deitou-se de borco no chão. A metralhadora abriu fogo mais uma vez e Dutch correu a abrigar-se junto à sebe. um grito de animal. Alguns pára-quedistas da 82. Alguns pára-quedistas juntaram-se imediatamente às suas unidades.ª — uma senha. teve um instante de pânico.ª. havia homens que deixavam os esconderijos. Os prados constituíam pequenos universos fechados. com a cabeça a descoberto. Centenas de homens encontraram-se em pequenos campos. Resolveu servir-se da cega-rega metálica.estalidos de uma cega-rega de criança. Os que estavam perdidos juntaram-se a pequenos grupos pertencentes a diversas companhias. — É você. pois não o podiam desperdiçar. muitas vezes. silenciosos e angustiantes. Ao primeiro toque. Tinha-se esquecido de carregá-lo. os homens depressa se adaptaram. os dois homens deixaram o prado e foram juntar-se ao grupo que o tenente já reunira. não conseguia sair do prado onde caíra. Havia soldados da 101. apontou o fuzil na direção do ninho de metralhadoras e apertou o gatilho.ª divisão. Todos perderam o mínimo tempo possível. nem tinham sequer ouvido falar. e tranqüilizaram-se ao ver a pequena flâmula americana cosida no ombro. As suas vidas dependiam de um brinquedo de bazar feito de ferro branco. uma sombra. Após um momento. Ao ouvir um estalar de ramos.ª divisão encontraram-se sob as ordens de oficiais da 101. rodeados de sebes. Outros depararam com caras desconhecidas. Nada aconteceu. Um estalido pedia em resposta um estalido duplo ou — unicamente para a 82. Os soldados da 82. Juntos. O menor ruído. Ao ouvir este sinal. mas acalmou-se ao ver sair da sebe o seu comandante de companhia. A resposta a um estalido duplo era um só estalido. reuniram-se prontamente e dirigiram-se rapidamente para os seus objetivos. o Tenente Jack Tallerday. o estalido de um ramo.ª e vice-versa. Dutch? — murmurou Tallerday. recebeu uma resposta com que não contava: uma rajada de metralhadora. O soldado Dutch Schultz. Os mais afortunados. isolado num mundo de trevas. encontraram-se face a face junto a uma sebe e abraçaram-se como irmãos. Apesar da confusão total. surgiam por trás de árvores. transformava-se num inimigo. Taylor e um soldado desconhecido. aqueles que sabiam onde se encontravam.ª .

Quando se levantou. Tallerday contornou a sebe. por pouco não esbarrou com uma sentinela alemã. diz Tallerday. da 101. foi interpelado em alemão." Não faltaram situações cômicas.ª divisão.ª. Não sabia uma palavra de alemão. A vida dos homens dependeu muitas vezes do sangue-frio e da fração de segundo necessária para premir o gatilho. A bala bateu na culatra móvel do fuzil que o tenente segurava. que acabava de visitar a sua namorada. da 82. Sem parar de tagarelar. entre Utah Beach e Sainte-Mère-1'Église. inclinou-se para a frente. ouviram e viram outro pequeno grupo que lhes vinha ao encontro. Alguns instantes mais tarde. arrancou a espoleta. de guarda em um ninho de metralhadoras. sem disparar um único tiro.ª divisão — "Flash" — e em seguida. encontraram-se inesperadamente americanos e alemães. tornava-se evidente pelo feitio dos bonés. Pela primeira vez desde que saltara. encontrou-se totalmente isolado. os dois homens deram meia volta e fugiram a correr. mas falava francês corretamente. Aconteceu então uma dessas coisas estranhas e incompreensíveis que por vezes ocorrem durante a guerra. Num campo.ª divisão. em todos os pontos da Normandia. os dois homens encararam-se. Junto duma sebe distinguiu uma silhueta que avançava prudentemente. Pegou no estojo de cirurgia e tentou procurar uma saída. Foi como se nunca tivessem existido. à frente de pequeno grupo que juntara. "E quando quis reunir-me ao meu pequeno grupo — conta-nos Legere — os valentões tinham fugido às carreiras. Dutch respirou à vontade. Por um momento atroz. Os dois grupos cruzaram-se em silêncio. arrancou discretamente a faixa de esparadrapo que protegia o detonador de uma granada de mão. Com uma sincronização perfeita. num francês rápido e fluente. raspou-lhe as costas da mão e perdeu-se na noite. pedindo desculpa por ter deixado passar a hora de recolher. Atirou à queima-roupa sobre Walas. como que em transe. que os que vinham ao nosso encontro eram soldados alemães. Putnam estacou. atirou a granada e deitou-se de borco no chão. as trevas envolveram as silhuetas. o Tenente John Walas. Legere. Tallerday fez estalar a cega-rega e julgou distinguir um toque que lhe respondia. viu que matara três alemães.ª divisão. à medida que os nossos dois grupos se aproximavam. O alemão foi o primeiro a reagir. "Mas.divisão e dos três regimentos da 82. De súbito. Num pomar sombrio. Como os homens que o seguiam ficavam invisíveis na escuridão. e pronunciou a senha da 82. A distância aumentou. seguido pelo seu grupo. o Capitão Lyle Putnam. dirigia-se para o ponto de reunião. Deixara de estar só. livrou-se à custa da sua loquacidade. o major fez-se passar por um jovem camponês e explicou. Enquanto falava. A cinco quilômetros de Saint-Mère-1'Église. a um quilômetro de Sainte-Mère-1'Êglise. cirurgião de um dos batalhões da 82. . Nessa noite. O Major Lawrence Legere.

dominados em número. O Major-General Maxwell Taylor reuniu um grupo que incluía diversos oficiais. Wood seguiu o pára-quedista e saíram do pomar. estrada que os tanques inimigos deveriam conquistar para atingir a costa. "Nunca — fez-lhes notar — tantos homens comandaram tão pouco. Fitzgerald e os seus homens alcançaram o P. Ridgway considerava-se com sorte. Conforme contou mais tarde. De repente. Todos conheceram momentos de pura loucura — sobretudo os generais. encontrou-se igualmente sozinho e ia fazendo estalar a cega-rega. sem comunicações. o seu amigo George Wood. Por fim. esquecidos da batalha. Fitzgerald recebeu uma bala num pulmão. Com grande espanto seu. mesmo por cima de Utah Beach. "se não havia . Ninguém lhe respondia. na aldeia de Foucarville. Nesse momento. Ignoravam que nove pára-quedistas tivessem já atingido Foucarville quarenta minutos antes. deu meia volta e fugiu como um louco. matou o alemão. Encontravam-se sem estado-maior. num prado. revólver na mão. primeira batalha "ordenada" da 101. A posição revestia-se de interesse capital. No decurso desta operação. em Sainte-Mère-l'Église. deu um salto no ar ao ouvir uma voz que mesmo atrás das costas lhe dizia: — Santo Deus! Já acabou de fazer toda a barulheira. tinham lá chegado.C. mas somente dois ou três soldados. antes de cair. ouviam atentamente um soldado alemão tocar harmônica. sem homens para comandar. mas onze homens somente. O combate foi breve e sangrento. sob o comando do Capitão Cleveland Fitzgerald.calado e tenso." Só. inimigo. O médico ficou tão furioso que se esqueceu de ter medo. o Major-General Matthew B. os americanos. Uma companhia inteira teria sido necessária para cercar Foucarville. uma ponte fortificada. Um deles lançou-se até ao ataque do seu. Às duas horas da manhã — embora ainda faltasse uma hora para que todos os pára-quedistas estivessem em terra — aproximavam-se dos seus objetivos numerosos pequenos grupos de homens decididos. para as quais os uniformes já não contavam: tratar os feridos e assistir aos moribundos dos dois campos. aguardou a resposta prevista: "Thunder" (trovão). capelão da 82. Durante a tarde. Fitzgerald e o seu pequeno grupo lançaram-se contudo ao assalto sem esperar pelos outros. travando as suas batalhas. os dois amigos haviam de encontrar-se na pequena escola de Mme Levrault. senhor capelão? Confuso. mas.ª divisão no Dia D. caindo no centro da ponte fortificada. com metralhadoras e canhões antitanques.° divisão. visto controlar todos os movimentos na estrada principal que levava à praia de Utah. tiveram de se retirar para as vizinhanças da aldeia e esperar pelo romper do dia e por reforços. o homem exclamou: "Jesus Cristo!". sentados numa trincheira sob a vigilância dos guardas. A oitocentos metros dali.

talvez mesmo demasiado a sério. Vandervoort nunca fora batizado com uma alcunha amigável e nunca deixara que se estabelecesse certa familiaridade entre ele e os seus homens." De súbito. mergulhou. Durante quarenta dias. apareceu uma silhueta solitária patinhando no pântano. A Normandia mudaria tudo isso: e mais ainda. nos quais se encontravam rádios. a ver o que aquilo significava. Gavin. de que Gavin precisava tão urgentemente. jaziam na margem do pântano. escorrendo lama e limo. vendo fogos vermelhos e verdes cintilarem ao longe sobre a água. Sempre levara a sua missão muito a sério. encontrava-se a quilômetros de distância dali. mesmo defronte de Gavin e dos seus homens. Não ignorava que pela madrugada a cabeça de ponte aérea que os seus homens e ele próprio deviam manter seria submetida a um fogo mortífero. Com alguns pára-quedistas. a longo do vale do Merderet. Não sabia bem onde se encontrava e pensava no que iria fazer aos feridos que se haviam juntado ao seu grupo e que. Gavin estava entregue a outras preocupações. Um dos seus oficiais. "Cada vez que subia à superfície — relata Gavin — erguia-se como uma estátua de mármore branco e eu não podia deixar de pensar que estaria condenado se os alemães o vissem. como o disse mais tarde o General Ridgway. A pouca sorte não a abandonava. dos mais duros. Esperava que fossem os fogos de sinalização do local de reunião de dois batalhões da 82. Gavin sabia que a única via férrea da região era a de Cherbourg-Carentan. seu adjunto. Vandervoort . bazucas. nos pântanos do Merderet. O Tenente-Coronel Benjamin Vandervoort. o homem que devia ocupar as estradas ao norte da pequena cidade sofria um martírio. Gavin enviara o ajudante de campo. Mergulhado em água gelada até aos joelhos. Tenente Hugo Olson. O general respirou fundo. Olson ainda não voltara. Vinha dizer que havia uma linha de estrada de ferro em aterro elevado. tentava salvar os containers. que viria a dirigir toda a operação da 82.ª divisão.ª. tentando não mostrar as dores que experimentava. O homem estava ensopado. mas estava firmemente decidido a tomar parte na batalha. Uma hora mais cedo. morteiros e munições. O General-de-Brigada James M.ª. Ao contrário do que acontecia com a maioria dos oficiais. Sabia finalmente onde se encontrava. "um dos mais bravos. como acontecia com tantos outros. ao lado dos seus homens. da 82. a fim de recuperar os containers. e Gavin começava a inquietar-se. nu como um verme. por enquanto. acontecesse o que acontecesse. pelo menos não havia inimigos". O desembarque ia fazer dele. Era Olson.amigos. partira um tornozelo ao saltar. no meio do rio. foi a primeira boa notícia da noite. dos mais corajosos condutores de guerreiros". Num pomar dos arredores de Sainte-Mère-1'Église.

usando-o como muleta. O Capitão-médico Putnam. As que não tinham sido bombardeadas. * Assim foi o começo. o Bayfield. comandante da Força U. tudo isto teve o seu papel. os americanos — com alegria ou tristeza. enquanto Putnam o observava. uma capa impermeável sobre os ombros e a cabeça. Foi o primeiro a atravessar o pomar. Os primeiros invasores do Dia D. além do horizonte. sempre furioso devido ao incidente na sebe com o pára-quedista desconhecido. Lentamente. Moon. encontrou no pomar o coronel e alguns soldados. Tal como os pára-quedistas ingleses a leste. Olhou os homens que o rodeavam. ao lado dos homens de quem queria ganhar a confiança e a aprovação. Vandervoort levantou-se e pegou no fuzil. Entre eles estendiam-se as cinco praias de desembarque e. vamos. cerca de dezoito mil americanos. Putnam ainda se lembra muito bem de Vandervoort. O primeiro desses navios. com terror ou sofrimento — começaram o trabalho que deviam levar a cabo na Normandia. comandado pelo contra-almirante americano D." Depois. a insistência em não levar a sério as mensagens destinadas à Resistência. O tornozelo estava manifestamente partido. "Estava sentado.travou batalhas. estava já a doze milhas de Utah Beach e prestes a ancorar. aproximava-se a extraordinária frota de cinco mil navios. ingleses e canadenses. consultando um mapa à luz duma lâmpada elétrica. deu um passo em frente e disse-lhes: — Pronto. lenta mas seguramente. a obstinação em acreditar que o desembarque só se poderia dar no Pas-de-Calais. P. Até mesmo as estações de radar lhes falharam nessa noite. Insistiu em calçar a bota de salto e apertamo-la muito. fez-me sinal para que me aproximasse e pediu-me a meia voz que desse uma olhadela no tornozelo. o plano desenvolvia-se. a confusão e sobreposição dos diversos comandos. ficaram desorientadas devido aos windows largados em pacotes ao longo de toda a costa pelos aviões aliados — compridas tiras de folhas de estanho que davam nos écrans de radar imagens semelhante às dos . Reconheceu-me. Para tanto contribuíam muitas razões: o mau tempo. cirurgião do batalhão de Vandervoort. a falta de aviões de reconhecimento (só alguns tinham sobrevoado as regiões de concentração durante as semanas precedentes e todos foram abatidos). e os alemães mantinham-se cegos. encontravam-se nos flancos do campo de batalha normando. de tornozelo partido. mas que me fizesse notar o menos possível.

Os primeiros relatórios chegavam-lhes um a um. Uma única estação apresentou relatório.aviões. Só então os chefes alemães da Normandia começaram a compreender que se passava. . abriram por fim os olhos. lentamente. sem dúvida. como um doente que acorda da anestesia. Só via "tráfego normal na Mancha". Mais de duas horas tinham decorrido desde a descida dos primeiros páraquedistas. qualquer coisa de importante.

no grupo de Exércitos B.. De tempos em tempos. disse-me que em . para outro. Quando o general atendeu. Pemsel pôs este Exército em Alarmstruffe II. alemão. Largada de pára-quedistas junto de Montebourg e de Saint-Marcouf (Mancha). . Pemsel lembrou-se subitamente de qualquer coisa. chefe do estado-maior do 7. G.° Exército. — General — disse Pemsel — julgo tratar-se do desembarque.G. Hayn lembra-se de que "o general pareceu inteiriçar-se de repente". "atingiu-nos como um relâmpago". A segunda mensagem Verlaine fora interceptada quatro horas antes. pararam todas as conversas. Eram exatamente duas horas e onze da manhã (hora inglesa). Eram então duas horas e trinta e cinco. Não o haviam abandonado desde que lhe tinham desejado feliz aniversário e ajudavam-no a reunir os documentos para o Kriegsspiel de Rennes.. No meio da discussão. Pemsel julgava conveniente não correr qualquer risco. teve a impressão de que Marcks se preparava para este Kriegsspiel como para uma verdadeira batalha.ª divisão. comandante da 716.. sobre um ataque aliado. Pemsel chamou prontamente o chefe do estado-maior de Rommel. — Parece ter sido nos arredores de Bréville e Ranville. O oficial de informações. Os oficiais rodeavam-no. havia a de um agente de Casablanca. Marcks telefonou ao General Max Pemsel. o Major Friedrich Hayn. Às duas horas e quinze. antigo chefe do Grande EstadoMaior alemão (atualmente adido à seção histórica do Exército americano na Alemanha).. Enquanto Pemsel aguardava a chegada de Dollmann. lembra Hayn. Entre as numerosas informações recebidas dos serviços secretos. Era o primeiro relatório oficial.. o telefone tocou. diante de uma comprida mesa. durante a tarde. o General Erich Marcks estudava os mapas do estado-maior estendido à sua frente.CAPÍTULO V DE PÉ. * Discutiu-se muito a hora exata da primeira reação alemã e das mensagens que passaram de um Q. ao longo da orla norte da floresta de Bavent.. o general exigia um mapa suplementar. Acordou o General Friedrich Dollmann. o 84. a chegar a um importante Q. especificando categoricamente que o desembarque se daria na Normandia a 6 de junho. o mais alto estado de alerta. A notícia. Quando comecei os meus estudos. Marcks indicou por gestos ao chefe de estadomaior que usasse o segundo ausculta-dor. Já começaram combates parciais"*. — Desceram pára-quedistas a leste do Orne — anunciou. Era o General Wilhelm Richter. o General Franz Halder. que ocupava a costa acima de Caen..° corpo enviou mais um relatório: ". Poderá vir imediatamente? Ao desligar..

o General Hans von Salmuth tentava obter informações em primeira mão. e para os oficiais de Rommel. Quase no mesmo instante do Q. estava acantonada a leste do Orne.G. Durante mais de três horas. do 15.nada se devia acreditar "do que se passava entre nós. Foram momentos estranhos e desordenados para o estado-maior de von Rundstedt. Chamou imediatamente o grupo de Exércitos B e anunciou ao Q. os Aliados tinham efetivamente largado centenas de manequins de borracha. em Paris. — Obrigado — disse. do 711.°. Havia uma anunciando descida de pára-quedistas junto do Q. De fato. Segui o seu conselho. mas sempre contraditórios. e em seguida Salmuth distinguiu nitidamente um matraquear de metralhadoras. Telefonou para Reichert. vestidos de pára-quedistas. alguns destes manequins induziram o General Marcks a pensar que tinham aterrado pára-quedistas em Lessay. os relatórios e telefonemas relacionados com os movimentos e atividades alemães provêm destas fontes oficiais. por vezes inexatos.*. Tinham chegado diversas mensagens vindas do 711. a não ser nos registros e arquivos oficiais dos diversos Q. Embora o grosso do seu exército se encontrasse afastado dos setores atacados. — Que diabo se passa por aí? — perguntou. a 711.º Exército. lembra-se ainda de que "algumas mensagens indicavam que se tratava de manequins vestidos de pára-quedistas". comandada pelo General Josef Reichert. Os relatórios chegavam.°. Seria o tão esperado desembarque? Ninguém o podia afirmar por ora. vou deixá-lo ouvir. umas das divisões.G. As bombas presas a estes manequins explodiam no solo e davam a sensação duma fuzilaria de armas ligeiras. de Cabourg. Von Salmuth resolveu informar-se pessoalmente. muito perfeitos. — General — respondeu a voz estafada de Reichert — se mo permite. outras vezes incompreensíveis.ª divisão que "se ouvia o tumulto da batalha".G. em La Roche-Guyon. ajudante de campo naval de Rommel. Houve um silêncio. sobre a linha de demarcação entre os Exércitos 7. Todas as horas indicadas (acertadas pela hora inglesa). o Vice-Almirante Friedrich Ruge. ao sul da zona de desembarque.". ao mesmo tempo e de toda parte. Para aumentar a confusão dos alemães." e 15. Em parte era verdade.G. . a cerca de trinta e cinco quilômetros ao sul do seu quartel-general. E desligou. Os telefonemas de Pemsel e de von Salmuth chegaram quase um a seguir ao outro e deram ao quartel-general de Rommel a primeira notícia sobre a ofensiva aliada. junto da fronteira belga. outra especificava que se travavam combates à volta do posto de comando.

Detectores de som e radares tinham localizado numerosos navios que se aproximavam da baía do Sena. parecem incríveis. . O Q. tal como está transcrita nos registros das comunicações do 7. West. oficial de informações da O. a Luftwaffe telefonou um segundo relatório. Mas Pemsel não conseguiu convencer o chefe do estado-maior de Rommel.O Q. então expostas a Pemsel. foi que "a operação era estritamente local". tinha prevenido o Q. Nenhum desses relatórios mencionou a presença de tropas americanas na península de Cotentin. Nos dois quartéis-generais.° Exército. nesse momento. não há razões para considerar a situação como uma ofensiva maciça". na península de Cotentin e a leste do Orne. afirmando que junto de Bayeux tinham descido alguns pára-quedistas. da Luftwaffe em Paris anunciou que "cinqüenta a sessenta bimotores" sobrevoavam Cotentin e que tinham caído "perto de Caen" alguns pára-quedistas.G. os oficiais tentavam desesperadamente entender a súbita erupção de pontos vermelhos nos mapas. Não era esta a opinião do 7. telefonou para o grupo de Exércitos B a fim de se informar e obteve como resposta que "o chefe do estado-maior estudava a situação com muita calma" e que "os pára-quedistas assinalados representavam talvez a tripulação de um bombardeiro abatido". Para Pemsel não restavam dúvidas: o desembarque começara. acabavam de chegar relatórios muito alarmantes.° Exército. Da marinha. em Cherbourg. As suas suposições sobre a situação. Na realidade. que dominava a praia de Utah. de Cherbourg de que doze americanos haviam sido feitos prisioneiros. nem um saltara nessa região. e.G. Por exemplo: o Major Doertenbach. contudo. esmiuçaram a situação e chegaram a conclusões que. Os oficiais do grupo de Exércitos B telefonaram aos colegas da OB. No mar ouve-se o ruído de motores — acrescentou. Pemsel convenceu-se de que o Schwerpunkt — o principal contingente — se dirigia realmente contra a Normandia. observou com certo nervosismo que o inimigo descera junto de uma das baterias costeiras e acrescentou que "uma parte dos páraquedistas eram manequins de palha". estão inscritas no diário de operações do exército: "O chefe do estado-maior do grupo de Exércitos B julga que. Às três horas da manhã. Telefonou a Speidel: — Os pára-quedistas — disse-lhe — constituem a primeira fase de importante ofensiva inimiga.º Exército. Escassos minutos após a primeira mensagem. Os mapas assinalavam-lhe pára-quedistas em cada extremo do setor do 7. de momento. West.B. a bateria naval de Saint-Marcouf. A resposta de Speidel. quando se conhece a realidade. do Almirante Theodor Krancke — Marinegruppenkommando West — confirmou o lançamento de páraquedistas britânicos.G.

O General Bodo Zimmermann. segundo informa o almirante que comanda as costas da Mancha (Krancke). West possuíam elementos seguros suficientes para tirarem conclusões precisas. mesmo os oficiais mais lúcidos e experimentados. No caso de se tratar realmente do desembarque. com prescrições contra os ataques de pára-quedistas. navio de comando da Força O. a doze milhas do litoral normando. ancorava o Ancon. chefe de estado-maior do 15. Mas os relatórios e mensagens não tardariam a chover sobre os postos de comando.º Exército. Um dos primeiros problemas. que não permitiam que. Contudo. Hall. O General-de-Divisão Rudolph Hofmann. "Ora aí está uma aposta que você vai perder". transportando homens. que chamou Pemsel a fim de apostar um jantar em como tinha razão. comandado pelo Contra-Almirante John L. Mas em La Roche-Guyon nada indicava ainda a estupidificante importância da ofensiva aliada. West não pensam que se trate de uma ofensiva aerotransportada de envergadura. E. visava a Normandia? Só o 7. armas e material pesado. tão despistantes. no Pas-de-Calais. É muito difícil levar a mal estes oficiais por se terem enganado tão redondamente. a OB. chegavam as embarcações transportando os homens da primeira vaga de assalto. Estes eram tão fragmentados.° Exército parecia pensar assim. retorquiu Pemsel. nem o grupo de Exércitos B nem a OB. em Paris. estava a tal ponto convencido de que a ofensiva se daria no setor que ocupava. Mas as descidas em pára-quedas podiam constituir uma diversão destinada a despistar a atenção do verdadeiro ponto de desembarque e da verdadeira ofensiva — contra o potente 15. para . Em seguida. os últimos dezoito mil soldados do ar desciam sobre a península de Cotentin. Sessenta e nove planadores. Atrás dele. destinados a Omaha Beach. neste momento. onde toda a gente concordava em pensar que os Aliados desembarcariam.° Exército do General Hans von Salmuth. o inimigo lançaria manequins de palha". foi posto ao corrente da conversa telefônica entre Pemsel e Speidel e enviou ao primeiro uma mensagem concordando com Speidel: "Operações OB. Encontravam-se muito longe da zona de combate e só se podiam fiar nos relatórios que recebiam. através de toda a Normandia. fizessem uma idéia precisa sobre a amplitude do ataque aerotransportado — e menos ainda do plano de conjunto de que este ataque fazia parte. As regiões costeiras da Mancha foram postas em estado de alerta. West partilhou da opinião de Speidel e confirmou as suas primeiras apreciações sobre a situação. frente às cinco praias de desembarque. chegavam neste minuto às costas da França e dirigiam-se para as zonas de aterrissagem junto de Ranville. todos aguardaram novas informações. Era totalmente impossível fazer outra coisa. e em filas cerradas. tanto mais que. excelente chefe de operações de von Rundstedt.No instante preciso em que Pemsel conversava com Speidel.

estes homens encontravam-se na orla do campo de batalha. Eram todos jovens e embora Hoffmann os prevenisse de que "se tratava sem dúvida do desembarque". estavam em ação. não se mostraram espantados. os três torpedeiros saíram do Havre. O Almirante Krancke. Gneisenau e Prinz Eugen na altura da sua dramática travessia da Mancha em 1942. de hotel de Rennes e Falley ainda estava a caminho. e preparava-se para aparelhar. imitando as menores evoluções do guia. em Paris. ou quase. Na sua maioria foram rapidamente encontrados. atacando todos os navios que encontrava. andando cegamente de encontro à mais gigantesca frota jamais reunida. Corriam a mais de vinte e três nós. Era a única panzerdivision . estava em visita de inspeção a Bordéus. nessa noite. Mas os homens que ficaram mais atordoados na Normandia. mas não foi possível localizar dois deles. Hoffmann também se distinguira durante a incursão sobre Dieppe e escoltara audaciosamente os couraçados alemães Scharnhorst. consistiu em encontrar os chefes — os generais que já se tinham posto a caminho de Rennes por causa do Kriegsspiel. boné branco sobre a nuca como de costume. Desde o começo da guerra. a sua possante frota tinha cruzado a Mancha. o comandante de trinta e quatro anos embrenhava-se nas trevas.ª divisão blindada. a fim de proceder à colocação de minas. Na ponte do T-28. Dominando as aldeias. Hoffmann estava na cabina do torpedeiro T-28. Atrás dele. Von Schlieben dormia num quarto .algumas divisões. Julgamos que desta vez é mesmo. A OB. comandante das forças navais do Oeste. Foi acordado no hotel pelo chefe de estadomaior que lhe anunciou: — Caíram pára-quedistas junto de Caen. principal navio da 5. Já o esperavam. Karl von Schlieben e Wilhelm Falley. que tinha feito parte do célebre Afrika Korps de Rommel. mas nós detectamos navios. lugarejos e bosques. os outros dois barcos seguiam em fila indiana. Só três dos seis barcos estavam prontos. foram certamente os 16. O Capitão-de-Corveta Heinrich Hoffmann tinha feito nome como comandante de vedetas rápidas. Krancke alertou imediatamente as poucas unidades de que dispunha e pôs-se a caminho do quartel-general. comandantes das divisões de Cotentin. Um dos homens que recebeu as suas ordens no Havre era já uma figura lendária da marinha alemã. pelo menos. Alguns minutos mais tarde. Quando recebeu a mensagem do quartel-general.242 soldados da temível 21. Aqueles.ª flotilha. numa extensão de trinta quilômetros a sudeste de Caen. mas Hoffmann não podia esperar pelos outros. West afirma que se trata de uma diversão e não do desembarque. Reuniu imediatamente os comandantes dos outros navios.

sentindo aumentar a fúria.capaz de intervir imediatamente. que só disponho de dois malditos táxis! Dizendo isto. comandante da 21. e ele tinham caído na cama por volta da uma hora. — Priller — disse o oficial de operações — parece que está em curso uma espécie de desembarque. e do alto comando da Luftwaffe.ª D. Tinha sido acordado pouco depois das duas horas pelo General Edgar Feuchtinger. o Tenente-Coronel Priller. é absolutamente impublicável.G. à tarde. Pips Priller sentiu a mostarda chegar-lhe ao nariz.. Wodarczyk também. assim que recebesse ordem de ataque. que lhe gritou aterrorizado e ofegando: — Oppeln! Imagine! É incrível! Eles desembarcaram! Em seguida pôs Bronikowski a par da situação e precisou-lhe que. com os diabos? Eu já estou de alerta. Remoendo pragas. no campo agora deserto da 26. o telefone tocou de novo. que lhe respondia com voz suave: . Desde o início do alerta. Era o mesmo oficial. seus imbecis. Priller desligou abruptamente. Embora estivesse meio adormecido. não compreendia a causa do atraso. recebia os mais desconcertantes relatórios. comandante do regimento de tanques da divisão. os oficiais e tropas estavam junto dos tanques e veículos motorizados. A alguns quilômetros dali. da Luftwaffe.B. — Que há mais? — gritou Priller. Os cento e vinte e quatro aviões da sua esquadrilha tinham deixado Lille na véspera. mas depois de ter dito ao seu correspondente tudo o que pensava do Q. o ás da aviação de combate rugiu: — E quem querem que eu alerte. seu companheiro de incursões. Acordou lentamente e tateou a mesa de cabeceira antes de encontrar o aparelho. Mas não chegou ordem alguma. O telefone arrancou Priller dum sono profundo e dos vapores do álcool. do 2° corpo aéreo chamava. O Q. segundo se lembra. Com a ajuda de algumas garrafas de conhaque tinham afogado a cólera que sentiam contra o alto comando da Luftwaffe.ª esquadrilha de caça. O Coronel Hermann von Oppeln-Bronikowski. Alguns minutos mais tarde. junto de Lille. Mas sabem muito bem. a divisão "varreria imediatamente a região compreendida entre Caen e a costa". com os motores funcionando ao ralanti. O Sargento Wodarczyk.G. Aconselho-o a pôr a sua esquadrilha em estado de alerta. Bronikowski continuava a esperar. e o que ele sempre temera realizava-se! A linguagem de Priller. a única que na realidade tinha experiência de combate. aguardando a ordem de partida.

— Meu caro Priller, estou muito aflito. Houve um erro. Recebemos um relatório errado. Está tudo em ordem, não há sombra de desembarque. Priller sentiu uma tal raiva que nada pôde responder. Pior ainda, não pôde mais reconciliar o sono. Apesar da confusão, das hesitações e da indecisão dos altos comandos, os soldados alemães que se encontraram em contado direto com o inimigo reagiram rapidamente, bilhares de homens estavam já em movimento e, ao contrário do que acontecia com os generais do grupo de Exércitos B e da OB. West, não duvidaram por um segundo de que se tratava do desembarque aliado. Numerosos soldados repeliam já a ofensiva conforme podiam, isoladamente, em escaramuças rápidas, desde que os primeiros americanos e ingleses lhes tinham caído do céu sobre a cabeça. Milhares de outros, em estado de alerta, aguardavam por trás das formidáveis fortificações, prontos a repelir o inimigo, qualquer que fosse o lado por onde viesse. Estavam inquietos, mas decididos e corajosos. No Q.G. do 7.º Exército, um dos poucos oficiais generais a não ficar desorientado tinha reunido o seu estado-maior. Na sala dos mapas, profusamente iluminada, o General Pemsel falava com voz tão calma e pausada como de costume. Só as palavras lhe traíam a inquietação. — Meus senhores — disse — estou convencido de que o desembarque começará pela madrugada. O nosso futuro depende dos combates que travarmos hoje. Peço-lhes que façam todos os esforços possíveis e que não se lamentem. Na Alemanha, a oitocentos quilômetros dali, o homem que poderia ter auxiliado Pemsel — o único oficial que tinha ganho muitas batalhas graças à sua extraordinária faculdade de ver claro em situações confusas — dormia calmamente. No grupo de Exércitos B a situação não era considerada suficientemente grave para justificar que chamassem o Marechal de campo Erwin Rommel.

CAPÍTULO VI
Os PRIMEIROS reforços começavam a juntar-se às tropas aerotransportadas. No setor da 6.ª divisão britânica tinham pousado sessenta e nove planadores, quarenta dos quais no campo junto de Ranville. Já tinham descido outras pequenas formações — nomeadamente as do Major Howard, junto das pontes do Orne, e uma formação transportando o equipamento pesado da divisão — mas tratava-se presentemente do principal comboio de planadores. Os sapadores haviam trabalhado muito. Não tinham tido tempo para limpar completamente o longo campo de aterrissagem de todos os obstáculos, mas tinham-no dinamitado o suficiente para que os aparelhos pudessem pousar. Após a chegada dos planadores, a zona de pouso apresentou um espetáculo fantástico. Ao luar, dir-se-ia um cemitério de Dali. Por toda parte viam-se aparelhos destruídos, asas em pedaços, cabinas destroçadas, fuselagens torcidas e erguidas para o céu. Parecia impossível que houvesse homens capazes de sobreviver a semelhante "rachar de lenha", mas, no conjunto, as perdas eram mínimas. Tinham sido feridos mais homens pela D.C.A. do que durante as descidas. O comboio de planadores transportara o General Richard Gale e o seu estado-maior, e ainda outros homens, algum equipamento pesado e os famosos canhões antitanques. Os soldados que aos magotes brotavam dos planadores esperavam chegar a terra debaixo de fogo inimigo; ao contrário, caíram em estranho silêncio bucólico. O Sargento John Hutley, que comandava um Horsa, preparava-se para uma recepção impetuosa, e tinha avisado o segundo-piloto: — Salta assim que tocarmos no solo e corre para o abrigo mais próximo. Mas os únicos vestígios de batalha eram os rastos multicores das balas tracejantes no horizonte e o longínquo crepitar das metralhadoras, para os lados de Ranville. À sua volta, o terreno pululava de homens, que retiravam os destroços e colocavam sobre jipes os canhões antitanques. Uma vez terminada a viagem em planador, reinava até certo ar de júbilo. Hutley e o seu contingente de homens, todos sentados na cabina em migalhas do planador, bebiam chá antes de partirem para Ranville. Na outra extremidade do campo de batalha da Normandia, na península de Cotentin, apareciam os primeiros comboios de planadores americanos. O General-de-Brigada Don Pratt, o mesmo que tinha tido tanto medo, na Inglaterra, ao ver atirar um boné para cima da cama onde estava sentado, ocupava o lugar do segundo-piloto no planador de vanguarda da 101.ª divisão. Segundo as testemunhas, Pratt estava "feliz como uma criança" por

efetuar o primeiro vôo em planador. Rebocados por Dakotas, seguiam-no em procissão cinqüenta e dois planadores formados quatro a quatro. O comboio transportava jipes, canhões antitanques, um hospital de campanha e até um bulldozer. Na frente do planador de Pratt estava pintado um enorme número 1, e uma monstruosa "Águia Uivante", emblema da 101.ª divisão, sustentada por uma bandeira americana, ornava a fuselagem de tela, de cada lado da cabina de pilotagem. Na mesma formação, o cirurgião Emile Natalle via os obuses explodirem e os veículos em chamas, "como uma parede de fogo vindo ao nosso encontro". Mantendo-se ligados aos rebocadores, os planadores dançavam e oscilavam ao atravessarem um tiro de barragem "suficientemente compacto para nele se poder aterrar". Ao contrário do que acontecera com os aviões dos pára-quedistas, os planadores aproximavam-se da península por leste. Sobrevoavam as terras havia alguns segundos quando os homens viram os fogos da zona de aterrissagem de Hiesville, a seis quilômetros de Sainte-Mère-1'Église. Um a um, os reboques de nylon, de trezentos metros de comprimento, soltaram-se e os planadores desceram assobiando. O de Natalle passou além do campo de pouso e foi esmagar-se num campo eriçado de "aspargos de Rommel" — fileiras de sólidas estacas fixadas ao solo destinadas a impedir a descida de planadores. Sentado num jipe, no interior do planador, Natalle espreitava pelas vigias e viu, com uma fascinação horrorizada, as duas asas serem arrancadas e as estacas desfilarem a toda a velocidade. Seguiu-se enorme estrondo e o planador partiu-se em dois, precisamente no ponto onde estava o jipe, "o que me facilitou muito a saída", como disse Natalle. A carcaça do planador número 1 jazia perto deles. Descendo ao longo de um prado em declive, sendo os travões incapazes de diminuírem a corrida a cento e cinqüenta por hora, o aparelho tinha ido picar de focinho na sebe. Natalle descobriu o piloto, lançado para fora da cabina, estendido nos silvados, com ambas as pernas partidas. O General Pratt tinha morrido logo, esmagado pelos destroços da carlinga. Foi o primeiro oficial-general, quer de um lado, quer do outro, a morrer no Dia D. Pratt foi um dos raros mortos durante esta descida da 101.ª divisão. Quase todos os planadores da divisão pousaram no terreno de Hiesville, ou perto. Embora quase todos os aparelhos ficassem destruídos, o equipamento chegou em bom estado. Este feito foi absolutamente notável. Poucos pilotos tinham efetuado mais de três ou quatro pousos de treino, e sempre em pleno dia*.
* Também havia falta de pilotos de planadores. "A certa altura — lembra o General Gavin — pensamos que nunca viríamos a ter que chegassem. Durante o desembarque todos os lugares de segundospilotos eram ocupados por um soldado aerotransportado. Por mais incrível que possa parecer, estes soldados nunca tinham sido treinados nem instruídos na pilotagem de planadores ou na sua aterragem. Alguns encontraram-se com um piloto ferido e um planador cheio de soldados sob sua responsabilidade,

correndo através de tiros de barragem e da D.C.A. durante a noite de 6 de junho. Felizmente, o tipo de planadores que utilizávamos não era muito difícil de pilotar. Mas quando se deve fazê-lo pela primeira vez e aterrar sem saber como, em pleno combate, sentimo-nos muito pequenos. Há razões para converter o homem mais duro."

Se a 101.ª divisão teve sorte, a 82.ª, em contrapartida, não teve nenhuma. A inexperiência dos pilotos provocou um desastre quase total e por pouco não ocasionou a perda de cinqüenta planadores. Menos de metade das formações encontraram o terreno de aterrissagem previsto, a noroeste de Saint-Mère-l'Église; os restantes despedaçaram-se nas sebes, mergulharam nos cursos de água ou afundaram-se nos pântanos do Merderet. O material e os veículos tão urgentemente necessários ficaram espalhados um pouco por toda parte e as perdas de homens foram muito pesadas. Dezoito pilotos morreram durante os primeiros minutos. Um dos planadores carregado de homens passou diretamente sobre a cabeça do Capitão Robert Piper, do 505.° regimento, que, horrorizado, o viu "saltar sobre a chaminé de uma casa, cair no pátio, descrever dois ou três círculos e acabar por se desmantelar contra uma parede de pedra. Nem um só gemido veio da carcaça". Para a 82.ª divisão, que lutava contra as horas, a dispersão do comboio de planadores foi uma calamidade. Precisou de horas para recuperar e reunir os poucos canhões e o escasso material que chegara em bom estado. Enquanto esperavam, os soldados iam lutar com as armas que eles próprios traziam. Mas, ponderados todos os fatores, para os pára-quedistas a regra era: baterem-se com os meios de que dispunham até serem rendidos. Neste momento, as tropas da 82.ª divisão que mantinham a retaguarda da cabeça de ponte — as pontes sobre o Douve e o Merderet — repeliam já os primeiros contra-ataques alemães. Estes pára-quedistas não possuíam nem veículos, nem canhões antitanques, tinham poucas bazucas e quase nenhuma metralhadora ou morteiro. Pior ainda, não dispunham de qualquer meio de comunicação. Não sabiam o que se passava à sua volta, quais as posições tomadas, quais os objetivos conquistados. O mesmo acontecia com a 101.*, exceto que o acaso lhes permitira receber o material. Os soldados das duas divisões estavam isolados e dispersos, mas pequenos grupos lançavam-se à conquista dos seus objetivos — e pontos fortificados começavam a cair nas suas mãos. Em Sainte-Mère-1'Êglise, sob os olhares atônitos dos habitantes que espreitavam por trás das persianas, os pára-quedistas do 505.° regimento da 82.ª divisão deslizavam prudentemente pelas ruas desertas. O sino parará de tocar a rebate. O pára-quedas vazio do soldado John Steele pendia ainda do campanário e, de tempos em tempos, os escombros incandescentes da casa de M. Hairon lançavam para o céu negro feixes de fagulhas, iluminando

voltou-se. Ao largo chegavam agora outros pára-quedistas e também eles viram subitamente os cadáveres nas árvores. O estandarte estrelado flutuava sobre a primeira cidade da França libertada pelos americanos. Um pára-quedista morto. não havia qualquer ruído. Tucker recuou rapidamente. O Tenente-Coronel Edward Krause. Em frente. Outros invadiram a povoação. de sebe em sebe.. jaziam em monte outros cadáveres. tinha-se preparado para travar duros combates em Sainte-Mère-l'Église. Ocuparam os edifícios. Agarrando fortemente na metralhadora. No Q. Ao ver os pára-quedistas mortos. esbugalhados os olhos. por toda parte reinava o mesmo silêncio angustiante.º corpo do General Marcks recebeu a seguinte mensagem: "Comunicações cortadas com SainteMère-l'Église. fixava-o com enormes olhos abertos. deitado perto. suspenso pelos ramos de uma árvore. dirigiu-se à Câmara Municipal. tomados de ódio terrível". tentava compreender o que se tinha passado quando lhe pareceu não estar só — alguém estava atrás dele. colocaram barragens nas estradas. Tucker. além disto. o 84. sentado nas trevas. Contornando a igreja. A batalha tinha terminado no largo cheio de pára-quedistas. deslizando como sombras. Os homens de Krause apressaram-se aproveitar a situação. o largo da igreja. À altura dos olhos balançava-se lentamente um par de botas. mas excetuando alguns atiradores isolados. um alemão morto. * . por cima da porta. convergindo para o centro.º regimento desfraldara em Nápoles. Atravessou o largo. Por vezes uma bala perdida assobiava furiosamente nas trevas. O Tenente Gus Sanders lembra-se de que "os homens ficavam paralisados. Em seguida. parecia que a guarnição alemã havia desaparecido. do 7.. conseguiu pronunciar unicamente duas palavras: — Santo Deus! Krause tirou então do bolso uma bandeira americana.° Exército alemão. que dirigia o ataque. puseram metralhadoras em bateria e cortaram os fios telefônicos. de porta em porta. a mesma bandeira que o 505. viu um pára-quedas e. em Mans.rapidamente os castanheiros do largo. Krause tinha prometido aos seus homens que "esta bandeira flutuará antes da madrugada sobre Sainte-Mère-1'Église".G." Eram precisamente 4 horas e 30 minutos. velha e um tanto esfarrapada. Não houve qualquer cerimônia. fez-se içar até à cornija e fixou a flâmula à haste. o soldado de primeira classe William Tucker chegou ao largo e colocou a metralhadora junto a uma árvore. olhando o largo banhado de lua. O Tenente-Coronel Krause chegou por sua vez. mas.

As ilhas de Saint-Marcouf são dois rochedos áridos, situados a três milhas da praia de Utah. Quando da complicada elaboração do plano de invasão, estas ilhas só chamaram as atenções três semanas antes do Dia D. O G.Q.G. supôs então que elas poderiam possuir baterias pesadas. Não podiam correr o risco de ignorá-las. À pressa, cento e trinta e dois homens do 4." e 24." esquadrões de cavalaria foram treinados, a fim de as tomar antes da Hora H. Estes homens chegaram às ilhotas cerca das quatro e meia. Não encontraram* canhões nem soldados — nada, além duma morte instantânea. Assim foi, pois os soldados do Tenente-Coronel Edward D. Dunn não tinham dado dois passos sobre as praias e já se encontravam presos numa intrincada rede de minas S — pequenas minas que saltam e explodem à altura da cintura, estripando as vítimas —, semeadas como grãos ao vento. Em poucos segundos a noite foi rasgada pelo fragor das explosões e pelos urros dos feridos. Três tenentes foram feridos imediatamente, dois soldados morreram e o Tenente Alfred Rubin, igualmente ferido, jamais esqueceria "o espetáculo de um homem deitado a seus pés que cuspia rolamentos de esferas". Ao fim do dia, as perdas elevar-se-iam a dezenove mortos e feridos. Rodeado de mortos e moribundos, o Tenente-Coronel Dunn lançou o sinal "missão cumprida". Foram as primeiras tropas a invadir a Europa por mar. Mas a sua ação não passou de um ínfimo detalhe do desembarque, uma vitória inútil e amarga. * Na zona britânica, junto da costa, apenas a cinco quilômetros para leste de Sword Beach, o Tenente-Coronel Terence Otway e os seus homens estavam debaixo de um fogo cerrado de metralhadoras, na orla da rede de arame farpado e dos campos de minas que protegiam a potente bateria de Merville. A situação era desesperada. No decurso de longos meses de treino, Otway nunca tinha esperado que todas as fases de tão complicado ataque se desenrolassem conforme o previsto. Mas também não estava preparado para um insucesso total. Era contudo o que tinha acontecido. O bombardeio falhara. O comboio especial de planadores tinha-se perdido, e com ele a artilharia, os lança-chamas, os morteiros, os detectores de minas e as escadas próprias para escaladas. Dos setecentos homens do seu batalhão, Otway só tinha encontrado cento e cinqüenta e, para se apoderar da bateria, guarnecida por duzentos defensores, os seus soldados dispunham unicamente de fuzis, metralhadoras Sten, granadas, alguns torpedos Bangalore e uma metralhadora pesada. Não hesitaram contudo em se lançar ao assalto, substituindo a falta de meios pela improvisação. Com alicates já tinham feito algumas brechas na primeira rede de arames

farpados e colocado os poucos torpedos Bangalore que possuíam, de modo a fazer saltar o resto. Um grupo abriu uma passagem através do campo de minas, trabalho terrificante. Rastejando sobre os cotovelos e os joelhos, ao luar, procuraram os fios metálicos tateando o terreno com a ponta das baionetas. Nesse momento, os cento e cinqüenta homens de Otway encobriam-se em valas e covas feitas por obuses ou ao longo de sebes, aguardando a ordem de ataque. O General Glade, comandante da 6.ª divisão aerotransportada, recomendara a Otway: — O seu estado de espírito deve ser o seguinte: o insucesso não pode ser admitido... Otway via os homens que o cercavam e pensava que as perdas seriam pesadas. Mas urgia reduzir ao silêncio os canhões da bateria — estes podiam massacrar as tropas que desembarcassem em Sword Beach. As probabilidades de sucesso eram mínimas, pensava Otway, mas não havia outra alternativa. Era preciso ir ao assalto. Sabia-o, da mesma forma que sabia que a última parte do seu plano, tão cuidadosamente estudado, estava destinada ao insucesso. Os três planadores que deviam despedaçar-se sobre a bateria, no momento do ataque por terra, não desceriam nunca antes de terem recebido um sinal especial: uma bomba luminosa lançada de um morteiro. Simplesmente, Otway não tinha nem bomba nem morteiro. Possuía very-lights e uma pistola própria para os lançar, mas estes só eram usados para indicar o sucesso de um ataque. A sua última esperança de ser apoiado desvanecia-se. Os planadores apareceram na altura prevista. Os aviões rebocadores acenderam os focos de aterragem e largaram os planadores. Só havia dois, e cada um deles transportava cerca de vinte homens. O terceiro, cujo reboque se rompera sobre a Mancha, tinha conseguido voltar para Inglaterra em vôo planado, sem estragos. Os pára-quedistas ouviram o ligeiro murmúrio dos aparelhos que sobrevoavam a bateria. Impotente, Otway viu os planadores, banhados de lua, perderem altitude e descreverem círculos, enquanto os pilotos procuravam desesperadamente o sinal que Otway não lhes podia lançar. Os planadores desceram mais ainda e os alemães abriram fogo. As metralhadoras assestadas sobre os pára-quedistas viraram-se contra os engenhos silenciosos. Rosários de balas tracejantes de vinte milímetros despedaçaram as fuselagens de tela sem proteção. E os planadores continuavam a circular, obedecendo cegamente ao plano, procurando obstinadamente o sinal de Otway. Completamente aturdido, quase a chorar, o tenente-coronel cerrava os punhos e nada podia fazer. Por fim, os planadores desistiram. Um deles virou-se sobre a asa e foi pousar seis quilômetros adiante. O outro passou tão rente sobre os ansiosos e impacientes ingleses que os soldados Alan Mower e Pat Hawkins julgaram

que se ia despedaçar contra a bateria. No último momento, o aparelho ergueu-se e foi estatelar-se num bosque vizinho. Instintivamente, alguns homens fizeram menção de deixar os abrigos e ir socorrer os sobreviventes. Mas foram imediatamente proibidos de o fazer: — Que ninguém se mexa! Não abandonem as suas posições — sussurraram os oficiais completamente esgotados. Não havia agora mais nada por que esperar. Otway deu o sinal de ataque. O soldado Mower ouviu-o gritar: — Avante! Vamos tomar essa maldita bateria! E lançaram-se ao ataque. Com estrondo ensurdecedor, os torpedos Bangalore abriram grandes brechas nos arames farpados. O Tenente Mike Dowling gritava: — Avancem! Avancem! Mais uma vez, uma trompa de caça ecoou na noite. Dando urros e tiros, os pára-quedistas de Otway mergulharam por entre os arames farpados na densa fumarada das explosões. Diante deles, para além do no man's land. de minas, de valas e de trincheiras com canhões, erguia-se a bateria. De repente, diversos foguetões vermelhos rebentaram sobre a cabeça dos assaltantes em marcha; seguiu-se um tiroteio maciço de metralhadoras Schmeissers e fuzis. Através da barragem mortífera, os homens avançavam curvados, lançavamse por terra, corriam de novo, rastejavam e levantavam-se para se lançarem outra vez ao ataque. Mergulhavam em covas cavadas por obuses, brotavam delas e partiam de novo. Explodiam minas. O soldado Mower ouviu um grito e alguém clamou: — Alto! Parem! Há minas por toda parte! Mower viu à sua direita um cabo gravemente ferido, sentado por terra, afastando os homens com gestos largos, e ouviu-o repetir: — Não se aproximem! Não se aproximem! Dominando o tumulto das explosões, da fuzilaria e dos gritos dos soldados, o Tenente Alan Jefferson, à frente de todos, continuava a soprar na trompa de caça. Súbito, o soldado Sid Capon ouviu explodir uma mina e viu Jefferson cair. Correu para o tenente, mas este gritou-lhe: — Não! Avante! Para a frente! Deitado por terra, Jefferson levou depois a trompa aos lábios e recomeçou a tocar. Agora só se ouviam gritos e urros, numa confusão de granadas, enquanto os pára-quedistas saltavam para as trincheiras e lutavam corpo a corpo com o inimigo. O soldado Capon, ao entrar para uma trincheira, deu de cara com dois soldados alemães. Um deles levantou acima da cabeça uma maleta da Cruz Vermelha, em sinal de rendição, e exclamou: — Russki! Russki! Eram dois "voluntários" russos. Na altura, Capon não soube o que fazer.

Depois viu outros alemães que se rendiam e eram empurrados para as trincheiras pelos pára-quedistas. Confiou a estes os seus dois prisioneiros e lançou-se novamente ao ataque da bateria. Otway, o Tenente Dowling e uns quarenta homens já a tinham alcançado e lutavam ferozmente. Os soldados que tinham varrido as trincheiras e valas com canhões corriam agora em volta das fortificações de cimento-armado, despejando os carregadores das Sten e lançando granadas pelas seteiras. A batalha foi sangrenta e selvagem. Os soldados Mower e Hawkins e um servente de fuzil-metralhadora Bren, galopando sob um dilúvio de fogo de morteiros e metralhadoras, atingiram um lado da bateria, encontraram uma porta aberta e entraram. Um artilheiro alemão jazia morto na estreita passagem, mas parecia não haver mais ninguém. Mower deixou os dois companheiros à porta e embrenhou-se pela galeria. Desembocou numa ampla sala e viu uma pesada peça de campanha montada numa plataforma, sustentada por altas pilhas de obuses. Mower voltou correndo para junto dos seus camaradas e explicou-lhes com entusiasmo um plano para "fazer saltar toda aquela maldita geringonça lançando granadas no meio dos obuses". Mas não tiveram tempo. Enquanto os três homens discutiam à entrada, houve uma explosão brusca. O homem que transportava a metralhadora Bren morreu instantaneamente. Hawkins foi atingido no ventre. Quanto a Mower, julgou ter as costas "laceradas pelo menos por um milhar de agulhas aquecidas ao rubro". Não conseguia controlar as pernas, que estrebuchavam sozinhas como as dos moribundos. Mower.tinha a certeza de que ia morrer e não queria acabar assim. Começou a gritar por socorro. Chamou pela mãe. Os alemães rendiam-se em toda a bateria. O soldado Capon alcançou Dowling e os seus homens, a tempo de enxergar "os alemães empurrando-se à porta a ver quem chegava primeiro". Os homens de Dowling quebraram dois dos canhões ao atirarem simultaneamente dois obuses para cada um deles e inutilizaram os outros dois provisoriamente. Em seguida, Dowling foi ao encontro de Otway. Fez a continência diante do coronel, a mão direita cerrada sobre o lado esquerdo do peito. — A bateria foi tomada, conforme as ordens, coronel. Os canhões ficaram destruídos. A batalha tinha terminado; durara um quarto de hora. Otway lançou um foguete amarelo — o sinal de missão cumprida — usando uma pistola Very. Um avião de reconhecimento da R.A.F. viu o sinal e preveniu pelo rádio o cruzador Arethusa, que se encontrava ao largo, precisamente quinze minutos antes do cruzador abrir fogo sobre a bateria. Ao mesmo tempo, o oficial de comunicações de Otway expediu uma mensagem confirmativa por pombocorreio. Trouxera consigo a ave durante toda a batalha. Tinha uma pequena cápsula plástica fixada à pata, contendo um papel com uma só palavra de

Mower desmaiou. Otway descobriu o cadáver do Tenente Dowling. Mas durante as horas críticas que se seguiram. a voz tornou-se cada vez mais fraca. tenham piedade! Santo Deus. os dois homens sobreviveram — até mesmo Mower. Otway tomou o comando do feroz batalhão e conduziu-o para fora da bateria de Merville. não me deixem morrer aqui! Não me abandonem! Depois. Não recebera ordens para manter a posição depois de destruir as peças. ou qualquer meio de transporte. abandonada. o contra-ataque alemão seria retardado ou mesmo completamente detido. tiveram que se resignar a abandonar no local os feridos mais graves. bloqueavam em larga medida a chegada de reforços alemães. os alemães voltariam para esta bateria. a bateria de Merville permaneceu silenciosa. De madrugada. cento e setenta e oito estavam mortos ou moribundos. enquanto os camaradas o levavam. O grupo de Otway não dispunha de material médico. além disso. E. No setor britânico. * A madrugada aproximava-se — essa madrugada para a qual caminhavam lutando dezoito mil pára-quedistas. Fizeram somente vinte e dois prisioneiros. perturbado as comunicações e. e Otway tinha perdido quase metade do seu efetivo — setenta mortos e feridos. as tropas do Major Howard tinham acabado por conquistar as pontes vitais sobre o Orne e o canal de Caen. os britânicos haviam cumprido as suas principais missões e. Dois dos canhões fariam fogo sobre as praias. . Mower foi levado para fora sobre uma tábua. Em menos de cinco horas tinham conseguido mais do que o próprio General Eisenhower e os seus oficiais calculavam. Os seus homens tinham outras missões. O estado de Hawkins era demasiado grave para poder ser transportado. Misericordiosamente. Fato irônico. Assim. rapazes. Dos duzentos alemães da guarnição. As tropas aerotransportadas e os pára-quedistas haviam desorientado o inimigo.código: "Hammer" (martelo). na medida em que as diversas vias de comunicações continuassem guardadas. mais longínqua e estranha. é do urro de Hawkins: — Eh. com cinqüenta e sete estilhaços de obus no corpo. Contudo. Estava moribundo quando escrevera o relatório. Pouco depois. quarenta e oito horas mais tarde. os canhões destruídos tinham metade da potência indicada nos relatórios. O Tenente-Coronel Otway e o seu extenuante batalhão tinham aniquilado a bateria de Merville. dado que ocupavam os dois flancos da zona de desembarque. seriam destruídas as cinco passagens sobre o Dives. A última coisa de que se lembra. medicamentos suficientes. e os pára-quedistas dominavam as colinas sobre Caen.

apesar de lutarem num terreno mais difícil e de terem recebido as missões mais variadas. Os homens do Tenente-Coronel Krause tomaram o importante burgo de Sainte-Mère1'Église. descobrindo que os canhões tinham sido retirados. Os postos avançados americanos encontravam-se já a vinte quilômetros das praias de Utah e de Omaha. no interior. Ao norte da pequena cidade. Outros estavam de vigia nas principais represas de La Barquette.ª divisão do General Maxwell Taylor ainda estava muito dispersa: pela madrugada. dirigiam-se para lá alguns grupos de soldados. de um total de seis mil e quinhentos. Os homens das tropas aliadas aerotransportadas tinham invadido o continente pelo ar e conquistado os pontos de apoio iniciais para a ofensiva por mar. O General-de-Brigada Gavin e os seus homens estavam entrincheirados à volta das passagens estratégicas sobre o Douve e o Merderet e ocupavam a parte de trás de Utah Beach. A 101. os americanos. Aguardavam agora as forças que chegariam em barcos para conjuntamente penetrarem no coração da Europa hitleriana. tinham igualmente realizado bom trabalho. Apesar dessas dificuldades. que já ocupavam o lado oeste das regiões inundadas. E embora nenhum dos diques que conduziam até à praia de Utah tivesse sido atingido. . o efetivo total disponível da divisão não era ainda de mil e cem homens.Na outra extremidade das cinco praias de desembarque. que controlavam as inundações da península. Para as tropas terrestres. atrás da própria praia. o batalhão do Tenente-Coronel Vandervoort cortara a principal via de estrada de ferro que ligava Cherbourg ao resto do país e estava preparado para repelir todos os ataques neste setor. os soldados tinham contudo atingido a bateria de Saint-Martin-de-Varreville. a Hora H — seis horas e meia — soaria dentro de cento e cinco minutos.

sobrecarregados pelo equipamento e muitas vezes incapazes de se livrarem das correias dos pára-quedas.Um planador Horsa que transportava 30 homens. afogaram-se muitos homens. Gavin) . de que pereceram oito soldados. em menos de um metro de água. como o soldado em baixo. Na escuridão. veio despedaçar-se num terreno perto de Sainte-Mère-1'Église. (Coleção do General James M.

Embaixo: Alguns homens da 4.a Divisão dos Estados Unidos avançam na água em direção a Utah Beach. Na esquerda da fotografia vêem-se as bicicletas desmontáveis.Em cima: Tropas canadenses comprimidas num batelão de desembarque que se dirige para Juno Beach. .

Até lá. A tripulação. Ao todo. Estes dois navios balizavam as extremidades do setor de desembarque anglo-canadense — compreendendo as praias de Sword. seria dia. totalmente esgotada. tinham passado cerca de setenta e quatro horas debaixo da água. Honour empurrou o painel e ergueu-se anquilosado para a estreita ponte. imóveis. Feito isto. aspiravam sofregamente o ar fresco. Cada tripulação tinha a tarefa de aprestar um mastro provido de um very-light e instalar todos os outros aparelhos de sinalização óptica e radielétrica. a 2 de junho. oferecendo assim excelente alvo às baterias costeiras alemãs. As vagas varriam-na e teve de se agarrar para não ser arrastado. tinham de agüentar ainda mais duas horas. Estavam diante de Sword Beach desde a madrugada de 4 de junho e tinham permanecido mergulhados mais de vinte e uma horas por dia. Juno e Gold. dentro em pouco. até à chegada da primeira vaga de assalto. imitou-o.CAPÍTULO VII Às QUATRO horas e quarenta e cinco da manhã. o X-23 e o X-20 continuariam à superfície. Segurando-se à amurada. desde a aparelhagem. E. em Portsmouth. A vinte milhas. Por conseguinte. que se guiariam pelos seus sinais. o seu gêmeo X-20 imitou-o. A bordo do X-23. As suas atribulações não tinham acabado. num mar muito agitado. aguardariam os primeiros navios ingleses. o submarino de bolso X23 do Tenente George Honour subiu à superfície. a Hora H variava das sete horas às sete e trinta. . os pés na água. Nas praias britânicas. uma milha ao largo da costa normanda.

.S. o opinioso General Pemsel. do 7. a que se ouvia na cascata de mensagens desabada sobre os Q. as estações do Almirante Krancke captavam ruídos de navios — não isolados. Convencido de que os Aliados tinham escolhido a Normandia para um "ataque de diversão". . telefonou a Speidel.° Exército." Era uma mensagem puramente de rotina. e a Panzer Lehr. chefe do estado-maior de Rommel. Durante mais de uma hora os relatórios tinham-se sucedido. Já tinha ordenado a duas divisões blindadas — a 12. A mensagem que enviou por teletipo declarava: "A OB. Ao longo de toda a Gosta. Nestas condições. No Q. Mesmo assim. nas românticas montanhas da Baviera Meridional. Jodl dormia e o seu estado-maior não considerou a situação suficientemente grave para o acordar. de Rommel e von Rundstedt. mas aos vinte.. Continuava contudo a pensar que a ofensiva assinalada contra a Normandia constituía somente "um ataque de diversão" e não o verdadeiro desembarque. ambas de reserva junto de Paris — que se reunissem e se dirigissem para a costa.. aos cem...CAPÍTULO VIII POR TODA parte os homens aguardavam essa madrugada. e a Panzer Lehr. É fácil concluir que são iminentes um desembarque e uma ofensiva de grande envergadura contra a Normandia. bem longe das realidades quotidianas. Porque. Em Berchtesgaden. von Rundstedt pediu oficialmente as reservas à OKW.S. não podia acreditar que Hitler o desaprovasse. estas duas divisões dependiam da OKW e não deviam deslocar-se sem ordem expressa ou consentimento do Führer. para lhe dizer sem refletir: — Assinalamos uma concentração de navios entre a foz do Orne e a do Vire. Estas pressupõem o pronto envio de todas as reservas estratégicas possíveis. e bastante ameaçadora. destinada simplesmente aos arquivos. Do ponto de vista de tática.ª S. chefe das operações. a OB. Rundstedt agira. nos arredores de Paris. a 12. um pouco antes das cinco horas. se se trata na realidade de uma ofensiva inimiga de envergadura. mas nenhum com tanta ansiedade como os alemães. a música era outra.G. Finalmente. só poderá ser repelida tomando medidas imediatas. A mensagem podia esperar. West pede à OKW que liberte as reservas. Mas von Rundstedt antecipara-se e tentava a sua sorte. o Marechal de campo von Rundstedt já chegara à mesma conclusão. presentemente. West está persuadida de que. Se estas duas divisões se puserem imediatamente a caminho. a mensagem foi transmitida ao escritório do General Alfred Jodl. poderão participar na batalha das regiões costeiras durante o dia.G. isto é.ª S.

o cão Harras dormia. Nada mudara. Uma vez mais. Tinha frio. Hitler deitara-se às quatro horas da manhã e o médico particular. no abrigo. de Jodl. regimentais ou divisionários. seu ajudante de campo naval. Ninguém sabia — nem era sequer capaz de adivinhar — a potência da frota aliada. tinham-se tornado importantes. Hitler dormia com Eva Braun. No seu bunker dominando Omaha Beach. Tudo parecia calmo. Ambos tínhamos medo de que. girou o binóculo de artilharia para a esquerda. estava cansado. De repente. queria sem dúvida dizer que nada de grave se passava. o Almirante Karl Jesko von Puttkamer. salpicado de cristas brancas. West e do grupo de Exércitos B preparavam-se para esperar. asseguraram ao almirante que "as primeiras informações eram extremamente vagas". De momento.G. Pelas cinco horas. Viu os mesmos bancos de bruma sobre o mar.C. Conviria informar o Führer? Os dois homens discutiram o assunto e acabaram por concordar em deixar Hitler dormir em paz. fosse atacado por uma das suas terríveis crises de nervos durante as quais tomava sempre decisões insensatas. Morell. Como de costume. os mesmos reflexos da lua. o Major Werner Pluskat não recebera qualquer notícia dos superiores. Evidentemente. sem o que não conseguia dormir. Apagou a luz e voltou a adormecer tranqüilamente. olhavam para o mar. o Dr. Ao lado. exasperado. o . O desembarque principal dar-se-ia na Normandia? Ninguém o podia afirmar. Nada se sabia ainda de concreto — de fato. o fato de o telefone não ter tocado durante a noite era tranqüilizante. as formações de aviões? Pluskat não conseguia livrar-se do mal-estar que sentia. todo estirado. Era ainda impossível avaliar a envergadura da ofensiva. os generais da OB.A cinco quilômetros de Berchtesgaden. dera-lhe um soporífero. o mesmo mar agitado. se eu o acordasse àquela hora. O resto dependia dos simples soldados da Wehrmacht acantonados ao longo da costa. Tinham posto as tropas em estado de alerta e chamado as reservas blindadas. "De qualquer modo — diz hoje Puttkamer — não havia nada de especial para lhe dizer. sentia-se horrorosamente só e não compreendia por que razão não tinha recebido nenhum relatório vindo dos P." 0 almirante decidiu esperar pelo fim da manhã para transmitir as notícias a Hitler. no refúgio que possuía nas montanhas. perguntando a si próprios se se tratava de simples exercício de alerta ou se o grande dia tinha chegado finalmente. desde uma hora da manhã. foi acordado por um telefonema vindo do Q. partiu da sombria massa da península de Cotentin e varreu lentamente o horizonte. O seu correspondente — Puttkamer não recorda a sua identidade — informou-o que houvera "uma espécie de desembarque em França". o primeiro passo seria agora dado pelos Aliados. Mas os pára-quedistas. sua amante. Os generais tinham feito tudo o que podiam. Atrás dele. Na França. a despeito dos indícios que se multiplicavam.

Era uma armada espectral. Pluskat. — Os americanos e ingleses não possuem em conjunto tantos navios. que "era o fim da Alemanha". seguiu o horizonte e chegou ao centro da baía. com calma e certeza. dê um salto por aqui e veja com os seus olhos! É fantástico! É inacreditável! Houve curto silêncio. telefonou para o Major. Pluskat virou-se para a seteira do bunker e respondeu: — Diretamente para cima de mim! . Em seguida. do todos os tamanhos. Ao pronunciar estas palavras teve a sensação de que deviam parecer inacreditáveis. Neste momento o universo do soldado Pluskat começou a desmoronar-se. e em seguida Block perguntou: — Para onde se dirigem esses navios? Segurando o telefone. no Q. Lembra-se de que nestes derradeiros instantes compreendeu. como se já lá estivessem havia horas. que clareava com a aproximação da madrugada. calma! — interrompeu secamente o major. — Se não acredita.ª divisão: — Block — disse — trata-se realmente do desembarque. Lentamente. À minha frente há pelo menos dez mil navios. Block. Pluskat inteiriçou-se e olhou atentamente. que evoluíam calmamente. Pluskat contemplava o espetáculo sem acreditar e emocionado como jamais estivera. balançou mais uma vez o binóculo para a esquerda. — Ah. sim? — clamou com paixão. Acho que vou desistir. da 352.G. com estranha indiferença: — É o desembarque. Ninguém dispõe de tal número! A incredulidade de Block fez com que Pluskat saísse da espécie de letargia em que se encontrava.Capitão Ludz Wilkening conversava a meia voz com o Tenente Fritz Theen. e por descargo de consciência resolveu efetuar uma última observação. como por encanto — barcos de todos os tipos. contemplou o céu. Enfadado. Pluskat foi para junto deles. — Nada de novo. Foi então que o binóculo estacou. a respiração suspensa. Através dos farrapos de neblina que se dissipavam. Mas voltou para junto da seteira. Dir-se-ia haver milhares de embarcações. Petrificado. disse simplesmente. — Então. Voltando-se para Wilkening e Theen. vinda não se sabia de onde. Venham ver. o horizonte enchia-se de navios.

se tiverem forças que cheguem. pesados e lentos. alinhem-se!". à espera de vez para escorregarem pelas escadas ou redes a fim de chegarem aos batelões.. que batiam de encontro aos cascos dos barcos de transporte. os cruzadores ameaçadores e os esbeltos destroyers recortavam-se no céu. aos vossos postos. cheios de homens e de material. espalhava-se diante das cinco praias de desembarque. agitavam-se sobre as vagas enxames de batelões e de embarcações cheios de soldados.. O mar pululava de navios. afogados em chuva miúda. As correntes deslizavam nas gruas conduzindo as embarcações de assalto. esperando o sinal de assalto. até Sword Beach. todos descem. Esta frota imensa fervia de atividade e barulho. que seriam os primeiros a desembarcar nas praias. temível.) Chegou o momento. os soldados comprimiam-se na proa. 4. grandiosa.. lutem para salvar os barcos. enquanto os patrulhas iam e vinham através do formigueiro de pequenas embarcações. As gruas guinchavam ao lançarem ao mar os veículos anfíbios. na foz do Orne. seguidos pelos barcos de transporte e de desembarque. repletos de homens lívidos. os alto-falantes de todos os navios não paravam de lançar exortações: "Lutem para pôr os homens em terra.. desde Utah Beach. mas não voltaremos para trás. "Rangers". e manda-os para o diabo! Não se esqueçam. enquanto as vedetas. na península de Cotentin.. e não há bilhetes de ida e volta! Vinte e nove e não cabem . que balançavam pesadamente. mais nous ne retournerons pas. Os motores ofegavam e gemiam. Os alto-falantes gritavam: "Alinhemse.TERCEIRA PARTE . À volta dos transportes de comando. rapazes. Atrás deles vinham os grandes navios de comando.O Dia CAPÍTULO I NUNCA houvera uma madrugada semelhante.. Chega-te a eles. profundamente mergulhados na água. E. Pela alvorada cinzenta.ª divisão. Os couraçados monstruosos. a imensa frota aliada. aceleravam a formação.. de um extremo ao outro do horizonte. Os pavilhões de guerra estalavam ao vento.. Nous mourrons sur le sable de notre France chérie.. majestosa. Não esqueçam Dunquerque! Lembrem-se de Coventry! Que Deus os abençoe a todos!. Nos grandes navios de transporte. lutem para se salvarem a si próprios. quais cães pastores. estação terminus. o Grande Vermelho está a conduzir-vos. (Morreremos nas areias da nossa querida França.. dominando todo este barulho e confusão. eriçados de antenas.

a fim de destruírem os obstáculos.ª divisão. O que vão realizar já é por si uma prece". que treinava especialmente os sapadores que deviam desembarcar nas praias de Omaha e Utah. tinha escolhido uma passagem da mesma peça. A bordo de todos os navios. / Erguer-se-á na ponta dos pés quando este dia for mencionado.. em seguida.. Disse-lhe que não.". como tínhamos combinado. que terminavam com estas palavras: "O que sobreviver a este dia.." Nos conveses atulhados de tropas muitos homens saíram dos lugares para irem dizer adeus aos camaradas que partiam em outras embarcações. abria passagem por entre a multidão e o soldado de primeira classe Max Coleman ouviu-o dizer: "De agora em diante. — Sorriu e estendeu-me a mão. que devia conduzir a brigada de engenharia até Utah Beach. da 3. K. o capelão do 5. O Capitão Sherman Burroughs. mas só conseguiu lembrar-se do primeiro verso: "Mais uma vez na brecha. Ao largo das praias americanas. tornados bons amigos no decurso das longas horas passadas a bordo. "Acabei por lhe deitar a mão — lembra-se... desejavam-se boa sorte mutuamente. uma cena de batalha do Henrique V. pensou ter encontrado o remate ideal quando clamou: — Aconteça o que acontecer. faziam uma roda que dançava à . Tencionava recitar um trecho.. na sua maioria. não soube que dizer. O Tenente-Coronel Elzie Moore. e voltar salvo para casa.". Joseph Lacy.. meus caros amigos. do relato de outra invasão da França. andou às cotoveladas pela fila até encontrar o irmão gêmeo.ª divisão britânica que fazia parte da primeira vaga de assalto de Sword Beach. confessou ao Capitão Charles Cawthorn que tencionava recitar A execução de Dan McGrew durante o trajeto para a praia. livrem-me desses malditos obstáculos! Junto dele uma voz observou calmamente: — Parece-me que este filho da mãe também está com medo. os oficiais coroavam as suas alocuções com o gênero de frases coloridas ou históricas que consideravam apropriadas para a ocasião — o que por vezes dava resultados inesperados. Soldados e marinheiros.. que considerava muito apropriado." A bordo do Prince Leopold.º e 2° batalhão de "rangers". da 29. O TenenteCoronel John O'Neill." O ritmo acelerava-se. Tivera até o cuidado de copiar os versos. que apertaríamos as mãos numa encruzilhada de caminhos na França. e resolveu desistir. os barcos cada vez mais numerosos. Sargento Roy Stevens. não conseguiram esquecer: "Empurrem as embarcações!" e "Pai Nosso que estais no Céu.mais!" E. de Shakespeare. Dissemos adeus e eu nunca mais voltaria a vê-lo. O Major C. carregados de homens.ª divisão. as duas frases que estes homens. da 29. E centenas de homens tiveram tempo para dar os endereços "no caso de. rezo em lugar de vocês. King. santificado seja o Vosso nome. com a primeira vaga de assalto.

estes homens iam ser os primeiros a penetrar na Normandia. Os soldados estavam de tal forma sobrecarregados com material que mal se podiam mexer. embarcar. O próprio Pompei caiu de cabeça na embarcação e quebrou os dentes da frente. a embarcação esmagara-lhe um pé contra o casco no navio. ao ver a embarcação embater contra o casco. máscaras antigases.º batalhão. Saltou quando julgou ser o melhor momento. considerava que os homens estavam de tal modo sobrecarregados "que não poderiam sequer lutar". debruçado na amurada.ª divisão. ferratas de terraplenagem. marmitas." Por vezes. O Major Thomas Dallas. subindo e descendo sobre as vagas. pelo menos.ª divisão de infantaria.volta dos navios maiores. As tropas especializadas levavam também todo o material necessário às suas missões. pelas praias de Omaha e Utah. Um barco de "rangers" estava a meia altura da amurada do Prince Charles. Muitos homens. carregavam mochilas. sobrecarregado com dois rolos de cabos e diversos telefones de campanha. No setor dos grandes barcos de transporte. O Sargento Romeo Pompei ouviu um grito. olhou e viu um homem pendurado na rede. tentou compensar o balanço da embarcação que o esperava. além das armas. infelizes. Houve feridos mais graves. Ficaram nesta posição — um metro abaixo do tubo de descarga dos sanitários — durante cerca de vinte minutos. A operação revelava-se complexa e perigosa. achava que "os seus homens andavam como tartarugas". O soldado de primeira classe Rudolph Mozgo. caiu de quatro metros no fundo do barco e estatelou-se com seu mosquetão. transportavam ainda uma quantidade suplementar de granadas. Alguns dizem que deviam pesar quase cento e cinqüenta quilos quando se arrastaram pelas pontes até chegarem às embarcações. rações. embrulhos com curativos. Encharcados. facas. mas o Major Gerden Johnson. um dos comandantes do 29. enjoados. as vagas erguiam-se tão alto que as embarcações subiam e desciam sob as talhas como ioiôs. o desembarque atingia a fase culminante. estavam melhor aviados. O Tenente Bill Williams. da 4. da 29. O Cabo Harold Janzen. dizia a si próprio que. calculou mal o salto. pertencente a uma seção de morteiros. mantendo a custo o equilíbrio enquanto desciam ao longo das redes de assalto. explosivos e munições — até duzentos e cinqüenta cartuchos. e o seu estado-maior encontravam-se suspensos entre céu e mar quando as talhas emperraram. "As privadas estavam sendo constantemente utilizadas — lembra-se Dallas — e durante aqueles vinte minutos recebemos tudo na cabeça. Vestiam um colete pneumático salva-vidas e. Toda esta quinquilharia era indispensável. Os homens que da ponte entravam para as embarcações. quando uma onda monstruosa . feriram-se antes de sofrerem o fogo inimigo. se ele e o seu material conseguissem. em seguida lançadas ao mar. metade da batalha estaria ganha.

Dog White. por exemplo. às ordens do General Charles H. Assim que formos localizados seremos metralhados pelo inimigo. A cada grupo de combate fora destinado um ponto preciso de desembarque. A vaga retirou-se.ª em Charlie. Dog Red e Easy Green. o Cabo Michael Kurtz. da 1.ª divisão. pelo menos durante o começo da ofensiva. um dos soldados gritou-lhes esbracejando: "Adeus.ª.levantou-o e quase o voltou a colocar sobre a ponte. mantenham a cabeça abaixo da amurada. Os homens da 1. Na altura em que a embarcação de Kurtz se afastava. Três mil homens.ª divisões e das unidades anexas — equipes de demolição submarina do exército e da marinha. ouviram gritos. a fim de cobrirem a primeira vaga de assalto. O 16. * Neste assalto participavam grupos de combate da 1. unicamente. tanques e "rangers". que o mundo livre preparava com tanto esforço. lançando todos os ocupantes ao mar. À Hora H em ponto — seis horas e trinta — desembarcariam diretamente em Easy Green e Dog Red outros tanques transportados em oito LCT. sacudindo como bonecos os ocupantes enjoados. quando faltassem cinco minutos para a Hora H: seis horas e vinte e cinco minutos. mais vale morrer lá do que em outro sítio. os antigos combatentes explicavam aos recrutas o que os esperava. A bordo do Empire Anvil. Do contrário.° regimento da 1. na outra*. Fox Green e Fox Red e os da 29. Eram os grupos de combate da 1. Na metade de Omaha destinada à 29.ª divisão. Às seis e trinta e três chegariam as . Dog Green. mas os desembarques propriamente ditos estavam sob o comando da l. comandada pelo General Clarence R. Se conseguirem safar-se. o 116. 29. Uma embarcação acabava de se voltar. bravo.ª divisão. Viram então os homens do primeiro barco nadarem ao longo do casco do navio de transporte. O barco de Kurtz chegou à água sem dificuldade.a divisão.ª e 29. Eram cinco horas e trinta minutos da manhã. Um minuto mais tarde — seis horas e trinta e um — as tropas de assalto abordariam todos os setores. deviam descer em Dog White e Dog Green trinta e dois tanques. Ao descerem para as embarcações.a divisões. reuniu o seu grupo e fez as devidas recomendações: "Quero que todos vocês. meus amigos. Cada rosto tinha a mesma expressão cerosa e vazia. No momento em que Kurtz e os seus homens embarcavam. fantasmas!" Kurtz olhou para os seus homens.° regimento da 29.ª e 4. devia abordar numa das metades de Omaha Beach. A primeira vaga já se aproximava das praias. Vamos a isto". Gerhardt. cada um com diferente nome de código. Estas zonas haviam sido divididas em subsetores. Huebner.ª divisão.ª divisão desembarcariam em Easy Red. conduziam o ataque deste gigantesco assalto por mar. A aterrissagem em Omaha e Utah fora cronometrada por minutos. e o barco deixou-se cair ao longo dos cabos. que tomariam posições à beira-mar.

à testa da 5. Ninguém os visava ainda. Dispunham exatamente de vinte e sete minutos para terminar este trabalho delicado. Este horário era de tal modo preciso e complicado que parecia impossível conseguir respeitá-lo. A chegada das gruas. confirmando-lhe as suspeitas — tratava-se certamente duma cortina de fumaça.equipes de demolição de engenharia. a bordo do torpedeiro que comandava. o tiro era ainda longínquo e impessoal. Hoffmann embrenhou-se pela bruma para ver o que havia e sofreu o maior choque da sua existência. quando um avião saiu daquela rama de algodão. Alguns navios de guerra começavam já a trocar salvas com as baterias alemãs. Mas. de seis em seis minutos. só via couraçados. Tal era o plano referente às duas praias. estavam tão mergulhados na água que as vagas os cobriam constantemente. Tudo fora tão bem preparado e cronometrado que esperavam receber o equipamento e artilharia pesada em Omaha uma hora e meia mais tarde. o grosso das tropas do primeiro assalto. half-tracks e veículos de conserto dos tanques estava prevista para as dez horas e trinta. • A trinta milhas. Para onde quer que olhasse. Os homens da primeira vaga de assalto não distinguiam a linha brumosa da costa da Normandia. transportando cada um trinta homens e o respectivo material pesado. "Tive a sensação de . lembra-se de que certos soldados. Poucos lhe escaparam. para aqueles que não sofriam de enjôo. "se deixavam regar copiosamente. incumbidas da perigosa tarefa de abrir dezesseis passagens com cinqüenta metros de largura através das minas e obstáculos. a frota inglesa quase completa. o inimigo número um era o enjôo. e o Coronel Eugene Caffey. desembarcariam cinco vagas. mas.ª flotilha. indiferentes a tudo. deitados no fundo do barco. Por enquanto. para os soldados das embarcações. cruzadores e destroyers. da brigada especial do 1. não se importando de viver ou morrer". Estava a observá-lo.º regimento de engenharia. rolavam e balançavam. cheio de demolidores do regimento de engenharia. um homem suspirou com ar desolado. a visão da inacreditável frota constituía um espetáculo maravilhoso e aterrador. Muito provavelmente as entidades responsáveis já o tinham previsto. visto encontrarem-se ainda a nove milhas. A partir das sete horas da manhã. Do outro lado da cortina de fumaça encontrou-se em frente de inacreditável aglomerado de navios. Os batelões de assalto. A cada nova onda. No barco do Cabo Gerald Burt. cobrindo o mar que se estendia à sua frente. lamentando não ter levado consigo a máquina fotográfica. Heinrich Hoffmann notou nevoeiro estranho e irreal.

que comandava. se estendia pelas regiões costeiras. * A bordo do navio-almirante Augusta. nadou durante cerca de vinte minutos. ignorando que o rádio de bordo ficara inutilizado durante a pequena batalha que acabava de se travar.estar sentado num ioiô". Mas quando partira da Inglaterra os serviços secretos aliados tinham-lhe comunicado que acabava de se instalar naquele setor uma divisão . viu que os torpedos iam bater debaixo da ponte. agora em segurança do outro lado da cortina de fumaça. diz Hoffmann. O Svenner pareceu erguer-se fora de água. Na ponte do destroyer norueguês Svenner. Transmitiu a notícia para o Havre. Para Hoffmann. Houve trinta mortos. Alguns instantes mais tarde — foi a única contra-ofensiva naval do Dia D — dezoito torpedos corriam em direção à frota aliada. ficou estupefato ao ver o destroyer afundar-se no mar "com a proa e a ré fazendo um perfeito V". O Tenente Lloyd. O quartel-mestre mecânico Robert Dowie. o audacioso Hoffmann. deu ordem para atacar.º Exército americano. Mas a manobra falhou. Quase instantaneamente. transportando os homens do 1. o importante era dar o alerta. do draga-minas Dunbar.ª. do Ramillies e do Largs. Algumas horas antes pensava ainda que uma única e pequena divisão "estática" alemã. Bradley estava profundamente comovido e inquieto. Só pensou numa coisa: "Até onde irei saltar?" Com uma lentidão desesperante. dos arredores de Omaha Beach até à zona britânica. que estava ao lado do Svenner. O Largs bateu rapidamente em retirada. Bradley pôs algodão nos ouvidos e focou o binóculo sobre os batelões de desembarque. que ficou indene. o tenente inglês Desmond Lloyd viu-os vir. o General Ornar N. o Svenner desviou-se para bombordo e durante um segundo ou dois Lloyd pensou estarem salvos. sustentando um marinheiro que partira uma perna. estremeceu e partiu-se em dois. Avançavam regularmente. uma saraivada de obuses abateu-se sobre os pequenos barcos. que corriam a assaltar o litoral. o mesmo acontecendo a outros oficiais nas pontes do Warspite. rápidos e ágeis. a 716. O capitão gritou: — Tudo à esquerda! Estibordo todo em frente! Bombordo todo atrás! Desesperadamente procurava evoluir de modo a colocar os torpedos paralelamente ao navio. sem despegar os olhos do binóculo. até o destroyer Swift recolher os dois. Sem um segundo de hesitação. Dois torpedos passaram entre o Warspite e o Ramillies. O Svenner não conseguiu fugir à trajetória das bombas. apesar da ridícula inferioridade numérica em que se encontrava. ao largo das praias americanas. Um torpedo veio esmagar-se contra a casa das caldeiras. O Tenente Lloyd.

* Os serviços secretos aliados estavam convencidos de que a 352. os grandes couraçados Texas e Arkansas. o maior a que já vos foi dado assistir. Juno e Gold os couraçados Warspite e Ramillies vomitaram toneladas de aço sobre as potentes baterias do Havre e da foz do Orne. mas peço-lhes que o façam hoje. Ao largo das praias de Sword. O fragor da batalha ribombou surdamente ao longo do litoral da Normandia quando as peças pesadas se puseram a metralhar sistematicamente os seus objetivos.suplementar.ª divisões dirigiam-se portanto para Omaha Beach. doze canhões de 305 e doze de 125. Ao largo de Omaha. destruíram quatro peças de 150. os fortins e redutos. Com uma precisão espantosa. Os homens da 1. mais je vous demande de le faire aujourd'hui. sem suspeitar que a tão temida 352. meus filhos! Vamos para a pista.ª divisão os aguardava. Beer carregou no botão do intercomunicador e gritou: — Ouçam-me todos! O "baile" vai começar. Mas até ao dia 4 de junho os serviços secretos aliados supunham ainda a 352. já "empacotadas". já lá estavam desde março.a divisão estavam acantonadas na costa. Ao largo de Utah. o couraçado . a bordo do cruzador francês Montcalm. A notícia chegara demasiado tarde para que Bradley pudesse avisar as tropas. o bordo do destroyer americano Carmick. dominando Omaha Beach. célebre desde a batalha do Rio da Prata. os artilheiros do Ajax.a divisão ocupava secretamente estas posições e unicamente visando um "exercício de defesa". o Capitão-de-Fragata Robert O. A costa pareceu transformar-se num vulcão. por exemplo. A algumas milhas dali. e dancemos agora! Eram cinco horas e cinqüenta. a uma distância de onze quilômetros. após um treino notável*. O céu cinzento iluminou-se e sobre a terra rodopiaram enormes nuvens de fumaça. Começou então o bombardeio do setor americano. O bombardeio naval que devia facilitar-lhes a missão (Bradley rezava para que assim acontecesse) ia começar. regaram com seiscentos obuses a bateria empoleirada na Ponta de Hoc. Algumas unidades da 352.) Quatro milhas ao largo de Omaha Beach.ª e da 29. Pluskat e as suas peças de artilharia.a divisão nos arredores de Saint-Lô. a mais de trinta quilômetros das verdadeiras posições que ocupavam. totalizando ambos dez peças de 355. disse-lhes: — Cest une chose terrible et monstrueuse que d'être obligés de tirer sur notre propre patrie. na esperança de facilitar a escalada dos batalhões de "rangers". que se dirigiam já para as falésias. Com uma voz cortada pela emoção. com mais de trinta metros de altura. o Contra-Almirante Jaujard dirigia-se aos oficiais e tropas. havia mais de dois meses — outras havia ainda mais tempo. Os navios de guerra britânicos tinham aberto fogo havia mais de vinte minutos. Os cruzadores e os destroyers cuspiram uma saraivada de obuses sobre os pontos fortificados. (É uma coisa terrível e monstruosa sermos obrigados a atirar sobre a nossa própria pátria.

asa contra asa. dali em diante. * Havia oito bunkers de concreto com canhões de 75 e mais. Thunderbolts e Mustangs. Os soldados ergueram os olhos rasos de lágrimas de emoção e.A. as Fortalezas Voadoras e os Liberators. tudo correria bem. Quincy e Black Prince pareciam recuar a cada salva. levantaram a cabeça e soltaram vivas. debaixo deste dossel de aço. Estavam protegidos pelas forças aéreas — o inimigo ficaria pregado ao solo. quatro baterias de artilharia. lançaram treze mil bombas no interior. dezoito canhões antitanques. lutando contra os vômitos que vazavam conforme podiam nos capacetes. pensaram que. seis morteiros. O Major Werner Pluskat pensou que o abrigo se desagregaria. os soldados. Outro obus bateu na falésia. incapazes de ver através das nuvens. com a garganta cerrada. e nada menos de oitenta e cinco ninhos de metralhadoras. trinta e cinco pillboxes com peças de artilharia de diversos calibres e armas automáticas. Por cima deles. alinhados. Era espantoso como o céu podia conter tantos aviões. e da 8. com quatro tubos de 38 mm cada. trinta e cinco rampas de lançamento de foguetões. As assustadoras salvas do bombardeio naval impressionaram vivamente os homens que as viram e ouviram. • A última explosão deu-se muito perto. em formações cerradas. zumbiam os aparelhos pesados — os Lancasters da R.ª Força Aérea. os seus canhões destruídos. a cinco ou seis milhas ao largo. evoluíram e recomeçaram. os bombardeiros e caças apareceram no céu. infelizes e ensopados. . Nove mil aviões! Sobre as cabeças zuniam Spitfires. como o zumbido de algum inseto gigante. Enquanto os gigantescos navios troavam. cruzando-se a todas as altitudes possíveis. Não percebia "como um exército podia resistir a semelhante dilúvio de fogo" e pensava que "a frota teria sem dúvida terminado a sua tarefa ao fim de duas ou três horas". Primeiro lenta e surdamente. Mas trezentos e vinte e nove bombardeiros.ª Força Aérea e. Sem se importarem. os destroyers aproximavam-se a uma ou duas milhas da costa e. mesmo por baixo. cobriam com um manto de fogo toda a rede de fortificações.Nevada e os cruzadores "Tuscaloosa. O tenente inglês Richard Ryland ficou profundamente orgulhoso com "o aspecto majestoso dos couraçados" e perguntou a si próprio "se não seria a última vez que se oferecia semelhante espetáculo". o timoneiro Charles Langley ficou quase horrorizado com o bombardeio naval. aparentemente. retomaram altura. Sobrevoaram a imensa frota. E nos batelões correndo ao rés das ondas. vinham os bombardeiros médios B-26 da 9. invisíveis devido ao espesso manto de nuvens e fumaça. metralharam as praias e o interior. com o dilúvio de obuses da frota. os mortíferos canhões de Omaha Beach*. Ao fragor geral juntou-se novo ruído. A bordo do Nevada.F. depois num crescendo até ribombar como um trovão. mais alto ainda. e temendo bombardear as suas próprias tropas. a cinco quilômetros dos objetivos previstos. as praias crivadas de covas.

e estavam muito mais próximas. sob uma chuva de lixo. Pluskat viu Theen e Wilkening estendidos no cimento. Caiu pesadamente no chão. a alguma distância. Theen estava em frente de uma canhoneira.A extrema violência do choque fez Pluskat rodopiar e arremessou-o para trás. — Por amor de Deus! — gritou Pluskat. não havia um só ferido. Pluskat quase não conseguia falar. Com profundo espanto. quando a poeira se dissipou. quando muito. a oitocentos metros da margem. O telefone tocou de novo no momento em que o bombardeio recomeçava. mas tinha mais que fazer do que ocupar-se do cão. — Estamos sendo bombardeados — conseguiu dizer Pluskat. do regimento. Sob o efeito do choque. Pluskat notou então que Harras desaparecera. Pluskat aproveitou o intervalo telefonando para as baterias. Outra salva atingiu o cimo da falésia.C. . da 352. Notou que estava completamente coberto por uma fina camada de pó branco e que tinha o uniforme em farrapos. Wilkening fora-se embora. E outros projéteis atingiram a falésia.ª divisão: — Qual é a situação? — perguntou uma voz. aproximou-se da segunda canhoneira e olhou para fora. Em breve entrariam no seu campo de tiro. projetando uma avalancha de terra e pedras à frente das canhoneiras. Chamou o Coronel Ocker. Pegou no telefone. O telefone tocou novamente. Desta vez. Havia ainda mais embarcações do que da última vez. A espessa nuvem de pó toldava-lhe a vista. No bunker ninguém parecia ter sido ferido. Pluskat pensava se o inimigo não teria tomado os observatórios por baterias. Era o Q. Não compreendia como tinham conseguido escapar ao bombardeio aquelas baterias situadas. mas ouviu os seus soldados gritarem. Gritou a Wilkening: — Seria melhor voltarem aos vossos postos durante este intervalo! Wilkening lançou sobre Pluskat um olhar taciturno — o posto que ocupava encontrava-se noutro observatório. Pluskat não conseguiu encontrar o aparelho e deixou-o tocar.G. O bombardeio abrandou durante alguns instantes. — Violentamente bombardeados. e. nenhum dos seus vinte canhões — Krupps novinhos em folha. — Caem por todos os lados! Que querem que eu faça? Que vá medir os buracos com um duplodecímetro? Desligou com violência e olhou em volta. Nesta altura distinguia explosões atrás do abrigo. dando-lhes pequeno descanso. Os estragos verificados no observatório que ocupava assim o pareciam indicar. de diversos calibres — tinha sido atingido. A mesma voz queria saber "a localização exata dos pontos de queda". O telefone tocou. pareceu-lhe. no P.

. Durante um ou dois segundos ficou imóvel. O cavalo continuou calmamente o seu caminho até a aldeia.." Hardelay pensava se o alemão viria a cavalo. Eram precisamente seis horas e quinze minutos. o irmão. Michel Hardelay observava a frota de invasão. Instruções urgentes do Comando Supremo. como que petrificado. . * "Aqui Londres. Chegou à curva da estrada — e viu a frota. Os batelões que transportavam as tropas da 1.. não demoraria.C. — E atenção. à janela da casa da mãe. trazer o café aos soldados das baterias. Não sigam pelas estradas de grande movimento. levantou-se e correu para um abrigo." De pé. Seria certamente destruída. — Aconselho-o agora a voltar o mais depressa possível para o seu P. Os canhões não paravam de troar e Hardelay sentia a terra tremer-lhe sob os pés. Estava quase na hora.. Por trás das escarpas. O soldado cavalgava tranqüilamente. como de costume. na extremidade oeste de Omaha Beach.. Hardelay considerava com fatalismo a sorte da casa. Pluskat telefonou então para os diretores de tiro: — Vou voltar — disse-lhes. Cheguem ao campo o mais depressa possível. Partam a pé e levem só o que puderem transportar facilmente. — Ótimo — respondeu o coronel. montando o mesmo percherão e acompanhado pelo mesmo alarido das marmitas.. A família — a mãe. os soldados das quatro baterias de Pluskat esperavam que os batelões se aproximassem um pouco mais. em Vierville. Não formem grupos que possam parecer concentrações de tropas.. Depois desmontou. tropeçou. Hardelay viu-o chegar. Fox Green e Fox Red. infatigavelmente repetida há mais de uma hora: "Deixem imediatamente as aglomerações e previnam os vizinhos que não tenham ouvido esta mensagem...ª divisão americana para Omaha Beach já não tinham muito caminho a percorrer. Já ninguém podia ter dúvidas: o desembarque dar-se-ia precisamente em Vierville. a sobrinha e a criada — estava reunida na sala. dominando Easy Red. hem! Não abram fogo antes do inimigo chegar à borda da água. o rádio continuava difundir a mesma mensagem da BBC. Esta mensagem dirigese muito especialmente àqueles que habitem num raio de trinta e cinco quilômetros de qualquer ponto da costa...— Todos os canhões a meu cargo estão intatos — informou. A vida de muitos de vós depende da vossa prontidão a obediência imediata.. caiu. Aqui Londres. Ao fundo da divisão. Efetivamente.

As proas inclinadas dos batelões embatiam violentamente em cada onda. Os homens viram surgir a linha sombria da costa. que. era só mais um incômodo a suportar. observou a água que subia com regularidade dentro da embarcação que ocupava e pensou se o caso seria grave. do Newsweek. da costa.CAPÍTULO II As INTERMINÁVEIS filas de embarcações estavam a menos de uma milha da costa. vencendo o barulho dos motores. viu um soldado da 4. Muitos batelões começaram a fazer água assim que saíram dos navios de transporte. a final de contas. E. Tentaram tranqüilizar-se e pensaram que. os obuses cruzavam-se e entrecruzavam-se. estriada de espuma. os homens tinham que gritar para conseguirem ouvirse. chegavam as explosões do tapete de bombas. os homens de Kerchner ouviram um pedido de socorro: * Landing craft assault: batelões de assalto. inquietos e doentes. Sobre eles. A princípio os homens não se inquietaram com a água que lhes rodopiava em volta das pernas. .ª divisão coberto de vômito. os barcos avançavam regularmente. qual monstruoso chapéu de chuva de aço. subjugado pela sua própria infelicidade. e uma água verde e gelada. Os canhões da Muralha do Atlântico mantinham-se estranhamente silenciosos. talvez o desembarque viesse a ser mais fácil do que esperavam. Nestas embarcações não havia heróis — nada mais do que homens infelizes. deixando atrás de si longa esteira branca. tão apertados e tão incomodados pelo equipamento. Kenneth Crawford. nesta trovoada. O Tenente George Kerchner. Mas de repente. caía sobre os soldados como um aguaceiro. Nos batelões sacudidos pelas vagas. o silêncio do inimigo pô-los perplexos. que por vezes vomitavam por cima uns dos outros. pertencente à primeira vaga destinada a Utah. dos "rangers". O fragor era ensurdecedor e. sacudia a cabeça com nojo. pelo rádio. ouviu-o murmurar: — Esse tipo do Higgins não tem de que se orgulhar por ter inventado semelhante barcaça! Alguns não tinham sequer tempo de pensar na sua sorte e mal-estar — estavam totalmente ocupados com o esvaziamento da água das embarcações para salvarem a pele. Para os três mil americanos da primeira vaga de assalto a Hora H ia soar dentro de quinze minutos. gelados. Tinham-lhe repetido de mil maneiras que os LCA* eram insubmersíveis.

— Chama o LCA 860!. As tropas que avançavam para Utah Beach viram o barco-guia de uma das formações erguer-se bruscamente e explodir. Num dos sacos havia mil e duzentos dólares que o soldado Chuck Vella ganhara nos dados. cair de novo na água e desaparecer". Este oficial de vinte e quatro anos. O barco em que seguiam transportava as munições para o ataque da Ponta do Hoc e todas as mochilas dos "rangers". A tripulação de um batelão. abaixou a rampa precisamente em cima de uma mina submersa. sobrecarregados pelo material e munições que transportavam. Outros. Entre os numerosos mortos. encontrava-se o seu colega Don Neill. outros tiveram de nadar durante horas antes de serem recolhidos. a dentadura do sargentochefe Charles Frederick. que seguia num LCA. viu horrorizado um tanque "subir a mais de trinta metros no ar. Riley. como furiosos. apareceram várias cabeças. e o Sargento Orris Johnson. No barco que seguia atrás de Kerchner o Sargento Regis Mac Closkey... noutro. A frente da embarcação saltou. a esvaziar o batelão. dar uma volta lentamente. Num instante. Tanto no setor de Omaha Beach como no de Utah houve naufrágios deste tipo — dez ao largo de Omaha. afogaram-se vendo a costa de França mas sem terem disparado um só tiro. sete diante de Utah. Ordenou aos soldados que lançassem pela borda fora tudo o que não fosse indispensável. que comandava um LCI*. enfim. Imediatamente. lembra-se da cena como se fosse ontem. também dos "rangers". viram os cadáveres. Centenas de soldados. que os seguiam de perto. Havia mais de uma hora que ele e os seus homens se entregavam ao mesmo trabalho. As rações. teve de se . que tentava lançar à água quatro dos trinta e dois tanques anfíbios destinados a Utah. estava igualmente preocupado. cujos gritos e chamadas não foram ouvidos por ninguém. Alguns segundos mais tarde. e os sobreviventes agarraram-se aos destroços que flutuavam. viria a sabê-lo mais tarde. LCA 860! Estamos afundando! Estamos afundando! E por fim houve uma última exclamação: — Santo Deus! Afundamos. a caminho de Utah Beach. os homens de Kerchner puseram-se. da Coast Guard. Alguns soldados foram pescados por canoas de salvamento. Quase imediatamente deu-se uma segunda explosão. ouviram os urros e os gritos de socorro dos que se afogavam. Restava-lhe uma única esperança: deslastrá-lo suficientemente. a guerra transformara-se numa coisa pessoal. o vestuário sobressalente e as mochilas foram para o mar. O Tenente Francis X. O barco enchia-se tão rapidamente que Mac Closkey tinha a certeza de que se iria afundar.

Mas Riley tinha ordem de "desembarcar os seus homens à hora combinada. foram a pique vinte e sete tanques. . já próximas. Alguns conseguiram lançar barcos de borracha. Numa embarcação que transportava tropas do 8. Já não estão enjoados. Caffey. Afundaram-se quase metade dos tanques anfíbios.ª divisão. um a um. o Tenente-Coronel James Batte ouviu um dos seus homens murmurar. Depois a catástrofe desabou sobre o 741. "agarravam-se a elas como perdidos". de rosto ceroso. Caffey conseguiu finalmente carregar o fuzil mendigando uma única bala a oito soldados. os motores ficaram inundados e. os suportes partiram-se.° regimento de infantaria. Nada podia fazer. embora todos os homens do barco estivessem sobrecarregados de munições. Trinta e dois estavam afetos ao setor da 1. ao ver flutuar os corpos dos afogados: * Landing craft Infantery: batelões de desembarque para a infantaria. a duas ou três milhas da costa. as saias pneumáticas esfrangalharam-se. Pela primeira vez ouviram Cason blasfemar. A veemência com que falava surpreendeu os colegas.ª divisão — Easy Red. O Cabo Lee Cason. que só devia desembarcar às nove horas. sem se preocupar com os feridos". a fadiga do longo trajeto e o espetáculo ameaçador das areias e dunas de Utah Beach. Riley deixou os desgraçados para trás. Os homens içaram-se pelos painéis. que chegariam a terra sem reboque. a fim de se juntar à sua querida e velha brigada do 1. Em muitos barcos os soldados verificavam nervosamente as armas.º batalhão de tanques. Ao largo de Omaha Beach deu-se um desastre. Não tinha qualquer equipamento e. encheram os coletes salva-vidas e jogaram-se na água. destinados a apoiar as tropas de assalto. por nos terem metido nestes apuros". Tentando tapar os ouvidos para não os ouvir. começaram a avançar. Os estranhos veículos. Fox Green e Fox Red. tinha-se escapado sub-repticiamente para uma embarcação do 8. Outros afogaram-se dentro das suas prisões de aço. que acabava de completar vinte anos. Cortadas pelas lâminas. infladas de ar.° regimento de engenharia. as rampas foram descidas e vinte e nove tanques lançados ao mar. que o Coronel Eugene Caffey foi incapaz de persuadir um só dos seus homens a ceder-lhe um carregador para a espingarda. arrancaram os homens da letargia em que estavam. sustentados por enormes saias de tela impermeável. A visão dos cadáveres. O plano previa o lançamento à água. encontrou-se subitamente "a praguejar contra Hitler e Mussolini.limitar a ouvir "os gritos de angústia e súplicas dos soldados feridos que nos imploravam que os tirássemos da água". — Aqueles "safados" têm sorte. Os homens tornavam-se tão ciumentos de suas munições.° regimento de infantaria da 4. Os batelões que os transportavam alcançaram as suas posições. de sessenta e quatro tanques.

. Mas a perda dos blindados da 1. o Sargento Noel Dube. Os comandantes dos barcos que os transportavam. se movia. subindo e descendo sobre as vagas. os homens distinguiam a selva mortal de obstáculos de concreto e aço. nas dunas. Uma vedeta cortou-lhes o caminho e ordenou-lhe pelo alto-falante: — Vocês não são uma canoa salva-vidas! Avancem! Alcancem a terra! Noutra embarcação.. Nada. e nós nada podíamos fazer. era inconcebível que algo pudesse resistir ao inacreditável dilúvio de aço que se despenhava sobre as posições alemãs. mesmo mortos. milhares de foguetões deslumbrantes passaram assobiando sobre as cabeças. Os batelões iam abordar Na rebentação. A música marcial e homicida do bombardeio pareceu ir num crescendo. chamavam por socorro. voltou-se quando o barco desfilou perante os infelizes e. quatrocentos e cinqüenta. os recém-chegados viram flutuar na água os vivos e os mortos. alguns segundos mais tarde. ninguém.ª divisão iria custar centenas de mortos e feridos no decurso dos minutos seguintes.Dois tanques. Os canhões alemães continuavam calados. nos estendiam os braços. cobertos de grinaldas de arame farpado e encimados por minas. de um batalhão de engenharia.ª divisão. recitou o ato de contrição. elevavam-se docemente penachos de fumaça. Estes balançavam docemente ao sabor das ondas. Para estes homens. tão horríveis e cruéis como os tinham imaginado. seriamente avariados e quase submersos. juntarse aos seus camaradas. Para lá das defesas. Viam-se por toda parte. à beira da praia. Mac Closkey cerrou os dentes. de vigia a mil metros da costa. urravam.. pedindo aos camaradas os socorros que estes lhes não podiam dar. Aqueles. nada. nos pediam que parássemos. Salvaram-se trinta e dois. Sempre sem réplica do . Navios especiais. por entre os tufos de erva. como que procurando. quinhentos metros. As embarcações continuavam a avançar. As tripulações de outros três tiveram a sorte de se encontrar a bordo de um batelão cuja rampa emperrou. A duas milhas da costa. O Sargento Regis Mac Closkey. juntaram o seu fogo ao da frota. a ninguém". A praia estava coberta de bruma e. a praia propriamente dita estava deserta.. destinados ao setor da 29. decidiram judiciosamente levá-los diretamente até as praias. vomitou pela borda fora. Os marinheiros da tripulação empurravam instintivamente o barco para eles. Desembarcaram diretamente na praia mais tarde. à medida que as longas e sinuosas filas de embarcações se aproximavam de Omaha Beach. a bordo duma embarcação de munições que já se encontrava fora de perigo. O Capitão Ro-bert Cunningham e os seus homens viram também alguns sobreviventes que se debatiam. levados pela maré em direção à praia.. viu homens dentro da água que "gritavam. continuavam a dirigir-se para a praia.. horrorizados com a catástrofe de que haviam sido testemunhas. em seguida.

Ao longo de toda a praia. situados dos dois lados da praia em forma de meia lua — o setor de Dog Green. Levada por ondas com mais de um metro de altura. mas os de Dog Green e Fox Green não tinham a menor probabilidade de escapar. a flotilha de desembarque avançava aos saltos. em Vierville e para os lados de Colleville. * Célebres batalhas da Guerra da Independência e da Guerra da Secessão. Choveram os obuses de morteiros. A artilharia rugiu. tiveram de fazer face a este tiroteio. da Sicília. obstinando-se em acostar no local previsto. e o setor de Fox Green. No meio do barulho infernal ouviu-se um ruído. e debaixo da chuva de projéteis. Pertenciam a regimentos que haviam acampado em locais chamados Valley Forge. E iam abordar uma outra que não tardaria a ser chamada "Omaha. mais nítido. Gettysburg*. Os alemães haviam concentrado nesses pontos os contingentes mais poderosos para baterem as principais entradas da praia. Tinham atravessado as praias da África. à procura de um ponto de desembarque menos defendido. os marinheiros. da 29. Era a Hora H. que já tinham bastante dificuldade em dirigir os barcos através da floresta de obstáculos minados. mais próximo. Só a História estava a seu favor.ª divisão. incapazes de abrir uma passagem através do labirinto de obstáculos. onde foram impiedosamente metralhadas. Stoney Greek. foram rechaçadas e erraram ao longo da costa. da 1. As primeiras embarcações estavam a menos de quatrocentos metros da margem quando os canhões alemães — esses canhões que ninguém pensava pudessem ter resistido ao ataque em massa da marinha e da aviação — entraram em ação. mais ameaçador do que todo o resto — o crepitar das balas de metralhadora que vinham esmagar-se contra o casco de aço dos batelões. foram tão duramente bombardeadas que as respectivas tripulações saltaram para a água. que tinham lutado em Argonne. Superlotados. Eram alvos fáceis. Ao longo dos seis quilômetros da praia de Omaha os canhões alemães vomitaram aço. e demasiado lentos. Na barra. no oeste. Alguns . E assim desembarcaram. Outras. do cimo das falésias as peças alemãs dominavam diretamente os pesados batelões que apareciam nestes setores. na praia de Omaha. de Salerno. os barcos pareciam estar quase estacionados.ª divisão. nem mesmo trombetas. Abtietam. a Sangrenta". estes homens estafados e pouco gloriosos que ninguém invejava. no nascente. quando as embarcações abordaram. Começou então o bombardeio maciço sobre os alvos mais afastados. os homens foram submetidos a um fogo esmagador. Para eles não houve estandartes altivos. nem clarins. ainda funda. Algumas embarcações.inimigo. no interior. O fogo mais intenso vinha das falésias e dos taludes.

sobrecarregados pelo equipamento. As rampas caíram.ª divisão. E. único e inseguro abrigo que lhes era oferecido. Gearing viria a saber que era o único oficial indene da companhia. decidido a alcançar a praia. Ao longo da praia de Omaha o abaixamento das rampas pareceu dar o sinal duma recrudescência do fogo inimigo. as rajadas de metralhadora destruíram-lhe a mochila e o uniforme. Pareceu-lhe distinguir o metralhador alemão que o visava. as armas e o equipamento. Outros sobreviventes foram aparecendo um a um. Alguns . Acabou por chegar a terra firme e correu a abrigar-se junto da falésia. Gearing foi projetado para o mar juntamente com os seus homens. Abalado e meio afogado. Só tinham uma idéia: atravessar duzentos metros de areia semeada de obstáculos. Silva avançou patinhando. Em poucos segundos. Gearing viu junto de si um dos seus soldados debatendo-se sob o peso de um rádio que tinha preso às costas e berrando: — Por amor de Deus! Estou me afogando! Ninguém pôde socorrer o radiotelegrafista antes que se afogasse. em águas que por vezes os cobriam totalmente. a vários metros do local onde o barco fora a pique. os batalhões da 29. Silva teve a impressão de servir de alvo no tiro aos pombos. transportando trinta soldados da 29. Todos os outros estavam mortos ou gravemente feridos.batelões voaram em pedaços ao chegar a terra.ª divisão encalharam nos bancos de areia. e sem qualquer espécie de proteção. e os homens mergulharam em águas com uma profundidade de um a dois metros. enfraquecidos devido ao enjôo. O barco do segundo-tenente Edward Gearing. galgar a praia seixosa e alcançar o sopé das falésias. uma vez chegado. Esgotados pelas infindáveis horas passadas a bordo dos transportes e batelões. Quando chegou a sua vez. mas não pôde ripostar. Estava com o fuzil cheio de areia. peado pelo equipamento. os soldados tiveram de lutar pela vida. mergulhou na água até as axilas e. foram apanhados por um fogo cruzado de metralhadoras e armas ligeiras. O soldado David Silva viu os companheiros que o precediam morrerem um a um ao transporem a rampa. ignorando totalmente que estava ferido nas costas e na perna direita. Ao chegarem a Dog Green. e novamente o tiro mais pesado dirigiu-se para os setores de Dog Green e de Fox Green. a trezentos metros da saída de Dog Green. duma metralha mais concentrada. junto de Vierville. Para Gearing e o que restava da sua seção as provações tinham apenas começado. desintegrouse num segundo. à borda da água. Ao longo da praia. os homens iam perecendo. Mas. ficou petrificado ao ver as balas que à sua volta chicoteavam a superfície. Tinham perdido os capacetes. Levariam ainda três horas para alcançar a praia. o tenente de dezenove anos subiu à superfície. incapazes de correr em águas profundas.

docemente embalado pela maré. Os sobreviventes quiseram correr a abrigar-se junto às falésias. Levantou-se e correu de novo. O soldado de primeira classe Nelson Noyes. e os homens. recitado aos seus homens A execução de Dan McGrew. ligeiramente a oeste de Vierville. curvado sob o peso da bazuca. comandante da companhia. nuns escassos minutos de massacre. a corrente bastante forte puxando .ª. gravemente feridos ou desapareceram. agruparam-se junto do sopé da falésia durante todo o dia. Os oficiais foram mortos. enquanto a maré enchia. Estava ali estendido quando viu os dois alemães que o tinham atingido debruçarem-se. a mirá-lo. no inferno de Fox Green. do alto da falésia.morriam instantaneamente. O Capitão Charles Cawthorn viu o cadáver do amigo. Goranson. os "rangers" desembarcaram de duas embarcações. todos pereceram. os "rangers" foram regados por rajadas de metralhadoras. Alguns encontravam-se a três quilômetros. Quando o Capitão Ralph E. já fora ferido numa perna. e conquistar a saída de Les Moulins. Assim que começou a descer a rampa do segundo. Quase todos os batelões desembarcaram ligeiramente a nascente dos pontos previstos. A pouca sorte desabava sobre os homens da praia de Omaha. Um após outro. viram que estavam na extremidade oriental da praia. dos setenta que pertenciam à companhia. por exemplo. com a primeira vaga de assalto. Quando conseguiu abrigar-se. sem armas. Foram dizimados. O Capitão Sherman Burroughs estava entre os mortos. que mataram e feriram quinze. só lhe restavam trinta e cinco "rangers". No mesmo setor outra companhia sofreu perdas ainda maiores. Noyes levantou-se. o Capitão Carrol Smith não pôde deixar de pensar que Burroughs "não sofreria mais daquelas atrozes enxaquecas". disparou a metralhadora e abateu-os. E. Os soldados souberam que não tinham sido desembarcados nos respectivos setores. Cawthorn perguntou a si próprio se Burroughs teria. As unidades que deviam desembarcar em Easy Green. outros imploravam o auxílio dos médicos. ao vê-lo. O desvio de uma vedeta-piloto. Ao pôr do sol sobreviviam doze. toda uma companhia foi posta fora de combate. avançou cem metros até ser forçado a deitar-se por terra. Apoiando-se nos cotovelos. Em Dog Green. Burroughs tinha recebido uma bala na cabeça. O primeiro batelão foi quase instantaneamente afundado pela artilharia alemã e a um tempo morreram doze homens. A batalhões da IX divisão misturavam-se seções da 29. Em Dog Green. A companhia C do 2° batalhão de "rangers" recebera ordem para aniquilar os pontos fortificados de Pointe-de-la-Percée. submergindo-os inexoravelmente. como tencionava. feridos. chegou por sua vez junto à falésia. Menos de metade dos efetivos sobreviveu à marcha sangrenta dos batelões até à borda da praia.

Em volta dos destroços em fogo caíram cadáveres e membros isolados.ª divisão.° batalhão de assalto de engenharia civil. os atiradores visavam as minas colocadas em cada um. frouxo e repugnante. por pouco os não esmagaram. com um só tiro de morteiro." Davis não compreendia como um só ser poderia ter sobrevivido à terrível explosão. tomaram-nos por alvos. Foram pescados. Enquanto diversos grupos fixavam as cargas de plásticos. Os batelões. dirigir-se para ele. foram atingidos por obuses e incendiaram-se junto à praia. Esta catástrofe não excedeu em horror a que atingira a unidade de Davis. que transportavam explosivos. Diversas companhias.. mas salvaram-se dois homens. mas vivos. Ao cair da noite estava a bordo dum navio-hospital. só metade dos homens sobrevivera. Outras vezes pareciam esperar que os sapadores tivessem preparado a destruição de longas fileiras de cavaletes e tetraedros de aço ou concreto. enquanto pensávamos no que poderíamos fazer. mas tudo se voltou contra eles — a eles juntaram-se elementos da infantaria. isolados num terreno que não reconheciam. a bruma e a fumaça das fogueiras de silvados. e os batelões. do 299. Deu-se terrível explosão. o barco desintegrou-se. que disfarçavam os marcos de referência. treinadas para atacarem determinadas posições. Desorientados. Durante os escassos minutos que lhes restavam até à chegada da vaga seguinte. mas também se atrasaram alguns minutos fatais.para este. um torso decepado voou. gravemente feridos. só conseguiram limpar cinco passagens e meia. cheia de tropas da 1. Mais uma vez as tropas alcançaram terra chafurdando sob o fogo contínuo . A segunda vaga de assalto chegou ao caos de Omaha. Havia pequenos grupos colados ao solo. Mas a batalha estava perdida de antemão. erguidos pelas ondas. O Sargento Barton A. os heróicos sapadores da brigada especial de engenharia. onde se encontravam. viu. com a energia do desespero. 0 próprio Sargento Davis foi ferido. a caminho da Inglaterra. Davis teve a impressão de todos os ocupantes terem sido projetados para o ar.. Os alemães. como pontos negros. horrorizado. "Vi homens. Ao fim do dia. em vez das dezesseis previstas. os homens começaram a trabalhar aqui e ali. As brigadas de demolição. nunca chegaram a vê-las. que deviam abrir passagens através dos obstáculos. Eram sete horas. não só se dispersaram. através dos obstáculos. para então fazerem ir tudo pelos ares. Davis. outros abrigaram-se atrás dos obstáculos. que se preparavam para fazer ir pelos ares. Trabalhavam contra relógio. ao verem os soldados da brigada de engenharia no meio dos obstáculos. tudo contribuíra para que se cometessem erros. tentarem nadar através do lençol de gasolina estendido sobre o mar e. muitas vezes sem oficiais nem meios de comunicação. uma embarcação. antes da brigada se poder proteger. e caiu junto de nós.

desorientados devido aos erros de . Os bulldozers jaziam de lado entre os obstáculos. Cada nova vaga de embarcações dava o seu tributo sangrento à maré enchente e.do inimigo. Material pesado. corda e arame farpado. juntando os bordos da ferida. Pareciam tranqüilos. não dá? O enfermeiro. Eigenberg encontrou tantos feridos que "não soube por que ponta começar. ferramentas de terraplenagem. Em Dog Red viu um soldado muito jovem. detectores de minas e centenas de armas. nos seixos e nos limos. nem por quem". Viam-se enormes rolos de fio.ª brigada especial de engenharia. caixas de rações. estavam calmos e silenciosos. sentado na areia. Eigenberg fez a única coisa que lhe veio à cabeça: uniu-os com alfinetes de segurança. lembra-se de ter ficado espantado com "a extraordinária delicadeza dos mais gravemente feridos". O soldado estava fortemente abatido. capacetes e cintos de salvação. rádios partidos. um violão flutuava à deriva entre os destroços. Em seguida. ao longo da praia docemente encurvada. os americanos mortos acotovelavam-se meigamente dentro da água. muito direitos. como se se julgassem imunizados. Os soldados que os viram notaram que aqueles que ainda o conseguiam mantinham-se sentados. Deu-lhe uma injeção de morfina e disse: — Claro que sim. com uma perna "aberta do joelho até a virilha com tanta precisão como se tivesse sido operada a bisturi". que tinha apenas dezenove anos. iam-se amontoando na praia. A praia estava semeada de pequenas ilhotas de feridos. aparentemente indiferentes a tudo o que os rodeava. Com a maior calma disse a Eigenberg: — Já tomei uns comprimidos de sulfamida e polvilhei a ferida com todo o pó de sulfamida que tinha. Os cascos perfurados dos batelões surgiam nas mais extraordinárias posições. caixas de munições. O Sargento Alfred Eigenberg. Durante os primeiros minutos após ter chegado à praia. abrigavam-se atrás dos cadáveres. marmitas de aço. Os homens estavam estendidos ombro a ombro. Isto dá para ir. telefones de campanha. Passados alguns minutos. desde fuzis partidos até bazucas inutilizadas. Perto de Easy Red. Tanques em chamas cuspiam enormes espirais de fumaça negra. enfermeiro da 6. O mar lançava à praia os restos e destroços do exército invasor. A ferida era tão profunda que Eigenberg viu latejar a artéria femoral. Pregados ao solo pelo fogo de um inimigo que julgavam aniquilado. Acocoravam-se atrás dos obstáculos. Os homens da terceira vaga de assalto chegaram no meio deste caos e desta confusão — e estacaram. vai ficar bom. desembarcaram os da quarta vaga — e estacaram. máscaras antigas. não soube muito bem como responder. Novos batelões se juntaram aos montões de destroços fumegantes ou em chamas. na areia.

Compreendendo por fim que ficar na praia equivalia a uma condenação à morte. Os próprios obstáculos eram menos terríveis do que temiam.ª divisão. O soldado de . as saias de tela pendendo molemente à sua volta. O soldado de primeira classe Ray Mann sentiu-se "um tanto gozado" porque. os soldados da 4. "apesar de tudo. facilitando muitíssimo o trabalho das brigadas de demolição. aqui e ali havia uma explosão. após o bombardeio preliminar. em Slapton Sands. os homens começavam a levantar-se e a avançar. Ao longo de mil e seiscentos metros de areia. O Sargento William Mac Clintock. estavam os tanques anfíbios. pertencente à segunda vaga de assalto. estupefatos ao verem os destroços. * A quinze quilômetros. Surgindo da água com a primeira vaga. mas nada comparável ao tiro de barragem e às furiosas lutas corpo a corpo que esperavam os homens cansados e excitados da 4. A sua aparição. Alguns ficaram até decepcionados. aterrados pela devastação e morte que os rodeava.ª divisão invadiam a praia e dirigiam-se para o interior. considerando-se quase logrados. cavado uma saída no talude que circundava a praia. e todos emergiam. Contudo. os longos meses de treino em Inglaterra. Raros eram os que estavam minados. pensaram que tudo estava perdido. por assim dizer. O soldado de primeira classe Donald N. uma das principais razões da vitória. o desembarque não era lá grande coisa". parecia ter desmoralizado a guarnição alemã. desconcertados com a ausência de crateras de obuses. presas de estranha letargia. apenas alguns cones de cimento-armado. Caíam alguns obuses. Os sapadores tinham aberto uma brecha de cinqüenta metros através das fortificações. alheio às rajadas de metralhadora que varriam a praia. e calculavam ter tudo limpo dentro de uma hora. Lá estava "jogando pedras ao mar e chorando silenciosamente. Tal prosternação não subsistiria. os homens ficaram à beira-mar. como que petrificados. oposição inimiga.º batalhão de tanques. A terceira vaga acabava de desembarcar e não havia.navegação. que esperavam encontrar depois do bombardeio aéreo e nas quais pensavam refugiar-se. matraqueavam algumas metralhadoras. em Utah Beach. Alguns. como se o coração lhe fosse rebentar". encontrou um soldado sentado à borda da água. teve a impressão de não passar de "uma manobra como tantas outras". Numerosos foram os que compararam o desembarque a simples exercício. do 741. Jones. tinham sido mais penosos. também tiveram o seu quinhão de perdas e miséria. tinham dado eficaz apoio às tropas que avançavam pela praia. pirâmides e ouriços de aço semeados pela praia.

O Sargento Harry Brown.ª divisão. com o olhar fixo. Roosevelt apressou-se a apresentar segunda. arrastada por forte corrente . as baterias pesadas. um obus explodia na praia fazendo rebentar os tufos de ervas. passeando como quem procura um terreno à venda". Naquele momento. Numa nota dirigida ao General Raymond O. comandante da 4.primeira classe Rudolph Mozgo. a vinte passos de mim". do 8. Roosevelt correu para o soldado. Um tanque fora atingido em cheio e Mozgo viu "um dos homens que pendia da torre blindada". da 1. "Quando me despedi de Ted. em perfeito estado de choque. só Roosevelt e alguns dos seus oficiais sabiam que o desembarque em Utah não se dera no ponto previsto. sem boné e sem equipamento." Vivo. Desorientada pela fumaça do bombardeio naval que lhe escondia os pontos de referência. tinha um ar tão natural que Wolfe "teve vontade de sacudi-lo para que acordasse". assim que pôs pé na areia. Quando desembarcaram os batelões da terceira vaga. De quando em quando. rapaz. Morreu uma dúzia de homens. O General-de-Brigada Theodore Roosevelt caminhava de um lado para outro da praia." brigada especial de engenharia. Barton cedeu a contragosto. Roosevelt defendeu a sua causa dizendo: "Os meninos ficarão tranqüilizados ao verem-me a seu lado". Apesar dos seus cinqüenta e sete anos — foi o único general a desembarcar com a primeira vaga — insistira em que lhe confiassem aquela missão. ouviu-se de súbito o roncar de uma peça alemã de 88 e a praia foi varrida por obuses. "uma bengala numa das mãos e um mapa na outra. viu um cadáver. Ao mesmo tempo que chamava um enfermeiro. cabeça erguida. ficou petrificado com o espetáculo oferecido por um homem "decapitado por uma explosão de obus. na Inglaterra. O homem estava tão plácido. viu-o. mas estavam diante do setor onde se deveria ter dado o ataque. preparei-me para nunca mais voltar a vê-lo vivo. O que foi um erro feliz. E o soldado Edward Wolfe passou diante de um americano morto "sentado na praia. Barton. que poderiam ter dizimado as tropas. a cara negra. Depois de ver indeferida a primeira proposta. dando de vez em quando uma massagem no ombro artrítico. O Segundo-Tenente Herbert Taylor. uma silhueta solitária surgiu da fumaça. enquanto os homens avançavam lentamente dentro da água. recostado a um poste.º regimento de infantaria. Volvidos um ou dois segundos. O erro tinha diversas causas. que explodiram no meio das tropas. Roosevelt parecia ficar irritado e escovava-se com um gesto impaciente. mantinham-se intactas. o indomável Roosevelt estava bem vivo. Segurou-o pelos ombros e disse-lhe meigamente: — Acho que vamos te levar para um barco. como se dormisse". O homem continuava a avançar. e a decisão tomada atormentava-o.

O destroyer era o único alvo facilmente visível pelos alemães. Podia deixá-los desembarcar naquele setor improvisado. e atacaria o inimigo quando e onde o encontrasse. no mesmo instante.ª divisão iria embrenhar-se pelo interior. Os alemães ripostavam — e bem. Em vez de invadir a zona da praia compreendida entre as passagens 3 e 4 — dois dos cinco aterros para onde se dirigia a 101. que dispunha de dois aterros. o Corry abrira-a em duas com cento e dez obuses bem colocados. os homens comandados por Cole aguardaram a chegada dos soldados da 4. — Previna a marinha de que deve desembarcar aqui o resto.ª e 82. mas o avião do Corry fora abatido. Roosevelt preparava-se para tomar uma decisão capital. Em vagas sucessivas iam chegar trinta mil homens e três mil e quinhentos carros. o local ficaria transformado em enorme massa. as peças vomitavam oito obuses por minutos. Hoffman resolveu . Vamos começar a nossa guerra a partir deste ponto. O general consultou os oficiais e tomou uma decisão.ª divisões aerotransportadas acabava de alcançar a extremidade oeste da passagem 3. A oposição era fraca e os homens da 4. estavam em brasa.ª divisão atravessaram rapidamente a praia. a 4. * Ao largo de Utah Beach os canhões do Corry.paralela à costa. antes que o inimigo se recompusesse da surpresa. Escondidos nos pântanos. Desde que o Capitão-de-Corveta George Hoffman ancorara o destroyer que comandava diante da praia. Cabia à aviação lançar uma rede de fumaça. Tudo dependia da rapidez de ação. Por um capricho do destino.ª divisão aerotransportada — toda a cabeça de ponte se desviara cerca de dois mil metros e avançara pela passagem 2. Havia que desobstruir a passagem o mais depressa possível. Foram os primeiros pára-quedistas a chegar a um dos aterros. uma vedeta-piloto conduzira os batelões da primeira vaga a cerca de dois quilômetros do ponto previsto para o desembarque. relativamente calmo e com um único aterro de passagem. Renunciando aos objetivos previstos. seguindo o único aterro.ª divisão. da 1. Uma das baterias alemãs já não inquietaria ninguém. Os marinheiros regavam as torres blindadas com mangueiras de incêndio.ª brigada especial de engenharia: — Vou avançar — disse. Cole e pequeno grupo composto por elementos da 101. ou dirigi-los para a praia prevista. Roosevelt dirigiu-se ao Coronel Eugene Caffey. o TenenteCoronel Robert G. À saída da passagem 2. Uma bateria instalada nos promontórios dominando a praia de Utah — os clarões dos fuzis localizaram-na perto da aldeia de Saint-Marcouf — parecia concentrar a sua fúria sobre o destroyer assim exposto. de tanto dispararem. Se a única passagem não fosse aberta e mantida. a fim de proteger as "embarcações de suporte".

Hoffman olhou para trás. ao ver o Corry em apuros. Mas o Corry navegava em águas pouco profundas.afastar-se antes que fosse demasiado tarde. ligadas unicamente pelas superestruturas. que nesse momento espreitava por uma vigia. Por fim. a sorte abandonou o Corry. que febrilmente saltava para as lanchas e jangadas. Na casa número dois a caldeira saltou. em seguida para estibordo. parando de repente. O destroyer Fitch. O timão emperrou. Durante terríveis minutos foi forçado a brincar de gato e rato com os artilheiros alemães. precisamente nesse instante. A ponte estava mergulhada a sessenta centímetros da superfície quando . avançando de novo. considerando-se fora de perigo. A proa e a popa ergueram-se para o céu. Foi projetado contra o teto e fraturou um joelho ao cair. escaldando a tripulação. Por pouco a mina não cortou o Corry em dois. Deslizando a mais de vinte e oito nós. começou por sua vez a disparar sobre a bateria de Saint-Marcouf. O navio foi meio projetado para fora da água por tremenda explosão. conta-nos hoje o radiotelegrafista Bennie Glisson. o Corry continuava a avançar. Hoffman forçou o Corry a executar verdadeiro bailado. seguro de que se desviara dos recifes. Uma brecha com mais de trinta centímetros de largura sulcava a ponte. Mas nada a esmoreceu. desviando-se para bombordo. Quase enquadrado pelos seus projéteis. Em pouco minutos. junto de recifes. nove obuses ou mais atingiram o casco do Corry. o destroyer bateu em cheio numa mina. um fez ir pelos ares as munições das peças de 40 mm. Poucos sobreviveram. Bennie Glisson. O amontoado de ferros torcidos em que se transformara o Corry cobriu mais de mil metros antes de parar. fazendo brotar gêiseres. ordenou: — Tudo à direita! Em frente! O Corry deu um salto. Hoffman deu ordem de abandonar o navio. e o comandante não dominava completamente a manobra. avançando. e sempre fazendo fogo ininterruptamente. As casas das caldeiras e das máquinas ficaram inundadas. Mas. recuando. fazendo-o crer que "um tremor de terra tinha levantado o navio". uma espécie de valsa hesitante e sacudida. "O nosso barco virou-lhe o traseiro como uma solteirona a um marinheiro". teve a impressão de ser "mergulhado numa betoneira". Embora privado de vapor. Outro acionou o gerador de fumaça instalado na popa e por pouco não asfixiou a tripulação. Uma chuva de obuses caía na esteira do Corry. Tentando adivinhar o ponto de queda das salvas seguintes. Hoffman conseguiu contudo afastar-se. Hoffman notou que alguns dos canhões ainda funcionavam — os serventes carregavam-nos e disparavam à mão. A violência do choque atordoou Hoffman. Foi imediatamente cercado pelas baterias alemãs. Respirou fundo. No posto de rádio.

que perdeu um tempo precioso a reconduzir os batalhões para o ponto correto. cujo pau estava partido. mais perdas do que houvera até então na praia de Utah. viuo sob um dilúvio de fogo prender o pavilhão e içá-lo até ao cimo do mastro. * Os morteiros transportando cordas foram disparados sobre o pico da falésia da Ponta do Hoc. comandado pelo Tenente-Coronel Max Schneider. A tripulação. ameaçavam de ambos os lados o setor americano. mas quando as lanchas e jangadas se afastaram houve quem visse. Pouco depois. O Corry afundava-se lentamente e pousava no fundo. Apanhou calmamente o pavilhão. Rudder foram metralhadas por uma chuva de aço de armas ligeiras. ora agarrando-se aos destroços. Ao largo. chegou ao mastro da frente. Estavam ligeiramente protegidos das rajadas de metralhadoras e das granadas. fazendo-o estalar. Os nove batelões que transportavam os duzentos e vinte e cinco homens do 2° batalhão de "rangers" aglomeraram-se na faixa de praia sobranceira à falésia. teve treze mortos ou desaparecidos e trinta e três feridos. mas não muito. que esperavam a algumas milhas ao largo. atingir o sopé da falésia na Hora H. um marinheiro escalando a popa do Corry. A terceira vaga de assalto abordava entre as praias de Omaha e de Utah. Mas a vedeta-piloto desviara-se e conduzira a pequena frota até à Pointe-de-la-Percée.° batalhão de "rangers". o gajeiro do Butler. Os "rangers" de Rudder deviam. de duzentos e oitenta e quatro homens. lançando derradeiro olhar ao navio. as três companhias de "rangers" do Tenente-Coronel James E. de trinta metros de altura.Hoffman. Foi a perda mais grave da marinha americana durante o Dia D. Em seguida afastou-se a nado. o vento desfraldou-o. o Coronel Schneider deveria supor que o ataque malograra e dirigir-se para Omaha Beach. Hoffman pensava ter sido o último a deixar o Corry. que podiam avançar. segundo os serviços secretos aliados. de outros navios. a fim de assinalar aos outros "rangers". Dick Scrimshaw. deixando emergir os mastros e uma parte da superestrutura. Scrimshaw viu o pavilhão pender um instante sobre os destroços do Corry. Se nenhum sinal fosse dado até as sete horas. Enganava-se. e depois. O erro não passou despercebido a Rudder. em princípio. o destroyer inglês Talybont e o americano Satterlee bombardeavam o cimo metòdicamente. Esta demora custou-lhe quinhentos homens de apoio — o resto do 2° e do 5. Com espanto e admiração. O plano previa que Rudder lançasse foguetes atingindo o cimo da falésia. Ninguém sabe hoje quem lá ficou. mergulhou e nadou até uma jangada. cinco quilômetros a leste. Ao tentarem reduzir ao silêncio as baterias pesadas que. ora a nado. a fim de . a seis quilômetros.

atrás da 29.avançar para oeste. os alemães metralhavam os "rangers". com a energia 4o desespero. Não tendo sido lançado qualquer foguetão. a falésia alta como um prédio de nove andares. De armas a tiracolo. abriram com facas pontos de apoio e começaram a trepar. Como conseguiu continuar a escalada não o saberia dizer. os capacetes alemães. Os homens atravessavam a faixa de praia crivada de covas de obuses. Petty experimentou então usar uma escada. O assalto tomou foros de fúria. mas na mesma escada havia homens que subiam antes e depois dele. descarregavam as chalupas e disparavam sobre a falésia — tudo isto ao mesmo tempo. equipados com enormes escadas telescópicas. O Sargento Perry. foi de repente atingido por uma chuva de terra e cascalho. tentavam alcançar a costa. como moscas. cedidas pelo corpo de bombeiros de Londres. O espetáculo era apocalíptico. os "rangers" regavam as posições inimigas com fuzis automáticos Browning e metralhadoras. Eram sete horas e dez. Stein e o soldado de primeira classe Carl Bombardier. Debruçados sobre a falésia. por a corda estar molhada e cheia de lama. Por duas vezes foram cortadas as cordas por onde subia o soldado de primeira classe Harry Robert. Os "rangers" saltavam de abrigo em abrigo. o homem largou . afastando-o do rochedo. mas embora fosse excelente ginasta. "Lutou durante uma eternidade" contra o colete. À terceira tentativa. Petty viu um soldado que subia a seu lado inteiriçar-se de repente e cair de pernas para o ar. vertendo sobre os "rangers" torrões de terra e uma saraivada de pedras. e o inimigo lançava granadas "espremedor-de-batatas" ou metralhava-os com Schmeissers. que iniciava a subida pela terceira vez. Os foguetões subiam.ª divisão. Do cimo das escadas. dois carros anfíbios DUKWS. arrastando os cabos e escadas de corda munidos de fateixas. No cimo da falésia apareciam. Sob os seus olhares horrorizados. Recomeçou novamente. Já tinham sido montadas cerca de vinte cordas. subiu dez metros. Obuses e balas de metralhadoras varriam o cimo. conseguiu alcançar um pequeno nicho junto do topo da falésia. Rudder e os seus duzentos e vinte e cinco "rangers" ficaram sem apoio. apesar do fogo cerrado dos destroyers e da metralha lançada das escadas de bombeiros. no intuito de atacar a bateria pela retaguarda. Ouviram-se urros quando os alemães cortaram as cordas e os "rangers" se despenharam no vácuo. Alguns nem sequer esperaram que as cordas estivessem presas. mas caiu quando a escada foi cortada. Alguns cravaram por fim diversas fateixas e os soldados começaram a subir por escadas e cordas. aqui e ali. 0 Sargento Billy Petty quis subir a pulso. Schneider dirigiu-se portanto para a praia de Omaha. não o conseguiu. Diante da Pointe-de-la-Percée. 0 Sargento Herman Stein por pouco não deitou tudo a perder quando a Mae West (colete pneumático de salvação) que trazia vestido se enfunou acidentalmente. de vinte anos apenas. também o viram.

tratava os moribundos e fechava os olhos dos mortos — cerca de vinte e cinco homens. chefe de seção da Resistência. Petty pensou que ele "levava uma eternidade até se esmagar na praia". Os bunkers meio destruídos da Ponta do Hoc estavam vazios — os canhões nunca tinham sido montados*. numa cornija no bordo da falésia. covas de obuses e fendas a perder de vista — uma medonha terra de ninguém de pesadelo. 0 tiroteio cessara. Fato atroz: todo este esforço heróico fora inútil. com um cheiro acre de pólvora. Uma leve bruma cobria a terra revolta.a corda e caiu. Tenente James Eikner. Os canhões destinavam-se provavelmente às posições da Ponta do Hoc. tentara em vão transmitir para Londres era exata. de onde o oficial de comunicações. O Coronel Rudder já estabelecera o primeiro P. Fez-se estranho silêncio. O número de "rangers" diminuía de minuto a minuto. não se vislumbrava um só inimigo. pediatra na vida civil. Petty "descongelou num instante" e içou-se desesperadamente até o topo. sobre o rebordo da cova em que se abrigara. Os homens chegavam ao cimo por todos os lados. Ao fim do dia.. O próprio Petty agarrou-se à corda com mais força. A informação que Jean Marion. naval e aéreo. Mas as balas de metralhadora estimularam-no. esgotado devido à escalada. conseguira abordar um batelão com munições. O Sargento Regis Mac Closkey que. * Duas horas mais tarde uma patrulha de "rangers" encontrou abandonada uma bateria de cinco canhões. e para onde quer que se olhasse só se viam crateras. viu o planalto da Ponta do Hoc como um espetáculo incrível e fantástico. E. furado por todos os lados. retomava alento com os quatro municiadores da sua automática Browning. viu dois pardais disputando uma minhoca. mas os "rangers" não viram soldados. o Sargento Petty. Não conseguia erguer a mão e lembra-se de ter dito em voz alta: "Não. fazendo ricochete de cornija em cornija. Enfiado num buraco no cimo da falésia. com grande esforço. paralisado. o major-médico dos "rangers". Era um tanto otimista. nem nada que lhes indicasse que os tivesse havido. no interior das terras. Quando as rajadas se aproximaram.C. O que significava: "Todos os homens estão no cimo da falésia". não restariam mais de noventa. Pirâmides de obuses cercavam as peças prontas a disparar. numa posição camuflada a cerca de dois quilômetros. dos duzentos e vinte e cinco iniciais. — Estão comendo o pequeno almoço. — Olhem — disse aos seus companheiros. enviou a seguinte mensagem: "Deus seja louvado". é difícil demais". abrigando-se em covas de obuses. No sopé da muralha natural. a ponto de lembrar as "crateras da lua". e o ar estava pesado. Sobre a falésia não havia canhões. enquanto os soldados chegavam em massa e se abrigavam nas covas protetoras. Petty deu uma olhadela um tanto sonhadora à sua volta. O solo estava cavado por obuses e bombas do bombardeio preliminar. .

lançavam-se à batalha ao som dolente das gaitas de fole. Mesmo os obstáculos e o fogo inimigo foram encarados com certo desprendimento. comandado pelo General M. saudavam-no a seu modo erguendo os polegares. triste ou alegre. chegou a terra. Noutro batelão um major da 5. dias sombrios em que tinham estado sós. De um barco lança-foguetes. trate de levar os meus homens à terra. colocadas sobre os obstáculos e disse ao timoneiro: — Por amor de Deus. Os canadenses que se dirigiam para Juno Beach ouviram as notas agudas de uma trombeta. não derrube esses malditos cocos. achou que "eram os tipos mais bacanas que jamais vira". ou iremos todos direitinho para o inferno. diante de Gold Beach. Esperavam por este dia há quatro anos. O. e a estudada indiferença que os britânicos afetam para esconder as suas emoções. À medida que os batelões passavam diante do Scylla. Alguns soldados cantavam. Havia também os franceses. inumeráveis incursões aéreas.º destacamento da marinha real foi recebido por um fogo cerrado de metralhadoras diante da praia de Juno e os homens abrigaram-se . ardentes e impacientes. O soldado Denis Lowell recorda que "os rapazes estavam de pé e entoavam todas as velhas canções do exército e da marinha". O batelão do 48. Na outra metade do setor de invasão o 2. começou a última fase do desembarque. com pompa e cerimônia.ª divisão contemplou as minas. de dezoito anos. no dia em que voltavam à terra natal. retiradas humilhantes. Encostado à amurada. meu amigo. o marinheiro Ronald Northwood. mas também recordações amargas — Munique e Dunquerque. navio-almirante de Vian. com as suas contas por ajustar depois das perdas sangrentas de Dieppe. brotaram os versos de Não sabemos para onde vamos.' brigada especial. em forma de pratos. Reinava estranho júbilo. Não se limitavam a atacar as praias. Ao largo de Sword o alto-falante dum batelão de salvamento fez ouvir a popular polca Roll out the Barrei. o telegrafista John Weber observou um capitão da marinha real que estudava a complicada rede de obstáculos minados para defesa da costa e ouviu-o murmurar calmamente ao patrão do barco: — Se quer ser um bom rapaz.* Nesse momento da grande e trágica manhã. A bordo de um LCT. Os canadenses acompanhavam-nos. impecáveis e resplandecentes nas suas boinas verdes (os comandos haviam-se recusado a usar capacetes). E os homens da 1. comandada por Lord Lovat. Dempsey.º Exército britânico.

" Alguns só a custo podiam esperar que a batalha começasse. ficando mergulhado até aos . saltou da embarcação. voltou à superfície. num assento sobrelevado. acelerou o motor da sua Bren autopropulsora e. o Major C. os salpicos das ondas e o ribombar do tiroteio. estavam diante da rampa de uma embarcação e. Mac Quaid observou com gravidade: — De Lacy. de Shakespeare. não achas que alguns destes tipos têm um ar um pouco tímido? Ao aproximar-se da costa. fez de novo o gesto que provocara a inimizade entre ambos. assoprando e cuspindo. salvo o Capitão Daniel Flunder. Considerar-se-ão malditos por não estarem aqui. passeou de cabeça erguida. Enfiando calmamente a bengala debaixo do braço. fortificados com uns bons goles do rum da armada real. King lia ao alto-falante: "E os fidalgos que dormem agora na Inglaterra.. — Vejo muito bem assim! Enquanto saíam da água.nas superestruturas. o soldado Hubert Victor Baxter. lia imperturbável o Henrique V. o sargento.ª divisão britânica. com os olhos à altura da máscara blindada. o Sargento "Dinger" Bell. A seu lado. de ponta a ponta do convés. mergulhou. conforme prometera a si próprio. da 3. James Percival de Lacy. William Millin. uma bala atravessou-lhe a bolsa dos mapas). A bordo de um batelão que se dirigia para Sword Beach. Todos. King. com quem Baxter tivera diversas disputas nos últimos meses. que algumas horas antes fizera um brinde a Valera "por nos ter livrado da guerra". Mac Quaid berrou para a costa coberta de fumo: — Saiam daí. e vociferou: — Os safados! Querem afogar-me antes de eu chegar à praia! Ao desembarcar em Sword. De Lacy gritou aos seus homens: — É agora! Vamos! Corram! O fundo da embarcação raspou na praia. Enquanto os soldados saíam correndo. estava o seu inimigo íntimo. Dois sargentos irlandeses. e venham bater-se conosco! Acabava de pronunciar estas palavras quando desapareceu debaixo da água. Bell gritou: — Baxter! Levante o assento e veja para onde vai! — Não há perigo — ripostou Baxter.. se são homens. levado pelo entusiasmo do momento. Deu um soco no capacete de Baxter e rugiu: — Avante! Avante! Quando chegaram a Sword Beach. o tocador de gaita de fole de Lord Lovat. Volvido um instante. observavam os soldados com ar solene. Entre o fragor dos "diesels"." (E enquanto palmilhava o convés. e o seu inseparável Paddy Mac Quaid. Olhando fixamente para os ingleses que os circundavam. "Pensei — explicou mais tarde — que era a única coisa a fazer.. K.. conhecido por Paddy.

Enquanto Millin patinhava em direção à praia. Os pilares. Taylor e os seus companheiros começaram o trabalho metòdicamente. misturado com os assobios das balas e o ribombar dos obuses. Os homens-rãs foram os primeiros a chegar — cento e vinte peritos em trabalhos de demolição — para abrirem caminhos de trinta metros através dos obstáculos. Mas não desistiu. barrotes. E ficou aterrado ao ver "o incêndio que dominava o convés" de um LCT que passou . Quando a sua embarcação abordou. explodirem de encontro às minas. Os homens-rãs. nadou num labirinto de estacas de aço. Os soldados desfilavam à sua frente ao som de O Caminho para as Ilhas. em toda a extensão das praias. Sob o fogo inimigo. Webber viu "batelões em chamas. seguidos de perto pela primeira vaga de assalto. a oeste — as tropas britânicas invadiram a costa. na foz do Orne. empurradas pela corrente. os batelões afundaram. Dispunham de vinte minutos para efetuar este trabalho. montões de ferro-velho na praia. Millin levou a gaita à boca e ao som áspero do instrumento continuou a avançar através dos obstáculos. Juno e Gold — numa extensão de trinta quilômetros. pardal maluco! — gritou-lhe outro. e ouvia o fragor dos morteiros. Trabalhavam ainda quando os tanques anfíbios chegaram. — Deita-te de borco. Quando o Sargento John B. pontas de ferro e cones de concreto. Em pouco tempo o mar parecia um cemitério de barcos. No setor que devia limpar. tanques e bulldozers ardendo". viu a fantástica rede de defesas submarinas que o cercava. as enormes vagas e os obstáculos submarinos causaram mais perdas do que o fogo inimigo. viram as embarcações. alguns com cinco metros de comprimento. Jock! — disse-lhe um soldado. da marinha real. Já na praia e desprezando a metralha. Ao longo das praias de Sword. os obstáculos foram pelos ares. parou. antes que se aproximasse a primeira vaga de assalto. que se apressavam a sair da água. Via a fumaça nascer na praia. Lord Lovat gritoulhe: — Toca-nos Highland Laddie. os barrotes e as estacas esquartejaram os cascos de aço e. em quase todo o setor. eram demasiado grandes para serem destruídos aos grupos. rapaz! Com água até à cintura. diante dele. tomou fôlego e começou a pavonear-se deitando os bofes pela boca fora. O Sargento Peter Henry Jones. — Assim mesmo. Jones encontrou doze obstáculos enormes. A areia cobria-se de homens saídos das embarcações e.ombros. Os obstáculos eram altamente perigosos e mais cerrados do que em qualquer outro ponto da Normandia. desde Ouistreham. Um a um. O telegrafista Webber lembra-se de ter pensado que o "desembarque era uma tragédia". Taylor. Os LCT por pouco não se empilhavam uns sobre os outros. gritou ao seu chefe: "Este maldito trabalho é impossível". também homem-rã. até à aldeia de Hamel.

Os tripulantes do batelão em apuros foram rapidamente recolhidos por diversas embarcações.ª divisão da marinha real. O Tenente Michael Aldworth e os quarenta e tantos homens que comandava agacharam-se na proa do LCT que os transportava. mas cerca de cinqüenta soldados ficaram a bordo de um LCT que acabava de descarregar os tanques e tinha ordem de voltar diretamente para Inglaterra. Ao abordarem Juno. mas também com um cerrado tiro de morteiros. viu acostar uma embarcação cheia de homens que. da 47. Jones viu o batelão explodir com um fragor ensurdecedor. fazendo-se de novo ao largo. de pé. que fora ferido numa coxa. que trabalhava então com os serviços de engenharia na limpeza da praia. debaixo de uma chuva de obuses. Das dezesseis que transportavam para Gold Beach os componentes da 47. Enquanto se debatiam no mar. Na praia de Gold. O Major Stackpoole. se preparavam para desembarcar. O espetáculo lembrou-lhe "um filme em câmara lenta — os homens perfilados ergueram-se no ar.ª divisão da marinha real não tiveram de se haver unicamente com os obstáculos. O Sargento Donald Gardner. o barco girou sobre si mesmo. onze seriamente danificadas afundaram e só uma conseguiu. recorda Aldworth. As embarcações esmagavam-se continuamente contra os obstáculos. corpos e bocados de corpos soltaram-se como gotas de água". Seguiu-se um silêncio. Havia tantas. Nada do que os enfurecidos soldados fizeram ou disseram conseguiu persuadir o timoneiro a mudar de rumo. Envolvido por uma onda. outros foram salvos por um destroyer canadense. na sua opinião. não é a nossa vez! — berrou com toda a força Aldworth. quatro foram totalmente destroçadas. meu velho. como que levantados por um jato de água.à sua frente. os componentes da 48. Alguns chegaram à praia sem dificuldade. regressar ao navio transporte. rapazes. a cinqüenta metros da costa. foi lançado à água com os seus homens. Aldworth ergueu a cabeça para ver como andavam as coisas e viu homens que corriam pelo convés gritando: — Quando é que saímos daqui? — Calma. Gardner ouviu alguém dizer: — Parece que estamos sendo indiscretos. ao fim do qual uma voz perguntou tranqüila: — Nós bem queremos. "que tínhamos a sensação de chamar um táxi em Bond Street". ao tomar conhecimento da rota da embarcação vociferou: . mas. voou e tombou sobre uma série de tetraedros de aço minados.ª divisão. Perderam todo o equipamento e foram forçados a nadar sob a metralha. Isto tem todo o ar de ser uma praia particular. quanto tempo isto vai durar? Está entrando água no porão. Jones.

Wilson continuou a avançar. O soldado George Stunell também viu companheiros perecerem à sua volta. sob um dilúvio de morteiros e de rajadas de metralhadora vindas de Hamel. em Dunquerque. que já matara noventa alemães. notou que estava ferido nas costas e nas costelas. O impávido Hollis. saltou pela borda fora e nadou para a praia. enrolados pela ressaca. não contando com os obstáculos. guiou a Bren até terra. Debatiam-se entre as chapas de metal. teria perdido duzentos homens. os soldados verificaram que a oposição inimiga era bastante irregular ao longo das três praias — temível em alguns setores. a praia estava calma a ponto de desapontar alguns . Uma vez passadas as linhas de obstáculos minados. ajudado pelos seus nervos de aço. Na metade oeste de Gold Beach. sob uma chuva de balas. Passados dois ou três minutos. uma bala acabava de bater com violência terrível na cigarreira que guardava no bolso do casaco. Stunell derrubou-o e.º regimento de Hamp-shire por pouco não foram dizimados enquanto avançavam lentamente dentro da água. caminhar no sentido oposto. A mesma bala atravessara-o de lado a lado. Os homens caíam como passarinhos. Para a maioria das tropas. afundar-se lentamente sem mais uma palavra. matou dois inimigos e capturou vinte durante a madrugada de um só dia no decurso do qual viria a matar mais dez. O Sargento-ajudante Stanley Hollis.— Tolice! Estão todos doidos! Dizendo isto. Stunell ficou encantado com o seu feito.° regimento de Hampshire levaria quase oito horas para neutralizar as defesas de Hamel e.º regimento de Dorset tinham deixado a praia ao fim de quarenta minutos. os soldados do 1. por diversas granadas e por uma Sten. os componentes deste regimento não tiveram grandes dificuldades nos diversos pontos de desembarque. por vezes com dois metros de profundidade. Já fora uma vez metralhado dentro da água — com a diferença de. com o motor ligado. no fim do Dia D. os homens do 1. amigos! Tirei a sorte grande! Wilson voltou-se e viu o homem. conquistando o seu primeiro objetivo em menos de uma hora. mas. parada. dominou sozinho uma metralhadora. de repente. estirou-se ao comprido na areia. e o condutor "petrificado ao volante e tão horrorizado que não conseguiu conduzi-la até a praia". com estranha expressão de incredulidade estampada no rosto. A seu lado as tropas de Green Howard desembarcaram com tal fúria e determinação que se embrenharam pelo interior. Pela esquerda. À direita de Hamel.ª divisão alemã. fraca ou inexistente noutros. posição ocupada pela famosa 352. O soldado Charles Wilson ouviu uma voz clamar com espanto: — Ah. Deparou com uma Bren automotora mergulhada num metro de água. os obstáculos não constituíram a parte mais dura do desembarque. Fato curioso. O 1.

o marinheiro Edward Ashworth viu alguns soldados canadenses levarem seis prisioneiros para trás de uma duna próxima. O Sargento Paddy De Lacy. a dez quilômetros de distância. A sua unidade. antes de conseguirem romper a linha inimiga e dirigir-se para o interior. em direção a Port-en-Bessin. As coisas não se iriam passar assim. ao ver as tropas e carros que invadiam a praia. os soldados da 3. Aos olhos do marinheiro Denis Lovell. Sempre disposto a ficar com um capacete. Neste setor a resistência foi porém vencida em duas horas. encontraram diversos pontos de resistência bastante fortes. Ao contrário do que acontecera aos soldados britânicos e canadenses que não haviam encontrado um adversário de envergadura na 716. formavam uma estrada sobre os terrenos moles. igualmente no setor de Courseulles. evitando qualquer contacto com o inimigo. Contudo. Mas descobriu que "o tipo tinha a garganta cortada — todos tinham a garganta cortada". pertencente ao 47. Além disso. Em silêncio. 0 enfermeiro Geoffrey Leach. os chamados "malhos".ª divisão canadense bateram-se entre inúmeros ninhos de metralhadoras e trincheiras. Outros estavam carregados de gigantescos barrotes de madeira. em Omaha Beach os americanos ainda estavam sob o domínio da temível 352.soldados. de mãos ao ar e quase solícitos. o desembarque parecia "mais uma dessas malditas manobras feitas em casa". batiam com correntes o terreno. avançou cautelosamente. tinham saído de uma trincheira. e em marcha forçada dirigiu-se para oeste. fatigada e fraca.° regimento da marinha real. na praia de Omaha. fazendo explodir as minas. Outros transportavam pequenas pontes ou enormes rolos de ripas de ferro que. Alguns. composta de "voluntários" russos e polacos. Correu para a duna e deparou com os seis alemães "que jaziam encarquilhados". descobriu que "o melhor que o serviço de saúde tinha a fazer era ajudar a descarregar as munições". capturara doze alemães que. Contavam encontrar os primeiros americanos por volta do meio-dia. em casas fortificadas e nas ruas de Courseulles. quando desenrolados. Numa das metades da praia de Juno. Estes engenhos e o bombardeio intenso e prolongado de que as praias inglesas tinham beneficiado. Ashworth julgou chegada a oportunidade de apanhar um capacete alemã que desejava guardar como recordação. os ingleses utilizaram ao máximo os tanques anfíbios e um extravagante conjunto de carros especiais. Quando desembarcou de um LCT que trouxera tropas e tanques até à praia de Courseulles. De Lacy examinou-os por um momento.ª divisão. debruçou-se sobre um cadáver. destinados a servir de passadeiras para transpor muros ou a encher as valas antitanques. Ashworth desviou-se e "enjoado não apanhei o meu chapéu de ferro branco". deram uma proteção suplementar às primeiras vagas de assalto. a fim de se juntar aos americanos. .ª divisão alemã.

ficaram um tanto embaraçados com o oficial barbudo. recorda-se de uma curta e fútil discussão travada com Maud. não é hora de fazer chá! De Lacy ergueu os olhos e. não admitiu ociosos em Juno.. e dos seus dois cestos de pombos-correios.. sargento. respondeu: — Tenente. gritando: "Traidores! Infames traidores!' Segundo Willicombe. desembarcado com a primeira vaga canadense. O Capitão Colin Maud.Perdera um irmão no Norte da África. com a paciência que lhe restava após vinte e um anos de serviço. Em seguida disse ao soldado que estava a seu lado: — Olhe para estes imbecis! Olhe-os bem! Leve-os. . quatro pombos "foram leais". de figura imponente e voz tonante que acolhia cada novo contingente com as seguintes palavras: — Sou o presidente da comissão de recepção desta festa. dirigiram-se para as linhas alemãs. para bem longe da minha vista. que poderia expedir para o navio-almirante uma mensagem de vinte e cinco palavras. Infelizmente muitos pombos caíram devido ao excesso de peso. tanques. Não se podia desejar melhor efeito. descreveram alguns círculos no ar e. não paravam de chegar à praia homens. até à chegada de Ronald Clark. usando o rádio do comandante da praia. repare que por aqui se está travando uma guerrinha.. Joseph Willicombe. * Em Juno. como o Segundo-Tenente John Beynon. Afastou-se e foi preparar uma chávena de chá para acalmar a cólera. que superintendia o desembarque. Queiram entrar e mexer-se. Alguns conseguiram levantar vôo. da United Press. O correspondente da I. um jovem oficial "sem um pelinho no queixo" aproximou-se e disse-lhe desabridamente: — Ouça lá. canhões. De pé na praia.S. a fim de ser retransmitida para os Estados Unidos. Fixou Willicombe e gritou: — Meu caro amigo. erguia o punho para as aves. Os correspondentes redigiram às pressas uns artigos sumários. Beynon lembra-se de que ele tinha uma matraca numa das mãos e com a outra segurava um corpulento pastor alemão de aspecto feroz. Charles Lynch. não estamos brincando de soldadinhos. Ninguém pensara em prevenir Maud. Enquanto aquecia uma caneca de água sobre uma lata Sterno. Tinham garantido a Willicombe. A maioria dos homens. ande. Quase ninguém teve a veleidade de discutir com o "porteiro" da praia de Juno. da Reuter. os correspondentes de guerra ficaram sem meios de comunicação. A marcha para o interior fez-se com calma e eficiência. colocaram-nos nas cápsulas plásticas fixadas nas patas dos pombos e largaram-nos. Ao fim de algumas horas. Por que não volta daqui a cinco minutos para tomar uma xícara de chá? Foi o que o oficial fez. é uma guerra a sério. conseguiram chegar ao Ministério das Informações em Londres. carros e munições. Enquanto a batalha prosseguia na área de Courseulles.N. Willicombe teve de admitir o peso do argumento*.

a mais sangrenta das três praias britânicas. Um tanque totalmente fechado para maior segurança e rodando loucamente sobre a areia a fim de escapar ao tiroteio passou sobre mortos e moribundos. Juno estava a uma dezena de quilômetros de Sword. mas este setor de Juno.ª brigada canadense e o 48. achou que "os nossos piores inimigos foram as pulgas-do-mar.° comando da marinha desembarcaram sob o fogo cerrado.Os canadenses sofreram muito em Juno. Pior ainda. Cada casa era uma . existentes na metade leste da praia e as fileiras de obstáculos destruíram as embarcações. Os recifes.° destacamento marcharam sobre Saint-Aubin-surMer e. Para lá das praias. as duas unidades deveriam encontrar-se aproximadamente a meio caminho. Tinham uma missão especialmente perigosa. as tropas desembarcaram sem o apoio de tanques. a praia estava tão calma que John Murphy. compreenderam os aturdidos ocupantes o que se passava. que nos enlouqueceram quando a maré começou a subir". Diante de Bernières e de Saint-Aubin-sur-Mer.° destacamento devia cobrir este intervalo e estabelecer a ligação entre as duas praias. Uma companhia perdeu quase metade dos seus efetivos na corrida para a praia. O tiro de artilharia de Saint-Aubin era tão intenso que provocou uma catástrofe especialmente horrível. cerca de dois quilômetros a leste de Juno. os canadenses e os. As vagas de assalto que se seguiram encontraram fraca oposição e. dobrando para leste. Só ao abrirem a capota. cortantes como lâminas. Passadas algumas horas. mas." encontrou-se numa região fortificada absolutamente intransponível.comandos deixaram as praias de Bernières e Saint-Aubin em menos de meia hora e invadiram o interior.° destacamento devia desembarcar em Lion-sur-Mer. mas o blindado prosseguiu na sua corrida. em alguns setores. Flunder bateu no tanque com o stick. aeróstata de uma unidade de balões de barragem. sem se importar com os obuses e a metralha. Das dunas o Capitão Daniel Flunder viu o que se passava e. na extremidade da praia de Sword. assim como a metade oeste. o bombardeio naval e aéreo ou não aniquilara as baterias costeiras ou errara totalmente a pontaria e. contornaram o litoral. quase simultaneamente. cortar à direita e marchar para poente. Apesar da violência do combate. Flunder arrancou então a espoleta de uma granada e fez saltar uma das lagartas do tanque. a 8. os dois destacamentos depararam com dificuldades. Os comandos do 48. O mar agitado retardara o desembarque. Em Langrune. as tropas teriam de combater nas ruas durante cerca de duas horas. O plano era este. correu pela praia gritando a plenos pulmões: — Os meus homens! São os meus homens! Louco de raiva. O 48. o 48. O 41. passada uma hora. já estava solidamente conquistada.

Em certos setores as tropas da primeira vaga de assalto foram intensamente metralhadas e canhoneadas. pensava que as probabilidades que tinha de sobreviver eram muito escassas.." A acreditar nas recordações do Cabo James Colley e do soldado Stanley Stewart. a mais fortemente defendida. podiam contar com sessenta por cento de perdas". tinham visto enormes guarda-ventos de pano levantados na praia de Gosport e "diziam que serviriam para separar os mortos que trouxessem". atacando à direita e à esquerda. Desde então. conta que lhes "tinham comunicado de chofre e a sangue-frio que muito provavelmente a primeira vaga de assalto seria totalmente dizimada". A informação parecia exata. a cabeça de ponte estava cortada por uma brecha de nove quilômetros — uma brecha através da qual os tanques de Rommel. ao longo da praia. condutor de um tanque anfíbio." destacamento rajadas de metralhadora e um dilúvio de obuses de morteiro. pareceu que as piores previsões se iriam realizar.º regimento de South Lancashire. dirigiu-se para oeste. Sem posições. se avançassem bastante depressa. não haverá retirada.° comando contavam ser "liquidados nas praias". os homens do 2° regimento de East York jaziam mortos ou feridos. nove quilômetros mais longe. Em Sword. embora ninguém no Alto Comando disso tivesse conhecimento. o 41. Calcula-se que Sword fosse. visto lhes terem dito que as perdas se elevariam sem dúvida a "oitenta e quatro por cento".°. As ruas estavam obstruídas por minas. o 48. os homens do 4. O soldado Christopher Smith. E os homens que em tanques anfíbios deviam desembarcar à frente da infantaria haviam sido avisados de que "mesmo os que conseguissem acostar. do 1. a todo o . Mas. "Aconteça o que acontecer — haviam dito aos comandos — precisamos destas praias. esmagar as tropas britânicas. pois não haverá evacuação. Por momentos. os franceses comunicaram-lhe que a guarnição alemã havia batido em retirada. o 41. após difícil acostagem.. Sem tanques e sem artilharia. os comandos receberam um tiro de barragem que destruiu imediatamente três tanques. Em Sword. um tiro cerrado acolheu os invasores. em direção a Lion-sur-Mer. Como o 48. O soldado John Gale. Lion-sur-Mer foi dos raros pontos verdadeiramente difíceis da praia de Sword. pois quando a sua unidade deixara a Inglaterra. Os boatos aumentaram as estimativas para noventa por cento e Smith acreditava neste valor.° teve de parar. ao saírem da cidade. poderiam alcançar a costa e. das três praias inglesas.fortaleza. Aí. As unidades haviam sido prevenidas de que nela sofreriam perdas elevadas.° destacamento teve de parar. para os lados de Ouistreham. arames farpados e muros de concretos — alguns com dois metros de altura e um metro e cinqüenta de espessura.°. Inocentes e aprazíveis vivendas transformadas em praças fortes vomitavam sobre o 41.

º regimento perdeu metade dos seus duzentos mortos do Dia D durante estes primeiros minutos. Cass. os east yorks já tinham deixado a praia quando chegou o 4° comando. esperavam deparar com um holocausto. terão mais cuidado". a batalha foi breve*..° regimento de South Lancashire sofreram poucas baixas e avançaram rapidamente para o interior.° comando. porém mais fácil". Aqui e ali. disposto a "fazer com que Jesse Owens fizesse figura de tartaruga". Na metade oeste da praia. médicos e enfermeiros tratando os feridos. de nervos à flor da pele. segundo parece. pequenos grupos de franceses entusiasmados faziam sinais aos soldados. E. Viram as praias escurecidas pela fumaça. ficou aterrado ao ver que "corria entre pilhas de soldados de infantaria caídos como passarinhos". parecia confirmar as piores suposições das tropas seguintes. O soldado John Mason. ficaram espantados por serem recebidos com alguns tiros isolados. lembra-se de ter pensado com certo cinismo: "da próxima vez. Em muitos pontos de Sword Beach pairava alegre ambiente de férias. O aterrador espetáculo das silhuetas de caqui. Os desembarques foram tão bem sucedidos que muitos homens.° comando afirmam que quando acostaram. do 4. da marinha real. mas..a brigada que desembarcou em Sword. O que talvez nunca lhes tivesse acontecido se se tivessem dispersado" Enquanto corria pela areia. Embora sangrenta. o desembarque foi apenas uma decepção. que desembarcou meia hora mais tarde. à Hora H e trinta minutos. diz Cass. Nunca se virá a saber quantos homens morreram durante esta primeira corrida sangrenta. encoscoradas em fila. que alcançaram a praia poucos minutos após a chegada da primeira vaga. uma vez que as praias e a beira-mar estavam infestadas de minas e debaixo do ocasional fogo do inimigo.° regimento de Suffolk que se lhes seguiu perdeu apenas quatro homens. E. gritante: Vivent les Anglais! O soldado Leslie Ford. ao longo da borda de água. Para estes homens que. tanques e veículos calcinados juncando a areia. As tropas do 4. encontraram os soldados de East York ainda à beira-mar. a ofensiva em Sword avançou rapidamente e encontrou fraca oposição. "a oposição fora neutralizada às oito horas e meia. As perdas a chegada do 4. viu um francês "praticamente à beiramar.comprimento da praia. Os homens do 1. que parecia dar uma lição de estratégia a diversos civis que o cercavam". Fora as perdas iniciais. do regimento de Lord Lovat. "sufocou ao ver os east yorks empilhados aos molhos. Os homens do regimento de East York não concordam com a sua própria história.° comando estão calculadas em trinta homens. Ford pensou que estavam completamente loucos. excetuando alguns atiradores isolados". Segundo o General E. "tanques providos de malhos" que faziam explodir as minas. Alguns viram "os cadáveres empilhados como lenha" e contaram "mais de cento e cinqüenta mortos". O 1. comandante da 8. o 2. * Haverá sempre controvérsias sobre a natureza dos combates na praia de Sword. Os franceses lançavam-se ao pescoço dos soldados e . O Cabo Fred Mears. que pretende ter o desembarque sido semelhante "a um exercício de treino. mas nada da carnificina para que estavam preparados.

se encostara a uma parede lendo calmamente um livro. os que ocupavam os submarinos de bolso X-20 e X-23. . as tropas britânicas e canadenses avançaram para o interior. as tropas dirigiram-se para Bayeux. a seis quilômetros de Sword. Devia render as tropas da 6. Alguns alemães receberam as tropas tão efusivamente como os franceses. na sua maioria — ansiosos por se renderem". pareciam aguardar o primeiro meio de transporte que os levasse da França". antes que Fritz saiba desta dança! Outros lembram-se da alegre fanfarronice e da espantosa confiança com que os feridos esperavam pacientemente pelos serviços de saúde. Alguns acenavam às tropas que desfilavam. encorajava os seus homens gritando-lhes: — Avancem. estavam tão convencidos de que tomariam a cidade que informaram os correspondentes de guerra de que haveria uma conferência de Imprensa "no local X. a uma dezena de quilômetros para o interior. gravemente ferido no ventre. À medida que os homens se batiam nos burgos e aldeias. Para dez ingleses. embora tendo perdido os dois braços. parecendo não avaliar o perigo que corriam. De Juno. e Lovat prometera a Gale que chegaria "ao meio-dia em ponto". De Gold Beach. de malas feitas. Uma vez saídas do caos de Sword. A rapidez era agora essencial. em Caen.abraçavam-nos sofregamente. os ingleses avançaram em direção a Caen. rapazes. a quinze quilômetros. os canadenses dirigiram-se para a estrada nacional Bayeux-Caen e para o campo de aviação de Carpiquet. do Daily Mail. Mas foi o Capitão Gerald Norton. Era afinal o maire de Colleville-sur-Orne. no interior. pequena aldeia situada a dois quilômetros. que decidira receber oficialmente as tropas de invasão. partindo de Sword. A marcha era meticulosa e eficaz. multiplicavam-se os atos de heroísmo e coragem. outros gritavam: "Encontramo-nos em Berlim. não lhe faltando certa grandeza. Juno e Gold. o tocador de gaita de fole Bill Millin atacava com galhardia Blue Bonnets Over the Border (Bonés Azuis Para Além da Fronteira). às dezesseis horas". À frente da coluna. que sofreu a maior surpresa: foi recebido "por quatro alemães que. amigos!" O artilheiro Ronald Allen jamais esqueceria um soldado que. de Londres. O Cabo Harry Norfield e o soldado Ronald Allen ficaram estupefatos ao verem "um indivíduo impecavelmente vestido a rigor e com um capacete de cobre resplandecente descer até à praia". de uma unidade da artilharia real. O contingente de Lord Lovat não perdeu tempo ao deixar o setor de Sword. O sapador Henry Jennings mal acabara de desembarcar quando foi "rodeado por um grupo de alemães — voluntários russos e polacos. E. Segundo nos disse mais tarde Noel Monks.ª divisão aerotransportada do General Gale que dominavam as pontes sobre o Orne. Alguns lembramse de um major da marinha real que. avancem.

a bordo de um LCT. o En Avant. Os homens para quem tinham balizado as praias embrenhavam-se por terras da França. Lentamente. Wilson não pôde deixar de pensar "que diabo andaria a fazer um submarino de bolso no meio de um desembarque". Reinava um otimismo geral. o X-23 avançava pela zona dos transportes. "por pouco não caiu de espanto pela borda fora" quando viu o que supôs serem "duas enormes bandeiras aparentemente sem suporte" que avançavam na sua direção cortando as vagas. o Tenente George Honour manobrava entre as formações de batelões que avançavam em direção à costa em colunas longas e regulares. No mar encrespado. o X-23 distinguia-se apenas pelas bandeiras que estalavam ao vento. com as superestruturas quase submersas. O Tenente Honour e os seus quatro companheiros voltavam para casa.o Dia D terminara. à procura do respectivo rebocador. A Muralha do Atlântico fora transposta. A operação Gambit terminara. Ao largo da praia de Sword. O gajeiro Charles Wilson. Quanto tempo levariam os alemães para recompor-se da surpresa? . Ao ver passar o X-23.

Jodl não era de opinião que a situação fosse muito séria. Mas nessa manhã a frente russa estava calma. lia calmamente os relatórios da noite. seu adjunto. de forma a pôr-se em posição de "aconselhar" o Führer sobre o desenrolar da guerra na Rússia. havia muito. sobre uma ofensiva aliada na Normandia. a alguns quilômetros.G. nada de novo. Como de costume. estava de pé desde as seis horas da manhã. O Führer dormia. os Aliados talvez conseguissem abrir caminho antes de Kesselring ter podido dispor dos seus batalhões e tomado novas posições mais a norte. S. o General Warlimont seguia atentamente a ofensiva da Normandia. Warlimont partiria à tarde.B. — A OB. ao longo dos três mil quilômetros da frente. . no gabinete à prova de som. West gostaria de as fazer avançar imediatamente para as zonas de desembarque. o que o preocupava principalmente era a Itália. nascia uma manhã como tantas outras.CAPÍTULO III DE MADRUGADA. chefe do estado-maior de von Rundstedt. de von Rundstedt. A ofensiva de verão soviética podia começar de momento para outro e. Não. em Obersalzberg. O General Alfred Jodl. O ajudante de campo de Jodl entregara no gabinete diversos relatórios emanados do Q.ª D.S. — Blumentritt telefonou-me sobre o assunto das reservas de panzers — comunicou-lhe. duzentas divisões alemãs — mas de um milhão e quinhentos mil homens — aguardavam-na de pé firme. desde as quatro horas da manhã. O dia já estava quente e pesado. — e discutira ao telefone com o General Günther Blumentritt. West pedindo reservas blindadas — a Panzer Lehr e a 12. A poucos quilômetros. um ovo quente e uma torrada) e agora. pelo menos no momento. Berchtesgaden descansava sossegada e calma. as nuvens desciam sobre as montanhas. na Reichskanzlei. que fosse junto de Kesselring verificar exatamente como iam as coisas. Warlimont ligou para Jodl. Embora a autoridade de Jodl não se estendesse até ao teatro oriental de operações. Na Rússia. Roma caíra há vinte e quatro horas e o Marechal Albert Kesselring comandava a rápida retirada das tropas. reinava silêncio absoluto. No ninho de águia de Hitler. Na caserna de Strub. A provável derrota na Itália preocupava Jodl. chefe de operações da OKW. Recebera o teletipo da OB. Segundo Jodl. agira. ao ponto de ter ordenado ao General Walter Warlimont. tomara um pequeno almoço frugal (uma chávena de café. quartel-general de Hitler. As notícias vindas de Itália continuavam a ser más.

Conforme Warlimont afirmou mais tarde. quer não de uma diversão.. e sem esperar a resposta de Warlimont continuou: — Pelos relatórios que recebi. quer se tratasse.Segundo recorda Warlimont. o homem que se encontrava no local e que tinha de fazer face ao inimigo deveria ter à sua disposição todas as unidades possíveis. e desligou. apesar de estar convicto de que o desembarque na Normandia tinha mais importância do que Jodl parecia dar-lhe. Na opinião de Warlimont. Não vejo por que não.. devo ir para Itália. "em caso de desembarque. — replicou Jodl. O oficial que previra semelhante situação e que dela esperava falar a .. tal atitude constituía exemplo flagrante da "ausência de autoridade no Estado autoritário". estando por conseguinte sujeitas à autoridade direta do Führer. sobretudo quando o homem em questão era um dos últimos "Cavaleiros Negros" da Alemanha. para delas se servir como melhor entendesse.. West tem presentemente bastantes reservas.. Warlimont largou o telefone. evidentemente. Deveria tentar rechaçar a ofensiva com as forças de que dispõe. Warlimont sabia que seria inútil discutir. — Tenho pena de Blumentritt — disse. chefe de operações do exército. Não me parece que tenha sido bem escolhida a época para libertar as reservas da OKW. Mas ninguém discutia as deliberações de Jodl. — Tem a certeza de se tratar realmente do desembarque? — perguntou-lhe por fim. Warlimont estava chocado com a interpretação literal dada por Jodl ao ucasse de Hitler sobre as panzers. Mas. "Jodl tomou a decisão que pensou que Hitler teria tomado". A resolução de entregar as panzers dependia unicamente do capricho daquele que Jodl considerava um gênio militar — Hitler. mas não queria correr o menor risco. duma armadilha guerreira. postas em ação". Jodl tinha poderes para libertar as panzers.. seguiu-se longo silêncio. Warlimont sempre pensara que. as panzers seriam.. e transmitiu-lhe a decisão de Jodl. Pensava Warlimont que seria a única manobra lógica. Warlimont pediu ligação para Blumentritt. enquanto Jodl refletia. Estas divisões pertenciam efetivamente à OKW. voltou-se para o General ButtlarBrandenfels. — General — respondeu — dada a situação na Normandia. A OB. automática e imediatamente. poderia tratar-se de um exercício de diversão. o venerável estrategista von Rundstedt. — A sua decisão é absolutamente contrária à estratégia que penso ter sido estabelecida para o caso de desembarque. compartilhando a opinião de von Rundstedt.. como estava previsto? — Mas. É preciso esperar que a situação se esclareça.

se não obtivéssemos as panzers. na sua casa de Harrlingen. Nem uma palavra nos arquivos e registros meticulosamente mantidos em dia pelo grupo de Exércitos B deixa supor que Rommel tivesse nessa altura sido avisado do desembarque. responderam-nos simplesmente que nós não estávamos em posição de formular juízos. perto de Ulm. Esta estranha batalha pelos fios viria a durar horas. tinha o rosto congestionado e falava encolerizadamente".G. de qualquer forma. da OB. o . friamente e copiando a atitude de Jodl. Na qualidade de marechal de campo. fazendo esforços inúteis para modificar a decisão de Jodl. de que a OB. Ligou de novo para a OKW. West tinha posto duas divisões de panzers em estado de alerta. Ligaram para Warlimont. Nem mesmo a importância do desembarque conseguiu decidir o velho aristocrata a suplicar algo ao homem a que geralmente chamava "esse cabo boêmio" *. Falou com o General von Buttlar-Brandenfels. Zimmermann resumiu-a assim: "Quando os avisamos de que.Hitler encontrava-se apenas a duas horas de Berchtesgaden. * Segundo von Buttlar-Brandenfels." Os seus oficiais continuavam contudo a bombardear a OKW com telefonemas. recorda que von Rundstedt "explodia de raiva. Zimmermann recorda com amargura que "ninguém formulou a menor objeção contra esta medida". para von Buttlar-Brandenfels e até para o General Rudolf Schmundt. von Buttlar cortou-lhe secamente a palavra: — Faça o que lhe dizem! Era a vez de von Rundstedt falar. nas portas de Paris. No Q. A meio da noite. Mas von Rundstedt não lhe telefonou durante todo o Dia D. "Enquanto o marechal de campo grunhir — dizia — tudo vai bem. adjunto de Hitler. O Marechal de campo Erwin Rommel. Zimmermann também não acreditava no que ouvia. a decisão de Jodl produziu o efeito de uma bomba. O General Bodo Zimmermann. West. os desembarques na Normandia poderiam ter sucesso. Hitler não ignorava o desprezo que von Rundstedt lhe dava. que o desembarque principal se daria mais tarde e que. chegou ao ponto de ter um ataque de fúria e gritar: — Essas divisões estão sob o controle direto da OKW! Não tinha o direito de as pôr em estado de alerta sem o nosso acordo! Ordeno-lhe que as mande parar imediatamente! Nada se deve fazer sem ordem expressa do Führer! Quando Zimmermann tentou argumentar. que. e que não se podia prever o que se seguiria. oficial de serviço. Era impossível acreditar. parece ter sido completamente esquecido no meio da desordem geral. chefe das operações. Zimmermann telefonara à OKW informando o Tenente-Coronel Friedel. podia chamar Hitler diretamente e pode-se admitir que as panzers tivessem sido imediatamente libertas.

Causou tal júbilo que Ziegelmann. Pensava que as duas divisões de panzers tinham sido postas em estado de alerta e estavam já a caminho. diretamente ao chefe de operação da 352. isto é. o General Speidel chefe do estado-maior. durante o qual lhe foi comunicado que o Führer possuía informações formais e que um desembarque na Normandia não era impossível". em abril. O comunicado foi considerado tão importante que o transcreveram palavra por palavra: "À borda da água — dizia o observador — o inimigo procura abrigar-se atrás dos obstáculos. às onze horas. nas suas posições até ao dia 24 de junho! Já era então demasiado tarde.a divisão. de von Salmuth.G. para a ala direita da divisão.. ficou convencido de que teria de enfrentar "forças inimigas inferiores". Fato curioso: parece ter sido Hitler o único a acreditar. ** Hitler estava tão profundamente convencido de que o "verdadeiro" desembarque seria efetuado no Pas-de-Calais que conservou o 15.º Exército. nada sabia ainda acerca da decisão de Jodl. Tenente-Coronel Ziegelmann.ª divisão rechaçara o invasor para o mar.. Os desembarques cessaram. entre Vierville e Colleville. retirando das paredes as preciosas tapeçarias dos Gobelins. como reforços. O General Blumentritt lembra-se muito bem de "um telefonema de Jodl. As embarcações mantêm-se ao largo. parecia ter poucas razões para se mostrar otimista. ardem na praia. por certo Coronel Goth que comandava as fortificações da Pointe-de-la-Percée. Grande número de mortos e feridos jazem junto ao mar. de Rommel. Os respectivos oficiais estavam firmemente persuadidos de que a 352. enviando-as.G. que lutava contra o ataque aliado. embora fosse preciso um certo tempo para que os tanques lá chegassem. No Q. Eis o que se passara: o oficial de um blockhaus construído sobre a praia conseguira transmitir para o quartel-general um relatório animador sobre o êxito da batalha."* * O comunicado foi transmitido. que o desembarque se poderia dar na Normandia. Um grande número de carros. ajudante de campo naval de Rommel. partilhava da euforia geral.a divisão. comandante da 352. junto de Vierville. na praia de Omaha. "A impressão geral — recorda o Coronel Leodegard Freyberg — era de que os Aliados seriam rechaçados para o mar antes do fim do dia. no . a princípio. As equipes de demolição desistiram. estava a tal ponto convicto de ter eliminado a cabeça de ponte de Omaha que retirou algumas das suas tropas." O Vice-Almirante Friedrich Ruge.verdadeiro desembarque se daria noutro local!"** Hitler continuava a dormir. incluindo dez tanques. O 7.° Exército. segundo o relatório que escreveu depois da guerra. mas notou um fato estranho: os criados do Duque e da Duquesa de La Rochefoucauld andavam silenciosamente de divisão em divisão. na praia de Omaha. protegido pelo seu pequeno círculo de turiferários militares. já deviam ter entrado em ação algumas unidades de reconhecimento de infantaria. no universo fechado e balsâmico de Berchtesgaden. o General Kraiss. Por sua vez Speidel sabia que a 21. Os relatórios que se seguiram foram cada vez mais otimistas e. reinava portanto nítido otimismo.ª divisão de panzers se dirigia para a região ao sul de Caen e. O fogo da nossa artilharia e das nossas armas automáticas está bem colocado e já infligiu pesadas perdas ao inimigo. em La Roche-Guyon. No Q. entre as oito e as nove horas.

assunto freqüentemente discutido com os seus camaradas Huf. Eram as primeiras notícias animadoras recebidas pelo 7. Fascinado. só pelo que vejo e ouço. Tinha-se batido valentemente e ajudara a cobrir a retirada da companhia a que pertencia desde o momento em que as linhas da 716.G. embora incapaz de definir exatamente os limites geográficos da ofensiva. * A oitocentos metros de Sword Beach. comandante da 15. procurou sempre ter uma idéia precisa da situação. vira-os deixar a praia e ceifara-os uns atrás dos outros. aos Q.setor britânico. Nos relatórios matinais do grupo de Exércitos B e da OB. o Conquistador. disseramlhe.° Exército. O fragor da batalha era ensurdecedor. pelos pára-quedistas ou pelo bombardeio naval e aéreo. chefe do estado-maior. visto estar praticamente privado de comunicações. a oferta foi declinada com desdém. de Rommel: — Estou a travar o gênero de batalha que Guilherme. Pemsel. Resultaram numa tal alegria que. Pensava que os pára-quedistas tinham sido os únicos a chegar a Cotentin. de Rommel e de von Rundstedt. Haeger tinha a cabeça a zumbir e sentia-se doente de medo. Os generais continuavam a aguardar o Schwerpunkt. Os fios e cabos tinham sido cortados e destruídos pela Resistência francesa. "Não precisamos". .ª divisão de infantaria. Pemsel ainda ignorava a que ponto as redes de comunicações estavam danificadas. que qualquer soldado acantonado na Normandia poderia ter dito onde se encontrava. trêmulo e aturdido. mas quase ninguém lhe dava ouvidos. À sua volta a terra parecia revolver-se. Não sabia quantos soldados ingleses atingira.ª divisão. quando o General von Salmuth.ª divisão haviam sido rompidas diante de Sword Beach.G. 0 que não era nada cômodo. Nesta altura ainda não tinha conhecimento dos desembarques na costa leste. Já no passado pensara muitas vezes qual seria a sensação de matar um inimigo. Mas embora todos estivessem confiantes. Insistia em repeti-lo aos seus superiores. o Cabo Josef Haeger. West lia-se: "É ainda muito cedo para sabermos se se trata de um ataque de diversão ou da ofensiva propriamente dita". na praia de Utah. acabou por encontrar o gatilho da metralhadora e recomeçou a atirar. O assalto contra a Normandia constituía realmente o grande desembarque. o General Pemsel. Pemsel declarou ao Q. tinha contudo a certeza de uma coisa. propôs enviar como apoio a 356. deve ter travado.

Saxler e Ferdi Klug. um homem que desesperadamente tentava salvar-se. com a farda a arder. O fortim. Na trincheira. pouco maior do que uma sala normal. Estava escuro. O segundo tanque. em seguida. Sempre que o tiroteio inimigo abrandava um pouco. podiam escolher entre render-se e suicidar-se. e. Um deles parou do outro lado de um prado. Hipnotizados. através de negras nuvens de fumaça. havia um calor atroz e o barulho era horrendo. Já não sabia para onde atirava. Abrigava-se numa trincheira diante de um fortim. a cara toda em sangue. Haeger voltou-se para Ferdi e murmurou: — Espero que Deus nos reserve uma morte melhor. um servente de bazuca usara o último projétil e acertara no alvo. abrigava mais de trinta homens. com dezenove companheiros — tudo o que restava da sua companhia. Berrando. estava repleto de mortos e moribundos. Os feridos gemiam. derrubou uma sebe. Além disso. o dilúvio de fogo recomeçava e os homens gritavam para o capitão: — Deixe-nos entrar! Deixe-nos entrar! Talvez os tanques o tivessem feito mudar de opinião. devagar. por milagre. O outro prosseguiu lentamente o seu caminho. que estavam tão apertados que não podiam sentar-se nem sequer mover-se. mantendo-se prudentemente fora do alcance da bazuca. entraram em novo pesadelo. Todos o sabiam — todos exceto o capitão que do fortim disparava tiros de metralhadora. Precisamente nesta altura o tanque incendiou-se. mas Ferdi estava a seu lado. os soldados abrigados na trincheira viram o canhão que se erguia. incrivelmente. E Haeger sabia agora que era só uma questão de tempo. passou metade do corpo pela abertura. Haeger e os outros sobreviventes precipitaram-se para o interior. Haeger abandonara-o junto de uma sebe. que iam morrer todos. Sabia agora qual era: era horrorosamente fácil. Eram dois. e gritando: — É preciso agüentar! É preciso agüentar! Foram os momentos mais atrozes da vida de Haeger. Haeger e o seu amigo Ferdi viram a portinhola do tanque em chamas abrir-se e. Depois. começou por seu turno a atirar. Haeger não sabia onde estava Saxler. De todos os lados choviam obuses de morteiro. Finalmente o capitão fez entrar todos para o fortim. não acreditando no que se passava. pronto a atirar à queima-roupa. Os homens falavam e gritavam em diversos . Huf não vivera o suficiente para o saber: fora morto no início da fuga. o que lhe incutia coragem. passou diante de três vacas que ruminavam calmamente numa pastagem. Haeger premia o gatilho e sentia a metralhadora estremecer. em seguida desfaleceu. ficando suspenso ao longo do flanco do tanque. rajadas de metralhadora e balas. meio cego. Todos ouviram o chocalhar dos blindados. não os deixando entrar. de boca aberta e com um buraco onde antes tivera a testa. Estavam cercados.

.. fazendo uso das únicas palavras de inglês que conhecia. pensou Haeger. Haeger içou um homem. a mesma voz gritava-lhe que se rendesse. num canto. Todos voltaram a suplicar ao capitão que se rendesse. a mesma voz insistiu: — É melhor renderes-te. tentaram passar através das pernas dos companheiros para chegarem à porta. Todos.. Herman. O fortim era arejado somente pela estreita brecha. Alguns soldados foram tomados de pânico. para tentar ver o que se passava. Mas o calor podia matá-los todos. . se pôs a repetir como um papagaio: — Hello. Haeger e os seus infelizes companheiros ouviram gritar do exterior: — Está bem. alheio aos gritos dos feridos que lhe pediam que se rendesse.. Ouviram de repente o ufuf do lança-chamas. nem sequer conseguiram pôr-se de gatinhas. Dois. Empurrando. compreenderam ao mesmo tempo o que se iria passar.. — Um. dois.. apertados e comprimidos pela massa compacta de homens..... sem descanso. boys!. boys! — repisava o ferido.. Ajudado por alguns companheiros.idiomas — havia muitos russos e polacos — e. arranhando e berrando "Deixem-nos sair!". a fuzilaria e os tiros cessaram lá fora. Dois..... outra voz dirigiu-se-lhes em alemão e Haeger nunca esquecerá um ferido que. disparava a metralhadora pela única fenda do abrigo. Um. Havia uma abertura no teto. boys! Hello.. boys! Hello. Um tenente interferiu e ordenou: — Vamos todos respirar como eu comandar! Um. Haeger viu o revestimento de aço do orifício de ventilação passar de rosa a vermelho. o capitão despejou mais uma rajada.. Um. Dois. expirar. em seguida a branco incandescente.. Durante um breve intervalo. — Hello. Dois. debruçado sobre o aparelho. Este nem sequer se virou e continuou a atirar.. De repente. e pelo pequeno furo no teto. através da qual o capitão persistia em fazer fogo. Um. Assim que deu uma olhadela pôs-se a berrar: — Lança-chamas! Trazem lança-chamas! Haeger sabia que as chamas não os alcançariam. Sempre que o capitão parava para carregar a metralhadora. é melhor sair daí! Enfurecido. boys! Hello. visto o orifício de respiração do fortim estar protegido por uma rede de barras de aço.! — gritava o oficial. repetia: — Venham. Por fim. Espinafres. Fritz! A fumaça acre da pólvora fazia os homens tossir e empestava o ar já irrespirável. A pouco e pouco a temperatura foi subindo... Espinafres. inspirar... Mas. Venham. Volvidos alguns instantes. E Haeger ouvia o radiotelegrafista que. o capitão.. O ar estava cada vez mais irrespirável.

os ingleses. como se visse o fortim pela primeira vez. Em seguida lançou a metralhadora ao chão e suspirou: — Abram a porta. Do exterior. Fritz. os vencedores arrancavam-lhes os cinturões. Este louco vai-te fazer sair à frente. os homens saíram do fortim cambaleando. . — Não vou — afirmou Haeger —. E arrancou igualmente a culatra da arma. Ferdi voltou-se para Haeger: — És o único. Sufocados. atiravam-lhes aos calcanhares. Conte os homens e as armas! — Não! Não! — gritavam vozes de todos os cantos do fortim. alinhados dos dois lados da trincheira. Ninguém se podia aproximar da porta. De repente. Pareceu ficar embaraçado e confuso. Foi então que o capitão olhou à sua volta. Ao cortar o cinturão de Ferdi. tiravam-lhes os atacadores e cortavam-lhes os botões das túnicas e das calças. de tão apertados que estavam. um oficial inglês disse-lhe: — Dentro de quinze dias. tentou gracejar. além do capitão. encadeados pela luz. Cá para fora. Quando atingiam a extremidade da trincheira. De joelhos dobrados e cabeças pendentes mantinham-se contudo em pé: era-lhes impossível cair por terra. os homens começaram a arrancar as culatras dos fuzis e a lançá-las por terra. Fritz. Ferdi. sou eu que te digo. Provocadores. Um a um. a possuir uma metralhadora. veremos os teus amiguinhos em Berlim. e o capitão lá estava com a sua metralhadora. não te incomodes. Haeger e Ferdi correram para a trincheira de mãos no ar. Haeger viu um soldado que pela vigia ia fazendo escorregar uma coronha de fuzil a que prendera um lenço branco. voltando-se para o operador de rádio. pois mesmo ao lado ficava a vigia. capitão. Se não se apressavam a entregar as armas e os capacetes. com o rosto ensangüentado e intumescido. Alguns homens desmaiavam devido ao calor. — Os feridos sufocam! Temos de nos render! — Nem pensem nisso — rosnou o capitão. o capitão parou de atirar e. uma voz gritou-lhes: — Está bem. O jovem tenente continuava em vão a implorar ao capitão que se rendesse. — Vamos-nos bater para sairmos daqui.— Capitão! — gritou o oficial. Depois obrigavam-nos a deitar-se de borco no prado. perguntou-lhe: — Conseguiu contactá-los? — Não.

Damski decidira de há muito que. se o desembarque se realizasse. acantonada na extremidade oeste de Gold Beach. Damski compreendeu que o sargento adivinhara que desertara. Polaco de origem e incorporado à força na 71. pensou amargamente . que o comandante da bateria de Damski. Sem abrandar o sorriso. no Canadá. Damski compreendeu que corria para uma morte certa se fosse ao encontro dos ingleses. com largo sorriso: — Para onde pensas que vais assim sozinho? Os dois homens fitaram-se um momento em silêncio. Um quarto de hora mais tarde. Mas Damski não teve oportunidade de o fazer. quer naval. na desordem da retirada. pensando que por lá poderia ficar e render-se quando a aldeia fosse tomada. o sargento disse: — Acho melhor que venhas conosco. estamos na Inglaterra! Pretendia dizer que estariam num campo de prisioneiros. quer aéreo. Os britânicos desembarcaram sob a proteção de um tal bombardeio.Replicou: — Nessa altura. Nessa mesma noite foram enviados para a Inglaterra e seis dias mais tarde Häger e outros cento e cinqüenta prisioneiros alemães desciam em Nova Iorque. Enquanto caminhava. antes de serem enviados para um campo de prisioneiros. Damski não se surpreendeu. precedido por um soldado russo. que não tinham parado de ruminar calmamente na pastagem. retirando as minas. mas Häger julga que se chamava Gundlach e que o jovem oficial era o Tenente Lutke. A meio do Dia D.ª divisão. pequena aldeia onde residia em casa de uma velha senhora. Ferdi fez notar a Haeger: — Aposto que quando plantaste estas gracinhas não sonhavas em vir um dia a retirá-las!* * Nunca consegui encontrar o capitão que tentou fanaticamente defender o fortim. Ia atravessando os campos quando encontrou um sargento da Wehrmacht. mas o inglês não o compreendeu e rugiu: — Levem-me estes tipos para a praia! Agarrando as calças. se lançaria para a primeira embarcação e se renderia. que o acompanhava a pé. Mas. O sargento olhou para Damski e perguntou-lhe. ordenou imediatamente a retirada. fugiu em direção a Tracy. os soldados alemães puseram-se a caminho e passaram defronte do tanque incendiado e das três vacas. Haeger e os seus companheiros trabalhavam entre os obstáculos. que seguia a cavalo. anda. o companheiro desaparecido. que também estava ocupado em retirar minas dos obstáculos. * O soldado Aloysius Damaski não tinha coragem para lutar. Häger encontrou Saxler.

Pluskat vira trincheiras repletas de cadáveres de soldados. onde trabalha para uma companhia de aviação. de Etreham. chegou à Alemanha. pensava igualmente na maneira de se render. que. Pluskat arrastara-se através de uma terra de ninguém digna de um apocalipse. ferida. desde que deixara o fortim de Sainte-Honorine. amigos. ficou estupefato ao ver duas . atiravam sobre tudo o que se movia e as peças pesadas da marinha não cessavam de canhonear aquele setor. finalmente. mas nunca se naturalizara. Voigt não pôde tornar a sair. Vive hoje na Alemanha. nos arredores de Caen. a fim de voltar para o P. Em 1940. Estava quase irreconhecível. efetuou tortuosa viagem através do Pacífico até o Japão. Também ele fora metralhado. que fora até a Alemanha ver a família. tão próximas. significavam "pátria"*. deslocou-se até a Polônia e. Voigt vivera dezessete anos em Chicago. Avançava com dificuldade. gritando-lhes: — Olá. voando rente às dunas. Incapaz de entrar na Alemanha em guerra pelas vias normais. o soldado Wilhelm Voigt. Uma vez chegado. Por toda parte. A quinze quilômetros. Quando se aproximou. desprezando os conselhos de todos os amigos. para ele. e a cara. pensou. Quase dera a volta ao mundo.C. a mulher. o Major Werner Pluskat ofegava no fundo de uma vala. pertencente a um grupo móvel de transmissões.. escorria sangue. atravessaria o pátio a correr e pediria um copo de água. Em 1939. Daí. Quando lá chegasse. teve de ficar por lá a fim de tratar a mãe que estava doente. transformado num montão de ferros torcidos e fumegantes. abatidos pela artilharia ou metralhados pelos aviões. Voigt partiu ao seu encontro. A mulher e ele estavam presos na armadilha. Abandonara o Volkswagen. perdera o capacete. pela primeira vez ao cabo de quatro anos. Centenas de caças.C. unicamente a fim de voltar para Chicago — e agora nada podia fazer. Da fumaça saíam em turbilhão bocados de sebes e braçadas de ervas incendiadas. Correria para eles. * Atrás de Omaha Beach. a não ser continuar sentado no caminhão escutando aquelas vozes. Durante horas preparara a frase que diria ao avistar os primeiros soldados americanos. Calculava ter percorrido apenas mil e seiscentos metros e encontrar-se a cinco quilômetros do P. depois de Vladivostock a Moscou pelo Transiberiano. Avistou uma fazendola à sua frente.que nunca tivera sorte e que nunca viria a tê-la. * Voigt nunca voltou a ver Chicago. tinha o uniforme em farrapos. Levou nisto cerca de quatro meses. sou de Chicago! Mas a unidade a que pertencia estava longe da frente. Durante mais de hora e meia. saltaria da vala. ouvia pelos auscultadores vozes americanas. No Dia D.

francesas calmamente sentadas à soleira da porta, como se o tiroteio não pudesse atingi-las. Miraram-no; uma delas, com um riso de desprezo, gritoulhe: — Cest terrible, n'est-ce pas? (É horrível, não é?) Pluskat continuou rastejando, o riso ribombando-lhe nos ouvidos. Nesse instante, odiou os franceses, os normandos e toda aquela maldita guerra. * Anton Wuensch, cabo do 6.º regimento de pára-quedistas, viu o páraquedas preso aos ramos de uma árvore. Estava azul e enorme saco de lona balançava-lhe por baixo. Ao longe ouvia-se um tiro cerrado de metralhadora, mas a tal distância que nem Wuensch nem a sua unidade tinham visto o inimigo. Caminhavam havia perto de três horas e chegaram a um pequeno bosque, junto de Carentan, uns quinze quilômetros a sudoeste de Utah Beach. O Cabo Richter observou o pára-quedas e disse: — Pertence aos americanos. Deve conter munições. O soldado Fritz "Fridolin" Wendt pensava, por seu turno, que devia trazer comida, e morria de fome. Wuensch aconselhou-os a permanecerem na vala enquanto ele se aproximasse. Talvez fosse uma armadilha; podia haver uma emboscada, o saco podia estar minado. Prudentemente, Wuensch efetuou o reconhecimento. Em seguida, certo de que o setor estava calmo, fixou duas granadas à árvore e arrancou as espoletas. A árvore tombou, e com ela o saco. Wuensch esperou; as explosões não pareciam ter atraído as atenções. Acenou aos camaradas e gritou-lhes: — Vamos lá a ver o presente dos tiozinhos americanos! "Fridolin" correu, de faca na mão, e rasgou a lona. O rosto iluminou-selhe: — Santo Deus! Comida! Comida! Durante meia hora, os sete pára-quedistas sentiram-se no paraíso. Encontraram latas de ananás e de suco de laranja, chocolates e cigarros e uma variedade de víveres de que haviam esquecido a existência. "Fridolin" empanturrou-se vorazmente. Tentou até comer Nescafé, empurrando-o com leite condensado. — Não sei o que é — disse — mas é ótimo. Por fim, não ouvindo os protestos de "Fridolin", Wuensch declarou que deveriam "pôr-se a caminho e juntar-se aos que combatiam". Saciada a fome, os bolsos abarrotados de cigarros, Wuensch e os seus homens deixaram o bosque e, em fila indiana, encaminharam-se para o troar da

fuzilaria. Volvidos alguns minutos, foi a guerra que veio ao encontro deles. Um dos homens de Wuensch caiu com uma bala na fronte. Precipitaram-se para o abrigo, enquanto as balas assobiavam à sua volta. De repente um dos homens apontou para uma árvore. — Olhem! Estou certo de ter visto um soldado lá em cima! Wuensch focou o binóculo sobre a copa da árvore e inspecionou a folhagem metòdicamente. Pareceu-lhe distinguir ligeiro movimento numa das árvores, mas não tinha a certeza. Sem se mover, examinou longamente o ponto suspeito. As folhas agitaram-se de novo. Pegou no fuzil e gritou: — Vamos lá ver! Disparou. A princípio, Wuensch pensou que errara o alvo, pois o soldado parecia descer da árvore. Wuensch visou novamente, grunindo em voz alta: — Desta vez, meu menino, não me escapas. Viu as pernas do soldado, depois o tronco. Wuensch disparou, disparou mais uma vez, outra ainda. Muito lentamente, o inimigo deu uma reviravolta e caiu. Os soldados de Wuensch soltaram vivas, precipitando-se para o cadáver. Debruçaram-se sobre o primeiro pára-quedista americano que viam. "Era moreno, belo e muito jovem", contou-nos Wuensch. Richter revistou os bolsos do morto e dentro da carteira encontrou duas fotografias e uma carta. Wuensch lembra-se de que numa das fotografias se via "o soldado sentado ao lado de uma jovem e concluímos que devia ser a sua mulher". Na outra fotografia viam-se "o soldado e a jovem sentados numa varanda com outras pessoas, sem dúvida a família". Richter quis guardar as fotografias e a carta. Wuensch perguntou-lhe: — Qual é a idéia? — Acho que, quando a guerra findar, podia mandar tudo isto para o endereço indicado no sobrescrito. Wuensch disse-lhe que estava louco. — Vamos talvez ser feitos prisioneiros pelos americanos e se te encontrarem com essas gracinhas... Acabou a frase com um gesto eloqüente, passando o dedo pela garganta, e continuou: — Deixa que os médicos tratem disso, e safemo-nos. Enquanto os homens se afastavam, Wuensch permaneceu um momento debruçado sobre o americano, inerte e flácido, "como um cão atropelado". Correu depois atrás dos seus homens. * A alguns quilômetros dali uma viatura do estado-maior alemão, flâmula negra, branca e vermelha estalando ao vento, rodava, por uma estrada

secundária, em direção à aldeola de Picauville. Havia quase sete horas que o General Wilhelm Falley, da 91.ª divisão aerotransportada, viajava no Horch, com o ajudante de campo e o motorista, desde o momento em que partira para Rennes, para as manobras, um pouco antes da uma da manhã. Em dado momento, pelas três ou quatro horas, o roncar contínuo dos aviões e as longínquas explosões de bombas começou a inquietar Falley, levando-o a voltar para trás. Estavam a poucos quilômetros do Q.G., ao norte de Picauville, quando uma rajada de metralhadora estilhaçou o pára-brisas. Falley viu o ajudante de campo, sentado ao lado do motorista, cair para a frente. O carro guinou, derrapou e bateu num muro. Com a violência do choque, as portas abriramse e o motorista e o ajudante de campo foram projetados para fora. O fuzil do general escorregou-lhe dos joelhos. O motorista, abalado e ferido, viu diversos americanos que se precipitavam para o carro. Falley gritou: "Não atirem! Não matem!", mas continuava a tentar alcançar o fuzil. Um tiro partiu e Falley ficou estatelado na estrada, uma mão estendida para o fuzil. O Tenente Malcolm Brannen, da 82.ª divisão aerotransportada americana, debruçou-se sobre o cadáver. Apanhou o boné. Por dentro tinha gravado a tinta um nome: "Falley". O alemão vestia um uniforme cinzentoesverdeado, com uma lista vermelha ao longo das calças. Tinha dragonas douradas e na gola do dólmã armas vermelhas com folhas de carvalho douradas. A volta do pescoço uma fita negra, da qual pendia uma cruz de ferro. Brannen não teve a certeza absoluta, mas pensou ter abatido um general. * No campo de aviação perto de Lille o Tenente-Coronel aviador Joseph Priller e o Sargento Heinz Wodarczyk correram para os dois caças solitários FW-190. O P.C. do 2.º corpo de aviação de caça telegrafara, anunciando: — Priller, o desembarque começou. Seria melhor que para lá se dirigisse a toda velocidade. — É o fim! — explodiu Priller. — Raio de imbecis. Que diabo querem que eu faça com dois táxis? Onde está a minha esquadrilha? Não me podem mandá-la? O oficial de operações não se perturbou. Com voz tranqüilizadora, respondeu: — Ainda não sabemos ao certo onde se encontra a sua esquadrilha, Priller, mas vamos encaminhá-la para Poix, para onde deverá transferir imediatamente todo o seu pessoal de base. Entretanto, seria bom que desse um giro sobre o setor de desembarque. Boa sorte, Priller.

Com a calma que a fúria em que estava lhe permitia manter, Priller perguntou: — Será para vocês grande incômodo dizer-me onde se efetua o referido desembarque? Sempre imperturbável, o oficial respondeu: — Na Normandia, meu caro. Para as bandas de Caen. Priller levou cerca de uma hora a preparar a transferência do pessoal em terra. Priller e Wodarczyk estavam a postos — a postos para partirem para o único contra-ataque da Luftwaffe, no Dia D, contra a invasão*.
* Segundo certos relatos, oito bombardeiros JU-88 atacaram as praias durante o desembarque inicial. Alguns bombardeiros sobrevoaram as praias durante a noite de 6 para 7 de junho, mas não consegui descobrir qualquer relatório sobre incursões aéreas, além da de Priller, na manhã do Dia D.

Antes de subirem para os aviões, Priller aproximou-se do sargento, declarando-lhe: — Ouça, meu amigo, só restamos os dois. Não nos podemos separar. Sendo assim, por amor de Deus, faça exatamente o que eu fizer. Voe atrás de mim e imite-me nos menores movimentos. Havia muito que pertenciam à mesma equipe. Priller achou conveniente definir a situação. Continuou: — Vamos lutar os dois, sozinhos, e duvido que regressemos. Decolaram às nove horas (oito pela hora alemã) e dirigiram-se para sul, a baixa altitude. Na vertical de Abbeville, muito alto, no céu, sobre eles, viram os primeiros caças aliados. Priller notou que não voavam em formações cerradas, como seria correto. Lembra-se de ter pensado: "Se tivéssemos aviões, estariam fritos". Já perto do Havre, Priller subiu acima das nuvens. Voaram durante alguns minutos, em seguida picaram de novo. Quando saíram das nuvens depararam com um espetáculo fantástico. Por baixo deles estendia-se uma frota colossal — centenas de navios de todos os tamanhos e tipos, que pareciam espalhar-se por toda a Mancha. Infindáveis colunas de embarcações largavam as tropas à beira-mar; Priller conseguiu distinguir os matizes brancos das explosões para além das dunas. As praias estavam cobertas de soldados, de tanques e de material. Priller embrenhou-se nas nuvens para se esconder e refletir. Havia tantos aviões, tantos navios de guerra ao largo, tantos homens nas praias que, pensou, poderia, no máximo, sobrevoar as praias uma vez antes de ser abatido. Já não havia razão para manter o rádio em silêncio. Quase alegre, Priller empunhou o microfone e exclamou: — Que espetáculo! Que espetáculo! Lá embaixo há de tudo, de tudo, por todos os lados. Acredite, meu caro, é o desembarque! Wodarczyk! Vamos a eles! Boa sorte, amigo! Picaram em direção às praias britânicas, zumbindo, a mais de seiscentos

Deitou-se de borco. Seis prisioneiros alemães aproveitaram a confusão para tentar fugir. "de pé. A bordo do cruzador Dunbar.ª brigada de infantaria canadense. estupefatas. viu chegar Priller e Wodarczyk. do comando francês. o comandante Philippe Kieffer. Os dois caças passaram ilesos através dos projéteis. picaram "a menos de quinze metros e atravessaram a barragem de balões". até menos de trinta metros. Limitou-se a premir o botão de comando e sentiu as metralhadoras crepitarem. Os homens de Kieffer abateram-nos imediatamente. o soldado Robert Rogge. — Boches ou não — murmurou Dowie. ouviu o roncar dos aviões e viu-os aproximar-se. Rasando as cabeças dos soldados. Na praia de Juno. e sufocou ao ver um homem que. incrédulo — desejo-vos boa sorte. ia muito calmamente disparando a sua Sten contra os aviões". viraram em direção à costa e perderam-se entre as nuvens. Na extremidade este do Omaha. não conseguiu reprimir uma exclamação quando os dois FW-190.à hora. Priller não tinha tempo para visar. como os outros. Não vos falta fibra. Em Sword Beach. viu caras erguidas. pasmado. todos os canhões antiaéreos da frota abrirem fogo sobre Priller e Wodarczky. . da marinha americana. "tão baixos que eu conseguia ver a cabeça dos pilotos". de metralhadoras a crepitar. o Tenente William J. da 88. Eisenmann. o fogueiro Robert Dowie viu. Correu para um abrigo.

juntamente com mais sete homens. A alguns quilômetros. Durante toda a manhã esperou em vão a chegada dos soldados. Explicou pacientemente que se limitava a cumprir ordens. Para os franceses envolvidos na batalha foram as horas de caos. Paul Gazengel tinha dores e sentia-se terrivelmente azedo. O bombardeio arrancara-lhe o teto do bar-mercearia. Mas Grandcamp parecia esquecido. à sua esquerda. — O canhão que eu lhes indiquei! Alguns dias antes prevenira Londres de que uma pequena peça de artilharia fora colocada junto do litoral. Não conseguia perceber do que se tratava — e nunca o viria a saber. os páraquedistas da 82. então violentamente bombardeada. À volta de Sainte-Mère-1'Église. minha senhora — respondeu o oficial num francês impecável. no lugarejo de La Madeleine. com um campo de tiro limitado ao que passara a ser a praia de Utah. e diante de Omaha. — O canhão! — exclamou Marion.CAPÍTULO IV A INVASÃO prosseguia ao longo de toda a costa normanda. — Para o interrogarmos. Gazengel despediu-se da mulher e partiu. outros pára-quedistas observaram o barbeiro do lugar retirar a tabuleta de Friseur. — Não o podemos fazer aqui.ª divisão viram alguns camponeses trabalhando calmamente nos campos como se nada se passasse. — Há noventa por cento de probabilidade de que isso não aconteça. morto ou ferido. — Para a Inglaterra! Mas por quê? Que fez ele? O oficial sentiu-se pouco à vontade. — E se o meu marido morrer durante os bombardeios? — gemeu. Marion estava agora certo de que a sua . e por isso os levamos para a Inglaterra. mordia-se de raiva e sentia-se roubado.ª divisão levavam-no agora para Utah Beach. Jean Marion. e sabia que as tropas estavam desembarcando. A Senhora Gazengel começou a chorar. chefe do setor da Resistência da cidade balneária de Grandcamp. Na pequena cidade. a fim de se colocar em posição de tiro diante da localidade. minha senhora — afirmou-lhe o tenente. De tempos a tempos tombava um. despachado pelos raptores americanos com a infeliz desculpa de que "se tratara de um engano". — Por que leva o meu marido? — perguntou a mulher ao jovem tenente.. substituindo-a por outra onde se lia Barbier. Duas semanas mais tarde regressaria à Normandia. à sua direita. fora ferido e as tropas da 4. Via a frota ao largo da praia de Utah. de júbilo e de terror. Acalmou-se um pouco quando a mulher lhe mostrou um destroyer que evoluía lentamente.

de dezoito anos. o padre gritava do alto do campanário. desciam nuvens de fumaça. todos pareciam compartilhar dos mesmos sentimentos. Embora os alemães tivessem afixado cartazes ordenando aos habitantes que ficassem em casa. cuspiam rajadas de metralhadora. a jovem professora do jardim de infância. Do seu posto de observação via nitidamente as praias. Mas pelo rádio tinham-lhe recomendado calma e repetido que não deveria haver qualquer levantamento. Entre os ouvintes. Alguns soldados acenaram-lhe alegremente. as tropas alemãs aquarteladas na cidade pareciam preparar-se para retirar. chefe do serviço de informações da Resistência no setor de Omaha Beach. — Receberam-na! O destroyer — o Herndon talvez — lançava obus após obus. Mercader mal conseguia conter as lágrimas. outros aconselharam-na a não ir mais longe. De repente houve violenta explosão quando as munições da pequena peça foram pelos ares. Pedalando furiosamente. Viu aviões que. Madeleine. As estradas estavam desertas. rasando os outeiros. — Estupendo! Em Bayeux. prosseguiu o seu caminho. à entrada de Colleville. Não tinha medo. mas Anne-Marie. Assim chegou a um quilômetro de Colleville. Não lhe veio à cabeça que poderia estar em perigo. De lágrimas nos olhos. que viria a casar-se com um dos primeiros invasores americanos. partira de bicicleta a caminho da fazendola de seu pai. o povo juntava-se ostensivamente no átrio da catedral ouvindo um padre que dava notícias sobre o desembarque. Morria de desejo por juntar os seus partidários e escorraçar o resto dos nazis. Fazendo das mãos porta-voz. — Receberam a mensagem! — gritou. Sobre os campos. estava quase louca. por trás da praia de Omaha. Pela primeira vez Anne-Marie foi tomada de medo. passou pelos ninhos de metralhadoras alemãs e cruzou com tropas que marchavam em direção ao litoral.mensagem fora recebida: via o destroyer manobrar habilmente no ângulo morto do canhão e começar a disparar. Às sete da manhã. encontrava-se Anne-Marie Broeckx. Ouvia ao longe o troar dos canhões e sabia que se travavam duros combates. mas ninguém a deteve. . Marion dava um salto de cada vez que o destroyer vomitava fogo. alguns alemães abrigaram-se. — Fantástico! — exclamou Marion louco de excitação. Após quatro anos atrozes. Guillaume Mercader. a uma vintena de quilômetros. Aqui e além ardiam brejos. Em Bayeux. cabelos flutuando ao vento e saia enfunada à roda das ancas. Quando chegou à encruzilhada. Pedalou ainda mais vigorosamente. para o interior. Era difícil mas Mercader aprendera a saber esperar. estava à janela da sala com sua mulher. em Colleville. Viu depois alguns sítios em ruínas. — Em breve seremos libertados — disse à mulher.

a sua noiva. um soldado de primeira classe. junto da praia de Omaha. o TenenteCoronel K. Os vidros da casa haviam sido arrancados. Correu o resto do caminho. Enquanto a ofensiva aliada prosseguia com violência na Normandia. Gavrus ficava a sudoeste de Caen. Parte do teto caíra e na porta havia enorme buraco. Precipitou-se para o pátio chamando pelos pais. Mas o batente despedaçado da porta abriu-se e distinguiu o pai e a mãe. acordou os dois pilotos da R.F. em Caen. Estavam somente a dez quilômetros da liberdade e iam afastá-los para o interior. Lofts. lutava pela vida no inferno de Omaha Beach. Pôs a bicicleta às costas e partiu através dos campos. Lançou-se-lhes nos braços. É a doze quilômetros. parando em todas as estações. Janine Boitard. Era o homem que viria a desposar Anne-Marie*. ao escalar um montículo. — Despachemo-nos — disse-lhes. Depois. Anne-Marie desfez-se em pranto. um dos principais chefes da Resistência enfadava-se num comboio à entrada de Paris. viu a propriedade paterna — intacta. em Colleville. — Vou levá-los a uma fazenda. A oitocentos metros dali. por ironia do destino. em Gavrus. E agora. de dezenove anos. Leo Heroux. Contudo. Às sete horas. mas desejava regressar a Caen o mais depressa possível. permanecia no comboio havia mais de doze horas. os seus superiores terem escolhido aquele dia para o mandarem à capital. A princípio Anne-Marie pensou que a fazenda estava abandonada. após quatro anos de luta e trabalho na sombra. O comboio rastejara pela noite. achava que deviam tentar a sua sorte e dirigir-se para . Estava furioso por.O troar da batalha ribombava à sua volta e a região parecia-lhe totalmente abandonada. chefe-adjunto do serviço militar de informações da Normandia. que escondera. Anne-Marie decidiu prosseguir a pé. E o que o mais danava era não poder descer do comboio. Têm três filhos e Heroux dirige uma autoescola. Um dos ingleses. Os dois ingleses ficaram inquietos ao conhecerem o seu destino. A viagem parecia-lhe interminável. pois não via sinal de vida. azafamava-se desde que recebera a notícia. — Querida filha — disse-lhe o pai — é um grande dia para a França.A. T. Leonard Gille. A próxima parada era em Paris. * Anne-Marie é uma noiva de guerra que não foi para a América. o chefe do serviço de informações tomava conhecimento do desembarque por intermédio de um bagageiro! Gille não fazia a menor idéia do local onde se dera o desembarque. A fazendola de seu pai situava-se entre Colleville e a praia. Leo Heroux e ela continuaram a viver no local onde se conheceram no dia 8 de junho — na fazenda dos Broeckx.

agricultores. Robert Boulard— noventa e dois ao todo. — A região está infestada de alemães até a costa. seu marido. que tomariam o caminho da evasão. Neste primeiro dia da libertação francesa. mas devia voltar para Caen. encostou o ouvido à frincha e ouviu repetir infatigavelmente as seguintes palavras: Raus! Raus! Seguiu-se enorme confusão de passos e de bater de portas das celas. Maurice Primault. Pierre Menochet. A Senhora Lechevalier começou a rezar. encostados contra uma parede e executados. Os guardas. ouviu um murmúrio quando lhe entregaram a gamela de sopa através da fresta. Alguns minutos mais tarde ouviu lá fora um prolongado tiro de metralhadora. e o silêncio desceu novamente. — Tenha esperança. o Coronel Antoine de Touchet. — Tenha esperança — disse-lhe a voz. Em grupos de dez. talvez os salvassem antes que fosse demasiado tarde. Acenou-lhes pela última vez com a mão. Teria gostado de continuar com eles. por vezes fundados. Na prisão de Caen. que aguardava a hora da execução por ter contribuído para a salvação de pilotos aliados. Perguntava a si própria se Louis. O trajeto efetuou-se sem novidade. Agora. Ao terem conhecimento do desembarque. haviam instalado duas metralhadoras no pátio da prisão. preso numa cela vizinha. os dois ingleses disfarçados de camponeses. agente da polícia. Albert Anne. Embora fossem por diversas vezes interceptados por patrulhas alemãs. Amélie Lechevalier. pescador. Durante toda a noite ouvira diversas explosões. Em Gavrus findou a responsabilidade de Janine — salvara mais dois pilotos. Maurice Dutacq. montou na bicicleta e afastou-se. de encontro aos exércitos a que pertenciam. Pierre Audige. Entre eles encontrava-se Guy de Saint-Pol e René Loslier. dos quais só quarenta pertenciam à Resistência. secretário da Câmara Municipal. dentista. por vezes falsos. Joseph Picquenot e seu filho. os prisioneiros masculinos foram tirados das celas. estavam tomados de pânico. era-lhes dada uma oportunidade. Pouco depois das sete puseram-se a caminho. a Senhora Lechevalier ouviu um ruído no corredor. É mais razoável esperarem. os seus falsos cartões de identidade não os desmascararam e puderam passar. Roger Veillat. Désiré Lemière. Os ingleses desembarcaram. Pôs-se de joelhos de encontro à porta. todos da Gestapo. estes homens foram massacrados sem . mas pensara que se tratasse de simples bombardeio. De repente. — Paciência — disse-lhes Janine. Georges Thomine. Anatole Lelièvre. Achille Boutrois. reformado. a fim de esperar pelos pilotos abatidos. em bicicleta. teria ouvido a notícia. todos eles ferroviários. e pela libertação que sabia agora estar próxima.norte. vendedor. Haviam sido presos por diversos motivos.

sem interrogatório. sem julgamento. Na sua cela. Um deles era o marido da Senhora Lechevalier. O fuzilamento demorou uma hora.explicações. a Senhora Lechevalier pensava no que estaria acontecendo. .

Desconhecidos conversaram nos comboios dos subúrbios. mas boas no conjunto. ordenei a retirada das tropas. Para o caso de insucesso da ofensiva. a humanidade acolhia-o com curiosa mistura de alívio. soube imediatamente onde se encontrava o marido.CAPÍTULO V NA INGLATERRA eram nove horas e trinta. lendo histórias do Far-West. Chegaram finalmente as primeiras mensagens. quando tomou conhecimento da notícia. uma vez certo de que as tropas tinham posto pé nas praias de desembarque. Naomi Coles Honour. Um pouco mais tarde. Embora a cabeça de ponte ainda fosse precária. deu a notícia ao mundo inteiro: "Sob o comando supremo do General Eisenhower. Em certas fábricas de guerra o comunicado foi feito por meio de alto-falantes. Durante toda a noite o General Eisenhower caminhara de um lado para outro do reboque. mas sem grande sucesso. Nas ruas formavam-se pequenos grupos. esperando os primeiros relatórios. Eisenhower escrevera: "Dado que nossa tentativa de desembarque na região Cherbourg-Le Havre falhou. tenente da WREN e mulher do comandante do X23. Os homens. Coronel Ernest Dupuis. as forças navais aliadas. Se foi cometido algum erro e se alguém deve ser censurado sou eu e só eu". Nas aldeias as igrejas abriram as portas de par em par. as forças aéreas e a marinha deram provas de uma bravura e de um sentido do dever notáveis. agora que chegara o grande dia. e. Os comandantes da Aeronáutica e da Marinha estavam mais que satisfeitos com a atuação das tropas nas cinco praias. Tentara descansar como habitualmente. civis paravam soldados americanos para lhes apertarem a mão. apoiadas por poderosas forças aéreas. não levaria a público o comunicado que redigira vinte e quatro horas antes. A decisão que tomei de atacar nesta data e neste local baseava-se nas melhores informações possíveis. Mas. entusiasmo e ansiedade. o Times de Londres escreveu: "A tensão está finalmente quebrada". Operários e operárias abandonaram as máquinas para entoar o God Save the King. No artigo de fundo do Dia D. Era o momento que o mundo livre aguardava. recebeu um telefonema de um . Nas cidades. começaram esta manhã a desembarcar exércitos aliados na costa norte da França". A maioria dos ingleses recebeu a notícia durante o trabalho. que erguiam a cabeça para observar o céu sulcado por um tráfego aéreo jamais visto na Inglaterra. Eram descosidas. Às nove e trinta e três o seu adido de Imprensa. Eisenhower autorizou a difusão de um comunicado totalmente diferente.

O General Sir Frederick Morgan dirigia-se de carro para o quartelgeneral de Eisenhower. E o autor do plano original de desembarque teve assim conhecimento da notícia da ofensiva.G. as luzes acenderam-se. navios e aviões utilizados no desembarque. Spurdgeon. — Não devemos desonrar o teu pai. Tentou reter as lágrimas. da 1. Mas Mrs. Eram três horas e trinta e três na costa do Atlântico e zero horas e trinta e três na do Pacífico. centenas de homens e mulheres ajoelharam-se nos conveses dos navios Liberty ainda em construção e recitaram o Padre Nosso. Spurdgeon não se deu por vencida. que desligasse o rádio. mulher do soldado John Gale. o essencial era que ele estivesse vivo. A mãe de Ronald Northwood. Num estaleiro naval de Brooklin. Em todas as enormes fábricas o sussurro parou. o capitão americano Edmund Duckworth. meu Deus — murmurou — trazei-mo. Tinham-se casado havia cinco dias. marinheiro de dezoito anos embarcado no Scylla. travou-se esta mesma conversa através de toda a Inglaterra. ficando preocupadas — disse-lhe. em Bridgeport. Naomi tinha tempo para vir a sabê-lo. Morgan ordenou ao motorista que parasse e que aumentasse o volume do rádio. O silêncio das ruas foi repentinamente quebrado por milhares de rádios . quando ouviu o locutor da BBC aconselhar os ouvintes a escutarem um comunicado especial. Seu marido.) Grace Gale. da Marinha: — O George está bem. mas você nunca adivinhará o que ele estava fazendo.dos oficiais do Q. Entre os que primeiro souberam da notícia contaram-se os milhares de trabalhadores dos turnos da noite. Por todo o continente. Mrs. sua filha mais velha. tanques. estava dando banho no mais novo dos seus três filhos quando ouviu o comunicado. Audrey Duckworth trabalhava assiduamente e só recebeu a boa nova mais para o fim da tarde." Em seguida disse a Evelyn. no Dorset. mas não o conseguiu. os homens e as mulheres que tinham colaborado no fabrico dos canhões. fora abatido ao desembarcar na praia de Omaha. Não fazia diferença. (Com pequenas variantes nos detalhes. Quase toda a gente dormia. dizendo-lhe que o seu "Ronald devia lá estar".ª divisão. Tinha a certeza de que seu marido se encontrava na França. que desembarcara em Sword Beach com a primeira vaga. à luz das lâmpadas de arco. Nos Estados Unidos era ainda noite quando a notícia foi difundida. ficou tão excitada que correu à casa de uma vizinha. em Portsmouth. nas cidades e aldeias. o trabalho interrompeu-se durante um minuto de solene meditação. Na atmosfera quase religiosa do Westminster Bank. "Oh. Tinha uma pessoa da família a bordo do Warspite e estava certa de que também ele lá estava.

Dos quarenta e seis habitantes de Bedford incorporados no 116. De vez em quando. — Quem me dera estar lá — suspirou o doente. capitão. Schultz. de vinte e cinco anos. um noivo ou um marido na 29. estava no serviço da noite quando o comunicado foi transmitido. os habitantes invadiram as igrejas às quatro horas da manhã. desligando o aparelho.° regimento pela alcunha de "Dutch" Schultz. mas todos os homens daquela região tinham desembarcado na praia de Omaha. as faces brilhantes de lágrimas silenciosas. Em Bedford ainda não se sabia. Em Coffeyville. por toda a histórica Virgínia. a notícia revestia-se de particular significado. um cardíaco. tinha a certeza de que ele se arranjara de modo a estar no meio da batalha. Em Bedford. alferes das WAVE (auxiliares femininas da marinha americana) e mulher do comandante do Corry. Conhecendo o marido. — Já teve a sua conta de guerra — disse-lhe a enfermeira Schultz. graças aos amigos oficiais que tinham acesso à sala de operações. Num comboio entre Washington e Nova Iorque pediram a um pastor que celebrasse um serviço impromptu. seguia vagamente as deslocações de seu marido. A notícia não a afetava pessoalmente.tonitruantes. no momento preciso em que era dada a notícia oficial sobre o Dia D.ª divisão. enfermeira do hospital militar de Fort Miley. Em São Francisco. estava de serviço na base naval de Norfolk. começou a rezar o terço por um pára-quedistas de vinte e um anos. Julgava que o destroyer comandado pelo marido escoltava um comboio de munições no norte do Atlântico. da 1. como quando da Revolução.ª divisão — em Omaha . na Virgínia. De bom grado teria ficado junto do aparelho a ver se falariam da 82. Acordavam os vizinhos para lhes dar a novidade e foram tantos os que telefonaram aos parentes e amigos que as centrais telefônicas estiveram esgotadas. no Kansas. a Senhora Theodore Roosevelt teve um sono agitado.ª divisão. na Virgínia. tinha fortes suspeitas de que esta divisão tomaria parte na ofensiva. a Senhora Lucille M.ª divisão aerotransportada. na Geórgia. homens e mulheres em trajes de dormir ajoelharam à soleira das portas e rezaram em coro. berço da 29. pequeno burgo de três mil e oitocentos habitantes. seu filho Arthur. Acordou perto das três horas e não conseguiu readormecer. Ligou automaticamente o rádio. antigo combatente da Grande Guerra. mais conhecido no 505. Ignorava que era a única mulher americana a ter o marido em Utah Beach e um filho — Quentin Roosevelt. Mas temia enervar o doente. O Sino da Liberdade repicou em Filadélfia e. Sentada na penumbra. Na sua residência em Long Island. um irmão. quando soube do desembarque. Em Marietta. que queria ouvir as notícias. Lois Hoffman. os sinos das igrejas tocaram durante a noite. Quase todos tinham um filho.º regimento só regressariam vinte e três.

Embora a escuta de estações estrangeiras fosse estritamente proibida e punível com prisão. afligiu-se. Estas emissões em ondas curtas não podiam ser escutadas na Alemanha. visto a Rádio Berlim ter sido a primeira a anunciar os desembarques de tropas aliadas. quando soube que corria o boato de um desembarque aliado na Normandia. sobretudo as mulheres cujos maridos se encontravam na Normandia. milhares de pessoas tinham sabido do desembarque de outro modo. Dêem-nos tempo para verificar e confirmar ou desmentir". e anulou o encontro. A notícia propagou-se rapidamente. O que aliás não deixava de ser irônico. Frau Pluskat respondeu-lhe antes de desligar abruptamente: — Nunca mais volto a falar-lhe! Em Berchtesgaden poder-se-ia acreditar que os oficiais de Hitler . No entanto. quase não queria acreditar. Frau Sauer. Frau Pluskat tencionava ir nessa tarde ao cinema com uma amiga. Muitos mostraram-se cépticos. Mas. No Stalag 17-B. igualmente casada com um oficial. Até lá. Entre estas contava-se Frau Pluskat. que também ouvira falar da ofensiva. a notícia foi acolhida com alegria dificilmente contida. Sentou-se na cama. Mas. até que as sombras se estendam e a noite caia". outros guardados dentro de lápis grossos. que fora abatido sobre a Alemanha havia mais de um ano. não conseguiram esconder a sua inquietação.. para um mundo um tanto incrédulo. alguns construídos de forma a caber num estojo de escova de dentes. O Sargento James Lang. — Preciso de saber o que aconteceu a Werner! Talvez não volte a vê-lo! Frau Sauer mostrou-se muito secamente prussiana: — Não tem vergonha! — exclamou. o homem da rua de nada tomara conhecimento oficial. Alguns aviadores americanos feitos prisioneiros haviam captado o comunicado com minúsculos postos de galena. Desde as seis da manhã a rádio alemã difundira. repetindo: "Não estejam demasiado esperançados. — Deve ter confiança no nosso Führer e portar-se como boa esposa de um oficial! Sufocando. sobre os quais tencionavam indicar o avanço vitorioso dos exércitos aliados. Nesta altura os prisioneiros militares sabiam mais do que os próprios alemães. Telefonou imediatamente a Frau Sauer. fechou os olhos e disse uma antiga prece familiar: "Senhor. A comissão de coordenação das notícias do campo tentou acalmar o otimismo transbordante dos quatro mil prisioneiros. alguns alemães ouviram rádios suecas. junto de Krems. os homens estavam já febrilmente ocupados a desenhar mapas da Normandia. ajudai-nos neste dia. uma surpreendente série de emissões. em todas as barracas.Beach.. suíças ou espanholas. na Áustria. Mas outros.

Durante os três quartos de hora que se seguiram. Quando estes se apresentaram. A entrega de reservas blindadas a von Rundstedt não foi sequer ventilada. * O General Speidel disse-me que telefonara a Rommel "pelas seis horas da manhã. O comandante do grupo de Exército B vai hoje regressar ao seu quartel-general". foi acordar o Führer. segundo o depoimento de Puttkamer. Hitler já estava vestido e aguardava-os terrivelmente excitado. segundo Jodl. Juntando todas as informações que conseguiu colher. Não se tratava de um reide do "gênero do de Dieppe". sem menor emoção na voz: — Sou uma besta! Sou uma besta! Desligou e voltou-se. estava terrivelmente tenso". precisa que o marechal de campo deixou La Roche-Guyon a 5 de junho — em vez de 4. já o dissera. Era o seu chefe de estado-maior que o chamava para lhe dar o primeiro relatório completo sobre o desembarque*. Este saiu de roupão dos seus aposentos. Hitler convenceu-se de que não se tratava da verdadeira ofensiva. ouviu calmamente o relatório e mandou chamar o Marechal de campo Wilhelm Keitel.. Capitão . Rommel telefonou por duas vezes ao seu ajudante de campo. e Jodl. Esperou pacientemente que Speidel acabasse o seu relatório. Puttkamer e o seu estado-maior prepararam à pressa um mapa. chefe da OKW.aguardavam o comunicado aliado para lhe dar a notícia. como afirmam o Capitão Hellmuth Lang e o Coronel Hans George von Tempelhof. Responderam-lhe que havia "indícios certos que permitiam pensar que houvera importante desembarque". Disse-me a mesma coisa que no seu livro Invasion 1944. As informações eram vagas. no Dia D: a chamada das dez horas e quinze. em Herrlingen. berrando: — Então. Frau Rommel viu que "a chamada o transformara. pela linha particular". com base no pouco que se sabia. A conferência durou uns poucos minutos e terminou de forma abrupta. Eram dez horas (nove pela hora alemã) quando o Almirante Karl Jesko von Puttkamer telefonou para o gabinete de Jodl pedindo-lhe o último relatório. quando Hitler se virou para Jodl e Keitel. Confuso e estupefato. No seu livro. por exemplo. o dia que. e ainda os arquivos do grupo de Exércitos B.. seria o mais longo. A conferência que se seguiu foi. é ou não a invasão? Em seguida deu meia volta e deixou a sala. ajudante de campo de Hitler. Pode ler-se nesta data: "Speidel põe o Marechal Rommel ao corrente da situação por telefone. Rommel escutou sem dizer uma palavra. Em seguida o General Rudolf Schmundt. Todo o seu instinto matreiro — que tão bem o servira durante a sua existência — gritava a Rommel que chegara o dia por que esperava. e não se cansou de o repetir. O mesmo registro assinala somente um telefonema de Speidel para Rommel. "extremamente agitada". Às dez e quinze o telefone tocou em casa do Marechal Erwin Rommel. Mas o General Speidel se contradisse um tanto nas horas e datas. mas. em seguida murmurou calmamente.

Hellmuth Lang. . Lang disse a si próprio que Rommel adiava a partida a fim de se poder encontrar com Hitler. Ignorava que em Berchtesgaden. "Ao telefone dava a impressão de se encontrar extremamente deprimido". afirmou Lang. Ao desligar. O que chegou para inquietar Lang. De cada vez. esta indecisão não parecia de Rommel. excetuando o General Schmundt. então em casa. indicou a Lang uma hora diferente para voltarem para La Roche-Guyon. Finalmente. ninguém. sabia que Rommel estava na Alemanha. perto de Estrasburgo. a hora de partida foi fixada: — À uma em ponto partiremos de Freudenschaft — disse Rommel. "o que também não parecia dele".

ª . * Pela sua ação na praia de Utah. A decisão que tomara de fazer desembarcar a 4. os dois generais desengarrafavam o tráfego.ª divisão avançava para o interior mais rápida do que se pudera supor. Na Saída 2. Os caminhões empanados eram. não é? Roosevelt vivia a sua hora de triunfo. ameaçavam retardar o avanço.ª divisão rodava célere. Ao ver Johnson. Os tanques esmagavam-nos e lançavam-nos para os prados inundados onde as tropas patinhavam. de pé.ª divisão não se mantivesse sempre em movimento arriscava-se a ser interceptada por um contra-ataque alemão. do 12. Incansáveis. Era o tumulto da vitória. no único aterro que ia até a praia. de modo por vezes humorístico ou comovente. A 4. Barton recebeu boa notícia. Roosevelt gritoulhe: — Viva. Pelas onze horas. Presentemente contemplava as intermináveis colunas de veículos e soldados avançando para o interior com imensa satisfação*. apoiando-se na bengala e fumando o cachimbo. dois homens. vai bem! Lindo dia para a caça. viu Roosevelt "andando para trás e para a frente. apesar dos seus ares despreocupados. Roosevelt recebeu a Medalha de Honra do Congresso. A Saída 3. Para descongestionar \a formação. Dois generais: Raymond O. Homens isolados encontravam-se em lugares imprevistos. vítimas do tiro inimigo. a fim de estabelecer ligação com os pára-quedistas. Barton expediu imediatamente os tanques em direção à estrada agora libertada. no caminho poeirento. do outro. Aqui e ali alguns veículos em chamas. Quando o Major Gerden Johnson. avançou. apenas a mil e quinhentos metros. empurrados para as valetas.ª divisão a dois mil metros da praia prevista poderia ter sido desastrosa.ª divisão.CAPÍTULO VI NA PRAIA de Utah o roncar dos caminhões. A 12 de julho. tão calmo como se estivesse no centro do Times Square". foi sem dúvida o primeiro soldado aerotransportado a encontrar os homens da 4. comandante da 4. Quando o conseguiram o encontro nada teve de espetacular. Mas Barton e Roosevelt. O Cabo Louis Merlano. sem hesitação. Morreu nessa noite de uma crise cardíaca. o General Eisenhower confirmou a sua nomeação como comandante-general da 90. Johnny! Continue por esta estrada. Roosevelt não chegou a ter conhecimento desta nomeação. canalizavam os veículos. partilhavam um medo secreto: se a 4.ª divisão. e o exuberante e sempre jovem Teddy Roosevelt. da 101. dos half-tracks e dos jipes quase abafava o assobio esporádico das peças 88 alemãs.a divisão. estava livre.° regimento de infantaria. de um lado. Barton. A 4. dos tanques.

Os dois homens correram para um abrigo. e olharam-se num silêncio suspeito. Em Sainte-Marie-du-Mont. sujo e esfarrapado quando deu de frente com os soldados da 4. Juntamente com dois outros pára-quedistas. Saíram prudentemente. que tombara entre os obstáculos da praia original de Utah. Um corpulento soldado americano sorriu para Caldron e gritou-lhe em francês: — Viva a França! Caldron sorriu por seu turno. Continua em frente.ª descendo o aterro junto de Pouppeville "segurando o fuzil como se fosse caçar esquilos".ª divisão invadia o território. acenou vigorosamente com a cabeça. viu alguns pára-quedistas empoleirados no cimo do campanário. conseguira percorrer cerca de três quilômetros ao longo da costa. tiozinho. Pierre Caldron. reparando finalmente que o outro vestia um uniforme americano. O outro homem ordenou a Mulvey que largasse a arma e avançasse de mãos no ar. que caíra a doze quilômetros do ponto previsto e se batera durante toda a noite com um pequeno grupo de homens comandados pelo General Maxwell Taylor. agitando enorme escudo laranja. Perto de Andouville-la-Hubert.ª.ª divisão atravessou a aldeia. vinte e cinco metros diante de mim". apertaram as mãos e deram fortes palmadas nas costas um do outro. da 101. Merlano. pôs-se a descoberto.ª. "Esta gracinha — disse-nos Mulvey — continuou assim por um bom bocado. lentamente. Estava cansado. Ao fim de alguns instantes uma interminável coluna de homens. o Capitão Thomas Mulvey. a vinte. dirigia-se para a costa ao longo de um atalho quando "um soldado.divisão. Mulvey propôs ao desconhecido que fizesse o mesmo. dos quais sessenta perdidos . sem que nenhum quisesse ceder." Por fim. que acabarás por encontrá-la. surgiu de uma sebe. Olhou-os por instantes e acabou por exclamar: — Onde estiveram metidos vocês? O Sargento Thomas Bruff. De súbito Caldron reparou que o filho chorava. O explorador observou o pobre Bruff e perguntou-lhe: — Onde é a guerra? Bruff. Em toda a região de Utah Beach a 4. viu um explorador da 4. mas não conseguiu articular uma palavra.ª divisão. padeiro do lugar. Mulvey. Tivera poucas perdas: cento e noventa e sete homens. Os dois homens encontraram-se no meio do caminho. prontos a dispararem. rosnou: — Começa aqui e vai até ao fim. empunhando um fuzil. da 101. 0 pequeno ainda não se recompusera da operação das amígdalas. Quando a 4. mas o padeiro não queria por nada no mundo privar o filho de semelhante espetáculo. marchando em fila indiana. subia pela estrada. Caldron pôs o filho sobre os ombros.

Um soldado ruivo levantou-se lenta e pausadamente. os homens de Omaha. Esperavam-na terríveis combates na semana seguinte. passo a passo. A mostarda subia-lhe ao nariz. Com a ajuda dos pára-quedistas. A situação era tão crítica que ao meio-dia o General Omar Bradley. um general. começou a admitir uma eventual evacuação e o desvio das ulteriores vagas de assalto para Utah e para as praias britânicas. chamado Norman Cota. — Então? Nenhum é suficientemente duro para conduzir esta coisa? — rugiu. os homens abriam uma passagem através de Omaha. Ninguém respondeu. — Indiquem-nos o caminho. os soldados começaram a mover-se. — Bravo. Ao longo de Dog Green e Dog White. de cinqüenta e um anos. "rangers"! — lançou-lhes Cota. Os homens estavam paralisados pelo tiroteio implacável que varria a praia. * Ferozmente. a Sangrenta. Precisamente o que era necessário para fazer saltar o muro anticarros à saída de Vierville. — Vou eu — limitou-se a dizer. . andava para a frente e para trás. avançando em direção ao general. Do mar a praia oferecia incrível espetáculo de morte e destruição. À noite tinham desembarcado vinte e dois mil homens e mil e oitocentos veículos. Um pouco mais longe. — Quem conduz este maldito carro? — gritou Cota. avançavam. em pleno cataclismo. arregalando os olhos. Os homens levantaram-se um a um. Cota começou a perder a paciência. Um grupo de "rangers" enovelava-se junto da saída de Vierville. os soldados avançavam. junto às escarpas. agitando um revólver 45 e ordenando aos seus homens que saíssem da praia. na erva seca das dunas. mas este foi o seu dia de glória. rapaz! E agora abandonemos esta praia! Afastou-se sem se voltar. seco e ossudo. metro a metro. recusando-se a acreditar que um homem conseguisse manter-se de pé no meio daquele inferno e não ser morto.no mar. ombro a ombro. a 4. Sobre seixos e cascalho.ª divisão sustentava sòlidamente a primeira grande cabeça de ponte americana na França. Cota deu-lhe forte palmada nas costas. Atrás dele. debaixo de uma chuva de fogo e balas. Mas. no momento preciso em que Bradley procurava a solução do seu problema. a bordo do Augusta. um bulldozer carregado de TNT jazia abandonado na areia.

escalou um montículo e gritou à sua companhia: . Uma vez lançadas. indiferente ao tiroteio de artilharia e das metralhadoras que varria a areia. — Aqui assassinam-nos — disse. farto de estar pregado ao chão. Andando de cima a baixo no setor da 1.ª divisão.ª divisão. o Coronel Charles D.°. constituía um exemplo quase desde o momento em que pusera pé na praia. Taylor. Canham. O Sargento Bill Courtney. onde abriu uma passagem nos arames farpados.º regimento. as tropas já não paravam. o Sargento Philip Streczyk sentiu-se. indicando-lhes o caminho.*. comandante-adjunto da 29. — Mais vale que nos deixemos assassinar no interior! O soldado de primeira classe Charles Ferguson viu passar o coronel e com um ar espantado perguntou: — Quem é este filho da mãe? Mas levantou-se e dirigiu-se para as dunas. Canham. Streczyk disse-lhe calmamente: — Também não explodiu quando eu subi. capitão. Volvido um instante. Cem metros adiante.ª divisão os antigos combatentes da Sicília e de Salerno foram os primeiros a recompor-se do choque inicial. gravemente ferido — uma bala entraralhe pelo pescoço e saíra-lhe pela boca — fez a seguinte declaração: "Tive a coragem de me levantar. Na parte de Omaha Beach destinada à 1. faziamnas abandonar a praia. conduziam as tropas. por entre os campos de minas. e nesse momento preciso deixei de ser um civil mobilizado para passar a ser um combatente". com um lenço ensangüentado a envolver um pulso ferido. No cimo destruiu um fortim a tiros de bazuca.º regimento. comandante do 116. Ficou horrorizado ao vê-lo pôr um pé sobre uma mina Teller. subiu pelas dunas. O Sargento Raymond Strojny reuniu os seus homens e conduziu-os para as dunas através de um campo de minas. por sua vez. de rosto transfigurado. o Capitão Edward Wozenski encontrou Streczyk numa vereda que descia até às dunas. Assumia o comando da metade direita do setor da 29. simples soldados ou generais. empurrava os grupos para diante. irritava-se e gritava: — Há dois tipos de indivíduos que ficam na praia! Os mortos e os que vão morrer! Safemo-nos daqui depressa! Por toda parte. Alguns soldados lembram-se de ter ele quase feito avançar os seus homens a pontapés nos traseiros até às dunas minadas. Os que o rodeavam imitaram-no.O General-de-Brigada Cota. O Tenente Donald Anderson. O Sargento William Wiedefeld espezinhou os corpos de centenas de amigos mortos e. o Coronel George A. homens intrépidos. Strojny estava nessa altura "um tanto colérico". comandante do 16. do 2. encorajavam-nas. ficara com a metade esquerda.

os técnicos de engenharia puderam acabar o trabalho de demolição começado havia quase sete horas.. arriscando-se a encalhar. o "ranger" Carl Weast e o Capitão George Whittington.." e 29. O preço de Omaha? Avalia-se em dois mil e quinhentos mortos. um dos alemães voltou-se bruscamente. Em todos os setores de Omaha a máquina pôs-se de novo em andamento. dominando as praias". Ao fim do dia. imitaram-nos. em vez de terror e impotência. Quando os homens compreenderam que podiam avançar. Fora do inferno de Omaha Beach os homens espalharam-se pelo interior. sentiram uma cólera monumental. apoiando esta avançada. . Easy Green e Fox Red progridem para lá das dunas. viu os americanos e urrou: — Bitte! Bitte! Bitte! (Faz favor!) Whittington matou os três. o General Bradley recebeu a seguinte mensagem: "As tropas até agora coladas ao solo das praias Easy Red. identificaram um ninho de metralhadoras ocupado por três alemães. alguns dos batelões ainda ao largo preparavam-se para abordar diretamente a praia. ao verem que a coisa era possível.— Subam! Venham! Os filhos da mãe estão estrepados agora! No momento em que as tropas começavam a avançar." divisões tinham avançado cerca de dois quilômetros para o interior. Alguns destroyers. Em seguida virando-se para Weast disse: — Quem me dera saber o que quererá dizer Bitte. À uma hora e trinta. aproximaram-se da margem. feridos e desaparecidos. a fim de poderem atirar sobre as posições inimigas. Não longe do cimo do outeiro de Vierville. os soldados da 1. comandante da companhia. Debaixo deste tiro de proteção. Enquanto Weast e o capitão o contornavam prudentemente.

Pluskat lançou-lhe um olhar furioso e afastou-o com um gesto. O indivíduo que apareceu à porta nada tinha de semelhante com o comandante que os oficiais conheciam. Sabia igualmente que. As baterias. que gritou: — Quando? Quando chegam? Parece-me que você não imagina o que se passa por aqui! Dez minutos mais tarde. pensando num só problema. Ocker ligou para Pluskat. A questão residia em saber se os americanos ou as munições chegariam em primeiro lugar. as mãos tremiam-lhe tanto que mal conseguiu pegar no copo. Um dos oficiais comunicou-lhe que os americanos tinham desembarcado. Pluskat telefonou a Ocker. Só para a noite lhe poderemos fazer chegar qualquer coisa. — E as munições? — perguntou secamente. o seu cão. Pluskat ordenou às suas tropas que se preparassem para combates corpo a corpo. — Quê. O regimento já fora informado.C. — Estão a caminho. e o Tenente-Coronel Ocker prometera enviá-las. . mas nada chegara por enquanto. em seguida errou sem destino pelo castelo. Quando lhe deram. estariam sem munições ao cair da noite. Pluskat tiritava. tremia dos pés à cabeça e limitava-se a repetir: "Cognac. anunciaram os oficiais. meu caro Plus — sussurrou descuidada a voz de Ocker na outra ponta do fio — você ainda não morreu? Pluskat não respondeu à pergunta. cognac". Pluskat não ficou surpreendido. a própria experiência ensinara-lhe que as estradas estavam intransitáveis. Os componentes do seu estado-maior rodeavam-no. Daria tudo para saber onde estava Harras. mas capital. A calma do Tenente-coronel irritou Pluskat. disseramlhe. — Más notícias — anunciou. de Etreham.CAPÍTULO VII ERAM treze horas quando o Major Werner Pluskat chegou ao P. em breve estariam com falta de munições. — Acabo de saber que o comboio de munições foi aniquilado. Sentia-se inútil e só. dado o ritmo com que as baterias disparavam.

Mas a surpresa não durou. Millin voltou-se para Lord Lovat. Os soldados de Lord Lovat desfilavam pela estrada. de ambos os lados das pontes. estendido a seu lado. Gray lançou-lhe um olhar de desprezo. — Estás maluco — disse-lhe simplesmente. Os comandos de Lord Lovat já tinham cerca de hora e meia de atraso. voltou-se novamente para o amigo e insistiu: — Garanto-te que estou ouvindo uma gaita de foles. havia mais de treze horas. Bill Millin lembra-se de que "se fiava na sua boa sorte para não ser atingido. Embora as tropas do Major Howard tivessem pela madrugada sido reforçadas com alguns soldados da 6. Gray pôs-se de ouvido à escuta. Perguntava a si próprio o que se passaria nas praias.CAPÍTULO VIII AQUELA hora os ingleses que tinham travado a primeira batalha do Dia D mantinham-se nas posições conquistadas. os pára-quedistas correram ao . camarada de Gray. No momento em que o comando atingiu as pontes. Wilkes. O fogo dos atiradores parecia-lhe cada vez mais preciso. Sem se importarem com o tiro cerrado. observou de repente: — Escuta.ª divisão aerotransportada. À testa da coluna marchava Bill Millin que. No seu esconderijo diante da ponte sobre o canal de Caen. continuava tocando Blue Bonnets Over the Border. Também a ouviu. escondidos nas posições alemãs capturadas. Gray não supunha que a batalha lá embaixo pudesse ser tão dura como nas pontes. visto que pouco mais conseguia ouvir além da gaita de foles". Quase tinha medo de levantar a cabeça. o soldado Bill Gray consultou mais uma vez o relógio. Volvidos alguns segundos. direitos e galhardos nas suas boinas verdes. Os homens de Howard haviam bloqueado diversos contra-ataques inimigos. lembra Millin. estafados e ansiosos. aguardavam impacientemente os reforços que deviam vir do mar. Foi durante uma curta calmaria que o soldado John Wilkes. as pontes do Orne e o canal de Caen. com a sua gaita de foles. Chegado ao meio da ponte. o seu número ia decrescendo regularmente sob o tiro incessante dos morteiros e das armas automáticas. Nesse momento os soldados. Nos dois campos o tiroteio cessou bruscamente enquanto todos os soldados contemplavam o espetáculo. parece-me ouvir uma gaita de foles. "Ele andava tranqüilamente como se passeasse pelas suas propriedades e fez-me sinal para que continuasse". os alemães recomeçaram a atirar.

ocupadas pelos pára-quedistas. As boinas vermelhas e as boinas verdes misturavam-se e em breve levantaram-se os ânimos. de dezenove anos apenas. os primeiros reforços tinham chegado. Embora as tropas inglesas viessem a levar várias horas até atingir as posições mais avançadas. O soldado Bill Gray. . Lovat desculpou-se "por se ter atrasado alguns minutos". Para os homens estafados da 6. "sentiu-se remoçado de alguns anos".ª divisão aerotransportada foi um momento comovente.encontro dos comandos.

Bronikowski teve a impressão de que "toda a cidade estava em movimento e tentava fugir". por Hitler.° regimento da 21. em princípio. Onde estava o regimento que. e a 12.. Era entusiasmante! Conhecia o seu dia de glória! Dirigia o ataque contra os ingleses! Montado na motocicleta.S. nunca vira o marechal tão deprimido. Este movimento far-lhe-ia perder algumas horas mas não podia proceder de outro modo. Tinha razão. * A 21.ª S. deveria suster o seu ataque.ª divisão Panzer. A cidade estava em ruínas.ª Panzer. do 192. Daniel esmagou o acelerador e o carro disparou. Desde o princípio. no banco de trás. • O Marechal de campo Rommel observava a faixa cinzenta da estrada que se desenrolava à sua frente e incitava o motorista. — Tempo! Tempo! Tempo! — repetia. já atrás das praias britânicas.ª divisão Panzer já não podia atravessar Caen. O Capitão Lang. As panzers perderam a esperança. juntamente com a Panzer Lehr. As ruas estavam engarrafadas com homens e mulheres em bicicletas. Em seguida fixou novamente a estrada. No entanto Rommel voltou-se de repente e disse: — Tive sempre razão. Gostaria da falar do desembarque mas Rommel não se mostrava inclinado a conversas. Os escombros bloqueavam as ruas. subia e descia num Volkswagen ao longo da coluna. tudo dependia neste momento dos blindados: a 21. enquanto os seus oficiais da frente do Atlântico tentavam desesperadamente reprimir a ofensiva aliada. Fora bombardeada um pouco antes e os bombardeiros tinham feito um belo trabalho. no comando do regimento de tanques. uma vez que tivesse passado? O soldado de dezenove anos Walter Hermes. enquanto Rommel se dirigia frenèticamente para a Normandia. sempre mantida de reserva. nunca estivera tão feliz. Hermes desfilava à testa da vanguarda.CAPÍTULO IX NESTE DIA FATAL para o III Reich. O Coronel Hermann von Oppeln-Bronikowski. Bronikowski resolveu retroceder para tentar contornar a cidade. Tinham deixado Freudenstadt duas horas antes e desde então Rommel mal abrira a boca. Diriam-se para a costa. em breve .

ª Panzer foi a única a poder intervir no dia 6 de junho. Mas Hermes pensava que estes se encontravam à sua frente. no Q. Rommel conversou durante um quarto de hora com o seu estadomaior. e a Panzer Lehr. Hitler e o seu estado-maior haviam retido estas duas divisões blindadas durante mais de dez horas. o General Blumentritt ligou para Speidel. Quando o marechal de campo saiu do gabinete. noutras motocicletas. Mandou avançar trinta e cinco tanques. A Panzer Lehr. Rommel bateu com o punho enluvado na palma da mão e exclamou amargamente: — O meu amigável inimigo. o Horch de Rommel parou em Reims. só se apresentou no dia 9.ª S. ainda podemos rechaçá-los em três dias! • Ao norte de Caen.encontrariam os tanques e a 21. Os dois generais sabiam que era demasiado tarde. Todos o afirmavam. — A OKW — anunciou Blumentritt — concede-nos a 12. entre as praias de Juno e Gold. O carro partiu de novo no mais profundo silêncio. Lang compreendeu que as notícias eram más. Montgomery! Um pouco mais tarde. Os tanques poderiam ter aproveitado esta brecha para destruir as cabeças de ponte britânicas e comprometer todo o desembarque. estavam os seus amigos Tetzlaw. Na Kommandantur da cidade. se simplesmente o Coronel von Oppeln-Bronikowski dela tivesse conhecimento. Todos esperavam ser atacados pelos ingleses mas nada acontecera. sob o comando do Capitão Wilhelm von Gottberg. dirigindo a companhia de vanguarda através da brecha de doze quilômetros que os ingleses ainda não tinham fechado. Pelas dezenove horas. Mattusch e Schard. de Rommel.S.S. Nenhuma tinha a menor probabilidade de atingir o setor de invasão durante a tarde decisiva. A 12. * Perto de Paris. Um fato permanecia contudo estranho: não tinham ainda encontrado os tanques. disse: — Santo Deus! Se a 21. A seu lado.G. atacando a costa. dizimada por contínuos ataques aéreos. chegou diante da cabeça de ponte somente na manhã de 7 de junho. A 21. Hermes acelerava alegremente.ª S. Passado algum tempo.G. Lang pediu ligação telefônica para La RocheGuyon.ª rechaçaria o invasor para o mar. Bronikowski deu ordem de atacar. no Q. A única frase da conversa foi devidamente transcrita no diário de operações do grupo de Exércitos B. . de von Rundstedt.ª Panzer chegar a tempo. Eram quinze horas e quarenta.

a seis quilômetros da costa. incapaz de o ajudar.. Até lá. perdemos a guerra. Impossível dizer se acabavam de se lançar contra os tanques ingleses ou se o tiro vinha dos canhões antitanques. comandante da 21. O General Edgar Feuchtinger. Calou-se um instante e acrescentou em tom sonhador: — Sabe. e notou que este estava "quase louco de dor". com mais vinte cinco tanques. . Richter disse a Bronikowski: — As minhas tropas estão perdidas. general? — perguntou Bronikowski. pode muito bem ser que o futuro da Alemanha dependa de você. houve um súbito troar de canhões abrindo fogo a curta distância. * Os tanques de Bronikowski roncavam no cume de Biéville. — Pode-nos indicar? Mas Richter abanou a cabeça e murmurou: — Não sei. Parecia vir de uma meia dúzia de locais ao mesmo tempo. O tanque da frente saltou sem ter tempo de atirar. — Que posso fazer.para tomarem os montes de Périers. Onde se situam as suas posições. Se não rechaçar os ingleses para o mar.. tinham vindo ver como se apresentava a contra-ofensiva.. e o General Marcks. Lang. não tinham encontrado qualquer resistência. Bronikowski foi interceptado pelo General Wilhelm Richter. — Vamos ajudá-lo o melhor que pudermos. general? — acrescentou desdobrando um mapa. * Rommel voltou-se um pouco no assento da frente do Horch e disse a Lang: — Espero que não haja um segundo desembarque no Mediterrâneo precisamente neste momento.ª Panzer. infeliz.. Bronikowski bateu os calcanhares. fez a continência e respondeu: — General. Virou-se para a frente e recomeçou a olhar fixamente a estrada. Ele próprio contava atacar o cume de Biéville. a três quilômetros. Lang observava-o. Toda a minha divisão foi aniquilada. O Horch embrenhava-se pelo crepúsculo. De lágrimas nos olhos. Marcks aproximou-se de Bronikowski e disse-lhe: — Meu caro Oppeln. comandante da 716.º corpo. se eu comandasse as forças aliadas julgo que poderia terminar a guerra em quinze dias. comandante do 84.ª divisão. farei o melhor que puder. Enquanto avançavam. Depois. Não sei. Mas o tiroteio era preciso e mortífero. no momento em que o primeiro dos tanques modelo IV atingia o cimo.

em Luc-sur-Mer. evoluíam navios de guerra de todos os tipos. o que decepcionou Hermes. Os canhões britânicos pareciam possuir um alcance inacreditável. Parecia que nada se passava e ninguém lhes tinha dado ordens. Gottberg perdeu dez tanques. * O soldado Walter Hermes continuava sem perceber onde poderiam estar os tanques. Parou o contra-ataque e deu ordem de retirada. uma milha ao largo. Desviou-se para a orla de um bosque. Em menos de um quarto de hora perdeu seis. destacando-se no céu púrpura do crepúsculo. Mas não pareceu que causassem qualquer impressão aos atiradores ingleses. Tinha a certeza de que os ingleses avançariam sobre Caen dentro de algumas horas. Começou por um roncar de motores de aviões. Mas o espetáculo da frota de desembarque oferecia-lhe uma compensação. de ingleses ainda menos. A vanguarda do 192. ordenou aos seus homens que escondessem os tanques deixando apenas emergir as torres.Dois abriram fogo. hem? Tão bonito como um desfile militar. à esquerda e à direita. Aliás. e. junto da aldeia de Lebissey. o tempo passou sem sombra de ataque. O atraso das ordens e o tempo perdido em contornar Caen tinham permitido às tropas britânicas que consolidassem as suas posições nestes montes estratégicos. Havia centenas. Hermes viu centenas de navios e de embarcações que iam e vinham. Mas. Viu os planadores . ao longe. Bronikowski nada podia fazer. Gottberg amaldiçoou ponderadamente todos aqueles em quem pensou. os tanques de Bronikowski foram postos fora de combate. para grande surpresa de Gottberg. Bronikowski não tardou em compreender por quê. Aí. Um pouco antes das vinte e uma horas Gottberg viu um espetáculo fantástico. Um após outro. sem descobrir o menor traço de blindados. Dirigiuse ao seu amigo Schard: — É lindo. Nunca enfrentara um tiro semelhante. que foi crescendo depois. * Os ingleses estavam já sòlidamente fixados nas montanhas de Périers. Hermes e os seus camaradas estenderam-se na relva e começaram a fumar.º regimento acabava de chegar à costa. Devido ao alcance do tiro. e distinguiu enxames de planadores vindos da costa. detiveram os trinta e cinco tanques do Capitão Wilhelm von Gottberg antes de estes poderem abrir fogo. voando em formações cerradas atrás dos respectivos rebocadores. Em alguns minutos. Diante da costa.

em silêncio. entre eles e a costa. até que a cidade acabasse por cair. Lang ficou furioso e chocado. Os três estavam "bêbedos que nem porcos. Lang saltou em terra e correu a prevenir o General Speidel da volta do marechal de campo. observou o mapa. Esquecendo por um instante que se dirigia a um general. cambaleando da esquerda para a direita". dirigiu-se para a sala de jantar. Na ampla entrada. Passaram aos tropeções. passou sob as dezesseis tílias cortadas em cubo e transpôs o gradeamento do castelo dos duques de La Rochefoucauld. acho eu? A passos largos. enfiado no seu imenso capote de campanha cinzento-azulado. aterraram em qualquer local. * O Horch de Rommel roncou através de La Roche-Guyon. indiferentes a tudo. Bronikowski observou-os longamente e suspirou em voz alta: — A guerra está perdida. * Embora os ingleses tivessem efetuado as mais importantes avançadas do Dia D. gritou: — Como pode escutar uma ópera numa altura destas? Speidel sorriu e respondeu: — Meu caro Lang. Deixou- . Assim que o carro parou. Bronikowski viu um sargento com os braços passados sobre os ombros de duas enormes "ratazanas cinzentas". não pensa certamente que é a minha pobre música que nos vai impedir de rechaçar o invasor. Na retaguarda da coluna. não conseguiram conquistar o seu objetivo principal: Caen. oscilando. Bronikowski mandara igualmente esconder os tanques. de cara suja. Speidel voltou a fechar a porta e Lang. sabendo que a conferência duraria um bom bocado. empunhando o bastão de marechal com a mão direita. balançando ao sabor do vento. Em Biéville. Entrou no gabinete de Speidel e. Em sua opinião "Caen e toda a região poderiam ter sido tomadas em algumas horas*". e cantando com toda a força o Deutschland Uber Alies. A música aumentou de volume quando a porta se abriu e Speidel apareceu. ouviu o tema de uma ópera de Wagner vindo do gabinete do chefe do estado-maior. Bronikowski viria a ficar nas suas posições com os tanques durante mais de seis semanas. O carro negro deixou a estrada nacional. de mãos atrás das costas. passando lentamente diante das pequenas casas que se alinhavam ao longo da estrada. que se afastavam da frente e se dirigiam para Caen". Bronikowski não conseguia compreender por que razão os ingleses não atacavam. Gottberg blasfemou raivosamente. conduzindo grupos de vinte a trinta homens cada. De pé na beira da estrada via passar "oficiais alemães. Rommel avançou pelo vestíbulo.serem largados e.

As vagas esmagavam-se de encontro à areia e ao longe Cota ouviu o crepitar solitário duma metralhadora. De fato. Parecia-lhe engraçado.ª divisão aerotransportada. Mal conseguia manter os olhos abertos. de Rommel. Estava morto de fadiga. Não encontrava mais nada que dizer.ª Panzer falhara. resolveu escrever à família. projetando reflexos sangrentos na noite. havia cerca de setenta e duas horas — desde a noite de 4 de junho. Aqui e ali. Estava acordado. Um caminhão avançava na sua direção e Cota fez-lhe sinal. o enfermeiro Sargento Alfred Eigenberg deixou-se cair. Lang soube como toda a gente a má notícia: o contra-ataque da 21. Saltou para o estribo. Não disparara um só tiro durante todo o dia. De repente o general sentiu-se horrivelmente cansado. numa cova de obus. que tivesse tido tanto trabalho para voltar a perder o que ganhara. mas insistia em querer fazer qualquer coisa antes de adormecer. * No Q. Na praia. * Em Cotentin.P. agarrou-se à porta e lançou um último olhar pela praia. Dutch sentia-se um tanto envergonhado. Numa poltrona. e dos comandantes de setor que faziam avançar homens e veículos para o interior. Garatujou no cimo "algures em França" e começou: "Queridos pais. Eigenberg tirou do bolso uma folha de papel de carta aérea amarrotada e. quando recomeçara a jogar dados. da 82. sei que já estão agora ao corrente do desembarque. perto de Sainte-Mère-1'Êglise. Virou-se para o marechal de campo: . encostou-se ao talude da trincheira e escutou atentamente o sino da igreja que ao longe batia onze badaladas. meu filho. o soldado Dutch Schultz. Eu. um oficial lia o jornal. eu estou bem".G. calculava. o General-de-Brigada Norman Cota observava os "olhos de gato" dos faróis camuflados dos caminhões e escutava os gritos dos M. Em seguida disse ao motorista: — Conduz-me até lá acima.se cair com enfado numa cadeira e pediu café à ordenança. Nada acontecera. Já não sabia quantos feridos tratara. à luz duma lâmpada elétrica. presentemente. nas dunas. estafado. Ergueu a cabeça e perguntou amavelmente: — Fez boa viagem? Lang olhou-o fixamente sem nada dizer. Em seguida o jovem enfermeiro de dezenove anos parou. ardiam ainda alguns batelões de desembarque. Atrás de Omaha Beach.

pensa que os podemos rechaçar? Rommel encolheu os ombros. as persianas estavam corridas sobre a janela das pequenas casas de telhas vermelhas. estendeu os braços e respondeu: — É o que eu desejo.— Senhor marechal. nada se movia nos dois enormes pátios. . Depois afastou-se e Lang viu-o percorrer o corredor até ao escritório. No campanário de SaintSamson o relógio bateu a meia-noite. Lá fora. venci sempre. Em breve. esta aldeia. seria libertada e com ela toda a Europa. Em seguida pousou a mão sobre o ombro do seu ajudante de campo e acrescentou: — Tem um ar cansado. Lang. É melhor ir deitar-se. A porta fechou-se docemente sobre ele. larga e deserta. O dia foi muito longo. Até hoje. La Roche-Guyon estava silenciosa. Para além do gradeamento do castelo a estrada estendia-se pela noite. A contar deste dia o III Reich não chegaria a durar um ano. a mais ocupada de toda a França.

A 6. diversos oficiais generais alemães. pelo menos.500 e 3. De modo geral. foram-se indicando números vagos e contraditórios sobre as perdas sofridas pelas tropas aliadas durante as primeiras vinte e quatro horas do desembarque.499 mortos.° divisão aerotransportada teve 650 mortos. contam-se 946 soldados postos fora de combate. Nenhum deverá ser considerado verídico. Quais as perdas infligidas aos alemães durante o Dia D? Ninguém o poderá dizer.000. Nestes números estão compreendidas as perdas das 82° e 101° divisões aerotransportadas que.000 até 9.000 homens. 354 oficiais superiores e cerca de 250. Rommel indicaria que as perdas durante o mês eram de "28 generais.000 homens". outros vão até doze mil.APÊNDICES PERDAS COM o decorrer dos anos. feridos e desaparecidos. por si. 3.184 feridos. 1. Este número baseia-se no primeiro relatório do 1° Exército que precisa os seguintes detalhes: 1. se elevavam a 2. Durante as entrevistas que tive com. citaram-se números desde 4. a maioria dos historiadores militares estão de acordo em avaliar as perdas em dez mil homens. No fim de junho. . feridos ou desaparecidos. Os britânicos não forneceram quaisquer números mas as suas perdas são avaliadas entre 2. Quanto aos canadenses. pois a própria natureza da ofensiva impossibilita-nos de efetuar um cálculo exato.928 desaparecidos e 26 prisioneiros.603 homens. dos quais 335 mortos. Ficamos reduzidos às estimativas.465 mortos. As perdas americanas seriam de 6.

do Magazine do Exército e dos Serviços Literários. sem mais se queixarem. ao Major-General H. dentro e fora da Europa.. L. mais de um milhar ao todo. relatórios. ao Comandante Herbert Gimpel. ao Major J. à Sr. que subsidiou o meu trabalho e que tornou possível a redação do livro. Cheeseboro e ao Tenente-Coronel C. permitindo-me a obtenção de entrevistas. Chesnutt. Mack. diretor do Reader's Digest. registros de guerra. Em seguida. Todos me ajudaram a localizar diversos antigos combatentes e me abriram numerosas portas. assim como a todos os oficiais das relações públicas. livros de bordo. Taylor. verificados e comparados com outros. J. Antes de mais. Por várias razões — e sobretudo para evitar repetições — foi impossível publicar todos os relatos. M.AGRADECIMENTOS As PRINCIPAIS fontes de informação deste livro provêm de sobreviventes aliados ou alemães. listas de feridos. na Inglaterra. antigos registros. deixando-me consultar documentos e arquivos oficiais e fornecendo-me mapas detalhados.U. realizadas durante e depois da guerra pelo General-deBrigada S. No texto estão incluídos trezentos e oitenta e três relatos. chefe do Serviço de Informações do Exército. Marshall. escoltaram-me até à Europa. historiador do teatro de operações europeu. A. de resistentes franceses e de civis. A todos estou profundamente reconhecido. chefe do estadomaior do Exército dos E. obras de historiadores e outros relatórios oficiais. quero apresentar os meus agradecimentos a De Witt Wallace. na França e na Alemanha. do Departamento de Defesa e do Serviço de Viagens. Storke. forneceram voluntariamente mais amplos detalhes. Responderam às minhas cartas e perguntas. cadernos de mensagens. do Magazine da Marinha e dos Serviços Literários. ao TenenteCoronel John S. registros de companhias. entregaram-me montanhas de documentos — cartas manchadas pela umidade. General Maxwell D. do Serviço de Informações do Ar. De todos os sobreviventes encontrados — um trabalho que me ocupou cerca de três anos — setecentos foram entrevistados nos Estados Unidos. Mas a estrutura deste livro é constituída pelas informações fornecidas por todos os participantes. como as notáveis entrevistas com os comandantes." Martha Holler. devo exprimir o meu reconhecimento ao secretário da Defesa dos Estados Unidos. às quais se juntam relatórios aliados ou alemães. Sundermann e ao Capitão W. cartas pessoais e fotografias — e prestaram-se sempre a serem entrevistados. Preencheram questionários e quando estes foram revistos. Deram-me o seu tempo generosa e livremente. . que me auxiliaram em todas as dificuldades. P. ao Coronel G. no Canadá. Owen.

único correspondente de guerra a saltar de pára-quedas com a 82. Sr.ª brigada britânica conduziu o ataque de Sword Beach. do 48. Coronel Eugene Caffey e Sargento Harry Brown. Gavin. que comandava o 1.ª divisão aerotransportada e que.ª divisão. Cabo Michael Kurts. pelas descrições vivas da praia de Omaha.º Exército. Charles Finke e Charles von Luttichau — que me autorizaram a mergulhar na documentação e me ofereceram o seu apoio e conselhos. pelos seus preciosos conselhos e por me ter emprestado os seus mapas e documentos oficiais. da 29. autor do plano de invasão Overlord.britânicas. pela elaboração da lista detalhada do material transportado pelas tropas da primeira vaga de assalto. Smith. durante cerca de oito meses. mais tarde. Quero ainda mencionar o trabalho de Charles von Luttichau. Coronel Gerden Johnson. Também muito devo ao General Ornar N.ª divisão. por terem pintado o quadro da praia de Juno. desejo muito especialmente expressar a minha gratidão às seguintes pessoas: Sargento William Petty." Theodore Roosevelt. Israel Wise. Quero ainda expressar a minha gratidão ao General Maxwell D.ª divisão do Dia D. que consagrou todo o tempo livre. pelas suas pacientes investigações que conduziram ao conhecimento das marchas e canções por ele tocadas naquele dia. e finalmente o tocador de gaita de foles Bill Millin. da 4. que me consagrou um tempo precioso e me fez reviver passo a passo o ataque da 101. ao General Walter B. cuja 8.ª divisão. William Walton. chefe dos Serviços Históricos do Exército. Bradley. Kent Roberts Greenfield. e General James M. pelos seus documentos e pelos esforços que fez para tentar avaliar as perdas . amáveis sugestões e críticas. da 1. Tenente Edward Gearing e General-de-Brigada Norman Cota. por ter rebuscado malas e baús até encontrar os seus diários e passado dois dias a reconstituir a atmosfera da batalha. então chefe do estado-maior do . Cass. comandante da 4.ª. à procura e transporte de braçadas de documentos alemães e dos indispensáveis registros de guerra da Wehrmacht. pelos seus retratos do General-de-Brigada Theodore Roosevelt na praia de Utah. dos comandos de Lord Lovat.Devo igualmente testemunhar o meu reconhecimento ao Dr. Major-General Raymond O. Barton. que meticulosamente reconstituiu a ação dos "rangers" na Ponta do Hoc. E. Capitão Daniel J. Outros leram duas ou três versões do manuscrito procurando possíveis erros: General Sir Frederick Morgan. Flunder e Tenente Michael Aldworth. Heinz. Taylor. teve ainda tempo para ler o manuscrito enriquecendo-o com detalhes preciosos. e aos membros do seu gabinete — Major William F.ª divisão em terra normanda. Entre todos os que prestaram a sua contribuição a este livro. pelo seu memorial detalhado. que comandou o lançamento dos pára-quedistas da 82. pela sua cortesia. General E. E. em tempos do Time e do Life.° comando do Royal Marines.

no comando da 6. pelos representantes gerais e redatores-chefes do Reader's Digest.ª esquadrilha da Luftwaffe. o Coronel Josef Priller. ao General J. nos Estados Unidos. Stacey. na Grã-Bretanha. quero indicar muito particularmente o General Franz Halder. da 26. na consulta aos arquivos e entrevistas finais. que me ajudaram com os seus conselhos e me permitiram resolver muitos problemas de controvérsias. Frau Lucie-Maria Rommel e seu filho Manfred. chefe do estado-maior do 7. De Utah à Cherbourg. o General Hans Speidel. de R.° Exército. Quanto aos alemães. o General von Oppeln-Bronikowski. Quero manifestar o meu reconhecimento a Gordon A. Harrison. Na procura dos antigos combatentes. autor do Commandement Suprême. de Samuel E. Omaha Beachhead. ajudante de campo de Rommel. o Tenente-Coronel Hellmuth Meyer. Attaque à travers la Manche. e ao Professor Forest Progue. Estes homens responderam amavelmente a todas as minhas perguntas. da 352. assim como os detalhes do plano de ataque.General Eisenhower. o General Günther Blumentritt. Entre os numerosos alemães que me deram a sua contribuição e ajuda. chefe do estado-maior de von Rundstedt. na França e na .° Exército. antigo chefe do Alto Estado-Maior alemão. G. o General Max Pemsel. Men Against Fire. da 21. foram-me imensamente preciosos. e o Major Werner Pluskat. o Capitão Hellmuth Lang. Ruppenthad. foram consultadas muitas obras de eminentes historiadores.º Exército. Outros livros como L'Invasion de la France et de L'Allemagne. que comandava o 1. do 15. Taylor. de Leonard Rapport e Arthur Norwood Jr. do General S. o General Hans von Salmuth. gostaria igualmente de agradecer a generosa cooperação do governo de Bonn e a colaboração de numerosas associações de antigos combatentes que localizaram os participantes do Dia D e me conduziram a entrevistá-los. comandante do 15. chefe do estado-maior de Rommel.ª Panzer. autor da história oficial do Dia D. Morrison. L. e L'Armée Canadienne 1939-1945. Marshall. Crocker. T.ª divisão. Todos estes e centenas de outros foram amáveis a ponto de me receberem e de consagrarem horas à reconstituição das diversas fases da batalha. fui maravilhosamente assistido pelos serviços de documentação. P. concederam-me entrevistas ou permitiram-me consultar mapas do estado-maior e vários documentos. Rendez-vous avec le Destin. As suas obras revelaram-me inestimáveis e deram-me uma visão de conjunto da situação política e militar existente imediatamente antes do desembarque. história do exército americano.. Além das informações prestadas pelos participantes do Dia D.ª divisão aerotransportada britânica. de Charles H. A. do Coronel C. e ao General Sir Richard Gale.º corpo britânico. no Canadá.

e Pat Sullivan. Com a ajuda do War Office canadense. Ted Rowe. minha querida mulher. da Pan-American Airways.B. que organizou as investigações que me ajudou na revisão final do manuscrito e que contribuiu mais do que qualquer outra pessoa — pois teve de me aturar durante todo aquele tempo! . Kathryn.M.ª aerotransportada. arquivou e manipulou a correspondência e que tudo datilografou. de questionários e de correspondência e nelas se afogaram. encontraram e interrogaram dúzias de antigos combatentes canadenses. que classificou. Kenneth Crouch. Em Nova Iorque. que foi o primeiro a acreditar no meu projeto e me auxiliou durante os meses de trabalho extenuante. Jerry Korn. pelas suas críticas pertinentes e pela sua ajuda. mergulharam em pilhas de documentos. Lillian Lang. John D. pelo seu perfeito trabalho de secretariado. do Digest. assim como ao diretor-adjunto George Revay. da revista Army Times. Anne Wright. Panitza e Yvonne Fourcade. Don Brice. que me ajudaram a entrevistar o Coronel John Verden. O mais difícil foi o lado europeu da tarefa. da General Dynamics. Miss Joan Isaacs fez o mesmo e também obteve entrevistas. Shcreiber. da I. pelo seu esplêndido trabalho de investigação e pelas suas entrevistas. Hobart Lewis. acima de todos. Don Lassen. Dave Parsons. pelos seus conselhos. da edição européia do Digest em Paris. da Dictaphone Co. Miss Francês Ward e Miss Sally Roberts. Os meus mais sinceros agradecimentos para o diretor-geral adjunto do Digest. pela sua leitura atenta de todas as versões do presente livro. sob a direção da redatora-chefe Gertrude Arundel. e David Kerr. Shane Mac Kay e Miss Nancy Vail Bashant. pelas numerosas cartas sobre a 82. diretor da edição alemã do Digest. que através das suas companhias e dos seus serviços me ajudaram a localizar os sobrevi-ventes.Alemanha. Peter Schwed e Phyllis Jackson.. do Bedford Democrat. Em Londres. Theodore H. Há ainda muitos mais para com quem tenho dívidas de reconhecimento. e devo agradecer a Max C. e. Suzanne Gleaves. White.