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Recensao Critica Historia Do Seculo XX

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Recensão Crítica HOBSBAWM, Eric (2008) - “Globalização, Democracia e Terrorismo”, Lisboa

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Editorial Presença O presente estudo assenta na leitura de excerto da obra de Eric Hobsbawm, escrita no virar do século como análise da evolução das democracias ocidentais, intitulada “Globalização, Democracia e Terrorismo”. A estrutura da reflexão de Hobsbawm desencadeia considerações do Estado-Nação, com vista à difusão da Democracia, apesar do terror em crescendo numa era de violência antiimperialista. Como historiador contemporâneo, Eric Hobsbawm, é dos mais reconhecidos e reputados a nível internacional. O seu percurso de vida, nasceu judeu no Egipto no ano da Revolução Russa, viveu na Alemanha e na Áustria durante os anos da crise de 1929 onde descobriu a sua vocação pelos ideais marxistas, estabeleceu-se em Inglaterra em 1933 onde se formou e lutou pelos aliados contra os nazis, conduziu-o à desilusão do modelo soviético de Estaline obrigando-o a entender a história da organização das classes populares em termos das suas lutas e ideologias, através da chamada "História Social". Escreveu obras como “A Era das Revoluções”, “A Era dos Impérios” ou “Nações e Nacionalismo desde 1780”. O inicio de uma era de instabilidade internacional a partir de 1989, cujo fim não pode ser ainda divisado, é apontado como a principal das diferenças históricas ocorridas nas últimas décadas e que afectaram o debate sobre a natureza e história das nações e do nacionalismo. Com o fim da Guerra-fria e da URSS, vistas como forças politicas estabilizadoras, deixou de existir um sistema de poder internacional. Assistiu-se ao maior aumento de Estados soberanos internacionalmente reconhecidos, acrescentando 33 ao número de membros da ONU. “Este período assistiu também ao proliferar dos chamados “Estados falidos”, isto é, a um colapso virtual do governo central efectivo, ou a uma situação de conflito armado interno endémico”, sentindo-se com maior incidência nos Balcãs, África e América do Sul. A instabilidade resulta da perda de controlo militar pelas forças armadas, que se vêem ultrapassadas no poder militar contra grupos não-governamentais, através da fácil aquisição de armamento com os recursos financeiros da economia capitalista. Para Hobsbawm, “um perturbante resultado destes desenvolvimentos é uma reincidência global na primeira grande epidemia de massacre, genocídio e “limpeza étnica” desde a Segunda Guerra Mundial”, como os oitocentos mil massacrados no Ruanda, em 1994, ou os 35 milhões de refugiados em todo o mundo contabilizados pelo Natal de 2005.

Um segundo elemento a afectar o problema das nações e do nacionalismo é a mobilidade permitida pelo processo de globalização, com as companhias aéreas a transportarem cerca de duzentos e sessenta milhões de pessoas anualmente e as taxas de imigração a dispararem nas economias mais desenvolvidas. O mosaico de Estados-nação etnicamente homogéneos deixados pelas guerras do século XX, vão deixando de existir pelas transformações da economia mundial. Quase duzentos países permitem a dupla nacionalidade e o passaporte é o documento válido na identificação internacional, tendo destituído completamente a certidão de nascimento. Eric Hobsbawm indica também a xenofobia como falhanço da ideologia globalizada do capitalismo de mercado livre, ao não conseguir edificar um movimento internacional de trabalhadores. A nova filosofia “ onde eu prosperar, aí será a minha pátria” leva os Estados a preferirem conduzir guerras com exércitos profissionais, por já não poderem recrutar cidadãos aos milhares para “morrerem em batalha pela pátria”. Neste novo século o dinheiro comanda a vida e os Estados-nação serão certamente substituídos por novas formas ainda não definidas. A Democracia é um anseio dos Estados, segundo Hobsbawm. Levar a crer que os governos e assembleias representativamente eleitas conferem um estatuto considerado superior a qualquer Estado que os não possua, obriga a uma discussão pública racional da Democracia. “O voto livre não é importante por garantir direitos, mas sim por dar ao povo a possibilidade de se livrar de governos impopulares”. A par do historiador inglês, também o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos constata que a Democracia assumiu um lugar central no campo político durante o século XX, mas o futuro do século XXI é uma questão em aberto, até pelo debate inacabado sobre a compatibilidade ou incompatibilidade entre a Democracia e o capitalismo. Na perspectiva global, Sousa Santos corrobora a análise anterior de Hobsbawm, acrescentando que o fim das identidades nacionais homogéneas permite a recuperação de tradições participativas, suscitando uma nova ênfase nas democracias. Já o investigador Pedro Carvalho, aproveita para comparar o actual falhanço do capitalismo neoliberal global, com as condições económico-sociais provocadas pelo capitalismo liberal e pela industrialização do início do séc. XIX, que geraram o aparecimento do socialismo, ideologia de carácter social e politico que pretende construir as sociedades com base numa efectiva igualdade económica e social, entre todos os residentes do Estado. Esta incerteza no futuro aplica-se ao caso de Portugal, que no auge da crise económica vai dar voz aos cidadãos em 3 actos eleitorais no espaço de apenas 4 meses.

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A Democracia liberal requer uma unidade política no seio da qual possa ser exercitada, mas a dúvida está em considerar um governo liberal-democrático superior a um governo não democrático. Pode ser verdade mas o bem-estar dos países pode não depender da presença ou ausência de qualquer particular espécie de arranjo institucional, por mais moral e recomendável que seja. O profundo cepticismo na expressão de Winston Churchill: “A Democracia é o pior de todos os governos, à excepção de todos os outros.”, confere dúvidas sobre a eficiência de governo na Democracia representativa das massas. Até porque os pilares de sustentação têm vindo a deixar de ser válidos, como o poder absoluto do Estado por causa dos novos grupos militarizados e armados, bem como a aceitação inquestionável da autoridade pelos cidadãos e o fornecimento de serviços que doutra forma não seriam acessíveis. Na realidade, tem-se registado um declínio na disponibilidade dos cidadãos para participar na política, mesmo quando se lhes pede apenas para votar. Hobsbawm atribui a progressiva pobreza intelectual dos políticos à desresponsabilização da cidadania e à partidarite. O controlo das acções dos governos entre eleições é impulsionado pelos meios de comunicação enquanto construtores da opinião pública. Quando alguma coisa corre mal, os governos têm a obrigação de agir. Foi para isso que foram eleitos. Apesar da constante pressão e monitorização a que estão sujeitos, não podem para de governar. Para Hobsbawm a vontade do povo não poderá determinar as tarefas da governação, pode apenas julgar resultados. Os sistemas soviéticos falharam porque não havia um tráfego nos dois sentidos entre as decisões tomadas e aqueles a quem se destinavam. “ Numa democracia liberal, o atender à vontade do povo dificulta a governação”. Os governos raramente representam sequer uma verdadeira maioria dos eleitores. “A segunda metade do século XX foi a idade de ouro das ditaduras militares, as quais se revelaram bem mais perigosas para os regimes eleitorais do que o comunismo”, por isso, as eleições democráticas continuarão a realizar-se, uma vez que o povo não pode viver sem governo e o governo tem de levar o povo em conta. No entanto, Eric Hobsbawm ressalva que estamos envolvidos num esforço pela “difusão da democracia” que não passa de uma retórica sonhadora, como são os exemplos das guerras no Iraque e no Afeganistão, apesar do sufrágio universal não apresentar quaisquer garantias, como no caso da República de Weimar. São os Estados Unidos da América quem lidera a utopia de moldar o mundo à sua imagem de “sociedade livre”, através da supremacia militar, apesar da Democracia não ser um mecanismo efectivo para resolver os problemas globais e de se mostrar até um sistema inadequado para enfrentar os desafios da actualidade.

As situações de conflito causadoras de violência social e política têm originado episódios de verdadeiro terror. Falamos de terror armado com atentados internacionais como resposta às invasões “legitimadas”, mas também de terror interno nos estados pela supremacia étnica, causando milhões de vítimas e de refugiados nas últimas duas décadas. O uso da violência tornou-se comum a todos os indivíduos que já não carecem de factores de desinibição, como o álcool ou as drogas. Os conceitos morais foram ultrapassados por imperativos superiores, tendo instaurado a violência como utilização necessária, criando todas as condições para a sua aplicação, mesmo com carácter oficial, como a ameaça, a extorsão e a tortura. Através do poder dos media, tornou-se mais eficaz em termos de divulgação da mensagem, matar inocentes em massa, como acontece todos os dias no médio oriente, do que atacar alvos individuais com responsabilidades politicas, como acontece com a ETA. Hobsbawm não hesita em culpar os Estados Unidos pelo agravamento da situação desde 2001, por ter ultrapassado unilateralmente todas as convenções do conflito internacional: “A politica corrente dos Estados Unidos tentou revitalizar os terrores apocalípticos da Guerra-fria, quando aqueles já não têm qualquer plausibilidade, inventando “inimigos” que legitimem a expansão e uso do seu poder global. Os perigos da guerra contra o terror não vêm dos bombistas suicidas muçulmanos”. Cultiva-se a cultura do medo levando ao aumento das medidas de segurança, quer públicas quer privadas. Muita da violência é possibilitada pelo livre e fácil acesso ao armamento de destruição barato e de simples manuseamento. Resultado do excesso de armamento armazenado nos dois blocos rivais, e continuado a produzir mesmo sem perspectivas de conflito. Assim, torna-se fácil entender a conclusão do historiador quando afirma que não existe nenhuma “Guerra contra o Terror”, pois não existe “inimigo” em posição de ser derrotado. É o mesmo que falar em “Guerra contra a Droga” ou “Guerra dos Sexos”, apenas mais uma metáfora do vocabulário democrático moderno. Os Estados estão enfraquecidos e já não dominam os cidadãos a seu belo prazer. Os grupos, sejam económicos, políticos ou paramilitares, exercem maior influência e dispõem de mais atractivos perante os indivíduos e maior poder do que as instituições públicas nas áreas que escolhem para actuar. “ Em 2004, a CIA identificou cinquenta regiões de todo o mundo sobre as quais os governos centrais exerciam muito pouco ou nenhum controlo”. Também a manutenção da ordem pública tem sido alvo de modificações e evolução, devido ao exponencial aumento da circulação de armas entre a população civil. Hobsbawm sabe que a policia não tenta a utopia de erradicar a violência, mas que faz o máximo esforço por mantêla controlada e afastada das massas. Poderá ser, no entanto, uma batalha desigual em função

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da “assustadora inovação histórica do bombista suicida”, devido a sérias inovações, especialmente na era da Internet e da acessibilidade geral a pequenos engenhos, portáteis mas muito destrutivos. Diferente dos impérios globais do séc. XVII (espanhol) ou do séc. XX (inglês), o actual império americano (globalização) responde com consequências globais imediatas a qualquer interrupção dos canais de interligação. Temos como exemplo a gripe A, que em apenas alguns dias se espalhou desde o México até à Austrália, passando pela Europa e pela Ásia. Nem a “metrópole” escapou, acabando por registar algumas vitimas mortais. Eric Hobsbawm volta a referir que os actuais Estados-nação globalizados, são marionetas da corrente universal, governando internamente em função das necessidades da maioria da população, mas muito pouco interventivos a nível externo, como por exemplo a interdição de aplicação de medidas proteccionistas, sob pena de se verem automaticamente isolados e asfixiados. A grande diferença histórica passa pela criação de necessidades que conduzam ao sentimento de dependência, ao contrário da ocupação e domínio territoriais do colonialismo clássico, no sentido de que “poucas coisas são mais perigosas do que impérios correndo atrás dos seus próprios interesses e acreditando que, ao fazê-lo, estão também a fazer um favor à Humanidade”. Naturalmente que os americanos não pretendem ocupar o mundo inteiro, mas apenas fazer guerras, deixar governos amigáveis e regressar a casa. É o resultado do colapso da URSS, que fez com que os Estados Unidos se mantivessem como superpotência sem concorrência à altura e tendo deixado de conhecer limitações à sua actuação. Hobsbawm acredita que o verdadeiro perigo para o mundo é a sua desestabilização, não hesitando em culpar os Estados Unidos por transformar o Médio Oriente numa região mais instável do que era há dez anos atrás, ou mesmo há cinco. Os benefícios que o mundo terá com a derrota de maus governos, não poderão ser justificativos de uma atitude prepotente de tirania que ocorre apenas em função dos agrados ou desagrados de Washington.
Bibliografia SOUSA SANTOS, Boaventura de (2005), “Democratizar a Democracia, os caminhos da democracia participativa”, Edições Afrontamento. CARVALHO, Pedro Conceição, “O Marxismo”, in Jornal Defesa e Relações Internacionais, 18 Julho 2007. http://pt.wikipedia.org/wiki/Eric_hobsbawm

Eduardo Lino - Marinha Grande, 6 de Maio de 2009 CSEMPL

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