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Aira -Mil Gotas

Aira -Mil Gotas

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MIL GOTAS César Aira

(Tradução Eduard Marquardt)

Um dia a Gioconda sumiu do Louvre, para desespero dos turistas, escândalo nacional, rebuliço midiático. Não era a primeira vez, porque quase cem anos antes, em 1911, um jovem imigrante italiano, Vicenzo Peruggia, pintor decorador que havia estado trabalhando na manutenção do museu, com livre acesso, levou-a por baixo do avental de servente. Escondeu-a por dois anos em seu ateliê, e em 1913 foi com o quadro até Florença, a fim de vendê-lo à galeria dos Uffizi, dando ao roubo uma justificativa patriótica de recuperação de um tesouro nacional. A polícia o esperava, a Gioconda voltou ao Louvre, enquanto o ladrão, que então assinava Leonardo Peruggia, ia preso por uns poucos anos (morreu em 1947). A segunda vez foi pior porque o que desapareceu foi a pintura — literalmente falando —, a fina camada de pintura a óleo que constituía a celebrada obra-prima. A tábua suporte continuava em seu lugar, assim como a moldura: a tábua em branco, como antes de ser pintada. Levaram-na ao laboratório, fizeram todo tipo de exames: não mostrava sinais de raspagem, nem da ação de qualquer ácido, nem nada, estava intacta. A pintura tinha evaporado. O único sinal de violência

sobre a qual. permaneceram nos limites da luz do dia. O público é muito inocente. A reação imediata fez aparecer a grande diferença entre as duas moças. Muitas delas nas manhãs difíceis das grandes cidades. a outra “enquanto dure”. outras nos apaixonados tons rosa do entardecer. no caso de adultério. como nem o senhor Gota nem suas duas esposas conheciam as regras do tênis. acreditando estar indo pra Coréia (na verdade foi pra Osaka). no Universo. resolveram correr pelo mundo. cabíveis a um criminoso convencional. se tem de decidir quem é o culpado. Certo dia. Se alguém tivesse contado os furinhos no vidro. descobriu as profundezas da noite. saberia quantas eram. Podiam ir onde bem entendessem. no vidro blindado que separava o retrato de seus espectadores. Disso resultaram especulações jornalísticas sobre extraterrestres. Com efeito. e quando julgou que já havia durado o bastante disse basta e se juntou a um fotógrafo. doze. a infiel escapou. Chamavam-se Velas Minuto. Algumas nos finos raios da aurora. Além disso. e depois se distraíram com um jogo curioso: uma cancha de tênis de papelão. sem mais. que. mares ou distâncias. depois outra. Durante um tempo. Atrás de aventuras. E a explicação do que havia acontecido era tão simples! A pintura havia retornado ao estado de gotas vivas de tinta. Ao se extinguir a compulsão pelo movimento. não quis pensar: mataria as duas. puderam se estabelecer onde queriam. a família Gota fez um piquenique sob a chuva. com um grande guarda-sol listrado. Ao menos era nisso que acreditava. meteu a cabeça na orelha do magnata e disse uma palavra: Cucú. nos desertos ardentes ou sobre uma abelha no jardim. Gota San cada vez lhes dava menos atenção. de um milímetro de diâmetro. Nem muros. Logo já não havia limite para suas viagens e descobertas. até que as esqueceu por completo. Um inconveniente da bigamia é que. eram gotas coloridas com superpoderes. Sua condição sobrenatural de gota viajante o eximia das conseqüências realistas. shogunados inteiros. se abrindo em leque. essa gota teve um sucesso fora do comum. As rãs eram de verdade. ainda que não houvesse nada o que investigar. Até as mais prolongadas noites de inverno se mostravam incapazes de conter tanta intimidade. possuía duas esposas gueixas que transportavam feixes de espadas e. Absorto em estudos de balística.eram uns furinhos perfeitamente circulares. Uma foi pro Japão. e o cornudo justiceiro ficou contemplando o cadáver. o antes e o depois. Eram vendidas em caixas de seis. montanhas. Até que uma delas. nem um pouco racional. durante uma dessas viagens. tais como um ser gelatinoso que ali teria posto suas ventas perfurantes etc. dando voltas pelo planeta na mesma direção. como um segundo guarda-sol. Multiplicadas. por acaso. Uma suave música melódica se abria lentamente sobre o piquenique. Gota San. a partida era bastante caótica. é imune ao azar. Protegida por severas patentes de exclusividade e beneficiada pela noite. montanhas. Tomaram chá. Quis a má sorte que fosse justamente a fiel. o perfume das velas era um perfume Débussy. onde não se distinguia o perto e o longe. onde montou uma fábrica de velas perfumadas. a princípio. devagar ou mais rápido. rico como um Creso. bosques. o senhor Foto San. as gotas se dispersaram pelos cinco continentes. Mas na verdade nenhum ser. comeram. saltou no ombro de Gota San. na primavera das pradarias ou no outono dos bosques. também nas geleiras polares. cintilando sua ilimitada máquina criadora. nas sestas sonolentas do campo. admiraram as silhuetas das árvores recortadas contra o violeta do céu. Carregadas com a energia de cinco séculos de obra-prima. mais distraído que atento. dobrável. montada sobre a bolinha das rãs. todos ocupados em propor teorias tão descabeladas quanto incompatíveis. algo bastante incômodo. Eram acionadas por eletrodos. quatro rãs vestidas de branco disputavam uma partida de duplas mistas. tão parecidas que todos as confundiam. Esses furos também foram investigados. suas chamas rosadas criavam uma penumbra sem sombra. Uma era “para sempre”. com raquetes de ráfia. Mas ninguém se deu o modesto trabalho de contar. várias caixas de velas Minuto e uma cesta de camarões. . e mais outra. e exalavam a Lua. e não estavam nem vivas nem mortas. para a diversão do marido. Na raiva que lhe tomou conta. vinte e quatro e mil (todos compravam as de mil). não seria um vidro que as deteria. Imensas discotecas aderiram às velas Minuto e assim também templos. organizavam sessões dançantes de esgrima. do tamanho de um tabuleiro de xadrez. Não mostravam rastros de nenhuma substância e ninguém sabia dizer com que instrumento tinham sido feitos. movida por uma sobrecarga. por mais blindado que fosse. amando-o desse jeito mesmo. A tragédia se deu quando uma das rãs. Uma permaneceu fiel. de ação e de experiência. que por motivos profissionais viajava o tempo todo para a Coréia. Mil. a outra saiu em busca do amor que já não encontrava em casa. Saltou sobre a que estava mais perto e a estrangulou.

a simples e mera vida que alguém está levando. e que essa fadiga de viver que se apoderava dele era normal. cotidiana. perguntava: de que me serve? Que vantagem posso tirar? Euforia atravessava as nuvens gritando: “Sou uma gota de Extrema Unção!” A água e o azeite nunca se misturam. Sentia. já era uma forma de energia. aliás. Para a escolha das representantes. o homem fica triste. bem longe dos crisântemos. na última moda. mandando pra terra sua irmã demente. Depois do sexo anal. pura escultura de cabelo. em convenção. em si. Mística. um bibelô vivo. loiro. mas era preciso. um divórcio atrás do outro. Só as representantes de cada chuvisco. De vez em quando lhe aparecia o fantasma do morto. O mundo é grande e há lugar pra todos. Quando chovia sobre o Papa. Joe Pete Gota. com o topete. seus parceiros do clube de bridge não o encontraram. A vida de alguns. seus relacionamentos não dão certo. a cada 12 de julho havia eleições. na verdade uma goma de mascar. uma gota duelou com Trementina. Essa medida. Joe Pete Gota tinha um nariz escuro e redondo. ter de destruir um ser tão belo como Trementina. ninguém sabia isso melhor que uma gota vagabunda. que exportava pra Coréia como revelador fotográfico em solução gelatinosa. continuou com sua vida de extrativista industrial da flor de cáctus. Não todas. sem a visita do Papa. Os acontecimentos se precipitaram e a gota decidiu se autocanonizar. dia em que Gravidade anualmente celebrava o aniversário de seu Compromisso simbólico com o Papa. Nunca mais foi visto. descarregando toda a munição. Uma vez. Gravidade se prestava a baixar a escada. tornava-se gota cerebral. O contra-ataque foi um sonho que envolveu o adversário numa atmosfera bucólica. Talvez o arrependimento desse algum sentido à sua deriva.Em Oaklahoma. Dava uma festa e convidava as gotas da chuva. Rosa Edmunda González. num combate único. a fim de que preparasse sua visita. A morte de uns é a vida de outros. tão decorativo num mundo tão bárbaro. Joe Pete Gota esbravejava: “Ou ele ou eu!” Um dos dois devia morrer. para os estudantes pobres. Trementina partiu pra cima da gota com uma pistola de cáctus. na Vaticova e no Ânus. Entre os redemoinhos de poeira levantada pelo vento da planície. que. mas sem exageros. Gravidade olhava-a pensativo. O Papa lhe ofereceu o Primado da Turquia. a gota Euforia se acelerava. bem-casado. Planejaram com todo cuidado. e no entanto há situações em que o anacrônico se torna espetacular. tece a morte de algum outro. Teve um affaire com o Papa. Em edição especial. Tentava fugir dizendo que toda música é triste. próspero. porque não havia tantas taças. Num determinado momento. e de vinte e quatro para os ricos. Saltando de chuva em chuva. requerendo à Associação Cooperadora. A data firmada era 13 de julho. Confiando em sua elegância. que absorveu as nove balas. Minutos antes de sua ascensão. a gota inaugurou um colégio. uma gota se infiltrou no Vaticano. Os votos eram depositados nas lágrimas de uma menina. Mas não vale a pena chorar por isso. as suspeitas de que o Vaticano nomeara uma gota como Cardeal Superior causou perplexidade. altíssimo: um centímetro. Ao virem buscá-lo. Circulavam rumores de que a gota tinha vivido um ano inteiro dentro do cólon do Papa: sua forma e tamanho eram semelhantes à espécie. que fosse montada uma fábrica de lápis para a compra de material pedagógico. satisfeito. Trementina era um magricela. Quando todas desanimavam. o Solteirão. seus lápis se transformaram em velas . Ao sinal de chuva. no entanto. chata e sem sentido. Seu único excesso era o topete. bastante parecido com Kant. muito bem-vestido. deixou subentendida a possibilidade de um golpe de Estado. de doze para a classe média. na forma de uma musiquinha triste. a primeira de um pontífice ao planalto da Anatólia . que até então lhe valera todos os triunfos. para terror e desconsolo dos meninos pobres. Em seus momentos mais sinceros. genial e romanesco. um romance apaixonado condenado a não durar. que por sacanagem e distinção mantinha sem gel. ela se sobressaía. Em sua correspondência ao Concílio Eucarístico. reconhecia ter matado sua própria elegância. a caixa de mil seria para os filhos dos chefes de Estado. Na Turquia. três. em Ankara. o que não deixava de ser uma desculpa pra tirá-lo da vista: o Papa estava farto da gota. e queria mais: adentrar a mais santa das precipitações. no fundo de sua alma artística a óleo. surpreende só àqueles que não sabem que Trementina media apenas dois centímetros — ou melhor. ditou um memorando dispondo o modo de comercialização dos lápis: haveria caixas de seis. diga-se de passagem.

malvas. entre folhagens de esmeralda cobertas de orvalho. o Fim da Arte se transformou em Fim de Semana. comia uma célula verde. preto. a gota — agora mil gotas. Procurava comida nas lixeiras. tiradas por Foto San. Pela corcunda começou a secretar. Pouco tempo depois foram publicadas fotos comprometedoras. Com um alfinete abriram furos na tampa para que pudesse respirar. porque as gotas. Só que as peças jamais se encaixariam. uma oca. que acabou assumindo uma forma espiral. repetindo seu gesto ancestral. dois pares. no outro ladro da vidraça. tinham o coração de gelo e os cabelos de sol. foram ver. qual seria a chance de voltarem à mesma posição. os meninos não se agitavam menos. Compraram um Fiat 147 e toda sexta-feira partiam pra sua cabana no Lago da Vela Perfumada. Uma gota foi parar na natureza exuberante de um país tropical. Algumas crianças a descobriram por acaso e levaram a gota pra casa. O deste seria uma gota que se deu o trabalho de conhecer a fria e chuvosa capital. embora fosse manso. oca. ondulava sem acertar a saída. . desumana. onde se recolhia pra descansar. com o excesso das substâncias assimiladas não gastas no movimento. Era uma relação amo-escravo sem amo e sem escravo. as de baixo curtas. muito grande. e reveladas à base de rosa: fotos do Papa beijando a Gota. feito de baunilhas escuras. Era uma prova de que não há só uma Vida no mundo. O Fim da Arte!. jamais voltariam ao Louvre. Rosa Edmunda González. no meio uma corcunda. tinha sumido. Previam que essa mosca fantástica não duraria muito por ali. Tornaram-se amigos. exclamavam os alarmistas de sempre. fazendo colagens. funchos e acelgas. que andava solto pela rua. Por efeito de seus hábitos pequeno-burgueses. As bolas de orvalho. que viviam na fugacidade dos seus momentos de atenção. pelo mesmo furinho onde haviam passado? Na cidade de Bogotá havia um cachorro enorme. desejos. profetizando que no futuro só restaria nos trancarmos numa sala. sonhos e aventuras para a gota em sua vida minimalista dentro do plástico transparente. das cores mais belas — estava por toda parte. com que jogava bilhar. Todos os cães abandonados andam atrás de um dono. filha de um humilde barbeiro que fizera um sacrifício enorme para adquirir a caixa menor. à luz de uma vela Minuto. Obedeciam um ao outro. ninguém lhes dava ordens. foi a que mais sofreu. depois de provarem o gosto da liberdade. que digeria na velocidade da luz. quase transparente. na mais remota possibilidade. Caminhava pelas folhas. e sim muitas. e defecava um ponto negro. e mesmo pra eles. as de cima longas. aipo e polenta. um iglu.Minuto. um japonês delinqüente. Queriam tê-la por mascote. uma forma comprida na qual se insinuava uma cabeça (com as antenas) e terminava numa cauda pontuda. Outros meninos. todas redobráveis. fazia oitos. Nunca mais haveria uma Gioconda. viram uma gota que em seu vôo sem rumo caiu na sacada. Alimentavam-na com fibras ao molho de ervas. Assumiu uma cor cinzenta. Teriam feito uma casinha de papel com portas e janelas. E parece que a gota tinha sofrido uma adaptação: cresceram nela umas antenas de borracha. Supunham ou inventavam estados de ânimo. ia e voltava. brincando no living de um apartamento do sexto andar. um rígido verniz amarelado. Até que um dia. fotos de cubismo esférico. Seu tamanho era assustador e ninguém se aproximava dele. que obedecem a lógicas distintas. A sacada tinha uma dessas proteções de arame quadriculado que os pais instalam quando têm filhos pequenos. acesas. uma bicicleta do mesmo tamanho. dormia ao sol e se protegia da chuva sob uma marquise. recortando fotos de revistas. surpreendia a eternidade da fuga. Voltara a ser a gota de óleo da Gioconda e se fora por um dos furinhos. um ponto suspenso. agora urbanos. dava loopings. Chamaram-na Caracolito e a cada instante se perguntavam: O que será que Caracolito está fazendo? E iam ver. Colocaram-na num pote de maionese e a adotaram como animal de estimação. e de que a evolução não basta para unificá-las. sem conseguir sair. E se voltassem. era um casamento. — Paiêêêê! Um passarinho de bigode! Remexia-se meio assustada no pequeno espaço repleto de vasos com plantas. Por dentro. Mais que uma amizade. Irresponsável.

por sua vez. a vela no fundo do lago se apagaria e. Os nativos se espantavam. Era uma princesa branca e gorda. ao se despedir do Supremo Pontífice. com ela. Contínuas auroras rosadas se refletiam num lago cristalino. Avançava num grande dia sem fim. Sua linhagem era muito valiosa. o Playboy Universal. . e através de sua mão se desencadearam as hostilidades entre as potências escandinavas. bonito! E. e a partida de inauguração (do equipamento e do luxuoso estádio construído às margens da Mongólia) seria contra um conjunto de estrelas da NBA. no terceiro a de trinta. tinha ido embora. A Neve também se multiplicou. Nas grandes pradarias da China uma gota montou uma agência de notícias. — Escapou! Pai. teriam o perfume da eterna melancolia. Águias indiferentes com cabeças de cavalo planavam sobre um campo gelado interminável. ativando uma bomba. Na prática. Sem se preocupar com gastos. O General Panzer Gota Bota dirigia as operações. E tudo por causa de uma gota! Tudo isso até que uma rachadura no vidro deixou o conta-gotas se encher de bruma. A equipe era formada com os chineses mais altos e fortes. Os jornais estampavam na primeira página a expressão de Gravidade. A gota viajava num tanque Sherman. No entanto. uma das alas dessa parede se uniria à Grande Muralha. em busca de uma lenda incerta. Gota havia contratado Gravidade como assessor. que havia popularizado no mundo a fórmula da “notícia chinesa”. cada qual num hexágono de cristal. se o rouxinol cantasse. Os gigantes chineses se duplicavam sob o peso do magnífico projétil. ninguém acreditou. E a isso se devia o sucesso de sua agência. E descobriram que a gota não estava lá dentro. em cujo fundo uma vela Minuto com escafandro ardia sem se consumir. filha do Rei Pólo. num choque estrondoso. sem precisar de nenhuma planilha. o senhor Gota. no segundo a de vinte e cinco. fazia cintilar suas cores. As batalhas eram um espetáculo incrível. nessas proporções. fazia suar a gota gorda dos atletas. Foi uma guerra toda feita de espelhamentos e fantasmagorias. mãe. Gota aumentou a aposta: fez com que se exercitassem numa cancha de dez quilômetros de comprimento e três de largura. na Noruega. no entanto. No primeiro dia utilizaram a bola de vinte quilos. Assim os atletas desenvolveriam reflexos de peso. e uma versão atual vinha sendo usada pelos surfistas do Hawaii. se sacudiu com o estrondo das transmissões. O tanque se multiplicou em mil. adotou um procedimento inovador.De repente. Houve uma guerra inevitável. desprendendo um estranho odor de flores antigas. Usava da mesma habilidade com as notícias: dava importância conforme as proporções. As dimensões estavam de acordo com o peso da bola de bronze — Gota era muito bom em cálculos de proporção. Toda a Noruega se alarmava com o avanço da Gota Artilhada. O Papa se comprometeu em assistir o evento. Os americanos estavam ansiosos por conquistar o grande mercado desportivo do Império Amarelo. as esteiras firmes sobre a geada deixando um forte rastro. O Departamento de Estado. fechado num conta-gotas adaptado. que durante a partida de verdade os faria manipular a bola como num sonho. consistia em utilizar no lugar da bola uma esfera de bronze pesadíssima. O calor abrandava e deformava. Até onde iria? Conforme as lendas do país. que fora à China aguardar o Papa. pois os antigos romanos já o haviam utilizado. é lógico. A agência Gotatual adquiriu um equipamento de basquete. A vida da aldeia. com quem estreitaria laços — a notícia do século. conduziu a visita. O Primeiro Ministro da Noruega ordenou sumir com tudo. que tinha assumido a direção técnica. avançando sobre a transparência do gelo. Com a proliferação das Princesas Neve. se escapou! Era redondo. Ou nem tão inovador assim. Reapareceu no fundo do lago. se extinguiria toda a inspiração dos artistas. É desnecessário especificar que o exercício. milhões de soldados de bicicleta arando o gelo. nunca desmentidas. em seus ciclos imutáveis de yin e yang. uma gota se dirigia ao norte em busca do rouxinol das neves. eram desumanas. Enquanto isso. e para os treinos. depois de sua primeira noite de amor: “Nos vemos no Báltico!” Começaram a construção de um muro de mármore vermelho para isolar esse mar nórdico. As constantes corridas de um lado pro outro. suspensa sobre a ponta da chama da vela. a confusão tomou conta das paisagens do branco planalto. lançando a bola.

E tal como costuma acontecer com as celebridades da mídia. Na base. mais brilhante que a lua. vinha Gravidade. e depois a moto. mas era como se flutuasse sobre mercúrio. com uma cara de preocupação. de camisola. Auréola. Retirada violentamente de seus sonhos. disse: “Duas ou três gotas de altura não poderão contra a barbárie”. Pararam num deserto prateado. O suor que caía dos jogadores encharcava toda a Mongólia. tirou da cama os cinco gigantes titulares para levá-los a um último treino. Para a gota não existiam portas nem janelas. Com ela deveriam fazer o último treino. perdida em seus sonhos. A história possuía várias versões. que agora punha o pé no chão e tirava o capacete. chorosa. sobre o horizonte oposto. com o escudo do Vaticano talhado na tampa. verossimilizada pela máquina do realismo. os miolos da foca se derretiam. é difícil acreditar na sua existência real. descendo pela calha e caindo juntas na sacada. uma diferença maior se impunha. num terceiro nível da história. Era possível dizer que cada mutação era escrita com uma gota de tinta. o fogo também suspenso. Foram ganhando velocidade. pesando cinqüenta quilos. Os seqüestradores aproveitaram a confusão pra fugir. Duplicavam-se pressionados pelo peso. levando suas forças ao limite. Ao fim. A gota estava em outra dimensão. ao receberem a bola davam um passo atrás. Auréola começou a girar sobre si própria com um grito de angústia. O grande projétil escorregava. O castelo queimava. no frágil equilíbrio de sua tensão superficial. à luz da lua. Os cinco chineses altos. virginal e vaginal. Ele próprio chegou a se perguntar se não havia exagerado. em partes iguais. Fixaram o olhar no motoqueiro. Em frente. Começaram. e para Gravidade. uma suspensão: Auréola ficou presa no ar… Um romantismo sublime surgiu daí. a que as gotas em sua dispersão se entregavam freneticamente. Mais tarde acabariam por recriminar a extravagância e o equívoco desse exercício. em suas teias de aranha. O senhor Gota flutuou no ar até a moto. jorrando gordura. um tanto oculta pela curvatura do planeta. Atrás. contemplando o incêndio. numa atração irresistível. na noite anterior à disputa. Cada gota se fechava sobre si mesma. Um carro os esperava do outro .) De repente. o ouro começou a brilhar. que olhava a seu lado. Nesse momento chegou uma moto barulhenta que os vinha seguindo. corriam entre os dedos dos chineses. estava na sacada do seu castelo. Gota observou-os diminuindo. A cabeça de foca foi esquentando com o movimento e o manuseio. que somente o conheciam pela televisão. Uma tabela lançava-se no horizonte. adotando o nome de Auréola. (Antes atendia por Doutor Auréola. E só podia lhe ocorrer isso: mais uma manifestação de indiferença. a quarenta metros de altura. clandestino. estirados como filamentos.Gota levou as coisas tão longe que. mais uma. A própria invenção. estavam boquiabertos. que por um milagre da cirurgia da sesta tinha assumido o gênero feminino. A multidão reunida em volta do castelo. sem estrelas. rumo ao céu escuro. Havia uma gota. Assustada. e em troca recebendo seus prestigiosos poderes. os cinco jogadores. cada vez mais altos. Era Gravidade. num desejo maníaco pelo verossímil. mostrando sinais de dor. mais precisão. ordenou Gota. Não havia contexto: pura irradiação. o conjunto se exaltou numa espécie de cone cujo vértice era a cabeça de foca. No entanto. não viu nada disso. De repente. as veias inchavam. Tentou vários movimentos de desmaio para escapar das mãos de seus seqüestradores. desembarcaram e olharam ao redor. Tudo se neutralizava no jogo próprio do realismo. sobre o agitado jardim noturno de insetos e fontes. três sombras emboçadas se desprenderam das telhas. Conseguiu apenas que rasgassem a camisola e a despenteassem toda. A única coisa que lhe passou pela cabeça foi que o casamento teria de ser suspenso mais uma vez. Dentro do cofre havia uma cabeça de foca em ouro. atuava retroativa sobre o realismo. ocupados em estender as escadas. que se fechou com um sonoro “clac”. pedindo mais velocidade. “Passes longos”. e entre os dois se desataram as correntes que sustentavam atrás do assento um grande cofre. E de caminhão foram até os confins da Mongólia. e menos ainda os bombeiros. Gota berrava. as três sombras juntas colocaram-na num estojo. como piratas se preparando para a pilhagem. até desaparecerem. aumentando a dificuldade.

foram as notícias maiores e mais fecundas. A pista a seguir era o tremendo melodrama de Gravidade. Só depois disso relaxaram.lado do fosso. Os documentos do eco foram publicados pela editora Gota. O jornalismo havia alcançado sua maioridade industrial. o mestre de cerimônia lhe apresentava como “a gota mais engraçada do mundo”. o mais perfeito. trancando a prisioneira no porão. Corpulentas e cromadas. Viajaram por um longo tempo entre as colinas. tirando o capuz. Por serem as primeiras. A expansão era praticamente ilimitada. a newtonia. dedicou-se ao humor. Dentre eles está o de Cecilia Galleriani. que não poucos críticos elogiaram como o mais belo quadro jamais pintado. essa menina-mulher de rosto melancólico e redondo. vagando pelos desertos do mundo após deixar o Papa no altar. Não havia como perseguir Gravidade. se tornou um ícone indestrutível. Eram três criminosas assustadoras: Torneira. da obra de arte. que continuavam se tornando mais altos e corpulentos. em massa. cujas células possuíam a capacidade de inchar por ação do desejo sexual. num estágio anterior da história. O roubo de 1911 pôs a Gioconda na primeira página dos jornais. que poderiam perfeitamente ocupar o primeiro plano. impressa. por pura justiça poética que uma das gotas fugitivas da Gioconda montou uma agência de notícias. vestido de noiva e com um calo na mão. Ring… ring… ring… A campainha tocava entre as montanhas. é preciso mencionar alguns fatos históricos que o colocaram no lugar de honra que chegou a ocupar. Daí em diante passaria a ser utilizada na confecção de camisetas para jogadores de basquete. entre o desamparo de uma gota . O eco ressoando de cume em cume. O avanço técnico da fotografia e da impressão tornara possíveis os museus de bolso. Existem outros retratos de mulher. Após a atuação de um duo de sopranos. Aqui precisamos dar um passo atrás. “a dama do arminho”. quando o turismo nascia e os livros que sustentariam o cânone ocidental estavam sendo escritos. Montou uma série de piadas antigas e se apresentava todas as noites num bar de Baden Baden. e no lapso de uns poucos meses se deram os dois fatos que justificavam essa maturidade. A agência Gotatual se especializou na busca do novo Graal. eletrônica) da obra de arte é justamente a Gioconda. da mão de Leonardo. e antes da do Robô de Aço Sensível. exigindo o resgate. Todas as que se seguiram ficaram subordinadas às condições de existência da substituição. assim. Beberam uma garrafa de conhaque e telefonaram para Gravidade. esboçando ruídos metálicos. a cabeça de foca em ouro e gordura que passara a pensar pelos homens. dançavam como mênades sobre uma mesa. era a do início da reprodução fotográfica impressa. ao longo do século XIX. O emblema da reprodução mecânica (fotográfica. A nenhum dos dois falta mistério para despertar a imaginação… Por que então da popularidade incomparável da Gioconda? Acontece que. justamente. essa baba mostrou ser composta essencialmente por uma substância orgânica. e antes que a lua saísse adentraram o parque de uma chácara abandonada. e justo na China. pra completar o “quadro”. fazendo-a frutificar: o roubo da Gioconda e o naufrágio do Titanic. Mas aconteceu algo além. Estudada em laboratórios. O impulso dado pela notícia seguiu atuando de forma natural. a gota graciosa. e a data. outra inauguração civilizatória que colaborou no processo: a invenção da notícia planetária. a Gioconda estava no Louvre à vista de todo o mundo. Também o de Ginebra de Benci. enquanto Cecilia e Ginebra empoeiravam em pinacotecas obscuras da Cracóvia e de Lichtenstein. sendo que a membrana da célula tinha propriedades de flexibilidade e resistência que revolucionariam a indústria têxtil. As piadas eram lamentáveis. reproduzida infinitamente. Há muito planejavam seqüestrar uma gota. anexo ao cassino. mas era possível calcular seus deslocamentos mediante logaritmos geográficos. Outra pista era o rastro de saliva que deixava. e a Gioconda. o grande quebra-cabeças da humanidade. Ducha e Mangueira. mas a graça estava justo no contraste entre seu tamanho insignificante e sua voz potente. Foi. Chispita. Ambos fundaram-se como mitos. numa espécie de sucessão. Sem negar os méritos desse retrato esplêndido. Abriram a casa pela porta dos fundos.

Os antropólogos ficavam perplexos. lançando olhares às gordas russas da Nomenklatura. voz do bosque. e de lá.que a ponta de dois dedos bastaria pra esmagar e seu ímpeto de galã sedutor. vestindo um roupão de arlequim. um pouco fosforescente. administrava suas empresas e investimentos financeiros pelo mundo todo. Não eram poucos os que pagavam por uma reprodução. a gota que decidiu se exibir. mesmo se tivessem de se privar da comida. Instalou um telefone em seu escritório. pra levar como souvenir. Belos entardeceres clássicos dos países budistas. nenhuma novidade permanente poderia intervir. E com ela as serpentes. pois sempre eram indiretos. no trono ao centro do parque dos zorros. O resto do ano Chispita hibernava num chalé de troncos em meio ao bosque. adquiridas com muita economia e cuidadas como tesouros pessoais ou familiares. sem trabalho doméstico e sem vizinhos. Baixou devagar. que dilapidavam no balneário os rublos que seus maridos haviam extraído das tetas soviéticas da corrupção. De noite elas apareciam. As jarras de prata. Tinha adotado um sistema de comunicação à base de imagens. Os antropólogos do chá estudaram seus efeitos sociais. De ano em ano não revia as piadas. ao redor da qual floresceu um bonito parque. o método se justificava por razões de segurança. Com os efeitos não foram mais longe. desfiadas. decodificadas por computador. de outro modo. bengala — tudo adaptado às formas esféricas. Dada a natureza confidencial de suas mensagens. muito indiretos. eram um antecedente da articulação público-privado. mas no fundo não era mais que uma . Um contratempo lendário que resultou numa solução histórica: desde o momento em que os pobres renunciaram a transportar a jarrinha de prata. fugiam pela planície. Mas a selva permanecia avançando sobre os países budistas. rosa. que esperneavam sem parar. Era vermelha. roídas. Achavam-no extravagante. Mas todos os pensamentos se dirigiam a ela. E quando se convenciam de que nada adiantava. Uma gota se radicou num país enevoado. flutuando sobre a cama de dossel. todos lançaram os olhos ao céu. afastado. que se aventuravam nas aldeias. Na eternidade da pobreza. Voz melódica. a Gota de Fel”. não falava. levando uma vida de ermitão. Homens e mulheres caminhavam pelos bairros humildes. azul-turquesa. soluçando. aveludada. mas tocavam de longe. E no entanto… De repente. sem braços nem pernas. A única permanência era a eternidade cotidiana. Tal como acontecera com as jarras. esverdeada. construída no alto de um rochedo. desproporcional e aristocrático. que utilizava milhares delas para significar cada palavra (as confusões eram freqüentes). A temporada no cassino durava três meses. antes de abrir a boca. O povo humilde criou a tradição de confeccionar bonés de seda para os zorros. No fim ninguém se atreveu a tocar nela. Sentiam tocar o segredo da pobreza. era uma engrenagem entre o público e o privado. a privacidade e o segredo estavam limitados à vida dos ricos. pensaram se tratar de uma partícula da Lua. três cachimbos na boca e olhando o movimento das ondas. Para Chispita. Assim como tantos outros comediantes. querendo assustar. suspeitava que o gênio a quem acatavam as ordens era uma gota. açafrão. fraque entalhado. Os budistas mais pobres quiseram se apoderar dela. chegou ao nível do solo antes que a noite caísse. Nenhum de seus vários empregados. foi chamada Deus Próspero Brilhantim. Nele havia uma gota. Pelo cheiro. levando na mão uma jarrinha de prata cheia de água. A existência das massas indigentes asiáticas havia assumido um caráter público estadístico e social. Enroscavam-se nas pernas desprotegidas dos devotos. com controle remoto. monóculo. um pouco louco talvez. em escritórios das grandes capitais. era um melancólico e um misantropo. Não se movia. não gesticulava. tiveram as duas mãos livres para combater com as serpentes escorregadias. nem um pouco econômico. Era de gel? De gesso? Torrone? Não souberam dizer. bebendo o leite das cabras e o sangue das crianças. não economizavam pra conseguir as melhores sedas. tensa. lhe valia uma certa indulgência: chapéu de copa. Em seu formato fluido. e tinha uma ruga. A gota. que por seu caráter sagrado serviu de refúgio aos pequenos charlatães que. ficando com um enorme vazio. Vivia numa mansão afrancesada de três andares. cada família de uma cor e com estampa característica. alaranjada. E a gota as fez anacrônicas. Já seu aspecto. o humor acabava tão logo terminasse de contar as piadas. no último andar. teriam se extinguido. caindo em pedaços de tão usadas. Seria do seu agrado se chamar “Chispita. misantropo. bem como sua substância. como se se dispusesse a ver quanto tempo resistiam.

No mundo (o cálculo foi confirmado) não há duas pessoas que estejam separadas por mais de seis conhecidos. e não com o semblante familiar de um homem. mas simplesmente porque era mais difícil. outra expectativa (sobretudo por se tratar de algo tão trivial quanto a compra de um chocolate ou de um maço de cigarros) senão a prevista pela espécie humana corrente e seu trato cotidiano para com o próximo. impossível. portanto. “como duas gotas de água”. Notava isso todos os dias. despreparados. torpe. Nem todas as gotas adotaram modos de vida tão caprichosos. Os dois planos não deveriam estar separados. se cruzará consigo mesmo e se encontrará idêntico. discotecas. buscava desesperadamente. De fato. às pequenas satisfações domésticas ou profissionais de uma rotina tranqüila. amor era amor. nem lá nem em nenhuma outra parte. Ao dar de cara com uma gota colorida. aliás. flor sem fruto. pra isso. a amargura do fracasso contraía sua minúscula alma de gota. como uma só. só que não eram boas. marchas e procissões. implosões. A deusa submarina do Louvre já não existia. Pensou até em se prostituir. necessitava disso.) De modo que toda e qualquer chance ficava limitada a seu outro emprego. O déjà-vu saía do coração de todos os seres. justamente o contrário. oficina de pintura. (Fora contratado para untar com seu corpo redondo o selo que estampava nas caixas a legenda “Indústria Argentina”. yoga. de um milímetro de diâmetro. Seus sonhos eram os de todos. mas em todas as suas atividades. e mesmo lá não havia mulheres. o contra-Adão. no entanto. justamente o contrário: tinha lido numa revista que oitenta por cento das relações afetivas se davam no ambiente de trabalho. tinha de reconhecer que havia uma diferença entre uma gota de óleo e um homem jovem. ao conformismo cético da maioria. não por escrúpulos morais ou estéticos. Ali sim poderiam surgir várias oportunidades. afastado da pequena tipografia da fábrica. sabia que a ocasião lançaria o vôo. das dezesseis às vinte e duas horas. propiciava sua espontaneidade. passar com ela as noites frias de inverno… Mais normal que isso. Mas logo descartou a idéia.desculpa: seu verdadeiro propósito era camuflar o inverossímil de que um grande financista pudesse ser uma gota de azeite renascentista. A tendência irreversível se dá sobre o reconhecimento. talvez isso nem se reparasse. quase como um cachorro com a língua pra fora. os anos se passaram sem que achasse ninguém. ao menos no ponto de vista de uma mulher. Os clientes de um quiosque vêm de todos os cantos. melhor dizendo. Numa gota. desejava — mais que um desejo. no qual entrava à meia-tarde. E quando tinham de votar (pois a democracia avançava no mundo) se perguntavam. Todas as gotas eram a Gioconda. É o impulso original de todo ser vivo. mas não sem imagens. Vivos e mortos podem igualmente servir de elos. nem viveram aventuras ou invenções tão memoráveis. como todos nos perguntamos. mas ali não havia nenhuma possibilidade de relação porque ficava o tempo todo sozinho. Desejava. E a lei da entropia social faz com que a cadeia sempre encurte. e. Pra ele. E além do mais. sem conversa. Depois de mais um dia sem que a porcelana divina de seu celibato fosse quebrada. em seus momentos de sinceridade consigo mesmo. e só no último instante. ou. não só durante suas caçadas infrutíferas. Adotou o nome bastante típico de Nélido. foi preciso anos. e sim fazer o que todo mundo fazia: ter uma mulher pra abraçar e beijar. os clientes se sentiam desagradavelmente surpresos. Uma gota resolveu viver na Argentina. Nélido não queria cometer extravagâncias. ensaiava sua simpatia. sem que nenhuma o fosse. dando-se o trabalho de procurar uma noiva. suas opiniões permaneciam no senso comum. que tudo podia depender de um instante e. Não que não fosse sincero. o país da representação. se refletia em mil membranas da memória de uma humanidade sem ilusões. Alguns nem se preocupavam em . fumaça sem chama. Depois de tudo. o motor da eternidade que move a carruagem do tempo. Não têm. notam o empregado. Parecia uma maldição. Talvez aí esteja o problema: ele não desanimava. havia ficado pra trás. Comparecia a todas as festas ou reuniões de que recebia convite. Pra qualquer outro teria sido uma questão de horas. na verdade. Casal era casal. após deixar a fábrica: atendia num quiosque de doces e cigarros. Nélido trabalhava numa fábrica de caixas de papelão. uma sorte ruim. As explosões demográficas são. Chegará o momento em que um só homem. mas nem ele poderia deixar de ver que a sorte. boa ou má. que era tímido. a maioria se adaptou ao estilo classe média. qual era afinal o sentido da vida. e de fato apareciam.

endureciam nas regiões abaixo de zero. Nada mudou. e sequer eram afetadas pelas condições adversas do éter e da radiação. Não olhava ninguém. quando muito. deixando boquiabertos átomos e partículas. Então aconteceu algo. não lhes passara pela cabeça experimentar os confins insondáveis do Universo. sobre uma espécie de pernas-de-pau com colares de pérolas — eram carteira amarela e cabeleira branca que se agitavam em redemoinhos de quarks —. Seria este desamparo o preço que deveriam pagar pela liberdade que lhes permitira chegar tão longe? Sem se dar conta. estupefatas. O céu escuro mostrava curiosos saca-rolhas de hélio. as gotas levavam consigo a organização da matéria. por sua vez. Comunicavam-se por microfones. Num planeta distante. Se não era um homem. sobre as quais se inclinaram as constelações. As gotas se assustaram. havia tocado a si própria. Perspectiva. saíram do planeta. em circuitos sem limites. depende totalmente do restante de matéria que a cerca. Mas ela não as via. Curvas rugiam. atuavam da mesma forma. Ela se encaixou como um coração numa lança. tudo mudava. A sombra da astronave formava leques de dois foles. As distâncias também não eram um problema. Duas gotas se encontraram nesses termos inconcebíveis do paralelo. outras foram atrás. essa mesma confirmação. supondo que cairia por cima. Não precisavam respirar. em férias de densidade. Talvez porque ao cruzar o limiar da realidade. a sombra era sempre igual. que estava na mesma linha. ultrapassando a última fronteira. Uma gota de tinta num quadro não pode nada. Porque lhe ocorreu algo bastante óbvio. Sob a vermelhidão desses crepúsculos do nada. não foi assim. A realidade da gota fantástica era igual à realidade do homem. Gravidade deu um sobrevôo. paredões de nebulosas. As galáxias assistiam suas passagens como se fossem flechas. sentiam-se órfãs dessa bela divindade. aparecendo Gravidade. saído ao mundo a fim de provar o sabor estranho da liberdade. difundindo em todas as direções uma forte luz. Chegaram à conclusão de que se tinham permanecido dando voltas pelo mundo dos homens era por puro hábito. E Gravidade. Tendo uma gota se atrevido. Os clientes habituais. Num outro nível. mas não sem figuras. se balançavam nas catorze mil densas atmosferas do planeta Carumba. deixavam de reparar e faziam a transação de forma mecânica e distraída. Para alívio das duas. pousando sobre a linha do horizonte. meteoritos luminosos de mecânica complexa. com sua capa plástica carmesim e seus sapatos bico-fino. Gostariam de poder voltar a se abrigar sob suas asas invisíveis. que a esperava de braços abertos e com o pau duro. do mais complexo organismo até o átomo. alinharam-se numa figura em perfeita simetria. em seus escafandros. sabia que todos olhavam pra ela. experimentada por um humilde quiosqueiro argentino. Desde que se desprenderam do quadro. Era muito fácil — pra elas. graças à divisão do tempo dada durante a dispersão. esmagando tudo. Ninguém se entediava no cosmos. funcionava para todo o cosmos. e assim permanecia. Perspectiva. A escuridão se abria por trás dos biombos de luz pintada no nada. Era também o que as gotas faziam. E. Um trovão fez rachar a concavidade escura do éter. Curioso. se era uma gota. as leis comuns a todos os seres. num foguete. no entanto. Com o tempo. Podiam percorrer trezentos mil anos-luz num segundo. numa bola de gás. Mas tendo uma vez se tornado independente. que se encurvou pra baixo. Desembarcaram para explorar. Podia tudo. Nélido acreditava encontrar “na doença o remédio”. Algumas gotas. estivessem onde estivessem os sóis e as luas. O que havia acontecido? Simplesmente que. resvalou e caiu nos braços de Gravidade. Outra gota vinha na direção oposta. Devido à sua forma perfeitamente esférica. Do contato se fez um estalar de beijo. luz sem sombra. Parada no horizonte. nenhuma lei humana o legislava. Pode-se dizer que nesses abismos vazios se decidiam os resultados de trajetórias ferozes. As duas gotas. sempre distante. e uma gota proveniente da mais famosa obra de arte do mundo. do efeito e de mil outras coisas. ao se encontrarem duas gotas. Seus olhos estavam fixos no além. que desde há incontáveis . faces de luz dos faróis examinando o volume de porões titânicos. ou seja. E um só ponto-cego nos biombos abria novos universos — que tornavam a ser o Universo.disfarçar. uma gota projetava sombra sobre um chão de átomos rochosos. Esmoreciam um pouco nas zonas de calor. das intenções do artista. Parecia indiferente. em linhas. se encontrava Perspectiva. O contato se tornava incômodo logo de início.

ao mesmo tempo: agora sim o Papa ficaria solteiro pra sempre. Tinham se acostumado. tão severo e redundante. a não causar efeito. O abraço continuava. dirigiu-se às duas. Reconhecendo a gentileza. lá no Louvre. Seria uma Lua-de-Mel combativa. Mas as gotas que pisavam os limites fantásticos da realidade… prosseguiam na realidade. Perspectiva perdia seu ar habitualmente desprendido. a mais realista. desde que abandonaram a tábua. sem que fosse preciso mandar convites (os convites. tinham estado viajando). e. em seu vestido branco. As núpcias foram celebradas numa festa instantânea. arrastando latinhas pelo firmamento. desde o Big Bang. não a deixou escapar.milênios aguardava essa ocasião. rompido o equilíbrio das forças (divide e reinarás). pudesse resultar num efeito tão transcendental. Foi a última fantasia. pois dariam um fim na Evolução. cúmplice. a eterna celibatária. os calos na mão e uma lágrima correndo pela velha bochecha enrugada. lá no Vaticano. ao acaso. Gravidade. sem soltar Perspectiva. operando uma transformação. As duas gotas se olharam. E o imaginaram plantado no altar. As duas gotas astronautas maravilharam-se com a idéia de que sua presença. num lugar que parecia Qualquer Lugar. Às duas ocorria o mesmo. que desta vez. como se dissessem “Veja você”. Fim * . e não podiam evitar a melancolia. seria derrotada. piscou um dos olhos. Os recém-casados partiram num carro. fazendo-se compacta e palpável. tornava-se esbelto e delicado.

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