JACOBS, Jane. Morte e Vida nas Grandes Cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Introdução “Resumindo, escreverei sobre os fundamentos das cidades na prática, porque essa é a única maneira de saber que princípios de planejamento e que iniciativas de reurbanização conseguem promover a vitalidade socioeconômica nas cidades e quais práticas e princípios a inviabilizam”. (p. 1,2) Parte 1: A Natureza Peculiar das Cidades. 2. Os usos das calcadas: Segurança: “A primeira coisa que deve ficar clara é que a ordem pública – a paz na calçada e nas ruas – não é mantida basicamente pela polícia, sem isso negar a sua necessidade. É mantida fundamentalmente pela rede intrincada quase inconsciente, de controle e padrões de comportamento espontâneos presentes em meio ao próprio povo e por ele aplicados.” (p. 32). “Uma rua com infra-estrutura para receber desconhecidos e ter a segurança como um trunfo devido à presença deles – como as ruas dos bairros prósperos – precisa ter três características principais: 1)Deve ser nítida a separação entre o espaço público e o espaço privado. O espaço público e o privado não podem misturar-se, como normalmente ocorre em subúrbios ou em conjuntos habitacionais. 2)Devem existir olhos para a rua, os olhos daqueles que podemos chamar de proprietários naturais da rua. Os edifícios de uma rua preparada para receber estranhos e garantir a segurança tanto deles quanto dos moradores devem estar voltados para a rua. 3)A calçada deve ter usuários transitando ininterruptamente, tanto para aumentar o número de olhos atentos quanto para induzir um número suficiente de pessoas de dentro dos edifícios a observar as calçadas.” (p. 35,36). 3. Usos das Calçadas: Contato: “O ponto fundamental tanto do jantar comemorativo quanto da vida social nas calçadas é precisamente o fato de serem públicos. Reúnem pessoas que não se conhecem socialmente de maneira íntima, privada, e muitas vezes nem se interessam em se conhecer dessa maneira” (p. 59) “(...) se os contatos interessantes, proveitosos e significativos entre os habitantes das cidades se limitassem à convivência na vida privada, a cidade não teria serventia” (p. 59). “A confiança na rua forma-se com o tempo a partir de inúmeros pequenos contatos públicos nas calçadas. (...). Grande parte desses contatos é absolutamente trivial, mas a Soma de tudo não é nenhum pouco trivial. A soma desses contatos públicos casuais no âmbito local – a maioria dos quais é fortuita, a maioria dos quais diz respeito a solicitações, a totalidade dos quais é dosada pela pessoa envolvida e não imposta a ela por ninguém- resulta na compreensão da identidade pública das pessoas, uma rede de respeito e confiança mútuos e uma apoio eventual na dificuldade pessoal ou da vizinhança. A inexistência dessa confiança é um desastre para a rua. Seu cultivo não

pode ser institucionalizado. E, acima de tudo, ela implica não comprometimento pessoal“. (p. 60) “Ruas impessoais geram pessoas anônimas, e não se trata da qualidade estética nem de um efeito emocional místico no campo da arquitetura.” (p. 61) “A estrutura social da vida nas calçadas depende em parte do que pode ser chamado de uma figura pública autonomeada. A figura pública é aquela que tem contato freqüente com um amplo círculo de pessoas e interesses em tornar-se uma figura pública. Ela não precisa ter nenhum talento ou conhecimento especial para desempenhar a sua função, embora quase sempre os tenha. Precisa apenas estar presente, e é necessário que possua um número adequado de pares. Sua principal qualificação é ser pública, conversar com várias pessoas diferentes. É assim que se transmitem as notícias que são do interesse da rua.” (p. 73). 4. Os usos das Calçadas: Integrando as Crianças “Na prática é só com adultos das calçadas que as crianças aprendem – se é que chegam a aprender – o princípio fundamental de uma vida urbana próspera: as pessoas devem assumir um pouquinho de responsabilidade pública pelas outras, mesmo que não tenham relações com elas. Trata-se de uma lição que ninguém aprende por lhe ensinarem. Aprende-se a partir da experiência de outras pessoas sem laços de parentesco ou de amizade intima ou responsabilidade formal para com você, que assumem um pouquinho de responsabilidade pública por você. Quando Sr. Lacey, o chaveiro dá uma bronca em um dos meus filhos que correu para a rua e mais tarde relata a desobediência a meu marido quando ele passa pela loja, meu filho recebe mais que uma lição clara de responsabilidade e obediência. Recebe também, imediatamente, a lição do que Sr. Lacey, com que não temos outra relação que não a de vizinhos, sente-se em certo sentido responsável por ele.” (p. 90). “Trata-se de uma lição de urbanidade que as pessoas contratadas para cuidar de crianças não têm condições de ensinar, porque a essência dessa responsabilidade é que ela seja exercida sem a necessidade de um contrato.” (p. 91). 5. Os Usos dos Parque de Bairro: “Os parques de bairro ou espaços similares são comumente considerados uma dádiva conferida à população carente das cidades. Vamos virar esse raciocínio do avesso e imaginar os parques urbanos como locais carentes que precisem da dádiva da vida e da aprovação conferida a eles. Isso está mais de acordo com a realidade, pois as pessoas dão utilidade aos parques e fazem deles um sucesso, ou então não os usam e os condenam ao fracasso.” (p. 97). “Mais áreas livre para quê? Para facilitar assaltos? Para haver mais vazios entre prédios? Ou para as pessoas comuns usarem e usufruírem? Porem, as pessoas não utilizam as áreas só porque elas estão lá, e os urbanistas e planejadores urbanos gostariam que utilizassem.” (p. 98). “Em certos aspectos de seu desempenho, todo parque urbano é um caso particular e desafia as generalizações.” (p. 98).

como pátios públicos.“Os parques de bairro revelam certos princípios gerais do desempenho dos parques com mais clareza do que os parques específicos exatamente porque são o tipo mais numerosos de parque urbano que possuímos. A complexidade que está em jogo é a complexidade visual. e não os parques. nenhum desses parques tem uma planta assim tão complicada. cozinhar e aquecer a casa. mudanças de nível de piso. e o mesmo ocorre com boa parte das áreas verdes que se aproveitam de acidentes naturais. agrupamentos de árvores. Elas os envolvem. “Os parques pequenos e bons geralmente têm um lugar reconhecido por todos como sendo o centro – no mínimo. a baboseira de ficção científica de que os parques são ‘os pulmões da cidade’.” (p.). 112)..” (p. seja a localidade predominantemente ligada ao trabalho. São necessários cerca de doze mil metros quadrados de árvores para absorver a quantidade de dióxido de carbono que quatro pessoas geram ao respirar. claro que sob uma sombra no verão. predominantemente residencial. Costumam incluir quatro elementos em seu projeto. é claro que o projeto do parque deve promover essa generalização de freqüência. “A complexidade diz respeito à multiplicidade de motivos que as pessoas têm para freqüentar os parques de bairro. 99). como um bom cartaz. o mesmo ocorre com a maioria dos usos do solo projetado. a existência de construções á volta deles é importante nos projetos. que evitam que as cidades sufoquem. Criam uma forma definida de espaço. “O sol faz parte do cenário para as pessoas. 113).).. (. 100). o parque será pouco estimulante para usos e estados de espírito diversificados. um cruzamento principal e ponto de parada. insolação e delimitação espacial. diferenças sutis. e se cada um de seus segmentos for igual aos outros e transmitir a mesma sensação em todos os lugares.” (p. em vez de atuar em sentido contrário.” (p. “Apesar disso.. com os mais variados horários. como margem de rios ou topo de morros. Se o objetivo de um parque urbano de uso genérico e comum é atrair o maior número de tipos de pessoas.” (p. Nem haverá motivo para freqüenta-lo as vezes. espaços que abrem perspectivas variadas – resumindo. 112) “Se o espaço puder ser apreendido num.” (p. Embora os edifícios não devessem tirar o sol dos parques – desde que a meta seja encorajar o uso irrestrito -. centralidade. Uma pessoa vai a um parque por motivos diferentes e em horários diferentes. ou uma grande mistura. interesses e propósitos.” (p. “Certos traços do projeto podem também fazer diferença. que eu identificaria como complexidade. 113). de modo que ele se . 114).. num local de destaque. A maioria das praças enquadrase nessa categoria de uso geral como pátio publico.” (p. “A primeira condição para entender como as cidades e os parques influenciam-se mutuamente é acabar com a confusão entre os usos reais e os fantasiosos – por exemplo. (. 99) “Para compreender o desempenho dos parques é também necessário descartar a falsa convicção de que eles não são capazes de estabilizar o valor de bens imóveis ou funcionar como âncoras da comunidade. Normalmente se destinam ao uso trivial geral. São as correntes de ar que circulam à nossa volta.

159) “A própria diversidade urbana permite e estimula mais diversidade. 162). 157). Os Geradores de Diversidade: “A diversidade é natural às grandes cidades.) como as cidades podem gerar uma mistura suficiente de usos – uma diversidade suficiente -. 158). maior a variedade de seus produtos e também maior o número e a proporção de pequenos fabricantes. e não excedente supérfluo. 4) enfatizar a identidade funcional de áreas suficientemente extensas para funcionar como distrito. por uma extensão suficiente de áreas urbanas para preservar a própria civilização?” (p.” (p. o comum com o inusitado. “Normalmente. então o planejamento físico de bairros eficientes deve almejar as seguintes metas: 1) fomentar ruas vivas e atraentes. o grande com o pequeno. 6.” (p.. são o lugar ideal para supermercados e salas de cinema comuns mais confeitarias. 141).. 158). “A paisagem urbana é viva graças ao seu enorme acervo de pequenos elementos” (p. um aspecto positivo.” (p. cinemas de arte e assim por diante. 158) “(.” (p. (p. . O Uso dos Bairros: “Se as únicas formas de bairro que demonstram ter funcionalidade proveitosa para a autogestão na vida real são a cidade como um todo. no entanto. “(. utiliza-los para intensificar e alinhavar a complexidade e a multiplicidade de usos desse tecido. “A cidades. quanto maior a cidade.. Parte 2: Condições Para a Diversidade Urbana.) a falta de comodidade e a falta de vida na rua são apenas dois dos subprodutos da monotonia residencial desse lugar. como fenômeno fundamental. 3) fazer com que parques. 2) fazer com que o tecido dessas ruas forme uma malha o mais contínua possível por todo um distrito que possua o tamanho e o poder necessário para construir uma subcidade em potencial. “Para compreender as cidades. 115). por categorias”.” (p. as ruas e os distritos. Eles não devem ser usados para isolar usos diferentes ou isolar subdistritos. não os usos separados” (p.157) “É muito fácil cair na armadilha de contemplar os usos da cidade um de cada vez. mercearias de produtos estrangeiros.” (p.destaca como elemento importante no cenário urbano.. as combinações ou as misturas de usos. 161).” (p. precisamos admitir de imediato. padarias finas. 159). 7. praças e edifícios públicos integrem esse tecido de ruas. todos os quais convivem entre si.

165).. (.) no período noturno e nos fins de semana.” (p. numa cômoda caminhada.. de modo a gerar rendimento econômico variado. 3) o distrito deve ter uma combinação de edifícios com idades e estados de conservação variados..” (p.) a medida que o distrito ficasse mais animado a noite e nos fins de semana. 8.174). alimentando-a ainda mais. e incluir boa porcentagem de prédios antigos. Essa mistura deve ser bem compacta. “Outras atrações da orla poderiam ser pontos de embarque para passageiros pelo porto e ao redor da ilha.” (p.” (p. as ruas as oportunidades de virar esquinas devem ser freqüentes.. 165). instaladas propositalmente não na própria orla.. seja ele. de outros tipos de variedade urbana.” (p. “É muito fácil descobrir que situações geram a diversidade urbana se observarmos os locais em que a diversidade floresce e pesquisarmos as razões econômicas que permitem seu surgimento nesses locais..“As mesmas condições físicas e econômicas que geram um comércio diversificado estão intimamente relacionadas à criação. mas sejam capazes de utilizar boa parte da infra-estrutura.” (p. eventos especiais condizentes com essas atrações: poderiam ser apresentados espetáculos de teatro e de ópera a preços reduzidos. de preferência. 169) “A própria orla marítima é o primeiro patrimônio desperdiçado capaz de atrair pessoas nas horas vagas. sejam quais forem seus propósitos. 163). “Os visitantes farejam locais em que já há vida e os procuram para compartilhar dela. 163). por qualquer razão. A Necessidade de Usos Principais Combinados: “O total absoluto de pessoas que utiliza a ruas e a maneira como essas pessoas se distribuem ao longo do dia são duas coisas diferentes. pode desconsiderar a necessidade de presença de pessoas ao longo do dia sem com isso frustrar seu potencial de gravar diversidade” (p.. “Há quatro condições indispensáveis para gerar uma diversidade exuberante nas ruas e nos distritos: 1) o distrito. seja ele bem estabelecido. (. no meio das ruas. Estas devem garantir a presença de pessoas que saiam de casa em horários diferentes e estejam nos lugares por motivos diferentes. densamente povoado. e sem dúvida o maior número possível de segmentos que o compõem.” (p. ou seja. 4) Deve haver densidade suficientemente alta de pessoas.1 “Nenhum bairro ou distrito. ou à presença. deve atender a mais de uma função principal. poderíamos contar com o surgimento espontâneo do uso residencial..”(p. 2) A maioria das quadras deve ser curta. para levar os visitantes mais adiante. a mais de duas. Isso inclui alta concentração de pessoas cujo propósito é morar lá. famoso ou próspero. 176) 1 A autora destaca vários usos de uma localidade de Manhattan que poderiam ser implantados e aumentariam a diversidade do local. mas um pouco mais para dentro.) posto uma biblioteca pública (. .) deveria ser construído um novo aquário (. 175) “Deveria haver atrações afins. 175). Parte da orla do distrito deveria ser transformada num grande museu marítimo.

“É preciso sempre pensar em desempenho para os usuários ao tentar compreender como funcionam as combinações de usos principais” (p. não consegue de fato propiciar o que é necessário se estiver preso a uma única função. Em certo grau (quer dizer. “Mencionei várias vezes de passagem que as misturas de usos principais devem ser eficientes para gerar diversidade.. 176). 177). também são muitos museus. Resumindo. então. ficam vazias. além disso. sejam eles quais forem. que as pessoas que utilizam as mesmas ruas em horários diferentes devem incluir pessoas que utilizem algumas das mesmas instalações. se as outras três condições para a geração de diversidade forem também favoráveis. Se essa diversidade derivada servir a usos principais únicos. e provido de tudo o que seja obviamente necessário a essa função. ou outra áreas como partes do centro do Rio de Janeiro. 179).. (. com relação às mesclas de usos principais. primeiro. Certo locais de diversão. um bairro ou um distrito planejado à perfeição. Se seus trajetos forem diferentes ou separados uns dos outros. “E. “Eficiência significativa. para uma porcentagem apreciável de usuários). aparentemente para atender a uma função. . estar associadas às outras três condições que estimulam a diversidade. a não ser num mapa. Quanto a economia urbana. eficiência significa que a mistura de pessoas na rua em determinado momento do dia deve ser razoavelmente proporcional ao número de pessoas presentes em outros horários do dia. em primeiro lugar.). que depois da hora do hush. aqueles que por si só atraem pessoas a um lugar específico porque funcionam como âncoras. que as pessoas que utilizam as ruas em horários diferentes devem utilizar exatamente as mesmas ruas. bibliotecas e galerias de arte. mas nem todos. ela pode ser naturalmente eficiente e. “Diversidade derivada é um termo que se aplica aos empreendimentos que surgem em conseqüência de presença de usos principais. só conseguirá substituir a velha estagnação por uma nova. por isso ficam fechados).“Além disso. por fim.”(p. Mas. a sustentação mútua das diferenças seria fictícia ou algo que se deva encarar simplesmente como uma abstração de diferentes usos contíguos. em segundo lugar. O que lhes dá eficiência? Elas precisam.” (p. ela poderá ser exuberante. “Se um projeto elaborado para um distrito na qual haja carência de pessoas ao longo do dia não atuar na causa do problema. ela será naturalmente ineficiente 2. Ao servir a usos principais combinados. Os usos principais são. 178).” (p. como ocorre em alguns parques. 176.” (p. não haverá na verdade mistura alguma. educação e recreação são usos principais. a fim de servir às pessoas atraídas pelos usos principais. de trabalho ou outra qualquer. 179). eles encontram um problema de não ter público em um certo horário (geralmente pela manhã e. sem significação alguma.” (p. Escritórios e fábricas são usos principais. o que conta é o resultado cotidiano e habitual de mistura de pessoas como grupos de 2 A autora faz uma referência de rodapé a respeito dos usos dos shoppings centers.” (p. “Deve ter ficado claro agora que estou discutindo dois tipos diferentes de diversidade. “Eficiência significativa.176).“ (p. a própria mistura de usos principais precisa funcionar bem. Quando estes possuem apenas o uso principal residencial. 179). é claro. Moradias também. 177).

“A maioria dos centros das grandes cidades preenche – ou já preencheu no passado – as quatro condições necessárias para gerar diversidade. ‘ se deixar para trás um vazio. 182) “Nos centros das cidades. em conseqüência do malentendimento de que isso seja um planejamento urbano ordenado.”4 (p. 3 4 Sobre esses 4 tipos. a cidade.3 “quando o coração urbano para ou se deteriora.” (p. “A decadência dos centros das cidades norte-americanas não é misteriosa.” (p. em boa parte por políticas públicas deliberadas de separar os usos de lazer dos usos de trabalho. As idéias e o dinheiro que deveriam se complementar – o que ocorre naturalmente num lugar que possui vida no centro – deixam de faze-lo. “Essa trapalhada cansativa não provém.” (p.” (p. 184). concreta. “É por isso que tais centros culturais e administrativos planejados. a administração municipal não pode injetar diretamente num local os empreendimentos privados que atendam às pessoas após o trabalho e o animem e contribuam para sua revitalização. 188). . É esse o caso. Provém principalmente das teorias que contradizem arbitrariamente tanto a organização das cidades quanto as necessidades de cada uso. manter esses usos no centro. têm efeitos trágicos sobre a cidade. “Aqueles que têm enfrentado dificuldade em angariar recursos para grandes empreendimentos culturais dizem que os ricos contribuíram muito mais prontamente e com mais dinheiro para núcleos grandes e descontaminados de prédios monumentais do que para conjunto de construções solitárias instaladas na matriz da cidade. 183. começa a sofrer: as pessoas que deveriam se encontrar deixam de faze-lo. nem por decreto. a cidade tende a tornar-se um amontoado de interesses isolados.” (p.” (186). e se trata de uma questão econômica tangível. apesar de serem em geral lamentavelmente desarmônicos. 190). Não há nenhuma referência bibliográfica apenas a citação: ‘Richard Ratcliff . A maior parte dos deslocamentos de certas funções urbanas para fora ocorre principalmente quando elas são empurradas do centro para fora do que quando respondem a uma atração gerada em localidades periféricas. não de um efeito vago no ‘clima’ local. 185). A rede de vida pública urbana sofre rupturas insustentáveis.” (p. de modo algum. observar a citação da p. de contradições entre as exigências da cidade como organismo e as exigências de vários usos específicos. Eles estão sendo estupidamente assassinados. 165. como um primeiro passo. professor de Economia Territorial da Universidade de Wisconsin’. nem se deve à sua anacronia. “’A descentralização só será um sintoma de degeneração e decadência’. 180). enquanto conjunto de relações sociais. Ela é salutar e se resulta de forças centrípetas. diz Raichiff.sustentação econômica mútua. 181). Mas a administração municipal pode estimular indiretamente o crescimento deles utilizando suas peças de xadrex – e aquelas suscetíveis à pressão do público – nos lugares certos.” (p. em virtude da falta de atividade no centro. A administração municipal também não pode. Sem um coração central forte e abrangente. 181). nem a maioria das trapalhadas do planejamento provêm de tais planejamentos. nem ao fato de os usuários terem sido afugentados pelos automóveis.

193). “No caso das quadras longas.) A teoria estética de L’Enfant é admirável não como um produto visual abstrato isolado da funcionalidade. 200). combinações e efetivas de uso das ruas?” (p. necessitam de que essa matriz íntima da cidade ‘profana’ trabalhe da melhor maneira possível.” (p. “A necessidade de segregar as moradias do trabalho foi tão incutida em nós. as ruas e as oportunidades de virar esquinas devem ser frequentes. ou seja. tenham ou não aparência externa monumental e especial.194) “Os distritos mais difíceis de lidar são as áreas residenciais apagadas.” (p. “Como aproveitar oportunamente a presença de locais de trabalho e avançar a partir daí? O que fazer para consolida-los e leva-los a formar.197).194). (. “qualquer princípio pode sem dúvida ser aplicado arbitrária e destrutivamente por pessoas que não consigam entender seus mecanismos.. 9. 192). antecipo as considerações dos próximos três capítulos dizendo o seguinte: dos quatro geradores de diversidade.“Todos os usos urbanos principais. “As duas outras condições.“ (p. são muito difíceis de implantar caso ainda não existam. dois representam problemas fáceis de lidar na solução das deficiências das áreas cinzentas – geralmente já existem prédios antigos para desempenhar seu potencial e não é difícil criar mais ruas onde forem necessárias. 193). 192). que precisamos fazer um esforço enorme para enxergar a realidade e perceber que os distritos residenciais não misturados com trabalho não dão bons resultados nas cidades.” (p. ..” (p. mas por poder ser aplicada e adaptada harmoniosamente às necessidades dos estabelecimentos reais das cidades reais. mesmo as pessoas que estejam na vizinhança pelas mesmas razões são mantidas tão afastadas que se impede a formação de combinações razoavelmente complexas de usos urbanos cruzados. A Necessidade de Quadras Curtas: “2ª condição: A maioria das quadras deve ser curta.” (p.” (p. junto com as moradias.” (p. nem a diversidade derivada. a não ser permiti-los e encoraja-los indiretamente. “Os usos principais de trabalho em distritos residenciais não podem surgir porque se quer. A administração municipal pode fazer muito pouco do construtivo quanto à inserção na cidade de usos de trabalho nos locais em que não existam e sejam necessários. “No entanto. O mais sensato é começar por onde pelo menos uma dessas condições já existia ou possa ser fomentada com certa facilidade.” (p. todavia – misturas de usos principais e concentração adequada de moradias -. 194). às quais falte uma infiltração de trabalho que sirva de base e também falte alta densidade de moradias. 191).

” (p. Se os prédios da instituição fossem contínuos nas ruas laterais. Onde é possível elas se multiplicam. com propósitos diferentes. além de ruas para pedestres e veículos. desde a Quinta Avenida até a Sexta Avenida.” (p. Seria um grupo de ruas isoladas.205). “(. Serve como um exemplo. Nem poderia ser.. não a homogeneidade arquitetônica. (. De uma forma simples pode-se dizer que essas cidades são constituídas de áreas que permitam a existência de parques e jardins. A Necessidade de Prédios Antigos: “As cidades precisam tanto de prédios antigos. que ocupa três das quadras longas entre a Quinta e a Sexta Avenida. 205) “Os projetos residenciais de superquadras são passiveis de todas as deficiências das quadras longas. No Brasil.. separadamente. que talvez seja impossível obter ruas e distritos vivos sem eles. nem aos prédios antigos que passaram por reformas excelentes e dispendiosas – embora esses sejam ótimos ingredientes –.” (p. 200. 205). e o Jardim Guanabara (Ilha do Governador. “(. Se uma área da cidade tiver apenas prédios novos. elas devem provocar a presença de pessoas diferentes.“O Contraste entre a estagnação dessas quadras longas e a influência de usos que uma rua a mais propiciaria não é forçado. “Nos distritos que se tornam prósperos ou atraentes.) são exemplos desse formato... Temos um exemplo dessa transformação no Rockefeller Center. provém sem dúvida dos teóricos da Cidade Jardim 6 e da Ville Radieuse. 204). por todo mundo existem diversas tipologias de Cidades-Jardim. que execravam o uso do solo para ruas porque queriam que o solo se transformasse em áreas verdes planejadas.) esses caminhos não tem sentido porque todos os cenários são essencialmente idênticos... O Rockefeller Center tem essa rua a mais. Para saber mais sobre esse assunto ver Peter Hall. refiro-me não aos edifícios que sejam peças de museu. 10.” (p. . frequentemente de forma ampliada. Muito pelo contrário. que fazem as vizinhanças constituírem combinações de usos urbanos. de baixo valor. 201). incluindo alguns prédios antigos deteriorados.) se se espera que as misturas de usos urbanos sejam mais do que uma abstração nas plantas. Goiânia possui uma cidade planejada a esse estilo. em horários distintos. Ao falar em prédios antigos. as empresas que 5 Embora pareça dispensável essa citação permite entender a importância e a funcionalidade de novos arranjos espaciais nas ruas. e isso também ocorre quando são cortados por calçadões e esplanadas (.” (p. as ruas nunca são feitas para desaparecer..) essas ruas não tem sentido porque raramente há um motivo plausível para serem usadas por um número razoável de pessoas. RJ. 202). 6 Ebenezer Howard foi um dos percursores a descreverem o projeto físico das Cidades-Jardim. “O mito de que um grande número de ruas é um “esbanjamento”.”5 (p. Nem o mais engenhoso projeto em outros aspectos conseguiriam integrá-lo. mesmo que essas áreas sejam predominantemente de trabalho ou de moradia.. comuns. Peço aos leitores que o conhecem que o imaginem sem essa rua adicional no sentido norte-sul. ela não mais seria um centro de atividades. Conceitualmente o termo é variado e.) ruas frequentes e quadras curtas são valiosas por propiciar uma rede de usos combinados e complexos entre os usuários do bairro. que dariam apenas na Quinta e na Sexta Avenida. mas uma boa porção de prédios antigos simples. um dos dogmas do planejamento urbano ortodoxo. mas usando as mesmas ruas. a Rockefeller Plaza. porque é a fluência de usos e a confluência de trajetos.

aqui e acolá. 213) “é muito relativa a idade das construções quanto à utilidade e à conveniência. 207). 219).. 211). aumentar a concentração de pessoas.) essa relação entre concentração populacional e diversidade de usos quase não é levada em conta quando se refere aos bairros cujo principal é o residencial. alguns dos prédios antigos deverão desaparecer: será necessário rasgar mais ruas.” (p. A pequena modificação física que ocorre é para pior – deterioração gradativa...222).” (p. O tempo torna obsoletas certas estruturas para certos empreendimentos. médio e baixo. uns poucos usos novos.” (p. Isso inclui pessoas cujo propósito é morar lá. repetitivos.). com o passar do tempo. Mas deve-se manter uma boa combinação de prédios antigos e. “Se uma análise desse tipo de área for feita para averiguar qual ou quais das outras três condições estão faltando e então corrigi-las da melhor maneira possível. 11. e elas passam a servir a outros.” (p.221). que sejam quais forem seus propósitos. Nada num distrito que tenha vitalidade parece velho a ponto de não ser escolhido por quem tem esse poder – ou a ponto de ser eventualmente substituído por algo novo.venham a existir aí estarão automaticamente limitadas àquelas que podem arcar com os custos dos novos edifícios.” (p.” (p. “Portanto. de arremedos de cidade são impingidos como ‘consumo planejado’” (p.222). ao serem mantidos. “O Sr.) afirma que a descentralização produziu uma dispersão tão acentuada da população que a única demanda econômica efetiva que poderia existir nos subúrbios era a da maioria. “O florescimento da diversidade em qualquer lugar da cidade pressupõe a mistura de empresas de rendimento alto. os bairros construídos ao mesmo tempo mudam pouco fisicamente com o passar dos anos. 208). Denton (. declarou ele. eles se terão tornado mais do que o mero testemunho da decadência do passado ou uma evidencia do fracasso. A Necessidade de Concentração: “4ª Condição: o distrito precisa ter uma concentração suficientemente alta de pessoas. 210). “em regra. 213). Os únicos bens e atividades culturais existentes serão os que a maioria exigir. públicos e privados..” (p.. “Trechos extensos construídos ao mesmo tempo são por si próprios incapazes de abrigar um espectro amplo de diversidade cultural. (. populacional e de negócios.” (p.” (p. “É dessa maneira que os pacotes monopolistas. . dar mais espaço para usos principais.” (p. esparsos e pobres. “O crescimento constante dos custos de construção intensifica a necessidade de prédios antigos. 209).. há uma mistura constante de edifícios de várias idades e de vários tipos. 220).” (p. “(.

226).231) “Entre dez e vinte moradias por acre (2. recorre-se à padronização.227). é outro equivoco que herdamos do urbanismo da Cidade-Jardim. embora desmentida pelos fatos. um bom projeto e uma localização tipicamente de subúrbio.5 moradias por mil metros quadrados) – podem ser boas para subúrbios. em relação a dez moradias por acre (2.) Essa confusão entre altas densidades e superlotação.” (p.222). digamos. só pode existir pouca infraestrutura ou pouca diversidade de usos nos lugares habitados e onde elas são mais necessárias.” (p. por exemplo..” (p. é que sempre se confundem altas densidades habitacionais com superlotação de moradias.seis moradias ou menos por acre (1. (.” (p..94 moradias por mil metros quadrados) temos uma espécie de semi-subúrbio7. “A definição de superlotação dada pelo senso é de 1.” (p. embora costumem ser monótonos. há uma série de densidades metropolitanas que chamarei de densidades habitacionais intermediárias. 235). 15 por 27 metros. se subirem demais.. os lotes. pode render um núcleo suburbano ou uma cópia razoável.. “Uma das razões pelas quais baixas densidades urbanas são bem-vistas.47 e 4. Os lotes sob tais densidades habitacionais nos subúrbios têm em média. 231). “Nas cidades maiores (. “(.“Sem o auxílio da concentração de pessoas que aí moram. é o seguinte: em algum momento. Elas não servem nem a á vida suburbana nem à vida urbana. igualmente desmentida.” (232).) entre o ponto em que desaparecem o caráter e a função de semi-subúrbios e o ponto em que a diversidade e a vida pública dinâmica podem despontar. densidade de 20 ou mais moradias por acre implicam que muitas pessoas que moram próximas geograficamente não se conhecem e nunca o farão. digamos. que abordarei rapidamente porque interfere muito no entendimento da função das densidades. Tais projetos. 232).” (p. Eles não gerarão vitalidade e vida pública urbana – sua população é muito escassa. “O motivo pelo qual as densidades habitacionais podem inibir a diversidade. constituído tanto de casa separadas ou com duas famílias em lotes minúsculos quanto de casa geminadas de tamanho generoso com pátios ou áreas verdes relativamente generoso. mas com um planejamento engenhoso do local. Em geral. e por que altas densidades urbanas são malvistas. o que é muito pouco para uma moradia suburbana. Algumas densidades habitacionais nos subúrbios são mais altas. “Não conseguimos entender os efeitos das densidades altas e baixas se encararmos a relação entre concentração de pessoas e produção de diversidade como uma questão pura e simplesmente matemática. só ocasionam problemas. 21 por 30 metros ou mais.5 pessoas por cômodo ou mais..47 moradias por mil metros quadrados). ficam em média pouco abaixo de. para acomodar tantas moradias no solo. se se situarem perto das periferias das cidades grandes.” (p. é claro. “Densidades habitacionais muito baixas .). .. 7 O ideário de planejamento das Cidades Jardins fica nessa faixa.226).” (p. podem ser viáveis e confiáveis se ficarem longe da vida urbana.

Dado esse ponto de vista. “Por outro lado as pessoas reunidas em concentração de tamanho e densidade típicos de cidades grandes podem ser consideradas um bem positivo. parques movimentados em lugares movimentados e vários usos não-residenciais combinados. 244) 12: Alguns Mitos Sobre a Diversidade: “As intrínsecas combinações de usos diversos nas cidades não são uma forma de caos. Implica que a diversidade de usos urbanos se assemelha a uma bagunça. e além disso almejando uma vida pública nas ruas inequivocamente movimentadas e a acomodação e o encorajamento. num espaço geográfico pequeno. parecer singular e diferente de seus vizinhos de comércio similares. e também implica que os lugares marcados pela homogeneidade de usos têm melhor aparência ou são de todo mundo mais suscetíveis a um tratamento aprazível ou esteticamente disciplinado. segue-se que a presença de grande quantidade de pessoas abertos como um fato concreto.” (p.241).) uma verdadeira mesmice que tenta.” (p. segue-se que as concentrações de pessoas deveriam ser fisicamente reduzidas a qualquer preço: diminuindo a quantidade em si.” (p. estima-se que as construções na área residencial ocupem em média de 60 a 80 por cento do terreno. Ao contrário. Dado esse ponto de vista.” (p. 243). 241). 237). qualquer coisa que for maleita tem má aparência.. “Mas as coisas mudam desde a época em que Ebenezer Howard observou os cortiços de Londres e concluiu que. (.). e. tanto quanto seja possível. comemorada: aumentando sua concentração onde necessário para que a vida urbana florescesse..246) “(.” (p. além disso.. a crença de que a diversidade é feia. por exemplo. “A associação desses recursos – maior frequência de ruas. a vida urbana deveria ser abandonada. . Elas deveriam ser consideradas um trunfo. junto com uma grande variedade das próprias moradias – ocasiona resultados totalmente diferentes com altas densidades sinistramente inabaláveis e alta ocupação do solo. representam uma forma de organização complexa e altamente desenvolvida. pátios e similares. por meio do exibicionismo. e sua presença. sendo muitas dessas diferenças singulares e imprevisíveis e acima de tudo valiosa só por existirem. Mas essa crença implica outra coisa. Uma loja no shopping da Barra pode ter uma filial no zona norte.247).8” (p..“Na maioria dos locais. “Pode-se ver como um mal inevitável – ainda que necessário – o fato de as pessoas se reunirem em concentrações de tamanho e densidade típicos de cidades grandes. 245) “Examinemos. deixando os restantes 40 a 20 por cento não construídos na forma de quintais. Sem dúvida. uma enorme e exuberante riqueza de diferenças e opções. na crença de que são desejáveis fontes de imensa vitalidade e por representarem. econômico e visual. 8 É o que muitas vezes pode ser observado em grandes condomínios ou em áreas de expansão valorizadas como a Barra da Tijuca. para salvar as pessoas.” (p. almejando a ilusão dos gramados de subúrbio e da placidez das cidadezinhas. primeiro. do máximo de variedade possível.” (p.

) Os distritos urbanos serão lugares social e economicamente convenientes para que a diversidade surja por si só e atinja seu potencial máximo. mesmo sendo estes produtos padronizados.. Os distritos prósperos nunca têm ferros-velhos..) a tendência que a diversidade urbana de êxito comprovado tem de destruir a si mesma.) a maior parte da diversidade urbana é criação de uma quantidade inacreditável de pessoas diversas e de organizações privadas e diversas. “(. nos locais em que é importante considerá-la. Talvez a segunda grande falha seja que o zoneamento ignora a proporção do uso.) o zoneamento deve exigir uma aparência semelhante ou deve proibir a mesmice? (.). 268). “(.. que tem concepções e propósitos bastante diversos e planejam e criam formal da ação pública..) destaco uma última categoria de usos. os quais.. (.” (p. . É justamente o inverso. Parte 3: Forças de Decadência e de Recuperação: 13. mas têm-se seus produtos de inferior qualidade. afirmou que a maior falha do zoneamento urbano é permitir a monotonia.” (p.253). “Será verdade que a diversidade urbana estimula usos nocivos?(.. mas não é por causa disso que tais distritos são prósperos. “Pequenos grupos de edifícios residenciais pode ser semelhantes ou até iguais um ao outro sem impor um véu de monotonia. oferece a possibilidade decente de apresentar um conteúdo com diferenças autênticas. “Raskin.. e a tendência dos recursos financeiros públicos e privados de superalimentar os subalimentar o desenvolvimento e a mudança.(. densa mistura de idades das construções e alta concentração de pessoas. a diversidade de usos.. desde que o conjunto não ocupe mais que uma quadra curta e não se repita logo em seguida.) a inexistência de uma diversidade ampla e concentrada pode levar as pessoas a andarem de automóvel por praticamente qualquer motivo. são prejudiciais para os distritos com rica diversidade.258). caso os distritos possuam boas combinações de usos principais. em seu ensaio sobre a variedade. 254)..249). Dá para contá-los nos dedos de uma mão: estacionamentos. “Será que a diversidade provoca constrangimentos no trânsito?(...267.. a tendência da flutuação populacional de contrapor-se ao crescimento da diversidade. ou a confunde com o tipo de uso (..” (p.” (p.).. 250)... garagens de caminhões longos ou pesados.Por um lado. a tendência de elementos isolados poderosos das cidades(. (p.)” (p.” (p. painéis publicitários gigantescos e empreendimentos inadequados não exatamente por sua natureza..” (p. ruas frequentes... Eles não têm ferros-velhos porque são prósperos.262).. 268).“(.. postos de gasolina. mas porque em certas ruas suas dimensões não são apropriadas. A Autodestruição da Diversidade: “(..) de contribuir para decadência.. ainda que tratada com desleixo. a menos que sua localização seja regulamentada.).

269). se o urbanismo e a teoria de ocupação do solo convencionais fossem corretos e se a quietude e a limpeza tivessem um efeito tão positivo quanto se atribui a elas. “(.” (p. Eles formam fronteiras. o uso ou os usos que se destacaram como mais lucrativos na localidade se reproduzirão cada vez mais. fazemos coisas maravilhosas.285).269)..279). (.) No caso de uma linha férrea.) ruas cuja lucratividade centra-se numa diversidade derivada. 14.” (p. os estacionamentos extensos e os parques amplos serem muito diferentes entre si. as orlas marítimas. mas deixamos de lado a retroalimentação.).285). precisamente essas zonas malogradas deveriam ter um sucesso econômico estrondoso e ser socialmente ativas. esses espaços também têm muito em comum – a tendência de se situarem em vizinhanças agonizantes e decadentes.) uma combinação diversificada de usos em determinado local na cidade torna-se nitidamente atraente e próspera como um todo. geralmente criam bairros decadentes... tanto que passaram a significar. como comércio de roupas.) zoneamento pela diversidade.” (p. se observarmos as partes das cidades literalmente mais . “As linhas férreas são exemplo clássico de fronteiras. e diversificação competitiva. associada mais a cidades de pequeno porte que a cidades grandes. Uma forma de zoneamento pela diversidade já é conhecida de certos distritos: a restrição à demolição de prédios de interesse histórico. expulsando e suplantando os tipos de usos menos lucrativos. também fronteiras sociais – ‘do outro lado do trem’ -. coincidentemente. “Sejam quais forem. as vias expressas. “Ao criar o sucesso nas cidades. mas sim com as influências físicas e funcionais das fronteiras sobre uma vizinhança urbana imediata.. “A maneira de aumentar a base de tributação municipal é aumentar a extensão territorial das áreas prósperas da cidade. “Uma fronteira – o perímetro de um uso territorial único de grandes proporções ou expandido – forma o limite de uma área ‘comum’ da cidade.. nas cidades.. o distrito que fica de um dos lados dele pode se dar melhor que o distrito que fica do outro lado. As fronteiras são quase sempre vistas como passivas.” (p. há muito tempo. ou pura e simplesmente como limites. as fronteiras exercem uma influência ativa. 281).“(. os campus. “Apesar de as linhas férreas.” (p.” (p. a ponto de esse comércio tornar-se praticamente de uso exclusivo. nós. “(. No entanto. Aqui nos preocuparemos não com as conotações sociais das áreas demarcadas por fronteiras..272). e zonas de fronteira.279).. E.286).” (p. seres humanos. entram em decadência ao serem paulatinamente abandonadas e ignoradas pelas pessoas que são motivadas por propósitos secundários.” (p.” (p. (. uma conotação. “Ainda assim. constância dos edifícios públicos..285).. O que podemos fazer nas cidades para compensar essa omissão?” (p. A Maldição das Zonas de Fronteira Deserta: “Usos únicos de grandes proporções nas cidades têm entre si uma característica comum.

291). aquelas que literalmente atraem pessoas... mas tornando o interrelacionamento dele explicito.287). Quanto mais estéril essa área simplificada se torna para empreendimentos econômicos. É um espaço em que as pessoas se movimentam livremente. Os centros administrativos com área extensa são exemplos comuns. Linhas férreas ou vias expressas ou cursos d’água são exemplos comuns. “Conseguimos compreender melhor esse comportamento ‘obstinado’ se dividirmos de cabeça todo o espaço da cidade em dois tipos.. .) Certas fronteiras impedem a interação de usos de ambos os lados. por Kevin Lynch (. “Certas fronteiras restringem o uso. mantendo a cidade como cidade e o parque como parque. ou ao longo dele. Os conjuntos habitacionais.” (p. O primeiro.(.291).) Outras fronteiras têm uso escasso porque os elementos únicos marcantes que as constituem usam o solo com intensidade muito baixa em relação ao grande perímetro que possuem. “Então ambos os tipos de espaço contribuem para a circulação. que se fazem presentes por finalidade diferentes.” (p. O que importa é que as pessoas andam em torno dele.. Paulo Cesar da Costa. “A questão. em grande escala. tanto menor será a quantidade de usuários e mais improdutivo o próprio lugar. “O segundo tipo de espaço.” (p. Ele inclui as ruas. mas não através dele9. (. é que elas costumam formar becos sem saída para a maioria das pessoas que utilizam as ruas. é utilizado para circulação pública de pedestres. ao permitir a circulação em apenas um de seus lados. Isso não importa.296).” (p.atraentes – ou seja.” (p.) Certas fronteiras têm interação de usos em ambos os lados. (.) autor do The Image of the City (A Imagem da Cidade). “O problema básico das fronteiras.287). em carne e osso -. “Esse princípio foi brilhante definido.. no percurso de um lugar a outro. A Condição Urbana. (.290).” (p. 2002.) Isso é grave. porque a mistura constante e literal de pessoas. Pode ou não ter construções. pode ou não ser acessível às pessoas. quando usados livremente com áreas de circulação. vivo e superficialmente constante. vários dos parques menores e ás vezes os saguões de prédios.287). mas boa parte dela se restringe ao período do dia e diminui drasticamente em certas épocas do ano. como vizinhanças das cidades... que pode ser chamado de espaço especial.” (p. pode ou não ser propriedade pública. e essa simplificação de usos – que significa menos frequentadores. que pode ser chamado espaço público.. notaremos que essas localidades afortunadas raramente se encontram em zonas imediatamente adjacentes a usos únicos de grandes proporções. por livre escolha. pode ou não ter construções. com relação a outro assunto. Tem início então um processo de desconstrução oi deteriorização. deve ser procurar usos adequados à zona de fronteira e criar outros. elas tendem a simplificar também p uso que as pessoas dão ás áreas adjacentes. com menos opções e destinos a seu alcance – se autoconsome. ‘Uma linha divisória pode 9 Para saber mais a respeito de ‘espaço público’ ler: GOMES.” (p.291). em resumo. não é normalmente utilizado como via pública pelos pedestres... Parques amplos são exemplos comuns. “Devido ao uso super-simplificado da cidade em certo lugar. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. é o único meio de preservar a segurança nas ruas.

Formação e Recuperação de Cortiços: “Essas omissões intelectuais estranhas remontam. mas sim como ele se torna disponível e para quê. “Empregar uma força contrária às fronteiras urbanas necessárias que dizer o seguinte: o máximo possível de elementos urbanos deve ser usado para constituir um território misto. como os fundos de pensão.296). “Pelo fato de o dinheiro ser tão poderoso como instrumento. uma linha de permuta ao longo da qual duas áreas se alinham’. que o deixavam desnorteados e não paravam a surgir do nada. e que os urbanistas poderiam tocar seu ótimo e sublime trabalho sem serem atrapalhados pelas contestações grosseiras dos leigos. companhias de seguro de vida. as mais importantes dessas instituições são: entidades de créditos e poupança.” (p. as cidades também somem. escreve Lynch. que os negociantes (o inimigo) mal existiriam como força significativa em sua Utopia. Somam-se a elas várias categorias de financiadores hipotecários menores – alguns deles em rápido crescimento. na restauração. A parte do leão. O que fazer para não lhes dar a oportunidade de desenvolver seus negócios. “A primeira e mais importante das três formas de capital é o crédito concedido pelas instituições de empréstimo privadas convencionais.ser mais do que simplesmente uma barreira dominante’. Ele parecia pensar que os integrantes da classe operária industrial permaneceriam docilmente em sua classe.326).326) . a não ser sob as diretrizes rígidas de um plano empresarial monopolista – essa era uma das principais preocupações de Howard ao arquitetar suas Cidades Jardins. 15. Ele temia e rejeitava a união das forças vivas e inerentes à urbanização com a industrialização. 16. que os trabalhadores agrícolas permaneceriam na agricultura.” (p.” (p. Capital Convencional e Capital Especulativo: “por esses motivos. não uma barreira. penso eu ao absurdo da CidadeJardim. da mesma forma que muitos dos pressupostos velados do planejamento urbano e do urbanismo.298).” (p. precisamente o mesmo princípio se aplica a muitos problemas funcionais ocasionados pelas fronteiras. A visão que Ebenezer Howard teve da Cidade-Jardim nos soa quase feudal. na transferência e na expansão que ocorrem nas cidades (assim como nos subúrbios) é financiada por essa forma de capital.326). Torna-se então uma costura. ‘se for possível ver ou mover-se através dela – se ela estiver inter-relacionada em certa profundidade com as regiões de ambos os lados. Não lhes dava espaço na luta contra a vida de cortiços. o dinheiro tem o poder de contribuir tanto para a decadência quanto para a revitalização das cidades.322). Lynch referia-se a problemas visuais e estéticos relativos a fronteiras. na reforma.322). bancos comerciais e caixas econômicas. Pela ordem do montante de hipotecas em seu patrimônio. e o mínimo possível deve ser usado para a criação desnecessária das barreiras.” (p. Porém. quando ele some. “O objetivo de Howard era suplantar os novos comerciantes da cidade e outros empreendedores. é preciso entender que o mais importante não é uma simples disponibilidade do dinheiro. na construção.” (p. vivo.” (p.

) então os órgãos oficiais de crédito representam não só o poder de destruir como também o de criar e de desviar’. 10 No Brasil esse fenômeno também acontece.“ (p. (. a preocupação com o lucro – na maioria das vezes. uma preocupação legítima com lucros legítimos..329).337). estadual e municipal. Essa última etapa possibilita o retorno drástico do capital tradicional para financiar as construções e reabilitações do plano de reurbanização. os credores hipotecários operam num vácuo legal e ideológico.329). além disso. imóveis residenciais e comerciais. Esse capital está para o mercado de hipotecas como o dinheiro dos agiotas está para a situação financeira pessoal. como costumam fazer na decadência urbana. o dinheiro público também financia. Haar. “Por trás do uso do dinheiro em construções e hipotecas existe. um submundo.. Os subúrbios do governo federal e do municipal para demolições. Primeiro.343).). seja por meio de seu poder de tomar empréstimos.. Nova Iguaçu e. Ele se referia especificamente à instituição de crédito do governo e à utilização dessa instituição na execução de obras nos subúrbios e não nas cidades10. outras áreas. . visto que. a fim de tornar financeiramente viáveis os projetos de reurbanização e reforma financiados pela iniciativa privada. a escolha da área pela Comissão de Planejamento como candidata à utilização drástica de recursos financeiros do governo a fim de custear demolições para a renovação urbana. depois. seja por meio de receita tributária. O eterno crescimento dos subúrbios foi viabilizado (e para muitas famílias foi na verdade compulsório) pela criação de uma coisa que os Estados Unidos não tinham até meados dos anos 30: um mercado hipotecário nacional. diz o Professor Charles M. de dinheiro vivo e crédito. “A terceira forma de capital vem de um mundo paralelo de investimentos. a ruína financiada pelo capital do submundo.). depois. Assim como os projetistas de parques e os especialistas em zoneamento. da mesma forma que conjuntos habitacionais garantidos pelos governos federal. a instituição de crédito constitui não só o poder de destruir como também o poder de criar e de desviar.. por assim dizer. a retirada de todo capital convencional. estão entre os usos desse dinheiro.327).” (p. 327).” (p. “O enorme crescimento dos subúrbios das cidades norte-americanas não ocorreu por acaso – e menos ainda pelo mito da livre escolha entre cidades e subúrbios. observa-se o crescimento contínuo de corretoras e prédios de baixo custo em novas áreas de expansão no subúrbio e na Zona Oeste do Rio de Janeiro. da faculdade de Direito de Harvard. em certos casos.“a segunda forma de capital é aquela que o governo fornece. por trás do uso desse dinheiro nas cidades. etc. (. “’Se o poder d cobrar impostos equivale ao poder de destruir (..326. Com exceção das obras urbanas que normalmente cabem ao governo (escolas. “Todas as três formas de capital especulativo participaram desse colapso.. “Como disse Haar. arquetipado especificamente para promover a construção de residências nos subúrbios.” (p.). vias públicas. Mas.” (p. sem dúvida. numa análise sobre os incentivos federais ao investimento na construção de habitações.” (p. Campo Grande.” (p.343).

18. Ou. gabava-se de estar fazendo projetos para uma nova era e.) as vias expressas e o tráfego em seu projeto da Ville Radieuse numa quantidade que aparentemente satisfazia sal noção de projeto. vendo por um lado. abordarei vários assuntos que em si já são reconhecidos como pertencentes à esfera de ação do planejamento urbano: moradias subsidiadas. 382). em síntese.. métodos analíticos. A Subvenção de Moradias: “Nessa seção. ultrapassada. a uma das peças que às vezes a história prega no progresso. Essas duas ideias básicas a respeito do sistema habitacional são tremendamente inadequadas em nossa sociedade para um desenvolvimento urbano satisfatório. padronização – são ruins para o ser humano e para as necessidades econômicas urbanas. 11 Comparar a evolução dos automóveis sendo melhor do que a dos cavalos. legislativa e financeiramente. como uma versão com parques. trânsito. funções e usos urbanos. vias e extensão de estacionamentos e manutenção que seriam necessários em seus amontoados de pessoas.374). mas são boas e lógicas para a execução de empreendimentos e para que a burocracia se aposse deles e o administre. Com relação ao novo sistema viário. ele foi igualmente superficial. e também uma reação à cidade dos cavalos (e das epidemias) do século XIX. As táticas elaboradas para reutilizá-la – emparedamento de cortiços e/ou. nos moldes de um subúrbio. “A atual relação entre cidades e automóveis corresponde.” (p. para um novo sistema viário. sem destruir o correlato uso do solo.378). triagem de renda. sociológica. arranha-céus e vias expressas para automóveis da Cidade-Jardim de Howard. E não há estacionamento que baste. Sua visão de arranha-céus de estacionamentos. complexo e concentrado? – eis a questão. padrão estético urbano. quaisquer outras táticas com esses fins são tão ilógicas e forçadas que as tentativas de incorporá-las morrem antes que seque a tinta dos informes oficiais. Erosão das Cidades ou Redução dos Automóveis: “É questionável que parcela da destruição provocada pelos automóveis e trânsito e que parcela deve-se ao puro descaso com outras necessidades. Na verdade. ao mesmo tempo.381. verticais e repetitivos.. foi elaborado arquitônica.11” (p. Com relação à nova era. ele estava apenas adaptando de maneira superficial reformas que haviam sido uma reação a aspirações nostálgicas de uma vida mais simples. O período de evolução do automóvel como transporte cotidiano correspondeu precisamente ao período durante o qual o ideal da anticidade. mas não tinha relação alguma com a quantidade imensamente maior de automóveis. quando projetou sua Ville Radieuse na década de 1920. Bordou (.382). separados por vazios.” (p. como prover uso do solo complexo e concentrado sem destruir o transporte correlato?” (p. “Le Corbusier.” (p.. “As ideias não foram utilizadas exatamente porque são em geral concebidas e sugeridas como alterações para serem incorporadas tanto ao próprio conceito de empreendimento quanto ao conceito de propriedade pública de moradias subsidiadas.” (p. “Como se pode prover o transporte urbano.379). remoção de cortiços. Não estava. .357).Parte 4: Táticas Diferentes 17.

389). absurdo. uma ação produz uma redução que por sua vez intensifica a situação que originou a primeira ação. Táticas apropriadas são aquelas que dão espaço outros usos urbanos necessários e desejados. 418). um vestígio tênue dessa ânsia – continuou pairando sobre a teoria urbanística da Cidade-Jardim quando ele não se deixou contaminar pelo urbanismo da Ville Radieuse e do City Beautiful. Por causa do congestionamento de veículos. para acomodar a um número sempre crescente de automóveis quando eles não estão sendo usados. 12 Áreas para pedestres: ver o uso do espaço público em Bogotá (PROURB). depois uma grande garfada. onde existam empresas. como era de esperar. duplicam-se pontes quando sua capacidade se esgota. 19. cerâmica e serralheria nos núcleos urbanos planejados que ele imaginou para nós. que por sua vez intensifica a reação e assim por diante. os espaços reservados ficam vazios. “Se o trânsito de veículos e de pedestres for inteiramente separado.” (p. em The Culture of Cities (A Cultura das Cidades). “Quais as táticas apropriadas a uma estratégia de pressão da cidade sobre os automóveis pelas cidades? Muitas das táticas ficam óbvias de imediato. Os pedestres vão às ruas onde há trânsito de veículos.. instalam-se sistemas de sincronização de semáforos para o trânsito fluir mais rápido.389).“E há outra dificuldade nos planos para pedestres. Isso intensifica a necessidade de repetição da primeira ação. de seu lado. Lewis Mumford..). constituído de arte consensual – ou melhor.385). uma avenida larga é transformada em via de mão única.385).” (p. .405). alarga-se uma rua aqui. em pequenas proporções. necessitam de um acesso adequado para veículos de serviço. uma destas duas alternativas é valida. já nos anos 1930. eventual. “A erosão das cidades pelos automóveis provoca uma serie de consequências tão conhecidas que nem é necessário descrevê-las. separados do espaço de pedestre.385).” (p. Assim. Ordem Visual: Limitações e Potencialidades: “A ânsia por um ambiente simples.” (p. abre-se uma via expressa acolá e por fim uma malha de vias expressas. ad infinitum. abastecimento ou transporte de mercadorias. A erosão ocorre como se fossem garfadas – primeiro. mas a redução de automóveis pelas cidades. outra é retificada ali. “A outra alternativa é que se elabore planos para os veículos de serviço.12” (p.” (p. desde que entendamos que a questão não é a redução de automóveis nas cidades. de saída. que revalizam com as necessidades viárias dos automóveis. A primeira alternativa é que as ruas reservadas para os pedestres não contenham tais empresas. Essa espécie de contradição intrínseca atormenta grande parte do planejamento grandioso da ‘cidade do futuro’” (p. “Na retroalimentação positiva. geram um uso maior das ruas pelos pedestres. 417. Absurdos como esse existem na vida real e. Cada vez mais solo vira estacionamento. deu destaque – que seria realmente incompreensível não fosse a tradição – a ocupações como cestaria. Isso é. (. As empresas urbanas que existem em função do uso das ruas pelos pedestres e que.

O propósito geral deve ser introduzir usos que não o residencial.430). porque a falta de usos combinados suficientes é exatamente uma das causas da monotonia. na verdade. Primeiro.” (p. conseguem isso chamado a atenção para o fato de que são diferentes de seus vizinhos e importantes as áreas urbanos que são funcionalmente importantes.440). “A estrutura real das cidades consiste na combinação de usos.” (p. sem dúvida. menciona o fenômeno das áreas ‘abandonadas’..” (p. Praticamente. “Nem todos os pontos de referência urbanos são edifícios. “Todas essas variadas táticas de obtenção de uma ordem visual urbana dizem respeito a detalhes das cidades – os quais.” (p.” (p.. enfatizam (e também promovem) a diversidade das cidades. 418). tem importância funcional. que um lugar importante é aquele que. e também usos noturnos e comerciais em geral. particularmente se atraírem boa interação de usos de fora dos antigos limites do conjunto. “Só a complexidade e vatalidade de usos dão às regiões das cidades estrutura e forma adequadas. Mas a ênfase nos detalhes é fundamental: a cidade é isso – detalhes que se complementam e se sustentam mutuamente. do perigo e da falta de comodidade. em seu livro The Image of the City ( A Imagem da Cidade). Projetos de Revitalização: “Quais os tipos possíveis de usos para as novas ruas e edifícios? (. e diretamente.. “Agora vejamos aquela segunda função que os pontos de referência podem exercer para tornar clara a ordem das cidades: sua capacidade a ajudar a manifestação visualmente. ou somente o andar térreo ou o subsolo dos prédios. Porém os edifícios são as principais referências nas cidades. mas cuja importância precisa ser reconhecida e enaltecida visualmente. Porém. são essencialmente dias de orientação.).) por meio da tradição utópica.. chafarizes bonitos e assim por diante.” (p. como o nome diz.” (p.420). os bons pontos de referência têm ainda duas outras funções que ajudam a tornar clara a ordem das cidades.428). 20. e nós nos aproximamos de seus segredos estruturais quando lidamos com as condições que geram a diversidade. o planejamento urbano moderno tem-se sobrecarregado desde o início com o objetivo equivocado de converter cidades em obras de arte. . lugares que as pessoas entrevistadas ignoram inteiramente ou dos quais nem têm lembrança. embora esses locais ‘esquecidos’ aparentemente não mereçam o esquecimento e às vezes esses entrevistados tenham acabado de passar por eles na realidade ou na imaginação. por meio da doutrina mais realista da arte pro imposição. “Os pontos de referência.419). a não ser que se fala deles. explicitamente.“(. se entrelaçam numa estrutura urbana de usos cuja trama seja o mais contínua e fechada possível. e os princípios que os fazem servir ou mal se aplicam também à maioria dos outros tipos de marcos. Kevin Lynch. Esses usos diferentes podem ocupar por inteiro os novos edifícios e ruas.427). como monumentos.435).” (p.

que se desenrolam as questões que envolvem o homem.” (p. “Em poucas palavras.” (p. ao contrário de impedi-la e negála. inevitáveis e naturais da vida nas grandes cidades.461) “A estrutura administrativa em si é falha porque ela foi adaptada mais do que deveria para funcionar. É assim. como dito antes. por meio da promoção e da compreensão da ordem funcional. lidando com estranhos. variados e ricos em contatos internos e externos o suficiente para lidar bem com os problemas difíceis. como ocorre hoje em todas as grandes cidades.” (p. Outra coisa é descobrir. cujos usuários e proprietários informais possam dar uma grande contribuição mantendo a segurança dos espaços públicos.” (p. Porém. garantindo a vigilância informal das crianças nos lugares públicos. que é necessário um esforço enorme – e geralmente vão – só para reunir e tentar interessar os especialistas adequados em vários serviços que necessariamente devem ser contatados para lidar com um único problema ou necessidade de um único lugar. em vez de uma horizontalidade descoordenada. de modo que sejam um trunfo e não uma ameaça. Os distritos administrativos substituíram as subdivisões primárias.” (p. 455). “O planejamento para a vitalidade deve combater a existência nocivas das zonas de fronteira desertas e deve ajudar a promover a identificação das pessoas com distritos que são extensos.” (p. Chega um momento em que o nível de complexidade aumenta tanto. 455). a organização interna de cada um dos diversos serviços seria racionalizada e se adaptaria automaticamente à de outros serviços.465). de modo que as atividades entre eles e deles com os distritos fossem realmente funcionais. mais ainda numa sociedade que se autogoverna. básicas da maioria dos órgãos municipais.469) . 462). as grandes cidades devem ser divididas em distritos administrativos. mas. Seriam divisões horizontais do governo municipal. “O planejamento para a vitalidade deve explicitar a ordem visual das cidades. os departamentos verticalizados de serviços que abrangem toda a cidade ainda existiriam e trocariam informações e idéias com os distritos. estariam ligadas ao governo municipal como um todo.“O planejamento para a vitalidade deve propiciar uma interpenetração contínua de vizinhanças.” (p.455). “A ação e a pressão política serão sempre necessárias.” (p. Há precedentes na horizontalidade descoordenada e desarmônica a que muitas administrações municipais recorreram. “O planejamento para a vitalidade deve visar à recuperação de cortiços. para enfrentar e desfazer conflitos reais de interesses e opiniões.” (p. tanto para os antigos residentes quanto para os moradores que se incorporem a ela. em quase todos os casos. criando condições para convencer uma grande porcentagem por livre escolha.466) “Em síntese. “A idéia da administração municipal horizontal não é nova. que é necessário inventar. e a comunidade se mantenha.455). de modo a diversidade de pessoas aumente sempre.

onde não há fronteiras políticas rígidas que a impeçam. simples e interdependente: playgrounds. “No fim da década de 1920 na Europa e na de 1930 nos Estados Unidos a teoria do planejamento urbano começou a assimilar idéias mais novas sobre a teoria da probabilidade desenvolvida pela ciência física. dar livre curso a operações violentas em localidades e no processo de autogestão. Elas foram consideradas como estando inter-relacionadas de maneira direta e simples.484) “A teoria do planejamento da Cidade-Jardim teve origem no final do século XIX. sem. de lidar também com aquelas colchas de retalhos de governos e administrações em regiões metropolitanas mais amplas. primeiro. áreas livres.” (p. A cidade como um todo era mais uma vez considerada uma dentre duas variáveis numa relação simples e direta entre cidade e cinturão verde.“Já temos unidades governamentais que imploram por estratégias e táticas de gestão e planejamento metropolitanos viáveis. centros comunitários. a partir de um governo de cidade pequena. as moradias tinham suas variáveis. Como sistema ordenado. Não temos experiências nem conhecimento para lidar com uma gestão ou um planejamento metropolitano de grandes porporções.” (p. já que todos os problemas não podem ser analisados da mesma maneira. dentro das grandes cidades.” (p. Os planejadores passaram a reproduzir e aplicar essas análises exatamente como se as cidades fossem problemas de complexidade desorganizada. uma das coisas principais que se devem saber é que tipo de problema as cidades representam. a não ser na forma de adaptações cada vez mais inadequadas. coordenar e planejar no âmbito de regiões administrar numa escala razoável.475). Hoje não temos essa capacidade. compreendidas e tratadas como problemas de complexidade organizada há mais tempo?” (483) “Os teóricos do planejamento moderno convencional tem confundido constantemente os problemas das cidades com problemas de simplicidade elementar e de complexidade desorganizada e tem tentado analisá-la e tratá-las dessa maneira.484. É aí que devemos testar métodos para solucionar os grandes problemas comuns. Uma administração metropolitana viável deve ser aprendida e executada. praticamente se resumia a isso. “Se as grandes cidades podem aprender a administrar. podemos vir a ser capazes. e essas unidades são as próprias cidades grandes.” (p. a elas relacionada de maneira direta. na forma de sistemas relativamente fechados. E sobre essa base simples de relações de duas variáveis foi criada uma teoria interna de cidades auto-suficientes com o fim de redistribuir a população das cidades e (esperava-se) realizar o planejamento regional. 477) “Por que as cidades não são percebidas. O Tipo de Problema Que É A Cidade: “Para pensar simplesmente sobre as cidades e chegar a alguma conclusão. compreensíveis simplesmente por meio da análise .” (p. como corolário.475) 20. Por sua vez. como sociedade. As duas variáveis principais na concepção de planejamento da Cidade-Jardim eram quantidade de moradias (ou população) e o número de empregos. 485). escolas. e Ebenezer Howard abordou o problema do planejamento das cidades analisando um problema simples de duas variáveis. equipamentos e serviços padronizados.

seu plano assimilou o reordenamento estatístico de um sistema de complexidade desorganizada. como recuperação de cortiços.485).” (p. Embora o próprio Le Corbusier só tenha ensaiado uma aproximação com a análise estatística.” (p.” (p. parques. penso que os modos de reflexão mais importantes sejam estes: 1. 499). ruas. Assim. “Por que refletir sobre os processos? Os elementos das cidades – sejam eles edifícios. as sementes de sua própria destruição e um pouco mais. Quanto à compreensão das cidades. nada pode ser entendido ou feito de proveitoso quanto à melhoria das moradias se elas forem consideradas abstratamente como ‘habitação’. pontos de referência. solúvel matematicamente. seus arranha-céus num parque eram uma celebração artística do poder da estatística e do triunfo das médias matemáticas. Refletir sobre os precessos. diversificadas e intensas contêm as sementes de sua própria regeneração. as quais revelem como funciona uma quantidade maior e ‘média’. bem adaptada pela visão da Ville Radieuse de Le Corbusier. Usar de indução. distritos.486).” (p. autodestruição da diversidade. geração de diversidade. previsíveis por meio da aplicação da probabilidade matemática.” (p. específicos. de acordo com as circunstâncias e o contexto em que existam. na verdade. sempre incluídas em processos diversos.490) “As cidades monótonas. por exemplo. efetivamente. inertes. contêm. “Essa concepção da cidade como uma coleção de gavetas de arquivo foi. 490). com energia de sobra para os problemas eas necessidades de fora delas. trata-se de táticas quase idênticas àquelas que precisam ser empregadas para entender e atender as cidades. Mas as cidades vivas. controláveis por meio da convenção em conjuntos de médias. 3. ou o que forem – podem ter efeitos inteiramente diferentes. formação de cortiços. aquela versão mais verticalizada e centraliza da Cidade. “Em princípio. . em vez do contrário. 2. As moradias urbanas – existentes ou por existir – são construções específicas e particularizadas.estatística.Jardim de duas variáveis. Procurar indícios ‘não-médios’ que envolvam uma quantidade bem pequenas de coisas. raciocinando do particular para o genérico.

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