SEGUNDA SEÇÃO OS SOFISTAS lCáVt(i)V pTJ ji&rpov c tV1 de todas as coisas o homem é medida.” Protágoras, fr. 1. 1.

ORIGENS, NATUREZA E FINALIDADE DO MOVIMENTO SOFÍSTICO 1. Significado do termo “sofista” Antes de iniciar um discurso sobre a sofística, é indispensável esclarecer o significado original e autêntico do termo “sofista”. E sabido, com efeito, que sofista, na linguagem corrente, há tem po assumiu um sentido decididamente negativo: sofista é chamado aquele que, fazendo uso de raciocínios capciosos, busca, por um lado, enfraquecer e ofuscar o verdadeiro e, por outro, reforçar o falso, revestindo-o das aparências do verdadeiro. Mas este não é de modo algum o sentido original do termo, que significa simplesmente “sá bio”, “especialista no saber”, “possuidor do saber”. Significa não só algo positivo, mas altamente positivo’ A acepção negativa do termo sofista tornou-se corrente a partir talvez já de Sócrates e, certamente, dos discípulos de Sócrates, Platão e Xenofonte, que radicalizaram a batalha ideológica contra os sofis tas, e depois com Aristóteles, que codificou tudo o que dissera Platão. Eis como Platão define o sofista no diálogo homônimo: Em primeiro lugar, o sofista era um caçador remunerado de jovens ricos t.. .1 em segundo lugar, uma espécie de importador de conhecimentos que interessam à alma 1...] e em terceiro lugar, não se nos mostrou como um biscateiro destas mesmas coisas [ e em quarto lugar, um mercador dos próprios produtos científicos [ e em quinto era uma espécie de atleta da agoníslica aplicada aos discursos, como quem tivesse reservado para si a arte de disputar [ depois, em sexto lugar, era algo de controvertído; todavia convimos admitir que ele seja uma espécie de purificador espiritual das opi niões que impedem a alma de saber Xenofonte escreve: 1. Para a história do termo sofista ver M. Untersteiner, Nota sulta paro “sofis ta”, em Sofisti. Tesfinionianze e franirnenzi, 1, La Nuova Italia, Florença 19612, pp XVlss. 2. Platão, Sofista, 231 d-e (‘- Diels-Kranz, 79 A 2). 190 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL NATUREZA E FINALIDADE DO MOVIMENTO SOFÍSTICO 191 Porque se alguém vende a sua beleza por dinheiro a qualquer que o deseje, chamam-no prostituto [ analogamente, os que vendem por dinhei ro a sabedoria a qualquer um, são chamados sofistas, que é o mesmo que dizer prostitutos

E ulteriormente: Os sofistas falam para induzir ao engano, e escrevem para o próprio ganho, e não beneficiam em nada a ninguém [ E Aristóteles conclui: A sofística é uma sabedoria aparente, não real; o sofista é um mercador de sabedoria aparente, não real Como é bem evidente, são dois os pontos de acusação, e, de natureza diferente: a) a sofística é um saber aparente e não real e, além disso, ela b) é professada com fins lucrativos e de modo algum por desinteressado amor à verdade. A estas acusações, aduzidas por filósofos, acrescentaram-se de pois também as que surgiram da opinião pública. Esta viu nos sofistas um perigo, seja para a religião (como de resto o viu nos últimos físicos), seja para o costume moral, dado que, justamente, para este domínio os sofistas deslocaram a sua atenção. Os aristocratas em particular não perdoaram os sofistas por terem contribuído para a sua perda de poder e por terem dado forte incentivo à formação de uma nova classe, que não se valia mais da nobreza de nascimento, mas dos dotes e habilidades pessoais, e que era, justamente, aquela classe que os sofistas pretendiam criar ou, pelo menos, educar sistematicamente. Resta, em todo caso, que a responsabilidade máxima em desacre ditar os sofistas foi de Platão, e o foi, mais do que pelo que disse, pelo modo particularmente eficaz como o disse, com o instrumento da sua arte: e dado que Platão é a fonte mais importante para a reconstrução do pensamento sofístico, é claro que, fatalmente, por muito tempo os historiadores tomaram por boas não só as informações que ele nos fornece sobre os sofistas, mas também os juízos que dá sobre eles. 3. Xenofonte, Memoráveis, 1, 6, 13 (= Diels-Kranz, 79 A 2a). 4. Xenofonte, cynegericus, 13, 8 ( Diels-Kranz, 79 A 2a). 5. Aristóteles, Refutações sofisticas, 1, 165 a 21 Diels-Kranz, 79 A 3). Mas veremos logo que, se as razões que levaram ao descrédito dos sofistas aos olhos dos contemporâneos e de Platão podiam mos trar-se fundadas e indiscutíveis, ao invés, não o são (ou só são em mínima parte) para o intérprete que, historicamente formado, saiba pôr-se acima das partes e julgar de modo objetivo. E assim, só a partir do fim do século passado o apuramento do método historiográfico permitiu pouco a pouco libertar os sofistas daquela condenação, e possibilitou uma integral reavaliação e uma justa inserção deles na história das idéias. Todos os estudiosos mais qualificados são, hoje, concordes em afirmar que “... os sofistas são um fenômeno tão neces sário quanto Sócrates ou Platão, antes, sem aqueles estes são efetiva mente impensáveis” 2. Razões do surgimento da sofistica Dizer que, sem os sofistas, Sócrates e Platão são totalmente impensáveis significa dizer que os sofistas representam algo total mente novo e, de algum modo, operaram uma revolução com relação aos filósofos da physis: é esta revolução, junto com as razões que a produziram, que agora devemos esclarecer.

Em primeiro lugar, para compreender o surgimento e o desenvol vimento do fenômeno da sofística, é preciso ter presentes os resulta dos particulares aos quais chegou a especulação naturalista. Estes tinham então chegado ao ponto de se anularem mutuamente: os resul tados do eleatismo contradiziam os do heraclitismo; os resultados dos pluralistas contradiziam os dos monistas; ulteriormente, as soluções dos pluralistas se excluíam mutamente, se não nos fundamentos, pelo menos na determinação do pensamento. Parecia, então, que todas as possíveis soluções tinham sido propostas e não eram pensáveis ou tras: os princípios são um, muitos, infinitos ou até mesmo não ex is tem princípios (eleatas); tudo é móvel, tudo é imóvel; tudo depende de um ordenamento inteligente de uma Mente, tudo deriva de um movimento mecânico; e assim se poderia prosseguir no elenco das 6. Jaeger, Paideia, 1, p. 503. 192 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL NATUREZA E FINALIDADE DO MOVIMENTO SOFÍSTICO 193 antíteses às quais chegara a filosofia da physis. Até a tentativa de alguns pensadores de retomar e voltar a defender, com oportunas correções, o pensamento de um ou outro dos antigos mestres (por exemplo, a tentativa de Hípon de defender Tales, ou a de Diógenes de Apolônia de defender a doutrina do ar de Anaxímenes) demonstra, como vimos acima, que, então, todas as vias estavam batidas e que a pesquisa do princípio de todas as coisas tinha esgotado todas as possibilidades e tocado os próprios limites. Era fatal, portanto, que o pensamento filosófico deixasse de lado a physis, e deslocasse o pró prio interesse para outro objetivo. O novo objetivo foi, justamente, aquele que os naturalistas descui daram por completo, ou só marginalmente tocaram, vale dizer, o homem e tudo o que há de tipicamenre humano. Diz muito bem Nestle: “ para os sofistas o homem e suas criações espirituais estão no centro da reflexão. Também para eles vale aquilo que Cícero diz de Sócrates: ‘Ele fez descer a filosofia do céu sobre a terra, introduziu-a nas cidades e nas casas e obrigou-a a refletir sobre a vida e os costumes, sobre o bem e o mal’. Para o homem como ente individual e como membro da sociedade é que se volta a atenção da sofistica” E por isso compreen de-se que os temas dominantes da especulação sofistica tenham se tor nado a ética, a política, a retórica, a arte, a língua, a religião, a educação, tudo aquilo que nós hoje chamamos de cultura humanista. Com os sofistas, em suma, começa aquele que, com expressão correta, foi cha mado de período humanista da filosofia antiga. Nós, porém, não poderíamos explicar este radical deslocamento do eixo da filosofia, se nos limitássemos a chamar a atenção para este fator negativo, isto é, o esgotamento dos recursos da filosofia da natureza. Além e junto com isso agiram, e de modo decisivo, as novas condições históricas que foram amadurecendo progressivamen te no curso do século V a.C., e os novos fermentos sociais, culturais e também econômicos que, em parte criaram, em parte foram criados, pelas novas condições históricas Recordemos, antes de tudo, a lenta, porém inexorável, crise da aristocracia, que vai pari passu com o poder sempre crescente do demos, do povo; o afluxo para as cidades, especialmente Atenas, sempre mais maciço dos metecos; a ampliação do comércio, que, superando os estreitos limites das cidades, levava cada uma delas ao contato com um mundo mais amplo; a difusão das experiências e conhecimentos dos viajantes que levavam

ao inevitável confronto dos usos, costumes e leis helênicas com usos, costumes e leis totalmente diferentes. Todos estes fatores contribuíram fortemente para o surgi mento da problemática sofística. A crise da aristocracia comportou também a crise da antiga areté, dos valores tradicionais, que eram justamente os valores prezados pela aristocracia. A crescente afirma ção do poder do demos e a ampliação a círculos mais vastos da possibilidade de chegar ao poder fizeram ruir a convicção de que a areté dependesse do nascimento, isto é, que se nascia excelente e não se tornava tal, e trouxeram para primeiro plano o problema de como se adquiria a “excelência política”. A ruptura do restrito círculo da polis e o conhecimento de costumes, usos e leis opostos, deviam constituir a premissa do relativismo, gerando a convicção de que o que era tido por eternamente válido era, ao invés, privado de valor em outros ambientes e em outras circunstâncias. Os sofistas souberam apreender de modo perfeito estas instâncias da época em que vive ram, souberam explicitálas, dar-lhes forma e voz. E isto explica por que obtiveram tanto sucesso, sobretudo junto aos jovens: eles respon diam às reais necessidades do momento, diziam aos jovens, que então não estavam mais satisfeitos nem com os valores tradicionais que a velha geração propunha nem com o modo pelo qual os propunha, a palavra nova que eles esperavam. 3. O método indutivo da pesquisa sofistica 7. Cícero, Tusc., V, 4, lO. 8. Nestle, em Zelier-Nestle, Die Phi/os. der Griechen, 1, 2, p. 1292. 9. Cf. sobre este tema, o belo ensaio de M. Untersteiner, Le orígini sociali dei/a sofistica, em Siudi di filosofia greca in onore di Rodolfo Mondo/jb, dirigido por V. E. Alfieri e M. Untersteiner, Bari 1950, pp. 121-180 e agora em! Soflsti, Milão 19672, vol. 11, pp. 233283. É bem evidente agora que, mudando o objeto de pesquisa rela tivamente aos naturalistas, a sofística devia mudar também o método. Enquanto os filósofos da natureza, estabelecido o princípio primeiro, deduziam dele as várias conclusões, procedendo com método prioritariamente dedutivo, os sofistas, como bem notou Nestle, se194 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL NATUREZA E FINALIDADE DO MOVIMENTO SOFÍSTICO 195 guem um procedimento prioritariamente empfrico-indutivo: “A sofistica — escreve o estudioso alemão — tem seu ponto de partida na experiência e tenta ganhar o maior número possível de conhecimen tos em todos os campos da vida, dos quais, depois, extrai algumas conclusões, em parte de natureza teórica, como por exemplo sobre a possibilidade do saber, sobre as origens, o progresso e o fim da cul tura humana, sobre a origem e a constituição da língua, sobre a ori gem e a essência da religião, sobre a diferença entre livres e escravos, helenos e bárbaros; em parte, ao invés, de natureza prática, sobre a configuração da vida do indivíduo e da sociedade. Ela procede, por tanto, segundo o modo empírico-indutivo” 4. Finalidades práticas da sofística O que expusemos até aqui permite-nos compreender os aspectos da sofística que no passado foram menos apreciados, ou até mesmo considerados totalmente negativos.

se não se tem bem presente o que segue. os sofistas não buscavam a verdade por si mesma.Insistiu-se muito. que se estrutura e se constitui justamente sobre o saber)’’. em Zelier-Nestie. Paideia. Em suma: os sofistas faziam do seu saber uma verdadeira profissão. e o fato de terem discípulos era. E se é verdade que os sofistas não estenderam a todos o seu ensinamento. e esta. os sofistas pretenderam fazer valer o princípio segundo o qual todos podem adquirir a areté. mais que na nobreza de sangue. 1. para eles. Os filósofos da natureza — dizse buscavam a verdade por si mesma. Ora. o problema educativo e o empenho pedagógico emergiram ao primeiro plano e assumiram um novíssimo significado. davam-se à cultura como a sublime otium e consideravam-na totalmente destacada de tudo o que tem relação com o lucro e com o dinheiro. em todo caso. e como puro fruto de desinteressada comunhão espiritual). contrariamente aos naturalistas. de lO. mas. portanto. mas é preciso. não é menos verdade que. mas só à elite que devia ou queria chegar à direção do Estado. mas tinham por objetivo o ensinamento. Mas note-se que Platão era. e não simples indagadores. É verdade que os sofistas comprometeram em parte o aspecto teórico da filosofia. Se Platão. tendo solucionado todos os problemas de subsistência. neste juízo. p. mas à vida dos homens e aos problemas ético-políticos concretos. mas educadores (foi dito corretamente que. Jaeger. e exigir um pagamento em dinheiro para viver. O pagamento em espécie cobrado pelos sofistas Estamos agora em condições de abordar e resolver também a espinhosa questão do pagamento que os sofistas exigiam pelo seu ensinamento e pela sua obra de educação. eles deviam ser levados pela necessidade das coisas a finalizar praticamente as suas reflexões. E à luz disso explica-se ainda melhor o fato de os sofistas quererem ser dispensadores do saber. 1294. nem renda. com o seu princípio. Mas a finalização prática das suas doutrinas tem também um elevado significado: com eles. e o fato de terem ou não alunos era puramen te acidental. essencial. 2. 1. que sustentava ser a virtude uma prerrogativa de nascimento e de sangue. Contra a pretensão da nobreza. por mais verdade que estes juízos contenham. 5. não deixa de ser verdadeiro que. funda-se sobre o saber. que. II. nasce a idéia ocidental de educação. 196 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL NATUREZA E FINALIDADE DO MOVIMENTO SOFÍSTICO 197 . passim. ser muito cautelosos ao julgá-los demasiado severamente. deviam ne cessariamente fazer deles uma profissão. o capítulo sobre os sofistas. vítima do preconceito aristocrático (em geral a cultura era herança espiritual dos aristocratas e dos ricos. muito mais do que se crê. com os sofistas. no fim prático e não mais pura mente teórico da sofística e isto foi considerado como uma queda especulativa e moral. e. E poder-se-á certamente criticar os abusos dos quais eles se tornaram culpáveis. tendo con cebido o seu saber e a sua obra tal como a explicamos. Nestle. romperam pelo menos o preconceito que via a areté necessariamente vinculada à nobreza de sangue. erram o alvo. por exemplo. ao contrário. Mas — e este é o ponto a enfatizar — os sofistas não tinham morada fixa. ao invés. Platão e outros antigos assinalaram a venalidade dos sofistas e consideraram este costume de cobrar o ensinamento como um indiscutível sinal de baixeza moral. cf. dado que a temática por eles tratada não dizia respeito à physis.

6. abalaram os pressupostos aristocráticos sobre os quais se fundava a política passada. Eles subverteram as velhas concepções da physis nas quais o pensamento ameaçava cristalizar-se. trad. Th. O iluminismo da sofistica grega Ligada às características acima examinadas. Platão. a pôr na sua boca esta frase: “ estabeleci que o meu pagamento seja feito do seguinte modo: depois que alguém aprendeu de mim. apenas veículos de informação e de formação de opinião. justamente. 91 d (— Diels-Kranz. essencialmente cidadão de determinada cidade) conside rava intocável. e até mesmo como mínimo denominador comum entre todas. O sofista se distingue do professor dos nossos dias tanto pela falta de qualquer relação E. pague-me a soma que lhe exijo.. sentiram-se cidadãos da Hélade. 80 A 6). E nisso eles souberam ir até mesmo além de Platão e de Aristóteles. normalmente. Protágoras.fato. no Ménon nos diz que Protágoras “sozinho E. o tipo hodierno que mais se lhes aproxima é o do jor nalista. portanto.] com o Estado. não tinham mais razão de ser e. como muitas vezes se disse no passado. Griechische Denker. enquanto os sofistas foram também criadores. II. eram especialistas em quase tudo o que então constituía o conhecimento. italiana de L. expressão deste ideal: sentiram que os estreitos limites da polis não se justificavam mais.. como eram. pois.. prontos e dispostos sempre. Leipzig 1896. no diálogo intitulado Protágoras. se não. esta se inverte e se torna mérito quando nos pomos numa perspectiva histórica mais ampla: os gregos. criticaram a religião tradicional. Pois bem. Ménon. pelo menos na maioria. duo privado. entre num templo. e os sofistas foram. e a soma que julgue valerem os meus ensinamentos. infringirem a fidelidade à sua cidade. 13. muito mais que indiví 12. vol. estabelecer que eles não foram absolutamente vulgares e desprezíveis aproveitadores da ciência. Platão. Bandini com o título: Pensatori greci.] ganhou mais com sua sabedoria do que Fídias E. Florença 1950 p. 80 A 8). para salvar-se politicamente e sair das mortais lutas entre cidades. 14. E como falamos de profissão. mas não criadores.. Espírito pan-helênico da sofistica Os sofistas foram também tachados de erradios. precisavam anco rar-se num sólido ideal pan-helênico. como pelo fato de nenhuma especialização limitar a sua atividade. Enquanto homens de ciência. porém. se para o homem de então a reprovação se compreende. preste juramento. Meio professores e meio jornalistas. 210. mais que cida dãos de determinada cidade. queremos reportar uma passagem de Gomperz que es clarece este ponto: “O mundo moderno não apresenta nenhuma forma de vida profissional que possa constituir um termo de comparação com a deles. aparece a liberdade de esp frito própria da sofística. enquanto oradores e escritores. 7. a empenhar-se em diatribes e polêmicas. eis a fórmula talvez mais apta para nos dar uma idéia bastante aproximativa do que eram os sofistas no século V” Isso é verdade. que continuarão a ver na polis o paradigma de Estado. 328 b-c (= Diels-Kranz.. por irem de ci dade em cidade e. abalaram as instituições esclerosadas. Gomperz. contestaram a tradicional tábua de . a deposite ali” Com base na fonte mais severa contra os sofistas podemos.] e outros dez escultores juntos” não hesita.. somente se temos presente que o professor e o jornalista são. rompendo o laço que o grego (que se sentia.

Saitta. as paixões. define-os muito bem.C. 198 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL NATUREZA E FINALIDADE DO MOVIMENTO SOFISTICO 199 seu domínio sobre todos. e entre os mestres da primeira geração e os discípulos da segunda geração existe uma diferença notável. que se toma consciente de que ele só pode colher o fruto de todas as coisas em plena liberdade” 8. E verdade. mas investiga e critica e. os temas e os problemas idênticos. Mas antes de proceder a este exame. para poder entender e avaliar corretamente os sofistas. De fato. portanto. à sua areté. e. des truidor das representações e. As diferentes correntes da sofistica Para concluir. não se revela mais como um poder limitado. uma involução muito marcada. do modo como a tradição acreditava possuí-lo. . O. ao mesmo tempo. no próprio sentido do relativismo sofístico. com meios análogos.valores que então era defendida sem convicção. a preocupação dos sofis tas foi constantemente dirigida a tornar os homens cultos. já os caracterizamos amplamente: concemem ao homem. De fato. que na sua generalidade afogavam as sensações e os particulares. se entendido adequadamente. imediatos. são os temas e problemas éticopolíticos. como tal. Essa liberdade de espírito e essa libertação espiritual de todas as tradições que foram próprias dos sofistas vale ram-lhes o epíteto de “iluministas gregos” epíteto que. implicando uma série de problemas idênticos. é preciso distinguir entre sofistas e sofistas. para as leis. Mas também não é verdade que as doutrinas dos sofistas individuais constituam unidades incomensuráveis entre si. nós acrescentamos. que evoluia para a democracia. ao invés. é preciso ainda dizer que. O seu ataque contra as representações acabadas. “Mas negar o absoluto do pen samento — diz bem Saitta — não significava para os sofistas negar o pensamento. Veremos amplamente quais são essas necessidades: são as da sociedade do século V a. devemos esclarecer um último ponto. Devemos agora ver os vários esforços independentes realizados pelos sofistas individualmente e examinar os métodos análogos por eles empregados. a religião. circunscrito. que não crê. A sofística. como disse bem um estudioso françês. necessidades idênticas” e. os costumes. voltada. finito. desse modo. como a objetos primeiros. que “ a sofística do século V represen ta um complexo de esforços independentes para satisfazer. constrói o conceito da produtividade do espírito. Assim. à tábua dos valores morais. os sofistas conquista ram esta sua libertação na base da razão. sem fazer de qualquer vara um feixe. como os iluministas. antes. Não existe um sistema sofístico ou uma doutrina sofística.. é impossível reduzir o pensamento dos vários sofistas a proposições comuns. com efeito. Com isso se dá a atitude original do pensamento sofístico. e a cultura devia ser para eles o resultado de uma consciência crítica. eles tiveram ilimitada confiança na razão e na inteligência: o que eles negaram foi a possibilidade de alcançar algum absoluto do modo como acreditaram alcançá-lo os naturalistas ou. É preciso. era a exigência do pensamento crítico que quer exercitar o seu poder e o 15. como em parte o próprio Platão já observara. o pensamento se demonstra feitor e. Milão 1938. pelo menos. L’illuminisrno dei/a sofistica greco. em poucas palavras. sofreu uma evolução.

Robin.distinguir pelo menos três grupos de sofistas: 1) os grandes e famosos mestres da primeira geração. Foi muito apreciado também pelos políticos: Péricles confiou-lhe o encargo de preparar a legisla Çã() para a nova colônia de Turi (444 a. explorando o método sofístico e exaltando o seu aspecto formal sem qualquer interesse pelos conteú dos e sem a discrição moral dos mestres. pp. p. segundo o costume de todos os sofistas. o maior e mais famoso dos sofistas’. representam a excrescência patológica da pró pria sofística. pleno de anos e de experiência). L’illuminismo. Diógenes Laércio. por causa das opiniões professadas sobre os deuses (e das quais falaremos). Com o princípio do homem-medida. Protágoras nasceu em Abdera. Paris 1923. antes. seqüestrado e queimado os seus livros em praça pública. o homem individual. usaram ou. 1. os atenienses teriam banido Protágoras da cidade. indubitavelmente. Morreu em tomo ao final do século. enquanto por “coisas” deve ter entendido todos os fatos em geral. italiana de P. melhor. provavelmente no decênio entre 491 e 481 a. de todo princípio moral: mas estes.. desprovidos de qualquer discrição moral. Mas a notícia é duvidosa. se fosse verdade o que diz Diógenes Láercio. transformaram a dialética sofística numa estéril arte de contendas através de discursos. 34ss.). e é efetivamente. 52 ( Diels-Kranz. 3) enfim os “políticos sofistas”. de toda lei constituída. no diálogo. em geral. 3 17 b). PROTÁGORAS 201 II. Protágoras é represen tado. o verdadeiro e o falso e. e das que não são pelo que não são” E por “medida” Protágoras deve ter entendido a norma do juízo. 177. e foi considerado. trad. então. Platão pudesse fazê-lo pronunciar afirmações daquele teor. todos os valores: o critério é apenas relativo. e numa verdadeira arte da logomaquia. La pensé grecque ei les origines de l’esprir scientijique. Serini com o título: Sioria dei pensiero greco. e esteve mais de uma vez em Atenas. Vejamos as figuras e os grupos de sofistas. dado que Platão..C. 2) os “eristas”. 17. 80 A 1) refere que. O princípio do “homem-medida” A proposição fundamental de Protágoras. que desembocou no desprezo da “assim chamada justiça”. substancialmente dignos de respeito. ho mens políticos e aspirantes ao poder político. é o homem. como Platão reconhece.C. de modo algum privados de discrição moral e. 16. A . foi o axioma: “O homem é a medida de todas as coisas. Protágoras. das que são pelo que são. no diálogo dedicado ao Sofista (cf. abusaram de certos princípios sofísticos para teorizar um verdadeiro imoralismo. negar a existência de um crité rio absoluto que discriminasse o ser e o não-ser.. Santa. mais que o espírito autêntico da sofística. a lnag na carta do relativismo ocidental. L. e é bem dificil que. O axioma tornou-se logo celebérrimo. Algum estudioso tentou interpretar o princípio protagoriano sus tentando que o homem do qual ele fala não é o homem individual. onde alcançou triunfais sucessos de público. Protágoras pretendia. aqueles que. fá-lo dizer não ter nunca sofrido qualquer represália pelo fato de ser e se proclamar sofista (e. que. PROTÁGORAS 1. Viajou pelas várias cidades gregas. isto é. IX. Turim 1951.

Sexto Empírico. para quem não sente. K 6. tinha como subtítulo Raciocínios demolidores. que para quem sente frio é frio. Platão. pp. Sexto Empírico. que devia Conter O método de discussão do Sofista. dos 3. explicitações e conseqüências tiradas por estes filó sofos. não é? Que se trate dos indivíduos singulares. que. math. 1062 l3ss. Teeteto. e tais a ti. (= Diels-Kranz. O homem do qual Protágoras fala é exatamente o indivíduo singular. devia ocupar um lugar importante na produção protagoriana também o escrito intitulado Antilogias. Adv. 1 Sofisti. IX. generalizan do a constatação das opostas avaliações que os homens dão de todas as coisas. 151 e. e assim introduz o princípio da relatividade Ademais. 151 e-152 a ( Diels-Kranz. 1296-1304 e. mas não fundou esta ciência (para fazer isto ele deveria ter analisado sistematicamente o conhecimento sensível e o inteligível. os diferentes valores gnosiológicos do princípio do homem-medida destacados por Platão e por Aristóteles são. e o outro muito? [ E então.obra maior de Protágoras deve ter sido Sobre a Verdade. 4. 80 B 1). 202 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL PROTÁGORAS . Die Philos. tais para ti. 216 (= Diels-Kranz. um de nós sente frio e o outro não? e um sente pouquíssimo. pp. Protágoras não deve ter desenvolvido uma doutrina gnosiológica de modo sistemático. também Diógenes Laércio. é quase certamente uma explicitação de PIa. Cf.152 a (= Diels-Kranz.tão e de Aristóteles a ligação sistemática desse relativismo com a doutrina heraclitiana do perene fluxo de todas as coisas. Platão. soprando o mesmo vento. e não no quadro de um estudo sistemático da natureza do conhecimento: desse modo ele (assim como já tinham feito os natu ralistas) contribuiu notavelmente para o nascimento da gnosiologia. 80 B 1). sobretudo. V 60. ou seja. especialmente Gomperz. como chamaremos este vento: frio ou não-frio? Ou deveremos acreditar em Protágoras. 1. 13-43. reportando o axioma.. der Griechen. uma doutrina geral do conhecimento. pp.) 2. tais são para mim. o leitor encontrará grande quantidade de informações e documentos em ZelIer-Nestle. 6. S ( Diels-Kranz. Protágoras deve ter estabelecido o seu princípio de modo empírico. e. Metafisica. 1. 80 A 19). provavelmente. Esboços pirronianos. em geral. Junto com esta obra. 80 A 14). (Sobre a vida e obra de Protágoras. porque és homem como eu sou homem? [ mas não acontece às vezes que. Cf. 80 A 1). Tecido. em Untersteiner. vol. 5. Platão. tal como as coisas individuais me apa recem. 268-284. 1. Aristóteles. II. 2. ter posto o problema da natureza epistemológica do verdadeiro. co menta: E não quer dizer com isso que. mas a espécie homem. Pensatori greci. mais do que outra coisa. fazendo assim de Protágoras um precursor de Kant mas todas as nossas fontes antigas excluem decididamente a possibilidade desta exegese. E. analogamente. confirmam-no também Aristóteles e Sexto Empírico: E por isso Protágoras só admite o que aparece aos indivíduos singulares.

expressansente Diógenes Laércio. 8 24. O princípio das duplas razões contraditórias e a sua aplicação O relativismo expresso pelo princípio do homem-medida deve ter encontrado um aprofundamento na obra intitulada As Antilogias. B 6b). como agora veremos. 53 (= Diels-Kranz. outra. aduzir razões que reciprocamente se anulam. Robin. Segundo Diógenes Laércio. para outros é mal. convenientemente definidas ou catalogadas. Retórica. o mal. portanto. 8. o que para alguns seria bem. ora mal. podia resultar o mais frágil. IX. trata-Se de ensinar a criticar e a discutir. Além disso. mas simples mente que ensinava os modos com os quais era possível sustentar e levar à vitória o argumento (qualquer que fosse o seu conteúdo) que. ou hipóteses. como cânon fundamental para o seu ensinamento da areté. ao contrário. como afirma o dialético Artemiodoro no livro Contra Crísipo”. que sobre cada coisa é possível dizer e contradizer. gumento mais frágil. seria ora bem. a organizar um torneio de razões contra razões” Protágoras. valendo-se dele. Diógenes Laércio. o seu método será. outros. à ensinabilídade ou não da virtude e ao critério da escolha dos cargos políticos. Quanto a mim. na discussão. em determinadas circunstâncias. também 80 A 20). ele não estendeu sistematica mente a tudo o seu princípio. sobre aquelas que diziam respeito à vida ético-política) é possível aduzir argumentos pró e argumentos contra. eu me aproximo destes homens. e buscarei as provas na vida humana [ E depois de ter aduzido uma série de razões inspiradas no relativismo protagoriano. 179. isto é. em particular. cf. e para o mesmo indivíduo. E Aristóteles refere-nos que Protágoras ensinava a “tornar mais forte o argumento mais frágil” Destas simples afirmações também é fácil reconstruir o objetivo visado por Protágoras e por todos os que o imitaram. 80 A 1 : “Por primeiro ensinou o mélodo de confutar termos dados. ao invés. devia ensinar como sobre cada coisa (e. Aristóteles. conclui o Anônimo: . IX. para a sua obra educativa. “Posto que o seu objetivo — escreve Robin — é o de armar o aluno para todos os conflitos de pensamento ou de ação dos quais a vida social pode ser a ocasião.203 problemas cognoscitivos. a oposição das várias teses possíveis sobre determina dos temas. p. o escrito anônimo intitulado Raciocínios duplos. que são a mesma coisa. com base nestas premissas. 9. 80 A’I 80 B 6a. muito provavel mente. Sioria dei pensiero greco. em tomo ao bem e ao mal. essencialmente a antilogia ou a controvérsia. Alguns sustentam que o bem é uma coisa. O que certamente não significa que ele ensinas se a injustiça e a iniqüidade contra a justiça e a retidão. 2. mas só com Platão e com Aristóteles estes problemas amadurecerão). de resto. E um eco desse procedimento protagoriano é. e devia ensinar como é possível sustentar o ar7. do qual nos é dado testemunho paralelo por Platão”. relativo aos valores éticos. 1402 a 23 (= Diels 80 A 21. Escreve o Anônimo: Uma dupla ordem de raciocínios se faz na Grécia. pelos cultores da filosofia. 51 ( Diels-Kranz. Refere. Protágoras afirmava que “em torno a cada coisa existem dois raciocínios que se contrapõem entre si” isto é. portanto.

não o sentido cristão de virtude. 1. Não se define a essência dos valores. 90 (vol. e assim por diante. e Protágoras a considera ensinável. mais conveniente e por isso mais oportuno. portanto. Protágoras. 12. no que diz respeito à sua aplicação ao campo da práxis. mas o sentido original de habilidade (aquele mesmo sen tido que Maquiavel retomará falando da virtà do Príncipe): de fato. 1-2 [ Diels-Kranz. entendida no primeiro sentido. p. p. como veremos adiante. justamente mediante a técnica da antilogia e a conseqüente técnica que mostra como fazer prevalecer qualquer ponto de vista sobre o oposto. um bem absoluto. 90 (vol. sobretudo em público. que devemos dar à areté. é ridículo. 204 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL PROTÁGORAS 205 jovens a acorrerem a ele em multidão. o modo de se tomar sumamente hábil no govemo da coisa pública. 17 [ Diels-Kranz. mas que cada um dos dois pode ser um ou outro A mesma coisa o Anônimo repete para o belo e o feio. toda via é verdade que existe algo que é mais útil. bela e assim por diante. 11. o melhor modo de administrar a própria casa — seja nos assuntos públicos — isto é. a locura e a sabedoria. mas o . E claro. 1. o verdadeiro e o falso. será porque eles se recusarão a entendê-la como mera habilidade. mas empenho-me em ensinar isto. e a outra série de razões que a fazem parecer má. II. No diálogo homônimo. 334 a ( Diels-Kranz. Limitação do alcance do princípio do “homem-medida” Já dissemos qual o alcance e os limites do princípio do homem-medida. enquanto não o é no segundo. Se é verdade que não existem valores morais absolutos e. diante dos tribunais e assembléias. operada por Protágoras. seja nos assuntos privados — isto é. mas mostra-se toda a série de razões que fazem parecer uma coisa boa. O sábio não é aquele que conhece os inexistentes valores absolutos. 4. Raciocínios duplos. o justo e o injusto. portanto. 405)1. Raciocínios duplos. esta “astúcia” (euboulía) é exatamente a habilidade no falar. E se Sócrates e Platão contestarão a possibilidade do ensino da virtude. 3. é evidente que apresentar-se como mestre de virtude.E assim não defino o que é o bem. Platão faz dizer o nosso Sofista: O meu ensinamento conceme à astúcia. Estes resultarão ainda mais claros a partir do exame da forte redução do alcance do princípio. Cf. Platão. O ensino da “virtude” e o sentido deste termo Estamos agora em condições de compreender em que consistia a excelência da qual Protágoras se professava mestre e que levava os lO. que o bem e o mal não são a mesma coisa. 333 d. li. 80 A 22). nos atos e nas palavras’ Ora. 407)1.

a cada coisa individual que aos cidadãos seja . Ora. E assim também na educação. que cada um de nós é medida das coisas que são e que não são. de “pragmático”. por ignorância. Brescia 1969. antes. amigo Sócrates. por um estado de ânimo inferior. não só verdadeiras. que por boas razões poderemos chamar. 318 e ( Díels-Kranz. aquele que. transformando aquilo pelo que em nós certas coisas apare cem e são más. ao contrário. Pela mesma razão também o sofista que é capaz de educar de tal modo os seus alunos é homem sábio e merecedor de ser pago por eles com muito dinheiro. E digo que estes agricultores introduzem nas plantas. se alguma adoece. tem opiniões confor mes com a natureza deste seu estaao. estou longe de considerá-los desprezíveis. é preciso mudar um estado no outro. antes. mas deves antes tentar compreender. aquelas fantasias que alguns. e sabe atuá-lo e fazêlo atuar. nenhuma. Pois bem. mas há uma diferença infinita entre homem e homem e. justamente. é ignorante. Recorda o que já dissemos antes. e nem se deve dizer que o enfermo. sempre mais claramente. agricultores. E tu não deves combater o meu raciocínio perseguindo-o nas suas palavras. antes. é possível que alguém pense coisas que para ele não existem. com um termo moderno. E assim alguns são mais sábios que outros. 80 A 5). chamo sábio aquele que. para estas transforma ções. 49. chamo-os médicos. dizem ser verdadeiras. Platão. com relação aos corpos.ná. as coisas aparecem e são para um de um modo. e eu digo simplesmente que umas são melhores do que outras. consiga fazer que estas mesmas coisas apareçam e sejam boas. substitui outras coisas que são e aparecem como boas. para aquela cidade. sobre isto. e é sábio o sadio porque tem opinião contrária. o sofista usa os discursos como o médico usa remédios: mas ninguém jamais induziu quem quer que seja que tivesse opiniões falsas a ter opiniões verdadeiras. aquilo que para determinada cidade parece justo e belo. ou coisas estranhas àquelas das quais tenha naquele momento determinada impressão. De fato. porque tem tal opinião. cf. um seja mais sábio do que o outro — pois isso não é possível —. pode ser induzido. Eu [ afirmo. de fato. ao sadio. que ao enfermo os alimentos parecem e são amargos. pois somente estas são sempre verdadeiras para ele.que conhece o relativo mais útil. Protágoras. que define esplendidamente este modo de pro ceder protagoriano. Eis a página do Teeteto platônico. sim. são e parecem agradáveis. e ninguém tem opiniões 13. isto mesmo é. porque o estado de saúde é melhor. para outro de outro. nem. Mas daí não é lícito inferir que destes dois. o nosso comentário ao Prolágoras. em vez de sensações más. e os sábios e bons oradores fazem que às cidades pareça justo o bem antes que o mal. 206 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL PROTÁGORAS 207 . a um estado de ânimo superior e ter opiniões diferentes que sejam conformes com este estado superior. com relação às plantas. sensações boas e salutares. o que quero dizer. E quanto aos sábios. E estou longe de negar que existam a sapiência e o homem sábio. assim são. porém. mas. p. mais verdadeira. é preciso transformar o homem de hábitos piores em homem de hábitos melhores. que a verdade é exatamente como eu escre vi. como justo e belo. enquanto ela assim o repute e considere: mas é o homem sábio que. mais con veniente e mais oportuno. justamente por isso. creio.

senão em pequeníssima . advertem muitos modernos intérpretes) depende do fato de que o útil. respondeu. O bem e o mal são. ao invés. o fim para o qual é útil. mas o são aos cavalos. mas o são às plantas. das coisas que não são úteis aos homens ou das que não são úteis absolutamente? E chamas boas também a estas? — De modo algum. é particularmente indicativo: — Admites ProtágorasJ que existem coisas boas? — Admito. para as partes externas do seu corpo. por Zeus!. senão determinando. o útil e o prejudicial. E assim também o óleo é muito nocivo para todas as plantas e péssimo para os pêlos de todos os animais. mesmo no caso citado. medida do útil e do prejudicial. pelo menos no nível empírico. outras. Que Protágoras não advertisse nenhum contraste entre o seu relativismo gnosiológico e o seu pragmatismo baseado no útil (con traste que. e deves resignar-te. Protágoras. disse eu. Por isso. disse. ao invés. enfim. outras. exceto para os do homem. — E as coisas boas. mas se o espalhas nos brotos e nos ramos novos os arruínas. salutar. as cir cunstâncias nas quais é útil. remédios e muitíssimas outras que também são úteis. é medido com relação à utilidade: parece. — Falas. o melhor e o pior são o mais útil e o mais prejudicial. a ponto de não parecer possível determiná-lo. aparece sempre e somente no contexto de uma série de correlações. para os pêlos do homem e para todo o resto do corpo é. a ser medida das coisas: nisso que digo funda-se. que ao útil deve-se reconhecer uma validade objetiva (embora não absoluta). são as que são úteis aos homens? — Certo. queiras ou não queiras. • Um texto platônico. bebidas. Eu conheço muitas coisas que são no civas aos homens: alimentos. a mesma coisa é danosíssima para as internas. Mas eu chamo boas também as coisas que não são úteis aos homens. enquanto o homem é medida com relação à verdade e à falsidade. que não são nem úteis nem prejudiciais aos homens. enquanto é boa para o homem. e assim por diante. e outras coisas que o são só aos bois ou aos cães. Fundo utilitarista da filosofia protagoriana Do excerto lido emerge claramente isto: se o homem (cada ho mem como ser sensiente e perceptivo) é medida do verdadeiro e do falso. mas prejudiciais para os brotos.erradas. pois. parece que. como por exemplo o fertilizante. a salvação da minha doutrina 5. ao invés. E das coisas úteis às plantas. Noutros termos. respectivanzente. o sujeito ao qual o útil se refere. justamente. O bom é algo tão variado e multiforme que. ao mesmo tempo. não é. ao contrário. que imagina Sócrates em confronto com Protágoras. que não são úteis a nenhum animal. todos os médicos proibem os enfermos de usar o óleo. algumas são boas para as raízes. que é bom se posto na raiz de todas as plantas.

explicar (nota sempre Zeppi. III. 90 B 5): Que a República encontre-se quase por inteiro em Protágoras. 166 d ss. os médicos. De resto. E ainda (lii. 208 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL PROTÁGORAS 209 Trata-se de uma sapiência separada da verdade ontológica e que. porque “é o homem sábio que. Poder-se-ia. 16. o útil do corpo humano é determinado pelo médico com relação ao critério da saúde. entendida no sentido acima abordado (S.dose nas coisas que devem comer: o quanto basta para atenuar a desagradável impressão olfativa que pode vir dos alimentos e das bebidas’ É evidente.). a aporia de fundo emerge tão logo se confronte com esta contraprova: o útil das plantas é determinado pelo agricultor com relação aos critérios do crescimento e maturação. portanto. por conseqüência.) o discutidíssimo testemunho de Diógenes Laércio. Zeppi. pp. 333 d-334 c (= Diels-Kranz. o verdadeiro. enquanto conhecem o bem e o útil aos corpos e sabem produzi-lo. pp. considerando bem. substitui outras coisas que são e aparecem como boas f= útill” 5. Protagora e ia filosofia dei suo tempo. justamente com base no útil e com relação a ele. portanto. portanto. não tinha à disposição os instrumentos teóricos necessários para distinguir o ontológico do fenomenológico. com efeito. Platão. em suma. e assim por diante. 14. Os agricultores são sábios. enquanto conhecem o bem e o útil das plantas e sabem produzi-lo. mantém-se teoricamente nãomotivada e. Mas veremos que além desta possível tangência entre o Estado protagoriano e o platônico. 80 A 22). aporética com relação à afirmação do princí pio do homem-medida. mas na sua . Teeteto. antecipado a idéia de que o governo do Estado deve ser confiado aos filósofos. fundada no princípio de que a primazia deve ser atribuida aos sábios”. E à medida que a sua posição é conquistada no nível da intuição. 37 (= Diels-Kranz. 22s. 57 = Diels-Kranz. que Protágoras. Cf. deste modo. deve reconhecer o direito de supremacia. ( Diels-Kranz. o afirma Favorino no segundo livro das Histórias”. Mas o que é útil ao homem (não entendido como puro corpo. Protágoras teria. 90 B 5) que diz textualmente: “Euforião e Panécio referem que o princípio da Repúblïca de Platãol foi encontrado repetido outras vezes: diz Aristóxeno que se encontra quase inteiramente nas Aotilogias de Protágoras”. o sofista ou o retórico é sábio enquanto conhece o bem e o útil à cidade e faz com que este apareça como justo à cidade (o justo não é. para cada coisa em particular que aos cidadãos seja má [ nociva]. nas suas Antiiogzas. ao sábio entendido deste modo. mas o útil público). Protágoras. que Protágoras sente-se perfeitamente auto rizado a reintroduzir o conceito de sábio (mesmo depois de ter elimi nado o conceito absoluto de verdadeiro e de falso). supra. Florença l96l. nota 14. e educa conseqüentemente os cidadãos. assumiu na sua base a dimensão do empírico e — diremos com um termo moderno — do fenomenológic& E quase desnecessário chamar a atenção para o fato de Protágoras ter-se movido na dimensão do fenomenológico por pura intuição: ele. existe um abismo. E é igualmente evidente. Platão. Não é improvável que Protágoras tenha sustentado “uma teola do Estado ideal. 80 A 21). 20s.

ademais. análogo é o juízo que dá Eusébio ao reportar B 4: Protágoras. esta. o qual não negava a existência dos deuses nem a crença na sua existência. rigorosamente aplicado. mas ele não sabe dizer em relação a que o sofista pode proceder a esta determinação.. 3. justamente. em função do seu método antilógico. também a atitude de maitado agnosticismo com relação aos deuses podia levar ao ateísmo. devia levar ao ceticismo mais total e ao amoralismo —. com isso. de fato. conquistou fama de ateu. ele deve ter admitido.. a passagem do Protágoras platônico lida no início do parágrafo.” . 1 52ss. escreve: Protágoras de Abdera sustentou. deviam ou. disse que não sabia se os deuses são: o que equivale a dizer que não são Inferência. nem de que espécie são” Praep. Diógenes Laércio. Teeteto. ele deve ter mostrado os argumentos pró e contra a existência e a não-existência dos deuses. e em relação a quê? E o útil da cidade. quem o determina. 7 (= Diels-Kranz. mas a exprimiu com palavras diferentes. atesta-o expres samente Diógenes Laércio. Mas é certamente inexato afirmar que. no que diz respeito não às simples necessidades materiais. como sabemos por Platão Mas é claro que — como o princípio do homem-medida. com a referéncia explícita também a Platão. 51 ( Diels-Kranz. e assim. que. 80 B 4)]. pelo menos. por lógica intrínseca. 6. mas à convivência ético-política dos cidadãos. 20. como já algum autor antigo não hesitou em concluir. Protágoras não hesita em dizer que quem o determina é. cv. Diógenes de Enoanda. 51 (= Diels-Kranz. Portanto. o sofista. o seguinte. os deuses. Se Protágoras não chega a estas conclusões. tomando-se seguidor de Demócrito. Que para Protágoras a alma não fosse nada além da sensação. fatalmente. não sei nem se são nem se não são. Diels-Kranz. a mesma opinião de Diágoras que era ateu]. largamente equilibrado pela sua atitu de prática: de fato. de modo plenamente correspondente. Cf. quem o determina e em relação a quê? Ora.. por exemplo. isto se deve a que ele não explicita as conseqüências às quais as suas premissas. Sobre os Deuses não tenho possibilidade de afirmar nem que são. para evitar a excessiva audácia. mas isto teria comportado uma subversão de todo o seu pensamento.integralidade). sem dúvida. 19. podiam levar. nem que não são’ Provavelmente. ter-se-ia dado conta de que a redução do homem e da sua alma a mero sentir e perceber’ estava em nítida an títese com a visão éticopolítica que ele extraía da análise fenomenológica. como conceito. XIV. Protágoras pretendesse negar os deuses. “Com relação aos deuses. mas somente o conhecimento deles. então. 80 A 1). Para fazer isso ele deveria aprofundar a natureza do homem para deter minar a essência e. Eusébio nos refere. As suas palavras são exatamente estas: 17. 18. em nível de crença. a sua posição foi de agnosticismo teológico. IX. deveria ter modificado a primeira ou a segunda. IX. Atitude de Protágoras acerca dos Deuses As nossas fontes são concordes em referir que Protágoras se absteve de dizer se existem ou não deuses. 80 A 23. 80 B 4). não podia ser de Protágoras.

79-149. de audácia inovadora de expressão. as mais importantes devem ter sido: O elogio de Helena e A apo logia de Palamede. à guisa de estimulantes antíteses. pouco inferior a ele pela fama e habilidade. II. Depois da reavaliação . um manifesto do niilismo ético. 82 B 3) e uma transmitida pelo anônimo autor do Sobre Me/isso. Da obra chegaram-nos duas redações: uma conservada por Sexto Empírico (Adv. particularmente úteis. V 65ss. na Sicilia. em torno a 485/480 a. pp. Sobre Protágoras podem-se ler. c) e mesmo admitindo que fosse compre ensível. pp. caps. 153-167. Levi. pp. 1. Górgias nasceu em Leontina. nada existe. e A. naturalmente. (e em! Presocratici. 82 A lO) e viveu mais de um sécuk em perfeita saúde física e espiritual. também Zeppi. esteve em Atenas. e p. não-reportado. sobretudo como foi reproposto por Melisso. no homô nimo diálogo platônico (cf. as duas reconstruções opostas de Untersteiner. Storia dei/a sofistica. isto é. organizado por D. Florença 19612. Górgias (que nos chegou entre as obras de Aristóteles. passim.21. (Ulteriores informações sobre a vida e as obras de Górgias podem ser vistas em Untersteiner. pp.. que em Atenas esteve em 427. reportada em Diels-Kranz. Ná poles 1966. de inícios imprevistos. Protagora e ia filosofia dei suo tempo. de tom sublime para as coisas sublimes. Tesfimonianze e frammenhi. 56ss. Pesce. ele não seria compreensível. justamente nas suas perspectivas antitéticas. 5-6.. fase. em Diels-Kranz. 1. b) mesmo que existisse o ser. do eleatismo.) 2. 22s. pp. Górgias’. pp. Sofisti. 328 b-c). Cf. com comentário. 6lss. A crença nos deuses é claramente pressuposta na atitude que Protágoras assume diante dos discípulos que contestavam o pagamento dos honorários. e sobre este implanta o seu método da antilogia. e também na tradução de 1 Sofisli de Timpanaro Cardini. mas certamente espúria). Xenóftznes. Viajou por todas as cidades da Grécia e. de dinamismo inspirado.C. Entre as outras obras das quais nos chegaram notícias. ele não seria comunicável nem explicável aos outros A 1. mas que se poderá ler seja em Untersteiner. Num escrito seu — que certamente se pretendia a revolução sistemática da filosofia da physis e. Reale. de maneira intensa. de modo particular. pp. (cf. parte de uma posição de niilismo. 3. 24. 920ss. Filostrato ( Diels-Kranz. e. A negação da verdade Enquanto Protágoras parte do relativismo. 11. Atingiu grandíssimo su cesso com a sua arte retórica.nath. de frases de efeito. enviado pela sua cidade como embaixador (para obter ajuda militar contra Siracusa). A obra filosoficamente mais empenhativa deve ter sido Sobre a natureza ou sobre o odo-ser.). como fragmento B 3 bis. Me/isso. nota 97. para fazer ver como a realidade dos sofistas é bem mais complexa do que os clichés da corrente manualística deixam suspeitar. Cf. no qual os deuses são protagonistas. Sabemos. Foi discípulo de Empédocles. erradamente. em grego e italiano. / Sofisti. todas essas coisas que tornam o discurso mais harmonioso e so lene”. no grande mito que lemos a partir de 320 d. e que se intitula Sobre a natureza ou sobre o não-ser (que é o título invertido do escrito de Me!isso) — ele sustentava três teses bem concatenadas entre si: a) não existe o ser. GÓRGIAS 21! 1. Diels-Kranz. ademais. . 979 a 11-980 h 21 da edição Bekker. 1 Sofisli. 13-149. 82 A 1) nos refere: Ele foi para os sofistas mestre de ímpeto oratório.

Daí segue logicamente. corresponderia a uma destas alternativas . nem ingênito. pp. nem gerado: nada existirá. que nada existe. Me/isso. que são tais a ponto de se anularem reciprocamente. 1-49. Sophistik und Rhetorik. Zelier-Reale. 6. 1-54 e Reale. pelo que lhe concerne. pp. o critério da verdade: porque do inexistente. do inexprimível não há possibilidade de juízo Por isso. do incognoscível. GÓRGIAS 212 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL GÓRGIAS 213 tam. Gomperz. Cf. Sexto Empírico. longe de ser um jogo de habilidade retórica.demonstração das três proposições (levada a efeito por uma série de dilemas cerradíssimos e em função de categorias e de uma técnica argumentativa extraída especialmente dos eleatas).. 204-236. Sioria de/la sofistica. como resulta das suas opiniões. assim concluí: Diante de tais questões insolúveis. que nos reportou uma das duas paráfrases que nos chegaram da obra. pp. rnath. nem múltiplo. 5. outros a sua multiplicidade em vez da sua unidade. susten crítica moderna deste anônimo (cf. para Górgias não existe absolutamente verdade e tudo é falso. desaparece. pp. exprimir uma verdade objetiva O pró prio Sexto Empírico. se algo existisse. ele afirma. se para Protágoras existia uma verdade relativa (no sentido de que tudo é verdadeiro. de fato. contra uns e contra outros. pelo menos. princípios antitéticos entre si — uns demonstrando a unidade do ente em vez da multiplicidade. Nada existe a) Que nada existe (ou seja. nas suas tratações em tomo ao problema dos entes. 4. se assim o é para o homem). porque elas tiveram um papel considerável ao levar. como alguém acreditou tem o preciso objetivo de excluir radicalmente a possibilidade da existência ou de se alcançar ou. 2. Adv. Vejamos em pormenor os principais argumentos com os quais Górgias motivava as suas três teses. 27ss e 298ss. Górgias o prova contrapondo entre si as concepções que os físicos sustentaram em torno do ser. por assim dizer. ifi. V 87. outros que eles são ingênuos. H. que o ser não é). não é nem uno. que se existe alguma coisa. outros ainda que são gerados — deduz. Leipzig-Berlim 1912 (reimpresso também em Darmstadt 1965). levantadas por Górgias.) é indispensável a leitura desta redação e necessária a sua inclusão entre os fragmentos gorgíanos (em certas passagens esta é mais interessante que a de Sexto Empírico). Eis como o Anônimo nos resume esta parte do escrito de Górgias: Mediante a combinação das doutrinas sustentadas por outras categorias de filósofos que. ao limite da exasperação a crise da filosofia da physis. Pode-se ler uma clara exposição e interpretação desta obra gorgiana em Levi.

que o ser não é pensado. o não-ser é impensável e inexprimível justamente porque só o ser é pensável e exprimível. com efeito. o ser permaneceria inexprimível c) A terceira tese é demonstrada por Górgias. Górgias demonstra que existem pensados. porque nós podemos pensar Sila. se alguém pensa um homem que voa e cocos correndo sobre as praias. Xenoph. portanto. é também verdade o inverso. 979 a 1 3ss. 3. dito em termos mais concisos: “Se o pensado não existe. Pois bem. toda a filosofia da physis. po dem ser dirigidas contra o eleatismo e destroem. as armas da lógica do eleatismo: ele quer mostrar. com este procedimento. de modo que. nem por isso um homem voa e cocos correm na praia. anulando-se.Em suma: os resultados das especulações dos fisicos sobre o ser se anulam mutuamente. Pois bem. Conseqüentemente os conteúdos do pensamento não são existentes [ o pensamento não é pensamento do serl Derrubado o primeiro princípio. é demonstrada sobretudo no contexto de uma polêmica antieleática: é Parmênides. Ele utiliza. (= Untersteiner. que destroem todos os adversários do eleatismo. no sentido de que o pensamento existe à medida que dá o ser (pensar quer dizer apreender e dar o ser). demonstram a impossibilida de daquele ser que têm por objeto Deve-se notar o tipo de procedimento que — entre outras coisas — Górgias adota para desmantelar as alternativas sobre as quais o ser foi afirmado. que afirma o ser incognoscível e incon cebível pelo homem. Aristóteles. ou seja. todos os conteúdos do pensamento são existentes. Ps. o autor que afirmou como estruturalmente incindível o liame entre ser e pensar: o pensamento — afirmava ele — é sempre e somente pensamento do ser. desse modo inapelavelmente. que não é mais que uma face do primeiro. fr. se por aquilo que existe se deduz a predicação da pensabilidade. 3 bis). como o próprio Górgias perfeitamente observa. Mesmo que fosse pensável. e muitos seres que não existem são pensados Assim Sexto Empírico resume a posição gorgiana: se é verdade que existem não-existentes pensados. e. cai eo ipso também o segundo. Mas esta dedução é absurda: com efeito. qualquer 7. o ser não é pensado”°. de fato. Mas esta predicação é absurda: a prova é que Sila. no limite. pode-se dizer que pensamento e ser são o mesmo. vice-versa. em qualquer modo que se os pense. e muitas outras coisas que não existem: Absolutamente falando. O divórcio entre ser e pensamento não podia ter sido operado de modo mais radicaP 4. isto é. a Qui mera. que o não-ser não é pensável é também desmentido pela evidência. de fato. permaneceria incognoscível b) Também a segunda tese. como já observamos. De Mel. Górgias inverte estas duas bases do eleatismo. os conteúdos do pensamento são existentes. contestanto à pa lavra a sua capacidade de significar. Gorgia. que não têm qualquer rea lidade e. que aquelas armas. a Quimera. conteúdos de pensamento. Mesmo que o ser existisse. 5. pelo que não existe se deduzirá a predicação da impensabilidade. Se. não existem: Que os conteúdos do pensamento [ pensado] não são existentes é de uma evidência universal. Contra o princípio de que o pensamento é sempre e somente pensamento do ser. de modo veritativo. .

do pensamento como portador de ser e da verdade. 82 B 3). M. Adv. nada impede que não se lhes mostre semelhante. depois da negação do Ser e da Verdade absoluta. não seria de modo algum cognoscível. VII. pp. Sexto Empírico. pensamento e ser. no caso de uma cor. ninguém poderia manifestá-lo a outro. pelo fato de que as coisas não são palavras e ninguém consegue pensar uma coisa idêntica à que pensa outro’ Assim o divórcio entre ser e pensamento toma-se também divór cio (e igualmente radical) entre palavra. por tê-la visto. Milão 1973. por tê-lo ouvido? De fato. mas as da audição são diferentes das da visão. não é possível nem mesmo figurar-se com o pensamento uma cor. como Ç.8. math.] poderia exprimi-lo com a palavra? Ou como isto poderia se tornar manifesto a quem o escuta. É importante ler por inteiro a página na qual o nosso Sofista exprimia este seu pensamento: Aquilo que alguém vê. seriam um e não dois. mas uma palavra. e contudo. 82 B 3). E o que resta a Górgias. mas ouvi-lo. Migliori. com efeito.. senão. VII. E muito embora admitindo que a mesma realidade pensada se encontre em vários sujeitos. pp. nem se encontram em idênticas condi ções: se. Aquilo. Para um aprofundamento desta primeira tese gorgiana e para os confrontos entre as duas redações do Pseudo-Aristóteles e de Sexto Empirico. nada existe e. VII. La filosofia di Gorgia.. e mesmo que o fosse. Segundo esta dedução. 214 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL GÓRGIAS 215 coisa que seja diferente de si. mas vê-la. maih. La filosofia di Gorgia. e da palavra como reveladora daquele ser e daquele pensamento? . pois. (= Diels-Kranz. mas os sons. Conse qüentemente. de fato. a vista não conhece os sons. não seria pos sível que a mesma realidade pensada se encontrasse contemporaneamente em vários sujeitos separados entre si: o um. por meio da palavra deste ou por meio de um sinal geral diferente da experiência. Sexto Empírico. e o ouvido não ouve as cores. 10. quem fala não diz absolutamente um rumor. 82 B 3). Para um aprofundamento desta seção do tratado gorg cf. nem sequer o mesmo sujeito evidentemente experimenta percepções semelhantes ao mesmo tempo.. de que modo aquele que ouve poderá representar-se conceitualmente o mesmo objeto? Com efeito. 78 (= Diels-Kranz. se encontrassem numa idêntica condição. e 7Oss.. Adv. mas não diz nem uma cor nem uma expe riência. Sexto Empírico. dificilmente alguém poderia ter percepções idênticas ás de outro. Por outro lado. math. e agora diferente do passado. quem fala diz algo. sem tê-lo visto? De fato. II. seria dois. nem uma cor. E mesmo que seja possível conhe cer e dizer tudo aquilo que se conhece. Migliori. cf. pois eles não são semelhantes sob todos os aspectos. 63ss. mesmo que existisse. 23-62. 1 2. que alguém não concebe. nem um som. como poderá concebê-lo em conseqüência da intervenção de um outro. 80 (= Diels-Kranz. 78s.. no caso de um rumor. Adv. 9. Por conseqüência.

proclamava querer e saber formar somente bons oradores’ Analogamente. Migliori: “E assim possível repensar a situação moral dos gregos. muitos testemunhos que nos chegaram parecem de por a favor desta exegese. assim caracteriza fenomenologicamente a virtude: . mais realisticamente. 460 a ss. § 24 (= Diels-Kranz. Refúgio no plano do empírico e da realidade da situação Destruída a possibilidade de alcançar uma Verdade absoluta. 980 a 20 (= Untersteiner. La filosofia di Gorgia. Górgias nega qualquer validade à doxa. Os deveres variam segundo o momento. nem a opinião vagante individualista. considerando-a “a mais desconfiável de todas as coisas” Górgias busca. Gorgia. Diels-Kranz. entre Verdade e doxa. pp. enucleando prin cípios geralmente considerados mais válidos ou propondo um ideal de moderado eudemonismo e intelectualismo” E ainda: “Esta não é a ciência que permite definições ou regras absolutas. feito sem bases metafísicas e sem princípios absolutos. Apologia de Palainede. Ménon. 82 B 11). Platão. a característica social. Ps. La filosofia di Gorgia. um dos primeiros repre sentantes de uma ética de situação. 134. ou seja. a mesma ação pode ser boa ou má segundo quem é o seu sujeito. de modo perfeitamente gorgiano. mas com base nas convicções comuns)’ 14. mas não ao lógos que se limite ao âmbito das experiências humanas. E claro que este trabalho teórico. comporta uma larga aceitação de opiniões correntes: e isto explica aquela estranha mistura de novo e de tradicional que encontramos em Górgias” Com efeito. situações da vida dos homens e da cidade. no homônimo diálogo platônico. 13. Isto significa que Górgias renuncia ao lógos do ser incontrovertível. ou seja. a aletheia. Migliori. não se apresenta como mestre que ensina de modo específico e ex presso os supremos valores morais (isto equivaleria a ensinar a inalcançável Verdade absoluta). pois.5. Cf. circunstâncias. Elogio de Helena. Cf. uma terceira via entre o ser e o falaz aparecer. § II (. da doxa. mas limitava-se a fazer “uma enumeração das virtudes” E mais exatamente. 216 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL GÓRGIAS 217 Do Ménon platônico sabemos. Miglíari. 82 B lia). Górgias. 16. parece que a Górgias não resta outra via senão a das opiniões. ao lógos que se limite a iluminar fatos. De Mel. p. E [ uma análise da situação. que ele ridicularizava aqueles que prometiam ensinar a virtude. sabemos por Aristóteles que Górgias não definia a virtude (que equivaleria a algo de absoluto). fr. uma descrição do que se deve e não se deve fazer [ Górgias é. e. ele pressupõe que os seus alunos já possuam os comuns conhecimentos dos valores morais que têm todos os gregos (se não os têm. 6. 151 s. IS. isto é. como emergiu das mais recentes pesquisas. 3 bis). Górgias. ele lhes fornecerá este conhecimento. 17. no homônimo diálogo platônico. Aristóteles. Escreve a respeito disso M. então. Xenop/i. também. Contudo. a idade. Górgias.

que Górgias. fazendo isso. exata mente. e a cada obra para cada um de nós. e. justamente no nível teórico. confor me pensava Protágoras). como é evidente com base no que já esclarecemos. Platão. cuidando dos negócios internos e obedecendo ao marido. uma vez dissolvido o laço entre palavra e . 18. que vimos ser totalmente incapazes de dar razão dos fenômenos e das quais. a palavra torna-se (ou pode se tomar) disponível a tudo. Política. se queres a virtude do homem. porque. o aspec to da palavra pelo qual esta é portadora (prescindindo de qualquer verdade) de sugestões. Se não existe uma Verdade absoluta (e nem mesmo relativa. 20. 19. Ménon. não é difícil responder que ela deve adminis trar a casa. mas isto lhe era impos sível. é claro que a palavra adquire a sua autono mia. a via da fenomenologia foi apenas entrevista por Górgias e seguida por intuição. fazer o bem aos amigos e o mal aos inimigos. 82 B 18). 206-208. Destruído o saber do ser incontrovertível. Ao invés. é fácil dizer-te que é esta: ser idôneo ao tratar as coisas da cidade. mas está ligada à pura crença. até mesmo uma autonomia praticamente ilimitada. mas não teorizada. jus tamente. e. Ver o capítulo precedente. ele tinha demonstrado o alcance destruidor e não-construtor. então.Em primeiro lugar. E existem muitas outras virtudes. antes. bem outra coerência Górgias mostrou diante da retó rica. 95 e (= Diels-Kranz.106-I 16 Portanto. E outra é a virtude da criança e do jovem e do homem e outra é a do ancião. Compreende-se. E. E a retórica é. seja escravo. pp. pp. Górgias deveria de monstrar a possibilidade teórica de um saber humano que não fosse a ciência dos físicos. Ver supra o capítulo sobre Parniênides. e acautelar-se para não sofrer nada semelhante. A 13. não está ligada pelos vínculos do ser. E se queres a virtude da mulher. Górgias descobre. 21. pode ser chamada de a arte da persuasão Esta persuasão não está ligada. a qualquer conhecimento de verdades inatingíveis. 1260 a 27 ( Diels-Kranz. seja livre. que esta via empírico -fenomenológica tentada por Górgias tem seu correspondente análogo também em Protágoras mas é igualmente evidente que. da qual foi lucidíssimo teórico. portanto. Ménon. a arte que sabe explorar até o fundo este aspecto da palavra. Aristóteles. justamente porque as categorias teóricas das quais dispunha eram as eleáticas. como aque la. 6. Na sua independência ontológica. portanto. também esta não recebe adequada fundação teórica e. 71 e ( Diels 82 R 19). para quem nos seguiu até aqui. além disso. Platão. A retórica e a onipotência da palavra Voltemos um instante às conclusões do Tratado sobre o não-ser. mas tampouco a doxa. 22. E isso também penso com relação ao vício É evidente. 82 A 21). no interior da posição gorgiana não encontra um espaço suficiente para situar-se. de modo que não há dificuldade em dizer que coisa é a virtude: há uma virtude relativa a cada ação e a cada idade. persuasões e crenças.

. podia se tornar perigosíssima. como Protágoras.conhecimento.. no diálogo platônico que leva o seu nome. 24. Górgias. p. de fato. “o verdadeiro timão nas mãos do homem de Estado” Por isso é também evidente a sua estrutural ligação com a política: na era clássica. desancorada dos valores e. uma vez aprendida a retórica. como veremos. os membros da assembléia popular na Assembléia e assim em qual quer outra reunião que se tenha entre os cidadãos E assim se explica também o enorme sucesso que. Jaeger. lha ensinou para que fizesse dela um uso reto. nos tribunais e nas assem bléias. capaz de persuadir a todos sobre tudo. coisa óbvia” De resto. mas de superar. mas inclui também o elemento substancial: que o único conteúdo de qualquer eloqüência pública seja o Estado e os seus negócios é. 218 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL GÓRGIAS 219 político é chamado de orador “O vocábulo — explica Jaeger — não tem ainda o significado meramente formal dos tempos mais recentes. este. Ver toda a primeira parte do Górgias platônico. e potenciado ao máximo o efeito psicagógico da palavra. não se deve desprezar nem expulsar da cidade quem lha ensinou. como vimos. era justamente a móvel situação que tornava a retórica disponível às aventuras extremas. de fato.C. Górgias diz expressamente que a retórica é [ ser capaz de persuadir os juizes nos tribunais. enquanto aquele faz dela um uso indevido. Mas a palavra. expulsar da cidade e matar quem não faz reto uso da retórica. Paideia. servem-se dela fora e contra aqueles valores. os conselheiros no Conselho. em geral. pudesse vangloriar-se não só de saber falar sobre tudo e de convencer a todos sobre tudo. ela devia até mesmo se tornar. ele desaprova os discípulos que. a quem a possuísse. por exemplo. até os técnicos no seu âmbito: vangloriava-se. tendo-se tornado orador. 502. o sucesso. O significado e a importância social desta arte são claros: mais do que nunca na Atenas do século V a. em habilidade persuasiva. e se dissocia de toda responsabilidade por estes discípulos: Se [ alguém. é justo desprezar. de toda ver dade objetiva. Portanto. admite os valores morais comumente admitidos pela grecidade e põe a sua retórica a serviço deles Ademais. serve-se desse poder e dessa arte para fazer o mal. Górgias recolheu em toda parte por onde passou: no taumatúrgico poder da palavra. não aquele que lha ensinou Mas depois do divórcio entre a Verdade e a palavra a ética da situação não era suficiente para garantir o bom uso da retórica: antes. o 23. 1. a retórica podia garantir. naquele tempo. como justamente se disse. parecia ter-se encon trado o instrumento insubstituível para dominar. de ter superado o irmão médico na capacidade de persuadir o doente a submeter-se a determinada terapia.

ao ouvir a sorte e a desgraça de fatos e pessoas estranhas Portanto. de um discurso com metro. ibidem. 29. também a arte. pelo qual quem engana age melhor do que quem não engana. o tremor. Górgias. e a alma sofre. também praticamente desinteressados.7. a dor. Que sentido tem. nas suas várias formas. . “mais sábio” a quem é enganado do que a quem não o é: o primeiro é melhor pela sua capacidade criadora de ilusões poéticas. § 9 (= Diels-Kranz. que. 457 b. Num testemunho de Plutarco nos é referido: Floresceu então a tragédia e foi celebrada pelos contemporâneos como audição e espetáculo admirável. uma vez eliminado tanto o fim teórico como o fim prático? E claro que aqui Górgias não só entrevê. 28. Platão. portanto. persegue fins práticos. em certa medida. enquanto a retórica. De glor. por uma compaixão que arranca lágrimas. e. porém. Plutarco. tem uma precisa individualidade e (diremos com termo moderno) autonomia. Górgias. além do retórico. Platão. visando gerar persuasões e crenças em relação a questões éticas. A palavra e o engano poético O exame aprofundado da palavra e das suas capacidades devia tornar Górgias particularmente sensível ao seu aspecto poético. mas à moção dos sentimentos. então. o segundo porque mais capaz de apreender a mensagem desta poética criatividade. 452 e. 82 B 23). 459 c ss. Platão. Há mais. Górgias. sociais e políticas. p. e o engano. mas. é evidente. pois ele não hesita em chamar “melhor” a quem poeticamente engana do que a quem não engana. Escreve o nosso Sofista: [ considero e chamo a poesia. portanto. o espanto. a arte persegue fins além de teoricamente. 25. mas. Cf. por uma tormentosa avidez de dor. diz Górgias. com a moção dos sentimentos. Górgias. explicita o valor estético do sentimen to e. 82 B II. Elogio de Helena. 220 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL E a positividade do engano poético. e quem a escuta é invadido por um tremor de espanto. a nosso ver. pelo efeito das palavras. não visa ao verdadeiro. 27. a compaixão que a arte produz por efeito de palavras. 26. da palavra que o produz. 30. para Górgias. Ad 5. e quem é enganado é mais sábio do que quem não é enganado E aqui é qualificado como “engano” (cotccrrl) e ilusão até mesmo aquilo que a palavra poética produz. define exatamente a não-verdade teórica daquele sentimento poético. assim como a retórica. um sofrimento que lhe é próprio. 348 C (= Diels-Kranz. pois criava com as suas ficções e paixões um engano.

84 A 14). ao qual talvez pertencesse o célebre apólogo de “Héracles na encruzilhada”. Cf. Pródico deve ter ensinado aos alunos como explo rar praticamente. Platão. o jogo das distinções dos sinônimos e. do sentimento poético. ao invés. Eutidemo. Os estudiosos con jeturam que a sua data de nascimento está entre 470-460 e que a sua atividade deva ser situada em tomo ao início da guerra do Peloponeso (dado que Aristófanes faz alusão a Pródico). ao falar aos juízes nos tribunais ou ao povo nas assembléias. 4. e depois de ter reconhecido em si uma onipotente capacidade de persuasão com Górgias. se foi supervalorizada pelo seu inventor e se foi aplicada de maneira inadequada. recordaremos Pródico de Céos’. A sua obra-prima devia ter o título Horai (talvez derivado do nome das deusas da fecundidade). Protágoras. não se sabe exatamente quando. vale dizer. 84 A II e A 20. 277 e (= Diels-Kranz. não deixou de exercer benéficos efeitos e influiu. situam-se os outros sofistas dos quais nos chegaram testemunhos. no Protágoras. como foi há tempo reconhecido. a propriedade da palavra e da linguagem Naturalmente. zombeteiramente. 341 a. Esteve muitas vezes em Atenas na qualidade de embaixador. Cf. 2. Deu com sucesso lições em Atenas e noutras cidades gregas. 96 d. 337 a-c (= Diels-Kranz. Gármides. certamente. como veremos. Em primeiro lugar. sobre a sinonímica. 84 A 13). o primeiro para negar validez à arte. 340 a (= DielsKranz. para descobrir o poder catártico. C 384 b. que ensinava aos discípulos a altíssimo preço. 3. PRÓDICO DE CÉOS 222 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL PRÓDICO DE CÉOS 223 se valia da tão proclamada sinonímica. . mais de uma vez. isto é. Platão. IV. II.Tanto Platão como Aristóteles defrontar-se-ão com esses pensa mentos. 7-li ). descobre ago ra as inumeráveis nuanças com as quais se podem dizer as coisas e. E. 1. Todavia. Protágoras. 1 Sojisti. Untersteiner. sobre a metodologia socrática da pesquisa do “o que é” das coisas embora. Mas esta arte. Diels-Kranz. fundava-se sobre algo que pretendia ser (e era efetivamente) novo. pp. Cf. Ménon. diz ter sido seu mestre Também Pródico foi mestre da arte de fazer discursos. sobre a distinção dos vários sinônimos e a precisa deter minação das nuanças de significado dos diferentes sinônimos Assim o lógos. que Sócrates. o segundo. a pes quisa socrática vise a algo de muito mais profundo. esta arte da sinonímica. 163 d. depois de ter experimentado a possibilidade de dividir-se em razões opostas com Protágoras. Platão nos descreve com refinado humorismo o modo como o Sofista Á 1. purificador. 84 A 16). Protágoras. evidentemente. são todos pensadores interessantes sob vários aspectos e indicativos das novas tendências. do qual falaremos (cf. portanto. Pródico nasceu em Céos. A invenção da sinonímica Num plano nitidamente inferior a Protágoras e a Górgias.

Apareceram-lhe. Cf. respectivamente. p. no momento da passagem da infância à adolescência. Vejo-te. II. Gomperz. cf. Sophistik und Rethorik. altiva e de beleza pro vocadora e exuberante. uma da vir tude. S. em Siudi sul/a filosofia presocratica. 21-34 (= Diels-Kranz. e de modo algum pela ética cínica da renúncia e da fadiga. De fato. guiar-te-ei pela vida mais prazerosa e mais fácil. Héracles. do vício): os seus nomes. mas poderás fazer uso de todo o fruto do trabalho de outros. símbolo da depravação e do vício: 5. ou qual espetáculo deverás ver e ouvir para obter uma satisfação. como veremos. isto é. aos que se põem da minha parte. retirou-se a um lugar solitário para meditar. 126. Diz a mulher. pp. sob forma de fiel imitação. 1. são. vol. p. por Xenofonte. O utilitarismo ético e o mito de “Héracles na encruzilhada” No campo da reflexão moral. 263 e vol. 83. italiana de G. ou quais objetos deverás cheirar ou tocar para ter um prazer. em grego. opera as suas escolhas morais de base. reservada na atitude e de contida beleza. li. não deverás privar-te de desfrutar nenhuma alegria da vida e passarás a existência longe de asperezas. O “Héracles na encruzilhada” é reportado. que nos foi reportado de modo bastante fiel por Xenofonte O mito. 103-115 (ensaio primeiro publicado na Rivista Critica di Storia de/Ia Filo sofia. Sokrates. Héracles. ofereço a plena possibilidade de extrair vantagem de qualquer parte . que só recentemente foi entendido corretamente é muito interessante não só como documentação do pensamento de Pródico. 7. quais jovens deverás freqüentar para chegar ao cume da delícia. Florença 1943 (reimpresso em 1970). 6. saliente. a outra da depravação (ou seja. A primeira conseqüência será que não deverás preocupar-te com guerras nem com política. a outra. 84 B 2). não deves temer que eu te obrigue a procurá-los com fadigas e esforços físicos e espirituais. duas mulhe res de grande e majestoso porte: uma pudica. então. com a menor fadiga. 1956). inseguro sobre o caminho a tomar na vida. ao invés. Tübingen 1913. ademais.2. conseguirás todos estes bens. no momento da passagem à idade na qual o jovem. trad. Cf. mas sempre escrutarás qual comida ou bebida agradável ao teu gosto poderás encontrar. Memoráveis. é total mente inexata a convicção de alguns intérpretes que aí vêem influxos cínicos. Pródico tornou-se famoso pela sua pessoal reelaboração do mito de “Héracles na encruzilhada”. Areté e Kakía. p. Florença 1962. Se me fizeres tua amiga e me seguires. L’etica di Prodico. Se por acaso surgir a suspeita de que se acaba a fonte da qual provêm todos estes gozos. sem te afastares de tudo o que possa constituir uma fonte de utilidade. mas também como documento da tendência geral utilitarista da ética sofística. Zeppi. também Maier. As duas mulheres são símbolos. em que modo te será dado dormir bastante suavemente e como. tornando-se senhor de si. Sanna. enquanto a linguagem aí utilizada é marcada pelo hedonismo e pelo utilitarismo. 1. e por isso merece ser examinado cuidadosamente.

Memoráveis. bom e belo concedem os deuses aos homens sem diligente fadiga. e queres estar em condições de libertar os amigos e subjugar os inimigos. e assim por diante. por muito tempo. antes de tudo. Nada. queres 8. se queres que a terra te produza abundantes frutos. e não notaram. o tipo de vida que Kakía propõe a Héracles é o hedonismo mais desenfreado: a felicidade está no gozo do prazer intenso e fácil. está em desfrutar plenamente o que nos apraz. com efeito. para usar a terminologia kantiana. 23-25 (= Diels-Kranz. sobretudo. Héracles. ademais. se entrares pela via que conduz a mim. se tens ânsia de exaltar a ti mesmo por meio da guerra. obter frutos abundantes da terra. em termos de utilitarism&’. é preciso habituar o corpo a servir à mente e exercitá -lo com penosos trabalhos Os estudiosos deixaram-se enganar. a realidade no modo em que os deuses a determinaram. daquilo que é verdadeiro. 84 B 2). enriquecer. que esta mulher te propõe uma via dii Tcil e longa para alcançar um estado de alegria? Eu. Eis. Kakía a Areté: Compreende. Todos os seus precei tos são. se desejas ter o afeto dos amigos. imperativos hipotéticos finalizados à aquisição de vantagens precisas. que este era um lugar comum na boca dos sofistas mas. se. enfim. ó Héracles. conduzir-te-ei à felici dade por uma via fácil e curte» Ao que responde Areté: . segundo a verdade. se esperas ser honrado por qualquer cidade. ou seja. deves cultivá -la. porque conheço teus pais e fiz uma idéia do teu caráter durante a tua educação. poderás tomar-te indiscutivelmente um nobre artífice de ações generosas e elevadas e eu. se pretendes ser admirado por toda a Hélade pela tua virtude. pela afirmação do conceito de que tudo o que vale ao homem só se conquista ao preço de fadiga. pela pri meira frase de Areté. A virtude não é senão o meio mais adequado para obter estas vantagens e estas coisas úteis. nos serve e nos é útil. deves esforçar-te por fazer o bem à Hélade. II. e. justamente: obter a benevolência dos deuses. o que diz Areté: Eu também me apresentei a ti. com efeito. deves aprender dos especialistas a arte da guerra. considerando bem. deves honrá-los. a honra da cidade. deves fazer-lhes o bem. Não te enganarei com o anúncio do prazer. o afeto dos amigos. 1. a admiração dos gregos. deves procurar as vantagens desta cidade. deves cuidar do gado. poderei ser muito mais honrada e. mas te apresentarei. mas se queres que os deuses te sejam benévolos. não se deram conta de que Areté fala. o contraste de fundo entre Kakía e Areté consiste não no prazer como fim a alcançar. 224 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FiLOSOFIA MORAL PRÓDICO DE CÉOS 225 ser válido de corpo.Como é evidente. ao contrário. e deves exercitar-te no modo de aplicá-la. Se assim é. ao contrário. mais insigne. espero que. Xenofonte. mas nos meios a serem usados para consegui-l& Responde. pelo bem realizado. sem deixar-nos levar por escrúpulos. Portanto. se crês que deves enriquecer com o gado.

84 B 2). de todas te sacias. e ponha-se esta passagem em relação com Xenofonte. Os meus fiéis gozam dos alimentos e das bebidas com prazer e isentos de afãs. infra. Quem jamais poderia ter confiança nas tuas palavras? Quem te salvará. Mais doce se apresenta para eles o sono que para os que não se afadigam. (Diels-Kranz. enquanto reservaram para a velhice as moléstias. porque comes antes de ter fome. desventurada! Que bens possuis tu? ou que conheces de prazeroso. correndo por todas as partes. II. um elogio que se te faça. Memoráveis. antes mesmo que surja o desejo. ao invés. mas. ser-te-á possível possuir a felicidade mais duradour& . Memoráveis. caso tenhas necessidade de socorro? Ou quem.Ó. e no verão. nota 7. porque jamais contemplaste alguma bela obra tua. provocas à força os prazeres do amor antes da necessidade. ao invés. Cf. honrados pela sua pátria. Xenofonte. nem devida aos homens. tu nem sequer res pondes ao clamor das sensações prazerosas. preparas vinhos preciosos. 12. bebes antes de ter sede. 1. és banida dos deuses. Héracles. os anciãos exultam pelas honras dos jovens. amados pelos amigos. Platão. assim educas os teus amigos. II. estás disposta a nada fazer? De fato. que introduz o apólogo de “Héracles na encruzilhada”. quando se tomam velhos. Xenofonte. 10. no tempo da juventude. 27 s. cf. depois.. para beber suavemente. se realizada sem mim. Memoráveis. Protágoras. refinados. 1. de fato resistem até que surja neles o desejo. nota 15. mas florescem exaltados em todo tempo por meio da recordação. recorrendo a toda arte e usando dos homens como se fossem mulheres. e experimentam prazer em cumprir nobremente os atuais. sem afadigar-se. são insensatos de alma. nem se lastimam de dever interrompê-lo. notou bem S. nem contemplas o espetáculo que é o mais agradável de todos. por ter realizado. constrangidos a afrontar fadigas. afrontares estes árduos fundamentos. filho de ótimos pais. para comer prazerosamente. Eu. fazendo-os passar dormindo a parte mais profícua do dia. enquanto transcorrem o período da velhice como miseráveis. e tida como vil pelos homens honestos. travessei 9. Cf. são débeis de corpo. 13. pois por mérito meu são caros aos deuses. quando jovens. nem por isso deixam de cumprir o seu dever. buscas neve. ros sedosos. tanto no juízo dos deuses como no juízo dos homens que merecem estima: sou dileta colaboradora dos artesãos. vivo junto aos deuses. 1. Zeppi. perfeita com panheira da amizade. no curso da juventude. terá coragem de participar da tua companhia? Os que dela participam. II. se for sábio. oprimidos pelo que devem fazer. fiel guardiã das casas para os seus donos. segura aliada nas obras de guerra. Os jovens se comprazem dos loa vores dos anciãos. 29 ( Diels-Kranz. para estes. se. cheios de vergonha pelo que realizaram. por exemplo. Como. contrangendo-os a intemperanças durante a noite. benévola assistente para os servos. vivo com os homens honestos. Se tu. nenhuma bela ação é devida aos deuses. com prazer se recordam dos seus antigos feitos. Embora imortal. Quan do. mas preparas com esmero as comidas. Sou honrada mais que todos. mas por não teres nada a fazer tu desejas o sono. 20. não ouves o que acima de tudo é doce de se ouvir. não por estares fatigada. e. uma rápida corrida pelos prazeres. II. ótima colabo radora nos trabalhos da paz. não são sepultados sem honras com esque cimento. para dormir em profundo e agradável sono não só preparas um lugar macio. mas também os leitos e. em vista disso. porque cresceram. 84 B 2). chega o fatal termo. supra. 238 b ss.

Os Deuses como divinização do útil Há mais. p. mas também da teologia. porém. em última análise. Deste ponto de vista. poderemos concluir que. Dionisio [ IS. que preenche totalmente o Apólogo. de que foram honrados e acre ditados como deuses. escreve: “Em suma. a virtude é a bem-calculada racionalização dos prazeres e do que é útil moral e materjalmente. Aqui está o núcleo do Apólogo: Pródico patrocina um utilitarismo eudemonista ativo em polêmica com um hedonismo sensualista. ao invés. para Pródico. 9. Um estudioso italiano que. além disso. ou seja. Pródico contraponha a identificação de dpen e lróvoç [ mas sobre a escolha dos meios aptos a realizá-los. um utilitarismo razoável. a con tenda entre Areté e Kakía. aqueles que descobriram o modo de nutrir-se ou uma proteção natural e. utilitarista é a ética de Protágoras e.33 (= Diels-Kranz. Como vimos. como Deméter. a felicidade-utilidade. 16. que no útil viam o máximo valor moral 3. percebeu 14. apre senta a própria doutrina como um hedonismo não decepcionante” Em poucas palavras. 11. também a de Górgias. 75 G (== Diels-Kranz.. 1. e depois. o Apólogo “Héracles na encruzilhada” pode ser assumido como emblema da ética dos sofistas (dos sofistas da primeira gera ção). Xenofonte. Pródico considera que o útil não só é o funda mento da moral. mas da atitude do adversário ele não rejeita tout-court as exigências fundamentais. acolhe-as e reconhece como verdadeiras e. con siderada por ambas as interlocutoras a acmé da positividade humana [ o dissenso não é sobre os ideais últimos — não é que à identi ficação de dpet virtude1 e i prazerI. primeiro as forças aptas a nutrir e a trazer benefício. 30. 84 B 5). De piei. 84 B 2).Como bem vê. L’etica di Prodico. Os sofistas da segunda geração tenderam. versa sobre o modo de alcançar a mesma meta. mais acentuadamente ao hedonismo. assim. as relativas artes. que reporta também um fragmento com as palavras onginais do Sofista: . Filodenso. melhor do que todos. ao contrário. pp. Eis alguns significativos testemunhos. 17. Ainda mais claro é o testemunho de Sexto Empírico. Escreve Filodemo: Perseu [ na obra Sobre os deuses. condenando-as in limine litis. Pródico não hesita em pôr na boca da virtude uma linguagem que assume até mesmo traços de hedonismo. Memoráveis. í 226 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL PRÓDICO DE CÉOS 227 este aspecto do pensamento de Pródico. c. 107s. embora tem perado. Zeppi. 7. sustenta que não parece imprová vel a demonstração desenvolvida por Pródico.

as fontes e. Escreve Levi: “Como observa 1-1.nath. Sexto Empírico. e assim cada um dos bens que nos são úteis’ E ainda: Pródico sustentava que tudo o que beneficiava à vida foi considerado deus. naquela que justamente foi denominada corrente naturalista da sofistica. ou seja. Sokrates. 1.. como. isto é. HÍPIAS E ANTIFONTE 1. todas as forças que beneficiam a nossa vida. a lua. Igij HÍPJAS E ANTIFONTE 229 V. para ele (assim como para todos os sofistas). em virtude da vantagem que daí derivava.Pródico de Céos afirma: “Os antigos consideraram deuses. . 19. ao invés. 9 e pp. em diversos níveis 2. Arquelau (introduzindo tal contraposição na vida prática: H. Sobre este ponto chamou justamente a atenção Levi. a lua. em geral.. por exemplo. os rios. com o que. que deve ter sido muito famoso (Platão lhe dedicará dois diálogos) condividia a concepção do fim do ensinamento (educação política). a água como Posseidon. os lagos.. os rios. 241 (trad. encontra-se em Empédocles [ em Filolau [ em Diógenes de Apolônia LI e em Demócrito”. II. o vinho como Dionísio. que é de uma audácia iluminista assaz notável. “lei” e “natureza”. A oposição entre lei e natureza não existe nem em Protágoras. 84 B 5). math. 249ss. . 18 ( Diets-Kranz. p. para desvalorizar a primeira e reduzi-la a pura convenção. segundo eles. este lugar-comum é só parcialmente fundado. 52 (=.!. 30. nem em Górgias e nem mesmo em Pródico’. IX. em Hípias e em Antifonte. o Nilo”. e por isso o pão era considerado como Deméter. que era própria de todos 1. os prados. ela aparece. p. os frutos. 2481) afirmou que o justo e o injusto existem por convenção e não) por natureza (Diógenes Laércio. e depois nos políticos sofistas. 84 B 5). O método da “polimatia” de Hípias Comecemos com Hípias Este sofista. Maier (Sokrates. IX. ou seja. com o que. p. Adv. 247]) a contraposição de p e vó de natureza e convenção. e todas as manifestações análogas’ Esta interpreação dos deuses e do divino dada por Pródico. mais valia. o sol. valia mais do que tudo. Maier. como o sol. 18. Diels-Kranz. Pois bem. Adv. 240 [ ital. n. Sexto Empírico. isto é.. o fogo como Efesto. Pródico o identifica com o útil. p. ital. os egípcios. exprime uma das marcas da sofística: enquanto os filósofos naturalistas identificaram o divino com o Princípio. A corrente naturalista da sofística É um lugar-comum da manualística a afirmação de que a sofística contrapôs nomos e physis. p. Storia de/Ia sofistica.

e justamente. que facilite a memorização dos vários conteúdos do saber: com esse fim. 3. 86 A 12). em todo caso. ou seja. ao invés. ( Diels-Kranz. A 5. Viveu muito e compôs — ao que parece muitíssimas obras. 285 b ss. ou seja. entramos no ceme da temática natureza-lei. as matemá ticas e as ciências naturais tinham grande relevo E isto se compre ende bem: de fato. 2S4ss. não sabemos exatamente quando. e o nosso comentário na citada edição p. com isso. 86 A 12). faz Hípias dizer o seguinte: Homens aqui presentes.) 4. Protágoras. Cf. 7. nem a sinonímica. porque pensava que a vida humana devia adequar-se à natureza e às suas leis. 8. como se diria hoje. como todos os outros sofistas. A manualística.nanière de. que é tirana dos homens. portanto. 86 A I cf. uma imitação. Viajou muito. não por lei: de fato. além de saber tudo. Hípias menor. ao invés. ( Diels-Kranz. considerado em Diels-Kranz. Storia de/la sofistica. mas a polimatia. Hípias maior. 337 e. 34.. Protágoras. ao invés. Cf. amiúde força muitas coisas contra a nature É claro que aqui não só são claramente distintos. não é feita nem por Protágoras nem pelo Anónimo de Jãmblico (que. . mais que às leis humanas. o saber enciclopédico (e Hípias. atribuiu a toda a sofística uma oposição fundamental que. os outros sofistas. nem a retórica. uma de monstração por absurdo da tese socrática de que ninguém peca voluntariamente). 2. pp. ele considerava necessário o ensinamento das ciências naturais.. 1 Sofisti. também Hípias menor. 368 b ss. Platão. cf. mas diferia deles no método. uma reconstrução platónica ou. o comentário à passagem em Levi. 315 b-c. Platão. fundam o vó sobre a opéotç) e não aparece de modo algum nem em Górgias nem em Pródico”. Não vale a antilogia. Prorágoras. No final do século V. Cf. mas radical. Cf. parentes e concidadãos por natureza. melhor ainda. 368 b ss. A natureza é apresentada como o que une os homens (o semelhante com o semelhante). Esta contraposição. feita à la . a qual tem características muito particulares. ( Diels-Kranz. Platão. ele ensinava a mnemotécnica (arte de memorizar) E entre as disciplinas que o seu enciclopedismo didático propunha. Platão. I pp. vangloriava-se também de saber fazer tudo) Mas para saber e aprender muitas coisas é preciso uma habilidade particular. forçando a natureza e. efetivamente. enquanto a lei. 111-120. (Ulteriores informações em Untersteiner. 318 e. O Hípias maior (sobre o belo) e o Hípias menor (sobre a mentira. indo contra ela. a lei.. só nasce com uma das correntes (a corrente ‘naturalística”).mente contrapostos. 3. diante de homens de cidades e condições diferentes. o plano da physis ou da natureza e o plano do nomas ou da lei. 6.16). que propugnava como único válido. uma invenção platô nica. Platão. A oposição entre “nomos” e “physis” E. eu vos considero consagüíneos. o semelhante é por natureza parente do semelhante. nota 45. portanto. Hípias nasceu em Élida. é apresentada como o que divide. devia ser conhecido e apreciado mestre.

De Antifonte posuímos escassas notícias. quando se puder fazê-lo impunemente. A Sua obra principal intitulava-se A verdade. para seguir a lei da natureza: Justiça consiste em não transgredir nenhuma das leis do Estado do qual se é cidadão. Compreende-se. muito além se lançou Antifonte Também ele. 1-226. todavia. nos últimos decénios do século V. Dificílima é a sua localização cro nológica. se tiver em grande conta as leis. que a natureza é a “verdade” enquanto a lei positiva é pura “opinião” e. E assim são lançadas as premissas que levarão a uma total dessacralízação das leis huma nas. quem muito contribuiu para conhecer Antifonte foi E. pelas razões acima vistas. numa série de estudos publicados entre 1917 e 1923. portanto. que as antigas histórias da filosofia e a manualístíca mais avançada não falem dele. enquanto o segundo é contingente e. depois da descoberta de dois papiros de Oxirinco. mas revolucionário. que uma está quase sempre em antítese com a outra e. e traía influências da escola eleática. diante de testemunhas. deve ter insistido sobre 9. e por isso o indivíduo aplicará no modo mais vantajoso para si a justiça. Mas Hípias tira desta distinção mais conseqüências positivas que negativas: posto que a natureza dos homens é igual (pelo menos a natureza dos sábios aos quais ele se dirige no contexto do seu discur so). depois recolhidos em Studi sul pensiero antico. no seu ensinamento. que para a grecidade era não só novíssimo. nem as distinções que no interior das cidades possam ulteriormente dividir os cidadãos: nascia assim um ideal cosmopolita e igualitário. 4. é radicalmente desvalorizada. só o primeiro é válido e eterno. que serão consideradas fruto de pura convenção e de arbítrio. verossimilmente. contendo teses muito importantes e audazes. como veremos. Nasce assim a distinção entre um direito natural (lei de natureza) e um direito po sitivo (lei posta pelos homens). portanto. a sua atividade parece. frutos indignos do respeito do qual sempre estiveram cir cundadas. afirmando. não-válido. A importância de Antifonte para a história do pensamen to emergiu depois de 1915 e 1922. nesta sede. a questão. poder Situar-se. mas chegou a radicalizar o dissídio entre natureza e lei ao limite da ruptura. Radicalização do contraste entre “fomos” e “physis” em Antifonte Mas. Para nós. no fundo. isto é. Discutiu-se muito se Antifonte sofista e Antif()nte orador são ou não a mesma pessoa. pp. Bignone.230 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL HÍPIAS E ANTIFONTE 231 natureza é assim reconhecida como a única que pode constituir a verdadeira base do agir humano. não têm sentido as distinções que dividem os cidadãos de uma cidade dos de outra. pelo menos quando e à medida que se opõe à natureza. provavelmente na linha de Hípias. por conseqüência. nasce a convicção de que. por aquelas mesmas razões propugnadas por Hípias. deve-se transgredir a lei dos homens. portanto. as ciências naturais. em todo caso. e. enquanto a lei é denunciada como “tirana dos homens” e. porque viu só na physis a autêntica norma do viver. mas na . em termos eleáticos. tem pouco valor. portanto. Nápoles 1938.

nem é maior se também todos o saibam. por natureza. quanto à própria superioridade sobre os outros povos: qualquer cida de é igual à outra. Diels-Kranz. Decleva Caizai apresentou notáveis contribuições nos seus mais recentes estudos. dos quais damos indicação na nota 14. comum a todos os gregos. não menor é o mal. está isento de lástima e de pena. seguirá antes as normas da natureza. as da natureza essenciais: as da lei são concor dadas. cf. Bastianini) também reconstituiu o texto crítico. E à luz deste conceito de natureza. frag. Antiphontis retralogiae. em tudo todos fomos igualmente feitos para ser quer bárbaros quer gregos°. se não escapa. o mal é o prejudicial e o doloroso. Mas se violenta além do possível as normas postas em nós pela natureza. Nisto. porque constringe a sacrifícios e. dado que. e no que conceme aos ouvidos. Milão-Varese 1968. No que concerne aos olhos. [ não conhecemos nem veneramos os que vivem longe. a dores. lO. o que devem e o que não devem . Diels-Kranz. qualquer povo é igual a outro. na verdade. como os bárbaros. qualquer classe social é igual à outra. 11. porque todo homem é por natureza igual ao outro. Cosmopolitismo e igualitarismo naturalistas Comparadas às concepções de Hípias. 201. melho rando DielsKranz em muitos pontos. enquanto escapa aos seus autores. porque não se ofende a opinião. digamos que os mais recentes estudos parecem orientar-se a responder em sentido positivo. cf.ausê de testemunhas. 5. não. mesmo que ninguém se dê conta disso. 13). Por isso se alguém transgride as normas de lei. são também mais radicais as concepções igualitárias e cosmopolitas do homem propostas por Antifonte. 232 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL HÍPIAS E ANTIFONTE 233 O iluminismo sofístico dissolveu aqui não só os velhos precon ceitos de casta da aristocracia e o tradicional fechamento da polis. portanto. 87. F. Eis um texto particularmente significativo: A pesquisa sobre estas coisas se impõe porque a maior parte do que é justo segundo a lei revela-se hostil à natureza. mas também o mais radical preconceito. mas a s’erdade’°. não concordadas. 87. é a natureza que é espontaneidade e liberdade instintiva. que (junto a G. não nativas: as da natureza são nativas. publicada em cPF. Mas que é esta natureza comum a todos os homens? Em que consiste exatamente? Os fragmentos que nos chegaram esclarecem que Antifonte en tende por natureza a natureza sensível: natureza pela qual o bem é o útil e o prazer. refreia e põe obstáculos à espontaneidade. a lei é sempre vista — nem podia ser de outro modo — como não-natural. uns com relação aos outros. porque as normas de lei são acessórias. de fato se estabeleceu o que devem e que não devem ver. A tradução utilizada por Reale é a nova de F. Decleva Caizzi. fragmento A. nota 14 (a passagem reproduzida é a da p. fragmento B. 1 1. tornamo-nos. F. Decleva Caízzi.

e que. A proposito di POxy /364 fr. E assim se explica que. Diels-Kranz. não são em nada menos agradáveis nem menos afins à natureza as coisas das quais as leis afastam os homens do que as coisas para as quais os orientam. e com as mãos operamos e com os pés caminhamos [ E isto é extremamente interessante: se restringimos a natureza humana à pura dimensão sensível.VV. pp. Nápoles 1985. serão deduzidas pelos sofistas políticos’ 13. as que são postas pela natureza são livres. e no que concerne à alma. em que direção devem ou não devem andar. pp. Conclu sões estas que. in AA. Athens 27-29 Sept. e o viver provém do que lhe é útil.VV. in H APXAIA ODIETIKH (Papers read a! lhe 1. iludimo-nos em poder cancelar toda diversidade entre os homens.. volume 1. enquanto na realidade lançamos as premissas para fundar Outros tipos de diversidade e outros tipos de distinções. in AA. e o morrer do que não lhe é útil.sidérations. 176-227 (citado acima com a abreviação C.F. sobre esta base. Saggi suframmenti inediti e nuove lestimoflianze da papiri.. Lefragrnent 44 (DK) d’Antiphon el/e problême de son auleur: qualques recon. mas ser útil’ Com base nessas premissas. portanto. pp. As coisas úteis postas pelas leis são vínculos para a natureza. portanto. E explica-se também que. 87. p. on lhe Sophistic Movemen. o que deve e o que não deve desejar. e assim tampouco será útil o que causa dor mais do que o que causa prazer. 17). Em verdade. Posidonio. alguns logo te nham podido deduzir conclusões opostas às que foram deduzidas por Antifonte: a natureza demonstra que existem homens mais fortes e homens mais fracos. e também morrer. o que deve e o que não deve dizer. Protagora. Aristotele. 187. segundo um raciocínio correto. mi. proclamada injustificável. papiri filosofici greci e latini. Antifonte.P. Parte 1. entendida como contrária à natureza. 14. e no que concerne às mãos. Siudi di filosofia preplalonica. o que é verdadeiramente útil não deve prejudicar. 1. 3647. A edição e a tradução dos fragmentos de Antifonte feitas por Decleva Caizzi em colaboração com Bastianini está contida em: Corpus de. Todos respiramos o ar com a boca e as narinas. fr. a lei.ouvir. rimos com alegria na alma ou choramos sofrendo. os homens são diferentes e a quem é mais forte é natural que domine sobre os fracos e lhes impo nha a sua vontade. e nessas mesmas coisas nenhum de nós se distingue nem como bárbaro nem como grego.. 1982). De modo algum. ver os seguintes trabalhos de F. do mesmo princípio da natureza-sensibilidade. sob certo aspecto ainda mais graves. Para um aprofundamento sobre o pensamento de Antifonte. logo vemmos. e no que concerne à língua. e no que concerne aos pés. II nuovo papiro di Antifonte: POxy Ul. a igualdade dos homens é vista ex clusivamente como igualdade de estrutura e necessidade sensíveis: É possível ver que as coisas pertinentes ao âmbito da natureza são neces sárias a todos os homens e por todos buscadas por meio das mesmas faculda des. Florença 1989. Viver. o que causa sofrimento auxilia a natureza mais do que o que causa alegria. Atenas. Symp. 1984. com efeito. o que devem e o que não devem fazer. 2). pertence à natureza. Florença 1986 (“Studi e testi per ii Corpus dei papiri filosofici greci e latini”. Ricerche su Antifonte. pp. devesse ser destituída de todo fundamento objetivo e. Decleva Caizzi. e com o ouvido recebemos os sons e graças à luz vemos com a visão. . 191-208. 96-107. 61-69.). fragmento B (= CPF 1 1.

como se existisse a contradição? Certamente. fragmento A (= CPF 1 1. embora resolvidos. toda uma série de problemas que previam respostas sempre refutáveis. É verdade. explorando a sua polivalência semântica. nos con tradiremos? ou. — Pode-se falar de qualquer coisa existente? — Seguramente. e como! Não crês que exista? Tu não podes provar ter jamais ouvido alguém contradizer a outro. a qual demonstra muito bem a medida da deterioração que o protagorismo sofreu no plano da erística. Em suma. levavam a respostas sempre possíveis de serem contraditas. p. raciocínios que leva vam sempre a conseqüências absurdas. nenhum dos dois sequer a teria em mente? . E dizer que cada coisa é e não é? — Sim. 202. disse. Ctésipo. — E me darás conta rigorosamente disso? — Certamente. dilemas que. disse. 87. por obra dos sofistas da geração mais jovem. Se não existe uma verdade absoluta e se a toda proposição é possível contrapor a sua contrária (e se é possível tornar mais forte o discurso mais fraco). então é possível refutar qualquer asserção. Características da erística O relativismo e o método antilógico de Protágoras.12. assim. ou neste caso diremos o mesmo? — O mesmo. Diels-Kranz. Reportamos do Eutiderno’ uma passagem como prova do que dissemos. seja em sentido afirmatj vo. 13). fr. enredavam o Ou vinte e punham-no em posição de xeque-mate. produziu a erística. ao invés. Ctésipo. pouco antes demonstramos que ninguém diz o que não é. OS ERISTAS E OS SOFISTAS POLITICOS 235 VL OS ERISTAS E OS SOFISTAS POLÍTICOS 1. de dizer o falso e de se enganar: E Dionisiodoro: — Tu falas. — Mas quando nem um nem o outro discorda de uma coisa. E os eristas excogitaram. contudo ouçamos agora a Ctésipo contradizer a Dionisiodoro. Se bem te lembras. E Ctésipo: — Que quer dizer isto? Talvez nos contradigamos menos entre nós? E ele: — Talvez nos contradigamos expondo o estado de uma mesma coisa. chegando até a negar capciosamente a possibilidade de contradizer. os eristas excogitaram toda aquela aparelhagem de raciocínios capciosos e decepcionantes que foram posteriormente chamados “sofismas”. porque ninguém fala do não-existente. e vejamos se o provo a ti. seja em sentido negativo. hábeis jogos de conceitos construídos com ter mos que.

ao invés. mas pensá-lo sim? — Nem sequer pensá-lo. Não existe a afirmação do falso? porque a isso se reduz o discurso. Tenha-se presente que é Ctésipo que fala de si em terceira pessoa. Creio.o. Levi. nos contradizemos? ou eu falo de uma coisa e tu simplesmente não falas? Como é possível que quem não fala contradiga a quem fala? E eis. Dionisiodoro? Eu ouvi de muitos e muitas vezes este dicurso. Usava-o amiúde Protágoras e a sua escola e também homens mais antigos. ao nosSo ver. Não. maravilhado daquele discurso. parafraseado como se segue: se duas pessoas pensam e falam de unia mesma coisa X. não existe de modo algum uma opinião falsa. mas a mim parece sempre estranho e de tal modo. não tem muita importância saber se Eutidemo e Dionisiodoro. que caracterizam de maneira paradigmática a corrente erística. então concordam. que. 3. então um pensa Y e o outro Z. e nenhum dos dois pensa X. protagonistas do Eutiden. ademais. mas nunca o compreendi bem.o platõtiico. porém. — E quando eu falo de uma coisa e tu de outra. na passagem que segue: Ctésipo ficou calado. São personagens históricos ou não: eles são tipos ideais’. pp. disse: — Que pensas. Eut. Sioria de/la sofistica. de forma que em algum modo os dois se contradizem. senão reais. não dá o justo espaço histórico a estes personagens e à corrente por eles representada. a partir do momento em que pensam e falam da mesma coisa. O raciocínio pode ser. um dos dois tens de X uma noÇão ‘ então. Platão.— Nisto também convenho. 1. 2. não? — Assim parece. na boca de Sócrates. representa uma das conseqüências quase inevitáveis da sofística. explicitando algumas implicações. se. Naturalmente. 236 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL OS ERISTAS E OS SOFISTAS POLÍTICOS 237 — E dizer o falso não é possível. não fala de X. o qual. que de ti ouvirei melhor a verdade. na realidade. . 285 d-286 b. Eu. — E falando. ou se diz a verdade ou não se fala? — Sim. — Portanto. que destrói os outros raciocínios e a si próprio. expressamente ressaltado o funda mento protagoriano da doutrina. mas de uma outra coisa Y. muito preocupado em salvar a moralidade dos sofistas verdadeiros.den. 52-65. e se um ou outro tem uma falsa” noção de X. mesmo que se trate de uma conseqüência negativa (um fenômeno espiritual não é compreendido se não se reconhecem todos os seus aspectos). Cf.

se existe. — Mas isto não ocorre. mas não absorveu o espírito socrático. Fez parte do círculo socrático. Participou ativamente da vida política ateniense. Escreveu numerosas obras em verso e em prosa. / Sofi Sri. — Falas por falar. dado que as leis impedem os homens de realizar violência aberta. Em seguida. Morreu em 403. e instrumento de violência. ou acreditas verdadeiramente que não exista algum homem ignorante? — Tu deves refutar-me. (Para ulteriores informações sobre a vida e as obras cf. Eutidemo. por medo de uma vingança dos deuses. chegan do a afirmações de imoralismo quase total. — Não. a ignorância. tal modo de raciocinar destrói tudo: os outros raciocínios e a si próprio. Nasceu provavelmente no decênio entre 460-450 a. Crítias muito mais do que os outros sofistas.— Portanto. disse eu.) Também Crítias. e ela punia a quem pecasse. Crítias era um parente de Platão (sobrinho da mãe). com a finalidade de que ninguém ofendesse traiçoeiramente o seu próximo. II. nalguns casos. de modo que a Justiça absoluta fosse senhora igualmente de todos e tivesse como serva a Força. em que não havia qualquer prêmio para os bons. a sua paródia. 2. As teses sustentadas pelos sofistas políticos A retórica gorgiana e as deduções da corrente naturalista da sofística foram as raízes do fenômeno denominado de sofistas poJíti cos ou políticos sofistas. nem qualquer castigo para os maus. disse Eutidemo. como vimos acima: isto. então. Untersteiner. 179-188. suponho. 5. Não era certamente este o sentido da descoberta protagoriana. não no campo lógico-metodológico. mas escondidamente a realizavam. “Houve um tempo.C. parece-me que os homens sancionaram leis punitivas. Platão. — E é possível convencer de mentira quando ninguém se engana? — Não é possível. os quais fizeram incursões devastadoras. sem desdenhar os métodos mais imorais. ou para dizer absurdos. 286 b-e. e nem mesmo Dionisiodoro convi dou a refutar: quem convidaria a coisa que não existe? Como bem observa Platão. considerando-os como um simples espantalho introduzido para frear os maus e para fazer respeitar as leis. de modo que um espantalho . como já acenamos. nem ignorância nem pessoas ignorantes. mas no campo ético-político. em que era desordenada e ferina a vida dos homens. Diz textualmente o seguinte. Dionisiodoro. não é mais que a excrescência patológica da antilogia protagoriana e. que por si não têm força suficiente para se impor. Mas depois. em primeiro lugar algum homem engenhoso e sábio de mente inventou para os homens o temor dos deuses. por boca de Sócrates. Refere Sexto Empírico: 4. dessacralizou o conceito dos deuses. parece pertencer ao grupo dos ateus. um dos tiranos de Atenas. que tinha a sua verdade e a sua trágica grandeza. por ter dito que os antigos legisladores fizeram de deus uma espécie de inspetor das ações humanas. boas ou más. pp. não consistiria em enganar-se sobre as coisas? — Certamente.

85 A 1). e com suma perspicácia vigia as ações humanas. divulgava o mais agradável dos ensi namentos: envolver a verdade num conto fingido. que no princípio alguém induziu os mortais a crerem que existe uma estirpe de deuses” Trasímaco de Calcedônia chegou a afirmar que o “justo não é mais que a vantagem do mais forte” do que ele deduziu. IX. perfeita expressão desta corrente) precisa: Parece-me que a própria natureza mostra ser justo que o melhor [ mais forte] tenha mais do que o pior [ mais fraco] e que o mais poderoso tenha mais do que o menos poderoso’°. isto não escapará aos deuses. pondo-a num lugar apto a ela. os homens mais fortes fazem o mesmo com os mais fracos. Platão. uma colônia de Megara (cf. penso eu. lá onde avança fúlgida a massa ígnea do sol. servindo-se deles. de onde via que saíam relâmpagos. pisaria as nossas . suficiente mente forte. Fragmento do Sísijb satiresco. então arrancaria de si todos os freios da lei. / Sojjs!i. A sua atividade deve ser situada nos últimos decênios do século V. se não é um personagem real. 85 A lO. portanto. ou uma máscara de um personagem real. Assim introduziu a divindade sob a forma de gênio. que a justiça é um bem para o poderoso e um mal para quem está sub6. República. E o Cálicles do Górgias platônico (que. que o homem justo tem sempre desvantagem e o injusto vantagem. Untersteiner.. Trasímaco nasceu em Calcedônia da Bitínia. Com efeito. Para pormenorizadas informações sobre a vida e as obras a ele atribuídas cf. até mesmo para aquilo que escondidamente fizessem ou dissessem ou pensassem. Por isso Cálicles chega a exaltar o homem mais forte. quase certamente. Adv. de onde a úmida chuva desce sobre a terra. reportado por Sexto Empírico. que infringe as leis e submete os mais fracos: Mas se nascesse um homem dotado de uma forte natureza. de onde ele sabia que procedem os temores aos mortais e as conso lações para a sua miserável vida: da esfera celeste. florescente de vida imperecedoura. Fazendo tais discursos. 338 c ( Diels-Kranz. B 6a). E afirmava que os deuses viviam num lugar de onde ele sabia que podiam golpear maximamente os homens. os animais mais fortes esmagam os mais fracos. 54 (= Diels-Kranz. os quebraria e se libertaria deles. e horrendos trovões. a lei é sempre contra a natureza (esta natureza) e foi feita pelos mais fracos para defender-se dos mais fortes e. a divindade. 175-178. e a obra maravi lhosamente variada do sábio artífice. é. 88 B 25). matiz. e apagou assim a ilegalidade com as leis [ Por tal via. construiu com a palavra. 1. é totalmente negativa. como nos diz Platão no primeiro livro da República. contudo. Tais temores ele agitou ante os olhos dos homens e. 238 DA FILOSOFIA DA NATUREZA À FILOSOFIA MORAL OS ERISTAS E OS SOFISTAS POLÍTICOS 239 metido ao poderoso.existisse para os maus. pois grande é a sua perspicácia. E mesmo que medites algum mal em silêncio. o super-ho mem. que com a mente ouve e vê. Diels -Kranz. e assim os Estados mais fortes com relação aos mais fracos. pp. qual artista. neste sentido. 7. 8. e dirige a divina natureza. este gênio ouvirá tudo o que se diz entre os homens e poderá ver tudo o que eles realizam. II. e o estrelado corpo do céu. o Tempo.

com os sofistas polí ticos. Pois aos que desde o princípio coube a fortuna de serem filhos de reis. mesmo tendo a possibilidade de gozar dos bens sem que ninguém os impeça. deveriam eles próprios impor-se. se podem encontrar estravasamento. convenções dos homens contra a natureza. exclusivamente por causa da própria impotência. Mas isso. por aquela verdade que dizes querer perseguir. que caracte rizam de maneira perfeita esta concepção: E. sustentam que a vida dissoluta é torpe. porque se envergonham de também não poder e. a questão está aqui: a licenciosidade. . buscando assim submeter os homens que por natureza são melhores. Sobre Cálicles. todas estas outras coisas não são mais do que aparên cias enganadoras. o belo e o justo segundo a natureza é este que eu agora te digo com toda simplicidade: quem quer viver bem deve deixar crescer ao 9. a dissolução e a liberdade. acaba também por se tornar. para criar o super-homem e conduzir ao imoralismo mais desenfreado. Platão. Por isso a maioria critica os que podem. rebe lando-se assim. qual senhores. E a vida “justa segundo a natureza” comportará também o favorecimento de todos os instintos. uma vez crescidos ao máximo. ao invés. conceder-lhes absolutamente tudo: e comportará fa zer tudo isso em prejuízo dos mais fracos. explorando para tais fins os mais fracos. ou de serem por sua natureza capazes de obter um domínio. em lugar de critério para fundar a absoluta igualdade entre os homens. XLss. não é possível a todos. cf. de critério torna-se. satisfazê-los depois de tê -los estimulado. o que. e também a physis hipiana e antifontiana. pp. Górgias. como eu já disse anteriormente. comportará deixar-lhes livre curso. E porque aqueles não têm condições de dar satisfação aos seus desejos. Eis as palavras que Platão põe na boca de Cálicles. os nossos sortilégios e as nossas leis.instituições. tagarelices que não valem absolutamente nada’ Assim o homem-medida protagoriano. para esconder a própria impotência. porque estes são segundo a na tureza. digo eu. e. 483 c-d. o nosso escravo resultaria o nosso senhor. o seu modo de pensar e as suas censuras? E como poderiam não ser reduzidos a infelizes pela assim chamada beleza da justiça e da sabedoria. 11. seja uma posse. que são todas contra a natureza: e. 483 a. não podendo dar aos seus amigos nada além do que dão aos seus inimigos. deve saber secundá-los com coragem e inteligência e deve ser capaz de tirar para si o justo de tudo aquilo que continuamente possa desejar. poderia ser mais horrível ou mais odioso do que a sabedoria e a justiça? Estes homens. justamente porque a natureza os fez diferen tes e os pôs à disposição dos mais fortes. é personagem literário e não histórico. constituem a virtude e a felicidade. os nossos encantamentos. com a erística. ó Sócrates. como é óbvio. que. e isto embora dominando na própria cidade? Mas. máximo os próprios desejos e não deve absolutamente reprimi-los. exaltam a temperança e a justiça. Górgias. o que dissemos na nossa introdução ao Górgias. Platão. 10. e. na verdade. a lei da multidão dos homens. antes. como o encontramos representado no Górgias platônico. seja uma tirania. dissolução de todo critério. e desse modo refulgiria o justo segundo a natureza”. o critério para fundar a absoluta desigualdade.

A verdade está no meio: é preciso reconhecer aos sofistas o fato de terem sabido dar voz às novas exigências do momento histórico e terem preparado o terreno para o advento da filosofia moral. para poderem ser adequadamente reconstruídas: era preciso que os velhos e estreitos horizontes fossem rompidos. Este princípio. o princípio do qual todos dependem. positiva e autêntica. a sofística operou um subs tancial deslocamento do eixo da pesquisa filosófica. até a corrente naturalista da sofística ocupou-se da physis em sentido totalmente diferente dos naturalistas. E o pensamento dos sofistas foi fecundo também em alguns dos seus aspectos que para muitos pareceram apenas excessos e furores iconoclastas. ser-nos-á. era preciso que algumas coisas fossem totalmente destruidas. mas não souberam alcançar. ou seja. E neste deslocamento do eixo está o valor substancial da sofistica. centrando a sua problemática sobre o homem. ao invés. A outra face. CONCLUSÕES SOBRE A SOFiSTICA 241 V CONCLUSÕES SOBRE A SOFÍSTICA Vimos como. com finalidades ético-político-edu cativas. problemas morais ou problemas ligados estru turalmente com a moral. outros tenham podido acusar os sofistas de superficialidade ou tenham até mesmo negado que tenham sido filósofos. ao contrário. Compreende-se. por conseqüência. somente a sua face negativa. o que é o homem e. ao invés. conscientemente. Górgias. consciente e razoável determinação da essência do homem. também de maneira contrastante. embora de diferentes modos e. Exemplifiquemos. mas para melhor compreen der o homem e o seu agir. não obstante isso. não para conhecer o cosmo enquanto tal. mas é preciso também dizer que eles não souberam dar o passo final. . que alguns intérpretes tenham exaltado os sofistas como grandes filósofos e. portanto.Mas se estas correntes são um êxito da sofística. como já dissemos. ternaticamente. não se pode dizer que a sofística também tenha sabido fun dar a filosofia moral. 491 e — 492 e. Todos os sofistas levantaram e aprofundaram. Mas. nenhum dos sofistas fez ver. revelada por Sócrates. queremos tirar as conclusões decorrentes de tudo o que dissemos até aqui. de diferentes maneiras. Nenhum dos sofistas nos disse expressamente. no nível temático. para a falta de funda mentos reconhecível nesta problemática. corno as várias doutrinas que professavam conjugavamse numa determinada concepção do homem. Todavia. pelo menos aparen temente. como sabemos. para que se abrissem outros mais vastos. Os primeiros olharam prioritariamente para importância da nova problemática filosófica levantada pelos sofistas. na realidade. mas. é verdade que a sua contribuição foi decisiva. antes de falar de Sócrates. pelas razões que amplamente explicamos. 12. os segundos. e. Pistão. isto é. não são o único êxito: elas não revelam toda a natureza da sofística. consiste na precisa.

Estas experiências. E assim aproximaram-se da negação de qualquer for ma de divino: Protágoras permaneceu agnóstico. tendo-a entendido sobretudo corno natureza biológica e animal. Enfim a verdade. Górgias foi certa mente além do agnosticismo com o seu niilismo. para reencontrar o Divino e a verdade eram necessárias as descobertas metafísicas e lógicas de Platão e de Aristóteles. iludiu-se de poder encontrar num enciclopedismo um conteúdo que fosse de algum modo objetivo. Antes do surgimento da filosofia. os naturalistas não se ocuparam do homem. tinha construído. para recons truir um novo rosto do homem bastavam os recursos disponíveis no . como disse um agudo intérprete dos sofistas.Os naturalistas criticaram a velha concepção antropomórfica dos deuses e identificaram Deus com o princípio. destruíram. são “trágicas”: e nós esclareceremos ulteriormente que elas se descobrem como trágicas justamente porque pensamento e palavra perderam o seu objeto e a sua regra. E do divino passamos ao humano. porque. não é difícil explicitar o sentido que eles implicitamente acabaram por dar ao homem. depois da critica naturalista. não pode verdadeiramente exprimir nada. tendo rejeitado em bloco a pesquisa cos mo-ontológica. que estão decididamente além dos horizontes da sofistica. no instante mesmo em que tentaram reconstruir uma imagem do homem. por muitos aspectos. a visão que a tradição. mas rejeitaram também a concepção do divino como princípio das coisas. portanto. a verdade não era distinta das aparências. embora confusamente. como a invenção de um homem hábil e sábio excogitada para reforçar as leis que por si não são vinculantes. Crítias. para se reconhecer. intuiu isto. Certamente. sujeito a ser arrastado pela retórica em todas as direções. Górgias como sujeito de móvel emoção. mas este encic enquanto tal. que apelavam à natureza. devia encontrar um mais sólido “ubi consistam”. Já dissemos que a sofística não chegou a uma determinação sistemática da natureza do homem. mas encontrou uma palavra que pode dizer tudo e o contrário de tudo e. e só nisso reconheceram a verdade. Os naturalistas contrapunham às apa rências o lógos. Mas Protágoras Á 242 DA FILOSOFIA DA NATUREA À FILOSOFIA MORAL cindiu o lógos nos “dois raciocínios” e descobriu que o lógos diz e contradiz. todavia. O homem. definitivamente. como sabemos. os quais. Os sofistas rejeitaram os velhos deuses. esta se diluiu nas suas próprias mãos: Protágoras entendeu o homem prioritariamente como sensibilidade e sensação relativizante. não se podia voltar atrás: para crer no divino era preciso buscá-lo e encontrá -lo numa esfera mais elevada. Górgias rejeitou o lógos como pensamento e salvou-o só como mágica palavra. que. revelou-se totalmente inútil. de algum modo. ao invés. Mas. E a corrente naturalista da sofística. perderam o ser e a verdade. Neste âmbito os sofistas não tiveram de destruir aquilo que disseram os naturalistas. e os próprios sofistas. não puderam não deduzir dela as antitéticas conseqüências da absoluta igualdade e da absoluta desigualdade dos homens. não eram mais dignos de fé. A palavra e o pensamento deviam recuperar a verdade num nível mais Mas se. Pródico interpretou os deuses como hipóstase humana do útil. sobre tudo através dos poetas e dos legisladores. depois destas criticas.

e assim. 1. 227ss. a sofística se concluiu e tornou-se verdadeira. . para usar uma expressão hegeliana. pp. com Sócrates. 1 Sofisli. 1.interior do horizonte da sofistica: e esta foi a contribuição que Sócrates soube dar. alto. como agora veremos de modo claro. Untersteiner.