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Diana Gabaldon - Outlander 3 - O Resgate No Mar 1 e 2

Diana Gabaldon - Outlander 3 - O Resgate No Mar 1 e 2

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  • CAPÍTULO 1 O banquete dos corvos
  • CAPÍTULO 2
  • CAPÍTULO 3
  • CAPÍTULO 4
  • CAPÍTULO 5
  • CAPÍTULO 6
  • CAPÍTULO 8
  • CAPÍTULO 9
  • CAPÍTULO 10
  • CAPÍTULO 11
  • CAPÍTULO 12
  • CAPÍTULO 13
  • CAPÍTULO 14
  • CAPÍTULO 15
  • CAPÍTULO 16 Willie
  • CAPÍTULO 18 RAÍZES
  • CAPÍTULO 19 PARA ROGAR A UM FANTASMA
  • CAPÍTULO 20 DIAGNÓSTICO
  • CAPÍTULO 21 Q.E.D
  • CAPÍTULO 23 Craigh na Dun
  • CAPÍTULO 24 A. Malcolm, tipógrafo
  • CAPÍTULO 25 CASA DO PRAZER
  • CAPÍTULO 26
  • CAPÍTULO 27
  • CAPÍTULO 28
  • CAPÍTULO 29 A ÚLTIMA VÍTIMA DE CULLODEN
  • CAPÍTULO 30
  • CAPÍTULO 32 O regresso do filho pródigo
  • CAPÍTULO 33 Tesouro enterrado
  • CAPÍTULO 34 Papai
  • CAPÍTULO 35 Fuga do Éden
  • CAPÍTULO 36 Feitiçaria prática e aplicada
  • CAPÍTULO 37 O que há num nome
  • CAPÍTULO 38 Encontro com um advogado
  • CAPÍTULO 39
  • CAPÍTULO 40
  • CAPÍTULO 41
  • CAPÍTULO 42
  • CAPÍTULO 43
  • CAPÍTULO 44
  • CAPÍTULO 45
  • CAPÍTULO 46
  • CAPÍTULO 47
  • CAPÍTULO 48
  • CAPÍTULO 49 TERRA A VISTA!
  • CAPÍTULO 50 ENCONTRO COM UM SACERDOTE
  • CAPÍTULO 51 ONDE JAMIE SE ENCONTRA NO MOMENTO
  • CAPÍTULO 52 CELEBRANDO UM CASAMENTO
  • CAPÍTULO 53
  • CAPÍTULO 54 O PIRATA IMPETUOSO
  • CAPÍTULO 55 ISHMAEL
  • CAPÍTULO 56 SOPA DE TARTARUGA
  • CAPÍTULO 57
  • CAPÍTULO 58
  • CAPÍTULO 59 ONDE É MUITO REVELADO
  • CAPÍTULO 60
  • CAPÍTULO 61
  • CAPÍTULO 62
  • CAPÍTULO 63 DAS PROFUNDIDADES

O resgate no mar – Partes 1 e 2

PRÓLOGO

Quando eu era pequena nunca queria pisar em poças. Não porque temia molhar as meias ou pisar nos vermes afogados; era, em geral, uma criatura suja, com uma bem aventurada indiferença para qualquer tipo de limpeza. Era porque não acreditava que aquele espelho liso só era uma pequeno espaço de água sobre a terra sólida. Estava persuadida de que era uma porta para algum espaço insondável. As vezes, ao ver as pequenas ondas provocadas por minha proximidade, pensava que a poça era profunda, um mar sem fundo no que se ocultavam a preguiçosa espiral do tentáculo e o brilho da escama, com a ameaça de enormes corpos e dentes agudos à deriva, sem lentes, nas remotas profundidades. E então, baixando os olhos ao reflexo, via minha própria cara redonda e meu cabelo encaracolado numa extensão azul sem contornos, e pensava que a poça era a entrada a outro céu. Se pisava cairia de imediato e seguiria caindo, mais e mais, no espaço azul. Só tinha um momento em que ousava caminhar através de uma poça: era no anoitecer, quando assomavam as estrelas vespertinas. Se ao olhar na água eu ver ali um ponto luminoso, então podia pisar sem medo, pois se caía na poça e no espaço poderia me agarrar a essa estrela, ao passar, e estaria segura. Ainda agora, quando vejo uma poça em meu caminho, minha mente se detém (ainda que meus pés não o façam) e depois segue seu caminho, deixando atrás só o eco do pensamento: E se esta vez eu cair? A batalha e os amores dos homens

CAPÍTULO 1 O banquete dos corvos

l6 de abril de 1746

Estava morto. No entanto o nariz lhe palpitava dolorosamente, coisa que lhe era estranha, dadas as circunstâncias. Ainda que depositava uma considerável confiança no entendimento e a graça de seu Criador,sentia culpa pelo que todos tememos a possibilidade do inferno. Ainda assim, pelo que tinha ouvido falar sobre o inferno, parecia-lhe

improvável que os tormentos reservados para seus infortunados habitantes pudessem restringir-se a uma dor de nariz. Por outra parte, aquilo não podia ser o céu, tendo em conta várias coisas. Para começar, ele não o merecia. Também não tinha pinta de ser. E duvidava de que uma fratura de nariz estivesse incluso entre as recompensas para os abençoados, e não para os condenados. O quanto se tinha imaginado sempre o Purgatório como um lugar cinza, as vadias luzes avermelhadas que o ocultavam tudo lhe pareciam adequadas. Estava despejando um pouco na mente e voltava, com lentidão, sua faculdade de raciocínio. Bastante incomodado, disse a sí que alguém deveria atendê-lo e dizer-lhe exatamente qual era sua sentença, até que tivesse sofrido o suficiente para purificar-se e entrar, por fim, no Reino de Deus. Enquanto esperava, começou a fazer inventário de qualquer outro tormento que se lhe exigisse suportar. Tinha numerosos cortes, machucados aqui e lá; estava quase seguro de ter sido fraturado outra vez no dedo anular direito; era difícil protegê-lo pelo modo em que sobressaía, com a articulação paralisada. Mas nada disso era tão mau. O Que mais? Claire. O nome lhe apunhalou o coração com a dor mais atroz do que seu corpo tivesse suportado até então. Ignorava se as pessoas do Purgatório lhe permitiam rezar, mas igualmente o tentou. «Senhor», orou, «que ela esteja a salvo. Ela e o nosso filho.» Estava seguro de que Claire teria chegado ao círculo; com só dois meses de gravidez, ainda era rápida nas pernas... e teimosa como nenhuma outra mulher que conhecesse. Mas se tinha conseguido efetuar a perigosa transição ao lugar de que tinha vindo (deslizando-se precariamente pelos misteriosos estratos que jaziam entre o depois e o agora, indefesa no abraço da rocha), não o saberia jamais; o mero fato de pensá-lo bastou para fazer-lhe esquecer até o palpitar do nariz. Ao retomar o seu interrompido estado físico, afligiu-se mais do habitual ao descobrir que parecia faltar-lhe a perna esquerda. A sensação se cortava no quadril, com uma série de ferroadas que lhe faziam cócegas na articulação. Aquilo feriu sua vaidade. Ah, aí estava a coisa: um castigo destinado a curá-lo do pecado de vaidade. Apertou mentalmente as mandíbulas, decidido a aceitar o que viesse com força e com tanta humildade como pudesse. Ainda assim não pôde evitar alongar uma mão exploratoria (ou o que fora que estava usando como mão) para ver onde terminava agora o membro. A mão chocou com algo duro; os dedos se embaraçaram em um cabelo úmido e enredado. Incorporou-se bruscamente e, com algum esforço, rompeu a capa de sangue seco que lhe selava as pálpebras. A memória voltou numa enxurrada, fazendo-lhe rosnar em voz alta. Tinha-se equivocado. Estava no inferno, sim. Mas desgraçadamente James Fraser não estava morto, depois de tudo. Tinha o corpo de um homem cruzado sobre o seu. O peso morto lhe achatava a perna esquerda, o qual explicava a ausência de sensibilidade. A cabeça, pesada como uma bala de canhão, descansava de bruços sobre seu abdomem; o cabelo endurecido caía, escuro, sobre o lenço molhado de sua camisa. Incorporou-se bruscamente, preso do pânico; a cabeça rodou com dificuldade até o seu colo e um olho entreaberto olhou cegamente para acima, depois das protetoras mechas de cabelo.

Era Jack Randall; sua fina jaqueta vermelha de capitão estava tão escurecida pela umidade que parecia quase negra.Jamie fez um lerdo esforço por afastar-se ao cadáver, mas se descobriu assombrosamente fraco; sua mão se esticou debilmente contra o ombro de Randall; o cotovelo do outro braço cedeu de súbito quando tratou de apoiarse. Estava outra vez tombado de costas, com o céu cinza da nevasca vertiginosamente aglomerado no alto. A cabeça de Jack Randall se movia obscenamente em seu ventre, para acima e para baixo, ao compasso de seu esforço. Pressionou com as mãos o solo pantanoso (a água se elevou entre seus dedos, fria, empapando a parte posterior de sua camisa) e se retorceu para um lado. Enquanto se debatia no solo, lutando com os vincos enrugados de seu cobertor escocês, chegaram-lhe sons acima do uivar do vento de abril: gritos longínquos e gemidos, como um reclamo de fantasmas no vento. E acima de tudo, o barilho grasnido dos corvos. Dúzias de corvos, a julgar pelo ruído. Aquilo era estranho, pensou difusamente. As aves não voam com semelhante tormenta. Com um esforço final, conseguiu liberar o cobertor de seu corpo e se cobriu com ele. Ao esticar-se para cobrir as pernas viu que tinha a saia e a perna esquerda empapadas de sangue. O espetáculo não o afligiu; oferecia um mal vago interesse pelo contraste das manchas de cor vermelha escuro contra o verde acizentado do marasmo que o rodeava. Os ecos da batalha se esfumaram de seus ouvidos e abandonou o campo de Culloden entre o reclamo dos corvos. Acordou muito depois ao ouvir chamar o seu nome: —Fraser!Jamie Fraser! Está aqui? «Não», pensou aturdido. «Não estou.» Onde quer que tivesse estado durante sua inconsciência, era um lugar melhor do que aquele. Jazia num pequeno declive, meio encharcado de água. —Eu o vi descer por aqui. Cercado de um grande matagal de aliagas. —A voz soava longe, apagando-se enquanto discutia com alguém. Teve um sussurro em ouvido. Ao girar a cabeça viu o corvo na grama, a trinta centímetros de distância: um borrão de plumas negras agitadas pelo vento, que o olhava com um olho brilhante. Como se decidisse que ele não representava ameaça alguma, moveu o pescoço com desenvoltura e afundou o bico afiado e gordo no olho de Jack Randall. Jamie se agitou com um grito de asco que pôs o corvo em fuga dando grasnidos de alarme. —Sim!Por ali! Um chapeado no solo pantanoso, uma cara ante ele, e a bem-vinda sensação de uma mão no ombro. —Está vivo! Vem, MacDonald! Vem, me dê uma mão. Não poderá caminhar sozinho. Eram quatro. Levantaram ele com bastante esforço; seus braços pendiam, inertes, sobre os ombros de Ewan Cameron e Iain Mac-Kinnon. Teria preferido dizer-lhes que o deixassem; ao acordar tinha recordado sua intenção de morrer. Mas a doçura daquela companhia era irresistível. O descanso tinha devolvido a sensação de sua perna dormente, fazendo-lhe

compreender a gravidade da ferida. De qualquer modo morreria cedo; graças a Deus, não teria que o fazer só, na escuridão. —Água? —Notou a borda da xícara nos lábios. Incorporou-se o suficiente para beber, com cuidado de não derramar a água. Uma mão lhe oprimiu a testa durante um segundo e se retirou sem comentários. Estava ardendo; quando fechava os olhos podia sentir as chamas por trás deles. Os arrepios acordavam os demônios que dormiam em sua perna. Murtagh. Tinha uma sensação horrível com respeito a seu padrinho, mas nenhuma recordação que lhe desse forma. Murtagh tinha morrido; sabia que assim foi, mas ignorava como ou por que o sabia. A metade do exército das Terras Altas tinha morrido, massacrado; ao menos, isso deduzia pelo que conversavam os homens no estábulo, ainda que por sua vez não recordava a batalha. Não era a primeira vez que combatia com um exército e sabia que essa perda de memória não era estranha entre os soldados, ainda que nunca a tivesse experimentado pessoalmente. —Tudo vai bem, Jamie? —Ewan, ao seu lado, incorporou-se sobre um cotovelo, pálida a cara preocupada à luz da aurora. Uma bandagem manchado de sangue lhe rodeava a cabeça; tinha marcas enferrujadas na gola da camisa, pelo atrito de uma bala no couro cabeludo. —Sim, eu me arranjo. —lançou uma mão para tocar Ewan no ombro, em sinal de gratidão. Ewan lhe deu umas palmadas e voltou acostar-se. Quatro dos homens falavam baixinho ao lado da única janela. —Tratar de correr? —disse um, assinalando para fora com uma cabeçada—. Por Deus, homem, o que melhor está mal pode andar. E seis de nós não estão em condições de dar um passo. —Se podes fugir, faça —disse um homem do fundo. Assinalou com uma careta sua própria perna, envolvida nos restos de uma colcha maltrapilha — Não fique por nós. Duncan MacDonald se afastou da janela com um sorriso lúgubre, mexendo a cabeça. A luz da janela recortava os rasgos rudes de seu rosto, acentuando as rugas da fadiga. —Não, esperaremos —disse — Para começar, os ingleses multiplicam-se como piolhos por aqui; da janela se vê em bandos. Neste momento ninguém poderia escapar inteiro de Drumossie. —Nem sequer os que fugiram ontem do campo de batalha poderão chegar longe —interveio MacKinnon com suavidade — Não ouviu as tropas inglesas que passavam pela noite, a marcha forçada? Acredita que lhes custariam muito derrubar o nosso miserável grupo? Ante isso não teve resposta; todos a conheciam demasiado bem. Antes da batalha já eram muitos os escoceses que mal podiam manter-se em pé, debilitados como estavam pelo frio, a fadiga e a fome. Jamie voltou a cara à parede, rezando para que seus homens tivessem partido com tempo suficiente. Lallybroch estava muito longe; se conseguiam distanciar-se bastante de Culloden era improvável que os pegassem. No entanto, Claire lhe tinha dito que as tropas de Cumberland assolariam as Terras Altas, adentrando-se muito por sua sede de vingança.

Esta vez, ao pensar nela só sentiu uma onda de terrível nostalgia.Deus, tê-la aqui, sentir suas mãos curando minhas feridas, acolhendo-me a cabeça em seu colo! Mas ela se foi; estava a duzentos anos de distância... Graças ao Senhor! As lágrimas lhe gotejaram lentamente entre as pálpebras fechadas. «Senhor, que esteja a salvo», rezou. «Ela e o nosso filho.» A meia tarde, o ar se carregou subitamente de cheiro a queimado; entrava pela janela sem vidros, mais denso do que a fumaça de pólvora negra, picante, com um cheiro vagamente horrível, por sua lembrança a carne assada. —Estão queimando os mortos —disse MacDonald. No tempo todo que ficavam na cabana ele mal se tinha afastado de seu assento junto à janela. Ele mesmo parecia uma caveira, com o cabelo negro pelo carvão e amassado como a terra, recolhido para atrás para descobrir um rosto entre os que assomavam todos os ossos. Aqui e lá, no marasmo, soavam estalos leves. Disparos de pistola. Os tiros de graça, administrados pelos oficiais ingleses dotados de alguma compaixão, antes de que um pobre diabo vestido de tartán xadrez fosse jogado à pira, com seus camaradas mais afortunados. Quando Jamie levantou os olhos, Duncan MacDonald continuava sentado junto à janela, mas tinha os olhos fechados. A seu lado, Ewan Cameron se benzeu. —Queira Deus que nós recebamos a mesma misericórdia —sussurrou. Assim foi. Mal passado o meio dia da segunda jornada, uns pés calçados com botas se aproximaram à casa; a porta se abriu. —Por Deus. —Foi uma exclamação sufocada ante a cena que se via dentro da casa. A corrente de ar que entrou pela porta agitou o ar fedorento dos corpos, esfarrapados e cobertos de sangue, estendidos ou encurvados no solo de terra aplainada. Ninguém tinha mencionado a possibilidade de uma resistência armada; não tinham ânimos e seria inútil. Os jacobitas ficaram sentados, esperando conhecer a vontade do visitante. Era um comandante, limpo e reluzente com seu uniforme passado e suas botas lustradas. Depois de um momento de vacilação para vistoriar os habitantes, entrou seguido de perto por seu tenente. —Sou lorde Melton —disse olhando ao seu arredor, como se procurasse o líder daqueles homens, a quem seria mais correto dirigir seus comentários. Duncan MacDonald, depois de devolver-lhe a olhada, levantou-se com lentidão e inclinou a cabeça. —Duncan MacDonald, de Glen Richie —disse—. E os outros —fizeram um aceno com a mão —, que faziam parte das forças de Sua Majestade, o rei Jacobo. —Isso eu imaginava —disse o inglês seco. Era jovem, de uns trinta anos, mas tinha o porte e a segurança de um militar avezado. Olhou deliberadamente aos homens, de um a um; depois afundou a mão em sua jaqueta para pegar um papel enrolado — Aqui tenho uma ordem de Sua Excelencia, o duque de Cumberlad —disse— Autorizando a execução imediata de qualquer homem que tenha participado da traidora rebelião que acaba de terminar. —Percorreu uma vez mais com a vista aos confíns da cabana — Há aqui algum que se proclame inocente da traição?

Teve um levíssimo seguro de riso entre os escoceses. Inocentes, com a fumaça da batalha ainda enegrecendo-lhes a cara? Ali, à beira do matadouro? —Não,milord —disse MacDonald com um ligeiro sorriso nos lábios—. Traidores, todos. Vai ter que nos enforcar, não? Melton contraiu a cara numa pequena careta de desgosto; depois voltou a sua impasividade. Era um homem leviano, de ossos finos, apesar que levava bem a autoridade. —Vamos fuzilar —disse— Voces tem uma hora para prepara-los. —Vacilando, olhou ao seu tenente, como se temesse parecer muito generoso ante o subordinado, mas continuou_: Se algum de vocês deseja escrever uma carta, virá o escrevente de minha Companhia. Depois de saudar brevemente ao MacDonald com a cabeça, girou sobre seus calcanhares e se retirou. Foi uma hora lúgubre. Uns poucos aproveitaram do oferecimento de pluma e tinta. Outros oravam em silêncio ou se limitavam a esperar, sem levantar-se. MacDonald tinha implorado misericórdia para Giles McMar-tin e Frederick Murray, argumentando que mal tinham dezessete anos e que não podiam ser castigados igual aos seus maiores. A solicitação foi negada; os moços permaneciam sentados com as costas contra a parede, pálidos e tomados pelas mãos. Jamie sentiu um profundo pesar por eles... e pelos outros que estavam ali, amigos leais e soldados valentes. Por ele só experimentava alívio. Essa miséria física estava a ponto de terminar. Mais por salvar as formas que por necessidade, fechou os olhos para rezar o Ato de Contrição em francês, como sempre o fazia: «Mon Dieu, je regrette...» Mas não se arrependia de nada. Era demasiado tarde para arrependimentos. Perguntou se ao morrer se encontraria imediatamente com Claire. Ou talvez, como esperava, estaria condenado por um tempo à separação. Esquecendo a oração, começou a conjurar seu rosto depois das pálpebras: a curva da bochecha e a têmpora, essa frente larga e despejada que sempre o incitava a beijá-la, justo ali, nesse ponto suave entre as sobrancelhas, entre os claros olhos ambarinos. Mais tarde regressou Melton, desta vez seguido por seis soldados, além do tenente e o escrevente. Uma vez mais se deteve na soleira da porta, mas MacDonald se levantou antes de que pudesse dizer. —Eu serei o primeiro —disse. E cruzou a cabana com passo firme. No entanto, quando inclinou a cabeça para cruzar a porta, lorde Melton lhe apoiou uma mão na manga. —Me dê o seu nome completo, senhor? Meu empregado tomará nota. MacDonald deu uma olhada ao escrivente, com um sorriso amargo tratando de aparecer em sua boca. —Uma lista de troféus, não? Bem. —Encolheu-se de ombros erguendo as costas— Duncan William MacLeod MacDonald, de Glen Richie. —Fez uma cortês reverência a lorde Melton— A seu serviço... senhor. Cruzou a porta. Pouco depois se ouviu um disparo a curta distância.

Aos moços permitiu irem juntos, pegados com força nas mãos. Os demais foram tirados de um a um; a cada qual se perguntou o nome para que o escrivente pudesse registrá-lo. Quando chegou a vez de Ewan, Jamie esforçou-se para incorporar-se sobre os cotovelos e lhe estreitou a mão com tanta força como pôde. —Cedo voltaremos a nos ver —sussurrou. Ewan Cameron tremia a mão mas se limitou a sorrir. Depois se inclinou para beijar a mão de Jamie na boca e saiu. Ficavam os seis que não podiam caminhar. —James Alexander Malcolm MacKenzie Fraser —disse ele com lentidão para que o escrivente tivesse tempo de anotá-lo bem— Senhor de Broch Tuarach. —Soletrou com paciência; depois levantou os olhos para Melton. —Devo pedir milord, a cortesia de me ajudar a pôr-me em pé. Melton, em vez de responder-lhe, olhava-o fixamente; sua expressão de remoto desgosto tinha dado passo a uma mistura de assombro e de algo parecido ao horror. —Fraser? —repetiu— De Broch Tuarach? —Esse sou eu —confirmou Jamie com paciência. Não se daria um pouco de pressa aquele homem? Uma coisa era resignar-se a ser fuzilado e outra muito diferente era escutar matando aos teus amigos; aquilo não acalmava os nervos, precisamente. —Por todos os diabos —murmurou o inglês. Inclinou-se para olhar bem a Jamie, que jazia à sombra da parede. Depois fez uma sinal ao seu tenente. —Ajuda-me a levá-lo à luz —ordenou. Não o fizeram com suavidade; Jamie grunhiu durante o trajeto, que lhe provocou um raio de dor desde a perna esquerda até a coronilha. Aturdido, não escutou o que Melton lhe estava dizendo. — Voce é o jacobita que chamam de Jamie o Ruivo? —perguntou outra vez, com impaciência. Aquilo provocou um relâmpago de medo em Jamie; que se tomassem conhecimento de que era o conhecido Jamie o Ruivo não o fuzilariam. O levariam A Londres para julgá-lo, encadeado, como botim de guerra. Depois, com a corda do carrasco à jazer no cadafalso, até que lhe abrissem o ventre e lhe arrancassem as entranhas. Suas barrigas expeliu outro estrondo longo e ressonante; a elas também não lhe agradava a idéia. —Não —disse com tanta firmeza como pôde reunir — Vamos terminar de uma vez? Melton, sem prestar atenção, deixou ele cair sobre os joelhos para rasgar a gola da camisa. Depois pegou o Jamie pelo cabelo e lhe jogou a cabeça para atrás. —Maldição! —disse, fincando-lhe um dedo acima da clavícula. Ali tinha uma pequena cicatriz triangular, que parecia ser a causa da preocupação de seu interrogador. —James Fraser, de Broch Tuarach; cabelo ruivo e uma cicatriz de três centímetros no pescoço. —Melton lhe soltou o cabelo e se sentou sobre os calcanhares, esfregando o queixo com ar distraído. Depois, já tomada a decisão, voltou-se para o tenente e fez sinal com um gesto aos cinco homens que restavam na cabana.

—Levem os demais —ordenou. Tinha as loiras sobrancelhas unidas numa profunda ruga. Se ergueu ante Jamie enquanto levavam os outros prisioneiros escoceses. —Tenho que pensar —murmurou— Maldita seja tenho que pensar! —Faça se podes —disse Jamie— Por minha parte, preciso encostar-me. —Tinham o erguido e tinha as costas apoiadas na parede mais afastada e as pernas esticadas, mas aquela posição era mais do que podia suportar depois de ter estado dois dias estendido de costas. Inclinou-se para um lado para deslizar-se para o solo. Melton murmurava baixo e Jamie não chegou a distinguir as palavras; de todas formas, não lhe interessavam muito. Assim, sentado à luz do sol, tinha-se visto a perna com clareza pela primeira vez; estava quase seguro de que não viveria o suficiente para que o enforcassem. O vermelho intenso da inflamação se estendia desde a metade da coxa para acima, bem mais visível do que as manchas de sangue seco. A ferida em si estava purulenta; como já tinha diminuído o fedor dos outros homens, eralhe possível perceber o cheiro enjoativo do pus. De qualquer modo, uma rápida bala na cabeça parecia mil vezes preferível à dor e ao delírio da morte causada pela infecção. Adormeceu, com a terra fresca sob a bochecha ardente, fresca e reconfortante como o peito de uma mãe. Não estava realmente dormindo, senão sonolento pela febre, mas a voz de Melton em seu ouvido lhe despertou bruscamente. —Grey —disse a voz— John William Grey! Recordas esse nome? —Não —disse ele, desorientado pelo sonho e a febre— Olha,vai me matar ou não? Estou enfermo. —Perto de Carryarrick. —A voz de Melton o incitava com impaciência— Um jovenzinho, um moço loiro de uns dezesseis anos. Encontrou ele no bosque. Jamie olhou para o seu torturador. A febre lhe distorcia a visão, mas lhe pareceu ver algo vagamente familiar naquele rosto de finos ossos e olhos grandes, quase de menina. —Ah —disse resgatando uma cara de entre as torrentes imagens que se aglomerava erraticamente em seu cérebro— o mocinho que queria me matar. Sim, eu recordo. Fechou os olhos outra vez. Devido à febre, uma sensação parecia fundir-se com outra. Uma vez tinha quebrado o braço de John William Grey; a recordação do delicado osso sob sua mão se converteu no antebraço de Claire, ao arrancá-la entre as pedras. A brisa fresca e brumosa lhe acariciou a cara como os dedos de Claire. — Desperta, maldito sejas! — A cabeça lhe balançou sobre o pescoço. Melton o sacudia com impaciência.Escuta-me! Jamie abriu os olhos, fatigado. —Sim? —John William Grey é meu irmão —disse Melton—. Ele me falou de seu encontro contigo. Voce perdou-lhe a vida e ele te fez uma promessa. É verdadeiro? Com grande esforço, Jamie deixou seus pensamentos para trás. Tinha encontrado o menino dois dias antes da primeira batalha da rebelião, a vitória escocesa de Prestonpans. Os seis meses decorridos desde então pareciam um vasto abismo, pelas muitas coisas que tinham sucedido naquele tempo.

—Me Recordo, sim. Prometeu matar-me. Não me incomodaria que o fizesses por ele. Estavam caindo as pálpebras. Tinha que permanecer desperto para que o fuzilassem? —Disse que tinha uma dívida de honra contigo. E é verdadeiro. —Melton se levantou, sacudindo as joelheiras das calças de montar, e se voltou para o tenente que observava o interrogatório com evidente desconcerto. —Que situação desgraçada, Wallace. Este... este jacobita é famoso. Não ouviu falar de Jamie o Ruivo? A figura nos cartazes? O tenente assentiu, olhando com curiosidade a silhueta desalinhada que jazia sobre o pó, a seus pés. Melton sorriu com amargura. —Não, agora não parece tão perigoso, não é? Mas ainda assim é o Ruivo Jamie Fraser. A sua pessoa lhe causaria bons gozos, informando de que temos um prisioneiro tão ilustre. Ainda não acharam o Carlos Stuart, mas quantos jacobitas conhecidos serão igualmente gratos para as multidões de Tower Hill. —Devo enviar uma mensagem a seu respeito? —O tenente alongou a mão para a caixa das mensagens. — Não! – Melton virou de costas fulminando com o olhar seu prisioneiro – Aí está o problema! Apesar de ser excelente carne de prisão, esta ruína malcheirosa é também o homem que capturou o menor de meus irmãos, preto de Preston, e em vês de matá-lo, que ra o que ele merecia, lhe poupou a vida e o devolveu a seus companheiros. Desse modo – falou entre dentes – minha família contraiu uma maldita dívida de honra. - Meu deus – disse o tenente – Assim, não podeis entregá-lo a Sua Alteza, depois de tudo. -Não, maldito seja! Não posso sequer fuzilar a esse cretino sem faltar ao juramento de meu irmão! O prisioneiro abriu um olho. -Pode faltar com ele; não lhe direi nada – sugeriu. E voltou a fechá-lo rapidamente. -Cale-se! – Já tendo perdido completamente a calma, Melton chutou o prisioneiro, que lançou um gemido diante do impacto, porém não disse mais nada. -Poderíamos fuzilá-lo com um nome falso – sugeriu o tenente numa tentativa de ajudar. Lord Melton lançou ao seu assistente um olhar fulminante de desdém. Logo deu uma olhada pela janela para calcular a hora. -Dentro de três horas terá escurecido. Supervisionarei o enterro dos outros executados. Busca-me uma carroça pequena e cheia de feno. Consegue um carroceiro. Escolhe uma pessoa discreta, Wallace, e...subornável. Quero que esteja aqui com o veículo enquanto escurece. -Sim, senhor. Eh.... Senhor? Que faremos com o prisioneiro? – O tenente sinalizou com timidez o corpo estendido no chão. - Carroça? – O prisioneiro mostrava sinais de vida. De fato, diante do estímulo da agitação havia conseguido apoiar-se sobre um cotovelo – Para onde me envias? Melton se virou diante da porta com um profundo olhar de desgosto. -És o senhor de Broch Tuarach, não? Bom, pois pra lá te envio. -Mas eu não quero ir para casa! Quero que me fuzile!

Os valentes escoceses que se tinham agrupado sob o estandarte de Carlos Stuart. —«William Chisholm Fraser.. Os jacobitas de Culloden. comandante. E mais cinco nomes. tenente. recolheu uma pasta da escrivaninha que continha toda a investigação que tinha feito desde que Claire e sua filha lhe pediram ajuda.» —Baixou os papéis. capitão.. quem as pegou voltando as páginas. Folheou lentamente o conteúdo. Onde diz «Oficiais». não? Brianna o olhou levantando uma sobrancelha.» —O Jovem Zorro —interrompeu Roger—. -Delira – disse o subordinado. deixando a Jamie Fraser muito só.. —Lê este encabeçamento —disse Roger—. George D'Amerd Fra-ser Shaw. só para cair na ruína e na derrota contra o duque de Cumberland. Depois de esfregar a cara com uma mão.. olhando alternativamente a sua filha e a Roger Wakefíeld.» —Fez uma pausa para engulir saliva antes de ler o último nome—. atravessando Escócia como uma espada flamejante.Os ingleses se entreolharam. . -Duvido que sobreviva à viajem. O Levantamento de 1745. o Bonnie Prince. sua filha. «Oficiais» —leu ela em voz alta—: «Simón. Estava apoiada na parede revestida de cortiça. «James Alexander Malcolm Mackenzie Fraser. no páramo cinza de Culloden. e com vida.. A porta se fechou com firmeza atrás dos ingleses. com uma leve ruga entre as sobrancelhas ruivas. mas continuou com a leitura.. Capitão. porém ao menos sua morte não cairá sobre a minha consciência. como uma prisioneira que esperasse ao pelotão de fuzilamento. —Está bem. Duncan Joseph Fraser. SE INICIA A BUSCA CAPÍTULO 2 Invemess 2 de maio de 1968 — Claro que morreu! —A voz de Claire soava áspera pela agitação e retumbava com força no estudo médio esvaziamento. —Toma —disse retirando várias páginas juntas.— Roger se sentia terrivelmente cansado. filho de Lovat. Estendeu as folhas a Claire. O filho de Lovat. Bayard Murray Fraser. tenente. —Não creio. A arcaica escritura parecia estranha na nitidez do xerox — Aqui tem o contra-cheque do regimento de Lovat. três semanas atrás. mas foi Brianna. Melton assentiu. produzindo ecos entre as prateleiras cheias de livros revirados. um pouco pálida— Meu pai.

—Sim — disse a Roger— Sei que foi a Culloden. que tremeluzia debilmente na enorme janela. combatendo. disse que preferia morrer em combate. no círculo de pedra.! E ele queria! Quase a metade do exército das Terras Altas tinha morrido em Culloden. que estavam com Carlos Stuart. mas. até chegar ao castelo de Beaufort. Mas Jamie Fraser. O resto foi sepultado no limite do parque agregado. —Pronunciar o nome em voz alta parecia comovê-la. olhando com severidade às duas mulheres acima do livro —. —Sabia que não eram muitas as possibilidades de escapar.. A mãe assentiu. titulado O príncipe do Urzal —. seus olhos ambarinos eram inquietantes..» Vê? —adicionou. Brianna lhe .. Jamie.. Agora bem: sabemos que o homem da velha casa não pode ter sido o jovem Simón. caiu ocultando-lhe a cara. e marchou para o norte. pensava voltar ao campo de Culloden para resgatar os seus homens.. —Não —disse Roger com obstinação —. Inclinou-se para frente com os olhos fechados. seus nomes aparecem numa placa da igreja de Beauly. dezoito oficiais jacobitas feridos se refugiaram numa velha casa. perto do firmamento. limpa e inocente a superfície de manilha à luz do lustre — Voce achou seus nomes. recobrando-se um pouco. — E aqui estão! Só seis. Mas... apoiando os cotovelos na escrivaninha. Esse fragmento do livro de Linklater que eu li. por trás da escrivaninha. Por que? —Tirou outro papel da pasta para abanar quase triunfalmente— Porque todos eles morreram em Culloden! Os quatro foram executados no campo. Claire deixou escapar um longo suspiro.... de um azul escuro. —Disse que tinha intenção de regressar. sem ferida alguma. —Voltou-se para Roger. «Depois da batalha —leu—. denso e encaracolado. do regimento de Lovat escapou à matança. Ali penaram durante dois dias. Ao terminar esse período foram tirados para fora e fuzilados. Um homem chamado Fraser. —Seus olhos alentadores.. o cabelo castanho... Agora cabia a Brianna dar apoio a sua mãe.. perto daqui.. se fosse pego pelos ingleses. E sabemos que o fez. — Exibiu-se vagamente o brilho de Invemess. fechou os lábios com força. —Alongou a mão para um volume branco. estavam fixos na cara de Claire— Queria tirar os seus homens do campo e depois voltar à batalha. Ela também estava pálida. Um oficial do regimento de Lovat. _ O homem que escapou do estábulo de Leanach também não era um dos outros quatro oficiais: William. Essa era sua intenção. derrubados por uma rajada dos canhões e fogo dos mosquetes. não. George. Morreram tantos. Pegou as folhas do contra-cheque. —Jesus bendito —disse. Duncan nem Bayard.. Retirou-se do campo de batalha com um grupo de seus homens. porque é um personagem histórico muito conhecido e estamos bem inteirados do que lhe sucedeu. Quando me deixou ali.Claire se aproximou para estreitar o braço.. depois se instalou no velho cadeirão de couro. e escondeu a cabeça entre as mãos. com as feridas sem curar.. Pareciam olhos de falção. como se ela pudesse ver bem mais longe do que a maioria — Não posso crer que não morreu ali. — Apontou com a cabeça a pasta da escrivaninha..

. Cercou a Brianna para tocar-lhe o braço. e salvar a criança que ia nascer. Claire levantou bruscamente a cabeça. Se Jamie Fraser não morreu em Culloden. —Se não morreu. E três anos depois James Fraser. era curandeira. baixando a cabeça.. Nas Terras Altas tinha fome.. não tinha ninguém. —começou vacilando. Por Deus. Roger era muito consciente das duas presenças: a moça alta e trêmula que tinha entre os braços e a mulher da escrivaninha. com pequenas rugas visíveis arredor dos olhos —. — Claire o olhou diretamente aos olhos. isso sabemos. já não existe! Ante a veemência de sua mãe.longe da esposa e da filha por quem se tinha sacrificado.. primeiro. dos braços de Frank Randall. preocupada. por umas inconcebíveis estranhas circunstâncias. pela lonjura da recordação. seu segundo esposo. como o de seu pai. que provavelmente tinha perecido de alguma maneira horrível. —disse. Descansavam olhando sem ver a parede oriental do estudo.. Mas Roger era historiador. ficou pendurando junto à bochecha. passaram duzentos anos. Tinha a curiosidade insaciável e amoral do erudito demasiado potente para deixar-se restringir pela simples compaixão. Roger notou que estava contendo as lágrimas. o cabelo ruivo. Ele estava ferido. Claire seguia sentada ante a escrivaninha. Brianna deu um passo atrás. presa por bruxaria. ao sair do círculo de pedras para encontrar seu destino junto a James Fraser. Ainda se escapou. com certeza! —disse.. gestante. isso disquicia qualquer um. —Eh. Tenha morto em Culloden ou não. na atualidade era médica. seu primeiro esposo. pensou. num desesperado esforço por salvá-la.. e sua longa cabeleira ruiva cintilava à luz cálida do lustre. a serenidade tinha voltado a seus olhos dourados—. de ossos grandes. vinte anos antes. Era uma moça alta. —A voz se lhe rompeu ao dizê-lo. Sem dúvida alguma. que seu verdadeiro pai era um escocês que viveu nas Terras Altas duzentos anos atrás. o defunto pai adotivo de Roger. Voce não tem idéia do que foi aquilo. imóvel. —É provável que morresse muito pouco depois.pôs uma mão nas costas. pensou Roger. ainda coberta desde o chão até o teto de notas e memorandos deixados pelo reverendo Wakefield. Tinha viajado através das pedras. do iminente desastre que cedo sucederia. por aquele então. foi suspeita de espionagem. Ela o olhou tratando de sorrir e Roger a rodeou em seus braços. ninguém que o atendesse. Tinha uma explicação: se inteirar em tão pouco tempo de que. tinha enviado-a novamente através das pedras. segundo. Tinha a cara tensa. através do tempo. e terceiro. tão quieta e serena. Os dourados olhos de falção tinham agora uma cor mais suave. a mulher tinha passado por muitas coisas. arrebatada. —Morreu. —Suponho que sim —sussurrou.. O historiador pigarreou um pouco.. o homem ao que tinha amado e chamado «papai» toda sua vida não era seu pai. os homens que foram à batalha levavam vários dias sem comer.

Por trás da pergunta que tinha formulado estava a idéia que. montado numa bicicleta. Jamie Fraser tinha tido uma vida e uma morte. Sua vista permaneceu fixa em Brianna por um instante. talvez eu possa averiguar que lhe sucedeu.. Roger caminhava diante de mim. Ela passou longo momento sem falar. notando através da camisa a cálida respiração de Brianna. Quer que eu tente? Esperou.. aturdida como estava ainda pela impressão: já tinha cruzado duas vezes a barreira do tempo. tinha-se lançado pela ponte e esteve a ponto de atirar-me contra o balaústre. As tábuas da ponte soavam num eco sob nossos pés enquanto voltávamos ao casarão. por favor. E para Claire. homem! —gritou Roger apartando-me com destreza de um trabalhador que. Averigua. ela não tinha captado. E se Jamie Fraser não tinha morrido em Culloden. Me palpitava com força o coração a capa rígida do livro que eu levava apertado contra o peito. sem alento.. Era possível que o fizesse outra vez. Franca e Plena Revelação CAPÍTULO 3 Inverness 9 de maio de 1968 A ponte sobre o rio Ness tinha um denso trânsito para pedestres. Roger se sentia escuramente obrigado a averiguar toda a verdade. —Cuidado. Depois voltou à cara de Roger. muita gente voltava a sua casa para tomar o chá. . obviamente. —Sim —disse com um sussurro tão suave que mal pôde escutá-la—. Sim. as mulheres de Jamie mereciam saber tudo o possível sobre ele. Doíam-me os braços pelo peso dos livros que levava.—Se não morreu em Culloden —seguiu com firmeza—. Averigua. esse conhecimento era tudo o que poderia ter do pai ao que nunca tinha conhecido.. Viu que o pensamento chuviscava no âmbar turvo de seus olhos. Para Brianna. passava de um lado ao outro. Assim era cada vez que me detinha ao pensar no que estava fazendo. protegendo-me dos empurrões com seus largos ombros. Não estava segura de qual das duas alternativas era pior: descobrir que Jamie tinha morrido em Culloden ou descobrir que tinha sobrevivido.

—Roger me piscou um olho reconfortantemente e eu ri. mas também não esteve disposto a solucioná-lo. Contemplei a imponente pilha de livros que tínhamos trazido. —É muito amável em dar-se o trabalho. E sacudiu a cabeça para afastar o cabelo escuro dos olhos.—Perdão! —foi seu grito de desculpa. —Não é nada —disse. mas lhe escrevi com um lembrete do Balliol Co-llege e fiz uma sutil referencia ao senhor Cheesewright. Frank também não teria deixado passar aquela charada. faz apenas uma semana que lhe escrevi. o sol ainda estava alto naquela zona tão setentrional. Eu sabia como eram os historiadores. ele sim conhece o Linklater. deixeime cair no cadeirão. entornando os olhos para protegê-los do vento. dos oficiais jacobitas que estiveram no estábulo de Leianach depois de Culloden. sem utilizar as mãos. De novo no estudo do defunto reverendo Wakefield.» Roger estava pesquisando as estantes de estudo. Se não receber notícias suas até segunda-feira. . Só lhe disse que. —Sorriu. — Já sabe como são os historiadores: não podemos deixar passar uma charada. —Não. —Não.. enquanto a bicicleta ia em encontro a dois grupos escolares que voltavam para casa. — Fui muito circunspecto. mas não tinha sinais dela. se existia alguma. eu telefonarei. Por fim deixou cair a mão sobre uma pilha de livros na mesa próxima. tinha convivido com um durante vinte anos. me remetesse às fontes originais. —Não. meu antigo mentor. em mudança. —Conhece pessoalmente o Linklater? —perguntei apoiando os livros no quadril para aliviar o braço esquerdo. Apareceria Jamie em algum deles? E nesse caso. Eram os de Frank: uma exibição impressionante. junto a lareira. «É muito melhor esperar ver o que ele consegue descobrir . —Teve notícias do doutor Linklater? —perguntei enquanto descíamos pelo arco da ponte. meu pulso. revolto pelo vento. «Não me antencipando demais». seguia sendo inconstante. —Leu este? —perguntou pegando o volume titulado Os jacobitas. Roger e eu tínhamos passado a tarde numa Reunião para Conservação de Antigüidades e Brianna tinha ido ao escritório de Clãs das Terras Altas para fazer xerox de uma lista de documentos recopilados por Roger. Apesar de tarde. aliviada. De qualquer modo. não pude. Frank tinha morrido dois anos atrás e agora tinha chegado a mim vez e a de Brianna. E lhe pedi que. se existe alguma informação quanto ao sobrevivente daquela execução. Deteve-se esperando que eu o alcançasse — Sou curioso —adicionou com um ligeiro sorriso. para um estudo que eu estava realizando. Não se preocupe. enquanto Roger ia à cozinha a procura de um refrigerante. em procura de outras possibilidades. pelo que diziam os elogios impressos nas sobrecapas. aconselhei-me. Olhei para trás para ver se via a Brianna. Roger —disse elevando a voz para me ouvir acima do ruído da ponte e o rumor do rio. Enquanto minha respiração se acalmava. precisava de uma lista.. E o ciclista sacudiu a mão acima do ombro. depositei minha braçada de livros na mesa e. Roger sacudiu a cabeça. —Tomei um reconfortante gole de refrigerante e tossi— Não.

a foto da sobrecapa: Frank. sem olhar-me.... mas a recordação me fez apertar os punhos com fúria. —Sim.. Surpreendia-me horrorizada o quanto que ainda me doía aquela ferida. davam-me de comer e me traziam bebidas. O rubor tinha desaparecido. Até me fez visitar um psiquiatra. —Soltei um riso breve. —Desculpa —eu disse respirando fundo — Tua pergunta é normal. Não podia pensar e tratava de não sentir. Contemplava os livros de Frank. Achava que eu estava louca. Roger demorou um momento em replicar.. O pequeno hospital de Inverness tinha um cheiro estranho. fechando os olhos. nem sobre seus seguidores. Estendida na cama branca e limpa. Tinha os lábios pegajosos pelo refrigerante. o que gostaria de jantar?» —Não. —Roger fez uma pausa. A volta era bem mais aterrorizador do que minha expedição ao passado. ainda dói um pouco. eh. Deixei o copo na mesa. precisaria algo mais forte do que um refrigerante... —Não. o de. Os médicos e as enfermeiras me tratavam com amabilidade. Que pensas? Depois de três anos afastada de casa. Mas lambi antes de responder. aquele jovem terrível e fútil. Só me ocorreu que poderia saber se tinha aqui algo útil. querido. hum. Recordava uma e mais uma vez as últimas coisas que tinha visto antes de cruzar entre as pedras (o . Tinha-lhes dito meu nome..Depois de minha volta eu tinha negado determinadamente a olhar qualquer material relacionado com o passado de Escócia. no século XVIII. evitei tudo o que pude trazer-me à mente. mas em mim só tinha espaço para a pena e o terror. pois ali tinha protegido a capa da dúvida e incredulidade quanto a onde me encontrava e daí estava sucedendo. não era questão de entrar em seu escritório dizendo: «Oi.. Era inútil (a existência de Brianna era uma lembrança cotidiana). Ao princípio. —E depois? —Roger se voltou para mim. mantinha os dedos apertados sobre meu ventre vulnerável e os olhos fechados. junto ao meu cotovelo. —Não sei. mas não quis falar mais. mas ainda assim não podia ler aqueles livros referidos ao Bonnie Prince.. deixando-me ver só as linhas fortes e nítidas de seu perfil. —Claro! —respondi com aspereza—. além do mais. Voltou-se para os livros. — Teu. entre outras coisas. delgado. Depois se voltou. quero dizer — acrescentou precipitadamente— Lhe disse. moreno e aposto. Só que. —Compreendo. Agora sabia muito bem onde estava e tinha a certeza de que não tinha maneira de escapar. Se íamos seguir com o tema. Tinha o pescoço vermelho de vergonha. —Ele acreditou? —perguntou baixinho. teu marido. Jamie tinha morrido. Sabendo que Jamie tinha morrido. na realidade. Muito.de Jamie.. enfrentando à necessidade de viver sem ele. o rubor se acentuou em seus pómulos. não. como a desinfetante e algodão. sufocada pelo rubor. claro que não —murmurou Roger. tinha vivido com a esperança constante de escapar.. sorrindo à posteridade..? —Falhou sua voz. eu disse —continuei— Contei-lhe tudo: as pedras... apesar de que Frank estava especializado.. deixando só um eco de curiosidade nos olhos— O que pensou? respirei fundo. Frank. Tudo.

às vezes dormia. como se não estivesse seguro de que eu fora realmente Claire. e não era de estranhar. Me recostei nos travesseiros.. nem a espiritualidade de Alex nem a glacial arrogância de Jack. Jack e Alex Randall: feições nítidas e aristocráticas. Não tinha pensado em que dizer ao Frank se voltasse a vê-lo.— Pode me dizer o que aconteceu. —A minha mente desordenada. o último descanso antes da matança. apertava um polegar contra a base do outro. se olhasse muito tempo o novo ambiente que me rodeava. que tinha passado a noite ao volante para chegar até ali.Claire? Por um momento fiquei em alvo e me encolhi. bem? —perguntou depois de um minuto. ordenei meus pensamentos. esse lhe parecía o ponto mais importante. não queria falar disso. mas assenti. observando-o sem falar. Lhe diria que estava grávida e ele iria embora. o ramo de flores junto a minha cama. —Bom —eu disse— Me apaixonei por outro e me casei com ele. mas quando o vi ante a porta isso pareceu ficar claro. estava com olheiras e sem barbear. Com fadiga. sem que ninguém me dissesse. dormido sob um cobertor de fungos muito azuis. Ele sentou —vi em resposta à expressão de horror que lhe cruzou a cara. mas tinha certas obrigações com aquele homem. Seu rosto se pôs um pouco tenso. falando vacilante. na casa Culloden. No entanto. —Oi. ainda não. —Claire? —Aproximou-se à cama. com seu ardente contato na mão. um pequeno corte com forma de J. com o cenho franzido. —Voce está. Tinha estado casada com ele. e aos homens esfarrapados do exército das Terras Altas. Disimuladamente. Sua cara delgada parecia inteligente. Soube. . achando um pequeno consolo na ferida que tinha ali. escuro e escorrido. cabeça bem formada sob o cabelo abundante. Não me sentia culpada.páramo chuvoso e a cara de Jamie). — Não pude evitar. Devia ter permanecido algum tempo assim. obrigada sim. alisando o cabelo com uma mão.. Parecia com seus antepassados.. além da leve diferença de feições. Eu o via desconcertado. deixando-me só com minha última imagem do rosto de Jamie... Que Jamie tinha feito e ele pediu a minha: o último de seus contatos em minha carne. revia o morto no bosque. como se não estivesse acostumada a falar. dormindo nas valas lodosas. Frank estava ali. aquelas imagens se desvaneceriam. mas não me soltou a mão. pobre homem. bondosa e algo cansada. —Eu sei. —Minha voz soava rouca e rude. substituídas por coisas mundanas: as enfermeiras. em sua cara tinha uma diferença indefinivel com respeito a eles. Nele não existia a marca do medo nem da crueldade. e A Dougal MacKenzie. agonizando no solo de um desvão. Ele me pegou numa mão e eu a deixei. Por fim abri os olhos. —Respirou fundo e deixou escapar o ar. sonhando com os últimos dias do Levantamento Jacobita. no vão da porta. sabendo que. Frank.. Eu também não estava segura. Me disseram. —Suponho que sim—disse. —Estou grávida.

Claire? —Levantou-se subitamente. ainda que eu tratava de retirá-la. depois delas. e me ergui na cama. Jamie. — Já te disse: cruzei uma pedra e acabei duzentos anos atrás. me apaixonei por ele e teria ficado ao seu lado se tivesse podido.— Quero que me diga onde esteve e o que tens feito. —Não se faça de palhaça. —Veja — eu disse—. E voltou a pegar-me a mão. entrei numa pedra fendida e terminei em 1743. —Me interrompí. mas não pude. fazendo uma careta. que tinha entrado e procurava o meu pulso. —Quem? Jack Randall. mas também algumas por Frank. afastando às enfermeiras. vai embora? Tinha mudado de cara. E era um pervertido. Já não parecia aborrecido. Jamie.. Frank — eu disse fatigada. Fiz o possível para voltar... por mim mesma e pelo filho que esperava.. Claire! —Pensa que é uma piada? —A idéia era tão absurda que me joguei a rir. erguendo-se junto à cama. de verdade. um médico com bata cruzou a porta.. Contra minha vontade. e. —Tive que me casar com Jamie Fraser para escapar de Jack Randall. engulindo com força. Quem era? . numa tentativa de me conter. mas depois. igual as enfermeiras. E agora é muito tarde. Mas ele me enviou de volta por causa de Culloden e pelo bebê. Frank piscou.— A verdade é que. E ali conheci o teu maldito antepassado Jack Randall. ainda que me sentia muito longe de tomar-me as coisas com humor. senão inquieto e algo desconcertado. Frank se inclinou para apertar o meu braço.. —passei a língua pelos lábios. Me Solta! —Incorporei-me na cama e soltei meu braço. —Estou te dizendo.— Não queria que passasse tudo isso.— Onde esteve..— Esse tal. estavam muito secos. Sentou-se junto à cama. Quase todas por Jamie. —Bom.Ele não esperava isso.. Ouvi passos que vinham pelo corredor. e vozes apressadas. Sorvi pelo nariz. —Chega! Deixei de rir. Simplesmente. —Eu sinto muito.. completamente desconcertado. Apertava-me a mão com tanta força que a retirei. o Black Jack.. —Escuta —disse entre dentes. Não o pude evitar. sem prestar atenção ao médico.. —Lembra que a última vez em que me viu eu ia ao círculo de pedras de Craigh na Dun? —Sim? —Olhava-me com uma mistura de raiva e desconfiança. —Não vou —disse com muita suavidade. Abriu a boca e voltou a fechá-la. as lágrimas se acumularam em meus olhos e começaram a rolar pelas bochechas. Frank. deviam de ter estado espreitando no corredor. Como por arte de magia duas enfermeiras apareceram na porta. nesse círculo. sujo e asqueroso! Frank tinha ficado boquiabierto.. —O que queres dizer? —perguntou com voz áspera. sei que não queres saber nada mais de mim e não te critico.

. Para eles. e entregou a Claire com um leve sorriso. é verdade que parece alterada. Claire.. —A avó de Fiona dizia sempre que o whisky é bom para todos os males. .. em Culloden. Neste momento parece estar um pouco alterada. chegou perto dele e se inclinou para murmurar algo ao ouvido. Roger se inclinou a garrafa. Mal senti a picada da agulha hipodérmica. Mas quero averiguar. Claire? Ao acariciar a minha mão tinha descoberto o anel de prata em meu dedo anular e se inclinou para examiná-lo. onde ainda tinha a aliança de ouro que Frank tinha me presenteado. senão a única reação possível ante um sofrimento insuportável. pois não dispunha das mãos. —Deveríamos deixar que a senhora Randall descansasse um pouco —sugeriu o médico—. Era o anel que Jamie me tinha dado no casamento: uma larga faixa de prata com o desenho entrecruzado das Terras Altas.. Arranquei a mão e protegi o punho sob o seio.. Frank nos olhou sem saber o que fazer. Frank e o médico trocaram olhares do quanto parecia que eu estava mal. coberto pela mão esquerda.. Não incomode a sua esposa justamente agora. não pode me tirar. gravadas nos elos.. —Não! —exclamei presa de pânico ao ver que Frank tratava de tirar do dedo.Respirei fundo e entrecortadamente. — Não. —Era um escocês das Terras Altas.. o único que ficava de Jamie Fraser. mas sequei com o ombro.. Inclinei-me um pouco para frente..mataram. Ouvi vagamente as palavras com que se despedia Frank: —Está bem.. firmemente conduzido para fora pelo médico. Claire. Não serviu de nada: estava chorando outra vez. Não vou permitir! É meu anel de casamento! —Olha. Para mim tinha acontecido mal dois dias antes. Culloden fazia parte de um passado remoto. O ma. —James Alexander Malcolm MacKenzie Fraser —disse espaçando as palavras com formalidade. as lágrimas não constituíam um calmante para a dor que me destroçava. pequenas flores de cardo estilizadas. —Ela pegou o copo e lhe devolveu o sorriso. Um momento depois Frank estava novamente em pé. mas vou investigar! Depois desceu a bendita escuridão e dormi sem sonhar durante muito tempo. tratando de envolver aquela pequena e imperceptível vida que tinha no ventre. O choque. Roger tomou um gole e se sentou ao seu lado. O médico interrompeu. —Bom. no estado como eu estava numa onda de pesar. enchendo o copo até a metade.. absorvendo sua bebida em silêncio.. naturalmente. O que é isto.. no dia de nosso casamento. Captei algumas palavras: —. tal como as tinha pronunciado Jamie a primeira vez que me disse seu nome completo. A idéia me trouxe novas lágrimas.. —Vi remédios piores. que ao passar fez um sinal a uma das enfermeiras.

compreendo —disse Roger com lentidão —. Britannia». de três meses. Um verdadeiro golpe para um homem tão dedicado à história e às genealogias. então ninguém diria que a criança não era sua. o filho de outro homem. O choro nervoso me acordou mais uma vez. que reiniciasse a vida que tinha começado a construir sem mim. A Boston. Tomou um grande gole do whisky. Ao descer o sol. —E ele não quis —disse Roger. não? —Sim. Mas Frank também não era um canalha. estava estendida de costas.. Sobretudo se sua visão da realidade parecia algo tênue —acrescentou risonha—. Tinha voltado à cama às seis e meia. essencialmente a criança seria filho de pai desconhecido. Se ele ignorava quem era esse homem (e se convenceu de que eu também não sabia. Ali nasceu Brianna. Uma lenta olhada ao relógio me revelou que eram sete horas.. Brianna agitou os punhosinhos rosados e gritou com mais força. Eu não —acrescentou com uma deixa de amargura. —Isso. depois de levantar-me cinco vezes pela noite para atender à menina. Seus olhos se desviaram até as estantes de livros. com os membros pesados pelo esgotamento. Claire lhe deu uma rápida olhada. nem podia crer em nada do que eu dissesse sobre Jamie. Com todas essas idéias dinásticas. Mas não sentia. Permaneci na cama. Mas o pranto subiu de tom e se converteu num grito.. começava a fazer frio no estudio. sabe? —disse ela baixando o copo—. Depois sorriu com ironia. Agachou-se para acender a antiga estufa elétrica.. Disse que só um canalha era capaz de abandonar uma mulher grávida e sem recursos. —Querida! Voce se virou sozinha! —Aterrorizada por sua audácia. — Mas como não sentia. acreditando ou não. que se fosse. Pelo banheiro surgia uma alegre canção: a voz de Frank se elevava em «Rule. gritando a pleno pulmão. Eu disse que compreenderia se seus sentimentos por mim tinham mudado. —Era um homem muito decente —concluiu com suavidade. apertando os olhos.. perguntando-me se teria forças necessárias para suportar o pranto até que Frank saísse do chuveiro e me trouxesse a Brianna. de que tinha inventado essas alucinações por efeito do choque traumático). fechando os olhos ao subir dos vapores alcoólicos—. Aturdida pela falta de sonho. que a fez lacrimejar um pouco. algo amaciados pelo whisky e as reminiscências. Cruzei pesadamente o corredor gelado até o quarto do nenê. —Os olhos de âmbar voltaram a olhá-lo. tinha um pouco de dinheiro de meu tio Lamb.? Isto é.— Por tua gravidez? —Adivinhou. Brianna.—Fiz para ele ir embora. sabia ou suspeitava que não podia ter filhos. Tinham-lhe oferecido um bom posto em Harvard onde ninguém nos conhecia. —Mas a verdade é que me levou longe. Ali estavam as obras históricas de seu marido. . —Talvez. Ainda mais. demorei um momento ao recordar que a tinha deixado de bruços. que me esquecesse... Eu não estava sem recursos. Ofereci o divórcio. acima do ruído da água corrente. E tomou um gole mais. com os lombos cintilantes à luz do lustre. e enxugou os olhos.

minha pequena pedra preciosa! Que menina tão inteligente! —O que foi? —Frank saiu do banho secando a cabeça e com uma segunda toalha envolta no quadril —. Ele também o notou. e saiu disparado para a cozinha. eu. levando a Bree apoiada no ombro. um pouco trémula. nós dois tínhamos estado nervosos: Frank. deixando ambas as toalhas feitas um vulto aos meus pés. A propósito: lembra que nesta noite virão jantar o reitor e sua esposa? A senhora Hinchcliffe traz um presente para Brianna. não deveria ter feito até o mês que vem. murmurando sobre a penugem ruiva que lhe cobria a cabeça. Então fui consciente de que era minha primeira risada em todo um ano. Mais ainda: era a primeira vez que eu ria com Frank. Eu segui lentamente. —Oh. Sorri. só tem de saquinho. —Ela deu a volta! Sozinha! —De verdade? —Refulgía de prazer—. alerta pelo fato de que ele estava quase nu. acomodando destramente a Brianna em meu quadril com um braço. —Bom. teria preferido lamber a água sanitária do que tomar chá de saquinhos. envolvido em seu pijama rosado. Brianna afundou o nariz sobre o meu peito em cima de minha bata vermelha. sendo inglês até os tutanos. Voltei-me para ele. Perto do nascimento. com gotas de água deslizando-se pelos ombros delgados e brilhando na pele morena e suave do peito. Algum problema com Brianna? Aproximou-se de nós com cara de preocupação. dá um beijo no papai por ser tão precoce. entre uma nuvem de vapor que surgia da cafeteira chamuscada. sorrindo. . Mas quando a enfermeira pegou a Brianna de seu berço e a entregou a Frank dizendo: «Aqui está a menina do papai». Menos de uma semana a menina já era sua. depois. posso tomar uma xícara de café no caminho para a universidade. Segundo o doutor Spock.Levantei ela depressa para dar-lhe palmadinhas nas costas. Frank fez uma careta. enquanto voltava ao aparador— Que droga acabou. —Que tam um chá? —sugeri. minha preciosa. pelo menos. irritado. o que sabe esse doutor Spock? Vem aqui. Eram de um suave cor avelã e nesse momento estavam cheios de ternura. aterrorizada. emitindo pequenos rosnados. seus olhos se encontraram com os meus acima da cabeça de Brianna. e deu um beijo na ponta do nariz. —Está bem —eu disse sem entusiasmo. Não é muito cedo para que ela faça isso? —Sim. em corpo e alma. Já tinha tratado com os Hinchcliffe e não estava muito desejosa de repetir a experiência. Brianna espirrou e nós dois rimos. sem nenhuma cerimônia. ao olhar o pequeno rostinho. —Não. ficou maravilhado. nu. Levantou o corpinho suavemente. Isso nos arrancou da bem-aventurança doméstica. perfeita como um pimpolho. ele ficou com a cara sem expressão. Estava de pé ante a pia da cozinha. Não tínhamos idéia do que podia suceder entre nós logo que nascesse o filho de Jamie Fraser. —O café! —Frank pôs a Bree em meus braços. Os dois perceberam simultaneamente o cheiro a queimado.

Como a minha gravidez foi dos que os ginecologistas denominam «de alto risco». Sempre passava a noite em casa e cuidava de não se apresentar com manchas de lápis labial no pescoço da camisa. então será uma malcriada. o calor de seu corpo nu me inquietava. já que eu era novamente sua esposa? . Até essa manhã também não tinha tratado de beijar-me. Ao detectar um começo de excitação sexual. Nas festas. —Não. Desde minha volta não tinha visto Frank nu. depois se inclinou para frente e me deu um beijo na bochecha. Eu podia fazer. ficam malcriados. —Adeus —murmurei sem olhá-lo. era delgado. Sabia que Frank não tinha sido fiel desde meu desaparecimento. a curva de sua cabeça reproduzia a de meu peito. as mulheres se aglomeravam ao seu arredor como abelhas em torno do mel. pois se vestia sempre no banho ou no closet.. o médico me tinha assegurado que podia retomar «as relações» com meu esposo quando quisesse.. Ao que parece... Quer que eu traga algo para te poupar de sair? Dei-lhe um breve sorriso. Agora que tinha intenções de lançar-se afundo. com uma piscada e uma palmada no traseiro. —Adeus.. Eu também o correspondi. Mas ele tinha sido discreto. Frank suspirou sem insistir. —Bom. com a cabeça no espaço de meu braço. A senhora Hinchcliffe também opinava que dar o peito era vulgar e anti-higiénico. moreno e musculoso. ainda no caso de que eu estivesse estado disposta. Ao afastar os olhos da menina descobri que ele estava me observando apaixonadamente. —Bom —disse incômodo — Voltarei antes das seis. —A senhora Hinchcliffe diz que não é conveniente alimentar um bebê cada vez que chora —observou Frank— Se não ensinar a respeitar os horários. posso me virar. inclinei a cabeça sobre a pequena para ocultar meu rubor. Ficou imóvel um momento. Ao que parece tinha certo direito. talvez não era meu dever. essa distância mínima já era excessiva para Frank. um homem muito charmoso. A menina era nosso interesse compartilhado. não? —repliquei com frieza e sem olhá-lo. com um olhar fixo na redondeza do meu seio semidescuberto. A boquinha rosada se fechou com força e Brianna começou a mamar com despreocupado apetite.. emitindo pequenos murmúrios de excitação sexual. A semana anterior. ele não pôde compartilhar minha cama. fisicamente ao menos. pude terminar de dar o peito a Brianna e tratar de pôr um pouco de ordem em meus próprios sentimentos. Como não voltou à cozinha antes de sair. mas mantendo a mínima distância.—Não pode ser que tem fome outra vez — Mamou não faz nem duas horas. Vacilou um momento enquanto eu acomodava a Bree em meu colo. um ponto através do qual podíamos contatar de imediato.mas não estava. —Está bem. Claire —disse suavemente— Até a noite. Ainda não chegava aos cinquenta anos.

dei uma olhada duvidosa no encaixe do pescoço. né? . Às quatro. —Tudo bem. O pesado sustento da mama me incomodava nas axilas e tinha os mamilos frios e rachados. onde o frio nevoeiro de fevereiro ameaçava filtrar sob o parapeito para devorar-nos—. não era a Frank quem eu procurava. liguei ao mercado que fazia entregas a domicílio e pedi o necessário para preparar o jantar. A cozinha parecia ter tido um assalto. mas os gritos continuavam. Irei esta tarde. tinha o traseiro quase em carne viva. pobrezinha. confiando que isso mantivesse fora do alcançe à senhora Hinchcliffe. Está ouvindo chorar? —Está bem. Quando eu acordava pela noite. Olhei para a janela. o frango jazia em sua pia. Sustentando à menina com um braço. —O homem da caldeira apareceu bruscamente. a caldeira morreu com ruído sibilante sob as tábuas do solo. Frank tinha comprado um vestido novo para Brianna. Era um bonito traje rosado. recheado e lambuzado. deixando manchas molhadas e pastosas em toda minha roupa. —A sua não é a única caldeira rompida da cidade. a intervalos vomitava. Não foi um bom dia. a semana que vem não pode ser —eu disse por telefone a oficina de reparos. senhora —disse uma voz resignada ao outro lado da linha—. Fechei violentamente um par de aparadores e. Mamava e alvoroçava alternativamente. Aqui dentro faz menos cinco graus e tenho uma menina de três meses. enfeitando a penugem ruiva de Brianna como pérolas e diamantes espalhados. rodeado de alho picado. com os armários abertos e todas as superfícies horizontais cheias de louças. limpando uma mancha de gordura da testa enrugada. entre as doze e as seis.— Me apoiei no ombro para dar palmadinhas. senhora —disse a voz com decisão. Apertando os dentes. Meia hora depois. eu também não podia. mas por agora terá calefação. —Bom. vamos provar —eu disse—. por fim. raminhos de alecrim e cascas de limão. Depois levantei à menina. comecei a preparar o jantar com a outra mão livre.Só existia um pequeno problema. quando adormecemos. Brianna tinha uma feia irritação devido aos cueiros.Jamie. acompanhada pelos gritos em minha orelha e os ruídos violentos que vinham do porão. senhora. Antes das onze eu já tinha mudado três vezes a blusa. Papai quer que esteja muito bonita. que naquele momento tinha a cor de uma beringela e cheirava notoriamente mau. se os bons modos não bastavam. Minhas lágrimas crepitavam na luz matinal. pude colocá-lo no forno e iniciar a tarefa de me vestir. Tratamos de não vomitar. Como Brianna não podia dormir mais de dez minutos seguidos. Não se podia criticar. Depois de jogar um jorro de limão sobre a pele untada de banha. —Não. No meio de minha laboriosa limpeza. tesouro. a porta da mesma cozinha. —Não lhe prometo nada. Pareciam um pouco ásperas mas também delicadas. —Entre as doze e as seis? Não pode indicar uma hora mais precisa? Tenho que ir ao mercado —protestei. —Jamie —sussurrei— Oh. nos acordou com uma estrondosa chegada o homem que vinha consertar a caldeira: bateu a porta sem se incomodar em deixar sua enorme chave inglesa. Tinha que a levantar continuamente.

baixei a cabeça e lhe fiz «Pufff» no umbigo. a minha. Era Frank. achei que o jogo velho estava um pouco surrado. . Voaram salpicos purpúro de Beaujolais e lascas de vidro cintilaram à luz da entrada. Atirei a garrafa quebrada entre as azaleias e saí correndo no meio do nevoeiro gelado. estava carregado de medo e dor. No extremo do caminho cruzei com os assombrados Hinchcliffe. mas já não tinha tempo para solucioná-lo. fui abrir. pegando a Brianna. no qual se retorceu de prazer. Oxalá que desfrutassem o jantar. ela jogou a cabeça para atrás com um grito penetrante. A essa altura já conhecia todos seus gritos e o que significavam. tão carregado de pacotes que não podia usar a chave. Não podia tomar uns minutos pára. depois se inclinou para me olhar. A não agradou a Brianna. Com uma só mão. sem casaco. —NÃO! —gritei batendo o chão com um pé. me perdoa! Mamãe sente muito! —Banhada em lágrimas. ? —Não —disse em voz bem alta. Deixei em seus braços a Brianna. Fizemos várias vezes antes de iniciar o penoso trabalho de colocá-la no vestido rosado. Mas esse era novo. com lágrimas escorrendo pela rosto. —O jantar já está pronto. Ao levantá-la vi uma longa linha vermelha no interior do braço que ela agitava. Pegou a garrafa com um sorriso. Tinha um buraco no calcanhar. No vestido tinha ficado um alfinete e eu acabei de abrir a pele ao subir-lhe com a manga.um pouco mais ou menos. voce está em casa o dia todo sem outra coisa pra fazer. Para dar-lhe gosto. —O que foi? —perguntei sobressaltada.. olhou com reprovação o meu cabelo desalinhado e minha blusa. nervosa pelo cansaço. — O que foi. querida? Trouxe uma toalha de mesa e guardanapos novos.querida? Agora gritava furiosamente. Peguei a garrafa de vinho de sua mão. recém manchada por um vômito de leite. mas foi o batente da porta que eu golpeei. para pôr rapidamente uma saia decente e uma blusa limpa. Agachou a cabeça. querida! Oh.. começou a se queixar quando eu passei o vestido pela cabeça. Balancei a garrafa com um gesto amplo. retirei o alfinete. O campanhia soou quando eu estava colocando os sapatos. Quando passei nos braços rechonchudos pelas mangas enchidas. provavelmente com a esperança de surpreender-me em alguma deficiência doméstica. Claire —disse—. aliviei-o da maior parte e amontoei tudo na mesa do hall. Meti os pés nuns ajustados sapatos de lagarto e.Ela piscou com uns gorgorejos tentadores. —Oh. Deixando de sorrir. —Não —repeti. —Por Deus. que chegavam com meia hora de antecipação. vacilando entre a fúria e a aflição. E aqui está o vinho. que choramingava outra vez. não pode se arrumar um pouco? Afinal de contas. Levei Brianna ao dormitório e me encostei em uma das duas cama.

—Olhei-o incapaz de me expressar adequadamente—.. —Oh. moveu-se. dirigiu-se para a porta. não mais do que eu..Fui sem rumo pelo nevoeiro. Isso se explica. até que ouvi os passos suaves do seguinte *adorador. acrescentei em silêncio. ainda não. O pai Beggs me pergunta por voce todas as semanas. vi uma silhueta na última fila. o que? —Por que isso da Adoração Perpétua? Nunca foi devota. Frank apontou com a cabeça ao novo adorador. Virei para trás. Senhor —sussurrei—. Tudo o que tinha sucedido durante o dia passava pela minha mente. tinha um lugar a ir. com raiva—.. saudando-me brevemente com a cabeça ao passar. Ele abriu a boca para dizer algo mais.. irlandês —replicou depreciativo—. Pouco depois se levantou e. depois se pôs em pé e saiu ao meu encontro. sem contar o carro do único devoto que estaria de turno àquela hora.. é algo que preciso fazer. Não é possível. Esse santo não existe. deixei de pensar. Ao aproximar. Por fim. com a calefação do carro a todo vapor. —Não saberia explicar. Sacudi a cabeça.. —San Finbar? —tinha dito Frank incrédulo—. que já estava ajoelhado. —O que fazes aqui? —susurrei.» Permaneci sentada. sem me mover.. —O que significa isto? —exclamei. Frank. Ainda. sim. peço a tua misericórdia a alma de teu servidor James. Vinham em cada hora. Tinha paz. Enquanto me dirigia para os fundos da capela. bom. era um homem corpulento. eh. como costumava me ocorrer ali. O Bendito Sacramento não devia ficar só.. Voce não vai a missas nem nada disso. dia e noite. Ajoelhei-me por trás dele. —Ah. Esperei que fechasse a porta da capela antes de girar para olhá-lo de frente. Simplesmente. Não queria voltar pra casa. por que? —Por que. Foi um bispo irlandês do século XII. Ali há. paz. depois de fazer uma meditação ante o altar. à sombra da estátua de Santo Antonio. num grande desencadeamento de idéias e sensações. Fechei os olhos escutando o silêncio. rumo à igreja de San Finbar. —Existe —eu disse presunção—. mas me deu as costas mexendo a cabeça.. O que não posso entender — acrescentou tentando agir com tato— é. Por que veio me procurar? . O estacionamento da igreja estava deserto. com uma capa de chuva amarelo. e me pegou pelo cotovelo para me guiar para fora. —«E a minha». que se aproximava pelo corredor. «E a minha. para o subúrbio onde vivíamos. Uma dessas cafeterias que estão abertas toda a noite? Então me dei conta de que era sexta-feira noite e de que era muito tarde. até que comecei a ficar sem gasolina.

anunciando o regresso de Brianna Randall. Em vez de me responder ou retirar-se. ele tirou o extrator da mão para deixá-lo na mesa. dando palmadinhas nas costas até que emitisse um arroto satisfeito. Mas parecia dormir profundamente. Lancei um gemido. Vêm. Enquanto eu levantava o vulto cálido e sonolento. mas notei ela um pouco inquieta. Por muito que eu falasse ou a sacudisse suavemente. —Assim que ele morreu? —perguntou com suavidade. —Começa a ter fome —sussurrei a Frank. Não mencionou os Hinchcliffe nem falou do jantar. assim dormirá até mais tarde. a velha senhora Munsing. que estivesse alerta caso chorasse. Ainda dormia. Vim para te levar pra casa. alonguei a mão para o extrator de leite. verdade? —Frank a cobriu com o cobertor decorado com coelhinhos amarelos. A porta principal do velha casarão se abriu com um chio de gonzos enferrujados. Nada mais. . Frank se deteve ao meu lado e pôs a sua mãe leve em meu ombro. feio e ridículo.. —Sim. —Vou te trazer algo quente. Demorarei só uns minutos. Dispensei Frank com um aceno. Ainda tinha o seio direito dolorosamente enchido de leite. que se tinha aproximado por trás e a olhava afetuosamente acima de meu ombro—. Limitei a assentir com a cabeça. —Sinalizou o estacionamento vazio. um artefato de borracha.. que faz frio aqui fora. Meu aborrecimento cedeu um pouco. Fechei os olhos e me deixei levar pela maré. Com um suspiro de resignação. Tinha tomado em um só peito. para levantar-me outra vez. —Esta noite não vai acordar. fixou suavemente os lábios em meu mamilo. —Anda. Depois. Será melhor de que eu lhe dê o peito antes de me deitar. inclinando a cabeça. saia. —Nos veremos em casa —eu disse. Mas me interrompi e fechei a boca. mecionei lentamente com os olhos fixos no berço escuro em sua pequena ocupante. havia um silencio no quarto. seguido pela respiração pesada da satisfação absoluta. «Te disse que sim». mas tenho que. sentindo a ardência quase dolorosa do leite que corria pelos pequenos condutos. atraído pelas vozes das moças. não acordou o suficiente para mamar do outro peito. Sua boca absorvia suavemente. E o que fizeste com Brianna? —Pedi a nossa vizinha.—Estava preocupado contigo. —Ah. Quando entrei para ver a Brianna. ele desapareceu pela porta da cozinha. —Sentei-me na cadeira. Pus uma mão na nuca para apertá-lo um pouco mais a mim. ia responder. —Com mais força —sussurrei. não se parecia em nada às implacáveis e duras gengivas de um bebê. Roger se levantou de imediato para sair do hall. mas estava com sono. física e mentalmente.— É perigoso que uma mulher ande só a esta hora por esta parte da cidade. assim que a coloquei no berço. onde seu grande Buick guardava protetoramente junto ao meu pequeno Ford. muito exausta.

Cozinheira! Primeiro me chamam de Sassenach. pelo que todos se sentiam impulsionados a aproximarse ao fulgor de sua aura. se comprou para esse velho vigarista de Wicklow. É isso o que precisamos? . Como se chamam os escoceses quando querem ser amáveis? —Prrreciosa —respondeu ele. teria podido sair de um manuscrito alumiado. Quer ver como preparo? —Sim. provavelmente. agora. simpática e um pouco gorda. rindo enquanto falava. no entanto. Teve sorte no escritório dos Clãs ou tens estado muito ocupada se fazendo de cozinheira? —Cozinheira? —Os olhos de Brianna se rasgaram em azuis triângulos divertidos—. farejando esperançosa para a cozinha—.Brianna parecia uma escultura medieval. As duas garotas riram.— Ah. talvez? Com uma leve surpresa. na primavera não se comem entranhas. um artigo encabeçado «Salto do Tonel». Ela não fazia nem dizia nada para sair-se do normal. mas antes quero o jantar. trouxe a canela. mas existe manteiga pior ou melhor? —Brianna estava entregando uns pacotes a Fiona. que lhe passava quase trinta centímetros. por sua seriedade e seus ossos fortes. o orgulho e algo mais: recordações. cozinheira. —Lendas? —estranhou-se Claire. Encontraste algo na biblioteca dos Clãs. pensou. não só a atraente estatura e o cabelo viking que tinha legado a sua filha. Existia nela certo atrativo quase magnético. boba. Fiona ria com a cabeça levantada para Brianna. Roger se deu conta de que Claire estava de pé ao seu lado. olhando acima do ombro de Roger —. —Oi—eu disse sorrindo —. era inegável que Brianna atraía à gente. tão real como se tivesse suportado um milênio sem mudanças. pensou que também Jamie Fraser teria tido. A mais interessante é esta. apesar de tudo. Olhava a sua filha com uma expressão que se misturavam o amor. Sassenach tonta! Comem-se no outono. —Eu sou uma Sassenach? —Brianna parecia encantada com o termo. —Claro. Com seu nariz longo e reto e a cabeleira refulgindo como ouro avermelhado sob o balão de vidro que pendia do teto. Bree? —Um montão de coisas —respondeu a moça remexendo nos xerox que tinha deixado na mesa do hall. Era notável. Era um extrato de um certo livro sobre lendas das Terras Altas. Isso é o que me encarregaste de pedir e o fiz. Tirou uma folha do feixe e a entregou a Roger. senão também. Mas me agrada. era bonita. esta será das piores. —Bom. — Me arrumei para ler a maior parte enquanto tiravam as cópias. arrastando exageradamente os erres à maneira escocesa. —Parece um terrier enfadado —comentou Claire—.—Meio quilo da melhor manteiga. Que temos para o jantar? Assados? —Assados! Por Deus. diga ele o que disser — interrompeu Fiona. Estou morta de fome! —Brianna se pôs de pé. ótimo! Então vou fazer pãozinhos de canela. A miúda escocesa tinha dezenove anos. a mesma presença física. ao seu lado. quando se matam as ovelhas.

Bree. —Por que isto? Sabemos. regressou dificultosamente a sua casa. Claire colocou o cabelo atrás da orelha e inclinou a cabeça para ler. O entusiasmo fazia que lhe brilhassem os olhos — Era como o teu. um dos poucos afortunados que conseguiu escapar do desastre de Culloden. «Esta estranha formação. mas não foi o único. A moça suavizou a expressão ao olhar a sua mãe. O senhor. situada a certa distância de um ribeiro. Com freqüência. O que faz pensar que este senhor pôde ter sido Jamie? —O Gorropardo. porque podiam reconhecê-lo por seu cabelo ruivo. emudecido.. a maior parte da história é oral. Isso significa que não se distinguia entre os relatos baseados em personagens históricos e os contos sobre coisas míticas. como se a pergunta a surpreendesse. o menino foi atacado por um dos dragões e deixou cair o tonel. que baixou quicando pela empinada colina. —O que? —Roger a olhou intrigado —.. Certo dia. até a ribeiro abaixo. —Gorropardo! —repetiu impaciente—.. pois estava lendo a página por cima . imagino —respondeu Brianna. Brianna mexeu numa mecha de seu denso cabelo ruivo e o sacudiu sob o nariz do historiador. encontrou-se na trilha com um grupo de dragões ingleses.—Poderia ser —respondeu com ar distraído. certo? Usava constantemente um gorro. outras vezes se podia notar que o descrito era um fato histórico. Ao negar valorosamente a responder às perguntas dos soldados e a entregar seu ônus. Pelo que se refere às Terras Altas de Escócia. um menino que levava um tonel de cerveja para o senhor. mas se viu obrigado a permanecer quase sete anos oculto numa gruta de suas terras. — Alongou uma mão para acariciar suavemente a cabeleira de Brianna. olhando a sua filha com uma sobrancelha levantada. Tinha que esconder a cabeça! Roger a olhou fixamente. Um gorro de cor castanho claro. mais ou menos até mediados do século XIX. ou acreditamos saber —corrigiu com uma irônica inclinação de cabeça dirigida a Roger— que Jamie escapou de Culloden. denomina-se assim por um senhor jacobita e seu servente. Explica como se originou o nome de certa formação rochosa das Terras Altas. —Pode estar certo —reconheceu Claire. »Isto. as vezes era uma combinação de mito e realidade. como cavalos aquáticos. . Jamie tinha o cabelo igual ao teu. por exemplo —passou o papel a Claire— parece um fato real. —«Salto do Tonel» —leu Claire—. O que pensa como Gorropardo? Ao modo de resposta. os eruditos que tomavam notas dos relatos não sabiam com certeza de que estavam falando. enquanto os ingleses percorriam as Terras Altas em procura dos fugitivos partidários de Carlos Stuart. Não diz que os ingleses o chamavam «Jamie o Ruivo»? Sabiam que era ruivo. fantasmas e façanhas do Povo Antigo. vesgueando à luz escassa do teto.» Levantou os olhos do papel. Os arrendatários do senhor guardaram lealmente o segredo de sua presença e lhe levavam comida e provisões ao seu esconderijo. Sempre tinham cuidado em referir-se ao fugitivo chamando-o só de "O Gorropardo".

. —O que foi? —Roger se deteve no hall. —Roger falou com energia para dispersar a sombra que nublava os olhos de Brianna—. Lallybroch. —Não sei. ao menos. enquanto seguiam a Claire para o refeitório. — Voce disse que tinha sido um proscrito. Via-o ali. Se localizarmos no mapa o Salto do Tonel. —Vê? É tão pequena que não aparece na maioria dos mapas. aqui está a aldeia de Broch Mordha. Como acha que foi aquilo para ele? Passar sete anos numa gruta.. Por isso voltei tão tarde. fiz que o empregado tirasse todos os mapas das Terras Altas que tinham ali. com um brilho suspeito nos olhos.. — Vê? Voltou a sua fazenda. e ali se escondeu.—Sei —disse— Não deixava de pensar enquanto lia. Até aqui. Me ocorreu que devia saber muito bem como esconder-se.. querida —disse— Mas talvez possamos averiguar.. Retirou outra folha fotocopiada. —Bom trabalho —disse Roger a Brianna. —Pensa que sou estúpida? —replicou Brianna desdenhosa— Já pensei. —Sim —disse suavemente. Minhas felicitações.. substituída por uma expressão ufana—. Roger se inclinou para depositar um leve beijo entre suas sobrancelhas.. Apoiou uma mão na cintura— Pode estar muito orgulhosa.. —Correto. escondido nos urzais. Se o procuravam para matá-lo —concluiu com suavidade. tratando de imaginar. E tocou as duas folhas de papel— Meu pai. —Ela se voltou a olhá-lo. estava pensando. —Em realidade nada. Claire lhe estreitou a mão. —Olhou a Brianna com um amplo sorriso —.. —Você tem o cabelo de teu pai.. —A sombra tinha desaparecido. se me dá tua palavra. Movido por um impulso. —moveu o dedo médio um centímetro para assinalar uma linha de letras microscópicas. que segundo mamãe está próximo de Lallybroch.— Só que. Justo aqui. alegra-me ver que tens o cérebro de tua mãe —disse sorrindo—. compreende? Interrompeu-se com um pigarreio como se tivesse engasgado com algo.. Creio que voce o encontrou. —Obrigado —replicou ela com um breve sorriso. E aqui. Fez um ótimo trabalho de dedução. Mas talvez possamos comprová-lo se trabalharmos um pouco mais. Mas a expressão pensativa voltou quase de imediato.. Me ocorreu. mas neste figurava.. com uma ruga visível entre as sobrancelhas ruivas. com o sol refletindo-se em seu cabelo. . Vamos celebrar tua descoberta com o jantar de Fiona. Imaginava vê-lo. —Não tenho uma lupa a mão —disse Roger dando as costas— estou disposto a crer que aí foi «Salto do Tonel». Brianna sorriu.

SEGUNDA PARTE Lallybroch .

Sentia iniciar uma mudança com o primeiro aroma da cozinha. atenuados pelo vento. —Cedo será um homem —tinha sido seu primeiro tema de conversa em setembro. De vez em quando era sabão de verdade. o que levava seu nome. com mais freqüência. Mas só ao concluir com o rito do barbeado é que se sentia completamente humano mais uma vez. Sempre pela noite. Mas isso podia esperar. —Não teve notícias de Ian? —Seu cunhado tinha sido preso pela quarta vez. Era melhor falar com Ian sobre a propriedade e com Jenny sobre os meninos. quando algum dos meninos levava a mensagem de que não tinha perigo. —Sim. tão forte e rico depois dos cheiros do lago. Havia aprendido a não falar antes de se barbear. Filtrava-se como uma sombra pela porta da cozinha.. então se iniciava a transformação. a política. e levado a Inverness sob a suspeita de se simpatizar com os jacobitas. pelo momento. onde lhe recebiam o sorriso de Ian ou o beijo de sua irmã. com o sabão. faziam descer os meninos para que saudassem o seu tio com abraços sonolentos e beijos úmidos. o seu primo Jared tinha enviado um pouco da França. Mas tocou o seu filho no ombro ao passar com um orgulho que desmentia suas palavras. Se parecia não ter perigo. antes de voltar cambaleando em suas camas. como que necessito outro desses seres para me preocupar —replicou azedamente sua irmã. três semanas antes.. . sinalizando com a cabeça ao filho maior de Jenny. as detenções e juízos em Londres e Edimburgo. algo coibido e muito consciente da dignidade de ser. o homem da casa. que tinha sete anos. o sebo irritava os olhos pela força da água. ele descia a casa para se barbear. A cumbuca de água quente e a navalha recém afiada já estavam o esperando na mesa. O menino. permanecia sentado à mesa. o páramo e a lenha. as palavras não surgiam facilmente depois de um mês de solidão. Tinha algo que pedir e escutar: sobre as patrulhas inglesas no distrito. caminhando com os passos suaves de uma raposa na escuridão.CAPÍTULO 4 O Gorropardo Lallybroch Novembro de 1752 Uma vez ao mês.

Uma das pragas de Adão.. tio. à morte.. à loucura. Mas. Enquanto se barbeava tinha visto. salpicada da chuva. Agora papai não está. pouco boquiabertos. —Nunca viram um homem se barbeando? —perguntou levantando uma sobrancelha. Para eles será difícil apresentar uma acusação de traição num menino. Subitamente. —Bom. proprietário titular da propriedade...— Mandei Fergus para que lhes mostrem a escritura de transferência e a constância de que Ian foi descadastrado por seu regimento. alongou a mão para a jarra de cerveja —. Fergus e o pequeno Jamie. É que nos alegramos muito de te ver outra vez e. ao próprio temperamento.. ele devia parecer um personagem de histórias. tem tanto cabelo na cara. —Depois de lançar um olhar ao seu filho. numa gruta úmida. O enviarão para casa quando entenderem que não é o senhor de Lallybroch e que nada conseguirão acusando-o. para os pequenos.. Sua voz era lúgubre. sair a caçar na escuridão. porque era francês. que o observavam com atenção. cada vez que aparecia nos tribunais. Em outubro falou com os meninos maiores: Fergus. barbudo e com o cabelo revirado.. —gaguejou um pouco. colocando ante ele um prato coberto. até certo ponto. Rabbie e Fergus trocaram olhares. Os ingleses tinham incendiado três plantações além do campo alto. A essa idade. voltando-se com ar indiferente para o espelho —. o filho da empregada e grande amigo de Fergus. depois de um mês. O homem nasce para sofrer e para se barbear. demonstrava que o título de Lallybroch tinha passado do James adulto ao menor.. e além disso. sem perguntas nem acusações formais. —Oh. servindo-lhe docinho de perdiz. a resposta correu por conta do pequeno Jamie. descer na bruma da noite. pelo canto do olho.. o francesinho que tinham o tirado de um bordel de Paris. mas encerrava com um acento de satisfação ao pensar na confusão da corte inglesa. até que os soldados estivessem bem longe do distrito... bom.. e ainda quando estava em casa não viamos sempre se barbeando.. e Rabbie MacNab. levando assim a Ian.. sujo. O jovem Joe Fraser tinha sido advertido por sua esposa.. Mas não o medo à solidão. Sua voz era serena mas se acentuou ama pequena ruga vertical entre suas sobrancelhas..Jenny sacudiu a cabeça. sim.. . Jamie se deu conta de que.. ser forajido e viver escondido no morro. a fascinada inveja de Rabbie MacNab. Arrancaram de seus lares a Hugh Kirby e A Geoff Murray para fuzilá-los em suas próprias casas. Viver só numa gruta.. —Não há por que de se preocupar—disse. —De Adão? —Fergus fez cara de confuso enquanto os outros fingiam ter alguma idéia do que Jamie dizia. Podiam entender o medo. podia parecer uma aventura fascinante. De Fergus ninguém esperava que soubesse tudo. O medo à captura. tio —disse ruborizando-se—. sim —disse. que viu quando chegaram os ingleses. burlava as tentativas da Coroa de apoderar-se da fazenda como propriedade de um traidor jacobita. ruborizou-se ainda mais—. e passou três semanas vivendo com Jamie na gruta. isto é. A escritura de transferência.

—Jamie meteu o lábio superior sob os dentes para raspar delicadamente embaixo do nariz —. Com grande firmeza.. mas o tênue focinho do lábio superior revelava crescimentos em outras partes. Faria falta uma mão muito firme. Ele ainda não tinha barba. que interromperam bruscamente os risos.. com o ruído do água ao cair era impossível ouvir nada. nem tinham bem cruzado as portas do jardim. —Mas isso é tudo para voce! —protestou ela—. graças a Deus.. os pelos começaram a crescer e a arder no queixo de Adão. o faria pela criança. as vezes. O céu estava coberto com pequenas nuvens. o queixo de Adão era tão limpinho como a de Eva. As senhoras também têm pelo ali e não se barbeiam. Eu já comi. cuja hospitalidade devia cobrir as necessidades. cortou um bom pedaço de carne e pôs o prato na frente dela. quando entrava na casa. Corria o mês de novembro.. E desde então o homem está condenado a barbear-se. ao menos —adicionou pensando. o frio se filtrava pela camisa delgada e as calças de montar que levava postos. — Terminou seu próprio queixo com um garboso movimento final e se inclinou teatralmente ante seu público. Jamie ouviu os passos de sua irmã no corredor. e o aroma penetrante das plantas molhadas disfarçava o cheiro dos animais. Sabia que eles guardavam a melhor comida para ele. pegou a colher e começou a comer. —E as senhoras? —perguntou Fergus. como também das famílias de Kirby e Murray.. Trazia a bandeja do jantar sobre seu ventre inchado. Se não comia por si mesma. era o mais abatido das caras que rodeavam a mesa. sorrindo-lhe. que se aproximava com o passo lento e bambaleante da gravidez avançada.—Ah. em algumas das coisas que tinha visto no bordel. Sua irmã vacilou um momento e. E os dois tinham o corpo tão suave como um recém nascido —acrescentou.. E se adiantou de pressa com a bandeja para pô-la na mesa. —Silêncio! —ordenou aos meninos. ambos assassinados. as viúvas e os órfãos de seus arrendatários deviam permanecer ali e a ele lhe correspondia fazer o possível por alimentá-los. obviamente. Atencioso ao rasto. —Ainda bem —observou seu tocaio —. não só dos seus e dos criados. Não chovia. No princípio. vendo que seu sobrinho dava uma olhada em Rabbie. —Mas e o outro pêlo? Por que? —quis saber Rabbie—. Era um prato apetitoso. sim. pelo bebê —disse inspirado. Ao menos até a primavera. —Mas quando o anjo da espada flamegou os expulsou do Edén. viu que a proeminente pomo de Adão subia e baixava na garganta de Fergus ao sentir o aroma. . —Senta ao meu lado —disse a Jenny pegando pelo braço para trazê-la suavemente até o banco posto junto a ele. —Não o suficiente. mas a lua cheia dava abundante luz. Isso sim: não teria necessidade de espelho —acrescentou entre um coro de risos. Cada vez que ele descia trazia toda a carne que conseguia conseguir: coelhos ou galos silvestres caçados com armadilha e alguns ovos de maçarico. Aí embaixo não se barbeou! O pequeno Jamie soltou uma risada aguda. geralmente. Ao dizer «senhoras» se quebrou a voz num graznido de rã que fez rir ainda mais aos outros dois—. era óbvio. Precisas mais. mas nunca era suficiente para aquela casa. outra vez corado. Seu olfato se tinha voltado quase penosamente agudo nos longos meses passados ao ar livre. os cheiros pareciam capazes de derrubá-lo. quando Deus criou o homem. com toucinho e carne de cabra. mal o notou.

o longo talho onde se misturavam força e delicadeza para abrir o couro entre as patas sem penetrar no saco que encerrava as entranhas. Dificilmente teria tido forças para perseguir a um veado adulto ferido. Com a segurança que lhe dava a prática. Tinha o arco na mão e uma flecha pronta. CAPÍTULO 5 NOS DÃO UM MENINO Três semanas depois ainda não tinhamos notícias de Ian. Só quando surgiram à vista as luzes de Lallybroch deixou. e a horta rendia muito pouco naquela época do ano. procurando refúgio nas páginas dos livros. pelo que Jamie se consumia de preocupação para saber como ia tudo na casa. Meteu as mãos na rês. agudos e negros acima das aliagas. Os veados já tinham desaparecido. com tantas bocas que alimentaram. cortou o pescoço do animal. em vez de deixá-lo a graça das raposas e dos texugos até que pudesse trazer ajuda para transportá-lo. dizendo apressadamente a oração de Gralloch que lhe tinha ensinado o velho John Murray. ainda que sua galhada já tinha pontas. na transformação de magia negra que convertia a um veado em carne.grunhindo pelo esforço. ébrio de sangue e influxo lunar. Meteu um ombro sob uma das patas e se incorporou com lentidão. E a massa ficou livre. Firmou o corpo. Jamie tirou a faca do cinto e se ajoelhou junto ao veado. quando o animal fugisse. Tinha caído num lugar livre. Mas ao sair a lua. por fim. Sentia-se um pouco mareado. Um talho acima. o brusco esforço de mover e estripar a rês. outro abaixo. Sua preocupação era tanta que se arriscou fazendo uma visita inesperada. profanando a intimidade quente e úmida.Girou com toda a lentidão possível para o lugar onde seus ouvidos lhe tinham indicado onde estava o veado. depois de uma mata de aliagas. enquanto se preparava para saudar a sua família. Com um pouco de sorte poderia carregá-lo sozinho. respirou fundo e deu um passo adiante. Cada vez lhe afetava mais a desorientação. felizmente se fincou justo por trás da paleta. Ali! O coração lhe subiu à garganta ao ver os cornos. depois de revisar suas armadilhas. que mente e corpo voltassem a unir-se. emergia. Depois. levantou o focinho pegajoso com uma mão e. Mas. que o manto de humanidade caísse sobre ele. que brilhava entre suas mãos ao luar. na forma estranhamente indefesa em que fazem os ungulados moribundos. teve a prudência de pôr o gorro tecido com uma tosca lã parda . o pai de Ian. e fez outro esforço para retirar o saco viscoso. como uma besta de sua guarida. com a outra. Poderia disparar uma só vez. Foi um disparo limpo. a fragmentação de si mesmo entre o dia e a noite. talvez. Era um animal pequeno. sucumbindo de imediato às sensações. impulsionado pela noite. Durante o dia era só uma criatura que escapava de sua úmida imobilidade mediante uma disciplinada e teimosa retirada pelas vias do pensamento e a meditação. até acomodar firmemente o peso nas costas. com as pernas tesas. Fergus levava vários dias sem ir à gruta. ao ar fresco para correr pelas colinas escuras e caçar sob as estrelas. desceu das colinas justo antes do crepúsculo.

com a dispensa em um lado. os arrendatários refugiados. estava precavido. —Onde estão todos? —perguntou. —Bom. mais de quarenta anos atrás—Quando? —Ontem pela manhã. a falta de comida e a presença de Jamie na gruta—. gritando como possuídos. por si só. Não foi inesperado. impedindo que se filtrasse para a gelada dispensa. —Por Deus! Quase me mata de susto! —Abriu os olhos. sentindo a casa deserta ao seu arredor. —Voce é um tesouro. —A senhora Coker tinha sido criada primeiro e caseira depois. batendo algo numa cumbuca amarela. e se foi aprazivelmente. Virgem Santa? Não te esperava dentro de uma semana. Faltava o alvoroço habitual dos meninos: os cinco de Jenny e os seis dos arrendatários.que lhe protegeria o cabelo de qualquer raio revelador do sol poente. escutando enquanto inalava os abrumadores aromas da casa. —Ainda está ali? A irmã sacudiu a cabeça. era melhor fazê-lo em Broch Mordha. em casa de sua irmã. estando as coisas como estão —abrangeu com uma careta a ausência de Ian. soltando-a na má vontade. Permaneceu imóvel. Eu disse ao seu filho que deviam velá-la aqui. —Não. de cor azul escuro como os dele. Reconfortado pelo barulho doméstico. —Faz dias que Fergus não sobe à colina. mas não dar certeza. . e tinha plena confiança na força de suas pernas para escapar se tivesse a má sorte de encontrar-se com uma patrulha inglesa. Sua estatura. o espreito dos ingleses. com o pai McMurtry orando junto a ela. Ao aproximar-se notou que a casa estava estranhamente silenciosa. estava preocupado —disse simplesmente. Jamie deu uma olhada reflexiva para a porta que levava para as habitações do serviço. —O que fazes aqui? Onde está a senhora Coker? A irmã soltou a colher com um grito sobressaltado. na casa. desde o casamento de seus pais. seguido por um tinido suave e regular. pálida. pobrezinha. —É? —Jamie se benzeu suavemente— Lamento. como queria. abriu a porta com cautela. As lebres dos urzais não podiam medir forças com Jamie Fraser. Tinha alguém ali: um leve rasgo. estava de pé na frente da mesa. não mencionando a Fergus e a Rabbie MacNab. aguçando todos os sentidos. se aproximou ao seu irmão para abraçá-lo. mas os Coker pensaram que. Jenny. podia provocar suspeitas. mas sem medo. surgia através da porta recoberta de pano que retinha o calor na cozinha. a senhora Coker morreu —respondeu acentuando a leve ruga entre suas sobrancelhas. que deixaram a muito tempo de se perseguirem pelos estábulos. Jamie. Em sua própria cama. e lhe fincou uma olhada penetrante—O que está fazendo aqui. só e grávida. —Jamie! —Apertou uma mão contra o peito e fechou os olhos. —Seu rosto estava recobrando a cor. Encontrava-se no hall. Deteve-se na porta da cozinha. Com um sorriso. o tanque ao outro e a parte principal da cozinha bem na frente.

será cevada fervida e carne em conserva. Sem ver. manchado por dentro por uma substância vermelha. tinha sido sua resposta. suponho. A Jenny iluminou os olhos. Só uma vez lhe tinha perguntado por Claire. —Se trouxe carne. para conseguir notícias suas. quando voltou de Culloden. —Arqueou as costas. afastando o rosto. —Ah —disse ele aparentando indiferença enquanto pegava um dos animais —. enquanto folheava o volume — Mas quando falta a metade das coisas necessárias. Poderia fazer-nos falta. as vezes encontro aqui algo que eu posso usar. «Não volte a mencionar o nome dela. —Depende do que tenhas trazido —replicou Jenny.Foram todos ali. um pouco consciente e quase morto de febre. Jamie? —Jenny o estava olhando. . cabeça de vento —disse a irmã afavelmente. esfregando a cintura. —E aqui venho eu. depois o secou. Um tonel de vinho podia engraxar as engrenagens para que liberassem a Ian ou. e seu ventre se projetou de uma maneira alarmante. Se não. a interromper tua paz —disse Jamie melancólico. Ele não perguntou para que. retirando coisas dos armários. Jenny deixou de mexer para olhá-lo. mas só tem um tonel no «buraco da cura» e não quero tocá-lo.— Senta enquanto sigo preparando o jantar. Ele se apertou contra a parede para dar-lhe espaço. Eu disse que não estava em condições de acompanhá-los —deu um sorriso amarelo. —Quanto falta? —perguntou carrancudo — Voce parece uma gaita: um toque e puf! —Sim? Ah se fosse tão fácil. coisa que o deixava um pouco envergonhado e intranqüilo. distraída. manda-me chamar à gruta —disse subitamente. do que surgia um vapor tênue. Teria podido jurar que as vezes acordava com o cheiro dela no corpo. —Ainda bem que tive sorte —disse ele. —Quando começar. a não ser fora de seus sonhos.— Mas em realidade precisava umas horas de paz e silêncio. e se deteve a mexer o grande caldeiro que pendia sobre o fogo. —Que tem para comer? —perguntou olfateando com ar esperançoso. Pegou uma xícara para medir a farinha e notou que na bolsa tinha muito pouca. —Claro que posso —respondeu sua irmã. Nunca se sabe com exatidão. Virou sua bolsa e deixou cair os três coelhos na mesa. sempre misturado com um fresco aroma a ervas verdes. Normalmente prepararia o molho com vinho. Para distração de ambos sinalizou o ventre de Jenny. a comeremos. «Se foi». ao menos. sentiu que ela levantara as sobrancelhas. um vulto inerme de pelagem cinza e orelhas caídas— E amoras —disse virando o conteúdo de seu gorro pardo.— Vou descer. Distraído. Claire me ensinou a lavar as facas em água fervendo antes de tocar os alimentos com eles.» Leal como sempre. Ignorava por que acabava de pronunciar seu nome. Moveu-se pesadamente pela cozinha. Jenny não fazia e ele também não. almiscarado e intenso. Mais de uma vez tinha ejaculado sua semente enquanto sonhava. —Por que fez isso. com ingleses ou sem eles.— Queres que eu vá? —Não.— Será em qualquer momento. inclinou-se para o caldeiro para submergir a faca no líquido fervente.

Não vê que posso me arranjar? —Com voce não se pode discutir —acusou.. —Me manda Fergus quando chegar o momento —repetiu. Jamie não pôde resistir a tentação de apoiar levemente a mão naquela curva monstruosa para perceber os poderosos pontapés do habitante. pronta para o docinho. —Olhando a seu irmão com o nariz franzido. Devo me preocupar também com o risco de te pegarem? —Por mim não se preocupe. Os soldados. ofegando e perdendo a trilha na escuridão. me envia Fergus. —Bom. Fergus subiu com custo até a gruta. Por que sua irmã lhe mandava Fergus a uma hora tão estranha? A resposta era óbvia: temia não estar em condições de enviar-lhe a mensagem à noite seguinte. —Não —replicou ela de imediato.. jogando-se o manto pelos ombros. pegou o prato com a banha. Ian não está aqui —apontou Jamie pegando um dos coelhos esfolados. Nele se percebia certa suspeita. impaciente por abandonar seu encerro. Fez tanto ruído entre as aliagas que Jamie o ouviu muito antes de que chegasse. Quando chegar o momento. Ela o olhou com exasperação e lhe afastou a mão com um golpe de colher. —Sim. —ouviu-se a voz do garoto depois dele. —Voce deve de ser o tonto mais teimoso da Escócia. Mas vou vir. muitas preocupações eu já tenho. Três dias depois. homem. Mas Jamie já o tinha deixado para trás e descia apressadamente para a casa. a carne pálida ficou aplanada. Um dos homens os viu ontem. com a casa cheia de gente. acampados cerca de Dunmaglas. —De pouco me serviria tê-lo aqui —sussurou ela— Já ocupou de sua parte faz nove meses. —Verei.Assim ficando por lá. —murmurou olhando a Fergus.. Sei me cuidar —assegurou sem olhá-la. desarticulou uma coxa e. seu estreito torso palpitava aceleradamente.. ao amanhecer. Todos seus instintos se negavam a voltar à gruta. —Pode se dizer que sim —disse dando-lhe umas palmadinhas no ventre enorme.. —Hum. mal o indispensável para alimentá-la. Pela rosto de seu irmão se estendeu um enorme sorriso. —Milord. ofegante e assustado—. Ian preso em Inverness e os ingleses rondando as janelas cada vez que me dou uma volta.—Para que? —Bom. fique na colina. com três rápidos golpes. —começou sem alento ao aparecer no extremo da trilha. Já tive seis filhos. milord. Jamie vacilava. — E pode se dizer que não. —Que soldados? —Jamie se deteve bruscamente. —Dragões ingleses. Milady me manda dizer que não abandone a gruta sob nenhum motivo. —Não acabei de dizer que não preciso? Por Deus.. —Malditos sejam.. se sabe se cuidar. —Fergus se sentou numa pedra para abanar-se. Com a destreza da prática. —Mas milord. Milord.. .

—Deu uma olhada ao horizonte. incômodo. claro que não! Jamie firmou uma mão no ombro de Fergus. Os meninos. cheio de água fria e roupa molhada. — Vem. —Está a ponto de ter o menino. milord! A mão apertou inexoravelmente. estavam reunidos na sala sob a vigilante olhada da senhora Kirby. a outra criada. pois Fergus respondeu a essa pergunta com evidente alívio. Maggie Ellen estava vermelha. indicavam que a única vaca restante precisava com urgência que a ordenhassem. Kitty estourou em histéricos soluços e sepultou a cara no ombro de sua irmã. No amanhecer não havia rastos do silêncio. A senhora Kirby se interrompeu um momento para permitir que todos o percebessem. —Oh. não? —Não. três frangos passaram correndo num plumoso alvoroço. recordou. os coelhos que tinha picado para Jenny. não é para tanto. —Ela ordenou que não me dissesses? A proibição de Jenny devia ter sido literal. Seus olhos. desviaram-se fugazmente para o teto. —Me diz a vedade —exigiu! —É verdade. que estava lendo a Bíblia. pálidos e úmidos como ostras cruas. . Jamie lhe acertou com a bota sob as costelas. Os ossos pareciam pequenos e frágeis sob seus dedos. perseguidos por Jehu. milord. Quando entrou no pátio. Em meia hora terá amanhecido. O caldeiro da colagem tinha ficado no pátio. Mary MacNab e Sukie. Em cima ouviu-se um gritos que pareceu prolongar-se indefinidamente. Jamie não pôde reprimir um sorriso. Uns gemidos lamuriante. no beiral das cabras. muito bem! —O caloroso tom da afirmação confirmou as suspeitas de Jamie. Quem tinha os olhos na cara podia ver que em Lallybroch estava acontecendo algo anormal. começou a falar com volubilidade. satisfeitos. na fileira de caras tensas. milord. Enquanto ajeitava o ombro dormente. salvo o dos soldados. —Sim. com o fogo apagado. o cahorro. revelaram-lhe que seus ocupantes teriam agradado receber um atendimento similar. antes de continuar com a leitura.—Como está minha irmã? —perguntou. depois voltaram a posar. depois da silhueta negra dos pinheiros. —Jamie afrouxou a mão e o garoto se levantou de um pulo. Os balidos irritantes. fazendo-o voar pelo ar. —Disse que eu não devia dizer-lhe nada. milord! —Ah. milord. seu irmão maior. —Por falta de comida como estamos —assegurou ao seu protegido—. bem. e que se fizesse me cortaria os testículo para ferver como nabos. mortalmente pálido depois de ouvir o grito. uma viúva severa. onde aparecia uma fina linha rosada. vamos. os moços maiores. como se estivessem estrangulando a alguém.

o enorme cachorro. levantando os olhos para o retrato: ele mesmo. deixou a Bíblia e foi ao celeiro. provavelmente. Ao fechar o livro viu a última anotação. Quando acabar o feno teria que matar à vaca. com muita mais dignidade. Brian Fraser e Ellen MacKenzie.teria evitado? Em cima chegou outro grito. Incapaz de permanecer sentado. Caitlin Maisri Murray. a diferença das . para descarregar a frustração de seu dono. teria se adiantado o parto de Jenny? Se tivessem tido suficiente comida. por favor. sob a supervisão de Mary MacNab. levou uma mão ao amplo seio. mas deixou que o livro se abrisse pela primeira página. palideceu. se ela não tivesse sido pele. afogando uma exclamação. No pátio tinha visto uma mula desconhecida. Jamie se inclinou para recolhê-la. nascida no dia 3 de dezembro de 1749. a observação. Jamie apertou o livro entre as mãos. Não tinha muitas vontades de fazêlo. com Willie e Bran. pois a mulher. irmão —sussurrou. A senhora Kirby. estava já em idade de prestar bastante ajuda. O jovem Jamie. Era tudo que corte. ainda que tinha aguda consciência de que não podia fazer nada para ajudar. uma breve anotação com o garrancho de seu pai. —Creio que vocês seriam mais úteis na cozinha —disse ele. Os meninos maiores foram. com Jenny. aos dois anos. —Ora por nós. Jamie pegou uma braçada de feno para levá-la à mula da parteira. Como sempre. Jamie se desfez em poucos instantes dos outros ocupantes da sala. A viúva Murray e suas filhas saíram para lavar roupa e os meninos menores. Ali tinha pouco o que fazer. A senhora Kirby se levantou para seguí-la. mas sem vacilar. depois mostrou os dentes à mulher. com seus dez anos. para ajudar com os animais. Uma vez deserta a casa. As anotações começavam com o casamento de seus pais. dizia. mais firmes e negros: «Casados por amor». Pelo visto. a ocupar-se do gado. para trancafiar os frangos. nascimentos e mortes da família. Seu aceno de cabeça enviou a Sukie para ali como se fosse uma folha no vento. onde se registravam os casamentos. Num espasmo de medo. que datava o nascimento de Willie dois meses depois. vacilou um momento. Se os soldados ingleses não tivessem chegado no dia 2 de dezembro. deixou cair a Bíblia. Procurando algo que fazer. Rabbie e Fergus eram suficientes para atender os poucos animais restantes. provavelmente obra de uma faca. Sentia que devia ficar na casa montando guarda. Depois de se benzer. tendo em conta o registo seguinte.—Senhora Kirby —disse Jamie— Calle. Um gemido prolongado no andar superior lhe fez olhar involuntariamente o Livro Sagrado. a parteira estava lá em cima. que aterrizou com um golpe surdo. vagou inquieto pela sala. ossos e o vulto do ventre. falecida no dia 3 de dezembro de 1749. tocando coisas. seu gesto não teve sucesso como sorriso mas algum efeito produziu. Arroubado pela pequena vitória. tal como Jenny tinha dito. com a Bíblia nas mãos. abaixo. —E se não tivesse morto? —disse suavemente ao quadro. com alívio. Jamie sorriu ao ver aquelas palavras. Os nomes e a data estavam escritos com a letra redonda de sua mãe.

não se deu conta disto. . a nova parteira. Depois do nascimento —prosseguiu perdendo as dúvidas no entusiasmo de sua dissertação —. Caramba. és um fiddle-ma-fyke! —Rabbie deu a seu amigo um forte empurrão. — Jamie contraiu a boca— Bom. Quando entrou no celeiro. afinal de contas? —Muito. Com sorte. mesmo ainda com as ervas que os meninos traziam. claro. —Com a placenta? —exclamou incrédulo — Deus meu! Jamie também sentia um pouco enojado com aquela exposição de conhecimentos médicos modernos. Com uma exclamação de surpresa. Fergus caiu pesadamente para trás. não tem importância —disse alterado. queres dizer? —Para dar à luz. Não quero que destrua o pouco feno que nos resta. Rabbie também parecia inclinado a participar da discussão. —Fergus sacudiu a roupa com gestos elegantes— Enquanto vivia em casa de Madame Elise. Suponho que comer placenta não é tão estranho. —Que eu seja camponês ou não. —Nada disso —ordenou—. milord. a parteira deve pôr uma faca sob a cama. perguntou:— O Que sabes sobre parteiras. tinha morrido durante a fome do ano seguinte a Culloden. Rabbie teve uma ânsia. os animais durariam até a primavera. Fergus o olhou alçando o nariz com muita dignidade. Fergus levantou os olhos. mas Jamie o pegou pelo pescoço da camisa. —Bom. a parteira deve preparar um chá com a placenta e dar para a mãe beber. para que o leite flua em abundância. Naturalmente. era de esperar que já tivesse experiência suficiente para saber o que fazia. que ria.— Eu não sou parteira. eu mesmo nasci ali! —Evidentemente. —O que significa isso de «camponesa»? Voce também é camponês. E um ovo consagrado com água bendita aos pés da cama para que a mulher possa expulsar o menino com facilidade. de boa reputação? —Perguntou disparando agressivamente a mandíbula — Não creio que a Madame deva estar em mãos de uma camponesa! —Como quer que eu saiba? —replicou Jamie irritado — Talvez eu devia me ocupar de contratar parteiras? — A senhora Martin. para cortar a dor. Levantou-se rapidamente para se jogar contra Rabbie. — Pôs Fergus em pé e. —Ela é uma boa parteira. como tantos outros. Olhou Fergus com gesto cenhoso. A senhora Innes. —É verdade —disse despreocupado—. muitas das damas foram postas no leito. sabia? E caracóis. Fergus ignorou o sarcasmo. para distraí-lo. sim —disse a Rabbie tratando de fingir desembaraço — Eles comem rãs.cabras. era bem mais jovem. Para dar à luz. sentado na borda do presépio. confio que tenhas de fato cuidadosas observações e que possa dizer como se devem fazer as coisas. —Não duvido —interpôs Jamie com secura—. a velha parteira que tinha assistido o nascimento a todos os Murray anteriores. —Não. a ela não lhe bastava o pasto de inverno das colinas.

Rabbie se dobrou sem fazer ruído. E uma daquelas sujas criaturas estavam posando no telhado. com os olhos dilatados numa expressão de intensa surpresa. Não é a parteira? Era a senhora Innes. A arma sacudiu e o corvo estourou numa nuvem de plumas negras.afastandose com loucos agitos.. —Voce é um bobo. mas preferiu reservar o comentário.! —começou. ante seus próprios olhos. Sem pensar direito.. Estava tão ridículo que para Jamie custou não rir. seus ásperos gritos se perderam rapidamente no ar de inverno.né? —Pensei que alguém teria que estar aqui. sacou a pistola do cinto e apoiou o cano no antebraço para apontar com cuidado. —Corvos —disse. fascinado pela conversa. senhor. Seus dois colegas se jogaram ao ar. —Rabbie. mas estou feliz —disse com suavidade. quem quer ser francês! Fergus girou em volta e disparou um rápido murro. —O que? —Jamie girou sobre seus calcanhares e levou automaticamente a mão à pistola que levava quando abandonava a gruta. que aparecia com a cabeça pela janela do andar superior. Três pequenas manchas negras que voavam sobre as matas mortas no semeado das batatas. com o loiro cabelo solto.Para seus botões ele mesmo se perguntou se eles demoraram muito em comer rãs e caracóis. —Cristo. que lhe atingiu na boca do estômago. tinha-se reposto a tempo para ver o tiro. —Voce acabou vindo. bom disparo. Interrompeu um grito do pequeno Jamie. tratando de olhar para o patío. Que aquelas aves da guerra e a matança chegassem numa casa durante um nascimento era o pior dos presságios. sim. em exceto também a sua preocupação por Jenny e a irritação que lhe provocavam as rixas dos moços. Ela fechou o olho e um leve sorriso lhe curvou os lábios. . —Não queria mencionar os corvos para o acaso da mulher comentar a Jenny. —Por que não deixa de. —Tudo está bem —gritou— Foi só um acidente. E abriu os olhos para dar uma olhada ao vulto envolto que tinha na dobra do braço — Quer vê-lo? —Ah. Jamie saiu do pátio e agitou a mão para tranqüilizá-la. —Sobe! —gritou ela sem dar muita atenção— O bebê nasceu e sua irmã quer ve-lo! Jenny abriu um olho. ainda impressionado. Ela parecia muito com uma pintura que ele tinha visto em França. Rabbie fingiu mais algumas ânsias. que até então tinha guardado silêncio. Mas não tinha nenhuma patrulha inglesa no pátio do estábulo—Que diabo acontece? Então ele viu. azul e levemente rasgado. é um homenzinho. Agora apontava a casa com o queixo — Olha. como o de Jamie. ainda que fosse para orar por voce —respondeu resmungão. senhor. sentindo arrepiar o cabelo da nuca. Talvez o ruído do disparo lhe fez temer algum problema. —Mon Dieu! —exclamou Fergus— C'est bem ça! —Sim.

recoberta por uma pelugem castanha dourada. que descansava sobre seu ombro. não com a de Kirby —observou Jamie. incômodo. —Sim. profundamente dormindo. retirando a ponta do cobertor que tampava o rosto. —Whisky? Não deveria beber cerveja com ovos batidos? —perguntou seu irmão. precisará que alguém o ajude.Com mãos experientes depois de ser tio durante anos. De qualquer modo —disse abrindo os olhos—. Jamie sorriu como resposta. isso imaginava que talvez. inerte como um presunto sem osso. reprimindo com dificuldade a imagem mental do que. Movido por uma obscura necessidade de proteger aquele ponto macio. dando suaves palmadas nas costas do bebê. teve que pigarrear para completar o pedido. mas a grossa boquinha se mantinha descontraída e aprazível. No ponto macio da coronilha palpitava visivelmente o pulso. te dei cerveja com ovos batidos? —Voce me deu coisas muito piores —disse ele sorrindo de orelha a orelha— Mas é verdade. Sua irmã ofegou e fechou os olhos. —Ah. também me deu whisky. —Peggy Murray já está arranjada — assegurou sua irmã— Na primavera se casará com Duncan Gibbons. Como faz para suportar essa mulher? Eu a estrangularia se a tivesse em minha casa todos os dias. não? —comentou dirigindo-se ao menino. comparar com um melão. a gente incomoda até onde se permite. era o alimento adequado para as recém mamães. as pestanas não eram visíveis na ruga profunda das pálpebras. O bebê tinha os olhos muito fechados. tão exposto. cansado e com a perna tão dolorida. — Whisky—ela assegurou com decisão — Quando estava doente. —O chamarei de Ian. Jamie pegou o pequeno embrulho e o acomodou contra seu corpo. Mas foi a mãe quem respondeu: —Sim. que formavam um ângulo agudo sobre a suave redondez das bochechas. mas se eu fosse Samuel Kettrick ficaria com a viúva de Murray. teria que acreditar. . —Mary MacNab me contou o que fizeste com a senhora Kirby —comentou Jenny tomando um trago — Que pena que eu perdi. No armário há whisky. segundo Fergus. Estou pensando mandar ao velho Kettrick. —A mão de Jenny se encostou na cabecinha arredondada. o de Broch Mordha. —Foi um trabalho duro. que se pareceria à mãe. Quer me trazer um copo? —Sua voz soava rouca. era um peso macio e reconfortante. jogando a cabeça para trás para que o whisky descesse por sua garganta. para o Jamie lhe parecia tremendamente frágil. —Que pena que não o fez. mas a parteira lhe tinha assegurado que era um menino são e vigoroso. —Colocou cuidadosamente o menino dormindo na cama e foi em procura da bebida — Já tem nome? — quis saber sinalizando ao bebê com a cabeça enquanto servia uma generosa quantidade de líquido ambarino. como seu pai. seria esse o único rasgo identificável. seu aspecto fez Jamie. efetivamente. O ano passado perdeu a sua esposa e a sua filha. A cabeça estava cheia de estranhos volumes e desviada para o lado. E eu não lhe permito muito. Seu corpinho. levantou uma vez mais o bebê e lhe cobriu a cabeça com o cobertor. Diz Mary que essa velha bruxa esteve a ponto de engulir a própria língua quando te ouviu. o úmido lábio interior se estremecia com o ronquido que acompanhava ao esgotamento de ter nascido. não me desagradaria livrar-me dela.

Não quero saber nada disso. —Quanto tempo faz que não se deita com uma mulher. deitando com toda mulher que não me expulse a vassouradas? —Como se alguma fosse te expulsar. Claire não ia querer que passasses a vida só. Ali ficou olhando sem ver o pátio dos estábulos. —Ela só tem vinte e cinco anos —insistiu Jenny—. Jamie? —perguntou sua irmã em tom coloquial. Primeiro teria que se casar. Não penso em me casar de novo. suavemente. Pensa em viver como os monges até o fim de seus dias? Ir à tumba sem um filho que te enterre e que abençoe teu nome? —Ocupa-se de suas coisas. Quando a perdi. E é boa mãe. sim —disse sem se perturbar. falando com seu próprio reflexo no vidro embaçado — Quando se. —Fez uma delicada pausa. Jamie. Algum dos dois sabe? —Não —respondeu ela devolvendo-lhe o sorriso. como um animal. não? —Não! —exclamou ele violento.. enquanto fulminava a sua irmã com os olhos —. mudou para o outro ombro sem deixar de dar algumas palmadas. ele lhe voltou as costas para dirigir-se à janela. —Sabe perfeitamente que —não respondeu sentindo que enrusbeceu as bochechas. —Como que «por que»! —olhava-a com a boca entreaberta— Perdeu o juízo? Me vês capaz de escapulir de casa em casa. —Eu —Jamie deu um sobressalto. estupefato. maldita sejas! —Com o coração acelerado. Pode ter mais filhos. por fim.—Duncan se moveu depressa —comentou um pouco surpreso. Voltou-se a olhá-la. O bebê se retorceu com um murmúrio sonolento.. És um bom homem. assim podes esquecer essa idéia de casamento. sem ninguém que te console e te dê filhos. —Que tipo de pergunta é essa? —Não tem estado com nenhuma das solteiras que vivem em Lallybroch e Broch Mordha —continuou ela sem dar atenção— Eu teria sabido. Não. Depois o gesto se esfumou numa olhada especulativa — A não ser que voce também esteja pensando em Peggy. . —Por que? —perguntou Jenny sem rodeios. E creio que também com nenhuma das viúvas. —Sei que ainda choras por Claire —soou a suas costas. E se encostou um pouco mais no travesseiro para olhá-lo nos olhos—. a voz de sua irmã— Acha que eu poderia esquecer Ian se ele não regressasse? Mas é hora de seguir adiante. e voce pensa em me arranjar uma esposa! —De repente sentiu um vazio por dentro. —Ela estava grávida —murmurou ele. me ouve? —Te ouço. Então lhe ocorreu algo e sorriu —. Jenny Murray. —Voce não bebeu demais? Estou vivendo numa gruta. Automaticamente. como se ela acabasse de sugerir que ele desejava saltar pela janela. Jamie. —Jenny sorriu com certa tristeza— Não se aproveitaria de nenhuma mulher.

que já tinham idade suficiente para ser tratados (ou maltratados) como homens. Jamie viu que sua irmã se deixava cair sobre os travesseiros—. não pude —disse com certa amargura— Para voce sou tão inútil como fui para ela. —Era tanto uma prece como uma exclamação de surpresa. —Não mencionou a Rabbie nem a Fergus. Jamie! —sussurrou sua irmã com urgência. Jenny lhe estendeu uma mão. —Sou eu. —A senhora Murray? —perguntou. se ao capitão isso lhe ocorria. Sem vacilar. . O ruído de botas já se ouvia na escada. —Jamie. —Talvez sim. mo chridhe. Jamie viu passar sua forma imprecisa junto à esquina do roupeiro. Jenny fez um esforço por erguer as costas.com pouca credulidade. Jamie olhou à cama e à janela. o homem entrou no quarto para se aproximar à janela. calculando as possibilidades de se esconde e as de escapar. Já levaram meu esposo e meu filho maior não tem nem dez anos. —Os braços trémulos já não a sustentavam mais.. Estava pálida. De explicar-lhe que não podia pensar em outra. Um momento depois se abriu violentamente a porta da alcova. ainda sabendo que a tinha perdido para sempre. cheia de aflição. com a cara brilhante pelo suor e os braços trémulos. Jenny perguntou baixinho: —Por isso veio hoje? Ele suspirou e se voltou. Onde estão seus homens? —Não tenho nenhum. entrou no roupeiro e fechou diante de si. Seu vão se encheu com uma silhueta de jaqueta vermelha e um chapéu agachado que apoiava uma espada desembainhada. —Virgem Santa! —disse palidecendo ainda mais—São os ingleses! —Deus meu.De que outro modo podia dizê-lo? Não tinha maneira de explicar a sua irmã onde estava Claire.. de idade madura. —Nas Terras Altas. Era de esperar que tivessem corrido de lá quando viram os ingleses. Depois de um longo silêncio. O capitão era um homem calejado. com a esperança de que estivesse viva. depois reapareceu de costas a ele. E que demônio faz voce em minha casa? —Perguntou. por fim. O capitão de dragões fez uma pausa. dirigindo-se a Jenny.Na realidade. Já que não pude ajudar a minha esposa. —Um de meus exploradores informou ter ouvido um disparo nos arredores desta casa não faz muito momento. —O armário. Jenkins. percorrendo o quarto com os olhos. —Mas se interrompeu com os olhos dilatados por um súbito alarme: Lá embaixo chegavam gritos e ruídos de madeira estilhaçada. ter armas é delito grave —disse voltando-se para o soldado que tinha entrado depois dele— Reviste a casa. mas mantinha a cabeça erguida e uma olhada fria —Saí daqui! Sem pdar atenção. pensei que poderia te ajudar. finalmente se fixou na cama.

nem sequer cortar o pescoço lhe serviria de nada. —Maldito estúpido! A mhic an diabhoil! —Completamente fora de si. espantada. a seguir emitiu uma série de rosnados sufocados. pois na escada a comoção er alta. piscando. Como chamando ao seu irmão. o pequeno Ian deu evidências de seu estado esperneado com notável vigor contra as costelas de seu tio. deu um passo atrás. vibravam os sons apagados das botas e os gritos. inchado pelas lágrimas e a ira. passando violentamente junto ao soldado que tratava correr com o passo. O pequeno Jamie se desprendeu das mãos de um soldado para se jogar em sua mãe— O menino morreu... o pequeno Jamie ia para o capitão. a senhora Innes fazia esforços inúteis para levantá-lo. —Verdade? —disse lentamente— Foi. se abrisseem o roupeiro. e estava avançando para o capitão. Jamie. escondendo a cara entre os lençóis. seus olhos passaram da parteira à cama— Deu luz à um menino. por toda a casa. Jennie estava tentando consolar o pequeno Jamie.surpreso por aquele ataque. mamãe? Não. eu só. Tremia a voz e o coque estava se desfazendo. —Não faz ainda uma hora que deu a luz! Não é decente sequer olhá-la. perturbada pela mão tensa de seu horrorizado tio. em gaélico ou em inglês.. —Não.. muito menos do que. —Deixa em paz à pobre senhora! —exclamou enfrentando ao capitão com os punhos apertados junto ao corpo. Caramba. a parteira. para sufocar qualquer intenção de pranto. Jamie teve a impressão de que o capitão queria saber onde se encontrava o corpo do recém nascido.? —Mamãe!—O grito de angústia vinha da porta. como um pequeno carneiro — Voce matou o meu irmão. Jamie podia ver a cara de sua irmã. . O recém nascido emitiu um ruído. Só venho a. Jenkins girou para sair do quarto. gritando todas as obscenidades que tinha ouvido em sua vida. A parteira abriu a boca. Com súbito interesse. —A criança morreu —disse. com a cabeça baixa. condenados. sugerindo que não lhe agradavam essas chacoalhadas. inglês de merda! O capitão. Por sorte. garoto.Teve que levantar a voz para dar essa ordem. não! —Soluçando caiu de joelhos. Apertou o corpo em questão. se viu tão potente como os agoniados uivos de seu sobrinho maior. imóvel como uma pedra. mas era um gesto vão. está muitoengando. que já via a casa em chamas e seus habitantes massacrados.. Levou a outra mão à manivela do punhal. Nas profundidades do roupeiro. senhora Murray? Onde está a criança? A criança em questão se moveu dentro de suas envolturas. era óbvio que tinha imaginado à senhora Innes como uma das criadas—. que felizmente passaram despercebidos no alvoroço exterior.. mas se manteve firme — Saí daqui. e deixa-a em paz! —Não estou maltratando a tua senhora —disse o capitão com certa irritação. o capitão tentava em vão fazer-se ouvir acima dos gemidos entristecidos do menino e.. mas naquele momento entrou a senhora Innes. branca até os lábios. —Foi voce! —O pequeno Jamie se tinha posto em pé..! —A senhora deu a luz? —A voz do capitão se fez mais aguda. o capitão seguia concentrado em Jenny.

Tirou os pés da cama e sentou para esperar. com a cara contraída pela cólera. . Jenny se levantou como Lázaro. Os ruídos dos soldados soavam em toda a casa. As gengivas desdentadas do bebê se fecharam ao redor do dedo. —Esperarei os meus homens no andar de baixo —informou o capitão com toda a dignidade que lhe foi possível. Jamie respirou profundamente e se preparou. o maior — Enh.. inclinando-se para proteger o vulto pequeno. banhado em suor. —Saia.agora. —Crio. —Descer ao «buraco da cura» —disse suavemente— Quando escureçer voltarei à gruta. Jenny assentiu com a cabeça. Saiu a tropeções do roupeiro. Quando os gritos e os rangidos da guarnição anunciaram a partida dos soldados. que não devo voltar a descer —disse por fim— Durante algum tempo. pasmo contra a porta. e pôs o bebê nos braços de Jenny. caiu ao solo e se derrubou num pranto indefeso. ao ouvido de Jamie. E se retirou. sem olhá-lo. Ian filho.. enh. Em seu pânico. O pequeno Jamie se levantou ao ver o roupeiro se abrir. abrindo a boca para formular uma pergunta. com uma ferocidade que esteve a ponto de arrancar-lhe uma exclamação. Jamie soltou o punhal e afundou o polegar na suave e úmida abertura que estava emitindo aqueles sons. Isso se parecia muito aos preliminares de um grito maiúsculo. já saciado. Sua irmã assentiu uma vez mais. Pela rachadura da porta. olhava alternadamente a sua mãe e ao seu tio.—Enh —disse o bebê Ian. privado de seu inimigo. Jamie viu eles se afastando junto à janela. fechando apressadamente a porta. sem dizer nada. com uma expressão feroz. Jamie viu que a senhora Innes olhava à Jenny. tinha a mão e o pulso molhados de saliva e os rosnados frustrados do bebê estavam aumentando o volume. Ela descobriu o peito com um só movimento e oprimiu a cabecinha contra o seu mamilo.Saia daqui! Saia ou eu te mato! —gritava o jovem Jamie ao capitão. O pequeno Jamie. onde não podia ser visto. Teria que correr o risco. aturdido pela impressão. apertando um dedo contra os lábios para impor silêncio. roncava nos braços de sua mãe.

e percorriam a campina saqueando o que ainda ficava e destruindo o que não podiam utilizar. Deixando cuidadosamente o livro se segurou junto a uma elevação de granito que usava como apoio e se içou até a estreita greta que constituía a entrada da gruta.. pois os soldados ingleses estavam ainda aquartelados em Comar. de vez em quando Jamie via algum grupo de veados vermelhos ou encontrava suas impressões no dia seguinte. Não é que temesse que algum dos soldados se aproximassem demais da trilha (estavam mal equipados para percorrer os trechos mais normais daquele urzal e muito pior para trepar por uma costa espinhosa como aquela) mas sua presença tão . Umas sombras se moveram sobre a página ao agitar-se das matas. As tropas saíam diariamente. e com ele. assim Jamie não esperava ver nenhum veado. Ao pé da colina onde estava a gruta passava um caminho.. um som de vozes. quase não se atrevia nem a sair pela noite para caçar. Levantou-se de um pulo. em pequenas patrulhas de oito ou dez homens. O caminho também era utilizado pelos poucos que tinham algo que fazer na encosta. mas Jared sempre dava um jeito de contrabandear alguns quando enviava presentes da França. Durante dois meses se manteve escondido na gruta. ainda que tonto era o animal que se aventurasse onde seu cheiro pudesse chegar à gruta. levando a mão ao punhal do qual jamais se separava. Ainda assim. Não tinha muitos livros.CAPÍTULO 6 Estando agora justificado por seu sangue Só retornou à casa mais uma vez. O vento soprava desde a gruta. justo à entrada da caverna. onde as aliagas e as sorveiras deixavam passar luz suficiente para ler em dias de céu aberto. Era uma tosca trilha utilizada pelos veados. O intenso reflexo de vermelho e metal no caminho abaixo lhe surpreendeu desagradavelmente. Tudo com a bênção da Coroa inglesa. O instinto afinado de Jamie captou de imediato a mudança na direção do vento. Tinha estado estendido no solo.

. Entregue-lhes esse tonel e deixe eles irem. Jamie viu que o chefe levantava um braço e gritava uma advertência. Teve um forcejo e novos gritos. frio como a morte sob a ardente onda que o sufocava. Mas Fergus também estava gritando. Talvez só pela sensação de fatalidade que não o abandonava desde a batalha de Culloden. com lentidão suficiente para que seu cérebro calculasse sua direção. então esteve a ponto de perder o precário apoio na rocha. ainda que soubesse que estava praticamente vazia. Um grito lhe obrigou a olhar novamente para baixo. como se o leve som do metal tivesse sido a primeira indicação do desastre. obrigando-o a resistir o surpreendente impulso de sair da gruta e se por a correr. Fergus não podia insistir em sua insolência quando enfrentava uma autoridade. Era Fergus. Movia-se quase com preguiça. pequeno estúpido! Um dos soldados lançou algumas bofetadas na direção do tonel. —Tonto! —disse Jamie. disse-lhe num sussurro imperceptível sob a fúria e o horror que o tomavam «Ele fez isto por voce. deduzisse o alvo e gritasse. Fora verdadeiro ou não que tinha ouvido o som do sabre. «Não posso fazer nada. A parte consciente de seu cérebro lhe disse que era uma tolice e manteve suas mãos petrificadas ao redor da elevação de granito. exasperado. uma irritação que se percebia até na gruta.. Ao que parece. Fergus escapou como uma enguia entre os soldados. voltou às costas dos soldados e mexeu no traseiro de uma maneira insultante. mas a pequena silhueta parecia estar discutindo com o soldado que tinha à sua frente e acenava violentamente com a mão livre. lhe ficaria gravado que o tinha ouvido. Pelo visto. encurvada sob o peso de um pequeno diminuto tonel. tinha compreendido que Fergus podia ser uma isca. Fergus. que subia com um barril de cerveja recém destilada. sujeitando o pulso que segurava o sabre e retorcê-la até que soltasse a mortífera vara de metal. nem sequer para procurar água ou se aliviar. fazendo a miúda silhueta morena dar um ágil salto para trás. sem palavras: «Não» Sem dúvida se moveu com tanta lentidão que teria podido se lançar sobre os homens. ainda que vários dos homens se detiveram ante o grito do chefe. Por todos os diabos! Não lhe teria caído nada mal aquela cerveja. Os soldados estavam agrupados em torno de uma pequena silhueta. —Idiota! —sussurrou Jamie—.. seu corpo estava pronto para saltar quando viu o arco prateado da vara que fendia o ar. era impossível que Jamie ouvisse o sussurro do sabre ao sair de sua bainha. Agora deslizava para trás. violentamente— Deixa cair isso e foge! Em vez de soltar o tonel ou partir correndo. Parecia ressoar em seus ouvidos cada vez que recordava a cena. «Não posso». Com toda aquela comoção e entre os gemidos do vento. Não pode». quatro dos soldados se arrojaram contra o rapaz. enviado para levá-los a uma emboscada. Jamie espalmou a mão na testa. Deu uma rápida olhada à jarra de água. visivelmente seguro de sua própria agilidade.próxima lhe impediria de sair da gruta antes do escurecer. fazia meses que não a provava. sobretudo quando se tratava de autoridade inglesa. E a recordaria durante muitíssimo tempo. só lhe chegaram algumas palavras soltas. Como o vento tinha voltado a mudar. muitos dos Jaquetas Vermelhas saíram do caminho para perseguí-lo. Talvez foi pela atitude dos soldados.» . os soldados entendiam bastante bem seu francês de bueiro pois. gritando algo a seus perseguidores. No entanto. Irritados até o ponto de arriscar-se a pisar aquela vegetação pantanosa. repetia.

obviamente. Não voltou a falar até que chegaram à casa. Se afrouxaram os joelhos e compreendeu vagamente que ia desmaiar. — Eu sinto muito —repetiu Jamie. com a frágil pulso vendado que terminava em nada. numa cama junto à janela.. Depois teve pressa para atingir ao seu patrão — Creio que sentem muito.. E a Madame foi muito generosa com o whisky. para Fergus. sua mão pequena e destra de astuto batedor de carteiras. Tinham encostado Fergus com grande pompa no quarto dos meninos. Quando Jamie avançou para a cama. E deu um ouro à senhora Jenny. semeado de estrelas e faixas de luz. enquanto a vara completava sua preguiçosa curva dando na mosca com um ruído surdo. Aguardou durante quarenta e oito longas e intermináveis horas. ao entrar. Não tinha outra coisa que dizer. De repente lhe cruzou no rosto um traiçoeiro gesto de dor. —Rabbie se deteve para desenredar a camisa de um arbusto. até que ouviu o apito de Rabbie MacNab no caminho. Jamie. encontrou-o com os olhos fechados e as longas pestanas apoiadas suavemente sobre as bochechas magras. ainda não tinha se reposto da impressão recebida pelo acidente de seu amigo — Diz que não tem febre e que não há sinais de gangrena em seu.. Está. Sorriu com vergonha — Bom. sabendo que Fergus ficaria nervoso se o visse chorar. no lodo do caminho. Jamie já ia colina abaixo. —Sim. aquele rosto seria formoso.. quase intransponível. as caretas e as poses. . Sua visão se converteu num negro avermelhado. embaixo da gruta. dava-lhe um ar levemente aristocrático. eu sinto muito.. mas se obrigou a estreitar-lhe um ombro como modo de saudação e a esfregar-lhe o abundante cabelo escuro — Dói muito? —Não. Mas nem sequer a sombra que avançava pôde apagar a visão final da mão de Fergus. filho. —.. Sua cara juvenil estava pálida e com olheiras. —A senhora Jenny diz que ele vai se curar —respondeu Rabbie. ao perder o encanto juvenil. milord —disse Fergus. Desprovida da animação habitual. Apressou-se a baixar os olhos. Mal suportava olhar o delgado antebraço que jazia sobre o edredon. —Assim que os soldados o levaram até a casa? —Sem esperar resposta. E o tonel em disputa caía dando tombos pela costa do ribeiro. isso foi o que disse o capitão. não muito. deu-me a impressão de que estavam muito nervosos. Ao menos. Os gritos cessaram bruscamente e sobreviveu o silêncio. Só observou.E não fez nada. O nariz um pouco ganchudo sobre a boca longa e movediça. Seu mergulho final se perdeu num gorgotejo alegre de água parda. —Jamie se deixou cair de joelhos junto à cama. sim? —comentou Jamie— Que generoso. coto. com a palma voltada para acima num gesto de súplica. sua cara parecia diferente. as pestanas escuras se elevaram de imediato. Um débil sorriso devolveu de imediato a suas feições o aspecto familiar — Esta seguro aqui? —Por Deus. —Milord —disse Fergus. Nem sequer podia falar. os ossos que se endureciam sob a pele pareciam prever que... —Como está? —perguntou.. pelo nó que tinha na garganta. —Ah. bem mais abaixo. mas nos ouvidos de Jamie o branido continuava.. —Enguliu saliva auditivamente.

—A única mão voltou para a maltratada medalha esverdeada que lhe pendia do pescoço: San Dimas.—Ah. —. farías missas por minha alma durante todo um ano. em Paris.. Depois tomou folego. Não tinha disfarce suficiente para um homem de sua estatura e sua cor de cabelo.me manteria durante o resto de tua vida. Ela o seguiu sem comentários ao vestíbulo que separava a cozinha da dispensa. Contentou-se com uma palmada à mão que agora jazia sobre o cobertor. muito quieta—. milord! Ao levantar a cabeça viu o rapaz a sorrir. Ela lhe pegou da mão. —Oh. O que não se via era que os buracos ofereciam também ar e luz em um quarto secreto. como o padre ao receber a confissão de um penitente— Não posso. para descobrir uma pequena escada. Era óbvio que estava fatigando.. —Não lembras do nosso acordo. não se preocupe. Jamie enguliu saliva com dificuldade antes de replicar. servia para ventilar o porão. Sacudiu a cabeça. mais do que isso. Nas lajes do solo tinha um grande painel de madeira com buracos.milord —disse Fergus. se alguma pessoa suspicaz decidia pesquisar. Falava em voz tão baixa que Jenny se viu obrigada a inclinar a cabeça para ouvir. com marca cimentada e tudo. . Tenho que ir.. —Sim. Recordo. —Vai tentar outra vez ir a França? Jamie tinha tratado de fugir a França duas vezes. e as duas tentativas se viram frustrados pela estreita vigilância que os ingleses mantinham em todos os portos. Vou deixar que me capturem.. ainda que muito pálido. Jenny o estava esperando. estreitando-se fortemente com seus dedos pequenos e firmes. —Não. em realidade. sobre o travesseiro — Assim tenho sorte —murmurou. não? Quando saiu do quarto. se sentaram juntos no único banco. Ali só cabiam duas pessoas. E pode confiar em que cumprirei o trato. ainda sorridente— Inesperadamente me converti num cavaleiro ocioso. construído por trás do depósito. ao que se podia descer retirando o painel. aquele painel era visível do depósito ao porão. sim. Permaneceu imóvel um momento. graças a Deus. —Não agüento mais —disse. —Na voz de Fergus tinha uma leve travessa— Tive sorte. as bochechas estavam ainda mais pálidas e o cabelo negro caía para atrás. milord? —Nosso acordo? —Sim. quando me pegou para os seus serviços. —Jamie não sabia se ria ou chorava. —Vem comigo ao «buraco da cura» —lhe pediu pegando-a pelo cotovelo — Preciso falar contigo e não quero estar muito tempo à vista. Jamie se acomodou junto a sua irmã quando havia substituído o painel e baixado a escada. Prometeu-me que. Teoricamente. —Oh. sempre confiei em voce . milord. santo patrono dos ladrões— Mas se eu perdesse uma mão ou uma orelha estando a vosso serviço. ao que se chegava por uma porta exterior. se eu fosse preso e executado. porque estás vivo.

. Jenny esfregou os lábios com o punho. creio que não. —Tinha decidido o plano estando só na gruta. ela. Jamie.— Vai se cuidar meu grandíssimo bobo? O painel de ventilação se escureceu e ouviram um ruído de passos ligeiros. te enforcariam! Mantinha a cabeça agachada. Jamie. ao percebê-la. mas a sacudiu sem vacilar. voce não acha? Tratou de impor um sorriso em sua voz. enforcado ou não. Mas se entregar para ir a um cárcere inglês. Ao esfumar-se a luz diurna. iluminada pelo crepúsculo. —Mãe de Deus —sussurrou. Ele estava sentado em sua rocha favorita. aparentemente.. mulher...— Mas que depois dos primeiros anos já não executariam aos capturados. com um triângulo de sombra mais intensa que a destacava sobre o tronco onde se ocultava. Inclusive nos piores momentos.. como se estivesse pensando.. Demoraram mais de dois meses para arrumar tudo. era vidente. perfeitos e nítidos em todos seus detalhes. e construir este lugar. recortando-se no céu ou a terra... Disse-me que a Coroa passaria algum tempo perseguindo aos traidores jacobitas. —Sim.. Por isso me fez plantar batatas. invisível à luz do sol. Por Deus. Puseram um bom preço a minha cabeça. —Mas ainda que não te enforquem no ato. —Não podes fazer isso. Num momento alçaria o vôo.. no ano seguinte a Culloden. Quando ao fim chegou a notícia era primavera. mas só agora parecia real— Talvez Joe Fraser seja o mais indicado. Compreendeu que tinha captado sua idéia de imediato. Jamie.. dirigindo-se à dispensa.. —Ah —murmurou Jenny suavemente. depois voltou a baixá-la. e assim é —disse irônico.— Ainda não te disse tudo. E também não posso te censurar.. só iriam a prisão. tinha encontrado paz naquele momento do dia. com todos seus envolvimentos. Poderiam te matar ao capturar-lo! —Por Deus. era como se os objetos se iluminassem difusamente desde o interior. não? Seria uma pena desperdiçá-lo. levantou bruscamente os olhos. contemplando as primeiras estrelas. Jenny elevou momentaneamente a voz. Não penso em me apresentar aos ingleses e me render sem nada. —Lançou uma rápida olhada à mulher. —Estreitou a mão de sua irmã antes de soltá-la e se voltou no estreito assento para olhá-la—.. respondendo ao apertão de advertência de seu irmão. o diabo aos urzais. —Fez uma pausa para afirmar a voz—.. —Só! —repetiu ela— Se queres fugir.Eu o imaginava. Provavelmente uma das criadas. Depois voltou a luz escassa e a cara de Jenny voltou a ser visível. — Acariciou-lhe suavemente o cabelo da nuca. —Não creio. E me disse o que passaria depois.— Queres que alguém te traia? —Sim. Mas importa a mim. —Espera —a interrompeu apoiando-lhe uma mão no braço. acha que me importo? Teve um longo silêncio até que ela disse: —Não.— Ela viu o que sucederia em Culloden. ainda que não fosse a verdade... cerca da entrada à gruta.—Me cuidarei. .— Claire.—Jamie! —Em sua agitação. —Sim —murmurou por fim. —Era uma boa explicação. ela sabia. Viu a silhueta de uma traça. —sussurrou— é um risco infernal.

Eu nunca tive isso —disse em voz mais baixa— com nenhum dos dois homens que me desposaram. Ele se reclinou na parede da caverna. não? —acusou— De quem foi a idéia. com o cabelo solto sobre os ombros. mas sem girar-se. tua ou de minha irmã? —Que importância tem? —replicou ela muito composta. Tinha a incômoda sensação de que seu corpo não estava em absoluto acordo com aquele comentário. —Não —disse— Não é necessário e não quero fazê-lo. terei eu que o fazer —replicou decidido. A propriedade pertence ao pequeno Jamie. . Dobrou-a sobre o único banco. Seus lábios eram tão ternos como pareciam. Podia ter sido o reclamo de um apito no lago. E girou sobre seus calcanhares. faziam evidente a magnitude daquele desacordo para quem quisesse olhar. —Não é correto que me chames assim. —Como vai impedir? —perguntou Mary tirando a roupa. —Não faça isso! —exclamou Jamie. —Não. Mary estava descalça e com camisola. proeminentes. Mas sei distinguir o verdadeiro amor. sob a fina tela.. não importa. —Não é meu. Ele sacudiu a cabeça e se agachou para pô-la em pé.Entre os crescentes sons da noite se ouviu um apito agudo. Alguém vinha pelo caminho: um amigo. E não é minha intenção faze-lo sentir traír o seu. Girou-se de má vontade. O leve sorriso daqueles lábios sugeriu que estava olhando. —Sei muito bem o que está pensando —disse ela— Vi a sua senhora e sei como eram as coisas entre vocês dois. Quando se dirigia para a entrada da gruta. porque não vai ocorrer. mas. mas tinha os peitos maiores do que tinha pensado e os mamilos se revelavam. Estava tão delgada. —Se não vai embora. Ela o interrompeu com um beijo. —Lallybroch é seu e será enquanto for vivo. Agradeço-te a intenção. Vire-se. mas reconheceu o sinal. assim devo chamá-lo. e fincou uma olhada de exasperação naquela cabeça inclinada. procurando os laços da saia. demais estreitas e gastadas.. Sentiu um leve contato no braço e se obrigou a permanecer imóvel. Ela respondeu jogando-se a um lado e alongando a mão para atrás. A camisola estava tão surrada como suas outras prendas. quase translúcida em alguns pontos. Ao senhor. —Como são as coisas. Fez ela girar para a entrada e lhe deu um leve empurrão. —Não é o pequeno Jamie quem faz o que estas fazendo —replicou ela decidida— E não foi vossa irmã quem me pediu que fizesse isto. Mais incômodo ainda era saber do que suas calças. Ele fechou os olhos. Jamie a segurou firmemente com ambas as mãos e a afastou. ouviu-a dizer por trás: —Milord! Deteve-se. cruzado de braços.

O contato. vi bater o pulso em seu pescoço.Sua irmã e os meninos não podem dar mas eu sim. Fraser não é um personagem histórico importante e não interessa para minha própria obra. ainda que sua situação. Algo inferior. ligeiro como uma pluma. O atrito desapareceu de seu rosto. um polegar endurecido pelo trabalho seguiu o sulco entre o nariz e a boca. passou a sua bochecha. —Eu também não —disse ela com um leve sorriso — Mas já recordaremos como se faz. faz muito tempo que não o faço —apontou ele.. Lia em voz alta e um pouco trêmula: —«Apreciado doutor Wakefield: Recebi sua consulta sobre a execução de oficiais jacobitas pelas tropas do duque de Cumberland. Sempre tive a esperança de que assim tenha sido. A principal fonte que cito no livro ao que você faz referência é o diário privado de certo lorde Melton. Eric Linklater. tal como a descreve Melton. —O que quero —continuou ela— é dar a voce algo diferente.» . Jamie ouviu como tomava fôlego. Por que não permiti que eu possa te dar uma pequna mudança? —Eu. sobrevivente James Fraser. Ainda que mantinha a serenidade exterior. com a esperança de determinar que sorte correu finalmente. Tirou um feixe de páginas fotocopiadas e a carta adjunta saiu voando. fosse muito improvável. talvez. Saúda-o sinceramente. TERCEIRA PARTE CAPÍTULO 7 Quando sou teu cativo Fé nos documentos Inverness 25 de maio de 1968 O envelope de Linklater chegou com o correio da manhã. lhe ficaria grato se me comunicasse. mas com freqüência pensei em pesquisar um pouco mais. mas que o seja útil. —Deu meu lar. —É o que parece —reconheceu Roger. ao comando de um regimento de infantaria às ordens de Cumberland. subitamente tímido. como você verá.. Se você descobrir que sobreviveu à viagem para sua própria propriedade. é estranha e comovedora. algo que o conserve íntegro. a história do sobrevivente. Anexo está o xerox das páginas pertinentes desse diário. —Olha que gordo é! —exclamou Brianna— Enviou algo! —A ponta de seu nariz estava avermelhado pelo entusiasmo. depois da batalha de Culloden. quando se produziu a batalha de Culloden. minha vida e meu filho.

—A voz de Brianna interrompeu meus pensamentos. já fria. respondendo a uma idéia similar expressada por Roger.. sem nem sequer os vulgares emplastros de ervas de que dispunham os curandeiros das Terras Altas. enquanto eu dedicava meu atendimento à melancólica tarefa de sepultar os cadáveres de seus camaradas. «. Falava com singela segurança. estou certa. que tem uma grande ferida purulenta na perna. interrompendo o entusiasmo — Tenho bolos de gengibre recém tirados do forno. Mas o fazia só por cautela de erudito. será muito difícil que possa sobreviver à viagem até sua casa. nem também culpado com respeito as minhas obrigações para com o duque. Portanto. omiti seu nome da lista de traidores executados na colina e dispus que se transportasse até sua própria propriedade. onde trazia ao mesmo tempo uma chaleira e um pote de cacau junto com a vasilha de biscoitos. sem um tratamento médico adequado. Isso já sabemos. — Chegou. Minha avó me contou muitas vezes essa história. —Oh. como se tivesse presenciado todos os acontecimentos descritos no diário de Melton e estivesse segura de seu resultado. muito atenciosa. Ele era o Gorropardo. esvaziando calmamente minha xícara no vaso da aspiração. Para satisfazer a dívida de honra de meu irmão. a honra me impede atuar de outro modo. sim.. —Mas chegou. Não me sinto misericordioso ao fazer isso. —Conta-nos! —Brianna se inclinou para frente. perfeito.. Fiona. Aflige-me a matança que vi nestes dois últimos dias. —Acho que assim foi —corrigiu Roger. De minha parte. olhou-a com surpresa acima do ombro — Ouviste falar do Gorropardo? —Voce ouviu? —Roger olhava a sua jovem caseira com ar atônito. Seu sorriso era tão amplo como a de Brianna. Ao mesmo tempo.» Eu sabia melhor do que Roger e Brianna a gravidade que teria sido essa lesão. com o cacau entre as mãos —Por favor.» Apoiei as páginas em meu joelho. sem antibióticos. —Quer tomar chá ou cacau antes do almoço? —A cabeça morena e encaracolada de Fiona assomou pela porta do estudio. não pude menos do que respeitar a vida de Fraser. cacau. —O Gorropardo? —Fiona que estalava a língua ao ver intacta minha xícara de chá. empurrou a mesa redonda..—Muito improvável. Ela assentiu. para enchê-la outra vez com chá recém feito. pois a situação de Fraser. Fiona! Como é essa história? . Reconheço que me alegrou o espírito ao ver que o homem era retirado do lugar ainda com vida. aceitei uma xícara de chá e me instalei na poltrona. Brianna dizia: —Oh. por favor —disse Roger. é? —disse Brianna se pondo na ponta dos pés para olhar sobre o ombro de Roger — Ah! Ele regressou a casa. engulindo saliva com dificuldade. «Uma grande ferida purulenta. Ainda assim. com as páginas do diário de Melton. —Chá.

Olhei a Brianna e a opressão de meu peito cedeu um pouco. Sua cara redonda brilhava pela dramaticidade do relato — Fez que um de seus arrendatários se apresentasse aos ingleses e o dedurassem. não tinha caça no bosque nem cereais nos campos. —Conheces a história? —perguntou Fiona estupefata— Assim era. em pleno inverno os inlgeses tiravam de suas casas. momentos depois. com uma poça entre os pés pela água que lhe jorrava da barba e a roupa.A moça pareceu um pouco surpresa ao se ver subitamente no centro de tanta atenção. Os arrendatários do Gorropardo se viraram melhor do que a maioria. —Esse era o Gorropardo? —Estranhou-se— Eu achava que. sim. O Gorropardo foi outro dos homens que escaparam de Culloden.. comida e amor. Ao ouvir isso. senão também culpa. lançando um suspiro de alívio. Vi os habitantes de Lallybroch. bem disposta. Ela também tinha passado esses anos a salvo. O arrendatário cobraria o ouro da recompensa e o usaria para as pessoas da propriedade. não era esse. abatidas pelo frio e a fome. E a mudança informaria aos ingleses onde podiam capturar o Gorropardo. tal como Jamie queria. assim que o homem escapou. fuzilando os homens e prendiam fogo a suas casas. os bebês morriam nos braços de suas mães por falta de leite para alimentá-los. ele estava em pé no pulpito. em vez de compartilhar seu destino. é só a história de um seguidor do Bonnie Prince. mas ainda assim chegou o dia em que se acabou a comida e os estomagos ressoavam da manhã à noite. Os ingleses supuseram que tinham se enganado e continuaram o seu caminho. mas uns quatro escaparam. Brianna se deixou cair contra o encosto. Ao ouvir aquelas palavras me percorreu um arrepio. mas se encolheu de ombros. com casaco. Como um padre as pessoas se compadeceram dele. imagino. Não era só espanto o que me enchia. Quando os ingleses invadiram. passou sete anos escondido numa gruta. sim! Essa é a melhor parte. Voltou a sua própria propriedade. abrigada e bem alimentada. Resultou que depois de Culloden teve uma terrível fome. —E seus arrendatários o chamavam de Gorropardo para não o trair pronunciando seu nome —murmurou. —Capturaram? —grasnou. No caminho entrou numa igreja onde estavam celebrando um ofício e implorou misericórdia ao sacerdote.. Um homem fugiu do campo de batalha e cruzou o rio a nado para escapar. pessoas morreram de fome nas colinas. porque eu tinha feito o que Jamie queria. Na grande derrota de Culloden morreram muitos. pessoas às que eu tinha amado. mas como os Sassenachs estavam perseguindo aos homens em todas as Terras Altas. não. Tinham posto um bom preço a sua cabeça por ter sido um grande guerreiro do príncipe Eduardo. rouca pela impressão — O enforcaram? . —Bom. —E tua avó te contou o que lhe aconteceu depois? —Requeriu Roger. mas os ingleses o perseguiram. —Assim o Gorropardo criou um plano audaz —continuou Fiona. Eu me tinha encontrado a salvo. —Oh. —Oh. E na igreja todos disseram que nunca tinham escutado um sermão tão bom! —Fiona riu estericamente enquanto Brianna franzia o cenho e Roger fez cara de desconcerto. vendo um homem com as vestimentas do padre. tinha-os abandonado. pregando seu sermão.

Voltou-se para as estantes que cobriam três prateleiras do estudio. surpresa. É uma prova real! —Voltou-se outra vez para mim— Ao ser encarcerado voltou a fazer parte da história escrita! O encontraremos. —Por Deus —sussurrou Roger com um olhar perdido no nada— Encarcerado. procurando em vão outro lugar onde pôr a pasta. que sobreviveram à fome —concluiu alegremente. como tinha saltado à minha: «ou quando morreu». Mas onde eu pus? —Roger deu uma olhada confusa pelo quarto. Seus olhos se encontraram com os meus. muito verdes e misteriosos—Quando o puseram em liberdade. num esforço para concentrar-se. —Assim é —confirmou Roger sem consertar o mal-estar— Não eram muitos os cárceres onde os ingleses prendiam os jacobitas e todas levavam registos oficiais. começava a sentir que alguém lhe tinha passado papel de lixa pelos olhos. Esfregou a testa. depois se posou em mim. Uma semana depois. que tinha as comissuras da boca tensas pela aflição e os olhos acesos. em procura de algum rasto oficial de Jamie Fraser. como se fosse um final feliz. Não se dá de conta? —Seu olhar passou do desconcerto de Fiona ao cenho de Brianna. —E saberemos que foi ele —sussurrou Brianna—. com a esperança de encontrar entendimento — Se foi encarcerado posso achá-lo. mas ao final só foi encarcerado. efetivamente —disse pegando-a da mão. —Acabo de terminar com Wentworth —disse Claire. —Diz como se fosse uma sorte —protestou Brianna. segundo contava minha avó. —Ele está aqui —apontou com suavidade— No registo de uma prisão. Num documento.Fiona piscou. —Sim. assinalando com o dedo do pé uma precária pilha feita no chão— Já chegaram os registos de Berwick? —Esta mesma manhã. em algum lugar. —Se por a cabeça mais em cima tudo se virá abaixo —observou Claire ao ver que Roger esticava despreocupadamente a mão com intenção de lançar outra pasta sobre a pequena mesa. O julgaram por traição. a fé de Roger nos documentos se mantinha incólume. quando o puseram em liberdade. —Mudou de direção em pleno movimento. —Eh? Oh. —Claro que não! —assegurou—Isso era o que desejavam. a seus pés. claro. E o ouro passou a mãos de seus arrendatários. que se parecia muito ao saque da biblioteca de Alexandria um momento antes de que se acendesse a primeira tocha. para caber a coleção de objetos jacobitas do defunto reverendo Wakefield. cujas finas pernas rangiam de maneira alarmante sob seu desacostumado carga. Não podia dizer-se o mesmo da antiga mesa do reverendo Wakefield. e por fim decidiu depositá-la no chão. . Roger apertou os lábios para não dizer a alternativa que lhe saltava à mente. Depois de ter passado uma semana inteira folheando durante dez horas diárias registos manuscritos. cartas e diários íntimos ou públicos de governadores de prisão.

Com essa memória. —Estaria metido nela até as sobrancelhas. saindo de seus sonhos— Só me perguntava como a gente chega a ser o que é. mas não sei onde o deixei. para manter o negócio da família. o fazia só por conveniência. Roger lhe sorriu com profundo afeto. Claire fechou a última pasta de seu montão e se ergueu com um suspiro. ou existia alguma predisposição familiar para certo tipo de trabalho? Mas na realidade estava pensando em Brianna. e se perguntou o que teria pensado seu defunto pai adotivo da busca iniciada. mais ou menos assim. Fiona —disse ele— Só queria perguntar se voce viu um envelope azul. Fiona teria Desceu com mais lentidão. grande e gordo. Pode ser que Fiona o tenha visto. Rememorou uma imagem vivida do reverendo. a avó de Fiona. —Sim? —Sua cabeça encaracolada assomou pela cozinha— O cacau já está. e três cartas que foram acabadas de abrir. mas nunca questionava as atividades de seu chefe: tirava o pó calmamente dos montões de livros e papéis sem preocupar-se pelo que contivessem. Me enviou McAllister. por exemplo? .—Era azul —disse por fim— Me recordo claramente que era azul. Trinity usa grandes envelopes de cor azul claro. tal como o fazia agora sua neta. emitido pelo relógio do forno. quinze minutos depois. —Nada importante —respondeu Roger com um sorriso. trazendo o envelope azul nas mãos. andando entre o estudio e a cozinha. Estava pensativo ao entrar no estudio. fez que se retirasse a toda pressa. e se descobriu perguntando-se até que ponto a moça se parecia a ela e em que proporção ao obscuro escocês (guerreiro. no ar perdurava um reconfortante cheiro a cacau e a docinho de amêndoas recém assado. um professor de História do Trinity College. cortesano. —No banheiro lá em cima —respondeu ela de imediato — Há um livro muito grande com letras de ouro e a foto do Bonnie Prince. onde a anciã senhora Graham. não esqueças de atrapalhe. —Indicou o tamanho com as mãos— Chegou com o correio da manhã. afogando uma exclamação. na cozinha ainda tinha luz. satisfazia suas necessidades materiais durante seus ataques de erudição noturna. —Obrigado. Como chegaste a ser médica. Nos velhos tempos. Seus pensamentos seguiam aquela linha quando. Observou a Claire. com a calva brilhante sob os antiquados lustres. —O que estás pensando? —perguntou alongando a mão para sua xícara. que mantinha a cabeça inclinada sobre a escrivaninha. Fiona não sabia nada de história e só lia revista feminina. Fiona! As horas se avançaram. agricultor. Fiona jamais abandonava seu posto enquanto tivesse a menor possibilidade de que alguém precisasse de comida. Um claro ding!. Ia tirar o docinho do forno. quando o filho seguia geralmente a profissão do pai. senhor feudal) que a tinha gerado. Roger subiu as escadas de duas em duas. sorrindo. e também a fatura do gás. com o escudo de armas. sem dúvida alguma —murmurou para dentro.

tinha encostado uma hora antes. —Não pode ter sido tão fácil. mas já era muito antes de pisar a universidade. estudando-a com franco interesse— Então não eram muitas as mulheres que estudavam medicina. já perambulava pelas Terras Altas com meu pai. Apontou a acumulação de papéis e pequenos enfeites que os rodeava— Me Criei no meio de tudo isto. —Mesmo? —perguntou com curiosidade— Pelo que me contaste dele. Depois esfrego as mãos— Como chegou a ser historiador? —Mais ou menos honradamente —respondeu ele. quando ficavam até tarde e bebiam até embebedar-se. E voce? Ela se espreguiçou para aliviar os ombros. —E muitas coisas mais.. Um dia me dei conta de que tinha praticado a medicina durante muito tempo. —Há uma velha canção da Primeira Guerra Mundial —sussurrou pensativa— Os velhos camaradas do tio Lamb cantavam as vezes. desde depois. —Encolheu-se de ombros com um sorriso irônico — Passei vários anos sem dormir. Mas a diferença não foi muita.—Como cheguei a ser médica? —Claire inalou o vapor do cacau e. mas com rastos de nostalgia nos olhos. colocava ossos fraturados. ainda que pareça estranho. o Hópital dês Anges e a suposta sala de operações de Leoch. não posso dizer que tenha sido fácil. o gesto foi mais expressivo do que as palavras.. de que já não o fazia e de que o sentia falta. Caem e Amiens. —Não lhe agradava. conversas abandonadas à metade e uma teimosa oposição. sem poder manter-se desperta. claro. Afastou os olhos de suas mãos. —Não. —Roger soprou seu cacau. tu tinhas uma família. depois de muitas horas em mantê-los encurvados sobre a escrivaninha. sabe? — Afundou um dedo no creme batido que boiava em seu cacau e a lambeu— Tenho um diploma de médico. Suponho que continuar fazendo-o era o natural. E Frank também me ajudou. falava de discussões. entre livros. E ademais. suturava feridas.. decidindo que estava muito quente o depositou de novo na escrivaninha. —Encolheu-se de ombros— Tinha muitíssimas coisas que não sabia. registos e folhas rabiscadas. tratava febres. mas. Roger provou sua xícara. com as unhas polidas em forma de curva. Quando mal sabia ler. e até que pudéssemos pagar a alguém para que se encarregasse de cozinhar e limpar. .. —Bom. Por isso decidi estudar medicina. agora que viram Paris?» —Se interrompeu com um sorriso irônico — Eu tinha visto Paris. Isso ajudou um pouco. Esticou as mãos na escrivaninha flexionando os dedos longos. Prestem e Falkirk. Tinha atuado como médica em todo sentido: atendia partos. não tinha me ocorrido que lhe agradasse que estudasses medicina. enquanto Claire e Roger continuavam a busca pelos registos administrativos das prisões inglesas. agora mesmo não são tantas. alerta e presente. Dizia algo assim: «Como farás para retê-los na colina. —Claire o olhou com ar zombador— Esperei que Brianna começasse a escola. procurando objetos arqueológicos. Brianna. —Ela apertou os lábios. no meu caso teve algo similar —disse ela— Não é que decidi subitamente dedicar-me à medicina. já tinha se esfriado o suficiente para beber. sentando-se no cadeirão do reverendo.

com lágrimas nas bochechas. que só tinha sete anos. não estava mal ferida. e voei para casa saltando-me todos os limites de velocidade. e me sentei ante a mesa da cozinha para chorar. Quando cruzava uma das ruas transitadas das proximidades foi atropelada por um carro. um pouco risonha. mas ao escurecer lhe deu medo estar só em casa. —Estou decidida —disse quando ele pôs adiante de mim a xícara fumegante. com instruções de «esperar a mamãe». menos. A última babá temporária. Seu rosto se amaciou. com uma atitude mais prática. —Por que? —perguntou rapidamente para distraí-la— O que o fez mudar de atitude? —Bree —disse ela. De repente se perguntou se a sua seria igualmente fácil de interpretar. tinha posto o casaco e ido embora. Amanhã mesmo. Depois a levei à cama. a único que tinha verdadeira importância era Bree. Mas ainda assim ficavam grandes vácuos entre seus horários e os meus. como lhe ocorria sempre ante a menção de sua filha — Para Frank. foi preparar o chá. se aglomerava um punhado de vizinhos interessados. a maioria delas. abandonando a Briana. Ao emergir da xícara viu que Claire o observava. que enchemos precariamente com uma série de empregadas domésticas e babás mais ou menos competentes. ainda que ainda estava muito quente. sentia a cabeça pesada e brumosa— Vou desistir. mas ao fim renunciou e. Mais tarde soubemos o que tinha sucedido.Que cara tão expressiva. —Desistir? —A voz de Frank soou aguda. algumas. Tal como terminava de dizer. A idéia o turvou tanto que submergiu a cara no copo para beber o cacau a grandes tragos. na rua.na realidade. Saí correndo. Minha mente voltou ao horrível dia em que recebi um telefonema no hospital para informar-me que Brianna estava ferida. Frank me deu umas palmadas lerdas. Ao chegar me encontrei com um carro patrulha e uma ambulância que iluminava a noite com palpitações vermelhas e azuis. o carro circulava com lentidão e a experiência não lhe deixou mais do que machucados e susto. Não estava tão assustada como eu. então decidiu ir procurar-me. nem tinha tantos machucados como as que senti ao vê-la estendida no sofá da sala. Falava com voz opaca. murmurando algo. frente à entrada. mais. pensou enquanto a observava. com o urso de pelúcia apertado entre os braços. atender novamente seus cortes e roçaduras e dar o obrigado a quem a tinha ajudado (e que me olhavam com ar acusador ou isso me parecia). dizendo: «Mamãe! Onde estava? Não podia encontrar-te!» Precisei de toda minha compostura profissional para reconfortá-la. incomodada porque eu tinha voltado a atrasar-me. Ela o fez obedientemente durante uma hora ou duas. Graças a Deus. Aos estudos? Por que? . tinha esperado que Brianna iniciasse a escola para inscrever-me na carreira de medicina. sem deter-me sequer para tirar o avental de cirurgia. examiná-la totalmente.

Da que se interessa tanto como para arriscá-lo tudo. removendo sua própria xícara. Depois de uma breve vacilação. —Não. —Pegou-me a mão outra vez e percorreu com um dedo as linhas da palma— Estará aqui? Há gente destinada a algo grandioso? Ou é que nascem com essa grande paixão e. como de mulher. Não tenho essa absoluta convicção de que na vida há algo para o que estou destinado.. Claire. Frank se reclinou na cadeira. baixinho— Sou bom. —vacilou. Deu um golpezinho à capa do livro. —Falava com impaciência. para escrever. uma série de biografias dos Pais Fundadores da América do Norte.. Bem sabes que não lhe agradou nenhuma das babas que provamos.. Só sabemos o que conseguiram. Depois tirou um livro da estante que tinha junto à mesa. feitas para os gestos desenvoltos e a ênfase do discurso. —Sentou-se frente a mim. Depois de um longo instante. Era o último que esperava. Tens idéia do raro que é isso? —Não. Alongou uma mão. e sabendo que não é feliz. se se encontram nas circunstâncias adequadas. —Mas esta gente. pagou seu preço. Mas não sabes como te invejo as vezes. Voce sim. eu sei. e muito raro. mas também com uma fissura de afeto— Desde o princípio voce soube o que era. Calou um momento com a vista fixa nas mãos cruzadas. Claire.. Mas o fato é que. Estupendo as vezes. para mim e para Brianna. suaves e sem pêlo. Para voce. mesmo. E me agrada. mexendo a cabeça.. Tinha os dedos longos e finos. Olhei-o. olhando-me de frente—Poderia dedicar-me a outra coisa e ser igualmente bom.. —Esta gente era assim. Claire. entreguei-lhe a minha. Claire. sabes? Não é que não lhe importe. Mas não há modo de sabê-lo. de Woodhill. A maioria não é assim. —Uma leve careta lhe esticou a boca— Ou por alguém. Me agradaria tanto ou tão pouco como isto. enquanto mexia..—Já não agüento mais. —E isso é bom? —Doía-me o nariz e tinha os olhos inchados de tanto chorar. —Ter essa paixão por algo.Não suporto deixar a Bree sem saber se está bem atendida. desfruto com o que faço. . senão que não lhes importa tanto. Naquele momento joguei ambos. as coisas passam? É o que se pergunta quando estuda história. suponho que —não disse. Mãos elegantes. sim: para ensinar.. —Eu não o tenho —disse ao fim. Me estreitou a mão suavemente e a soltou. Era um de seus textos de referência: Patriotas. disse—: Mas não creio que devas desistir. —É muito incômodo. —Sim. atônita. Seus olhos adquiriram uma clara nota de advertência. tinha imaginado que ele receberia minha decisão com um aplauso de alívio. -Não? —Ah. —Nunca colocava creme nem açúcar ao chá. observei a espuma que se amontoava na xícara—. É maravilhoso. Ele sorriu..

E não creio que Brianna corra pelos corredores. Não era boa mãe. com meu sujo avental de cirurgia. Esfreguei o nariz. Roger? Por que perguntas? Demorou um momento em responder.» E daí tinha feito de mim mesma. A menina amava a Frank. sempre realista. que estava fazendo? Um desastre. com nata fresca e um pouco de açúcar torrado. Naquele momento estava tão afundada em meus pensamentos angustiantes que não ouvi as palavras de Frank. as circunstâncias mudam tudo. Um desastre. Mas a que destino desconhecido levavam aqueles caminhos? Anos antes. —Não disse que o pessoal fazia mal em levar os seus filhos ao trabalho? —Ele criticava muito a uma das secretárias por ter levado ao seu neto ao escritório durante o mês em que a mãe esteve enferma. com belos cabelos brancos nas têmporas. Fiona. nem boa esposa. Olhei-o estúpidamente. Ao dar a primeira olhada a Brianna. Passamos um momento em silêncio. esse senão era Brianna —disse Claire removendo pensativamente seu cacau— Por que se interessa. «Com que tenhas nascido não importa tanto como o que faças de ti mesma. o cabelo escorrido e os olhos enrugados pelas lágrimas de Brianna. um cauteloso e incrédulo alívio. Quando sair da escola pode vir à universidade e colocá-la em meu escritório até que eu tenha terminado. —Se ele achava ter um senão. —Eu me ocuparei de Bree. para que Brianna não seja prejudicada. Suas feições se endureceram e me deu as costas. —Que disse ? —Disse —repetiu com paciência— que me ocuparei de Bree. tinha abandonado qualquer esperança de levar a Roger ao altar pelo caminho do .—Eu sei. uma anciã dama escocesa me tinha lido a mão. —Por que? —perguntei diretamente— Nunca se entusiasmou na idéia de que eu fosse médica. gritando e virando os tinteiros como fazia Bart Clancy. Se encolheu de ombros com ar incômodo. Minha mão seguia descansando na de Frank. —Eu não colocaria a mão no fogo —apontei irônica— Mas voce faria? —Na boca de meu estômago oprimido começava a crescer uma pequena sensação. Vi as linhas e os vales misteriosos. aarrogante. Estava espesso. Por enquanto não podia confiar que Frank me fosse fiel (sabia perfeitamente que não o era) podia confiar-lhe calmamente a Bree. —Não —disse pensativo— Mas creio que não há maneira de te impedir. enquanto tragava lentamente seu cacau. estaria na glória ante a perspectiva de ir todos os dias ao seu escritório. esbelto e pouco fatigado. De repente a preocupação desapareceu. claros como um mapa de estradas. nem bom médico. —Bom. Eu. tinha dito. —Sentia-me como se visse a cena desde longe: Frank. «As linhas da palma mudam à medida que tu mudas». Talvez o melhor seja ajudar.

Ela recolheu sua xícara. E creio que não se sentiu desperdiçado. —Eu? —Roger se sentiu absurdamente comprazido. E um amigo que fiz enquanto estudava medicina. Joe Abernathy. Perigoso ou não. E inclinou a cabeça para os papéis que tinha ante si.. Até eu. Roger pensou que tinha abandonado a conversa. alargando o sorriso —. Depois olhou diretamente a Roger. bom. voce.. —Seus longos dedos descansaram sobre o montão de papéis.. —Todo mundo pode mentir. Um era Jamie. A tensão se aliviou subitamente. jovem Roger.. agora —corrigiu. —Porque sou historiador. Não necessariamente é mais fácil saber para que foste criado.. —Sabes mais do que a maioria. Se és sincero.. suponho —respondeu ao fim. para si mesma— Não era dos que dão as costas a algo que considerasse seu dever. és franca. quase acariciando-os— O maestro Raymond. As fontes que nós historiadores usamos não costumam ter teu. É inconfundível. E agora. Inclinou a xícara para beber o resto do rico líquido pardo. tua perspectiva —terminou com um amplo sorriso. —E acha que eu posso dizer-te? —Claire o olhou firme — Ou o que eu sei? Ele assentiu com a cabeça. Temos que criar as mentiras com antecipação. —Mas Frank tinha razão. por suposto. Para mim é difícil não dizer o que penso. olhando-a acima da xícara—.. digamos.. em certo sentido. Claire assentiu com um leve sorriso nos lábios.. sabe? Não há muitos capazes de te dizer a verdade sobre si mesmo.. —Digamos assim —disse. —Oh. Só que é mais difícil para quem vive em cubos de vidro. Deixou de um lado o montão de papéis para pegar outro: uma série de pastas com o logotipo do Museu Britânico. Parece-me. o boticario que conheci em Paris. quatro. Preciso saber o que o fez e por que. Mas suponho que és sincero contigo mesmo e sabes o que és. rindo. —Tens toda a razão —reconheceu— Sou franca. mas ao menos não desperdiças tempo em questionamentos ou dúvidas. mais do que nada.estômago. —Além do mais —prosseguiu observando-a atenciosamente—.. isso também não é necessariamente fácil. tens menos probabilidades de pensar do que desperdiçaste a vida fazendo o que não te correspondia.. Só conheci a três. Não creio que pudesses mentir nem ainda que o tentasses. —Jamie era assim —disse com suavidade. Ela soltou um riso breve e seco. me entrego. mas um momento depois Claire voltou a levantar os olhos. . sim... qualquer que fosse seu final. Mas Fiona era cozinheira tal como Claire era médica: tinha nascido com essa habilidade e tinha que a utilizar. se tem uma boa causa. Imagino que se deu conta porque és igual.

Procurava alguma anotação capaz de revelar-lhe onde tinha estado Jamie Fraser. Joseph. e depois voltei a olhar. absorta nos aracnideos traços de algum escrevente morto muito tempo atrás. O coração me palpitava com força no peito — Jamie —repeti mais baixo. «Ardsmuir». Não senti desejo de correr para acordar a Brianna nem a Roger para dar-lhes a notícia. Escocia . E de repente apareceu ali. se tinha desperdiçado a vida numa prisão ou terminado numa masmorra solitária. talvez a tinha escrito tendo-o ante si. limitava-me a procurar nas páginas a letra J: «John. tão azuis. pulcramente colada à pasta. James.Ficou em silêncio. —Estou tão cansado que vejo duplo —disse— Quer que continuar pela manhã? Claire demorou um momento a responder. Eram quase as três da manhã. Ali estava ainda. sabendo o que lhe esperava? Cenhoso como o demônio. em seus olhos tinha a expressão de distância — Vá dormir Roger. fechei os olhos um instante. de Brock Turac. em letra pequena e exata: «Jms. Queria reservar-me um momento. sem se incomodar em tampar a boca. —Pegou outra pasta e lhe sorriu. com Jamie em pessoa. provavelmente. Mais ou menos nesta época do ano. Apegada na recordação. Mackenzie Fraser. —Ardsmuir? —disse sem entender— E onde diabos fica isso? CAPÍTULO 8 Prisioneiro de honra Ardsmuir. Jacques. James Alan. olhando ao longo de seu nariz longo e reto. nem sequer tinha visto qual era a prisão da que proviam esses registos. Em vez de ler os nomes com atenção. dizia o cartão. Seguí com o dedo a linha de tinta.» Depositei cuidadosamente a página na mesa. James Walter ad infinitum. A pessoa que tinha escrito aquela linha tinha visto Jamie.» Tinha James Edward. para despejá-los. Roger deixou as delgadas folhas que tinha estado olhando e bocejou intensamente. no quarto iluminado pelo lustre. Procurarei um pouco mais. Abri os olhos. Qual tinha sido seu aspecto ao enfrentar-se ao funcionário da prisão inglesa. escuros e formidáveis como as águas do lago Ness. Todos dormiam. Não era a primeira vez que o encarceravam. A data era 16 de maio de 1753. como se estivesse só ali. —Não. —Jamie —disse em voz alta. Quando no fim o encontrei estive a ponto de passá-lo por alto. com olhos tão frios.

Uma breve fila de homens maltrapilhos saíam por uma porta praticada na imponente muralha de pedra— Culloden os deixou sem coragem —disse indiferente— Disso se encarregou Billy. são jacobitas das Terras Altas. Luis de França tinha enviado a seu primo Carlos Stuart. depois tossiu e exalou ruidosamente o ar — A única compensação é a bebida —disse algo rouco — Visita os traficantes locais vestido com o seu melhor uniforme. milord. Eu deixarei isto também. e nos farão um preço decente. Grey assentiu. De imediato. deu um puxão na primeira gaveta. naquela parte de Escócia abundavam os rumores sobre o ouro que.. segundo o contra-cheque. mas bastante dóceis.15 de fevereiro de 1755 —Ardsmuir é o traseiro do mundo—comentou o coronel Harry Quarry. —Aqui. outra— E a dos prisioneiros. —Os prisioneiros não são desobedientes? —perguntou Grey— Tenho entendido que. —Aqui está o contra-cheque dos guardas. isto é: onze meses e mais vinte e nove dias dos que teria querido. utilizando. A fortaleza de Ardsmuir estava em processo de renovação. —Pegou na escrivaninha uma maltratada pasta de couro. Por enquanto tem cento e noventa e seis. da qual tinha estado observando seus novos domínios. Pior ainda: o cú desta maldita Escócia. —Parece um pouco incômodo —reconheceu secamente. em sua maior parte. Levantou a taça para o jovem que estava de pé ante a janela— Faz doze meses que estou aqui. Neste momento não o há. . E aqui eles trabalham tanto que não fica energia para causar problemas. Nos fará falta. Festejou sua própria anedota com uma gargalhada. O comandante John William Grey se afastou da janela que dava ao pátio. —Quarry deu um longo trago de whisky. bastante ironicamente. É assombrosamente barato sem os impostos. —Quarry voltou a afundar a mão na gaveta e tirou uma garrafa de vidro pardo tampada com uma cortiça. Não é grande coisa se contar com um empregado decente. Levantou-se para reunir-se com Quarry ante a janela. Deixo uma lista das melhores destilarias. levantando sua taça— Sempre chove assim? —Sim. Em condições de ser úteis. —Efetivamente. supostamente. requisições e cópias. o carniceiro. o pior do posto é a burocracia. Sacudiu para ouvir o chapino e sorriu sardónico — Não só o comandante procura consolo na bebida. Voltou a guardar a garrafa e abriu a última gaveta. não terá nada a fazer salvo caçar galos silvestres e procurar o ouro do Francês.. —Duzentos —repetiu Grey— E quantos nas barracas dos guardas? —Oitenta e dois. a mão de obra dos escoceses encarcerados ali. em torno da metade. Tinha um cabo com boa letra mas morreu faz duas semanas. Isto é Escócia. somando ou restando os que falecem por doença e algum caçador furtivo aprisionado na campina. Desfrute seu novo posto. Depois. — Apontou com a cabeça a enorme escrivaninha de carvalho. —Quarry fez uma pausa para olhar pela janela. Treina outro. levantando-se. a cifra habitual é de duzentos. A metade destes ordinários costumam estar incapacitados quando passa lista.

Dizem que é o diabo em pessoa.—Ali sai uma quadrilha cortando o caminho pela multidão. Quarry os contou. Metade dos guardas lhe têm medo. sim. A carruagem esperava. naquele momento se sentou para pôr as botas longas da cavalaria para enfrentar o barro de fora. Deus meu. mas se limitou a assentir. divertido pela idéia. São quatro. É o único jacobita de alta graduação. respirou fundo e deixou escapar o ar explosivamente —. Assim o chamam. e surgirá. Então esse maldito Quarry conhecia o caso! Inteiro ou só a primeira parte? O coronel contraiu levemente a boca. esfarrapados como espantalhos. devido aos punhais. dos quais só a ordem é capaz de falar sem empregar blasfemias. sim. são os que combateram em Prestonpans às ordens de Cope. sua vida social consistirá somente em conversar com vossos oficiais. vos asseguro. E um prisioneiro. desejoso para partir. Quarry tinha estado caminhando em meias.cenhoso — Deve de ter alguns enfermos. e ele diz que significa «James. curvando a boca como se desfrutasse de uma brincadeira secreta — Suponho que ouvistes falar de Jamie Fraser. Mas Grissom sim. Se afastou da janela. —Um prisioneiro? —Grey afastou os olhos dos registos que estava folheando com uma loira sobrancelha levantada. só tinha demorado para informar ao seu substituto a efetuar o transpasso formal do comando. —Vida social? Meu querido amigo! Se não encontrar uma ou duas moças que há na aldeia. temos ele aqui. Quarry se curvou a rir. Ou simplesmente Mac Dubh. Ainda que são assombrosamente poucos os que tratam de fugir. —Bastante. dando um pontapé em um grande cesto cheio de toscos fragmentos de substância escura. Portanto. os prisioneiros montanheses o tratam como um chefe. o ruivo. —Quarry se mexia inquieto pelo escritório. Bom. Um pobre diabo agora! —O coronel ofegou— Os prisioneiros lhe obedecem sem dar um piu. —Deixa a janela aberta ainda que chova —aconselhou— Caso contrário. mas manteve a cara tão impávida como pôde. é ele quem atua como porta-voz. —Um. se surge alguma questão relacionada com os internos. Mac Anfhear Dhuibh. Fala gaélico? Eu também não. um bando de trabalho se compõe de dezoito homens: três prisioneiros por guarda. —O coronel apontou com a cabeça ao grupo abaixo: dez ou doze homens barbudos. voltar a Londres! —Suponho que não há muita vida social na área —perguntou Grey seco. Deteve-se para dar uma olhada a Grey. —Como ilustração. Mas ordena algo sem que ele lhe ponha seu lacre . cujo elegante aspecto contrastava notoriamente com o dos montanheses. Acompanhava-nos seis soldados armados de mosquetes. formados em uma torpe fila ante um soldado com jaqueta vermelha. —Oh. Grey se pôs levemente rígido. a fumaça da multidão o sufocará. que alegria. —Como a maioria —respondeu frio— Esse homem se destacou durante a guerra. filho do Negro».

E Fraser é um gigante. Quarry era o filho menor de uma boa família. bom. já não tinha rastos de humor em sua cara larga e rubicunda. coronel —disse com voz firme. media três ou menos quatro centímetros da média e era de ossos finos. não é? Quarry deu uma palmada na testa ante sua fingida má memória. Podes tentar o mesmo. Para complicar o problema. —Furioso. Tinha que se controlar. Se jantar a sós com Fraser. . não lhe dê as costas. —Dou conta. Sabe jogar xadrez. tinha mal vinte e seis anos.. —Suponho que sim. tudo fica em suas mãos.. Na Escócia teve muito nestes dez últimos anos. não cometeria a estupidez de atacar-me em minhas próprias habitações e dentro da prisão. —Tinha os músculos do abdomem tão apertados que lhe custava respirar. Teve ajustes com escoceses? Ah. Grey sentiu que lhe subia o sangue à cara.. —Fez uma pausa para desfrutá-lo— Eu o convidava a jantar comigo uma vez por semana para falar de como ia tudo e me dava bons resultados. O que ganharia com isso? O coronel não respondeu. Mas voce é muito jovem. Os brilhantes olhos de avelã descansaram nele.. —O tom de Grey era sereno mas tinha os punhos apertados. ou ao menos sua colaboração. Como ele.e será como falar com as pedras do pátio. —É um homem instruído —continuou Quarry com os olhos brilhantes de malícia — Um interlocutor bem mais interessante do que os oficiais. Em um momento Grey girou para ele e o viu olhando-o pensativamente. certamente. não? —De vez em quando. cenhoso. Grey o olhou. Sua cara tinha perdido a graça ofensiva.. pele clara e pestanas femininas que lhe davam um aspecto ainda mais juvenil. —Conheço bem essas coisas. —Digo em sério —aclarou Quarry. mas não viu mostras de que a advertência fora uma brincadeira. talvez não tenha visto de perto o ódio e o desespero. combateu em Culloden com o regimento de seu irmão. O que significa que precisa da boa vontade de Fraser. Teimoso é pouco dizer. subitamente sério — Está encadeado. Jantaria com Fraser quando tivesse maçaricos no inferno. por suposto. mas o superava em categoria. —Existe a inteligência —disse com lentidão — E também existem outras coisas. Aquele maldito homem sabia tudo! —Então voce tem idéia. —Eu sei. O comandante Grey era jovem. mas não é difícil enforcar a um homem usando a corrente. Se ergueu em toda sua estatura. especulativos. Por que não fechava a boca e se ia de uma vez aquele maldito idiota? —Oh. Voce joga alguma partida de vez em quando. Para dissimulá-lo girou em volta refrescando-se o semblante com o ar frio que entrava pela janela entreaberta e disse às pedras cinzas do pátio que brilhavam sob a chuva—: Se é tão inteligente como diz. —O coronel se voltou para a porta com o chapéu na mão — Uma coisa mais.

a ambos lados. alçou a voz e disse a todos os presentes:— Alguém viu o novo carcereiro? Johnson? MacTavish? —Eu —disse Hayes adiantando-se com gosto para esquentar-se as mãos ante o fogo. apertadoss para dar-se calor. e se jogou a rir. Hayes relaxou. como uma moça. Tem os olhos grandes e as pestanas longas. —Não. não é? Era muito melhor do que esse merda de Bogle.Te desejo boa sorte! E desapareceu com um volteio em seu manto azul. Que queres dizer. Grey —disse mexendo a cabeça— Por vosso próprio bem. Na ampla cela tinha uma chaminé frente à qual só podiam pôr-se seis homens ao mesmo tempo. Quarry pôs o chapéu. —Sabe Deus o que fizeste para o enviar aqui. como se lhe tivessem metido uma vara pelo traseiro. Os outros quarenta ficavam expostos ao intenso frio. alongando as mãos para o calor. Mas ainda não sabemos se tens razão. zombando. é verdade —disse Kenny Lesley— Mas estavas aqui quando veio. Murdo. homem. Harry foi melhor. ainda que suponho que é maior do que parece. Alentado pelos risos. fazendo tinir levemente a corrente de seus grilhetes. preparado para seguir discutindo. Mantém-se muito erguido. Harry era bom para conhecer. como se estivesse muito informado. passou a descrever as roupas do novo carcereiro («finas como as de um lorde»). homem? —Se Harry era melhor do que Bogle —explicou Lesley paciente—. —Fala claro e de pressa. de longos cachos amarelos atados com uma fita azul. fizeram que se apressasse a abrir os olhos. tinham lembrado que quem tivesse um conto que relatar ou uma canção que entoar podia situar-se junto ao fogo enquanto tivesse a palavra. espero que o mereça. não? —Sim —reconheceu Murdo inexpressivo. Terá que ver o quanto é o bom para conhecer. E outra vez quando lhes subiu um prato de doces da cozinha. E Bogle. sua bagagem e seu servente («um desses Sassenachs que falam como se tivessem queimado a língua») e tudo o que tinha podido perceber em sua maneira de expressar-se. Portanto. —Mexeu dubitativamente a cabeça— Mas é muito jovem. —Não me engano! Ao menos. . isso eu creio —murmurou Murdo sem poder recordar exatamente o que tinha dito. com os olhos fechados e uma bem aventurado sorriso na cara.Com um brusco movimento. Dá a impressão de ser quase um menino. —Mais vale um mau conhecido do que um bom para conhecer —disse Murdo Lindsay sacudindo lúgubremente a cabeça— E aposto que Harry não era tão mau. —Vi-o quando desceu de sua carruagem. Voltou-se para apelar à corpulenta silhueta sentada no canto— Me engano. Apesar de tudo. certo? —Ao ver que Lesley franzia as sobrancelhas. Assim se enganas. onde a linha escura de uma cicatriz sulcava a pele avermelhada: recordação do escandaloso duelo que o tinha enviado ao exílio de Ardsmuir. Hayes olhou com obcenidade aos seus ouvintes e agitou suas pálpebras. É loiro. enquanto conversava com o aposto Harry. —Não. o mau conhecido. Depois tocou a bochecha. Os movimentos inquietos. não se engana. MacDubh? O homem alto se espreguiçou.

permitia ir de cela em cela para atender aos enfermos ou lesados. Esta semana morderam seis homens enquanto dormiam e dois deles estão purulentos.Isto deu origem a uma série de risos e comentários vulgaress. reduz a polpa as folhas e os caules e. nas que se alojava os prisioneiros em grupos numerosos. as notícias passavam de uma a outra graças às visitas de Morrison e aos intercâmbios dos homens que se produziam em bandos quando saíam diariamente a trabalhar. com que os prisioneiros improvisavam jogos de casualidade. —Crês que falarás amanhã com o novo carcereiro. Depois Hayes cedeu seu lugar a Ogilvie. Gavin —sussurrou— Quarry prometeu explicar ao novo carcereiro o nosso acordo. —Não teve tempo para dizer mais. Mac Dubh mexeu a cabeça e coçou o queixo. onde todos podiam ouvir-lhe. Morrison. Dubh procurou às apalpadelas sob o banco que ocupava e tirou o saco de pano que saía ao páramo. nem sequer quando lhes narrava longas histórias dos livros que tinha lido: As aventuras de Roderick Random. Morrison? Tira os espinhos. . Mac Dubh nunca ocupava seu lugar junto com eles. guardando em seu bolso quatro crânios de ratos talhados. entende? —Será melhor que envie Morrison —decidiu Mac Dubh— Ele pode perguntar a Billy se há algum outro problema ali. seguindo com o costume. foi sentar-se junto a Mac Dubh. —Não sei. mas tinham passado cinco dias desde a última e já tinha o queixo coberto de cerdas vermelhas. Tinha quatro celas principais. Quantas vezes queres que te diga. Mac Dubh tirou cautelosamente um punhado de caules secos e chupou os dedos fincados. que tinha boa mão para curar. que conhecia um episódio longo e chocante sobre o senhor de Donibristle e a filha do porqueiro. Mac Dubh? —perguntou Hayes ao sentar-se ao seu lado— Cruzei-me com Billy Malcolm. prepara um chá para que os homens o bebam. Mac. Todos me dizem que não são vacas nem porcos. ao ver o homão fazendo uma careta ao rebuscar na bolsa— Não posso fazer que comam essas coisas. não? Se me chama não deixarei de mencionar os ratos. se Mac Dubh o solicitava. Antes de cada audiência semanal com Harry Quarry se lhe facilitava uma navalha para barbear-se. Malcolm pediu que Morrison visse as feridas? Na prisão não tinha médicos. e gritou que os ratos estão muito audazes em sua cela. se são demais espinhosos para comer untados numa bolacha. sem duvidá —comentou— É só um bicho leiteiro. que vinha cortando pela multidão. —São teimosos como porcos. Alegando que precisava espaço para suas longas pernas. ficava sempre no mesmo canto. Morrison veio quando mandou chamar. —Oh. Hayes mexeu a cabeça. Passavam marchando. Afastou-se do fogo sem ressentimento e. A história de Tom Jones ou a favorita de todos: Robinson Crusoe. outra vez esses malditos cardos! —protestou Morrison. mas este pode ter costumes diferentes.

que deixou pequenos pontos de tinta.— Voces lembraram que as vacas e os porcos nunca perdem os dentes. —Claro.. Para jantar me serviram um refogado que. Conto com um excelente servidor e. Depois fechou os olhos. perguntando a sua mãe se tinha visto recentemente a lady Everett e pedindo-lhe que lhe transmitisse suas recordações ao filho. mas o esposo de lady Everett se movia no círculo militar. lorde podia sentir o assunto e não demoraria em somar dois em dois. Jovem. enviei-o à cozinha e solicitei a mudança um simples filet de cordeiro. Sabia muito bem que seu filho menor tinha caído em desgraça. e estando algo fatigado pela longa viagem (de cujos detalhes te informarei em minha próxima carta) creio que agora devo retirar-me. deixando uma descrição mais completa do ambiente. sem tempo sequer para pensar no novo carcereiro. de origem não identificada. Morrison foi recolher as poucas ervas e ungüentos que utilizava como remédios. para os habitantes de Escócia. Estava fatigado. mudou de postura. com o que ainda não estou muito familiarizado. afastando com firmeza sua mente das correntes e do novo carcereiro. Tendo celebrado desse modo minha primeira e humilde comida aqui. Dizem ser o órgão interior de uma ovelha. recheado com uma mistura de aveia moida e certa quantidade de carne cozida. tinha passado todo o dia carregando pedras. A condessa viúva de Melton não era tonta. —Depois de emitir o breve ruído que nele passava por gargalhada.. mas sim com uma referência à família. Não. chama-se «haggis». estou cômodo. aos oficiais jovens bem vistos pelos superiores não se lhes . posso dizer-te uma palavra ao ouvido? Ao abrir os olhos viu Ronnie Sutherland ao seu lado. para outra ocasião. Com a influência de seu irmão maior reduziria a fofoca ao mínimo. Essa noite. dando golpezinhos no secante com a pluma. Ronnie. Além das roçaduras. Incorporou-se. causavam-lhe dores de costas pela impossibilidade de separar os braços mais de meio metro. dizia Hayes. este prato é uma verdadeira preciosidade. Mac Dubh deu uma olhada pela cela para assegurar-se de que não estivesse gestando nenhum problema. o coronel Quarry (sobrinho do duque de Clarence. por importante que fosse aquele homem na vida de todos. por enquanto é inevitável que muitas coisas de Escócia me pareçam estranhas num princípio. Com que ele dissesse uma palavra imprudente a sua esposa sobre George e essa palavra passasse de lady Everett a sua mãe. Fez uma pausa. traçando o contorno de um objeto irregular. lembras?) deu-me as boas vindas e me pôs ao tanto de minhas funções. Meu predecessor. Se atreveria a perguntar por George? Não podia fazê-lo diretamente. Isso podia ser bom. Sua mãe viúva ignorava a situação. segundo o garçom. incomodado (pela milésima vez) pelas algemas que levava. uniu-os distraidamente com linhas. John Grey escreveu: Queridísima mãe: Cheguei são e salvo ao meu novo posto. Ainda me assegura que. Suspirando desenhou outro ponto. Com um suspiro. —Mac Dubh —disse uma voz suave ao seu lado —. não duvido que a experiência tem de ser interessante. mas também podia ser mau.

comia um bocado de pão. Devo já esquentar a cama? O acento escocês. sim. mas só um apelidado como ruivo.enviava ao cú da Escócia a supervisionar a renovação de um pequeno cárcere sem importância. Mas que sentido tinha? Nas Terras Altas podia ter vinte homens chamados James Fraser. mas era já um homem de vinte anos. para evitar que ela fizesse perguntas. espevitado e sudoroso. selou-a com seu anel e a deixou a um lado para que a despachassem pela manhã. a suas costas. Ainda que ainda não era oficial. Um azarado assunto do coração! Molhou a pluma no tinteiro com um sorriso preocupado. com o coração retombando-lhe nos ouvidos. Deu uma olhada à pasta onde se guardava o contra-cheque de prisioneiros. alto. MacDonell?—arriscou hesitante.. desde a morte de Héctor em Culloden. Apagou a vela e se foi à cama guiado pelo resplendor difuso do lar. rondando sua cama como um morcego mas sem chegar a posar-se.. teu obediente filho. Provavelmente. Enquanto marchavam para reunir-se com o general Cope em Prestonpans. Voltou à escrivaninha e aproximou a carta para assiná-la de pressa: Com todo afeto. com um cargo de tenente e deslumbrantes episódios das batalhas livradas em França. Ainda agora ignorava se tinha feito isso para amular a Héctor ou só para impressioná-lo. pouco que tinha estado evitando-o durante todo o dia. Grey. tentado abrí-la para procurar o nome. mas o homem estava só (ao menos. a idéia de voltar ao acampamento em procura de ajuda. . decidiu matá-lo ou capturá-lo. Aquela noite já não poderia fazer nada. seu irmão. Lhe tinha ocorrido. ao ver o montanhes no bosque e ao reconhecê-lo como o famoso Jamie Fraser dos cartazes. musculoso e temerário. Depois espalhou areia sobre a assinatura. Naquela época ele tinha dezesseis anos e estava muito excitado por sua primeira campanha. A cabeça desapareceu. tinha-lhe explicado que se tratava de um azarado assunto do coração. O caso é que. Grey suspirou. calmamente sentado num tronco.. milord —corrigiu o homem sem ressentimento visível. —Oh! Eh. no entanto. isso pensou John) e obviamente desprevenido. Héctor o queria. então se descobria. obrigado. Ao girar em volta se encontrou com a cabeça revolta do prisioneiro encarregado de atender suas habitações. insinuando algo indecoroso. senhor. deveria ter dormido de imediato. Cada vez que estava a ponto de sumir-se no descanso aparecia ante seus olhos uma visão do bosque de Carryarrick. Mas Harold. sim. a condessa pensava que tinham surpreendido a John com a esposa do coronel ou com uma ramera em suas habitações. Devido aos efeitos do esgotamento e o whisky. sobressaltou-lhe. Ao pensar em Culloden lembrou de Fraser. seu irmão Harold o tinha levado com o regimento a fim de que conhecesse a vida militar. acamparam cerca de um escuro bosque escocês. uma vez mais. Claro que. John se sentia muito nervoso para dormir. o sonho se mantinha a distância.. Talvez Harold era mais sensível do que parecia ao qualificá-lo assim. —Perdão. John Wm. todos aqueles assuntos tinham sido azarados para John. —MacKay. Como seria a batalha? Não se decidia a mencionar seu medo nem sequer a Héctor.

imaginando os elogios de Héctor. salvo seu irmão. Ao princípio o escocês estava embaixo dele. Fraser. tratou de negociar para resgatá-la de seu destino. Para piorar as coisas. Era inglesa e... Bom. Héctor. seguro de que ia ser assassinado. depois. o ruivo lhe revelou. todos com saias. Que podia pensar ele! E lorde John William Grey. John se converteu num pária. Grey apertou os dentes. quando descarregava seu punhal. Maldita mulher! Se não tivesse sido por ela.. Ninguém lhe dirigia a palavra. teriam inutilizado o canhão que levavam a Cope. O que sucedeu foi que ela disse algo. rindo. Ainda que o escusaram por sua curta idade e o fato de que ainda não fora oficial. estremecido e lutando contra a dor de seu braço fraturado. ainda podia ouvir as obscenas e alegres vozes dos escoceses. de dezesseis anos. embolando juntos na crepitante escuridão coberta de folhas secas..... despiu uma parte à mulher ante seus olhos para obrigá-lo a dar informação sobre a posição e o número do regimento de seu irmão. em seu lugar. esfregou a bochecha contra o travesseiro. rodeando com um braço o pescoço do escocês. idiota!. movia-se com aqueles aros musculosos. em Culloden. Tinham caído para trás.. Mas. de algum modo. Grey deu a volta na cama. o osso se rompeu com um estalido de dor que o deixou sem sentido. uma dama. John tinha trazido numa ocasião uma grande apito feito na Índia. em alvo de desprezo. com os braços dolorosamente retorcidos nas costas. Ainda podia ver a Héctor em sua mente: um moreno de olhos azuis e boca terna sempre sorridente.. tirou com todas suas forças do braço aprisionado. chegou à conclusão de que a mulher era refém dos cruéis escoceses. feito em pedaços por uma . onde seus camaradas o encontrariam pela manhã. com a informação proporcionada por ele. suave e horrivelmente poderoso.. pensava ele. que a mulher era sua esposa. Ao voltar em si estava apoiado numa árvore frente a um círculo de ferozes montanheses. Num acesso de terror. e a mulher. retorceu-se e ficou acima. John. por sua maneira de falar. e Héctor. debatendo-se e lutando. ferido. Tinha morrido dez anos atrás. Todo mundo se informou. extravasando idéias militares de galantería e nobreza. procurando às apalpadelas da faca. só Deus sabe o que poderia ter sucedido. Todos riram. Fraser não tinha tido sequer a decência de matá-lo e o amarrou a uma árvore. por defender a vida.Ele desembainhou seu punhal e se escorreu entre o bosque para a ruiva cabeça. No meio de todos eles estava o Ruivo Fraser. Com um suspiro. jogou com ele como o pescador com um peixe. por suposto. nunca por onde se esperava. que sem dúvida a teriam raptado com o propósito de violá-la. sempre leal. com a empunhadura da faca na mão e a mente cheia de visões de glória. Viu-se ignominiosamente atirado de bruços entre as folhas. alto e zombador. acalorado pelas recordações. e isso parecia o tato de Fraser: ligeiro. Lorde John Grey se esticou na cama. irritado no colchão estranho. Todo mundo dizia que os montanheses violavam à menor oportunidade que se lhes apresentava e de que se deleitavam desonrando às inglesas.. quando os homens do ruivo tivessem visitado o acampamento e. E quando ele lhe teve dito quanto sabia.

isto. tinha pensado voltar a encontrar-se com James Fraser. tê-lo mutilado ou matado teria sido um selvagem prazer. Abaixo. seu prisioneiro. . deveria vistoriá-los com regularidade). Chovia. Responsabilidade de Grey. mas com uma decisão tomada. E agora. Tinha-o imaginado com todos os detalhes. já saldada aquela dívida e com Fraser em seu poder. os prisioneiros já estavam formando as quadrilhas de trabalho. Aqui. Ouvia Fraser implorar misericórdia e se concebia a si mesmo desdenhoso e altaneiro. mas não o receberia em privado. abrumado pela recordação do que lhe tinham feito a Héctor. estúpidos ou sábios. por favor. apareceu no escritório. a honra lhe impedia fazer-lhe danos. sua mesma impotência de prisioneiro lhe livrava de todo perigo. Pois. nem no mais horrível de seus pesadelos. tão a sua graça como os outros. se olhou ao espelho para endereçar-se a peruca e desceu para tomar café da manhã. Agora. com o corpo arqueado por espasmos. um prisioneiro de guerra. Mas o fato inevitável era que. nu nas noites de inverno. ingênuos ou experimentados. no pátio. Sentindo-se algo melhor. Grey se levantou pela manhã sem ter descansado. —Quer que vos sirva o jantar na sala. sentindo seu contato. Quando esteve barbeado e vestido. E nenhum podia mudar de lugar num futuro previsível. o frio da pedra sob os pés lhe arrancou uma exclamação. despenteada como sempre. Teria que o ver de vez em quando (dentro de uma hora falaria ante os prisioneiros reunidos e. talvez pudesse manter também a risca as recordações que lhe acordava. Estava ali. em frente. mas John ainda acordava as vezes ao amanhecer. pouco a pouco. alimentado com água suja. Fraser era agora um inimigo derrotado. que Fraser já não era seu torturador senão um prisioneiro. —Hum? —murmurou Grey absorto nos papéis espalhados ante ele. Depois levantou a os olhos — Ah. Sua estúpida conduta em Carryarrick tinha salvado a vida de Fraser em Culloden. Ter encontrado a Fraser na batalha. E seu bem-estar. Imaginou-o e sentiu um surto de asco contra si mesmo. com suas vozes chiadoras. ou aqui? —A cabeça de MacKay. obrigação de honra. flagelado no pátio da prisão. foi a outra cara da situação atual o que o manteve desperto até o amanhecer: o compreender. Essa nomeação o tinha horrorizado: estar rodeado de escoceses. Mas nunca. responsabilidade da Coroa.espada escocesa. enquanto aquele homem fora seu prisioneiro. Pois os Grey. Grey tinha imaginado a Fraser preso numa diminuta cela de pedra gelada. por enquanto era a recordação da ira e a humilhação passada o que não lhe tinha permitido conciliar o sonho. Se o mantinha a distância. antes de pronunciar seu primeiro discurso ante os prisioneiros. Depois de chamar a seu servente com a campainha. foi descalço à janela para ver como estava o tempo. Fraser também estava ali. o qual não era estranho. Bem. E os sentimentos. desfrutando-os. eram antes de mais nada homens de honra. já se tinha reposto o suficiente para encontrar-lhe certo humor lúgubre à situação. senhor.

muitos. Precisa de algo mais. ainda mais sobressaltado. senhor? —Sim. —Há muitas ratos nas celas? —perguntou. com os olhos brilhantes fixos no comandante. que estava recolhendo seus papéis dispersos. Um surrado leve e discreto fez que se incorporasse bruscamente. E depois. O sol não tinha incomodado em aparecer uma só vez desde sua chegada e trabalhar todo o dia numa habitação cheia de fumaça. senhor —replicou o interno— Só que eles mantêm a risca os escaravelhos. quase nem alçou a vista ao chegar a bandeja com a comida. Não. Deixou a pluma com um suspiro e fechou os olhos. por favor. Tinha um grande rato parda sentado no canto de sua escrivaninha. à luz das velas. MacKay pareceu vacilar. senhor. —Mas malditos sejam meus olhos! —exclamou Grey assombrado— Ouve. —Sim. por favor —ordenou Grey— De imediato. O dia anterior tinham chegado seus livros mas ainda estavam sem desempacotar. John tinha passado o dia sem fazer outra coisa que redigir e assinar requisitorias. Grey o olhou com um pouco de asco. O da burocracia não era uma brincadeira de Quarry. deteve-se. MacKay? —Não. Não se moveu. depois de tudo.Apontou vagamente uma canto da enorme escrivaninha e voltou ao seu trabalho. traz um. tratando de despejar-se com o ar fresco enquanto MacKay concluía a limpeza. A garrafa de tinta estourou contra o solo e o sobressaltado animal saltou da escrivaninha fugindo precipitadamente entre as pernas de MacKay que. senhor MacKay. senhor? CAPÍTULO 9 . abrindo os olhos. —Saia daqui! —Enfurecido. —Só se têm a sorte de pegar um. Pode ser que os gatos ajudem um pouco. se não queria morrer de pura chatisse. De repente lhe ocorreu algo. senhor —respondeu o prisioneiro — Direi ao cozinheiro que prepare outra bandeja. com a recordação daqueles dentes amarelos mordiscando seu pudim de ameixas. asqueroso! Isso é meu jantar! O rato mordiscou pensativamente o pudim. —Sim. Foi-se à janela. Grey. —Algum problema. —Os prisioneiros comem ratos? —perguntou. pouco depois. fazia que lhe ardessem os olhos como brasas. Tinha que conseguir cedo um escrivente. senhor. tinha aparecido na porta para ver a que se devia aquele barulho. nos depósitos há gatos —respondeu MacKay. senhor. Grey pegou o objeto mais próximo e o atirou. ocupa-se em por em cada uma das celas um gato. massageando a dor surda que sentia entre as sobrancelhas. E com todo respeito. —Há algum gato na prisão? —inquiriu Grey jogando o conteúdo da bandeja ao cesto dos papéis. com um bocado de pudim de ameixa entre as patas dianteiras. —Bom. limitou-se a olhá-lo retorcendo os bigodes. não creio que aos homens lhe agradem que um gato coma todos seus ratos. MacKay. arrastando-se sobre as mãos e joelhos para limpar as pequenas impressões de tinta deixadas pelo rato.

Agora está no Tilo.? —Allison. «É um homem instruído». — Levantou significativamente uma sobrancelha. E num prisioneiro? Sim. repetiu a voz de Quarry em sua memória. um dos aldeanos que trabalhavam para a prisão. Não sei se me compreendes. Ante a palavra ouro muitos ouvidos se aguçavam. E que chegou muito tarde. segundo rumores. quando o trouxeram. Não deixava de balbuciar.A verdade é que esse ouro.. Seu nome. Por desgraça. se a história tinha um pouco de verdade. até então. . para servi-lo. todos os prisioneiros falavam gaélico e alguns também um pouco de inglês. para John William Grey tinha um considerável valor pessoal.. pois nenhum dos internos poderia utilizar a informação em proveito próprio.. Francês e gaélico. Não. mas não creio que baste atendê-lo bem. ao redor da aldeia. não podia confiar num aldeano. à civilização. mas falava numa mistura incoerente de francês e gaélico. retirou-se. Grey falava um pouco de francês. O homem aceitou o chelín que lhe oferecia e. da aldeia de Ardsmuir. assentiu com a cabeça. Carlos Stuart.O VAGABUNDO A decisão de Grey com respeito a James Fraser durou duas semanas: até que chegou o mensageiro. com notícias que mudou tudo. Luis de França tinha enviado em segredo para auxiliar a seu primo. contemplando o céu cinzento. A combinação de escoceses. O homem parecia ser escocês. —Eu mesmo o vi.. sendo menino. a fortuna em barras de ouro que. —Ainda vive? —perguntou ásperamente ao homem. senhor. fazendo uma reverência com o chapéu sob o braço. mas quem o tinha resgatado não encontrava muito sentido a suas divagações. —Compreendo —respondeu Grey—Obrigado. pertenceria à Coroa). Rufus Allison. Também em nenhum de seus oficiais. dizendo aqui e lá alguma palavra inglesa. O achado daquela reserva quase mítica seria seu passaporte para sair de Ardsmuir e regressar a Londres. descontando algumas palavras que o sargento Grissom tinha aprendido. ouro e francês naquela zona do país só podia trazer uma idéia à mente de alguém que tivesse combatido durante os últimos dias do alçamento jacobita: o ouro do Francês. resultado de ter combatido vários anos no estrangeiro. não tinha perigo em empregar um prisioneiro. E uma dessas palavras tinha sido «ouro». Aquela manhã tinham encontrado um homem vagando na neblina do páramo. O mensageiro. especialmente os seus. Trazia as roupas empapadas de água de mar e delirava pela febre. mas só um dominava também o francês.O ouro do Francês! Parte de seu valor como tesouro (que. senhor. mas nem ele nem seus oficiais dominavam o bárbaro gaélico. Não podia confiar num homem da aldeia. bem atendido. senhor. de uma babá escocesa. em todo caso. Grey permaneceu sentado em sua escrivaninha. não tinha aparecido.

. agradeço-o que tenhas vindo. só seus olhos o disseram. sem mencionar que não tinha alternativa. as frases soavam insofrivelmente pomposas. seus olhos azuis eram os mesmos. O sobressaltado cabo debruçou a cabeça. Tinha mudado. esperando. —Sim. grande interesse para a Coroa. —Compreendo. Permanecia em silêncio ante a escrivaninha.. —Brame! —gritou. que não se atrevia a falar. No entanto. —Na colina. apoiou-se nele como se o enorme móvel de carvalho fora realmente o baluarte que parecia. Fez uma pausa mas Fraser se limitou a esperar. Temo que surgiu uma situação na qual preciso de sua ajuda. De imediato. comandante. alcaide. —Fraser falava respeitosamente. —Temo que devo recusar. mas com um brilho nos olhos no que não tinha nada de respeitoso. —Senhor Fraser —disse—. Allison tinha dito que o vagabundo estava muito enfermo e não tinha tempo para procurar alternativas. Não tinha outro remédio. mas também foi um alívio. mas não davam sinais de reconhecê-lo.. O escocês moveu uma de suas avermelhadas sobrancelhas. mas não tinha remédio —. em pé depois de sua escrivaninha. senhor? —Traga o prisioneiro James Fraser.. O coração ainda lhe palpitava muito depressa mas ao menos pôde falar com calma. —Por desgraça —continuou Grey tomando alento—. encontraram um vagabundo —disse com cautela— Parece estar gravemente enfermo e diz coisas sem sentido.. Grey pigarreou. francês e com alguma palavra solta em inglês. —Do que se trata. assuntos aos que se refere parecem ser de. O escocês entrou com um leve tinido de correntes e se deteve em frente a escrivaninha. alcaide? —A voz era a mesma: grave e precisa. mas nunca a uma distância que lhe permitisse ver-lhe a cara com clareza. Levava muito tempo vendo em sua memória uma cara limpamente barbeada. O alcaide. o homem em questão se expressa numa mistura de gaélico. A seus próprios ouvidos. cerca da costa.—Maldita seja! —murmurou Grey. verdadeiros. Cuspiu um fragmento de pluma. com os outros prisioneiros. o pescoço branco do uniforme parecia apertar-lhe. O escocês inclinou cortesmente a cabeça. Aquele homem tinha uma barba curta e o rosto sereno e cauteloso. cenhosa e ameaçante ou alegre pelo riso zombador. O coração lhe deu um pulo violento ao abrir a porta. Grey. caracterizada por um suave acento montanhês. Muitas vezes. —Sua voz suave estava cheia de ironia— Vos agradaria contar com minha ajuda para interpretar o que esse homem possa dizer. assentiu secamente com a cabeça. Grey tinha visto Fraser no pátio. mas era óbvio que tinha captado a situação. isso o impressionou. —Sem dúvida deve se perguntar por que eu mandei chamá-lo —continuou Grey. Sentiu as mãos úmidas. Preciso falar com ele e averiguar tudo o possível sobre sua identidade e os assuntos que menciona. Seu rosto não se alterou de modo apreciável.

inexpressivo. Sua esposa estava na escada com um esfregador na mão. uma aparição totalmente vestida de negro.. Grey respirou fundo. alegra-me saber. Grey teria preferido mil vezes deixá-lo ir. apoiou uma mão no braço do pousadeiro. uma exclamação de surpresa quando o pousadeiro viu a Fraser. ainda que jovem e pouco experiente. —Quem é esse? —Na escada tinha outra silhueta. —O padre —explicou Fraser baixinho — Isso significa que o homem está agonizando. cedeu um pouco o nervosismo que o dominava desde que soubes do vagabundo. brevemente. alcaide —a voz de Fraser soou bem mais dura do que a do inglês. sem voltar-se. A troca de fazer-lhe retirar os grilhos. —Não é legítimo que me obrigue a prestar serviço nem que me ameaces. —Fraser girou para a porta— Nesse caso. depois. e uma atitude de deferência ante os soldados que o acompanhavam. senhor Fraser? —Não sou intérprete. reunindo forças. Lá dentro teve um murmúrio de vozes gaélicas. lhe dou as boas noites. . E não era lerdo para avaliar um homem. Quando chegaram à aldeia de Ardsmuir já passava da meia-noite. tensa. —Recusas? —Apertou mais o abrecartas para afirmar a voz— Posso perguntar por que. Fraser permaneceu imóvel. apreciada. Grey. Grey se deteve para olhar a Fraser. —Lembra das condições de nosso acordo? —Sim —respondeu o prisioneiro. o dever chamava. E passou roçando-o. se viu obrigado a afrouxar os dedos. fazendo dançar as sombras ao seu arredor. —Grey tratou de infundir intenção à palavra sem oferecer diretamente um suborno— Ao contrário —disse endurecendo o tom—. —Trato feito. —Senhor Fraser! O escocês se deteve a um metro da porta. Grey se perguntava o que pensariam os habitantes do ruído de capacetes e do tinido de armas a uma hora tão avançada da noite. que não tentasse escapar durante a viagem à aldeia no regresso. Ante a porta da pousada. —Vossa assistência seria. comandante —disse o escocês amável— só um prisioneiro.. era observador.. que lhe fizesse um relato completo e veraz de tudo o que o vagabundo dissesse e em terceiro lugar lhe pediu sua palavra de cavaleiro de repetir o que tivesse escutado somente a Grey. Não tinha luz nas cabanas ante as que passaram. segundo. sobressaltado.. segurando o abrecartas de bronze. como o leve eco das tropas inglesas que tinham varrido as Terras Altas dez anos atrás.A mão de Grey se curvou. —Senhor Fraser? Muito lentamente. —Não vou ameaçar! —O filo do abrecartas lhe estava cortando a mão. Grey lhe tinha exigido três coisas: primeiro. —Não? Bom. Ao ver que o prisioneiro alçava a cabeça e consertava a tensão de seus ombros. Por desgraça. alcaide —disse com suavidade. Grey. o escocês se voltou. —Se fazer o que eu peço eu posso retirar as correntes —disse.. o fato de não prestar uma legítima ajuda.

—Sempre cumpro com minha palavra. Quando Fraser havia terminado de comer. o coração e os dois ombros. Fraser lhe sustentava uma mão e o sacerdote a outra. por suposto. Em parte era pela fadiga. fazendo alguma pausa para recordar uma palavra exata. Grey escutava. afundado na fadiga e a desilusão. Falou com cautela. pondo-se em pé— Regressamos já? Durante um momento cavalgaram em silêncio. cada vez mais decepcionado. o prisioneiro se reclinou em seu assento com os olhos fechados. fazendo sinais papistas sobre o cadáver. dando-lhe alento e consolo enquanto Grey permanecia junto à porta para não assustar ao homem com seu uniforme. —Então tem pouco tempo a perder —manifestou. Descontando algumas palavras aqui e lá. —Bem —disse—. assombrado e comovido a um tempo pela suavidade de Fraser. como traçando uma cruz. Falou de uma bruxa branca? E de focas? —Não parecia mais desgrenhado do que o resto. algum fragmento que brindasse um ponto para achar o ouro perdido. Não tem muito sentido mas isto é o que disse. Fraser. Depois abriu os olhos. Divagações. notou-o com surpresa. Por fim o viu colocar a magra mão curtida no peito imóvel e fazer o mesmo sinal que o padre: tocou-lhe a testa.O comandante respirou fundo. detiveram-se junto a . —Aqui. —Estas seguro de que não disse nada mais? —insistiu. por favor. Fazendo um breve gesto a Grey. com à débil esperança de que Fraser tivesse omitido alguma frase. para explicar alguma referência gaélica. O homem morreu justo antes do amanhecer. Quando viu o sol depois das pequenas colinas do norte. —Repeti —ordenou Grey— Tal como o recordas. sem soltar aquela mão pequena e frágil. já deserto. a versão foi idêntica à anterior. senhor —assegurou o outro com fria formalidade. Grey. Uma criada de olhos sonolentos acendeu o fogo e lhes levou pão e cerveja. sua cabeça esteve a ponto de tocar as vigas. Mexeu a cabeça. O corpulento escocês tinha passado toda a noite junto ao moribundo. Quando se pôs em pé. tratando de preparar-se para o que vinha. —A bruxa branca? —interrompeu—. cavaleiro? O escocês deixou seu jarro de peltre e limpou a boca com o dorso da mão. suas reações e sentimentos habituais estavam intumecidos pela prolongada vela e a tensão de ver morrer a um homem pouco à pouco. precedeu-o pela estreita escada. Fraser tinha razão: aquilo não tinha muito sentido. desalentado. Enquanto este último murmurava frases em gaélico e em latim. depois os deixou sós. falou devagar. —O inglês disse a porta do bar. —Efetivamente. Os delírios do homem tinham sido justamente isso: delírios. pondo uma bota na escada— Procedamos. Sentia-se estranhamente a vontade com aquele homem. mas ainda assim lhe produzia incredulidade. E as partes que Grey tinha podido entender por si só estavam fielmente traduzidas. perguntou: —E aí. obedecendo. Fraser estava perdido em seus próprios pensamentos.

Fraser levantou os olhos com certa surpresa. Foi algo mais do que o dever o que lhe induziu a desguarnecer a prisão para formar o grupo de busca. salvo para Jamie Fraser. —Fraser tirou do cinto o sujo saco de pano e meteu a verde massa chorreante. mas sem envergonhar-se em absoluto. que comer folhas verdes evita o escorbuto e a fraqueza de dentes. —Que as plantas verdes evitam o escorbuto? —balbuciou— De onde tirastes essa idéia? —De minha esposa! —lhe espetou Fraser. O dever. Grey levantou as sobrancelhas. mas não dava sinais de estar cansado. Em parte era de pena. —Quis dizer. Pelos outros três lados só tinha quilômetros de páramo deserto. permitindo só brevíssimas paragens para descansar e comer. simplesmente. Arrastou-se a quatro patas. comandante. demônios? —Inerveio Grey. Levava mais de vinte e quatro horas sem dormir.. Escapar não valia a pena. que obviamente tinha um motivo. Meus homens comem as verduras que eu lhes levo. Em parte era de alívio: a mulher que tinha sido a causa de sua humilhação já não existia. senhor. senhor Fraser? —perguntou Grey desconcertado. Mas só por um instante. Fraser contraiu a boca. e um urgente desejo de achar o ouro do Francês e ganhar a . Grey se sentiu comovido por uma sensação inesperada. Fraser também não tinha descansado durante esse tempo. sim. O dever de John Grey era perseguir ao prisioneiro e tentar capturá-lo. comandante.. —Isso estou vendo —replicou o inglês mal humorado — Para que? —Para comer. Grey bebeu água fria e molhou a cara para reanimar-se. ao redor da fonte.uma pequena vertente para refrescar-se. sentia-se lento e estúpido. —Sua esposa. onde está? A resposta foi um relâmpago azul escuro que lhe provocou um arrepio. Grey não pôde evitar a pergunta. —São folhas verdes. Nenhum dos dois voltou a falar durante o regresso a Ardsmuir. Não era verdade: tinha o reconhecido de imediato no fundo dos olhos de seu prisioneiro. soou a voz de Quarry em sua memória. «Talvez não tenhas visto de muito perto o ódio e o desespero». se ninguém o fazia era. E se voltou bruscamente. porque não tinha onde ir. A cinco quilômetros da prisão. Nunca tinha sido difícil escapar de Ardsmuir. cortando algumas ervas.. Três dias depois Jamie Fraser escapou. a costa de Escócia caía para o oceano num ingreme de granito. Instou-os a marchar. —Que fazes. —E de que outra cor pode ser uma folha. —Por que? Não dão comida suficiente? Nunca soube que os seres humanos comiam agriões. —Minha esposa se foi —disse Fraser dando as costas. E o agrião sabe melhor do que tudo o que posso recolher na colina. depois voltou o véu normal de serena cortesia. comandante. senhor. —Recolho agriões.

. uma delas vem à costa. comandante. —Pouca coisa. senhor. E se voltou para a fogueira. para que acabasse seu exílio naquela desolada zona de Escócia. em pé junto a uma fogueira acendida no alcantilado. Sykes? O homem se encolheu de ombros. Dizem que as vezes. a culpa é das terríveis correntes iamgino. Ao regressar. .. —Mesmo? —Sussurrou Grey contemplando tristemente a espuma que batia mais doze metros abaixo — Eu não duvidaria. desprendese da pele e dentro aparece uma mulher formosa. supervisionava a busca envolto num casaco para proteger-se do vento penetrante e fortificando-se periodicamente com o café quente que lhe trazia seu servidor. —Basta! —Grey teve que alçar a voz para fazer-se ouvir acima dos risos e os comentários obscenos— Revisem os alcantilados em ambas direções. depois de passar uma jornada laboriosa revisando o páramo. tinha nele uma beleza terrível que lhe esfriava o sangue nas veias. Aqui há algumas lendas sobre elas. —Se veio por aqui. —Silkies? —Grey. Era o lugar mais desolado do que tivesse visto nunca. Os homens estouraram em gargalhadas que ressoaram entre os alcantilados. John Grey. Não tinha sinais de James Fraser. Grey.. obedeceram sem hesitar. Observou-as com fascinação. E dizem que são boas esposas. mas a gente diz que o diabo os leva para baixo. vinham desalinhados e molhados. segurando o braço sem dissimular seu desprezo — Nunca viu uma foca? Grey também não conhecia as focas. contemplando os redemoinhos do água que rompia contra as rochas — Este lugar se chama Caldeiro do Diabo porque ferve constantemente. creio que não voltaremos a vê-lo. Os pescadores que se afogam frente a esta costa rara vez aparecem. semeado de diminutos ilhéus ermos. olhou ao homem com atenção. interessado. Chegaram à costa já avançando a noite seguinte.. intimidados. ela está obrigada a ser sua esposa. desfrutando de sua momentânea importância.. um dos homens soltou uma exclamação de surpresa e empunhou a pistola. Desde ali pareciam babosas negras. O nevoeiro tinha atenuado nas rochas. no entanto. —Era o sargento Grissom quem estava ao seu lado. mas sem ter visto sinais de Jamie Fraser. Os homens. Mas também a ira e uma estranha sensação de ter sido pessoalmente traído. uma hora depois. ante eles se estendia o mar.aprovação de seus superiores. —Ao menos. varrida pelo vento da costa. De repente. —Que mais sabe delas. tonto —disse outro dos soldados. senhor. sempre estarão molhadas —murmurou o primeiro. Ao amanhecer voltaram a sair. contemplou o mar negro e selvagem desde o alto dos alcantilados. —Os escoceses as chamam «silkies» —comentou o soldado que as tinha reconhecido. Se um homem encontra a pele e a esconde para que a mulher não possa voltar ao mar. —Ali! —exclamou— Nas rochas! —Não díspare. nem do ouro do Francês. Não tinha sinal alguma vida. de pé junto a seu cavalo. sargento.

que não estavam habituados ao porridge e as omeletes de aveia dos escoceses. —Espera aqui —disse a seus homens. Por um momento não se ouviu senão a brisa marinha e o canto das cotovias. maldita seja sua alma. senão pelo calor de seus corpos. O . os ingleses lhe permitiam conservá-lo. abraçado em seus joelhos numa tentativa por entrar em calor. pois afinal de contas não tinha valor algum. cheia de graça —murmurou.. que desceram ao longo do inglês e voltaram a subir lentamente. sentado no solo de pedra do depósito vazio. para os seis homens armados que lhe apontavam com seus mosquetes. Grey levantou a cabeça e se encontrou frente a frente com James Fraser. teria preferido que esse fora seu castigo.. Depois olharam acima de seu ombro. comandante. —Temo que me surpreendes em desvantagem. María. Sentia saudades a presença dos outros prisioneiros (Morrison. Aquele pequeno comandante de cabelo amarelo tinha visto o efeito dos grilhos e sabia. Sinclair. Mas estava só. Por fim torceu a boca e disse: —Creio que a mim também. o quanto terríveis eram. As pupilas de cor azul escuro se fixaram depois nas suas. seus intestinos. CAPÍTULO 10 A maldição da bruxa branca Jamie Fraser tremia. entornando os olhos contra a luz ainda escassa. não só por sua companhia. Hayes. O escocês moveu somente os olhos. Grey afastou os olhos do pescoço de seu cavalgadura. Tinha muito medo que o açoitassem e. voltaremos a tentar pela manhã. E era infinitamente mais suportável do que voltar às correntes. Ambos ficaram imóveis. Sua irmã o tinha dado quando saiu de Lallybroch. O vento trazia um vadio cheiro do mar. abotoando-se as calças com todo o aprumo que pôde reunir. abandonando uma postura que se lhe antojava muito indigna. Era horrível. Se não encontrarmos nada. não obstante. olhando-se. rebelavam-se ante as exigências da dieta de acampamento. mas ao menos terminaria cedo. senhor Fraser —disse serenamente. Depois Grey enguliu saliva.—Dá ordens de procurar até que caia o sol. Tinha-os inchados pela fumaça de multidão e a falta de sonho e lhe doíam os ossos depois de passar várias noites no solo úmido. sargento. Seus dedos procuraram o rosário que levava ao pescoço. E provavelmente não o devolveriam à cela grande até ter-lhe aplicado o castigo por sua fuga. com a sensação de ter o coração na garganta. Sutherland). Ao endireitar-se. Não tinha muitas esperanças. —Deus te salve. A uns quantos metros de distância tinha um pequeno montículo que lhe brindaria a intimidade necessária. Tinha a sensação de que jamais o conseguiria.

Ela as ouviu. —«Parente meu.» O pousadeiro os observava desde a porta. Ellen tinha sido o nome de sua mãe. Mas a causa está perdida e o filho do rei fugiu. com longínquas visões boiando em seus olhos negros —. —A bruxa —murmurou Duncan fechando os olhos— Ela. embaixo dele. duas. mas sua mão sem carne estreitou a sua com assombrosa energia e o homem repetiu. ajoelhando-se junto à cama onde jazia o enfermo. uma mulher sábia. sua Dama Branca. Ela não permitirá que o ouro seja entregado a um covarde. Morreu.ofegante: —Mo charaid. é para ele. diz a bruxa branca. Se dê por advertido. O homem por quem ele mesmo recebia agora o apelido de Mac Dubh: filho de Brian. três delas. uma. pelo bem dele.pequeno comandante lhe tinha oferecido um trato e ele o tinha cumprido. o Negro. Colum. A Claire. É deles. Assim tinham chamado a sua esposa em outros tempos. todos. duas. morreram! —exclamou o enfermo. O acordo não lhe obrigava a dizer que conhecia àquele homem. apesar de que o tempo e a doença o tinham mudado. O comandante se voltou e. que tinha o cabelo negro e brilhante das focas. Jamie inclinou a cabeça para sussurrar ao ouvido de Duncan: —Tudo o que digas será repetido em inglês. . ao vê-lo. ainda que parecesse o contrário. É uma come almas. moço.. para viver com as silkies. mas estava demais longe para ouvir. que morreu. É a morte. Foi entregado pela bruxa branca para o filho do rei. Ela ouviu cantar às silkies nas rochas.. —Procura a um homem valente. ordenou-lhe sair. —De repente abriu os olhos fincando-os nos de Jamie e disse com assombrosa clareza—: A gente diz que Ellen MacKenzie abandonou aos seus irmãos e seu lar para casar-se com uma silkie do mar. morreu. A um MacKenzie. E isso era o que dizia a gente quando ela fugiu com Brian Dubh Fraser. E por isso baixou e foi ao mar. —Quem morreu? Colum Mackenzie? —Todos. <<a charaid. uma a uma. verdade? —Duncan sorriu. estreitando-lhe a mão—. —Passa quieto. Num princípio pensou que Duncan estava muito desorientado para reconhecê-lo. A palavra utilizada por Duncan era bandruidh: uma feiticeira. o MacKenzie. Dougal e também Ellen. três delas. uma Dama Branca. —Está maldito —sussurrou— O ouro está maldito.bi sàmhach>> —lhe disse suavemente em gaélico. Respeitando seu juramento. —Quem é ela? —perguntou Jamie. Uma. O pousadeiro entornou os olhos. sonhador. acima do ombro do comandante Grey. E as viu desde sua torre. Verdade? Não foi assim? —Isso é o que as pessoas dizem —respondeu Jamie com a boca seca. —Quem é a bruxa? —perguntou Jamie outra vez. Reconheceu de imediato a Duncan Kerr. nem as conclusões que tinha extraído de seus murmúrios. Fala com cautela. transmitiu as palavras que lhe tinha dito o vagabundo. Morreram todos. MacKenzie.

não direi onde estive. Depois o empurrou para a porta— Te requer no andar superior. Jamie tensionou a cara. —Isso é um assunto privado —disse. —Não. A custódia do ouro tinha passado a outras mãos. homem —disse em francês para que Grey ouvisse— Onde está o ouro? E estreitou a mão de Duncan com toda a força possível. —O ouro.. O homem enrugou a cara. inclinou-se outra vez para falar com o enfermo. ao outro lado da cama. —O homem alongou uma mão para ajudá-lo. —Também não por que decidiu escapar? —A voz de Grey soava serena e formal. Agora devia pagar o preço de seus atos.O comandante Grey se mantinha perto. senhor. O fogo estava acendido mas Grey. . impaciente. Seus olhos se centraram em seus dois acompanhantes — Para ambos —disse claramente. Me diz outra vez. para acordá-lo— Fala. —Durante uma fração de segundo sua atenção pareceu voltar ao quarto em que jazia. senão à sala privada de Grey. observando a Duncan com uma enruga na testa. absorvia a maior parte do calor. —No andar superior? Onde? Aquilo lhe surpreendeu. mas suas palavras resultaram inaudivel. —Levantasse. O moribundo fechou os olhos e murmurou algo. O corredor estava escuro. mas Jamie estava disposto a apostar que conhecia o equivalente «ouro». quando se lhe apresentou a oportunidade de fugir. deixando entrar um raio de luz que o fez piscar. Depois de cruzar um olhar com o comandante. —Ela vos dirá —disse em gaélico—. Assim foi como Jamie Fraser respeitou a palavra dada ao inglês. Não o tinham levado ao escritório. feroz e rubicunda à luz da tocha. e sua obrigação para com seus compatriotas. A porta se abriu bruscamente. Depois fechou os olhos e não voltou a falar. mas o guarda trazia uma tocha. —Acorda! —ordenou—. Repetiu ao comandante tudo o que Duncan tinha dito. Ela virá por voce. —O que disse? —inquiriu o comandante com aspereza— Que? —Não sei. tratando de transmitir-lhe uma advertência. em pé frente a ele. escapou aos urzais e procurou o mar para fazer o que estava ao seu alcance com o legado de Duncan Kerr. junto ao pátio. E também não o açoitariam a essas horas da noite. homem. pois tinha as articulações rígidas. O inglês não entendia o gaélico. E de muito lhe serviu! Depois. o forjamento estava abaixo. Não teve mais resposta do que outro murmúrio. Umas pisadas se aproximaram pelo corredor. Mac Dubh. tratando de não lhe ranger os dentes.. —Nas habitações do comandante —disse muito sorridente—. O comandante.Fala! De imediato Duncan Kerr abriu os olhos. —Jamie deu umas palmadas na mão de Duncan. inclinou-se para sacudir-lhe um ombro. E que Deus tenha piedade de tua alma. Repetiu-o com firmeza.

teve algo haver com o que voce averigou na pousada do Tilo? Jamie ficou em silêncio. sim —disse Jamie com paciência. mas depois se aproximou cautelosamente. —De nada serviria adiar as coisas nem tratar de apaziguar àquele homem. no tapete —. —Por que? —Por que? —repetiu Jamie atônito—.Jamie vacilou. senhor Fraser —disse secamente— Não era minha intenção ofende-lo. —Aqui! —repetiu o outro. O pequeno comandante passeava frente à chaminé com as mãos cruzadas às costas. comandante. dilataram-se de assombro. comandante —disse Fraser—. se entendes bem. Assim. Não fazia sentido dizer nada. Só quero que voce se aproxime. —Me juras que sua fuga não teve nada que ver com esse assunto? O escocês seguia calado. —Era óbvio que o comandante dizia a verdade— Peço desculpas. Não ordenou aos guardas que me arrojassem água antes de abandonar-me numa cela gelada? —Não ordenei isso. peremptório. por experiência. sinalizando um ponto diante de si. —Estão aceitas. E lhe fez uma complicada reverência. Grey se aproximou com o nariz dilatado. Era melhor provocar uma decisão imediata para acabar com aquilo. se permite que vos diga. Grey respirou pesadamente e levantou a cabeça. senhor Fraser. seus olhos. Jamie o olhou fixamente. desconcertado. —Vem aqui. —Sua vida foi mais bem breve. que emitiu um riso breve e involuntário. de longas pestanas. senhor! —Não sou um cachorro. mas não irei aos seus pés quando me chama. Ao apoiar-lhe uma mão na manga. —Não creio ter ouvido nada mais ridículo em toda minha vida. —Está molhado! —Estou molhado. tão perto. senhor Fraser —ordenou. mostrnado a chaminé. —Tenho. Por fim se deteve frente a ele. Aqui. . comandante. não. —Sua fuga. Sabia. Podes fazer comigo sua vontade. Um assunto privado. —Mais do que uma idéia. —Tens idéia do que poderia te acontecer por isso? —inquiriu Grey baixinho. Isso pegou por surpresa a Grey. disse? —Sim. o que podiam fazer-lhe e não era uma perspectiva agradável. comandante —lhe espetou Jamie—. —Mil desculpas. seus ossos finos e a pele clara da cara lhe davam aspecto de moço.—Um assunto privado? —repetiu Grey com incredulidade—. O alcaide inalou com força pelo nariz.

. Não quis dizer. —Não parece uma diferença importante. O ouro existia. como se ainda usasse saia e cobertor em vez de empapados farrapos carcerários. sobressaltado.. e fechou bruscamente o livro. comandante —disse. Fraser levantou os olhos. Obviamente. simplesmente. inclinou-se garbosamente. —Não podes ou não quer? —inquiriu Grey com aspereza. Envergonhava-lhe a mesquinha crueldade dos guardas. Em um momento. de fato. não vou dizer nada. —Sei ler. Tinha-se barbeado e tinha a maça do rosto ligeiramente colorido.. Fraser recobrou o domínio de suas emoções. tratando de absorver todo o calor possível antes de que o levassem. comandante. —Será um grande prazer. onde tinha uma mesa servida. Pouco depois. compreendeu que só tinha um caminho aberto para conseguir o ouro: devia deixar a um lado os sentimentos que aquele homem lhe inspirava e aceitar a sugestão de Quarry. de um modo ou outro. Podia. talvez no curso dessas relações pudesse extrair-lhe alguma pista que o conduzisse ao tesouro escondido. —Senhor Fraser —disse formalmente—. —Grey estava mais ruborizado ainda. 7 de março de 1755 O guarda deixou Fraser na sala. voltando-se para o prisioneiro. por suposto. me fará a honra de jantar amanhã em minhas habitações? Teve a momentânea satisfação de pegar por surpresa àquele cretino escocês. infligir-lhe dez castigos diferentes. ao sair do dormitório. Só essa convicção podia ter movido a Fraser atuar como o tinha feito. —Eu. era muito provável que existisse. Fechou os olhos e aguardou. Devia intimar com ele. Os olhos azuis se abriram como pratos. Respirou profundamente. Não passaria muito tempo mais junto ao fogo. Podia condená-lo a um confinamento solitário ou reduzir-lhe as rações. E se o fazia. Mantinha os olhos fechados e os lábios tensos. . ao menos. Grey encontrou a seu hóspede absorto na observação de um exemplar de A Nova Eloísa. Tinha imaginado que seu prisioneiro não sabia ler.—Senhor Fraser —disse— Vou perguntar mais uma vez: por que escapou da prisão? Jamie suspirou... comandante. —Te interessa as novelas francesas? —balbuciou. Observou-o. Grey fez uma pausa tratando de criar um modo de atravessar essa muralha de brando desafio. já que. Grey se viu sem saber que dizer nem o que fazer. Ou. sim. suas possibilidades de achar alguma vez o ouro do Francês se reduziriam até desaparecer.. De má vontade. sim. bem mais quando tinha pensado nesse tipo de vingança ao saber que Fraser estava entre seus prisioneiros. nem a força nem as ameaças serviriam para saber a verdade. «Se existe». Estava em seu direito se o fazia flagelar e voltava a arrojar-lhe.. Depois de uma pausa momentânea. comandante —especificou. obrigou-se a recordar. —Não posso dizer.

. À menor pergunta referida ao que tinha sucedido em seus três dias de ausência. comandante. —Diz. antes da rebelião dos Stuarts. ainda que punha cuidado em mantêla afastada de sua vida pessoal. Me ocorreu refrescar a memória quanto à seqüência final. avaliando-se em silêncio pelos movimentos das peças no tabuleiro de ébano e marfim. Fraser tinha bons modos. com a esperança de que deixasse escapar alguma pista quanto ao destino do ouro. —Ah. conversaram um pouco sobre livros e se despediram formalmente mas com bons termos. a fim de descobrir se existia alguma relação entre Fraser e um possível provedor de ouro da corte francesa. O jantar decorreu sem inconvenientes. Fraser respondia com o silêncio. ainda que ainda cautelosa e formal. Ainda assim. compreendo. Grey também tinha passado um tempo em Paris. inteirou-se de que o prisioneiro tinha vivido dois anos em França dedicado ao negócio do vinho. Na seguinte ocasião fez instalar o tabuleiro de xadrez ante o fogo e convidou Fraser a uma partida antes de que servissem o jantar. nos olhos de Fraser. —Compreendo. encaminhando-a para temas mais gerais. nas Terras Altas temos uma grande tradição de narrações orais. a conversa. Pesando suas cuidadosas sondagens. Assim se iniciou um costume semanal. pois disse com secura: —Todos os meninos escoceses aprendem a ler e escrever. Mais tarde decidiu do que isso tinha sido um toque genial. senhor Fraser: enquanto viveu em Paris. ainda que a conversa foi escassa e se limitou aos assuntos da prisão. não tinha chegado tão longe. —Grey se conteve a tempo para não perguntar: «E eles entendem?» Fraser lhe leu o pensamento.Por mais esfarrapado que estivessem suas roupas. A entrada do servente com o jantar o salvou de novos rubores. descobriu que a conversa lhe interessava por si mesma. Certo humor sereno. era ao menos uma autêntica conversa. Grey queria que seu hóspede se sentisse cômodo. indicou-lhe que o homem tinha perfeita consciência do que se escondia atrás daquelas perguntas. Sim. Sem prestar atenção à confusa desculpa de Grey. pesando a suas tentativas de sondar as vinculações de Fraser com França. Eliminada a necessidade de conversar e as cortesias sociais. acostumaram-se lentamente um ao outro. não uma incômoda série de começos e interrupções. Enquanto comiam cordeiro com batatas fervidas. teve oportunidade de conhecer as obras dramáticas de Monsieur Voltaire? Fraser sorriu. Analisaram temas da prisão. Grey não mencionou o assunto do ouro. —Tenho contado esta novela aos homens. Com grande surpresa. para a arte e a sociedade. Quando por fim se sentaram a jantar. Ao mesmo tempo se mostrava disposto à conversa. mas faz tempo que a li. Grey fez o possível por induzir a seu estranho hóspede a uma discussão sobre França e sua política. voltou-se para a estante. já não eram dois desconhecidos.

—Fraser recolheu um pouco de molho de vinho e levou o último bocado aos lábios. eram um pequeno e subtil lembrança de que se estava atrasando em sua correspondência. que escrever novelas era arte de canibais. —Deliciosa descrição. A descrição fez Grey rir. A ele lhe parecia cartilaginosa. que fez sinal para retirar os pratos e trazer o vinho e o xerez. pois une mistura com freqüência pequenas porções de seus amigos e seus inimigos. assegurou-lhe: —Pelo contrário. Nunca vi a Monsieur Arouet consumir outra coisa que um copo de água e uma bolacha. ainda na mais rica dos jantares. —Está bom. destinada ao jantar de Augustus. sim. mártir da indigestão. Mas sua mãe teria que esperar ao dia seguinte. comandante. teve oportunidade de ler Robinson Crusoe. mas sem ter averiguado nada sobre a origem e o paradeiro do ouro do Francês. temperando com imaginação e permite que tudo isso se cozinhe num saboroso guisado. A metade de sua comida seguia intacta no prato. não? —É mesmo? —Grey levantou uma sobrancelha interessado — E é tão engenhoso em pessoa como uma pluma? —Não saberia dizer —confessou Fraser. deixando ao comandante Grey entretido. Ao vê-las sorriu vagamente. senhor Fraser? —inquiriu Grey cortês. Quando molhou a pluma na tinta tinha já as palavras claras na mente. dura e mal comestível. —É mesmo? —Grey estava fascinado — Talvez isso explique o cinismo de suas obras. espetando destramente um bocado de cordeiro — Rara vez dizia nada. mastigando o cordeiro. Escreveu com celeridade. obrigado. limitava-se a observar aos demais. do senhor Defoe? É um de meus favoritos desde que era menino. o gato. —Suponho que um homem tão festejado pela sociedade francesa tem de ter gostos mais exigentes —disse Grey secamente. É um homenzinho miúdo e seco. —Fechou os olhos numa rápida concentração. Eram plumas de cisne. Fraser. . temo que Monsieur Arouet não apreciaria esta excelente comida. mais finas e mais fortes do que as de ganso. —A carne é de seu agrado. Mais ainda: tive o privilégio de compartilhar minha mesa com Monsieur Arouet. Não cres que o caráter do autor se translude em seus escritos? —Uma dama novelista me disse. A conversa girou então para as novelas românticas e o excitante dos trópicos. certamente! Mas falando em canibais. comandante. não esteve com melindres para servir outra porção de cordeiro— Isso sim.—Oh. 2 de abril de 1755 John Grey abriu o pacote de plumas que sua mãe lhe tinha enviado de Londres. já que Voltaire é seu pseudónimo literário. engenhoso ou não. rindo. Quando Grey indicou a MacKay que aproximasse a bandeja. Já era muito tarde quando Fraser voltou a sua cela. quase sem deter-se. certa vez. comandante.

—Não vou perguntar outra vez por que fugiu da prisão —disse com serenidade. Por isso recorro a ti. Só. E deliberadamente se tinha deixado capturar. Foi capturado três dias depois de sua fuga. Quando o prisioneiro abandonou seu assento. Revistaram todas as casas da aldeia e também o mesmo Fraser. No entanto. depois de ter tido finalmente o bom tino de formular-se as perguntas a si mesmo em vez de interrogar ao prisioneiro. lorde Melton. pronto para escoltá-lo de novo até sua cela. tinha chegado a uma resposta. é muito pouco provável que tenha podido reunir-se com um confederado a quem lhe transmitisse informação sobre o tesouro. comandante. talvez tivesse procurado refúgio ou ajuda entre eles. em um quilômetro e meio da costa. Entre os escoceses das Terras Altas. E essa era a solução. a lealdade é um valor lendário. em realidade. não a pergunta de sempre. se esse fora o caso. Ao fim lhe tinha ocorrido formular. Trata-se de um distrito remoto e tenho a razoável segurança de que não se comunicou com ninguém alheio à prisão antes de sua fugida. Também estou seguro de que não o fez com posterioridade. Posso assegurar que não foi pela comida. coloquialmente— Mas me agradaria saber por que voltastes? Fraser ficou petrificado. Creio que conheces o temperamento dos escoceses. seu próximo passo teria sido pesquisar os seus familiares. Incapaz de criar uma resposta adequada. Fez ao terminar uma partida de xadrez que ganhou Fraser. mas não o tinha feito. Em vários quilômetros ao redor. Não tinha a menor dúvida do que Fraser teria podido iludir aos dragões com facilidade. mas sua escritura se fez mais lenta ao descrever a fuga de Fraser e sua nova captura. em torno de Ardsmuir. Depois se voltou para olhá-lo nos olhos e curvou a boca num sorriso. tinha deixado sair a Fraser. conde de Moray Meu querido Hal: Escrevo-te para informar-te de um fato recente que me chamou muito a atenção. Grey lançou um breve sopro ao recordar. sem dúvida. tinha algo importante nas palavras do vagabundo. mais tarde da noite. Que teria feito ele. —Suponho que devo apreciar a sua companhia. Grey também se levantou. Adicionou detalhes sobre a aparição do vagabundo e suas divagações. a campina está deserta. para que . é pouco provável que o emprego da força ou as ameaças induzam a Fraser a revelar o paradeiro do ouro. não posso explicar os atos seguintes de Fraser. O fato de que Fraser desaparecesse da prisão pouco depois destes acontecimentos me sugere que. se assim o tivesse desejado. Pode ser que não saia nada disto. Grey se incorporou para recolher a pluma e voltou a molhá-la no tinteiro. mas o tema pode resultar de grande importância. se Fraser não tivesse regressado? Naturalmente. se talvez existe. O guarda esperava ante a porta.2 de abril de 1755 A Harold. Grey. sem descobrir rastos do ouro. querido irmão. pois vigiam estreitamente. senão a mais importante. Por que? Retomou a escritura com maior lentidão.

a conversa literária. comandante. senão do tipo de alimentos. Jamie fez uma pausa para calcular suas possibilidades.. recordou-se. momentaneamente. se existem esses vínculos familiares. nabos e cebolas para o refogado do domingo? —Sim. mais fogo e mais comida. mas podes utilizá-las para os que estejam mais graves. O jantar tinha terminado e.» —Temos só vinte cobertores de reserva nos armazéns —respondeu—. Te rogo: não alarme a ninguém com estas investigações. senhor Fraser? —Não conta a prisão com uma soma para comprar carne de bovino salgada.? —Não prometo nada..me ajudes a averiguar tudo o possível com respeito à família de James Fraser. Agradeço-te profundamente os esforços que possas realizar em meu favor. junto com ela. Teu humilde servidor e afetuosíssimo irmão. —Não se trata de quantidade —interveio rapidamente Fraser—. —Precisamos mais cobertores. Os que estão sãos renunciam de boa vontade a nossa porção de carne durante os três próximos meses. senhor Fraser. é que utilize esse dinheiro agora para proporcionar caldo e refogado aos enfermos. Grey franziu o cenho. desconheçam meu interesse.. mas podes pedir —respondeu Grey formalmente. observando os reflexos do fogo no vértice. —O que sugiro. Temo que não posso aumentar as rações de comida. Grey emitiu um breve sopro. prefiro que. Molhou a pluma uma vez mais e assinou com um pequeno floreo. sem dúvida —disse Fraser. E medicamentos. —Mas não se debilitarão os prisioneiros pela falta total de carne? Não ficarão incapacitados para trabalhar? —Os que morrerem de gripe não trabalharão. Tinha chegado a hora dos negócios. os ratos estragaram uma boa parte e com o afundamento do depósito. Poderia solicitar-nos. —Que sugere. Não o obteria tudo. convinha apontar ao mais importante. mas deixando espaço para que Grey recusasse alguma de suas petições. Nossos recursos são limitados e. perdemos outra grande quantidade. «Já terá tempo para o outro. dos quais quinze estão muito mau. faz dois meses. —Vacilou—. Não se poderia procurar algum substituto? Grey levantou uma sobrancelha. «Primeiro os assuntos comuns». comandante. . mas com essa atribuição devemos comprar as provisões do próximo trimestre. —Não muito bem.. Os que estão muito enfermos não podem digerir com facilidade o pão e o porridge. Tenho mais de sessenta homens enfermos. Grey fez girar o xerez em seu copo. 15 de maio de 1755 —Como estão os homens enfermos de gripe? —perguntou Grey.

Depois a levantou para outra tentativa. Por fim assentiu. verdade? —Grey afastou o copo. pálido pela impressão. —Mexeu a cabeça—. Baixou a cabeça. O resto fica por nossa conta. ali onde cortamos turbas? E para ficar com que pegarmos? De vez em quando. relaxou-se um pouco.. e tomou por fim um sorvo de seu xerez. Não. suspirando. —Caçar? —As sobrancelhas claras de Grey se elevaram com estupefação — Dar armas e permitir que vague pelos páramos? Pelas barbas de Cristo. Atrevido por aquele gesto revelador. —Não? Me atreveria a dizer que por agora não têm problemas.» —Um pouco mais. Que o tinha ganhado. que o contemplava com os olhos entornados. Nem de vagabundagens. creio que não. comandante —replicou Jamie.. assim era.. Nos darão licença para instalar armadilhas no páramo. pensativo. como está sua irmã ultimamente? Viu que Fraser abria bruscamente os olhos. algum prisioneiro armava para colocar uma armadilha. Grey. Lallybroch? Assim se chama. comandante. Ao ver que Grey torcia a boca. —Nesse caso. mas seus olhos tinham reduzido a pequenas ranhuras. senhor Fraser? —Só um pouco de barbante. comandante.. Quero pegá-lo completamente desprevenido. disse a sí mesmo.. sem dúvida pensava que isso o punha em desvantagem. já que a Coroa não pode fornecer os alimentos adequados. viu que seus largos ombros se encurvaram um pouco ao afrouxar a tensão. Fraser era um homem teimoso. senhor Fraser? E diz.. —Afundou a pluma no tinteiro e escreveu algo — Amanhã darei as ordens oportunas. —Muito bem. refletindo. —Não saberia dizer-lhe. secamente— Seus dentes não correm nenhum perigo. agora que tudo estava arrumado. comandante —lhe assegurou Jamie— Dez ou doze novelos de qualquer tipo de Barbante. «bebe teu xerez e relaxa-te. O alcaide sempre fazia o possível por reprimir seu sentido de humor. mas quase sempre eram os guardas os que ficavam com a presa. «Muito bem». Isso pensava Fraser. sem afastar os olhos de seu hóspede. Mas os que ainda estão sãos não estaria muito tempo se prescindir de suas rações. Graças ao ouro que lhes proporcionastes. —A voz de Fraser soava serena. Meia hora depois tudo estava arrumado. Grey respirou fundo e soltou o alento com lentidão. senhor Fraser! —Não creio que Cristo sofra de escorbuto.—É verdade. comandante. Jamie se apoiou no respaldo. peço que. O inglês esfregou a bochecha. Em seus tratos com Jamie Fraser. permita a gente caçar. É preferível que os enfermos corram risco que expor que caiam muito mais enfermos. senhor Fraser. Jamie insistiu: —Nada de armas. . —Armadilhas? Não precisa de materiais. —Como andam as coisas em. Quanto ao resto de suas petições.

Os largos ombros se tensionaram subitamente.. comandante —disse muito teso. mas não reagiu. Levantou os olhos. senhor Fraser. —Pediu-me três coisas. comandante.. —Suponho que Ian. —Pudeste encontrar-se no páramo com alguém que levasse a vossa família o ouro ou indicações sobre ele.. Grey percebeu a ironia. senhor Fraser? Diz-me. —Sim. —E sua fuga? —Quanto a minha fuga.. de que me encontrasse por acaso com uma pessoa nesse páramo? E de que. assim se chama seu cunhado. pois: o que foi que induziu a desprezar subitamente a companhia de vossos camaradas e procurar a dos coelhos do páramo? Já que me asseguras que ali não encontraste ninguém. comandante —disse Jamie apertando um punho— Dou a minha palavra de que assim foi. comandante —disse sem alterar-se—. sabe também que meu lar está a mais de cento sessenta quilômetros de Ardsmuir. Fraser ruborizou levemente. E respeitei esse trato em todos seus detalhes! Grey bufou com desdém. Poderia explicar como pude cobrir duas vezes essa distância em só três dias? Grey fixou os olhos na peça de xadrez. Ian saberá dar bom uso. . Os olhos azuis o olharam diretamente. fora alguém a quem eu pudesse confiar uma mensagem como o que sugere? —Deixou seu copo com decisão — Não me encontrei com ninguém. —Como não? —O enfado do inglês não era de tudo fingido — Não me destes talvez sua palavra quando ordenei que lhe tirassem as correntes? —E cumpri! —Cumpriu? —Os dois se tinham incorporado nas cadeiras e se olhavam com fúria acima da mesa. disse não revelarei nada. Fraser soltou um bufo. comandante. —Permita-me falar com clareza. Até me dá sua palavra de que assim foi. —Já que está tão bem informado sobre meus vínculos familiares. —O que tenho é um profundo sentido da honra. Eu asseguro. E essa possibilidade justificaria que eu enviasse a um grupo de dragões para fazer uma inspeção a fundo em Lallybroch e prender e interrogar a vossos familiares. Poderia tê-lo fato... Fraser tinha voltado a dominar-se. —Sim. com as sobrancelhas levantadas. senhor Fraser. senhor Fraser? —Grey deixou que em sua voz se filtrasse um considerável ceticismo. —Por que devo aceitar sua palavra a respeito. Do bolso da peitilho tirou uma folha de papel que continha uma lista de nomes. fazendo-a rodar preguiçosamente de uma mão a outra. comandante. que pouco importa se tivestes ou não contato com vossa família em relação com o ouro. —Ninguém teve nunca motivos para duvidar de minha palavra.. comandante. —O fato é. avolumando-se sob o maltrapilho casaco. comandante. segundo creio. —Em Ardsmuir? Que probabilidades há. Faço a honra de supor que não faz sentido.

Para ver... os filhos de ambos: James. —O alcaide também falava com suavidade— Como as palavras desse homem se referiam a sua esposa? —Me ocorreu que podia assim ser. Michael e Ian. Margaret. uma mulher sábia. com mais firmeza — Minha esposa era curandeira. Disse-me que tinha morrido.. E por isso supos que as palavras do homem não se referiam só a vossa esposa. seu cunhado.. sua esposa. senão também a esse lugar? —Não sabia —repetiu Fraser— Não podia saber se tinham algo haver com minha esposa. Katherine. como se doessem. suponho. sem atrever-se a fazer um gesto — E qual era esse sentido? —Eu. O que não vos disse foi que uma parte do que disse fazia sentido para mim. Janet. suavemente.. não lhe dê as costas.. também significa bruxa. —A bruxa branca. comandante. Fechou os olhos brevemente e voltou a abrí-los. E nesse caso. mas. —Bem.. —Disse que se tinha ido. Isso dizia a verdade e Jamie o sabia. dizendo: «Se jantar a sós com esse homem. como dizemos nas Terras Altas. Mas tinha que ir. —Os largos ombros se encolheram levemente— Tinha que ir. tenho entendido. Que prole! —comentou num tom depreciativo que punha os seis pequenos Murray à altura de uma carnada de leitões— Os três meninos maiores têm idade suficiente para ser presos e interrogados junto com os pais. Podia permitir a espera. se «a bruxa branca» só se referia a Santa Bride. Uma encantadora. — o que desejas de mim? —A voz soava grave e rouca de fúria. Grey recordou por um instante a Quarry. esses interrogatórios não costumam ser suaves. . mas mais do que isso. A Santa Bride também se chamava «a Dama Branca» —explicou levantando os olhos— Ainda que o altar estava ali muito antes do que a santa viesse a Escócia. Como sabes.. —Quero a verdade —disse.» Se arrepiou o cabelo da nuca mas conseguiu dominar-se e sustentar a olhada azul de Fraser. que seria sua irmã. —Sim. —Grey permanecia muito quieto. Grey respirou fundo... comandante —corrigiu Fraser. —Levantou brevemente os olhos— A palavra gaélica é ban-druidh. assim chamado em honra de seu tio.. —Não muito longe daqui há um altar em honra a Santa Bride. mas o escocês permanecia imóvel como uma figura talhada. Por fim Fraser voltou a olhá-lo. —Deteve-se e enguliu saliva antes de prosseguir.. —Compreendo. senhor Fraser. Era uma Dama Branca. ou nenhuma das duas coisas. —Tomou alento— Respeitei minha palavra. —Como soubestes onde ir? Isso também se deduziu das palavras do vagabundo? —Grey se inclinou para frente. —A verdade. sem afastar os olhos do peão — É provável que tenha morrido. De acordo. por suposto. Jenny. Repeti fielmente tudo o que o homem me disse aquela noite. curioso.—Ian Murray. te mencionei sobre minha esposa —O prisioneiro parecia pronunciar as palavras pela força. E aguardou em silêncio.

comandante? Está a oitocentos metros do estanque da santa. seu rosto tinha voltado à impassibilidade habitual..? —Grey fez uma pausa delicada. Mas esse tesouro. —O que? —Grey se incorporou na cadeira. senhor Fraser? —perguntou serenamente— Que há dele? —Estava ali —foi a seca resposta. assim o atirei ao mar. e um saquinho de pele cheio de jóias. —Isso não tinha nada haver com ela. mas não de cunho francês.. Grey percebeu o deixe de desolação. comandante —explicou vendo a expressão desconcertada do inglês—. comandante —explicou Fraser suavemente— Fui com uma esperança. Grey se deixou cair contra o respaldo. Fraser contemplava o fogo. com a forma de uma cruz antiga.. —Jóias? De onde diabos saíram? Fraser lhe jogou uma olhada de leve exasperação. —O altar em si é uma pedra pequena. que continha umas poucas moedas de ouro e prata. —Luis nunca enviou ouro aos Stuarts —assegurou Fraser— Não.. — Arqueou levemente uma sobrancelha irônica— Mas também não encontrava sentido em por em mãos do rei Jorge. fincando-lhe a vista— O encontrou? O escocês torceu ironicamente a boca.. —Compreendo. onde está agora? —Atirei-o ao mar. Levanta-se sobre um pequeno estanque. Crê-se nessas pedras ter grandes poderes. —Era realmente o ouro francês que Luis enviou luzes de ouro a seus superiores de Londres. meio enterrado no urzal. . Tinha achado uma caixa pequena. —Encontrei. servindo-se mecanicamente outra copo de xerez. Grey ficou estupefato.A pedido de Grey. paciente. No estanque se vêem pedrinhas brancas.. —E o ouro. —Ainda que falava baixinho e controlada. comandante —disse— Como posso saber? —Por suposto que não. sim. tão desgastada pelo céu aberto que as marcas mal se notavam. —O atirei ao mar —repetiu Fraser. Não me servia de nada. Fraser mexeu a cabeça. —Não tenho a menor idéia. descreveu o lugar em questão e a maneira de chegar a ele. e desaparecida esta. o tesouro não era para mim senão uma caixa de pedras e uns bocados de metal mofados. com o queixo apoiado no punho. Mas só se usa uma Dama Branca. Seus olhos oblíquos sustentaram a olhada do alcaide— Ouvistes falar de um lugar chamado Caldeiro do Diabo. E sua esposa. enredadas às raízes dos urzais que crescem na ribeira. homem! —Então o sentido não me interessava muito. —Grey tossiu para dissimular seu abalo — Evidentemente. comandante: o que encontrei no estanque da santa era ouro. —Por que? Por que fizestes isso? —acusou Grey— Não faz sentido. Foi-se.

. —Fraser estava tão sossegado como se tivesse estado conversando sobre a chuva —.. —Eu a enguli. —Sem vacilar. senhor Fraser —disse— Muito dramático. mas não disse nada. dissestes. —Eis a evidência de que o tesouro existiu. A larga boca se curvou no primeiro sorriso autêntico que Grey lhe tinha visto. junto à pedra..Grey enguliu uma boa quantidade de vinho e recuperou a serenidade. junto à peça de xadrez. talvez. quase timidamente. Procurou a Bíblia encadernada em pele de bezerro e a pôs na mesa. —É um relato comovedor. levantou-se para aproximar à livraria do rincão. Era uma safira. de um azul tão escuro como os olhos do próprio Fraser e de bom tamanho. comandante —assegurou o prisioneiro. Grey estendeu a mão num ato reflito. esperando.. —Efetivamente. Conservei essa única pedra. Depois o depositou. O que Fraser dizia era verdade. não há provas de que seja verdade. No entanto. Grey abriu a boca. —Como fez para conservar isto? —inquiriu bruscamente— Quando capturamos fostes vistoriado até a pele. senhor Fraser. A mão de Grey se fechou convulsivamente sobre a safira.. que deves aceitar minha palavra. esfregando-se o lábio com um dedo. —Me inclino a aceitar vossa palavra de cavaleiro. comandante —nos olhos de Jamie iluminou uma luz depreciativa—. comandante. comandante. Uma pedra sim. Em seu roupa aberta caiu um objeto pequeno... —Compreendo. comandante. —Sei. senhor Fraser —disse— Mas compreenda que devo ter em conta meu dever. uma dieta de tosco porridge tem suas vantagens.. ou se achava a ocasião de enviá-la a minha família. O alcaide mal podia pensar.. mas não muitas. bruscamente—: És católico.. Depois levantou para Grey. alongou o punho acima da mesa. comandante —disse Fraser com uma gravidade que só serviu para destacar o brilho divertido de seus olhos— De vez em quando. Pois compreendi. Afundou a mão sob a cintura de suas calças e. Estava sufocado pela assombro. —Sem dúvida. pôs a larga mão na Bíblia .. depois de remexer um momento. pensando que poderia ser-me útil se alguma vez recuperasse a liberdade. —Mas. —Não o duvido.. quase todos os apoiantes dos Stuarts eram católicos.. senhor Fraser? Já conhecia a resposta. Ainda assim. Depois perguntou. —Fraser apontou a pedra com um gesto de cabeça — Quanto ao resto. Grey sufocou um súbito impulso de rir. mas. que minha família não poderia aproveitar um tesouro dessa espécie sem chamar a atenção de uma maneira nada conveniente. —Ficou contemplando a pedra azul. O prisioneiro fincou uma longa olhada no livro. Sem aguardar a réplica. —Mas é. lamento dizer.

a extensa novela de Samuel Richardson. mas devo admitir que não é uma preferência universal. tenho certos preconceitos. além de representar um grande gasto para o editor. —Cres que a longitude do livro está justificada pela complexidade do relato? —perguntou Grey. seguido por uma conversa informal e. . nesse aspecto. —Admito que.— Juro por Deus Todo-poderoso e por seu Sacro Verbo que o tesouro é o que vos disse. CAPÍTULO 11 O gambito de Torremolinos Assim resolvida a questão do ouro francês. inclinando-se para acender um cigarro com a vela do aparador— Afinal de contas. Aquela noite abandonaram a mesa ainda analisando Pamela. sumindo os lábios para despedir um anel de fumaça. requer do leitor um esforço considerável. comandante —disse Fraser com ironia— Nunca tinha mais de dois ou três livros. que deviam durar vários meses. retomaram a rotina: um breve período de negociação formal sobre os assuntos dos prisioneiros. uma partida de xadrez. —Seus olhos brilharam à luz do fogo. as vezes. —E quais foram essas circunstâncias? —perguntou Grey. escuros e insondável — E juro por minha esperança de chegar ao Céu que agora descansa no fundo do mar. me teria encantado que o livro fosse o dobro de longo. Sim. comandante. —Passei vários anos vivendo numa gruta das Terras Altas. sou partidário dos volumes grandes. Dadas as circunstâncias em que li Pamela.

Normalmente. sorrindo sem humor — Vosso irmão. Eu combati em Culloden. pois Fraser levantou bruscamente os olhos. Se movia o peão. . Fraser jogava muito melhor. nem que soubésses de nosso parentesco.. negou-se a fuzilarme. já não poderia retroceder. baixou para tocar a peça. Grey enrocou. Sentia os lábios dormentes. O cavalo. Sentiu que os olhos de Fraser se posavam nele. O escocês olhou o tabuleiro com a sombrancelha franzida. por necessidade —recordou Fraser seco — Mas memorável. subitamente decidido. Depois apagou rapidamente o cigarro e se levantou do assento — Vamos. —Tomou um trago de seu copo. é difícil que possa esquecê-lo. Aquela noite provou o Gambito de Torremolinos. —Cabia esperar algo assim de um homem como lorde Melton —observou com desaire. observando a Grey acima da borda— Ignorás que eu tinha conhecido a lorde Melton no campo de Culloden? —Sabia. Com os olhos entornados. muito teimosamente. Grey se sentiu um pouco enjoado pela fumaça— Mas não esperava que lembrásses de Hal. —Não —reconheceu suavemente. Mas já era muito tarde. Fraser apertou a boca. A vitória era doce. ao notá-lo. levantou uma sobrancelha zombadora. Obrigou-se a respirar normalmente enquanto efetuava o penúltimo movimento da combinação. Depois deu um sobressalto e o olhou com olhos dilatados. avaliando as peças. Grey levantou os olhos. com o cavalo da dama. Esse maldito escocês teria sabido desde um princípio quem era ele? —Nosso encontro foi breve. mas não o olhou por medo a delatar seu nervosismo. —Refere-se a lorde Melton.. tudo estava perdido. —Tenho entendido que não estávas tão agradecido quando conheceste a Hal. —O coração voltava a palpitar-lhe. depois. pequeno cretino! —disse com respeito — Onde diabos aprendeste essa jogada? —Meu irmão mario me ensinou —respondeu Grey perdendo sua vezeira cautela por culpa do sucesso. Depois a relaxou. certo? —disse— Ou tens outro irmão? —Não —confirmou Grey. Grey se pôs rígido no assento. mas agora com um ritmo pesado e forte. Se seu adversário movia o cavalo.—Isso é muito verdadeiro —disse Grey. A mão de Fraser sobrevoou o tabuleiro. —Como devo minha vida a esse encontro. Fraser. Então eu não tinha motivos para agradecer-lhe o favor. mas o atribuiu ao cigarro — Não. —Que astuto. Temos tempo para uma partida rápida. —Todo o prazer da vitória se tinha evaporado. Deve ter expelido o ar com muito ruído. em Culloden. mas Grey se compunha para ganhar uma partida de vez em quando a força de pura bravura. Como adversários não estavam em pé de igualdade. Fraser lhe ganhava sete vezes em cada dez. Era uma abertura arriscada. Seu hóspede emitiu um riso breve e alongou o índice para tombar delicadamente seu rei. Com cuidado para evitar que sua cara refletisse a expressão de triunfo. seguiu a trajetória do primeiro anel de fumaça e soltou outro. só tenho um irmão.

—Que motivos? —Grey captou uma olhada rápida e se apressou a adicionar —: Não quero ser impertinente. —Pior do que não ter por quem preocupar-se? Fraser fez uma pausa antes de responder.. no pátio. deixando à vista a traquéia e os grandes condutos do pescoço. —Levantou os olhos fazendo um penoso esforço para sorrir — Pelo geral Hal tem razão. Assim o choraria eternamente. por aquele então eu sentia de modo parecido. —Como eu dizia. não creio que a derrota de sua causa vos tenha provocado tanto desespero. tinha-se ido para valer. E olhou a mão. mas levantou seu copo e apurou quantas vezes.. ou por lealdade ao direito ao trono de seu pai. meu irmão —balbuciou... Sem dizer nada. sem afastar os olhos do tabuleiro. mas não sempre. preocupar-nos por quem não podemos ajudar. mudado. Fraser não disse nada. onde o azul intenso da safira de Héctor ardia sobre sua pele... não se ouvia ruído algum na fortaleza que os rodeava. Se o via. Hal. que se não o visse morto nunca acabaria de crer que Hector. Teve um leve movimento junto à boca de Fraser. O escocês inclinou brevemente a cabeça. Mas não constitui uma carga muito pesada. Grey respirou fundo. Nunca esquecerei a última imagem de Hector.. mas tarde ou cedo poderia sanar. Não explicou mais. salvo alguma pisada do soldado que montava guarda abaixo. Mas tens razão: eu não era desses. A metade de sua mente se perguntava por que devia mencionar a Hector precisamente ante aquele homem — Obrigou-me a ver o cadáver. Era tarde. como num açougue. —Isso é vazio —disse ao—fim . imóvel. Nem a ferida aberta que quase lhe tinha separado a cabeça do corpo.—Desejáva que o fuzilassem? —Grey alçou as sobrancelhas.. Guardaram silêncio.. perdi a um amigo muito íntimo — disse. Pode ser que tivesse curado. —Sua esposa. Em Culloden. disse-me que era curandeira? . naqueles dias eu pensava algo similar. —Disse que era necessário. uma versão menor da safira que Fraser lhe tinha dado com tanta inapetência.. e esquecer. mas nunca esqueceria. meu amigo. olhando a seu hóspede com curiosidade.. —Talvez não tanto —respondeu com lentidão — Creio que o pior peso é. disse. muito vago para merecer o nome de sorriso. —Acreditava ter motivos —disse suavemente— Naquele momento. senhor Fraser? O escocês o olhou aos olhos. —Considera sua vida como uma carga muito pesada. Pelo que me dissestes dos Stuarts. mas. —Tinha quem combatiam por amor a Carlos Stuart. choraria. talvez. com a cara cerúlea à primeira luz da manhã e as longas pestanas escuras repousando delicadamente nas bochechas como quando dormia. Grey encheu ambas copos pela terceira vez e se recostou na cadeira.

—Não fiz nada por vossa esposa —objetou o alcaide com bastante amargura— Ela não corria nenhum perigo. desde que. comandante. Não tinha rastos de riso nos oblíquos olhos azuis. depois de tudo. Ela. verdade? —disse Fraser— Acreditou estar salvando a vida e a virtude a risco das vossas. —Se um menino de dezesseis anos. Ambos guardaram silêncio por um momento. pareceu um inimigo digno. —Foste um digno inimigo. não me estranha que o exército das Terras Altas tenha sido derrotado. —Fraser enguliu saliva. isso não é covardia. não tem intestinos ou não tem cérebro... —Grey respirou fundo e deixou escapar lentamente o ar — Lamento vossa perda —adicionou formalmente. Estranhamente. só a rigidez muscular de sua garganta delatava sua emoção. o fantasma de um amor. chamava-se Claire. —Não quiseste falar para salvar vossa própria vida.. Grey riu contra sua vontade. Com essa idéia a honrastes. comandante. —O homem que não se caga de medo quando lhe apontam com uma pistola à cabeça. As vezes o penso. mas o fizeste pela honra de uma dama.—Sim. Pelo que fizestes em favor de minha esposa. —Tinha intenção de dizer obrigado alguma vez. não poderia esquece-lo. —Dar-me obrigado? Por que? O escocês levantou os olhos escuros.. Grey se sobressaltou. —Mas voce não sabia. . »A honra de minha própria dama —observou seu convidado com suavidade— A meu modo de ver. por um momento. Fraser assentiu com grave formalidade. sentia-se menos inquieto do que esperava ante a referência explícita àquela vergonhosa recordação. —Por aquela noite em que nos conhecemos. cagado de medo. depois levantou o copo para beber como se tentasse aclarar a garganta. Reconhecia no escocês a mesma compulsão que ele tinha sentido momentos antes: a necessidade de pronunciar um nome oculto. —Não o tinha esquecido. —Compreendo. —Suponho que a querias muito —apontou Grey suavemente. Por fim Fraser levantou os olhos. John Grey riu com amargura. sós com seus fantasmas. —Em sua voz tinha uma leve vacilação. em Carryarrick. de recuperar. senhor Fraser. comandante —disse o prisioneiro. —Eu lembro —murmurou Grey rouco. Em sua voz era muito evidente o som da verdade para confundí-lo. Grey reuniu coragem para olhá-lo acima da mesa. O escocês sorriu vagamente. desde que a perdi.

Seu leite era quente e doce. Se parecia. sudoroso e ofegando. —Com mais força —sussurrou ela. Tirou a jaqueta para depositá-la com cuidado no banco. Fechou os olhos de imediato. —Voltas tarde. sob um dos bancos da cela.—Vosso irmão tinha razão. Permaneceu muito quieto enquanto o coração se lhe tranqüilizava. Ronnie. com as visitas à casa. O jantar foi bom: um faisão que ele mesmo tinha caçado e uma salada em . Estava grávida. Gavin —sussurrou Mac Dubh por sua vez. estreitando-a contra si enquanto succionava. Aqui sucedia ao contrário: ia da obstinada e fria lobreguez das celas às luminosas habitações do comandante. em certos aspectos. comandante —disse— Dou-vos a graça e o desejo de boa noite. tomavam como uma honra o fato de que seu chefe recebesse uma boa comida. com o ventre redondo e suave como um melão. camisa limpa e médias de seda. passando entre os corpos. enquanto esperava que o carcereiro abrisse a porta da cela. Em pé no ventoso corredor. onde podia exercitar tanto a mente como o corpo. esses oásis de vida e calidez no deserto da solidão. deixando o copo. e abandonou o quarto. E lhe apoiou uma mão na nuca— Com mais força. Tinha-a entre seus braços. Mac Dubh? —Sim. —Doces sonhos. com os mamilos escuros como o vinho. instando-lhe a prová-los. ao abrir-se a porta o assaltou o cheiro daqueles homens. Ainda não tinha aclarado de tudo mas já podia ver as silhuetas dos homens tombados junto a ele. ricos e cheios os peitos. percebeu os ruídos zumbantes dos homens dormidos. com um leve gosto a prata. esperando o amanhecer. a conversa e a abundância de comida. Acordou subitamente. 18 de junho de 1755 Aquela noite John Grey tinha vestido com esmero. Murdo —sussurrou. Mac Dubh —disse num sussurro. Ronnie —prometeu Mac Dubh— Mas agora devo dormir. —Sim. pegou o áspero cobertor e procurou seu espaço no solo. Aquela noite sonhou com Claire. aos anos passados na gruta. Esperava não ter gritado. Obrigado. Levantou-se. como sangue de veado. meio encolhido sobre um custado. Amanhã estarás esgotado. tinha-se posto também o anel de Hector. de acordo? —Que durmas bem. relaxar-se na indiferença. Mac Dubh —disse Murdo Lindsay com a voz cascata pelo sonho —. singelamente trançada e umedecida com um tónico de limão e verbena. mas o sonho tinha desaparecido. —Já me arrumarei. —Amanhã vai nos contar? —Para os prisioneiros era um estranho prazer inteirar-se do que lhe tinham servido para jantar. Pegou um com ansiedade. Depois de uma momentânea vacilação. entre as barras da janela. Luzía sua própria cabeleira. —O Rubito te deu de comer decentemente. sua longa sombra piscou sob a lua.

—Sim. perguntou-se. Sua mão. deixando Fraser junto ao fogo. pareceu mover-se por vontade própria e cruzou em pouca distância.. Para dissimular levantou o copo de xerez e tomou um trago. comandante. talvez o obrigasse a sacrificar uma torre. Bastaria um leve puxão para desatá-lo. de sua presença. alumiada pelas brasas. estudando o tabuleiro. Fraser tinha atado o cabelo para atrás com um fino cordão negro. Quando John Grey alongou a mão para o bispo de sua rainha. muito quente.. senão por puro nervosismo. Ao tirar a garrafa do armário sentiu que um fio de suor lhe baixava pelas costelas. John Grey se imaginou deslizando a mão sob aquela mata densa e lustrosa para tocar a nuca suave e morna. Ao regressar à mesa moveu o bispo da rainha sabendo que era só um movimento giratorio.. De súbito ouviu. Hector?». —Sua vez. —Retira essa mão —disse o escocês com muitíssima suavidade— se não quer que eu o mate. —Tomas xerez? Fraser assentiu com a cabeça. também não seu rosto. mas Grey percebeu o arrepio de repugnância. a advertência de Quarry. Grey se levantou para cruzar o quarto. tão clara como se seu predecessor lhe estivesse falando ao ouvido. um espasmo de ódio e desgosto que surgia do centro mesmo daquele homem. a não ser o reflexo da chama no coração do xerez. descansava na mesa. formando um laço. «É mal amar o homem que bem pôde ter-te matado?» Talvez era um modo de cicatrizar para ambos as feridas de Culloden. Não era pelo fogo que ardia ao outro lado da habitação. A suave voz escocesa lhe devolveu à realidade. Fraser permanecia quieto como uma estátua. mas dura e imóvel como o mármore. era impossível não o olhar. para posar-se na de Fraser. A mão dourada e negra. O fogo se tinha consumido e as linhas de seu corpo se recortavam nas sombras. «Faço mal. Fechou bruscamente a mão. Ao redor de Fraser o ar se agitava. imóvel e extraordinária como o peão capturado junto a ela. obrigado. Levantou os olhos para procurar os de Fraser. descartaram os temas de conversa mais levianos para concentrar-se no jogo. Tomou assento observando o tabuleiro com olhos cegos. Tinha intensa consciência dos movimentos do outro. A mão que tocou estava quente. absorto na nova posição. Tocar. quase sem degustar o líquido dourado. como se soubesse exatamente o que desejava. «Se jantar a sós com ele. uma vez mais. com a palma vibrante e os dedos curvados numa suave imploração.deferência aos estranhos gostos de Fraser.. Seus dedos não se moveram. Já sentados frente ao tabuleiro de xadrez. a pedra azul de seu anel lançou um reflexo.. não lhe dê as costas. Ainda assim pôs em perigo à rainha de Fraser. sem deter-se.. Nada se moveu na mesa. o azul escuro de seus olhos parecia vivo em sua cara. Depositou o bispo com um golpezinho seco e preciso.» .. imaginando a sensação.

de uns quinze centímetros de comprimento. Um momento: MacKenzie. muito controlada. —A posse de tartán escocês estava estritamente vetada pela Lei contra as Saias. Hayes. Innes. piscar para romper o contato com os olhos azuuis que o mantinha petrificado. —É seu. MacKenzie.Não tinha nenhuma possibilidade de fazê-lo. senhor —informou deixando cair as patéticas relíquias sobre um tonel— Só isto pode interessar. a fim de evitar que se propagassem as doenças. Referia-se a um pequeno pedaço de tecido. não podia mover-se. O comandante Grey esperava sob o saliente do telhado. MacMurtry. retirou a mão.. mas a essa altura do ano era inútil esperar que fizesse bom tempo. Sua segurança se baseava mais no conhecimento oficial tem de seus homens que da relação desse tartán com um clã em especial. Os soldados que os vigiavam não pareciam bem mais felizes do que os prisioneiros empapados. MacDonald. verdade? —inquiriu Grey fitando o jovem numa olhada triunfal. MacKenzie. O cabo Dunstable saiu detrás. O jovem escocês compartilhava com todos os demais um ódio implacável. Não era o melhor dia para realizar a inspeção e limpeza das celas dos reclusos. com um desenho escocês de cor verde. —A quem pertence isto? —O cabo levantou o pedaço de tartán ao mesmo tempo que a voz. —Sim. CAPÍTULO 12 SACRIFÍCIO A chuva de outono repiqueava nas pedras do pátio e nas fileiras de homens encurvados sob o dilúvio. suponho que sim. Graham. com as mãos carregadas dos pequenos objetos proibidos que habitualmente apareciam nesse tipo de inspeções. que desarmava os escoceses e lhes impedia utilizar a vestimenta tradicional. MacKenzie era um prisioneiro jovem. Grey percebeu o medo que se ia acumulando no moço. Grey. Ficou em frente aos homens. Com muita lentidão. Não podia sequer afastar a cara. mas não tinha conseguido levantar a muralha de estóica indiferença que o continha. suspirando. E com mais de duzentos prisioneiros em Ardsmuir era necessário limpar as celas ao menos uma vez ao mês. mantinha a cara muito inexpressiva. As portas da cela principal giraram para trás dando dando um passo o pequeno desfile de reclusos: eram os escolhidos para fazer a limpeza sob a estreita vigilância dos guardas.. comparando as caras com seu imperfeito conhecimento dos desenhos: MacAlester. enquanto o cabo Dunstable dava um áspero grito para chamar-lhes a atenção. . esse. —Os lixos de sempre. enquadrou os ombros. Teve um momentâneo silêncio durante o qual nenhum dos dois pareceu respirar. Por fim Fraser se levantou sem fazer ruído e saiu do quarto. Grey seguiu as fileiras com os olhos.

Em algum canto de sua mente. Com um esforço de vontade. dizendo: —A posse de tartanes é ilegal. Ambos seguiram olhando-se aos olhos até que uma sombra se alongou acima do ombro do jovem. Grey armazenou outra pequena informação na combinação que rotulava «Jamie»: sua mãe era uma MacKenzie. Sabia que era verdade. O comandante John William Grey inclinou a cabeça. —A voz soou acalmada. Ainda sentia o frio que lhe tinha metido nos ossos aquela manhã. assinando as requisições sem lê-las. O clã de minha mãe. Grey afastou os olhos desses lábios suaves. Rara vez trabalhava até tão tarde da noite. temeroso de enfrentar àqueles escuros olhos azuis. já o tinha tentado uma vez e tinha ficado hipnotizado vendo as chamas as imagens da tarde. Conhece o castigo. Ainda se sentia gelado por dentro. . Geralmente. Foi obedecido com igual concorrência. algo irritados pela exposição ao sol e ao vento. Se formou os prisioneiros em fileiras aos quatro lados do pátio e os guardas frente a eles. essas palavras foram como um golpe na boca do estômago. Era melhor não atrasar a execução dessas sentenças. O lar estava acendido mas o fogo não parecia servir de nada. não é? A larga boca se curvou num sorriso torto. Fez um sinal a um dos guardas.—É meu. os prisioneiros ficavam nervosos com a expectativa e era difícil controlá-los. elevou os olhos em muitos centímetros necessários para olhar frente a frente a James Fraser. só indiferença. tal como sabia que aquele tartán não pertencia a Fraser. —Não é o tartán dos Fraser —disse com lábios apertados. —Não. efetivamente —disse Fraser— É dos MacKenzie. Ouviu sua voz. John Grey deu um passo para trás. Teve um murmúrio entre as filas de prisioneiros. Recolhendo a pluma. mas durante o dia não tinha tido tempo e os papéis estavam amontoando. com as baionetas preparadas para evitar qualquer reação indesejada. no pátio. —Aprisione. tinha dado as ordens com seriedade e compostura. Requisitadas deviam partir para Londres essa mesma semana. serena e firme. tratou novamente de afastar a mente do pátio. quase aborrecedora. —Conheço. dotada de uma indiferença tal que nem MacKenzie nem Grey a registraram de imediato. para pegar suavemente o pedaço de tecido que o oficial sustentava. Não tratou de aproximar-se. A expressão dos olhos era a que ele temia: nem medo nem ira. só pôde reagir quando o calor começou a chamuscar as calças. as medidas disciplinarias executadas de imediato costumavam ter um efeito saudável. A boca de Fraser se alargou levemente. Grey manteve a vista fixa nela. Esquecendo por completo a MacKenzie.

pois o movimento fez cair em cascata a chuva acumulada em seu chapéu. vendo e escutando o golpe dos relhos e os rosnados do prisioneiro através da mordaça. uma tarefa habitual sem maior importância. E permaneceu de pé. Nesta oportunidade não fez nenhum sinal com a cabeça. Quando o moveram gritou. Até as tosses se tinham calado. Movia-se sem pressa nem vacilação. —Trinta! —disse o sargento. A voz do cirurgião inglês parecia vir desde muito longe. que permanecia em pé a um metro de distância.Mas não teve nenhuma reação. todo mundo queria terminar de uma vez e refugiar-se da chuva. rapaz? . O gotejo do sangue quente pelas costelas piorou os tremores. O sargento interrompeu a flagelação fazendo correr entre os dedos as filas do chicote. O sargento mal fazia uma pausa entre um golpe e outro. apesar do áspero cobertor que lhe puseram sobre os ombros. Grey sentia depois dele a presença dos homens. —. senhor Fraser. —Cubra-o com um cobertor.. —Hum. com seus nodos encerados. Em mudança. ditada pelo Parlamento de Sua Majestade. Ainda que fincasse os dedos nas mãos. mal fechadas. todos com o olhar fixo na plataforma e sua figura central. O homem tensionava os músculos para resistir a dor. para nenhum deles era a primeira vez. Grissom contava a cada chicotada em voz alta ao mesmo tempo em que o anotava em seu registo. Fez um sinal com a cabeça aos dois soldados. ajustando-se a peruca empapada. porque ainda chovia. como se aquilo fosse algo que já tivesse feito mais de uma vez. o tremor não cessava. na contramão da Lei contra as Saias. pronunciou as palavras de costume: —Recebe vosso castigo. que seguraram os braços do prisioneiro ao poste de castigo sem que tivesse resistência. soldados e prisioneiros. não relacionava a voz com as mãos que lhe aferrava com firmeza em ambos braços. Depois o alçou uma vez mais. delito pelo qual se aplicará a sentença de setenta chicotadas. O comandante Grey fechou a última gaveta da escrivaninha e vomitou sobre um montão de requisitos. não. Grey olhou objetivo ao sargento designado para aplicar o castigo. para liberá-las de sangue e fragmentos de carne. Deixou-te um desastre. Com as mãos cruzadas às costas. e voltou a descarregá-lo. fazendo-o girar ao redor da cabeça. Grey observou impassível a Jamie Fraser. Outro gesto ao sargento encarregado de ler os atributos e um pequeno incomodo. Estava acelerando a tarefa. O atenderei em seguida. com o olhar fixo. porque a torção abriu as feridas das costas.. Se endereçou. Uma e outra vez. como o frio do inverno. e recuperou sua postura de autoridade para escutar a leitura. até que cada fibra se revelou separado sob a pele. com os olhos entrecerrados. sentindo a chuva que lhe empapava o casaco e corria desde o pescoço da camisa. Tinha-o dentro dos ossos. nu até a cintura.

como se estivesse só num lugar longíquo. Sentia mais ou menos a mesma indiferença desde o momento que tinha alongado a mão acima do ombro do jovem Angus para pegar o pedaço de tartán. Tinha seguido aos guardas que o levavam e se desvestiu quando o ordenaram sem sentir-se realmente desperto. —Quieto agora. a tosca madeira sob a bochecha uniu por um momento o sonho e o acordar. Agora era o curandeiro ao que recorriam os homens quando lhes doía as costas ou se rompiam um dedo. como a maioria deles. ninguém parecia aguardar resposta. rapaz? —Dezenove. Pareciam coisas que já tinham sucedido antes. homem —sussurrou a voz— Te dói muito? —Um pouco. por suposto. O cirurgião lhe tocou as costas com suavidade. —Estava chorando em seus sonhos. Ouviu da plataforma as palavras do delito e a sentença sem prestar-lhes muita atenção. Era provável que tivesse boa mão para os cavalos. Ainda assim. fazia-o só por cumprir com seu trabalho. a dor estourou sobre suas costas como um relâmpago. até que passe o calor. Envergonhou-se ao compreender que era seu. Morrison tinha sido fazendeiro. não pôde recordar onde estava. Quer queimá-lo? Era a voz de Morrison. homem. —Ninguém vai entrar —disse bondadosamente— Ande. . Tinha tido sorte de que quem lhe tocou foi Dawes. depois sentiu uma mão sob a bochecha. Ofegou ao sentir o contato nas costas. caramba. tenha-o feito antes ou não. O cirurgião se afastou um momento. homem! Voltou lentamente à consciência. —Morrison lhe pôs uma mão no pescoço para evitar que se movesse enquanto lhe tiravam os trapos empapados para aplicar-lhe outra cataplasma quente. Nem sequer o reanimaram a áspera mordida da corda nas mãos ou a chuva fria nas costas nuas. levantando-lhe a cabeça. —Mal pôde pronunciar a palavra antes de agüentar com força o gemido.Não respondeu. está muito quente. quieto. —Ao tratar de incorporar-se. setenta chicotadas faziam dano. pensou vagamente. em realidade não lhe agradava flagelar aos prisioneiros. Quando se reúne um grupo de homens. —Agora vou limpar as feridas —disse a voz. acolchoando a tosca madeira. —Ei! —estava dizendo a voz— Desperta. que acordou momentaneamente todos os nervos adormecidos. Tinha que ser Morrison. chora. ainda que não lhe desse maior importância. apertou os lábios com força para não gritar. Uma toalha se deslizou sob sua cara. Uma mão surgiu da escuridão e lhe tocou a bochecha. Depois percebeu a mão pequena de Morrison no centro de suas costas. Era curioso. vacilante. Era impessoal mas não falta de cordialidade. tudo estava decretado. Depois se incorporou. —Agüenta. nada que ele pudesse dizer ou fazer mudaria. um soldado maduro e rijo. —Não. entre seus homens e ele tinha corrido uma espécie de pano de fundo. Como se dependesse dessa decisão. cada um parece achar o trabalho que lhe corresponde. de qualquer modo. Puseram nas costas um pano quente. —Que idade tens. Teve um estranho gemido. resmungão. que o fez rosnar pela ardência.

para algum lugar onde achasse uma recepção mais cordial. como se soubessem melhor do que voce o que sentes e o que precisas. outro que a detestava. Um homem amante das mulheres. anos atrás. a bebida desapareceu sem comentários. sorrindo ante a recordação. A borda da xícara pressionava sua boca. a corrente de ar lhe provocou um súbito arrepio. Mac Dubh. como estão essas costas? Amanhã estarás mais teso do que um poste... tratou de afastar a cara. mas o esforço fez que lhe ardesse as costas e a cabeça lhe deu voltas. Apoiou as mãos sob o peito. —Claro que sim — afirmou Morrison com a firmeza que parecem ter todos os curandeiros. Morrison não era tagarela. bebe um pouco mais. assim está melhor. Apertou os lábios com força para não fazer nenhum ruído. De qualquer modo. —Seu tom era uma mistura de autoridade e resignação. Provavelmente a mãos de Milligan. A xícara de whisky pressionou outra vez sua boca. Uma onda de vertigem se abateu sobre ele e suas mãos se deslizaram fora do banco. —Um pouco mais. Mac Dubh —lhe disse com suavidade— De qualquer modo. Estava sucedendo algo mas ele não o via. sem dizer nada em especial. . murmúrios breves. De onde vinham esses dons que davam forma à natureza humana? De Deus? Era como a descida do Espírito Santo. não? —Morrison moveu seu corpo — E agora. abriu a boca e sorveu o whisky.Uma conseqüência daquele estranho estado mental era que todas as sensações pareciam ter a mesma intensidade. Claire. —Toma. outro. A falta de forças e de vontade para discutir. Os sons tinham cessado.. —Não se incomode. Morrison seguia tagarelando em voz bastante alta. Vamos. os mesmos que Morrison tinha tratado de impedir-lhe ouvir. seu colega lhe obrigou a baixá-la. Como saber quem a tinha enviado. não podes impedí-lo. do qual se alegrava: a primeira vez que o açoitaram. Um homem com debilidade pela bebida. Tinha algo raro nisso. sua Claire. mas creio que não estás tão mau. como as línguas de fogo que se posaram nos apóstolos? Recordou a ilustração da Bíblia que sua mãe tinha na sala e fechou os olhos. Relaxou os ombros e não se moveu quando Morrison lhe tirou a última cataplasma. Quando levantou a cabeça para averiguar. Estavam golpeando ao jovem Angus MacKenzie. Golpeou o cheiro penetrante do whisky. Morrison tinha razão: não podia impedí-lo. Mac Dubh —disse a voz de Morrison junto ao seu ouvido — Levanta a cabeça e bebe isto. sentindo que lhe estremeciam os músculos do pescoço com o esforço de manter a cabeça levantada. o irlandês.. A mão de Morrison lhe obrigou a encostar. mas afastou a cara. —Não preciso —disse.isso aí —o instava Morrison— Bom moço. exceptuando um ofego apagado e choroso. insistente. Algo que se arrastava. —Deixa pra lá. homem. apesar de tudo. Aquela manhã o tinham amordaçado. Do canto mais afastado da cela lhe chegavam sons discretos. arrojando a uma vida para a qual não tinha nascido? No entanto. ela tinha sabido o que fazer e qual era seu destino. Sim. um golpe seco. Nem todos tinham a sorte de conhecer seus dons. assim. tinha-se mordido o lábio inferior quase até partí-lo em dois.

Então se sentiu livre de muitos pesos. bem. mas ainda assim a levantou para posá-la na cabeça do jovem. Depois de ter pago com tanta freqüência o preço exigido por seu próprio dom. Roger o levantou com cuidado para retirar a folha sem acordá-la. por exemplo. O jovenzinho se ajoelhou torpemente ao seu lado pegando-lhe a mão.. O da responsabilidade imediata. Quase lhe estava agradecido. A silhueta inclinou a cabeça num gesto estranhamente formal e lhe deu um beijo no dorso da mão. em outros tempos. com a pele assombrosamente quente e suave.. . Seus olhos encontraram de imediato o nome. Entre a bruma que se espessava. Um braço descansava no peito sujeitando uma folha de papel enrugado. Angus? —perguntou suavemente em gaélico. —Estou. por fim podia compreender a terrível condenação de ter nascido rei sem dotes para reinar. Pela primeira vez em dez anos. pôde perdoar àquele homem débil que. Desapareceu a ira. Mas que passava com o homem que se via obrigado a desempenhar um papel sem ter nascido para ele? John Grey. Ao abrir os olhos só viu uma silhueta. Mas voc. pensou que John Grey lhe tinha devolvido seu destino. —Como estás. —Posso. CAPÍTULO 13 No meio do jogo Inverness 2 de junho de 1968 Foi Roger quem a encontrou pela manhã. Se lhe deslizou de imediato. depois foi mudado e refeito para ajustar-se ainda mais a esse destino. O tapete lhe deixava os ombros descoberto.Ao seu lado teve um cauteloso arrasto de pés. Foi por experiência ou instinto que estreitou essa mão num gesto reconfortante? —Eu também estou bem —disse— Precisa descansar. tinha sido seu amigo. talvez tivesse ido para sempre. Quero dizer. sento-o. o solo estava coberto de papéis que tinham caído de uma pasta. mas sentiu que Angus se relaxava ante o consolo que fluía do contato.. mas adivinhou quem era... senhor. encolhida no sofá do estudio sob o tapete da chaminé. Estava relaxada. posso ficar-me junto a voc.. Ou Carlos Stuart. pequeno Angus. Tinha nascido para ser líder.. senhor? A mão lhe pesava uma tonelada. a da necessidade de decidir..

.—James Mackenzie Fraser —murmurou afastando os olhos do papel para a mulher que dormia no sofá — Não sei quem foi. Ardsmuir. Mas o próximo elo da corrente estava forjado. Olhou-o levantando uma sobrancelha numa maneira de pergunta e ele mostrou a pasta com um sorriso. movendo-se com exagerada cautela. Ainda que o destino final de Jamie Fraser não estivesse registrado naquelas páginas. amigo. isso era tudo o que precisava no momento. Ela não disse nada. Quando fechou a porta do estudio. mas seu rosto se iluminou com um sorriso. Depois se pôs em corócas para recolher os papéis dispersos de Ardsmuir. Brianna descia a escada. . . devia mostrar a história da prisão.. Talvez fizesse outra incursão nos arquivos das Terras Altas e até uma viagem a Londres. o caminho se via com clareza. Com muita suavidade voltou a subir-lhe o tapete até os ombros e baixou a persiana. mas deves de ser muito especial para merecê-la. —Achamos —sussurrou.

murmurando para si: —Oh. já que em Prestonpans perdeu o seu único filho varão —continuou Grey. enquanto Fraser. —Nosso novo anfitrião não está bem disposto para Carlos Stuart e seus apoiantes. Mas se conteve para não acrescentar o resto da citação. Não esperava resposta. Fraser. imóvel como uma estátua de bronze em sua sela salvo pela cabeleira agitada. Gordon Dunsany era um jovem capitão do regimento de Bolton. sem um gesto nem olhares. dirigindo-se ao perfil de ferro que o acompanhava. A lagoa de Watendlath estava escura e agitada pelo vento outonal. que se tinha adiantado um pouco. As chuvas tinham sido mais abundantes do que de costume e as pontas dos matagais inundados assomavam aqui e lá. Se queres fazer caso de um conselho bem intencionado. Ao morrer. John William Grey observou ao homem parado. seria judicioso não utilizar um sobrenome tão facilmente reconhecível como o vosso. Grey. em seus bordes cresciam densos juncos e ervas pantanosas. ocupava a cama. Fraser não tinha dito uma palavra depois de quatro dias de viagem. o caminho se dividia em dois. .QUARTA PARTE O Distrito dos Lagos CAPÍTULO 14 GENEVA Helwater Setembro de 1756 —Creio —disse Grey cauteloso — que deverias pensar em mudar de nome. das Terras Altas. tinha poucos anos mais do que ele —. Subindo ladeira acima. por acréscimo. envolvia-se numa surrada capa e estava frente à chaminé. filho da manhã. Aquela manhã não se tinha trançado e as flamíferas mechas voavam ao redor da cabeça. Já estava tarde quando cruzaram a ponte de Ashness para descer a costa para Watendlath Tarn. não se parecia a Escócia. O alento morreu em sua garganta e passou a língua pelos lábios. No cume da colina seguinte. com o vento revolvendo-lhe o cabelo. Não tens muitas esperanças de dissimular o fato de ser escocês e. mas ao menos tinha montanhas. Aquela parte da Inglaterra. encolhendo-se de ombros. Lucifer. parou o seu cavalo à espera de indicações. o Distrito dos Lagos. A dura expressão de Fraser não se alterou em absoluto. apesar de que se viam obrigados a compartilhar a habitação.

Um servo contratado era. onde irei? —A um lugar chamado Helwater. mas ante essa notícia sentiu que a cara e as mãos se adormeciam de espanto. América! Terra de selvagens à que se chegava cruzando cinco mil quilômetros de mares desertos e agitados! —Um contrato de servidão não é escravatura —lhe tinha assegurado Grey. —Como a restauração da fortaleza está quase finda. . graças a vossa hábil ajuda e a de vossos homens —Grey tinha dado a sua voz um colorido irônico —.Para Jamie. a quem prestará serviços domésticos que ele requer. Mas o comandante sabia tão bem como ele que a diferença era uma mera questão legal. que sobreviviam. —O ouro —disse secamente— É por isso. embaixo de sua ira imediata tinha medo e pesar pelo destino de seus homens. A súbita ilusão de liberdade. não? —Enquanto tivesse a menor possibilidade que ele revelasse o que sabia daquele tesouro quase mítico. afundando os dedos na carne enrrojecida pelo sol até que o corpo miúdo e musculoso ficava lasso como um coelho morto. enquanto lhe apertava o pescoço com as mãos. O comandante ainda recusava olhá-lo. não o confiariam ao mar. Agora observava as costas do comandante. —Servidão? Isso não é melhor do que a escravatura —disse. ainda que sem prestar muito atenção a suas próprias palavras. os prisioneiros serão transportados a outros alojamentos e a fortaleza de Ardsmuir servirá de quartel ao Décimo de Dragões de Sua Majestade. faziam-lhe imaginar com horror um destino desconhecido. aqueles quatro dias de cavalgada para Helwater tinham sido uma tortura. sim um traidor preso. misturada com uma pequena faísca de humilhante alívio porque. Envergonhado de si mesmo. —Não vou enviar voce com os outros. deves permanecer prisioneiro e a disposição de Sua Majestade. E Sua Majestade não se dignou aprová-lo. não é possível mudar a sentença transportando sem a aprovação real. saltando de assombro. qualquer que fosse seu destino. —E então. combinada com a certeza de sua imediata perda. —Só então Grey levantou os olhos com uma expressão ilegível nos olhos claros— Eu te visitarei cada três meses para assegurar-me de seu bem-estar. Jamie teve consciência de uma notável variedade de emoções. o qual equivalia a um consentimento. Jamie se tinha mantido cuidadosamente inexpressivo. a Coroa Inglesa não correria o risco de perdê-lo a mãos dos demônios marítimos ou os selvagens das Colônias. a todas luzes. Ficará na casa de lorde Dunsany. recobravam sua liberdade em alguma data predeterminada. —Grey não o olhou ao dizê-lo— Não és um simples prisioneiro de guerra. voltou para Grey dando uma olhada fria. no Distrito dos Lagos de Inglaterra. mas se encolheu de ombros. Os prisioneiros de guerra escoceses serão transportados às Colônias americanas. coberta pela jaqueta vermelha. aliviando-se de suas angústias imaginando os grandes olhos azuis injetados em sangue. meio apagadas pelo palpitar de seu sangue colérico. enquanto cavalgavam um por trás do outro pelos estreitos caminhos. escravo de seu amo. Como tal. válida só quando os servos contratados. onde serão vendidos sob contrato de servidão pelo prazo de sete anos. As palavras de Grey lhe ressoavam nos ouvidos.

sabe? E ela não superou a morte de Gordon. ou talvez sim. —Grey deu umas palmadas tranqüilizadoras ao velho. —Se lembras de Geneva.. salvo com sua permissão expressa. mas a magrela colegial dos anos anteriores tinha escasso parecido com aquela elegante jovem de dezessete anos que agora lhe oferecia a mão. recuperando uma sorridente jovialidade ante a aparição de suas duas filhas. não? Então o melhor será fazer isso. esperando-o. mostrou-se plenamente hospitalar.Como a disposição de Sua Majestade? Não se enganava.. —Não há nenhum perigo —assegurou Grey a seu anfitrião — É um homem de honra e deu sua palavra. —Uma taça. Grey se deteve e girou na sela. como sua mãe. . Eh. Grey não a recordava. Trouxe contigo? —Sim—confirmou Grey. Grey foi recebido no salão principal sem que o cordial lorde Dunsany se preocupasse por suas roupas desalinhadas e suas botas sebosas.. de cabelo loiro descolorido. —Dizes que tem habilidade com os cavalos. rechonchuda e loira.. Johnny? —perguntou impulsionando o seu hóspede para frente— A última vez que vieste Isabel era ainda uma criança. Iam vendê-lo como servente. uma mulher miúda e rechonchuda. a perspectiva de passar sua existência em vergonhosa servidão.. Erguendo as costas. Tinham chegado. Essa era a vingança do comandante. o país estava paralisado de terror. suponho. As moças saudaram ao visitante com amabilidade. Porque. bom. A terra descia em pique para um vale onde se via a casa familiar meio oculta entre árvores brilhantes do outono. Ante ele se estendia Helwater e. —Lorde Dunsany dirigiu uma olhada intranqüila a sua esposa. Enquanto lady Dunsany dava ordens a um lacaio. não é perigoso. Lady Dunsany. como sugeriu. Isabel tinha quatorze anos.. Não tinha muitas possibilidades de que a senhora o escutasse. as meninas. Como passa o tempo. Tudo aquilo tinha sido tramado por Grey. Louisa. creio que deves trazer às meninas para que saúdem a nosso hóspede. querida minha.. —Compreendo.. ainda assim lhe pareceu melhor falar baixinho— Deixei-o no vestíbulo dianteiro. Johnny! Tens que tomar uma taça.. Quanto a Geneva.. Um ruído na porta fez que Dunsany girasse em volta. Não entrará na casa nem cruzará os limites de vossa propriedade. mas era óbvio que estavam mais interessadas em outra coisa.. —Lorde Dunsany deu uma olhada a sua esposa e voltou para ela em suas magras costas para fazer ainda mais seu reservado diálogo— Não disse a Louisa quem é ele —murmurou o barão — Com tanto medo como causaram as gentes das Terras Altas durante a guerra. pois mantinha uma animada conversa com o mordomo sobre as novas disposições para o jantar. Sua Senhoría se inclinou sobre a taça para murmurar-lhe: —O prisioneiro escocês. era miúda. o manteriam num lugar onde Grey pudesse vê-lo e deleitando-se. —Lhe direi só que é um servente recomendado por ti... atiçou o seu cavalo com mais dureza da que teria querido. o ouro era só uma desculpa. Não estava seguro do que desejaria fazer com ele. não? —E sacudiu a cabeça com leve horror. com ele.

que seguiam nas Terras Altas. tão preso de sua palavra como se estivesse depois das grades.. até que lhe era possível repensar com racionalidade. mas já estava resignado que sempre seria assim. mas era tão caprichosa que os moços do pátio costumavam jogar a sorte para quem tinha a desgraça de acompanhá-la em seu passeio diário.. dissimulado sob a camisa.*Lady Geneva. mas o deixavam em paz por respeito ao seu corpo e ao seu austero semblante.. Montava bem. Era uma vida solitária. ligeiramente— Vou ordenar que algum dos lacaios o levem a. —Eh. por Natais (uma ocasião tensa e incômoda) passou sem aturdir sua crescente sensação de alegria. Mas era um inferno para Jamie Fraser. Ante um sinal.. Não era livre mas ao menos tinha ar. longe das montanhas escocesas. Uma vez estabelecido ali. malcriada e autoritária. dando ao fracasso com as conveniências de quem se lhe interpusesse. não presumia um grande esforço ser o rapaz dos estábulos num stud inglês. envolvida em seu manto. Desapareceu a neve e o ano se tornou luminoso com a primavera. o desconhecido deu um passo a frente e inclinou cortesmente a cabeça para lorde Dunsany.. milord. bonita. caía pela noite em seu colcão de palha tão fatigado que nem sequer sonhava. num princípio. No correr de seu trabalho diário só havia uma presença pentelha: a de lady Geneva Dunsany. estava habituada a obter o que desejava e quando o desejava. Para alguém acostumado à esgotante vida de agricultor das Terras Altas ou dos trabalhos forçados de uma prisão. e espaço para esticar os membros. e uma prisão no estrangeiro. deve ser onovo rapaz dos estábulos que nos trouxe John —explicou lorde Dunsany. papai? —perguntou Geneva com interesse. Interrompeu-o a súbita aparição de um servente. girou para apontar com um gesto amplo a silhueta alta e silenciosa. Tinha chegado a Helwater em tal estado de esgotamento e confusão mental que. aquilo lhe pareceu uma prisão a mais. enquanto seus músculos se acostumavam às exigências do movimento constante. no vestíbulo há um escocês! —E por sua escandalosa informação ainda não fora criada. —Chamo-me Alex MacKenzie —disse com suave acento montanhês. seu corpo e sua alma se foram acalmando pouco a pouco. Muito discretamente.. caramba. Enquanto desciamos a escada não deixava de olhar-nos!Dá medo vê-lo! —Quem é. Até a visita oficial do comandante Grey. . luz.—Papai —disse Isabel pegando-o na manga— no vestíbulo há um homem gigantesco. se arrumou para comunicar-se com Jenny e Ian. —Senhor. em caso da segurança) sua única recordação do lar era o rosário que pendia em seu pescoço. Parte das raras cartas que lhe chegavam por meios indiretos (que ele destruía depois de ler. que tinha passado os dois últimos meses preso numa cela. visivelmente espantado pela notícia que trazia. Os outros criados o olhavam com desconfiança. Em Helwater chegaram as suaves nevascas. uma paisagem montanhosa e os formosos cavalos que criava Dunsany. Em sua reverência não tinha insinuação alguma de zombaria— Para servir-vos. Durante a primeira semana.

Mas se limitou a murmurar: . Não tinha mais companhia do que a de Bess e Blossom.. Jamie fechou os olhos. Tinha as bochechas acendidas e os lábios apertados. A entrega podia demorar um mês. desfrutando do calor no peito e os ombros. Ao abrir os olhos viu o cavalgador que se aproximava ao pátio inferior. Vamos! E partia. —Espalho esterco. Quisesse Deus que se casasse cedo e se fosse bem longe de Helwater e dele. Jamie confiava em que. Jamie respondeu com um rosnado. pois tinham chegado ao final do plantio. —A voz de Geneva Dunsany soava estridente e um pouco sufocada. espoleando brutalmente a sua égua antes de que pudesse detê-la. —Felicidade! —exclamou ela. —Ela o acompanhou — Sabe que vão me casar? Todos os criados sabiam há um mês por Richards. Incorporouse de imediato para pôr a camisa. o agudo relincho de um cavalo o arrancou de sua sonolência. mais cedo ou tarde. três ou seis. quanto enviasse ou recebesse por correio devia ser vistoriado por lorde Dunsany. sua donzela. milady —respondeu ele sem olhá-la. o mordomo. O cilindro compressor iniciou um sulco novo. para livrar-se de acompanhá-la às colinas. —Com Ellesmere —disse. Talvez tivesse tempo para escrever mais páginas à carta que estava escrevendo e que enviava cada vez que um grupo de cíganos chegava à fazenda. onde sua irmã pagaria uma generosa soma por sua recepção. Meia hora depois. Seu entusiasmo era tão óbvio que os outros lacaios sorriam de soslaio e faziam comentários baixinho. coisa rara no Distrito dos Lagos. nos últimos tempos lady Geneva elegia por si mesma o seu acompanhante: Alex MacKenzie. milady.. portanto. Com o sol na cara. onde a diferença entre as nuvens e o solo costuma ser imperceptível quanto à umidade. O dia era ensolarado. pois Jamie era prisioneiro da Coroa. Segundo Betty. A tarde de maio era tão morna que Jamie não viu inconveniencia em tirar a camisa. rindo dele acima do ombro. vestia seu melhor traje de montar— O que estás fazendo? —perguntou pondo sua égua junto ao cilindro. quanto a ser feliz.No entanto. Ninguém nos verá. que estava servindo na biblioteca quando o advogado foi redigir o contrato matrimonial. —Tolices —replicou ela— Não seja estúpido. emoldurado entre as orelhas de Blossom. dando-se uma palmada na coxa com faísco de seus grandes olhos cinzas — Felicidade! Com um velho que poderia ser meu avô? Jamie suspeitava que. —Ah. nas cozinhas e nos pátios não se falava de outra coisa. —Não quer que eu te cubra. MacKenzie. As respostas da família chegavam pela mesma rota anônima. ela se cansaria de sua taciturna atitude e transportaria seus cansativos atendimentos a outro dos serventes. —Jamie a tirou brevemente das rédeas. os dois estólidos cavalos. passando de mão em mãos até Lallybroch. Logo cedo viriam os ciganos. sem comprometer-se. mas cedo ou tarde o pacote chegava às Terras Altas. —Te desejo a maior felicidade. Ele apelou primeiro à discrição e depois a passageiras indisposições. as perspectivas do conde eram ainda mais limitadas do que as dela. não recebeu de bom grau a notícia. Lady Geneva tinha sido informada mal dois dias antes.

—Na cama —disse ela com acalma— Quero que te cases comigo. Em meu dormitório. —Claro que não. —Como se atreve a falar-me desse modo? —Como me atrevo a falar-me assim? —inquiriu Jamie acalorado — Uma jovenzinha de boa família fazendo propostas indecentes a um homem que tem o dobro de sua idade! A um cavalariço de seu pai! —adicionou recordando sua posição. MacKenzie? —Agora tinha frente a si. pouco recuperado do golpe— Se é que alguma vez tivestes uma cabeça a perder. MacKenzie? Por um instante ele se deteve o coração. Geneva se convertesse numa viúva jovem. tonto! Numa cama. milady —respondeu inexpressivo.—Me perdoa. milady —disse com firmeza— Com vossa permissão. —Perdeste a cabeça —replicou Jamie friamente. Se ele se interessasse um pouquinho por mim não teria aceitado esta aliança. verdade. O sol está muito . milady. como deve ser. —Pôs-se nas pontas dos pés para olhar a Jamie— Quantos anos tens. despatarrada no esterco da carreta com as saias cobrindo-lhe a cara. tamapando os olhos com a mão para olhar para acima. A lady Geneva não lhe interessava a sensibilidade alheia. razoavelmente seguro de que ela não o seguiria até ali. Ela semicerrou os olhos. em poucos anos. sem tocá-la. sumamente rica e com um título de condessa. Ardiam-lhe as bochechas. Por que não se ia de uma vez aquele pequeno demônio? Ela lhe cercou com sua expressão mais conquistadora. —Estou seguro de que vosso pai tem sempre em conta o que mais vos convém. e subiu à carreta carregada de esterco. O conde de Ellesmere era um ancião. Deixou cair a pá. —O que se faz? —Ele deteve bruscamente a tarefa. —É um sujo negócio entre meu pai e Ellesmere! Meu pai me vendeu. —Aqui? —grasno. Num rápido momento. Não parece terrível que me utilizem assim? Pelo contrário. —Mas ainda não estás preparado para se aventurar. Depois fez um esforço por dominar a cólera— Peço perdão. atrapalhando sua tarefa. milady. simplesmente. Jamie pensava que lorde Dunsany. —Muitíssimos mais do que vos. —Bem —disse satisfeita— Então sabe o que se faz. por acréscimo. sim. Mackenzie? —Sim —respondeu ele num tom que não permitia mais indagações. —Mas me casar com esse velho seco! —observou— Meu pai não tem coração. Ela desmontou. —Passou ao seu lado como pôde. pai muito afetuoso. —E se afastou para desenganchar o cilindro. Jamie só teve uma ridicula visão da elegante lady Geneva. Era muito possível que. tinha feito a melhor aliança possível para a malcriada de sua filha maior. Tinha levantado uma brisa que lhe agitava umas fibras de cabelo castanho— Teve esposa.

—A quero. —Ela posou abertamente os olhos em suas calças esfarrapadas— Betty assegura que sim. Essa Jenny é o seu amor? —Lestes minha carta? Cachorra! . super feliz. E lhedeu as costas para continuar arrojando as remadas de esterco. continuou com firmeza—: Que me leve o demônio se entrego minha virgindade a um velho monstro depravado como Ellesmere! Jamie passou a mão pela boca. Estava-o olhando com uma luz triunfal nos olhos. com as rédeas numa mão e a carta na outra.. —Depois de uma breve vacilação. —É isso que pensas? —exclamou— Pois bem. que o diabo te leve a ti! Do peitilho de seu traje tirou uma gorda carta que agitou sob o nariz de Jamie. Nunca a toquei! Geneva riu. Voltou-se cautelosamente.forte e creio que te afetou o cérebro. — Me dê isso! —Num segundo esteve no solo correndo atrás dela.. não podia estrangulá-la nem despedaçar-lhe a pá na cabeça. não creio. —Sim que podes.. levantando o queixo. —Olhava-o com faceirice enquanto a cólera desaparecia de sua expressão — Depois de tudo. minha obrigação é entregar isto a meu pai. mas a moça era muito veloz. verdade? Ele deveria inteirar-se de que seus criados mantêm uma correspondência clandestina. —Compreendo bem a honra que me fazes. —Betty não tem nenhuma base para tirar esse tipo de conclusões. Jamie respirava com força. —Meu cérebro funciona perfeitamente! —Fulminou com o olhar. milady —disse com toda a cortesia possível. sim! Me dá! —Estava tão furioso que teria podido atuar com violência. Te fará açoitar até te tirar a pele. —Não. Deveria voltar imediatamente a casa e pedir a vossa donzela que vos ponha panos frios na cabeça. reconheceu a letra firme e negra de sua irmã. Encolheu involuntariamente os ombros. Não era possível que a moça o soubesse. —Se não o fazes —disse ela com doçura— direi ao meu pai que me fizeste propostas desonestas. Diz e que o diabo a leve! A jovem se ergueu como um galo de briga. Por desgraça. —É possível que vosso pai não me conheça bem —alegou—. Alegro-me. —Queres? —Agitava-a zombadoramente. Não poderia compartilhar um homem com minha governanta. Contra sua vontade. mas ele te conhece desde que nascestes. Era pequena e abusada. Lady Geneva pulou ao solo com um pé bem calçado. mas supus que a negava só por evitar uma surra. vermelha de cólera. Ao momento.. se arreganhando com aquela expressão decidida lhe dava aspecto de uma meretriz sanguinária — Escuta-me: não posso impedir este horrível casamento mas estou. milady —disse por fim com ironia— mas na verdade não posso. sentia compaixão pela moça. —Assim que não a levou a tua cama? Ela disse que não quiseste. —Desejo bons dias. Montou antes de que ele pudesse atingí-la e voltou.

—Obrigado. com o coração acelerado e coberto de suor. E o lacaio bebe. —Sim. Não te preocupes. Posso fazer que minha criada se ausente.. Os pés de sua égua iam levantando torrões de esterco recém espalhado. Sabia aquela moça quantas vidas pendiam de sua branca mão? Enguliu saliva uma. —Você veio. —Jamie tratou de ordenar seus pensamentos para traçar um plano sensato. Não tinha lua. Te prometo. pensou em tudo —disse ele com um nódulo no estômago — Mas cuida de escolher um dia seguro. Levantou os olhos para a casa. —Ninguém saberá —lhe assegurou ela com seriedade— Depois entregarei a carta e jamais direi o que continha. Chegou a pequena sacada ofegando. atado no pescoço com um laço de seda. —Com uma surda sensação de horror. não acha? Creio que a papai lhe interessará muito ler isto. Ainda assim contou as aberturas com cuidado. Voltou na sela e partiu aos galopes através do semeado. antes de poder falar.. pensou lúgubremente enquanto procurava apoio no tronco da enorme enredadera que cobria aquele lado da casa. —Um dia seguro? —a moça o olhou sem compreender. o qual era uma bênção. mas também um leve estremecimento. amaldiçoando-se para dentro. Sensato? Entrar na casa de seu amo para desonrar a sua filha. mas o olhava com renovado interesse— Te mandarei uma mensagem —disse por fim. cuja bloco se erguia ante ele.. dorme sempre antes das dez. —Está bem —repetiu— Devemos ser cuidadosos. tal como ela tinha dito.Siginifica que não estava muito segura? . Vestia uma camisola branca. a pedido seu? Nunca tinha visto de uma perspectiva menos sensata.. —Oh. a França. E que o céu o protegesse também se desse com o quarto correto. escura e austero. Abandonando a cadeira na qual estava sentada. devido ao frio da noite. mexendo a carta com ar de deboche— Minha obrigação é ajudar ao meus pais comunicando-lhes as coisas tão horríveis que fazem seus serventes.— Que linguagem! —exclamou ela. descobriu-se arrastado ao papel de conspirador. Jamie temeu descompor-se de terror ali mesmo. Deslizou-se sob a fileira de alerces. deixando ver a jovem que era. Claro que a mordida das víboras jovens era tão venenosa como a das velhas. Ela tinha ouvido com clareza sua subida pela hera. Sim. A cara da garota se iluminou com um sorriso mais natural. —Tinha-se ruborizado. Sobretudo o do ouro que é preciso enviar a Lochiel. de tela muito fina.. para verificá-lo. Que o céu o protegesse se errasse de quarto. —Bem. —Está bem —disse. Não se considera traidor a brindar consolo aos inimigos do rei? Quanta perversidade! —E estalou a língua com ar malicioso. —durante a semana seguinte ao seu período —disse ele sem rodeios— Então será menos provável que fiques grávida. se aproximou com o queixo erguido e a cabeleira castanha solta sobre os ombros. ali estava a vela na janela. duas vezes. Ele percebeu seu tom triunfal.

O cabelo lhe caiu para frente. cobrindo-lhe a cara. —Não me chames por esse nome —disse. . —Levantou a cabeça para fitar os olhos entornados— Já que me trouxestes a sua cama mediante ameaças contra minha família. delicada e enérgica. —Por que? É o teu. Enquanto tragava o vinho a observou dissimuladamente. Por fim a moça baixou os olhos à cama. nessas circunstâncias não lhe seria mal tomar uma taça. Jamie. deixou a taça. É meu segundo nome. Ele a recolheu de imediato. —Espera! Se voltou a olhá-la com impaciência. impaciente. mas ele se limitou a observá-la acima do ombro.. Ele lhe fincou uma olhada fria. então? —perguntou ao fim com voz débil— Não posso chamar-lo de MacKenzie! Ele suspirou. onde tinha uma garrafa com duas taças. Mas. —Está bem —grunhiu— Podes observar-me. —Agora. Não fazia sentido perder tempo. com os olhos fixos nela. —Não —foi a seca resposta. mas era uma mulher. —Oh. E tirou a carta de seu costureiro. —Me Chame Alex. —Como devo chamar-te. A moça o olhou zangada. Assim te chama tua irmã. Sentiu uma onda de fúria misturada com alívio ao ver o selo violado e a letra familiar de Jenny. Ela assentiu com a cabeça. não permitirei que me chames com o nome que eles me dão. —Depois —disse ela. interrompeu sua leitura— Deixa isso e vêem aqui. sem dúvida. bom —disse ela por fim encolhendo-se de ombros. endurecendo a boca. por minha honra de homem e pelo seu de mulher. —Jamie girou para a janela como se fora cumprir sua ameaça. vou. Terminada a bebida.. Jamie vacilou um momento. Era delgada e de peitos pequenos. mas Jamie detectou o breve fulgor de seus olhos espionando por trás do cabelo. —Vos servirei devidamente —disse—. depois deixou deliberadamente a carta e baixou a cabeça para a atadura de suas calças. Permanecia imóvel. —Não confias em mim? —perguntou ela com fingido encanto. De qualquer modo. Se não. a moça se aproximou à mesa. —A carta? —perguntou bruscamente. projetando um lábio petulante. —Quer um pouco de vinho? —Esforçando-se por mostrar-se gentil. Estou esperando —anunciou sentando-se na cama.—Não tinha muitas alternativas —respondeu brevemente enquanto se voltava para fechar a janela. Ele se perguntou como teria conseguido. —Então? —a voz de Geneva. sem afastar-se da janela.

ela recusou o oferecimento e se retirou um pouco para a parede. —Creio que não —disse—. Dava um pouco de medo. suponho. se aproximou alongando um dedo. Ele tratou de sorrir. a fim de poupar-lhe o espetáculo de suas costas. Não crescerá mais.. mas sem se cubrir.? Isto é. —O que aconteceu? —Oh. Depois de uma momentânea vacilação. —Oh! —A exclamação foi suave mas bastou para detê-lo. compreende? —Compreendo... A cabeleira lustrosa se agitou afirmativamente.... Ela assentiu. —Se é que podia tmoar esse tempo — Assim não será muito pior do que um beliscão. ainda que seus olhos se mantinham claros e sem malícia. Isto é. os homens.. não. —Posso tocar-te? Jamie ameaçou a rir. Ao menos isso esperava ele. —Enguliu saliva com dificuldade — Do. —Algo assim —confirmou pigarrreando — Mas mais lento. —Não vou te preocupar. E mais suave —disse ao ver seu gesto apreensivo. —Ah. ainda que sem deixar de observá-lo. E também não fará nada estranho se quiser tocá-lo. mas sorria.. tirando ao mesmo tempo as meias. mas quero saber antes. O valor. milady. talvez. O fato de estar nu e tão próximo de uma moça quase nua estava acabando com seu autodomínio. Por pura consideração se voltou para ela antes de tirar a camisa.. para que eu possa fazer o que me pedes. se apressou a sufocar a voz.. A ama e as criadas costumavam contar coisas de. só que. era uma virtude. Apressou entre os dedos uma dobra do braço.Baixou as calças. casar-se e tudo isso.. Ela deu levou um susto e esfregou o lugar. como os cavalos. —Bom.. Jamie sentiu uma pequena e inesperada simpatia. —Bom. em sua noite de casamento. isso não estava. —Isso posso suportar. Mas ainda parecia duvidar. geralmente não está assim —explicou ele calmamente sentando-se na cama— Mas para fazer amor tem que estar assim. —Só dói a primeira vez —ele lhe assegurou— A próxima será melhor. Por sorte. —Quando.. dói muito? Não importa. —Nunca viu um homem nu? —adivinhou ele. para ele. se tomo o tempo necessário para prepara-la. alegro-me. Não imaginava que.. —Sim —sussurou Geneva insegura—. mas sentiu uma apunhalada de dor ao recordar que. A sua traidora anatomia faminta lhe interessava não dando a mínima que ela fora uma meretriz egoísta. Ele fez um gesto afirmativo. .. ele também tinha suposto que seria como os cavalos. e deixou dobrados sobre uma cadeira antes de começar a desabotuar a camisa.. consciente de que a garota o olhava com certa timidez. —Creio que deves fazê-lo. tens alguma idéia como se faz? Ela ruborizou.

. —E não tives medo quando disse que te faria açoitar? A voz soava estranhamente rouca. Já não me assusta quase nada. esperava.Geneva lhe deslizou a mão pelo braço. —O homem deveria pagar tributo ao vosso corpo —disse suavemente. A jovem. com os olhos fechados. Os dedos se detiveram junto à cicatriz que lhe sulcava a coxa esquerda. Os peitos pequenos e duros se lhe fincaram no torso. Sentiu um leve sobressalto ante o contato do pénis. deslizou dois dedos ao longo da cicatriz sem exercer pressão. quando chegasse o momento. —Tudo bem —lhe assegurou — Já não me dói. Ela assentiu. —Mo nighean —sussurrou.. —És muito. mal tocando-a. Jamie sorriu. sem responder. mo chridhe. acariciando. Teve um suspiro trémulo e os dedos voltaram a tocar com suavidade suas costas destroçadas. Ele se obrigou a atuar com lentidão. Sentiu-a tremer contra seu corpo enquanto lhe desatava o laço da camisola para deslizá-lo desde os ombros. Tratou de calcular quando estaria disposta. durante mais tempo. se ela se limitava a ficar como uma peça de porcelana em exibição? Não podia dar-lhe algum sinal.. deixava todo o assunto em suas mãos com uma abusiva e indesejada confiança. mas como podia sabê-lo. assustava-o pensar que. sempre murmurando suavemente em gaélico. mas. —Bom —lhe murmurou— estas quieta. Beijou-a suave. rodeando-a com um braço enquanto lhe acariciava os peitos. grande. Jamie. Nunca até então tinha tocado em um homem. milady? —As palavras soavam zombadoras. a maldita? Não. Depois a levantou para pô-la na cama e se jogou ao seu lado. Em realidade.. já mais confiada. —Posso te tocar. Não lhe agradava aquela moça. . Para serená-la envolveu as mãos em sua cabeleira. beijando-a. não poderia conter-se para tratá-la com a devida delicadeza. e se deixou abraçar. Geneva deixou escapar o alento num pequeno ofego e se relaxou sob suas mãos. sem alento. lentamente e com tanta suavidade que lhe fez cócegas. permitindo-lhe explorar seu corpo tanto como desejasse.. Entre susurros que pudessem soar-lhe reconfortantes. —Espera—disse Geneva— Creio que. brevemente. mas se manteve imóvel. mas o contato não. fazia mais de três anos que não tocava em uma mulher. Depois de tê-lo obrigado. por suposto que não podia. —Não.. rodeou-lhe o antebraço com os dedos. As mãos investigadoras se detiveram nas costas. excitando os mamilos com pequenos movimentos circulares— Porque é bela e esse é seu direito. cobriu-a com seu corpo e usou o joelho para abrir-lhe as pernas. não queria estar ali. depois. não queria fazer isso. Já não prestava nenhuma atenção ao que dizia.

. Meio aturdido. gemeu como um. —Basta!É muito grande! Tire-o! Apavorada. —Bom. Geneva o estava olhando como uma gazela assustada. O que poderia ter sido um alarido emergiu entre seus dedos como um estrangulado «¡Ayayay!».. Isto é.. Se debatendo conseguindo pela força o que ele tinha tratado de fazer com suavidade.. Devia averiguar se a tinha feito sofrer muito. —Pareceu que sim. —E empurrou. Fechou o olho outra vez e se limitou a respirar. atônito. Fez uma cara horrível. e.. Assim fazem os homens quando.. —A mim? —repetiu estupefato— A mim não me doeu. —Mas. —Todos os homens fazem assim quando. Jamie respondeu com a verdade. —Ooh! —exclamou ela abrindo muito os olhos.. fez o possível para mantê-la quieta enquanto procurava às cegas uma maneira de acalmá-la. O espanto da moça se estava dissolvendo em curiosidade. Geneva se debateu sob ele. E a fez. mas estavam secos. —Tire! —gritou ela. mas se moveu com lentidão. mas ainda não. quando fazem isso? . Jamie recuperou a consciência pouco depois. só fizeram falta uns poucos embates para que a onda se abatesse sobre ele. —Perguntava-me por que demônios os homens querem deitar-se com mulheres virgens. —Eu sinto muito — sussurou ela— Não sabia que a ti também doeria. e se incorporou sobre um cotovelo. Os olhos de Geneva se tornaram enormes e redondos. por Deus. com o som de seu próprio coração nos ouvidos. —Basta! —Eu. Tampou-lhe uma mão na boca e disse o único coerente que lhe ocorreu: —Não. Com o cenho franzido.... penetrando-a um pouquinho.. Muito nervoso para consertar o absurdo da pergunta. Naquele momento ele só era capaz de fazer uma coisa.... —Ufa. Entreaberto numa só pálpebra. vislumbrou a pele rosada à luz do lustre.. ela lhe percorreu o corpo com uma olhada. agitando-lhe a coluna de acima abaixo para acabar varrendo os últimos restos de racionalidade. Teve um longo silêncio. Ele abriu subitamente os olhos. sim —a interrompeu apressadamente para não escutar mais observações pouco encantadoras sobre sua conduta— Mas isso não significa.. —Jamie pressionou um pouco mais. como se sofresse muitíssimo. quando fazemos isso —concluiu sem muita convicção.O esforço para domina-la deixou aturdido.

—Eu te quero. —Obrigada. respirando profundamente. Obviamente esperava que ele se ocupasse de limpá-la. Responder foi um esforço. mas já passou. —Oxalá estivesse certo. Faltava muito para o amanhecer.. tal como voce disse. —Pronto.. numa mistura de indignação e rubor. tal como vos dizia sua ama. E não podes me amar. O leve toque desceu. —Não —disse mexendo a cabeça— Essa é a terceira regra. —Qual é a diferença? . que a próxima vez seria melhor. e ela tinha cumprido sua parte. sentando-se sobre a cama— Os homens são bestas horríveis e asquerosas. Te machuquei muito? —Não creio —duvidou ela— Doeu um momento. Jamie se espevitou o suficiente para afastá-la. eh. Lançou um suspiro de alívio ao ver que. Ele... na verdade. arqueando um pouco as costas. deixou-a brincar com seu umbigo. cálido o alento contra seu peito. —Ja. —E se não posso evitá-lo? —Não é amor o que sentes. O escocês sentiu o forte impulso de fazer-la engulir mas se conteve ao dar uma olhada à carta. Ela se tocou entre as coxas e fez uma careta de asco. —Creio que sim —disse. —Ooh! —protestou— Isto é desagradavel e pegajoso! A Jamie lhe subiu o sangue à cara. irritado.—Como posso saber se. conhecia a resposta— Sim. Não podes chamarme por meu primeiro nome.? —começou ele. Levou a cabo o serviço com bastante suavidade e. Mas se interrompeu ao compreender que. —Milady? Ela lhe rodeou o pescoço com os braços e refugiou a cabeça na curva de seu ombro. Não terá mais do que esta noite. mas não é amor. tanto por seu próprio bem como pelo dela — É só a sensação que despertat em seu corpo. sem mover-se. É forte e agradável. Estava irritado quando começou a lavá-la. —Toma —murmurou pegando um pano. abriu as pernas. Alex? Se sentia como se o tivessem drogado.. assim é —disse.. Os olhos cinzas se umedeceram um pouco. —A moça moveu os quadris. descobriu-se dando-lhe um beijo leve na curva do ventre. Jamie fechou os olhos. ao terminar. vacilante— Disse. E uma vez mais se esticou ao seu lado. Tinham um acordo. A garota.. mas a confiança com que ela se lhe oferecia lhe resultou estranhamente comovedora. Alex.. a mancha era pequena e não parecia dolorida. o quanto a moça tinha sangrado. depois de tudo. e alongou uma mão para tocá-lo. em vez de pegá-lo.

—Fez-lhe sinal com uma mão reumática. onde se via uma sólida cortina de água. Levantou-se precipitadamente para dar uma olhada no palheiro. O ancião se balançava de um modo alarmante. estava cruzando o pátio com a cabeça inclinada pela força do vento e da água. A hora prévia do amanhecer não era só a mais escura. Quanto os pés de Jamie tocaram as lascas do solo. não ouviu as vozes afogadas pelo denso golpeear da chuva a pouca distância de sua cabeça. senão também a mais fria. o cocheiro. —Jeffries precisa ajuda com os cavalos! —Hughes teve que se aproximar e gritar para fazer-se ouvir acima da tormenta. —MacKenzie! O uivo repetido penetrou finalmente em sua consciência. Assim não era uma desvaneio de bêbado. capataz da propriedade. . voltou cansadamente ao seu trabalho. o que sentes por mim. Aterrizou pesadamente na terra do canteiro. coberto com a capa. ao princípio. estavas aí. anunciou—: Deves ajudar a preparar o carro para lorde Dunsany e lady Isabel. podes sentí-lo com qualquer homem. Sacudiu a cabeça para aclarar a retina. Vão ir a Ellesmere. A tão curta distância. e lhe era apaixonante apesar à dificuldade de ler à escassa luz das janelinhas abertas sob o beiral. ou só bêbado? —Jamie deu uma olhada à porta. —Sim? Hughes estava abrindo a boca para dar outro grito. sem que lhe importasse achatar várias plantas ternas.. Tão absorto estava na leitura que. Afastando com firmeza a recordação de Claire.—O amor é para uma só pessoa. CAPÍTULO 15 POR ACIDENTE Helwater Janeiro de 1758 Quando a notícia chegou a Helwater o tempo era escuro e tormentoso. —Ah. o cheiro do álcool barato era repugnante. Ainda sentia as formas da moça e a curva morna e rosada da bochecha que tinha beijado antes de partir.. —Agora? Estás louco. Um súbito raio se pôs no relevo da montanha. Isto. tratando de sufocar o soluço. não é especial. Jamie Fraser descansava num cômodo ninho de feno com um livro aberto apoiado no peito. Era um dos varios que tinha emprestado o senhor Grieves. Estremeceu. Uma só pessoa. Tinha-se cancelado o treino da tarde por causa do denso aguaceiro. homem. Jeffries. mas a fechou. e os cavalos estavam comodamente abrigados em suas quadras.

guarnecida com grande quantidade de pão. eram más. Jamie tinha feito um rápido cálculo. Jamie e Jeffries procuraram refúgio e sustento nas cozinhas da casa. Passaram cerca de três horas antes de que a carruagem entrasse. sacudindo o enorme carro e ameaçando com derrubá-lo em qualquer momento. . por favor? —Jeffrey diz que ainda faltam seis quilômetros. e mal se deteve para oferecer o braço a sua filha menor antes de entrar apressadamente. que só podia referir-se a lady Geneva ou à criança. O capote era pouca proteção contra aquela chuva torrencial. Ao passar junto ao carro. Isabel lhe agradeceu com uma inclinação de cabeça e baixou a janela. Todos os dias enviava algum mensageiro para que lhe levassem as milhares de coisas que tinha esquecido e precisava de imediato. Desde então fazia o possível para não pensar no assunto. Apesar de tudo. obviamente. —Sempre que aquele maldito carro não rebatesse.—Sim. por fim. banha e um pequeno frasco de geléia. que diabos. rezou por um parto sem perigo. O vento uivava. Sem dúvida tinha recebido alguma notícia. também não servia de nada quando era preciso descer para liberar uma roda do barro. talvez. ao pátio de Ellesmere. estão azuis de frio —observou a cozinheira— Sentam aqui. Envolveu-se em sua capa surrada e escondeu o livro sob o feno (os rapazes do pátio não sabiam respeitar a propriedade alheia). fadiga e fome.. lançando seus indefesos passageiros às águas de Watendlath Tarn. Depois de amaldiçoar à moça uma vez mais. viu a lady Isabel aparecendo à janela. Tinha estado com ela nem mal três dias antes do casamento... mas por que? Que motivos há para o lorde Dunsany. MacKenzie! —disse com a cara contraída pelo medo e a aflição — Falta muito. —Oh.? Oh. Por fim saiu no rugir da tormenta. Soube. preocupado como estava por suas possíveis razões. sem vacilar. a sua chegada: «Ainda não há novidades. Lady Dunsany estava em Ellesmere com sua filha fazia uma semana. —Pobres homens. muito menos pelo caminho cheio de abaixamentos que levava a Ellesmere. disse silenciosamente para si mesmo.. Sua figura magra não fazia honra a sua destreza. Cada um deles informava. lavar o barro aderido às rodas do carro e metê-lo tudo nos estábulos de Ellesmere. Não tinha muitos assuntos tão urgentes como para obrigar ao ancião lorde Dunsany a sair num dia assim. mas ele teve tempo de ver que suas bochechas estavam tão úmidas pela chuva como pelas lágrimas. que lady Geneva daria a luz em janeiro. que logo terei pronto um prato quente. pelas fofocas dos criados. —desagradado Jamie subiu a escadinha de duas em duas. pois em poucos minutos pôs ante eles uma enorme e saborosa omelete. Lorde Dunsany desceu de um salto. não podia estar seguro. escovar os cavalos. A viagem foi infernal. depois do último rebate com o lodo.» Agora tinha novidades e. Demoraram quase uma hora mais para livrar-se da junta. milady! Duas horas. Dormentes de frio. Jamie mal reparava no incomodo físico da viagem.

dando uma olhada apreciando. de maneira que fingiu estar interessado. Seu Senhor lhe dizia palavras que não se usam nem num estábulo.. assim está melhor! Toma. mas como Sua Senhoria soube de quem era o feto? Tanto podia ser dele como de qualquer um. —Mas. quando lady Geneva começou a engordar. A omelete lhe estava engasgando. instalou-se comodamente para desfrutar a comida e do mexerico com as criadas — Bom. Mas quando se soube de que ia ter um filho. — Ah. —Depois de passar a garrafa a Jamie. não é assim.—Gostoso.. A cozinheira voltou para ele com um olho de pássaro. mas. Vá ao escritório e averigua se Seu Senhor quer que sirvamos algo. Jamie estava desesperado por perguntar como estava a criança e de que sexo era. muito gostoso —opinou Jeffries. mas não tinha modo de meter pressa àquela mulher.. e a casa de pernas para o ar. desde o casamento lhe dava todos os gostos. Mary Ann. ofegou com desdém: —Um velho com uma potrilho? Parece-me muito provável. com o médico pedindo lençóis e toalhas.. lambendo os lábios. —Aos gritos e brigas! —continuou. pobrezinha. homem. que novidades há? Já nasceu o bebê? — Oh. abrumada pelo escandaloso de sua informação. há só uma maneira de saber que não era seu. —Que? —exclamou— Estás me dizendo que Seu Senhor é impotente? . Bebeu outro pouco de conhaque com a esperança de fazê-la baixar. não? A cozinheira fez um sorriso brilhante e malicioso. verdade? Jeffries a olhou fixamente.Mas o bebê é o de menos! —Bom. alçando as mãos com horror— Ele gritava. Seu Senhor era meloso e amável com ela... certo? Pois não! Muito ao invés! —Por que? —inquiriu Jeffries.! A cozinheira fez uma pausa para fazer um gesto portentoso. a cozinheira se recobrou antes de revelar as notícias. levantando uma sobrancelha. Depois piscou um olho à cozinheira — : Claro que desceria com mais facilidade se tivesse uma taça para suavizar o caminho. —Disse que a criança não era sua. Jeffries. jogando-se para trás. —Oh. ela chorava e os dois golpeavam as portas. o argumento sortiu efeito: uma garrafa de conhaque para cozinhar fez sua aparição junto ao pimenteiro. que já ia pela segunda taça. sim. ontem à noite! —disse ansiosa— Passamos toda a noite acordados. Por isso eu disse a Mary Ann. Jeffries se serviu em um bom trago e o bebeu sem vacilar. não muito interessado. certo? Voce parece capaz de ser misericordiosa com um par de amostras congelados. —Tudo começou faz alguns meses. bom —interveio a cozinheira franzindo o cenho — Há muito a fazer para estar fofocando. não sei se ele sabia de quem era. querida? Fora por este exemplo de persuasão irlandesa ou pelo aspecto de suas roupas esfarrapadas. Seu Senhor não se alegrou pelo filho? —interrompeu Jamie. A cozinheira baixou a voz. Uma vez tendo a atenção completa de seu público. —Qualquer um se alegraria.

segundo dizem.. duvidando entre entrar ou esperar a Jeffries. mas de imediato se esticaram para adicionar—: Ainda que a criada diz que os lençóis que tirou do leito nupcial estavam tão brancas como quando as pôs. a mim não me consta. É um menino são e formoso.. —Indica-me onde está o escritório —ordenou— Rápido! Uma vez no andar superior poderia ter-se guiado pelas vozes.. —Como tens o descaro de fazer semelhantes acusações! —estava dizendo Dunsany. Depois se se benzeu de pressa.. A criança nasceu bem? —perguntou sem rodeios. —Quando? —perguntou. tanto pelo álcool ou pelas lágrimas. estremecida a voz de velho pela ira e a aflição — Quando minha pobre menina ainda não se esfriou no leito! Covarde! Canalha! Não vou permitir que essa criança passe uma só noite sob vosso teto! —Esse pequeno bastardo fica aqui! —clamou a voz rouca de Ellesmere. Diz Mary Ann que estava sentada com o pequeno em braços e que ria.. mas. é meu herdeiro e fica comigo. claro. O cocheiro trocou com Jamie uma olhada de consternação. pelo amor de Deus.. de imediato! E. —Suspirou longamente— Perto do amanhecer começou a sangrar. A Jamie lhe ardia a garganta. —Vosso amo vos chama! —balbuciou olhando a Jamie e ao cocheiro —. depois de nascer o bebê. intimidado pela morte. Até Jeffries ficou mudo por um momento. ofegante pelos nervos e as pressas. Chamaram de novo ao médico. sim.. Aos dois. —Esta manhã —disse a cozinheira mexendo positivamente a cabeça— Antes do meio dia.—Bom. E se sua mãe era uma rameira. Aquilo era demais. —Enguliu saliva. A surpresa e a dor o sufocavam com uma bola de estopa na garganta. Tão brusca revelação deixou a cozinha em silêncio. É a mãe a que morreu. Deteve-se frente à porta.. Comprei-o e pago. —Maldito seja! —a voz de Dunsany tinha atingido um tom tão agudo que era quase um grito — Que o comprastes? Vos. pobrezinha. pegando por um braço à balbuceante criada. —E enguliu o resto do conhaque..? . senhor. Era Mary Ann com os olhos dilatados. Durante um momento pareceu estar muito bem. Jamie deixou sua taça com um golpe seco. dirigindo-se a Jeffries—: Diz que leve suas pistolas. ao menos me deu um varão. —Oh... vos. Pensei que já sabias. atreves a sugerir.. Qualquer teria podido ver que Seu Senhor estava muito afetado pela bebida— Por bastardo que seja. Jamie se pôs de pé. oh. Demoraria uns poucos minutos em procurar as armas e comprovar que o mau tempo não havia estado. Interrompendo as gargalhadas de Jeffries. Depois se levantou de um pulo e saiu disparado para os estábulos. Interroupeu-a o ruído da porta ao abrir-se. —Os lábios da mulher assumiram uma linha puritana. murmurando: —Que Deus a tenha em Sua Glória.

dividindo sua atenção entre Ellesmere. O conde tinha quase a mesma idade que Dunsany. Levantou-o com um gesto de vazia interrogação — Mandaste à criada me dizer que trouxesse ao bebê. apoiado numa mesa. —Lixo —disse quase em tom coloquial— Como me. voltou-se instintivamente para Jamie. milord. Ao irromper na habitação encontrou Ellesmere e a lorde Dunsany enredados no tapete. Mas a saída estava bloqueada.. Pôs-se em pé cambaleando. com uma pistola em cada mão avançou cautelosamente. gozava de melhor saúde. Jamie não se atreveu a esperar mais. mas era mais forte e. meteu-se na briga para ajudar o seu padrão. ficou desconcertada ante a cena. senhor —observou Dunsany. seguido de um estrondo. milord —murmurou ao ouvido de Dunsany.. muito imprudente. —Vamos. Sua voz tremia pelo esforço de dominar as emoções— Só a vossa evidente intoxicação posso atribuir as repugnantes calúnias que arrojaste sobre a pureza de minha filha. Ouviu-se um gorgoteio. obrigando-o a retroceder— Creio que seria. —Não. como não lhe deram nenhuma.—Não sugiro nada.. Se aproximou ao ancião e tratou de ajudar-lhe a chegar à porta. apesar de sua embriaguez. ainda ofegando. milord —disse com todo o respeito possível. —Ellesmere seguia rouco mas se dominava melhor — Vendestes a vossa filha.. —Ah.. —Jeffries. Que. —Fique quieto. me irei com meu neto. vendo que Dunsany forçava para lançar-se contra seu adversário. Olhou ao seu chefe para pedir instruções e.? Interroupeu-a um rugido de Ellesmere: . —Será melhor que não movas daqui. Em seus braços trazia algo parecido a um vulto de roupa lavada. vosso neto.. envolver o vossos servos.. Não estava muito claro que lorde Dunsany pudesse manter-se em pé. branco como o papel. com a expressão inchada pela dor que sentia. empurrou ao conde para um cadeirão. Paguei trinta mil libras por uma virgem de boa família. Segurou num abraço de urso. com o escasso cabelo revolto e os olhos injetados em sangue. milord —disse. rodando de um lado a outro... Depois de avaliar a situação. Interrompeu-se com um grito estupefato.. que se esforçava para levantar-se da poltrona. velho tonto! —disse. Sendo assim.. E se lançou para a campainha. Com um rosnado. Jamie soltou o seu chefe para segurar a mão de Ellesmere. Estas seguro de que o menino não é vosso? Porque ela disse. Quieto. eh? —balbuciou Ellesmere— Parece muito seguro da «pureza» de vossa filha. e lorde Dunsany. levantas a mão. A primeira condição não foi satisfeita e me permito duvidar da segunda. afastando-o da silhueta ofegante de Ellesmere—. O escocês deu um passo adiante e pegou a Dunsany pelo braço. mas não tinha tempo para preocupar-se por isso.. obviamente. —Parece-me que seu nível de licor está excessivo. —William? —Lady Dunsany.

A sós. aproximou o vulto à janela. Jamie se sentiu na obrigação de convidá-la a sentar-se. . —Sim. girou sobre seus calcanhares e disparou. — Entrega-me! —Vá para o inferno. Jamie deu um pulo e ficou parado no meio do tapete. Ellesmere ficou inexpressivo. Sua voz tremia. —Sim. Dunsany. Jamie Fraser. apertando-o contra seu peito. casa! —ofegou o conde— Saiam agora mesmo se não quer que eu atire este pequeno bastardo! Juro que atirarei! —Para confirmar sua ameaça. —Quero falar com Mackenzie. alterado pelo falecimento de minha filha. enquanto sujeitava ao menino com a outra. parecia um enfeite. MacKenzie não. a frágil lady Dunsany suportava a tragédia muito melhor do que seu marido.. MacKenzie —disse baixinho. —Todos sabiam. a servidão inteira estava inteirada. inclusive o menino deixou de uivar. Hughes lhe deu uma olhada de assombro. Ofegava como um animal incurralado — Meu. arrebatou-lhe o vulto nos braços e. —Saí. —Esta manhã reuniu-se o tribunal. milady. Ellesmere esquivou a Dunsany e abriu a janela com uma só mão. —O veredito do tribunal foi que o conde de Ellesmere morreu por acidente. imbecil! Com imprevisível agilidade.. Lady Dunsany o olhou nos olhos. —Fez um leve som de desgosto. nem aos histéricos gritos de lady Dunsany. me ouviu? O vulto soltou um grito de protesto. mas sem quebrar-se.. Jeffries tinha presenciado o ocorrido no salão de Ellesmere. sem poder mover-se nem pensar.. portanto. arrancado de seu estupor. Depois lhe fez uma reverência e se retirou a sua guarita. pegou uma pistola do petrificado Jeffries. Mais nove metros abaixo esperavam o pavimento do pátio. Tremia como uma folha.. —Estamos agradecidos. Depois cambaleou. nem ao corpo de Ellesmere estendido ao seus pés.... movido pelo instinto que lhe tinha feito sobreviver a dez ou doze batalhas. Miúda. Segundo o juiz. como se nunca tivesse pisado a casa de Ellesmere.—É meu! —Empurrando à senhora contra a parede. minha. milady? Jeffries tinha sido chamado a prestar depoimento. com as sobrancelhas arregaladas num gesto interrogante. avançou com as feições contraídas pela fúria. Sua Senhoria estava. rechonchuda e de um luto impecável. MacKenzie —disse ela. sem prestar atenção ao fogo que lhe chamuscava as calças. recuou até a janela. de. mas ali não tinha assento algum exceto um fardo de feno. Lady Dunsany parecia estar fora de lugar no estábulo. Mas ninguém falava do assunto. O rugido do disparo deixou mudo a todos. deixando-a frente a frente com o escocês. estreitando entre os braços o vulto que tinha seu filho.

«É um menino forte. —Confio que perdoes o engano. Meu esposo me disse. —Suspirou com devoção conjugal— Pelos comentários de Ellesmere voce percebeu de que não somos ricos. sei. MacKenzie? Jamie ficou sem ar. Deixar de ser um estrangeiro. Jamie tinha forçado os olhos para poder distinguí-lo. Queres voltar a casa? —A casa? —repetiu. Ir para longe e não saber nada mais de seu filho. os de Ian nos ombros e os meninos ao redor. robusto e bonito. voltar A Lallybroch. ver o rosto de sua irmã iluminado de prazer ao vê-lo. —Creio que. isso não tem importância. senhora. Seu padrasto é. mas para ser uma mulher que acabava de perder uma filha e ganhar um neto. coroada por uma pele muito clara. No entanto.. —Sim. —Muito agradecidos —repetiu sem deixar de olhá-lo com intensidade— Vosso verdadeiro nome não é MacKenzie. foi seu primeiro pensamento. O dia anterior tinha visto ao menino dormindo num cesto junto a uma janela do andar superior. —Queria poupar-me uma preocupação —concluiu a senhora— Sim. O gorro estava torto deixando ver a curva da cabeça. não parecia alterada.. Que teria revelado lady Geneva a sua mãe antes de morrer? Ela pareceu perceber sua rigidez. não preciso perguntar qual é —disse—. A cara do menino era visível só de perfil. Mas. meu neto é agora possuidor de uma das maiores fortunas do condado. Voltar A Escócia. exceto: «Sim. Deixar atrás a hostilidade. —A Escócia. Sentir seus braços rodeando-lhe a cintura. como se tivessem golpeado no estômago. E se benzeu.. Para isso não parecia ter resposta alguma.—Obrigado. Mas era pequeno. —Observava-o com atenção— Sei quem és ainda que ignore vosso nome. —Não. John Grey prove de uma família muito influente. Helwater está muito endividada.. milady. Mas há uma pergunta que desejo fazer. bom.. pois curvou a boca em algo que parecia ser um sorriso tranqüilizador. Jamie a observou com desconfiança. —Percorreu-lhe um arrepio apesar do sol. milady —murmurou— Seu Senhor. tinha uma bochecha apoiada no ombro. — Encolheu-se de ombros— O fato é que seria possível falar em vosso favor para que o deixe em liberdade e possa voltar A Escócia. verdade? —disse de repente. pelo momento. «Não é ruivo. Subiu ao ramo de uma grande árvore. Forte. És um dos prisioneiros jacobitas de John. Deus meu!» . graças a Deus». milady? —John.. William se preocupa demais. Por isso vim perguntar: quer voltar A Escócia. milady?» —Aqui levamos uma vida muito recuada —prosseguiu— Rara vez vamos a Londres e meu esposo tem pouca influência nas altas esferas.

prova de uma família muito influente. como um carrilhão. sem olhá-lo. Muito lentamente. Lady Dunsany assentiu sem se alterar. admirando um grande alazão castrado. —Cavalo da rainha a Bispo da rainha três —respondeu o comandante com voz pouco mais rouca do que de costume. CAPÍTULO 16 Willie Para sua grande surpresa.. Ele inclinou respeitosamente a cabeça.. —Como preferir. os anos seguintes foram. e o deixou para voltar a seu mundo. creio que não me irei.. luz e cavalos. em muitos aspectos. Quando Grey apareceu novamente no pátio do estábulo para sua visita trimestral. na impossibilidade de liberá-lo. alguma discreta carta ocasional. Girou de volta. milady. tinha retomado sua estranha amizade com lorde John Grey. enviada das Terras Altas de Escócia. Notou o sobressalto de Grey e sentiu seus olhos fitados nele. Um inesperado benefício da sossegada vida de Helwater era que. de algum modo. Não era por desejo de Sua Majestade que o tinham levado àquela casa em vez de condená-lo à perigosa viagem através do oceano e à vida de escravo na América. —Peão do rei a rei quatro —disse Jamie baixinho. Depois ouviu o rangido da madeira sob seu braço.. Jamie foi compreendendo tudo o que lady Dunsany lhe tinha dado a entender com seu oferecimento de liberdade. tinha dito. mas. . Lhe custou algum esforço. John Grey. Tal como tinha prometido. tranqüilizava-o comunicando-lhe que ali viviam em condições similares. Ambos o observaram em silêncio durante um momento. mas não voltou a cabeça.Lady Dunsany esperava com paciência. além de um superficial interrogatório formal. Seu padrasto é. brindando-lhe ar. Helwater era agora sua prisão. Talvez ia cometer um terrível engano mas não podia atuar de outro modo. Tinha comida e roupa suficiente com que se manter quente e decente. nem sequer de falar com Jamie. Mas tinha importância. senão por influência de John Grey. Não tens mais que pedir. MacKenzie. mil vezes mais do que antes. Jamie esperou até encontrá-lo a sós. E ele não tinha decidido por vingança nem por motivos indecentes. bom. sim. isso não tem importância». os mais felizes na vida de Jamie Fraser... excetuando o seu matrimônio. —Eu agradeço. mas o fez. na verdade porque era o melhor que ele podia fazer. fez o que estava ao seu alcance para aliviar as condições de seu cativeiro. Grey estava apoiado na cerca. o comandante se apresentava cada três meses a visitar aos Dunsany mas não tinha feito tentativa alguma de aproveitar-se a seu favor. «John. por agora..

a Jamie lhe bastava com a ameaça de não lhe permitir ajuda no estábulo para sufocar seus caprichos mas não seria suficiente. ainda quando andava de gatas. Ainda assim. àquele pequeno diabinho. valente e formoso. eram o único vínculo de Jamie com o mundo exterior a Helwater e um pequeno prazer que ambos esperavam com ansiedade. Pelo momento. E está ainda mais apegado com seu cavalariço. Os cavalariços não tinham espelhos e ele evitava o tratar com as criadas. tens razão! —exclamou muito divertida— Olha: os dois inclinando a cabeça de igual modo e têm a mesma queda de ombros. Como o conde de Ellesmere é o único herdeiro desse condado e de Helwater... Jamie passou uma mão furtiva pelas feições. como se fora vistoriar as aranhas aquáticas. o homem do estábulo. Lady Grozier. o perigo provia do mesmo Willie e não tinha remédio. MacKenzie. sem pais que o mantivessem a risca. a jovem tia e todos os serventes da casa. mas sentiu um suor frio na cara.Desde então. montado nos enormes cavalos que atiravam do rolo ou nas carretas de feno. Tinha um sorriso resplandecente e encanto de sobra. O problema era que Jamie Fraser levava vários anos sem se ver com clareza. AOS três anos já montava sozinho.. observando o pequeno com afeto. enquanto admirava as peregrinações de Willie pelo pasto a trotes em seu ponei. que teriam podido proporcionar-lhe um. o avô o sentou em um ponei para passeá-lo ao redor do pasto. fazia sua vontade com os avôs. sob a vigilante olhada de MacKenzie.. Ironicamente. Que curioso! Jamie se inclinou respeitosamente ante as damas. tinha a Willie. Aproximou-se ao bebedouro. Não tinham tabuleiro de xadrez e rara vez jogavam verbalmente. Na postura. antes de que o menino pudesse manter-se em pé com firmeza. seguro de que ninguém o observava. O quanto era parecido? Willie tinha o cabelo de um suave tom castanho e as orelhas grandes e translúcidas. as suas não sobressaíam assim. Se os ossos do menino . mas indubitavelmente existia. na forma da cabeça e nos ombros. O garoto o adorava e passava horas inteiras em sua companhia. As vezes comentamos que. Willie era um menino forte. Uma vez que as senhoras entraram na casa. junto a lady Dunsany. mas também nos olhos. tal como lady Grozier tinha observado. Helwater estava dedicado aos cavalos. —Que formoso menino! E monta bem! —era lady Grozier quem falava.. —Oh.. Eram os olhos dos Fraser: os de Brian. Willie era sua alegria. Além mais. até começa a parecer-se com ele. Também estava muito malcriado. o cavalariço. O parecido não era completo. perguntava-se quando iria perder a calma e dar-lhe um cascudo. E isso. exceto a MacKenzie. que não tinha prestado nenhuma atenção ao cavalariço deu uma olhada a Mackenzie. Ainda não havia acreditado que a semelhança fora visível para os demais. sim. os de seu pai e também os de sua irmã Jenny. No entanto. adora o seu ponei. a poder de passar tanto tempo com MacKenzie. Custa-nos horrores conseguir que ele entre a comer. e enguliu saliva. A avó riu. tinha algo que ameaçava aquela aprazível existência e crescia mês a mês. —Caramba. em cada visita ia aos estábulos para passar a noite conversando com Jamie em seu tosco banco. mas as conversas noturnas continuavam.

—Posso montar a Millyflower quando tiver terminado. —Não! —O pequeno conde apertou os dentes num gesto herdado de seu bisavô paterno. —Mas eu quero montá-la! Jamie suspirou sem responder. não tens nenhuma autoridade sobre mim —replicou Jamie com firmeza. qualquer o notaria. suficiente para cobrir os gastos da viagem. —Não! Não podes ir. Jamie tinha uma pequena quantidade de dinheiro poupado. com a vista fincada na crina da égua. —Onde vais? A Derwentwater? Posso ir contigo? —William. visconde de Dunsany. —Disparou uma mão para beliscar a perna do menino. John Grey tinha trazido o perdão. eu. milord. Willie palideceu de horror.. posso selar! Agora mesmo! O nono conde de Ellesmere tinha erguido o queixo com desafio em seus olhos se ofuscou ao observar o frio olhar de Jamie. Para o meio de setembro tudo estava pronto.. —Porquê? —Voce também ficará assustado se eu espremer o seu joelho. de só uns trinta e cinco.seguiam pressionando a pele. Willie lançou um grito e se jogou para trás. Tinha chegado o momento de falar com lady Dunsany. Mac? —Não —respondeu Jamie com paciência pela décima segunda vez— Já disse mil vezes: é muito grande para voce. porque já não sou um cavalariço. nono conde de Ellesmere. com seu metro e noventa de estatura. se jogou da parede.. O escocês baixou lentamente o capacete da égua. incorporou-se com a mesma lentidão e. . —Disse que quero montar a Milly! —Eu já ouvi. —Não —repetiu com muita suavidade. —Jamie apertou os lábios e se pôs em córcoras— Escuta: eu não tenho que fazer o que mandas. rindo. Jamie agradeceu ao céu que ninguém em Helwater tivesse conhecido a Simon Fraser — Não te deixarei ir! —Por uma vez na vida. se seu nariz crescia longo e reto e os pómulos continuavam alargando-se.. —Não faça isso —disse Jamie— Já não disse que não podes fazer ruído na cerca de Milly? É muito assustada. —É preciso. —Sim! —Willie erperneou no feno — Tens que fazer o que eu mando! —Não tenho que fazer. —Amanhã me irei —disse Jamie como de passagem. e de Willie. e lady Dunsany lhe tinha dado um cavalo decente. —Bom. Só faltava despedir-se dos habitantes de Helwater. —Claro que sim! —Não... Amanhã me irei. aterrizando com um ruído que assustou à égua. olhou ao conde.

murmurando palavras gaélicas que. eu já disse! Jamie o olhou com espanto. —Sim. —Não sou nenhum bastardo! —gritou— Retira isso! Ninguém pode me dizer isso!Retira-o. e lhe deu cinco ou seis surras no traseiro. com um pouco de sorte. Tinha atrasado demais sua partida. Isso significava que corriam rumores que Willie os conhecia. tirou-o sem danos para ele nem para a égua. Jamie fulminou ao menino com uma olhada.—Se for. —Permita-me. estava fazendo um grande esforço por dominar as lágrimas. tão parecidos aos seus. voltou ao estábulo para ocupar-se de Willie. Willie se ergueu em toda sua estatura apertando os punhos. Willie. Queria ajoelhar-se para abraçar ao menino e consolá-lo mas esse não era gesto que um cavalariço pudesse ter com um conde. —Merda. Depois de amarrá-la perto. sacudido pelos soluços. o menino não compreenderia. apertando-lhe a cara contra o ombro para que não visse as lágrimas que derramava sobre o cabelo espesso e suave. Millyflower se encabritou. Willie lhe rodeou o pescoço com os braços e apertou com força.. ou quem pudesse vê-los. —Livre já de sua reserva habitual e alarmado pela perspectiva de que aquele malcriado alvoroçasse aos sensíveis e valiosos animais. Jamie conseguiu segurar a Milly e. esperneando e debatendo-se. Ali se sentou. com o conde sobre os joelhos. gritarei para espantar todos os cavalos. . —Te odeio! —O rosto manchado de lágrimas estava muito vermelho. eu também não te quero muito. até o banco que tinha estado. Depois levantou bruscamente ao menino e o pôs em pé. pequeno bastardo! —lhe espetou Jamie. —Retiro —disse suavemente— Não devia usar essa palavra. O conde dilatou os olhos de ira e se pôs vermelho. com bastante esforço. soltando todas as palavras de seu variado repertório. seguida pelas patadas e os relinchos do resto dos cavalos. e espremeu o menino contra o seu coração. —Willie procurou uma ameaça e encontrou uma muito a mão — Se for —repetiu com mais segurança—. por mais jovem que fosse. milord. merda! —estava gritando o conde— Foda-se! Sem dizer nada. Ardialhe a palma da mão esquerda. —Tens mesmo que te ir. —Acompanha-me a meu quarto. De repente deixou de importar-lhe que fora correto ou não.. seus punhos tremiam de ira. e te darei uma boa. Willie o olhou com os olhos enrrojecidos e melancólicos. milord. relinchando com força. —Jamie se ajoelhou para enxugar a cara com seu lenço. sorvendo ferozmente pelos narizes e limpando-se a cara com a manga. Jamie lhe deu umas palmadinhas nas costas e lhe alisou o cabelo. Depois de respirar fundo. —Solta um só grito. começou a correr por todo o estábulo enquanto gritava e agitava os braços. Jamie o segurou pelo pescoço da camisa e o levou desiquilibrado. Willie. quero dar-te algo. merda. —Bom. que sabia como deve comportar-se um conde. —Olhou os olhos de cor azul escuro. Mac? —perguntou com voz muito débil. pequeno demônio.

eu sou um repugnante católico —disse Jamie com um gesto irônico — Mas esta não é uma imagem pagã. Os olhos. o banquinho e a bacia. —É mesmo? —Willie estava super feliz— Agora sou um repugnante católico. uma maneira de orar. —É mesmo? —Pelo visto.. os laicos podiam administrá-lo em caso de emergência. —Eu te batizo William James —disse suavemente—. no nome do Pai. Jamie riu a seu pesar ao ver que tirava a língua para apresá-la. enquanto arde. agora não. —Bom. tinha uma mesinha com seus poucos livros. Em minha esposa. —Em quem pensas? —Oh. —Mas não tens esposa! —Não. Clarence não lhe agradava. James é teu nome católico especial. Não direi a ninguém. e de recordar. —Não pode! —exclamou Jamie satisfeito e comovido pela idéia— Tua avó e tua tia ficariam furiosas. Em amigos. —Fez uma careta. —Eu também quero ser um repugnante católico —disse com firmeza. Mas sempre a recordo. Eu também me chamo assim. recorda-os por ti. O menino alongou o índicador para tocar a estatueta com cautela. parecidos aos seus. Willie franziu o cenho. como voce? . De repente desejava deixar ao seu filho algo mais do que o cavalo que tinha coberto em madeira como presente de despedida.. em muitas pessoas. piscando ante a gota de água que lhe rodava pelo nariz. —Bom..Parte da cama.. Amém. Jamie dissimulou um sorriso. —Mas eu quero ser! —As feições pequenas e nítidas expressavam decisão — Não direi nada à avó nem a tia Isabel. Acender uma vela e dizer uma oração pensando em teus seres queridos. E a chama. —Por que me chamou William James? —perguntou com curiosidade— Meus outros nomes são Clarence Henry George. uma vela grande e uma menor. Mac. observavam-no grandes e solenes. do Filho e do Espírito Santo. Willie piscou. Afundou três dedos na água da jarra e traçou uma cruz na testa do menino. Tratou de recordar o que o pai McMurtry lhe tinha ensinado na escola sobre o batismo. era uma estátua da Santa Mãe. —Quando te batizam recebes um nome novo. a revelação não fazia senão aumentar a fascinação do menino— E por que os católicos acendem velas ante as estátuas? Jamie passou uma mão pelo cabelo. Por favor. posta ante uma pequena estátua da Virgem. —Para que é a vela pequena? —perguntou Willie— A avó diz que só esses repugnantes católicos acendem velas frente a imagens pagãs. gorda e curta. mas não disse. deixa-me! Quero ser como voce! Jamie vacilou. —As vezes a vela ardia em memória de uma jovem atrevida chamada Geneva. é. a falta de um sacerdote. Em minha família das Terras Altas: minha irmã.

—A ninguém no mundo —prometeu Willie. em comparação com a maioria. Será melhor que voltes a casa. —Roger temia ter que informar às Randall que Jamie Fraser tinha morrido em prisão. Tinha o coração tão oprimido que não acreditou poder falar. não lhe diga a ninguém que és católico. Mas sorria. pálido e fofo. Conserva isto também como recordação minha. Depois da árdua busca nos registos das prisões. —E pendurou suavemente o rosário que tinha no pescoço a Willie — Mas não mostre a ninguém. subitamente preocupado. Sinto-me como um fungo que tivesse estado crescendo durante semanas na escuridão. reunidos num só lugar e. mas se obrigou a fazê-lo: —Não te aflijas —disse—. ao voltar uma página. E por Deus. até que. Mas eu não posso dar nada para que me recorde! Jamie esboçou um sorriso. depois de sua remodelação. .—Sim. tinham tido um golpe de sorte: os registos de Ardsmuir estavam completos. o escocês afundou a mão sob o pescoço da camisa— Toma. —Quase tinha esquecido como era o sol —disse olhando com os olhos entornados o astro em questão. desfrutando a brisa. CAPITULO 17 SURGEM OS MOSNTROS Loch Ness Agosto de 1968 Brianna piscou. —Disse-me que conservasse isto como recordação tua. —Bem. —Jamie lhe bagunçou o cabelo — Já é quase a hora do chá. foi convertida em quartel do exército e quase todos os prisioneiros transportados às Colônias da América. junto com os demais. utilizando o trabalho dos jacobitas presos. —Por falar em ar fresco. que brilhava com desacostumado fulgor nas águas escuras do lago Ness. afastando uma mecha do cabelo bagunçado pelo vento. —Bonitas intelectuais sería as duas! —observou Roger. Sua mãe se espreguiçou com prazer. encontrou o transportado Fraser a um lugar chamado Helwater. Ardsmuir tinha funcionado como cárcere só durante quinze anos. Os três estavam muito animados. —Ainda não explicou por que não enviaram a Fraser a América. eram notavelmente claros. —Obedecendo a outro impulso. Escondeu o rosário sob sua camisa e lhe deu umas palmadinhas para assegurar-se de que estava bem escondido. Willie começou a andar para a porta mas se deteve no meio caminho. em liberdade sob palavra. Não te esquecerei.

¡Estamos muito perto! —Perto? —repetiu Brianna. Mas a distraiu a aparição do ônibus e não fez questão continuar. Depois de descobrir o registo da liberdade vigiada de James Fraser. mas Roger teve a sensação de que sua olhada ia bem mais longe dos alcantilados da costa oposta. era provável que chegasse vinte anos depois de sua partida. O passeio até Drumnadrochit foi um prazer. em 1766.» Assinalava um letreiro que tinha na janela do bar portuário.—Não sei —disse Claire—. se ela estava disposta a tentar o passo uma vez mais. para reaparecer em 1743. Com um dos abundantes cafés da manhã de Fiona. «Aluguel de botes. —Quer sair para navegar? Depois de tudo hoje é festa. sentada na popa. a nome de «James Alexander McKenzie Fraser».. no meio de uma glacial reprovação: tinha visto o Ato do Perdão Real. Roger se sentia disposto a pensar que o mundo era perfeito. Roger se jogou a rir. mas me alegro muito. datada em 1764. era —se corrigiu de imediato — terrivelmente propenso ao mar. Roger tinha surpreendido o olhar de Claire: ela entendia muito bem do que se tratava e estava pensando o mesmo. É. são e salvo. —Deu umas palmadinhas na cintura nua— Isto é de ferro. O lago estava calmo e a pesca era escassa. com a jaqueta de Roger como travesseiro. Em Loch Ness pesquei salmões e enguias —lhe assegurou— Vamos alugar um bote no berço de Drumnadrochit. —Nós estamos aproximando —tinha dito Roger—. Isso podia significar que. Roger olhou a Brianna com interesse. Foi na sacrosanta Sala de Leitura do Museu Britânico onde Brianna soltou um grito de júbilo que os obrigou a retirar-se apressadamente. —Ali! —exclamou Brianna subitamente—. —Voce tem enjôos no mar? Ela sacudiu a cabeça. Claire piscava. o almoço num cesto e Brianna Randall sentada ao seu lado com a cabeleira ao vento. mas era agradável estar no água. Se ele tinha sobrevivido mais dois anos e se Roger conseguiu achá-lo. No entanto.. —É mesmo? Voce pode pescar? —Claro. todos sentiram sono. E acabavam de localizar a Jamie Fraser. Roger estacionou e não pensou em Jamie Fraser. tinha precisado outras duas semanas de investigação e duas breves viagens ao Distrito dos Lagos e a Londres.. Brianna dormia acurrucada na proa. Contemplava as águas escuras do lago. mas se mantinha desperta. Em pouco momento. Atolhados pelo almoço. —Não. com o sol nas costas e o aroma das canas e dos pinheiros quentes que chegavam desde a costa. retornou através das pedras e se encontrou em abril de 1948. Claire tinha desaparecido no círculo de pedras de Craigh na Dun em 1945. Talvez estava alerta para encontrar lontras ou troncos flutuantes.. . em 1764. Depois de viver quase três anos com Jamie Fraser. estampada com o selo de Jorge III.

—Não sabia que a tinha escutado —disse— Não me disseste.. mais ou menos. a idéia de que é doloroso. há certa diferença. —Estremeceu-se involuntariamente ao recordar a noite em que Gillian Edgars tinha cruzado aquelas pedras. tratando de apagá-la—. Por um lado. —E fechou os olhos. «Muito formosa para desperdiçar. Se estremeceu outra vez. —Seria como tratar de explicar a um homem que se sente ao ter um filho. Tinha revivido várias vezes em seus pesadelos. três meses atrás. É como se te rasgassem. rompendo.. não? —comentou— Os homens altos. em tua opinião? —perguntou. Roger grunhiu divertido. Claire tinha palidecido. discutindo calmamente se ela devia ou não aceitar o inconcebível risco de catapultar-se para um passado desconhecido). passar por aquilo. —Voce irá. —Não me pareceu importante. arrastando.—Te agradam os homens. sem olhá-lo. como se visse o círculo de pedras de Craigh na Dun—. Depois disse baixinho —: Bree também ouviu. E esse ruído horrível. É indescritível. apontando com a cabeça as águas negras do lago: —Está aí. sabe? A verdade é que eu ouvi essas condenadas pedras. —Sim? Bom. . então atirou com força aos remos. —Só um —disse com suavidade. —Estudou-a um momento enquanto remava. reencontrar-me com Jamie. sabia? Ele abriu a boca para perguntar ao que se referia. Abriu os olhos para sorrir-lhe com ironia. senão também por dentro. Como tinha passado a maior parte de sua vida próximo do lago Ness. Pelo outro. não? —sugeriu olhando-a com atenção— Há algo que atira de ti. sabe? Horrível. mas de imediato o compreendeu. ele pode captar. como se o crânio fora a voar em pedaços em qualquer momento.... de maneira que não se pode descrever.. conhecia todos os relatos do «temível monstro» que se contavam nas tabernas.. pescando enguias e salmões. tanto por curiosidade como para dar a seus sentimentos o tempo necessário para assentar-se. estremecida. pensou. mas de um modo diferente a outras coisas horríveis. «Muito jovem para ser viúva». Ela sorriu brevemente.. voltar a. De repente ela disse. mas não está preparado para entender qo que se sente na verdade. moldando o busto alto e a cintura estreita.» —Não sei —respondeu Claire um pouco trémula — Só a idéia. se eu consiguir achá-lo? —Deixou os remos em descanso para observá-la. Talvez porque a situação era incrível (estar sentado ali. senão também seguro que as escuras águas do lago ocultassem um mistério de carne e osso? —O que é. Ela respirou fundo antes de responder. e não só por fora.. O vento lhe tinha acendido as bochechas e cingia sua camisa branca. de repente não lhe pareceu só possível.

de pé à luz de uma fogueira antes de desaparecer para sempre na greta das pedras.—O que eu vi parecia um plesiossauro —disse Claire com um olhar perdid para popa— Ainda que naquele momento não me ocorreu tomar nota..? —Como quer que eu saiba? —interrompeu-o Claire— O fato é que poderia ser. . —Tinha um sorriso escondido na comissura de sua boca. Mas são várias centenas —respondeu ele com cautela— Crês que todos. Passar a primeira vez foi o mais horrível que me aconteceu em minha vida. salpicando a Brianna. Ela se sentou bruscamente. E se tivesse outro lugar desses embaixo do lago? —Um passo. Talvez regressam ao outro lado.. intrigado pela idéia—. Talvez nos dias próximos só estará meio abertas. —Gillian também se foi na Festa Maia. de maneira que não estão constantemente no lago. —Isso explicaria muitas coisas.. —Que animal tão estupendo! —exclamou Roger. Foram postos para marcar algo. —Tinha os olhos fincados no castelo — Talvez porque não regressei no dia certo. —Guardou silêncio— O fato é que cada vez se torna mais difícil. —Também se explicaria por que as descrições costumam diferir —disse Roger.. Voce sabe? —Com exatidão. —Isso é o que diziam suas anotações: que a porta estará aberta durante os festivais do Sol e do Fogo. via novamente àquela mulher.. Apesar do calor. Pode tratar-se de diferentes animais que cruzam. pegou um caranguejo. do tempo? —Roger contemplou deixando rastro um redemoinho. em Europa. Afinal de contas. —Sabe uma coisa? —disse ela— Não creio que apareça na lista das teorias populares. Mas voltar foi mil vezes pior. pasmado ante a idéia. Sorriram-se. —Jamie fazia o mesmo —comentou suavemente— Era capaz de encostar e dormir em qualquer parte. Se existe um túnel do tempo sob o lago. quando voltei faltavam duas semanas. Roger. —Do monstro. ofegando. Ou talvez ela estava equivocada por completo. que era a um tempo sua antepassada e sua contemporânea. —E se explicaria por que os animais não foram capturados. acreditava que era necessário um sacrifício humano para que funcionasse. observando a sua filha. Claire assentiu com ar abstraído. rindo. Roger sentiu um pouco de frio. o quanto significa que poderia ter muitos lugares onde sucedeu isso. —Torceu a boca num gesto que não era de todo sorriso — Quantos círculos de pedra há? Em Grã-Bretanha. ficaria claro esse pequeno problema. depois se encostou outra vez e em poucos segundos respirava profundamente. ou túnel.. —Ontem à noite ficou levantada até tarde —a defendeu Roger— Esteve ajudando-me a empacotar os últimos registos para devolvê-los à Universidade de Leeds. não tinha modo de saber se falava a sério ou não — Os melhores candidatos a monstros se extinguiram faz milhares de anos. Fui na Festa Maia. não. E por que não se as vê com freqüência. Te dás conta de que essa seria a explicação? —A explicação de que? —Roger se sentia desorientado pelas rápidas mudanças de conversa.

Depois assentiu sem sorrir: —Eu também. —Sim. Ela o observou um bom momento. O relatório policial só dizia de sua esposa: «Fugiu sem que se conheça seu paradeiro.» —Serias capaz de descer. o esposo de Gillian. —Mas a pergunta não acaba aí —disse sem deixar de contemplar as águas misteriosas— Descerias se Brianna estivesse lá embaixo? E se voltou a olhá-lo. Ele passou a língua pelos lábios. tinham sido recobrados aquele primeiro dia de maio empapados em petróleo. QUINTA PARTE Não pode voltar a casa CAPÍTULO 18 RAÍZES . Roger? —perguntou suavemente— Poderia saltar pela borda. sem saber se ao outro lado te esperam coisas com dentes e corpos enormes? Roger sentiu que lhe arrepiava o pêlo dos braços. descer até que te estourassem os pulmões. Os restos de Greg Edgars. e deu uma olhada à moça.Claire enguliu saliva com dificuldade. creio que sim. Depois se voltou para a mãe. sensíveis pelo vento.

. é? Se o que desejava era me distrair.. E o capitão de um barco pirata tem prioridade para escolher sua parte do botim. mudei de roupa e fui à sala de descanso para médicos. Fechei o livro em meu colo para seguir com um dedo as extravagantes curvas do título. hora de Londres.Setembro de 1968 A mulher sentada ao meu lado devia pesar uns cento e cinquenta quilos. Aquele dia tinha praticado minha primeira apendicíte sem ajuda. Com ar de autoridade. O livro se deslizou ao chão. Um em especial: Joseph Abernathy tinha sido meu amigo mais íntimo desde nossos tempos de estudantes.» Como a Costa Caribenha. queria discutí-la com ele. Movendo-se com infinita lentidão. Eram dez e meia. a coxa e o braço gordos. remexi no bolso do assento. amigos para telefonar. Antes de tomar uma decisão final.. quentes e úmidos. murmurando frases tranqüilizadoras. Eu era a única mulher entre os médicos em amadurecimento. Tinha assuntos para atender no hospital. devia a Joe meu gosto pelas novelas românticas. minhas férias tinham terminado fazia tempo e também as diversas prorrogações. Procurando alguma distração. O livro se abriu automaticamente na página 42. Tinha sido obrigada a voltar. deixou-a sem resistência. parecia absorto numa revista. não acharia nada melhor. Seu alento ardoroso. a vara ereta do pirata tirando a fina membrana de sua inocência. O quadril. Com um suspiro de resignação. senhorita —murmurou junto ao sensível lóbulo de sua orelha—. dei uma olhada a várias publicações médicas atrasadas e a uns folhetos das Testemunhas de Jehová. Levantei um braço para acender a luz de leitura. provavelmente irrevogável. Relaxou-se. contas para pagar. o único negro. que sou botim de guerra. ao que me esperava em Boston. Uma sensual e apaixonante história de amor. A sala não estava deserta. Ambos nos destacávamos entre os outros internos do Boston Geral. ou como para ir para frente. Não tinha capa mas na primeira página se lia: «O pirata impetuoso. Parte do problema era não saber com certeza o que me esperava ali. sentia uma espécie de estranha possessividade com respeito ao paciente e não queria voltar para casa enquanto ele não tivesse acordado. separando as coxas. Ao terminar meu turno. a quem tinha deixado em Edimburgo dedicados à busca. Ainda que tudo tinha saído bem e não tinha motivos para esperar complicações pos-operatórias. mas minha atenção escapava do livro. Não tinha maneira de escapar: ao outro lado me apertava a fuselagem do avião. tanto para voltar a Roger e a Brianna. Por fim escolhi um romance. Conhecia a Joe desde o começo de minha prática profissional. Valdez rodeou com um braço a cintura de Tessa. caindo aos pés do doutor Abernathy. tão abundante como a Costa Caribenha. Joe. Seus lábios lhe roçaram o peito. procurando a novela romântica para ler. —Esqueceu. Entre outras coisas. Joseph Abernathy. Lancei uma exclamação. sentado num cadeirão. a fim de conferir meu relógio. apertavam-se desagradavelmente contra mim. faltavam ao menos mais seis horas para aterrizar em Nova York. a manutenção da casa.

—A da Coréia? —Não. —Walter Cronkite? —Olhei-o com os olhos muito arregalados. verdade. ao incorporar-me com O pirata impetuoso em minhas mãos suadas. vi que ele. —Sim. As aparências enganam. passo trinta e seis horas metido até os cotovelos nas barrigas das pessoas. —Dos melhores? Há mais como este? —Claro. -O que? —Veja com seus próprios olhos. E quer que fique a ler «Avanços na extirpação do peritoneo»? Não. — Olhou-me com interesse— Eu também não a via capaz de ler algo que não fora o Semanário de medicina. —Pôs o livro em minhas mãos. E me inclinei para recuperá-lo com a cara em chamas. diria que acaba de tomar o chá com a rainha. No entanto. Tinha que ser isso ou o da página 73. Voltou a sorrir. longe de conservar seu austero semblante habitual. Por seu modo de falar. apontando uma página. sorria de orelha a orelha. lady Jane? —Parece que sim —repliquei secamente— O que é isso de «lady Jane»? —Uma ocorrência de Hoechstein —respondeu jogando-se para atrás. por favor. serviu-me de muito como tratar pessoas bem mais poderosas do que o pessoal de enfermaria e os internos daquele hospital. onde ele lambe com língua faminta seus seios rosados.—Desculpe —murmurei. Onde aprendeu isso? —Na guerra —eu disse sorrindo ante sua descrição. arrancando os olhos de Tessa e Valdez. entendo. mas não é tão mau. Eu usava o de Walter Cronkite. Mais adiante tinha tido ocasião de praticar. Levantou as sobrancelhas. Tinha um dente de ouro — Duas ou três vezes.As melhores são as que não têm capa. por mais fingido que fora. Ele assentiu. esse ar de au toridade inviolável. estava no princípio. atencioso a minha explicação. com os dedos entrelaçados ao redor de um joelho— Com essa voz e esse acento. —Não me diga que você leu isto! —acusei. Prefiro navegar com Valdez pela Costa Caribenha. —Sem poder evitá-lo. estourei numa risada estúpida— Como sabe? —Bom. Não é das melhores. —Deixe-me adivinhar —pediu— Valdez acaba de tirar uma membrana fina de inocência? —Sim. —E eu achava que você só lia revistas de medicina! —Caramba. mostrando seu dente de ouro. Fui enfermeira de combate na França durante a Segunda Guerra Mundial. . Ali tinha muitas enfermeiras muito capazes de converter em geleia aos médicos com uma só olhada. —Claro que sim —disse mais sorridente que nunca.

em Boston. decidida a não pensar nele até que tivesse tomado a decisão. Naquele momento entrou a enfermeira para anunciar que meu apêndice tinha acordado. Frente. onde tinha vivido com Frank e Brianna quase vinte anos. Mas devia de ser só o ar condicionado. Não me agradavam muito as azaleias. Teria já tirado elas faz tempo. depois soltou um grande suspiro e disse: «Bom. Olhou-me fixamente e por fim me sugeriu que. podia oferecer-me como voluntária para escrever as cartas dos internos do asilo. Joe Abernathy me agradava cada vez mais. Atrás.» Ri com ironia. Eu também preciso de uma taça. na Escócia. podia continuar fazendo. . jovenzinha. ligeiro como os dedos de um amante. Minha mãe queria que eu fosse orador. em vez de estar em sua casa. —Meu esposo se mostrou ainda menos entusiasmado quando lhe disse do que ia estudar medicina. «O Que faz você aqui. —Sim. Roger e Bree seguiam procurando a Jamie. Mas a amizade iniciada na página 42 floresceu a tal ponto que Joe Abernathy acabou sendo um de meus melhores amigos.—Lhe ocorre alguém melhor? Via-o pela televisão todas as noites. —Espero que não a tenha desiludido ao dizer que você ia estudar medicina. enquanto fechava a torneira da mangueira — Espero que esteja contente porque isso será tudo. —Está bem! —disse com incomodo às azaleias. Depois me deu uma palmanha na mão — Não se preocupe. olhou-me durante um minuto. na casa da rua Furey. E era minha imaginação que misturava subitamente. num aroma de lã e urzais. E Jamie? Tratei de afastar a idéia. E um banho —disse ao ver as folhas manchadas de barro. Mias cedo ou mais tarde renunciam. aos cheiros rançosos de perfume e cigarros. a única pessoa próxima a mim que entendia para valer o que eu fazia e por que. se foi para isso que Deus me criou. esperava meu trabalho e Joe. assim é as pessoas. uma grossa capa de folhas secas jazia na terra fendida. Algo me agitou o cabelo e uma mecha me roçou a bochecha. pensando em Brianna. Eu levaria muito tempo para prestar atenção à casa. mas depois da morte de Frank me resisti a mudar algum detalhe da casa. não sei —confessou sem deixar de sorrir— Quando eu disse. ocupando-se de seu marido e de sua filha?» —imitou com um sorriso irônico. Muito já era ingressar na universidade e se lhe tivesse morrido o pai. Para mim já quase ninguém me pergunta na cara por que não estou limpando os banheiros. —Para dizer verdade. se eu estava tediosa. ao menos os remédios para o reumatismo me sairão mais baratos. possivelmente. Fechei os olhos. CAPÍTULO 19 PARA ROGAR A UM FANTASMA Estava por fim em casa. tudo num mesmo ano. As azaleias da porta não estavam totalmente secas mas suas folhas pendiam em maços polvorentos.

O verdadeiro problema estava nas pessoas envolvidas: Brianna. Bozo. mas isso terminou quando entrou na universidade. Eu tinha sobrevivido a duas grandes guerras «modernas» (e na segunda. as onipresentes botões que proviam de luz. agitando as bolhas. O passado era um país perigoso. E dentro de minha própria casa. antes de que Brianna tivesse idade suficiente para colaborar. quando eu tinha cinco anos. arqueólogo no qual acompanhava em suas expedições. pus a camisola e me dediquei a preparar a casa para dormir. o avião a Boston. . Dei silenciosamente boa noite ao fantasma de minha filha ausente e apaguei a luz. A questão era: Me importava com tudo isso? Podia viver sem todas as «comodidades». calor. água e comida cozinhada. as fotografias. o aflorado público. vivi com meu tio Lamb. Portanto. Não sentia necessidade de adquirir nem de decorar. servindo nos campos de batalha) e todas as noites podia ver pela televisão como se ia formando a seguinte. Eu não tinha paixão pelos objetos. as flores secas. onde um certificado do Departamento de Saúde te garantia a possibilidade de livrar-te de um botulismo se comias ali. Ainda assim era estranho que Brianna se parecesse tanto ao seus dois pais. tão diferentes entre si. os lavabos. os diplomas emoldurados e outros obstáculos. De nada servia pensar em coisas tão impessoais como banheiras. com roupão. Durante quinze anos. nunca tinha possuído nada nem se interessava pelas coisas. às que estava habituada? Isso era o que me perguntava com cada toque de botão. os bocados de tela tingida. suspirando. Claro que não só as comodidades estavam em questão. A água corrente era só uma distração sem importância. minha rotina noturna tinha incluído uma paragem no quarto de Brianna. Deixei cair o roupão no chão e me submergi com um agradável estremecimento. Medir os graus do termostato. abri a porta de seu quarto e acendi a luz. A água já estava o suficientemente morna para ser tolerável. Bree a tinha. tinha-me criado em condições que se poderiam chamar de «primitivas». Um pouco mais reconfortada. e estava segura de que a resposta era afirmativa. Desde a morte de meus pais. Movida pelo costume. praticamente não tinha um centímetro de parede visível entre os cartazes.Sentei-me na borda da banheira. Jamie e eu. Há quem têm debilidade pelos objetos e quem não a têm. Os restaurantes. o táxi desde o aeroporto e tantos outros luxos mecânicos: as máquinas modernas. A água estava muito quente. Tinha alguns objetos que levava sempre em sua bolsa no Kilt. Isso era tudo. Sabia perfeitamente bem o que estava fazendoquando subi ao avião em Inverness. nada do que não pudesse prescindir. Mas as comodidades eram só isso: nada essencial. tinha morrido de velhice no ano anterior. como talismãs ou porque lhe eram úteis. Tinha tomado nota de todas as máquinas e artefatos da vida moderna e (isso era o mais importante) de minha reação ante elas. o último de nossos cachorros. Retirei a tampa do desagúe com os dedos. Nunca me tinha importado muito tudo isso. bombas e violadores. verificar as fechaduras das portas e janelas. Estava me testando. cada rugir de motores. Não tinha gato nem cachorro que alimentar. grandes e pequenas. Frank costumava queixar-se de que nosso mobiliário era espartano. O trem a Edimburgo. Mas nem sequer os avanços da suposta civilização bastavam para garantir a segurança. mas. Jamie era igual. comprovar que a cozinha estivesse apagada.

Frank! Quanta ignorância! . Nos acolchegamos juntos. que eu trouxe à mente com súbita nitidez. —E de que te serve pensar? —perguntou— voce já fez o que podia.. Talvez fora a possibilidade da partida iminente o que me fazia pensar agora nele. somando o calor contra o frio. depois passaria seis meses na Inglaterra e voltaria a Boston para dedicar-se a escrever durante os três últimos meses de licença— Me agradaria ir a Inglaterra —disse cauteloso. —Achava que eu não sabia nada? Por Deus. onde eu lhe tinha dito adeus pela última vez. bom. sob cobertores pesados. sorrindo-lhe. essa cama. e envolvi bem as pernas na camisola. —Vou-me agora. afligir-se agora não muda nada. e deixei cair o roupão de lã. —Por que agora. —Mas ela não pode viajar. —a voz de Frank surgiu da escuridão com excessiva indiferença. pela noite o único lugar realmente quente era a cama. serenamente isolado da fria escuridão que enchia o resto da habitação. —Hum? —Eu seguia absorta no repasso da operação mas me esforcei para voltar ao presente — Em que? —Em minha licença sabática. —A permissão da universidade se iniciaria dentro de um mês. Ele tinha planejado fazer uma série de viagens breves pelo nordeste dos Estados Unidos. não? A expressão de alarme que lhe lampejou nos olhos era tão pronunciada que resultou cômica.. A grande cama de duas vagas. eu já sei —afirmou secamente— Me satisfaz olhar-te. —Sim. como não o recordava fazia muitos meses. parecia boiar numa cálida borbulha. Frank se aproximou automaticamente. —Bom.. Já estava encostado e lia com o volume sobre os joelhos. mas se vai passar a maior parte do tempo em bibliotecas. Para sempre.. intacta sob o edredon de cetim azul escuro.. —Não te deixo dormir? Desculpa.. Claire? É mais de meia-noite. —Não —confirmei brevemente. —Quero levar a Brianna. —Não podes vir para cama. —Desculpa —repeti imitando seu tom— Não tenho culpa da cara que eu faço enquanto eu penso.. Os olhos ficam vidrados e ficas boquiabierta. falta-lhe um semestre para a graduação. por que não? O clima será horrível.. No suave toque de luz da vela. Não pode esperar no verão para irmos todos juntos? Solicitei umas longas férias para essas datas e. Corriam os primeiros dias de janeiro e. — Encolheu-se de ombros. —Estava pensando. Incorporei-me e acendi a luz. Sem voce. Reunindo material. tremendo um pouco. tão de repente? A nova está te pressionando. Oh. Fiquei gelada. devido aos grandes esforços da caldeira. Me meti na cama.A imagem de Frank me acompanhou ao dormitório. e fechou o livro — Não é a primeira vez que te digo. Levantei-me da cadeira. Frank me olhava acima de seu livro. Joguei-me a rir com uma perceptível falta de humor. irritado. Esse quarto. Estava revivendo a operação desta manhã.

Se foram dez ou doze. —Falas como se tivesse oito anos.. voce foi realmente um modelo de discrição. —Não creio que lhe interesse —observei— Não vai querer se separar de seus amigos justo agora. claro. E muito menos para ir a um internado inglês! —Um pouco de disciplina não lhe seria mal a ninguém —disse Frank. jovens querem experimentar. —Eu vejo —eu disse entre dentes— Muito de perto. Não podes tê-la entre algodões por toda a vida. —Não sejas idiota! Bree é muito sensata. Além disse. na sala de Urgências. —Minha filha —repetiu calmamente— Podes vir visitá-la quando quiser.. antes da graduação. Como ele tinha um novo posto preparado e uma nova amante que o acompanhasse. —Sou razoável. Claire. —Grande. —Mas claro que sim! As garotas dessa idade não têm cabeça. cretino! —pronunciei. Devia ter planejado tudo.. Era raro que sua cara expressasse muita emoção. Mas Bree não corre perigo de. como bebem. —Achei ter sido muito discreto. Para ela será uma nova experiência. E vai cumprir dezoito. —Moveu uma mão como para descartar o assunto— Deixe assim. claro. —Pode ser —reconheci com ironia— Contei seis dos dez últimos anos. Mas não penso ir sem minha filha. De qualquer modo... por Deus! —Por isso mesmo precisa que a cuidem e a vigiem espetou — Se tivesses visto o que eu vejo na universidade. mas certa palidez me indicou que estava furioso.. maldita seja.. —Esta deve ser um pouco especial —comentei com fingida desenvoltura.Ele se sentou na cama com a mandíbula tensa. enquanto eu poder! Saltei da cama dando uma olhada furiosa. Tremia de ira. Uma vida nova. mas não com Brianna. . Nos pómulos lhe apareceu uma leve mancha vermelha— Mas as coisas não serão assim. —Tua filha ? —Momentaneamente me senti incapaz de falar. —Asqueroso! Tens o tremendo descaro de vir dizer-me que vai viver com a última de toda uma série de amantes! E depois se atreves a insinuar que durmo com Joe Abernathy? É isso o que queres dizer? Teve a decência de abaixar os olhos.. Já é quase uma mulher. Vão com o primeiro tipo que.... apoiando-me na cabeceira da cama com os braços cruzados— Ainda assim. assim é que se aprende. a que tanta pressa para ir a Inglaterra? E por que queres levar a Bree? —Pode cursar o último semestre num internado. Tinha recobrado seu humor habitual mas as linhas de sua cara seguiam tensas— Para voce teria vindo bem. —Melhor entre algodões que relações com um negro —atacou. Voce não vai querer abandonar o hospital.. Se eu vou embora não terá ninguém que cuide de Bree como é devido. —Olhou-me com o nariz levantado — Quase nunca estás em casa. decidi voltar definitivamente a Inglaterra. como se drogam. tive que apertar os punhos para não lhe socar. Ofereceram-me um bom posto em Cambridge e vou aceitá-lo.

Alega as causas que quiser. —Eu disse a todas que renunciaria voce no momento que voce me pedisse —continuei— Realmente estranhava que nunca o tivesses feito. —Não preciso de tua permissão para levar a minha filha a Inglaterra —observou— E Bree ainda é menor de idade. — Por que não ? Quer divorciar de mim? Perfeito. Quer saber quantas de tuas amantes eliminadas vieram pedir-me para eu desistir de voce? A surpresa o deixou boquiabierto. —Tua filha? —repeti... a não ser que ela queira ir —disse com grande segurança. me disse —confirmou secamente— E não vou correr o risco de que minha filha se converta na senhora Shabazz. —Poderia ter-se comportado como se te importasse —sugeriu baixinho. —Suponho que te referes as pessoas negras.—É o que pensa todo mundo —murmurou— Estás sempre com esse homem. irá onde eu disser. Mas imaginei que era por Brianna... Mas se tentar levar a Bree serei eu a que vou dizer uma ou duas coisas sobre o adultério. situações perigosas e. Sacudiu a cabeça sem deixar de olhar-me. cheia de tatuagens tribais e barro no cabelo! E essa repulsiva lagartixa de salão.. que não poderá provar porque não existe. —Também não se vou permitir. exceto a de adultério. Mas vou levá-la a Inglaterra. Frank saiu da cama e procurou às suas pantuflas. de voz tão untuosa! E ao garoto dos Abernathy que ronda com a Bree noite e dia. —Bom —replicou. levando-a a manifestações. e com esse tipo de gente. —Não leva. é o mesmo.. mas estava tão irritada que me sentia acalorada — Bree é minha filha e não vai levar a nenhuma parte! —Não pode impedir —disse com enfurecedora serenidade. numa triste tentativa de recobrar seu aprumo habitual—. mas correta.. recolhendo seu roupão. Mas essa pessoa obesa que me apresentaram em sua casa.. . Impedir? O que pretendias que eu fizesse? Abrir tua correspondência ao vapor e colocar as cartas no nariz? Armar um escândalo na festa de Natal dos professores? Queixar-me ao reitor? Ele apertou os lábios. —Não creio que Bree tenha esse tipo de interesse por Lenny —assegurei lutando por conter minha irritação. nunca fizeste nada para me impedir. não sei por que pensei que te machucaria. Provavelmente porque se sentia em desvantagem. Afinal de contas. Arrastá-la a. não? —Mas claro que sim —replicou olhando-me com uma faísca nos olhos— Bastante ruim é ter que ver os Abernathy nas festas. —Importava-me —minha voz soou afogada.. que Frank fazia dos amigos mais excêntricos de Leonard Abernathy— Sabia que Lenny se fazia chamar por Muhammad Ishmael Shabazz ? —Sim. —comentei reprimindo um indecoroso impulso de rir ante a descrição cruel. a orgias em esconderijos —Não creio que tenha esconderijos miseráveis. Pelo que a Bree diz. pálido. Na nova escola a precisarão. escuros os olhos à luz do lustre. Percebia vagamente o frio do quarto.. Te agradeceria que procurasse sua história clínica.

Não podia renunciá-la. —Ao princípio não podia deixar-te... Bree. —Eu via no seu rosto quando a olhavas. deixando uma nota para Bree. o teria esquecido com o tempo? —Não. às quatro da manhã. fiz-me uns testes. Maldita sejas.. não é? Sem essa lembrança constante. —Voltou a me olhar.. Frank. Por fim me vesti para eu sair também. que não sabe dissimular nada do que pensas ou sentes.. —Tentei—repeti com muita suavidade. —Em outros tempos. Frank não voltou.. —Soltou um riso breve— Não podia renunciar a ela mas tu não podias olhá-la sem pensar nele. Francamente.. Deixei escapar o ar que estava segurando sem dar-me conta. O que percebeu em minha voz. não me encontrasse em casa. Tratei de dormir mas estava rígida na cama fria revivendo mentalmente a discussão. Sou estéril. depois o colocou no vidro da mesa — Não podia renunciá-la. —Meu sussurro pareceu percorrê-lo como uma descarga elétrica.. ao seu regresso. — Olhou às cegas o lápis que tinha numa mão. Me dava conta de que estavas pensando nele. girando bruscamente para o roupeiro.—Mas não o suficiente. Um momento depois ouvi que fechava a porta da rua (teve a suficiente presença de ânimo para não a bater) e depois o ruído de um motor frio que arrancava de má vontade. Guardamos silêncio. sozinha. Ainda que o hospital não me tinha chamado. não? Sim. Eu tentei. alerta ao rangido das rodas no caminho. Depois.. não teria me incomodado que Frank. Sabia? Sacudi a cabeça sem atrever-me a falar. . isso era melhor do que dar voltas e voltas toda a noite. chegando lá fora da noite negra.. —Está bem —me disse baixinho a enfermeira— Todos os sinais vitais se mantêm estáveis e não há hemorragia. E depois. o gelo cintilava à luz dos postes. decidi dar uma olhada em meu paciente. As ruas estavam muito escorregadias. Dentro do hospital me envolveu um cheiro cálido e viciado como um certo ar de familiaridade. seus olhos pareciam buracos no rosto ensombrado — Sabia que não posso ter filhos? Faz alguns anos me. Por um momento permaneceu petrificado. As vezes me perguntava se tinha direito a te criticar —disse pensativo— Bree se parece com ele. Tinha que ser muito canalha para fazer isso. começou a pôr a roupa em cima do pijama. deteve-o por um momento. Tenho que te agradecer? —Eu te disse —recordei— Mas como não quiseste me deixar. quase sem fôlego. Claire Beauchamp —murmurou— Maldita seja teu rosto. Soltou o ar com força. grávida. —Bree é minha. O único consolo era estar completamente só na rua. fora o que fosse. —Eu te amava —disse por fim suavemente— Em outros tempos. é minha filha —afirmou— É a única filha que jamais terei.

Claire! Então comecei a tremer.. mas adivinhando à primeira vista que tinha acontecido algo definitivo.. se ainda estás perto e podes ouvir-me. meu querido —sussurrei. Terminadas as lágrimas. que passava do vermelho ao alvo. Aquilo tinha que ser verdade para que ele usasse meu verdadeiro nome. tinha uma gota de sangue no cristal dos óculos e uma mancha no torso. ainda reconhecendo que nos tínhamos separado mais de vinte anos atrás. —Adeus. Vi a minha mão. pela primeira vez. chorei por Frank. Tinham-no numa maca da sala de Urgências: num espaço frio e desconhecido.. fora talvez a mesma que o tinha trazido. Identificação em sua carteira. apoiei uma mão no suave edredon azul.. Fechei os olhos para apagar a pertubadora imagem daquele perfil imóvel. assombrosamente branca no punho escuro de Joe. Já estava morto quando chegou. enquanto eu percorria a grandes passos os corredores iluminados sem olhá-la. ansioso. na cume de uma verde colina escocesa. Com muita calma. Vi uma ambulância. que era sólido como um tronco de árvore. coberto sobre o travesseiro da esquerda: o lado de Frank. Em outros tempos. . A enfermeira continuava falando. As portas duplas do corredor estavam abertas a um amanhecer glacial. —..—Alegro-me —disse— Alegro-me muito. deixei a xícara quase cheia. que não podia confundir os sinais. Apoiei a cabeça em seu ombro e. Disse que você estava aqui. —Frank —eu disse suavemente ao ar inquieto —. que varriam o silencioso cubículo enquanto eu chorava por Frank. em contraste com seu aspecto de vida. do alvo ao vermelho. Voltei a chorar por ele. Soube de imediato. Vinha diretamente da sala de operações.. Não fazia sentido voltar para casa. tinha visto tantas vezes médicos e enfermeiras dar a notícia de uma morte. depois. pela última vez.*balbuceante. Via as caras das enfermeiras que giravam para mim a câmara lenta.. Naqueles dez anos ele sempre me tinha chamado «Jane» ou «Lady». a polícia. na casa da rua Furey. Com os olhos embaçados. como ocorre com os que acabam de morrer. Apoiei o rosto na janela do dormitório. recordava o desconhecida multidão do corredor e os reflexos vermelhos da ambulância. o ambiente do hospital parecia meu único refúgio. De repente. Foi talvez meia hora depois: uma das enfermeiras de Urgências cruzou as portas de vaivém e se deteve em seco ao ver-me. Depois se aproximou muito lentamente. —Claire —disse—. banhando de sangue o corredor.. abrindo passos pelo corredor obstinado. Visitei rapidamente os meus outros pacientes e desci à cafeteria. A luz vermelha da ambulância palpitava como uma artéria.. neve sobre gelo. Amei-te. Por fim girei para ele. é verdade que te amei.. sem saber nada. vermelha à luz palpitante. um patinamento. O toquei.Meu Deus. Sua carne estava inerte ao tato. à luz que entrava pelas portas abertas. tratando de não sentir absolutamente nada. Um momento depois entrou Joe.

me acordou a campanhia da porta em meu improvisado leito do sofá. senhora —disse o mensageiro tratando de não olhar minha camisola. Meu próprio coração se encolheu como um punho. divertido e irritado a mesmo tempo. não. —Lenny? —perguntei rindo— Muhammad Ishmael Shabazz. . Tremeram-me os dedos ao abrí-lo. entre todos esses tipos que se chamam Cadwallader IV e Sewell Lodge Filho. Quer reclamar sua herança africana. Por fim me levantei para vestir-me. —Telegrama. O ENCONTRAMOS. parte do toucinho no café da manhã. ROGER.E fui dormir. da história que lhe falta e tudo isso. —Um cartão de visita. esteve falando de sua tradição perdida. Dobrei cuidadosamente o telegrama e voltei a guardá-lo em seu envelope. —Me entregou.. «De acordo —lhe digo—. depois continuou batendo de um modo pesado e incômodo. STOP. direção e número de telefone. longe dos fantasmas. CAPÍTULO 20 DIAGNÓSTICO Joe Abernathy. contemplando-o. sem saber de onde venho?» —Joe bufou— «Se queres saber de onde vens. de material caro. abaixo. Mas de onde saiu isso de «terceiro»? —Bom. Terceiro? —Desgraça. Aqueles pequenos envelopes amarelos deviam de ter causado mais ataques cardíacos do que qualquer outra coisa. STOP. sentado ante sua escrivaninha. Muhammad Ishmael Shabazz III. O dente de ouro cintilou— Diz que não vai aceitar um nome de escravo. —O que é isso? —perguntei sentando-me sem cerimônias na borda da escrivaninha. «Claro». Passei longo momento sentada. Era uma breve mensagem. olhava com o semblante franzido perante o pequeno retângulo de cartolina que tinha nas mãos. —Certo. pensei absurdamente: «os escoceses são avarentos com as palavras». e depois do que? Pensa andar por aí com um osso atravessado no nariz?» Não lhe basta em ter o cabelo até aqui.. Era cinza. Pela manhã. impressa com carateres elegantes. «Como vou manter a cabeça tranquila em Yale? —diz-me—. dizia a linha central. —A diversão parecia estar impondo-se. Mas com um garoto dessa idade não se pode falar. VOLTA QUANDO PODERES. sem conhecer sequer o nome de meu avô.

uma mostra. que bonito —eu disse super feliz. aqui presente. Em realidade. Bree não atormenta a tua a vida perguntando quem foi seu avô. Procurando sua própria história. Joguei-me a rir com ironia.. —Sim. Trouxe as pernas? —perguntou. —Me deu uma olhada com um reflexo travesso nos olhos— Só quero ver se pode fazê-lo com uma pessoa morta. lady Jane —interrompeu levantando-se. será ele quem dê um sobrenome a seu avô. alisando a saia—. Fez-se cargo da caixa que trazia o jovem e lhe estreitou formalmente a mão — Você deve de ser o senhor Thompson.moço —lhe digo—. Do Mayflower não foi. para que Lenny possa estar orgulhoso de sua descendencia afroamericana... Olhou-me com uma sobrancelha levantada e disse: —O problema é que isso me deixa em dúvida. está bem.. madura. —Joe me pôs o crânio nas mãos— Me diz se esta dama gozava de boa saúde enquanto eu reviso as pernas. temos todo o esqueleto. Será um prazer dar uma olhada mas creio que a doutora Randall. Ao menos. o doutor é ele. —Ishmael. a doutora Abernathy? —Não —repliquei—. olha-te no espelho. —Fazer o que com um morto? —inquiri. —Sim. —Oh. lady Jane. —Eu? Não sou especialista. doutora Randall. Encantado de conhecê-lo. Joe. verdade?» Assim que decidiu recuperar sua herança até o fim. Se seu avô não lhe deu um sobrenome. sim —confirmou o jovem piscando — Trouxe-lhe um. —Levantei-me da escrivaninha. mas se tens tempo mais tarde. —Bom. Depois me olhou com desconcerto e um pouco de esperança— Você é o doutor.. aqui estão. lady Jane. Tinha entre cinquenta e cinquenta e cinco anos. —Provavelmente trabalhava para o médico forense. fazendo-o girar de um lado a outro — Uma bonita senhora —disse dirigindo-se tanto ao cránio como a mim ou a Horace Thompson— Bem desenvolvida. —Fica um minuto. Deixo atender teus compromissos.. eh.. . —Horace Thompson. girando bruscamente para o jovem. e como estava Escócia? —perguntou— A Bree gostou? —Ainda está lá. Agora tenho que ser Muhammad Ishmael Shabazz Filho. —A ver. Ele meteu a mão na caixa e tirou cuidadosamente um crânio. Voce sim que tens sorte. que as vezes pedia assessoramento a Joe. Joe estava abrindo a boca para dizer mas algo o interrompeu com um toque vacilante na porta. quando se propõe. Tua única preocupação é que se interesse à droga ou se deixe engravidar por qualquer irresponsável que depois foge para o Canadá. —O que? —O jovem ficou boquiabierto. —Assinalou vagamente a caixa. também poderia colaborar. —Doutor Abernathy? —Um jovem apareceu com a cabeça acima de uma grande caixa de papelão.. —Isso é o que você pensa. para os amigos —disse Joe.

—Numa gruta do Caribe —disse— Estava rodeada de artefatos. E tirou cuidadosamente uma bolsa de plástico cheia de vértebras. —É mesmo? —Piscou umas vezes— Que estranho. Imaginei que seria algum cadáver não identificado que o legista te enviou. —O faz a cada momento —informou Joe enquanto media o fémur—. doutora Randall? —perguntou. o senhor Thompson. uma escrava sepultada em segredo —explicou o senhor Thompson.. desfrutando da brincadeira. —Joe moveu o dedo pela linha da fratura— Olhe isto.. —Sim. a etiqueta dizia: Cultivo Verde PICT — Vamso ver o que temos aqui. lady Jane. é do Departamento de Antropologia de Harvard —revelou— Seu amigo Wicklow. —Não o sei —disse—. —Bom.. Horace Thompson e eu nos inclinamos. Ao abrir os olhos vi que Horace Thompson me olhava com os olhos muito abertos com a cara pálida. depois se voltou para mim com as sobrancelhas ainda levantadas. pediu-me que desse uma olhada neste esqueleto para dizer o que pudesse sobre ele. senti.Por fim exclamou. surpresa? —Mataram-na —disse— Não queria morrer. Acreditamos que pode ter entre cento cinquenta e duzentos anos. cantarolando. —Não. observando os ossos. mas creio que há mais.. a apófisis posterior se tinha desprendido e a fratura atravessava completamente o centro do osso. fechei os olhos e experimentei uma tristeza fugaz e uma vazia sensação de. —Como soube que a tinham matado. — Se rompeu no pescoço? —perguntou Thompson com interesse. perguntando: —Onde a encontraram? O senhor Thompson trocou uma olhada com Joe. —Como? Joe sorria de orelha a orelha. Como estava numa gruta? —Pensamos que se tratava de. Horace Thompson me olhava com cara estranha. é um gênio. obedientes. Com uma faca —concluiu com deleite. Depois o apoiei no ventre. fiz girar lentamente o crânio nas mãos. não era escrava. não está identificada —disse Joe— E o mais provável é que continue assim. sobre a fileira de vértebras.De qualquer modo. Devolvi-lhe o crânio com muita timidez. —Nosso amigo. Senti que o sangue me subia à cara. O osso não está simplesmente rompido: aqui desapareceu por completo. O largo corpo do axis tinha um profundo canal. Olha isto. . —Que descaro o teu! —indignei-me. Eu. que me conhece. triunfal: —E agora! Escuta a palavra do Senhor! Por Deus.... Alguém degolou esta dama. Tem o melhor diagnóstico que tenho visto em minha vida. mas geralmente com os vivos. —Removeu e dentro da caixa. que começou a alinhar habilmente.

esse estudo de Jensen. Seus olhos. segundo seja essa opinião. Observou-me dos pés a cabeça. alguma feminista saltará da porta. não? —sugeriu— Quando eu responder. dêse o gosto. . de alguém em cuja objetividade possa confiar. com muito cabelo. Me diz. as teorias sobre as diferenças físicas entre raças foram descartadas. isto é. Obrigado por estudá-la. Depois se semicerraram. —Queres apostar que a levaram a Rutgers para pedir outra opinião? —Os acadêmicos não renunciam com facilidade a suas teorias —disse encolhendo-me de ombros— Eu sei porque vivi muito tempo com um deles. —Mas as diferenças existem —corrigiu Joe— Se você quer pensar que brancos e negros são iguais sob a pele. terei que pensar. Os negros têm ossos de proporções completamente diferentes. Deu um golpezinho ao longo fémur— Não era negra.. —Como sabe? Pelos ossos? —A agitação de Horace Thompson era visível— Mas eu achava que. Pode ser. —Ah.. Não. De acordo.. com muito atenção. —Retomou sua inspeção enquanto eu me mantinha bem erguida— Uma branca flacura. é uma resposta machista. justamente. bom... Ele ampliou os lábios num som silencioso. Não tenho dúvida. eram de clara influência africana. sobretudo. — Lady Jane! Então tens um homem à vista! O sangue me subiu às bochechas mas tratei de conservar a dignidade. tornaram-se completamente redondos. Joe deixou escapar o riso quanto a porta se fechou depois dele. mas Joe demorou em contestar. Pode ser. um favor.. —Abandonei a rigidez de minha postura— Era isso. Era isso o que queria saber? Sim.Horace piscou. —Preciso uma opinião sincera. —É uma pergunta capciosa. exatamente. —Sou sexualmente atraente? —inquiri. mas cientificamente não é assim.. o que posso fazer por ti. agora que terminamos com o senhor Thompson e com seu defunto dama branca. Essa dama era branca. —Bom. lady Jane? Respirei fundo. —Não sei. —Oh —murmurou Thompson— Bom. gritando: «Porco machista!» —Não —lhe assegurei— O que preciso.. é minha especialidade. mas com um traseiro estupendo —disse por fim— E boas tetas. Joe voltou com um grunhido. Não há problema —me assegurou Joe— Opinar. —Tem que o ter sido —assegurou— Os objetos que encontramos com ela. Ficou como um tomate. talvez... retiro isso —corrigi— Preciso uma opinião e depois. Caucásica. Não é algo que eu possa perguntar a qualquer um. —Não —repetiu Joe. que pareciam caramelos de café.

e todos os documentos necessários para a administração de meus bens até que Brianna fosse maior de idade. —É por Bree que devo pedir-te esse favor. mas nunca encontrei nada de Frank. Não tinha falado de Jamie com ninguém durante vinte anos. Depois perguntou suavemente: —É o pai de Bree? Levantei bruscamente a cabeça. —De minha idade? Maltrata! —olhou-me astutamente— Ele é mais jovem do que voce. lady Jane. Acha que mudei muito desde que nos conhecemos? Olhava-o de frente. O prazer de poder mencioná-lo livremente era embriagante— Sim. lady Jane. já era hora! —Deixa de tagarelar —disse—. com alguns cabelos brancos e algumas rugas.—Pode ser. —E Bree está agora na Escócia? Assenti. Ao sair do estacionamento experimentava uma mistura de pânico. Ele tirou os óculos para me observar. Não é o que convém a um homem de tua idade e de tua profissão. É isso que te preocupa? —Não muito. —Como diabo se deu conta? Ele sorriu. passada a impressão. Escocês. —Não —disse— Mas ninguém muda. sentindo entusiasmo ante aquela simples admissão. uma ova! Por Cristo. depois de deixar uma carta de renúncia dirigida à direção. Estava à caminho. Depois voltou a pô-los. como mudado está!» Mas nos dois minutos. —Quanto tempo faz que conheço a Bree? Dez anos pelo menos. é grande e ruivo. exigindo franqueza. —Mexeu a cabeça— Parece muito com voce. pena e regozijo. —Como que não? —Nunca foste às reuniões de antigos alunos? Quando vê alguém depois de vinte anos. Joe voltou a dilatar os olhos. Seu pai é ruivo. em uma fração de segundo pensas: «Por Deus. —Sim —confirmei. No último documento. —O rubor começava a ceder— Mas faz vinte anos que não o vejo. . Voce é o único que me conhece a mais tempo. a não ser que engorde. dás-te conta de que é o de sempre. não? E um bom pedaço de homem. Duas horas depois abandonei o hospital pela última vez. deixava-lhe tudo a ela. que entraria em vigência nessa data. ou tudo o que me ensinaram em genética era mentira.

. . Ela correspondeu com um olhar intimo onde meus alarmes maternais se ligaram em um instante. . E embaixo das . Era possível que estava pensando sobre a nossa separação? Você não vai advinhar o que nós encontramos! .Foi publicado em um periodo chamado Forrester's.Eu inclinei no assento traseiro para poder ouví-lo apesar do ruído do motor. aqui está a versão publicada. Estava com a pele corada pela excitação e pelo frio. Sorriso de orelha a orelha -Já vai ver.me disse Roger. Na estação de Inverness tinha contido com grande dificuldade quando Brianna me abraçava e quando guardamos a bagagem. Na maltratada superfície havia um monte de papéis amarelos com as bordas manchadas e escurecidas -É um texto de um artigo. Engoli a saliva. seu Jamie.Roger apertou o joelho dela corrigindo. . Como já está isso! -Do que se trata?-perguntei. Voce ve a data? 1765.o testamento de Lallybroch? . Roger teve que assinar com sangue para que emprestassem a ele da coleção do SPA. executada com tanto esmero que somente o exagerado vínculo mostrava seu parentesco com seu descuidado manuscrito. mamãe-disse Bree com uma irritante presunção -Vê-disse vinte minutos depois ante o escritório do casarão.você encontrou . Eu sorri com uma mistura de afeição e de pânico a isso. -Aqui está. É a escritura da propriedade-eu disse.-Brianna fuçou apressadamente a primeira gaveta para tirar um papel muito enrugado e protegido num fundo plástico. Jamie o menor.Sim. impresso em 1765 por um tal Alexander Malcolm en Edimburgo. Roger falou excitado.nós não ousamos trazê-la. havia umas gotas da chuva em seu cabelo avermelhado. dizia a escritura.Brianna examinou .sim. De meu punho e letra. E coincide exatamente com este manuscrito.E.CAPÍTULO 21 Q. James Alexander Malcolm MacKenzie Fraser. folheando um monte de volumes que tinham no sofá. somente não inclui algumas notas. a escrita que Jamie. doa a propriedade a seu sobrinho. -Olha. a primeira vista o vestido me pareceu um pouco apertado:no momento em que eu separara de Jamie até 1765 haviam se passado 20 anos.Está no casarão .Eu encontrei a escritura.D Inverness 5 de outubro de 1968 .

. olhando-me. Logo desviou os olhos para Brianna. -Me parece que sim . quarenta e quatro..E.a liberdade e whisky andam juntos>> Essa frase está em dialeto escocês e entre aspas. seus dedos estavam quentes.É uma prova indescutível. Ele estava vivo. algodão e veludo. Apoiei os dedos trêmulos nas páginas manuscritas. E não preciso levar. Burns já existía naquela época ? —Sim —respondeu Bree muito rápida adiantando-se a Roger— Porém em 1765 Robert Burns tinha seis anos. ansiosa perante as páginas. me corrigí. incrédula de alegria. mas não somos grafólogos. <<Murtagh FitzGibbons Fraser».-Seu dedo se deteve subitamente em uma frase <<pois como se sabe ha muitos séculos.-Sim.se caso precisármos-acrescentou dando uma olhada em Bree. —E se o tempo corre paralelo. —A copiou de mím —expliquei suavemente— Eu lhe disse isso quando se preparava para roubar o vinho do príncipe Carlos. precisamente! Senti um absurdo impulso de arrancar as páginas manuscritas do fundo para apertá-las entre as mãos e tocar a tinta e o papel que eu havia tocado. basta voce me dizer..O desaparecimento de Gillian Duncan através das pedras. mamãe?-Bree se inclinou.. —tive que interromper-me para tragar a saliva.E.. mamãe —disse suavemente— Podes achá-lo. condenando as restrições de exportação de licor das Terras Altas escocesas a Inglaterra. havía estado vivo.. Quando me tocou a mão. Ela sacudiu a cabeça desejando que os cabelos ocultem o rosto. —Porém é uma citação de Burns —sinalizei .linhas onde estavam as assinaturas das testemunhas. Em letra fina e pequena. cinco meses antes. De repente tudo parecía real.O artigo não estava assinado. . -Há mais... era prova suficiente da verdade de meu relato.Eu me sentia sufocada mas também muito segura. mas era um pseudônimo. —Então podes voltar. —E Jamie.Sorriu. —Tens mais vestidos antigos como estes? —Apontei o cabide que tínha diante de mím cheio de saias largas e corpetes de encaixar.O autor assinou com as iniciais «Q. acho que foi Jamie que escreveu. —Posso atendê-la.Quer dizer tinha assinatura. Era a prova segura de que havia sobrevivido. «Claire Beauchamp Fraser».» A letra parece a mesma. Um leve tremor em suas mãos desmentia sua serenidade exterior-Tem tua assinatura.. —Roger também se interrompeu.D. eu recordo —confirmou Roger com los olhos brilhantes de entusiasmo.. —E se.. tratando de dominar minhas emoções. -É isto não é?-indicou Roger em voz baixa.D. -Na voz de Roger transludia o orgulho. -É voce mesmo. —Sim. senhora? A vendedora me olhava como um pequinês desejoso de ajudar. Q. Nenhum deles duvidava. franzindo a testa — O escritor pode tomá-la de. A copiou de outra parte. como cremos. Ela estava muito pálida porém mantinha os lábios e os olhos firmes.Aqui está.Vê isto?É um artigo contra a Lei de Comércio Interior de 1764. embaixo com minha letra grande e redonda.

Pode sujar muito. Escolhi um de veludo de cor creme. —Não sei —disse vacilante— É encantador. Hoje mesmo recebemos vários destes modelos de Jessica Gutenburg. era quase perfeito: largo até o chão. Não são preciosos? Por aquí. porém não estava pensando nisso. senhora. —Obrigada —disse secamente—. me dirigi até o provador—Se eu levar. —Oh.. —Quer prová-lo? Por aquí. —Oh. Na realidade. —Este sím —disse com decisão— É perfeito para você. talvez —corrigiu sen conviccão depois de lançar-me uma olhada. Não é necessaário passar por uma prostituta. não. Porém sem nada lhe daria mais de vinte e cinco anos! Bom. certo? A pequinesa me olhou com sobressalto.. porém não é muito prático. Onde está esse letreiro? O letreiro dizía: CAPTURE O ENCANTO DO SÉCULO XVIII. não se preocupe. . os zíperes serão o menor dos meus problemas. olhe esses vermelhos! —Muito vistosos. não creio.. ou tem? —Sem zíper? Eh. Suponho que não há vestidos como este sem zíper. logo decidiu que era uma piada e a festejou com um risinho. —Pode ser. sim. de uma cor dourado intenso com reflexos pardos e ambarinos.—Oh. —Com o vestido pendurado no braço. com mangas três quartos terminadas em encaixe. —Bom. trinta. não vá pensar que é muito juvenil para você —me assegurou a pequinesa... em grandes letras brancas. muito séria—. —Esse lhe ficaría perfeito —assegurou a pequinesa. porém..

Capítulo 22 Véspera de Todos os Santos -Dois guinés de ouro. .Ah. e . Quando se levantaram para sair apoiou uma mão no braço de Claire.É somente um costume antigo – explicou ele sem retirar os olhos da entrada – Samhain.Esqueço que você conhece tudo isto – disse Roger -: quanto valiam as coisas e como se vendiam. e fechou os olhos. Saímos para comer alguma coisa? Jantaram numa das cantinas da Rua River sem falar muito. Roger? – perguntou levantando as sobrancelhas acobreadas – Patos! . Esperemos que o primeiro não seja um policial. Claire o olhou com estranheza. Ela contraiu a boca. dezoito florins.Só para me satisfazer – disse – quer tentar algo? . nove peniques. a moeda escocesa de menor valor na época. Perguntou-se como ele se comportaria na mesma situação. dez e meio peniques. Depois vem me dizer o que foi que viu primeiro. Respirei fundo... seis soberanos. Quando estiver lá fora os abra.doze cobres... – Retirou uma pequena bolsa de plástico com pequenas moedas de cobre – Doits – explicou -. mas com mais freqüência é a morte que intervém para cortar os laços entre pais e filhos.É curioso – comentei – estas moedas valem agora muito mais do que valiam então. As maiores somente te serviriam para comprar um cavalo ou algo assim. mas ele as via se tocando com freqüência. obediente.Suponho que sim – disse ela sorridente – Do que se trata? . Apenas se olhavam. Brianna a viu desaparecer. Isto equivale a seis meses de rendimentos de um pequeno agricultor. desviando os olhos dos pequenos montes de ouro e prata. . No limite do meu campo de visão vi que Bri se aproximava subitamente de Roger. .Qual é a idéia. mas foi até a porta da cantina.É fácil esquecer – disse contemplando o dinheiro. é uma das festas em que se costumava adivinhar o futuro.Bem. e ele segurou automaticamente sua mão.Bom.. .Passe pela porta com os olhos fechados. ou terá que ir me tirar da prisão por distúrbios na rua. . depois procurou no bolso da camisa.. E uma maneira de adivinhá-lo era caminhar até .Desde que não seja um pato. .vinte e três chilings. mas o que se pode comprar com elas é mais ou menos o mesmo. . Clarie e Brianna dividiram um dos bancos e Roger se sentou à frente... é isto. divertida. . pronto. . o dia de Todos os Santos. A todas as famílias chega o momento da separação. Roger deixou cair a última moeda no monte tilinteante.

Quando se separaram. Mas no momento em que estavam chegando na porta. Não posso expressar o que sinto. com o olhar fixo no mesmo lugar. Um policial.Se colocou na ponta dos pés para dar um beijo no nariz de sua filha e saiu apressadamente. Tudo o que necessito. Roger lançou um olhar para a porta para se assegurar que Claire já estava no andar de cima. sim. Depois de uma pausa. Sentou-se junto a ela e pegou sua mão. quase o empurrei de frente.Depende do que estão fazendo – disse ele com ar distraído -. Mas vou sentir muitas saudades de vocês. . . o vitral escureceu e viram aparecer Claire um pouco agitada. pequena. .Não. apertou impulsivamente as mãos de Bri e de Roger. ao menos. .E a capa – acrescentou Brianna. entre soluços.Vinha em sua direção? – Roger se sentia inexplicavelmente aliviado. Por que está demorando tanto? . Estupendo! Vamos celebrar em casa.Talvez possa regressar – lhe disse suavemente – Não o sabemos. Se têm a cabeça embaixo da asa significa a morte. Brianna voltou a sentar-se. obrigada aos dois – disse com os olhos úmidos e a voz rouca -. Logo seu rosto se iluminou com um sorriso súbito -. . querem? .Não creio – replicou ela – Já te contei como era.Sim. tudo o que posso levar – corrigiu.Não seria um pato com a cabeça embaixo da asa? – perguntou Brianna preocupada. .Já tem o dinheiro – comentou Roger pela décima vez. Roger foi fechar as janelas e colocar ordem no quarto. .Seria melhor se eu subisse – murmurou – Ainda tenho coisas a fazer.Obrigada. Claire apoiou uma mão na bochecha de sua filha. Talvez nem se possa cruzar. O que primeiro via ao abri-los era um presságio para o futuro próximo. sim – confirmou Claire impaciente -.Não imaginam o que vi primeiro! – exclamou rindo. . queridos! Bri e ela se abraçaram. . Virei á direita e me choquei nele. Até amanhã. . . .Os patos são maus presságios? . substituída por uma espécie de entusiasmo.Sim. E ficou contemplando o fogo enquanto girava lentamente um copo de coca-cola entre as mãos.Seria melhor que fossemos ver – sugeriu Brianna nervosa. dando um suspiro profundo.A reserva nervosa que haviam mantido durante todo o jantar parecia ter-se desvanecido subitamente. . . .o fundo da casa e sair com os olhos fechados.Indica boa sorte – assegurou Roger sorrindo – Se no Samhain você vê um homem vindo em sua direção significa que encontrará o que busca. . . Quando se virou para Brianna a viu ainda imóvel.Verdade? – ela o olhou com ar intrigado.

Disse que todos precisamos ter nossa história. . . cartas. deixando rastros brilhantes à luz do fogo. as guardou com se fossem documentos históricos preciosos: em caixas duplas e protegidos contra as traças. Estava de camisola.. Fotos. recostando-se contra ela – Nunca o pensaria.eu também preciso dela! Roger acariciou seu cabelo. Sei que necessita dele. ... . Ela é a única coisa que me resta. mas.Quais? – perguntou ela. Era Claire. roupas de bebê.Percebo. .. Queria abraçá-la..Uma vez o perguntei para que as conserva se eu não queria nada daquilo. Bri – objetou – Já vive sozinha. mas Roger se dirigiu ao estúdio.Oh Roger. livros e coisas velhas.Não importa o que contenham – sussurrou – Só importa que estejam lá. Quando o reverendo me trouxe para viver com ele... Mas ele me disse que era melhor guardá-las porque era a minha história. Aproximou-se para abraçar sua cintura com os braços.Você já é maior. .Alguma vez abriu essas caixas? Roger sacudiu a cabeça..Frank – se corrigiu – eram os que me conheciam desde sempre.Se se vai. existissem tantas coisas que não sei.Não – assegurou Roger em voz baixa. Ela é a única pessoa a quem importa que eu tenha nascido... maravilhado com a suavidade dos fios que deslizavam entre seus dedos... tratando de rir – Existem centenas. levando-a consigo enquanto contemplava o fogo por cima do ombro de Brianna...Você se engana. As lágrimas a interromperam. Mas.Seu lugar é junto dele. .. se ela vai não restará ninguém no mundo que me considere especial só por ser eu mesma. os que se orgulharam quanto me destacava na escola. Lembra-se daquelas caixas na garagem? . O ruído dos passos na escada o arrancou de seu pensamentos. – O lábio inferior lhe tremia um pouco . os que me viram dar os primeiros passos. contemplando as chamas que morriam na lareira. . E se virou para ele com os lábios apertados.. Se moveu lentamente. engolindo a saliva com dificuldade -. Logo retornou para virá-la para ele. mas ela estava rígida e insensível. Roger! – explodiu. . Bri – disse – Não percebe? Quando diz seu nome.. mas não a necessita como quando era pequena. .Sim. Estão cheias de trastes guardados por meus pais. sabe? – disse segurando suas mãos – Sua mãe não é a única que se importa. .O que estou dizendo é bobo e egoísta – murmurou em tom razoável – Não me entendes e acreditas que sou muito má.Pensei que você estaria acordado – disse.. Não te parece que ela tenha o direito de ser feliz? .. Ela e papai. não é? Pode a querer.. Colocou-se de pé. Brianna estava deitada havia pouco tempo. . Logo relaxou os ombros e sua alta silhueta perdeu a tensão...não compreendes.As que dizem ‘ROGER’. com as mãos apertadas na boca contraída pelo esforço de dominar-se.É como se ..

senhora? Ou voltarás mais tarde? Senti uma forte tetação de aceitar..Faz?? Roger pegou o envelope.Obrigada. CAPÍTULO 23 Craigh na Dun O ar do amanhecer era frio e brumoso.não acredito poder fazê-lo. contemplando o fogo. . Medo de ir.. apesar do dinheiro que acabava por em suas mãos .. ..... Depois lhe deu o envelope. Medo de não ir. quente pelo contato com seu corpo. -Sim? . em faíscas de fogo. Claire se sentou junto a ele. -Aqui? . . A luz cintilava nos seus dois anéis de casamento. suas mãos se moviam inquietas entre as pregas da camisola.Sim – disse ela com suavidade. Tenho muito medo. compreende? Não sei se poderei fazê-lo.Você dirá que sou uma covarde miserável.Ainda duvidava. Despedirme de Bri.. a estreitou e soltou.sempre me parecia ouvir os fantasmas a falar em minha janela. . . E se me faltar coragem? . Se inclinou para um beijo ligeiro em seus lábios.Nunca pude dormir no dia de Todos os Santos.Eu também o teria. Depois se foi como um fantasma branco na escuridão do vestíbulo levado pelo vento do Halloween. Depois de um momento. – Coloquei tudo por escrito.Estendeu a mão e com um sorriso a convidou para entrar.disse meio sufocada pelo terror .tudo o que pude. simplesmente.Quer que eu a espere. quero dizer – Fez uma pausa para dominar a voz. já sabes – disse Roger por fim em voz baixa – Ou não sabes? . Medo.. Depois dos contos que meu pai me contava . Claire procurou no bolso de sua bata e tirou um grande envelope branco.Eu cuidarei dela.. me alegrei em levar a capa... .. – Mordeu o lábio.. e olhou suplicante para Roger – Não sei. Roger – disse – Obrigada por tudo. Ele viu tremer as lágrimas em seus cílios.perguntou o taxista dando uma olhada hesitante na paisagem deserta .Está segura? -Sim . Riram juntos. Mas.Cedo – confirmou ela respirando fundo -. logo se fez entre eles um daqueles silêncios incômodos que haviam marcado a noite. ouro e prata. . e está certo.É aqui. Combinei com um carro para que viesse me buscar – retorceu as mãos no colo – Se me.francamente. Antes do amanhecer.Sim – disse com voz rouca – Isso significa que você irá.. Estendeu a mão e Claire a aceitou..

Me tocou as mãos. Não podia mas continuava escalando.Viemos para se despedir . Bree! Ele se entregou a mim . Quando cheguei lá em cima já havia amanhecido.Não. mamãe.eu irei.perguntei . me olhavam inundados pelas lágrimas. Mas se não estás disposta a tetar. Pensei em Bree. Roger também. buscando consolo. eu ouvi.Não. Estavam sentadas em sua grama. . a sensação de desgarramento. mamãe.continuou ela em um tom quase inaudível.observei. Sim não podia faze-lo teria que voltar a Inverness caminhando. -Enguliu saliva dando uma olhada na pedra fendida. frente a pedra fendida.Voce? Você está louca? . As pedras se faziam nítidas e escuras embaixo do céu cristalino. -Em ome de Deus. meus pes se moviam como se já não estivessem mais o controle. o que fez por nós o que desejava. caos.Não sei se poderia encontrar Jamie Fraser. -Não se da conta. .disse Bree com um semisorriso nos lábios. sua altura duplicava a de um homem. logo voltou a fitar os olhos em mim . A pedra se alçava por detrás de Brianna. com as mãos suadas. Ou seria um alívio? Lá estava eu andando.Estou certa de poder cruzar. Alguém tem que achá-lo para dizer.Oh. -Oh. isso me parecia pior. Alaridos. Não podia. Usava um modelo de Jessica Gutenburg muito parecido com o que eu vestia. Deve saber que voce conseguiu. mas de uma cor verde lima. frente a frente. talvez somente tu possas faze-lo. . . Não podia. . Nós o devemos.respondeu com serenidade.Dizer que eu nasci. muda de estupefação. -Essa cor em voce fica horrível .Lhe deu uma olhada. . Entrei em pánico enquanto comecei a perceber a proximidade das pedras.Ah Sim. A neblina ficara pra trás. isso era tudo. não é necessário. Eu a olhei fixamente. quer me dizer o que estás fazendo aqui? . eu farei.-Não .disse ela com firmeza .exclamei com a voz tão sufocada que apenas pude falar . tão parecidos com os de Jamie. Brianna girou até a mim. -Não tinha nenhum com o tamanho trinta e oito . . que se encolheu um pouco nos olbros. aparetemente dormindo em sua cama. Quando Gillian Duncan passou através das pedras. Abri a boca mas não encontrei nada que dizer. mamãe? Ele deve saber.respondi engolindo saliva . Bree . Talvez era esse tom verde lima que dava em seu rosto uma certa palidez. Aqueles olhos. Olhei a Roger.Se voce não for . Talvez Roger e Brianna viriam me buscar. tal como a ví na noite anterior. Ao ouvir meus passos. . Bom.Agora tenho que devolver a ele.

Por ali estava Inverness.Se inclinou para me dar um beijo.. Seu rosto surgiu rápido em minha memória com uma sacudida que me arrancou uma exclamação.. a julgar pelo estado de minha roupa. Me segurei em seu tronco liso para me por em pé.sussurrou . Havia caído debaixo de uma sorveira. Mais uma vez me forcei erguer.disse sem alento . claro. Começava a ter uma pequena noção de quem era e onde estava. roxas e negras entre a erva.Eu te amo. sentia o rosto frio e inchado. Ao menos não era a Escócia que eu havia deixado. . meu único apoio racional. logo ergueu as costas e me fez girar para a pedra .Olha. Estava chovendo. Ouvi um ruido. Oscilando. Desta vez mantive erguida apoiando-me com as mãos. mamãe . Dificilmente poderia estar em outro lugar mas também era na Escocia do passado. Bastante tempo eu imaginava.. Estava na Escócia. logo. estava empapada até a pele. tipógrafo Meu primeiro pensamento coerente foi: <<Está chovendo. buscando a imagem de Jamie. Jamie.. Me levantei e de imediato cai para trás. Sem emoção.<<Muito apropriado>>. pensei vagamente divertida. Sempre apoiada a árvore olhei para o nordeste. como se me tivessem dado um golpe no estômago. Dei o último passo e o mundo desapareceu. era uma linha escura e prateada entre a verde umidade das vegetações. .Se encontrá-lo. Ao menos eu esperava ser. Respirei lenta e profundamente com as mãos cruzadas sobre meu coração palpitante. Em automóvel e por estradas modernas. um vago rugir. evidentemente: era uma suave e incessante barulho de chuva que levantava a tenua bruma de gotas na colina verde.dê isto a ele. Malcolm. Bree.. fazer sessenta e tantos kilômetros a pé se parecia em nada a viajar de carruagem. fechei os olhos para protege-los do aguaceiro. divisa do contorno de uma tosca senda que rodeava a base da montanha. Não tinha idéia alguma de quanto tempo havia passado desde que havia cruzado o círculo de pedras. não demoraria mais de uma hora de viagem. SEXTA PARTE Edimburg CAPÍTULO 24 A. como de um cadáver submerso. Isto deve ser Escócia>> Abri um olho com certa dificuldade. Tinha a pálpebra grudada. Aqui estava: é o ponto fixo que me havia apegado.Quando encontrares meu pai. . Debaixo de mim havia umas baias. a proteção dos escoceses contra a bruxaria e os encantamentos. Dei um passo. O caminho existia. Pelo canto do olho eu vi Roger se aproximando dela. outro.

Ao comprender que provavelmente ficaria aqui para sempre. apesar da estação. De qualquer modo estava preparada. já avançando nos anos. A.disse secamente. Me bastou uma rápida palmada para comprovar que meu estômago vazio havia feito a viagem comigo.que todas elas tinham razão. um jovem advogado rechonchudo. Malcolm. Pensei em uma pequena livraria que eu passava todas as manhãs por lá. o senhor Graham descobriu que seu assento havia sido invadido pelo senhor Wallace. Os detalhes de seu trabalho de letrado não me eram tão fascinantes como são. fazia meu futuro. Mas o meu coração saltitava ao ver aqueles garranchos. entre o estacionamento e o hospital . Atrás um deles mudou. Normalmente. me diz. uma estranha calma se impõs aos meus medos e vacilações. E eu estava aqui.. A expectativa de poder encontrá-lo em Edimburgo acabava que distraída devido as incomodidades da viagem e das complexidades do xadrez. Meu plano consistia em chegar a Inverness e ali pegar um deligência até Edimburgo. o pudor das damas requer que a deligencia se disperse a cada hora para que os passageiros se dispersem pela vegetação. Teria que ser Jamie. Agora sabia. . Ao que parece. O completamos em menos de 2 dias. . . ia em uma carruagem grande com outras duas senhoras. A viagem entre Inverness e Edimburgo foi longa e incomoda. somente alguma chuva ocasional nos perturbava na viagem.um insuportável menino de uma das senhoras e quatro cavaleiros de diversos tamanhos e humores.Me soltei do serbal e comecei a andar a colina abaixo. homem vivaz.De qualquer modo. era um traidor convicto.. O tempo estava bom. através do caminho. em um lugar como Edimburgo. A Malcolm: o nome me rondava a mente como um hino de esperança. com uma bolsa de cânfora pendurado na cintura como solução para dispersar os malignos humores da gripe.Não podia voltar. Exceto talvez: a ideia de andar sessenta kilometros com estômago vazio não tinha nada de atrativo. Talvez haveria por aqui alguma aldeia com uma casa onde pudesse comprar um cavalo. sem dúvida. seria muito razoável que. não seria necessário. observando o manuscrito da sátira contra os impostos .Considerando o modo em que aconceteceu os rebeldes das Terras Altas depois de Culloden.em sua busca. Junto a mim se sentava o senhor Graham.me havia explicado Roger Wakefield— Depois de tudo. mas. com quatro paradas para mudar os cavalos e tomar um ar.me tranquilizou um pouco notar sua obvia atração por mim.Passei várias horas jogando xadrez com ele em um pequeno tabuleiro de bolso. estava viva.Sim assim era Jamie . Com um pouco de sorte. James Alexander Malcolm Mackenzie Fraser. Um de seus cartazes dizia:<<Hoje és o primeiro dia do resto de tuas vida>> E outro:<<Uma viagem de mil kilometros se inicia somente com um passo>> O mais irritante das frases feitas.falou com um ar crítico. nessas circunstãncias .Para aquela época. utilizara um nome suposto . Não havia mais remédio a não ser avançar. Meu Jamie. isso se converteu em um costume para ele . isto se parece muito com a rebelião. Começando a andar fiquei com calor.

Depois de comer o último pedaço. Rua abaixo. Tinha muita fome. senhora. .Busquei freneticamente uma explicação ...disse com uma mescla de medo e entusiasmo. Olhei para vistar ao redor.esposo>> mas se recuperou com gentileza. Eu me levantei. estava bastante maltratado. -Voce está se distraindo. Abrindo a mão.Meu. mas. fazendo uma reverência. ao pé da cidade.O servente de meu esposo virá depois buscá-lo. devido aos curiosos olahres de meus companheiros de viagem. Busco um tipógrafo. senhor Wallace. Eu tinha as pernas entumecidas depois de estar tanto tempo sentada.Não tive sorte: O senhor Wallace me alcançou próximo da rua. rico e doce. Deve haver alguma imprensa aqui em Edimburgo em nome de Alexander Malcolm? -Oh sim. -Senhora Fraser .. . pouco depois da alvorada.. -Eh.Eu disse. transportadores e vendedores de ruas.disse. o senhor Malcolm. Mas estava delicioso.Vosso esposo virá buscá-lo? Me encantaria conhece-lo. ofegando como uma batedora de carteiras fugitiva. respirando profundamente. dpbrei a minha capa.Me concederias o prazer de te acompanhar até ao seu destino? Sem dúvidas necessita´ra de ajuda para transportar sua bagagem. Eu tirei para devolve-lo novamente cuidadosamente. Logo segurei pela manga um entregador da padaria. Ainda que levava um sanduiche em meu bolso mas não havia tido coragem de comelo. não havia comido nada desde o apressado café da manhã de purê e cordeiro fervido. . ainda assim eu tinha pressa. Talvez voltamos a nos encontrar.Foi um prazer encontrá-lo..disse pra mim mesma . Mer perguntei se essa anacrônica presença lhe causaria danos com aquele objeto. mas ninguém me olhava. a sua esquerda. com o qual eu acabei aturdindo-o com tempo suficiente para escapulir dentre a multidãode passageiros. Meu. achatado e com manchas purpuras da geléia no pão molahdo. .Não.Se ergueu para estudar o tumulto que passava junto conosco . Carfax Close..Obrigada. com a esperança de escapar do pátio enquanto meus dignos companheiros estavam ocupados com seus petences. Lhe estendi a mão com entusiasmo. Aqui havia uma fonte pública em cuja beira me sentei para recobrar o folego. de minha vida anterior. Manteiga de cacau e geléia com rabanadas no pão branco.Beauchamp . Permita-me expressar meu profundo agradecimento pelo prazer de ter vossa companhia durante a viagem. A cara redonda se alargou um pouco ao ouvir a palavra <. . eu espero voltar a ve-lo. .Em Edimburgo. a carruagem se deteve detrás de uma taberna de Boyd.É hora de continuar.Desculpa. Me detive no meio da ladeira.. Alexander Malcolm . Edimburgo se alçava atrás de mim.. deixei que um pequena capa plástica cair no chão. realmente.Compreendo. Me encontrarei com ele mais tarde . senhora Fraser. vou deixar minha bagagem a cargo do proprietário. próximo ao Royal Mile.das cintilantes alturas do Castillo até ao Palácio Holyrood. Estava aqui.

panfletos.eu interrompi.Que meninos tão bonitos! Que idade eles tem? Ficou boquiaberta. Me detive ao vê-la. A mulher tem vintenove anos.Desculpe . o coração me palpitava de tal modo que podia ter tido um ataque em um metro de distância.Ao ver uma grande vitrine cilindrado. Acenou com a cabeça a maior.Eu os desejo um bom dia. . cartas . Bem adiante inspirava a escura e baixa entrada de Carfax Close.dizia uma mulher a um menino pequeno . Dentro do local havia uma mulher apoiada no balcão. eu parecia muito mais jovem que ela. Nos lados havia edificios de locações e construções prósperas.. enchi o peito para tras e desmoronei nas sobras de Carfaz Close. cartões de visita. . oito e tira o dedo do nariz asqueroso! .. bom. Nossa! . a umidade do ar me enrolava o cabelo.Oh. . Maisri. A. Eu já tinha dezenove anos quando Maisri nasceu! . Em minha breve temporada anterior em Edimburgo havia comprado algumas ervas ali.Arrancada de suas chamadas maternais. O gesto confirmou a ausencia de vários dentes. Era um beco largo e serpenteante.Logo se voltou para dar uma palmadinha orgulhosa a mais pequena . do outro lado da Royal Mile.Não te disse mil vezes para manter suas mãos em seus bolsos? . avancei às pressas. que amavel é a senhora.Não posso crer que tenhas filhos com essa idade. fingindo-me calma como pude . Mas eu ajeitei na frente. Lhe acompanhvam 3 meninos pequenos que vi de relance.Carfax Close. sujeitando-o como pude na falta de espelho. Busquei em meu bolso para oferecer um pequenique a cada um dos meninos.Joey. Logo exclamou tagarelando. que estava limpando o nariz na manga . a imprensa estava no começo. Deve ter casado muito jovem. .A pequena Polly cumpriu seis em maio. Me afastei com um sorriso. Dei um passo entre a multidão.Assombroso . mas somente no chão prestei atenção ao delicado letreiro branco que pendia junto a porta. higiene e odontologia. que agora tem 10 anos. sem o desgaste das numerosas doenças e das duras tarefas físicas.Sim . com nome de Haugh.Estava admirando o seus filhos . não!Nada disso.Oh..esta. empurrada por uma curiosidade irresistível.a olhei com assombro . MALCOLM IMPRESSOR E LIVREIRO Livros. Respirei fundo..disse a mulher. me provocou um calafrio de reconhecimento. que aceitaram com tímidas reverencias de gratitude . próxima aos edifícios para evitar as ocasionais chuvas que se lançavam pela ventania. pintado sobre a porta. É. tem dez anos. a mulher me olhou inexpressivamente.e minhas felicitações pela tão encantadora família . Não chovia mas faltava muito pouco. Eu sou benzida por ter uma boa alimentação. Dezenove anos ao nascer a maior.disse. O lugar era uma farmacia.eu disse. -Que o diabo te leve pequeno rato! .

Caiu contra a porta. Abriu os olhos. O nariz havia mudado um pouco: a ponta estava mais afiada. Se sentou bruscamente para me olhar fixamente .Levantei o queixo para olhá-lo.. Geordie? .Voce também. sustentando a cabeça em meu colo. Empurrei a porta e entrei. Pensei. Sassenach .Tão grave é? . Seus olhos se puseram em branco. nas mãos tinha uma pequena ferramenta com que estava fazendo algo dentro da imprensa . estava Jamie.. Malcolm. Claire.Aqui não é nenhum Geordie .pensava que estava morto. . Eram as mesmas palavras que eu havia dito no dia de nosso casamento.eu perguntei sorrindo. . Alonguei a mão para tocar na pequena linha da fratura. Me sentei no chão com as pernas cruzadas para apoiar sua cabeça em meu colo e acariciei seu cabelo denso e suave.Sassenach.Sou eu. claro. em um momento seu rosto perdeu todo vestigio de cor. sim! . mas acabou não dizendo nada.Pensava.. Era a mesma cara larga e cheia de bom humor. Um largo balcão cruzava o quarto frente com a porta. os mesmos olhos da cor azul escuro. Vestia camisa e calça de montar.Meu Deus do Céu. Havia deixado crescer os cabelos: um grosso rabo de intenso ruivo dourado. As linhas que rodeavam os olhos e a boca eram mais profundas. James Alexander Malcolm MacKenzie Fraser. . . a boca larga. quase que uma pergunta. Se demorasse um pouco mais perderia a coragem. Estava recobrando sua saudavel cor normal. Apenas nos separavam trinta centímetros. Conseguiu esse..Queria falar com rapidez. quando me rodeei ao seu lado para afrouxar sua camisa.Voce demorou bastante. com uma borda de sorriso. mais de vinte anos atrás..Alonguei a mão para tocar as negras letras do nome. . Cruzei pela porta do balcão sem ver mais que seus olhos.Quando voce fraturou o nariz? A comissura de sua boca larga se elevaram um pouco. Talvez. Alexander Malcolm. . -É voce. Minha voz saiu mais aguda que de costume . fazendo chover papeis e objetos diversos que estava sobre a imprensa.Perguntou sem se virar. que caia com bastante graça para um ser tão corpulento.? . enviesados sobre os altos pómulos de viking. -Tanto e mais. como se para engulir a saliva. Um tremor lhe recorreu em seu pescoço musculoso. com reflexos de cobre. seus olhos já começavam a piscar. distraída. se engrossava mais acima por uma antiga fratura. és real.respondeu desenhando algo parecido com um sorriso. Me olhou sem falar. Era só um desmaio. Se eu havia parecido ver-lo pálido. de costas para mim. mas minha voz me traiu. Pigarrei. com um tampo aberto e uma estante ao lado com várias bandeijas de caracteres. .sussurou. Inclinado sobre ela. Se ergueu com muita lentidão.Uns tres minutos depois de ver-te pela última vez.disse. Havia uma vacilação no nome.És real .. A porta aberta da porta de trás deixava a mostra um bloco de uma imprensa.

Eu tampouco. Eu tinha os dedos afundados em seu braço. Me estreitou levemente a mão..Perdeu algo? -perguntei surpreendida Levantou os olhos com um sorriso um pouco tímido. pelo menos. me segurei bruscamente pelos seus ombros para não perder. Os grampos cairam. De perto eu não pude me conter para não tocá-lo. que levantou os braços no mesmo tempo para me receber. repetindo meu nome muitas vezes. levantando uma mão para seguir a linha de meus ossos.. A sombra e o medo escureceu no azul de seus olhos.Eu nunca tirei ele . . abraçados e chorando a saudade de vinte anos.Posso? -Sim . . Ele deu uma espiada pelo chão. .sussurrei. .balbuciei. avançou para mim. sentados no chão empoeirado. uma e outra vez. me coloquei em pé e o ajudei a fazer o outro tanto.sim.Não sei quanto tempo passamos assim. Por fim pude soltá-lo e me incorporei um pouco. Eu apertei até que rangesse as costas enquanto me acariciava as costas.Agora voce. Com um grito de alarme.Estamos casados. Eu havia sentado em um jarro de cerveja. ressonando no chão como granizo. . ficou ruborizado. mas não. mais uma vez . Alonguei a mão. Me puxou lentamente para sí. tanto para dete-lo como para dar boas vindas. Depois de um vão esforço para avaliar os danos na parte de trás. . Rí como uma menina. desfeita pela emoção. Eu mesma presa desse mesmo tremor. Ele sorriu também sem deixar de me olhar. Me olhou desesperadamente. .Lhe tirei o pano para soar com firmeza .Eu acho. sem soltar o anel. .eu disse. Seus dedos se detiverram em meu anel de prata. como se pudesse desaparecer se ele não me prender fisicamente. Me parecia importante que ele soubesse. entre suas pernas.Já livre das calças manchadas. .Quero. Um aromático charco de liquido pardo estava se estendendo pouco a pouco embaixo dele. .Faz muito tempo que não faço isto . Se deteve ao sentir descer pelas pernas.Tenho muito desejo de beijar-te disse docemente . logo um sorriso se curvou em sua boca larga e suave. -Me dê isso .Mas abaixei os olhos um pouco sufocada. Jamie se encolheu de ombros e optou em desabotoar as calças. sem prestar atenção nas lágrimas que me chorreava o nariz.. com o cenho franzido. Me joguei contra ele. Ele me olhou fixamente. -Não tem problema -eu disse sentindo um intenso rubor cubrindo as bochechas . -Temia ter-me descontrolado a ponto de urinar-me.Estamos casados. . retendo a minha mão contra seu peito.Engoliu saliva e buscou o anel de prata com os dedos. Ele envolveu os dedos em meu cabelo e tirou até soltá-los. Se deteve a um palmo para pegar minha mão.Houve um grasnido de ganso estrangulado.

Depois de colocá-lo na porta.disse . Quando me fazias falta te via sempre.Agora posso tocar-te.As vezes quando sonhava. E nunca me tocavas. Podiamos ter ficado indefinidamente assim.Me segurou o rosto entre as mãos.Ah. tinhamos medo de olhar-nos.Tens outro par de calças? ..logo se deixou cair lentamente ao chão. A porta se fechou estrondosamente atrás dele. Geordie. com o vestido enrugado e meu cabelo solto. Geordie! Por que demorou tanto? . mas isso de trabalhar para um católico imoral é outra bem distinta. com camisa.Sabe Deus como! .Perguntou Jamie.Oh.Não queria causar-te problemas . e apoiou a boca contra a minha.para explicar-lhe disse.Vinhas a mim com tanta frequencia. por Deus! Não pude deixar de rir também. Um homenzinho fibroso.. Seu rosto se enrugou com um cenho de censura. voce chegou. nos tocamos lentamente..acrescentou. de pé e olhando-nos. limpando o rosto com a manga da camisa. nos olhava boquiaberto da estrada com um pequeno pacote nas mãos. rindo tanto que seus olhos se encheram de lágrimas. os olhos.Não tenhas medo .Agora estamos juntos. . . Me olhou como se estivesse começando a compreender .me sussurou ao ouvido . Simplesmente..Acredita que ele voltará? Sorveu pelo nariz.disse suavemente . Me demito! Depositou o pacote no centro do balcão e girando sobre seus calcanhares. se não houvesse sonado a campanhia da porta. Afastou os lábios dos meus. calça e calçado espalhados pelo chão e eu em seus braços. . Soltei a Jamie para girar bruscamente. com rebelde cabelo negro. pedindo e aceitando uma muda permissão com os lábios calados. marchou até a porta. -Eu te ví tantas vezes. Quando tinha febre. Não sabia dizer o que eu esperava. sim. Geordie não disse nada mas seus olhos não perdiam a direção em seu patrão: com as pernas desnudas. Fazia porque gostava de sua alma. Mas nunca dizias nada. .perguntei recolhendo a outra para por a secar em seu balcão. . cruzando-os pelas minhas bochechas. Uma repetição da fúria desatada que havia acompanhado nossa separação final? Mas agora éramos desconhecidos.disse com a rica entonação de um oeste da Escócia . Dentro de pouco tempo irei ve-lo para. mas se tem orgias em seu negócio isto já é demais. .Me demito . . . fechou com trinco e se voltou para mim. Jamie ficou olhando-a por um momento.sorrindo. em Wickham Wynd. Meteu seu largo braço no armário e tirou uma placa letreira que dizia: VOLTO LOGO. Vive cruzando a rua. .embora estivesse preocupada. Espera um pouco. Nós dois mantivemos os olhos fechados.Sim em cima.. Quando me sentia tão assustado e solitário que pedia para morrer.E ainda não são nem meio-dia! . .repetiu secando as lágrimas .. com o cabelo cacheado ao redor do rosto. com muita suavidade.Oh.Meu trabalho de imprensa é uma coisa. -E ainda não é nem meio-dia . homem.

.disse suavemente . Deslizou a primeira foto entre seus dedos: Brianna.Ela é a sua filha . Jamie dormia sozinho.. O quarto de trás estava obviamente dedicado a armazenar aos objetos da imprensa. Meu coração voltou a bater em seu ritmo normal.. uma a cada lado do patamar.Sim. Minha filha.Por acaso não estamos casados? O andar superior se dividia em duas habitações. .ela.. eu coloquei o conteúdo em suas mãos. possivelmente perigosa. . como quem maneja um substancia desconhecida.bom.Vem aqui.sabe? .Estava rouco pela impressionado pela fotografia . Eu vi ajustando os ombros e voltando-se para mim.disse.E a criança? .. -Olha.perguntou com os olhos faiscando. Jamie. com os olhos dilatados e fixos. com os punhos pequenos curvados sobre a manta.. ambos tinhamos um ataque de timidez. jogando o braço como um convite.. Se encolheu levemente os ombros e olhou em meus olhos. . . Banhada de açucar em seu primeiro bolo de aniversário. Apoiou as fotos contra o peito imóvel. Havia pensado muito em o que eu levaria se minha viagem através das pedras tivesse exito. E o outro era sobrio como uma cela monocal.Me alegro muito ver-te. Jamie estava absolutamente pasmado pela fotografia. Alonguei a mão com um sorriso. Mas havia pouca coisa obrigada a levar. medo e o esforço em dominar ambas coisas.Por que não? . quatro dentes em um sorriso de travessura. Olha o resto. Havia uma comoda com uma mão de ceramica..uma pia de lavar as mãos..Tinha a risada a flor da pele . .Minha. Um rápido visto ao redor me confirmou que não havia sinais de presença feminina. Eu sentia uma tensão similar em seu pescoço. uma banqueta e uma cama estreita. Voltei seu rosto atônito em minha direção para beijá-lo suavemente em seus lábios. com os olhos fechados e a boquinha apenas entreaberta com sono.. A cara redonda de Brianna recém nascida estava em seus dedos. As segurou com cuidado. Depois das acusações de bruxaria que haviam recaído sobre mim.Filha. somente agora percebi que ele estava sozinho.. e um pequeno banheiro em frente.Um ave recobrados da impressão do reencontro. Depois de retirar a proteção impermeável.. fossem quais fossem as consequencias se alguém olha-se.Quando sentia visivelmente eu seu rosto: esperança.perguntou. Fiz ele se sentar ao meu lado em sua cama e tirei de meu bolso um pequeno pacote retangular que tinha preparado em Boston com todo cuidado. Ela. Ao ve-lo deixei escapar um sopro. Claire . .Se não te parecer imoral. estava abotoando as calças limpas mas notei um certo pudor tenso em seus ombros. devia ter muito cuidado. Jamie emitiu um som inarticulado e afroxou os dedos.. Com um pestanejo voltou a vida. de costas pra mim.Temia que jamais. Suas mãos seguraram por um momento as fotografias.Quer subir comigo? . .

abraçada ao Smoky. já dominados pelos sentimentos. acrescentei-: Me disse que daria ao bebê o nome de seu pai.com o tornozelo cruzado sobre o joelho oposto. movia a boca sem dizer nada. O olhei por um momento. não é? . Eu o puxei contra meu peito. Ele me deteve segurando pelos braços. . sentada no chão da cozinha. com o cabelo brilhando. Lhe tremiam tanto as mãos que já não podia segurar as fotos. Aos cinco. de pé ante uma janela. seus cabelos brilhavam com força contra a negra pelagem do cachorro. Se chamava Brian.exclamou ao ver a foto de Bree com dez anos.Como se chama? . com seu traje de frio. E tu também. imaginei que seria um menino. Deus! .Não é horrível! .Sim está certo. voce mesmo me disse que a chamaria assim. Só que.. pousando para o fotógrafo com sua roupa branca. já maior.Mas não vou te negar que isto é um verdadeiro golpe. na última vez que te vi. Está certo. . era uma versão mais delicada de seu pai.parpadeou. Depois de um minuto.bom.Sim tens razão.Suponho que sim. .disse orgulhosa. Não gostou que eu tenha vindo? . -Oh. Como que é horrível? .espetei . . ruborizada e com os cabelos remexidos depois de ter cortado a lenha.Quer que eu vá embora? . pronta para pegar o ônibus que a levaria para o jardim de infãncia. com sua primeira lancheira. ante o golpe. .. nosso grande Terranova..Eu te disse? . . É muito valente.Quer. Minhas próprias lágrimas cairam em seu cabelo. Além do mais.É um nome formoso. Eu sabia que tinha tido meses inteiros para me preparar e ainda sim me tremiam os joelhos. Essas mostravam seu rosto com todas as expressões que eu tinha captado: o nariz largo e a boca larga. Essa era colorida.Não permitiu que a acompanhasse.Brianna . imóvel. queria ir sozinha. rindo ante o que havia pescado.perguntei com uma olhada fulminante.Por fim levantou o rosto. Claro que não! . secando o nariz com o dorso da mão.Brianna com dois anos. . apoiada no cabo do machado. .Apertei os lábios para não chorar. Bree com quatro anos. como se pudessem desintegrar-se. Pegou as fotos com suavidade... Sassenach. os altos pómulos de viking e os olhos rasgados. do homem que sentado em sua cama junto de mim. sentindo com força os ombros trêmulos.Que nome colocas-tes? ...Não.quando. Tive que mostrar as últimas: Bree..Era como se o sorriso lutasse em seu rosto para impor as outras emoções. . redondas e com suas bochechas rosadas.Engoli saliva . não lamento.E lamentas que não foi? .Claro que sim! Quando.Torceu levemente a boca .Brianna? Que nome tão horrível para uma menininha! Dei um respingo. . Não tem medo de nada. deixando correr caladamente as lágrimas. . .

Brianna.perguntei espalhando as migalhas.perguntou Jamie. com o qual me pareceu desnecessário.. .<<Cachorro>> Essa foi a sua primeira palavra..Aqui há outra em que ela está com um cachorro que um amigo meu deu de presente. .. . saiu de meu corpete do meu modelo Jessica Gutenburg. como se fossem cartas. a fim de que eu não visse seu rosto.Fala-me dela. Ele se deitou a rir.Não quero. .Bom sim.Rápido se pos com cara de alarme . Por acaso guardas comida em sua gaveta? Nos primeiros dias de nosso matrimonio.Seguia olhando com suas feições largas a menina coberta em seu traje de neve.A taberna..Quem é o senhor Willoughby? . afroxou os dedos mas sem deixar de me segurar com firmeza. Somente um par de omeletes rançosos. com muita decisão .Brianna . Logo concluiu. .Tens fome. Estava pálido. um feroz grunhido intenrrompeu nosso diálogo. . As apoiou em seu joelho para olhá-las com a cabeça inclinada. Será melhor que te leve a uma taberna e. Tinha se passado muito tempo desde o último lanche.. por Deus! Me esqueci do senhor Willoughby! Antes de que pudesse se decidir. buscando a foto com Smoky .Briina? .Mas voce pronuncia errado..Que cachorro bonito! De que raça é? . acentuando a primeira sílaba e sussurrando apenas a segunda: Briina. É um belo nome.De pronto.murmurou . Ao se dar conta de que estava me machucando.repeti divertida. . Ele assentiu com os olhos cravados nas fotografias. Deslizou uma mão para baixo para tomar a minha enquanto alongava a outra para as fotografias. eu estava em pé. Sassenach. Me atirou uma omelete no colo.Não. essa é a que todas aprendem em seguida.Mas agora não tem grande coisa aqui. .disse com alguma calma .Por todos os diabos . Parece que ela gosta de cachorros? Formou as fotos como leque. Se chama.Repentinamente apertou os dentes.Eu disse que iria buscár-lo ao meio-dia.Me apertou com tanta firmeza que deixei escapar um pequeno chiado.Não . A luz do dia cinzento estava desvanecendo. A segunda foi:<<Não>>! O sorriso se alargou em seu rosto.murmurou ..Por acaso sim.Eu. . mas me esqueci por completo. .. .Me alegra saber que gostas.'Terranova ' . . Ele disse com uma estranha cadencia montanhosa. Sassenach . buscando meias limpas em sua cômoda. Já devem ser quatro horas! .Me inclinei para achá-la. agora que mencionas. eu tinha adquirido o costume de guardar pequenos lanches para calmar a constante apetite de Jamie. .Como ela era pequenininha? Qual foi a primeira palavra que disse quando aprendeu a falar? . -Sim. .

perguntou ansioso Me levantei.Por todos os diabos! . Meteu os pés em um par de sapatos com fivelas de peltre. . chupando os dedos para vestir a minha capa..repitiu.Em efeito. . .Não me poderia impedir nem com cavalos selvagens .Me acompanhas? . CAPÍTULO 25 CASA DO PRAZER . A campanhia foi tocada. pegou o casaco pendurado no cabide e logo se deteve ante a porta.lhe assegurei.

Ah. .um sócio meu . mas a maioria dos clientes eram homens.Não. alguns cumprimentos a gritos e um movimento geral para fazer-nos sentar em uma das mesas largas. . . Em um canto havia uma pequena porta de madeira. Havia muitas mulheres sentadas em seus bancos. senhor. .Com a nossa aparição se levantaram algumas cabeças.Onde vamos? .respondeu ela embolsando alegremente o dinheiro . Os ombros de Jamie encheram por completo o estreito vão da escada. senhora. O rugido da água dificultava a conversa. minha capa apenas molhou quando agachamos a cabeça para passar debaixo do dintel. A garota o olhou com curiosidade mas logo se encolheu de ombros. .. Ao pé da escada ardia uma tocha.E por acaso está acordado? Do bolso de seu casaco tirou uma bolsinha de couro. sim já era hora! Mither levou ele pra baixo. indicando-me que o seguisse para a cozinha. Está chovendo.replicou Jamie me dando uma olhada cautelosa .perguntei quando estavamos embaixo da arcada de Carfax Close para olhar pela rua empedrada.Quem é o senhor Willoughby? . Jamie se dirigiu para a parte do fundo do salão. senhor! Com um gesto de assentimento.um assunto.Sim. Lhe apertei a mão e ele devolveu em gesto. .. dando a Jamie um sorriso cheio de covinhas. eu me atrasei . O salão principal estava abarrotado. O sótão estava com sombras e no seu interior parecia deserto. . de lá extraiu varias moedas e deixou cair nas mãos estendidas da garota.Conhaque. Afortunadamente. era um abrigo de refugio contra uma tempestade lá fora.se desculpou Jamie .. nós não ficaremos . . Nada se cantava certamente. Obrigado.Eu vim somente para buscá-lo.Faz pouco tempo ouvi ele cantando. Correu o trinco e abriu.Ao ‘fim do mundo’. Jamie era bem conhecido em o ‘Fim do Mundo’.ele disse a jovem camareira . deixando em descoberto uma escada escura que descia para o fundo da terra..Tem certeza que está aqui? . Quando saiu ao espaço aberto divisei pesadas vigas de carvalho e uma fileira de enormes barris sobre uma larga tábua posta sobre o cavalete. A garota pôs os olhos em branco. é? . -É .Harry o levou uma jarra de conhaque e desde então ele não tem mais ouvido..Será melhor que voce ponha um capuz. a taberna chamada ‘Fim de Mundo’ estava apenas a dez metros. Agucei o ouvido mas somente percebi o silencio da taberna.Me atrasei por. sorrindo.Acho que sim .disse Jamie em tom de resignação . Obviamente. quente e cheio de fumo.Não é nada. apesar da intensa chuva. obstruindo a visão do que havia abaixo.

Jamie parecia preocupado mais resignado . Disse algo em chinês.Maldito piolho! Jamie se levantou limpando as mãos feridas em seu casaco. Ao ve-lo cair. suponho? . para terminar fazendo graça com um sorriso triunfante.Maldito verme. murmurando bem baixo.Oh.eu disse ao aparecer. Enquanto isso. mas ele se limitou a avançar grandes passos entre as sombras. logo saltou pelo ar dando varias voltas para trás em rápidas sucessões. Com um rápido tapa. segurou o chinês pelo pescoço desequilibrando-o até a direção da escada. .É o senhor Willoughby. De onde diabos o achas-te? Fascinada. Junto a fileira de tonel tinha várias caixotes de madeira empilhadas no centro do salão contra um estranho fragmento de muro que tinha estava suspenso em um metro e meio do solo e continuava ao fundo. frontando a cabeça.Foi no cais Mas antes de seguir. a porta de cima se abriu e nos encontramos de novo na cozinha da taberna. a bola azul se havia convertido em uma silhueta de um chinês muito pequeno. a pequena silhueta vestida de azul se afroxou de imediato. Sabe que não gosto que beba em lugares públicos. que havia sido golpeada contra o chão de pedra. Isso explicava o nome da taberna. segui a Jamie para cima. É pinguço. sozinha em um círculo de luz que arrojava pela tocha.Deve estar detras da parede. suponho. O rabinho do senhor Willoughby se balançava como um metrônomo contra o casaco cinza de Jamie.O pequeno verme tinha o escondido. . . -Estou vendo. Enquanto isso. Levantei um sobrancelha.Jamie surgiu entre as sombras com uma teia de aranha presa no cabelo e uma expressão cenhosa . Devia de ser uns restos de um antigo muro levantado em 1513 pelos fundadores de Edimburgo para definir o limite da civilizada Escocia.Temos que ir. Rápido . .me explicou Jamie. seus olhos se reduziram a uma abertura cintilante. .Quando está sobrio se comporta bem . não se parecia sequer em gaélico. gritou algo em uma giria incompreensível. sua cara redonda e azeitonada brilhava de alegria e conhaque. corri até seu corpo. . . Deve ter reconhecido seu nome. Com as mãos num modo de vaia. No sótão ocupava bastante espaço. até golpear a Jamie entre os omoplatos. Um súbito movimento me fez desviar os olhos a tempo para ver uma bola azul brilhante que voava do antigo fragmento da parede. muito tempo depois o perdendo de vista.. que ria com muito prazer.olhei com interesse ao meu redor. . sim. pois sorrio de orelha a orelha assentindo com a cabeça. pedindo desculpas carregando o chines pelos ombros Mas não deve tomar conhaque. A robusta proprietaria inflamou as bochechas com ar de reprovação. .Jamie! Você está bem? A figura prostada lançou alguns comentários grosseiros em gaélico e se ergueu com lentitude. . eu caminhava arrastando os pés na escuridão.Em resposta ao seu empurrão.

. .É ele . Logo deu um passo atá a mesa e descarregou com força o punho contra a cabeça de outro.Esse diabo asqueroso! Parecia ter dificuldade para centrar a vista. Nosso regresso causou outra comoção. . com o punho livre apertado em sinal de ameaça.os para trás. . que não podia sair de seu assento atrás da mesa. ele que me fez essa porqueira. Não me custou muito adivinhar sua ocupação principal..Nem tente. havia uma opulenta jovem com vestido bastante decotado..Verme! Víbora! Aquele espetáculo aflito estava excitando aos seus companheiros.Ao menos. senhora Patterson.grunhou enquanto mudava de posição o chinês para segurá-lo melhor . Seus companheiros olharam a Jamie com um interesse que se acentuou quando a jovem avançou movendo o dedo ao ar como se dirigisse um coro.gritou a mulher dirigindo seus comentários ao senhor Willoughby.Solta. Mas já te disse que esse homenzinho amarelo não é.Sim.O primeiro dos jovens.É este? Quer que lhe dê uma boa. .Volta para a cozinha. filho .como bem sabes.comentou . o senhor Willoughby não era um fregues muito querido por ali. Correndo viramos numa esquina e nos encontramos em um pequeno patio.disse baixo.Desgraçado! . Pelo visto.disse seu amigo com obvia aprovação. Proximo a porta nós encontramos um problema. eu não sou mulher de andar com esse tipo de homem. . tua outra rameira não é amarela. mas desta vez foi negativa. não? .Ah. Não vai voltar a acontecer.Ele! O anão de que eu falei. um moço alto e corpulento.O rapaz fez uma careta horrível voltando o rosto enrrojecido para mim . um deles.. . senhor Malcolm . filho da puta! Jamie girou . As pessoas caladas murmuravam maldições. sim? E voce é o rufião do pequenino aí.o aconselhou Jamie mudando seu acompanhante de posição para equilibrá-lo melhor .A quem estás insultando.gritou apontando a Jamie com um dedo vacilante . . deixando que se espatifa-se de bruços contra a parede. Ele se esquivou rápido. .Agradeço muito vossa tolerância. Maggie? . se levantou com os punhos apertados e com os olhos cintilantes do alcool. deixando o corpete descoberto e decotado com modelo de Jessica Gutenburg amostra.Vamos . sim ao seu acompanhante.Não é uma atitude conveniente para quem dirige uma taberna.. mas todos compreendemos logo que a mulher não se referia a ele. se jogou por cima e se lançou ao Jamie. lançando fogo pelos olhos.Eu disse.Parece bastante rosada . Já havia me falado . Como o resto da mutidão. Finalmente me pegou pela mão para arrastar-me a rua. chulo barato? .espero . . . Pegou uma moeda do bolso e com uma reverência. entregou a corpulenta tarbeneira. que já vamos embora.Em um segundo deixamo. eu também olhava a Jamie com interesse. Lançou-me um olhar.E puxou a minha capa. .interrompeu Jamie. .

Eu sinto muito. Não conseguia imaginar o que podia ter feito aquele chines pequeno a uma vigorosa moça como a tal Maggie. para estarmos seguros . .Jamie deu uma olhada no barril onde havia escondido o seu colega .Agitado? . onde meteu o corpo do senhor Willoughby em um barril cheio de lixo. . A julgar pela aparencia.Espiou pela arcada tratando de ver nossos perseguidores. .Que coisas tão nojentas se podem fazer com um pé? ..Dos pés? ..perguntei fascinada. . pensei que haviam desistido. .Eu acho que as possibilidades são limitadas.O das mulheres. .perguntei.Mas não é algo que possamos discutir em plena rua.Lhe devolvi com sorriso enquanto me secava uma gota de chuva na ponta do nariz. . . surgiu um vago sonido. tinha o cabelo remexido em distintas direções mas sua respiração era quase normal.explicou Jamie dando ao senhor Willoughby uma olhada de irritada resignação. ..voce fez?. ela podia te-lo esmagado como uma mosca.Involutariamente meus olhos se desviaram para os pés do chines. verme . vendo pequenos calçados de cetim preto com solas de feltro. .diabos.Compreendo .O que? .replicou rápido. Vamos ficar um pouco aqui. A nossas costas. é pagão. Eu ofegava pelo desacostumado esforço..E quando bebe demais começa a falar dos pés das mulheres e das coisas nojentas que ele gostaria de fazer com eles.Ele me disse. afastando o cabelo solto do rosto. Nos chegou um eco de pes que corriam. .Que mulheres? . . .Baixou um caixote para eu me sentar e. . . .disse antes que não era certo . . ele gosta de beber. sabe? .Cala a boca. tirando o barulho da chuva nas calhas.Que. . . Jamie.. Vem por aqui! Nós fomos mais uma vez para um beco.disse Jamie grosseiro. Uma palavra a mais e será eu que te pisarei na cara. com o coração ao galope devido ao medo.Não importa. . Sassenach.Caramba..Bom. sabe. Não imaginei que isto seria tão.até agora se meteu com as rameiras. mas desapareceu e tudo ficou em silencio. do fundo do barril.Se foram. Não o critico.corrigiu .. Jamie me empurrou para um pátio cheio de tonel e caixotes.Não os dele .. ruborizado pelo frio e exercício. depois de achar outro.Não em absoluto .. Me parece que o senhor Willoughby estava fazendo uma pergunta. é por causa dos pés.Bom.Mas não sei o que poderia querer.ofeguei. Disse.Como sabe a respeito dos pés? .Aí estão! Um grito ao extremo do beco interrompeu minha pergunta. se deixou cair com um suspiro.Não muita.Faz este tipo de coisa com muita frequencia? . .

de cabelo escuro. . se levantou.Se encolheu de ombros como pedindo desculpas. Eles devem ter voltado para a taberna.Conhecendo a natureza insular dos escoceses não me surpreendeu que não quiseram aventurar-se em linguisticas estranhas. . em certo modo.De onde vem o nome Willoughby? . interrompendo-se com risinhos. já podemos ir.Não tinhamos que passar pelo ‘Fim do Mundo’ para voltar a imprensa? .Sim voce. . O edificio que Jamie nos levou estava discretamente oculto em um pequeno beco.Bom.nem tão pouco a uma amante. não tem problema. com um pouco de sorte... A mulher que apareceu. . Segundo dizem.. Olhei dubitivamente o senhor Willoughby. . . . tudo bem. .Veremos se voce gosta.perguntei.Sim. não iremos para a imprensa.perguntei .Quer que alguém lhe pise na cara? . . dizendo algo em chines com acento escoces. sim.Compreendo. Desceu com bastante agilidade e não tardou para se reclinar no chão. . com sua facilidade para os idiomas. Eu não podia ver o rosto dele. Me pareceu preferível chamá-lo de Willoughby. siginifica <<o que se apoia no céu>>. O senhor Willoughby respondeu com loquacidade. Mas se pronuncia mal como uma palavra gaélica. mostrando sua pequena silhueta embaixo da luz de uma lampada distante.Ele está pedindo desculpas pela falta de respeito. me apressei a dar uma passo pra trás. ante mim. . . Jamie. Por fim saiu do barril..Era um dos sons mais estranhos que eu tinha ouvido.que tagarelava algo dirigindo-se ao chão. com um vela na mão. era pequena e elegante. mas não sei se entende muito. Teria alguma residência em outro ponto da cidade? Se inclinou para o barril. Estava vermelho. Eu mal falo chines. Dei uma olhada por cim do ombro.Não teve tempo de explica-lhe quem era. .Não. A porta se abriu a sua chamada.Ele fala nosso idioma? .Muito difícil de pronunciar para os escoceses desta zona? . Sassenach . . Minhas entranhas ficaram espremidas como um punho. não.algo como chiado de gaita quando se afinam.Oh. Não era apelativo que pudesse dar a uma esposa. mas notei uma certa reserva em sua atitude. mas me tranquilizei ao ouvir ele chamando-a de <<Madame Jeanne>>.Seu verdadeiro nome era Yi Tien Cho. . vendo meu gesto. nem tanto. Tendo em conta que Jamie me havia dito sobre os pés.Há outro caminho? .Ah.não tinha moradia pela costa.mas estava mais interessada em saber o que fazia um chines com um respeitável impresor de Edimburgo.É. era uma anomalia genética. .perguntei. Jamie.me assegurou Jamie apoiando uma mão tranquilizadora em meu braço. Ao que parece. Por fim saimos da Royal Mile. Ao ver Jamie lançou um exclamação de algria e lhe deu um beijo na bochecha.

Porque estás morando permanente num bordel? Esfregou o queixo um pouco assustado. Madame Fraser. Além disso..Minha esposa necessita de um vestido novo. .Claro. recuperando sua atitude serena e me saudou tentando se mostrar gentil...Eu não tive tempo de decidir se o rosto da mulher predominava com um pasmo ou horror. dando-me uma olhada.Bonsoir.Jamie.Jamie se inclinou do corrimão sorridente..Olhou para a .ordenou.Sim.. .. Madame Jeanne .. e me olhava franzindo o cenho e um ar de desgosto. .disse . Sassenach ... Era francesa obviamente.. seu guarda-roupa sofreu um delicado acidente.. Ele tirou o casaco molhado e. Poderia proporcionar algo adequado pela manhã? Obrigado.É que. . Madame.Vamos passar a noite aqui..sim.exibindo varios molares cariados. Sassenach .Sem dúvida era somente um insulto. talvez não seja bom insultar as nossas jeunes filies. olhando a Madame Jeanne com as sombrancelhas arquiadas. depois de colocá-lo despreocupadamente na cadeira. . Tu trazes ela aqui? Eu diria. . Mas Monsieur Fraser.Monsieur Fraser . algo assim me parecia absolutamente impossivel. Ela observou um momento ao chines. . outra coisa. ..Espero que a cozinheira não tenha se deitado ainda..que havia entrado conosco.Mas antes. .perguntou Jamie.. . Pauline.permitáme apresentar a minha esposa.Vossa. .. o havia chamado o cara da taberna.vai e passa.Averigua se Mademoiselle Josie está livre. Logo se sacudiu bruscamente. <<Rufião>>. .é.tinha que por o senhor Willoughby onde não poderia meter-se em problemas.Madame..esposa? . e lhe acenou com um gesto interrogante. Bom. já que está sendo tão amável. .Traguei a saliva. . por fim deu uma energética palmada para chamar a criada. mas o quarto era bastante normal....Meu Deus. Então de qualquer modo devíamos vir.indicou o cabide ao pé da porta .disse cortesmente alongando uma mão para me conduzir a frente..disse . Se voltou para olhar o senhor Willoughby. Sem aguardar resposta. .Estás empapada....esposa.Eu sinto muito. Bonsoir! O segui em silencio pelos quatro degraus da escada. por favor .. . pequeno e limpo...Igualmente . Me permita umas palavras sozinhos? Jamie entregou seu casaco a criada que vinha buscar e.uma mulher.Tire a capa. estou morto de fome . girou até a escada me levando consigo.disse tocando em Jamie no ombro com uma possessividade que eu não gostei nem um pouco. mesmo falando um bom inglês. avaliou imediatamente a situação.Meu quarto está preparado.Depois leva água quente e toalhas limpas a Monsieur Fraser e sua. algo naquela mulher me inquietava.disse cortés. se sentou na cama para tirar os sapatos molhados.Ainda assim. .Jamie. Não sabia o que esperar.Ah.Não deveria ter te trazido aqui mas não me ocorreu outro lugar onde pudesse arranjar um vestido em pouco tempo e servir-nos de um jantar quente. . Madame? . Madame Jeanne. . Mas uma esposa! Ficou boquiaberta. .disse a última palavra com assombro. .Minha mente estava um turbilhão. .

. . . Um jovem historiador.Como descobriu que eu não havia morrido? E mais.Sussurou lentamente. .Quer que eu vá embora? . ...Então nesse caso. E eu a minha aqui. encontrou os registros e seguiu os seu rastro até Edimburgo. eu pergunto: Que negócio pode ter um impressor com uma dona de bordel? . E então voce veio.. Me reserva um quarto porque meu trabalho me faz ficar na rua até tarde e eu gosto de ter a cama e comida quente a qualquer hora. me pareceu que podia ser voce.. é: Por que voce voltou? . Então quando li «A. .Aqui? Por Deus Sassenach.Levantou os olhos até mim. . Podemos ir se te parece. Sassenach. .disse com suavidade. . Voce viveu tua vida. .. Com um movimento leve.e das boas... onde eu estava? .Bonita pergunta me fazes! . . Malcolm» tive a certeza..me olhou com as sombracelhas arqueadas. Não sabes nada do que eu tenho feito nem do que tem sido.É muito mais comoda que minha cama da imprensa. Só por isso eu te devo minha alma. .Cliente? . Não sou cliente de Jeanne.O que quero saber é por que tens um quarto num bordel? Também és um cliente? . Acho que a pergunta não é essa.Maldito seja se voce for.disse por fim. .. -Isso não me incomoda .Suponho que sim..Não sei. desde que voce e eu éramos uma só pessoa.. Sassenach.Não? . Mas ainda sim. Ele se aproximou da janela para contemplarme. de que minha filha está bem e salva. Por que? Por um momento eu o olhei sem falar. . pela certeza de que não vivi em vão. Voltou por que me desejas. Por isso pergunto. não é? .Me ajudaram. .Nesse caso. .Agora nos conhecemos menos quando nos casamos.Sei que tens tua vida feita.. Este quarto é parte do meu acordo com ela. Pensava que tinhas morrido em Culloden.Me esforcei bastante. chamado Roger Wakefield.conclui.cama.Voltei porque.meu sangue me palpitava os ouvidos.ou porque se sentiu obrigada? Senti um nó em minha garganta mas olhei em seus olhos. desolada.Compreendo . Vai me responder ou não? ..Achava que estava morto.Faz vinte anos que ardo por ti. Mas passou muito tempo. . .Apertei as mãos contra a madeira áspera da porta. .Sorriu sem humor. ..lá.murmurou.Por que diabos achas que voltei? .Me deu as costas com um gesto de frustração. . quem voce acha que eu sou? .Não.Não. mas ela é minha cliente. se levantou da cama para se aproximar de mim tanto que me vi obrigada a levantar a cabeça para olhá-lo. E intimidade. Mas talvez foi uma má ideia.. Bom. Sassenach . .Sua voz escocesa sonava tranquila.Voce não sabe? Por Deus!Mas não sou o mesmo que conheceste há vinte anos.Voce voltou para ser novamente a minha esposa? Ou somente para dar notícias de minha filha? Tu és a mãe de minha filha. . .Sim compreendo.Queres me dizer que não me quer aqui? .outros laços. minha inteção era morrer. Talvez.. . ..interrompi..A pergunta.

. Jamie Fraser. Parecia absurdo sentir-me tímida com ele. Ele tirou com rapidez a calça e as meias.Se interrompeu com um rubor acentuado em suas feições mas tragou a saliva e continuou. por sua vez. . Falamos pouco das coisas pessoais mas enquanto comiamos me senti cada vez mais pendente de seu corpo.necessito saber... Não importa quem és agora.. não? Como sempre. As aventuras da noite.. Sassenach.Tens uma coragem do diabo. em sua mente também predominava a mesma idéia.Me desculpe. sem dizer nada.Não quero que voce vá embora. .? .Voce me ama? . Ele esvaziou a taça de vinho e me olhou diretamente nos olhos. . . .Já é muito tarde para perguntar isso. caído atrás de uma fileira de tonels no cais de Burntisland. A luz da vela cintilava eu seus olhos.Quer vir a cama comigo? Quer dizer. .Boa noite.terminei por ele .a quem havia encontrado bebado perdido e meio morto de fome... . Inclinou a cabeça até mim com uma pergunta estampada em seu rosto. me falou do senhor Willoughby.Me segurou pelos ombros com tanta força que me joguei involutariamente para trás. te quero.E não há nenhuma cadeira. suas palavras. pensei sem poder contetar-me. nos serviu o jantar (carne fria. nós estavamos molhados e. caldo e pão de aveia quante com manteiga) e acendeu o fogo com uma mão prática e veloz. -mas se queres tirar uma mão com a parte de trás. sorrindo ante a ideia.. Não me havia ocorrido ajudar-te em seus laços. tomando cuidado somente em conversar sobre coisas neutras. Me virei até a cama. Sim.repetiu com mais serenidade. Mas.E tu? Sabe acaso como eu sou? Voce tão pouco sabe o que eu estava fazendo nestes vinte anos. .. . . . Uma batida na porta rompeu nossa tensão.eu disse tocando a bochecha onde a barba começava a aparecer. . . . .Porque eu arrisquei tudo que eu tinha. Mas te digo algo. Comiamos lentamente. Depois de uma tímida reverencia dirigida e mim e um sorriso para Jamie. mas assim era.Ele..Não! . A criada trazia o jantar em uma bandeja.Tão pouco a mim. Eu já te disse.murmurei. eu lhe contei como havia viajado desde Craigh na Dun a Inverness. Eu te amo. Ao terminar o jantar. faz frio. sim.Acho que é possivel.Não são laços .Voce vai me aceitar. o futuro desconhecido que se estendia mais a frente. Sassenach: Não creio que me importe. arriscando com o homem que sou ao do homem que voce conheceu? Senti uma grande onda de alívio mesclando com temor.. estava em seu abraço.sussurou .Não . Sassenach.acrescentou de pressa. . sentindo uma estranha mescla de entusiasmo e vacilação. Logo se retirou murmurando. << Assim parece que não está habituado a desvestir mulheres>>.De acordo.Voce quer. Me pegou nas mãos e avancei. tudo estava aberto ao abismo da realidade: os vinte anos não compartidos. Poderia ter me convertido em uma pessoa horrível.

Tirou a camisa e.expliquei.. por favor? .. Quando o olhei nos olhos torci subitamente a boca. comigo em pé entre os joelhos.Exigi com voz tremula.O que é isso? .De qualquer modo. as linhas largas de teu corpo.Céus . Me levou com gentileza até a cama e se sentou.és a mulher mais linda que eu já ví. Então vi que na verdade estava cego: os seus olhos brilhavam com lágrimas. Sassenach ..disse com um sorriso inseguro. sem outra roupa que não os sapatos e as meias de seda rosada seguras com ligas. se apoiou com as palmas das mãos para exibir seu corpo..Se chama zíper .. se afrouxaram as costas do vestido. .com a pele branca como alabrasto. depois de atirá-la ao chão. Senti a urgente necessidade de puxar o vestido para cima outra vez. com as lágrimas escorrendo em meus olhos .murmurou. Ele não disse nada. O comentário fez ele rir. não há muito que ver.. . mas resisti com as costas erguidas e o queixo alto.Queres dizer algo. Senti o movimento de sua garganta ao tragar a saliva.Bom. a mão que descia pouco a pouco pela curva da cintura e do meu traseiro. Não sei o que eu esperava.Quero ver-te . Sua pele havia escurecido um pouco. . minha Sassenach. Mas tocar-te. o que está aqui é teu. Sassenach Me deitei a rir. . . ter tão próxima de mim sem te desejar. mas ao ver o seu corpo desnudo me tirou o folego. devido ao riso. . palidecendo até o branco puro da virilha com as veias azuis se destacando em seu avermelhado pelo púbico. -Tenho os olhos de falcão . . Me tirou os sapatos e lhe busquei pelo pescoço.Deixei no lado a minha capa e me voltei para ele.Vê essa pequena lingueta que tem em cima? Basta escorregar e tirar até abaixo.Estás perdendo a visão . Houve um silencio desconcertado. Logo senti que deslizava lentamente um dedo em minha coluna vertebral. Abriu a boca mas continuou mudo. . .assegurei. levantando o cabelo para deixar a gola do vestido a vista. Vem aqui. movendo lentamente a cabeça de um lado ao outro.. Me deu um beijo suave em cada peito e apoiou a cabeça entre eles.perguntou.Claire. -Por Deus. Havia mudado. Logo me deitou na cama e se inclinou para me beijar.Deve de ser glaucoma porque não tens idade para ter cataratas. se quiseres. Os dentes do ziper se separaram com um rasguido. poderia repousar a cabeça aqui para sempre.sussurou por fim.Não poderia olhá-la e manter as mãos quietas. . Era obvio que não mentia ao dizer que me desejava. -como sempre.Uma vez eu disse que seria sincero contigo. Mer ergui ante ele.Bom Deus . . como se o haviam posto em um forno para dar-lhe um bom acabamento.mas eram sutis mudanças. ..respondeu igualmente convencido.

Sassenach. Estávamos a um segundo da decisão final. e sua involuntaria sacudida em seu quadril. .Por Deus toca-me outra vez assim. por Deus. não? Me envolveu suavemente com os braços.E me soltou a mão para pegar a colcha. Mas nós dois haviamos compartilhado outra linguagem que meu corpo ainda recordava. ou é só o frio? . O quarto era pequeno e a atmosfera estava tão carregada que era visivel. Ele me observou com atenção. . Voce segurava em minhas mãos. ele me segurou. Alonguei a mão. . havia sido impossível não tê-la.E agora. Não deixei de tremer nem quando se deitou ao meu lado. . Tens medo.Sua lingua buscou a minha.Não. que me conteve em imediato. .É verdade .disse voltando para ele. me doiam os peitos e sentia no ventre tenso e entre as perna eu úmida pela excitação sexual. vacilante.quando te vi ali. tão linda com o vestido branco. era muito cedo e muito tarde para trocar essas palavras. Lhe mordi o lábio e ele retrocedeu um pouquinho.Sua cabeça bloqueou a luz da vela. mas eu tão pouco podia dize-lo. ao tocar-lhe o peito senti sua pele eriçada. de que me dominava. .disse sufocado. Logo levantou uma sobrancelha. Estás com a pele arrepiada.Tens tanto medo como eu? . Suponho que o meu é medo. pensei.Me dá a sua boca. Tinha um sabor levemente salgado. Senti sua necessidade e o tremor de suas mãos que me rodeavam as nádegas. Esticou subitamente as mãos para me puxar contra ele. deixando somente um vago resplendor e a escuridão de sua pele. somente pude pensar no momento em que estivessemos sozinhos para tirar os laços e ver-te nua na cama.sussurou. minha Sassenach..ele riu. voce sim é que não tem frio! . e sem nenhuma suavidade!» Não podia dizer-lhe. Nós ficamos imóveis. seus dedos acabaram de encontrar um seio. . Sua pele cheirava ao fumo da lareira. .As duas coisas .Eu também. mesmo ao calor de seu corpo me causou uma forte impressão física.Nossa. Em vez de responder se moveu bruscamente para me fazer sentir sua rígida virilidade em meu ventre.sussurei beijando a pele bronzeada da clavícula. . me quer? . Sassenach . Mas tão forte como a luxuria era o simples desejo de ser sua. Me abri a ele com um leve suspiro.Toca-me e deixa que eu te toque. Cada um tinha uma intensa consciencia do outro. . «Faça». ao meu lado. Foi tanto terror como o desejo me levou a apertar-me contra ele. .Em nossa noite de casamento também tinhamos medo. sobressaltado. Pressionei com violencia o seu quadril contra mim. Disse que se nos tocássemos seria mais fácil.eu disse. sim. de que me possuia com vigor para me fazer esquecer tudo. Eu via a urgencia em seu rosto.«Faça agora mesmo. Eu desejava.perguntei enfim. Emitiu um leve sonido. . rouca.Não acho que seja possível. Quando nos casamos .Cubra-te .pediu suavmente inclinando-se para mim. .

disse.. Indefesa embaixo de seu corpo.exclamei. Arqueou as costas para trás. Ele me penetrou com força. ao ouvir-me. uma risada masculina e a voz aguda de uma mulher.é. . -Oh.Não me ocorreu em contá-los. Depois.sussurou . mas não sabia se era meu coração ou o dele.é o proprietário desta casa.. As bicicletas tem muito pêlo? Me pegou de surpresa e comecei a rir. . . lentamente abriu os olhos para me olhar com infinita ternura. A força de seus embates me chegaram até ao ventre. Jamie? .respondeu sonolento.Eu? Meu Deus. voce sabia? .disse .Não para. Depois me soltou os pulsos e caiu um pouco sobre mim. Sassenach... . E se deixou levar.Antes não tinha tanto pêlo em seu peito.Francamente. mas impulsionei o quadril contra ele.Tinha sido melhor levar-te a uma taberna . Jamie se agitou um pouco incômodo. Jamie abriu um olho para me dar uma olhada reflexiva. desceu para apoiar a cabeça sobre a minha e ficou como morto.eu disse. levantando-se sobre as mãos. havia imaginado deitar contigo em muitos lugares. muito suavemente. suponho . onde o pulso batia lento e forte. Passamos depois bem quietos. Sassenach .comentou . quem voce acha que sou? . . apoiei a mão na base do esterno. Quando me retorci contra o seu corpo ele me mordeu o pescoço. por Deus . por Deus. Eu ficava quieta somente porque não podia me mover. Cada sacudida entre minhas pernas despertava um gemido em mim. respondeu no mesmo idioma.. sem mover-se.Jamie -disse -Jamie! Era tudo o que eu podia pronunciar. Clarei . Seu corpo. Bastou para provocar-me uma convulsão ao modo de resposta. mas nunca pensei em um bordel. Depois ele se moveu dentro de mim. O edifício era sólido e o ruido da tempestade afogava quase todos os ruidos interiores mas de vez em quando se ouviam pisadas.É como andar de bicicleta.Não .Só que. .Pode ser que perdi a prática mas nunca haverei de perder todas minhas faculdades. Por fim saí de meu extase. Suas mãos que me seguravam os pulsos se esticaram.Tinha que ser muito tonto para esquecer. -Não quero parecer intrometida mas tenho curiosidade.Oh Clarei. Senti um palpitar nas costelas.. imobilizando o meu quadril com as mãos.Não . . incentivando a acompanhar-me. Quando tudo havia terminado. Depois cravei os dentes em seu ombro. -quis dizer que recordamos bem como se fazia. muito dentro de mim. motivando a violencia.lhe assegurei .. Por fim deixou cair a cabeça com um soluço e o cabelo lhe ocultou o rosto.Não importa . sentindo a respiração do outro. senti que meus espasmos o acariciavam. .Voce.

anuncia que és uma pessoa horrível. .Caloteiro? .disse.Isso é porque não tenho quem me cozinhe . o primeiro que fazes é desmaiar. por certo.Não . . Pirata?Não. apostaria minhas anáguas que não és um impressor? .só que ultimamente não me têm condenado. O que posso pensar? O riso ganhou o combate.Alguma vez já trabalhei em uma Sassenach? .Me alegro em saber.Passei vários anos encarcerado por traidor.reconheceu . impossivel ao menos que se tenha curado o mareado.. .disse. quase todos os homens começam a ganhar barriga. não sou nenhum santo. Jamie alargou um sorriso. Sassenach .Sequestros por resgate. . Impostor? Difícil. contando as possibilidades nos dedos.Oh. Dilatou os olhos. .É? . ..Bom. .Voce tão pouco estaria gorda se comesse sempre em uma taberna.Por que? Lhe cravei um dedo em suas costelas.Tenta outra vez. . o que sou eu . .Seu estado físico está muito bom.Ladrão? Não. com um passado de depravação. Depois dos quarenta anos.Pela Rebelião.A última vez que te vi eras um traidor mas isso não me parece um bom modo de ganhar a vida.murmurou divertido pela sugestão.Me deu uma palmada familiar em meu traseiro.Sim.Não . sigo sendo um traidor . E terminamos em um bordel.Não.Tens intenção de me dizer o que fazes? Ou devo ir enumerando as vergonhosas possibilidades até acertar por dedução? .Bom. não creio . .cuja Madame parece manter uma relação sumamente familiar contigo.protestei recobrando minha dignidade.Levantou uma sombrancelha depreciativo.Ultimamente? .Quando te encontro. .. O olhei fixamente.Não és um salteador? .Mas tão pouco sou um rufião.Não trate de me distrair . . . . Quando conseguiu se colocar em pé.O que voce supõe? O observei com atenção. Sassenach .Houve uma pausa momentanea. . nos atacam em uma taberna e nos perseguem por todo Edimburgo em companhia de um chines degenerado. . .Bom. .me assegurou . . .disse com certa aspereza. e me levas para cama. . não. deixando cair a mão. . .recordou.reconheci. . Voce não tem uma grama a mais. .disse com melancolia.Mas isso faz tempo.respondeu sorridente . eu sabia.Tão pouco tens os músculos de quem trabalha como um escravo em uma imprensa. Depois te tirar a roupa.

.Falava com indiferença mas eu o ví segurando a colcha. Mais relaxado por um momento e voltamos a questão. ..se me aceitar.E também traidor.Suponho que não.Voce sabia? .. quando me dei conta de que realmente era voce . Mesmo que me digas que tens cometido bigamia e que te arrastaram bêbado.É que.reconheci respirando profundamente.Se te aceito? . E nos últimos anos me prenderam duas vezes por rebelião.disse .Só um pouco de contrabando . prendem. ..E sorri como pude..Oh. . Deixei cair a mão..Isso e algo mais. -O que? Há alguma coisa que não me tenha dito? . Não é provavel que me enforquem. . sabe? .. . . E também um pouco de rum.Me estava acelerando outra vez o coração ante a perspectiva de novas revelações. flagelam.Esse tipo de coisas.O olhei fixamente .o cais de Edimburgo e nosso alojamento atual..eu disse. imprimir panfletos sediciosos não é muito rentável . o armazenamos em um dos sótãos desta casa..respondeu em tom de desculpa . Segui com um dedo a linha nítida do pómulo e da mandíbula.Era isso! .Eu te adverti .De que? .Nunca mais. Jeanne nos compra diretamente uma parte e nos guarda o resto até que podemos despachá-lo. . . Seus olhos azuis estavam sérios e vigilantes. .Quer me deixar? .Se interrompeu..Bom. E tem feito que Madame Jeanne seja cliente sua. .. Te direi depois.concluí.Como atividade secundária.Sou impressor . Vim para ficarmos juntos.e voltar a perder-te.És um contrabandista? .. Como ganhas a vida na atualidade? .deixou escapar um alento e se sentou na cama cruzando as pernas. . .Que outra coisa tem estado fazendo? . .Daí voce vinculou com este lugar.Dá muito resultado: quando o licor chega da França.. bastante vinho francês.assentiu. de whisky. . sobressaltada. . me picotam.Claro . .Não voltei para fazer amor contigo uma só única vez.explicou..Não.Me recorreu com os olhos Encontrar-te outra vez.. Mas não puderam provar nada.disse sorrindo de orelha a orelha.Não me perderá . Já não brincava.. . .Se interrompeu franzindo os lábios .. deportam. Se afastou com brusquidão. .Que alívio.E também traidor? .Não.O que foi? .nem sequer posso dizer o que senti ao tocar-te. .Bem. .As peças do quebra -cabeças se encaixaram: o senhor Willoughby.recordou.Principalmente.E o que vai acontecer se algum dia eles puderem provar? Agitou ao ar a mão livre. .. Sassenach.É verdade .

Essa palavra sussurada era uma evocação da tragédia e morte. Me erguei para olhá-lo.. .. .A resposta ao que estás pensando.. sim . Tinha os olhos fechados.perguntei.e como parte do acerto . . perguntando sem palavras: «Como?» Sua respiração mudou com um suspirto. .disse com firmeza. .Sim . .É mesmo? ... .E se foi. Suave como um vôo de uma mariposa na escuridão. . . Foi uma noite sem sossego.Arqueou as sombrancelhas ruivas e me segurou pelos ombros para me aproximar dele. mas também muito feliz para dormir profundamente. não achava que fosse para sempre. mas voltou. Só que. Em alguma hora profunda e silenciosa da madrugada.murmurei. como se suas mãos tivessem separado de mim não anos atrás mas sim segundos antes.Alongou os braços ao meu redor . Abriu lentamente os olhos azuis para posá-los em mim. com o ruido da chuva nas persianas.murmurei. Pouco depois senti que voltava a mudar de posição.Nunca mais. .Estás se perguntando se as vezes cobro em espécie humana. .Me sentia sumamente pálida.Tive mais medo desta vez do que em nossa noite de núpcias. Me sentia muito exausta para permanecer desperta um momento mais.admiti. Estás aqui.Te assusto. Pouco depois nós dormimos abraçados. Talvez temia que Jamie desapareceria se eu ficasse dormindo. Meu corpo o conhecia e se correspondia de imediato. . Me cubriu a mão com a sua..O que pensou na primeira vez que fizemos amor? .E voce não fez? . minha mão roçou a sua perna e descobriu uma fina cicatriz. É o que importa.disse delicadamente ..disse.Mas isso não é assunto meu.. o que estou pensando? .Jamais te deixarei . Sassenach? .Culloden . A memória do corpo não é como o da mente.. Parecia um pouco sufocado. Vem aqui.disse sensivelmente.e de nossa separação.Hum. Talvez ele pensava o mesmo.Não.Assim que voce lê o meu pensamento? E diga-me.. a primeira vez.. A seguir com os dedos eu me detive no final. .corregi igualmente sufocada. Soltou um leve suspiro.Não? . e fizemos amor com ternura. Me envolveu entre seus braços.Não é assunto seu? . verdade? . sem falar. . . . As vezes queria ir embora. Sassenach .Para mim sempre foi definitivo. Os olhos azuis se entrefecharam. ...Não? .Não.tens.é.Bem. é Não . se voltou para mim sem dizer nada e eu para ele. Sassenach.

Não queria.Me deu uma filha. Não a recordava com nitidez mas pensava nela cada vez que via inesperadamente a minha própria mão. com as mesmas pestanas e as mesmas sombrancelhas. Mas tem o mindinho direito torcido. O queixo é pontiagudo como o meu. .As unhas são quadradas. como eu.Fizes-te bem . Ela está bem. peguei mostrando.como a tua.. .sussurou . A boca é mais parecida com a minha.E tem esta veia azul. É alta.Me colocou ternamente o polegar no espaço da tempora. contornando a curva entre a tempora e a bochecha. .. E na casa reinava o silencio. . unhas cortadas. Um instante depois dormia.Como as minhas.As pernas são tão largas como as tuas. Era uma mão sana: dedos retos.Minha voz sonava rouca por falta de sono. como as tuas.Brianna .sussurou com aquela estranha entonação montanhesa que fazia do nome algo muito seu.O que tem de voce e de mim. quadradas e limpas. . . Tem sido uma mãe maravilhosa. .Suspirou profundamente. . .Estamos juntos para sempre. Eu chorava outra vez . mede quase um e oitenta. quando cumpriu dezesseis anos eu permiti. . .Tem esta linha. Me pareceu ruim proibi-la se eu tinha as minhas furadas e todas as suas amigas também. E lhe palpita o pulso justo aqui. como voce. .disse interrompendo a enxurrada de frases meio histéricas. Minha mãe havia morrido quando eu tinha cinco anos.Os olhos são como os seus. mas ela insistia.Toquei uma veia onde o pulso se une com a mão. Viveremos para sempre. As mãos. diz que sobressaem –eu disse. .. mas são grandes: de dorso largo e com uma profunda curva próximo ao pulso. Coloquei a mão junto com a minha. Ao sentir a sua estupefação lhe toquei o joelho com o meu. fazendo ruidos tremendo contra ele. . Fizes-te bem. eu sei. As lágrimas me escorriam enquanto Brianna vinha receber a vida por nós dois. não é? Disse rápido para segurar as lágrimas. .Me descreve ela . Em seguida eu também dormi. Mo Duinne . . O nariz dos Fraser.Sempre se queixou de suas orelhas. Não se incomoda..Tio Lamb me disse que minha mãe também tinha assim..Tens as mãos largas e finas. igual ao meu.murmurou ele.. Me beijou levemente e apoiou a cabeça na almofada. . com o lábio inferior grosso mas largo como o teu..continuei suavemente. são como as tuas ou como as minhas? Me descreva para que eu a veja. mas muito mais femininas.Me estreitou com suave firmeza. .Frank dizia que era vulgar e que não devia faze-lo. -E as orelhas tem as abas pequenas. Sassenach? . Levantei os dedos uns dois centímetros.Ela as tem furadas. mas muito mais forte. justo aqui? . tu e eu.não queria.

Ao dormir juntos éramos um só corpo... O observei com atenção. —Eu te respondi que não sabia. —Dormis-te bem? —perguntei ao fim. —Sim. com ar de incredulidade—. —Mas ainda existe —completou ele. Um amplo sorriso lhe alargou a cara. comparando minhas recordações com a realidade. —Não—disse— E voce? —Também não.. deitar contigo. Girei a cabeça sobre o travesseiro. —Senti seu calor.. Acha que é só por Brianna? Aumentou a pressão em meus dedos. Só para ver pequenos detalhes. Ele veio sentar-se na cama.. soube que seu lugar estava vazio.. Não. Estava em pé junto à tina de água. —Então eu também não. sereno e um pouco distraído. para ver em que você mudou e em que continua sendo a mesma.CAPÍTULO 26 O café da manhã tardio das prostitutas Depois de vários anos respondendo aos telefonemas da maternidade e da profissão médica. mas a sensação tinha mudado entre os dois. mas seguia ali.. Engoli a saliva. o pequeno oco musculoso que as fazia iguais e sua pálida vulnerabilidade. Ficamos em silêncio. mas marcava claramente na penumbra as linhas de seu corpo. abrindo os olhos. unidos pelo amor da filha gerada pelos dois. —E voce parece um pouco menor. —És mais corpulento do que recordava —aventurei. Sorri em silêncio. como a curva de teu . Sassenach. Ao ver que o estava observando pareceu ligeiramente sobressaltado.. ele devia de estar por perto. Admirei as curvas redondas de suas nádegas. E não porque não te agradeça —disse apressadamente— Mas não é por isso. O sorriso passou de seus lábios para seus olhos – Não? Era verdade. Jamie não estava na cama. sentia a boca seca. sem alongar a mão nem abrir os olhos. —E ainda não sei — prossegui— Mas. Ele torceu a cabeça para olhar-me com ar divertido. —interrompi com um pigarro. —Se te quero por ser a mãe de minha filha? —Ergueu uma sobrancelha avermelhada. —Me lembro —confirmou com suavidade. não me ocorria nada para dizer. Minha mão se perdeu na sua. —Há muito tempo atrás você me perguntou se eu sabia o que existia entre nós dois —disse. pressionando brevemente os dedos sobre meu pulso — Como é. No entanto. —O sorriso quase se tinha esfumado. mas ao acordar éramos duas pessoas. tinha desenvolvido a habilidade de acordar completamente do sonho mais profundo. mas não podíamos deixar de olhar-nos. Sentia-me tão consciente de sua presença como se tivesse tido um cartucho de dinamite aceso. espreitando na comissura da boca. Creio que poderia observar-te durante horas inteiras. te tocar. ligadas por algo diferente. apesar da distância e do frio do quarto — Não tens frio? —Não. Isto é. Ele se voltou. estupidamente. O quarto estava coberto por uma luz cinza que apagava todas as cores.

. Voltei a concentrar-me em sua cicatriz. —Eu sei. —Sua careta irônica me fez rir.Para mim não! – protestei. Sassenach —me interrompeu dando-me uma palmadinha na mão— Te compreendo. —Jogou uma olhada indiferente à cicatriz— Também não foi culpa do Sassenach nem de sua baioneta. te lembras? Sua voz era pouco mais do que um sussurro. e ainda superá-lo.. eu sei. acariciou meus cachos com seus dedos. o que tinha acontecido. —Sim. Acariciei-lhe a coxa. quando somente poderia te ver sofrer com os demais. —Não tem nada de divertido — reconheci engolindo saliva— Riu para não chorar. as vezes desperto no meio da noite sonhando com essa carroça. Se não tivéssemos mais do que a noite passada e este momento. sem a mãe? Teria voltado para mim após Culloden. sem poder cuidar de você. foi Jenny. mas podia medir-se com seu irmão. —Isso te fizeram com uma baioneta? —Bem. .. com frio e febre. analisando — Não posso olhar pra trás e seguir vivendo. Eu também tentara não lembrar. se lembra? Recordava-a.. alisando uma mecha— Com gotas de água caindo das folhas.. que ias morrer. depois sacudiu a cabeça— Não: eu te disse que te fosses e que me esquecesses. ao longo da crosta. sim. —Sim. Ao que parece. —Não se aflija. —E então o quê? Terias deixado a nossa filha lá. Mas não podemos pensar nisso. .. Mas. —Mal pude pronunciar a palavra. É que infeccionou. apesar da emoção— Não foi culpa minha se não tive sucesso. .. Sassenach. Jamie me olhou com um sorriso torto. Não me sentia capaz de averiguar. Quando retiraram-me da carroça...Você é uma pequena ambiciosa. Estreitou-me a mão.. é verdade.queixo ou as orelhas. encontramos o diário de lorde Melton. eu te chamava mo nighean donn.... reconhecendo que parecia uma traição — Não é que tentara. esforcei-me bastante. sim: tão morena como ruivo ele e bem menor.. não quis olhar para trás. Como poderia criticar-te por fazer o que te disse. —E quase acertou. me sentindo culpado por te levar a este destino?— Ergueu uma sobrancelha interrogante. —Sim. —Não. —Deve ter sido horrível —reconheci.. Ofegou.te esquecer —disse procurando torpemente as palavras— Não podia. ainda que a palavra parecesse insuficiente. minha irmã. eu não tinha direito a opinar sobre o assunto. Ele começou a rir. Ele não acreditava que pudesses chegar. —Mas se o tivesse feito —confessei baixando os olhos ao lençol— talvez tivesse te encontrado antes.. sabendo que. com essas pequenas perfurações. —. —Como carvalho sob a chuva —sorriu ele. —Olhou-me com firmeza. —Estavas-me contando como te fizeram isso. Foram dois dias de viagem.Só resisti porque imaginava o que faria com Melton para me vingar por ele não ter me fuzilado. o que te enviou a tua casa do campo de batalha. —Bem. —Sua cara se anuviou pelas recordações— Deus meu. Jamais. Eu respirei fundo. estava quase morto. Tudo isso está igual que antes. Após um momento me soltou. Sassenach? —Mas teríamos tido mais tempo! Poderíamos. em Lallybroch. em matéria de teimosia.. —Quisera eu tivesse estado ali para atender-te —sussurrei— Foi o mais horrível que fiz em minha vida: abandonar-te. A tensão se tinha quebrado. —Bom. me bastaria.. —Disse que não ia deixar-me morrer —continuou ele com um sorriso melancólico— E o cumpriu. entornando os olhos para estudar a ferida. —Suponho que isso mudou um pouco —disse. —Mordi meu lábio. Incorporei-me sobre um cotovelo. tocando a longa cicatriz. Ri outra vez. Ele me interrompeu apoiando a boca na minha.que quisera. porque não se incomodou em conferir-me. O cabelo.

Depois me abriu a perna até o osso com uma faca de cozinha e lavou a ferida com água fervendo —disse calmamente. para que caminhasse. deves saber que tua filha está muito orgulhosa de ti. tudo o que compunha sua vida normal. fez que Ian me levasse para fora depois de escurecer. Sassenach. —Que prisão nem prisão! Sabias perfeitamente que podiam enforcar-te.. Ver que todos passavam fome e não poder cuidá-los. ainda que sentia desejos de sacudi-lo com súbita e ridícula fúria retrospectiva. todos os arrendatários e suas famílias.. nem passar o dia estendido na cama sentindo lástima de mim mesmo. como costumava fazer quando estava pensativo ou confuso — Não teve nada de heróico nisso. —Bem. Relatava-o com bastante despreocupação.. —Olhou-me com ar indefeso— Não me importava que os ingleses me enforcassem ou não. da guerra. Disse a Jenny que sabia muito bem o que era viver com uma só perna e. de seu lar e seu meio de vida.. e tendo em conta tudo. — Santo céu! —balbuciei horrorizada.Você passou anos vivendo numa caverna. deu resultado. não é? —Não sei quem era o tonto —manifestei sem olhá-lo— De qualquer modo. não há nenhuma lei que proíba aproveitar-se dos tontos. não? Jamie enrijeceu.. —Então Jenny fez com que três dos arrendatários se sentassem em cima de mim para manter-me imóvel. Mas isso não foi coragem. —É sério? —Parecia estupefato. Eu. —É óbvio que não o fizeram —observei— Por que? —Bem. Ele sorriu vagamente. a única opção que restava era repor-me. ela limpou a ferida o melhor do que pôde e depois a costurou. por muitas razões. —. estava seguro de que a mim não me agradaria. Ele não o permitiu. nem ficar inválido. depois começou a pôr-se negra.. não agüentava mais. —Encolheu-se de ombros resignado — Quando acabou de enumerar tudo o que não ia permitir-me. não é? Existe uma lenda sobre isso. Então pensaram que teriam que cortar-me para salvar-me a vida. —Eu? Não! —Passou uma mão pelo cabelo. de mim. nem. Mas não deram resultado e minha perna piorava. —Encolheu-se de ombros— Se os ingleses eram tão tontos para pagar um bom preço por um triste despojo. Bem. foi por Ian. poderias ter ficado inválido por toda a vida! —Bem... com sua perna de pau. com minha bengala. —Senti um leve fulgor de consolo ao pensar em minha cunhada: Jamie não tinha estado tão só como eu acreditava. Engoli a saliva com dificuldade. Imaginei que não o fariam. mas eu me senti um pouco mal disposta. Imitei seu riso. eu. pelo que voce me tinha dito.. É um herói. mas ainda pensando o contrário o teria feito. surpreso. os dois mancando daqui para lá. —Deu-me poções para a febre e me pôs cataplasmas na perna para retirar o veneno. enquanto a ele não lhe molestava muito. Jenny.—Muito próprio de Jenny. —Claro. tinha gosto de bílis. Estava inchada e fedorenta. —Por Deus. O gesto da mão as abarcou todas: a perda do combate.. Disse que não me permitiria morrer.. Um belo espetáculo! Ele. —Uma lenda? —Parecia envaidecido e envergonhado — Parece-me um tema bobo para uma lenda. não? E mesmo assim o fizeste! —Tinha que fazer algo. . —Quando pude levantar-me. —Há algo mais dramático: que te fizeste entregar aos ingleses para cobrar a recompensa que tinham posto a tua cabeça —comentei mais seca ainda— Não foi um risco bastante grande? — Imaginei que a prisão não seria tão horrível —confessou incômodo —. Tratei de falar com calma.. Ele alargou o sorriso ante a recordação. Ian e os meninos. Elevou as sobrancelhas. como um par de cegonhas coxas. em absoluto.

mas agora já não. Jamie! Não estava seguro.O que? Não vai saudar minha esposa?—Tua esposa? —Ian o olhou com horror— Você se casou com uma rameira? —Eu não diria isso exatamente —intervim. —Não! —exclamou Ian. homem. —Não está contigo? O pequeno Ian não está aqui? —O pequeno Ian? Por Deus. Sassenach.—Compreendo —disse suavemente depois de uma pausa— Compreendo. diga-me? Em outro quarto. Mas um leve sorriso lhe sombreava a boca. —Já vejo que é você —replicou Ian com um pouco de aspereza—. já não sei do que és capaz. Jamie. Ao ouvir a voz do visitante me alegrei de estar momentaneamente fora de seus olhos. deu-me uma palmada no quadril e foi abrir. Divisei no corredor uma alta silhueta de homem e de imediato me cobri com os lençóis até a cabeça. Mas devo respeitar tua sensibilidade. Ian —advertiu Jamie. Inclinou-se numa complicada reverência. —Peço-te perdão.. Mas depois. Jamie. não deverias vestir alguma coisa? —perguntei no momento em que tocava na maçaneta da porta. —Não creio que seja a polícia. Jamie Fraser. Ian. —Oi —saudei. levantando-se de um pulo e olhando para qualquer coisa menos a cama. Dei um pulo. —Se queres que te diga a verdade. Olhou-se... —Que diabos queres dizer com isso? —Vi enfurecer-se a expressão de Jamie. —Ah. —Não é o que imaginas. como podes crerme capaz de trazer a um bordel um garoto de quatorze anos! Ian abriu a boca. apesar de não o ter ouvido em vinte anos. mas vi que lhe tremia a comissura da boca. mas antes que pudesse falar bateram à porta.. —Olhou ao seu cunhado com os dentes apertados—Em outros tempos eu sabia. —. Sassenach. —Jamie? —Parecia bastante sobressaltado. o enfado se tinha convertido em alarme. O sorriso se alargou. Aproximou-se à cama e retirou os cobertores. Depois voltou a fechá-la e se sentou no banquinho. agitando alegremente a mão do meu ninho de lençois—Quanto tempo sem ver-nos. — Conheço você. Mas nunca pensei que te encontraria num prostíbulo. —Claro que sou eu —disse Jamie bastante irritado— Para que tens os olhos.Não acredito que as pessoas desta casa se horrorizem com algo assim. Reconheci-o de imediato. não? E Jenny temendo que caísses enfermo por viver tanto tempo sem mulher! Lhe direi que não tem por que preocupar-se. senão a criada com o café da manhã. Permita-me apresentar a minha esposa. Estou faltando com à boa educação. E estamos casados. E esta era a direção à que Jenny te enviava as cartas —disse—. —De qualquer modo. pegou uma toalha do lavatório para envolver o quadril com algum desleixo. Sempre tinha pensado que os livros exageravam ao descrever a reação de quem via um fantasma. —De verdade? —repetiu. não? —Ergueu uma sobrancelha interrogante. mas ante o visto desde meu . . homem? Fez seu cunhado entrar no quarto e fechou a porta. —Creio que sim. E onde está meu filho. —Dirigindo-me um largo sorriso. Mas não podia acreditar em meus olhos! Vi fibras cinzas no cabelo castanho e na cara e as rugas de muitos anos de trabalhos pesados. —O moço da tipografia me disse que não tinhas passado a noite lá. Jamie seguia corado.De verdade? – Estava sério. Ian deu uma olhada à cama. —. Espionei por embaixo dos cobertores. Ian voltou bruscamente a cabeça para mim. Em sua cara longa e singela. essa senhora me abriu a porta. com alguma outra mulherzinha? —Teu filho? —A surpresa de Jamie era evidente— Qual? Ian olhou a Jamie. como se tivesse tocado num ferro quente. quando essa. Ao ouvir minha voz. rindo.

Para não cruzar pelas terras dos Campbell nos desviamos para o Este e cruzamos o Forth à altura de Donibristle.Isso te ensinará a não pensar tão mal de mim – disse Jamie com evidente satisfação. – A cabeça de Jamie apareceu pela gola da camisa com o cenho franzido – Terá que ficar aqui. sim. – Virou para seu cunhado – Por onde o trouxe da última vez? Por terra. Mudou um pouco. Não tem nada que alguém possa querer roubar. . —Deve de estar bem —declarou Jamie. mas sim. os cabelos de pé. —Suponho que sim —reconheci com secura— Como não tenho roupa. Jamie assentiu com a cabeça– Não acredito conhecer o jovem Ian. com as mãos cruzadas às costas. —Tinha os lábios apertados. —Vou contigo. O pai voltou a andar. Deixou o copo. —Não —suspirou—. o serviu de um pouco de conhaque – Julgueis e sereis julgados. Ian levantou as sobrancelhas até a linha dos cabelos. . parecia louco de susto. —Jamie mexeu a cabeça em dúvida. depois de beber de um só trago o resto do conhaque. Ele cruzou com Fergus até Carryarrick e se reuniu comigo junto ao lago Laggan. alguns assuntos que resolver. sim. Jamie ria. assinalando a toalha que ele tinha descartado — Não penso sair vestida com isso. não? —Que. Depois baixamos por Struan. Fergus já é um homem. Ian tinha se levantado para andar. —Uma sombra lhe cruzou a cara. Começava a estar tão preocupado como Ian— Estás seguro de que vinha para cá? —Bem.. —Não é a primeira vez.Não fui buscá-lo em Lallybroch. Ele assentiu mecanicamente.. Parecia estar recobrando o domínio de si.. —De acordo. Se está em Edimburgo. —A sexta-feira passada fugiu de casa —disse aturdido— Deixou um bilhete dizendo que viria encontrar-se com seu tio. Ian deu uma olhada à cama e se levantou precipitadamente. compadecido de seu trêmulo cunhado. Sassenach – disse. Depois. não sem simpatia. és seu único tio. Tenho.? —exalou Ian soluçando ao olhar-me— Como.. mas Jamie se limitou a assentir. sabes? —disse-me.Não saiu a cavalo – murmurou -.. Jamie se sentou na cama e me pegou a mão.. Sassenach. Jamie ofegou.. —Acha que fez o mesmo trajeto? —É possível. já lembrei. Weem e. —Não vi o teu filho desde que lhe mandei a casa com Fergus. —Fergus? —interrompi— Fergus está bem? —Sentia uma onda de júbilo ao pensar no órfão francês que Jamie tinha trazido a Escócia como servo. o saberemos antes de que caia a noite. Desapareceu? —perguntei cortesmente. —Alguma vez uma surra te impediu fazer o que tinhas decidido? Ian deixou de andar para cair de novo no banquinho.retomo ao passado teria que revisar minhas opiniões: Jamie tinha desmaiado. Ele me olhou. A criada tinha levado meu vestido depois de servir-nos o jantar. rodeando o Firth. Sua cara se partiu num sorriso contrariado. Me esperará aqui? —Não te preocupes —lhe assegurei. —A última vez que fugiu lhe dei uma surra que não pôde sentar-se por vários dias. claro.. Bebeu um gole de conhaque que lhe fez tossir até quase chorar... sem tirar os olhos de mim. mas a despejou um sorriso— Se alegrará muitíssimo de voltar a ver-te.? —É uma longa história —eu disse. literalmente.. —Antes de sair falarei com Jeanne —prometeu pensativo— Talvez me atrase um pouco. —Oh. enquanto deixava cair a toalha para pôr as calças—Vou divulgar que o estamos procurando.. que eu saiba —replicou o outro bastante azedo. confiado. Ian não tinha. ou navegando? —. faz seis meses —disse. —. Sassenach. mas suponho que foi um alívio para meu pai. —Estreitou-me a mão— Me agradaria ficar mas. Adivinhei que o jovem Ian era uma verdadeira prova para ele— Acreditava que não ia cometer outra vez a mesma estupidez.

nos ocuparíamos no tema quando chegasse o momento. Restava saber quantas outras pessoas também existiam.Ian Murray.. tão densa que as pontas sobressaiam como espetos sobre as grandes orelhas. que fazia Jamie em Edimburgo? E o quê diriam eles quando se inteirassem de minha súbita reaparição? Bom. pensei. lá em Lallybroch. depois de uma grande pausa. Malcolm? – perguntou. apesar da perna de pau. Eram muitas as perguntas que não tinha tido tempo de formular. perdido muito tempo atrás. Com mais curiosidade me perguntava quanto as atividades ilegais de Jamie. Mas e o resto da família. que possuía riscos relativamente escassos. teriam sobrevivido à destruição das Terras Altas? E. reservando o pseudônimo de Alex Malcolm para as atividades da tipografia. seria feio a não ser pelos olhos pardos. e conhecendo a Jamie Fraser. Já o motim era outra coisa. ouvido e sentido o suficiente para saber que o Jamie Fraser com quem tinha me casado ainda existia.Poderia-se dizer que sim – respondi com cautela. era de supor que como contrabandista conservava sua própria identidade. parecia uma ocupação bastante perigosa para um ex jacobita preso. não? Sabia que. Indubitavelmente. Nas breves horas da noite tinha visto. Que tinha sido da família. legais ou ilegais.E você. . mas ainda não sabia com exatidão o que tinha dentro. depois de ter sobrevivido a Culloden devia de ter refeito sua vida. A coroava uma mata mal cortada de cabelos castanhos escuros. Pousaram em mim com uma expressão confusa e interessada.. ainda que estivesse segura de não o ter visto antes. O rosto era largo e ossudo. quem é? Ele refletiu um pouco antes de responder. Provavelmente. interrompendo meus pensamentos. Alguém chamou timidamente à porta. Ian estava são e salvo. —Entre. sua extensão e seu perigo. suaves e tão grandes como os de um cervo. Sentia agradáveis dores em vários lugares desacostumados e. . o contrabando era uma profissão tão honorável como roubar gado vinte anos atrás. Portanto. Então era contrabando e motim..Você é a . os arrendatários da fazenda. ao menos uma das razões. essa era a razão pela qual usava um nome falso. E muito oportuno. Morria de curiosidades por saber o que tinha feito Jamie. enquanto resistia a separar-me de Jamie. encantada por possuí-lo. tinha notado que Madame Jeanne o chamava por seu verdadeiro nome. por favor —anunciei levantando-me.. A cabeça e eu nos observamos mutuamente por um momento. não podia pensar que tivesse sido simples. Apalpava sua forma e seu agradável peso. em sendo assim. Estava morta de fome. nas Terras Altas de Escócia. Apesar da confusão que estava quando chegamos ao bordel. Subi um pouco mais o lençol . A porta se abriu com muita lentidão.. com a mesma prudência: . Sentia-me como quem recebeu um cofre fechado com um tesouro.Quando o ruído de suas pisadas desapareceu pelo corredor. muito bonitos. recostei-me sobre os travesseiros. Mas uma coisa era saber isso e outra diferente era encarar a realidade. sonolenta e satisfeita. também era gratificante passar algum tempo a sós.. Era-me vagamente familiar. recordando. de sua irmã e seus sobrinhos? Obviamente. uma cabeça apareceu pela abertura como um caracol que emergia de sua concha após uma chuva de granizo..mulher do Sr. «O café da manhã». o que tinha dito e pensado durante todos os dias de nossa separação. .

. Não era tão inescrutável como seu tio Jamie.. Era alto e deselegante como um filhote de cegonha.. Por que fingia não ter visto o menino? Ian era seu melhor amigo.? Ao me ver.. . E a fonte mais provável era o próprio Jamie. ... eu. Tenho idade suficiente para saber.Saiu para te procurar. . . .Não penses mal. E foi fácil rastrear a sucessão de pensamentos: do horror inicial passava a dúvida do comportamento paterno. acabou por balbuciar -: Encantado em conhecê-la. ao senhor Malcolm. tinham sido criados juntos.disse preparando a colcha para por a bandeja.80m. Depois levantou o rosto dizendo -: Sabe onde .. Os grandes olhos pardos se alargaram ante a aparição do membro nu.. não.Pode entrar . suponho que não.Ian Murray – Me levantei bruscamente. Portanto. . Se tio Jamie . Mas isso significava que Jamie sabia da presença de seu sobrinho em Edimburgo.Não se preocupe. outra vez ruborizado e mudo. Tentava buscar um modo de explicar lhe a situação sem me colocar em águas mais profundas. não está aqui. . Cai nas almofadas meio divertida. meio alarmada. com os olhos fora de órbita. Se deteve.. Antes que meus pensamentos fossem para longe ouvi outra batida em minha porta.. Tudo o que pensava aparecia em seu rosto... – Na falta de palavras adequadas. voltou a baixar a cabeça de imediato.procurava meu..Com meu pai? Meu pai esteve aqui? Você o conhece? . espalhados numa estrutura de 1...Claro que sim – disse sem pensar – Conheço Ian há muito tempo..Espera um momento – insisti..balbuciei alarmada . é com seu tio que eu. tirando uma perna da cama para perseguí-lo..Não... Ficou petrificado . deveria pesar uns 57 quilos.Se te referes ao seu tio Jaime. resgatando o lençol no último momento – Entre – ordenei peremptoriamente – Se é quem estou pensando. Com seu pai – acrescentei – Foram há pelo menos meia hora. batendo a porta com tanta força que ela se sacudiu no batente. Para que Jamie enganasse seu cunhado devia ter algo muito importante em mente. – Parecia que não lhe ocorria nada a acrescentar.Vou fazer 15 dentro de 3 semanas.. mas sem me olhar – Qual a sua idade? Se virou para mim com dolorosa dignidade. por que não está onde deveria estar? E o que faz aqui? Parecia bastante alarmado e deu mostras de querer retirar-se.Espera! – exclamei. Ele levantou a bruscamente a cabeça. ... senhora. devia conhecer por outras fontes a vinculação de seu tio com o estabelecimento. .. . Perguntava-me por que o jovem Ian tinha ido até lá em busca de seu tio. Sem intenção de vos ofender. . seu pai e eu .Entre. a aparência com seu pai era notória.. mas ele virou sobre suas pernas e começou a andar para a porta. Quero dizer. Seria Geordie que lhe dera a informação na imprensa? Não parecia provável. digo – murmurou olhando fixamente para as tábuas do piso.é.na realidade.Eu. senhora! – E fugiu para o corredor.que tipo de lugar é esse.O rubor estava voltando a suas bochechas ... . quero dizer.. Sabendo quem era.E.

Tsei.afirmou sem abrir os olhos . encantada de conhecer-te.lhe assegurei retrocendendo cautelosamente até a parede.Se mostrou novamente ao bater em seu peito . é isso? Nem pensar! Assomou uma ranhura do olho negro e resplandecente.interpelei. .E. bamboleando um pouco a cabeça. Era a pequena silhueta do senhor Willoughby que entrava.Nada disso. O chines soltou uma risada tão irrepremível que eu mesma não pude deixar de rir. Muito frio para dormir. Ele voltou para sentar-se sobre os calcanhares. desculpa-me . . mas Tsei-mi encontrou.Como clandestino? .Já haviam me falado de ti.mi dito esposa.disse por cortesia. com obvio detrimento de sua cabeça. escondendo apressadamente os pés e subindo a colcha até os ombros.Humilde servidor Tsei-mi. uma vez e outra vez. . Quer que eu te pisoteie. .. . longe. . espera um momento disse mudando de ideia . .Yi Tien Cho servir senhora . . vá ordenar que me tragam o café da manhã..Cais aqui.Tsei-mi . .Para! . Venho China.explicou. muito bem .disse . . E me fez uma reverencia. Yi Tien Cho disse. .Sim. .exclamei friamente .Barco mercante . roubar comida. . quase morri. Estava obviamente maltrapilho com uma ressaca endiabrada. Obviamente restabelecido.Cais .Que diabos está fazendo aqui? .disse. Se quieres fazer algo útil. bebado perdido. .Primeira Esposa favor pisar humilde servidor. humilde servidor Primeira Esposa.Tsei-mi? Jamie.insistiu . Um noite roubar conhaque. se gostar.balbuciei .disse .Dois anos atrás.assentiu .Primeiro me diz onde te encontraste com Jamie.Tsei-mi disse desculpas muito honradas a primeira Esposa. voltou a se indireitar sem haver sofrido incidentes. Como resposta.explicou sentando-se sobre os calcanhares.Muito obrigada . o chines se deteve a trinta centímetros da cama e deixou cair a cabeça ao chão com um forte ruido. mesmo cambaleando de um modo alarmante. gateando sobre as maõs e os joelhos. não comida. dando-se um golpe em seu peito para indicar que era o seu nome. Esconder em barril . para não confundir com algum outro humildíssimo servidor presente nas proximidades. . . quieres dizer? Jamie Fraser? O homenzinho assentiu. vendo que estava querendo fazer a terceira.exclamei. onde desapareceu imediatamente as rugas do pescoço. .Não tens porque pedir desculpas. Se não te incomodar .Lavarei pés de Primeira Esposa? ofereceu com um amplo sorriso. se deixou cair de bruços ante mim como se não tivesse ossos. Lhe segurou com ambas as mãos e fechou os olhos. formando um círculo com os braços para indicar seu meio de transporte. Senhora muito honrável Primeira Esposa. Não.Tive que baixar os olhos.AH! .Mil perdões .Bem. não rameira barata.Não há nenhum problema .

Quero comida. me viu abrir a porta e me chamou acenando.Humilde servidor já vai. E o teto tinha vigas de adornos.murmurei. te fazem bem? Assentiu vigorosamente.observei . mobiliado como cozinha. . desnuda e recebendo delegações caprichosas do mundo exterior. . . A mesa estava rodeada por mais de vinte mulheres. Depois de segurar as pontas da colcha sobre o peito. . minha colcha era de um puritanismo exagerado.Lamento não ter nada que dar-te para a dor de cabeça.Oh.perguntei fascinada . o odor ( mais os barulhos de mastigação de várias pessoas sentadas na mesa) vinham de uma porta fechada no primeiro piso. Depois de uma pausa abriu a mão para fazer rodar as esferas com um hábil movimento circular nos dedos. Muito boas bolas saudáveis.Tenho bolas saudáveis. . recorri ao corrimão que se arrastava e descia pela escada. o mais provável era que os outros quartos estivessem ocupados por serventes que. não importa . sentada próximo a cabeceira.O conhaque parece ser tua perdição . E saiu. aqui fígado. extraiu um saquinho de seda branca onde deixou cair duas bolas esverdeadas. . . havia somente mais duas portas. Tocou delicadamente com o dedo várias partes da palma aberta. mas deteve o gesto com um leve gemido.Muito astuto de tua parte.Na mão todas as partes do corpo . em qualquer momento. deviam de estar trabalhando embaixo.E são medicinais? Quer dizer. seguindo o aroma da comida. Ao abri-la me encontrei de frente a um grande quarto. . algumas estavam já vestidas. considerei que havia chegado o momento de tomar atitudes. Uma mulher.observou o senhor Willoughby com muita destreza. não sem lançar-se com bastante violencia contra o batente da porta. me perguntando se ele preparava outra intenção contra meus pés ou se estava apenas um embriagado que confundia as partes básicas da anatomia.Jade. fazendo-as rodar pela palma de sua mão com um agradável repiqueto.Bolas saudáveis. em comparação. Aqui estomago. dei alguns passos pelo corredor. entre as bolas vedes . . O que fez foi colocar as mãos nas profundidades de sua ampla manga azul e com ar de conspirador. . Em vez de continuar sentada ali.me assegurou .comentei Possivelmente foi essa referencia ao estomago que induziu o meu a emitir um rugido audível. O piso parecia deserto. Neste momento não tenho nenhum remédio aqui.Aqui cabeça.explicou o senhor Willoughby. isso significava que estávamos num sótão.Que bom . mas a maioria apresentava tal estado de nudez que.Bom suponho que são tão portáteis como o Alka-Seltzer .Primeira Esposa quer comida . Afastando de meu quarto.. Aquilo estava sendo ridículo. Bolas fazem todo bem. Depois de envolver-me cuidadosamente com a colcha. correndo amistosamente um banco para eu sentar. sim.É mesmo? .explicou. como se fosse um sári. Podes descer e dizer a alguém? .

A comida estava bem preparada. De momento me parecia o menos importante que conseguir o pequeno almoço.disse. ela prefere as menores de vinte e cinco anos.És um pouquinho mais velha para o gosto da Madame.Não lhe aconteceu nada . . de qualquer modo. olhem. . . Aqui está a cerveja . .Boa pele e um rosto bonito . avaliando-me com ar objetivo de quem julga a um bom cavalo .Mas deve estar um pouco dolorida entre as pernas. . Dê um bom berro. Te começaram o trabalho com um bruto.disse com um sorriso.Te deram uma bofetada. ficou ruborizada . és nova.Se caso não tens nada bonito para por. seguramente tem também marcas de mordidas no pescoço.Deves de ser a moça nova. não .Bruno? – repeti um pouco confusa. não? —Millie.E também tens um nariz um pouco inchado . . Mas não estás nada mal.apontou meu primeiro contato com ar de reprovação . . minha vizinha. não? Me sorriu com sagacidade . sabe? Madame não permite que os clientes nos maltratem.perguntou uma das rameiras Horace? . deveria ter baixado até o traseiro. Não sabia como corrigir a equivocada impressão de que eu era uma rameira nova.me assegurou apressadamente .Oooh. E se voltou para uma criada. com o movimento.E pelo que vejo. querida? .Quer trazer um pouco mais de cerveja. sem dúvida. empurrou para mim uma grande fonte de salsichas. ainda subia pudorosamente a colcha. Em vez de me receber como se deve elas começaram a parlotear.observou a morena sentada frente a mim.Estás muito bem.comentou Peggy olhando-me com olhar critico. Como se advinharam minha necessidade.Como se chamas.Um mulher baixa e bastante rechonchuda.. Eu sou Dorcas. Me mortificou ver uma grande mancha roxa que parecia pela borda da colcha. acenava para o meu decote. não é? . não? . não? Quando eles ficam muito brutos tens que chamar.disse recebendo da criada uma jarra de cerâmica e que pos diante de mim. . Está é Peggy.E essa é Mollie.exclamou Mollie encantada .tratou completando um exame de minhas partes visíveis.Agitou o polegar onde estava a morena. tem um bom traseiro. se abriu até a cintura. . . se inclinou junto a morena para sorrír-me. a amistosa Dorcas alongou o braço até o aparador que tinha atrás e depois de entrgar-me um prato de madeira.A Madame não gosta que tirem a roupa da cama . observando-me com interesse . Qual o seu verdadeiro nome? .corrigiu Millie. eu estava morrendo de fome. Por isso o chamamos de Bruno.Me chamo Claire .Sim.Theobald . sem se preocupar com o suicinto roupão que. . Se esticou para tocar-me. logo acenou a ruiva sentada ao meu lado . Peggy tem razão. Janie? Voltou de novo para mim: . que Bruno estará aqui num segundo. -Não é precisamente linda mas tem um boca bem formada e uma expressão simpática. de rosto redondo e cordial.decidiu Dorcas.oh.É o porteiro. .

.Darei uma sova nessa criada inútil! Mil desculpas. Naquele momento. . com um grande decote franzido e multiplas mãos bordadas embaixo do peito e cintura.apontei com um gesto a colcha. e no canto se acumulava vários retalhos.Zi loz hombges quiziegan acostagze con un pezcado. Mollie.E não esqueça de dizer onde se guardam os potes de ervas perfumadas . cujo peito estava cheio de pequenos alfinetes. deixando-me em companhia de um manequim. para que umedeça as partes com água quente. .O que estás fazendo aqui? . Nem a roupa .E agora. imitando a Madame Jeanne. sufocadas rapidamente pela súbita aparição de Madame em pessoa. onde Madame parecia estar repreendendo.exclamou ela com violencia enquanto olhava ao redor saindo faíscas pelos olhos. ao menos isso pensei ao ouvir a grave voz masculina.. Se ouviam vozes no quarto vizinho. Despendurei uma anágua de seu cabide e a pus.observou Peggy afastando a trança escura. . ez más bagato — entonou Peggy.Um cliente a esta hora! Não me deixam tomar um café da manhã tranquila. que entrou por uma porta do fundo.Ponhas na água antes de sentar. A mais nova lhe tocam o que niguém quer. . até um quarto pequeno cheio de prendas em diversas razões.assegurei graciosamente. A mesa estourou em risadinhas.Um momento.Bebi um grande trago de cerveja. iguían a los muellez.É. Franzia o cenho e parecia muito preocupada para reparar na hilaridade contida. E se retirou com uma profunda reverencia. que pareciam acariciar-me com sensualidade.senhoras .Não se preocupe . . Mollie .Não tem problema .Mollie me deu umas palmadas bondosas no braço. . aproximando-se precipitadamente para segurar-me por um braço.disse Dorcas . Entre agitadas desculpas de Madame Jeanne e suas reiteradas esperanças de que Monsieur Fraser não se informara de minha indesejável intimidade com as trabalhadoras do estabelecimento.susurou.pediu Madame Jeanne.obrigada ..Depois do café da manhã te mostrarei onde estão os barris. em eminente perigo de cair. .Não se preocupe.Merde! Nadie não subiu o seu café da manhã? . sem soltar a colcha. . A madame gosta quando cheiramos bem. Esta noite se sentirá como nova. Era escura e espessa. . ao vê-la. Madame! . a olhada de Madame Jeanne caiu sobre mim e sua boca se abriu em uma forma horrorizada. captando as olhadas atônitas de minhas companheiras de mesa. que me ocultava o rosto.repliquei. Encantada de te-las conhecido. Tem sido um café da manhã maravilhoso. levantando-me para tentar uma elegante reverencia. subí torpemente outros dois vãos de escadas. . . Madame.Comendo . .Nez de Cléopatre! .. .saúde.. falemos de meu vestido. por favor .sussurei. tanto pelo seu sabor como pela amplitude da jarra. . mal disposta para me pegarem. . me senti muito bem.me informou. estalou a lingua.Não. -É Claire quem terá que atendê-lo. Era feita de um fino algodão.

.disse. como pedindo orientação.. ..Não é culpa dela. em quanto essa infeliz de Madeleine.? . era dez e meia. Madame . Um machado ou algum tipo de lâmina grande. Segundo o relogio esmaltado. o hospetaleiro desmaiou ao encontrá-la...O padre me disse que lhe haviam cortado a cabeça.Sim.É certo. mas eu recebi. olhando sobre o quarto.Me haviam dito. claro. . A moça era a irmã de Madeleine. .Sim.Vosso esposo.Madame Fraser! Oh.. Se retorceu as mãos. não acho que lhe incomde . Passei pro quarto vizinho. claro. O corpo estava proximo da porta e a cabeça. confundida com uma filie de joie e exposta a. sua pele palideceu varios tons a mais.. Madame .Madame pareceu ficar sem folego.Bruno elevou suas densas sombrancelhas. . . ao menos agora estava mais ou menos vestida.Quem? inquiri .o de sempre? .Bem.Não me interessa o que tenha feito a irmã desta desgraçada .Passou a olhar distraida pela sala .A voz de Bruno sonava lúgubre.Sim.interrompeu Bruno . . onde encontrei a Madame Jeanne reclinada no sofá de uma pequena sala.. .Não! Outra? . .Oh. eu não tenho nada que discutir..vacilou. Olhou vacilante a Madame Jeanne. como parecia fazer as pessoas ao relatar coisas horríveis.Está segura de que é a esposa? . com uma exclamação espantada. ...dizia ela. Já viu. Madame... Mas eu gostaria que me falasse desse Demonio. mas a proprietária deu uma olhada no pequeno relógio de sua penteadeira e se levantou de um salto.A cabeça.Sim.Sua voz tremia de desgosto.Quando descobrir de que sua esposa tem sido tão vergonhosamente desatendida. .. Bem. compreendo. . O padre trouxe a notícia justo antes do café da manhã.. sobre a taberna de Buho Verde.reconheci . com um homem corpulento e de expressão infeliz. sentado em seus pés numa almofada.Baixou a voz. . teria que esperar um pouco. -Não entendes que deixei a esposa de Monsieur Jamie nua e com fome. .uma notícia inquietante.A mim também. .. buscando alguma expressão delicada . n'est-cepas? Madame parecia impaciente . na prateleira. Mas se ele disse que a mulher é sua esposa.. .O que dirá a ele? Vai ficar furioso! . . . Foi. . . O que devia chegar. Ela levou um susto.murmurou recobrando a surpresa.Quem é esse Demônio? .Jamie ou o Demonio? .Crottin! Tenho que ir! ..A umas portas daqui.Por que queres saber? .me desculpa! Não era minha intenção deixá-la esperando.Na realidade.Reduziu a voz quase como sussuro. fosse o que fosse..Voce ouviu? ..Não sabes a novidade desta manhã? O do Demônio? Madame fez uma pequena exclamação . .. sim. . .a. Tinha que reconhecer que Jamie tinha razão ao dizer que havia sido má ideia instalar-me em um bordel.Se antes estava branca. devia chegar as dez e ponto.perguntou a voz grave masculina .Eu já sei .

Solta-me! . apertando a cara contra minha anágua de algodão. A irmã havia sido raptada no cais. Era óbvio que ainda estava impressionado. na altura entre minhas pernas.Uma monja . Seus dentes eram brancos e perfeitos.. Me fisgou com os olhos chamejavam baixo com sombrancelhas espessas. Como um Jack o Estripador de outrora.insisti. em sua maioria viviam sozinhas.MIlady! Voce voltou! Um milagre! Deus a trouxe de volta! Levantou os olhos para mim. .. Nunca havia imaginado que em um bordel podiam acontecer tantas coisas durante o dia. aproveitando a pequena pausa que fiz para tomar folego.perguntei com interesse clínico.Violada? . baixando a voz. as que matava a golpes com um instrumento de lâmina pesada.Se me dá licença. E saiu. Bruno me olhou com desconfiança. O visitante era um jovem de uns trinta anos. em um dos becos. ao desembarcar em Edimburgo com um grupo de monjas destinadas a Londres.Milady! . segundo disse Bruno. nenhuma das companheiras reparou em sua ausencia. uma vez superado certo recato. muito charmoso. Na confusão. no pequeno sofá de veludo. Como quase todo o mundo. La encontraram ao anoitecer. Então o seu rosto sofreu uma mudança extraordinária. As sombrancelhas arquearam. os olhos negros ficaram enormes e o semblante palideceu. Rápido vi sua cara de malandrinho embaixo do rosto do homem. as mulheres foram assassinadas em suas próprias habitaçãoes.Milady! .protestei empurrando pelos ombros . . Os assassinatos..perguntei Bruno se benzeu. Provavelmente isso explicava a agitação de Madame. Em alguns casos. .Falava frances com um acento muito marcado e uma atitude tão furiosa que não entendi nada. se abriu sem esperar e uma silhueta delgada e imperiosa entrou a grandes passos. Bruno se mostrou disposto a revelar todos os detalhes macabros. Quando me levantava.repetia com extase . os cadáveres haviam aparecido esquartejados. O demonio de Edimburgo era assassino.Francesa. um pouco aturdida. sorrindo em lágrimas.Qual foi a exceção? . tal como eu havia deduzido pela conversa escutada.disse com remota formalidade. Alguém bateu a porta com fortes golpes. . oito no total. mas já era muito tarde.Procuras a Madame Jeanne? . Depois se pos em pé. deixando de lado a delicadeza social.Não sei . duas morreram em bordeis. .sussurou.exclamou deixando-se cair de joelhos para abraçar-me. Já disse para me soltar! . se produziam a intervalos de dois anos. Com uma só exceção. Uma irmã da Merced. .perguntei.respondeu formalmente. . Voltei a sentar-me. seus ombros estavam encurvados pelo cansaço . .O Demônio . Madame. de uma contextura leve e denso cabelo negro.Não trabalho aqui. . se especializava em mulheres fáceis.

Não importa. atenta ao rodar os barris para me sevir de guia. Me detive ao pé da escada. . ao voltar vi um homem no vão da porta que conduzia a cozinha. entusiasmadas por voltar a vê-lo. Quem? . Fergus! Levanta-se. . Não sabia se descia a reunir-me ao grupo ou não.Sim.perguntou excitado . havia . querida. prisão>>. mas se adiantou com um sorriso para segurar-me pelo cotovelo.O que te parece. . . mesmo? ..Sabe já que estás aqui? . deportação.. encarregado de perseguir o contrabando.Estavas aqui! Que demonios fazes aqui em cima.Deu uma olhada ao seu redor .Há uma recompensa.Mas.É voce. entre vapores de tabaco rançoso: . mas a curiosidade é mais capaz que a discrição.Não tenho ideia.lhe assegurei.Não. Enquanto estava ali senti uma rajada súbita em meus pés descalço. havia dito Jamie. Solta-me! Em vez de obedecer. Depois de uma rápida visita ao quarto de costura em busca de algo que me cubra um pouco mais. jovem? O olhei fixamente. .Onde ela está? .Me passou um dedo embaixo do meu seio. Desapareceram com um trotar de botas pela escada.Fergus! É voce?. Não tem porque inteirar nada.mas o que passou com. <<A picota.? . Vamos..Fez um pausa. . <<Tenho a polícia pisando-me os calcanhares>>.. sim . Se alargaram os olhos para as minhas anáguas.Que tenhas um bom dia. .perguntei.A Madame. que fez o bico se arrepiar embaixo do fino algodão. flagelação. me cravou os dedos no braço. mas não tive tempo de inspecioná-lo: me envolveu em um abraço capaz de triturar minhas costelas. claramente confuso. me envolvi em um grande xale bordado de malvas loucas.Acho que estou vendo um fantasma! . sabes? Uma porcentagem sobre o valor do contrabando sequestrado. por Deus! Deixa eu te ver. Fergus? A alta silhueta de Jamie apareceu subitamente no vão da porta.exclamou . .perguntou. Aquele homem devia de ser um oficial da Coroa.Voltou meio passo. . como se tivesse tido uma idéia . Te enviaram para me distrair? .Oh! . em exceto voce e eu. Parecia tão surpreendido como eu. . Não esperava encontrar nenhuma senhorita acordada a esta hora da manhã. Fergus. Abri a boca para responder mas agitou uma mão impaciente. que eu lhe devolvi com grandes palmadas em suas costas. Depois se inclinou para sussurrar em meu ouvido.. Agora não tenho tempo. .Onde está tua roupa? . que tenho dezoito caixas de conhaque no beco e a polícia pisando em meus calcanhares.Com o que? .Sou eu. Se pôs em pé. deixando-me sozinha mais uma vez.Já tens visto o Milord? . parpadeando.

Estava tão horrorizada que interrompi minha tentativa de deter a hemorragia com o xalé ..ofegou ao me ver sentada no canto. dando por sensato que já havia feito a devida advertencia. agitando uma mão despreocupada..Em cima se fez um alvoroço.Esposa . não temos tempo.que? . . -Milady . Não pode dizer nada mais pois meu gardião. te digo que me soltes! Não podia ter vindo sozinho. por onde o expulsou sem considerações.. . O policial. Foi esse chines que Jamie tem por mascote.Eu não fiz nada. Saudou o policial com uma cortes inclinação de cabeça.Disse que é sua esposa? Pelo visto. Acenei com a cabeça ao senhor Willoughby.repetiu . novamente sobressaltado pela inesperada aparição do chines.antes de ver que o braço estendido não terminava em uma mão.começou.protestei indignada . nos olhou surpreendido. vestido com um roupa de seda azul.Sim. assentindo. isto.Depois cruzou o patamar em grandes passos e alargou uma mão para agarrar ao chines pelo ombro.disse uma voz detrás de mim. .O que está falando? . Vi que o policial dilatava os olhos. O homem cambaleou para trás com expressão de intensa surpresa. entre fuxicos e exclamações. Foi uma série de golpes secos.Fergus! . me segurou por debaixo de meus braços e caiu suavemente nas tábuas do patamar. O policial me soltou.enumerado Jamie. Ao menos. . com o corpo do policial escarranchado em meu colo .. que havia se sentado num degrau com a pistola caida nos pés. . Não se preocupe por isso. o senhor Willoughby captou somente uma palavra. Fergus invadiu por uma porta que devia de levar ao sótão.Olha. por favor solte . olhando por cima de meu ombro. segurando uma grande pistola com as duas mãos.Eu? . Em um segundo apareceu na escada o senhor Willoughby. canaille.E por última vez. . E voce. se deu de ombros .repitiu incrédulo . Atuando por reflexo.O que? . com pistola na mão. Fergus disse algo em frances tão coloquial que não podia traduzir.explicou parpadeando como uma coruja . como se o chines tivesse caíndo rodando pela escada.Por favor solta. vi sim um gancho de reluzente metal escuro. os habitantes da casa se embolaram no corredor principal. olhando ao senhor Willoughby com expressão cenhuda.inquiri tratando de fingir-me intrigada.O que. Quantos mais estariam rodeando o edifício? . isso creio eu..Esposa? .O que voce fez? . como se aqueles castigos fossem o equivalente a uma multa de transito.Não rameira barata . mas soou pouco encantador para o senhor Willoughby. desce! E arrancou o senhor Willoughby da escada para arrastá-lo até a porta do sótão. levantou a pistola e apertou o gatilho.Seguindo a direção de meus olhos. . . atraídos pelo disparo.Honrada esposa. Os ingleses. . milady..Ah.

apontando com a cabeça o salão dianteiro.momentaneamente perdia suas habilidades acrobáticas. Sassenach? . subindo a toda velocidade. .ladrou Jamie. Depois meteu a pistola abaixo da cintura para oferecer-me a mão sana. porque Fergus se pos em córcoras ao meu lado e levantou a cabeça do policial segurando pelo cabelo. e se voltou para mim.no. . como querubins no céu.Ao outro lado . te corto a cabeça! Evidentemente. não se via nada. Na escuridade.Se não me dizer agora mesmo.ordenou Os degrais e o sotão estavam escuros. . me liberou de seu peso. exceto o sangue e outras substancias repugnantes que me empapavam a anágua.exclamou uma voz aturdida em cima. seus olhos se detiveram em meu rosto com espanto assombro. Houve um coro de chiados e dispersaram-se como pombas. porco. a ameaça era superflua. . não havia sinais do incidente: o xale e eu havíamos recibido tudo.Oooh. Jamie dazzles me!Jamie parecia guiar-se como por radar.Não foi ela. me poupando o trabalho.Voltem as suas habitações . Alargando a mão toquei uma parede áspera ante mim.Nos veremos.Quantos te acompanham? . sem nenhuma cerimonia.Um muro falso. Fergus fez um gesto afirmativo e desapareceu de imediato do salão. O policial não era leve.Por Deus. uma parte da parede girou para fora deixando ver uma porta com um marco de madeira sobre o que se haviam montado pedras cortadas simulando ser parte da parede.Vamos.disse . . Dez ou doze prostituras olhavam do alto. E morreu em meu colo com uma última convulsão. E não saque a pistola a menos que seja necessário. . Não tive tempo de pensar nisso. voce está bem? . Agarra-te em meu braço.inferno .. creio que está morto! . Jamie deixou cair o cadáver em um canto. Sésamo>>.. de nove a dez metros de lado.Vamos . Jamie subiu a voz para dizer algo em gaélico. .interveio Fergus.Eu me encargo disto . Fergus.Vigia a frente. Cheirava a pedra úmida. A parte oculta do sótão era uma habitação ampla. apareceu uma vaga linha luminosa que se foi alargando. Jamie deu uma olhada ao redor. Foi um alívio. O sinal de costume.. . Por sorte. Me detive embaixo para esperar a Jamie. que se havia ajustado para envolver desajeitosamente o cadáver com meu xalé. Por ali se moviam várias silhuetas em um ambiente sufocante pelo odor a conhaque. Depois de recorrer todo o corpo com os olhos. Ao parecer.perguntou . Sassenach.sussurou o homem. por trás em um breve silencio se ouviu um ruido chirriante. Já fechada a porta de cima. Milady! Deves ir para baixo! Jamie lhe deteve. era o equivalente celta de <<Abra-te.acusou..indicou ofegando . . senão o anfíbio amarelo .O que voce fez. Se ouviam pisadas na escadaria. . ante mim. . Jamie. Jamie cruzou correndo a porta do sótão e apenas pôde deter-se antes de tropeçar com as pernas no policial. por sorte.

podes trazer alguma roupa para minha esposa? Se seu vestido ainda não estiver pronto. Talvez não tenha vindo sozinho.disse.disse quando ela estava se retirando . saiu sem dizer nada. fazendo que sua expressão piorasse consideravelmente. . Fiquei nua.perguntei estremecida . tremendo violentamente. com água.Ah.gritou Jamie.Todo um invento. . me havia parecido muito fácil renunciar a água quente e as torneiras modernas quando os tinha na mão.Uma só vela acesa na superfície da água.Sinalizou ao lado oposto do salão. Eu tanto tremia. .Tenho um pouco de frio .Não. Aquilo era como uma mal noite de sábado na sala de Urgências. Aqui nós mesclamos agua pura e voltamos a embalá-los para vender nas tabernas.indicou Jamie apoiando-me uma mão na cintura .Eu me encarrego disso. . .. . —Horreur! —exclamou . está mais limpo que tua anágua . Sua voz sonava tranquilizadora. Jamie tirou da manga um lenço grande. Lhe apertou o braço. Já sabes como fazer.Vem a cento e oitenta graus. Para que usas a água? . . creio que Daphne é da mesma altura dela. . Jeanne . Estava sumamente fria. Comecei a rir.Eu temo que sim .respondeu . Ela gaguejou um par de vezes e . Detrás de um biombo armado com toneles. dei uma olhada em minha improvisada banheira. dando um aspecto negro e insondável. Para ajudá-la dei um passo onde tinha luz.acho. Mas por enquanto deves subir.. preocupadíssima.. Parecia absurdamente orgulhoso de sí mesmo.O-n-de vem esta água? .E a anágua empapada de sangue. tratando de que não me rangessem os dentes . Um das silhuetas vinha até nós. mas temo que estará fria. .Jamie parecia sereno .Quando regressar.Vem Sasseanch .Roupa? Madame Jeanne esfregou os olhos ante as sombras onde eu me encontrava.Tens que lavar-te.Há uma cisterna onde se armazena a água da chuva. Posso oferecer-te uma tina.Jeanne! . Ele explicou a situação em poucas palavras.Bom. ao qual olhei vacilante.Do telhado . tanto pela situação como pelo frio.encolhendo os ombros.Lavar-me? Com o que? Com conhaque? Isso lhe fez rir. .Morto? Em meu local? Diante de testemunhas? . De resto estou bem. onde as escuras silhuetas trabalhavam com notável empenho entre uma grande quantidade de toneles e tinas. .De uma geleira? . era a Madame. exibindo os resultados de meu encontro com o policial. com uma canaleta e um tubo que baixa por um lado do edificio.Para diminuir o licor . depois de fazer o sinal da cruz.

Sassenach . Bebe isto. o observei pelo canto do olho. . logo. Imaginei a policia rastreando o bordel. Depois te darei um pouco mais. Sassenach . . Sassenach.O-b-rigada. .Disse na pausa suficiente para tomar folego .disse secamente . Dei um aolhada involuntaria ao outro canto. Ele me sorriu subitamente. . se é aficionado em carne de galinha a grande escala . . disparando odor de calor até minhas extremidades frígidas.O que está pensando. . Me olhava com a expressão franzida.Oh.Pode ser. que bom. trazendo uma taça de conhaque. sim .disse . . Pensar no que podia estar acontecendo em cima não ajudava a calmar minhas apreensões. Jamie? A expressão desapareceu momentaneamente e seus olhos se clarearam.Toma. estávamos a salvo enquanto a parede falsa enganasse os investigadores. interrogando as mulheres ente ameaças até obter minha descrição completa. Presumidamente.repliquei azeda.Estou bem. . nossa posição seria quase desesperada.disse .Não. não é a primeira vez que esse chines comete uma besteira. Esta é um pouco mais forte da qual nós vendemos. obviamente abstraido em suas reflexões.Jamie havia reaparecido ao meu lado. Me engasguei com o conhaque. Mas se o muro não nos ocultasse. onde jazia morto ensaguentado sudário. mas o conhaque me ajudou.E se interessa. E o desaparecimento daquele homem não podia deixar de provocar uma procura intensa. Jamie ofegou. Quando bebe é capaz de qualquer loucura. como um cachorro São Bernardo. . O senhor Willoughby disparou contra o policial porque pensou que estava me fazendo propostas indecentes. Deus.Estava pensando como és bonita.Tive que usar as duas mãos para sustentar a taça de madeira.disse com suavidade. . .Oh. bordado com malvas loucas rosas e amarelas.Esta é a versão sem a diminuição? . Mas é culpa minha.Me desculpa . . Me abraçou estremecida.Não é culpa tua. devia de ter desmaiado atrás das caixas de conhaque. as gotas geladas me corriam pelo ventre e nas coxas. Jamie se fez rapidamente num abrigo e me envolveu com ele. E alarguei a mão deixando a taça. . A água estava gelada e o sótão também.Ele deixou em minhas mãos e se afastou para supervisionar as operações. meio histérica pela tensão e o horror. com um branco lampejo de dentes na penumbra do sótão.Somente ver um frango desplumado me provoca uma ereção extraordinária. provocando-me pequenos calafrios. Anda. Me caiu na boca do estomago como uma brasa. ao de Jamie e do senhor Willoughby e os demais de vários testemunhos sobre o assassinato. Essa te mataria. Enquanto eu terminava apressadamente meu congelado banho. O chines não estava por ali. Me rangiam tanto os dentes que quase mordi a lingua.

.Isto é a única coisa que tem em seu bolso. Se contraiu um pouco a boca. .ordenou me dando a vela na mão. . pensei que era um deles.Logo mudou sua expressão. .Um acordo? . Depois disse que havia uma recompensa.Bom. .Policial não é. .repeti boquiaberta. . me soltou pelos ombros e girou sobre seus calcanhares. por que? Sem responder. e murmurou um pouco baixo. .Saído errado? Sorrio brevemente.Segura isto .perguntei.Tenho um acordo com o chefe de Aduanas. sacudindo a cabeça. Eu havia visto alguns cadáveres. e que ninguém o conhecia. somente com a luz da vela. Sassenach. Conheço todos os agentes do distrito e também os oficiais.Sim.Levantou os olhos arqueando a sombrancelha. E este eu nunca tinha visto. não sei quem poderia ser. .Novo testamento . o espetáculo não me impressionava. E se aproximou junto a silhueta coberta para retirar a mancha que lhe cobria a cara.Voce disse policial? . exceto ele e eu. Por fim tirou uma pequena navalha e um livro encadernado em papel roxo. .perguntei. . mas me alegro de que não era policial.Por que pensou que era um policial? . . Jamie fez um gesto afirmativo. Jamie observou com a expressão franzida aquela cara morta. Com um pouco de asco. pois ao contrário não tem autoridade para confiscar mercadorias nem registrar um local. tratando de fazer com tato.Este homem não é policial. Os policiais e inspetores de Aduanas devem levar sempre sua credencial. . mas estava desconcertado. se prefere que eu diga com clareza. uma porcentagem sobre o contrabando sequestrado. . E como me disses-te que a policia estava pisando os calcanhares.Depois de limpar o pequeno volume com o xale. Se encolheu dos ombros . lhe cobriu de novo o rosto e se pos em pé. mas tão pouco era agradável. Me olhou com os olhos dilatados.Me perguntou se me haviam enviado como distração e onde estava a Madame. um suborno. Ao principio pensei que algo havia saido errado.leu com assombro. . afastou a solapa ensaguentada do casaco para buscar embaixo da roupa do homem. Jamie assentiu. Foi então quando apareceu o senhor Willoughby e tudo se foi ao inferno. isto não é algo que alguém leve a um prostíbulo.Bom. . Acabava de captar o que eu havia dito.O que aconteceu? .É um procedimento comercial comum? .

Mas nesse caso. Jamie falava em tom distraído. a outra com tonels furados e vinho barato.Está bem . com alguns dragões. Logo seu rosto se despertou . Agora nós podemos sair daqui. . de fato. tivemos cuidado em chamar a atenção do oficial da cavalaria que passava.confirmou cenhudo. Voltaremos para a imprensa? . sim. o que devia chegar as dez horas. . com a frente enrugada pela reflexão.Me alegro. Eu deixei ele fazendo averiguações nas tabernas do mercado.Sorrindo por um instante. Me preocuparia muito saber que deixei este local vigiado por políciais. Tenho que pensar..murmurou como se dizendo para sí próprio. Mais ou menos uma meia hora depois que voce saiu. . Wally e os rapazes trazem da costa duas carretas carregadas: uma com o melhor conhaque. Então ele abandonou sua carreta para fugir e eu vim a toda velocidade até aqui. .expliquei . Nós nos encarregamos de dar-lhe a oportunidade. isso.Bom.Assim é voce. uma quantidade de contrabando. Esta manhã abriu tardíssimo. tentando ordená-los . Soa bem para quem informa. Jamie pareceu sobressaltar-se. Nós fizemos com que nos perseguissem pelos becos até que chegou o momento que eu. Sir Percival deve satisfazer o seus chefes de Londres sequestrando. .. Não tinhamos muito tempo para descarregar tudo.Talvez. .O casaco de Jamie me cubria até os joelhos. cujo valor foi calculado em sessenta libras e dez chelines>>. . Esta manhã me encontrei com eles fora da cidade.. para trazer as carretas até aqui. por que disses-te a Fergus que tinhas a policia pisando em seus calcanhares? E por que todo mundo anda correndo de um lado a outro. como te dizia.Sorrindo de orelha a orelha.Veio aqui? . . me segurou no braço para afastar-me do cadáver .Suponho que sim . sabes? .. temos um acordo. seguido por dois ou tres dragões para salvar as aparencias.A tua procura.Algo a distraiu . como se não compreendesse.Ah.A próposito: eu conheci o Ian filho .. Nos reuniremos mais tarde .disse . tive que dar voltas pelo quarteirão para não atrair os dragões até sua porta. como estava planejado.Ela devia ter a porta do sótao aberta e a rampa em seu lugar as dez em ponto.Sim. Pode se dizer que exista um acordo entre sir Percival Turner e eu. -E. compreendidos em partes. Ian.O que fizes-te com o Ian? Levantou os olhos. casualmetne.disse lentamente enquanto me embaralhava todos os acontecimento da manhã. Como parte dele. Já conhece essas coisas. citou: << Os contrabandistas escaparam.disse em tom coloquial. mas sentia olhares encobertos que eu recibia em minhas pernas desnudas do outro extremo da habitação. com os barris bons. . como frangos degolados? . . com os licores bons. .Bom.Ah. mas os corajosos soldados de sua Magestade conseguiram capturar uma carreta carregada de licores. apesar da perseguição.me separasse de Wally e sua carga de vinho barato. se este homem não era policial. não creio que haja nenhum outro em cima.Sim . de vez em quando. Madame Jeanne disse.

. . já tenho visto que para algumas pessoas lhe acontecem coisas sem que elas tenham muito haver. Jenny me deixara inválido se souber de que seu filho esteve em uma casa de má reputação. . Logo.Na imprensa .Passou uma mão pelo cabelo. não sei se o pequeno Ian está onde deveria estar.Não.E onde deveria estar? .Tens adiantado um pouco de tuas reflexões? Riu tristemente. Sassenach? .Me uni para as suas aventuras. não sei! Supostamente devia. ...me explicou.Em realidade.confirmei ironicamente .. sem incomodar previamente em pedir autorização a seus pais.Não. E ainda não havia tido tempo de ve-lo pessoalmente. sim. Espero que ele saiba manter a boca fechada quando voltar para sua casa.Te disse onde ia? Sacudi a cabeça e enquanto ele voltava a pensar. deixemos assim. Voltou aos seus pensamentos. me sentia absurdamente feliz simplesmente por te-lo próximo.É um rapaz bastante capaz.Com Wally? Voce sabia que não estava em sua casa quando seu pai veio buscá-lo? Esfregou o nariz com um dedo..Eu sou uma delas. Estou pensando cinco ou seis coisas ao mesmo tempo e não posso solucionar nem a metade. . Sassenach! Talvez por isso eu gosto tanto do pequeno Ian. .Oh. bem. como se me advinhava o pensamento. . .Mas está manhã devia estar com Wally e não foi assim.Pois para mim me lembra um pouco voce. . Soltou um breve suspiro. . Me lembra voce. Isso lhe fez rir. .Tens razão. Mas dúvido que a explicação pudesse proteger seu traseiro. se deteve com um sorriso.Voce tem suficiente roupa.Oh. me sentei em uma tina invertida. Por exemplo. . mas não importa.Jamie descobriu muito rápido este descuido mas não quis obriga-lo a voltar sozinho a Lallybroch.perguntei com curiosidade. sim .Me daria muito trabalho explicar a Ian que faz seu filho aqui.Não. . Apesar do perigo e da incomodação. . .E voce sabe para que veio? .disse com certo enfase. um tanto irritado e divertido.Menos mal! . mas. Lhe havia prometido não dizer nada ao seu pai até que ele tivesse oportunidade de explicar-lhe. sabe se cuidar sozinho . .Agora que mencionas.. dos que surgiu momentaneamente para perguntar: . colocando-me em seu braço. Tal como seu pai havia dito. Neste momento não posso preocupar-me por isso. como divertido e preocupado . Na luta de expressões ganhou a divertida .Por Deus. o jovem Ian havia vindo a Edimburgo para reunir-se com seu tio.

.Me soltou o braço para girar até mim. A taberna de Moubray estava muito concorrida. . e uma hora depois te encontro ao pé da escada.Falava com muita suavidade. saio deste sótão mal cheiroso ficando com os cabelos brancos. Sobre tudo isso: o medo.Vou dizer aos homens que és minha esposa. Seguindo o principio que os polos opostos se atraem bruscamente quando estão a uma pequena distancia.Tudo.Mas a muitos outros sim . desnuda como uma minhoca.Mas te fica muito melhor que a Daphne . Então. Voltei um pouco para olhá-lo. eu te deixo na cama. mas em geral me caiu bem.Eu? -exclamei surpreendida .O prazer. . Me olhou oscilando como uma coruja (algum defeito congênito o fazia capaz de fechar num só olho) Comecei a rir.perguntei enquanto tomava sopa.disse. policiais. contrabandistas e assassinos armados de machados.. com uma escada exterior que chegava ao primeiro piso. o Demonio não gosta de meninos.Sempre volta a sua casa . pensando no menino que havia visto pela manhã a deriva em uma cidade cheia de prostitutas. Vamos .Ah não? . .Eu me havia esquecido . . onde a cozinha satisfazia a apetite dos comerciantes prósperos e os funcionários de Edimburgo. com a boca em meu cabelo . .sussurou . me deu um rápido beijos. Como eu vou explicar. .observei.replicou Jamie. em um gesto de exaspero. Sassenach.disse me segurando pelo braço . inclinou a cabeça para me beijar.sussurou Jamie azedo . .Entre meu sobrinho e tu. já está tudo resolvido.Eu disse que não me deitava com as moças . lançando fogo pelos olhos . . em anáguas e abraçada a um cadaver! E agora mesmo: estás aqui. . CAPÍTULO 27 EM CHAMAS O vestido era um pouco mais decotado que o necessário e um pouco apertado na altura do busto. com quinze homens ao redor se perguntando quem diabos és. Sassenach? Diga-me .O que? . Sassenach .Como sabia que Daphne tinha a minha mesma altura? . mudando de expressão.Ao que parece.Mas agora sim. . Porque agora tenho algo que perder.Por mim não precisa se preocupar. .Bom. Faz muito tempo que não tenho medo.Passou os dedos pelo cabelo. .disse um momento depois.Por sorte não é uma mulher disse pensando nesta última possibilidade. O resto terá que esperar.Mas não disse que não olhava. o medo. Me coloquei na ponta dos pés para lhe por o cabelo detrás da orelha. . sana e salva.Acha que não preciso me preocupar contigo? Nossa. era um lugar amplo e elegante.

«Sandy» se ouve mal nas Terras Baixas. .murmurou Jamie. Me inundou em uma onda de prazer. Me pegou na mão. Me surpreendeu descubrir que era o senhor Wallace.Não. Perdi todo interesse no senhor Wallace. . Ele advertindo meu gesto. .Assim sou a senhora Malcolm .completei sem observar os olhares que atraimos.Cuidar-te e proteger-te . .me informei .comentei . o na boca dos Sassenachs ignorantes. e não.Para o inferno com o refogado.disse suavemente. Mas ainda não terminou o seu refogado. Seu pé se moveu levemente contra o meu. estou seguro. . Me chame como eu me chamo.As pessoas estão nos olhando. voce é minha esposa.Quem és agora? ..Ao inferno com ela também. . Sempre.És minhas esposa.sussurei saboreando o nome.Seus brancos dentes se fecharam sobre meus dedos fazendo-me dar um susto.Está vindo a criada com a cerveja. Involutariamente olhei o anel de prata que eu levava na mão direita.Não parece que este refogado tem muita pimenta? .. levantou a taça. . Jamie? .Sim. o refogado está bom. como as recém casadas.disse.Me sorriu arqueando uma sombrancelha. .quis saber .Bem. . usa o teu verdadeiro nome em público? Mexeu a cabeça enquanto esmigalhava um pãozinho em sua sopa.Em cima há quartos privados .Sim . . . em seu rosto refletado as lembranças da noite anterior.Nas Terras Altas se diz Sawney . Tinha as orelhas um pouco ruborizadas. Voltou a sentir-me sem alento. .. .disse. meu companheiro de viagem da deligencia de Inverness.disse sorrindo. impressor e editor. Meteu suavemente a lingua entre meus dedos.De acordo. que nos observou fixamente. . Só o efeito de dizer senhora me provocava uma emoção absurda. . .Hoje e sempre .Eu gosto com um pouco de pimenta. se inclinou para dizer algo ao seu companheiro. Sassenach. . acariciando-me o tornozelo.Estás seguro.Que nos olhem e disfrutem. Um clérigo. Na atualidade sou Sawney Malcolm.Madame Jeanne te chama «Monsieur Fraser». . E de imediato especificou: . .Saúde a senhora Malcolm . . .Sawney? É um apócope de Alexander. não? Como «Sandy». sentado ao outro lado do salão. .Isto é o mais importante: quem eu sou? Um de seus enormes pés buscou o meu e me sorriu.

O que devo explicar? .. . . tens todos os dentes. . ..pediu depreciativo . Nos sorriu cordialmente. Agora.saudou o visitante com uma reverencia cortes.perguntou Jamie .acabava Jamie.e sua. Poderias transmitir minhas desculpas? Deu as costas ao secretario. sir Percival? . Sinceramente. .protestei dando um leve ponta pé por debaixo da mesa. lhe estava aproximando uma cadeira. . não tenho idéia. que havia levantado ante a aparição do visitante. . A sombra do visitante caiu sobre a mesa. meu querido senhor.. um ingles discretamente vestido que aparentava uns trinta e cinco anos.companheira.Creio que não conheço o senhor.É o Sir Percival Turner quem solicita senhor .Minha esposa e eu.Desejo-os bons dias senhor Malcolm . não és corcunda.temos outro compromisso. quanto aos quartos privados.disse fazendo exatamente a mesma pausa antes de <<esposa>> . Poderia dizer.Mas entre uma coisa e outra não tenho muito tempo para pensar nisso. Ao inferno os cavaleiros de casaco verde.Portanto voce está casado.Ah. se inclinou novamente sem deixar-se intimidar pela falta de hospitalidade. . Jamie. Era um cavaleiro pequeno e de mais idade.replicou Jamie .Bem .Me olhou de cima para baixo . não estás gorda. Sem deixar de protestar. . apoiado num pomo de ouro de sua bengala.. meu chefe me manda saudá-los e perguntar se voce..Um homem com casaco verde está vindo para cá.O que tem de mal em sua presença? Não te falta nenhum membro.Claro .. não..disse com deferencia.. .Onde estávamos? . Suponho que não incomodo...disse apressadamente o secretário antes de ir. . .teria a bondade de beber uma taça com ele.Oh.. simplesmente.. O cavaleiro..corrigiu Jamie. se deixou cair na cadeira oferecida.replicou muito sorridente . Sem embargo.Estás errado . de nenhum modo! Não quero atrapalhar vossa felicidade. estendeu um pé embaixo da mesa com uma careta de dor.Perdoa a minha pequena descortesia de convidá-los por meio de Johnson .Ao infer. .Voce sabe a que me refiro .Nos acompanha.. .. sim.Não tivemos o prazer de nos apresentar senhor .. o qual se dirigiu até uma porta do lado oposto. Se seu chefe deseja falar comigo.. diga a sir Percival que neste momento estou ocupado.. . E espero ser o primeiro em expressar os melhores desejos a sua dama.Como vai explicar minha presença? Arqueou uma sombrancelha. com o respeito devido.. meu querido amigo! Que grande notícia! Minhas mais sinceras felicitações... .é que esta condenada enfermidade me impede de mover com agilidade. . .

.Sim. .Que idéia tão estranha.disse o cavaleiro.me confessou inclinando-se para mim.Apodrecido como madeira bichada .Suponho que não é tua. .É uma verdadeira sorte que o tenha encontrado aqui.Sou um mártir acabado. Jamie. querido amigo . de que tem havido recentes tormentas no norte? Sir Percival espirrou como um camundongo resfriado. Ao fim e ao cabo .Guardou o lenço com uma piscada benevolente.Sim. pediu vinho e aceitou com certa elegancia as constantes cordialidades do senhor Percival.Senhor Percival tirou do bolso uma caixa de rapé esmaltada em verde e ouro.Agora que estás aqui.A maioria acredita que viverá eternamente. .Tinha algo especial para dizer. .É? . . Deveria conter-se antes só do que por medo do diabo. ..disse antes de esvaziar a sua taça. faz algumas semanas me comentou que tinhas intenção de fazer uma viagem de negocios ao norte.sussurou concentrando-se ao conteúdo da caixa Nesta época o tempo tende a ser inclemente. .Assim é.Como sou seu amigo e tenho muito em conta o seu bem estar. Percebi seu mal alento de ancião embaixo dos azeites que perfumavam sua roupa.Suponho que é como todo mundo . Jamie riu subitamente uma vez recobrado seu animo.Não quero mais incomodar ao vosso desjejum de bodas. . Depois seguiu com ar pensativo a silhueta murcha.disse . tratando-se de ficar bem ali parado. .Não os aconselho fazer uma viagem ao norte neste momento . com querubins na cobertura .Por acaso tens notícias. Mo Duinne.. Sassenach. .O senhor MacLeod me havia convidado a Perth para mostrar-me um novo modelo de imprensa que colocou recentemente em uso. estando tão perto de seu juizo final.disse voltando -se para mim . sir Percival marchou com passo curto fazendo bater sua bengala ao chão.Não esperaria outra coisa do sir Percival.Eu agradeço o conselho. meus queridos jovens. Com ajuda de Johnson.comentei. de nossos agentes. Se não me engano. . . sir Percival .agora tens um incentivo para querer comodar-se em casa. o aconselho energicamente que permaneça em Edimburgo.disse cinicamente . não creio que a senhora Malcolm se sentirá bem.comentei com os olhos fechados. Sassenach . é verdade. que manobrava cautelosamente ao corrimão da escada. — Post coitum omne animalium triste est . Em relação com uma imprensa nova ou algo assim? . verdade? Bom.Bem . Jamie tomou um gole de vinho. .concordou Jamie cortes . querida .murmurou Jamie sonolento . De fato. eu enviei um bilhete a imprensa mas meu mensageiro não o encontrou lá. .Jamie arqueou as sombrancelhas interrogando.Parece um senhor amável . . apoiando uma mão bem cuidada na manga de meu esposo . Bebe. estou convencido de que assim será. e vamos subir.Me aproximou a taça de vinho.Sim é . temo que devo desculpas. Jamie suspirou.

disse. Teremos tempo. . .Eu também. Escondeu o rosto na curva de meu ombro com um ronronar satisfeito. . De qualquer modo. .Eu tão pouco. Ele também me tampou a boca com a mão. O interrompi apoiando um dedo sobre seus labios. O que havia levado o filósofo a esta conclusão? . sabe? .Creio nunca ter sido tão feliz.Não recordo ter sentido nunca menos triste. .disse . . o sofá oferecia uma superfície horizontal e acolchoada que.. Sasseanch. sacudido pelo marear do meu riso. Usou meu peito como encosto. . Quando era preciso. Rimos juntos. . .Segui com um dedo a direção do redemoinho que levantava o seu cabelo. saber que posso contar qualquer coisa sem tomar cuidado com as palavras nem dissimular os pensamentos.Por isso o recordei. Seus olhos tinham um azul intenso. . Sassenach . As habitações privadas de Moubray deixavam muito a desejar quanto as instalações amorosas. Por Deus. Não te direi que vivi como os monges.Lhe afastei o cabelo úmido da frente.Não.Talvez nenhum deles lhe tinham afeto. como o cálido mar tropical . põem os olhos em branco e fazem ruidos asquerosos.. .Estar contigo outra vez. . .A próxima vez me comportarei melhor. para não enlouquecer.Não tem importancia .Não é somente pela cama. com a pressa do momento.Muito só. ..Não.Nunca vi que a ti eu pendurasse a lingua. Em todas as espécies..sussurei . . algum filósofo antigo. Mas deve haver provado com muitos para fazer uma afirmação tão ampla..Não sei quem disse. Deus sabe que estou louco de desejo como um jovenzinho e que não posso deixar de tocar-te. .admitiu . bem pensado. . não? Senti a curva de seu sorriso em meu ombro. Mas não me importaria perde-lo enquanto puder estar contigo e abrir-te meu coração.. era o único indispensável. não me ocorreu nada para dizer .Tão pouco ouvi ruidos asquerosos. Falar-me do que pensas.Os machos parecem bastante depravados . não importa.Porque tinhas os olhos fechados. .Como eu.É que.lhes penduram a lingua. Frank.Suponho que depende do tipo de animal com quem havia estado fornicando.observou ele .disse retirando-se um pouco para me olhar.. Jamie. Depois de uma pausa lhe alisei o cabelo. babam. .disse.Eu também. . .Me sentia tão sozinha sem voce .

com vinho e biscoitos. eu havia o resgatado da prisão de Wentworth e de uma sentença de morte. Um lugar proveniente da França. na imprensa.É mesmo? . sim. Ou talvez tem sabido de alguma atividade na costa que poderia atrapalhar. Ele assentiu sem afastar os olhos de meu rosto.Não estou triste mas me sinto um pouco envergonhado .As vezes. um pouco envergonhada. .Bem. . Notei que me estudava com atenção.Ao menos assim deveria ser.Foi minha primeira cirurgia ortopédica. Desde nosso reencontro vivia com fome. mas me informarei. .Algumas. poderia se dizer que.perguntei. ainda mais contigo. .O que deve acontecer amanhã? .o cirurgião trata de curar utilizando uma navalha.E voce? Se preocupa com o jovem Ian? .Voce se lembra da noite em que me curaste a mão? . mas não a tempo de impedir que Jack Randall. Bonita contradição.O que faz de especial os cirurgiãos? . sassenach. Me perguntei. carregado de vinho e batista.Temos duas horas pelo menos. em meus momentos mais horríveis. . estou como que no paraíso. .Voce sempre foi especial .sorriu . aproveitando a lua nova.E sir Percival te estava advertindo para não aparecer neste encontro? .reconheceu Jamie agitando os largos dedos do pé para por suas meias .Sim.Jamais esqueceria aquela noite.. .Não tanto por ele como pela possibilidade de que não apareça antes de amanhã. Sassenach . Devemos nos reunir com Ian as cinco. Devias partir amanhã? Assentiu . . Depois colocou as mãos sobre os joelhos com as palmas para cima e as flexionou.Por que? . enquanto Ian corre pelas ruas atrás de seu filho. . contigo. Então recordei tardiamente a conversa com senhor Percival Turner. . . Ah.exclamei sobressaltada. Os dedos da mão direita não se esticavam bem.Parece que sim. .Se veste que eu pedirei para trazerem vinho e biscoitos. que aspecto achava: corada depois de termos feito amor. Devo encontrar-me com alguém na enseada de Mullin. Contra todas as possibilidades.Já fez muitas vezes? . Talvez há um funcionário da Aduana no distrito. Me pareceu estupendo. Franziu levemente a expressão. Não sei o que pode ter acontecido.Deu uma olhada na janela para avaliar a luz. o Black Jack. Sou cirurgiã. com o cabelo desalinhado.Bom. . mas se especializa em algo.Alargou o sorriso ao ver que eu tentava arrumar o cabelo.. o torturasse cruelmente. para averiguar como anda a busca de seu filho.Nunca te ví tão encantadora. . .perguntou com curiosidade. Depois se afastou cuidadosamente de mim. quer dizer: um tipo de médico que conhece todos os ramos da medicina. . tua viagem ao norte.perguntei concentrada em meus laços.

. mas mordi eles. . lentamente.se podia por essa navalha ao meu serviço e bainhado outra vez.e eu sei. Com frequencia. .Nem de ir quando não fosse apenas pela cegueira da necessidade. atá a diminuta letra C gravada na base do polegar: a marca que o identificava como meu.Uma cigana que conheci nas Terras Altas dizia que as linhas da mão não predizem a vida: a refletem. . és como uma navalha. Com uma bainha muito bem trabalhada. . .. Meus lábios se contrairam com o impulso de fazer um comentário.Esta deve ser a linha da vida. . como os cavalos. suas elevações e suas linhas profundas. quando queres. mas seu rosto abrandou-se ao me olhar. . . não é? .. acariciando os dedos torcidos e os dedos grandes e duros. Mas podes ser implacável. uma e outra vez. Portanto é possível que a minha tenha salvação. . Se era eu o dono de minha alma ou se me havia convertido em escravo de minha própria espada. . Agora o que eu penso. Isso é o que me dá esperanças. Ela dizia que trazemos essas linhas ao nascer. mas logo mudam com cada coisa que fazes segundo o que és. com um gume muito fino e perverso.Voce tem essa força.Não sabia nada de quiromancia.Deixa teus cachos em paz. Soltou um bufido. mas me fixei em uma linha profunda que partia desde muito acima birfucando-se várias vezes .Não acreditei ser capaz de voltar a rir no leito de uma mulher .contraiu levemente os dedos deixando a mão aberta..Deixou morrer a voz observando-me com paixão.disse em voz tão baixa que apenas pude ouvir .E o tens usado. ele sorriu com certa ironia. Não pude responder.Voce também o tem . Consegue ver estas bifurcações? Suponho que indicam muitas mudanças. um aço fundido temperado. Suponho que deves usá-lo com muita frequencia. E pensado. Ao notá-lo. . .. Sem pensar. Passei um momento sem dizer nada. . A apoiei em meu joelho com a palma para cima e recorri com o dedo. Sorri com certa ironia. .disse. Porque eu sou. Sassenach. -É mesmo? . . sem perigo. toquei a cicatriz que lhe cruzava o dedo medio.disse .Apesar de agora ser muito mais que quando eras jovem.mas talvez.Perverso? – estranhei. mas soltou meus dedos que estava segurando na mão.Sua voz havia adquirido um tom de amargura.Eu sei.Não estou dizendo que te falta coração..É verdade. E dentro. muitas escolhas. Era uma mão de guerreiro mas já não guerreava mais. tanto que já não era apto para ter uma relação humana. Sassenach.Já tinha visto isso em voce.Não te imagino como um cavalo . E também a alma.eu disse .. Depois comprendi porque ele via com tanta claridade o que Frank nunca havia apreciado.Sua voz se tornou muito mais suave. .Não sei. que havia desembainhado muito pouco. mais alegre que desdenhoso.Muitas vezes me perguntava . Foi um comentário rápido. . Ele assentiu com a cabeça.

Assim começou a associação.explicou . descemos para a taberna para conversar. e algum local discreto que se pudesse utilizar para armazenar provisionalmente a mercadoria no transito.. Comecei a rir. isso. assim seguirei por muitos anos.deslizei um dedo pela dobra. carregada com caixas de papel e barris de alcool para diluir a tinta no poeira.me explicou . Obviamente. sem mais rodeios. esta primeira divisão deve ser quando conheci o Jack Randall. disse que eu mesmo devia escrever um pequeno artigo.. Sassenach.. dizendo que morreriam todos de velhice antes que eu pudesse escrever algo intelegível. .me interrompi para olhá-lo. -Mas não queria falar de Culloden. que podia encarregar o que desejava. a segunda quando me casei contigo. foi por casualidade. . Tenho combatido muitas vezes com a espada e com o punhal. Adiantou o dedo. Gage estava explorando as simpatias de Alexander Malcolm:ao identificar seu acento montanhes..Com um pouco de sorte. E quando vim a Edimburgo. . por fim.Estou bastante bem . . no principio foi estritamente comercial. arqueando as sombrancelhas. quando me encarceraram. . . todos inocentes. mas com o tempo se foi profundando até converter se em amizade.Me fazia pequenos encargos. mas vinha com frequencia e ficava conversando comigo e com Georgie. .Foi por um homem chamado Tom Gage . Então pensei: Caramba.mas não para sempre. depois deve ter notado que eu conhecia melhor o ofício.Então.Bom.Talvez. mencionou a alguns conhecidos que o tinham visto em dificuldades depois da Rebelião por suas ideias jacobitas e manipulou habilmente algumas reuniões até que a divertida presa lhe disse..Uma vez o trabalho estava feito. os homens do rei não se inteiraram. . No principio. Somente depois de comprar a empresa de Carfax Close.disse . Tom me apresentou a vários amigos e. . Posto que possuia uma soma considerável.Enquanto esperava que me atendessem vi chegar uma carreta.É verdade . contratar a Geordie e receber os primeiros encargos.Alargou a boca em um sorriso . . . Ele contraiu os dedos como se tivesse cócegas. . com utilização de cavalos. flexionando os dedos.Para ser impressor.Ah. mas todo guerreiro chega o dia que lhe faltam as forças. lhe ocorreram as outras possibilidades do ofício. .E Culloden pode ser a outra? . estava buscando um negócio que serviria para dissimular e facilitar o contrabando.A imprensa me ocorreu quando fui encarregado de alguns cartazes . decidi adquirir uma empresa cujas operações normais requizessem uma carreta grande. Esticou os braços mais pra frente. E quando regressei. graças a um serviço recente.Como lhe ocorreu ser impressor? É a última coisa que havia imaginado.Aqui. isso é interessante! A policia nunca suspeitaria de um lugar assim. estão próximas. Olhas.

como se o fogo estivesse falando consigo mesmo.O que acha que aconteceu. . demorei vários minutos para notar que acontecia algo estranho.Os ingleses me tiraram a espada e o punhal . Por fim nos encontrarmos de frente a multidão. nos adiantou com passo enérgico detendo-se diante de mim e fazendo-me tropeçar nas pedras molhadas. Pelas janelas da imprensa surgiam densas nuvens de fumaça negra. vermelha e dourada.Q.disse . Por cima da gritaria das pessoas se ouvia um sussuro crepitante.concluiu suavemente tocando os caracteres que eu tinha na minha palma . . se detinham mirando para cima e foram correndo a rua abaixo. devorando-o como um cavalo faminto. . Um homem. mas as nuvens refletiam a luz do sol poente. creio que é em Leith Wynd! Nesse mesmo instante outra personagem gritou <<fogo>> e as pessoas se lançaram em tropel rua abaixo. .Fogo – disse .perguntei agachando-me para recuperar o sapato que me havia saído. sim em Carfax Close. em vez de deter-me.D . Num momento notei que o resplendor vermelho das nuvens era muito mais intenso.Mas Tom Gage voltou a me por uma arma na mão.O que passa? . .. Me perguntei como podiam suportar lá dentro. uma onde de calor me golpeou a cara. Não me fez falta tocar as bordas para saber a que letras correspondiam esses tipos. . E não penso devolver. logo caiu de joelhos e entrou de gatas.O calor era tão intenso que me esquentava nas pernas. Depois me dei conta que todos.. Eu o seguia mais próxima antes de que as pessoas voltassem a fechar-se. Edimburgo jazia abaixo numa neblina que não tardaria em converter em chuva. As quinze para cinco descemos de braço dado pela pendente empedrada Royal Mile.Minha imprensa! . Jamie subiu os degraus da entrada e abriu a porta com um ponta pé. Num estado de extase.Meu Deus. A cidade refulgia ao nosso redor como se compartilha-se nossa felicidade. na rua vizinha. ao nosso redor. Eram frias e duras ao tato: retangulos de chumbo. Jamie se lançou entre a multidão sem vacilar. sem parar coloquei o outro sapato e segui correndo.E.? Mas quando me voltei para Jamie vi que ele também olhava fixamente para cima.Com um grito de angustia. Uma nuvem de fumaça surgiu do interior. esticando o pescoço no esforço para ver. parecia pestanejar de um modo muito pouco característico para um acaso. Inspirados pelo exemplo. Jamie já estava em movimento e me arrastava detrás dele. Saltando incomodamente sobre um pé só. vários homens subiram os degrais da oficina e desapareceram no interior cheio de fumaça. pequenos e pesados.Mexendo a cabeça. Ao agachar-me para entrar. impaciente pelo nosso passo serpenteante. Por um breve instante vi que se cambaleava pelo impacto da fumaça. abrindo caminho com a força. escorregando e tropeçando nos frios calçados empedrados. A entrada se amontoavam curiosos. O incendio não estava em Leith Wynd. tirou do bolso algumas coisas que colocou em minha mão.

onde protegeu protetoramente sobre ela como uma galinha choca. Despertado pela corrente de ar que penetrava pela porta e as janelas. arrastada por homens já que os cavalos não podiam circular por aqueles escorregadios empedramentos.me gritou no ouvido. Edimburgo é uma cidade de pedra com tantos edifícios amontoados. detrás de mim. dando volta pela esquina. jogaram as jaquetas do uniforme e começaram imediatamente a atacar o incendio. cambaleando-se embaixo com o peso de uma máquina enorme: sua preciosa imprensa. a cada sopro de ar quente me secavam os pulmões.com lenço na cabeça e avental. Uma dama roliça. Uma nova comoção. equipados com lareiras e chamines. a quem lhe chovia objetos arrojados pela janela impedido de lançar a água.Atrás de mim. que continuava avançando. Apareceram varios pares de pernas embaixo da fumaça que brotava na porta. Depois de empurrá-la para o centro da multidão. O calor ia cobrando intensidade.Ian apareceu subitamente ao meu lado abrindo passo entre a multidão a passo de pato de pau . Estava aterrorizada por Jamie. os gritos confusos se aplicavam ao ruido do fogo. correu ao interior do edificio. Jamie estava entre eles. arriscou sua integridade fisica para arrastar uma pesada bandeja até a calçada. não pareciam ter muito efeito sobre o incendio. . Por mais valentes que foram os esforços da brigada. Houve uma súbita comoção na porta da imprensa. As pessoas se abriram como o Mar Vermelho para dar espaço para a máquina. a voz do fogo não era mais um sussuro. rompendo as janelas e passando os baldes de água a toda pressa. Enquanto isso. voltaram de novo para dentro do local. Os excitados meninos pegavam voando os baldes vazios que empurravam no degrau e corriam para enche-los outra vez. . sim um rugido satisfeito. seguido por cinco ou seis de seus homens. Depois. que saiu zumbindo pela janela e aterrizou no chão empedrado. A linha voltou a formar-se com rapidez. Quanto tempo mais poderia respirar naquele inferno de fumaça e calor? . Enquanto eu corria de um lado ao outro. Já era muito tarde para tentar novas manobras de resgate: se ouviu um estrondo no interior e uma nova rajada de calor fez as pessoas retrocederem. justo a tempo para evitar que uma bandeja com caracteres de chumbo o golpeasse. Dois ou tres malandrinhos escapuliram entre a multidão e começaram a pega-los enquanto recebiam uns cascudos de alguns vizinhos indignados.Lá dentro! . espalhando estrondosamente os caracteres por toda a rua. anunciou a tarde chegada da autobomba. o primeiro homem na linha dos cântaros deu um grito e deu um pulo pra trás. gritou algo a seus homens e pegando um lenço empapado no nariz. O chefe da Guarda Municipal. reluzente como um brasa ante o reflexo das chamas. apareceu sei homens. Logo. os cântaros ocupavam-se passando de mão em mão a bomba mais próxima. obviamente acostumados nessa tarefa. que os incendios deviam ser algo bastante comum. as janelas do piso superior se encendiaram em chamas dançarinas. uma nova serie de gritos anúnciou a chegada da Guarda Municipal armada de cântaros.Onde está Jamie? . a multidão crescia: as famílias que ocupavam os pisos superiores dos edificios próximos tratavam de dirigir apressadamente em uma horda de meninos excitados para leva-los a um lugar seguro. tratando em vão de ver algum movimento no interior. Era uma maravilha de bronze.gritei a minha vez acenando.Jesus. Maria e José . Os guardas.

como se soluça-se. . Apenas um minuto depois se abriu uma janela no piso superior da Chocolateria.Olhou ao seu redor e num segundo empurrou Ian aos meus braços .O jovem Ian está lá em cima! Ele deu um passo pra trás. Não havia um modo de saber se aquela figura era o pequeno Ian. .Alguns homens sairam do edificio. homem. Seguindo o exemplo de Jamie. respirando com dificuldade. Por ela apareceu a cabeça e os ombros de Jamie. .gritei . acentuada pelo desespero paterno. com toda a velocidade que a perna de pau lhe permitia. A mão de Ian se fechou sobre meu braço como as mandíbulas de uma armadilha. enegrecidos pela fuligem e empapados pelo suor de seus esforços. Em um instante precisamente pegou Ian pela cintura arrastando-o para trás. Jamie ofegava.gritou . mas caiu para trás ficando envolto pela fumaça.gritei correndo atrás dele. Tenho certeza. O coração me subiu pela boca. ia arrastando aqueles que o seguravam para as chamas. Saiu para a beira e virou com cautela. seu cabelo parecia uma labareda do incendio principal. Inclinando sobre a imprensa. ví uma silhueta assombrosa na janela do piso superior. . . A equipe da máquina bombeava com desesperação.Espera! . e cravou os olhos desesperados pelas janelas superiores. Ian se debatia entre as mãos de vários vizinhos que tentavam impedir que ele fosse.Não se preocupa .Não. Ian mancando já estava indo para a porta da imprensa.gritou em voz tão alta que se fez ouvir em cima do ruido da multidão e do fogo. Ian não respondeu. passando a manga pela cara enegrecida.Em cima! . mas sem dúvida se tratava de uma forma humana. As fracas mãos dos membros da Guarda (em sua maioria veteranos dos regimentos escoceses) não podiam contra a força do montanhês.Para trás.gritou rouco . Pareceu se forçar brevemente com o batente corrediço. girou e subiu os degraus do edifício vizinho. Lentamente.vou pegar o menino! Disse isso. . Permanecia imóvel e rígido como uma estátua. apertei com os braços a cintura de Ian disposta a não soltá-lo. mas sem pausa. mas o grosso jorro de água não fazia mais nenhum efeito sobre o incendio. Somente se via o fulgor do fogo. tratando de recobrar o folego enquanto agradecia aos seus colaboradores.gritou o capítão da Guarda Municipal. em cócoras. até chegar de cara com o edificio.Não pode! Não tem mais escada . enchendo de ar em seus pulmões. alguns vinham gateando. homem! . abrindo passos entre os paroquianos da chocolateria do piso de baixo. que haviam saido a olhar o alvoroço com as taças de peltre na mão. Seguindo a direção de seu olhar.lhe disse inutilmente .Ele vai salvá-lo. lhe segurando as mãos .Segure-o! . tossindo e afogando-se. talvez não me ouviu. . não podes entrar! .Ian! .Já caiu a escada e o teto não tardará! Ian era alto e vigoroso. apesar de sua contextura fraca e pela falta de uma perna. Jamie respirou fundo.

Ao ve-lo não sabia se ria ou chorava.instintivamente Ian segurou o seu filho por debaixo das axilas para ergue-lo. me parecia que rezava mas tinha os dentes apertados e o rosto tenso pelo medo. embaixo.No telhado da imprensa tem um alçapão. era tranquilizadoramente forte.Está bem? . as duas figuras enagrecidas pela fumaça aterrizaram na calçada. senhora. o pesado rolo voou em cima até uma suave parábola. claro! .É meu filho! O barbeiro voltou ante sua olhada fulminante.Ian caiu de joelhos junto ao seu filho. esperava que não tivesse queimado o revestimento dos pulmões.Me fala! . a guarda municipal estava bem equipada. Era bastante obvio que nenhum deles poderia fazer o trajeto até o edificio vizinho. Muito menos Ian com sua perna de pau. Me sentei do outro lado do menino apoiando a cabeça em meu colo. Jamie se havia apoiado na grade da chocolataria. . e a expressão de entendimento com o que ele respondeu. Tossiu longo e espasmodicamente. . e fazendo com as mãos um alto-falante gritou: .Com um resmungo que era audível mesmo aos ruidos do fogo e da multidão.Ah sim. tratando desesperadamente de desatar a corda que lhe rodeava o peito enquanto lhe segurava a cabeça tonta. Depois de uns segundos de precário trabalho. o denso cabelo estava reduzido a umas mechas vermelhas descoloridas. sas e salvas. Respirava de um modo dificultoso e irregular. É seu aprendiz que está ali? . senhor.Voce está bem? . Sem dúvida o senhor Malcolm vai usá-la para entrar no piso superior. E naquele momento Jamie viu Ian. . de resto parecia bem. murmurando: . . Em um lado da frente. Ele murmurava muito baixo. Busquei o pulso no fraco pescoço.lhe espetou Ian . o qual não era de estranhar. Entre a multidão houve um grito que se converteu em bramido: duas silhuetas apareceram no telhado da imprensa. Vi um lampejo de dentes quando Jamie sorriu para o seu cunhado.E se afastou. ficou de pé na borda do telhado. parecia com um rosado intenso de um leitão recem tirado do forno. Jamie trazia abraçado o seu sobrinho. Jamie correu no extremo e desapareceu um momento para amarrar a corda pela chaminé.O que diabos Jamie está fazendo lá em cima? . dobrado e cambaleando-se pela fumaça aspirada. Um homem mais baixo não iria poder fazer. Ian me soltou a mão lançando-se mais adiante. desenroscando-se no trajeto até se lançar no braço estendido de Jamie com a precisão de uma abelha ao descer sobre uma flor. as sombrancelhas haviam desaparecido por completo e a pele. devido a fuligem.pensei. seu corpo delgado se convulsionava sobre meu colo.Não! .Corda! Tinha cordas. tinha o rosto negro e tossia como se fosse expulsar os seus pulmões. Não me dei conta de que havia falado em voz alta até que o barbeiro respondeu: . Quantas vezes haviam arranjado uma corda para lançar um fardo até o feno ou para amarrar um carga na carreta? A multidão voltou para que Ian pudesse girar o braço.

protestou Jamie enquanto enchia uma taça de vinho. Tinha razão: enquanto gateávamos até um lugar mais seguro. seu mal criado? . .Está bem? .Como está o menino? . senhora. .perguntou limpando o rosto com a mão. menino.. quer? Entre carinhosos murmurios gaélicos. . . .Volte. Estendeu uma mão. mas não estou totalmente segura.Sim.Creio que sim. Quando chegamos ao estabelecimento de Madame Jeanne.lhe advertiu . senhor . . Jamie conseguiu alojamente para sua prensa no depósito da barberia e tratou de repartir dinheiro entre os membros da Guarda e os outros assistentes. depois de um gaguejo incrédulo. entendes? . rindo tanto que apenas eu pude fechar a porta as nossas costas. como se tivesse preferido dizer que não. Pela primeira vez a cólera.Para trás.E agora. se aproximou de nós com passo cansado. E voce? Parece Malcolm X .Me alegro .inquiriu. mas o jovem Ian concentrou toda a atenção as múltiplas cabeças que apareciam no salão. o jovem Ian já podia caminhar.. Sorriu. Pouco depois. voce vai me explicar? Ou preferes que te faça falar a golpes para economizar o tempo? . Sua voz soava tão rouca que tinha sido impossível reconhece-la.O capítão da Guarda apareceu ao meu lado com a barba cinza eriçada pelos nervos e me tirou pela manga . Foi Bruno quem abriu a porta.era Jamie em córcoras ao meu lado. abriu de par em par.Não seria humano. só estou um pouco chamuscado pelas bordas. entregou a taça ao seu sobrinho. . sobressaltado. se inclinou até seu filho. O menino tinha um aspecto lamentável.Vai sobreviver. mesmo apoiado sobre seu pai e seu tio.Não por isso vou deixar de açoitar o traseiro.Está certo . mas ao mesmo tempo divertido .disse o pai cenhudo .Isso tirando o que tua mãe quer te fazer quando voltar a ve-la. . Ian . atrás! . .levantou uma mão ao rosto. mas não estava todo consciente. Ian levantou os olhos até ele.disse Ian inspecionando o seu filho. Eu também aceitei a minha com gosto. Ian e eu nos encontramos a sós com o menino.comentei dando uma olhada por cima do ombro agitado do jovem Ian. a preocupação e o medo desapareceram de seu semblante. Mas por agora fica tranquilo. o teto da imprensa caiu. Devo admitir que não éramos um espetáculo muito bonito. Uma vez instalados na pequena sala de cima e com a porta fechada. Não muito reconfortado mas o tom magnanimo dessa última declaração. buscou refugiu no fundo de sua taça.Não parece estar muito melhor que voce. Ian se voltou até seu desventurado filho. que o teto está a ponto de cair. O jovem Ian não respondeu. não.Não.respondeu o menino com um horrendo grasnido.É mesmo? .Acho que sim. . ainda não sou ex Malcolm. . Com um amplo sorriso. que aceitou imediatamente. homem. O menino continuava tossindo.Não podes açoitar alguém que acaba de se queimar até as sombrancelhas. mas logo sorriu para tranquilizar-me. mas creio que sairá desta. . parecia um flamengo recem saido do ovo.

. .Te sentes em condições de falar um pouco.. era torto e tianha um rabinho de marinheiro.Sim. .Responde ao teu tio.Pelo teu autentico nome. . que não podia tirar o vestido enquanto ele estivesse no quarto. E se interrompeu.Por que? . Em primeiro lugar: o que fazias na imprensa? E em seguida: Como começou o incendio? O jovem Ian refletiu.Jamie se sentou frente ao seu sobrinho junto a Ian. não tem problema. . O que aconteceu enquanto voce estava lá? Segundo era.Bom.Um homem . Jamie e Ian se ergueram imediatamente. por favor.se não queres que te ponha sobre meus joelhos e te açoite agora mesmo. . É importante saber o que aconteceu.o atiçou Jamie com paciencia. . pedindo silencio. Naquela manhã o jovem Ian tinha acudido a taberna de Kerse onde devia encontrar-se com Wally. foi ali onde havia visto o homem. Ian lhe deu uma olhada fulminante.começou o menino inseguro. disse: .advinhou Jamie . . menino. havia um homem . .perguntou Ian ásperamente. .Como sempre . os dois homens conseguiram arrancar do menino um relato mais ou menos coerente.É que eu tinha fome .Está bem.Sim.Eu iniciei o fogo. quem voltaria de seu trajeto trazendo o conhaque para encher os tonels que usariam como cevo.O jovem Ian tinha se tranquilizado graças ao vinho.interveio Jamie. Jamie deu um sobressalto. creio que sim . Ambos se olharam. parecia profundamente infeliz.Quem te disse para ir lá?. mas manteve a boca fechada. me surpreendi com o olhar de interesse que me lançou o menino e decidi.Perguntou por voce. Depois de um pigarro que pareceu o coaxar de um sapo. . idiota .Bem. Um tipo pequeno com rosto de rato que estava falando com o tarbeneiro. repetiu com mais firmeza . com pena. Depois de tomar outro gole de vinho para dar coragem. Em base de ameaças similares.Por Jamie Fraser.. . a atmosfera tensa do quarto se aliviou um pouco. eu sabia que ele estava aqui.queres dizer? .comentaram o pai e o tio ao mesmo tempo.Assim então voce entrou na taberna para comer algo . ao ver que seu sobrinho parecia voltar novamente a ficar mudo Que homem? O jovem Ian apertou a taça entre as mãos. filho? .grasnou o jovem Ian com cautela. tio jamie . Vamos deixar isso para mais tarde.Posso sim. Ian.Eu . Jamie queria falar se corrompia bastante.Enquanto me desgrudava do corpete molhado nos peitos.disse o jovem Ian. lançando uma breve gargalhada. Logo agitou uma mão ao seu cunhado.ordenou o pai áspero . . . .

. . por qual o marinheiro não tardou em abandonar a taberna.Sim.Claro . . O pai estalou a lingua ante o escandaloso desperdício mas as sombrancelhas ruivas de Jamie se levantaram ainda mais.Não provava? . filho? O jovem Ian estava se deprimindo outra vez.Somente na taberna Perros e Pistolas e do Cerdo Azul. . O marinheiro havia perguntado ao dono do estabelecimento que mais podia ser um velho lobo do mar.É o nome que uso no cais. O menino sacudiu a cabeça. para encontrar um tal de Jamie Fraser.Ian deu uma olhada de desconcerto para seu cunhado. Ian..Ian apertou os lábios e voltou sua atenção a seu filho.explicou o menino gaguejando.Fez uma pausa para tossir e pigarrear. em cada estabelecimento pediu conhaque e repetiu a pergunta.Voltou a concentrar-se no sobrinho.Deve ter uma cabeça muito firme para beber conhaque . mas fechavam a boca quando me viam. mas ignorava que o pequeno estivesse te ajudando . . . .O marinheiro pediu conhaque e perguntou ao tarbeneiro se conhecia um fornecedor de licores chamado Jamie Roy ou Jamie Fraser.disse suavemente para sí próprio .deixou a frase sem terminar para tragar mais um pouco. .O menino assentiu com a cabeça enquanto bebia outro gole. logo pareceu ter uma revelação. o homem se inclinou um pouco mais. . seguido próximo pelo jovem Ian. . O proprietário se manteve surdo como uma parede..Sim e também conhecia o teu outro nome: Jamie Roy. menino. .comentou o pai. O homem havia visitado metódicamente uma taberna atrás da outra. aproximando uma moeda e perguntando-lhe em voz baixa se o nome de «Jamie Roy» lhe era mais familiar. Somente cheirava.Então foi assim . Não voltarei a interromper. e entramos em cinco antes de que.Jamie Roy? . Por Deus.Estava atestado .E o que aconteceu depois. havia corrido uns oito quilometros em menos de uma hora até chegar a taberna de Buho Verde. Ali se repetiu a mesma cena . .. Como o taberneiro fingia não conhecer esse nome.Pela manhã havia sucedido algo e todos estavam falando do feito.Me pareceu que convinha averiguar quem era e que intenções tinha .. Do desconcerto passou a uma total inexpressividade. que tinha fama de dar trabalho a homens capazes. O homem era um bom caminhante.informou o menino .perguntou bruscamente. . seguido fielmente pela sombra de Ian. Ao ouvir esse nome deu um sobressalto.Ele não bebia. seguido de um Ian morto de sede devido a desgastante caminhada. Continua. sabe perfeitamente ao que me dedico! . que se deu de ombros com impaciencia. . caído em desgraça e necessitado de emprego. mas não disse nada. Nos outros lugares não bebeu nada. A cara de Jamie sofreu uma transformação assombrosa.

. com as orelhas ruborizadas. que voltou involutariamente. .Bonita maneira de se referir a sua tia Claire! Por não falar de mim e de tua mãe! .Ela.. Enganas a minha mamãe com esta rameira barata! Isso é o que quero dizer! Ian lhe deu um golpe que o derrubou sobre o sofá. Jamie Fraser! Trazer meu filho a uma casa de rameiras! . pequeno estúpido? ..Bebeu demais .Esta manhã voce se foi antes de que eu pudesse apresentar-me – disse. .lhe disse Jamie.Bom.Grandíssimo idiota! Bramou escandalizado .Que demonios voce quer dizer com isso? .Quero dizer que és um hipócrita de todos os demonios . O menino me deu um olhar. .O menino se pos em pé. Pai e tio trocaram um agrio olhar. .Pensei que tio Jamie devia interar-se. uma hora depois. ele adormeceu em um canto.E por que te ocorreu busca-lo aqui? . pouco mais ou menos.Então vim aqui .És um. a caminhada de oito quilometros e os efeitos do dois litros de cerveja. . ..Não és o mais indicado para falar. cambalendo-se e apertando os punhos fechados.Que descaro. que parecia estar divirtindo-se com a situação. . Olhou com certo alarme a Jamie. abrumado pela madrugada.. . entre Kerse e Edimburgo tinha muita distancia. contra minha vontade.exclamou o menino tentando defender-se. como eu ia saber que ele entraria em tantas tabernas? .Bom. descobriu que sua presa havia desaparecido. mas não o encontrei. .Reconheceu Jamie para calar o comentário de seu cunhado . E caminhar me dava muita sede.Quando resistiu? Segundo se descobriu. cai em uma gargalhada.exclamou Ian indignado. .um.explicou . foi em meio da Royal Mile quando o jovem Ian.. . . .Este menino ainda está embriagado . papai! .Ian cravou em seu filho uma olhada.O que? Ian estava vermelho.Mas minha tia está morta! .gritou avançando ameaçadoramente até o filho. .protestou estupidamente.Eu? O que quer dizer com isso. que logo desviou para o seu cunhado.. se parecia tanto a um pombinho pedindo comida que.Certo. Ao despertar.gritou o filho . filho .Ela .O jovem Ian me olhou da almofada boquiaberto. Ian pai não estava embriagado. . .concluiu Jamie resignado.disse acenando-me para explicar-se melhor. com as orelhas mais coloridas que nunca.Minha tia? . mas sua expressão se parecia muito a do filho..Muito aconselha teus filhos que devemos ser puros e fieis a uma só mulher! E mesmo assim voce escapuliu da cidade para correr atrás de rameiras! .Claro.hipócrita! .

Como acreditava que seu tio Jamie havia morrido em combate. .Aprendeu a caminhar antes de saber manter-se em pé. deixou caiu os olhos examinadores de seu pai e tio. tire para fora.comentou Jamie sustentando com a mão esperta o rosto de seu sobrinho.Jamie alargou a mão impaciente até a campanhia. depois da guerra.A Jamie . Encontrei a cozinha sem dificuldades e solicitei as provisões necessárias. . uma Dama Branca.Pão e leite .Não esperava ter que fazer isto até cerca de dois ou tres anos . igual a mim. É verdade? Troquei olhares com Jamie. elas disseram que voce talvez havia voltado junto as fadas. no galinheiro. Havia sido muito amiga do príncipe e . .Olhei a Jamie com uma sombrancelha alta. . . caia continuamente no fogo. .é ..Tá quente.Sim . Quando tio Jamie voltou de Culloden sem voce.Suponho que sim. .. que vomitava penosamente na escupideira que ele oferecia. não podia voltar a Escocia sem correr um grande perigo. . .E assim .. se apressou a desviar os olhos.Isso foi o que aconteceu. O jovem Ian estava boquiaberto. Mas quando descobriu que seu esposo não havia morrido se embarcou de imediato e veio em busca dele. . voltou junto a sua família.Algumas senhoras de Lallybroch contam que eras uma mulher sábia.Onde diabos está o que eu pedi? .Eu. que de imediato se pois mais contente.disse reagindo . . Jamie mantinha sua impertubalidade habitual mas seu cunhado parecia tanto atordoado e inquieto como o menino.Por Deus que romantico! Havia rompido a tensão do momento.Whisky . Me olhava com olhos dilatados. Ian vacilava enquanto seus olhos se amoleciam ao passar de Jamie a mim. Se encolheu de ombros com um leve sorriso. a frieza invadia a sala.disse dando uma palmada nas costas convulsionada Anda filho. a emoção e o excesso de vinho. na tina da cola.interveio Ian com grande firmeza .respondi . o jovem Ian.Não .disse com um sorriso . irei buscar.Sempre está adiantado! .. .recordou Ian com resignação .ou talvez uma fada.. .Não se preocupe. .disse entregando ao joven Ian. mas eu o impedi. A menos que eu pegue uma pneumonia por ficar com este vestido molhado. Enquanto rogava que Jamie e seu cunhado dessem ao menino alguns minutos de respiro.Ainda não. que elevou os olhos ao teto.Depois de Culloden escapou para França . Pouco depois deixamos o menino no sofá para que se recuperasse dos efeitos causados pela fumaça.Assim voce voltou .E este frio para as queimaduras. Ofereci a chaleira ao pai .disse o menino com alegria . Quando voltei ao quarto foi obvio que alguma coisa eu havia perdido.. não sozinho pelo seu bem.. mas sim também para não perder nada de seu relato.

. . . Depois. O homem havia parado na entrada. nos sentamos e escutamos o resto da história. . e finalmente voltou até a entrada da rua vizinha. Apliquei um cataplasmo nas partes queimadas do jovem Ian enquanto Jamie e Ian faziam as honras com o Whisky.Sim. mas na cozinha não tinha nada disso. caminhou alguns passos para a direita e desapareceu por um pequeno beco. .Compreendi de imediato suas intenções. . .Na parte de trás da rua há um pequeno patio. . O melhor que pude fazer foi isso.Para queimaduras não se trata com manteiga .informou o menino limpando uma gota de leite no queixo. Até que o homem pagou sua conta e saiu sem pressa.Do pé uma vasilha com várias panos umedecidos.Sim? E depois? .Foi diretamente a Carfax Close.Bom.disse o jovenzinho .Eu sabia que esse beco desembocava no patio atrás da rua vizinha. . . pois estava tranquilamente instalado bebendo cerveja. .Brilhante ideia .murmurou Jamie um pouco pálido.perguntou seu cunhado.Jamie levantou as sombrancelhas ruivas .Não visitou mais tabernas . Quando me aclarou um pouco a cabeça.explicou Ian . Tive que me esconder na alfaiataria do canto para que não me visse. Assim talvez o encontrasse.Água fria? . claro.onde acumulam coisas velhas. sim para descansar. mercadorias e coisas assim. .Céus! . Já mais repostos.Que panfletos? . .Bom . .expliquei . se o homem ia de taberna em taberna rua abaixo. O jovem Ian deixou seu prato vazio com um gesto de assentimento. Se deteve um momento no umbral. encontrou o negócio fechado.Sim. O jovem Ian permaneceu no pátio atrás de um tonel. me ocorreu que. o melhor era começar pelo outro extremo e ir rua acima. a imprensa. pensando.E o encontras-te? . Jamie disse baixo algumas palavras gaélicas. Ao que parecia não havia parado ali para pedir informação. A imprensa tinha uma porta no fundo que dava a esse pátio.Os novos impresos para o senhor Gage .Se usa suco de aloe ou de llantén.passei um momento caminhando pela cidade sem saber o que fazer. como se pensasse entrar por ali.Não tem manteiga? . já decidido. Me pareceu que pensava entrar por ali.me explicou Jamie .explicou o menino. . Logo deu uma vista nas pessoas que ia e vinha. E me lembrei dos novos panfletos. Ao ver que a porta estava fechada com chaves olhou as janelas. Quando estava começando a me desesperar vi o homem sentado em um bar da Destilaria Holyrood.ponderou Jamie .

Por um momento pude entender o que lhe havia custado aqueles últimos vinte anos.o marinheiro. . E voce me ajudou. Ian? Agora Lallybroch pertence ao pequeno Jamie. O recebi de meu pai e eu cuidei tão bem como pude.corrigiu Jamie . Ian girou para enfrentar a Jamie. não?Não é o meu filho. se fosse necessário. . . sim o teu! Ian fez um gesto de dor. Ian. .Por acaso não fiz tudo que pude para deter aquele estúpido? Não renunciei a tudo por essa luta? A tudo. Havia palidecido ainda mais que Jamie o olhava com uma mescla de horror e respeito religioso.Eu nunca te pedi.exclamou com violencia.. sim! De muito servirá isso quando a Coroa te mandar pra forca! Se descubrirem esses panfletos em teu local.Não tinha tempo para tirá-los . solene como uma coruja..Seus olhos lançavam lampejos de cólera. .Nunca poderia ter recuperado sem voce.Eram cinco mil.Maldito seja! . Ian! As minhas terras. não? E ele pagou esses panfletos.Ah..murmurou Ian.disse .Mas sou impressor.Não formo parte do grupo de Gage . -Voce perdeu a cabeça? Estás junto com Tom Gage e seu grupo de sediciosos? E por cima envonvendo o meu filho? Como podes fazer algo assim. é verdade...Com violencia. Cinco mil panfletos acabados de imprimir e empilhados na parte do fundo. Atacado por uma ideía súbita... .explicou Jamie sem rodeios.Sua voz se moderou. Jamie Fraser!Tens o cerebro de um pássaro! Primeiro os jacobitas e agora isso! Jamie ruborizou. por Deus! Mas é a verdade. .Politica ..Maldito seja. Lallybroch já não é meu. então foi por isso.Um argumento para recusar a última Lei de Selos.Tenho que carregar a culpa de carlos Stuart? .. . sem Jenny. Ian levantou as mãos em um gesto de grande irritação. Jamie? Como! Não temos sofrido já bastante por voce. Jenny e eu? . Mas ainda assim. se voltou até seu filho. Tinha que fazer.havia entrado pela janela do fundo e estava a ponto de abrir a porta.Não.Deixou bruscamente sua taça salpicando e o Whisky sobre a mesa . . Não estou te acusando.Ah.Ian estava tão desconcertado como eu.. . . Gage devia vir buscá-los de manhã na primeira hora. . Por isso voce ateou fogo? O jovem Ian assentiu. Não me doi ceder ao pequeno Jamie.E enquanto ter prejudicado a tua família. não tens se beneficiado.Meu Deus . O homem. exortando a oposição civil. .. Sabias o que diziam os panfletos. a minha liberdade e a minha esposa para tentar que todos saissem salvos! Enquanto falava me deu uma breve olhada.. . .

jamie. .. O pai palideceu. por muito que me implorou. Lhe tremia a voz e gaguejava com força para não chorar .Jamie. O cunhado passou uma mão pela frente. afastando o cabelo escuro. – Vamos. Os dedos ossudos do filho apertou os meus.Mas não o obrigou a voltar. .Se voltou de costas. Me estreitou a mão com força.Não pedi que viesse. .disse encarando Jamie nos olhos. Jamie sustentou o encaro num instante. . Ian: nunca permeti que o menino corresse perigo. atrás do sofá. .disse teu pai . Por Deus. O pulso batia com firmeza na clavícula. papai . tragou a saliva.Queria leva´-lo para pedir.Não.Não irei contigo. de falar. não é? . . Ian deixou escapar uma risada breve e sarcástica.Está certo.disse no fim com a voz baixa .Oh. Jenny não está dormindo nenhuma noite nem se quer em todo o mes! . inquieto. . mas agora não. . . brincou com a taça em pé. . eu disse que devia voltar a casa. Ian olhou a seu filho sem dizer nada.Bom. . mas não fez nenhum movimento de abandono no assento. .Ah. . sim? Queria nossa permissão para que o enforquem ou lhe deportem contigo? A cólera voltou a cruzar as feições de Jamie.disse.A cor estava desaparecendo do rosto de Ian.Ire. eu sei muito bem .veio até aqui sem que o trazesse.Pelo amor de Deus. Jamie se voltou para seu cunhado. eu o quero como se fosse o meu filho! A Ian havia se acelerado a respiração. Não deixei que lhe vissem nos cais nem que saisse com Fergus nos botes. mas seus olhos pardos continuavam entornados e brilhantes pela fúria. .Mas não é teu filho. .Ian. . que lhe permitisse viver um tempo comigo.Muito menos mandou nenhum aviso. tenho um quarto na posada de Ha-lliday. . lutando para dominar a voz e o genio. cheia de aflição. . Percebi em meu lugar.Tem idade suficiente para viajar sozinho . a voce e a Jenny. Eu tinha medo de mover-me.Então é assim? O jovem assentiu com a cabeça. e lhe apoiei uma mão no ombro em busca de um mútuo consolo.Sabes que não permitiria que corresse nenhum perigo . .Respirou fundo uma ou duas vezes mais e se voltou para o menino. O mantive afastado como me era possível.irei contigo pela manhã. mas captei o olhar de Ian. Não era por isso. papai.Ao olhar ao seu sobrinho sua expressão adquiriu uma rara mescla de afeto e irritação. com a cabeça agachada e os ombros tensos embaixo da camisa..Eu te juro. Logo murmurou. não? .disse . não é? É meu.Queria levá-lo eu mesmo.Sim.Sim .

mas alcançou o papel e o fogo me saltou para o rosto.Fez muito mal. A forja ainda estava acendida ainda com as brasas bem cobertas.Compreendo. O que tinha na mão era uma panela de cobre de cabo largo que se utiliza para verter o chumbo fundido nos moldes. .É que não podia contar nada. o crisol continha umas gotas ardentes de chumbo que voaram em direção a cara do marinheiro. .sussurou. Mas voce tem que saber. Jamie me lançou um olhar sobressaltado. chorando sem ruido. Foi como se toda a habitação estivesse em chamas.menti um pouco . O ombro do menino tremia embaixo do meu. . O marinheiro se havia cambaleado para trás enquanto se dava tapas na cara e se batia com a pequena forja espalhando as brasas por todas as partes. . Está bem. Ian. . como gritou! . o homem já estava ali.Quando entrei na imprensa com a chave que havia me dado.Por Deus.Não tive tempo de fugir e nem de pensar .começou Ian com voz tremula.O homem. Eu gritei que os deixasse e se voltou para mim com uma pistola na mão. .Acho que eu o matei .disse Jamie para sí mesmo. . girou e saiu fechando a porta com muito cuidado. pequeno . Ainda tinha os olhos cheios de lágrimas. . Não queria fazer isso! Jamie lhe deu uma palmada distraída no joelho. mas dizer semelhante coisa.Um forte calafrio correu no jovem Ian. . subitamente alarmado pelo tom de seu sobrinho.Bom. tio Jamie! Levantou os olhos. Me apertava os dedos mais que nunca.Como? . o marinheiro se arrojou contra ele levantando a pistola para usá-la como cassetete. . mas as secou com a mão.O sobrinho deixou escapar um bufo. filho. .Oh. filho.Era necessário.Os barris de tinta.Foi isso que iniciou o incendio . Está bem.murmurou. .disse Ian . . O homem do rabinho.Não queria fazer papai sofrer. . suponho . A pistola se havia disparado. . Rodeei ao extremos do sofá para sentar-me ao seu lado e segurar suas mãos. . Então me dei conta de que havia estado segurando o folego. O encontrei guardando alguns panfletos embaixo do casaco.. . Jamie se aproximou lentamente com a cara cheia de preocupação.Tratei de apagá-lo a golpes.A poeira se dissolve no alcool.Saber o que? . . Sem uma palavra mais. por Deus.O que tem ele? O jovem Ian passou a lingua pelos lábios para se armar de coragem. mas a bala se desviou. Sem se intimidar.. para grande susto do menino.disse o menino ..Eu sei.Busquei o que tinha mais a mão e o atirei...

Jamie lhe estreitou as mãos .Basta já..Em primeiro lugar. O menino assentiu. mas me encontrei entre as chamas que acendiam pelo vão da escada. . Não podia dizer a papai que sou um assa... . Ian . O jovem Ian balançou lentamente a cabeça..Olha-me. .. limpando o rosto com uma manga.Não te ocorreu sair do telhado pelo alçapão? .Ian .perguntei com curiosidade Jamie me deu um sorriso fugaz. afastei de um empurrão .Oh. .. não pensava precisamente nos incendios..um assassi.nunca voltarei para casa. . Falava com o rosto afundado em meu seio.Não sabia que existia.. enchendo rapidamente o quarto do piso superior com uma fumaça cegadora. filho. .pecado mortal.Não? . .O jovem Ian sorveu ruidadosamente pelo nariz..Não acho que pudesse .disse seu tio com firmeza dando uma palmada em seu ombro. em defesa própria. Pode se confessar com ele para que te absolva.. . Ainda devo reconhecer que quando a fiz abrir..respondeu o menino soluçando outra vez . Me limitei a encolher os ombros.a sílaba dava um profundo alivio.pela manhã iremos juntos falar com o padre Hayes.. se é necessário.. Não! Me olha! . O marinheiro. Por fim o rodeei com os braços. Não fez nada errado..E se tá morto fui eu quem o matou. Jamie lhe deu outra palmada no joelho..Não. . Assim então voce não cometeu nenhum pecado mortal e não está condenado. de joelhos no chão lhe fechava a passagem até ao quarto de frente e até a salvação. de tua família ou de teu país. Perdida a cabeça por completo. com a voz tão distorçida pela emoção e que me custou entender suas palavras. acariciando o cabelo revolto do menino. cegado e uivando como alma penada.Não . mas de ossos leves e com tão pouca carne que me dava a sensação de sustentar um esqueleto. Chorava demais para poder pronunciar a palavra. optei por fugir as escadas para cima.Para casos de necessidades..disse novamente estremecido.. mas te dirá o mesmo que eu... acha que o homem não escapou do fogo? . condenado ao inferno.No papel em chamas caiu entre Ian e a porta dos fundos.não suportava tocá-lo. . Jamie levantou as sombrancelhas.Não. .Está bem. não pude dizer ao papai. não é pecado matar a alguém que está tentando te matar. .. mas não desejava chorar e tremer. Ian. Tonta é a raposa que tem uma só saida em sua toca. ... Me era estranho te-lo abraçado. A igreja permite matar.ordenou . Por fim ele se inclinou para frente e o o segurei com firmeza pelos ombros para ergue-lo.... segurando-o como um recem nascido. medo.O que fazia essa porta ali? . .perguntou Jamie.assegurou Jamie com um sorriso nos olhos . era quase tão grande como um homem adulto.Não és nenhum assassino .

se não. Para que possa descançar e não te persiga... sabe? Exceto os soldados as vezes quando estão muito embriagados.Não.Voce acredita? .não creio que. mas. Encolheu os ombros e voltou a inchá-los. Com isso basta se não tem pecado mortal. Amen>> .concluiu . claro. Jamie assentiu pegando uma espécie de pãozinho recheado quente.O menino havia aceitado sem vacilar sobre o estado de sua alma..Bom.O que deves fazer . mas a penitencia és poque lamenta profundamente a necessidade que te obrigou. Jamie gaguejou.Depois aprendes a viver com a recordação...Ele esteve em combate. Mas provavelmente é que lhe saem canas verdes no ato. CAPÍTULO 28 O GUARDIÃO DA VIRTUDE — O homem que seguiu Ian pode ter algo haver com a advertência do Sr. .um bom ato de penitencia.Os olhos de Ian encheram de esperança e da dúvida . assim que voce pode ficar tranquilo. . Imaginei que. Logo assentiu lentamente: .Recebe esta alma em Teus braços.perguntou subitamente.Bom.disse Jamie com sinceridade. mas rápido levantou os olhos.. O homens não falam esse tipo de coisas..Por isso preferia contar a mim e não ao teu pai? Porque eu já tinha matado? O sobrinho assentiu.. Ian. .Sim. dizes esta: << Recebe esta alma em teus braços. se tens tempo para fazer. Mas saiba compreender. .Sim está bem. suponho.Não? . filho . Conheces a oração para a paz da alma? Te sentirás melhor. Não cometeu nenhuma falta . . Estava buscando um pano em sua manga. Compreendi que aceitava a carga posta pelo jovem Ian..Meu pai já matou algum homem? . . oh Cristo.repitiu o jovem Ian . oh Cristo. . . assaltados por uma ideia. Logo vai se confessar.que tu sabias o que se deve fazer. parecia que havia passado muito tempo desde a refeição de Moubray.Isso é tudo. Não tinhas alternativa.se queres que te diga a verdade. . Amém . -Jamie respirou fundo e trocou um olhar comigo .. desconcertado pela pergunta. Rei dos Céus.disse suspirando . Em meio da batalha. Rei dos ceús...E finalmente reza uma oração pela alma da pessoa que voce matou.. não sei. E depois? Jamie alargou uma mão para tocar-lhe a bochecha com muita suavidade. se puderes.Outra coisa: não deves ter medo de dizer ao teu pai. quando não tens tempo.Ah.Não posso assegurar que ele não ficará nervoso . Percival? — Destapei a bandeja que acabaram de trazer para oferecer-lhe.é se perguntar se podia ter feito alguma outra coisa. . mas este último parecia inspirar profundas duvidas.

O certo é que esse homem provou o vinho em alguma taberna que compra exclusivamente meu conhaque. — Poderia te rastrear por meio do conhaque? — Perguntei com curiosidade — Mais ou menos. — Somente por meio de um degustador. Ha um bando com o qual tenho tido algumas dificuldades. —Eh!— Arrebatou o prato dos dedos esqueléticos do jovem Ian— Se tem o estômago tão embrulhado. — Não — disse com mais clareza — Ha de ser questão de um contrabandista rival. Jamie assentiu com a boca cheia. está bem. — Pelo comportamento desse homem. Jamie suspirou. maior.— Não me surpreenderia — disse secamente—. pelo visto. —Espera tio! —protestou o menino olhando com nostalgia os saborosos pãezinhos recheados. Jamie continuou com sua explicação. havia recobrado o bom animo e. não me preocupa muito que alguém procure Jamie Roy nas tabernas. Um tipo muito valioso — acrescentou pensativo — e excelente para me seguir o rastro. logo outro. suponho —disse. — Mastigou meneando a cabeça — Não. o que você trás para a Escócia é identificável. aonde as pessoas percebem a diferença. — Jared me envia principalmente o produto de segunda qualidade de seus próprios vinhedos e reserva o de primeira qualidade para vender na França. não deves comer algo tão forte. poderia ser um degustador: alguém capaz de identificar a procedência de um vinho pelo cheiro e pelo ano em que foi engarrafado somente com uma tragada. Mas juras que não vai vomitar em cima de mim? — Não. — Bom. — Tenho uma fome terrível! Purificado por sua confissão. também seu apetite.tio — prometeu mansamente o jovem Ian. Como acha que consigo o conhaque Francês que trago para a Escócia? — Por intermédio de Jared. Ainda está vivo? — Para eliminá-lo teriam que trancá-lo em um barril e atirá-lo no Sena —replicou Jamie— Não só está vivo como desfrutando de sua existência. — Agitou a mão retirando as migalhas e pegou outro pãozinho. que só farejou o conhaque. —De acordo. —Depois de devolver-lhe o prato.Jamie assentiu com a cabeça. que haja bandos inteiros rondando por Edimburgo. o tipógrafo. — Então. De qualquer modo. mas não há por que se preocupar. — advertiu de cenho franzido enquanto mastigava— Vou pedir mais pão e leite para você. mas não acredito. — Mas sir Percival te chamou de Malcolm. E sabe que você é um contrabandista —protestei. isso é evidente. — Cheirou seu vinho antes de beber— O que me preocupa é que esse homem chegou à imprensa. Recorda-se do meu primo Jared? — Claro. Causa-me muito incômodo porque quem quer conhecer o Jamie Roy do cais são os mesmo que tratam com Alex Malcolm. — Não? — Dei uma pequena mordida no meu pãozinho. É provável que haja mais de um homem com a intenção de me prejudicar. E dei uma pausa para engolir. . .

. —Não acredito que ninguem em Edimburgo havia provado o creme de menta nos últimos cem anos —comentou Madame Jeanne— Estes escoceses pagãos não estão habituados com os licores civilizados. é preferível não o ter na taberna —confirmou Jamie— Que fizestes com o cadáver? O francês emboçou um leve sorriso. sim. Nossos clientes nunca pedem outra coisa que não seja whisky. Suas mãos quase tocavam as vigas do teto— E depois vamos nos deitar.. E se esse marinheiro se habituou a te ver com Fergus? Ou se alguma das meninas te descobriu? Afinal você não é um homem que possa passar desapercebido. milord.Entre uma coisa e outra. Pareceu-me que era melhor fazer uma venda rápida. Mas ignora que trafico licores em grande quantidade. como sempre fazia quando estava pensando.. tinha se tornado um homem muito bonito. Sir Percival é aficionado por tecidos finos e sua esposa ainda mais.. não? —Me piscou um olho .. O sorriso de pirata se voltou para mim. que lhe abriu a porta com a familiaridade de um irmão. Do contrario não se conformaria com apenas alguns cortes de tecidos. milady. —Nosso intruso também foi parar na taberna de MacAlpine. mas. —Exatamente. Fergus. a metade dos homens são contrabandistas. apesar do garfo. Sassenach. —Só me conhece como cliente — disse com lentidão— É Fergus quem se encarrega de negociar com as tabernas. mais cedo ou mais tarde —objetei— Não quero ser grosseira. —Se levantou para se espreguiçar. —De que? —quis saber. —De creme de menta. e ele nunca se aproxima da imprensa. não é verdade? De repente me ocorreu uma idéia. Acredita que comercializo sedas e veludos da Holanda. Sempre nos reunimos aqui em particular. Sassenach —manifestou— Posso averiguar facilmente se em outros dias tem vindo por aqui um marinheiro. tem sido um dia terrível. milord. verdade? —Mas alguem abrirá esse tonel. cerveja e o conhaque. —Esboçou um sorriso— Troco o conhaque por tecidos com o alfaiate da esquina. Porque com isso o pago. —É possível que este marinheiro tenha te localizado através de algum taberneiro? Passou as mãos pelos cabelos. te asseguro.. sua cara magra e suas madeixas escuras lhe davam um ar de pirata.— Nos portos próximos a Edimburgo. por desgraça. mas não me associa com Jamie Roy nem com James Fraser. . Madame —assentiu Fergus— Não convêm que os homens de MacAlpine provem o conteúdo deste tonel. — E se for assim? Qualquer homem pode entrar aqui sem despertar suspeitas.. devidamente disfarçado... —Sim. —Me sorriu com ironia— E não há nada de estranho em um homem visitar um bordel. Sir Percival sabe que me dedico a isso. Jeanne chegou junto com Fergus. Vou falar com Jeanne.. — Ia vender o conhaque —informou a Jamie— Sei que vendi a MacAlpine. — Muito bem pensado.. com uma defasagem no preço.

.. —Amanhã. o que te parece? Ou Penélope? . — Bom. — O que está dizendo? —Jamie olhava o seu protegido com os olhos arregalados. não! —balbuciou o jovem Ian— Sem duvidas queres ficar a sós com a sua esposa.. conseguiu dar um toque de impudicia a última silaba. —Jogou os olhos sobre o jovem Ian. — Bruno me disse que não há muito movimento no estabelecimento esta noite —interveio Fergus um pouco desconcertado— Que problema ha de o menino.. —A voz de Jamie soou um pouco estremecida por seu esforço de não rir. Apesar de gostar muito de sua tia.? — Ele tem apenas quatorze anos. sim. . jogado entre as almofadas como um espantalho sem seu recheio de palha — E devo providenciar uma cama para este jovem cavalheiro? —Oh... —Caramba.. —Bom. antes do seu descanso eterno. compreende? Logo se voltou para Madame Jeanne como um gourmand que consulta seu camareiro. —Assim que os vi entrar.—Exatamente. — Bem.. a algum lugar muito mais distante. h.É possível que Mademoiselle Sophie esteja livre essa noite? A Madame lhe dirigiu um olhar irônico. O sótão dessa taberna é somente uma pausa momentânea na viagem do nosso desconhecido. mas —falou se dirigindo ao jovem Ian—. verdade tio? —Quê? —Jamie o olhou sem compreender.Quase quinze! —corrigiu o jovem Ian com expressão de interesse. Hum? Como todo escocês das Terras Altas. Jeanne se dirigiu a porta. No momento. —Jamie observou o seu entristecido sobrinho — Poderia por um colchão no meu quarto. lhes perguntarei se tem visto esse marinheiro. quero dizer. milady. Monsieur. alguém tinha que se ocupar disso. quando as rameiras estiverem desocupadas. Sem intenção de faltar com respeito a seu estimado pai. Dorcas. dali. mas Monsieur não é. —O menino me olhou indeciso — Suponho que necessitarás. Mas creio que por esta noite posso deixar os meus desejos carnais sem satisfação. —Oh. Amanhã irá ao cais e... —No momento. este assunto é para alguém mais experiente...— E me alegra que tenhas uma opinião tão alta sobre a minha virilidade para acreditar que eu seria capaz de algo além de dormir depois de um dia como este. é suficiente. falando de estar desocupada. — Bom. E cumpriu com todas as honras.. dando de ombros. Teus irmãos não passavam dessa idade quando tiveram sua primeira vez. mon petit saucisson. —interrompeu Fergus . sem duvidas —assegurou Fergus pedindo a confirmação de Madame Jeanne com o olhar —. —Fergus me dedicou una respeitosa reverencia — Ainda que o creme de menta tenha um alto teor alcoólico. tens muita consideração... Ian... suponho que se tenha mantido livre.. por Deus! —protestou Jamie escandalizado. — disse Fergus com impaciência — Normalmente é o pai.

creio que tem razão —aprovou Fergus— Traga-a então. A porta se abriu. — E o que vou dizer a sua mãe? —perguntou. Geralmente nós só conhecemos um homem quando nos fere a alma por ter matado ou quando ele procura uma mulher. E saiu com ar decidido. Apoiou a bochecha nos meus cabelos. — Sim. desabotoava lentamente a camisa. ainda que não lhe sirvirem de nada. Jeanne saiu sem que Jamie tivesse tempo para fazer outra coisa se não emitir um grunido de protesto. sentado na cama.. —Bem. o menino não pode. Jamie. então vimos uma muito baixa. — Sim eu posso —assegurou o jovem Ian— Ao menos eu acredito. — Não sei se devo matar Fergus ou lhe dizer obrigado. — Não? Na minha opinião. Pelo menos conseguiu com que se sentisse melhor. — Foi o arcanjo Miguel que expulsou Adão e Eva do Éden? — perguntei enquanto tirava as meias. não —disse ela sacudindo a cabeça com decisão — Tem que ser a segunda a Mary.. mas. em teu lugar. Porque ela pode fazer o que ninguém mais pode. . pelo menos não lhe fazem mal. Boa noite tia. cura-lo... A pequena. a ruiva? Sim.. qualquer outra. — Suponho que deva fazer o que mais convenha ao jovem Ian. — Por isso que o deixou ir a segunda Mary? Encolheu os ombros e se afastou para tirar a calça. E se as orações.. — Mas. — Pareço-me com isso? O guardião da virtude? E Fergus seria a serpente maligna? —Pegou-me pelos braços para me levantar— Vem aqui.— Não. Quando já não podia seguir contendo seu fôlego sem cair desmaiado. se voltou para Jamie sorrindo com arrebatadora doçura. suave como uma perdiz. sem duvida. Soltou a braguilha de sua calça. Mas não disse tudo.. ainda que não tenha matado ninguém. Jamie riu baixo. com essa maldita imoralidade dos franceses. Ao vê-la o jovem Ian ficou petrificado. Sassenach. apenas podia respirar. — Hoje tem sido um dia difícil —Decretei obrigando-o a se levantar comigo —. com respeitável voz de barítono —: Em teu lugar não diria nada. tio Jamie. — Na realidade. A própria se puder ser.. Depois de pigarrear continuou. Sassenach — explicou suavemente—. não tenho sido totalmente sincero com esse garoto —confessou. — Sim. Se não. assim espero.. de cara radiante emoldurada por uma cabeleira ruiva. não gosto de te ver de joelhos me servindo. — sua voz subiu subitamente com uma alarmante nota de soprano. você tem sido maravilhoso. —Ah.

reverendo . — Suponho que sim —disse—. — Sim. mas.Quanto falta? .não quer. Aquele homem me era conhecido. querido? CAPÍTULO 29 A ÚLTIMA VÍTIMA DE CULLODEN Pela manhã. acónito . mas se dedicou amavelmente a buscar as ervas que eu desejava. — Eu? —Me olhou com as sobrancelhas arqueadas a camisa suja descendo pelos ombros..? O sorriso que se instalou em seu rosto. temia que muito em breve me fizesse falta. . quando Jamie e Ian partiram para cumprir com sua piedosa tarefa. O farmaceutico ficou boquiaberto. Me detive a comprar um grande cesto de vime de um vendedor de rua. .Louisa disse que era necessário fervelo.Não sei dizer. e mais as ervas e outros remédios.sabes que cheiro tem? . Uma quantidade muito pequena ingerida por via oral abaixava o ritmo do pulso e é bom para certas enfermidades do coração. mas não tive tempo de pensar onde havia visto antes. —Me dedicou um sorriso torcido— Ao menos não passará a noite desesperado pensando nesse marinheiro.— Não podia detê-lo.Caramba .É. já era hora de começar a ter os utensilios médicos que pudesse encontrar.espetou. Vistos os acontecimentos do dia anterior. . entre outras coisas um veneno .O que é? . Andava de um lado ao outro com obvia impaciencia e com as mãos cruzadas nas costas. Esse jovem Haugh não me conhecia.disse.. O homem que atendia o balcão era um autentico Haugh muito mais jovem daquele que conheci a vinte anos atrás. eliminou qualquer semelhança com Miguel.. No local havia outro cliente rondando o balcão onde se preparavam as poções magistrais.murmurou . O senhor Haugh olhava com ar em dúvida a lista que eu lhe havia dado.. — Suponho que não.E também um remédio .Acónito..Bom.lhe assegurei . Em uso externo é bom para o reumatismo. claro. . Logo se voltou até as estantes com ar indefeso e mostrando interesse.. o severo guardião da virtude. E pensei que era melhor permitir. ainda que seja tão jovem.se maravilhou o senhor Haugh gaguejando. Por fim se aproximou ao balcão. quando ajudava o seu negócio buscando dados sobre os militares. Mas trata-me com suavidade. saí atrás deles. . Não mataste ninguém. A farmacia de Haugh não havia mudado em nada.respondeu o farmaceutico em tom de desculpa . E você? —Lhe tirei a camisa.É preciso por com muito cuidado ao utilizá-lo. .

..Não .ataque? . .Não sei. . que havia tirado um lenço e respirava asmáticamente . em um frasco que entreguei cautelosamente ao senhor Haugh. talvez. Passa dias inteiros muda. Me sobressaltei ao recordar onde o havia visto: na taberna de Moubray. Ele passou a lingua pelo lábio inferior..Com bastante segurança minha mão se aproximou do frasco rotulado Dedaleira.estaria disposta a visitá-la? Não estamos longe .Bem.Que tipo de doença nervosa? Franziu os lábios e a expressão. .expliquei .Bem. Não deu sinal algum de me reconhecer. O encontrei muito rápido. isso explica as profunda rugas que rodeavam a boca e os olhos e as grandes orelhas azuis.Neste momento não posso .Bem.Talvez. . Seria melhor se pusesse em um frasco de vidro. O senhor Haugh havia se baseado na memória algum tipo de sistema? Fechei os olhos.Teria que ver a enferma. .O sacerdote estava apoiado ao balcão e me observava.Se sua esposa atua assim. No outro lado.Tenha cuidado.Parece saber muito mais de remédios que este jovem . . .Primeiro uma coisa e depois a outra.Temo que ainda não sou tão hábil com os medicamentos como era o meu pai . outro tipo de ataques.As duas coisas ao mesmo tempo? .Ali.Há de ser muito incomodo . Mas em geral. . Uiva e fica imóvel. . Raiz de Muguet. Cola de Caballo. . .disse com bastante rigidez. do outro. . Mas esta tarde. todas eram para doenças cardíacas. tratando de recordar minha última visita a farmácia. com a vista fixa e de repente grita como para despertar os mortos. seus olhos eram de um azul muito pálido embaixo das grossas sombrancelhas.informei baixando um frasco de helenio enquanto dava uma olhada ao impaciente reverendo.Devo me encontrar com meu esposo. este serve para tosses ..Interpretando isso como um convite. provavelmente tenho mais experiencia que ele. no dia anterior. .. . Observei as estantes cheias franzindo a testa. O Acónito não devia de estar longe.Basta um pouquinho disto para que se adormeça a pele. o que receitarias para uma especie de .Sobretudo ainda com tosse provocada pelo catarro. é um caso complicado. Tamboriei com um dedo o balcão reflexionando. . . duvidando se confia em mim.Convulsões epilépticas? O enfermo cai no chão e se retorce? . Tudo estava impecavelmente limpo mas obviamente não havia sido guardado por ordem alfabética nenhum remédio. Repassei mentalmente os possíveis usos dessas ervas.Não. rodeei o balcão para inspecionar os frascos.disse o jovem.esclareceu precipitadamente .Ele me ensinou muito mas morreu faz um ano e aqui tem coisas cujo uso desconheço. o que faria com uma doença nervosa? ..Hum.disse detrás de mim uma voz grave e rouca..

quando ainda nem havia cumprido os quinze anos? . não posso dizer que o conheça bem . nunca a ví. O que me surpreende é que alguém como ele venha em nossa farmácia. Na pousada de Henderson. Qualquer que seja sua enfermidade .Menos mal que se vá . se voce também é da Igreja Livre.Me cravou uma olhada. ao menos. .Não. papista .Ah.Foi voce que contou a Ian esse monte de mentiras que disse ontem sobre mim? . ele passa o dia berrando na esquina do mercado. isso eu pensei. . O reverendo olhou os seus com suspicacia enquanto buscava uma moeda no bolso.lhe assegurei .Suponho que.Pensei que poderias saber algo sobre a esposa do reverendo e sua enfermidade. No jardim da diretoria somente ficava um vago cheiro da fumaça como lembrança do incendio.disse de má voltande deixando no balcão.Este jovenzinho está demorando demais . . Não quero que me associe com Culloden. sabendo o que pensa os padres em geral. . tentando olhar por cima do muro até o jardim da diretoria. . . não o veneno da senhora.disse . uma mulher apareceu com a cabeça e seguiu com a vista ao sacerdote enquanto se retirava. Se lhe contar o mesmo que a Ian daria muito mais que falar. .Oh.sim.O conheces? .comentou enquanto voltava a se sentar . Fazia frio mas estava limpo.Não. Antes de que eu pudesse responder sim ou não. .e.As duas. serve .comentou . Se pos em pé e alargou o pescoço. .Sem animo de ofende-los senhora.Não. e ainda insulta! O senhor poderia ter escolhido melhor. .disse.Tantas coisa tem para confessar. eu também sou católica. para o consumo geral. Reverendo Archibald Campbell.. mas era uma história bastante aceitável e ele é muito bom amigo para exigir a verdade. não. aqui está o preço .. viver com esse homem não lhe aliviará muito.Bom.Louisa me olhava com franca curiosidade .Mas não devia ter dito o mesmo ao senhor Percival. .. voltando-se para outro cliente. em Carrubbers Close. .Meio penique por uma hora de trabalho. A cortina voltou a abrir.. Meu nome é Campbell.é um desses ministros da Igreja Livre. em vez de permitir pensar que estávamos recem casados? Sacudiu decidamente a cabeça. Louisa mexeu a cabeça.Espero que me tenhas dado o que eu queria.perguntei. Jamie e eu nos sentamos em um banco apoiado a parede absorvendo o pálido sol de inverno enquanto esperávamos que o jovem Ian terminasse sua confissão.. se abriu a cortina da dependencia e o senhor Haugh apareceu com seus frascos. Ian é muito inteligente para acreditar. .

mesmo porque poderia parecer um pouco indelicado..e não me parece tão terrivel.E está certo? .Tia-avó? .Seis meses. ..Eu.replicou austero .É.Espero que não haja um equivalente feminino de «tito».Crianças.Depois do dia e da noite que aconteceu ontem? Tudo depende dos detalhes que lhe pede o padre Hayes comentei recordando meu café da manhã com as rameiras .mas me alegro de ter essa utilidade. . . . O pequeno Michael acaba de se casar e sua esposa já está esperando.brinquei . sem fazer referencia a esposa.disse encolhendo os ombros e guardando o rosário no bolso.murmurei pensando na ala geriátrica do hospital.Bem. Com uma rápida provocada.O jovem Jamie já tem tres e Maggie e Kitty.tive que entrar primeiro..disse .Não.Não acho que um prepucio mais ou menos possa prejudicar a virtude.Não me ocorreu perguntá-lo. Ignoravas que te haviam feito tia-avó sete vezes. .. É impuro somente quando pensas em outras damas.No ano passado conheci um judeu .apontou alegremente . Para dar exemplo.Mil vezes obrigada . me pegou pela cintura para sentar-me em seu colo.Para todos és a tia-avó Claire..Quanto tempo faz que voce não se confessava? .. . diz que marido e mulher quando fazem amor é um ato de virtude.Não tinha ideia de que meu regresso era para salvar-te a alma . qualquer uma que está próxima .Um filósofo nato que havia dado a volta ao mundo seis vezes.comentou .Parece comido pelos ratos.Que crianças? .não. exceto por morderem meu rosário quando estavam saindo os dentes. bem podia castigar-me também por mentir. . não é? . violencia e blasfemia. As vezes. . . Jamie se deitou a rir. tanto a fé mulçumana como os ensinos judeus. sabe? .Não. não . mas já que ia me castigar por roubo. Se deitou a rir. Segundo me disse.Ficou aqui todo esse tempo? .repeti estupefatada. ..me assegurou .Jamie ruborizou um pouco nas orelhas à luz matinal .Oh.Como! Nada de fornicação nem de pensamentos impuros? . . Talvez tem algo haver com o fato de que os judeus e mulçumanos praticam a circuncisão . por sua recente liberação de todo pecado. ..É.. E falam de voce com muitíssimo respeito. O que aconteceu com seu rosário? perguntei reconhecendo ele que havia caido na grama. dois cada uma.disse recatada .Se podem pensar coisas horriveis sem que seja pecado. sem dúvida. esses vinte anos pareciam um só instante enquanto que outras vezes sentia um tempo muito grande.. Logo me deu um grande beijo. . eu sou tio-avô .é. .disse pensativo .Oh. Isso é que me chamam «tito». . Isso é o que disse o padre Hayes.Ratos não.Agora isso explica porque demorou tanto . em absoluto ..

.perguntei por curiosidade.Muito .Encantado Jamie se deteve para tirar o rosário do bolso.perguntou o menino quando saimos dos empedrados da Royal Mile. podes me emprestar o rosário? . O menino seguiu com os olhos em sua alta silhueta..Hum.respondeu Jamie secamente .murmurou. .É que tua tia acaba de ver uma aranha. .me estava perguntando se.Oitenta e cinco . a fim de inspecionar os restos para verificar as perdas. . Logo me segurou a cintura com mais força. Nas cinzas . cheia de preocupação. O sobrinho ficou boquiaberto. já sei que voce também vai precisar. Jamie deu um sobressalto que esteve a ponto de tirar-me de seu colo.Jamie tinha um brilho rosado nas bochechas. a voz do jovem Ian.Vá com tua tia visitar essa louca .Quer ir com ele.Quantos decenários deves rezar como penitencia? . E nem sequer a tenho visto ainda. .Não quero ir. tio Jamie.Está bem.Tio Jamie.Jamie me deixou para levantar-se e acenou a rama da tília.Não sei como o fazes.É somente uma mulher. E me mordeu suavemente a orelha. . ..Posso me arranjar sozinha..disse em tom tranquilizador ao jovem Ian. .disse .Bom.. Ian. .Mas não esquece de me devolver.. Soltei um grito. ao menos a loucura não é contagiosa. tio? . não.nós olhamos a nossas costas. .isso eu espero.Me piscou um olho sem pestanas. . Somente. se encontrariam algo.bom. filho . tia? . .lhe perguntei ..Oh.Sim. Tens apenas dois dias na cidade e já tens enfermos em vários quilometros ao redor pendentes as tuas atenções. . . representante da companhia com a que tinha assegurado o local da imprensa.Vamos! Depois de comer. . Realmente havia uma aranha estirada entre as ramas.disse fazendo-me saltar sobre seus joelhos. E são demais para se contar nos dedos.. cintilante pela umidade.se voltou para mim com uma sombrancelha alta . . O padre me disse que devo rezar cinco decenários como penitencia. Jamie devia se reunir com um certo senhor Harding. . nem pensar. .Nunca havia visto uma tia-avó com um traseiro tão bonito . .Claro que sim .Cuida bem da tua tia. que não parecia muito entusiasmado pela perpectiva de voltar ao cenário de sua aventura.Ali em cima .Quanto tempo faz que não se confessava. . tia! Parecia bastante encabulado.O padre me disse que tem sido muito mal e me aconselhou a não imitá-lo. Ian? .Me deu um beijo e uma palmada no ombro de seu sobrinho .. .Onde? . O menino sorriu. ..Não te necessito.

inquieto. Já são duas horas. .Levantou uma de suas rígidas mãos para buscar o pulso. farei o que puder . treze dias chegou a estar uma vez. senhora.O senhor Campbell teve que sair mas disse que estaria muito agradecido para ver o que poderia ser feito por sua irmã. tinha fé na capacidade de Jamie para manejar qualquer tipo de situações. Conversamos muito pouco enquanto subíamos a costa da Royal Mile até o albergue de Henderson.disse sem rodeios. Se iluminou o rosto. Enquanto examinava a enferma fiz algumas perguntas a mulher. O menino assentiu.Quanto tempo faz que está assim? .Não sei .disse . de costas ao fogo. Estava sentada em uma cadeira larga e baixa. . Irmã.Vamos. e de repente !paf! Estalou os dedos.prometi . .Quando está assim não responde . quer dizer . . Apesar de sua conversa com o padre Hayes. Nem uma palavra. Parece estar bem.Posso ver a senhorita Campbell? Deixando Ian na sala com suas lembranças. Eu diria que não tem motivo. interessada. falando e rindo. se inclinou para observar o aspecto de sua pupila.Bem. lento mas bastante firme. onde a porta foi aberta de imediato por uma robusta mulher com avental. já havia perdido vários dentes. Nem sequer a mim. . . . dois dias.O que provoca isso? Voce sabe? A senhorita Cowden mexeu a cabeça.Se o fogo foi muito intenso. . . Um menino nos conduziu ao terceiro piso.És a dama que o reverendo me anunciou? .Pode estar assim uma semana ou mais. mas seus olhos azuis não pareciam ver nada.Um cadáver. . Logo. A senhorita Margaret campbell tinha trinta e sete anos e era o único membro familiar do reverendo. com quem vive a mais de vinte anos. . Teu tio saberá o que fazer.. talvez não tenha nada. passei no dormitório do fundo com a mulher que disse chamar-se Nellie Cowden. para dar efeito a faze-los sonar deliberadamente embaixo do nariz da mulher. Mas não se preocupe.Senhorita Campbell? . de momento . Tal como havia me anunciado.A senhorita Cowden. a senhorita Campbell tinha um olhar fixo.explicou Nellie Cowden . ali estava. Mas não aparetanva mais de vinte e cinco anos.Oh. que luzia uma expressão preocupada.Não senhora. Ian tinha um certo ar sonhador. desde a morte de seus pais.Ante meu gesto afirmativo. Então começou a sonar os sinos da igreja. não esposa.pronunciei com cautela. sua expressão se animou um pouco. E mexeu a cabeça limpando mas mãos no avental. . .

Mas a senhora já não era muito jovem e não quis abandonar a casa.A pobrezinha está mal da cabeça desde os vinte anos. a quem não lhe molestasse viajar com uma enferma. de tantas lembranças espantosas. como disse o reverendo? .Para as Antilhas? Pensa embarcar com a senhorita Campbell? .Seu pai era monárquico. . As pupilas se contrairam como resposta automática da luz.disse lentamente a senhorita Cowden . Logo acaba dormindo. tinha dezessete anos.Me levantei .não se pode dizer . claro. pois a senhorita Margaret saia escondido de sua casa para se reunir com ele e dar-lhe todas as informações que tinha escutado das conversas de seu pai ou lendo as cartas de seu irmão. . onde viviam. . Aceitaria uns tragos cordiais.perguntei.Disse que com a mudança de clima poderia se sentir melhor . Havia nascido em Burntisland. o senhor Campbell tinha o cuidado de outra mulher. eu somente sei o que me contou Tilly Lawson.Mas não leva todo este tempo ao seu cuidado.. A mulher se desviou até a mesa. Com um deles. senhora. . e seu irmão estava em um regimento do governo que marchou até ao norte para acabar com a rebelião. pediu um mulher forte.Bom. .. onde havia uma garrafa e varias taças.Estar longe da Escócia. normal.O que acontece então? Grita.As vezes grita de um modo espantoso até ficar esgotada. quem a cuidou durante muito tempo.Oh. E aqui estou . Margaret. mas sem seguir os movimentos da chama. Eu creio que deveria fazer isso a muito tempo.Movi a vela a poucos centímetros de seus olhos. para não depreciar a hospitalidade do reverendo? Enquanto bebiamos me contou a história de Margaret Campbell. abandonou sua casa no meio da noite para se reunir com o homem que amava..Grita. desesperada pelos rumores. Mas a senhorita Margaret não: ela estava com o Bonnie Prince e com os homens que o seguiam. . de bom caráter. . Mas devia de haver sido muito bravo.Poderias trazer uma vela acendida. por favor? . . em especial.A mulher me dedicou um sorriso desdentado.Mas é pior quando se excita . não! Em Burntisland.Bom. . como testemunho de suas virtudes. até a senhorita Cowden ignorava seu nome. -A senhorita Cowden se apressou a acender uma vela. Quando o reverendo decidiu aceitar o oferecimento da Sociedade Missionária para levar a sua irmã as Antilhas. Dorme o dia inteiro e desperta como se não houvesse acontecido nada.me assegurou agachando-se ao meu lado enquanto eu descalçava a senhorita Campbell para provar seus reflexos. parece normal? . Em 1745.E quando desperta. . sim. não é? . a uns oito quilometros de Edimburgo. quando Carlos Stuart marchou até a cidade para reclamar o trono de seu pai.explicou . Depois se iniciou a retirada para o norte.De que lembranças espantosas me falas? .

que havia sido detido com seu regimento. por isso que renunciou ao seu cargo. no dia depois de Culloden.Oh! exclamou sobressaltado .Não sei .disse a senhorita Cowden baixando a voz. Margaret Campbell estava muito erguida e seus olhos estavam agora bem centrados.O que lhe fizeram foi horrível .Que mulher haveria aceitado-o com sua irmã? Antes suas dificuldades buscou refugio em Deus e se fez pregador. .Não pôde se casar . Depois da morte de seus pais se encontrou em uma posição aceitavelmente boa. Dei uma última olhada na silhueta sentada junto ao fogo. . Depois de me despedir da senhorita Campbell. iniciou a volta e . Mas deixarei algumas receitas para que faça preparar na farmácia antes de partir.Ali o relato se tornava duvidoso: talvez encontrou o homem e ele a recusou. Ali estavam Jamie e Fergus. São quase tres e meia e o tio Jamie disse. . Um dia. Isso significa que será na enseada de Mullen.Bem . .Somente podemos pensar que a polícia tem planejado uma emboscada.explicou a senhorita Cowden . abri a porta do dormitório.suspirei . disseram. onde resgatou uma família de ciganos.. encontrou seu irmão. Ao entrar o jovem Ian. muito concentrados em sua conversa. mas era o único sustento de sua irmã enferma. em uma valeta cheia de água gelada. por que o advertiria sobre uma emboscada se esta não fosse ocorrer? .Jamie? . onde recebemos o despreocupado cumprimento de Bruno. pensando que estava morta. a Sociedade de Missioneiros Presbiterianos tinha oferecido uma missão nas Antilhas para organizar as igrejas de Barbados e Jamaica. que nos fez entrar a sala do fundo. para evitar o saque das Terras Altas. o menino e eu voltamos ao refugio do bordel. lamentavelmente não é muito o que posso fazer por ela.mas neste caso. . .respondeu Jamie numa cadeira . O jovem Ian me estava esperando do outro lado. A abandonara. tia. De qualquer modo. Dentro de dois dias. Aquele mesmo ano. A senhorita Cowden e eu giramos. a enferma rompeu em alaridos. mas ficou assim. . ocupação na qual teve muito exito. caiu nas mãos de uma legião de soldados ingleses. talvez não pode falar a tempo e se viu obrigada a regressar. O reverendo Campbell não havia regressado.Ia te buscar.disse Fergus . Viajou com os ciganos até o sul. . estando no pátio de uma taberna recorrendo nas moedas enquanto os ciganos cantavam. cegados pela luxúria da perseguição e da matança.A voz sonou detrás de mim proveniente da cadeira posta junto ao fogo.Horrível! Os soldados ingleses. Margaret sobreviveu.. Bastante nervosos pela cena da senhorita Campbell. Anotei algumas ervas sedantes e tisanas que corrigem sua leve deficiencia nutricional.É certo que não pode confiar em Sir Percival .. Todo aquele assunto havia deixado em Archibald Campbell um profundo rancor contra os escoceses das Terras Altas e do exército ingles. mas não havia motivos para esperá-lo. não pensaram em perguntar-lhe seu nome nem as ideias políticas de sua família: pelo seu acento lhe identificaram como escocesa e com isso para eles bastou..

Não. sem deixar mensagem alguma. . antes de que Jamie e seu filho chegassem. mas tenho um acordo com Jared e seus capitães: se por algum motivo não pudermos assistir a reunião. claro. Jared e eu combinamos os tres lugares por meio de uma carta selada.balbuceou o menino.me perguntou Jamie.De acordo.Não .Será um prazer ver outra vez Jenny e o resto de tua família.protestou o menino . E nesse caso todos sabem fechar bem a boca. por favor. filho! Ian pareceu se ruborizar um pouco. e arrumar as coisas com seus pais da melhor forma que puder. mas ficarás com sua tia na pousada.É o contrabando. que péssima memória tens. Na pequena enseada.Te incomoda fazer esta viagem? .Não. Se voltou até mim. que veio dentro de um pacote no nome de Jeanne.Que seja em Arbroath. não é? . se envolveu numa capa e saiu.Mas eu posso ajudar! .insisti.Não te parece perigoso depois da advertencia de sir Percival? Jamie me olhou levantando uma sombrancelha e respondeu com paciencia.Voce vai comigo a Arbroath. . . Depois de me saudar com uma inclinação de cabeça..Ao nos ver entrar se levantaram. não tens nada haver com o assunto. Jamie franziu o semblante..Sim. perto da abadia. .Faremos nas rochas de Balcarres. Isso vai ser na enseada de Mullen. a menos que devemos ajudar um deles. Claire. Em Arbroath.perguntei .perguntou o jovem Ian ansioso.Mas nada.Em absoluto .Fergus afastou o prato de tortas de aveia e se levantou . nem sequer Fergus. tio! . não estariam tanto nos outros também?. Não vou atrapalhar. a queimei. . Somente para ver se estamos certos.dentro de quatro dias.Vais a Arbroath por uma carga de licor? .resolveu .Vai vir uma embarcação francesa? . .disse cenhudo . E voce. . até que tenhamos terminado. . . oferecendo o assento. . por debaixo da abadia.Mas se sir Percival sabe sobre o primeiro encontro. . Ian pai havia abandonado a pousada nessa manhã.Necessitarás de alguém que lhe segure as mulas! . tamboreando sobre a mesa.Que me dizes de.lhe assegurei . Jamie olhou seu sobrinho com certa irritação. Sir Percival me advertiu que a polícia estará no nosso encontro combinado em cerca de dois dias. joven Ian.? . . de acordo? . . conhece os outros lugares. a embarcação se manterá longe da costa e regressa na noite seguinte a um lugar diferente.Mas tio! .exclamou o jovem Ian – Deixa-me ir. . milord. suponho que alguns deles poderia deixar escapar algo . se o segunda encontro não se concretizar. . E ainda temos um terceiro lugar combinado.perguntou Fergus. Os homens que vem conosco conhecem o primeiro ponto. era de presumir que estava a caminho de casa. tio? . Depois de ler a carta.Isso significa que não tem perigo.Farei correr a notícia. . .Deve levar o menino a sua casa.Depois de tudo que nos disse seu pai? Por Deus.

Não quero ouviu uma palavra mais.Muito interessante . A menos que prefira esperar que eu consiga outro local e termine de instalar. será conseguir uma costureira que te arranje um vestido decente em dois dias. da mesa.. muito brincalhão. Sassenach.Dois dias depois de Culloden. Margaret. Lembra de Ewan? . Ainda sobrará um pouco. mas adverte que pode demorar até dois meses. Suponho que Daphne vai querer o vestido de volta.. me sorriu..lhe espetou Jamie.Teu trabalho. . Trata de marcar os que ainda tem pedidos pendentes. Me escutou mexendo a cabeça.Acho que sim. . Jamie? . como foi tua visita a louca? .Bom. coitado. um por um. Depois voltou a abrir com um sorriso cansado.assegurei . onde ele saiu rapidinho.Me contaram coisas piores sobre o que aconteceu depois de Culloden . os Murray também não ficavam atras.. era a noiva de Ewan Cameron.Se voltou até mim com um sorriso . Ian: em cima. Sabia por experiencia propria que a teimosia era um dos componentes fundamentais do carater dos Fraser. ao que parecia.Se não me engano. estamos entendidos? Depois. Deu uma palmada em seu casaco. . Fechou os olhos. Deve ir ve-los.Cala-te .Existe uns trezentos ou quatrocentos .disse . Depois suspirou. encontrarás uma lista dos clientes da imprensa.Bem.O que foi dele? Ou não devo perguntar? . a menos que fossem os genes Fraser os que predominaram.. . e oferecer a devolução do dinheiro. CAPÍTULO 30 O ENCONTRO Durante a viagem ao norte.. .Mas não acho que. Ouve. Durante a rebelião ouvi mencioar seu nome um par de vezes.Te referes a alguém em particular? Lhe repeti a história de Archibald Campbell e sua irmã Margaret.Os ingleses o fusilaram . mais relaxado. Desenhou uma linha entre as esmigalhas da mesa. A propósito. — Margaret Campbell. pensativo. . .Bem. há muito que fazer antes da viagem. Que Deus abençoe o reverendo Archie Campbell. . E não posso levar-te nua a Lallybroch. . que trabalhava com Jamie em Holyrood reunindo informações que se filtravam da Inglaterra. mais ou menos como a Mary? De cabelo castanho suave como uma plumagem e rosto muito doce? .Claro. rumo a Arbroath. Diziam que era um soldado audaz e valente. o principal entreternimento foi observar o conflito de vontades entre Jamie e o jovem Ian.respondeu em voz baixa .Me olhou com os olhos entornados. .É uma menina bonita e pequena.Conheces alguém que se chama Campbell. Suponho que agora necessita ser assim.Era um homem alto e arrogante.disse com um sorriso . o dinheiro do seguro servirá para pagar as contas com os clientes. .Espera.Por sorte.

O senhor Willoughby tem a gentileza de assumir o risco por que é o mais baixo de todos. ninguém está armado.. ali descobrimos que a pousada onde Jamie pensava em me deixar junto com Ian. Antes que eu pudesse perguntar por que. pondo a lamparina fora de seu alcance. o caminho estava deserto em vários quilometros pela redondeza. não existia mais. Mas somente até a beira ingreme Ian. Eu o segui. — Espero que nesta noite não venha armado — murmurei Jamie. no anoitecer do quarto dia. — Entendi. Eu me encarrego disso. O garoto teve a prudencia de ficar em silêncio. Entre eles se encontrava uma silhueta inconfundivel. —Alto demais.. na escada do bordel. quer? O senhor Willoughby abriu a lamparina. e bastante jovem para não ver nenhum mal nisso. resignado — Podem vir.? —Significa —Esclareceu uma voz serena a nossas costas — que quem sustenta oferecerá um bom alvo se tivermos visitas. uma lamparina de aspecto estranho. Como condutor de uma grande carreta puxada por mulas. ainda mais. tio Jamie —respondeu o jovem Ian com falsa bravura. Justamente depois de escurecer. Só restara um muro semi destruido e uma das vigas chamuscadas. Se ouviu um estalido agudo. contemplando as montanhas de pedra. pequeno Ian. —O que? — O jovem Ian estava indignado — O que significa isso de alto demais e jovem demais. Mas captei o olhar irônico de Jamie e compreendi que. Deixa comigo. Deixa de estorvar. o chinês? Não. Conheço o sinal. pedaço de. que se repitiu duas vezes e distingui o crepitar de uma pedra. jovem demais —declarou— Disse Tsei-mi.Esta luta entre eles se prolongou por bastante tempo. — É uma lâmpada para fazer sinais? —perguntei fascinada. por fim. da parte traseira da carreta. apontada para a fuga. O senhor Willoughby se limitou a menear a cabeça. O resto dos homens chegaram a tempo ao lugar do Encontro. Dissimulei um sorriso com um gesto de acanhamento. vinha Fergus junto a um pequeno elemento. — Quem? —perguntou olhando na penumbra — Ah. só podía ser o senhor Willoughby. —Exatamente —confirmou o menino com ar de importância— Tem que manter os lados fechados para que se veja o sinal no mar. O senhor Willoughby se pôs na ponta dos pés para tirar. a quem eu não via desde que atirara no homem misterioso. mesmo que sua raquitica estrutura vibrasse de ansiedade. — Está bem —disse Jamie. atenta a minha missão de custodia. até chegarmos a Arbroath. ele se adiantou para ajudar a colocar a carreta na posição correta. Era obvio que não podia nos deixar num lugar lamacento e deserto. . Jamie ficou em silêncio. se Ian devia cuidar de sua tia. coberta por cima por uma peça de metal perfurado e com os lados também de metal. a sua tia também deveria cuidar de Ian. Você é bastante alto para se destacar abaixo do céu. O jovem Ian se adiantou com passos decididos. me entendeu? E cuida da sua tia.

concentrado no pavio recém acendido. Se acontecer alguma coisa. Ian. Logo fechou suavemente o lado metalico soltando um suspiro. —Não sei —vacilou por um momento — Ouça. para que a chama crescesse e se estabilizasse. como quase toda a costa Escocia. Disse ao jovem Ian por um ombro — Agora se encarregue de sua tia. — Mas. —Tudo preparado. —Bom. Outra silhueta negra se ergueu subitamente do meu lado. Jamie mexeu a cabeça. —Agora não. —protestei.Aquele lado da costa era pedregoso e rustico. tratando de localizar o senhor Willoughby e a sua lâmpada. senhor —repetiu Joey. surpresa. Sassenach. Entendido? —Sim. —Um súbito fulgor iluminou o perfil de Jamie. . Apressou-se em pigarrear assustado — Willie MacLeod y Alec Hays revisaram as pedras. —Obedeça —ordenou Jamie em tom severo. mas por um momento havia jurado que sentia cheiro de pólvora. — Aconteceu alguma coisa? —perguntei com voz audivel apenas sobre o rumor das ondas. Lembre-se. leva a sua tia diretamente para casa.. Joey. Vão os dois por essas matas de aliagas.. Serrei os olhos. nas rochas. dando a discussão por encerrada. Nos voltou as costas. para Lallybroch. Me perguntei como e onde poderia ancorar o barco francês. sente algo? Respirei fundo. —Daqui se vê a agua —sussurrou desnecessariamente. — A voz de Jamie soava intranqüila. E você? Os ombros da silhueta se levantaram e voltaram a descer. desta vez com mais respeito. que eu saiba. mas não vi luz alguma. senhor. mas fez o que lhe havia sido ordenado. Nos instalamos em uma pequena colina. Imediatamente. Contendo o folego. — Tio! — disse o jovem Ian. já que não havia uma enseada natural. Não tardarão. —Eu não sinto nada —disse o sobrinho com a voz alterada pela excitação. —Tenha certeza —insistiu Jamie— Repita isso a todos: que ninguém se mova até que eu ordene. O que havia dito a Ian era certo: sua propria silhueta se destacava nitidamente abaixo do céu pálido. —Sim. Ian. —Nada estranho. —Bom —repetiu levantando-se. Deu uma espiada na costa sul. Não encontraram sinais da polícia. —Melhor assim. O jovem Ian permaneceu contrariado. se mantenham bem longe da carroça. observando as estrelas— São quase nove. Joey: que ninguem se mova até que eu dê a ordem. senhor —disse em voz baixa— Em cima. Supus que a estivesse ocultando com seu próprio corpo. E desapareceu na noite sem fazer ruídos.

Rodou a pistola nas mãos. Antes de que o jovem Ian pudesse responder.me sussurou Jamie ao ouvido . que cintilou nas rochas molhadas antes de desaparecer. —Bem. tonto. Tem sorte de eu não ter percebido essa arma ou te arrancaria os ovos pelas calças. — Vem vindo alguém! —susurrou— Rápido. vi um vago esplendor das estrelas no cano da arma. nem sequer com uma faca de pescador. em um gesto de exasperação. arrancando urtigas da manga. Jamie ofegou com os dentes apertados. Um momento depois.O que é isso? . esconda-se atrás de mim. a corrente irá trazer até a costa em poucos minutos. Houve um breve lampejo de luz. que se duplicava sobre a água escura. Apesar da escuridão. A mão de Ian estava tensa em meu braço. . pois ainda não tenho barba —explicou Ian incomodado — Disse que só me deportariam. Esperamos trinta segundos.As ancaras flutuam. por Deus! — Lhe sussurrei sem atrever-me a segurar ou tocá-lo por medo de que disparasse. encolhendo os ombros com um suspiro que podia ser de alivio ou decepção. Apontar uma arma para um funcionario da Alfandega Real é um delito que se castiga com a forca —me explicou— Nenhum dos homens está armado.Na costa. contendo o ar. — Agradeceria se você obedecesse a sua tia. o veículo acendeu uma luz como resposta: uma lamparina azul. Se produziu um terceiro lampejo. . Ian abaixou a pistola..De repente o jovem Ian ficou rígido. E me parecia que havia sentido a polvora. colocando uma mão embaixo da camisa para sacar uma pistola. no caso de Fergus ter razão! — Estendeu a mão — Dê-me isso. claro.. Seguindo a direção de seus olhos destingui um pequeno ponto luminoso: o senhor Willoughby com a lanterna.perguntei . —Oh. se defendem no braço. em instantes Jamie estava conosco. .O que? – Jamie olhava agora até ao barco. Outro lampejo iluminou a espuma. um vulto misterioso pendurado num mastro grande. Fergus me disse que não me enforcariam. E se plantou intrépidamente a minha frente. As aliagas estremeceram-se. —Onde adquiriu-a? Está carregada. — Ninguem lhe disse que não devia vir armado? — Jamie falava com calma—. quando se acendeu a luz me pareceu ver algo semi enterrado na areia. Ian — respondeu a suave e irônica voz de Jamie por debaixo da costa — Não quero que me voe a cabeça. jamie não prestava atenção. — Não dispare. Parecia. .A maré está subindo . havia um sinal no mar: —Olhe! O barco frances era pouco mais que uma mancha sobre a água. ele olhava para baixo. suponho que para sua mãe seria um grande prazer saber que te deportaram para as colonias.

Levantei a minha saia e comecei a correr. que nos ordenava fugir.Vamos tia! Em um momento estarão aqui! Era certo. . Embaixo estalou um verdadeiro inferno. O ruido do disparo se perdeu no meio do tumulto. Jamie abriu o passo por entre as matas de aliagas. Não obstante. De imediato. Meus olhos. Vi claramente sua figura recortada abaixo do céu.Policiais! . . Surgiam da manga de um homem. A lanterna estalou com uma chuva de azeite ardente. o jovem Ian se atirou em mim com mais força e me afastou do escarpado quase a rastras. sem prestarnos mais atenção. Destingui as palavras: <<Alto. Havia silhuetas escuras rodando sobre a areia. desaparecendo de meus olhos. mas na praia reinava o caos. Jamie disse um palavrão em gaélico. seguido próximo por Ian e por mim.O jovem Ian também havia ouvido. nós dois nos adiantamos para espiar entre as aliagas. que me congelou o sangue. resistindo aos seus puxões. Era pouco o que se podia ver com claridade. que escureceu subitamente a praia e calou os gritos. apontando para baixo. Havia figuras negras bamboleando e lutando entre a pilha de algas. As matas de aliagas se sacudiram violentamente Jamie se jogou ladeira abaixo. Logo deixou a cabeça para trás e gritou algo. ofegante. . o resultado foi espetacular. Mas como se efetuaria o pagamento? Antes de formular a pergunta ouvi um grito inesperado.Esse é Willoughby! —exclamou Ian . mas eu não pensava ir a nenhuma parte.Isso resolvia o problema da ancoragem: não necessitava amarrar o barco.O pegaram! Sem prestar atenção ao Jamie. . em nome do rei>>. até que Jamie o segurou pela gola da camisa. O brilho difuso da lanterna bastava para mostrar as silhuetas entrecruzadas.o silencio se quebrou com um uivo de dor e indignação. se adaptaram rapidamente. momentaneamente cegados pelo lampejo da lanterna. a mais pequena esperneava desesperadamente enquanto o sustentavam inquieto. já se ouviam as vozes que se aproximavam pela praia. estagnei os pés na terra. correu para longe do escarpado e se deteve a varios metros. Os homens começaram a se pendurar pelas rochas. Jamie.Irei buscá-lo! . logo cravou um joelho na terra para afirmar a pistola no antebraço. Ignorava onde íamos. mas o jovem Ian parecia saber. tanto que impos os outros ruidos. .Faça o que eu te disse! Leve a minha esposa onde não corra perigo! O jovem Ian se voltou para mim. —Éirich 'illean! —aulló— Suas am bearrach is teich! —Logo se voltou para nós — Saiam daquí! Da praia surgiu um grito agudo. que saltava gritando e golpeando inutilmente o fogo iniciado em suas roupas pelo azeite inflamado. Uns segundos depois. . acompanhadas de gritos. Então vi outro briho: a luz de varias chamas pequenas que pareciam subir e baixar erraticamente. . Sua voz soou com claridade na praia.Jamie! Incentivado pelo meu grito.Ian se lançou adiante. seguindo o menino tão depressa como pude entre as duras ervas do escarpado.

Disse: <<para cima. Tentei tirar para me libertar.Bom conselho .reconheci secamente . o campo é aberto. Ian se deteve tão bruscamente que me choquei contra ele. Respirava com dificuldade e tinha uma mancha de lodo na camisa.Creio que sim. sabendo que pesava tanto como ele.Se esses filhos da puta escaparem da praia nós pegaremos eles aqui. .observei – O que foi que gritou teu tio quando apareceu os policiais da Aduana? . tia? Quer que te leve nos braços? Recusei cortesmente seu galante oferecimento. . rapazes! Pelo escarpado e a correr!>> . . . Depois de tirar os sapatos e as meias. tremendo espasmodicamente. . sobe outra vez a árvore idiota . O jovem Ian estava me apertando o braço com tanta força que ia me deixar hematomas.Bom. que me seguiu até a beirada do caminho. cruzei o rio.disse a primeira voz com impaciencia. Está bem.Sim.Basta derrubá-lo.perguntei quando me pareceu que os guardas não podiam nos ouvir . .Mas não sei como vamos ver seu cabelo ruivo nesse escuro.Ah.Algum sinal no escarpado? .explicou ele. Oxalá se tivessemos pego o plantão na abadia. Ao menos ali estariamos abrigados. o vento te roe os ossos. . Por fim meus puxões conseguiu tirar de seu transe o jovem Ian. mas teriamos menos possibilidades de pegar o tubarão .Onde estamos? . Excitado como estava não o necessitava. .Só sei que algo saiu errado . fazendo-me pensar em Jamie. ofegantes e com o vento frio surrando nosso rosto. .Que ponto de encontro? . afundada na água até os joelhos. .ofeguei quando diminuimos a marcha. Esse é o ponto do encontro. Saimos do caminho.Eu acho que ouvi alguns gritos por aquele lado. . o que eu não faria com cinquenta libras! . na beira de um rio.O jovem Ian passou nervosamente a mão pelo cabelo.Ainda não .. Oakie. as coisas não haviam saido pior . aceitei o casaco que Ian me ofereceu.Em seguida a trilha será mais fácil. .Exceto tio Jamie e o senhor Willoughby. mas ele não prestou atenção. não? .Aqui.foi a resposta .explicou. mas logo mudou o vento.Bom. depois teremos tempo de mirar sua cabeça.Se o seguiram. entre o matagal. Ao sair.disse a segunda voz resignada . Então cada um teve que se virar como pôde e encontrar com os demais na abadia enquanto espera passar o perigo.perguntou um grave voz masculina.Ali adiante está o caminho de Arbroath . Tem que ser a abadia de Arbroath.Faz frio . a maioria deve ter escapado.Sabes algo? .Está bem . o lodo gelado me escorria entre os dedos dos pés.disse a segunda voz . É melhor que a recompensa seja para nós e não para esses vermes da costa. tia.replicou a primeira voz .Ao que se referiam com esse plantão na abadia? . .

Ainda assim o coração disparou e me sacudi entre os braços de meu captor.. E tio Jamie disse. sentindo mais frio que nunca.Vá a abadia . . . que denunciassem sua presença. poderiam permanecer ocultos para não denunciar a sua presença. Me inclinei para pegar uma pedra do chão. por agora não há nada que possamos fazer por eles.me interrompeu . desejoso de partir. jovem Ian. Devo fazer o que disse tio Jamie e levar-te a Lallybroch? Ou tratar de chegar a abadia para avisar os demais? .. a quinze dias de Todos os Santos. sai ao caminho e segui andando sem dizer nada. mudaram.isso é o estou tentando decidir. Não foi um espírito o que me agarrou subitamente por trás.. segurando uma mão em minha boca. Arqueou as sombracelhas surpreendido. Se não tivesse estado preparada para tal eventualidade teria desmaiado de susto.. E o que eu desejava era.. para demonstrar que era uma mulher inofensiva.Bem. . Uma rama de amieiro voltou ao seu lugar detrás dele. dissimulando o ruído de minhas pisadas no caminho.se vão até a abadia. mas sorriu. e um tempo para pensar por sí mesmo . Me perguntava se era melhor fazer ruido. era uma daquelas em que era fácil acreditar em espíritos malignos.Não gostou de deixarte aqui sozinha. Por outra parte. espera! É melhor que ponhas o casaco.Já estava brincando sobre a ponta dos pés. Nos entraremos ali! Ah. era eu quem estava pensando por ele . na realidade. me empinei para dar-lhe um beijo na bochecha fria. Essa noite. ao ouvir meus passos poderiam tomar-me por uma contrabandista em fuga. Vai para a abadia por um atalho. se caminha-se tranquilamente e catarolando. tia.Bom. Ao contrário poderiam atacar-me sem previo aviso posto que os homens. Logo. Me desprendi dele de má vontade e alarguei o braço para rete-lo um momento mais.Sim .. está bem? Seguindo um impulso..respirei fundo . ..Terá tempo para obedecer as ordens.tão rápida como podia.Bom.Sim. mas.Ian? .Este caminho leva abadia? .. CAPÍTULO 31 Lua de contrabandistas O vento mantinha as árvores e as matas em constante agitação.disse .Cuidado. ..disse com firmeza ignorando de que.Sim? .. e também as de qualquer que pudesse estar me espreitando. . Eu irei por esse caminho e tratarei de distrais os policiais até que voce tenha passado. Está apenas a dois quilometros . Os outros.Sim . Por fim num segundo desapareceu. justamente.

Sou eu. Pela segunda vez. cinco. por verdadeiro). convém ir dar uma olhada. mas sem dúvida estavam causando efeito. lancei um golpe para trás. me pôs uma mão no braço e gritou para a noite: —MacLeod! Raeburn! —Sim. Mas tinha o braço direito livre. seis —contou Jamie— Onde estão Hays e os Gordon? —Vi que Hays se metia no água —informou um deles—. o que era isso de uns policiais? Já que Oakie e seu colega não apareciam. com toda a potência que me permitiam as saias. a minha esquerda. Fergus? Sim? Bom moço! Bem. Sassenach! —murmurou Jamie ao meu ouvido —. Pulei como uma gazela assustada. levando uma pequena tocha que lutava por manter-se acesa. Fergus? Depois de receber uma espécie de ruído estrangulado a modo de resposta. saíram outras figuras entre os arbustos.Tinha me agarrado pela esquerda. tens sílex? Poucos segundos depois. —Jura? —respondeu Jamie com voz normal— Não parecem ter muita curiosidade pelo ruído que fizemos. —Por Deus. começava a sentir-me idiota. Finquei-lhe o salto de meu sapato na patela e de imediato. prontos para correr ou ir ao seu . batendo-lhe na cabeça com a pedra que levava na mão. não? —Sim. Foi só um atrito. mas manobrar para olhá-lo era mais difícil do que se poderia pensar. Quanto toquei o chão com os pés deixei de mordê-lo e lhe apliquei uma boa joelhada nos testículos. Assim. suponho. Depois de uma pausa. aproveitando seu momentâneo cambaleio. Isto é: dá resultados (espetaculares. sou eu. Innes também. segurando-me pelo braço contra as costas. Meldrum. como um coelho estrangulado. foi forçado a afrouxar a pressão e a baixar-me. —Não fale! —sussurrei— Um pouco mais adiante há polícias. Roy —respondeu uma voz um pouco irritada entre o matagal— Aqui estamos. caminhou para baixo até perder-se depois da curva. No entanto. —Sim? —Jamie parecia interessado— Pode manter-se em pé. Sassenach. falando baixinho. No momento em que retirava a mão de minha boca. Esse tipo de golpe é supervalorizado como método defensivo. Não ouvi que os capturassem. finquei-lhe os dentes num dedo com tanta força como pude. uma mão me fechou a boca. Sassenach? As palavras foram um sussurro na escuridão. enquanto se dobrava em dois. É voce. Esperneei e me debati. lançando um involuntário alarido. Além disso. Meu atacante se movia freneticamente tratando de liberar o dedo. neste caso meu atacante estava com a guarda baixa e as pernas bem abertas para não perder o equilíbrio.Deve de ter dado uma volta. Arrastando os pés. os homens se protegem muito nesses apêndices e estão alerta ante qualquer atentado que se tente contra eles. agachou-se para pôr em pé à segunda silhueta. Emitiu um horrível ruído. Os contrabandistas e eu esperamos num silêncio tenso. —Quatro. Não sei se meus músculos maxilares tinham tanta força como dizem os textos de anatomia. —É voce. dei-lhe em cheio. E Meldrum. — Alegro-me —disse Jamie— Bem. sobretudo quando se veste saias volumosas. mas relatei o que Ian e eu tínhamos escutado. Suponho que os Gordon e Kennedy fizeram o mesmo. mas bastante forte para arrancar-lhe um rosnado de surpresa e obrigá-lo a afrouxar sua pressão. — Eu sei —disse entre dentes quando me soltou— Mas quem é o que me agarrou? —Fergus.

Jenny devia de estar informada por Ian de meu regresso. Pelo visto. Sassenach? —Por ali —apontei. com os olhos desorbitados e a língua de fora. Fergus emitiu um bufo que pôde ter parecido uma risada. Tive que abafar um grito. a voz de Jamie veio flutuando pelo caminho. —Ah. Ao menos. O atingiremos quando se der conta do erro e inicie o regresso. negra à luz da tocha. —Venham —disse com serenidade. com os cavalos. —Esperem aí —pediu Fergus levantando uma mão.. —Tinha razão. —E Ian? —perguntei recordando subitamente do moço — Foi à abadia para nos pôr sobre aviso. Sassenach —disse Jamie— Tinha um policial. Ao amanhecer estaremos nas Terras Altas. não só pelo passado recente. Chamava-se Thomas Oakie. provavelmente por diferentes motivos. não —murmurou uma voz a minhas costas— Nem sua própria mãe o reconheceria! Teve um murmúrio geral de negativas e um nervoso arrastar de pés. E passou a tocha pela erva molhada. onde se extinguiu o fogo com um sussurro. próximo a um grande amieiro. Ian —disse o tio secamente— Sou eu. Há polícias na área! Jamie lhe rodeou os ombros com um braço para dar-lhe a volta antes que pudesse ver o corpo do enforcado no chão. Não deves estar aqui com essa tocha. SÉTIMA PARTE De novo em casa CAPÍTULO 32 O regresso do filho pródigo Foram quatro dias de viagem a cavalo. —Vi a luz e regressei para ver se tia Claire estava bem. Por minha parte.socorro. —Atirou ao solo algo que aterrizou com um ruído seco—Uma credencial. Entre o matagal se ouviu um cauteloso murmúrio de folhas. loiro como palha seca. nos quais as conversas foram escassas. todos tinham tantas vontades como eu de abandonar aquele lugar. não? —Jamie deu uma olhada para cima — Não vamos perder mais tempo. Tanto o jovem Ian como Jamie estavam preocupados. —Jesus! — murmurou Fergus contemplando o enforcado —Quem terá feito isso? —Eu fiz. senão pelo futuro imediato. Depois de um tempo que nos pareceu eterno. —A abadia está em direção contrária —explicou Jamie divertido — Vamos. Ian —disse sem alterar-se— Já se foram. a voz do jovem Ian: —Tio Jamie? —Sim. sim? —A voz de Jamie se tornou mais áspera— Venho de lá e não me cruzei com ele. mas não tinha ruídos de emboscada. O cabelo. Alguém o conhece? —Tal como está agora. Por trás de seu ombro esquerdo se via outra cara suspensa no ar. —Vamos —disse serenamente na escuridão— O senhor Willoughby está logo ali.. não deixava de preocupar-me. Estava no meio do caminho. entre Arbroath e Lallybroch. mal iluminada: uma cara horrível. —Não se preocupe. tio. parada. Como tomaria minha reaparição? . agitava-se ao vento. Por onde foi. depois. isso é o que se dirá.

Deixou cair um palito queimado à erva e o fez pó com o pé. —Pelo que eu vi não —repliquei distraída— Onde ele foi? O cavalo de Jamie mordiscava a erva atado sob um carvalho. encolhendo os ombros. —Quem pode ter sido? —perguntei colocando a cabeça pelo saliente que ocultava a boca da gruta. —É como a “Gruta de Cluny”. —Não parecia preocuparse pela identidade do desconhecido. —Não sei —disse— Um caçador. Mas o mais importante era saber de que só Jenny amava a Jamie Fraser tanto ou mais do que eu. Era um homem muito grande e gordo. — E. sem dúvida. mas não podia deixar de perguntar-me como teria levado essa história de minha suposta fuga a França. aproximei-me do barranco. Fiz uma concha com as mãos para beber com gratidão o líquido frio.. suponho. dobrava-me em largura. —O que é a Gruta de Cluny? —perguntei. uma greta na face da montanha.Jenny Murray era o mais parecido de uma irmã do que eu tivesse tido e. meio escondido pelos ramos do amieiro. Ian —respondeu Jamie com um sorriso — O pobre Cluny não poderia passar por esta entrada. com a sede já saciada. mas dele não tinha sinais.? — Sim. —Tinha o cenho franzido mas não com ar de preocupação. Pareceu-me muito pouco acolhedora. tio? —perguntou com os olhos reluzentes. —Como faz tio Jamie para agüentar? Deve de ter o traseiro de couro. De repente Jamie deteve o seu e se desviou para um clarão. Só vi uma estreita faixa de escuridão. Algum contrabandista conhecido seu podia tê-lo seguido desde a costa? Estaria preocupado pela possibilidade de uma perseguição ou uma emboscada? Dei uma olhada acima do ombro mas não tinha outra coisa que as amieiras com as folhas secas sussurrando sob o vento outonal. O caminho era tão estreito que os cavalos deviam andar um por trás do outro. —Ufa! —disse esfregando o traseiro sem disfarce— Tenho todo o corpo dormente. a amiga mais íntima. apesar do ar outonal que me enrijecia as bochechas. Na margem tinha um barranco de pedra cinza. deparei-me com Jamie. Ian e eu nos olhamos sem compreender. O jovem Ian desmontou de seu pônei com um suspiro de alívio. senão como se estivesse matutando— Encontrei carvão misturado com a terra. abandonando o seu irmão. O jovem Ian. montávamos desde o amanhecer. Por fim saiu. —Eu também —confessei imitando-o— Mas suponho que serão piores as chagas.. —De onde veio? —perguntei piscando — Onde tinhas se metido? —Ali há uma pequena gruta —explicou assinalando para trás com o polegar —Só queria ver se alguém tinha estado ali. Encontrei também ossos de aves silvestres. Estava desejosa de voltar a vê-la outra vez. teve alguém. a um lado do clarão. que tinha aparecido ali como por arte de magia. . por onde corria um fio de água. —Não tão grande. alguém tinha acendido fogo ali dentro. tirando uma teia de aranha do cabelo. Quando voltei as costas ao barranco. Estava guardando uma caixa de fósforos no bolso do casaco e trazia na roupa um vago cheiro a fumaça. tinha desaparecido através da greta. fascinado pela gruta invisível.

quando os ingleses o perseguiram —me informou o jovem Ian — Cluny o escondeu vários dias. Voltei-me para Jamie. E se voltou para os cavalos. que lia em voz alta uma novela ou um livro de poesia enquanto Jamie e Ian. Ian —ordenou o tio com um jeito de aspereza — Não podes apresentar-se ante seus pais coberto de sebo. com um dilatado sorriso. ao olhar melhor vi que as construções exteriores estavam um pouco alteradas.. levado para o sul pelo vento do mar. cumpria funções de pombal. Jamie. Jamie. será para mim igual. também vi um beiral novo que. enquanto eu tenha voce comigo. Sassenach —respondeu ele— Seria grato. —O príncipe Carlos também esteve um tempo ali. a não ser pelo cheiro de seu cachimbo. —Vem se lavar. Jamie me lançou um olhar penetrante. Sassenach. para o oeste. —Não te posso dizer. freou seu cavalo para esperar que Ian e eu o atingíssemos. refletindo-se na cara de Jenny. Sua expressão vagamente preocupada desapareceu um momento. Construiu um pequeno esconderijo numa caverna próxima e fechou a entrada com ramos de salgueiro entretecidas e enganchadas com barro. compreende? —Contemplava a casa com uma pequena ruga na testa. Tomou-me a mão para levar aos seus lábios. Mesmo de longe a casa parecia não ter sofrido nenhuma mudança. mas. meio que a escutavam. Ian obedeceu com um suspiro. mas ele escapou.. —Não importa. —toquei-lhe a mão para reconfortá-lo — Enquanto estivermos juntos. absortos numa partida de xadrez. —Aí está —disse sorrindo— Muito mudada. Olhamo-nos aos olhos até que uma tosse forçada nos anunciou a presença de Ian. Ian —disse enquanto o moço freava o pônei junto a nós — Se não chover estaremos lá muito antes do jantar. não sei como estarão as coisas. não? Mexi a cabeça embelezada.. Jamie.—Trata-se de Cluny MacPherson —explicou Jamie inclinando a cabeça para salpicar-se a cara com água gelada — Um homem muito engenhoso. — O que voce contou sobre ele a teus sobrinhos? —perguntei baixinho — Sobre Carlos. Uma parte do muro se tinha derrubado e estava reconstruído com pedra de diferente cor. Não se podia dizer que estivesse coberto de sebo mas tinha na cara as impressões inegáveis da viagem. —Nunca falei dele —disse. elevava-se um caracol de fumaça. Três horas depois deixamos para trás os últimos desfiladeiros ventosos e nos encontramos na pendente final que descia para Lallybroch. detectei os espaços vazios onde se tinham antes. os soldados ingleses tinham queimado o pombal e a capela.. Se vivermos em Edimburgo. No entanto. —Crês que voltaremos a viver aqui? —perguntei a Jamie cuidando de que minha voz não expressasse nostalgia. De uma chaminé. Dizem que a um metro de distância não se tinha nem idéia de que a gruta estivesse ali. Subitamente imaginei o fogo aceso no lar da sala. que ia à vanguarda. soltou-me a mão para voltar-se para seu sobrinho. que contemplava o banho de seu sobrinho com ar distraído. Os ingleses queimaram sua casa e derrubaram os alicerces. ou na França. Jamie tinha me contado que. obviamente. — Logo estaremos chegamos. . no ano seguinte a Culloden. —A mim também não me importa muito.

não? Não sabia que classe de recepção me esperava em Lallybroch. É melhor acabar de uma vez. perguntei a Jamie: —Acha que seus pais serão muito duros com ele? Meu esposo se encolheu de ombros. Fincou as esporas a seu arreio descendo encosta abaixo. Ian. —Venha nos saudar. ela é tua tia Claire. quando deves voltar. —Bonito cãozinho — eu disse coçando suas orelhas caídas. Sassenach. tia. não? —disse. O jovem Ian lhe direcionou um olhar de profunda desilusão. não conheces a minha mãe. A moça assentiu sem afastar os olhos fascinados de meu rosto. —Estás te enchendo de pelos. —Tio Jamie! Ah. — Este é Jocky —anunciou mostrando no alto o cachorro pardo e branco — É meu. —Se crês que é um bezerro gordo o que vão matar. e também. voltando-se bruscamente para ela. .. Enquanto ele descia cautelosamente a encosta pedregosa. Depois se aproximou. —Papai diz que não mereces ter um cachorro —comentou— Para que fugir e deixá-lo assim! Ele se pôs à defensiva. pequena Janet. —O lar é o lugar onde. —Não te aflijas. —Bem. Papai me presenteou. Era uma moça alta e delgada. e voce está se cobrindo de carrapichos —replicou o jovem Ian. de uns dezessete anos. seja boazinha —disse Jamie com simpatia. estão obrigados a te receber —citei. isso é o que temo. trazendo-me nos braços um cachorro. —Queria levar-te —disse com voz insegura—. sentada à margem do caminho. mas me pareceu que na cidade não estaria seguro.. —O jovenzinho não parecia alegrar-se muito pela perspectiva. Ian —assinalou uma voz clara e aguda com marcado tom de reprovação. tio Jamie.—Hum.. —Sim. Posso dar-me por afortunado se não fizerem o mesmo comigo —adicionou com ironia. Mordiscou o lábio inferior e se ergueu na cadeira com um profundo suspiro. —Vamos. mas também com uma observação cínica que a fez ruborizar. —Desviou os olhos para mim. Sassenach. Dirigi-lhe um olhar solidário. A pequena Janet ainda não tinha nascido na última vez que vieste. que realmente estava cheia. —Bem. —Depois se dirigindo a Janet — Suponho que tua mãe está em casa. —Sim. O jovem Ian deixou cair as rédeas e desmontou entre um mar de cachorros que saltavam ao seu arredor e lhe lambiam a cara. Lembras da parábola do filho pródigo? Tua mãe se alegrará ao ver-te são e salvo. —Será melhor terminar de uma vez. mas era tranqüilizadora. A garota agitou um montão de cachos castanhos e sacudiu a saia. mas antes lhe açoitaram bem o traseiro. estou seguro que o perdoarão.. O jovem Ian me lançou uma olhada astuta.

. como temerosa de que eu me transformasse em fumaça entre seus dedos. —Não há problema. Igualzinha à sua mãe. com a mesma voz. para ver se podemos te escovar e te pentear antes de que papai e mamãe te vejam.. Pareceu tranqüilizar-se ao descobrir que eu era de carne e osso. Ian.—Encantada de conhecer-te —saudei.. É melhor que teus pais não tenham que enfrentar muitas coisas ao mesmo tempo. A expressão incomodada do moço se aliviou um pouco. é barba! —respondeu furioso. Jen? —O jovem Ian depositou suavemente o cachorro no chão. — O que comeu? —ouvi-a perguntar— Tens uma grande mancha de sebo ao redor da boca. —E como quer que estejam. Estive a ponto de cortar o pescoço. Ian. recordando subitamente os bons modos. —Hum. com os ombros curvados pela timidez. . senhora—murmurou. Vá com tua irmã. —Ao menos não piorará as coisas. já se foram —disse meio sufocada pelo esforço de conter o riso. — Queres ir barbear-te antes de saudar a Jenny e Ian? —perguntei. —Não —disse alisando-se o cabelo para trás — O jovem Ian tem razão: a limpeza não servirá de nada. escondendo a cara em minhas saias. E antes de mais nada vão querer ver a tua tia. —Oh. o garoto marchou de má vontade para a parte do fundo da casa. com os ombros estremecidos por uma gargalhada muda. Ele meneou a cabeça. bom. dobrou os joelhos numa reverência e me estreitou a mão com cautela. idiota? Mamãe temia que tivesse esbarrado no bosque com algum javali ou que os ciganos te tivessem seqüestrado. Jamie levantou a cara avermelhada.. seguido por sua decidida irmã. —Mamãe e papai estão muito aborrecidos. baixando os olhos ao chão. Olhou-me fixamente um momento mais e. Jamie apoiou a cabeça em minha coxa. um prazer. o jovem Ian a levou para o pátio. — Não é sebo. Não pôde dormir até que averiguaram aonde tinhas ido. —É. —«Barba? Voce?» —grasnou imitando a sua sobrinha—. —Por que a todos parece que estar limpo servirá de algo? —disse Ian. Dormiste vestido? —Com certeza —replicou impaciente— Talvez pensas que fugir com uma camisa de dormir e que a vestia todos os dias para dormir a todo o tempo? Janet riu. —Estás horroroso. Deus meu! Isso foi justamente o que me disse Jenny. —Com um gesto de consentimento. venham —disse ela compadecida— Acompanha-me ao tanque. — Barba? —exclamou ela incrédula— Voce? — Vamos! —Levando-a pelo cotovelo. quando me surpreendeu barbeando-me pela primeira vez. muito sorridente. Ian apertou os lábios. Jamie desmontou.

sentado junto a mim na poltrona de carvalho. — Por Deus. que tinha se aproximado. inclinou-se para abraçar-me com suavidade. Mas era Jenny a que me interessava. tecendo meias de lã. tinha agido como se eu fosse um fantasma. — Quer que te sirva algo. Ou achou que ele tinha mentido? —Mal mudaste —comentou ela sem prestar atenção ao seu irmão — Tens o cabelo um pouco mais claro. ao notá-lo. Claire? Encheram os copos. Jenny fez mais ou menos o mesmo. Jenny. a sensação de boas vindas se acentuou — Quer comer algo? —convidou assinalando a bandeja. Claire. Ian. no sofá. abraçou-me com força. — Como estão teus filhos? —perguntei a Jenny para romper o silêncio. que não tinha mudado em nada. Pelo visto. Meus olhos se encheram de lágrimas. — Por Deus. imóvel no sofá. Depois de um momento me soltou para dar um passo atrás. murmurando elogios com a boca cheia. passaram os bolos e nos sentamos ao redor do fogo. depois Jenny olhou para Jamie dessa vez de forma demorada e insondável. Ian. obrigado. apoiando seu cabelo suave em meu rosto. Depois me as estreitou. —Não me viria mal um trago. Jamie me seguia segurando-me pelo cotovelo. mas estás igual. De repente revi a Jenny que conhecia: com seus vivos olhos azul escuro. Ainda que familiar. Tinha uma bandeja de bolos e uma garrafa de cerveja caseira. —Sou eu. —Alonguei-lhe as mãos com um sorriso — Alegro-me de voltar a ver-te. Eu também estourei em risos. que me apagou o cansaço da viagem. senão para disfarçar que nem sua irmã nem seu cunhado o tinham recebido com um abraço cordial. esquentando a perna. a segunda. o pouca que tinha. Olhou ao seu irmão e depois se virou para observar-me. Jamie. Ian se voltou de imediato para nós. em pé ante o fogo. Minha primeira impressão foi que tinha mudado muito. viu-me aproximar-me sem mudar de expressão. A conversa. Eu vacilei um momento mas Jamie avançou com celeridade. obviamente preparada para receber-nos. não parecia a voz forte da mulher que eu recordava. foi morrendo até deixar no quarto um silêncio incômodo. —Seus suaves olhos pardos me sorriam. com os olhos dilatados. Pegou-me as mãos com dedos ligeiros.Provavelmente tinham ouvido aos cachorros. Era uma cena muito acolhedora. mal provou sua cerveja e deixou o bolo de aveia inteira sobre o joelho. Jenny —disse apoiando uma mão reconfortante nas costas. . ele. —É uma alegria voltar a ver-te. Ela também estava me olhando. —Chegamos. Ian. sorrindo com timidez. quase rindo. vistoriando minha cara com curiosidade. —É mesmo você. até seu cheiro é o mesmo! —exclamou. Ao entrar encontramos a Ian e Jenny na sala: ela. ao ver-me pela primeira vez no bordel. Surpreendi um rápido cruzamento de olhos entre os esposos. claro que é voce! —sussurrou enquanto se levantava ligeiramente sufocada. Piscando com a boca entreaberta. Claire? —Sua voz era suave e vacilante. não tinha aceitado o lanche por fome. —Claro que é ela —grunhiu Jamie— Ian já deve ter-te contado. Ela. sim.

. bastante bem —replicou com ar vacilante — Todos muito bonitos. Depois fez outra tentativa— Bem. perguntei-me. — Olha-me! —O filho levantou a cabeça de má vontade. claramente surpreso. —Ian —respondeu ela com suavidade. Depois deu uma olhada ao seu pai e se pôs rígido. A expressão do garoto se despejou como se lhe tivessem lido o indulto frente ao pelotão de fuzilamento. — Está em cima? Jamie respondeu sem comprometer-se: —No tanque. pensando que podias estar ferido ou morto? . ao meu lado.. —O jovem Ian emudeceu. Jamie pigarreou. —Mamãe —saudou inclinando torpemente a cabeça para sua mãe. escapulindo do olhar— Sabes o que lhe fizeste a tua mãe? Desaparecer assim. — Hum! —pigarreou Ian com ar de escocês severo—Bem. eu. —Oh. «Que diabos passa aqui?». —Será? — Desta vez foi Jenny quem o disse enrugando suas finas sobrancelhas negras— Pelo modo em que age em casa. —Será? Senti que Jamie. No corredor sem tapete ressoou o passo irregular da perna de pau: Ian ia para o tanque. sua cara longa e singela se endureceu um pouco. Detectei uma leve inclinação de cabeça por parte de meu esposo e algo em Ian que não chegou a ser um gesto afirmativo. Mas talvez contigo se comporte de outro modo. são e salvo. bom. —Agradeço-te que defendas ao garoto. queria lavar-se um pouco antes de vê-los. E os netos também —adicionou com um súbito sorriso ao pensar neles. até que Joe Fraser nos trouxe tua carta! Imaginas sequer o que foram para ela esses três dias. Teve outra troca de olhares. Em suas palavras tinha uma forte nota de acusação. —Oh. assim as três meninas foram ajudar um pouco. preparando-se para defender o seu sobrinho como pudesse. inadvertidamente. —É um bom moço Ian.Ao ver que dava um soluço compreendi que. engolindo saliva com força. quero escutar tuas explicações. sem que tivéssemos notícias suas durante três dias. Jamie. ficou um pouco tenso. precedido pelo moço. pai. não há nenhuma. Jamie —interveio Ian—. —Quase todos estão na casa do jovem Jamie —interveio Ian como resposta a minha verdadeira pergunta— A semana passada sua esposa teve outro filho. mo chridhe. Ian respirou fundo. O filho pródigo estava tão apresentável como o permitia o uso de sabão. jovenzinho. mas seria melhor falar com ele.. desta vez entre Ian e Jamie. sem dizer uma palavra. ninguém o diria. suponho. tinha feito a pergunta menos adequada.. Voltou carrancudo. O tom gentil fez que o moço levantasse os olhos. e abordou o ponto principal da agenda: —Trouxemos o garoto. olhando diretamente ao seu cunhado. Olhou-o com um leve sorriso — Alegro-me de ter-te em casa. água e navalha de barbear. E Michael foi a Inverness procurar algumas coisas que vêm da França...

—Não tenho nada que dizer. mãe? —Pela primeira vez olhou a Jenny com gesto implorante. Só espero que em Edimburgo não se tenhas comportado do mesmo modo que aqui. Ian —reconheceu— Foi amável. não era minha intenção. que fincou o olhar ao chão. —Bem. Jenny alongou a mão mas o esposo a olhou nos olhos e a voltou a deixar no regaço. — E o que te disse da última vez? Que te disse depois dos castigos? Responde-me. Ian..A expressão de Ian (ou suas palavras) pareceram causar um forte efeito em seu filho. desobedeceste-me e destroçaste o coração de tua mãe. — Descarregou na mesa um golpe que fez saltar todos— Aqui está! Nada de «com vossa permissão» ou «vos enviarei notícias».. com os olhos brilhantes de irritação.. verdade? Sabia tudo isso. — É a verdade! Não é verdade.. fez um pequeno gesto que podia tomar-se como de consentimento. —Não podes dizer que não sabias o que estavas fazendo. —Nem sequer vou perguntar ao seu tio que estiveste fazendo. Os passos arrastados do pecador se perderam pelo corredor. Ela estava quieta como uma pedra. ao que parece já tinha passado por cenas parecidas e sabia como terminavam. que não te tivéssemos proibido ir além de Broch Mordha. ! Nem tão sequer «Querida mãe»! O garoto levantou bruscamente a cabeça. filho! Olha-me! O garoto levantou lentamente a cabeça. Ian! O garoto engoliu saliva com dificuldade... — Sim. com a cara inexpressiva. não pensei que Joe demoraria tanto em trazer a carta —murmurou.. mas a verdade é que me preocupei. Também não ignoravas que nos preocuparíamos. Estou falando contigo.. sim! —Ian enrijecia cada vez mais — «Fui para Edimburgo». —Disseste. disseste que a próxima vez me esfolaria vivo. Supus que terias o juizo de cuidar que não tivesse uma próxima vez. verdade Ian? O moço. — Isso não é verdade! Dizia: «Não se preocupem por mim» e «Abraços. —A verdade é que esta não foi a primeira vez. — É verdade.. — Sinto muito mamãe —disse o garoto em voz tão baixa que mal se ouviu— Não. Naquele momento seus olhos se amaciaram. Espera-me junto ao portão. me agradaria que não fizesses isso. —Que? —Ian voltou para seu cunhado com a testa enrugada pela ira— Que não o açoite? É isso o que vais dizer? Jamie apertou os dentes mas manteve a voz serena... deixando na sala um tenso silêncio. Ian pai falou com lentidão e precisão. que nunca te explicamos os perigos. — terminou a frase com um pequeno encolhimento de ombros. Essa é a verdade. —Ian —disse Jamie suavemente—. —Terminou a frase com um gemido. Ian. mas me equivoquei. friamente. Mas não me permitirás explicar o que fez? .. e ainda assim foi. não? Estou muito decepcionado contigo. mas Ian a calou com um gesto brusco. assim. Jenny se moveu outra vez como se quisesse falar. Ian». Agora estava carrancudo mas resignado. É teu filho e podes fazer o que quiser. — A carta. —Assinalou a porta com um menear da cabeça—Para fora. sem responder. De todas formas.

evidente que não.. Por Deus. Jenny. seria porque não há outro remédio. sim. Ante a menção dos prostíbulos. não perguntou. Jamie. Jamie. não creio que tenhas feito isso —interveio Ian—. Jamie virou os olhos e direcionou à seu cunhado uma rápida olhada de acusação.. —Não. eu o quero como se fosse meu filho! —É mesmo? —inquiriu com incredualidade— Por isso o incentivaste a fugir de casa e o guardou contigo sem fazer-nos chegar uma só palavra para tranqüilizar-nos? Jamie teve a decência de mostrar-se envergonhado. ainda que as vezes não me convenha muito dizê-lo. não? —E culpas a mim pelo que fazes? É culpa minha ter filhos que precisam comer? Jenny não enrijecia como Jamie: quando perdia os estribos se punha branca de fúria. Maldito sejas.. Vi que ele se esforçava por dominar seu gênio. —Sim. muito diferente . Se eles são delinqüentes. é verdade. —Culpar-te? Não. —Não lhe disse nada —explicou— Já sabes como ela é. —Não —disse— Fazes o que podes. Mas quanto a incentivá-lo para que fugisse. Vejo como te escuta quando vens de visita. Jenny. —Tratar com delinqüentes como eu? —perguntou Jamie com voz ofendida— Sabes de onde sai o dinheiro para manter toda esta família Jenny? Não é dos salmos que imprimo em Edimburgo! — Acha que não o sei? —lhe espetou ela— Alguma vez te perguntei o que fazias? —Não. sinto muito.— O que fez? —exclamou Jenny voltando subitamente à vida. Eu faço o mesmo que eles.. Não avisei. Mas nem por isso quero que meu filho participe. Mas bem sabes que não colocaria o teu filho em perigo. O outro mexeu a cabeça. Mas esse garoto te adora. Acho que preferias não saber. Jamie tratou de mostrar-se razoável. compreendo. Podia deixar que seu esposo se ocupasse do jovem Ian mas tratando-se de seu irmão ninguém falaria por ela — Escapar no meio da noite como ladrões? Tratar com delinqüentes e arriscar a pele por um barril de conhaque? Ian a fez calar com um gesto rápido. isso não importa mais. estupefato pela ferocidade de sua esposa. Sabes muito bem que não me referia a ti ao falar de delinqüentes mas. o que sou eu? —Meu irmão —respondeu ela rapidamente—. Mas tens direito a culpar-me por Ian e eu não posso manter todos trabalhando nestas terras? Jenny também estava fazendo um esforço por dominar-se. Tua maneira de viver lhe parece uma grande aventura. ao menos diretamente. —Bem.. Jamie Fraser! Sabes muito bem que não quero brigar contigo pelo que fazes! Se fosses assaltante de caminhos ou dono de prostíbulos. Minha intenção era. Mas sabes. —Interrompeu-se com um gesto de impaciência— Bem. —Então te referes aos homens que emprego..

—Passas a vida dizendo que o queres como se fosse teu filho.— Não posso açoita-lo! —Eu creio que sim que podes. Jenny ergueu as sobrancelhas. Deus quis proteger-me por alguma razão. Jenny —corrigiu ele suavemente. E também recordo como voltaste. e conheces muito bem a diferença. esse talento se estendia ao seu filho. é uma criança de quatorze anos! —Aos quatorze eu era um homem. Mexeu lentamente a cabeça. —Levantou-se bruscamente com os olhos úmidos. Nós também éramos assim. —Hum.a remover esterco para a horta de sua mãe. Jamie. —Abriu uma gaveta do aparador. —Não importa o que queira —interrompeu Jenny— O tipo de aventuras que pode correr contigo não lhe convêm. é um pouco cruel obrigá-lo a esperar. Depois se voltou para sua irmã. Bem. —Não sei muito sobre tua forma de vida. Ian estava contemplando a briga entre os irmãos com tanta fascinação como eu. não creio. — Eras um formoso moço. sobretudo no que se referia ao seu irmão. não? —Tens que fazer. Jamie. O bom Deus sabe que a ti te protege algum feitiço. Jamie. —Jamie me olhou com um breve sorriso e me procurou a mão.. Jamie. Isso é ser um homem? Jamie a encarou com um reflexo de humor. Ela ergueu uma sobrancelha sem afastar a vista. —Bem. quando partiste com Dougal para a primeira incursão. Ian? —Jamie fez o último esforço.. não? Jamie o olhou um longo instante. . encolhendo os ombros. é normal que os garotos dessa idade queiram um pouco de aventura. Não me parece bem que o açoite como se fosse uma criança. —Bem. Sorriu brevemente contra sua vontade. — O que mais? —inquiriu ela ainda mais seca— Deitar-se com uma mulher? Matar um homem? Sempre pensei que Jenny Fraser tinha um pouco de videncia. Não posso voltar atrás. —Não.. Jamie imitou seu gesto. Agora quanto eu fazer. imundo de lodo e com um arranhão na cara enquanto Dougal se gabava ante papai da coragem que tinhas tido por afastar seis vacas sozinho e não proferir uma queixa quando te feriram. O jovem Ian se portou como um verdadeiro homem esta semana. isso é o que queria dizer. sacou uma gorda correia de couro e a pôs nas mãos de Jamie — Você vai fazer . —Suponho que sim. —Faz uns quinze minutos que o garoto está esperando seus castigos —observou. Caso contrário terias morrido dez ou doze vezes. mas te conheço e estou segura de que não é o mais conveniente para um menino. —Assim agora é um homem! Caramba. —Seja ou não conveniente açoitá-lo. —Ian cruzou calmamente os braços. —Jamie esfregou a barba crescida e fez outra tentativa— Bem. — disse-lhe que vai receber uma surra e ele sabe perfeitamente porque a ganhou.. Mas tu sim. E pelo visto. É melhor que o descubras por si mesmo. talvez. —Bem —respondeu o cunhado lentamente. —Isso era o que você acreditava. não. com o punhal na coxa. isso e algo mais. o pequeno Ian ainda não é um homem. —Eu?—exclamou Jamie horrorizado. Nesse momento tossiu baixo. sim. Jamie: ser pai desse menino não é nada fácil.

— A mim? —O garoto parecia um pouco desconcertado. recostado com tristeza no portão de madeira. — Obrigado. — O garoto é honrado —murmurou. ao meu lado. mas me conformo com muito mau. Ian. Ian pai. —disse ele com franqueza— Mas antes devo pedir-te perdão. —E nisso tem muitíssima razão —murmurou Jamie obviamente irritado ainda por sua briga com Jenny— Pronto? . — Tio Jamie! —Seus olhos cairam sobre a correia — É você quem vai me açoitar? — Suponho que sim. Jamie.. não me faças isto! —protestou Jamie. Finalmente se juntou à janela.? —Geralmente são dez. — Para que meu pai te obrigue a fazer isto. Meu esposo apertou os lábios. — Claro que sim.. —Espera. Jamie o imitou com mais lentidão. Causei mais preocupações a teus pais das que voce teria causado sozinho. e. teu pai. a uns vinte metros da casa. tio. —Bem. Lá fora a luz ia se apagando rapidamente mas ainda dava para ver a figura seca do jovem Ian. Depois o garoto. Ian e eu. —Hum. Bem. Fiz mal ao permitir que ficasses comigo em Edimburgo. tio. depois olhou a mim.—Merece tanto como ele. Ian. —Jamie respirou fundo e jogou o braço para trás mas seu sobrinho o interrompeu. Ficaram em silêncio. resignado. O jovem Ian.. —Jamie parecia tão arredio ou mais do que seu sobrinho. Levei-te a lugares onde não deverias ter estado e talvez te pus em perigo. Doze se me comportei muito mau e quinze se foi algo horrível. —Suponho que sim. girou para o portão sem vacilar. —Papai diz que só às meninas são açoitadas com as saias postas —explicou— Os homens devem receber o castigo com o traseiro descoberto. suspirando. tio Jamie. Depois girou ao redor e saiu sem falar. Vê. encolheu os ombros. E provavelmente também ao contar-te contos e dar-te a idéia de escapar... deve de ter sido horrível. sim. pusemo-nos por trás dela. —Oh. — Ah. Por isso te peço que me perdoe. Ian. — O que me dizes? Se comportaste simplesmente mal ou muito mal? O jovenzinho soltou um riso apático. —Será melhor que o faças de uma vez.. que éramos bem mais altos. muito menos antes de açoitá-lo... tio. não era habitual que seus maiores lhe pedissem desculpas. Será melhor que me dê doze. tio Jamie. Ainda não estou pronto. Claro. —O garoto tinha tirado o casaco e falava acima do ombro—. soltou um resfôlego engraçado. — Não tens por que. Pelo visto. Jenny lançou uma rápida olhada a seu esposo.

preferiria não ter que voltar a passar por isto. — Não posso fazer isso. Ian. Entendido? —S-s-sim. me comportei tão mal como voce e eu também devo pagar. Obrigado. Por fim Jamie deixou cair o braço e enxugou a testa. —Sua voz soava ligeiramente rouca mas serena. Por um momento se abriu a porta do corredor. E as duas figuras. Ouvimos como Ian filho contava minuciosamente e descia os golpes. já mal visíveis. mas os dois devem cumprir. ok? —disse em tom confidencial. tio —disse Ian imitando sua ironia. O garoto ficou tão impressionado como os que estávamos em casa. —Então vamos! —Jamie baixou as calças e voltou a inclinar-se sobre o portão. tio —gaguejou o jovenzinho. —Sim? E o que é isso? . — Que? —exclamou estupefato. pequeno braço que tens! —Como o teu. tio! — Claro que podes. Jenny e Ian se voltaram em uníssono para saudar aos pródigos. esfregaram-se rindo. Não me agradou te açoitar também não te agradará. o tio deu um passo atrás e alçou o braço. Agora castiga-me. pôs-lhe a correia na mão. em vez de conduzi-lo para a casa.Feitos os necessários ajustes. — Eu te castiguei. —Sim. A silhueta delgada se ergueu e a correia assobiou no ar. Aceitou a mão que Jamie lhe oferecia mas seu tio. Depois de trocar olhares. Ouviu-se um forte estalo e Jenny fez um gesto de dor e de solidariedade com seu filho. —Estás bem. — Agora é a sua vez! —repetiu Jamie com firmeza. —Jamie se incorporou para olhá-lo aos olhos— Não ouviste o que te disse quando te pedi perdão? Bem. —Obrigado. filho? O jovem Ian ergueu as costas com certa dificuldade e subiu as calças. — Agora é a sua vez. —Se não te incomoda. tio Jamie. —anunciou apoiando-se no portão. Jamie meteu a camisa dentro das calças e saudou a seu sobrinho com uma formal inclinação de cabeça. —Depois abandonou a formalidade para esfregar o traseiro —Caramba. tio. Depois do último e ante um suspiro geral de alívio dentro da casa. —Trato feito. CAPÍTULO 33 Tesouro enterrado —Pareces um baduíno —comentei. Ian. Depois Jamie rodeou com um braço os ombros de seu sobrinho e virou para a casa.

O jovem Ian pode parecer-se aos Murray mas é um Fraser feito e direito. — Não. rindo. sem dúvida para pensar sobre as curiosas conseqüências de desobedecer.— Fazia trinta anos que ninguém me açoitava. completamente nu. Jenny e Ian já não estão aborrecidos contigo —observei.. Dorcas me disse que muitos cavaleiros pagam muito bem pelo privilégio de receber uma surra no bordel. O jovem Ian tinha recebido a absolvição de seus pais sob a forma de um beijo materno e um veloz abraço do pai.. isso ainda os deixa mais obstinados. teu poder de observação é impecável.. —Verdade? Suponho que é verdade. não creio que estivessem muito. Em realidade. Depois se espreguiçou com prazer. —Isso é. ou de teu sobrinho. sei que valeu a pena. Falava com segurança e me pareceu que tinha muita razão. Suspeitei que isso lhe importava mais do que os efeitos de sua atuação sobre o sobrinho.. É que não sabiam que fazer com o garoto —explicou. Mas por não repetir algo como isto será capaz de caminhar pelas brasas. Jamie soltou um resmungo. Sassenach. Aproxime-se mais. estimula. —E passou cuidadosamente as mãos pelo traseiro ainda aceso. Jamie também tinha sido absolvido com beijos. Depois se retirou à cama com um punhado de bolos. — Ao menos. Deus. em vez de fazê-lo entre brejos molhados. e não conseguirás senão fortalecer sua decisão de fugir à primeira oportunidade. Melhor ainda dormir numa cama para valer. —Girei sobre mim mesma desfrutando os fartos cobertores. —Acha que valeu a pena? — Oh. Jamie atirou a camisa sobre o montão de roupa sem nenhuma mostra de incômodo. —Oh. Mas eu não o entendo. quer? —Colocou as pernas entre as minhas. Seu corpo estava frio e duro como o mármore.— Ouve. —O terei em conta —disse. se Dorcas o diz. Já havia me esquecido — Pensar que o jovem Ian te atribuía um traseiro tão duro como o couro de arreio! —exclamei divertida. Ofegou. Diz que isso os. Se queres minha opinião. como estás quentinha. não? —comentei sorrindo.. — Os Fraser são teimosos.Apesar do gelado ar outonal que entrava pela janela semi-aberta. . Podes desmaiar a golpes a esse garoto. E com a teimosia não servem os gritos nem as surras. — Bem. — Oh. como fez seu pai mais de uma vez. Lancei um grito mas me deixei atrair contra seu peito sem protestar — Caramba. sim —respondeu com despreocupação deslizando-se ao meu lado.— talvez não seja o mesmo receber surras de uma garota bela que de teu pai. que gosto não estar em cima do cavalo! — Hum.. há maneiras bem mais agradáveis de conseguir uma ereção. Por outra parte —disse para ser justo. — Quer dizer-me o que é um baduíno? —perguntou Jamie— Ou o dizias só por gosto? — Um baduíno—expliquei desfrutando do espetáculo que me brindava suas costas musculosas enquanto se lavava— é um macaco muito grande com o traseiro vermelho. Riu entre dentes.

por trás da cozinha. O calor de suas mãos envolveu-me os peitos. —Que bonito —murmurei deslizando um dedo pelas poderosas costelas que davam forma ao torso— Que bonito ter um corpo de homem que se possa tocar. —Fechou a mão sobre a minha. Ele se deitou de lado. —Sim. Observei as leves linhas das cicatrizes que lhe entrecruzavam os ombros. —Faz pouco tempo? Respirou com lentidão antes de responder. que estava apoiada em meu ventre. Quer que provemos um dia destes? — Não. Percorri a meia lua em toda sua longitude. O ar frio do outono corria pelo quarto misturando-se com o calor fumegante do fogo. — Sim! Era algo que não tinha sentido falta conscientemente mas agora voltava a recordar esse prazer: a intimidade em que o corpo do homem te é tão acessível como o próprio. Ian e Jenny na outra ponta do corredor e o jovem Ian. —Mas creio saber porque. escutando o gotejar da chuva. de repente. creio que sim. Faltavam a maioria dos filhos e netos. Agora tinha ali uma fina curva em forma de meia lua que não me era familiar e um corte em diagonal que antes não existia: sinais de um passado violento que eu não tinha compartilhado. ainda que estivesse bem cicatrizado. não? —perguntei. e a voce? A vela tinha se consumido. só ficavam os serventes em seus quartos longínquos. Rodeou-me os ombros com um braço para acariciar-me o cabelo. —Sorriu-me com os olhos mais enviesados do que de costume. todos dormiam. Moveu ligeiramente um ombro sem chegar a encolhê-lo. — Certamente me ocorrem coisas mais agradáveis. de costas para mim e subiu a colcha para abrigar-nos. —Sabes por quem? —Não. um prolongamento de teus próprios membros. Tinha sido um corte profundo. —De vez em quando. Na casa reinava um grande silêncio. o fogo quase tinha desaparecido da chaminé e a pálida luz das estrelas penetrava pela janela embaçada.— Talvez. Em outros tempos tinha conhecido aquelas marcas tão bem que podia percorrê-las às cegas com os dedos. fechados como os de um gato sonolento. — Você foi perseguido. a linha seguia nítida sob as polpas de meus dedos. . como se essas estranhas formas fossem. Baixei os dedos pelo corte em diagonal. Ficamos em silêncio por alguns momentos. acima. —Ainda te agrada? —perguntou entre tímido e satisfeito.

navios da Espanha. e em todo caso. nenhum de nós ficava muito tempo fora da prisão. depois da queda de Stirling.. E ao saber isso. —Bem.. Movia-se com celeridade. onde uma roseira fazia sombras sobre o vidro. Nenhum de nós era dessa zona. sorrindo com melancolia. não desperdices teu tempo lamentando-se. Ao princípio pensei que se referia a voce. Era sua única possibilidade contar a alguém de confiança. Era verdade. Pela cabeça me cruzou todo tipo de loucuras.—Não teria escapado da prisão se não tivesse pensado que podia estar relacionado contigo. pouco depois: . Sassenach. Ali há centenas de ilhéus e rochas.. —Suspirou profundamente. —De repente me ocorreu que algo podia ter saído mal. algo teve... —Jamie.. —Duncan tinha febre mas não delirava. Segundo o inglês. —Eu ignorava de onde provia o ouro mas compreendi que ele estava me dizendo onde estava e porque. tinha sido enviado para ele. mas ele não o enviou. pouco antes de Culloden. Pertencia ao príncipe Tearlach. mais ou menos. mas negro como o azeviche. mas quase tudo ficou em nada. e quase parou meu coração ao escutá-lo. Não.. Deu-me um beijo na testa. que idade teria? Dez anos. deslizando-se como uma foca na água. Não estava delirando. ainda que não enviado por Luis. Sassenach.. sabia quem era eu. E isso das focas. Fugir não era difícil mas os homens rara vez o tentavam. Quando Duncan Kerr mencionou o nome de Ellen compreendi que se referia a minha mãe.. —voltou a encolher-se de ombros—. —Oh. mas as focas vivem num só ponto: no extremo das terras dos MacKenzie. À luz brilhava como se estivesse molhado. falou-se muito de uma certa quantidade de ouro que vinha da França? —Enviado por Luis? Sim. —Quando minha mãe fugiu de Leoch. sorrindo. Levantou um pouco a cabeça para olhar para a janela. —Comigo na prisão? E Brianna. De repente encolheu os ombros. Depois retomou o relato. passou uma mão pela densa cabeleira. armas da Holanda. O duque de Cumberland e seus homens tinham feito um bom trabalho. —Tinha o cabelo farto. E me disse. por estranho que soasse tudo. Sassenach. parece uma charada. —Focas e bruxas brancas? —repeti— Francamente. Sabia que estava morrendo e quem era eu..—Não tenho nem idéia de quem era a bruxa branca.—Recordas que. —Oxalá tivesse sido assim —sussurrei. Era um sinal de que sabia meu nome. continuo. que talvez não estivesses com Frank em teu lugar de origem senão na França. —Apertou-me a mão. Sempre teve rumores: ouro da França. E voce entendeu? —Não tudo —admitiu. Mas então ninguém sabia. como o meu. Tal como disse um contemporâneo ao avaliar seus lucros. Duncan tinha aparecido próximo da costa. Falaram-me de seu encontro com o moribundo Duncan Kerr e sua mensagem sussurrada no sótão da pousada sob a olhada vigilante do oficial inglês. o povo disse que tinha ido viver com as focas só porque a criada que tinha visto meu pai disse que parecia uma grande foca que tivesse abandonado a pele para caminhar pela terra como um homem. frente a Coigach. Agora estás aqui e não voltarás a deixar-me. —E você foi para lá? —Sim.

mas. Quando pôde assomar a cabeça e os ombros. Mas no fim respirou fundo e disse com timidez. naquele momento ouvi a voz de minha mãe que me chamava. Despiu-se e.. fechei os olhos procurando na mente uma antiga prece que os celtas recitavam para não se afogar.. filho!» — Respirou fundo e deixei escapar lentamente o ar — Escutei-a com total clareza mas não vi nada.. qualquer prisioneiro que escapasse de Ardsmuir se teria encontrado realmente só. Pensei que estava acabado pois sabia que jamais poderia regressar. —Foi como se alguém me tivesse carregado nos braços — disse como se ainda o surpreendesse a recordação.» Realmente. Bastava-me bater os pés um pouco para manter a cabeça fora da água. o tesouro estava na terceira ilha. —Ali a rocha estava puída. . Segundo a interpretação que Jamie tinha feito do relato de Duncan. ofegante. —Vai me dizer que estou louco. senão a sua direita. uma pessoa ciente da região. —Quisera tenha sido só porque tinha estado pensando nela ao abandonar a costa. entregando ao abraço do mar. ao ouvir sua voz dei a volta e tratei de avançar. Jamie. Não me ocorria como chegar à água e muito menos à ilha das focas. levava vantagem a seus perseguidores forasteiros e a cavalo. que viajasse a pé. ou afundar-me. sem clã nem amigos que o socorressem. depois de persignar-se. uma pequena chaminé que cruzava os vinte e cinco metros de alcantilado. Escapou a meia tarde e caminhou durante toda a noite orientando-se pelas estrelas e chegou à costa cerca do amanhecer do dia seguinte. Ali estava «a torre»: uma pequena saliência de pedra.. a água era um pouco mais morna que antes e me levava consigo. Ainda que estava tão cansado que já não me importava morrer. como tinha acreditado. Pensava dar dez braçadas e deter-me novamente para descansar. Cego pelo sal e ensurdecido pelo mar agitado. Por outra parte. Então deixei de nadar e me limitei a boiar de costas. Sassenach. Mareado pela fome e o esforço. encomendou sua alma à mãe. incômodo.«Criou um deserto e o chamou paz. viu que o promontório não estava atrás. —O rincão das focas é muito conhecido entre os MacKenzie. ao aproximar-me demais da borda entre meus pés se desprendiam bocados que caíam pelo alcantilado. com Dougal. menos de um metro e meio do ponto mais alto do promontório. Vêem a mim. lutou contra as correntes durante um tempo que lhe pareceu extensíssimo. naquele remoto setor do reino não tinha bons caminhos. Ficou calado até que lhe toquei o rosto. Eu tinha estado ali uma vez.— Senti-a ao meu arredor. Àquelas alturas do relato guardei silêncio durante tanto tempo que me perguntei se teria algum problema.. Jamais o contei a ninguém. À oitava braçada me apressou a corrente. era uma rota difícil pela que podia descer um homem a pé. a mais afastada da costa. Depois se atirou nu às ondas.. Mas sob a saliência tinha uma estreita greta oculta entre as rochas. —Encolheu-se de ombros. Desde a base da torre de Ellen até a terceira ilha ficavam ainda mais de quatrocentos metros de água verde e agitada. —A maré estava baixando e me arrastava —disse irônico—. Jamie sabia que o comandante inglês não demoraria em adivinhar para onde ele ia e organizar uma partida de perseguição. — Disse-me: «Vêem a mim. Já estava a dois dias sem comer e não me restavam muitas forças. justo no meio da oração. nem sequer a Jenny. — O que ela disse? —perguntei baixinho. Mas então recordei o que tinha dito Duncan sobre a torre de Ellen. No entanto.

girando as . Ainda que Jamie não era pescador nem marinheiro. Tinha sentado numa rocha sob o céu cinza. outras. —Moedas antigas. —Antigas? Muito velhas quer dizer. pérolas. —Não o que teria enviado Luis para alimentar um exército —concluiu ele. sim. Não muitas. de formas tão nítidas como se estivessem recém cunhadas. aturdido como estava pelo cansaço.A corrente. em menos de um metro de distância: uma grande foca macho. sim.» —E daí.—Bem grandes. Depois lhe disse: «Não se preocupe. Depois de descansar um momento. e também prata. sim: a caixa de madeira continha duzentas e cinco moedas de ouro e prata. não se sentiu muito disposto a pô-lo em dúvida. Não demorou em achar uma profunda fenda que conduzia a um oco.—Não: quem pôs esse tesouro ali não foi Luis nem um de seus ministros. Jamie iniciou uma metódica inspeção das gretas. tinha-o levado até a margem do terceiro ilhéu. —E o saco? —perguntei— O que tinha no saco? —Pedras. —Sorriu. Muito antigas. —Pesava mais de cento trinta quilos. mas não. —Ainda que não quisesse exagerar teria podido lançarme ao mar com um só movimento ou arrastar-me ao fundo para que me afogasse. —Bem. com umas poucas braçadas teve as rochas a seu alcance. —Então senti algo que se erguia acima de mim e um horrível fedor de pescado morto —disse— Pus-me imediatamente de joelhos. —Creio que eu não estava em condições de fazer nada sensato. Ouro e prata. Sou eu. Mas no oco só tinha uma caixa que não superava os trinta centímetros de longitude e um pequeno saco de couro. Sassenach —respondeu afundando o estômago — Eu esperava encontrar lingotes de ouro. Sassenach. Na caixa tinha ouro. Ali estava.. Limitei-me a olhá-lo durante um momento. que me olhava fixamente. esmeraldas. Sassenach. Diamantes. mas sim grandes e bem talhadas. safiras. —É óbvio que não o fez —disse— O que aconteceu? Jamie se jogou a rir. com as marcas gastadas até ser quase invisíveis.. forte e encrespada entre ilhas e promontórios. lustrosa e molhada. —É incrível —suspirei. Vendo aquela boca aberta. Trinta mil libras em lingotes de ouro avolumariam muito. franzindo o cenho.—Era um tesouro. algumas. sobretudo quando um intruso ameaçava seu território. —Gregas e romanas. com sua formosa dentadura arregaçada e os rolos de gordura dura que cingiam seu enorme corpo. tinha escutado suficientes histórias para saber que os machos eram perigosos. Depois emitiu uma espécie de rosnado e se deslizou à água. o que fez a foca? Jamie se encolheu ligeiramente de ombros. não mantenha em suspense —protestei— O ouro do Francês estava ali? —Sim e não. Pedras preciosas. —Olhou-me fixamente. sabe? Altera os nervos se olham muito tempo. trinta centímetros por embaixo da superfície rochosa. As focas não piscam muito. Sassenach —disse.

—Não. — Não. longe do perigo. tempo para reflexionar sobre o incêndio da tipografia. Assim que pus a caixa e o saco onde os tinha encontrado gatinhei para a água.. tinha que regressar. Sassenach. Não quis expor as pessoas da zona a esse tipo de perigo. como se lhe custasse encontrar as palavras. A maré estava baixa e as fêmeas tinham voltado da pesca. andei terra adentro. a corrente o levou ao pé do promontório. Mas precisavam de um chefe. —Tinha que regressar —disse com lentidão— Ainda que só pelos homens. Tinham-nos separado a todos para enviá-los a uma terra estrangeira sem que ele pudesse salvá-los.moedas e as jóias entre os dedos. em Lallybroch. —Então me pareceu melhor retirar-me. que tinha sido dos homens de Ardsmuir. Quando finalmente consegui reter o calor e pude manter-me em pé. Poderia ter vivido um tempo no marasmo. já tinha achado o que procurava. Se deteve.— Vi muitos amanheceres. o encontro com os agentes da Alfândega na costa de Arbroath e decidir que faríamos a seguir. A diferença da bagunça comercial do bordel. Ao levantar a cabeça se descobriu rodeado por um círculo de focas curiosas. se não me capturavam retomariam a busca aqui. Era como se o sol nascente estivesse dentro de mim..—Se estavas livre. agora. de lar e segurança. —E isso você era para eles? —Falei com suavidade. Pela primeira vez estávamos realmente juntos e sós. Passamos um longo momento em silêncio. abraçados e acalentados pelos pequenos ruídos da casa. mas nenhum como aquele. nu e faminto. Sassenach. —A falta de outro melhor —respondeu com um reflexo sorriso. vinte pares de redondos olhos negros o estudavam com cautela. . mais valente pela presença de seu harém. tinhas dinheiro e. depois de vestir-se. —Acordei ao amanhecer —disse suavemente. o marinheiro do jovem Ian. Mas já passou tudo —lhe consolei. Como tinha tempo. esses pequenos rangidos e suspiros davam a sensação de quietude. Sassenach? Podia entrar no lar de um fazendeiro e oferecer-lhe um denário de ouro ou uma pequena esmeralda? —Sorriu ante minha indignação mexendo a cabeça. Em meia hora. nenhuma choupana estaria a salvo dos ingleses. mas estavam me procurando. Tinhamos tempo. com afinco pois pensavam que eu sabia onde estava escondido o ouro. Tempo para escutar o resto da história: saber que tinha feito com o ouro. Depois de tudo. Enquanto eu estivesse em liberdade e pudesse pedir refúgio. para ir ao encontro dos ingleses. Mas aqueles homens tinham desaparecido. dominando o impulso de alisar-lhe o cenho. já não era necessário falar dessas coisas.! —E onde podia gastar esse dinheiro. ficou dormido num ninho de ervas secas. Além disso. acercou-se entre fortes rosnados. E de qualquer modo. —Mas por que voltaste? —quis saber. para o caminho.. meio congelado. —Pelos homens da prisão? —perguntei surpresa — Tinha prisioneiros de Lallybroch encarcerados contigo? Sacudiu a cabeça. Tinha homens de quase todos os clãs. —Fizeste o possível por eles. nem muito menos podia arriscar a minha própria família. O enorme macho negro.. Por fim teve a sensação de que o estavam olhando.

escondendo a cara em seu pescoço. Envolveu-me com seus braços. —Isso é diferente. A paisagem exterior era perfeita em sua imóvel clareza: muros de pedra e pinheiros escuros. Me mordeu suavemente o lóbulo da orelha. Seu estômago rosnou com suavidade. Ele mudou de posição para unir os nossos corpos nus em toda sua longitude. Sassenach? —murmurou. alonguei a mão para a primeira roupa disponível. Sassenach —assinalou—. Jamie o maior se alegraria de vêlas. Disse-me que. o fogo de carvão emite muito calor.O último fragmento de carvão se rompeu na chaminé. como traços de pluma sob as nuvens cinzas da manhã. —E com comida. ao menos até que o fogo estivesse bem aceso. pelo momento. E agora cala-te. voce também o fazes. —Bem. Mal tinha amanhecido quando me despertou o arranhar da roseira na janela e o leve tilintar na cozinha. mas as saias inchadas me revelaram que os três cavalheiros eram mulheres. Fechei a janela e tirei a camisa para esconder-me sob os cobertores. —E voce? —Hummmm —foi um rosnado bem aventurado. —Com que? —Com mulheres nuas —disse mordendo-me o ombro. As tábuas do piso estavam geladas. — Outra vez? —murmurei divertida. Estavam muito longe para distinguir-lhes os rostos. curvando-se contra meu corpo como uma colher contra outra.—Sou mulher. Estremecida. mas também muita fumaça.— eu também não o faria. No ar tinha um inconfundível cheiro de bolos e toucinho frito. Ele sentiu o frio de meu regresso e rodou instintivamente para mim. —E se não fosses mulher —me segurou pondo-se mãos à obra. O fogo tinha se apagado por completo. onde uma tosca senda conduzia à aldeia de Broch Mordha. Me encolhi contra Jamie. Talvez fossem as moças (Maggie. Um a um. Abandonei a cama sem fazer ruído para não acordar a Jamie. —Como nunca —lhe assegurei acomodando o traseiro frio no oco morno de suas coxas. com um feixe de conhaque. ajoelhei-me junto à lareira para reavivar as brasas. onde preparavam o café da manhã. . como atestavam as vigas enegrecidas. Um movimento me fez desviar a vista para a crista da colina. Cheirava vagamente a erva e a suor. Pela noite tinha deixado a janela entreaberta para evitar que a fumaça nos sufocasse. Envolvida na camisa de Jamie. sonolento. e és mais velha do que eu.— Supõe-se que os homens de tua idade não voltam a começar tão cedo. Kitty e Janet) que voltavam de casa do jovem Jamie. —Sonhei como um demônio. três pequenos pôneis montanheses apareceram no alto da costa e iniciaram a descida para a fazenda. Depois esfregou a cara no meu ombro. poderíamos prescindir do ar fresco. a dezesseis quilômetros de distância. —Dormiste bem. —Afoguei uma pequena exclamação ao senti-lo sobre mim.

. —Que diabos estás fazendo aqui? —interpelou. e uma moça gorducha de um presunto bem curtido.—Papai! Ao abrir a porta. agora sou uma besta —riu—Bem. Depois retirou o cabelo da cara fincando na garota um olhar fulminante. —Creio que a diferença não é tanta como eu pensava —observou assomando a cabeça entre minhas pernas com o cabelo vermelho arrepiado como um porco espinho. insegura. Nu. A moça deu um passo atrás. —Vim com mamãe! Um disparo ao coração não teria causado tanto efeito em Jamie. sem prestar nenhuma atenção aos meus gritos e à chuva de golpes que lhe destinei. Me apertou as nádegas com ambas mãos..? Interrompeu-o um súbito estrondo. submergiu-se sob a colcha para mordiscar a face interior das coxas. lançando-me apressadamente o cobertor e pegando suas calças. Jamie tinha se convertido em pedra.. depois desceram até encontrar-se com Jamie. Passaram lentamente de meu cabelo encaracolado aos meus peitos nus. apesar das semelhanças. cabeleira muito loira e grandes olhos azuis. apresentava um aspecto formidável. Naquele momento se incorporou bruscamente para recolher a colcha caída. fazendo-me soltar um grito.. No vão da porta se erguia uma jovenzinha desconhecida para mim. mudo por um espanto tão grande como o dela. Mal tinha se vestido quando outra silhueta feminina irrompeu no quarto e se deteve bruscamente. pois. Teria quinze ou dezesseis anos.. Com um profundo bramido.—Enquanto não confundas uma coisa com a outra. Que. — Então era verdade! —Voltou-se para Jamie apertando os punhos— É verdade! É a bruxa Sassenach! Como pode fazer-me isso. que jazia com a boca aberta entre minhas coxas. mas firmou a mandíbula e lhe sustentou o olhar. sobressaltados. Laoghaire —alfinetou ele— Não te fiz nada! . —Ao paladar és bastante salgada. Voltamo-nos a olhar. Deu um violento sobressalto e de sua cara desapareceu a cor.. — Papai! —exclamou a garota cheia de indignação — Quem é esta mulher? CAPÍTULO 34 Papai —Papai? —repeti alterada. Então saltou da cama. com os olhos fora de órbitas fixos na cama. —Sei distinguir um falcão de um serrote quando o vento vem do noroeste —me assegurou—. Seus olhos eram um pouco maiores do normal e estavam fixos em mim com expressão de espanto. que voltou rapidamente ao ouvir umas pisadas aceleradas na escada. A porta se abriu de par em par batendo contra a parede. com a barba vermelha e enrouquecido pela fúria. Jamie Fraser? —Cala-te. —Besta! —protestei chutando-lhe as canelas. —Ah.

— É meu! —sussurrou golpeando o solo com um pé. Bree... Laoghaire MacKenzie era uma esbelta moça de dezesseis anos: pele como pétalas de rosa. E recolheu a camisa para pôr com um jeito violento.Só ao ouvir seu nome a reconheci. —Sentia muito frio e meu vestido estava atrás de Jamie. apoderou-se dela para atirar-me mas Jamie a tirou limpamente da mão e a segurou pelo braço com tanta força que a fez gritar.. Maldito Jamie! Que tivesse voltado a se casar. Claire —disse. — Me parece que não. cabelo como raios de luar e uma violenta paixão não correspondida por Jamie Fraser. Quando se voltou para mim. Ele lhe segurou o outro punho para levá-la ao corredor. — É melhor dar explicações a tua filha —observei passando a anágua pela cabeça. Tinha engordado muito e as mechas que escapavam de sua coifa tinham a cor da cinza. — Escuta-me! —Jamie bateu o punho na mesa com um estrondo que me fez saltar.— Vou arrumar as coisas. Sass. — Desça! —ordenou. Claire. — Oh. Sassenach. Depois fechou a porta com chave.. era uma coisa. — N-n-não creio. — Não te movas daqui. tremendo dos pés a cabeça. — Não irás a parte alguma. Pensar em Laoghaire converteu instantaneamente a dor em ira. mas os olhos que fixou em mim tinham a mesma expressão de ódio daquele tempo. maldita seja! —gritou golpeando a mesa outra vez. Depois falaremos. — Não me chame assim! —gritei para surpresa dos dois. deveria ter sabido! Ao inferno com ele! Como pôde aceitá-la? . Ele me olhou um instante. E com a mão livre lhe arranhou a cara desde o olho até o queixo. digo-te! Como eu não dava sinais de obedecer. meu Deus! Me deixei a chorar: em parte pela desagradável surpresa e em parte pela recordação de Brianna. Laoghaire. —Respirou fundo. Claro que ele devia ignorar isto. Mais de vinte anos atrás. — Como se fosse falar comigo! —gritou ela. olhou ao seu arredor procurando uma arma. eu estava sentada na beira da cama tratando de vestir minhas meias com mãos tremulas. Ao ver a jarra de água. — Bem. — Não é minha filha! — Não? —Tirei a cabeça pelo decote da anágua. – Volte ao inferno de onde vieste! Vá e deixa-me. — Posso explicar-te. Antes tens que. — Está bem. com a lã verde feita um novelo nos joelhos. Bree! —exclamei— Oh. eu e voce. — Preciso da minha roupa. acreditando-se viúvo.. — Também não estás casado com Laoghaire? — Estou casado contigo. Depois assentiu com a cabeça. Me levantei para por o vestido.—Depois falarei contigo. Depois me joguei na cama.. Mas que tivesse casado com aquela rancorosa mulher que tinha tratado de assassinar-me no Castelo de Leoch.

Precisava sair dali. Perfeito. Perdi algum tempo procurando a capa antes de recordar que a tinha deixado embaixo.. na sala.. na mesma casa que Laoghaire e sua filha. Cheirava a Jamie. Não eram passos leves e rápidos. decididos. e não estava muito desejoso de ver-me. Que pensariam eles do assunto? Ainda que obviamente estavam inteirados. em teoria para anunciar nossa chegada a Ian e a Jenny. sem discutir. Por desgraça me tremeu a voz. de maneira que me segurei a ele: devia ir embora. mas também.. Pior ainda: cheirava aos dois. perdido o equilíbrio. demais alterada para procurar um pente. —Estava muito pálido. senão pesados e lentos. Esse era o único pensamento mais ou menos coerente dentro de minha cabeça. sentei-me. — Não me digas como fui sempre! —As lágrimas estavam muito próximas da superfície. —Mentiroso! —gritei. sem dúvida. E despedacei contra a porta a jarra que Laoghaire tinha tratado de lançar-me. Claire? — Parece-me que já é um pouco tarde para isso. Pronta. Elas estavam em seu lar e eu não. próximo de Broch Mordha. Tinha se barbeado e escovado o cabelo antes de enfrentar o problema. Mas tinham retirado a Laoghaire da casa. Então. casar-me com ela. — Não me toque! — Não vai permitir que te explique. como os outros. para afastar a Laoghaire antes de que eu chegasse. sem dar-me conta do que fazia até que toquei a cama com as pernas. — Não. Preferia ir-me de imediato. Mordi-me os lábios para contê-las. Não podia continuar ali. — Acha que isto ajudará? —perguntei com um esboço de sorriso. — Observava-me com atenção mas não disse nada— Foi um grande erro. que fazia de novo ali? Latejavam-me as têmporas. Era Jamie quem subia. como o jovem Ian no dia anterior.. Ele suspirou.As lágrimas me corriam abundantemente pela cara e o nariz escorria. Jamie se deteve no vão da porta para olhar-me. — Sempre foi razoável —disse baixinho. Alisei-me o cabelo com os dedos. por fim. Pronta para tudo o que podia estar. O fogo tinha voltado a apagar-se e pela janela entrava uma corrente glacial. claro que não.. a noite anterior me tinham recebido sem dar sinais de sabê-lo. em Lallybroch? Recordei que Jamie tinha encarregado a Fergus que se adiantasse. com o vago almíscar de nosso prazer.. —Fechou a porta depois de si e avançou para a cama com uma mão estendida. — Claire. À falta de lenço me assoei com uma ponta do lençol. Que podíamos dizer-nos? Ao abrir a porta retrocedi. Eu também não queria vê-lo. Viveriam ali. Estremeci. . os arranhões de Laoghaire eram três linhas vermelhas em sua bochecha. —Queria usar um tom frio e desdenhoso. Enquanto lançava uma última olhada a meu arredor ouvi passos na escada. Senti-me gelada até os ossos ainda que já vestida. — Certo. — Não vivo com ela —explicou— Ela e as garotas vivem em Balriggan. Engoliu a saliva sem contestar.

. —Estava meio que soluçando de ira — Deverias ter-me dito quando cheguei! Por que diabos te calas-te? Afrouxou os dedos que me sujeitavam os braços e eu me recompus para liberar-me. São de seu primeiro marido. — Faz tempo que não vivo com elas... maldito! — Não menti! — Claro que sim! Sabes perfeitamente! Solta-me.. por mais sereno que pudesse parecer exteriormente. — Nunca te disse uma mentira.. De repente me dei conta de que. que. — Por que.. — Não. Depois se ergueu ante mim com os punhos apertados e a respiração agitada . —Isso não mudava muito as coisas mas experimentei uma pequena onda de alívio por Brianna.. foi uma freira durante estes vinte anos? —inquiriu sacudindo-me um pouco. por que. — Não podes me impedir! Alongou as mãos para segurar-me pelos braços. Envio-lhes dinheiro desde Edimburgo mas. — Ah.— Com duas filhas? Demoraste bastante em dar-te conta disso. — Não! —lancei-lhe a palavra ao rosto. — As garotas não são minhas. Pelo contrário: apertou-me com mais força. mas ainda assim mentiste! Você me deu a entender que não estava casado.— Não. por favor. — Claro que posso. — Onde? — Longe. por que? — Porque tinha medo.. que merda! E também não imaginei nunca que voce tivesse se comportado como um monge! — Nesse caso. — Não tens por que me dar explicações —interrompi— Deixa-me passar. —Agarrou me os punhos para jogar-me na cama. — Você mentiu pra mim. Mas eu estava muito furiosa para escutar mais. — Solta-me agora mesmo! — Não! —Fincou-me os olhos entrecerrados. que. — Por que? —insisti socando-lhe uma e outra vez no peito com os punhos. Não sei. cretino! —Dei-lhe um pontapé na canela que lhe arrancou uma exclamação de dor mas não me soltou. — Que queres explicar-me? —acusei furiosa — Que voltou a se casar! Que mais queres dizer? — E voce.. que não tinhas ninguém. fazendo-me gritar. não? Ele apertou os lábios. À minha casa. Vou-embora. estava tão alterado como eu — Não te deixarei ir sem explicar-te por que. — Deixa-me passar! — Não irás a nenhuma parte —replicou decidido..

se querias ficar ao meu lado para morrer comigo? — Como tonta que sou! —exclamei. qualquer que tenha sido o preço. minha vida por deitar-me contigo. não teria podido suportá-lo. — As vezes pedia que fosse assim. — Deverias ter-me dito! — Para que? —Levantou-me com um puxão.— Terias girado sobre teus calcanhares para abandonar-me sem dizer nenhuma palavra. — Não.—És capaz de casar-te com uma mulher sem querê-la e a descartas quando. Não posso te criticar por ter-te ido.— Claro que eu sei. — Cala-te! —rugiu. maldita bruxa! —Descarregou o punho no lavatório sem deixar de olharme. — Mas me culpas por ter voltado. cego — Que culpa tem voce. E depois de ter voltado a ver-te. maldito cretino! Ou acha que voltei para viver feliz com Frank para todo o sempre? Dei-lhe um pontapé com todas minhas forças. —Girou para um lado.— De um modo ou outro. maldita seja! Não te disse por medo que me abandonasses. longamente e com dureza. se não. Teria dado a vida por ela e por voce. por Deus! Sabes o que significa viver vinte anos sem coração? Não ser nem meia pessoa. acostumar-te a viver com o pouco que resta. minha família.. — Tive que fazer! Pelo bem da criança! —Involuntariamente. — Pouco homem? Com duas esposas? Já me basta! — Sou homem talvez? Querendo-te tanto que o demais não me importa? Sabendo que sacrificaria minha honra. Pouco homem como sou.. sou uma besta sem coração. enchendo o vazio com o que encontras a mão? — E a mim me contas! —Esforcei-me para liberar-me. criando o meu filho. Apertou-me com força contra seu corpo para beijar-me. E teria podido matar-te por fazer-me isso! De repente soltou me as mãos e. sou um mulherengo desleal... surgiu como um sussurro agudo e cruel — Jogas a culpa a mim? — Não. Sacudiu a cabeça. — Isso é o que sentes. despedaçou o punho contra um armário de carvalho. girando ao redor. Ele fez uma careta mas sem soltar-me. estou condenado. não posso arrepender-me disso. teria feito coisas muito piores do que mentir para conservar-te. E agora queres jogar-me a culpa por ter-te obedecido? Deu uma volta por mim com os olhos escurecidos pelo desespero. possuindo-te. Depois baixou a voz — Não. de tão aguda. sem muito sucesso. não? Se senti algo por ela. dia e noite. —respondeu apertando os dentes— Mas as vezes o via contigo.— Sou um covarde. Meus joelhos se converteram . Te vi com ela! — Estou me lixando para Laoghaire! Nunca me importou! — Cretino! —repeti.—Tu me obrigaste a ir.— Cala a boca. desviou os olhos para o cabide onde pendia seu casaco com as fotos de Brianna no bolso. não? —observei com frialdade—Eu não preciso imaginar-te com Laoghaire. apesar de que me abandonaste? — E tens o descaro de dizer-me semelhante coisa? —Minha voz. não posso culpar-te.

agarrada na recordação dos olhos furiosos de Laoghaire. Tinha os olhos enviesados pela cólera e o horror — Como podes fazer isto. Afastei a boca e lhe dei uma violenta bofetada. Eu também. impulsionados pela ira daqueles anos de separação: eu por sua decisão de enviar-me de volta. dizia ele. só paixão cega e a vontade de possuir-me. ainda que ela devia de ter-nos chamado mais de uma vez. Parecia desconcertado. e maldito sejas por isso!» Estávamos fazendo o possível por matar-nos mutuamente.em água. ignorando os golpes que eu lançava contra ele. lutei por manter-me fria. Já não falava mais. dizia meu corpo. Surda e cega. e saiu sem dizer uma palavra. Jamie a olhou como se nunca tivesse visto uma criatura parecida e estivesse tratando de adivinhar o que era. recorrido por um profundo estremecimento. eu por Laoghaire. Depois enredou os dedos em meu cabelo e se inclinou para beijar-me outra vez com deliberada selvageria. «Tua. tão branca como seu irmão. Jamie se levantou com lentidão e se acomodou com as calças rasgadas. Eu também não. Por trás dele vi a Jenny. ele por Frank. lerdo como um urso.— Tenho vergonha. Lançou-me sobre a cama e ali me imobilizou com o peso de seu corpo. — Sim —disse por fim suavemente. ele por minha partida. Não tinha em seu gesto afeto nem desejo. Lancei-me para a porta. Jamie? Montar em tua mulher como uma besta em cela sem que te importe se te ouvem em toda a casa! Ele se separou lentamente de mim. Do cabelo de Jamie se desprendiam gotas de água que caíam sobre os meus peitos. e rodamos de um lado a outro. feitos um emaranhado. Senti-me aturdida. Das pontas do cabelo lhe caíam gotas sobre o peito nu. Eu vou embora. entre maldições balbuciadas e palavras sem terminar. « Minha!» O recusei com ilimitada fúria e bastante habilidade. mas ele me segurou pelo punho e voltou a me beijar com tanta força que me deixou sabor de sangue na boca. sem pronunciar uma só palavra. — Cachorra! —ofegou— Puta! — Vá para o inferno! —Puxei-lhe os cabelo para baixar-lhe a cara até mim. curvando os dedos para arranhá-lo. Caímos da cama ao chão. Não ouvi o ruído da porta ao abrir-se. Fechou os olhos. em sua cara só ficaram os ossos marcados sob a pele. «Tua». Jenny pegou um cobertor da cama e me jogou sobre o corpo. «Minha». com uma caçarola vazia na mão. — Não tens vergonha? —exclamou ela escandalizada. Jamie ficou petrificado e empalideceu. Não ouvi nada. não atendia mais do que a Jamie até que a chuva de água fria caiu sobre nós. Estava excitado isso se notava. — Basta! —ordenou. Ele se jogou para trás com a bochecha novamente ferida. . de sua voz gritona: «É meu!» — Isto não faz sentido —disse afastando-me— Não posso pensar com clareza.

sim —disse secamente. depois apertou os lábios.. — Compreendo. — E algo para beber.. Ela mordeu os lábios. isso explicava tudo. Marsali. — Estás. De repente levantou os olhos.. Jenny lhe deu uma palmadinha no braço.. —Passei uma mão pelo cabelo enredado — Fui eu. Soltei um pequeno suspiro. —Bem. Pareceu-me bastante possível que o compreendesse. — Oh! —exclamou. eu. mas ante minha pergunta a levantou bruscamente. — Eu. — Sinto muitíssimo. —Jenny me olhou por um longo tempo. .. Fomos os dois. disse a Laoghaire que estavas aqui.. tia? —perguntou enquanto deixava a bandeja. — Suponho que estará irritado.. Ele. como se estivesse estudando as próprias mãos. — Estou bem —lhe assegurei incorporando-me para pegar a garrafa de whisky. tia! — Não importa —lhe disse ainda sem ter idéia do que queria dizer. Isso ou embebedar-se com Ian. onde vivem.. whisky e água.. — Te trarei algo para que te vistas —murmurou ajeitando um travesseiro para que me apoiasse.. sempre faz o mesmo quando está irritado.. Por isso veio. A garota tinha a cabeça baixa.—Vai subir à colina.. — Sabes onde está Laoghaire? —perguntei enquanto comia e bebia. A colina é melhor.CAPÍTULO 35 Fuga do Éden Jenny me ajudou a recostar-me. — Não tenhas medo. — É Jamie —disse. — Fica com tua tia —ordenou— Eu irei procurar-lhe um vestido. Apareceu a jovem Janet trazendo com equilíbrio uma bandeja com bolos.. — É que fui eu! —Parecia totalmente agoniada mas decidida a confessar-se. e me agasalhou com a colcha — Como pôde fazer-te algo assim! — Não foi culpa sua. carrancuda. — Oh. Isso não. Não deixarei que volte a aproximar-se de ti. —Falava com firmeza. retorcendo as mãos no avental. sim. Tio Jamie as obrigou. sim. Estava pálida e assustada.. eu. No andar de baixo se ouviu um golpe surdo: tinha-se fechado a grande porta principal. bem. Está bem? — Onde está Jamie? Me deu uma rápida olhada de simpatia na que se misturava um reflexo de curiosidade. Joan e ela voltaram a Balriggan. Janet assentiu obediente e se instalou num banco junto à cama. — Ah. —Oh. Jenny chegou à janela e abriu a cortina.

— Não me ocorreu..., isto é... Não era minha intenção provocar um escândalo, de verdade. Não sabia que tu... que ela... — Não importa —repeti— Cedo ou tarde, alguma das duas tinha que se inteirar. —Ainda que isso não muda em nada, olhei-a com certa curiosidade — Mas por que o disseste? — Porque mamãe me ordenou —respondeu sussurrando. Levantou-se e saiu a toda pressa, roçando à sua mãe no vão da porta. Não perguntei nada. Jenny tinha conseguido um vestido e me ajudou a pôr-me sem mais conversa do que era imprescindível. Uma vez vestida e calçada, com o cabelo penteado e recolhido, voltei-me para ela. — Quero ir embora —disse— Agora mesmo. Ela não discutiu. Limitou-se a olhar-me dos pés a cabeça para assegurar-se de que estivesse bastante forte. Depois assentiu: — Creio que é o melhor —disse baixinho. Já próximo ao meio dia, parti de Lallybroch sabendo que fora a última vez. Levava uma adaga na cintura como proteção, ainda que dificilmente me faria falta. Nos alforjes do arreio tinha comida e várias garrafas de cerveja: suficiente para chegar ao círculo de pedras. Tinha pensado em pegar as fotos de Brianna que Jamie tinha em seu casaco mas as deixei ali. Ela lhe pertencia para sempre, ainda que comigo não sucedesse o mesmo. Não tinha ninguém à vista quando Jenny tirou o cavalo do estábulo, sujeitando as bridas para que eu montasse. Vesti o capuz do manto e fiz um sinal com a cabeça. Da última vez nos tínhamos separado como irmãs, com lágrimas e abraços. Ela soltou as rédeas e deu um passo atrás enquanto eu dirigia o cavalo para o caminho. — Que Deus te acompanhe! —ouvi-lhe dizer depois de mim. Não respondi. Também não olhei para trás. Passei a maior parte do dia a cavalo, sem prestar muita atenção ao caminho; atenta só ao rumo, deixava que meu arreio escolhesse as sendas pelos passos da montanha. Detive-me quando a luz começava a desaparecer; depois de atar o cavalo para que pastasse, me acostei envolvida na capa. De imediato adormeci para não recordar. O aturdimento era meu único refúgio. No dia seguinte foi a fome que me devolveu, de má vontade, à vida. Durante toda a jornada anterior nem tinha parado para comer. Também não o fiz ao lembrar mais, para meio dia, meu estômago começava a emitir fortes protestos. Assim desmontei num pequeno clarão, junto a um riacho, e desembrulhei a comida que Jenny tinha posto nos alforjes. Comi um sanduíche, bebi uma das garrafas de cerveja e montei novamente, dirigindo ao cavalo em direção ao nordeste. Por desgraça, se a comida tinha devolvido as forças ao meu corpo, também tinha dado nova vida aos meus sentimentos. À medida que ascendíamos meu ânimo ia decaindo cada vez mais. O cavalo estava bem disposto, mas eu não. Ao meio da tarde, sem poder continuar, adentrei-me com o arreio num bosque para que não fosse visível do caminho; depois de atá-lo folgadamente, caminhei entre as árvores até encontrar o tronco de um álamo trêmulo manchado de musgo. Sentei-me nele, encurvada, com os cotovelos nos joelhos e a cabeça entre as mãos. Doíam-me todas as articulações, mais de pena que pelo confronto do dia anterior ou pelos rigores da viagem. A reserva e a introversão sempre tinham tido muita importância em minha vida.

Tinha aprendido, com bastante trabalho, a arte de curar: a brindar com cuidado e interesse detendo-me antes do ponto perigoso em que doar-se muito é deixar de ser eficiente. Sempre, sempre, tinha tido que equilibrar a compaixão com sabedoria, o amor com sentido, a humanidade com inflexibilidade. Só com Jamie tinha me dado conta do quanto tinha, arriscando-o tudo, descartando a cautela, o sentido comum e a sabedoria junto com as comodidades e restrições de uma posição ganhada a pulso. Tinha chegado a ele sem dar-lhe nada mais que minha pessoa, em corpo e alma, confiando em que soubesse ver-me inteira e cuidar de minhas debilidades como em outros tempos. No princípio temi que ele não pudesse. Ou não quisesse. E depois chegaram esses poucos dias de prazer perfeito que me fizeram pensar que tudo voltava a ser como antes. Pude amá-lo em liberdade e ser amada com uma sinceridade que igualava a minha. As lágrimas se deslizaram entre meus dedos. Chorava por Jamie e pelo que eu tinha sido com ele. Sua voz me sussurrava: «Sabes o que significa dizer outra vez "Te amo" e dizê-lo para valer?» Eu sabia. E com a cabeça entre as mãos, sob os pinheiros, soube que nunca voltaria a dizê-lo de verdade. Afundada como estava em minha angustiante contemplação, não ouvi os passos até que estivesse quase ante mim. Levantei-me da árvore caída e dei meia volta para o atacante com o coração na boca e adaga na mão. — Meu Deus! —Quem me espreitava retrocedeu ante a folha nua, tão sobressaltado como eu. — Que diabos estás fazendo aqui? —interpelei levando a mão livre ao peito. O coração me palpitava como um tambor. Devia estar tão pálida como ele. — Por Deus, tia Claire! Onde aprendes-te a desembainhar assim uma faca? Quase me matas do susto! —O jovem Ian passou uma mão pela testa. — O mesmo eu digo —lhe assegurei. Minha mão tremia tanto que não pude embainhar a adaga e meus joelhos afrouxavam-se. Deixei-me cair no tronco do álamo com a faca no colo. —Repito —disse tratando de controlar-me—: O que fazes aqui? O garoto mordeu o lábio e, depois de olhar ao redor, sentou-se a meu lado. — Foi tio Jamie quem me enviou... —começou. Levantei-me de imediato, embainhando a adaga no cinto. — Espera, tia! Por favor! —Segurou-me por um braço mas eu me desprendi com uma chacoalhada. — Não me interessa —disse esperneando a um lado as folhas de samambaia—. Volta a tua casa, pequeno Ian. Tenho onde ir. —Isso esperava, ao menos. — Mas as coisas não são como você acha! —Já que não podia me deter me seguiu pelo claro discutindo enquanto se agachava ante os ramos baixos — Ele precisa de voce, tia! De verdade. Deves regressar comigo! Não respondi. Ali estava meu cavalo; agachei-me para desatar a corda. — Tia Claire! Não vai me escutar? —Se ergueu ao lado do cavalo olhando-me acima da cela de montar. —Não.

Montei com majestade, fazendo subir saias e anáguas, mas minha digna partida se viu impedida pelo jovem Ian, que segurava as rédeas com mão de ferro. —Solta —ordenei. — Primeiro escuta-me. —Fincou-me os olhos com os dentes apertados, acendendo seus suaves olhos pardos. «Está bem», decidi. Não lhe serviria de nada, nem a ele nem a seu traiçoeiro tio, mas o escutaria. — Fala —disse reunindo a pouca paciência que eu tinha. — Bem —começou subitamente inseguro.— É... eu... ele... Lancei um rosnado de exasperação. — Começa pelo princípio. Mas não se estenda demais, sim? —Ele assentiu, fincando os dentes no lábio para concentrar-se. — Bem, tio Jamie armou um alvoroço em casa quando soube que tinhas ido. — Não o duvido. — Nunca o tinha visto tão furioso —continuou, observando-me com atenção.— E mamãe também não. Gritaram de tudo. Papai tratou de acalmá-los, mas nem sequer pareciam ouvi-lo. Tio Jamie disse que mamãe era uma abelhuda... e coisas muito piores. — Não tinha por que chatear-se com Jenny —objetei.—Ela só tratou de ajudar... creio. —Repugnava-me saber que essa rixa também era por culpa minha. Jenny tinha sido o principal apoio de Jamie desde a morte da mãe, quando ambos eram meninos. Quantos males mais lhe teria causado com minha volta? Para surpresa minha, o garoto sorriu. — Bem, ela também fez o seu. Antes de que terminasse a discussão, tio Jamie tinha mais algumas marcas de dentes. Mamãe o atacou com um caldeirão de ferro; ele se esquivou para arrojá-lo pela janela da cozinha e assustou a todos os frangos que tinha no pátio. — Os frangos não me interessam, jovem Ian —disse friamente.— Continua. Quero seguir viagem. — Bem, depois tio Jamie derrubou as prateleiras dos livros da sala, porque estava muito aturdido para ver por onde ia enquanto saía. Papai se assomou pela janela para perguntar-lhe onde ia e ele respondeu que vai saír para procurar-te. — E por que estás aqui em seu lugar? — perguntei vigiando a mão que segurava as rédeas. Se os dedos dessem algum sinal de relaxar-se, eu trataria de arrancar. O jovem Ian suspirou. — É que, enquanto tio Jamie estava montando em seu cavalo apareceu tia... eh... sua esp... — Enrijeceu miseravelmente. — Laoghaire. Naquele momento desisti de fingir indiferença. —E então, o que aconteceu ? Ele franziu o cenho. —Teve uma discussão terrível, mas não pude ouvir muito. Tia... Laoghaire, digo... ela não sabe brigar como se deve, como mamãe e tio Jamie. Não faz mais do que chorar e gemer. Choramingos, como diz mamãe.

— Hum. E então? Laoghaire tinha desmontado para pegar a Jamie pela perna e puxá-lo. Depois se deixou cair num charco do pátio, abraçada aos joelhos de Jamie, soluçando e gemendo como sempre. Ele não podia escapar; acabou por levantá-la e a jogou sobre o ombro para levá-la em cima sem prestar atenção aos olhares da família e os serventes. — Bem —disse. Notando que tinha os dentes apertados, afrouxei-os— Assim te enviou a procurar-me porque ele estava muito ocupado com sua esposa. Cretino! Que descaro! Manda alguém a procurar-me como se eu fosse uma criada porque não lhe resulta cômodo vir em pessoa. Quer o pão e o bolo, não? Grandíssimo arrogante, egoísta, autoritário... escocês! Tinha os nós dos dedos brancos de tanto apertar o assento. Sem preocupar-me já pelas sutilezas, dei uma bofetada às rédeas. — Solta! — Mas não foi assim, tia Claire! — O que não foi assim? —Seu tom desesperado me fez levantar os olhos. — Tio Jamie não ficou para atender a Laoghaire! — E por que te enviou ? — Porque ela lhe disparou. Ele me enviou a procurar-te porque está morrendo. — Se estiver mentindo, Ian Murray —disse pela décima segunda vez—, o lamentarás até o fim de tua vida... que será muito curta! Tive que alçar a voz para fazer-me ouvir. Tinha-se levantado um forte vento que me agitava o cabelo e me cingia as saias às pernas; grandes nuvens negras fechavam os passos de montanha. O jovem Ian, sem alento para contestar, limitou-se a sacudir a cabeça, inclinada contra o vento. Ia a pé, conduzindo ambos pôneis pelo bridão por um trecho pantanoso, junto à beira de um pequeno lago. Calculei que era nem meio dia. Faltavam várias horas para chegar a Lallybroch e não parecia provável que chegássemos antes de escurecer. Tinham passado três dias desde que eu partira. Três dias desde que Jamie recebera o disparo. O jovem Ian não me dava muitos detalhes; depois de ter cumprido com sua missão, só queria chegar a Lallybroch o antes possível e não lhe parecia necessário conversar. Disse-me que Jamie estava ferido no braço esquerdo; isso não era muito grave. Mas a bala lhe tinha penetrado também nas costas e isso sim era grave. Quando o garoto partiu, Jamie estava consciente; isso não era grave. Mas começava a subir-lhe a febre; isso sim era bastante grave. Quanto aos possíveis efeitos do tiro, o tipo ou gravidade da febre e o tratamento que lhe tivessem aplicado, Ian se limitou a encolher-se de ombros. Talvez Jamie estivesse morrendo, talvez não. Cabia a possibilidade de que ele mesmo se tivesse disparado para obrigar-me a regressar. Era capaz de traçar um plano como esse e tinha coragem de sobra para levá-lo até o fim. Por outro lado, eu nunca o tinha visto atuar sem calcular o custo e sua disposição a pagá-lo. Não parecia lógico que corresse o risco de morrer para atrair-me de novo a Lallybroch. Jamie Fraser era um homem muito lógico. Muito bem: dada a improbabilidade de que Jamie tivesse disparado contra si mesmo, existiria sequer esse disparo? Talvez tudo fosse uma invenção sua. Mas me parecia muito difícil que seu sobrinho fosse capaz de dar-me uma notícia falsa de um modo tão convincente. Cada vez que abandonava Lallybroch tinha pensando que não

regressaria jamais. E ali estava mais uma vez, regressando. Por duas vezes me tinha separado de Jamie com a certeza de não voltar a vê-lo. E ali estava, voltando a ele como uma pomba mensageira a seu pombal. —Te direi uma coisa, Jamie Fraser —murmurei baixo— Se não estiver muito próximo da morte quando eu chegar, viverás para lamentá-lo.

CAPÍTULO 36 Feitiçaria prática e aplicada

Chegamos várias horas depois do escurecer, empapados até os ossos. A casa estava silenciosa e escura com exceção de duas luzes tênues na sala. Ouviu-se um ladrido de advertência mas o jovem Ian calou o animal; depois de farejar com curiosidade meu estribo, a silhueta branca e negra desapareceu na escuridão do pátio. O ladrido tinha bastado para alertar a alguém. Enquanto o jovem Ian me conduzia ao vestíbulo, abriu-se a porta da sala e Jenny assomou a cabeça, com olheiras de preocupação. Ao ver seu filho sua expressão se converteu em alívio, de imediato suprimido pela justiceira expressão de indignação da mãe ante o filho errante. — Ian, pequeno bandido! Onde te enfiaste? Teu pai e eu ficamos loucos de angustia! —Deu-lhe uma olhada ansiosa.— Estás bem? Ante seu gesto afirmativo apertou novamente os lábios. —Bem, agora sim o que te espera é uma boa, moço! Queres dizer-me onde diabos estiveste? Em vez de responder ao xingamento, o garoto se encolheu torpemente de ombros e deu um passo a um lado, deixando-me à vista de sua mãe. Se minha ressurreição de entre os mortos a tinha desconcertado, esta segunda reaparição a deixou atônita. Os olhos azuis, normalmente tão enviesados como os de seu irmão, dilataram-se até o ponto de parecer redondos. Olhou-me durante longo momento sem dizer nada; depois voltou novamente os olhos para seu filho. — Um cuco —disse em tom quase coloquial.— Isso é voce, moço: um grande cuco no ninho. Saberá Deus de quem deves ser filho. Meu, não. — Eu... bom, é que... —balbuciou com os olhos fincados nas botas. — Não podia deixar que... — Oh, isso agora não importa! —lhe alfinetou sua mãe. — Sobe e vá deitar-se. Amanhã teu pai se encarregará de ti. Ian jogou um olhar indefeso à porta da sala. Depois se voltou para mim com um encolhimento de ombros e se afastou pelo corredor arrastando os pés. Jenny permaneceu imóvel, sem afastar os olhos de mim até que a porta se fechou com um golpe suave. — Então voltou. Assenti com a cabeça.

— Agora isso não importa —disse baixinho para não perturbar o descanso da casa. — Onde está Jamie? Depois de uma breve vacilação, ela aceitou minha presença. — Aqui —disse assinalando a porta da sala. Comecei a andar mas me detive. Tinha algo por perguntar. — Onde está Laoghaire? — Se foi. —Os olhos de Jenny eram inescrutáveis à luz da vela. Cruzei a porta e fechei com firmeza depois de mim. Jamie, muito grande para o sofá, jazia num catre instalado junto ao fogo, dormindo ou inconsciente; seu perfil se recortava, escuro e afiado, contra a luz das brasas. Ao menos não tinha morrido: vi o lento subir e baixar do peito sob a colcha. Não precisava ter pressa agora. Desatei os cordéis de meu capote e estendi a roupa empapada sobre o encosto da cadeira, pegando o xale de Jenny para substituí-lo. Tinha as mãos frias. As pus sob as axilas para que recuperassem a temperatura normal antes de tocálo. Quando por fim me aventurei a apoiar a mão em sua frente estive a ponto de retirá-la bruscamente: queimava como uma pistola depois de ter sido disparada. Gemeu e se removeu ante o contato. Depois de observá-lo ocupei a cadeira de Jenny. Com uma temperatura como essa não dormiria muito tempo; não valia a pena acordá-lo antes para examiná-lo. Os pensamentos que se tinham iniciado no bosque, prolongados durante a pressurosa viagem de regresso, continuaram então sem vontade consciente por minha parte. A honra tinha conduzido a Frank à decisão de reter-me como esposa e criar a Brianna como se fora sua. A honra e sua resistência a recusar uma responsabilidade que acreditava ser sua. Agora tinha ante mim a outro homem honrável. Laoghaire e suas filhas, Jenny e sua família, os prisioneiros escoceses, os contrabandistas, o senhor Willoughby e Geordie, Fergus e os arrendatários... Quantas outras responsabilidades teria carregado Jamie durante minha ausência? Por minha parte, a morte de Frank me tinha absolvido de uma de minhas obrigações; a mesma Brianna, de outra. O conselho do hospital, em sua eterna sabedoria, cortou minha última atadura daquela outra vida. A ajuda de Joe Abernathy me deu tempo para livrar-me das responsabilidades menores, para delegar e resolver. Jamie não tinha tido possibilidade de eleger quanto a minha reaparição em sua vida, nem tempo para tomar decisões e resolver conflitos. Ele não era dos que faltam as suas responsabilidades, nem sequer por amor. Tinha mentido, sim, por não confiar que eu fosse capaz de reconhecer essas responsabilidades e permanecer ao seu lado. Tinha tido medo. Eu também: medo de que não se decidisse por mim no conflito entre um amor de vinte anos e sua família atual. Por isso fugi para Craigh na Dun com a pressa e a decisão de um condenado que se aproxima aos degraus do cadafalso. O orgulho ferido me incitava, mas bastou que o jovem Ian dissesse: «Ele está morrendo» para que visse a pouca importância que tinha. Só me dei conta de que tinha aberto os olhos quando falou: — Você voltou. —disse com suavidade. Estava seguro.

Abri a boca para replicar mas continuou sem afastar suas dilatadas pupilas de minha cara: — Amor meu... que linda és, meu Deus, com esses grandes olhos dourados e o cabelo tão suave ao redor do rosto. —Passou a língua pelos lábios secos. —Estava seguro de que me perdoarias, Sassenach, quando o soubesses. — Quando o soubesse? —Ergui as sobrancelhas sem dizer nada. — Tinha muito medo de perder-te outra vez, mo duinne —murmurou. —Muito medo. Desde o dia em que te vi não amei nenhuma outra, minha Sassenach, mas não podia... não podia suportar... Sua voz se apagou num murmúrio ininteligível; voltou a fechar os olhos. Eu me mantinha imóvel sem saber como agir. De repente os abriu outra vez, pesados pela febre. — Já não falta muito, Sassenach —adicionou para tranqüilizar-me, curvando a boca numa tentativa de sorriso. — Já não falta muito. E então voltarei a tocar-te. Tenho muito desejo de tocar-te. — Oh, Jamie —murmurei. Levada pela ternura, alonguei uma mão para tocar sua bochecha ardente. Seus olhos se dilataram de espanto. Sentou-se na cama, lançando um alarido pavoroso pela dor que o movimento lhe provocou no braço ferido. — Oh, Deus! Oh, Cristo, Deus Todo-poderoso! —exclamou sem alento, agarrando o braço esquerdo — És de verdade! Por todos os demônios malditos! Oh, Deus! — Estás bem? —perguntei estupidamente. Jenny assomou a cabeça pela porta. Jamie, ao vê-la, encontrou alento suficiente para rugir: — Sai daqui! —Depois voltou a dobrar-se com um rosnado — Cris... to —se queixou entre dentes — Em nome de Deus, o que fazes aqui, Sassenach? — Como que faço aqui? Mandou-me procurar. O que significa isso de que sou de verdade? Ele tornou a afrouxar a mão que apertava o braço esquerdo. De imediato voltou a apertá-lo, entre várias referências em francês aos órgãos reprodutores de certos animais. — Faz o favor de deitar! —ordenei empurrando-o sobre os travesseiros. Notei com certo alarme que os ossos estavam muito próximos da pele. — Pensava que eras um delírio da febre..., até que me tocaste —explicou ofegando.— Que diabos pretendes aparecendo assim junto a minha cama? Queres matar-me de susto? —Fez uma careta de dor.— Por Deus, é como se este maldito braço desprendesse de meu ombro. Ah, merda! Desprendi-lhe com firmeza os dedos da mão. — Não enviaste ao jovem Ian para que me dissesse que estavas morrendo? —perguntei enquanto lhe arregaçava a camisa de dormir. Tinha uma gorda bandagem acima do cotovelo. Procurei às apalpadelas o extremo do lenço. — Eu? Não! Ai, dói-me! — Ainda vai doer bastante antes que termine contigo —adverti desembrulhando a ferida com cuidado. — Então esse pequeno cretino veio a procurar-me por conta própria? Tu não querias que eu voltasse? — Não! Que voltasses a mim só por pena, como se fosse um cachorro numa vala? Ah, diabos! Não. Até proibi essa anta que fosse procurar-te.

— Sou médica, não veterinária —observei friamente.— E se não me querias aqui, o que foi que disseste quando acreditava estar sonhando, diga-me? Morde o cobertor ou qualquer outra coisa; a bandagem está colada e tenho que arrancá-la. Mordeu-se o lábio e respirou bruscamente pelo nariz. Me afastei para remexer na gaveta da escrivaninha onde Jenny guardava as velas. Precisava de mais luz. — Imaginei que o jovem Ian me disse que estavas morrendo só para me obrigar a voltar. — Por mais que o queira, estou morrendo. —Sua voz soava seca e direta apesar da falta de alento. Me voltei para ele, surpresa. Sua respiração era arrítmica e tinha os olhos brilhantes pela febre. Sem responder, acendi as velas que tinha encontrado e as pus no grande candelabro do aparador. Depois me inclinei para a cama. — Vamos dar uma olhada nisto. A ferida em si era um buraco com sangue seco nas bordas, de tintura levemente azul. Pressionei a carne dos lados; estava enrijecida e tinha uma supuração considerável. Jamie se removeu inquieto enquanto eu deslizava os dedos ao longo do músculo. — Aqui tens um inflamado para uma boa infecção, moço —informei.—O jovem Ian me disse que tinhas uma ferida nas costas. Teve um segundo disparo ou a bala atravessou o braço? — Atravessou-o. Jenny me tirou a bala das costas. Mas não está muito mau; só penetrou dois ou três centímetros. — Diga-me onde foi. Movendo-se com muita lentidão, moveu o braço para fora. Notei que até esse pequeno movimento lhe produzia uma intensa dor. O buraco de saída estava sobre a articulação do cotovelo, na face interna do braço, mas não frente à entrada; o projétil tinha sido desviado em sua trajetória. — Tocou o osso —disse tratando de não imaginar o que devia de ter sentido. —Sabes se há fratura? Não quero tocar-te mais do necessário. — Ainda bem —disse tentando sorrir.— Não, não creio que tenha fratura. Quando rompi a mandíbula e a mão foi diferente. Mas dói. — Suponho que sim. —Apalpei com cuidado a curva dos bíceps— Até onde chega a dor? Deu uma olhada quase indiferente ao braço ferido. — É como se não tivesse osso, senão um atiçador quente. Mas não é só o braço o que me dói; e sim as costas inteiras; tenho-a rígida. —Engoliu saliva e voltou a passar a língua pelos lábios. — Me darias um pouco de conhaque? —pediu.— Me faz mal sentir a batida do coração. Sem fazer nenhum comentário, enchi um copo de água e aproximei de seus lábios. Ele ergueu uma sobrancelha mas bebeu com vontade. — Duas vezes em minha vida tenho estado a ponto de morrer pela febre —disse.— Creio que desta vez é a definitiva. Não queria mandar que fossem procurar-te, mas... alegro-me que tenhas vindo. —Engoliu saliva antes de continuar.— Queria... queria pedir-te perdão. E despedir-me como é devido. Não vou pedir-te que fiques até o final mas... ficarias comigo..., só um momento? — Ficarei um momento —disse —Mas não vais morrer.

Ele fitou-me com estranheza. —Tu me curaste uma grande febre; ainda penso que foi por feitiçaria. Jenny me curou a seguinte só com sua teimosia. Suponho que, tendo-vos as duas comigo, posso superar esta, mas não sei se quero passar outra vez por esse tormento. Creio que preferiria morrer, sem a ti não é igual. —Ingrato —lhe disse.—Covarde. —Indecisa entre a exasperação e a ternura, dei-lhe uma palmada na bochecha. Saquei de meu bolso o pequeno estojo que levava sempre comigo. —Desta vez também não vou permitir que morra, ainda que a tentação é grande. Retirei a flanela cinza, deixando à vista as reluzentes seringas, e retirei da caixa o frasquinho de penicilina em tabletes. — Em nome de Deus, o que é isso? —perguntou olhando-as com interesse. —Parecem malignas. Não respondi, ocupada como estava em dissolver os tabletes de penicilina numa ampola de água esterilizada. Depois preparei a injeção. — Vire-se sobre o lado são —lhe ordenei— e levanta a camisa de dormir. Deu uma olhada desconfiada à agulha mas obedeceu de má vontade. Pesquisei o território com ar de aprovação. — Teu traseiro não mudou nada em vinte anos — comentei admirando as musculosas curvas. — Nem o teu —replicou ele cortês,— mas não vou pedir-te que o descubras. Te atacou subitamente a luxúria? — Não, por agora. —Esfreguei um pouco a pele com um pano empapado em conhaque. —Essa marca de conhaque é muito boa —observou espionando acima do ombro —, mas me agrada mais quando se aplica pelo lado oposto. — Também é a melhor fonte de álcool disponível. Agora fique quieto e relaxe. Depois de fincar habilmente a agulha, pressionei lentamente o embolo. — Ai! —Jamie esfregou o traseiro com dor. — Já já deixará de arder. —Servi-lhe dois centímetros de conhaque.— Agora podes beber um pouco... muito pouquinho. Esvaziou a xícara sem comentários enquanto eu envolvia as seringas. — Achava que para fazer bruxarias se fincavam os alfinetes em bonecos, não na própria pessoa. — Não é um alfinete. É uma seringa hipodérmica. — Pouco importa como a chames; parecia um prego para ferradura. Te incomodaria explicar-me como podes curar-me o braço fincando alfinetes na bunda? Respirei fundo. — Recordas que certa vez te falei dos germes? Animaizinhos tão pequenos que não se vêem. Podem meter-se no corpo com água e comida em mau estado ou pelas feridas abertas. E se entram te causam doenças. Olhou-se o braço com interesse. — Quer dizer que tenho germes no braço? — Pode estar certo. —Golpeei o estojo com um dedo.—O remédio que te pus no traseiro mata os germes. Te aplicarei uma injeção a cada quatro horas, até amanhã a esta hora, e então veremos como estás. Compreendes?

Assentiu lentamente. — Compreendo, sim. Devia ter deixado que te queimassem a vinte anos.

CAPÍTULO 37 O que há num nome

Depois de aplicar-lhe a injeção, sentei-me ao seu lado e deixei segurar-me a mão até que adormecesse. Passei o resto da noite junto a sua cama, cochilando; acordava-me o relógio interno que temos todos os médicos, ajustado às mudanças de guarda dos hospitais. Apliquei-lhe mais duas injeções, a última ao romper a manhã; então a febre já tinha baixado de forma perceptível. — Estes malditos germes do século XVIII não têm nada que fazer contra a penicilina —disse ao seu corpo adormecido.— Não têm resistência. Até a sífilis desapareceria da noite para o dia. E depois, o que? Perguntava-me enquanto ia à cozinha em procura de chá quente e algo para comer. Uma mulher desconhecida, provavelmente a cozinheira ou a criada, estava acendendo o forno de tijolos para cozinhar as fogaças do dia, que esperavam sobre a mesa. Não se surpreendeu ao ver-me; depois de de dar um lugar para que me sentasse, serviu-me o chá e umas omeletes com um rápido: «Bom dia, senhora», antes de voltar ao seu trabalho. Pelo visto, Jenny tinha informado de minha presença as pessoas da casa. Isso significava que me aceitava? Tinha minhas dúvidas. Obviamente queria que eu me fosse e não a alegrava ver-me ali outra vez. Se decidisse ficar, tanto ela como seu irmão teriam que me dar certas explicações com respeito a Laoghaire. — Obrigada —disse cortesmente à cozinheira. Voltei à sala com meu chá, a esperar o momento em que Jamie se decidisse a acordar. Por fim, justo antes do meio dia, deu sinais de reanimação: removeu-se com um suspiro, grunhiu por causa da dor do braço e voltou a ficar virado. Dei-lhe um tempo para que ele reparasse a minha presença, mas continuava com os olhos fechados. No entanto não dormia: as linhas de seu corpo estavam um pouco tensas. — Muito bem —disse reclinando-me comodamente na cadeira, bem longe de seu alcance. — Escuto-te. Uma pequena ranhura azul apareceu entre suas longas pestanas douradas, fechando-se de novo. — Hum...? —murmurou fingindo acordar pouco a pouco. — Não escondas o corpo. —ordenei— Sei perfeitamente que estás desperto. Abre os olhos e conta-me de Laoghaire. Seus olhos azuis se abriram posando-se em mim com certo desagrado. — Não tens medo de que eu sofra uma recaída? —perguntou.— Sempre ouvi dizer que aos enfermos não se deve inquietar. Isso pode fazer com que recaiam. — Estás com um médico —lhe assegurei— Se desmaiar pelo esforço saberei que fazer.

— Suponho que sim. os ingleses o encarceraram numa prisão de Edimburgo. Ian me perguntava se convinha ou não cercar tal ou qual pasto. Mas agora vai falar. — Não sabes o que significa viver tanto tempo entre estrangeiros. — E quando voltei tudo era diferente. o movimento lhe arrancou uma careta de dor. Depois fui ao cárcere. — Como era mesmo o que disseste ao jovem Ian? «O lar é o lugar onde. mas eu sabia que o garoto já estava fazendo o trabalho. E suponho que me sentia só. Hugh morreu em Culloden. Jenny tinha tratado de convencê-lo para que voltasse a casar-se. Mas que queres dizer? Não me digas que tua família não se alegrou de ver-te! — Claro que sim —reconheceu lentamente. Tinha uma boa casa. os menores já não me reconheciam. —Levantou os olhos com um semi sorriso. Talvez a conheças. punham cara de ter visto um fantasma. Continua. Sorriu com tristeza. tomando-me por um forasteiro. —Dirigiu os olhos para o pequeno estojo onde guardava as drogas e as seringas. Dele são as duas garotas. — Sentes como se tivesses rompido o que te atava à terra —disse com suavidade— Flutua pela casa sem ouvir teus passos. têm que te receber. — Eu estava aqui —explicou ele. ao reconhecer-me. —Bem —disse. — Sentou o traseiro como se me tivesse sentado sem calças numa mata de espinhos. —Não quero dizer que me tenham recebido mal. Ele baixou os olhos com um leve sorriso. — Sim. cruzando a grande serra que separa Inglaterra de Escócia. — Acreditas mesmo nisso? —comentei com certa aspereza. desconfiadas.— É disso que tenho medo. as pessoas me olhavam de soslaio. À Inglaterra. Marsali e Joan. talvez o saibas. Há mudanças. à força de suavidade e persistência. em absoluto. assim era antes do nascimento de Bree. — Eu sei. tinha visto aquele menir enorme onde Jamie dizia ter-se detido a descansar. não? Por mais que te esforces por conservar as recordações da pátria e por seguir sendo como eras. Encolheu-se de ombros. Tinha chegado ao Distrito dos Lagos.—Dentro de uma hora te aplicarei outra. Recordo-o. — Creio que realmente era um fantasma. —Tomei cuidado para não denotar solidariedade nem condenação.» Era assim? — Quem o escreveu foi um poeta chamado Frost. mas estava sempre ali e era parte da família. do clã Fraser. quando deves voltar.—Mas não em casa. Escrevíamo-nos mas não é o mesmo: umas quantas palavras no papel. um dos arrendatários de Colum. Depois. Dois anos mais tarde ela se casou com Simon MacKimmie. Eu também sabia algo sobre a solidão. Ouves o que te dizem e não faz sentido. Viam-me raras vezes. Interrompeu-se para olhar para a janela. — Ali há uma pedra que marca a fronteira. — Laoghaire estava casada com Hugh MacKenzie. Não sei se me entendes. Poucos anos depois. Não chegas a ser um deles. Apertou os lábios. — Está bem —suspirou por fim— Acontecei quando eu voltei da Inglaterra. contando coisas que sucederam meses atrás. — Voltei para casa. Mas minha ausência tinha durado demais. Quando caminhava pelos campos. uma . Assenti. —Quando vivia escondido na gruta tudo era diferente. mas ao mesmo tempo deixas de ser o que eras. isso te muda. Suspirou esfregando o nariz.

E quando abriu os olhos. Foi Ned Gowan quem mencionou Laoghaire quando regressava de Balriggan. — Ned Gowan? —exclamei com surpresa e prazer— Não pode ser que ainda esteja vivo! —Era um cavaleiro miúdo. davam algumas voltas e cruzavam a porta com os olhos fechados. os convidados. o primeiro que viam lhes indicava com quem se casariam. . Interrompeu-se para pigarrear. E de vez em quando se detém aqui para fazer uma parada no caminho. pediu mais detalhes. ruborizada e sorridente. apelando condenações por traição e pleiteando para recobrar propriedades. — Contemplou o fogo. ao vê-la senti uma ferroada de dor. E ao amanhecer. Precisava de um homem sem dúvida alguma. — Mas Ned é um bom homem apesar de sua profissão. Vinte anos antes me tinha salvado de ir à fogueira por bruxa. já de idade avançada. enviou a Balriggan um convite para que a viúva e suas duas filhas celebrassem o Ano Novo em Lallybroch. terá que lhe dar uma machadada na cabeça. Mas nestes anos teve que viajar muito. ante a insistência dos outros. Jamie sorriu ao ver minha alegria. —Jenny tinha retirado os móveis. Durante algum tempo.—Como diz o provérbio: «Depois de uma guerra. E eu precisava. provou.. alegando que lhe correspondiam por ser sua viúva. um pouco.—Supus que poderíamos ajudar-nos mutuamente. — Oh. Um pouco da luz daquela festa perdurava em seu rosto. conseguiu salvar a casa e um pouco de dinheiro. a Coroa tratou de confiscar sua propriedade. Creio que. fora ou não partidário dos Stuart. — No que resta dele.. —O sorriso de Jamie encerrava certa amargura. seu olhar posou no rosto de Jamie. por turnos. foram cruzando a porta. Como se estes resultassem satisfatórios. para acabar com ele. depois de algumas voltas. dizendo que era um jogo para garotas e não para matronas de trinta e quatro anos. aguçando o ouvido. —Dancei com Laoghaire quase toda a noite. —Era uma viúva com duas meninas. quando os que ainda estavam despertos foram à porta do fundo para ver os presságios do Ano Novo. mas Ned Gowan viajou a Edimburgo para defender a Laoghaire. sim. ainda que já deva de ter mais de setenta anos. depois os advogados para pelar os ossos. Jenny. Junto àquela janela estava o violinista. Bebeu com dificuldade. Assinalou com a cabeça a janela onde tremia a roseira.propriedade cobiçável. primeiro chegam os corvos para comer a carne. naqueles tempos. as vezes vai a Londres ou a Paris. excitados pelo whisky e o baile. — Simon não teve tanta sorte como eu: morreu no cárcere antes que pudessem levá-lo a juízo. isso bastava para que se considerasse traidor um escocês das Terras Altas. É o mesmo de sempre.» Elevou a mão direita ao ombro para massageá-lo. — Foi aqui —disse Jamie. Laoghaire resistia. As solteiras. Entre muitos risos. — Ainda vive no Castelo de Leoch? Assentiu. que assessorava ao clã MacKenzie sobre os assuntos legais. abriam os olhos. abrangendo com um movimento da mão sã o quarto onde estávamos. nós o seguimos. Vai e vem de Inverness a Edimburgo. com a lua nova ao fundo. Sua voz tinha ficado rouca. alongando a mão para a jarra.

Sempre a desiludia. No meio do jantar abandonava a mesa. Apoiei-lhe a cabeça na saia e comecei a acariciar-lhe as têmporas. só conseguia piorar as coisas. Alisei a ruga entre as espessas sobrancelhas avermelhadas. —Te contarei tudo o que quiser saber. —Dói muito seu braço? —perguntei. Ou talvez foi pelo nascimento das filhas. Agora cabe a ti. Só sei que nada saiu bem. Talvez tenha sido culpa de Hugh ou de Simon. Jamie Fraser. Não pude suportá-lo mais. Ela passava dias.Casaram-se discretamente em Balriggan e Jamie mudou para lá seus poucos pertences. Olhou-me com ar astuto. afastei a cadeira para sentar-me na beira do catre. Recostou-se nos travesseiros ofegante. —Não é meu estilo. sem que eu soubesse que tinha feito. Tranqüilizou-me senti-lo lento e no compasso. Quis levantar-me mas ele me deteve pelo braço. Inclinei-me para tocar-lhe a testa. Estava quente mas não tinha febre. mas nunca se sabe o que se passa no leito conjugal. Ambos eram bons. desta vez para Edimburgo. Fechou os olhos suspirando. Nunca soube o que fazer por ela nem o que dizer. —E sua cabeça. — Voce nunca me fez isso. dói? —Sim. nem todas as mulheres suportam passar por isso. —Creio que foi culpa minha. quando me chateio contigo sabes perfeitamente o porque. —Não preciso de chá. —Não me enganas nem por um momento. Deixou escapar um pequeno rosnado de felicidade. —disse —Não pense que vou esquecer-me da próxima injeção. Eu tentava tratá-la com suavidade. Olhou-me com ar indefeso. Se me aproximava. Sem dizer nada. Por isso me fui. tomei-lhe a mão procurando-lhe o pulso. Mas talvez tenha me equivocado. —disse—Ao menos. —Tinha medo. . Sassenach. A verdade é que tinha uma ferida que eu não podia curar por mais do que me esforçasse. nos olhos se via o medo e o asco. soluçando e com os olhos cheios de lágrimas. Fiz o quanto pude para satisfazê-la mas não serviu de nada. voltava-me as costas. —Não sei o que saiu errado. —Mas o que aconteceu? —perguntei com curiosidade. Com Frank. quero dizer. Depois continuou. Enquanto falava. Ficamos em silêncio. —Um pouco. Evitava meu contato. Não passou sequer um ano antes que voltasse a mudar-se. levantando os olhos ao teto: —Sempre pensei que preferiria não saber de como era tua vida com ele. semanas inteiras sem falar comigo. — prometi —Mas não agora. cansado. —Vou preparar um chá de salgueiro. —disse — Mas me aliviaria apoiar a cabeça em teu colo e que me aplicasse uma massagem nas têmporas. —Esfregou-se os cenhos.

—Durante tantos anos fui tantas coisas. —Te imaginas? —murmurou em algum momento da madrugada. Depois. pus um curativo frouxo com ungüento de centaura e subi para vestirme. quase sem movermos para não piorar o braço ferido.. «milord» para Fergus. —Uma rápida fincada e. bastava-nos estar juntos naquele catre estreito.. com a cabeça na curva de seu ombro. —Jamie! —exclamei divertida— Não pode ser! —Suponho que não. Era um delicado comentário sobre minha posição dentro da .. minhas mãos seguiram as linhas do pescoço e os ombros. Em vinte e quatro horas a febre tinha desaparecido e durante os dois dias seguintes começou a ceder a inflamação do braço. —Dizer «te amo» e dizê-lo com todo o coração —disse suavemente. aqui. Peguei-o para cheirar: fino sabão francês. Sem saber como. —Engoliu saliva e mudou de posição. CAPÍTULO 38 Encontro com um advogado Tal como tinha previsto. Acariciou-me lentamente a cabeleira. —Era tio para os filhos de Jenny. os germes do século XVIII não eram páreo para os antibióticos modernos. — Sabes o quão difícil que é estar assim com alguém e não contar jamais os seus segredos? —Sim —respondi pensando em Frank. Mas sempre se pode sonhar. recuperar a segurança. pegando a ampola de penicilina.. não tenho nome. Mesmo pesando a minha decisão de não o tocar mais do que o necessário até que tivéssemos resolvido as coisas..— Eu sei. «senhor» para meus arrendatários. —Mas aqui —concluiu em voz tão baixa que mal pude ouvir-te—. —Tocou-me o cabelo. Ao roçar a parte dianteira de sua camisola retirei a mão. —Muito bem —disse ao fim. Ao quarto dia.. —Imagine. perfumado com lírios do vale. Malcolm na tipografia e Jamie Roy nas docas. Não conversamos muito. não? Aquela noite também não subi para deitar. Ainda que não tivesse anunciado minha intenção de ir ao andar superior. quando abri a porta de meu dormitório encontrei junto a tina uma grande jarra com água quente e um tablete de sabão. que agradável — murmurou. irmão para ela e seu marido. — E de repente. —Te amo— lhe disse.—Oh. O resto da casa estava em silêncio. — disse sem alterar-se. deixando só um endurecimento ao redor da ferida que supurava levemente quando a apertava. sobressaltada.. segura de que Jamie estava se recobrando. tantos homens diferentes. Dizer e fazer o que bem quiser. «Mac Dubh» para os homens de Ardsmuir e «MacKenzie» para os outros serventes de Helwater. sabendo que é o correto. contigo na escuridão.. descobri-me enroscada contra ele.

—É tua tia avó Claire —respondeu Jamie com gravidade. negando-se a falar. —Quem é essa. Na sala tinham desmontado o catre. filho — lhe disse com um radiante sorriso. A julgar pelo ruído eram várias pessoas. mas alheia à família. revolvendo-lhe o sedoso cabelo loiro. —Não é possível! —exclamei fitando-o espantada. — O resto mudou um pouco. que se as arrumava com a habitual mistura de sebo e lixívia. olhando-me com ar dubitativo. junto a meu joelho. assentindo com igual solenidade. E se inclinou para depositar cuidadosamente o vulto em meus braços. tio? —perguntou com um sussurro bem audível. mas não se opôs. Um menininho loiro se reclinava no joelho de Jamie olhando-me com estranheza. Quando desci me encontrei com uma pequena multidão de meninos que corriam entre a cozinha e a sala e com algum adulto que me olhou com curiosidade. . —Ah. e vulgarmente conhecido pelo apelido de Wally. —Aí está! —exclamou com prazer ante minha aparição. O jovem Jamie me dedicou um amplo sorriso. com esse ar de aturdimento tão comum entre os recém nascidos. — E tu. enquanto arrumava meu cabelo frente ao espelho. já barbeado e com uma camisa de dormir limpa. sem dúvida.casa: hóspede de honra. —Mamãe diz que a tia avó Claire era uma bruxa. como se chama? Escondeu a cara na manga de Jamie. coberto com uma colcha e com o braço esquerdo em tipóia. ouvi chegar alguém. — É tão velha como a vovó? — Mais velha ainda — informou Jamie. —É Angus Walter Edwin Murray Carmichael — apresentou seu tio avô. Jamie. — O filho mais velho de Maggie. —Não caçoes. —Te lembras do jovem Jamie? —O xará maior assinalou com a cabeça a um jovem alto. —Muito bem. — Me recordo desses cachos — respondi sorrindo. Meia hora depois. Depois se voltou para Jamie com a cara franzida por um gesto zombador. estava sentado no sofá. — porque sempre tem o nariz cheio de melecas. sim —confirmou o menino com grandes acenos de cabeça. —Estás seguro de que é ela? —insistiu o menino. —Nós o chamamos de Empapado. tia — disse com voz profunda. E todos os presentes se voltaram para olhar-me. já veremos —murmurei enquanto ensaboava o pano para lavar-me. Não tem nenhuma verruga no nariz! —Obrigado — repeti pouco mais seca. E esta senhora não parece. tio! Não pode ser tão velha como a vovó! Nem tem cabelos brancos! —Obrigada. Suas expressões iam da simpática saudação à surpresa. — Suponho que já te falaram dela. —Eu me lembro bem. de ombros largos e negro cabelo encaracolado. — Sentavas-me em teus joelhos para jogar aos Cinco Porquinhos com os dedos de meu pé. Uma cara muito redonda se ergueu para mim. Rodeavamno quatro ou cinco meninos. — esclareceu uma pequena ruiva. Benjamin parecia um pouco confuso ante a brusca mudança de braços. que sustentava em braços um vulto inquieto. O garoto me olhou boquiaberto. —Podes fazer a prova com nosso pequeno Benjamin — sugeriu o jovem com um sorriso.

Jamie me procurou com um olhar pensativo. vermelho como uma espinha. —Deves desculpar-te com teu primo. tinha olhadas de soslaio e discretos comentários em gaélico. e ordenou baixinho: —Sopre. Wally. em voz mais alta: — Diga-me que conto preferes. centenas de anos. A cozinha era acolhedora. o Bendito. jogou-se contra ela com os punhos apertados. Ambas sabíamos que era preciso ajustar contas mas nenhuma procurava a oportunidade.Angus Walter fulminou a sua prima com os olhos. —Não! O do diabo que jogava ao xadrez! —interveio outro. ainda que me tratassem com grande amabilidade e cortesia. as saudações e esse tipo de ritos que nós mulheres utilizamos para avaliar-nos mutuamente. dadas as circunstâncias. No entanto. — Tenho que lhe pegar! —E não é de boa educação fazer comentários sobre o aspecto pessoal dos demais. de maneira que saí a procura de sua mãe. Puxou um lenço limpo e o pôs no nariz de Wally. —O do duende e o ginete! — pediu a ruiva. por favor. Eu também não tinha procurado um encontro com ela. tio.. Quando alguém mencionou que fazia falta uma jarra . dirigindo-se à menina. a alma de Lallybroch. —Depois. Wally. pois não denotavam surpresa ante a volta da primeira esposa de Jamie. mais dos que possam imaginar. Evitava-me desde meu regresso com o jovem Ian. o menino disse: —O de Santa Bride e os gansos. Bride pisou na rocha das Terras Altas junto com Miguel. —Faz muito tempo. — O conto é para Wally — apontou Jamie com firmeza— Que escolha ele. —Mas se é verdade! —protestou Abigail. pegando-o pela gola da camisa. —começou. segundo o que se lhes tivessem dito. Ao ver o olhar severo de seu tio avô. — Perdão. Mas o mais estranho era a ausência de Jenny. com ou sem discrição.. —Não é próprio de homens. bastante indecoroso.. —Não é verdade! —gritou. por verdadeiro. depois de entregar-lhe o menino se iniciaram as apresentações. Ao princípio o menino não pareceu disposto a dar-se por satisfeito. mas Jamie o persuadiu prometendo contar-lhe um conto. era evidente que sabiam quem era eu. provavelmente era natural. —Mas disse que sou um melequento! —gemeu Angus Walter. Depois de assoar o nariz. —Às meninas não se pega —lhe disse Jamie. baixou os olhos e se pôs vermelha.Todas se mostraram muito cordiais. —Muito bem. senhorita Abigail —adicionou Jamie.. Encontrei à senhora em questão na cozinha. seja de entre os mortos ou da França. talvez até demais. —Retire isso! E sem dar-lhe tempo de fazê-lo. Naquele momento Benjamin começou a farejar o peitilho do vestido. misturada com um grupo de mulheres e jovenzinhas.

—Obrigado. —Compreendo —sussurrei solidária. Com surpresa. —Mas você não ajuda na tipografia? —perguntei.. —Deu uma palmada no bolso de seu casaco. —Não podemos pretender que nos paguem pelos panfletos. os bovinos se criavam por sua carne. às que Jenny mimava mais do que a seus netos. Pareceu-me bastante ingrato. — Suponho que deveria dizê-lo. só Deus sabe quanto demorará para milord restabelecer a tipografia. . próxima do estábulo onde se alojavam as ovelhas e as cabras. E ainda que a imprensa tenha se salvado. Depois de ter estado submersa no barulho da cozinha. por suposto. que emitiu um repique reconfortante. —Não posso dizer que ajude. o do tonel! O brilho de selvagem diversão se apagou em seus olhos com um suspiro. balindo freneticamente com a esperança de receber algum bocado extraordinário. Encolheu um ombro. Mas milord teve a gentileza de permitir-me investir ali uma parte de meus ganhos com o conhaque. sim. me cercaram em massa. fui com Gage para prevenir aos outros membros da Sociedade. aproveitei a oportunidade de escapar oferecendo-me para trazê-la da ala onde se guardava o leite. —Precisas de dinheiro? Eu poderia. Podem esperar tanto como seu colega. Para meus gastos preciso muito pouco e tenho o suficiente. milady. E tal como esperávamos tinham vários homens da Alfândega disfarçados. Era óbvio que algo lhe inquietava. Com o tempo devo chegar a ser um verdadeiro sócio. Mas não fez jeitos de ir para a casa. —Ah. contemplando com ar amuado as ovelhas. o ar frio e úmido me era tão refrescante que passei um minuto arejando as anáguas impregnadas de cheiro de comida antes de continuar meu caminho. Perguntei-me se sua missão teria fracassado. Nas Terras Altas. As valiosas ovelhas merinas. —Alegro-me de voltar a ver-te. ruidosas e malemolientes — disse. —Sabe que Jamie está aqui? Se acabava de chegar. Surpreendeu-me seu ar de luto. Jogou-me um olhar surpreso. mas não. —Encontraste o senhor Gage? Por um momento pareceu não compreender. Milord estava certo.de creme para os bolos. pois o leite de vaca só se considerava adequado para os inválidos. o que saberia dos últimos acontecimentos? —Não —reconheceu com desassossego. —Bestas inúteis. depois voltou a sua cara uma chispa de animação.. milady. A ala do leite estava a certa distância da casa. ao sair da ala vi Fergus reclinado no muro do pátio. considerando que sua manta e suas meias deviam ser tecidos com sua lã. Fergus lançou um olhar malévolo. Depois fomos à taberna onde deviam reunir-se. Fergus — comentei sem prestar atenção ao seu mau humor.

E se afastou para o pombal com um profundo suspiro. mão esquerda e sobrenome. Para surpresa minha. Sabe Jamie dessa moça? Sem dúvida aceitaria falar com sua mãe em teu nome. Ainda assim concordei em não dizer nada a Jamie. dificilmente parecerá uma profissão atraente aos pais de uma dama respeitável. Fergus era dono de uma beleza morena e um porte deslumbrante que bem podiam conquistar a uma moça. ou é melhor que traga o cavalo até aqui? Olhou-a com uma sobrancelha em alto. o negócio da tipografia é muito respeitável. —Já te disse. —Talvez mais adiante. Tinha estado fora. — Mas tal como estão as coisas. Mas sua mãe não me aceita. creio que não sou companhia adequada nem tão sequer para as ovelhas. Enquanto o contrabando rende rendimentos mais do que suficientes para manter a uma esposa.. milady. —Sim. não. — Pelo momento. Fiquei surpresa ao encontrar Jenny na sala. —Se eu fosse sócio de uma próspera tipografia. que Hobart MacKenzie não me assusta. rendimentos estáveis. —Poderás caminhar até o celeiro. pôs cara de alarme.Depois disse com lentidão.. Agora via as coisas claras. —Ontem à noite veio Amyas Kettrick dizendo que chegava desde Kinwallis e que Hobart tinha intenção de vir hoje.Logo nos ocorrerá algo. —Não te preocupes. —Aah! —exclamei. milady! Não lhe diga nada. — Se saiu depois do café da manhã. —explicou. —Posso caminhar até onde faça falta. Dei-lhe uma palmada compreensiva no braço. Provavelmente estava certo. mas não penso ir a nenhuma parte. tinha as bochechas e a ponta do nariz avermelhado pelo frio. milady —disse.. Nestes momentos tem coisas bem mais importantes para pensar. mas sua veemência me surpreendeu. — Queres se casar? Com uma dama respeitável? Assentiu com certa timidez. mas carecia de certas coisas que os pais escoceses consideravam atraentes: propriedades. Jamie.. —Mexeu a cabeça. Captou meu tom intrigado e esboçou um sorriso lúgubre. Bem pensado. Que me crucifiquem se fujo dele! . —Não te disse que vem para cá? —protestou Jenny. —Oh. bom. —Mandei o jovem Ian que selasse Donas —disse a seu irmão com o cenho franzido. milady. —Suponho que sim. estará aqui dentro de uma hora. desconsolado. —É que. com Jamie. impaciente. —Deu uma olhada ao bonito relógio esmaltado da estante. Jamie reclinou a cabeça no sofá. não se podia criticar à mãe da jovenzinha. aí sim a boa senhora poderia tomar em conta minhas pretensões. por favor. Jenny. —Lhe direi qual é o problema.

tudo isto.. E olhe só o que aconteceu! —Assinalou com a cabeça o braço na tipóia. —Bem.Olhou-o com frieza. —Ah. já conheces a Hobart MacKenzie! Esse homem não é capaz de matar nem um leitão sem amputar seu próprio pé. —Idiota —disse sem rancor. Que seja como quer. Que acontecerá. Ou terás que fugir. —sussurrou ela. Aproveitei aquele momento para intervir: —Quem é Hobart MacKenzie? E por que quer atravessar-te como a um ganso? Jamie girou a cabeça para mim com expressão divertida. Jamie curvou a boca. ok? —Prometido. Derramar sangue na sala é de má educação. — Quanto a isso de atravessar-me.. Sassenach —explicou. Vais dar-me de comer ou queres que eu desmaie de fome para poder esconder-me no «buraco do padre» até que Hobart se vá? —Não é má idéia —repôs ela. te faria dormir com uma bofetada! —Mexeu a cabeça com um suspiro. —Vive em Kinwallis. Jenny. A perspectiva parecia divertir a Jamie.. bem sabes que nas Terras Altas as armas de fogo escasseiam mais do que os dentes de galinha. A seu pesar. suponho. —E te enforcarão por assassinato. claro que não. —Hobart é o irmão de Laoghaire. não fará mais do que entrar e atravessar-te a garganta como um ganso que és! — espetou ela. isso é verdade —reconheceu. —Não. —Por outro lado. —Suponha que venha por ti e tu o matas. —Hum. — Está bem. —Esse Hobart não te preocupa? —perguntei. Jamie. Queres iniciar uma guerra entre clãs? —O que quero —contestou ele com paciência— é tomar café da manhã. Se Hobart quer matar-me. . Mas não faças nada que estrague meu bonito tapete turco. —A idéia é que Hobart deve vir limpar a honra de sua irmã eliminando-me. então? —Ele será homem morto. Jenny. Jenny. —Por Deus. não creio que se atreva a pedir-me a pistola emprestada. Jamie se lançou a rir e recebeu um olhar fulminante. —Parecia um pouco irritado. — Não creio que se incomode.. —Se pudesse arrastar tua renitente pessoa até ali. Laoghaire o mandou chamar —interrompeu Jenny—... sim? Laoghaire também não te assustava. e lhe contou. encarando seus ouvintes num sorriso desenganado. Ela soltou um bufado. Mas eu não estava tão segura e Jenny também não.—Farei que Janet te traga o porridge. perseguido por todos os parentes de Laoghaire. Voltou-se para sua irmã.

—Sim. esse tal Hobart. segui-a ao interior do estábulo. sobressaltada. —Creio que ainda não posso trabalhar de saltimbanco. peguei um capote do cabideiro e corri atrás dela.. Jenny suspirou . Por um súbito impulso. mais calma. Inclinei-me para revisar-lhe o braço e fez uma careta. ligeiramente intimidado. —Este é o neto de Dornas. No dia anterior. creio que não. —Tirou a tipóia e esticou o braço com um gesto de dor. —Fechando o manto para defender-me do vento. não sabe? —apontou com suavidade. e deu uma olhada a seu arredor. Tinha um par de coisas que falar com Jenny Murray e essa podia ser minha melhor oportunidade de estar a sós com ela. —Dornas? —perguntei olhando-o com estranheza. . —Sua mão acariciou a bochecha de seu filho. —Sabes perfeitamente que tio Jamie não foge de ninguém. —Dói? —Tinha melhorado. pequeno Ian. —vacilei —Escuta. Ian filho estava esparramado sobre um montão de palha fresca. Era Jenny. —Não muito.. com manto e capuz. um deles. — Tenho que voltar ao porão para procurar cebolas para uma torta. Não vou permitir que me matem com o estômago vazio. mamãe. —Não pode ser o mesmo cavalo do que te apoderaste em Leoch! —Oh. eu sei. Me acompanha? —Vou contigo.. Ri outra vez. Os potros levam o mesmo nome em sua honra. E ainda que não o estivesse. —Te trarei — prometi..? —Estou seguro.. muito menos de tio Hobart. O garoto coçou a cabeça. Comecei a rir. Mas acreditei que não valia a pena.E desapareceu num redemoinho de saias e anáguas. sem cadeira nem brida. ao ouvir meus passos girou ao redor. um alazão de olhos ternos mascava seu feno. Ao sair para o vestíbulo vi mover-se algo por trás de uma janela. estás seguro de que não. primeiro preciso tomar café da manhã.. —Vou dizer ao jovem Ian para retirar as selas do cavalo —disse ao ver que estávamos a sós. —Sim. não. —Não? E por que? Encolheu-se de ombros com um sorriso. Em seu cubículo. que subia a costa para o estábulo. —Não te mandei preparar a Dornas? —perguntou ela com voz áspera. —Não. Alcancei-a ante a porta do celeiro. a zona dolorida era bem maior. —Jamie jogou a cabeça atrás para sorrir-me..

Não suportava vê-lo assim. mas. verdade? —Verdade —reconheci — Mas nós dois estávamos vivos. queria ver-te. —Doce criatura! —murmurou. —Fiquei aturdida quando Ian me disse que tinhas voltado. Parecia estar muito bem. não? Nenhuma das duas disse nada até que chegamos ao calmo santuário do porão. voltou-se para mim com ar decidido. queria-te muito. então? Ela me olhou apertando os punhos. —Eu ia com a sua cara.—Vá em casa e tome um segundo café da manhã com teu tio. saber onde tinhas estado. passando uma mão pelos montões de tubérculos. —Vamos. Ficou um silêncio.. pois suponho que queiras falar comigo. Por fim perguntei. —Tens razão: ele não teria casado se não fosse por mim. —Eu acreditava que tinha morrido — disse contestando à tácita acusação. .. depois de Culloden. — reconheceu em voz tão baixa que mal a ouvi. —Antes. não é o tipo de homem que possa dormir só. Seguia arrancando cebolas. —Caíram tantos em Culloden. não esqueças vir avisar-me imediatamente. — Sacudiu a cabeça e me jogou um olhar de soslaio —.. entendes? —Sim. Depois. recordando as circunstâncias..—Muito só. quando vivias aqui com Jamie. —Por que fiz o quê? funcionar de casamenteira entre meu irmão e Laoghaire? —Jogou-me um olhar interrogante mas de imediato voltou à trança de cebolas. Jenny mexeu a cabeça com o sorriso ainda nos lábios. Depois.. e não falo da perna. Ele pensava o mesmo de ti. Mas estava ferido. O garoto saiu disparado para a casa. —Estava muito só —explicou com voz suave.. —Por que. —Recordas que me sugeriste plantar batatas? —comentou Jenny. —Suspirou apartando-se uma mecha de cabelo escuro. sem levantar a voz: —Por que? Por que o fizeste? Arranquei uma das cebolas trançadas. mamãe. —Pouco lhe faltou.. aquela colheita de batatas nos manteve com vida mais de um inverno. —Você o obrigou —disse. —Eu também a ti —assegurei com a mesma suavidade. Tua tia e eu iremos ao porão. —Foi um acerto. Mas se chegar o senhor Hobart. Ao princípio me entusiasmei. onde se armazenavam as provisões. Por que avisaste a Laoghaire quando voltamos com teu filho? Jenny demorou em responder.. movendo-se com a torpe graça de um filhote de cegonha. quando voltou da Inglaterra. Não sabes quanto tempo chorou por ti.

Por isso o fiz.. Jamie é um homem fiel. És sua esposa.. nunca me afastei mais de quinze quilômetros de Lallybroch? —Não sabia —reconheci sobressaltada. eu estava segura de que sempre voltaria aqui. O que você acha ? Olhava-me de soslaio. Tinha as mãos quietas no colo.. verdade? — comentou depois de uma pausa— Alguns dizem que está escrito: o que vês é o que vai suceder. Aquela foi a primeira vez e espero que seja a última. Só quero ficar com ele. te fosse de imediato e Jamie ficaria. Procurei inutilmente algumas palavras para reconfortá-la. pensando em Culloden. Apesar de seu. —Engoliu a saliva. Assenti. Então regressaste. Suponho que viajaste muito.. Mas te foste e. Então ele seguiria contigo e eu jamais o reveria. —Sabes que. com o capote estendido ao redor como uma flor. Senti que se me arrepiava o cabelo da nuca. —Não. Ela ficou tensa mas por fim acabou enlaçou os dedos com os meus. Mas te vi ali com tanta clareza como te vejo agora. para sempre. —Você sim. —Encolheu os ombros. Se lhe prestar atenção podes mudar as coisas. Ela mexeu lentamente a cabeça. depois de tanto tempo. Ainda que vivesse em Edimburgo. Porque tinha te visto.Ergueu as sobrancelhas a modo de pergunta. pensativa. procurando pistas. Imaginei que quando soubesses de seu casamento com Laoghaire. —Não sei —reconheci com voz trêmula. —Agora compreendo que não serve de nada. Ela sacudiu a cabeça. isso foi suficiente. à esquerda de Jamie. Então soube que voltarias para recuperá-lo. indefesa. —Mas não foi assim— apontei esperando confirmação.. supus que te teria esquecido o suficiente para voltar a casar-se e ser feliz.. —Não sei quem és nem. Estavas entre os dois. tinha prometido cuidar de Laoghaire e nunca a abandonaria de tudo. com curiosidade. e se te vais. nem o que és. De qualquer modo. Apoiei uma mão em seu braço. ele irá contigo. —Estava segura de que voltarias a ir embora. Está preso a ti. em toda minha vida. —É verdade. Mas agora. às Terras Altas. Outros dizem que não. —E irás outra vez —sussurrou. —Não nasci com o dom da vidência. Não estás atada a estes lugares. —Sempre pensei que. Não sabemos de onde vens. sabendo as coisas com antecipação. Não conhecemos a tua família. . também não me sucede habitualmente. —Não quero ir. nãosei —concluí com tristeza. era possível mudá-las. como Laoghaire. Sentou-se num barril. e levei tamanho susto que saí da igreja no meio dos votos. Nunca te perguntei. a recordação a tinha feito empalidecer. que é só uma advertência. Mas voltaste.. —Dizem muitas coisas diferentes sobre a vidência. verdade? Jamie te escolheu. frente ao altar.. —Avaliando o meu rosto.. sabes? Quando se casou com Laoghaire. Ante minha falta de resposta continuou: —Mas depois tive medo. como eu. para bem ou para mau.

boquiaberto.. Apesar das rugas. —Traz pistola ou espada? Negou com a cabeça. —Senhora Jenny —saudou com uma reverência. de Kinwallis.. Voltei a me perguntar o que saberia pela boca de Jamie. naquele momento se abriu a porta da sala. seus olhos eram os de sempre: negros e brilhantes. —Querida minha! —exclamou adiantando-se a passo rápido. fazendo voar o cabelo escuro. — Permita-me apresentar-vos a Claire. era de ossos pequenos e pálidos e olhos lacrimosos.. suas feições indecisas se iniciavam numa calvície incipiente e terminavam num queixo igualmente escasso que parecia tratar de esconder-se entre os vincos de sua papada. —Oh. —Cuidarás bem dele? — perguntou ela subitamente. . até que a porta do porão se abriu de par em par. tinha-me salvado da fogueira à que iam condenar-me por bruxa. minha cunhada. o senhor Hobart MacKenzie. Ante a pequena e pulcra silhueta emoldurada pelo vão. Jenny pegou o touro pelos cornos. —Tentou uma inclinação de cabeça. não. —Ned! Ned Gowan! Era ele: o ancião advogado de Edimburgo que. deixei escapar uma exclamação de prazer.. Há de se tentar. mamãe. Com um profundo suspiro. Os olhinhos de coelho se desviaram para mim e me abandonaram de imediato. pegadas pelas mãos.Jenny me observava. —Mamãe? —O jovem Ian assomou a cabeça com os olhos brilhantes de excitação. —Tens razão. senhora. —Hum. —Nesse caso. Limitou-se me olhar. —Senhor MacKenzie —saudou com uma reverência formal.. seus olhos azuis estavam tão escuros que pareciam negros.. Tinha uns trinta anos. Era difícil imaginar alguém menos propenso à vingança que Hobart MacKenzie. fixaram-se em mim com expressão de alegria. A coisa é ainda pior: trouxe um advogado. —Ainda que partam? Estreitei-lhe os dedos frios. —É um prazer —improvisei com meu sorriso mais cordial. Estivemos um momento assim. Sorrimo-nos com certa timidez. —Eh. deixando entrar uma rajada de ar carregada de chuva.—Não podes permitir que simplesmente aconteça. — Chegou Hobart MacKenzie! Diz papai que vem em seguida! —Está armado? —perguntou ela levantando-se com nervosismo.. —Prometo —disse. —Mas há de tentá-lo— disse com segurança. tudo vai bem —assegurou devolvendo-me o gesto. ao seu serviço. e o que a partir daí teria adivinhado por sua conta. como desejando que minha presença não fosse real. Por sorte. Claire.. não é? Eu ignorava se era uma referencia pessoal mas sacudi a cabeça. em outros tempos.

.— a primeira senhora Fraser está em todo seu direito de iniciar ações legais contra voce. de solteira Laoghaire MacKenzie. por suposto. —Meus clientes.Tomou-me a mão para levar-se aos lábios secos com fervorosa galanteria.. que você se meteu em consideráveis apertos legais. os MacKenzie.. em seus cadeirões de veludo. Ficou claro?— Deu uma olhada inquisitiva a Jamie.... querida? —disse oferecendo-me seu braço ossudo. Não acreditava que Hobart MacKenzie tentasse nenhuma agressão mas preferia estar perto pelo talvez.. Bem. meu querido jovem... Os outros participantes já se tinham instalado na sala: Jenny. devo começar por estabelecer minha própria posição. se o permitir. O senhor Gowan levantou os olhos com sobressalto. representando os interesses da senhora Fraser. junto a Ian.? —. sim. Os meninos tinham desaparecido. se vos e as senhoras aceitam se reunir conosco quem sabe possamos resolver este assunto sem perda de tempo e passar à questões mais agradáveiss.. —Isso não me preocupa muito —disse ao advogado.. Vim como advogado do senhor Hobart MacKenzie. —Claro. quem assentiu. tive alguma ajuda — disse secamente. —Ao ver que eu dava um respingo aclarou: —Da segunda senhora Fraser. Senhor MacKenzie. —Bem. exceção feita de um pequeno gorducho que dormia encolhido em seu colo. é resultado da aparição súbita e inesperada. Os negócios primeiro. —Estupendo.. pelo qual poderia corresponder uma pena de. Hobart e o senhor Gowan. —Lamento dizer. Jamie continuava no sofá como o tinha deixado. —Todas as partes interessadas? Excelente. Depois dedicou a Jamie um gesto de censura. —Bem. mas. farei o possível —disse perguntando-me o que queria saber... Me concedeis a honra. terei o gosto de escutar o relato de vossas aventuras. querida —disse. —adicionou enquanto me fazia uma reverência— da primeira esposa de James Fraser. —Ah.. onde Jenny tinha pendurado seu manto e estava arrumando o cabelo. —Tinham-me dito que vos. O velhinho deu uma olhada para o corredor. feliz por este reencontro. Hobart MacKenzie tossiu para interromper este entusiástico diálogo. —Como é possível que estejais. —Estamos todos reunidos? —perguntou o advogado... isto é: vivo. —Depois.. Jamie lançou um relâmpago azul em minha direção. ainda que muito grata e afortunada. estupendo. aceitaram minha proposta de procurar uma solução legal a esta confusão que. —Que mais? . por verdadeiro. no outro sofá. segundo tenho entendido. — Os senhores Fraser e Murray já estão na sala. —O senhor Gowan pegou um copo e bebeu um gole.. acusando-o de adultério e fornicação. —Eh.—Quais são essas dificuldades? —Para começar — especificou Ned Gowan alegremente.. Olhou a sua irmã com uma sobrancelha em alto. Sentei-me numa almofada junto ao sofá. um prazer tão grande vê-la! —.

. é que já não deseja recuperar-me como esposo. —É melhor que não o saiba —assegurou. —Não — interveio Hobart —Como carniça para corvos. —Bem. seria impossível a não ser que voce se divorciásse da atual senhora Fraser para voltar a se casar.... intenção de enganar e fraude. Jamie interrompeu a recontagem com uma pergunta: —Diga-me. coisa que. —Bem. —Enquanto a senhorita MacKenzie não deseja retomar a relação conjugal com vos.. mas como esposo.—Mas a idéia geral. —Vai direto ao ponto. Ned lhe deu uma olhada fria. intencional ou não. para que me pagas? E se voltou para Jamie. a vontade que expressa a senhora —disse circunspecto — é de te castrar e de te estripar na praça de Broch Mordha. que mexeu a cabeça.— Eu lhe disse que seguiria mantendo-as.. Um sorriso uniu as rugas de Ned. — Compreendo —disse torcendo a boca. Ned: que diabos quer essa maldita mulher? O advogado piscou. eh. além de ver sua cabeça num poste junto ao seu portão.— Caso contrário. mas sem perder o sentido do humor. — Ainda não mencionei nenhuma demanda pecuniária.. —Vi-me obrigado a informar à senhora F. — Quanto? — interrompeu Jamie. velho vigarista —exclamou Jamie. além de ver-se submetida ao ridículo e à humilhação pública. à dama que a lei lhe outorga remédios um pouco mais limitados. — Ignorava que minha irmã conhecesse essas palavras.— devo informar aos meus clientes que o mais conveniente é evitar o custo e a publicidade de um pleito. suponho.— Com respeito à segunda senhora Fraser. Já tinha levantado o quarto dedo e se estava preparando para mais. se a senhorita MacKenzie e seu irmão obtivessem uma sentença favorável num pleito como o descrito. impoluto em sua dignidade profissional. Portanto. —Nada mais longe de minha intenção —assegurou precipitadamente Jamie. traição e.. —Não corre tal risco —interrompeu Jamie acalorado.. Mas estas disposto a pagar? . poderia acusa-lo de bigamia. de qualquer modo.. poderia ser. a ela e às meninas! Por quem me tomas? Ned trocou um rápido olhar com Hobart.. por favor? Ned inclinou cerimoniosamente a cabeça. a senhorita MacKenzie corre também o risco de perder seu principal meio de subsistência. —Senhor Fraser! —Agora Ned Gowan se mostrava escandalizado. Depois de tudo. jamais. é necessário compreender que.. poderiam fazer-vos pagar uma indenização muito substanciosa. —Só porque estás muito ocupado em se divertir. irritado. —Rogo-vos que não comprometas vosso caso fazendo concessões antes de ter chegado a um acordo — reprovou.. —Sei —comentou Jamie. Laoghaire MacKenzie. —Nesse caso —prosseguiu Ned..

a mesa carregada de papeladas legais e todo mundo exausto. Filhos e netos já estavam deitados. senhora Murray. —Nesse caso —esclareceu Jenny. — Excelente observação. se te propões.—Estou. —Bem. —Formar casais é tua especialidade. que se mantinha tão vivaz e despejado como sempre. Jamie se voltou para sua irmã. — O que me pergunto é de onde vais tirar mil duzentas libras. — Consinto — disse Jamie. — O advogado pegou sua pluma para rabiscar com afinco. senhora Jenny? Sentei-me à mesa. —Todas as cabeças se voltaram para Jenny. aceita manter seu lar a razão de cem libras anuais. — pode voltar a casar-se imediatamente. Jamie.. E quando casar. libera o senhor Fraser de qualquer outra reclamação. indica que há nas cercanias uma perna de cordeiro. a seu turno.. verdade? —Verdade. à exceção de Ned. — Portanto. Compreendes tudo isto e estas disposto a consentir. senhor Fraser? —inquiriu. Ante isto Jamie soltou um leve bufido que o advogado fingiu não escutar. excelente — declarou outra vez recolhendo as folhas para pô-las em ordem. com Jamie de um lado e ao outro Hobart MacKenzie. ficávamos só nós quatro junto ao brandy e os bolos com creme. estamos progredindo — declarou radiante —O seguinte ponto a cobrir. podes encontrar a um ou dois homens adequados para esse trabalho. renuncia a apresentar demandas legais contra dita senhorita por tentativa de assassinato. —E por acréscimo. . o garrafão de whisky estava completamente vazio. — Bem.. seu casamento com Laoghaire não tem nenhuma validade. que fez um gesto firme a Ned Gowan.. meu irmão não deve estar obrigado a manter sua casa. O senhor Fraser aceita assim mesmo fixar. — Esse delicioso aroma. —Se Jamie estava casado com Claire. Uma hora depois. uma dote adicional de trezentas libras. só se pode retirar de um lugar. —Excelente —repetiu Ned. não? —Ian passou o olhar entre sua esposa e seu cunhado. já descontraído e com boa cor. os pontos principais do acordo são os seguintes: o senhor Fraser aceita pagar à senhorita MacKenzie a soma de cem libras como compensação pelos prejuízos e moléstias ocasionados e pela perda de seus serviços matrimoniais. —Só até que ela volte a casar-se. Ela. E finalmente. para cada uma das filhas da senhorita MacKenzie. com a partida de Ned e Hobart para Kinwallis. não? —disse. —Suponho que sim —confirmou sem afastar os olhos de seu bordado. Era o mesmo que eu estava pensando. Fazia muito tempo que estava de pé. Depois de um breve silêncio. —Suponho que. senhora Murray. —A solução é casá-la quanto antes —declarou Jenny. Jamie assentiu. pagamento que cessará no momento em que a senhorita MacKenzie voltar a civilizar um matrimônio. —Excelente. tinha a cara pálida e a testa coberta de suor. E se levantou para dedicar-nos uma sorridente reverência. mas se mantinha erguido com o menino dormido no colo.

—É verdade —suspirou. o ouro das focas. caso ele morresse na prisão. afastou os olhos de seu labor para fincar-lhe um olhar agudo. —Não —replicou Jenny instantaneamente. —Sim. Sassenach. é verdade. queira ou não. — Estava destinado aos seguidores do príncipe Carlos. Parecia preocupado. — Duncan Kerr o deixou a meu cargo. «A bruxa branca». —Não há quem tenha mais direito do que tu sobre isso.. —Não contou para ela? Sacudiu a cabeça. Jamie franziu o cenho. —Já tem idade para isso. A irmã. com a testa enrugada. —Voltou-se para mim — Falamos do tesouro. Jamie tinha enviado a Lallybroch uma carta cuidadosamente codificada. Olhou a janela. Ian se encolheu de ombros. estreitandolhe o braço são. Sassenach. E Claire também não. Michael e Jamie tinham dezesseis e estavam mais desenvolvidos. foi o que disse Duncan. — O que estás pensando. . judiciosamente. quem o pôs ali e não sabia o que fazer com ele. Contrário a utilizar o tesouro em proveito próprio mas com a idéia de que alguém devia estar inteirado de sua existência. —Quero levar o jovem Ian comigo. mas não tudo. Olhou a seus parentes como se duvidasse em adicionar algo. E a meu modo de ver isso se referia só a voce. depois olhou para Jamie.. —Sim. erguendo as sobrancelhas. —Dentro de uma semana começará a maré de primavera. mas o pequeno Ian nada melhor do que seus irmãos — interveio Ian. tem que ser um dos moços. Jamie? Respirou fundo. onde a chuva castigava os vidros. não? E tu foste um deles. —Nadar? —exclamei completamente desconcertada —Nadar onde? Por um momento Ian pareceu surpreso. Jamie —observou o cunhado com um sorriso. — disse. —De qualquer modo. —Não sabia que fazer com ele —explicou. —Não é verdade! Mal tem quinze anos. — Depois de tudo. —Sim. Como Jamie não pode levar o tesouro consigo. —Mas ainda não é boa época para isso. Jamie não pode nadar nestas condições. mas. mas eu ignorava a quem pertencia. tinha voltado a escondê-lo em seu lugar antes de regressar a Ardsmuir. Jenny — observou Jamie baixinho. não me ocorre outra saída.—Suponho que sim —disse com desanimo. Respondeu-lhe com um sorriso melancólico. que o conhecia ainda melhor do que eu.

seu filho maior. guardou duas moedas de ouro e três das gemas menores num saco que levava atado ao pescoço. não pediram um bote aos pescadores: foi o moço quem nadou até a rocha das focas. Desde então. Jamie e Michael. assumindo a responsabilidade de distribuí-lo entre os jacobitas precisados. Mais ou menos ao mesmo tempo. —Não te contei tudo o que aconteceu em Edimburgo. Por temor que se filtrasse alguma notícia sobre o tesouro. Lallybroch sofreu duas péssimas colheitas consecutivas. Ian tinha efetuado três vezes a trabalhosa viagem até a costa com um de seus filhos. Em duas ocasiões o dinheiro foi para a França para os amigos que passavam apertos. ele disse que talvez não fosse mal utilizar uma pequena parte do tesouro para ajudar os seguidores do príncipe Tearlach. tal como o tinha feito seu tio vários anos atrás. Ian e os dois filhos maiores. Agora era a vez do jovem Ian. Só Jenny. —Não tínhamos nada que enviar. Dali foram a Inverness para embarcar para França. conheciam a existência do tesouro. Mas me deu a impressão de que já não estava muito convencida. mas creio que. pensando-o bem. Eu tratava de digerir estas notícias. onde o primo Jared Fraser. Ele esfregou o nariz com expressão de cansaço. ante seus mesmos narizes. . deixando para trás terras e fortuna. —Me comuniquei com Jamie. —Dirigiu-se a seu cunhado. estava destinado. — repetiu Jenny. a outra parte foi usada para comprar sementes e o alimento necessário para que os arrendatários pudessem sobreviver ao longo inverno. ao menos até que ela esteja devidamente casada. para a enseada das focas. deixou o resto do tesouro e voltou contra corrente. ainda piores para quem tinham escapado para a França. Ian tinha cruzado Escócia com Jamie. Até então ignorava que Jamie tivesse intenções de abandonar Lallybroch e a Escócia. pelo bem de Laoghaire. que para quem permanecia nas Terras Altas.indicando-lhes a localização do tesouro e o uso ao que. convém-me afastar-me também dali por um tempo. aqui também estavam todos próximo de passar fome — explicou Ian. Ian assentia com a cabeça. —Você o levaria também à França. a fim de cobrir alguma necessidade. Não posso viver aqui com Claire. pensativo. Ian. provavelmente. enfrentando a perseguição inglesa. Em cada oportunidade tinha pego uma pequena parte da fortuna oculta. Da França chegavam cartas que solicitavam qualquer socorro possível para os colegas que corriam perigo de morrer de fome. Naquela época os tempos eram duros para os jacobitas. depois do fracasso da colheita de batatas em Lallybroch. na realidade. que prosperava em seu desterro como mercador de vinhos. ajudou-lhes a converter discretamente em dinheiro as moedas e as jóias. Jamie? —Jenny já não fingia que bordava e mantinha as mãos quietas sobre seu colo. chegando exausto à costa. Encontrou o tesouro em seu lugar. —Não. Jamie? —Sim. Devo manter-me longe de Lallybroch durante algum tempo. —Que está pensando em fazer.

—Não terá problemas.—Bem. Talvez me estabeleça na França durante um ano. —Suponho que é melhor dar-lhe a liberdade enquanto ele acredita que ainda está em nossas mãos dar-lhe —disse. dirigia-se mais a sua irmã que a Ian. Por fim ela inclinou a cabeça. para fazer-se ouvir. Não tinha árvores. . avançou com cautela entre as pedras até a entrada. só longas extensões de urzais e rochas que se elevavam sobre penhascos até tocar o céu encapotado onde desapareceriam em cortinas de nevoeiro. mo nighean dubh —lhe disse de modo baixo e terno. — Leve-o contigo. Dirigiu-me uma olhada cúmplice. — Mas não precisará. calculo — replicou seu tio. sorridente. —Que distância há entre a costa e a ilha das focas? —perguntou a Jamie pela décima vez. —Não tire a camisa até que estejas embaixo —indicou a gritos. —Sim. É uma grande oportunidade para o garoto. — Cuidarão dele. O promontório que tinha junto à enseada estava deserto e envolto pela bruma. Ela assentiu. de verdade? CAPÍTULO 39 Perdido e chorado pelo vento Aquela parte de Escócia tinha tão pouco a ver com os vales frondosos e os lagos próximos a Lallybroch como os estanques de Yorkshire. vacilando. Jamie assinalou a seu sobrinho a chaminé de rocha situada no que chamavam «a torre de Ellen» e. no qual só incomodava ao jovem Ian. —Caso contrário a rocha te destroçará nas costas. —Estão seguros? —Jamie. Depois se voltou para seu cunhado. O jovem Ian poderia vir conosco e educar-se em Paris. eu sei —assegurou seu tio com paciência. bastará que nades em linha reta para a ilha. Ian. tomou-lhe a mão. retirando um rolo de corda de sua cela. Jenny e Ian trocaram uma longa olhada. A marcha era lenta. —Posso nadar essa distância —disse o jovem Ian pela décima vez. Olhou a Jamie e depois a mim. O garoto assentiu e voltou a fazer silêncio. a corrente te levará. que estava cheio de entusiasmo e impaciência por chegar. Jared me ofereceu mais de uma vez fazer-me sócio de sua empresa. —Uns seiscentos metros.

suponho — disse. Mas quando está consciente de que algo é perigoso. era uma silhueta pequena como uma formiga. usando os cavalos como parapeito. com a corda bem atada à cintura. —Aha! —exclamei. mas agora não fazia nenhum esforço por dissimular sua preocupação. vai. —Não voltará dentro de umas duas horas —comentou respondendo a minha tácita pergunta e abandonando de má vontade sua inútil observação da enseada. A verdade era que. Seu tio tinha o outro extremo da corda atado à cintura e a ia desenrolando cuidadosamente com a mão sã enquanto o garoto descia. Não era uma embarcação para pescar. Vêem. senão algo maior e com um só jogo de remos.Ian assentiu. Além do mais. seria uma pena privar a Ian de sua aventura. —Suponho que sim. anda. despediu-se de mim com um sorriso nervoso e em dois saltos desapareceu sob a terra. de um lado da ilha. Mas antes que tivesse terminado a frase. alerta. sim. resguardemo-nos do vento. Não parecia que fosse pelo braço ferido. é uma péssima época para nadar. — O que? —Pareceu-me ouvir um grito. desde onde se via uma praia em forma de meia lua. deu uma olhada ao seu redor e. já estava em pé. A enseada ainda estava invadida pela bruma mas o vento tinha descoberto a ilha das focas. se algo corresse mal. Eu respondi igual mas Jamie se limitou a murmurar: —Bom. — Que foi isso? —Jamie levantou a cabeça. Sorriu com melancolia. Sentamos a certa distância da borda. Engatinhei sobre seixos e ervas até a borda insegura do alcantilado. —Já fizeram o jovem Jamie e Michael — lhe recordei. Jogou-se a rir. deixando-a perfeitamente visível pelo momento. —Brrrr! —exclamei— A água deve de estar gelada! —Sim —disse Jamie. de costas à enseada tempestuosa. Ante nossa vista apareceu um homem. Depois de retirar a corda. guardamos silêncio. preferiria ter ido eu mesmo. Parecia que tinha passado muito tempo quando finalmente vi Ian sair do fundo da chaminé. Como o vento dificultava a conversa. Tinha mostrado uma alentadora confiança enquanto Ian efetuava a descida. não teria como chegar até Ian. A pequena silhueta lançou a cabeça às ondas cinzas. Ian não terá problemas. proveniente do centro da ilha trazendo algo sob o braço. ainda que o longo caminho a cavalo e o exercício com a corda não podiam ter-lhe feito nenhum bem. saudou-nos com um gesto de entusiasmo. —As focas. andando a grandes passos para a beira do alcantilado. — Oh. —Ian tem razão. Tinha um pequeno bote amarrado numa saliente rocha inclinada. com ferida ou sem ela. o objeto tinha a forma e o tamanho da caixa que . depois. —Agora já sabe como é estar casada contigo. —Droga. é mais fácil voce mesmo fazer do que esperar e se preocupar enquanto o outro faz. Estava pálido e tenso. ao ver-nos no alto do alcantilado.

O terreno se partia num pendente pedregoso que descia para o oceano. espalhando água. Produziu-se uma segunda explosão. Nada se movia. Uma delas se abriu ante meus olhos e apareceu o olho negro e redondo de um canhão. —Que vamos fazer? —perguntei. Provavelmente alguma delas nos viu. vimos que o segundo homem jogava Ian dentro do bote sem nenhum cuidado e o impulsionava para o água. com uma larga banda negra pintada ao redor e uma linha de frestas. Não tive muito tempo para reflexões. procurando o vento. jogou-se de bruços às pedras no momento em que se produzia o disparo. refugiei-me numa greta do alcantilado. pois se ouviu um grito apagado e umas figuras apareceram em coberta. pois de imediato se fez o silêncio. —Quieta! Obrigou-me a me ajoelhar para que ninguém me visse. pois de imediato apareceu um segundo homem do outro lado da ilha. —De um barco. rodeando a curva do promontório. —Ian! Jamie me fechou a boca com uma mão antes que pudesse voltar a gritar. A fresta se fechou sem ruído. Jamie disse com muito sentimento um palavrão em gaélico. As velas se incharam e a nave dirigiu-se ao mar aberto. . A chalupa se afastava da ilha. cruzar o promontório e afastar-se da enseada como se levado pelo diabo. e o barco virou com lentidão. no alto do promontório. —Jamie! —gritei a todo pulmão. Então compreendi que tanto os cavalos como eu. Alguém devia de estar vigiando no barco. a julgar pela súbita agitação que se produziu a bordo: mais gritos e várias cabeças assomaram acima da borda. éramos bem mais visíveis do que Jamie. salvo uns fiapos de nevoeiro. Sem poder fazer nada. Quando Jamie chegou ao meu refúgio. Este último trazia o jovem Ian. Os cavalos estavam mais bem calçados que eu para aquela superfície rochosa. carregado sobre um ombro. o barco tinha quase desaparecido no denso banco de nuvens que escurecia o horizonte. meio nu. para a esquerda. Mas para onde iriam? —De onde saíram? —sussurrei. a corrente da âncora se içou. ao ver o que lhe apontava. Depois se voltou para o mar. Atireime pela borda e. Levantou os olhos e. De repente desapareceu. —Meu Deus —foi tudo o que disse estreitando-me com força. O barco era azul. Quando acabei de frear a minha. pude ouvir o apito junto a minha cabeça. Ainda que o ruído não tenha sido muito potente. Ao que parece os do barco ficaram satisfeitos pelo efeito deste último disparo. Pelo modo com que bamboleavam a cabeça e os braços. era evidente que o garoto estava morto ou inconsciente. Não tinha possibilidade de descer pela chaminé e nadar até a ilha antes que escapassem. depois de escorregar um par de metros entre uma chuva de cascalho.Jamie tinha descrito. Jamie tinha desmontado e descia para a água. —Meu Deus. Apressei-me a montar para seguir a Jamie. não tão abrupto quanto o alcantilado da enseada mas demasiado escarpado para as cavalgaduras. Ao girar a cabeça o vi montar a cavalo. É o bote de um barco.

—Tens alguma idéia de quem são? —Tive que elevar um pouco a voz para fazer-me ouvir acima do ruído do mar agitado. Respirava com dificuldade. Divisei os cavalos de longe. Tinhame habituado com um Jamie que sempre soube o que fazer ainda nas piores circunstâncias. Parecia impossível que. Vou fazer um curativo. tinha cortado a mão ao descer por entre as rochas. —Não. —Não —confirmou ele. Jamie tinha a cara rígida e profundas rugas entre o nariz e a boca. — Num barco? . —Voltei a apoiar-lhe uma mão no braço. —Os cavalos escaparam — observou baixinho. Não viste o nome? —Que nome? —A idéia pareceu surpreender-lhe. estava coberta de suor e me tremiam os joelhos pelo susto.Sentia-me aturdida.— Se não o mataram então. —Perfeitamente. —Um dos marinheiros gritou algo em francês aos homens do bote. o mais provável é que não o façam. esse barco não tinha aspecto de navio mercante. Quando tratei de pegar-lhe a mão se afastou com brusquidão —Te disse que não! Deixa! Engoli a saliva com dificuldade.. Sacudiu a cabeça. —Apertou-me a mão e continuamos a andar. Talvez pela disposição das velas. —Viu quando o colocaram no barco? — insisti. Ainda assim. Pareceu-me que lhe faria bem falar. uma tripulação se forma com marinheiros de todas partes. Minha mente fazia questão de repassar as imagens: o nevoeiro que se levantava nos contornos da ilha. —Não sei — disse — Maldita seja. —Deixa-me ver. mas queria fazê-lo falar para distraí-lo. —Era azul. subiram-no a bordo. Ian tivesse desaparecido como se varrido da face da terra. não sei o que fazer! Apertou os punhos e fechou os olhos. —Vamos procurá-los. carrancudo. Essa confissão me assustou ainda mais. —Estás bem. apertando os braços sob a capa. Mas isso não prova nada. Suponho que é uma esperança —murmurou quase para si mesmo. Ele assentiu com a cabeça. —Ainda bem. —Não creio que esteja morto —comentei por fim de um momento que pareceu um ano. —Não estava morto. Então vi um fio de sangue no punho de sua camisa. e também não parecia inglês —adicionou — ainda que não saberia dizer-te por que. —Afastou o rosto tenso. —Como se recordasse de repente que eu estava ali. Caso contrário não o teriam levado. em torno do companheiro atado. mas basicamente me encontrava bem. Agradeci em ter algo o que fazer. a súbita aparição do bote. deu-se uma volta para olhar-me. Sassenach? Eu tinha vários machucados.. com uma linha negra pintada ao redor — observei — Só tive tempo de ver isso antes que começassem os tiros de canhão. tratando desesperadamente de atravessar o nevoeiro com os olhos. —Você se feriu —disse tocando-lhe a mão. vi com clareza. Desta vez não se resistiu. Cruzamos o trecho coberto de pedras e mato em silêncio. —Sim. ainda que fosse uma nimiedade. os homens caminhando pelas rochas e o corpo desengonçado do adolescente bamboleando-se como um boneco desarticulado. em menos de uma hora.

desapareceu pela abertura sem mais comentário. Ele conhece muitíssimos barcos e muitos capitães. antecipando-se a minha pergunta. Jared estará nos esperando em Lhe Havre. Entregou-me um extremo com a ordem de sustentá-lo e a deixou cair pela chaminé. rotas habituais e registros que se guardam no porto. olhando-os com reprovação. suando profusamente. Talvez algum deles possa identificar um barco azul. os sapatos e as meias. de três paus. —Para que os demais possam identificá-lo. —Isso significa que os barcos são tão poucos e tão diferentes que é possível reconhecê-los a uma simples vista? —Eu só reconheço alguns —esclareceu. onde consta para onde se dirigem. —Eu poderia te distinguir de qualquer outra mulher —assinalou. —E não tens o nome pintado no peito. a não ser que pertençam à Marinha. Talvez ele possa ajudarnos a averiguar como se chama o barco e para onde se dirige. Mas os marinheiros sabem bem mais. com um vulto pequeno sob o braço: a camisa de Ian. sua jaqueta. —Bem. —E como fazem os barcos honrados para identificar-se mutuamente se não têm o nome pintado? Ergueu uma sobrancelha. olhando-me com curiosidade. O melhor que podemos fazer é continuar viagem.—Não é habitual que os barcos tenham o nome pintado no flanco? —Não. não? Assentiu. com doze canhões e uma estátua de proa carrancuda. bem largo.— os barcos têm portos de origem e. oras! —exclamei exasperada. —aqueles com os que tive trato. Depois de tirar o casaco e os sapatos. Meu coração deu um pulo. —E desde que não sejam forasteiros e nem piratas — disse. Já temos reservadas as passagens desde Inverness. Eu não. Para que? —perguntou desconcertado. Sim —disse com secura. Tenho tentado me lembrar de todos os detalhes que vi para descrevê-lo a Jared. . —Cha! —exclamou. Não disse uma palavra mais até que chegássemos aos cavalos. Começava a sentir-me melhor. —Creio que sim. —E se forem? —Então Deus saberá. sua navalha e o pequeno saco de couro onde o garoto guardava seus poucos pertences. Em pouco tempo voltou a sair. —Então já que tens um plano! —Eu não diria um plano. mas sim que me ocorre outra coisa. —Estúpidos! Pegou a corda e lhe deu duas voltas ao redor de um saliente. suponho que eles não têm muito interesse em deixar-se identificar. —Então seria possível averiguar como se chama o barco que levou Ian. Meu tom lhe fez sorrir.

O tremor cedeu pouco a pouco. Era muito tarde para empreender a viagem para Inverness. —Deverias deitar e dormir. tratando de abraçá-lo. Cochilei com a mente atribulada. — Quer que eu volte a casa para informar a minha irmã de que perdi seu filho caçula? Ela não queria que me acompanhasse e eu insisti. Meus passos tiniam sobre os fragmentos de granito. —Assim espero. sentou-me em seus joelhos para abraçar-me com força. —Estou bem. —Não devia interromper-te. Nos alforjes tínhamos comida fria. Com um profundo suspiro. Só estava de casaco. —Preferiria me matar. Ou pelo menos tentava. de costas para mim. mas aqui estão suas roupas como recordação —apertou os dentes. mas também não deu sinais de surpresa quando me sentei a seu lado. guardou a trouxa no alforje. mais do que insuficiente. talvez morto. —Suponho que Ian precisará tudo isso quando o encontrarmos —disse tratando de soar convicta. fique. —Rezo. Jamie? . sim —respondeu sem convicção.—Quer levar tudo isso a Jenny? —perguntei. —Faz um frio tremendo. —Oh. ruído que se perdia no rumor do mar. Agora está ferido. Não estava ali. dizer ou fazer ao receber a notícia. —Que fazes aqui? —perguntei ao fim. pobre substituto de seu calor humano. envolvendo-me no cobertor para proteger-me do frio. Quando me incorporei descobri que me tinha coberto com seu cobertor. —Fico contigo. tateei uma mão a procura de Jamie. Ainda assim deve ter me ouvido. Preferimos enrolar-nos em cobertores e capotes e jogar-nos a dormir. Tinha o queixo apoiado nas mãos e os cotovelos nos joelhos. tremendo de frio. Jamie demorou um momento em assentir. minhas palavras lhe fizeram empalidecer. sim —disse com amargura. o vento tinha virado para o mar levando-se parte do nevoeiro. Ainda que Jamie estivesse enrijecido pelo esforço da escalada. —Fiz menção de retirar-me mas ele me segurou. Sem dizer nada. —Estás bem? —perguntei baixinho. começamos a montar o acampamento. —Não foi culpa tua —disse. Prometi cuidar dele. Depois se ajoelhou no solo para dobrar cuidadosamente as roupas. —Que passa. À luz que brilhava à meia lua pude ver com clareza sua silhueta encurvada. Sassenach. seus olhos olhavam sem ver a água escura da enseada. tratando de imaginar o que minha cunhada poderia pensar. mas não tivemos vontade de comer. —Sua voz soava serena mas com verdadeira desesperança que me instou a aproximar-me mais. não se voltou. Ao pôr-se o sol. —Não. Depois de envolvê-las na jaqueta. Levantei-me para aproximar-me. Ao acordar. Estava sentado a certa distância.

. voltarei a conhecê-lo. —Não posso deixar de perguntar-me se é culpa minha. a vibração de seu peito não era de frio. precisar de voce mais do que a minha vida? —É verdade isso? —Tomei-lhe o rosto entre as mãos. —lhe sussurrei ao ouvido. e não é pecado que me desejes nem que me tenhas. — Por amar-te conheci o inferno mais de uma vez. sem preocupar-me por Laoghaire. —Idiota. —Deus nos criou e nós nos juntamos. Tu não me obrigaste a vir. porque te queria tanto como tu a mim. —Engoliu a saliva. — Quando te vi. Ficamos em silêncio durante um longo tempo. Faria bem utilizá-lo quando tinha necessidade. O que você pode fazer. —Cala-te. ante os homens. e amo a Ian como se fosse meu. és um perfeito estúpido. esperando que amanhecesse. Creio que fui mau... Tão grave pecado é desejar-te tanto. Estamos casados. outro homem.. —Netuno? —repetiu desconcertado. —Além do mais. como poderia não te amar? No entanto. senão de riso. Que me dizes de Brianna? Isso não foi mal. Abaixo se ouviu o gemido de uma foca. nem me afastou de Brianna. —Não. Pare já com isso! Por fim me afastei para olhá-lo. Te amo. —E se é verdade. para alimentar aos famintos ou resgatar a alguém da prisão.. Quando te tomei por esposa sem perguntar-me se me querias ou não.. E o fato de que eu esteja aqui não tem nada haver com Ian. —disse — não penso voltar por nada deste mundo. mas quer insistir? —Pode ser. — És um idiota. —És uma mulher muito teimosa. seus olhos pareciam fossas escuras sob a escassa luz. se tinhas outro lar. ou foi? —Não. O tesouro... que pode ter de mau? Sou tua esposa. Alguma vez fizeste algo por ti. digo. ante Netuno ou ante quem te ocorra.. Jamie Fraser. penso. Estamos casados. Estava muito pálido. Jamie. diga-me? Desta vez. Deus te enviou a mim.—É pecado ter-te? —sussurrou. Vim porque quis. maldito sejas: ante Deus. E estou pensando que talvez não posso ter a ambos. muitas vezes —sussurrou. —Isso é o que me digo. Mas para livrar-me da culpa. —Bah! Crês que amá-lo é um leito de rosas? Desta vez soltou uma gargalhada... usá-lo só para poder viver livremente em Lallybroch contigo. —Mas agora te separei dela também. sem pensar nos demais? —Oh. —Jamie Fraser —repeti com tanta convicção como pude—. E nenhum Deus que mereça esse nome seria capaz de tirar teu sobrinho só porque quer ser feliz. —Ficar contigo e ao diabo com tudo —disse me beijando a testa. —Quieto —disse — Não digas isso. —Em sua voz se percebia o sorriso. se é necessário. A simples palavra «esposa» me aliviou o coração. penso e não posso parar. Sassenach.

seu corpo enxuto e sua incansável capacidade de trabalho seguiam sendo os mesmos. mas precisava de uns reparos. OITAVA PARTE NA ÁGUA CAPÍTULO 40 INDO ATÉ O MAR —Terá que ser o Artemis.. ficava verde e prostrado. . concentrando-se.. Doía-me todo o corpo pelo cansaço e estava morta de fome. acentuando as olheiras. —É só uma caravela de tamanho médio. Todos os barcos que vão para as Antilhas partiram faz mais de um mês. Posso perguntar-te como passou por sua cabeça cruzar o Canal num barco. suponho que não há remédio —suspirou o primo. —Sim —lhe assegurei— Quanto tempo resta para que o barco esteja pronto? Me agradaria procurar uma boa farmácia para abastecer-me de medicamentos antes de partir. —Sem esperar a luz do dia? Uma vez que deixemos para trás o alcantilado. mas me levantei de imediato. as caravelas são sacudidas como se fossem cortinas. —Prefiro que seja um de teus barcos. a cara de Jamie se tornou ainda mais lúgubre. Jared franziu os lábios. primo? Ante esta pergunta. Isto é. os cavalos podem arrumar-se na escuridão. sabia muito bem o que lhe sucedia em qualquer tipo de embarcação: mal pisava na embarcação. retirando o cabelo do rosto. —Bem. —Eu me arranjarei —disse arisco. querida. —Ah. o primo de Jamie esfregou o cenho. agora Jared tinha bem mais de setenta anos mas sua cara afiada. com um de teus capitães —lhe assegurou Jamie—O tamanho não importa. com uma tripulação de quarenta pessoas mais ou menos —comentou— Mas a temporada já passou e não creio que consigamos nada melhor. Tinha-o conhecido cinqüentão... Jared o olhou com ar duvidoso. suponho que pensas acompanhá-lo.—Sente-se capaz de iniciar a viagem? —perguntou Jamie de súbito. —Vamos —disse. o trajeto não será tão difícil. O Artemis devia ter saído com o comboio da Jamaica. Depois de fechar sua escrivaninha portátil. Jared ergueu uma sobrancelha com ceticismo. Isso me tinha preocupado. Só o cabelo denunciava sua idade: tinha passado do negro ao branco puro. ainda que estivesse ancorado. —Ao menos terás um médico a mão. A esta altura do ano o vento sopra com força. não? Em alto mar poderia descobrir o tanto que importa.

serão quatro dias de viagem. na ilha de Barbados . e sim que partia. Ou não chegar nunca. —Durante a temporada demora dois meses —respondeu Jared. Depois disse: —Poderia jurar que ia muito carregado.Como navegava? Alto na água ou bastante afundado. Agora vamos a casa. estou procurando o adequado. essa excitante imaginação só me desvelava a mim: Jamie. uma soma muito respeitável nessa época. Uma forte rajada de vento e várias gotas geladas sufocaram um pouco meu otimismo recordando-me que. Também não mencionaria a outra questão que me ocupava a mente: não tínhamos provas de que o barco azul se dirigisse às Antilhas. Amanhã te ensinarei a lista de mercadorias enquanto tua esposa sai a procurar suas ervas. onde o “Bruxa” (nome muito adequado) figurava como originário de Bridgetown. mas Jared tinha uma escolta de dois homens equipados com porretes e tochas para que nos acompanhassem até em casa. Seu primo assentiu. se Deus assim quiser. e muito menos se um era um rico mercador de vinhos. era muito supersticioso e tinha muito tato para expressar essa possibilidade. como todo ex marinheiro. Ainda não contratei um capitão para a viagem. sentia-me reanimada. —Isso significa que não acabava de chegar. Eram quase cinco e já tinha escurecido por completo. minha mente evocava imagens de lonas empapadas e mares agitados. Pelo menos. —Descreva-me outra vez esse barco que levou o jovem Ian —pediu Jared—. ao amanhecer. como se levasse uma carga pesada? Jamie fechou os olhos para concentrar-se. Lhe Havre era uma próspera cidade portuária e não convinha caminhar pelas docas depois do escurecer. Com um pouco de sorte. eles averiguarão de onde partiu e daí que destino leva. podia-se vender nas Antilhas como escravo ou criado por uma quantidade de duzentas libras. por mais fácil que fosse localizar a Ian ao chegar às Antilhas. Graças a Jared existia uma possibilidade de achar ao jovem Ian. Pode estar pronto para partir dentro de uma semana. O primo de Jamie também acreditava que. aquela noite não pude dormir. —Quanto tempo demora para chegar às Antilhas? —perguntou Jamie. satisfeito. Claro que Jared. com as tormentas de inverno. o penetrante cheiro de peixe e a fome que me corroia. poderiam ser três ou inclusive mais. Adicionemos um dia para completar o abastecimento. E já estavam começando as tormentas de inverno. a opressiva umidade. ida e volta. em . encher os tonéis de água e outros detalhes. Isso é tudo o que se pode fazer pelo momento. As frestas dos canhões estavam menos um par de metros da água. qualquer que fosse sua raça. talvez deva ir até Paris para contratá-lo. chegará depois de amanhã com uma carga de couros curtidos da Espanha. Portugal e Espanha. antes era preciso que tanto o Bruxa como o Artemis aportassem a elas. claro. se os piratas do Bruxa não tinham matado o garoto de imediato. Mesmo diante do substancioso jantar de Jared e os excelentes vinhos que o acompanharam. Um rapaz jovem e saudável.—Uma semana.—A não ser que se tenha feito pirata e navegue com papéis falsos. —Mas a esta altura. o mais provável era que o mantivessem com vida. Só contávamos com os registros que Jared tinha conseguido no porto de Lhe Havre. Enviei mensageiros aos principais portos de França. Neste momento o Artemis está em Bilbao. que Mathilde nos espera com o jantar. —Os lábios finos se contraíram. Apesar do esgotamento da viagem. com bom vento.

a venda e a disposição da mercadoria —me explicou Jared com paciência. —Caramba. Como não conseguia conciliar o sonho. muito obrigada pelo tão elegante elogio. O que escreveste? Seu sorriso desapareceu. não lhe tinha dito a verdade com respeito a mim. Tomara que seja o suficiente. a descarga. Jared estava disposto a arriscar um barco e um capitão para colaborar na busca. O vento parecia amainar. Tirou o casaco e começou a afrouxar a gravata.—Sabe Deus como reagirá quando a receber. . —Tens o nariz como um porco trufeiro. mas como sabe? —Cheiras a tinta. Enquanto tirava os sapatos e as meias. Comecei a dar-lhe uma massagem nos ombros. A redação não teria sido nada fácil. onde as tocaríamos por rum para a viagem de volta. Em troca. —Fui abraçá-lo. Jamie embarcaria como comissário. quando chegasse o bom tempo. —Alegro-me de tê-lo feito —comentou. —Uma carta para Jenny — disse.vez de subir comigo. O chinês tinha nos acompanhado. —O comissário é o homem que se ocupa de supervisionar a carga. —Tens estado escrevendo? —perguntei. ao escutar a proposta. que teria turno ao final de abril ou princípios de maio. Se chegássemos à Jamaica em fevereiro. —Sim. Levaríamos mercadorias até a Jamaica. Afastou-se um pouco para pentear-se com os dedos. Esse foi o trato. —Que aconteceu com o senhor Willoughby?—perguntei. apoiando a bochecha em meu cabelo. mas supus que se sentiria mais calmo depois de tê-lo feito. Jamie poderia dispor durante três meses do Artemis e sua tripulação para viajar até Barbados (ou onde fosse necessário) a procura do jovem Ian. Ele me estreitou contra si. aproximei-me por detrás para desatar-lhe o cabelo. No entanto. —Ainda estás acordada? —perguntou. —Como sempre. — Não quis escrever-lhe antes de ter falado com Jared. Olhou-me com assombro. —Fez uma careta. —Atormentava-me ter que lhe dizer o que se passou. —Como o que? —tinha exclamado eu. Então estarei em alto mar. —Escreveu a verdade? Encolheu-se de ombros. Três meses. Ainda estava ali quando Jamie abriu a porta. abandonei a cama com um cobertor sobre os ombros e me aproximei da janela. —A chuva não me deixa dormir. Sassenach. tinha ficado discutindo com seu primo os detalhes da viagem. colando-se a Jamie como uma sombra. para poder contar-lhe quais eram nossos planos e as possibilidades que tínhamos de recuperar a Ian são e salvo.

escrevendo trabalhosamente com sua maltratada mão direita. porque não teve tempo de procurar a um nome de confiança. Jared te alojaria de bom grado. O álcool destilado era o mais importante e o mais fácil de conseguir. Jared tinha prometido trazer-me um barril de Paris. Isso me despertou a curiosidade e me aventurei até a janela. O vento assobiava na chaminé e a chuva corria pelo vidro como uma torrente de lágrimas. vinham-me à memória seu cheiro e seu aspecto. —Está esperando na porta. De vez em quando se detinha para esfregar a ferida do braço cicatrizando. —Que tipo de homem é? Josephine apertou os lábios sem atrever-se a dizê-lo. O trabalho era lento. Já tinham passado os tempos em que conhecia os usos medicinais de todas as ervas comuns e outras bastante esquisitas. Jamie lutava com suas próprias listas. —Bem. Continuamos rabiscando em amistosa companhia até que nos interrompeu a entrada de Josephine. Agora poderia dormir. Aproximando os pés do fogo. Monsieur James. Jamie ergueu as sobrancelhas. antes de Culloden. —Tens suco de lima em tua lista. É costume que o cirurgião de bordo leve suco de lima. —disse—Poderias ficar. aqui ou em Paris. Sabes muito bem qual é minha resposta. Quando ia escrevendo os nomes das ervas. O mordomo tentou impedir-lhe. mas nos barcos pequenos. afundei a pena no tinteiro. como o Artemis. todos os alimentos correm por conta do tesoureiro. Deixei-a aspergindo água benta na cozinha onde tinha jantado. Ou talvez preferisse regressar a Lallybroch. Estava fazendo uma lista de todos os elementos medicinais que podia precisar nos dois meses de viagem. Pela manhã o céu estava descoberto. De repente me pegou a mão para acariciar-me a pequena cicatriz do polegar: o J que ele tinha traçado com a ponta de sua faca quando nos separamos. não contava com muita coisa. No escritório de Jared. —Não. . suponho que eu serei o mais parecido a um cirurgião —disse sorrindo—Já me encarrego do suco de lima. —Não te perguntei se queres me acompanhar. Olhamo-nos com um sorriso. mas o homem faz questão de ter uma palavrinha com o senhor. uma brisa fria sacudia a janela sem poder penetrar no abrigo interior. Vinha anunciar-nos uma visita. também é missão minha. amaldiçoando baixo. De sua cara tinham desaparecido as rugas do cansaço e o pesar. Sassenach? —perguntou. —Está bem. se vais atuar como tesoureiro e comissário. —Jamie bocejou— Mathilde disse que não estava habituada a ter pagões na casa e que não tinha intenção de começar agora. Era preciso recordá-los. —Depende. Do outro lado da mesa. —Não. Como também não levaremos tesoureiro. Devo anotá-lo? Retirou uma mecha da testa. não me perguntou.—Creio que esteja dormindo no estábulo. não costuma ter cirurgião. mas já não me importava. a criada.

—Falava um francês estranho. sua timidez desapareceu ao abrir a mochila. —Mas vem de Frankfurt. . perguntaria se sabes de alguém de sua família (já que és muito jovem) ou de outra pessoa que possa ter comprado essas moedas há vinte anos. sorriu. —Temo que não haja tempo. —O que desejo —explicou Jamie com lentidão. pronunciando os nomes das moedas com ar reverente. foi abrindo saquinhos e depositando seu conteúdo sobre o veludo azul. logo após voltou junto a um jovem alto e desalinhado. Como o jovem judeu parecia estupefato. —Perdão.—Faça-o entrar. —O agradecido sou eu —disse Jamie— Não esperava que viesses tão cedo. são muito bondosos em me receber. ainda que com um leve tensão na voz.—Parece um vendedor de rua. inclinando-se para observar as moedas— é comparar vossas moedas com minhas recordações de várias moedas antigas. —Só Mayer. —Ah.. lutando com as alças da mochila. — E empoeirada. Como em Lhe Havre só usavam barba uns poucos marinheiros. poderei mandar trazer as outras de Frankfurt. com um tímido sorriso entre as mechas de barba juvenil. Não foi nenhum incomodo. No entanto. por suposto. traz uma espécie de mochila às costas —informei esticando o pescoço. O traficante assentiu com a cabeça. contentou-se com um calado gesto de aceitação. descobrindo um rosto magro de expressão inteligente e enfeitado por uma barba escassa.. sim. Se assim o senhor desejar. O jovem elevou as sobrancelhas com ar inquisitivo. O moço me fez uma torpe reverência e outra a Jamie. Monsieur. vestia um casaco fora de moda e calças muito grandes. Seus olhos refletiam o brilho do metal precioso. Temos que. suponho. —Madame. senhor Mayer. Monsieur Fraser —interrompeu o jovem com cortesia. —Mayer. não fazia falta o gorro negro para revelar sua origem judia. Jamie me pegou pela cintura para afastar-me e se assomou em meu lugar. Depois de abrir e fechar a boca várias vezes. Se visse alguma similar. Tirou o sujo chapéu negro. verdade? Uma longa viagem —comentou meu esposo. Jamie sacudiu a cabeça com um sorriso. Olhou a vestimenta do visitante. —Aceita um pouco de vinho? Mayer pareceu confuso ante o oferecimento. que parecia ter saído de um latão de lixo. —Monsieur Fraser diz que desejas vistoriar tantas moedas raras de Grécia e Roma como seja possível. Estava na cidade. Terei muito gosto em pagar o custo da viagem e adicionar algo mais pelo tempo que te faço perder mas não desejo comprar nenhuma de suas moedas. mas posso mostrar algumas. Não trouxe todas as que tenho. é o traficante de moedas que mencionou Jared —exclamou. cortês. —Jamie lhe dedicou uma leve inclinação de cabeça— Espero que meu primo não vos tenha induzido a confusão. se. Josephine se retirou com uma expressão muito eloqüente em sua estreita face.. Disse-me meu primo que voce se chama Mayer. Depois de despregar um pano.. de uns vinte anos. Mayer.

—Dez! —Os olhos de Mayer se dilataram de estupefação. Jamie escutava com atenção. sei que o primeiro comprador destas moedas faleceu já há vários anos. Tive-as na mão. —Meu pai ou meu tio poderiam ter feito uma venda assim. Ainda que a numismática não lhe interessasse muito. —Sandringham! —exclamei assombrada. Eu estava inteirada da morte do duque por experiência mais direta. mas aqui tenho o catálogo e o registro de todas as moedas que passaram por nossas mãos nos últimos trinta anos. .. com uma expressão de intensa surpresa nos olhos azuis. —Esta —disse—Tinha várias assim. Monsieur. pois possuía uma extensa coleção de moedas antigas que meu tio comprou de seus herdeiros em 1746. Mayer adicionou. Mayer o observou e inclinou a cabeça. Informarei o que poder. depois de sua morte. Depois se voltou para Jamie. não tinha nela nenhuma tetradracma. Sei que o duque morreu. —Nunca teria imaginado que tivesse tantas na Europa. Além disso estaria profundamente agradecido se pudésses informar-me de quem se dedica a este negócio nas Antilhas. Obrigado. vacilante. catorze de ouro e dez das outras. cinqüenta mil libras para que levantasse um exército. É um tetradracma. Mas meu primo me disse que vossa família é uma das mais entendidas e uma das poucas casas que se ocupa destes assuntos. —Estas são as caras gêmeas de Alexandre —explicou Mayer tocando o ouro com reverência—Moeda realmente muito rara. o assunto estava concluído. pensativo. Madame. sabia apreciar a paixão de um homem por seu trabalho. —Posso dizer algo mais: quando meu tio adquiriu a coleção do duque. pouco antes que a batalha de Culloden pusesse fim à rebelião jacobita. tinha-o matado numa escura noite de março. mas sem revelar o nome do comprador. Murtagh. E agora bebamos à vossa saúde e por vosso livro. —Sim. as de duas cabeças. estampada para comemorar a batalha de Anfípolis e a fundação de uma cidade no mesmo lugar. Por fim afastou suavemente uma peça de prata. O duque de Sandringham tinha prometido a Carlos Stuart. Engoli saliva ao recordar a última vez que vi ao duque.. Aqui figura a transação. Meia hora depois. com estes golfinhos. com a condição de que recuperasse o trono de Inglaterra. O senhor vê aqui alguma peça como as que recorda? Jamie estudou as moedas com muita atenção. nossas transações são confidenciais —disse Mayer— Por isso só posso dizer quais moedas vendemos e em que data. Chamava-se Clarence Mary-lebone. Monsieur. Jamie assentiu. —Não —murmurou Jamie—. não podia tê-los. o padrinho de Jamie. Mayer me olhou com curiosidade. Mayer. e nessas circunstâncias. —Depois separou um gastado disco de ouro com um perfil impreciso e outra de prata— Estas. depois de novas consultas no catálogo. —Naturalmente. —Fez uma pausa. que demonstrava um amável interesse. —Estou certo. —No entanto. Eu não. o Bonnie Prince. duque de Sandringham. — Encolheu-se de ombros.—Compreendo que é muito para se pedir. —Esse comprador foi um cavaleiro inglês.

. —Que? Oh. quem enviou o “Bruxa” agora? —perguntei. mas creio que não. Dunkan Kerr era jacobita? Jamie assentiu..Mayer guardou no bolso as libras de prata que Jamie acabava de dar-lhe como pagamento. Por que perguntas? —Era só uma idéia —disse. — Bom. —Por que apareceu na ilha das focas dez anos depois de Culloden? Foi recolher o tesouro ou deixá-lo lá? E. poderá ir a Krasner. —Falas alemão. A farmácia da Rua de Varennes tinha desaparecido. Procurarei Krasner. Se precisa de um bom boticário. —Mas faz já vários anos que se foi. Madame? Tenho um cliente com marcadas preferências por tudo que é oriental. como sugerindo que não lhe tinham dito nada positivo. Poderia te conseguir um bom preço.— Os vizinhos nos designam fazendo referência a um velho escudo vermelho que estava pintado na fachada de nossa casa. pôs-se seu deplorável chapéu. eu asseguro. faz muitos anos. —Obrigado —contestei—. Sassenach. ou talvez a Madame Verrue. Mayer Escudo-Vermelho —disse sorrindo. —Ouvi falar dele. uma casa de penhores e uma pequena joialheria. Josephine se apresentou para acompanhar a nosso visitante. disse em tom confidencial: —Vos interessaria vender o chinês. Madame.. próximo das Tullerías. ao percebê-lo. —Mestre Raymond? —O dono da casa de empenhos ergueu as sobrancelhas grisalhas. De repente me ocorreu algo.. da Place d'Aloes. teremos tempo de especular quando estivermos em alto mar. O repique dos socos de madeira já se tinham perdido entre os ruídos da rua. substituída por uma próspera taberna. Não temos sobrenome. sem cobrar mais do que a comissão habitual. —Jamie levantou e se assomou à janela. Jamie? —disse. vacilando —: Mayer é vosso único nome? Algo brilhou em seus grandes olhos azuis. Depois de despedir-se com profundas reverencias. não. Aos judeus de Frankfurt não se permite usar sobrenomes. Madame. —Depois perguntei. que me acompanhava. —Adeus. Madame. Jamie. —Jamie. — Suponho que todo mundo deve começar de algum modo. sim —respondeu olhando pela janela. Algo disso. girou para a janela. —Sim. —Me deu uma olhada cautelosa. mudando de assunto. Minutos depois ouvi o ruído da porta ao fechar-se. mas respondeu com amabilidade. . quase violentamente. —Algum maldito isso eu sei. Observando com interesse ao senhor Willoughby. —Adeus. Mayer. —Que Deus te acompanhe.. —Sorriu.. Talvez o duque tinha algum cúmplice. —Como se diz «escudo vermelho» em alemão? —Rothschild. Madame.

Não obstante. rins. ajuda ver. de casaco negro e chapéu redondo. Pode comprar. tirou-se o chapéu com uma reverência. . Girou ao redor e. Deu resultado: seus olhos se voltaram para mim. As bolas em questão resultaram ser uma espécie de enguia seca e enrolada. sim? Tinha a dificuldade comum entre os orientais de pronunciar o erre. voltamos caminhando a casa de Jared. —É verdade —confirmei surpresa— Como o sabes? —Conheci curadores de outro tempo —foi quando respondeu. —Melhorou um pouco. As poções que prescrevestes foram muito úteis. Senhor Willoughby. o reverendo Archibald Campbell. —Agradeço o interesse. exceto em estarmos próximo do inverno. ao reconhecer-me. Espero que a viagem lhe caia bem.. graças a senhora.. Está bem mais serena e dorme com mais regularidade. com uma jaqueta sobre o pijama de seda azul e o rabicho enroscado à cabeça.. demonstrou ser muito entendido em ervas e substâncias medicinais.. um pouco mais doce. um. fígado trabalha bem. Depois de um breve silêncio. sócio de meu esposo. Separamo-nos com as habituais expressões de boa vontade. —Sim —confirmei olhando-o com curiosidade. —Reverendo Campbell! —exclamei. Madame —disse— Ainda acalento essas intenções. quinta-feira. —Alegro-me de saber. sim.O senhor Willoughby tinha chamado muito pouca atenção em Le Havre. Na esquina da Rue du Nord e a Allée dês Canards vi algo fora do comum: uma silhueta alta e encurvada. o cavaleiro é o senhor Willoughby —o apresentei—. Como o tempo era bom. —Bai jei ai —me disse na botica de Krasner pegando umas sementes de mostarda de uma caixa aberta — Bom para shen-iene. —Imaginava o senhor já navegando para as Antilhas —comentei. muito bom. provocava consideráveis comentários. em troca. este reverendo. —Senhora Malcolm! É um grandíssimo prazer voltar a vê-la! —Ao cair seus olhos sobre o senhor Willoughby endureceu as feições num gesto de censura.. limpa sangue. na Rue Tremoulins. não pele seca. —E como está vossa irmã? Lançou uma olhada de desgosto ao senhor Willoughby. o senhor Willoughby comentou: —Reverendo quer dizer homem muito santo.. Depois apontou uma cesta que continha umas bolas com aparência de barro seco — Shan-eü. Nas ruas de Paris. Devo agradecer novamente vosso amável atendimento. com o qual a palavra «reverendo» resultava muito pitoresca. Partirei de Edimburgo na semana que vem. —Eh. —Ah. com a esperança de afastar seus gélidos olhos do chinês. Bom. Mas tinha que liquidar na França certos negócios urgentes. —Não muito santo. Depois baixou a voz.

e a promessa de sermos francos. Nessa loja chegam. —É mesmo? —Putas baratas —ampliou o chinês. —És maçom? —balbuciei—Não me tinhas dito! —Não pode fazê-lo —apontou Jared com certa aspereza. Aquela noite. fazendo um gesto muito grosseiro nas proximidades entre suas pernas a modo de ilustração. Onde te iniciaram? —No cárcere —respondeu Jamie. éramos dois estranhos que se temiam mutuamente. suponho que a carne é débil inclusive entre os ministros da Igreja Livre escocesa. seguro. em Madame Jeanne. A cara estreita de Jared se partiu num amplo sorriso. conhecidos só por seus membros. isso ajuda! Não estava seguro. O gesto me recordou nossa noite de casamento. Isso me desconcertou. —Não se incomodariam em explicar-me do que estão falando? —interrompi.. já entendi. durante o jantar. Mas a loja maior é a de Trinidad. eu não poderia dar-lhe uma carta de apresentação para a loja de Trinidad. primo. engoliu e disse: —Não se preocupes por isso. tarde ou cedo. Preparei uma lista de conhecidos e várias cartas para certos amigos meus que poderão ajudar-los. ainda que me reservei dos comentários do senhor Willoughby sobre suas outras atividades. mas me parece que vale a pena tentar. deve pedir a eles. — Ah.. —Eu ver uma vez. sem nada que nos unisse além do contrato matrimonial. —Sim. Depois de observar a Jamie com expressão pensativa. Jared assentiu com satisfação. Se Jamie não for que nem um de nós. tem mais de dois mil membros. reverendo. —Sim. quando nos sentamos com grandes taças de vinho. adicionou em tom coloquial: —Nos encontramos no plano. mas Jamie se repôs num instante: —E nos separamos na praça. brevemente. querida. Muito calado então. mencionei que tinha encontrado o reverendo. que estava comendo almôndegas de bezerra com ar muito decidido.—Devia de ser a loja de Inverness. Bem. Jamie sorriu. . te darei cartas para que leves aos Grão-Mestres de lá. —Os ritos da maçonaria são secretos. Há lojas na Jamaica e em Barbados. —Da maçonaria.—Por que o dizes? Me deu uma olhada astuta. Jared. —Deveria ter-lhe perguntado a que ponto das Antilhas se dirigia —me lamentei— Não é uma companhia muito divertida mas talvez nos fosse útil ter ali algum conhecido. Sassenach. Depois elevou um pouco a taça num brinde silencioso e me senti reconfortada. Meu esposo me tocou um pé por embaixo da mesa. todas as notícias do que passa nas ilhas. olhando-me com um sorriso oculto nos olhos. Se precisar de ajuda para procurar ao moço. Não fala forte.

o vinho que circulava por meu sangue me dava calor e me produzia um pouco de tontura. me parece que teves outros filhos. primo. Seu pé procurou o meu. —Ah. ainda que sejam adultos elas podem vê-los sempre como quando nasceram. não era fácil conseguir este tipo de flor mas Jared tinha uma estufa. ignorando o monólogo de seu primo sobre a embarcação e as velas de bordo. Naquele momento. creio. salvo o respeito. Teu aspecto o diz. —Me acompanhas. que seja a verdade.. Respirei fundo e sequei as bochechas com uma ponta do manto. Tinha levado uma tulipa cor de rosa. —Sobretudo quando dormem — comentei—Então sempre é possível ver outra vez o recém nascido. para as mães. o tempo não parece passar no que diz respeito aos filhos. A madre Hildegarde me observava com profunda simpatia e interesse. senti a mão da madre Hildegarde sobre minha cabeça. —Notei que. Algumas noites percorro as salas e falo com os pacientes. Eu também tinha algo que fazer. em pleno mês de dezembro e em Paris. acariciando a pétala com um dedo como se fosse a bochecha de um recém nascido. mas não para as mentiras.. Pela manhã. Por agora não há nada entre nós. —Encarei-a— Como sabes tanto sobre mães e filhos? —Os anciãos dormem muito pouco —disse encolhendo-se de ombros—. Com o coração palpitando. —Não esperava chorar —disse. A tumba estava no pequeno cemitério reservado para o convento.» Bebi longamente de minha própria taça. —Levantei-me com lentidão. Mas quando for me dizer algo. mas rara vez nos diz por que. —Sim. Claire? Pus-me em pé. —Já faz muito tempo.. ofereceu-me o braço. sentindo o calor que me subia às bochechas. tinha dito ele. respondi-lhe de igual modo. —Le Bon Dieu ordena as coisas como melhor acredita —disse suavemente—. Nossos olhares se encontraram. me ocuparei disso pela manhã —respondeu a Jared— Mas agora. em seu devido tempo. O dia foi longo. e preferia fazê-lo só. No respeito há lugar para os segredos.«Talvez tenha coisas que não possas contar-me». Ajoelhei-me para depositá-la sobre a pedra. Agora tinha entre nós bem mais do que respeito. Contemplei-a até que minha vista nublou-se. Depois de levantar-se. —Uma. Era uma lápide pequena de mármore branco. Jamie seguia com os olhos fixos em mim. creio que vou retirar-me. E lugar para conhecer todos nossos segredos. «Não te farei perguntas nem te obrigarei. A madre assentiu satisfeita. subi à carruagem de Jared e pedi ao cocheiro que me levasse ao Hôpital dês Anges. Jamie e o senhor Willoughby saíram com Jared para completar seus recados.. . Um par de asas de querubim protegiam a única palavra: «Faith». sob os pilares da catedral.

Lancei uma olhada ao seu colega atual. Enquanto caminhávamos reparei outras lápides pequenas. Voltei-me para ela boquiaberta. Encolheu-se de ombros. uns poucos benfeitores do Hospital. As irmãs e seus seres amados. via-se uma fileira de pequenas lápides com um só nome cada uma: Bouton. Olhei pela janela da taberna. —Todo mundo quer saber. do I ao XV: os amados cachorros da mãe Hildegarde. Enquanto percorríamos o caminho bordeado de telhas que conduzia à entrada do Hospital levantei os olhos para dizer. segui-a ao longo do caminho até o convento. Ainda assim. ma chère —disse ela—Entre. —Os filhos das freiras —respondeu sem dar-lhe importância. —Assinalou com a bengala os confins do cemitério —Este lugar está reservado para as irmãs. —Oitenta e três —respondeu com um largo sorriso que descobriu seus grandes dentes amarelos. espalhadas entre as demais. o décimo sexto com esse nome. encolhendo-se de ombros num gesto muito francês. —Todas são de meninos? —perguntei surpresa. para o sólido nevoeiro que se atrapava aos alcantilados. CAPÍTULO 41 NOS LEVAMOS AO MAR Era um típico dia escocês.A idade a tinha reduzido: seus largos ombros estavam encurvados e magros como um cabide sob o hábito de sarja negra. A viagem de regresso à Escócia não lhe tinha resultado . —Voltou-se a olhar o pequeno cemitério. Le Bon Dieu sabe quanto trabalho me fica por fazer. —As vezes acontece. madre. bastante nervoso para permanecer junto ao fogo. era negro como carvão e de pelo encaracolado como um cordeiro persa. mas ainda em terra consagrada. elegante e irônica como sempre.. —Das irmãs ou dos benfeitores? —Das irmãs. por suposto. Jamie passeava pelo cais apesar da chuva. vacilante: —Espero não te ofender. te darei algumas coisas que podem ser-te úteis durante a viagem. quando o Artemis tocou em terra no cabo Wrath. mas há uma pergunta que me agradaria fazer. sobre uma cifra romana. cinza e frio.. Contra o muro mais afastado. era mais alta do que a maioria das freiras. —Alegra-me muito que tenhas voltado. —Ainda não. Depois de soar o nariz. —Uns passos além adicionou: —Não com muita freqüência. e seus amados. na costa noroeste.

—Segue-o Kennedy. Depois de receber aos contrabandistas. — Dentro de vinte e quatro horas o tempo será pior: o contragiros está descendo e o sinto no pescoço. Sassenach — tinha explicado Jamie. E para chegar às Antilhas o antes possível. O irônico era que este último atraso tinha sido ocasionado por ele. que passava a maior parte do tempo na cobertura do barco com um olho no céu carregado e o outro em seu barômetro. —Bem.. —Se não partirmos até o meio da tarde perderemos a maré —apontou o capitão Raines com firmeza. sua impaciência por perseguir aos seqüestradores era tão forte que qualquer demora lhe produzia frustração. montados em peludos pôneis. nem brigar junto com homens desconhecidos. —É bastante gordo para ser Fergus. E o último. Seu nome era Raines. provavelmente. iniciaram-se os preparativos para partir. capitão. Innes. Jamie perguntou: —Onde diabos está Fergus? Raeburn inclinou a cabeça. depois. —Sim. No cais de madeira só tinha amarrados. era um homenzinho gorducho. À manhã seguinte. que tinham saído em seu próprio barco e demorariam uns dois dias para voltar. —O que vem adiante é Raeburn —assinalou Jamie entornando os olhos para identificá-los. se posso evitá-lo. Faremos o que for melhor. Ainda assim passava a maior parte do tempo com os olhos fixos no caminho. E não quero levantar âncoras no meio de uma tormenta. A única resposta foi um encolhimento de ombros. com a tripulação já completa (a exceção de Fergus). —Não há maneira de saber com quem nos encontraremos nas Antilhas. compreendo —o interrompeu Jamie— É claro. Todos os contrabandistas eram homens do mar acostumados aos botes e ao oceano e. uns poucos barcos pesqueiros e um barquinho. Meldrum. vês? Mais atrás. a perspectiva de passar dois ou três meses a bordo do Artemis lhe espantava. tinha certo assunto que resolver e me encarregou que alugasse os cavalos e procurasse a Meldrum e a MacLeod. também aos barcos. é Gordon ou Fergus? —Deve de ser Gordon —observei olhando acima de seu ombro. Cabo Wrath era um porto pequeno com pouco tráfico no inverno. a parte da Artemis. Jamie se mantinha próximo do leme. Fergus estava atrasado. Avançada a tarde do segundo dia apareceram seis homens serpenteando ao longo da costa pedregosa.mais grato do que a primeira vez que cruzou o Canal. sem perturbar e dando uma mão onde era mais necessária a força do que a habilidade. Meu esposo murmurou algo em gaélico e se dedicou ao seu jantar sem mais comentários. A ninguém parecia incomodar a espera. apresentá-los a seus novos colegas e tê-los todos sentados ante um jantar quente e uma taça. —Que assunto era esse? —inquiriu Jamie com aspereza. exceto a Jamie e ao capitão. pois sempre cavalgam juntos. o que lhe falta o braço esquerdo. . já entrado nos anos. Ainda mais.. — Não quero enfrentar só um barco cheio de piratas. e o que o acompanha deve de ser MacLeod. Tínhamos feito escala no Cabo Wrath para embarcar Fergus e ao pequeno grupo de contrabandistas que Jamie lhe tinha encarregado contratar antes de nossa partida para Le Havre.

Chegou a hora. com a cabeleira loira agitada pelo vento.Distanciou-se para dar espaço a um apressado marinheiro e o capitão desapareceu.. —Mova-se! —disse. Jamie era o mais parecido a um pai do que o moço tinha tido. E se segurou ao balaústre com os olhos fechados. Vou te preparar um chá de gengibre. de má vontade.... o tonto —disse Jamie com alívio. não. super feliz ao sentir que a cobertura se estremecia sob meus pés. —Será melhor que desça —disse— Tenho um lustre de álcool. —Aí está. — Como que estão casados? Tens deitadose com ela? —Heim?. o cordão se tencionou e as velas flamejaram. aparentemente tão sereno como sempre. Os marinheiros se puseram imediatamente em ação. por isso seus dedos marcavam um ritmo silencioso sobre o balaústre. engolindo saliva. pois vamos. desde o dia em que o retirou de um bordel parisiense para que roubasse as cartas de Carlos Stuart. Com o correr das horas Jamie. milord —disse o francês. —Em nome de Deus. O ruído de um cavalo ao galope levantou ecos ao longo da costa. o capataz corria pela coberta. Não me ocorria que assunto tão urgente podia impedir-lhe reunir-se conosco.. A última das cordas que nos segurava aos pilares foi gentilmente enrolada. —Soltar amarras! —bramou o capitão. Ao nosso arredor. —Ah! Já sei a que se refere. Deus. Antes que pudesse falar. —Casados! —Jamie apertou os punhos e Fergus retrocedeu um passo. pálido sob a mecha de cabelo negro. Fergus tinha estado com ele vinte anos. o barulho do cascalho ressoou muito antes que o cavaleiro aparecesse. Jamie me deixou para trás para aproximar-se dos recém chegados. Ao mesmo tempo Marsali avançou o queixo com os olhos acesos e ar desafiante: — Sim! . que significa isto. Depois se voltou para o capitão Raines com uma sobrancelha em alto. pequenos idiotas? —Estamos casados —anunciou Fergus pondo-se diante de Marsali. —O senhor Willoughby diz conhecer uma cura para a tontura —comentei.. —Oh. Jamie. afastou os olhos da costa deserta. é o melhor de meu herbário para as náuseas e. um pouco assustado e excitado. Se pensa que vou permitir-lhe. não deixava de agitar seus dois dedos rígidos. vários tons mais pálido. —exclamou Jamie ao perceber o mesmo. Apoiei-lhe uma mão no braço como calada mostra de solidariedade. —Ainda temos uma suficiente maré? Bem.. Era a filha de Laoghaire: Marsali MacKimmie. dando ordens a cada passo. Fergus estava na coberta ajudando a uma moça trepada sobre o balaústre. ladrando ordens com uma voz que parecia de metal mufado. era o único sinal exterior de preocupação.. Que demônios se passa aqui! Girei ao redor e vi o que tinha provocado aquele comentário. A Jamie também não.

Estava muito pálido mas seus olhos escuros brilhavam de entusiasmo. — Irei com Fergus! —Oh.. —Senhor Warren! Regresse à costa. —Negou. nada disso. voltou-lhes as costas.. farei que dois marinheiros a levem a casa de sua mãe. —Não pode fazer isso! —exclamou a garota erguendo-se com um olhar fulminante.. —Deus me ampare! Acreditará que eu estava sabendo de tudo! —Jamie parecia horrorizado. Fergus e Marsali se sentaram juntos numa das liteiras.. um criminoso e. dizendo-lhe que tinha me casado com Fergus e que ia embarcar contigo. .. olhou a Jamie e depois dirigiu uma significativa olhada para a costa que se afastava. em Lallybroch. sem dizer nada. não. —Diante de testemunhas —adicionou Marsali. de mãos dadas. —Disse que era um bastardo — estourou Marsali. por favor! O piloto se deteve boquiaberto. —Aqui tenho o contrato assinado. e.Jamie os olhou e. —Enviei-lhe uma carta desde Inverness —aclarou Marsali com o queixo erguido —. Fergus explicou: —Nos. —Bem.. depois de emitir um sonoro resfôlego. Jamie emitiu um rosnado. indignada—. duas pessoas podiam casar-se legalmente dando-se as mãos ante testemunhas e declarando ser marido e mulher. pequena! —alfinetou Jamie — Não pensaste em tua mãe? Fugir assim. Segundo as leis de Escócia. Devemos saltar em Lewes para carregar as últimas provisões. Em contraste com a palidez de Fergus suas bochechas pareciam arder. —Não é necessário que me repitas o que ela te disse —disse Jamie. milord —aclarou Fergus. —Não creio que seja possível —disse—Parece que já estamos no marulho. para baixo.. Nos escassos momentos decorridos desde a aparição dos supostos recém casados. —Sim? E quem vos casou? —inquiriu Jamie com ceticismo. —É que. —Vocês dois. Jamie me indicou a outra e se voltou para o casal com os braços na cintura. —Bem —disse—Que tolice é essa de que estão casados? —É verdade.. demo-nos palavras e as mãos. pedi à senhora Laoghaire que me concedesse a mão de sua filha. o Artemis já tinha se afastado mais de um quilômetro da costa e as rochas dos alcantilados retrocediam a uma velocidade cada vez maior. eu. mas ainda não se deitaram —disse—E aos olhos da Igreja. milord —interveio Fergus —Foi no mês passado.. só o contrato não basta.. Jamie apontou a escada que conduzia aos camarotes. Levou a mão ao peito. Ali desembarcaremos a Marsali. Trocaram olhares...

para tentar acalmá-la. ma petite. é mais do que suficiente. Além disso. a firmeza de seu queixo era a mesma. —Não meta Claire nisto. não deves falar desse modo a milord.. Além do mais esta viagem é muito perigosa. pequena — respondeu resmungão. Milord foi mais do que um pai para mim. —Tenho quinze anos. não podes! Surpreendida pela súbita aspereza de Fergus. —Não irei. —Não. a converte no motivo de riso em todo o país. não? Abandonas a minha mãe por esta rameira inglesa. nós fizemos.. No camarote. é o que eu direi. —Não tem importância. Ao menos. —Ah. ma chére. é teu padrasto. —Ainda que a moça estivesse mais serena.. Salvou-me a vida mil vezes. Senta-te. deveslhe respeito. e dizes que não é assunto meu? —A garota se levantou de um salto. —Meus assuntos privados não te interessam. Ao menos. —De qualquer modo. —Ainda assim. Jamie murmurou entre dentes: . —E também um aleijado sem bens. —E tens o descaro de indicar-me o que devo fazer e o que não? —Assim é —afirmou ele contendo-se. com os olhos brilhantes. Fergus moderou o tom: —Não. —Mas ela sim pode ir! —Marsali me apontou desdenhosamente com o queixo. —Marsali. Depois suspirou. não podes negar que proporcionou às três um bom sustento e proteção. Apesar da opinião que tua mãe possa ter dele. alarmado. —Eu falarei como me dê vontade! —Não. Marsali. Não é assunto teu. Se me obrigar a voltar para casa direi a todo mundo que fui sua. —E ele trinta! —Jamie sacudiu a cabeça. piscou. a tensão baixou um pouco. olhando-o com afeto. filha. —Eu o amo. Já vês: ou casada ou desonrada! Seu tom era decidido. és muito jovem para casar. —Também não a ti os meus! Fergus se levantou. —Não me importa! —A garota agarrou a mão de Fergus. —Ainda que ele diga que não tenhamos deitados juntos. —Perdoe-me —murmurou finalmente a Jamie. coisa que tua mãe não teria deixado de notar. Marsali mordeu os lábios.. Olhou aos dois. Sinto muito mas não posso permitir. deves voltar para casa.—E é —assinalou meu marido.

só tinha visto uma das metades. Era das que denominam «lápide matrimonial»: um quarto de círculo talhado de maneira que se forma com outro um arco completo. E abaixo dizia: «Ao meu amado esposo. Quando chegarmos às Antilhas procuraremos um. negava-se a abandonar a coberta enquanto a costa de Escócia estivesse à vista. —Figuravam todos os teus nomes. não é verdade? Como isso não parecia inquietá-lo. Mas não me contes nada se não se importa. Foi então que surgiram as imprevistas conseqüências de seu ultimato a Fergus. assenti com a cabeça. A viagem parecia condenada a ser difícil em todos os sentidos. que não voltarei a pisar Escócia sem trazê-lo comigo. Entendido? Olhou ferozmente a ambos. —Talvez não volte a vê-la nunca mais —disse com tristeza quando tratei de persuadi-lo de que descesse para deitar-se. —O resgataremos —disse com uma segurança que não sentia. Asseguro-te. as rochas da Escócia tinham desaparecido entre a bruma do mar. Não sei quando. —Não posso dizer.» Moveu afirmativamente a cabeça. Só teu nome. Sassenach. Fergus não te tocará.. Só tinham dois pequenos camarotes privados. e o meu. pai — disse. mas tenho a certeza de que o farás. milord — aceitou Fergus com alegria. —Isso significa que resgataremos ao jovem Ian são e salvo. ante um padre. —Sim. Naturalmente. Jamie. Não tinha datas. Olhou-me com desconcerto. mas seu efeito não durou muito. —Merci beaucoup! Marsali olhou ao seu padrasto com olhos entornados. —Viste minha tumba. . E enquanto não tenhas recebido a bênção. gelado até os ossos e branco como um lençol. a parte do correspondente ao capitão.—Regressarás. assimilando a notícia. O casamento de Fergus tinha conseguido que Jamie esquecesse o movimento do navio.. esboçando um sorriso. —Sim. —O teu? —Abriu subitamente os olhos. deixou-se levar até a cama. Se o jovem casal não podia dormir na mesma cama até que sua união tivesse recebido uma bênção formal. Fechou os olhos. Se me fez um nó na garganta ao recordar a placa de granito.— Senhor me livre das mulheres —disse fincando nela um olhar fulminante: — De acordo! Estão casados. Ainda que ficasse cada vez mais verde. Foi como soube que eras voce. —Está bem. era óbvio que Jamie e Fergus teriam que ocupar um e nós o outro. —Claro que voltarás a vê-la —assegurei. Quando caiu a noite. de Claire. mas acabou inclinando a cabeça e me dando um olhar de soslaio. Mas vão fazer como é devido.

na proa. mas ao ver que se tratava de mim. Ainda assim. das quais só uma se banhava. —Vá. Esperava encontrar o mesmo sebo que no resto do barco mas me deslumbrou o reflexo do sol numa fileira de caçarolas de cobre. Pisquei para adaptar a vista. levei uma grande surpresa quando.Eu confiava que as tonturas de Jamie melhorariam quando ele não mais pudesse ver o bambolear do horizonte. Dadas as circunstâncias. A idéia de deitar era tentadora depois de um dia tão longo. No segundo dia. Melhor assim. duas pequenas galerias a cada lado da embarcação. mas a higiene básica deixa muito a desejar quando se amontoam num espaço de cento setenta metros quadrados trinta e dois homens. informou-me com orgulho que todas as manhãs esfregavam a coberta. ao usá-las se podia receber um inesperado esguicho de água fria no momento mais inoportuno. —Ou que tenha morrido —sugeriu. vi um rato. —Vá dormir. Eu suspeitava que isto. era impossível dissimular o fato de que tinha trinta e quatro pessoas ocupando um espaço limitado. Apesar. quando desci para procurar minha caixa de medicamentos que tinha sido posta no porão por erro. Lançou um rosnado de surpresa. abri a porta da cozinha em procura de água fervendo. incorporando-se em seu beliche a meia-noite. se não comeu nada todo o dia? —Eu disse a ele —respondi enquanto me encaminhava para a porta com a vasilha nas mãos. Jamie abriu um olho e voltou a fechá-lo com um gemido. em meu camarote. —Eu me encarregarei dele. seis toneladas de couros curtidos. consistiam num par de tábuas. percebi um ruído suave. —Logo. engatinhou lentamente para o interior do camarote. mas não tivemos essa sorte. Sem prestar atenção à exclamação desagradada de Fergus. o capataz. encolhido contra a porta do camarote. milady —disse Fergus fazendo-se carregar. se lustravam os bronzes e se efetuava uma limpeza geral. mas me detive a respirar o ar fresco que entrava desde a coberta. Sassenach —interveio Jamie. que senti pena por ela. saí ao corredor escuro onde tropecei com a silhueta prostrada do senhor Willoughby. logo passará. na segunda manhã. O senhor Warren. Marsali dormia profundamente numa das duas liteiras. Pela noite. meteu-se sob a mesa e voltou a dormir de imediato com muita satisfação. As latrinas. duas mulheres. O Artemis estava bastante limpo comparado com outros barcos. provocaria uma epidemia de prisão de ventre entre a tripulação. Estava pálido e molhado de suor. sem dúvida a garota não teria imaginado assim sua noite de núpcias. como de pés arrastando-se. quarenta e dois barris de enxofre e uma grande quantidade de lâminas de cobre e latão. As paredes da cozinha . Meu camarote estava do outro lado do corredor. mais à dieta de porco salgado e bolachas marinhas. —Está bem —cedi— É possível que pela manhã te sintas melhor. —Outra vez? —protestou Fergus. tão esfregadas que refulgiam com um tom rosado. ao acender o lustre descobri que tinham várias dúzias de baratas que fugiam freneticamente para as sombras. —Como é possível. escutando a variada gama de ruídos. Com um sorriso. Ao menos não me veria obrigada a tratar de iniciar uma conversa. separadas por uma estratégica ranhura e suspensas a dois metros e meio das ondas.

secando as mãos no avental. Raiz de gengibre. E no meio daquele imaculado esplendor se erguia o cozinheiro. estudando-me com expressão fúnebre. dois dos grandes e sem manchas. Começava a compreender por que o capitão Raines tinha um físico com forma de pêra. Voltei a assomar a cabeça. os ombros eram de lutador e tinha uma cabeça enorme sobre eles. E preciso que tire os pés de meu solo recém esfregado. Bastou-me um olhar rápido para eliminar a idéia. Não permito a presença de mulheres na minha cozinha. pensando. quando for possível. o que significava que cada uma de nós contava com um espaço de um metro oitenta de . inteira. Girou lentamente. —Meia porção —confirmei de imediato. em seus olhinhos azuis faiscavam a luxúria. —E meia dúzia de grãos de baunilha. se quiser limpar as botas para entrar. — Me chamo Claire Fraser. voltando-me as costas. —Açafrão? —perguntou com voz rouca. Fiquei no corredor. poderias enviar-me a água quente pelo marinheiro. Respirou fundo. Era evidente que a tripulação do Artemis não subsistia só a base de porco salgado e bolachas marinhas. O ar estava impregnado pelo aroma empoeirado de sálvia. construídos para resistir ao mar mais agitado. Do Ceilão.estavam cobertas de prateleiras e armários. Dei um passo para trás com dignidade para falar com a segurança que me oferecia o corredor. esfumaçado pela acritude de uma cebola. —Fora — repetiu no mesmo tom. Fiz uma pausa. senhora. voltei a meu camarote para lavar-me para o almoço. Não encontrei a Marsali que sem dúvida estava com Fergus. dedicou-se a sua pata de cordeiro. tudo o que permitiu a água fervendo e a tolerância de Fergus. para limpar a latrina. com cuidado de não pisar no interior. —Bom dia —saudei com toda a cordialidade possível. —Lá fora tem um pano de chão. depois de escovar-me o cabelo. Seus pequenos olhos azuis me apontaram com duas pistolas. —Fora —ordenou. Depois. sem pescoço à vista. —Sou a senhora Fraser. Extrato de anís fresco. dissimulando qualquer deixe de triunfo em minha atitude. O senhor Murphy tinha deixado de picar e mantinha a faca imóvel sobre a chapa. Marsali e eu ocupávamos o camarote maior. Esterilizada em uma das latrinas. —Sou Aloysius Ou'Shaughnessy Murphy —informou— Cozinheiro de bordo. que se estremeceram como as antenas de um inseto. que foi seca este ano. —Nesse caso. Completava o conjunto uma perna de pau. Preciso de seis galões de água fervendo. esposa do comissário e cirurgiã de bordo. Sua cara era larga e corada com tesos bigodes. Lavei as mãos com álcool e. cruzei o corredor para ver se existia a remota possibilidade de que Jamie quisesse comer ou beber algo. —Talvez sim—disse— E talvez não. muito loiros. Era vários centímetros mais baixo do que eu mas o compensava medindo quase um metro a mais de circunferência. —Cardamomo —disse com firmeza — Noz moscada.

honorável Primeira Esposa —me assegurou num sussurro. Mostrou-se pouco mais tranqüilizador. Mudou de expressão..... aproximei a vasilha justo a tempo. —Pergunte a Fergus. junto à porta do camarote. né? —observei compassiva.comprimento.—Disto não se morre ninguém. As tonturas do mar não costumavam causar delírios. como um caracol em sua concha. —Diz o capitão Raines que amanhã o mar estará mais sereno —o consolei.. —Não me acontecerá nada —disse — Vá. Cuida-te. obrigada. Encontrei a Fergus com Marsali na coberta da popa. Sassenach. —Eu cuido. —Oh. —Bem. —Temo que não. para não te preocupar. Pergunta-lhe a Fergus. Percorreu-me um arrepio. Ele te dirá. —Não te encontras muito bem. —O que não me disseste? —perguntei enquanto deixava a vasilha no solo. —Esticou-se. mas eu devia curvar-me como um camarão sobre uma torrada. —Fez um esforço para incorporar-se. ainda que nesse dia não estivesse muito agitado. Abriu um olho como se dispusesse a dizer algo. Algo se moveu no corredor. ainda que vendo-te pareça mentira. —Ficarei contigo até que desça. .. Diga-lhe que é ordem minha. Meu esposo jazia de costas. Não tinha febre. —Sacudi a cabeça. Não creio que tentem nada às claras. O que quer matar-me. com um pouco de sorte.. —Calma. Jamie e Fergus ocupavam liteiras similares. Saí a procura de Fergus bastante preocupada. —Não. —Vá —repetiu quase sem mover os lábios. pálido como o lençol. Minha colega cabia bem na sua. Aquilo não me tranqüilizou em absoluto. E que Innes não foi. Não te disse antes. A sós. —E voltou a fechá-lo. —Do que estás falando? —perguntei ligeiramente alarmada. Amanhã terei morrido. que mediam em torno de um metro e sessenta. —Não é por isso. —Quem quer te matar? —Não sei. Jamie? —Inclinei-me para secar-lhe a cara. —Innes —repetiu—Não pode ser ele. Distingui a silhueta do senhor Willoughby com o queixo fincado nos joelhos. —Claire.. Não tinha nem idéia do que aquilo significava mas se Jamie corria algum perigo não ia deixá-lo só. Familiarizada com os sintomas do mal-estar corporal. —Estás bem. —Não importa. Deus. descontando as liteiras presas à parede.

—Oh. —Cada vez que sobe a um barco assegura que é questão de vontade. Milord só cobra cinco por cento...—Não estamos seguros de que alguém pretenda matar a milord —explicou. —O moço parecia apenado—. uma súbita vibração sacudiu o . também o incêndio do galpão. —O daqueles tonéis pode ter sido um acidente. Mas a três metros do cais já está verde. Enquanto os homens se entretinham com brincadeiras e risos. —Foi na casa de Madame Jeanne. os contrabandistas tinham feito uma pausa para reanimar-se com um trago. sim. —Assim que são sócios? —Em certo modo. —Poderia estar agonizando e não dizer nada. milady —sorriu Fergus. —O Madeira não penetra na madeira tão rápido como outros vinhos —me explicou Fergus. Dois dos homens tinham pedido sua parte dizendo que precisavam do dinheiro para pagar dívidas de jogo e comprar provisões para a família. —Não o duvido. aproveitando a longa noite invernal para recuperar vários tonéis de vinho Madeira camuflado como inocente farinha. Jamie foi então ao escritório do depósito. —Um momento. sob os narizes dos aduaneiros. —Não tinha me contado — reconheci divertida pela descrição. —Fergus se desculpou com uma inclinação de cabeça. por conseguir o lugar e fazer os arranjos. Como impressor se ganha muito menos do que com uma casa de prazeres. —Que cachorros? —Alguns inspetores de Alfândegas têm cachorros adestrados para detectar contrabando de fumo e conhaque. antes de voltar a casa ao amanhecer. —Sempre pensa que não mareará —disse. —Fergus retirou uma grossa mecha de cabelo. que é sua mente quem manda e não se deixará dominar pelo estômago. ele tinha estado nas docas de Burntisland com Fergus e outros seis homens. milady. —É isso! —Voltei a sentir o mesmo nó no estômago quando Jamie abriu a porta do bordel. onde guardava um pouco de ouro. claro. jovem Fergus —disse puxando-lhe a manga— Que tonéis? Que incêndio? —Ah! —exclamou com cara de surpresa— Milord não contou nada? —Milord está feito um trapo e só pôde me dizer que perguntasse a voce. no dia anterior a voltar a vê-los. —Ah. um dos que estão em nome de lorde Dundas mas que na realidade pertence a milord e a Madame Jeanne. O dia de minha volta a Edimburgo. Ainda assim. —Depois de tudo. —Continua com o relato. estes homens! —Milady? —Não disse nada. poucas horas antes de encontrar a Jamie na tipografia. Alguém poderia degolar a Jamie antes que eu descubra por que. Fergus sacudiu a cabeça estalando a língua. Tínhamos retirado sem problemas o Madeira e o levamos a um depósito. Uma vez escondido o vinho. Edimburgo e Madame Jeanne tinham ficado atrás. ocorreu mais de uma vez. pois os cachorros o farejam de imediato. —Tonto! —Já o conheces. —O conhaque não é possível passá-lo desse modo. Falavas-me de uns tonéis e de um incêndio. —Por suposto.

só nos depósitos de Edimburgo... —Pode ser um agente de Alfândegas que lhes tivesse seguido desde as docas até ali? Jamie disse que não era possível.solo: um barril de duas toneladas se tinha desprendido da pilha. —Milord estava cruzando frente aos tonéis — explicou Fergus mexendo a cabeça. o beiral era tão débil que milord pôde abrir um buraco a pontapés e sair ileso. —Todos sabem da tipografia? —Oh. —Se não ficou achatado foi pela graça de Deus. Na semana anterior. Ao que parece. —Mas milord está inquieto por aquele homem que o chinês matou na casa de Madame Jeanne. milady. Essas coisas ocorrem. —O Novo Testamento? Não penso que tenha muita importância. Fergus assentiu com gravidade. Mas os outros acidentes. Mas se os agentes da Coroa vinculam ao notório contrabandista Jamie Roy com o respeitável senhor Malcolm. as revelações de Fergus me causavam alívio. O pior era o livrinho que levava no bolso... —Isso não prova nada. prendendo a palha. —Sorriu com ironia. um pequeno beiral cheio de palha tinha estourado em chamas enquanto Jamie trabalhava dentro. —Fergus coçou a cabeça. Esse livrinho foi um dos que imprimiu pessoalmente milord. mas somando o de Arbroath. todos estiveram no bordel e também no caminho de Arbroath quando sofremos a emboscada e encontramos o policial enforcado.. milady! Milord pôs sempre muito cuidado em que não soubessem. Nem de que alguém queira matar a milord. morrem dez ou doze homens em acidentes parecidos. Paradoxalmente. —Poderia ser que sim. —Fergus suspirou cansado. milady. Os seis estavam presentes quando caíram os tonéis e quando se incendiou o beiral. —Abriu as mãos. —Quando Jamie disse que lhe convinha ausentar-se da Escócia durante um tempo. —Pois é. Todos os anos. —É possível que tenha um traidor entre os contrabandistas —disse. —Por sorte. .. —Creio que começo a compreender —sussurrei. Mas é possível que um deles o visse pelas ruas de Edimburgo e o seguisse até a tipografia. —Sempre se pode procurar outro esconderijo se os da Alfândega rastreiam o conhaque até o bordel. Mas não estamos seguros de que um dos homens tenha nos denunciado. Perguntei-me se teria montado guarda durante toda a noite— Esses incidentes puderam ter-se produzido por acaso. não só estava preocupado por Laoghaire e Hobart MacKenzie —reconheci. —Assim é. já que não tinha licença. Simplesmente tinha precipitado a crise. milady. é um dos seis que milord mandou trazer. um lustre tinha caído entre ele e a porta. —Compreendes? Teriam provas para enforcá-lo dez ou doze vezes. Se há um traidor entre nós. com o que Jamie ficou preso depois de um muro de fogo num local sem janelas. não era a única culpada do exílio de Jamie. não.

o padrasto era. mostrava-se silenciosamente hostil. Felizmente nenhum dos seis contrabandistas dava um só passo que se pudesse considerar ameaçador.—Se Jamie continuar assim como até agora. Todos expressavam uma solidária preocupação pela saúde de Jamie e.. Marsali tinha passado a maior parte do tempo contemplando o mar. sob atenciosa vigilância. Não te preocupes —disse dirigindo-me a Marsali— demorarei um pouco para descer ao camarote.. se permanecia intacta (e assim eu acreditava. mas não serviu de nada. e um tanto perigoso. Em verdade.. pouco lhe importará que alguém o degole. Jamie não dava sinais de recuperação. De minha parte. Murphy tinha tido a generosidade de permitir-me triturar minhas ervas e preparar meus remédios num canto da cozinha. Provavelmente ao fugir com Fergus não tinha planejado embarcar com um assassino. Em realidade. O capitão Raines o chama de Fraser..—Milord não é homem que passe despercebido. uma força descartável. De fato. Ainda assim deve ter escutado tudo. mas também a ter que passar as noites comigo no lugar de Fergus. me pôs embaixo do nariz. amaciado por umas raspas secas de laranja e uma garrafa do melhor clarim. Supus que se devia. pois vi que a percorria um arrepio. Naquele momento caí em conta de que Fergus já era um homem feito e direito. —À cozinha. —Verdade —confirmei— Mas agora todos conhecem o verdadeiro nome de Jamie. —Com esse caldo levantei a vários do leito de morte! Pegou a sopeira que lhe devolvia Fergus e. naqueles momentos. Tinha a cor das natas rançosas e só abandonava sua liteira para arrastar-se até a latrina. depois de cheirá-la com ar crítico. e quem é. Quando nos encontrávamos na coberta ou à hora das refeições. tinham-lhe feito uma breve visita sem que surgissem circunstâncias suspeitas. —O que. o dourado líquido tinha um cheiro tão apetitoso que encheu minha boca de água. como se não quisesse arriscar-se a conversar comigo. Murphy.. abscessos e gengivas ensangüentadas. pareceu considerar como um desafio profissional manter um pouco de comida no estômago de Jamie. ao natural afeto por sua mãe. mostrou-se bem disposto.. passava os dias explorando a embarcação e atendendo aos labores médicos habituais: dedos achatados.. Dedicou horas inteiras à mística contemplação de suas especiarias e sua despensa. —Aonde vai. —Milord não ia querer que. o caldo também não? —Estranhou-se Murphy. milady? —Fergus me olhava com suspicácia. Marsali abandonava nosso camarote antes que eu acordasse e ao deitar-me a encontrava já adormecida. milady. —Por isso devemos averiguar se realmente navegamos com um traidor. em parte.. custodiado dia e noite por Fergus e o senhor Willoughby. a julgar por sua atitude amuada) devia-se só ao respeito que Fergus dava às ordens de Jamie: como guardião de sua virtude. —Será melhor que a leves para baixo —disse— Está ficando azul. —À cozinha? —Quero ver se Aloysius Ou'Shaughnessy Murphy tem algum remédio contra a tontura — disse. ainda que pese ao . —Sim —reconheceu com um sorriso.

que dormia junto à porta de Jamie como um cachorro fraldiqueiro. Com suas dimensões de barril e seu aspecto de pirata consumado.excelente café da manhã consumido fazia uma hora.. amontoavam-se os cobertores pegajosos e a roupa suja. Mas ao entrar no camarote compreendi que. representava um verdadeiro desafio. —Levanta-te e ande —disse alegremente. bem poderia ser. Peguei-lhe a mão. —Vá embora —disse antes de voltar a fechá-lo. se conseguia fazê-los pensar . Quando puder fazê-la. as habilidades culinárias do senhor Murphy resultariam vãs. leite batido com whisky e um rico ovo. Jamie. Ainda que não dissesse nada. Murphy tinha fama de ser o melhor cozinheiro naval de Le Havre. mas não se opôs. Por fim me entregou uma bandeja. A estas horas. As tonturas eram um desafio para sua capacidade. tinha descoberto que. — Chupa isto. Sem molestar-se em abrir os olhos. suas pupilas azuis se pousaram em mim com uma eloqüência tão feroz que me apressei a retirar o pepino. rodeada por um pano que não deixava passar luz nem ar. —Verdade. —Não quere provar uma rede? Ao menos poderias esticar-te. Esquivei cuidadosamente ao senhor Willoughby. —Não quero ouvir falar de café da manhã. —Bem —disse ao fim —. Jamie entreabriu um olho. isso me disse sem a menor vaidade.. Jamie se tinha arrumado para que o ambiente fosse humamente incômodo e deprimente.. Sentei-me no banco sem soltar-lhe a mão. Murphy grunhiu e começou a revolver suas provisões. na liteira. Deixou escapar um gemido. feita com uma camisa de Fergus. —Essa liteira é muito pequena para voce —observei. Abriu pouco a pouco o outro olho. poderíamos provar algo que eu empregava com os meus pacientes.. —Não quero. —Disse o capitão que precisa de uma lista da carga. estava fria e úmida e o pulso acelerado. —ouvi enquanto me afastava pelo corredor. suspirando.. Como qualquer homem enfermo. Poucos minutos antes de operar costumava falar com os pacientes para tranqüilizá-los. deixando a bandeja para abrir a improvisada cortina. sem dúvida —o tranqüilizei— Mas não pode reter absolutamente nada. ao menos. As vezes dava resultado. —É um caldo estupendo.. —Aproximei um banco e pegando um pepino em conserva o aproximei do seu nariz. —Digamos que é o almoço. uma vez mais. então. —. prostrado já fazia quatro dias. emitiu uma breve e irrepetível sugestão sobre o que podia fazer o capitão Raines com sua lista. —Trouxe algo para que tomes café da manhã. A pequena habitação estava úmida e fedorenta.

—Sendo diferente. Muito vigoroso em cama. como se seu conteúdo tivesse dado a volta. O senhor Willoughby.. Ano de Rato. —Tenho remédio chinês —apontou o senhor Willoughby observando o fenômeno. na colina que está junto à casa. —Sim —respondeu com certa surpresa. Saí com toda dignidade. Sabe se Tsei-mi rato ou dragão? —Em que ano nasceu. que se agitavam com certa inquietude. piedade. Mas por que dragão? —Um nasce em Ano de Dragão. as náuseas provocadas pela anestesia eram mais leves e cicatrizavam com mais celeridade. —O senhor Willoughby contemplou com ar pensativo o emaranhado de cobertores. Ano de Cavalo —explicou. Ano de Ovelha. mas Hipócrates não me permite. —De verdade? Me agradaria vê-lo. do corredor. —O que? —Quero que vás embora —repetiu com muita suavidade— se não queres que eu te quebre o pescoço. —Pense em Lallybroch. O suor fazia brilhar sua frente. Pensa nos pinheiros.. dura e redonda. ultimamente. —Sim? —Vá. Vá de uma vez. cabeça. Uma coisa era cruzar o Canal da Mancha em dez horas. vomita se me aproximo. —É rato ou dragão? — Cheira como um zoológico inteiro. —Não quer. poderia ser. Tsei-mi? Dragões pessoas muito apaixonadas. —Que homem tão terrível! —exclamei com uma mistura de exasperação. Mas dragão também. obtinham-se melhores resultados: sangravam menos. cada ano. Imagina que tens uma maçã na mão. —Vamos pensar em algo agradável — propus com voz grave e sedativa. —Não terias aqui aquelas bolas de pedra? —perguntei. —Parece-me rato. —O que quero é despedaçá-las na cabeça. Mas que aconteceria depois de dois meses em alto mar? —Cabeça de porco — disse o chinês.. O provaste com Jamie? O pequeno chinês sacudiu tristemente a cabeça. —Não que eu saiba. mas não sei a qual animal corresponde. —Sassenach? —Olhava-me com intensa concentração. jogou um olhar pensativo ao interior do camarote. sentes seu cheiro? Pensa na fumaça que surge da chaminé nos dias despejados.. muita sorte. queres saber? Foi em 1721. —Bom para vomito. O senhor Willoughby esboçou um sorriso desconcertado. O montão de roupa se moveu para cima e voltou a cair. ..em algo que não fosse a operação. e medo. —Rato muito inteligente. Olhei-o com interesse.. —Quer bolas saudáveis para Tsei-mi? Procurava-as dentro de sua manga.. diferente pessoa. Diz maldito. mas o detive com um gesto. sente-a. estômago. tudo faz pacífico e sereno.

ao senhor Willoughby. —Além disso —continuei. —De verdade? —Sim. A garota se aproximou. Outras cintilavam na face interior da perna. —Nesse caso — concluí—. . a única coisa que se pode fazer é amputar antes de que se inicie a gangrena. Cruzei os braços para esperar. —Te direi uma coisa —disse.. podem ser perigosas. as vezes os testículos se enredam dentro do escroto e se corta a circulação da zona... se uniu ao seu colega. alongando timidamente um dedo para tocar as agulhas que tinha fincadas no pulso. Me de uma olhada. dá resultado? —perguntou. alçando a voz em dois decibéis: —as ansias secas. que podem chegar a rasgar-se e provocar uma hérnia. Marsali lançou um grito. por favor —pediu Jamie com os dentes apertados.. —Venha aqui.. —Papai! Que te passou? —Não é nada —disse resmungão— Uma loucura do chinês para curar os vômitos. —Ah. O chinês emitiu um som sibilante para expressar seu profundo horror.. Depois de um minuto. elevando a voz um pouquinho mais—. Olhei ao senhor Willoughby. que se tinha estado bamboleando de um lado a outro durante toda a conversa. Elevam a pressão arterial e tencionam demais os músculos abdominais. ficou imóvel. se se prolongarem muito. um elegante pé descalço saiu entre os lençóis. —Sinto-me como um boneco vodu que alguém tivesse enchido de alfinetes —respondeu. —Oooh! —Os olhos do senhor Willoughby se fizeram redondos. acima do tornozelo. Fergus e Marsali estavam inclinados sobre o balaústre da popa. —Mas como estou meia hora sem vomitar.. sim —assentiu energicamente. Oh. —Irritam os tecidos do estômago e o esôfago. Ao ouvir nossos passos. começava a recuperar seu habitual sentido do humor. que se encolheu de ombros.Olhamo-nos com perfeito entendimento. —Não poderiam pôr-me a chupar um pepino mas creio que poderia tomar uma taça de cerveja se a conseguir. milord. palavra. —Oh. —Malditos sejam os dois — disse com grave e malévola voz escocesa. Me acompanhas? —Devo indicar a Murphy que comece a preparar-te o almoço? — perguntei a Jamie. devo supor que dá resultado. Fergus abriu a boca mas não pôde dizer nada. muito danosas. abraçados pela cintura. —Oh. sim. Depois. —Nem. uma. Fergus. persignando-se com olhos dilatados. —E.—Como se sente? Jamie torceu a boca. o moço se voltou a olhar e afogou uma exclamação. O montão de cobertores. pouco depois. ombro com ombro..

Estava equivocado? Ou talvez vossos. A lua se elevou como um enorme disco dourado. tinha trezentas léguas entre a Terra e a lua. —Não abuses. —É mesmo? —comentei observando os largos ombros e a cabeça vermelha. À medida que o Artemis descia para o sul. —Não acredita que vou esquecer-me disto. se este era casado. aeroplanos. As agulhas de ouro lhe brotavam do cabelo em dois grupos gêmeos. —Rato não —disse sacudindo a cabeça. Sassenach —advertiu. Distinguiam-se sem dificuldade os pontos escuros e as sombras de sua superfície... Éramos trinta e quatro pessoas a bordo e o trabalho mal me ocupava uma hora pelas manhãs. Quando Jamie se fora.. talvez. Geralmente era a esposa do artilheiro. também não. um grupo de homens estava preparando para ir à lua. Terão chegado já? —Vossas máquinas voadoras. descobrir novas facetas que a experiência tinha polido e desfrutar da mútua presença sem as distrações do perigo e da vida cotidiana. o artilheiro. sentado sobre seus calcanhares. não tinha nada mais que fazer até chegar a Jamaica. Depois de comprovar o conteúdo do porão e aferilo com as cartas de embarque. começamos a passar juntos a maior parte do tempo. podem chegar tão longe? .—Dragão não. Durante aqueles estrondosos exercícios. Testículos enredados! Bah! O senhor Willoughby. a tripulação me aceitou como cirurgiã de bordo sem maiores reparos. Enquanto assistia com entusiasmo às práticas de tiro que se realizavam dia sim e dia não. chegam tão alto? —estranhou-se Jamie. Fergus me explicou que nos pequenos navios mercantes. Pela primeira vez desde minha volta a Edimburgo podíamos conversar e recordar as coisas meio esquecidas que sabíamos um do outro. de maneira que tanto Jamie como eu tínhamos bastante tempo livre.— Ainda que pareça estar perto. saiu velozmente da água para subir pelo céu como uma ave fênix em ascensão. —Parece possível conversar com ela —disse sorridente. reluzindo ao sol da manhã como um par de diabólicos cornos. Jamie e eu a admirávamos do balaústre. o senhor Willoughby e eu nos colocávamos a resguardo sob o cuidado de Fergus. até os barbeiros podiam cumprir essa função. Marsali. levantou os olhos. Para minha surpresa. não há muita distância? Um livro dizia que.. —Quando parti. Tsei-mi nasce Ano do Boi. excluído das práticas por faltar-lhe uma mão. ajudava a vistoriar os quatro enormes canhões e passava horas inteiras discutindo apaixonadamente com Tom Sturgis. contava algo com os dedos. teimosamente enfrentada ao vento —Bem apropriado! CAPÍTULO 42 A CARA DA LUA O trabalho de Jamie como comissário não exigia muito esforço.Jogou-me uma longa olhada acima do ombro. obviamente absorto em algum tipo de cálculo. quem atendia as pequenas lesões e doenças da tripulação.

—exclamou aliviado. —Como serão as coisas lá em cima? —Isso eu sei. mas senti que ficou tenso ao ver uma das fotos. virgem? — a pausa foi mal perceptível. para a época. A idéia pareceu escandalizá-lo um pouco mas seu olhar voltou irresistivelmente à foto. . montanhas e crateras. Aproximei-me dele. junto à água e comida. —Crês que é. só não é verde. quanto mais te afastas da Terra. Riu entre dentes. indecente? Contive o riso para dizer. Dei-me conta de que reunia coragem para fazer-me uma pergunta. numa espécie de tubos. —Claro — assegurei.... a distância é muito maior.. bom..... —Verdade? —Levantou os olhos com expressão maravilhada.. mas não te parece que isto é um pouco. Escolhi a foto porque supus que te agradaria. mais se reduz o ar para respirar pelo que é necessário levá-lo... —Assinalei a cara sorridente e dediquei um sorriso a Jamie. —Não sei. vêem-se desde aqui: são aquelas manchas escuras. o traje de banho é bastante recatado. Em realidade só achava possível mas não estava disposta a admiti-lo. dizes que é muito inteligente. —Isso. com muita compostura: —Até pelo contrário. Mas estávamos a sós e não corríamos perigo de que nos interrompessem... Pela primeira vez não me pareceu tão mau que Jamie não tivesse podido vigiar pessoalmente a vida de Bree: ante ele. Riu com a palavra «fotografias» e retirou do bolso o pequeno pacote de fotos que guardava com muita prudência e que não retirava nunca se alguém pudesse vê-las. Esse moço. ver a tua filha o mais natural que pudesse. Brianna tinha uns dezesseis anos e se banhava com seu amigo Rodney na praia. detendo-se na foto de Bree olhando pela janela com expressão sonhadora.. porque vi fotografias. Pigarreou.—É necessário um aparelho especial. sem vida mas muito formosa. —Engoliu saliva... sentindo o calor de seu corpo através do casaco e apoiei a cabeça em seu braço enquanto olhava pouco a pouco as fotos. É rochosa e erma. Jamie respirou fundo. —Crês que ela caminhará pela lua? —perguntou com suavidade. esse moço. estava seguro. —E além disso. chamado foguete — expliquei. Mordi os lábios para não rir —Bem. —Sim. com barrancos... —Não se diferencia muito da Escócia. Mas esse. —É linda —murmurou. mas.. — disse sorrindo.. —Como seu pai — reconheci. isto é. qualquer moço que tivesse a audácia de cortejá-la teria morrido de susto. —Em realidade. Claire.? Não que quisesse criticar. —Ah.. é adorável e me alegro de saber... ainda que fosse Fergus..

—Voce me aceitou por necessidade. com a pouca sabedoria que tenho. por Deus! Quero-te tanto que as vezes sinto como se o coração me arrebentasse de alegria ao ver-te ao meu lado. pode fazê-lo por amor. —Disse que ela pode escolher. deve ser uma época muito triste. se casará quando e como queira. mas ao menos saberá que pensava nela. —Teve a delicadeza de mostrar-se envergonhado. sem olhar-me: —Está segura de ter feito bem em vir agora.—Não acredito. Sassenach. Respirei fundo. e não há forma de explicar-te.. eu sei. não sabes. Suponho que ela não as levará em conta e será muito feliz. Jamie começou a relaxar-se. E coisas práticas: onde estava a escritura da casa e os documentos da família. agora Brianna está só: Frank morreu e você se foi. Mas me preocupava. —Tudo o que me ocorreu. Foi o único que me ocorreu. Que lhe dizias? Soltei um riso tremulo. —Olhe. tratando de manter a calma. já não seria possível localizar-te. Tem uma boa educação e pode ganhar a vida. não quando alguém o decidir por ela. E recomendações sobre como viver. não há um homem em sua família que se ocupe de casá-la bem. —Não disse que não o precisemos. porque não acreditaria. —Não sabes. —Ainda que Frank e eu não nos déssemos muito bem. sabendo que talvez não voltaria a vê-la. —Sim? Isso foi bom. há muitas mulheres que o fazem. fomos bons pais. . não tem um esposo que a proteja. guardou as fotos no bolso e disse. Tremia-me a voz ainda que me esforçasse por controlá-la. —A verdade é que me preocupava a perspectiva de abandoná-la —sussurrei. Conselhos de mãe. —E voltei por amor —assinalei.—Bree é muito boa garota —lhe disse estreitando-lhe o braço... se esperássemos mais tempo. em meus tempos as coisas não são como agora. —Acreditas que te precisava menos porque podia manter-me só? —Não —reconheceu baixinho. —Arranquei minha mão da sua com um olhar fulminante.. nem sequer está obrigada a casar-se. Bree já é uma mulher adulta. Só que. Jamie. —Sustentoume o olhar com idêntica fúria. Não está obrigada a aceitar um homem por necessidade. —Se as mulheres não precisam um homem que as proteja e as ame. Não deverias ter ficado um pouco mais com ela? Fiz uma pausa tratando de dominar meus próprios sentimentos. —Não sei —reconheci ao fim. —Apoiei-lhe uma mão no ombro. —Eu sei. Em realidade. Não tem necessidade de um homem que a proteja. —Claro que te quero. —Ela mesma me obrigou. —Isso já sei! —Não. Temíamos que. —Deixei-lhe uma carta. Claire? Não é que eu não te queira comigo —disse precipitadamente ao sentir que me colocava rígida. Não deveria ter dito isso. —Sim.

Encarrega-te de tudo... cobrindo páginas atrás páginas. teus bisavôs e tua história clínica. Não te esquecerei nunca. —Controla-te. E como te chamava naqueles anos! Gatinha. Agora sei porque os judeus e os muçulmanos têm novecentos nomes para denominar a Deus. Mas se precisa. Sempre. assim será. Quando te vejo dormir penso nas noites em que te aninhava. Não podia. pomba.Minha querida Bree. Verás que tua testa é larga e clara. abóbora. Peguei a esferográfica e comecei. Só compreenderás o que isso significa quando tiver um filho. até a unha do dedão que rompeste no ano passado. como a delas e como a minha. Já te disse como te pareces com Jamie. não saberei se deixarás de roer as unhas nem verei a forma definitiva de teu rosto. cobria-te a testa. querida. faça-o por mim. Quando me sentava ao teu lado para ler «Os cinco patinhos foram nadar.. Beauchamp — murmurei.. Deixo aqui o que sei de teus avôs (os verdadeiros). Ainda que não lhe faça falta. nunca.. De qualquer modo. de recém nascida.. já não poderei observar-te e detectar as pequenas mudanças. maritaca. . Ali me detive. ficando ou indo. Bree. Também conheço a muitos dos Fraser. nas vezes que me aproximava para escutar-te respirar. Me parte o coração pensar que isso se acaba. creio que vas envelhecer bem se cuidar de sua pele. Quanto me agradaria poder cuidar-te e proteger-te durante toda a vida! Mas não posso. cuida-te. Pisquei para descansar os olhos e continuei escrevendo com urgencia. doce. Não sei se chegarás a ler isto. Me recordo tudo de ti: desde a pelugem dourada que. porque estou com voce.. tudo está bem no mundo.. ao amor não lhe basta com uma palavra . Mas também tens um pouco de mim. Passe o que passar. —Vê se acaba de uma vez com esta maldita carta. Não me atrevia a tomar-me o tempo necessário para escolher as palavras. também não lhe fará nenhum dano. Bree. aquelas orelhas se punham rosas de felicidade. quando brigou com Jeremy e fechaste com um pontapé a porta de sua caminhonete. mas é importante pô-lo por escrito. o que está na caixa. Provavelmente não há outra pessoa na Terra que saiba como era o dorso de tuas orelhas aos três anos. e a pequena fotografia em branco e preto de tua avó com sua mãe.» ou o conto dos três porquinhos. És minha menina e o serás sempre. Minha mente ia serenando pelo esforço e a necessidade de registrar a informação com clareza. Escrevi durante muito tempo. mas quero dizer-te: sempre serás tão parte de mim como quando compartilhavas meu corpo e te sentia moverte. procure o retrato de minha mãe. Tinhas a pele tão limpa e frágil que teria bastado um mau pensamento para deixar-lhe impressão.

Mamãe. Sassenach. tremia os ombros. —Creio que se cuidará muito bem — sussurrou. tive que me deter para secá-las antes que borrassem a tinta e deixassem ilegível a escritura. inclinado sobre o balaústre. Mas o mais importante é não permitir que tente mudar a ti. Por ti tudo valeu a pena. Não se pode.As lágrimas começavam a molhar o papel. Bree. não . ainda que tivesse sido pior. por isso o sei. não me arrependo. E acredite: não te mudaria por nada do mundo.. Fiz muitas coisas em minha vida. Sequei o rosto e segui escrevendo com mais lentidão. Bree. Deves saber. podiam existir dois homens mais diferentes? Mas ao pensar em Roger Wakefield resolvi deixá-lo assim. Com todo meu amor. o senhor Willoughby. A qualquer dos dois. não tente mudá-lo. CAPÍTULO 43 MEMBROS FANTASMAS Desde a partida. Já te ouço dizer. És perfeita e maravilhosa. Fergus. Elege um homem que se pareça a teu pai.. a exceção de Innes. Bree. mas os homens sempre o tentam. És minha alegria. Dá-me um beijo. Caminha sempre com as costas erguidas e trata de não engordar. Apesar de tudo. não pude saber se era de riso ou de emoção. Ante isso mexi a cabeça. Uma vez que tenhas escolhido a um homem. que não me arrependo. Jamie e eu vigiávamos com atenção os seis contrabandistas escoceses. Como nenhum deles fazia o menor gesto suspeito acabei relaxando ainda que. Jamie. nesse tom exasperado: <<É lógico que pensas assim: és minha mãe!» Sim. Agora poderá imaginar o quão só me senti sem Jamie. —Não importa quem a tenha gerado: nunca nenhuma garota teve uma mãe melhor. mas a mais importante foi amar ao teu pai e a voce. Também não se pode.

Não me surpreendeu saber que consistia quase por completo em carne salgada e bolachas —E as ervilhas secas? E a aveia? —perguntei surpresa. —Quatro dias? —inquiri prendendo-o sobre a mesa para impedir que escapasse. A teimosa insistência dos escoceses. para voltar a agachar-se com um braço sobre o ventre. As dores eram intermitentes. A cara magra do escocês se tornou da cor de fígado fresco. Innes era um homem calado. Tal como eu pensava. Marsali e eu comíamos com o capitão Raines. o problema era que Murphy reservava seus sabores culinários para a mesa do capitão.—E prisão de ventre —Sim. Fergus. ignorávamos o quão deficiente que era a comida para a tripulação. Como Jamie. —Hummmm. Preciso escutar algo para assegurar-me. —Quando foi a última vez que esvaziaste o ventre? —perguntei enquanto fazia um rolo com o pergaminho. —Agora solta o ar. desfrutando dos banquetes de Murphy. O cólon estava bloqueado. como se travasse algum silencioso combate interior. mas era melhor conferir. O peguei pelo cotovelo para levá-lo ao meu camarote e tirei sua camisa para examiná-lo. dali não surgia som algum. dava a sensação de que era uma simples flatulência. —Acompanha-me. Ao que parece.deixei de mostrar-me reservada para eles. já o sei — murmurou Innes procurando freneticamente a camisa que lhe retinha enquanto lhe passava um sermão sobre sua dieta. —Ai! —Ergueu as costas sobressaltado. Innes? —perguntei. —Espere um momento. Negava-se terminantemente a molestar-se em atos como embeber alfarroba ou ferver aveia. —Seu rosto adquiriu de novo a cor habitual. na curva superior do intestino grosso se ouvia claramente o rumor dos gases presos. que reclamavam por sua aveia. despertava sua intransigência . Peguei uma das gordas folhas de pergaminho que usava como estetoscópio. enquanto alimentar a tripulação lhe parecia mais uma tediosa obrigação do que um desafio. —Sente dores. faziam-lhe retorcer-se como um verme e depois desapareciam. —Está com gases na barriga —expliquei. Murmurou algo incoerente e reconheci a palavra «quatro». Innes não abriu a boca mas a pergunta desatou uma torrente de revelações e queixas dos espectadores que se tinham amontoado no corredor. Apalpei seu abdome magro e peludo. Por isso não me surpreendeu descobri-lo uma manhã com a cara contraída numa careta silenciosa e dobrado em dois atrás de uma escotilha. —Respira fundo —lhe pedi apoiando as mãos sobre seu peito.

—Escondeu-se na latrina de estibordo. fugiu a toda pressa. queimado pelo sol e coberto de escamas. Jamie deu uma olhada para a latrina. disse-lhe que se até esta noite não tiver esvaziado o ventre. Caso contrário. com uma ameaça como essa. —Estes homens não são como teus arrendatários de Lallybroch.. prepara uma infusão com isto e bebe uma xícara a cada mudança de turno. Jamie não se apresentou à mesa do capitão. —Suponho que o teriam feito cedo ou tarde. —Eu não sou seu senhor. —Bem. lembramos que eu me encarregaria todas as manhãs de preparar o purê para os escoceses com a condição de que usasse só uma caçarola e uma colher.irlandesa. Agora que todos estão comendo purê. que num princípio parecia um pequeno desacordo. que foi concluído sem derramamento de sangue.. Se amanhã não tiver obtido resultados tomaremos medidas mais potentes. —Que estão comendo purê? Que significa isso. Depois de um inflamado debate com Murphy. —disse enquanto tirava o sangue do pescado com pedra pómes. —Hum. não cantasse enquanto o fazia e cuidasse de não sujar sua sagrada cozinha. Na manhã seguinte. não sairá durante o resto da viagem. Innes pegou o envoltório e. porque encontrei a Innes gruindo por trás de uma escotilla. —Submergiu os dedos na bacia de água. —Não. Eu o descobri por acaso. Sassenach? —exclamou sorridente. Regressou ao meio dia. deixando pequenos círculos nos quais boiavam escamas. verdade? —comentei. —Por enquanto. —Não te preocupes. —Mas te apreciam —protestei. —Deveriam ter recorrido a mim — comentou enquanto lavava os braços. —Não lhe disse exatamente isso —expliquei —. —Falarei com o senhor Murphy — prometi aos escoceses. Só o que lhes pagam. . depois de inclinar a cabeça agradecido. —Que fizeste com Innes. A questão. Sassenach? Expliquei-lhe como tinha originado a Guerra da Aveia e seu resultado final. Jamie me lançou uma olhada de surpresa. E entreguei a Innes algumas ervas envoltas numa gaze. seu ventre voltará a funcionar. lhe faria uma lavagem. esperemos que seus intestinos cooperem. alegre. Tinha saído na chalupa com dois dos marinheiros com intenção de pescar algo. podia converter-se num problema mais grave. Diz que lhe ordenaste não sair de lá até que tenha cagado.

teria sido um acidente afortunado. Chama-se «membro fantasma». Mas não me conhecem bem.. —Mas estive falando com o senhor Murphy e me disse que lhe sucede o mesmo com a perna que perdeu. —Se é tão comum sentir um membro que já não existe. pois me mostrou sua manga vazia a modo de exemplo... se existe algum remédio para algo que não tem. cinco ao menos. —Os demais? Olhou-me com surpresa.. Enquanto pensava. Tratei de recordar se existia alguma terapia. Durante anos pensei que estava louco — confessou um pouco rubro e baixando a voz. que tinha perdido o braço e não servia para trabalhos pesados. —Como vê. Quanto à solução. todos os escoceses foram enviados às Colônias com contrato de servidão. —Arrojou a água suja pela borda e me ofereceu o braço. —Sim. a mim me perdoaram e me deixaram em liberdade. exceto Mac Dubh. MacLeod e os outros me têm afeto. vamos comer? Na semana seguinte descobri o que diferenciava Innes do resto. para ganhar tempo perguntei: —Como perdeu o braço? —Oh. — Não o tenho. —Um dia fiz um pequeno corte na mão com um prego e se pôs purulento. exceto a Innes. Talvez arrebatado pelo sucesso de meu purgante se apresentou voluntariamente em meu camarote. . por ser um homem importante que não queriam perder de vista. por envenenamento do sangue —explicou indiferente.. E Fergus costuma acordar com a sensação de que está metendo a mão amputada num bolso alheio. Bem. —Os outros prisioneiros de Ardsmuir. e eu.Corrigi ao recordar o relato de Fergus: —Ao menos. se não fosse pela dor que me ataca algumas noites. como podeis ver. nem eu a eles. A ele o levaram a outro lugar. No entanto.... E me apoiariam se fosse necessário. —É comum experimentar sensações numa parte do corpo que se perdeu. talvez se possa fazer algo para solucioná-lo. Foi uma sorte. —O braço —explicou. —Me agradaria saber. —Sorriu e seus dentes cintilaram sob o bigode caído. —Esfreguei o queixo reflexionando. Sassenach. —Como? —Devo ter feito cara de surpresa ante tal descrição. —Compreendo. as vezes me dói de um modo horrível. —Em Culloden morreu algo mais do que a causa dos Stuart. cinco deles. senhora —disse cortesmente—. Não vos disse nada Mac Dubh? Quando a fortaleza deixou de ser prisão. porque isso evitou que me transportasse para os demais. cinco deles.

ele pressionou firmemente com os dedos certos pontos do pescoço e o torso.Com uma careta. An-mo.. a falta do braço exagerava o efeito. sem pausa. Chamei-o por senhas. verme! . falar braço. o qual tinha uma solução.. Ignorava-o. —Compreendo. Enquanto eu tomava notas. —Fantasma medo saliva. —Eu começei a revirar procurando o conteúdo de minha caixa de primeiros socorros.. —Como te atreves a cuspir-me? —Cuspo fantasma — corrigiu o senhor Willoughby retrocedendo precipitadamente para a porta. —Compreendo. Isto. —E como se faz isso? —Innes começava a interessar-se pelo procedimento. Era o senhor Willoughby que passava. maldito pagão! —gritou o escocês com os olhos dilatados pela fúria. encolhendo-se de ombros como que para explicar o problema. Já não volta. sacou um frasco de chille picantes secos e pôs uma pequena quantidade num prato para esquentá-los. Apoiei uma mão no braço são de Innes. —Foi procurar-te? —Pelo canto do olho vi um reflexo azul. O chinês revolveu minha caixa de primeiros socorros. Braço quer voltar. que se pode fazer com isto? Expliquei o problema ao chinês. Então estiveste na prisão com Jamie. perguntando-me se algum calmante serviria para este tipo de dor.. sim. —Innes ia perdendo sua timidez e começava a falar com mais liberdade. Mas também dizemos braço não voltar. de imediato se deteve. —Ei. acalma dor. não —admitiu dirigindo um olhar carrancudo ao chinês. não quer estar longe corpo. —Mas nem por isso vou permitir que me cuspas quando te dê a vontade. —Sim. exceto eu. apertaaperta. —Corpo não.. Senhor Willoughby. no mundo de cima... —Ah. Quando o libertaram foi pesquisar se tinha voltado algum dos homens que enviaram a América. Despojamos novamente a Innes de sua camisa. —Braço está num mundo fantasma —explicou. aqui. fez gestos de esfregar o braço inexistente. —Dói agora o braço? —perguntei. —Envia fumaça de mensageiro fan jiao a mundo fantasma. — Encolheu-se de ombros.. Sua ira começou a ceder. —Teria morrido de fome se Mac Dubh não tivesse vindo procurar-me quando o soltaram. —Na Escócia não restava nenhum. —Bem. Depois. cuspiu copiosamente sobre o coto de Innes.

—Peguei-lhe uma mão para acariciar-me suavemente. mas ele não me permitiu. —Oh. CAPÍTULO 44 FORÇAS NATURAIS —Sou um tonto — disse Jamie. —De qualquer modo. —Passei vinte anos desejando ter-te na minha cama — disse. —Bem. Além disso. —E minha recompensa por tão abnegada atitude é que não posso tocar a minha própria esposa. Agora tu cospe. —Bem. já sabes o que se diz das boas intenções. Não posso culpar a ninguém. —O que? —Que delas está cheio o inferno. —Olhou-me com um sorriso de reprovação. —Pois é. —Em minha defesa tenho que dizer que minhas intenções eram boas —sussurrou melancolicamente enquanto sorria. —Estreitei-lhe a mão e tratei de retirar a minha. —Por que o dizes? —perguntei ainda que tivesse uma idéia bastante aproximada. —Suponho que tratou de se comportar como um pai. —E no entanto de tua volta disponho as coisas de tal forma que não posso beijar-te sem ter que me esconder por trás de uma escotilha. que me crucifiquem —disse ao fim sacudindo a cabeça. —Eu não cuspo. a verdade é que Marsali só tem quinze anos —disse. Falava com ar triste enquanto observava a Fergus e a Marsali conversando junto ao balaústre.. claro que podes tocar-me. não— replicou o senhor Willoughby muito sereno. Em que estava pensando quando tomei esta decisão? —inquiriu fincando um olhar fulminante no casal que se namorava com carinho. E recolheu a camisa para pôr-se. . Innes coçou a cabeça num gesto entre a ira e o riso. ou a um padrasto. salvo a minha própria estupidez. Assusta teu fantasma. —Bem. —O que não podemos é dar rédeas soltas a nossa paixão. senhora Fraser.. confirmando minhas suposições. cada vez que me viro me surpreendo com esse cretino do Fergus olhando-me com rancor. creio que da próxima vez tentarei com um chá.—Oh.

—Suponho que sim — reconheceu. Quanto ao outro. Era impossível mover as mãos sem que as correntes fizessem ruído. Ainda que de vez em quando pensasse que teria me agradado enlouquecer —confessou pensativo. E os meus pareceram . —Fez uma breve pausa. Dia e noite. —Acredita que estou louco. —Oh. era mais provável que enlouquecesse antes de recorrer a tais atos. um desejo tão forte que não tinha sucumbido à solidão. sem outra maneira de proteger teus pensamentos que te fingir dormindo. Se há algo que conheço muito bem. Sassenach — concluiu baixinho lançando um olhar a Fergus. Sassenach. —Também não recorri à homosexualidade —adicionou com uma careta irônica. —Já o imagino. Encolheu-se de ombros e me olhou com um semi-sorriso. ouvindo Fergus gemer do outro lado do camarote. —é o ruído do homem que faz amor com uma mulher ausente. Sassenach. O desespero e a necessidade podiam levar a alguns homens que. como se tivesse chegado a algum topo invisível. Jamie pareceu um pouco aturdido. bom. pois a única intimidade está na escuridão. —Creio que isso me incomodava mais do que os grilhões.. —Não. Há três possibilidades: utilizar-se mutuamente. nunca. Passei mais de um ano com grilhões. — Tens idéia do que fazem os homens no cárcere. compreendes? Voltou-se para o mar com um sorriso mal visível. —Só podia fazer isto. sob seu humor zombador vi espreitar as escuras recordações no fundo de seus olhos. enlouquecer ou arrumar-se só. —Como soam os gemidos? — perguntei fascinada.. não —respondi sinceramente. separou-os meio metro e cortou bruscamente o movimento. —Bem.. Sassenach? —No geral. não fui capaz. Conhecendo suas experiências nas mãos de Jack Randall. A Jamie. se teriam horrorizado ante a idéia de utilizar a outro. um espera que se apague a luz. —Com um breve resfolegar passou o cabelo para trás da orelha... Também vi uma terrível necessidade. em condições normais. por estar tanto tempo sem mulheres? —Posso imaginar. sempre à vista de alguém. Levantou os braços. E o resultado final de minha intervenção foi que passo acordado metade da noite. a degradação e a distância. —No cárcere não há nenhuma intimidade —disse. Seu apetite saía da medula dos ossos. —Eu queria que a moça pudesse pensar no que ia fazer antes que fosse tarde demais. Além de suportar os sorrisos da tripulação quando me vêem passar. —E seguramente acertas.—Muito certo —disse. é só..

ofereceu-me o braço. No dia seguinte voltamos a passá-lo na coberta. —O capitão vos envia suas saudações. me possuirá aqui mesmo. saudando zombadoramente ao senhor Willoughby. deixando depois de si rasgos assombrosamente fortes. Jamie respirou fundo e afastou os olhos de mim. O segundo marinheiro se deteve com interesse. Imediatamente! . Sua mão estava a dois centímetros da minha. Sassenach? —Um momento. pequeno. Ante meus olhos fascinados voltou a começar no alto da página descendo rapidamente. «Se o toco —pensei—. A ponta do pincel tocava a página com a leveza de uma borboleta. longa e potente. Pouco depois. que cumpria seu recado mantendo uma prudente distância. —Isso. Tirei-o e o pus na sua mão. depois de acomodar o casaco sobre os ombros. antes que eu o vingue. e ao diabo com essa maldita tripulação! Apertamo-nos a mão enquanto contestava com uma amável inclinação de cabeça à saudação do artilheiro. Ver a segurança com que realizava os traços era como contemplar a um bailarino ou a um maestro de esgrima. Nós seguíamos de pé junto ao balaústre. seria capaz de possuir-te sob o mastro. —Era Maitland. A pouca distância estava o senhor Willoughby. ao regressar. —Vamos. —expliquei— Vamos descer para comer. Sob meus pés soou a campainha que nos chamava à mesa do capitão. —Este é o preço. pegou-me subitamente a mão apertando-me a coxa. pôs tão pouco cuidado que deu um pontapé no pequeno tinteiro. —As vezes. olhando-nos aos olhos. sobre a coberta. Um marinheiro passou perigosamente perto e esteve a ponto de plantar seu enorme pé na nivea brancura do papel. e pergunta se pensas em comer com ele. Ficou olhando a imagem do rei Jorge m. o marinheiro. mesmo sobrando espaço para passar. —Desceremos imediatamente —disse e. Encontrei em meu bolso o que levava tanto tempo procurando. Limpe com a língua. Sassenach. com as saias erguidas até a cintura. Demos nosso passeio habitual em torno da coberta. —E essa mancha na nossa limpa coberta? Ao capitão Raines não lhe agradará —anunciou.» Como se me tivesse ouvido. o ar continuava gelado mas era preferível o frio ao ambiente viciado dos camarotes. O primeiro. tinha um pequeno recipiente de tinta negra junto à ponta da sapatilha e uma grande folha de papel branco ante si. —Farás bem em limpar isso com a língua. com as pernas cruzadas sob a proteção do mastro. senhor Fraser. Fergus e Marsali abandonaram seus jogos de amor para descer e a tripulação iniciou os preparativos para a mudança de turno.dissolver-se. outro homem fez o mesmo.

—Bem. —Jamie se penteou com os dedos. que somos necessários na popa.O primeiro homem se aproximou um passo à silhueta sentada. Ao ver o brilho dos olhos azuis sobre o branco sorriso empalideceram visivelmente. Suponho que é o primeiro chinês que conheces. —Um dia muito agradável.. —Não. Com uma cordial inclinação de cabeça dedicada à tripulação. surpreso. quando está desocupada.. ele contou a todo mundo. exasperado. sua sombra caiu sobre a página como um borrão. —Suponho que há mais luz .. claro. cavaleiros —disse Jamie. —Posso oferecer meu camarote ao senhor Willoughby para que escreva? Jamie ofegou. Mas interrompeu. concorda. —Disse que. —Ao que parece. um pouco ruborizado. já lhe ofereci o meu ou a mesa do refeitório. mas prefere estar aqui. sem dúvida o consegue —comentei. —Efetivamente. Ao menos assim começou. —Perdoai.. —Fizeste bem — disse enquanto apoiava no balaústre. Jamie veio para mim. —Bem. —Não. —Mas para que? —É complicado. Joe. —Não é nada. Sem olhar para os homens que se afastavam nem ao senhor Willoughby. deixando um leve borrão na coberta. —Que tanto se importa com eles? Jamie tossiu. ao ver que um grande lenço branco caía sobre a mancha de tinta. tem a ver com os pés. inclinou-se para recolher o lenço. para molestar à tripulação. —Ele o faz de propósito. Não costumam usar rabicho nem pijama de seda. me caiu algo. —Bem. Sassenach? —Jogou a cabeça para trás para respirar profundamente. nem se preocupam com os pés das mulheres. . —comentei dubitativa. uma das garotas de Madame Jeanne contou a Gordon e. —Mas não parece muito cômodo. —começou o primeiro marinheiro em voz alta. senhor — murmurou. Josie. Jamie se aproximou até que sua mão roçou a minha no balaústre. O senhor Willoughby apertou os lábios mas não levantou os olhos. se é o que procura.—Vamos. Os marinheiros trocaram um olhar de dúvida. guardando o lenço na manga. é um pouco. mas suspeito que os de minha época são diferentes. é muito teimoso. —Que diabos acontece com os pés? —inquiri com curiosidade.

. —Que repugnante! —protestei. —Mas. . —Digamos que este é o pé da menina. —Vi muitas coisas nesta vida. —Bem. até chegar a tocar no calcanhar.. —Hum — sussurrei lançando uma olhada suspicaz ao chinês. Jamie estendeu o dedo médio da mão esquerda e o afundou no centro do punho. isso explica a hostilidade dos homens.. —Ele assegura que para o homem é uma sensação extraordinária. —Ouvi falar disso — disse sem compreender a que vinha. —Não é brincadeira. —Um buraco —disse sucintamente. tenta-o de vez em quando. Jamie voltou a ofegar. e muitas delas contigo. —Curvam-se os dedos para abaixo. o efeito não pode ser o mesmo mas suponho que. pequena besta pervertida! Jamie se lançou a rir ante minha indignação. num inconfundível gesto. o caso é que. os bárbaros somos nós. Claro que com as mulheres européias. como sabes. —Elegantes? Sabes como se faz? E procedeu a descrever-me. às damas de alto berço lhes cobriam os pés. com um forte aspecto romântico no que diz respeito às mulheres. tendiam a ser pessoas galantes. em geral.—Não podes dizer-me nada que me espante —lhe assegurei.. que não parecia escutar-nos.? Lancei uma olhada ao senhor Willoughby.. —Não pode ser! Se faz por isso? Ele enrugou a testa. e a sua? —Isso é mais complexo.. —Para o senhor Yi Tien Cho. —Suponho que sim —sorriu. essa é a opinião geral da tripulação. Meu breve trato com a tripulação do Artemis tinha me demonstrado que os marinheiros. do Império Celeste. mas. Sassenach —explicou esticando a mão direita para frente.. —Bem. —Bem. O que fica no meio? —O que? —perguntei surpresa. —Jamie esboçou um sorriso irônico. —Mas que relação tem isso com. Sassenach. Começava a compreender a hostilidade geral que cercava o pequeno chinês. sem dúvida porque passavam boa parte do ano sem companhia feminina. na China. —Assinalou delicadamente ao senhor Willoughby com a cabeça. —Supõe-se que desse modo os pés permanecem pequenos e um tanto elegantes..

— comecei. carregando seu mosquete. coberta de vermes. —Mas recordo-me o que significa ter somente teu orgulho. Maitland e Grosman subiam com um grande tonel para a coberta. isto é.—Verdade? Tu também? —Oh. A tripulação se reuniu na coberta. A água turva tinha uma cor cinza mas divisei algo que se movia sob a superfície e o tonel se agitou. —Sim. —Pelo cheiro. então se crêem grandes e se comportam como gigantes. —Mesmo lhe salvando a vida. que é isso! —exclamei cobrindo a cara com um lenço. o mosquete disparou com um pequeno rugido deixando uma nuvem de pólvora e um grito geral. Joe Abernathy tinha sido da mesma importância para mim. Na realidade. Mas me interromperam uns gritos provenientes da cozinha. —Por Deus. um cheiro horrível me invadiu o nariz. —Tubarões! —explicou com uma cintilação nos dentes. — Que estão olhando? Que dois de vocês joguem esta porcaria fora! Pouco depois. . alguém o mataria de uma vez ou o jogaria ao mar qualquer noite. —Jura? —Pus uma mão sobre a de Jamie. creio que isso significa huang-shu-lang. Naquele momento apareceu Manzetti. A meu lado.—Que encanto! —Que diga o que quiser. Sou um sujo e fedorento gwao-fe. —Inúteis! —gritou o irlandês. Maitland e Grosman atiraram o tonel ao mar. Cheiro como uma doninha. dando-lhe trabalho e proteção ele te xinga e te tem por um bárbaro ignorante — comentei. —Ele te disse tudo isso? —Não notaste que os homens miúdos são capazes de dizer qualquer coisa quando o álcool os domina? Creio que o conhaque lhes faz esquecer seu tamanho.. —Quando está sóbrio é um pouco mais circunspecto mas isso não muda sua maneira de pensar. sou o único que o compreende.. Quando meus olhos deixaram de lacrimejar distingui uma mancha parda que se espalhava em torno do tonel. sim.. e um amigo. um pequeno marinho italiano. atraída pelos gritos de Murphy. e tenho cara de gárgula — concluiu com alegria. Estava cheio de carne podre. talvez não deixe de compreendê-lo —admitiu baixando os olhos. que seguia escrevendo... —Bem. Ao lembrar o que tinha me dito Innes. perguntei-me se o manco teria sido seu amigo em outros tempos.. —São muito gostosos. no hospital. Falta-lhe saber que. Olhou ao senhor Willoughby. se não fosse por mim. um demônio estrangeiro. um cavalo morto faz bastante tempo —disse Jamie.

Quando chegaram. O bote mal se divisava entre os adejos. Manzetti. uma ruidosa nuvem de aves marinhas. Meu grito de espanto coincidiu com um rugido de surpresa de Murphy: Jamie tinha caído justamente junto ao chinês.—Não serve — disse Manzetti baixando o mosquete. —Por minha avó. a pouca distância do bote. Foi um caos: os homens do bote tinham visto o que . —Fígado em iscas! Farei sopa com as nadadeiras e gelatina com os olhos embebidos em xerez. Mas ali estava. subiu ao balaústre. com a cabeça barbeada reluzindo no água e brigando com uma ave enorme que agitava a água com as asas como se fosse uma batedeira. O senhor Willoughby não soltava a ave. que dentes! —confirmou Jamie impressionado. ajoelhado na proa. —Bisteca de tubarão com mostarda! —uivava. arrastando para o barco a massa forcejante de ave e homem. — Poderíamos baixar um bote. Jamie o olhou com os olhos fora de órbitas. —O cozinheiro golpeou a borda com a perna de madeira— Eles já me provaram —disse—. e terás uma garrafa de conhaque! —Trata-se de uma questão pessoal. Antes que eu pudesse mover-me. um tubarão foi enganchado e erguido à pequena embarcação. depois de tremendas convulsões. senhor Murphy? —perguntou Jamie em tom cortês. O capataz deu uma ordem a gritos e se lançou um bote onde iam o italiano com seu mosquete e mais três homens. —Me agradaria comer um bom bocado de tubarão — disse a pouca distância a voz do capitão. Traz-me um desses bastardos. —De pouco lhe servirão — disse Murphy sorrindo com selvagem gozo — quando lhe meterem uma bala nesse maldito cabeção. o tonel tinha se convertido nuns bocados de madeira ao redor dos quais se debatiam os tubarões e. Alertado por meu grito. mas eu também já comi uns quantos. Teve gritos e exclamações na coberta e um grito agudo de Marsali. Não sabia se Jamie queria resgatá-lo ou estrangulálo até que o vi impulsionar-se com enérgicos pontapés. Ninguém o tinha visto saltar do balaústre. seu braço cingia o pescoço do chinês. os gritos das aves impediam ouvir qualquer coisa que não fossem os gritos do senhor Murphy. —Ou é puro interesse profissional? —Ambas coisas. por cima. ambas coisas. Gritos de triunfo no bote e um círculo vermelho intenso que se estendia no água. De repente. —Você viu? —perguntei assombrada. pois todos tínhamos os olhos postos na caçada. senhor Picard. um focinho afiado emergiu apoderando-se de um pássaro e desaparecendo sob a água. um segundo depois. equipados com ganchos e cordas. A cabeça vermelha de Jamie emergiu junto à do senhor Willoughby. —Muito longe. apontou com seu mosquete deixando escapar uma nuvem de fumaça negra. senhor Fraser. Foi então que vi o senhor Willoughby. malditos bastardos! Manzetti.

—Que pretendia? —estranhei-me. tenho-os colados! Não posso tirar! Puxou os cordões. voltou-se da escadinha. Podes secar-me as costas. Jogaram-se cordas por ambos lados. Não prestou a menor atenção a Jamie nem aos insultos que lhe dirigia. Tirei-me o xale para pôr em seus ombros e procurei ao senhor Willoughby com a vista. os tripulantes corriam de popa a proa. Provavelmente foi arrastado por algum vendaval. Será para comer? Murphy. —Onde há uma faca? O mais parecido era um abridor de cartas de marfim. —Atchim! —disse sem alento. Sassenach. soltando-me para arrancar as calças—. —Está bem? —Ajoelhei-me ao seu lado para secar-lhe o rosto com a saia. gargalhando. não importa como o cozinhe. Sassenach. tenha cuidado! De nada te servirá tirar-me as calças se me castrares! .. que afugentava a todo mundo. Acompanha-me. soando-se o nariz com as mangas da camisa. —Deus —repetiu incorporando-se. Jamie sacudiu a cabeça. Jamie começava a tremer. Esses idiotas do bote remavam para nós com todos os tubarões atrás. talvez só queira as plumas para escrever. —Bem. —Os pelicanos não são comestíveis —assegurou mexendo a cabeça. —Temia que me devorassem. mas a água lhe impedia desatar o nó. dando débeis rabadas. Deu-se meia volta e se foi. Suponho que sua intenção era prender esse pássaro mas ignoro por que. Por fim. As frias gotas que caíam de seu cabelo molhado me correram desde os ombros até o peito. nervosos. —Preferiria que conservasses as duas coisas —disse. As duras curvas de suas costas despediam calor sob a tela da camisa empapada. um jovem pelicano quase tão grande como ele. —Massageou suavemente as panturrilhas. —Por Deus. O pequeno chinês seguia aferrado a sua presa. —Tem gosto de maresia. Não sei que estavam fazendo por aqui: são aves costeiras. —Talvez seja muito sensível. sem decidir-se entre ajudar no resgate ou na captura do tubarão. —Uma faca! —pedi. São bastante torpes. —O senhor Willoughby me refiro. —Deus ben. Parece-me inclusive pior do que perder a vida. Espirrou. Sua boca ardia de paixão.passava a pouca distância. ao escutá-lo. Jamie e sua carga foram içados por estibordo e suspensos à coberta enquanto o tubarão capturado subia por bombordo. Por Deus. —E eu que sei. Voltou-se com um grito. gotejando água e protegido do castigo físico pelo bico de seu cativo. os condenados. mas sempre me aterrorizou a idéia de perder uma perna. Trinta segundos depois estávamos em seu camarote. dito —ofegou Jamie baqueando como um pescado. Sassenach. Jamie se levantou rindo..

A ave o observou com audácia. levantou-me as saias e me separou as pernas. No dia seguinte descobrimos para que o senhor Willoughby queria o pelicano. e de mim a Jamie. como se erguesse as orelhas ao ouvir seu nome. dizendo-lhe algo em chinês. Não emitiu nem uma queixa. O pássaro me fincou seus olhos amarelos e redondos. . —Olhe. não? Não é questão de que pegues um catarro. sem mover-se. tinha-lhe atado as asas ao corpo com uma tira de pano. —Aprazível. Deteve-se na porta e fincou em Jamie uma olhada pensativa. Dizem que é perigoso esfriar-se depois de um grande esforço. chasqueando o bico como advertência. tirou o punhal brandindo com um gesto triunfal. Innes. —Se assim fosse. Não disse nada. chamou-me por senhas sem afastar os olhos do perigoso bico. Levantou-me em desequilíbrio para tombar-me entre papéis enrugados e plumas espalhadas. Foi rápido e fundo. ao menos morreria feliz. —Para que não se resfrie. —Espera! —sussurrei—Vem alguém! —Muito tarde —disse sem alento. Dois minutos depois se abriu a porta do camarote. eu morro. decorosamente sentada na liteira. com o ave pousada num baú. —Poderia dizer ao senhor Murphy que te prepare um pouco de caldo. surpreso. Mordi-lhe o ombro com força. saudou-me com a cabeça e se inclinou para retirar uma garrafa de conhaque escondida sob a liteira de Fergus. Me possuiu com um rápido e implacável impulso. Pouco depois. Comecei a rir. tinha gosto de sal e pano molhado. ainda que úmida e desalinhada. com a camisa molhada colada ao corpo e o rubor que ia apagando pouco a pouco. Encontramos ele na coberta de popa. Innes passou lentamente os olhos: da escrivaninha revolta até mim. Desprendeu-o para mostrá-lo ao pelicano. Jamie penetrou uma e outra vez e terminou com um profundo gemido triunfal. Abriu-lhe o bico e lhe jogou o camarão ao bucho. —Se não o fizer. afogando os gritos em sua camisa sem que me importasse quem pudesse entrar. Dois embates. Mac Dubh. —Hao-liao —aprovou o chinês acariciando-lhe a cabeça. O pelicano. as calças empapadas jaziam no solo. —Ping An —disse assinalando ao pelicano. Willoughby estava retirando um fio em cujo extremo se debatia um pequeno camarão. —Verdade? Que vai fazer com ele? —Vou ensiná-lo a caçar para mim — explicou o chinês como se tal coisa fosse possível.Aqui está! —Revirando no caos de sua liteira. Ao ver que estava sendo observado. engoliu convulsivamente. A ave ergueu uma crista de plumas brancas. —É para o chinês —me explicou. que se tinha sentado num banquinho. Rodeei-lhe as nádegas com as pernas. três.

Quando o teve novamente a bordo conseguiu convencê-lo. que o olhava boquiaberto e tirou uma pequena faca para abrir o peixe. Ao emergir à superfície com ar de leve surpresa. o senhor Willoughby tirou outra tira de pano suave de algum canto de sua vestimenta e cingiu um extremo ao pescoço do ave. De repente. desceu para os camarotes. sacudiu a cabeça. remontando-o como se fosse um cometa. se lhe permitia voar livremente. O senhor Willoughby dedicou um sorriso cordial a Picard. como disparado por uma besta. Quando o tempo o permitia. —Meu. O vento a içou num redemoinho. fora de sua vista. A tripulação. três vezes e se pôs em pé para aproximar-se do balaústre. levantou vôo até onde lhe permitia o fio e se esforçou para elevar-se mais ainda. que Ping An pegou de boa vontade. O senhor Willoughby não parou a contemplá-lo e. Resignado começou a voar em círculos. impressionada pela pesca e desconfiando do grande bico de Ping An. duas. com o colar posto mas sem fio que o segurasse. o pelicano pregueou as asas e mergulhou. Surpreendido pela inesperada liberdade. girava lentamente na coberta. o senhor Willoughby começou a rebocá-lo. limpando calmamente o sangue e as escamas na perna das calças. —Não quero enforcar — disse —Mas não engole peixes. Todos os tripulantes interromperam suas tarefas para observar a cena. vesgo pelo sol. Por fim se levantou para o céu com uma explosão de plumas. Depois de pescar e fornecer ao pelicano vários camarões a mais e um par de peixes pequenos. debatendose uma ou duas vezes.Olhei. Eu não podia ler aqueles caracteres mas o aspecto resultava muito agradável aos olhos. Com a ave presa sob um braço. soltou bruscamente a atadura que sujeitava as asas do animal. Contemplava com expressão satisfeita a página finda. para que entregasse sua pesca. . Uma semana depois o pelicano estava completamente domesticado. com um suspiro. Suave. pregueou a folha uma. Por fim permitiu que seu captor metesse cautelosamente a mão no bucho e extraísse um formoso atum. Ao voltar junto ao seu amo deixava a seus pés os pescados reluzentes que trazia na pança. —Assinalou com a cabeça a metade do peixe que tinha deixado sobre o baú. mantinha-se longe do senhor Willoughby. delicadamente. Atou ao colar um fio e. afrouxou o colar com a outra mão e lhe ofereceu um bocado ainda palpitante. Ping An. Por fim. o chinês seguia enchendo páginas junto ao mastro. com certa dificuldade. —Seu — explicou o chinês. submergindo-se na água quase sem chapinhar. o pelicano se cambaleou pelo baú. depois de indicar-me por senhas que me distanciasse. voltando as costas ao balaústre. Com as mãos estendidas para a água a deixou cair. Um dia me detive a observá-lo. sob os benignos olhos amarelos de seu novo amigo. o aprazível. O senhor Willoughby.

voltou-se para o senhor Willoughby. Quando a maioria das histórias já eram conhecidas pela tripulação. tivesse deixado de fazer os devidos sacrifícios.. Então chegaram maus ventos que semearam em meu jardim as sementes da desgraça. concordou em narrar como tinha abandonado sua pátria. —Desde muito jovem demonstrei certa habilidade para a redação. Cresci rapidamente. dotado para a redação. —Por que foste embora da China. a tripulação se reunia depois do jantar no castelo de proa. Maitland. Ante a insistência. Ainda que ao princípio se fez rogar. a toga de seda azul dos eruditos com a insígnia de meu cargo no peito e nas costas um feng-huang. —Nasci em Pequim. Pode ser que tenha recebido a maldição de um inimigo ou que. com a única condição de que Jamie atuasse como tradutor pois seu domínio de nosso idioma não era adequado para a ocasião. . cínico. ainda que não esquecia a reverência a meus antepassados. onde cantavam e dançavam ao compasso de um violino ou se dedicavam a narrar episódios. mandarín da Casa Imperial. —Cristo! —sussurraram muitos com indignação. sobre esta.. os dias se tornavam mais cálidos. o chines pareceu lisonjeado pelo interesse que levantava a questão.. o marinheiro. me tinha outorgado uma esfera de coral vermelho para usar no chapéu.. Vestia uma túnica de seda bordada com muitas cores e. nunca deixava de visitar sua tumba uma vez ao ano. mandarín de letras.CAPÍTULO 45 A HISTÓRIA DO SENHOR WILLOUGHBY Conforme avançávamos para o sul. uma ave de fogo. atendendo de boa vontade. Cidade Imperial do Filho do Céu. sentou-se junto a ele com a cabeça inclinada para escutar. em minha arrogância.. de tal modo que. Willoughby? —perguntou-lhe com curiosidade. —Assim chamam ao seu imperador — me sussurrou Fergus. —Eu era mandarín —começou a traduzir Jamie—. —Creio que se refere a uma fênix — explicou Jamie.. o qual me instalou em sua casa e supervisionou minha educação. o mais provável é que o Filho do Céu o fizesse lançar ao rio quando lhe esgotasse a paciência —murmurou Fergus. Meu esposo. —Se suas redações eram sempre tão longas. antes de cumprir os vinte e seis anos. Foi bem como meu nome chegou a ouvidos de Wu-Xien.

O chinês assentiu. —É um grande festival. —Era uma oportunidade de progredir. pensava muito nas mulheres.. mas com mais freqüência para a Mulher em si. Mas o chinês se interrompeu puxando a Jamie pela manga. não? O senhor Willoughby compreendeu a pergunta. para servir dentro da Casa Imperial há um requisito: todos os servidores das esposas reais devem ser eunucos. durante o qual a gente sai à rua. eu teria uma grande casa própria dentro das muralhas do palácio e uma guarda de soldados para que escoltassem meu palanquim. A voz de Jamie retomou ao relato. Era uma mulher muito poderosa. chérie —lhe assegurou Fergus rodeando-lhe os ombros com um braço. mon ami? Eu teria feito o mesmo. E dirigindo-se ao senhor Willoughby com a maior simpatia: — Então fugiste.— Qualquer fosse a causa. ainda que seja uma triste debilidade. a Segunda Esposa do Imperador. —Era uma desonra de minha parte recusar o pedido do Imperador. pois quase todos os marinheiros são uns loucos românticos. de todas as mulheres em geral. Justo depois do escurecer. —Sim —continuou através de Jamie—. senão por Mulher. Não tinha perigo de que os guardas reparassem em mim. a solicitação foi aprovada imediatamente. satisfeito. —O que é um eunuco? — perguntou Marsali. minha poesia chegou aos olhos de Wan-Mei. Todos meus poemas foram escritos para a Mulher: as vezes dedicados a alguma em especial. —Fugi na Noite das Lanternas —continuou o chinês. estava apaixonado por uma mulher. O comentário provocou um suspiro de entendimento. pois dedicou a Gordon um gesto afirmativo e continuou. quando pediu que fizesse parte de sua casa. —Nada que deva preocupar-te. em sua graça e sua beleza. É assim? —perguntou olhando ao seu amigo. Meu nome seria escrito em letras de ouro no Livro do Mérito. —E o que tinha de mau nisso? —perguntou Gordon inclinando-se para frente com muito interesse. Falavam do sabor de damasco de seus peitos e o perfume cálido de seu umbigo ao acordar no inverno. do calor desse montículo que te enche a mão como um pêssego partido. —Oh. tampou com as mãos os ouvidos de sua noiva mas o resto da audiência se mostrava muito receptiva. —Oh. »No entanto. como lótus boiando ao vento. quando as procissões percorrem .. Fergus. sem duvida. —Não diz que estava apaixonado de uma mulher. pois tinha tido nada menos que quatro filhos. equivoquei-me —corrigiu meu marido. No entanto. escandalizado. desconcertada. a honra era inestimável. —Malditos pagões! Bastardos amarelos! —exclamou a tripulação horrorizada.

Uma vez na costa. —Os mandarins deixam as unhas longas. encontrei-me com um grupo de boticários que ia à feira dos médicos. —Enquanto estava tombado ali cortei as unhas —disse sacudindo o mindinho direito. que ia para Edimburgo. —Tinha-me esquecido das unhas —disse. Em troca de que lhes desenhasse estandartes para o posto e lhes redigisse etiquetas para exaltar as virtudes de suas poções. Ao princípio pagava por sua comida com a pequena quantidade de dinheiro que levava consigo.. As minhas tinham a longitude de uma falange. Continuou com um ar reflexivo que Jamie imitou com exatidão: —É estranho. próxima da costa. Alongou uma mão. ainda que lhe tenham poupado a vida. —A partir de então —disse—.. levando uma lanterna de papel anônima onde não figurava minha casa ou meu nome. Na casa onde entrei para tomar um refresco. No entanto. um servente as viu e correu a dizer ao guarda. —Eu exílio ou morto. —Tinha intenção de abandonar por completo o país? —perguntou Fergus interessado. Meus pais estão desonrados. pus-me as roupas de um viajante. Mas no dia seguinte estive a ponto de ser pego. meu meio de vida e meu país. mas foi meu amor pelas mulheres o que a Segunda Esposa viu e amou em minhas palavras. mas nas ruas de Lulong tropeçou com um bando de ladrões que. —Parece uma decisão desesperada. Não me refiro só à terra: ás ladeiras de nobres pinheiros. tiraram-lhe o dinheiro. possuir a mim e meus poemas destruiria para sempre o que admirava. escolheu o barco cujos marinheiros lhe pareceram mais bárbaros com a idéia de que com eles poderia chegar mais longe e escondeu-se no porão do Serafina.. . as tumbas de meus antepassados destruídas e já não há tocheiros que ardam ante suas imagens. para iludir aos seus perseguidores se escondeu numa vala úmida e permaneceu oculto entre o matagal. pequena e de dedos curtos com as unhas roídas até a carne. Yi Tien Cho fugiu. — O Imperador mãos muito longas —respondeu o senhor Willoughby suavemente. —Também não é essa a última contradição de minha vida. continuou cruzando lentamente o país para a costa. Emitiu um riso sufocado. nem à Tartaria. e abandonei a casa.toda a cidade. Abri-me passo entre a multidão sem dificuldade.. sem esperar a tradução. senão também à perda de minha própria identidade. pois tinha um “da zi” de ouro incrustado e não pude tirá-lo. aceitaram levar-me com eles. Por fim os ventos da fortuna mudaram. —Esta tive que arrancar. de inconfundível ironia. comia o que podia roubar ou passava fome. nem às grandes planícies do sul. é um símbolo que lhes distingue por não estarem obrigados a trabalhar com as mãos. onde passava meus verões. Por não renunciar a minha virilidade. perdi todo o resto: minha honra. Depois de roubar as roupas de um camponês postas a secar numa mata e deixar em troca uma unha arrancada com seu caractere de ouro. com seus rios cheios de peixes. no dia seguinte. um peregrino.

Jamie se levantou. rodeou os testículos e os sustentou contemplando o vulto com ar de profunda reflexão. uma sombra escureceu a entrada. CAPÍTULO 46 ENCONTRO COM O MASORPA Fazia um tempo que tinha a sensação de que Marsali estava reunindo coragem para falar comigo. E acredito capaz de responder-me com sinceridade. —Sim. com as sobrancelhas expressivamente arqueadas. Seus olhos negros brilhavam pelas recordações e o álcool. Ao levantar os olhos vi Marsali. Enquanto escrevia algumas notas em nosso camarote. Dava-lhe bom dia e lhe sorria com amabilidade. vim a um lugar onde não há uma só mulher digna de amor! Neste momento. O senhor Willoughby. entrou no camarote e se sentou no único banquinho disponível. oferecendo-me a mão para ajudar-me a fazer o mesmo. Por amor à Mulher. Ergui uma sobrancelha. está relacionado a bebês e a forma de tê-los. —As vezes —sussurrou para si mesmo — creio que não valeu a pena. cedo ou tarde: apesar do que sentisse por mim. Aqui as douradas palavras de meus poemas não são senão cacarejos de galinhas e os traços de meu pincel. Mas teria que ser ela a dar o primeiro passo. Vejo-me num país de mulheres toscas e fedorentas como ursos. Sua força moral bastou para arrancar-lhes um apático murmúrio de aprovação. vendo as expressões carrancudas dos marinheiros. —Tua mãe não te explicou? . inclusive sendo uma rameira.Verdade. —Bem. as impressões de suas patas no pó. Jamie interrompeu a tradução para acalmar ao chinês. moços? — perguntou olhando acima do ombro. Fiz o possível para colaborar. Num gesto desprovido de toda obcenidade. mas diz papai que você é uma mulher sábia. E estou seguro de que todos os homens aqui presentes teriam feito o mesmo nessa situação. —Preciso saber algo —disse com firmeza. compreendo. seguia com a vista perdida no horizonte. —Que precisas saber? Ao ver que não me aborreci. —Não gosto de ti e creio que sabes. Então o chinês introduziu a mão entre as pernas. eu era a única mulher a bordo. sem prestar atenção aos murmúrios nem aos olhares ameaçadores. Deixei a pluma.Perdi tudo. posando sua enorme mão no ombro coberto de seda azul. Estava segura de que assim o faria.

aos quinze.. isso pode ter algo a ver com Fergus mas continuo sem entender. ainda que já sem hostilidade.. desde que era um menino. —Por que? Franziu os lábios com ar pensativo. Sabe onde nasceu. claro. sim.. —O membro. —E daí. —Ah. Mordi a parte interior do lábio. De repente compreendi sua cautela. um ano pode parecer muito tempo. depois sua expressão voltou a endurecer-se. o que tem isso com o fato de não querer um bebê? —Quero que ele goste de mim — disse sem rodeios. então estas sabendo. perguntando-me onde nos levaria esta conversa. E ele respondeu que também me amava mas que minha mãe não permitiria jamais essa aliança. —Mas não posso. graças a papai e a suas malditas idéias. —Compreendo.. se ser francês . —Não quer ter filhos? Quando estiver devidamente casada. Ele te contou? Assentiu com a cabeça. enlaçando as sobrancelhas loiras com um gesto feroz. —Foi quando lhe disse que o amava. Bem. —Fergus vos tem carinho. O que quero saber é como evitá-los. nove meses depois o pagas muito caro. —Por Fergus.Respirou fundo com impaciência. — O prostíbulo de Paris? Eu sei. Ela relaxou subitamente. Eu lhe perguntei por que. Marsali me olhou com desconfiança. —Pela cara lhe cruzou uma expressão fugaz. como Fergus. —Ah. Se tivesse o cabelo escuro.. —Isso qualquer idiota sabe! Se deixas que um homem te ponha o membro entre as pernas. Ainda não dormimos juntos. —Bem —sussurrou lentamente. —Eu também a ele —respondi com cautela. —Conheço-o há muito tempo. —Faz muito tempo. Quase todas as jovens querem filhos. talvez queira mais adiante. na festa de Ano Novo. retorcendo um pedaço de seu vestido —. A única coisa que podemos fazer é beijar-nos de vez em quando por trás das escotilhas.. —Observei-a com interesse.

Quando os ingleses o levaram eu tinha só três anos. —Quando sangrei pela primeira vez. Entre as sobrancelhas apareceu uma pequena ruga.. Eu lhe perguntei que maldição era essa e ela leu um trecho da Bíblia. Mas recordo sua relação com. parece bom.... Marsali passou a língua pelos lábios.. —Como muitas outras coisas —assinalei.. —Tratou de afastar-se de mim e disse que não voltaria a ver-me. Nem todos podemos ser escoceses. Ele diz que sabe como atuar e que me agradará. continuou: —Imaginei que era porque mamãe tinha tido filhos e sabendo que era horrível. secos pelo ar marinho.. Talvez era algo que lhe fazia na cama. Mas minha mãe me disse outra coisa. as mulheres eram sujas pecadoras por culpa de Eva. Tinha uma expressão incrédula no azul de seus olhos. Esperei sem dizer nada.. Me disse com cara de tristeza. Mas não é Fergus o que me preocupa. não lhe agradava que a tocasse. fora a que fosse. com Jamie. mas ainda podem salvar-se mediante o sofrimento e a maternidade. digo. Com a vista fixa no jarro de água. o senhor Murray tem uma perna de pau e mamãe lhe tem muito carinho. . Foi sua atitude. —Já não lembro meu pai. mamãe disse que eu já tinha idade para casar. Mas quando tratava de abraçar a mamãe. Que a obrigação de toda mulher era fazer a vontade de seu marido.. —Encolheu-se de ombros. não queria deitar-se com.. Não estava habituada a chamá-lo por seu nome. exceto na primeira vez. —Talvez tenha pensado que me incomodaria —disse de modo estranho. Disse-me que tinha nascido num bordel e que foi batedor de carteiras até que conheceu a papai. —Bem. verdade? E não acreditava que o fato de sua mão importasse muito. Bebeu um gole e me olhou de frente.. —Não importa. Estava corada e com os olhos baixos. Tive a sensação de que essa obrigação. Aproximei-lhe a jarra de água. Continua. agradando ou não.. Segundo São Paulo. me agradeceu com a cabeça e encheu uma xícara. No entanto. —Pap.não era tão mau. — O que ela te disse? —perguntei fascinada. não é o que disse. —Nunca tive muito boa opinião de São Paulo — comentei. Mordeu novamente os lábios. ainda que quando soube de Fergus disse que me faria coisas horríveis por ter vivido com rameiras e por ser o filho de uma. —Fiz-lhe mudar de opinião. Mas me contestou que não era por isso e me contou tudo sobre Paris.... com Jamie por medo a que lhe sucedesse outra vez. Interrompeu-se com um suspiro. ela me indicou o que devia fazer e me disse que era parte da maldição de Eva. —Bem. —Mas está na Bíblia! —exclamou horrorizada.. Jamie. Depois de tudo. quando estavam sós. A Joan e a mim sempre nos tratou bem. ela o evitava como se tivesse medo dele. nunca vi lhe fazendo nada mau. era horrível e somando a do sofrimento e a maternidade.

Soltou um rosnado satisfeito. —Bem. Não esteve com outros homens enquanto viveu na França? —Isso não te diz respeito —repliquei com firmeza.? —Variados. talvez com mais aspereza necessária. Claro: você não teve filhos. algumas mulheres podem ficar diferentes sim. surpresa.. —Quanto ao parto.. Levantei os olhos de minha caixa de primeiros socorros. isso não mudou as coisas? Hum! Claro que passou muito tempo. mas nem todas. Inclinou a cabeça para um lado estudando-me. —Pegue para mim por favor uma caixinha que há nesse armário. De qualquer modo. —E ele a conhece? —perguntou Marsali. —Hum! E voce gosta que a toque. e parecia que a agradava o que estavam fazendo na cama. a maioria nem sempre funciona — reconheci sentindo falta de meu bloco de receitas e a confiabilidade da pílula.. —Agradava-me. —Essa. E não é —adicionei. Respirei fundo. —Eram seus.. na realidade tive filhos. fico com Fergus. mas é perigoso e não muito confiável. há bons motivos para que não tenhas filhos de imediato. —Mesmo tendo filhos. sem poder falar. antes de que me descobrissem. —Me agradaria ter um filho —admitiu—. —Papai nunca me disse que tinha filhos. Assim não terei bebês.. bem.. sim—balbuciei. se me explicar o que devo fazer. —Há algum modo. sim.. perguntando-me por onde começar. —Da vossa filha. —Que triste — sussurrou ela levantando os olhos. —Assinalei. Jamie o sabe? —Claro —respondi com dureza. . mas se é preciso escolher entre o bebê ou que me agrade a ficar com Fergus. —Sente sua falta? —perguntou Marsali bruscamente.. Infelizmente.—Vi você com papai —disse. E. —Verdade? E pap. Eu vi. E me disseram que é possível não os ter. já que é uma mulher sábia. Nossa segunda filha já é uma mulher. ainda que ninguém sabe muito bem como. —Bem. —A primeira morreu. nasceu depois de Culloden. Mas você deve saber. —Provavelmente porque não acreditou que fosse assunto seu. As parteiras francesas costumam preparar um chá de bagas e valeriana.. —Só por um momento. Neguei com a cabeça.. Está sepultada na França.

mais ou menos a metade de nossos homens. —Esta é a quantidade de azeite que deves usar. —Que podem querer de nós? —perguntou Jamie ao capitão. com três mastros e toda uma selva de cordames e velas. pôs fim a nossa conversa. Deve descer.. mas já é adulta e tem uma vida própria.Pela falta de expressão em sua face. observando um grande barco que se aproximava.. Em sua cara gorducha tinha uma expressão triste. —Podem alistar a todos nossos tripulantes de origem britânica. —Que barco é? —Uma canhoneira britânica. —Não —respondeu Jamie carrancudo. Saí para o corredor.. Marsali assentiu com os olhos dilatados. Setenta e quatro canhões.. indício de que acabavam de disparar um tiro de canhão. Faça isso inclusive na primeira vez.? Um grito urgente. . cortei com cuidado vários pedaços de uns sete centímetros de lado e voltei a revolver o conteúdo da caixa até encontrar o frasquinho de azeite de atanasia. —Só fizeram um disparo de advertência. isso é evidente por suas velas —assinalou sem tirar os olhos da canhoneira que se aproximava. —Sim — respondi singelamente—. —Estão escassos de tripulação. Era uma má notícia. submerge a esponja em vinagre. em caso de necessidade pode usar até o vinho. depois? Retiro ou. inclusive voce. suspeitei que a pergunta estava mais relacionada com Laoghaire que comigo. as relações entre ambos países não eram nada cordiais. Ante os olhos fascinados de Marsali. a não ser que prefiras se fazer passar por francês. Raines mexeu a cabeça.. Ainda que a Grã-Bretanha já não estivesse em guerra com a França. —Disparam contra nós? —perguntei assombrada. —Com este vento e em mar aberto não poderíamos escapar. roçando a esponja com o indicador.. Querem abordar-nos. acompanhado por uma súbita chacoalhada do Artemis. com um dos bisturis. enfie o pedaço de esponja bem lá dentro. Sassenach. —Te explicarei depois — disse entregando-lhe a esponja e o frasco. —Podem —disse ele. —Sim? E. Se não tiver azeite. Algo estava sucedendo. Retirei da caixa um grande bocado de esponja esterilizada e. senhor Fraser. —E podem fazê-lo? —Minha pergunta estava dirigida ao capitão Raines. Jamie estava com o capitão na coberta de popa. entre as quais umas pequenas figuras negras saltavam como pulgas. embebi gentilmente um dos pedaços. Com uma só vez pode ficar grávida. Depois de seu rastro boiava uma nuvem de fumaça branca. Era três vezes maior que o Artemis. Antes de ir-te para cama com um homem.

—E se o fizerem seremos nós quem teremos muita dificuldade para chegar a Jamaica.. —escaparei. — Dedicou-me um breve sorriso. e talvez não. Mas creio que. Caso se apoderem de nós.. —Não levarão nem Innes nem Fergus —me disse. Um oficial com jaqueta dourada e chapéu desceu por um lado. Sassenach —assegurou com suavidade. —Eles te ajudarão a procurar ao jovem Ian. Quando o bote se deteve ao nosso lado. Não posso permitir que levem meus homens e ficar aqui.—Maldita seja. por agora. —Se alistarem aos marinheiros britânicos — perguntei ao capitão —. Pelo amor de Deus —suplicou com a voz rouca—. —Não importa. que representava um boto. Estavam baixando um bote. Nela tinha um jovem de uns vinte e poucos anos. vi que o capitão Raines arcava as sobrancelhas num gesto de estupefação. barco de Sua Majestade. —Não te disse para descer? —Sim. —Deus nos ampare! Que significa isto? —murmurou baixo. o que será deles? —Terão que servir no Marsopa. com a tripulação reduzida à metade. sabendo que era inútil. capitão suplente do Marsopa. vá à casa que Jared tem em Sugar Bay e inicie a busca. abatido e com os ombros curvados pela fadiga. —Mas poderias passar por francês! —protestei... Assim se chama — explicou assinalando o mascarão de proa. de um modo ou outro.—Nos encontraremos ali. nosso sobrenome deve ser Malcolm. —Talvez os deixem em liberdade quando cheguem ao porto. — conjurou Jamie baixo e me olhou com o cenho franzido. com os olhos fixos na canhoneira.. —És o capitão deste barco? —O inglês tinha os olhos vermelhos pelo esgotamento mas distinguiu a primeira vista a Raines entre a cara fechada. escondendo-me sob um sobrenome francês. disse — confirmei sem mover-me. tens um cirurgião a bordo? . —Como? Podem seqüestrar os homens e obrigá-los a servir-lhes durante o tempo que se lhes convenha? —Sim —confirmou o capitão. Jamie me segurou pelo cotovelo. —Sou Thomas Leonard. O uniforme lhe ia muito grande.. Aproximei-me mais a ele. — Mas. Ia alegar que os contrabandistas escoceses não eram «seus homens» nem tinham direito a tanta lealdade mas calei. —Não.

capitão —disse Jamie com firmeza—. boquiaberto.. —A metade da tripulação está enferma —disse limpando-se uma gota de carmim do queixo sem barbear. capitão — confirmou Jamie com suavidade. —O capitão e os dois oficiais principais morreram a semana passada. Eu sou o terceiro oficial. frente a um copo de vinho do Porto oferecido com desconfiança. —Que sintomas apresentam vossos homens? —Você? — jovem capitão voltou. Além disso. aconselho responder a suas perguntas e obedecer suas indicações. a cabeça para mim. Leonard piscou e assentiu com a cabeça. —Minha esposa terá grande prazer em assessorar. o capitão Leonard explicou que o Marsopa padecia uma epidemia já fazia quatro semanas. que se mantinha em pé junto à escrivaninha. —Olhou com cara esperançosa ao capitão e a Jamie. mas temo que não possa ir a vossa embarcação. Leonard avermelhou-se um pouco. senhora! —Desculpou-se subitamente acalorado. —Não —repetiu Jamie. mas... —Eu sou a cirurgiã do Artemis. Sacudiu afirmativamente a cabeça.Em baixo.. E há os que botam sangue pela bunda. — Para estar segura deveria examiná-los.. vômitos e diarréias horríveis.. mas.. —Estás certo? —O jovem nos olhou a ambos desesperado. —Não tive intenção de ofender-vos.. —Se é ajuda o que procura. —Já perdemos trinta homens e corremos perigo de perder muitos mais. —Se tens a bordo alguém com experiência em questões médicas. Ao mesmo tempo eu respondia: . —Efetivamente.. —Alguns têm urticarias no ventre? — interrompi. —Vosso capitão morreu? —perguntou Raines. Isso explicava sua assombrosa juventude e seu nervosismo. capitão Leonard —disse da porta. Também o cirurgião e seu ajudante. Em mim começava a crescer uma sensação excitante: a de ter um diagnóstico confiável e os conhecimentos necessários para atuar. Oh. perdão. Os enfermos se queixam de dores de cabeça e lhes sobe muito a febre. —Creio saber do que se trata — o cortei. a doença começa com fortes dores de barriga. —Bem.. —Se pudesse ver meus homens. —Minha esposa tem a rara arte de curar.

. —Olhe. —Nos dê licença. —Talvez fosse conveniente que te acompanhasse. isso é tudo! A julgar pelo efeito. —Eu também fiz algum juramento uma vez ou outra. —Eu sei —disse respondendo ao que pensava. —Estás segura de que essa sua vacina funciona? —Funciona — lhe assegurei. Não se trata da peste. —Só crês que é tifo pelo que diz Leonard —objetou. —Estudei-lhe a cara para ver se me compreendia. —Não está segura de que se trate disso. Jamie ergueu uma sobrancelha. —Se ergueu com uma careta irônica. Por fim Jamie se pôs em pé. Eu. sim? —exclamou cético.. claro —comentou observando-me. Não vou cair enferma porque estou vacinada.—Como te ocorre pisar num barco onde há peste? Arriscar tua vida. —Não quero que faltes a ele. —Estão doentes e posso ajudá-los. Não estás vacinado e o tifo é muito contagioso..—Sim. —Te comprometes a ajudar a quem o solicite. é que. Solta o meu braço. —Não podes.. —Escuta. —Pegou-me a mão direita. pelas urticárias. —Assim se faz na irmandade dos médicos? —perguntou. estou quase segura de que é febre tifóide. tudo por um punhado de ingleses! —Não é a peste —disse esforçando-me. capitão Leonard? —E me retirou à força do camarote. Elevou-se a outra sobrancelha. —Ah. sou médica —insisti procurando as palavras adequadas. —Está bem — reconheceu lentamente. no anel de ouro se refletiu um raio de sol. —Mas enquanto se possa cumprir com um juramento sem causar dano a outro.—E não arriscaria a vida. a minha oratória parecia faltar-lhe eloqüência. —Quando me licenciei como médica fiz um juramento —expliquei. ainda que seja um inimigo? —Não há diferença se está ferido ou enfermo. tenho que fazer. evidentemente! Fez-se um silêncio incômodo... convidando-me a continuar. Suspirando. Apoiei-lhe a outra mão no peito.—Estás louca? —sussurrou sem soltar-me o braço. —Um juramento? Que classe de juramento? Fechei os olhos e repeti o que recordava do juramento hipocrático. inclinou-se para darme um beijo. E nunca os tomei às pressas. . a da tripulação e a do jovem Ian. maldito escocês! —Tratei de mostrar-me paciente. procurando o anel de prata— Alguns pesam mais do que outros.

—Fique tranqüilo. Tifo. como o transmitiam os piolhos. . Água fervida: isso é importantíssimo. Seu ocupante afastou a cara com um rosnado ao ver a luz. Febre. Estava aceso pela febre e sua pele queimava. já que o barco tinha zarpado da Europa e não do Caribe. tendia a estender-se rapidamente naquele tipo de alojamento fechado. —Colocarei a vosso serviço todos os homens sãos de que possa prescindir. Pareciam bainhas balançando-se pelo movimento do mar. Ao retirar a pálpebra. É preciso levar aos enfermos para cima.—Vou te ajudar. Tratava-se de algo muito contagioso que não era malária. A resposta não foi uma palavra. Dai-lhes as ordens necessárias. O moço. Aterrissei de forma brusca e escarrapachada e quanto me levantei me assombrou descobrir o tão sólida que era a coberta da canhoneira comparada com o bamboleante Artemis. Quando lhe apalpei o ventre se retorceu como uma minhoca no anzol. — o acalmei. iluminado por lustres de azeite que balançavam com o bambolear da embarcação.. —Faça-as—me interrompeu. Mas o principal é evitar que se contagiem outras pessoas. precisam de muita água. afasta essa luz! —ofegou. parecia assustado mas levantou seu lustre para que pudesse olhar dentro da rede mais próxima. —Preciso de mais luz —disse ao apreensivo guarda encarregado de acompanhar-me. Deixa que te examine os olhos. A ponte do navio era um espaço fechado. O fedor era insuportável. vômitos. senão mais um gemido afirmativo. Terá que fazer várias coisas. —É febre tifóide — informei ao capitão.. Aplicar-lhes panos molhados para baixar a febre. quase com toda segurança. —Bem —disse dando um olhar dubitativo ao meu redor.— Mas só há uma maneira de comprová-lo. lavá-los bem e deitá-los onde tenham ar fresco. —Mostra-me onde estão. é questão de atenção. mas não será fácil. —Sim? —Sua cara com olheiras estava cheia de apreensão. —Sente arrepios? —perguntei afastando a lanterna do guarda. com a cara coberta por um lenço. senhora Malcolm? —Sim. choques abdominais. —Sabe como solucioná-la.—Não —admiti. —Por Deus. por favor —pedi. dor de cabeça. Ajudaram-me a subir até a coberta do Marsopa por meio de um balanço suspenso na baixa da maré. logo se sentirá melhor. Sim. a pupila se encolheu ante a luz. as fileiras de redes ficavam sumidas na sombra e manchadas por remendos de luz. Os sintomas eram muito similares aos que via ao meu redor. Por mais. isso.

.. junto ao timoneiro. o Artemis ia ficando rapidamente para trás. Ao ver minha expressão retrocedeu um passo. —Isto significa que J. —Temo que se mostrou muito intransigente. . mas creio que precisamos de vossos serviços constantes. senhora Malcolm. De repente percebi o movimento do barco.. —De acordo —suspirei. Ainda que me esforçasse por demonstrar segurança. —Que está fazendo? —gritei—Maldito cretino! Que está acontecendo aqui? O capitão me olhou atordoado mas apertou os dentes com teimosia.. —Mas nada! —exclamei furiosa— Vire! Lance a âncora. temendo que o atacasse. Temos muita pressa em chegar a Jamaica e. não o conseguiria. —Ainda não! —respondi— Preciso de duas horas! Levantei dois dedos por se não me tivesse ouvido. lhe teria notado o rubor—Sinto muito. não foi assim. O capitão Raines e meu marido estão desejosos de seguir viagem. —Voltas já? —gritou-me. envia-me dez ou doze marinheiros sãos. Enquanto desci à cozinha para indicar ao pessoal as precauções necessárias com o manejo da comida. senhora Malcolm. Fiz pôr aos enfermos na coberta de popa e ordenei a minha equipe que lhes tirassem a roupa ensebada e os lavassem com água do mar..—Para começar. não.. —Devemos chegar a Jamaica imediatamente —disse. Saí precipitadamente e descobri uma nuvem de velas despregadas ao alto. fazendo buzina com as mãos. diabos! Não pode seqüestrar-me deste modo! —Lamento profundamente —repetiu—.. —Senhora Malcolm —manifestou seriamente o capitão: —vos estarei eternamente agradecido por qualquer ajuda que possa prestar-nos. mas. Aproximei-me do balaústre para agitar a mão para Jamie.. senhora — disse. Senti uma apunhalada de compaixão. mas vi de imediato que lhe apagava o sorriso: tinha-me entendido. Tirou do bolso um lenço nojento para secar a testa e o pescoço. —Não vos aflijais. Se não tivesse tido as bochechas irritadas pelo forte vento. a não ser que possa salvar ao resto da tripulação desta maldita doença.—Prometi a vosso esposo que a Marinha vos proporcionará alojamento na Jamaica até a chegada do Artemis. que o senhor Malcolm vos permitiu seqüestrar-me? —Em. —Como que prometestes a meu esposo? —interpelei. —O diálogo parecia resultar-lhe muito penoso. O capitão Leonard o olhava em pé.—Posso organizar o trabalho e explicar-vos como continuar mas a tarefa será árdua. Asseguro-vos que lamento atuar assim. nunca chegaremos.

—Foi o capitão do Artemis quem percebeu a força de meu argumento.. —Agora não tenho tempo — espetou o capitão.. condenado seqüestrador.—Ah. O jovem me observou com atenção mas me mostrei inexpressiva. aqui presente. Permiti que ficassem em troca de vossos conhecimentos médicos. eu sou como ele! —Dei um pontapé no solo. Apesar da minha fúria. não aceitou — replicou o jovem num tom bastante seco. Ah. senhora. tens um pouco de álcool a bordo? Mostrou-se surpreso. isso porque na descida poderia expor indecorosamente meus membros inferiores. —Está bem —disse entre dentes. Antes de ter posto um pé ao final da escadinha. —Diga isso ao primeiro oficial. bem! Não creio ter muitas opções. —Não! Não pode incomodar ao capitão! O que tenhas que lhe dizer. Tinha voltado a subir parte da escada para escutar melhor. —Terei que falar com o comissário.. —Talvez seja esta nossa única oportunidade. acima se ouviu uma confusão de vozes. —Portanto decidiste obrigar a mim a prestar serviço.. Devo aproveitá-la. —Tratei de afastar minhas próprias emoções e fazer-me cargo da situação. e me fazem muita falta. está seguro de conhecer alguém que ia naquele barco. mas a verdade é que estou desesperado —confessou singelamente.. O Artemis navega sob bandeira francesa e com documentos franceses e mais da metade da tripulação está composta por britânicos. estais muito equivocado! —Obriga-me a dizer o mesmo que a vosso esposo. Leonard fez manejos de descer as escadas mas se deteve abalado para ceder-me o passo. Tompkins.. Bastará isso? —Se não há outra coisa. —Não sucede nada. E meu esposo aceitou esse. Me dê todos os homens de que possas prescindir para esfregar o entrepiso. —Solta-me! Se não falo com ele agora mesmo e será muito tarde! —Stevens! Que significa isto? Que passa aqui? — disse Leonard com aspereza. Ao gigante ruivo.. Poderia ter obrigado a esses homens a prestar serviço aqui. —Sim. claro acompanha-me. senhor —disse a primeira voz. esse acordo? —Não. sua situação me inspirava certa simpatia.. —Se acredita que vou ajudar.. —Está. Me ocuparei depois desse assunto. Devo suplicar vosso perdão por esta conduta tão pouco cavalheiresca. —Álcool? Há rum para os homens e vinho. .. suponho. pois sim intransigente! Bem. —É que Tompkins. terá que bastar.. Diz que.. Abri a boca para contestar mas voltei a fechá-la. senhora Malcolm.

bolachas e um grande tonel de vinho Madeira mas não se pode utilizar. precisavamos instalações sanitárias adequadas. —Oh. por ordem do capitão. determinar quais alimentos se podiam proporcionar aos enfermos.. —Senhor Pound —chamei.—Vos restam abastecimento suficientes. por exemplo. senhor Pound? .—Temos seis cabras das que se ocupa a senhora Johansen. a esposa do artilheiro. Tenho muito que fazer. —O capitão não lhe disse? Levamos o novo governador da Jamaica. —Lhe cairá bem. fiz um rápido percurso pelo barco. um jovem baixo e robusto chamado Pound. teria que instalar ali aos enfermos mas alterando a distribuição das redes com o fim de deixar um amplo espaço entre uma e outra. Além disso. capitão? Terá que alimentar aos enfermos com muito cuidado. confiscando implacavelmente provisões e mão de obra. te levarei até ela. —Sim. O comissário pôs cara de surpresa. O mais importante era estabelecer a quarentena. Eram muito poucas. com a parte de minha mente que não estava ocupada por especulações inúteis. recomendando-lhe que me prestasse todos os serviços possíveis. Depois de resolvermos com o comissário. mas à medida que os homens comecem a recuperar-se precisarão de algo leve e nutritivo. —Porque essas provisões estão destinadas a nosso passageiro.. Quando acabassem de esfregar e ventilar o entrepiso. um pouco de café.. Poderia preparar uma sopa de pescado? Ou tens alguma outra coisa? —Bem. Quem seria esse Tompkins? A voz me era completamente desconhecida e seu nome também. —Quem é esse passageiro? —perguntei sem compreender. o capitão Leonard se retirou. —Se o governador não está doente. advertia com firmeza à tripulação que. Depois de apresentar-me ao senhor Overholt. a tripulação não afetada teria que dormir na coberta. —O senhor Overholt parecia intranqüilo. Suponho que não terá leite a bordo. Pound. sim temos leite —informou animando-se.. Com a ajuda de um guarda marinho. Sua cara redonda se voltou para mim do pé de uma escadinha. senhora? —Qual é vosso nome de batismo. —Durante os primeiros dias bastará alimentar-lhes com leite e água fervida.—Há uma pequena quantidade de figos secos. O que saberia de Jamie? Que ia fazer o capitão Leonard com essa informação? Agora só podia conter minha impaciência e. Moveu os pés. mas. Agora faça o favor de levar o vinho à cozinha. que trotava ao meu lado como um pequeno bulldog. meus desejos deviam ser satisfeitos de imediato por mais sem razão que pudessem parecer. —Por que? —inquiri. que coma carne salgada —disse com firmeza. cinco quilos de açúcar. atordoado. Sopa.

Elias? —perguntei.Mas quantos casos mais se estariam incubando entre o resto da tripulação? Por ordens minhas. tinham morrido durante o traslado para a coberta. ainda que ele o ignorasse. só a força física e o instinto cego. será mais cômodo que use seu prenome.. sufocado pelo esforço. o protocolo era o protocolo. parecia gesso. Fiz outra anotação em minha lista mental: devia ver à senhora Johansen. Para isso precisaria da ajuda de duas ou três pessoas às que pudesse treinar. senhora. Eu distava muito de ser incansável. com sorte e habilidade poderia salvar à maior parte. —Caminhava para trás. —Não é costume na Marinha. Dois dos homens. era de esperar que se tratasse de ferrugem) e um montão de frascos e jarras. arrastando um grande baú. o médico. —Consegui um posto neste barco graças ao meu tio. Pode levar ao entrepiso para outra pessoa. além da liderança de um chefe incansável. dias. mas seria necessário manter a ilusão. então. . na cozinha se estava fervendo uma enorme quantidade de água: de mar para a limpeza e doce para beber. senhora. minha mente tomava várias rotas. —Isto é o que trazia o senhor Hunter. não. Abriu o baú. estava planejando os passos a dar para combater a epidemia. talvez semanas de trabalho e esgotamento que nos desafiaria os sentidos. Ainda assim. Enquanto supervisionava a limpeza do entrepiso com água do mar fervendo. Outros quatro não passariam da noite. muito debilitados pela doença e a desidratação. Preciso que me acompanhes para falar com o cozinheiro. deixando descoberto uma variedade de instrumentos cirúrgicos manchados de óxido (ao menos. —Em público respeitarei estritamente os costumes da Marinha —lhe assegurei reprimindo meu sorriso — Mas se vamos trabalhar juntos. —Quanto tempo faz que navegas. atuariam como substitutos de minhas mãos e meus olhos. sabes? Elias Pound não podia ter mais de dezoito anos. Talvez incomode ao capitão —adicionou cauteloso. —Desde os sete anos. Vos servirá de algo? —Só Deus sabe —disse dando uma olhada. Em primeiro lugar. —Já veremos. dificilmente teria mais de vinte e quatro. a das cabras. o que tínhamos por diante: horas. É minha primeira viagem com o Marsopa. quanto ao capitão Leonard. —Ah. manteria em pé a quem se ocupassem dos enfermos. eles continuariam com a tarefa quando eu precisasse descansar.. para que também se esterilizasse o leite. Elias. Deteve-se para limpar a cara. senhora —respondeu um pouco desconcertado —Se incomodaria que te chama-se assim? Devolveu-me o sorriso com ar vacilante.—Elias. Os quarenta e cinco restantes variavam entre um prognóstico esperançoso e muito escassas possibilidades de sobreviver. Eu sabia. que é comandante do Triton. senhora. Um dos frascos tinha rompido deixando um fino pó branco sobre o conteúdo do baú.

Aquele dia tinham morrido quatro homens e apareceram dez casos novos mas no entrepiso se ouviam menos gemidos de dor. o que quer que seja. encerrava-se em seu camarote com um saquinho de sálvia e hisopo atado ao pescoço para afugentar a epidemia. Assumiu por si só a responsabilidade de moer pacientemente a bolacha dura e misturá-la com o leite de cabra fervida para alimentar com a mistura resultante aos enfermos que já estavam o bastante repostos para digeri-la.No entrepiso tínhamos acumulado todo o álcool disponível para profundo horror do senhor Overholt. O Artemis (e Jamie). Era uma sueca inteligente. —Vamos ver à senhora Johansen e às cabras. Por baixo da lista mental. Até o momento não tinha conseguido descobrir a fonte do contágio. Devia falar sem perda de tempo com o capitão Leonard. Podia ser utilizado em sua forma atual. não tinha provocado um giro para reunir-nos com o Artemis. a esposa do artilheiro. Consegui tê-los ao meu serviço e os pus a construir um destilador no que. Se conseguisse encontrá-la e impedir que surgissem novos casos. para horror da tripulação. Mas ia obtendo resultados. CAPÍTULO 47 O BARCO DA EPIDEMIA Dois dias depois ainda não tinha conseguido falar com o capitão Leonard. um objetivo comum. Na senhora Johansen. —Elias! —chamei sabendo que estaria ao alcance de minha voz. mas ou não estava ali ou não podia atender-me. mas tinha compreendido de imediato o que queria e se ocupava em fazê-lo. . Afastei de mim a súbita onda de solidão e pânico. Qualquer que fosse. Eu me sentia mais para cachorro pastor que para médica: passava o dia grunhindo nos calcanhares de todo mundo. Ou bem o capitão Leonard não o tinha tomado em sério ou estava muito desejoso de chegar a Jamaica para permitir que algo entorpecesse seu avanço. Fui duas vezes ao seu camarote. converteríamos o rum em álcool puro para desinfetar. de trinta e tantos anos. ainda que teria sido melhor contar com álcool refinado. encontrei inesperadamente uma aliada. Se Elias era minha mão direita. Na cara dos que ainda estavam sãos era apreciável o alívio que proporciona fazer algo. Existiria um meio para destilá-lo? Outra nota: conferir com o comissário. O senhor Overholt fazia o possível por evitar-me e para livrar-se de minhas insaciáveis demandas. Annekje Johansen era a esquerda. só falava umas poucas palavras entrecortadas em nosso idioma e eu ignorava por completo o seu. entre a tripulação tinha uma nova sensação de esperança. Ele tinha a resposta ao menos de dois dos problemas que me preocupavam: a possível fonte do surto de tifo e o papel do desconhecido senhor Tompkins nos assuntos de Jamie. Mas tinha assuntos mais urgentes. cada vez mais longa. Olhei pela borda com a vã esperança de distinguir uma vela mas o Marsopa estava só. já estava rouca pelo esforço. talvez pudesse deter a epidemia numa semana. tinham ficado muito atrás. pensava vagamente no misterioso Tompkins e sua informação. Entre a tripulação tinha dois homens condenados a alistar-se por destilar licores ilegais.

que tinham visto sua ração diária de rum reduzida à metade. rogo que me permitas conferir com o comissário. Poderia utilizar rum puro mas deve tratar de persuadir aos marinheiros de que não bebam o álcool destilado.. darei ordens de instalar uma mangueira para levar mais ar para baixo. Se tivesse algum modo de que entrasse mais ar fresco no entrepiso. senhora Malcolm — tinha sido a resposta do comissário ante a minha queixa —. os marinheiros são capazes de beber qualquer coisa: vinho avinagrado. Respirou fundo.... Malcolm! —exclamou esfregando-se a cara e sacudiu a cabeça para acordar-se. Ruthven diz que alguém está bebendo álcool puro novamente —Elias Pound apareceu junto a mim.. Detive-me no vão da porta. E assim era. E eu no meio. Apesar da barba um pouco crescida..? Em que posso servir-vos? —Não era minha intenção acordar-vos mas preciso de mais álcool. interrompi-me. quando recordou que seu garçom se encontrava prostrado no entrepiso.. —Na realidade.. —Sim. Malditos sejam! O oceano se estendia ao redor. Tranqüilizei-me e fui com decisão para o corredor de proa. senhora: de nada servirá dizer-lhes que o álcool puro os pode matar. Tivemos outro caso de envenenamento.. O primeiro caiu ruidosamente ao solo acordando de um sobressalto ao capitão. seu aspecto era juvenil. —¡Senhora Fra.. Se sobrevivessem. agora a outra metade quer matar-se com o álcool. —Como se não fosse suficiente tratar de salvar do tifo à metade destes azarados. com olheiras e pálido. Para frente as Antilhas. Quanto ao álcool. Então se ouviu o tilintar do sino. sua cara redonda tinha afinado notoriamente pelo trabalho. pêssegos triturados e fermentados dentro de uma bota de borracha. estavam tão desesperados pela bebida que. tanto pelo devotado atendimento de sua esposa como por sua robusta constituição. com seiscentos marinheiros ingleses enlouquecidos pela falta de bebida e um entrepiso cheio de intestinos inflamados. o mais provável era que sofressem lesões cerebrais permanentes. completamente deserto. viver num inferno flutuante como este deixaria lesões cerebrais a qualquer um —me queixei amargamente a uma andorinha que tinha pousado no balaústre. Ainda não era meio dia mas o capitão dormia com a cabeça apoiada nos braços. —Compreendo —disse com ar estúpido enquanto se ia despertando. —Que. Dei a volta com intenção de regressar mais tarde. O capitão Leonard teria que falar comigo. se as engenhavam para apoderar-se do álcool destinado à esterilização. agora mesmo não conheço o estado de nossas provisões. Ao fazê-lo rocei um montão de livros mau empilhados num armário. Vendo que o constrangia. Já tinha morrido um dos quatro que tinham bebido e outros dois estavam num canto separado no entrepiso em estado de coma profundo. eu tinha todas as esperanças de que se recobrasse. Jamie e o Artemis tinham desaparecido fazia tempo.. de um modo ou outro. como se preparasse para gritar. até soube de um que roubava os curativos usados e os embebia com a esperança de obter um pouco de álcool.O artilheiro se encontrava entre os enfermos mas felizmente era um dos casos mais leves. —Senhora. Não. . que cobriam um livro aberto. Atrás. onde se escondia o destino do jovem Ian. Era a quarta vez nos três últimos dias. —Santo céu. Tanto o destilador como o álcool purificado estavam submetidos a uma estreita vigilância mas os marinheiros.

Sabia quem era eu. senhora —disse com a cortesia recobrada. Acreditava ser muito jovem mas não tanto. 3 de fevereiro de 1767. Detivemo-lo para solicitar a ajuda de seu cirurgião.. Aproximei-me e vi uma palavra que me arrepiou o cabelo. de repente. E desapareceu pela porta. voltei a sentar-me e comecei a ler. Às oito badaladas nos encontramos com o Artemis. a idade de Brianna. Dezenove! Fiquei paralisada pela impressão. não me pareceu conveniente perseguir ao bergantim. ao devolver-lhes seu cirurgião nos apresentará uma grande oportunidade de deter a Fraser. movida por um impulso: —Capitão Leonard? Voltou-se para mim com expressão interrogante.. Era ainda um menino! Dezenove anos. a serviço de nosso passageiro. Malcolm. . Como esta informação me foi comunicada quando já nos tínhamos separado do Artemis.—Com licença. quantos anos tens? Suas feições se endureceram. Vos enviarei aqui o comissário. Encontrar-se assim. Passei à seguinte anotação. Não obstante. Então era C. ao comando de uma canhoneira inglesa atacada por uma epidemia que tinha acabado com a quarta parte da tripulação.» A palavra que me tinha chamado o atendimento era «Fraser». De repente adicionei.. —Dezenove. para servir-vos.. Malcolm. bergantim de dois mastros com bandeira francesa. Quando acordou. segundo o qual o comissário do bergantim Artemis é um criminoso conhecido pelo nome de James Fraser. O capitão Leonard tinha deixado o livro de bitácula aberto sobre a mesa. —É quase meio dia e devo ir estabelecer nossa posição. a forma que me tinha seqüestrado não era arrogância nem falta de tino.. senão puro desespero.. Nas últimas folhas tinham caído umas gotas de saliva. —Obrigado —disse ocupando a cadeira que acabava de abandonar. C. senhora. O tal Fraser é um notório contrabandista acusado de motim por quem as Adunas Reais oferecem uma substanciosa recompensa. Recebi informação do marinheiro Harry Tompkins. talvez por parecer-lhe irrelevante ou bem para evitar investigações sobre o decoro de seus atos. que veio a bordo e permanece conosco atendendo aos enfermos. antes de corrigir-se: «Senhora Fra. Senti que o medo e a fúria começavam a amainar dentro de mim. e quem era Jamie. Levantei-me precipitadamente para passar o ferrolho. 4 de fevereiro de 1767. sim? Não mencionava meu sexo. se não vos incomoda esperar. já que temos ordens de chegar quanto antes a Jamaica. bem como pelos apelidos de Jaime Roy e Alexander Malcolm. o capitão tinha dito. —Se não vos molesta a pergunta.

em Edimburgo. Suas pupilas olhavam fixamente o lustre que se balançava num extremo do entrepiso e começavam a acompanhá-la em seu bamboleio. quem mais a conhecia? Enquanto supervisionava a lavagem dos enfermos e o fornecimento de água açucarada e leite fervido. —Oh.—Isso mesmo. que Jamie era contrabandista. —Elias tratava de manter-se desperto.? E. Minhas idéias começavam a perder coerência. minha mente continuava trabalhando no problema do desconhecido Tompkins. Não prestei muita atenção às desculpas do senhor Overholt: minha mente estava muito ocupada em tratar de encontrar um sentido à nova situação... —Tompkins? —Sua cara de menino se enrugou para voltar a despejar-se. de quem só conhecia a voz. Ainda que ao terminar estivesse quase tão cansada como ele. sim. Finalmente foi Tompkins quem veio a mim.. retirei-me ao camarote do cirurgião com intenção de lavar-me e descansar um pouco antes que chamassem para almoçar. mas era pouco provável que algum centavo tivesse chegado aos bolsos de Tompkins. estava perigosamente bem informado sobre as atividades de Jamie. —Mas como não tinha nenhum documento escrito por sir Percival. Como? Sir Percival tinha tolerado as atividades clandestinas de Jamie em troca de seus subornos. não pôde fazer nada. O qual me levava a duas perguntas. digo.. —Ah. senhora. senhora. mal abri o ferrolho.Ouvi passos no corredor. Mas que mais tinha no assunto? Tompkins conhecia a Jamie de vista. Nesse caso. Esperei até que acabasse o dia. sem dúvida. Deitei de bruços.. Ah.. o comissário chamou à porta. não. parece-me. Meu último pensamento foi que tinha que encontrar Tompkins.. proclamando que não podiam lhe obrigar já que trabalhava para sir Percival Turner nas Alfândegas. —Isso mesmo. —Vá deitar-se.. É um dos marinheiros do castelo de proa. Armou um barulho tremendo. não tive tempo para nada. —Já terminarei. devia saber quem era eu e o fato de que se inteirasse que eu tinha estado fazendo averiguações sobre ele não pioraria as coisas. agora recordo! Foi em Edimburgo. Por fim decidi perguntar. Tompkins trabalhava para sir Percival e este sabia. Alguém chamou com delicadeza à porta e uma voz desconhecida anunciou: . fazendo-lhe abrir amplamente a boca. —Então era um agente de Alfândegas? —Isso explicava muitas coisas. em Spithead.. no entanto. No terceiro dia. Quem diabos era Tompkins? Não o tinha ouvido nomear nunca. confiando que a fadiga embotaria sua curiosidade natural. —Esfregou o nariz com os nós dos dedos para sufocar um bocejo.. Durante mais de dois dias. como as coisas pareciam estar melhor. sem dúvida. Recordo-o porque lhe obrigaram a alistar-se. —Quando subiu a bordo? —Oh.. de qualquer modo. Não. —O bocejo acabou por ganhar a partida. senhora! Eu nem tenho sono! —Alongou torpemente a mão para a garrafa que eu segurava. não pude conciliar o sonho. e a emboscada em Arbroath? Teria um traidor entre os contrabandistas? E se assim o fosse. Elias —disse compassiva. ocupada com os enfermos. O mais fácil era começar por Elias. sim.. como era possível que um marinheiro inglês tivesse tanta informação. com o travesseiro apertado contra o peito.

—Senhor Tompkins —disse—. tinha muita escassez de tripulantes para permitir distrações. Os homens depositaram seu colega num banquinho. falemos francamente. quase meio metro de aço enferrujado. ajoelhei-me para examinar a perna ferida. a pálpebra torta deixava entrever a pupila leitosa de um olho cego. O ferido apresentava num lado do rosto as cicatrizes de uma queimadura. junto à parede. ao que se surpreendia com as mãos n