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CAS_SIRER, Ernst. a Filosofia Do Iluminismo

CAS_SIRER, Ernst. a Filosofia Do Iluminismo

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Ernst Cassirer

Nio ~

como negar que todo o mundo

moderno viveu e vive, ainda ho}t, sob o Impacto

do Século da. Luzes.
A

Fbsofa do lIunimmo é uma obrl de um

grande filósofo que procura compreender o

pensamento iluminista na eua profundidade, "na
unidade de sua fonte Int.lectual a do prlncfplo

que a rege", trazendo-nos, assm, seu fescfnlo e
um valor sistemático próprio.

Para Isto, o a~ C.sal,.. (1874-1945) toma a história da fl~fll não como • dlscus'" de
reaul1ados, fnN como a busca de. forças

crtadoras que "vam • tais reauftados. procurando fornecer uma " fenorMnoktgla do .apfrito filosófico".
O. estudos de Casai... sobre • história dos conceHos clentfflcos e sobre as fonnas simbólicas na arte, na linguagem, no mito visam mos_ como se dê • esb'uhnção do mundo
humano. Para ele, o homem pode ser definido

como um animai criador de ,rmbolo•.

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ERNST CASSIRER

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A FILOSOFIA DO ILUMINISMO

Tradução :
Á LV ARO CABRAL

EDITORA DA
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
UN ICAMP

Rtilor. J~ MIII'tins Filho Coor<knadorGeralda U~ A.od.rt Vülalobori COflSt!/ho Editorial Alfredo Miguel Ororio de Almeida, AntOnio Carlos Bannwart, C6!ar FI'J.DCbço Ciaoco (PruIiú"u), Eduardo Guimarães, GeraJdo Severo de SOUUl Ávila, Hcrm6gcne3 de Freitas Leltlo Filho, Jayme Anamos Maciel 14n:ior, Luiz CeMT Marques Filho, Paulo

J0s6 Samenho MornD
DinI<JrE:m:utivo: &luardo Guimar.

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BIBLIOTECA P•. Inocente R.drizz.ni

M ·bo'é

F ICH A CATALOGRÁFI CA EL ABORADA PELA BI6L IOTEC A CENTRAL _ UNICAt-lP

eas.iru. HmM
C273r 2.cd.
A fiJoeofll. do iluminiSClo I Erasl C-ira; ttaduçio: Álvaro Cal",.!. -­ 2 .cd. •• Ca.mpi:w, SP: Edi"nI ciro UNlCAMP, 1994 (Colcçlo Rcpert6riOll)

Tn.duçlo de: me PhHo90phie der aufltlbung. 1. numiDi5DlO - Filosofill.l. TItulo.

SBN 85·l6ll-0232- 1

2O.CDD- 142.1

(odiee pua CIllUogo sislc....:;rieo: I. lIu ro.inismo-Fi loaoflll 142.7

Coleção Repert6n03
E.~edição 6 publicada por aco:rdo
com a Imprensa da UW VC1'Iidade de Yale.
Todos 0$ direitos reservados.

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Sondm VIdro ANa
Marco Antonio Slomni

Korio ih Abn.rido ROSJini Rosa DaIva V. do~lIfO

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Revido 1994

A
Max Cassu er
Ed itora da UWClU1lp
Cai)!;a Postal 6074
Cidade Univcrsitárill _ Dario GeraldO
CEP 13083-970 - Camp inas - SP _ Bras.il
Te].: (0192) 39.8-412
Fax:(OI92) 39.3U7

por .~e u 75 .0 anfversário (18 de UUfub ro de /9J2 J como prova de amor e resr;(·i/<J .

dos problemas propostos pela filo so­ fia do Iluminismo. em toda a sua amplitude. desenvolvimento e des1ino da Filcsofia das Luzes. o que se pre­ . Trata-se de compre­ ender O pensamento iluminista menos em sua amplitude do que em sua profundidade. expor ante os olhos do leitor toda a riqueza dos detalhes. mas na unidade de sua fon te intelectual e do princípio que a rege. menos: tal monografia teria que se im por como tarefa. não se pode ter em vista o exame e a apresentação exaustiva. requer-se um outro de natureza puramente intensiva.: necessário nem possível empreender um relato épico de curso. A própria forma da coleção "Grundrisses der philosophischen Wissenschaften" [Elementos de Ciências Filosó­ ficas1 e os objetivos a que ela se propõe impedem semelhante empreendimento.• PREFAcIO A pre. Em vez desse programa extensivo. Não me parec. No plano geral dos "G rundrisses" [elementos]. Em primeiro lugar. de apresentá-lo não na totalidade dos seus resultados e de suas man ifestações históricas.sente obra pretende ser simultaneamente roenos e mais do que uma monografia sobre a filosofia do ILuminismo. acompanhar em suas múltiplas ramificaçôes o nasci­ mento e o desenvolvimento dos diversos peculi ares da filosofia do Iluminismo.

por uma mistura ec/é tica de temas heterogêneos . com o desenvolvimento das dOutrinas e dos sistemas filosó­ ficos. na verdade. suas dúvidas e decisõcs.1 tende. os quai s. que ela produziu não consistem num conteúdo doutrinai que ela teriu rentado e laborar e rixnr dogmaticamente_ E mais do que isso: a inda que não te nha to mado plena consciência desse rato. ~ rvirão um di a para a conslrução do grande edifíc io quando chegar o momento oportuno.istenlcs? Conten­ tà-se . sistema­ tizou . nem por isso deixou de instituir uma fo rma de pensamento filosófi co pcrfeitumente nova c ori­ giml !. um papel 5ubaherno.I(. Ela situa a filo sofis. encontra-se. o sentimento especifico de si e sua autoconsciência especlfica_ Expus em ou tros livros. A filosofia do J(uminismo.. verdadeiramente du radouros. procu ru con­ si derar a hist6rill da filosofia sob uma luz que não tem pOr única finaJid <ldc e~tabe lccc r e desc rever 05 resultados. poderiam passar por contradiçõcs in solúveis.. Os resultados decisivos. a ~ poca das Luzes perma neceu. lõma " fenomenologia do espírito rilosórico". do Ibmínismo no quadro de um mai s vusto encadelUTlento hist6rico. ademais.. em especial em Indilliduum UM Kosmos in der I'hilosophie der RClloissunce (1927) e em Die Plu/onisclle Renuissallcl! in Englund (1 93 2). quer aoom­ panhll r. cumpre interpreta r desde um cent ro único de perspecti va a suas te nsões e diste nsões. segundo espero . Jigado por múltiplos víncu los ta nto ao futuro quanto ao passado. cumpre dizer que ela orerece condições bas tante favoráveis a esse gê ne ro de a nálisc. Tal método quer forne· cer. Se r aqui desenvolvido mas apenas esboçado em suas linhas geruis.lebram áve l. tados .~ão dra mática em que. o qual não pode. Todo o fascínio carac lcr í~ l ico. para um Outro método que expusesse pura e simplesmente os resul.erso físico . Nessa perspectiva. todo o va1nr siSlemát)::C' próprio do Iluminismo res idem nesse movime nto . procurando sublinhar a importânc ia das mcsmas. nesse sen tido.!. cujo curâter fragmenlário não desconheço mas que . estudos anteriores é aigo que não me atrevo mais a esperar e ainda menos ouso prome ter..'0energia d" pensamento que O SUScita e na paixão com que os seus problemas são equacionados.nismo. Que me seja permitido realizar um dia uma recapitul ação geral. contribuiu com idéias originah:i e sua demonstração. uma síntese completa de m~ u . a segurança de si mcsm{). tanto por seu obje­ tivo quanto por suas perspectivas metodológicas. no tocuntc ao conteúdo de seu pensamento.:Orno é visivelmen te o caso no toca nte à imagem do uni . longe de estar con­ centrado e fechado sobre si mesmo. S l" l pe nsame nto esteve envolvido. é tornar perco!ptível o movimento imerior que se rea lizou nela e a <. muito de pende nte dos séculos preceden tes. mas. adquire de si mesmo. de certo modo. apesar de ter adotado a muioria dos seus mate ri ais de oulras fontes e de ter desempenhado. esses estudos permanecerão como meros segmentOs separados. desenvolveu e esclareceu muilO mais do q ue. à semelhança das obras acimêl cilUdas. . A pre­ sente obra faz pélrlC jntegnmte dessa série. sua natureza e de seu destino_ de seu caráter e de sua missão. AJXXIcra-se de riq ucZits in telectua is já e". seu ceticismo e sua fé inq!. a consciência cadll vez mais lúcida e mais profunda que ~sse espiri to. muito pelo cont rário. uma fase singu lar do imenso movi men to de idéias graças ao q ual O moderno pensll­ men ta filosófico adquiriu ti certeza.. Quanto à fi losofia do Ilumi. Neste meio tempo. passo a passo. examinou . mesmo tra tando de problemas obje­ tivos. revelar as forças criadoras por meio das quais C~M: ~ resultados são intimamente elaborados. . Entretlmto.cm J ar prosseguime ntu li construção sobre os I ES~<J é a i:ue rpre lação que esta obra vai tentar oferecer. O movimcmo que nos propomos descrever. Apro­ prjou-se da herança desses séculos c ordenou . Para desvendar sua sig­ nificação histórica própria. a fi losofia do Iluminismo. OUlras fases desse vasto movi­ mento. evidentemente. de. numerosos elementos se integram à sua unidade. sobretudo. Ele constitui apenas um ato.

. da condição de resultados para a de imperativos. toda a atividade iotclectual do homem. o sentido dessa filosofia se se acredita poder considerá-Ia . no bater-se COntra ele. nem por isso o Iluminismo renuncia ao spriJ systtmatique.e executá-Ia _ como simples "filosofia da reflexão" . e de refletir. justificou essa pretensão na medida em que devol veu d etivamente à filo­ sofia seus direitos originais. a filosofia deve tomar livremente o seu impulso e assumir em seu movimento imanente a fonn a fundamental da realidade. daq uele que Hegel costumava esboçar num espírito puramente polêmico. desenvolvem·se e consolidam-se . Não acredita mais no privilégio nem na fecundidade do "espírito de sistema": vê neste não a força mas o obstáculo e o freio da razão filosófica. a atmosfera fOra da qual nenhuma delas poderia viver. pois o julgamento de Hegel como hiSlori ador e filósofo da história di­ verge totalmente do veredicto que a metafísica do mesmo Hegel proferiu a respeito do lIuminismo. Assim é que todos os conceitos e os problemas. incutir mais valor e eficá cia. da polít ica.alicerces já assegurados pelo século XVt1 ? Isso não impede que tudo o que lhe cai nas mãos adquira um Oulro sent ido e abra um novo horizonte fi los6fico . e onde essa ativi­ dade deve encontrar seu alicerce. O pensa­ . abriu caminho até aquel a o:-dem mais profunda dO!lde jorra . pelo contrário. em seus métodos . Passaram da condição de objetos prontos e acabados para 2. da história. no próprio Cl1J'SO do saber. ela é o SOpro toniricante de todas essas disciplinas. o Humi nismo começa por quebrar O molde obsoleto do conhecimento filosófi co. Tal é o sentjdo verdadeira­ mente fecundo do pensamento iluminista. tanto naturAl quanto espi ritual. mas o meio universal onde todas essas verdades formam-se. de forças atuantes. o csforço principal da fil o­ sofia do Ilumin ismo não se limitnm. a forma do sistema metafísico. men ta uni versal do pensamento fi losófico . tiO qual pretende. Já não é a subslAncia separada. Mas encontramos no próprio Hegel uma curiosa retificação. Deixou de encerrar-se na esfera do pensamento. Manifesta-se menos por uro conteúdo de pensamen to determinado do que pelo pró­ prio uso que faz do pensamento rilosófico. O movimento profundo. Na Inglaterra e na França. em sua verdadeira função. reconhece-lhe o poder e o papel de organizar a vida. deslocaram-se c sofreram uma mudança ca­ racledslica de signiricação. que o século XV III parece ter muito simplesmente herdado do passado. I! verdade que roi um pensador Dada menos q ue da estirpe de Hegel o primeiro a en­ veredar por esse caminho da critica e que parece tê-lo legitima­ do de uma vez por todas com a autoridade do seu nome. A file­ sofia já não significa. ela acredita na espont aneid3de originári a do pensamento e. pelo lugar que ihe confere e pelas tarefas que lhe atribui. ao abandonar o esprit de systeme. das ciências jurldicas e políticas etc. o que ai temOs não é OUlra coisa senão uma visão nova e um novo destino do movi. for­ ma de toda a exist! ncia . segundo a convicçõo profunda da fil osofia do Ilumi nismo. por sua rique'18 e profundidade. A Phiinomeno[ogie des Geisles (A fenorr:enologia do espfrito] traça um retrato da época do Iluminismo muito diferente. do direitc. O século XVJIl . nu­ ma palavra. a acompnnhar a vida e a con templá-Ia no espelho da reflexão. com efeito. Na verdade. sua significação verdadeiramente "clássica". Em vez de se fechar nos limites de um edifício doutrinai definitivo. Pelo contrário. à maneira dessas novas perspectivas fun­ damentais. Desconhece-se. J á não está separada dos ciências da natureza. no modo especfrico de suas investigações e de seus problemas . em vez de resll'ingir-se à tarefa de deduzir verdades da cadeia de axiomas fix ados de lima vez par todas. com o pensamento puro. que se auto-intitulou orgulhosamente o "S~u!o da Filosofia" .ra. do espfrito: orerece o esprrito como um lodo . longe de r~t rin gi-Io à tarefa de comentar a posterior. abstrata. em que 8 restabeleceu em sua sig­ nificação prime. um dornfnio particular do conhecimento situado & par ou acima das verdades da física. portanto . Entretanto.

adeiras vão e vêm. Illas uma hist6ria das idéias na I:. não poderia reduzi r-se a lima sim pl es soma de opiniões individuais. da sua estrita diseiplina. por Voltai re e Montesquieu. Mas esse fio condutor abandona-nos no li mi ar do sécu lo XV HI . xar. gessem esse meio para resolver a tota lidade dos problemas mosMicos do sCu tempo. Tal método de trabalho é. da hi stória. Por isso tínha­ mos que decidir. n:tturalmente. da sociedade c dH ar te. hi"über sC'hiessen. Esse faz partc da­ queles teél l'e$ espirituais onde " de um peda l mil fios são movi­ dos / as lum.a eríslica. em todo o caso. Wolff ou Lamber\. vocar. procuramos apresen tar no presente li vro não uma h istória de diversos pensadores e suas doutrinas pessoais. quando duvidA e averigua. ainda se pode conservar li espera nça dt! descrever a totalidade do comeúdo e do desenvolvimento da fil osofia acompanhando esse desenvolvimento de sistema em sistema . mas quando se dcixlI empolgar no próprio dcvir de sua elaboração . Trazer para a luz esses fios invisíveis deve ser a tarefa essencial da reconstrução e da medit ação históricas. ql1!mdo derruba e conStrói. o seu reaJismo e verdade próprios. Hu me ou Condillac. No século XV II . deixar em segundo plano uma profu são de detalhes mas cuidando de não omitir ncnhUlnU das forçus essc nciili ~ quc modelaram o rosto do Iluminismo e deter­ minaram sua vis~o da natu rCZH. como a grande maioria das ohras nistóri cas dedic!ldilS a esse período.: ebcu. impossível encontrar um acesso ti essa camada profund<l da filosofiA do Iluminismo se nos ali vermos.1 menla devI!. Todo O estudo histórico . ao seu Corte longitudinal. se nos comentarmos em fazer desfilar ao oorrer do tempo a dive~jdade dos fe nômenos intelectua is e dei.a de lei e de representatividade. I Die Faden ullgesehen Jliessen ] . na verdadc. trinsecos talvez em parle alguma se manifestem mais claramente do que numa aprescmação da fi losofi a do século XVIII . As forças espiritu ais que a governam só são perceptíveis na pr6pria açÃo e no movi mento con trn uo do . que ainda há quem se obstine em aprescnlar oomo uma mistul'u eclética. porquan to é o sistema rilosófico como tal que carece então de fon. de temas in telecluais u(span:s. Ela não se destaca da $Orna e da sucessão cronológica dcssIls opiniões porque. eXéminar. sem dúvida.1 Locke. Graças a esse método. I Os fios correm sem ser vistos" IEi/l Trill /auselld Fiidell regt. q ue mais não C osse para provar. Pura con­ seguir rcaliza r essa tarefa. que eles se desenrolem. ê possíve l de ~obr i r que a filosofia do sécu lo XVIIJ . de Descartes a Maleb ranchc. por assim dizer.poca do Ilumini smo . defi ciente. nos axiomas c teorcmas em quc ele acaba por fixar-se que esse pensamento lllanirCi> ta com maior clareza ti sua estrutura e 11 sua ori. de Spinoza a leibn iz. a fim de que se possa apreende r essas idéias mais em sua efi cáci a imediata du que em sua gênese teórico-abstraul. jus­ tamente nos espíritos mais recundos e mais originais. O'Alembcrt ou OiderQt. O pensamento ilum in ista consegue sem pre cx travaS!lr do quadro rígjdo do sistema e libertar-se. mas na afie e na forma de conduzir os debates de idéillS. em pennonen le rluxo . dc um modo geral. é dominada.:ntação car<H. de Bacon e Hobbes 1. acreditando que ela comportava toda a verdade especi fi­ camenle fiJos6fica . Não é nus doutrinas particulares. fazer na~cer a o rdem cu ja necessid ade ela co no.kbate: somente aí será possivel cap tar a pulsação da vida interior do pensamemo ilumi nista. A "filosofia" do il um i­ nismo propriamente dila é al go muito diw rso do conjunlo do que fOi pe nsado C ensi nado pelos grandes mest rcs do pe riodo. que queria obstinadamente malHer-se fie l à forma siste­ mática. mas também pro. mas Os seus defeitos in. no próprio ala de realizar-se. por um reduzido número de grandes idéias fu nd amentais que nos são propostas numa síntese coeren tc e segundo uma rigorosa articulação . I Die Schifllein Ilf!rüber . ela não reside nurna doxoJogia. A tOtaJi dad ~ desse movimento incansavelmente riu- e tuante. analisar. E Christi an Wolff . também tentou em vão que os ou Iras ele.

ela não poderia deixar de reservar um lugar de destaque para aquela época que foi a primeira a descobrir e a afirmar apaillonada· mente a autonomia da Razão. Se a Epoca do Iluminismo não pode ser inteiramente absolvida nesse ponto. revertermos aos problemas e às conclu­ sões da filosofi a do Iluminismo. de que recriminam o Século das Luzes e sobre a qu al ni nguém se cansa de acumular provas gerou inúmeros preconceitos que ainda hoje impedem um julgamento isento do Il uminismo. O Sapere audel. em suma. segundo Kant . adotar por ponto de partida o fio condutor que nos pode guiar com segu rança atra vés do labi. também vale para a nossa própria atitude histórica a seu res­ peito. de libertar as forças prOfundas que produziram e modelaram essa fisionomia . de ler elevado a sua pr6pria escala de valores. Aliás. parece-me já ser tempo de que a nossa época realize esse retorno autocrítico sobre si mesma e se veja 00 límpido espelho que a época do Iluminismo lhe oferece. da qual Kant nos ofe­ receu um esboço na última seção da Cr1tica da razão. em vez de ir procurar-lhes a causa em outro lugar. e de aferir por esse pad rão todo o passado histórico. lhe é estranho. No que se refere à crítica teórica do Iluminismo.deve partir dessa base. muitas coisas de que nos vangloriamos parecerão insó­ litas e caricaturais.ão do pensamento" realizada pela Crítica da razào pura. a um " resgate" da época il umir. Essa suficiência do "eu sei mais" (" Besserwissens". Muitas coisas que hoje consideramos ser fru to do " progresso" perderão seu brilho. sobretudo . e a ir:tp6-la em todos os domínios da vida do espírilo. é de uma evidência cristali". /leque detestor. rinto dos dogmas e das doutrinas individuais. nO/l lligere.1 que nenhuma obra de históri a da filosoiia pode ser pensada e rea­ lizada numa perspectiva puramente histórica : toda a \'olla ao passado da filosofia constit ui um ala de consci. O julgamento adverso que foi proferido no de­ correr desse processo ainda hoje é repetido sem crÍlica pela maioria. nesse espel ho. Ora. foi desenvolver e esclarecer.. A Epoca das Luzes raramente beneficiou-se de semelh ante favor. sed ímelUgere. ridere. tampouco há necessidade de. de ludo o que. O que nos importou . de um modo geral. À medida que nos mantemos à margem de toda a polêmica d ireta abstemo-nos de submeter esses preconceitos a uma crítica explícita. de nos explicar intimamente com ele. ou seja. c continua sendo de bom-tom aludir à " trivialidade do Iluminismo" . O século que viu e glori­ ficou na razão e na ciência "s supre ma faculdade do homem" não pode estar para nós inteiramen te superado. com uma ingênua suficiência. Esse escla recimento constitui a pri. Cumpre deixar de lado os insultos e as atitudes de sobran­ ceria. de pre­ ceder. história da razão pura". Tenhamos a coragem de DOS medi r por esse pensamento. Mas se alguma vez tivesse de ser escrita essa '. à cate­ goria de normll universal. Mas vale colocar o nosso trabalho sob a égide do lema spinozista: /l on. acima de tudo. E seria julgar apressadamente e iludir-nos perigosamente atribuir todas essas deformidades a defeitos do espelho. meira e a mais i nd i ~ pcnsável condição para uma revisão do famoso processo Que O Roma ntismo intentou contra a filosofia do Ilumini smo. a única válida e a única possível. Além disso . o conteúdo do seu pensamento e a sua proble­ mática filosófi cu central.enlização e de autocríljca filosófica . a "divisa do Iluminismo". Hastará que nos seja permitido impor o silêncio a esse gênero de julgamento para pensarmos ter alcançado o nosso objetivo. devemos encon­ trar o meio de descobrir sua verdadeira fi sionomia e . sem dúvida . histórica e racionalmente .i sta. não será demais acrescentar que ela expiou com sobras o seu erro. O mais grave 'de­ feit o que se lhe aponta comumente é o de nada enlender a respeito de tudo o que está his toricamente longe dela. que é. mais do que nunca . apóS a obra de Kant e a "revoluç. . está fora de cogitação abordá-Ia no âmbito deste livro.

.\ v.. "~ .- I­ Não podemos encerrar este prefácio sem agradecer uma vez mais ao professor Frilz Medicus..en ". O DlR EITO. 189 I! " o dogma do pecado original e o problema da teodicéia 193 A idéia de tolerância e a fundação da "religião natural" 220 Religião e história 246 ".. editor dos "Grundrisses der philosophischen Wissenschar." 11.. "" . . a quem devemos a pri. A lD EIA DE RELIGIÃO ... . O ESTADO E A SOCIEDADE . meira sugestão para este livro e que leve a gentileza de nos ajudar a reler as provas... NATUREZA E Clt:NC l A DA NATUREZA NA FILOSOFIA DO ILUMINISMO 111. .. 267 VI. . SUMÁRIO Em!! Cassirer Hamburgo. PSICOLOG IA E TEORIA DO CONHEC I· 65 I' MENTO 135 IV. . O PENSAMENTO DA ERA DO ILLiMiN [ Si ~íC i9 . . r. outubro de 1932.. A CONQUISTADO MUNDO HlSTORICO .... 3 15 A idéiu de direi to c o pl'in dpio d os di ['ei tos inu­ li cnáveis 31 5 A idéia de contrato e o método das ciênci as sociais 337 .

. 6 muito diHcil passar dctlperceb . . . 367 o Cf sécuJo da crítica " A estética clássica e o problema da objetividade do belo . pelo menos. fi. \.. () PENSAMENTO DA ERA DO I L UMINISMO Entendimento c imaginação. Assim ."aos lUtados do século em que vivemos. em meados do século xv r.!üdos do século XVIIT . foi possível observar que em meados de cada um desses séculos ocorreu sempre uma transfom1ação Importante no conj unto da vida intelectual. .prossegue D'Alembert . ..... .. .. TlCA . 367 . ocorreu t:m nossas idéias. . . e no século XV lI é a vitó ria da filosofia carte· lima que provoca uma revolução radical na imagem do mundo ~rá po1>sível descortinar um rnovimemo análogo no século XVIII e determinar sua direção e seu alcance? "Por mui to pouca atenção que se preste" . 37 1 o problema do gosto e a conversão ao subjetivismo 394 411 I A estética da intuição e o problema do gênio . aOS nossos costumes ..Qmeça ele por assinalar... sob múltiplos as­ peclos..1 VII. Gottsched e os suíços 433 Fundação da estética sistemática Baumgal'len 441 D'Alemberl inic iou os seus Elememos de Ii/osa/ia com um IMinel onde procura defi nir a shuação do espírilc humano em IIH... No decorre r dos três últimos séculos. . mudança essa que. em meados (ltI /Sécu lo XV inicia-se o movimento literário e intelectual da Renascença .Ja a extraordinária mudança que.. nos ocupam .. a Reforma religiosa c~ui no apogeu. por sua 19 .. os PROBLEMAS FUNDAME NTAIS DA ESTE. nossas ("~ras e até às nossas conversas. aos acontecimentos que nos ngl tam ou que.

desde a históri a dos céu s à do: penhou-se em compreender· lhe a origem e o destino. desde temente do curso das descobertas destinadas a amplillr O hori· princípios das ci ~ncias profundas att! os fu ndamentos da Rcve· 'lon le da realidade objetiva. tudo fo i osi 20 21 . ex· sica à moral. no mínimo. para serem vivos. porque a satisfação q ue ele' lUtava ele. dirigir o seu próprio curso. delode as disputas escolásticas dos teólogos até os prime com impressionante brevidade o sentimento profundo que objetos de comércio.-IM uns objetos. uma nova obscuridade sobre vários. cuj . numa p. acre· se r por si mesmo fri o e tranqüilo. lhe proper sJudy oI mankind i5 man. a sua sede de saber. em seu dos povos . a invençüo e o o leva e quer. próprio âmago. Assi m. um de seus porta·vozes intelectuais. é que quer agora saber para onde o seu curso intervalos e marcados por acessos . uma nova {orça atuando e que.rapidez. Essa fC I'­ hml não se voltam somente para o mundo . Com ela. Uma nova luz sobre fixar o objeto. agindo em iodos os sentidos por sua naturezlI . uma ainda maior. desdc 11 mcta fisica ate as questõcs de gO ~ IO. em­ do. foi o frut o inconvenientes e cu jas vantagem. o verdadeiro si em que viveu D' Alembert sentiu·se empolgadü por um movi­ tema do mundo ficou conhecido. Não t por isso que ele se afasta incessan­ C0 l11 0 um rio que ti "'es~e rompido :leus d iquc~. Cabe ao tcm . a época da física que se encontravam mais perto dela . agitado .ão. de um modo geral. a história lhe impunha. COm efei to IntelectuaL eis o que lhe parecia ser o verdadeiro sentido do era imprescindível que o fi zessem . a espécie de entusiasmo que o mundo com a nova alegria de descobrir e com um novo espí­ acompanha as descobertas .Jlavra . Desde a Terra até Satumo. sobretudo. contínuo c sem abalos. parece prometer-no:. desde a lei natural até as leis arbitrárias das nações. d\! ~lk a mÚ· A sentença de Pape. uma certa elevação de idéias q ue em rito de descoberta. portanto. Não obsta nte . A ciénci Ic. ti nossa posteridade conhecer. e o pensamento se esforça por alcançar novas metas.mo o efeito do fluxo e do refluxo do oceano é carregar para sofia por exce lência . E uma época que sente. filosofi a rcgi:. uma idéia da índole c da ampliar os seus limites . transportou seu fac ho p:\ra as rcgiõe: direção de toda a vida intelectual de sua época. . e a tarefa essencial que. desconheci· porque os prazeres. não obstante. Se! examinarmos sem prevenção o esta 111_ praias alguns materiais e delas afastar outros." I atual dos nossos conhecimentos.trou grandes progressos entre nós. em·ol· ainda mais profundamente conquistado. O nosso século é chamado o Século da Fi! u. O conheci· insetos. ai Suas palavras fornecem-nos. a autoconsciência e a previsão IOdas as outras ciências adquiriram novas formas e. Ora. a fim de retornar à sua origem? Im . foi desenvolvido e aperfeiçoa mento pujante e. anaHsado e.lIlCut.do . todos os dias aguarda novas e infaHvei5 !1!ve· nós suscita o espetácu lo do universo. fi -geometria. m i o se pode deixa r de convi O homem que usa essa linguagem é um dos cientistas mais que ti. todas essas causas tive­ Inçro. q U 8S1 mento de seus próprios atos. a ciência da natureza mudou de feiçóes . desde as questõcs que mai s profundam ente nos está menos fa scinada pelas criaçôes incessantes dessa {orça do tocam utl! as que só !>upo::rficialmcntc no~ interessam.:ontudo. Aborda uso de um novo método de fil osorar. a sua curiosidade intelec­ ram que exci tar nos espíritos uma vi va fermentação.peitáveis do seu tempo . O estudo da natureza pllrece pensamento. devem ser separados por d05 até então. Não se trata apenas de que ocasiona é um sentimento uniforme. IJU a conseqii! ncia dessa e€ervc:õCência geral dos espíritos: tal melhor do que nós. dcsde os direitos dos principes aos direi lOs essa época tinha de si mesma . mais apaixonadamente comovido por uma outra qU~5 tão: a de sua própria natureza e veu eom uma espécie de violência tudo o que se lhe deparou 'I do seu próprio poder. longe 'de abandonar·se a esse movimento. O pensamento sente-se mcntação. dn natureza adqu ire a cada dia novas riq uezas. a na tureza e os li mites dessa revolução.

a variedade das C or. como um progressus in indelinilum. sintetizar numa palavra a sua natureza. tensão do saber para E1ém de sua periferia corresponde um regresso sempre mais conscieote e mais pronunciado ao cenl próprio e característico da expansão. A razão é una e idêntica para todo o Individuo pensante. mas essa divergência nada tem de dispers. Objetivamen te consi­ derados. porém. ~ nesse sentido que se apresenta. A diversidade. para toda a nação. e sua unidade e sua consistência são justamente a expressão da essência própria da raz. sua história logo revive em nós e ficamos cada vez mais conscientes da gravidade das mudanças de sentido que ele sofreu no transcurso dessa histÓria. porém. um sentido verdadeiramente preciso e determinado. s~a realização é para o his­ toriador apenas o começo. Tanto isso é verdade que o conceito genérico como tal permaneceu vago e indeterminado até o momento de receber uma diJlerenlia specilica. aqueles que tomassem " progresso" num senlida' quantitativo como uma simples extensão do saber. mas t tão-só o desenvolvimento e o desdobramen to de uma força criadora única. Dedicá. De todas as variações dos dogmas religiosos . Não comente de usufruir os seus resultados. para o século XVIII.1 que pelo seu modo de açdc. Se se busca a muhipHci-­ dade. Para nós . Cuidemos. de seu querer e de suas reali­ zações. sobre o sentido essencia1 dessa idéia. sempre nos acode ao espírito como a expressão de "razão" ou a de "racionalismo" têm pouco peso. onde se acreditou encontrar então uma resposta. de todos os seus esforços.ao. Onde procurar. contra-se sempre uma determinação qualitativa. Epresenta-se a verda­ deira questão.imutabiliQl!de da razão. com a segurança de que ela não vai enfraquecer e diluir o espirito mas. Todas as e!lergias do esplrito permanecem ligadas a um centro motor comum. o inicio de seu trabalho . toda a cul· tura . é para aí encontrar a certeza da unidade.se à extensão do saber com o sentimento. Assim que recorremos a esse voc4bulo. onde encontrar o traço característico e distintivo dessa designação? Em que sentido devemos tomar aqui a "filosofia "? Quais as tarefas particulares que lhe são atribuídas. Equivocar-ae·iam. o problema do " progr~so" intelectual. com determinadas teses da filosofia do Iluminismo _ a palavra "razão" deixou de ser há muito tempo uOla palavra simples e unfvaca. das idéias e dos julgamentos teÓricos. O skulo XVIII está impregnado de fé na unidade Cl. Quando o século XVll I quer designar essa força. de natureza homogênea. de não cometer. ela ex pJo~a a forma dessa alividede produtora para tentar anali sá-la . toda a época. os caminhes divergem. Nessas condições. no plano das idéias e dos fatos . recorre ao nome de "razílo". Percebe-se que os diversos ca­ minhos que o espírito deve percorrer. des­ laca-se um conteúdo íinne e imutável. a expressão de todos os seus desejos. essa difereny8 específica? Se tanto se comprazia em autodenominar-5C um "século da razão" e um "século filo­ sófi co" . só aparentemente são caminhos divergentes. para o con­ JUDto do século XVIll . vai reanimá-lo e "concentrá-lo". de acredita r­ mos que o historiador do século XV III vai encontrar aí o ponto 22 de partida e de chegada de suas investigaç6cs . O que foi aO$ olhos do século o seu orograma e e. pelo contrârio. mesmo no sentido de uma ca­ racterfstica puramente histórica .ão . franqueaúdo-Ihe a reali­ dade como um todo a Cim de lhe traçar o quadro completo.se bem que estejamos de acordo. Nilo existe um século que lenha sido tão profundamente penetrado e empolgado pela idéie de progresso intelectua l quanto o Século das Luzes . das máximas c convicções morais. A "rruo" é o ponto de encootTO e o centro de expansão do século. de que re­ cursos disp6e para as levar a cabo e para estabelecer sob re ali­ cerces seguros uma doutrina do mundo e do homem? Se se comparar a resposta que o ~culo XVIII deu a essas questões com as que já encontrou prontas no começo de suas 23 . consistente. o erro de nos satis­ fazennos precipitadamente com essa ca racterística. A par da ampliação quan!itativa e n. à constante ex.

cujo mo­ de lo tem sob seus olhos. A única explicação de que ~ suscetivel consiste em sua "ded u­ ção" rigorosa e sistemática. em absoluto. e que tivesse transmitido a luz dessa certeza a todo o ser e a todo o saber dela dedll'lido. Para que lhe parecesse verdadeiramente " fil osófi co". li existência de uma Jorma que os penetra e os une. Essa forma :e 24 2S . não são um material simples. se procurarmos alhures os ncssos critérios. ção e de explicação sistemática . Busca uma outra concepção da verdade e da " fi iosofi a" que confe re a uma e a outra mais amplitude. mas que se pode demonstrar.atividades inlelccluais. os I"indpios. de um dualismo metódico entre IIS "relations 01 ideas". E o q ue efe tivamente ocorre quando. Newton não começa por definir certas princípios. essa legal idade significa que os ratos.I q ue se encontra em relação a essa causa primeira e ao número de elos intermediários que o se param daquela. de deriva. de out ra parte. o caminho que leva ao conhe­ çimento do parlicular. modificadas e trans{or· madas da mesma maceira . a fi m de se percorrer. Se os princípios são. Não se trata. mais concreta e mais viva. E na direçilo inversa ' Iue se move seu pensamen to . a fim de percorrer passo a passo. todas se equivalem. Não rival iza . de ab ri r um abismo entre o do­ mlnio do pensamento puro e o dos "simples fatos". pc lo método da demonstração e da dedução rigorosa. com deito. era preciso que o sabe r tivesse alcançado e estabelec ido com firmeza a idéia primordial de um se r supremo e de uma certeza suprema intui­ tivamente apreendida. Tais hipóteses 6áo imaginadas ao arbftrio de cada um . senão a ordem e a legalidade perfeita da realidade empirica . 1~fl(iÇ por isso que o verdadeiro método da física jamais poderá consistir em partir dt aJgum dado arbitrariamente admitid o (de um willkürlich-<In· 8(mommenen AnsatzpunkO . E essa solução logo encaminha a investigação para uma direção inteiramente diferente . como objeto e condição inviolável da in­ vestigação.Des­ cartes. certos conceitos e axiomas universais. são medialamenle ligadas à certeza primordial outras p roposições. de uma " hipótese". a determinação física. uma incoerente massa de detalhes. Entretanto. Os fen6menos são o dado. co­ mo tais. por meio de raciocínios abstratos. o q ue impressiona de imed iato t lima diferença negativa. Não é ques· tão de um conrJito de validade. com Leibniz e Spinoza . O século XVIII renunciou a esse modo e a essa forma de " dedução". nenhum de les se explica nem se conclui por si mesmo. dos simples " fatos" . o 7fQó'U!?OV 'tfi tptÍum . uma forma dotada de mais li berdade e mobilidade. permit indo assim avaliar a distância . A Era do lI uminismo não outorga esse ideal de pensamento às doutrinas rilosMicas do passado. no tocante ao rigor e à autonomia do método. tanto para Newton quanto para seus disclpulos e sucessores. e a " malter 01 lacI".!io " física mas somente pela experiência e obser· vação. logicamente consideradas. como o que encont rou sua expressão mais n!tida na Enquiry cOllcerning human understanding. toda a cadeia do cognoscível e de a encerrar sobre si mesma . e só lograremos sair dessa equivalência e dessa indi· ferença racional para ati ngir a verdade. Em vez do Discurso do método de . a qual o reconduz à causa pri meira do ser e da certeza. o que é preciso descobrir . O newto­ nismo não pressupõe. prefere formá·lo tomando por exemplo a física contemporânea . de Hume. apóia-se nas Regulae philosophandi de Newton para re. O século XV II via na construção de "siste­ mas filosóficos" a tarefa própria do conhecimento filosófico. para desenvolver até o fi m as conclusões que af estão implícitas. A via newloniana nfie é a da ded ução pura mas a da IInálise. solver o problema central do método da filosofia. os fenôm enOs devem permanecer o neD-rti?0v :n:t?J. de uma parte. de afirmar uma oposição entre "experiência" e "pensamento" . em absoluto. por meio dessa cone­ xão mediara. nos fatos e pelos fatos . Nenh um elo dessa cadeia pode ser separado do con­ junto. com Descartes e Malebranche. Um pOnto de partida verdadeiramente unívoco não nos pode ser fornecido pela abstra ção e " defi niç.

dos conceitos e dos ax iomas para os fenômenos. Mas é justamente essa articulação que nio pode ser objeto de uma antecipação con. como uma regra "anterior" aos fenômenos. essa síntese é um fim acessfvel. Não se busque. mas autên­ ticos símbolos. apenas. E. em lodo o caso. A conciliação do "positivo" e do " racional" não é uma exi· gência puramente tcórica. cumpre doravante estabe­ lecer novos vínculos entre o espfrito "positivo" e o espírito "ra. um ideal realiúvel: o pensamento setecentista vê ai a prOva con· creta. desde o seu renascimento. Partindo da observação dos 26 27 . não t a lógica escolástica nem uma 1 6gica de concepção puramente matemática: é a "ló­ gica dos fatos" . enftm. na sucessão das etapas perccrridas por essa ciência. passo a passo. D'Alemberl. a ordem. de certo modo. com efeito. está seguro de encontrar nela . procurando mostrar a causa de seus respectivos fraca!lsos: em vez de se prender aos fatos e de deixar que os conceitos se fOnDem no contato com aqueles. o princípio. concebfvel e exprimfvel o priori. aplicar a crftic8 hist6rica aos grandes sistemas do século XVII. Nos progressos da flsica. o quaesilum. de correspondência. mas foi cuidadosamen te distin. A lógica que todo o mundo busca e que todo o mundo está persuadido de encontrar. A observação é o datum. por conseguinte. e impor-se pelos progressos em sua clareza e em sua perfeição. que se demonstre a razão nos pr6prios fenômenos como a forma de sua ligação interna e de seu encadeamento imanente. em posição connitante . tais sistemas elevaram unilateralmente ao status de dogma o p rimeiro conceito que lhes Ocorreu .e o espirito se abandone. guido do esprit de systeme. ceptuaJ. Toda a teoria do conhecimento se empenha em confinnar essa distinção. que se meça continuamente por ela: longe de correr o risco de af se perder. a lei . Newton conclui o que Kepler e Gelileu tinham começado: esses três nomes não evocam simplesmente as personalidades de grandes sábios. mas o inverso. Num intervalo de um século e meio. pois. Não é que eles estejam. ela deve ser encontrada e demonstrada nos fatos . Tenta o autor. em momento nenhum. e o Tratado dos sistemas. mas só se conseguirá obter uma verdadeira sfntese entre eles se se respei tar uma autêntica via de medi ação. assim que se estabelecerá a verdadeira re<:iprocidade. nessa obra. E a fórmula cosmol68ica que se apresenta na lei newtoniana da atração universal não foi encont rada por acaso nem descoberta às apalpadelas: é um método rigoroso que dá suas provas nessa descoberta.ua verdade e sua própria dimensão. situa-a no centro do debate . eslnnllrada e articulada segundo o número e ti medida. a verdadeira correlação de "su jeito" e "objeto". pelo conhecimento crescente dos fatos. ele está inteiramente convencido de que tem. O esprit systématique nem por isso é subest imado ou marginalizado. que é a condição de todo c conhecimento científico. no "Discurso preliminar" da Enciclopédia. esse espírito acaba de submeter-se à totalidade do real. E esse novo programa metódico que deixa sua marta em todo o pen­ samento do século XVIIJ. marcos importantes do conhecimento científico e do próprio pensamen to científico. imediatamente convincente no curso que as ciências. danai". efetivamente adota ram. de Condillac. de "verdade " e "realidade" e que se produzirá entre esses termos a forma de "adequação". uma por uma. sob os olhos a realização do seu ideal. a toda a ri­ queza dos fenômenos. Pode acompanhar ai. Qt!. O grande desígnio de unificar sob uma regra única e absolutamente universal toda a diversidade dos fe nômenos naturais. a " razão". parece ter até realizado. portanto. a marcha triunfal do esprrito ana­ Iftico moderno.apresenta·se como matematicamente detenninada. a legalidade. no caminho da ciência. dá a essa idéia sua formo explícita e sua justificação. O encaminhamento do pensamemo não vai. Em con­ traste com esse "espfrito de sistema". Que não se pretenda antecipar a razão sob a forma de um sis­ tema fechado: há que deixá-Ia desenvolver-se a longo prazo.

mas de fu ndamentar universalmente a dinâmica. que ela deve recorrer a ou tros instrumen tos de conhecimento. A intuição fornece­ I1 OS. mas essa forma de descriçâo nâo poderia substituir uma "ex plicação" verdadeira . e considerarmos se· pur:u. ela ten ta. Mas essa observação dos falOS t apenas um primeiro passo. Ela percebe-os como simples dados individuais . provar q ue ele é a conseqllência necessári a da convergência de diversas condições. A fonna dessa trajetória não podia . desse processo se relacionarmos esse fenômeno com as condiçõcs patticulares q ue o de terminam .cr diretamente dccifrada pela in tuição nem aduzida de um t(tllnde número de observações separadas. a outras runções intelectuais . cum­ pre que cada um dos sistemas de condições seja explorado por si mesmo e que o seu modo de aç. Todo O desen· volvimento ulterior da ífsica está dado de antemão nesse sim­ ples exemplo como num modelo elementar.lamcn te cada um dos pl anos de delenninação que nele se entreCruzam para procunu estabelecer a lei. Foi assim 28 29 . toda a estmtura do $Cu método já aí está illlplfcita. E descobe rta a lei da trajetória parabólica: O recrudescimento e o decréscimo de ve­ locidade explicam-se de modo rigoroso a partir do insta nte em que se consegue provar que o fenômeno balístico é um processo complexo cuja determinação depende de duas " forças" : a fo rça dc impu lsão originária e a força de gravitação. Com efeilo.. por mui to vasto e importante que ele seja . E não escu pa a Cali­ leu que li intuição imed iata da natu reza n50 está à ahura de semelha nte tareCa. S6 decom­ pondo um acontecimento aparentemente simples em seus elemen­ h'" e depois reconstru indo-o a panir desses elementos ~ que se nmsegue compreende-lo. é necessário fazer ver de que condições particulares lal fe nÔmeno de pende e tttonhecer com impecável rigor em que espécie de dependência ele se encontra a respeito dessas condições. S6 podemos chegar a uma concepção exata. da concc: ptu8­ lização tm ffsice. reconduzir esse estado de fato aos seus pressupostos . pode descrever em largos traços seu desenvolvi­ mento. Em primeiro lugar. a teoria da natureza como tal. A tcoria de Newton conservou e confirmou todos os traços que ai já são nitidamente reconhecíveis. ademais. segu ndo Galileu .ão seja conhecido. Galileu dá um exemplo clássico desse procedimento na sua descoberta da trajet6ria parabólica dos H'rpoS lançados no espaço. Ela está construfda. mas falta m suti leza. a teori a newtoniana não se satisraz em ler e interpretar cssali le is como expressão de um simples estado fa tual da obser· vação. Graça. ele chega às leis que estabelecem a fi gura das trajet6rias dos plane ias c detenninam 8 relação entre o pe ríodo de revolução de cada pla­ neia e a sua distância do Sol. como tOlalidades indivisíveis. mais profunda. rigor e prcci~ão nessa determina­ ç50. já não se traia de examinar um determinado selOr dos fenômenos da natureza . Esse método de construção dos conceitos Hsicos é. Toma ndo como ponto de partida as três leis de Ke plcr. de "exatidâo" malemática que jamais fora atingido antes dele. um mé­ todo de "resolução" e um mé todo de "composição". exatidão. não basta apresentá-lo em seu ser e em sua maneira de ser. pelo cruzamento dos métodos dc "resolução" e de ~compos içã o ". O s fenômenos da natureza Merecem-se li inlUição na unidade de seus processos. verdadei rame nte matemática . Esse procedimento analítico é.I fenõmenos celestes. Kepler leva essa observação a um grau de rigor. é certo. Es~a exigência só pode ser satisfeita pela decomposição da imngem sintética do fenômeno que nos é fornecido pele intuição e pela observação imediata para resolvê-Ia em seus mOmentos consti­ tut ivoli. algu ns tra~ gerais: mostra-nos que a uma fase 115censional sucede uma fase de queda do corpo la nçado etl. A tarefa q ue 8 mecânica de Galileu se impôs tem mais amplitude e ma ior alcance : a sua problemll.. a con­ dição de todo o conhecimento rigoroso da ha tureza. simuhaneamente. tica penetra numa nova camada. Para explicar um renÔmcno nalural . com efeito. a trabalhos de uma paciência infatigável .

mas logo sua aplicação foi generaliz.ada. ao paradigma metodológico da físi ca newtoniana.. na aquisição de um material inteiramente novo. redüzindo-as il um único princípio inteligível. há. mas sua direção permanece fixada com firmeza.. de D'Alembert. claro que jamais se deve formul ar hipóteses. e as Investigaçõcs . ava nçarmos em todas as tl i reçõe ~.10 saber. A teoria nev.I que o fenOmeno do movimento planetário. porquanto o seu ponto de partida e o seu destino não são exclusivamente determinados pela natureza dos objetos mas também pela fortn. do que no remanejamento intelectual operado na base do material empfrico.a" nos estA francamente abcrto se entendermos por isso a nrdem e a legalidade empíricas .bre a clareza dos princfpios da teologia e da moral. de Kant." Contudo. o "Discurso pI"liminar" da Enciclopldia.' " t=. Sempre que nos é impossível ter a nJuda da bússola da matemática c do farol da experiência e da (bica pa ra guiar o nosso rumo. Se é verdade que certos pensadores e certa s escolas divergem em seus resultados. não !lU deve dizer: comecemos por inventar prindpios com os quais tralaremos de explicar tudo. de Valia ire .l e pelas forças específicas da razão . posição de um cego que tivesse de julgar a natureza das (!Ires. de posse desses dois Instrumentos. O Tratado de nu!tafísica. A fil osofia do 8&:u10 XVIII está. por Galileu e Huyghens: todo o problema con sistia en­ tão em realizar a síntese: das descober tas deles. de nada mais necess itando 1l".Ta orientar-nos intelectualmen te. de penetrar no se r ubsoluto da matéria ou da alma humana . o triunfo de tal concepção já está assegurado. lul/lm a esse respeito a mesma linguagem. ora. a partir daí. não tarda adqu irir consciência do limite de suas faculdades: ele vê-se 11. de a penetrar. que Kepler vira como um todo. nesse ponto central que vamos nos cstabelecer a fim de. Ao criar.cus efei tos e de seu ordenamento. com o cálculo dos fluxos e o cá !cuia infinitesimal. o cosmo só se abre para esse espécie de penetração quando sub­ metido ao pensamento matemático e ao seu método analítico.Inido dessa bengala ele VAi poder abrir caminho entre as aparências. Não se contenta em compreender a análise como a grande fer­ rornenta intelectual do conhecimemo ffsico-matemático e vê af o instrumento necessário e indispensável de todo o pensamento em geral. a " inteligibilidade da natureza". parece evidente que Newton e Leibniz demonstraram . basicamente. Todos proclamam que n verdadeiro método da metaf{sica harmoniza-se. não obstante.. Cada uma delas tü::. A benevolência da natureza colocou. e de maneira rigorosamente con­ clusiva. Mas temos que dizer: façamos exa­ lllmente ti análise das coisas. 30 31 . M!. A façanha de NewtOn está jus­ tamente na realização dessa sJntese: consiste menos na descoberta de um fato desconhecido antes dele. vinculada ao exemplo privilegiado. em todas as suas partes.1o­ niana reduziu-o a dois tipos de lei fundamentais: à lei da queda livre e à lei do movimento ccntrfiugo. devemos renunciar à esperança dc 'Irrancar alguma vez às coisas o seu segredo.ha sido estudada separadamente.ncordância unânime quanto a essss premissas da teoria do "nhcci mento. partm. que é a análise. Voltaire declara que o homem que se desco­ nhece ao ponto de pretender penetrar a essência interior das It}j saS. Bem entendido. revelou ser uma formação complexa . f' não se trata mais de contemplar a estrutura do C06mo e sim. doravante. um instrumento universal a serviço desse programa . é mais do que certo que não­ podemos avançar um só passo.. lvlll o que foi introduzido por Newton na física e proporcionou tAl) copiosos fru tos. pela primeira vez em ter­ mos de rigor absoluto. conhecê-Ias na pureza do seu " cm si" (An-Sich) . O cami­ nho do conhecimento da natureza desenrola-se indefinidamente. !. vamos poder e devemos arriscar-nos no mar alto 1.Ima bengala uRI mãos do cego. para organizar sua vida e a d!ncia. Mas o "seio da natu­ rcz. Em meados do século. uma . A potência da razão humana não está em romper os limites do mundo da experiência a fim de encontrar um caminho I "lU e. ser informado dos .

" 111 permitir que nos detenhamos jamais naquele pensamento 1111 1. I 111 compreende essa estrutura porque pode reproduzir-lhe a ! <JliN lruçiio em sua totalidade e no encadeamento de seus mo· 1I1\llt l05 sucessivos. semelhante ser deve ser dotado Ill' cu riosidade. franq ueia-nos o acesso ao domínio do inteligível. Essa operação de assegurar·se da verdade constitui o germe e a condição necessária de toda a certeza verificável. Uma vez mais. que nos revela a essência absol uta das coisas. uma verdadeira totalidade . até se us últimos 11 II ll'TltOS e seus últimos motivos. E a sua fun ção essencial consiste no poder de ligar e de desligar. de todos os d ados simples.ido sciendi. O que conhecemos e do que nos apercebemos à luz da razão é "em Deus".ecfa membra . a estabelecer e a consolidar a verdade. A sentença Carnosa de Lessing. onde a verdade é depo­ ~itBda como moeda son an. de todas as crenças basea· das no testem unho da revelação. Mas. de que .IIUd o. que o vemos imediata­ mente: cada ato da razão assegura-nos a nossa participação na essência div ina. paturais. Portanto ela não viu a I 32 33 . nesse seno tido que tode o século XVII1 concebe a razão. foi desse modo proclamada qualidade necessária da alma e como tal rcslabelecida em seus direi!c". do supra-sensível puro e simples. evidente que a razào não pode perma· li'! 1'1 en lre esses dis. para Descartes e Malebranche. Para os grandes sistemas metafísicos seiscentistas. Deixcll de ser a soma de "idéias inatas"." A lN. .lJ seja . a tesou raria do espírito. a crença e a "verdade pré-fa­ f. impõe·se de nuvO 11111".. pois como todas as coisas estão numa cadeia In interrupta . Montesquíeu Il' llt H dar uma justificação teórica geral para essa sede de sa· hl" r inscrita na substância da alma humana. lurda construtiva.td llde mas em sua aquisiçiio. A razão desliga o espírito de todos os fatos simples. A defesa. F. A sua natureza e os seus poderes jamais podem ser plenamente aferidos por seus resultados. só descansa depois que desmontou peça por peça .l dI} um ser mas como a de um Jazer. que a dogmática teológica tinha banido e a que IIplicara o ferrete ignominioso do orgulho intelectual. :t. mas em ensinar-nos a percorrer esse domínio empírico com toda a segurança e a habilitá-lo comodamente. da tradição. de verdades. de princí· pios./lu /iC deve procurar o verdadeiro poder da razão na posse da \I\. acabamos de atingir: "A nossa alma é feita para pensar . após esse lrabalho dissolvente. 111111". ao levar as partes a constitui rem o todo segundo M 1 1'~ru que ela propria promulgou. eSSHS verdades que são comu ns ao espírito humano e ao espírito divino.de saída para o domínio da transcendência. anteriores a toda a experiência. da autoridade. em que cada idéia precede uma e segue-se a uma pl.l tra não se pode gostar de ver uma sem ver wna outra. para Spinozn e Leibniz.d . Essa convicção abre caminhos nos diversos domínios dA ll ltu ru do séeulo XVIIT. O século XVIII confer e à razão um sentido diferente e mais modesto. para aperceber: ora. \ . Ela nào é o erário.fd to conhecimento da estrutura do edifício a~ s im erigido. uma força que só pode ser plenamente percebida em sua ação e em seus efeitos. deverá construir um novo . é à sua função que cumpre recorrer . Não a tem em conta de um conteúdo determinado de conhecimentos. a razão é a região das "verdades eter­ na s". o reforço e a Justi fi cação desse pensamento são as finalidades essenciais que h culLura do século XVIII se atribuiu. median te esse duplo movimento intelectual 'Im 11 idéia de razão se concretiza plenameOle: não como a IIhlll. encontra por toda a parte seu I'urfllclo na história das idéias do século XVIII. Mas ao criar ela própria I t ~)llI l idade. preferindo considerá·la uma energia.te. portanto. manifesta-se aqui a mudança de significação característica que a idéia de razão so­ freu em relação ao pensamen to do século XVII. mas o pOder original e primitivo que nos leva a descobrir. A razão define-se muito menos como uma possessão do que como uma forma de aquisição. para essa infatigá· ~r l curiosidade intelectual que nos impele de idéia para idéia. a razão assegura·se de um I .

sem dúvida. pOr ou tro lado. o exemplo e o mo­ delo da razão. não re­ chaçar ou contestar essa autoridade mas justificá-Ia por um outro lado. se o en tendt:rmos como O espírito da análise pura . de crhica. queb rar o vínculo entre matemática c fil osofia.ecle: "Não sei se tenho lima opinião excessivamente benévola do meu século . digamos. de p0­ lítica . Duelos escreveu em suas Considéra­ tiOIlS sur les moeurs de ce s. da g!andeza e do n6mero. No que se refere à própria Ellciclopédia. obviamente. Não se devia. porquanto se tratava de satisfazer igualmente a duas exigências dife rentes. Assim se estabelece um curioso processo intelectua1 que pa rece acionado por forças diametralmente opos tas. Pascal opõe o "espírito geométrico" ao "esprit lin" para mostrar como eles se distinguem um do ou tro em suas respectivas estruturas e U500S. O século XV IlI dedica-se a esse pro­ blema e resolVe-<) no sentido de que o "esplrito geométrico". é de aplicação 34 35 . mas sem lograr. Não se q uer mergu lhar apenas em redemoinhos e turbilhões de idéias novas. para o século XVIII partir em busca de uma fronteira detenninada entre o espírito matemático e o esprrito filosóf ico. sua caução e fiança? Mas. que constitui a forma essencial do pensamento matemá­ tico dos tempos modernos se reconhecida em sua significação profu nda. nem mesmo afrouxn-lo: não eram lt . via-se com crescente clareza que O poder inerente às matemáticas deparava­ se com certos limites: elas são. sua pedra de toque. outrossim . mas parece-me haver uma certa (em enlação un iversa1 [.' as matemáticas o "orgu lho da razão humana" . suscitando nelcs um sentimento intei ramente novo de tensão in terior. mas assumir o leme e guiar o curso do espírito para metas definid as. A Etlciclopldia fo i criada "pour cltanger la laçon commune de penser A consciência dessa tarefa sensi­ biliza e agita todos os esprritos. tão bela e tão perfeita quanto se fosse concebida num espírito geométrico" . Mas essa severa delimitação não tardará em ser questionada de novo. empolgados por esse movimento. Fontenelle. ] cujos progressos poderiam ser dirigidos e acelerados por uma educação bem entendida ". de um só movimento. declara não ser sua intenção adquirir um mero acervo de conhecimentos mas provocar uma mu tação no modo de pensar. em apa­ rente oposição. no sentido de que a análise.' declara que "o espírito geométrico não está tão exclu­ sivamente ligado à geometria que não possa separar-se dela e transportar-se para outros domín ios.sua tarefa principal na aquisição e ampliação de cer10s conhe­ cimentos positivos. os limites da matemática pura.emplo. Quer-se. compreendê-Ias e dominá-Ias à medida que se adquire essa compreensão. Uma obra de moral. eXlTavasa largamente. Ainda não se atrevem a definir seus fin s últimos. tentando simultaneamente. através dele . Pois o que se quer não é deixar-se muito simplesmente contami­ nar pela efervescência geral e empolgar pelas forças em ação. até mesmo uma obra de eloqüência jamais será. Ele ganha em ambos os planos. emancipar-se do seu domínio exclusivo. Por ex. essa ten­ dência fundamental manifesta-se igualmente sem ambigüidade. A tarefa era diricil e com­ plicada ainda por uma dialética interna. Do espírito geomt1trico. ded ica-se a deter­ minar cuidadosamente os limites das ciências matemáticas da natureza e da ciência do espírito. que se converteu no arsenal de todos esses conhcdmentos. Nessa ob ra. Até os mais moderados e os mais refletidos entre os pensadores verdadeiramente "cientí­ fi cos" sentem-se impelidos para a frent e. O pen­ samento fi losófico parece querer. libe r­ tar-se das matemáticas e vineular-se-Ihes. esgotar-lhe o col1leúdo. Diderot. O primeiro passo nesse caminho foi. dominá-Ia . por exemplo. ceferis puribus. O tratado de Pascal. no entanto. . prenúncio de que já no século XV II se percebia com nhidez o deflagrar iminente desse movi­ mento. no prefácio de seu livro De ['utiJité des matMmaliques et de lo psysique. mas não podem escapar à sua potência e acreditam sentir que se avolumo nele. como que um novo futuro da humanidade. o seu fundador. . por sua própria função univer­ sal.

Seu comedimento não visou mais além dessa análise. cm defi · nitivo. essa di­ versidade perfeita. e mostra como esses ma· teriais devem combinar-se a fim de produzir as diversas rormas de objetos psíquicos . cuja potência 56 (ora até então e~ perimentada no domínio do numero c da grandeza . Tenta fornecer a prova dessa tese em d uas di reções diferentes. em vez de estender-se ao conjunto da vida e da atividade da alma. por um lado . consiste em ter conservado o método geral ensinado pelo mestre mas estendendo-o ao novo domínio dos fatos eJcmentares da aJma . seu mestre e gui. q ue o progresso essencial que ele fez a psicologia reali· zar em relação a Loekc. acontece que Locke deteve·se nessa decomposição. o desejo e a volição : cada um desses fatos vale por si SÓ. A análise. Um olhar mais penetrante reconhece. as diversas classes de ativida des psíquicas. mas também se esgota nessa decomposição. riqueza imensa . A arte analítica de Locke afi r­ ma·se na decomposição das idéias. acredita ele que o seu verdadeiro mérito pessoal. segundo a concepção dominante da psicologia do séçulo XV II I. nos dois casos . Nessa afirmação. o discernimento e a com bímlção. a uma soma de unidades. procurando mostrar que essa expressão esgota tudo o que nos é dado como experiência interna ou exter­ na. COntentara-se Locke em pOr em evidência duas fontes dHerentes da vida meDiai : a par da " sensação" . nenhum dos seus conteudos é jamais rcapresen­ tado da mesma maneira. ele mantinba a " reflexão" como forma autônoma e irredutível. uma só de suas formas. é apenas aparente. essa fl uidez do con· teudo psfquico. em pri meiro lugar. objeta Condiltac. por complexa que seja. Contudo. Apresenta·se­ nos com uma riqueu ilimitada.i o . essa heterogeneidade. sob a mutabil idade quase desenrreada do psíquico. num Ser consistente . EJe tende a provar que toda a represen tação. do paladar e do olfato. no plano do social. T<lmbém aí não existe multiplicidade e diversidade que não se reduza. Não tem um s6 momento. não há duas ondas que tenham umu só e mesmll forma . Lockc deixou subsistir . zombar de semelhante ten tativa. a psicologia do século XV IlI dá ainda um p 3SS0 mais além das posições de Locke. de provar que uma nova in teligibilidade se revela e que um novo domínio de grande importância tomou-se acessível à autoridade da ra7. à realidade pstquica. Ouanto a Condillac. no plano do psíquico. T rata·se. desde que esta aprenda a submetê-lo ao $Cu método especifico. em seu incessante flu~o. e ameaça logo mergulhar de novo no nada.lcia imediata que temos dela. como um ato autÔnomo 37 36 . é agora aplicada . E tarefa da ciência trazer para a luz esse elementos que escapam ao conhe· cimento imediato para colocá·los sob os nossos olhos. única c sem volta . nessa direçiio abre-se à exploração um domínio ainda muito pouco e~ pl o ra do e de uma. numa diversidade infinita . da cinestcsia. pela experiê. em ultima instância.a . nenhum devir que não repouse.. Na corrente do devir psíquico .. cada uma como que jorra do nada. em vez de apu rar a origem das diversas operações psíqui cas. Mas. A atenção e a com­ paração. como totalidades originais e irredutíveis. o método da relação anaUt ica e da reçonstrução sintética. te por outro. ela pa rece . a base sólida . Desde o momCnto em que se passa das formas psíquicas para as suas rontes c os seus princípios essa unidade e essa relativa simplicidildc revelam-se por toda a parte. da au· dição. Ora.absolutamente il imitada e não se encontra vincu lado a nenhuma problemática particular. como ohjeto da natureza e como conteúdo do próprio eu . Berkeley e Hume condensam "sensação" e "refie xão" no termo único de " percepção" . os elementos estáveis e consistentes. A par dos simples dados da visão. Mas os seus discfpulos e sucessores vão tentar eliminar esse dual ismo por diversos meios e impor \!m fundamento estr itamente ·' monfstico". pela maneira como se nos oferece concreta mente. do tato. clara­ mente determinados e nitidamente di stintos . é cons truída com os materiais da per­ cepção sensorial ou do sentido intimo. que sejam idênti· cos aos outros . No tocante .

E. de os comparar.s e Mas. mas não se deixa explicar C deduzir a partir dessas qualidades originári as. da explicação cientí­ fica do mundo material. a partir de simples dados sensoriais que a afetam. por assim dizer. abstrnir e combinar. que é um "cálculo".Stlçoos de Condill ac propôs-se a realizar. Poi essa a tarefa que o Tratado dos sel/. não constituem. e tudo o q ue se espera do homem . ~ assim que Hobbes dissolve o status civilis no status lIotllralis. como se f055e nascida de sua uni50. é netcssário que se recorra. à autoridade da lei e da raz50. dade. Mas a anuência e 8 obediência passiva também têm aqui seus limites. que ele não se sustenta sob o olha r penetrante da análise c:entífica . a (acuidade de identificar esses dadO$.t que só se enCOntra e se demonstra na cltpen cncia imediata. e não se deixa reduzi r a nenhum outro. que se vê privado de seus frutos e de seu verdadeiro rendimento. ~ também uma !'ealidad~ em cujo seio nasce o homem. de maneira nenhuma. Para compreender a sua cons­ tituiçilio. para o conjunto das Operações do espírito. se defron ta. a fim de submetê-Io ao mesmo método que deu suas provas na desco­ berta das leis universais do mundo material. cadll um deles em separado. que ele não cria nem organiza . Se se quiser tomar verda­ deiramente a sério essa dedução. o que Hobbes diz do pensamento em geral. O fundamen to e o principio de sua teoria política. em seu conjunto. Tan to depois como an tes dessa diligência. por sua vez. por desfaze r o vínculo que une as vontades particulares. Somente por meio desse pressuposto fun­ damentai é que é possível fazer do Estado um "corpo". Hobhes precedeu o século XV III nesse caminho. existe uma outra que não pode con tinuar sendo considerada um simples dado C cu ja origem deve ser explorada. em primeiro lugar. é necessário acompanhar sua gênese. mas resultados e produtos. no fundo. sobre os Cunda· mentos de sua verdade e de sua val idade. Os atos singulares do espírito. para reconhecer a sua verdadeira natureza. têm precisamente essa sign ificação: os procedim entos do pensa· men to que nos levam ao conhecimento exa to da natureza dos corpos físicos são-Ihe igualmente aplicáveis sem restrição. Por­ tanto. a "guerra 39 38 . ass im que 6 despertada no homem. Trata-se daquclil ordem de co isas que se nos manifesta pela existência do Estado c da sacie. por sua vez. distin· gui r. muito simplesmen­ te. em nada inferior às suas proezas no dom/nio das ciências naturais. a divisão em partes componentes: considera·se a vontade geral do Estado como se fosse constituída de vontades particu lares. Esse pensa· menta tam~m deve começar. A sociedade é intim ada a comparecer perante o tribunal da razão. a par dessas duas realidades. fá-lo erguer-se incansavelmente contra essa espécie de realidade. Mas assim t . o ser social. o método de dedução. tudo o que se lhe exige. que suspende em pensamento o víncuJo existente entre as vontades individuais para deixar apenas subsist ir seu an tagonismo radicaJ. portanto. com & qual. 8 fim de o reator de novo à sua maneira e pelo seu próprio mttodo . A facu ldade de pensar. Parece quc o método ana lilico obtém aqu i um novo triunfo. Institui-se de novo. à máxima que Locke fizera sua no domfnio apenas das idéias. dados ori­ ginais. ao mesmo denominador: ambas são construídas com os mesmos elementos . o ser psfquico apreselHa-sc-nos como uma d iversidade irredutfvel que é perfei tamente possível descrever em sua particularidade. é que se adapte a essas forroas prcexisl'entes. único meio de submetê-Ia. por esse procedi· mento. vale igualmente para todo O pensamento político. in terrogada sobre a legitimidade de seus títulos. A realidade material e a realidade psf· quica estão doravante reduzidas. a lese segundo a qual o Estado é um "corpo". deve condescender em deixar·se tratar como uma realidade Jlsica que o pensamento esforça-se por conhecer. que esse cálculo consiste em adicionar e subtrair. observar passo a passo como desperta na alma. preciso mostrar para todo esse conju:lIo que o pretenso "imediatismo" niio passa de aparência. associados de acordo com as mesmas leis.

monarquia constitu­ cional. de um modo gera l.' Nessa formulação. dos resul tados derivados pela to talidade dos meios e das condições que os produzem. por conseguinte. ele quer mostrar que ligações cumpre estabelecer entre as forças par ticulares para que ne­ nhuma delas chegue a sobrepujar as outras.de todos tcntra todos". de cer to modo. O seu método. mas. como uma soma de definições causais desse gênero: ela nada mais é do que o conhe­ cimento completo dos efei tos por suas causas. uma tal liberdade só é IX)ssivel num único caso: quando toda e qualquer força parti­ cular é limitada e restringida por uma força oposta . em sua tot<!lídade. todos os interesses particulares s irvam ao bem geral e lhe estcjam subordinados. Sua ambição era 'mais alta: reconstruir esses regimes políticos a partir das forças que os constituem . Montesquie u quer mudar o eq uilíbrio instável que rege e caracteriza as for mas imperfeitas de Estado . em con tra­ partida . E necessário organizar o conjun to desse corpo de tal maneira que seja impossível a uma classe de cidadãos usar os privilégios que desfrutari am para destruir o equilíbrio e a hanTIonia do todo. sem restrições o conteúdo da doutrina de Hobbes. O ideal que a doutrina polftica de Montesquieu descreve é. tal por meio do qual o conhecimento humano só compreende verdadeiramente o que el e gera a par tir de seus elementos. toda a definição completa e perfeita deve ter aí seu pon to de partida : s6 pode ser uma definição " causal".e expOr empiricamente sua maneira de ser. para que todas. deixem à liberdade o ma is vasto campo possível. que a forma de mistura seja tão sábia e tão prudentemente ca lculada que a irrupção de um a força de um lado deflagre incont inenti O aparecimento de 41 40 . Também nesse domínio se desenha com nitidez a vitória do método de " resolução" e de "composição" . consis te em ensinar-nos a reconhecer na sociedade um " corpo artificial" composto de partes que exercem umas sobre as outras uma influência recíproca . Toda a conceit uação vãJida. transformado num problema de estadismo. mas foi profu nda e duradouramente influenciada por sua }orma. a saber. A filosofia pol(tica e social do século XVIII não aceitou. o ideal de um " governo misto" que ofereça uma garamia contra O risco de uma recaída no despotismo .despotismo. A célebre doutrina da " divisão dos poderes" nada mais é do que o desen­ volvimento conseqüente e a aplicação concreta desse pensamen­ to fund amental. oonstituição republicana . Se­ gundo a demonstração de Montesquieu. A fílo sofia é concebida. cujos pressupos­ tos fundamentais foi busca! no pensamento antigo e medieval. ao mesmo temlX). aplica a esses pressupostos desenvolvi­ mentos e mod ificações característicos da infl uência exercida sobre ela pela imagem do mundo decorrente das ciências na­ turais da época. l! ne­ cessário conhecer essas forças para fazê-I as ati ngi r ~ua verda­ deira me ta. A socio­ logia constitui-se à imagem da física e da psicologia analítica. para mostrar de que manei ra e por que meios elas podem ser utilizadas com vistas à instauração de uma constitui­ ção que reali ze a exigência da maior liberdade possível. O espírito das leis de MOlltesquieu vis­ lumbra igualmente o essenc:al de sua tarefa nessa transforma­ ção. conver­ tendo-o num equilíbrio estático. um problema de sociologia e de política é. Mas é precisamen te a partir dessa ne­ gação que será gerado e edificado em seguida o conteúdo pos i­ tivo da lei civil em sua validade incondicional e ilimitada. explica por exemplo Condill ac no seu Tratado dos sistemas. justa­ mente por que se equilibram de modo recíproco. A gênese da vontade do Estado pela fonna do cont rato impõe-se como a única que penníte reconhecer-lhe o conteúdo e estabe­ lecer-lhe os fun damentos. E o vínculo que liga a filosofia da natureza de Hobbes à sua doutrina política: uma e outra são duas aplicações diferentes do seu pensamento lógico fu ndamen­ . Montesquieu não se propôs apenas a descrever as formas e os tipos de constituições . e que. Alicerçou-se na teoria do contrato .

se o gera l não estivesse implícito nele desde o começo. não vendo o fim do mar para além da margem. ao considerar as coisas desse modo. por certo. as histórias de todas 8S nações serem apenas seqüências e cada lei particular ligada a outra lei. não são tais ou tais pontos de partida arbitrariamente esco­ lhidos pelo pensamento e impostos à experiência concreta para remodelá-la. Consiste em partir de fatos solidamente estabelecidos pela observação mas em não se ater.lil tldo necessário.uma força oposta àquela do outro lado. daqueles que formam a cabeça de cada porção da cadeia . Essa forma sistemá­ tica não pode. "e vi os casos particulares submeterem·se a ele. ou depender de outra mais geral". Chamamos-Ihes princlpios porque é aí que os nossos conhecimentos começam. Os "princí­ pios" que devemos investigar por toda a parte. bem longe de merecerem esse nome por si mesmos. De tudo o que precede sobressai qce. que uma só e mesma proposição que em uma ciência é postu· lado como princípio. bem entendido. o "princípio " torno-se dependente do estado e da forma da ciência da mes~a maneira . 42 se não esrivesse. aba ndonada e suplantada. nele "investido" . o menor risco de cepti­ cismo. Mas." 7 A relatividade que é aqui reconhecida e admitida não contém a menor implicação céptica. O método da razão é.idos por uma análise completa do dado. no entanto. ao cará ter absoluto a que tinha pretensões nos grandes sistemas metaffsicos do século XVJ I. Descartes e Leibniz em "e 43 . é preciso que eles se encaixem uns "nos" outros. assim declara elc no prefácio de O espírito das leis. Contenta-se em possuir uma validade relativa. Disse D'Alembert: na escolha. portanto. como por si mesmos. sob reserva de que seja. quando tudo foi bem apurado. que provenha deles próprios. acreditavam não ter ele uma conclusão. ser imposta aos Catos desde {ora. evidentemente. O caminho pelo qual o pensamento deve enveredar conduz. a esses simples fatos como tais : não basta que os fatos estejam "ao lado" uns dos outros. isso sim. q:. do particular para o geral. no desenvolvimento e na enunci:lção dos principios Cundamentais de cada ciência. por sua vez. São condições gerais a que só podemos ser con· duz. ela apenas exprime a certeza de que nenhum limite in· transponfvel é imposto à razão em seu incessante progresso. Esse ordenamento e essa form ulação de princípios fundamentais constituem seu objetivo essenciaL "Apresen tei os principios". nesse domínio. Nlio imite­ mos os primeiros habitantes da beira-mar que. pode aparecer em outra como uma con­ assim que õevernOs nos conduzir clusão. seja em flsiC8 como em psicologia e em política. quer assinalar a última parada a que o pensamento chegou. é preciso. que os fins a que ela parece chegllr só podem e só devem constituir para ela um novo começo. de modo que o equilí· brio procurado restabeleça·se por si mesmo. e sem os quais será impossível assegurar um conhecimento em qualquer domí­ nio. que a simples coexistência se revele. de que elaborou um sólido esquema intelectual que lhe permitirá ordenar e con· trola r a infin ita multiplicidade e diversidade de formas de Estado cmpiricamcnte existentes. à medida que avançava. por exemplo. Montcsq uieu tem a certeza . O próprio con­ ceito de "princfpio" renuncia aSsim. em nenhum ponto verifica·se uma verdadeira ruptura entre eles. como dependência. eles talvez não sejam mais do que conseqüências muito distantes de outros principias mais gerais que sua sublimidade encobre ao nosso olhar. de certo modo. comparando o peno sa rnento do século XVIII cem c do século XVlJ. em cada caso. processo que. e a forma de agregado converta-se em forma de sistema. exatamente o mesmo que nas ciências da natu­ reza e no conhecimento psicológico. seria impossfvel se lodo o particular como tal não es tivesse já submetido a uma regra uni­ versal. portanto. O novo ideal do saber desenvolve-se em continuidade perfeita a partir de pressuposições que tinham sido fixada s pela lógica c pela teoria do con hecimento do século XVI[. Em fu nção dessa relatividade .

quando pos· sível. o próprio âmago desse pensamento. escreve D'Alembert. conserva sua plena fo r­ ça. A diferença que existe entre eSSas duas fo rmas de pensar não lepresenta uma radical mutação. A id6ia de cálculo tem. rnM também à religião." O século XVII deve a solidez e a uni­ dade in terior a q ue c hegou . só é possível com uma rigo rosa unificação. ligar. dos "princípios" para os "fenômenos". O cá lculo deixa de ser aplicável tão-só ao n(lmero e à grandeza: extravasa do domínio da quantidade para o das qua lidades pu­ ras . como tais.· eis a máxima que governa essll época. em La langue des I 44 45 . uma lei. ela é aplicável a todas as multiplicidades cuja estrutura se reporta a certas relações fundam entais que permitem determiná·la intei· ramente. Demo nstrara ele que toda operação matemática tem por fi nalidade detenninar uma proporção entre uma grandeza "des-.ao espírito de coerência e rigor com que manteve essa exigência unificadora. Graças a essa extensão. a id~ja de "cálculo" perde sua significação exclusivamente matemática. efetivamente. es­ barrando em múltiplos obstáculos que o levam a admitir con­ ce.se umas às outras. Mas o pressuposto fundamental de que entre os dois domínios não existe oposição . partindo de um pon to determinado. em seu conjunto". "Todas as ciências. em virtude dessa ordem e dentro dos seus limites. o q ua l envolve. a função unificadora como tal continua sendo reconhecida como a fu nção fu nd amental da • Em rraDCÚ !lO original : "Um rei. à politica e à literatura. "Un roi. pois. o domínio racional do dado.>ct. foi a exigência de uni· dade do racionalismo que conservou todo o seu poder sobre os espíritos. Pois as próprias qualidades deixam-se relacio nar entre si.'l5ÕeS. "nadll mllis são do que a fo rça do pensamento humano. apenas exprime uma espécie de deslocamento de acento. une loi. o conhecido c o desconhecido. Essa ex. de fato. a diversidade aparente à iden· tidade q ue a fundamenta . essa proporção só pode ser concebida com perfeito rigor se o conhecido e o desconhecido participam de uma " natureza co­ mum" . a mesma extensão que a de ciência.) razão. por mais variados e múltiplos q ue sejam os objetos a que esse pensamento se a plica." (N.igê ncia nõo se impôs apenas à ciência. nenhum connito. A "autoconfiança" da raliío em mo­ mento ne nhum é abalada . devem poder apresentar-se sob fonna quantita tiva e. estabelt. Condillac foi o primeiro a exprimir. une foi" . que é sempre uno e idên· tico. conhecida" (incógníta) e uma outra que é conhecida. mas uma reciprocidade perfeita de determinações. a totalidade possa ser percorrida segundo uma regra constante e geral. O ordename nto racio nal .se a essa tarefa fundamental. Cada vez mais. procurando estender o seu efeito a domínios cada vez mais vastos . Entretanto. Essa forma de pensamento "discursivo" tinha sido fixada por Descartes como nonna fundamental do conhecimento mate· mático. do T. "Conhecer" uma mul­ tiplicidade significa colocar os seus elementos em relação reci­ proca de tal maneira Gue. se pusermos de lado. Guando se passa para o século XVIII . O pensamento do século XVIII dedi­ ca. retomando assim as teses inicia is de Des· cartes nas Regulae ad directionem ingenii. Antes de IUdo. o acento des­ loca-se do geral para o particular. de modo que se possa inferir umas das ou tras numa o rdem fixa e rigorosa.r u lei geral dessa ordem para que se possa. porem. uma fé. parece que esse absolutis· mo da unidade de pensamento vai perdendo sua potência . Um e outro . uma forma nova e fundamentalmente di· feren te de problemática . assim. e que deve permanecer sempre semelhante a si mesmo. ampliando-a a todos os domí· nios do espírito e da vida . manter sob as nossas vistas o conjunto do domfnio o nde a lei se aplica.particular.sobretudo no meio cultural do classicismo francês . o cept icisrno de H ume. A idéia de unidade e a de ciência são e continuarão sendo intercambiáveis. Mas as modificações e concessões não atingem. A forma discursiva do c0­ nhecimento tem constantemente.. Basta sempre. inferir·se de uma só e mesma unidade numérica. o caráter de uma reduçao: ela reduz o complexo ao simples.

projetA-se no inrinito do espaço e do tempo. Mas não é porque se transpôs essa fronte ira que se tem necessidade. ao pressuposto de um conteúdo determinado. Essa demonstração é fornecida pela célebre imagem que Condillac colocou no centro de sua psicologia. está fora de dúvida que uma matematização imediata do psíquico é impossfve l. na pureza de sua forma e de seu uso formal. entre o mánnore como "matéria " morta e um ser vivo e animado. Em tudo isso. Essa função despreza todas as diferenças asso· ciadas às coisas. à idéia cartesiana da alma. de uma (orma geral. ele repete e combina. será retomada e desen· volvido por Helvétius em seu livro Do esplri/o. imaginação e criação artística. não estando Jigada. mostrando que essas são apenas o desenvolvimento progressivo de um germe. nada mais é. de sua imortali dade e de sua espiritualidade. evidentemente. de uma fonte comum. Estende o universo vislvel para além de todo limite . Ba'5ta para isso conseguir superar a diversidade aparente de suas formas. de opor à vida sensível da alma as faculdades "superiores" do espirito. porquan­ to a aplicação direta dos conceitos de grandeza só é válida quando o próprio objeto ~ constitufdo de partes e pode ser re· constitufdo a partir delas. que tudo aquilo a que chamamos " realidade psicológica" e experimen ta· mos como tal é apenas. A tentativa a que Condillac se entrega aqui. u possibilidade de o reduzir. de maneira nenhuma. como o corporal . é verdade. de um poder quase ines­ gotável. na dimensâo do psfquico. Se o psicológico não se dei:.ca/CIl/S.e esse ter­ reno jamais pode ser abandonado. uma por uma . psfquico em geral".. essa distinção substancial insuprimível que separa a alma do COrpo nâo opõe qualquer fronteira intransponível à simples junção de conhe­ cimento analítico. em momentOli e em elementos constitutivos no pensamento. não é menor. Aquilo que temos O costume de considerar princípios diferentes. com efeito. nada inventa. suas qualidades respectivas. no domínio da substância corporal que se defi ne apenas por sua extensão. O esplrito nada cria. Trato-se de mostrar desse modo que a série contínua dessas " impressões" e a ordem temporal segundo a qual elas lhe são fornecidas bastam para con stituir a totalid qde da existência psfquica. Para ele. A influênciol 46 41 . urna meta­ morfose da simples impressão scnsfvel. que já está implícita na mais elementar das impres· sões sensíveis. por· tania. não obstanlc. para produzi-la em toda a riqueza e delicadeza dos seus matizes. tanto do mundo "exterior" como do mundo " interior" . E revela-se. nada acrescentam de novo. essa qualidade. A sensação é a fronteira entre o mundo do corpo e o mundo da alma. porém. em relação ao elemento sensfvel originário. inscreve no mármore. A matematização produzir-se-á. Essas constituem o sólido ter­ reno sobre o qual assenta todo O edifício de seu mundo. essa idéia geral da cleneia de que quis dar. no fundo . pre­ cisamente. Partiu ele da hi pótese de uma estátua de mánnore que ~ progressivamente "animada" e dotada de uma vida psíquica de conteúdo cada vez mais rico à medida que cada um dos sen tidos impri me. Nessa própria repetição pode dar mostras. senão modificações do ele­ mentO originário da sensação. e não no domfnio da substância pensante "indivisfvel". sem deixar de preo­ cupar-se com a produção em si mesmo de figura s sempre novas. desejar e querer. o espfri to só tem que haver-se consigo mesmo e suas "idéias simples". em sua psicologia. ele decompõe-se. com uma preCisa0 perfeita . nada de essencial mente hetero­ gêneo.. na verdade. Se se consegue por esse método produzir o psíquico. dividir em partes. que se ateve. a de provar que toda a realidade psíquica é uma tran sformação. Pensamento e julgamento . de equipar-se de outra maneira e improvisar novos princípios. qualitativamente falando. uma demonstração caracte· rística e uma ilustração pe rtinente e recunda. de um fenô­ meno originário do .a . a repetição e a transformação de uma qualidade fundamental determinada. Mas essa oposição fu ndamental.

revela ser mera ilusão enganadora. todas as condutas teóricas aparecem de Iorma idêntica. não existe escala de valores no plano ético. Para a crí· tica. Quem se debruçar simplis­ tamente e sem preconceitos sobre C5sa realidade não descobrirá nela o menor vestígio desse pretenso dualismo. e esse nada mais é do que a percepção de semethanças e dessemelhanças (cotlvenances e disconvenances) entre as idéias individuais. deixa de haver doravante "alto" ou "baixo". da ambição e da vaidade. própria e originária da alma. Verá que tudo o que o homem glorifica como desinteresse. que rechaça tais envoltórios. ela foi apenas ligeiramente modificada. Sua intenção profunda consiste em eliminar essas hierarquias artificiais que as convenções ins­ tituíram e que se empenham cuidadosamente em manter. de resto. capaz de os dominar e reprimir. Helvétius procura mostrar como seme­ lhante "hipótese" não se coaduna com a simples realidade dos sentimentos e das ações humanas. Descobrirá por toda parte o mesmo impulso instintivo sempre semelhante e totalmente uniforme. Assim como. desmorona . "Eu julgo ou eu sinto que. Esse risco consiste no nivelamento que ameaça a consciência na me­ dida em que a sua riqueza viva é fundamentalmente negada. dos desejos e das paixões mais "baixas". uma faculdade específica. magnanimidade e altruísmo só se distingue 48 pelo nome. Não há nenhuma grandeza moral que se eleve aciroa desse nível: por elevados que sejam os objetivos que a vontade se atribui. Helvétius desenvolve sob retudo essas con­ siderações no domínio da ética. Acredita-se numa elevação acima da impressão sensível quando. tudo o que ela pode esperar e exigir. entendimento e razão ­ nada disso constitui. "superior" Ou " in­ ferior". em definitivo. a mai s nua uniformidade. Aquilo a que chamamos julgamento e conhecimento. Também aqui se produziu O mesmo dis· farce .que ~sa obra bastante Iraca e pouco original exerceu sobre a literatura filosófica setecentista explica-se pelo fato de que essa época encontrou aí um traço caracterislico do seu pensamento sob uma foma deveras expressiva. não na coisa em si. na massa única e indivisa das impressões. na verdade completamente idên· tica. tudo se torna equi­ valente e indiferente. alguma finalidade supra·sensível que ela possa imaginar·se perseguindo. imaginação e memória. de fato. na opinião dele. O pensamento analítico arranca a máscara que dissimula os fenômenos psíquicos. assim como a dos valores. envolveu-se-a numa outra vestimenta . Nesse exagero aparecem claramente os limites e o risco metodológicos desse modo de pensamento. até num exagero que toca as raias da caricatura. Todas as operações do espírito se reduzem. ao julgamento. diíerenças verdadeiramente radicais entre as for· mas teóricas. ao passo que acreditava descobrir um "sentimento de simpatia" originário no homem capaz de opor·se aos seus instintos sensuais egoístas. tampouco há. no máximo. um que deno­ mino toesa exerce sobre mim uma impressão diferente daquele 49 .é isso. Ao passo que a ética tradicional falou sempre de uma categoria particular de sentimentos "morais". Mas esse conhe­ cimento da semelhança e da diferença também pressupõe uma " consciência" originária que é inteiramente anál::>ga à percep­ ção de uma qualidade sensível. dos instintos mais elementares da natureza humana. A diferenciação das formas. No interior do psíquico. segundo Helvétius. mas a realidade assim des­ mascarada só vai mostrar em seguida. algum bem supraterrestte. se acaso se fizer uma idéia exata de si mesma e dos indivíduos. Tudo é colocado no mesmo plano. As mesmas considerações são válidas a propósito do mundo teóríco. Tudo se funde. ela nem por isso deixará de permanecer igualmente encerrada no círculo estreito do egoísmo. de dois objetos. na verdade. com efeito. A sociedade jamais poderá obter a repressão desses instintos primitivos mas tão-somente a sua suo blimação e o seu disrerce . em lugar da diversidade anterior e da mobilidade inlerna. em que passa a ser considerada não mais do que uma máscara e uma roupagem.

dando a essa disciplina uma forma inteiramente nova. ". do mesmo modo que. incontestada. sobretudo. de fato. em lodo o caso. assim como a análise do infinito sai di retamente da problemática cartesiana. lal como se lhe afigura. Mas o que. porquanto foi justamente no circulo da Enciclo­ pédia que se produziram as críticas mais severas e as mai s precisas contra a obra de Helvétius. tam· bém se pode dizer. corresponde em suma ao desenvolvi· menta do espírito analítico que é. na teoria do Estado e da 50· ciedade. E é incontestável para Leibniz que só no progresso da análise exisle futuro e esperança pal'a o progresso dessa tcoria formal. nu medido em que pertencem ao domín io das verdades estritHmente racionai s. constitui o fim último e supremo do pensamen to. a identidade lógico. que a cor que nomeio vermelllC age sobre meus olhos de modo diferente do daquela que denomino ama· relo. em nbsolu to. homens como Turgot e Diderot.!ros primos. chega ao ponto de afirmar·se na teologia. prOfundas mudanças para a mundivisão desse tempo mas que. Entretanto. que as perspectivas que Helvétius aqui representa S80 típicas do conteúdo da filo­ sofia do Iluminismo.rlUalmente idênticas". a própria terra clássica da análise desde que Descartes consumara a refornla. a França era a pátria. de redulir todas as formas comple:tas de pensamento nos se'J S elementos. À primeira vista. tal como o consideramos até o presente momen to. um renômeno francês . Assim como a sua obra matemática. uma certa forma de pensamento que determina de an· temão tanto as suas realizações positivas quanto as suas difi· culdades internas. esse espírito cartesiano penetra em todos os domí. do mesmo modo que a escala lógica do conhecimento. que toda a lógica leibniziana tem sua origem na combinatória que ela tende a desenvolver como uma teoria forma l geral do pensamento. parece que a unidade. suas vitórias e seus fracassos. sobretudo. se m dúvida nen hu ma. A partir de meados do século XVII. ou mesmo do pensamento do enciclope· dismo francês. ou seja. t: sobre esse ponto que vão doravante concentrar« todos os seus tra· balhos de lógica . na política. paru a realização do ideal da sciemia generalis." 8 Todo o edifício dos valores éticos. Uma vez.' Mas na filosofia . Trata·se de chegar a um "alfabeto do pensa· menta". com efeito. e foram os nomes mais eminentes da literatura filosófica francesa. é demolido de alto a baixo. Na verdade. em suma . Ele não se impõe somente na filosofia mas também na 50 litera tura. libertou as potências que nela dormitavam a fim de lhes conferir seu pleno desenvolvimento. Todas as proposiçõcs verda· deiras. mais.que denomino pé.ão sentir. às operações de simplicidadc ex tre· ma. imprimia ao pensamento uma forma e uma direção inteiramen te novas. porquanto apenas quer ser a elaboração conseqüente. assim como no movimento das idéias em geral. nios. na teoria dos números. das verdades "eternas". os que tomaram a iniciativa. na moral. como se vê. reportando-se ao princípio de identi· 51 . a sua in fluência não é. seria um erro considerar. e concluo em semelhante caso que julgar não é ser. é indiscutível é que tanto em Helvétius quanto em Con· diUac atua um certo método que caracteriza o conjunto do século XVI11. como não poucas vezes foi C eito. siío proposições . pa· rece que Lei bn iz apenas deu prosseguimento à obra de Des­ cartes. todo o número pode se r concebido e apresentado como um produto de núml. a realização sistemática da geometria analítica . a transformação radical da fil osofia . Os dois edifícios são arrasados por essa mesme razão de que só 80 nível do chão se pensa encontrar para eles uma rundação sólida e inabalável. Com a HlosoHa leibniziana tinha sur· gido. uma nova corrente intelectual que trazia consigo. a uniformidade e a simplicidade. 2 O pensamento do século XVlll.

A metafísica de Leibniz disting'o. a mul­ tiplicidade tão necessariamente. vê-se que o terna lógico fundamental que dom ina e impregna a mundivisão de Leibniz s6 na aparência é o da iden tidade. Cada mônada é um centro dinâmico vivo. que a( estabelecesse todo o se ~ti do de conhecimento. ser 110 devir. e sua atividade consiste em passar para estados sem p~ e novos e em descnvolvê-Ios incessanlemcnte de seu pr6pria fundo . pode-se ir mais longe e associar-lhe. com efeito. parece que Leibniz manteve. em vez do dualismo cartesiano e do monismo spinozista. de fato. prioridade do universal e seu "primado" lógico de maneira incond icional. a significação e a especifi cidade do conceito feibniziano de substância mais niti­ damente se vê que esse conceito implica. puramente numérica: é uma uni· dade dinâmica. não apenas do ponto de vista do seu conteúdo mas também sob o seu aspecto form al. representarmo-nos a sua lei específica. Toda a determinação que aí encontremos deve ser. a sua matemá tica e a sua metafísica. um " universo pluralista". As ver· dades de fato. O fi m supremo de todo O conhecimento reside nas "verdades eternas". não se inte­ 53 52 . semelhante lógica não se hannonizaria com o coOleúdo do novo conceito de substância. por muito importantes e indispensáveis que sejam para a gênese do universo intelectual leibniziano. Em vez dessa identidade analftica.le-se da de Descartes e de Spi­ noza ao postular. encontramos aqui um princípio de con.as suas últimas conseqüências. O verdadei ro correlato dessu unidade não é a individualidade mas a infinidade. efltre o sujeito e o predicado do julgamento.tinuidade. toda a diversidade à estrita uniformidade. que reduzisse toda a multiplicidade à unidade. Até mesmo a relação do geral com o par­ ticular será doravante esclarecida de uma nova maneira. Continuidade quer dizer unidade na multiplicidade. de rato.identidade. toda a mudança à constância. Pode-se. parece. a sua filosofia da natureza e a sua metafísica.mente oriunda dos pr6prios fund amentos da matemática. ~ por isso que todo o mo­ mento da m6nada. uma nova mutação reine tu!ue Wendung). situando-a no âmbito dessa problemática. exprimindo as relações universais e necessárias entre as idéias. considerada tran· sit6ria. Quanto mais se aprofu nda. constância 1U1 mudança . Parece. característica do pensamento de Descartes ou de Spi· noza. e que exige. ainda O mais simples. se considerarmos justamente a rei a· ção Intima e indissolúvel que une as partes dessa fil osofia . Esse termo designa uma ligação que s6 pode exprimir-se na mudança e na constante ai· terução das determinações. como fez Louis Couturat em sua notável exposição da doutrina. que ao proceder·se assim apenas se está sendo fiel às intenções pessoais de Leibniz. as simples verdades "contingentes". A "mônada" leibniziana nâo é uma unidade aritmética. sobre o qual Leibniz construiu a sua matemática e o conjunto da sua metaHsica. por conseguintc. Para descobri-la e compreendê·la racionalmente não basta apoiarmo-nos num sinal característico fixa do aqui ou ali. A mOnada 5Ó exis te na med ida em que é ati va. Uma lógica que se construísse unicamente com base no conceito de. tentar considerar desse ponto de vista O conjunto da lógica leibniziana. que sempre declarou não existir nenhuma divisória ergu ida entre 8 sua ló­ gica.dade e de contrad ição. temos que coloca r claramente sob os olhos a regra da tran sição. tão origináriu e essencialmente quanto a unidade. jamais se resolve na mesma soma de "qualidades" puramente estáticas. pelo comrário. "A natureza da mônada é ser fecunda e gerar uma diversidade sempre nova". que toda a sua fil o­ scfia e~a matematice. não o esgotam em sua totali· dade. r. Prolongando esse pensa· mento até . envolve o seu passado e já está prenhe de seu futuro. e.o entanto. E. somente a sua riqueza e diversidade infinitas constituem a verdadeira unidade do mundo. lnj· cialmcmc. a sua teoria do conhec imento. que os motivos considerlldos até o presente como fun damenta is. E nenhum desses momentos é absolutamente idêntico aos outros.

contentar-se em recolher simplesmente as observações. na medida em que ele é plenamente cag­ noscível. até o conteúdo particular dessa intuição fund amental. o fio de Ariadne do conhecimento humano acabado. fina lmente. pode-se aduzir a totalidade dos seus fenômenos. Ela é um todo que não consiste em partes nem cons­ titui o seu resultado. L al representação não o esgota. pelo contrário. uma simples relação de subsunção entre o universal e o particular. já não é redutível a uma e. l multiplicidade. E no entanto. resolvê-Ias_ Embora esse fim SÓ seja acessivel a um entendimento divino. A mõnada . correlação necessária. em contrapartida. Sua particul aridade só se revela nesses atos sucessivos de particularizilfiío (Beso"de­ rU'lg). estabelecendo relações internas de modo que ela se apresente como urra soma de "causas" e "efeitos"? A vizinhança no es­ paço e a sucessão no tempo tornam-se assim uma verdadeira "conexão" em que cada elemento é detenninado e condicionado pelos outros segundo regras fixas. Não se trata de subordinar um ao outro mas de conhecer que um está impHcito e fundamentado no outro. simples soma de partes. que se trata de representar. reciprocidade interna . seu ser não mai s consiste na soma de suas panes mas precede-as. opondo-se a toda e qualq uer tentativa para subdividi-la uma vez mais. contentemo-nos em considerar a sua es­ (rutura categoria/o Verifica-se de imediato que o conceito de todo (der negriIJ des Ganzen). A mônada não é unidade simples nem simples multiplicidade. e dispersar-se na sucessão dessas determinações. o " princípio de razão suficiente". em cada uma delas. a par do " princípio de identidade". A tota­ !idade revela-se como totalidade. A sua natureza e a sua realidade não vão perder-se. o constituinte fundamental das coisas no sentido de que repre· senta o que resta finalmente quando elas são divididas até o fi m. Essa visão fun damental é conceptuel e terminologicamentc concebida por Leibniz graças à idéia de força: pois a força é para ele o estado presente que tende para 55 54 . ignora essa oposição e essa resistên­ cia. O átomo é o elemento. por outra parte. A ffsica é governada pelo prin­ cfpio de razão suficiente. conservam-se in tatas e presentes . de certo modo. Ela não se con tenta em estabelecer rela­ ÇÕts puramente conceptuais. não mais " mecânica" mas "or­ gânica". pois de um modo geral não existe para ela alternati va entre unidade e multi plicidade. o qual constitui para Leibniz a condição de todas as "verdades de fato". mas não pode. Ar reside precisamente a diferença decisiva que separa a unidade da mOnada da do átomo.gram nesse modelo lógico. são tunto mais clnra e dis­ tintamente percebidas quanto melhor se conseguir reduzi·las a determinações puramen te racionais e. adqu ire uma significação nova e mais profunda . mas "expressão da multiplicidade na unidade" (multorum in uno expressio). já que é ele que as toma possíveis em sua naturezs e modalidade. da experiência sensível. O "todo" do mundo . não existe. mas pelo contrário. necessário que desse agregado se extraia um ~ i stema : e como consegui·lo senão dando forma à massa incoerente de "fatos". E por esse motivo que. como norma tão le­ gítima e indispensável de verdade quanto aquele. cisão en tre esses dois momentos. de modo que. dentro dessa nova perspectiva. se assim podemos dizer. Deve partir da observação. à custa de sua solidez. de todo o estado singular do universo. contudo. fixidez e indivisibilidade. a concordância ou discordância de idéias. nem por isso constitui menos a norma . particularização essa que só é possível e inteligível na condição de t{ue a forma completa a partir da qual ela se de­ senvolve conserve·se em si mesma e permaneça fec hada sobre si mesma. aparece. por outro lado. portanto. se nos referirmos à intuição fundament al que domi­ na a lógica e a teoria do conhecimento leibniziallos. mas que se desenvolve constantemente numa multiplicidade de determinações. ~ " un idade" por oposição. Não iremos mais além. colecioná-Ias e considerá-las em sua acumulação. assim como a matemática o é pelo princípio de identidade.

E. só é possível tratar esse problema na con' dição de se encontrar o meio de reconduzir o indivíduo ao conceito universal. conserva·se como um centro de força. na qual elas se ha:monizariam. essa nova orientação desloca . Essa con­ cepção. abrangendo o universo inteiro dessa pers· pectiva caracterfstica e singular. A mónada não é um agregado mas um todo di· nâmico que s6 se pode manifestar numa profusão. o conceito fundamen tal de harmonia. uma fração. contudo. a harmonia suprema e a mais in· tensa plenitude da realidade no auge da energia individual e não em seu nívelamer.o esta~o que se lhe segue e que aquele envolve de antemão (status ipse praesens. que permanece em cada caso reservado para o universal. considerando-o um caso especial do univer· saJ. Ela não vem apenas modificar algum resultado particular. Essa verdade não está const:tu(da de tal modo que as diversas imageos monadoJógicas do mundo tenha:n em comum alguma parte integrante . ele exprime algo que a é em si mesmo essencial e valioso para si mesmo . !la verdade . A idéia central da fil osofia leibniziana não tem que ser procurada no conceito de indiv idualidade nem no de universalidade. preciso compreender. digamos até. o individual SÓ pode ser " concebido" pela maneira como. e que figur aria. o centro de gravidade de toda uma visão do mundo. no entanto. um fragmeoto do universo. ser compreendidos por meio de um outro . embora direrenciando-se infinitavamente nas expressões de sua força. por essa referência e nessa vinculação ao universal Tomado em si. Em nossa própri a natureza. da lógica da identidade. em· bora seja a sua própria filosofia a que lhe fez a critica mais decisiva. Longe de estar confinado ao simples papel de um caso ou de exemplo. que já não se baseia simplesmente na idéia de ser mas na de atividade pura. com verdadeira exatidão e certeza. dum lendit ad sequentem seu sequentem praein volvit). Ora . óbvio que. só a totalidade. como a origem comô!m da " objetlvidade" . por assim dizer. Ao refletirem-se um no outro eles geram. permanece "confuso". no próprio curso dessa criação individual. o individual. constitui a verdade do ser. Esse pensamento fundament al impõe uma D ova orienlaÇ<10 das idéias. mas não seríamos capazes de dizer. a que implicitamente a modificou e até a desmontou. desse quid. um símbolo da essência divina e sua vera imagem. A doutrina leibniziana do conceito ainda está ligada . sua igualização e sua extinção. pelo contrário. em suma. ele se encon­ tra "inserido" (umgrilfen) no universal. por múltiplos laços. O individual só pode ser "pensado" em geral. O que significa que só se alC4lnça 8 verdade do ser. embora conservando sua própria permanência e desenvolvendo suas re­ presentações segundo a sua própria lei. ser percebido " cloro e distintamente". a esse esquema tradicional . que tal modificação interna não tem nenhuma importànda direta. explica Leibniz em seu tratado Da verdadeira teologia mfstica. mediante uma vaga impressão de conjunto. obtém a posse de uma prerrogativa inalienável. pode­ mos estabelecer que o individual d. de algum modo. na filcsofia leibniziana . pelo contrário. confere ao problema do indivídual um sentido inteiramente novo . é não só uma parte. único e vivo . nessa pró­ pria reflexão. Em suma. mas esse mesmo universo. o qual cons­ titui o ponto de partida e o fim de todo o sistema . sem dúvida . relaciona·se.to. J! o conhecimento desse "o que". esronde-se um genne. estes dois con­ ceitos devem. com o qual está rela­ cionado por su1Jsunção. No início. um vestígio. que :oda a substância. numa infinidade de efeitos variados e que. o que ele é. Nos limites da légica anaUtica. historicamente demonstrá· 57 56 . com elas. com a 10talidade das outras e afina-se. visto de um certo lugar e numa certa ·'perspecliva". Cada subs· tância individual. dentro do sistema leibniziano . parece. segundo o modo em que se oferece à percepção sensível ou à simples intuição . Com efeito. que só é possível obter considerando a natureza da espécie ou a definição que fornece as caracte:-lsticas gerais.

por conseguinte . Baumgarten encontra o ca­ minho que reconduz até ce rla5 lontcs das idéias de Leibniz que estavam a té então como que solt:rrad as. devem sua ex. que estava dominndo pela idéia de fix idez das espécies. Os conceitos leibni­ zianos e os temas fu ndamentais do seu sistema só (oram. o~ Novos ensaios sobre o entendimemo humano. Se Wolff confere à idéia de harmonia. no Candide.istência a uma oca­ sião exterior e contingente e s6 contêm a doutrina sob uma forma popular. mais particulannenle .vel. uma vez ma is. aos princípios de co nlinuidade e de razão suficiente o lugar que lhes compete na economia do sistema . que a in rluê ncia e a n=ssonãnci a de cer tas idéias e de certos problemas funda me ntais de Lc ibniz se fazem sentir com força crescente. à concepção original e profunda do problema da individ ualidade q ue tinha sido inicialmen te revelada e apli­ cada na Monadologia e no " sistema de harmonia preestabele­ cida" de Leibniz. tra nsmitidos no sécu lo XVI I1 com certas restrições e como q ue quebrado por sua passagem através de um meio refrativo. pois. a té a frsica e a metafísica do orgâ nico e m Diderot c 06 pri. mas pela fil osofia da natu reza e pelas ciênci as naturais descritivas. da doutrin a clássica seis­ centista. O ra. retomando os princípios da dinâmica le ibn iziana.CU5 Elementos da filo sofia de Newton . é Alcxander Baumgarlen. O século XV I li s6 conhecia inicialmente a Wosoria Jeibniziana sob uma (orma muito incom· pleta. A estética alemã e a filosoria da histó ria retornam. para a filosofia do sécu lo XVIII. inteiramente indi reta: s6 atullrlÍ na (orma transposta que o sis­ tema de Wolff lhe impôs. O encaminhamento dessa in­ fluência não passa pela estética e pela teoria da a rte. exer­ ce se u espírito à cu sta da Teodic:éia de Leibniz e rec rimina­ lhe . o nde 8 influê ncia ca rtesillna vinha pre­ do minando amplamente. a 1 6gica de Wolff e sua metodologia distinguem-se da de Leibniz na medida em que procuram reduzir ao esquema mais simples e mais unirorme possfve l a diversidade das abordagens leibnizianas. como a Manadalogia e a Teodicéia. pouco a pou· co. vai surgir um movimento de idéias que te nderá 8 anu la r a r uptura e a remover os obstáculos q ue se opõem à compreensão. acompan ha-se o desenrola r de um consta nte progresso . Na Ale man ha. Mas é no seio da cultura francesa do século XV III . Com efeito. De Maupertuis. não te r feito out ra coisa senão retardar com suas idé ias a própria {(Bica e o progresso da ciência em geral. por consegui nte. aprcsenlando-os como conseqüências. e ntretanto. como deduções do princfpio de contradição. ou seja . Pouco a pouco.iu natural. Em sua metafísica e. a afrouxar. somente em 1765 in· gressa no campo visual do século XVIII . numa época em que a fil osofia do Iluminismo já realizara a ma ior parte do seu desenvolvimento e adquirira sua fi sionomia definitiva. A maior ênfase recai dorava nte sobre a idéia leibníziana de desenvolvimentoj o sistema da natureza do século XV III. nas grandes linhas da sua Estllica. Para o conhecimento da doutrina . A obra·mestra da teori a leibniziana do conhecimento. dispõe apenas de um pequeno número de textos q ue. em :. as quais só a muito custo se afastam da ó rbita. sua origina lidade e sua indepen­ dênci a de es pírito. nas q uai s a rigidez conceptual começa. o pensamento profundo de Leibn iz não atuou de imediato. A in fluência das idéias de Leibniz é. passa progreSsiva me nte por uma muda nça dc dentro para fo ra. meiros esboços de teoria descritiva completa da natureza na Histó. justamente. puramente " exotérica". dt: Bu rfon. graças à edição orga­ nizada por Raspe com base no manuscrito de Hanover. E verdade que Voltaire. sua con tinui­ 58 59 . sobre esse ponto e em muitos Olltros. transposta e abreviada . e m seu desenvolvimento. o mais importante discípulo de Wol ff. "Sua razão su fi ciente . q uem manifestará . por outro lado procura limitar-lhes a significação e a independência originais. corno uma força viva e presente. sem nenhuma justifica· ção nem qualq uer desen volvimento rigorosamen te conceptual. defendendo e explicando o princfpio de continuida­ de. em sua totalidade.

no artigo "Leibniz" da EncicfopMia. nu nca deixa de confessar sua profunda admiração pelo gênjo fil osófico e matemiÍlko de Leibniz. Em O século de Lllls XIV. desdc esse elogio pessoal até uma penetração autêntica. de continuidade e de harmonia. uma compreensão mais profunda dos princípios da filosofia leibnizianu . Da lógica das "idéias claras e distintas" a marcha do pensa­ men to leva à lógica da "origem" e do individual. do "me­ canicismo" ao "organicismo". que te ve em Leibniz o seu ponto de partida." 1 1) Voltaire. nem sempre foi dessa opinião. desde a teoria do conhecimento até a física. D'Alem­ bert. essas duas correntes intelectuais diferentes que nele confluíram: 11 forma cartesiana clássica de análise e essa nova síntese filosófica. sob tão variados aspectos. para ele. no círculo dos enciclopedistas franceses. torná-la inteligível em sua gênese. de menos­ prezar o papel de Leibniz." . quando queri a fazer ver e compreender em suas grandes cor rentes O conjunto da estrutura intelectual do século XV II . Essa mudança de op i­ nião manifesta-se ainda mais nitidamente na geração seguin te 11 de Voltaire. do ptincfpio de identidade ao princípio dc infinidade. da mera geo­ metria à dinâmica e à filosofia dinâmica da natureza. seu orgulho. Nessa oposição fundamental já estão contidas as grandes tarefas inte­ lectuais com que o século XVIII se defronta::-á e qu~ irá abordar. ao mesmo tempo. que a Alemanha . com FonteneUe. não se tratava. desde a filosofia da religião até a estético. se se quiser apresentar em seu conjunto a estru tura intelectual do séc ulo XVIJI. só por ter albergado esse espírito. sem dúvida.dade. cumpre colo­ car lado a lado. mais do que nunca. desde a psicologia até a política e a sociologia. os princípios da metafísica leibniziana. Aristóteles e Arquimedes. mas que atuam em comum e se justapõem. E Diderot. suas mônadas etc.escreveu Voltaire em 1741 . dos quais o senhor Wolff fez brotar metodicamente quinze volumes in quarlO que. nôo merece menos honra que a Grécia por P latão. O caminho ainda é loogo. 60 61 . instilaráo nas cabeças alemãs o gO':i1O de ler muito e entender pouco. contudo. pronuncia o entusiástko elo­ gio de Leiboiz: ele proclama . e reconhecia efetivamente sem reser­ vas a significação universal de sua obra."são germes de confusão. é certo. embora combatendo. Entretanto. distintamente.

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mas também O meio onde c espírito adq'Jire o autoconhecimento. cujo acesso ao espírito humano foi fran­ queado pela física. A ciêocia da natureza não é mel'amente o movi­ mento do per.11 NATUREZA E C/~NCIA DA NATUREZA NA FILOSOFIA DO ILUMIN ISMO Para obter b medida exata do papel da ciência da natureza na gênese e elabor2ção da imagem do mundo na época moderna não nos cingiremos a considerat todas essas descobertas que se integraram :.IIS forças criadoras oriundas da Hsica.que o recrudescimento e 8 eXlensão desse /tUl(erial com que a Cisica recém· nascida enriqueceu o saber humano. à pri­ meira vista. O crescimento e 8 I 65 . E desse modo se instaura um processo mais signifi cativo do. Essa transformação.:ma por uma. Se essa de­ ser. do que pela nova função que ela atribui ao pensamento.samento q1.lpenhou um papel decisivo. está muito longe de esgotar a totalidade G. ao con· teúdo dessa imagem e que definitivamente a modificaram de um modo radical. como traços característicos. quase incomensurável. cuja amplitude parece.!e se aplica ao mWldo dos objetos. foi menos pelo novo conteúdo objetivo do pensamento.

adquire consciência dessa nova rorça cuja presença sente em si mesmo. portanto. singula r. antes. ao mesmo tempo. de um duplo motivo: forças aparentemente olXJstas a con· dicionam e informam. o seu valor também era plenamente determi nado. ao mesmo tempo. entre expe­ riência e pensamento. Todo o aumento de extensão continuaria sendo estéril e só de­ sembocaria. por esse lugar. e que busca p rover-se. mas. de se mostrar igual em sua simples unid ade à infinidade do ser . tanto quanto o instinto de se lançar em seu vôo a fim de ganhar. eis que sobrevém a in rinidade de mundos incansavelmente gerados no seio de um devir em que cada um representa apenas uma fase transitória. Em vez desse mundo único e do ser único. o grande espetáeulo do mundo que se desenrola constantemente sob os nossos olhos é a con· firmação desse sentido profundo que o ego só pode descobrir em si mesmo. em descrevê-la em seus grandes traços. em quem o novo sentimento universal se mani­ festou claramente pela primeira vez em toda a sua forya. a mudança essencial não reside nessa extensão ilimitada. Spinoza e Leibniz. _t'l~.8 por medidas e números fini· tos. A tarefa do pensamento medieval consistia essencialmente em reproduzir a arquitetÔnica do ser. o su jeito e o objeto. uma nova intensidade. a infinidade do devi r. ter que prosseguir ad in/initum. por esse meio. o instinto de se agarrar ao mundo com todos os seus órgãos . tal como a escolástica o fixara. que nos ga ran te sua exi stência e nos ensina a apli car-l he a medida e o Hmite com o objetivo não de restringir sua am pliJude mas ce conhecer a lei que o envolve e o impregna profundamente. uma modificação decisiva da "onto­ logia" pura: ela desloca e altera n escala de valores pela qual se afcria até então a ordem do ser. uma perspectiva mais correta. do ponto de vista da história das idéias. sistema reli­ gioso da Idade Média. ou apreender sua grande7. Já Giordano Bruno. o fato agem nela tanto quanto o impulso para o . em última instância.ampliação constante desse material pareeem. o concreto . toda a rea­ lidade recebia seu -Iugár lmu tá~eI e indiscutfvcl. no vazio se o esplrito não ad­ qui risse . Para ele. A nova concepção da natureza nasce. até por causa dessa extensão. A sua mais elevada energia e a sua mai s profunda verdade não residem no poder de passar ao infinito. Não pode haver em tal sistema a menor dúvida: todo o pensa­ 66 67 . a partir dos séculos XV I e XV II. :a a fo rça da razão que constitui para nós o único modo de acesso ao infinito. no fato de que o espírito. graças a essa elevação..unherso abso­ luto. Tal concentração só o con· fi rma em sua própria e verdadeira natureza. deCiniu nesse sentido a relação entre o eu e o mundo. Entretanto. nos grandes sistemas do século XVIT . Essa legali dade do universo que se revela ao pensamento e se define pelo pensamento constitui o correlato necessário de sua imensidade visível. O desejo e o gozo sensuais juntam·se fi potência do espírito para arrancar homem no mero dado e mandá·lo divagar ao ar livre no país do possível. em Descartes. do inesgotável prOCeSSo vi tal do universo. O impulso para o singular. pela distância maior ou menor que o separava do ser da causa primordia l. caracteriza-se sobrdudo peltl nova relação que se estabelece entre sensibilidade e entendimento. A concepção medetlla da natureza que se formou depois da Renascença com uma nitidez e uma firmeza cresccntes. diretamente acessfvel à intuição. um a nova concentração em si mesmo. Desintegrou·se a fonna rígida da mundivisão antiga e medieval. entre mundus sensibilis e mundus in­ telligibilis. ° Mas essa mudança de método no conhecimento da natureza im pli ca. Espaço e tempo ampliam·se infi· nitamente: seria impossível continuar a concebê-Ios por meio dessa rigura sólida que a cosmologia antiga possu[ra na doutrina platônica dos cinco corpos regulares ou na universo escalar aris· totélico. de um fundamento e de uma legi­ timidade filosóficas. mas de se afirmar em face do infinito. o mundo deixa de ser um "cosmo" no sentido de uma ordem visfvel em seu todo.

A "luz natural" como tal já não contém em si nenhuma verdade pTÓpriu. nenhuma outra ajuda senão a das facul· dades naturais do conhecimento. a única que está em condições de restaurar o conhecimento primitivo perdido pelo pecado. ele é o saber. O con heci mento da natureza não é. no estabelecimento da velha teologia protestante nos séculos XV I e XV lI. a concordânci a entre os respectivos conteú' dOS/ O reino da graça não anul a c reino da natureza. q ue deverá procurá·la além de si mesma. o que não requer. dizendo que o verdadeiro ser da natureza 68 69 ~ I . a par da lei divina. dos seres materiais. de uma assistência sobrenatural.l sofre por dois caminhos dircrcntes o ataque do pensamento renascentista. a sua consistêncja: gralia nalllral non tollit. não cabe. julgamento e raciocínio lógicos. que permanece viva muito além da época da escolástica. como restabelecer·se dessa escuridão. Se ete se ergue acima do reino da natu reza e. in telectuais e espiri­ tuais. nem o Estado podem erigir« sobre O seu alicerce . no nível das fac uldades naturais. existe um conhecilT!ento natural do direito. o outro s6 nos é acess(veL graças à revelação. de resto. dos corpos e das forças que aluam neste mu ndo. sem recorrer a nenhuma outra fonte de certeza A "natmcza" significa. Niío obstante. ex· cluldo desse sistema. Nem a ciência . o uso discursivo do entendimento. scd per/ieit. menos uma classe de objetos que um certo horizonte do saber. entre revelação e razão. com os dos seres físicos ou corporais. pois os limites do c0­ nhecimento natural não são determinados por seu objeto mas por sua origem. os grandes siste· mas esco1 6sticos no auge da sua época têm por sua tareCa essen· cial sua concili ação. tanto no domínio te6rico quanto no prático. portanto . seja qual C or o domínio ti que se reC ere. . por exem­ plo. o seu princípio fundamental . é limitado e cntravado! Os limites do conhecimento natural não co incidem. prepara o terreno da revelação. de modo algum . . de compreen­ são da realidade! Deve-se·lhe imputar tudo o que se situa no compo do lumel! IUlturate. r. Deus. A razão çontinua sendo a serva da revelação (lanquam Jumura et ministra) . contudo. O' conheci· mento " natural" coincide com o conhecimen to das "criaturas". Muito pelo contrário. sem se desnortear na escuridão a luz que queima nele. não contesta. uma es­ (era psíquica . nem mesmo no pensamento medieval. evidentemente. Enlre fé e saber. Nem por isso deixa de va l e~ o falo de que a oaru· reza nno encontrará em si mesma a sua acabada perCeição. Portanto. quer do lado do sujeito quanto do objeto. o sobrepuja. a tex naturalis constitui o primeiro grau e o ponto de fi xação da [ex divina . e a fil osofia da natureza que toma a dianteira: pode·se enu ndar a sua tendl!ncia profunda. está corrompida e obscurecida .a medida em que este é acessível a um s~ r finito. esC era que é acessfvel à razão humana e talvez dominada c eltplorada por ela. 1! nesse sentido que se opõem o "reino da natureza" e o "reino da graçaH . Há sem pre necessidade. relativamente au tônoma . da lei natural. nem a mora· lidade. A par do conhecimento natural do mundo. Todo o saber é "natural". o saber que não se estende a nenhum oulro dom ín io salvo o dos objetos sensíveis e finitos. Para o pensamento medieval subsiste. O primeiro é·nos comunicado pela percepção sensível e pelas operaçõcs que lhes estão ligadas. ela coloca o espírito no cam inho da revelação.menta se sabe situado no seio de uma ordem inviolável que não lhe compete criar mas perceber. de certo modo. do Estado. que se afirma ainda sem contestação. criado dependente. I desencadear um connito. Essa concepção. fica desde o início limitado a esse círculo estreito do ser donde não pode sair sem se perder. porém. se decorre exclusivamente da razão humana e se se apóia unicamenle nela . a alma e o mundo são os três eixos do ser em torno dos quais se articula o sistema do ~aber . para ser demons· trado e compreendido. e não saberill como li bertar-se. para levá-los à sua verdadeira perfeição. até da religião e de suas verdades fundamentai s.

parece ser absorvida por sua infin idade. como o movido ao motor divino. fA natureza é mais do que simples criatura: ela participa do ser divino originário. Constitui algo de especificamente individual e necessário. A lei a que obedecem 70 os seres individuais não lhes é pl-escrita por um legislador estra­ nho . anima propria quam nabeont tot quol in illius gremio vivunt.. s6 esta é digna dela . como de um centro de rorça particular. De fato . Contudo. visto que a força da eficácia divina está viva nela. em primeiro lugar. Non est Deus ). Com o nome de "natureza" entende·se doravante tudo isso ao mesmo tempo: sigo nifica. tal teoria não podia deixar de entrar em conflito . a "digni­ dade" que ela reivindica na totalidade do ser.n­ sível e a imaginação não se encontram à alturl!. justa­ mente por causa desse contexto religloso. A observação ~ensível deve combinar-se com a medida exata para engendrar 8 nova forma da teoria da natureza . esse ordenamento deixa agora de ser uma simples su bordinação. ele mesmo se empenha no movimento. está fundada em seu próprio ser e é plenamente cognoscf­ vel a partir desse ser. o ser singular dos objetos. o ser próprio." Nessas fórmulas de Giordano Bruno manifesta-se uma ra­ dical mudança da idéia de natureza. A conseqüência disso é que um segundo c essencial passo foi dado. idéia" .mim UI. o ordenamento de todas as partes em relação ao Uno. O objetivo que ela se propõe a alcançar não mudou: descobrir na legali­ dade da natureza o vestígio de $ua divindade. Tanto o sentimento quanto a intuição se. ela afirma-se igualmente contra esse todo. a passagem do naturalismo dinâmico da Renascença para a matemálica ffsica já ~tá implicitamente consumada.não deve ser procurado no plano do criado mas no plano da criaçiio. mas . dessa exigência. O que ela combatia na física não era certamente tal ou tal resultado da investigação cientlCica. porquanto é justa­ mente um princípio criador origin ário que se move interionnen­ te. Com efeito. de um modo cada vez mais grave. Mas o trágico mal-entendido no qual ele fin almente viria a naufragar 71 . E é igualmente sobre essa potência disti ntiva que irradia de cada coisa. da totalidade da atividade e da vida que as engloba a todas.. à qual s6 se pode responder procurando (ora dos caminhos co­ mumente trilhados relações novas entre o individual e o todo. A natureza nlio se opõe mais a Deus como o motum ao movctls. O que dora· vante se impõe com todo o rigor ~ o estabelecimento da lei da ação que define a natureza da coisa. niio por uma espécie de adivinhação mas por um conhecimento claro e distinto.a força que sobrevém de fera. ai está imediatamente presente. agindo como causa motriz primeira sobre uma matéria estranha. que assenta o seu valor inalienável. Essa teoria. O poder de dar-se forma e de desenvolver-se a si mesmo assinala a natureza do selo da divindade. A natureza é elevada até a es(cra do divino. não pela penetração de uma corrente de simpatia mas exprimind~a atra· vés de idéias claras .lei intelfigenJia exterior circumrotans eJ circumducense dignius . entre a "aparência" e a . mas essa idéia está então dotada de uma significação mais rigorosa e mais determinada. porquanto a parte não está somente no todo. com as formas tradicionais da M. species propria. A luta que a Igreja travou contra a penetração do esplrito ffsico-m atemático moderno só se compreende nessa perspectiva .. debet esse inlernum prillcipium motus. ainda está impregnada de um profundo impulso religioso que lhe confere seu dinamismo. O dualismo do criador c da criatura é assim suplantado. Sempre teria havido uma conciliação poss(vel entte esses resul­ tados c a doutrina da Igreja: Galileu acreditou por muito tempo nessa concil iação e trabalhou $inccramentc nesse sentido. por outro L ado. esta últ ima conslrÓi-se pura e simples· mente sobre a idéia de lei . Não nos figuremos Deus cemo urr.. Tal modo de presença convém apenas à divindade. representa justamente a individualidade. lal como foi estabelecida por Kepler e Galileu. contudo. quod esl natura propria.

ela apresenta-se wb uma (orma acabada. o de te~ subestimado. Por isso Galileu não foi capaz de conduzir sua réplica até a verdadeira e profunda raíz do conflito. a única expressão que lhe corresponde e lhe convém encontra·se nos objetos matemático. essas autoridades podiam permitir (anto O sistema de Copérnico quanto o de Ptolomeu. Não menos importantes do que os resultados de suas investigações são as mtfx{mas resultantes dessas investigações. aguardando apenas o espírito humano para o reconhecer e o exprimir. mantém·se sempre cambisnte e ambígua. permitindo uma varie· dade de interpretaçóes_ A sua compreensão e a sua interpretação são obra humana. somente pela palavra. mas também à filosofia. mas só tinham podi­ do realizar a de:nonstração da aplicação concreto. de translucidez. uma solução con­ cludente e definitiva? CaJileu e l<. como tal . uma verdade física independente.equilibrar as conseqüências intermediárias. Era.que di-zemos1. a veneração que o século XVII T manifes­ 73 . A revelação jamais poderá. não era à !leva cosmologia que se opunham com todas as scas forças as autoridades eclesiásticas: enquanto ~hjp6teses" matemáticas. compreen­ deu e apreciou a obra de Newton: reverencia em Newton. as regulae philosophandi cujo valor provou na ffsi ca é com as quais marcou ·essa ciência para sempre. ela não é legível para quem não tiver a menor idéia da escrita em que se nos apresenta e que. por conseguinte. a qual se revelava válida nas par­ tes. 72 Ora. de univocidade. Essa verdade não nos é dada pela palavra de Deus mas em sua obra. portanto necessariamente fra gmentária. dessa concep­ ção para fenômenos naturais isolados. em seu conjunto.~ A par da verdade da revelação. Subsistia. faltava ainda o prova de que essa legalidade rigorosa. portanto. Na verda­ de. o triunfo do saber humano: a descoberta de um poder de conhecer que se igualava ao JXXIer criador da natu­ reza. nas riguras e nos númcros_ Grs. não saberia decifrá-la. mas. com teda a sua importância metodológica."Lei do Cosmo"_ Essa lei fundamental Newton pro­ pusera-a e demonstrara-a manifestamente na teoria da gravita­ ção. ao passo que na naturel. ficou na tentativa de adEptar e. assim como as inovações que introduzira na alilUcle metodológica do cientis­ ta. longe de ficai por ai. eis que surge agora uma verdade própria e originaJ. de que ele podia ser adequadamente concebido por inter­ méd io deste_ Essa prova foi fornecida na obra de Newton: já não se tratava mais de ordenar e regular um campo fenomenal cir­ cunscrito. A admiração ilimitada.s.8 estende·se sob 05 nossos olhos o plano geral segundo o qual o universo é construído. enfim. como ti queda dos corpos e o movimento dos planetas. em sua unidade indivisível e inviolável. porquanto a palavra. não assenta no testemunho das Escrituras ou da Tradição e está a todo instante presente sob os nossos olhos. mas de descobrir e fixar claramente uma . numa tessitura sem lacunas e perfeitamente transparente. o que ameaçava o sistema da Igreja até em seus alicerces era a nova concepção da verdade que Galileu proclamava . de que o universo coroa tal era acessível aos conceitos rigorosos do conhecimento matemá­ tico. O que era intolerável. com Newton. num prazo de tempo extraordinariamente cur:o. Naturalmente. proclama incansavelmente e com uma insistência crescen· te que Newton não deu somente AI natureza regras fixas e dura· douras.sinuar-sc.epler tinham concebido 8 idéia de lei natural em toda a S:J8 amplitude e profundidade. E uma verdade que pode vestir-se de palavras simples . o grande cientista experimental. bem entendido. esse esplrito humano manifestara·se claramente desde então no próprio parecer do século XVIII : o que Galileu recla­ mava não se convertera.ça9 às mate­ máticas . Foi assim que o século XVIII. uma lacuna por onde a dúvida poderia ir.foi o de ter procurado a divergência que se esforçava por resol­ -ver onde ela não estava. era transferível pata o todo. atingir esse grau de limpidez. em realidade? O proble­ ma que a Renascença tinha formulado não encontTara.

que está desde a origem implantada nelas. ] Nalure and Nature's laws lay hid in night~ God said: Let Ne wton be" and aU was light [ . .tou a Newton baseia·se nessa interpretação do conjunto de sua obra . à auto­ nomia da natureza corresponde a autonomia do entendimento. sacrificando 1. Tal mediação não permite o estabelecimento de um vInculo mais estreito entre 8 natureza e o espreito. que constituem a essência do intelecto.. Nessa perspectiva. Natura estque níhilm nis. Cumpre con­ ceber a nutureza e o espírito por sua essência própria. mas nem por isso dei­ xam de estar. numa perfeita harmonia. a fil osofia iluminista proclama. Os dois termos dessa correlação são. acompanhar o seu próprio curso li e fixá-lo pela observação . muito pelo contrário. Quem descobre uma não pode deixar de encontrar a outra. e acabará por rompê-Ia. Essa ruptura já ocorrera . devem recorrer igualmente a essas funções universais de comparação e de contagem . A corres­ pondência da natu. A natureza que está no homem encontra·se. a fundação que nenhuma transfonnação ulterior da física poderia vir a abalar. Contrária a essa recaída na transcendên­ cia. devemos. medida e cálculo. tanto para a natureza como pata o conhecimento. pelo questiotUlmento da natureza e do espírito .. consiste em princípios que lhe são plenamente acessfveis. de associação e de dis­ tinção. graças a ele. a filoso­ fia iluminista procura mostrar a independência da natureza ao mesmo tempo que a independência do entendimento . sem dúvida. Toda a mediação entre a natureza e o entendimento que se arrogasse detentora de uma onipotência ou de um ser transcenden te tomar-se-ia imediatamente supérflua. Assim . pelo contrário. o princípio de imanência. do T. das trevas à luz. Ambos devem ser doravante reconhecidos em sua originalidade própria e assim correlacionad05. ) • Nesles versos de Pope está expressa da maneira mais con­ cisa e signifi cativa a veneração de que Newton gozava no pensa­ mento da época ilumini sta . Newton (oi o primeiro a traçar o percurso que conduz das hipó­ teses arbitrárias e fantasiosas à clareza do conceito. . pensava-se ter ennm enconlrado o solo fi rme . Já era o que a filosofia da natureza da Renascença entendia por natureza: uma lei que as coisas não recebem do exterior mas que decorre da pr6pria essência delas. D'Alembert chamava o século XV II I de Século '/5 • A natureza e as leis da natureza permanecem ocultas na noitel Deus disse: "Faça-se Newton" e tudo era luz (N. graças a essa mesma independência . experimentação.1 independência de ação da natureza e a independência fo rmal do espfeito à onipotência da causa primeira divina. Se essa obra parece lão importante. em suma. Com ele. pelo contrário. Et [ex qua peragunt proprium cuncta entia cursum. na metafísica dos tempos modernos. [ . Mas os nossos elementos de mediçao não devem basear-se somente nos dados sensíveis.reza e do conhecimento humano está agora estabelecida de uma vez por todas.3 Para descobrir essa lei devemos abster-nos de projetar na natureza as n05S8S representações e os nossos devaneios subje­ tivos. perfeitamente independentes. virlus insila rebus. a qual não é em si algo de obscuro e de misterioso. não é exclusivamente em fu nção da elevação de seus p ropósitos e de seus êxitos mas ainda mais pelo caminho que ela inaugurou. explica-M! a potência quase ilimitada que o conhecimento físico adquiri u sobre todo o pensamento da epoca das Luzes .sionalistas. o vínculo que os une é doravante indi ssol úvel. que ele é capaz de descobrir e de explicar racionalmente por si mesmo. 74 . pela simples posição do problema . sempre teve por efeito afrouxar toda e qualquer vinculação entre eles . de impenetrável ao en te ndi mento ~ mas que. tão incomparável. Num só e mesmo processo de emancipação intelectuaJ. com a natureza do cosmo e reencontra-se nela.). por iniciativa dos sistemas oca.

da Filosofia; mas não tinha menos direitos nem menos orgulho em designar-se como O Século da Ciência. A organização da pesquisa no domínio da física já estava muito avançada no século XVII; atingira até uma certa perfeição. Na Inglaterra, com a fundação da Royal Society em 1660, tinha sido criado um local de encontro pata os trabalhos de todos os cientistas. Na realidade, essa sociedade já existia e funcionava antes como urn<! associação livre de pesquisadores independentes , como uma es­ pécie de "u niversidade invisível" (invisible college) , antes de receber, com decreto régia de fund ação, seu estatuto e sua sanção oficial. Manifestava desde sua origem um esp(rito meto­ doldgico muito especial , recordando incessantemente que nenhu­ ma idéia merecia confi8!lça em física se não tivesse dado antes suas provas empíricamente, se não tivesse sido testada na devida ocasião e por meio da experimentação, O movimento assim de­ sencadeado alcança em seguida a França e encontra seu primeiro apoio na Académie des Sciences fundada por Colber! (1666). Mas s6 o século XVIII lhe proporcionou toda a sua amplitude, ao estender sua ação a todos os domfnios da vida intelectual. Foi somente então que ele saiu do drculo das academias e das sociedades científicas para converter-se, de uma simples oportu­ nidade propiciada ao homem de ciência, num dos elementos mais importantes e mais profundos de toda a civilização. A par dos investigadores experimentais, dos matemáticos e dos Hsicos, par­ ticipam agora no movimento igualmente os espíritos que se es­ forçam por realizar uma nova orientação do conjunto das ciên­ cias morais. Uma renovação dessas ciências, uma visão mais profunda do espírito das leis, do espíri to da sociedade, da polí­ tica, até da arte poética, parece impossível se não se olhar para o grande exemplo das ciências naturais. f: ainda O'Alemberl quem não s6 encarna em sua pessoa mas exprime com maior rigor e clareut, nos seus Elementos de filosofia, essa ligação entre

as ciências da natureza e as ciências do espírito. assim como o principio sobre o qual essa ligação repousa:
A ciência da ,tatureza adquire de dia para dia novas riquezas; ti geometria, ao dilatar suas fronteiras, levou o seu facho às partes da jísica que se encontravam mais perlo dela; o verdadeiro sistema do mundo foi finalmente reconhecido. Desde a Terra até SaturtJo, desde a história dos céus até a dos insetos, a tisica mudou de rosto. Com ela, quase todas as outras ciên­ cias adquiriram uma nova tormo. Essa fermentaçi10 intelectual, agindo em todos os sentidos pOr sua pr6­ pria natureza, propagou·se com uma espécie de violên­ cia a tudo o que lhe era oferecido, como um rio cauda­ loso que rompeu seus diques, Assim, desde 00 princfpios das ciências profanas aos fundamentos da Revelação, desde a metaf/ sita até as questões de gosto, desde a música ã moral, das disputas dos teÓlogos aos proble­ mas económicos, desde os direitos naturais até os direi­ tos positivos, em suma, desde as questões que nos interessam de perto até as que só indiretamente nos afetam, tudo foi discutido, analisado ou, pelo menos, agitado. Uma nova luz sobre alguns assuntos, uma nova obscuridade sobre muitos outros loi o truta ou a con­ seqüência dessa agitação geral dos espíritos, como o eleito do lluxo e re/luxo do oceano cOllsiste em' trazer para a costa alguns objetos e dela afastar outros.'

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Nem um só pensador notável do século XVIII escapou a essa tendência profunda. Se Voltaire, no e:omeço, fe.z ~poc a na França. nâo foi por seus poemas nem pelos seus primeiros esbo­ ços fil osóficos, mas por sua introdução a Newton , por seus êléments de la philosophie de Newton; entre as obras de Diderot encontra-se uma intitulada Eléments de physiologie c entre os
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escritos de Rousseau.. um a exposição dos FOlldemellts de la

chimie. Os primeiros trabalhos de Monlesquieu relacionam-se
com problemas de fisica e de fisiologia. e ele parece ter sido impedido de lhes óar prosseguimento por força de uma circuns­ tância exterior, uma doença dos olhos que desde cedo lhe tornou difícil a observação minuciosa. Nesse est ilo tão característ ico de suas obras da juventude. diz Montesquieu: "Poder-se-ia quase pensar que a natureza é como essas vi rgens que guardam por muito tempo o seu tesouro, mas que, depois, deixam-se arrebatar num instante esse mesmo tesourO que tão zelosamente defen­ diam." li Todo o século XVII I está impregnado dessa convicção: acredita que na história da humanidade chegou fin almen te o momento de arrancar à natureza o segredo tão ciosamente guar­ dado, que findou o tempo de deixá-la na obscuridade ou de se maravilhar com ela como se fosse um mistério insondável , que é preciso agora trazê-I a para a luz fulgurante do entendimento e penetrá-Ia com todos os poderes do espírito . Em primeiro lugar, era necessário que o vínculo unindo teologia e física fosse definitivamente desfeito. Embora já esti­ vesse basta nte mais solto antes do sécu lo XVIII , não fo ra ainda quebrado de modo nenhum . A autoridade das Escrituras conti­ nuava seado respeitada em questóes que só dependiam da física . As zombarias com que Voltaire atormentava inexoravelmente a "fisica blblica" parecem-nos hoje superadas e insípidas, mas um juí'Zo histórico justo não devc esquecer que ele se defrontava no sécu lo XVIl I com um adversário que era ainda sério e perigoso. A ortodoxia ainda não renunciara, em absoluto, ao princípio da inspiração literal e o resultado lógico desse princípio era que o relato mosa ico da Criação continha uma autêntica ciência da natureza cujos dados não podiam ser abalados. Não só os te61o­ gos, mas também os físicos e os biólogos esforçavam-se por sus­ tenl:U e explicar essa ciência. Em 1726. é publicado com o título

de Théologie physique, um tratado do inglês Derham em tradu­ ção francesa , a que se seguem pouco depois a Théologie astrO-­ Itomique, do mesmo Derham, a Théologie de l'eau, de Fabricius, e a Théologie des inSCC'tcs, de Lesser.6 Voltaire não se enfu rece apenas contra as pretensas descobertas dessa física teológica; ele procura , sob retudo, aniquilá-la no p lano metodológico. desacre­ ditá-la como fil ho monstruoso do espfrito metodológico, como bastardo da fé a da ciência. "Quando alguém quer levar-me pelos caminhos da física a crer na Trindade, diz-me que as três pessoas divinas correspondem às Irês dimensões do espaço. Um outro acha q ue me vai dar a prova tangível da transubstancia­ ção: mostra-me pelas leis do movimen to como pode existir um acidente sem o seu sujeito ". Uma nítida sepa ração metodológica s6 se impõe aos poucos. Toma a dianteira na geologia elim inan­ do em primeiro lugar o esquema temporal em que se desenro­ lava o rel ato bfblico da Criação. Já no século XVII os ataques visavam sobretudo a esse esquema. Fontenelle compara a crença dos antigos na imutabili dade dos corpos celestes à crença de um a rosa que qui sesse recorrer ao fato de, em sua memória de rosa , jamais ter visto ainda morrer um jardineiro. A crítica torna-se mais séria depois que passou a apoiar-se em resultados empiricos, em especial nas descobertas da paleontol ogia. O tra­ tado de Thomas Burnel, Telluris sacra theoria (1 680), assim como a sua Archaeologia philosophica ( 1692) esforçam-se uma vez mais por confirmar a verdade objetiva do relato bfblico da Criação ; mas Burnet deve . a esse respeito, renuncia r expressa­ mente ao princípio de inspi ração literal e refugiar-se numa inter­ pretação alegórica que lhe perm ite reformular toda a cronologia bíblica. Em lugar dos sete dias da Criação, ele introduz épocas ou períodos a que se pode atribuir qualquer duração, não importa qual , imposta pelas descobertas emp(ricas . Em As épocas da natureza, a mais importante obra de Buffon, t,sse procedi­ mento será elevado à categoria de um princípio de investiga­

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ção bem definido. Buffon não pretendia entrar em conflito com a teologia e, aos primeiros ataques dirigidos contra a sua obra, submeteu-se às decisões da Sorbonne. Mas, ao manter silênçio a respeito do Gênese, disse muito mais do que poderia tcr de­ clarado em qualquer polêmica. Com efeito. pela primeira vez era esboçada uma história física do mundo que se mantinha. à margem de toda a espécie de dogmática religiosa e só queria apoiar-se em fatos observáveis e nos principias da física teórica. Uma brecha irreparável foi assim aberta no sistema tradicional, e o espírito irrequieto de Voltaire não descansou, ao longo de uma obra que se estendeu por mais de meio século, euquanto não demoliu . pedra por pedra, podemos dizer, todo o edifício desse sistema. Essa destruição era a preliminar indispensável para a reedificação da física. A ciência tinha reaberto agora, com pleno conhecimento de causa, o processo outrora intentado por Galileu. Ela reabria-o dessa vez cm seu próprio fórum e decidia fazê-lo de acordo com as suas próprias normas. Desde então o seu veredito nunca mais foi seriamente contestado: o próprio adversário aderiu·lhe finalmente em silêncio. Assim foi alcança­ da uma das primeiras vitórias decisivas da filosofia do Ih.tminis­ mo. Ela punha um ponto final numa questão que se iniciara na Renascença: delimitava definitivamente o domínio do conheci­ mento racional, no interior do qual este não encontrava o menor obstáculo e o menor constrangimento autoritário, onde podia movimentar·se livremente em todos os sentidos e, apoiando-se nessa liberdade, chegar, enfim, ao pleno conhecimento de si mesmo e das forças que continha em seu bojo,

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Em Enlreliens sur la pluralité des mondes. FonteneUe, pro­ curando explicar a cosmologia cartesiana, compara a história da

natureza com um espetáeulo que se desenrolasse num vasto palco de teatro . Ao espectador sentado na platéia oferece-se uma série de eventos que chegam e partem em confusa seqüência. O espec­ tador absorve-se na contemplação desses eventos, deleita·se na riqueza variegada das imagens que se desenrolam diante dele, sem se preocupar muito em indagar como é que o espetáculo é realizado. Mas, se por uma vez se encontrar na multidão de es­ pectadores um mecânico, ele não se contentará em olhar. Não descansará enquanto não estiver na pista das causas e não des­ cobrir como funciona O mecanismo que produz essa sucessão de cenas. A conduta do filósofo é idêntica à do mecânico. Mas ocorre nesse caso uma circunstância que aumen ta a dificuldade: é que a natureza, no espetáculo que produz incessantemente sob os nossos olhos, escondeu tão bem o seu dispositivo que, durante séculos, ninguém logrou descobrir-lhe o mecanismo secreto. Só a ciência dos tempos modernos conseguiu espreitar nos basti­ dores: percebeu não só o espetáculo mas compreendeu também a engrenagem que o põe em movimento. E ao invés de, por essa descoberta, o encanto do espetáculo diminuir, O seu valor é, muito pelo contrário, realçado. Seria um erro crer, como muitos, que o conhecimento dos mecanismos que regem o curso do universo lhe reduzem ~ dignidadc. "No que me diz respeito, ainda o tenho em mais alto apreço depois de saber que ele é como um relógio. Não é deveras surpreendente que a natureza, por mais admirável que seja, assenta em definitivo sobre coisas tão simples? D1 A compaIação assinalada por Fontenelle é mais do que um simples jogo de espíritoi ela encerra um pensamento que era de importânci a decisiva para toda a edificação do conhecimento da natureza no século XVII. A fil osofi a cartesiana da natureza conferi.ra a esse pensamento seu cunho característico e uma apli­ cação universal Nada se compreende da natureza se a considerar­
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mos tão-somente uma soma de fenômenos, se apenas tomnrmos em consideração a sua extensão no espaço e a sucessão de even­ tos no tempo. Trata-se de remontar desses fenômenos aos prin­ cípios; ora, estes s6 se encontram nas leis universais do movi­ mento. Portanto, assim que essas leis fo ram descobertas e se lhes deu uma expressão matemática exata, está traçado o cami­ nho para todo o conhecimento ulterior. Basla-nos desenvolver o que af se encontra contido e implícito para ter uma visão com­ pleta de toda a natureza, para compreender o universo até em suas estruturas mais íntimas. O tratado de Descartes sobre o sistema do mundo devia fornecer a execução desse plano teóriCO. Estava colocado à sombra do lema: " Dêem-me a matéria e construirei um mundo" . O pensamento já não quer mais aceitar o mundo como um dado empírico; assume como tarefa pene­ trar no ediHcio e observar por si mesmo como a construção é realizada . Em suas próprias idéias, claras e distintas, eocontra o exemplo e O modelo de toda a realidade. A evidência de seU6 pri ncípios e de seus axiomas matemáticos o conduz com toda a segurança de um extremo ao outro do domínio da natureza. Pois existe um só caminho fixo e determinado, uma única cadeia dedutiva fecha da sobre si mesma, que leva das causas mais eleva­ das e mais genéricas do devir até os mínimos efeitos, por com­ plexos que sejam. Não ex iste qualquer espécie de barragem entre o domínio das idéias claras e distintas e o dos fat os. entre a geometria e 8 físiCa. Uma vez que a substância dos corpos con­ siste apenas em extensão, o conhecimento dessa extensão. a geometria pura, prepondera simultaneamente na física . Ele expri­ me a essência do mundo dos corpos e suas Cundamentais pro­ priedades universais medi81lte definições exatas, e parte daI para 8 detenninação do particular e dos fatos. numa seqUencia con­ tínua. . Mas esse grandioso projeto da Hsica cartesiana não resistiu ao teste da experiência. Quanto mais Descartes progredia nesse caminho, mais se apro:x.imava dos !enOmenos particulares da na­ tureza, maiores eram as dificuldades que se acumulavam à sua fren te. Ele só podia defrontar essas dificuldades encontrando escapatórias nos DOVOS e cada vez mais complicados mecanismos . enredando-se numa série de hipóteses. Essa tela finamente tecida foi despedaçada por Newton. Este esforça-se igualmente por es­ tabelecer principias matemdticos universais que governem o curso da natureza; mas não acredita na possibilidade de reduzir toda a fís ica à geometria. Pelo contrário, defende o privilégio e a especificidade da pesquisa física, especificidade essa que se ba­ seia, para ele, no método de experimentação e de raciocínio indutivo. O caminho da investigação física não se faz de cima para baixo, dos axiomas e principias para os C atas, mas, inver­ samente, destes para aqueles. Não podemos começar por hipó­ teses gerais sobre a natureza das coisas para deduzir daí, em seguida, o conhecimento dos d eitos particulares; devemos, pelo contrário, iniciar a nossa investigação na posse do conhecimento que nos foi facultado de nntemão pela observação direta, para tentar chegar em seguida, subindo progressivamente. até as pri­ meiras causas e os elementos mais simples dos acontecimentos em curso. O ideal da dedução opõe·se assim ao ideal da aná­ lise. E essa análise é um princípio sem fim; ela não pode esta­ belecer-se em fu nção de uma série limi tada, de um programa predetenninado de operações mentais; deve ser reatada a cada novo está.gio do desenvolvimen to da ciência experimenta1. Jamais se registra ar um ponto fin al absoluto, apenas uma série de pa­ radas relativas e provisórias. Newton considerou a sua pr6pria dou trina, a teoria da gravitação universal, uma dessas paradas provisórias, porquanto se contentou em mostrar na gravitação um fenômeno universal da natureza sem lhe averiguar as causas últimas. Rechaçou expressamente uma teoria mec4nica da gra­ vitação porque a experimentação nenhuma prova satisfat 6ria nos fornece nesse sentido. Tampouco descja estabelecer uma causa

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uma qualidade provisoriamen te " irred utfve'''. oferece o exemplo mais claro c mais simples de uma tcoria das relaçõcs em geral. e tem feito muito. -e nesse sentido que Newton insiste nO fato de que a gravidade é. segundo Condillac. segundo a concepção que Fontcnelle anun· ciava nas fórmu las citadas mais aci ma. pois é a teori a dos números a que. o que não ex· clui. O ideaJ de uma filosofia da natu reza pura­ mente "mecanist·a". de fato.à observação pura dos fenômenos e à simples demonstra· ção de sua conedo empírica. mesmo que as causas dessas propriedades e desses princfpios devam. não possa por . porém. por exemplo. como as que se encon tra . do ser. esse só tem que se ocupar dos fenômenos da gravidade e não deve procurar exprimir esses fenômenos em simples con· ceitas. q uando se em· penha em mostrar as relações determinadas que unem seus di· versos elemen tos. com uma dupla tentação e um duplo perigo. segundo New· ton. vê-se consta ntemente a braços. era imprescindível dar lugar . no modelo da geometria a fim de op!ur pelo da aritmética. efetuada com muita energia e lucidez. O que ele procura é uma fór· mula matemática que os reúna a título de casos particulares concretos e que faç a deles a descrição completa . vazia de sentido. permanecer desconhecidas para nós_ Com essas teses clássicas.sua vez ser reduzida a renôme· nos mais simples. que essa mesma qualidade. que nenhum mecanismo conhecido basta para elCplicar.metafísica qualquer para a gravidade! isso significaria para o ({­ sico uma transgresslio injustificável dos limites do seu domInio. por conseguinte. esses dois perigos são estranhos ao verdadeiro empirismo.ar do domínio da física esse "espírito de sistema" que produziu os grandes edifíc ios doutrinais da metafísica do século XVII. O físico deve. um elemento "'último" da natureza. uma propriedade geral da matéria. O ponto mais crítico dessas investi· gaçócs é a passagem de Descartes a Newton. Tal análise não pode. tudo o que pode fazer é hipostasiar essa qualidade. Condillac já assume essa posição sem ambigüidade para elimin. em conclusão da sua Optica. O ideal do conhecimento da natureza deilCou de se inspira r. ela deve aguardar os avanços da experiência . Entretanto. A hipótese de que não se sabe quais as qua· 84 [idades "ocultas' . ser realizada de modo preci­ pitado pelo pensamento. totalmente abandonado peJas te6ricos do conhecimen to da nova física. no início. a. a gravi· dade é. de momento. mas não existe a menor necessidade de considerá-la uma de suas pro­ priedades essenciais. a construf·lo a partir de concei tos simples. extraída de uma pretensa " natureza das coisas· . o qual se contenta em estabelecer os fenômenos. de uma lógica geral das re­ 85 . em contrapartida . ou seja. Toda vez que ela se depara com alguma qualidade geral das coisas. é assim progressivamente arastado e. em definitivo. re· Runciar a essa ambição de explicar o mecanismo do universo. à luz de obser­ vações ulteriores.· Vista nessa perspectiva. reduzi·la. A teoria física não pode nem deve ir além dos limites de uma descrição puta dos fenômenos da natureza . fazer dela uma qualidade primeira. A filosofia da natureza que se propõe a edificar o mundo pelo puro pensamento. Em vez de não se sabe que explicação geral mas arbitrária. numa derinição abstrata. explicando--a como uma conseqüência de razões mais longínquas. qual se encontra por toda a parte. é arbitrária e. No seu Tratado dos sistemas ( 1749) . evidentemente. bem entendido. seria indubitavelmente um progresso muito claro e muito con­ siderável para o pensamento cient[fico chegar·se a delimitar a riqueza dos fenômenos naturais a um reduzido número de pro­ priedades fu ndamentais da matéria e a certos princípios do ma-­ vimento. por antecipação. abso­ lutamente real. sabendo por outro lado que nenhum fenômeno constituí uma realidade tão absolutamente derradeira que não seja suscetível de ainda outra operação analí­ tica.O Newton traçou um pro­ grama cl aro e preciso para o con junto das investigações teóricas da física do século XVIII. como aquelas a que a escolástica recorria. por fi m. ou resolvêAa. Ele já tem muito que fazer. Ora.

para universalizá-Ios. passar-lhe por cima. é que está na origem. por­ tanto. "transcendê-lo". como malter 01 lact. ao passo que todo o estado de fato como tal permanecia incerto e problemático. Tanto num caso como no outro deveremos contentar-nos em estabelecer o . Na verdade. nunca podem escapar inteiramente a esse domínio.. todo o saber nos abano dona: não existe nenhum saber dos primeiros principias. como o traço mais signiricativo da filosofia da natureza do sé­ culo XVIIr e acredita-se com freqüência que basta isso para caracterizar exaustivamente o seu espírito. uma certeza imediata . por exemplo. porquanto ela comporta :e sempre a possibil idade de erro. Não ex iste nenhum prin­ cípio que seja certo" em sj ". de Holbach. dos princípios e um c0­ nhecimento mediato. e em L'homme machine. apoiando-se em Newton e Locke. Indagar como pen­ samos e sentimos.se idea1 de conhecimento possui. não lemos outro recurso senão rasgar o véu da aparência. Não p0­ demos confiar na aparência sens(vel. por universais que sejam. é óbvio que esses pri ncípios. de absolutamente originário ja­ mais nos será plena e adequadamente conhecido: "A ucun premier ressort. relacionar os dados empíricos com idéias. de La Mettrie. Quando não podemos va1er-nos da b6ssola das mate­ máticas nem do farol da eltperiência e da ffsica. a Maupertuis. A certeza dos fatos está subordinado à dos princípios e deles depende. ao " materi alismo". só podem receber sua verdade e sua certeza por intermédio daquilo que fu ndamentam. Com esse seu incomparável talento pa ra simplificar e generalizar os problemas. significa interroganno-nos sobre os segredos da criação. quê· sem ter a menor idéia do . esse "materialismo". como".. em particular a orien· tação geral do espírito frances nessa época. antes. derivado dos fatos . ele vale para todo saber em geral e submete doravante esse saber a condições e restrições bem deter· minadas. como 09 nossos membros obedecem ao c0­ mando da nossa vontade. Não poderemos compreender." 11 Na questão da certeza e da incerteza do conhecimento. partindo de idéias gerais . aucun premier principe ne peut btre sais. O método de Newton não é unica­ mente válido para a física. a am­ plitude de sua extensão e a força de sua influência em virtude de ter sido adotado por Voltaire como grito de guerra no decorrer das lutas que travou contra a física cartesiana. seu pu ro "em si" (ihr reines Alt-Sich). nesse ponto. 86 87 . Mas a nova teori a do conhecimento físico. das realidades de fa to. graças aos discípulos e apóstolos que a doutrina de New­ ton encontrou na França. esperamos poder decifrar algum dia a essência dos coisas. é certo que não em vão que podemos dar um só passo em nosso caminho. Se pusermos de lado essa função de ordem e de clas­ sificação.10 Mas cs. Eles não possuem em si mesmos a sua razão de ser. de ilusão seosoria1. Costuma­ se considerar a conversão ao "me(anismo" .nterna ao uso que fazemos dele.lações. graças a Vohaire. a D'Alembert. a certeza e a firmeza de todo o saber fun­ davam-se nesses primeiros princfpios. Para Descartes. intuitiva. essa concepção impÔs-se por toda parte. como é possível que uma fração de matéria aja sobre uma outra se não chegarmos a faze r urna idéia clara do nascimento das nossas próprias representações. cada um deles deve a sua verdade e a sua credibilidade i. in­ verte essa relação. Nada de verdadeiramente primeiro. os papéis foram curiosamente trocados em conseqüência dessa passagem de um ideal construtivo da física para um ideal puramente ana­ lítico. Para escapar a essa ilusão. par naus. Ora. no Sysleme de la narure. uso que não poderia consistir em oul ra coisa senão permitir-nos abranger inteiramente a diversidade dos fenômenos dados e impor-lhes urna ordem e uma classificação segundo pontos de vista deter­ minados. O princípio é q ue é derivado e o fala. tal como se apresenta. Existe. Como nada têm a fundamentar que não pertença ao domínio da obser­ vaçiio. e"primi-los por idéias que em si contêm suas próprias garantias. todos os princípios caem no vazio. Voltaire não tardou em situar o problema no plano da generalidade. Em meados do século.

que. "E uma triste SOrte para a nossa curiosidade e o nosso amor próprio ." 12 Com essa espécie de resignação crftica em face do conhe· cimento. Admitir. e não procuremos diminuir por sutis sofismas o número já es­ casso dos nossos conhecimentos claro. " Sobre questões como a união da alma e do corpo e sua ação recíproca. a um aniquilamento de sua essência. já se deparara com esse problema.representa apenas um fenômeno isolado que não pode. A identificação spinozista de Deus e da Natureza. Onde podemos assegurar-nos. em nenhuma parte nos apresenta contradição? Detenhamo-nos . uma recaída no esp{rito dogmático contra o qual o século XVIII batalba pela pena de seus pensadores científicos mais eminentes. "No fu ndo. como as razões últimas do movi· menta. na pessoa de $Cus pensadores mais eminentes. Corta. Não é Hcito recear. uma nova forma de crença lenha sido introduzida? Um pressuposto metafísico indemonstrado e indemonstrávcI não se djssimularia aí por acaso? O racionalismo clássico. ela remete-nos para a imagem do espírito divino. perfeitamente uno e uniforme em si mesmo? Essa uniformidade é postulada por D'Alembert. A fil osofi a de O'Alembert renuncia a estabelecer a fórmula me tafísica do cosmo que nos desvendaria o "em si" das COhi3S (das An-Sicll der Dinge). Spinoza e Leibniz.!m h. passar por representativo desse período. Descartes. não é fu ndamentada mais precisa­ mente em parte alguma. por Holbaeh e La Mettrie. entretanto. Pelo menos. imut ável em seus pensamentos e em suas vontades? Ca­ loca r nele a possibilidade de uma mudança de sua existência equivaleria a uma negação. e certos. é a sua origem que nos assegura sua verdade autêntica e profunda. então. e que se esforça jus­ tamente por superar. desde que. as outras propriedades secundárias de que nos apercebemos nela e quc o sistema geral dos fenômenos . possamos deduzir propriedades que consideramos primitivas. em concordância consigo mesmo. Em suma. A unifor­ midade da natureza tem suas raízes e sua fonte na forma essen· cial de Deus . da existência de uma tal ordem? Onde re­ side a garantia. a Providência lançou um véu que procuramos em vão erguer. colocar em evidência o sis­ tema que esses fenômenos constitllern. 0$ sonhos dos fil 6sofos sobre a maioria das questões rnetarísicas não merecem ocupar nenhô. um sistema perfeitamente fechado. que nos importa penetrar na essência dos corpos. ostenta o selo de sua imutabilidade e de sua eternidade. pois. entretanto. sua ordem conslante e completa. As duas obras citadas constltuem um caso específico. a prova decisiva de que esse sistema universal dos fenômenos é. que a ordem da natureza poderia ser outra. repousa inteiramente nessa concepção funda­ mental. como a origem das idéias primeiras. devemos concluir daí que os sistemas ou.gar numa obra unicamente destinada a conso­ tidar os conhecimentos ~is adquiridos pelo espírito humano. Não está já implícita na 'simples idéia de Deus que ele s6 pode ser pensado como um. a sua f6nnula Deus si"e Na tura . Se é verdade que a natureza é obra de Deus. no limiar de um pro­ blema mais difícil e mais profundo.cerre loda e qualquer questão que diga respeito à essência absoluta das coisas e seu rundamento metafísico. presuminda-se que a matéria é tal como a concebemos. ela quer ater-se ao domínio renomenal. Ele acreditava resolvê-Io re­ duzindo a questão da unidade da natureza à da unidade de sua origem divina. mas por D'Alembert. A mentalidade cientffica do circulo da En­ ciclopédia não é encarnada . em absoluto . da verdade desse mesmo sistema . por esse postulado. pelo menos.mas é essa a sorte da humanidade. melhor. de modo nenhum. sempre uniforme e continuo. em quem vamos encon trar a mais nítida recusa em aceitar o mecanismo e o materialismo como princípios derradeiros de explicação das coisas. nem que fosse em pensamento. como pretensas soluções dos enigmas do mundo. é admitir que Deus possa ser ou vir a ser outtO: "Si res aJlerius naiurae potuissc/1t esse "ei alio 88 89 . O'Alembert não se desvia um milímetro sequer da linha metodológica traçada por Newton. já nos encontramos.

nada mais são do que os decretos eternos de Deus.H Mesmo para Leibniz nâo existe. do conteúdo da natureza mas do seu conceito. de uma pré-opinião? E esse preconceito. ! I'I. quando apoiamos toda a certeza dos nossos julgamentos e raciocínios empíricos numa hipótese metafísica que se presta muito mais às d6vidas e aos debates do que à aquisição dessa mesma certeza? Com efeito . em suma. assim como o do enten­ dimento. surge um novo e mais radical problema. cumpriria justamente provar. Que sucederá então à pretensa -neces· 91 I. Leibniz parte do fa to de que as leis da realidade Dão IX>dem afasta r-se das leis puramente ideais da lógica e da matemát ica: sarnen to deve tomar nesse ponto impi"w'_lhe uma tarefa bem mais ãrdua e empenha a sua responsabilidade de um modo muito roais pesado do que todas as questões concernentes ao simples conteúdo da filosofi a da natureza. Bastava·lhe. a harmonia rigorosa da ordem da natureza? Não atentamos contra as leis mais elemen­ tares da lógica. de uma premissa da experiência. Contudo.. A fim de justificar que os princrpios Cundamentais da análise do infinito licjam aplicáveis sem restrição à natu reza. para consumar essa libertação. separar con­ ceptUi11mente o que já fora apartado de fato. os conceitos e juízos metaffsicos do horizonte da ciência empírica . que o princfpio de continuidade possui não só uma significação matemátka abstrata mas também uma significação física con­ creta. . Não se trata. aduziu·lhe as conseqüências mas sem realizar. a decisão que o pen­ 90 . cujo espetáculo a natureza parece ofe­ recer-nos.ou tratar-se-á . A filosofia ilumi­ nista. em sentido inverso. ergo Dei e/iam natura alia posset esse.' ut naturae ardo olius esse/. apoiar-nos nessa imutabilidade divi na para afinnar a unifonnidade perfeita. II Il i ~ "'. metafísico ou teológico? Não nos contentemos em afastar. da tutela da teologia. de um preconceito.c'est par ce que toUl se gouverne par raison ct qu'autrement il n'y auroi! paint de science n'y regle ce qui tle sera. não sentimos o chão fugir-nos sob os pés qua ndo admitimos como prova final o que. Para que serve libertar a ffsica de todo e qualquer elemento teoló­ gico-metaflsico. por outro lado.. gundo as quais tudo acontece e pelos quais tudo é detenninado.1 paint con­ forme avec la nature du souvera. um por um . quam jam esJ. . encontrado aqui ou ali. a unidade absolu ta e a imutabilidade de Deus e de­ pois . da harmonia das idéias e do real. efetivamente. a dedução da unifonnidade absolu ta dessa expe­ riência . não se consegue eliminar os elementos metafísicos de sua estruturo? Ora. Tenhamos a ousadia. limitar O seu alcance a simples enunciados empí­ ricos se. desse ponto de vista. de per­ correr o cam inho até o fim: que se prive a idéia de natureza do apoio da idéia de Deus. a questão de sua justificação. 13 Quer falemos das leis da natureza ou das leis de Deus. não comporta em si um tal elemento? Será necessário considerar como resultado da experiência a in­ terpretação sistemát ica da na tureza e será possível realizar a de­ monstração. ne­ nhuma outra prova conclusiva da constância da natureza. antes. finalmente. em última instância. A filosofia do lIuminismo podia considera r relativamente sim ples a tarefa de libertar a rísica da dominação . UI Mas essa demons­ tração não contém um cfrculo manifesto? Podemos concluir da uniformidade empirica. não é tão contestável quanto poderia sê-lo qual­ quer a prior. a não ser o recurso à unidade do princípio supremo donde provém O mundo dos sentidos. não dos dados da experiência mas de sua forma. em primeiro lugar. esse a priori lógico. a essa mesma ciência. trata-se apenas de uma mudança de linguagem: as leis universais da natureza se. o que implica sempre uma verdade e uma necessidade eternas..n principe. recolher a herança do século precedente. do acordo dos fatos e das verdades eternas. a partir do instante em que se apresenta . nada mais fez do que esclarecer wna situação de fat o que era o resultado metodológico do trabalho científico de dois sécu los. a revolução intelec tual.1 modo od operandum determinar. toda a afirmação que for além da simples constatação da presença de um objeto dos sentidos.

para a elaboração de um rigoroso método experimental. Huyghens estabelece nitidamente que não se trata de atingir em Hsica a mesma evidência q ue Das demonstrações e deduções matemáticas. te Essas idéias roram reatadas de um modo ex­ e. e um estilo de pensamen to critico propenso a determinar. em particular.. em 1717. invioláveis? Existirá uma certeza intuitiva dessa necessidade. se se pode. traordinariamente rigoroso e conseqüen te . em particular na elaboração metodológica ~igo rosa de que se beneficiaram as idéias de Newton ent. Com efei to.reco­ nhecer que o mundo dos fa tos deve ser o seu próprio suporte. Mas a sua problemática autêntica. no seu Traité de la lllmiere (1690). A Holanda já tinha sido no século XV ll o pais onde se associavam. eternas. tentou desenvolver e esclarecer sob todos os as· 92 93 . além daqueles que a experiência pode imediatamente comprovar. em situar a dout rina de Hume no contexto do empirismo britânico e em interpretar o seu desenvolvimento his· tórico a partir desses pressupostos. da teoria e da observação. de ma· neira exemplar. p rovém de ou tro lado . aq uela espécie de verdade a que a ffs ica pode aspirarP Os físj· cos holandeses do sé!. tem origem numa outra causa que se situa no prolongamento. Esse pon to preciso escapou . em sua aula inaugural como professor de matemática e as tronomia na un iversidade de Leyde. o arsenal conceptual e sistemático do empi· rismo e do sensualismo.x. com tanIa certeza quanto cl areza. na prática.s idadc ~ dn natureza .no sentido da in· vestigação de uma 16gica da ciJ!tlcia experimental.sti nção.re os pensadores e cientis­ tas holandeses. com isso. prever novas observações bascando-nos nessas conclusões e se se encontra a sua confinnação na experiência. persuadidos que estavam de tcr sob os olhos . ti confi rmação por excelencia da cor· reção de suas posições. que não existe nenhuma certeza intuitiva das verdades físicas fund amentais.igir e obter em ffsica é uma "certeza moral". expõe.ulo XVIII continuarão const ruindo sobre essas fu ndações . representa mais do que um elo na cadeia espiritual quc vai de Bacon a Hobbes. se as conclusões aduzidas sob a preso suposição de uma determinada hipótese siio plenamente confiro madas pela experiência. efetivamente. que . na realidade. prindpios q ue superam largamente o cartesia· nismo em clareza e d. de um " fundamento" racional ? Em toda essa problemática. O exemplo clássico dessa associação é fo rnecido pelo maior dos cientistas holandeses. o sentidO e o valor da hipótese cientifica. Christian Huy· ghens. Ê claro que Hume tomou deles alguns de seus instrumen· toS de pensamento. S'Grave5ande . espe­ cffica . de suas leis universais. a qual. o verdadeiro ponlo de partida do cepticismo de Hume não fo i enfatizado. como ocorre freqüentemente. Que tudo o que se deve e. com efeito. de Hobbes a Locke e de Locke a Ber­ keley. E não entendemos por esse desenvolvimento uma pura construção intelectual mas um processo histórico concreto que se pode acompanha r passo a passo no pensamento do século XVI11 e colocar em evidência até nos detalhes de seus nós e ra· mificações. Um dos elos mais impor­ tantes da cadeia encontra·se nos trabalhos da escoJa newtoniana. até o presente. um resultado final mas um recomeço da fil osofia . pode elevar·se a um tão alto grau de pro­ babilidade que. com a teoria dc Newton . evidente que esse ponto de part ida não aparece a quem se contenta. então alcançou-se. ou alguma outra prova dedutiva concludente? Ou deveremos renunciar 8 todas as provas desse tipo e decidirmo-nos a dar o último passo . antecipamos o desenvolvimento que conduz do fenômeno da física matemática ao cepticismo de Hume. Com d eito. em nada perde para uma demonstra· ção rigorosa. A dou trina de Hume não representa . na cont inuação direta dos debates científicos dos sécu los XVII e XV III. simultaneamente o movimento tendente a uma observação exa ta dos ra tos. nenhum outro el emento hipotético a[ re encontra. no que sc refere às relações da experiência e do pensamento. aos his· toriadores da filosoria e. que procuramos em vão para ele a firmeza de um outro apoio.

como esse mesmo axioma será demonstrável? Responde S'Grave­ sande : "Não se trata de um axioma estritamente 16gico mas de um axioma prático. Teria sido pôr em dúvida essa veracidade pretender contestar a validade abso­ luta das idéias e dos princípios q ue discernimos com cl areza e a evidência mais perfe ita." Mas essa !. aí conservam sua força e sua validade? O raciocínio que conclui do passado e do presente para o futuro não é. Sem esse axioma. não transpõe o limite desse conhecimento por analogia. esse . de uma im­ portância e de uma neçessidade vital parlt ele. E fo i justamente essa a mudança que se rea lizou em Hume. As duas concepções estão separadas apenas por uma frágil e Jclguda divisória que o menor sopro derrubará. dissimul a mal a J. por analogia.:ndo assim . O saber que temos das coisas ffsicas. Ora. por conseguinte". é perfeitamente válido e até indispensável. a das noções e regras da matem ática pura . a uma explicação metafisica_ De­ clara ele : "O Autor da natureza colocou-nos na necessidade de rilclocinar por analogia. Elimine-se a questão da tcoú icéia. ~. a uma interpretação.u.. defrontou-se precisamente com um problema difíci. dUo yl-ro. mas nem por isso deixa de ser um raciocfttio que. toda a transação prática com as coisas não estaria vedada ao homem se este não pudesse levar em conta que os ensinamentos recolhidos de uma experiência passada ainda valem no futuro. à verdade da expe riência. sua validade não decorre da necessidade do pensamento mas da necessidade da ação. no transcurso desse desen­ volvimento. Descartes . Agora . o que sabemos da natU fC'la empírica das coisas. Uma curiosa reviravolta acaba. tomando por base certas observações.. Mas. de se concretizar de uma assentada: a certeza da ffsica.peclOS essa idéia fundamental. o direito e a obrigação de connar nele. Quando.l e deveras curioso. o problema fundament al da metodologia da física vê-se im pl ici tamente trans­ form ado num problema de tcod icéia. não à veracidade de De us mas à sua bondade. prossegue S'G ravesande . entretanto. que era baseada em preso supostos puramente lógicos .unclu~ão. de todo e qualq uer tipo de vida social : 18 . ou dê-se-Ihe uma resposta negativa . repousa agora numa pressuposição biológica e sociológica. Podemos confiar no ra­ ciocínio por analogia. para ped ra angular de sua doutrina da certeza do saber. v isto que nos é imprescin­ dível aceitar por verdadeiro tudo cuja refutação implicaria a supressão para o homem de todo e qualquer meio de existência empírica. pel o contrário. portanto. Temos.. O empirismo mlllemátioo encontrava-se num ponto 1<1 1 que a certeza da "uniformidade da nalureza~ só podia ser esta· I' OI 94 95 .ráfJau. apoiamo­ nos no axioma de unifonnidadc da natureza. . de sua verdade "objctiva" ? O em pirismo ma temático chegou agora ao limiar do empirismo cépt ico: a part ir desse instante <l passagem de Newton li Hume torna-se inevitá vel." ztI Mas. é preciso recorrer. não encon­ trou outra coisa a não ser a "veracidade div ina" . A necessidade psicológica e biológica do ra­ ciocínio por analogia permitirá afirmar scja o q ue for a favor de sua ne<::essidade lógica. a qual. uma vez mais. se levarmos em conta a bondade suprema do Criador: Pois a certeza da analo­ gia baseia-se na invari abilidade dessas leis que não poderiam estar sujeitas a mudança sem que o gímero humano se ressentisse dis~ c pcrecc~se em pou co tempo. por conseguinte. a fim de confir­ mar a validade dos primeiros princípios da flsica. um silogismo constrangedor. deve ter também um fundamento na natureza das coisas. prevemos fatos que ainda não observamos diretamente. daí resulta que uma convicção indispensável ao homem . pode servir de funda mento legítimo para os nossos raciocír-ios. sem a hipótese de que as leis que descobrimos hoje na natureza vão manter-se e perdurar mais tarde.ç ti. e O prublema da certeza d<l lIldução (j"ica adqui re então um aspectO muito di fe· rente. O próprio S'Gravesande procura atenuar a novidade e o radicalismo desse pensamento recorrendo. evidentemente. um raciocínio de lógica formal. toda a conclusão inferida do passado para o fu turo cairia manifestamente no vazio. Toda a ação.

Se nos ativermos estritamente 110 fi o condutor da experiência. por conseguin te.. U gravidade e n inércio como quali­ dades pri márias da matéria . descarta todos os elemen tos trans­ cenden tes. O empirismo matemático também antecipava. aquelas que nos são indicadns pela experiência. é a continuação e li solução irônica de todo um processo intelectual tendente a conferir à própria ciência ex­ pe rimental um fu ndamento religioso. sua verdade superior. em suma. a teoria humiana do belief. Esta conslit·ui.uccssor Musschenbroek não se can­ -llaram de repelir que é inteiramente frívolo querer distinguir en tre as determi nações essencia is e não-esse ncia is da maté ria. a religião para o seu terreno movediço. dar um sólido ponto de apoio à ciência. ~ u s t enlam eles. entretanto . pois. e que seriam dedutfveis umas das outras . contentemo-nos. o movimento e o repouso. lhes pertençam essencial c necessariamen te. Não ~ a religião que permite. sobre esse ponto. com uma certeza empírica. sem que elas. na falta de poder fundamentá-las à semelhança das expressões de certos instintos primitivos e pro­ fundos da natureza humana. Nesse sentido. ~ ' Temos . Para bem compreender a história desse problema. Com efeito. mas nada impede que a par dessas qual idades que conhece mo~ existam outras. uma espiada à dou­ trina dos fís icos holandeses é particularmen te reveladora .nos revela uma propriedade essencial e necessária dos corpos? "Essas leis são extrafdas da essência da matéria ou deve-se deduzi-Ias somen te de certas propriedades fu ndamenttüs que Deus conferiu aos corpos. A solução consiste na in­ versão dos papéis entre a ciência e a reügião. enfim. por sua vez. graças li. Partindo das proprie­ dades pu ramente geom~ tricas da matéria . ou com maiores razões. A conclusão a que nos leva a análise do problema da cau­ salidade impõe-se também do ponto de vista do problema da substância. a Lei da l nércia . a substância do mundo material. os efei tos que temos sob os nossos olhos assentam em causas exteriores das quais não podemos ter a menor idéia? Eis o que ignoramos de forma absoluta. um resultado decisivo . c de inferir CSIlI daquela.be!ecida e justificada por uma espécie de " fé" . Hume apodera·se dessa conclusão mas despoja imediatamente essa fé de todos os seus componentes metafísicos. as quais seriío talvez descobertas mais tarde. devemos tomar po. pelo contrário. ao passo que todas il S outrus qualidades são postas na categoria de simples aci­ dentes. que nos decidir. por um aba ndo no definitivo. ou. em sacar uma e outra de suas fon tes sub· ' jetivas. estariam unidas por uma relação constante entre princípio e conseqüência e por uma cau­ sação recíproca. a extensão e a forma. Ela não mais assenta em bases religiosas mas em pura­ mente psicológicas. qualidades primit ivas e origin ári D s. a essência. é a relatividade do conhecimento cientffico que arrasta. Em vez de sepurur a "essência " da "apClrêndu". da crença. estritamen te objetiva. s6 poderemos concl uir pela coex istênçia regular d. sem poder ja mais pretender deduzir umas das outras. na mais ri gorosa necessidade intelectual? Tal dedução era justamente o ideal a que Descartes sujeitara a ffsica. Nem a ciência nem li religião são suscetíveis de uma justificação "racional" . em compreendê·las. 96 97 . nãc combatia ele a idéia de uma matéria cujas propriedades fundamentais. deriva de uma necessidade puramente ima­ nente da natureza humana.:ssas proprieda­ des. a ver­ dade. S'Gra­ \"esandc c seu discípulo c :. também nesse ponto. e que poderíamos considerar pelos mes­ mos mo tivos. Como saber se uma lei natural q ue vemos por toda parte confirmada pela experiência c que. devemos reconhecer como uma lei universa l ." Pode­ mos conside rar. Newton e sua escola contestam igualmente nesse ponto o cartcsianisOlO e opõem no seu ideal dedutivo um ideal puramente indutivo.por exemplo. inclusive a impenetrabilidade e a gravidade. pois. de propriedades "contingentes ". "absoluta" . Descartes procura mos­ trar que se pode extrair delas todas as determinações que temos o costume de atribuir ao mundo dos corpos! Todas as qualidades da matéria . são de­ duzidas unicamente da extensão.

no interior do mundo da ex periência. toda a ordem f{sica em seu conjunto. e esses dados oferecem·se-nos.sição. buscando o princípio da natureza para além dela própria. para chegar a essa solução. à coexistência dos diferentes ca­ racteres que a exper iência nos revela. aliás. chegando mesmo à elaboração de conclu­ sões cépt icas. de conceitos arbitrários." Tudo o que 99 98 . "Ex. pois . devemos nos aleI' à vizinhança. recebê-lo e transmiti-lo. a filosofia popular da ciência envereda peta ca­ minho exatamente oposto . Arranque-se-lhe esse véu de pa. foi o espírito humano que lançou sobre ela uma obscu ridade artifici al. pura e simplesmente. encará-la de frente com arrogância. assim como a ordem "moral" das coisas em sua totalidade. que se jus­ tífica a si mesmo. ncredita ler ao alcance de sua mão a solução de seus enigmas. de um agregado de qualidades. s6 apa ren temente ele pode romper tais vínculos. 3 Enquanto a física matemática se conserva nos limites de um feno. Impelida pelo de!Sejo de conhecer o que o mundo contém em seu núcleo secreto. Nada perderemos do nos so saber real com esse abandono: apenas nos emanciparemos de um ideal que o progresso do conhecimento empírico sempre recha­ çou c desmembrou. Nesses dados está con· tido todo o conhecimento que poderemos desejar obter sobre a natureza. reduzem-se inteiramente à matéria . que compromete os próprios fundamen­ tos lógicos do empirismo . em vez de querer "explicar" uma propriedade por uma oulra . Que se descarte essa questão de " transcendência " e a natureza deixa instantanea­ men te de ser um mistério. Percebe-se que não vai mais que um passo dessa visão das coisas à dissolução completa da idéia de subs­ tância. ao pensamen to de que a representação das coisas corres­ ponde tão-somenle à representação de uma simples soma. Já não necessita. atrai r sobre si as matérias que são apropriadas para fortal ecer o seu ser e afas tar de si aquelas que podem debilitá-lo. de preconceitos fan tásticos e a essência apre­ sentar-se-nos·á tal como é: como um todo organizado. Todos os processos naturRis. O que. Ela não é afetada por qualquer escrú­ pulo ou dúvida crítica e está fi rmemente decidida a não preso cindir de nen huma de suas ambições epistemológicas. aí vê apenas um ser e uma forma de legalidade. A passagem efetua-se progressivamente e sem ruído: a ten tativa de excluir das fu ndações da filosofi a da experiência todos os elementos "metafísicos " é levada fin almente tão longe que ameaça. en ismo estrito. de nenhum esforço positivo: tudo O que nos resta fazer é afas tar os obstáculos que rctllrdllram até o presente os progressos do conhecimento da nat ureza e o impediram de prosseguir resoluta­ mente em seu caminho até o fim. Qualquer esforço que seu espírito faça para transpor os limites do mundo sensível vê-sc-Ihe incessantemen­ te reconduzido. reteve o esp(rito do homem de turnar verdadeiramente posse da natureza e de aí se estabelecer em definitivo foi essa tendência fata l pura questionar o além da natureza.!avras. O segredo da natureza esquiva-se aos que ousam resistir­ lhe. no fu ndo. e ao movimento e confu ndem·se com eles. conservá-lo em si. numa ordem tão clara e tão completa que nada subsiste de obscuro ou de duvi­ doso.a única facul dade que lhe é concedi· da é a de in terligar os dados sensíveis. incluindo aqueles fatos que temos o costume de designa r como fa los espirituais. que se sustenta e se explica inteiramente por si mesmo.istir não quer dizer Qutra coisa senão ser suscetível de movimento e concebível no movimento. pois o homem é obra da natureza e só tem existência com ela. t em vão que ele se esforça por escapar à sua lei: mesmo em pensamen to. Não vislumb ra nela con­ tradição nem ruptura. Nenhuma explicação extrínseca. Não é a sua essência que é misteriosa ou incognoscível. jamais poderá atingir esse objetivo. de maneira incessante.

2m A experiência sens ível. costulll. pela biologia e fi siologia geral. A primeira obra de La Me!i rie. Slio observações desse gênero.' Cons tit ui um dos traços me­ todológicos cur actc r í~t i cos do materialismo do século XV III dei­ 101 . J O corpo humano nnda mais é do que um prodigioso pêndlllo. La Mctt rie parte de ob­ servações médicas.:ividades .a nos outorgou." O homem está para o macaco e os animais supcrior. na dedução lógica ou matemática. pouCQ mais parece ser do que um pedaço de lama . Declara La Mettric : "Sat israz-me igua lmente nada snbcr sobre O modo I.t2 O raciocínio. nu fi siologia e na medicina . a um ser es piritual escondido em seu interior. cm si inerte e brut a. assim como das cond içõcs nas quais essas qualidades se desenvolvem e se transrormarn . tudo ignora r das outras ma rllv ilhas inconcebíveis da na­ tureZ<I. o nasc.: p. entre os fu ndadores da doutrina mate­ rialista . efetuadas por ocasião de um aces­ so de feb re de que foi acometido e durante o qual ele adquiriu uma consciência aguda da completa transformação de toda a sua vida sen ti men tal e intelectual. a objeção de Diderot à filosofia de Condillac é a de que não poderia limitar-se unicamente à simples sensação como elemento primeiro de toda a realidade: u análise deve ir muito mais longe e procurar a causa da sensação. Só podemos deciJrar e determinar a essência da natureza em seu conjun to partindo do essência do homem. A fisiologia do homem tom a·se. c que todo ~ vida . reÍ!. mil is rodas e molas par. Sobre esse ponto o ma terialismo dogmát ico converge com o feno menismo: pode servi r·se das suas armas sem que por esse f. não poder compreender. portanto.. nlio age mais sabiamente. que é a "história da alma ".mimal de pende dessa dife rcnçn de orgu nizaçiio. as que estão.ti poder assegurar-nos da ver­ dade da natureza . que é o lÍnico . aos nossos sent idos limi tados.l\'a ele dizer. devia ser 100 dOr8va nle o seu único gu ia: "Eis os meus Filósofos-. se Vllucanson tivesse que pôr mais IIrt!. não consiste. .II0 concorde com as suas conclusOC.t ma t ~ri a orgân ica enecrra em si UIl1 principio de mO\'imento. então apenas um grau a mais de sua urte leri a sido ne· eessá rio . Holbach recorre sobretudo à química e às ciências da vida orgânica . o fundamento da fís ica deixa de resi­ dir na análise das sensações para l{Xalizar·5C' na história na tural . segundo DidcIOt. indicar o movimento dos pl anetlls do que pura assinalar o curso das horas. con verte-se em matéri a ativa e orgn­ nizada . as nossas . as nossas representações.somos e podemos vir a ser. é o raciocínio que vai da parte ao todo.:omo a ma · téria . "Se siiu nccessários instrumentOS mais numerosos. As matemáticas e a física matemática perdem sua posição central e são substituidas. lI COIll0 o relógio pl<i ne lúrio construído por Huyghells está para um relógio cJementnr. Assim. segundo o seu pro­ prio relato ..:rin do-se aos seus senüdos.s. graças ao qual ela se dire rcnciu. corporal. construído com uma arte e uma habi lidade supremas. na origem de suas investigações c que orientaram tod a a sua filosofia. E ela não se encontra em nenhu ma outra parte mas em nossa própria organização ffsico. portanto. Pois ele também afi rmo esta r muito longe de seu pensamento pretender determinar a e!isência absolu tu d<l matéria e não ter essa questiio nen huma imo porlunda decisiva pa ra a sua argumentação. cu jo m ~c a n i s mo não enten de. explica que só existe um meio de escrever essa história: é perm anecer constantemente preso ao fio condutor dos processos físicos e não arriscar a menor iniciativa que não esteja justificada pela observação fie l dos fenômenos corporais.::. quc indaga as causas invisíveis dus efeitos visíve is.I fim de produrir um ser folante [' . por exemplo. os nossos atos de vontade. nad a mais são do que os efeitos necessários da nalUreza e das qualidades fundamen tais que a naturez.imento do sentimento e do pensamento num ser que." 2. do que um clImponês que atribuísse O movimento do seu relógio . Que se me conceda somente q ue :.ITa const ru ir o seu tOCHdor de fla llla do que para o seu ca nário.~· Aquele que não se conten t•• com esse mundo visível. O ponto de partida e <I chave do conhecimento da nutu­ reza.

nunca se chegará a um ponto em que seja J:ossível separar o espiritual do corporal. de uma palavra vazia. do que a impenetrabilidade ou a eletri­ cidade. sem dúvida. ela mos· 102 l'r ar-aos" sempre a mesma ligação constante. de recorrer a uma substância Simples que não passa. sentir. elas estão feitas de tal modo de um só j2to que a supressão de uma ja. quer entre as diver­ sas propriedades materiais quanto entre realidades e fatos cor­ porais e espirituais. se nada encontramos de surpreen­ dente em atribuir à matéria. de recordar. difícil de associar à matéria organizada. A questão de saber como se hannonizam as suas duas "naturezas " s6 pode perturbar-nos. O movimento da sensação. Portanto. para os ditames da nessa vontade e das nossas inclinações morais . Pois. afinal . por oulTO lado. Ignoramos. Ele não quer somente fixar ou corroborar uma tese sobre a natureza das coisas. de Holbach. basta que estejamos cer· tos da ligação indissolúvel de suas operações. mas. de fazer intervir um principio w brenatural e imaterial . algo de novo e de diferente. que tampouco se deixam reduzi r à simples extensão mas rep. Vista do exterior. mas do lado da ética. por que recuaríamos diante da idéia de adicionar·lhe. n 21 Com esses argUmentos bem conhecidos do sistema materia­ lista. a transmissão de uma energia cinética de uma massa para uma oulra.'l1ais será possível sem a dest:. apenas apreendemos. pensar. En· cont. em última análise. ademais. Essas duas realidades só nos são dadas em conjunto. pelo ccntrário. para compreendê-Ios.esentam. mas não encontramos a mesma incerteza nos casos em que meramente lidamos com a matéria pura e simples e seus fenômenos fundame ntais? O sim· pies fenômeno do choque. Por minuciosas que sejam as nossas observações. outras detenninaÇ-ÕCs. devemos contentar-nos em esta· belecê·lo pela experiência . explicá· lo? Não. comandar e interditar. a faculdade de sentir. ao mesmo tempo. em que se consolidou e foi defendido. o magnestimo ou a gravidade. de momento. A distância que parece separar a maté­ ria "morta" dos fenômenos da vida. mas quase exclusivamente do ponto de vista da causalidade.xar de considerar as relações do corpo e da alma à maneira dos grandes sistemas metafísicos do século XVII. apenas nes resta. não é um simples dogma científico ou metafísico: é um impera­ üvo. a superfície e não O verdadeiro núcleo do pensamento que a anima.2S O que vale para as sensações e as idéias vale igualmente para os nossos desejos e os nossos instintos. tão transparen· tes uma quanto oulra. de pensar? O pensamento como tal é. no físico e no moral que dele depende. U:na vez que s6 podemos conceber e julgar a essência de uma coisa por seus efeitos.ramos esse traço com particular nitidez no Sysfeme de la nature. O materialismo. A esse respeito. desde o ponto de vista da substancia. tampouco ncs deve induzir em erro. a doutrina de Holbach 103 . tão enigmáticas e. port!mto. por mais longe que possamos !evar a nossa anáJise experimental. Se nos contentarmos com os julgamentos da experiência e nada procuramos além dos seus limites. " Postulado o princfpio mínimo de movimento. as dUM questões são. Já não temos a menor necessidade. uma con­ clusão: a ligação ne~es sária e indissolúvel nos efeitos prova a identidade da essência. numa palavra. os corpos anima­ dos terão tudo do que necessitam para mover·se. mas nem mais nem me­ nos. é certo. por paradoxal que isso possa parecer. sobretudo. entretanto.uição da outra. na forma em que surgiu no século XVIII. à primeira vista esse núcleo de pensamento não deve ser procurado do lado da filosofia da natureza. é impossível traçar uma linha de demarcação em alguma parte: a separação dos fenômenos corporais e dos fenômenos espirituais é apenas uma abstração para a qual a experiência não nos forne­ ce documento nem p rova. O mesmo método de verificação em· pírica impõe-se igualmente para os chamados probl<:rnas da upsicofísica": mecânica ou psicoHsica. de que maneira a sensação nasce do movimento. podemos "compreendê-lo" con· ceptualmente. arrepender·se e comportar·se. a par de sua propriedade funda­ men tal de extensão.

29 Mas se tal é o conteúdo da tese materialista. de liberdade. de uma vez por todas." B6 Entretanto. de bom ou de mau: reina aí a perfeita equivalência de todos os seres e de todos os acontecimentos." ~l Ao apresentar-se dessa maneira. pode-se ainda falar de "normas" no âmbito dessa dou· trin a? No que poderia ela basear-se para imJ>Ô"las e avaliá-Ias? O dever não irá revelar-se uma pura quimera e converter-se em simples necessidade ? Que mais nos restaria . impondo uma norma ao pensamento e à fé dos homens. não existe mal nem culpa nem desordem na natureza: "Tudo está em ordem na natureza. pl~namente desenvolvida e nitidamente exposta. de todo o espiri­ tualismo . que o homem se acre­ dite livre não passa de um2 perigosa ilusão." 211 Portanto. de todas as ilusões sobre a origem primeira das coisas: esse despojamento é-lhe in­ dispen sável para cuidar do ordenamento do mundo e realizá-lo com paz e segurança. arrebata-Ibcs as mais simples alegrias da existência. A física. To­ dos os fenômenos aí são necessários e nenhum ser. o reino da su­ perstição é ainda muito mais perigoso quando se lhe confia li organização da ordem moral. "A natureza infeccionada por um veneno sagrado retomará seus direitos e sua pureza. de uma fraqueza intelectual. Ela nunca responde à exigência spinozista: Mon ridere. cujas partes jamais podem afastar-se das regras certas e necessárias Gue decorrem da essência que receberam. senão abandonarmo-nos a essa necessidade? Como poderíamos regê-Ia. entretanto. necessário extirpar. No reino da natureza nada existe de justo ou de injusto. ciência do sobrenatural . sed intelligere.rença em Deus desaparecerão também todas as querelas teológicas c as guerras religiosas.neste nosso mundo. em vez de contentar-se com a tomada de posições te6ri­ cas. non lugere fleque delestari. as idéias de Deu s. A doutrina da necessidade absolu ta do curso da natureza prende-se na rede de suas próprias demonstrações. mergulha num difícil dile­ ma. salvo pelos olhos malévolos da superstição. La Meltrie desenvolve a mesma forma de argumentação em L'homme machiMc. cuja ordem racional o espiri tu alismo ameaça subverter. a fim de que parem as intervenções incessantes do outro mundo . Foi o espiritualismo teol6gico que impediu até o presente toda a organização verdadeiramente autônoma do ~ i s tema político e social. nas condições dadas e em função de qualidades que já são as suas. ela arranca do homem o próprio fundamento de sua relicidade. E o freio que retardou a cada passo o desenvolvimento das ciências. Por consegcinte. prescrever-lhe o seu percurso? A crítica que se exerceu desde o e 105 . decisiva. a hi stória natural. Junto com a c. de imortalidade. nesse caso. Ainda que seja ape­ nas exteriormente. O homem deve libertar-se de todos os ídolos. seu mOv1!T1ento é que o faz agir: condições · que Dão dependem dele determ inam o seu ser e governam o seu dcstino. foi um obstáculo invencível ao progresso das ciências que com ela quase constantemente coli­ diram em seu caminho. I! a estrutura do átomo que o forma. de seus desejos. a filosofia na natureza de Holbach não pre­ tende ser mais do qce a preparação.parece representar o sistema do mais rigoroso e mais conseqüente determinismo. a anatomia não tinham o direito de observar fosse o que fosse. O único remédio é a supressão radical. de fato . pode agir de qualquer outro modo senão daquele como efetivamente agiu . Com que direi­ to. O "si~tema da natureza" constitui para ele ape­ nas a base do "sistema social" e da "moral universal": a verda­ deira orientação do seu pensamento só se apresenta nessas duas últimas obras. Mergulha os homen:l na angústia com mil fan­ tasmas. Ao quadro da natureza não se deve acrescentar o menor traço que não seja compreensível a partir do homem. a 104 teologia. O Systeme de la na/are. "Inimiga jurada da experiência. Não contente por ani quilar então o saber humano. de seu querer. a introdução de um conjunto mais completo. como aguerrido militante c como acusador. O mundo jamais será feliz enquanto não se decidir 11 ser ateu. a sua expressão cai numa estranha contra­ àiçáo.que essas idéias si­ mulam construir .

Os pensadores mais próxi­ mos do círculo de Holbach rejeitaram as conclusões de sua obra em seu . serve-se dessas antinomias como forças motrizes. o próprio círculo da nossa existência e do nosso pensamento. como. o Grande.ssa objeção e envolvê-Ia habilmente nos ardis de sua própria argu­ mentação.radicalismo e combateram-lhe. Ele reconhece a circularidade da argumenta­ ção. não tardou em elevar a sua doutrina ao status de dogma e em deCendê-Ia com um zelo fanático. que quer apre­ sentar a id~i8 de latum como O alfa e o O mega de todo o pen­ samento humano. marionetes acionadas por uma força cega . do verdadeiro e do falso. Não nos resta outra solução senão consi­ derar também como necessária essa situação. exprime-as da maneira mais exata. Com lucidez e sem o menor constrangimento. Seu julgamento é ainda mais nítido no tocante à apresen· tação da obra e ao seu valor literário.objeta o rei . ao mesmo tempo. não se entregou a esse turbilhão. em nossas representações c em nossos julgamentos. isto é. A réplica de Fre­ derico. Incluiu-a no número das obras pertencente. E. pelo simples lato de expor essa id~ia . a essa vertigem dialética de Diderot que o arras­ tava alternadamente do ateísmo ao panteísmo. O espfrilo satírico e contundente de Voltaire reconhece-se no modo como acerta em cheio no ponto vulnerável da obra de Holbach . em nossas afirmações e negações. mas. realjza completa­ mente. o autor deveria aduzir a conseqüência óbvia de que somos apenes uma espécie de máquina. No desenvolvimento do seu pensamen to.. em seu conjunto. segundo Diderot . essa lalta 106 que cometemos incessante mente contra 8 idéia de necessidade 80 submetermo-nos a todo o instante. acredi ta. tentar reduzir e. mas logo a converte num jogo de espírito intencional . contra os governos . graças a esse circulo. que os homens que exercem essas atividades são livres. evidentemente. essa oscilação entre os dois pólos da necessidade e da liberdade. o nosso pensamento cai em contradição coDsigo mesmo. tendo erguido como sua bandeira a luta contra o dogmatismo e a intolerância. ele encoleriza-se contra os padr~. Mas o século XVIII. Voltaire recusa-se a deixar-se marcar como livre-pen­ sador com semelhantes argumentos e levanta-se contra a idéia de receber das mãos de Holbach e de seus adeptos o "diploma de ateu" . que chegamos a um conceito bastante compreensivo para envolver toda a natu­ reza: esse conceito de natureza que $e eleva fundamentalmente acima do bem e do mal.. contra todo o nos$O sistema de educação. Após ter esgotado todas as proves destinadas a mostrar que os homens são conduzidos em todas as suas ações por uma necessidade fa­ tal . porquanto inclui os momentos opos­ tos e integra ambos.s ao gênero literário pelo qual alimenta a 107 . as premissas. inclusive. deve implicitamente negá-Ia e suprimi-Ia." Uma dialética mais sutil e mais flexível do que aquela de que Holbach dispunha podia . do materialismo ao panps iquismo dinâmico e vice-versa. e não por uma afirmação ou uma negação simples e unilateral. acima da concordância e da discordân­ cia. Que loucura e que absurdo! Se tudo é movido por causas neces­ sári as. pois. põe a nu a con­ tradição de Holbach que.século XVIII contra o Sy5teme de la nature já tinha descoberto o ponto fraco fundamental da argumentação. insiste expressamente sobre esse ponto: . com essa idéia. Foi levado por esse impulso que ele concebeu sua obra mais espiritual e mais original: o romance jacques te la/aliste. ao do­ mlnio da necessidade. E. Diderot apercebe-se com toda a clareza das antin" mias do sistema do fatalismo. o Systeme de la nature desempenha um papel relativamente exíguo e secundário. os castigos e as recompensas são tão supérfluos quanto inexplicáveis: poder­ se-ia igualmente pregar a um carvalho e querer persuadi-lo a transformar-se em laranjeira. todos os conselhos. depois de lhes demonstrar que são escravos. Esse duplo movimeoto. como ve{culos de seu próprio pensamento dialetizado de ponta a ponta. no entanto. todos os ensinamentos. mostrando ao mesmo tempo como.

desde a sua publicação. Essa ciéncia atingiu o seu ponto culmi· nante c. svbre u qual quer insistir. na forma de vestuArio. Atn!vo-mc a afirmar que. De resto. entre os pensadores do século XV lll. ('anlo quan to ao conteúdo como do ponlo de visla do método. que ampli ara os seus lim ites nté novos horizontes. Surgira uma rival que elas não conseguirão 109 . ou outras semelhantes. quanto ao es~cnci81.~3 Com efeito. antes de uma CCnlena de anos ter transcorrido. o texto de Holbach é de uma rigidez e de uma aridez prorundas. no entanto. Mas. essas linhas sob seus olhos. dorav!mte. no ambiente trepidante e estri· dente de uma medtnica incompreensfvel para os olhos e para o espírito. relaciona·se com o fato de que suscitou contra ele a unanimi· dadc não só das forças religiosas mas também das forças vivas da arte de sua época. em Estrasburgo. 4 Em seu escrito intitulado Da interpretação da tUltureza (L 754). era como se deambulassem entre as bobinas e os teares de uma imensa tecelagem. as que tiveram igualmente uma parllc1­ pação ativa na edificação da filosofia da natureza do sécu lo XVIII: O movimento que elas deflagraram desempen hou um pu· pel. O ponto que ele quer enfatizar. não haverá três geômetras se­ quer em toda a Eu ropa. na ininteligibilidade de uma oficina que integra os mais complexos dispositivos. r. Vejamos na natureza uma oficina prodigiosa que con té m tudo o que é necessário para produzir as c riaturas que temos diante dos nossos olhos e não a tribuamos suas obras a alguma causa miste riosa que n50 existe em parte alguma . Chegamos a um momento em que se anuncia uma grande trans­ rormação das ciências. para ele e seus a migos de juventude. que. q ue linha renovado. além de seu comprimento e de sua pro­ li xidade. pos. existe um sentimento correto na bas·.emá­ ticas puras foi desmen tida pelos acontecimentos: os cem anos vaticinados por Oiderot ainda não tinham transcorrido q uando morreu Gauss. de um todo cujas formas e ligações co du· cam todas mal nasceram. e duraram um tempo mais ou menos longo.menOr dose rle ir. levando à restauração 108 da estética sistemática. A reação provocada peJa obra de Holbach. fez mesmo época.dulgência: o "gênero enfadonho " [genre en· nu)'euxJ. da pro­ fecia de Diderot. talvez mesmo decis ivo . Foram essas forças. é que as matemáticas não podem mais pretender. até no desenvolvimento das ciências da natureza. . salvo em nosso cé rebro. tremíamos dian te dele como dia nte de um espectro". ler o monopólio da autoridade no domínio das ciên· cias da natureza. observa que o século parece ter ati ngi do um ponto particulalluente crítico. sem dúvida. sui sem dúvid a o faro mais aguçado para todos os movimentos e tra nsformações do seu tempo. uma vez mais. quando ouviam falar dos cnciclqpedistas. bem como esterilizar todas as potênci as do sen timento e da imaginação? "Pensemos ni sto: somos apenas as partes sencientes de um todo que é desp rovido de toda sensibilidade." 33 Coethe tinha. e pensando sempre que essa fabricação lem por único objetivo produzir a peça de tecido que acabamos por nos sentir culpados de usar.Jlo XVIII não podia prever. Quanto ao Systeme de ta nature. toda a estru · tura das matemáticas. tão lúgubre e mortal. os D 'Alcmberl e os Lagrange.. nlio t seu propósito expresso excluir do es· pctácuJo da natureza não s6 todos os elementos religioSos mas também todos os elementos estéticos.les fixa ram as colunas de Hércules que não se poderá transpor. Dide rot. pcnnanecerá no estado a que foi levada pelos Euler e os Bc rnouilli. que dificilmente suportávamos a suu pre· sença. ao declarar que. sobre o nosso próprio corpo. ele e seus amigos pensavam ser incompreensível que semelhante livro ti· vesse podido paSllar por perigoso: "Pa recia·nos tão pardacento . de uma maneira que o séc:." Sabemos como essa profecia respcitanle à hist61"i1l das mal.

um metafísico. Devemos. com efeito. escapar DO cfrculo de seus próprios conceitos. não contente por desen­ volver por conta própria seu universo conceptual. · a." Com essa tomada de posição começa a empalidecer o ideal da física matemlÍtica que domina e anima todo o século XVIII . por isso mesmo. dummodo te ÚJis no/'! habeat. como a Aristóteles ou a Platão. são desprovidas de todo o acesso direto à reali­ dade empírica. "As ciências abs­ tratas monopolizaram por muito tempo os melhores espfritos. seja qual for a sua natureza. certos e incontestáveis. para permitir ao método experimental ser eficaz. uma sign ificação mais individual do que universal. ao espírito do racionalismo do século XVII I. pode abrir-nos esse acesso. ele passa a ser. 111 DIBLlO i ECA Pc. juslficado em seu estilo próprio e na validade do seu método . Somente a experimentação. a verdadeira riqueza da filo­ sofia. Os conceitos e as palavras prosperaram de forma desmedida. cumpre-nos desenvol­ vê-Ia até tomar-se perfeitamente independente. Mu. é esse conhec imento que con tém eru si. deixa-se medir e con tar. libertá-lo de toda e qualquer tutela. "Feliz o CiJ6sofo sistemático a quem a natureza concedeu. tais sistemas de idéias. combater. atingir a perfeição. uma ditosa ima­ ginação. de abandonar-se-lhe naturalmente. Diderot encontrou assim uma fÓrmula muito caracterfstica e muito escla recedora que anuncia um novo estilo de pensamento. concreta . um novo temperomenlO de investigador que surge. a exigência de uma Jisica puramente descritiva. Ainda se continuaria construindo. por essa mesma razão. E. Elas não podem. no fundo. ape1iar de todo esse brilhante desenvolvimento do saber matemático. I! um dos preconceitos da filosofia racional que aquele que não sabe contar seus escudos pouco mais rico é do que aquele que só possui um. Indaga ele : por que possuímos. exigindo ser reconhecido. Sem dúvida. rança de envolver na rede de seu s concei tos a reaUdade como um todo. ordenador e calcu lador. no domínio da físi ca. mas seu retrato continuar de pé. Ele ~ in­ dispen sável como instrumento do conhecimento. Diderot concebeu e desenhou em largos traços esse ideal muito antes que ele tivesse sido realizado em detalhe. no domínio da natu­ reza? Faltam os gênios? Há deficiências de renexão e de inves­ tigação? De maneira nenhuma: o motivo deve ser procurado. " Quan. sem dúvida. as matemáticas poderão. afaga a espe. uma grande eloqüência e a arte de apresentar suas idéias em imagens impressionantes e sublimes. mas sem ali­ mentar ilusões sobre sua significação e seu alcance real. levar seus conceitos ao auge do rigor e da exatidão: essa perfeição nem por isso dei­ xará de ser um obstáculo imanente. Quando o matemático. a observação fiel da natureza. sem a preo­ cupação de saber se essa riqueza deixa·se definir por idéias claras e distintas. mais estética do que objetiva e lógica. mas cuidemos de não nos converter em escravos de um simples instrumento. no interior de seu domínio. no entanto. em seu lugar eleva-se um novo ideal. u "I! uma nova direção de investi· gação e. das coisas. o conhecimento dos fatos s0­ freu um atraso. portanto. não s6 o espírito de sistema da metafísica mas também o da matemática. portanto. a filosofia racionol ocupa-se muito mais de comparar e de combinar os fatos que já conhece do que em recolher novos. por assim d izer. Lamentavelmente.repelir inteiramente. ao 110 passo que. como a Epicuro ou a Lucrécio. até mcsmo entre os escombros. num desconhecimento do princfpio das relaçãcs que unem o saber conceptual 80 conhecimento dos fatos. do os geômetras depreciaram 05 metaffsicos estavam muito longe de pensar que toda a sua ciência não era outra coisa senão uma metaf(sica . Inocen te Radriznnl J'f 60&' . a de apropriar-se do real em toda a sua riqueza. O edifício que ele ergueu pode muito bem desmoronar um dia." O sistema possui. opõe­ se agora uma nova tendência. tão exfguos c0­ nhecimentos ainda. para extrair dele todos os fru tos que ele é capaz de gerar. elaborados por elas próprias. Ao espírito contábil. Possuir o sistema sem ser por ele possuído: Laidem habelQ. antes.

recebido satisfação DO tempo em que ele redigia suas reflexões sobre a interpretação da natureza. O mé todo é excelente no dorninio do racioclnio. com a de Newton no plano da densidade. ~ ela que deve ser exposta aos nossos olhos. Já não se traia agora de transíonnar a reali· dade int uitiva numa soma de grandezas . basta ndo descrelJer inteiramen te os seus íenômenos. em mi nha opi nião." ·r Isso não significa. susten taria de bom grado este paradoxo: que. evidente mente. de-­ vem elaborá·los em coníormidade oom seus próprios objetos. DiderOI não teria podido apresentar essa exi­ ganeia de uma forma tão n(tida se elo já não ti vesse . Mas. a obra de Hu rron não é com· parável. metade de uma vida te ria passado antes de te r-se tenninado com o aJrabcto . Todo o monismo metodológi­ co desse tipo esba rra. é preciso . porquan to aponta com per­ {ci ta clareza uma certa orientação fu ndame ntal na elaboração dos conceitos científicos. Vale a pena Jutâr contra essa esclerose mediante a pesquisa. Burron parte do princfpio de que é ocioso e perfeitamente errôneo es tabellXe r nas ciê ncias da na tureza um ideal estritamente monjsla e dele fazer depen­ der todos os ramos da invest igação. de Burfon . Sem dúvida . li essa construção lógica dos t:onee itos de c1ass(:s e de es· pécies. Diderol il ustra pessoalmente esse programa no seu Tratado de botânica. Desde a introdução com que a obra se inicia. de um modo geral.Essa justificação pode ser abordada med iante consideraçáes que j á foram reitas em física mate mática. continuando pelas que se iniciam com B e assim por dia nte.unstând as. opõe-se de um modo direto ii: contemplação da sua riqueza . q uando se passa da física pa ra a biologia. os quais adquirem a amplitude majes­ tosa de um projeto universal que o mé todo lhes confe re. O poslUlado de descrição pura adqui re um outro sentido.a . a elaboração de conceitos que pe rmitam ndaplanno-nos à r iqueza individual. Sem dúvid a. em vez de irem pura e sim­ plesmente buscar seus princípios às disciplinas " racionais". num certo senlido. Um novo tipo de ciência estava assim criado. Os par tidários e os suceSSOres de Newton se mpre disseram e repetiram. do que em sua perreita compreensão . em sua po­ lémica contra a física "racional" de Descartes. a descrição exa ta de um íenômeno coincide. é necessá rio recorrer à descrição. Ora. nocivo no caso da história na tural . na reali· dade. para um Císico. nesse preciso momento que se publica ram os três pri meiros vo­ lumes da H istória natural. da originalidade e da criatividade . mai o perdemos de vista e logo encontramo-nos inevita· velmente perdidos. inev itavelmente. de Newton. no conOito da s matemáti­ 113 . conservar·lhe a íorma pró­ pria e especHica . il singularidade individu al dns rormas naturais. Foi. e da botânica e m particula r. no enxugamento de seu conteúdo. mas. que essas ciências possam prescin di r do método e do espírito sistemático mas que. que doravantc não eru mais preciso preocu parem-se em explicar a na turez. no empobrecimento. em cena medida. com d eito. com 8 sua med ida : s6 se descreve com rigorosa exa tidão o que se pode determi nor por \lu/ores puramente numéricus e exprim ir por relações e ntre esses va lores.em nada lhe perde do ponto de vista do mé todo. ligarmo-nos a essa singularidade sem perder a fl exibilidade q ue ela impõe . alê í undamental nas matemát icas.M Em vez da definição. pelo contrário. em certas circ. l?: um fio condutor para se ehegar à verdade que jamais pode ser abando­ 112 nado. graças à qual buscamos geralmente o conhecimento da natureza. fonn ando. e m úh ima análise. operação válida. uma contra parte (ein SeitenslÜck) para os Philosophiae naluralis principia ma­ Ihemalica. e m toda a riqueza e divenidade do seu ser e na profusão do seu devir. nada ex iste de mais molesto c mais prejudici al do que o método . Se pensássemos em e nsinar uma c ri ança a falar começando pelas palav ras que se iniciam com a letra A. num tec ido de números e medidas. D iz ele nessa obra : "Se me atrevesse a ta nto. Esses conceitos só podem resulta r muito mais numa limitação da intu ição. de maneira nenhuma. mas .

A partir daí Buffon decide-se francamente pelo nomi nalismo : declara que não há es­ pécies nem gêneros na natureza mas somente indivíduos. Com efeito. à direção ú nica da experiência: só ela nos pode pro­ porcionar agora essa espécie de certeza de que é su scetível a ver­ dade física dos objetos. a "verdade" matemática não consiste em outra coisa senão num sistem a de proposições puramente ana­ líticas unidas entre si pelo vínculo da estrita necessidade e que . em última análise. a um grau de conhecimento que nos permita percebê-los na perspectiva da relação da parte com o todo. Quan­ do deixamos de lidar com conceitos que nós próprios forjamos. de su a organizaç1ío. Uma vez que a natureza procede por dife renças imperceptíveis de uma espécie a outra. até indispensáveis para nos propiciar uma visão geral dos fatos. enfim .. por meio dessa simples repartição. nada de melhor nos resta fazer do que aceitar a delicadeza. traçar diante dos nossos olhos o quadro de suas relações. conceitos que po­ demos inferir uns dos outros com perfeito rigor dedutivo. essa concepção da verdade perde o seu sentido e a sua forç a a partir do instante em que nos aprox imamos da verdade e tentamos nos instalar nela. Mas nós não poderíamos obter um quadro desse gênero sem nos resolvermos a inverter totalmente o processo assim entabulado. generalizar os fatos. e -quando acreditamos ter descoberto as mesmas classes. nesses es­ 114 colhos já naufragcu Linel. em vez de os situar em tal ou tal espécie bem distinta. tornar o nosso pensamento suficientemente ágil para representar o movi­ mento e as nuanças das formas na turais . pois é justamente nisso que consiste a ve::-da­ deira vida da natureza. até mes­ mo. na sua Filosofia da botânica.:. por conseguinte. precisá-las. logo se apaga essa evidência de que dispomos para comparar entre elas idéias pu ras. sus­ cetível de lhe perrntir reagrupar o mundo das pl antas. Segundo Buffon. Temos de nos confiar então à condução. pas­ samos a compará-Ia a si mesma. da dependência dos efeitos par­ ticulares em face dos efeitos universais. ter em vista não uma divisão analítica mas a reunião sistemática dos seres vivos.cas e da física. mudar inteiramen te. sem dúvida. que sua natureza pode sempre sofrer transfonnações. ~stas foram modificadas a tal ponto que nos fica difícil reco­ nhecê-Ias. de um gênero a outro. Teremos necessidade de uma outra prova para nos convencermos de que nenhum ser vivo é de um tipo imutável. Já não nos satisfaz então comparar a natureza com as nossas idéias. Devemos multiplicar as observações. nesse caso. de tal modo que entre eles encotramos uma série de estados intermediários que têm o ar de pertencer metade a um gênero. mas nada é mais perigoso do que substituir as coisas significadas por simples sinais.as Essa uni­ dade escapa-nos enquanto prosseguirmos com a repartição em classes ou em gêneros. dessa clas­ sifi cação analítica. de certo modo. ex. e que as espécies menos bem-equipadas já desapareceram ou desaparecerão num prazo mais ou menos curto? 30 115 . prescrevendo-Ihes a forma e a determinação. como elas concatenam-se mutuamente na totalidade de uma atividade única . pois tais classificações só podem fornecer um sistema de nomenclatura. seu desenvolvimento e suas transformações. cumpre-nos conhecê-los em seu parentesco. até chegarmos. Elas são úteis. relacioná-los com a ajuda de ra­ ciocínios por analogia. Ora. já não se trata de transpor os limites do simples provável. Lineu acredita poder. com o tempo. Devemos. de sua rede de paren tesco . Os animais de um continente não são encontrados nos outros.primem apenas um só e mesmo conteúdo de saber sob diferen tes formas. E acre­ dita ver em todas essas observações a confirmação de tal ponto de vista. vemos como cada uma de suas operações relaciona-se com um centro. fazer defi nições reais de definições puramente nominais e delas esperar a mínima ex­ plicação da "essência " das coisas. suas formas de transição. NA posse de uma propriedade. metade a um outro. a sutileza dessas transições. não um sistema "da natureza . de uma característica qualquer.

onde se encontra desenvolvida pela primeira vez. nesse procedi mcnto que repousa o poder de uma ciência natural puramente descritiva. de Fontenclle. A doutrina de Descartes condiciona fundamental­ mente.iio cientffica.ios fins da conceptusç. elas importam menos pelo seu conteúdo do que por sua forma. tomado da lógica t scolástica. ele encontra um segundo foco. A própria estrutura do conhecimento bioló­ gico começa aqu i a desenhar-se nitidamente e é contra a forma da física teórica que ela se afirma. só existe de definido o que é claramente conhecido. passo a passo. em biologia . se assim podemos dizer. pelo contrário. a qual deve afastar cada vez mais.Não se trata de debater aqui a im portância dessas idéias de Bufíon como esboço de uma doutrina da evolução universal. na França . Quando. no século XVIII. 5 o sistema da física cartes ia na levou prontamente de vencida . A teoria lógico­ matemática da definição já exigia em Descartes uma e"plicação estritamente mecanicista da natureza como sua comrapartida c seu corolário indispcnsável. só registram uma penetração muito progressiva. a idéia de uma " arqueologia da natureza". o centro de gravidade do pensamento desloca-se da definição para a descri­ ção . A partir de mcados do século XVII. o método precedente. o mecanismo deixa de poder ser considerado o único e suficieme prindpio de toda a expU· cação. de uma forma clara e disti nta. tam bém na história da narureza devemos esquadrinhar os arqui vos do mundo. E. os quais. por essa nova concepção da essência e . parece ter sido expressomente escri ta a propósito da obra de Burron. na verdade. tendo que se assegurar primeiro. nitidamente delimitado e exata­ mente descrito. de definição por gCllIlS proximum e diflerentia specifica. a partir de Entretiens sur la pluralité des mondes. ~ ~o :e. a resi stência que encontrara na doutrina da Igreja e IIUS defensores escolásticos da física das" fonuas substanciais". No nosso con texto. como um dos elementos da "cu ltura" geral da so­ ciedadc . do gênero paril o indivíduo." E.se também a própria visão 11 6 do cOfltelÍdo es:sencial da história do natureza.~1 Tanto nR Ingla· terra quanto na Alemanha não se chegou a uma dominação tão ilimitada do cartesianismo. decifram-se inscrições antigas para fixar as re· voluções e as épocas da vida intelectual. O método das ciências da natureza deixa de reccber sua lei unicamente das matemáticas. arrancar OS mais antigos monumentos das entranhas da terra. interrogam-se moe­ das e medalhas. na forma fundamental do conhecimento histórico. deduz o se r do devir e explica-o por elc. reunir os escombros e juntar num só corpo de testemunhos todos os in­ dícios de mudanças físicas que possam reconduzir-nos às diver­ sas idades da natureza. I! esse o único meio de fixar um ponto qualquer na infinidadc do espaço. de colocar alguns limites no trânsito infinito do tempo. de Kant. para depois exercer uma ação profunda e silenciosa. Sua in nuência é tão forte e duradouro que os próprios pensadores mais opostos aos seus objetivos essenciais mio podem livrar-se dela. A Alemanha preferiu edificar 8 sua vida intelectual sob a égide das teses lejb nizianas. na In· 117 . "li /l 'esf de bien dêfiní que ce qui esl exactement décril. A ramosa passagem da Critica do juizo. em vez de dcduzir o clevir do scr. li forma do espírito francês. Em boa verdade. ideal que encontrará progressivamente na obra inteira de Bufron uma rea lização concreta. Iransforma. Diz este: "Assim como na his­ tória dos homens consultam-se docu mentos. prepa ra-se uma passagem para lima visão da natureza que. pelo ideal de saber que imroduzem. e essa for· ma revela·se tão possante e tão firme que pode assimi lar c sub­ meter-se ao próprio conteúdo que a combate. tudo evoluiu mu ito depres­ sa: o cartesianismo impôs·se não só no drculo dos espíritos cultos mas também. da solidez do terreno .

em especial. devem encontrar nos principios e nas elCplicaç6es essa negação bru tal que a doutrina cartesiana lhes opõe? Plantas e anima is vêem sua vida negada. a toma impossível . Um processo graduado contínuo. Deve· mos reconhecer a vida a todos os seres que. Mas. Um dos primeiros lideres dessa escola. Henry More. tendo ele próprio construído mai s tarde a sua própria teoria da na tu reza. ela e:tprime-se de um modo mais es­ pontâneo e mais universal como o poder de criar formas. que a ordem e a coesão do todo podem fu ndar-se. indicam que certas {orças criadoras agem em nós e. essa hierarquia das " naturezas plásticas". o que . com efei to. porquanto considerava ler sido consumada nela a separação radical da matéria e do espírito. vai desde os prccessos vitais elementares até as condutas superiOr« do pensamento. como biólogo e como me:afis. Enquanto a e:tperiênciu nos ensina que tal continuidade ex. reina essa autoridade. nas {amas exteriores em que se oferecem aos nossos sentidos. às suas Ja ntes antigas. 1! somente nela.isle. não SÓ distinguiu as duas su bstâ nci. vendo nela o triunJo decisivo. à consciência.!ls como separou uma da outra.glaterra. na unidade de sua ação. em sua crítica da fil osofia cartesiana. em seu modo de existência. que repousam a unidade e a vida da natureza ? Essa unidade é destrufda . nunca interrom­ pido. mais além .t3 Embora situando o fen ~ meno da vida orgân ica no próprio centro de suas investigações. por outra parte. Mas. Em nenhuma parte. de evitar tode o ataque ao grande princípio de ex­ plicação matemática da natureza que a ciência deve a Descartes e até de acarretar·lhe a menor limitação.hecimento reflexivo. tomando expressamente posição COntra a doutrina das naturezas pláslicas. Entretanto. O que refuta essa Limitação. Foi na Escola de Cambridge que essas tendências começa ram primeiro a ganhar rorma. se nos apresenta urna solução de continuidade. anulada pelo cartesianismo . sem contestação. mormente às doutrinas neoplatônicas. pode O pensamento dis­ cordar? Ao passo que os fe nômenos constituem uma série inin­ terrupta. do espiritualismo. saudou com entusiasmo a rilosofia cartesiana quan­ do esta surgiu.co. Leibniz. levando tiio longe a distinção racional que tornou toda a conexão real impossível entre elas e gerou um abismo intranspon ível de uma para a outra . a vida desfeita. é justamente a res­ peito desse ponto que ele rompe com o cartesianismo. Descartes. pelo contrário. no-las revelam. na supo­ sição de que o reino do csprrito só começa com a consciência humana e que se limita ao domfnio das idéias "claras e distin­ tas". 42 Leibniz. desde os elementos até os orga­ nismos superiores mais diferençados. por princípio. no qual descortinam o vício fundamental de sua doutrina da natureza. repele-os para o mundo mecânico. sustenta que uma doutrina da vida deve ser concebida de tal modo que H • 118 119 . de acordo com as objeções que lhe faz Henry More. sobretudo con tra a doutrina das idéias inal" S e o modo como se apresent a a idéia de substência. da substância ex­ tensa e da substância pensan te. permanece viva uma Jorma de nIosoria da natureza que se liga diretamente ao dinamismo renascentista e que tende até a juntar-se. é a intuição da continuidade das formas da natureza . quando os pensadores da Escola de Cambridge falam do morbu$ mathe­ malicus de Descartes. Do fenômeno natural mais si mples aO mais complc:to. e nio ape­ nas nas massas e seus movimentos. 1! por isso que. enveredou por um outro caminho. não é na associação das duas subs­ lâncias. que fez deles autÔ matos. More e Cudworth elaboram a teoria das "naturezas plásticas A vida não se limita à faculdade de pensar. os sistemas empi ristas exercem uma crítica que se torna cada vez mais rigorosa e contundente contra as idéias essenciais do sistema cartesiano. a encontrar urna e:tpressão sistemática. desde a impte$sao obscura e confulla até o mais alto cor. en lre as diversas formas da vida que encon­ tramos por toda parte sob os nossos olhos na na tureza orgânica e na forma de au toconsciência. ainda que indiretamente. Contra essa tentativa de mecanização. também teve o cuidado.

não basta sobrevoar discursivamente os fenô­ menos.. convirá colocar a questão da razão de ser da série in­ feira. Shaftesbury apóia-se nos pensadores da Escola de Cambridgt'". aproximando-os segundo o espaço e o tempo. não será com esse gênero de explicação que se alcançará a compreensão do mundo. O princípio de sua eficiência. Aquilo a que chamamos processo "me­ cânico" nada mais é. por elevar-se de um certo grdu de elaboração a e. Contudo. as forças secundárias e derivadas. devemos alicerçar nas forças originárias. devemos abadonar a ordem Hsico-matemática dos fenômenos e passar daí à ordem metafísica das substâncias. essa a larda que o sistema leibniziano da monadologia quer executar. Shaft. ordená·los em seu quadro espaço-temporal. assen ta no inextenso. sem exceção. Para reconhecê-Ia . Cada mônada é uma ver­ dadeira "enteléquia " que se esforça por desenvolver e aumentar a sua essência. sem deixar de conside rar. Já na idéia leibniziana de harmonia se maniresta a con· junção dessas duas influências. pelo menos. por sua vez." 44 AS:lirr. foram lançados. o " mecânico " no "vital". Todo o seu esforço tende. in quo mechanismi fons et mechanicorum repraesenlatio est. t assim que o ex tenso. No desenvolvi­ mento dessa concepção. Não menos im portante é o papel desempenhado pelas novas pers­ pectivas estéticas aprc5cntadas por espíritos dotados do sent ido da arte. porquanto se situa além dela. do que o aspecto exterior. Não foram razões puramen te teóricas. E em Shaftesbury revela-se de uma forma ainda mais nítida a importância dessa razão estética para edificar uma nova concepção da natureza. nam phaenomena ex mOtJadibus resultan/. primitivas. na teori a das hnaturezas plásticas". a conceber a idéia de forma de tal modo que ela deixe transparecer a sua origem espiritual. Para com­ preender o mundo. as que suscitaram e alimentaram esse problema. que os princIpios da própria mecânica não poderiam con­ sistir simplesmente em extensão. nâo obstante. o "extensivo" no "intensivo". com efeito. em vez de estabelecer separadamente os di­ versos estados gue um corpo orgânico percorre em seu desen­ volvimento. um outro mais perfeito. de seu progressivo desenvolvimento. Essa questão de ser não é.. a fim de os unir mutuamente pela relação de causa e efeito. não é a relação mecânica de causa e efeito mas uma relação leleol6gica.. entre­ tanto. "'Quod in corpore exhibe­ tur mechanice seu extensive. Segundo Leibniz.:. a explicações rigorosa­ mente matemáticas e mecânicas. sem o menor desconhecimento dos direitos de uma explicação matemática da natureza. um elemento da série. Em vez de ir de um elemento do devir ao outro. portanto. especula­ ções abstratas.sbury. não existe outro meio senão submeter todos os fenôme nos da natureza. forma e movimento. por m{nimos 121 120 . As mônadas são os sujeitos donde o dcvir extrai integralmente seu princípio e sua fonte. onde Descartes acreditava ter encontrado a substância dos corpos. pata estabelecer entre eles uma completa harmonia. em todos os seus aspectos. para garantir a unidade des­ ses dois modos de pensamento. Mas repele todas as conseqüências místicas. ti re­ prese ntação e a expressão sensível do processo dinbmico que se desenrola nas unidades substanciais. mas conservando. os fund a­ mentos de uma nova "fi:osofia do oTgânico". imediatamente. na$ (orças orgânicas. O mecanismo é a bússola intelectual que nos apon ta o único caminho seguro através do domínio dos fe­ nômenos. id in ipsu Entelechia concentratur dynamice ef monadice. em particular as que Henry Mor~ ex traíra dessa doutrina. a sua natureza puramente intuitiva . que vê o mundo como uma obra de arte. que submete os fenômenos ao "princípio da razão " (Sal: vom Grunde) e permite concebê-los de modo raciona l e explicá-los inteiramente. qUer re" troceder desta para o artista que a produziu e que se mantém preSénfe. "ultra-sensível". e recorrem ainda a outras fontes. estava equacionado um prcblema que deveria desempenhar um impor­ tante papel no desenvolvimento da fil osofia da natureza do ~éculo XVIII.nunca entre em contradição com os princípios do conhecimento Hsico-matemático.

desse modo.a fi nalidade do ato. ele deu assim um passo além do modelo dos pensadores de Caro­ bridge que concebem as "naturezas plásticas" . 4$ Com a concepção da natureza de Herder e de Goethe já ultrapassamos. Ademais. A sua essência .como sendo essencialmente potências subordinadas. que apen as visa a fin s universais.. os limites da época do iluminis­ mo. da sua filosofia da natureza e da sua teoria do conhecimento. um deslizamento de sentido. O concei to de forma interior (inward fOrm) situa-se além de toda e qualquer separação desse gênero: "Pois tal é o princípio da natureza que o que valia para o exte­ rior vale também para o interior. mas a dependência efetiva ~a sua metafísica. A tal propósito. evidentemente. não o belo. A transição realizou-se em perfeita continuidade. Também na cultura francesa aparece com nitidez crescente. entretanto. entre imanência e transcendência. is the reall)' beautiful . 122 123 . submetidas à lei e à direção da vontade divina. • Essa imanência da finalidade que deriva da sua esté­ tica é mantida por Shaftesbury na sua filosofia da natureza. Esse artista não submete a sua criaçAo a um modelo exterior. de engendrar e de elaborar o individual. interior e exterior : a oposição absoluta entre aquém e além. de resto. nela fazendo penetrar uma nova corrente do pensamento. a um plano preconcebido. Nessa perspectiva de imanência estética deixa de haver na natureza alto e baixo. não é me­ nos indiscutivel. não poderia ser validamente expressa por analogias extraídas dos processos de exterioridade. como a ação de um corpo sobre o outro. Maupertuis recorre às idéias Ieibnizianas tanto para demonstrar o seu princípio de mínima ação como para es­ tabelecer e provar o seu princípio de continuidade. em face dos princípios leibnizianos. não se esgota em nenhuma obra singular. mas tampouco nessa direção ocorreria qualquer ruptura no pensamento do século XVI II. em suas obras. sobretudo no de­ senvolvimento do pensamento alemão. ela só se nos revela no próprio ato de produzir e de dar fonna . na criação tanto quanto na contemplação. por conseguinte. Todo o seu ser está em agir. e nelas se apóia também para a sua teoria da fenomenalidade do espaço xvrn. Ainda menos se con­ fonna. ) e das forças "demonfacas" da natureza. do T ." A poderosa cor rente de um sentimento novo da natureza parte daí para penetrar no curso O hi no à natureza de da história das idéias do século Shaflesbury aí desempenha um papel decisivo. Sua eficiência é interiormente determinada c. o seu princípio transcendente. ao passo que as "natu­ rezas plásticas" são atuantes no mundo. A idéia de fina lidade que penetra e domina toda a mundivisáo de Shaftesbury sofre igualmente. A sua posição pessoal em relação a Leibniz não está. em seu pensamento universal. está agora ultrapassada. inteiramente isenta de contradições.que sejam. Assim como não visamos ao objetivo tanto na criação quanto na fruição artística . é o que realmente possui beleza. incumbidas de Gerto modo pela causa primeira. ele liberta as forças pro­ fundas graças às quais formar-se-ão a filosofia da natureza de Herder assim como a do jovem Goethe. E esse ato é a fonte primária de toda a beleza: "The beautif)'ing. nada mais é do que o próprio ato .. a partir de meados do século. A mediação estava dada de antemão no sistema de Leibniz. o qual continha em si mesmo a unidade e a continuidade do desenvolvimento. o desenvolvimento do conceito leibniziano de mônada. tampouco o "gênio" da natureza conhece um fim exte­ rior a si mesmo." (N. cabe particularmente a Maupertuis o crédito de ter lançado uma ponte entte a Alemanha e a França. Ele vê o um no todo e o todo no um. da potência divina suprema • l!m inglês no o rigi nal : "Aquele ou aquilo q ue embeleza. not the beautiful.. Shaftesbury abandona essa oposição do inferior e do superior. Deus paira acima do mundo como o seu telos. que ele se limitari a a reproduzir.as quais eles consideram indispensáveis a toda a atividade organizada . nem mesmo na infinidade de suas obras.

em combate r o sistema qua sistema . em absoluto. às substâ ncias simples cuja i!ssência s6 pode caracterizar-se como ccnsci8/1cia. como pontos físicos. assim que se passa à química . Na verdade. pelos predicados de representação e de apetite. de gravidade -. Maupertuis rec usa-s~ a s'!guir o radicalismo leibni'liano ao distinguir o mundo das subs· tâncias do mundo dos fe nôme nos.predicados de impenetrabilida· de. ult rapassar o plano onde se situa O ser e o devir da m. Por mais brilhantemente que tenha sido demonstrada a teoria de Newton em astronomia e em fisica. caso se quisesse salvaguardar na química a validade do prindpio universal de atração das massas como princfpio supremo de explicação. Seria necessário. para esse fim. ou seja. a incluf·los entre os d emclItos primiti­ vos do ser. ele não conceberá. desde que se 124 pretenda explicar a ronnaçao de uma planta ou de um animal. E verdade que. Maupertuis foi o primeiro derensor na França das idéias de Newton. não há outra solução senão somar aos predicados puramente físicos . efetivamente. de iné rcia . O que confere a esse estudo sua importância para a história das idéias é ver-se aí pela primeira vez uma tentativa de concilia­ ção. Somos necessariamen te remetidos para uma concepção da matéria que é diferente da que o físico pos­ tula. Essa at itude turva e ambigus não deixou de de5Strvi·lo em seu con flit o com Kõnig. Por conseguinte. cumpre recorre r. em lugar de se procura r na noção de massa os princfpios essenciais e verdadeiros da ex plicação ({sica . dar à..n Mas não tardou em reco· nhecer q ue o principio newtoniano da atração não poderi a cons· tituir um fu ndamento sufi cie nte a uma ciência descritiva da na­ tureza para compreender e interpretar os re nômenos da vida orgânica . de certo modo. Para atingir essas unidades não é necessário. Mauperluis in siste igualmente no seguinte ponto: seria impossível haver uma explicação completa da natureza se não nos resolvermos. 48 Mas . diz Maupertuis. pelo menos. em vez de tratar esses dois predicados como propriedades derivadas.:. abandonar o mundo dos corpos como tal . basta ampliar a idéia de matéria de modo que. em vez 125 . Tanto a extensão Cllrtesiana quanto a grav itação newtonia· na não proporcionam a menor eluci dação sobre os renômenos da vida e estão longe de perrntir que se proceda a uma completa dedução. diante de proble. Tania o problema da reprodução quan to ~ problemas comple­ xos da teoria da hereditariedade naO podem ser tralados em ter­ mos puramente ffsicos. essas unidades pri márias donde resultam os processos naturais como pontos" metafísicos" mas. nem sequer é poss(vel a sua formulação correta nessa perspectiva. de comparação no plano dos princfpios. a tribufdo 8 um certo doutor 8a uma nn e que teria sido impresso em Erlangen .ou tros p redicados em relação com a realidade objetiva da vida . em relação ao pensa­ mento de Leibniz . monnen te sob a rorma que ele recebeu de Woltr e dos seus discfpuJos. o qual proclamava. denu nciada por Kõn ig. em 1751 . abriu-Jbe o cami nho. por outro lado. E de paramo-nos com uma nova mudança de sentido quando se passa da química à biologia. a dívida. à maneira de Leibniz. evidencili'SC na ~ teorias biológicas contidas num tratado latino intitulado Disser/alio inaugurafis metaphysica de un. o mundo do "simples " do mundo do "com posto ". justamente que. enCOnl ramt> nos.versali Naturae syslenwte. obstina-se em criticar. nesse combate. própria idéia de atração um outro sentido mais amplo do que ela possui em física. de mobilidade . dos dois grandes adversários que se enfrenta m na rilosofi a da natureza do ~culo XVIII. E Maupertui s voltn­ se então para Lei bniz. ele esforç a-se por di ssim ular essa estrei­ ta dependênda: ao mesmo tempo em que se apropria tacitamente dos $Cus principios . do ten lpo . Abordando a idéia de m6nada. ele precedeu o próprio Voltaire e. ainda mais niti da­ mente do que na versão Maupertui s do "princípio da m:nima ação ".atéria . mas inteiramente novos qUI: já n50 se deixam tratar por esse único principio.

sideram a consciência e o pensamen to o atributo essencial da alma. cimento de caracteres empíricos. cidir num mesmo sujei to. Podemos perfeitamente seno tir uma resistência mais forte à idéia de unir extensão e pensa. mas também as de desejo. porém. dotada de sensação e de desejo. não parece que ela possa extinguir-se. Quando uma parto se associa a outras em grande quantidade. teriormente uns aos outros? São suscetfveis ou não de se r associa. eles podem muito bem pertencer a um mesmo sujeito cuja essência própria nos é desconhecida . isso depende apenas do rato de que a experiência apresenta·nos cons. ~ animada. A cada uma dessas partes é atribuído não só um "instinto". da confluência de todas essas moléculas animadas nasce. O espiritualismo leibniziano é caricaturado sob a fonna de um vago e cornuso hilozo{smo : . bar-nos.serv iram Para a constituição do todo e na qual sua individualidade se fundamenta. deduzir a consciêocia do não-consciente: isso seria pre­ tender uma verdadeira c. nições reais. " Sendo a percepção uma propriedade essencial dos elementos.um verdadeiro fenômeno primitivo. ou seja. simplesmente. eis uma objeção que não pode pertur. perfeitamente coerentes ao estabelecer uma divisória estanque entre a alma e o corpo. as objeções apresentadas contra a fuoção e a coordenação direta das propriedades "psfquicas " e "((sicas" na noção de matéria . dado que só ~ válida se partirmos do princípio de que as explicações de que o cientista serve·se correspondem a defi. Por ou tras palavras. na qual par· ticipam todos os elementos que . uma vez que esses dois atributos nada têm de comum entre si. contudo.is realiza esse programa.de excl uir os fatos primitivos da consciência . a definições que devem designar a natureza da coisa e exprimi·la plenamente. Descartes e seus adeptos con. gravidade elc. ela contenh3"OO em si mesma. Não ~ menos absurdo acreditar que se possa explicar o nascimento da vida espiritual peja associação de átomos. aversão e mem6ria. que essa exclusão recíproca fica insustentável a partir do instante em que se reco­ nheceu que todo o poder do pensamento limita·se ao estabele.. mento do que à de uni r extensão e movimento.. 8 construção da filosofia da natu· reza pode agora prosseguir sem obstáculos. :. Tais caracteres implicam-se in. não podem coin. s6 atribuindo a um as características que se recusam a admitir no outro. devemos incluir na derinição da matéria não só as características de extensão. portanto. nenhum dos quais possui a 'Sensação nem a inteligência ou a mínima quaJidede psíquica que seja. Ocorre. desenvolvida e levada a níveis de clareza cada vez mais elevados. Sua coexistência não é nem mais nem menos inconcebível do que a união da extensão e do movimento. que a leva a procurar o que lhe convém e a fugir do que lhe é contrário. até mesmo opostos. desse modo. tantemente esta últ ima união e a coroca diretamente sob os nossos 126 olhoe.ão. 4t Não resta. ela não perdc esse sentimento de si mesma . Não se cogita de admitir que ela possa ser engendrada pelos átomos mas. dicados tão heterogêneos. Não está em causa. portanto. por certo. como tal. Pretender que tal associação envolva uma con tradição. isso sim. nada resta. uma nova consciêD citli comum.riação ex nihilo. terístico da filosofia leibniziana da natureza. mas também um certo sentimento de si mesma . ao passo que a primeira relação s6 pode ser concebida por inferências e raciocínios indutivos . do princCpio carat." ti Descartadas. de certas simpatias e antipatias. diminuir ou aumentar. que pre. para n6s. Pode perfei­ tamente receber diferentes modificações através das diferentes 127 .!I matéria. outra solução a não ser transportar a cons· ciência para os próprios átomos como . "Se o pensamento e a extensão sio apenas propriedades. dos? Não podemos nem queremos apurar isso: basta que a expe­ riência os apresente sempre juntos e que possamos eSfabelecer a sua coexistência regular. a extensão o atributo essencial do COrpo. Da maneira como Maupertu. impenet rabilidade.

em sua trajetória. nessas mu· danças .espécies inteiras? Se a ré não nos ensinasse que os animais safram . está à altura de sua riqueza e de sua diversidadl! interior. for· mar uma mesma soma. Ne· nhuma de suas rormas permanece idêntica. é muito arriscado. nenhuma luz particular sob a qual o coloquemos. Na ver· dade . "Tal como nos reinos animal e vegetal. O pensamento de Diderot só é cabalmente apreendi· do. ainda que sejamos incapazes de a seguir ou de a conhecer.se a con vicção de que nenhuma posição singu· lar donde consideremos o universo. Diderot não fa z o menor esrorço para cristaliza r seu pensamento em fónn ulas fi xas e definidas . em sua associação com os outros.. Ela só conhece a diversidade. que em nenhum ponto do seu curso revela o que ~ e o que quer. todas as investigações puramente classificat6lias lhe pare­ cem estreitas. somen· te !lDI. pretender definir e foram com um nome o conjunto de idéias fil osóficas que por eL sucessivamente sustentadas e querer. Mas é ju ~ tllmentc nessa volubilidade que ele avizinha-se de urna rea lid ade que tampouco conheci:! o que seja estabilidade .das mãos do Criador [01 como os vemos e se fosse permitido ter a menOr incerteza acerca do seu começo e do seu fim. estão ligados à doutrina de Maupertuis. ele é permanenlemcote um elemento flu ido e fugidi o. insuficientes ou. por um fluxo incessante. de Dide· rot. Adquire-. que não repousa COm nenhum resultado obtido.r. querer encerrá·la em nossos gêneros e em nossas espécies. uma 128 transformação perpétua. Desse ponto de vista. pode-se dizer que Diderot avan~a para urna nova coocepção da filosofia da natureza . pelo menos. não deixar que nenhum modelo. pensamento móvel pode concebê·lo. perdura. nenhuma prescri­ ção. Esse universo ilimitado e móvel. por assi. Cada elemen to. cresce. que é impelida. pelo con lr ~rio. de sua incessante mobilidade. mas que se inebria com a prorusão dos passeI/eis. o riJósofo entregue às suas conjeturas não poderia suspeitar de que a animalidade tinha os seus elementos parti· culares.m dizer. esparsos e conrundidos na massa da matéria desde toda a eternidade? Que acontecera uma reunião desses elementos por· que havia a possibilidade de que isso se fizesse? Que o embrião 129 . mais dia menos dia. Nada de rorluilo nem de arbitrário. nenhUIDa hipótese deve pesar sobre o seu futuro. em seu movimento inces· sante. mas deverá sempre.1I Graças a esse traço fundamental do seu esplrilo. E a esse materialismo simplesmente um pouco mais reiinado opõe ele uma concepção puramente dindmica. impetuoso. Não se deve atribuir de antemão nenhum limite ao conhe­ cimento pOr intermédio de tais esquemas. retraia o holizonte da experiência. Diderot é o primeiro a romper com a visão do mundo est6tico do século XV lIl para dotá·lo de urna visão dinimica .combinações dos elementos . Mas o autor possui um senso crltko demasiado penetrante para não iden tificar os pontos fracos dessa doutrina. apor·lhes um rotulo. ele vê nessa tenta· tiva de superar o materialismo apenas uma variedade do mate­ rialismo. um pensamento que se deixa levar de impulso a impulso. Não sem razão. por assim dizer. f. de modo que nos falta a lembrança do estado primitivo dos elementos e a nossa origem deve estar intei· ramente perdida para nós. deverá romper·se. a heterogeneidade perfeita. só lhe parecem apro­ veitáveis para fix ar o estado do saber num d2do momento espe· cffico. que jamais repousá na conlemplação do presente e do dado . não ocorreria o mesmo com . Diderot mudou de "posição" in6meras vezes ao longo de sua vida. que os quer percorrer e tentar todos. um indivíduo começa. porém. no universo. definha e acaba. Todos OS esque­ mas. rundiu sua per«:pção com a deles e perdeu o sentimento especifico de si mesmo.o Os Pensamentos sobre a interpretação da natureza . na realidade. Temos que permanecer abertos a toda a novidade. cada uma delas re· presenta spenas um estado de equilíbrio transitório de suas for· ças criadoras e que. ocioso pretender atribuir limitE:! à natu­ reza. ralando de Diderot.

.os " Rerurn nOIlUS nascllur ardo": a diVisa a que Diderot submete a natu­ reza não vale para a posição que ele próprio ocupa na história das idéias do século XVI H? Ele cria uma nova ordem das idéias: não contente em ultrapassar largamente 06 resultad~ adquiridos pelo seu tempo. 1740. 3 e &8. do T. Gottingem. t. 276 e M. Monlesquieu. Sua existência constitui apenas um átimo fugaz na infinidade do devir : nenhum pensamento pode medir a priori a riqueza de tudo o que esse devir pode engendrar. Livro VIII. KO:. Paris. haver ilusão mais perigosa e pior so­ fisma para os filósofos do que o "'sofisma do efêmero" . pp.kel'l/'ll/'lisproblem. a:p.. entre "definição" e "descriçlo" em Newton e seus discípulos.• edição. p. 76 e M. 59 e 5S. Não pode. 31 e sa. 6 Sobre os primeiros trabalhos eientlfkos de Montesquieu. para uma eXp03içio mais completa da questão. minan/llr. reddid. nihil slIn/ Del aderni decreta. que evoluiu do movimento à sensa­ ção e. cf.. 3 Giordano Bruno. lI. de tal soc:t que fosae outra a ordem da Natureza. m.]" (N. ver as info rmações mais detalhadas que fo roece O. E/'Ilre/ie/'ls . 3. quae sempe.~rsa/e$. Trafl~ de mé­ taphysique (1734)..odo divers. Quaeslio 31. H uLege nalurue uni. cal/ser/es du /undl. nenhu m primeiro principio pode ser apreen­ dido por nós. do T. vaI. O mundo começa e acaba sem cessar. portanto. Erica. coosuhar em t3peciaJ Ernst Trotltscb. 10 Condillac. em particular o cap. por conseguinte.t3. capo 7 e pas!im. vol. Vununfl und O/lenlXJfung hei Johann G~rh(Ud Me/Wlchlon. não há uma molécula que se asseme­ lhe a si mesma de instante para instante: Rerum novus Itascitur ardo." 12 "Quem conhece as raças de animais que nos precederam? Quem sabe que raças de animais sucederão às nossas? Tudo muda. vol. cf. rv. vaI. aetemam verila tem' e/ /'I«tssitalem .! tivessem podido ser de outIa natureza ou determinadas a opera! de n. \'OI. u SpinO. lI.edição. às idéias. 1891. Proposição 33: "I. 8 Sobre a amplitude e O conteúdo deua Iiteratut3." NOTAS 1 Para !l\aiore! precit6ts ace rca desse ponto.l começo e em seu fim. ÊUmenfS de phíloSlOphie VI. 7. 10 e u .nvolvlI"/'" TrtKtatllS Th eologico-Po/itic/U. Momel em Lu scienclJ$ de la na/ure e/'l Fra/'lce au XVIII' si~rle. U'"' 2 Cf.e é possível que muitos outros desenvolvi­ mentos que nos são desconhecidos venham ainda a ocorrer. ele acomete aquelas formas de pensamento graças às quais esses resultados foram adquiridos e nas quais se ensai ara fid-lo&.formado desses elementos passou por uma infinidade de organi­ zações e de desenvolvimento. 9. Oeuvres de Fon/e/'lel/e.} 12 D'Alembtrt. ao pensamento consciente e à reflexão? Milhões de anos transcorreram entre cada um desses desenvolvimentos . tudo passa. p. por exemplo Sainte-Beuve. ~ Oplice. Êlém~lIl$ de philO$ophie. e. 310. pp.is detalhes sobre a oposiçllo entre "explicaçlo da natureza" e "descrição da natu reza". [Em francês no original: "Nenb~ma energia primeira.. Nesse oceano incomensurável de matéria. i FOGtenclJe. vol.. .kennlnlsproblem [O problema do conhecimento). d. 1818. Opera LaIUla.. de "flsica teoló­ gica". Premiu sair. . sucessivamente. Lib.o.. l. não há uma molécula que se assemelhe a outras. p. 8 Para ma. De ImmelUo. parte 2." N. Méla/'lges.) . O meu livro E. . ele está a cada instante em se'. I. Traia de: sys/~me$" Logique. pp.. Le philosophe igTlorant (1766).'ur la pluralité des mondes. eis a eterna divisa do munde. 130 131 . Deus l:imbém poderia ser.a idéia de que o mundo deve ser neçessariamente o que é presen­ (emente. acima pp. 1911. 401. Paris. J se as coisa. pp. secuNium quas omnie fiu"l et dele. apenas o todo permanece. 11 Voltaire. D'Alembtrt. de natureza diferente da que t presentemen te [ . capo lU. Xi cf. vn. lat. Samuel Clarke.

ruure. 1929. 315. cit..) .. em C$pecial para Il in­ fluencia que exerceram em Volta ire cf. f . Marburs. Lansoo. I i S'Gravcsande. a" Op. e 3S4 e ss.e Par . 1910. Histoire naturclle (1749).. do T. Dixours sur le bonlleur (OcII>lrCI philosophiqucs. La Metlde. . Paris. especialmeDte pp. de :tJ. 130.).UUibl'liz. Guchichte der Ala· dtmle der W IJ!tnschoftt n tU Ber fi fl . 40 BuLIon. mas nlo i nessa quaUdade que escrevo. ed. 18 Para a im portâ ncia dos trabalhos de$5CS cientistas holaodeses 00 descnvolvi nlento do próprio pensamento fram:&. capo I. 1896 (ttudez d'histoire tlttéroire. I. OeuvrcJ (Aw­ zal). 6 como filósofo : como lal. d. 1720.ie de Joncourt.( 2T Ibid. VI. L'homme mochine.laç6es com a BIcola de Cam· bridat. Phüos. ed. 1902. li.. Prae!atio. Paris. [Em francb no oriainaJ. Ph)'sices Ele mento. Paris. tOS'G ravesa tlde. 2 vols.1 GOI!lhu (Archiv. Gesch. U Diderot. ai La Meltrie. pp. rv. 13 e A. f2 Fiz uma u~ ição mais profunda da fiJosofia da natureza da Escola de Cambri dse e de sua doutrina das "naturez. c:4. La Philosophk toologique awmt Darwi" .. Parte I. 28 HoIbach. 3 e ss. Perrier. pp. 0$ detalhes do conflito. Primeiro discurso. p.cu e/crtUllto Mothemot ictl. 1901. sive It. op. Brunet. XXVll la Cf. Maurice Solovine. IV. não eJ:istiria ciência nem reara. 113. pp. d COfldoTCtl). a introdução 1 tradução francesa dos lUmcI/ts dc physique.58 e 5$. 1932.): "Sou e considero um ponto de honra Kr cidadio zeloso. p. 17 H unhens. Paim"u. 51sl/me dr 111 na/ure. H Cana de Lcibniz a Christia n Wolff. Lu physiciells lIo1lalldais d la mitllode apirimenraJe C" FTOIIce ali XV11l. 22 HoIbach. XXI. Sobre a visão da natureZll em Shaftesbury e sua!. Schríften (Gerh. di!curso de posse como reitor (1730) .'1. Fabre. publicado ulte­ riormcnte sob o thulo rraiti de t'4me. XXI. Philosophie. N. sec. ed. 111 . CorrcspondE" cia clftre Leibniz c W olft. nCf. 1932. La Mettrie. " De melhodo irutiluendi ex perimenta. 25 Cf. Gelommclte Schri/tel1. p. 28 Holbach. o que estaria em contradiçl'io com a nalureza do princípio sobe­ ra no.). Amzat. 24 Traitl de fame. d. vol. capo IV." N. 1890. pp. VarignOD. Systime de la n. ci tado em Josepb. 53 e paMim. 81 t $S.u. em 2 de fevereiro de 1702. 3 t J. p. Cam­ brIdge (Stud. 205.s. as Bufron." 10 $)'slt me dc 111 fIOIII ". D iscurso ina ugural D e MatheseCt1 i" omllib"". 236 e 5S. capo 6. Ia nalure.. alemA de Lommçl. Voltain. acima pp. Hú toi'e nllturelk de r&nu! (1 745). cf. cf. vejo que Cartouche foi feito para Kr Cartouche e Pirco para K f Pirro: OS conselhos lão inú tei~ para q uem nasceu com a sede da carnificina e do sangue. cf. re. 1926. • La Mettrie. ed. 1894 . cf. Brune t. o te U tra tado CCHJSldiratioflS sur /u pTÚicipu de v/e CI :rut lu Mtura p/alt/que!. Mau­ ~rlujs.as plásticas" no meu livro Die PI(llOltlscht R cnolsso/ICt ifl Englofld und & e Schule VO/l. sc. op. 1860. p. pp.rdt) VI.ietlliis praecipue in PhyslcLJ UlU (17 17) e o tratado Plryslcu E/emnt­ lO .. 1). 283 e $S. 11 Úl Botaltlque mist d la po. se assim não fOMe. 211 e 5$. Harnack. a obra de Pierre Brunet. War burs). Lcipzia. p. p. cf.. Leiptig. Berlim. 167 e . vol.tü de tout le monde. . Lu pi res d e la Rivolution. 11. franasa de Joncourt.. Paris. 56 e 5S. Paris... us cabah:r (1772). 4 e 5 (pp. 391 e 5$. G. H alle. . p. I2Cf.u~reJ. Gerhardl. 1929. 50 e 58 t 1. caps. Ph)'s. U No que se. e Musschenbroelc. vol. Le­ quicn. Oellv. "L'influence de la pbiiosophie carl&ien ne sur la lin~rature franÇ"-aise". 1921. 1825. XIV.tTodflctio tJd phi/osophlom NcwtQfdam. Paris. S)'s/~me dI. cf. pp. sUcle. S'Gravesande..p. t i A demonstração precisa dessa influência foi fornecida por Dilthe:y no artigo Áus dtr Zeil dtr Spl/U'ta-$fudit . XVII./qlle. 1 e 11. em especial pp. ver a exposição detalhada que apresentei em D/e Plalonische RenailMUlce ifl Englu"d. ) . 41 Sobre R influência de Descartes. lJ2 133 . 55. L'lI omme machine. cd. R tVIIC de MClaph")'­ . Ot. De l'interpritation dfl lo na/urt . pp. TTa/ti dtl la lumi~Te. (De Bay/t. [da] Irad. I II:homme machine. 139 : para mais detalhes. M dlhemalüche SChri/le" . o meu livro Ober Leibl/lt' S}steni. u Cf. 274 : cf. do T. Gerhardt. pp. 252 e u. physica". CiL. 539 e ss. Leyde. Leiptig. p. Rede iiber die Evldenz. 94 [E!m franeis no onainal..J. S'Gravesa'ode. der BibJ. "I! porque ludo se rege pcla razão e. dI. His/Dire no/uFelle . refue à posiçlo de Buffon Da história do evoIDc:ionis­ mo. p. 'I Cf. .. H Sobre a tOlTlada de posição de Mauperluis a favor de Newton e tobre os seus primeiros trabalhos matcm' tioos e físicos. pp.

UU. LXIV. U. 134 135 . . vaI. lU Ver. 132. vol. procunndo assim assegurar-se. 139 e S$.VIU. /"IlJIUre. :teto L VID. cit.. LllI. pp. XXD .. num s6 e mes­ mo ato.8 M2.. 1Il PSICOLOGIA E TEORIA DO CONHECIMENTO Um dos traços caraclen sticos do s«:ulo XVHt é a esttt:ita relação. da verdade da natureza e da sua própria verdade . Didcrol. A tarefa universal de determinar os limitC$ do esphito (ingenii (imites definire) já tinha sido estabelecida por Descartes com uma clareza decisiva. 322 li $S. rv. . em fénnos cada vez.). 166 e N. entre o problema da natureza e o problem4 do conhecimento. SyJtlme d~ lo tUI/ure. Pil. em Lo Grande R .rot". Lyon. LA ri ve de D'Alembtrl..). U De l'interprbo/ion de lo. ~ lbid. O pensamento não pode dirigir·se ao mundo dos objetos exteriores sem vollar-se simultaneamente para si mesmo. no âmbito do seu pensamento. A mesma questão cooverte-se em seguida. embora lhe tenha dado um outro rumo. pp. 154 e pauim. 82. vemos ser continu amente colocada. XIV. Oeu"ru.. o primeiro pensador a . ti Loc. uma signiricação aprorundada e uma solução radicalmente nova. Kant nãQ foi.Upertuis. Ao iovés de o conhecimento ser simplesmente lt8tad~ como um instrumento e utilizado de modo singelo como tal. pp./or· mular essa questão. pode'tíamos até dizer o vínculo indissolúvel que existe. mais prementes. U. Groelbuysen ("La peosk de Dide. Oeuvrel (Am. o cxce!eCle retrato de Diderot traçado por SerM. a esse respeito. 1756.aec. v o l.. &eC o LXIII. seco m. a questão da legitimidade desse uso e da estrutura desse instru­ mento..to. pp. 155 e M . Deu­ "reJ. UV. em absolt.

A distinção radical do métod0 transcendental e do método psicológicO~ da qUC5tão do "começo" e da questão da "origem" da experiência. está nessas noções primitivas que consideramos em nós mesmos e que.tanto. portanto. tal como um exce· [ente anatomista explica os mecanismos do corpo humano. número _e duração. deciha-se nas idéias que contém em si mesma a priori. Somente a gênese do espírito humano pode fornecer uma solução verda­ deiramente satisrat6ria para problema da sua natureza. A determinação do obieto da experiência deve pteceder a investigação da função experimental. para discernir exata­ mente a natureza especíHca do espírito humano. até a Crítica da razão pura. não pode ser retida. Seu ideal supremo é tomar-se a "química da alma". nesse domínio." I Os grandes sistemas racionalistas do século XVII tinham resol­ vido a questão rundamental da verdade do conhecimento. A primeira questão deve.·de modo explícito. "Depois que tantos arrazoadores fizeram o romance da alma". "eis que chegou um s4bio para lhe razer modestamente a história. A reação contra essa concepção. virá. analiticamente. a sua origem e o seu destino. de Descartes em diante. proveniente dos Novos ensaios sobre o enten­ dimento humano. de certa maneira.a~e.com Locke. no sentido em que a química é a anatomia do inorgânico e a própria anatomia é a análise dos corpos organizados. portanto. A psi­ cologia é assim colocada. por outra parte. em confonnidade com o manuscrito da Biblioteca de Hanover. quando essa obra veio a ser a publicada pela primeira vez em 1765. quer sondá-los até atingir seus fundamentos últi­ mos. Locke expôs e explicou ao homem a razão humana. a um problema genético.: ser. de estreito paren­ tesco com a ciência universal da ntItureza. N~sa época. para resolver esse problema. num exame histórico em benefício do problema fun­ damental do século XVIII. de Kant. O ponto de partida de toda a filosofia. tal como foi sistematicamente elaborada por Kant. são os arquétipos pelos quais se mode­ lam todos os nossos outros conhecimentos. a:. mede-se a validade objetiva dos conceitos fundamentais do co­ o nhecimento por sua origem. pelo contrário. algumas dezenas de anos mais tarde. não há outro caminho ~enão percorrer de lés a lés toda a extensão do seu domínio e reconstituir a ordem do seu desenvolvimento desde os primeiros até as suas realizações supremas. ao situar o mundo das idéias e o mundo dos objetos numa só e mesma camada primi­ tiva do ser . não faltam as normas lógicas para penetrar na psicologia e orientar seus problemas . Assim é que a origem psicológica converte-se num critério lógico mas. de uma vez por todas. A "dedução transcendental" nunca se distinguiu da "dedução psicológica". O problema crítico redu'l. que pos­ e e 136 137 . os próprios elementos do psiquismo. A psicologia recebe delas um caráter reJlexivo pre­ dominante: não se contenta em perceber as realidades e os pro­ cessos mentais. diz Yoltaire a respeito de Locke. a fim de expõ-los à plena luz. detarmin. O empirismo de Locke também comporta uma tendência inten­ cionalmente "critica". ela reivindicará esse papel quase sem contestação. A natureza do conhecimento hu­ mano só se infere de si mesma. Não temos o 'direIto de aplicar o nosso conhecimento a não importa que objeto para desoobrir·lhe ~ natureza. nesse nível que eJes se reúnem e é por essa coin­ cidência p'rimordial que se explicam os acordos que em seguida realizam de forma indireta. ao domínio da filosofia e da cultura alemãs. Essas idéias "inatas" constituem o selo que roi impresso desde o começo no espírito hUf:lano e que lhe assegura. pelo contrário: que espécie de objeto convém ao conheci­ mento? Quais são os objetos que el~ é suscetfvel de determinar? Entre. Entre essas noções primeiras encontramos as de ser. precisamente. fron­ teiras não cessam de confundir-se. na base da teoria do conhecimento e. e sua influência subseqüente Umitar-se-á. aliás.-se. de Leibniz. que ela alimenta um vivo sentimento de pertença. no furid~mento de toda a filosofia da experi~ncia. da concordância das idéias e dos objetos.

a mínima oposição entre sua própria estrutura e a eStrutura das coisas. um do outro em nenhum ponto: cada um desses dois planos do ser oferece tão-somente expressões_e representações Cliversas de uma mesma e única substancialidBde (Wese:nheil). na "imaginação".cia de Deus. toda a diversidade dos corpos e toda a vida complexa da alma estão contidas nesses modelos simples e primitivos . Nenhum caminho leva diretamente de um pólo a outro do ser. não basta aceitar a extensão no sentido em que ela nos é dada na extensão concreta. devemos. salvo a que é dada e produzida na essen­ cia divina. no grampo de rerro que mantém unidos O pensamento e o ser . Não existe um conhecimento verdadeiro das coisas. todo o movimento do pensamento a partir de Descartes consistiu precisamente em negar todo o vínculo direto entre a realidade e o espírito huma­ no. deve-se passar necessariamente pela mediação da existenda e da dicJ.imagens que esta última nos fornece e dar o passo que nos 'conduzirá da extensão imaginativa à "extensão inteligível".suem um valor absoluto . de uma existência da natureza e de uma legalidade inviolável. Com efeito. Para concebê-la em sua estrita e autêntica ver­ dade. salvo se relacionarmos em nós mesmos as percepções sensíveis com as idéias da razão pura .sim. ·reduzi-Ia à pura exten­ üo.para todo o conteúdo do pensamento. as sensações de cores. mesmo ao ponto de o desfazer inteiramente.nenhuma espé­ cie de "união" entre a alma e o corpo. Mas só pode efetuar essa passagem do subjetivo 80 objetivo na condição de reconduzir o contingente ao necessário.. Esse traço C8racteristi~ da dOUlrina destaca-se ainda mais francamente nos discípulos ime­ diatos e sucessores de Descartes. com a sua própria origem . alturas de um princfpio segun do o qual só em Deus vemos tOOas as coisas. Ora. em interrogar-se. Só a cilncja permite extrair desses estados de alma a indicação de um estado de coisas objetivamente real e objetiva­ mente válido. Para chegar ao conhecimento da natur~. a realidade física . As idéias inalas são " as marcas do operário impressas em sua obra" . ao conhe­ cimento do mundo físico. não dispomos de qualquer outro recurso para agir sobre eles. no mundo cartesiano. ao passo que as idéias de extensão.las a esta? São aplicáveis à e:q>eriência pela simples razão de que têm R mesma origem dela e de que não poderia haver. Somente essa relação confere às repre­ sentações uma significaçi10 objetiva. a existência fatual à racionalidade. B s. a verdade e a realidade. A razão como sistema de idéias claras e distintas e o mundo como totalidade do ser criado não podem separar-se.E por intermédio dessa idéia de uma extensão inteligível que o espírito humano é suscedvel de conhecer a natureza.. O inteltectus archetypus divino converte-se. convertem-se por esse meio em representações do ser e da ordem dos objet05. os cheiros e os sabores ainda niio comporiam O menor indício de um conhecimento do ser e do mundo: enquanto vivências imediatas apenas nos assinalam os diversos estados por que passa a nossa all'!la. Não existe. cumpre-nos juntar a essa redução uma outra cujo alcance t mais profundo.' Toda a realidade empírica. forma e movimento só valem para o mundo dos corpos e a idéia de pensamento só para a alma. mas só conceberá ~ mesma idéia se a relacionar. portanto. as qualidades sensl­ veis. temos que nos libertar também de todas as . de simples modificações do nosso eu. Só por esse meio conhecemos 138 os cbjetos exteriores. que se relacionam de antemão com essa realidade objetiva pela única razio de que assim' se relacionam também. em vez de atribuir à "maté­ ria" uma propriedade sensível qualquer. sobre a possibilidade de aplicá. Em si mesmas . enUio. simultaneamente. no elo fixo. entre a substantia cogital1s e a substantia ex/enla. o temporal ao intemporal e ao eterno. ainda sobre a sua ligação com a realidade. de som. de in stante a instante. entre as nossas repre­ sentações e a realidade. Entretanto. Foi assim que a doutrina cartesiana das idéias inatas viu-se alçada por Malebranche às. Que benefício se colhe. se a reconduzir a 139 .

diante de uma tarefa idêntica àquela com que se de· . " Platzo tomou para primeira fonte dos conceitos puros do entendimento uma antiga concepção da divindade. Nesse sentido. A validade. Esta encontra·se. O problema lógico c epistemológico das " relações da consciência com 0$ seus obje­ tos" mio pode ser resolvido pela introdução de temas religiosos e metaffsicos que. Em é lti· ma análise. uma concepção desse ser primordial que ainda tem curso nos dias de hoje [ . uma vez mais. a qual contém a primeira formu· lação precisa do problema crítico. não de fora : da regi~o das idéias e das verdades eternas. ~ neSsa participação metafísica que repousam toda a verdade e toda a certeza lógica. nlio das coisas sensíveis. ma· ni[esta sua predileção pelo sistema de Malebranche. o deus ek machina constitui a escolha mais ex. certeza das idéias fund a· mentais do saber estio fora de QUe5tio pelo próprio fato de que participamos nelas e através delas da existência divina ." I Nessa parte negativa da sua doutrina . na luta perpétua que travou contra semelhante tendência . Male­ branche. todo ato de conhecimento autêntico. no entanto. é nela que se apóia a prova perfeita. irti subsistir entre o eu e a coisa. essa pura luz " interior". essa atitude negativa imo plica imediatamente uma certa posição que eles con's iderarão doravante inatacáve1. nlo deve interpor·se nenhuma instAncia estranha. a potência e 8. justamente. Trala-se de estabelecer a natureza e o conhecimento em seu próprio fundamento. Kant condena solenemente. Kanl sustenta ainda uma tese que corresponde ~ opinião comum de toda a filosofia do Iluminis­ mo. . quer tentativa de encontrar num mundo transcendente um ponto de apoio para a alavanca do conhecimento. O grande processo de secularização do pensamento que a filosofia do f1u 01inismo considerou ser a sua larela essencial inicia-sc nesse pOnto e com espedal virulência. em quem vê o mais profundo ~etaffs i co de todos os tempos. não nos pertence. deixou de se manifestar contra toda e qual. pelo contrtirio.Deus como um verdadeiro "lugar 'das idéias". se excluirmos o caminho da transcendência? Que espécie de relaçâo é ngorll penstivel entre eles. todo ato da razão estabe· lece uma unidade imediata. entre sujeito e objeto .travagante que se poderia fazer.7 Para Voltaire e pare. além do círculo vicioso que introduz na dedução dos nossos conhecimen. percebe-« com toda a clareza o ponto onde ele devia fatalmente entrar em conmto com a filosofia ilu· minista. explicar ' uma e outro por suas próprias determinações. Assim. essa mediação em que o aprio­ rismo e o racionalismo pensavam tcr baseado a mais alta cuteza do saber deve ser recusada sem vacilação nem concessão. tos.' mas é evi· dente que essa referencia constante serve-Ihe para provar a imo potência do "espirito de sistema" da metafísica. E. uma junção entre Deus e a alma humana. Quanto a Voltaire. ] Na detenninação da origem e da validade dos nossos conhecimentos. todo o enciclopedismo francês."· Num exame atento desse desenvolvimento metafísico do racionalismo cartesiano. a propósito do problema do conhe· cimento. entre o sujeito e o objeto. tanto para um quanto para b outro. Que mediação. com efeito.p arou a propósito do problema da natureza e que ela acreditava entâo ter vitoriosamente solucionado. 56 iriam obscurecê-lo. senão uma relação de influência direta excr­ 140 14 1 . toda a tentativa para se resolver assim esse pro­ blema . maltre commun. oferece ainda a desvantagem de favorecer todas as Cantasias e lucubraç(Ses cerebrais piedosas ou [antásticas. Convém. . A luz que ilumina para nós o caminho do conheci· mento vem de dentro. Entre conhecimento e realidade. a qual nunca . uma explicação do desconhecido por algo mais duc:onhecido ainda. O problema deve ser formula do e resolvido no terreno da experiência : o menor pa~so que arriscarmos fora do seu domínio significará uma solução ilusória. Em sua célebre carta a Marcus Herz. ela é o 're­ flexo de uma Conte luminosa mais alta: "C'est un ~ctat de la substance lum{" euse de nOlre . abster-se de recorrer a todo o "além".

em absolutõ. Diderot declara expres­ samente: " Nada existe de demonstrado em metaHsica. em todas as questões de psicologia e de teoria do conhecimento. simples probabilidade empírica mas uma certeza perfeita. porquanto mostra que o próprio empiris­ 142 mo não renunciou. de lugar: não enuncia mais mD vínculo entre idéias puras mas a apercepção de uma ligação de luclo. mas existirá tal conhecimeoto. a distinção da experiência " inte-­ riQr" e "exterior" que ela quer eliminar para reduzir todo O c0­ nhecimento humano a uma só e mesma fonte. Duvidar disso significaria apeoas • leviandade e incooseqüência . nenhuma dúvida pode haver. em última análise. a apagar inteiramente a suposta diferença entre sensa­ ção e reflexão. se devem.cida por um sobre o outro? Se o eu e o objeto pertencem a duas camadas diferentes do-ser. não 6 a evidência de um pirmeiro axioma.o. CondiUac. psicológico. Em vez da metafísica da alma. na verdade. contudo. O principio : nihil est in in-­ tellectu quod non antea fuerit in sensu nio pretende. em absolut. O principio segundo o qual toda a idéia que eocontramos em nós mesmos assenta numa " impressão" prévia e só se explica a partir desta será por conseqüência elevado à categoria de um axioma incon· testável . por mais profundamente escondido que possa estar esse original. Não lhe recoohece uma'. Mas a úni· ca forma empírica que conhecfamos de uma comunicação dessa espécie é a da impressão (Einwirkung) direta . sobre lU nossas faculdades in1&­ lectu. esse "mé­ todo estritamente histórico" que Locke defende contra Descar· tes. Só ela permite lanç. nem SÇ>bre a origem e o progr~so dos nossos conbe-­ cimento:J. A oposição entre "sensação" e "reflexão" apenas espelha um pscudodilema que se apaga diante de uma análise mais apurada.ar uma ponte entre a representação e o objeto. IO Pode-se muito bem afirmar que a autoridade de Locke. associa Locke diretamente a Arist." o Essa fórmula de Dide­ rot é caracteristica . de que ele exis· te e ternos que o procurar. Mas eSSE! evidência mudou. a colocar à frente de sua doutrina um axioma . nâo he­ sitou na presença dessa fonna especial da famosa relação: se nem sempre é Poss(vel produzir o original de determinada.'-da por múl· · tiplas confinnaçôes indutivas. Voltaire situa Locke muito acima de Platão .6teles. embora dirigido contra a validade universal 'da relação de causalidade em geral. tendente a eliminar o resto de autonomia que l..8 um. Todo o desen­ volvimento. se o antigo princípio: nihil est in intellectu etc. inclusive uma espécie de necessidade. como dado empírico real? Algu­ ma vez nos experimentamos a "nós mesmos" sem q"ue não 50­ 143 . para desenvolver a sua tese. em momento algum. Mesmo o cepticismo de Hume. indubitável. para nada no avanço verdadeiro do problema. todo o progresso da doutrina empirista de Locke a Berkeley e de Berkeley a Hume tende: a compensar e.ocke tinha concedido à renexão. Reencontramos ai um resultado' surpreendente e teorica­ mente paradoxal : O empirismo psicol6gico v!--se precisamente {orçado. por certo. A reflexão queria eer conhecimento da alma no que se refere à 6ua própria existência e aos seus próprios estados. é quase incontestada durante a primeira metade do século XVlll. tal como Newton Q foi da física científica. num exame rápido da história do problema da alma. e a crítica da filosofia francesa do século XVIJt incide igualmente sobre esse único ponto. a valer-se de princípios uni­ versais e de sua evidência imediata. por assim dizer. deve aparecer a história da alma. estar em contato e estabelecer entre si uma conexão. e nada sabemos. declara ele que tudo o que foi produzido nesse meio tempo não conta. apesar de tudo. só procura ultrapassar Locke cuma direção: a liquidação do que resta de dualismo co principio de sua análise.ais.e O'Alem· bert declara na introdução da Enciclopédia que Locke é O cria­ dor da (ilosofia científica. tal como a francesa. idéia. enunciar uma verdade {atual que teria sido prov:. ll A psicologia inglesa. será inevitável que a reaUdade exterior se comunique à consciência .

mais claramente se afirma a impossibilidade de separar essa idéia de todo e qualquer dado sensfvel. no seotido de querer fazer do eu.ist~nci a pura mais longe se leva a sua análise. esse processo de­ ve encontrar aí a sua plena eficácia e O seu papel decisivo. Verifica-se então que as diversas fases singu­ lares nunca estão separadas por um corte' níti do mas. mas é propenso a dar­ lhe uma resposta negativa. daí. pois. a compreensão etc. foi quando se abordavam as mais altas funções da vida mental. por ocasião das modificações que se produzem nos órgãos corporais. um simples "feixe de percepções". indubitavelmente. Insiste na simplicidade da natureza da alma. o verdadeiro su­ jeito da consciência. dar continuidade ao desenvolvimento sem 144 opor nenhuma fronteira superior . Condillac não é exatamente "sensualista". infiel ao seu método geral. Longe de se deter diante das formas de energia espiritual pretensamente "superiores".t2 Vamos en~nlrar a mesma argumentação em Condillac sob uma form a essencialmente mais radiéal. Portanto. a atenção. Locke deu um importante passo no sentido do avanço da investigação em­ pírica. que se quebra precisamente o fio da investigação. fundem·se insensivelmente umas nas outras. Os atos do esplrito. que existe uma substância espiritual simples que sofre somente modificações múltiplas sob o efeito de diversas impressões que se exercem sobre o corpo e cada uma de suas partes. alguma impressão. portanto. de julgar. que o senlido do l alo desempenha em seu a~ rec ime n to um papel decisiyo. nada comportam que seja verdadei­ ramente novo e. Ao consi de­ rarmos o conjunto dessas metamorfoses psíquicas. de querer.80 processo de gênese contl· nua da vida anímica . não derrubou o precon­ ceito das operações inatas da alma. como disse Bacon. também foi.14 Os sentidos não são. com uma disposição ou uma condição do nosso corpo? Alguma vez será possível indicar na experiência um puro "sentimento do eu" (lchgefüh l). misterioso: são apenas sensações transfor­ madas. uma autoconsciência abstrata? Maupertuis. Mas deteve-se a meio ca­ minho e recuou precisamente diante do problema que apresen­ tava maiores dificuldades. onde se deve procurar. reconhece­ mos uma só e mesma ordem de desenvolvimento. acompanhá-las até seus limites extre­ mos. de sú­ bito. tanto dos atos do pensamento e da volição quanto dos atos de sentir e per­ ceber. à seme­ lhança da vista e do ouvido. no ponto decisivo. as operações intelectuais. devemos. diz ele expressamente. por mínima que seja. que com­ bateu vitoriosamente as idéias inatas. nessa experiência . em suma. em particu­ lar. Com efeito. recusa-se a resolvê-la dogmaticamente. A unidade da pessoa pressupõe necessaria­ mente a unidade do ser senciente. Contenta-se em enumerar sim­ plesmente essas faculdades e em apresentá-las como poderes fun­ damentais da alma. é no ponto mais importante. que Locke tomou-se. o primeiro a traçar-lhe o percurso que deveria ser adotado. stricto Sertsu. relacionada com um fato físico. Nada se encontrará nesse nível que já não esteja contido e cons­ tituído nos elementos sensíveis primitivos. não são eles que sentem e sim a alma. ao formular essa questão. à maneira' de Hume. portanto. a qual culmina numa penetrante crítica dos fund8. rf"Criar de certo 145 . Quanto mais fundo penetra-se na idéia de uma. surpreen­ dê·las em seu nascimento. pelo con­ trário. Convém acompanhar passo a passo a gênese desses atos. Verifica-se. em vez de segui-las até às suas origens. O processo de transformação' dos elementos sensíveis primitivos da vida da alma. Com efeito.O'lentos da psicologia e da teoria do conhecimento em Locke. Sem dúvida. I3 1! necessário. Devemos observar cui­ dadosamente as primeiras sensações de que temos consciência.brevenha.ex. de distinguir. descobrir a causa das primeiras operações do espírito. Locke. do poder de com parar. Ele não viu que. mais do que as causas ocasionais e não a origem de todos os nossos conhecimentos. não são qualidades primárias indivisíveis mas estruturas tardias que s6 podemos adquirir pela experiência e a aprendizagem.

jamais se detendo em qualquer forma estável. encontramos nele uma nova posição do problema. sobre a mera observação. Não se trata de uma força que atua de antemão. A vontade deixa de ser causada pela representação. Coodillac não se ateve. a repre­ sentaçiio de um bem futuro para o qual a ação serviría de meio. o que é. obed&(C a um plano sistemático partindo de uma hipótese teó­ rica que ele quer consolidar e provar passo a passo. repleta de C ecundas possibilid. 1I Nessa tentativa de "recriação".modo todo o entendimento humenc . aquela que. fim de comoreendê-lo realmente em SUB estrutura. a causa concreta da decisão tomada. e até mesmo dos atos superiores de renexão a que a nossa alma se e1eva. desperta para a vida e eleva-se para Cormas de vida cada vez qlais ricas e diJerenciadas. do nosso querer e da nossa ação. sob a influência das impressões que se exercem sobre ela. desvendar·nos os seus verdadeiros mec~nismos. 1f Desse modo se vê invertida a ordem habitual das idéias. estabelecida em novas bases. em cada caso singular.00­ nheeimento até o pragmatismo moderno. contêm qualquer espécie de força motriz. ê no simples ordena­ mento teórico dos fenômenos que. Não é sobre a especulação. A célebre imagem da estátua que. do poDIa de vista do melhor ou do pior. Nem essa representação nem a avaliaçãO puramente teórica dos possíveis fins singulares do querer. Pode O movimento ser explicado pelo repouso? A dinâmica da vida. Deparamo-nos aqui. . e necessário recorrer a uma outra di­ mensão do psíquico. pela previsão teórica e antecipação de um bem Cuturo. Esse mal-estar (uneasiness) e . Assim. pela primeira vez. mostra claramente que a "história natural da atma" que Condillac nos quer apre­ sentar não está inteiramen te isenla de intenções especulativas ou sintéticas. O impulso instintivo (Trieb) é. recebera a sançAo da psicologia cartesiana. "anterior" ao conbe­ 146 cimento e constitui para este um pressuposto indispensável. do nosso pensamento e dos nossos julgamentos. é necessário supor nela a existência de um principio motor originário que não pode ser encontrado nas representa­ ções e no pensamento mlls tão-somen te no desejo e no esforço. mas também das nossas sensações e das nossas percepções. passando esta a ser causada por aquela. que repousa a atividade de alr~a . Condillac tampoucO' se contenta em desenvolver diante dos nossos olhos a gênese da alma e a diversidade cres­ cente de suas formal : ele quer revelar-nos a orientação dessa gênese. pelo contrário.des: compreende ser impossfvel descobrir 05 fatores essenciais deua gênC6e se permanecermos no domínio das nossas simples idéias e representações. O T raité des sen­ sations não ~ contenta em alinhar observações. evidentemente. mas de uma força que age no sentido de antes para depois. A "inquietude" é para ele não só O ponto de partida do nosso desejo e dos nossos anseios.essa inquietação Coram COn­ siderados por Locke o verdadeiro motor e o impulso decisivo de todo o nosso querer.. na apreensão pura e simples do 147 . de C orma alguma. à simples observação cmp/rica. não é aí que se escondem as fontes vivas de todas as nossas diversas energias. proveniente do desprazer e do mal-estar que a alma sente em certas 6ituaçõcs em que se vê colocada e que a impelem irresistivelmente a fugir dessas situa­ ções. com a atitude "voluntarista" cujo rastro pode ser seguido em metafísica até Scbopenhauer e em teoria do . esCorçando-se sempre por alcançar novas realidades e novas operações. no domínio do nosso· conhecimento tcórico. consiste a primeira atividade da alma. não é. segundo Condillac. Locke já enCatizara esse ponto em sua análise dos Cenômenos volitivos: o que determina os homens a empreender uma da­ da ação voluntária.IS Condillac parte das mesmas conside· rações mas entendeu levá-las muito além do circulo dos íe n~ menos volitivos e estendê-las a todo o domfnio da vida psíquica. anímica pode Cundamentar-se na estética? Para compreen­ der que a Corça latente está subentendida em todas as metamor­ foses da alma. portanto.

" As idéias formam na nossa memória certos turbilhões que se multiplicam na própria medida em que os nossos instintos se avolumam e se diferenciam. eclipsam-se. Há o costume. O ato de atenção que lhe sucede imediatamente permite insistir em certas percepções. <iO mesmo tempo. Cada um deles apresenta-se como o centro de um movimento determinado que se prolonga até a periferia da vida psíquica. não a paixão obscura e con· 149 . na presença de uma ques­ tão preilhe de conseqüências no que tange à significação da filosofia iluminista como um todo. ou produz·se o que ainda não tinha sido experimentado. turbilhões que se multiplicam como as necessidades . enfraquecem-se. Estamos. são quad. Quase todos os sistemas do século XV IlI reconheceram claramente. "Assim é que as idéias renasc~m pela própria ação das necessidades que inicialmente as produ-' ziram. mas à da prática : A atenção só capta o que. fQrmam-se de novo. o de que é im­ possível apreender e determinar pelas paixões a "natureza" da alma . pelo que for útil à nossa conservação.ros móveis -que somente oferecem imagens bizarras c imperfeitas. ou seja. em contrapartida. Dão resiste a um exame histórico sem preconceitos. e toca às necessidades fi tarefa de redesenhá-Ias e situá-las eco sua verdadeira luz. As idéias passam uma e outra vez sem ordem. à medida que as necessidades vão fi cando cada vez mais vio­ lentas. sendo determinada e governada-pela vida instintiva. por assim dizer. bilitam-se." 18 A ordem lógica das nossas idéias não é. num certo sentido. o pensamento que prevalece é. essa razão não pertence) como tal. de-. o qual é determi nado pelo que nos for proveitoso. nada Sé vú além de um caos. o turbilhão que arrastou vários é por sua vez !Togado. Essa natureza reside no "pensamento" e só no pensamento encontra sua marca verdadeiramcnte característica. Ora. "afeta" di­ retamente o eu. Entretanto. trata-se de uma espécie de reflexo ou de espelho de ordem biológica. pelo menos. a sua força. destacar certos dados sensíveis do conjunto do pro­ cesso psíquico. Cada necessidade é um centro. entre­ tanto. "essencial". Esses turbilhões são alternativamente superiores uns aos outros. Já no século XVII a análise das emoções e das paixõcs tinha sido substituída no centro de interesse da psicologia e da filosofia ·em geral. enquistado numa concepção demasiado estreita desse perfodo. à esfera puramente teórica. aos quais devem toda. de recrimi­ nar na psicologia do século XV IIl sua orientação num sentido exageradamente "intelectualista". f: a ne. pois. o que em cada caso nos parece importante. de rato. primária mas derivada. E a repre­ sentação. a idéia clara e distinta. o que corresponde à satisfação de suas necessidades e inclinações. portanto. na memória. Essa concepção. e todos 14P se confundem assim que 6S necessidades cessam. fazem parte integrante dos sistemas. Elas form-am. de Descartes. segundo Con­ dillac. Todos efetuam suas revoluções com uma variedade sur­ preendente: empurram-se. é-o menos em função da essência das coisas do que da direção do nosso "interesse". cujo movimento se comunica até a circunferência. limitando o essencial de suas análises à vida intelectua l e ao conhecimento teórico. à medida que ·os sentimentos.que os sentidos nos oferecem. me­ nores. essa acen tuação. e apro­ fandaram o problema que acabamos de abordar. No conjunto. e a teoria spinozista das paixões no Livro lU da Etica não são obras secundárias. Também são as inclinações e neces­ 5idades que determinam a orientação das nossas lembranças: a memória não se explica pela associação mecânica das idéias. De um instante a outro. esse esforço de de­ terminadas percepções seria impossível se não houvesse razão nenhuma para escolher umas em vez de outras. no ata da percepção. destroem-se. ignorando ou menosprezando. até as repre­ sentações claras e conscientes. entretanto. As paixões da alma.ces­ sidade que recupera da obscuridade e restabelece alguma idéia esquecida: "As idéias renascem pela própria ação das necessi­ dades que as produziram. a força e a originalidade ­ da vida instintiva.

tampouco poderfamos encontrá·lo por intermédio do pensamento e do raciocínio. da representação e da adoração de Deus nâo está aí.ii6ria da " razão" sobre as paixões . em suma. essa inferência. O cepticismo critico de Hume leva. A mOnada não se limita à atividade representativa. plano. como perturba/Íones animi. E. mediante provas e argumentos teóricos. O verdadeiro solo nutriente da religião. A idéia de repre· sentação e a de tendência. os insOntos e as paixões. ora . in­ certa. Não deve ser procurado numa idéia inata nem em qualquer certeza intui­ tiva primitiva. 8 natureza da alma. oriun· das do corpo.fusa. tais são o sinal e a essência da Uberdade do homem . de uma pulsão primitiva da natureza humana. A psicologia e a ética do século XVII fu·ndem·se essencialmente nessa concepção das paixões como fenOmenos de inibição e de perturbação. ao conhecimento teórico. a psicologia alemã liga·se a essa hipótese básica que lhe permite dar aos fenômenos voluntários e efetivos uma posição independente no sistema da psicologia . Ela exer­ ce tão escassos poderes na direção das factildades " inferiores" da alma que não se cansa . Hume parte desse resultado teórico para sistematicamen. é justamente aleatória.2O são colocadas lado a lado no mesmo. Os instintos. daí passando a outros países. ao ela· borar o seu concei. numa apreciação tão ne· gativa das pab. de sua junção com o corpo. mas é justamente nessa cegueira que consiste a sua força essencial. cego. ela impregna toda a vida espiritual dessa época. que manifesta li vitória da porte ativa da alma sobre a parte passiva. em si mesmo. as paixões sensíveis só indiretamente lhe pertencem . em princípios racionais universais e necessários mas provtm de um simples «inslir:to".. ·Longe de ver aC uma simples inibição. pro­ cura o impulso originário indispensável da vida da alma. perfeita· mente metódico. Com efeito. o ponto de contato da doutrino de Descartes e do pensamento de Corneille . de tornar acessível ao homem um "outra mundo". :e. Uma vez mais.'9 A vontade racional dominando os impul sos dos sentidos. a inversão do inferior c do superior : mostra que a razão que se costuma honrar como 11 faculdade soberana do homem desempenha afinal um papel inteiramente secundário no conjunto da vida psíquica . Essa perspectiva estóica não caracterizo somente a filosofia do século XVII. L. Para ela só existe a justificação indireta. no domínio da psicologia. aquela que consiste em descobrir sua origem psicol6gica. de reCOrrer a elas. a idéia de perceptio e a de percep­ turilio.te es. em si. mina essas "perturbações" . por conseguinte. Não estão af suas propriedade! originárias e seus movimentos próprios mas perturbações que experimenta. a potEncia pela qual ete impõe-se a todo o curso de nossas idéias. de maneira alguma. em reconduzir à sua ori· gem a crença na validade do princfpio de causal idade . e jarn«is poderá ser estabelecida por via puramente 16gi. O século XVIII não se detém num critério tão negativo.to de manada. Em sua Hist6ria natural da religião. a uma inversão de critérios cuja validade era até 1. Mas um movi· mento idêntico esboça·se na França e na Inglaterra. os principias da filosofia leibniziana já deviam de· sempenhar um papel nesse sentido. Procede então à redução das camadas superj()­ re3 da vida psíquica segundo um plano que é. a lf. os desejos.­ tender a todo o domínio do psíquico o processo de nivelamento por ele iniciado. não nos resta ou lra solução senão a de 151 . ca. Todo o saber racional se reduz ~clusi· )lamente à inferência da causa a pa ~ [ir da observação do efeito. Na Alemanha.õe&. De um modo geral. não procurou reduzir a sua natureza à simples "representação" . Somente possui vela r ético o ato que do. em si mesma. Vedfi­ ca·se então que essa "crença" não se fund amenta. e não saberia dar um só passo sem a colaboração da sensibili· dade e da imaginação. ela efetua em si a dntese da representação e do esforço. que caracteriza. procura assinalar até que ponlo é ilusória e caduca essa pretensão que a religião tem de comunicar. pelo contrário .eibniz.'iO então incontestada. Esse instinto é.

brota dessa mesma fonte . todo e refinamento de gosto e todo o desenvolvimento das arle$ e das ciências seriam impensáveis: "Foi com esse expediente que Deus. a quem Platão chamou o eterno geômetra e a quem eu chamo o eterno maquinista. de Helvétius. E fútil bradar contra as paixo3es. não é somente importante para o sistema do conhecimento teórico: ela age em todas as direções. A razão não é no homem uma fa culdade diretora e dominante. oriundas de um domínio diferente . em sua Introdução ao conhecimento do esptrito humano (1746). de um ato revolu­ cionário. Não podemos compará-la com o ponteiro que indica as horas no mostrador de um relógio. até mesmo os protagonistas e porta-vozes de uma cultura puramente intelectual estão de acordo a respeito dessa tese . na música. O imperativo estóico de dominar suas paixões pela razão nunca seria mais do que puro devaneio. a sua influência exerce-se tanto sobre a ética e a filosofia da religião quanto sobre a esté· tica do Século do Iluminismo. que a verdadeira e profunda natureza do homem não consiste em sua razão mas em suas paixões. apesar da sua diversidade e da especificidade de cada um. como iremos ver. intensificadas. nada menos do que 5QC8var o terreno sobre o Qual O orgulnoso ediflcio da razão se sustenta: Tudo" que há de me­ lhor oa poesia. ani­ mou e embelezou a natureza : as paixões são as rodas que fazem funcionar todas essas máqUinas. O sen­ timento do medo ~ o começo de toda e qualquer religião.r:~urar a raiz proCunda do religioso na vida instintiva. Vauvenargues produz quase o efeito de uma violência subversiva. Portanto. a ambição. é a partir dele que se explicã e se desenvolve toda a religião sob seus múltiplos aspectos. As experiências que fizemos num dos nossos setores sensoriais podem permitir·nos constituir um setor de conteúdo qua litativamente diferente e de outra estrutura espe­ cifi ca? Haverá uma conexão interna que nos permita passar 153 152 .22 Em tudo o que precede perco­ be-se sem 'diCiculdade um deslocamento prog ressivo das pers­ pectivas fundamentais da psicologia e uma modificação da ordem dos valores psicol6gicos: metamorfose que se manifesta antes do aparecimento das principais obras de Rousseau e que se realiza Cora de sua influência. sur­ preende a percepção de que. os Pensamentos filosóficos . origin árias. absolutamente irracional. O novo modo de pensamento que assim se maniCesta em Hume exerce igualmente uma ação incessante no seio da cultura francesa setecentista. 23 Trata·se da questão que tinha sido apresentada peia primeira vez na Optica de Molineux e que logo despertara o mais vivo interesse fil osófi co. A busca de detalhes vê-se levada constantemente." 21 O tratado Do esplrilo. Até mesmo os pensadores mais claros e lúcidos entre os ilumi­ nistas franceses. eles convergem para um mesmo pomo. 2 Ao consideraf'se o conjunto de problemas de que t. pois a verdadeira C orça da alma nasce de sua concordância recí· proca e não de sua destruição. 5em 85 paixões. que nos acodem sem trtguas. todo o progresso da humanidade. seria o cúmulo da insensatez empenhar-se em des­ 'mi. 8 vaidade. não foi escrito em tom diCerente. ao declarar. também parte desse mesmo pensamento .las. Essa metamorfose. No seu Tratado ·de metaflsica Voltaire declara que. &em o orgulho.ratam a teoria do conhecimento e a psicologia do século XVIII. cujos problemas ela coloca em novas bases . O primeiro escrito independente de autoria de Diderot. pelo contrário. na pintura. apesar de toda a sua riqueza e de sua aparente dispersão. As engrenagens do conhecimento e o seu primum movens são pul5ÕeS primitivas. as paixõc ~ não devem ser enfraquecidas mas. pafa um problema te6rico fundamental onde se reúnem todos os fios. todo o sublime da arle e dos costumes.

portanto. nada mais é. de fato. E mesmo o idealista mais convicto não pode renunciar a essa "natureza das coisas": terá. inclusive. mas sempre um mundo já constitufdo: ela coloca diante de n6s os objetos 155 . estA fascinado a tal ponto por essa questão que declara sem rodeios ter que se procurar aí a origem ~ a chave de toda a psicologia moderna. E algumas dezenas de anos mais tarde o problema reencontra no seio da filosofia francesa toda a sua força e fecundidade anteriores. conlinuaria possuindo esse mesmo dom ' de distinção depois. essas impressões sensfveis não comportam em si a menor indicação das "Cormas" sob as quais a realidade percebida se nos apresenta . coloca-se a questão de apreender o modo como determiná·las. que t o primeiro ato da filosofia de Berkeley e contém implicitamente todos os seus re­ sultados. o germe de toda a sua teoria da percepçilio. para ele.ewton (1H8)j" Diderot coloca-o no centro da sua ' primeira obra de psicologia. de Berkeley. do que uma tentativa de de­ senvolvimento do problema de Molineux até as suas últimas conseqüências para o elucidar. em suma. se não tivessem entre si relações fixas no espaço e no tempo. a única que poderia fornecer-nos informações certas. não existiria pata nós qualquer mundo objetivo. ções de construir para a DO$Sa consciência a forma do mundo real ou se necessita da colaboração de outras faculdades psf· quicas e. Voltaíre conugra-Ihe uma análise penetrante em seus Elementos da JiI~Jia de N. a questão crucial de toda a teoria do conheci­ mento consiste em saber o que essa ordem significa. Ali ás . do mundo tátil ao mundo visível? Um cego de nascença que tivesse adquirido. não é justamente essa detenninação o que constitui O caráter essen· cial dessa realidade? Se a5 percepções particulares não fossem ordenadas em sua simultaneidade e em sua sucessão. por meio da visão. nesse caso. falta-nos justamente nesse ponto. consiste apenas em simples impressões sensíveis . O mundo que ela nos apresenta nunca é. porquanto foi ela que chamou a atenção para o papel decisivo do julgamento nos mais simples atos e a fortiori na construção progressiva do mundo da percepção. Quanto a Condillac. e a de toda a psicologia em saber como aquela se constitui. A NQ\Ja teoria da visiio. que admitir e exigir nos fenômenos uma ordem fixa e inviolável para que a aparência não redunde. um cubo de uma esfera. ou terá que realizar um longo e difícil esforço de conciliação antes de chegar a estabelecer a ligação entre as impressões táteis e a form a visfvel de um e de outro volume? Todas essas ques­ tões ficnram sem uma solução geral imediata mas não tardaram em exercer uma innuência muito além dos meios científiços ver­ dadeiramente especializados. Mas parece que a experiência. tinha pari ido deste paradoxo: a única matéria. de certo modo. perfeitamente clara.mas. O DiArio filosófico. que uma fel iz operação lhe proporcionasse o sentido da visão e ele tivesse que passar a julgar essas mesmas formas com b'ase em dados puramente ópticos? poderá ele dis­ tinguir de imediato. por exemplo." Por conseguinte. um mundo em devir. de fato: para além do exemplo particular que ele destaca. as Cartas sobre os cegos (1749) . de teoriJl do conhecimento.::& A importância te6rica decisiva do problema de 154 Molíneux é. graças à experiência do tato. Acreditamos ver essa realidade diante de n6s como uma estrutura s6lida onde cada elemento singular teria seu lugar designado e suas relações com todos os demais elementos exatamente detenninadas. mostra-nos como ele se preocupou com esses problemas que constituíram .diretamente de um setor a outro. por outro lado. encontra-se colocada a questão geral de saber se o "sentido" como tal está em condi. Berkeley. não haveria a me­ nor "natureza das coisas". em Nova teoria da visão e nos Princlpios do conhecimento humano. em pura ilusão. o único material de que dispúnhamos para edificar o nosso mundo perceptivo. o conhecimento exato de certas formas corporais e que 50ubessc apontar com segurança as di­ fere nças entre elas.

A con­ clusão que se deve tirar dessa análise é que tudo aquilo a que chamamos distância. na rea· lidade . impossível de perceber. . in ifs own nature. portanto. alcança o meu olho. mas. algo de invisível. E a natureza dessa impressão não permite aduzir nenhum saber referente à causa que a suscitou nem à distância menor ou maior a que tal objeto encontra-se. além da simples sensação. posição. entretanto . no decorrer da experiência. sem que se lhe deixe reduzir analiti­ camen te. e chegamos à conclusão de que elas sâo impossfveis de encontrar nos dados que o sentido da visão fornece-nos. da maneira mais rigorosa e impressionante. o único mundo que nos é acessível. "DÊs­ tance is. Não s6 a primeira vez que olhamos para as coisas faz-nos descobrir nelas certas qualidades sensCveis mas. Esses dados s6 se diferenciam por SUB posição numa grndação puramente qua­ litativa e intensiva e nada contêm que possa levar de imediato à idéia de grandeza. a atividade de repre­ sentação. não pode ser eliminado sem que o mu ndo desmorone e retorne ao caos originário . sem nos informar como foi que eles adqui­ riram essa forma. como que um corpo estranho. a impressão não se propõe simplesmente à consciência com o seu próprio con­ teúdo específico. cremos adquirir consciência de certas relações espa­ ciais: atribuímos a cada objeto uma certa grandeza . E parece que a tese fundamental de Berkcley é assim reduzida ao absurdo. de referência mediata. por sua própria natureza. as razões de todas essas asserções. grandeza dos ob jetos tem. na medida em que se anuJ a a identificação de esse e de percipi. Tampouco é um estado qualitativo específico que seria dado tão originariamente quanto a cor ou o som : ela resulta das relações que os diversos dados sensíveis mantêm entre si. em particular segundo uma distribuição espacial determinada . ela eonstitu i um elemento indispensável. uma certa posição e uma certa distância em face dos out ros objetos. apresenta-se-nos algo.de quantidade pura . Ela comtitui. Quanto à passagem propriamente dita. ela torna-lhe também visíveis e presentes todos os outros conteúdos aos quais está vinculada por uma 9ólida conexão empírica.em sua forma defini tiva. essa regularidade com a qual elas se convocam e se rep resentam mutuamente perante a consciência. o dos dados imediatos dos sentidos. Com efeito. A " fo rma" espacial das percepçõeS mistura-se à sua " matéria" sensível. na Nov a teo­ ria da visão. o qual. imperceptible Qnd yet it is perceived by sight". ademais. No âmbito dos fenô­ menos que se nos impõem imediatamente e que não podemos recusar. não obstante. além disso. partindo do objeto . nada me pode informar diretamente acerca da forma espacial desse objeto nem sobre a sua distância. estrei tamente ligadas en tre si. não pertence separadamente à visão ou ao tato. Na medida em que 3 S impressões visuais e as impressões táteis se encontram. Toda a impressiío sensível possui esse poder de re­ presentação. é o fundamento últ imo da representação do espaço. é evidenlc que temos de entendê-Ia como transição puramente empírica c de ma neira nenhuma lógica. O raio luminoso que. o dilema em face do qual a psicologia e a teori a do conhecimento sensualista viram-se colocadas desde o seu nascimento. 27 com essas palavras Berkeley exprime. a consciência adquire a capacidade de passar de uma à outra segundo regras determinadas com absoluta exatidão. Não se trata de uma conexão de 156 151 . é nessa p assagem que devemos p rocurar a ori gem da representa­ ção do espaço. por ou tro lado. Berkeley superou esse dilema ao in serir nele. Mas procuramos. Quando atribuiu ao seu conceito fundamental de percepção uma significação mais ampla. Essa representação não é dada como tal numa percepção isolada. A distancia que se­ para os objetos singulares parece. portanto. sem que seja dada por ela e . Tudo do que o olho dispõe é da impressão {eita na pr6pri a retina. de maneira nenhuma. que ultrapassa as fronte iras da percepção. E essa interação das impressões sensíveis. aO qual não podemos renunciar a fi m de construi r a nossa imagem do mundo .

a rigor. a respeito de distâncias.sent8Çáo do espaço. 05 julgamentos que baseamos nessa na­ tureza valem ex analogia universi ou não valerão antes. ao explicar o pensamenLO de Berkeley: .não venha a 8tir. Nada distingue OS sinais da língua dos sentidos dos da língua {alada. em seus traços essencirus. das mesmas rela­ ções que existem entre os signos da língua e sua significação. ~ necessária a análise psicoló­ gica e a crítica mais penetrante para nos recordar a existência dessas etapas intermediárias. não podemos descartar o pensamento de que uma mudança da nossa expe· riência . entre os diversos domínios da sensibilidade. Só a rapidez com que esse processo se realiza e a regu­ laridade com que se desenrola permitem que. a mesma linguagem : a da imaginação. de maneira nenhuma. não se limitará à nossa própria naturezs? Para falar como Bacon. Mas a tese rigorosamente empirisla como tal não ê afetada por essa modificação. Toda a "a prioridade" do espaço é vigorosamente rejeitada e assim a questão de sua universalidade e de sua ne­ cessidade é colocada sob uma nova luz. se são da espessura de uma bolota ou de uma montanha . Os julgamentos repentinos. desde o come­ ço. Vohaire declarou. semelhante ao con­ teúdo que ele designa. O som vocal não é. grandezas e situaçõcs. em nossa auto­ observação. não para o seu aparecimento. A natureza disse a todos : quando tiverem visto cores durante um certo tempo. é a expressão de um processo que se reflete nela . E o pensamento não sa­ beria deter·se em semelhante declive. sería­ mos propensos a crer na existência de uma conexão neceSSÃria entre as paJavras e as idéias. A idéia de espaço não é." ~8 A teoria da visão de Berkeley foi conhecida e admitida. todos os homens falam. O mesmo pode ser dito a respeito das ligaçõcs que se estabelecem entre impressões de gênero diferente e totalmente díspares. pois. do ponto de vista quaJitativo.como a que ocorreria ne caso de uma modificação da nossa organização psicofísica . I! um engano. Essc julgamento rápido e involuntário que formaram ser-lhes-á útil ao longo da vida: pois se tivéssemos que esperar. nesse caso.ordem Jógico-matemática e muito menos de um "raciocínio" que nos conduziria de certas percepções visuais para outras de na­ tureza tátil. salvo a universali· dade e a regularidade de sua coordenação. já possamos antever o fim. estaríamos mortos antes de saber se as coisas de que temos necessidade estão a dez passos de nós ou a cem milhões de léguas. Condillae e Dideroc 29 modificaram·na em alguns detalhes. Deixam para o tato apenas o papel de aclarar e fixar as experiências feitas por inter­ médio da vista. fazem-nos pensar que basta abrir os olhos para ver as coisas da maneira que ve­ mos. ou destas para aquelas_ Somente o hábito e o exer­ crcio estabelecem essa conexão e progressivamente a consolidam. O que significa essa cons­ tância. 158 a imaginação de cada um de vós apresenLar·lhe·á de maneira idêntica os co~os a que essas cores parecem e~tar ligadas. essa "objetividade" que temos o hábito de atribuir às form as da percepção e do entendimento? Exprimirá ela seja o que for da natureza das coisas ou tudo o que entendemos por tal não se relacionará. Se devemos apenas à experiência a percepção das estruturas do espaço. indicando ambos que as impressões da vista já contêm em si mesmas uma certa "espacialidade". Aprendemos a ver pre­ cisamente como aprendemos a falar e a ler. pelo exame dos ângulos e dos raios visuais. Descobrimos assim a experiência. por quase todos os psicólogos de primeira ordem do século XVIII. Se todos falássemos a mesma Ungua. Ora. não lhe está ligado por nenhuma espécie de necessidade natural. quase uniformes. um elemento da cons­ ciência sensível. que formulamos numa certJl idade.gir o pró­ prio âmago da "nl!:tureza" do espaço. as grandezas e as situações de tudo o que nos rodeia. só o consideram indispensável para a elaboração da repre. a fim de ava­ liar as distâncias. de ma­ 159 . O que não impede o som de cumprir sua função de designar esse conteúdo e de convocá-lo à cons­ ciência.. saltemos etapas intermediárias e que.

todos possuem sua própria estrutura. entre os dados espaciais do se ntido do tato e os da visão. por assim dizer. todes os pontos da tese empirisla. As prediçõcs teóricas de Berkeley c:. O que vale ." ~o A aná­ lise ex. de m. mas tão-só na ligação empírica regula r que existe en tre eles e graças à qual todos esses espaços têm a possibilidade de representar-se reciprocamente. numa natureza comum. não se encaminham no sentido da un idade e da homogeneidade do espaço mas. atribuindo a estes últimos. os conceitos formais. na medida em que esses elementos.olf!uw 1II'(Xro. gostos e cheiros. produto do espírito . ao sensus communis.neira exclusiva.para o espaço vale no mesmo sentido e com a mesm a legitimidade em relaçiío a todos os outros fatores em que assenta a "forma" do conhe­ cimento./. uma conseqüência adicional parece inevitável. cores e sons. no de uma pluralidade de "espaços" qualitativamente diferen tes. espaço tátil. progressiva e penosamente. os únicos que ela co'oca ao nosso alcance. revela não ser mais do que uma abst ração. as conexôcs e as rela­ ções que eles estabelecem entre si não se baseiam. apresent ada por Molineux como pura hipótese. que. A subjetividade das qualidades sensíveis. o movimento e o repouso. e que são por isso suscetíveis de definições e de prOVDS exatas. então. Espaço óptico. espaço das nossas sensações motoras.. portanto. o problema da origem da representação do espaço vai muito além dos seus limites iniciais. Esse espaço homogêneo. A questão de saber a qual desses espaços sensoriais pertence a "verdade" autêntica e definitiva 16 1 . nenhuma digni­ dade racional que seja superior à que cabe aos seus elementos constilu:ivos. As idéias que se costuma atribuir ao senso comum. não tinha . em particular. • Nos tempos mo­ dernos. tavam inteiramente corroboradas: verificava-se que o doente. de fato. A psicologia an tiga já distinguia rigorosamente entre as diversas classes de conteúdos sensíveis. nu identidade de uma "forma" abstrata. pelo contrário. dizia ela. segundo Leibniz. entre os quais a duração. elemento fundament al da percepção humana. pertencem na realidade ao próprio espírito e provêm do seu próprio fundo: "São idéias do entendimento puro que não têm seu princfpio nos sentidos mas somente a causa ocasional do seu aparecimento. não existia nenhum parentesco . diatamente a facu ldade de ver. não dependem de um sentido parti· cular mas da ala". par um lado. também acar· reta O espaço em sua órbita. ele tinha que aprender. Entretanto. um rapaz de cstorlC anos cego de nascença. Se o espaço.. en· tão não pode pretender nenhuma necessidade. Os dados que a experiência nos nprcsenta. graças a uma feliz operação. por OUtro lado. sustema Leibniz.ata ocasionada pelo problema de Molineux veio revelar que essa doutrina não tinha o menor fundamento. ao recuperar a luz. As observaçOcs efetuadas com esse r?paz pareciam confi rmar. a teoria racionalista do conhecimento retomou essa dis· tinção psicológica respeitante à origem das idéias a fim de esta· belecer uma diferença específica de validade entre essas duas classes. adqui rido ime. de que as relações entre eles só se est abeleciam na base de uma ligação habitual. de substrato uniforme. absoluta­ mente. o mesmo para todos os sentidos. Mas. E quando 160 Cheselàen conseguiu em 1728 cura r. O conceito cujo destino estava em causa era o de verc!ade em geral. ex analogia hominís? Com essa indagação. que a ciência mode:-na conhece e reconhece doravan te. específica e completa. se essa conclusão é correta. é somente engendrado pela convergência e interação das diversas impressões sensíveis.e tão nu­ merosos quanto os domínios sensoriais . um lugar à parte. o número. Dessarte se confirms. do intellec{lJs ipse.lOeira nenhuma. e. não podemos continuar fa lando de um espaço único. :lnha encon trado a sua solução experimental. tudo levou a crer que essa questão. e servindo·lhes.va a tese de que. Descobre-se agora a causa que remeteu incessantemente para esse problema as reflexões psicológica e epistemológica do século XV III. a distjnguir as formas cor­ porais que se lhe apresentavam à vista .

u E cada vez mais a lógica. onde talvez falte algum dos cinco sentidos que possulmos. O motivo que se anuncia aqui. ao explicar que no lugar da teoria inútil dos juízes e raciocfnios 1 6giCQs era neces· sário colocar a teoria mais útil da origem das nossas idéias e. Johann Chrislian Lossius transpôs a última elapa em seu li vro Physische Ursachen des Wahren (As causas físicas do verdadeiro]. lizada no universo . tornar·se·á o tema favorito de toda a literatura. "Diz~e que poderia muito bem faltar-nos um 6Cxto sen­ tido natural . assim como sobre o mundo intelectual? A existéncia não sofreria para nós uma transform ação radical se fôssemos dotados de um novo sentido ou se um dos nossos sentidos nos fosse retirado? O século XVIII compraz-se em completar e em · ilustrar as espeçdaçõcs psicológicas assim esboçadas por meio de espe­ culações cosmológicas . não diz somente respeito ao mundo sensível . verdade ou necessidade só ::=m. Dos Entreliens sur la pluralíté des mon­ des. A relatividade chega à esfera superior. por conseguinte. Talvez toda. com o exemplo do célebre geômetra cego Saunderson . sem tentar reduzi-los a um denominador comum. com supremo vigor satírico e uma incomparável penetração intelectual. uma metaffsica. com esse propósito. Aquilo a que chamamos objetividade. de Kant.leza de possibilidades que podemos produzir em imaginação e construir in abnracto esteja efetivamente rea. tanto estética quanto religiosa. em todos os domínios da atividade : tanto intelectual quanto moral. Swift tratou esse tema n'As viagens de Gulliver.l nas variações sobre esse tema. onde algo do que nós sabemos ~ desconhecido. classificar as nossas idéias não mais em fun­ ção de seu conteúdo e dos objetos a que se referem mas dos 163 . à forma da realidade percebida. na Carla sobre os cegos e na Carta sobre os surdos e mudos. esse pensamellto contínua ao longo de toda a literatura psicoló­ gica e epistemológica da época i1uminista. até à Allgemeiller Naturgeschichte und Theorie des Himme/s [Hist6ria universal da natureza e teoria do céu]. As nossas ciências têm certOS limites que o esprrito humano jamajs pôde ultrapassar. resta apenas com· preender e analisar todos esses mundos de maneira puramente empírica. daí passou à literatura francesa . a riq!. Essa mudança. encontra·se a mesma diferença. A primeira dessas obras tende essencialmente a mostrar. o resto é para outros mundos. Cada sentido tem o seu próprio mundo. encar­ nando-se em particular no Microm égas de Voltaire. que todo o desvio na adaptação org6nica do homem deve ter inevitavelmente por efeito uma mudança completa da sua natu­ reza espiritual." 3 1 Como um fi o vennelho. Esse sexto sent'do está aparentemente em algum outro mundo.. a moral e a teologia parecem estar prestes a resolver·se numa antropologia pura e simples. Também Diderot. que nno deve significar coisas dife· ren tes para o cego e para o que vê. de objetividade e de universalidade para si do que para os outros . se compr8. A Cilosofi a do Iluminismo não se cansará de recordar essa relati· vidade. a das chamadas idéias puramente intelectuais: não alcança a idéia e a palavra "Deus". nas ilustra­ ções multicores. não contente por impor· se sem tréguas ao pensamento cientifico. se levarmos a análise mais longe. uma significação relativa e não abso· luta . nenhum deles pode exigir um grau mai s elevado de certeza. Eles equivalem-se todos uns aos outros. podemos apreender a continuidade de urna mesma tendência e de um movimento iden uco de pensamento. talvez a cada corpo celeste correspondam os habitantes dotados de uma constituição psicossomática parti· cular. com o qual nos seriam ensinadas muitas coisas que hoje ignoramos. porém. d~ Fontenelle. Haverá uma lógica .perde todo o sentido. O que não nos cansa· mos de exprimir por intermédio de todos os nossos enunciados 162 sobre o mundo fIsico. Há um ponto em que elas nos faltam bruscamente. uma moral que possam libertar-se e desligar-se da estrutura dos nossos órgãos sensoriais? Não somos nÓs mesmos e a particularidade de nossa organização.

não completamente. para ele. ape«:eber-nos-íamO$ da verdadeira natureza das idéias humanas. sem que se encontre a menor indicação fi rme de uma causa ex· terior. é O mais dirrcil de combater. cu mpre dizê-lo. ao mesmo tempo. Portanto. para vergonha do espírito humano. devemos confessar que todos os nossos c. o conhe­ cimento de uma certa parle do nosso corpo e apresenllHlos assim. Diderot vê ar.órgãos que parecem feilos para tais ou tais dessas idéias. é a n6s mesmos que reencontramos sempre com o nosso pr6prio pensamento." 36 Percebe-se a mesma incerteza íntima nas cartos filosófi cas dt! Maupe rluis e em suas renexõcs sobre a origem da lingua· gemoT ambém nele o problema foi exposto com clareza e ousa· dia. à objetividade. ela ignora inteiramente a existência de órgãos fís icos para todas essas atividades sensoriais. uma primeira abe rtura pars o mundo da realidade objetiva. não seria suficiente para nos ofrrecer tal prova. ouvir. Em primeiro lugar.al Diderot reco­ nhe<::eu perfeitamente esse ponto fraco : considera ele que Con­ dillac acitou os princlpios de Berkeley. como Kant ve ria mais tarde. jamais apreendemos outra coisa senão modificaçõcs do nosso eu. de uma certa maneira. tével conclusão só foi aduzida a con­ tragosto. Em cada um dos seus fenOmcnos particulares.nos. As coisas só mudam quando passam pelo tato. Em todas as suas determinações . procura até expressamente completá-Ia e aprofundá·la nu última edição do Tratado das sensações. bem como no seu Tratado das sensações. raramente foi transposto no pensamento do século XVIII e a inev. o problema apresenta-se a Condillac com toda a clareza. na experiência tátil. vista e ouvido. por outro. Entretanto. Desse modo. com efeito. ~ evidente que teremos de renunci ar em absoluto à uni· versalidade. mas em todo o caso com uma clareza incomparavelmente maior do que a de todas as explicações que nO! foram dadas desde Aristóteles até Leib­ niz. E a questão adquire e ntão. por certo. um "es­ cândalo da razão humana": "Um sistema que. pois nunca sairemos dos limites do nosso eu. donde essas modificaçõcs seriam provenientes . provat". pois toda a experiência tátil manifesta neces­ sariamente uma dupla relação. muito simplesmente. mas não se causará mais prejufzo à verdade do que à beleza quando se perceber e admitir que ambas são "de naturezâ mais subjetiva ·do que objetiva". o idealis­ mo psicológico não pode ser verdadeiramenle superado dessa maneira.ais profundo dos ab ismos.onhecimen:os provêm dos sentidos. Entrelanto. um rumo d iferente e mais ra­ dical Por um lado. em pé de igualdade absolu ta com as 164 165 . embora seja o mais absurdo de todos. 8erkeley não encontra ria inicialmente discípulos ime­ diatos nem sucessores: mesmo os que segulam o seu método anal ít ico procuravam evitar as suas conseqüências metafísicas. Ela absor· se-se no ato puro de perceber sem ter primeiramente conheci­ mento do seu substrato corporal. que elas não exprimem uma propriedade dos obj etos mas uma rela­ ção das coisas conosco. cheirar. Não só Maupertuis coloca a extensão. Como poderemos alguma vez "sentir " objetos fora de nÓs? De nada adian taria alçarmo-nos até o céu ou mergulhar no m. o que nos t oferecido pelo cheiro e paladar. de Condillac. no que se refere 11 sua "realidade objetiva". Ao ver. ao mesmo tempo em que procurava escapar às suas conseqüências. uma relação das coisas com quem as pensa . é visfvel que te­ das <lS sensações apenas exprimem diferentes maneiras de ser do !lOSSO eu . Condillac não pára nessa primeira solução.as Dessa perspectiva att ao pleno reconhecimento do " idealis­ mo subjetivo" só restava dar um passo. Tudo O que os outros sentidos nos mostram . esse último passo. mas os meios de resolv!-Io logi· camente C alham sempre no método sensuali sta. Condillac acredita que pode encontrar a pova da "realidade do mundo e:ltlerior". entretanto . ela proporciona.. Esse ponto apresenta·se com particular niti dez no Ensaio sobre a origem dos conhecimerltos humanos.

A percepção "vi uma árvore" liga·se a esta outra: "Fui a um ce~~o lugar.:e uma única vez a experiência que se exprime na sentença. Esse. Mas o g<l­ nho é. trocamos a nossa interpre­ tação sensualista por lõIDa ourra puramente nominalisla. não for esse o casO. voltei a esse lugar e encontrei de novo a árvore" etc. Além disso. o que. não quer dizer outra coisa senão "há uma árvore".llgamento. por muito vivas que pudessem ter sido tais experiências. verei uma árvore". Tudo in­ dica que uma análise estritamente sensualista do problema do ser é desse modo bloqueada. se a minha memória fosse tão ampla que eu não recuasse diante da tarefa de amontoar a bel-prazer simü sobre sinal para cada uma das minhas per­ cepções. o sentido do julgamento 'léu ou "há". um coni­ plexo de impressões presentes. ]66 ] 67 . mesmo su­ pondo que tivesse conhecido as mesmas experiências percepti­ vas que me dão atualmente a oportunidade de formular esse julgamento. em defini­ tivo. ou seja. menta do centro de gravidade do problema da realidade. é-se levado a pensar que entendemos per "existência" não tanto um novo ser mas um novo SigMO. "eu vi". Quanto ao próprio j!. concebido e reconhecido em sua verdadeira dignidade racional: quis-se fazer dele apenas um agregado. uma vizinhança e uma sucessão de percepções. eló. A experiência a que ele se refere compõe-se da repetição de experiências análogas e de circunstâncias determinadas solidamente ligadas entre si e que desse modo parecem conferir-lhe uma realidade mais firme . se poderia for­ mar o julgamento "há". "eu verei"? 1M! O progresso aqui realizado consiste no desloca. que outra significaçãa o jul­ gamento de existência implica? Ao refletir sobre essa questão. conferindo-lhe. em última análise .e de que deslocou mas não resol­ veu a questão.outras qualidades sensíveis. de reduzir e de encerrar a idéia de ser numa simples sensação. pe sorte Cjuc a sua análise redunda. 'S.lis tem plena consciênci. numa conclusão céptjca. signo pennite-nos atri­ buir um único nome a uma série complicada de impressões sen­ síveis e fixá ·la assim para a nOssa consciência. graças à espontaneidade que nele reside originariamente. mas também quando lhe adicionamos a afir­ mação de que "há" um árvore? O que esse "há" acrescenta aos dados fenomenais. jamais saberia. mas vai ainda mais longe ao invesügar o sentido do julgamento da realidade em geral . de munir cada uma delas com um sinal especial. "vejo uma árvore. não só declara que não se pode con­ ceber a menor diferença de princípio entre o espaço puro e os fenômenos de cor e de som se considerarmos o seu conteúdo e a sua origem psicológica. como é manifesto. será difícil encontrar nela algo mais do que 110S julgamentos pre­ cedentes. aos simples dados dos sentidos? Pode-se descobrir uma percepção da existência que seja tão simples e tão primitiva quanto a percepção da cor ou do som? E se. Essa questão somente sofrerá uma trans­ formação radical e receberá ~ma solução crítica quando esse obstáculo tiver sido abolido. não é. muito escasso. talvez nunca fesse levado a enunciar o julgamento "há". considerar esse julgamento como a síntese de todas as experiências singulares: "eu veio". O que significa esse julgamento? Em que consiste o seu conteúdo e o seu fundamento próprios ? O que significa isso quando dizemos não só que vemos ou toca­ mos uma árvore. E Milu­ perh. não se trata. de maneira nenhuma. Não se deve. vejo um cavalo". os quais nada mais era~ do que signos afetados a certas experiências perceptivas. A "questão da relação" da representação com um objeto será apresentada. de lembranças e de expectativas o que por esse nome se exprime. Por conseguinte. exprime a existência da ár­ VOte como objeto independente do eu. De tudo isso nasce uma nova consciência: "De cada vez que vier a este lugar. por certo. quando Kant tiver definido o juizo (Urteil) como "unidade de ato". Se eu não tivesse tido mais do ql. que passa do domínio da simples sensação para o do julgamento. o papel de exprimir a "unidade objetiva da consciência". pois. a bem dizer.

não se realiza na história sem mediações e 'sem preparações. pelo con trário . .i­ bilidade.e ainda menos está em questão comparlimenlar as diversas aptidões da al ma . hiposw­ siá-Ias em faculdades autônomas.s et "mdus idearum pruescriptia lege nasdtllrarum. o q t. tal como a doença provém de uma função lesada . sua definição e denominação constituem essencialmente nele um modo de ap resen tação.S7 Quanto à própria representação. O próprio WoIrf. produz ela própria o seu conteúdo de acordo com a sua própria L ei. o eu não é o simples teatro das idéias mas sua fonte e causa primeira}: ton. em contrapartida. em­ bora mantendo-se fie l aos princípios leibnizianos. 168 não poderi a haver "faculdade" no sentido ce uma pura pos:. independentes umas das outras. Pois. na doutrina leibni zianll. Menosprezou o fenômeno pri­ mitivo da alma .ens-Psychologie) .'38 ê nisso que consisle precisamente a sua verdadeira perfeição : o eu é lanto mais perfeito quanto menos forem . na doutrina da autareia e da autonomia da mOnada. não deve ser aqui en ten­ dica.por conseguinte. de uma "potência " vazia . as doutrinas psicológicas de Locke e Berkeley. a qual. A natureza da subs­ sua produtividade. de algum modo.)s impedimcnl05 e as perturbações com que essa livre produção manifesta-se nele. Embora a influência de Locke tenha podido parecer durante um certo tempo predominante. A divisão da alma em faculdades distintns.e é sabico por quem quer que possua alguns rudi­ mentos de medici:ta. Não se faz jus à verdadeira orientação desta última quando é cons iderada e criticada. reside no poder de engendrar de seu seio séries de representações sem­ pre novas [ Portanto. como puro renexo de uma realidade exterior mas como energia puramente ativa.guir cuidadosamen te os con­ ceitos techam podido prestar·se. certos limites não deixa ram de ser-lhe impostos desde o começo pela elaboração sistemática de que a psicologia foi objeto por parte de Chrislia n Wolff . se bem que os seus esforços no sentido de distir. deciara Leibniz. Com efeito. Escreve Leibniz em Da sabedoria: "Enlendo por perfeição toda a élevação do ser. também a perfeição é algo que se eleva acima da saúde I .. A psicologia racional e empírica de Wolff adotou um caminho próprio. conser­ va-se sempre rigorosamente fiel ao postu lado da unidade do l ima. na forç a de agir . uma psicologia que pretende encontrar na im­ pressão o fundamento essencial do psíquico já frust rou a p0­ sição inicial da própria questão. a lal objeção. mas somente as direções e as expressões divergentes de uma única potênci a ativa que é a força de representação (Vorstellul1gskrafi). a perfeição revela-se. tânCia. na 169 . de Hume e Con­ dillec nunca chegaram a dominar sem contestação. como simples psicologia das faculdades (Vermof. na Alemanha pelo menos. ou seja. ainda quo! expresse uma "revolução no modo de pensar". de ma neira nenhuma. às vezes. Há incompat ibil idade entre esse modo de ela­ boração e a idéia de il1lfuxU$ physicus. uma diminuição e uma queda da saúde. sem receber nada do ex terior. Ela baseia a sua doutrina da alma na da espontaneidade. pois do mesmo modo que a doença é. mostra sempre no estudo dos próprios fatos que esses poderes não são faculdades separad as.] Ora. que consiste na ação e não num puro sofrer. em novas bases: transierida do simples nível ce uma questão de psicologia para o próprio centro de uma "lógica transcendental". visto que.. consistindo todo o ser numa certa força . Segundo Leibniz e WolH. l Também essa última mudança. segundo uma atitude muito generalizada. A psicologia do "5ensação" opõe-se então uma psicologia pura­ mente funciol1 al. a própria idéia de "im­ pressão" que persiste nas psicologias inglesa e francesa..

.de tomar emprestado ou men­ digar nenhum dos seus fundamenros. liberdade. Assjm é que WolH foi e continuou sen<!o desde então o pTaeceptor Germaniae. e tanto mais quanto maior ela for O múltiplo a par/ir do um e 110 um. .de que ele {oi na Alemanha o verdadeiro promotor do espírito de pro.sendo as idéias e verdades eternas. ao pensamento alemão mas. em todas as ocasiões. como se sabe. en. e que experi· mente prazer nisso. além disso. embora sejam pouco numerosos aqueles que verdadeiramente se aper­ cebem disso. perfeição. Portanto. do que recorrer a uma instância estranha. por mais freqüentemente que lhe tenha sucumbido. t i No lugar dessa causalidade. do que fundamentar o conhecimento na existência e natureza de Deus.!lO q:te ?arecia. que despena o amor. força. muito especialmente. e que cumpre buscar essa luz. Leibniz traça de maneira sucinta o caminho a ser seguido por toda a filosofia do Iluminismo na Alemanha. e o elogio de Kant . de modo que daí jorre: um progresso incessante em sabedoria e em virtude e. 4o Era necessário que todo esse conjunto assentasse exclusivamente sobre si mesmo e só se jUBtificasse per se. àe ética. fundidade .quanto maior fOr essa força mais o ser é eminente e livre. de filos. para ele. portanto.. para que nda seja suscitada uma alegria [ . no conhe­ cimento das coisas que podem elevar constantemente o nosso entendimento para uma luz mais alta . a ciência e a filosofia sistemática nunca dei­ xaram. basta que a alma sinta em si uma grande harmonia . essência. ] Essa alegria é est~vel e não pode decepcionar nem causar uma tristeza ulterior se se ativer ao conhecimento e for acompanhada de uma luz donde brota. A fil osofia francesa e a filosofia in­ glesa do skulo XVIII punham todo seu cuidado e o seu esforço na constituição da totalidade do conhecimento filosófico de modo a nio haver mais a necessidade _ para retOmar uma fór­ mula característica de Locke .cfia da religião. na vontade. cujo proveito subsiste ainda na alma após esta vida. força ou perfeição. porim. harmonia. manifesta-se em cada força. ordem e beleza ~stão interligados. Foi esse ponto de partida origi nal que preservou a ii1050fia alemã do século XVII I do perigo do ecletismo. Para des­ tacar suas direções essenciais podemos apoiar·nos na oposição que já encontramos antes. "E também por essa razão que Kant não só se vincula. por con­ seguinte. mais. Em runção dessa exigência de autonomia é que foi rejeitado sistema das idéias inatas: r«arrer ao "inato" não v. define o próprio conceito de filo­ sofia do lIuminismo e esboça o seu programa teórico. de reencontrar o seu caminho graÇáS a essas questões de principio que Leibni'l fora o primeiro a expor com toda a clareza. como beatitude. Por mais gravemente que a "filosofia popular" tenha sido exposta 8 esse perigo." 31 Nesse punhado de fórmulas características. de teoria do conhecimento.assume aqui todo O seu valor. de acordo com o entendimento. em perfeição e alegria. Além disso. uma inclinação para o bem que se chema virtude [. Por aí se vê. amor. liberdade. porquanto condensam tudo o que o Iluminismo alemão continha em germe e devia realiz. prazer. e é do fa to de que tal coisa se harmoniza com lal coisa que decorre a ordem.ar mais tarde em ma· téria de psicologia. Esse recurso apresentava·se em Descartes com a redução do senlido e do valor do inato à potência cria­ dora de Deus . Ora. Essas linhas realizam em si mesmas uma verdadeira " unidade na mul­ tiplicidade"..elil!. ordem. não poderia verdadeir~mente encontrar alhures os fundamentos da sua problemática e do seu sistema: porque essa filosofia tinha nitidamente percf!bido e exatamente determinado a possibilidade teórica mais fundamental de cons­ fituir uma imagem do mundo perfeitamente unificada. a unidade na pluralidade nada mais é do que harmonia . ] Dai resulta que nada serve mais à bentitude do que elucidar o entendimento e exercer a vontade para agir. ° ° 110 111 . de es­ tética.. na medida em que o um rege fora dele e I!ele repre:senla·se muitas coisas. da qual decorre a beleza. os produtos dessa pOtência.

eles consideram essa tarefa descritiva um mero preâm­ bulo para uma teoria geral do "espírito ob. esses materia is de conhecimento. ameaça de um outro lado a au tonomi a do espíri to. por assim dizer. no sen tido habitual do lermo. que a divisão da àlma em "facul­ dades" distintas já não serve agora unicamente para a análise empírica dos fenÔmenos. " Nesta parte. Mas essa "natureza das coisas". de Tetens. tendo rejei­ tado essa forma de transcendê!ncia s6 lhe restava a experiênd ll . ) Quando ofe­ recidas à mente. Revelar essas forças. Se é verdade que esses tra­ bnJhos tendem para a prolixidade e perdem-se. trata-se sempre de fazer valer um principio deter­ minado. as primeiras 173 .· ~ para rundamentar o conhedmento. a tarera que o século XVIII alemão vai empreender e tentar levar a bom termo. prepara agora o terreno para uma nova concepção do conhecimento. graças 8 pacientes IrabaUlos especial izados. torná·las conhecidas em sua es. Os Ensaios Iilosdlicos sobre a natureza humana. a qual deve estabelecer e provar a participação imediata do espírito humano na existência divina. descoberta e defendida como uma realidade psicológica. nem apagá-las e fazer ele pr6prio ou t.Io e de demonstrá-lo sob diversos ãngulos . a "natureza das coi sas ".contramos em Malebrnnche uma união verdadeiramente subs­ tancial : a visão das idéias e das verdades ete rnas. Dei xou de ser poss(vel continuar mantendo uma oposição entre a natureza do espírito e a natureza das coisas. não contentes em classificar e descrever os fen ômenos da vida psíquica indi­ vidual. nem por isso deixam de ter sua profundidade especírica : seja qual for a diversidade dos problemas. sem as produzir ou elaborar j!lfllais por sua própria conta . com certa fre­ qüência. no plano metodol6gico. tal é doravante a verdadeira tarefa fundame ntal da psico­ logia e da teoria do conhecimento. e se terá ou não esses come­ ços e. com freqüência. não como soma de simples ima. Não basta considerar o entendimento quando ele se ocupa em reunir Cltpe ­ riências c em constituir. em particular. " Aquilo a que chamamos observação da natureza das coisas nada mais é. com uma dependência unilateral da· quele em face destas. A espontaneidade do eu. e E. de elucid~ .. do que o co­ nhecimento do nosso próprio espíri to e de suas idéias inatas. de uma " fenomenologia do espírito" propriamen te dita . eis algo que está fora do alcance do seu próprio poder ( . por sua vez. partindo das sensações. Ele salva a e:<igência de imanência : tudo o que pertence à mônada deve provir do seu próprio rundo. o entendimento não pode mais recusar-se a ter as idéias simples nem alterá-Ias quando estão impressas. trutura especírica e fa zer entender o mecanismo de sua intera­ ção. da mesma ronna que um espelho tampouco pode recusar. o en· tendimento é meramente passivo .ras novas. a partir dela inicia-se e esboça·se o desenvolvimento de uma futura sistemática universal ." H Se o espi­ 172 rito faz-se espelho da realidade é sobretudo como um espelho permanente e vivo da realidad e. distinguem« das obras de Berkeley ou de Hume com o mesmo título.ctivo".. que nâo há necessidade de procurar no exterior." ta Leibniz opõe sua própria doutrina a essas duas teorias: tanto à da " transcendência" metafísica quanto à da forma em· pírica da "imanência". nessa mesma prolixidade. assim. alterar ou obliterar as ima­ gens ou idéias que os objetos colocados diante dele a1 produ· zem. Quanto à fil osofia empírica . Aquel e que percebeu e sustentou essa nova aplicação é preci samente o mais original e o mais penetrnnte dos mestres da psicologia analítica. pelo fato de que. gens mas COOlO totaHdade de forças imaginantes (bildelldetr Kriiften) . Mas a importância e o rigor que ele conCere a esse principio proíbem· lhe não só de se remeter a Deus mas de recorrer até à natureza. tal como abre novas tarefas e no­ vos caminhos para a estética . que doravante deve desem­ penhar tão-somen te o papel de um simples espelho e de um espelho que apenas pode renetir as imagens.

que nos agrade mesmo q uando não nos pertence e ainda estamos muito distantes do desejo de a possuir. objeto de contemplação e de fruição artísticas. Tetens considera a contribuição de Bacon e de Locke. para separar o belo do ver­ dadeiro. a sua função essencial não consiste. diante de dois modos inteiramente diferentes da relação com o objeto. no sentido de puramente arbitrária. e 175 . pelas distinções e explicações conceptuais. contém em si. é aí que se deve formu­ lar a questão das regras fu ndamentais segundo as quais o en­ tendimento edifica obras tão gigantescas quanto a geometria . sustenta Tetens. a da li trina das fac uldades da alma. Part indo dessas considerações. de arrebatá-la . e o senti­ mento constitui assim um verdadeiro microcosmo. a arte onde Sé concretizam justamente a manifestação e o desenvolvimento desse microcosmo. em particular. quando o abordamos pelo querer e agir: assim que o objeto é visa do pelo desejo ou esforço. sem relacioná·la a nenhum objeto elCterior. ele é levado a essa distinção pela consideração de que nos encontramos. eles não en­ xergaram. quando consideramos o belo em sua relação conosco e percebemos sua posse como um bem. muito mais radical e puramente subjetiva . a sua própria regra e a sua própria legalidade. No que se refere ao senti­ mento. num caso e no outro . pelo contrário. pelo con­ trário. torná-lo acessível pelo método do saber. Se atr~bu(mos a nós mesmos a sensação. cumpre também observá-lo quando ele alça vôo para as a1turas. nesse ponto que in ter vém. a qual procede também por reconstrução. é que desperta em nós o desejo de tê-Ia. Mendelssohn é levado a postular uma faculdade da alma específica e autônoma a q ue deu O nome de " faculdade de aprovação" (Billigunsgsvermogens). sensações e " impressões ". pelo processo de aná­ lise e definição. Só áepois. Em contrapartida . Portanto. produzindo imagens mentais diversn­ mente especificadas. essa relação nada tem de "subjetiva". um mundo per se: é o privilégio de o fenômeno da arte proceder à sua de­ 174 monstração. de Bonnet e de Hume perfei­ tamente inadequadas para a solução dessa questão.idéias sensíveis. que o distinga com nitidez da sensação. a idéia fundamental com que a enri­ queceu .a partir das forças que estão na origem dessas imagens. poi s é aí que se manifesta a energia superior do pode! de pensar. O problema do conhecimento racional em sua importância específica: negligenciaram-no quase intei­ ramente em proveito do problema do conhecimento sensível!~ A mais importante inovação por ele introduzida na doutrina das faculdades da altnn . ser uma warca distintiva da belo:za que seja contemplada com um prazer sereno. antes. quando elabora teorias e or~ aniza as ver­ dades em forma de ciências. Quando elCige uma definição precisa do sentimento. Para distinguir de modo claro e seguro o objeto da arte do do conhecimento teórico. porém." 4~ Assim. À avaliação e aprovação do belo não se mistura nenhuma excitação do desejo: " Parece. Esca­ pa-nos das mãos se quisermos tratá·lo como obj eto de saber. deilCa imediatamente de ser um objeto "·belo" . tudo o que sabemos por intermédio dele é que se produziu uma mudança em nós mesmos. de possu í-Ia: um desejo que é muito diferente da fruição da beleza. ele comporta uma relatividade muito diversa. não entende fazer pura e simplesmente da psicologia Utn" teoria dos elementos da consciência. a óptica e a astronomi a. Mas a sua natureza não nos escapa menos quando O consideramos apenas de um ponto de vista puramente " prático". de Condillac. e aceitamos essa mudança tal como ela se dá imediatamente. não se traia de uma idéia que tenha ido buscar à observação interior.é nisso que consiste o seu verdadeiro valor teórico . O objeto belo não é nem o objeto do simples saber nem o objeto do simples desejo. desenvolve-se igualmente nesse mesmo sentido.. de Mendelssohn. a doutrina das faculdades . na filosofia alemã do Iluminismo . em elCprimir o nosso próprio es­ tado mas uma qualidade do objeto. M endel~sohn vê-se obrigado a dedicar· lhe uma classe especial de fenômenos psíquicos.

permanecerá nesse nível. para Condillac. E o mesmo pode 5Cr dito a respeito dos ideais científicos. depois das Réflexio/ls cri­ tiques SUT la poésie. O prazc. de uma conside­ ração do ob jeto como tal. ou seja. na teoria do conhecimento. ulterior e indiretamcntt:. Não se faz jus. São as energias anímicas que se trata de reconhecer e de descrever em sua realidade específica e não meramente mo conteúdos psíquicos como dados estáticos. nada ioi mudado nessa si. Sendo assim . uem contesta com extraordinário vigor essa teoria do pensa· mento corno simples "substituição de fantasmas" . o que foi originariamente dado na percepção. por um outro lado.err:. no seu tratado V Olt der Krafl in den Werken des schOnen Künste (Do vigor nas obras de arte]. tx>rquanto o espírito nâo pode es tabele<:e~ nenhuma espécie de conexão que não tenha sido ex· perim~nta da primeiro na realidade nem pensar verdadeiramente em nen h um~ unidade nem em nenhuma diferença que não tenha sido antes comprovada nos fatos. Não há ne· 176 nhuma significação autÔnoma que possl! convir 11 esse sinal: ele representa somente para a memória.r ge rado por esse puro sentimento de viver pode superar ampla· mente a aversão pussível de resultar. "E fácil perceber. Sulzer expõe por sua vez a mesma doutrina. por combinação ou pOr abSlração. ao ponto de deixarmos de ter consciência disso. portanto. Esses ideais tampouco se expli cam por adições Ou subtraçõcs de sen sações individuais. para Hume.plicam comumente a criação poética pela decomposiçiio e recomposição das representações que foram captadas na sen­ sação e convocadas pela memória .ães e observações de Dubos é permitido ver·se uma confirmação direta da doutrina leibniziana. como os que encontramos nas matemáticas e em toda a ciênci a exata .. jamais se contentará com esse dado r:. tiça a um KJopstock ou a um Milton "ao pretender-se que as imagens criad as pela vitalidade de SUa linguagem poética não são ou tra coisa senão um amontoado de idéias empfricas ele· mentares ligadas pela vizinhança ou sucessão imediata ". digamos." H E. a idéia é apenas um acúmulo de im­ pressões ou sua sorrn. la peinlUre et la musique (1719). ela provocou uma profunda mudança no seio da problemática lógica. possfvel. os estreitos vinculas que unem agora a psicologia à esMtica. E eis que a teoria estética intervém uma vez mais. Para Berkeley. segundo a qual toda a alegria estética está fundamentada na "elevação do ser". são J77 . Escreveu Lessing a Mendelssohn: "f. de Dubos. "Os psicó­ logos elt. insuficien te para toda e qualquer verdadeira obra de arte. inútil dizer-vOS que o prazer que está ligado a uma deter· minação mais fort e da nossa energia pode suplantar de longe o desprazer que nos causam objetos para os quais n ui essa ener· gia. Não lhe basta constituir idéias como simples agregados . Nas reflelt. "E justamente essa concepção que n crítica d!!. t ainda Telens c:. f. nessa perspectiva.pHcação continua sendo. contu do. pelo dado empírico. psicologia funcional ataca. que o pensamento seja suscitado pela impressão sensfv el. à disciplina onde. esforçando-se.mas uma teoria que abrange todas as atitudes c condutas psf· quicas . desse ponto de vista. por distinguir a energia do pensamento teórico das da contemplação estéticlI e do movimento voluntário. na vivacidade e recrudescimen to da intensidade das forças ps íquica~. E quando no lugar das idéias das coisas levamos em conta as idéias de relaçãcs. admite ele. prevalece esse mesmo ponto de vista energético. precisa elevar-se ao nível dos ideais que é impossível compreender sem a participação da " rorça de criação plástica " (bildenden DichtkraftJ. 8 criação poé." Essa elt. ao esforçar-se por mos­ trar que a " faculdade poética" é uma faculdade não simples­ mente combinat6ria mas originariamente criativa. ou o sinal que a representa.uaçeo. Ao impor de modo de· cisivo os direitos da "imaginação" pura. tica seria apenas uma substituição de imagens e nenhuma representação elementar nova poderia nascer dar para a cons­ ciência. na teoria dos sentidos e da origem das idéias.

pode-se dizer que onde quer que urna relação determinada entre id~ias seja pensada. Temos em nosso poder a representação da extensão e podemos modificar à vontade essa extensão ideal. t inegável que tal natu­ reza específica existe: é absolutamente impossível reduzir todas as relações e conexões entre os conteúdos de consciência à iden­ tidade e diversidade."verdadeiras criaturas da faculdade poética". No entanto.sações essa última idéia. a dependtncia de uma coisa em relação a uma outra. por "combinações de aparências sensíveis". na rea­ lidade. não o simples hábito nascido da regularidade das sensações. realiza em nós 'a relação entre essas duas idéias. O último retoque é proporcionado nessa imagem pela faculdade poética. no inicio. uma imagem sensível. portanto. é nessa forma que assenta o verdadeiro rigor. não limita de maneira nenhuma o seu poder ao domínio da matem. a representação de uma linha curva. à unanimidade e contradição. A sucessão das coisas. tomada das sensações vi· suais."~' De um modo geral. Portanto. demonstráveis u prior. todas as outras são da mesma natureza. e o mesmo pode ser dito de todos os nossos ideais. o modo particular de sua coexis· ttncia. Nem mesmo uma lei como a da inércia poderia ser inteiramente deduzida e compreendida dessa maneira . evidentemenle. e a associação realizada em nós pela ação do entendimento é rouito mais a causa da con­ vicção que temos de que o nosso julgamento ~ verdadeiro do que a associação de idéias prcduzidas pelas sensações. sua contigüidade." O processo de generalização empírica não basta. Essa atividade espontânea. de uma simples sucessão de observações singulares. com deito. constitui o verdadeiro germe e a substância das primeiras leis do movimento. e mesmo que tenha sido preciso ir buscar às ser.laginará poder concluir-se se i' necessário que eles nasçam exclusivamente da indução. a sua associação com a primeira não é menos a obra da faculdade de ptm8r que. "A idéia de um corpo posto em movimento. de tais aparências mas não se detêm aí. à impressão passiva. evidentemente. Assim é que se manifestam por toda parte formas de relacionamento específicas.. leva o entendimento a representar-se que o seu movimento prossegue sem mudança. por assim dizer . o recurso à simples sen­ sação. fechada sobre si mesma . "Seja.r real­ mente esse o caso das id~ias gerais da geometria. em virtude da sua pr6pria natureza. ligam­ se-Ihes mas transrormam-se sob a ação espontânea do entendi· mento. em que se pode reconhecer em cada uma delas uma certa direção do pen­ samento. a partir de simples conceitos. um caminho que. As representações gerais sensíveis ainda não são idéias gerais nem conceitos da faculdade poética e do entendimento. ele adola espon­ 118 119 . "Vimos se. Mas só fundamentando-sc numa fal sa alternativa é que se ir. Os princípios uni· venais da física nunca são. para elevar à cate­ goria de idéia pura o que apenas era. e a forma dessas idéias não poderia ser compreendida nem deduzida a partir daí. Maniresta-se com clareza não menor na elaboração dos conceitos da experiência: os conceitos em que se baseia a física teórica não se explicam apenas. que nem um só esteja mais distanciado nem mais próximo desse centro. ela recebeu a SUB forma característica de cada uma das aparências sensíveis que a produziram por sua associ ação." ·n E essa extrapolação do dado da impressão sensível. Mas isso não é tudo. ou sejll. a imaginação dispõe a imagem da linha circu lar de modo que cada ponto se encont re a igual distância do centro. por exemplo. a exatidão de um conceito. o qual não age sobre nenhum oUlro nem sofre a ação de nenhum outro.ática pura. Nada mais são do que a matéria-prima. algo mais· do que simples uniformidade ou diversidade. essa faculdade de "imaginação". Partem. todas essas formas de relacionamento implicam. é insuficiente para conceber a idéia de uma relação como tal em sua natureza especmca e para fundamentá-la em !>ua própria espécie. é certo. Mas . rigorosamente distintas umas das outras.

No conhecimento da realidade. ~m ser forçado a isso desde o exterior. não eslamos sendo agora remetidos de volta para um mesmo problema central? As duas disCiplinas convergem para a mesma questão. inclusive. pode pertencer igualmente ao sim­ ples possível. sendo neccs. a consistência sistemática que o pen­ samento alemão da época iluminista conservou. A partir dessa problemática geral.. essa "pellssbilidade" (GedenkbarkeitJ. Com efeito. admite que as idéias pelas quais queremos exprimir os elementos da realidade nio podem ser produzidas só pelo pensamento mas devem ser descobertas na experiência. a toda verdl!deira definição e dar­ mo-nos por satisfeitos com a descrição. a da natureza e da origem da "idéia de rela­ ção". o perfeito acordo das partes num todo lógico. A certeu e o rigor des­ ses desenvolvimentos não valem apenas para o dom(nio da quan­ tidade mas pedem ser igualmente obtidos onde só relações qualitativa~ estão em causa. 2. simples­ mente "pensáve'" (gedenkbarenJ. porla!"lto. uma após a outra. portanto. com regras universais para todas as operações.lgo distinto de colocar as idéias na seqüência umas das outras. Aquilo e que chamamos julgar e associar. Para ela. manifesta-se nitida­ mente a unidade interna. Enquanto Telens expõe a questão como psicólogo ana· lista . ou seja. reduzir pela análise o dado a seus elementos pri­ 161 . Vincula-se igualmente a Leibniz e sua tarefa histórica essencial F oi a de redescobrir. produção ativa da idéia de uma relação a partir de uma alma que representa algo mais ( . ter acreditado que as idéias de ex. em sua originalidade e profundidade próprias. é o plano da "caracte­ rística universal" que retém duradouramente sua atenção. a!go mais. ] do que li mera percepção de duas relações. para afirmar a existência e a natureza de cada força específica. Lambert acredita poder marcar também com toda 11 nitidez os Iimtte6 da filosofia de Locke e de sua análise das idéias funda ­ mentais do ccnhecimento. segundo ele. ele retoma à pro­ blemática inicial de servir a Ltibniz de ponto de partida para constituir o seu sistema.. pela p:es­ são mecânica das impressões e 00 hábito. esforçando-se por 160 estabelecer um sistema das formas do pensamento e por subor­ dinar a cada uma dessas formos uma língua de sirwis compará­ vel ao algorllmo do cálculo infjnjte~imaJ. cumpre renunciar. O verdadeiro conhecimento da realidade não pode fundar-se sobre um princípio puramente formal. como o "princfpio de razão". deduzir e concluir é. Longe de contentar-se com o quadro tradicional dessa filosofia apresentado por Wolff e sua escola. lida-se com determipaÇÕts materiais. Lambert faz dela a pedra angular da sua lógica e da sua metodologia geral. certas idéias leibnizianlls básicas. Não se dispõe a contestar a "analo­ mia das idéias" realizada por Locke. tanto do lado da psicologia quanto do da lógica. Nenhum pensamento rigoroso será possível enquanto não conseguir fazer com que a toda associação de conceitos corresponda nos sinais uma deter­ minada operação.tensão e de grandeza emn as únicas suscetíveis de explicações rigG­ rosas e de desenvolvimentos dedutivos. do que perceber entre elas semelhança e har­ monia. não basta construí·la com a ajuda de conceitos. "como bons anatomistas". Devemos. apesar de sua aparente fragmentação em mil problemas especiais. de dois lados diferentes.te.taneame:n. pois é um pre­ conceito.sário npoiar-se no testemunho da experiência . "com sólidos e com for­ ças". pelo contrário. e. Antes de tudo." U No ponto em que nos encontramos. lamberl quis estender o domínio desse modo de pensamento muito além das fronteiras da geometria pura. liga­ lhe diretamente O seu projeto de "semiótica". essa dedução da semelhança ou da diferença a partir de Qulras relações da mesma espécie não deixa de ser uma alividade própria do entendimento . de algum modo. "Mesmo se o racioc(nio se explica como o alo de deduzir a semelhança ou a diferença entre duas idéias de sua semelhança ou de sua diferença respectivas a respeito de uma mesma terceira.

de que essas diversas idéias estão entre elas em certas relações de compatibilidade ou de incompatibilidade. uma teoria geral da verdade. na medida em que ela é. Mas as cois~ encaminham· se de um outro modo assim que essas idéias fundamentais são estabelecidas e que adquirimos. E essa espécie de aprioridade. ao mesmo tempo o seu fim e li sua ·ultrapassagem por um novo princfpio e uma nova problemática. Por conseguinte. por· quanto se verifica então que cada uma dessas idéias envolve. ou seja. sem I?retender chegar ao esclarecimento destes últimos pela explicação das idéias. de um modo geral. pelo método prescrito. Uma explicação. nâo vaIe somente dentro dos limites da geometria pura. na sua natureza partkular. um conhecimento rigorosamente in­ tuitivo e apriorlstico. na sua simples compreensão. as quais é possível estabelecer pela simples consideração de sua "essência". alguma luz sobre o seu número e a sua ordem. uma tecria das relações e cone~ões entre idéias elementares. para desenvolver inteiramente essas determina­ ções. 183 . uma multiplicidade de outras determinações que são inerentes à sua natureza e dela decorrem imediatamente. o co rrel ato lógico do que Tetens tinha estabelecida. ele vale-se. Sobre todos esses pontos. com efeito. possível. não é indispensável. sobretudo. que quer ser. Além da geometria. em total contraste com o conhecimento empírico-dedutivo. a demonstração de suas propriedades estruturais por via dedutiva. pode-se dizer que é um pensamento que chegou a uma cooclusão rel&tiva. da aritmética . como psicólogo. tureza das idéi<~s de relação. O que raltou a Locke loi a idéia de procurar para cada uma das idéias elementares o que os geômetras procuraram para O espaço. a teoria da verdade de Lambert é. O conhecimento dessas rela­ çôes como tais é. de dependência etc.'1 E ao que se aplica a "aletologia" de Lambeu. embora ele deva a sua matéria à experiência. da cronometria e da forometria puras. extraindo dar exemplos e documentos em apoio a um certo tipo de ver­ dade que. a exemplo da mathesis universalis. s6 pode ser dada pelo cami· nho que Locke desbravou .. segundo Lam­ bert. evidentemente. não levando mais longe a elaboração lógica mas demonstrando a origem das idéias simples. em suma. recorrer uma vez mais à experiência. Vamos aperceber­ nos. da na. pcrtanto. de-­ monstra com bôise nessa matéria a existência de determinações 182 que não 8i!0 contingentes mas necessárias. Como essas duas correntes distin­ tas da filosofia alemã iluminista conjugam-se finalmente em Kant. a qual significa.mitivos.

. l1 "Faltavll demo:18tra ~. um clarão da 5ubsll llCia luminosa do DOI~ mestre comum". senlir. esperar. xn. 11 Didero!. seco 2. 573 c i:i. 14CoodiUac. Treatil/: of human "'lIure. capo 21. do T. Oeuvres. e Hume. comparar. portanto. pp. 10 Cf. Enlreliuu s/Ir la nritapllyslque. 201 e 55. XlV. em Ma lcbranche. vol. Prades. 104 c M­ ·Cf. Paris. XIX. 1756. a Locke... ESJ(ry on human undu JIIlfIding. Cassircr}. 12 Ct Maupuruis. S XlX e 55. 1921. 2. ver. 140.NOTAS I Vollairc. 1. que essa inquietude. 185 . 12 (Em fn. 3] . julgar. II Locke não ccnbcceu alé Que ponlO temos neCCMidade de apreoder' a locar. • esse respeito especialmente a carta de D(:$I. erlslenu de Dieu employle dons fEssai de Cosm%gle. Locke.. 34. &so)' on human Itndustanding. parte In. 31. T t Malcbranchc. {ed. odiar.. De /I " rel. p . e 55. a o uvir ele. ''Todas as qunlidades da alma pareccram-lbc q~idades ioatas e não suspeilou de que elu poderiam inferir l ua ori&em da própria sensaç1o. capo 2.lunnlnisproblem. EIarnen philosophlque de la preuve de . de 21 de maio de 164) . mim como Toul en Dieu. que ~ por intermldio de la. desejar. Mimoire de l'Acadimie de Bcrlin. vol. Livro !l. que nascem todos OI h'bilos da alma e do corpo. Querer. amar. 66'. vol." E:rfT(Jit loIJonnl. E. S5.f"el" . 65. numa palavra. p.. &cC. LX. "Erlrail rai. loco cit. refletir. Le sikle de Louis X I V. XXVI. 1 Voltaitc. u­ cí!s no original : ":I:." Con­ dillac.. U "Imediatamente depois de Aristóteles vem Locke. ~ o primeiro pri ncipio que nos dá os hábitos de locar. LenTes sur fes angllli!. Paris. pp. provar . lemer. Le­ quico. ed.. seco 30 . v. vol. pois 010 ae deve contai: os oultOS filósofos que escreveram $Obre o mesmo a"unto. d. de 11 de feverei ro de 1772. N." Coodillac. p. loe. ErtroU rrdsoflllé. seC . pp. p. 23 1. sec.TltI . capo I. Oeu". 3 Par. Georaet Lyon. uttre XlI[.i condeua palalina Elisabelh.. cr. p.wnn~ dJI Traill des sensalions" (ed. m. 1821 . Traifl des animaur (1755) . Apologie de I'abb~ d. Uvro 1. XXXI.~s (Lequie o) . vol. comt nroire lur Malt:brOJl(:he (1769): Oeuvrts.) ~ Carta a MarcuI Herz. cit. 1$ Erfroit rOlsom1i. ouvir. 32).lcry. Wl!'rk. p. p. Ada m·Tan. OClfvru. Poisie sotyrique: ús S)'sfl!mu. pp. um estudo mais dclalh~d o da idéia de "ex len~o iOlcli. a ver.

I. Physi.is serão encontra· d as num OUltO yoJ ume que dedicarei ao mesr. 21 Voltaite. 567 e ss. Vtrsuche über die m enschl. 249: n LoMius. o oosso Erkennlnisprob!em. 61. Eu vos respondo que é in eodem genere causae qu e ele criou todas as coisas. 11. U Dide. Philos.3D me contento em remeter o leitor para as e. sec. ScMiftell (Gerbardt). 31 Ci. Phifos. A. dt "~ca!idade do mundo exterior'. M orgcnsttmden. n. 186 187 . I. P~cl!olo8io raliofUllis. Traiti deI Jensaliq. I .. Leibniz. capo 11 e 5S. Vermisc.f t"f la sigllifica/ion de:f mOIS.eneUe. Nt)'IIOS ensaio:f sobre o entendimento humano. pp. p. 90. p. 14 e SS. R I/laions philosophiques sur rorigine des langue. 25. p. Risa. Lyon." ~2 Cf. PrincipieI of human knowledge. p. VerJUc/IC íi~er die m ensdlllche Natur UM ihre Entwickfung. 310 e ss. Cf. em particular a cOlTupondéocia com Chrisliao WolH. carta a De VoIder . capo VIII (Oeu­ vres. 33. xxx. I.aio. §24 ess. pp. la E. Paris. Lambert. 89 e SS. no eotan!o. 19 13. 33 Leib niz. !H Sobre a atitude hesitante dc Condillac: a respeito do problcmo. no âmbito do Iluminismo ale~ão. pp.s Telens. Gi>tha. 6: Cf. Bcrkeley. Pois é certo que ele é o Autor tanto da existência quanto da essência das cria­ turas. e m edição de Gerbardt. pp. Traiti du antmaur.. ora. Descartes. PP. u Foot. p. UI c passim. üvro n. 218. cit. Enl1elien.ns. Von der W elslleil. 39 Leiboiz. In. ISO). 2/imenls de (a philosophle de Newton. Berlim. I e ~. p. cf. J SI : "PCTellntais-me in quo genere causae Deu$ di5posuit ae/ernas veri/ates. N.. Lettrt sur [es aveugles.h:e prulosopbische Scb. por e}(emp:o Wolff. Versuche . 421 e $S. OeIlVrI:S. Oeuvres (Le­ quico ). parte I. 2 de feve reiro de 1757.artesiaoismo com o teatro de Cor~eille. Livro I. Naieeon. j777. Philos. 2$ Condillac. Abscho. também Erkenntnis­ probtem. oi1 Cf. B.] "Voltaire. 20 Para a distioção de perceplio e de percepturitio e :"Jl uibniz. 534 e 58. NaJur .. o XV. 178 c s. 34. Essay on h. 147). vai. § 11 [Em ioglâ no original: "Em ma pró­ pria natureza a distAncia é imperccptivel e. escril OS alemães selecionaôos e editados por Gahrauer..mplo. D(alogueJ between HylaJ tJM PhilonO/u. mas ~i que Deus é Actor de todas as COis2S. ela é percebida pela vista". TraiU de mltaphyYique (l134). Essay on humon undeUlaruJing. Oeuvru. Dide. úttre sur lu a~euglu. 1771. pp. capo I . Cartl< a Mersen ne. imposs!vel peneirar aqui mais fundo no problema dessa busca de deta lhu. (Reediçâo da KantgesellschtJft. 44. M Cf. maio de 1630.!' (1758 ) .mla" undtrSland/ng. 301eibniz. 575 e ss. Lansoo. 19 Sobre a ligllçio do ç. cf. § 21.sche Uoachen des Wohnn. 56. XXX. 138 e 55. cap. 112 e 55. Trairi de! Sln· sations.. p. 4. vol. Wtrke (Lac:hmann­ Munckerj XVII. Uber d/e Na/ur der Vorstellungen. I. t 8 Cf. toC{. Zerglledtrung du BegriJ/:f der Vemu. § 10. 395 e 55. capo $. 1818. n. f 184 e 1iS. ed. capo VlH. reediç!o da Kont-G esellschofl. cH. ~ de março de 1699. lI. acima p. cf. 29 Cf. Oeuvru. pp. acima !'. PP. 422 e SS. . 600p. Livro J. 2! Diderot.. por cxc. Adam-Tallnery. n. pp.dades são alguma coisa. Mendewobn. I'hi/OJ. Psyc/w­ logia empírico. por i."lO tema. n Teteo~. ed. L'/nfluence de la philoJophif cartbienm sur /0 Ulllra lu re française (cf. cf. VII. IV (e op. do T. e por con~guinte que ele é o seu Autor. essa essência nadll mais é do que essa.l' Condillat:.. as qU6.. ed.rot.). 11.). Oeuvret. para o conjunto. 111 elJicicns el lulalit causa. § 11 e passim . e Condil1ac. Para uma expo$ição mais completa do método de Lamber!. capo IV. scç.! ve rdade! eternas. pp. . '1 New Ih eory 01 vision. pp. Erkenn/niJproólem . vcr para maiores d etalhes a introdução de Qeorae Lyon à sua eeição do Trai/l des :fensa fions. 416 e $5. capo VIr. capo 7. 2t Ellments de la phifosophie de Newton. p. D. Oeu~'el.riflen. !iCe:. Sulzec.~. Quioto Ensaio: VOn der Yeruhiedenheit der Verhiiltnisse und der al/gemeinen VerlUi/In/$ocgr/fle Cpp. I.rot. pp. Halle. XXXI. G.) 46 Meodelswho. Quarto Ensaio: Ober die D enkkroft und das Del1ken. S«. 56 (d. "Troisi~me soi~" . 319 e s~). 3e Maupertuis. e que nus ve. PenJü s phifosaphique:f (1746). 32 Pc:de-sc cilar. 8 e ss. . . Nouveaux eJsais. pp. Riga. XXIV e $l.s sur la pluralili des monda . como OS raio! do Sol. Lod:e. 1860. p. as quais não concebo emanando de Deus. An/age tur Archiuclonic oder Thearie deJ Einfachen 'md ErSlen in der plzilosopmschen und mathematisc:ht!l1 Erkennlni:f.l\posiç6es mais compJelas do problema do conhecimento. isto é. Primeiro Ens.. p. livro 11. 1775. i! H Locke. Tetens.

E acrescenta pruden temente nâo ser a fé o que ele com­ bate mas a superstição. Em su as obras. admiradores e aduiadores do Iluminismo. Mas desde que se queira relacionar esse ponto de vista rotineiro com ratos históricos concretos. Essa idéia ora pode pas­ sar por dcicnsável a propósito da fil osofia francesa do século XV III . assim como ~m sua epislolografja. porém. imediatamente surgem as hesitações. ora representa uo: erro grosseiro em relação às outras.. Ecrasez l'inJfJmer [Esmaguem a infa­ me!]. Adversários. tod". entretanto. não se deterá nessas distinções . Vohai re não se cansa de IRnçar seu velho grito de guerra: . a geração seguinte. à sua 189 . 86 dúvidas e as mais sérias reservas. pelo menos no que se refere ao pensamento alemâo e iogl!s. segundo a idéia tradicional que àele se fez: a atitude crítica e céptica em face da religião. eis o que caracteriza a própria essência do Iluminismo.IV A /DtlA DE RELIGIÃO Qual t o traço mais característico do Século das Luzes? Nada parece mais fácil de responder. estão de acordo. ne~se ~n[o . não a religião mas o uso solerte que deln faz a Igreja. que reconhecerá em Voltaire o seu mestre espiritual. O enciclopcd ismo francês declara guerra aberta à religião. inimigos.

a minha soberba rival . a palavra de Goethe acercli da fé e da descrença." . essas inquietações que te dila­ ceram. declara Diderot. outras tantas volta­ tão a brotar daquela que ele deixou iJesa. A piaI" das malfei.2 Extirpar de maneira absoluta toda e qualquer crença. à sua pretensa verdade. Quando te entregares à natureza. em definitivo. Por mais que o deísta. se esforce por cortar uma dúzia de cabeças da hidra da religião. Ela te consolará. para os seus contemporir." buscas o teu bem-estar nos limites do mundo onde a minha mão te colocou. 1 O deísmo é. Censura-lhe não s6 ter freado desde sempre o progresso intelectual mas. espalharás flores ao longo do ca minho de tua vide". não pensará que possui essa verdade se não a ti ver e:draído e provado graças às suas próprias forças. a ti mesmo. Emancipa-Ie pois do jugo da religião. Essa prevenção nos faria correr o risco de ignorar o que ela realizou positivamente de mai s elevado. Entretanto. entre a ciência e a crença . esses transes que te sacodem. mas no novo ioeal de fé que ele promove e na nova forma de religiãc em que ela se encarna. nenhum compromisso.assim faz Diderot a naluraa falar ao homem . a menor dá· vida para o homem dos novos tempos.validade. nenhuma reversão. O século XVlIl não assenta seus propósitos intelectuais me:is vigorosos e seu carac terístico dinamismo espiritual na re· jeição da fé. " Em vão.eos e para a posteridade. uma época profu ndamente irreligiosa e hostil a toda cre nça.~ Uma vez adquirida consciência desse precário estado de coisas. pois. Ao Século das Luzes aplica·se. até mesmo o único tema da história do mundo e dos homens. por isso jamais se conseguiu estabelecer uma verdadeira harmo­ nia entre elas. ao acrescentar que toda época em que reina a fé é. evidentemente.orias que ele atribui à religião é a de fazer dos homens. rejeitado como posição híbrida. o homem da Era da Razão. E tal escolha não oferece. O cepticismo como lal é incapaz de realizações dessa ordem . Ele renunciará sem hesitação ao socorro vindo do alto. em toda a sua profundidade e sua verdade. desbravará ele próprio o caminho para alcançar a verdade. verificaremos que o homem encontra-se submetido sempre a três leis distintas: O código da 190 natureza. um cidadão íntegro ou mesmo um verdadeiro cre nte" . verdadeiros lacaios e covardes diante dos potentados terrestres. portanto. além disso. um meio-termo ambíguo . Por consegu inte. Ao apontar o conflito da fé e da descrença como o tema de maior profundidade . baseados apenas nas declarações dos seus protagonistas e porta·vozes. brilhante. Cada umR dessas leis tolhe as outras e a si mesma impõe-se restriçócs. à humanidade. 1! preciso escolher entre a liberdade e os grilhões. por sua vez. esses ódios que te separam dos teus semelhantes. sem força s para tomar nas próprias mãos a direção de seu destino. o código da soc iedade e o código da religião. na medida em que os leva a temer invisíveis tiranos. ela expulsará do teu coração esses temores que te angustiam. renuncia a esses deuses usurpadores do meu poder para voltar a viver sob O amparo das minhas leis. entre a lucidez da consciência e a obscuridade das paixões. o único meio de libertar O homem dos preconceitos e da servidão e de abrir-lhe o caminho da verdadeira felicidade . que ignora os meus direitos. ter se reve· lado incapaz de fundar uma verdadeira moral e uma ordem po­ Ihica e sodal justa. Em sua Politique naturei/e. o homem do Iluminismo. nenhuma conciliação é mais possível.nento em que ela se apóie e a form a de que se revista. a quem deves amar. "Se percorrermos a histÓria de todas as nações através dos sécdos. Retorna. seria uma atitude irrefletida e equivocada con· siderarmos o Século das Lu zes. em nenhum tempo e em nenhuma nação é possível apresentar um homem íntegro. Holbach retoma constantemente a esse ponto. à natureza de que desertaste. 191 . seja qual for o argu. ó supersticioso. tal parece ser.

. quanto mai s se sente a insu' fici ência das r~spos fas fornecida s até en tão pela reli gião parfl as questões fun damenta is do conheci mento e da moral . A luta que se trava já não gravi ta somente em tomo dos dogmas e de sua in terpretação mas em torno do modo de certeza da religião. concedendo a ambos seus respectivos valores específicos. possui um sentido e um valor inalienável e autÔnomo . justamente . A hostili dade super· ficial em face da religiõo que nos impressiona na época do Iluminismo ·não deve dissimular aos nossos olhos qt:e tOGaS os seus problemas intelectuais ainda estão intimatr. uma confiança absoluta na edifi cação e renovação do mundo . mas a fundamentá-la e a aprofu ndá-Ia num sentido " transcendental". inadequados. nesse sentido. mais essas questões se impõem com inten sidade e paixão. O l1uminismo não teve que tomar a iniciativa desse problema . Portanto. Cumpre. Essa teologia tem raizes na idéia de que a essência do divino só pode se r apreendida no conjunto de suas ·manifeslaçôes e de que . descobrindo o verdndeir<' selo do divino não na depreciação ou no aniquil amento do mun­ do e do espírito mas em sua exaltação. por outra porte. para per­ ceber·se em sua unidade real o dcsenrolar hi stórico da filosofia da religião no sécu lo XV III : um movimento que parte de um foco de pensamento bem-estabclccido para atingir um fim ideal perfeitamente determinado . 192 o dogma do pecado original e o proble0t8 da teodkéia Em toda essa abc ndante e rreqüentemente con{u6a literatura que o século XVlll dedicou à teologia e à fil osofia da religião .ainda é possfvel.!ência. A reli· gião que ela tinha em vista era uma religião de adesão ao mundo (Weltbeiahung) e de afirmação do espírito. que destes recebem constantes e poderosos impulsos. t: essa renovação que se espera e exige agora da própria religião. não t menos verda­ deira: urna vez que toda a (arma particular está igualmente distanciada da essência do absoluto. porquanto já o encontrou na herança espiritual dos séculos precedentes e contentou-se em abordá-lo com os novOll instrumentos lntelectuais que adquirira nesse meio-tempo. todas as suas formas. apreender a unidade que liga esses dois momentos. Assim se estabeleceu esse deísmo univer!.t nenhum nome. Mas a reciproca. O ser absoluto de Deus não pode ex primiNe em nenhuma forma e er. O sentimento que por toda parte a domina é um sentimento profundamente criador. nio é à dissolução da religião que se dedicam com todas as suas forças. per conseqi. Iá a Renascellça pretendera ser não só uma restauração da Antiguidade Clássica e do espírito científico mas também uma transformação. reconhecer 8 sua reciprocidade.diante desse dilema goethiano nem por um in ~t ante se pode duvidar de q ue lado convém situar a época iluminista .ente :nist'urados com os problemas relí~io~ . porquanto Cormas e nome. suas tendências tanto negativ<ls quanto positivas .somente sobre a questão do defsmo o número de panfletos trocados de uma parte e de oulra é inimaginável . estão igualmente próximas dele .lll que se propagaria um pouco por toda a parte na teologia de inspiração humanista dos séculos XV I e XV l1 . no entanto. principalmente no quadro da filosoria alemã . uma renovalio da religião. não apenas em tomo do conteúdo da fé mas das modalidades e da direção da fé como ta l. ao passo que aquela onde a descrença proclama o seu mfsero triunfo naufra@3 aos olhos da posteriori­ dade porque a ninguém interessa dedicar-se ao conhecimento da esterilidade . cídlO. para a essên· cia do infinito.~ são modos de limitação. ClJlo. definir O ponto de convergêncie teórica em tomo do qual o debate gravita. antes de tudo. Esse esforço explica a especifi· cidade da religiosidade da época iluminista.fecunda e estimulante . Toda e qualquer expressão do divino. tanto a sua fé quanto a sua descrença . desde quc seja em si mesma autêntica e 193 .

indica m-na somente em riguras. a privá-lo de su. na ação exercida no âmbito da ordem social secular. parecia que a religião revelava. na própria idéia do Cristo que Nicolau de Cusa vê realizada a sua concepção fu ndamental da humanilas. aferir-se pelas outras.ário implacável.:! força . Essa transformação deve realizar-se pelo trabalho no seio da profis­ são. O retorno à Ani!guidade não devia tardar em alimenta r o conflito: recorre-se à doutri na platÔni ca do Eros e à doutrina estóica da auta reia da vontade contra a doutrina agostiniana da corrupção radical da natureza humana e de sua inca p~cidadc para voltar de moto próprio ao divino. Com uma nitidez cada vez maiOr. À ex igência ascética de negação do mundo opõ-se doravante a exigência de transformaçâo do mundo. Tende igualmente para uma interiori­ zação. O Humanismo. condiz com a Re­ nascença r:o tocante a conferir em novo valor e uma nova sanção reUgiosa li. em vez de d~i g na r a própri a essênda. as novas ciências e a cosmologia.' a propósito do qual o Humanismo e a Reforma têm posições radicalmen te diferen tes. t: possível. pelo contrário.uma doutrina profund amente nova do sent ido da história. jamais usou atacar frontalmente o dogma da queda original. bem entendi· do. em face do dogma cristão.contra Santo Agostinho C 11 Idade Média . tram. parecia realizado não contra a religião mas graças a ela . A Reforma . visto que s6 ela lançou uma ponte sobre o 'abismo entre o infi nito e o finito. O üniversalismo religioso assim fundado permite. de Nicolau de Cusa a Marsflio Ficino. ao fundar . apresen tava-se agora sob uma nova luz . e deste a Erasmo e a Tomas More. em certo sentido. estranha aos ideais religiosos do Humanismo_ O âmago do confli to pode-se definir numa expressão: o pecado original. E essa espi­ ritualização não se limita ao eu. e reinter­ pretá-tas de um ponto de vista filosófico. Tudo isso parecia então possível com base na re ligião.~ Mas essa religião humanista encontrou na Reforma um adver. parecia que esse desenvolvimento tinha chegado a seu termo. sua verdadeira e essencial profundidade. elas são equiva­ len tes entre si . Ele abre-se do mesmo modo para as matemáticas. na med ida em que. mas toda a sua orientação espiritual tende a abrandar O rigor do dogma. Mas se Humanismo e Refcrn:a se encor. vida terrena.lador permanece. en tre o princípio criador e o ser criado. as quais nasceram no decorrer da Renascença. O problema da reconciliação do ho­ mem com Deus.ação do conteúdo da f~ . portanto. esforça-se por ~ejeitar o rude jugo da tradição agos­ tiniam!. parece. em símbolos. 2:0 sujeito religioso: ela estende­ se ao ser do munde. po=-ém. finalmente. que tinha sido o que estava em jogo na luta dos grandes sistemas escolást icos e de toda a mística da Idade Média. A fé do refotr. coloca-se numa nova ~el3 ção com o centro de certeza da fé. por compreender e interpretar o próprio dogma de rnllneira a fazer deh! a expressão da nova consciência religiosa. esforçando-se. Essa reconcilia· ção deixou de ser esperada exclusivamente da eficácia da graça divina : devia accntecer no seio do trabalho e do desenvolvi­ mento de espírilo humano. muito Stparado! em suas razões profundas. Nos primeiros decênios do século XV I. em sua origem e em seus fins. A humanitas do Cristo converte-se no vínculo do mundo e na prova suprema da sua unidade interior. conservam-se. deve medir-se. Com essa nova ampli­ tude. O universalismo religioso para o qual o Humanismo tendia não podia ser salvo numa 195 e 194 . acompanhar o desenvolvimen to e o constante re­ forço desse espírito religioso humanista. Ela não opunha hostilidade alguma nem cepticismo algum. para uma espirítuaiil. Eis que o mundo deve ser agora justiricado pela certeza do fé.. num terreno comum.verídica. envolver o universo em novas formas de vida inte­ lectual. percebe·se no pensamento religioso do Humanismo a penetração do espírito pelagiani s!a: de um modo cada vez mais consciente. que estava fun dada uma "religião dentro dos limi­ tes da humanidade ".

a qual não tcri a sido inteiramente corrompi da pela queda original. cai aqui no vazio. por toda parte. o veredicto da fé reformada abateu-se sobre a fé humanista . esse não deposita mais a menor esperança em si mesmo. Erasmo expri· me nada menos. sem o menor poder para opor-se ou cooperar. "Enquanto um homem estiver convencido de que ainda pode fazer algo por sua salva· ção. o tempo e a obra que lhe permitirão atingi r fina lmente a salvação_ Mas aquele que não duvida de que tudo depende da vontade de Deus. Cumpre distinguir rigorosamente entre a potência dc Deus e a nossa. A Bíblia. seu lugar na base e no ceme do sis tema da teologia. a de que ele se autoproclomoll o "começo dos tempos". mais se vê conduzido de volta à interpretação agostiniana do dogma.ria das idéias: ela abriu o caminho pa ra a teologia do Iluminismo. pois dessa di stinção depende o nosso autoconhecimento. que seria considerado uma potênci a autô­ noma a respeito da graça divino . ainda encon travam . sua autoridade sob renatu ral e absoluta. defensores e campeões.1I Mas O protesto in­ Iransigente do sislema reformado levanta-se contra ~ssa ampli a­ ção doulrin:tl A fé na qual vivem e morrem os reformadores é a fé no caráter único e absoluto da palavl:a bíblica. a obra desses pen­ sadores não foi estéril. Sem dúvida . por essa mesma palavra. O "in dividualismo" religioso representado pela Refor­ ma permanece. inteiramente OI'denado em função de realidades puramente objeti vas que o ligam ao mundo sobre· nalma1. do que o mais óbvio cepticismo religioso. não escolhe nem elege mais os homens mas espera tudo da efic~cia divina : esse é o que está mais perto da graça que deve salvá-lo . parecia decretar um retrocesso para o mais inexoráveL dogma· tismo_ Se é verdade que Hugo Groti us na Holanda e a Escola de Cambridge na Inglaterra tentavam ree ncon trar o esp(rito da Renascença. ainda que com certa prudência . um dos mais influentes teólogos da 197 . em sua transcendência. segundo Lutero. O interesse que dedicam ao mundo em nada podia atenua r essa fé: a ré e o mundo são postu lados. o efeito imediato desses esforços niio foi além de um quadro relativamenla cstreito _ Grotius sucumbe ao ataque do gomarismo. SemJer. A ruptura com O Humanismo é então inevitável. com efeito. assim como o conhecime nto c 11 glória de Deus. pelo menos." Assim. é o único objeto a que se pode assoc iar a certeza da salvação. de Lutero. A teologia do século XVII I está . que pretendia derrotar o arminianismo holandês .outra base. o qual retoma. limitad a no espaço e no tempo. E a vitória. Cudworth e More não podem resistir mais à pressão do purita­ nismo e do calvinismo ortodoxo.e foi em vão que o 5&:ul0 XVTlI tentou lutor cont ra esse julgamento_ Sem dúvida . ao bater-se pela au tareia e au tonomia da vontade. por pouco que seja. entre a obra de Deus e a nossa. ­ 196 Ihará perante Deus: pelo contrário.ações do passado. sobretudo no domínio da filosofia . Não existe erro mais perig0!5o do que cru numa inde· pendência do homem. Mas todos os grandes mo­ vimentos reJigiosos da época contrariavam suas tendências. arrogo-se direitos. Toda esperança estava perdjda de uma religião universal como a con­ cebida por Nicolau de Cusa c expressa em De pace lidei: no lugar da paz da fé sobreveio a mais rude e ma is implacável das guerras rel igiosas. tampouco se hum. Ao defen­ der. a de que menosprezou e subestimou as grandes reoli7. clara­ mente consciente dos seus vfnculos com a história universaL A ob jeção que se opõe com tania freqiiência ao século XVllI . tanto em Lutero quanto em Calvino. Consuma-se com um rigor c uma lucidez implacáveis no De ser ~o arbitrio. não !'e podia fundamentar de outro modo uma reve­ lação que não fosse safda de uma pregação singul ar. quer no plano da religião quer no plano da histó. ele manterá a confi:tnça em si mesmo e não alimentará o desespero em seu (nt imo. os ideais da Renascença continuavam vivos. deseja a ocasião. a liberdade humana . portanto. e E quan to mais tende a confirmar essas ligações . nessa guerra. (lU cspcr:t ou. da palavra di vina. ambos.

da Bfbli a e da Igreja.cujos elementos descobriu na investigação bíbli­ ca . incapaz por si mesma da menor certeza. Esse mé tooo está impreg­ oado do ensino de Descartes. delerminar a decisão. As diversas abordagens possíveis são dispoEitas {nce a face. à fé. aborda-o no seu próprio ter­ reno. A primeiro coisa que se deve exigir de uma hipólese é que se ha rmonize com os fenômenos e os explique 198 199 . Avança para 11 solução desses prob lemll s com os mesmos meios que já utili zara na solução de problemas geométricos. o alvo comum que une em sua lut<! as diversas tendênc ios do pensa­ mento iluminista. no seu Tratado do vácuo. o ideal da verdade clara e distinta . A tese q ue ele sustenla é a da impotência radical da razão. e dessa antítese re­ sultou. com efeito. todos os aspectos q ue o problema con tinha fo ram destuca· dos e cada um deles desenvolvido até as suas extremas conse­ qüências . não necessitamos de qualque r o utro meio para resolver o de bate. por algum tempo . não existe o utro método para deci frar o mistério da natureza humana. a Cim de abate r esse ini:nígo cornU!D . as velhas questões: nutareia da razão.traordinária clareza. A idéia de pecado origina! é. Dificilmente se pode dizer que. fazê-Ia s dar seu tes temunho o rdenando-os siste­ maticamente. o seu con­ teúdo se haja modificado: graças à mediação da grande obra de Jansênio sobre Agostinho. nos Pensamentos de Pascal. na rilosoria fra ncesn do skulo XVIU . por um de seus pensadores mais pro­ fundos. deve ser agora adaptado à exposição e ao desenvolvimento dos problemas da religião. Consideremos. em primeiro lugar. ele vale-se diretamen te de Erasmo. a fim de solucionar o problema apresen tado por uma força da nlltureza. Com uma perfeição que só pedia ser alca nçada pelo espírito analítico fran ­ cês. como um desfecho óbvio. não dispõe de nenhum outro recurso senão examino r as suas manifestações. Em SUB luta contra a ortodoxia . no presente caso. uma austeridade e uma força ímpares.. O físico . Não temos outro meio . Mas ex igem dorava nte respostas independentes de toda a autoridade exterior. o que o faz ser reconhecido como um pensador dos te mpos. Rous­ sesu ao lado de Voltaire: parece q ue. a quem considera o verdadeiro fundador da teologia protestante. Não se dirige ao crente mas ao descrente. a solução dialética. A observação exata dos fenômenos e o poder do hipótese devem uma vez mois. tenta levar até os de rradeiros mis­ té rios da fé o seu ideal raciona l. De novo são apresentadas. Todo o equi­ pamen to da modeTna lógicn a nalflicn. q ue ele mesmo utilizou e levou à sua perfeição suprema nos seus trabalhos motemátjcos . em se u centro vita\. o problema no seio da vida in te l ectu~l francesa. onde e le adq uiriu seu aspecto mais agudo e encontro u Sl>3S fórmu las mais expressivas. depois de Agostinho. Mas. Descobrimo-lo. forman do uma ant[tese muito simples.ao reconhecer e exprimir os vínculos históricos que o unem aos seus predecessores. Pascal não pretende exigir ou pregar a necessidade dessa submissão: quer prová-la. que Pascal domina melhor do q ue ninguém. que só j>Ode chegar à verdade re· nunciando a el a própria e submetendo-se ime irame nte. com toda a clareza. em seus efeitos imediatos. Hume bate·se ao I ~do do deísmo inglês. Somente então se quebrou o poder do dogmatismo medieval: o agosti­ nísmo dei xa de ser atacado em suas conseqüências.época na Alemanha. Ent retanto. a problemática pascalianu lLI11:-SC ao agostinismo. fala na sua \fngua e se rve-se das suas armas. a prop6­ sito das seções cônicas. nada resta das diferenças e di­ vergências .separa Pascal de Agostinho. Daí provém a paradoxal mistura de temas: o conlerido doutrinai que Pascal pretende demonstrar r. passando a sê·lo em seu princípio . urna vez ma is . sem re­ servas. exposto com ex. O problema do pecado original é apresentado.::>s Pensamentos fuz o mais extremo contraste com o modo da demonstração. justa men te. é II fOrma e o método da demo nstração. autonomia do querer mo ral. de um problema de fisica experimental. O que . manifesta um verdadeiro espIrito de crítica histórica .

pois. da "natureza" de uma coisa . Não poderiamos escapar a esse conflito que se mnnifesta em todos os fen ômenos dn natureza humana. aqui. a única cha· ve que nos pode ab rir as verdadeiras profundezas do nosso se:-. Não é uma debilidade do nosso en· tendimento. dupla natureza " do homem. na presença de ambos.8 hu· mana. que ignoras . Nesse caso. nega-se a si mesma e converte-se em transcendência. como tal. o homem vê-se colocado en tre o infini to e o nada.U1lQ ). Assim são invcrlidos todos os critérios respeitantes à forma lógica. em sua condição . grandeza e miséria. apresente·se a nosses ol hos. im potente parR decidir se pertence a um Ou ao outro. Mas precisamente esse retorno dos instru­ mentos e dos critérios racionais nos ensina que atingimos um limite. "racional ". em harmonia consi go mes· mo. é o ser mais sublime e o mais rejeitado: ludo nele conjuga potência e impotência. a existência imedia­ t a~e nte vivenciada. Se estes rejeitam a solução da reHgião. o que vemos? Não um ser completo. por esse mistério . ] Reflete. e esse acordo logo eorram em conflito ra· dical com tudo o que a existência humana nos oferece. sobre o paradoxo que tu mesmo és. que aguar· da o céptico e o desc rente.. E é aí que PasC2:1 espera o seu adversá rio. o dado. Desde o momento em que quer compreender a sua posição no mundo. razão impo­ tente j cala-te. da nossa compreensão intuitiva das coisas (unserer Einsicht). 6 homem. Logicamente. o acordo. Em que te converterás. Mas essa pretensa l!nidade. Escuta Deus!" . se se recusam a admitir a doutrina do pecado original e da .lVÓJ. dividido. sober­ bo.. De fato. . vergado ao peso das con· tradições. Essas contradiçõcs são os estigmas da natute"l. Onde quer que o homem. toma-se claro tudo o que no começo parecia mergulhado em impenetrável escuridão. é o conhecido. também const itui. estamos lidando com uma natureza que de imediato se nega a si mesma. explica·se o desconhecido reduzindCH:l ao conhecido : aq ui. porém. Humilha·te. pois. Esse postulado. Essas fórmula s pascalianas iriam apresentar à filosofia fran­ cesa do século XV III o mais difícil e o mais radical dos pro· blemas. e o único meio de explicá·lo consiste em transpô-Jo do plano fenomenal para a sua fonte inteligível. é a eles que cabe então fornecer uma eX'· plicação mais verossímil No lugar do duplo devem colocar o simples. é a imanência que. Se é verdade que essa " hipótese" continua sendo em si mesma um mistério absoluto. A sua cons· ciência não se cansa de propor-lhe um fim que. "Quem destrinçerá este imbr6glio? A natureza confunde os pir· tônicos e a razão confunde os dogmáticos. O problema da dupla natureza irre· dutível do homem só se resolve se se recorrer ao mistério da qu eda . por outro lado. do c0­ nhecimento. De súbito. não vale menos para ~ teologia do que para a astronomia. com efeito. natureza imbecil: aprende que o homem trans· cende infinitamente o homem. todo O critério racional é. que se explica mediante uma causa inteira· mente desconhecida. desce abaixo de cada uma delas. que procuras apurar qual é a tua verdadeira condição através da tua razão natural? [ . a par­ tir do instante em que tentamo5 llpreendê-Ja pura e simples­ mente. "salvar os fenômenos " (uwCet v t'a tpO.todos. imanente: o que significa que a forma racional da nossa compreensão das coisas consiste em concluir ce urn a essência determinada e constante. ele jamais pade Ettingir: nessa vontade de se superar e nas perpé­ tu as recaídas consome·se toda a sua existência. q:Je contém em si urna ant inomia absoluta. justamen te. não subjetivo mas objetivo do conhecimento. limite não contingente mas necessário. Ergu ido acima de todas as coisas. Os filósofos defrontavam-se aí com um adversário a sua 200 201 . as propriedades que neçessariamente lhe perten­ cem. e escuta do teu mestre a tua verdadeira condição. dos fatos para o seu princfpio. no lugar da discordância. o que nos impede de chegar ao conhecimento ade· qu ado do objeto: é o próprio objeto que desafia toda a raciona· lidade. mas um ser dilacerado. A natureza humana só é concebível por esse inconcebível com que nos deparamos em sua profundidade.

uma decisão clara e positiva.o "? IO Volt aire sempre rechaçou o otimismo como doutrin a metafísica e via na solução de Leibniz e Shaftesbury apenas uma ficção mitológica. Inicia essa crJ!ica com n sun primeira obra filosó(ic. ele retoma a esse trabalho de sua juventude para completá-lo e expor novos argumentos. um " romance" . sobre esse ponto. exige·se dela. Recorre a um ." e Mas essa filosofia do senso comuna não é a última palavra de Voltaire sobre a questão . de sua variedade e mobilidade. que t. para Voltaire. as Cortas sobre os ingleses. De fato . ele proclama que vai s ustentar a causa da humanidade contra o "sublime misantropo " . as forças da razão. logo olgo necessário e elemo exiMe é uma proposição que nada perdeu. a prova de sua riqueza. não existe. Uma vez que rejeita o mistério do pecado original. Aquilo a que Pascal cha· mava as contradições da natureza humana é apenas. no sentido em que se poderia atribuir-lhe uma existência determinada. meio século depois. a atividade humana . por que a filoso­ fia francesa do Iluminismo voltava incessantemente aos PensQ­ mentos de Pascal . para fazer com tanta freqüencia dessa obra c teste de suas fa­ culdades críticas.Jl Quem pretender 203 . passando sempre de um fim a outro.e o nó górdio da teodi­ eéia perménece il:tato. escapatória possível: duvidar do dogma só nos faz mergulhar ainda mais prorunda e inexoravelmente no enigma da teodicéia . Ele quer manter-se à superfície da exist!ncia humana . no desdobramento espontâneo de todas essas forças diversas que ele sen te em si mesmo que o homem é tudo o que pode 'e deve ser: "Essas pretensas cont. mostrar que essa superffc ie basta-se a si mesma. chama a atenção o (ato de que ele procura evitar a luta aberta. que ela revela a sua verda­ justa­ deira intensidade e toda a potência de que é capaz? mente na extensão. uma vez q:J. a reconhecer e demonstrar sua fonte mediante. Se era impossível que­ brar nesse ponto a vertigem da transcendência. que converte em juiz das sutilezas da metafísica. tem o cuidado de não seguir Pascal até o centro pro­ priamente religioso do seu pe:lsamento. com o qual nio podiam evi tar medir-se se quisessem dar um passo adiante. como sob o efeito de uma compulsão interior. toda explicação "natural" do mundo e da existêncie estava de ante· mão prejudicada. Vo!taire. até o mais profundo da sua problemática . entretanto. para ele. quando se examina um por um os seus ergumentos. ex­ plica-se a si mesma. preso crever-Ihe uma carreira fixa . exclusivamente. ~ prorundidade mistica. Esse enigma subsis te para o próprio Vai­ 1a ire. Sem dúvida. Compreende-se. são os ingredientes necessários que en· tram no com~to do homem. parece que. Mas essa versatilidade quase ilimitada não é. Através de todas a~ etapas da caneira de es­ critor de Voltaire teve prosseguimento a crítica de Pascal.. A seriedade pascaliana . para Vol· taire. a que chamais contradições.rariedades. ela é solicitada a situar alhures a causa e a origem do ma!. por menor que foss~. saltando incessantemente de uma iniciativa para outrn. a volubi· lidade do mundano. o que deve ser. pa:<I ql!em a ex istência de Deus é uma verdade rigorosa­ mente demonstrtveL Eu existo.' Assim. a sua rraqueza mas a sua força . Por pouco que ele se debruce sobre os argumentos de Pascal. se o homem de· via ser e manter-se "transcendente em relação a si mesmo· . não é nessa diversidade. nesse caso. de fato. de sua plenitude.' En· frentando o desafio pascaliano. de sua rorça e de sua evidência. a simples negação deixa de ser suficiente: espera-se da filosofia das Luzes. à primeira vista. incnpllz de eter-se a um resultado adquirido. senso comum" . ele opõe suas con­ siderações irônicas e jocosas. Diante do problema metafísico como Ia/. como o resto da natureza. Por díspar 202 que possa parecer. Entretan· to.e:. percebe-se claramente que estes nunca deixam de perturbá-lo.altura. como poderemo~ escapar à conclusão de Pascal de que"o n6 da nossa condição faz seus entrelaçamentos nesse abisrr. ela nada tem de "simples". com efeito. porquanto se abre incessantemente a novas possibilidades. no ponto em que estamos.

de que a razão. Em ~UlJ juvenlude. incansavelmente aprofundada. pelos golpes da argumentação pasealiana a que ele se propunha refutar.a purumen te hedonista. Sem RS fr aq uezas huma nas. 101/1 esl bicn aujounnwi. Esse humor admite toda a espécie de mlJtizcs . nem por isso deixa de ser atingido.~e L. contra a teologia e a metafísica. precisamente. Ele descobre a cidade em suas fraquezas ." {Um dia tudo c~t <!rá bem. E. se se considerar o resultado a que Yoltaire chegou. desde que queira con ta r exclusivamente con sigo mesm a.: a.a verdadeira sabedoria E sa be r fug ir da tristeza Nos braços da vol úpia.. ainda que indiretamente. emite a sua scnten(. ] /a vérilub le sages. é rejeitado em termos absolutos. como enunci ado dou­ trina i. . do qua l quis fazer a arma pOr excelência da luta con tra o oti mismo. sem o mínimo apoi6 da n:velação . a de fec har os ol hos para os males cuja presença nos açossa de todos os lados. d a volúpia liberada de tOdos os preconceilos. es­ perar que este nos traga ti solução de um cIligma que. Parece-lhe tão pe­ noso quantu fút il esfo rçar-se pur auquirir uma outra sabedoria: [ .~ era büm. como ta l. i\'las. nos é impenetrável : " VII jour IOUi .que tudo está bem é um charlatão: confessemos a existência do mal sem acrescentar ainda aos horrores da vida 11 absurda com­ placência de negá-lo . a UIU compromisso ­ comprom isso que ~e impõc tanto em tcoria qu anto no plano ético. era de que a filosofia como lal. niio há outra saída senão (ixar o olha r no fut uro. portanto. vi~ioll de lJabouc (1746).] Voltaire ainda não quer ser ma is do que o a pologista do seu tem po: apologista do luxo req uintado. Re­ gistn! todas as respostas ciliadas re jeilll. Em todo caso. "H Tcnuo·se assim despojado ele próprio de todas a~ suas armas contra o cepticismo 5Obn:: a questão da ori gem do ma l. dada a própria natureza do homem. voltou atrás a res peito dessa glori ficação do prazt. desaglwr!Í necessari amente no cepticismo: "O pi rroni smo é o verdadeiro. dos nOS50S instin tos e das nossas paixões. de mo­ mento. Schopenh auc r \'ule\l-st" com certa predileção do Callílide de Yoltaire. porquanto os mais vivos impulsos da nossa exist ência nas­ cem. O axioma /Oul esl biclI . de um ponto de vis ta ético. prcd sull1ente nesse jogo de matizes .! Yoltaire adere aqui. em lodo o brilho de sua civili zação t: todo o refi na mcnlO de sua vida sodul . O mal moral também é inegável: sua ju sti ficação consiste em ser i nev jl~vel. voilà ('iI] usion. ret ratou-se ex pressa­ mente. A sua posição so br~ O prubkma do mal não surgiu de nenhuma dou /rilla dcterminadu. eis a no~sa esperança : luclo está bem hoje. .r . . d a não pode e não quer seI· mais do que a expressão do humor passagciro com o qual ele aborda o mundo e o homem. Odende uma [i loso(.compntz·s. do bom gostO. vemo-Io exatamente no ponto onde se encontrava Pascal . 204 . sem dú' vida. Babouc recebe do anjo h uricl a ordem ue ir à capi tal do reino para observar aí lJ vida c os costumes: o seu julgamento decidirá se a cidade deve ser arrasada ou pou­ pada. Volla ire nâo é mais um fe6rico do Ix:stlimi smo do que um teórico do otimismo.por ocasião do terremoto de Lisboa de 1755. a nossa vida eslariu condenada à imobili­ J ade.iio" da e:\i stência cons istc em a bandonar-se a todos os prazeres e em esgotá-los uté o rim . voilit notre espél'ance. seus defei tos. portanto.l : Se Yoltaire decl ara-se aqui favo rável ao cepticisJ1lo teórico. suas mais graves defidê ncias morais mas. cu ja concl usão pessoal. Volta iro: ignora todo o acesso de pessimismo . ao mesmo tempo.':-se agora empurrado para os seus últimos entl"incheirnmcrnos. eis a il usão. dos nossos defeitos.. na ver· dflde. H Mais tarde . Vol· 1aire encon trou a fórmu la mais impress ionante de sua visão do mundo e da vida no seu conto fi losófico Le monde com me il va. Pelos mai~ hábeis ourives da cio 20\ Est de se/Foir f llir la frislesse Dom fes bras de la volllpl é.a Insensata ilusão . para a qual a "jll ~ tificm. v.

A literatura a res­ peito desse problema é quase inesgot6vel: ele continua sendo visto como o verdadeiro problema fundamen tal que deve decidir da sorte da metafís ica e da religião. lhes pertence: uma certa intensidade e uma certa duração detenninadas que elas possuem. é igualmente obser· vada nas outros pensadores do século XVIII . Assim . seria pos­ sível. em deCinitivo. A heterogeneidade que os dados imediatos da experiência vivida manifestam nAo nas dispensa de estabelecer sua homogeneidade conceptual. com esses múltiplos debates. por diversas que sejam as modalidades de prazer e desprazer. H Essa mesma incerteza . ele procura representá-los de tal forma que seja possível atribuir-lhes diretamente um valor quantitativo de· terminado. A lei que Maupertuis procura formular :107 . a questão consistia toda ela em realizar a síntese metódica dessa bipolaridade : orientar o curso dissimulado das sensaçõcs de prazer e desprazer para a racionalidade. en tretanto. estabelecer a relação segundo a qual a grandeza do todo manifes ta uma dependência da grandeza dos seus elementos eons· tituintes. e adotar nele uma posição tal que nunca possamos deixar de lutar contra ele: pOis essa é a (ante de toda a felicidade de que o homem 6 capaz. mas não se fa z nenhum esforço para oompreendê-Ios na unidade viva dos concei tos e dos principios fundamentais da sua filosofi a_ O espírito sistemático desemboca no ecletismo com uma freqüência cada vez maior. pois. No ponto em que se es lava. essa questão. Se se pretende resolver. Retoma-se constantemente os argumentos de Leibniz . compará-los em tennos numéricos. t por isso que se está sem· pre voltando a ele. Hsica . onde ele esmiuçou o otimismo em todos 0$ seus traços.te SUfl'!e um novo tema : a psicologia empírica apodera-se do problema e pf1> cura tratá·lo com os seus próprios meios. Não pOdemos eSCl!par ao mal riem podemos extirpá-lo. é impossfvel contentar-se com uma apreciação vaga . no fund o. algo de co­ mum. Do mesmo modo. disse ele. poli3. apresenta·se agora até no dom ínio da psicologia . é necessário encontrar uma medida :106 rua. o problema tenha sido muito enriquecido. que se evidencia na atitude de Vai· taite a respeito do problema da teodicéia . em boa verdade. Voltaire não se desviou desse senlimento. se nem tudo vai bem. Se conseguirmos submeter à medição esses dois ele­ mentos . Mas devemos deixar o mundo seguir o seu curso. desde os mais preciosos aos mais vis. O an jo çompreendeu: " Decidiu nem mesmo cogi tar de corrigir Perre. Essa é a síntese tentada por Maupertuis no seu Essai de phitosophie morale. encontrar­ lhes uma fórmula exata . Tudo o que faltava. para que esse objetivo fosse alcançado era a associação da psi· cologia e da matemática. perguntou a Ituriel. tan to umas quan­ to ou tras. proceder a um cálculo das sensações e dos sentimentos que nada teria a invejar ao rigor dos cálculos efe­ tuados em aritmética. o problema de uma "matemática das grandezas intensivas". O conhecimento do mundo f{sico depende do princfpio da redução das diferen­ ças quali tativas que assinalamos entre os fenômenos a diferenças puramente quantitativas: o princfpio é o mesmo para os fenô­ menos psfquicos. o caminho estará aberto para uma solução. manda forjar uma estatueta composta de todos os metais. reinter· pretados de mil maneiras . tanto o mundo ffsico quanto o moral. sem que. para levá-Ia a lturieL " De­ sejarias quebrar esta bela estatueta. porque ela não é inteira· mente feita de ouro e diamantes? ". aquele que foi concebido por Leibniz a propósito da questão da nova análise do innnito. e deixar correr o mundo como ele estd. da observação empírica e da análise conceptua1.dllde. Mesmo no Candide. nesse caso. Partindo de uma certa definição de prazer e desprazer. estabelecer uma escala determinada pela qual se possa afe· rir os diversos valores de prazer e de desprazer. aparentemente. geometria . Parece abrir-se um caminho: a questão de sabeT se o prazer ou a dor predomina na existência humana despoja-se de sua antiga nebulosidade e as· senta agora numa base científica mais sólida. de uma mathesis intensorum. tudo é passável.

um ensina que a finali­ dade da existência é alcançar a felicidade. que consiste em fazer produzir na vida a maior soma possível de felicidade. independentemente da natureza. qualquer futuro nem um recuo possível. proveniente de duas direções diferentc s. Graças a eles. que assim prepara ram indiretamente a pro­ blemática kantiana e que. subsiste ape­ nas o valor que nós próprios atribulmos à nossa vida. Apoiando-se nessa fórmula . Para fazer um c4lculo dos elementos de prazer e des· prazer. ao passo que outros querem evitar os males e infor­ túnios. sem deixar de lhe combater tanto os resultados quanto o método. do tempo durante o qual eles estão presentes e atuam na alma. ainda que mesmo de acordo com em novo plano elaborado por si (mas em harmonia com o cu rSO da natureza) e e". Esse valor ca iri a abai". verifica-se que a soma dos males prepondera constantemente sobre a dos bens. De fato . priva o cálculo do prazer e do desprazer de toda significação posiliva . a felicidede). num certo sentido. Somente dois pensadores se­ tecentistas conceberam essa mesma idéia . os sistemas éticos segundo o seu valor de verdade. Uma dupla intensidade numa duração simples pode. em ter­ mos comparativos.tI Numa de suas obras pre-crfticas .u A ob jeção verdadeiramente decisiva de Kanl con tra esse método só se manifesta de form. atingira um li­ mite em que não havia. esgotado todas as suas possibilidades numa série de tentativas estéreis. sobretuJo. o problema da tcodicéiR não 56 loi tratado de uma nova maneira mas. pressentiram-na .~ muito fácil decidir sobre o valor que teria a vida se ela fosse unicamente avaliada em :ermos de fruição (ou sej. de sua força e.. de tal modo que a própria existência da narureza só possa constituir um fim sob essas condições. para ela. nesse ponto. é em outra esrera que se debaterá a questão do valor da vida. Para evitar remeter-se uma vez mais o saber A fé. levou Mau­ pertuis. Kant remete-nos para o cálculo de Maupertuis. Tudo bem considerado. por outro. en tretanto. J Portanto.aqui t rigorosamente análoga aos princfpios da estática e da di· nâmica .o de zero. é necessário partir do fato de que sua grandeza depende . Ao rejeitar o eudemonismo como fundamento da ética . o estóico por reduzir 8 de desprazeres . aCima ete. como um todo. adqui riu uma nova significação tcórica. a um resultado pessimista : na vida comum. de resto . não sim­ plesmente porque o fizemos mas porque o rizemos. a crítica kantiana devia minar de uma vez por todas o edifício argumentativo da filosofia popular do século XVIII. do fim natural da soma de todas as inclinações. pode·se definir a grandeza de um estado feliz ou infeliz como o produto da intensidade do prazer e do desprazer com a duração de um e de outro. De um modo geral. ' . no tocante ao problema da leodicéia. Mas uns querem alcançar esse resultado através do aumento e acumula­ ção de bens.dusivamente assente na fruição? [' . O epicurista esforça-. apresentar globalmente o mesmo resultado de uma in tensidade simples numa dupla duração. Maupertu is tratou então de avaliar logo. esses sistemas só se distinguem pelo tipo de cálculo de felicidade em que cada um deles se ba­ seia. A metafísica tinha." Esse c4lculo. de maneira intencional." 10 A filosofia popular da época do Iluminismo n50 tinha a maturidade necessária para pensar em tal finalidade para al~m da dimensão de prazer e desprazer. com efeito. mo ra~ ou religiosa.se por aumentar a soma de prazeres. o ENsaio das emoçõcs.!! . é insolúvel para o homem por­ que só podem ser levadas em conta as sensações da mesma es­ pécie. por um lado.!! válida . portanto. que é a de evitar a infeli cidade. ao passo que nas condições complexas da vida todos os estados afctivos súo diferentes por força da própria divcrsidade 208 . Todos nos querem oferecer uma prescrição sobre a melhor maneira de chegar ao "bem supremo ". o outro. Dor3vante. quem iria querer recomeçar uma vida nas mesmas condições. O problema assim apresentado. para 209 para introduzir em filosofia o conceito de grandeza negativa. em sua própria funda mentação da ética .

sobretudo. S nessa direção que Shaflesbury prOCura a verdadeira "teodi. todo o conhecimento da for ma da~ coisas é vedado ao animal . Shaftesbury viu nessa faculdade de pura contemplação. mas da ener­ gia puta das (orças criadoras pelas quais ela se dá um conteúdo. o pensamento do século XVIII deve realizar. uma espécic dc desv io. percebe-se e concebe-se graças ao sentido da forma .! ordem e uma regra rítmicas: eis o fenômeno primordial que prova de imediato a sua origem puramente espiritual.e vê-se por quê . o problema do direito e do Estado que assu· me a liderança desse movimento . pois. mas pela força da intuição pura . de monopolizá-lo. mas por sua forma. todos os valores que temos o hábito de aplicar ao exame do problema da teod:céia . ou seja . O conlcúào da vida não deve definir-se . por outro. l! nela que o homem é verdadeiramente ele próprio. E eis que de novo se manifestam os dois temas funda· mentais que irão adquirir. é o problema estético. Nenhum dos dois parece estar. "super­ sensível ". esse conhe­ cimento não é nele despertado sob a ação do desejo . é graças a essa faculdade que ele participa na felicidade suprema .-teológica. no movimento das idéias do século XVIII . ela possui uma proporção interior. nesse prazer que se conserva puro de todo o "interesse". criadoras. na essência do ab­ soluto .. longe de ser uma massa informe e desordenada. Toda a realidade participa na for· mil . Por um lado. Assim. -e o único caminho de que se pode esperar uma solução imanente ­ uma solução que não force o espírito a ultrapassar seus próprios limites. Os sen tidos como tais não são capazes de explicar esse fenômeno e ainda menos de compreender a sua origem última. não na esrera do prazer e da dor mas na do livre esboço interior. Assim foram radicalrr:ente subvertidos todos os cri· térios. Fundou uma filos ofia que não s6 comporta uma parte estética de grande importância teó­ rica mas . uma importância cada vez maior e uma consciência cada vez mais clara de sua especificidade. nem um pouco. em ~ eu devir e em seu movimento um. em sua pr6pria substância. s6 restava um caminho: convocar li ajuda de outras for­ ças intelectuais e confiar-lhes a sorte do debate. verifica-se que a partjr de am­ bos produziram-se uma transformação característica e um apro­ fund amento desse mesmo problema. por vis dedutiva. que o eu contém em si.uma intuição que permanece pura de toda e qualquer tentativa de apossar-se do objeto. a força primitiva em que assenta toda a fruição da arte.não o mergulhar de novo no abismo do irracional de que falava Pascal. por sua matéria. no enlanto. Não de· pende do grau de prazer que a vida nos concede. Toda beleza é ver­ dade _ . do mesmo modo que toda verdade. Para chegar ao centro do problema da teodicéia. da análise da essência di­ vina para daí concluir. Segundo Shaft esburv . a única felicidade que lhe ~ outorgada. a justificação derinitiva da existência. em estreito contato ou em ligação com o pro­ blema da teodicéia e. O primeiro pensador a atra­ vessar aqui a ponte foi Shaftesbury. assim como toda a criação arHstica. os diversos atributos de Deus. uma filosofia em que a estética constitui a verdadeira chave do conjunto. isto é. conserva em sua existência uma orga­ 210 nização determinada . que o simples cálculo dos bens e dos males no mundo fica necessariamente muito aquém do sentido autêntico e pro­ fundo desse problema . cnde as relações que estabelecemos entre o mundo e nós próprios assentam uni­ camente nas necessidades e impulsos sensíveis. Com efeito. Ar onde os sentidos agem sozinhos. ela dedica-se doravanle a desenvolver in teiramente todas as energias constituintes. céia". ao sentido dI) beleza . em vez de se mergulhar. como efe ito . o reino das for­ m!lS aind a não é acessível. portanto. paTa despertar-lhe os instintos e ocasionar·lhe certas reações. a questão da natureza da verdade não se separa da da beleza: as duas juntam-se em sua raiz e princípio último. porque os objetos do seu meio só agem sobre ele como excitantes. Vé-se. da ativi­ dade imediata. da criação 211 . a esse propósito. Em vez de partir de uma explicação metaHsico.

por conscQuin tc. Todos aqueles bens que a humanidade ima­ gina ter adquirido no transcorrer de sua evolução. nenhum povo jamais seria senão aquilo que a natureza do seu governo o fizesse ser. não se descortinavam senão desordem e confusa diversid ade: e. de novo. Diz ele !las Confissões: "Vi que tuào dependia rad icalmente da política c que.istência nobre e requintada.. se tomarmos essa palavra no seu sentido mais am pl o?" Uma nova norma foi assim aplicada à existência humana: em vez da simples exigência de felicidade.regida por um protótipo c ~. como a escala de valores em função da qual ela deve ser vivida. l\ verd aôo!i~a importância de Rousseau . no . :lr'quéti po puramente espirituais. seau o mérito de ter.2 1 Mas é por um outro caminho. como urna explicação ra· cional do problema da teodicéia. a idéia de direito e de just iça socia l. Essa criaçiio promeléica. foi precisamente através dele que Rousseau nos apresentou uma perspectiva e uma abordagem novas. o mais sensato. o melhor. Ao invés de esses bens terem podido renova r o valor e o con teúdo da vida. à primeira vista. humano . Deus está justiricado e daqui em diante a dou trina do Papa é verdade ira". enfim. A descrição apresentada pelos Pen­ 2 [3 . da existência do homem na socie­ dade. se dedica.. que supc:rtl de longe a simples fruição e em nenhum ponto lhe é comparável. n t um personagem da estatura de nada menos que um Kant para reconhecer expressamente em Rous. nllma direção perfeita.:s Essas rórmulas são. "Newton foi o primeiro a ver 11 ordem e a regularidade unidas à perfeita simplicidade onde. Shaftesbury ou Pope . a divindade do todo . por assim dizer.mente origina1 do pensamento do século XV III . como fez Voltaire.:. das artes. toma a sério as acusações pascalianas. de sua felicidade ou de sua miséria. Foi ai que Rousstau acredita ler descoberto 2[2 o ponlo onde a q. tas deslocam·se em trajet6rias geomét ricas. pode ser rinal­ mente sclucionnda . Ele foi o pr imeiro pensador do século XVIII que. antes dele. desde en tão. No entanto. esses tesouros pretensamcnte acumulados. essa grande q uestão do melhor governo possrvel parec ia-me reduzir·se a isto: qual é a natureza do go· verno próprio para formar um povo que seja o mais virtuoso. revela·nos a verdadeira divindade do homem e.. em deCini­ tivo. Desse ponto de vista. nesse domínio . transposto a última etapa. tudo isso é reduzido a nada pela crftica inexorável de Rousseau. difíceis de interpretar : não se encontra em Jean-Jacques Rousseau. do humor masoqu ista de um misantropo jrrealis:a.quadro que ele traça das formas de vida tradicionais e convencionais. eles apenas a distanciaram cada vez mais da sua {ante primeira e. De­ pois de Newton e Rousseau. a natureza profundamente escondida do homem e a lei secreta se­ gundo a qual suas observações justificam B Providência. Tal é a visão das coisas que ele encontrou no estudo e na crítica das instituiçõcs políticas.. Rousseau re­ toma ao âmago da questão. de as lançar na conta. como um todo. tinha-se por válidas as objeções dc Alphonsus e de Manes. A originalidade. compurável à qu(' encontramos em Leibniz . Em vez dc as enfraquecer. E o emprego desses novos critérios levou primeiro Rousseau a um julgamento extre­ mamente negativo. nada que possa ser in· terpretado como um debate expHeito. Rousseau concorda surpreendentemente com Pascal. os da ciência. Rousseau foi o pri· meiro a descobrir. Foi o pri­ meiro. que Jhes avalia todo o peso. as alegrias de uma ex. sob a divenidade das formas convencionais. assim. os come. reside num outro domín io muito dife­ rente: não é ao problema de Deus mas ao problema do diTCito e da socied ade que o seu pensamen to. rosse qual fosse c ponto dc vista que se adotasse. aHenaram·na inteiramente do seu sentido autêntico. a elevar o problema acima do plano da existência individual para situá·lo expressamente no nfvel da existência social. que somos conduzidos desde que consideremos a posição de Rousseau 8 respeito do problema da teodicéia. reconhecida como a ver­ dadeira medida da existência humana. sem dúvida.uest50 da verdadeira signiFicação da cxistênci . Antes .

todos buscam a felicidade . Sobre esse ponto. Jamais procurou em­ belezar ou enfraquecer: tal como ele. O homem só se refugia no mundo. nenhuma simpatia natural une os homens entre s::. com efeito. uma von­ tade de viver em comum nwna unidade verdadeira. a Igreja logo destacou. ele não comb~teu o sistema ortodoxo menos severa e radicalmente do que o fizeram Voltaire e os pensadores da Enciclopédia. com efeito. com toda a lucidez. como furtar·se à conclusão de que o homem é " radicalmente mau"". cumpre-nos distinguir sempre com o maior cuidado se o nosso enunciado refere-se ao homem da natureza ou ao homem da cultura . con­ templar-se a si mesmo o espanta e o enche de medo. descreve o esta do presente da humanidade como o estado da mais profunda degradação . enfatiza. não vivem para viver mas para fazer crer que vi­ veram. Como ele. não tenta escapar ."2. embora todos falem como ele. tanto quanto seu pensamento. aliás. ninguém é enganado e nem um só é tão 1010 que se iluda. numa multidão de ocupações e divertimentos díspares porque não suporta a sua própria presença. Rousseau concede a Pascal todas as prem issas (!m que este fundamen tou a sua argumentação. Pois se ele pudesse ficar quieto por um instante a fim de adquirir verdadeiramente consciência de si mesmo. revoltam-se con tra a hipótese de uma perversão original da vontade humana. Aparentemente. a idéia de pecado original perdeu toda força e todo valor. nas primeiras obras de Rousseau) no Discurso sobre as artes e as ciências e no Discurso sobre a de­ sigualdade.' Rot. Rousseau apenas vê nas bagatelas com que a civilização dotou os homens futilidades e bens ilu­ sórios. um dilema a que. encontra-se em absoluta contradição com tudo o que as Escrituras e a Igreja sempre ensin aram a respeito da natureza do homem. Tal como Pascal. se des­ creve essa degeneração eom um rigor cada vez maior e cores cada vez mais sombrias. porque ver-se. sustentando que os primeiros instintos da natureza humana são sempre inocentes e bons. Amor-proprio e vaidade. corno não lhe reconhecer a causa.sarnentos de Pascal da grandeza e da miséria do home!TI reencon­ tra-se) traço por traço . todos) escravos e víti mas do amor­ próprio. ora se recusa a admitir as explicações propostas pela metafísica mís­ tica e religiosa de Pascal. Seus sent imentos. Contudo.. ninguém se preDcupa com a realid<lde. como para toda a sua épo­ ca. A carta pastoral por meio da qual Chrístophe de Beaumont. Pois se reconhece o fato de que o homem é "degenerado" . Insiste continuamente nesse pon to: em nenhuma parte existe um ethos primitivo. No julgaDen~o que pronunciou sobre a obra de Rou sseau. o homem cntregar-se-ia ao mais profundo de­ sespero. arcebispo de Paris. ora reconhece o fenómcno donde partiu Pascal.. Foi justamente a esse propósito que se pro­ du ziu entre ele e a doutrina eclesiástica um conflito implacável e um rompimen to definitivo. Rousseau enfrenta. Para ele. insiste no fato de que toda essa riqueza apa­ ratosa não tem outro papel senão o de cegar o "!:lomer:t para a sua pobreza interior. empe­ nham-se em ludibriar os outros sobre os seus verdadeiros propó­ sitos. von­ tade de dominar o cutro e de estar sempre em posição de des­ taque) tais são os verdadeiros grilhões que retêm a sociedade humana. Toda essa agitação incessante e vã é fruto do pavor que o repouso lhe caWla. Todos os vínculos sociais não passam de mera ilusão.se se trata do 215 . condena o Emílio. 214 • Portanto. essa questão central como o único ponto verdadeiramente crí­ tico. Em todo o jul­ gam en to que formulamos sobre o homem . com um belo verniz de pallivras. empírico. na socie­ dade. da so­ ciedade aproximam e unem os homens. Quan to às forças que no estado atual . 24 "Todos. que a tese de Rousseau . de reconhe­ cer tudo o que é. Todos empe­ nham seu ser na aparência.sseau desfaz-se desse dilema com a introdução da sua dou­ trina da natureza e do "estado de natureza". o julgamen to de Rousseau tampouco é diferente do de Pascal.

Essa conclusão indicará a Rousseau c novo caminho que ele percorrerá até o fi m em suas obras polfticas. fazendo-o passar do plano da metaf(· sica pa ra C centro da ética e da política. Mas essa c. n que faz do homem um tirano contra a natureza c cOntru si mesmo. ninguém imaginara sequer procurá·la. apareceu ao mesmo tempo que esta: por isso é que devemos buscar exclusivamente nesse terreno a solução e a libertação. Ne· nhum deus nos trará 8 alforria : todo homem deve tornar-se o seu próprio salvador e." Portanto. está· vamos lidando com uma dupla natureza. ai nda não está em condições de escolher entre o bem e o mal. O indivíduo como tal. num sentido ét ico . condenado-o assim a todos os males morais. Deus é desculpado e a responsabilidade dos males cabe unicamente ao homem. que não é o homem individual mas a sociedade humana . no desenvolvimento empírico do hO­ mem. sem se desviar jamais do rumo traçado.lpa pertence a este mundo. mas este aindll não se converteu em amor·próprio (amour propre). uma sociedade em cujo seio cada um. 2tl Mas essa alienação esta rá verdadeiramente inscrita na natureza de toda sociédade? Não será possível conceber uma comunidade real· mente humana que não tivesse necessidade de recorrer à força. sob a form a que ainda prospera . o desenvolvimento do problema ~!a 21 7 . de certo modo. para Rousseau essa dupla natureza e o conflito que daí resuha residem no próprio seio da existência empírica. não ao "além".. reconheceria como sua . sede inextinguível de poder. "Tudo está bem" . para fora de nós mcsmos. até então. à cupidez e à vaidade. Abandona·se ao seu instinto natural de conser· vação . em vez de estar submeüdo à arbiuariedade dt outrem. o qual só se com­ praz e s6 se mitiga na opressão de outrem. de fato . Nenhum socorro vindo do alto. não é anterior à existência histórica empírica da humanidade. orgulho. A teoria ético-política de Rousseau situa a responsabi· lidade num lugar onde.: T Foi ele. A sede de dar o que falar cle si."homem natural" ou do "' homem artificial". que se ali cerçasse inteiramente na sub· missão de todos a uma lei reconhecida interiormente como coer· civa mas necessária? Tais são as lndagaçõcs que Rousseau for· mula e que tratará de resolver no Contrato social. de um ponto de vista metafísico.diz Rousseau no começo do Emílio . somen te obedecerá à vontade geral que ele conheceria (. O que coõlstitui a verdadeira importância hist6rica e o valer sistemático de sua teoria é o fato de que ela criou um n novo sujeito de U imputabilidade . Enq uanto Pascal explicava as contradições insolúveis que 11 natureza humana nos apresenta dizendo que. A sociedade.!Os aqui por um instante a fi m de cJC:aminor. Na suposição de que desmorone a forma opressiva de sociedade que prevale· ceu até os nossos dias e de que no seu lugar surja uma nova forma de comun idade ética e política. Desperta necessidades e paixões que o homem natural jamais conheceu e coloca·lhe nas mãos os recursos sempre novo~ para saci á·las sem limites nem freios . tudo degenera nas mãos dos homens. é dominado pelo U amour de soi". quem situou o problema num terreno inteiramente novo. nenhuma assistência sobrena­ tural pode propiciar·nos essa libertação: somos nós próprios quem deve concretizá·la e enC'"1ntrar a resposta . ao sair das mãos da natureza. infligiu à huma­ nidade suas fer idas mais cruéis: é ela quem pode e deve curar essas mesmas feridas pela sua própria renovação. uma vez mais. o seu próprio criador."ao sair das mSos de Autor das coisas . A sociedade tem a 216 J I I responsabilidade exclusiva por essa espécie de amor-próprio. em seu conjunto. mes m~. Tal é a solução que a Filosofia do direito de Rousseau oferece para o problema da teodi céia. Foi esse desenvolvimento que obrigou o homem a sub· meter-se ao jugo da sociedade. a ânsia de se distinguir dos oulros. ludo isso nos torn<1 'incessantemente estranhos a nós .não teri a soado a hora da libertação? Mas é em vão que se aguarda ser emancipado desde fora. vai­ dade. Detenhamo-. tudo isso nos trans· porta. alimentando nele todos os vícios.

finalmente. no domínio das ciências morais · . e. tal como se desenvolveu especialmente na Alemanha. para Spinoza e Leibniz. o Estado. Essa mudança in­ lema realiza·se à medida que o conteúdo concreto da cultura espiritual da época iluminista penetra no problema e transíor­ ms. Pari indo do clomínio da teologia e da metafísica teológi ca. uma ofensa aos prindpios mais elemen­ tares da lógica e da ética. Ora. parece que Leibniz. que sem a graÇA divina ele é. no pensamento do século XVIlI .a a longo prazo. Assim se realiza. mas o sentido dessa relação foi medado. Mas dentro dessa concha formal instau­ ra·se progressivamente um conteúdo novo. peJo cont rário. for­ necidas pela "razão" na medido em que esta representa a tota· lidade das forças espirituais independentes. porton· 218 219 . de ce rto modo.da teodicéia no século XVIII: um traço fundamental. o centro de gra­ vidade da questão desloca·se : a física. nesse domínio. A polê­ mica contra Santo Agostinho prossegue. a pr6pria teologia do sécuJo XV III é an·astada nesse movimento. O direito. o problema adq u.u Reimarus. eles não abandonaram nem um pouco o terreno da dogmática como tal. Produziu-se. onde se encontram os seus repre­ sentantes mais importantes. de um modo geral. ao longo de toda essa literatura "ncoI6gica" . a ruptura com o dogma do pecado original. a saber. E por isso que ela ai nda fala intei· ramen te a litlguagem da metafísica. por via dedutiva. incapaz de exercer o bem e a verdade. em sua Apologia. Essas disciplinas dei­ xaram de esperar que a idéia d~ Deus as ratifique e legitime. Ela renuncia de mola próprio ao primado que até então reivin· dicava para si: em vez: de situar no absolu to a ordem de valores. cujo tom sobe à medida que o tempo passa .) poder por sua queda. que ele está rigorosamente ligado. As idéias te6ricas elaboradas pela metafísica do século XVII ainda estão forte­ !Dente lastreadas no pensamento teológico . o mesmo processo de "secu larização" que já observa· mos no do-:ninio das ciências da natureza. as idéias de verdade. que o século XVIII não formul ou espontancamente o problema da tcodicéia . uma "muda nça de sinal": a idéia fundadora passa à con· dição de fUlldada (Begrütldelen) e o que até então servia para justificar é agora o que exige uma justificação. nos tiesejos ou nas obras. com toda a sua orl· ginalidadc e independência. empenha toda a sua energia para sustentar que o ato de pecado reside nos pensamentos. simultA' neamente muito genético . muito especialmente.e muito caracterfstico do pensamento dessa época. a história . logo se destaca. nfio se rompeu totalmente a re lação entre a idéia de Deus. a arte escapam cada vez mais à dominação e à tutela da metafísica e da teologia tradicionai s. serve·sc de conceitos elabo· rados pela metaffsica. todas as outras cer. Todos consideram a idéia de um peccatum ariginale transmitindo-se de geração em geração como perfeitamente absurda. 8 contribuir para 11 !sua determinação com uma participação decisiva . Mesmo naqueles que tentam salvar 03 ele· mentos constitutivos dessa dogmática à custa de algumas modi­ ficações e reinterpretaç6es. pois. De fala. são propensas a modelar essa idéia segundo a OI f OnDa especUica de cedo. a idéia de que o homem perdeu todo :. por uma parte.ezas. A rejeição desse dogma constitui 8 marca característica da nova orientação da teologia do Iluminismo. Portanto. ti­ nha esgotado todas as possibilidades conceptuais . submete·se a certas normas provenientes de outros domínios. é rechaçada sem hesitação. Para Descartes e Malebranche. por outra. moralidade e direito. E. uma delas. E um pro­ blema que ele herdou dos grandcs sislemas do século XVII e que lhe fo i tra nsmitido sob uma fonna con dicionada por csses sistemas. não existe nenhuma solução do problema do verdade ql:e não tenha a mediação do problema de DeuJ: o c0­ nhecimento da essência divina constitui o princípio supremo do conhecimento donde decorrem . Assim se consumou.i re uma orientação intc1ectuill especificamente novlI.a filoso fia do Iluminismo nada acrescentou de essencial às suas idéias nem às suas perspectivas teóricas. O que é deveras notável é que.

em sua Filosofia da história. E essa perversão . O dogma não é a ignorância pura e simples mas a ignorância que se arvora em verdade.invcrsão e fnJsi · ficação dos verdadeiros critérios científicos . o protestantismo converteu·se na religião da liberdade. pois esta afela as próprias raízes da ré. têm por causa uma falsa direção da pesquisa. O inimigo da ciência não é 8 dúvida mas o dogma. vê-se dessarte reparada. passar de um sujei to a outro. polui a fome donde jorra a verdadeira religião. o combate prossegue entre Lutero e Erasmo mas. sob a égide da Renascença. nesse caso. dessa vez. nenhum perigo ­ por muito pouco que tenhamos consciência dela . não há dúvida de que O nosso saber sorre com tais insuficiên­ cias. vê a essência autên tica e a verdade do protestantismo.211 A idéia de tolerincia e a fundaç lo da "religiio natural" um princípio geral da fil osofia iluminista. A profund a ruptura que tinha oposto 8 Renascença e a Reforma. em vez de surgirem de uma insuficiéncia de saber. Assim se realiza essa concepção em que Hegel. Por outro lado. A ciência corri· ge por si mesma as faltas que comete. Com efeito.to. ele realizou a obra fundllmental na qUil1 todos os trabalhos ulteriores dev iam e 22 1 . desde que a deixemos seguir seu curso de maneira espontânea. Mas essa limitação não apresenta. E a mesma coisa vale para a salvação e a justi fi cação: assim como outrem não pode cometer por mim uma falta grave. Enquan­ to o conflito em torno do dogma do pecado original devia con­ durir na França a uma rigorosa separação da religião e da filo­ sofia. de um erro mas de uma imposlura. na realidade. não de uma ilusão involun­ lária mas de uma mistificação na qual o espírito cai por sua própria culpa e na qual se enterra cada vez mais profu ndamente. 13ayle é o primeiro pensador a adotar nitidamente essa p0­ sição. o ideal humanista de liber· dade c de dignidade humana. portan to. a luta contra os gri­ lhões da Idade Média. No seu Dictionnaire hístorique et critique. Muito mais graves são os erros que.sobrevém quando pretendemos antecipar o objet ivo a alcançar. que OS mais graves obstáculos com que nos deparamos na busca da verdade não são as imu fi ciências do nosso saber. unidas nessa luta: somente na base de seu mútuo acordo será possível repart ir seus respectivos val o r~ s e determi nar suas fron­ teiras respectivas. à consciência do ~ LI}e lto aiuante ~ não poderia transmitir-se fi sicamente. a idéia de protestantismo podia transformar-se na Alema­ nha até absorver as novas correntes intelectuais e as atitudes mentais que as tinham engendrado. que quer impor-se como verdade: eis o perigo que ameaça verdadeiramen te o conhecimento em suas estruturas mais profundas. em virtude do seu pro· gresso interno. Vemos. Hxá·lo an tes da investigação. No desenvolvimento interno do protestan­ tismo uma importante mudança foi assim realizada. o que verdadeiramente se opõe 11 fé não é a incredulidade mas a superstição. até de'iffiontar e ab. centenas de vezes citado sob diversas fonnas e com diversos propósitos. de que cada passo em rrente da ciência nos coloca peno­ 220 :e samente na presença de nossa incerteza e de nossas lacunas. tampouco pode adquirir por mim o mérito moral. que a ciência e a fé enfrentam um adversário comum : não existe tarefa mai s urgente do que a luta a travar necessário que ciência e fé estejam contra esse adversário. O que mais se deve temer não é a falta mas a perversão. Pois já não se Irala. pendendo a favor do último. e os erros em que ela pode envolver·nos eliminam­ se naturalmente. Ao reconciliar-se com o Humanismo.lOdomn a forma histórica do protestantismo herdada do passado para melhor valorizar a pureza do seu ideal primitivo. E essa regra não é válida apenas para a ciência mas também para a fé. A época iluminista ousa de novo valer-se desse postulado fundamental que deflagrara. Num certo sentído.

nenhum que o supere." Dessa frase. parte do princípio de que o conhecimento humano está sujeito às mais diversas ilusões. O mal fundamental que cumpre combater não é. No artigo " Pirronisl1lo " da Enciclopédia. ele declara q ue Bayle tem poucos concorrentes na arte dos raisonnemenrs e. Descartes. portanto. 1: aqui que o ceptidsmo de Bayle se enraíza e que ele revela sua verdadeira fecundidade. sua sign ificação eminentemenle positiva : "Não sei se não se poderia assegu rar que os obstáculos de um bom exame vêm menos de que o Espidlo está vazio de Ciência do que de estar repleto de preconcei tos. que Se encontra no verbete " Pelli son" do Dictionnaire. Embora acumule dúvidas sobre dúvidas. sem dúvida. Sapere aude ! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimen­ to! Tal é a divisa do Ilum inismo. é que irá fatalmente cair no erro e na incerteza. e que o julga­ mento é uma livre operação do entendimento. sobretudo. de deixar-se levar a pronunc iamentos sem dispor de premissas completas.ir buscar seus princfpios e suas justificações. o ate ísmo mas a idolatria. o Il uminismo é levado a postular a regra que. O próprio Diderot niio se ca nsa de repe ti r que a superstição é um pior des­ conheci mento de Deus ('. de um u maneira ou de outra . e a vontade possui o meio de evitar lodos os passos em ralso. ~o Compreender-se-á melhor o sentido e o conteúdo desse enunci ado se recordarmos os pressu­ postos metodológicos e epistemológicos em que ele se baseia . Ele pode e deve. um artigo do seu Dicionário é um pólipo vivo que a si lllesmo se fragmenta numa porção de outros pólipos. uma ofensa mais grave contra Deus do que o ateísmo." 3l Essa divi sa explica por 222 223 . lodos vivos e que se geram uns aos outros. Somente no caso de julgar com precipitação. razão e paixão . não a descrença mas a su perstição. com efeito. Ao reassumir O princípio cartesiano. ! à vontade que cabe dirigi r o curso do conhecimento. deixar em suspenso a sua decisão. A menoridade é a incapacidade de servir-se do seu entendimento a não ser sob a direção de uma ou tra pessoa. Essa máx. ao passo que o erro significa uma falta de julgamento. porquanto esse conteúdo só pode subsisti r em sua p ureza. Só do ent endimento de­ pende ceder ao impulso dos sentidos. abandonar-se às seduções da imaginação ou recusar-se a anuir àq uel e ou a estas. contém a essência autêntica da Aulkliirung: "O Ilumi­ nismo representa o homem saindo da condição de menoridade em que se mantinha por sua própria culpa .evita toda e qualquer crítica explícita desse conteúdo. mas tcm a obrigação de evitar q ue essas ilusões o desviem do caminho da verdade e o façam mergulhar no erro. que não são apenas defeitos do entendimento mas refl etem. o con teúdo da fé oão é salvo mas destruído. Eles já aparecem nitidamente em Descartes. Com tais procedimentos.ima de Bayle é uma antecipação da tese cen tral do enciclopedismo francês em matéria de crítica religiosa. a quem cabe toda a responsabilidade pelo ato de julgar. uma vontade defeit uosa . poder-se-ia fazer a divisa de toda a sua obra . Diz-se que está em condição de menoridade por sua própria culpa quando a causa não é o defei· to do entendimento mas s6 lhe falta a decisão e a coragem para usá-lo sem ser dirigido por quem quer que seja . aquela que amon toa confusa mente ycrdades e qu imeras. se os dados de que dispõe são insuficien tes para consti­ tuir um verdadeiro julgamento e atingir uma perfe ita certeza. Pois a ilusão provém dos sentidos OU da imaginação. A atitude que ele combate com todas as suas forças é aquela para a qual lodos os meios são bons para consolid ar a fé. no sentido de que a ignorância está menos longe da verdade do que o pr econceito. Diderot refere-se-Ihe assi duamenle. não pára de progredir segundo um plano melódico . ao lançar as pcdras fundamentais do racionalismo. lucidez e precon­ ccito. Bayle acha por bem não locar no conteúdo da fé . segun­ do Kanl. que é ter sempre presente essa regra uni versal e absoluta de só pronuncia r julgamentos ali­ cerçados em idéias claras e dist intas. no interesse superior da obra apologética . pondo como única condição que sejam uti­ lizáyeis.

Todos os fracassos que o conhecimento sofre não são faltas: há aqueles que apenas exprimem os limites da nossa própria natureza e que. da graça divina . não por tai s limi tações do nosso saber mas.mples. força estranha. é essa fé "cega~ que se fccha deliberadame nte a toda investigação e se coloca em posição defensiva contra todo espírito de livre exame. é realmente determinante e característica. como de si mesmas. da pu ra especulação teórica. A certeza religiosa deixou de ser a dádiva de uma potência sobrenatural. até mesmo as fa lhas e imper­ feições do pensamento. Apresen­ ta·se. somente ao homem com­ pete eJevar-se até essa certeza e nela permanecer. Somente em alguns pensadores insignifica ntes . todas as exigências concretas e práticas que assumiu. por uma ncessidade in· terior. A consciência religiosa adquire uma nova form a. subscrevendo sem reservas ao primado do pensamen to. O homem não deve ser mais dominado pela religião como por uma. a forma e o princípio. por 225 224 . tampouco me condenará às penas eternas por ter sido um néscio. Muito pelo contrário. uma conseqüência que deve parecer bizarra a todos os que partem de uma concepção rotineira da época iluminista . Se existe um predicado de que o Ilumini smo se vê atribuído ou que ele mesmo se atribui com perfeita convicção. que se interpreta de modo totalmente errôneo a tolerdnda cuja necessidade é proclamada pela filosofia iluminista. Esse ser a quem o próprio Dcus impôs certos limites intransponíveis. essas lacunas do saber. é a tendência inversa a que predomi!la : o princípio de liberdade de crença e de consciência é a ex:pressão de uma nova força religiosa positiva que. pela forma­ ção e desenvolvimento de seus ideais religiosos . A religião não deve ser mais algo a que se está submetido: ela deve brotar da própria ação e receber da ação suas determinações essenciais. Diz Diderot: "O Au tor da natureza. pois.} reco­ mendação de uma atitude lassu e indiferente a respei to das ques­ tócs religiosas. mas naquela segurança afetada que se vangloria de sua própria opi ni ão e tripudia sobre todas as outras. Vê-se. os ~cul os das guerras de religião. Essa visão das coisas não é canCionada. No conjunto. A tolerância é uma outra coisa muito diversa d. portanto. é o de ser. que se desconhece. Essa mudan­ ça decisiva produz-se no momento em que. Essa {onna não podia realizar-se sem uma inversão com­ pleta do sentimento religioso e dos fins da religião. se· gundo parece.. deve assumi·la e criá-Ia ele próprio na sua liber~ dllde interior. que não me recompensará por ter sido um homem de espfrito. pela loucura de pretender libertarmo-nos delas e de ousar. atribuindo-lhe um sentido pu ramente negativo. o pensamento iluminista esforça-se por fundar uma" re­ ligião nos li mites da simples razão~. Desse princípio teórico decorrem. pelo contrário. mas busca também. o que deve figurar no registro ético. porém.pelo contrá rio. uma fé que não se contenta em limitar o conteúdo do conhecimento mas quer ainda destruir nele a natureza. a época do infelecttuJ/ismo puro. é a tendência oposta a que nitidamente domina: sem dúvida.m. de última orde.que a filosofia do lIuminisrno julga e aprecia de modo direreme as diversas circunstâncias suscetíveis de engendrar o erro. Num sentido ético e religioso. en tretanto. " 3:! O que conta.imento . a fim de se afirmar de modo claro e firme. surge um pUtO ethos religioso. todas as conseqüências que o século XVIll dele extraiu. é possível encontrar uma lorma de defesa da tole­ rância que se resolve num indiferentismo puro e si. em con­ trapart ida. no lugar do palhas religioso que agitava os séculos precedentes. fonn ular julgamentos so­ bre o universo e sua origem . com uma segu rança dogmática. como poderia ele responsabílizá-Io por manter-se dentro dos limites que assim lhe foram designados e por não almejar a onisciência? Temos que responder. A verdadeira descrença não se manifesta na dúvida . a humi ld:lde simples e sincera do conhe<. na dúvida exprimem-se a prudênci a. são necessários e inevitáveis. não contam aos olhos do Se r supremo. para o Sécuio das Luzes.

outra parte, e com empenho não menor, emancipar-se da domi­ nação do entendimento. O que é que ele não se cansa, justa­ mente, de censu rar no si stema dogmático que tanto combate? De que lhe falta o próprio núcleo (Mittelpunkl) da certeza reli· giosa, aO considerar que a fé consiste em ter por verdadeiras determ inadas teses doutri na is e ao pretender encerrar a fé nos dogmas. Tal limitllção não é possível nem desejável: fari a da religião urna simples opinião, privando-a de sua virtude própria, que é prática e moral. Quando essa virtude é aluante, quando eL a se manifesta em sua força e em sua verdade, estamos muito além das representaçóc:s e dos conce itos religiosos. Essas repre­ sentações e esses conceitos nunca devem ser tomados por outra coisa se não O manto ex terior de que se reveste a certeza religiosa. São complexos e ambíguos, mas não temos por isso que deses­ perar da unidade da religião. pois a diversidade apenas diz. res­ peito aos sinais sensíveis, não ao conteúdo supra-sensível que bu sca nesses sinais uma figuração necessariamente inadequada. A teologia do Iluminismo professa , portanto, O mesmo princrpio 'que Nicolau de Cusa form ulou três séculos antes; adere com toda a firmeza ao partido de uma religião única dissimulada sob a diversidade dos ritos e conflitos de representação e de opinião. Mas, a partir da Renascença, o horizonte ampliou-se muito e é um círculo ainda mais vasto de fen ômenos religiosos que ela quer englobar nesse mesmo princípio. Já no De poce fidei, O combate pela verdadeira religião desenrola·se não s6 entre cris­ tãos , judeus e muçulmanos, mas também com os pagãos, os tilr­ taros e os citas, que não pretendem menos do que os outros participar do verdadeiro conhecimento de Deus. Entretanto, no século XVIII, são OS povos do Oriente que retêm a atenção e exigem a igualdade de direitos para as suas convicções religio­ sas." Leibniz já cítara a civili zação chinesa; Wolff. num discurso sobre a fil osofia chinesa, celebra Confli cio como um profeta de grande pu reza moral e coloca-o a par do Cristo. Voltaire retoma

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esse rema e converte-o no argumento supremo a (avor do rato de que o próprio âmago da religião e da moralidade não depende das representações particulares da fé . Nas Cartas persas. de Montesquieu, a comparação entre o Oriente e o Ocidente rara­ mente se decide em favor deste último: a observação cândida e o senso crítico do persa descobrem por loda parte o arb jtrârio, o convenciona l, O contingente, no que, segundo a 6plica do próprio país. passa por ser o próprio modelo da sabedoria c da santidade. Por esse meio foi criado um certo gênero literário que serviu depois, inúmeras vezes, para a crítica e a polêmica. Mas essa polêmica não pretendia ser, de manci ra nenhuma, ape­ nas destrutiva; ela quer servir-se da destruição como de um meio de construção. Partindo da estreiteza e das Iimitaçõcs do dogma , o homem avança para a liberdade de uma consciência religiosa verdadeiramente universal. DiderOl, em seus Pensamen­ tos filosóficos, forneceu desse sentimento da época a fónnula mais vigorosa e mais n(tida : " Os homens baniram a Divindade dentre eles; relegaram·na para um san tuário; as paredes de um templo limitam-lhe a visão; nada existe do outrO lado. Que in­ sensatos sois! Destruam esses recIntos que cerceiam as vossas idéias; ampliem Deus; vejam-no por toda parte onde ele está, ou digam que ele não existe." U Essa luta peja "ampliação" da idéia de Deus em que o século XVlll reuniu todas as suas forças intelectuais disponfveis não preci sa ser aqui descrita em deta· lhe. Basta indicá-Ia em seus gra ndes traços, destacar· lhe os ternas gerai s. As armas dessa luta já tinham sido forjadas desde o século XVI( : é uma vez. mais o Dicion6rio de Bayle que abastece o arsenal de toda a filosoFia il uminjsta. Nos escritos que publi­ cou contra Luís X IV por ocasião da revogação do -edito de Nantes, Baylc começa por uma reivind icação especial: o reco­ nhecimento da liberdade de crença e de consciência para Of adeplos da Reforma ; tal foi o primei ro objetivo da sua lUla. M a~ a amplitude da demonstração que ele consagra a essa reivindi­
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cação supera de muito a sua tarefa imediata ; suas posições tor­ nam-se tão contundentes que geram o escândalo até entre os seus aliados e asseguram·lhe o surgimento de um adversário fanático na pessoa de Jurieu. um dos mestres da teologia reformada. Bayle, com d eito, insiste em afirmar que a sua apologia da liberdade religiosa não pretende servir a uma fé particular mas propõe-se a um rim universal . puramente filosófico. e que o princípio que ela proclama vale imperativamente para todos . sem a menor disti nção de convicções religiosas. Ele denuncia 11 restrição como absurda e intO lerável num sentido puramente ético. em runção dos critérios da razão moral: nenhuma auto­ ridade religiosa tem, de uma vez por todas, o direito de reco rrer· lhe. Cumpre manter uma disti nção radical entre moralidade e religião. Quando elas entram em conflito, quando o testemunho das Escrituras contrad iz di retamente o da consciência moral, convém resolver o problema de tal maneira que seja mantido um primado absoluto pn ra a consciência. moral. Se esse primado ror abandonado, terá que se renuncia,' também a todo critério de verdade religiosa e ricamos, nesse caso , desprovidos de toda e qualquer rererênci a pat'" o julgar o valor de . uma pretensa reve· loção e até mesmo , no interior da religião, para distinguir a verdade da impostura. Portanto, importa rejeitar o sentido lite· ral da Bíbli a toda vez que aI se encontra expressa a obrigação de um ato que contradiz os princfpios elementares da moral. f; nesses princípios e não na simples transmissão do sentido lite· ral q ue residem as verdadeiras máximas imprescri tíveis da exe­ gese, aquelas que jamais devem ser descartadas em provei to de um sentjdo li teral pretensamente assegurado. " I! preferível re. jeitar o testemu nho da critica e da gramática do que o da razão." O fio condutor de loda a interpretação da Bíblia será, portanto . esta regra : " Todo O sentido literal que contém a obrigação de praticar crimes é falso." as A máxima reguladora está assim poso tulada, a filoso fi a do Il um inismo nada tinha a acrescentar ao
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seu conteúdo; bastava aplicá·la a t~ as suas últimas conseqüên­ cias para se atingir o objetivo. No entanto, restava ainda uma tarefa por realizar, da qual Voltaire se encarregou : a de trazer para a luz o tesouro soterrado no Dicion4rio de Bayle sob uma avalanche de erudição histórica e teológica . O principio da cri­ tica ética da Bíblia, que tinha sido tão veementemente comba­ tido no século XVII e tão severamente condenado pelos doutri­ nários ortodoxos, tanto do lado protestante quanto do lado cat6­ lico , pertence doravante, graças a Bayle, ao acervo comum das aquisições do século. Quando, mais tarde, Volta ire fizer um exame retrospectivo desse conflito, em 1763, no seu T ratado sobre a tolerância, isso ocorrerá com O sentimento inabalável de uma vitória alcançada, enfim, após luta acesa. Vivemos numa época, declara ele em substância, em que a razão penetra cada dia mais nos palácios dos nobres e nas lojas dos burgueses e dos mercadores . Esse progresso não podia ser impedido: os frutos da razão alcançarão sua plena maturidade. Pois é uma lei do mundo intelectual que a razão só existe e subsiste se for re­ criada dia após dia. "Os tempos passados são como se nunca tivessem existido. l! preciso partir sempre do pontO onde se está e daquele a que as nações chegaram ." Em seu laconismo e em sua exatidão, essa fórmula é daquelas que só Voltaire sabe im­ provisar: ela condensa , em seu brilho. todas as convicções e tendências da filosofia iluminista. Aliás. o T rotado sobre a tole· rand a é notável pela seriedade, seren idade e realismo absoluto com que Voltaire trata o assun to, qualidades em que ele não é pródigo nos seus outros escritos sobre a religião. Corno ele tem em vista, nesse caso , um objetivo perreitamente concreto, e ao qual pretende servir, porquanto luta por uma revi são do pro­ cesso de Jean Calas , o seu estilo adquire uma austeridade e uma força muito especiai s. Renuncia a fazer espírito e enttega-se menos do que em out ros escritos às digressões polêmicas. O ethos pessoal que se esconde atrás das invectivas satíricas de
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Voltaire raramente foi levado a uma expressão tão pura e tão vigorosa qua nto nesse es<: rito da velhice. A tolerância . que os fanáticos da religião ousam denunciar como um erro perigoso e uma exigência momtruosa, ! apresentada por Vohaire como "o apanágio da razão " . Não se trata de uma exigência especial que seria apresentada pela filosofia ; exprime o próprio princípio da filosoria, contém sua essência e sua justificação. Ora, ! justa. mente sobre esse ponto que a fil osofia se irma na à religião. -e. obra da fil osofia e o seu maior triunfo que o tempo das guerras religiosas tenhlt agora findad o, que o ju deu , o católico, o lute­ rano, o grego, o calvinista e o anaba tiSlfl vivam juntos frater­ namente e sirvam de maneiro análoga ao bem comum. A filoso­ fia, só a filosofia, essa irmã da religião, desarmou as mãos que a superstição mantinha por tanto tempo e.nsangüentadtl s: e o espírito humano, ao despertar de sua embriaguez, espantou-se com os excessos fi que fora arrastado pelo fanati smo." 36 Ainda em nossos dias, não faltam os iluminados e os fan áticos ; mas deixem a razAo agir e o mal será curado. lenta mas inexoravel­ mente. "A razão é suave, ela é humana; ensina-nos a tolerância e aniquila a discórdia; reforça a virtude e torna amável a obe­ diência às lei s, em vez de lhes obedecer pela coação."
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Por esse lado, uma vez mais se manifesta, portanto, que os valores intelectu ais puros são progressivamente sentidos como insuficientes. A verdade da religião não pode ser estabelecida segundo critérios puramente te6ricos ; não se pode decidir sobre o seu valor pondo de parte a sua eficácia moral. -e. esse o signi­ fi cado em Lessing do ap61ogo do anel: a verdade última e profunda da religião só se prova desde o interior. Toda a de­ monstração extrínsecn é insuficiente, quer se trate de uma demonstração empíri ca , llpoiando-sc em fatos históricos, ou de uma demonst ração lógico-metafísicn . escol'ada em razõcs abstra­ tas, visto que, em definitivo, a religião é sempre e tão-somente 230

o que agI!; a verdade de sua essência só se realiza no sentido c na ação. Tal é a pedra de toque que atesta a autenticidade dt: toda religião. Diderot retomará esse argumento capital pura provar a superioridade da religião natural sobre todas as reli­ giOes "positivas ". ~ ocioso, observa ele inicialmente, esperar um'l decisão direta da competição que opõe as diversas religiões his­ tóricas, pois cada uma delas reivindica SÓ para si uma superio­ ridade absoluta que redunda na rejeição dogmática de todas as outras crenças. Mas essa simples negatividade tem, não obstan te, seus limites . Por muito exclusiva , por mais profundamente hos­ til que toda religião possa ser em relação às outras, nenhuma tem, contudo. O poder nem a vontade de romper completamente os vfnculos que a unem à religião natural. A essa terra natal de toda religião, cada uma sente-se ligada de algum modo e nenhu­ ma jamais se deixará desenraizar de fodo . Apresentemos, pois, a uma ou a outra das diversas doutrinas reli giosas a questão de saber à qual das ou Iras doutrinas. abstração feita, bem enten· dido, da 5U.!! própria supremacia, ela atribui o segundo lugar. A resposta que obtemos então é perfeitamente esclarecedora; esse segu ndo lugar nunca é reservado a uma qualquer das outras religiões positivas mas sempre e unicamen te à religião natural. A causa é, portanto, julgada, para quem . pelo menos, quer consi­ derá-Ia sem prevenção, desde um ponto de vista puramente fil o­ sófico. Sabe-se agora onde residem a universalidade e a etern i· dade verda deiras: "Tudo o que começou terá um fim; e tudo aquilo que não teve começo não findará . Ora , o cristi anismo começou; ora, o judaismo começau; ora, não existe uma só re­ ligião sobre a terra cuja data não seja conhecida, exceto a reli­ gião natural; portanto, somente ela não acaba rá, e todas as OULTas passarão". Judeus e cristãos, maometanos e pagãos, Lodos são os herét icos e os cismátü;os d2: religião natural. Esta última é, portanto, a única suscetível de uma verdadeira prova , pois a verdade da religião natural está para a religião revelada como 231

o testemunho que me dou a mim mesmo está para o testemunho que recebo de outrem, e aquilo que sinto imediatamente em mim está para o q'.le .::::nheci através de outrem; "como o que se encontra em mIm escrito pelo dedo de Deus está para o que homens fút eis, supersticiosos e mentirosos gravaram no perga­ minho e no mármore; como o que contenho em atim e por toda parte encontro inalterado está para o que se encontra fora de mim e muda com os climas; como o que aproxima o homem civilizado e o bárbaro, cristão, o infiel e o pagão, o fi1ósofo e o povo,. o sábio e o ignorante, o ancião e a criança, eslâ para o que, por outro lado, distancia o pai do (ilha, arma o homem contra o homem, ex põe o s.ébio e c erudito ao ódio e à perse­ guição do ignorante e do ranático ". E; em vão que se objetará ainda que, sendo a mais antiga, a religião natural também deve ser a mais imperfeita: donde veio a idéi'a de que o primitivo não é o mais puro, o autêntico - o a priori de toda religião? E mesmo admitindo o princípio de uma efetivação cabal, de um aumento de perfeição no transcurso da história , não ~ coisa certa que o debate desenrole-se para vantagem dessa ou daquela reli­ gião positiva e de seus artigos de fé. Onde poderiamos obter a certeza de que chegamos ao fim desse desenvolvimento? Se é verdade que a lei natural pôde ser efetivada pela lei mosaica e a lei mosaica pela lei cristã. por que esta última não seria, por sua vez, eFetivada por uma outra que Deus nuo teria ainda reve­ lado aos homens? S1 Tais são as teses de Diderot em Da sufi­ ciência da religiãc natural: vê-se a que ponto elas estão aparen­ tadas com as que Lessing sustentará. I! igualmente em Lessing que Diderot nos faz pensar quando distingue estritamente entre provas históricas e provas racionais, e ao insistir cuidadosamen­ te em que os testemunhos de facto, por muito seguros que pos­ sam parecer, jamais alcançam um grau de certeza suriciente para serem usados como provas de verdades eternas e necessárias.38 Assim se encontra cada vez mais abalada a força das provas

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teóricas da existência de Deus sobre as quais a teologia c' 11 metafísica do século XVII tinham alicerçado o seu sistema: o centro de gravidade da certeza religiosa desloca-se ptltil 11m ponto onde esse gênero de prova é inaplicável e não aprcsentu mais, aliás, qualquer espécie de interesse. A mesma tendência fundamental manifesta-se, no essencial, no cesenvolvimento do delsmo inglbs, apesar da complexidade e das flutuações das diversas argumentações. O deísmo é, em pr!meiro lugar, um sislema rigorosamente intelectualista que quer banir os mistérios, os milagres, 05 segredos da religião a fim de colocá-la sob a luz clara do saber. Christianity no! mysterious, o simples título da obra de Toland (1696), basta para indicar o tema que passou a ser incessantemente debatido no seio do movimento deísta. A importância filosófica do deísmo depende, sobretudo, do novo princípio que sustenta na posição do pro­ blema religioso . A ql!eslão do conteúdo da fé , declara·se logo de início, é indissociável da questão de sua forma : as duas questões devem ser resolvidas simultaneamente. A questão não se estriba apenas no con teúdo da verdade desse ou daquele dogma; ela envolve também o modo da certeza religiosa como tal. ToJand pensa poder apoiar-se em Locke, poder introduzir diretamente suas idéias e os princípios da teoria do conhecimen­ to de Locke no problema da religião. O que vale para o conhe­ cimento em geral não deve, com efeito, aplicar-se igualmente ao conhecimento religioso em particular? Locke definia o ato de conhecer em geral como O ato de adquirir consciência de um acordo ou de um desocordo ex.istente entre as idéias. Resulta dessa definição que o conhecimento contém, por sua própria natureza, uma relação e que, por conseguinte, os termos dessa relação devem, antes de tudo, ser dados à consciência e clara­ mente compreendidos sob uma forma ou OUlra. Se os termos que a fundamentam não são compreendidos, a própria relação perd~
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à custa de outros . não um conteúdo que ultra­ passa. Se se objeta que se pode perfeitamente estar seguro da existência de uma coisa sem conhecer um só predicado dessa coisa. à de religião natural no sentido em que uma e oulra se distinguiriam por seus conteúdos específicos. se reservasse uma e outra para um tempo e um povo determinados. Deus não seria Dcus se pudesse. Para que um tal ser possa verdadeiramente ser pensado. se não fosse representado por um fenômeno qualquer? O "irracional" absolUlo. sem que se possa dizer nada acerca de sua natureza. ou seja. temos que nos desfazer de todas as restriçõcs . A revelação não é uma causa cspecífica de certeza mas. visto que. de todos os pon tos ele vista. porém. nunca absoluto. Começa por salient. ignorando. A idéia de revelação (OltellbarulIgi não se opõe. todas as possibilidades de entendimento. que são claramente inteligíveis. Não é o conteúdo que elas manifestam o que as distingue mas a natureza e modo dessé! manifestação. c_ orno quer. Il munifestação exterior da vontade de um ser onisciente e in fj · nitamente bom. a Qutra. não comporta justamente uma lal " presença" : logo. Está excluída a transcendênci a absoluta desst:s objetos: como poderia a nossa consciência cognoscente. O mais importante e essencial critério para a auten ticidade de toda revelação só pode ser. crente e judicativa manifestar-se a res­ peito de um objeto se esse objeto não estivesse. segundo Toland . abando­ nando a ou tra às trevas e à cegueira . Entre a lei cristã e a lei natural não existe. em geral . que comporte certas determina­ ções que se "compreendem" . Quan­ to à palavra "mistério". é tão impossível afirmar que ele é quanto determinar o que de é. não estaria ele justamente nesse caso manifestando tal limitação? Uma vez que Deus é eternamente o mesmo e que a natureza não é menos una e imutável. deve ter signjfi cado originariamente uma doutrina que. sem contradizer por isso a razão. permanecer es­ tranho tanto à fé quanto ao saber . mesmo que essa espécie de conheci­ mento fosse poss(vel. por­ tanto. uhrapDssando o entendimen· LO humano. a unive rsalidade que a eleva acima das limitações locais e temporais. por exemplo. O cristianismo é verdadeiro no sentido e na medida em que preenche essa condição primordial. cuja prova fi nal cumpre buscar na razão. Ex. ° Em Christianity as old as lhe Creu /iotl (1730). dis~imular de algum modo a sua própria natu­ reza ao esclarecer apenas uma parte da humanidade. entretanto.i ste e subsi ste por não estar vinculado a nenhum espaço nem a ne­ nhum tempo particulares . quanto ao conteúdo .todo o seu significado. Se Deus dissimulasse uma parte qualquer da sua essência e da sua potência. "Quem poderia vangloriar-se de ser mais sábio do que o seu vizinho porque sabe de ciência infalível que existe na natureza algo que tem o nome de Rlie/ri. Quer indicar dessa maneira um conteúdo inacessível a um certo modo de entendimento. simpksmcnte. o que escapa por princípio a toda a compreensão deve . T indal parte do mesmo pri ncípio. continha em si uma verdade conhecida que . O que é misterioso. 234 135 . é imprescindível que o seu objeto possua um sentido qualquer. deveria manter-se secreta para uma parcela da huma­ niclade. aos obietos da fé religiosD um prindpio essencial e uma limit ação necessária. portanto.r:r que religião natural e religião reveiada não se di stinguem absolu tamente por suas respectivas substâncias mas tão-só pela maneira como elas são conhecidas dos homens: uma é a manifestação interior. uma forma particular de comunica­ ção de uma verdade. de alguma ma­ neira. de todas as lim itações do antropomorfismo. portanto. o dogma da "graça eletiva".e por ser tão velho quanto O mundo. presente. qual significado poderia ele ter para nós? A menos que se pretenda que a fé resulte em si mesma total­ mente vã e absurda. Essas considerações puramente metodo­ lógicas fornecem. por um motivo qualquer. tal argllmcnto não se sustenta. no que consiste esse Blie/ri"? 39 Toland con­ clui que o mistério só pode existir num sentido relativo. é necessário que a reve­ lação dissemine sua luz igualmente por todos os lados.

o rapto etc. nenhum possui . A considerar apenas o seu conteúdo te6rico. Na Ale­ manha. quanto a mim. em relacionar normas morais de uma validade e de um alcance universais com o seu uutor. uma ati­ tude de revolta em rel ação ao espírito das guerras de religião dos séculos passados. os quais geram uma infinidade de outras abomi­ nações: a hipocrisia . o que causou uma fortíssima impressão na atitude do deísmo foi a sincera vontade de verdade e a seriedade moral com que abor­ dou a crítica do dogm a. Por oonseguinlc.e os argumentos pura­ mente teóricos pelos quais O deísmo trata de apoiar a defesa dos seus pontos de vista são. repleta de espíritos fort es e de deístas.assim escreveu no scu comentário contra a revogação do Edito de Nanles . e por isso profetizou a vitória 236 do ethos delsts. um cunho verdadeiramente original . dos massacres. primeiro. conforme reconhece a argumen tação de Bayle . O que causa surpresa é que não existam mais. a intensidade dessa influência é dificil mente concebível. a profanação S<lcrflega dos sacramentos etc. Essa nova proclamação (a repub /icatiol1 of the law of nature) dirige-se ao conhecimento do homem. Encontrou . uma nostalgia profunda dessa pax lidei que a Renascença tanto ambicionara e prometera mas não lograra estabelecer em parte alguma . sobretudo. Mais do que todos esses argumentos . pode-se acompanhar de ano a ano o avolumar da onda deísta. con siderando-as a expressão da sua vontade. as quais oon­ têm a semente inextirpável da guerra .: 237 . na hi stória das idéias alemãs do século XVIII. o homicídio. com efeito. já tinha reco­ nhecido com nitidez essa situação. tem em vista a sua moralidade.a menor oposição: a lei cristã quer apenas ser a reproclamação do que a lei natural tinha estabelecido e prescrito. o centro de gravidade está agora deslocado no plano puramente intelectual para o da "razão prática" : o deísmo " mo­ ral" tomou o lugar do deísmo "construtivo" . aquela que supera todas as outras em valor e em certeza.. o exílio.no desenvolvimento do deísmo inglês..40 A extraordinária influência que o deísmo inglês exerceu sobre o conjunto da vida intelectual do século XVIII assenta essencialmente nessa nova orientação. Há quem se surp rccndu mas. nas guerras de religião que Deus se nos revela em sua essência e em sua verd ade mas unicamente na paz da fé . que se situa no ponto de partida do movimen to deísta. Tindal avizinha-se da defi­ nição que será ulteriormente retomada ipsis verbis por Kant em Religion jnnerhalb der Grenzen der h/assen Vernunft [A reli­ gião nos limites da simples razão1.. Portanto. mas. em face tias devastações causadas no mundo pela religião. o cristianismo representa a reve­ lação verdadeiramente infaUvel. eviden temente. Entre os mai s destacados pensadorcs desse movimen­ to . um outro adversá rio na Alemanha: não apen as uma ortodox in e uma hierarquia eclesiástica esforçando-se. l! aí que reside a sua potência especí­ fica." e~ t r. oontesláveis e restrin­ gem-se a meias verdades. Segundo Tindal. a religião oonsiste em · reconhecer nos nossos deveres os mandamentos de Deus. à extorsão. e a extinção que ela acarreta pelas oonseqüências quase inevitá­ veis de toda sorte. com freqüência." 4 l Na origem do deísmo encontramos. aquela que lhe incute um impulso interior. é também a esse tema que o defs mo deve a continuidade de sua penetração . por reprimir o livr. Nas revistas. mesmo .segundo a sólida convi cção deísta . uma verdadeira profu ndidade. "A nessa época" . com toda a sua auto­ rid~de e toda a sua sede de domioação. a bibliografia e as resenhas criticas das obras dos "livres-pensadores ingleses" passam a merecer um capítulo es­ pecial e regular Y Mas é verdade que a luta pelos direitos da "religião na tural " e pelas relações a estabelecer entre razão e revelação nunca se revestiu na Alema nha da acuidade q ue co­ nheceu nOs círculos intelectuais franceses. Bayle. Não é. ao autorizar para sua prosperidade temporal todos os crimes imagináveis. das injus­ tiças . Assim. Deus é bondoso demais para ser o autor de coisas tão perniciosas quanto as religiões positivas. porém .

H A autoridade dessa instância pretensamentc "objetiva" é recusa­ da pelo apelo à subjetividade como princfpio autên tico e verda­ deiro de toda a certeza religiosa. A tendência profunda da filosofi a de Lcibn iz. má-los e de reconc iliá-los.ni ficação única da verdade reJj. permanece viva nesse sentido . Entretanto. portanto. Reimarus pôde retorquir· lhe q ue até mesmo essa comparação tem seus li mites . de aproxi. sem o qual esta jam ais poderia. sem dúvida. afastando do dogma tooos os elementos que não são suscetíveis de ser assim demonstrados e esforçando-se. resultará e m conjunto completo. em dar nex ibilidude a um sistema religioso que j á contém os numerosos germes de um novo modo de pensar. diz JenlSlIJcm. certo dia. giosa. Não se tralit de incitar e5sas duas forças a combaterem-se ou a rivalizattm mas de associá-las a fim de que seu acordo se torne manHesto. como em Loeke e Lcibni z. uma si. amplo espaço para uma ortodoxia que conservava uma fé inaba­ lável na revelação. De resto. a comparecer perante o tribunal da razão e a negar a necessidade da revelação como fo nte especffica de conhecimento.!l.movimento do pensamento. chega-se II contestar. O conteúdo da revelação é assim substancialmente reduzido. Scm dllyida. Se é certo que os ó rgãos da percepção tomam-se mais penetrantes graças ao telescópio e ao microsCÓpi o. Tinha sido assim que a exi­ gência fundamental do deísmo vencera a resistência da pr6pria teologia e a penetrara totalmente . No sistema de Christian \Volff tampouco se chega nunca a umu separação brut ul entre o conteúdo da fé e o do saber. ao mesmo tempo em que a pr6pria idéia de revelação ainda permanece intata. através de pc:iquisas de história dogmática. pelo contrário. ou sÓ obscuramente poderi a. Spalding. tende a procura r seus fu ndamentos mais nas certezas íntimas do que em tal o u tal fato histórico. Q uando Sack declarou. de sua cooperação. di scernir as verdades mais importantes da religião . do seu lado. à prova propria· mente si logística. na qual devem apoiar-se todas as provas da religião. Razão e revelação süo reconhec id as como fontes origi­ náriu do conhecimen to: longe de se comba terem. desse simples rCliultado. A fil osofia le ibniziana de· sempenha na Ale manha o papel de um meio inte lectual onde se realiza a evol ução do pensamento religioso e esse meio tem o pode r de abarcar os pensamentos mais antagônicos. mas ninguém pretendc jamais que esse conte údo possa ser ob!!! exclusiva da razão e não comportar nenhum c1 emento supr a­ racional. Sack. sua tarda consiste. elas devem completar-se. E a expe riência essencial. persuadir·se de que. A razão não serve apenas para sustentar e provo !' formalmen te um conteúdo de fé já dado e confirmado por outras fon tes . estranhos à pureza ini­ ciai da fé. é essa paz da a lma que nos torna mais ditosos do que ja mais poderia ser con· seguido por essa fac uldade puramente teórica que é a razão. que chegará a in­ timar o conteúdo da fé. entre revelação e razão. anies. No seio da escola wolffian8 havia. por denunciá-los como aditamentos ulteriotts. como um todo. de modo quc há apenas um passo ma is a dar para eliminá-la explicitamente . o cont-. q ue a revelação era o "telescópio da razão". ela já nio tem outro papel senão o de confirmar e sa ncionar pttcisamente aquelas verdades que são evidentes para a razão e se ha rmonizam ple namente com esta. Tralll-se sempre. de pon­ derar euidadosamentc os respecliyus direitos de um lado e de outro e de os destrinçar. Jerusalem e outros .a cha­ mada "neologia " representada por homens como Semler. à demol1straçiio s/rielo scnsu.:tklo da fc por liua inacion alidade. a inda que pouco a pouco se modificasse a forma sob a qual essa fé era apresentada e cada vez ma is se im­ pusesse a necessidade de um método demonstrativo_" A tendên­ cia dos autên ticos teólogos" modernos" na Alemanha .vai muito além. (l ela se recorre também para efetuar a de­ 238 monstração desse mesmo conteúdo. é 6byio que não podem ser su­ H 239 . Esse passo será dado pelo subseqüente racionalismo teológico. opõe-se cada yez mais a prova emplr ica q ue. A minha expcrienci a é a mi nha p rov!l". a tendência para a "hu nno nia".

no domínio espiritual. do puro conhecimento dos fatos . essa pretensão re­ duz-se a nada. de verdades a priori. 4 ' Entreta nto. Etc r. é uma "verdadeira máquina de raciocinar" (une lIraie lnt1chil1e à raisonnemems).ão ataca o delsmo nem do lado da razão nem do laco da revelação: resolve simplesmente apreciá-lo se­ gundo o critério da experiênca. Um dos adversários mais obstinados desse sistem a foi quem. por sua parte. Mas. declara ele em sua Carta inglesa. onde o lógico e o mctaffsico fracassara m. vemo-Ia perder toda a aparência de ordem e de raciona· lidade . Convence-se então de que o orgulhoso edifício do deísmo assen· ta em alicerces de barro: a "natureza human a" sobre a qual se pretendia fundar a religião natural não passa de mera ficção. Mas eis que de súbito o sistema ameaçado da ortodoxia recebeu uma novôJ e inesperada ajuda. ti categoria de um dogma? l! contra esse dogma que se ergue a crítica de Hume. humana. de uma hipótese? E o defeito fundamental do de{smo não consiste em confiar. com efeito. as fra quezas da ortodoxia. ela própria não 240 241 . e torna mais visíveis. ino­ pinadamente. da idéia de que existe umu "natureza humana H. ne· nhuma significação nem necessidade a priorj. dot<ldo de certos conhecimentos fundamen tais tanto do gênero teórico quanto prático."o àe provas parece resvalor sobre o defsmo sem O arranhar. vai triunfar o adversário irredutível de todo dogmatismo lógico e metafísico. A medida que se vai penetrando mais profundamente nessa naturezA . ser relacionado e afe­ rido pelas faculdades naturais do espírito . talvez. aprOpriada para as tardas mais difíceisP E Voltaire jamais desdisse essa SU2 apreciação: não chegou até. Anthooy Collins observa ironicamente que ninguém duvidara jamais da existênci a de Deus antes de Clarke ter decidido provar essa existência. Contudo.~ s Foi assim que o movimento deísta rompeu finalmente todos os diques e levou de roldão todas as defesas que se tentava opor. Temos o costume de considerar o "prin· dpio de causalidade " como a regra suprema de todo o nosso conhecimento teórico. mas um fervilhar confuso de instintos. pa ssou a fazer causa comum com ele. que deveria garan tir o mais firme ponto de apoio para o nosso conhecimento. no Tratado de metafísica.e como um dos primeiros "artesãos da ra· zão"? ~& ! bem ve rdade que todo esse lu. Para Cundar o conceito de "religião na tu· ral ". Hume quem vai c0­ locar o deísmo diante de uma nova dificuldade e desse modo que· brar seu predomínio. Samuel Clarke acabava de em pregar toda a sua acuidade intelectual para deduzir rigorosamente de princípios universais o conteúdo inteiro da fé cristãY' O próprio Voltaire não escondeu sua admi ração pela sagacidade do autor: Clarke.. apesar de todos esses erloryos coligados contra ele e o crescente fluxo de lite­ ratura polêmica e apologética . Com efeito. !:. da mesma fonoa. não é o dogmatismo teológico que rechaçn os assaltos do deísmo e detém seus avanços. em definitivo. onde iremos encontrar essa natureza? Será um fato empirica­ mente dado? Será que não passa.plan tados por esses instrumen tos. que são parQ ela absolutamente certos. Na Inglaterra. é incapaz de produzir por sua própria conta O mínimo funda­ mento objetiv<? Ela não pOssui nenhuma evidência imediata. a coloCár Clarke a par de Lock. os quais são perfeitamente inú­ teis sem o dom natural da visão. pejo contrário. acreditamos que esse princípjo confere a todo o nosso saber sua coesão e seu rigor internos. Hume já chegara a essa conclusão no domínio das nossa& representações teóricas. o deísmo parte. nessa hi pótese e em guindá·Ja. A experiência revela·nos essa natureza sob uma luz muito diferente daquela que inspirava os esforços construtivos do deísmo: não um tesouro de conhecimentos fundamentais. Na sua defesa do "livre pensamento".lhe. dado que a própria idéia de causa. não um cosmo mas um caos. seJT prévia reflexão. quando se analisa mais precisamente os conceitos. Sua vitória parecia não poder tardar. mas o mais radical cepticismo filosófico . por toda parte idêntica a si mesma. todo saber deve . à medida que a descrevemos com maior exa tidão.

verifica-se que. sabedoria e justiça do cri stia nismo. repre· senta mais um retrocesso do que um progresso. tudo permanece no estado antigo. Foi pe la esperança e pelo medo que os homens foram inicialmente conduzidos à crenca e nesta fi· caram constnntcrnente retidos. longe de se interligarem segundo princípios objetivamente ra· cionais. E não se creia poder escapar a essa concl usão ci­ 242 tando as religiões superiores. Nasce do medo de potê nci as sobrena· turai s e do desejo do homem de congraçar·se com elas. O jogo de paixões e de imaginação do­ mina e di rige as engrenagens da nossa vida religiosa. O credo quiu absurdum impõe sempre e em toda parte o seu anti­ go poder. mais pernicioso para 8 sociedade hUIT"I " ~ . na ver­ dadeira camada originária da religião. Seu conteúdo pretcnsamelllc objetivo. em que nos representemos de q ue man eira elas vem·se. mais el aboradas. enfim. e muito menos os alimentam. o que as fundmnc ntou e justi ficou. Entretanto. As mesmas forças psíquicas que prevaleciam quando das primeiras manifestações da religião ain­ da estão agindo em seu curso subseqüente. São estes que engcn· dram e alimentam os pri meiros dogmas e as primeiras represen­ tações religiosa s. a vejamos em sua pros{lica realidade empírica. em vez de consi· derar a religião em sua transposíção racional. A superstição assume fonnas dife­ ren les . tom ou­ se. A mesma crÍl ic3 vale. puramente " esp!:rituais~. desde os seus primórd ios até a sua mais recente realização. Essa cspt': cic de considerações "filosófi cas " níio tem poder nenhu m sobre as mu i· tidÕes. pura e simplesmente. deixando de lado toda essa subli· mid ade espiritual e mora l. todo bondade. no retra to que o calvini smo del e traçou. Não e"i ~ t\! fu ndamento racional nem ético para a religião: ela é. mantendo-se vivas em lodo o seu desenvolvjm ento. a obedecer às suas leis mecânicas. Não é a me­ ditação sobre os princípios do Ser e as causas da ordem do mundo nem a devoção a um Ser de um a sabedoria e de uma bondade infinitas o que provocou as primeiras rc prescn\<lções de Deus . interrogando mais a conduta dos homens do que !>U8S idéill s. as quais. A religião por toda parte oferece o mesmo rosto. sob sua indumen· tária idealista . o medo dos demônios constituem as verdadeiras raízes da idéia de Deus. para as nosaas representações religiosas. mas sua natureza íntima não mudou. e nel es permanecem du radouramcnte enraiza· dos. O De us. Ele nada enk nde de um reino onde predomina a " razão " abstraia . que se el evam tão alto acima das representações "primitivas" de Deus: esse argumcDto é reduzi clo a zero desde que. do que os artigos de fé das religiões positivas? Nada di:stingue uma religião " superior" das inferia· res. de um certo refina­ mento intelC(. 1! o motivo da adulação (Scllmeichlei) que impele os homens a elevar seus deuses acima de toda medida de perfeição terrena.tual. de conceitos abstratos. a não ser que um terceiro md iio se junte à esperança e ao medo. mas que. limitam·se a acompanhar em conjun to o jogo da imagi· nação. Não descobri remos entâo nelas nem surgem e desenvoL con teúdo especulativo nem con!eúdo él ico original. motivo esse oriundo. um tirano tão cruel. $Cu sentido sublime redundam em pura ilusão a partir do instante em que as relacionemos com suas ver· dadeiras fontes. Ousemos erguer o véu de palavras. de idéias morais com que se cobrem as religiões "superiores" e cons­ tataremos q ue a religião tem por toda parte o mesmo rosto. a atribuir· lhes predicados ca da vez mais sublimes.passa de ser o produto do jogo das nossas representações. de aco­ modar-se à vontade delas. sem dúvida. pérfi do e arbitrário quan to todos aqueles que as rel igiões primi· 243 . Ex iste pior absurdo lógico do que o dogma da tran· substanciação? Algo moralmente mais funesto. uma causa antropológica. numa análise mais minuciosa. A supers­ tição . Por aí penetramos. U /ortiQri. desde os seu s piores av il tamentos alé o seu ápice. porquanto está submetido ao poder de seus instintos e de suas paixões. Nem o pensamento nem a vonlade moral os formomm. O homem não começoll como filósofo : é ilusório e ocio­ so esperar que ele acabe filósofo. de um ponto de vista moral.

de fato. embora um tanto obscuras. JXlr certo. era necessário mostrar que as exigências e as afirma' ções desse conceito tinham seu lugar na realidade da vida reli giosa. a menos que H. do século XV II[ .. vamos encontrar a nos­ sa felicidade na fuga para as regiões aprazfveis.l fi m de colocá· las em conflit o umas com as outras. incerteza. Atentemos para a maior partt. T rata-se de compreender a rclaçiio que une a religião e a hist6ria. Não há preceito religioso. com a qual se viu a braços por uma necessidade interna. no seio dessa reciprocidade. Por isso é que a História natura[ da religião de Hume permaneceu um aconteci mento isolado no C\1rso das idéias da época do Iluminismo. A deisidaemonie. que não tenha sido adotado pelos mai s voluptuosos e perversos dos homens . o pensamento do século XVI II depa­ rou·se com um problema de ordem geral que deve abordar agora com rodo o equipamento pr6prio do seu método. Teremos grande dificuldade em persuadir·nos de q ue sejam ou tra coisa senão o fruto dos de­ vaneios de espíritos doentes . enquanto n6s pró­ prios. insistindo sempre . um inexplicável mistério. 245 244 . abstenção de iul$!'amen­ to. era 8 própria fil osofia que livrava o sistema da fé revelada do seu mais perigoso adversário. numa decisão clara e segura . ao tentar dissimular de modo insi­ diOso . de maneira nenhuma . durante essas furi osas desavenças. o de poder con­ cluir. mediante as obras visíveis da natureza. era imprescindfvel que o conceito de "religião natural " recebesse um conteúdo defin itivo. de con­ ceber a determínação recíp roca dos dois termos. e esse senlimento nada ganhou. Não há absurdos teol6gicos. mas também do lado da hist6ria. evidentemente. . que temos gra nde difi­ culdade em manter essa dúvida tão deliberada . () análise realizada por Hume rerresentava uma esto­ cada não menos mortaL." IH Na realidade . parecia combinar e reconciliar as aspirações de uma e de outra . "Nobre privilégio da razão humana o de cbegar ao conhecimento do Ser supremo. está na base de todas 8$ representaçõcs religiosas su­ periores. ao deixar de manifestar-se abertamente.e ao dissimular-se a si mesmo . Mas. para esse mcsmo sistema. Esse século tinha confiança demais no poder da razão para renunciar ao seu uso a respeito de ponto tão vital.tivas sempre temeram e adoraram. Tedo isso é um quebra·cabeça. como na doutrina de Hume. desenvolve·se a real idade autêntica e :onereta da religião. . de ver como. das nações e das idades.todas as fraquezas que as religiões primitivas ingenuamente divulgam . Não tinha a menor intençúo de abandonar-se à dúvida . Em suma. o método adotado por Hume e por ele segui­ do até as suas últimas conseqüências não é caracterfstico . Mas tamanha é a fragi li dade da razão IllImar. o temor dos dtmÔnios. por mais rigoroso e austero. pelo contrário. Dúvida. O conceito de religião natural não devia procurar seu fundamento apenas do lado da razão . Com efeito. que nito tenham sido alguma vei acei­ tOS por homens de uma inteligência tão vasta e cultivada quanto possfvel.1SO Tal é a "h. que assim pensou eliminar de uma vez por todas a idéia de "religião nat ural denu nciá-Ia como simples divagação filosó­ fi ca . Para enrrentar os ataques cépticos dirigidos contra ele. é tudo O que parece resultar de um exame mais profundo dessa questão. longe de levar a uma ruptura brutal da razão e da experiência. por mais fl agrantes q ue sejam. o qual. peta existência de um principio tão sublime quanto o do supremo Criador! Ma~ observemos o reverso da medalha .ist6ria natura1 da religião" esboçada por Hume. Examinemos os princípios reli~iosos qUl prevaleceram. Não pod ia continuar subsistindo JXlr mais tempo como pura as­ piração. Graças a essa tarefa. se estenda o nosso olhar até as superstiçôcs mais diversas l. O cepticismo tinha . um outro caminho cra ainda praticável.. a última palavra tanto em relação à religião revelada quanto em relação à religião natural. da Wosofia . no mundo. um enigma.a e tão irresistivel é o contágio da opinião.

pelo con trário. devia igualar todo o eon· junto em valor e em samidade. niti· damente distintas. de outra parte. mas perfeitamente concordantes quanto ao seu con· teúdo essencial. entretanto. visto que impli cava um rompimento deliberado com um principio que a própria Reforma jamais contestara . não exclui um equilíbrio ideal entre as duas forças opostas: trata·se. O verdadeiro " Iluminismo" do espírito SÓ pode resultar da cooperação e do conf ronlO entre esses dois modos de análise.Relig. de que o seu pensamento foi absolutamente a-hist6rico. para tudo o que pudesse penetrar no 247 . de acordo com o espírito da filosofi a iluminista . de uma parte. O princípio cartesiano da dúvida metódica não podia deter·se em táo propicio caminho. de discernir toda racionalídade existente no ponto de vista da hi stória. 0 0 seja. Essa relação polar. uma nova regra de apreciação se criou. de maneira direta e decisiva. esse devir não poderia ser percebido nem reconhecido em seu sentido autêntico sem ser relacionado e me­ dido por uma existência imutável (ein unveriil1derliches Sein). o simples fato de susci tar a questão e de pretender resolvê-­ Ja já representava uma espéçie de revolução do pensamento re­ ligioso. de deli· mitar clara e mctodicamente. por uma observação. sob formas diferen­ tes. pelo con trár io. Sem dú­ vida. Muito longe ele se camjnhar para um simples nivelamento que sacrificaria a história 11 razão. de que o século XV III pennaneceu alheio e cego à rea­ lidade h istórica. Todo o esforço da Re· rorroa tendia justamente a provar que a verdade das Escrituras era integral e única. A primeira e mais severa prova que a nova concepção tinha que enfrentar era o confron:o com o põóprio rundamento de toda certeza religiosa. a história com ara· zão: essa reciprocidade fornece-nos uma nova visão religiosa e um novo ideal de conhecimento religioso. é certo. como se realizaram no decorrer do desenvolvimento empírico·histÓrico. mas. Ali ás. 5110 mantidas num estado de tensão mútua. vamos encontrar uma polaridade reconhecida e elaborada com e~tremo cuidado.e que só se podia proclamá. o conteúdo de verdade da Bíblia. portanto. Trata·se. o próprio Descartes não se cansara de garant ir que as no­ vidades da 5ua dout rina diziam respeito à ciência e não à fé. A convicção de que as regras da razão são etern as e imutáveis 246 deve acompanhar passO a passo o exame da maneira como eSSDS regras desenvolveram-se historicamente. no qual assenta todo O movimento in terno do pensnmento religioso do século XVIII . procurara impor mais rigorosa e implacavelmente que nunca: o prindpio da inspiração verbal. Razáo e história. A razão é relacionada com a história. de proclamar expressamente.ião e história Essa idéia largamente disseminada e.la em sua integridade e validade absoluta se o texto bfblico não comportasse nenhuma distinç1l0 nem divisão. Essa regra nãc é simples: baseia-se. na razão e na história . plena vali· dade da certeza da revelação. A mutação in terna que in tervém a esse propósito caracteriza-se jus tamente pelo rato de que a reli­ gião emancipou·se do jugo do pensamento metafisico e teológioo e um novo critério. O espírito racional e o esprrito histórico sâo os dois elemen tos cuja síntese é assim pro­ posta. já foi refutada. inex­ tirpável. de erguer diante da história O espelho da razão. as duas visões coincidem. mesmo superficial. com efeito. Cada palavra. A certeza da exis· tência do espírito é parte integrante e indispensável do seu devir. de uma exis­ tência e de uma verdade que se desvendam. inversamente. que a aniquilaria. Mas já no sé. de observar nele a sua imagem.culo XVIII essa pretensão tinha grande dificuldade em impor·se contra os pro· gressos do espírito filosófico. em dois eleme ntos distintos que ela une e procura concilLll r. sem lacunas e sem limites . Em suas tendências e orientações respectivas. que ela . do processo de desenvolvimento da sua problemática religiosa. ao que: parece. a !arefa de determinar. reivindicar para si o. até cada letra da Bíblia.

na verdade. em rigor. " Para ab reviar. pois a crítica de Simon quer demonstrar que os pro­ testantes não têm razão em confiar exclusivamente na verdade da Blbli a e em remeter para essa font e única e fu ndamen tal toda e qualquer outra autoridade religiosa. é constantemente anexada aos fi ns particulares da ortodoxia eclesiástica. A primeira obra cujo titulo já subentende uma históri a crítico dos livros blblicos saiu dos círculos ora tori anos. uma e outra devem ser estu­ dadas desde um mesmo pontO de vista. Ele não impede. não o devif. nada parece menos favorável. porém . de um interesse espontâneo pelo método his­ tórico como tal . encerradu e sustentada em si mesma_ ~ esse o único objeto do conhecimento adequado. não a mudança empírica mas a causa imutável e a unidade essencial das coisas. Começa por examinar a au tenticidade dos diversos livros da Bí­ blia. Extensão e pensamen to.'> u" u. a existência nnita. natureza e espírito. Assim. derivada. Seu autor. O firo ulti mo e o principio de seu pen­ same nto são o ser puro. mas duas ordens idênticas. I! preciso esperar pela audácia de Spi­ noza para que seja. pelo contrário. na medida em que se recorre ao seu julgamento. a uma apreciação hist6rica mais livre das Escrituras. O mesmo ocorre com o conhecimento do tempo e das relações temporai s. por formular hipóteses sobre 11 sua origem. Se considerar­ mos o conj unto de sua metafísica e dc seu fu ndamento racional. de uma orientaç. não oferece um abrigo absoluto contra as investidas da dúvida . mas concorda em todos os pontos com ele. essa idéia s6 pode ser urna contradictio in adiecto. A primeira vista. Desse ponto de vista. enfim . Com efeito. não che­ gamos ai nda a uma concepção. Jamais a ima­ ginação poderá alçar-se ao plano do conhecimento fil osófico. do conhecimento sub specie aeterni/atis. Mesmo os pensadores que são inspirados pela mais pura religiosidade pessoal. A Bíblia. l2 Assim. com efei to.ldament almente dis­ tintas. s6 é cognoscf­ vel pOr intermédio da "imaginação"'. Sublinhe-se que esse primeiro exame ainda estava rese rvado aos meios ecle­ siásticos e pretendia servir indiretamente aos planos da Igreja Católica.ul ('~ ~. Spi­ noza foi quem primeiro concebeu com plena luci dez a idéia de uma historicidade da Bíblia e quem a desenvo1veu de maneira clara e positiva. que seus discípulos e sucessores imediatos não tardem em abandonar essa prudente reserva. que querem sobretudo servir-se dos princfpios cartesianos para o despertar e o aprofundamento do espírito religioso. o qual. A hist6ria.r . assim como o método na interpretação da natureza consiste essencialmente em con!'iderar primeiro a natu­ 24~ 2. ~U d Inteira submissão à auton­ dade das Escrituras e da Igreja. de quem é amigo pessoal. assenles na mesma lei essen­ cial. O seu Trotado teológico-político é. pode parecer estra nho e paradoxal que esse papel tenha tocado a Spinoza. a primeira tentativa de just iricação e de ru ndamentação filosófica da crítica bíblica. ela nada mais representa senão uma das conse­ qüências mediatas das premissas lógicas do sistema. despojar-se do imaginário. inspira-se em Malebranche. apresentada a questão realmen te inci­ siva e decisiva . numa série de diligências que aba lam os fundam entos da ortodoxia . por si mesma. a consideração da existência histórica não pode ser separada da da existência natural.ão '-listóriea imediata. deve su perá-Ia. I! O monismo de Spinoza que se recusa a adm itir a situação di st inta da Blblia. ela deve ser completada e apoiada por ou tras instâ ncias. não podem escapar a esse movi mento. ordem das coisas e ordem das idéias não são duas ordens diferentes e fU. des­ cobre-se que ela não provém. Até mesmo a 5i tuação distinta do espiritual em geral. resumirei esse método dizendo q ue cle em nada difere do que se utiliza na interpretação da natureza . a uma perspectiva especificameme histórica. em absoluto. para atingir a sua perfeição. No entanto . Acompanhando O desenrolar dessa tese a fim de mostrar a sua situação no conjunto do sistema spinozista. pelo testemunho concordante da tradição da Igreja. particular.terreno dos dogmêl. o reconhecimento de uma verdade "histó­ rica" no sentido próprio parece estar excluído. Richard Simon.

intuições melafísicas acerca do princípio fu ndament al das coisas. cada um pode rá avançar sem rist:o de erro e poderá tentar fazer-se uma idéi a daquilo que ul­ trapassa a nossa compreensão. uma impressão de estranheza e arbitrariedade. a "na tureza das coi­ sas". O mestre espíritual desse movimento não é Spinoza mas Erasmo. apenas produzem. As dificuld ll d e~ que ela contém. com bastante freqüência. apoiando-se menos na verdade. com base neles e por via de legítima conseqüên­ cia . Mas a pr6­ pria idéia de uma crítica histórica da BIbUo. O 1'raclatus theologjÇO·pofiticus quer ex­ plicar a Bíblia dessa maneira . As convicções religiosas e o ethos do Humanismo tinham. para chegar à sua verdade relaliva consistirá portanto. por isso ela deve ser tra­ tada segu ndo as mesmas regras que valem para todas as espt­ cies de conhecimen to empírico. Não há dúv ida que suas explicaçõcs.a Tul é o prinçÍú. çom efeit o (quero dizer. que no grande modelo do H umanismo e no ideal de saber que o caracteriza. q ual O pens~mento dos autores das Escrituras_ Desse modo. encontrado sua primeira expressão clássica na edição crítica do Novo Testamento publicada p:>r Erasmo. ao restabelecer o texto autên­ tico da Bíblia. as contradi ções evidentes que comporta. ela é explicada pelas particularidades de sua origem e pela individua­ 250 lidade do seu autor. tampouco dei xari a de vingar e de expandir-se incessantemente. colocando-os numa perspect iva perfeitamente unilateral e errônea. poder-se-á então concluir. Ela não é a ch uve da nat ureza. Essa conv icçiio devia inspirar a obrll do maior dis­ cípulo de Erasmo.:i c de impurczas. em sua subli me simplicidade. e prenhe de conseqüências. esperar da Bíblia verdades absolutas. comparadas aos resultados da crhicll bíblica científica ulterior. Bayle fez tudo o que pôde para orientar os debates para um caminho fa lso. Hugo Grotiu s. com efeito. também para in terpretar as Escrituras é necessá rio adquirir um exato conhecimen to histórico e uma vez na posse desse 00­ nhecimento. ou seja. em tratá·la . em suu significaçiio t tica primeira e fun­ damen lal. ele não podia mais ser abandonudo da í em diante. o. depois de ter assim reunido os dados certos. com a mesm a segurança de tudo o que nos é conhecido graças à luz nll turul. Evita·se cuidadosamente pronunciar o seu nome. Que se decan te esse texto de todos os acréscimos tardios. se não se admitirem ou tros princípios e outros dados para in terpretar as Escrituras e esclaret:er o seu conteúdo a não ser o que possa ser extraído das próprias Escri­ turas e de sua história critica). de todas as fa lsificações arbitrárias. em interrogá-Ia com os meios da investi­ gação empírica. Partira eSle do princípio de que. sua doutrina só é divul gada por canais indiretos que carreiam toda espé. e a imagem do cristianismo puro se destacará par si mesma. quando ela própria pertence integralmente à natura natu­ rata? O método que se impõe para a interpretar e compreender. em vez de consi­ derar cada passagem da Bíblia uma verd ade lll temporal. é um dos seus elementos.reza como observador e. quando ela própria é apenas uma real idade condicionada e se­ gunda. Em sua ex­ posição e sua cdlica do spinozismo. " :. Parece que Spinoza não ex:erceu nenhuma influência dirctu sobre o pensamento do século XVII I. a partir da Bíblia. mas a própria Bíbl ia como uma parte do ser e como tal submetida às suas leis universais. além disso. resolvem-se desde que cada texto seja colocado de novo em seu contexto . simples mas dec isivo. Mas o pri ncfpio metodológico como lal nâo é atingido por essas fraquezas e esses defeitos manifcslOs: apesar de todos os ataques que o Tratado de Spinoza sofreria. em conclui r a part ir deles as definiçOes das coisas natu· rais. Por que se deveria. acerca da fla/ura naturaflS . de dados e princíp ios certos. Foi no esplrito extraordinaria­ men te amplo e ulimentado em todas as fontes da erudição hu­ ?51 . em considerações gerai s de método e de fil osofia dt. quando. devolvia-se ao mesmo tempo à doutrina cristã toda a sua pureza original. necessa­ riamente. que Spinoza representa : elc decide interpretar não o ser.

segundo os even tos por ele vividos anteriormente. pois toda verdade está ligada à condição da liberdade interior c da intuição racional. não pode naver nesse ponto nenhuma dúvida: a idéia de historici­ dade da Bíblia só comporta-um sentimento essenciaL mente nega­ tivo. assim será o seu Deus". "Conforme for o homem. Didcrot esboça um q uadro quase completo das tendências e tarefas essenciai s da crítica bíbl ica. Ela só pode ser alcançada se a potência das paixões e da imagi­ nação fo r represad a e subm etida ao comando rigoroso da razão. porta nto. A violência com que a inspiração apossa-se do indivíduo e submete". apa­ rentemente superior: todos esses traços excluem a possibilidade de uma verdade autêntica e rigorosa. Mas. e vale-se dela expressamente como de um modelo. no proC eta . embora pretendendo falar em nome de Deus. do puro antropomorfismo. de um modo geral. a marca da ~im agi n ação". a força da sua imagi­ nação. Reconhecer e tratar a Bíblia como uma reali dade cond icionada pelo tempo. em definitivo. para Spinoza. não foi um abandono do verdadeiro espírito desse sistema o que assim se produziu? O senso histórico recém-despertado não foi um verdadeiro vene­ no que a teologia recolneu em seu seio? Voltando a Spinoza. apesar de todas as negativas. exige que se analise cuidlldosamente o conteúdo desses livros. na verdade somente fala em seu próprio nome e somente divulga o seu próprio estado interior. Ele mostra que a imagem de Deus muda com cada profeta. suas Annotationes ao Antigo e ao Novo Testamento traçaram nos mínimos detalhes O caminho a ser se­ guido pela investigação do século XVlI I. em remeter para os seus resultados e em aduzir deles as conseqüên­ cias lógicas. a qual não poderiu ser apreendida na imagina tio mas apenas concebida na ratio e na iniuitio.manísta e teológica de Grotíus que nasceu o primeiro plano com­ pleto de crítica bfblica. desenvolve essa tese com perfeita niti­ dez. eis o que significa exatamente para Spinoza considerá-Ia uma coleção de conceitos antropom6riicos. Ela foi assim excluída definitiva­ mente do domínio da ve rdade filosófica. e de que toda essa predicação permanece vinculada à subjetividade do profeta que. uma in­ tuição estritamente objetiva . Mantém-se confinado no domínio da subjetividade. que se detennine exa­ tamente a data de sua composição. são a prova mais certa. pois todo O saber que se liga e se limita às relações de tem­ po osten ta. Segundo o temperamento do profeta. a sua fraq ueza e a sua defjciência radical. esse desenvolvimento obteve a sua primeira e concludente realização . O que o espírito religioso considera ser a garantia su­ prema de toda "inspiração" é. intei­ ramente. a força da imaginação que se manifes­ tam no visionário religioso. suave para o suave. No artigo "Bíblia " da Enciclopédia. a men­ sagem transforma-sc. Semelhante saber nunca nos poderá fornecer uma idéia adequada. M Para exprimir o pensamento profundo da crítica bíblica de Spinoza na língua do seu sistema. colérico para o colérico. O capítulo de in trodução do Tratado teológico-polftico o qual trata da profecia. pelo contrário. O princfpio da inspiração verbal foi assim rejeitado de uma vez por todas: o método de interpretação histórica penetrou até o cerne do sistema teológico. que se averigúe as condições em que eles Coram escritos. que o 253 2"2 . A crítica filosófica pouco tem a acres­ centar a esse trabalho: ela contenta-se . A intensidade da paixão. de que suas visões nada têm a ver com a descoberta de um conteúdo de verdade objetiva nem com a proclamação de uma vontade divina universalmen te coerciva. bom e misericord ioso para o espírito sercno. sombrio e severo para o oprimido e o melancólico. de Semler. Ernesti fala com a maior admiração dessa obra. a maneira como faz dele um instrumento sem cons­ ciência e sem vontade nas mãos de uma potência estranha. No Tratado da livre jnvestigação do cdnone (1771) . portanto. que ela recebe a fo rma de sua imaginação e a cor de seus humo­ res. Estabelece os diversos critérios q ue permitem apredar 3 auten ticidade dos livros das Escrituras.

a natureza e a ess:. a opor ao seu rigor ló' gieo e à sua necessidade tn tetn:! . ligioso: pregar os milagres significa negar a Deus. em que Spí. Foi e. a sua aniquilação. como rup­ tura com SUBS leis universais. libertandv-o das caricaturas com que o ht:villm sobrecarregado os teólogos e filósofos seus adversários. a qual exclui toda limitação ao individual. seremos obrigados a admiti r também que ele age contra a sua pt6prja natureza. todo vínculo com o ind ividual. mas pel:!o manei ra Como os acolhe. ~ absolutamente ontidivino . em vez de procurá-lo no universal e no necessá rio. sem dúvida. Portan to. isso também estaria em con tradição com o decreto. os mais essenciais. ela é.Tratado teol6gico-político não pode c não deve evidentemente falar. no sen:i­ do próprio. O milagre. Lessing. mas que nessas visões é sempre um certo "modo" que se exprime e a si mesmo se anuncia. segundo parece. Os mil agres e as visões profét icas da Brblia ferem essa certcza primordial da filosofia. desde o começo. como usurpação (Eingrilf) da ordem natu ral.pressão poder trazer para a luz o âmago e o sentido do divi. A entrevista com Jocobi mos­ tra em Lessing.: quem dará ao spinozismo a sua verdadeira fisioncmi<i . pertc do fim de sua vida . noza inttoduz na religião a considereção da história. com o entendimento e a natureza de Deus. pois nessas leis consistem a verdade e a essência de Deus: constituem o seu testemunho. ~ portanto para Spi noza ti perversão do sentido re. tomou a iniciativa de ultrapassa r aS suas conclusões. portanto. as I<. Longe de tal forma de ex." U A crença nos milagres. de decisivo. não es tolero. de essencial. sem deixar de reconhecer Spinoza como seu mestre." Mas toda a grande:za de Lessing. nada mais tinha. ao ponto de os reformar por completo. sua soberba imparcialidade. ou. metodológica. se admiti rmos que Deus age con lrariamente às leis da natureza.:.te o primeiro a enxergar a doutrina de Spinoza sob a sua verdadeira luz.":s un iversais da natureza são simples decretos divi nos decorrentes da necessi­ dade c da perfeição da natureza divina. A caracterfstica do divino é a sua universalidade . Ev xo' 11ã" : não conheço nenhuma outra . e não para justificá-Ia filosoficamente. E mais do que em qualquer outra pDrte im­ põe-se aqui a tese de que toda determ inação é negação. Verifica-se que ele aceita a visão de Spinoza sobre os pontos mais importantes. re­ velam·se ainci~ por esta caracterrstico: foi ele quem . digamos que a " substânci a". que profu ndamente meditou e compartilhou do seu pensamento. O ca ráter essencialmente produtivo da crítica de Lessing é aí não menos evidente do que no dornfnio da critica estélica e literária . sua receptividaàe. irá agora ultrapassa r as con­ clusões do seu mestre . e nada pode ser mais absurdo.neill de Deus. não pode ser dada em nenhuma visão profética. A situação não ~ direrente no tocante a todas essas profecias e revelações religiosas subjetivas que provêm de indivíduos isolados e so. Toda particulari­ dade ~ negação da universalidade: toda historicidade restringe. nada ~ verdadeiro seniio por um decreto divino. Na medida.no. Por canse­ 254 255 . nega ao milagre todo o valor probatório no plano religioso. mente exprimem essas naturezas pa rticulares. ~Io contrá rio. se alguma coisa ocorresse na natureza em con tradição com as suas leis uni­ versnis. impregna-os com o seu próprio caráter e o seu próprio pensamento. um spinozista convicto: "As concepções ortodoxas da Divindade nada mais significam para mim. Mas fo i ent:io que ocorreu uma prodigiosa virada na hist6­ ria das idé i a~ do século XVIII : o prime iro grande pensador que realmente compreendeu Spinoza . E procurar Deus no ocasional e no con­ tingente. necessa r i . essa ini­ ciativa só pode e deve servir pa ra limitar-lhe o alcance .mcnt~. perturba e oblite ra o racional. segundo uma lógica puramente imanente. Lessing . assim como sua originalidade c profundidade. pura cvidenci2r os limites intransponíveis de sua certeza. tal como Spinoza. e entregou-se a esse pensamento sem reservas nem preconceitos. " Mas uma vez que.

guinte. a fonna da tem. só pensa em contestar o valor absoluto da revelação. Portanto. ao eltammar a sua história. A individuaJidade tampouco represen ta para ele uma limitação simplesmente quantitativa . Tendo defi nido a mônada como "expressão da multiplicidRde na unidade". num sentido. mas em função do seu devir e da finalidade desse devir. rcpraesentativum univeTsi: dessa f6r. não no contingente mas no necessário . inclusive nenhum erro. A verdadeira. até mesmo para refutá·la. entre "universal" e "part icular". mas uma representação perfeita. não mais se recor· retá somente à historicidade das fontes da reUgião para criticá· la. estreitamente apa· rentados : ambos aderem às concepç6es leibnizianas. li historicidade enraíza·se no sentido fundamenta! e originário da religião. que não sirva. pelo contrário. sobre esse ponto. não no parti. Ao levar . portanto. tante de Leibniz que nunca deixou de ser. enrre universalidade e individuaJ idade são. mas uma determinação qualitativa. Lessing adere. 8 sepa ração entre eles é muito nítida no plano do método. que nôo lhe pertença necessariamente. mula leibnizíana característica Lessing está em seu pleno direito de apropriar-se. Por esse traço. mas uma força que o impregna e o elabora in teriormente. à verdade e não lhe pertença. Lessing. vê o modo como se processa tal elaboração sob um prisma diferen te de Spinoza. agora. o resgate da religião . Lessing e Men· delssohn . de Lessing. Descobre·se toda a dificuldade que eJSB nova idéia teve em impoNe se compararmos. não ex.. derende o postulado da pura imanência. a ex istência temporal adquire uma outra ex. a única reli gião "abscluta" é aquela que abriga em si a totalidade das formas fenomenais do rcHgiosQ. por seus pressupostos teóricos. em geral. executar através desse mesmo exame a restituição (R estitution).essa idéia fund amental parti! o domínio da religião. terior ao mundo. reconhece·se em Lessing o partidár io firme e cons. Sem dúvida. com efeito. Nada de individual está absolutamente perdido nela. As relações entre Htodo" e " parte" . não uma violência que irrompe no mundo da nossa experiência. Lessing quer. noza. A mOnada s6 é à medida que se desenvolve progressivamente. dado no co-­ meço dos tempos. e não existe em seu desenvolvimento nenhuma rase separada que não seja absolutamente indi spensável ao todo.eibniz. cular. 256 poralidade como tal não constitui O cont rário do ser. eminentemente positiva. um sistema de justificações que aprecia a religião não em runção de um ser estável. com a in terpretação tradi· 257 . Os "ntilagres da razão". ela também é. No início. mu ito diferentes nele do que eram para Spinoza . ou seja. tiva. por outro parte. apenas havia entre eles uma diferença de orientação: enquanto MendelssohD se contenta. Desse modo. Lessing tem pela frente um problema inteiramente novo e uma solução não menos nova : do ravante. que transfere para um novo domínio o conceito leibniziano de teodicéia: ao conceber a te-­ ligião como um plano divino de ed ucação. ao mesmo tempo. Por muito próximos que estejam esses dois pensadores pelo conteúdo de seu ideal religioso. sed simulacrum divinitatis. pressão. Desse pensamento funda· mental nasceu Erziehung des Mel1$Chengeschlechts [A educação do gênero humano). nenhuma visão tão particular. o milagre autênlico reside no universal. A sigo nificação do particul ar e do individual não é puramClHe ncga. à unidade e à universalidade da idéia da natureza c. porquanto só nela o ser pode aparecer e manifestar·se em sua pura essen· cialidade. autêntica e exaustiva do real. Lessing elabora uma tcodicéia da história . como lhes chamava l. Lessing entreviu uma verdade nova e essencial. Onde este só via decepção e ilusão. entretanto. são para ele o testemunho autêntico e o selo do divino. um aspecto muito diverso do que linha em Spinoza. Leibniz podia igualmente defini ·la como expressão do temporal no imutável. com Spi. Ao passo que Spi· noza. Lessing e Men· Jclssohn estão. incom paráve l e insubsti tuível: não um rragmento do real. Mens nOIT pars est. Deus é uma petaneia intramundana (eine inllcrweltliche Macht).

cai-se inevitavelmente na qucstiío de saber de que modo são a plicáveis ao problema da ce rteza religiosa e quais as conseqüências de q ue se revestem para esse problema . de alter ação.:111 morto . Elas n50 se referem li tal existência singular no espaço. apesar de ter tão freqüente e seria me nte tentado o salto .por verdadeiro um sistema conceptual intrinsecamente válido e absolutamente Intemporal.essing e Mendelssohn : é fornecido pela distinção leibniziana das formas fundamentais da ve rdade. . em te:.. com efeito. A que espécie de ce rteza pertence a fé religiosa? A fé tem lugar entre as verdades necessárias ou e n~re as ve rd&des contingentes? 1 1Iàscia-se num princípio raciona l intemporal o u num princípio temporal histórico? LeSSiilg debateu-se longamente com esse pro­ blema e parece ler. no mundo dos corpos {fsi­ COS. de movi­ mento. . ao fato de que o Cristo ress uscitou 1. O cerne da fé· não consiste em admit!r..lç 4..] T al é o abismo horrivelmente prorundo q ue não pude reso1ver­ me a tra nspor. a realidade de seus vinculos com uma te rra e uma tpoca. por essa razão. desesperado de resolvê-lo: ele não pode renunciar à " rac ionaJidade" da religião ne m pôr em ~Iúvida a particularidade. ciências q ue não se valem somente do mundo reaL d lldo aqui e agora. deverei aceitar igualmente por verdadeiro que esse Cristo ressuscitado era o filho dc Deus? [ .. movido por seu senso crítico e por seu interes$C pela nIosofia da história. portanto. da ética e da metaHsica. então isso nâo é uma ignoro o que Aristó teles poderia entende r por essa f6nnuJa [.fJCUft. única no seu gênero. para l. descobrir o 258 259 .. a própria sjngula ridade de suas for­ mas. . E que Deus lhe conceda a merecida recompensa. eu lhe peço e Ihc imploro. existirá uma terceira solução'! "As verdades hist6ricas contin­ gen tes jamais podem provar as verdades necessári as da razão.Uo -ytJ'O." n Nem a teologia ne m a metafísica especulativa do século XV II[ continham em si um princípio q ue permitisse responder verdadei rame nte à indAgação de Lessing e satisfazer suas exigên­ cias. suprana tural e eterna . .ciom~{ que essas concepções encont raram no sistema de Chris tian Wolíf.da razão sempre e por toda parte idêntica 8 si mesma. I Saliar dessa verdade histórica para uma o utra classe muito dlver!>a de verdades. O esquema geral do pensamento é o mesmo. com efeito. mas tam~m de todo e qualquer mundo possível.i nçoes específicas que elas impli cam. deverei aceitar iguulmentl: por ver­ dadeiro que Deus tem um fi lho da mesma natureza que ele? Se nada tenho a objetar historicamente ao fato de que o próprio Cristo ressuscitou dentre os mortos . segu ndo Leibniz. temporais". ] se pn&. Partindo dessas definições leibnizill nas da verdade e das di st." A teOl ia leibniziana do conhecimento tinha. Os teoremas da geome lTia o u da a ritmé tica puras não slio menos eterna e necessariamente verdadeiros mesmo q ue não exista na realidade espaço-temporal . Leslõ il~g . ne nhu ma rorma singular que corresponda exatamente aos rigorosos conceitos estabelecido! pelas matemá ticas para os núme­ ros e as diversas fi guras geométricas. historicamente. preferia remontar incessantemen te às ronles. que ignora toda a possibilidade de mudança. para as verdades da lógica . pois que toda alteração significaria declínio de sua natureza o riginária. Entre esses dois caminhos naturalmente separados. Ele precisava encont rar O seu próprio caminho. no mundo e mpí­ rico real. acerca de um evento individual e IoCm retorno . traçado uma fronteira rigorosa com o objetivo de separar as verdades ~ eternas" e as verdades . quer essas idtias possuam ou não. As verdades eternas e necessárias ex primem as relações que regem as idéias puras. as verdades "necessárias JJ e as "contingentes". por vezes. a ré não pode deixar de estribar-se numa verdade singular. nelas se exprime a forma absolutamente universal da própria razão .. um o bjeto na realidade. exigir de mim que mude. São. e:n contrapartida. Q ue aquele qce pude r acudir-me o faça. E o que vale para as ver­ dades matemáticas não vale menos . a tal evento único no tempo. ereUvs me nlt. todas as minhas concepções metafis icas e moráis [ ." ~Se nada tenho a objetar.

a sua própria certeza. O problema da história apresentara-se à filosofia do Iluminismo. na seqüência do tempo. que a sua urgência impôs-se. com todas as suas irracionalidades e contradições. Se ela nos mostra por si mesma o movimento." Para Mendelssohn. segundo Lessing. desde o inIcio.!l8 a unidade e a verdade da razão ba­ seiam·se em sua unicidade e em sua uniformidade e não pode­ riam subsistir validamente de out ro modo. a visão estática por uma visão dinãm. não para ~c deixar agarrar e arrebatar por seus redemoinhos. não me parece que tenha sido esse o objetívo da Providência: pelo menos. não pertence absolutamente i\ esfera do eterno e do necessário. A reli · gião. Mas não pc­ clia limitar-se a esse primeiro aspecto do problemo. e aperfeiçoar·se. e roi aí. a razão quer. Coube a Herder dar. E foram essas conseqüências e essas exigências que lhe abriram todo o vasto horizonte do mundo histÓrico. O progresso é pura o homem indi vidual . no seio desse devír. de sua efetivação. no âmbito dos renômenos reli · giosos. Tanto o "neologismo " teológico quanto o ra· cionalismo universitário não podiam acompanhá·lo nesse cam i· nho. com suas rtutuaçóes e erros perpétuos. nesse coso. não é. que encarna aq ui O próprio tipo de filósofo do Il uminismo. . mas substitui a cor. o lugar autêntico. na realidade. Ela é a un ião de ambas. Lessing já se situa. brotar . do eterno racional no devir temporal .não fa ço a menor idéia deSSII educação do gbnero humano que o meu falecido amigo Lcssi ng deixara que não sei que historiador da humanidade lhe metesse na cabeça. Foi essa. em primeiro luga r. Isso não significa tl uC ele não tenha sido. Por todos os desenvolvimentos que forneceu a esse tema . aperfeiçoar·se e afirmar-se 110 âmbito da teclogia e da metaffsica. por isso se viu sempre arrastada para mais longe. evidentemente. seus prós e contras sem ohje!ivo e seu repouso. Mas. a quem a Providênci a concedeu passar na Tcrra uma parte de sua eterni· dade ( . que o conjunto da humanidade deva avançar ra­ pidamente neste mundo.meio de entulhar a seus pés o "abismo horrivelmente profundo". compreendê·lo sem sua própria lei ima nente . para afir­ mar sua perenidade e sua constância . -a ela própria quem mergulha agora na corrente do devir.. o primeiro passo decisivo ao formular o problema para a totafidade da realidade histórica e ao procurar uma resposta na observação w ncreta dos fenômenos históricos. I! por isso que ele foge às mudanças inúmeras para llcolher-se nas leis invioláveis e sempre idênticas da razão. na transição da filosofia do Iluminismo propriamente dita. ] Mas. de fato. A atitude adotada por Mendelssohn a respeito das teses de Lessing é particular­ mente característica e esclarecedora: "Por minha parte -lemos no jerusalem de Mendclssohn .. nem à esfera do puro contingente e do temporal. tão certo e tão neccssário quanto se tem o costume de imaginar a fim de salvar a Provi­ dência divina. nõo obsta0 te. Mas a sua inicia­ tiva só aparentemente foi soli tária. nem de longe.cepção analítica da razão por sua concepção sintética. Lessing já não conhec. 26 1 260 . de foto. era em definitivo uma idéia lnaccitável que a realização do fim supremo da humanidade pu­ desse ser confi ada a um guia tão duvidoso quanto a história. Os elementos que o espírito analhieo de Lt.ica. Nesse pensamento despon­ la a aurora de uma nova visão do ser e da verdade da história que não podia. sua unidade. na direçi!o de novas canse­ flU ênci as e de novas exigências. o único lugar.ibniz distinguira com um esmero e uma clareza incomparáveis tendem de novo a juntar·se. O histórico não se opõe ao racio­ nal: é o caminho para a sua realização. manifestação do infinito no liniJo.e tal "razão·. desenvolveu·se ten ta e constantemente no seio desse mesmo pensamento. a tarefa realizada por Lessing em sua última obra de filosofia da religião. Ela não apresenta a menor ruptura com o pensamento da ipoca iluminista. mas para encontra r. nutriu­ se do seu solo. o grande racionalista que {oi até o rim . a bem dizer. pois essas duas correntes pensam a razão no sentido da "iden tidade analitica". no fundo.

pp. Paris. ou 1 'lI po. Troe l! sc:: h. cons ultar o meu livro D/ti P/Q/oI1IJ'cIr c R I' ­ /II/f.~ du mondai.1 IJ CC em particular. pp. seco XVII : " Du roman. 1927. 275 e u . Lcipzia. I S6) e 1'1I8sim. 4. 199 c ". Volta ire.~lIt. o meu livro Individuum Jlnd KosmQJ i/l der Phifosop"k dn R. Holbach. ) 2 Diderol . 1728-78...i cf. " [O n6 de nossa condição faz seus entrelaçamentos nesse ab is­ moO: de modo que o bome m e mais inconcebivel $C nJ esse misll!:rio do IluC C!I. vol. especilllmente !l.~'trj.NOTAS I Cf. de sorte que I'homme est pJus mconcevable sans te m)'lli:re que cc m)'Stêre n'cst illOOlK'eV'dble li I' hommc. 177) 12 " 11 faul prcndrc un parti" rE: preciso toma r pa rtidu]. voya!?/: d I! Bougail1 vll/c (171l). . CCIl.edição. Tra. Orl/vrf'l (Lequie n. XXXI. arl. ed . cil. rJ'/mel! In E'lgland und dil! Se/wl" vOn Cambridge. PaUliqllt 1lI1111. 112 e 122 e u. Pe. PaS<'al. pp. 240 c 5/1. 281 e $S. OraI/reIS ( i\~zat ) . H C f. o poe ma u IQHi~ du II/xe. (reprodutido em Hube rt." lOPens~t1. 11 j): "le noeoo de noite condilion prend . 4 Para uma exposição maÍ3 romp ida. r In pltnSitS de M. RenaiJSlJnce IIlId Reform ulion. Ot:l/vr~s. pp. 292 e M.tl de la tofü(JI!ct . 163 e $S. ErnUI H avei. seC o XV I (Orllvres. XXX I. por Tourneux em DidtrO l " Ca/lrlr/fI' 11. 1897. Paris. VIII (op. p. X. "Qi.i. Stud. D' HQ/burh 1'1 5('J alllls. 174 e ss. MOtldain (1736) e D~/cl1. der Bibl: Wllrbur. ). in ven lQ pour dev iner I'oriaine du <nal .. !J7..uaIlCC.stS replis tt ses tOUU dans «I . flP. 1~ Cf.. 34 (n . I: XXV. 11 4) . pp.o. XX IV. p. em panÍl:ulflf t XII c M. Di~urso 111..Ü Il. cit.r. XIV.. caps. i Pa~ l . XXX]. Addilions au:t remQrqun lur leI "~tlS~~S" de Poscof (1743 ). ed. RS. T . XXXI. donc qurlqUt chost t l'isle de 'OU /e "~..:Se mistüio incoocebivcl ao homem.. P arj~. 2 e 4.bime. R ~marqu~~ ~I. 334: " }'r:x-islt. 'Cf. 1\ Para mais detalhes. "11 laul prendre un parti ou Ir prínCipe I'aclion" (1 772 ) . W uk" vol. p. p. p. 8 C f. cf. pp. 'pp. As análises sciuinll:ll "'J 263 . 1921 ). Pl'nI. OI'." (Otuvres. I Diderot. Supplimcllf Q. 11.~ est Une proposition evidente. S. VIU (ed . sem data. Havei.

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~a Spinoza. Londres. 112 e 5$. Lcipzig.da cxp05içio) . não se tarda em dC~l. TNlClo/l1S IIIeologico-pofilicll.. Philos.. capo 6. Th ~u1o­ l/e ckr Vuingui /. "'01. E se examinarmos um pouco mais de perto o desenrolar dessa campanha. acima capo 1. II~ C!. "l"ht 'ldll/ml " Ülo' )' 01 .rd grvM"lh 01 11 srel coll.J 01 Cod. 1705106.t i Sobre o dese nvolvimento da " neologia" na Alemanha. é aindu o século XVIlI que. 19 c 5~. 41.. 11 13 . em sua " fil osofia da história " substancial."k . 1929. Vi.(1 I.f. PaclI uma informação mais completa. p. 11' Cf. cit. U Cf. vol. ~1 LcMing.:obrir que foi o próprio Século das Luzes que (orjou 85 armas .... pp..er) .Hiqlu.. em si mesma..hrn d. Bibliotbek. ver Le~lie StephC'n. H islojr e crilique JI/ Vitl/x T. e em nome do qual se combatem os seus princí­ pios intelectuais. 1929. pr. 13 e 5-5. 35 e 5. capo lI. denada por C" rl (jebhardt...r/llllr r /ll. edição atemã (Gebbrudt ) . do lado do Romantismo.. o Prefácio de Reimarm pa ra o scu AbhandiwIg von drn vornt' JrmS/ef/ Warhriten du f/atiirlichel/ R e/l6ion . r die Wiss"nwh(j/I .uc no mcu artigo "Die luee der Rel ision bei Lcs~j ng unu M c nde l ~iW h n" (FtSI8<1b. nesse domínio. "Op. ~II O leitor encontrará um a expmiç:io mais completa do que se !9tv.eU1/ia". formulou o problema pro· 267 266 . lal co mo está repu:senlada. pp. rcligião inglcsa do skulo XVll. es pe­ cialmente a desc rição e ab undante materia l com pilado por Aner.. conlra a fil <>­ sofia iluminista .afl.)2 Cf. 20 e 58. do qual é profundamente devedor. capo 2. 93. pp. I~m particu lar intereMC as rd açõe. Com efeito. lachman n-Munck. ° V A CONQUIST A DO MUNDO HISTÓRICO 4l Ver a VII Lellrr SUl" les anglais. Paris. seco XV. 1908.Humc. acima.cm plo. PJ'l.. 5 c $l. O euvrts. em c~peda1. ~~ Collin ~. XliI. I. p.. Por mais que se aÍ8ste da filosofia das Luzes em sua concepção da materialidade da história.. Se não se livesse bendiciado da ajuda e da herança intelectuais do Jlu· minismo. . graças às idéias e aos ideais do século XVIII .ulhi"kers. 4 ~ I raili d. foi prclisurada cln PKrlicular pelos pensado res da "Escolll de Ú1m· bridge".!p>eCIO bistórico. exislen tes cnuc 05 "ne6losos" alcm:iu do sêculo XV III c • filosofia d. XXXI.' peito em meu liv ro Dir Plalollisch r Rrll/liJ· saneI! in t:flIl/alld .. especialmente. só foi descoberto graças à eficácia desses principios.o baseou·$C na supracil.fll"aliol/ 01 lhe ~ing and a/lrib. 13'. 22 e S!. m ~/aph.. pp. H ume. 8U.: uma separata desse arti. p. A demOn.i/UII (ed.wv/lfu of 1" 'I'I!t. ~I . 1618 . edição alemã coor . cf. 8 erlim. Tlre%g. O"II~'tS. XXVI.~ . pp. seco I c 55. XIII-XV. Halle. Sch. 1'raklfr/. capo 17 . Sob o II. seC. uma diviso para se partir em campanha contra a fil osoria do Iluminismo. Para todo eSte aSSUlllo. Essa idéia lão correnlC: de que o século XV III é um século especificamenle "a·histórico" constitui. tiL.fle.Ir" ris" u. K. cf. 119). A idéia de "cxpc· ri!ncia religiosa". p. op. • n Cf.eu dl'$ G"iSleJ IIlId d". .. permancce·lhe ligado em seu método. por c . (cf. ao qual se recorre tanto./e:l J/ld"'lIun~r. jamais o Romant ismo Ieda podido estabelecer e susten­ tar as suas posições. Ob"" drn /J('. ~ . CJarll:e. zum z<"lulji"igrn B<'J". RichanJ S1mon. A~ u<ll'lIIi" fi. cil. uma idéia desprovida de qualquer fu odomento histórico: nada mais do que uma palavra de ordem divulgada pelo Romantismo. cm Jerusalem. op. Londrc ). A Ji. Detalhes a esse re.·polil. O mundo da cultura histórka ."1/ QC{'u&iVlled b)' .

Nunca se preocupou em avaliar o Iluminismo segundo suas nonnas especHicas. desconhecidc esse Ira­ balho de pioneiro decisivo. Pois não se tratu somente de acrescentar um " senso histórico". de súbito. a (im de o apreender em sua realidade pura. em suma . essa atitude não deve con tinuar influenciando e perturbando por mais tempo o nosso julgamento . inicialmente . Trata-se apenas. em especial . mas de defi­ nir o direção própria da nova corrente intelectual que tem aí o seu ponto de partida e proceder depois ao acompanhamento dos seus efeitos especíricos. não soube. num ponto determinado . ver c trotar o quadro do mundo hi stórico eleborado pelo século XV I. entretunto. os pro­ blemas concretos susc itados a tal propósito estão. que em muitos casos o lenha recha­ çado com desdém.o domínio dos problemas religiosos e teológicos . Se ele refutou de form a definitiva nesse artigo a Jable con­ venue" de um século XVIII a-histórico e anti-hist6rico. do que a de uma força agindo em todos os sentidos . mas ele esforça-5e por ~t abelece r essas condiç6es a fim de apreender o "sent ido" do devir tlistórico. o que lhe permitiu conceder. inclusive o ex tremo distanciamento histórico . Dihhey roi um dos primei· rOS. como um traço necessário e indispensável. muito longe de ser resolvidos. Como essa força se comporta. Há uma curiosa ironia no fato de que o Romantismo. e para traçar limites estáveis e seguros entre esses termos . os papéis inverteram-se. comele justamente a falta que assaca ao seu adversária . entre "lei" e "fato". O Romantismo. para fixar as relações entre "idéia" e "reali dade". Viria o caber à época que sucedeu ao Romantismo restabelecer Uln equilíbrio mais justo. E não é raro essa polêmica transpor os limites da caricatura .pria:nente fil osófico . para adq uirir uma idéia clara e distinta do que seja esse sentido. Ela própria estava saturada de espírito romântico e aceitava o postulado de historicidade estabelecido c (undamentado pelo Roma ntismo . que se produziu uma completa reviravolta diulética. no seu artigo "Das achtzehnte Jahrhundert und die geschicht­ liche Weh" ro século XVIII e o mundo históricol . ao quadro geral da ~poca ilum inista. a esse mesmo 5tculo o bene­ ficio do ponto de vista historicista. que ultrapassa incomparavc:tmente o séc ulo XVIII pela ampli tude do seu hori­ zon te histórico e por sua capacidade de penetração histórica. adota­ ra em relação ao século XVIII a distância conveniente. a não ser em lennos polêmkos. da geração de seus pais. atingindo progressivamente todos os dom ínios do espírito? De que modo ar se revela c se mantém como um impulso vivo? As considerações que se seguem lenta­ rão responder a essas questões. OI! princfp!~ elaborados para vencer O recuo do tempo. revelam­ se inaplicáveis à vizin hança histórica.l a conferir ao Século das Luzes a frui ção plena e integral desse benefício. ao mesmo tempo. na acusação q ue formula em nOme da história COnl ra a filosoria do lLum bismo. A visão da história do século XV llI é menos a de um edifício acabado. perde esse privilégio a panir do in stante em que se trata de colo­ car esse século numa justa pe rspectiva histórica. Parece que. questionando aI: condições de possibilidade da história. \foi e conti­ nuou sendo vítima de "cegueira histórica" . Mas. H ! A filosofia do Iluminismo considera desde o começo que os problemas da natureza e os da história formam uma unidade 268 269 . de contornos bem-delimitados. fracassa diante desse passado próximo com o qual ainda se encontra em relação direta. tal como já queSllonara antes as condições de possi­ bilidade da física .c como pros­ segue em sua expa nsão. Que o Romantismo tenha. de uni pri­ meiro esboço. Aquele que se entrega ao passado com todas as (orças do coração e do espírito. em grande medida. eviderHemente. A respei to da geração que " precede imediatamente.

contra o qual devem proteger-se em comum. ser debatidas. a prova direta da estreita união pessoal que existe dora­ vante entre a história e a fil osofia . Voltaire influencia na Inglaterra Hume. em grande medida . Era preciso então que a filosofia do Iluminismo se Convertesse num pensamento efetivamente produtivo: ela não podia conti­ nuar a contentar-se em reun ir os result ados cicn tlficos que lhe Cram apresentado~ pelas diversas disciplin as. A ciência como tal recusa-se a reconhecer q ualquer realidade sobrenatural ou trans­ hislórica. o mesmo método uni­ versal da Hrazão". testa-as. Na Alemanha. é apenas aquele que desbravou o caminho para Newton na literatura. mlls separar imediatamen te dela própri a. num só movimento de pensamento. Gibbon e Rohertson. uma nova abordagem metodológica que Voltaire assu­ me o risco de inaugurar . evidentemente. As concepções dos teólogos inovadores. onde a filosofia do século XVI II vi a um domínio reconhecido e cOfl5olidado há muito tempo. evidentemente . todo o esforço tem por objeto a tarefa de estabelecer natureza e história em seus proprios terre­ nos.!! Mas a situação não podi a. no domínio da física. Ant~ de tudo. no domínio da hi stÓria . novas ta refas e novos problemas nlosóficos. nos dois caws. fixá-Ias em suas articulações centrais. depois da Renascença. pelo contrário. abrindo-Ihe O caminho no seu Essa. por seu grlm de certeza e pela solidez de suas razões. dos Hne6logos" setecentistas . Tal como Kant . assegurar o seu domínio no decorrer da conquista_ l! claro que lal tarefa não podia ser realizada de repente. Todos os grandes ensaios históricos que o século XVIII produziu estão agora sob a influência dessa im?teSsionanle façanha filosófica. mas cuja realidade se impunha sem contestação nem reserva. A permuta de idéias que 271 270 . o conhecimento já dera. as tarefas de uma ciência propriamente dita. de maneira algu­ ma . Voltaire. ser tão simples e unívoca em história quanto na Hsica. cujas condições de possibilidade podiam. Não quer. sob a sua nova forma. Ernesti c Semler tor­ naram-se os verdadei ros " mestres da geração neologista" .que é impossfvc( des(8:z~r arbitrariamente a fi m de trat ar à parte de: cada uma das frações. o passo decisivo. o divulgador de suas idéias e de seus princfpios. çonsiderar a físicn matemática um " fa to". Vimos como nasceram dessa recusa uma nova idéia de Deus e uma nova Hciênci a sagrada" (Cottesgelehrlhei/) uma nova (onna de religião e de teologia . porquanto exigia uma longa e árdua preparação. Ela pretende abordar uns e outros com o mesmo equipamento intelectual. quem a história é quem ergue o F liberta os " nOOlogos" dos grilhões da interpretação dogmática das Escrituras e da ortodoxia dos stculos precedentes. cumpre descobri r um fundamento puramente "ima nente"' . à físi ca matemáliea. ao mesmo tempo. toda a rilosofia do Ilumini smo podia. Era preciso. por­ tanto. tinha que pôr mãos à ob ra e tratar de realizar ela própria. Nos dois casos. aplicar à natureza e à história 8 mesma espécie de problemática. em contrapartida . não se tratava de contar com o apoio da existência de lalo de uma ciência comparável . é que. E Hume é. apóiam-se sobretudo nll idéia e na exigência de uma critica histÓrica das fontes da reli­ gião. conhecimento ffsico e conhecimento histórico defrontam-se oom o (lle~mo adversário. acho do Século das Luzes. mas. a nuolla scienza de Galileu reivindicara e obtivera sua dignidade própria e sua independência como pensamento cien­ tífico. A épocll úa ~ hi s tori og rafia filosófi ca" que começa no século XVII I procura realizar um equi líbrio enlre esses dois elementos . ainda havia todo um trabalho a realizar . submeter unilateralmente a hi stória aos imperativos cons­ truti vos da fil050fia. Na física. Mosheim e Michaelis . Assim como influenciou na França Turgot e Condorcet. conquislar o mundo da história e fundamentá-lo. da riqueza c da visão pal pitante do detalhe hist6rico. Para a his­ tória . sur fes moeurs ( Ensaio sobre os costumes] . Aqui. é uma concepção original e inde­ pendente. Mas t justamente essa preparação que convoca pura a luta todas as rorças intelectuais do século e que. de um outro lado.

.. da matemática pUra e das ciências exatas da natureza. como uma aliada que não tardaria em revelar-se mais poderosa do que ela e em contestar-lhe final ­ mente O domínio do seu próprio terreno. Segundo ele. declara ele. impelido pelo instinto sempre desperto para exami. o verdadeiro tipo e o modelo de toda a sua teoria da ciência. Nessa investigação. de que a metaffsica só pode ser uma ciéncia de fatos se não quiser converter-se numa ciência de quimeras. aplicD a dúvida à realidade hist6rica. Ao aceitar. pelo contrário. numa escala crescente. Assim é que. Ele renuncia a todo O conhecimento das primeiras "causas" absolutlls do ser e s6 quer considerar OS fenômenos como tais: é na quadro do mundo fenomenal que Bayle quer operar a distinção clara e nítida do certo e do incerto.desse modo se instaurou e que não parou de crescer em inten· siàade e amplitude é prove itosa para ambas as partes. Mas a dúvidg met6di­ ca assume nele . Em suma. com sua orientação estrita e e"cJusiva para o "racional ". as origens desse movimento remontam ao século XVII. Bayle foz deles. ele é infatigável c insociável. "aquilo que o próprio Adão teria podi­ do conhece r". Portanto. a dúvida cartesiana apenas comporta um çoráter negativo a respeito da hist6ria: ela rechaça e recusa. ao mesmo tempo. nar os dados do mundo fático. Med ido por esse critério. que nunca deixou de testemu nhar. o qual deveria engendrar a nova forma da hist6ria e das ciências humanas em geral. serve-se dela como de uma ferrame nta para descobrir a verdade da história . também a história é agora o modelo metodológico a que o século XVII I conferiu uma nova e profunda compreensão da tarefa universal e da estrutura específica das ciências humalla$. Assim como a matemática se tornou o protótipo das ciências exalas. A dúvida de Descartes é determinada pelo princípio de que não podemos confiar em nenhuma {ante de certeza que nos tenha iludido urnA vez ou que contcnha em si a possihilida­ de de nos iludir . Daí resulta que a dimel1siia da história fica intcirameme fora do círculo do ideal de saber çartesiano. a intro­ dução do método histórico em sua própria esfera. porém. que nâo seja redutfvel u axiomas evidenlCs e à demonstração racional. Ora. O cartesian. mantivera-se es­ tranho ao mundo histórico propriamente dito. "filosófi co". Estabelecer fatos perfeitamen te segu ros. para atingir uma forma de certeza que lhe seja própria e adequada . O DiciotUfrio faz pre­ 273 272 . O pensamento de Malebranche não se afasta um milímetro se­ quer dessa regra : só pertence ao domínio do saber autêntico. tal é. Ao im'és do espírito de su­ hord inação que rege os sistemas racionais. à verdadeira wpientia ""illersa[is. do "provável" e do errôneo e ilusório. sua admiração pela física cartesiana. nem compa rar·se em valo r ao saber claro e distin to da lógica. em espe­ cial. em vez de recusar os fatos como tais. poderia ter sido pronunciada por Bayle. Não existe o menor conhecimento de um fato que possa conduzir a esse ideal.iste para Sayle de indiferente ou de insign ificante: dificilmen te se vislumbra ncle algu mas nllanças de valor e de significação. Nesse mu ndo hist6rico nada cx. Não é por acaso que ele escolheu para li sua obra crítica a forma de um Dictionflaire /listarique et critique. o conhecimento de um fato nunca pode tcr pretensões à verda· deira certeza. uma outra direção e atribui·sc uma outra finalid ade. A competição amistosa redundari a em connito. inabaláveis. a teologia era reco­ nhecida. cumpre-nos rejeitar niio só o testemt. ao constituir-se ela mesma história dos dogmas da Igreja. para ele. hist6rico.nh o da experiência sensivel mas todo o saber que não seja rigorosamente demonstrável. o pon to de amarra­ ção de toda ciência. De um ponto de vista puramente filos6fico. A opinião de O'Alembert . Bayle ainda é um cartesiano convicto. Em seus começos de filóso fo. e adotar urna posição em relação a eles. o pon to de apoio arquimed iano. O pri· meiro passo devia se r ainda libertar o conjunto dessas ciências da tutela da teologia. em pleno século rigorosamente racional e racionalista.ismo. ele será o primeiro "pos iti vista~ conv icto c conieqüeote.

Escreveu ele certa vez a seu irmão: "Ie vois bien que mon inSil.~ 275 .ie rarquizadas.fto ma temá tica. A história depende de um outro "genero de certeza" (genre ele certilude) que n ma temática. além disso. mas é suscet ível de ser infi ni tamente aperfeiçoada no interior desse g~ ne ro. O fato de que um indivíduo chamado Cfcero existiu é metafisicameote mais certo do que a existênci8 real. A própri a mol dura do Diciondrio explode. na maioria das vezes. assegurar O seu controle int elec tual. 8 indi scut ível validade forma l da demon:urac. que acabam par sufocá-lo inteiramente. indi­ viduaI. Nunca se encontrarão nele jdéias h. 8 ayle apaixona­ se mui to menos pelos artigos rundamentais e pelas "questões essenciais" q ue aí são tratadas do que por aquelas que nos pare­ cem justamente ser "acessórias". as antiguidades mais ruras. mas sempre a mera acumulação de ma te riais . a " devoção ao min úsculo" atingem nele uma vivacidade intlodila. o interesse subjetivo que a e rudição de Bayle manifesta justamen te pelos objetos mais longfnquos . Era neces­ sá rio o inesgotável poder de assimil ação de Bayle para cnfrcn tHr O caud al crescen te e inv 8$Or do 5aber espcciulizlldo . efetivamente. deduzidas umas das Qul ras. O lieu caráter estri tamente ra­ cional veda·lhe todo o contoto direto com a realidade .abilité de nouve/les est une des ma/adies opiniDtres conlre lesquclfes IOLlS tes remMes blanchissent. Não se orende com 8. A ce rteza . observações e notas. A reaUdade histórica apresenta-se a Baylu como um amontoado monstruoso de escombros e [alta m todos os meios para se assc· nhorear pelo pensamento dessa massa de materiais.l. Como efeito." 3 O omor ao rato pelo fato. ex plica ele. Bayle tem perfeita consciênci a dessa sua ca racterística pessoa l e refere-se-Ihc freq üentemente nas descrições que faz de si mesmo em seus escritas e nas suas cartas ín timas. 4 Todas essas consideraçócs d ão acesso. v@ aí a expressão da nova tarda que lhe incumbe como hisloriador. ao mundo dos fal OS. que nesse seja objeto de desenvolvi mentos circunstanciados e de atenções cuidadosas. Acontece com freqüência q ue o não·essencial ou mesmo o inteiramente insignifi can te encontra lugar no Diciondrio.vaJeccr o pri ncípio da simpl es sucessão por vizinhança. E. o essencial do acessório. Apenas aqui e ali se surpreende um toque de escrúpulo ou uma pon ta de dúvida. Não só ele se entrega alegre­ mente ao não-essencial mos. censura de futilidade ne m com o título de minutissimarum rerum minutissimfls scrutalor que lhe conferem . ao passo que o impor­ tante é entregue ao abandono. por uma intenção metódica conscienle. todos pretendendo o mesmo direi to a serem inte­ gralme nte expostos e tra tados com profundidade. mas por re fl exão. Não é por incli­ nação pura. lodos no mesmo pla no. mas a prefe rência contingente. que optara por essa maneira de lIabalbat. Nõo é o peso das coisas que deci­ de a escolha dos assuntos. mas em nenhum momento elc age de acordo com um plano metódico que perm ita fixar limites aos di versos conteúdos. ill natura rewm. p/us elle demallde. rlus 011 lui 10urn ll. mas não fornecem nenhum espécie de princi­ pio que permita obler vcrdudeiramcnte o dom ínio desse mundo. as curiosidades históricas. por maiores que sejam as vantagens qoe este últi · mo saber tenha. de um objeto como aq ueles que a matemática pura define.:çiiu na maneira como ele armazena esses materiais. excluj-a 274 até dessa realidade. essa conc ep~à o deverá pagar tais van­ tagens com um dcfeito essencial. O conhecimento histÓrico ainda não consiste em muis do que um si mples agregado_ um" soma de deta lhes sem víncu los entre eles e sem lógica interna. em exa tidão e ri gor. não pode resgatar o caráter rundamen· talmente duvidoso de sua aplicação à realidade conc reta das coisas. E essa concepção do saber opõe-se conscie nte e ex pressamente ao ideal do saber racional rigoroso. O núcleo original d05 artigos independe ntes encont ra-se agora n anqueados par um verdadeiro exército de comentários. Não sc observa sequer um princípio de seh. C'esl une hy­ dropsie loule pure. sepa ra r o import8n1e do secundá­ rio. sobre o saber puramente empírk:o do historiador.

Não se pense que ternos essa verdade ao alcance da mão. com efei to.rário.escreve e 276 277 . jamais a critica da tradiç.:"os um olhar lúcido e penetrante para o singular. não obsta nte. é pprque não se contenta como esta eru dar apenas o esboço das coisas (/e gras des choses) mas prende-se a todas as particularidades a fim de fornecer para elas uma detalhada ellpli­ cação critics_· Nada está mais distante do pensamento de Bayle do que um projeto de filosofia da hist6ria . pelo contrá rio.rabalho herói co ainda apresenta para nós . sobretudo. ele de­ IIl . que consiste. essa realidade não é somente para ele um problema de conteúdo mas . num certo sentido. O simples plano extrínseco do Dicionário. em primeiro lugar. um problema de mélodo. E é ai que brilha O seu verdadeiro gênio de h istoriador. do que uma inter­ pretação teleológica da história. a essa nOva orientação que Bayle deve a suo verdadeil"3 originali dade e a sua importância na história do pensamento. As partes separadas unem-se e cri stalizam-se em torno de um centro de gravidade dete rminado preci samen te por esse modo de investigação: Bayle não toma a realidade do "fato" num sen tido ma te ri al mas for­ mal. peja primeira vez. O fala já não é ptua ele o começo do conhe­ cimento histórico. no e ntanto. de Sllas obscuridades. que podemos a preendê-la de imediato em sua realidade sensívd. com uma tão minuciosa exatidão.i:o tinha sido realizada com taman ho rigor e inexorabilidade. O valor especial dessas considerações históricas decorre do fa to de Bayle não se ter contentado em apresentar in abstracto essas exigências mas de segui-las até nas pesqu isas mais concre­ tas de detalhes.Se a historiografia moderna. ela só IXlde ser o result ado de uma operação in telectual que nâo deixa­ ria nada a desejar em complellidade. materialmente falan­ do. reduzir a nada.ivo. sua concepção literária inicial já seo' totalmente ca­ racterísticos: Bayle queria . pelo cont. positiva e altamente proveitosa do todo . não na descoberta do verdadeiro mas na do fa lso. dificilmente um só dos fatos coletados por Bayle à custo desSe I. ensinando-nos que essa histórin nu nca (oi oulra coisa senão o rosário de cr imes e infortúnios do gêncro humano. deve bastar para curar-nos de todas as especulações e construções apressadas. Essa diligência não parle dele. Com uma cl areza sem precedentes. " Por volta do mês de novembro dc 1690" . para a históri a real da humanidade. uma cir­ cunstância que con fere à obra. Antes dele. pode e deve suphmtar a antiga. por paradoxal q uc isso pareça. Bayle é in· fatigáve l. essa dissolução e desintegração do mundo histórico em Bayle produziram rina lmente uma conce pção nova. E. No levan tamento sistemát icO de suas lacunas. Mas existe. mesmo assim. Disso ele já loi impedido por seu profundo pessimismo. Bayle já não considera mais os e lulas singulares essas pedras sólidas com as quais O histori ador Ikve e rguer o seu edifício: a tarefa que o excita e o apaixona é IU' UUllcnte a at ividade in telectual que perm ite adquirir as pedras pMa a construção.mstra o complexo de colldiç3cs a que está justamente vincu la­ tio O falo como tal. à compreensão verdadeira do todo. chega até ele: quer desembaraçar o único caminho que pode cond uzir a uma verdade dos falOS. toda a esperança de uma ta! compreensão. a mais atenta investigação critica e uma avalia­ ção crrtica dos testemunhos individuais para descobrir e extrair tia sua ganga o núcleo sólido de um determinado " fa to " histó­ rico. um in teresse essencial. um todo racionalmen­ te organ izado_ Uma olhada para os fa tos. é o seu fim: seu termimts 1111 quem e não mais o seu lerminus a quo. de suas contradições. o qual lhe proíbe descobrir em qual­ quer parte da história um pI aD O coerente. Com efeito. a idéia de fa lo é concebida como um problema profllodo. oferecer no seu Dicionário não uma e nciclopédia do saber mas uma " coletânea de erros". o seu valor ines­ quecfve!: é que. mais teremos que renunciar ao conhe­ cimento. necessário o m ais refinado exame selet. sutileza e rigor aos mais diffceis raciocínios matemáticos. q uanto mais dirigi.. € esse conhecimento que faz de Bayle o lógico da história.' v e·se que.

e que reduziri a. essa acribia é apenas. tan lo pelos que fizeram dicionários como por outros escritores. I '. e esse trabalho puramenle negativo do hisloriador não deve fraquejar em momen to algum nem recuar diante do mais imperceptível d~ detalhes. nenhum citação inexata ~ permitida. Para entender bem a fin alidade para que tendem as considerações de Bayle. des· mascarada implacavelmente. Aí se vê como a mais insignificante negligência na transmissão e propagação da trad ição acarreta as conseqüências mais fatais. 8 revolução copernicana em história. Foi ele quem realizou. seu júbilo nunca é maior do que quando surpreende a pista de um erro secreto que vinha arras tando·se há séculos. mas essa mesma autoridade. pois é nelas que resi­ de por excel ência o erro histórico sob sua forma específica . impc5c e ju.igências Bayle foi o verdadeiro cri ador da " acribia " histórica . O fanatismo crítico de Bayle aplica·se igualmente às matérias mais fúteis.ele numa carta . por conseguinte. na autoridade da Igreja e. A verdade desses fatos só pode ~r assegurada. os erros referentes a esse homem ou 8: essa cidade. dos dados históricos. com efeito. evidentemente. grave ou insignificante . às condições subjetivas dessa verdade . sem referência à fonte reaP Por todas essas ex.~sa obra oferece-nos um vaslo plano de conjunto. do que o preconceito de qlle a verdade histórica poderia c deveria ser aceita como moeda corrente. que lhe serviu de ponto de partida. sublime à W8 maneira. quer o seu objeto seja grande ou pequeno. um meio c não um fi m em si. A crítica das fontes históricas. cumpre comparar a sua e. ubra com a última das grand-::s concepçôes e consl ruç&:s pun l­ mente teológicas da h istória que fo ram tenladas . repousa para Bossuet na Ilutoridade da pa lavra bíblica. é a propósito delas que se mostra mais constantemente en tusiasmado. segundo ele. como pode levar até uma fal sifi cação radical da verdadeira si· tuação. Mas no q ue se baseia o con· tcúdo e o valor próprios da trad ição? Em testemunhos hi stÓri­ cos. sublime ou miserável . a tradição torna·se o f unda­ mento de toda certeza histÓrica. em seus últ imos refúgios. os fatos sobre os quais ela assent a. aq uela que UOssuct nos deixou no seu Discurso sobre a história universal. Uma vez mais. seu virtuosismo erudito e lite­ rário encontraram af seu terreno de eleição. Nenhuma in· formação alterada deve escapar a eS5a prova. Bayle está fasci­ preci so nado por sua ex istência como lal e por sua qualidade. ele retorna às fontes subjetivas." 8 A su­ perioridade intelectual de Bayle. a ordem de grandeza desses erros importa-lhe muito pouco. Mus essa iniciativa tão ousada. sob ca da nome de homem ou de cida­ de. foi verda­ deiramente edificada sobre areia . por sua vez. Mas. mulatis mulandis. en tretanto . Nada é mais errôneo e prejudi cial. nem mai s nem menos. Desse ponto de vista. Toda negligência dessa ordem deve ser. na base do crédito. portan to. a mis· 279 278 . uma inle rpretaçiío religiosa universal da história. Galileu ex ige a independênc ia lotai da física em relação ao texto bíblico para a interpretação dos fenômenos. o quaJ con teria uma coletânea de erros que lêm sido cometidos . pelo contrário. Assim. e seja extirpado a todo custo. que o erro seja perseguido até em seus últimos en trincheiramen­ tos.stifica metodica mente essa exigência: Bayle abre o caminho dessa indepen dênci a em história. Bayle não fez mui to menos pela história do que Gali1cu pela física. na Irndição . nenhuma deve ser citada de memória. por um círculo vicioso. Toda aulO­ ridade dos fatos . Para a sua obra filo-­ sófica . Em vez de basear a "verdade" da históri a num p retenso dado objetivo impos to dogmalicamente pela Bíblia ou pela Igreja. Seu instinto de farejador celebra aí seu verdadeiro triunfo. adquire em sua s mãos um a ilmplitude cad a vez mainr até con' verter-se numa espécie de "crítica da razão histórica "."formei o projeto de compor um Dicionário critico. ele tem que fund á-l a. Bayle é o primeiro pensador moderno fi desvendar esse círculo com um rigor critico implacável c 11 enfatizar inúmeras vezes as conseqüências (atais. se considerarmos os seus funda· mentos empíricos.

Bayle {oi O grande mestre da riloso fia do Iluminismo. essa é a minha única r/linha. [Crês. mas somente a serviço da verdade. talvez.: unhecem as leis da Hist6ria estarão de acordo em que um hIstoriador. além disso. que foi ins truido numa certa comunhão. E: a sua inteligência penetrante. se quiser cumprir fieJmente suas funções. Se lhe pergumarem donde veio. O du Thor. s6 a ela prestei juramento de obediência. sou habitante do mundo. I nsensível a todo o testo . 6 insensa to .: colocar-se o mais possível na posição de um est6ico . ao invés de fi car por af.] e Esses versos do Wesl-ostlicher Divan de Goethe são. nesse sentido. Glaubst du denn : von Mund zu Ohr Sei ein redlicher Gewinnsl? Obarlielrung. esboçoll o seu "projeto de uma história universal desde uma perspectiva cosmopolita". 8 ayle lili nno só o lógico da nova ciência roas. MIO se cansou Bayle de proclamar. Foi no Dicionário que a filosofia do Il umin ismo aprendeu a formular os seus próprios problemas. s6 deve estar alento para os interesses da verdade. 10 "Todos os que I. deverá responder: não 50U francês. os que permitem resumir da maneira mais clara e mais perti­ nente o papel de Bayle e os que melhor caracterizam a sua orientação pessoal. sem pai. E/e. que encontrou forjadas as armas que deveria ulilizar para a "TlltlOcipação da consciência hist6rica . a que tu já renunciaste. o seu mo­ rulista. no que precisamente ele foi o precurSOr do século XV IlI . nem inglês ou espanhol. encarnando-a numa obra·prima que é o seu elCemplo e modelo clássico. Dem du scholl Versicht gethol1. estende as suas investigações B todo o conjunto da história prorana . nem alemão. sem mãe e sem genea­ logia. Inaugura essa tarefa pela crítica da tradição teol6gica mas. Um historiador. Deve esquecer que está num certo IH1!S.são da inteligência consiste em proceder à cunhagem da moeda e em testar cuidadosamente cada peça. pois. Dos grilhões da crença Só o intelecto pode salvar-te. anles de pO-la em cir­ culaçJo. que tais e tais são seus progenitores ou seus amigos. é como Melquisedeque. Isl auch wohl ein Hirngespinnst! Nun gahl erst das Urthcil a1l. a quem nenhuma paixão agita. Dich varmag all1 Glallbensk etten Der Verstand alleill zu retlen. A hist6ria só pode ser tocada com mãos limpas. nem do rei da Fra nça. sacrificando 11. um treina­ e lIIen to dialético sem igual. enquanto no exercfci o de sua fu nção." Por essa má· xima e o imperativo moral que a fUlldamentnl. a que libertou em definitivo a história dos gri_ lhões da fé e estabeleceu-a sobre fundações metodológicas au­ tônomas. para o qual o Dictionnaire historique el critique constituiu não s6 uma reserva cientifica inesgotável mas também um exercício intelectual. Ainda é uma quimera! de julgamento que se traia agora . E.. não estou a serviço do imperador. que é devedor de s ratidão a este ou àquele. deve des­ poja r-se do espírito de adu lação e do esp(rifo de maledicência . a lembrança de um beneHcio c até mesmo o amor da pátria . o relato hi stóri co não deve "cr imped ido por nenhum preconceito nem dcsrigu rado por ne­ nhuma parcialidade conressional ou política. que da boca à orelha Haja um lucro honesto? A tradiçiio. jnnexivel­ mente an alítica. ~ o apóstolo e a encarnação viva das virtude! propria­ mente hist6ricas. essa ores­ Icnti mento de uma injú ria. 280 28 1 .

Nesse domínio. A obra q uer mostrar e demonstrar que Os . é uma obra que não nasccu diretamente de interesses históricos e que igno ra a pura alcgria do fato estabe lecido em sua unicidade. essa o bra. conce­ bida numa perspectiva de oposição deliberada a DeSCa rtes e desti­ nada a expulsar o racionalismo da história . ele nem mesmo podia tentar oferecer­ nos uma.a de fundar uma rilosofia da história foi obra de Montes­ quieu.nos diante de uma heterogene idade total e de uma 'Iariabilidade quase ilimitada. de a monarqu ia.escreve ele no Prefácio da obra . J! cvidcnte q ue essa estru tura permanece escondida enquanto fi Clltmos na sim ples cons ideração dos fenômenos políticos e sociais. Pode-se afirma r que Montesq uieu é o primeiro pensador a conceber e exprimir de maneira clara e prccisa a noção do " tipo ideul " histórico." Assim. Ele não averigua... na abundância de republic as."e julguei que. monarquia.2 Bayle nunca nos deu uma verdadei ra liloso/ia da história. a bem dizer. um amor decidido pelo deta lhe. tão característica de Bayle.' ~o ni s m ~ls IJulíticos q ue designamos pelos nomes de república.:8 da imaginação" (La8ik der Phantasie) do que na mais na " 1 de idéias "cluras e distinlas". "Examinei prime iro os homens" . as histórias de todas as nações sercm a pe nas seqüê ncias e cada lei particular ligada a outra lei. quanto ao conteúdo. cujos Pri/tcipi di una scienza n UOIIQ d 'ill/orno alia CQmune natura dcIle floziolli constitufram o primeiro esboço sisle­ mfitico de urnu fil osofia da história. As leis somente são acessíveis numa matéria concreta . tanto quanto 8ayle. por assim dizer. O primeiro a enveredar por esse caminho roi Ciam­ battista Vice. essa obra que se apóia 6gi1. toda essa riqueza é dominada e validada por um princípio rigorosamente imelectual. O espírito das leis caracteriza uma nova época. despotismo não são meros agregados de elementos variados. c é ti expressão de uma determ inada estrutura. Entretanto.primem. a primeira te ntat iva de­ cisiv. PermanCl:CU mergulhada nu ma obs­ c uridade donde só viri a a st!r tardiamente retirada por Herder. exam ina ou avalia os fat os per se mas pelas leis que neles se apresentam e e. pré-fo rmado. para Montesq uicu . ~ apenas umu etapll a tra nspor com o objetivo de chegar a alguma outra coisa que é a verdadeira meta da investigação. O prazer que lhe causa o singulflr é tão vivo q ue a iluslração part icu la r. de a repub lica. Nesse sentido. li realidade dos falOS como tu l não é a finalidade obrigatória da investigação.:udo e seu sentido verdadeiros quando tomada como e.. o acessório anedótico que ele inter­ co lo em suas exposiçãcs d ~ tempos em tempos submergem a linhll de pensamento e ameaçam torná-Ia quase irreconhccível. Na verdade. ou depender de uma outra mais geral.em­ pIo. se considerannos a sua concepção geral e as suas prem issas metodológicas. O simples título da obra de Montesquieu já indica que se trata do espírito das leis e não dos ratos. não e ram eles oricnlados unicarnenlC por seus caprichos. Coloquei princlpios e vi os casos particulares submeterem-se a eles por si m~ s mos. por ou tro lado. cuja contcmplação procura adquirir através de estudos profundos e de gnmdes viagens. não se pode descobri-Ias em q ualquer oulra pa rte nem demonstrá-I as de outro modo. aristocracia. da diversidade das fo rm as empíricas para as forcas consti· tuintes. nas inúmeras monarquias históticns. Mas essa apa rê ncia desfaz·se desde o instante em que se aprenda a retrocede r dos fenômenos para os princi­ pias. nenhuma influência exerteu sobre a fil osofia do Ilu mini smo. Montesqu ieu q uer mostrar no detalhe que o princípio sobre o 282 283 . No ilmbito da fil osofi a do I luminismo.. nessa infi nita diversidade de leis e costumes. essa matéria só encontra seu con h.l teoria polítka c sociológico uQS tipos. O esplrilo das leis é um:. Apercebemo·nos então. nenhuma forma é idênti ca a nenhuma o utra: encontramo. Mas. Mo ntesquie u ma ni­ resta. como paradigma de relaçõcs un iversais. que: cada um de ntre eles está.

" 13 Enquanto o seu princípio se mantiver como tal . nada retira à sua importân­ ci. somente na soc iologia dos séculos X IX e XX len ha encontrado O desdob ramento completo de su as múltiplas possibilidades. O fato de que essa regra nunca se exprima plenamente em qualquer rorma individual. as melhores leis tornam-se más e voltam-se c. é a diferença de impulso (An triebe). Não sâo as pa rcelas de uma soma c sim forças interdependentcs cu ja ação rccíproca depende da for ma do todo . o sistema de justiça.qual repouSa a república." J1 Montcsquieu tem perfeita consciência da na­ tureza lógica particular dos conceitos {undnmenlais que ele assi m introduziu. repousando a essência da república na virtudc. ti da mo­ narquia na honra etc. Expli ca Montesquicu: "Entre a natureza do governo e seu princ:pio há esta diferença: a sua natu reza é o que o fa z ser COUlO é.nde . ao passo que a monarquia se aliccrça no princípio da honra c o despotismo. o próprio enfra· quecimento de suas instituições e de suas leis pa rticulares não lhe causará nenhum dano.. num certo sen tido. de motivação intelectua l e moral. enq uanto se mant iver saudável. da nossa problemática sociol6gica mais elaborada. quer tornar visível a regra interior que domina e governa essas formas .:6es humanas que o movimentam. a organização do casamen to e da famfl ia. é impossível mod ificá-los arbitrariamente. a corrupção de uma sociedade niio COI11C ÇH em tal ou tal direção de sua ação mas na dcstru içiio do seu princípio interno: "A corrupção de cada governo começa quase sempre pela dos pri ncípios. O modo de: edu­ cação. Compreendemos assim que a verdadei ra diferença. as pabr. ele quer estabelecer a generalidade. a essencial.ontra o Estado : quando seus princípios são sadios. Por outro lado. Até nos mín imos detalhes veri(jca-se essa comu­ nidade de ação e essa organização estrutural. pelo conlrário.12 J:: por isso que os objeções que podem ser suscitadas contra a realização do sistema de Montesquieu não valem fo rçosamente contra suas idéias fundamentois . por causa do nosso horizonte histórico ampliado. todo o mecan ismo dc políti ca interna e extern a: tudo isso depe. E Montesquiell já extrai daí a doutrina de que todos os elementos constitutivos de uma determinada sociedade es tão entre si numu sItuação de estrita correlaçiiQ. e seu princípio é o que o faz agir. o mérito de ter descoberto um novo é fecundo princípio e fundado um novo método das ciênc ias sv· dais. porém. Para além de tal genera li dade empírica. a universalidade de sentido que se ex­ prime na s form as particu la res de Estado. é um dever-ser (ein Sollen) o que elas cxprimcm. . Ora. Mais do que um ser. de que de é o iniciador c que apli ca com perfeita mestria . Com efeito . ele não entende ql1e se possa tomar essas essência s por realidades empíricos concretas.sde que adormeça a força que in teriormente o aciona. de que não possa realiza r-se plena e exatamente em nenhuma individua li dade hi stórica. nunca tenha vindo a ser depois abandonado c:omo tal c que. tal como se encontram nos fenô­ menos reais. destruf-la . Ao atribui r às diversas form as de Estado um pri ncfpio espe­ cífico. A infra-estrutura empfr ica na qual ete tenta fundam entar seu sistema pode parecer muito im pe rfei ta nos dias de hoje. que confere a cada sociedade a su a forma e o seu mo­ vimento. no medo.. desde que o princípio desmorone . Não vê aí conceitos abstratos que possuíssem tão­ somente a universali dade de um gênero e apenas pNtcndessem destacar certos traços comuns.. é a "virtude" (verlu) civica. as melhores leis deixam de of~1"ecer qualquer proteção : "Quando os pri ncípios do governo sào corrompidos uma vez. sobre o qual se baseia a sua perma­ nênci a. isso não retira 284 Montesquieu. da forma fu ndamental do Es­ tado . e fi 285 . as más têm o d eito das bollS : a força do prindpio arrasta tudo ( .a . é notável que esse método dos "tipos idcais". uma forma política nada tem a temer sobre o seu futuro . em úllimll instânci a. sem afetar lIO mesmo tempo essa forma fundamental e. ] Poucas são as leis que não sejam boas quando o Estado não perd eu os seus princípios. de. A primei ra constitui sua estrutura particul ar e a segunda.

quer ffsicas. que. Est á convencido de que o devir. recusa a si mples dedução a parti!' de falOre s puramente ffsicos. " I S O curso geral c o objeti vo geral J n história estão assim impregnados de uma ordem comparável à das leis da natu· reza . contu do. com efeito. determina a ~lIa grandeza e 8 sua deca· dência. os bons . é capaz de conduzi·las para a me ia que escolheu . " 11 1! certo que." H Se acabamos assim de delinear os contornos de uma filo­ sofia política. ou s~j a. No nfvel de desenvolvimen!O em que nos encontramos ainda falta muito . :t. Illas que é poss íve l descobrir aí igual­ mente certas orientações típicas. o menor fun · damento para uma filosofia da hist6ria. aq uelcs quc se aper· cebem das defi ciê ncias e con tra elas rea gem com todas as SUAS forças morais e cspiritua is. parece que o mero acaso decide do destino de um povo. Os tipos idea is descritos por Montesqu ieu são. um desenrolar de even tos inde· pendentes e separados. lima clIusa pa rticular.s (:ldo devesse perecer através de uma única batalha . Numa palavr<l . aquilo a que chamamos "história" nunca ma· nifest e semelhante orien tação e só dei xe entrever um enredo de "acasos". entretanto. Se ele também possui leis natmais determinadas e im utáveis . e se o aca· r. a mostrar o vínculo qu e une a forma poHtica e 115 leis de um país ao seu clima e à natureza do seu solo . referindo·se às riquezas: não é o licor que es tá estrllgado. mantêm·na ou preci pitam­ na. à desco­ berta de um outro quadro. mais as C8\lSaS morais devem ufastá·los de le. Mas esse <lspecto tende a dissip&l-Se à medida que se passa da superfície dos fe nômenos pa ra a sua verdadei ra pro­ fundid adt:." 17 O homem não está simplesmente subme tido às forças da natureza. Monlesquieu não du vida de que o seu método não possa estender·se li esse problema também com proveito ." 111 As condições fís icas agem igualmente sob re esse estudo geral. havia uma causa geral que fazia com que esse E . de estabelecer entre elas um equil íbrio que assegu re a conservação da sociedade · Se é verdade que o ear<Íler do espíri to e as paixões do coração são ex tremamente diferen tes nos diversos climas. J?. o connito dos eventos singulares dissolve-se. os fenômenos reduzem·se a uma "razão" que permite expli cá·los. c1e conhece essas fo rças e. pois que maior absurdo do que uma fatalidade cega ter prodUlddo seres inteligentes? Existe. ele su bordina as causas ma­ teriais às espirituais. "Os que afirmaram que wtla fatalidade cega produziu todos os efeitos que vemos no mundo disseram um grAnde absurdo. form as puramente c~t áti cas . "Não é o acaso que rlomina o muno do Existem cau sas ge rais. quer morais. é O va so. à semelhan ça do ser. a situação principal arrasta com ela todos os acidentes particula­ res. Os mau s legisladores siío aqueles que cedem às defi ciências do cli ma . Datfl (!"C o mun do moral esteja tão bem ordena do quan to O mundo físico. f evidente que nem todo solo. aind a não aprese ntamos. com bastante freq üência. II S condições fís icas nunca siio intci ramente determinantes. sem dúvi da. Nesse ponto . nem todo cljma convém a tal ou tal forma política: mas . todos os aciden tes estão submetidos a essas causas.. [ Montesqu ieu é um dos primeiros pensadores a indicar e assinalar a importância das mesmas. visto do ex terior. Uma observação mais penetrante leva . que agem em cada monarqu ia. sem dúvida. não parece obedecer·lhes com tanta perseverança quanto a natureza 286 287 . tarefil que compete sobretudo ao legislador estabelecer condições jus· tas c sãs paTa o Estado. "Quanto mais as causas físicas levam os homens ao repouso. inversamen te. .] so de uma batalha. nada mais é do que um simples agregado. Elas estabelecem um princípio de explicação do ser do corpo s0­ cial sem oferecer nenhu m meio de interpretação do seu devir. O caos. possível. as leis devem ser relativas à diferença dessas paixões e à dif~ r en ça desses ca· racteres. elevam-na. graças a esse COllhecimerlto. arruinou um Estado. portanto. porém. uma razão primeira e as leis são as rel ações que se encontram en tre ela e os diferentes seres. em rigor e em ce rleza. Ent retanto.como dizia Epicuro. assim como as relações desses di versos seres entre si.

por out ra porte . portanto. Mon tesqui eu procura. acomodam·se melho. entre a "experiência" e fi "razão". O homem não está somente submetido à necessidade da natureza. de impô-la como termo obriga tório de refe­ rência: "Como poderia afirmar isso. agem seg'Jndo o seu próprio pensamen to e a sua própria vontade. que analise teorica m('n:. Ela exige. sur Ics mocurs de Volta ire. Embora se empenhasse em combater o método e as premissas de Montesquieu. falando de si mesmo.hccimenlo desse estado de coisas uma nova ordem do mundo da vomode.· no meio do que nas extre­ midades?" 21 Até mesmo em suas construções puramente teóri· cas. A esse propó­ sito. OS $Cus próprios projetos situarem-se à mesma altura desse me­ deIo. que o espírito observe cu idadosamente as rea­ lidades individuais. uma nova orientação geral da história política e social da huma nidade. sua obra continuou exercendo uma influê ncia muito al~m dos estrei· tos lim ites da " filosofia do l lum ini smo ". a qua l só pode nascer da união e da concentração de todas as fac uldades do espírito. eu q ue acredito que o pró­ prio excesso de razão nem sempre é desejável e que os homens. q ue ele reverencia c0­ mo um modelo político. Montesquieu não sublinha menos o fato de estar bem longe de querer impor a mesma fonna de governo lias outros pafses. existe em O espírilo das leis uma fórmula nlOito significa. o ESSQ.física obedece às suns. metend~se na pele de um antigo? 2. é filho do seu tempo. Lessing inicia o seu 8rtigo com o c0­ mentário de que a mais nobre ocupação do homem é o homem . Mas um simples desejo $Crá impotente se não for conduzido e penetrado por uma visão scgura das coisas. ele pode e deve criar Jjvre­ mente o seu destino. de toda parcialidade dou­ tri nária. ele é o dotado de mais viva penetração histórica. Sempre se defe ndeu vitor iosamente contra a expo~ção puramelll c esquemlÍt ica. JG Montesquieu. a rcdução da multiplicidade de formas e. descobrir e conservar cons· tantemente O "meio" certo. Q ue r dizer. de um outro lado. Graças 8 esse Jom de eq uilíbrio. que para falar da história antiga tentara adotar o espírito da Antiguidade . tiva. por "ia de conseqüência. é um legrtimo pensador da Era do Iluminismo. "'Considera-se o homem quer individualmente quer de um modo geral. em sua cons tru ção teórica. {I um quadro absolutamente rfgido e . De todos os pensadores do seu meio. Não só foi o exemplo e o modelo da visão histórica dos enciclopedistas mas também dominou com seu prestfgio os seus adversários e crfticos mais perspicazes. inflexfvel. ao mesmo tempo. entretanto. que ele merguLhe nos detalhes empíricos da história e. no Vossischen Zeilung.:: as diversas "possibilidades" para as situar e distinguir com nitidez umas das outras. o que possui a mais pura in tuição das dive rsas formas da existência histórica. assim como quer manter o equilí­ brio entre os elementos fund amentuis do pensamento.mas de que podemos ocupar-nos desse objeto de '"duas ma· neiras difere ntes". Montesquieu mostra idêntica mestria na solução de ambos os problemas. que espera do pro­ gresso do cOI. e que. construir o seu próprio futuro . O q ue o conduz à filosofia da história: do con heci men to dos principios gerais e das forças motrizes da história. Descrevendo a Constituição inglesa . H erde r nem por isso admirou menOs esse "nobre e gigantesco empreendimen to" e ambicionou parI!. quase sempre. Esse olhar exercitado na apreensão do singu la r e esse gOStO da singularidade preservaram-no igual­ men te. sujeitos a e rros. t muito difícil 289 288 . ele espera a possibi lidade de organizá·los com mais segurança nO fut uro.:!: J Analisando em 1753. A causa disso é que os indivíduos dotados de razão estão limitados c. nâo obedecem constantemente às leis fundamen tais que por eles próprios fo­ ram criadas.. Da primeira maneira. Não disse ele um di a.

inferir que o homem f essa nobilíssima ocupação. plus. ao surgimento e queda dos grandes i:upérics. O verdadeiro ubjeto da história é a história do espírito. Não se interessa pela simples seqüência de acontecimentos mas pelo progresso da cultura e pela organização interna dos seus diversos eiemeotos. uma concepção e uma interpretação míticas do passado. Que se deixe. A interpretação mitológica da história produziu culto dos heróis . et la lesant soul/rir  eenf mille hommes leurs semblabTes. o que é que se conbece ? Loucos e celerados ( . Deveria ser possível rea· lizar em história uma ci! ncia análoga à de Newton.. ao caráter betero· dito e fragmentado do saber histórico. consiste em elevar a história adma do "demasiado humano" ." (N . o culto dos her6i s. ele só pode estar na pr6pria natureza humana." 2. que os verdadeiros defeitos da his­ tória.. nâo o ôelalhe de ratos quase sempre controvertidos. em suma. Esses dois defeitos estão em correspondeneia..Jlar absoluto.s ces conquéran!s.· • "Gosto pouco dos heróis.) . por uma parte. le ha. que se queixava. ao qual ele não é propenso. quis nessas poucas linhas render plenamente justiça à importância de sua obra histórica ../Quanto mais refulge a glória dele" mais abomináveis são. Não é sua in· tençio retratar o individual e o ocasional mas o "espírito dos tempos" e o "espfrito das naçõesN . do contingente.J Buscando por toda paMe a mOMe. são barurll ~ nlos demais/Detesto esse!. 31tivos inimigos de si mesmos. a esse objeto. a maioria dos historiadores não tem feito outra coisa senão descrever batalhas. quanta diligência seus momJ· mentos testemunham ( .sente obra tem o direito de proclamar: libera per vacuum posui vcs· ligia princeps. reduzindo os fatos 8 leis. ele denuncia 6ua grandeza e sca ori· gem divina. . em que um jamais deixa de contradi zer o outro. liers ennemis d'eux·mêmes. Em geral. por· tanto. em nbsoluto. por comparação com as ciêr. do sing". por ou lra parte. ° J'aime peu les héros. de forma especial.stumes era destinado à marquesa de Chãtelet. Considerem·se os empreendimentos áo homem. deve r·se·ia reler somente os mais im?ortantcs e os mais seguros a fi m de colocar um fio ccndutor na mão do lei!or e para que ele fi que em situação de formar um ju!zo acerca da ruína . ] OUI. lanto elTo história quan!o em quaJquer outra área. Que dans tes horreurs des combafs Onl placé le bonheur suprême. no curso infinitamente múltiplo e cambiante do destino dos homens. conquistadores. são. ils IOTlt trop de Iracas.-- 291 .cias da natureza . J Nenhum escritor se dedicou jamais. consti· tuem a dupla expressão de um único defeito mais profundo. Plu$ leur gloire a d '~clat. tal como foi escrihl até o presente. .\ Lessing. como ele amplia cotidianamente as fronteiras da sua inteligência. de modo que o aU{Qr da pr-. de prestar unicamente atenção na hist6ria aos eventos 290 políticos. " Em vez dessa enorme acumula· çõo de fatos. e não pára de alimentá·lo. aos tro· nos que desabam. por certo. Esse ele· menta imutável c idêntico não se encontra. Voltaire considera. Em vez dc prestar atenção ao gênero humano. do T. chegar·se ao conhecin:en!o das leis sem descobrir vm pólo imóvel no flu xo dos fenômenos." 2. ils sont luiissables. e fazendo-a sofrerI A (enl mil homens 6eus temd hanles. efc­ tívamenle .lQue nos horrores dos conlbatu/Coloc<lram a felicidade suprema. Sob a forma que projetava inicialmente Vohaire. Cherchanl portout la mort. Mas não seria possfvel. como são sábias as leis que o governam. o Ensaio sobre os co.ra coisa muito diferente é considerar o hcr mem em geral. Conhecendo o homem individualmenle. e desse modo aprenda 11 conhecer o ca ráter e os costumes dos diversos povos. lle adotar por máxima o hOl1Jo sum. re· ll uscença e progressos do espírito humano. o maior adversário e o crítico mais penctnmte que Voltaire encontrou no século xvrn. dos Ifde res e dos príncipes. Ele loca de imediato no cerne da obra e caracte· riza a sua orientnção mais profunda: a intenção de Voltaire.

no en­ tanto. é sempre a mesma. fina lidades muito diferentes. ~B é a concepção que ele exprime nitidamente e sem rodeios em diver­ ' os passagens de sua obra histÓrica. o conceito de espírito assume envergadura maior. na carta que Lhe enviou após a vitória de Cholcsitz. é evi­ dente que niio se contentará em considerar a hist6ri a política . quase ao mesmo tempo e num ambiente cultu ral semelhante. Voltaire é o entusiástico profeta do progresso : foi por esse pensamento que cle mai s fortemente influenciou o seu tempo e as geraçõcs subseqüentes. o olhar quererá dominar a hi stória da religião. a da arte. Em Voltaíre.escreveu Voltaire a Frederico. ela esta­ i>elece por toda parte um pequeno número de princípios invariá­ veis: assim. surge um curioso dilenla . (I Grande. até único. essa fé no progresso da humanidade ."que tudo " que se rclaciona intimamente com a natureza humana asseme­ lha-se de um extremo ao outro do universo. Ao aprofundar-se essa pers­ pectiva. a da ciência. não se dissipa desde que se reverta aos princfpios verda­ deiros que. no fun do. da história universal. a vi da política con tinua sendo o centro do mundo histÓrico. todo o conj un to de transformações a que a humanidade deve submeter-se antes de alcançar O conhe­ cimento e a verdadeira autoconsciênci a. Puro quem sabe separar a casca do cerne da hist6ria. as duns obras perseguem. e~ p alba a va riedudc no cenário do un iverso. a substância própria do espírito escapa à ação do devir his­ tórico. com efei to. Aí reside o troço característico que distingue nitidamente Voltaire de Mon­ tesquieu. uma história filo­ sófica no sentido próprio? Toda aparência de mudança. Esboço de um quadro hist6rico dos progressos do espfrito nu­ III U/IV . O espí­ rito da históri a coi ncide com o "espírito das leis ". Voltaire permanece fiel a essa concepção que já ea rae­ tcrizélva o pensamento histórico da Renascença e cujos repre­ ICn tantes pri ncipais são Maquiavel e fuan Luís Vives. segundo uma intenção metodológica cons­ ciente. a supressão dcssc processo? Poderá o filósofo deleitar-se com o variegado e 292 293 . as considerações de Voltaire sobre a hi stória colocam-noS diante de uma questão deveras embaraçosa. que não pode ating i-la em suas profundid ades ext remas .é realmen te essa a pergunta que se deve acabar por fazer a Voltaire . a todos os usos . da históri a política para a história do espírito. o Estado é o verdadeiro sujeito. A tarefa essencial a que o Ensaio sobre os costumes se propõe é fazer compreender a lenta marcha da human idade em direção a esse objetivo e todos os obstáculos que deve superar. de evo­ lução. Como conciliar. de que a sua I'~rda de ira " nlllureza " não mudou? Se esta últi ma hipótese preva­ Ir(:c. " no fundo ".U O centro de gravidade da história foi assim deslocado. por trás dos reflexos cambiantes dos fenôm enos. O domínio do costume é müito mais vasto do que o da naIUl'Cza . " 27 Pode haver . pelo contrário. que tudo o que pode depender do cost ume é diferente. I)crmanecem inalteravelmente idênticos? E o con hec i mc n~o filo­ . Voltaire . tstende-se aos hábitos.só/ico do processo histórico não seria. Para realizar essa tarefa. são sempre ~ por toda parte as mesmas forças que a dominam e di rigem-lhe u curso. Pura Mon tesquieu. a da filosofia.com a convicção não menos fi rme de \Iue a human idade. sendo assi m. ~ Itua ·se diretanlcnte na linha das idéias e dos princfpios do. Se o Ensaio sobre os costumes e O espírit o das leis foram publicados. "Resulta deste quadro" ­ t:scrcveu ele resumindo uma vez mais o conjunto de suas desco­ bertas na conclusão do Ensaio $obre os costumes . a natureza aí difunde a unidade . c que é um acaso se se parece. Mas justamente a propósito desse plano fund amental. engloba toda a vida interior. e haverá o propósito deliberado de traçar assim o quadro completo das fases particulares que o espírito teve de percorrer e transpor a fim de adqu irir sua forma pre­ sente. ao analisar os principias que a embasam. A célebre obra de Condor­ cel. o solo é por toda parle o mesmo e a cultura produz frutos diversos. porém.

de resto. como facu ldade humana fu ndamental. suu con figuraçfto primei ra e o riginal. Se não logrou pessoalmente o pleno preenchimento desse programa no seu Ensaio sobre os costumes. ave riguar a q uestão do seu começo. ê dada desde o infcio e é por toda pa rte uma e idêntica. não é dada de uma vez por todas . Não compe'te à história suscita r a questão meta· física da origem da razão. As fraqu ezas que se apressaram em opor à obra histórica de Volta ire são provenientes muito menos do seu sistema do q ue 294 295 . ~ UL1la crítica apres­ sada e superficial aquela que pretende dcmonslrar IItravés dessas insufi ciências a " não-histori cidade" fundamenta. é necessário que a psicologia realize a mesma tarefa no interior do mundo histórico. Hisioriadot e fí sico tê m a mesma tarefa. mas somente à sua ex. de um modo cada vez mais puro e mais perfe ito. não dispõe de nenhum meio para resolver. Devemos renunciar.teriorização. que ela . Mas a soLução implícita que nos propõe o Ensaio sobre os costumes é não pec­ manecer em parte nenhuma exposto unicamente aos ~con teci­ mentos. Voltairc concebe c tmbalho do historiador estrita­ mente sob a mesma luz que o tr abalho do físico. como obra-prima li terária. con· tudo. que ela nio provém da natureza mas tão-somente do hábito? Sobre todas essas questões. o verdadeiro progresso não diz respeito à razão nem. em de· rinitivo. que ele admira. o verdadeiro sentido da idéia de progresso.confuso caa:dal de eventos sabendo que essa di versidade é ilusó­ ria . E a análise psicológica que dete nnina . Mus. o duradouro e o passageiro. yoltaire vê a encarnaç1io dessa te· leologia no Discurso sobre a história universal. manj/e~lt1-sc temporalmen te. por que deb itar os defei tos de execução que af se obser­ vam ao sis tema de pensamento do seu autor. Ela deve liberta r a história do domínio das causas finais e te­ conduzi-Ia às causas e mprricas reais. A física foi libertada da teologia pelo con hecimento das leis mecânicas da natureza. Desse ponto de vista. J! evidente que a "razão".28 A histo riografia crítica deve nesse ponto prestar a história O mes­ mo serviço que os ma temáticos prestaram às ciências da naNre2a . em absoluto . de resto. A história mos­ tra como a razão sob re puja pouco a pouco as resistências. T udo o q ue 1\ históri a pod~ provar é que o e lerno. tem lugar no transcurso do tempo e revela . ela dissimula-se por trás da multidão de usos e costumes e sucumbe ao peso dos preconceitos. a filosofi a da história de Yoltai re não nos satisfaz com q ualquer resposta explíc ita . como se torn a o q ue é por na tureza. ela funda­ menta-a e justifica-a. não obstante. mas censu· rando-Ihe te r assim transmudado em ouro o vil chumbo.que essa na tureza. que deve. vincular pelo contrário diretamente a essa expcsiçãc uma anAlise intelectua) dos fenômenos que pennita separar o CO!l­ tingente e o necessário. e ntretanto. à humanidade como tal . tanto na história quanto na natureza. pelo contrário. E é justamente essa revelação. essa visibilidade progressiva. essa marcha da razÃo para a com­ pleta transparência o q ue constitui O verdadciro senti do do pro­ cesso histÔrico. tantç no conhecimento histórico quanto nas ciências da natureza. de necessá rio e de eterno que não requer. às ingenuidades da teleologia. Ela mostra que ti hu­ manidade não poderia ultra passar as fronteiras da sua "natureza " . Essa lei nada tem a ver. ao mesmo tempo que aponta seus limites e mantém seu uso no interio r desses limites. Portanto. pouco 11 pouco.l do Iluminismo. ser elaborada pouco a pouco e continuamente imposta através de obstáculos e resistências. não há. a de descobrir a lei escondida no flu xo e na confu são dos fenômenos. com um plano divino que atribuiria a cada coisa seu luga r no todo. de Bossuet. A razão como tal é algo de supru· temporal. por conseguinte. Voltai re fixou nessa concepção fundamenta l da história o programa tcórico adotado depois por todos 05 historiadores sete­ centiSlas. à sua revelação (Siehtbarkeit) empfrico-ob jeti va. longe de se manifestar exteriormente em sua perenidade e em sua universn lidade.

mas.: certa reflexão: o de não calunia r e o c\e não entcd iar. lI)(. Por iMO o momento culminante de sua obra histórica ~ O skulo de Luis XIV . na maio­ ria das vezes. enfim . assim como Bossuet nela en­ controu o seu ideal teológico. Ele descobre na história o seu ideal rilos6(ico. Essa ex· posição é tanto mais perfeita porquanto Voltai re reencontrou no passado a melhor maneira de expressar seu próprio ideal. Sem dúvida. em seu espírito.l U. criou obstáculos à reaHzação desse vasto plano de uma história verdadeirameme universal que. Esse ambiente. O que lhe confere esses traços vivos e pessoais que cativaram e empolga­ ram os contemporâ neos. Não SÓ acredita estar no bom caminho mas vê-se perto do fim . defeitos de suas virtudes". este mede toda realidade pela bitola da Bíblia . para il moderação. sem hesitação nem reserva.. a acuidade desafiadora do relato. Tudo isso.da sua personalidade e do seu temperamento individual. que umas eram de carvalho e outra~ de nogueira. Permita-me lembrar-lhe aqui dois que são merecedores dt. por outro lado. assinalando algu ns equfvocos de Vohaire e entregando­ se a algumas críticas um tanto mesqui nhas da sua Hist6ria d~ Carlos X II. ine­ bria-se e exalta-se por atingir. aci ma de tudo. Voltaire não tem a me-nor propensão para O caminho sereno das investi­ gações históricas. Voltaire é capa'Z em muitos outros casos de vê-los com clareza e de raciocina r com justiça. uma falta de abertura constitui.> os tempvs \. objetivamente considerado. e de que altura eram os bancos: tudo isso pode ter seu mérito para aqueles que querem instruir-se sob re os Udimos in· teresses dos príncipes [ . a indulgência e a perse­ verança que permitem levá-Ias a efeito. Se ele s~ volta para o passado. Qu:mdo em 1740 c capelão sueco Nordberg publicou sua história erudita de Car­ los XII. l! desse êxito que eTe se orgulha. A hIstória para ele não 6 um fim mas um meio. é ai que ele coloca toda a sua dignidade de historiador. é inegável que Voltaire possui espe­ cificamente r~ .seus julgamentos e seus veredictos são exces­ sivamente rápidos e brutais para permitir um aprofundamento sereno. os quais estão atualmenh' na Igreja de São Nicolau: que as cadeiras cstavam cobertas dv azul nos dias de sermão. se a igreja era decorada com planejamentos vermelhos ou azuis. sem dú­ vida. Voltaire exiBe e antecipa com veemência o conteúdo de suas exigências. A todo instante. aquele nunca deixa de impor ao passado. saber qual era a largu ra do bal­ daquino . o seu objetivo após tantos esforços e perplexidades. Longe de se contentar em elCaminar e investigar. dois quadros do intendente Kloker. Aliviou a hi stória do acúmulo de erudição. Também acred itamos ser de extrema importância ficar instrufdos a fundo de não haver ouro falso no pálio que serviu na coroação de Carlos XII. . 296 297 . Volta ire foi o primeiro pensador do sécu lo XV III que deu vida à grande obra-prima histórica e encarnou-a num modelo clássico. não é pelo passado em si mas no interesse do presente e do Cuturo.escreveu ele a Nordberg . ~las. o rel ato empenha-se em proclamar como a idade clássica da razão ~ superior em saber e lucidez não só à Idade Média ma s até a eSSA tão celebrada Antigui­ dade. a medida da razão. este último nfio tardou em devolver-lhe o cumpri men to com ênfase satírica: "Talve'Z sej a uma coisa imporlanll para a Europa" . Voltaüe sucumbe a essa teleologia rudimentar que ele refut a e combate com tanta energia como teórico. . sob outro aspecto. povos. livrou-a do discurso obscu ro e prolixo dos cronistas. O orgulho intelectual do filósofo corta a palavra ao histori ador."que se saíb ' que a capela do castelo dc Estocolmo. O que poderia pa­ recer. . deveria abranger com igual amor todas as cuhura~. esse pathos pessoal transparece constantemente em sua exposição histórica . um instrumento de educação e de instrução do espírito humano. Desej. ] Mas um historiador tem múltiplos de veres. que ardcu há SO anos estava na nova ala do lado norte do palácio c que havia ncl•.

por exemplo. do que em repisar eternamente a descrição das disputas políticas e religio­ sas das noções. Os trabalhos ulterio­ re5. e a "acribia" do historiador nada tem de estranha para ele... desenvolvendo nele os usos multiplicados que soube razer a partir de um pequeno número de noções claras e certas. ao mostrar os caminhos que se afastaram da verdade. cUj05 problemas serviriam para tratar a história das ciencias. do ponto de vista filosófico e literário. além disso. está aí expresso um novo ideal do estilo de historiador que Voltaire soube encarnar e impor como norma_ Lorde Chesterffield dizia a l'(:speito da obra histórica de Voltaire que ela continha a história do espírito humano "escrita por um hOl'J'lcm de gênio para uso dos homens de espírito". uma etimo­ logia confirmada pode propiciar-nos uma idéio correta das trans­ formações dos povos.perdoá-lo do primeiro.nos ver como os homens. com muita freqüência. A inOuência decisi . a história dos nossos erros mais notáveis ensina-nos a desconfiar de nós mesmos e dos outros . No plano enciclopédico do saber que nos ofereceu nos seus Elementos de filoso/ia . não sucumbe ao perigo de "fazer espírito". a Kritische Geschichte der a/lgemeinen Prin­ zipien der Mechanik (História crítica dos princípios gerais da 299 . em definitivo. facilita-nos a busca da verdadeira senda que nos conduz de volte E ela. ora por necessidade. nesse domínio menos do que em nenhum outro.. A história dos nossos conhe­ cimentos revela-nos as nossas riquezas ou. D'Alembert definiu ainda nesse sentido a tarefa da his­ tória : "A história geral das Ciências e das Artes encerra quatro grandes temas. Por um lado . declara que . D'Alembcrt foi um discípulo de Voltaire." ai O plano aqui traçado por D'Alembert encontrou. ou pelo menos oon50la-o . de Lagrange. suas guerras e suas batalhas. conhecimentos começados que é mister aperfeiçoar [ ... humilha o homem ao mostrar-lhe o pouco que faz. oferece-nos uma amost ra de história da ciência que é quase insuperável.I O Até mesmo a hisl6rja das ciências teve que se submeter aos imperativos metodológicos assim fixados. as espécies e os avanços das artes e dos ofícios. pela primeira vez. não repcusa. ] Enfim . ele apóia-se em investigações especializadas. a evolução das ciências estava sendo encarada nessa nova pe~pectiva? D'Alembert não con­ cebe essa evolução como uma acumulação interminável de novos conhecimentos eruditos mas como O desenvolvimento metódico da idéi:l no próprio Sbbcr.. seja criada uma ciência filosórica dos prindpios. subslitufram com êxito diverso a verdade pela . enaltece-o e encoraja-o. ao detalhe sociológico: interessa-se muito mais por descobrir e descrever o estado da sociedade em tal ou t'al época. no fala de que. A Mecdnica analtlica. conjeturas a aprorundar. mesmo em nOSS05 dias. refeito e como que depurado por sucessivos trabalhos de . em lugar de uma poli·his­ 298 tória. as (oonas vigentes de vida fami­ liar. Exige que. Recorre à filologia e à lingüística. ora por impaciência. A sua atenção prende-se.. porque o seu livro não será lido por nin­ guém. mas não posso perdoar-lhe o segundo. Voltaire. ários séculos: ela oferece à nossa sagacidade e à dos nossos descendentes fatos li verificar. as nossas opiniões. porque fui obri­ gado a Iê--Jo_" 2t Há ar mais do que sarcasmo.erossimilhança.tem foi o seu verdadeiro edu­ cador e quais as fontes primordiais dos conhecimentos da na­ ção. a !:tue exer~eu o Prefácio que escreveu para a Enciclopédia. aprofundado.. ela moslra-nos como o que inicialmeote era apenas provável tOrnou-se em segu ida ver­ dadeiro à força de ter sido retocado. por outro.. sobretudo. melhor. amplas e muito pro­ fundas. que o alfabeto de que um povo se sern testemunna incontestavelmente q:. os nossos conhecimentos. Nesse domínio. as nossas disputas e os nossos erros. pontos de vista a seguir. na verci2de. no que se refere à histórill das ciências exatas. A história das ncssas opiniões faz. \lma bri lhante realização na obra do seu mais genial disC:pulo. a nossa real indigência .

ainda encerra AS maiores lições. Sem dúvida. que não se afina mab com o tipo geral do lIuminismo para a filosofia da história do que para a teoria do conhecimento e a filosofia da religião. Os artigos de Diderot na 8nciclopéia sobre diversos sistemas filosóricos ainda possuem ftpenas uma escassa originalidade no plano da hist6ria propria­ mente dita. O enunciado de opiniões cede cada vez mais O lugar à onnlise. para o indivfduo judicioso. acom· panha os relatos dos escri tores com a mesma circunspecção con' que observa os fenômenos da natureza. visando tanto ao conteúdo doutrinai quanto às condições históricas que o viram nascer. tal COmo a coletânea de observações médicas de todas as eras. " 3~ Assim se desperta. Hume é o crítico da idéia de substância. por imperfeita ou in­ completa que seja. é principalmente para conhecer os homens com quem convive que ele estuda aqueles que viveram . mas delicia-se com suas mudanças incansáveis. de maneira muito visível. Um novo esplrito manifestou-se porém nesses artigos. é a compilação das experiên­ cias morais realizadas pelo gênero humano. com a contemplação do devir como taL Não busca umn "razão" nesse devir. de De&­ landes (1756). da prevenção e do ódio . Um único pensador do sé­ cuto XVIU soube conservar. forma ni'ío obstante a parte mais essencial da erte de curar. ele estuda tanto o uni­ verso moral quanto o físico. uma posição original e autônoma: Hume. estende-se a todo esse domínio. em particular nos dedicados à filosofia moderna . da li-soDja. uma acentuada insistência no unifonne à custa da mudança.mecânica]. . reconhece as diferentes linguagens da simplicidade.a Hobbes. mas que. na filosofia do Iluminismo a idéia de um estudo filosó· fico do homem. 1! claro que o predomínio do espírito analftico. Spinoza e Leibniz. em face dessa tendência dominante. a partir da história. mantiveram-se fiéis ao modele metodológico que nos é aqu i apresentado. por Rayle. de Eugen Dühring. Brucker e a Hutoire critique de la philosophie. a flexibilizar-se essa perspectiva está­ lica. de uma "antropologia geral" como a que Kanl 300 elaborará sistematicamente e figurará em seu ensiDo. tão carac­ teristicô do século XVIII.princfpios que servem de fundamentos à certeza histórica e pela utilidade que se pode extrair da história. não des. Os homens colocados no palco do mundo são apreciados pelo indivíduo judicioso como testemunhas ou julgados como atores. examina os matizes qur distinguem a verdade histórica do verossímil e o verossímil dL' fabuloso. Para o comum dos leitores. a história é o alimento da curiosidade ou o alivio do tédio. Em vez de um interesse racional. A ciência da história depende da fHosofi a por dois lados: pel ~ . foram inspirados.crevc a históHa como um movimento con· tfnuo. em vez do substrato idêntico que imaginamos subjacente. Mas D'A1embert vai ainda mais longe pOI" conta própria. e espera que ela nos proporcione o conhecimento caba1 da humanidade mora1. fixa·[hes as características.ico como tal. sempre "au­ menlada e sempre imperfeita. é um 301 . ele confere à história não SÓ um valor te6rico mlS também um valor ético. Esclarecido por essas regras tão sutis q uanto se­ guras. nos elementos de constlncia à custa dos elementos de movimento. não acredita nisso. compilação essa que seria mois concisa e mais complela se fosse ditada unica­ mente por critérios judiciosos. segundo a natureza dos fatos. os diversos graus de força nos testemunhos e a autoridade nas testemunhas. Esse espírito também implica. encaminhada tanto no sentido hist6­ rico q uanto no sistemático." As pri­ meiras ten tativas de uma história crftica da filosofia estão inti­ mamente ligadas a esses esforços . em história. detennina quais devem ser. ele prefere abordar o processo hist~. Não só como lógico mas também como filósofo da história. no silêncio dos preconceitos. Cotr Hume começa a abrandar. a qual se dedicava unicamente a conhecer as "propriedades" fixas e imutáveis da natureza humana..

por mais alto que a rust6rie seja aqui erguida. either of lhe senses or the imaginotian. to see aIl human race. Hume prefere mergulhar na riqueza do seu conteúdo concreto. a história é. quais os vícios que os cond uziram ao decHoio? "In short. during Iheir lile lime. dando timidamente os seus primeiros passos no caminho das arles e das cieilcias. uppearíng in their true c%urs. Era preciso que o individual se tomasse não apenas um fato. Não bastava chamá-lo do reino das idéias para o reino des fatos: cumpria definir o lugar do individual no re~no das idéias .ara . Sua doutrina impõe a especificidade.' cem. Hurne nem por i~so abjura do seu cepticismo. wiLllout any 01 lhose desguises. à qual era mais difícil responder. uma vez mais. nada mais do que um es· petáculo! Pois Hume não acredita mais q~e se possa penetrar no sentido dos acontecimentos e descobrir nele o plano geral.udgemen t 01 lhe beholder5.mas. os progressos. recorre-lhe como a faculdade fundamental do historiador. mas um problema . mais dignos de reter as nossas atenções? Que per· versidade deve ser a de um gOS!O capaz de uma tão ruim escolha de seus prazeres!" Contudo. "Haverá. 50 interesting? What omusement. a queda e final· mente a destruição dos mais fl orescentes impérios ? Em ver quais as virtudes que os levaram ao apogeu.I. A " imaginação". "Como preferir-lhe esses passatempos fú­ teis que nos absorvem por tanto tempo? Como considerá· los mais satisfatórios. e tudo o que faz O ornamento da vida avança!ldo para a perfeição?'" Em vez de definir de antemão. ver a política do governo e a civilidade da conversaçio afinando-se gradualmente . At6 nesse papel aparentemente dissol· vente ele realiza uma tarefa positiva muito importante. prendendo-se à materialidade dos fatos. O pensamento do sécu lo XVIII teria que enveredar por um novo caminho e 302 303 . por muito pouco que possamos penetrar em suas" razões" últimas. o mai s nobre e o mais belo "divertimento do espírito " (Unterholtung des: Geistes). por muito pouco que a inteligênca possa apreendê·la.entavelmente. Irom lhe beginning 0/ rime. eviden­ temente. que ele não deu nem podia dar. What spectacle carl be imagined. que ele opõe à razão abstrata os sua teori a do conhecimento. também adquire na história um papel preponderante. pass. o idealismo que o século XV III ti­ nha depositado inicialmente na história : o contraste logo nos im­ pressiona . na verdade. extrair dela as divenas sign iJicações . as apli· caçócs e modificações possíveis. in review be/ore us. lam. a maUer 0/ facI. em suas grandes linhas. não se faz jus ao ceptícismo de Hume se apenas se tomar em consideração os seus elementos negativos . dar mais um passo. Ele abandona o qu~tiio de sabe r que segredo se esconde no mais profundo do mundo histórico. oenhum outro se lhe comp. wlliclz . Essa exigência mais profunda . meis suave arrebatamento para o esprrito do que transportar-se para as mais recuadas idades do mundo e observar a sociedade hUr:la­ na em sua infância. can be campared with it?" U Que espetáculo . 50 magn. por mais celebrada que seja como O mais nobre ornamento da existência humana. Para ele. O empirismo céptico de Hume não estava equipado para lal empreend imento. Hume não fornece apenas um alerta metodológico mas também um verdadeiro ajuste do método . as it were. Resisten· te a toda generalização apressada . so various. Qual é essa vida dramaticamente movimentada q ue faz desfil ar a históri a sob os nossos olhos? Que prazer se pode ter em acompanhar o nascimento. 50 much perplexed lhe . consistia em criar uma nova idéia de individuo . as exigências. Comparemos esse elogio da ciência histórica com as esperanças. Mas. Para dar a esse reconhe­ cimento o seu verdadeiro status litosdlico era necessário. a legitimidade do individual e rasga o caminho para o seu reconhecimento. a fina· lidade da história. sublinhando a sua importância.interesse psicológico e estético O que ele vincula ao desenrolar dos latos. desfrutando a simples con­ templação sem procurar medir pela craveiro de uma " idéia" preconcebida OS quadros sempre cambiantes que a história faz refl etir sob os nossos olhos.

como uma relaçio de pura reciprocidade (Wechselverhiiltnis) . Tudo u (Iue a substância poderia parecer engendrar sob a ação de forças exteriores está. entretanto. a psicologia racional na psicologia empírica. um conhecimento autêntico não pode ser um conheci. baseado também na sua l. De um outro lado . A natureza da substAncia não consiste em permane­ cer fechada em si mesma: ela é produtividade.r6pria natureza. qu~ !ntn em conflito com esse equilíbrio. prerigurada na substância." Essa idéia fundamental da metafísieà leibniziana devia C or· Deter um novo e promissor ponto de partida para a conquista do mundo histórico. é aí que ela enCOnlJ'a a única expressão de que é susce­ tível. ou seja. Identidade e continuidade assim reunidas estão na origem da totalidade. Teria que trazer para a 1112: do dia o tesouro metodológico cutcrrado na doutrina de Leibniz. empírica.procurou até defi· ni r com nitidez a posição da história em Cace do mundo racio­ nal. nenhuma imobilidade. nenhuma forma­ \110 nova. lIcm deixar de admitir nessa identidade a idéia de continuidade. o sistema de Wolff não descar­ tou. entretanto. A subst!ncia persiste: essa substância nAo implica. cada disciplina divi· de·se em duas partes urna concreta. Segundo a teoria da ci~ncia de Wolff. pelo contrário. ao colocá-lo no centro de todo um sistema fil os6fico? 4 A concepção leiboiziaoa da substância também s'e propõe a distinguir o que permanece sob a mudança. Tal concepção nio pretende subordinar o múltiplo ao um. não se trata de imaginar-se uma determinação rígida e acabada. ça incessante que se revela a unidade da lei.lo matemática. segundo a 305 . ai se encontra pré-formado.se-á na física empirica.. a outra "'históri­ ca". graças ao princípio da "mOnada-. A filosofia . o meio e o fim são lão ~senciais quanto o seu começo. 2 na mudan. predetenninado. A metafísica leibniziana fW1damenta o ser da "mônada.cia" é precisamente essa "gênese" de um conteúdo sempre renovado. entre a duração e a mudança. 304 /I produç§o incessante de seus fenômenos. de sua organização interna em tomo do seu próprio centro.: não fora essa doutrina a que dera ao problema da individualidade. bem entendido. A concepção estática da substância cede o lugar a uma concepçiio dinAmica: a substância só é "sujeito" ou "substrato" na medida em que ~ força. O ser da 5ubstlneia não está Rcabado na plena realização do seu desenvolvimento. Sem dávida. A sua "existên. essa substância envolve a regra constantemente idêntica a si mesma de seu próprio pro­ gresso. A experiência deve conservar a totalidade dos seus direitos na economia do sistema: a cosmologia geral estribar-. Mas o equilfbrio que Wolff esforça-se assim por manter pouco se justifica num plano puramente metodológico e é a pr6pria foma :lo sistema. ele. da demonstraç. o problema da história.confiar-se a um novo guia. Por con­ seguinte. na verdade. a da dedução. niio produz propriamente nenhuma -epigênese ". Ilar outra parte. A totalidade desses fenômenos está. em que se revela diretamente ativa. a unidade da subs­ tância. menta ou do duradouro ou do cambiante: cumpre demonstrar a sua interdependência.em sua identidade. a sua originalidade consiste em apresentar a relação entre o um e o múltiplo. apreender a sua correlação. a sua expressão mais penetrante. no senlido de que seria determinada do exterior. em absoluto. em que martifesta a sua verdadeira natureza pela sucessão de suas atividades. Mas foi preciso esperar bastante tempo até que esse empreendimento cumprisse suas promessas e se desen­ volvesse livremente. desenvolvimento de uma diversidade sem firo a partir de si. porém. o cambiante ao duradouro: parte do princípio de que esses mo­ mentos opostos somente se explicam uns pelos outros.

uma verdadeira !. mas o mundo das " razões". o religioso reconcilia-se com o hist6rico. impotente em seu domínio.x ima e seu fio condutor. Essa nova concepção do mundo histórico jamais poderia fundar ·se. Cada situação humana tem seu valor sin­ gull!. Fases e situações não são isoladas umas 307 306 . conlinua sendo a ciência do racional .r. uma confusão das fronteiras do saber. Ti nha parecido. i~to é.. ndrio dI! fi/motia. é ai nda o princípio de razão que permanece como sua má. A univer­ salidade e a necessidade das causas con tradizem o caráter con­ tingente. nenhuma norma universalmente coerciva é capaz de engloba r toda a sua riqueza. F crrater Mora. esse possunt. não a da clCis. Ntio se trata de atingir dessa forma o ideal de rigorosa Hclareza" matemático-CiIos6fíca: jamais a história terá acesso aO san tuário da ciência e da filosofia . foi com ele que o método atingiu seu ponto culminante. Já vimos qual tinha sido o ponto de partida desse movimento. gerada pelo nada: brota de uma visão da história que é inigualável em pureza e perfeição. uma "filo­ sofia da história" propriamenle dita não pode enconlra r lugar no sistema de Wolff. dar a um termo um significadO distinto por pertencer a uma clllssc diferen te daquela em que esse termo foi Inicialme nte entendido (Cf. foi Lessi ng quem nesse movimento chegou às últimas conseqüên­ cias. portanto. Rompe. transposição para outro g~_ nero ).. não a do históricoj a ciência do possível.:nW ( literalmente. Consiste em "falA r de uma outra coisa". entretanto.~rÚptl. eventual e singular que se liga de modo inseparável a toda a existênci8 hi stórica . Foi preciso esperar Herder para que esse passo decisivo fosse dado. R No âmbito do pensamento alemão .o }'bo!: . santuário era suscetí­ vel de ent rea brir-se por um oul ro lado. o pensamen to de Lessing não se estende ao mundo histórico como tal. Em Erziehung des Men schcllgeschlechts [Educação do gênero • M ~I(lfxl.) . se bem que a vivacidade das perspectivas a coloque. cada fase da história possui seus direitos próprios e sua necessidade imsnenle . que objetivos intelectuais o tinham determinado. um momento indispen­ bável do religioso. Contudo. Que o dedo da Providên· cia o tenha organizado até os fnrimos detalhes é algo de que Lcssing não duvida. Portanto. em definitivo. no verbete "sofisma" ) (N. A história aniquila toda identidade aparente. para quem a lama em sua totalidade concreta. humano] . em sua pureza abstrata . que esse. particularmente com o prindpio de iden­ tidade . aquele de que trata a história. ignora todo retorno ao seme­ lhante . Não pára de engendrar novas criaturas e de dotar os seres a que dá vida com uma forma pr6pria e um modo de existência autônomo. Nenhum concei to especfJico único. mas nem por isso se permite erguer o véu desses mistérios. desde o inIcio. com as limitações do pensamento analftico. 1. acreditando poder e dever preservar-se. Toda a generalização abstrata é. Dido. que assim é reconhecido como um fator necessário.tJf~ l.\ência de facto: $cientia possibiUum quaatenu. A "metafísica" da história de Her­ der liga-se em todos os pontos às idé ias de Leibniz. Sua obra. do T. Enquanto a fitosofia.f~ <'i'v.sua própria tarefa." Não é o mundo dos C atas. quer discernir separadamente cada C onna e apropriar-se dela de dentro para fora.i$ âJ a//(I 1. E. entretanto. o que constitui o objeto da filosofi a. é incomparável: ela não conhe­ ce antecipação nem preparação na cultura da época. nada c0­ nhece que seja realmente idêntico. a teologia toma ra a ini­ ciativa de deslocar as fronteiras. ela não se contenta em buscar o simples contorno da hist6ria. já que ela implicaria uma mistura de gêneros. ma ntinha-se à margem do mundo histórico.11 Com efei­ to. prote­ gida do perigo de aplicar esquematicamen te a teoria. e desen­ volver·se sistematicamente sem os instrumentos intelectuais que já estavam à sua disposição. mesmo quando a filo­ sofia se aplica aos C atas empfricos. de recusar a legi timid ade dos compartimentos estanques que separavam o conteúdo "dogmá­ tico" do conteúdo "histórico" da fé. por certo. Parece cair do céu .

] Quem observou que coisa inefável é a qualidade própri(l de um homem . para cada uma delas alimenta o sentimento Lorreto. autônoma. dos castu· " ":5. o único que convém. o de adaptar o sua medida à individualidade do :objeto. sob pena de os enxergarmos. perfil obscuro de um se mimorto! Seriu preciso leonir a{ toda a pintura vi braille do modo de vida.'ls que vivenda. sucedend~se e sobrepon­ do-se uns aos outras como as ondas do mar . a . os recursos de Herder são inesgotáveis. todo o peno ftll ll1CntO em suo plenitude . :lum sentimento. ele próprio se insere em cada uma das époc. imutável.los . pela qual se possa dizer. como ele sente t como ele vive.. assi m I.riaç50 perpétua de novas forças e a destruiçiio das outras: " Filósofo... seria preciso simpatizar com essa nação plltn senti r uma SÓ de suas inclinações e de seus comportamentos.istem no todo e pelo todo. dfl quis alconçar seus fins pela mudança . em caracterizar.. ou de I" 05 ler percorrido. é af que eLe dá I!luvas de sua verdadeira mestria. primeiro esforço do historiador deverá. sabe-o tu r. a partir do instantc em que a incli­ nação mudou: logo que as circunstâncias e as necessidades ex te­ riores adotam esse outro sentido .. pelo menos. em sentidos diversos" Tod a a nação conserva nela o seu cenUo de felicidade. A natureza humana não é o receptáculo de umu felicidade dessa espécie: " Mas atrai para si de toda parle tanta felic idade quanto lhe é possível: uma argila fl cxivc\' capaz nllS muis diversas situaÇÕC5 de se fo rmarem as nccessidades c a~ opressões mais variadas A partir do instante em quc o sen· lido interior de felicidade. ser.ou então que se lê? uma pala­ vra.OlnO cada esfera o seu cen tro de gravidade!" A própria Provi· dênci a não aspirou.que profun· didade se esconde no caráter de uma 6niea nação que. como caricatura grotesca.é igualmente ind ispensável ao todo.>mo unidade de um estado de coisas mas como a de um processo. em absoluto.protestou Herder a propósito dos egípcios ." 1$ Pora esse gênero de «achado " (Finden) das palavras que evocam para nós. de todos os tempos e de todos . das oultas.e isso nada é comparável com o desejo de domi­ nar o oceano de todos os povos. . de seu tempo e dos alvores do espírito humano a rim de exprimir o seu valor nas medidas de um outro tempo! [ . como todas as coisas mudam e lhe pertencem depois que seus olhos as viram. numa pala­ O discurso. sob retudo desde a Europa. a qual não se representa rá c:.lra senti. "Faz-se o retrato de um povo inteiro." t preciso que a história re­ nund"c às Ncaracterizaçõcs gerais". encontrar uma palavra. 00 apontar tudo o que a dis· ti ngue.quem pode comparo r as sa­ tisrações diversas. abrangê--Ios num olhar. em vez Be subm~ ter o seu objeto ti uma medida uniforme rixada definitivamente. 'O . todos juntos. de uma 6poca. nesse discurso. Pois recusa também a quimera de lima " felicidade absoluta. no teu vale do norte.li e. que sua alma as aval iou. elas só ex. Ele não se conten ta em des­ \ rcvcr. portanto.lo}. de uma regi!o . ] 308 309 . B balança infantil do teu século à mão. em seus pr6­ prios lu gares. VIII! lugares. é tãc raramelHe recon hec(vel para aquele que a compreende e a interpreta .mas de quem é esse retraio? Ajuntam-se povos e tempos.verdadeira unidade . muilo simplesmente. "'E uma tolice" . por mais assiduamen te que tenha sido observada e admirada. tal como o m ó­ fO fo a definc" . à mODotonia e à un iformidade. 1 Deixemos o grego equivocar-se to:almente acerca do egípcio e o orienta l odiá·lo: o nosso primeiro pensamen to não pode ser ourro senão vê.de quem é a ima· gem? Quem encontrou a palavra certa para descrevê-los? [ . que seu coração as sentiu .. Cada uma delas em sua heterogeneidade perfeita que se constitui . a c. dos caracteres da terra e do céu. espontaneamente. nem por isso escapa a todo discurso ou."exumar tal ou tal virtude egípcia singul ar de sua terra.. p. das necessidades. de diversOS sentidos. a imagem concreta que permite não os distinções analíticas mas a sfntese intelectual e vi~ual .

para lima upo:siç. Herder guarda uma certa distância em r~lação ao seu proprio tempo. I. uma vitória que o século XV III alcança sobre si mesmo. ""tologi~ dt.1. na verdade.. ~ OissertatiOfl à Du RondeI. O~uv.~pi. u ma hidropsia pu ra.! de maneira defini· tiva I1I S próprias armas que permitiram vencê-lo e fixou. no Apêndice das Oe'" ''''J D il'l~r." N.lIle de novidades é uma d~ dOCnÇllli pcninalC:S COnlrll as qua is lodos terl16iios fracassa m.' . três governos. p. nada desse gênero tampouco se encont ra em Montesquieu. va i. I. 2]). sob a influência e com a IIjuda de Hamann."u/l~. 1906. faz agora parte de Gt~m .. "Carta a Na udis de 22 de maio de 1692. lIofl1l€1i.. Esse pro­ gresso e essa elevação s6 eram possíveis nos caminhos abertos peJo século XVI1J .omentár io D. Li vro 111 .h~ Rundschall . as premissas donde Her· nesse sentido que a vit6ria alcan­ der extraiu suas conclusões.. Herdcr não rompe abruptamente com 8 filosofi a do lI uminismo.1. 226 e ~s.w!f. 27 e :Ii!I. ça p.tIlff'S dt Buy/~ 11 I jl/llliI/.ilo d€ls lâ~. 1 DicriQflna lre. d .onde le rappon de son lemoin. cp. p. em determinada rep úbl ica. U. te. 226. pp. a mais cla ra expressão do triunfo. O . DclvoJv~. ."l "Nou· ~fll~ de la républiq ue deli lettres". p p. LtJJillgl. oomentáriQ E: para o conjun to. comentário f:.. t "li ne faut . no entanto. I. [Em francês no origino l : "Vejo perfeitamente que a min hlt ills. 2858. 1. -Carta ao Irm50 de 27 de feve reiro de 1773 . ver La­ ~t . IIgosto­ II'lI1hro de 1901. com O rigor e a precisão que o caracterizam.. 309 c passim. artigo "Manichécns". IV. 1>8 ri~ 1929. Quanto ml\i~ se lhe dá.u /Ji"'~rs~s.~il. vol. 161...dabi­ 1I. porlanto. t 4S e ~.~ I~is. Paris. Livro n l . p. num dado ~tn do despÓtico. capo 2 e ss. E. f: em vão que se buscaria em toda a fil osofi a da história do século XVIII um tão nobre timbre de sino quanto na obra dele .'1' !U9 e !i$. 310 :)11 ./Q dtLf lâ~. apê ndice. talvez. cf. V III .. vol.\ C." {"'Niio se deve <:onSltntir que U I1I homem '1'11: cita allere 5Cja o que for no deDOiment o da ~ua te~terll u nha. cL De lvolvé.hl Jkde. 17'37. çada por Herder sobre o século XVIII ccnstitui . 11 O I'spír.. no. hso tampouco prova que 1lI1OU! certa monarquia re ine a honra e qu e. vlllOre o medo . R Oler· . é uma daquelas derrotas que são. 'I'roi~f d'un dicliQmlllir~ crilillll~ (Di55erla tion 11 du RondeI).~.D aS iSOuffrir qu'un homme qui dte IIIt~re le InOlnS du ". oc:'/a·sc virtuoso. d. vol.1. artigo "Usso n". 111 ( 1927).ii. artigo "A rcl1claus". H ai a. Otl4' ' ''U Div(!fs~s. l:l Cf. cril iq/l~ t I pllilosopMt pnsi/i"(! "htt I'/r"" O'qle. I t. p. cit. VIU./tlm..o m ai!. ainda que se eleve muito acima dela . NOTAS e I I'ubhcado originalmente na revista D~uU't. I J : 'rt'ais do os principias 1 1u4. p. artigo "pêridcs". IlI l)kliOllnaire. 1692.. 1. Voltai~ ou Hume. mas sim que $C dev~riu sê-Io.h. I. J~III o e 1111. capo I . S.melhor do que ela? ~ at Vc-se por essas palavras que. Ib. NOl(v~lIislt t I criliqll~ IiIlh uir t'." 1:11 0 11 I~ u pirilo dllS leis. O upir{to (iu.. do 1'.d. pp. adma. pp.. p.. Ullrtr d~ 8<1~'I~ à SQ I. forjo:. RdiJrloll.. I. detalhada. ver \m'l. 204 e". lJuy/~. /11. J Cf. em J. o qual. mas sim qu e a honra e o medo deve riam existir. luis formas f/c f(Q "~'1IO S~ri("'1 impt'r/"ilas. foI. o que não sign ifica que. 11 Dicllonfluir~. Foi ao superar·se a si mesmo que a filosofia do I1umi· nismo atingiu o seu apogeu espiritual.I.

durante suas vidas.lldo-M em sUaJ vtJ'dadeins cores. da . 425. 312 313 . 6. 420 e S.. (1768). Paris. 246 e 55. 12 e ss. XVI. n Cf. 565 . p. p.I . Le Py"honisme de l'htstoir. 10 Ver acima pp. Sfudil!fI zu r dtlllschtn GeisttS'ge· schich/t. 163. W"kt (ed. humanidade). XXJt. 164 e 8$. do T.içio DO meu ensaio Frtihefl ufld Form. :t Carta a Nordbe. p. pp..S. U Cf. pp. lI. lo esse respeito Sord. pp. capo XVIII.a. Remarques pour seflllr de supplémenr li fEuDi sur le. d. ed. Voltaire." edição. cf. 143.s lur lei cousu de lo arandeur du romains el de leurs dkodence. pp.smi IS/U leIS rr!Qeurs. 1898. ver Geara Brandes. "Introduction". 489 eIS. 501 e 5S. 18 Ibid . eUmell1$ de philolophl" seco 1/ (Mélanaes de liné­ ratu re etc. . DO prtiádo da Dova edição da H !staire de ChaTks xn (l741)i Deuvr." Lessinl. "OI. 22 Cf. pp. p. Que esPetáculo pode ser imaa. acima cap. polillcal Dnd li/uary. Oeuvrts (Paris.) Hume. I. GTeeD &: Grose. pp. tanto de5COnurtaram O ju!&amento dos espectadores. V.. Essays mOfa/. sobre Voltaite historiador.semestre de inverno de 1765·1766. cf. em particular as indica!rÕC5 de Kant sobre a orjentaçio do!. XIV. nova impressão. p. capo CXCVII.. o meu livro DDS Erkt!!ln lnisproblem in du Philosophie und Wisseruchalt der neuten Zei/. 110. ed. XV.ke (SuphaD) V. 3. e:I. em particular.schheil (ldEias para uma filosofia da hÜltória. I. pp. P1l. Elimellls dI! phlfosoph/~ 111. 'eus curso~ durante o .. desde o começo do tempo. 319 ~ U . OI lh e SfUdy 01 His/ory. 11 O upfrilo dlU lâs. . D. XXVI. capo 6. Dellvf es. S01 e ss. apruent. 6. 51 e $. l. 5. li pormenorizada u:po­ . Vollalft. olhos. Sehrilten (Ed. p . 119. 151 e 118. 1887. Lequien. 27 E. 1820).inado que seja tio m8Jor. 182 c as. IIX.r. tn(Hurs. n Voltaire. U. pp.nn·MllDCker) V. Auch eine Phi/osophil! der Geschichlt zur BildUIIg deI M m . 21 0 espfrito dQJ' leis. desfilar. 80EnDl ISIlT lu moeurs... vol. pp. 20 Carta de 26 de maio rk 1742. W e. por usim dizer. I . di. lfHerder. Cf. lhe pode ser comparado'" (N. 16 e SI. diante de no. t1l 11 D'Alemtxrt.sem qualquer daqueles d. Monlf!Jq//leu.ameolals da nIosof. lão variado e interessante? Que eotretenimento. pp.. 388 e SI. ). pp. pp.ia de Leiboiz.. 107 e 6$. capo 2. V. fico. Herder. Londres.isruc« que. Werkt (Suphan). xvnl. p . pp. Oeuvres.s. XI. N.l t Cofl$id&orion. ver :OCa a raça bumana. I. n Cf. DeuI·res. I. sobre Nordberl e sua crítica a Voltairc. 23 "Fui o primeiro a caminhar com puso livre nessa terra vazia.. dos sentidos 011 ds imaginaçlio. I. '1 Pata • relaçlío entre Il fi losofia da história de Herder e 05 con· ce itos fuDd.XIV.. 1&0 e ". 12­ !aIbid. p. n H erder. p.acbma. p. Deuvru. op.edição. xvm. 9 e SI. Lequien. Cauirer). Auel! elne PhilO$ophie du Gesel!lcl!te tur 8i1du118 da MelUChheit. ver Gustave Lanson. '4 Em inglês no original : "Em fe5unlO. J/alIDiTt. U Sobre eMeS diversos pontos. 12 D'Alemtxrt.

VI O DIREITO . O ESTADO E A SOC/EDADE A idéia de direito e o principio dos direitos inalienáveis Uma das características essenciais da filosofi a do Iluminismo é que. uma vez que se apoiava somente na razão. não crê estar . do alto de sua idade. todas essas opiniões e todos esses preconceitos que a obnubilaram no de­ correr dos séculos? A Hlosofia do Jluminismo fez sua essa reivin­ dicação. Já Descartes se defendia contra aqueles que lhe censuravam querer fundar uma fil osofia absolutamente "nova" explicando-lhes que a sua doutrina . uma vez que assentava em princípios estrita­ mente racionais. apesar de todos os seus esforços para quebrar as velhas Táb uas da Lei e reconstruir a vida sobre alicerces in telectuais comple­ tamente novos. podia muito bem reivindicar o privil égio da Antiguidade. ~pesar do seu apaixonado impulso para o progresso.15 . ela nem por isso deixou de voltar incessantemen­ te aos problemas filosófi cos originários da humanidade. da tradição e da autori dade. possui com efeito o verdadeiro direito de primo­ genitura? Não domina zla. Ela lula em todos os dominio$ conlra o poder do costume. Quem. senão a razão. Contudo.

em direção a uma nftida decisão de princípio. o justo em si? Ou é em vão que buscamos. exprimir·se·á uma reali­ dade objetiva e determinada. Essas mesmas fundações são imutáveis e inabaláveis. sobre novas bases. que abandona .ustent adas na República de Pl atão por Sócrates e Trasímacos entram uma vez mais em conflito. o belo em si.fa puramente negativa e dissol­ vente. que . De um ponto de vista hist~ rico. acertou o passo. pouco o papel que ela desempenhou no tocante ao problema do direito. com o Humanismo renascentista. tãe antigas quanto a própria humanidade. As duas teses (u ndamentais r. não é um problema isolado. ela vinculo-se à mais antiga herança intelectual: leva·nos de volta ao problema radica lmente formulado por PIa· tão. de sua essência própria.:e a aàapta à sua própria vida intelectual. Com efeito. Nesse ponto. algo que seja autên­ tica e verdadeiramente idêntico·. existente em si? Ou essas idéias nada mais são do que sin ais verbais a que atribuimos arbitra· riamente um certo conteúdo? Existirá o igual em si. Por ccnseguinte. Mas usa essa herança de um modo essencialmente mais livre do que o Human ismo lograra fazer outrora. por cima de dois mil anos de história. por assim dizer. que não seja carreado ao acaso e puxado para cá e para lá ao sabor das nossas fantasias (phan· tasmata)? Haverá uma form a originária e fundamental. ao acentuar com tanta nitidez esses um traços. ela consegue. é num mundo Intelectual fu ndamentalmente diferente que ambas as teses são (t)rmuladas de novo. Mas ocorre justamente com bastante freqüênci a que a fil osofia do Iluminismo. qu. sem preocupação com o resto. Platão tinha apresentado a questão fundamentol das relações do direitQ e da força : essa questão foi reatada pelo :e *ulo XV1II . Só extrai dessa herança alguns traços fundamentais que se harmonizam com o seu modo de pensar. Em nenhum caso pretende manter-se na consideração apenas dos direitos adquiridos histericamente: ela remete-se ao "direito que lemos de nascença". encerrado como estava no quadro da investigação puramente erudita . no decorrer de todos os seus combates con tra a ordem existente e o passado imediato. essa dupla tendência afirma-se no sentido de que a fúo60fia do Iluminismo. ela 6 inseparável da questão universal e fundamental do sentido e da realidade da Idéia em geral e $Ó poderá receber esclarecimento e solução definitiva nessa perspectiva geral.er varrer o entulho do passado para desembaraçar e instaurar as fundações definitivas do seu edifí· cio. ela quer se r apenas uma restituição: uma restitutio in infegrum pela qual a razão e a humanidade devem ser res­ tauradas em seus antigos direitos. Até em suas mais audaciosas revoluções. que lhe transmitiu suas aqwsiçõe5.descarta todes as conciliações telHadas preceden· temente para caminhar. Na língua de dt:as épocôs diferentes revela·se umD só e mesma diatética que nada pe rdeu de sua força e de leU rigor. Pejo contrário. sempre se compraz em voltar aos temas intelectuais da Antiguidade e a05 problemas antigos. qt. que requcriria Clpenas uma idéia singular e sua explicação fil osófi ca. A esse respeito. Na ver­ dade. devolva·nos à fonte verdadeira dos problemas. modelo e correlato das nossas idéias? Ou o simples fato de propor a 317 316 . Em nOSS8S idéias tanto lógicas quanto éticas.d~empc:nhando assim uma t:m. esta· IlIbelecer um diálogo direto com O munelo intelectual antigo que é tio importante do panto de vista da história das idéias quanto de um pOnto de vista puramente especulativo. t evidentemente numa outra perspectiva que as reencontramos. no curso cam­ biante das nossas representações e opiniões. A questão platônica da "natureza" do justo. Mas para fundar e sustentar esse direito . parcelar. a filo­ sofia do Iluminismo não considera a sua obra um ato de destrui· ção mas um ato de restau ração. Mas essa mudança de circunstâncias não ~up rime o parentesco profundo e a comunidade real das teses ant igas e novas.

não dos Jatos mas de provas estritamente racionais. Não s6 a física mas também as ciênc ias " morais " enveredaram por esse caminho .es que se desen­ rolam no G6rgios e na Repl'iblica a respeilo da essência do justo. Leibniz não fez mai s do que extrai r a conclusão clara e segura das idéias de Hugo Grotius quando declarou que a ciência jurídica faz parte daque­ las d isciplinas que não dependem da experiência mas de defi ­ nições . cada vez mais raramente compreendida em sua significação própria. do efetivo . depois. de uma proporcionalidade e harmon ia. então a mesma sorte está reservada a toda e qualquer outra reaJid ~ de que tenha podido aspirar à dignidade de idéia. muito especialmente. sem dúvida nenhuma. também o problema do direito. o vínculo metodológico que assim se instala comporia certa· mente para as ciências jurídi cas conseqüências que. ligar-se d irc­ l umen t ~ às doutrinas da Antiguidade. Do mesmo modo que em Platiio a doutrina do direito nasce da interação da lógica e da ética. ser esclarecida pela experiência. sobre esse ponto. eviden­ temente. Por isso procura. A forma metodológica da questão platôDica será . Foi Hugo Grotius. IHatl . quem abriu o caminho r. que ao invés de conter um sentido essencial e imutável ela designa apenas uma representação instável e fugaz. são sumamente paradoxais e perigosas. O eurso ulterior da história levará. só o conteúdo sobrevive. examinada mais de perto. O que é o di reito e a justiça em si? Essa questão não pode. somente a instituição lhe confere realidade. Ao atacar. deve ter lugar certo em todas as " teorias" do direito e do Estado. T rata-se. o que o direito pode ganhar num plano puramente ideal . O direi to compara·se nisso à aritmética: o que essa ciênci a nos ensina sobre a natu­ 319 318 . Direi to e justiça en· cerram a idéia de um acordo. Abandona o mundo do real . O que o direito "é" no sentido mais puro e o que sign ifica no sentido mais profundo . para ele. não só da ética mas também da lógica. Grotius remonta primeiro a Ari stóteles e deste a Platão. do ser e do não-ser. é mesmo :e o pensador mais importante e mais original produzido nos meios humanistas.lera? Tal é o alcance uni· versal da decisão em causa nos profundos deba . com efeito.esse domínio. Platão apresenta a verdadeira e crucial questão de sua fil osofi a. e consti· tui um dos elementos que. da aplicação empí· rica . parece estar fadado a perdê-lo do ponto de vista da " realidade" . A idéia só vale. a solução sofística . do eidos da justiça. à primeira vista .a saber. Ele não é apenas homem político e jurista mas também um humani sta de vasta erudição. Essa síntese é um dos traços característicos da orientação geral do século XV II . no espírito de Grotius . somente da insti­ tuiçi'io dependem seu conteúdo e sua duração rela tiva. As matemáticas con stituem o meio e o instrumento intelectual da restauração das " idéias" platônicas.de toda mistura com a simples força. ao interditar ao direito basear-se na força. Entre tanto . E a propósito da questão da natureza.. não por natureza. preciso esperar pelos séculos XVH e XVIII para que o problema seja abordado de novo em toda amplitude de sua uni­ versalidade . do seu quid . de um modo ou de outro.questão encerra mal-entendido e quir. por instituição. nesse caso.uris? próprio. a abrandar cada vez mais o rigor dessa ligação. mesmo que não houvesse ninguém pata exercer a justiça e ninguém a cujo respei to ela tivesse que ser exerc ida . ao empenhar-se em pre­ servar o con teúdo essencial do direito . que deve ser resolvida a questão de direito do eidos como tal. que continuaria válida mesmo que nunca viesse a en­ cont rar sua realização concreta num determinado caso. liga-se ao problema das matemática s. de múltiplas maneiras. do cfi cien te a fim de transferir-se para o lado do " possível". Se se revela que. a idéia de justiça reduz·se a nada. gNaU. Em seu tratado Lellre vom Ursprung der Geselscho/l und vom Ursprung des Rechls [ Dou· trina da origem da sociedade e do direito].

1 J:: a mesma comparação e a mesma analogi a metodo· lógica que Grotiu$ coloca no centro da sua argumentação no prefácio da sua principal obra.mpedimentos e enfrentar dois poderosos adversários. impenetrável e inacessível à razão hu· mana . a fim de prodtrzir um sistema jurídico tal quc todos os elementos venham a concatem a·se na urdidura do lodo. de gerar suas "idéias inatas" . ele des· carta do debate todas as intenções desse gênero. ao passo que salva c exalta o pequeno cfrculo dos eleitos: danação. traia-se de abalar e vencer um s6 e mesmo princípio. Deve prosseguir contra a doutrina teocrática que deduz o direito de uma vontade divina absolutamente irracional. que cria por iniciativa própria. bealitude e danação aí estão implícitas. Uma vez que o espfrilO é capaz.reza dos números e suas relações contém uma verdade eterna e necessária. de iniciar e con· c1uir a construção do dornlnio das grandezas e dos n(lmeros. No desenvolvimento ulterior da doutrina do di­ reito natural essa matematização do direito foi levada ainda muito mais longe. sem a e 321 . porém. monnen· te o dogma central da predestinaç!io. da mesma forma que o matemát ico tem o costume de considerar as fi gu· ras sobre as quais raciocina independentemente de toda reali­ dade material. a partir de si mesmo. o combate para a fundação do direito natural moderno travou-se em duas frentes. uma exaltação da ra­ zão humana acima do próprio Deus. na oDip<> lência divina . Ele tem que partir de normas originais. não obstante. Se a teoria do direito natural relaciona assim o di· reito e a matemática. e abrir um caminho até a fonnulação do particular Não existe para o espfrito outro 320 meio de elevar-5e acima da contingência. 1625) não têm o propósito de fornecer uma s0­ lução determinada para esta ou aquela questão concreta. lanto quanto podem sê-Io os axiomas da matemática .&: salvação ocorrem sem nenhuma " razão" no seotido humanó do tcrmo. o . não poderia possui r um menor poder de construção e elaboração criadora no domfnio do direito.s da teologia e escapar a seu perigoso assédio . nem sobrasse objeto algum a conlar. el es são de uma evidência perfeita. que cada decisão individual receba do todo a sua sanção e a sua autenticação . mesmo que o mu ndo empfr ico desmoronasse inteiro e não houvesse mais nin­ guém para ser efetivamente contado. Calvino estribava·se nesse princípio para provar que todo direito se baseia. Por conseguinte. Para que essa tese capital do direito natural pudesse dar suas provas. cumpria-lhe definir e delimitar claramente a es­ fera do jurldico em face da do Eswdo e protegê·la . o poder absoluto de Deus que rejeita a maior parte da humanidade. era preciso superar dois i. por outro lado.. uma verdade que subsistiria intat2. que essa. para OS problemas da polhica contemporânea . Não cabe interroga r-se sobre a razão e o direito da decisão divina de salvar a alma: fonnular tal indagação já representaria uma impertinência sacrOega. da dispersão e da exte· rioridade do mundo dos fatos. Pl!lendorf chega a adverti r-nos contra uma conclusão precipitada: o fato de que os princípios do direito natural aplicam-se a certos problemas concretos poderia lançar sobre eles uma certa suspeita. Pelo contrário. o slal pro ratione voluntas. Ele declara expressamente que suas deduções sobre o direito da guerra e da paz (em De jure belli ac pacis. em definitivo. Por um lado . assim como contra o "Estado Leviatã". é porque essas duas disciplinas 6ão para ela os símbol os de um s6 e mesmo poder espiritual . em sua especificidade e em seu valor pr6prio. do absolutismo esta ta\. Em ambos os casos. ela vê em ambas os mais importantes te5temunhos da autonomia e espon­ taneidade do espírito. direitO tinha que arinnar sua originalidade e sua autonomia intelectual em rela· ção aos dogme. 6 absolutamente indetenninável e não está sujeita à limitação de nenhuma regra ou norma. O cerne da dogmática calvinista reside nesse pensfI!Denlo.

opunha-se ao dogma calvinista da graça eletiva. um mandamento (Cebot) endereçado à vontade individual. em loda a sua personalidade. Entendida corno a afinnação de uma lese.ncia. na Holanda. ele enfrenta um pensamenlo espe. desde a Renascença. Ao decretar as leis positivas. por uma parte. Nenhum ato de autoridade pode mudar ou retirar seja o que for ao que essa razão concebe como "exis· tente". é contra a onipotência do Estado que Grotius deve terçar armas. mas o mandamento não cria a idéia de direi­ to e de justiça.mas imprimiu igualmente uma orientação a toda a sua atividade eru­ dita e literária. vê-se chamado a lutar contra um outro adversário. exemplar. e do De Republica. no sentido de fex naiuraJis. O seu combate nas fileiras dos armi níanos e dos " re­ monstrantes n não s6 marcou profundamente o seu destino pes­ soal . ele {oi privado de seus cargos e encarcerado . porém. segundo GroUu" com a formação e ordenação da soc iedade civil.menor consideração pela dignidade ou o mérito moral. ardo ordinans e não ardo ordinatus. portanto. Grotius encon tra-se precisamente na mesma si­ luação em que Erasmo se encontrara: deCendendo o ideal de liberdade do humanismo contra a dou trina do servo arbítrio que C ora restabelecida em toda 8 sua acuidade pelos !(de~ da Re­ forma. sem dúvida. Ela não é a totalidade do que (oi ordenado e estatuído: é o "estatuante" originário. Abstenhamo-nos. por outra. ao imitar o modelo incriado e sempre existente. A idéia completa de lei pressupõe. que ele apenas modela o mundo real à sua imagem. coerciva para a sua própria vontade e para todas as outras. ~ nos "'Prolegômenos" de sua obra De jure belli QC pacis. em seu sentido primeiro e originário. jamais se resolve numa soma de atos arbitrários. coloca-a em execução. ao ' que ~ dado em sua pura essS. ganhando continuamente terreno. O conteúdo da idéia do direito como tal não tem sua fonte no domínio do poder e da vontade mas no da razão pura. Em contraste com essas duas correntes. na reforma da religião. o mesmo ocorre. Mas. um pensador profundamente religioso: põe tanto empenho na renovação moral . o direitc e a moralidade. de Maquiavel. sob a Iideranço do bispo Jakob Arminius.cificamente moderno que vinha.' Essa proposição não tem a intenção de cavar um abismo entre a religião. de Bodin . sujeita a essa idéia . de confundir essa execução com a fun­ dação da idéia de direito como tal . A pro­ blemá tica fil osófi ca do direito natural desenvolveu-se a partir dessa problemática religiosa . o legislador conserva os olhos fi xados numa norma de validade universal. DeJXlis da onipotência divina. Grotius conlinua sendo. que se manifesln com maior nitidez o " platonismo" da doutrina moderna do direito natural. contra o "Deus mortal ".após a condenação do arminíanismo no sínodo de Dor­ 'drecht. Sabe-se que o demiurgo platônico não é o cri ador de idéias. compreendida hipoteticamente e nunca "teticamcnlc". Depois de O prlrlcipe. é 323 322 . 'e nesse sentido que se deve en lender a célebre frase de Grotius de que todas as teses do direito natural conser­ variam sua validade mesmo admitindo que não cltista nenhum Deus ou que a própria divindade não ti vessc a menor preocupa­ ção com as coisas humanas. onde Grotius procede a essa fundação. a idéia de que o detentor do poder supremo do Estado não está sujeito a nenhuma condição ou restrição jurídica foi objeto de uma penetrante elaboração. A tese de que pode e deve existir um direito sem que se seja por isso obrigado a admitir a existência de Deus tem que se r. A lei . ao mesmo tempO. tanto Lutero quanto Calvino.~ Nesse outro com­ bate. o direito natural sustenta como tese suprema a existência de um direito que sobreleva todo poder humano ou divino e que é dele independente. qUllflto 08 fundação intelectual e no aprofundamento da idéia de direito. segu ndo a f6rmul a tio eJtpressiva e tão característica de Hobbes. Grotius é um dos campeões inte­ lectuais do movimento que.

a lei natural permanece subordinadll. Parece que o próprio Gro­ tius ti nh a uma noção perfeita desse parentesco ideal: manifesta por Galíleu a sua mais prorunda admiração e chama-o. como Grotius logo acrescenta. à lei divina. pois são essas as verdades que fazem do nosso mundo um s6 "'mun· 325 . senão uma impertinência e um absurdo. na vida intelectual do século XVIII . muito exatamente. razão natural" . ela serve para eliminar ni tidamente as diversas competências no âmbi to da esfera moral e religiosa que Grotius ainda considera uma unidade perfeita (a separação que será efetuada no século XVIII é-lhe absolutamente estranha). relatiyamente autônoma... numa certo me­ dida. sem prejuiw de seu conteúdo. ). todas as verdades suscetíveis de um fundam ento puramente imanente. portanto. da qual cumpre distinguir a "inte­ lectual" ou a . no estoi· cismo. Essa "trans­ cendência" da idéia do direito. No âmb ito das fa· culdades naturais do espírito e da alma.afJtÍQ. o pensamento escolástico não ignora a esfera própria. a realidade "material". de um modo geral. na acepção platônica do tenno. da lex naluralis_ O direito não está pura e simplesmente subordinado à revelação. v. A par da lex divina. ela seja reconhecida. "Natureza" não designa somente o domínio da existência "'f'í­ sica ". Santo Tomás de Aquino explica essas duóls leis como dois raios. de o maior gênio do século. que nos impede de fun· dar o seu sentido sobre qualquer coisa existente. a [dade Média niio pod ia reconhecer uma autonomia perfeita tanto da [ex na­ furalis quanto da . não é deduzido exclusivamente desta. espiritual " . também Grotius luta pela autonomi a da ciênci a jurídica. Ete vai realizar no domínio do direito a mesma revolução que Gil­ lileu realizou na Usica.l outra coisa . Foi esse. da essência divina. o seu verdadeiro papel filosófico e histórico.dessa idéia a respeito da qual Platão dizia que ele supl an tava tod:ls as outras em força e em dignidade ( 6vvcí!4tt xal nes.· Se Grotiu s ultrapassa a escolást ica é menos. As "ciências da natureza.eviàen te que não signilicari. pelo contrário. Ele decorre da idéia do bem .rl. em seus aspectos essenciais. A razão permanece a criad a da revelação (tanquam fam u/a ai ministra ). pelo conteúdo do seu pensamento do que pelo seu método. Ensina-se então uma mo­ ral natural e um conhecimento natural do direito que a razão conservou para <I!ém da queda original e que são considerados a razão necessária e o ponto de ligação da restauração sobrena· tu ral. a outra instituída pela revelação para fins suprater· renos. seja ela empírica ou absoluta . O termo não diz respeito ao ser da ~ coisas mas à origem e fun damento das verdades.f'éxowa ). englobam e condensam dois grupos de problemas que estamos habituados a distinguir nos dias de hoje. numa carta. não deve alxJiar·se em nenhuma existência. que eleva a justiça e o bem acima de todo ser ( l. as que não exigem nenhuma revelação transcendente. Apesar de ludo . Mesmo que. portanto.'t.::lt&tva 1'ijç oV(J[a. O direito não recebe sua validade da existênda de Oeus. por sua própria "natureza " e evite assim toda mácula e toda falsifi cação. uma destinada a fin s terrenos . a fdad e Média cristã já se ocupara igualmente da idéia de um di­ reito natural inspirado. do conhecimento perfeito que o homem possuia antes da queda. ela deve conduzir à re­ 324 velação e preparar seus caminhos. as que são certas e ev identes per se. Pertencem à " n aturcza~ . A palavra e o conceito de "'natureza" . Afinal de contas. Tal como Galileu proclama e defende a autonomia da física matemática. Grotius analisa·a cada vez mais profundamente. assente na graça divina. como simples "hipótese" .nunca eram então separadas das "ciências do espírito " e ainda menm se opunham do ponto de vista de sua especificidade e validade. Trata-se de definir uma fonte de conhe­ cimento jurfclico que não provenha da revelação divina mas sub­ sista . Em contra­ partida . Tais são 8S verdades que se busca não só no mundo físico mas também no mundo intelectual e moral.

O princípio sobre o qual Grctius fundara o direito natural. sem reser· vas. no seu sentido mais amplo. que o arbitrário nio poderia mudar. é imo possível que ele infrinj a as normas eternas do justo. à idéia de que devem existir normlS jurídicas absoluta e universalmente obrigat6rias e imu­ táveis. O que pa. " Antes de existirem leis feitas. Ele pôde assim começar sua obra por uma definição da idéia de lei que . ao mesmo tempo. Contudo. se existe. Cama conciliar essa concepção com a tendência geral da teoria do conhecimento por eles postulada? Como harmonizar a necessidade e a imutabilidade da idéia de direito com a tese de que toda idéia provém dos sentidos e. quer ~eja contemplada por Deus." . ele quer reduzir a diversidade dessas leis a um pequeno número de principias de­ terminados.do" . O século XV ltt também aderiu ao princípio dessa unidade. um cosmo que repou68 em si mesmo.'lsamente.' Foi por esse caminho que se viu condu lido à sua problemática própria : a análise das instituições jurrdico-politicas. a interdependência sistemática que ex. Portanto. E. Montesquieu faz sua es ~ia na área da ciência experimental. não deixam de.iste entre as normas particulares. n1l0 estamos menos submetidos ao reino da justiça. Ao mostrar que não existem idéias inat as~ objeta Voltaire. essa natureza das coisas existe tanto no possível quanto no real.e dos Catos. MontesCjuieu retoma expre. Na quali­ dade de jurista.. tanto no objeto de pensamento quanto na rea1idad." A filosofia do Iluminismo vinculou·se primeiro. tanto no físico quanto no moral. que não pode existir um p d ncipio universal da moral 326 327 . come a vontade de Dews está constantemente ce acordo com o seu conhecimento. A justiça 6 uma certa "rel açãc cle conveniencia" que pennanece constantemente idêntica a si mesma. Afinnar que nada existe de justo nem de injusto rora do que ordenam ou defeodem as leis positivas é o mesmo que dizer que antes de ser traçado um circulo seus raios não eram todos iguais. chegará mesmo a tornaI posição contra Locke. Libertos do jugo da religião. por conseguinte. deveríamos amar a justiça e tudo fa zer para nos igualar a um ser de quem temos uma idéia tão sublime e que. em sua significação universal. formula a mesma questão que Newton já C or­ mulara core:> físico: longe de con!entar-se com as leis empi­ ricamente conhecida s do cosmo polftico. as opiniões de Voltaire e Diderot não diferem das de Grolius e Montesquieu. é o racionalista ético. porquanto as conhece." 4 Ora bem. a esse "apriorismo" do direito. que ~ui em si mesmc o seu próprio centro de gravidade . o defensor entusiasta do perseguido e da razão moral . nos seus julgamentos. mesmo que 010 eXlstJsse nenhum Deus. sua estrutura objetiva. seja qual for o sujeito que a conceba.declara ele . como a ma­ temática. só pode representar as experiências senslveis sinsulares em que ela se baseia? Voltaire percebeu claramente a contradição que se es· conde sob essa dupla afirmação e parece que uma certa vacilação manifestou-se. quem leva a melhor sobre o empirisla e o céptico.' O direito possui. cair num diffcil di­ lema. no fim das contas. seu mestre e suia ."são as relações necessárias que derivam da natureza das coisas. "As leis. A investigação empírica e a doutrina empirista não ruem nenhuma exceção nesse ponto. en l absoluto. Locke não provou. Mas. a partir das Cartas persas. Partindo dessas concepções. Sobre esse ponto. já havia relações de jus­ tiça possíveis. determina o seu objeto em toda sua amplitude. por um anjo ou por um homem. de tempos em tempos.a Montesquieu constitui o "esprrito das leis " é a ordem. A heterogeneidade do dado ' não deve afastar-nos da busca da unironnidade escondida. ignorando toda e qua1quer limitação a uma ordem de fatos particulares . é necessa­ riamente justo. A esse respeito. jamais o contingente nos deve fazer perder de vis!a o necessá­ rio (barrar· nos o acesso 80 conhecimento do necessáric).

Essa descoberta corrcsponde a um certo periodo. concordam com essa verdade. entretanto parece-me ce rto existirem leis na~ turais com que os homens são obrigados a concordar em todo o universo. a saber. li 8 O historiador da civilização que gosta de expor a diversidade e a contradição dos usos e cos­ tumes dos homens . mas o rundamento é sempre o mesmo.ora est semper sibi consona" . mai~ . mas quem quer que tenha nascido com dois pés caminhará um dia. "Concordo com Locke em que não existe realmente nechuma idéia inata. não oas­ cemos para ser barbados numa certa idade? Não nascemos com força para caminhar. o caráter imutável da moralidade. desde o começo. a idéia de justo e de injusto. não estará se desmentindo nesse julgamento? Não. que tampouco existe em nossa alma qualquer propo­ siçiio de moral inata. e é essa . tal como se perde a sua razão na em­ briaguez: mas quando a embriaguez se dissipou a raz. em minha opinião. dever·se-ia procurar apoio no milagre moral: Les miracles sont bons. habitantes deste continente. "Se bem que o que se chama virtude numa região seja precisamente o que se chama vício numa outra. e pelas quais quero que vos governeis'.sou/ager son frere. Sem dúvida. mas tão-somente que todo ser pensante deve descobri-lo em si mesmo. ao analisar essa lei e segundo as circunstâncias. C'est IIn p(us grand miracle. elevemos romper com Locke e ade­ rir a Newton e ao seu célebre princípio: "Nat. Mais lt ses ennemis pardonller leurs vertus. mesmo a conlregosto . numa certa idade. e que são os vínculos etern os e as primeiras leis da sociedade na qual Deus previu que os homens viveriam.de tal princípio não quer dizer que ele exista em ato e que. abadonando inteiramente o mundo moral ao acaso e ao arbitrário? Nesse ponto. do mesmo modo também a moralidade rege todas as nações que conhecemos. causa subordinada à necessidade que temos uns dos outros.son ami du sein de la mi~re. sua crden ação. a única causa que faz subsistir a so­ ciedade humana. de mostrar sua inteira relatividade. como é evidente." 10 A fim de provar a existência de Deus e sua bon­ dade. preci sa­ mente quando se trata de sua criatura mais sublime. sua perfeita regularidade.u 329 328 . em vez de recorrer a pretensos milagres fisicos. sua de­ pendência em face de circunstâncias cambiantes e contingentes. milh ares de dire· renças. Deus não disse aos homens: 'Eis as leis que vos dou de minha boca. assim como essa lei nos revela uma força rundamental da matéria que atinge os pontos mais longínquos do cosmo e une entre elas todas as par­ tículas da matéria. Na verdade. à ruptura da ordem natural. dos preconceitos. mas ele fez no homem o que fez em muitos outros animias : deu às abelhas um poderoso instinto o reconhecimento pelo qual elas trabalham e alimentam-se juntas e deu no hO Jne!ll certos sentimenlos de que não pode desfazer-se. et qui fie se fait plus. mas do fato de que não nascemos com barba .s da natureza que Voltaire recorre para a demonstração dessa doutrina. descobrimos.ão volta. mas Deus conformou de tal modo os órgãos dos homens que todos. segue-se. Seria necessário que a natureza rompesse com sua unidade. atue em todo ser pensa nl'! . o homem? Deveria ela limitar-se a reger o mundo físico por leis universais e invioláveis. porque Vol­ taire acredita sempre descobrir por trás da instabilidade das opiniões. Assim é que ninguém traz consigo ao nascer a idéia de que se deve ser justo. mas o conteúdo que então se descobre e se revela à consciência não é o resultado desse desenvolvimento : ele sempre existiu. Mais tirer . a uroa certa etapa do desenvolvimento individual. "Comete-se prodigiosamente a injustiça nos furores de suas paixões . segue-se que n6s. e que a maior parte das regras do bem e do mal diferem como as línguas e as indumentárias." o E é ainda à famosa analoglll das lei. dos costumes. Assim como a lei da gravitação que descobrimos na Terra não está ligada ao nosso planeta.

indaga mUc.o de que fazia profissão de fé na crítica da religião e dos dogmas religiosos converte-se progressivamenle num puro e simples pragmatismo.1& Diderol permanece fie l 8 essa linha de pen­ samento em todos os seus artigos da Enciclopéia.u Quando Helvétius. sem cadeias nem obstáculos convencionais. intrinsecamente válida e imutável per se. u Ele além·se à essência e!ema e imutável da mo­ ralidade. toda religião que aban­ dona esse ponto de apoio. entretanto. ao mesmo tempo que sua sensibilidade. rebaixa os deveres na­ turais ao subordiná-los a uma outra ordem de deveres pura· mente quimérieos. não passa de um mero castelo de cartas.«na de benevo­ lência e seu oposto na de malevolência. logo Diderot tomou partido e~)t~tra essa iniciativa de nivelamenlo. mais : o centro de gravidade passa do apriorismo ao empirismo. um vínculo mais verdadeiro e mais sólido reside na identidade de suas inclinações. com a felicidade do homem e a pxsper. zão para o da experiência. quando procura desvendar. Ela rompe todos os vínculos naturais que unem o homem ao homem. é nas obras imediatas e concretos da natureza que acredita descobrir a realidade. é aí que ela encontra seu verdadeiro ponto de apoio. com­ parado com as teorias do djreito natural. essa idéia tão sagrada em todas as naçõesl" "e pre­ ciso transformá-la" . o outro à ignomínia. todo amor e toda abnegaçêo natural de que é 330 capaz. que rejeita e abandona 05 naturais impulsos sensfveis da condu la .Ioda nobreza e grandeza moral. C0­ meça por conceber a idéia do direito e da justiça como uma idéia pura.1." 11 Assim . alguma influência. Didcrol foi finalmente levado a fundamcntar a superioridade do direito natural " e da moralidade natural em relação à moral teológica essencialmente no seu modo de eficácia. mente m6vel e dinAmito. é tê-lo sido sempre desastrosa para a vida da sociedade. A gradual mudançé de sentido da idéia de "natureza" que acompanhamos passo a passo no pen­ samento do século XVIII faz-se sentir cada vez. de seus instintos.dade da sociedade. resolve abalar essa fé. . H E deixando a natureza ob. Uma moral que se declare inimiga da natu­ reza está desde Jogo condenada à impotência. é-se irresistivelmente arrastado pela torrentc geral que leva um à gl6ria. O que ele objeta a essa moral religiosa. é nes~a realização de si mesma que ela realizará simultaneamente o (mico e verdadeiro bem. e o vfcio e a virtude?" . essa palavra tão sã em todas as línguas. mas. do lado da ra. revela uma direçiio de pensamento muito diferente. Assim. "Mas. protestando contra a ética naturalista do médico em O sonho de D'Alembert . embora dê 8 essa exigência um fundamento que. em sua obra De I'esprit. assim fome­ OI 331 . l! aI que nos cumpre buscar a verdadeira unidade orglnica do gênero humano. desmascarar todos os pretensos instintos morais como oetros tantos disfarces do egoísmo. Não é o comando abstrato da razão que dirige e une os homens. de l'Espi­ nasse.respondeu o médico . assim como a toda religião revelada. CCrre permanece inabalável : na sua visão do mundo tão perfeita. Nasce-se feli zmente ou infelizmente . de suas necessidades sensfveig. Oiderot percorre todo caminho qL!e vai de uma fundação "apriorlstics" da ética a uma fundação puramente utilitária. O puro moralisr. Para que conser­ vasse. e não em simples pres­ crições religiosas ou morais. Toda moral. teria que extirpar do ho­ Illem.rar por conta própria. alimenta a discórdia e o ódio entre os amigos mais fntimos e enlre aqueles que estão unidos pelos laços do sangue. à me­ dida que ele lhe aprofunda O ·conteúdo e prccura defini-lo com maior precisão. doutor. Que nenhum "dever" ten1:a a temeridade de negar ou de transformar radicalmente o ser empírico do homem! Esse ser nunca deixará de renascer e será sempre mais forte do que todo e qualquer -dever" .o de Arquimedes."a virtude.Também em Diderol a (6 numa natureza moral imutável em si n:::esma e ca ~tabilid8de do princípio de justiça que daí de. essa fé desempenha o papel do ponto fix.

é unifome em todos os povos são os deveres que todos temos para com os nossos semelhantes. Ele vê o original dessa Dec\a roção nos "Bifls of Right " america nos.de que não houve nenhuma relação direta enlre a Declaração da Assembléia Cons· titui nte francesa de 26 de agosto de 1789 e as idéias filosóficas dos séculos XVII e VIII. muito conhecida obra. tinha um papel muito secu ndário. é principalmente a Locke que cabe o estabelecimento." sustenta a tese . de maneira nenhuma..s 0/ righ''': esse movimento remonta às origens do direito natural moderno. a unidade ideal dos múl· tiplos esforço!! tendentes a uma renovação moral e a uma reforma !>O!ftica e social. declaration. . digamos antes que elas são seus ramos late· rais. a religião não tem nenhum pa· .und Bürgcrrechte. tal como a desenvolveu o século XVIIl . Georg Jellinek. mostrando-nos a ligação íntima do nosso verdadeiro inleresse com a plena realização dos nossos devereb . que esse autor tenha razão na parte negativa que se lhe prende. em Leibniz e WolfU I Na Inglaterra . eles tendem a nos canse· guir o meio mais seguro de ser feliz. no seio do q Utl! el a se desenvolveu organicamente e donde caiu como um fruto maduro. Todos esses princfpios convergem para um ponto comum. não se segue daí. 1 a motivos puramente humanos que as s0­ ciedades devem seu nascimento. O conhecimento desses deveres é o que se chama Moral [ . sobretudo 00 âmbito da filosofia do di­ reito do idealismo alemão.schen . em especial oa Declaração de Direitos promulgada pelo Estado de Virgínia em 12 de junho de 1776. evidentemente . Assim é que elas não se deduzem. Trabalhos recentes e perspicazes acerca da Declaração dos Direitos do Estado de Virgínia mostraram claramente que. ] Poucas ciências têm um objeto mais vas to e prindpios mais suscetfveis de provas convincentes. "O que pertence única e essencialmente à razão e o que. no scu 332 333 . f: verdade que tmbalhos recentes de história do direito público tentaram mostrar que a base histórica da dou· tria dos "direi tos do homem" era nitidame!\te mais estreita. na época em que foi pro­ nunciada essa declaração.. do principio exclusivo de liberdade de crença e dos coonitos religiosos que se desenrolaram em torno desse princípio na Inglaterra do século XVIII. mesmo admitindo a perda positiva da tese de Jcl1inek . em sul!..cendo ao conjunto da obra a linha gerai da sua problemática étíca P D'Alembctt não vê de outro modo os limites metodoló­ gicos da ética: urna ética puramente filosófica só pode ter como rinaJidade indü:ar ao indivfduo a sua posição no seic da socie­ dade humana e de lhe ensinar a melhor maneira de consagrar suas faculdades ao bem-estar e à felicidade de todos. Sobre as fundações assim preparadas pelos teóricos do di· reito natural foi edificada a doutrina dos direitos do homem e do cidadão. e foi depois instituído e elaborado teori camente." 1. sobre o qual é difícil alimen tarem-se ilusões. Ela cons­ titui o ponto de convergência espiritual.. e. 20 Existe. Não são as próprias declarações americanas dominadas pela innuência do novo es­ pírito que anima os teóricos do direito natural? Longe de cons­ tiruirem a raiz donde brotou a reivindicação dos direitos do ho­ mem e do cidadão. todo um movimen to de idéias do qual a Decl aração da Constituinte faz parte.. Entretan to. ela af está bem visível sob os nossos olhos. Die ErkJiirung der Men. muito antes que lenha podido ser uma q uestão de innuência das . determi nado por motivos par­ ticulares e favorecido por certas circunstâncias históricas. um desenvolvimento à pa rte. pcl na sua formação inicial [ . . até Grotius. por conseguinte. das idéias do direito natural. em absol uto. ] O fil ósofo não se encarrega de colocar o homem na sociedade e conduzi·lo nela: cabe ao mis­ sionário atraf·lo em seguida pata os pés dos altares. pelo menos . a questão da liberdade rcligiosa não desempenhava nenhum papel ou.a dependência da Declaração francesa em relação aOS seus modelos americnnos é inegável e demonstrável até nos detalhes .

O ideal voltairiano da liberdade nasceu da I bservação da vida política concre ta. O homem possui direitos nalurais que existiam antes da constituição de vinculas sociais ou civis.reito de pTcp:-iedade. diríamos até. portanto. por trás do tema dos direitos inaliemiveis. todos os astros obedecessem a leis eternas e que houvesse um animalzinho de cinco pés de altura que ." Volta ire. não pode ser uma pura ilusão. mais tarde. sem dúvida. Mas foi ela. "Seria deveras singular que toda a natureza.la da elaboração de um conceito abstrato mas de uma questão eminentemente prática . Locke inclui muito particularmente a liberdade individual e o di. porque essa Constituição comportava 335 334 . pois o limite com que nos deparamos aqui iremos reencontrá-lo em todos 05 problemas metafísicos e é idêntico para cada um desses problemas. em face desses di­ reitos. sem dúvida. de maneira nenhuma . wmo metafísico. Uma von­ tade sem motivos suficientes scria si mplesmente absurda. A fil osofia francesa do século XVIII não des­ cobriu. O debate que conta para ele não é teórico. demonstra ele então."1 Mas ti incer­ teza e a vacilação interior que Voltaire manifesta a respeito do problema metafísico da liberdade nada mais significa m senão o pouco interesse e a escassa atenção que ele ded ica pessoalmente a esse aspecto da questão. Contudo.celência . O simples fenômeno do querer basta. que é ccnc1ufdo pelos indivíduos eDITe eles. todas puramente coneeptuais e dialéticas. a doutrina de uma liberdade da vontade humana. a aderir-lhe com paixão e a proclamá-la com entusiasmo. conceder-lhes sua proleção e sua caução. O sentimento da liberdade. pudesse agir como melhor lhe agradasse. claro. nem por temperamento pessoal nem por suas preocupações. o fundamento único do conjunto de relações jurídicas existente entre os homens. não consti­ tui.berdade: " Querer e agir é precisamente a mes­ ma coisa que ser livre. a doutrina dos ditei tos inalienáveis. precedidos de vínculos originá­ rios que não podem ser criados nem ser suspensos por um con­ trato. e. ao sabor exclusivo do seu capricho. No seu Tratado de meta/Esica (1734). rejeitou esse julgamento e declarou-se favor~vel a um fran co determinismo: o sentimento da libe rdade. pois seria a negação da ordem da natureza . oastante vago e ambfguo. O que ele exprimiu como filósofo teórico. No número desses direi~os . ali's. Ele agiria ao acaso. 2 função própria e o objetivo essencial do Estado con­ sistem em dar-lhes um estatuto na ordem política. esforçava-se por afirmar. pelo contrário. é deveras insuficientes e. Inventamos essa palavra para exprimir o efeito conhecido de toda causa desconhecida. Oru. a primeira 8 fazer dessa doutrina um verdadeiro evangelho moral. não significa absolutamente "poder que­ leI " o que se quer mas" poder fazer" o que se quer. para provar a li. da comparação e da apreciação das diversas forma s de governo.Treatise on government. não contradiz tal determinismo. des­ prezando essas leis. mostra Vohaire. ele sustentava ainda. é na Consti­ tuição inglesa que a Europa de então encontrava a realização mais prótima desse ideal." 2. a questão prática por ex. no sentido da auto­ consciência imediata. Voltaire. Todas as objeções que se fazem contra ela. Todos os vínculos contratuais são. inseriu-a verdadei­ ramente D a vida polftica real. não é um revolucionário. apesar de todas as diliculdades. E ao proclamá-Ia dessa maneira. conCerindo-lhe essa força de cho­ que. sobre o problema da liberdade. um dilema insolúvel : mas essa dificuldade nào nos deve impressionar muito. essa potência explosiva que se manifestou nos dias da Re­ volução Francesa. pois se r livre. não se Ira. e sabe-se que o acaso não é nada. vivo e imediatamente presente em cada um de nós. esbarram no simples testemunho da consciência. ele pressentiu a apro­ ximação ineCreável de uma nova época de que se fez o arautO." Como essa liberdade humana é conci­ Jiável com a Providência divina? Essa questlio continua sendo . portanto. do princfpio !"f'ltndo o qual o contrato social.

Elc está convencido de que basta mostrar aos homen s o verJadei ro rosto da liberdade para despertar e mobilizar neles lodas AS forças necessá rias à sua realização. o livre uso de seus direitos fun damentais numa perfeila igualdade.. na mais ampla medida. t: por isso que. como de sua língua." te Mas eocuncr8-se ainda uma outra coisa em Condorcct : 1111 fHosofia da história e da civiUução que eJe nos deu cOm o . finalmente. Toda a obra de Volta:re como escritor político t sustentada c inspirada pc: e!5e pensamento. pensamento c ação nunca se separaram: estão constantemente certos de que podem traduzir de imediato o primeiro na segunda e conferir a esta a garantia daquele . que a verdadeira constituição intelectual da nova ordem política só pode consistir numa declaração dos di­ rei:os inalienáveis. em sua acepção mais apropriada. que toda a ciência d:J sociedade humana só pode ter um objetivo : garantir aos homens. com efeito.. a " li berdade de pena" é verdadeiramente o "paládio dos direitos do povo".. "No essencial. é indis­ pensável relacionar. U H A Idéia de contrato e o método das ciências sociais Se se quiser compreender o novo caminho adotado pelas ciências sociais nos sécu los XVII e XV III.rtação. Q ssim desencadeando a torrente cauda­ losa de idéias que irrompeu na literatura da França revolucio­ ná ria. Nos tempos modernos.et atribui. e o estudo das leis institufdas em diferentes povos c cm diferentes séculos só é útil para fornecer ta razão o apoio da observação e da expcriên~ 336 chl . "Servir-se de sua pena. que se deve procurar conhecer o que acontece com sua adoção. " U Conquistar e gara ntir a liberdade de pensa­ mento dedde tudo: tal é a máxima implantada por Voltaire na filosofia do seu século. mas não sei de nenhum que tenha causado um prejuízo real. Proclama-se agora em toda parte que a primeira etapa de toda a Iibe. se se quiser fazer uma idéia muito clara do novo método que aí se desenvolveu. O que quer dizer. é a esses Es­ tados." 24. Por parHdoxa l que possa parece. 6 somente na razão. 27 Em conclusão. ser livre senão c0­ nhecer os direitos do homem? Pois conhecê-tos é deCendê-Jos. li igualdade perante a lei e à participação de todos os cidadãos no Poder Legislativo. faz parte do di reito natural Conheço muitos li­ vros enfadonhos. " Não é no conhecimento positivo das leis estabelecidas pelos homens" . POrem. Condorc. percebe-se que ele compree ndeu perfeitarr:ente que complexo histórico de motivos particulares gerou a idéia de direi lOS inalienáveis. que cabe a glória de ler tornado rea­ lidades concretas as grandes idéias do século. colocar em estreita conexão esse desenvol­ vimento com o que a 16gica registrou durante o mesmo período. tal como para Kant. Declara ele. o retrospecto que aprescn­ tamos sobre o movimento das idéias do 5tculo XVII I mostra-nos uma vez mais como os grandes espfritos da Revolução Francesa estavam conscientes da estreita conexão que existe entre a teo­ ria e a "práxis"_ Neles.declara Condorcet . é nos Estados livres da América do Norte que esse objetivo esteve mais perto de sua realização. Quem quer que tenha se apercebido uma vez da importância desses bens. semelhante aproximação.uma pro teção eficaz da propriedade e da segurança pessoal de cada cidadão. por conseqüência . encontrará em si mesmo a força necessária para defendê-los e conservá-los. li livre frui ção de seus bens. tem seus próprios riscos. do direito à segurança e integridade ffsica da pessoa. a idéia de li berdade coincide com a dos direi­ tos do homem. a origem dessas idéias à filosofia dos séculos XVII e XVIII e credita especialmente a Rousseau O mérito de ter eleva­ do a teoria dos direitos do homem à categoria das verdades que daí em diante não poderão ser mai s esquecidas nem por mui to tempo combalidas.eu Tableau des progrês de l'espril humailr . ela 337 . para Voltaire. quem quer que tenha reconhecido sua necessidade razoável.

para entender a sua natureza do que analisá-lo até seus ú!timn :Iementos e rcconstituf-J o em . Aquilo que quer verdadeiramente c0­ nhecer. nio existe nele . alge passivo. € para esse ato de produção que deve tender toda a ciência . deve produzi-lo a partir dos seus elementos. de superar 85 fo rmas escolásticas. Leibniz também insiste na ne­ cessidade. é indispensável pari' 338 33" . quer seguir a lei interna segundo a qual o todo é gerado.. basta transferir para a política o m6­ todo de composição e de resolução que Gatileu empregou em flsica . Não basta que a defi­ nição analise e descreva o conteúdo de um determinado con­ . A fim de chegar-se a umu . ~-nos vedado conceber o que escapa ao devir. j~ nos encontramos. desde a Renascença que se assiste à prt>· gressiva ascensão de uma Dova fonnà de l6gica que. Pelo contrário. v! nesse empreendimento nada menos do Gue uma transform nçCio completa do próprio ideal do conhecimento filcsófi co. O método escolástico de definição de um conceito por genus proximum e dilferentia specifica é cada vez mais considerado insuficiente . apenas uma transição. Hobbes foi o primeiro lógico modemo a elucidar a importância dessa definição causal" . com proprie­ dades e características estáveis. Também o Es­ tado é um "corpo" . e não s6 essa estrutura como tal: ela penetra ao mesmo tempo até a sua cousa. a fim de converter-se numa Úlgica inventionis.· aracteriza. porque não pode nem quer outra coisa senão a aplicação desse método a um objeto particular. t assim que nasce a teori a da definição gerretica ou cau­ sal.. Racionalistas e empiristas concor­ dam com a necessidade dessa nova lógica e rivalizam para im­ plementá-Ia . inegavelmente. ou segundo a qual se pode pensar que O seja. no Olovimento. em cuja elaboração participaram todos os grandes lógicos seiscenl istas. fornecer um organon à ciência. O que cle =ensura l escolástica foi ter acreditado que podia compreende!' o ser tomand<H> por um simples ser. E U acredita não ter realizado assim apenas :lma reformn lógica. Por isso lhe fal tava tanto a ver­ dadeira estrutura da natureza corporal quanto a do pensamento: ambas 56 são concebfveis. a fi m de se atingir uma real fecundidade. não indica apenas o que esse todo é mas também por que é. em plena filo­ ajja social de Hohbes. u Com essas eltplicações fundam entais da tarefa e do conceito geral da filosofia. é porque ela se adapta plenamente ao seu método. de sair dos caminhos tradicionais. por sua filosofia. ela deve ser um meio para a construção do conteúdo dos ~once itos e para a sua consolidação através dessa atividade edifi­ . assim como em física.adora. Bacon não é o único a querer. O nde nos faltar a possibilid ade de produzir o objeto construindo-o. Se a teoria do estado faz parte da filosofia .eito.iência efetiva do Estado. E por essa lei do devir quer tomar visível O seu ser e o seu modo de ser verdadeiros. por conseqüêncilt. o eterno." Em política. de uma l utra. · :la época. N6s apenas compreendemos aquilo que faze mos nascer sob os nossos olhos. nenhuma separação. ibi nulla Philosophia intelligitur. Na verdade. ela não se contenta em abs­ trair um elemento de um complexo dado de propriedades ou de caracteres e de fixá-lo isolando-o.ciência das coisas tanto materiais quanto es­ pirituais.seguida. O impulso assim dado influenciou de um modo muito nítido e direto a teoria da definição. A verdadeira definição genérica permite-nos penetrar com o oLhar a estrutura do complexo. entretanto. o ser imóvel de Deus ou das inteligências celestes transcende todo o conhecimento humano. o conhecimento estri tamente fiJosófico : uhi generatio nuIla . para a 16gica. em lugar de se contentar em classificar e ordenar o saber adquirido . uma cias tendências fundamentai s de. o homem deve constituí-lo. Com efeito. quer ser um instrumento do saber. af se det6m igualmente o conhecimento raciona l.e não há outra solução. . de fato." A verdadeira e fecunda explicação de conceitos não procede de um modo abstrato.

de uma (orma ou de outra o alcance dC5sas relações de dominação é atacar as raf­ zes racionais do sistema. O ato pelo qual OS indivíduos desvestem-se de sua vontade própria a fim de trans­ Ceri·la para o soberano. segundo Hobbes. cálculo. cumpre desfazê-los. na condição de que os outros façam o mesmo. Não esqueçamos que a filosofia não ~ o saber do quê. como unidades pu ramente abstratas. Eis como o radicaJismo lógico engendra em Hobbes o radicalismo político . O problema da teoria poHtica consistt em explicar como. En­ rraquecer de algum modo essa sujeição. E o fio dessa análise não poderá quebrar-se em nenhum ponto. Querer Iimitnr-. às unidades absolu tas e inde· componívcis . Cada uma dessas vontades quer a mesma coisa . o saber do 6wn . Só a dinâmica da força soberana procede à fusão do todo poUtico. o começo da sociedade. o "pactum socjetatis" e o . Para compreender verdadeiramente as estruturas políticas e sociais é preciso que o homem as divida em seus ele­ mentos últimos. significaria privar de seu fundamento a ex istência do Estado. que é O contrato de submissão. o primeiro passo que conduz do " status naturalis" ao 341 340 .e cada uma delas apenas se quer a si mesma (will nur Ilich selbst). pelo contrário. não são mais do que uma massa desordenada. Esse ideal não é realizável por um método pu­ ramente empírico. devolver ao caos o cosmo polft ico. Tal é o problema que Hobbes quer resolver mediante a doutrina do estado de natu reza e a do con­ trato social. para compreender o ser social. pactum sub­ jec-ticmis". os vínculos existentes entre os membros de uma famflia. antes de terem reali­ zado o contrato com o soberano. e todo cálculo é adição e subtração. não se consuma no interior de uma sociedade já exis­ tente: é. impor·lhe qualq uer res­ trição. portanto. O contrato social apenas será. na integração intelectual de um todo. vemo-Io comprometido em alguma forma de sociedade e não como indi­ víduo isolado. de abstrair conceptualmenle. Com efeito. um contrato de submissão. é negá-lo logicamente. procede pela segregação rigorosa das uni­ dades: toma as vontades individuais e serve·se delas como de uma moeda de conl a. deduzi-lo de. pode nascer uma üssociação e não uma associação destinada a estabelecer entre os indivíduos conexões fl exíveis: uma associação que deve acabar por uni-los num todo único. at~ mesmu cortá-los. em seguida.a compreensão do todo retroceder até os seus elementos.e reciprocamente. O ra. mas essa objeção não o imped irá de aplicar o seu princí· pio raciona l geral até as suas últimas conseqüências. na natureza e na história. por exemplo. todo pensamento é.31 Os individuas. A relação que Hobbes concebe entre as duas Cormas de contrato. desse isolamento absoluto. sem qualquer "qualid ade" Pllrticulur. Hobbes não pode esquivar-se a esse limite empí­ rico e é muito conscientemente que o transpõe. só ela o mantém coeso por sua autoridade sem limite. na adição. Devemos elevar a faculdade de "subtrair". 1! por essa razão que Hobbes. Dominação e submissão: nada mais do que essas duas (orças para unir num só corpo poUrico o que está separado por natureza e para manter esse corpo em existência. fonte de todas as fo rmas de vida social. às for· ças que DO começo reúnem as diversas pa rtes componen tes e que continuam mantendo-as associadas. ou seja. O con trato social entendido como contrato de sujeição é. inicialmente. Os vínculos efetivos das rormas primitivas de sociedade. mas o saber do porquê.. é o ato que a constitu i inicialmente. Hobbes não alimenta quaisquer ilusões nesse ponto. seus princfpios. não deixa subsistir o menor dualismo: só existo uma forma de contrato. não do simples ôn. para Hobbes. um agregado que não apresenta o menor indfcio de " totalidade". ela só cessará quando se tiver chegado aos elementos reais. seja ela qual for. ao seu mais alto grau . devemos levá·la até o limite extremo de suas possibilidades para ter êxito. é a combinação dos dois métodos que deve engendrar o conhecimento verda­ deiro da estrutura de um todo complexo. Onde quer que encontremos o homem.

a s0­ ciedade não poderia basear-se no contrato. evidentemente. O Estado é uma entidade ideal. légio do homem e o fundamento de toda a sociedade especifi· camente humana . no espírito de Gro­ tius.. Ele oão nega. humano inlelledui cOllveniens. de acordo com uma fórmula muito expres­ siva e característica. nem mesmo o poder do Estado. e onde se reflete em sua máxima pureza.u Nessa perspectiva.re:za humana­ mente social. tira­ ria a sua significação própria e a sua perfeita justificação senão dessa sociabilidade natural? O princípio de respeito incondi­ cional do contrato que constitui uma das regras suprcmas do direito natural requer. Por conseguinte. Entretanto. o direito natural não pode admitir.usti prOpe male. tanto para o Estado quanto para o direito. por uma simples convenção." A faculdade de elevar-se até r idéia do direito e da obrigação jurídica. é o privi. A sociedade. segundo Grotius. de aceitar a 342 lese de que a utilidade seja. ela baseia-se num instinto ilTtprimlvel da natureza.is. quod proprie fali nomie appella­ tur. Sá· tiras. portanto. tons est ejus iu. e de adquirir consciên· cia no que já estava implícito no simples instinto de sociabili · dade. a partir de seu sentido e de seu tetos ideais. Horácio. por­ tanto. nenhuma vantagell ou proveito esteja-lhe associado. que a autoridade do Estado seja concebida como um poder sem limites. na promessa como tal. a mãe do justo e do eqüitativo (uliUlas . o casamento. portanto. Portanto. do espírito jurídico e do pensamento humanista: o direito não é uma criação contingente do homem. Essa sociabilidade fundamentada na razão não pode ser substituída por um ato arbitrário. o contrato é que só é possível e inteligível oa hip6tese de uma " sociabilidade" original. e SUa natureza deve ser interpretada a partir de suas tarefas. O Estado só pode criar e fun· dar o direito na condição de conter. pelo contrário. mas uma determinaçãr essencial e necessária de sua natureza. não é uma associação de indivíduos com vislas à realização de um certo objetivo.. na inclinação natural para a vida em comum. mas essa proteção. de realizar em si mesmc um direito original . o caráter obrigatório da te" cillilü 343 . a humanítas ipsa. Haec sodefa!is cus/odia. Nada pode questionar a validade do "contrato originar. não como a de uma obrigação imposta por necessidade e por coerção. reside justamente um dos Ira­ ços fundamentais da natureza humana como natu. por sua própria natureza. de exigir o direitc pelo direito. na noção de contraiO. Para salvar esse princípio. de algum modo. em virtude do seu princípio fundamental. Essa dedução não pode deixar de evocar a união íntima. não se tt2ta mais. quc o Estado não scjo concebido como a soma dos instrumcntos do poder e dos meios de coerção física. a idéia de contrato social tem que ser ' concebida num outro sentido muito diverso e de­ fendida de uma outra maneira. status civilis" c:: continua sendo a conditio sine quo non da manutenção desse estado civil. et aequi. aliás. porquanto esse poder repousa justamente nesse antecedente e a revogação do contrate abalaria seu próprio fun damento. Como poderia ele concluir então um contraro? No ato de contratar. indispensável ao homem para tornar-se homem. Grotius descarta. deve harmonizar-se com a natureza do en­ tendimento humano. ser gerada pelo con~ trato. efetivamente. O indivíduo abstrato a que a teoria de Hobbes é fo~ada a retomar fica. tão ca racterístico da obra de Grotius. mesmo que nenhuma utilidade. 3): o homem não deixará de buscar. E esse sentido reside. acrescenta Grotius. um "appetitus sociefafis". mas entendida como a de um livre com­ promisso. I. {ora da espécie humana. à margem da forma pura da humani­ dade. que o Estado e o direito não tenham por missão fundamental proteger a sociedade.. Donde a idéia de contrato. evidentemente. Grotius vê no direito a fonte originária donde jorra. como uma potestas le­ gibus soluta. o princípio de uma fundação e de uma dedução puramente utilit'ria .

Essa form a de simpatia que penníte superar O puro egoísmo pode perfeitamente constituir a meta da sociedade.u Sem chegar a descrever 0. O instinto de rapina e de dominação violenta é estranho ao homem da natureza como tal. de compaixão.:s.rYlssivo que reina no estado de natureza um egoísmo ~ . O homem da natuma não é incapaz. procurar interpretar O Contrato social como um dos prolongamentos da doutrina do direito natural. Os homens nesse estado não estão ligados uns aos outros nem por um vínculo moral.3l Mas vai uma grande dis­ tância entre essa atitude quese baseia numa simples impressão da sensibilidade e num interesse ativo. numa ação realizada com outrem e para oulrem . para se­ parar-se deie. Cada um ex~ste para si mesmo e s6 procura o que é necessário à conser.1< estado de natureza " corno uma guerra de todos contra lodos. como um estado em que cada um está perfeitamente isolado e perfeitamente indiferente aos outros. de um instinto primitivo de sociabilidade que impeliria o homem para o homem. é verdade. em ligar-se diretamente a ele.reza a faculdade de pene­ trar na ex istência e nos sentimentos de outrem e.. e"cl w-o. O interesse do individuo. sucumbe-lhes. Segundo Rousseau . porém. O elemento mais saliente da constituição psíquica do homem da natureza não é a tendl!ncia para oprimir outrem peJa violência mas a tendência para ignorá·lo. "Você precisa de mim. essa fa culdade de "empatia" permi te-lhe vivenciar como seu pr6prio um sofrimento alheio. fazer de semelhante instinto a origem da sociedade. o defeito da psicologia de Hobbes é somente o de ter colocado no lugar do ~gof5m o . nem por um laço sentimental. esse instinto não pode nascer e ganhar raizes no homem antes que esse tenha ingressll do na 80Ciedade e aprendido a conhecer OS desejos H artificiaisH que a sociedade a1iments. na sua psicologia social. nem por um movimento de simpatia . ativo. essa compaixão ê apenas um dom da imaginação. mas falta a essa interpretação c núcleo racio­ nal do j>ensamento de Rousseau e trai sua originalidade hist6ri ca . nem pela idéia de dever. do começa e do fim. Assim nos primórdios da sociedade. sem dúvida. por· 345 . Rejeita expressamente a idéia de um appe­ !itus societatis. em certa me­ dida. e revol ta·se amargamente contra elas . mas. sobretudo. desde c Discurso sobre a origem da desigwddade.lOI' npóu(!01' . seri a impos­ sível existir harmonia entre interesse pessoal e interesse comum. múltiplos contatos.deve estar cimentado no poder fundamental da lex IUIluraJis. ao invés de as controlar. tradicionais e convencionais.uma bizarra inversão do anterior e do posterior. e é totalmente ocioso. E certo que se tem cometido com frcq üênein o erro de tomar a doutrina do contrato social. embora con&er"\'c com ele. s6 pode forne­ cer um ponto de fixação e 10m fundamento inabalável a partir dessa autonomia e dessa independência. A doutrina do contrato que encontramos em Rousseau é de um outro tipo. as lei s sociais são apenas o jugo q ue cada um quer impor a outrem sem sonhar sequer em submeter-se-lhe ele pt6prio. mas não O seu ponto de partida . ~rn voltar a líobbes.. pelo contrário. RousseAU integrou à sua teoria certos elementos lornados de Hobbes e Grotíus.tiva. mas critic3ndo com toda liber­ dade esses dois pensadores. No tocante a Gro(i. também. em sua concepção da teleotogia social e. longe de coincidir com o da sociedade. O direito como tal é anterior e super ior ao Estado. os quais não são consciente­ mente elaborados pela vontade mais são o produto fatal do jogo de forças em íace das quais o homem. de Rousseau pOl uma das formas da doutrina do direito natura] e de a interpretaI nessa perspe<. Isso é COmeter um estranho VoTt(. Ele não hesita. No estado de natureza. Sem dúvida . segundo Rousseau. Rousseau sente o grande peso deSSAS formas de socie­ dade ampliadas com o tempo. O homem recebe da natu. ele formulou graves objeções contra as suas teses. longe de enraizar-se num instinto social ~inato". nesse ponto.. vação da sua própria vida. vê-o. Rou sseau separa-se nitidamente do direito natural. e a recíproca também ê verdadeira.

O verdadeiro caráter da liber­ dade nlo II a fuga perame a lei ali o simples desprendimento em relação aos ditames da lei mas a livre aquiescência. scgundt Rousseau. Daí resulta a estrita correlação estn. a possuir uma (orça objetivamente obrigatória qu~ não seja a coerção ffsica." 38 Tal é. Para que uma auto­ ridade possua esse valor é necessário que os indivíduos subme· ram-se a ela e não que ela submeta os indivíduos. agora a ser indivíduos na acepção mais elevada do termo. indjvidualmente. verdadeiros súditos voluntários. Contra Hobbes. belecida por Rousseau entre a idl!ia autlntica da liberdade e 1\ de lei. I si mesmo nesse acordo recíproco.n Passaram. na condi· ção de que me dê o pouco que lhe resta. de um ponto de apoio e é moralmente sem valor. segundo Rous­ seau . ele vai insistir vigoro­ samente sobre este ponto: o contraro social é nulo. por certo. inicialmente.'l. o livre con­ sentimento em face da lei. nada mais deseja ou exige para si. ou os indivíduos instalam um soberano e submetem-se a ele como a uma pessoa privada . absurdo e contraditório se . Na ver· dade.t ro bem mais precioso. de fato. a liberdade não exclui de maneira nenhuma a sabmissão." Embora nesse estado. um vínculo jurídico mas que nem por isso deixava de estar nos antípodas de todos os vínculos morais autênticos . glorificar mais do que tudo. ela não significa arbitrariedade mas. de modo que O individuo. existindo como vontades individ:. que ele parecia. Somente a adesão à vontade geral (varonil générale) constitui a personalidade autônoma. enquanto nlo passava antes de um feixe de instintos e de apetites sensuais. néo obedecem a ningullm mas somente à própria vontade.O .:ais . forma que implicava. coage-as desde o exterior a unir·se por meios físicos de coerção. Façamos." ~ verdade que OI cidadãos re­ nunciaram de uma vez por todas à incependência natural (indl­ pendance natureIle) que vigora no estado de natureza. E íoqui que começa o protesto de Rousseau e que intervl!rr. não existindo um associado sobr\' o qual não se adquira o mesmo direito que se lhe cede sobre si meamo. Emancipar o indivíduo não signific..enquanto I! sempre um . o homem se prive de muitas 347 346 . Essa espécie de · contrato" lla única. quem pactua com o outro. Um vínculo dessa natureza carece. Essa unidade jamais será . "Enfim. Enquan­ to os súditos que se unem pelo contrato conlinuam . tendo concluldo ur pacto com todos os outros. não obstante. Mas essa submissão já não é a submissão de uma vontade individual ou de uma pessoa individual a um outro sujeito voluntário igualmente individua1. nenhuma unidade autêntica e verda­ deira foi ainda realizada . Enquanto OS súditos só esti­ verem submetidos a tais convenções. ganha-se o equivalente de tudo que se perde e maior força para conservar o que se tem. somente obedece. II na liberdade que ela deve alicerçar-se. a despeito dessa união.!!lcançada pela coerção. em retribuição do trabalho que terei em dar-lhe ordens . E Rou5­ seQU não hesita em colocar esse objetivo da ordem social esta· belecida por contrato muito acima do estado de natureza. cada um dando-se a todos do se dá a ninguém e.. estrita ne· cessidade da ação.que sou rico e você é pobre. Ela quer dizer: a vontade individual está suspensa CCJTIO 11!:1. mas tro­ caram·na por um oU. pelo contrário.. Liberdade significa adesão à lei estrita e inviolável quu cada um se impõe a si rncsJr. . Tal é a form! de 8:Jloridade que o Contralo social de Rou$seau quer assegurar são essas as regras fundamentais que ele qu er elaborar. pois. a sua vontade de reforma . portanto. em vez de unir inUmamente as vontades indi­ viduais . assim afirma ele. a forma de contrato que dominou a sociedade até os nossos dias. arrancá-lo a toda e qualquer forma dt sociedade. mas encontrar uma forma tal de sociedade que pre· serve a pessoa de todo indivíduo com a força solidária da asse d ação política. pois só tem existlncia e querer no seio du · vontade geral". para Rousseau. um acordo entre nós: permitirei que vod teohtl a honra de servir-me.

tl E. porquanto é impossível proclamar de um modo mais nítido e mais inexorável O reino incontestável. então é evidente que se requer. por mais cuidadosamente meditadas que sejam. de veria bendizer incansavelmente o instante feliz que dela o arrancou para sempre e fez de um animal estúpido e limitado um ser inteligente e um homem. através das quais se procura cercear o poder do soberano. quando está ausente a vontade de legalidade como tal.no duplo sentido desse tenno. com o Discurso sobre C1 origem da desigualdade. esse poder está exposto ao perigo de cometer abusos qce cumpre então prever. Se Rousseau ti vesse enveredado por esse caminho. quando um individuo ou um grupo de indivíduos reina e impõe suas decisões e suas ordens a todos os outros. o dom do céu graças ao qual o homem aprende . Mas. A verdadeira unidade s6 se realizará se o in­ 348 divíduo não s6 se dá ao todo mas abdica de si mesmo em bene· fício do todo : "Ademais. não podem apre­ sentar·se como exigências independentes e. O indivíduo não pode opor reservas nem restrições à lei. 40 Pretende tão pouco dar lugar no seu jdeal social e político ao arbitrário do indivíduo que vê." 4Z Rousseau é então levado a con­ denar toda resistência individual à lei. Nenhuma hesita­ ção. toda a limitação de 349 . mas é porque não existe para ele nenhuma dúvida de que. desde a sua existênci a terrena. quase inacreditável. ganha outras de igual monta: suas façuldadc s exercem-se e desenvolvem-se suas idéias am­ ?liam-se. Esse ponto assente. por uma parte. seus sentimentos enobrecem·se. o evangelho da nature­ za como se signifi casse que era necessário eliminar o reino da lei para retornar à natureza . tanto quanto pos­ sível.. um contra· senso absoluto. que o pró­ prio Estado tenha·se constituído como Estado. a soberania absoluta da lei. quando a lei vigora em toda sua pureza e sua verdadeira universalidade. ou seja. Com efeito. interpretar. todas as "leis fundamentais".a9 Esse entusiasmo pela força e dignidade da lei caracteriza a ética e a política de Rousseau . o seu sentido autêntico é integrado na própria lei e por isso con­ servado e preservado. portanto. todas as medidas preventivas racionais continuarão sendo. . no plano histórico. em contrapartida. . que se tcrna razoável e necessário fü:ar limites ao poder usurpado. ineficazes. A teoria do direito e do Estado de Rousseau visa nada menos do que propiciar essa conversão qualitativa . se os abusos dessa nova condição não o degra· dassem com freqüência a uma condição inferior àquela donde saiu. essa mesma soberania tem por condição. Se ele proclama a soberania absoluta da vontade do Estado. ou seja . o que pressupõe não depender ele de nenhuma outra fonte jurídica de atividade senão a vontade geral. do que nessa segunda obra . não impedirão que este as interprete no sentido que mais lhe convenha e manipule-as a ~eu bel-prazer. Toda sua alma se eleva a tal ponto que. bem entendido. que ni sso se revela um prede· cessar de Kant e de Fichte. nenhuma exigência moral do indivíduo pode efetivamente ficar por satisfazer. na realidade. o Conlrato social teria caído em contradição fla­ grante. Quando domina a força bruta. nenhuma flutuação sobre esse ponto: desde o primeiro esbo­ ço do Contrato social a lei é apont ada como a mais sublime de todas as insti tuições humanas. 1\ união é tão perfeita quanto possa ser e a nenhum associado res· tará algo mais a reclamar. J! em vão que se limitará o quantum de poder se não se converter igualmente o seu quale. a pressentir os mandamentos invioláveis da divindade. Toda cláusula que p0­ deria ser inserida no contrato social em benefício de lal ou tal direito individual apenas comprometeria o seu sentido e o seu conteúdo pr6pri0. pelo contrário. na decisão individual uma espécie de pecado contra o espírito verdadeiro de toda a sociedade humana. fazendó-se a alienação sem reservas. Essas exigências são "absorvidas" (auJgehoben) pela lei .vanlagens que frui na natUTeUl. como o fez na Alemanlw o período do Sfurm und Drang. no fundo. a sua fonte e a sua significação.

ooerania parecerá não só supérflua mas contraditória. sente-se o impulso de uma vontade resoluta de cc· 351 . é o pensamento que eleva Rousseau acima do seu ambiente histó­ rico imediato. Rousseau não renuncia em conseqüência disso ao princípio dos direitos inalienáveis .H Em primeiro lugar. essa concepção é desenvolvida de tal maneira que Rous­ seau . De resto.4~ pura e sim­ plesmente. o poder de governar. Já mostramos antes que força revolucionária reside nessa convenão da doutrina do conerato. essencialmente. de modo que seria absurdo proteger-se dele. mas não pode chegar ao ponto de alienar­ se e aniquilar-se a si mesma.nesse capítulo. seja -derivada de que prin­ cípio for. in· versamente. uma pela qual a sociedade constitui-se a partir dos indivfduos. por 350 natureza. elas atacam o mal pela raiz. que apenas tinham por papel. focaliza de certo modo todas as objeções que depois foram suscitadas contra o regime do absolutismo e seus abusos. que possui direitos definidos que ela não pode abandonar nem transferir sob pena de destruir-se e de abdicar de sua pr6pria natureza. nenhuma soberania . o qual. jamais se elevará mais alto do que constitui. Hobbes tinha reduzido todo O processo de constítuiçiio do Estado ao pacto de submissão. Ele já não conhece o contrato sob a sua forma dupla. E tais objeções não ficaram nO plano das decisões abstratas. ele segue o modelo metooológíco de Hobbes . procurando definir medidas concretas para eliminá~lo. Todo poder que quer apresentar-se como legítimo está contido nesse contrato e nele deve enconu'ar seu funda· memo. o seu fundamento e a sua justificação original. perde toda legilímidade. A idéia de "direitos imprescri­ tíveis". a outra pela qual ela se dá um soberano e se submete à vontade deste . reduziu-o ao contrato de associação. de delegar a outrem uma pnrte Jo poder que nela reside. Em todos os domínios. os quais não são suscetíveis de "mais" e de "menos".rompe com o dualismo que caracterizo até erUão a doutrina do contrato. O poder de governar só é legítimo na medida em que deri· va do povo e quando é confirmado pelo povo. é através dele que Rousseau domina o meio inte­ lectual da Enciclopédia. de fato. de Fénelon.da vontade geral. De um ponto de vista for­ mal. Assim que expira o mandato da vootade geral. No caminho claramente assinalado por Fénelon vamos encon· trar homens como Vauban. tal idéia é agora considerada válida no próprio interior da esfera do Estado. onde ele vê justamente esse princí­ pio encarnado e solidamente fixado. tem apenas uma sigoificação administrat iva. O Exame de consciência para um rei. porquan· to a questão da extensão do poder perde o seu sentido.:. é a totalidade dos cidadãos. no espí­ rito do direito natural. Não é o indivfduo. Todo poder de governo que se encarna num indivíduo ou que seja exercido por uma coletividade nunca passa de ser um po4~r delegado. BoulainviUiers e BoisguiUebert. Muito antes dele. Não é que os contemporâneos de Rous­ seau deixem a desejar quanto à sua vontade resoluta de reforma e quanto à importância desses projetos reformadores. Não pode abolir nem infringir a soberan ia popular que é a ex· pressão adequada . uma vez que se tcata agora do seu conteúdo e do seu prindpio. mas faz com que esse princípio jamais seja válido contra o Estado. Pois a lei pode muito bem ir até o ponto de Ilrnitar-se em seu exercício. a lJolonté générale. Rousseau. o único portador e o único titula. Desde que não tenha de enfrentar mais a simples força física mas a idéia pura de Estado jurídico. o indivíduo não tem mais necessidade de ser protegido : a proteção verdadei ra realiza-se doravante no Estado e pelo Estado.r-. as graves e incuráveis mazelas do Ancien Rdgime já tinham sido reconhecidas . delimitar e salvaguardar a independência da esfera do indivíduo em face da do Estado. A crítica do Estado e da sociedade sistematicamente realizada pelo cIrculo da EnciclopMia tinha sido preparada desde o século XVII e começo do século XVIII.

ao longo de toda a sua vida. portanto. E verdade que a idéia de comu­ nidade deve ~e r identificada com o ideal de sociedade que c civilização de século XVIn perfilha com uma cega credulidade? Não haverá. a crítica dessa si tuação até uma crítica da existência social como tal.. pelo menos. chama à França um sepu1cro caiado" : o 8lvi­ oitente brilho exterior em que ela vive dissimula toda a sua podridão ir. em contestar a hipótese metodológica que comínuava inspirando implicitamente todas as tentativas de refoma . A verdadeira originalidade de Rous­ seau está precisamente em atacar essa premissa. que desviou de forma radical o curso das idéias do século mas também que os melhores espíritos da época. no aparelho da justiça e na dislribuiçlo dos impostos. (oram precedidos por homens práticos em quase todos os domínios. estava perfeitamente prc:parado.. de quem pressen­ tiam sem dúvida a po tência demoníaca . POr !Oda parte exigem-se mudanças radicais. separa-se do seu século menos pelos idt::aís políticos que defende do que pela dcduçllo racional e justiJicação que para eles prop6e.eau do que na 'U I H maneira de explicar ~ de argumentar. a ruptura que se desenha nesse ponto. como se vé no seu Diário. que uma continuidade perfeita estabeleceu-se entre Rousseau e o conjunto do movimento das idéias do século XVIII. para o advento da crítica social de Rousseau. entretanto. na legisla­ ção e na administração. todos compreendem como é 353 352 . a flexibilidade de seu sentido das realidades. mas ele quem deviam aIastar·~~ para não sacrificar a clareza e a segurança de suas visões do mundo. jamais teria levado. . O terreno.formas. Todos querem colaborar espontaneamente. quando ela se manifesta pela primeira vez com os discursos de resposta às questões apresentadas no con­ curso para a Academia de Dijon . devemos acompanhar o seu desenvolvimento a (im de discernir. Nenhu m pensador da Enciclopédia põe em dúvida que o homem não pode viver de qualquer outro modo senão nas (omlas da "socia­ bilidade" e da "sociedade" e que seu verdadeiro destino não pode ser cumprido alhures. obra composta em 1739 mas que já circu lava em manuscrito antes de ser im­ pressa em 1764.~8 O cerne dessa incompatibilidade reside me­ nos no conteúdo do pensamento de Nou~:.. sob sua verdadeira luz. Ninguém pode contestar nesses pensadores a sede de realidadp.. no di~ito penal e no processo penal. ~ por isso que se compreende dificilmente que Rous­ sesu tenha imagin ado. é chamado ao ministério. O próprio D'Argenson. em suma.H Parece. em 1744. Em As origens da França contemporanea. entre as duas noções uma completa oposi­ ção? Paro conseguir-se estabelecer solidamente a verdadeira comunidade nlo é imprescindIvel distingui-Ia com cuidado e proteg~la dos (dolos da "sociedade"? Foi em face dessa proble­ mática que eclodiu o conflito opondo Rousseau aos enciclope­ distas . puros "dout rinários". Para ele. essa existência é um fim em si e um rim evidente em si. Taine censura aos enciclopedistas terem sido doutrinários ingênuos. em Considérations sur le gouvcrnemcnt andel1 eJ préset1t de la France. Por mais chocado que pudesse estar o século XVIII com a situação política exis­ tente. antes. E nio são filósofos. terem elabora­ do seu si stema político e _~ocial de um modo puramente sintético e se lhe aferrarem sem levar em conta a rea1idade histórica COncreta." D'Argenson . acabaram por tratá-lo como um tstranho e um intruso. tanto no plano dos fatos 9 uanto no das idéias. é aclamado com entusiasmo por seus amigos filóso­ fos. depois de terem tentado em vão durante um certo tempo atraí-lo para 9 seu círculo. os que travam esse combate. Tal censura foi considerada indefensável faz muito tempo. saúda amistosamente o Discurso sobre a desigualdade como obra de um "verdadeiro filósofo" . os homens do mundo e os políticos designam-no espiritual­ mente como o "secretário de Estado da República de Platãc. Quando D'Argenson.terior.

é bom que se diga que Rousseau. no século XVIII. de Leonhard Euler. peDoso ~ díffcil o caminho que vai da "teoria" à "práti­ ca ". de Newton. Os ideais políticos. a moralidade e conferem· lhe um fundamento seguro. está longe de ima­ ginar. enquanto pensador politico. No seu Systeme social. Mesmo em seus projetos propriamente intelec· tuais.. Sem dúvida. essa fé no poder da razão não assenta em bases pura­ mente intelectuais. o aumento e a expansão das ciências também transformam. no! seus arrigos da Enciclopédia re(1)­ rentes a questões fundamentai s de ordem poHtica e sacia1. Se queremos que os filósofos caminhem na frente. Ao referir·se à vaga e ambígua oposição entre "racionalismo" e . em certa me­ dida. não é menos evidente para todos esses pen. Nos lide res do lIumi­ nisOlo. para a maioria desses pensadores. O mesmo ocorre com a expressão francesa sociélé. ele descarta expressamenre toda e qualquer solução revolucionária. O refinamento dos costumes. Apressemo-nos a tornar a filosofia po­ pular. muito mais imaginativo do que pensador intelectua1ista . como um racionalista. Mesmo um fanático da abstração como Holbach. Voltaire. essa " urbanidade" social é elevada à categoria de uma medida e de um critério de avaliação e julgamento genuíno e intuitivo (wirklicher Einsicht) de relações. levando as "Luzes~ até as suas causas c suas fontes . A voz da razão não está sedenta de tumultos nem de sangue. ainda não é ai que reside a diferença decisiva que opõe um ao outro. Pretende·se criar uma filosofia sociável. aproxi· memos o povo do ponto onde os filósofos estão. mas também os ideais es· peculativos. éticos e artísticos são elaborados pelos salons e para os salons. a implantação direta na rea· lidade de suas idéias e exigências. E. à qual constantemente se sobrep6em todas essas signi­ ficações. mas Djderot já nos aparece como um persona­ gem muito diferente. ainda se pode a))\)nta!' o puro intelectualismo de D'Alembert e a fria serenidade do seu espí· rito matemático. Fontenelle. EsslJ fé 6 tão poderosa que. a de comunidade (Gemeinschalt).social sua nova e melhor (arma . O movimento propaga·se à Alemanha e aI se consubstancia num exemplo bri­ lhante. surge-nos então. O ver­ dadeiro Humanismo é aquele cuja realização passa pela popula­ ridade. em virtude do impulso inte· rior que o anima e da lei imanente que o governa. a ela cumpre empunhar o facho . porque esse progresso. confunde-$e não só com a de sociedade (Gesellscha/t) mas também com a de sociabilida· de lGeselligkeit). como teórico do "sistema da natureza". por exem· pio. se as refolTOss que ela pre­ coniza são lentas é porql. o que as torna mais estáveis e segU1'8s :l 0 Contudo. inacionalismo". submeteu a essa prova a doutrina de Descartes em Entretiens sur Ia pluralité des mondes. nem se es­ forçou nunca por atingir .lo de que se pode confiar no progresso da cultura intelectual . Só se encontrará a {orça bastante para vencer o mal se este for totalmente esdarecido. l! que Diderot e os enciclopedistas estão impregnados da convicç. declarando que os remédios desse gênero são sempre mais cruéis do que os males que pretendem curar. cuja realização est4 condicionada por essa passagem pata a língua da sociedade. final ­ mente. o rigor dedutivo que caracteriza o Contrato social.adores que compete à razão assu­ mir a direção do movimento de renovação política e social. realiza o mesmo empreendimento a prop6sito dos PrincL· pio! matemáticos da filosofia natural. Dirão existirem U 3S4 355 . comparado a Diderot. é claro. Mesmo no donúnio das ciências. Toda idéia que não for exprimível nessa linguagem da urbanidade não deu provas de clareza e distinção. ele deixa·se arrastar por sua imaginação e muito além dos limite! do demonstrável. Diderot jamais atingiu.longo.:e são melhor analisadas e ponderadas. uma ciência soci4vel. o das Brie/en an eine deulsche Prin%essin (Cartas a uma prlncesa alemã>. u idéia que buscam e tanto se empenham em fundamentar e justi· ficar. dará à ordem . no século XVII. no entan· to. Diderot resume todos esses esforços e d4·lhes a mais penetrante expressão quando declara ser uma obrigação moral tornar a5 idéias "populares".

que por ele roçaram sem más intenções e sem pressentir o perigo ameaça· dor. e até mesmo 05 melhores espÚ'itos acreditam que suas pesquisas só podem obter sucesso e fecundidade nesse meio. com uma força e uma confusão. O domínio do querer está separado do domínio do saber. A harmon ia desmorona enlre o ideal ético e o ideal 1t'6­ rico do século. ela é o movimento que se produziu em mim nessa leitura: de repente.obras que jamais estarão ao a1cance de todo mundo? Se eles o dizem. a verdadeira filos ofia. uma vez a questão assim encarada e formulada com IU(i!l ti rigor. apenas estão mostrando que ignoram o que podem o bom método e o longo hábito. O conteado dessa civilização. Opõem·sc por seus fins e por seus caminhos. se recusam a privar-se da ajuda e dos encorajamentos do espírito de sociedade (gesclligen Oeist) do século. des­ vendando assim as C orças que continuam a movimentá-Ia e a governá·la. a verdadeira ciên­ cia. No "Discurso preliminar" da Enciclopédia. na ambição e na vaidade. A natureza não é sempre igual a si mesma? Todas as épocas não produziram grandes gênios? Mas o que podem Cazer os grandes intelectos quando estão dispersos e entregues à sua própria intutção? OI As idéias que se adquire pela leitura e peta sociedade são o germe de quase todas as descobertas. ingenuamente e de boa·f~. a resposta não iX>dia continuar duvidosa por r1lL dl~l 1111111 tempo. Assim diz ele em sua célebre carta a Malesherbes: "Se alguma coisa asseme­ Ihou·se alguma vez a uma inspiração súbita. pois não se pode esperar a renovação da existência poUtica e social senão do crescimento e da expansão dessa cultura do espírito que se adquire em sociedade. pela primeira vez. Nessa civilização do espírito de sociedade em que o século XVI II vê a flor da verdadei ra humanidade. A Enciclopédia quer instaurar e asse­ gurar essa união. D'Alembert sustenta que a superioridade específica do século XVIII não é ser mais fértil do que os outros em gênios. que se alicerça tão-somente no instinto de poder e de posse. em espíritos verdadeiramente cria­ dores. por sua vez . A sociedade é o ar vital. Q ue ele oponha o estado nll tural ao estado civil. que dcs­ e "6 357 . em conseqüência da questão pOstll em concurso pela Academia de Dijon. e nesse ponto que intervém a crítica. existir entre consciência moral e consciência cuhurnl em irlr !r E. é ela que. os seus primeiros passos. l! um ar que se respira sem pensar nele e ao qual se deve a vida. Todos os outros esforços políticos e éticos devem também pro­ curar aI seus lugares. Rousseau reconhece o pior perigo. Ete ousa quebrar o vínculo considerado indisso­ lúvel. OI O espírito da Enciclopédia. a contestação radical de Rousseau . Rousseau descobre o horrfvel abismo que perma­ neceu escond ido aos olhos dos seus contemporâneos. o momen to em que. tudo confinna sem ambigüidade que ela é desprovida de lodo impulso moral. a verdadeira arte não podem fl orescer em nenhum outro lugar. sinto O espí· rito ofuscado por mil luzes. O filósofo da vida social deve então ceder o passo ao filóso fo da história e apurar por que caminhos a sociedade chegou A sua presente forma. um tropel de idéias vivas af se apresenta simu1l'aneamente." rol Como numa visão slÍbita. Rousseau encontra-se diante do problema de saber "se o restabelecimen to das ciências e das artes contribuiu para depura. Entretanto. o seu estado atual.r os costumes ". que me lançou numa inexprimfv el perturbação. Ele descobre que ~ problemática e inteiramente contestável a unidade que se admi tia até então. adqui re consciên­ cia da ciência como função social e declara que o seu desenvol· vimento só ~ possível na ba$C de uma sólida organização social. seu sentimento da vida e do pensamen­ to talvez nunca tivessem sido expressos numa C órmula mais justa e mais concisa . O próprio Rousseau descreveu com gnmdc I~ nelração o instante em que e5SC desmoronamento produziu-se neIe. essa parte de sua tarefa não (oi conce­ bida nem realizada por Rousseau num sen tido puramente histó­ rico." ~ Não sio as ciências exatas e as matemáticas que.

o que ~ lei obrigatória em si ou o que apenas ~ con­ venção e arbítrio. cujas impostura e arbitra­ riedade são conhecidas . o mundo humano que deve mergulhar de novo caos inicial . Supondo-se que esse julgamento leve à condenação e rejei­ ção de toda a ordem social existente até oS" nossos dias. demolindo até as suas fundações o ed i­ fício político e social existente para construir em seu lugar um outro que se erga sobre alicerces mais seguros. e do qual é necesSt1rio." deõica·se sobretudo a destruir esse prestigio ilusório que nos d6 uma admiração estúpida pelos instrumentos de 'nossas misérias e a corrigir essa admiração en· ganadora que nos faz reverenciar cs talentos perniciosos e me­ nosprezar as virtudes útei s. as academias e voltar a mergulhar o universo em sua primitiva barbárie. e substi tuir a corrupção pela desordem e n pilhagem. evidentemen te. O homem não passau do estado natural ao estado civil impelido por umn 359 ." B8 Segundo Roussenu. Falar do "estado de natureza" . à beira do qual suspiraria . Rousseau está bem Icnge de tal anarquismo teórico e prático. com o qual sonharia . devem aprender a ver·se e a julgaJ·se. nunca deixou de proclamar . "Nesses dois primeiros escrites" . abolindo a ordem vigente. Se é Hcíto dizer que Rousseau faz nascer e crescer sob os nossos olhos a sociedade civil. ao atacar as 2rles e as ciências. sempre insistiu na conservação das insti· tuições exi stentcs. na forma presente da sociedade. como a pedra de toque que permite fazer a prova de tudo o que. os teatros. as arte!l. e jamais se retorna aos tempos de inocência e de igualdade uma vez que nos distanciamos deles. quan­ do ele. Tampouco formulou semelh ante conclusão a propósito da cultura intelectual. Mas a natureza humana não retro­ cede. O "contrato s0­ cial" encarrega-se dessa nova construção: ele transformará o atual estado de coerção em estado de razão. diz ele. O Estado e a soc iedade de hoje devem con­ templar seu próprio I"osto no espelho do estado de natureza.ereva 11 passagem de um para outro. Portanto. que é a ordem em geral que deve 358 ler rejeitada .ndo de si mesmo e dos doi s Discursos . para bem julgar o . t falar de "um estado que já. fala. que talvez nunca tenha existido.e por que não acreditar muito simplesmente nessas declarações.qce jamais lhe acudira 00 espírito. Serve-se dele ::orno de um crit~rjo ou de uma norma. a sociedade que ~ obra da necessidade cega numa obra de liberdade. Rousseau expli­ cou-se com muita nitidez sobre os princfpios do seu método no pref'cio do Discuf$o sobre a desigualdade.u Ele precisa apresentar-nos o processo da gênese da sociedade porque é Q único meio de revelar-nos o segredo da sua estrutura. Tanto na descrição do estado de natureza quanto na do "con­ trato social". Pelo contrário . que está no pólo oposto da verdadeira liberdade. em vez de pô-Ias em dúvida como uma espécie de auto-sugestãc? . ter r. não existe.assim diz ele. porque as força s que mantêm a socie­ dade só podem tornar-se vis{veis em sas ação. Obstinaram-se em acusá-lo de querer destruir as ciências. isso não quereria dizer . isso não é no sentido de um relato ~p ico mas no sentido da "definição gen~ti ca " que 6 o método por e::\celência da fil osofia do direito e da filosofia polftica dos st­ cuias XVII e XVIII . só se esca­ pará a essa desordem. entender que se trata de qu ~tões de fato que poderiam ser solucionadas por provas históricas e no âmbito de uma e::\posição de história. pelo contrári o. é verdade ou embuste. Rousseau est~ longe de eceitar o estado de natureza como um estado de fato em cuja contemplação ele absorver-se-ia . que provavelmente jamais existird. arauto entusiástico que ~ da "lei" e da "vontade geral ". porém. jamais deixt:. sustentando qpe sua destruição apenas fari a eliminar 0 5 paliativos e deixar os vícios.nosso estado atual". a rejeição radical de todas as suas contribuições para a edifi cação da sociedade.oções corretas. a palavra e a idéia de desenvolvimenfO são toma­ das numa acepção mais lógica e metodológica do que empfrica. das artes e das ciências.

mesmo levando a melhor sobre ela. O seu evangelho do sentimento não contradiz essa afinidade: os fatores em ação não são simplesmente afetivos . consentir em colocar-se a serviço da própria vida. A ciência náo redundará mais. con tinuou sendo um verda­ deiro filho desse Ilumini smo que combatia.ro s0­ bre a desigualdade. os espíritos fundamentalmente não-sentimentais de Lessing e Kant. a edificação do mundo do saber deve ser precedida pela elabo­ ração clara e segura do mundo da vontade. nesse segu ndo percurso. como queria mostrar o Discur. e então será !feito ao homem ocupar-se na busca da verdade eltlc cior. Tudo o que tem a fazer ~ ren unciar a reivindicar para si mesma o primado absoluto no domfnio dos valores espirituais que se retacionam com a vontade moral. Como se vê. não se abandone 80 poder de seus instintos. não concorrerá mais para enfraquecer e adormecer o homem. que sa iba para onde vai e por quê. A liberdade do espírito nada pode propiciar ao homem sem a liberdade moral. nada impede. não poderá levar a idéia do direito à sua vitória e reali­ zação final. mesmo levantando-se conl ra a fil osofi a do Iluminismo.não pode ser perniciosa se. Uma falsa ordem das coisas em ética tinha inclinmJo li ciência nessa direção. não é para se conservar obstinadamente nelas mas para voltar a percorrer todo esse caminho uma vez mais desde a origem. Que o homem encontre primeiro em si mesmo uma lei firme antes de preo­ cupar-se com as leis do mundo. a "sentimentalidade" de Rousseau pôde ganhar a arrastar em seu movimento espíritos tão profundamen­ te düerentes quanto. do que tenha livremente decidido criar a sociedade. muito mais admissfvel que o homem tenha chegado ao estado sa­ cial impelido por um destino inexorável. que se conceda um certo direito relativo ao saber teórico. Não é uma simples • sensibi­ lidade" que se reflete no "sentimentalisIDo" de Rousseau mas uma força moral e uma nova vontade moral. Por todo o trabalho de 361 360 . por exemplo. porquanto expressam verdadeiras convicções intelectuais e morais. na ordem do universo polftico.inclinação moral primitiva. Ela voltará de 01010 próprio ao bom caminho quando esses impedimentos forem eli­ mi nados. Não se trata de recuperar o perdido com essa queda nem de corrigir um estado de decadência. a exigência é inteiramente racional: mas é o racionalismo ético que doravante prepondera sobre o racionalismo teórico. A unidade espiritual do século XVIII também se revela ova luz. em vez de pretender pairar acima da vida. Assim. A ciência . na sociedade humana. então. dos objetos exteriores. Quando o espfrito resolver esse primeiro problema. pois Rous­ seau . a unidade sistemática de sua visão do mundo manifestou-se mais do que na resistência que após ao seu ma is perigoso adversário. Graças a essa inspiração fund amental. e essa liberdade só pode ser adquirida por uma mudança radical da ordem socio.1 . Talvez em nenhuma outra parte a fo rça do pensamento iluminista. Se o ignora. Se o homem deve retornar à sua condição e na· tureza originais.tal é a doutrina que Rousseau sustenta a partir do Contrato social . pela coerção física da natureza exterior e pela de suas emoções e paixões. deslocou sim ­ plesmente o seu centro de gravidade. Rous­ seau não destruiu o uni verso do século XVIH . afirmando contra ele os valorel que lhe são mais próprios. com a expulsão de tudo o que é arbitrário e a vitória da necessidade interior da lei. essa repartição de forças. E que o homem. uma vez assegurada. graças ao conflito que eclodiu e à luta aqui sob uma D apaixonada que Rousseau travou contra a sua época. é verdade. uma espécie de luxo espiritual. na Alemanha. que tome em suas mãos o leme e decida sobre o caminho e o objetivo da viagem. que escolha e que diri­ ja. e não é mantido nesse estado por forças ori· ginariamente morais nem pela vontade ou o entendimento. no simples " refina­ mento" . quando tiver alcan­ çado. uma liberdade autêntica. Essa preponderância. convertcndo-a em simples refinamento in­ telectual.

outubro de 1731. pp. Cartas penas.ltl ao príncipe he. Breslau. é a sua derra­ deira transfiguração e a sua mais profunda justificação. o caminho de Kant. acima pp. 449 e 55. capo XXXVI.. 65 e ss. Q Vo lta ire. O elpírito da. . 11 Voltairc. XXXI. I/. 3. VI . mas aliviar seu irmão / Mas arrancar seu amigo dO seio da mi. Este pôde apoiar-se em Rousseau. na primeira teologia protestante a con­ cepção medieval ainda conservava todo o seu podeI". 1 e ss. Oeuvres. I Sobre a$ relaçOes da ler naluralis e da ler divina na filosofia me-­ dieval. Cf. 425 c 55. Carta LXXXII.)] a". (Stud. 138. pp.issenschaftlichen GTlld/ugen [O sistema de Ld bniz em seus fundamentos científicos]. 'Montesquieu. Ver o~ detalhes em Troeltsch. Ca. 1932. p. 77. 1891 . Trail l de m ltaphYJique. Oeuvn~s. Warburi XXIV).seu pensamento.tius UM die EllIwit. 10 Vollaire. 22. num ar tigo Que publiquei com O titulo de "Vom Wesen und Werde n des Natu rreehu" em Zeflschrifr tür Rechtspllilosophie 1/1 Lt:hu IInd Praris. DO entanto. 5eÇ. P. 61 e $S. :I O mesmo combate Que Grolius trtl va na HolaDda contra o dogma­ tismo clllvi nista e o principio do Estado absolutista será retomado na In&laterra pela "Escola. pp. acima p. Gottingen. a D~ jU't belli ac pacis. o meu livro úibniz' Syslem ill seinem . vaI. pp. ele preparou. em parte. r Montesquieu.k/ung du na/ur­ rech l/ichen StaaWheorien (1879. Niio desenvolvo mais essa questão aqui porque a tratei em detalhe no meu estudo Die P/a/oll /sem RtnaiJ­ J/JIIce in E ng/and UJfd d e e Schllle van Ctlmbridge . cap_ IX (Oeu.olegomena. cf. NOTAS 1 Mitteilungen auS úibnir ungedruck. XXXI. para uma análise detalhada." do T. l ohannes Allhu. Discours ClI VeTS SUl I'h omm e. 1 edição. p. 98 e M.. 1902. XII. sttimo discurso./tln Schrifun [Comunicação de escritos inéditos de Leibni.. estribar-se nele para a construção sistemática do seu próprio mundo intelectual : esse mundo inleledual que ven­ ceu a fil osofia do Iluminismo e que. XI. Marburgo. especialme. vol. ver Gierke..ote J)p.stria. Leipzig. ). capo 1. 130. 362 363 . der Bibl. de Cambridge" e sustentado em condiÇÕC$ meto­ dológicas e hist6ricas semelhantes./É um milagre maior. Le phi/ruoplu: igno'ant.. 5 Cf.res. Oeu"" . 272 e $S.o Frederico.. Vemun!/ Ilnd Offetrburung bel lohann G uhard UM M e/anch­ Um.s leis..$.l Mas a seus inimigos perdoar suas "irtude~. e que já nao se faz ma is. livro I. Leipzig. 91 ("Os milagre'! são bons. por Geori Molla!. 1913 ) .dei. pp.t]. 50. par:! uma ex po~ição mais detalhada. melhor do que nenhum outro pensadcr do seu século. Os comentários &Ciuintes são baseados. 1893.

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p. Re"UI! de Synth eu H is/oriqu e. Na verdade. E:tudeJ d'histclre /il/iraire. Paris. Pa ris. ni tidamente mais estreita. ver Gierkc:. o século XVIII que tanto gostou de proclamar·se o "século da filo sofia" não tem menos direi to ao título de "século da crítica". Uquien l.p. . graças à coletânea de textos import antes que é oferecida pelas obr:'ls de Henri Sée. Q .e não por acaso mas sempre na base de uma unid ade probnda e in trínseca dos problemas. De I'in terprlration de la na. ele deu uma outra conotação. JJj e 5$. t~ f: agora })OSslvel fazer -se uma idi ia cor reia desse movimento. 2. existiram sempre relações estreitas entre os problemas fu ndamentais da fil osofia especulativa e os da crf­ tica literária.erbcs. Lu idú! po/iliqll t ! tn FrOrlCI! ou XVl1c siecle. Em todos os grandes espíritos do século manifestam·se os laços intimas que unem à filcsofia a crítica estética e lilerá ria . 1925. p. 212 e 55. 5Obrc:ruda pp. acima P. H Ver aci roe pp. ta mbém de Heori Sée " Les idées philosoplliques el la liuérature p ré­ VII revolutionnaire". a partir desse Renascença que queria ser um "re­ nascer das artes e das ciências" e resultou tania de permutas diretas e estimulantes quanto de um enriquecimento recíproco. Oeu vres (Assb­ zat). 38 e 58. à reciprocidade 367 366 . pp. ~2 Cf. Lanron. Oeu"'es (Paris. LX. "século da critica" o 50 Diderot. 2Q I e M. Pode-se consultar ainda G. 1930. «I Cf. 1925. JohanMS Althusius. li. Mas o Sécu lo do Iluminismo deu um passo a mais. . carta de Voltaire ao duqu e de Riche lieu de 4 de fevereiro de 1757. e L'évo lulion de In pensü poliliqut e/I France au XVllld sià:/e. 4~ Cf. lI. caracterizar sob seus diversos aspectos o dinamismo intelectual com que e época sente-se interiormente animada e que alimen· tou os seus mais originais movimentos de idéias. XI. .0 diálogo.lure. ver O meu artigo Das Problem Jeem-Jacques Rousnoll. DA ESTETlCA pp. 1923. 31 Segunda carta a MalC8b. 98. 'pp. Henri Sée. 337 e ss. Sem dúvida. Elas tendem o. essas duas fórmulas constituem apenas a expressão diferente de uma s6 e mesma realidade. 164 e M. de 12 de janeiro de 1762. sec. lI. L e róie de l'erpéritflCt dOlls ia formalion de la p!li/o­ OS PROBLEMAS FUNDAMENTA IS sophie ali sieck XVIl~ ell France. 3 . L' ivolmion de la peftSée po/iliqlle . Par is. Syst~me social. 238. •• Holbacb. 83 Roussea u jlóge d~ Je(ll1·Jacques. 48 Para as relações de Rousseau COol os enciclopedistas.43 Para ma is detalhes. p.

trazer para a luz do conhe­ cimento. da unificação formal e da estrita coerência racional. Kant . da unidade que queria estabelecer entre os lermos em conflito. precisamente . elevará no fin al do século essa existência à categoria de um caráter próprio. A problemática. Pois o século XVII I. quando reconhece a ex is­ tência de um "i rracional".que deve existir entre esses dois domfnios. como se o conheci­ mento puro e a intuição artfstic a tivessem que se medir UII ~ pelos outros e compreender·se segundo os seus próprios critérios. mantém-se 369 368 . sob di versos aspectos e várias perspectivas. em penei rar com seus raios o claro­ escuro da "scnsação" e do "gosto" que ela deve. distribuído e considerado numa perspectiva sintética . oco espiritual. Reencontramos o mesmo processo em todos os esforços. pelo contrário. ciência na qual se conjugam dois movimentos de origem muito diferen te. Mas parece então que Q verdadeira e essencial tarefa da crltica reside . exige um conhecimento claro e segu­ ro desse mesmo limite. no come­ ço. nenhum reconhece de imediato uma linha determinada à qual o curso do pensamento liga r-sc-ia. Quer se tratasse do conDito entre " razão" e "imaginação". constitutivo da filosofi a em geral : ele só verá na propria "raz80" filosófica uma raculdade origina l e radica l de determinação de limites. o material oferecido com abundância pela poética. To­ dos os fios di rerentes que a crítica literária e a ren exão esté­ tica teceram ao longo dos séculos devem reunir-se num só tecido. ser ordenado. retó­ rica e teoria das artes plásticas deve. afinna-se agora um parentesco que.oravelmente o mesmo problema funda· mental. parece ser percebido de um modo obscuro demais para poder ser expresso em conceitos precisos. a menor consciência do objetivo para o quul ele tende. por menores que fossem . Essa dctcrmina· ção manifesta-se como necessid"de suprema quando se trata de separar idealmente dois domínios que não são simplesmente de estruturas diferentes mas sobre os q uais se pode afirmar que a diferença eleva-se ao nfvel de uma diametral oposição. A batalha q ue prosseguiu na estética do século XVIII para a definição e classificação dos conceitos fundamen tais reflete em suas fa­ ses. um problema básico nitid amente concebido e conscientemente visado no conflito dfls múltiplas tendências . En­ tre o conteúdo da arte e o da fil osofi a procu ra-se agora uma correspondência. de fundamentar o belo no senrimento ou numa determinada forma de conhecimento . I! como se a lógica e a estética. em última instância. tiio diversos Co tão diverge ntes. t evidente que entre os numerosas pen­ o seu C sadores que participaram nesse movimento. em tran spor esse limite. o pensamento filosófico deveria ainda enfrentar uma série de etapas preliminares com vistas à defi­ nição. mas de afinn ar e apurar uma unidade natural entre as duas disciplinas. não se trata somente de acreditar que filosofi a e crítica encontram-se e concordam em seus resultados indiretos. antes que essa síntese tivcsse recebido na obra de Kant a sua forma definitiva. Dessa convicção e dessa exigência nasceu a esté­ tica tedrica. há todo o esforço do século XVIII no sentido de uma vi são clara e segura do indi­ vfduo. no in{cio. sem cometer nenhum aten tado à sua natureza. mesmo quando admite que o pensamento esbarra com um limite. em todas esses antíteses projeta-se inex. Mas. da oposição entre "gênio" e "regras". El a confere-lhe uma significação que já não é simplesmente causal mas originária e substancial. efetuados no século XVlIl para a fundação da estética: ele foi o seu centro de gravidade latcnte. a idéia abre caminho até o questionamento do proprio conteúdo do pensamento. Por uma parte. esse esrorço universal. Sabe-se que o mais profundo dos seus pensadores. Da consciência dessa oposição nasceu a síntese intelectual que devia cond uzir o século XVIII à fund ação da estética tcórica . Partindo dessa problemática puramente racional. Mas essa necessidade de clareza e de domínio racional consti­ tui apenas o ponto de partida para o empreendimento . nenhum delcs tem .

E os laços intimas que unem essas dua s obras maiores s6 se compreendem p lcnamen!e nesse con­ texto histórico. Entretanto. enfim. lógico. Em lace da lógica e da filosofia moral. da obra artística e da cons­ ciência reflexiva. Mas. assiste-se 8 um perpétuo deslocamento de sentido das norroas e dos concei­ tos funda men tais que governam a estética nascente. surge uma nova forma de criação artística. desse movimento de li bertação inte­ lectual nasce uma diseiplina nova. estabelece-se ago­ ra uma nova problemótica q ue . sl riclo sensu. pa­ ra a ge:itação e a ed iricação dessa forma de pensamento. nem por isso dei· xou de começar a estirá-los aos poucos até conseguir. no fina l desse desenvolvimento. Essa un idade do ato e da exigência . Tudo o que podia acontecer na estética setecentista por desvio ou descaminho con tribuí indiretamente. a poe­ siâ goethi ana mart:a a sua cul minação espiritu al. nesse inacabamento que se apresenta de maneira mais clara e mais imed iata a nossos olhos a ela­ boração de uma consciência filosófica da arte e da lei que rege essa consciência em sua gênese . a arte é dornv8nte submetida. Com as ciências. da física e da psicologia . que vão receber uma nova orientação. de certo modo. segundo o predomínio desre ou daquele interesse . as ma temáticas. pois é. A história não deve negligenciar nem subestimar nenhum desses elementos. a obra critica à obra criadora. que assinala a reali zação e O apogeu da cultura elo século XV III . São essas forças que engendra m. além disso. construído a priori. não se distingue nitidamente delas. elaborá-la arti ficialmen te: ela resulta di­ retamente do simples encontro .elividade do belo o novo idea l de saber instituído por Desca rtes na origem da sua filosofi a tem a ambição de englobar nlio só todas as partes da ciência mas também todos os aspectos e todos os me­ mentos do agi r. com a lógica. A eslética clássica e o problema da ob. constituindo-se em seu desfgnio profético . Disse Windelband a respeito da Critica do jufzo kantiana q ue o conceito da poesia goethiana ai se encontrava. autônoma: a filosofia esté­ tica. Não só uma nova disciplina fil osó­ fi ca é elaborada com todo o rigor do seu mé todo mas . Sempre foi considerado um dos traços ma i ~ marcantes da história das idéias alemãs que uma tal "harmonia preestabelecida " fosse posslvel. o pensamento alemão do século XV II I não procurou estabelecê-Ia . Mas algo ainda mais maravilhoso se esconde nessa pré­ hist6ria da estética tCÓrica . simull aneamente com um novo modo.em permanente movimento e. é fruto do paciente trabalho realizado passo a passo duran te a época que estamos estudando. que aí se reencontra na fo rma de obra e de ato o que antes (ora justifi· cado e exigído pela pu ra necessidade do pensamento filosófico. no fi nal. sem que o pensamento fil osófico se esforce verdadeiramente por desfazer esses vínculos . sem dúvida . uma nova configuração. conferindo a cada uma as virtudes da outra. ético . Dessa ruptura. uma no­ va forma de fil osofia . a física e a psicologia . Coube ao Século do Iluminismo a glória incomparável e imprescritível de ter cumprido a tarefa de unir. rompê-los . mesmo que eles a~nas sejam ainda esboços impre­ cisos. da compenetração e d a coope­ ração dinâmica de suas forças criadoras. no começo . se não de fato pelo menos num plano pu ra mente conceptual. Mil vínculos ligam-na ainda li todas essas dis­ cipli nas .. na realidade. a partir desse complexo de tendências de apa­ rência contraditória . Essa síntese. por sua vez. à mesma exigência estrita .psicológico. uma nova " dimensão" do processo de criação artística. como seu resultado necessário e imanente. ~er testada de acordo com as regras racio nais: não existe ne­ 371 370 . cristaliza-se. Ela deve ser aferi da pela " razão". com uma perfeição ioigualada. Contemporânea da filosorla Kanti ana.

enfim . Para ser universalmente válida el ~ quer ser esta· belecida sobre alicerces mais firm es. nesse uspccto. deve abarcar 8 natureza da criação e do julgamento artístico em Sua unidade e intcg ridade. que seja marcada çom o cunho próprio da teoria. duradou ro e essencial. A natu reza está submet ida a leis universais e invioláveis. O C4! minho a ser percorrido pela estética dos séculos XVII e XVII[ estava . devem existir para a " imitação da arte" leis da mesma espécie e de igual dignidade. a um axioma do imiloção em geral. não só a geometria e a aritmética mas tam bém a música. E essa exigência não parecia . pai!. se r isent a da mobi lidade infinita de prazer e dcsprazer. ti arte. elevado a estética ao nível de uma ciência exata . Desde antes de Boileau. Les beaux-arls rlduits à un même príncipe [As belas-artes reduzidas a um mesmo princí­ piol. 11 natureza do saber e que deve supe rar todas as divi sões arbitrárias e cOnvencionais. a qual parece proclamar O cumprimento vitorioso de todo o esforço dos séculos XVIl e XVII I em matéria de método. Descal'(es não ju n· 10U à sua filosofi a nenhuma estética. compartilh ando. a natureza. Com efeito. da tradição medi eval. em seu entender. a estética do século XVIII procura e exige um Newton da arte. é subme­ tida a certos princípios que o conhecimen to tem por tarefa essencial determinar e enunciar em termos cla ros e precisos. mas na estrutu ra geral da sua obra filosófica já se encont ra implícito semelhante desígnio. Tanlo no mundo das artes como no das ciências só desfrutaremos essa visão sintética se submetermos a um só e mesmo princípio as formas renomenais da arte tão di versas e aparentemente tão he terogê ncê'~ de modo a defini-las e a dedu­ zi·las a partir desse princípio. q'Je constitui uma das teses fundamentais do classicismo francês. ser apreendida em sua rea lidade e em sua necessidade próprias. cle estende ao domínio da arte a un idade absoluta qeu caracteriza. traçado de antemão. Ela não pode deixar-se conduzir nem desviar pe l ~ diversidade dos objetos. não pode deixar de se r afetada pd a mesma obrigação . E quanto mllis se expande o espírito do cartesianismo mais a nova lei é energicamente es­ tendida 110 domínio da tcoria estética. dá·nos a sua primeira demonstração segundo o método das idéias claras e d isti ntas do ideal da Malhesis universatis. Se essa teoria quer afiro mar-se e justificllT·se. E todas essas leis parciais devem . se ela quer se r outra coisa que não um mero conglomerado algo confuso de observações empfricas e de regra~ empilhadas a csm<" é necessá rio que ela encarne o cará ter e a missão de uma teoria como tal. ele não deixa dc c0­ loca r sob a autori dade desse ideal. nas Regufue ad c!irectionem ingenii. em todas as suas manifestações. de maneira nenhuma. em definitivo. expli­ ca-se esse paralelismo pela origem comum das artes e das ciências no poder absolutamente único e soberano da " razão". oca ou quimérjca depois que Bailcau se arvorara em " legislador do Parnaso". parecia agora es­ tabelecido com base nos fatos. lrata-se de um poder que ignora todo compromisso e 372 373 . Ora. de resto. Ele niio heSita em ampli ar a sua concepção de uma sctpientia uni­ versalis até englobar no postulado universal da razão a arte em seu conjunto e em todas as suas formas particulares. ético e estético. Aqui domi na igualmen te o grande exemplo de Newton: da ordem que de tinha estabeleci do no universo físico devia de­ rivar a ordem do unive~o intelectual . que via em Rousseau o Newton do mundo moral. Quan­ do Descartes.nhum outro meio de comprovar se a arte possui um conteúdo autêntico. À ma­ neira de Kant. Tal conteúdo nada [Cm a ver com as exci tações fu gidias do praze r que a obra de arte des· perta em nós. ao substitui r postu[<ldos pum­ mente abstratos por aplicações concretas e investigações espe­ ciais. rival da natureza. harmonizar·se e estar subordinadas a um princípio únjco e simples . pelo contrá rio. O paralelismo das artes e das ciências. Pessoalmente. Parecia que sua obra tinha. E essa convicção hmdamental que Baueux exprime pelo sim­ ples titulo de sua obra principal.

de 1769. gên:o. 374 375 . Le goút lI'est rien qu'ulI bO/l sens déficat." I Vê-se como a c5tética clássica concebe a natureza. uma significação mais funci onal do que substancial. razão e natureza são apenas expn:ssõe$ diversas da mesma coisa: da ordem única e inviolável do ser que se descobre por inteiro. fundada s ::a razão. sua Pratique du thédtre. ela visa ao ideal de rigor que constitui o correlato necessário e a condição indispensável de sua exigência de universalidade. esprit. Esprit? faison qui finement s·exprime. como negação da lei. a razão que tudo faz: Virtude. Err. Chénier: C'est te bon sel1S. e deverem dei­ xar-se cond uzir pelas luzes que a n8tureu nos deu . espírito.] Mas seria coraeter um grave equívoco a respeito do sentido dessa redução do "gênio" e do "goslO" ao bom senso se ape­ nas se visse aí um elogio. À convicçãO profunda que está então v. Quem nâo o reconhecer de forma absoluta e inteira.. O'Aubignac escreveu: "Em tudo que depen­ de da razão e do senso comum. pois a teoria estética não quer ou tra coisa senno adotar oca· minha já int~iramente aberto pelas matemáticas e pela {{sica . tanto no conhecimento da natureza como na obra de arte. O que é virtude? razão posta em prática : Talento? razão produzida com brilho. Espírito? razão que &utilmente se exprime.não sofre ::lenhum desvio. mas funda -se. Talent ? raison produile avcc éclat. nas lei s de bron­ ze da ordem eterna . la ralson qui foi! tout: Verfu . E o gênio é a razão sublime. O artista só pode rivalizar com as criações da natureza e insuflar em suas obras uma vida ve rdadeira se se compene­ trar das leis da o. O gostO apenas é bom senso delicado. génie. Pelas mesmas razócs que a mnte­ nuHica e a física do século XVIII . Portanto. falent el goÚl. o fruto do humor ou do artificio . quem não o recol'Jlecer sem restrições por guia. A teoria do c1assicismc francês nada tem a ver com uma (j­ losofi a qualquer do common sense.-l. ume glorüicação do "senso comum".:'dem natura\. porquanto não se apóia no uso cotidiano e banal do entendimento mas nas faculdad es su­ premas da razão científica.mos $Cm­ pre uma harmonia profunda . Verdade e beleza ." A " licença poét ica " . A "exceciio". a licença é um crime jamais permitido. comete um crime de lesa-majestade . até uma coincidênci'l perfeita entre os ideais científicos e os ideais artísticos dessa épOCa . cinco anos antes da publicação da Arte ~­ rica de Boileau. Qu 'est-ce verlu? raison mise ell p fat iq/Je. EI lc géllie est tu rajson sublime. não pode ser bela nem verdadeira: "Rien n'est beau que le vrai" [Só o verdadeiro é belol. A norma e o modelo que ela propõe não se encontram de imediato numa categoria de objetos mss no exercício livre e seguro de cerlas raculdades cognitivas. como estas.va em toda parte manifesl2-se num poema didático de M. Esse Fundamento é o mesmo para aquilo a que chamamos "beleza" e para o que chamamos " verdade". deixamos de poder crer num a lIÍ1uação particular e excepcional do belo. A partir do momento em que atingimos a camada originaJ da criação inspirada pela raü o. Pode-se aceitar " naturezs " como sinô­ nimo de "razão". talento e gosto . [E o bom senso. do que não é o produo rugaz do instante . no domínio das teoria s estéticas. Tal como nos debates em torno da " moral natural" ou ôa "religiâo natura)". pelo contrário. a idéia de natureza tem.'l tudo vem da natureza. Diz Le Bossu no início do seu Traité du p~mc épique: " As arles têm em comum com as ciências serem. enconlr:.assiJ'!1 come a científica ­ é assim repelida e condenada . tudo lhe pertence.

porim. às determinações da sensibilidade e da "imaginação ". tal como se apresenta nos objetos físicos. todo ser. E quanto a esse método. tr:lço por traço_ dessa teoria ffsica e matemát ica. é antes a fonte de todns as ilusões a que está exposto o espírito humano.:nctrá-Io com a luz da razão. não só no dornfnio das ciências da natureza mas também no do conhecimento moral e metafísico. O conhecimento só poderia atingir seu fim abandonando seus começos. a despeito de todas as limitaçõcs e 377 . uma vez que logo acres­ centa pertenccr o caráter pummente intuitivo à natureza das figuras geométricos mas não à do mltodo geométrico . o corpo físico à pura espacialidadei este. do ponto de vista do seu conhe­ cimento. a norma da qual cle não pode afastar-se e que não pode abandonar sem perder logo o seu próprio caráter enquanto ser. a ima­ ginação. 110 pri­ meiro olhar. Mas o pior erro. ou seja. visto que. deve ser submetido primei ro às leis da intuição espacial. não está sujeito. {arma de relações numéricas rigorosas que as determinem exaustivamente. Ela encontrava-sc. Com deito. a fim de ser clara e distintamente pensado. longe de apresen tar-se como um dos caminhos da ver­ dade. de ser apreendido cm seu conceito puro. cnqllllnto verdade objetiva . que são rejei­ tadas do domínio da verdade para o da aparência subjetiva . pelo con trário. uma " trans· cendénda" desse modo: o encaminhamento do pensamento conduz da ex tensão senslvel. A própria in­ tuição pura autoriza e e ~ge essa ultrapassagem. transposto paro " figuru". Uma vez mais. ultra­ passando-os com uma clara consciência radonal.Ao aliceryar toda 11 clencia da natureza na geometria pura . é impossível rechaçar totalmente o concurso da imaginação: () conhecimento aí tem seu primeiro impulso e seu ponto dc partida. que tratam menos de objetos singu­ lares do que de relações c proporções universais. dian te de urna nova e mais diHcil tarefa. se queremos verda deiramente po. às determinações da lógica e da aritmética. A essa luz: ele despoja-se de todas as suas pro· priedades e c8ra<:teristicas puramente sensíveis. Bem entendido. certas relações puras que cle expressa em si mesmo e que se relacionam com regras rigorosas e universrus. é dedicllda a essa tarefa. cuja tarefa própria e essencial foi descobrir o procedimento graças ao qual podem-se representar todas as relações intuitivas entre fi guras sob oi!. fornecem a todo o ser SUIt estrutura corpórea . ê assim que Del:icsrtes reduz a "matéria" à "ex tensão". o caminho mais perigosamente errôneo que ameaça o conhecimento e contra O qual a crítica deve adverti·lo. 3 Essa crftica da sensibilidade e da imaginação em­ preendida por Descartes foi logo retomadu c ampliada por Ma­ lebranche. tal é o objetivo 376 supremo e essenci:!. A estética clássica é imitada. segundo a sua doutrina . Mas é só na aparência que ele afirma assim e justirica o primado da intuição sobre o pensamento puro.! ::!:: :oda a crítica filosófica.4 E devemos considerar igualmente o mundo corporal por in termédio da extensão inteligível se que r~mos tornâ-lo acesslvel ao conhecimcnto. Controlar a imaginação. O que o objeto conserva como sua natureza autêntica e verdadeira não é o que ele oferece de si mesmo à intuição direta . mas. mas às do entendimento purO. freá-l a e regê·la conscientemente. para rea­ lizar sua conscientização intelectual . consiste em aceitar por fim esse começo do saber. evidentemcnte. tomá-lo por seu verdadeiro sentido e telos. parecia que Descartcs preparara um novo triunfo para o c0­ nhecimen to intuitivo puro. Essa es­ pécie de construção e de representação figurativa é ensinada expressamente por Descartes como o método fund amental de todo conhecimento nas Reguloe ad directionem ingcllii. Essas regras. Recller­ c:he de la vérité. faz todo o possível por libertá-lo dos li mit~s da intuição e torná-lo independente das sujeições da "imagi­ nação"_ Esse esforço fiJ0s6fico produziu a geometria anaHtica . Toda a primeira parte da sua principal obra . a essa "extensão inteligível " (inlelligiblen Ausdehnung) que é a única a fundamen tar as matemáticas como ciência exara .

Semelhante ostracismo seria. pura essência e em sua consistência. para que a obra de arte concretize·se. Ego nec studium sine dillite lIerw nec rude quid possU. Essa tradição exigia. Para ele Febo é surdo e Pégaso esquivo. Uma tal revolução na contemplação do objeto de arle não destruiria esse mesmo objeto e não o desp<>­ jaria do seu verd<J deiro sentido? Com efeito. ~ então possível e necessário cortar toclas as pon­ tes que a reconduziriam aO mundo onde se forjam as ficções . entre o contingente e o necessário. Já a t radição. e esse cam inho exige que não se fique no aspecto exterior das coisas. nem insensível aos seus atra· tivas e à sua magia . equivalente a uma total negação da arle. sem distinguir entre o variá· vel e o constante. Se seu astro ao na3cer não o formou poeta. que ele deve ir buscar à natu· reza das coisas. não fi cou cega. em sua. de que cumpre assim todos os seus deveres a serv iço supremo da belC"l. porquanto a lei que governa a obra de arte como tal náo é um produto da imagi nação. por mais nitidamente que se recusasse a basear a arte na ima· ginação. De seu gênio es cas~ será sempre cativo.restrições de que a "imaginação" tinha sido objeto no dominio do pu ro conhecimento. a veneração da Antiguidade impunham desde o começo determinados limites. Ele não é mais dado e conhecido no absoluto. elt e'es! em vão que no Parnaso um temerário autor Pensa da arte dos versos atingir 8 altura: Se ele nâo sente do céu a influência secreta. a uni ão de uma severa form ação prá tica e de uma disposição inata. a teor ia clássica. das forç as subjetivas que eram indispensáve is à sua gênese. como dom da na tureza. é lima lei efetiva. deve contentar-se com o que o próprio objeto fornece-Ihc. O poeta não deve buscar llem a pompa exterior nem o falso ornamento. senão a " razão": é nesse sentido que ele ordena ao poetD que âme a razão . E com uma parlÍ­ fra se dessas pa!uvras de Horácio que se abre a Arle poética de Boileau : vain ql/ 'UU Pamasse un téméraire au(eur Pense de l'ort des lIers atteindre la nau/eur: S'iI ne unt poim du deI l'inlluence secrete. O total dessas leis efetivas não é outro.urat amice. Pois urna coisa é o impulso que susci ta o processo criador. entre o que só tem valor para nós e o que está fundamentad o na própria coisa . Uma obra digna desse nome. além disso. na lI11pressão gue elas ca usam nos sen tidos e na sensi bilidade.um : olterius sic attera poseit opem rest ai con. llideo ingen. ef Pégase eS I ré/i!. c ria tura autÔnoma possuindo verdade e per· fei ção objetiva. segundo Boileeu .] 378 [~ A fórmuia conserva aqui toda a sua força: o verd adeiro poctii deve nascer poeta. de um ingenium que não se pode adquirir mas deve esta r presente e a tivo desde a origem . Dans son gélJje étroit il csl loujours captil. o mesmo pode ser dito no tocante ao objeto de arte. teria sido deveras contestável e parado­ xal interditar· lhe de início o acesso ao limia r da teoria da arte. Deve aceitá·lo em sua $imples ver· dade e pe rsuadir-se. Mas o que vale a respei to do poeta nào vale necessariamente pata a poesia lato semu . na verdâde. do imaginário.lI:. Pois a beleza só se deixa abordar pelo caminho da verdade. que o artista não tem que inventar mas que descobrir. que o sustenta inces­ santeme nte e lhe propjcia o pleno desenvolvime nto. 379 . Si son aslre en naissant ne l'a lorm4 ~/ e. Paur lui P/iébus n! sourd . mas que se leve cuidadosamente em conta o percurso entre a "essência" c a "aparência". Não poderfamos conhecer o objeto da natureza pelo que é sem operar uma seleção severa en tre os fcnõmenos que nos assediam incessantemente. deve despojar-se.ferente é a obra que é o fruto desse impulso. e outra coisa muito di. para a espec ifi­ cidade da fantasia. de mane ira nen huma . devendo ser deter­ minado e apreendido por um processo seletivo da mesma ordem.

entre a regra e a exceção. Mais uma vez revela-se o seu parentesco com a doutrina cartesiana do conhecimento. agréables. em sentidos diferentes. Que jamais un faquin n')' tini un rang augusle. Ele combate tanto o bu r­ lesco quanto o esUl0 precioso e afetado porque ambos se afas­ tam. ou seja. e mesmo na fábu la. inspecionando as diversas fontes de erro. Qu'en plus d'un fieu le sens /f'y gêne la mesure Ei qu'un 11101 que/que/ois 'l ')' brave la c~s ure: Mais c'est qu'en eux le "rai . que sustenta essa tese.por imitadores de segunda ordem. bem ou mal. t nesse se n­ tido que. que Boileau ambiciona para a sua própria poesia é que ela se mantenha fiel a esse princfpio. 380 381 . racional izá·lo e controlá·lo em função de critérios lixos. II doU régner parHaut. é verdade. E que meu coração. Nunca se deix. e esse conceito de " ex. dizem sempre alguma coisa.até querer estabelecer regras determinadas para a produção de obras de arte. Mas se pretendeu dirigir esse pro­ cesso seletivo. pela economia e escolha refletida da expressão: Part-tout se monlre aux )'eux. que não impressione o leitor por encantos superficiais mas pela simples clareza do pensamento. 80 reger-se pelo pri nci­ pio metódico segundo o qual s6 podemos atingi r a certeza filo­ sófica por uma via mediata. deixando que ambas se perdes­ sem em puras abstrações . Sais-tu pourquai mcs vers 50nl lus dons les pro"inces? Sonl recherchés da peuple. Que nunca um patife aí ocupa um lugar augusto. De toda ficção a hábil falsidade Só tende a fazer b rilhar aos olhos a verdade . para Boileau.A estética clássica deixou·se desencaminhar . et même dans la /able. le vrai seul est aimable. que procurava no gerl\1 toda a verdade e toda a beleza.ou de objetar à estética clássica que nlio poso sufa o menor sentido do individual. el va saisir te coeu r. triunfando da mentira. só o verdadeiro é Agradável. não imaginou sequer ensinar di retamen te a verdade artís· tica: ela acreditava poder preservar do erro e estabelecer os critérios do erro. bien ou mal. agradáveis. qu'à soi-méme i1 n'aíl dit o Ma pensée au grand iour por-fout s'otlre et s'expose EI mon vers. não por espiritos verdadeiramente criadores . a beleza da expressão poética coincide com a sua "exatidão" (Richtigkeit). numerosos. apresenta-se aqui sob a sua verdadeinl luz. De taute fictíon l'adroite /ausseté Ne tend qu 'à faire aur yeux briller la vérité. touiours conduisanl mon espril. Sofem tou. nombreux. Por toda parte salta aos olhos e vai conquistar o coração . Ne dit rien aux lecteurs. Que O bem c o mal aí são avaliados com eqüidode . Ele deve reinar em toda parte. Ofereço e exponho o que penso por toda parle. H fi m de superá-Ia~ e de elimi ná-Ias. Nada diz aos leitores q ue a si mesmo já não tenha dito.uste.~ (S6 o belo t verdadeiro. Sejam sempre igualmente favoráveis aO ouvidoi Que em mai s de um lugar o sentido não estorve a medida E uma palav ra qualquer não afronte a ccsura : Mas é que neles a verdade. du menso/1gc l'ainquellr.ati­ dão" é cemral em toda 8 sua estética . desse ideal. senão o único. à luz do dia . Taine. dit touiours qllelqlle chose. fez de!:1 Rien n'esl beau que te vrai. E o méri to supremo. fi que mon coeur. guiando sempre o meu espírito .ours lt ('oreiffe égalemcnl Ileureux. Que te bien el le mal y sonj pri~s au .s por que meus ve rsos são lidos nas províncias? São procurados pelo povo e recebidos pelos pdneipes? Não é porque seus sons. E meus versos. Sabe. a questiio da relação sistemática entre o "geral" e o "particular".) A questão fundamental e central da estética clássica. et reçus chez les princes? Ce n'est pas que (eurs sons.

o ponto de partida de uma crítica que não visa apenas à estética dos séculos XVII e XVII I mas rechaça , ao mesmo tempo, todo o esprrito do classicismo e pretende arrebat ar-lhe todo o seu brilho de empréstimo, desvendar-lhe a impotência e a pobreza. evidente que um exame histórico e um julgamen to scm pre­ venções deverão orientar-se num .sentido mui to diferentc. Em vez de servir-se da estética do classicismo pata manifestar a in­ sufjciência e a frag ilidade interna do " espírito clássico", pro­ curar-se-á esse espírito, pelo con trário, em seus pontos fon es, e o esforço será no sentido de o compreender e interpre tar através de suas realizações mais aJlas e verdadeiramente centrais. Uma vez mais, impõe-se o paralelismo entre a elaboração da estética e o desenvolvimento que a lógica e as mateml;hicas conheceram nos séculos XVII e XVIII. Considera Descartes que o único progresso verdadeiramente decisivo que realizou em relação ao método geométrico dos antigos foi o de ter sido qU em primeiro dotou .11 geometria de uma independência e de uma suficif ncla racionais autêntices. A geometria antiga é, sem dúvida nenhuma, uma escola incomparável do espírito, mas não pode _ como Descartes moslnl ao longo do Discurso do mltodo _ aguçar O espírito sem ocupar incessante e simultaneamente a imagina­ ção at(! exauri-Ia., enfim. por ocupá-Ia em toda sorte de fi guras e problemas particulares. A busca não pode, nesse coso, evitar perder-se indefin.idameote na consideração de Casos especiais e ser obrigada a inventar e a efetuar uma demonstração especial para cada grupo de casos específicos. A nova análise cartesiana vai pôr cobro a esses obstáculos: ela cont(!m regras universais e desenvolve métodos válidos I!m todos os casos, implicando a solução dos casos especiais e sua determ.inação a priori. E mais um progresso na mesma direção se rá obüdo quando as mate­ máticas transpuserem a fronteira da geometria analítica de Des. cartes para o cálculo infinitesima l de Leibniz e o ~ lculo dos fluxos newlonianos. A dominação do particular pelo universa l

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será então estabelecida e solidamente fundada por um uutro caminho. Pura toda fu nção dada, o quociente difel-endul " t)IC senta-nas a " natureza" dessa função, toda a trajetória tltI. curva que lhe eorresponde, com a máxima precisão e tão int..:ligivd· mente quanto possível. Todos os detalhes que a intuiçiio ti"er a possibilidade de descobrir nessa curva af são condensados. numa expressão conccptua! única, onde se concenlram os raios da evidênci a. Dessa C órmula que coloca à nossa diSpOsição ,I análise do infinito podemos infer ir imediatamente todas as pro­ priedades da curva e todas as suas ca racterísticas. de um modo rigorosamente dedutivo. A imuição como tal não poderia chegar a essa forma de un ificação. P rtt~nde ela representar-se um con­ ceito geométrico dado, O conceito de elipse. por ex.emplo? Não lhe resta mais do que passar em revista e comparar entre si as inúmeras figurações possíveis desse conceito. Dessa comparação destaca-se finalmente uma certa " imagem" da elipse que está muito longe de constitui r um objeto realmente simples e homo­ gêneo. Para uma "consideraçãO" pura e simples, com efeito. segundo o habifu$ concreto, as classes particulares de elipses man têm·se nitidamente diferentes. Há as que se aprox.imam da forma circular; há ou lras, estreitas e alongadas. que se afastam muito dessa forma. e que, no plano da figuração puramente in­ tuitiva . formam com ela um perfeito contraste. Entreta nto, o conceito geométrico, tal como a anóli se apresenta-o e desenvol· Ye-O , prova que todas essas diferenças nada têm a ver com 8 elipse, que não dependem da sua "natureza" . Do ponto de vista do conceito, não cabe procurar essa natureza em toda essa VII­ riedade ilimitada de particulariuç5es intuitivas da forma elíp­ tica quando ela reside numa há de cotulrução universal: e essa lei nos I! C ornecida sob sua Corma rigorosamente exala na equa· ção da elipse. O pensamento matemático apreende, enfim , U verdadeira "unidade na multiplicidade". Não pretende negar li. diversidede como tal nem recusá· la , mas, pelo contrário, com­

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preendê-Ia e fund amentá-Ia. A f6rmul J da função sob li sua for· roa geral SÓ contém. bem entendido, a l\.:gra uni versal que pennite determinar a interdependência das variáveis mas é sempre pos­ sfveJ reportar-se da fórmula geral para uma figura particular qualquer caracterlzadtl , como tal. po r grande7.as determinadas que são as sua s constames individu ais. Toda determinação dessas grandezas - um comprimento de:crminado, por exemplo, que atribuímos ao pequeno eixo da elipse - redunda num novo caso particula r; mas lodos ess(_~ casos particulares "~ão" , na realidade, o mesmo, na medida em que todos eles têm, para o geômetra, l!ma só e mesma signifkação. I! um mesmo senlido geo­ métrico, um ser idêntico e uma verdade idêntica da elipse que se escondem para nós na massa heterogênea das figuras parti­ culares e que a fórm ula analítica caracteriza e, de certa maneira, desvenda em sua própria essência. Foi na imitação dessa "unidade na multiplicidade " das ma· temáticas que se constituiu a "unidade na multiplicidade" esté· tica, exigida pela teoria clássica. E um erro acreditar que o princípio da unidade na multiplicidade como tal é in com patfvel com o espírito do Classicismo, que nesse princípio exprime-se o mais virulento antic1assicismo.r. Pois também no domínio da arte não se trata, para o espírito clássico. de uma simples negação da multiplicidade, de sua supressão, de sua extinção, mas da forma, da organizaçiio positiva e sintética a dar-lhe. Na Arte poética, Boileau esforça-se por estabelecer uma teoria geral dos gêneros poéticos, tal como o geômetra uma teoria geral das cur­ ViIS . Quer in stituir o "possível " fi partir da multiplicidade de objetos reais. tal como o matemático quer perceber o círculo, a elipse, a parábola, em sua "possibilidade" , a saber, na lei de construção que lhes serve de base. Tragédia e comédia. elegia e epopéia, sátira e epigrama, todos esses gêneros possuem sua própria lei de cons trução bem-determinada, que nen huma cria· ção individual está :lutorizoda II violar, da qual não pode afas·
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lar-se sem ferir a própria "natureza " e perder seus tÍ!ulo~ !'t verdade arUstíca. Boileau procura destacar essas leis i mp[icita~. baseadas na natureza dos diversos gêneros poéticos, respe itadas incon scientemente desde sempre na prática da arle, a fim de impô-Ias ao conhecimento claro e distinto. Quer enunciá-Ias e fonnu l á· l a~ em termos explícitos, à maneira da análise matemá· tica, 8 qual permite uma tal formulação, uma expressão do conteúdo próprio e da estrutura fu ndamental correspondente a tal ou tal classe de figura s. Por isso é que o próprio gênero não é para ele algo que o arti sta deveria elaborar, mui to menos um meio e um instrumento de criação de que poderia, a seu bel­ prazer, apossar-se ou desfazer·se, mas. pelo contrário, algo dado como tal e intrinsecamente necessário. Os gêneros e as espécies de arte não se comporIam, nesse capítulo, de um modo diferente das coisas da natureza: possuem igualmente imutabilidade, esta· bilida de, forma e destinação específicas, nada podendo ser-lhes acrescentado ou rctirlHJo. O esteta não é mais o legislador da arte que o matemático e o ffsico O são da natureza. Tanto uns quanto outros não ordenam nem governam, apenas estabele­ cem o que "é". E não constitu i obstáculo nenhum para o gênio estar Ugado e, de certo modo, submetido a essa realidade obje· tiva mas, pelo contrário , é uma garantia contra o arbitrário c a certeza de elevar·se à única forma possível e verdadeira de liberdade urtística. Mesmo para o gênio, existem certos limites intransponíveis, tanto do lado dos assuntos artísticos quanto do lado dos gêneros artísticos : está fora de cogitação tratar não imo porta que assunto em não imporla que gênero; a própria es· Irutura do gênero já efetua por si mesma uma certa seleção nas matérias a tra ta r, excluindo tudo o que não se presta ao único modo de tratamento que ela aceita, O artista deve , portanto, pro­ curar alhtltes a sua !iberdade de movimento: não no con teúdo como tal, o qual. em considerável medida, é fixado e organizado de an temão, mas na direção da expressão e da apresentação. I! so­
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mente na expressão que se faz conhecer o que é comum.:nt\! defiO minado a "origina lidade'",r e aí que o artista vai empregar suas faculdades ind ivtduais: entre as diversas expressões possíveis de um mesmo assunto, artista verdadeiro dará sempre sua prefe­ rê.ncia àquela que suplanta as outras em segu ram;.:! e fi deli dade. em clareza e concisão. Contudo, ele não va i prOCurar <l novidade pela novidade e a todo preço mas, simplesmente. aqueLe dose de novidade que convier para satisfaze r a necessidade de simplicida­ de . concisão, brevidade convincente, numa medida jamais alcan· çada ainda . Um pensamento novo, diz Boileau a certa altura, não é, absolutamente, um pensamento que jamais tenha sido pensa­ do: " €, pelo contrório, um pensamento que deve ter ocorrido a todos mas que alguém fo i o primeiro a tomar n iniciativa de expressá-lo." E verdade que nessa Córmula esconde-se um nOvo obstáculo : uma vez alcançada essa adequação perfeita entre o assu nto e a expressão, a arte chegou a uma meta que já não há a necessidade nem a possibilidade de ultrapassar. O pro­ gresso não é um progre~'sus in indefinitum, dctendo-se num certo nível de perfeição. Toda perfeição arUstica significa, ao mesmo tempo, um non plus ultra, um limite da arte. O século de Luis XIV, de Voltaire, é um novo exemplo dessa coioci­ dência clássica. em certas fonuas de arte, da perfeição inte.rior e do fim dos tempos. Também aq\õi se manifeste a analogia que li teoria admite entre os problemas artísticos e científicos e que ela tenta desenvolver em detalhe. Cond illac via o elo que une a arte e a ciência em sua relação comum com a lin­ guagem. São .dois níveis e duas direções diferentes de uma só e mesma função intelectual que se exprime na criação e uso de si"ois. A an e, assim como a ciência, coloca os "sh,ais" dos objetos 00 :ugar dos objetos . e s6 se distingue dela pelo uso que fa z dos mesmos.! A van tagem dos sinllls científicos, justa­ mente. sobre os da linguagem usual, sobre as 5i.mpies palavras, é serem muito melhor definidos, tenderem para 'Jma expressão

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perfeita e univoca. E. esse o seu objetivo; mas desse modo é introduzida uma limitação ime nep..te . A teoria cientffica pode perfeitamente designar. sem dúvida . um SÓ e mesmo objeto por diversos símbolos - o geômetra . por exemplo . pode exprimi!' a equação de uma curva primeiro em coorden8das cartesianas. depois em coordenadas polares. Mas umo dessas expressões ga­ nhará, fina lmente. em perfeição relativa porq\õe conduz, para o objeto em questão, à rórmula mais sim ples de rodas. Essa mesma "simplicidade" é elevada pela estétic.a clássica ao stutus de um ideal: a simplicidade vale como corolário da verdadeira beleza. tal como esta é o corolário e o critério da verdade . Os pontos fraCQs dessa teo ria sâo bem visíveis. Contudo. não foi tanto às deficiências de princípios que o desenvolvi­ mento ulterior da estética ficou inicialmente associado. As de­ fi ciências de execução, aquelas que apareceram quando da aplicação dos princípios clássicos à consideração de gêneros artísticos e de obras particulares. pesaram muito mais . Por muito paradoxaJ que essa idéia possa parecer, pode·se afirma r a esse propósitO que uma àas fraquezas esse nciais da doutrina clássica não é ter levado longe dema is a abstração mas não ter perseverado nela com suficiente CQnstância . Com efeito . um pouco por toda parte, misturam-se, no estabeleci mento e defesa da teoria , motivações que, longe de serem logicamente ioleridas de seus princípios gerais e de mas pressuposiçõs, pro­ vêm do contexto particuJar dessa problemática. da estrulUl'.11 inte!ectual histórica do século XV II. Essas motivações i05i· nuem-se no trabalho dos mais eminentes teóricos, à sua revclia. e levam·nos a afalO tar·se de seus objetivos puramente especu la· tivos. A ilustração :nais clara dessa situação encontra-se na CQnttovérsia que com lanla freqüência passou por ser o próprio cerne de toda a estética clássica, porquanto parece que essa estética só foi concretamente testada a propósito da doutrina das tr~s unidades e que o seu destino' filosófiCQ e teórico lhe lS7

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está vinculado. E. no entanto, ·.-.-;.;~;;::a-se justamente que essa dout rina não foi criada pela estéti ca do Classicismo, que a pre­ cedeu, pelo contrário, e viu-se simplesmente imbricada no siso tema.' E essa inserção jamais produziu uma justificação verda. deiramente convincente. Ao anunciar a doutrina das unidades, Boileau fala, sem dúvida, como legislador da razão e em no­ me da razão.
Mais nous, que la raison à se:> rcgles engage, Nous lIoulons qu'alJcc art l'actiO/l se ménage: Qu'en /In fieu, qu 'clt UlI jour, Iln seul fait accompU Tienlle jusqu'd la /i/l te Ihéâ/re remptj.'~

[Mas nós, Queremos Que num Manten ha

que a razão às suas regralj: obriga,
que com arte a ação se consiga;
lugar, que um dia, um só fato consumado
até o fi m O teatro lotado.]

Essa uplicação da doutrina, medida pelo cinone da pura lógica , esconde, porém, uma evidente sub-repção: o ideal da razão que ele susten ta em todas as oportunidades é aqui subs. tituído por 80ileau por uma medida puramente empírica, Nt:sse ponto, a estética clássica afasta·se nitidamente da sua concepção científica da " razão universal" a fim de enveredar pelo cami. nho de uma filosofia do " senso comum". Em vez da verdadc, ela recorre à verossimilhança (Wahrschein lichkeit) e ainda num sentjdo est rilO que tem somente um valor de facto . Uma tal valorização do simples rato é, contudo, rundamentalmente in. compa tlvel com os verdadeiros c lDais profundos princípios da teoria clássica. !! evidcn te que não se trata de um argumento satisratório par.. justi Cicar a necessidade absoluta da un idade de lugnr e de tempo repo L ·taNie ao espectador, para quem seria absurdo ver desrHar no transcurso de algumas horas aconte. \.i:llentos que preenchem um ano ou uma dezena de anos. Pois
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a própria estética clássica, de acordo com a sua tendéncia ge­ rai, sempre nos preveniu, justamente, contra a confusão entre o q ue é verdadeiro e válido "ptla natureza da coisa" e o que parece válido a um individuo, do seu ponto de vista particulílr. Ela exigia do indivíduo, enquanto sujeito estético, que esque· cesse o seu temperamen to particular, a So.1 "idiossincrasia", para deixar falar apenas a pura necessidade do objeto. Não é uma violação dessa ex igência. uma contestação do caráter estritamente "impessoal" da razão. tal como é sempre afiro mado pelos teóricos do Classicismo, usar como medida do dra· ma as condições aleatórias em que se encontra o espectador e clevá·las à categoria de norma da criação? E esse traço não é único: é sim plesmente o sintoma mais destacado desse deslo­ camente característico das motivações que encontra mos por toda parte, até mesmo nos adeptos do classicismo estrito. To­ dos se esforçam pela sim plicidade, exatidão, pela simples "na· turalidade" da expressão, mas vão buscar a medida do na­ tural, sem a menor hesitação ou escrúpu lo, ao mundo em que vivem, baseiam-se no que lhes fornecem o ambiente imediato, o hábito e a tradição. Aqui , de súbito, o poder de abstração de que estão dotados os fundado res da doutrina clássica começa a faltar-lhes: em vez da renexão crítica sobrevém uma credu­ lidade ingênua, uma veneração por todos os dados puramente empíricos da cultura intelectual e art1stica do século XV II. Esse fascínio pesa tanto mais sobre aqueles pensadores que disso estiverem menos conscientes. Boi lcau não postula somente a equivalência da "natureza" e da "raUio": cle chega mesmo 11 identificar a natureza propriamen te dita com um certo estado de civilização (Gesittung). Só é possível chegar a ess..: eswdo cultivando as formas que a vida social criou e levou (l um tão alto grau de refinamento . Doravante. li razão e a natureza, n corte e a cidade são elevados à categoria de modelo e de idea l estético. "Etudiez {a COur e/ contwisser la vUle; {'une e/ ['aLi/fi'
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é essa a tese do Ensaio sobre o goslO . Diderot foi o primeiro na França que ousou abalar essa convenção . opor a essa cultu ra corromp ida o espelho da nalUreza. Antes de Rousseau . mas todos os traços do convencionalismo são intro· duzidos no quadro que se faz da belfe nature. a inocência dos costumes..J1 {Num romance frívolo tudo é facil mente desculpado. não poderia afastar-se desse quadro. " Os diversos gêneros poéticos er:'lrn tra­ tados " .ours en modelES fertile. em particular na sua obra -:le poeta dramático. as conveniências insinuam-se assim no lugar da oatureza.!: deve observá-los com tanto rigor e escrúpul o. enquanto esteta.a de quem ele nos quer fazer o retrato está muito longe.diz Goethe nos Comentários à sua tradução do r0­ mance O sobrinho de Rameuu [de Diderot) . Entretanto . a simplicidade e a franqueza do pensamento. Em nenhuma par­ te os preceitos da razão são mais severos e em nenhuma parle . autêntico . pri­ mciro. " [Estudai a corte e conhecei . no mesmo plano que a sua estreiteza. considera que o gosto refinado. Rende-se preito à natureza. como está inteiramente comprometido com esse ideal: o rilho da oaturez. em sua ação imediata de crítica e de escritor . a dou trina dussica converteu i:lalmente seus ideais estéticos em certos ideais sociológicos aos quais ela os vinculou. as convenções no lugar da verda~e . no conto O in gênuo (1767) . ] O fra ncês não teme falar de conveniências ao julga r produtos do espírito. com efeito. Não só ele mostra a maior delicadeza e respeito pela civilização mas vai ao pon to de falar a língua da galanteria.tou. Sem düvida . a cultura francesa sete­ centista ja mais fi zera uma distinção rigorosa entre o social c o natural." como outras tantas sociedades nas quais convém obedecer a um comporla­ mento particul ar r. es ~as teorias ainda dominam quase sem contesta­ ção. Rigor demais se ria então deslocado: Mas o palco exige uma exa ta razãc O estrei to decoro aí quer ser guardado. só pede representar o que se raz em sociedade. tem uma admiração enorme pelo " Século de Luís XI V " .no âm­ bito d a vida social. T rop de rigueur alors seroU hors de saisol1 : Mais la scime demande une exacte raiWIl L'é/ra. poe t. nos di vina a fk:ç iio. ao desdobrar-se. não se atreve mais do que os outros aram 390 391 . o qual só pode originar-se . Volt aire é um espírito penetrante e crítico demais para não se ape rceber de algumas fr aquezas nelas existentes. u:oa e outra são sempre féneis em modelos. do qu al veio a ser o primeiro historiógrafo. por o utro lado.] POl" essa última equivalência.xão entusi ástica.] Sub· rcpticiamente. no receio de contrariar os fins essenciais do fea tro. I! por isso que Boileau situa a: a exatidao da regra a que a poesia dramá­ tica deve submeter-se. mas. Em suas obras manifesta-se um novo palhos revolucionário mas. O tealro . Voltaire. C'es f asse: qu'en couran! la fie/ion am /lse. onde se revelam a {arma e a flor da mais nobrc socia­ bilidade. palav ra que .mpre ver a origem do movimento de idéias que culminará com a à issolução e derrota das leo:ias do Classicismo.. ao ponto de tratar eXc:tidão e estreiteza quase como sinônimos : ~'sf ° Dans un roman !rivo/e aisêmen! lout s'excuse. Mas justamente a maneira como ele apresenta o seu herói mostra com toda clareza como ele é devedor eo seu século desse mesmo ideal da natu­ reza.1 cidade. em seus acessos de cepticismo e de pessim ismo. ba­ seia-se no instinto de sociabilidade do homem.J. Basta que. portanto. de toda rudeza e de toda barbárie.te bienséance y veut é/re gardée. de resto . não deixa de criticar a cult ura do seu tempo e procure." U E é exatamente nesse ponto que c-. devota-se-lhe uma pai. na primeira metade do ~éc ulo XVIII. admi­ ração bas tante para não se subtrair às suas estritas exigências em matéria de gosto. a bem di zer.

por brilhante quc seja. Mas eis que. uma nova arte. segundo o erro cometido pela dou. Dessa derrota. a qual. concomitante· mente. por ocasião de um evento histórico concreto que lhe dizia diretamente respeito." A obra de Lessing tinha sido pteparada. do vínculo existente en tre a arte e o "espfr iro do tempo". é tarefa êlo poeto fa zer dessas máquinas homens de novo. a estética do século XV III au­ feriu um novo enriquecimento ao tomar plenamente consciência. e a extrair daí as últimas conseqüências. Essas ilusões não podem prod uzir nenhuma forma artística ver. jamais as regras de conveniência de uma escola estética. A par das " causas morais". profundamel!te determinada pela sua época e. Não importa que !IOlo e que tempo pro­ duzem tal ou tal arte: /'I on omnis feri omnia tetlus. no espírito do autor e na perspectiva da 392 obra. Em suma. climáti· cas e geográficas. Dubos inaugurou o cami· nho com as suas Réflexions critiques sur la poésie e f la peinture. ligadas à época e sem valor geral . esses princípios teriam fatalmente que ceder e acabar por dissol ver-se. Ao patérico e ao culto do herói da . não se decifra na essência da obra de arle mas obriga a teoria 393 . A pa rtir do instante em que não podiam mais sustentar·se diante de uma crftica cada vez mais penetrante que denunciava seus pontos fracos. mais tarde. u Essa perspectiva marca o abandono da fixi dez do esquema clássico. As regras esta. Com o surgimento de novas idé ias científicas e (ilosóficas. como se viu . faz alarde.ra na França. de súbito. defen de a causa de um novo gênero poético. toda impregnada dela. sem dú vida. belecidas por Boileau. mas. esta continua sendo o que sempre foi desde o começo e o que será até o fim dos tempos. na Dramaturgia de Hamburs o. sente-sc uma evolução dos padrões estéticos. até nos detalhes. teria que acabar·se por tornar solidário . ele é assim o iniciador da teoria que.pr. sões de que toda a época. será brilhontemente susten­ tada por Montesquieu. dadeira nem nenhum caráter dramático autêntico. uma teoria que se veja nascer dessa mesma multiplicidade. esse fato evidente nfio linha a menor probabilidade de exprimi r·se. como se vê cada vez mais claramcnte. entre as exigências da pura "razão" estética e as ex i. Denuncia a confusão indefensável e fun esta que se produzi. de um modo cada vez mais enérgico e consciente. Diderot opõe uma nova sensibilidade social e. a chamada "tragédie domestique". ele reserva um vasto campo de ação às " causas físicas". A poética de Boileau era . não a razão. as­ sim como de novas exigências políticas e sociais. além das conseqüências que a estética clássica daí extrafra. reconhe· ct·las e interpretá-Ias teoricamente. o destino histórico de uns e outros. são regras universais. em sociologia e em ciência política. pela estftica setect:Q ti sta. Foi um dos primeiros a man ifestar interesse de especialista pelo desenvolvimento de uma arte individualmente considerada e a revelar as causas desse desenvolvimento sem se ater apenas às causas intelectuais ma s igualmente às causas na turais. do a pompa e a etiqueta convertem os homens em máquinas. Pretende--se uma teoria que acolha a diversidade e a mobilidade dos fenômenos estéticos. as premissas também claudicaram. E a crítica estética do século XVIII já estava pronta para integrar tais experiências. rigorosamente intempornis. em suma.r os vínculos. excluindo do campo das normas estéticas do classicismo tudo o que tem sua origem não na verdade e na natureza mas somente nas ilu. gências puromente convencionais. gum modo. A d c~· razão tem uma " história". mente decisivo. E procede a uma severa e inexorável seleção. estética. pode lograr êxito numa tal criação: "Quan. a tendência é para passar das simples fórmulas ao conhecimento da estrutura própria da cria­ ção artfstica. no dram a e na teoria dra­ mática. trina clássica. No domínio da esté· !ica pu ra . Lessing foi o único a dar O passo yerdadeira. Os novos tempos exigem. Só a varinha mágica do gênio poético. A força de confu ndir os prindpios sociais e estéticos. de ai. tragédia francesa clássica. na doutrina como tal.

1I té então está doravan te descartada. Tra ta-se de liberta r-se do despotismo . nenhuma solução lógica ou me­ tafísica t pe nsávei mas so:ne r. elaborar os princípios em função dos fenômenos em vez de subordinar os fenOmenos a princípios de rinidos. no pensamento físico. renunciar 00 apoio sob re princfpios mas. tem·na por modelo que o artista deve esrorçar-se por alcança r e respeitar em todes os casos. em nenhum outtO domínio foi mais difícil de real izar . portan to. a ceder O lugar à pura descrição. ser eliminada por tal motivo. o método de explicação e de dedução tende cada vez ma is. em ambos os casos. à conversão que. fund ir· se U!IlR na outl'a : a passagem da psicologia para a problemá tica II'anscendenta! .l. válidos a prior. enquanto ciência. Se existe um domínio onde se impõe tal abordagem do problema t O da estética. Psicologia e es tética ingressam. nao pretende em absoluto dar livre curso a um relativismo ilimitado. por sua própria essência. ao procurar na natureza humana a origem e o único fu ndamento do belo. 111 procuranc!o a chave de todos os problemas que a metafísica 1>1'0­ meteca resolver sem jamais o conseguir. no plano me todológico. Se O gOSlo fosse apenas uma questãu -Ie humN.ar uma caracterfstica mutação semâ ntica. tra ta-se de dar luga r. a finalidade da estéticl!. E a mesma fi­ nalidade que é perseguida. elevBr o sujeito individual à posição de um juiz da obra de arte cujas sentenças sejam absolutas e sem apelação.ente. Já não são ago!o OS gêneros artísticos que estão em causa. prin­ cipalr.des artísticas: a impressão que causa a obra de e rle sobre aquele que a contempla e o julgamento no Ciua1 ele procu(a fixa r essa impressão para si mesmo e para os OUltoS . uma espécie de sensus communis no gosto. é am fenômeno puramente IH/mUI/O. em nen huma parte as d ifi cu ldades teóricas pesaram tanto quanto na área dos problemas estttioos funda­ mentais. Diderot e ncontrou te nnos justos e penetran­ tes pa ra exprimir esse princípio fund amental no começo do seu Ensaio sobre a pintura.absoluto da dedução. donde p roviriam essas deliciosas emoções que ema 395 . peJo contrár io. a estética não va i ser e:tlregue ao acaso e ao a rbitrário. oUl. a descoberta de leis específicas da consciên­ cia estética constituem. essa na/ura rerum à {IUal se vincul ava O objetivismo cstético pa ra ser agora a na tu­ reza do homem: e&Sa na turcza à qual recorrem de todas as 394 partes nessa época a psicologia e a teoria do conhccimclUo. e fi udos de umo vez por todas. foi con­ sumadíl pela passagem de Descartes a Newton .J'oosim . Ele ve. numo aswciação tão estreita que parecem. mas as atir.culos. Toda espécie de "transçendência" está. Se a forma estética nor· mativa que vigorava . passager. também nesse ebmfnio. a qUIII. por cl'!minhos e proced ime ntos intelectuais diferentes. Assim.'l essa que proporcionou fina lmente 1:1 Krul1 romper esses víp. à observação d ireta.a inserir-se no processo da c ri ação artística a fim de o recons­ tituir mentalmente . por esse fa to.. evidentemente. aos fenOmenos. mas o pr6prio conceito de natu­ reza acaba de re-aliz.denada de antemão. pelo contrário. por um certo tempo. t claro que o método psicológico. reconhecer e derinir. o probleml do goslo e a eonvef$ão ao subjetivismo A mutação interna qu~ põe fim ao n:inado da doulrinil ::lássica no âmbito da estética corresponde exatamente. de maneira nenh uma . ao lado dela e não contra ela. em primeiro luga r. com efe ito. Não está em ques­ tão. O fio cond utor deixou de se r. U E essa descrição n~o parte mai~ das obras de arte mas da consciência estética cuja natureza eIs quer.le uma solução antropológica Sldclo semu. toda a espéde de regra não deve. Essa tendência da estética visa sempre à "natureza-. a natureza e a pos­ sibilidade de tal "senso comum" constitue m propriamente o ponto de partida de sua problemática . A elimi­ nação do arbitrário. porém .. cor.. aos fatos simples. segundo parece.

seus direitos à universalidade. esses movimenlos da alma que profunda­ mente nos sacodem.cs­ pírito sutil" do "espírito geométrico ". es­ tão tão distanciados da exati dão que esta não teria grande di­ ficu ldade em destruf·los. e csse encanto não se perde porque não se consegue dominar com o olhar eS911 multiplicidade de relações. é uma outra norma que prevalece. Em muitos casos. que nos arrancam lágrimas de júbilo ou de dor? Esses fenômenos que cada um experimenta e vivencia em si mesmo não poderiam ser recusados por teorias abstratas nem abalados por argumen. Uma idéia estética nüo recebe seu va· lar e seu encanto de su a exatidão e de sua cl areza mas da mul­ tiplicidade de relações que ela.t [A maneira de bem pensar nos Jabores do espírito] só está sepa rada da Arle poético de Baileau por um século ou pouco mais e quer completar a obra de Boilesu sem lhe subverter os princípios.. tidão e a univoc idade.x pondo-se claramente. Não é diFícil encontrar toda uma série de fen ômenos e. de maneira nen huma. também Bouhour5 opõe ao es­ pírito de " rigor" que Boileau tinha elevado ao nível de prin· cipio da arte o espírito de fin ura e delicadeza. resolvê-Ia. como o pensamento matemático. a estabilizar e a fix ar o conceito. Essa convicção já tendia a manirestar-se através do edifício da. por tudo o que ela comporta de fug az e de f1utuantc. pela maneira como ela cintila em mil cores. se ainda assim não renunciar a isso in teirameme nem abando­ nar. se aqui impotentes: a exatidão do gosto não se deixa demon s. um novo órgão que não tende. opondo um ao outro numa antítese muito profunda. nem as minhas entranhas de que fazem mal em comover." II Essa nova perspect iva metódica s6 pretende fundamentar racionalmente o julgamento do gosto com reservas expreSS8S . analiticamente em seus elementos constitutivos. toda obscuri dade e toda ambigü idade signi­ fi cam a morte do conceito lógíco-matemático. na leveza e mobili­ dade do pensamento. que ampliam ou constrangem o nosso ser. o qual só recebe seu sentido e seu valor próprios de sua exatidão. A dedução pura e o simples raciocínio revelam. A obra de Bouhours intitulada La maniere de bien penser dons les Quvrages de I'espr. que ela suscita. apostar. mas que se exprime. numa outra cor psicológica. trar da mesma maneira que a validade de uma dedução lógica ou matemática. a solidificar. Em es· tética. por assim dh:er. o espírito de delicatesse. Assim como Pascal tinha distinguido o . de certo modo. plenamente determinado em todas as suas características e deve conservar o sentido estabelecido pela definição ao longo de toda a série de fa ses do pensamento. att contra­ ditórios. São essas transições c esses matizes que dão a esse pensamento sua tonalidade especi fica­ 397 . no entanto. teori a clássica. trata-se de dar uma "arte de pensar"' estética como peça anexa do Art de penser de Port·Royal.se. condensa em seu seio. acessíveis a toda observação imparcial e que . Mas a fonna do pensamento e do julgamento es tét ico destaca·se com mais clareza e distinção do que no modelo acima de todas as for­ mas de inferência puramente "'discursivas". na agiHdade em captar os matizes mais sutis e as transições mais çéleres. e que é tanto mais perfei to quanto melhor lograr realizar esse ideal. Toda vacilação. tos cépticos. na verdade. ~ necessário fazer intervir aqui outras faculda. "Apoge SophiJto" . invo­ lun tária e impetuosa. porém. muito pelo contrário. pelo con­ junto desses traços. des. A significação estética de uma ta l idéia não é diminu fda pelos impulsos complexos.gritou Diderot _ "jamais persuadirás meu coração de que ele faz mal em agitar·se.oam do mais fundo do nosso eu de maneira tão súbita. Todo conceito de quc ele faz uso deve 396 ser rigorosamente definido. ela só é constituída. Só está agora em questão uma determ inação mais exata dessa universa­ lidade assim como o modo segundo o qual sua validade pode ser assegurada . O que se designa aqui por -delicotesse" é. A finalidade su­ prema que o pensamento discursivo possa propor-se é a exa. Como o próprio titulo já indica.

Um pensamento esteticamente válido (pensamento delicado.Or. da adaequalio rei et illtellectus.lãffi·se por vezes triviais". I! a expressão. pode-se dizer que. portanto. porque o (also e o verdadeiro aí estâo mi sturados e formam uma unidade. exige e provoca. e muito menos para­ doxal. tOr.mente estética. é por meio da expressão do falso que Bouhours. pois a imaginação estétic. à qual se ligava a estética clássica e que esta erigis em norma . à fo rça de serem verdadeiros. que só funci onam em termos de surpresa. Não é s urpre~ndente. consegue queb rar os grilhões da con­ cepção clássica da verdade e da realidade e iniciar seu vôo pa ra a região da "ilusão estética ". vai ensina r. pelo contrá­ rio. faltando· lhe a vida e o mov:rnento da arte. "Os pellsamentos. Do ponto de vista estético.Ji-lo em todas as suas mediações. nesse cont exto. A ló' gica deve pôr a claro todas as pressuposições de um pensamento. portanto. Não só ela suporta um. que dependem inteiramente dessa condiçiio. não o conteúdo do pensa­ mento I. some!1te por sua verdade: poderiu muito bem limita r·se a ser um simples aforismo. não é prisioneira do "daro e distinto " . que contém cada vez mais a verdadeira carga estética.O ta: . seg'. por conseguinte. Por estranha e chocante que essa idéia possa parecer à primeira vista. na acepçêo estética. o "jorro" (He rausspringen). a gênese da ronna inesperada. da ligeireza. esse risco de trivialidade estética só pode ser evitado por uma certa configuração . Uma e outra são igualmente essenciais: a arte não quer ser. A 16gica exige constância. não no sentido estético. rejeitava-a. que Bouhours exija para todu produto vJHdo da arte não a verd ade pura e simples mas uma certa mistura expressa de fa lsidade . realizar uma justa divisão entre luz e sombra. A estrita "retidão" do pensamento. A estética cl ássica. pen­ samento engenhoso) faz quase sempre uso daquele para atingir seus fin s: su rpreender o esplrito e imprimir·lhe. A estética como tal não n2Sce nem floresce à pura e pslida luz do pensamento. não perder nenhum dos elos intermediádos que o preparam. por ter mantido esse ideal. a arte do desvio a justificar sua validade e riqueza. o i:l1cdiato é a font e onde ela inesgotavelmente inspira·se. uma segunda realidade igualmente objetiva. t muito menos graças à verdade do que por meio da fal sidalk que o epigrama reçebe vida c movimento. O classicismo estrito caractel'iza­ va como náo--verdadcira em si mesma toda coisa inexata e. mas construí-lo em imagem e nela fixá-lo .representação era tanto mais perfeÍl2 quanto melhor conseguisse retratar O próprio objeto. não se impõe à arte no mesmo sentido que à ciência. para a arte. um pensamento é ta nto mais valioso quanto mais visível for o encadeamento criador. Um epigrama não se ju~ t i· fica. a estética pede a subitaneidade. A .J. por uma guinada surpreendente de sua expressão. do que ainda não está totalmente pensado. por isso que o ideal puramente racional da "adequação". diametralmente o!X>sto . uma espéde de roupagem do pensamento. Mas a "razão" estética. o próprio rato de reshltar. que fala reiteradamente a língua do clalisicismo. reneti·k 399 . Bouhours in­ siste sob:-e esse ponto. ao basear-se no prindpio da delicadeza.: é decisivo mas o modo como é obtido. €. Existem gêneros poéticos. A estética de Bouhours.lo Com efeilo. por meio dessa surpresa. o ideal de inexatidão. encontra-se um outro. a par do mundo natural. deixou de ser válid a. da presteza com que se realiza . Não é o mero resultado quo. um novo impul so. tinha sido assim levada a en fatizar decisivamente o "na­ turaJ" e o "exato".!! certa margem de indeterminação como [. e que por essa mesma razão justifiq ue o equIvoco.!! só se ínn ama e desenvolve na presença do que Einda não está plenamente de­ terminado. Não se trata aqui do simples conteúdo do pensamen lO e de sua verdade objetiva mas do desenrolar do pensamento e da sutileza. cum­ pre juntar-lhe o seu contrário. como o 398 epigrama. a par do ideal es té­ tico de rigor e exatidão. a linha reta é o caminho mais curto entre dois pontos somen te na acepção geométrica.

A ênfase recai menos sobre a proximidade do que sobre :l di~ lineia em relação ao objeto.sem as turvaçõcs e refrações que a natureza do assunto pode ocasionar. em parte alguma. não dis­ põe de ou tros meios para comunicar suas intuiçócs de um modo convincente a não ser recorrendo à sua própria experiência in· tcrior. nu ma palavra. em ültima instância. O exame dessa conexão cabe exclusivamen­ te à experiência. A estrutura precisa dessa relação causül e a participação de cada um desses momentos. O que ele entende por "sentimento" não significa um mergulho do eu em si rnesmo. iguala·se • natureza mas no modo específico de sua expressão e de sua representação. Quase nunca se hesita em rejeitur como um espelho infiel o espelho onde a pessoa não se recon hece. a respeito da fórmula . A essência da estética não pode ser conheci da de maneira puramente coneeptual. o 400 efeito que elas elt. essas impressões originá· TÍólS. seu pleno desenvolvimenlo em Dubos. procurando detenninar desse modo a verdadei ra essência da arte. Mas nessa análise da impressão estética. ela tem sua própria verdade. ele parte mais simplesmenle da consideração e da análi se de obras do:: arte e observa. e à q ua l deve remeter-se cons­ tantemente. e em distingu i·las das contribuições arb itrárias e gra t ll i tn~ 401 . como su r­ girão mais tarde na época da "sensi bilidade" (Empfindsamkeitl. não poderia. à qual deve estar associada toda a criação de conceito em estética . todo refinamento do juízo estético só podem consisti!'. essa norma começa agora a eclipsar-se. o "sujeito" c o " objeto". na arte. em primeiro lugar. mente necessários c legitimas. em aprender a ver sempre mais claramente essas expe rit:: nc ia~ intimas. O que naquele não passou de simples bosquejo tomou·se nas Réffe· "íons critiques sur ta poésie et ta peinture.se como o princípio especffico da estética e oposta a todo e qualquer outro método puramente lógico como fonte autêntica de lodo o conhecimento estabelecido.diz Dubos no início de seu livro _ "se não conseguir fazer o leitor reconhecer no roeu presente estudO o que St. Toda educação. uma atitude "subje· tiva". não podem ser estabe lecidas de antemão por cons. historicamente. lal como quer mais impor ao público normas fi xas e universalmente válidas. € em Dubos. os movimentos mais íntimos de seu coraç:ão . aí reen· contnmdo sua vida interior e suas experiênc ias mais profundas. Entretanto.18 é evidente que se deve fazer reservas. de maneira nenhuma. seu ca ráter mediato e mtafórico. portanto. "Eu não poderia esperar ser aprova· do" . A imagem esboçada pela arte. de certa maneira. autônoma e imanente: "Le figuré n'est pas faux et la méta­ phore a sa vérité aussi bien que la fiction. de Dubos." t7 O novo tema que se percebe na obra de Bouhours só en­ controu . nesse domínio . a outo-observação deFine. o teórico. nunca é igualada ao objeto nem coincide com ele.: passa em si me~mo. Não se trata mais de fazer simples­ mente lugar para a imaginação e o sen timento ao fado das faculdades intelectuais. o cu e o objeto defront am-se CO m dois fatores iguul. Os fenômenos que Bouhours tinha descoberto. portanto. esses traços verdadeiramente "sentimentais". é expressamente admitido e em nada muda sua apreciação. porém. porquanto não se encontram nele. que pela primeira vez. nesse sentido. Se se chamou por essa razão à obra de Dubos a "primeira estética do sentimentalis­ 010". mas de prova r que também são facul· dades verdadeiramente fundamentais. O que ess~s melas de expressão com portam de inadequado no sentido racional do lermo. Apenas quer ser O espelho onde o au­ lor e o espectador devem contemplar·se c reconhecer-se. são agora transferidos para o centro da leÇlria estética. ser substituida e rechaçadu por deduções. não no que. um peno sarnento sistemático que o autor desenvolve em todos os senti· dos." l t O estético já nno se apresenta agora 8 0 artista tom Sc!U c6difito eOl mãos. A impressão imediata . portanlo não poderia ser condenada por não-verdade. com todo o rigor.· deraçoo übstratlls. Sem dúvida.ercem. com efeito. na periferia da estética.

ela mantinha-se à ma rgem de con· testação. A estética OCupa. jamais chegaram ao ponto de contes lar o " ruisonne· menl" como tal.:nudo nem está :. um poder usurpado. Mil! o mt!rito mais imo portante dos poi!mas e dos quad ros . . orga nizado para isso. da " impressão" pura. jus­ tamenle onde o rac ionalismo colocava seu o rgulho e sua rorça.:r homen~ nascidos se m o senti mento de que c)(ou ralando quanto é ru ro encOntr. Por mais ener· gicamente que os campeões da "estética do sentimento" tenham defendido a especificidade do sentime nto e a(irm<!do o seu ime· diatismo. A filo sofia de Hurne tem por objeto muito menos .'lS c dos qUllllrOS rus~ es· tar em confo rmidade co m o~ regras redigidas por esc ri to.assim como o lugar que dewm ocu par na t:!Slima do~ hOl\lcn:.do no mesmo planu .da reOt:!xão. do raciocínio causlll sobre o qual n:pOuSII todo o n05SO conhecimento da realidade. a fim de responder aí per suas pret ensões.:~ de IUI\'c:r discuti do se o obj<. se ri a at ra vçs dll di:. Sua atividade precede. questionar a " razão" em sue função fund amen· til l. Enqua nto facu ldade do pensame nto lógico e da pro­ va. Com Hu me. Ele ousou leva r a luta a té o próprio coração das defesas do adversário.. Enquanto ..uu iml!diação (Ullmjllelba rkcl lL 402 dos atos de percc:pçeo. co mo é imposs ível dllr visão e ouvido li quem nunca os t. o ponto fraco de sua p0­ sição. não pode ser apren· d ido nem $C f suscitado. provar e cheirar . citamente. Foi nessa direção. a razão é que se vê agora citada perante o foro da sensação.:·S(· o caminho q ue Hume va i seguir uté as suas últimas conseq üên· cias.:to que o poeta ai noo Cipfcsc:nta . no sclllido prÓ'prio.-a miná-la [. de ética e de fil osofia da re· ligião.:nsina-nos o q ue há na tragédia antes que tcnhél mos pe nsado em e. ver e ·ouvir. A razão pe rde não só a sua posição soberana como d!!ve igualmente."::<> Agora que o "gosto ~ já nul. não de l. em seu próprio terreno. a bdicar de sua função de lidc r e cede r a primazia à imaginação. Todas as (oonus c 5ulileL!1) !MJbl"'"': ço nceito~ esté li· cos que nào servem para esse fi m são rejei t3das: tudo o q ue não possui a ingenu id ade d a ..1 Se o máitO IIlnis im portante dos POCJl1. O gosto... no 403 . ex pl i. precisamente.i o de nos agradar .. é aí que se encontra .lr cegos de nasccm. "O coração agita·sl! po r si mes· mo e por um movimento que precede toda a dcli beração quandl' o obje to q ue se lhe apresenta é rea lmenie um o bje to tocante [ .c u5s5o e da análise. elaborado verdndeil·umenle por sim pk s consid\!rações teóricas. um lugar importante no seio dessa proble má tica e. m p rcs~ ào e n50 reforça a nQSSH con fiança nela não a tinge 1. E a sentença pronunc ia que todo o pode r reivindicado pela razão pura era um poder ilegítimo e contra a natureza.:r·st.'-ia dizer que a melhor maneira de julga r dI! sua exec li:nciu .: há ndes conhecem SI!ItI ~aber as regras se ib produçoc'li das anes são boas ou ru in:. po d.. ~ tão raro v.u· bord in udo às operaçôes IÓJlka~ da dedução c da prova mas o. loda5 as conclu:>Ões ( ruiSOIll:('I/IC/lIS). J O nosso coração está feito.l~ que nào o possuem.:vc r.ul1çào ('frennu lIg) das racu ldades.I fi na lidade essencial a que a cSlélica deve propor·se.. . no domínio do conhecimento... . Ma~ so.. O confl ito gravi tava em 10(nO da dis. portamo. perceb. pelo contrário. a frente de comba te é deslocada. as questões estéticas do q ue as q uestões de teori n do co nhecimen to e de psicologia. de um ponto ·de vista metodológico. cum a ajuda do ~c nti Jl1e llt o inte rior quo. O sentimento .:uhx.. em :.:upaz de comove r por si mesmo c se Clilá bem-im itado. c IOd o~ os humen:... que Hume transpôs uma etapa decisiva .. assim como a percepção $Cnsivd t3m· pouco se presta a ta l ensino.ma co ntestação ou de um 8viltamenl0 da razão.: um objeto .:a. de fato. no entanto. assim como !1 ati vidade do olho c do ouvido tiS a ntecede em suas scn· saç~:. ) Cho­ ra·se numa tru~éd ia anto.) c coordo. Não cabe mais agora ao senlimento justi ficar·se perante o tribunal da razão. pois. q uerendo assim demonstrar que. Houve.:ria impossívd co municá·lo àqu. ela apresenta uma contribui ção perfeÍtllmentc original. uma permutil de papéis na batalha pelu fundação da estélica.

quando a experiência cotidiana nos ensina que não existe nenhuma escala fixa dos valores estéticOS nem jamais existitu. embora reconhecendo essa variabilidade. e é isso. O sentimento n50 está ex­ posto a semelhantes erros porque lem em si mesmo o seu con· teúdo e a sua medida. Uma vez que se opõe a toda falsa generalização. aliás. na pureza do seu em si. a imaginação só linha y'Jt: lutaI' por reconhecimento e a igualdade de di reitos. O sujeito individual . o cepucismo só pode ser. ei-la agora deOnida como a mais run­ damental das faculdades da alma. O entendimento pode errar porque O seu critério não está unicamente em si mesmo . mas também na natureza das coisas a que ele se refere e que quer "encontrar" de qualquer maneira . em última análise. da "filosoOa do belo". de um indivíduo a outro . portanto. portanto. Mas a situação é bem diferente desde que as nossas atenções con· centrem·se na esrera dos sen timen tos e dos puros juIzos de !JelIOf. tratar da " coisa em si" e de sua natureza absoluta . varia o critério que aplicamos à avaliação do belo e é uma tarefa bem vã pretender extrair desse nuxo e desse caudal de opiniõcs ai· gum modelo que ostente o timbre da verdade e da validade. obter muito mais porque ambiciona muito menos. sujeitos perceptivos. Mas. Em nenhuma parte é mais Mcil refutar a pretensão de regcr ass im a verdade e a necessidade do que no dom[nio da estética. algo de puramente exterior ao conteúdo e ao sentido do juízo de vator: SÓ ela pode detenninar-I he o conteúdo e constituir-lhe o sentido. a verdade de uma relação jamais dependem de apenas um dos dois membros que ela une mas da maneira como eles se detemlinam reciprocamente. aduziu-as explicita­ mente no seu ensaio intitulado OI lhe standord 01 toste [Do pa­ drão do gosto}. Esse privilégio não depende de O ju ízo estético realizar mais. que lhes é sonegado o seu legítimo fruto e que estão ameaçadas em suas próprias metas se o cepticismo opuser a tais investigações barreiras fixad as de uma vez por lodos. ser "verdadeira" sem que por isso seja sempre e estritamente a mesma. " Todo sentimento está certo. um princfpio negativo e dissolvente. Ele pode. o que o jU[1. e descrever suas determinações essenciais. ele pode atingi r aquela "adequação" (Angemes­ senheit) que as ciências da realidade objetiva esforçam-se em vão por alcançar . a facu ldade dirigente e do­ minante a que devem sumbeter-se todas as oulras. pois 8 nalu­ reza e. 404 com efeito. essa relatividade de julgamento do gosto. em suma . impondo-se O tempo todo a todo indivíduo pensante. um privilégio particular em relação ao juizo lógico. se é evidente quc Il"dO pode arrogar-se nenhuma jurisdição sobre as coisas. Elas consideram. em que quer ser um enunciado não ace rca dos obje tos como tais mas sobre a nossa relação com 05 objetos . Mas nem todas as determinações do entendimento são corretas por­ 405 . convém considerar que ela não COntém para a estética os perigos que parece apresentar para a lógica e para as ciências )luramente racionais. mas de exigir menos do que O juízo lógico . portanto. e H ume. enuncia tã~somente uma relação que subsiste entre os objetos e nós próprios. Essas não querem nem podem renunciar a algum critério objetivo dado na natureza das coisas. em todo caso.:ameça. dele resulta para o juízo estético uma primazia.0 csté· tico nos quer informar. i! verdade que a estética dcve ser entregue ao cepticismo se se entender por isso renunciar a nonnas univer­ sais e necessá rias. De uma época a outra. Se esse ponto é bem entendido. porque o sentimento a nada se refere além de si mesmo e é sempre real. em cada caso particular. As conclu· sões impõem-se por si mesmas no tocante à edificação da esté­ lica. Essa re lação pode. No domínio das ciências racionais. A referência ao sujei­ to valorativo e \Iolitivo não é. onde quer que um homem esteja consciente disso. Ambicionam conhecer o próprio objeto. sens(veis e judicantes. Um juízo de valor que se considere correiO não pretende . nem por isso deixa de ser o único juiz possível e autorizado dos seus próprios estados.

and each mind perceives a dillerenl beOllly. Assim é que os cri. opesar de suas diver· gências. aos ratos reais.n lhe mind which c~m tem p lafes rhem.que têm uma referência a algo alé m delas mesmas . Ogilby e Milton. Se os indivíduos dircrem . sem dúvida. (. porém. no ent anto. seu brilho dissipa·se bem depressa ao ser eclip5ado por um novo astro em ascensão . o sentimento não pretende Jpreender e defi­ nir algo de objetivo mas exprimir uma ce:ta concordâ ncia (con. julgar "objetivamen te" a beleza . só exis te um único que é o certo e o ve rdadeiro.. nem por isso e ntende privar-se da univer­ salidade prá tica. Os sistemas fil osófi cos não va· Iem muito mais do que para a sua época. porque ela é. formidade ou relação) ent re o obje to e ~ órgãos e as faculda­ des do nosso espírito. tanto na estética quanto na lógica.m vez de multipli carem·se ad inJjnilum. Com deila. se nesse caso lampouco se trata de uma verdadeira conformidade . pela "natureza" do belo. pode aspirar não se deixa. mas como um2 rea­ lidade de fato pela llatureza do homem. num sen tido. como sensus communis. Os quais nem sempre estão em confomlidade com esse padrão.o sen!ido lógico do lermo. mil sentimentos e aprecia­ ções diferentes rela tivos ao mesmo objeto podem ser lodos cor­ telOS . li uma refutação racional mente (undamen­ tada.Jus dos outros. não deixaremos. que. deduzir nem demonstrar mas assenta . de rato. que O sentime::ao esté.o. eles. numa base melhor e mais sólida do que aquela que a especulação jamais lhe teria pod ido fornecer. deve se r entendido. tiO passo que as grandes obras da arte clássica suportam muito melhor e com mais segurança o teste do tempo." U Todos os indícios de va lidade universa l pa~ecem estar en­ tão inleirameme extirpados do julgamento estético. isso não signiCica a existência de uma uniformidade empírica. a saber. nâo é menos verdade que essas condições não 407 . ~ por isso que podemos. precisamente. Percebe-se a té. mano tém-se dentro de limites rixados. Daí resulta essa concordância relativa que podemos constatar invariavelmente . portanto. o acordo efetivo entre julgamentos produz·se mais depressa e com mais segurança no domínio do gosto do que no do conhecimento racional e puramen te filosófi co. uma média empírica. de uma identidade r. sob li relação do gênio e do es tilo. de descobrir uma certa regula ridade empírica.ico e a apre­ ciação est~ t ica s6 pode m vaJer no in!e rior de~sa mesma esfera subjetiva. não uma coisa mas um estado em nós mesmos. Em contrapartida . A difere nça con tinua sendo poss{vel no plano abstrato mas torna-S e desprezível in concreto. entre os julgamentos estéticos.2l A conformi­ dade a que o gosto. evidentemente. justamente. Tal c ritério não nos é dado a priori. em lodo caso. Por mais ocioso que seja querer estabelecer normas absolutas . de fala. mas se Hume. pela natu reza 406 humana entendida não comu um conceito lógico universol ou um ideal ético e estético mas. na verdade. de um ponto de vista puramente empírico.rn:mente conceptual. Num ? Jano p:. Por mai s inti · mumente ligadas que pareçam esta r à sua época. por mais inexplicáveis que sejam fora das condições espirituais que as viram nascer. uni­ versalidade teórica. como 3 que caractcriZél uma determinada espécie biológica." De mil julgamemos diversos (onnulados a respei­ to de um estado de coisas obje tivo. Entretanto. não se exporia. abandona tod . no sentido de que a própria va riação possui umn amo plitude e uma lei de tenninadas. a gra nde dificuldade está em descobri-lo e demonstrá· lo. por assim dizer. térios do gosto. a qual tampouco permita às ine­ vitáveis dife renças de senti mento e de julgamento escaparem a todo e qualquer critério . Quem pre te ndesse situ ar no mesmo nível. como 11m fe­ nômeno dado. Dunyan e Addison. "BeaUly is no quality in things themselves: íl exisls merely . ·ajustam·se. mas o seu julgamento não passaria por ser menos extra­ vagante do que se quisesse comparar um charco 80 oceano ou um mon tículo de térmitas ao pico de Tenerire. entre os sujeitos. algo de um abso luto ~ ubjellvisn.

revalorizou esse lema. aO esforçar-se por apresentar uma definiçiio empírica do belo. und Descartes. com uma força sempre igual. todas acompanhadas de um sentimento ou juízo de valor detenninado. Hume s6 concede à estética um mlnimo de "validade universal" (AlIgemeingüItigkeü). sua sensibilidade es­ tética permanecem." n A propria redação dessa definição indica que Diderol. em sua pre­ 408 sença pura. sem dúvida. Esse sentimento é certamente " irra­ cional" no sentido de que. senão mostrando ser ela apenas a expressão ve­ lada de uma tal finalidade? Foi Diderot quem . no fundo.~ 4 Mas para Diderot essa origem. constitui . acumul ando-se em nossa memória. o gosto não é suscetível . na experiência pura do belo. é um "je nc sai. um postulado aduzido das premissas gerais do empirismo.impõem limite nenhum aos efeitos das obras de arte . porta nto. corte uma vez mais o risco de deixar escapar o seu modo de 409 . "A ris­ totIe and PIa/o. n50 obstante. à qual é tão estéril recorrer em psicologia quanto em rrsica .'incognosci­ vel" se relacionarmos essa prese nça com o seu passado. Escapamos a esse duplo pe­ rigo ao enconlrar uma explicação puramente empírica para esse pretenso " instinto". de nen hum•. da sua origem gcnética. Todas essas observações e experiências. re<:ebemos inúmeras impressões. A pretensa verdade objetiva que devíamos encontrnr !l as obras dos pensadores antigos volatilizou-se . não-originária e fi xa. de que a rtalidade atual (die Ak/Ilalitiit) da experiência não nos pode dar . porquanto o estudo não pode limitar-se dora­ vante aos fenômenos estéticos como tais e à sua simples des­ crição: ele deve retornar aos alicerces desses fenômenos e tentar mostrar seu l undamentum in re. and Epicurus. sem dúvida . Mas o problema é. Pelo con­ trário. tentam ainda assim colocar essa mesma experiência em bases mais sólidas e conferir-lhe um sentido "objetivo" determinado. Enquanto simples falO. a leIO' brança dessas experiências anteriormente vividas é apagada. e objetivo porque esse sentimento nada mais é do que. onde estabelecê-lo com mais segurança senão vinculando a bele­ za à finalidade. ao passo que o fascínio que a poesia an tiga exerce sobre nós não se desfaz e apodera-se de n6s. justamente. o gosto é simulta­ neamente subjetivo e objetivo: subjetivo porque repousa tão-só no sentimentQ individual. Desde o ins­ tante em que abrimos os olhos para a luz do dia. "Qu'est-ce dane que te goút? Un e facilité acquise par des expé­ riences réitdrées. Onde b uscar esse fundamento.f quoi".e de igual modo severamente reprovado e excluído. Em todo julgamento de gosto condensam-se inúmeras experiências anteriores. al/ec la circonstance qui le rend beau ef d'efl é/re promptemt!n t et I/ivemeflt tou­ eM. nenhu ma idéia da sua produçãO. Segundo ele. lançam uma ponte sobre os séculos e propiciam o mais seguro testemunho do fato de que . de uma concordância Oll discordOn­ eia. se O pensamento dos homens muda. deslo­ cado dessa forma . se não é um renômeno imediatamente demonstrável. por conseguinte. como sujeitos sens[veis. com o q ual a menta­ lidade empfrica dos pensadores setecentistas não podia dar-se por satisfeita. Esses julgamentos não são mais redutíveis a consi­ derações especulativas que a um simples "instinto": o " instinto" do belo seria apenas uma qualitas occulta. na sua doutrina estética. The abstract philosophy 01 Cicero "as losl ils credit: lhe vehemence of his oratory is slill fhe ubjecf 0/ Our admiration. mos teremos um conhecimento indireto de . outra maneira de defini-lo e de fundamentá·lo." 23 Sem dúvida. constituem aquilo a que cha· mamos O sentimento do belo. à saisir le vrai ou le bon. Embora reconhecendo a experiência como fonte do julgamento estético. opoiando-se umas nas ou tras e condensandu-se numa nova expressão de conjunto. produzida. o resultado e o eco de centenas de experiências individuais. undisputed empire over lhe minds 0/ men. reconhecendo-o precisamente como uma rea­ lidade derivada. constantemente as mesmas. may successively yield to elch olher: bul T erence alld Virgil maintain an univer­ sal. sua vida afetiva e.

ser específico e de deixá-lo di ssolver-se na perfeição física ou moral, na finalid ade objetiva. "Michelangelo deu à cúpula de São Pedro a mais bela forma possivel. O geômetra De La Hire, impressionado com essa ronna , traça-lhe a projeção e descobre que ela contém a Curva de máxima re sistência. O que foi q ue inspirou essa curva a Michelangelo, entre uma infjn idade de outras que ele podel'ia ter escolhido? A experiência da vida c.: otidiana. f ela que sugere ao mestre carpin teiro, tão segura­ mente quanto ao subli me Euler, o ângulo do esteio com a parede que ameaça ruir; foi el<l que lhe ensinou a dar à asa do moinho a inclinação mais favorável ao movimento de rotação; é ela que fa z freqüentemente entrar em seo cálculo sutil os elementos que a geometria acadêmica não poderia apreender." U Nessa defi · nição empírica e prática, o belo não só correrá o risco de ser re­ duzido, quanto ao poblema de SUa origem, à "expériel1ce iourna­ liere", ao cotidi ano, ao útil , mas também de ser fi nalmen te confinado nessa esfera? f. assim que Diderot só enxerga na beleza do corpo humano a aptidão para cumprir com a máxima ericiência as funções essenciais da vida. "Le bel homme est celui que la nature a formé pour rcmpTir le plus aisément qu'il est possible deux grandes fonctio ns: la conserva/jon de l'individu, ~'uj s'bend à bcaucollp de choses, el la propago/ion de I'espece, qui s'étend à une." 21 Vê-se aqu i que esse empirismo não con­ seguiu derrotar O perigo que queria superar e que não evitou os escolhos contra os quais a estética racionalista arriscara-se a naufragar. Quando já não se trata apenas de descrever a beleza mas também de fund amentá-Ia . isso só pode ser conseguido apoiando-se no "verdadeiro", considerando-se O belo uma forma encoberta do verdadeiro. A norma da verdade, simplesmente, deslocou-se: o seu conteúdo não se baseia mais em proposições a priori, em princípios universa is e necessários, mas em expe­ riências práticas, no wtidiano e no út il. Mas O sentido e O valor próprios do belo não são afetados pela mudança de dcfinição;
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em ambos os casos o critédo utilizado pertence a um out ro plano. diferente daquele em que se situa o fen ômeno da bdczlI . Como a "razão" na estética clássica, o "entendimento" Icvu ri­ nalmente a melhor na estéti ca empírica . A imaginação é reco­ nhecida, por certo , nessa doutrina como uma faculdade autôno­ ma, como um poder particular do espírito ; procura-se até ver aí a poderosa chave. a raiz psicológica de loda atividade, m~s' mo a puramente teórica. Mas essa elevação aparente ameaça, por sua vez, nivel{\·la, precisamente: após ter conquistado a esrera teórica, sofre-lhe agora a contominaçii,o. Nâo era o bom meio de estabelecer a aUlonomia do belo e a autarquia da imagin<l­ ção. O impulso intelectual requerido para alcançar essa meta foi recusado tanto ao racionali smo estético quanto ao empirismo estético. Esse impulso s6 podi a vir de um pensador que não se es­ forçaria nem por analisar teoricamente o belo nem por reduzi-lo a regras, nem por descrevê-lo psicologicam<!nte e explicá-lo ge­ neticamente: um pensador que viveria inteir,i.nente na contem­ plação da beleza, em seu poder e sob o seU jugo. Tal pensador só apareceu no século XVJ[{ com Shaftesbury; por isso coube à sua doutrina a tarefa de Iundar a primeira Ji/osofi" verda­ deiramente completa e autônoma da beleza. A estética da intuição e o problema do gênio A estética inglesa do século XV1]l não enveredou pelo ca­ evidente a minho do classicismo fran cês nem pelo de Hume. inJluência constante dessas du as correntes de pensamento na po­ sição e no desenvolvimento dos probl emas. Como toda a lite­ ralura inglesa setecen tista, a estética também tem os olhos vol­ lados para o modelo, para o idea l prestigioso oferecido pela tra­ gédia francesa clássica; em muitos detalhes. ela ainda é deter­ minada por esse modelo. E, no que se refere ao movimento empirista, era-lhe tão mais difícil desprender-se dele porque

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seus tem as essenci ais já estavam contidos nas primeiras abor­ dagens do problema estético. De um modo geral , esse problema vinha sendo abordado e tratado sob o ponto de vista ~ico16gi~. Na Inglaterra do século XVIII , parecia não poder haver a menor hesÍlação nem vacilação no tocante ao verdadeiro método. o único "natural", a aplicar o. essas investigações. Tudo indicava que Locke, Berkeley e Hume tinham vencido definitivamente a batalha do empirismo radical; agora, já não se tratava mais de discutir-lhe os principios, mas de dar a esses mesmos principias a maior extensão, de aplicá-los progressivamente a novos domí­ nios e a fe nômenos cada vez mais complexos da vida da alma. Entretan to, se a estética inglesa logrou li bertar-se e afastar progressivamente a sua problemática do fascin io do empirismo, é porque ela tinha a possibilidade de vincular-se diretamente e alirnentar.se regulannente numa doutrina filosófica que não se constituíra sob a influência do pensamento empirisla. Os verda· deiros mestres da estética inglesa são discfpuJos e sucessores de Shaftesbury. Contudo, o próprio Shaftesbury não formou a sua visão do mundo a partir deste ou daquele modelo a que podia recorrer facilm ente em su a época. Foi aluno e depois discípu lo de Locke, mas somente lhe deve certos conteúdos do seu pensa­ mento, ao passo que a forma do seu espírito e de sua doutrina só a ele mesmo pertence. Não sente nenhuma afin idade nem pa­ ren tesco com a Cilosofia do seu tempo; procura para a sua dou­ trina outros modelos intelectuais e outras fontes históricas. Basta folhear O Diário Jilos6Jico de Shaftesbury para perceber-se de imediato como ele está longe do seu tem po. Dificilmente se sur­ preenderá nesse diário uma ressonânci.a, um eco remoto dos problemas que agitam essa época, dos dilemas intelectuais e prá­ ticos que ela enrrenta. Seu pensamen to paira acima de todas as questões que agitam a época para retomar um contato direto com a Renascença e o mundo antigo. ~ com os antigos, com Platão e
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Aristóteles. como Plotino, Sêneca, Marco Aurélio c Epilclo . que ShaClesbu ry reinicia diretamente o diálogo em seu d iário. Nadll repugna mais ao seu pensamento do que red uzir a Hlosotia a um sistema de conceitos lógicos ou a um conjunto heteróclilO de idéias cientificas. Ele quer restaurar e encarnar o seu idea l original, o ideal da pura doutrina da $llbedoria. E: por esse ca­ minho, não pelo da e5peculação abstrata ou da observação em­ pírica , que Sbaftesbury aborda os problemas da estética. ParI! ele, são problemas de vida pessoa] muito antes de tornarem-se problemas da estética. Shaftesbury não vê a estética exclusiva­ mente, nem mesmo primordialmente, na perspectiva da obra de: arle, mas tem necessidade de uma estética como de uma ver­ dadeira regra de vida, como uma lei regendo a organ ização do universo íntimo, da person.a1idade espirit ual. A filosofia, con­ cebida como pura doutrina da sabedoria . permanece intrinse· camente imperCelta enquan to não tiver encontrado numa doutrina do belo a sua conclusão e a sua reali zação concreta. Pois não pode existir verdade autêntica sem belez.a nem beleza sem ver­ dade. A verdadeira chave da filosofia de Shaftesbury revela-se com toda a clareza: "Ali beauly is lru/h" (Toda beleza é ver­ dade). Tomada à letra, essa tese em nada se distingue da exi· gência de objetividade que a estética francesa clássica tinha re­ prescntado: quase não parece ser mais do que uma tradução, um decalque da tese de Baileau: -Rien fI'est beau que le "ra;" (Só o verdadeiro é belo). Contudo, essa concordância só é aparente; as mesmas palavras exprimem aqui c ali pensamentos inteiramente diferentes. Ao proclamar que a beleza é verdade. ShaCtesbury não entende a verdade no sentido de um conjunto de conheci­ mentos teóricos, de lcses e de juizos redutíveis a regras lógicas lixas, a conceitos e princípios fundamentais. "Verdade", para ele . significa acima de tudo a harmonia interna do universo: hOnDo­ nia que não se pode conhecer através de simples conceitos nem apreender intuitivamente colecionando e acumulando experiên­ 41 J

cios patliculare5, mas com a qual é ,Xl'Ssível adequar diretamente nossas vidas comprecndendo-a íntuiüvamente. Essa espécie de adequação da vida e da (;omprecnsão interiOr nos é pro piciada pelo fenômeno do belo. Nesse fenôme no, é abolida toda fronleira entre o mundo " inte rior " c o mundo "exlerior " ; descobre-se que a mesma lei universal rege os dois mundos li! que é essa lei que eles expressam , cadJi um a sua maneira. Os "'números intuiores'" (in terior ,rumbers) que encontramos em cada fe nômeno do belo desve ndam-nos, ao mesmo lempo, os mistérios da natureza e do mundo físico, que só na aparência ~ um *mundo eXl eriar", ou seja , uma simples coisa dada, um deito material. A vl!rdade au· têntica e mais profunda desse mundo reside no principio opera­ tivo que nC'le vive, encarnado e refletido, em eertH medidn c com uma (orça diferente. por cada uma de sua ~ criaturas . t essa es­ pécie de " renexão", despojada de toda c qualq uer m"diação ló­ gica, revdando-nos, pelo contrário, o mundo interir,r .:: o mundo exterior estreitamente entrelaçados, que nos é proporciona~a na intuição do be lo. Toda beleza fu ndamenta·se na verdade e a ela remete-sc. mas, por outro lado, o se ntido pleno, o sentido con· ereto da Vl.'rdllde não poderia manifes tar-se cm ne nhum domínio senão o da beleza . Assim , Shaftesbury transpõe o impcrativ, estóico - ~ ópolO')lOtI,u':'wç -rfj 9'úau ,1j" "- da ética pano a estética. E por medi ação do belo que o ·humem akança 8 mais perrci:a hamlOnia entre si e o mundo , porque não só (;ompreen­ de mas experi menta, sabe que toda ordem e toda Icgu laridade. toda unidade e toda lei repousam na mesma form a originária, que um só e mesmo todo exprime-se imediatamente tania em si mesmo quan to em todo ser. A verdade do cosmo lama a palavra , por assim dizer, no fenômeno do belo: em vcz de rnanh:r-se fe· chada em si mesma, ela s a nha expressão e discursu, esse dis· curso no qual o seu scmido. o seu logos próprio, revela·se ph: · namente pela primeira vez. 414

Com o pensamento de Shaft l!sbury, a clotética, Se ii wmp'l à forma qUI! lhe tinham dado o si stema clássico c (1 1) tl,":lI· rias empiristas . vê·se transfcrida para um oulro plano. Na VCl dade, atingimos aí um ponto crítico do seu desenvolvimento . um ponto em que os es píritos. tal como os problemas, devem repartir·se. Bem elllendido, essa separaçJo não se C'.ltabclece imediato e, uma vcz consumada , não se impõe com todo o r igor. Nos sucessores de Sha rtesbury - em t"tutcheson . em Ferguson. em Home - os princípios o riginários não se apresentam, em absoluto, numa perfe ita pu reza. uma vez q ue se misturaram c acomodaram . à sua revelia, a uma série de idéias provenientes de outras font es. Trata-se. porém, de um temH que conservou toda a sua força na insipidez dessa mistura eclética. Sob fi in­ fluência da doutrina de Shaftesbury, deslocara-se o próprio cen­ tro da problemática estética, o seu foco especulativo. Na esté tica clássica, a qlfesliio inic ial estribava·se na obra de arte, que se tralava como uma obra da nlltureza c tinha que ser conhecida por meios análogos . Procurava-se uma defini ção da obra de arte que fosse comparável à defin ição lógica, capaz como esta última de definir tal ou tal dado por sua espécie, indicando o seu genu!' proximum e a sua diJfere/llia specijica. A doutrina da invaria­ bilidade dos gêne ros e das regras estritame nte objetivas, im pon· do-::.e a cada um dentre eles, nasceu desse esforço para se chegar a tal definição. A esté tica cm pirisI8 distingue·se desse tipo de investigações não só por seu método mas também por seu ob jeto . Com cfei to, ela não l.ie ocupa direta me nte das obras, de seu ordenllmen to, de sua classificação e :.ubsunção, mas do sujeito da fruição artística . cujo estado im.;h.... ~ ela quer co nhecer e descre\'c r por seu meios. Não é a elaboração, a simples {o rmu da obm como lal que retém aq ui a Q.lcnção mas o conjunto de processos psíquicos nos quais se rt"aH:Lllm a expe riência e u apro· priação íntima da obra de art~ ::.sses processos devem so::r cn­
nlt'm o~

ue

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fatuados até em seus mínimos detalhes e reduzidos a seus elc­ mentos primordiais. Em Shaft esbury, em contrapartida , se qucs­ tões dessa ordem não sâo descartadas dc fo rma nenhuma. pelo menos nunca se encontram no centro do seu interesse pessoal, fil os6fico. Nunca se preocupa com a classificação nem com a análise das obr8$, muito menos ainda com os estados de alma que se desenrolam no individuo que as contempla ; seu obieti v,", não é a elaboração lógica de conceitos nem a descrição psicol6­ gica . O belo , para ele, é uma revelação de uma ordem muito diferen te , brotando de uma outra fonte e visando a uma fin a­ lidade fu ndamentalmente diversa . Na intuição do belo cumpre­ se , para OS homens, a passagem do rnundo das criaturas para o mundo da criação, do universo como soma de toda a realidade objetiva para as forças criadoras quc o constituíram e susten­ tam-no interiormente. Essa intuição nada deve à simples análi se da obra dc arte nem à introspecção do processo imita tivo que se realiza no sujeito senciente quando da contemplação e da fruição artfsticas. Com tudo isso, ainda estamos apenas, segundo Shafte5­ bury , na periferia e não no centro do belo. Não se procu rará esse cent ro Da fruição e na sensação mas na elaboração e na criação. A simples receptividade continua sendo insuficiente e impotente, porquanto não nos conduz à espontaneidade que é fonte pro. pria e original do belo. Mas uma vez descoberta essa fonte, rea­ li za-se a vcrdadeira , a única sfntesc possível, não s6 entre suo iei to e obje to, entre o eu e o mundo, mas também en tre o homem e Deus. Pois a oposição entre o homem e Deus é abolida desde que pensemos o homem não mais simplesmente em sua ex istên­ cia de ~ criatura" mas segundo a força criadora originária que o habita, não t;omo ser criado mas como criador. Pa ra que o ho­ mem revele-se verdadeiramente criado à imagem de Dcus não basta que. demorando-se no círculo das coi sas criadas, da rea­ li dade empírica. tente copiar-lhe a ordem e os contornos i é
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pret.:iso que clt: crie esse mudelo interior q'-le é O pon to de Il. ... r· lioa de IMa obra de arle autêniica . Descobre-se en tão 110 homem a sua V!!rdadeira nCltu reza prometéíca: ele torna-se "segundo !.:Tia· dor depois de Júpiter ".2S O camieho qoe leva à contemplação c à comprt~e ns ão da essEncia divina passa necessariamente por essa mediução. E ao artista, em primeiro lugar, que dá incessante­ mente o mundo à luz em pequeno, que o gCtO, o produz sob forma objetiva , é a ele que o universo torna-se inteligível como obra daquelas mesmas fOrÇas que sente em si mesmo. Todo ser singular nada mais é para ele do que um signo, um hieroglifo do di vino : ele lê .. a alma do artista no scu Apolo " .:9 Doravanle, a par do raciocínio e da cxperiência. umu terceira c fun damental forço entra em cena, a qual, segundo Shaft esbury. supera todas as ou tras e oferecc-nos, enfi m. as verdadeiru~ profund idades da estêtica. Nem o pensamento "dis­ cu rsivo", tateando pesudamente de um conceito a outro, nem a observação lúcida e paciente de fenômenos particula res permi· tem atingir essas profundezas. Elas s6 são acessíveis a um .. en· tendirncnlO in tuitivo " que nâo vai do indivíduo ao todo mas do todo ao indivíduo. A idéia de um entendimento intuitivo, de um illlellectu s arche /yptl s, [oi tomad a por Shaftesbury do seu verda­ deiro modelo fi: osófico, que é a doutrina plotiniana do "belo inteligívcl" . Mas ele: aplica esse pensamento num sentido novo (' confere· lhe um ímpeto e uma ênfase que não possuía em Platão nem e"1l Plat ino . Com efcito, ele qucr, precísamentl!, de­ sarmar a m a~ : Jravc objeção levantada por PlatãO contra a arte ("Ira desqualiIicá-la num sentido filosófi co. A art e não é, de ma­ neira ncn huma. m imesis no sentido em que se alert a ao aspecto exterior das coisas , à sua simples apareocia. procurando copiá-Ias tão fielmente quanto possível. A form a de "imitllção" que lhe é própria pertence a uma outra esfera e, por assim dizer, a uma outra dimensão. porquanto não imit a simplesmente o produto
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Desse modo . o cu rso a b. com efe ito. O gênio é a sublimação suprema da razão.Jisas. ou seja .1I11 illho diret o que leva ao pro bl ema fundamen­ ta i da histó ria do pensa men to a lemão do século XVII I: à Dral/la­ turg ia de Hamburgo. a saber. .. a jXnctl'llção e u pn: ~ tela dll cspíriw .ollS· cienci a. sente-se c ressalw-sc em primeiro lugar o parentesco do conceito de gênio com illge­ nium. pelos verdadei ros fundadores da (earia estética. a pró pria essên­ cia de todos os seus poderes e aplidõcs: "O gênio é a razão su blime . E fo i assim que o problema do gê­ nio se converteu no genu'no problema fundamental da estética. Poder mergulh ar dire tamente nes~a gênese e participar nela intuitivamente. DOIS nomes.. pretende superar essa un il ate ral idade . determi nando de eerto modo os "i:tos fi xos em torno d o~ q uais giram lod os os de b(l­ h:S leóricos q uo: . a presentam­ ~ c inecssanlemC nle ao nosso espírito . lrala-se do problema do gcnio e procura-se determi na r a posição do gênio em relação à~ " regnls ". entretanlO. de lcssing. Il com 11 lIj\ld n dC~5e s dois gnllldes exemplos que se procura uprccndct 41 9 .mas o ato de produção .:n1'0 1VC111 o pmb lcmo do "g~ oi O'· . da delicade· za. enlr":Hm to. não comente em usar esse termo. se o desenvolvimento imclcetual puramente te6rico que se realizava nda não tivesse encont rado um comple mento e um a poio muito firm. é prudente abster-se de querer decifrar o desenvolvimento das idéias e das doutrinas partindo muito simplesmente da história de uma palavra. à faculd ade fund amental e verdadeiramente determinante da vida intelec­ tual . ue Kant. quanto em saber pressen· tir as relações obscuras e escondidas. Uma vez mais." 30 O desenvol vime nto ulterio r da teoria rea lizado por Bouhours e que conduziu a uma nova orientação da estética. tra to do pc n ~ a mo:n t o Jogo retOma :. segundo Shaftesbury. cQlls litutivas e c rilJdorils.::.j figura . para exprimi-Ias de ma ne ira tão preci sa q uanto possível. lermo este que equivale à "razão" .. a Ilação de gênio ad ma do plano ela simples sensnção e do simple s juizo. udma do precisc1o. o prolongamento di­ reto do "bom senso". precisamen te nesse momento.::sse processo di vc rsiuniMÕI . a função que lhe atribui é diferente e nitidamente mai ~ complexa . que depo is serâ con!>et vllda. Ele não vê no gênio a simpl es promoção. a rim de rcsc rvú-Ia pu ra o do mínio das ro rça~ prod uliv2s.::nio ne m sempre sai da esre ra da intelect uil lid'ldc . A pa rlir do instamc em q llC" . Shuftcsbury está igualme nll: d istanci ado de~sa s d uas conce pç&~: ele e leva. muito simplesmente. ~ Llai que parte o . O seu poder não está lanto em apreender a si mples ve rdade das c.3 ~ A do ut rina da espontunc idade da c riação ar tís tic u postU­ bi ela por Shaftcsbury nào teria podido. s6 uma "estética da intuição" podia dur-Ihe todo seu peso e seu verdadeiro conteúdo . wnk riu·lhe li ma or ie ntação fundamental cla ramenle ddi­ nida . na lit erat ura inglesa do século XV 11 (. c à Critica do . do sent imento. de um modo lúcido e lirmc. a pesar de toda s <!l) flulUaçôe ~ dos de bates de fí1 o~ofja e de psicologhl populares.~l Mesmo n. Nem a análise lógica nem a observação empírica podiam con­ duzir a esse problema . aba ndonando o caminho do hábito e do cOl idiano.:OlH: rc to. Shaft esbury deu ao desen­ volvimento futuro do problema do g~ nio um cen lro filosófi co . da do "espíri to". com a maior lucidez e a mais nítidil c. Todo o ill: C n · to recai entáo sobre a sutil eza . exercer a infl uência que se conhece.1 0 !. Shaftesbury não criou a palavra " gênio": ser­ ve-se dela como de um te rmo já con hecido e há muito famili ar em esleuca Mas fo i o primeiro que. chega a uma visão nova e surpreen­ dente das coisas e compraz-se na e:tpressào "imprópria". estética da d~. Na esté tica clássica . 418 na mc tMonl e n. eis 11 verdadeir a natureza e o mi stério do gênio. não o que é enge ndradú mas a pr6pria gênese . o i. tod<l S eSSH S virt udes combinadas na idéia de del icadeza. na \'crtllJtlc .'jcatesse. libertou-o da çonfusão e da amb igüidade de q ue vinha sofrendo até en tão para dar-lhe um sentido mu ito nítido e espe­ cificamente Cilosónco.uízo.: Ollm out ro movimento de iJé i'ls. os de Shakespcare c ~Hlton. O pensamen to " genial" (pensamento engenhoso) é aquele q'le . ólido.

a esta r há muita h:mpo extinta na literatura dramá tica inglesa do sCcu lo XV III .r melhor do que ninguém: o livro da natureza I! o liv 1"o dos homens . em seu imedialismo.tue (1726) . ~ J.. coma o simples dom 421 !lO ..: de sua admi ração pelo Purai:so per­ (íido.õcs daNe li vre curw em nOssas almas.:nti menlo que ti SU<i dOu lrina pro­ CU f U vc~ t ir d~' Pilluvras e converter em conhcc imenll.1t O Cato de que Hutchcson vincula a sentimento do belo. Essa magia dá pucsia mio ex ige nem tokru a mcd íaç:io das id éi il ~.. e um esclarecimento dos princípios esttticos proclamados por Shaftesbua-y na seu estilo ra psódico-invocatório. da mesma COrOla que a exis­ lênd3 de cotes e de sons só ê demonstrável pela consciência efe tiva de sua presença.Ih e ~ a pal avra_ pois e:. dois livro) que de "abia dedfro. eot re "sensação" e "intuição". embora não conservassem intatas . Da meditação dus u r. extrai Young a convicção de que a criativ idade do g~ nio poétiCO é indescritível e ainda menos analisável. 80 mesmo tem po em que p. o gênio eSlá tão distan tc qUlln to o mágica do a rquiteto.!tdadeirll natureza do bdo só e aces­ sível a lima exploração das verdadeira s "obra) originliis ·-. c0­ meça m a apag<lr-SC. receptivi­ dade" e "espcnlaoeidade". dade.-!u. a deter um poder mágico a utênt ico_ t: de (Iue naufl há a a prender com im. de Young.l genialidade. me!6dica . aprescn ta·:. de Shakespea re pllrcc. evi den temente. ção de let rado_ 110 passo que dois livros estava m permllnCIlIC­ mente a bertos dia nte de seus olhos.u Essa força element ar donde: provi nh am as tra­ géd ia:. para a percepçio da bela . tal coma nos é o fereçido por Hutcheson em seu lnquiry .ü "crdadcira e profund l1 C'~ sê-.opro dI..'Iu5 pennit-:m 11 tcmpcs tadl! das pair. \. diferente dos sent idos externas.a:. A quem não o possui não existe ne nhum oulro meio de comunicar-lhe a abjeto por via indi reta ou por demonstração. Essa rden! ncia . Desse modelo de cnlcndi. Exis te um sentido especHioo. é esse )i. Com efeito. antes de tudo.gédias shakespea riana) . a fim de expressa r o imediatismo da percepção da belo. Foi & Iravés desse livro que as idéias de Shaftes­ bury rizeram sua e ntrada na culturi! geral dos let rados da época . c a :.l conC\! plu al. como puril pOlem:iali. o conjulllo da sua doull'ina. nio per­ mite alimenta r ilusões quanta ao nivelamento e à confu são de que o pensame nto de Shahesbury começa sendo objeta. pois sua ve rd:ldeiril força re pou~ a. as frontei ru s que Sha h es­ bury tj nha tâo C\.tadorc ~ e epígonos . a ouvido o sentido específico da percepção de sons.iidadosa me nle estabelecido ent re .ris silo as unic. Shukcspeare não linha recebido nen huma forma. de novo. Ele tl!llJ o se ntimenTO forte c profun do dessa Tll ugia qUI: se mantém cx.. no decorrl!t dessa transfusão . uma discussão progressiva.:rÚ ticl1 .:ulta em IOda grande obra de arle. Pois o ~ gê nio " pode ser agora defin~do. a ~ .: inlc1c-ct uais_ as critérios pul' assi m dizcr aritméticos do I:nlendimcn to. uma paciente realização. de 1l1:llle iru muit o denslI c !.t â penuadida de que a vl.! vida que ele lhe insu fl ara pa recia apagado : mas a tooria procura :. que a da percepção sensível. o seu verd adeiro sent :do e a sua penetração original. e m Hutcheson.empre conjurt: r as grande$ sombras e dar. -j. Essas obras não falam simplesmentc ao nos~o e ntendimento c uo nosso gosto : I.e da manei ra mais conv incente e m CO/ljec­ IUres 011 original comf1osition. You ng resume .irna elaaoração . contrapondo a estes úllimos suu especificidade e sua independência. da harmon ia e da regularidade a um "sen­ tido interno" . just ll mentc. cü~re\' i ll. com e S~é\ palav ra. men ta.. da mesma manei ra que a olho é o sent ido esptX:ifico da percepção das cores. E. segunda os habituais critérios puramenh. ~ neh:s que se vê rcalizadü o que a tC<. o qual não é dcfinivel ou redutível de outro modo . A expressão por ele escolhida para carac te­ rizar a natureza da belo jé é por si mesma significativa ! ele nâo vê melhor comparação..os oCerecem também o meio de conjurá-la e apazigt:ã-la .1110 lhe original 01 our ideas 01 beauty alld lIi. esse rctorno constante a Shakesp.IlTact.:are e a Milton.

rja do conhec imento no século XV] fi . deve ser procurada em certos modos do perceber e do conceber que não comporia m o ulra <!edução. Eles ensinam um oulro conhecime nto " jme~ disto" do belo. desde o começo. apenas pretendem ju stiricar e desenvolver pl enamente a tese de q ue o valo r e o e ncanto do belo consistem simplesmente na estimulação e eievação dos poderes da a lma. Pa ri) Sha ft esbury. Ent retanto. ao pondera r sobre a a tividade de contemplação mas nãu sob re a de criação. em seu EntslehuII8 der ncueren AeSlhetik f Origem da nova estética). Tod a a frui ção estética deve seu nascimento a certas reações que a visão da obra de arte produ z no espectado r. na sua concepção tanto da a rte qua nto da natureza . parece existir a mais eslreita concordância entre Shaf t ~bury e Dubos. Para o primeiro reside no pl"ocesso da criação pura. nem um conceito . para o segundo. A in tuição do belo deve a brir o caminho para a superação desse conn ito esquemático q ue domina toda a tco. portanto. na acepção de Locke. da cOnlradição de um "sen!ido 3frio ristico". A primeira visla. concedem ao gênio O direito e o poder de quebrar todas essas Tábuas da lei a fim de criarem out. no que refut am e reje ita m mas não no q ue afirmam.ra5 novas. especifi ca. uma energia pura t:­ uma fun ção o rigiilal do espírito. no sentido carte. empolgado pe lo seu movimento. entre o a priori e o (1 posteriori. denteme nte. no sen­ tido de que não se tra ta de u m simples acidente mas de que perte nce à própria substâ nc ia do espírifO e ex pri me-o segu ndo um modo perfe itamente específico. Mas a o bjeçiio q ue é aq ui levantada a plka·se a ind a mais. por definições conceptua is purame nle discursivas e pela decomposição anal(­ Hca dos conceitos. Quanto mais possante é 423 Sh a rte~ ury 422 . Mas c umpre distinguir com exlremo rigo r esse . Hutc heson mostra-se fiel aos princípios fundamentais de Shaflesbury. siano .to sentido" .. com um dilema difíci l. O q ue carac teriza o conceito de intuição estética de Sha ftesbury é. ao mesmo tem­ po em que. representa. Essa expressão é deficie nte e ambfgua uma vez que procura revcsti r C Om a linguagem do empiri smo uma in tuição o riunda da es té tica intuicionista de Shaftesbu ry. enquanto. e vj. de Dubos . por outra parte. uma vez q ue fundamen tava o belo na sensação. estabel ecidas em termos defi nitivos . orna perspectiva pura me nte dinâ­ mica. Como.de um tipo de sensibilidade e assimilado à " delicadeza do gosto" (Jeinen Geschmack). paa-se. H einrich von Sle in. ela deve coloca r O es. uma idea innala. com efeito. o fato de ele recusar toda e qual­ que r alternativa entre " razão" e "experiênci a ". m as a fonte desse imedia tismo I! inteiramente di ferente cm Shaftesb:Jry e em Dubos. por outro lado. porquanto as Réflexions critiques sur la poésie et la peinture. "'inato" e necessári o. à expressilo q ue HUlcheson de u ao seu pensame nlO do q ue ao seu próprio conteúdo. e!Danadas de sua própria auto ridade. descartava todn conseqüência em­ pirista e mantinha a validade universal dessa mesma sensação. Ambos estão de acordo apenas na parte negativa e nâo na parte posi· tiva de suas respectivas teses. ao considerar essa " vivaddade H esté tica (aesthetischc " Reg~ samkeit ") somente do ponto de vista do observador e não do ponto de vista do arti sta. que se sente a rreba tado e extasiado peta obra. subve rte todas as med idas e todos os valo res em rel ação a Shaftesbury. de certo modo. confiada ao espírito em moedll scnante : é UnJO direção essencial. de. o belo oâo é. pírito em posição de a rbitrar esse connito. dina· mismo " de outras perspectivas com as quais poder ia ocorrer a tentação de aproximá-lo. disse da do utrina de Hu tcheson que el a sofria. Ou· bos . Opõem-se a toda tentativa de apreensão da e5$ência do belo peJo simples "raisonnement ~.abstra to da exper iência. Opõem-se a toda tentativa de submissão do belo a regras precisas. em sua teoria do "sell. O belo não c um conte údo adquirido por experiência nem uma representação (Vorstellung) que seri a. I! au tônomo e o rigi nário. justamente. de um simples ponto de vista de método.

a. ca. A obra de arte ameaça então converter·se em simples espetáculo. a primeira máxima de que o esteta deve persuadir o artista. Uma doutrina tão excl usivamente orien­ tada para o espectador quanto a de Duhos corre constantemente o ris::o de só medir o conteúdo estético da obra de arte pelo efeito que ela produz sobre o Cl!ipectador. nilo a sua semelhança com os objetos exteriores. Ele não hcsi la em colocar lado a lado a im­ pressão que nos é causada à vista de uma pintura ou à audição de uma tragédia e CS3as oulras emoções que sentimos diante. em ge­ ral . a regra por exctl!ncia. Uma \'ez que Dubos pTOCura assim o movimemo pelo movimento. Ele não desenvolve.o centro do processo ar­ lís!ico e lenta revelar seu modo de ser. lal como o corpo. quando não a única. a da criação de imagens e de form as. ·uma influência tonificante e fecunda mas cujos limites não são claramente perceptiveis. é a do 50­ {rimemo e das paixões. não coloca em destaque fenômenos puramente artfsticos mas dá a essa lese uma diferente e mais vasta penetração.esse movimento. . com freqüênci. seu ritmo próprio.. cons­ tante e inteiramente presente. e pouco importa." 3Il e Assim. a certas normas objetivas. O "polético das imagens". Que e1a satisfaça a curiosidade. ção da alma é um mal tão doloroso para o homem que esse empreende às ve~ trabalhos sumamente penosos a fim de evitar que o t~dio O sufoque e atormente l. "Sejam sempre patéticos e nunca deixem os vossos espectadores nem os vossos ouvintes ficar impacientes". A exigência suprema que devemos fazer ao artista. que entretenha e instigue li sua excitação. Poesia e pintura nnda mais se propõem senão a agradar e como­ ver. como sujeito. A qualidade da obra. J Assim. embora esses objetos nos causem impressões que nos custam.r o caso. está aí sua verdadeira grandeza: "Le sublime de la poésie I!"I de la peinlure esf de foucher et de plaire. que ela despeTle a simpatia do ouvinte. a se­ gundo plano." "~ Kant objetou um diOl à ética do eude:nonismo quando di sse que ela nivelava todos 424 425 . naquilo que produz. mai$ intensamente o sentimos e melhor se atin­ ge o objetivo a que o anista se propôs. da OCiosidade. da bárbara execução de um criminoso. Em um ou oul. que podemos impor ao gênio não é a 'de submeter-se. em defini tivo. acerremos por instinlo aos objetos que podem excitar as nossas paixões. segundo Dubcs. de combates de gladiadores Ou de espelékulos de tauromaquia. digamos . suas regras e suas mc­ didas interiores. ao justi­ ficar a tese de que o espfrito tem suns necessidades. Ao retornar à força primordial da paixão. sua na­ tureza e sua maneira de ser própria passam. a dindmica que Dubos quer fundar para compreen. sem dúvidtl. quando não perdem loda a importância. uma estética intuitiva que $e insere r. para ele. o homem é movido pejo mesmo impu!so: não s6 ele suporta a visão do pior sofrimento mas chega mesmo ti procurar tal visão. A simples força do efeito produzido é um critérío estético válido. como em Shaftesbury. racterístico que Dubos. desde o infcio de sua obra. faz da intensi­ dade de excitação que a obra de arle provoca em nós quase a única medida de valor estético. em tudo o que cria. os homens sofrem ainda mais ao viver sem paixões do que por causa das paixõcs que os fazem sofre:. noites inqujetas e dias dolorosos: mas. lal é. porque essa o alivia do peso da inalividtlde . mas a de estar. der a natureza e os efeitos da obra de arte nào é. até acabar por con· fu ndi-los . comunicando e impondo aos es­ pectadores suas comoções inter iores. eis onde reside o valor dos quadros ou das pinturas poéticas. os puros pathe suscitados no homem pelas obras poéticas e plásticas. e de que o seu instinto mais potente é O de permanecer em constante movimento. por que meios é alcançado esse resultado. como Sha ftcsbury. a estética de Dubos exerceu. Pro~ uma est~lica do "pa t~ tico » que eumina e confronta os estados interiores. "O t~dio que não tarda em acompanhar a ina. o grau de excitação atingido decide do :seu valor.

um a dependência unilateral. O simples fato dess3 emoção torna-se aqui o único critério seguro que decide sobre o valor cu o r:li." ar Comparada com a de Shaftesbury. qu'il fait.o (ato de que Ines abre o mundo da forma . Shaftes­ bury exige mais do que um completo acordo entre esses termos: ele parece q uerer aprofundar esse aco!d!. ele parece estar intciramen te de acordo com Shaftesbury ao ir:sis­ tir sobre o imediatismo do gosto e ao explicar que se deve jutgar a obra de arte "pela via do sentimento" e não " pela via da dis­ cussão". en tre "belo " e o simplesmente "agrac!ável". A relação é substancial . no seu senüdo mais profundo. só é despertada nessa contemplação que não é uma simples paixão da alma e sim o seu mais puro modo de agir. a doutrina do gosto de Dubos manifesta a mesma dilerença característica . t. pelo contrário.e ele lhe propor­ CitlO8 não se interroga sobre a nalUreza e a origem ele prazer. e sua doutrina do "prazer desinteressado" _ o mais importante resultado particular com que ele enriqueceu a estética . trata-se cle determinar a essência da natureza e da arte.sulter l'jmpression. Dubos limita·se à comparação com a simples sensação. abster·no~ de aceitar uma tal de­ pendên. A esse fundamento da es:ética falta todo princípio segu ro para garantir uma distinção entre "sentimento" e mera "sensação~.guir ôo efeito que ela exerce e promove no âmbito dc um 30 objeto autônomo da reOex.se-ia redondamente a resrx=ito da fó rmu la: "All beauty is truth" [Toda beleza é verdade) quem pensasse que ela ofende a "imanência" do belo e sua autonomia.u Mas depois situa o imediatismo em outra parte e jus­ tirica-o por uma via inteiramente diferente. Para O animal 426 que v ive sob O poder da estimulação c ner. ela deve.ttO de sua meditação. e todo sentimento na exci· lação e emoção. na criação. que se atingirá a "verdade" da natureza. que cumpre distinguir cuidadosamente da sua simples sensação. Poder-se-ia fazer um3 objeção comparável cOl"!tra a estética de OU. essa distinção está no cer. em contrapartida. A intuição do belo. equivocar. não causal.t por um instanle pode escapar a esse poder absnluto. O "gosto " ca i assim para o nível da allvidade sensorial que tem o mesmo r:O!De: o nosso sentimento. o mundo das formas puras per· manece juslmnente fechado. môlS r. na estimulação que ela e~e rce sobre os homens. pcis nunca a forma poderá ser per­ cebida e compree:-. no entanto. do mesmo modo que ao que quer possuir ouro tanto faz que ele seja extraído de umt mina ou da areia lavade . da pura contemplação estética. No começo. até aUrmar sua completa identidade. A relação da "beleza" e da "verdade".dela proveio. não a ordem rio antes e depcis para suas criações respecti­ vas. nada pode atingir e nada deve lentar que ultrapasse os limites da natureza. julga a obre de <irtC como a nossu língua julga a qualidade e a excelência de um ensopado de vilela.. diz Dubos a certa altura. também recebe dessarte uma nova definição . Fora Shaftesbury. não na imitação. em absoluto. não é a totalidade das criaturas roas a força criadora donde promanam a forma e a 427 . para ele.os valores morais e finalmente os destruía: aquele que mede o vn!or moral de um Elo apenas pelo prazer qu. pois a harmonia que Shaftesbury afirma existir ectre verdade e beleza não significa. a arte está ligada muito intimamente à natureza. Segu ndo Shaftesbury.o--valor de uma obra de .arle: "Le véritablc moyell de connaitre le mérite d'un poeme Sl!ra touiours de cO'.l até o ponto de apagar todas AS di~tinções. A essência e o valor da beleza não re· sidem. Mas o íntimo acordo com a natureza que é exigido da arte não significa que ela estej a envolvida na reali· dade das coisas empíricas e que deva contentar-se em copiá-Ias.dida no seu ~ntido próprio e assimilada se não se distir. E. a sua atividade própria. da "arte" e da " na­ tureza" .õo.:ia.oos que resolve no sentimcntc todo conteúdo estético. Enquanto Shahes­ bury procura-o no princípio da intuição estética pura. dependência de uma em relação à outra.

constitui a primeira abordagem decisiva do problema. definiu o gênio como o talento (o dom natural) que dá sua regra à arte. conserva. Se o Eu se resume nessas teorias num simples " feixe de representaçôcs". ao invés dessa fonna de imitação da natureza que a estética clássica ex i­ gia. O que um promete. porquanto se limitou a des· tacar um elemento cujos traços podemos encontrar até nos pri­ mórdios da estética Hlosófica. Quando Kant. uma necessi dade . se não com a realidade efetiva das coisas. pelo menos com a sua verdade essencial. não para a simples ob-­ ordem do uni verso. quando os problemas estéticos adq uiri ram ainda maior amplitude com o surgi meto. Esse mesmo modelo não é. com essas palavras SchHler tal vcl tenha dado a mais densa e ma is tópica fórmula da concepção de Sha{. verifica-se que essa lâ. a outra certamen te o rea líza " . pode esta r certo de que elas jamais lhe ralta rão. ele empreendeu. de sua própria espontaneidade. tesbury das relaçãcs da arte e da natureza. de Burke. por certo. ele hannoniza·se. Mas foi justamente essa simples descrição que o levou a de~cobri r uma das lacunas da estética teóri ca. "A natureza está pari:! sempre ligada ao gênio. o ser que ela expri me é um ser verdadeiro. para Shar­ tesbury ele é uma totaljdade originária e uma unidade indissolú_ vel. a obra de Burke não é sistemática . para essa "narureza inte rior ao sujeito". de uma "analítica do su blime " que rapidamente ganhará con tor­ nos claros e consistentes. A philosophical inquiry into lhe origin 01 Qur ideas 01 lhe sublime attd beuuliful ( t 756) LUma investigação fil osófica sobre a ori­ gem de nossas idéias do sub lime c do belo]. se se ma mi vcr sempre fie l a si mesmo. portanto. essa disciplina não trouxe nenhum enriquecimento de con teúdo. 40 Mas não se encontra nesse comentário a meoor sugestão no sen­ ti do das novas aplicações e da importância teórica que O pro­ bl ema do sublime encontrará na estética do século XVIII. a estrutura fund amental e o sentido do COsmo . a par da "analÍl ica do belo". de Dion{sios Lcnginos. nem por isso deixa de estar em pe rfeita harmoni a com ela. tem-nas em si mesmo e. A própria dout rina clássica já o fora buscar à tradição antiga. Em primeiro lugar. q ue não é adotada da natureza. ex trai·a .a~. Sem dúvidu. o art ista com a natureza. e é dessa natu reza que ele faz a norma da beleza. um modelo p ura­ men te in terior que se lhe apresenta Como um todo origina l e indivisível. essa subjetividade significará agora algo muito diferente do que é des­ crito nos sistemas empiristas e psicológicos. por out ro lado. mes O próprio conteúdo dessa definição concordará perfeita mente com Shaft esbury e os princípios e hi­ póteses da sua "estética in tuitiva". sua orier. essa unidade onde di scernimos.ração é. Ele não apresenta uma doutrina estética pronta c acabada mas dedica-se li tralar de certos fenô menos estéticos a cuja análise procede com clareza metódica. Ora. pelo contrário. que tende a exigência de ver· dade shaftesburiana. o seu próprio caminho para a fundação transcen­ dental dessa proposição. tal e 428 429 . A criação do artista não é o simples prod uto de Sua imaginação subjeHva. O verdadei ro artista não se c!edic2 a recolher laboriosamenle na natureza os elementos de sua obra : ele imita um exemplo. co rreta e imediatamente.rivali ~ar com a verd2de. sohretudo. Em meados do sécu lo XV II [ uma nova etapa foi cumprida no sen tido de urna nova e mais profunda concepção da "subjeti­ vidade " estética. a sua validade mas. E nesse único domfnio q ue a beleza deve jetividade das coisas e dos fatos. O gênio não tem que ir em busca da natureza e da verdade. porém. BoHeau traduziu e comentou trn 1674 o tratado Sobre o sublime. na Critic:a do juizo. ande ap reendemos por intuição e simpatia o "gênio do Todo" (Genius des AlIs) . sem dúvida. pe jo contrário. um " rantasma" vazio . uma lei ve rdadeir<lmente interior. simples aparência. descrevendo-os com escrupulosa fide lidade. psicológica . ou seja. revela·as e confírma. O FIJ'incfpio de "subjetiv idade". não cOntrad iz absolutamente Suas formas es­ se nciais mas . O gê nio nâo recebe essa lei do exterior.

de um arreba tamento. Os mais prorundos movimentos d<l alma . experiência que é de uma natu­ reza espccHicamen te diferente. um novo sentido e liga-se a novas finalida des. O sublime escarnece da exigência esté­ tica da proporcionalidade. a idéia da forma subsiste como o princípio estético verdadeiramente fund amental. segundo certos cri­ t~rios. em subli nhar os limites do eudemonismo e em escapar à sua estreiteza. Tanto quanto a form a. Ele reco­ nhece e descrevt uma espécie de prazer que nada tem a ver com a simples rruição sensivcl. também o in/arme (Unjam) possui seu valor e sua legi­ timidade esl~ticos . O resultado que toda a ética sete­ centista se esforçara em vão por alcançar cru aqui como um frut o maduro por obra e graça da estética . nem com essa alegria que experimen­ tamos na con templação do belo . o desordenado (Ungeregelte). aquilo que nos submerge em vez de ser modelado e regido pcla nossa própria experiência. justamente. pelo contrário. Ele consiste nessa mesma transce ndência. Não se pode caracterizá-lo como um simples " prazer" ( pleasure). Essa concepção. a delimitaçãc fi xa e li simplicidade do contorno como as marcas do objeto belo. por­ tanto. portan to . visto que a transcendência.tos Gue constituem o valor es. do ponto de vista da arte. porquanto é a expressão de uma emoção de mu ito dikrcnte espécie. O sublime rompe as fron­ teiras da [ioitude. pre­ conceito teórico. que des­ trói o quadro conceptual da estética de então. Burke deve efetuar uma rigorosa distinção entre dois aspectos do conceito de ~praze r" estético. a um tal esforço. chegar fi exaltação e ao recrudescimento de todas as nossas forças: tais são os fatos que se o(erecem no fenômen o do sublime e sobre os q uais repousa a mais profunda estimulação estética . no sentido do classicismo es­ trito. Esse fenômeno. age at ravés dela e por meio dela. a proporção. tético e a eficáca da arte. Em nenhum momento somos mais vivamen­ te agarrados do que por esse impalpável. pelo con­ 430 trário. tanto quanto o ordenado.como vem sendo considerada desde então. tanto quanto o mensurável. essa ddinição do subli me ultrapas­ sa . O que formamos e delimitamos interior­ mente na intuição pura não age somente sobre nós. da sua discordância . se ntam c "terrível" . de um ddcite (úe/ighl) singu lar que não excl ui o temor e o tremor mas. Uma excitação mais viva manifesta-se quando estamos em presença não da exa la del im itação da forma mas. O sentimento de sublime não constitui um grau 5upt:rior desse prazer ou dessa alegria: opõe­ se tunto 11 um qt1~ nlo à Olltra. Para desenvolver a sua dou­ trina do sublime. entretanto. as experiências artísticas mais intensas não são despertados em nós pela contemplação da "beleza" como proporção serena e cOns­ trução rigorosa. porque. essas características não tardam em revelar-se insuricientes para abranger a totalidade dos elemer:. afirmarmo-nos na sua presença. Não sucumbir dianre do terrível . inclusive da sua dissolução completa. essa ruptura não é vivenciada pelo Eu como uma destruição mas como uma espécie de exaltação e de libertação. a supe­ ração da simples proporcionalidade. mesmo se no hino à natureza de The maralisls proclama sua profunda seno sibilidade a todos os encantos do sublime. para estc último. também recebe. Falta a essa definição englobar toda uma classe de' fenômenos cuja realidade impõe-se a cada passo 8 toda observação independente que não ofusque nenhurr. E a ~subie t ividade" . em nenhum momento sentimos a força da natureza e da arte do que qUilndo nos apre. Embora se tenha o costume de considerar a ordem. A impor­ tância da doutrina do sublime para a história das idéias está. também existe aquilo que escapa. Pois O sentimento de inrinito que o Eu descobre em si mesmo fornece-Ihe uma nova experiência de sua própria infinidade. 431 . constitui o seu verdadeiro caráter. no âmbito da estét ica. o incomensurável (Masslose). recebeu de Burke Q designação de sublime. não só os limites da eSlética cl ássica mas também o pensamento de Shaftesbury .

Não existe nenhuma outra expe riência estética que proporcione ao homem na mesma escula que o sentimen to do su blime a coragem de ser ele mesmo. uma fon le de praur estético puro que se mantém rigorosamente distin to de uma simples exigência de fe licidade. Assim é transposto um obstáculo que. Ela distingue. o sublime isola. da "verdade da natureza " p ro~ura Jn. nenhum conceito ou teorema do qual não se possa encontrar o análogo ou O pnr3lelo nas li teratu ras francesa e inglesa. O belo une. de sua natureza profunda. segundo ele. sur­ gira uma verdade social. a "essência" da "aparência" .se em sua independência e em sua esponlsncidade contra o uni ve r­ so. os exige e envolve. sobre os quais se apóia . berdade interior do homem em relação aos objetos da natureza e da pottncia do destino: o sentimento do subli me libert a além disso o individuo desses milhllrcs de vínculos que fazem dele um membro da comunidade e da ordem soc ia l bu rguesa. Entendimento e imaginação. portanto. certas convenções sociais. ~m vez :ias leis universais da razão. por assim dizer.l coisa. E.pelo con trário. no segundo o sentimento do belo. tét ica clássiça e que consistiu em crer que as regras apenas ex­ primiam a pura e simples "verdade" du obra de arte e não lhe impunh<l m outros vínculos senão aquelc~ ati nentes à própri.bito. todas as in­ fl uências franco-inglesas que se exercem na Alemanha a( adqui­ rem logo um novo sentido e outra fin alidade : vê-se pela primeira 433 . o sentimento do sublime." ti E há ainda uma outra exaltação e uma outra libertação que se realizam graças à problemática do sublime. F. produziu-se nesse domínio uma inin­ terrupta troca de idéias_ Os fios correm por aqui e por ali e entrelaçam-se tão bem que é quase impossível isolá-los da tes­ situra acabada c remontar à sua origem. manifestara-se ao longo do desenvolvimento da es. a coragem de sua pr6pria "originalidade ". por essa razão que não existe nenhum tema intelectual. relativa e contingente. tanto físico quanto social . Burke insiste exp ressamente em que existem no homem dois instintos básicos: um que o inci ta a realizar sua própria nutureza individual e O outro que o tOl"lla propenso a viver em comunidade . à natureza dos diversos gêneros artísticos. no en tanto. Na experiência do belo também caem essas barreiras: o Eu possui seus próprios alicerces . como vimos. O prob 'ema do gênio e o do su blime agem aqui na mesma direção: vão' tornar-se os temas intelectuais do desenvolvimento e da progressiva etabora­ ção de uma nova e mais profunda concepção da individualidade. Como é o caso geral no século XVIII. mais ~s tri tam. do instinto de fruição e da sat isfação de necessidades limitadas: "A 50rt 01 delight luU 01 horror. A práxis da 432 estética clássica jamais realizara plenarnenle. Um civiliza. O seu ideal teórico: em vez.\ teoria do su­ bUme reconhece esse perigo. é verdadt.·: . a naturem do hf. por ccrto. logo surge uma diferença característica nas tendências profundas e no am­ biente intelectual. moJ~lando as fonnas convenientes das trocas e das relações soc iais e servindo para O refinamento dos costumes: o outro mergulha até as profundezas do Eu e coloca-as pela primeira vez à sua plena disposição. nenhum princípio ou teo­ rema especial sobre os quais as~ cntar ia uma atitude original da estética alemã.:n le do que aDtes. a 50rt 01 trul1quil/ity tinged \Vj/h terror. e deve afirm ar. a substância do Eu e suas ve rdadeiras profundidades dos s<'1-Is ele­ mentos meramente rel ativos e acidcntai s. Não há. Existe. Goltsched e os sDiços Qu ando se compara o desenvolvimento da est4tica alemã do século XVIII com o das estéticas francesa e inglesa . traçar uma fronteira precisa entre as diversas culturas nacionai s. Já niio se trata ape nas da li. se considerarmos sim­ plesmente o con teúdo dos problemas particulares assim como a análise e a definição dos conceitos fundamentais. No primeiro reside. E impossível.

quem menosprezou e repeliu a coação de lodo sistema rilosófico. é espontânea e eclética. sob a dirtção e a tgide do. não se move numa seqüência de observações sumárias (aperçu s). Vt:Z. eles declaram que o maior serviço prestado li causa da fund ação de uma filosofia da arte foi ter " desferido um golpe mortol na sensação" pelo sistema da harmonia preestabelecida: "Ele despOjou-a de sua jurisdição por tanto tempo usu rpada. conforme d e mesmo declarJ em seus diólogos sobre a arte dramática. travou-se uma batalha generalizada contra o "espírito de sistema . Niio combatia contra a lógica mas em estreita união com ela. Nem a França nem a Inglaterra conneceram nunca. depois elaborado e ensinado em toda a sua rigidez pela escola de Christian W ollf. é nada menos do que sistemática. reduzindo-a a ser apenas uma causa ministrans e occasionafis do julgamento da alma . No desenvolvimento ulterior.um tão estrito rigor. vê-se claramente que eles não têm a menor intenção de desfazer o vínculo que une lógica e estética. Não é logicamente construtiva. considerou-o Lessing o primeiro espírito filosófico desde Aristóteles a debruçar-se sobre o teatro. de KanL 435 434 . E. em face do entendimen­ to. tamanha "disciplina" teórica em es­ tética.ulgamenlo adquire nos suíços. estabelecer fronteiras claras e precisas de modo a inferir dessas distinções e delimitações o traçado de um quadro de conjunto do espíri to em sua unidade interior. pelo contrário . coloca-se ex. sem dúvida." H Na Alemanha. é dedicada a Wolff e. Von dem Einjfusse und dem Gebrauche der EinbildunBskraft." ~:. Procura-se espedficat constantemente as faculdades estéticas em face das outras facu ldades.pressame nte sob sua égide: foi a sua " maneira de­ monstrativa de nlosofar" que permitiu. em sua diversidade e em seus níveis de ser. da vontade. porém. voh aram-se contTa Gottsehcd . desenvolvimento que e ncontrou seu ápice e sua con· clusão na Critica do juIzo. da razão. A obra de Bodmcr. defensores da ima­ ginação no conflito en tre "razão" e " imaginação". não queria libertar a imagin ação da supremacia da lógica e exigia e procurava uma " lógica da imaginação " específica. com a in­ fluência das obras de Bouhours e de Dubos. Quando os suíços. eles não pretendiam com isso renunciar ao rigor lógico de Wolff. não está permanentemen te ocupada em deduzir e concluir.os problemas estéticos. é incessantemente ven­ tilada é a das relações entre a arte e os outros domínios da vida espiritual. H o verdadeiro fundador e instiglldor do seu futuro desenvolvi­ mento. Depois do Tratado dos sistemas de Con­ dillac. enl re a fil osofi a e a critica estético-Iiterária. não obstante. Ocupam uma posição média num desenvolvimento que conduz a lima síntese e a uma sólida associação entre lógica e estét ica. declara Bodmer. Com efeito. A questão que. o espírito estrita­ mente racional da Hlosofia cartesiana tinha sido progressivamente rechaçado. mas é a própria filosofia que rejeita agora. mesmo ao travar a batalha por direitos e independência da imaginação. E também na Inglaterra foi justamente o pensador mais profundo e o mais fért il no domínio da estética. Shaftesbury linha la nçado esta mordaz sentença: "O caminho mais razoável para endoidecer é passar por um siste­ ma. Esse espírito de sistema é o que fo i implantado por Leibniz na filosofia alemã. em seu conjunto. a estética nunca se er­ gueu contra o domínio da lógica. os suíços retornam enlão a Leibniz e t ainda à obra do Leibniz 16gico que eles se referem em primeiro lugar. de maneira expressa. Ne· nhum dos grandes mestres da estttica alemã decidi u ate r-se à observação e descrição nem encerrar-se no círculo dos fenômenos estéticos. De Wolff. Na França. a forma sistemática. Pela posição central que o problema do . de certo modo. por aS!lm dizer. a filo sofia do drama segundo Diderot. uma estreita ligação sub­ sistiu. Jilosofia sistemática. colocarem-se. portanto. desde o começo do século XVIII . zur Ausbesserung des Geschmackes [ Da influência e do uso da imaginação no aper­ feiçoamento do gos to].'3 Fal ando de Diderot. esta­ belecer finalmente as artes sobre fundações seguras.

com efeito. do classicismo fran­ cês. Os fenômenos não devem ser deduzidos de ce rtos princíp ios aceitos e fi xados de antemão . O próprio conflito agitou apaixonadamente os espfritos na Alemanha do século XVIII e temos um teste· munho da profundo. Gottschcd seria o part idário fer­ voroso. àquel. Ao idcal de uma 16gica puramente ded utiva. marca que deixou no conjunto da vid a es· piritu al alemã.escrevem Myli us e Cramer no prefáci o dos Halfischen Bcmühungen zur lJejOrderung der Kritik ul1d des guten Gcschtnack s [ Ensaios de Halle para a promoção da crÍlica e do bom gosto] que os escritos suíços sobre a poesia teriam podido ser arrumados num urmário ao lado da arte poética de Gottsched sem que se desencadeasse uma batalha. Entretanto. "Parece·nos" . A verdadeira diferença en tre Gottsched e os suíços niio poderia ser caraçterizada desde o exterior mas só de dentro. é evidente que fica ain­ da mais difícil definir O verdadeiro tema do confl ito que opôs Goltsched aos suíços. Por bizarro que isso possa parecer no começo. não se pode deixa r de considerar. para faur historica­ mente toda a luz sobre o antagonismo entre Gottsched e os suí· ços. como escreve Swiít a respeito dos livros dos antigos.no da poesia alemã. quanto Homero quan­ do quis descrever a briga de Aquiles e Agamenon. quer extraí·los da consideração dos fcn6menos e af fundam entar suo validade. E essa diferença s6 é plenamente esclarecida se lançarmos um olhar para além do círcu lo dos problemas puramente literálios e puramente estéticos. por um lado. a desen· volver-se 110 século XVJIl na física e graças a esta. opusera·se o ideal da análise em­ pírica. parcial até o exclusivismo passiontl l. Esta não renuncia . A correlação entre "fenômeno" e ~princíp lo" é assim mantida mas o. No prefácio de Critischen Díchlkunst [ Arte poética crflica}. Bodmcr recorre explicitamente a Oubos pa ra mostrar que "os melhores escritos não nasceram das regras mas que. infetindo este daquele . se nos apercebermos de que o conflito que se reflete aqu i constitui apenas um momento partk ular. de Goethe. pelo contrário . as tcorias sufças estâo repletas de sugestões provementes da estética ftun cesa. O poeta que algum dia cantará esta guerra terá necessi dade de tanta inspiração.::s que nos interrogam sobre as verdadeiras causas dessa dissensão crí­ tica. graças à Poesia e )."·' Não pa­ rece que as análi ses de história literária e fil osófica que vimos surgir depois tenham sido motivadas pela dita "' inspiração" . os próprios contemporâneos tinham dificu l· dade em separar o vtrdadeiro cerne do problema do estardalhaço das polêmicas. estabelecidas de uma vez por todas. Da( seus acertos e seus equívocos hi st6ricos . a forma de suas crônicas semanais . por ~ulro lado. Só se pode com· . as regras é que são extraídas dos escritos". ex· plícitamentc. Não esta· mOS em condições de responder.'erdade.reender no Omb it o da situação intelectual de conjunto do sé­ culo XV III a tese que Gottsched e os suíços devem fazer triun· far no interior da poética . de sua poderosa influência sobre o desenvolvi · menta inter. Uma nova forma de lógica tinha começado. não pelo tipo de influência a que eles são submetidos mas pela maneira di versa como elaboraram suas respectivas problemáticas. porquan to as opin iões uinda se opõem diamctralmeJl te no tocante aos verdüdeiros motivos do conflito e às forças que nele inter­ vieram. Hettner declara que a q uestão decisiva que está em de· bate sob o véu das querelas pessoais é facilme nte apontada : tra· tar·se·ia do " pri meiro choque realmente sério na guerra entre as influências fran cesa e inglesa". uma ação local num mu ndo intelectual muito mais vasto. nâo só o estado do problema da lógica mas também da física. ênfase foi deslocada. progred indo do geral para o par­ ticular. tendo tomado deste último .e . Mas os papéis não se repartem assim tão fa cilmente porque. sem nenhuma dúvida . 437 436 . aos axiomas e pri ncípios un iversais mas.Se se considera todo esse conjunto. em vez de afinllá-Ios como inabaláveis proposições a priori. de Breüinger. quanto ao fundo . de maneira nenhuma. Gouscbed não rechaçou as innuências da literatura inglesa ­ U cle cita Shaftesbury e Addison.

também adguire desse modo. Descartes tinha colocado o plano de sua física. o even­ to poético segue-se. portanto. de " imagens" poéticas (poe. muito caracterfg. estão envolvidas nas regras fundamentais da mathesis universafis que o espírito apreende de si mesmo e per· cebe na sua necessidade. em estética. Nos suíços. antes. A emoção imaginativa deve. Brei tinger proclamará. "Assim como um médico hábil sabe açUCarar ou dourar as pílulas amargas. em seguida. u D':~m_me uma ma. essa deve ser realizada por um outro cuminho." Como físico e filó sofo da natureza.os suíços. porquanto O plano do universo está claramen te exposto nas leis universais do movimento.consiste em impressionar e comover. pelo con.~ n O conceito de "maravilhoso". téria qualquer. escolha·sc um juízo moral instrutivo correspondente às intenções que uma pessoa propõe·se a realizar. concordam com Dubos . A ligação surpreendente que se manifesta aí entre dois domínios tão distanciados um do outro corrobora uma vez muis essa unidade de eslrutura intelectual que earacte. a ver. nesse ponto. pela primeira vez. Ela foi inventada para assegurar a certas "verdades 5ecas demais e amargas dema is" um acesso ao coração humano.são os princfpios que devem ser extraídos e ser sempre demons­ trados por seu intermédioY Na explicação da natureza. por conseguinte. vem. portanto. Ele não tem a menor nocessidade de ir buscar essas leis à experiência: elas são de espécie matemática e. graças ao invólucro artístico de uma múscara sorridente. fazê. que 8 fábula de Esopo é o gênero poético mais perfeito. imagine·se um evento muito gerol em que sobrevém um. . ela constitu i apenas a preparação de outra coisa. dade teórico ou moral . o invólucro que reveste essa outra coisa. sob a divisa: "Dêem·me a lTIéttéria e cons truirei um mu ndo.a evidente que não renunciaram à intenção didútica. ceptível graças a um exemplo oonCl"eto. o seu rim único e supremo. um tema determinado. trário. tieo da poética dos suíços . é a relação inversa que prevalece: eles representam a doutrina do "primado do evento sobre o julgamento " . assim devem proceder também todos aqueles que querem usar da verdade como de um medicamento para alcançar a felicid ade humana. A tarefa da poesia . é na passagem de Descartes a Newton que se man ilesta com maior clareza essa mudança de espírito metódico. e eu lhes mostrarei como se forma a partir daí. torná-Ia per. o "patético" não é. U E mais ou menos nesses termos que se pode transcrever o conteúdo e as intenções prorundas de sua Crilischen Dichtkunst. de tal modo que ele não possa recusar sua concordãncia. um sentido bem definido. O valor do maravilhoso 438 439 . discípulo de Descartes e de \VaiH. tischen "Gleichnisse") . não pelo caminho do entendimento mas pelo da imaginação. O próprio Breilinger compôs um Kri/ische Abhandluns von der Na/ur." O "juízo".Ia penet rar no espírito do ouvinte. porém. segundo as regras universais da poét ica. a imagem não tem sentido nem valor autônomo. den Absichten und dem Gebrauc11e der Gfeich~ nisse [Tratado crítico da natureza. o seu aparecimento mais nftido e mais cerlO está na oposição entre Gottsched e os su(ços . porquanto cumpre com perfeição essa dupla tarefa. em primeiro lugar. ele pode e deve tentar uma tal construção. t: por isso que a imagem adquire agora uma importância decisiva e converte·se no verdadeiro centro da poética. "Em primeiro Jugar." Em sua Critischen Dich/kunst. insis tindo até incan· saveh\lc nt~ nessa intenção. contudo. das intenções e do uso das imagens] ". uma vez mais.t ação na qual li máxima escolh ida tem o seu sentido claramente pronunciado. uma poesia perfcitu. para ilustrá-I a. tal como foi traçado no T ratado do mundo. Aquilo q ue o simples conceito c a doutrina abstrata não permi tem deve ser adquirido pe la escolha correta de metMoras . simplesmente. acredi ta poder int roduzir a mesma exip:ência na área da poesia e submetê·la ao domínio da "razão". Mas. abrir o caminho à intuição racional.a a fim de explicar esse uso por exemplos extraídos de textos dos mai s célebres autores antigos e modernos. riza o sécu lo XV I tJ . Gottsched.

onduzi·la em seguida. A ciência da natu reza do século X VIlI une ex periência e geometria. POr tudo o que ela comporta de novo e de surpreendente. entretanto. Dante e Milton rcpresentam para eles verdadeiras experiências poéticas.uma finalid ade moral. Procuram. que não eorrespondc a uma incompatibi· lidade absoluta. pelo rigor das provas. extraindo do particular o geral. A invenção mais mauw i­ Ihosa pode não estar ligada a nenhuma realidade dada e sujeilar· se unicamente às leis do "possíve l ~. a arte do cTÍlico deve "ex traí·lo do tex to" e convertê-lo numa sólida e segura possessão. nos dados da arte ~tica. relaciomtndo-as constan temente cn· Irc si. As obras de Baumga rten rea· IIzam no mais alto gr::m a arte da definiçiio e da análise tOn­ ceptual rigorosa. o qce a na tureza operou pelo gênio poético. Mas essa direção não significa uma submissão Hbsoluta. aos conceitos e 80S" principias especulativos". No prefácio de Critischcl1 Dichtktmst. ele é aquele que domina com a maior segu rança a técnica lógica ensinada peta mestre que deu assim à fil osofia alemã a sua espinha dorsal e a fi rmeza de seu conteúdo. para ser ve rdadeiramente poéticlt. Para o crítico. tem o :ostume de mcncioná·lo como um "excelente analista " (vortrefflichen AnaJysfen). Os sufços. mas nem por isso estará menos ligada. em relação 8 Gottsched .não decorre de que nasce do livre jogo da imagin nção nem dc que tronsgride todas as leis da razão. As regras que aí se en· conlram implicitamente contidas. Entre todos os discípu los de Wolff. pelo contrário. da observação atenta do que é verdadei ramente cons­ tan te na im pressão estética. do mesmo modo que pa rle da experiência e da observação sensível para procurar por outra parte. apóia·se no fato de que eles são capazes dessa intuição num grau incom paravelmentc mai s elevado e num sentido muito mais profundo. Ele deve subscrever a experiência que se Ih. entretanto. em vez de lhas impor. do fenômeno concreto . Partem da intuição poética para fe(. Caracteriza des­ se modo conciso e pertinente um traço essencial de sua índole espi ritual e de sua obra cientírica. a necessidade matemática: os suíços ex igem do ver· dadeiro crítico de arte que ele satisfaça essa dupl a obrigação. pelo cuidado e minúcia de suas definições. o crí· tico procura nas obras de imaginação uma verdade necessária. da imagem concreta. dcram uma vez mais suas provas. a quem con· fere um lugar particularmente elevado entre os pensadores ale· miics do seu Icmpo . Fnndaçíio da estética sistemática - BaumgaJ1eu Quando Kant {ala de Alexander Baurngau en. de Breitinger. essas experiênci as represen· tam apenas um começo e não um fim. A principal supe­ rioridade deles. quer produzir um movimento de alma que conduzirá até o fim pretendido pelo poeta .Ilten· ç&:s. compete·lhe transportá·l as para a claridade da consciência . bem entendido. Pela precisão de suas formulações . que elu na~e ra m . Um mesmo collflito de tell d~ll'Cias. do que exera: UJDa inDuência deter· minada sobre o espírito.e apresenta sob li forma das grandes obras de arte e deixar-se. Bod mer declara que as regras Dão siio 440 o fru to do arbilrário ou do cego acaso. às suas . no domínio do próprio observável. Começa pela intu iç5~ e perma· nece·lhe fi cl. surge igualmente no debate em torno das rela­ ções entre o " gênio " e as "regras ". guiar por ela. ultrapassando todo o arbitrário. Assim como o físico descobre o rigor rnatemá tko no seio do sensível. 441 . mas descobre nela as formas específiCAS de deter· minação e a "certeza demonstrativa" de que ela é suscetível. descobrir essas normas nos fenôme· nos. Homero. Bodmer e Breitinger não têm a menor in tenção de liberta r o gênio da se­ vera disciplina das regras: eles também querem estabelecer nor· mas. já para n50 fa lar de GOllsched. estão bem distantes da concepção do gênio que conhecemos na "estética intuitiva " de Shahesbury . a regra escondida. ~ assim que a força e a origi n::t· lidadc dessa " análise empfrica " .

com uma contrariedade pessoal a muito custo dissimulada. Fo i pelo con sc iência que adq uiriu desses limites q ue Ba umgarten desem penhou seu papel ori ginal e deu à esté tica seus funda mentos filosóficos. Em seu comentário crítico da obra de Baumgarlen . constituindo-se como gnoseologia inferior? São considerações desse gênero que impediram O reco­ nhccimento fácil da estética de Baumgarten e que retardaram por muito tempo a sua inn uência. do indistinto. mente hlbrido. O gênero. que se opõe ao conhecimento e que este tentaria e m vão penetrar? A estttica poderia afirmar seu status e sua dignidade de ciência ligando-se a essa esfera inferior. e essa mestria não o leva a superestimar o valor mas a defini r claramente e a distinguir com segu ra nça seus meios c seus fin s. um novo começo. Parece . rigurar na ápice e é Q único que pode constituir-se em conceito supremo da definição procurada para 11 estética. t justamente desde que domina a sua tarefa de lógico que ele descobre a sua nova tarefa e q ue. traz para a luz a detenninação dessas prem issas . l! essa síntese eonceptual que dá sua rorça c sua impor tân­ cia à defini ção da estética como ciência. Essa elaboração superior da análise fomece·lhe uma nova fecundidade. Com efeito. verdadeiramente filosóf ica. segundo Baumgar ten.. no interior desse gênero. Tudo isso fa z parte dessa espécie 442 dc empirismc ~ " . Bodmer registra a definição de Ba umgarten com espanto e mau humor. Uma ciência re­ cebe o seu conteúdo e o seu sentido filosórico quando com­ preende o que representa na totalidade do saber. 8aumgarten encontra essa diferença quando determina a estética como a teoria da seno sibi lidade.a decisiva . A estética n1l0 serja uma ciência nem poderia chegar a ser uma se se Hmitasse a fornecer um conjunto de regras técn iCllS para a produção da obra de arte o u um conjunto de o bservações psico­ lógicas sobre os seus efeitos. cscre YC elc: " Parece que rer di sseminar-se a opinião de que o gosto é um julgamento inferior pelo qual só 443 . O dom[nio. do "conhecimento sens{vel". O próprio Kant referi u-se conStantemclllC a essa obra e nela baseou suas lições de metafísica. nesse caso. o conceito específico do saber corresponde ao conceito de conhecimento que deve. ~ opõe diamctra1mente à intuição autêntkll. para julgar ti questão apenas do ponto de vista da escola e segundo os seus critérios tradicionais. o verdadeiro mérito de llnumgarteo. como de si. dos limites internos e nec~s­ sérios dessa lógica. que retira eom uma das mãos à estética o que lhe dá com a outra. por­ 1a nto. e que (orma com ela o mais pc rfcilú contraste metodológico que se possa imaginar. que dominou com brilho em todas as suas partes e que levou ao seu ma is alto grau de perfeição fo rmal . o sensível não é justamente ­ de acordo com a terminologia que é também a de Baurngarten . Ele é e continua sen­ do um mestre da análise. BauOlgarten não se restringe a ser um " artista da razão ": nele sc real iza de novo esse ideal da filo­ sofi a que Kant caracterizou como o ideal do "autoconhecimento da razão" (Selbsterkeltlllnjs der Vernun/l). li diferença específica a precisar. o seu pape l intelectual próprio foi o de ter tomado uma forte consciência dessa mesma perfeição. ao mesmo tempo. Ela . ao conduzi-Ia até um ponto onde surgc. Entretanto. portanto. dedicar-se a uma tarefa específica e cumprir essa ta refa de maneira caracteristica.a Metafísica de Baumgarten continuará )~en do por muito tempo um modelo admi rado. onde se revela uma Ilo va síntese intelectua l. está em outro ponto. assim q ue a esté tica dcsenvolve-se a partir da lógica e que esse mesmo desenvolvimento revela simultaneamente os limites imanentes da lógica escolástica tradicional. ao abordá-Ia e m fun çüo de suas premissas intelec­ tuais. que ele teria criado um ser logica. Ele não é somente o mestre da lógica escolástica.deve situar-se no gênero uni versal do saber e deve. t.o domínio do confuso. sua importância histórit:. o lugar e a p0­ sição q ue lhe competem nesse conjunto. Mas o que é mais importante do que esse genus proximum que some nte deve fornecer o quadro para a definição é o preenchimento desse quad ro.

C08"iliolle et ideis. na terminologia que ele não criou mas foi buscar em grande pan e à Escola. não cons. ao desvencilhar-se dos grilhões da 16gica e da metafísica tradicio­ nais. o que ele procu ra e exige é. que deve ser pe netrado e dominado por uma forma específica do sa ber. Essa perfei.conhtcemos o obscuro e o confusc. ele realiza as condições hist6ricas e racionais indispensáveis à estética para conquistar um " luga r ao sol . transpOs. pelo con­ trário. O con tra-senso lógico de um conhecimento confuso e obscuro está muito longe do pensamento do "excelente analista" que é Baumgarten. untes. subsiste CO nlO um valor próprio c irredutfveJ. o puro " fenomenologisla " . " Pela aurora da Beleza peneiraste na lerra do Conhecimento " : . e à estética. assegurá-lo. at ribuindo a cada uma um sentido e um fim particular . maleo­ btlidade etc.mas não parece que a autOTa da beleza deve empalidecer do resplendor do pleno dia? Em face da estrita e pura verdade que. Deve alentar para a cor do ouro. em vez de nos Iigll r à simples aparêncill das coisas. o melafisico. Ele estabelece para a sensibilidade um novo critério que não deve privá-Ia do seu va lor mas.. tituirá grande méri to possuir um gosto a que falta a tal ponto um senrimento de certeza e quase não vale a pena esforçar-se por tê·lo. essa barreira . como perfectio phaenomellon. ção fenomena l não coincide. um privilégio pu ramente imanente.1 1 A doutrina de Leibniz dos graus do conhecimento. não o modo de intuição e o tipo de investigação. Nesse pensamento. um conhecimento de o obscuro. de maneira nenhuma . uma ordem de valores dos conhecimentos. mas afirma-se conjuntamente. o domln io objet ivo . Baurngarten. é obs­ cu ro de nome e de natureza. uma novo e sumamente penetrante maneira de compreendê·la? Tal é o qucstão com q ue Baumgarten encabeça a sua estét ica para responder-lhe sem reservas pela arirmativa. dissipa·se a beleza que s6 existe e vive IICl aparência. exposhl em Meclitalion('s ele verilale. porq uanto deve ser entendida como. justamente. de o con fuso. nos colocll na posse de sua natureza profunda. é o sens fvel que deve ser elevado ao status do saber. Para dil'igirmo-nos é apenas necessário que faça mos uma distinção se· gura entre os objetos que encontramos e que conformemos a nossa conduta a essas distinções. é claro. conhecimento do sen­ sível . scrá atribufdo o último lugar. Lc ibn iz opõe representação "clara" e te­ presc ntaçüo " distinta" . que permite em pri­ meiro lugar dirigirmo-nos no nosso meio ambiente sensível. mas esse c0­ meço parece não ser mais do que uma preliminar. O predicado designa o tema. Ela é começo. "C lata~ é a representação que basta às neces­ ~id a des da vida cotid iana e convém-lhes. E ao quebrar. Confere-lhe um a nova perfeição mas essa é condicional . e na expressão de seu pensamento. A ciência não deve ser rebaixada para O domínio da se nsibilidade. com aquela realização pa ro que tendem a lógica e a matemát ica no elaboração de suas idéias Nclaras e distint as". de acordo com a sua matéria simples. expor as intenções pro­ fundas de Baumgarten. Não foi cerla­ mente sem difi culdades q uc Baumgarlen estnbeleceu essa coor­ denação. sucumbe incessantemente à tentação dii :iubordinação e da simpil:s 5ubsun­ 444 ç1l:0. em sua posição e com seus d ireitos pr6prios.para constituir­ se como disci pl ina fil osófica. Mas não basta rdembrar a letra da doutri no panl. uma certa maneiro de conceber a matéria. basta possuir certos sinais sensfveis graças aos quais poderá distinguir o ouro " verdad eiro" do ouro falso ou ra lsi íicado. sua dureza. 'E preciso que ele estabeleço aí uma certa escala ." 10 Mas nesse julgamento. a intenção profunda de Baum­ garten está provavelmente entendida às avessas. Para aquele que só vê no ouro um objeto de uso. Com o pretex to de que o sensível.. nunca abandonou com­ pletamente essa perspectiva fundamen tal mas o analista. constitui o ponto de partida e O qUlldro das investigações de Baumgarten. deverá a forma pela qual o conhe­ ce mos e à qual nos adaptamos pennanecer igu almente obscura e confusa? Ou não se apresenta nessa forma. pela observação precisa dessas determ inações pu 445 .

na verdade.. segundo Baumgarten. essa passagem às causas. fica des­ truído por essa redução ao seu conceito fís ico-matemátieo: tudo é reduzi do de uma assentada a zero. "Conheci­ mento a priori" e "conhecimento pela causa" sign ificam para Leibniz a mesma coisa: ti definição "causa]" é a única expressão satisfat6ria de toda verdadeira "definição real" . conservar sua especificidade e seu caráter próprio? A nova ciência da estética esforça-se por essa manutenção. nos elementos singulares que o determinam e o fundamentam . porém. Ela tem por finalidade reduzir a multi plici dade das pro­ priedades à unidade da essência: e só pode descobrir essa essên­ cia reconduzindo-nos à razão última donde essa pl uralidA de c essa multiplicidade provêm. A ciência não quer colecionar simples [atos. II uma nova visão den tí(i~u. em vez de ser simplesmente rejei tada. Mas essa verdade não é. Aquele que queria comunicar-nos a imprcssilo que recebe de uma pai· sagem decompondo o espetáculo em seus elementOS essenciais c procurando para cada um desses elememos um conceito distinlo. Quando. Pois o verdadeiro saber. acompanhá-lo até a sua orige m e reconstruí·lo Il partir dai . longe de explicar o conteúdo estético do fenômeno. portanto. a verdode au­ têntica e perfeita que o conhecimento cientffico esforça·se por alcançar c que se impõe por si mesmo.:ursos científicos da geologiu. Não s6 toda memóri a d<l experi ênci a sensorial da cor mas também toda memória de sua fu nção estét ica de~ap l!recem desse conceito. de totalmente indiferente? Ou não possuirá também um valor próprio. o objetivo pr6prio do concepçâo adequa­ da" não te rá sido ainda a tingido . rl Cs~a visfio. tan to mais vigorosamen te porq uunlO csse ideal linha dado. Adere à eXlgencia leibnizia na de: um "aHabeto do pensamcnro". não s6 suprimi mos a im pressão sen sível mas privamo-la também de sua signirica­ ç. a par do princípio de iden tidade e de contradição. para Leibniz.ramente empfricas vai encolllrar finalm ente cnlerlOS sufícientcs para impedi-lo de confundir entre o ouro legítimo e a imitação de ourO. Com efei to. o saber supremo. Baumga rtcn reconheceu esse ideal em toda (I wa omp1ihlde e jamais contestou sua significação no interior do domínio do N lO conhecimento científico. tom­ pouco se contenta em distinguir os objetos por seus "sinais". Tudo que a cor representa como meio de expressão da arte. lodo o papel que ela desempenh a na pintura . expli camos o fen ômeno da cor reduzi ndo-a a um certo tipo de movimento . um domínio em que a redução do fenô­ meno à sua "causa " enfrenta um obstáculo. Mergu lha no fenômeno sensível e nbandona-se-lhe sem fazer a menor tentativa para chegar por si mesma a algo de uma na tureza mui to diversa. às "causas" do fenômeno. não ~llbsislidu o menor vc. por suas marcas sensíveis e em classificá-los segundo essas dis­ tinções. a paisagem nO idioma e com os re(. segundo suas formas fenomenais. O "princípio de razão " torna-se. do que a re· solução de todo fen ômeno complexo em seus elementos sim­ ples. aplicando­ lhe o método das ciências exatas. algo de insignificante. Essa beleza s6 ~ orerece à 447 446 . graças ao trabalho de pioneiro realizado pertinazmen te por Wolrf e sua escol a. um grande passo adiante no sentido de sua com:retização. mas. A nosso concepção só está verdadeiramente em harmonia com o seu objeto quando logra não apenas reproduzir esse objeto ma s fazê·lo aparecer sob 05 nossos olhos. Será essa fu nção. a norma verdadcira de toda ciência rigorosa: compreender as coi­ sas nâo quer dizer pen:ebê·las ti posteriori. desvrcvendo. chegar ia. não é O do simples "guê" mas o saber do " porquê". mas aprendê-las a priori por suns causas . não faz mais do que aniquilá-lo. se se qui ser. Enquanto essa resolução nLo se consumar. portanlo. Existe ."io estética. ou seja. O cami nho do "conhecimento dislinto nada mais seria. nesse meio tempo. en~ quanto encontrarmos ainda num desses momentos uma mullipli­ cidade não analisada. sem dllvidu. ponanto. não pretenderá.tígio da " beleza " da pa isagem .

l. Da hab' iel! sie! Da lIab' ieh sie! U7ld Il un belrachl' ich sie genau Und seh ' e. raslef nic! Doeh slilt. prender-nos a ela para que não se volatilize .. da qual seria . As impressõcs fenomenai s não constituem. num poemo do Leipziger Liederbuch s. eis o conteúdo essencial da sua p rópria doutrim. ora azul . Oh ...intuição indivisa . princípio de razão" . deu a essa idéia uma forma poética: {Voltcia em toruu . Mas a arte não alcança uma tal transcendência. Tal quaJ o cam aleão: O ra vermelho . não é . a es­ sência metarrsica. W ie der Chamaeleon: 8ald rot. que de bem perto Percebo agora as tuas cores ! Ela adeja e plana.sclnde Libelle. O dass ich in der Niihe Doch jhre Farben sahe! 5ie sehw. fonte A çambian!c Iibélu\:. não remontar nté ~s suas caU Sas mas apreendê-Ios como dados imediatos e produzir. sie selzl sic1l an der Weiden. princípio e condição de todo conhecimento "distinto". ao reino dos "números". E não temos que temer. tu. 8ald blau. ei-!. 8ald du nkef uru.. pintor ou poeta é dodo salvar essa totalidade. na contemplaçâo e fruição dessa imagem. incapaz.de maneira 449 Es IlaUert um die Quelle Die wec/. evidentemente. bafd blau. E somente ao artista. A realidade intuitiva. O ra escura. demorar-nos neJa . numa vi são poética que a expri­ me imediata e concretamente. teó­ rico da estético . pelo contrário. Esse princípio é o fio de Ariadne que {oi colocado em nossas mãos para nos conduzir para fotn do labirinto da reali dade aparente c fazer-nos ascender até à região do "inteligível". convertida numa imagem pura. torná·la viva para nós em todos os traços da sua re­ presemação .~~ A obse rvação de um objeto ao microscópio pode permitir ao cientjsla descobrir sua composição e. de resto. não tem nenhum poder.rrJ und schwebet. que o nosso mundo intelect ual volte a ca ir no CSlOS. baJd grün. Devemos abandonar-nos à im pressão que o fenômeno como tal exe rce sobre nós. é prontamente esquecida. Goethe./ bald helle. mas a essência estét ica pura está vi nculada a essas imprc ssões. Uma paisagem pictórica ou pDttica evoca magica­ meme.II pousada agora no prado. Por largo tempo alegc8 o meu olhar. Agarrei·a! Agarrei-a! Desta vez observo-a de bem perto E tudo o que vejo é um azul funéreo Eis o que te espera. Seu objetivo não é trascender os fenômenos mas. Abre-se-nos agora um domínio so­ bre o qual o . Zerg/iedrer deiner Freudell! 448 . ao obandonar o fio condutor que o "princípio de ra­ zão" fornece-nos. não se dissipe entre as nossas mãos. seu ser e seu modo de ser. Ora azul . num relance..n fraurig dunkfes Blau _ 50 geh! es dir.. toda a questão de " causa" . diante dos nossos olhos. que dissecas teu prazer!] Dc pleno acordo com o ensinamento de Baumgarten. assim. a sua verdadeira constituição objetiva mas a impressão estética está desse modo irremediavelmente perdida . 11 pura contemplação da paisagem como um lodo. ora verde. permanecer entre eles. ora clara . a imagem puro e. nunca pousa! Sim. como a que a reflexão arlÍstica e a in vestigação conceptual formulam. MieI: IreuJ sie lange sehon. com deito.

6~ A s fa culdades sujeitas não devem ser despoja· das de sua natureza própria nem abdicar de nenhuma de suas caracted sticas. Ela não se limita ao conceptua l puro. d irig. de maneir~ nenhuma. lux e (:er/il udl). 11 qual não tem que se r conhecida pelo simples f6gica como ta l.ma única 45 1 . Q uer salva r a intuição prova ndo q ue uma lei interior govema·a igualmente . ser compreendidas.ela domina essa multidão. BaumgArten ainda se incli na in :ei­ ramente pe rante a autor idade rigorosa do raciona l.­ diatamente sob os nossos olhos. força de convicção e vivacidade. mano tidas e preservadas em sua especificidade. Mas t od a~ essas de terminaçõcs . a uma teoria do conhecime nto especi al. ~H S e não deixa r esca par nada. porquan· to é justamente o todo o que se nos orerece sob o seu aspecto imediato.·sc absolutamente a toda ordem e a toda legalidade. não a sua opressão e destru ição..1'. Toda obra de arte verificável coloca esse cri t~do im\'. verilas e cflJT/tas. Se :.~ equivale à do conceito l6gico mllS extra vasu-a largamen te'. não conce­ dendo a menor e~ceção nem procura ndo subtrair a mínima coisn às normas puras da lógica. modela-a e assim nos faz perceber sua unidade interior na forma imposta .confusão pura e possui em si mesma um cri tério específico . co· locá-los isoladamente em destaque nem explorá-los um por um. berlas e m agn iw do. or iunda dns facu ld ad es "i nferiores " da alma e do conhecimento .tal é a tese fundamemal da estética de Baum­ garten . Toda intuição verdadeiramenle cstt tica nos mostra não ape nas a mu ltiplicidade e a diversidade mas também a regra e li ordem que ai se escondem. Esse ema/ogou ralionis U prova-nos que a 450 estera da lei ~ -. plenit ude c veracidade. O que que r dizer que em toda int uição estética se produz uma "confluência " de elemen!OS e que não podemos abst rair os elementos si ngula res da totalidade dessa intuição. Essa organização . é necessá rio que elus contenham grav idade. riqueza e limpidez. um "alla/agotl " dela.e pode designar o domínio da e:.z. E a razão como IUlCllidade recebe ne l ~ esses dois momentos. não obstan te. uma vez que a considera.56 Todos os detalhes da doutrina de Baumgarten já estão imo plíci tos nessa primei ra abordagem do problema .tética pel a expressão percept io co/t/usa. ele compraz-se em acumul ar as fó rmu las q ue designa m as característjcas que distinguem a expressão poética da expressão lógico-científ ica. c q utlll to às n:presentaçõcs de que o poe ta faz uso. Mas sustcOla 11 Cllusa da in tl'ição estética pum perllntc o próprio tribunal da razão. todas as ca rac· terísticas da obra t1e arte que ele de monstra. devem. Ela perte nce à esfera pré-conceptuaJ. A legitimaçiio das fa· culdades inferiores da alma. de lima coerção pu ramente extern a.nenhuma . constitui. Ra umga!'tcn te m esta (rose feliz e e xpressiva de que a razão tcm di rei to ao poder sobe rano sobre todas as facu ldades infe­ riores sem que I!sse poder possa adquirir unicamente a forma de uma tirania. em pnrticuJar o modo e o mecanismo da produçi1o poética em todos os seus me­ mentos . pelo caminho e desvio do conceito.iío. seja qual for a matéria onde a ordem e a lega­ lidade e ncontrem sua ilustração e sua realização lil A razão con· tinua senhora desse conjunto sem q ue essa domi nação tenha ja­ mais o rigor de um jugo. Se essa lei não coincide com 1I ro'. pelo contrário. do seu pr6prio ponto de vista.não é acessível.têm direito.. como um todo inteiramen te determinado c organizado. porta nto. Desta úhi ma exige luz e claridade. el a não expõe somente dian te de nós uma mult idão de intuições . Mas essa confluência não produz "confusão " nenhuma. '1:. iste um a lega lidade que se eleva acima de todo arb itrário " t' \" Ji toda prefer(lncia subjetiva que não se deixo aprese ntar ~ o b a fo rma de simples conce itos. ~ . redu:rem·sc em de fi ni tivo a ". tal é o objetivo a q1 1e a estética se propõe . deduzem-se da í. é na condição de en­ tender-se essa expressão segundo o seu signHicado estritamente etimológico. Em seu esforço para ir ao fundo das CO.. ". Mas essas {n­ culdades inferiores do conhecimento também têm seu logos . a uma gnoseolog ia inferi or.

ção q ue oos abre logicamente o ca minho para as espécies mais altas signifi ca sempre. a dispositio naturalis ad pcrspicaciam. nem para além da dtterminaçiio nem con tra ela: ela só se rea­ liza no seio e por meio dessa determinação. "esquece-o" cada vez mais ." Entre· ta nto. assim como os sen timen tos e as idéimi que o poeta quer despertar em n6s. foi porque pôde apoiar-se. a força e a amplitude da imaginação. é atingida quando se conseguc redmd r a totalidade de uma intuição a um pequeno número de determinaçõcs funda. a estética como "a arte de pensar em bcle-la" (ars pu/erc cogitandi). uma exp ressão rigorosnmcnte filosOfica. ela quer também a claridade "extensiva" . Mas um mesmo veio culo serve num caso e no outro a obje t i\-'~ muito diferentes .:. a claridade intensiva. ter-se apoiado. A abstru. de acordo com as regras da conccptualizoção lógica. que ele sabia perfeitamen­ te.em sua totalidade e modo de ser ima nenle . processo de subtração: para atingir o geral "ncglígencia" o partic ular e. também reclamam 11 mediação da palavr(l.e unifí~ cá·las numa imagem intuiti va completa. em cortar de forma alguma a poesia da Conte primord ial do pensamento. extensiva. não tem a intenção de reduzi-las às suas "causas " mas tent a abrangê-Ias em si mes· mas . não contentes em elevar-nos do particu lar ao geral. numa experiência pessoal (n tima e viva. Baumgarten não pensa. quer percorrer a reali dade intuitiva em toda a sua extensão. no sentido de q ue não pode atingi r a sua "verdade". pa ra fiX:1\f aquela direrença. pelo menos. isso demonstra. mentais que revelam sua própria na tu reza. E q ue o processo de abstração é. O artista . empobrecimento e dissecação. ao mesmo tcmpo.ex igência. por parte de Baumgarten. em primeiro lugar. decla ra não' ter quase passado um dia sem com por um poema." A estética é um remédio para essa laceração. von Slein mostrou muito bem em Enl slehung der neueren Acsthetik como é ralsa e enganadora o idéiu de um l3aumgarten descobrindo e fu ndando a estéti<:o sistemática movido exclusiva­ mente pelo interesse de um teórico do conhecimento e por uma espécie de pedantismo lógico. apreen damos também o geral no p"rticul ar e o pa rticular no geral. didade de visão. a generalidade só pode ser alcançada à custa da riqueza das determinações: o caminho da generalidade e o da determinação são em sentido invcrso.r Mas exige quc o pensamento tenha não s6 forma mas também cor. pora a q ua l 8aumga rtell encontrou a designação ca­ racterística de vita eognitionis. do ?Jnlo de vista da filosofia da linguagem c da esté­ tico. garten. E. abarca r lIun: único olhar o seu centro e a sua per i {e ria. pura CSSll descrição. na dOl1tri na de Ba um. portanto. A beleza não exige apenas. Baumgarten porte da contempl a­ ção direta das obras de arte e lenta a poesia. aos olhos da imuição. com li verdade objetiva. pois deCinirá. A fala é o meio on de se encontram as produções científicas e poéticas. desde o início. pela pri meira vez. Quanto à c1aridadc estética. No prefác io das suas MeditoJiones. mas também a perspicácia intelectual. no forma e na direção própria da /o(a poética. como o conceito científico. Essa intu ição viva quer que. a penetração "sensitiva": com li imuição justa. em defin iti vo. Se Baumgarten soube descrever a oposição do espíri to artís· tico e do espírito científico e dar-lhe. o que é um "tema" poético e no que esse difere de um tema lógico. a profun. essa perspicácia distingue-se da penctraç!o analítica do pensador cientfrico uma vez que não olha para além dos apa· rências mas pennanece nestas : pelo contrário. H. que nos forneça. Os pen o sarnentos que o lógico ou o cientista desenvolvem. Por escassos que fossem os seus reais dotes poéticos. também foi um grande passo.G~ O gênio artístico possui . com efeito. graças a essa ocupação. não sofre essa redução e essa concentração. Portanto. 11 claridade "intensiva". A primeira. 45 2 453 . a inlUiçõo vil·o. nno só uma ex trema receptividade . Ele s6 tinha que considerar <I sua pr6pria atividade para descobrir imedia tamen te essa dife· rença.

Haec aufem esl Plllcril udo. nas formas su periormen te elaboradas da língua cie ntífi ca. Essa exigência é me­ n OS fi losófica c racioDul do que metafórica .. à perfeição da conh~ci­ menta mas. segundo a expressão de Hobbes para designar essa relação. n cada uma dll s opt'"raçõcs do nosso pensa­ mento. e Breiti nger. Essa estética sempre insistira. Será verdadeiramente poss1vel ao poeta rivalizar com o pintor . do conhecimento intuitivo como tal. cada uma delas é vivificada. O que seria para a ciência. utiliza-se a palavra como signo conccptual c todo o seu conteúdo reduz-se it sua significação abstrata. à perfeição do conhecimento "sen­ si tivo" . niio visa. . pela insta uração e desenvolvimento da charac/eris/ica gC llcralis. de uma negação e de uma destruição dos meios estilísticos propri amente poéticos? Baumgarten prev ine essa confusão ao sublinhar em termos precisos que é por fo rça de um mal-entendido que se exige de urna expressão q ue ela sej a "pictórica ". I:!S/ Desse modo encontra-se enunciado . em Critischel1 Dichtkunst. qua lalis. na qual se movem lu nto a língua da vida cotidi lln a qu anto a língua conceptual da ciênc ia . im põc-se expressamente o ob jetivo de "penetrar a fu ndo na pintura poé­ ti cn levando em conta a invenção " e de elucidá-Ia mediante exemplos ex traídos dos antigos e dos modernos. como sempre foi sustentado por Leibniz. o auge de suu perfeição. que suscita o lIpa­ reeimenta de uma intuição viva e nos retém constantemente n3 sua prcsen çll. Oratio sensi fiva perfcc/a poema: 62 só merece O nome de poema o discurso que poswi o poder de um:: perfeita ex p re~~ã() sensível .:UTso " logo evita c perigo. estão em insu flar vida na "friald ade dos signos simbóli cos~ . o papel de uma "moeda de conta" do espíri to. do conceito superior de cogllilio sellsitiva.s a morte da arte se pensassem em aplicar-lhe esse ideal esvaziando-o de todo conteúdo int uitivo conr: reto . apenas foi estabelecid a uma de suas cspeâes. e. As pa lavras de q ue ele se serve. Mas SÓ consegui u dar a esse pensamento uma forma determ inada com a aju da da pintura. qua­ dros poéticos" . O emprego da rór­ mula 1// piclUra poesis. em confer ir-lhe. O pOeta não pode nem deve ~ pintar" <--om palavras: ele 454 455 . chegamos li um nível onde são el im inados os últimos vestígios indutivos que ainda se prendem infal ivelmente à palavra . uma expressão unívoca tomada nessa simbólica. I1l11S n~o é pa ra trair o seu pensamen to estético fundament al. mai s exatamente.Para trata r um lema ci entífico. O mundo em que nos movimentamos já não é mnis o das pnl uvras ma s O dos signos. a espécie dn plást ica pic­ tórica. e todo o IIOSSO esforço tende a dar.6 1 A fo rça e a grandeza do artista . nito há uma que perma­ neça morta 0\1 vazia. mal-entendido que consiste em tomar a parte pelo todo. no caniter infui /iv o de toda obra lluten­ ticamente poética. encontra aí su a causa e sua vcrd adci r<l raiz . Mas uma nova q uestão apresenta·se então . a vita <-'Ogni­ lionis. llli mentada de um conteúdo intuit ivo imediato . de l. ten ta r-nas comunicar com os seus " sina is arti fici ais" aqui lo que o pintor apresen ta-nos com a ajuda dos "sinais naturajs "? Semelhante rivalidade não se encaminha mai s no sentido de uma mistu ra arbitrária das artes. na ri gorosa forma do pensamento sistemático. As palavras apenas uesem penham nesse caso.essing. significaria ante.mimada do interi or. A esthetices finis (!st pcrfect io cogllil iollis sensitivae. Em vez do verda­ deiro gênero. A scicn­ tia general is só se aperreiçoa . Bodmer escreve suas consi derações críticas sobre os . do verdadeiro poeta. desde Dubos e os suíços. um problema que a estética do século xvrII agitou incansavelmente . para voltar a cair na acusação de retórica : a definição mais exata que ele dá desse " disi. em suma. entretanto. Vê·se que Bau mgarten concebe ai nda o poema sob o co nceito genérico de " discurso" . Tudo o que é formal desaparece do discurso poético para dar lugar ao figurado da ex pressão. em absolu to. tão universalmente di vu lgada antes do ú/ocoonle. A nova ciência estét ica quer evitar o perigo desse em­ pobrecimento.

no 457 456 . seduzir o especialista . si'xpvlu ). Essa tarefa exige que não se deixe nenhuma terra sem cultivar no eampo do saber e que não se deixe secar nenhum dos dons do espítito. sobretudo o talemo de decompor analiticamen te os conceitos. en tretanto. 40 anos antes da Crítica do .M l! que cncontrou nele a marca desse novo ideal de humanidade a que ele próprio wnsagrou lodos os seus esfo rços . portan to. E se não poderia rivalizar com ele para a produção do belo. Só essa harmonia pode produzir um sistema fil o­ sófico completo e interiormente unificado e. Sob a sua form a mais alta e mais pura. antes de tudo. o "pensamento objetivo" de Goethe. O esprrito filosófico nâo deve crer·se acima dos dons da intuição e da imaginação. quacum nascitur. O inge/1ium venusfum não quer somen te apreende r os objetos. por Plllavras. uma antropologia. im­ posta e justificada moralmente. uma vez mais . disposlitiQ nafuralis animae tobus ad pl/lere cogitandum.M A aquisição de talentos particulares.. a lima "dout ri na do homem" . Veri fica-se uma vez mais. Não é um acaso se Herdc. O que se exprime nessa es ~cie dc ingenium é. A nova disciplina é assim nâo só legitimada pela lógica mas. e uma idéia mui to catacterlstica da cultura sctecentista viu ·se desse modo corroborada. que uma mudança radical es tá prestes 8 consumaNe. cuja ri· queza elas não esgotam. po(kse arriscar. uma impressão esp iritual de conjunto q uc comunica su as próprias cores a tudo o q ue capta ou absorve." U A estética de Bau mgarten supera. pode convir ao erudito. esse esprrito não poderia adquirir· se cultivando somente as facu ldades do entendimento. antes. deve. Ober die bilde/1de NachalmlllJlg des Schone/1 (Da imitação plást ica do belo). o âmbito da simples lógica . essa fórmu la lê·$( como uma profeci a: ela anuncia. nam a se putaf. neque bene JanJam humanae cognitionis partem alie. apa· renta·se ao artista. fazem dele tudo o que pode e deve ser . baseadas na intu ição sensíve1. a obter o conhe­ cimento do belo e.uf::o e do Irlltado de Ka rl Phili pp Motitz. c. embora de um outra ponto de vista muito dife­ rente. vivas. de certo modo. mas não pode servir em nada ao filósofo para a realização da tarefa que ele se impõe. que Dão se aprende nem se adqui re mas que nuscc com o arlista . Do ponto de vista da históril'l tias idéias. uma fração do saber mais ou menos auta. como l'sc reve 8aum· garten.GG O [iJósofo. por um dos traços mais profundos do seu pensamento. Essa disposição da alm a entendida como um todo é a marca do espíri to artístico como tal: ela cOlTlunica·lhe esse caráter. ele vi vc na intuição dos objetos. impregnaHe deles e colocá· los no mesmo plano que o talen to de julgar e de argumentar. graças a esse conhecimento. Ad eharaeterem jclicis aesthelici genera/em requiritur Acsthetica noturalis cO/1nola ( qNo... representações c1arus. um a ati · tude. Philosophus homo est inter homines. pelo contrário. Desde o começo da estética encontramos esse novo imperativo humanista que Baurngarlen atribui à filosofia COlen­ dida como doutrina da sabedori a. classificá·los em espécies e gêneros. As "belas ciências" não mais conSlituem. o espírito filosófico superiormente encarnado num individuo. graças à estética teórica.pode c deve despertar no uuvinte . Eis o dom poético fundamental: o dom do i/1gt!tlium Ilenustllm. ~ u a vontade de totalidade. reconhece em Baumgsrtcn o " verdadeiro Arist6tdes do /l OSSO tempo" . Essa plenitude (1lenllsta plenitudo) jamaIs poderá resultar de uma si mples mon tagem (Zusamme/lsefzu/lg) e jamais se deixará resolver em suas partes. nomo: elas " dão vi da ao homem total" . sobretudo. doravante.' 5 t: assim que o problema do belo já não conduz apenas à fundamentação sistemática da estética mas também à de uma nova "antropologia fi losófica". realiza r a sua própria visão do mundo. Ela quer ser uma lógica das " C acul­ dades de conhecimento illfer i ores~ c quer servir por esse meio não somente a um sistema de filosofia mas.. natura..

compreender inteiramente o conj unto que esse conhecimento percebe e. pelo contrá rio. que essa mudança se impõe com su perlativa nitidez. Em suma.ão" da sen~ ibilidade. a época iluminista aprende a renunciar ao . que ela procura constantemente definir com maior exat idão e preencher com mais perfeição. ele realiza precisamente.oll Para um modo de conheci mento dessa espé­ cie. Já não se trata. no sentido estritamente metafísico . sua na tu reza . que.. de c hegar ao finito em todos os senti dos. como em Malebran· che ou Spinoza. repousa menos num poder do que numa impotência da alma humana.tocante à ordem dos valores no pensamento do século XVIII. da filoso fi a do direi to e da filosofia política de Século do lluminls:no. que a natureza fi nita tem fundament almente direito ao seu modo de ser autô­ nomo. as verda deiras forças instintivas que estimulam a totalidade da vida da alma e mantêm·na constantemente em atividade. cuja voz se eleva com uma fo rça crescente. Mas neste ültimo. sobretudo entre os psicólogos e os moralistas franceses. como nos grandes sistemas filosóficos seiscentistas. Entre as posições de princípio que a fil osofia alemã her­ dou da doutrina leibniziana. Cada vez mais. eJl:istc uma que nos en sina que o ser divino como tal está essencialmente situado acima da esfera onde devemos investigar o fenômeno do belo. em Brie/en über dje Empfindullgen (Cartas sobre as sensações). para a qual as paixõcs eram apenas perturbações da alma (perlurbationes animO marca um nítido r~ uo. do intelleclus eclypus ao inlelleclus archetypus. A tarefa que doravante se impõe ao fi nito é a de afirmar-se no seu próprio ser em relação a esse valor supremo. ao mesmo tempo. o belo. na adequação perfeita de todos os conceitos.1~ciàa. Desde que a fundaçã o da estética teórica sustenta a causa da autonom ia do belo. longe de subsistir como simples doutrina filo sófica. para substituí-lo por um ideal puramente humano. o fenômeno do belo deve reduzir-se a nada. de esca­ par à finitude mas. a única onde ele encontra sua residência.. é da essência do co­ nhecimento divi no jamais se mover no mundo das representa­ ções sensíveis mas unicamente no das id~jas adequadas.u Lan­ ça-se um apelo geral em prol da emancipação da sel1sibilidade. O estoicismo do século XVII . as paixões apresentum·se agora como impulsos vitais . A doutrina cartesiana . 30sol'.)! do conhecimento di­ vino. surgira na tragédia clássica como tema de criação artística. e nas Mendelssohn pode valer-se do próprio Baurngarten. ela anuncia implicitamente. essa mesm a idéia que já encont ra:nos por toda pa~te agindo na constitu ição da ética. relações do entendimento humano com o en tendimento divino. com a " Vê nus terrestre". da filosofia da religião. evitemos confundir a "Vênus celeste" que consiste na perfeição. de um ponto de vista puramente metafísico. portanto.l° Para essa incom­ patibilidade rigorosa da beleza sensível e da perfeição intelectual. adequado. Segundo a expressão de Mendelssohn. com a beleza. desse modo. a um poder cognosci tivo mais perfeito do que o nosso. a experiência do belo niio se ria acessível nem comunicáveJ. nos vlnculos estre itos com a filosofia acadêmica alemã . A filo sofia setecen!Ísta não defende apenas os direitos da "imaginação" mas também os direitos dos sentidos e da pai­ xão. conhecendo-a como tal. Ao manter-se aquém do ide. uma outra ques· tão que o século XV Tn debateu longamente encontrou também resposta. essa incompatibilidade estâ invest ida numa out ra tendên­ cia de pensamento e aceotuada de um modo diferente. Baum­ garten fixa ao belo seus limites mas tra ta-se dos limites em que c1e entende reter o homem. de relaciona r simplesmente o finito com o in­ finito e de elminar assim. Assim se e. seu destino. a fi nitude. e m absoluto. de um certo modo. Segundo Leibniz. resolvê-lo em seus últimos elemen­ tos constitutivos. cede agora 458 459 . ou seja.Jto" . Com essa " humanizaç. ao ideal de um conhecimento "à imagem do conhecimento divino". Não se traia. de sustentar a sua natureza específica como tal . a través da estética de Baum· garten.

Pode deleitar·se .H Mas. desde o começo da sua Estética. em suas Schulreclcn. tin ham ten tado levar essa arte à sua perfeição.· tiolIís sellsitivae. com uma apresen tação origi nal que lhe é muito própri a. Baumgarten é o primeiro pensador que se li bertou do dilema do "sensualismo· e do " racionalismo·. Mas o próprio Baumgarlen não atingiu . sob n dura casca. t ver­ dade que Ilnundou."U O refinamento da volúpia que é assim ensinado possui também. Esse epicurismo recebe as mais diversas formas e mostra as mais variadas tona· lidades. ou nos de Madame de Mazarin. movimento interior e esponta· neidade pura: graças a ela. em Paris. importân­ cia estética. o cerne do seu verdadeiro pensamento. ela não concebe a libertação pura e si mples da sensi bi lidade de seus víoculos e de seus grilhões: quer levá-Ia à sua perfeição espiritual. Essa perfeição não se encontra. Ela aguça ao máximo a receptividade à exicitação sensível mas falta-lhe totalmen te o acesso li fon te autên tica da vida artística. precisa­ mente. A beleza é fruição. 11 influência de Baumgarten fic ou limitada a um drculo muito reduzido e di[Lcilmente deixou sua marca na história viva da nova poesia alemã. a estética de Baumgarten. por exemplo. Embora defendendo os direitos da sensi bilidade. ensinar O modo como o prazer pode ser alcan­ çado. o imortal Baumgarlcn: "Em sua elegan te ~jrn plj cidade e repleto des se~ traças minusculos que escapam aos olhos da gente comum e que paro os prortlOos não parecem mais do que nuvens obs· curas. mas a estética que se desenvolveu nessa base cons· titui uma simples estética da excitação. Teve que con formar-se em ser comprimido em parágrafos. que sua obra tinha apenas a ambição de rasgar O caminho para a nova ciência. esse circulo de gente do mundo que se reunia no ~ Templ o " ou nos salões de Ninon de l'Enc1os. porquanla sua ob ra foi composta no estilo da Escola e perm8nece~I . mas frui ção especificamente distinta daquela que provém dos instintos vitais. permi­ te-nos agora apreender a importância das Cartas para a edu­ cação estética de Schiller. em exaltar o prazer do sentidos em sua nudez ou em elaborar uma técnica sutil de refinamento intelectual e de sublimação contínua das alegrias da existência. O pensa­ men to novo que Baumgarten representa não encontrou nele uma forma adequada. num sentido também pu­ ramente teórico. em Londres." 1~ De fa to. sem a menor dúvida. Bem entendido. além disso . que nos abriu há pouco uma perspectiva para a antropologia de Herder.o lugar a uma atmosfera puramente epicurista. quem menciona ele em primeiro lugar a fim de ilustrar esse tema senão Baumgarten? Foi a própria graça que compôs n estética do seu bem-amado. de um ponto de vista puramente subjetivo. Lessing foi o primeiro a 461 e %O . Não é governada pelo poder exc1usivo do descia mas pelo im­ pulso anímico no sentido da intuição e do conhecimento puro.lhe fi el. como em L 'arl de jouir. ela quem nos abre o caminho. ele devia inevita­ vel mente enfrentar certos obstáculos. não foi até o fim da estrada que tioha claramente diante dos olhos. por certo. no prazer mas na beleza. de La Meurje. que queria. e parece às vezes ter perdido toda a sua liberdade de movimento nesse aperto. ao domín io da espon· taneidade. ao criar uma nova e produtiva síntese entre "razão" e "sensibi­ lida de" . Os " libertinos" do século XVII. o objetivo teórico que se impusera . passa a tratar " da idéia de graça nas escolas". sem dúvida. A estética de Baumgarten .m. penetramos na verdadeira vila cm. de ma­ neira completa. como pode ser indefinidamente intensifjcado e como esgotá-lo até a última gota.?: Saiu desse circulo toda uma série de manuais que pretendia se r uma ver· dadeira escola do prazer. Encontraram em Saint-e. I! a esse defeito fundamental que responde . Quando Herder.vremond seu representante mai s refinado e mai s significativo. não o de percorrê-lo inteiramen te. aquele que sabe ler Ba umgarten de modo per­ tinente acaba descobrindo. à maneira das botas espanholas.

Os con­ ceitos assim tratados e considerados perdem tudo o que podem comportar de fonual. estava-lhe vedado.ou ao titulo de pOeta no sentido superior e estrito do te rmo porque estava consciente de não possuir esse poder mágico origi nárjo por meio do qual o poeta. na mestria soberana. No cadinho de seu espírito realiza·se passa a passo esse processo de mutação . confere-lhes uma existência e uma vida próprias.essing. percebemos o seu devir e reconhecemos na modali dodc desse devir. menta e da ação. de metamorfose. como SOlOlItórios de signos de term ináveis c fixad os. não t a matéria dos con' ceitos como wis mas sua forma. Tudo o que este conside rava peni:l(mte ao caráter do verdadeiro esteta (ad cha­ raclerem Jeficis AO$lhetici pertillens) enContra-se reali zado no espírito de l. as de Homero ou de Shakespeare. não contente em inven tar ou imaginnr as formas. O que é decisivo. A o rigina lidade de Lessing revela-se menos na "invenção" de novos temas de pensamento. Mas se Lessing não é pos­ suidor da magia pessoal e profunda de um grande poeta. Será difícil encontrar em Lessing um único conceito ou uma única tese que não tenha seu para­ lelo exato ns litc=ratura do seu tempo. os conceitos voltam a ser forças criadoras originais c impulsos espontâneos. de Shaftesbury. toca­ lhe em contrapart ida a magia de um pensnmento tal como ja­ ma is. cação das Jontes de Lessi ng alguma objeção contra a origina li­ dade do seu pensllmento profundo. Mas seria um equívoco e um desconhecimento total do problema pre tender inferir dessa indi. de metem psicose dos conceitos. de c rit ica e de arquite­ tônica. não o seu quid no sentido da definição mas sua transfonnação intelectual. reprc=senta muito maIS. da claTilOS. Pcrcebemo-Ios mais como seres acabados.. houve outro com essa força e essa segurança. Ele sen tia e sabia que esse modo de criação. da mogniludo. assim como de dispositio ad saporem non pubficum. eviden lemente. do que na ordem e na conexão. que rumo adotam se-u valor e sen tido próprios . Estava-lhe reservado faze r a síntese do pensa. Dubos ou Oiderol. mas o seu tipo de análise e de seleção. porquanto ele possu i O dom de reconduzir cada conceito às suas fontes vivas. Lcssi ng ~ um 1 6gico de primeira o~dem. logo in icia sua mutação. na obra de Lessing. t que esse conteúdo não foi criado por lessing mas foi -lhe quase in teiramente preparado. ao penetrar no cfreulo desse pensa­ me nlo. que as conclusões e as deduções de um processo ele lógica C orm al. da verito$. de copia e da Ilobililas encarnados num único ser. Todo conceito. da teoria e da vida. lcssing renunci. nadll se enxerga que explique suficientemente essa influên­ cia . no di st ri buição 16gica e na escolha desses lemas. da cerlitudo. A esse respeito. cujas maiores obras épicas ou dramáticas tinha diante dos olhos. E graças a esse conteúdo estão em condições de intervir diretamente no processo de criação a rtfstica . sobre as fron­ 463 . Foi a tarefa que Lessing realizou para os princi pais conceitos da estética do seu tempo. S:J<:s atenções não se dirigem exclusiva ou 5cletivamenente para as relações 462 lógicas dos conceitos como tais. ainda indecifráveis. nele encontra-se a mais feliz mistura de dispositio acule semiendi e dI' dispositio tJ4turalis ad imoginondum. immo delicalum e de dispos ifio noturalis ad perspicaciam. descon hecidos at~ en tão. que não possa extrair-se de alguma maneira dos textos de Baurngarten ou dos sufços. por assim dizer. De simples produtos que eram .quebrar o tabu. Nele reenCOnt ram-se todos os elementos da ubertas. l! essa síntese que dá à obra de Lessing o seu caráter incomparável e que lhe gll ran tiu uma influência iflual­ mente incomparável. A doutrina de Lc:ssing sobre as relações do gênio e das regras. Qua ndo se tem somente sob os olhos o conteúdo de todos os conceitos estéticos fundamentais dc Les­ sing. e realizar assim plenamente a exigencia da vila cognitionis de Baumgarten. eles enchem-se e impre~nam·se de um con­ teúdo concreto e intuitivo. na maneira como intervêm e nos objetivos longínquos. de compreendê-lo e de explicá-lo a partir delas.

Essa (orça de arrebatamento que Lcssing possui no domínio da poesia . muito além dos objetivos e dos ümites que ela alé então se rixara . Não só ele encerra a estética de uma época mas descobre. sobre a importância dos signos para a classificação e o sistema das artes . ele a transmitiu a toda 465 .um empreendimento nacional. em " oesia e verdade: ele vê-se de súbito. aga rra-se com todas as suas forças à tradição . Lessing não procura deliberadamente. Ma5 nem por isso deixa de comiderar que a aqui sição é ~a is pre­ ciosa do que a possessão . sobre as "sensações mistas". sem sucumbir nunca diante da força material da realidade dos {atos. . tudo isso reencontramos. Entretanto. Shaftesbury e seus discípulos e suces· sares . para que nasça espontaneamente do processo lógico uma vida nova.. pa ra que os pensamentos passem por uma palingenesia espedfica . de enveredar pelos caminhos mais difíceis e mais obscuros. As relações entre os conceitos gerais de Lessing e as formas e pro­ blemas da literatura alemã do século XVIII são inegáveis. essa e:rcilaçiio e esse incitamento do exterior: ela é. E é por isso que de detém. Lessing liberta as idéias e as teorias da estética do século XVIII desse perigo de rigidez. as novas " possibilidades" da arte poética. em várias obras fundamentais da estética do século XVIII. por obter a origina· lidade pela originalidade . na sua própria essência. gosta de seguir·lhe os indícios e os vestígios mais longínquos .17 Essa fra se tem a mesma validade a respeito de Lessing e do caráter próprio de sua obra crftica e estética . embora ele parece recol her-lhe a herança intelectual. de inflexibilidade: é esse o mérito que lhe t'e(:onheceu de ime­ diato a jovem geração. Sabe·se como G~ the descreve a influên· cia do ÚJocoollfe. sob uma forma puramente dou­ trinai . Pelo cont rário. essa novidade. dela possui um conhecimento completo. a arte de fazer da poeira da história uma planta vicejante ". é subestimar profundamente o papel de Lessing despojar sua obra do seu verdadeiro sentido hjstórico. a qual só receberia. jamais se esforça.como fez uma obra recente sobre a temia estética de Lessing 16 . projetandO-se para além de todos os dados e realidades da arte. como nenhu m outro em sua época. um momento e um eSlaclo imanente dessa criação. em nenhuma outra pa rte ela se incorpora e se assimíla assim à vida da arte . não "europeu". Só ele podia ter êxito onde tinham falhado Gottsched e os sur· ços. conside· rá-Ia . de maneira nenhuma .teiras da pintura e da poesia. Mas a doutrina não encontra em nen huma Qu tra parte uma ver­ dadeira força viva . no regu lar. Ele possui em relação aos conceilos e teoremas a mesma apt idão que Herder a respeito do mundo da realidade histórica . Basta que lhes toque para que se lhes refira ou critique: distinga-os ou ordene-os. Ela é "crítica criadora " no sentido de que está intimamente ligada à criação ardstica. um novo aspecto e um flaVO horizonte do mundo da arte em geral. da pura malter of facto O talento funda· mema! que ele sente e proclama em Herder é o da ~pa lin gene· sia. A crÍl ica de Lcssing não pre­ tende apenas agir positivamente ao incentivar e '" excitar" a cria­ ção artística . Voltaire e DiderOt . Por esse caminho Lessing conduz a estética do lIumi· nismo. urrebatado da região da indigente contemplação para o campo livre do pensamento". no único. Goethe disse de Herder que sua importânda como hi storiador e como filósofo da história estribava-se em que ele 4&4 mergulhara com todas as suas forças na ordem dos falos.:. em todo caso. pela majestade das "graudiosas e profundas idéias" de Lessing.o "para que ela nõo se refugie na rigidez". mas {oi justamente nesse quadro que Lessing descobriu uma nova visão. de Lessing. O maior serviço que eJe prestou à li teratura alemã foi o de ter reconhecido a legiti­ midade dessas "possibilidades " e de ter-lhes preparado o cami ­ nho. esse poder criador que não vem de uma oposição aos dados do passado mas sente em si mesmo a força e a necessidade de recriar incessantemente n criaç.

Bis/oire de la lilléralurc frall­ çahe. Oeuvres (Assézat). voI. li BoiJeau. Oeuvrt"S. op. O t"uvrn . 43. em particular pp. Canto lI T. e seu artigo "La langue des ca1culs" . lU. mio está de ma· neira nenhu ma baseada em se us fantas mas mas somente nas noções claras e distintas de nosso espírito . 138 e 58. Ep ístola IX. ~ C f. assi m como ao desenvolvimento e à constante renovação do espírito.n filosofia do século. julho de 164 1: 'Toda essa ciência que talvez se pudesse supor a mais submissa à nossa imaj. Cf. ed. 11 1 e $S . Paris. E ssai sur lu peíll lllrc. seco XIX. õ No tocanle à limitação da "originalidade" à novidade da " expressão" na estética clássica. p. Kan/s Krilik der Urláhhafl. & eúição. p. ihr~ Gcscliich l~ und Syslcwalik. Embora o século XVHI se defina em grande parte pelo dom de crítica que o impulsiona e o domina. UCf. d. 64 e S5. para aprofund. 174.H as teorias de D'A ubignac e Le Bossu.uuen le em referência ex pressa aos prob lemas estéticos. Paris. 324 e 55. ac ima pp. que puder. cf.\emplo o livro de Gustave 1anso n.:jado como ferrame nt a in dispensHvel à vida. O sentidu filosófico dessa f órmu la foi in teiramente desen volvido por Leibniz e estabelecidu siMematÍL'. tê-Ia amoldado c mam. p. I . 466 467 . 11. as figuras e os movimentos. de Alfred Baeumler. ele deve a Lcssing não ter caído numa interpretação pura mente negativa da critica. VII. V an da Weisheil. n Arle pollica. 1675. 81 e ~S . ter sabido reconduzir a crítica à vida . X pp. com um come ntário úe Saint-Surin. 22. 1892. cf. 420 e ss. Hallc. aci ma pp ." 8 Cf. NOTAS 1 Le Bossu. vol. \O Para o desenvolvimento histórico da dout rina das trh unidades. pp. Arte poética . BaileI/li.s.r que Crous:lz [oi u primeiro. W ". por el:emplo a exposição de Lanson. o que é sobejamente sllbido mes. pp. no seu Traili da bc/UI (171 ~ ) a utilizar a fó rmula: "varitdade reduzida a aiguma unidade" num conte xto estético. lI. 11. porque ela só considera as grand ezas. 10 Boileau. a mais expressiva. enfim. Adam·Tannery. D Goethe. Canto lU. para o conjunto. J~ Diderot. a mais verdadeira. H ei nrich vo n Steio. 1923. 1886. Die Em. Lcibni:. vaI. eap.: "O artista tem se mpre que criar uma for ma. Traiti da pue. • Cf. por exemplo. 395 . acima pp. 45 . :} Cf. dt. seco XII e ss. a mais bela. 25 e SS.le!ulIIg der neuerell Aeslhelik. Paris. 13 Dubos. Condillac.. e T al é a opi nião. Baeumler comete um erro ao d iz<. por e.no por aqu e· les que pouco a aprofund aram". Descartes a Mersc:n ne. d. ~J7 e ss.lle épiqu e.ml/r/'T AIIS!{al"" vol. Slu lIgart. 131 e :. 1930. acima pp.:. Essai 5ur l'origine des connaissances humaille!". 182 1.\inação. pp. 162 e M.

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_~. kt (Suphan). Rémond k Grec.. --_ . ver Mornet.. Pari~. rv._ _~-.lclf. ~ Â. SCIoÕrlefl Wú&ctlS'ChajUII . XXXII.. G .o abstrllüva" de Wolff. U Para mais detalhes sobre C'Me dn::lllo dos "libertinos".ri. Medil/lliof1~s ch cogniljQn~. ~~ . 8r. i Goclbc ti Hcrder. H 5. IA pmsl e /rançolJl' 01/ XflflJ ~ .i (op.. lO Mendel$!tObn. "Voo B. !I1I(rc le CluJsiciJllle CI le Roma"lis". \'~ril(1le t I idl'Ís. ~Q Sobre a d istinção entre claridade "intensiva" e "eJ(lé:nslva". a Cf.f. Wcrk .. J. " Le róle de I'e. PhilOJ. 1$.islOll'/cm.f!J/lzttlca. S78) ..tlgml!nl fiher dif Ode . lIu f A.· aU. 149 e S$. {'I D'AlllaIlCOIITl SlIr lu plllú i.Ulhc lica . .. ArI/angslJ. U MtdilallOfltS Philosophicat dt flon"ul/is od ~ma ~'tIMlJ/ibIlS. 149 e M. J. cf. p.. publicada por Saint·H yacin the. Heilmann und Th.pal/illm louro jtmgerlllblls /1I /sse s!' l1liel pfOdigia. Pllri~. ft ~ Hcrdcr. XXX. 178 c ss. 11 41 eM. Saint·l!vremo nd . G. malo de 1175. pp.. úibnillllfll nml ~:r' . --.f!Sthel/ca.c {oco ditllcu/I. 1706. "O mérito de lessin.. VoI..r"iJ'loi. Abbt". em upecial. Mf'dita li(m!'J t X I V..w .ills det. pp.­ _-~ _'~ ' PREÇO~-J~:?Q--_·_·_---··_·K­ 472 OA1A·_~-ç:f. Pai". 28 . D. § 14. 13.~ /lI/traiu. cit. ine!uldo 00 Rtcl/ei! de div!'" ("lu. F.. ve r em especial as M t'dflaliQnts de ru. . F.. Af'Slhclica." 63 Cf.ül1 t!. Amslerdi.imenlO od alluam t:raJdundom incwnbn. nQ Cf. 1'1\ Â. Lc-ibniz.timmlibus. "Si quis ( . nOrl ".." "Iis /l1ii~. Lanson Il]lu:sentou uma analise penetrante deue$ estritos DO seu artigo. Quinta Carta.. Scl/ri/letl (Gerhllrdl). 32 e 5$. 05 come nUirio~ caTllcleri§l icos de Bllu mgartcn. W!'. 83 . A gl/lhol! QII Via/ogl/f! de la volllplt (1702) . Folki erski.. Meier.. 423.. 198 e ss.. XXX II. Baudot de l uill y.isle entre a "conceptualiz3ç!io in· dividualiunte" de Bau mgurtcn e a "oonceplUa liwç:. 164 e".~. ). ( /fI /Itraqllf' /nc"ltlllis 'Of/:" cnci livac pu"" CXCC/lIlI !'1 quamlib!'t sua odl!ib."nullis ad p<xma pt. 14. 20 e pllssim.IA:jb~.. . p. 1929. l i Cf.r dic Em p/indllngtn (1755) ..A respeito da oposição que sub3. Btlu m· lartc:n.. tf I) e u. D ialogue t il Ir/' ". p. 1l Henlct.iracllfo. PP. J 9." . em especial.kt..) Â t'sl hetica. pp. el A .s (1 700). " Ver. di. p.~~ . wC c. M. 1930. Werk!'. pp. G._J·~f:·. 61 Ci."é nacional e não europeu.OCtoÊNr. W!'. op. J 28. c "Entwllrr 'lU dner DenkM:hrir. 11 Cf.fe iib.1ll01gartcos Deobrt in K ioen Schr ifteo"." . § 110 Â. XXX II. O!'II~'es m t'sU~J. ac ima pp.asaim jul ga Folldcrsk. § 6.. em particu lar a exposição de Baeumlcr. aci ma pp.~riencc dans la formation de lo philosophj( du XV I II~ si&:le cn f'rancc" (Cmdt's . G. PP. 175 e M. (Suphlln). iJli s/til! a[I('.0\J .

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