as parceiras lya luft o nome de lya luft tem sido conhecido até agora como cronista - escreve para

os jornais de porto alegre, gaúcha que é -, poeta, professora de lingüística e literatura, e tradutora. entre seus trabalhos mais significativos, destacam-se as versões para nossa língua de os cadernos de malte laurids brigge, de rainer maria rilke, e o quarto de jacob, de virginia woolf, ambos publicados pela nova fronteira. as parceiras representam sua primeira incursão no campo da ficção. trata-se de uma novela narrada na primeira pessoa do singular e escrita em forma de diário, no correr de uma semana. no entanto, o que a narradora faz não é anotar a experiência por que passa no momento em que escreve. a situação presente serve-lhe apenas de cenário, onde o que interessa é mergulhar no passado, tratá-lo a tona, enfrentá-lo com a coragem e a verdade que só o próprio ato de escrever possibilita. assim, o enredo que vai nascendo - e envolvendo o leitor - é a história da vida de uma mulher que, de repente, ao se pôr a transformar sua experiência em palavras,. descobre que até ali toda a sua existencia - íntima, pessoal, moral e social - foi construída sobre preconceitos e mentiras. como obra de estréia, as parceiras surpreende tanto pela imaginação quanto pela linguagem, que, sendo simples e despojada, revela momentos de rara densidade poética. #© 1980 by lya luft direitos adquiridos para a língua portuguesa pela editora nova fronteira s.a. rua maria angélica, 168 - lagoa - cep 22461 - tel.: 246-8066 endereço telegráfico: neofront rio de janeiro - rj capa jader marques diagramação gustavo meyer revisão jorge aguinalro uranga ficha catalogrÁfica cip-brasil. catalogação-na-fonte sindicato nacional dos editores de livros, rj. luft, lia. l975p as parceiras / lya luft. - rio de janeiro : nova fronteira, 1980. 1. romance brasileiro i. título para rachel jardim cdd - 869.93 80-0306 cdu - 869(81)-31 #sumário domingo, -9 segunda-feira, 41 terça-feira, 57 quarta-feira, 85 quinta-feira, 109 sextafeira, 127 sábado, 145 #catarina tinha catorze anos quando casou, penso, enquanto seguro a balaustrada, me debruço para aspirar melhor a maresia, e deparo com a mulher postada no morro a minha direita. bem na pedra saliente, onde a rocha cai na vertical até as águas inquietas. catorze, recém-feitos. jogaram com ela um jogo sujo. não podia mesmo agüentar. - podia, bernardo? - pergunfo em voz alta. ele faz cara de que não podia.

nazaré, a caseira, conta que essa mulher apareceu aqui ultimamente, sobe o morro e fica um tempão olhando a paisagem. sempre no mesmo lugar. uma apaixonada pelo mar, como eu. como minha amiguinha adélia, que se colocava naquela pedra também, para me assustar. mas isso foi quando éramos crianças, e as peças do jogo não tinham começado a sumir ou a confundir-se no tabuleiro. enquanto nazaré termina de guardar minhas coisas, deito na rede, no avarandado, e me 11 #embalo apoiando o pé nu na cabeçona do cachorro. ele parece divertir-se com isso. a mulher do morro me fez pensar em minha avó. catarina costumava ficar horas a fio atrás do vidro da porta que abria para a sacada. dizem .que do jardim se via seu rosto branco e ausente. tive com ela um único encontro, quando eu era pequena. lembro o aperto da mão de mamãe quando subíamos a escada em caracol, lembro o contraste entre a sombra e a claridade do quarto, onde tudo era branco: paredes, cortinas, tapete, móveis, até as rendas do vestido comprido da sua moradora. um quarto de menina, aquele. limpo. inocente. chamavam de sótão a esse quarto do terceiro piso do casarão, com um banheiro e a sacada. combinava bem o nome: uma palavra triste e sozinha. a porta rangeu como estas velhas madeiras agora, mas em vez de maresia pairava ali um cheiro forte de alfazema.: a mulher de branco, moradora do sótão, voltou para nós um rosto interrogativo. parecia alegre por nos ver, mas também assustada, como se não soubesse o que lhe trazíamos: o bem, o mal. olhou para mim e perguntou, insegura: - É sibila? - não - respondeu minha mãe -, é anelise. minha filha mais nova. sua neta. como podiam me confundir com bila, a bilinha? senti um pouco de medo, mas a mulher levantou-se, era alta, muito alta. me pegou no colo, me abraçou. alfazema, mais tarde aprendi a palavra. - bonitinha, tão bonitinha. a minha filha. e apertou com tanta força que me debati. mamãe me levou embora as pressas, bem que eu teria gostado de ficar, olhando o quarto e aquela mulher triste e esquisita. depois que a porta se fechou no alto da escada, nunca mais a vi. nem fui ao seu velório: não era coisa para criança. lembro de minha avó as roupas brancas alfazema, solidão. e_ medo. hoje, sei todos os detalhes que há para saber sobre sua vida, mas a verdade perdeu-se entre aquelas paredes. quando casou, catarina von sassen mal começara a menstruar. e, se já não acreditava piamente que o sinal no dorso de sua mão vinha duma bicada da cegonha, também não tinha certeza de como os bebes entravam e saíam da barriga das mães. casamento era para ela a noção difusa de abraços e beijos demorados, e alguma coisa_ mais, assustadora. algo de que nunca falavam direito. como as doenças e a morte. na véspera das bodas minha bisavó, uma alemã decidida que viera ao brasil há longos anos para visitar parentes, e acabara casando, enviuvando e criando aqui, sozinha, a única filha, 12 13 #chamou o futuro genro, um trintão experiente, e lhe expôs o problema. não se preocupasse, ele tranqüilizou. na hora certa, ensinaria a menina o que fosse preciso. casando, catarina deixou na cama de solteira trés bonecas de rosto de porcelana. a mãe voltou para a alemanha, aliviada por estar a filha em boas mãos, destino assegurado.

o destino foi zeloso: caçou-a pelos quartos do casarão, seguiu-a pelos corredores, ameaçou arrombar os banheiros chaveados como arrombava dia e noite o corpo imaturo. mais tarde, entenderam que os arroubos de meu avô eram doentios: nada aplacava suas virilhas em fogo. e catarina sucumbiu a um fundo terror do sexo e da vida. não os medrosos pruridos de muitas noivinhas do seu tempo, mas uma agoniada compulsão de fugir. como as poucas e tímidas queixas nas cartas a mãe distante não tivessem, obviamente, resultado, ela se refugiou onde pode: um mundo branco e limpo, que inventava, e onde se metia cada vez mais. assumiu o ar distraído que caracterizaria outras mulheres da familia depois dela, e tantas vezes reconheci no rosto de minha mãe. a criança loura era agora uma adulta precoce: cheia de manias. uma delas era o sótão. ali ela construiu uma dimensão em que só cabiam os seus interlocutores invisíveis. subia até lá sempre que podia, esquivava-se do marido, dos parentes, das visitas. começou a desfiar ali em cima uma espécie de ladainha que com os anos impregnou todo o casarão, e que eu jurava ouvir ainda quando morei lá. mandou mobiliar o sótão como um quarto de menina. tudo branco. faltavam só as bonecas, para que a inocência fosse recomposta. conseguiu sobreviver até os quarenta e seis anos. o marido desistiu de lhe ensinar as artes dos bordéis, preferindo teúdas e manteúdas àquela adolescente que já lhe provocava mais arrepios de medo do que desejo. mudou-se para uma de suas fazendas, no casarão aparecia apenas como visitante temido. minha avó ficou meio esquecida com as empregadas e uma governanta. quando o marido irrompia naquela falsa tranqüilidade, não deixava de procurar a mulher. dava um jeito de abrirem o sótão, e, entre gritos e escândalo, emprenhava catarina outra vez. assim ela teve alguns abortos e, nos intervalos, tres filhas: beatriz, que chamávamos beata. dora, a pintora. norma, a mais nova, minha mãe. fisicamente, a que se parecia com catarina. mais de vinte anos depois, viria sibila, concebida e parida no sótão. melhor não tivesse vindo: bila, bilinha, retardada e anã. É isso que conheço da história das minhas raízes. uma família de mulheres. 14 15 #= uma família de doidas - comentava tia dora. não sei o que tanto a veranista procura no morro, mas vale a pena subir: à frente, o mar pardo e sinistro. atrás, as dunas tumulares. nazaré chama para o almoço, e quando espio de novo a mulher já desceu. vim ao chalé resolver minha vida, se é que ainda há o que resolver. deixei uma carta para tiago, tentei avisar tia dora mas ela andava fora por uns dias, para uma exposição de seus quadros. então ajeitei o cachorro no banco de trás do carro, e logo estava aqui. cidadezinha de veraneio, o lado pobre onde moram os pescadores, e o lado dos veranistas junto ao mar. os pescadores chamam nossa casa de `casa dos fantasmas'. dizem que aqui se vêem coisas, se ouvem vozes. mas para nós, da familia, sempre foi `o chalé'. uma construção grande e antiga, feia, de madeira pintada em cor ocre. parece um caranguejo saindo da praia, tentando escalar o morro que surge inesperado das ondas. não há fantasmas: as vozes são do vento nas touceiras de capim, ou o roçar das mirradas árvores da sebe, cujas grandes flores vermelhas se renovam cada dia. nós as chamávamos de `vai-àmerda', para desgosto de tia beata. tia beata, a rezadeira. passei aqui muitos dias deliciosos, quando adélia e meus pais eram vivos. hoje, só eu me

interesso em conservar o chalé, que a caseira abre de vez em quando para espantar o cheiro de mofo. aparentemente nada mudou, nem a cor da madeira. só que agora as paredes rangem mais. É como se a vida fosse um jogo em que as peças mudam, mas as jogadoras são as mesmas. incógnitas. era aqui que em outros tempos os vivos descansavam, pensando que a cor parda das espumas era iodo. "bom para a saúde." adélia e eu procurávamos conchas e estrelas-domar na sombra dos rochedos, ou subíamos o moro, apanhando no caminho aqueles tímidos lirios rosados, que nunca vi em outro lugar, e os levávamos para os `nossos' mortos. o cemitério no topo do morro era velhíssimo, duas dúzias de sepulturas arruinadas, com inscrições em alemão e português. ninguém mais se interessava por aqueles mortos seculares, então adélia e eu os adotamos. abríamos o portãozinho de ferro ou pulávamos o muro de tijolo meio desabado. catávamos inço, botávamos flores. eu traduzia as inscrições para adélia, ela inventava histórias para cada um daqueles nomes. hoje, além da caseira, que dorme aqui quando estou, só tenho no chalé o meu sãobernardo, a quem numa total falta de imaginação batizei bernardo. e há os mortos no morro, e no meu 16 17 #cemitério particular da memória: como num sótão, me fazem companhia sem serem vistos. murmuram, chamam. cada vez me atemorizam menos: já sou quase um deles. preciso perguntar a nazaré se ainda crescem daqueles lírios no morro. hoje não tive vontade de subir: passei o tempo na rede, no avarandado que rodeia a casa de fora a fora. quem olhar da rua há de pensar: felizarda, na rede sem nada para fazer, e ainda nem é tempo de veraneio. mas eu tenho muito que fazer: descobrir como tudo começou, como acabou. por que acabou. se dou com a ponta errada do fio, se descubro o lance perverso da jogada, a peça de azar, quem sabe consigo sobreviver. tenho tempo. escrevi a tiago que ficaria uma semana aqui. _"volto domingo", coloquei num ps sem sentido: como se esperasse que ele viria me procurar. tenho bastante tempo para repassar o filme todo mais uma vez. Éramos uma familia de mulheres doidas, segundo tia dora. pelo menos, uma família de mulheres, na qual os poucos homens entraram pelo casamento. e meu primo otávio, pela adoção. - só sai mulher do meu saco - disse meu avo numa das raras vezes em que o vi. não entendi bem, mas minha irmã vânia, que já era mocinha, disse depois que ele era um velho porco. ninguém parecia gostar dele na familia: fazia barulho ao comer, reclamava de tudo, andava sempre com a barba por fazer. resmungava que naquela casa havia um "bando de mulheres inúteis". um bando de mulheres: diziam que até os abortos de catarina tinham sido meninas. com o tempo, minha avó foi perdendo a lucidez a intervalos cada vez menores. por fim, baixou a penumbra definitiva. os médicos acharam que sua mania de morar no sótão não era de todo má: livrava-a da responsabilidade por uma casa que não podia administrar, e das três filhas que não tinha condições de criar. ficou ela com seus duendes. no esconder-o bránço, atendida por alguma empregada, pela governanta e pela filha beatriz, catarina von sassen murmurava, falando com gente que só existia para ela. ou espreitava o jardim, pela porta de vidro. instalaram na casa uma governanta rígida cujo nome ninguém usava: era apenas a

irmãos. madame". casados. que quase não ligava para mim. minha tia estava livre do flagelo da opinião dos outros. era muito mais alegre do que eu. se querem bem se procuram sempre. estávamos na mesma escola. quente na minha. tínhamos a mesma idade. não ligava para os suspiros e reprimendas de tia beata. não preciso mais realidades do que isso. nazaré tem um pouco de vitalidade dessa minha tia pintora. da tia anã. mais de uma vez. ela foi o primeiro amor da minha vida. olhos escuros. do avô `um velho porco'? eu achava que esses problemas só a mim diziam respeito. mas foi ela quem criou minha mãe e minhas tias. dando risada alto. me dava a ternura que os adultos esqueciam de dar. todos éramos pouco reais. beatriz. levava a vida como bem entendia. então. 20 21 #para ela. gritando nos rochedos na praia. pois vânia preferia a cidade para namorar e sair com as amigas. porque todo mundo sabia que eu era muito só. à exceção de tia dora. e um pouco da alegria que minha irmã vânia aparentou por muitos anos. tia dora. com um menino magricela. que se afastou um bocado da família. não consigo vir ao chalé sem escutar sua voz chamando por mim. seus pais espíritas a habituaram ao trato com as almas penadas. . com um homem que a protegeria da fragilidade numa existência quase tão irreal quanto aquela do sótão. uma porção de filhos. depois do almoço. manteve a falsa ordem de uma casa arruinada. humilde e tranqüilo. que diriam da nossa avó louca. é porque as alinas se conhecem de outras vidas. falava na morte e nas almas que se amavam. riso fácil e uma alegria de viver que me espantava. quando fui morar com tia beata. ainda andava por lá. que desaprovava sua vida `escandalosa'. deu às meninas 18 19 #uma ilusão de família. mais ou menos como adélia e eu fingíamos a beleza do cemitério esboroado. não dava satisfação a ninguém. cada vez que queria dormir com a mulher. de vez em quando ele aparece aqui. amigos. adélia foi minha irmã. apesar do pai ausente e da mãe enferma.fraulein. minha mãe. . o marido finge de garçom num hotelzinho da cidade. e eu não sentia falta dela. numa idade em que as almas interessam muito mais do que os corpos. tento dormir a sesta no quarto que era meu e de adélia. não importa. que tanto pesava sobre nós. gostava daquele nosso cemitério. muito mesmo . apenas com uma irmã mais velha. para fazer eco. com o tempo. o meu cachorrão de bochechas caídas: isso também é algo sólido. tinha adélia. durante o veraneio. um pescador-garçom de fala mansa entre pescadores que falam gritando por causa do barulho das ondas.quando a gente se quer muito bem. ria dos meus temores. minha amiga. mulher de pescador. só eu sofria tanto. e ajudou a cuidar de bila. tia dora brincava dizendo que ele pedia "com licença. velha e ranzinza. ao contrário. mas adélia não ficara mórbida. e seus pais a deixavam vir conosco à praia. mesmo tantos anos depois da sua morte. fantasmas eram coisa natural. mãozinha rechonchuda. aprendi que todas trazíamos a sua marca. as três filhas de catarina casariam cedo.dizia gravemente -. tinha cabelos pretos e lisos. por três semanas apenas. que adorou bernardo. e pela qual eu ansiava tão intensamente. não vinha a praia.

tragada pelas ondas que a lamberam das pedras pretas de marisco. eu pedia: . a vitalidade de minha amiga e sua convivência com fantasmagorias._ outros tempos. me dava tanto medo. mas não consegui dormir. parece que no vozerio do mar se ergue uma voz humana: . outras noites de lua na praia. 23 . até catarina emergiu da minha memória. pobrezinha. segurando minhas mãos com força. aquele. adélia vinha comigo. estava quase escuro. mas ela me parecia mais real e íntima do que a minha família. a morte entrou em mim num ferimento que jamais sarava. nunca. volta aqui.sou imortal! . pois logo outra pessoa morria. já estou suando frio nas mãos! ela tinha pena. muitas vezes eu fingia um pouco de doente para ter dessas atenções especiais. que se cuidasse bem. acreditava com força nas almas eternas.durma de novo. os pais cuidariam dela. fazendo caretas e me dando remorso um buraco enorme. perdesse a mania de se plantar naquele rochedo avançado. será que. para não pegar dor de garganta. tive de dormir a sesta para ver se a febre baixava. ria deliciada. depois de engolir o amargor. abraçando papai. nada de maior. abraçava-a. sentávamos na sombra estreita do muro meio caído que rodeava o cemitério. correrias. estava morta: uma alma eterna. . bernardo -0 _ião-segue obediente -ao meu lado.eu ficava fascinada. estávamos no chalé. era como se a velha bruxa estivesse à espreita para levar embora aquela que eu amava. com todo o ardor das criaturas inocentes. sem um grito. voltava. nem quando a confusão acalmou. desafiadora. nunca tive outra amiga como adélia. e até mamãe. e eu a enterrava naquele lugar. e aninhou-se ali. ficava com a pele arrepiada. estava dormindo em outro quarto. a empregada. . meus pais também. sempre murmurando. ela se punha ali. ao cair. o amor eterno porque as almas são eternas. adélia era mais esperta do que eu. não gostava quando adélia falava na morte. chamei papai. a lua brotava feito um navio iluminado. acordei tarde. ele se aproximava mais de mim como médico do que como pai. não queria perder adélia. vozes. .dizia abrindo os braços. roubando o que poderia me ligar a todo mundo. mas naquela tarde não pude sair de casa: dor de garganta. fora um acidente com um pescador. meio tonta cheguei até a sala. febre. menos assustada. bila postou-se num canto. tinham levado para casa. mamãe. e bateram seu corpo várias vezes. até hoje sinto agudamente a sua falta. no verão em que fiz doze anos.vamos passear ao luar. estava muito ferida. logo depois eu soube pelas empregadas que ela despencara do rochedo para as espumas pardacentas.num estado miserável. a não ser quando viro um pouco a cabeça e o ouvido me engana. perguntei por adélia. adélia. só no dia seguinte. pedia que não falasse assim. meu pai contou que adélia caíra daquele rochedo saliente onde costumava parar me assustando. que raramente descia a praia. mas agora ela não está comigo. mas papai logo me levou de volta. ria. acho que nos amávamos de verdade. conhecido dos empregados. tudo aquilo me impressionava muito. me abraçava.adélia. o hospital era muito melhor. papai teve de me dar aquelas gotas amargas que sempre trazia consigo. segurava sua mão com mais força.anelise! anelise! pura ilusão. uma claridade momentânea que se apagou na minha vida. beijava seu rosto redondo. adélia não chamou nem o meu nome? . ajeitava o cabelo de índia. filha.

da morte misteriosa. e como minha . como se não fôssemos uma família de verdade. gostava particularmente dos anõezinhos engraçados e espertos. minha irmã. era esgarçada. quase ausente. tudo a perturbava. vânia tinha suas amigas. a donzela debruçada sobre a palidez do morto. remorsos. eu era a `boboca'. faziam toda a sorte de travessuras. o príncipe afogou-se nas trevas. na sala enevoada. comentando coisas de que nunca pude participar. doces cantigas alemãs. cantava a voz infantil de minha mãe. o consultório de pa ai não era longe de casa. cantava. bem mais velha do que eu. pairando pela casa. qum desses medos foi por longo tempo o de enlouquecer. numa voz clara. de cantar aos gritos. falando baixo. para mim. a do sótão. pois ela era um pouco infantil. acostumei-me a controlar o desejo de rir alto. levando-o à princesa. de correr pelo pátio. aparentemente incapaz de assumir uma família sua. viviam bastante isolados. mas distraídos. mas levava por dentro uma existência só minha. com barômetro na cumeeira. que poderia entender e tratar melhor certas singularidades de norma. a felicidade precária precisava ser tão protegida quanto minha mãe. ela beijou a boca pálida do amado. desinteressada pelas coisas práticas. inventava uma vida de mentira. mas um grande rio os separava. mas desinteressada. começava a chorar. e caiu morta. me chamava de boba. recolhia-se ao quarto. e penso em minha mãe. uma bruxa malvada soprou com força. companhias. para meus pais verem. das cartas. como se falasse de uma pessoa desconhecida. não voltaram dela. nunca podíamos correr. nem dormíamos no mesmo quarto como outras irmãs.caminho nesta solidão prateada. quando ela casou. com meus duendes e medos. as almas eternas: mas. umas mocinhas quietas e sérias. me deixava louca de. um universo de fantasia: criava personagens. ela acendeu três velinhas para que o amado nadasse ao seu encontro. e um pescador encontrou o corpo. "sie küsste den bleichen mund". dando risadinhas. habitavam uma casinha diminuta de joão e maria visitando a bruxa. meus pais eram bondosos e tranqüilos. eu sempre achava que não éramos uma familia como as outras. sabia da história de minha avó catarina. as empregadas também falavam muito nisso. eu me transia de emoção. todos acharam que lhe convinha muito aquele homem já maduro. e quando corria um rio no meio? adélia nunca soube explicar direito. dava risada. discutir na frente dela. tocava piano para ele na sala: era para ele que tocava. talvez sentissem a brevidade do seu prazo. uem me contava era vânia. conhecia fragmentos da loucura. gritar. achava graça quando eu perguntava se não éramos meio esquisitos. pareceu feliz com meu pai. eu entendia as letras graças as chatíssimas aulas de alemão da frãulein. acompanhando um pouco à distância a vida das filhas e os acontecimentos domésticos. vivia. 24 25 #f uma delas conheço ainda: dois filhos de reis se amavam. bondoso. ainda por cima um médico. que conheci tão pouco. coração em pedaços. fizeram uma só viagem grande. que sobrevivia apenas assim. eu ficava sozinha. com quem se fechava no quarto. pendurada no meu quarto. fazia ar superior. que rolavam comigo na grama. e enquanto ele não cegasse minha mãe não parecia ter sossego. das falas. depois do jantar. não era má a vida em nossa casa.

tia dora era bonita. cada vez piais só. era solícita e boa. me deixavam encolhida e hostil. havia também as minhas tias: a pintora nos i visitava pouco. mas sem carinho. que não gostávamos dela. me impressionava: assim que eu queria ser. a educação negligenciada. padres convidados para o almoço. promessas. adélia não tinha medos: era só alegria. mas. imaginava: são lajes. de uma vitalidade que. na sua maneira etérea e infantil. as vezes parecendo uma realidade. acho que ainda hoje me acena de um canto qualquer feito um ectoplasma. me contavam histórias de almas penadas. os problemas domésticos eram resolvidos por elas. mas assustador. tia beata vinha seguidamente á nossa casa. mesmo conosco. novenas.. então quem sabe não estou louca ainda? ou. sempre na igreja. desejo de viver. queria saber da nossa roupa. nos levavam para a praia nos verões. media-me com bila disfarçadamente. o resto do mundo não interessava: e me senti mais só ainda. a repugnava. devíamos ser-lhe uma obrigação a mais. falávamos dos mortos e 28 dos vivos. nos raros encontros. e não soubesse disso. que me vestiam. a complacência de meu pai. ou em cima de alguma árvore do pátio. otávio. que adotara aquele meu único primo.mãe não pudesse preocupar-se com quase nada. desconfiei sempre de que tia beata não se importava de não ser amada pelas sobrinhas: o 29 #contato físico. mas não eram os nós sua verdadeira reocupação: era mamãe. a distancia. quando a encontrava no casarão de tia beata. parecendo com minha avó. e esqueci esse medo. exuberante. o beijo rápido. es tou sabendo direitinho que são lajes. fa \ lastrona. dedicação absoluta a bila e ao casarão. a fragilidade de mamãe. ficaria da altura de bila. pisava nelas o pé descalço. estão quentes. tênue. embora minha mãe fosse assim. mexericavam sobre nossa família. com pêlos espetando. o jantar. da escola. logo fiquei mais alta. vinha. me da 26 27 #vam comida. me banhavam. andava nas lajes do pátio e dizia a mina mesma que talvez já tivesse enlouquecido. severo. a anã. falavam conosco. tão esquecida: sempre . do meu medo de enlouquecer. apenas. felizes e alheados. eu sabia que tivera vários maridos. viva. bonita. e não nos levavam nunca ao seu ateliê. ou assustava? o rosto seco. os doidos não sabem que são doidos. não éramos uma família de verdade. nossa família era isso: os pais. clara. do nosso cemitério da praia. enquanto era pequena. era uma mulher alta. assim desejava que fosse minha mãe: interessada. alheada com seus livros e músicas. mas o de endoidar me perseguiu por muitos anos. quando morreu. e comecei a ter esse medo: estaria ficando doida? loucura podia ser herdada? uma avó louca. papai indagava da escola. e sabia que ela me amava também. em compensação. parecia alegre também. o domino das empregadas. uma tia anã. receava não crescer. eu a amava muito. de amar. um menino esquivo mas simpático. que viajava muito. tia beata interessava-se por nós. contava as lajes. adélia me salvava: nos metíamos no meu quarto. pensei que se amavam demais. assumi a solidão como castigo por algo que eu devia ter feito mas não lembrava. e inventávamos histórias. do nosso estudo.

o mistério de catarina entranhado em mim. talvez isso também tenha sido melhor. sobre as águas pardas. que nunca mais falei nisso. um grande segredo. apenas nos contaram que houvera uma pane. desarrumado. o noivado de vânia foi abreviado. mais que meu pai. e eu voltava para casa. nem os óculos de papai. parecia um pouco admirada de nos ver ali. e que tinha sofrido muito. não era tão ingenua quanto ela. ela e tia bea discutiam terrivelmente. por isso. uma menina crescida. ele foi sempre o marido de norma. uma não podia viver sem a outra. nas águas. eu adivinhava que minha mãe não estava lendo. para sobreviver. como adélia de cima do rochedo. a raiz enferma não teve tempo de brotar com mais violência. lágrimas nos olhos. livro aberto sem ler. quando ela me pegava olhando-a assim. eu pedia para subir ao sótão. sorria como se fôssemos duas meninas cúmplices de alguma travessura.indaguei um dia. sei o quanto minha mãe era frágil. ainda acordava de madrugada com uma sensação tão dolorida de ausência. não tem nada para uma menina ver. vânia estava noiva e não aceitava imposições. logo tiveram de nos contar a verdade: o aparelho explodira por cima do mar. nas mesmas águas que agora molham meus pés. uma espécie de' fada. o lenço. vejo mamãe sentada perto da janela da sala. ou ver como bila estava se portando. ela se recusava a ficar muito tempo junto de tia beata. o noivo parecia não . um anel ou brinco de mamãe. ao seu redor. eu estava cansada e louca para que meus pais voltassem. linda e boa. vânia e eu tivemos de viver com tia beata no casarão. lembro que algumas vezes tentei falar com ela sobre a nossa visita ao sótão. quando a notícia do acidente de avião chegou. aterrissagem forçada. fiquei órfã de uma hora para outra. dizia apenas que catarina fora uma pessoa `diferente'. hoje.ulein velhíssima tentava controlar bila. a partitura. as vezes. tinha catorze anos: a idade de minha avó quando casara. mas era tia bea quem respondia: . um braço. cada vez mais fundo. como catarina se postara junto da porta de vidro da sacada. que nem distinguia ao certo realidade e ficção. com quem se tinha vontade de brincar de comidinha e casa de bonecas. poeira de gente no mar.ela era mesmo louca? . as bocas pálidas que ninguém iria mais beijar. tudo se precipitara naquele pó. mas suportava. nem se interessava pelos enredos. e mamãe me olhou com um ar tão chocado. ou sobre minha avó. mas parecia ter esquecido. bocas. de todo o cuidado que meu pai pudesse lhe dar. que meu coração parecia não suportar. 30 31 #perdera minha amiguinha adélia dois anos antes. melhor nem saber. ia e vinha do casarão onde uma frã. . depois sorria um sorriso inocente. misturando tudo. dava uma evasiva.É sujo e feio lá em cima. mas de um mundo que não era o meu. quase contente: sabe deus o que dormia ali na penumbra. nunca me consolei dessa perda. e evitava mesmo comentar qualquer coisa de minha avó na sua presença. não sobrara nem um corpo. mas eu nunca soube que segredo era aquele.perdendo suas coisas. debaixo da poeira. a ferida da morte cresceu desmesuradamente. grãozinhos de olhos. afinal: a morte a derrubar do tabuleiro subitamente duas peças juntas. tia beata estava tomando conta de nós. mas solitária. e então o avião sofrera aquele acidente. dependendo. e retomassem a nossa frágil. tudo poeira tenue. pedia que ajudássemos a encontrar o livro. quando íamos ao casarão visitar tia beata. de sentir-se amada e necessária. mas doce tranqüilidade.

a tia implicante. vagamente com meus pais em raros momentos. o pai raro e grosseiro. tranqüilos e distantes. e isso era uma porção de gente. estávamos atordoados demais-para discutir ou ponderar. clara. como reflexo de algo afastado. eu me sentia flutuando numa água escura. se divertiam comigo. chamava-a velha besta.amanhã vamos subir de noite. tia bea suspirava. mas ainda assim meu. pode ser que a gente encontre aquela excéntrica. sob uma superfície de fingido alheamento. todo o horror que se cristalizara na figura torta da anã. na casa habitada por velhas e fantasmas. no mínimo a viúva-virgem vem outra vez . alegre. . e engravidara de bila numa hora de horror. começou a cuidar dela. sem amigos. sua boboca. vânia ao menos tinha o noivo: eu não tinha ninguém. cuidava do seu triste oficio. a mãe enfurnada lá em cima.que não dormiu com o marido. tudo meio ao acaso. iniciei anos amargos sob o comando de tia beata. vânia casada. uma louca. e discutiam o tempo todo quando tia beata vinha nos visitar. o passeio noturno na praia me deixou inquieta.que é viúva-virgem? . eu a experimentara com adélia. a.simpatizar com nossa familia. invejei muito a sorte de minha irmã: não teria de ficar sempre com a tia carola e a anã remelenta.hoje.indaguei uma vez. as parceiras. amava muito mais do que suspeitara aqueles pais bonitos. em algum lugar. mais tarde voltaria a carga. mas estava tão desgraçada com minha orfandade. deve ser uma beleza a vasta planura prateada aqui embaixo. meus pais só intervinham quando minha irmã ficava malcriada demais. . as coisas só aconteciam. sentia crescer revolta. fervia dentro de mim as vezes. mas falhou. felizes. mesmo nas poucas fotos de menina. nosso padrão era outro. roupa severa. enquanto eu me debatia. .vida. uma anã. que crescera sob império da frãulein. todos os que não cabiam nos seus padrões. tinha de existir em algum lugar. de repente. cabelo curto escovado para trás. o que comia ou vestia. talvez a veranista. as duas irmãs mais novas tendo que ser protegidas. vista de lá. quem gostava de chamar todo mundo assim era tia beata.reclamou vânia. bernardo. em que a única voz jovem era a do sótão. mas nos mantinha unidas. quando dei por mim. e amarga. da praia diviso alguém no morro. sentia uma pena imensa pelo convívio que não tinha existido. . nosso único dever real era não perturbarmos mamãe. estava instalada no casarão há vários meses. em vez de me cansar. ocultas. era religiosa. depois de bila. que no começo me foi indiferente onde morava. magra e taciturna. sabia que existia. . voz alquebrada e pobre. o desejo de liberdade. a mãe louca no sótão da casa enorme. vânia lhe tinha horror. quarta-feira era dia certo de visita. de desafiar os padrões estreitos e frios de minha tia. a beata. carola besta. certamente não naquela casa. com alguma amiga na 32 33 #escola. uma vida boa. casara e enviuvara em pouco tempo. na verdade não tínhamos nenhum. a presença dos nossos pais fora discreta e distraída. por muito tempo quis incutir alguma disciplina ou crença em vânia e em mim. a trégua fora breve. ia a missa mesmo em dia de semana. voltara ao casarão. não perdia novena. agora. debaixo do sótão onde minha avó curtira sua mansa loucura. um mundo triste o da minha tia. achávamos aquela sua religião triste e sem beleza.

mas pena. em vez de alfazema. alma amargurada. não se envolver. depois que vânia escapuliú para o casamento apressado. diziam que fora por não poder cumprir seus deveres conjugais.então não tinham deitado na mesma cama? eu não perguntava mais porque sabia que vânia ia rir de mim. não tive compaixão por tia bea enquanto ela era viva. quando tentei falar com minha mãe também. isso também não dava para esquecer. bem que ela queria me ajudar. faltava ao marido --q que sobrara ao meu avô. tia bea dava até um abraço pontudo. que quase não riam. cotovelos magros apoiando no peito da gente. o medo que povoara minha infância tornou-se naqueles anos do casarão um pavor profundo. ela fez um ar tão ausente que 'não tive mais coragem. quem resolvia minhas dúvidas era a sabedoria precária de adélia. fora casada apenas tres semanas.~ e a tampa do marido tinha saltado daquele jeito. não senti amor. santos e rezas. só com muita reza. dentes grandes. repentino e traiçoeiro. era duro. eu me evadia entre os seus dedos. suicídio. e com aquela família tão esquisita. era isso que todo mundo procurava. muito santo. minha tia. tantas boas intenções. retidão. vida difícil. a tampa da cabeça saltara como tampinha de laranja quando se corta. viveu ali o resto dos dias. loucura. odiava aquela vigilância. salvação pelo egoísmo. amarelos. bíblia na cabeceira. todo mundo tão precário ao seu redor. achava falsas as suas crenças. quando meus pais morreram. freira sem votos. sim. porque não era capaz de lhe dedicar nenhum afeto profundo. acho que ela nem queria ser amada. e fora un-i tiro na boca. já tão religiosa. mas não deu certo. mas ainda se murmurava a respeito entre amigos e empregadas. e a solicitude das criadas na cozinha. aleijão. dentes amarelos. especialmente quando eu tinha medo. e que há muitos anos costumava visitar para consolar-se com as freiras suas amigas. foi morar num quarto de um convento a quem doara parte do seu dinheiro. santa e seca. para não encostar. cheiro de leite-de-rosas. mas só mais tarde eu entenderia isso também. o marido se suicidara. num misto de piedade e ironia. de medo eu . xalinho no ombro. assim era mais confortável. mais pena 34 35 #ainda. sangue e miolos. muito rancor disfarçado. tinha mãe e irmãos que conversavam com ela. sempre aquele sótão por cima da solidão dagente. e rebeldia também. ela tentou dirigir minha vida conforme o seu padrão. as s_ parceiras riam. bila trotando por ali. depois adélia me explicou melhor essa história de ser virgem. as irmãs comentavam umas com as outras nos corredores: . isso fora há muitos anos. quando morreu. e logo me rebelei. de certo se julgou predestinada a virgindade. ela sabia sempre mais do que eu. depois de alguns anos ela me passou para tia dora. e conheci melhor a vida de tia beata. nunca vi tanta retidão. urina velha no sótão. passos rápidos. `caminhos de deus'. sem perigo de envolvimento que acabasse de novo em morte e dor. não saciara os magros ardores de tia beata. quando cresci. essa tia tomou conta de mim. apenas aquela solidariedade familiar: éramos um bando de mulheres malsinadas. algum galho de loucura? e foi essa tia que mais me deixou só.uma santinha. nada de contatos. julgou sua missão cumprida para com aquela família complicada. quem sabe tinha medo de que em mim também 36 37 #brotasse.

o mal era dar liberdades ao namorado como tia beata imaginava que vania fazia. minha irmã explodiu: . subo devagar a estradinha íngreme. vestido decotado. girando. perguntei quem era. morena. para tirar o "cheiro de mundana". pedindo uma receita. também não sabe o que é? fiz um "ah. pois odiava escondido. o cachorrão solta a voz grossa. as palavras inquietantes. mas tiraram o meu cemitério. telefonou avisando. o lirio foi girando. usar decote grande.casa de mulher da vida. pensei depressa se já tinha ouvido falar em mulher da morte. não queria aquela vida.o que é mulher da vida? . todos pareciam agitados: . mau exemplo para as meninas. nem aquelas idéias. mas apenas adivinhava. minha tia mandou abrir as janelas do gabinete. fui para a cozinha onde sempre havia alguém para colaborar. 40 #. vânia e eu espiamos a chegada da mulher atrás de uma cortina. deita por perto. volta. mas hoje não quero máquina. o bem era a gente não faltar à missa nem com chuva. sorriso simpático para a empregada que abriu a porta. então o mal era aquilo? quando a mulher saiu. no quarto.comentavam.a dona rita vem ver o doutor . espiando. umas coitadas .bernardo. boboca. . para entender melhor essas da vida. fiquei mais confusa ainda: eram ruins ou urnas coitadas? minha sabedoria era parca para imaginar aqueles `horrores'. escuro. ontem eu o prendi demais aqui em casa. hoje vamos subir o morro. fizeram adiante um caminho melhor. piteira nos dedos. um outro mundo. que dizia palavrões. eu era pior que vânia. me deu um puxão de orelhas. e pós vânia de castigo o resto da tarde. basta essa do meu filmezinho particular. ele dá uma volta e daqui a pouco está do meu lado.são gente rriim. quer me fazer companhia. segue comigo. ou ser como dona rita. como no sótão de uma casa. a palavra má. por isso ela ficara doida. e finalmente as águas devoraram tudo. nem aquela religião. eu tinha . vània estava impaciente. quer andar. para subir de carro. tantas vezes andei aqui com adelia. e vània respondeu sem maior interesse: . encostou o carrão com motorista. que estava costurando para mamãe. não esqueci o dia em que ela veio procurar papai em casa. dona rita desceu. e que tia beata tentava sem resultado convencer mamãe a mandar embora. por dinheiro. que interessam ao cachorro as minhas memórias emaranhadas? fiel: mesmo se abro o portãozinho. bonita. o bem e o mal. afundo no sono como aquela flor rosada desceu até o mar quando adélia abriu os dedos e a soltou de cima do penhasco vertical. bernardo corre a frente. lá em cima. 38 39 #afinal.suspirou a moça. logo descobriu nossa curiosidade. mas tia beata. empregada nova." de quem sabe tudo.. levar flores para os mortos.. tudo frio. fazem horrores com os homens. cabeleira solta.a dona do cabaré mais chique da zona. e o peso das lembranças. ela nunca dizia puta. está inquieto.cabaré? . é uma nova dimensão. ouvira dizer um dia que meu avo fazia `horrores' com catarina. muito castigo.casa de putas. sua burra. . o cansaço vence. tinham os uma. corpulenta.me revoltava.

que se retorciam todos fabricando casulos. mas não muito na beira. coisa de mês. a dor da sua ausência me apunhala fundo. o homem falava na entonação cantada dos pescadores. o vento ajuda. olhava. restos do velho muro. por algum tempo depois da morte de adelia. impossível: os anos que nos separavam faziam dela uma moça quando eu ainda era criança. pensei.conseguido tres lírios cor-de-rosa. . ali em cima era um bom lu ar: um cemitério por refúgio. a higiene mandou levar. que histórias adélia não inventaria. vontade de sumir. o capim não pegou bem ainda. nem os mortos tem sossego. as almas não têm idade. desgastada. deu tudo num caixotinho deste tamanho.parece que levaram para a cidade dela. a'boboca'. de um lado. imagino sua descida. ela tinha só doze anos. os pais mandaram buscar. esqueletos desmontados. 43 #mas desde quando se tira um cemitério do lugar? se roubam mortos? se jogam no lixo os ossos limpos'? e as almas eternas? ajoelho-me onde devia ser o túmulo de adélia. e era baixinha. de leivas amarelas e irregulares. ainda sofro de vertigem. porque. enterraram a filha ali. sem podridão. levaram você pela segunda vez. . o de adélia devia ser pequeno. bichos-da-seda. os móveis alvos. bila é que gostava deles. tudo falso.de-procurar seus restos de corpos numa vala comum. fantasmas comportados cheirando a alfazema. então. o coração desgasta de sofrer. qual era mesmo o osso maior? o femur.mas.não pode ser . agora. o peñsàmento calado. imaginei o caixotinho. desejei ardentemente que vadia a substituísse. ria sem dentes. o coração bate forte alagando um corpo sem alegria. que saudade. lugar onde sumiam as coisas que amei. a atmosfera distante da nossa casa contribuía para esse afastamento: éramos todos hóspedes corteses no mesmo hotel. e nada do cemitério. os ossos limpos.digo em voz alta. sem dor. o cachorro olha. sacode o rabo. me abraçando. se estivesse aqui. sentada perto do túmulo roubado de adélia. velhas bruxas roubam peças do tabuleiro. havia lona sepultura nova entre as corroídas. de cortinas de renda e jardim bem . um mundo como o de catarina. . uma depressão quadrada. amiguinha. sei disso. metia a mão. sentei depois perto da pedra de onde adélia despencara. e agora não tenho nem sua sepultura para visitar. me dando a ternura de que eu precisava demais. um montão de ossos. em seu lugar. amiga. ordenado e branco. vazia. misturados. minha 44 45 #irmã. e a sepultura nova. umas caixas de sapatos com vermes verdes e nojentos. nem vermes: por algum tempo meu primo otávio guardou em cima de um armário no sótão. um falso pescador-capinador. leva tudo no soprão. começo de repente a pensar em vânia. como se ontem você ainda estivesse comigo. mas no meu cemitério tudo seria limpo e estático: sem perigos. de inventar meu sótão. as escondidas de tia beata. os pais tinham conseguido permissão. estou cansada. o panelão pardo fervendo. .tiraram sim senhora.o homem dizia `suminterio'. o depósito das almas penadas. jogo sobre a pedra os três liriozinhos murchos. as almas eternas terão. indago de um homem que capina por perto. da menina que caiu daqui há pouco mais de vinte anos? . para o cemitério lá de baixo. pegando minha mão.

entendia. tão solitária. vânia entendia. meus pais nem tive ram uma: não se enterra poeirinha de gente. filho nada. viver felizes. não entendia que ela vivesse tantos anos. a avó doida. a solidão que rondava aboletou-se na casa com piscina e tudo. tão fina. ainda por cima. num silencioso desespero guardando as aparências do casamento. cuidar. iam passear. vi que afinal nem ela levara a melhor parte. talvez não percebesse que nossa mãe. provadas. quando vânia me contou tudo. mas não tínhamos dessas intimidades. independente.cuidado. começaríamos a ser amigas. eu queria abraçar. sim. beijar. na véspera de casar o noivo exigira: casamento. tarde demais. que por trás do rosto bonito e do penteado impecável minha irmã escondia muita solidão. vânia lhe devolvia com fúria os beliscões. quando ela me contasse da promessa que tivera de fazer ao marido na véspera de casar. tirava o brinquedo. que se fora. não é? sim. mas nada 46 47 #de filho. vânia. a tia anã. boneca perfeita. quando menos se espera. vestidos na última moda. as parceiras escamoteiam uma peça. mas ele não podia arriscar naquela familia complicada. bonita. bem. o marido a traía com meio mundo. ando mais uma vez entre as sepulturas roubadas. sofridas. bem maquilada. mas bila era um insulto. que sobreviveu. amor sim. nunca substituiu adelia. pagara em dobro pela alegria da juventude. minha irmã. o rosto de vânia. de certo ele escondia dos amigos que vânia tinha uma família assim. amizades. nosso pai. demorei a perceber que aquele casamento também era uma farsa. casadas. mas profundo. com os anos. vinha nos visitar de vez em quando. que não gastava preocupação alguma com nossa família. escolheu sem hesitar muito. as aventuras do marido foram sendo descobertas. a sobrinha de sibila. onde se viu uma tia assim? não bastava a rezadeira. mas vânia era objeto da minha admiração constante: forte. viajar. vânia era ágóra a neta de catarina. eu entenderia que seu sofrimento não fora muito ménor que o meu. e acabara com sua vida. o caso era comentado. não estava disposto a levar um beliscão ou uma cuspida de bila. viagens. para onde fugir? ainda amava o marido. as lágrimas abrindo caminho. dava tabefe escondido. altiva. o marido não vinha: não gostava de tia bea. a possibilidade de que do ventre liso despontasse uma ponta de galho da árvore doente. as amigas de vez em quando indagavam: e a tia anã? quando tínhamos de ficar perto de bila no casarão. só então. nada mais. cuidando para não enrugar demais com o pranto escondido. antes de descer o morro. a coroca? ao menos nossa avó fora uma louca elegante. nenhum problema. onde todas nos encolhíamos. cada uma no seu tabuleiro particular. decerto na hora nem pensava em filho. por muito tempo acreditei que vânia não tinha nenhum medo. mais silencioso. um amante não a salvaria: talvez ate lhe exigisse promessa parecida. tudo era diferente. não teve escolha: entre a fauna do casarão e o marido bonito e amado. mas um dia. mas a ferida estava instalada. todos tinham pena da mulher tão moça. não perdoava aquela sobrevida inútil. perfumada. desamada. dizia que a anã se fazia de doida para passar. nem as amigas escapavam. parecia com tia dora. aquela história de se vestir de branco. o beco sem saída. fiquei com muita pena de minha irmã: traída. menos patético. e tinha ódio de bila. não se impressionava com essa história de avó doida e tia anã. logo ela começou a ter uma vida de festas. rendas cartas misteriosas. .

alfazema.ela quem? . ali também depositavam bila nas horas de emergência. a cara de minha irmã apareceu sobre a tampa.mas eu li que não era verdade. ora. anelise.com virginia. o menino brinca com meu cachorro. quando a mulher perguntara se eu era bila. fiquei decepcionada: nada de rendas brancas. o jeito assustado. a moradora de roupa comprida e branca. . bonito. um menino magro. que eu vira só uma vez no sótão branco recendendo a alfazema. a escuridão da mente de catarina. o nervosismo de minha mãe.reforcei. a nossa avó. hoje não tem festa. duendes? vânia insistiu: . nem consegui encontrar aquela veranista. móveis velhos. vem. vânia. morando comigo no casarão. caixotes de papelão. ela não gostava de que ninguém entrasse ali. um dia. naquele tempo vânia ainda ria assim . mas eu queria lembrar: minha visita àquele quarto. finjo dormir a sesta. cartas pelo chão. doida. era a menina travessa que vai se vestir com as roupas da mãe. anelisel aqui tem um montão de coisa. . a escritora inglesa . quase de anjo. de homem.você lê demais.catarina. a escritora essa. a impressão de tristeza e medo que levara comigo. tinha umas manias. estou cansada e doente. da avó maluca. vivia com medo de tudo. mas era a cara dela. . para quem eram aquelas famosas cartas. eu brinco de cabra-cega com meus fantasmas. está na hora do almoço. urinol embaixo. para mim. com vânia corajosa ao meu lado. rosto perplexo. meteu pedras no bolso e se enfiou num rio. descobri com quem ela se parecia.sentenciou ela. 48 49 #mas. quando teria começado a arrumar o sótão feito um quarto de menina? por que teria se refugiado ali? o que pensaria sozinha anos e anos a fio? com quem falava sempre. antes que a porta cedesse. apenas um sótão desarrumado.se parecia com quem? . cara bonita. cachorrão. as misteriosas? quem seriam seus fantasmas.desço com bernardo correndo a minha volta. ela espiava o jardim por trás da vidraça ou da cor tina transparente. nada para comemorar. que morava aqui. eu preferia que tudo continuasse dormindo em paz entre as teias de aranha. a escuridão da escada de madeira. de coisas.ora.vânia. o filho da caseira brinca lá fora com bernardo.a voz sala do baú sem muito interesse. coloquei-me no lugar onde tantas vezes. . era esquisita. num canto a cama de criança de bila. resolvemos subir ao sótão enquanto nossa tia entretinha bila no jardim. . essa era uma fresca. vai ficar louca também . tentei abrir a porta de vidro para a sacada. virei-me para minha irmã: . diziam. vânia me chamou para ver o que havia num baú. subi. quando vânia estava em vésperas de casar. intrigada e vermelha. depois ela começou a rir o mesmo riso desatado de adélia. e apesar da curiosidade. ele quer festa.venha. a peça mais importante sempre fora minha avó. baús. preciso indagar de nazaré se ela sabia dessa história de tirarem os mortos. . fantasmas alvos. virgínia woolf. naquela hora não era a mocinha que vai casar logo. eu u estava mais _interessada em recomror_ a vida que catarina levara ali. bernardo. aqueles para quem adelia e eu levávamos flores: as almas fora da jogada.

havia no casarão segredos bem mais tortuosos do que a mansa loucura de umas cartas sem destinatário. não perguntava por ninguém. e isso acabou rotina. a frãulein não os daria. pouco antes de morrer ela começara com uma nova mania: escrever. isso era para as bobas. o que eu adivinhara mas ninguém me contara antes. o se redpde catarina_ a intimidade vio 52 53 #lada. como eu. das alusões de nossas amigas. vânia me deu a mão. estava tudo bem. não escrevia cartas. louca e linda. quarenta e seis anos. fiquei emocionada quando tia dora me contou isso. expulsara a enfermeira. inclinado para a frente como se um vento forte soprasse da esquerda. talvez a governanta pudica encabulasse um pouco ao ler passagens ternas e ardentes. mansa. voltamos a um mundo triste onde nossos pais já não existiam. . talvez escrevesse também as respostas. sorriu . mas não confessaria nunca que sentia medo. a moradora do sótão ficou extraordinariamente calma. entendeu?" a frase me voltaria a memória mais vezes. ou tivesse medo também. não falou mais com pessoa alguma. já fazia tanto tempo: algo para esquecer. compunha longas cartas desconexas e garatujadas. foi encontrada na cama em atitudes suspeitas com a enfermeira mocinha que diariamente lhe aplicava injeções de vitamina e massagens para compensar a longa reclusão. cartas em alemão. minha tia também se comovera. novas cartas já estavam sendo escritas. o escândalo: catarina von sassen. feito dos mexericos da cozinha. vânia saberia mais sobre nossa avó do que fingia saber? talvez não ligasse. dos silêncios constrangidos dos adultos. pareciam ora dirigidas a um homem.. conforme eu fosse apreendendo detalhes de catarina e compondo devagar um retrato fragmentado. aparentemente. passado o efeito dos fortes calmantes. com cuidado para que não se assustasse. fui ajujar a remexer no baú. num talhe apressado. quando a interrogaram.e-mttrmttrarido . não fora nada. asseada. um dia. calejada na solidão e nos desamores. e agora ue ia casar me deixaria mais só ainda.esqueci por fim as semelhanças.. mas catarina nem reclamava quando diariamente a empregada da limpeza recolhia a papelada no chão e nos móveis e botava fora. devia avaliar bem as necessidades da solitária e carente que fora sua . nos primeiros tempos em que moramos juntas.entrexe lÇlas e alfazema. ninguém soube detalhes. não fazia mal a ninguém. tudo misturado. diante da porta de vidro da sacada. era tão raro minha irmã me dar alguma atenção. não deram importância maior ao fato. não falava suas ladainhas. ora a uma mulher. lingua que catarina preferira sempre. era toda uma ausência.vamos sair do antro de perdição! descemos correndo a escadinha torta. a coisa resolveu-se assim. três meses depois. ltmadaid bonita. ninguém sabia ao certo o que se passara entre as paredes do sótão. o médico chamado as pressas acalmou a doente. a partir daquele dia. e só paramos quando tia beata lá de baixo nos chamou com sua voz de 50 51 #velhinha. "ela era uma fresca. apenas sorriu. morreu. cigarro apagado nos dedos. em letra gótica.

talvez um inocente ardor. um bando de mulheres sozinhas e doidas. os subterrâneos mas não necessariamente sombrios. que pretendia voltar a brincar de irmão e irmã? duvido.acho que não teria forças nem para isso. não permitiram. devia ter sido fácil amá-la: nos poucos retratos. um desabafo de ternura contida. mal interpretada pela governanta inábil e fria. camadas e mais camadas sobre as coisas boas. a condição. nos aproxima tanto. "sie küsste den bleichen mund. tudo por acabar. mas. nasceu quando a mãe tinha quarenta anos. os intrincados. estamos tristes demais. por . a estatura frustrada. todos adolescentes. bernardo se molha todo. hora de solidão. mas hoje chorei por catarina.mãe sem o ser de fato. agora. o mar fingindo não ter segredos. ao menos. que esquao ko alheio. anelise? . deviam ter permitido que ela provasse algum calor humano em seu universo imaculado. e o nosso foi só coleguismo no sofrimento. alguém simplesmente para amar. bilinha.pra dentro. dqbila segue ao meu lado um longo trecho na areia. penduradas nos braços curtinhos. ou é mocinha? uma criatura melancólica. vocé tem sua solidãozinha. ela não tem tempo de subir o morro e olhar a paisagem. eu queria solidão. bila. jovem e ingenua. as velas apagadas. sem espreitar ou desconfiar. amor sem sexo vira coleguismo. começa a esfriar. talvez nem se lembrasse dele. não é cachorrão? nazaré não sabia se os lírios rosados cresciam o ano todo. arestas demais. achei que talvez tiago me telefonasse. mãos fofas que nem chegam as coxas. apenas uma mulher idosa e uma criança. baixas. e que ela precisasse disso mais que de remédios ou massagens: alguém que se aproximasse sem meter medo sem ditar regras. #a manhã se estende tão luminosa que decido andar na praia. moça. nem outras vozes que não as dele. os desamados. interrogativa e doce. pensando bem. meus cabelos estão úmidos e gelados. pensei muitas vezes nos rótulos grosseiros que recobrem os amores mais delicados. mente truncada também.romântico. .. choro pelos acossados. tragédia sutil aquela: não permitiram a catarina nenhuma salvação. 54 55 #vai ver. era lógico: estávamos mais que separados. não há ninguém aqui a essa hora. como era a canção de minha mãe? os filhos de reis se amavam.para não ferir aos outros nem ser machucada. a manhã perdeu sua beleza. mas havia a água escura no meio. trocara-o. desde que estou no chalé ainda não chorei por mim. o cachorro e a veranista que volta e meia aponta no morro. que me lembra bila. há tanto tempo não via o marido. entra nas primeiras ondas. não tivesse assustado catarina. aqui da varanda vejo um entardecer macio. meu querido. cuja sorte. que desejava tentar reacender o amor? impossível. bernardo. indagando: vocé quer ser a minha amada. o morto de boca pálida. e se meu primo otávio aparecesse hoje no chalé. gorda e branca. uem sabe. até a nossa amiga lá em cima já deixou seu posto. os dúbios. que aceitava a separação. cinzas. e não importava o sexo. embora diversa da minha. o amado morreu no mar." . com a caseira. sexo triste não funciona. o perfil truncado. as mesmas orelhas pequenas. não havia o que dizer. podia ser que aquela simples enfermeira. curte um amor impossivel. eu estou. e vivia totalmente reclusa. olhava para a gente. volta e me respinga.

talvez lembrasse o terror da concepção. da viuvez de bea. alheia a um rosto branco que a espreitava na porta de vidro do sótão. vagava entre os canteiros simétricos. que parecia nem saber o que se passava. voltou a ignorar sua existência. essa tia anã era o fruto mais caprichado da árvore temida. oito meses depois a doente deu a luz uma menina enfezada que tia beata fez batizar de sibila. pode ser que tivesse notado o problema da menina. e chorou muito. que já tinha uns três anos. quando estava calma. respondia com aquele sorriso distante.algum ser belo e intangível. guinchava atrozmente quando eu fugia_ ou mandava que a levassem dali. porque logo quis que a levassem embora. incida entre as personagens . o primeiro grito. cresceu a revelia: cresceu só a metade do que deveria. tia beata falava na árvore que nascia na barriga se a gente engolisse muita semente de fruta: 60 61 #. vomito amargo. sozinha de noite. olhinhos sumos. surpreendentemente. ou menos. a árvore familiar de que eu também fazia parte. a criança nascera com grande dificuldade da mãe fraca e delirante. andava pela casa. mas um dia voltou. catarina 'pediu para ver sibila. e. silenciosa e terrível. e se por algum buraco do meu corpo começasse a brotar. porque as mulheres da nossa familia eram geralmente bem altas. o parto. insistiam. possivelmente criou r~ si uma filha loura e perfeita. quem sabe lembrava de repente uma menina loura e delicada de anos atrás. e transformaria num pesadelo meus anos no casarão. mais de uma vez a peguei puxando as pontas de uma minhoca até a pobre estourar. com flores e beiradas de morangos. brutal. só quando lalo nascesse. quando falavam na filha. mas não era só por nojo que a repelia: era medo. queria comer ao meu lado. aprendeu-lhe o nome porque a fraulein e tia beata ensinavam. eu entenderia como esse medo fora grande. nunca lhe nasceriam dentes. bila adorou os bichos-da-seda que um dia inquietaram o sótão.nasce laranjeira. indagou de catarina. aqueles príncipes dos livros de menina. a filha viúva.doiótão. É quárido me vira. quando eu era criança. falava numa algaravia que só tia bea e a frãulein decifravam em parte. bebeu muito. que não violasse seu corpo solitário. trotava no jardim. segurava minha saia. azucrinou 59 #as criadas e a governanta. tinha mania de pegar insetos. eu chorava apavorada. talvez a memória obscurecida registrasse a gravidez. uma ponta . perguntara se eu era sibila. por fim. o dono da casa vinha raramente. talvez soubesse que era sua filha. foi como se no outro dia já estivesse esquecida de tudo. mas ela. babava meu braço. feia. a enferma nem se apercebera dos casamentos das filhas. macieira. horror no sótão. mas era o nome de uma criança estranha. comia formigas. subiu. bila dava muito trabalho: cuspia nas pessoas. quando todos se tinham habituado àquilo. aparentemente. o pior é que parecia gostar de mim: me seguia por toda parte. catarina não quis ver a menina. depois. bilinha. ca belo ralo e preto. beliscava. gritalhão. cabeça pequena. judiava dos bichos. naquela minha única visita.

acho que concentrou nessa irmã todo o seu pouco afeto. previa desgraças. estava saturada daquela vida. duas figurinhas perdidas na areia. a alma-irmã de bila há de vagar por ai. chegou ao mundo e só encontrou aquilo: um caco de gente. e a frãulein sumira. dos santos e rezas. entre canteiros comportados e morangos alegres. sentido mais compaixão que repugnância ou terror. sem vontade. tia beata só tinha a mim para fiscalizar. pouco antes de morar com tia dora. bila.somos uma família bem esquisita. a mulher e a filha somem. um dia limpei essa nata gorda. trazido seu brinquedo. limpado sua remela. a bobo ca dos outros tempos. via `coisas'. era o rosto de catarina atrás do vidro. não passara boa parte da infância temendo ficar doida? até as empregadas tinham medo da anã: diziam que dava azar. me lambuza toda. nazaré pragueja na cozinha.respondeu ela no seu jeito rude. da casa feia e escura cheirando a mofo. tia bea combatia essas crendices. e quando ela morreu chorou longos soluços por quem nunca entendera sua dedicação sem recompensas. quando morávamos juntas. isso foi quando eu estava lá havia uns quatro anos. ou era imaginação? . a pia entupiu.de galho? devia ser assim com bila: a ameaça do que a qualquer momento podia estourar em mim também. transborda va. eu podia ter sido sua amiga. que está caindo aos pedaços. atira-se sobre mim. tinha mau olhado. das implicancias. dizia que bila era apenas uma pobre criança. no casarão também havia problemas na cozinha. nem me dava o trabalho de fingir. esclerosada. não me dobrava mais diante de minha tia. tinha vergonha por causa daquela tia esquisita. eu não levava amigas para 62 63 #o casarão.eu disse certa vez a tia dora. fazia questão de lhe mostrar tudo. espalhava um cheiro úmido repugnante. na casa de uns parentes. bernardo entra mais fundo na água. vou lhe dar um banho em regra. não ia a missa. enquanto almoço. até bila me fazia falta. podia ter penteado sua trança. adélia. espiava a sacada do sótão. que falta de higiene. de birra. a caixa de gordura entupia. hein tia? . . tiazinha anã. mas o que eu mais fazia era pensar. lia obras `escandalosas' que tia beata condenava sem conhecer. fora-se num caixãozinho de criança. no jardim. ao menos podia ter disfarçado.uma familia de doidas . a casa é tão pouco usada ultimamente. tia beata vai sacudir a cabeça na minha memória. no terceiro andar. tinha vergonha por causa de bila. e enxugar com uma daquelas toalhas felpudas. triste? por que as alegrias duravam tão pouco? deitava na grama. grande como um homem. esgarçado. e mesmo agora. mas a essa altura eu não dou a mínima por coisa alguma. como se eu ainda fosse criança. que vida mais sem sentido era aquela minha? por que tudo comigo era assim. . suas histórias não estavam todas certas.

cabeça debaixo cia pia. pois eu ficava de fora. como de costume. ela entrou. . desconfiados. quase tive pena. nada havia senão duas velhas caspentas jogando no tabuleiro em que as sombras corriam. olhei. lixo. uma vida l ável e simples. pelo menos. nené para ser humilde. mas a raiva era maior. aprendera que a distinção entre o bem e o mal não era assim tão simples. de tudo o que me sufocava. um dia.concluí maldosa. e o mal a de tia dora. aquela pia está nas últimas.sabe. presunto. que passou trés . não havia fantasmas. tia beata diante de três sardinhas num prato. o incidente me pareceu ridículo na hora. quem sabe a velha me expulsava e eu ia morar com tia dora. l r 64 65 #.não se come fora de hora. anãs. tudo acabado: tão simples. sexta-feira santa. em lugar dele. eu preferia o mal. a casa anda cheia de barata. a preta tirou a cara de baixo da pia.um corpo de menina batendo nas pedras pretas. não só dela.você só se alimenta de sanduíche e cocacola. e. . sem bater. não havia migalha. sobre os restos do lanche. as bruxas soprando com força.o rosto pontudo avançava. onde ia parar seu mundo certo e medido? mas logo se recuperou: a igreja tinha regras. a gente acendendo velas. . mais verdadeiro. ou sardinha . leite-de-rosas: . caíam. que para minha tia eram questão de vida ou morte. muito breve. sempre tivera nojo até de botar a mão em carne crua. se o bem era a vida de tia beata.exclamou como se eu estivesse nua na cama. com ar resignado. saltavam. quando devolvi a garrafa na cozinha a empregada estava ajoelhada. . no meio da tarde fiz um sanduíche na cozinha. um cheiro enjoativo no ar. estourei: . feito uma idiota. ela baixou-se um pouco. meu primo. tudo podre. devoravam-se. e por algum tempo. por um momento ela pareceu insegura.presunto! . ou se pertencia. como um desesperado. lá embaixo. a solidão era tão pesa da que meu coração ia rebentar. mas na hora pedi que ela me deixasse ajudar. tia. podridão. a abstinência. deixava. censurava. hoje nem é só abstinência. na hora não lembrei o jejum. ou não se pertencia. o que fiz não foi por bondade. ela ainda não entendia. ele foi quebrado pela presença de otávio. é jejum. . minha solidão e a de tia bea somavam-se num vazio intolerável. mas depois comecei a chorar. que bom se tudo estourasse feito uma bolha de sabão. não me submetia mais. no jantar. diante do meu olhar desafiador. um avião explodindo no ar. hoje também fiz penitência pela sexta-feira santa. quando eu comia no quarto. mexendo na caixa de gordura.achei que botar a mão naquela sujeira era uma penitência muito maior do que me regalar com peixe. olha as migalhas na cama. ela ergueu uns olhos baços. virou-se e saiu batendo a porta. mas vida.comecei a ficar atrevida com tia beata. sombras e frieza no apartamento daquela tia que eu gostava tanto de visitar. e eu nunca me aproximara muito de deus: medo de descobrir que.ajudei a empregada a limpar a caixa de gordura da cozinha.

não era fácil. tudo o que tia beata desaprovava. sangue estranho na família. mas meu nojo não passou. enquanto ele tocava. breve e fulgurante. onde as bocas dos afogados emitiam borbulhas. só que não fazia sentido. num lugar onde bila não alcançasse. eu faria tudo por ele. essa era a música de que eu mais gostava: as improvisações que ele fazia. eu não entendia bem por que. embora mudado. criava como podia. ou melhor: eu me apaixonei logo por otávio. então. quando não havia ninguém perto. tocar piano. que sem entender nada adorou os bichos. incompleta e assustada experiência de sexo. mas era segredo. um espaço submarino. um dia ele consentiu. pelas suas caixas de sapato. a boca. ele sabia que nada era perfeito. para tia bea. mas adotara aquele bebê. mas trouxe também as misteriosas caixas de sapato. meu primo chegou com um mínimo de roupa: camisetas. nojentos. otávio era muito especial. mas ele parecia um rapaz independente. internatos quando era preciso. Éramos um velho amor. que guardou no quarto. de sorriso tímido e sensual.mas eu nao contava. de um adolescente tímido ou malcriado. otávio seria o meu amigo. entre folhas de amoreira. ela viajava muito. tia dora não tivera filhos. verdes. apoiado pela mãe. desde que eu não contasse para `a velha'. e tocava lindamente. passava a um menestrel. quanto mais eu ouvia otávio tocar piano no canto da sala. efebo. me ajudou a enxergar outra vida além dos paredões sombrios daquela casa. gastava tempo e dinheiro com um capricho desses. segredo mais sem graça. jeans. ou apenas eu . um convívio formalizado e sem intimidades. me fez partilhar de uma primeira. jurei que não. ele mostrou tudo a bila. um aquário. quando parava de tocar e se voltava para mim. era a priminha. o cheiro. o cabelo. também otávio tentaria me ajudar quando meu casamento desmoronou depois dos anos perfeitos. delicada. uma companhia de verdade. que tia beata encarava com desconfiança. para onde fugia quando se entregava assim a música. e mais tarde. como se só então se desse conta da minha presença. pegava na mão. senti que haveria enfim uma trégua. havia nisso uma cumplicidade que me aquecia a alma. tênis. bila ainda vivia. as mãos de pianista. não prestava. muitas vezes. nos apaixonamos por ele. não era coisa de homem. de que ninguém partilharia. e quando tudo se esvaziasse. eu ficava a imaginar qual seria o seu segredo. uma entrega a qualquer coisa no seu mundo particular. havia vermes nas caixas. otávio explicou que eram bichos-da-seda. criatura andrógina de um mundo submarino. quando tia bea concordou em 66 67 #deixar otávio ficar conosco naqueles meses. a me dar a mão. pelados. o anjo do piano transformava-se num rapaz sedutor. arranjava-se com amigos.meses conosco. para me magoar. quando descobriu a chave do sótão. eu não via muito seguidamente o primo arredio. o único homem com quem eu convivera fora meu pai. a pele. foi otávio quem me deu o primeiro beijo na boca. achava tudo nele diferente. mais ele se transfigurava para mim. por isso. uma mudança. aquelas delicadas dissonâncias. eu pedia para ver o que havia dentro. e acho que nós duas. os olhos. cada uma a seu modo. otávio ela achava mimado demais. todo desarrumado mas fiel. e o que nos uniu. de sombras verdes e sinuosas. o rapaz tocava piano. além disso. escondeu lá em cima. bila. quando eu o ouvia e pressentia que aquilo era uma fuga. e eu não acreditara. que dúvidas e ansias expressava . amava tudo. os corpos moles. até hoje continua em mim.

nas teclas. 70 71 #de branco que andava no jardim. sua casa. um sótão misterioso. otávio tinha um riso assim. . mas ninguém ria por muito tempo.ele responde numa gargalhada. menina? . sobre o rosto que ainda hoje se via pela vidraça no sótão. sem me ver. no sótão. altas paredes pintadas de ramagens num fundo escuro. morte inacreditável. batia no quarto de tia beata: . sem doença. não se faça de boba. nossos lírios e estrelas-domar. eu sofria mais. eu não os enxergava mas tinha certeza de que estavam ali. encurvada como se apanhasse papéis no chão. quando tia beata não via. menina. quase pedia a tia beata para dormir com ela. para. . ainda não escureceu.voz cansada e impaciente. mas tão vaga que logo se perdia. e apaixonado. o jeito cúmplice e quente. o que é que eu sabia do casarão que a presença de meu primo iluminaria tanto? os primeiros meses que passei lá foram um tormento. eu contava as flores. você já é grandinha demais. tem gente lá em cima. eu estava nervosa. imaginava. o quarto enorme com a cama perdida no meio. saber: não sabemos nem de nós mesmos. eu insistia. -e o meu? um dia também deitaria na mesma cama com um homem findo e bom. qualquer sombra me assustava. havia rostos atrás da cortina. .bobagem. e bila. estou com medo. nazaré não sabe nada a respeito dela. espantar -a-medo. mexericos de cozinha sobre fantasmas e vozes. . sem túmulo. 1 68 69 #o meu jantar é servido no avarandado. procurava não pensar nas conversas das empregadas. tinham-se apagado feito duas velas. eu estou ouvindo. quando -nao agüentava mais. . eu queria pensar em coisas boas: adélia. mas a velha não cedia. um friso com rosas nítidas. libertado e inocente. hirta de medo. sem velório e enterro. havia um par de olhos fixos atrás da vidraça. eu me enfiava de novo na cama. perturbada com a morte súbita de meus pais. durma bem. falando. não era tola como minha avó. mas deus não se ligava muito aos meus medos. indago seu nome. o efebo tocava. tem gente lá em cima. mas me repugnava deitar ao lado do corpo ossudo cheirando a leite-de-rosas. gelada de medo.anelise. e por uns momentos avisto a s_o_litária no morro. tia beata. anjo de sepultura. eu acordava molhada de suor. o casamento de vânia.zico . perto do teto. durma com deus.tia bea. de noite. como o de adélia. se a cortina estava aberta. havia uma fenda. abro a janela. uma falha qualquer. sabia coisas.tia.lá. tremendo. sobre a mulher. não mandava as vozes se calarem. e um calor . vá dormir. corria até a porta.lá onde. mulherzinha obstinada. mas havia alguém falando. e escutava gente murmurando sem parar lá em rima. sem mortos nem cemitério. reze que passa. caules e até espinhos. no sótão. 0 'filho de nazaré me acorda dando risadas enquanto brinca com bernardo lá fora. sem amor. seguia pelo corredor. a gente sopra e some tudo no ar. amanhã quero descobrir sua identidade. eu sabia. . o que é que eu sabia de otávio? o sorriso sensual numa cara de anjo-adolescente. no casarão havia medo. bernardo quer tirá-lo de cima. não conseguia nem estender a mão e acender a lâmpada de cabeceira: estátua de pedra.

foi como se virassem de cabeça para baixo o velho casarão. assustada com minhas próprias palavras. roubava morangos maduros. dormindo escapava ao incubo. abria-me. desabrochava. nos beijamos na porta do meu quarto. e me deixava enciumada. tínhamos falado das nossas vidas. mas de noite. com o tempo descobriu o 72 73 #esconderijo da chave. meu primo tocando piano. catarina. como se fosse ficar doente. minha vida mudou: fiz novas amizades. otávio corria pelas escadas. ele queria ouvir de novo a história de catarina. nem parecia ter nojo dela. mas não havia nada. por isso intensos. eu pensara que aquele segredo fosse só nosso. não havia vozes. comecei a mudar. e a sensação de que tudo tinha de ser rápido. onde eu admirava aqueles quadros singulares. fugiam as alusões e olhares azedos. a cama de bila. eu queria descobrir o que havia no meu primo . verdadeiro. sangue inquieto. a cumplicidade das coisas não ditas nos uma: os contatos. as bocas próximas inventavam segredos tolos. quanto otávio veio ficar conosco. seu riso. o amigo. não caçoava de bila. me chamava sua princesa magricela. os corpos íntimos encostados quando dançávamos na sala. meus fantasmas se encolhiam num canto. puxava meu rabo-de-cavalo. olhava fundo nos olhos. eu contava. levei apenas duas. aos poucos. amava o sorriso meio tímido. me chamava de medrosa. erguia-a no colo para mostrar o ninho escondido. não havia tempo. contei a ele que estivera lá uma vez com vânia. com seu calor. estudava. momentos roubados. o sótão era apenas um quarto sujo que eu visitara com vânia aquela vez. especialmente nas noites em que tia beata tinha novena. a proximidade na banqueta do piano onde ele me ensinava peças a quatro mãos. cantava. e ainda havia as caixas de sapato. ainda assim. não formávamos uma família. as pernas encostavam-se na banqueta do piano. e subia ao sótão. carentes. depósito de bila quando ela ficava impossível. uma noite. um mundo pelo qual eu esperara tanto: sólido. me mostrava ninhos de passarinho. e eu não. contava. meu primo era fascinado pelo sótão. na sua dimensão particular para onde eu queria ser levada junto. e havia otávio. otávio ria. mas tia dora se compadecia de mim: me levava para ver o atelié. Éramos dois adolescentes solitários. sentia aquele calor perto de mim. nossas mãos se entrelaçavam debaixo da mesa. fomos andando pelo corredor. isso não mudara. cheiro de urina velha. só tinha velharia empoeirada no sótão. e um pouco assustador.secreto me inundava. o medo exagerado dos primeiros tempos cedeu. porq ie nada parecia esfuma. esquecendo bila. onde guardava as caixas misteriosas. as vozes. vivia procurando a chave que tia beata escondia. trés semanas para entender que ele não era só o primo. tia dora e vânia nos visitavam pouco. o mundo torto onde bila estava iniciada. ali tinha-se de assumir o real. mãos dadas. fácil lidar com fantasmas. catarina morrera há muito. não havia mais adélia. como eu. eu não trazia amigas para aquele lugar triste. eu me atrapalhava com as notas. as coisas reviviam: as insólitas. mas nada compensava a solidão. coração em descompasso. levava-a pela mão. sua música. eu já me habituara. o companheiro de correrias: era o primeiro homem. e todas aquelas histórias. os olhares. pura vertigem. eu estava toda tomada pela presença de otávio. tudo breve demais. esquecia o sótão. o casarão não era um lar. e entre as brincadeiras as longas conversas sérias numa rede do pátio. eu me sentia fraca e tonta. ria sem motivo. me ensinava a escorregar nos corrimões feito criança.

nos últimos anos vivi mais deitada do que de outro jeito. um soco. acho que não esperávamos muito dessa ligação. levar daí por diante. nos iluminava. havia uma floresta de experiências que esperava por mim: havia a 74 75 #liberdade. vou me desfazer em mil pedacinhos de um quebra-cabeças insolúvel. mas por algum tempo a chama desajeitada nos consumiu. respirar devagarinho. podia desafiar a morte. tia bea foi para o seu convento. quando fiz dezoito anos. quando voltou para junto da mãe. e fim para anelise. puxar as pernas para junto do queixo. eu não era mais a criançola precisando de controle. o toque profundo. abraçar os joelhos. a calmaria quase perfeita. mas algo intangível. apesar da . meus anjos. fechei a porta. a convivéncia com tia beata se tornou insuportável. preciso me encolher toda. venderam o casarão. assustador e insistente. quis morrer de amor naquele instante. a mistura de desejo. as minhas de agora se fundem numa sensação única. ventre em fogo. de certo penitenciar-se pelas loucuras da família. repetia a todo instante. cada batida do coração. especialmente quando tocava. e a paixão. eu não era criança. aperfeiçoar-se no piano. afinal. chorei muitas noites. ela não podia mais comigo. a dor. mais perigoso. alguns beijos e toques. só ela. mas beijo na boca nunca. onde tudo era proibido e melancólico. na sua opinião. não tenho mais força. a presença de otávio. o beijo foi demorado. otávio me abraçou. fechar os olhos. estou na sobrevida. a lingua. encostou no meu o seu corpo inteiro. bom não existir mais nada daquilo: bastam as nossas dores_ de hoje. deixando uma nova anelise. e por muitos anos só trocamos cartões quase fraternos. e otávio não parecia muito experiente. a tempestade da paixão por otávio passou. tão bom morrer: porque eu me sentia imortal. pensei no quarto. até que tive medo de desmaiar. um corpo duro. estávamos constrangidos. mais devorador. como eu. ele temia alguma coi sa: não fantasmas no sótão. hesitante primeiro. se não fosse a dor. e pela vida que eu iria. como uma doente. com medos no sótão. passei a noite lembrando cada milímetro da cena: o corpo. meus mortos. talvez o mis tério do casarão. que. para agüentar os golpes. muitas famílias moram sobre ele. passo da rede para a cama. a sensação vital e estuante que eu experimentara me fez entender mais intensamente que o mundo não se resumia a uma casa grande e escura. viro poeira de gente também: bernardo varre o assoalho com a cauda. a de que a vida acabou. depois. ao menor esforço. liberteime e entrei às cegas. afundo na cama como afundei na rede: falo bem baixo com meus duendes. as pernas fraquejando. curiosidade e medo me afligiu.que o fazia recolher-se de vez em quando para um mundo só dele. atrás das pálpebras meio descidas. pensar com cautela. chegamos na porta do meu quarto. não conseguia andar. tia dora mandou otávio para o exterior. tia dora concordou em ficar comigo. no prazo final. os mortos roubados do cemitério. neta de catarina. a boca. alguma coisa faltava. um calor estonteado escorria de mim. na cama ali tão perto. construíram um edifício sobre os meus fantasmas e o sótão de catarina. nossos encontros ficaram mais espaçados. não havia coragem de faiar em intimidades: ele me chamava `priminha'.

não consegui mesmo viver mais com tia beata. o casarão estava velho. tintas. nunca mesmo. sabia agora que era capaz de amar e ser amada. até abraçar tia beata e simpatizar com bila. que nunca voltava para casa. acariciava o cabelinho pobre. ela conhecera a menor alegria. uma pneumonia fulminante a matou. sem graça. e otávio. demorados. mas há tanto tempo viajara e parecia estar con tente assim. não dava satisfação de nada. a vida no ateliê. os silêncios. na esperança. olhava apaixonada o canteiro de morangos. ali era . eu precisava de mais liberdade. passava fora de casa a maior parte do tempo. falas azedas. tentávamos ser gentis uma com a outra. no pomar com as freiras de avental cuidando de alfaces. desafiando. arrebatada. nossas conversas eram pobres. não foi difícil convencer tia beata de que eu passaria a morar com tia dora. queria beijar todos os rapazes. falava com uma ternura de que nunca a julgara capaz. beijava a mão miúda 76 77 e desengonçada. não para lhe dar companhia e consolo. assim feliz. e bila certamente sequer entendia o carinho. viver tornou-se um ato saudável. por fim. o filho sempre no estrangeiro. fumaça de cigarro. única. adaptei-me com espantosa rapidez e facilidade. tia beata concordou com evidente alivio: visitei-a algumas vezes no convento onde foi ocupar um quartinho perto da capela. com beleza e fogo. inconformada. minha tia me encarou com mais rancor: eu sobrevivera. morta bilinha. amar todas as mulheres tristes. colhendo laranjas. 78 79 já não parecia o adolescente a um tempo esquivo e ousado que passara aqueles meses no . . escutava meus discos a todo volume. não uma obrigação penosa. risos fáceis. para que não fizessem perguntas. mais alguns quartos e a sala com o-piano num canto. entrava e saia como bem quisesse. pensava menos na avó doida. insolente. nada havia feito na vida senão esperar por aquilo. deitava do seu lado na cama. artificiais. o apartamento de tia dora era quase todo um enorme ateliê. eu desabrochava. as amizades. e como não gostava de levar amigas ao casarão. no próprio corpo. tão suspeito. precisava de reformas ou que o vendessem. apenas para complicar sua vida. otávio ainda era uma saudade. tive novas amizades. e foi como se a amizade de adelia e o breve desabrochar com otávio me tivessem preparado para essa nova experiência. irreversível como adélia de pé no seu rochedo. o piano me lembrava dele. e vivia indagando de tia dora. me sentia linda. passeávamos nos jardins sossegados. até que deixei quase completamente de procurar por ela. freira sem ser freira. ninguém queria me vigiar. na tia anã. a solidão de minha tia devotada a anãzinha debilóide me comoveu. claridade. a excessiva sobrevida terminava. tia dora interveio: andava sozinha demais.o que no casarão fora sombra e mofo. quando tia beata morreu tive muita pena: nunca. tia beata tratou dela como se fosse filha. a faculdade me impunha novos horários. senti remorso. mas nem assim pude ser sua amiga. bila adoeceu: nem chegou a ir ao hospital.saudade. o piano de otávio. namorados. que não desistia de tentar me converter._ em lugar de vozes -ãigüebradas. essa libertação. e mais na vida.

tia dora atraía os solitários. mechas louras e grisalhas eriçadas na testa. pelos medos? eu. será que jamais participara da vida de alguém? adélia talvez. e classificava sumariamente: veados. vida natural. todo mundo queria comprar aqueles quadros de cores sombrias. figuras incógnitas. nem a secura de tia beata. mas havia também as coisas boas. a solidez. fazia parte do jogo. o papelão tra ando tudo. havia sempre amigos no apartamento. uma curva de pescoço. saí da casca com surpreendente naturalidade. as pequenas viagens. porque minha tia pintava monstros. cuidava de mim sem me aprisionar. de alguma forma. com tia dora esqueci um pouco tudo aquilo. figuras vagamente humanas. nem a fragilidade de minha mãe. horários rígidos.casarão de tia beata. minhã tia não admitia ninguém por perto quando pintava. talvez desabafasse nos quadros: os monstros que retratava eram seus filhos secretos? estava envelhecendo e não pensava mais em casar. mas eram monstros tristes. mesmo sobre seus casamentos fracassados. os passeios pelas ruas. contudo. portas abertas. mas havia o penhasco. dedos sujos de tinta. escuridões. no casarão houvera meandros bem tortuosos. ali um crânio calvo. os fantasmas que dormissem no seu canto. de repente dispunha das mesmas oportunidades nas mãos. enquanto se preparava para um novo quadro. havia amigos. ess. embora logo entendesse que atrás das conversas animadas e dos copos de bebida estavam todos irmanados pela solidão. a bondade um pouco rude. bilinhas distorcidas. inesperados clarões. tia dora criava anjos. e me senti parte de uma fraternidade. agora 'eu pertencia ao grupo que tia beata sempre chamara `a fauna da dora'. ela mostrava aquele humor sem amargura. eu desejava com fervor ser parecida com tia dora. mais tarde. sem lamentação. íntima. e só pinta monstros? ela nem se deu ao trabalho de me olhar. vigaristas. . que a amavam pelo calor e jeito maternal. desconfianças. quando olhává _meu filho adormecido. uma sobrancelha. esfu 80 81 #coadas. inclinou-se um pouco. ao menos uma vez na vida participante. a gente sofria? tinha de sofrer. tão belos quanto seus monstros eram deprimentes. mais ou menos vivas. mas deixava que eu ficasse desde que prometesse não falar. adiante um par de mãos. o resto: sombras mais ou menos nítidas. as longas conversas. o humor sem amargura. dramas. os tristes. o desamor. _ os. eu sentia que vivia segredos bem mais graves do que caixas de sapato com bichos-da-seda. ou descansava. ali não havia sótão. mundanas. quadros. foi observando o trabalho de tia dera que descobri aquilo dos anjos. ela achava graça quando eu chamava assim. eu me sentia escolhida. aqui um olho. bruxas e demônios. lia com avidez as cartas do filho. entre caixas-de---sapato e alfazema. esboçava em folhas brancas umas alusões de anjos. que fora a boboca assustada enquanto minha irmã aprendia a viver. muitas gizes pensei nes. cheiro de terebintina.por que a senhora desenha esses anjos lindos. bila. mexericos e sombras na escada em caracol. apreciava um detalhe do . um rastro de asa. e pior que tudo. como se apenas esperasse aquela hora para emergir. ulna narina.

não acredito em anjo. avassaladora: um mar nada sinistro. . e tiago me oferecia uma paixão madura. talvez até a visita ao sótão. perfil de anjo como os esboços de tia dora. era uma adulta. para minha tia as coisas também não eram simples: havia sombras. e disse aquilo sem rir. recantos que até eu ainda estava por descobrir. 84 acordo. aqueles ossos dos dedos não perdoavam. há tantos anos. seguro. anã e retardada . pensamentos. voragem deliciosa em que se morreria de bom grado. partilhar tudo: casa. corpo. . o abraço nem afrouxou. mas não corrompido pelos desencantos. esse é o que mais seguidamente vem ver a mãe no chalé.anão careca: . me transfigurava. ordenado. na beira da pedra. faziam a minha vida perfeita. ane 1 82 83 use. cabelo curto espetado. um menino magro de ar divertido. eu esquecia. seu desquitado. que esta manhã cedinho já viu a veranista no morro. nos tempos do casarão. seu patético. ainda que de anjos.deixe ele. acenando a mão 3áñcá dë uma solitária mór idoi a do sótão. acordar com risadas de criança é bem melhor do que ser arrancada do sono pelas batidas secas de tia beata na porta. depois sumiu. fantasia de criança. É a vida. pés nus na madeira. uaudo os fantasmas queriam voltar. seu suicida. ela ralha por qualquer coisa. de tudo-ou-nada. por mim.uma das minhas tias foi anã.vai ver. o cheiro de alfazema. só zico e ámçáseira. nazaré. de todos os filhos. . viu? esqueça isso. as muitas amizades. podia apostar tudo na vida. ele foi percebendo que aquilo me atormentava. num beijo esquecia tudo. e eu queria tudo. por amor a tiago. mas não houve muito tempo para refletir nos labirintos de tia dora: eu estava apaixonada. eu podia ter um filho assim. a risada no jardim.contei a tiago nos primeiros meses de namoro. uma menina de cabelo preto e liso despencando na rocha. 87 . tudo em tiago era saudável. zico fala esganiçado com a mãe na cozinha. tão alegrinho. os anos com tia dora. agora tiago era a presença que me inundava. onde nazaré ainda ralha porque o menino fugiu. um casal esfumado sobre o mar.toda família tem lá o seu doido. mas não é só isso que a vida tem. o casamento seria uma aventura de abismo. esqueça. eu sacudia de mim essas memórias como insetos pegajosos mas inofensivos. . eu gosto disso. as independéncias. e queria pertencer mais ainda.tive uma avó que ficou doida . a mulher alta. um despertador implacável. a figura de uma alia rasgando minhocas. algo da vitalidade de tia dora. então. entro na cozi iha.completei dias depois. o amigo de bernardo. finalmente pertencia a alguém. a coragem ainda não se desgastara. não há mais tia beata. são acidentes que não vale a pena cultivar. cama. o menino foge correndo. fosse imaginação minha. mas o meu seria louro. muito mais profundamente do que meu primo otávio em nossa aventura adolescente. olhou o mar m ` uito tempo. e agora tiago. o olhar continuava sereno. reais mesmo eram os monstrengos. precisava esquecer.

tia dora seria mais afetuosa com zico do que eu. eu apenas espreitava a mulher que agora tinha abraços bem mais íntimos do que os que otávio 88 89 #me dera há tanto tempo no casarão.disse tia dora pouco depois. para ter adotado otávio. vivendo. triste. ele está tão apaixonado. mariana não era muito bonita. dava os que eu não pudera dar. ou era o risco? eu não perguntara. feito tia dora. não dava lugar para os dúbios. tia. será que. da dúvida sobre a vida daquele único filho. preferia que a consolasse de uma dor ainda indefinível. . conversar. dunas e um chalé antigo. mas para ela o mundo se dividia nos corretos e nos maus. e agora tenho vontade de conhecer essa mulher. ele estaria feliz? sempre achavam que meu primo não gostava de mulheres. não o disfarçado desencanto de tia dora. só os cartões que. ainda tocava aquelas improvisações que fazia para mim. e que eu chamava de `música submarina'? tocava de olho meio fechado.bobagem . nazaré não sabia.#. ela devia gostar muito de crianças. assim de repente? nem escrevera sobre namorada ou caso nenhum. sozinho. e muito mais. também não teria gostado se dissesse que a julgava estranha. que era `esquisito'. e agora? tia dora aparecia no meu quarto. tia beata dizia. . não substituíam a presença antiga. magra. corpo querendo entrar. soberana. ou o esfacelamento vagaroso que seria o meu um dia: apenas um ato desencontrado e ridículo. com mar. não o súbito apagamento de meus pais. que nos deixaria mais unidos do que nunca: tia dora. porque para afeto meu coração não dá mais. meu coração apertou-se um pouco: era ela que recebia aqueles beijos. nos abraçamos. ruiva autêntica. queria saber o que eu achava da moça. essa gostava de paisagem. com o tempo fui entendendo que as preocupações de tia dora não eram infundadas: mariana não ligava para o marido.respondi. mas em vez de monstros carecas ou desgrenhados. em mariana parece que só vi a cabeleira: uma labareda.o principal é que otávio se sinta bem com ela. tanto eu quis a minha solidão. nem o absurdo de tia beata. só o afago distraído na cabeça de zico. mas me pareceu fascinante. e estava: não parecia á vontade com mariana. pianista num conjunto de jazz. fiquei comovida ao reencontrar meu primo: não esquecera o amor adolescente. menino esperto. que tentara uma porção de vezes. ser sua amiga. ele descobriria até o nome da fulana. nem muito jovem. embora estivesse apaixonada por tiago agora. foi assim que vi pela primeira vez um casamento se destruindo como um canibal que devora partes do ~róprio corpo. agora um homem.você ainda não descobriu qual a casa dela? tinha vontade de saber quem é. ao menos. e havia calor no olhar. mostrava-se constrangido. otávio e eu. um beijo rápido na face. mas ia mandar o filho ver. otávio pouco escrevia. algumas fotografias: o adolescente que me ensinara a beijar no corredor escuro. inquieta. estava entretida amando. conhecida. . no lombo de bernardo. não vá dar uma de sogra. e só deus sabe que . não pudera ter os seus próprios. não gostava quando respondia que a achava boazinha. bonito demais para um homem. esquecendo. achei tia dora com ar satisfeito: a família nunca apostara na virilidade daquele frutó alheio.estou achando a mulherzinha um horror . o rosto um pouco dentuço como o de muitas ruivas. eu ainda achava que era uma pintora. como um menino diante da primeira namorada. ficamos surpresas quando otávio escreveu que casara e viria nos visitar. não o teatro patético de vânia. tia dora a odiou ao primeiro olhar.

comecei a notar que ele não sabia bem o que fazer com sua mulher. quando fugíamos à vigilancia de tia beata. o que teria otávio visto de especial naquela mulher. Éramos amigos que encaravam um pouco divertidos as experiências ansiosas de outros tempos. tocava piano para mim. com seu piano e seu mundo no qual ninguém entrava. mariana lhe cuspira. brincava com ele? por que se prendera em quem não o amava. no canto da sala. bonito demais para um homem. os gritos de mariana. nem a ruiva. cada dia mais sozinho num canto do apartamento. depois de uma discussão maior. o clima hostil depois de tantos anos de auséncia. quando nossos amigos chegavam. as duas às vezes discutiam. queria voltar para a europa de qualquer jeito. tocava piano baixinho. e já não me pertencia. que andava com ar tão feliz. arvorava um ar provocante. mas a ruiva pressionava o marido. deparei com ela e um rapazote atracados junto da pia. dizia sentir-se mal aqui. mariana transferiu-se para a casa de uns amigos. tola e vulgar. andava desalinhada. chamava-a de bobinha. a sogra neurastênica. aqui. mas perdido ao lado de uma bruxa vermelha que me parecia cada vez mais uma criatura vulgar e má. porém. finas a velha intimidade só espiava entre as frestas da amizade de agora. o gelo derretia no balde de cortiça em cima da mesa. tia dora queixava-se com fregüéncia. tremendo mais-de raiva do que pela cena. de otávio. ainda sabia rir daquele jeito antigo. que o traía. fingia ignorar. e fiquei com pena: de minha tia. punha uma roupa sumária. otávio fazia brincadeiras sobre meu casamento. delicado? obscuridades. um dia ele trouxe para tia dora limpar uma camisa com escarro amarelo. quebrava louça na parede. não demorou muito. não ligava para o marie. olho espremido por causa da fumaça. otávio pareceu . boca tremendo de indignação. as oportunidades. que entrara ali para apanhar mais gelo. uma esposinha estranha. mas éramos apenas os primos que se amaram quando quase crianças. lá estavam os amigos. a ruiva. olhos semicerrados. as brigas entre o casal se tornaram tão freqüentes e ruidosas. otávio estava mais bonito que nunca. que otávio depois vinha se desculpar conosco. tínhamos muita oportunidade de falar porque mariana passava o dia no quarto. estava sem trabalho. ele tão terno. a cabeleira flamejante derramada para trás sobre a torneira. ele contemporizava. não tinha ânimo para nada. dormia a màiór parle do tempo.estranho fascínio o prendia tão loucamente a ela. eu mesma pertencia a tiago. otávio via tudo. a noite. ele apenas ria. contei o caso da cozinha. a priminha chata. fechei a porta. tímido e sensual como na adolescência. semanas mais tarde. até com tiago. amadurecido. flertava com meio mundo. uma noite fui à cozinha procurar mariana. com quem ia me casar. de tudo. tia dora tinha razão. lágrimas nos olhos. não comentei com ela o que vira. ele lhe baixara o bustiê. desprezava. não sabia mais o que fazer. a mulher era nervosa. o ambiente insuportável. nunca pertencera: era de mariana. de onde voltaria à europa. ficava feia. especialmente quando tia dora reclamava das brigas do casal no 90 91 #quarto. cigarro na boca. arrumava o cabelo. ele. e mariana parecia uma cadelinha histérica. quando minha tia veio falar nisso. ele não me confidenciava nada. encolhia-se. preocupada com o filho. que nos envolveu a todos. queria ficar. desabrochava. o que me enfurecia. uma bruxa ruiva.

casinhola. o mesmo dos esboços de anjos de tia dora. acha que ando sozinha demais. mas tenho vocé. paixão de verdade. ela tem razão. mergulhar no passado. por isso diz `seu bernardo' como diz `dona ana' para mim. os filhos com saúde. na escadinha. vai levando como dá. talvez o filho de nazaré tenha me lembrado o rosto de otávio. sólido. nunca aprendeu direito meu nome. mas ela não me deixa sozinha. consolador: deitar-se para sofrer menos. para não enfrentar o futuro. . um pouco duro passar as noites longe deles quando estou no chalé e ela tem de me fazer companhia. . pensa demais. Éramos uma familia de perdedoras. aí a gente pensa menos. também é fiel. na rede ou na cama. familia grande comprimida naquela vila. . nazaré? . tudo o que dizemos: metáfora da mes ma coisa. acabou por ir embora. . até a mãe velhíssima aparece de vez em quando e arrasta-se com nazaré pela cozinha.É. macio. por menor que seja. insinua. perdido.a senhora não se sente muito sozinha? . nazaré termina o serviço e senta perto de mim. estou de novo 92 93 #na rede. amigo fiel. paciente. mas nesta criança brilha uma confiante inocência que já não havia no otávio que saiu pelo mundo atrás de mariana. o traço delicado que também havia em meu filho. que penso demais. que me deito demais. a pesca boa no inverno. o zico. mas esse é um ninho fofo. hem. acaba endoidando. mas é por alguns dias apenas. o mundo dessa mulher de pescador é tão mais rico do que o meu.vocé não acha essa vida uma complicação danada. até mãe nazaré tem. minha tia encostouse na parede e chorou: ela sabia também. . dá um chute nela. marido.desatinado. . ou para entender o presente? tão vazio o meu preséñte. não se importa quando impulsiono a rede com o pé na sua cabeça. vermes aflitos no sótão. como se eu fosse uma meninazinha perguntadeira. após o almoço. hoje em dia me desgasta demais. ela deve saber muita coisa. pensar tanto faz mal. tem o seu bernardo. filhos. sorri. mas eu sabia que as coisas para otávio eram bem mais complicadas. sombras encaixotadas. prefiro vegetar.o `são' deve soar-lhe sacrílego num cachorro.um dia ele volta.vocé é feliz.não acho não. o bernardo.vocé tem certeza de que o telefone está . refugiada nas lembranças para não ter que decidir a vida. com os olhos vermelhos. vem morar no brasil de novo. nazaré? ela deve achar minha pergunta cretina. encabulada: o assunto proibido na família. deve ser porque eu não tenho estudo. otávio ia atrás da mulher. falta-lhe um dente do lado. tia. cala-se. deixando um bilhete que tia dora trouxe de manhã cedo ao meu quarto. bernardo resmunga no sono. nazaré arrisca: . a senhora vai ver. cai em si.sinto. de bom-senso e pretensões humildes. nazaré me ronda. digo que pode dormir em casa. o confi tó. fácil de satisfazer cada desejo. por que não havia de ser feliz? o marido com emprego. ela acha graça. vultos na memória.

bom para a alma. me debruçando um pouco. convites. deixava que vânia falasse das suas futilidades. via agora as rugas finas. faz sinal de que tudo está bem. e quando se falava em filhos recuava com ar superior: . eu não sabia nada.deus me livre. minha filha. con tente por se livrar do súbito constrangimento. a avó louca. nosso convívio fora sempre frouxo.desconverso. parecia preocupada com a aparéncia. o amor deixando pouco espaço para qualquer outro interesse. ela tem mas corre para ver de novo. vânia fora a única aparentemente predestinada a uma vida normal. até do nosso primo que casara com a ruiva. merecia escapar. olhando de perto. com ardor redobrado. mas tanta indiferença me intrigava. achei a observação de tia dora cínica. superficial: eu nem pudera confirmar se os boatos a. seu respeito tinham fundamento. na verdade. e o resto. farrista. . mas ainda era bonita. pela janela vejo-a levantar o fone. corajosa. porque sabia que nada fora assim senão os preparativos. só não tocava na sua. das amigas. ela vinha me buscar.ao menos ela se distraía. aquilo nos uma. que ainda nos amamos? vamos brincar outra vez. nunca se ligara muito em criança. do joguiriho de cartas. vânia precisava era de um bom amante. como queria que se sentisse? e está amarrada no marido pela maior paixão. o resto fora erosão. é isso: a solidão e a consciéncia de não ser mais amada. insinuante. ornamentação de igreja. mas que bohagem: estamos mais do que separados. o olhar ansioso com algo mexendo no fundo. do cabeleireiro. estávamos animadas. babá. ou o marido. vânia não se queixava. irmão e irmã? escrevi "desejo a separação". nos víamos raramente. forte. mas nisso de vestidos.funcionando? . talvez fosse estéril. 96 97 #vânia desfiava histórias e mais histórias dos desamores de suas amigas. o sorriso fixo. jardim de infância. muito mais duro do que uma traiçãozinha aqui e ali. talvez minha irmã revivesse o seu tempo de esperança. o marido levando para a cama meninotas de quinze. combinávamos o vestido. a dobra de sofrimento entre as belas sobrancelhas. mas o que espero que tiago faça? 94 95 #que telefone para dizer que tudo foi pesadelo.mas sua irmã vive torneada pelos cantos. igreja. rico. um homem bom. e não era para menos. comprávamos roupas. erosão certa e implacável. da nossa família. eu ainda não sabia daquela promessa. quando meu casamento estava marcado. há anos. pediatra. ela perto dos trinta. galanteador. ela era perita. o resto. apesar do meu atordoamento. comentei minha preocupação com tia dora: . escutar movendo a cabeça como se falasse com alguém. tia dora sabia mais da vida que eu. agüentou firme esses anos todos com medo de que eu não resistiria sozinha. etiqueta. que casamentos foram esses nossos: o de catarina. inaugurando a cadeia nada secreta que nos ligava tão intimamente. notei que minha irmã estava mudada. . ele era gentil. começamos a nos aproximar mais. choradeira. festa. dois companheiros da mesma pensão. tiago. um bicho em agonia. e se vingava também. a tia anã. estou ótima assim. o que é que eu sabia daquele cunhado? bonitão. independente.

se operar agora. o marido. o coração amando essa irmã solitária. interessase por mim. parece que meu coração anda cada vez mais fraco. o que nunca aconteceu antes. a tardinha subo o morro com bernardo. hoje não encontro nem um daqueles lírios.acho que vou precisar de plástica quando fizer trinta anos. os homens enjoam. não tive nem coragem de me aproximar de vânia. de seu marido.que bobagem. tem os que dão certo. sorri como as capas de revista aprendem a sorrir. esse pingo de ruga dá charme. diferente. até que acho bonito. o sofrimento disfarçado lhe dava um ar distante. a gente fica assim. fala. sem fazer ruga. acreditei que comigo tudo ia dar certo. estilhaços de gente. todo mundo com n edo. hirta. eu discordava: . . disfarçamos. prantos escondidos. falar. o muro meio desabado também se foi. aí se incluía meu cunhado. tão bonita. vânia. desejável. casamento na porta. olhando meu vestido de noiva. ao menos alguns. um amor maravilhoso. tinha medo de que o rosto arrumado se despedaçasse. catarina tinha a mocinha que aplicava injeçoes e massagens: estaria mais lúcida do que a familia pen 98 saya. vânia. tal como sorria. a vertical acusadora entre as sobrancelhas. parecia tão bem casada. alguns minutos. a cozinheira. em casa cada um vira para o seu lado. lá embaixo enxerguei a veranista por. na frente dos outros dançam juntinhos. é verdade? mas não perguntava. girando em torno do segredo que a minava: a promessa antes do casamento. acreditou. se abraçam. vânia deu um riso amargo: . ela pegou a cigarreira.tudo fingimento. o cemitério tem leivas mal colocadas em lugar de sepulturas. a teia sutil.nem todo casamento tem de acabar assim. mais óbvia no canto dos olhos e da boca. quem sabe a idéia de tia dora não fosse tão ruim? . passeamos. também fumava com cuidado para não enrugar a pele. nada de filho. vou apanhar orna coca-cola na cozinha. como é seu casamento? tudo que se fala de vote. o cachorro se impacienta um pouco com a minha lentidão. antes dele há um corredor comprido.vocé é otimista. em dez anos estará com a cara repuxada. estava tudo declarado: `os homens'. deixava-a falar. eu não queria que a sua vida fosse assim.mais que antes. cautelosamente. antes de subir. alguém que não a magoasse? tinha vontade de perguntar a minha irmã sobre a sua verdadeira vida: vânia. um dia comentamos a separação de uma amiga. os homens deviam ser doidos por ela. a copeira. para quem os levaria? os esqueletos limpos estão no depósito. passar a mão no cabelo. cabeleira voando ao vento forte. e nunca mais pudesse se recompor. das bui. fazemos compras. mas não digo nada. 99 #mas depois que a gente se entregóu. minha filha. prefiro deixá-la em paz com a sua verdade. quem sabe. mas não penetro no seu quarto secreto. amadoodiado. ri. penso. vânia nunca me faz confidencias.iccas de porcelana. . respiro mal na subida. capaz de expor seu interior confuso a outra pessoa. acariciar. levam para a cama a primeira que aparecer. olho minha irmã. 100 . ela olha no espelho. escuro. ela não terá alguém com quem trocar segredos. mas eu sei que. desabafar? mulheres muito sozinhas contam segredos até para as empregadas. só ficou um lado.

vânia com sua cama de cabeceira de cetim branco. . e só via tiago. nessas horas. todo o cortejo. a minha mais remota carne tinha de ser dele. o avarandado como uma dobra de pele corroída. tentava e não podia? o medo. fazia amor em pensamento. eu quero aqui. os relatórios da faculdade. quando começou a se esgotar? não foi por causa da cone iv encia. apenas outra solidão. viúva e virgem. hoje. aqueles retiros que tia beata fazia duas vezes ao ano. para ver que cara a gente tem quando sofre tanto. fazia comida. bem que me mirava no espelho. . excesso de vida que não podia esperar. limpava. o deslumbramento maior. ao voltar. às vezes pensava em tia beata: se ela aparecesse ali em cima da duna. a papelada. outra que vem se consolar na praia? todo mundo faz retiro. talvez não ainda o amor. nem sei se é no fundo ou na superfície que começa -a erosão. depois da lua-de-mel. mas era sempre o meu rosto. vânia. meus olhos deviam ter a mesma expressão nos últimos anos. mas a alegria está acabando. expulsei todo o medo fazendo amor delirantemente. a roupa branca e comprida. em cima do morro. a consciéncia alerta: está acabando. hoje. a gente agüenta porque não tem volta. sem santidade. não tem volta. a forma bizarra. sem amante. hem. a cor feia. . ia dizer-lhe que isso era o fogo do amor que purifica. o sexo não consumado. as tentativas.um dia uma colega brinca.apaixonada mesmo. voltar tudo às tranqüilas inocéncias. ela não tivera nada disso. quero agora. o amor urgia. daqui posso ver bem o chalé. enxergo apenas o vulto de costas. mas nunca notei. e eu estava iluminada: era tudo perfeito. muito elegante. esbraseada. a cozinheira chegava discreta. a prova-de-fogo da carne. era eu. achava que devia ter mudado muito. está acabando. sentada no capim morno. eu nem fecharia as pernas. tanta dor. deve ser como um parto. tiago e eu nus pela casa. tantas vezes me senti assim: um bicho encurralado num canto. vejo-a descendo pela outra estrada. a vergonha. e a nossa alegria. só então eu avaliava como devia ter sido difícil para ela. a primeira tristeza não partilhada. o amor era um tal ímpeto que. a explosão da vida que eu continha há mais de vinte anos. desmorono. tiago. vendo o chalé logo ali. a gente se amava com os defeitos e tudo. o resto vem depois. tirando a roupa. tia. por que não morremos num período assim? antes que tudo comece a esboroar. se fechava os olhos. esquecia os livros. entendo tia bea ainda melhor: agüentar é duro. otávio. não se pode fingir que não houve casamento. parecem mentira as semanas de lua-demel que passei ali com tiago. no meu chalé cansado e rangedor. essa veranista. eu. última moda. depressa. uma vida dura. como é que a senhora agüentava quando o marido tentava. todos mostravam esse olhar pressionado. a ignorância. a nova. anelise? nunca vi cara mais iluminada. a realização do que mal se iniciara com otávio. não se pode desfazer o filho. o amor não conseguido. tiago e eu passeando nas dunas na noite quente. imaginoa perfumada. a gente vira bicho acuado. a primeira solidão em que se vira as costas e. quando voltei ao emprego. eu queria tiago dentro de mim o tempo todo. o corpo incendiado tendo de retornar à placidez honesta. o canto mais escondido. as humilhações. contudo. não se podia ficar a mesma depois de tanta coisa. não se encontra mais a presença reconfortante. ou no 101 #canto do quarto. bem cuidada. sumia. na beiradinha chá-cairia: se alguém agora encostar em mim.quando chego em cima a mulher foi embora. de costas.

como costumavam ser as crianças na nossa família? a avó. acho que foi tudo porque eu queria tanto ter um filho. depois das tempestades da paixão. dor. havia árvore doente: vânia e eu parecíamos frutos normais. sem notar quase. a gente sopra e somem no ar. bila era uma criança da nossa família. trabalho.casamento não é só viver trepando e rindo. a história vinha de longe. sim. 104 105 #o consolo foi rápido: metade das minhas . a tia.um exagero aqu~ele amor. esse era para ser o companheiro de lab. hemorragia. sadias. rindo. as que perdem. comigo ainda não dera. depois deita ao meu lado resfolegando como um velho cansado. tudo dava errado. as peças de azar no jogo. . diferente dos lugares quietos e sem graça onde eu vivera. aceitei encantada o presente que vânia trouxe da suíça "para meu futuro sobrinho": o cachorrinho peludo de cara triste.e alegres como vocé . pensava em ter os filhos. brincando com o cachorrinho. e então poderia botar a língua para todas as tristezas novas e antigas: teria venc a felicidade dos primeiros tempos de casados me fizera achar que o mal sumira como aquelas flores do campo. que era assim mesmo: . ela respondeu. repouso. crianças gostam de cachorro. filho. anã. que ele concordou. achava minha irmã. minha mãe esquiva. foi aí que tive o meu primeiro aborto. e quando um dia confessei a tia dora que algo murchava. outra catarina? eu lembrava a promessa que vânia fizera ao marido: casar.uma porção de filhos . dente-de-leão. comecei a sentir falta de uma criança jun to de tiago e de mim. de mãos dadas com a gente. sua família era grande. e nos divertíamos também. os abortos de catarina. escura na mão do médico. .. tia bea. tinha marido. ia ficar enorme. o companheiro para mais um filho que eu estava esperando: um bebé sadio e bonito. tiago achou loucura um são-bernardo num apartamento. tiago não fazia parte da família diretamen 102 103 #te. mas entrara no tabuleiro comigo: agora.eu respondia. empurrava os fantasmas para o canto. ressequida. não sabia o quê. porque queria estar na ala da maternidade do hospital . inteiras. i ias eu quis tanto. chorei muito. verdade que havia coisas sutis: a desgraça macia traidora. pedaço de carne vermelho-.todos louros como vocé.só que a criança deveria ter esperado mais seis meses. também tiago gostava de criança. e bernardo.' . queríamos uma casa cheia de gritos e risadas. havia de ser um amigo e tanto para meu filho. e. também iniciei um jogo de esconde-esconde com meus antigos medos. muitos. bonachão. nunca. fazia parte do lado fraco. eu tinha sorte. mas em mim isso foi mais que um sentimento natural. louca. alegre. por que tia dora não quisera filho? medo de que aparecesse outra bila.dizia tiago. sem dar muita atenção. corpo forte. bolinhas de plumas de seda. todo mundo queria ter filho. companheira incansável. bernardo corre por onde ficava o meu cemitério.

garganta trancada. continua a alucinação. nem por mim? sua alma de menina deve andar por aqui. esperamos um pouco para nova gravidez. alguém realmente chama por mim. como se começa a desacreditar: eu apostara na vida. querem entrar na minha boca. correndo como zico sai neste momento em disparada para a praia. alcançar uma flor cobiçada. uma menina cheia de vida. haveria um bando de crianças correndo com bernardo e zico no jardim do chalé ou no lugar do velho cemitério. a timidez de criança mudara para uma vitalidade da qual nunca me sentira capaz. o louro disfarça. em todos os meus orifícios. mas falam. um siri saindo da boca. no cochilo que segue. mas olhando bem se véem as raízes. deito na rede à espera de que o último clarão do dia ilumine a ponte do rochedo de onde adélia tombou. a boca aberta era a preparação do grito que não houve. a voragem lá embaixo. catarina não faria isso. 106 107 #noite de pesadelos: uma anã de trança escava numa sepultura. o medo é tão grande que afoga o grito. desejo intensamente que ele corra o bastante para escapar de qualquer lan ce mau. meu filmee v_ái. salta o portão e se vai. engolia a raiva.coma. mas não teria mesmo chamado por ninguém. como apenas uma maçã ácida.a-ne-li-se! a-ne-li-se! voz de mulher. um dia me falaram num afogado que tiraram das águas. não é o mar.. que era capaz de ter muitos filhos bonitos e saudáveis. lá embaixo. chegandó na parte que não quero lembrar. era uma caixa de sapato ou um caixãozinho de criança? sonho que estou cheia daqueles nojentos vermes pelados. camarões aninhados nas órbitas roídas. acordo molhada de suor. grudam em mim as perninhas inquietas. estou comendo pouco. o vento mais forte. hoje. vermes verdes. não é sonho. ansiava para provar a mim mesma e a todos que fora um acidente sem importância. na qual também não se depôs um último beijo." vejo adélia postada naquela rocha que avança um pouco.amigas perdera o primeiro filho. bichos-da-seda. nazaré se preocupa comigo. dizem que não houve. não sonhe diante do prato. ladainha monótona. não tenho vontade de jantar. mas precisq. como na canção de minha mãe. nunca saberemos. meu casamento era feliz. meus filhos também estavam ansiosos: não conseguiam aguardar o tempo necessário. desmonta esqueletos. apenas a voz do mar é consoladoramente familiar. menina. a boca pálida de adélia. "den bleichen mund. mas eu baixava á cabeça. vai ficar horrível. mas tia beata ficava me controlando quando nos visi tava: . mal quarenta e tanto fio branco. abrindo os braços para a morte: sou imortal! talvez ela tivesse querido tirar a prova. vagando em busca da sepultura. retira ossos. um fémur pequeno e branco. quem sabe. percebo meio atordoada alguém chamando meu nome. o cabelo de índia tapando um olho. nazaré. escandindo as sílabas: . posso ver a queda. não fosse assim. pareço mais velha. magra assim. viram as cabeças aflitas. adélia? levanto da cama. um aborto era mais que natural. minha mãe nunca ligava para isso. a boca entreaberta na ânsia de. levo um instante para descobrir que a caseira está lidando na cozinha enquanto repete meu nome feito . alta assim e magrela. deve pensar que. vânia teria respondido que ela é que era magrela. feito um bonequinho de pernas ágeis.

uma terceirnenhuma vez ocupei a ala da maternidade: só frutos malogrados. desconfiada. sem muitos cuidados. o medo maior e a esperança mais louca. tinha de haver um inimigo para ser vencido. sabendo que ele estava com a razão. estávamos apenas inaugurando uma nova morte. catarina. tiago mudara-se em definitivo para o outro quarto.mas aprendeu muito bem.uma litania. preparar o berço. sofá. podíamos adotar um e viver bem. meu deus. o corpo tenso. se pudesse teria medo demais de qualquer jeito: e se tiago matasse a criança na minha barriga? quando queria engravidar. não sobrava tempo para tiago. um patético fingimento de amor. vivi só para esse filho. como nenhum encontrara nada de físico que justificasse os abortos repetidos. nada de anjos. quase briguei com tia dora quando aconselhou esperar mais um pouco. sem bons médicos. ou isso teria conseguido salvar nosso casamento? nessa altura o jogo começou a se corromper. pensava até que. nome de alemão é difícil. . acho que agora estou assim. repouso. a cada decepção. a cada gravidez. um corpo com memória. o medo crescendo com a teimosia: eu tentava outra vez. depois do aborto. a alma estrangulada. mas para mim era a negação da vida. disfarçava seus sentimentos. este filho tem de ser perfeito. mas ficava hirta. minha luta com as raízes doentes. duendezinhos dentro de mim. medo de engravidar. em sermos sensatos. poltrona. desacreditando de todos. sequer achava estranho tiago e eu dormirmos separados. os frutos pecos. era a afirmação da minha incapacidade. para que alegria? 112 113 #o quarto aborto foi de sétimo mês. papai dizia que viviam só de teimosos. implorando: por favor. ossadas. medo. feito sótão cheio de moradores esquisitos. acho que aí me habituei a viver deitada. bruxa fantasiada de anjoda-guarda companheira e traidora. todo cuidado é pouco. imagino hoje que tenha querido mil vezes me falar em desistir. devia ter desistido. já consultara uma porção. repouso. tia dora e vânia chegaram a sugerir. ás vezes uns menininhos magros como zico. me animava. quieto e sombrio. eu nunca chegara tão longe. forço para engolir o café doce e quente. nos períodos de gravidez não podia fazer amor. bila. mas trapentos. tanta gente fazia isso. quando vinham mendigos à nossa casa. para ele seria mais fácil. estava doida de aflição. diziam os médicos. a dor incendeia aqui dentro. tem de dar certo. se a caseira nazaré. nos intervalos. podia amar à vontade. por que não havia de té-los. cama. . passava de um para outro. só como de teimosa. cartas. faço-a repetir o nome várias vezes. eu pensava. tiago se afastava depois. então eu queria filhos. em adotar. mas `anelise'. tiago não procurava influir: foi meu amigo mais que amante nesses anos. pobre e ignorante. apesar da distância anterior. nem calor. o café esfria à minha frente.complicado. tem de nascer. 111 #outro dia ensinei que não sou `dona ana'. e a esperança. na gravidez. seca. horas de amor. acabado o antigo amor. delírio e morte. a proximidade. andava sempre de licença no trabalho. flores. podia despertar desejos que eu não . vivia inquieta. achei que estava agourando. tem mais de meia dúzia? tive uma segunda gravidez. mandei fazer roupinhas. mas eu o teria odiado por isso. a paixão dos primeiros anos se apagara.

para me distrair dos meus dramas. ocupava todos os cantos. mas por que ela continuava a morrer de paixão? nem eu sabia. e a criança caiu no vaso. espiava em todas as palavras. não tinha coragem de olhar a coisa que jazia ao meu lado. acocorava-me num devaneio dolorido. que o amor de tiago tenha existido.atenderia de modo algum. sem a exuberância da juventude que tanto me encantara um dia. não se importou com as rugas. suor frio. tia dora começou a dizer que otávk escrevia sobre uma possível volta. meu corpo não me obedecia. se o marido a amasse. e agora? tia dora me ajudou muito. eu ouvia. torcia as mãos. isso irmanava mais que o sangue. quando ele saiu. enrolada na toalha empapada de sangue. se gosto daquele desgraçado. corredores escuros. as perdedoras. desejei intensamente que aquele sangue continuasse a correr de mim. a idade que fosse para o diabo. era gentil comigo. logo tuna inquietação bem conhecida começava a acenar de longe.eu ainda tenho direito de amar. não deixaria que ninguém violentasse aquela esperança. ficamos mais próximas do que nunca. mais uma dor. um siléncio que falava alto. lágrimas grossas. não se falava mais no assunto. vontade de ir ao banheiro. ainda presa a mim. de cabeça para baixo. certa manhã. desistira de reter a ruiva. e tudo acabasse logo. um pouco d' traído. longa e agoniada. mas não posso ficar procurando casos por aí. que eu existia ainda. o mergulho na futilidade para não desesperar. a avó doida. e tiago não pareceu aborrecerse. se não a amava bastante. e eu mesma não sabia ao certo o que estava acontecendo. de repente achei mesmo que ela tirara a máscara de superficialidade. tratava-me com o carinho leve. gemendo. percebi que expulsava o filho como um objeto estranho. parece mentira que tenha existido. dava cambalhotas. o casamento começara a desmoronar ali: ninguém se prende a vida toda numa criatura desanimada e insatisfeita. o beco sem saída. oca. e viciada no jogo de viver. com aquela família. abraçava a solidão como se fosse um amante: não havia outro jeito. outra e mais outra. já não éramos a mocinha atrevida e a boboca. a empregada acorreu aos meus gritos. cheia de horror. desistimos de ter filhos. fazia irmãs. que gritava. com que se afaga a cabeça de uma criança doente. ele não podia arriscar. lembrava outras coisas que ela não sabia.vocé recorda os bichos-da-seda que ele criava escondido no sótão da beatriz? eu lembrava. mas era jovem. o silêncio estendia-se. sem que eu pudesse evitar. seguraram-no grotescamente enquanto eu me arrastava para a cama. até vânia me fez companhia. enrolaram numa toalha. o rompante: . tudo tão longe. e com ele o resto de vida. vocé já viu coisa mais absurda? acho que estou ficando louca. senti uma punhalada no ventre. lembro que desatou a chorar. vânia falava. um intruso. encolhida. ardores. a dor nos. tornara-se um homem quieto naqueles anos. ajoelhada na minha cama de casal. o corpo dobrado em dois. claro que dormiria com 114 115 #outras. passei um bom tempo fraca e desanimada. mas duas da legião. botava a língua. a tia anã. foi assim que fiquei sabendo da promessa que o marido exigira antes de casar: nada de filhos. esvaziada. ninguém sabia. mãos rápidas e seguras agarraram o feto ensangüentado. preciso ser amada. corpos palpitantes. punhase a falar dos seus. nada mais. minha tia se comovia lembrando: . uma tarde. chamava: . salivas misturadas. fiquei ali. não teria exigido a promessa.

agora. quando até já conseguia olhar as crianças de minhas amigas sem nenhuma amargura. mas não complicava as coisas. duas até. a voz desolada no telefone. desculpe. ao menos um sopro que avivasse a chama. joguei fora o resto. engravidei pela quinta vez. com o sumo queimando a garganta. a pé. 118 119 . ele vinha partilhar da minha cama. não comentas nada. olhar vitrines. uma carnezinha gosmenta de sangue aguado pegava-se na minha mão. quando nazaré pergunta se pode servir o almoço. deito no capim pensando que queria morrer. nao vi a mulher no morro. afinal. se me libertasse da idéia fixa. só quanto tiago dormia. parar de remexer nos baús. amigos não partilham a mesma cama. quase não usava carro. levanto da rede. na hora do jantar o telefone toca. a vida. respirar fundo. nossos encontros agora eram tão raros e sem graça. fazíamos amor uma e outra vez. iria começar diferente. esse disfarce era tão comum.. depois recomecei a trabalhar. ao menos tinha amigos. pego outra maça-ácida. não se pode fugir por dentro.olhe aqui. minha irmã. marido. amigos não fazem filho. queria morrer. até me atordoar de vento e maresia. ver caras de pessoas. correndo. quem sabe debaixo de tanta cinza restasse amor a ser reacendido. tenho um companheiro: é um cão. ainda que uu início fosse fingimento. nem disfarça para fazer de conta que não percebe que estou envelhecida demais para a minha idade. nem sei se lembrava. mas me reconforta porque exige pouco. deve estar esperando há muitos anos que eu tenha a decência de pedir o desquite. se pudesse sair assim do casulo. não importava: o principal era andar. estava com mais de trinta anos. tiago devia ter amantes. fui esmagando as pétalas como bila esmagava as suas minhocas. e peguei o costume de caminhar. a manhã passou quase toda gastando rolos_ de filme. engano. aos poucos recuperei a energia. pedi novo setor. desculpo a voz. bernardo. sacudo a dor como se tira dos ombros o vestido que gruda no corpo.nãs ve fantasmas. o rumor. outrora. eu fingia nem notar. na descida achei um daqueles lírios. fugindo ou procurando. no fundo o rio de águas sujas deslizava. a gente não pode inventar a verdade? pois eu queria viver como toda gente. mas sabíamos que não havia mais amor. e nem era tiago pedindo para brincarmos mais um pouco de irmãozinho e irmãzinha. ficava escutando o rumor. 116 117 #tiago e eu viajamos. andar. e. desculpo tudo. no fim tudo podia virar verdade. me consolava. não me acha esquisita. subo correndo. quando já me acostumara a essa vida fácil. lembra? se não podia ter filhos. e sempre a velha bruxa. ou se dormi. quem sabe podíamos retomar a velha paixão. me abraçava como um irmão. escurecia quando bernardo e eu descemos outra vez. ignoro seus protestos. quem sabe uma amante que lhe desse o esplendor que existira comigo outrora. nao sabe de sofrimentos. vamos subir. passara a vida querendo provar o que não fazia sentido. mas se anda de trem. tudo novo. tia dora. chorona. e podíamos viajar. joão e maria perdidos na floresta. não liguei para bernardo. tiago e eu? de noite eu chorava. novas colegas. andava pelas ruas. soa estranhamente no chalé. digo que não quero almoço. que as vezes eu tentava lembrar: quando foi a última vez? e não lembrava. meu marido não tem mesmo o que dizer. vamos passear? e. era só a superfície.. ainda existo. de avião. claro que desculpava. chamo o cachorro.

uma tábua frágil sobre as águas. sons abafados.#minha avó vomitava quando o marido saía de cima dela. ansia. família e amigos sentavam do meu lado. perfeito? perfeito. quando me deito. meu corpo estava tão bem quanto minha alma estava encolhida e apavorada. mais cada vez mais. espio pela fresta da veneziana: um vulto alongado junto da sebe. meu filho. não pensar. nosso convívio. mas quase lhe bati na cara: mais que tudo no mundo. nasça perfeito. 1 engravidei. lembro por um momento tiago e eu correndo nas dunas. porque o 120 fruto vinha. todos fingimos que aquela era uma primeira gravidez: fingíamos sem alegria. meu corpo era perfeito. lauro. deitado no capim. fechava os olhos. as mãos solícitas. e eu vencera. disseram. as bocas pálidas. chocho. antes que eu adormeça. com traves. vozes alquebradas na sombra. e agora? todos me animavam como se fosse a primeira gravidez. eu podia sair de casa desde que não me cansasse. portanto. quando volto para a cama. o amor urgentíssimo. mas cedo demais. madeirames. sim. meus mortos. esboços de anjos ou de monstros. os lençóis limpos. eu dormia. fizera um sótão para mim mesma. fragmentos. mas que ene ensinara a beijar e a vibrar no corre 121 #dor sombrio. um menino graúdo e bonito. cílios tênues. não podia. mas acordei numa calmaria embotada e feliz: meu filho nascera. acordando quando nem se esperava mais. aqui. alusões. ou de morte? retenho tudo em mim para que doa mais. alguém. enquanto eu permanecia tensa. nenhuma ameaça de aborto. geme parecendo sofrer. apenas meia escuridão. eu tenho vontade de vomitar de mim mesma. suspeito de não ser muito viril. morto. que a cena do jardim não me excita. sumo ácido de maçã. secas. engravidei de lab. nasça. penetração. mas ia deitár novo fruto. tinha medo. chorei de alegria: penugem loura. não pensar. não se podia desfazer filho? não podia. vozes e ruidos fora de casa. então ainda se faz amor no meu tabuleiro. um adolescente que criava bichos-da-seda. afagavam minha mão. não me interessa. os médicos tinham concluído que não havia nada de físico. dessa vez tem de dar certo. Éramos corteses. pedaços de gente perdida no mar. meu filho. afinal nascera um homem nessa familia de mulheres. não desperta em mim mais do que leve incredulidade. gravidez excelente. o parto foi difícil: eu estava tão rígida. encolhido. feliz. sexo sem alegria não funciona: ainda assim. acordava. pedia: por favor. não trouxeram a criança nos dois primeiros dias. firmo os olhos: duas pessoas fazem amor no meu jardim. contavam banalidades. ficou na incubadeira. hoje estou tão murcha. quando a criança se mexia em mim. era bonito e sadio: só isso importava. um deles arriscou que podia ser rejeição. tijolos tirados das escuridões desde a minha infancia. para que fossem menos doloridas? gestos poucos e tristes. agüente até o fim. dois amigos partilhavam de novo a mesma cama: algo do antigo fogo devia ter ficado. ali moravam as mulheres da minha família. ou procurávamos atar as duas solidões. tiveram de me anestesiar no fim. nas pedras. um dos . mas o medo expulsaria as crianças do meu corpo cedo demais? absurdo. delirio. eu queria um filho. me sentia tão acuada. agora. por causa da lua. quando o vi pela primeira vez. comentavam a minha boa saúde. mas disseram que era normal. bila. uma árvore apenas meio-estéril. nazaré cantarola na cozinha. solitária e miserável. a vida vencera. eu sabia de muitos casos assim.

um acidente na hora do parto: havia até estatísticas. . como as mulheres dos filmes: nada de errado comigo. vânia. algo não integrável na vida da gente. a outra bruxa soprando velas na noite. então a traidora não era só a morte: era a vida também. não teríamos de ver nosso vegetadolescente 123 #estirado na cama. e havia a sobreviria também: bela palavra. para que não rebentasse de dor. bonito e bonzinho. só quando minhas suspeitas se transformaram em pavor.vai ser bonzinho . lauro. mais que nunca. procurava não ter de mostrá-lo a nenhuma amiga. . apenas manter limpo. precisava ser encasulado com teias e mais teias. agora eu tinha o filho tão desejado. controle do neurologista.ela també parecia comovida. dessas que os vermes de otávio produziam no sótão. e porque não podia deixar meu filho: teria de levá-lo junto. sobre sua agitada vida social. não aprenderia nomes feios. era possível agüentar. mesmo com vânia e tia dora. e posso trabalhar em paz. enquanto nas traves as aranhas fabricavam as suas. sobre seus quadros. inventava outros assuntos. e assumira aquilo a seu modo. dois. mamava calmo. nem seria reprovado na escola. mas meu mutismo acabou afastando quase todas. assim. um em cem. não comentava sua doença com ninguém. alimentado. dormia muito. talvez dois anos.pouco mais que um vegetal . quarenta. tiago e vânia sabiam desde o começo.assim ao menos vocé não fica me chamando a toda hora para cu ar dele. não sobrava muito para meu filho. de junto da cama de lab. nunca choraria alto. todos tém sobreviria. a princípio elas vinham condoídas. conforme eu tanto pedira. no resto. tive vontade de rir feito histérica. tiago e eu tínhamos brincado sobre a minha provável atrapalhação com um bebê quase aos quarenta. e o filho distante que estava para voltar. não havia nada de errado comigo. quase uma alegria de viver . do pediatra. para não cair aos pedaços. em mil. não ia dar trabalho. retorcidos e aplicados. de gritar por mim nos cantos do apartamento. o que se precisava fazer era suster o próprio coração.continuou o médico. a trégua entre a ferida e a morte. naquele tempo. tia dora. o médico me disse o que tia dora. punha de fora um dedo ameaçador. seres silenciosos. me senti próxima de minha avó: também catarina tivera uma realidade insuportável a enfrentar. mas não havia motivo de receio: podia deixar lalo sozinho no meio da cama de casal. e tudo continuaria na mesma. azuis.disse tia dora com aquele jeito rude. lalo era mesmo bonzinho. ele nunca rolaria para baixo. e tiago parecia comovido. o médico assegurou. acidente na hora do parto. o que importava? levaram tempo para me contar. de levar tombos com o triciclo. não haveria de correr e cair.não vai lhe dar muito trabalho. quando tinha de falar. mexendo-se na poltrona. a parceira.anjos de tia dora. raramente abrindo os olhos. encolher-se o tempo todo. meu sótão era eu: quase não saía de casa. . entendi mais tarde que era um prazo bondoso. senão o inenarrável brotava. o quinto filho apenas cumprira o prazo necessário de nove meses. nunca havia trégua. não me tranquei num sótão porque não havia nenhum no apartamento. nunca se podia parar. ou ficava em silêncio enquanto discorriam sobre banalidades. chorava pouco. pouco diferia dos enterrados sem rosto e sem nome. seus amigos. . um. . lesão cerebral. haveria nos olhos dela uma animação maior. além da hora fatal a gente agüenta ainda um ano.

É para mim que olha. o menino magricela. que demora a vir. 125 124 era mais fácil o isolamento. eu tinha meu filho: os cabelos louros que se enroscavam no meu dedo: não teria outras caricias. e desta vez não olha o mar. todo mundo 129 #fala numa confusão. no coração. como um grande verme que morasse no meu estômago. apenas. seguro no umbral para não cair. tiago que arranjasse sua vida. saio do quarto estonteada.estava judiado. medo: adélia morreu. claridade cinzenta. apaziguados. muitas vezes pensei que agora ela agradecia ao marido a promessa exigida. quem sabe até se reconciliara com o marido. um pescador encontrou-o quando amanhecia. me diz que o filho dela. sabíamos que era terrível. tenho a impressão de que a veranista deve estar postada no seu rochedo. madrugada. mas isso faz muito tempo. a sensação de estar sendo espreitada pela mulher do morro me dera medo. as palavras ocas. luto para não desmaiar. olhos perfurando as madeiras.comentam perto de mim. em certos momentos cheguei a desejar que tiago tivesse tido a mesma idéia. a náusea se arrasta pela minha garganta. nazaré? sem complicação? levam-na para ver o filho no hospital. bem que ele devia se consolar. deitada no escuro a imaginar se os ois que fizeram amor junto á minha sebe foram embora. não havia mais nenhum fingimento de carinho. livrara-a de ter junto de si uma bila.cama. confor tados. a casa se acalma. mas não se falava nisso. anelise! É tarde da noite. não haveria promessa alguma. talvez alguém me chame: anelise. aquele de nove anos que sempre vinha ao chalé. de que estará tentando se livrar? ou o que espera encontrar ali em cima? 126 acordo com agitação na casa. . foi violentado esta noite por uns rapazes que fugiram de carro e o deixaram meio morto nas dunas. ela chora aos gritos. eu queria aquela prova. deixando apenas os ossos limpos. precisava dela. falsas. tão cansada quanto hoje. uns animais. tive medo. rasgado. tomei dois comprimidos para dormir. terá enlouquecido? alguém me segura. parece que dormi apenas minutos. correria. na verdade. todo costurado. envelheceriam juntos. roendo mais ainda a nossa con vivencia. mas eu não teria me deixado convencer. pensava nisso sem nenhum cinismo. tem de ter sido zico. os siléncios invadindo o quarto como insetos daninhos. nazaré está rodeada de mulheres que a amparam. vozes. conversávamos tão pouco. não há mais ruídos senão os do mar. já nem sabíamos o que era mais sinistro: palavras ou siléncios. não entendo direito. se consolasse. estou zonza. uns animais . espero a lucidez. alguém traz água. fingia que tudo era natural. um lab. de repente. nem com tiago comentava o estado de lab. só aí começo a comprender o que fizeram com zico. vocé era feliz. examinando esta companheira de solidão que não consegue dormir. tiago não me censurava por negligenciar nossa vida doméstica: uma boa empregada era tão mais útil do que eu quanto uma boa amante.que antes estivera apagada. costuraram ele todo. me arrasto até o banheiro. de um pescador encontrando um morto? . a prova estava estendida ao lado da minha. na sala e na cozinha gente que não conheço. falam ao mesmo tempo. estava cansada. onde eu ouvira uma história assim. para esta casa velha.

estou cansada e doente. deito e respiro fundo. alguns. ficaria na praia apenas o cachorrão fiel. bem que o mar podia subir mais. na avarandado. alma roída como a cara de um afogado. daqui não posso ver a minha veranista. tanto. um siri na boca pálida. na parte seca: poeira de gente. uma vez assisti com tiago a um filme em que a donzela medieval. na verdade. casa. ando pela casa. talvez esteja apenas amargurada pelo que aconteceu à criança. prendo a rede. voz grossa e cauda inquieta. não tem mais amiguinho pra vocé. mais tarde chega uma mulher que conheço vagamente: parenta de nazaré. bernardo também está inquieto com a confusão da madrugada. trabalhava com alegria. cada grão de arroz fica entalado na garganta feito cascalho. deixo os dedos funcionando como ampulheta. daqui a pouco vai aparecer 130 131 #uma mulher esquisita no morro. come.você não pode ficar assim a vida inteira. movimento é dor. escutava suas risadas quando ele corria no jardim com bernardo e nazaré ralhava. minha revolta. viaja. falamos poucas vezes. a brutalidade dos homens e a pureza da adolescente me abalaram tanto que por vários dias não deixei tiago tocar em mim. quem sabe há fragmentos de pessoas nesses grãos fluidos. que não haverá mais vos. reaja. a cena crua. mesmo nesta hora da manhã: houve uma criança nas dunas. toca piano. casou com a ruiva. mas hoje. grãos diminutos escoam. ele ria. seu olhar se esquiva. animais. quem pode ter alegria? bernardo é a única figura familiar perto de mim. a amiga-inimiga que não compactuava com minha fuga. nem assim consigo ficar deitada: tenho a sensação de que a qualquer momento vou ser violentada também. lembro como me sentia em relação a lalo: uma férrea enlouquecida defendendo a cria machucada. inquieta. mas zico. isso foi no tempo em que ainda ríamos e fazíamos amor. depois do almoço a empregada nova faz cara emburrada porque quase não comi. mas nem a voz paciente nem o rosto preocupado me dizem respeito. descasou. tirar do tabuleiro outra peça. anelise. e ninguém para me beijar. trabalho? tem amigos. o chalé não passa de uma casa velha e real cuidada. penso em nazaré. rosto infantil e louro. e o menino? passando mal. a cidadezinha pacata está ameaçadora. e tudo passou. não tem passeio. o menino profanado nas dunas. estou muito melhor afundada em mim mesma. bernardo e eu descemos á praia. era violada no mato por dois vagabundos. a mulher não é simpática. na escuridão. cada vez mais. água amarga e lixo da vida.. os óculos de meu pai eram de aro escuro. vai ter de se resignar comigo. um dia desses desaba numa tempestade. translúcidos. vai . se estiver lá em cima e quiser me avistar terá de se debruçar tanto. debruçar-se como tia dora.. e eu nem ao menos sei qual é o seu nome. ao menos. cachorrão. nazaré vai me fazer falta. esqueceu que tem marido. vamos andar um pouco. seu filho. cachorrão. traz o suco de laranja que peço: aguado. controlando o enjôo. lalo não tinha consciência de nada. inclinavase sobre minha cama. esta que só dá azar. aqui dentro eu com meu filme todo descosido.vomito violentamente minha dor. passo a manhã concentrada nesse jogo de sombras. vai fazer o serviço para mim enquanto a outra estiver com o filho. escuros. brancos e amarelos. olha para o lado como se minha visão a repugnasse. penso. de que estava com medo no fim rimos juntos. dizia que eu á não era donzelinha. que anda. tia dora. que sofrem com você. a senhora tem otávio. deito na areia. onde eu me deitava dias e dias ao lado de lalo: . saia do quarto. a empregada toma conta do menino por meia hora. fala.

a única mulher com quem. mas eu não queria que se curasse de nada. e eu sabia bem que aí. achei que ele não parecia muito melhor também. avisou que otávio estava na sala. o que passaria por trás das pálpebras quase sempre baixadas? a companheira de sua alma havia de ser como a de bila: chegara ao mundo para achar uma lasca de gente. talvez. abraços na sala escura. eu me virava um pouco. o médico falou dois anos de sobreviria. um dia passa. não fique triste comigo. ficamos abraçados. ele se sentisse a salvo? malvada assim. talvez otávio achasse em mariana cura para a sua perplexidade. dúvidas. eu não iria perguntar. foi a primeira vez que uma coisa me interessou. direitinho até. tiazinha. dizia vânia. quando nos abraçamos. este aqui é o meu sótão. a torrente não ia parar nunca mais. o marido fingia de amigo. . as mãos entrelaçadas. eu não contava a ninguém o que sabia. a figura do espelho era desanimadora. priminho. às vezes eu deitava o rosto no seu ombro. anelise. sabendo da sua fraqueza. roupa. o que fazer. tia. vaguidões. ninguém punha a mão no fogo por le.não será a vida inteira. e era tão pouco. mariana e sua cara de bruxa. olhava fascinada o rosto de lalo: caixa de segredos que ninguém desvendava. há tanto tempo. o amigo. se começasse. tia dora entrou no quarto. porque tudo só mudaria quando lalo morresse. ajeitei-me como pude e fui. sempre no mundo da lua. com seu ar e pianista. . as conversas. e eu sentia que. de mãos dadas como irmãos. lembrei minha avó e a enfermeira. vida sem solução: éramos mesmo parecidos. ela sai do quarto.perguntei um dia. porque acho que nem ligara para os comentários de minha tia sobre sua vinda. alguém muito especial. somos todos umas ligações descosidas. você está numa fase ruim. delicado demais. pintura de 132 133 #rosto. se ria dela. sentávamos no sofá ou perto de lalo. fiz força para não vazar no seu ombro a minha dor e solidão. ele era otávio. a explorava deixando-o humilhado e cada vez mais preso? ele não entrava em detalhes. louco para me ver. e por uns momentos ele era o pai que de fato eu não tivera. menos que anjos. depois desistiu. isto passa. relatando aquele drama. ele foi aos poucos falando de sua experiência amarga com mariana. nos primeiros dias não sabíamos bem o que dizer. os silêncios. com minha irmã. calamos. tudo ia acabar. não faço mal a ninguém. . . vida dura. coisas bem piores do que fantasmas de um sótão e bichos-da-seda inquietos. melhora. não havia o que curar. precisando de um amor especial. mais sutis e cruéis. magoada. a vida. me deixem em paz. os comentários de tia beata: bonito demais para um homem. ele passando a mão no meu cabelo.você não acha que somos? . seres vagos. uma lasca de alma? quando otávio apareceu fiquei surpreendida. e única? ou mariana. mas. estou quieta. assim era comigo e meus pais. fui singular a minha ligação com otávio nesse tempo: as visitas. achei que. um jogo de azar. sim. estava magro e triste.voltar em breve. otávio queria mencionar outros. já passou uma boa parte. beijos num corredor. desempenhava esse papel. com todo mundo.nem pense nisso. coisas mais sérias do que beijos no corredor escuro. desde que descobrira o estado de meu filho. constrangidos. sem falar. o irmão que não houve. lembrei as suspeitas na família. eu não me interessava por cabelo.

segurava minha mão. onde se pode sobreviver. nem para a menor simpatia. nossos dramas. já para cá! ele vem. sabe como é? eu é que fui a boba. não queria mais se envolver. de longe. cachorrão. deita na cama. quieto. desesperado e só. apesar da boa vontade de tiago. não há o que responder: não sabemos. veio essa gravidez. nada de comer tatuíra. uma viagem. a mesma expressão que tinha tantas vezes ao tocar piano. sua carranca já me fazia mal. o filho estendido na cama desuniu ainda mais. mas logo voltará. a maresia mais intensa. sangue demais.uns coitados. não era cruel pensar nesse depois? . um sótão. a sinistra substituta me chama do chalé. você está se consumindo. a empregada avisou que o menino de nazaré melhorou. mas não quero me envolver com mais ninguém. meu último renascimento. enquanto eu lembrava otávio. fosse ranzinza e chata. escureceu.vocé acha que ele sabe que eu existo?7-pergunto a otávio. otávio.não sei. no casarão ou no apartamento de tia dora: ele também inventa um outro mundo. quartos separados. breve. nem coro vânia. limpo a areia. não devia ter deixado que nazaré ficasse com ele _por aqui. não interessa mesmo. esse filho. trabalho. quando tudo desmoronara na minha vida. mas é verdadeiro. penso em ir ao hospital ver zico amanhã. depois do marido que não conseguia fazer amor. prefiro ficar sozinha. alguma coisa daquela chama continuava acesa. mas no seu olhar semicerrado. finge dormir. o dia seguinte também? claro que pode. trés meses de tormentos e depois o tiro. o ar está pesado e morno. e tiago poderá assumir vida nova. ela só se envolvera ainda uma vez. escutava meu desabafo. . meio distraídas. foi com otávio: a primeira paixão se esvaziara nos anos de separação. o chalé está vazio. abraçasse com os cotovelos em defesa. horários diferentes. nem com minha mãe conversa direito. acho que até começamos a nos amar de . . e assim era mais confortável. vocé nem lê mais. tudo isso não me interessa. fico até tarde no avarandado. podia ao menos imaginar alguma coisa para fazer. a tampa da cabeça 136 137 #pulando fora.para ser sincera. bernardo saiu para a rua. com bila. e nos ligava. da sua paciência. que partilham 134 135 #do mesmo apartamento. passava o braço no meu ombro. não havia mais espaço nenhum no meu coração. talvez por isso tia beata beijasse assim de longe. mas esta não podia retribuir. somos apenas duas pessoas cordiais e atenciosas. só olha a criança. mas quando nos reencontrávamos. nossos casamentos. sonha. não faz nada. ele voltara. não vou agüentar. o cabelo se enrosca sempre no meu dedo. solidária. é cruel. quase como o cemitério sem mortos. nada em comum. seco o rosto. esse filho! afago a cabeça de lalo. hora do jantar. a voz me chama. ele não responde. a não ser a espera de que a sobreviria se cumpra. chamo bernardo que está cavando. a virgindade total foi como um casulo. perdi em todas. e quando não esperava mais nada. apostei mil vezes. anelise. se ela podia passar a noite com eles no hospital.vocé não sabe de nada. e agora. essa ao menos sabe dizer meu nome certo. obediente. e eu? otávio queria saber o que eu pensava fazer depois. levanto-me. vida ingrata. a louca: acreditei na vida. amargura demais. . ela nem sonha quanta companhia tenho aqui. pena ser tão antipática.

otávio era outra peça de azar. tiago vinha me ver quando podia. sempre fora a de mais sorte. protegida por meu pai. alguns poucos dias no hospital. saiu sem se despedir. minha mãe tão etérea. há muitos anos ninguém me beijava assim. depois do beijo. não precisava mais nada. impessoal como um objeto. dizendo que tinha direito de amar. nem quando menina. lalo morreu uma mortezinha pequena e quieta. e sua vida estava toda desordenada. falamos também em minha avó.talvez existisse. sem estardalhaço. foi união na tristeza. com otávio. eu a lembrava ajoelhada na minha cama. a grande calma. e o casamento trágico a corroera de vez. sondas. como antes. tia dora e eu passamos a madrugada conversando baixinho. porém. vânia e otávio perguntavam se eu precisava de alguma coisa. depois da decisão. o vóo para o convívio definitivo com suas criaturas de ficção. um perplexo amor-amigo. de vez em quando eu levantava •e ia beijar o rosto de lalo. há muito tia dora devia ter percebido que. mesmo quando concebi lalo o encontro fora rápido e rotineiro. das mucosas. talvez ela tenha entendido que isso não é tudo. uma sesentona grisalha e sozinha. sem qualquer interesse. mas um velho mirrado e sofrido. de ser amada. e as águas? teatro de sombras. e continuamos como se nada tivesse acontecido. foi compaixão. sabíamos que era sem futuro. ficávamos de mãos dadas. mas havia muita sombra. com meu corpo encolhido como o da viúva-virgem. não dera atenção a mais nada. por um momento fomos de novo os adolescentes antigos. com seu olho experiente. depois do caso com a enfermeira. todo mundo querendo sobrenadar . na última noite minha tia e eu ficamos no sofá perto da cama da criança. ou nem foi amor. não mais que um clarão esquivo. uma aliança sem palavras. era mais feliz que eu. lá no fuñdo. tia dora disse que ela nunca fora alegre. cânulas. o sótão. amor sem sexo . que com isso quase ignorara as filhas. incógnito. desamada. eu estava esvaziada: apaziguava-me. falamos de meus pais. otávio afastou-se calmamente. mas sem um filho como lalo. só uma vez ainda nos beijamos na boca: talvez pela consciência do nosso desamparo. beijo de amantes que não eram amantes. tia dora ficou comigo. embora não sendo da familia. sem remédio. falamos em vânia. às vezes diante dos olhos fechados de lab. uma familia triste e patética. o encanto permanecia. que parecia melhor. com sua condição incerta. otávio com seu destino confuso e difícil. a enfermeira con 138 139 #trolava gotas. eu. foi só a troca sim bolizada pela das salivas. beijando-se na sombra. a que não conseguia amar. a mais parecida coro catarina. voltou. das dores talvez as almas eternas de adélia. mais íntima do que se fôssemos juntos para a cama. falamos em tia beata. mas penso que nos amamos. uma carícia profunda. pelo desejo impotente de nos ajudarmos.mas. pensei no amor dos namorados que fazem pacto de morte: deve ser tudo assim.novo. que já não parecia um anjo. fraternos. sem qualquer obrigação. ver que alguém continuava comigo. com a morte espreitando. pedi a tia dora que me contasse mais uma vez sobre a morte de catarina. apenas pelo afeto. pessoas entravam e . dois dias depois. acossado pela lembrança de mariana ou por tormentos não confessados. o filho nem era filho de verdade. ela envelhecera bastante. o salto. e por minha causa.

todo mundo ficou aliviado: com aquela cena. tocava suas músicas submarinas para mim. pensando bem . mas. na certa vai sujar tudo. entre flores amassadas e morangos feito manchas de sangue. três andares abaixo. bernardo anda não voltou.saíam. de recesso. eu sabia que. contudo. 142 143 #quando fecho uma veneziana que batia aflita. pensava. encostado numa parede com ar distante.para quê? o amor morto. a doente parecia ter entrado numa fase melhor. por desagradável que tivesse sido. tão inútil. semanas depois escrevi a carta a tiago. resolver sabe deus o quê. ser devorada por vermes ou espumas. fitando o céu. a doente se debruçara. onde não se precisava falar. remota. sem crise ou descompasso. com o ps sem nenhum sentido. foi-se por uma fresta. tia dora e eu ficamos em silêncio. onde andará nessa chuva? deixo a porta só encostada. sumir. talvez espiando bila a catar minhocas no jardim. o sótão do sótão. me levava para lembrar os bichos-da-seda no sótão. o rosto intacto. o corpo tomando impulso. tudo acidente ou predestinação? raízes de catarina von sassen. afagavam o cabelo. abrira a porta para a sacada. bichinhos de borracha que ele nunca pegara. nem suas falas perturbavam mais o sossego da casa. na tarde seguinte lalo morreu. afundou mais no sono. amigo. anunciaram a morte como acidental. uma frestinha qualquer bastava: era tão pequeno. o enterro de pouco acompanhamento. me fazia ver que bila não era tão sinistra como eu achava. mesmo alguém da altura de catarina. o sexo melancólico. não quis guardar coisa alguma: a lembrança era forte bastante. quando ele vier pode entrar. o cheiro de alfazema como um rastro. um vulto passa correndo. repassar o filme. apenas cansaço. me ensinava a beijar no corredor escuro. avaliar o jogo. de que ficaria aqui até domingo. era otávio que estava comigo. o corpo quebrado. limpavam o quarto. nem protesto. saíra para a sacada. porém. caída no canteiro. não senti desespero. catarina entrara numa dimensão mais afastada ainda. a frãulein sempre acreditara que crianças. no velório. tomava comprimidos e dormia de novo. deve estar enlameado e cheio de carrapichos. acabou-se. um dia. o coração encolhido. traziam comida. era 140 141 #uma flor a mais. vontade de sumir num buraco escuro. e quando voltasse à cidade queria a separação. escrever. pensar. doce até. tudo diminuiu até virar uma casca ressequida. na família todos sabiam que não fora acidente. tudo tão longe. dormia. e jogara-se por cima da balaustrada para o jardim. fundo e quieto. as mãos finas agarrando a balaustrada de madeira. junto da porta de vidro ou olhando as copas das árvores na sua poltrona predileta. tiago segurou minha mão. parecia calma. voando com as roupas compridas abrindo-se num páraquedas insuficiente. bichos e doentes precisam ser tratados com certa bondade. as poucas que lidavam com ela. o choque podia ter sido salutar. sem sinal ou aviso. ficar sozinha. e não voltar a praia nenhuma. pedi a tia dora que cuidasse das coisas do menino: havia pouco para arrumar e distribuir. morte discreta. ou meio escondido atrás de outra sepultura. branca. ou acaso da vida? imaginei algumas vezes que tiago poderia telefonar. mas muito rigor. algumas roupas. vim para o chalé. não havia faltado rigor a catarina von sassen. no enterro. antes que eu adormeça cai a tempestade que se preparava. a balaustrada era alta demais para se cair. o que nunca fazia. imaginando a queda. meio agachado .

esse longo tempo. de repente fico corajosa também. minha tia pinta monstros depois de desenhar anjos. cabeleira desgrenhada. tem um gosto horrível. os culpados. nem bicho. sem sentido. . como outros nas aparéncias. todo esse tempo. uma rajada mais forte ergue suas roupas. . 147 #chego ao topo. põe na parede. nada de bernardo. se tocam. como adélia havia de rir disso. a pedra está morna e úmida. uma anã de trança rala carrega uma caixa de sapatos. abraço os joelhos. dar a mão. no fim da fila. tem filhos para criar. se continuar assim. uma doida a mais não pesa nessa família. sábado 144 #a empregada agourenta não veio mesmo. mas. as caras descosidas. tiazinha. naquele tempo distante! e se fosse afinal ver zico? mas tenho de ficar no meu velório particular: uma porção de mortos.família de perdedoras.vocé está demorando dessa vez. sei que verei todo o meu cortejo fiel os_mortos. bem junto de mim. os loucos. cheiro forte de capim e maresia. e o quadrado de leivas amareladas foi um cemitério. vestido branco tatalando. descemos de mãos dadas. agora desce nessa corrida louca. nazaré vai precisar de trabalho. não tenho outra companhia agora. a chuva e o mar têm vozes_ faxnili res. quase feliz porque tenho alguém comigo. a doida da minha veranista deve ter estado no morro espiando a chegada do temporal. companheira de solidão. encosto a cara no brim áspero da calça. tudo agora ser indiferente. vou pendurar uns esboços daquele anjos de tia dora. levanto a cabeça e quase perco o equilíbrio nessa posição precária. uma sombra escurece o castanho do fundo das pálpebras.na ventania. quero me levantar. ser gentil. se olhar por cima dó _ombro. guardei alguns. sem comer. sinto falta dele. ele volta logo. ansiosa. não entendo como não a reconheci antes. a cabeleira parece uma auréola. a voz do sótão. nenhuma vertigem. o último grito de adélia afogado nas espumas. os crânios calvos. tem o rosto na sombra. na loucura? quem sabe faço do chalé o meu sótão. perfeitos. alfazema! de repente. só as tábuas rangem. sei quem é. uma mulher. resolvo subir o morro e procurar bernardo. pode ser uma libertação isso. mas todo mundo compra as telas. nem emoção. ninguém à vista: nem gente. se a gente pudesse calar o pensamento. se beijam. são lindos. sei que otávio está pensando em mim agora mesmo: os pensamentos se encontram. quando tudo me era tão indiferente. depois da tempestade. vou até à beirada onde adélia mostrava sua coragem. vai me trair também? sujo a bainha da calça no caminho lamacento. mas não acho graça nenhuma da idéia. entro em levitação. depois me deito no abrigo dos lençóis. agora que até bernardo sumiu. a manhã está tão cintilante que parece de mentira. fico morando aí com bernardo. . o sol às costas. sem vida. os suicidas. fecho os olhos: quando vou conseguir fechar assim o coração? me encerrar em mim. amigo. os solitários. até que enfim. a minha veranista. o mar que amei: fragmentos de pessoas. uma mulher. os dúbios e desamparados. perseguida pelos raios. encolho as pernas. que roçam em mim. nas paredes. essa mulher me deixa curiosa. uma paixão sem sexo. olha: tão verdadeiros. braços erguidos protegendo a cara. então era por mim que ela estava esperando. esquento o café de ontem.

.148 149 #esta obra foi composta pela linotipadora irmaos milesi ltda. e impressa na editora vozes ltda.a. para a editora nova fronteira s.rio de janeiro #feira dos livros usados ltda. c 7. . 168 ..lagoa .7197 fone/fax: 323:2443 fim do livro. pedir pelo reembolso postal a editora nova fronteira s.cep 22461 .rua maria angélica. não encontrando este livro nas livrarias.a. em janeiro de mil novecentos e oitenta e um..

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