Ameaça nas Trilhas do Tarô

Sérsi Bardasi

Série Vaga-Lume Carolina começou a ler sobre o Tarô e ficou fascinada. Quantas revelações! Só que logo veio a preocupação: que ameaças eram aquelas que as cartas anunciavam para ela e seus amigos? E justamente agora quando todos estavam preparando a formatura... Muita emoção espera por você nas próximas páginas. Confira!

SUMÁRIO 1. CARTAS QUE ADIVINHAM O PASSADO, O PRESENTE E O FUTURO 2. UM ESPELHO DIFERENTE 3. O TARÔ É BRUXARIA, OU NÃO? 4. ... MAS O QUE SIGNIFICA ARCANO? 5. UMA LIGEIRA DEMONSTRAÇÃO DE COMO SE LÊ O TARÔ 6. COMO ARRANJAR DINHEIRO? 7. UMA VOZ VINDA DO FUNDO DOS INFERNOS 8. ALGUM PERIGO NO AR 9. PRECISO AJUDAR MINHA AMIGA 10. O LOUCO VARRE TUDO 11. O MAIS TEMÍVEL DOS BÁRBAROS 12. O QUE ESTAVA ESCRITO? 13. A FLEXIBILIDADE DO RABO DA LAGARTIXA 14. TEM UM MONTE DE GENTE QUERENDO TE DERRUBAR 15. QUEM VAI VIAJAR? 16. QUER APOSTAR? 17. AI, MEU DEUS, O QUE É ISSO? 18. NAS TREVAS, UMA EXPERIÊNCIA DE LUZ 19. UNS REZAM, OUTROS CONTAM PIADAS 20. NUNCA FOI COM TANTO AMOR 21. SINFONIA DE HORRORES 22. VIA SATÉLITE, PARA TODO O BRASIL 23. NUNCA PENSEI QUE FOSSE FAZER ISSO UM DIA! 24. A FLECHA DO CUPIDO 25. SUJEITO A CHUVAS E TROVOADAS

26. O QUE SERÁ QUE ACONTECE AGORA COM ELES? 27. UMA CORTINA DE FUMAÇA 28. VOCÊ LÊ O TARÔ PRA MIM?

1. CARTAS QUE ADIVINHAM O PASSADO, O PRESENTE E O FUTURO Como era mesmo impossível controlar os adolescentes, Lúcia foi logo avisando: - Vocês podem andar à vontade, mas quando for meio-dia todo mundo se encontra no portão de saída, ta certo!? - Só duas horas para ver tudo!- reclamou umas das meninas, consultando o relógio. Reflexiva, a diretora descansou os olhos verdes numa florida cerca viva de azaléias, ao longe, encerrando o gramado do jardim. O ruivo natural e luminoso dos cabelos contrastava com as roupas pesadas e escuras, próprias para o dia cinzento de inverno em São Paulo. - Eu sei que é pouco – respondeu, por fim. – O problema é com a família de vocês. Viúva e ainda jovem, Lúcia fazia da educação seu principal objetivo de vida. Projetava nos alunos o amor reprimido dessas mães compreensivas, que perdoam aos filhos todos os excessos. - A senhora podia dar mais um tempo pra gente! – retrucou um garoto. Se dependesse dela mesma, ficaria ali a tarde inteira, se a garotada quisesse. Também desejava isso. Mas o horário estava combinado com os pais, que enxergavam na diretora atitudes muito liberais. - Tá bom! Só mais meia hora, senão depois eu levo bronca- concordou, pensando nas reclamações que certamente viriam. De fato, percorrer a Bienal do Livro em apenas duas horas não permitia apreciar nada com calma. Principalmente de manhã, quando os corredores e estandes da exposição estavam sempre lotados de crianças correndo de um lado para o outro, mexendo e remexendo em todas as prateleiras. Era o período em que muitas escolas realizavam visitas organizadas, assim como estava fazendo o Colégio Anita Malfatti. Os estudantes se misturaram na multidão colorida, que se agitava no interior do imenso pavilhão do Ibirapuera. Lúcia e a professora de Português seguiam atrás, conversando sossegadas. - Foi ótima essa sua idéia de dividir as séries em dias diferentes para a visita à Bienal – comentou Sueli.

sim! – Lúcia confirmou. porque ele não gostava de ler. por falar nisso. os alunos do Anita Malfatti também procuravam seus interesses. já esboçando um perfil atlético. Enquanto isso. com tanta gatinha solta por aí! – dizia para os meninos da sua turma.. Vez ou outra. Fanático por esportes. Quase não havia livros sobre o seu assunto predileto. Rogério achava tudo ali muito chato. pô. E lá foi Marco Antônio correndo.Quem é esse?.Astrologia!?. de dedos magros e compridos. Hoje. Olhos de um azul quase transparente. procurando livros de música clássica ou de História. Dois assuntos capazes de prender sua atenção por muito tempo. .Acho que a experiência deu certo! – opinou Lúcia. Alto. só atenuada pelo negro dos cabelos. conversar com seu autor predileto. autografando os livros dele! – Érica observou. sempre prontos para imitar Rogério em tudo o que ele fizesse. meio perdidos entre os apelos promocionais das diversas editoras.É isso aí! – concordavam alguns. com certo orgulho. . um escritor parecia muito alegre.. – espantou-se Sueli – Não sabia que você gostava desse assunto! -Gosto. a gente fica mais tranqüila e dá até para curtir um pouco também! . -Olhem lá o Ziraldo. . acastanhado.Deu mesmo – concordou a professora. O esquelético Fabrício queria distância desses colegas. por exemplo.Ah.. . eu não sabia que era ele. ele trocava alguma idéia com Marco Antônio. dava no mesmo. um aspecto de fragilidade.Você não conhece!? É o Marcos Rey! -Puxa. qual é? Perder tempo olhando livro. o garoto preferia cultivar o próprio físico.perguntou Marco Antônio para Fabrício. E. davam ao rapaz. ainda que fosse o contrário.E. Em outro estande. rodeado de crianças de todas as idades. mas o que mais gostava era de andar sozinho. vamos procurar uma livraria esotérica. . .. . que estou louca para ver uns livros de astrologia! – acrescentou a diretora. mal desatados na brancura da pele. só com a oitava série..

– Você acredita nisso? – continuou. completou: . . -Eu não. não desgrudava de Carolina. mas. -Tarô!? – repetiu a colega. mas aqui ensina.. hein? -Quem foi que pediu sua opinião? – rebateu Carolina. -Por que não? Se tanta gente culta acredita. . saíram pelo mundo para transmitir seus conhecimentos ocultos..Fátima parecia meio desorientada. não sabia responder. de um jeito meio cético.. grande vidente! – zombou Vanessa. -Culta!? Ah! Só alguém muito bobo vai achar que um jogo de cartas pode fazer adivinhações! – E. Dizem que com ele a gente pode ver o passado. .Veja.” . desafiante. se alguém perguntasse qual o tipo de leitura preferida. Um conjunto de livro e mais setenta e oito lâminas! – exclamou a garota. Não conhecia nenhum outro autor senão aqueles que era obrigada a ler na escola. prevendo o final de sua civilização e sabendo da existência de outros povos. enfrentando a colega incrédula. depois. um sentimento de indignação misturado com desprezo a fez calar. o presente e o futuro. por isso. muito segura sobre o que estava procurando. deixando Fátima perdida entre as duas opiniões. Vanessa saiu. Fátima. -Madame Carol. cheia de ironia. é o Tarô completo. pegando uma caixa sobre o balcão de livraria. – respondeu Carolina. Mas. Sempre dizia que gostava dos livros..Você sabe ler essas cartas? – perguntou ela.. – argumentou a menina. que acabava de entrar no estande e ouviu a conversa. “Diz a lenda que os homens sábios da Atlântida. Talvez.Já. antigo continente desaparecido. virando-se para Fátima. . para concentrar-se na orelha do livro. deixando de prestar atenção na amiga.Você nunca ouviu falar? – Carolina se admirou.. . mas eu não sei direito o que é.Vê se não vai cair na conversa dessa doida.É um jogo de cartas que seve para fazer adivinhações.

. mas se eu te der não vou poder comprar nada pra mim. ela notou Lúcia e Sueli entretidas diante de uma prateleira. E. cumprimentado: -Oi! -Oi. que continuava ao seu lado. Mas. “Conhecimentos ocultos!? Por que será que esses coisas sempre foram meio escondidas? . aproximou-se das duas. Nenhuma pedagogia. . pensando na fase completamente nova em que se encontrava sua vida. . -Tenho um pouco.. . você numa livraria esotérica.Puxa.Nossa. pensou a garota. psicologia ou qualquer outra matéria que tivesse estudado estava sendo suficiente para que ela compreendesse melhor a si mesma e a gerações que anualmente se renovavam na sua escola. que surpresa! – exclamou a diretora. UM ESPELHO DIFERENTE Carolina interrompeu a leitura e fechou o livro. também oculta. novas necessidades que apenas os conhecimentos tradicionais não conseguiam mais satisfazer. com a certeza de que sua vida começava a passar por uma grande transformação. Deixe eu ver esse livro. como é caro! O dinheiro que eu trouxe não vai dar. antes de responder qualquer coisa.Essas eram as primeiras linhas do texto. Mas. .. ainda segurando o Tarô. mas causaram uma forte emoção na garota. como eu vou fazer para comprar esse livro? Na cabeça de Carolina começaram a desfilar os nomes dos alunos mais ricos da classe. e ela ia avaliando qual deles poderia arranjar o dinheiro. Lúcia se pôs a observar a publicação. que coisa mais bonita! -Você gosta do Tarô? – perguntou Carolina. virando a caixa de todos os lados à procura do preço. Carolina sentia-se atraída por aquele conhecimento..” E. dentro do estande lotado. A idade passando dos quarenta e trazendo junto novos questionamentos. “Já sei”. 2. de repente. Carol. assim como quem não quer coisa alguma. logo percebendo a caixa nas mãos da aluna. de alguma forma. que parou de ler e começou a refletir. amavelmente.. Você tem algum? – ela pediu para Fátima.

. Assim. procurava acompanhar o pensamento da diretora. . como um filme dentro da sala escura. Tudo bem? .Imagine que. ouviu a resposta com indiferença.. Mas só que você vai ter de esperar um pouco. mas cheia de coragem para pedir: . . com convicção. você está no caminho certo! Comprou um excelente livro! – comentou a diretora.. Se elas estão acesas.Eu quero estudar o Tarô! – afirmou a garota. em algum lugar da nossa mente. depois de um suspiro .Espelho do inconsciente! – exclamou Fátima. pelo que estou vendo. -É por aí! – confirmou Lúcia. . Ler o Tarô significa atravessar a luz da consciência e ver o que se passa na tela do inconsciente. minha filha! . é isso? – arriscou Carolina. independentemente das questões culturais e sociais que envolvem cada ser humano. Eu ainda não comprei.. Carol – disse Lúcia. não podemos ver o filme. que também havia se aproximado... Tá bom. mas sei que ele funciona como uma espécie de espelho do inconsciente. faço um cheque só.Sabe o que é. Mas é preciso muito estudo para isso. até eu decidir as minhas compras. a consciência funcionaria como as luzes na platéia do cinema. Carolina. embora não compreendesse bem o sentido daquelas palavras. Meu dinheiro não dá. já estivessem projetados os acontecimentos futuros. . -E.Sabe. achando graça na definição feita pela garota. mas acostumada com os espelhos dos shopping.. eu pago depois a gente acerta. . nunca me aprofundei no estudo do Tarô. cada vez mais curiosa. Será que você podia me emprestar a diferença? Lúcia deu um sorriso.. Carolina coçou a cabeça. Lúcia? – quis saber a garota.. -Deixe eu ver quanto custa. -Bem. Fátima. no entanto. ultimamente tenho me interessado por tudo o que possa ajudar a entender as pessoas. Nesse caso.. mas não sabe que está pensando. -O que você sabe sobre o Tarô. meio envergonhada.Você quer dizer aquilo que a gente pensa.E com esse espelho a gente consegue descobrir o pensamento oculto? – insistiu Carolina. Carolina.

olhando para Lúcia e também para Fátima. -Coisa grave? – perguntou a professora com ar de preocupada. Quando Lúcia terminou de escolher. hein! Mas. Bem diferente dos cachos soltos e despontados da colega. -Ele disse que vou me envolver em confusões. foi logo pedindo ajuda: . Fátima usava meias de náilon fumê. O contraste entre as duas garotas era evidente.Nossa.. sem nenhuma maquiagem no rosto. OU NÃO? -Mãe. em corte Chanel. . Parece que minha carreira vai estar ameaçada. Na cozinha. olhe só o que eu comprei! – gritou Carolina.Acho fascinante.-Claro! Agradecida. aproveitando a presença de Carolina.Puxa. Elizabete fritava batatas e. não sei por que. O TARÔ É BRUXARIA. você vai estudar mesmo. Sueli interferiu: . um astrólogo fez umas previsões ruins para o meu final de ano. juntou ao Tarô os livros de astrologia e entregou tudo ao balconista para que ele fizesse a conta. na volta da Bienal. 3. Além disso. Carolina deixou a diretora à vontade e voltou a conversar com Fátima. exibindo as pernas num agarrado conjunto de minissaia e blazer de veludo preto.. . Olhando para as compras da diretora. E quero ler sobre a influência de alguns planetas nesse momento da minha vida. Quem sabe consigo me conhecer melhor. e vou ter problemas com a Justiça.Agora não posso ver! – a voz soou a distância. vestindo calça jeans e camiseta do colégio sob uma jaqueta matelassê de algodão. antes de Lúcia responder. quase ao mesmo tempo. mas o que fez você se interessar por astrologia? . quem iria acusar você de alguma coisa! – exclamou Carolina. Os cabelos loiros. assim que abriu a porta do apartamento.Desculpe eu perguntar. pessoas vão querer me incriminar. e o batom brilhante completavam a imagem precoce de mulher. Carolina pouco cuidava da aparência. Carolina não resistiu em fazer um comentário: .

porém. volta e meia olhava de longe para o Tarô. quando Elizabete entrou novamente na sala. – Eu já combinei tudo. que ela comia sem parar. Deixando a caixa em cima do sofá. logo afastou aquele pensamento. na volta.Ta-rô! Não tinha nada mais interessante para você comprar? – desdenhou Elizabete. quase no mesmo instante em que notou a caixa sobre o sofá.Hoje é aniversário da sua tia – lembrou Elizabete. e. A outra beliscava as fritas. Além do mais. Enquanto retirava os pratos e talheres do armário. pare de comer essas batatas! – disse. entrando na sala com a travessa de fritas. já está na hora de comprar um monte de coisas aqui para casa – finalizou a mãe. Carolina! Seu pai está quase chegando e estou atrasada com o almoço. – O que é aquilo? – perguntou. . Descarregar o velho fusca na garagem. ficando nervosa. de pegar as cartas e começar a estudar. retornando à cozinha. subir com as compras três andares sem elevador. vai! Eu começo a ler à noite”. Ela teve uma desagradável surpresa. Mas. na expectativa de entusiasmar a mãe. pelo jeito. Embora modesto..-Arrume a mesa para mim. iria se arrepender. a gente aproveita para ir ao supermercado.. Carolina tirou o vaso de flores da mesa e estendeu a toalha. . . desanimada. esse momento ia demorar mais do que ela imaginava.É o livro que comprei! – respondeu a garota. o apartamento tinha sala ampla e pé-direito alto. dessa vez trazendo a tigela de arroz.. acabaria discutindo. A hora de pegar o livro e começar a ler. uma das mãos segurava o queixo. Ah. como só se encontra nos prédios antigos. e. A menina não teve tempo de responder e sentou-se. “E se eu disser que não vou a lugar nenhum?” Carolina. Dava bem para acomodar dois ambientes. sentia pena de deixar a mãe fazer supermercado sozinha. Os cotovelos apoiados sobre a mesa. Se dissesse que não ia..Mais interessante!? Não entendi! – questionou Carolina. chamando a atenção da filha. no fim. . nós vamos passar a tarde na casa dela. -Ei. tentava se consolar. como em outras vezes. . mal podendo esperar a hora de ficar a sós com ele. “Tudo bem. desapontada.

o almoço pela metade. ao pronunciar a palavra “diretora”. geralmente vigaristas. eu vi numa revista. sussurrou ao ouvido dela. ele não sorria mais.. naquela tarde. E. que ganhavam a vida explorando a fé e o sofrimento humanos.A mãe não teve tempo de responder porque um barulho de chaves na porta anunciava a chegada do pai. Como disse a minha diretora. ano que vem começa o colegial e existem tantas leituras mais úteis do que perder tempo com bruxarias! Você não acha? -Mas o Tarô não tem nada de bruxarias. espiritual até. Largou a pasta sobre o sofá. e. Os dois se entreolharam numa espécie de diálogo sem palavras. cartomantes. Ela apenas me emprestou o dinheiro.Sua mãe tem razão. – É uma coisa muito mais profunda.. Otávio entrou todo alegre.contra-argumentou a menina. com sua aparência d bom vendedor. preparando uma surpresa para a garota.Não. depois de algum tempo conversando. resolveu parar e escolher batatas. que ia na frente. Foi então que Elizabete perguntou: .E essa uvinha. cheio de apetite. Carolina provocou uma reação negativa nos pais. desapertou o nó da gravata e dali a algum tempo já estava à mesa. ta gostosa? . aqui. Ah.. quando a filha terminou de falar. que aproveitava para olhar as frutas. Elizabete. que havia realizado ótimos negócios naquela manhã. tem um sentido filosófico. MAS O QUE SIGNIFICA ARCANO? E. Mas.. filhinha! – comentou Otávio. eu preciso devolver! A cara de Otávio era de total desconsolo. .Não me diga que foi a Lúcia quem sugeriu a você este livro? . ele simplesmente comentou: .Eu sempre disse que essa diretora não batia bem da cabeça! 4. Rogério se abaixou atrás da gôndola de legumes. Você já está na oitava série. saindo do esconderijo. ao perceber mãe e filha no vaivém do supermercado. . Carolina. E. o Tarô confundia-se com as histórias de ciganas. . Para ele. tomou o maior susto quando o garoto. é uma espécie de espelho do inconsciente. por falar nisso.

Ah.Você nunca faz nada de errado. não precisa agredir! O que eu fiz de errado? . querendo machucar. vê lá se eu ia dar justo em cima de você! Eu tava querendo era fazer uma caridade. numa conversa entre amigos. Rogério. o irresistível..Chame! – desafiou o rapaz. E o garoto. senão vou chamar a minha mãe! . Ou mesmo junto da Érica. . que fala as coisas mais bonitas. só isso! Essa era forte demais para Carolina.O que foi. havia tocado num ponto muito delicado. por exemplo. mas se controlava.. considerado o garoto mais bonito da classe. viu!? – explodiu a garota. . Carolina se achava uma pessoa comum demais.. mulata de lábios carnudos e olhos claros. com essa resposta de Rogério.Pare de me encher. de olhos pretos e pele pálida. o mais esperto. às vezes. . nunca tinha usado de tanta agressividade. Mas nesse dia Rogério se surpreendeu com a reação da colega. Carolina estava perto de chorar. sempre. . perdeu a fala!? – continuava ele. Os dois já haviam tido vários atritos na escola. alta. Pensa que tá arrasando. Não é que ela se julgasse feia. Apesar de ela viver dizendo que ele era um cara vazio e superficial. com aquele rosto de boneca chique. Baixa. seu.Ora. seu. – Olhe ela ali! . Agora. segundo suas amigas. Mas não ta não. ela jamais pensou ser bonita.. Rogério!? Você se acha o bom. está aí. seu idiota! – comentou ela com raiva.Ah! Só podia ser você mesmo.Poxa. Perto de Fátima.. toda enroscada. o mais sedutor. o assunto envolvia sexualidade. sem nenhum atrativo especial. O jeito extrovertido e. meio grosseiro do rapaz vira-e-mexe incomodava a sensibilidade de Carolina. menina fresca!? Com tanta gatinha mais bonita por aí me dando bola.Rapidamente. ela até engasgou. né. horrorosa. aquela que se diz profunda. resolveu revidar: . então. mas tinha problemas com a beleza. ofendido. qual é. o mais atraente. Carolina virou a cabeça para ver quem era. – Quem diria. . hein? A dona do verbo. Talvez por isso ficasse tão retraída quando..

chegou a vez de Elizabete pesar as suas batatas.E ao virar o rosto a garota viu Elizabete conversando com Vilma.. “Deixa eu ver!”. de fato.É uma viúva alegre. Mas a conversa foi interrompida quando. enquanto procurava no livro as primeira explicações. não sabe qual é a responsabilidade de uma mãe. a mãe de Rogério. Té logo.Vamos! – sugeriu a filha. Do lado de fora do supermercado.Sei não.. completamente alheias à discussão dos filhos. aplacava a raiva e a angústia que estava sentindo.. as duas pareciam entretidas num assunto muito sério. ela se encontrava completamente tranqüila. o comportamento dessa diretora deixa muito a desejar. A perspectiva de estar logo em casa. .. só dá nota baixa pra ele. bem que eu tirava ela desse colégio! . para alívio de Carolina. quando. pensou em voz alta. estou meio preocupada com a professora de Português. como também emprestou o dinheiro.. foi para o seu quarto abraçada ao livro. – E tem mais. – ainda disseram as mulheres.Ela não tem filhos. . Desconfio que ela anda perseguindo meu filho. Carolina ficou um pouco mais calma.Não! A garota vestiu a camisola de flanela. . E. nos dias violentos de hoje – esticava a mãe de Rogério.Té logo. Vilma. depois do jantar. – Você já reparou nas roupas de jovem que ela usa. Pois é. Enquanto aguardavam na fila da balança..Pois eu faria o mesmo com Rogerinho.. Não antes de responder à pergunta provocativa de mãe: . ... Dá impressão que não quer assumir a idade. ela não só indicou o Tarô para Carol. . Você não acha intromissão demais? . com o Tarô.. amontoou várias almofadas à cabeceira da cama e se acomodou. . viu! Se a minha menina não estivesse no último ano. Inclusive. . falando baixinho e puxando a mãe pelo braço. mesmo! – concluiu Elizabete..Você não vai assistir à novela? .Eu acho! – confirmou a outra.

” “Acho que a minha diretora quis dizer isso!” – exultou a menina..Mas o que significa arcano? – perguntou Carolina.. vou poder descobrir muitos mistérios! 5. copas. interiormente. Portanto. a história se tornava mais interessante..” Durante alguns instantes. – “Arcano é segredo. E que.” Isto quer dizer que cada carta é um segredo e também uma procura... busca. continuava o livro. além do rei.. Uma civilização de 5 mil ano a.. rainhas. ela já conhecia a lenda de que o Tarô tinha chegado ao Egito através de Thot. com seus reis. da rainha e do valete. que aprendeu a usar o baralho como poderoso oráculo a ser consultado no caminho da espiritualização. que legal.”. já com os símbolos adaptados à cultura da época. um ser de Atlântida que se tornou deus para aquele povo.Ah. A cada parágrafo. procura. de súbito.. .. E. – disse. Carolina descobriu que dos arcanos menores do Tarô originou-se o nosso baralho de jogar. cada carta desvenda um mistério. está aqui.. Mas logo estava mergulhada outra vez na leitura. que representam as experiências psíquicas que as pessoas atravessam no decorrer de suas vidas. lembrou-se de procurar no dicionário. . “. espadas e ouros. senhores. também conhecidos como Trunfos.. “Outra coisa que o Tarô tem a mais do que nossas cartas modernas. a garota repassou mentalmente os costumes da vida feudal. Carolina reagia como se estivesse encontrando os primeiros rastros de algo há muito procurado. mistério.Alguns minutos depois.. no Sul da França. UMA LIGEIRA DEMONSTRAÇÃO DE COMO SE LÊ O TARÔ Mais ou menos lá pelas dez horas da noite.C.” . “Muita gente acredita que foram os ciganos que levaram as cartas para Marselha. onde elas ressurgiram na Idade Média. ao encontrar a palavra. clérigos e heróis de cavalaria ainda tão presentes nos contos de fadas. “O Tarô constitui-se de vinte de dois arcanos maiores e cinqüenta e seis arcanos menores. Nossa. o Tarô tem uma figura nobre a mais: o cavaleiro. servos. com seus quatro naipes: paus. são os vinte e dois arcanos maiores.. conversando com o texto.

repartiu e colocou os dois montes sobre a mesa. erguia uma lanterna.Mas exultante mesmo ela ficou quando leu o seguinte trecho: “Uma viagem pelas cartas do Tarô. Carolina embaralhou primeiro o monte das vinte e duas e depois o das cinqüenta e seis cartas. iluminando seu próprio caminho. para ver qual era. bem rápido. a imagem de um velho preenchia quase todo o espaço restante.” Com esta frase na cabeça. “O Eremita: caminho solitário para a autocompreensão. tem um velho nas minhas profundezas! – a garota se espantou. com as faces voltadas para baixo. lágrimas. conflito. mostra a pessoa descobrindo a luz interior. puxou do segundo monte os três arcanos menores que faltavam. Ela então resolveu fazer um joguinho. Bem depressa. inspirações” “Oito de Espadas: crítica. completando o jogo.Nossa. Carolina correu para o livro. Em seguida. ao puxar o Trunfo e virar lentamente a lâmina. O coração da menina batia forte. procurando o significado de cada lâmina. a primeira de quem estava começando a sair da teoria para entrar na prática. Valete de Ouros. é uma viagem às nossas próprias profundezas. Bastante concentrada. Carolina passou do livro para as lâminas.” “Cinco de Ouros : pessoa dedicando-se a pôr em prática suas idéias. o método mais simples de deitar as cartas que o livro ensinava: um arcano maior e três menores. antes de tudo. Mas não perdeu muito tempo nesse espanto. As cartas saíram nessa ordem. Cinco de Ouros. Vestindo manto azul e capuz vermelho preso às costas. pensado: “O que estará contido nas minhas profundezas?” Era uma boa pergunta para fazer ao Tarô. . partiu. na outra. não. O número 9 aparecia em cima. No centro. E. Oito de Espadas.” . O Eremita estava escrito na extremidade inferior da carta. o ancião carregava um cajado em uma das mãos. fazendo tudo da maneira que o livro ensinava.

ela se esforçava em interpretar aquela combinação. Nunca pensei que eles pudessem ficar tão chocados com esse livro. apesar de muitas lutas e sofrimentos. estou me dedicando. para isso.. Ter comprado o Tarô já indica a minha dedicação.. ela emergiu. simplesmente. E. hoje!. E o que parecia impossível no começo aos poucos foi clareando. mas vou conseguir entender essas cartas!” Carolina se calou. a ponto de fazer Carolina falar sozinha. como diz o Cinco de Ouros . . tirando conclusões precipitadas.. Sempre em voz alta. viajando até as suas profundezas. . o olhar fixo nas cartas sobre a cama. boquiaberta.“Valete de Ouros: alcance dos objetivos.. Ainda bem que tem o Valete de Ouros ali.. trazendo lá do fundo mais algumas questões. sozinha. só podem ser dos meus pais. E essas críticas do Oito de Espadas? Já sei.” Controlando a respiração ofegante. Tá certo que não vai ser fácil. Mas de repente. – ela imaginou. querendo me conhecer melhor.É lógico! O que está aí tem tudo a ver com o meu dia.. a garota continuou: “O Eremita sou eu. Parecia mesmo hipnotizada ou talvez estivesse.

empadinha.. .De jeito nenhum! Formatura sem baila não é formatura.” Fazendo mentalmente essas perguntas.Que nossos pais que nada! Quem ta se formando somos nós! – protestou Tiago. depois de algumas contas. . estava O Diabo. – E o pior é que falta pouco tempo para a formatura.Nós estamos muito devagar – comentou Érica.Também. . – comentou Rodrigo ao ouvir a conversa. Estampado na lâmina. . querem fazer o favor de prestar atenção – reclamou o professor Argemiro. 6.Quanto rendeu? – perguntou Marco Antônio. Mas Vanessa não concordava. tipo coxinha.. metido. os alunos que organizavam a formatura voltaram meio agitados para a aula de Geografia. . Vender salgadinho na hora do intervalo só dá certo se for coisa boa. pudera! Esse biscoito tem gosto de isopor. número 15. agora então ficou inteiramente assombrada. . E se com o Eremita ela já havia tomado um susto. O salgadinho de hoje não agradou! .Eu prefiro a viagem! – Ricardo foi logo dizendo. Eles continuaram conversando do mesmo jeito..Pouco. Mas não adiantou a advertência. vocês aí no fundo. que falava sobre os problemas econômicos dos países do Terceiro Mundo.. a garota puxou outro Trunfo.“E quanto ao Rogério? Por que eu fui tão agressiva com ele? Ele é um chato. eu não sou de agredir ninguém! O que será que me aconteceu? De onde veio tanta raiva?. Érica rabiscou uns números no caderno e. não vai dar para fazer o baile e a viagem para o Alto da Ribeira. respondeu: .Ei.. A gente vai ter de escolher entre uma coisa e outra. Nós temos de fazer uma festa para os nossos pais. após o intervalo. Desse jeito. COMO ARRANJAR DINHEIRO? No dia seguinte.. . mesmo assim.

.. aproveitando o horário da última aula. escondendo afeição atrás de uma severidade ensaiada. qualquer decisão que fosse tomada.. . ou mesmo jogos. .Que tipo de problema? – perguntou ele.. mas aquele “Gegê” pronunciado de forma tão carinhosa havia quebrado o gelo do professor. . .. né.. aquela quietude toda era anormal. interferiu: . – argumentava outra garota quando Argemiro gritou u nome dela: .Como arranjar mais dinheiro! – responderam Rodrigo e Vanessa em coro. Nós estamos falando sobre a formatura! .. foi o primeiro a falar. Mas o que os alunos ainda não estavam sabendo é que ele estava cheio de idéias. repita subdesenvolvimento? o que eu estava explicando. Fátima percebeu que a amiga estava deprimida e se aproximou.Bom. O que é A menina ficou vermelha de vergonha..É que a gente está com problemas! – reforçou Marco Antônio. Assim. Apenas Fabrício e Carolina não participavam com tanta euforia. todo mundo ficava logo sabendo.Ah.. .. depois de alguma conversa. O professor sugeriu que os interessados na formatura permanecessem.. Ninguém estranhou o comportamento do rapaz porque seu jeito sereno já era conhecido. Argemiro detestava ver sua aula interrompida.É preciso incrementar a arrecadação. . que era vaga naquele dia. ficou acertado que eles voltariam a falar do assunto mais tarde. Que tal um bingo. tentando livrar sua colega da repreensão. pra começar? A turma inteira se contagiava com o entusiasmo do professor.Mas podemos também vender rifas – continuava Argemiro.Eu também sou a favor do baile. . Vocês podem continuar com os salgadinhos no intervalo. . Organizar bailes e festas aqui na escola.Vamos caprichar.. E Érica. porque. Gegê!. Na hora de reunião. denunciando sem querer o apelido do professor entre os alunos. E. – disse ela.Valéria... Mas a garota não enganava. mas agora não é hora de resolver isso – falou Argemiro. gente! – lembrou Rodrigo.

Então está combinado. se Janaína não interrompesse: . né? – comentou Valéria começando a recriminar o colega.Meu pai tem uma marcenaria. – Aliás.Eu ajudo na divulgação – prontificou-se ela. você nem quer saber. .Claro que pode! Nossa. . Pode ser? .Começou a ler o Tarô? . E teria feito um sermão. . meu Deus! – exclamou a menina. ..O único jeito de saber a resposta é começando a trabalhar. 7. voltando a participar da reunião. domingo que vem – disse o rapaz. mas na hora do trabalho se lembra deles. Embora preocupada em não invadir o sentimento da colega. Será que vai dar tempo? . . Carol? . acho que ele pode fazer a roleta para o bingo! – ofereceu Tiago. UMA VOZ VINDA DO FUNDO DOS INFERNOS Marco Antônio e Érica. no momento em que Valéria expressa a ansiedade da maioria.Depois a gente conversa. – Lá na igreja que a minha mãe freqüenta a mulherada adora essas coisas. a primeira coisa que a gente vai fazer é o bingo. .Tudo bem! Fátima se afastou. – Preste atenção no que eles estão falando. imediatamente – desafiou o professor. que já eram os líderes da comissão de próformatura.Já! – respondeu Carolina. . como você está séria! – estranhou Fátima. Fátima tentou saber de alguma coisa. com uma cara de quem quer dizer não.Sim – respondeu a menina. . .Ai. – Nós temos três meses para juntar esse dinheiro.Todo mundo tem de trazer uma prenda – completou Érica.Você está bem. ta! – avisou Carolina. queria falar com você sobre isso. foram encarregados de organizar na prática as resoluções do grupo.Na hora de fazer uma festa para os pais.

gaguejando: .. assim como fez a manhã inteira. Vamos lá para casa! Fátima avisou que por ela estava tudo bem. Aí. .. Chegou a ficar tonta no meio da confusão.. pensando no Rogério. cara! – respondeu Marco Antônio. sem saber como ajudar. perguntou: .O que está acontecendo? Eu nunca vi você olhar para o Rogério com tanto ódio! A resposta de Carolina foi uma explosão de choro. Na rua. Carolina se distraiu um pouco e começou a desabafar. E quem saiu ferida foi ela. o pai da Érica. Carolina olhou firme para Rogério. Fátima foi atrás: . Falou das longas horas que tinha ficado lendo à noite no quarto e do primeiro jogo de Tarô. Ainda demorou algum tempo para que Carolina se acalmasse e conseguisse dizer alguma coisa.Cruz-credo! . seria ótimo se a gente pudesse vender uns comes e bebes na hora do jogo – lembrou o professor Argemiro. só precisava avisar a mãe. – Vamos providenciar! E a reunião estava quase no fim quando Rogério.. Contou tudo o que tinha acontecido com ela e Rogério no supermercado. .Quem vai guardar o dinheiro? . E foi telefonar.Pra renda ser ainda maior.. ele a ignorou completamente. Intrigada com a reação da amiga. As duas garotas já estavam dentro do ônibus quando Carolina tocou no assunto que mais a incomodava: . Mas. que deixou Fátima ainda mais confusa.. . enquanto a amiga enxugava as lágrimas e lavava o rosto. – A comissão tem uma conta de poupança em nome do seu Martinez.Você tem algum compromisso de tarde? .. né.Você ta sempre por fora. em tom de brincadeira. Nunca a correria e a algazarra das crianças a incomodaram tanto. porém de um jeito meio agressivo. tentando ferir o rapaz de alguma forma. quase correndo em direção ao pátio.. – Seja o que for.. No meio daquela conversa nervosa. sentindo-se ofendido. não é bom que os outros te vejam desse jeito. saiu O Diabo!. quando eu puxei a carta.Claro. cheio de alunos. isso é importante! – concordou Vanessa.. por fim. caminhando.Vamos lá para o banheiro – disse ela.

. um vento forte começou a soprar. Carolina arriscou uma olhadela para trás.Fale baixo! – sugeriu Fátima. chamando a atenção dos demais passageiros. aflita. piscando para a colega. acho que eu não to legal! . . Logo em seguida apronta uma dessas! A garota voltou a ficar séria. de repente. mesmo depois que elas desceram do ônibus e andavam em direção à casa de Carolina. cabisbaixa. Então. . achou graça. quando ela respondeu: . como se a mochila de livros e cadernos pesasse um pouco mais naquele momento..Por um instante Carolina achou que o comentário tinha sido de Fátima.Digo mais – continuou a outra -. . Os olhos voltados para o chão acompanhavam o meio-fio da calçada. uma voz vinda do fundo dos infernos gritou. as duas perceberam que havia uma velha no banco de trás.Não me diga! – exclamou. as portas do guarda-roupa abriram e fechavam sem parar.Pois é.. . Na verdade. O incidente serviu para que a garota recuperasse o bom-humor.Ah. logo percebeu as intenções da amiga e entrou no jogo: . ..A voz gritou que vinha logo buscar as velhotas enxeridas.. Na rua um cachorro uivava desesperado. de repente. que ficam ouvindo a conversa dos outros dentro dos ônibus – completou a garota impostando a voz. O episódio continuou sendo assunto das garotas.Puxa vida! – comentou Fátima. acostumada com aquele tipo de brincadeira. – disse ela.. O corpo arcado para frente. As duas caíram na gargalhada. Mas. Um misto de espanto e indignação estava estampado na fisionomia da mulher. ouvindo tudo. – Não faz nem meia hora que você estava chorando. levantando as cortinas.O que ela gritou? – perguntou Fátima. . quando. Fátima. . dane-se! Carolina não se importou. excitada com a história e segurando o riso a todo custo..

O que Fátima queria saber logo era aquela história de paixão por Rogério: . ..Você está muito esquisita. ALGUM PERIGO NO AR Quando viu Fátima chegando com a filha. . eu vou embora. Quem sabe você me ajuda a entender melhor. Continuou naquele embalo um bom tempo. .Significa paixão! 8. Carolina pôs um rock no toca-discos. Você pensou no Rogério e tirou uma carta. Fátima olhava impressionada para a lâmina. Fátima sentou-se no sofá e ficou olhando para a amiga. As feições um pouco marcadas. causando uma triste impressão.Isso dá pra sacar.. perdendo um pouco a paciência. Ao ficar só com a amiga.Mas termine o que você estava falando no ônibus. – confirmou Fátima. – Eu vou te mostrar o Tarô. desligando o aparelho. garras de gavião e asas de . estou perdida! – confessou Carolina. você tem razão! – concordou Carolina. e começou a dançar. Se for assim.. ela pegou a carta número 15 e abriu o livro na página correspondente.Pois é. Otávio voltou para o trabalho e a mãe foi ao salão de beleza. como é bom quando nem pai nem mãe está em casa! – ela disse. Carol? Você nunca gostou dele! . Lá estava o demônio. Após o almoço. O que ele significa? . Falando assim. Observava seus movimentos bruscos na dança. hoje! Mas Carolina não respondeu. O jeito alucinado de balançar a cabeça e chacoalhar os cabelos.Você me chamou aqui pra conversar.. Era O Diabo. – Vamos lá para o quarto – disse. agora fica aí dançando..Como é possível.Ah. sofridas. pedindo: . aumentando bastante o volume.. Uma mistura de corpo humano com chifre de veado.Desculpe. Elizabete colocou mais um prato na mesa. Até que Fátima. levantou-se e abaixou o som: . como se acordasse de um sonho. Não pôde deixar de comentar: .

.Mas não consigo sentir assim. . Imagem muito mais patética e grotesca do que propriamente horripilante. Mas. . – Você está louca pelo Rogério. agora as evidências a confundiam. para a outra não se ofender. de quem faz uma descoberta: . tensa. caráter vingativo.Está aqui. Fátima balançou os ombros como quem não sabia responder. Carolina nunca pensou em ver seus conflitos existenciais reduzidos a um simples desejo carnal..Aqui diz que: “sofrer a influência do Diabo é estar preso a qualquer idéia fixa. Mais abaixo aparecia um casal. Carolina arfava. – “..” – Carolina começava a ler.Deixe eu ver uma coisa? – falou.. Era homem da cintura para baixo. só não quer admitir.. Acho ele um cara estúpido. . pode traduzir-se numa relação de amor e ódio. entre eles a atração sexual. pediu o livro para Carolina: .Ah! – Fátima deu uma risada maliciosa. cascos e caudas de animais. chifres. fala a verdade! A objetividade da amiga irritou a garota. Então.. com o rosto quente e vermelho de sangue.morcego. percorrendo com os olhos alguns parágrafos. com orelhas. De repente. E o texto continuava: “.” .Tá explicado! Você está terrivelmente atraída por ele.. Nosso emocionalismo. sem educação.Pare.. ó! – e passou a ler. mas em cima tinha seios de mulher. Como eu poderia gostar dele?. É também ser vítima dos próprios apetites animais. também esquisito. Jamais havia se permitido pensar nessa possibilidade.. violência e confusão individuais são representados pela figura do demônio. se torna violente e agride – comentou Fátima com cuidado. recusando em si a própria natureza. . Se no primeiro comentário tinha julgado a amiga leviana..” . E por ser um personagem ambivalente. Os dois amarrados pelo pescoço à plataforma onde se encontrava o diabo. antipático... dali a alguns instantes. a garota mudou de expressão. Assumiu um ar de vitória. fanatismo. deixe eu ler! – ela gritou.

“Como diz Baudelaire, o artifício mais hábil do diabo é convencer-nos de que não existe...” Depois de uma pequena pausa, Fátima concluiu: - É por isso que você pensa que não está apaixonada, mas está! Carolina relutou, relutou e nem mesmo muita conversa serviu para que ela se convencesse. A amiga, depois de ver esgotados todos os seus argumentos, acabou desistindo. Ficou mais fácil trocar de assunto. - Agora quero que você leia o Tarô pra mim! – ela pediu, mesmo achando que a outra não estava em condições. Mas Carolina se entusiasmou. Mergulhar nas questões alheias era uma boa maneira de esquecer os próprios problemas. - Então vamos abrir um jogo mais completo. São dezesseis cartas. - Nossa! E você vai saber interpretar? – duvidou Fátima. - Eu tento, vou acompanhando pelo livro! – explicou Carolina. A garota ordenou o baralho, separando os arcanos maiores dos menores. Entregou os dois maços para que Fátima embaralhasse e cortasse. Por fim, pediu para que ela fosse puxando carta por carta. Estranhamente, a cada lâmina que a amiga tirava, Carolina sentia uma espécie de tristeza, inexplicável. Num primeiro instante, pensou que ainda tivesse a ver com seus sentimentos por Rogério. Mas logo percebeu que a angústia vinha de Fátima. E ela estava, simplesmente, captando. Coisas ruins começaram a passar pela cabeça de Carolina. Imagens desfocadas de um misterioso acidente. Gente aflita, gente nervosa, brigas, polícia. Tudo isso a garota intuía, mas não conseguia ver direito o que era nem o porquê. Apesar de Carolina fazer um enorme esforço para manter a naturalidade, Fátima entendeu que alguma coisa não ia bem: - O que foi, você está se sentindo mal? - Não é nada, mas você se importa de ler o Tarô outro dia? - Não, eu entendo. Acho até melhor! – considerou Fátima. - Estou um pouco confusa... Este problema com o Rogério está me deixando atrapalhada! – Carolina disfarçou. - Tudo bem! Você está a fim de ficar sozinha?

- Oh, não é isso! - Mas vai ser bom pra você – insistiu Fátima. – Eu já estou indo... Pedindo desculpas pela sua atitude, Carolina acompanhou a colega à porta. Em seguida, ligou o toca-discos no último volume e se pôs a dançar, alucinadamente. Enquanto o corpo se movia inconsciente, a cabeça parecia ligada a um plano distante, trazendo de lá uma única certeza: existia algum perigo no ar.

9. PRECISO AJUDAR MINHA AMIGA O som estava tão alto que Carolina nem percebeu o barulho de chaves na porta. Elizabete entrou muito brava: - Abaixe isso, Carolina! Dá para se ouvir lá de baixo. - E daí, são cinco horas da tarde! A lei do silêncio só começa às dez da noite, ta! – lembrou Carolina. - Mas estame incomodando. Estou com dor de cabeça! – insistiu a mãe, indo para o quarto. - Tá bom, ta bom! – concordou a filha, sem a menor disposição para discutir. Ao passar pela porta aberta do quarto da garota, Elizabete viu as cartas esparramadas. Voltou mais irritada ainda para a sala. - Então foi assim que você e Fátima ficaram estudando! Carolina mentiu, dizendo que elas só pegaram o Tarô depois dos estudos. Mas não adiantou. A mãe continuou ralhando que aquilo era uma perda de tempo, que havia coisas mais importantes para se ler. Enfim, a mesma ladainha de sempre. E advertiu: - ... Quero só ver as notas desse bimestre! Sabendo que nenhum argumento a favor do Tarô iria aplacar aquela fúria, Carolina tentou mudar de assunto: - Mãe, o seu cabelo está tão bonito! – ela arriscou. Deu certo. Elizabete esqueceu as repreensões. Hesitou alguns segundos. O tempo necessário para suavizar a expressão do rosto, como se a dor de cabeça tivesse passado de repente.

- Você gostou do corte? – perguntou. Mas, vaidosa como era, nem esperou resposta. - ... Eu também achei que ficou bom. Já estava na hora de mudar um pouco de cara! Falta saber se o seu pai vai gostar. Acho que vai... Falando sem parar, contando fofocas do salão de beleza, Elizabete foi para a cozinha. Da sala, Carolina ainda ficou ouvindo um tempo. Mas, tão logo a mãe se distraiu, ela voltou para o quarto e ficou olhando as cartas que Fátima havia tirado e que ainda estavam em cima da cama. Era preciso interpretar aquela complicada configuração, enxergar melhor o que estava por acontecer. O passado e o presente não interessavam tanto. Rapidamente, a garota abriu o livro e começou a procurar o significado das cartas que simbolizavam o futuro. De início tudo ia normal. O Trunfo número 6 chamava-se O Enamorado. Um homem no meio de duas mulheres parecia hesitar entre uma e outra, sem notar um cupido pairando sobre sua cabeça. A garota logo pensou em namoro. Mas depois descobriu que o sentido da carta ia muito além. “Luta entre razão e emoção. A pessoa que tira esse arcano tem de encontrar dentro de si a força para enfrentar o confronto. Momento de decidir entre as alternativas que a vida apresenta”, diziam as explicações. “Que tipo de escolher a Fátima terá de fazer?” – Carolina se perguntou. Sem saber essa resposta, passou para a primeira trinca de arcanos menores. “Quem sabe eles podem me ajudar!?” – pensou. Seis de Espadas queria dizer passeio, viagem. O próximo era o Cavaleiro de Paus, simbolizando um namorado: jovem moreno à espera de uma moça. Em seguida vinha o Valete de Copas, anunciando aproximação, proposta, convite.

“Até aí não quer dizer nada. Fátima viaja bastante e vive rodeada de namorados...” – lembrou a garota. A partir daí, no entanto, o que as cartas diziam era terrível. O outro arcano maior era o zero, O Louco. E, sobre ele o livro trazia péssimas informações. Falava de inconsciência, loucura e desatino. Questões psicológicas que perturbam a ordem estabelecida. - Meu Deus, O Louco! – exclamou Carolina, ficando cada vez mais assustada, conforme ia interpretando a segunda trinca de arcanos menores. Catástrofes imprevistas, queda de lugares altos eram prognósticos do Sete de Espadas . Acompanhados do Dez de Espadas, os fatos se agravavam em perigos misteriosos, aflição, lamentos e lágrimas. Como se ainda não bastasse, o Dois de Paus encerrava o jogo, prevendo sofrimento físico, temor, desolação.

Carolina nem se deu conta de que muito tempo havia se passado. Só percebeu o horário quando a mãe chamou para o jantar. As mãos à cabeça quase arrancavam os cabelos enquanto ela andava de um lado para outro do quarto.Você disse que ia estudar e passou a tarde inteira com esse Tarô.” Um sentimento de urgência estalou no coração da garota. .” Até chegar a essa conclusão. . O resultado foi um sermão. que bonito! – ela arriscou... Eles se aproximam.Você viu o cabelo da mamãe. Mas dessa vez não deu certo.. fazem alguma loucura e acabam se dando mal. pensando. não foi!? É muito feio mentir. Fátima vai se decidir por um namorado num passeio ou numa viagem.Carolina pulou da cama de um salto. que só terminou com a campainha do telefone tocando. “Pelo que eu entendi. Otávio já estava sentado à mesa e se mostrou magoado com a filha: . “Preciso ajudar a minha amiga. Carolina tentou com o pai o mesmo que truque que tinha usado com a mãe: trocar de assunto.. Procurando manter a calma.

queria te perguntar umas coisas. em Ubatuba. Achei que estava precisando! . .Não sei. nenhum! – respondeu. Só interrompeu a leitura no final da tarde.Você acertou! . O que há? Pode se abrir comigo. 10. .Fale! – ela consentiu. posso? . só para não te ver deprimida. A calma da praia do Lázaro. . logo pensei em você. Fátima! Eu não sou como você! – disse a garota.Sabe.É.Não.Era Fátima. sim! – concordou Carolina. os dias continuavam frios no começo de setembro. encabulada.Como assim? . O LOUCO VARRE TUDO Carolina passou a maior parte do sábado lendo seu livro sobre o Tarô. quando os pais de Fátima vieram buscá-la para viajar. mesmo vestindo bermudas e camisetas.Você tem algum problema com os rapazes? Carolina abaixou a cabeça. Carol. quando meu pai falou que vinha resolver uns assuntos da nossa casa.É bom vir à praia nessa época do ano! – comentou Fátima. dava para se contar as pessoas. sentindo o peito apertar. tentando imaginar qual era o assunto que despertava a curiosidade de Fátima. De uma ponta à outra da enseada. Fátima e Carolina não tiveram coragem de dar uma caída no mar. começava nas ondas. . . pensa que eu não reparo como você fica quando as outras meninas falam de namorado. O olhar perdido em algum ponto no chão. eu sou tua amiga! . que convidava Carolina para o fim de semana na praia.Pois é. os pés chutando a espuma da água. – Tem muita paz aqui! . Embora iluminados. elas estavam adorando passear pela areia. Os biquínis nem haviam saído das malas. quebrando de mansinho nos pés das garotas.Ah. Quantas vezes eu deixei de te contar algumas histórias minhas. Mas. .

Já namorei muitos rapazes. mais nenhum me fez a cabeça.. E correu atrás dela: .Você é bonita... – desabafou Carolina. – Vamos sentar na barraca dos pastéis e tomar alguma coisa!. . o cara certo aparece! Por que você não se solta. um dia. era delicioso.Assim. é só isso!.E o que tem isso? – quis saber Carolina. .. um cafajeste! Fátima olhou para o céu. como quem diz: “Não adianta insistir”. Mas nem sei se vale a pena! A maior parte dos garotos é tão bocó. que vou querer um – disse Carolina.Mas ele é um.O que é isso? De onde você tirou essa idéia de que não é bonita? Acho que sou um pouco mais assanhada. procurando esquecer seus conflitos. distraída com o horizonte. ..O cara de secou! Tá vendo como você é desligada! – comentou Fátima. para que a amiga não a visse chorar. . se você quer saber! As duas retomaram o passo. a garota continuou: ..Acho tão gozado pastel de pizza. ..E. Lá foram elas para a barraca do Lázaro. viu? Quem sabe.. sem conhecer!? – espantou-se Carolina.Se algum deles viesse falar com você.. correndo à frente.. em vez de sofrer por causa do Rogério? Dê uma chance pra ele. Fátima tentando convencer a amiga de que não havia nada de errado com ela.. feito na hora. tendo uma idéia.Eu disse ficar pra conhecer.. Todos te acham uma gata! Você sabe conversar com os meninos. pra conversar. O pastel... depois de refletir uns instantes. . . Fátima se surpreendeu.. Você reparou que os rapazes são maioria hoje na praia? . – esclareceu Fátima.. querendo ajudar. e pra você também! . A gente tem mais é que deixar rolar. Nunca havia passado pela sua cabeça que Carolina fizesse esse tipo de comparação... você ficava com ele? . Nesse momento um garoto que passava por elas olhou insistentemente para Carolina. Carolina enxugando com as mãos algumas lágrimas que ainda teimavam em escorrer pelos cantinhos dos olhos.

nem lembrava de socorrê-la.. . A garota sorriu e aproveitou para apresentar Carolina aos rapazes..Esse aqui é um amigo meu. gato? . apenas um casal de meia-idade e o pessoal da barraca desfrutavam do prazer de estar ali. Até que Fátima cutucou Carolina com os pés. . Por sorte. . Ao lado deles. diante de um rapaz desconhecido. com monossílabos. As cadeiras. foi a maior farra! – confirmou o rapaz. O tempo passando sem que ninguém se desse conta. o verde das montanhas. Além das duas garotas. E você. a garota respondia secamente.Bonito esse lugar. Juca e Carolina tentavam quebrar o gelo do primeiro encontro: . em situações como aquela! A amiga tão animado com o outro. tão cheia de assunto. Meio sem graça.. Rubinho fez uma sugestão geral: .Tudo. puxando conversa.O outro eu não sei quem é! Rubinho veio direto falar com Fátima: . por debaixo da mesa. A casa dele é perto da nossa. o pastel quentinho pareciam combinar com o clima. lembra? – perguntou Fátima. Não demorou muito e Fátima e Rubinho começaram a relembrar antigas temporadas de verão: . o mar. mas sem disposição para demonstrar simpatia. vêm vindo dois caras! Forçando um pouco a visão. não querendo ser antipática. gata? . o suco de laranja.O de sunga vermelha é o Rubinho! A gente já passou férias juntos. tudo legal.E aí. E tudo estava muito agradável naquele lugar.Fátima preferiu o de camarão. . Como invejava Fátima. né? – ele comentou.Vamos escalar aquelas pedras?! .Se lembro.Olhe lá. O réveillon estava incrível. o Juca. Era difícil para ela estar ali. começando a ficar tímida. ela reconheceu um deles.E o outro? – perguntou Carolina. .

em nenhum instante. mas logo se lembrou das cartas do Tarô. ao mesmo tempo que a amiga se livrava da indecisão e comentava: . percebeu que tudo conferia: a viagem. Ficava fácil pular de uma para a outra. A idéia do garoto era chagar até lá. . Vamos ficar! – dizia Carolina procurando dissuadir os demais. . Mais à frente é que o caminho se complicava. Parecia na dúvida se queria ir ou não. “Catástrofes.. Mas foi prometendo a si mesma que não desgrudaria de Fátima. Os outros três se entreolharam. Juca se entusiasmou.Vamos nessa! . e Fátima.Não! – gritou Carolina.Você tem medo? – Juca tentou adivinhar. . Num certo ponto do caminho. O vento. Rubinho. por onde se andava sem dificuldades.Subindo e descendo a gente faz exercício. quedas de lugares altos. no jogo da amiga. No começo. Carolina estancou. Fátima ficou calada uns instantes. Lá na ponta deve estar muito vento. perigos. até desequilibrava as pessoas. . Analisando rapidamente os fatos. . Carolina não viu outra saída a não ser ir também. – É que está frio!. pensado: “é agora!”. A maré estava baixa. as pedras eram pequenas e estavam bem próximas.Grandes rochas se acumulavam entre o sopé da montanha e o mar na ponta da enseada. hesitando em aceitar aquele convite meio louco. Depois surgiu um patamar muito grande. intrigados. soprando forte. sem perceber o volume da própria voz.Já chega... caminhando pelos rochedos. separando o Lázaro da praia Domingas Dias.Não – respondeu envergonhada. vamos voltar! – disse com impaciência. Você vai ver! – garantiu Rubinho. tornando a aventura cada vez mais perigosa. o namorado. E teve a certeza de que os infortúnios previstos pelo baralho iriam começar. facilitando a jornada dos quatro. esquenta. As distâncias entre as rochas aumentavam. era preciso dar um grande salto sobre um profundo precipício. que se aproximava com uma proposta..” A imagem e o significado do Sete de Espadas explodiram na memória de Carolina. Carolina também achou a idéia boa.

– Você pensa que eu não consigo. 11..Não pule. Eles querem trabalhar lá na hora do jogo. tão histérica. – O Rodrigo e o Marcel já colocaram as bebidas na geladeira da cantina. não.Se você está com medo.Não! .Isso aqui vai servir de toalha. . mas trocava muitas idéias com o professor Argemiro. Mas Fátima encarou aquilo como um desafio. meio brilhante: . O que você acha. sempre disposto a colaborar: . – Agora que falta pouco? .Ótimo! – exclamou o rapaz. – Carolina gritou tão alto.A gente ta ajuda – falou Juca.Eu consigo pular! – afirmou. Ana? – perguntou.. mas se recusava admitir e disfarçava.O que é isso? – exclamou a colega. que os rapazes se assustaram. Eu vou continuar. Vários alunos trabalhavam nos preparativos para o bingo da noite. é? Você vai ver! .Que nada! – insistiu Rubinho. Marco Antônio era o coordenador. Fátima também tinha medo. percebendo o nervosismo da garota. . . Fátima! Você vai cair! Vai cair! Vamos voltar! Se eles quiserem ir. você volta. “A energia d’O Louco varre tudo e leva outras pessoas de roldão”. que vinha agora à mente de Carolina. que vão! .. Jamais aceitaria os conselhos de uma menina que até fugia de meninos: . querendo mais convencer a si própria do que aos outros. O MAIS TEMÍVEL DOS BÁRBAROS No colégio Anita Malfatti. . . melhor! Érica cuidava da decoração e entrou na quadra carregando um rolo de papel branco.Quanto mais gente colaborar.As mesas e cadeiras que eu aluguei já devem estar chegando – disse o professor. era uma das frases do Tarô. enquanto Fátima preparava o salto sobre o abismo. bancando a valente. aquele mesmo domingo estava agitado desde cedo.

dando leveza ao ambiente. Mas. Cuidar do serviço de som era tarefa para Fabrício e Juliano.A colega achou excelente.O professor de Ciências sabe! Ele já deve estar chegando! . . que escolheram uma sala especial onde seriam montados os aparelhos.. .Ah... – Eu falei com o Ricardo.Nós vamos fazer também umas luminárias de papel de seda. Logo imaginou todas as mesas forradas de branco.Tá limpo! – confirmou Marco Antônio.Ah.Você ta louco! O pessoal que vem jogar já é coroa. ouvindo aquelas idéias. .Se é assim. só um pouco! . O negócio é rock pesado.. como ainda faltava pintar os números. Tiago trouxe a roleta que o pai havia feito.E o Ricardo sabe mexer com eletricidade? – perguntou Argemiro. Os dois entendiam do assunto mais do que ninguém no colégio. . E quem vai ficar sorteando sou eu! – fez questão de deixar bem claro. ele mesmo se incumbiu da função. O único problema era discutirem muito por causa das seleções de música. Repertório variado de música popular brasileira.Qual é? – irritou-se o outro. jazz. – avisou Fabrício. Beethoven. – Isso aqui não é festinha do conservatório onde você estava! . coloridas – continuou Érica.. bom! Se o Mário vem ajudar.. .Nem a discoteca que você freqüenta! A discussão foi longe. Debussy. vamos tocar. cara! – defendia Juliano.. .. . blues. – argumentou Fabrício... pra ele puxar uns fios com lâmpadas. tudo bem! Valéria e Vanessa recortavam fitas e faziam grandes laços de papel crepom. baladas românticas e até leve ai combinar bem com o ambiente. . então vou trazer meus clássicos. para colar nas paredes. . .. mas no fim eles chegaram a um acordo..

. Érica providenciou uma espécie de bufê para os doces e salgados. Os professores tinham ido para casa.Ah. Lúcia chamou Marco Antônio para o lado e avisou: . A quadra sendo transformada num bonito salão de festas. testando uma lâmpada. num determinado canto da quadra.O zelador está de folga hoje. a escrivaninha de professor serviria como caixa. Antes de sair. que seriam dadas como prêmios aos vencedores. claro que pode. fichas e tudo. muito iluminado e colorido. nas casas. Elas nascem outra vez! E Janaína saiu enfeitando todas as mesas com pequenos arranjos.Onde você arranjou isso? – quis saber Érica. Organizou também a exposição nas prendas.. Lá pelas cinco horas só estavam os alunos no colégio.Juntando várias cadeiras. Os trabalhos seguiram até de tarde.. marcada para começar às sete da noite. com gavetas para guardar dinheiro.Por aí.Por aí! – desconversou Janaína. .Muito bem. montados em copos plásticos. Você ainda é um gato! – quem respondeu foi Janaína.Meu Deus. .Nossa. seu eu quiser dançar. nas praças.É que esse é o nosso espaço! – esclareceu Érica.aplaudiu Marco Antônio. – Quer dizer que.Nas ruas. que cuidava das cartelas do jogo. que discriminação! – exclamou o professor de Ciências. e a escola não pode ficar sem ninguém até a hora do jogo. não posso!? . Mário. Tudo bem? Então até à noite! . que havia resolvido dar uma passada por ali para ver como as coisas iam andando. onde? . n alto da escada. Não demorou muito. Precisavam tomar banho e trocar de roupa para a festa. . você destruiu os jardins do bairro! . que acabava de chagar com uma sacola cheia de flores. . chagou a diretora. Dá até pra dançar aqui nesse pedaço! . . – A disposição das mesas também está boa.Flores foram feitas mesmo para enfeitar. E.

dava no mesmo. percebendo o desespero de Fabrício. mas eles não tinham nenhum de reserva. Enquanto isso. . Você me espera aqui. tchan! . indiscutivelmente. Já começava a escurecer quando os cinco rapazes saíram. Além do coordenador. uma turminha terrível se reunia para sujar os muros e as paredes da cidade. .Essa vai ser demais. eu vou buscar. Os outros acatavam no ato. carregando uma caixa com pincéis..Dali a pouco.Na hora do bingo.. hein! – Leandro se empolgou. – Tenho de ir buscar minha mina e já estou atrasado. Mas que determinava tudo mesmo era Rogério. rolos. ele notou algo estranho: . resolveu ajudar: . já aproveito para tomar banho e ficar pronto de uma vez. tintas e sprays. Gilberto segurava a lata de tinta e Leandro fazia escada com as mãos para que Rogério subisse e pichasse. Marco Antônio. . . do outro. – Então vamos. . Assim. Fosse uma sugestão ou uma ordem. O material necessário para registrar a marca da gangue nos locais mais altos que conseguissem. Muitas vezes eles discutiam porque queriam revezar os papéis. Mário. tchan. tentando resolver um problema do som. – disse Márcio.O que aconteceu? – perguntou Marco Antônio. o líder do grupo. Alex ficava de olho de um lado da rua.Fique frio! Eu tenho um fusível desses no meu aparelho se som lá em casa. a maioria dos alunos também deixou o colégio.Vamos arrepiar com o portão do colégio! – ele sugeriu. tchan. E lá foram eles em direção ao Anita Malfatti. antes que meu pai chegue e pegue a gente com essa tralha toda. . Quando Rogério encostou o pincel com tinta branca no portão verde da escola. todo mundo vai ter uma surpresa dos mais temíveis dos bárbaros! Tchan. numa ampla casa não muito distante dali. entusiasmado.Eu não vou poder resolver isso agora – avisou Juliano.Tudo em cima? – perguntou Rogério.Deve ser fusível queimado – desconfiou Fabrício. só ficaram Fabrício e Juliano. .Não consigo entender! – respondeu Juliano. Era mesmo. .

E. Gilberto preferia usar o pincel e escrever sobre as toalhas de papel. Agora.. . nem respondeu ao comentário da amiga. E com a lata spray.Grande. . por ter acreditado nas cartas. está aberto! . Rogério pintou bem grande o nome da equipe: OS HUNOS.Agora vamos correr.Deve ter alguém preparando a quadra para o jogo de hoje à noite – desconfiou Márcio. enquanto as duas se aprontavam para voltar a São Paulo. o arcano 15 dizendo que ela era apaixonada por Rogério. Márcio se divertia borrando as luminárias. começou a rabiscar os enfeites de papel crepom. E na parede lateral. O Rubinho e o Juca devem ter te achado uma boboca! Boboca era exatamente como ela se sentia. Séria. Os cinco foram direto para a quadra coberta. no fim da tarde. Da sala de som. com uma letra que só ele e seus amigos entendiam. andando devagar e conversando baixinho. . que escândalo você deu lá nas pedras! – mencionou Fátima. . foi aquela brincadeira de mau gosto. mas que gracinha! – ironizou Leandro. caras! – ele ordenou. muito menos ouvia coisa alguma. cara! Vamos barbarizar! – falou Alex. a gente pode dar uma mãozinha na decoração – concordou Gilberto. esse vexame na frente de uns rapazes tão simpáticos. onde estava. Carolina.É mesmo. cheia de dúvidas. com a porta fechada. . O acidente com a amiga tinha sido mais uma peça armada pelo Tarô. caras! Vejam.Olhem só. tentando reavaliar os prognósticos do baralho..Não tem ninguém aqui! – observou Rogério. O QUE ESTAVA ESCRITO? . – Esse laço vai ficar muito melhor com uns laços pretos. A mente dava mil voltas.Puxa. empurrando o portão.. .Ei... 12.Uau! E o que estamos esperando? – comandou o líder. .. . Fabrício não podia ver o que acontecia. Pelo menos era assim que Carolina pensava. pensativa. Primeiro.

A que horas seus pais ficaram de chegar ao bingo? – era Maria Célia perguntando a Carolina. Fabrício! . subindo a serra.. Marco Antônio.. quem será que esteve aqui? . .. levantando a voz.Eu é que pergunto! – disse Marco Antônio. no colégio? . Mas. Mas foi só entrar na quadra e ficar na mesma hora de cabelos em pé. Fabrício! – ele saiu gritando. dirigindo com excelente disposição. O tráfego fluía sem problemas. Nélson.Se o trânsito estiver bom na via Dutra. a mãe parecia um pouco ansiosa: . .. todo arrumadinho.. nem reparou no portão. chegava de volta ao colégio. Já está quase na hora de todo mundo chegar. Assim. . o pai de Fátima. .Nossa. .. não sabia o que pensar: .Vamos direto.Agora não dá mais tempo de nada. tudo bem! – respondeu ele.. . Maria Célia. não é.Ee. – Eu explico pra ela que você esqueceu de trancar o portão. A sorte é que nada de mau aconteceu com Fátima”.Corre aí. Muito apressado. – E agora? . A essas alturas. e.Pode falar! – rebateu Fabrício. a vontade de Marco Antônio era de agredir o colega . Carolina começava a ficar decepcionada com todos aqueles arcanos.Será que vai dar tempo de pegar o bingo. à procura do colega. pai! – incentivou Fátima. ao ver os estragos. Fabrício.. . O jeito impassível de Fabrício desarmou Marco Antônio: ....Lá pelas sete! É a hora marcada pra começar.“..O que é isso? – esbravejou. bem penteado. permanecia calada até mesmo dentro do carro. se por um lado isso era um alívio. eu não sei! – gaguejou o outro. Não quero nem ver a cara da diretora!. meu bem!? – reafirmou a mulher.. por outro.tranqüilizava-se a garota.. não ajudava a resolver a sua crise. Vou dizer que você ficou tomando conta e não viu nada! Nervoso demais. levando as mãos à cabeça..

eles não mexeram nessas coisas! -Então tudo bem. estão em ordem? -Então. as bebidas. Mas quem ficou surpreso foi o próprio Marco Antônio. . O coordenador.. Os outros organizadores do jogo vinham chegando. instalações elétricas. . Vamos ver se dá certo – desconversou o coordenador.Deixe que eu faço isso! Acho melhor você ligar pra Lúcia e contar o que aconteceu aqui. Érica ficou louca da vida. E os brindes. muito mais calmo. Valéria. Ela não ficou apavorada. eu trouxe o fusível. Lâmpadas. nosso jogo continua! – disse Lúcia. na recepção. Faz de conta que é o estilo da decoração.. Tá legal! – reforçou Marco.Olha aí.Já! . Érica e Marco Antônio fazendo “as honras da casa”. . . que já estava de saída para ir se arrumar.. converse com o pessoal da comissão e diga para que não façam muito alarde. as comidas. -Deixe eles pensarem que é o estilo da decoração!. Marco Antônio achou ótima a idéia da diretora e os dois até riram ao telefone.. -. Só mais uma coisa – continuou ela.. seja quem for que tiver feito isso. Assim ela já vem preparada e não vai ter uma surpresa – aconselhou Fabrício. estragaram tudo. vai perceber que não conseguiu ofuscar o brilho da festa. o que eles vão pensar? – era a preocupação de Marco Antônio.. quando viu o que haviam feito com sua decoração: . tranqüilizando o rapaz. você já checou? . Assim. Deve ser gente aqui do bairro – lembrou Tiago.Eu já vi essa marca dos Hunos nas ruas.. Os primeiros convidados chegando..Eles quebraram alguma coisa?.Olhe. pediu desculpas a Fabrício. -Mas e os convidados. com a reação da diretora. apenas queria saber de todos os detalhes: .. os pais dos alunos. ..Só não se esqueçam do que a Lúcia mandou dizer.Safados! – xingou Vanessa. Meia hora depois a festa estava começando.

. não está nada mau. Maria Célia e Nélson. do outro lado da rua.Pra quem diz que não tem sorte com os rapazes. Familiares de alunos de todas as séries estavam presentes. . apontando para uma frase pichada com letras bem grandes. Olhando para a parede de uma casa. Fátima e Carolina pegavam a marginal do rio Tietê naquele momento. umas para as outras: .Nossa Senhora! – exclamou Carolina. Cardoso. -Isso aqui mais parece coisa de moleque de rua! – disse Vilma. Elizabete e Otávio saíam da garagem do prédio. entre os dentes. o pai.Não é nada disso! – esbravejou Carolina. . a mãe de Rogério. . escolhendo um lugar para eles. Valéria estava na caixa e Tiago só esperando um sinal para começar a girar a roleta. Os postes e até a placa com o nome do colégio haviam sido pichados.Essa diretora dá muita liberdade às crianças.Sorte mesmo! Uma declaração pública dessas! – confirmou a amiga. . dentro do colégio. hein? – disse ela. Lúcia cumprimentou Otávio e Elizabete. A diretora aproveitou para dar uma circulada entre as mesas e trocar uma ou outra palavra com os pais dos outros alunos. E todos chegaram juntos.Bonita decoração! Ou ainda: . Nos muros do Anita Malfatti. Fátima teve um sobressalto. Ainda faltavam muitas pessoas. E cochichou no ouvido da amiga. não é? Mas. Nélson. – Eu quis dizer que sorte que meus pais não viram! Na quadra. Elas fazem o que querem no colégio. já se percebia a marca Os Hunos .Ambiente moderno. pensando no que estava escrito lá fora. Maria Célia.Rodrigo e Marcel prontos para servir na cantina. muitas mães diziam coisas diferentes. Mas ele precisou ter um pouco de paciência. Volta e meia ela ouvia um comentário cheio de ironia. discursava cheio de autoridade: . Vanessa cuidando dos doces e salgados.

a cidade inteirinha está desse jeito! – comentou uma senhora. . de repente.. .Vou mandar alguém vir aqui te ajudar! – prometeu a diretora antes de voltar para a quadra. Começava o maior burburinho. . mas mesmo assim resolveu dar uma verificada.. não participavam. Conversavam intrigadas. se eu pego um capeta desses sujando a minha casa!. -. Finalmente o jogo começou. – Uma menina da segunda série.Pois é! Fiquei sozinho aqui. Depois de distribuir as cartelas. e mudou de conversa.Seus pais não vêm? . ela decidiu perguntar sobre a família do rapaz. Antes de ligar o som. envergonhado. ele ficou conversando com Lúcia. Você não imagina quem tenha feito aquela pichação? – perguntou Fátima. Lúcia não insistiu. Uma inquietação percorreu todas as mesas. sim! – lembrou-se a amiga. Sem música. com pedrinhas nas mãos. A diretora tinha confiança em deixar a aparelhagem da escola por conta do rapaz. não querendo contar que o pai e a mãe tinham tido mais uma briga.. no entanto.. ajeitando as cadeiras. Todos torcendo por uma vitória. não tem? . Carolina e Fátima. Deve ter uns oito anos! Carolina ficou sem resposta para dar. .. . Mas pode não ser pra mim! Tem outra Carolina na escola. As pessoas.Não faço a menor idéia.. Como não havia problema algum.Teu companheiro de som te deu um cano! – observou ela.Ah.Eles não vão poder – disse Fabrício. . Eu mato! .Tem.. . porque Juliano havia desaparecido e Fabrício tinha acabado de chegar. que apareceu na sala. o professor Argemiro deu o sinal para que Tiago girasse a roleta. se preparavam para marcar os números. Sabia que a situação na casa do aluno não ia bem.Pois é.Cinqüenta e quatro – cantou o rapaz.

Rogério estava com sua gangue. que fingiu não perceber. Elizabete e Otávio deram de cara com a pichação em letras enormes: CAROLINA GOSTOSA! 13. pesavam contra a diretora os ataques dos pais. intensificados depois da realização do bingo. . A filha de castigo. que aparece o rabo! – comentou Carolina. ignorando toda aquela sujeira. na saída. As atividades próformatura continuavam: festas. rifas. A garota estava mais preocupada com o que estava escrito do que com quem havia escrito. Os outros quatro seguindo o líder. O aproveitamento em todas as matérias estava prejudicado. naquele exato momento.Olhe só. E se Carolina teve sorte de os pais não terem visto nada na entrada. Notas baixas surgiam até entre os melhores da classe.Você vai dizer que foi.. o pai de Carolina queria por toda a força que Lúcia investigasse quem tinha sido o autor daquela “afronta”. não se pode falar do diabo. o rapaz lançou um olhar para Carolina. . época de realização de provas e entrega de trabalhos. Apesar de um certo ar arrogante.Pois acho que sei quem foi! – insistiu Fátima. A FLEXIBILIDADE DO RABO DA LAGARTIXA Já havia se passado quase um mês do bingo.O Rogério. Lúcia convocou uma reunião de professores para avaliar esse problema.. claro! E a surpresa delas foi grande quando viram o rapaz aparecer de repente. Tudo isso. vendas de salgadinhos na hora do intervalo. Muito preocupada.. porque os colegas de formatura seguiam os conselhos de Lúcia. Ainda por cima. Otávio e Elizabete haviam comparecido à escola para fazer sérias reclamações à Lúcia por causa da pichação. como ele dizia. Passou o resto do tempo nervosa. sem poder sair à noite. Estavam meio decepcionados. . sendo usado pelos alunos como pretexto para perder aulas e não estudar. E a situação se agravou no final do terceiro bimestre. muitas vezes. .

– Vamos ensinar disciplina para essa turma. dizendo que Fátima era assediada na escola pelos rapazes. Tudo o que acreditava em matéria de educação estava sendo colocado em xeque. problemas pessoais também interferiam no desenvolvimento dos alunos. viria enfrentar novos desafios. Foi repensando sua postura que Lúcia. “Onde estou errando?” – perguntava-se. quando os alunos chegaram à escola. querendo maior austeridade.pedia aos professores. questionado pelas novas gerações. Um exemplo era Fabrício. Enfim. Acusações vinham também de Maria Célia. perde ponto mesmo! No dia seguinte. Talvez a juventude tivesse mudado nos últimos anos. na reunião. Talvez a tão criticada atitude liberal não fosse mesmo o melhor jeito de se educar.De agora em diante. A diretora nunca pensou que.Mas. Nada de perdoar. Os professores também opinavam. como o de Alex. Janaína seguia pelo mesmo caminho. determinada. Alguns casos eram lamentáveis. eram muitas as questões com que Lúcia se deparava. depois de tanto tempo de trabalho. Mas. Quero que vocês cobrem o máximo dos alunos. E não poucas vezes ela tomou para si as culpas por esses resultados negativos. o regime é militar. . ressaltando o descaso com que a oitava série estava levando os estudos. a ocorrência estava encerrada no dia seguinte ao jogo. afora o entusiasmo com a formatura. Nem tinham conhecimento das notas. para a diretora.Coitada. .A melhor atitude é não valorizar essas coisas de adolescentes – foi o que ela disse para o casal. . ela não sabe a filha que tem! – desabafou Lúcia. Rogério cada vez pior em Português e a mãe querendo porque querendo responsabilizar a professora. quem não trouxer os deveres de casa. ainda não sabiam das novas resoluções. que seriam entregues logo mais. que vinha decaindo desde que os pais começaram a falar em separação. quando mandou limpar as paredes. sem que ninguém tomasse uma providência. já sem chances de recuperação. pôs fim à reunião: .

um dissimulado sussurro vindo do fundo da sala ia contagiando a classe inteira.O que vocês esperam da vida? – perguntou a professora. sem refletir. os alunos ficarem quietos. Desses com os quais os adultos acreditam incutir responsabilidades novas. que parecia mais acentuada ultimamente. baixinho.Que sermão mais chato! – desabafou Rogério. até degenerar um falatório insuportável. Fátima. A uma pergunta genérica. Foi a mesma coisa que falar para o vento. redobrando sua tão escassa dose de paciência. . encostada na lousa. isso depende da flexibilidade do rabo da lagartixa! – disse a garota. do tipo que procura acordar os jovens para a realidade em que vivem. Ângela chegou na classe disposta a imprimir autoridade na aula de História. procurando manter-se calma. agora pela terceira vez. Ângela atirou com toda a força o giz dentro da caixa. . Risos mal disfarçados explodiram em vários pontos isolados. os estudantes ficaram quietos. irritada. na cabeça dos adolescentes. Mas. esta não durou cinco minutos. já com o rosto vermelho de raiva. por favor! – pediu a professora. aos poucos. de Ângela. a professora aguardava silêncio para começar. De cara amarrada. ela respondeu algo de que depois iria se arrepender: . . Mas.Silêncio! – gritou ela.Enquanto não chegava a hora de receber as notas. No início. . mas que eles ouvem com cara de enfado e uma certa ironia estampada na face. aumentando em volume. por sua vez. deixando bem clara a sua intenção de interromper a matéria. A professora passou então a fazer um discurso moralizador. foi mais desrespeitosa.Silêncio! – ela advertiu de novo. filosófica.Querem prestar atenção. . Adotando as atitudes determinadas na reunião da véspera. .Ah. Compulsivamente. os alunos da oitava série se divertiam com a habitual irreverência. se o pedido surtiu algum efeito. Um certo clima de suspense no ar fez. finalmente.

Eu sei das coisas que se passa aqui na escola.. Enquanto isso. Aliás. Lúcia... E sei também que você conta na sua casa que são os meninos que agarram você.Nossa! O que é isso? . E. outra coisa que você precisa controlar é esse seu jeito com os rapazes. pálida de fúria e sem argumentos para rebater. tentando ler o que ela escrevia. Vá medir a flexibilidade da lagartixa lá na sala da diretora. Ângela se limitou a ordenar: . contou para Lúcia o que havia acontecido na aula de História: .. foi a minha boca. TEM UM MONTE DE GENTE QUERENDO TE DERRUBAR Na sala da diretora. tentando se explicar. . . Fátima esticava o pescoço. Poucos rostos contentes se destacavam no final daquela distribuição.. Saiu sem querer – dizia. desabafos. O sofrimento de uns era visível nas mais diversas reações: choro.. sem acreditar no que estava acontecendo. sem dizer mais nada.Ponha-se daqui pra fora. senão você não assiste aula.. Quando chegou à oitava série. De cara emburrada. Leve isso para seus pais e traga amanhã assinado por eles. A maneira forte e direta com que Lúcia abordou o assunto assustou a garota: .Não adianta disfarçar.Ultrajada... . carregando várias pilhas de carteirinhas. Agora pode ir – concluiu. A diretora convocava a presença de Nélson e Maria Célia na escola. foi percorrer todas as séries.Pois então você tem de aprender a controlar a boca. a garota correu para o pátio. 14. Fátima mal conseguia erguer os olhos. Não fui eu que falei. Nome por nome ela ia chamando e entregando as notas.. Lúcia apanhou um bloco de papel com o nome do colégio e começou a escrever um bilhete. Aterrorizada. usando de sinceridade. Foi de cabeça baixa que ela. Lúcia percebeu o clima de apreensão dos alunos. apatia.

Isto porque. Ele só traz coisa ruim! – confessou a garota. “Meu Deus. fala de uma vez! Carolina disse tudo o que tinha acontecido na sua vida.Se você veio defender sua amiga. – Eu quero falar é sobre o Tarô..Não é nada disso! – explicou Carolina. . acabou contando sem querer. a amiga podia ter muitos defeitos. tentando afastar aquela imagem. indo até a sala da diretoria: .Por acaso você está com as cartas aí? .Não. a garota sentia o impulso de pedir ajuda a alguém. ficou alguns instantes sem saber o que dizer. Explicou as previsões trágicas que os arcanos tinham feito para Fátima. desde o dia em que inventou de comprar aquele livro na Bienal. Por um segundo. Havia prometido a si mesma nunca mais pensar nas cartas. É por isso que eu não tenho mais coragem de tocar naquele baralho. ela deve estar muito desequilibrada” – concluiu. Carolina logo balançou a cabeça. A carteirinha dela só vou entregar na mão dos pais. no conceito dela. depois de tanto equívoco. Falou das críticas dos pais. Procurou não mergulhar ainda mais numa crise interior. logo após a aula. O Louco. Mas seria incapaz de desrespeitar alguém. ela se encontrava muito apreensiva. Até mesmo o caso de Rogério e O Diabo. que aparecia no jogo de Fátima. desde o momento em que Fátima havia sido mandada para fora da aula. está perdendo tempo. No entanto. ela desconfiou.”. que já durava quase um mês.Para Carolina. perguntou: . A diretora ainda mantinha na voz um tom enérgico: . E o som daquela palavra desanuviou o rosto da diretora: . E foi o que fez. -. finalmente. que ela pretendia omitir. Mas. o desatinado. “Só há uma explicação!... estar mal em matemática era algo já esperado e isso não a afligia. .Sente aí. viu na imaginação a figura do arcano zero do Tarô.Posso falar com você? – perguntou meio sem jeito a Lúcia. menina. Mas elas não saíam da sua mente. preocupada. que faziam a maior pressão contra esse tipo de leitura. Deprimida.. Lúcia que ouvia com muita atenção e um leve sorriso nos lábios.

Nesse instante.Ficou em casa. Agora são doze arcanos menores. E..Então traga amanhã pra você fazer um jogo pra mim! Na expectativa de que Lúcia apoiasse a sua decisão de abandonar o Tarô.. . . Não mais sentia falta do livro nem se atropelava nos conceitos que queria expressar. a menina desatou a falar fluentemente. Era um enorme esforço buscar na memória os significados de cada figura. um estado de ansiedade na consulente.Não sei se estou certa.. – Primeiro os arcanos maiores... No dia seguinte. O prognóstico para a diretora vinha rápido à sua cabeça e livre de interrupções. já impressionada com o acerto daquelas primeiras afirmações. No princípio. Percebendo isso. a partir de um determinado tempo.. . É muito pesado pra ficar carregando. quase engasgando.. você resolveu tomar algumas atitudes para se proteger. Ela ainda tentou dissuadir a diretora daquela idéia. Tente mais uma vez – aconselhou Lúcia. acabou vencida pelos argumentos. Você vai puxar quatro cartas! – continuava a garota. involuntariamente. Em poucos minutos. já entregando as cartas para que Lúcia embaralhasse. .Mas. você acaba desistindo de algo que pode ser importante para a sua vida. . você passou a se sentir ameaçada. a garota trouxe o baralho e depois das aulas foi procurar Lúcia. – É como se fosse um desafio. .Você precisa ter mais experiência antes de tomar qualquer resolução. – continuava Carolina. virando uma por uma. -.uma configuração de dezesseis lâminas estava montada sobre a mesa da diretora. Quem sabe se. Era como se todas aquelas lâminas servissem apenas de vagas referências para uma história que Carolina captava no ar. Não mais perdia tempo investigando cada carta com minúcias. Volta e meia a garota interrompia para refletir. ela falava arrastado. Parece que.. precipitadamente...Acho que eu me lembro – disse Carolina. Carolina ficou desconcertada com o pedido. Parece que algumas coisas estavam fugindo do seu controle.. e o livro? – quis saber a diretora. Porém... mas... .E você vai ser capaz de jogar sem o livro? . criando.. Carolina começava a interpretar.

Trabalhos e lições de casa eram entregues com maior pontualidade. . deu um jeito de aproveitar bem o dinheiro da turma. Assim. certo dia. sofria o pessoal que organizava a formatura. Muitas providências a serem tomadas deixavam todos aflitos. Polícia. a diretora não ficava indiferente.Que perigo? – perguntou a diretora. Aparecem aqui reuniões com muitas pessoas. cheia de mau humor: . como se não bastasse. Carolina esbravejou. pesquisando aqui. tirando a garota da espécie de transe em que se encontrava. você ainda vai ter de enfrentar um monte de gente tentando te derrubar. enfrentando uma verdadeira corrida contra o tempo. estava alterado ainda o ritmo do bimestre. com medo de perder algum detalhe do que ela dizia: . Até que chega o momento em que você pensa ter conseguido ultrapassar todos os perigos. cartas. E ainda. pedindo orçamento ali. 15. QUEM VAI VIAJAR? Com o fantasma das notas baixas assombrando grande parte dos alunos.Estão vendo como é? – comentou Lúcia. pelo menos surtiu alguns dos efeitos esperados: a maioria passou a se dedicar mais aos estudos. tudo isso aparece. o último bimestre do ano transcorreu em clima diferente dos anteriores. . não! Pressão maior. documentos. nesse caso. envolvendo um casal. – Algo vai acontecer.Nossa.Tá vendo. ansiosa.. quase igual ao que falou o astrólogo! – exclamou Lúcia. vamos continuar. .. – Só trabalham sob pressão. no entanto.Surpresa com o vocabulário e com a eloqüência da aluna. assinaturas. . Para eles. E. eu não disse que só sai coisa ruim desse baralho.Está vendo aqui? – Carolina apontou para um determinado arcano. que põe por terra todo o seu cuidado. É isso aí. Tudo isso para dar maior segurança e garantia a você. Mas. além do clima. Lúcia mal se movia.. A nova política de austeridade implantada pelos professores. se não conseguiu transformar todos em jovens gênios. não relaxem. Mas é aí que está o perigo maior. Como se só então tomasse consciência das coisas que acabava de dizer. delegado. . na sala dos professores. Tomou para si algumas tarefas. colocando-se à frente da organização do evento.

Alex que se conformasse. Marco Antônio e Érica por pouco não ficaram sem chances. Uma responsabilidade e tanto essa de encontrar pessoas idôneas.. Porém. Carolina estava precisando de nota em Matemática. Com três matérias pendentes cada um. desafiando o medo de não serem aprovados. o rapaz agradou aos estudantes e inspirou confiança nos educadores. gráfica para imprimir os convites. Algumas empresas do ramos foram convidadas a dar palestras e apresentar seus programas. Rogério ia muito mal em Português. Mas essa fase passou e a maioria pôde comemorar. sua eterna diferença. mais excitante. no final do processo. . Raros eram os alunos aprovados direto. O problema de Fátima era com Ciências e Fabrício emperrou em Inglês. Valéria e Vanessa estavam entre eles. tudo isso ela ajudou a contratar. Desenvolvemos um trabalho que busca resgatar o amor à Natureza e possibilita o questionamento sobre o nosso papel em relação a ela e a nós mesmos. Professores e alunos participavam da seleção e. de gesticular: -.Salão de baile. estudavam até de madrugada. Reprovação era palavra proibida nas rodas de alunos. Lúcia dedicava maior atenção na escolha de quem conduziria os formandos pela Mata Atlântica e cavernas do alto da Ribeira. a idéia do passeio se tornava cada vez mais interessante.. E. Formado em Biologia.. ninguém tinha dúvidas de que o guia deveria ser João Paulo. da Muyraquitã Turismo Ecológico. Ficar de recuperação em seis matérias. por intermédio das palavras do biólogo. Jovem. Só assim acreditamos ser possível a conservação doa poucos santuários ecológicos. banda de música. de olhar. para fazer viagens desse tipo. de animais e de minerais que eles deviam encontrar pelo caminho. Mas nem por isso deixava de tirar o sono de muita gente.. João Paulo adorava aquela atividade e expressava isso na maneira de falar. nem todo esse entusiasmo foi suficiente para atenuar o nervosismo e a tensão em que se encontrava toda a oitava série. As explicações eram enriquecidas com exemplos de plantas. Agora. simpático e com alguns anos de experiência na área. No seu caso não havia mais nada a fazer que não fosse a oitava série de novo. com profundo conhecimento do local. ninguém tinha esse direito.

pequena demais para ela desabafar. Ela também chorava. . tendo apenas Carolina por testemunha..Não fique assim. . desinteressada. tudo por culpa da diretora. .Quem sabe eles não mudaram de idéia? Por que você não tenta outra vez? . não gostava de alardear a própria dor. aquela dedo-duro! Se ela não tivesse chamado meus pais aqui.Mas eu não vou poder viajar com vocês!. Droga. foi o que eles falaram. .O que será que a Lúcia falou pra eles? – perguntou. Até mesmo estranhou a ausência do casal na reunião que definiu os últimos detalhes do passeio ao Parque Estadual Turístico do Alto da Ribeira. . conseguia interromper as lágrimas. Janaína estava inconsolável.Disse que eu sou namoradeira.. Só poderiam viajar os alunos que tivessem autorização. Pode!? . Era grande o seu sofrimento. curiosa.. .Ela sabe desse seu castigo? – a amiga continuou. tentando acalmá-la. Em meio a expressões de alívio. Carolina estava espantada com tamanha irredutibilidade..Já tentei. Lúcia fazia questão de deixar tudo muito bem claro para os pais. o resultado das últimas provas foi afixado no pátio. Fátima já era diferente.Não sei! – respondeu Fátima. um choro destoava no barulho da alegria. marcado para a semana seguinte. o importante é que você passou! – dizia a amiga. castigo. falatório e algazarra. Castigo. .Castigo. Sem festa de formatura. A diretora não sabia.No dia marcado. Maria Célia e Nélson não costumavam ter essa atitude. Nem mesmo se queixando a todo mundo. .. Meu pai e minha mãe não querem nem que eu toque mais no assunto.. e a escola. fazendo par com Alex na lista dos reprovados. – revoltava-se Fátima.Isso já faz tanto tempo! . porém escondida no banheiro.

Ela não chegou a sentir-se culpada por ter advertido Nélson e Maria Célia sobre o comportamento da filha. Entretanto. Lúcia acabou convencendo os dois a permitir que a garota viajasse. QUER APOSTAR? Chegou o dia do passeio. Em vez de guardadas na bagagem. . numa conversa informal com os pais de Carolina. soube do castigo de Fátima. Lúcia refletiu bastante e por fim resolver ajudar Fátima. A festa seria no Clube Pinheiros.Acho que é assim que eles preferem também! – completou outra. para a visita das cavernas. telefonando para o pai dela. . No lugar do barulho generalizado. é assim que eu gosto! – disse uma das mães. todos carregavam nas mãos as lanternas que João Paulo havia aconselhado a trazer. Era a ansiedade da partida desaparecendo junto com os prédios e outras construções da cidade. Depois concordou em ir à escola. tudo estava muito bem esclarecido. porém muito elogiado. quase tudo já havia sido combinado. no entanto. E. . junto com a esposa. A roupa dos formandos já estava definida há muito tempo: os rapazes de terno preto e as garotas de vestido branco. não acreditando que aquela proibição pudesse ajudar em alguma coisa na educação na menina. da diretora e do professor Argemiro. num contato pessoal. Atordoando a cabeça do motorista. riam e pulavam dentro do ônibus.Bem tradicional. quanto a isso. o homem parecia irredutível. animada por um conjunto musical não muito conhecido. referindo-se aos jovens.Muitas mães. dos guias. A agitação só começou a diminuir depois da primeira hora de viagem. Foi então que a diretora. trinta formandos gritavam. 16. Mas. No começo da conversa. pareciam mais preocupadas com os preparativos para o baile. ficou muito aborrecida. ouvia-se agora uma cantoria. Terminada a reunião.

O porta-malas do carro lotado. duas garotas também riam do jeito do rapaz. por isso.Não vá. Assim ficou Fabrício por muito tempo. a esposa. Por um segundo se lembrou do dia em que o filho nasceu. Mais para o fundo do ônibus. um até logo sentido. o guarda-roupa vazio eram os sinais definitivos de uma decisão muitas vezes adiada. ninguém acertava nada.Fazia pouco tempo que eles haviam alcançado a estrada. olhando lá fora. não. A mãe. Quando era sua vez de representar. ele mais conseguia arrancar risos do pessoal que qualquer outra coisa. Estreita. Revia a cena do pai. Marisa. Exagerado nos gestos. Um último abraço apertado. o verde dos campos e as montanhas no horizonte mantinham alguns alunos junto às janelas. usando apenas gestos para transmitir aos outros participantes o nome de um filme. papai! Ela gosta de você! Eduardo nem conseguiu responder. . abrindo caminho rumo ao Sul do Estado de São Paulo. E ele parecia mesmo empenhado em chamar a atenção de uma delas.E aí. Sonhos que não se realizaram e. Eles brincavam de mímica. não desceu até a garagem. de repente. seguia a rodovia Régis Bittencourt. o garoto tentou pela última vez evitar a separação: . Mas o comentário despertou sua consciência: . sentindo o maior prazer em observar Rogério. estava bonita e abatida após o parto. cara. porém só enxergando para dentro. saindo de casa. venha jogar com a gente! – chamou Marco Antônio. Rogério fazia o que era possível no espaço estreito do corredor entre as poltronas. esburacada e cheia de curvas perigosas. . o motor do automóvel já esquentando. no meio de toda alegria da sua formatura.Ei. embora não participando do jogo. estavam deixando Fabrício triste. você ainda não assumiu essa paixão? – perguntou Fátima. chorando baixinho. Antes ela não tivesse aberto a boca e Carolina poderia continuar embevecida. Tantas flores na maternidade talvez pudessem representar os sonhos felizes daquele casal. conhecendo os problemas do amigo e imaginando seus sentimentos. Antes de se tornarem monótonos na paisagem.

a garota respirou fundo. Fátima estava deixando a amiga cada vez mais nervosa.Tá bom.Pois eu já esqueci! – mentiu Carolina. Recuperado da depressão.Nossa.. de cara amarrada...Eu já decidi: esse negócio de Tarô é caso encerrado na minha vida. novamente quebrado por causa do jogo de mímica.Seu pai não tinha proibido você de vir com a gente? Por que ele mudou de idéia. .. Carol! O que foi que eu fiz? Você é minha amiga ou não é? Meio arrependida. num passeio descontraído. É mesmo o diabo! – comentou Fátima. insistindo num assunto que. . que ela iria querer relembrar momentos de dor. é que você fica insistindo.. tentava fugir à pergunta.Nossa.. mudando de assunto: . Quando é que.Desculpe. sem imaginar que obteria uma agressão como resposta: . – Sabe que eu não consigo esquecer aquela carta esquisita. de pé no corredor.. procurando se acalmar. -. .. Teimava em falar sobre as cartas. – Carolina gaguejou. Fabrício. Nunca mais eu ponho as mãos naquele baralho. como esse cara dirige devagar! Mas Fátima não se deu por vencida. tinha sido grande o esforço de Carolina para apagar da mente previsões tão negativas... E por falar nisso..Minha mãe costumava dizer que quem cospe pra cima cai na cara.Já faz tanto tempo que você descobriu o que sente por ele e continua se enganando. Por isso. referindo-se ao arcano 15 do Tarô. . Afinal. gesticulava para um pequeno grupo.Ora. Se você continuar com essa conversa eu vou mudar de lugar – irritou-se Carolina. mas depois vieram os trabalhos. tá bom! E a discussão foi substituída pelo silêncio. . hein? . . as provas e até agora nada. E não seria agora. lá vem você de novo com essa história! – respondeu. . você ficou de voltar a ler o Tarô pra mim.Êêê. ou pelo menos distraído dela. antes de continuar: . Sem se dar conta.

Talvez por isso eles estranharam quando o ônibus entrou em Apiaí. Só porque ele é tímido. – Aliás. Não é um gatinho? .Mas dessa vez é diferente.É isso que dá faltar as reuniões – argumentou Érica. já vou estar namorando com ele. .O Fabrício é o próximo da sua lista. Também não precisa.Ah. eu é que estava enganada esse tempo todo. Carol? . em tom repreensivo. não é?. Olhe lá pra ele..Mesmo sem jeito. é que esse seu modo de olhar não me engana. MEU DEUS. Você vai ver só uma coisa: antes de voltar para São Paulo. confirmando.Você não sabia? – espantou-se Marco Antônio. . imagine! Até que enfim eu descobri que prefiro mil vezes rapazes assim. não se desorientava com o tumulto da chegada na recepção do hotel.Puxa. . eu pensei que a gente fosse para umas cabanas no meio do mato.Fátima era quem não tirava o olho do garoto e Carolina resolveu ir à forra: .E quem disse que eu to afim de enganar alguém? – indagou Fátima. . a idéia daquela viagem havia se tornado uma grande fantasia de sobrevivência na selva. O QUE É ISSO? Na cabeça de alguns formandos. João Paulo. acostumado a organizar passeios com muitos jovens.Tô apaixonada! – admitiu Fátima.Você não acredita.Isso não é novidade – provocou Carolina. é? . . meio quieto.Tô brincando.Ué! Nós vamos ficar nesta cidade? – perguntou Rodrigo. . até você. Quer apostar? 17. achando o Fabrício meio bocó.Vocês vão ficar em grupos de quatro – avisou ele. .. . está se esforçando para fazer a mímica. Eu sinto que é diferente. . . . .Tá certo. olhe! Todo sem jeito. AI.

Mas ela já chegou arrogante: . . como Valéria e Vanessa sempre estavam juntas. Depois do jantar. Era mesmo de se esperar que alguém tivesse medo. O problema era ter de aturar Vanessa.Essa menina é muito metida – desabafou Fátima. um rápido passeio. Assim como as meninas. Vamos atravessar rios e visitar cavernas. a gangue de Rogério estava lá. em pleno verão de dezembro. O domingo..Só podia ser você! Ande. . em voz baixa. não tinha outro jeito senão agüentar a garota. todos os demais visitantes já estavam instalados e cuidando de relaxar.É.Coitada. Mas.Epa! Moças e rapazes juntos não pode – brincou o guia. antes de Vanessa entrar no quarto. . . – Amanhã teremos um longo dia na mata. Cinco horas dentro de um ônibus. o colega mais próximo. seguindo atrás de Vanessa. não tem perigo. por trilhas estreitas. sim – confirmou João Paulo.Eu sou a primeira a tomar banho. Quem iria ficar com quem era coisa que tanto o diretor quanto a professora podiam. sua boba.. Foram anos convivendo com a turma toda para não perceberem quais eram os grupinhos. já começou puxado. como num movimento ensaiado. E nada de dormir muito tarde. Carolina e Fátima sempre se deram bem com Valéria. algum dia ela vai se tocar de que é igual a todo mundo – defendeu Carolina.E o rebuliço de alunos foi ainda maior. soltando uma risada. não – dizia Tiago. a amiga mais íntima. com o grupo subindo e descendo montanhas. . abertas no meio da mata. de quem quase ninguém gostava. um sorvete na cidade. firme. -. Embora desfalcada de Alex. . reunida. As outras três se entreolharam e. de fato. deram de ombros. adivinhar. esgota qualquer um. de antemão... Cada um procurando seus parceiros prediletos: o companheiro de farra. dividindo um monte de chaves entre Lúcia e Argemiro. porque amanhã todo mundo vai ter de pular cedo da cama – avisou Argemiro.

Tá louco. as mais diversas espécies de plantas que se enroscavam e embaraçavam no meio da Mata Atlântica. e Argemiro. São apenas alguns fios de teia de aranha. com toda a sua autoridade de líder. ora rebrilhando numa gota de orvalho. porém em voz baixa para não chamar atenção.Como é bom respirar aqui! – suspirou Lúcia. Márcio. Mas sempre havia quem não soubesse respeitar. aí não é lugar de ficar rabiscando – disse.Isso aqui é o paraíso. esmagando os brotos mais delicados. Na primeira delas chegou a assustar o resto do pessoal: . volta e meia. e nenhum guia poderia explicar. fresca. ora aumentando em intensidade o verde das folhagens. depois. a aranha já deve estar longe – disse ele. Mas. . ninguém conseguiria enumerar. Num passeio como esse. Por mais forte que o vento batesse. quando Rogério o surpreendeu com um safanão: . João Paulo voltou à dianteira. . meu Deus. desrespeitando o regulamento do parque. arbustos. de que João Paulo ia falando por alto. – Tem uma coisa grudando em mim. Lúcia seguia no meio dos trinta. palmeiras. com tanta gente passando por aqui. aspirando o máximo de ar que cabia em seus pulmões. Resolvida a questão.Tô te estranhando! – resmungou Márcio. cheio de paciência.Não se assuste. Num deles começou a gravar o H de “Hunos”. é? E. cara? Quer entregar todo mundo. puxando a fila. Havia ainda mais dois monitores. trepadeiras. criando efeitos de luz. . Gilberto. De um lado e de outro. o que é isso? – gritava esfregando as mãos no rosto e nos cabelos. samambaias. levantando no ar a umidade do solo. intercalados no grupo. carregava um canivete e não hesitava em ferir os troncos por onde passava. Rasteira. não tem nada a ver ficar estragando! . Um ou outro raio conseguia atravessar a copas das árvores. apesar de o sol já ir alto naquela manhã.De vez em quando a garota interrompia a caminhada.Ai. comentando uma ou outra curiosidade. O guia teve de abandonar sua posição à frente do grupo e voltar picada abaixo até o local onde estava Vanessa: . ali só conseguia chegar uma leve brisa. pisava fora da trilha. a vegetação cerrada deixava o caminho à sombra. no fim. tipos espinhentos e mais uma infinidade de espécies. a caminhada pôde recomeçar.

apontando para uma direção.Vamos continuar por essa trilha – disse. cada um seguindo um guia diferente. Passando a caverna Água Suja. tem a cachoeira Andorinhas. os alunos percorreram as galerias. porém o lugar era fantástico. Mas Argemiro se encontrava perto e. dava algumas instruções: . o pessoal alcançava a entrada da caverna de Santana. Para passar pela abertura na rocha. A mata estava causando algum efeito na cabeça do rapaz. E foi apenas na saída que Fátima conseguiu se aproximar da amiga. A visita tinha sido dificultosa. é que representou verdadeiros desafios. seu moleque duma figa! Será que você não ouviu as instruções? Como Márcio se recusasse a entregar o canivete. linda! A gente toma um belo banho e aproveita para fazer o nosso lanche por lá mesmo. No início. A garota apenas lamentou que Carolina não estivesse ali para ouvir aquela conversa. Vanessa só atravessou a caverna com a ajuda de João Paulo. Ela ainda estava extasiada com a beleza da caverna. . seguindo o curso do rio Roncador. abriam-se na escuridão do subsolo. Foi preciso andar agachado alguns trechos. que agora. no entanto. mas estava difícil. . A essa altura.. Ou então equilibrado em pinguelas estreitas e escorregadias. com um precipício negro embaixo. ao descobrir o autor daquelas marcas nas árvores.Eu não quero saber de nada! – respondeu Carolina.Me dê isso aqui. ricamente ornamentados por espeleotemas. Imensos salões de formação calcária. o grande número de visitantes foi dividido em três grupos. tentando contar o que tinha escutado de Rogério. Todo mundo achou a idéia ótima e seguiram floresta adentro. armou o maior escarcéu: . até que não houve tantos problemas. do lado de fora. em fila indiana. Rogério não conseguiu evitar que Fátima percebesse o que havia se passado. Fátima queria porque queria chegar perto de Carolina.Embora falando discretamente. a discussão se prolongou um pouco. depois de ouvir tudo. Com suas lanternas em punho. .. Alcançar níveis superiores. só terminando quando o professor conseguiu tirar o objeto das mãos do garoto.

por fim. A garota reconheceu o canivete de Márcio e contou a história para Fabrício. ele permaneceu isolado. Tão gostoso quanto a ducha fria. brincando com os alunos. Até na hora da sesta. estava o calor do sol. a garota experimentava uma espécie de receio em se aproximar. Assim. a falar muito e a chorar. serviu apenas para isso. quando cada turma se esticou num canto para descansar. secando os cabelos. De alguém que. como ele aceitasse. depois de tanta energia gasta. Sem dizer nada. O chocolate pareceu aquecer aquele encontro. Aí estava o pretexto de que Fátima precisava: . normalmente tão desinibida. lá foi ela vitoriosa buscar a mochila. E. começou a se abrir. Fabrício. E se esse assunto funcionou para quebrar o gelo entre os dois. Até Lúcia e Argemiro se enfiaram debaixo da água. Ou ainda. A fome era enorme.O que você achou? – perguntou. sofrendo com a separação dos pais. a partir de agora. De repente. o que era mais provável. Fátima. até então em silêncio. chegando perto do garoto. observando ela ficou à espera de uma oportunidade de puxar assunto. ela passava a gostar ainda mais. João Paulo. Fátima.Deve ter caído do bolso do professor – concluiu ela. Porém.O banho de cachoeira foi uma alegria. porque em seguida eles se calaram. perambulando nas redondezas da clareira. ele abriu a mão mostrando um objeto. Observando estava. logo eles estavam enxutos e vestidos para o lanche. Fabrício se abaixou para pegar algo no chão. batendo na pele. . Apenas Fabrício comia pouco e meio afastado do grupo. Triste com a situação do garoto. lembrou-se de oferecer chocolates. Tinha adquiro a confiança e participava da intimidade de alguém tão fechado. procurava uma forma de prolongar aqueles instantes em que estavam juntos e a sós. e não quisesse invadir sua privacidade. sentada na relva. porque pela primeira vez sentia-se verdadeiramente apaixonada. com vontade de chagar perto dele. De súbito. meio tensa. Fátima no entanto sentia-se feliz. Talvez porque imaginasse o que ia pelo pensamento do garoto. vigiava-o de longe. parecia o mais adolescente de todos. .

.Olhe só pra mim. a garota baixou o olhar. Algo como de o débil foco da lanterna que carregava pudesse clarear ainda os caminhos do espírito e da razão. enquanto Fabrício falava. . inconscientemente. Fátima o puxava pela mão. corpo largado formavam na idéia da adolescente a imagem da inocência que até agora ela se recusava a enxergar. dessas que mal se acaba de passar o mato levanta de novo. ela se lembrou do arcano 9 do Tarô: O Eremita. juro que não vinha. Fisionomia serena. NAS TREVAS. iria perceber que estava falando sozinha. logo reconheceu a própria consciência. Recostada no tronco das árvores. Acabaram penetrando por uma picada muito estreita... então. Também pensava no escuro debaixo da terra. Eles deviam alargar os caminhos. quando eles quiseram voltar.. cochichando em seu ouvido palavras de autoconfiança. Porém. UMA EXPERIÊNCIA DE LUZ . Embora estivesse ao lado dela.. trazendo na mão uma lanterna.” E Carolina pensou ter escutado a voz do ancião. Dependurada na imaginação da garota. limpar um pouco mais o mato. Vou ter de ir no baile assim. o rapaz cochilava tranqüilo às margens do rio Bethary. Talvez tenha sido por isso que. Se Vanessa soubesse prestar atenção nos outros. lá estava a figura do velho barbado. mas longe de imaginar a necessidade de qualquer iluminação.. A caverna. descansando à sombra de um guapuruvu. 18. O resultado foi que.Era uma emoção completamente nova. Atravessar as galerias nas trevas tinha sido uma experiência de luz.. A nuca apoiada numa pedra. Chacoalhando a cabeça. estou toda arranhada por causa dessas trilhas.. apareceu Rogério diante da sua visão. já pensou? . de manto azul. que a garota não queria repartir com ninguém. o rosto voltado para o céu. já não sabiam mais por onde ir. escondendo o caminho de volta. precisa ser iluminada. “Acredite no seu coração. Carolina tinha a mente distante. Sumiu o velho. Se eu soubesse. acredite no seu coração.

Sem dar nenhuma resposta aos comentários maldosos de Vanessa. Total: vinte e sete.. Fátima e Fabrício não estavam por ali. conversando com o Fabrício. Algo tão intenso que Marco Antônio percebeu. . Carol. a garota podia ver a turma inteira. – Será? . Mas eu queria mesmo era falar com a Fátima. Parece que ela estava com Fabrício. contando os alunos de cada grupinho. para logo em seguida deixarse contagiar pela mesma suspeita. você está nervosa.. – confirmou Carolina. .. Carol. pensou ela duas vezes. você não está me ouvindo? Ou está tendo uma de suas clarividências? – quis saber Vanessa.Ah.É.Eu sei. Conferiu tudo novamente. ele está mal. O que é isso? – duvidou o garoto. Num rápido correr de olhos por toda a clareira.Deve estar dando em cima de alguém.Ei. menos quem procurava. Dessa vez mais devagar.“Ele defendeu a Natureza. que por acaso vinha passando: . então.. ele defendeu a Natureza”. . ignorando as questões da outra. . Ainda agora estava ali. Caroline se levantou e foi perguntar ao Marco Antônio...Você viu o Fabrício? . você sabe.Ei.Cadê a Fátima? – perguntou Carolina. . passando em revista as duas margens do rio. que bom pra ele! . Carolina se virou para o lado e lamentou ver Vanessa. O que foi? . Queria repartir com a amiga aquela mudança que acabava de se dar em seu interior.. . como que para reafirmar a grandeza do herói. Uma estranha intuição invadiu Carolina.Não – respondeu o rapaz.. – Deve estar pó aí. disfarçando uma certa apreensão. Bem que eu tentei dar uma força.. Não havia erro..Será que eles se perderam? . em vez de Fátima.Ora. Vanessa deu um sorriso malicioso.

né. os três devem ter tido o mesmo pensamento.Eu não! Pode revistar as minhas coisas! . E nada dos dois aparecerem. A contar pela reação. Lúcia já desconfiava de algo. em diversas direções. descendo por detrás da montanha. Todos na expectativa de uma atitude do condutor. Argemiro engoliu o s berros e ficou pálido. onde está sua amiga? – Lúcia foi logo perguntando. ia ficando cada vez mais irado com o sumiço do canivete. querendo enxergar por cima das cabeças. não sabemos dela – respondeu a garota. preparando a volta. Volta e meia esticava o pescoço. . uma onda de medo se espalhava rapidamente. – Porque senão vai ter de pagar outro. Quem sabe se eles estão namorando por aí. João Paulo! – gritou Lúcia.Acho bom – ironizou o aluno. trouxesse de volta o casal perdido. interrompendo a organização da fila. quase urrando. . no entanto.Pare aí. antes mesmo que os dois abrissem a boca.Nem do Fabrício – completou o garoto.Você acha que deveríamos avisar alguém? . . escondidos – sugeriu Marco Antônio. Márcio? . e depois para o sol.Carolina do céu. num passe de mágica ou ato de bravura. Carolina e Marco Antônio correram até onde se encontrava a diretora. O sobressalto foi geral. João Paulo chamando. Não faltavam os risos histéricos e as piadas nervosas. .. . Pelo jeito.Quem teve o atrevimento de mexer no bolso da minha calça? – perguntava ele.Vamos dar mais um tempo. Primeiro olharam para os guias. . – Foi você. Porém. Talvez com a esperança de que ele. Enquanto as atenções se voltavam para o professor.Eu vou descobrir! . chegou uma hora em que não dava mais para esperar.Pois é. Argemiro. A sesta estava acabando. tentando descontrair a conversa. Junto com o burburinho dos alunos.

fazer a gente passar um nervoso desses! .Mas eu tenho as manhas de andar no mato. Vocês vão na frente com os monitores e avisam o pessoal do parque..Arrastados pelas orelhas.Arriscando descer no escuro e perder mais alguém? Nada disso! João Paulo foi enfático. – Onde já se viu.É mesmo! – concordou Argemiro. Com certeza eles vão mandar alguns funcionários do parque para ajudar. A distância da entrada do parque e o avançado da hora não permitiriam uma busca antes do anoitecer.. espero! – completou a diretora. Era preciso encontrar uma solução. Fique tranqüila. passando o braço direito por cima dos ombros da diretora. Eles não devem estar longe. . Tenho certeza que a gente chega num pé e ele noutro. OUTROS CONTAM PIADAS João Paulo olhou para o relógio e franziu a testa. deixando transparecer o sofrimento.Façam como eu estou falando. – Ele tem razão. Lúcia. que.Posso ficar com você? – perguntou Rogério. Lúcia é quem não conseguia raciocinar. talvez fosse melhor esperarmos um pouco. Realmente não podia expor o grupo inteiro a novos riscos. e bem depressa: . reafirmou: . . de tão aturdida que estava. . – Fiquem de olho nessa moçada! . E contestou: . . lastimando.Não. A idéia era sensata.Cuidado na volta. . E você vai precisar de alguém – teimou o garoto. . hein? – aconselhou João Paulo para os outros guias. não pode. todo valente.19.Então vamos logo – insistiu o professor. . vai ser melhor! .Eu fico vasculhando a área. trazendo os dois perdidos. Agora vão. UNS REZAM. Por isso. não escondia uma pontinha de medo.Quanto antes vocês chegarem na administração do parque. e também experiência na mata. mais depressa eu terei ajuda. embora disfarçasse.Não podemos ir embora e deixá-los perdidos.

. esperando fatos que não aconteceram. era melhor do que a aflição surda e cega que Lúcia experimentava no quarto. Eu até que gostaria de acender uma vela. eles devem ter velas aqui no hotel. Carolina.Sem o entusiasmo e a excitação da ida. Vanessa e Carolina. Por isso.. derrubando junto dois ou três à frente. cordas com ganhos. Para o alto da cachoeira já haviam seguido três guias do parque. se pudesse. queria afastar do pensamento as imagens do Tarô. com todas as angústias e esperanças. meu Deus? – perguntava a diretora. logo eles estavam no hotel. As íngremes subidas de antes eram agora abruptas e escorregadias descidas.O que estará acontecendo. Era inevitável que se lembrasse do jogo de Fátima e impossível ainda esquecer o vexame cometido na praia do Lázaro. Potentes lanternas. Qualquer novidade a gente se comunica pelo rádio. mesmo de longe. e ainda outros equipamentos de emergência. e nós. puxando a cortina e espiando pela janela. . – Será que já encontraram os dois? Vocês sabem rezar. junto com Valéria. cantis. Vou ver se arranjo – disse. por sua vez. rádios comunicadores. tudo isso eles levaram. – Vocês dois esquadrinham o lado direito. Ora alguém deslizava. Levava um tempo até Lúcia conseguir acalmar a garota. . . Aproveitando que também tinha fé nesse ato. a idéia de acender uma vela funcionou como pretexto. meninas? Pois então vamos rezar. quando ela tinha agido como uma idiota.Seria bom se a gente arranjasse duas.Vamos nos dividir – sugeriu João Paulo ao encontrar com os homens. a garota resolveu esticar o assunto: .Ah. Ouvir cada passo daquela busca. daria tudo para ter um rádio desses. no hotel.. gritando feito doida. seguindo em direção à porta. o lado esquerdo do rio. E antes de sair completou: . em Ubatuba. Ora Vanessa entrava em pânico. o retorno parecia mais complicado. uma para cada anjo da guarda. A tensão de todos contribuía para dificultar o caminho ainda mais. Enquanto isso. mortos de cansaço. sem esperando de obter resposta.Esses anjos da guarda vão precisar de muita luz mesmo para salvar aqueles dois no meio dessa escuridão – comentou Valéria. Mas mesmo com todo esse tumulto. perceber a movimentação na floresta. uma outra pessoa.

.Nossa.Como pode? Dormir numa situação dessas! .Deixa ela descansar – disse a diretora. O guia chegou abatido. Interrompendo a reza. As velas. a atmosfera quente e abafada da noite sem brisa aumentava o clima de melancolia no interior do apartamento. em vigília. ia falando besteira cada vez maior: . cansado e. que era toda emoção. Um por um. passou a noite na recepção esperando por João Paulo. em vez de rezarem. Marco Antônio tinha ido para lá. fazendo pilhéria com a situação. conseguidas na cozinha. suado. De joelhos. NUNCA FOI COM TANTO AMOR Acostumado a esconder seus sentimentos. O de Rogério e sua turma era um deles. Em menos de uma hora perdida na floresta. assim. jamais conseguiria se controlar. as mãos juntas à frente do peito. . Mergulhada no silêncio. como é tarde! Valéria se levantou para fechar a veneziana. Fátima. – Para Vanessa.Pois eu acho que foi o Fabrício que se encheu de coragem e caiu matando em cima dela. o garoto parecia impassível. iam pela metade e as oração em pleno fervor quando. surgiram os primeiros raios do sol.Vai ver que a Fátima tirou a roupa na frente do Fabrício e ele. para espantar o nervosismo. sozinho. Embora preocupado. Argemiro. o passeio foi uma experiência muito difícil. os meninos jogavam palitinhos ou conversavam. uma aragem fresca denunciou a madrugada. Carolina olhou inconformada para a outra colega: . Mas.. entre piadas e orações. E. Todos estavam preocupados. Em alguns outros quartos do hotel de Apiaí também não se dormia. ela já havia esboçado reações as mais . do jeito que é tímido. atravessando todo o ambiente. não seria agora que Fabrício ia expor o meso assim facilmente. desmaiou. para clarear um pequeno trecho da rua.Parecia ser com muito custo que a iluminação fraca do poste atravessava galhos e folhas de árvores. sujo. 20. Lúcia estremeceu: . sem que viesse alguma notícia dos companheiros perdidos.

Fabrício correu para abraçar Fátima. Fabrício. A dúvida. o garoto concordava. ainda segurando as mãos da garota.Nós viemos dessa direção.. surgia para resolver o impasse: . Não com o propósito de consolar a amiga ou de abafar aquela explosão. O que ele queria. Argemiro!.. entre outros empecilhos.Lúcia!. posicionada num entroncamento do que se podia chamar de supostos caminhos. Sem muita convicção. ia a garota transitando pelos extremos. E. por que você foi se lembrar disso agora? Eu vou ficar mais apavorada ainda. esperando o auxílio dos guias. em poucos segundos: . embargando na garganta o pedido de socorro. . João Paulo!.. Ou será que foi por essa? – perguntava. junto com o desespero dela. .. incapaz de se expandir. eu li que. seguiam os dois desorientados. era fazer da voz dela a sua própria voz. na medida do sentimento. . Mas. se marcado no relógio. A garota se pôs a gritar: . embora inconscientemente. e continuou: . pode ter algum bicho! – alertou Fabrício. que também traria a salvação. assim. ela deve ficar parada. Da ameaça de choro ao rompante de valentia. tenho certeza! Vamos. Dar vazão. estamos aqui! Perdidos. suficiente para serenar os espíritos. Um tempo relativamente curto. abrindo passagem na mata com as próprias mãos. A posição do sol dando conta do entardecer e nem sinal da trilha ou do rio.. foi por aqui.Vamos ficar calmos – disse o rapaz... Fátima já começava a perder sua bravura novamente. perdidos. caso a pessoa se perca no parque.Ai. no entanto.. logo vamos encontrar a trilha. Muitas horas tinham se passado.. enganchando pedaços de roupas nos galhos ou espinhos.Agora estou me lembrando: no manual de orientação ao visitante.desequilibradas possíveis. vinda de não se sabe de onde. persistia até que uma espécie de intuição. e também onde pega. Mas as lágrimas já se misturavam aos gritos. tropeçando nas tramas cerradas das plantas rasteiras. Permaneceram abraçados alguns minutos.Cuidado onde você pisa.. Pessoal. mas cheio de esperanças. . infinitamente longo.Já sei. ao seu próprio pavor.

Fabrício estava ali como companheiro de infortúnio. Foi quase com alegria que a garota teve uma idéia e correu até a mochila. não foi pra isso que eu peguei.Não seja bobo. .Canga!? . . quando encontrou.É..Será que eles vão encontrar a gente aqui? .Tomara que seja logo – desejou Fátima.Claro que vão! .O que é isso? – perguntou... uma saída-de-banho! . – Uma toalha? .Acho que nós estamos estragando a mata! – opinou o garoto.Vou limpar em volta dessa árvore.Ah! -. Alguém a quem devia proteger e ao mesmo tempo pedir proteção. olhando para o chão à procura de um lugar para sentar. que se desdobrou no ar.. puxando da bolsa um enorme pano estampado.Ora. Estou tão cansada! . eu resolvi trazer.Você não vai acreditar. .. enquanto estendia o pano no chão limpo. O canivete de Márcio foi muito útil. Com os pés. . . largada num canto: . Como o João Paulo tinha dito que a gente ia entrar na cachoeira. E Fátima nem se lembrava mais da aposta que tinha feito com Carolina. mas olhe o que eu tenho aqui! – disse. eles varreram as folhas secas.Eu te ajudo.. Você vai poder se enrolar nela... Para ela. O inusitado da circunstância afastava para longe qualquer instinto de sedução. abrindo espaço para eles descansarem. Já que a gente vai ter de esperar. . serviu para cortar vários ramos. então que seja com algum conforto – esclareceu a garota.É uma canga. Que bom! – Fabrício parecia não entender aonde Fátima queria chegar. . pra gente se recostar um pouco. disse: .Sei. Apesar de pequeno. . E. De fato Fabrício via Fátima como uma amiga. Só cortou uns galhos – argumentou a amiga. você não arrancou nada.

não é? – adivinhou Fátima. Com a escuridão. A resposta veio sem palavras. os dois puderam relaxar um pouco a tensão. como brilha! – notou Fátima. entregues àqueles momentos bonitos de amor. SINFONIA DE HORRORES Anoiteceu. 21. Sem raciocinarem.. vieram os barulhos desconhecidos da mata. Bastava o rubor no rosto do garoto para se perceber o “sim” ali estampado. as mãos apontando para o alto. Tocado por uma vibração nunca sentida. os raios do sol penetravam no interior da floresta por pequenas brechas. enquanto os braços. os dois tinham se aproximado. Hesitavam.Mas não a sua – ele entendeu. Fabrício apertou com vigor o corpo de Fátima contra o seu.Deitados de costas. Quase coisa nenhuma enxergavam à frente. Os lábios de um quase tocando a boca do outro. Sem perceberem. desciam lentamente para aconchegar com um abraço o longo beijo. Uma sensação de afeto muito forte invadiu a garota e o rapaz. O cenário que os envolvia nada tinha de belo ou de romântico.. Filtrados pelas imensas copas das árvores. trocavam carícias e falavam baixinho. A garota acompanhou a indicação do rapaz. procurando seguir o mesmo foco de visão. por uns instantes esquecidos no ar. fazendo estalar um . .Mas é como se fosse. . Frente a frente Fátima e Fabrício tinham agora as faces muito perto. como quem troca segredos. o reflexo forma até um pequeno arco-íris.É sua primeira vez. Longe estavam agora Fátima e Fabrício de se permitirem continuar esquecidos da vida. Cabeça com cabeça. De repente. distraídos que ficaram olhando os fachos de luz que conseguiam atravessar o toldo de folhagens. os olhos cansaram e os corpos se deixaram rolar.Lá está mais bonito. Animais de hábitos noturnos acordavam para mais uma jornada. . Nunca senti tanto carinho.Olhe ali. . criando um jogo de sombras. . Nunca foi com tanto amor.

A palavra ficou engasgada. paralisado.Veste isso! . Fátima remexia outra vez na mochila e surpreendeu o companheiro.Frio. . – Você jura que não conta pra ninguém? . sem encontrar razão para decidir sobre o assunto naquele momento. Não era assim que os homens das cavernas faziam? Enquanto ele falava. percebeu qualquer coisa estranha e. . ranger um galho de árvore mais adiante.Como é que você tem isso na bolsa? . chacoalhar uma folhagem ali. à noite essa umidade fazia lembrar os meses de inverno. O corpo imóvel..Eu me enrolo nesse pano – disse ela. guinchos. Fabrício não podia ver o que ocorria.Se a gente escapar daqui vivos. e agora. emendou: . é que eu andei fumando escondido – gaguejou ela. se durante o dia. Pios medonhos de corujas ecoando em diversas direções. . . – Na minha mochila tinha uma blusa. o interior da floresta se mantinha úmido.E você? . No escuro. . Estou com frio! – reclamou o garoto.. Porém. Grunhidos. . ... O lume clareou por um segundo os olhos do rapaz. mas eu larguei lá perto da cachoeira. querendo se emaranhar entre os cabelos.O que importa? O importante é o fosf. Mas. Parecia penetrar pelos poros. Esfregar dois pauzinhos. sentia algo voejar na altura da nuca. eu juro. E. puxando a canga do chão.. apavorada! E. Fátima trazia um agasalho na pequena bagagem.ramo aqui.. riscando um fósforo.. sussurros soando como acompanhamento de fundo para os gritos metálicos e estridentes doa macacos.É.Se a gente pudesse fazer um fogo – pensou Fabrício em voz alta..Nós vamos ser devorados! – gritou a garota. acendeu um palito. arrancando a caixa das mãos dela.. não fuma mais? A garota fez um muxoxo que tanto poderia dizer sim como não. com o sol de dezembro.

Acho que isso dá para afugentar os insetos. Tatear às cegas pelo solo foi a primeira idéia que passou pela cabeça dos dois. Gravetos. tão logo eles eram riscados. exigindo prudência no uso. Mas desistiram depressa.Vamos acender logo essa fogueira! No entanto. Trabalho em vão. indo sentar-se perto do rapaz. ela levou uma ponta do pano até os dentes e rasgou uma tira da saída-de-banho. deixando Fátima ainda muda e arrepiada.Ofuscado pela claridade. Por isso. o morcego silencioso voou para longe. . Enrolado num toco. erguendo uma fraca fumaça. Apenas algumas folhas brilhavam em brasa. ela disse: . para alimentar um fogo que não queria pegar. O material úmido chamuscava. Esquecida por alguns momentos. dá tempo de juntar alguns gravetos – alertou o rapaz. . aumentando a atividade na floresta. troncos já podres e cheios de fungos. . tornava-se quase impossível encontrar madeira seca. Até que um grito de terror veio tirá-la do estado de letargia. .De que jeito? Embora incrédula. E o vento apagava os palitos.Já sei! – disse Fabrício. . pelo menos – comentou o garoto. desconsolado. com medo dos perigos que a mão podia encontrar. não foi fácil. E.Tomara! – torceu a menina.Isso vai arder num minuto. – Vamos fazer uma tocha! . chorando. tudo isso tinha por perto. Se a gente andar rápido. Prontamente. mesmo que remota. Como se não bastasse isso. nem refletiu quando o garoto pediu um pedaço da canga. a caixa de fósforo estava pela metade. já quase sem fôlego de tanto assoprar o projeto de fogueira. o tecido incendiou. . a barulheira ao redor parecia voltar agora com maior intensidade. folhas secas. Era como se o avanço das horas tivesse o poder de atiçar os animais.Desisto! – ela desanimou. levantando chamas. apagando-se em seguida. Com o orvalho molhando tudo. Fátima parecia pronta a aceitar qualquer possibilidade de solução.

naqueles breves instantes de meditação. . mas ela não ficou indiferente.Pois é.E essa flauta. . entusiasmado. A sensibilidade musical da garota podia ser menos apurada. que garante a sobrevivência de cada espécie e o equilíbrio dos ecossistemas. -Você já pensou no pega-pega que está acontecendo em nossa volta? – comentou Fátima. com o professor de Ciências. em silêncio. Fátima apurou os ouvidos.É incrível como os sons se combinam.dizia ele. um sanduíche de queijo já mordido.Escute só.É um salve-se quem puder! – concordou Fabrício. que ronco! – sugeriu Fabrício. A cada tempo.O que é eu não sei. uma caixinha de suco de caju e uma barra de chocolate. Dá a impressão de um trem passando. Coisas que tinha aprendido em Biologia. um verdadeiro concerto. A conversa ia ficando interessante. Aí. depois. hein? . completou: . .Ah! Só se for uma sinfonia de horrores – ironizou Fátima.Estou com fome – disse Fabrício. estabelecida pela Natureza. E nem pensariam nos perigos e no medo se algo mais forte não viesse incomodar. repara como é ritmado. entendendo que Fabrício falava sério. Trocando idéias. Quietos..Deixe eu ver! Fátima encontrou uma maçã. até que o rapaz tornou a falar: . . . A harmonia é fantástica. eles esqueciam que estavam perdidos.Eu havia me esquecido de que você estuda música. – O que será. na perfeita cadeia alimentar. Parece uma sinfonia! . meio pacote de bolacha. ta ouvindo? – ela observou. um determinado ruído se destacava dos demais. de súbito. E.. E assim permaneceram. juntei todos na mesma orquestra. – Será que não sobrou nada nessa bolsa maravilhosa? . de repente eu comecei a imaginar cada animal como um instrumento. Mas é um sopro bonito. e que João Paulo havia reforçado durante o passeio... Pensava nos infinitos tipos de vida que habitam a mata. . eles deixaram que a audição tomasse conta dos sentidos.

VIA SATÉLITE. – E pensar que poderia ser a nossa filha! Interpelada pela mesma emissora. Conforme eles comiam. avisando a proximidade da manhã. Maria Célia ficou conhecida no Brasil inteiro.Pobre mãe! – comentou Elizabete com Otávio. despertando o interesse da imprensa. sem que nenhum dos dois pensasse em dormir. – Agora estamos mais protegidos.Vamos deixar perto dos outros troncos para irem secando. na opinião do grande público. muitas folhas velhas haviam secado e também alguns gravetos. Logo a história chamou a atenção da cidade. uma vez em São Paulo. A noite foi passando. O reforço de papel ajudou e logo surgiram algumas labaredas. Lúcia se recusou a falar. Tinha a falsa sensação de que sua presença ali conseguiria evitar o pior. foi que eles pegaram no sono. agarradinhos. ao aparecer na televisão com os olhos cheios de lágrimas. vendo o casal de amigos na tela. era fato que a diretora custava a aceitar. .Oba! – gritou Fátima. . a delegacia do bairro era mais uma fonte de informações para os jornalistas. Só quando o céu passou do azul-escuro para um azul mais real. Por mais que doesse o sumiço dos colegas. via satélite. Com o calor. largando Fátima e Fabrício perdidos na mata. . acusando Lúcia de irresponsável. certamente haveria de enfrentar.Mas isso é um jantar! – brincou o garoto. negligente e até imoral. Ilusão ou talvez um desejo inconsciente de fugir dos confrontos que. complicando a sua defesa. 22. – Essa sua mochila é nossa salvação. E a diretora era atacada publicamente. sabia que a diretora não tinha culpa nenhuma. . a gente tem fogo a noite inteira. Assim. A Polícia Militar foi avisada sobre o desaparecimento dos estudantes e uma equipe de salvamento do COE – Comando de Operações Especiais – entrou em ação. iam jogando as embalagens dos produtos na pretensa fogueira.. PARA TODO O BRASIL Deixar Apiaí. Carolina se revoltava com todos aqueles insultos. Com a queixa registrada pelos pais dos alunos.

com seu pessoal muito bem treinado para situações daquele tipo.E ali embaixo. Se eles tivessem ficado parados. taxada como uma empresa irresponsável. Muitas ainda inexploradas. Transfigurado. tenham entrado em alguma delas. dirigida por um moleque aventureiro. ao vivo e em cores. andando de um lado para o outro. Em tais circunstâncias. a região possui mais de duzentas cavernas. Mas só sinais. Já cobrimos a maior parte dela e só achamos a mochila do garoto até agora. sentindo do rosto a brisa fresca da manhã e o farfalhar suave das árvores embalando nos ouvidos é uma imagem poética para qualquer casal de namorados. Ainda no Parque do Alto da Ribeira. 23. O senhor acha que tem condições de encontrá-los. NUNCA PENSEI QUE FOSSE FAZER ISSO UM DIA! Despertar com o canto do araçari. Além do mais. . Mas as buscas continuaram o resto do dia. . a câmara mostrava a vastidão do lugar. ele aparentava. Vestígios de fogueira e restos de animal morto eram alguns dos sinais a serem rastreados. seria quase impossível localizá-los. É provável que. E mais uma noite chegou sem que os dois aparecessem. que naquelas circunstâncias acordavam para um pesadelo. A reportagem explicava o trabalho do COE. talvez fosse mais fácil. . o cansaço de duas noites inteiras sem dormir. Comandados pelo tenente Mateus. carregando equipamentos especiais. Mas a impressão que se tem é que devem ter andado muito e se afastado das delimitações do Parque. – A área é grande. E com essa fala se encerrava o espaço daquela notícia no jornal da tarde. vários homens se embrenharam na mata. na ânsia de se protegerem. ainda no ar.É uma operação muito difícil! – explicava o tenente. mas não disse mais do que meia dúzia de palavras.. ilustrando a fala do locutor: . tenente Mateus? – perguntou o repórter. Mas não para Fátima e Fabrício. Do alto de um dos helicópteros da polícia. João Paulo também foi entrevistado. estão Fabrício e Fátima. em algum ponto dessa imensidão. participando das buscas.Vamos continuar ou ficar esperando aqui? – questionou o rapaz.Prejudicada estava também a imagem do Muyraquitã Turismo Ecológico.

por onde vem! Falta pouco para escurecer. lagartos. vamos ter de passar mais uma noite na mata. A água costuma brotar no fundo dos vales. . enquanto é tempo? Pelo jeito. . trazendo o desequilíbrio. . . Até mesmo uma fruta silvestre representava sério desafio. Era o esgotamento físico levando ao desespero. sem pensar muito. . assustando os animais. temendo ouvir o que não queria. conseguindo sentar. quando Fabrício pegou um certo tipo de morango. inúmeras outras aves e espécies espreitavam temerosas os intrometidos visitantes. – Sempre ouvi falar que a Mata Atlântica é cheia de fontes e nascentes.Olhe lá a claridade do sol.Pra frente só tem subida.Estou com sede! – alertou a menina.E se for venenoso? – advertiu Fátima.. Os olhos dela se encheram de lágrimas. Você não acha melhor poupar energia? Por que a gente não aproveita para juntar madeira. .Deve ser porque estamos no alto. Onde a ramagem fosse menos densa. Eles não tinham nada para comer e se aventuraram. Com a luz do dia. entrando num estado de aflição. entre tropeços e arranhões.Estou com fome! – replicou a garota. A fraqueza.É um risco! – respondeu o garoto. Tudo em volta parecia hostil e perigoso. Voltar eu não volto. abrindo caminho corpo a corpo com a mata. interrompendo novamente a caminhada. mas a gente não passou por nenhum até agora. Temos de descer! – sugeriu ele.. O jeito era imitar o companheiro e retomar a marcha. nem que eu tenha de morrer de sede! – teimou ela. por ali eles passavam. levando o fruto à boca.Nós já andamos por lá!. em que tanto fazia a direção. Foram horas e horas nessa toada. tangarás. o garoto ainda conseguia raciocinar: . Não havia escolha.. cotias. Por sorte. . E algo me diz que as trilha estão para baixo! .E voltar tudo outra vez!? Me recuso! – protestou Fátima.Venha aqui! – retomou Fabrício. o terreno não tivesse obstáculos. recolhendo os poucos “morangos” que encontravam. .

Pronto! – ele exultou. como o brilho ainda opaco das estrelas. vamos dividir – protestou a garota. não passou dos cinqüenta metros.Então são dois pra você! . Eu é que não fico aqui. Funcionou como um remédio para o desgaste psicológico de Fátima. . de sede a gente não morre. Antes mesmo de procurar uma saída. . refreada pela presença de uma cobra coral.Só de pensar nessa possibilidade. Mas.Três. entre as copas das árvores.Você já está entregando os pontos. quase sem forças depois de se espantar com a cobra.Socorro! Tão rápido quanto o grito. Teve o ímpeto de levantar. as primeiras chamas cintilavam tênues. Cabeça erguida. Fabrício era lento no trabalho de limpar uma pequena área. arriscando a encontrar a morte. Na fogueira. acendendo as constelações. a garota se arrepiava. . E nem passou pela cabeça dos dois desconfiar da pureza daquela água. . Meio sem prática e tendo como instrumento apenas o canivete. Fátima estava de volta. Entretanto.chegando pertinho de Fátima. Tem cipó por tudo o que é lado. A raiz parecia um reservatório. No alto. o céu escureceu. acalmando as aflições.Sobrou algum morango? – perguntou Fabrício. ele acabou encontrando água ao cortar um cipó por acaso. refutando violentamente os argumentos do companheiro: . chorando nos braços do namorado. – Com nascente ou sem nascente. enquanto as labaredas se erguiam no chão. no meio da selva. Anoitecia. a garota teria ido longe. corpo enrolado. . o Cruzeiro apontava para o Sul. nem mais um minuto! – afirmou. De mansinho. . como a inexperiência nem sempre atrapalha.Acho que você tem razão! Prioridade agora era garantir a sobrevivência.Nada disso. disposta a continuar sozinha. A julgar pelo impulso. . a serpente preparava o bote. ainda no mesmo lugar.

– Hoje nós não passamos fome! – disse.Hum!. hum. logo farejou comida naquele bando de aves. depenando. a garota sorriu. vamos gritar! .Mas aqui eles não vão encontrar a gente. o pio irônico do mocho-orelhudo ou a flauta triste do macuco conseguiram atrapalhar o sono dos namorados. acordou Fabrício nas primeiras horas do amanhecer. .. pronto para cortar o pescoço da ave. O sangue jorrou longe. Até que o ciciar delicado de garranchos sendo revirados na terra. aparentadas com os perus. E. .. Surpresa. em algum lugar distante. hum. Pouco importava.. entre o sonho e a realidade. um helicóptero!? .Chiiiu! – fez o rapaz. para ver um bando de jacutingas ciscando o terreno. . . limpando e assando na brasa aquela carne macia. Não deve ser nenhum animal em extinção! – pondero a garota. respingando no rosto e nas roupas dos dois. correndo ajudar o rapaz. rindo. Temos de correr para uma clareira. com uma ponta de culpa espetando o coração e o canivete em punho.Ainda bem que eram muitas. já na espreita.Então eu não estava sonhando! – exultou Fátima. sorridente. . Mastigando um belo naco.Será possível!? – perguntou-se.. Ele nem sequer ergueu a cabeça.O que a gente pode fazer? Esse é o único jeito de continuarmos vivos! – argumentou Fabrício.. enquanto o bicho picava sua mãe e o restante do grupo fugia piando.O resto foi silêncio. ele engasgou. duvidando da própria percepção. confirmando sua suspeita. . Essas árvores parecem um teto. estavam aliviados. Dá tempo de comer! . . Fátima suspeitou ter ouvido o ruído de um helicóptero. ainda. num salto certeiro. Embora não soubesse que assim se chamavam. capturou uma jacutinga.Nunca pensei que fosse fazer isso um dia! – comentou Fabrício. Não só por causa do riso. bem ao estilo dos gatos. – Vamos correr. Nem o matraquear histérico da queixada.Pena não ter um salzinho! – disse ela. gata! Tá longe o barulho. ..Calma aí. bem próximo de onde os garotos dormiam.

Vanessa. conforme a densidade da vegetação. inconformada. achava que não era justo interromper as comemorações da formatura. o que é isso? – gritou Fátima. eles jogaram terra sobre o braseiro. entretanto. Rogério se exaltou.Meu vestido está até pronto! – foi o argumento de Cíntia. para seguir o ronco do aparelho voador. sob um monte de folhas mortas. vamos ter de pagar os músicos do mesmo jeito! – protestou Rodrigo. agarrando onde desse. com ou sem baile..E. com medo de um incêndio. .É isso mesmo – apoiou Márcio. O céu. vindo do alto. nada era para eles. – dizia Juliano. A FLECHA DO CUPIDO No Anita Malfatti. – opinava ela. depois de tanto empenho que tiveram com a nossa formatura. cravando as unhas no chão.. era quem mais inflamava o pessoal: . diminuía junto com as esperanças dos jovens. o conjunto está contratado. deu graças aos céus por mais esse alimento. do lado oposto ao seu era uma novidade à qual ele não estava acostumado: . aqui ou ali.. . Custasse o que custasse. a garota machucou a mão. – Ninguém tem culpa que aqueles dois foram namorar no mato.Afinal. A maioria dos alunos da oitava série. 24.Antes de partir à procura de uma abertura na mata. A clareira tão aguardada teimava em não aparecer. um “Huno”. Mas. Ir para cima ou para baixo deixou de ser discussão. Um punhado delas.. assustada. além de pequenos pontos azuis.Ai. esquecendo-se de que a fumaça poderia ser vista com facilidade no ar.O que eu acho é que nossos pais merecem essa festa. . se fosse preciso. Numa dessas tentativas. nós já pagamos o salão. E o som. Os dois concordavam que tinham de subir. . embora penalizada com o desaparecimento dos colegas. Ver um companheiro de turma. as opiniões se dividiam. escondidas pelo animal para a hora da refeição. como Fátima não conhecia os hábitos desses bichinhos. Eram as castanhas do caxinguelê. .

agora falando com firmeza. e. .A Carol tem razão! – bradou Ana Maria. a mão cerrada se ergueu para desfechar um soco na cara do colega. Para complicar ainda mais a situação. – Por que a gente não faz um movimento de apoio para os dois? Era uma tentativa de limpar a imagem da diretora e do professor. caído no meio da quadra. não foi? – indagou Ricardo.E esquecendo a coitada da Lúcia – emendou Érica. Gilberto ameaçou entrar na briga em defesa de Márcio. só se preocupando com vocês mesmos.Foi você. né. muitos alunos estavam sendo chamados para depor. além disso. colocando-se na frente do rapaz. já quase provocando outra briga. inocentemente. Vivia uma situação parecida com a de Valéria. não conseguia fazer frente às pressões da sua amiga Vanessa. Leandro hesitava em tomar partido.Sabem o que eu penso? – continuou Carolina. influenciados pelos mais velhos. que. seu filho da. aproveitando uma pausa em toda aquela confusão..Tenho uma idéia! – disse Leandro. – Ela e o Argemiro nos deram a maior força e agora estão sendo acusados. Juliano. – Cada um é dono da sua consciência e eu já percebi que ninguém faz a cabeça de ninguém! . – Todo mundo aqui devia estar unido. que falou mal da Lúcia pro delegado.Pare com isso! – gritou Carolina. tão atacados pela imprensa. – Nós estamos sendo muito egoístas. .. se a Fátima e o Fabrício morrerem? Ao cogitar essa hipótese. saindo da indecisão. Mas quem é que vai conseguir dançar feliz. . Em vez disso. fazendo pensamento positivo para nossos amigos aparecerem.Não vamos começar tudo de novo! – advertiu Carolina. E.. lágrimas quase correram dos olhos dela.Ora seu. . E o xingamento ficou incompleto. respondendo na delegacia à queixa dos pais de Fátima e de Fabrício. . embora também a achasse que o baile devia esperar. vocês ficam aí. nem sempre seus depoimentos eram favoráveis à conduta dos mestres. A voz. enquanto Marco Antônio e Tiago seguravam Rogério. soando trêmula. Entre o líder e os outros membros da gangue. . teve o poder de sensibilizar mais alguns formandos: .

Com a cisão estabelecida. . . não merece ficar prejudicado – lembrou Marco Antônio. conversar com Maria Célia e Nélson. . aos jornais. Valéria.. Érica. Se alguém mais quiser ficar do nosso lado. e perguntou: . meu filho.Que tal se a gente fizesse uma faixas com uns dizeres de solidariedade. Tinta e pincéis eu tenho lá em casa. Ficou combinado que no dia seguinte todos se encontrariam cedo na casa do rapaz. trazendo a atenção do casal de volta para a reunião. completou: .. então. Dando os últimos retoques na gravata. Ir à televisão. e Rogério. dar plantão na porta da delegacia. os dois se encararam de uma maneira completamente nova.Falava assim por experiência própria. Gratidão. cada vez mais atraído pela personalidade e beleza da Carolina. amizade e algo mais brilhavam em seus olhares. E.Precisamos comprar pano! – falou Érica.Vocês acham mesmo que devem ajudar essa diretora? . o pai entrou na cozinha a tempo de ouvir a resposta do garoto. E foi o que acontece. quando Rogério se levantou. Tiago. Ana Maria.Ótimo! – concordou Carolina.Eu topo a sua idéia. que mandou Vanessa para o inferno. Marisa e Eduardo. para pendurar pelo bairro? – propôs Rogério. que vão cuidar do baile dele e que se divirtam.Nós estamos nos esquecendo do João Paulo! Ele é um cara legal.. Ou. os pais de Fátima.. depois. . pedindo compreensão para Lúcia e Argemiro. os amigos da diretora estudavam uma forma de pôr em prática a sugestão de Leandro.O que é isso. Por alguns segundos. olhando diretamente para Leandro.. contando os detalhes do passeio. Do lado de Carolina.Só pano! – esclareceu Rogério. Vilma preparava o café da manhã para Cardoso. . melhor. Tudo isso passou pelo pensamento deles. ficaram Marco Antônio. . . em plenas férias acordando tão cedo? – estranhou a mãe. e com os de Fabrício. Ricardo.

tinha o compartimento dos rolos e pincéis. Na garagem. Uma espécie de alça permitia que a caixa fosse carregada com facilidade. .Já tomei. sempre me agredindo. . Você viu a briga na escola. Eu não sabia como chagar em você.Se você soubesse quantas noites eu fiquei de castigo por causa daquela frase na parede!. num esforço sincero para mostrar à Carolina o quanto estava mudado. Carol! – cumprimentou Vilma. Em um dos cantos. – continuava o garoto. porque o filho só dava atenção para a garota. hein! Cardoso não conseguiu retomar a conversa interrompida. Quis me vingar. Ela havia experimentado algo muito parecido na caverna. Nem foi diversa a sensação que teve sentada sob a árvore. sem derramar nada.. Meio sem palavras. de forma simpática. procurava explicar o seu amor por ela como a principal causa da transformação. Me desculpe! – repetia ele.. lá é melhor para trabalhar. fina e comprida. acho que foi isso! . Ele correu até a porta e voltou com Carolina. quando visualizou O Eremita.. que parecia especialmente feita para conter latas de tinta e alguns sprays. Até a gangue dos Hunos já se desmanchou. Carolina reconheceu o material do pichador e olhava de um jeito que deixava entrever seus pensamentos.Vocês caíram da cama.Aquela pichação!?. Parecia que a força da Natureza tivera o poder de alterar todos os poderes da sua mente. reordenando-os de forma mais equilibrada. Rogério adivinhou: . Apesar do vocabulário escasso de Rogério.Foi deitado à beira do ri que comecei a ver a vida de outra maneira. Rogério foi logo abrindo o armário de ferramentas e pegando uma caixa retangular.....Mas o soar da campainha livrou Rogério de qualquer comentário. .Oi.O pessoal já deve estar chegando! – dizia ele. – Vamos para a garagem.. – Toma café com a gente? . menos revoltada. . a garota podia compreender.Me desculpe! Eu não vou mais pichar as ruas. obrigada! . Era .. arrependido. A caminhada na mata também o havia influenciado..

Abraçados. Num ato instintivo. talvez O Enamorado viesse. soltando-se e deslizando na trilha aberta pelo tombo da garota. Fátima escorregou metros e metros abaixo. Manchas quentes e úmidas de sangue humano se misturavam nas roupas dela ao sangue da jacutinga. os machucados estancaram. com sua flecha de Cupido. Carolina nunca pensou que fosse tão fácil perdoar. livre da energia ambígua que O Diabo despertava. vibrando no ar uma onda forte de amor.Você está machucada!? Um gemido débil. SUJEITO A CHUVAS E TROVOADAS O helicóptero tão esperado parecia mesmo não querer sair do terreno dos sonhos para aterrissar na realidade. indo parar de encontro ao tronco de um manacá. abafado. atravessar o inconsciente daqueles jovens. quase não tinham mais energia para continuar naquela corrida desenfreada à procura de uma clareira. animado. indo de lá para cá. suados. Fátima e Fabrício ouviam o ronco a distância. Fátima percebia estar viva. eles ficaram algum tempo inertes. anunciando que ela estava transformada. ligada no mesmo som. . E não demorou para que as forças fossem embora de uma vez. apesar dos ferimentos.Fátima! – gritou Fabrício. que crescia envolvendo a aura dos dois. veio aumentar o pânico do rapaz. traduzido em dor. . sujos. Totalmente entregue aos cuidados de Fabrício. ao ritmo acelerado das batidas dos corações. o rapaz ouviu eco de água jorrando. 25. as cabeças rente ao solo. . . arrancou a camiseta e começou a limpar as feridas no corpo da namorada. Quando os ânimos serenaram. . Agora. ainda com os ouvidos próximos ao chão. Cansados. Um único arfar movia o peito dos dois.Tem uma cachoeira por aqui! – disse ele.uma espécie de aviso. Deixando a mão machucada escapar de uma hera. sem no entanto vir na direção em que se encontravam.Tem sim! – confirmou ela. sentindo o calor daquela presença amiga.

aliviado. Ou simplesmente se deixaria ficar passivo. ele tampouco estaria disposto a viver. ardendo em febre. A tarde vinha caindo. se Fátima partisse. e clarões e estrondos chegavam até eles pela pequena cavidade aberta nas pedras. não escondiam os sinais da moléstia. quando eles acordaram de manhã.Vamos dormir aqui! Acho que é mais seguro – disse. murmurava coisas sem nexo. secando as roupas ao sol. . As cenas da separação dos pais. Fabrício afastou-se um pouco da fonte e descobriu a abertura de uma gruta. Com vários carros de reportagem rondando o bairro. Ter encontrado a queda-d’água representava uma boa perspectiva também para o dia seguinte. tanta angústia pegada na alma. o suor frio escorrendo pelo pescoço. Mais uma noite se avizinhava na mata. Porém. Raios luminosos faiscavam no céu enegrecido de nuvens. chegasse até a estreita nascente do riacho. indiferente à fome até que os bichos o devorassem. Procurando madeira seca. Meio sonado. a pele queimando. na casa de Rogério. . como um fardo. os dissidentes do baile de formatura trabalhavam com esmero na elaboração das faixas de solidariedade. decidido. Do lado de fora o mundo parecia desabar em tempestade de verão. E se a namorada não resistisse. cheios de picadas de insetos. Todos na expectativa da repercussão que poderiam alcançar. que aflorava nos lábios em delírio. Fátima. ele pularia rio abaixo. novamente o medo da escuridão. o rapaz pensou que tivesse tendo um pesadelo. deixando a força da correnteza carregar o corpo gélido. Os jovens pareciam ir se acostumando àquele ritual. A fogueira tinha virado cinzas. Fabrício imaginou a morte chegando. reforçavam o sentimento de abandono. logo a imprensa ficaria .Amanhã seguiremos o curso do rio! Ele nos mostrará uma saída – continuou o rapaz. pesando na memória. Em São Paulo não chovia e. no interior de caverna. apoiada no namorado. Um choque de água gelada era tudo o que eles precisavam para lavar tanta lama grudada nos cabelos. Estava resolvido. A imagem da corredeira teve o efeito de uma miragem no deserto.Vamos até lá! Você consegue? As dores nas pernas não impediram que Fátima. Outra vez a necessidade do fogo..

de súbito. ficou ecoando alguns segundos no ar. ela desabafou suas intuições: . Ela desligou o aparelho.Fátima se apaixonou por ele! – completou Carolina. só para provocar: . . Nem Rogério.sabendo que nem todos no Anita Malfatti eram contra Lúcia. Acho que ele seria um bom compositor! – comentava o garoto.Que foi? – perguntou ele. de repente. Carolina também estava empolgada. A expressão no rosto da garota era tão marcante que Rogério pôde perceber a mudança de cima do muro da escola.. não oferecendo resistência ao abraço forte de Rogério. A partir daquele dia. eu senti uma dor aqui dentro. Argemiro e João Paulo.Será que ela morreu? – Ricardo pensou em voz alta. a garota caiu num estado depressivo. Nada e ninguém conseguia arrancá-la de lá.. A comoção foi geral. Doeu mais ainda em cada um. – Ela levou a mão ao peito. Protegendo os olhos do sol com a palma da mão. -. a paixão por História e pela música. Rogério desceu com uma vontade enorme de abraçá-la. Marco Antônio também lembrou algumas qualidades do seu amigo Fabrício. ao olhar para o alto. mas. ES entristeceu. que continuava a falar: . Érica. ora alguém insensível como Vanessa. que volta e meia insistia em tocar. . está pedindo socorro. tão doce e terno quanto pode ser um adolescente enamorado.. O jeito fechado dele. enquanto amarrava uma das faixas: .. sofrendo demais. Aquele verbo. engasgada.Parece até que estou vendo a Fátima aqui por perto. Marco Antônio e os outros também rodearam Carolina. dito no passado... Ora algum amigo preocupado. Mas ela não está bem. que se aprofundava cada vez mais. sussurrando palavras de afeto ao telefone. foi capaz de abrir caminho naquela mente cheia de amargura. passava a maior parte do tempo em casa. Sem vontade de comer. trancada.Esse nosso movimento é legal! Só que não vai ajudar a encontrar os nossos amigos. imaginando o espírito da outra rondando pelo colégio. Já faz três dias que eles sumiram e.

o professor. Mesmo que fosse a nota de falecimento. a tentação agora era irresistível. Carolina desistiu de atender aos chamados e se fechou mais ainda.A Lúcia está. E se as condições metereológicas não melhorassem. ponderando as dificuldades da região. O tenente lembrava que já ia pelo sexto dia o desaparecimento do casal. fixos num jogo de cartas. correu ao telefone. Ansiava uma esperança. a Muyraquitã Turismo. O QUE SERÁ QUE ACONTECE AGORA COM ELES? Se durante muito tempo Carolina evitou pegar o Tarô. as lágrimas que rolaram para todo o Brasil ver foram as de Lúcia. A mão ensaiou um gesto para alcançá-lo. uma vez que os pais haviam dado autorização de viagem para os filhos. Marco Antônio defendia no vídeo a diretora. a voz impertinente de Vanessa continuava repetindo: “Por que você não pergunta para o Tarô?” Carolina pulou da cama. agravadas pelo tempo. A dor que a fez atirar-se na cama era a mesma que mantinha seus olhos secos. um rastro. discou um número e.Por que você não pergunta para o Tarô se eles estão vivos ou não? – tripudiava a colega. . uma pista qualquer que acabasse de vez com tanta incerteza. Desse no que desse.. a garota achou motivos suficientes para deixar os temores de lado. sob os olhares curiosos dos pais. Nas cenas gravadas à tarde. O delegado esclarecia que nada se podia fazer contra os educadores. vidrados. sofrendo que nem mãe. na memória. os trabalhos de busca seriam interrompidos. à espera de alguma notícia de Fátima e Fabrício. a essas alturas não poderia representar martírio maior. enquanto. Com a diretora. então. Carolina entrou e bateu a porta do quarto.da Polícia Militar. aposentado entre os livros sobre a estante. por favor? 26. No telejornal daquela noite ela viu as faixas de solidariedade bem focalizadas. Dessa vez. iniciou uma conversação: . fosse qual fosse o prognóstico. Só saía do quarto na hora do noticiário na tevê. sujeito a chuvas e trovoadas. o tenente Mateus explicava o trabalho do Comando de Operações Especiais. concordando em participar do jogo. Mas o medo congelou o movimento.

Então vou já para aí! – disse Lúcia. A garota lia: . cerrados à possibilidade de uma intervenção milagrosa. . . atingida por um raio. cuidadosamente. – Carolina iniciava a interpretação. com o pensamento concentrado na pergunta que se queria fazer. recordando seus estudos. metafísico. presente. não seriam necessárias mais lâminas. ... sentando-se pouco confortável na ponta da cama da garota. Visualize Fátima e Fabrício no meio da floresta. Elas abriram os olhos. Mas essa última parte só foi feita depois que Lúcia chegou..Estou! Vamos pensar juntas. a garota apanhou o maço de Trunfos e.. Um arrepio silencioso percorreu o corpo das duas. puxou três cartas seguidas.Passado.A Torre representa grandes perigos do destino. O que se via na estampa eram duas pessoas sendo lançadas com violência de uma torre.. calamidade. foi logo levando a diretora para o quarto. futuro. A gravidade da circunstância exigia rastrear. colocar em ordem numérica e depois embaralhar cada monte de novo. Se dependesse das mensagens ali reveladas. A garota voltou para o quarto.. já quase esquecido: arcanos maiores de um lado. O antigo ritual. que ficaram comovidos ao vê-la chorando na televisão. A Torre. menores do outro. . colocando-as fechadas sobre a colcha e dizendo: . Infortúnios ocorrem quando a mente e o coração de uma pessoa estão frios e escuros. sem hesitar. cada frase... para organizar o baralho. do arcano maior revelaria a essência de cada momento. podendo levar à morte por catástrofe. com muita agilidade nas mãos. Porém. desligando o telefone. Carolina. O texto continuava: “.. A diretora estalava os dedos. com toda a sua abrangência. que viesse somar à compreensão.Está preparada? – perguntou Lúcia.Queda. O significado amplo. E a mão de Carolina já não estava tão ágil. cada palavra. De olho fechado. não se atrevia a dispensar a ajuda do livro. ansiosa.. Tremeu ao virar a primeira carta: 16. recebida com amabilidade por Otávio e Elizabete..

. uma razão para os acontecimentos servia para conhecer melhor a personalidade dos dois.” .. por vezes pressagiam um acontecimento milagroso ou proclamam. estava escrito: “Os anjos são vistos como mensageiros alados do céu.Sombrio. se necessário.Nesse caso. . mesmo à força. Trunfo 14. arrepiada de esperança. é. símbolo da energia divina.. rindo. que sente a própria percepção desabrochando para uma vida nova. o renascimento. ela virou a próxima lâmina. Mas a posição do arcano indicava bem: era passado. – No fundo... com uma flor encarnada na testa.Estranho! Fabrício realmente é muito na dele.O que será que acontece com eles agora? – perguntou Carolina. com toques de trombeta. os deuses devem achar um modo de entrar.. uma menina muito carente. Aquela forma exagerada de se dar com os rapazes. Apareceu um anjo de cabelos azuis. Assim explica-se o relâmpago. como alguém nascido duas vezes. No capítulo A Temperança.Eles estão vivos! – a garota parou de ler. . esquisitão. – Eu bem que devia ter percebido. – Ela suspirou. você quer dizer! . . queira Deus..Isso! Mas Fátima tão alegre. nos níveis psíquicos e espiritual. Que Fabrício e Fátima estavam passando por maus momentos era mais do que claro.. Suspendendo a respiração. amor.Por fora – intuiu Lúcia.. O anjo faz o indivíduo compreender que emergiu da confrontação com a morte.. aquela expansividade afetada.” Carolina interrompeu intrigada: . ... procurando carinho. derramando o líquido de uma vaso também azul em um outro vermelho. Cogitar. sua amiga Fátima era. que destrói para libertar a alma.

. Pelo menos enquanto Fátima respirasse. “O Sol. Fabrício ainda não parecia disposto a caminhar deliberadamente para o fim. em toda a glória. desembaraço. O tenente Mateus não pode parar com as buscas.. a derramar bênçãos sobre duas crianças brincando amorosamente. do arcano número 19”.Vamos ligar para o COE.. que dá equilíbrio às pessoas.” 27. Enrolando uma folha de lírio em forma de copo improvisado. quando a vida já não é um desafio que precisa ser vencido. luz do sol.. mas uma experiência a ser desfrutada. dentro de um muro.Falta abrir uma carta! – retomou a diretora. . – Carolina falava com sofreguidão.Todo esse tempo na mata! Alimentando-se de quê. E foi com essa certeza que descobriram o último Trunfo.É mesmo! – concordou a garota. Em nenhum momento eles chagaram a duvidar da proteção do anjo da guarda. . minha Nossa Senhora?. Acreditavam que. haveria de lutar. UMA CORTINA DE FUMAÇA Apesar de tomado pela idéia da morte.E saber se eles serão encontrados a tempo! – completou Carolina.. . Vamos dizer para eles procurarem melhor.. Com a camiseta umedecida nas . .. forçou a garota a beber alguns goles de água. admitindo que até os pais dela tinham tantos preconceitos. “anuncia um novo período de iluminação e nutrição. o comportamento comedido dos jovens ajudava-os a preservar a vida.Calma! Você acha que eles iriam acreditar nas cartas de Tarô? . dizia o livro. por pior que estivesse sendo a jornada na floresta. Desvendamento.

soprara abertura adentro. o rapaz saía para procurar mais comida. mais audível do que das vezes anteriores. Quase sem voz. achou ovos de jacuguaçu. parecia torná-lo mais esperto. enxugou todo o suor daquela pele febril. junto à quentura das chamas. antes da chuva. mais a quantidade de folhas que o vento. inadvertidamente. entre o bicho e a própria vida e a da namorada. Em poucos segundos. Em meio à ventania. os dois. E Fabrício enfrentou a tempestade. apertando. Mesmo com as dificuldades que a garota sentia para andar. estava no ar o ronco do helicóptero. no chão. atirou sobre as labaredas um punhado de capim verde.Estamos salvos! Pairando sobre a estreita clareira do riacho. Mas. Seis castanhas e dez palitos de fósforo eram as últimas provisões. que conseguia erguer a cabeça para engolir. que havia seguido o sinal de fumaça. . Subindo nas árvores. por onde desceu o tenente Mateus. eles viram o aparelho voador. Vez ou outra recobrava a consciência e agradecia os esforços do namorado. dando uma pausa no aguaceiro. tiveram de deixar o abrigo. Logo. e as aves estavam de volta. pensando num único jeito de manter o fogo aceso: trazer bastante lenha para secar lá dentro. descobriu os coquinhos de tucum. Assim. Fabrício saiu em busca de alguma presa fácil que pudesse servir de alimento para eles. Fabrício tratava de manter o fogo quando. Usou a canga como manta para envolver o corpo sem forças. o garoto exultou: . Do lado de fora. quase sufocados. com suas enormes hélices quase cortando a copa de algumas árvores. ele obedecia o coração. Finalmente havia parado de chover. no entanto. apesar de sentir uma certa culpa por estar ferindo a Natureza. Alguns tocos não queimados na noite anterior. O dia amanheceu dourado de sol. Castanhas assadas na brasa e amassadas serviram de alimento para Fátima. trazendo um pouco de calor ao ambiente. sustentavam tímidas labaredas. Sempre que as nuvens se abriam. uma escada flexível foi lançada. procurando saída pela abertura da caverna. o garoto ia cuidando de Fátima com muito carinho.vertentes internas das cavernas. colheu e assou os frutos dos caraguatás. uma cortina de fumaça se ergueu. A necessidade.

O pesadelo de Fátima e Fabrício só acabou após os primeiros socorros na enfermaria do hospital. Toda espetada de agulhas. falando do ano letivo que ora findava. sob os olhares curiosos de Elizabete e Otávio. Lamentamos que Fátima e Fabrício não possam estar presentes aqui hoje. Tiago. Ana Maria. Carolina e Rogério dançaram a noite inteira.. comentando a sorte dos amigos. Muitos colegas também passaram por lá: Marco Antônio. mas Fátima só conseguiu chegar até o helicóptero carregada pelo tenente. esta festa também é deles. VOCÊ LÊ O TARÔ PRA MIM? Fabrício subiu sozinho a escada. Graças ainda à interferência dos filhos e dos amigos. quando viu a amiga. Entre risos e lágrimas. as duas trocavam olhares cúmplices.. quase agressivo. E esse primeiro encontro dos educadores com os pais foi difícil. O tempo nem foi percebido.E Fabrício. de Cardoso e Vilma. .28. os primeiros a visitarem os jovens foram Carolina e Rogério.. Lúcia fez um emocionado discurso. Logo em seguida apareceram Lúcia e Argemiro. À noite. sem dúvida alguma. . será que vai preferir morar com a mãe ou com o pai? – questionou ele Mas.Eu ganhei a aposta! Que aposta era aquela. com a promessa de retirada de queixa da delegacia. como nenhum dos dois poderia. por enquanto. só Carolina compreendeu. lembrando com carinho todos os formandos e expressando seu sofrimento durante a busca do casal desaparecido. Fátima disse: . Mas. na festa de formatura. João Paulo mandou flores e cartão de felicidades. acabou havendo uma conciliação. responder a essas perguntas. . Porém já não era mais hora para ódios e rancores.Será que dessa vez a Fátima vai amar de verdade? – perguntou ela. Érica. Conversaram muito também. Valéria e outros. com soro e medicamentos. Rogério fez uma proposta: . Ricardo. Depois dos pais.

na manhã de domingo. O baile só terminou de madrugada. para mais um número de música lenta.Agora que eles estão bem. que tal a gente pensar um pouco em nós. Ao ler as manchetes. Elizabete pediu para a filha: . daqui pra frente? Carolina apenas sorriu e encostou a testa no queixo dele. juntos.. você lê o Tarô pra mim? . um dia desses.Carol. viu a foto de Fátima e Fabrício estampada na primeira página. E quem comprou o jornal.

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