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A Democracia Em Luhmann e Laclau

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A NOÇÃO DE DEMOCRACIA EM LUHMANN E LACLAU

Zaira Maria Arretche

Os teóricos que descrevem e analisam as relações entre Estado e sociedade vem, há muito, apontando para as inúmeras transformações desta ligação, bem como as modificações do comportamento de um e de outra. Quanto maior é a complexidade da sociedade, mais o Estado cria meios de intervir, não somente nas relações interpessoais, como na submissão do indivíduo aos códigos do poder governamental.

Mesmo países que se declaram democráticos, e mais especificamente os latino americanos, em sua maioria, tendem a resolver as questões que se relacionam a organização do cotidiano de seus cidadãos, sem que exista um amplo debate entre seus componentes. Esta democracia verticalizada pela ação dos representantes governamentais, cuja representatividade pode ser altamente discutível, constitui-se em um modelo de democracia que precisa ser urgentemente revisada.

Assim, este artigo propõe-se a realizar uma reflexão acerca da democracia, utilizando os pressupostos das teorias sociais de Ernesto Laclau e Niklas Luhmann, visando uma democracia mais abrangente, em que efetivamente as ações do Estado estejam voltadas para um desenvolvimento em que as relações sociais estejam baseadas na preservação da liberdade e do poder individual e no respeito as decisões coletivas.

Assim, se um por um lado, na modernidade o pensamento em relação ao poder e a representação estava calcado na ideia de que a política possuía os meios para realizar uma transformação do social, fosse a partir de um processo revolucionário, fosse a partir de um conjunto de medidas burocráticas da elite, ou,

e afirmar que a ausência de fundamento dos conteúdos do social é a ausência de sentido da sociedade. baseados na ideia de uma totalidade. cuja eliminação desta zona de opacidade levaria ao poder. significa. que apresenta uma zona de opacidade. ou o grupo dominante é inteiramente racional ou os grupos dominados e dominantes são parciais e limitados. uma irracionalidade. e o grupo dominado. como explicita Laclau: Se eu concluo . a pósmodernidade apresenta justamente um sentimento de esgotamento em relação às narrativas totalizantes e racionalistas da modernidade. cujas atuações foram limitadas. negar a possibilidade de qualquer representação. Negar a universalidade dos agentes da transformação histórica. existe uma coerção e uma opacidade. e se esta dominação for racional. e. O exercício de poder de um grupo sobre o outro pressupõe que o grupo dominante apresenta uma racionalidade. Ou. Porém a negação do sentido de algo não é a negação de algo. Esta elaboração está tão fortemente arraigada no pensamento de que a tendência é tentar substituir o que existe pela ausência. sua condição de repressão seria aparente. mostra que o poder é uma questão aparente. A impossibilidade do representante em constituir-se como um representante universal. e demonstrar que a representação apresenta uma opacidade. a partir de um único ato que abrisse caminho para mecanismos que produziriam efeitos na sociedade.ainda. e a racionalidade aparente é transferida de quem realiza a análise dos grupos. cuja distância entre o social e o real é muito grande. consequentemente. o grupo dominado apresentaria uma racionalidade distorcida. No primeiro caso.como farei adiante . ou o grupo dominado apresentaria uma racionalidade plena. mas simplesmente a negação do sentido dado. O ponto central.que nenhuma relação pura de representação é atingível porque é da essência do processo de representação que o representante contribua para a identidade do . tornar visível o fundamento da política. segundo o pensamento pós-moderno. Concluímos então que. para Laclau (1996) reside na noção de totalidade do social.

não uma ruptura radical. porque há uma luta permanente dos vários conteúdos para preencher este espaço vazio. o que é precisamente o pressuposto que toda a crítica da noção de representação estava pondo em questão (LACLAU. portanto. buscando não a desconstrução do modelo da modernidade. Assim. Os conceitos centrais desta proposta são "desconstrução" e "hegemonia". que proporciona as identificações e a hegemonia. da Fundação Joaquim Nabuco (PE). isto não pode ser transformado sem inconsistência na proposição de que "representação" é um conceito que deveria ser abandonado. como das articulações hegemônicas que se formam. Este conceito de equivalência tem uma dimensão importante neste processo de reestruturação (desconstrução). a visibilidade da estrutura é possível porque não há nenhum conteúdo específico predeterminado. o que está sendo negado não é a representação. em processo constante e infindável de superação. Burity.representado. Existe no interior da estrutura uma indecidibilidade radical. não somente das estruturas a serem desconstruídas. que requerem um longo percurso para permitir demonstrar o caráter contingente tanto da desconstrução quanto da hegemonia. citado nas referências bibliográficas. ou de transformação. p. movimento este para o qual Laclau (1996) sugere uma estratégia alternativa: a hegemonização por uma perspectiva diferente. Laclau (1996) não está negando sua possibilidade. 1996. Pois. 1 Ao afirmar que a relação de representação pura não é atingível.03). A visibilidade da contingência desta estrutura só é possível se o conteúdo que a fecha seja indiferente a este vazio e equivalente a outros conteúdos possíveis. neste caso. que só são possíveis pelo espaço vazio que existe no interior da estrutura. aquela que afirma que o representante ocupa o lugar do representado. como explica Laclau: A tradução que está sendo utilizada neste trabalho é de Joanildo A. mas uma nova modulação de seus temas. e certamente há uma diferença de páginas em relação ao texto original. nos restariam as identidades nuas do representante e do representado como identidades auto-suficientes. 1 . mas um dado sentido da representação. porque esta contingência é constitutiva.

em um ambiente mais complexo do que aquele em que o representado expressou a sua vontade. porque preenche o espaço vazio. O papel da representação é uma forma específica de preenchimento do vazio e de simbolismo deste preenchimento. enquanto me é perfeitamente possível ser indiferente à presença ou à ausência do ruído da catarata. perde uma dimensão da falta num âmbito comunitário: esta é vivida como privação. através da ausência dela. significada (LACLAU. e colocando-se como referenciais na reestruturação de hegemonias. e haverá tentativas de superá-la via identificações. ela própria. A questão da representação só seria perfeita se houvesse a possibilidade de que o representado pudesse transferir sua vontade ao representante. é sua incompletude constitutiva e sua impossibilidade de uma fundamentação racional última. Esta possibilidade não existe. Esta significação é uma plenitude ausente. seja pela questão do lugar onde os interesses são propostos. a presença de uma falta no interior da estrutura tem que ser. nem por parte do representado. p.Este exemplo2. e da percepção de outros ruídos. Daí porque a falta social será vivida como desordem. não obstante. como desorganização. Mas se as relações sociais são relações discursivas. . O papel da representação passa a ser o lugar em que o discurso dos representantes ou agentes propõe novas formas de articulação e vontades das identidades dispersas e fragmentadas. construindo novos pontos. que são percebidos porque agora interrompem o silêncio. 2 O autor refere-se ao exemplo que ele dá da percepção da presença do barulho de uma catarata. 07). no caso de uma interrupção da queda de água. o fracasso de tal processo de constituição. Mas isto não quer dizer que a representação seja impossível. nem por parte do representante. que se fez presente pela ausência do barulho da catarata. Ela é dada pelos conteúdos concretos das forças antagônicas. o que pressupõe uma vontade inteiramente constituída e que o papel do representante permaneça na condição de intermediação. É um significado flutuante. sem esgotar nenhum conteúdo. aqui. antes inaudíveis. Uma sociedade democrática. sem a qual o debate político não seria possível. seja pela posição em que o representante toma as decisões. 1996. relações simbólicas que se constituem através de processos de significação.

devem ser consideradas. deve manifestar-se como contingente. 2001. e não por seu funcionamento. visto que esta condição é inalcançável. Ou seja. Existe uma alternância de poder. incompletude e renegociação. p. A primeira. e na lógica de uma ambiguidade permanente. remetemos à questão de qual democracia deve ser constituída. A segunda. que aqui chamamos de teses. sempre existirá um grupo ou mais que estará fora da ordem estabelecida. É justamente a incompletude que permite a manutenção da democracia. A solução. em contraposição à posição marxista. O seu fundamento será ocupado por uma contingência radical. mas não existe sua eliminação. e não uma interpretação intelectual. talvez. a transformação radical tem seu caráter radical pela sobredeterminação de mudanças parciais. significantes vazios e indecidibilidade e representação. está ligada à ausência de completude da hegemonia. porque a sutura total de todas as aspirações dos diferentes grupos pressupõe uma universalidade que eliminaria por completo a particularidade. Ao pensar na questão da representação e nos seus desdobramentos. porque a condição do poder é constitutiva da democracia. de incompletude e renegociação. em que há a permanente renegociação da dicotomia universalidade/particularidade. Assim. que também é contingente na democracia radical. no sentido de que todo sentido social será uma construção social. e por isso “a democracia é a única sociedade verdadeiramente política” (LACLAU. o caráter hegemônico. o foco central da democracia radical em relação à representação política é apresentado através de quatro teses: assimetria e poder. 10). o que nos leva a duas questões centrais: a questão da fragmentação do ator político que impede a formação de pontos nodais e a questão da multiplicidade de forças que pode resultar na dissolução do discurso emancipatório. tenha de ser encontrada fora da lógica da "negociação".Assim. refere-se à condição de contingencialidade da democracia: ou seja. a alternância do poder. em que determinadas características. da assimetria e poder. .

requer a definição do conceito de significante vazio. Ele não é possível enquanto elemento palpável. o sistema ( LUHMANN. esta tensão é indissolúvel. de conter em si. permanece numa constante entre o universal e o particular. 1997. O sistema social se alimenta 3 Tradução livre: "O nome representação do coletivo nunca será uma expressão passiva de qualquer atividade previamente unitária. não contempla uma abordagem especificamente sobre a democracia. on the contrary. A representação está ligada muito mais à questão da vaziedade dos espaços de poder do que à mera formalização da representação. É este caráter de indecidibilidade que possibilita ao conteúdo da questão a permanência da democracia. a parte interior da forma é a parte sobre a qual só se podem reproduzir as operações que produzem a forma. Os seres humanos não fazem parte do sistema social. é possível fazer algumas ilações a partir de sua teoria sobre a sociedade e de seus conceitos de sistema/meio e comunicação. p. pelo que já estudamos até então. que é a lacuna possível entre o particularismo e o universalismo. no entanto. e uma parte exterior. eles são o meio que possibilitam a existência deste sistema social. pelo contrário. e se produz/reproduz a partir da comunicação. 2001. o sistema social tem uma parte interior.13). o entorno. Para Luhmann (1997): O sistema se produz como uma forma que separa uma parte interior. ou pela negação de outros. Significando que a democracia representativa requer a representação. o nome retroativamente constitui o exato arbítrio que reclama representar" (LACLAU. É significante vazio porque não apresenta um significado que expresse uma única demanda. significantes vazios e indecidibilidade.51). the name retroactively constitutes the very will that it claims to represent”3 (LACLAU. inúmeros significados. Ressalta Laclau: “And so the name representing that collective will is never the passive expression of any previously achieved unity.13). o sistema. mas que é capaz de representar.A terceira tese. 2001. . O significante vazio é um marco simbólico que se expressa pela afirmação de determinados valores. p. a diferença. p. Assim. A obra de Luhmann. Na democracia. e uma parte exterior.

Tão importante quanto a comunicação. 60/61). é a pré-seleção das possibilidades de entendimento através da escolha de representantes. qual a interpretação que vai dar a informação recebida. e se processasse a seleção das informações. como uma . que gera a dupla contingência. um ou outro tem a capacidade de escolher entre as alternativas possíveis. por outro. e o sentido da comunicação é o que dá um resultado ao entendimento. nas palavras de Rodrigues e Neves (2012) Comunicação é a operação própria dos sistemas sociais. ademais. o que temos como entendimento do que é democracia. depende de si mesma para prosseguir. e cuja redução da complexidade da informação. limite e capacidade de relacionar operações posteriores a partir de anteriores. que não são necessariamente representativos das possibilidades de entendimento e percepção da informação do todo que representam. a nosso ver. ou seja. (RODRIGUES E NEVES. p. para que a partir daí se reduzisse a complexidade da informação. é fundamental para a abordagem que gostaríamos de fazer em relação a democracia. 2012) de redução da complexidade do mundo. A comunicação cumpre. passa pela priorização de informações que não são fornecidas ao meio como um todo. é a ideia de Luhmann (Cadenas et. Com isso. ou seja. da mesma forma como o sistema psíquico se alimenta de pensamentos. É uma operação puramente social porque pressupõe o envolvimento de vários sistemas psíquicos sem que se possa atribuí-la exclusivamente a um ou outro destes sistemas: não pode haver comunicação individual. no sistema representativo. A partir da comunicação o social se fez. Se a comunicação é o que dá forma ao social. sem precisar recorrer a qualquer outro elemento ad hoc. os requisitos da autopoiésis. No entanto. al.de comunicação. Comunicação. unidade. Luhmann consegue indicar um unit act que caracterize os sistemas sociais. A questão da comunicação em Luhmann. A dupla contingência pode ser interpretada de um lado como uma possibilidade de liberdade. um ponto arquimédico para a observação do social. a democracia só se realizaria na medida em que as múltiplas possibilidades de entendimento fossem contempladas. 2012.

processe a informação. perde sentido na teoria de Luhmann. e esta noção de hegemonia proposta por Laclau é uma irrealidade. Assim. escolher uma. e propõe uma nova modulação. e esta referência não é uma construção ou percepção das unidades psíquicas ou de um grupo ou da totalidade. mas uma verticalização imposta pela coercitividade da informação dos grupos dominantes. É uma construção da percepção de todas as unidades psíquicas envolvidas. por parte do grupo dos dominantes. ainda que a consciência de si seja também possível pela consciência do outro. Portanto. e não pela consciência da consciência do outro. A fragmentação das identidades é uma condição estrutural das unidades psíquicas. significa não escolher outra. só seria efetivamente aplicada. A universalização do sentido não é um processo decorrente da assimilação e transformação da informação. esta assimetria só é perceptível porque referenciada em relação a um ponto ou de informação ou de poder. primeiro. Por outro lado. Este espaço vazio é uma interpretação da impossibilidade de comunicação. pode ser interpretado. na teoria luhmanianna. sucessivamente. e para que o sistema social possa operar ( assim como as unidades psíquicas).possibilidade de insegurança. como uma ferramenta de escolha de múltiplas opções. A complexidade do mundo é sempre maior que a complexidade dos sistemas sociais. possa absorver mais informação e assim. porque abarcam muito mais informações. é preciso que ele reduza essa complexidade. só é possível pela existência da consciência do outro. o espaço vazio que existe no interior da estrutura e a noção de identidades dispersas. se o conjunto de informações que são fornecidas as unidades psíquicas envolvidas no processo forem iguais. A hegemonia só seria plenamente possível se não houvesse. A única assimetria efetivamente existente é a que usa como recurso de imposição a coerção física. como a impossibilidade da transmissão da informação com um sentido objetivo. a imposição de um vértice de sentido da informação. seria possível inferir que a democracia para Luhmann. para que a partir daí. quando Laclau (1996) refere-se a zona de opacidade que impede a realização plena da representação. nas bases em que entendemos democracia. Ainda que exista uma assimetria entre A e B. E ainda que .

Rio de Janeiro. É importante também inferir que para Luhmann a existência de democracia representativa. porque processadas por unidades psíquicas diferenciadas. -----------. Hugo. seja este poder de que ordem for. Referências bibliográficas CADENAS. seria democracia porque partiria de pressupostos iguais. o que implica em uma transferência de poder político relativa.saibamos que se estas informações forem as mesmas a percepção resultante será múltipla. Oxford. In: Burity. Se a diferença de percepção dos indivíduos de uma determinada sociedade não é resultante de processos coercitivos. não parece válido que esta diferenciação seja justamente o fator impeditivo da impossibilidade deste mesmo indivíduo de perceber suas próprias demandas. 07. dezembro. LACLAU. UFRJ. Joanildo (tradutor) Estudos. Aportes para el análisis de la complejidad social contemporánea. Em qualquer um desses exercícios mentais. Anahí. RJ. Ernesto (1996) Poder e Representação. In: Constellations. uma vez que a condição de que o sentido da informação apresenta tamanhas improbabilidades que a única hegemonia possível é a hegemonia imposta pelos grupos que concentram o poder. ou mesmo a existência de democracia como a entendemos talvez não seja sequer uma existência possível. MASCAREÑO.(2001) Democracia e a Questão do Poder. Blackwell Publishers Ltd. 8 issue 1. tanto no que tange a representação. Aldo e URQUIZA. vol. quanto ao método democrático. Santiago. de qual seria realmente a função do Estado. (2012) Niklas Luhmann y el legado universalista de su teoría. e ainda que o seja.. Sociedade e Agricultura. . vol. E ainda existe a possibilidade de que a escolha dos indivíduos seja justamente a não escolha. RIL Editores. Reino Unido. acabaríamos sempre caindo em uma questão última.

RS. B. . In: NEVES. Niklas (1997). Leo Peixoto e NEVES. O conceito de sociedade. & SAMIOS. Eva M.LUHMANN. Fabrício Monteiro (2012) Niklas Luhmann: a sociedade como sistema. Clarissa E. Porto Alegre. RODRIGUES. Porto Alegre: Ed UFRGS. Niklas Luhmann: A nova teoria dos sistemas. Porto Alegre: EDIPUCRS.B. Goethe-Institut.

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