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Equipe de realização — Tradução: Paulo Bezerra; Revisão: Juliana Cardoso; Sobr. capa: J. Guinsburg, Plinio Martins Filho e T. B.

Martins; Produção: Ricardo X Neves, Adriana Garcia e Heda Maria Lopes.

Mikhail Bakhtin

O FREUDISMO
UM ESBOÇO CRÍTICO

EDITORA PERSPECTIVA

Título do original russo Freidizm

Direitos reservados em língua portuguesa a EDITORA PERSPECTIVA S.A Av. Brigadeiro Luís Antônio, 3025 01401-000 — São Paulo — SP — Brasil Telefax: (0--lI) 3885-8388 www.editoraperspectiva.com.br 2001

Sumário

Freud à Luz de uma Filosofia da Linguagem —
Paulo Bezerra

XI

PARTE I: O FREUDISMO E AS CORRENTES ATUAIS DO PENSAMENTO EM FILOSOFIA E PSICOLOGIA 1. O Motivo Ideológico Central do Freudismo 1.1. O freudismo e a atualidade 1.2. O motivo ideológico do freudismo 1.3. Motivos congêneres da filosofia atual 1.4. Avaliação prévia 2. Duas Tendências da Psicologia Atual . 1. Colocação do problema 2. A psicologia experimental .3. A psicologia objetiva .4. A resposta verbalizada .5. Marxismo e psicologia .6. A questão psicológica do freudismo .7.Ciênciaeclasse PARTE II: EXPOSIÇÃO DO FREUDISMO Inconsciente e a Dinâmica Psíquica 3.1. Consciência e inconsciente
3. O

3 3 6 8 10 13 13 15 16 17 18 19 21

25 25
26

3.2. Três períodos na evolução do freudismo 3.3. A primeira concepção de inconsciente 3.4. O método catártico 3.5. Peculiaridades do segundo período 3.6. A doutrina do recalque 4. O Conteúdo do Inconsciente 4.1. A teoria das pulsões 4.2. A vida sexual da criança 4.3.OcomplexodeÉdipo 4.4. O conteúdo do inconsciente no segundo período 4.5. A teoria das pulsões no terceiro período (Eros e morte) ... 4.6. O “ideal do ego” 5. O Método Psicanalítico 5.1. As formações de compromisso 5.2. O método da livre fantasia 5.3. A interpretação dos sonhos 5.4. O sintoma neurótico 5.5. Psicopatologia da vida cotidiana 6. A Filosofia da Cultura em Freud 6.1. A cultura e o inconsciente 6.2.Omitoeareligião 6.3.Aarte 6.4. As formas da vida social 6.5.0 trauma do nascimento

28 31 32 35 35 36 38 40 41 42 47 47 48 53 53 54 57 57 57 58 60 62

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B. O subjetivismo da “dinâmica” psíquica 7. O ponto de vista de B.5.. O freudismo e a psicologia moderna 7.2.5. V. Bikhovski 10. Crítica à teoria das zonas erógenas 7. Os métodos de estudo do conteúdo da consciência 9. Marxismo e freudismo 10. A configuração sociológica das reações verbalizadas 9.4.2. As diferentes camadas da “ideologia do cotidiano” 9.2. O conceito de ideologia do cotidiano 9. Zilkiind 10.3. Fatores objetivos da “dinâmica psíquica” 9. O ponto de vista de B. Composição elementar do psiquismo e do “inconsciente” 7. Conclusões 10. R. A Dinâmica Psíquica como Luta de Motivos Ideológicos e não de Forças Naturais 8. O Conteúdo da Consciência como Ideologia 9. Projeção do presente consciente para um passado inconsciente 8.2.3. Fridman 10. Projeção da dinâmica social para a alma individual 8.4.4.5.5.4. O freudismo e a biologia 8.1.6.PARTE III: CRÍTICA DO FREUDISMO 7.6.6. Luria 10. Crítica às Apologias Marxistas do Freudismo 10. A “dinâmica psíquica” como luta de motivos 8.1. Conclusões 67 67 .1. O ponto de vista de A.1.0 Freudismo como Variedade da Psicologia Subjetiva 7.3.0 freudismo reflexologizado de A. 68 70 71 73 75 75 76 78 81 82 83 85 85 87 88 89 90 91 93 93 94 99 103 105 109 .3. O sexual 9. A novidade do freudismo 8.Osfatoseateoria 8.

quer pela crítica às vezes radical da obra de Freud. M Vigotski logo percebe esse quase-reducionismo ideológico e o supera. Assinado por seu discípulo V. caldo de cultura propício toda sorte de reducionismos. o atendimento psicológico é da competência dos psiquiatras. capaz de responder aos desafio lançados pela nova realidade e dedicar-se à análise de questões práticas de um país arruinado pelas guerras. o que pode sugerir uma obra a quatro mãos. e tudo é definido em função da classe a que o indivíduo está ligado: psicologia de classe. regras morais. sob a qual ele interage com outras formas de discurso e ganha a feição de consciência não-oficial. só em 1912 aparece na Rússia a primeira instituição oficial especialmente dedicada a temas psicológicos. no prazo mais curto possível uma nova ciência de base objetiva. Psicológico e filosófico na IJRSS já está profundamente marcado por uma ideologia que condiciona todo o comportamento social do homem exclusivamente à estrutura de classe da sociedade. Publicado em 1927. Apesar da herança teórica de Ivan Mikháilovitch Siétcheno (1829-1905) que. Volochínov. A Revolução de Outubro põe na ordem do dia a tarefa d substituir a velha psicologia introspectiva da consciência individual baseada no idealismo filosófico. a nova psicologia devia partir da filosofia do materialismo dialético e histórico e converter-se numa psicologia marxista* . fato amplamente registrado pela literatura russa. que à época em que Bakhtin escreve O Freudismo está em franca atividade na construção de uma psicologia de base marxista na URSS. Todos os reflexos condicionados do homem são determinados pelas influências do meio.0 livro coincide com a época de maior radicalização ideológica na história da ciência. A essa altura. como se vê. 1926). e o comportamento social do homem é determinado pelo comportamento da sua classe. Para P. A ênfase ideológica abrange todos os campos do pensamento. a própria medula do pensamento bakhtiniano — o método dialógico. É isto que permite deslocar o conceito freudiano de inconsciente do enfoque meramente psicanalítico para uma abordagem mais ampla à luz de uma filosofia da linguagem. a pertença a uma classe como fator determinante das formas de pensar e agir toma-se axioma.. valores e conceitos. também psicólogo. por exemplo. arte de classe. é natural que todos os vínculos sejam marcado por esse colorido de classe do meio. meio social é de classe. Tchelpánov funda o Instituto de Psicologia anexo à Universidade Moscou. tornando lícito falar de comportamento de classe. gostos estéticos et As normas são totalmente impregnadas pela estrutura social que a gerou e servem como organização de classe da produção. um d maiores psicólogos do século XX. Determina todo o comportamento do homem. o livro se distingue das outras obras de Bakhtin quer pelo objeto de enfoque. o pensamento social.Freud à Luz de uma Filosofia da Linguagem O Freudismo é um livro ímpar no conjunto da obra de Mikhail Bakhtin. Até então. E à medida que. sem nenhuma aplicação prática. todo indivíduo é forçosamente um indivíduo dessa ou daquela classe. Mas no conjunto da discussão e da análise aflora o núcleo central. Toda essa orquestração obedece a uma única batuta a ideologia — que tudo contagia e tudo determina. e criar. P. na sociedade de classes o conceito de homem é um conceito abstrato vazio. 1921). Liév Vigotski. em sua estrutura. apoiado no monismo materialista e no determinismo fundara a fisiologia russa e lançara as bases de uma psicologia objectiva determinista. Psicologia na Rússia é atividade exclusiva de alguns acadêmicos. Daí vêm termos como psicologia d classe e até fisiologia de classe (Psicologia Pedagógica. filosofia de classe. N. no romance O Duplo d Dostoiévski. entende a ideologia como estímulos sociais estabelecidos no processo do desenvolvimento histórico e consolidados em forma de normas jurídicas. soma-se a extrema fragilidade da psicologia russa. quando o professor 1. Como observa o professo Leóntiev. Ao clima de exacerbação ideológica. política de classe e até fisiologia de classe. que faz a discussão de um objeto específico sair da especificidade fechada para interagir com um universo muito mais amplo de vozes. Blonski (Ensaio de Psicologia Cientifica.

teoria evolucionista) e o empenho de criar uma psicologia como ciência objetiva. Teoria e Método em Psicologia. fundada por Vladímir Mikháilovitch Biékhteriev (1867. A reatologia. A psicotécnica se dedica a estudar a atividade prática dos homens no aspecto aplicado concreto e tem ampla difusão na URSS. tem como uma de suas metas reformular o conceito de reflexo e ampliá-lo à categoria de reação (resposta). na classe e através da classe”. vendo neles um firme ponto de apoio para as conclusões científicas. Depois de afirmar que toda a dinâmica psíquica de Freud é dada numa interpretação ideológica da consciência”. por outro é incapaz de confeccionar um programa à altura dessas tarefas. G. como acontecia na Europa Ocidental. Para ela. que “o inconsciente é apenas um dos motivos dessa consciência. Se por um lado compreende a magnitude das tarefas que tem pela frente a nova psicologia e as formula com clareza. combinada a uma original filosofia da linguagem. mas é um marxismo a meu ver centrado especificamente e Marx. para essa corrente. burguês ou proletário”. artificial. atravessa toda a discussão da obra freudiana por Bakhtin. na Rússia. é um indivíduo histórica e socialmente definido e só a sua localização histórico e social “lhe determina o conteúdo da criação da vida e da cultura” E Bakhtin fecha sua argumentação com uma citação de Marx. cai no impasse e seu criador a ela renuncia. N. Vigoski. é através da classe que o indivíduo se define. ao contrário do conceito de ideologia como visão científica de uma classe formulada por Lênin e transformada posteriormente em axioma. que considera “o fio condutor com o auxílio do qual podemos adentrar o labirinto da psicanálise”. as várias formas de discurso como expressão do meio social e não de um indivíduo isolado. Guellenstein e L. fundada por Konstantin Nikoláievitch Kornílov (1879-1957). e assumindo uma posição consentânea com determinados aspectos da ideologia que pouco a pouco vai se firmando como dominante. segundo ele. Seus representantes mais conhecidos são 8. usando uma forma sumamente didática de persuasão do leitor para o acerto do seu enfoque e a importância do marxismo como método de análise. São Paulo. É assim que ele vê o componente verbal do comportamento humano determinado inteiramente por fatores sociais objetivos. logo.* A. de uma tradição psicológica consubstanciada em escolas. que influencia todas as correntes. Lcóntiev. marca registrada da época. Percebe-se um Bakhtin tentando tensamente firmar posição no debate. 1996. o comportamento é um sistema de reflexos. Vigoski”.1927) ainda antes da Revolução. ao mesmo tempo. Martins Fontes. fenômeno observado e criticado por Bakhtin em O Freudismo A ênfase no caráter de classe e na ideologia. O que caracteriza as diversas correntes psicológicas na jovem Rússia soviética é a forte ênfase biológica e fisiológica. todas essas correntes (cabendo exceção apenas a Pávlov e seus seguidores mais mediatos) são marcadas por uma notória fragilidade teórica e estrutural. que Bakhtin analisa a obra de Freud. imaginando realizar a síntese das psicologias subjetiva (empírica) e objetiva (reflexologia). A reflexologia. apontando-lhe condicionamento biológico que às vezes chegam a reducionismo e vendo-a. p. de quem ele assimila a ideologia como falsa consciência. que. Bakhtin faz uma formulação bem de acordo com o seu método dialógico de raciocínio: . como um grande conglomerado ideológico. pois ele nasce ‘fazendeiro ou camponês. que redundou numa quase caricatura da psicanálise. dos quais se constitui a atividade tanto psíquica quanto social dos homens. À luz dessas tarefas. que aí “ouvimos apenas a voz parcial da consciência subjetiva”. Trata-se de uma síntese formal. o que talvez se possa atribuir à ausência. assume depois desta caráter mais radical. com laboratórios instalados em muitas cidades e a preparação de psicotécnicos. Chega-se a fundar uma Sociedade Pan-soviética de psicotécnicos e psicologia aplicada e a editar-se a revista A Psicotécnica Soviética. Nesse aspecto cabe papel decisivo à doutrina pavloviana da atividade nervosa superior. A reatologia é uma combinação eclética de princípios marxistas com algumas idéias mecanicistas e energeticistas. em L. Essa lacuna terá contribuído para a aceitação acrítica da obra de Freud. decorrente da sua associação imediata com as ciências naturais (biologia. Seu ponto de apoio é o marxismo. 5. A reflexologia procura aplicar métodos exclusivamente objetivos. discutindo com a filosofia e a psicologia de então — marcadas pelo viés biológico e pela influência ainda forte da tradição subjetivista. as respostas verbalizadas do homem controladas pelo meio social. Shpilrein. N. Em linhas gerais. surgem três correntes que por largo tempo vão dominar na psicologia soviética: a psicologia do trabalho ou psicotécnica a reflexologia e a reatologia. 428. Ao criticar o excesso de biologismo na psicanálise freudiana e negar a existência de um indivíduo biológico abstrato. todos os processos de pensamento se manifestam objetivamente e têm como ponto de partida os reflexos que ocorrem com a participação do cérebro. endossando a tese de que a essência humana “é o conjunto das relações sociais em sua efetividade”. fisiologia. ideológico da época. afirma — e sublinha a afirmação — que “o indivíduo humano só se torna historicamente real e cultura/mente produtivo como parte do todo social. É dessa perspectiva histórico-sociológica. se manifestam também n psicanálise freudiana —. um dos modos de interpretação ideológica do comportamento”. Artigo de Introdução sobre o Trabalho Criativo de L. 5. Portanto. que iniciou a reconstrução da psicologia russa já na época soviética com base na metodologia marxista.

Mas se Bakhtin. ao analisar a prática psicanalítica. mas fatos objetivamente sociológicos. O médico também é uma instância do diálogo que procura não só antecipar-se à réplica do outro. afirmando que os conflitos referidos por Freud no comportamento humano não são fatos biológicos. o mesmo não ocorre com epígonos russos do mestre de Viena como B. No aspecto metodológico. Daí a sua crítica ao emprego indiscriminado do termo reflexo condicionado aplicado ao homem e à sua consciência. o médico não pode fugir à realidade de que a sessão de psicanálise é um pequeno acontecimento social imediato e as enunciações do paciente refletem a dinâmica social da relação entre os dois falantes. Isto é muito característico do processo dialógico e vamos encontrar similares em Problemas da Poética de Dostoiévski. 4 crítica a esse reducionismo ele alia o endosso à tese marxista da origem social do psiquismo. Mas na ótica de Bakhtin. Fridman e A. Se mostrar reducionismos biológicos e antihistoricismo na psicanálise e questiona o complexo de Édipo pelo fato de este partir do passado para explicar o presente. ele não vê motivo para falar de complexo de Édipo. empenha-se em fazê-lo aceitar o ponto de vista sobre a doença e seus sintomas (grifos meus)”. A voz do paciente é a voz que reage ao discurso do outro. traduzindo. “O médico. D. e visto sob o prisma do discurso. É a partir dessa concepção de ideologia como falsa consciência que Bakhtin analisa tanto a obra de Freud quando a sua apropriação canhestra por seus epígonos soviéticos. mesmo usando esse “discurso autoritário”. Porque aí se transfere para o passado pré-consciente da criança o conteúdo ideológico e valoral que caracteriza apenas o presente adulto. Assim. ideologia essa que é a express5o da consciência de classe. particularmente no capítulo dedicado ao discurso em Dostoiévski. nem acreditar nela sob palavra. que ele vê fundado “sobre formações socioeconômicas complexas” e ao mesmo tempo necessitando de “material ideológico específico” que se corporifica nas formas de discurso. Mas não se pode tomar como verdade nenhuma ideologia. fundada numa interpretação sumamente ousada e original dos fatos. B. Tudo em Bakhtin é laboratorial. Sua interpretação da prática psicanalítica e do conceito freudiano de inconsciente revela um teórico em diálogo permanente com seu objeto de reflexão —o discurso — e em processo de construção sua própria teoria. Luria. sua preocupação é saber até que ponto um método retrospectivo de restabelecimento de experiências emocionais da tenra infância pode ser eficaz na elucidação de comportamentos da fase adulta. surge uma categoria de discurso que Bakhtin só define mais tarde. os quais critica de forma contundente pela interpretação precipitada. Mas na crítica àqueles autores ele visa mais às deformações da obra de Freud. em 1934-1935 (veja-se o ensaio “O Discurso no Romance”**). porque no conjunto do livro verifica-se um movimento pendurar em que ele oscila entre a simpatia pelo freudismo e as motivações ideológicas da sua crítica. ele mostra que as sessões de psicanálise são uma luta entre paciente e médico. que sofreram uma refração ideológica na interação do homem com o meio. na qual o paciente procura esconder do médico algumas experiências emocionais e acontecimentos de sua vida e lhe impor seu ponto de vista sobre as causas de tais experiências e de sua doença. pelo menos enquanto repetição do enredo da tragédia de Édipo na vida da criança. nesse diálogo cruzam-se duas consciências. correndo-se o risco de perder o nexo entre as fases infantil e adulta. Condena nesses pesquisadores o reducionismo biológico. B. duas avaliações. A. Trata-se da categoria “discurso autoritário”. Aqui. dois pontos de vista. e se nos impõe independentemente de ser interiormente persuasivo ou não: já se nos apresenta antecipadamente vinculado à autoridade do emissor. a dramaticidade que caracteriza a teoria de . Bakhtin enfatiza sempre o lado ideológico de tudo.O que é a consciência de um homem isolado senão a ideologia do seu comportamento? Nesse sentido podemos perfeitamente compartia à ideologia na própria acepç5o do termo. no caso dado o médico na condição de representante de uma instituição científica — a medicina—. Sua crítica ao freudismo é às vezes dura mas nunca foge ao respeito epistêmico que a doutrina merece. seja individual ou de classe. queimando etapas intermedianas. R. sua visão geral da teoria freudiana é de respeito e reconhecimento do seu real valor. Nesse sentido Bakhtin está antecipando em décadas o mesmo argumento desenvolvido por Jean-Pierre Vernant e Pierre Vidal-Naquet contra o complexo de Édipo em Mito e Tragédia na Grécia Antiga*. Zalkind. prospectivo. uma teoria que não cessa de assombrar pelo que tem de surpreendente e paradoxal”. visa a conseguir revelações do paciente. apesar de algumas críticas duras e taxativas à psicanálise. além do dialogismo como luta e interação eu/outro. que ele vê sob dois aspectos: um metodológico e um cultural. mas impor o seu ponto de vista de forma mais taxativa. Assim acontece com a teoria freudiana do complexo de Edipo. No aspecto cultural. Bakhtin revela sua originalidade de Pensador e sua excepcional capacidade de antecipar questões essenciais da cultura. procura preservar sua autoridade de médico. ao criticar os resvalos reducionistas em Freud ou em seus epígonos russos. A ideologia mente para aquele que não é capaz de penetrar no jogo de forças materiais objetivas que se esconde por trás dela. Bikhovski. dispensa a Freud o respeito que este merece como cientista. por sua vez. daquele discurso que se impõe pela autoridade de quem o emite. tenta antecipar-lhe as definições. porque na interpretação psicanalítica não se verifica exatamente o que dá sentido profundo a essa tragédia que horroriza e comove. mecanicista e caricatural da obra freudiana. como mostra a passagem seguinte: “O freudismo é uma teoria grandiosa. na medida em que se interpreta o passado do ponto de vista do presente. Portanto. Na análise da obra de Freud. assim. manter o seu ponto de vista sobre si mesmo.

Bras. na qual “nenhum enunciado verbalizado pode ser atribuído exclusivamente a quem o enunciou: é produto da interação entre falantes” e. naquele outro que completa um determinado eu falante que. [. São Paulo. que se desmembra em discursos. deve-se a uma engenhosa teoria do convívio social que Bakhtin desenvolve paralelamente. Assim. acabam implodindo a ideologia oficial. Em O Freudismo. tradução de Jacó Guinsburg.) é a colocação de si mesmo sob determinada norma social. Essa ênfase no outro é o leitmotiv de toda a filosofia da linguagem de Bakhtin.. Aí Bakhtin retoma o tema da interação eu/outro e lhe dá o acabamento definitivo. mais tarde retomada.. ampliada e aprofundada por Luria. revela grandes afinidades com Freud na interpretação da criação artística como sublimação. e vamos encontrá-lo retomado em “Para uma Reformulação do o Livro sobre Dostoiévski”. O capítulo “A Educação Estética”. e o resultado é um texto primoroso em matéria de filosofia da linguagem. Comentando fato semelhante. São Paulo. interior e exterior e difere da ideologia oficial. que seria publicado mais tarde mas é produto de debates e aulas públicas proferidas em que ele critica todos os autores criticados por Bakhtin em seu livro e pelos mesmos motivos. difere da dialética marxista e engloba a obra de Freud. É dessa perspectiva que ele articula a interação eu/outro como uma forma de comunicação que redunda na consciência de classe. da juventude à maturidade. e comunicação. Quando Bakhtin escreve O Freudismo Vigotskí já é um psicólogo bastante conhecido e vem desenvolvendo um notável trabalho de construção de uma psicologia de base marxista. de interagir com o outro. que Bakhtin desenvolve de uma . “Ao tomar consciência de mim mesmo eu tento como que olhar para mim pelos olhos de outra pessoa”. Daí a necessidade do outro. fora do convívio social. Katerine Clark e Michael Holquist* já o situam em A Arquitetônica da Responsabilidade. de todo o contexto social da anunciação. Bakhtin escreve: “A falha principal da posição de Zalkind é a seguinte: não se pode reflexologizar outra teoria (como em geral não se pode traduzir uma teoria para a linguagem de outra)”. Em 1927. as idéias etc. de Psicologia Pedagógica (1926)*. Perspectiva. por apresentar mais sensibilidade e mobilidade. * ** Ver Mikhail Bakhtin. Perspectiva. Não consta na edição brasileira da editora Martins Fontes. Nessa teoria do convívio social a ênfase recai naturalmente no ser social como fonte do discurso. Em Questões de Literatura e Estética. está condenado a um isolamento mudo. 1999. Há no livro uma coisa no mínimo curiosa: a ausência de qualquer referência a Vigotski. as teorias. por assim dizer. obra bem anterior a O Freudismo. Hucitec. os fatos. Por essa razão ela é o receptáculo das contradições que. A teoria do discurso interior que Bakhtin apresenta em O Freudismo e continuará a desenvolver já se encontra em Psicologia Pedagógica. pp. o tema da interação eu/outro de O Freudismo continua em Problemas da Poética de Dostoiévski e vai até os últimos anos de vida do seu criador. em certo sentido. 209-218. ano da publicação do livro O Freudismo. Comentando a transformação que Zalkind faz da psicanálise em reflexologia. São Paulo. Trata-se de uma dialética de certas forças materiais reais. a ênfase na socialização do “eu” — “Toda motivação do comportamento de um indivíduo (..Freud. No texto de 1963 o mesmo tema é aprofundado já sem aqueles condicionamentos ideológicos imediatos. a socialização de si mesmo e do seu ato” — é um diálogo com os condicionamentos ideológicos da época. da minha classe” e a “autoconsciência acaba sempre levando à consciência de classe”. Vigotski escreve “O Significado Histórico da Crise da Psicologia”. em . que mais tarde integrou o livro A Estética da Criação Verbal**. e algumas críticas que este faz a Freud também estão em Vigotski. 1998.. é. Vigotski escreve na obra acima referida: “A primeira tentativa de assimilar a uma escola qualquer os produtos científicos de outra consiste em transferir diretamente as leis. de completar-se no outro. São muitos os pontos de vista comuns aos dois. Outra marca da originalidade de Bakhtin como pensador é uma engenhosa visão da dialética como fato da cultura. atingido certo limite.perspectiva marxista muito pessoal. Sua leitura de Freud difere completamente da leitura dos psicólogos criticados por Bakhtin e se distingue por aguda criatividade. Bakhtin desenvolve uma sutil modalidade de ideologia sob a denominação de ideologia do cotidiano.j Geralmente o que resulta é um conglomerado de teorias científicas e fatos embutidos com horrível arbitrariedade dentro dos limites da idéia que os une”. texto escrito em 1962-1963 e publicado em 1976. uma vez que esse outro” vem a ser o “representante do meu grupo social. ideologicamente refratada e deformada na cabeça do homem. será ampliada por Vigotski em Pensamento e Linguagem.. em termos mais amplos. que abrange todos os campos da vida humana. Essa interpretação da sessão de psicanálise * ** Trad. Entre seu pensamento e o de Bakhtin há grandes afinidades. entre outras obras.

Paulo Bezerra . uniformidade no emprego dos conceitos criados por Freud. volume XXXIX — Freud. Esse volume reúne os títulos das obras e as categorias do pensamento de Freud. Após constatar que não há. São Paulo. PavloV — de Os Pensadores. Qualquer que seja a leitura que dele se faça. político e ideológico em que foi escrito. Rio de Janeiro. Para esta tradução consultei as seguintes obras: volume XXIV da Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. que leu Freud diretamente do alemão. de Renato Mezan. Devo um agradecimento especial a Minam Schnaiderman. Rio de Janeiro. O Freudismo chega finalmente ao público brasileiro. terá ela de levar em conta o contexto científico. entre essas obras. São muitas as convergências teóricas entre Bakhtin e Vigotski. Perspectiva. resolvi manter a terminologia usada por Bakhtin. social. Freud: A Trama dos Conceitos. de Elisabeth Roudinesco e Michel Plon. Abril Cultural. ed. que me esclareceu questões importantes sobre as categorias do pensamento de Freud. Editora Imago.Linguagem e Consciência (1979). trazendo uma contribuição essencial para o conjunto da obra de Bakhtin. traduzidas do alemão e do inglês sob a direção de Jayme Salomão. * A sair cm tradução nossa pela editora Martins Fontes. São Paulo. Jorge Zahar. Dicionário de Psicanálise.

Parte 1 O Freudismo e as Correntes Atuais do Pensamento em Filosofia e Psicologia .

1895.. a psicanálise há muito superou grandemente todas as correntes ideológicas de sua atuaIidade: neste sentido. Esse artigo foi publicado no livro Der Breuer und Dr Freud: Studien über Hysterj1. XXIV. que trazia um enfoque novo de todos os aspectos da vida psíquica do homem. Em seguida começava o trabalho de aplicação dessa teoria Psicológica à explicação dos diversos campos da criação cultural — da arte. O sucesso da psicanálise nos amplos círculos da intelectualidade européia começou ainda antes da guerra.1. publicaram em uma revista especializada de psiquiatria um pequeno artigo’. no primeiro decênio de sua existência a psicanálise já criava sua própria teoria psicológica universal. o conjunto de todas as relações sociais. MARX 1. por último. Freud e Breuer. À quarta edição é de 1922. 4 psicológicas e psiquiátrico filosóficas universais da3. Correntes da moda de envergadura internacional. Assim a psicanálise elaborou sua própria filosofia da cultura. só a antroposofia (o steinerianismo) pode concorrer com ela.psicanálise pouco a pouco foram empanando o núcleo primário e genuinamente da doutrina teorias psícológicas e filosóficas universais da psicanálise pouco a pouco foram empanando o núcleo primário e genuinamente psiquiátrico da doutrina. Rio de Janeiro. e. O FREUDISMO E A ATUALIDADE Em 1893. dois médicos vienenses. K. O método de tratamento da histeria proposto por Freud e Breuer deveria ser apenas um Complemento de outros métodos aplicados na medicina. Pela amplitude dessa influência nos círculos burgueses e intelectuais. doT. A caminhada relativamente curta e muito difícil (até o primeiro decênio do nosso século) que levou a psicanálise à “conquista da Europa” mostra que não se trata de “moda do dia” fugaz e superficial como o spenglerianism0 e sim de uma expressão mais profunda certos aspectos essenciais da realidade burguesa européia. Essa “comunicação prévia” foi o embrião a partir do qual se desenvolveu a psicanálise. Vindo à luz como um modesto método psiquiátrico3 de base teórica precariamente desenvolvida. dos fenômenos da vida social e política. em sua realidade. * Os títulos em português se baseiam na Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicos Completas de Sigmund Freud.. “Mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos”* (comunicação prévia). Essas 1. vol. como foram em sua época o bergsonianismo e o nitzscheanismo nem seus tempos de maior sucesso tiveram um número tão grande de: tos e “interessados” como o freudismo.) 2. (N. mas no pós-guerra sobretudo nos últimos anos. sua influência foi ganhando proporções inéditas em todos os países da Europa e nos Estados Unidos. Por isso nenhuma pessoa que deseje compreender em profundidade a espiritual da Europa atual pode .A essência do homem não é algo abstrato. Auflage. próprio de um indivíduo isolado. uma das correntes ideológicas mais populares da Europa atual. publicada pela editora Imago. É. da religião. em que abordam o novo método de tratamento da histeria por meio da hipnose.

inacessível ao amplo público. sempre se pode destacar um motivo central. procuramos destacar esse motivo ideológico básico do freudismo e fazer dele uma avaliação prévia. Neste prefácio. nada de novo. Tudo o mais são apenas sons . Daí a necessidade de destacar-lhe o motivo ideológico central. Para tanto. quando político. tentamos oferecer ao leitor a mesma orientação crítica para a percepção do aspecto puramente psicológico dessa doutrina. que determina o êxito de tal corrente. Seria absurdo supor que todas essas massas de admiradores de Freud fossem pacientes de clínicas de psiquiatria sequiosos de cura. 5 que eles descobriram Seria ingênuo pensar que Freud conseguiu conquistar a atenção dos amplos círculos para questões específicas da psiquiatria. de seus programas e ações políticas. que não seja patrimônio de um círculo estreito de especialistas. Pondo-o a par da luta das diferentes correntes na psicologia atual. e inteiramente determinado pelos destinos do seu desejo sexual e por eles. Com isso. para que tenha uma noção mais exata da essência ideológica e do valor dessa doutrina. sem pressa de expor a teoria propriamente dita de Freud. Antes de introduzir o leitor no labirinto bastante complexo e às vezes envolvente da doutrina psicanalítica. Em qualquer corrente ideológica. É claro que a atração pela psicanálise também não reside no interesse prático pelos êxitos do método terapêutico. convincente e muito eloqüente em si mesmo. Não há dúvida de que Freud não conseguiu tocar no âmago do burguês atual com os aspectos especificamente científico ou estritamente prático da sua doutrina. antecipando um pouco o que vamos expor. Esse motivo central. definimos o contexto em que ele deve interpretar e avaliar as afirmações especificamente psicológicas do freudismo. —. isto é. Para começar. A segunda parte do nosso livro retoma os temas Críticos indicados nos dois primeiros capítulos. não conseguem apreender os detalhes especiais e as nuanças de uma doutrina —. evidentemente. sendo talvez a sua expressão mais nítida e ousada. MOTIVO IDEOLÓGICO DO FREUDISMO Qual é o motivo ideológico central do freudismo? O destino do homem. goza de relativa autonomia em relação ao complexo dispositivo da sua fundamentação científica. uma exposição sistemática da psicanálise. quais são as outras correntes filosóficas que dominaram ou dominam as mentes européias em cujo ambiente ele deve interpretar a psicanálise. absolutamente.2. precisamos lhe oferecer uma firme orientação crítica. uma dominante ideológica de toda uma teoria. já sem interrompê-la Com observações críticas. quando ele é artista. inserindo-se plenamente na linha mestra de todas as aspirações ideológicas da filosofia burguesa do primeiro quartel do século XX. partimos das seguintes considerações. fazemos. no terceiro capítulo. todo o conteúdo da sua vida e criação —conteúdo da sua arte. Por isso podemos destacá-lo na forma simples e rudimentar sem medo de cometer injustiça. Depois de armar criticamente o leitor e preparar a perspectiva histórica para a recepção desse fenômeno novo. No segundo capítulo.mentais pobres. mas abranja massas de leitores amplas e diversas — as quais. das suas teorias científico quando cientista. Veremos que esse motivo não tem. devemos mostrar-lhe em que contexto filosófico. 6 1.

a habitual censura “pansexualismo”. por seu sentido ideológico. e os três acontecimentos fundamentais de sua vida animal. Quando essa ou aquela classe social está em estágio de desintegração e é forçada a abandonar a arena da história. do T. Destaca-se de forma abstrata o não-social. a concorrer Com os acontecimentos históricos. e exilar-se no aconchego orgânico do lado animal da vida.— nascimento. sua ideologia começa a repetir obsessivamente e apresentar aos quatro ventos novos variantes para um tema: o homem é antes de tudo um animal. o não-histórico no homem e se o anuncia como medida e critério de todo o social e o histórico. Em latim tio Original russo. Repete-se constantemente em todas as épocas de desenvolvimento da humanidade. no Satiricon. O autor salienta apenas o motivo central do freudismo. em si velho. Por isso o motivo. Ë como se os homens dessas épocas desejassem fugir do clima da história. (Nota da Redação) 7 inocente. O motivo é velho. acabou ganhando coloração nova. tomado incômodo e frio para eles. então. proposto pela esfinge a Édipo. A ideologia de tais épocas transfere o centro da gravidade para o organismo biológico isolado. O medo da história. da “resistência e do recalque são elementos igualmete inalienáveis do freudismo”. Aqui achamos importante apenas observar que ambos os componentes do motivo ideológico central do freudismo — o sexo e a idade —foram renovados e enriquecidos com um novo conteúdo. p. Assim aconteceu na época da decadência dos Estados gregos. na época da desintegração do regime da nobreza feudal antes da grande Revolução Francesa. por exemplo. absolutamente. particular O Priinad0 do biológico e do sexual no homem — eis os traços gerais de todos esses fenômenos ideológicas. A psicanálise descobriu muita coisa inesperada também na relação entre sexualidade e idade. coitus* e morte — começam. Até que ponto ela tem fundamento é Outra questão de que trataremos mais tarde. o estoicismo. encontrou em Freud uma solução surpreendente e original. 3) deixará o leitor convencido de que as doutrinas da existência de processos psíquicos inconscientes. a literatura da decadência romana (por exemplo. toma-se uma espécie de sucedâneo da história.) * .wissenschaften. em fenômenos como o epicurismo. O enigma das idades do homem. 614. A história do desejo sexual do homem começa no momento do seu nascimento. de Petrônio) e a sabedoria cética dos aristocratas franceses dos séculos XVl-XVII. artigo de Freud em Handworterb. e do ponto de vista dessa “revelação” começa uma nova apreciação de todos os valores do mundo e da história. E. no esquema criança ingênua —jovem amadurecido — velho 5. Cf. A exposição Sb quente (cap. não se deve perder de vista esse sentido novo e excepcionalmente ampliado do termo “sexual” em Freud. ainda que com diferentes nuanças e em diferentes tons emocionais. (N. nas quais se dá a mudança dos grupos e classes sociais que criam a história. O motivo da onipotência e da sabedoria da natureza (e acima de tudo da natureza no homem — dos seus desejos biológicos) e da impotência da futilidade ociosa e inútil da história ecoa igualmente para nós. da decadência do Império Romano. der Sexual. 1926. a supervalorização dos bens da vida privada. É o leltmotiv das crises e da decadência. passa por uma longa série períodos de coloração original no desenvolvimento e não cabe.quando se avalia a psicanálise: quando se lhe faz. se ignora inteiramente a segunda parte da famosa fórmula de Aristóteles (“o homem é um animal social”).

Filosofia da Vida.aos quatro ventos com todos os as prefixos e sufixos possíveis os verbos viver . Gomperz procura reduzir todas as categorias do pensamento — causalidade. Aspiração a interpretar história e a c cultura directamente a partir da natureza. como Bergson. tornou-se um dos expoentes mais badalados das tendências biológicas no século XX. 9 criação cultural. uma de suas obras principais. “habituar-se” etc. vivenciar erradicar . No livro há um volume bastante grande de material informativo. 3. Zimmel. Em A Lei individual. que até hoje continua sendo um dos filósofos europeus mais populares. evitando a economia. a unidade orgânica fechada da vida individual é o critério supremo de todos os valores culturais. — aos sentimentos. As formas superiores de pensamento (em termos precisos. RI Rickert. kantiano em seus primeiros trabalhos. Tentativa de reduzir ao mínimo seu papel na criação cultural. Polemizando com Kant. objeto etc. que anima agradavelmente o objeto congelado n frio do conhecimento puro de Kant. filósofo vienense compatriota de Freud. Zimmel procura interpretar a lei ética como lei do desenvolvimento individual da personalidade. 1922. o conhecimento filosófico intuitivo) e a criação artística são congêneres do instinto que exprime da forma mais completa a unidade do fluxo vital. cd. a vida biologicamente interpretada ocupa o centro da teoria filosófica. H.os pragmatistas. que são heterogêneos e muitos sentidos divergem entre si. é inadmissível. tentando deduzir daí todas as formas da 6. sistema filosófico inacabado Heinrich Gomperz. Spengler. Os pragmatistas procuram reduzir todas as modalidades de criação cultural a processos biológicos de adaptação. . que para a lei ética exigia formas de universalidade (imperativo categórico). coloca no centro de toda a sua teoria filosófica o Conceito de Alan vital único. Zimmel desenvolve o seu conceito de lei ética individual. Para ele. mas deduz as suas formas imediatamente da estrutura biológica do organismo Georg Zimnael. que morreu recentemente. Scheler. Bergson desdenha o intelecto que cria as ciências positivas. 2. às reações emocionais do organismo humano diante . tentativa de substituir todas as categorias socioeconômicas por categorias psicossubjetivas ou biológicas. utilidade etc9. Assim. partidários do recém-falecido William James. pai do pragmatismo. mas o ponto de vista do autor — idealista neokantiano — é . que deve regular não a relação entre os homens na sociedade mas sim a relação de forças e desejos dentro de um organismo fechado e auto-suficiente8. todos eles se unem basicamente em torno de três motivos: 1. Quais são os traços básicos dessa filosofia nossa contemporânea Todos os pensadores da atualidade. Driesch. Cf.8 Os termos biológicos de diversos processos orgânicos inundaram literalmente te a visão de mundo: passouse a arranjar para tudo uma metáfora biológica. Daí a crítica ao kantismo como filosofia da consciência. Só o que pode familiarizar-se com essa unidade auto-suficiente tem sentido e importância. desconfiança na consciência. Academia. Bergson. A tendência biológica assume formas ainda mais grosseiras nos pragmatistas. A unidade orgânica isolada é proclamada valor supremo critério da filosofia. Uma proximidade original com o freudismo se revela no “patempirismo”. Gomperz .

Kiev. O indivíduo humano só se torna historicamente real e culturalmente produtivo como parte do todo social. Halle. “Marx Scheller e o Mo mento Operário”. 1913. que em tradução literal grego significa “o que tem objetivo em si”). A respeito da influência de Weiininger sobre ele. 1 Há uma nova edição em um volume. na classe e através da classe. 13. Por último. mas ele não entra na história. Dedicamos um capítulo especial a Scheller no livro que estamos preparando sob o título O Pensamento Filosófico do Ocidente Atual. 1. um dos criadores da morfologia experimental e hoje professor catedrático de filosofia. cd. Ordnungsleh (1926) e Wirklichkeitslehre (1924). em Sob o Signo de Marx. bastante modificada. o. Lenotgiz. v. Em russo foi publicado o livro de Driesch Vitalismo. 1. 7-8. A enteléquia é uma espécie de quintessência da unidade orgânica e da utilidade. de 1921. 12. AVALIAÇÃO PREVIA Como devemos tratar o tema central da filosofia dos nossos dias? Tem fundamento a tentativa de deduzir imediatamente toda a criação cultural das raízes biológicas do organismo humano? 11. cf. Destacamos entre as obras de Scheller: Phenomelogie und Theorie Sympathiegefúhle. N. não existe o indivíduo biológico abstrato. O “sexual” em Freud é o pólo extremo do biologismo em voga. Não há trabalhos russos sobre Scheller. 1-11. aquele indivíduo biológico que se tomou alfa e ômega da ideologia atual. Orienta todas as manifestações do organismo.4. 171-175. com exceção do artigo de Bammel. Entre os trabalhos russos sobre ei cf. conseqüentemente. Não existe o homem fora da sociedade. “O neovitalismo atual”. A principal obra de Driesch é Pfllosophie des Organischen. sua História e Sistema (Moscou.Chipóvnik. 1915). E necessário . Assim. pp. Berlim. Scheller dedica várias p nas à análise e apreciação do freudismo. O livro dele Untergang des abendlandes. teve a primeira parte 11 Efetivamente. 1920. cabe lembrar a tentativa de Spengler — que teve grande repercussão. famoso biólogo neovitalista. Anschauungslehre. a aspiração de encontrar um mundo além de tudo o que é histórico e social procura desse mundo exatamente nas profundezas do orgânico penetram todas as teorias da filosofia atual. Faz coros em uníssono com todos os motivos principais filosofia burguesa atual. em Tcheloviék i priroda (O Homem e a Natureza ). tanto as funções biológicas inferior quanto a sua atividade cultural superior’2. Um medo singular perante a história. O empenho em subordinar a filosofia às tarefas e aos métodos uma ciência particular — a biologia — manifesta-se de modo mais coerente nos trabalhos filosóficos de Hans Driesch. 1-2. vemos que o motivo biológico central do freudismo ti está nada só. constituindo-se em sintoma desintegração e da decadência do mundo burguês. mas já anda meio esquecida — no sentido de aplicar categorias biológicas à interpretação do processo histórico’3. O conceito basilar do seu sistema enteléquia (termo criado por Aristóteles. fora das condições socioeconômicas objetivas. No primeiro dos livros mencionados. reunindo e condensando numa imagem compacta e picante todos momentos particulares do anti-historicismo atual. 1-11. 1926. Trata-se de uma abstração simplória. Para entrar na história é pouco nascer fisicamente: assim nasce o animal. 1926. 10 Scheller deduz todas as ciências positivas e empíricas das formas d adaptação do organismo biológico ao mundo”. Vom Ewigen im Menschen.

Os Pensadores V. XX. K. Duas Tendências da Psicologia Atual 2. 1926. A Filosofia e o Marxismo (col. 1974. na psicanálise há um sadio e valioso germe científico: sua teoria psicológica. evidentemente.Primeiro volume traduzida para o russo com o título Causalidade e Destino (ed. Academia 1924) Cf. Os . por trás de um especial dispositivo científico particular. GIZ. Abril Cultural. Marx “Teses contra Feuerbach”. 58. e o artigo “Morte da Europa ou Triunfo do Imperialismo?”.1. 14. uma crítica marxista de Spengler em Diebórin. ed. na teoria psicológica. existe uma opinião bastante difundida1 segundo a qual. a despeito de ser falho e inaceitável o motivo ideológico central. Esses motivos penetram da cabeça aos pés todas as teorias dos psicanalistas. Ainda assim. também encontra expressão mais nítida e ideologicamente explícita numa original filosofia da cultura. de artigos). tradução de José Arthur Giannotti. p. 2. também podemos descobrir o mesmo motivo central como princípio determinante de todas as concepções dos freudianos a respeito da vida psíquica do homem e das forças nela dominantes. COLOCAÇÃO DO PROBLEMA Tomamos conhecimento do motivo central da psicanálise e estabelecemos sua íntima semelhança com outras correntes ideológicas da atualidade européia. Ele. Mas.

1926. 1926. 1927. 1. 5. J. desejos.) 4. N. um dos representantes da pedologia. alguma combinação definida de dados de ambas as experiências? 2. Blonski* e Kornílov (com sua reatologia)6 trabalham em linhas similares com o behaviorismo. claro que o homem pode observar em si mesmo essa linguagem externa. James e outros. Teoria das Reações do homem. Os representantes da modalidade atual de Psicologia subjetiva afirmam o seguinte: pode-se tomar como fundamento da psicologia apenas a observação imediata da vida psíquica. E a esse fim que serve o experimento. Existe uma tradução russa lançada pela ed. a introspecção mas os dados desta devem ser completados e controlados pela observação externa objetiva. Watson. Na URSS. Importa-nos nas a própria diferença essencial entre os enfoques dos objetivistas e subjetivistas. do T. imedietamente o fluxo de diversas vivências emocionais concepções. respondente aos estímulos). Psychologyfrom the Standpoint of a Behaviorist (London. Békhteriev. havendo apenas determinados processos materiais que ocorrem no organismo respondente (isto é. 1915.mencionar as mais i~ mas sem abordar as suas diferenças e peculiaridades. Agora se pergunta: que experiência deve ser tomada por base da psicologia científica: a interna-subjetiva ou a externa-objetíva ou. nem apalpadas. e as variedades de psicologia objetiva (a escola de Pávlov2.2. en quais se destaca Introdução à Psicologia Experimental. sor de psicologia e filosofia da Universidade de Kiev e da Universidade de Moscou. nem desejos. 15 elas não podem ser nem vistas. o homem observa. De outros). nunca à psicologia geral. 2. A PSICOLOGIA EXPERIMENTAL E necessário dizer que hoje já não existem defensores sérios da experiência subjetiva pura como o ‘mico fundamento da Psicologia sem qualquer mescla de dados da experiência externa.) 6. 1923. Parmelee. ou seja. The Science ofHuman Be/iavior. (N.. 2. Exposta do Ponto de do Materialismo Dialética. o desencadeamento arbitrário de manifestações psíquicas (emoções) em .. mentos. A mais séria variedade moderna de psicologia subjetiva é a psicologia experimental (a escola de Wundt. M. filosofia foi adepto do neokantismo e do positivismo. Békhteriev3 e outros) e a chamada ciência do comportamento (o behaviorismo). 3ª edição. Pávlov. Uma Experiência de Vinte e Cinco Anos no Estudo Objetivo Atividade Psíquica Superior dos Animais. (N. 1921. Qual é a essência das divergências entre a psicologia subjetiva 4 objetiva? A vida psíquica se apresenta ao homem de duas maneiras: 1. nem sentimentos. Moscou. Autor de várias obras. 1921. GIZ em 1926. evidentemente. talvez. em outras pessoas e nos animais o homem pode observar nas expressões externas de vida psíquica em diferentes respostas organismo estranho aos estímulos. 1926.Kornìlov. 1919). desenvolveu especialmente nos EUA (Watson4’ Parmelee5. filósofo. material-corpórea da vida psíquica.. Blonski. Pável Pietróvitch (1884-194t). P. em si mesmo. lógico. 3. Moscou. Psicólogo. na experiência interior. A segunda edição da editora Giz de 1927. isto é. bem como Manual de Psicologia. V. Fundamentos Gerais de Reflexologia do Homem (Pgr. nem ouvidas. M. nem aspirações * TchelpànovGueorgi Ivánovitch (1 862-1936). Y. B. Conferências sobre o to dos Grandes Hemisférios Cerebrais. que tem professor Tchelpánov* o seu maior representante entre nós). Achava marxismo podia aplicar-se apenas à psicologia social. Psicólogo e pedagogo. Na experiência externa não há. Mascou.

algo que por pio não se presta à análise objetiva e à mensuração? É justamente o que supõem os representantes da psicologia objetiva. e só assim ela . Watson.é o que constitui. O experimento psicológico — porque os objetivistas também vem. em toda a extensão. é impossível construir uma objetiva exata. como o faz a psicologia subjetiva: C inevitável obter formações em duplicata (ou seja. propriamente. 16 Assim. Só esse c materialmente expresso do homem e dos animais pode ser objeto uma psicologia que queira ser exata e objetiva. Segundo eles. Em seu conjunto. Visando à precisão. deve exprimir-se em alguma mudança puramente material7. cabendo a todos os seus mo- 7. evidentemente. aplicando o método de introspecção da como admitem os subjetivistas. e colocado na necessária relação de causa e efeito com os externos e as condições do ambiente material. da R. De certa forma. Tudo os mais. apenas uma moldura objetiva para o quadro subjetivo-interior e nada mais. 17 mentos serem acessíveis ao experimentador. haverá confusão. p. A PSICOLOGIA OBJETIVA Surge inevitavelmente a pergunta: será que a “vivência interior" do experimentando não rompe a unidade e a continuidade da cia externa do experimentador? Será que com esse ponto de vista interior (porque foi precisamente do ponto de vista interior que o experimentando comunicou as suas vivências) não se introduz algo que se coaduna com os dados da experiência externa. é necessário observar que quando os behavioristas a introspecção como método científico de investigação ainda assim consideram diante do estado atual da psicologia como ciência. todos os instrumentos exatos de mensuração. 38. 2. Esse comportamento do organismo vivo é dado inteiramente experiência objetiva externa. tudo nele pode ser considerado. a última palavra da psicologia experimental cabe introspecção. utilizar o experimento — deve ser. o objeto da psicologia. são umas molduras externas para a introspecção. A Psicologia como Ciência do Comportamento. em alguns c~ deve ser aplicada como o único método de observação à nossa disposição imediata. a “vivência interior” do experimentando também deve ser traduzida para a linguagem da experiência externa. o mesmo fenômeno será dado duas vezes).).3. (N. é sustentar coerentemente e até o fim o ponto de vista da e objetiva externa. Ao construir-se uma psicologia científica. Essas grandezas puramente materiais são as diferentes do organismo vivo aos estímulos. E absolutamente inadmissível — na superfície aquática da experiência material — dispor os dados também da observação externa e interna. Assim afirmam objetivistas. são essas respostas que formam aquilo que chamamos de comportamento da vida homem ou do animal. Porque tudo o que pode ter algum significado na vida e na prática deve ser dado como grandeza material terna. a unidade e a harmonia da experiência material externa serão abaladas. localizado no mundo exterior. de que tanto se orgulham os representantes dessa corrente. A inserção dos dados da introspecção destrói a unidade e a sua continuidade. a introspecção.

essa nova propriedade da própria ma ria. Se conhecermos apenas o componente físico do estímulo e só de forma abstrata o componente fisiológico resposta. razão por que inadmissível colocá-lo em oposição ao físico enquanto princípio específico de explicação. Ao contrário. Dessa maneira. como já vimos. Pois bem. Por exemplo. estando-se integralmente no terreno no da experiência física externa. . as respostas verbais.fisiológico isolado. Será de fato possível compreender o comportamento do homem sem que se incorpore o ponto de vista sociológico objetivo? Todos os atos essenciais da vida do homem são motivados por estímulos sociais nas condições do meio social. mas as experimenta “de si para si” porque se ele as conscientiza. ao estudo por métodos puramente fisiológicos. presumindo a interação de vários organismos. e desta nem os objetivistas têm sempre consciência cumprem: a psicologia do homem deve ser socializada. esse terceiro componente da resposta verbal tem caráter sociológico. sentimos e queremos com O auxílio das palavras: sem o discurso interior nada podemos cons18 cientizar em nós mesmos). é necessário mostrar em que espécie de organização e em que nível de complexidade da matéria surge e1 nova qualidade do psíquico. 2.5. mas de modo algum pode ser separado do fundamento material do comportamento do organismo. a corrente objetiva na psicologia: só ela responde às exigências do monismo matenialista. não se prestam. A formação de significados verbais requer o estabelecimento de contatos entre espectadores. poderemos manter a unidade e a continuidade da experiência material externa. M materialismo dialético ainda faz à psicologia mais uma importante vindicação. ainda que estes não sejam puramente fisiológicos. O psíquico é apenas uma das propriedades da matéria orgânica. se em vez da “vivência interior” do experimentando colocarmos o seu equivalente verbal (o discurso interior ou o exterior) em um experimento psicológico. É assim que os objetivistas entendem o experimento psicológico. que desempenham papel tão relevante no comportamento do homem — porque o discurso interior acompanha cada ato consciente dele—. nele se desenvolve um processo de discurso interior (“latente” — porque nós pensamos. MARXISMO E PSICOLOGIA São essas as duas correntes da psicologia atual. evidentemente. Mas esse grupo também é perfeitamente objetivo: porque todas essas vias e processos que servem à formação de contatos verbais atravessam a experiência externa e por princípio são acessíveis aos métodos objetivos. então ainda entendemos muito pouco os atos humanos. Neste sentido. a psicologia objetiva está coberta de razão. A experiência subjetiva interior não pode fornecer nada para fim. respostas motoras e auditivas no processo de um convívio social longo e organizado entre os indivíduos. O complexo dispositivo das respostas verbais funciona nos seus momentos básicos até quando o experimentando não diz nada em voz alta sobre as suas vivências. sendo uma manifestação especificamente social do organismo humano. esse processo é tão material quanto o discurso exterior8. O marxismo está longe de negar a realidade do psíquico-subjetivo: este existe. Qual dessas correntes melhor corresponde aos fundamentos do materialismo dialético? Sem dúvida a segunda.

nov. cf. n. Do mesmo autor: Vida do Organismo e Sugestão (Jizn organizma i vfluchénie). D. XVI. é quem melhor responde às reivindicações que o marxismo faz à psicologia9 Outros representantes da psicologia objetiva e do marxismo têm outra visão da psicanálise e a consideram inteiramente inaceitável do ponto de vista materialista objetivo10. o que é necessário para a formação de respostas verbalizadas). Quando a psicologia objetiva estiver diante da necessidade de ocupar uma clara posição crítica em face a todas as questões complexas sumamente importantes levantadas pela psicanálise revelar-se á niti. 5.damente a precariedade e a rudeza dos enfoques fisiológicos simplificados do comportamento humano. que estudam a natureza inorgânica Já é mais sério na biologia. Esse desvio no sentido de um materialismo primitivo e da extrema simplificação das tarefas da psicologia objetiva nós observamos nos behavioristas americanos e nos reflexologistas russos. Luria. VII. Um sério perigo ameaça a psicologia objetiva: cair em um materialismo mecanicista ingênuo. 4. do seu trabalho direto com o material concreto do Comportamento): isto a ajudará a fortalecer-se metodologicamente e a ter consciência mais nítida das suas posições. com várias alterações e adendos particulares). A Psicanálise como Sistema de Psicologia Monástica (lb. 1927. 1924. naturalista. A psicologia objetiva é uma ciência jovem. Fridman. artigo homônimo na revista Krásnaia n. n. as motoras e outras no processo de comunicação entre os indivíduos. Na linguagem de Freud. “Freudismo e Marxismo” (Freidiz i maksizm) em Soba Bandeira do Marxismo. ainda em processo de formação. o materialismo mecanicista simplificado pode desempenhar um papel efetivamente funesto. Bikhovski. cap. são inter-relações e conflitos complexos entre as respostas verbalizadas e não-verbalizadas homem. ed. GIZ. 1925. Veremos que no interior do próprio campo verbalizado do comportamento humano ocorrem conflitos bastante graves entre os discursos interior e exterior e entre diferentes camadas do discurso interior Veremos que. lúriniets. direção do Prof. a e importantíssima e dificílima questão da psicologia do homem. revista ZVieza Leningredo. 1923. bem como o nosso artigo “Além do Social”. B. ‘As Concepções Psicológicas Básicas de Freuti e a Teoria do Materialismo Histórico” em A Psicologia e o Marxismo. Nem de longe esse perigo é tão terrível 9. 1924.) 10. 12.V. 20 nos campos das ciências naturais.. . Essa questão é interessante e muito importante. “Sobre os Fundamentos Metodológicos da Doutrina Psicanalítica de Freud” em Sob a Bandeira do Marxismo (Pod známenem marksizmt) n. Freudismo e Marxismo (Freidiz i marksizm) (Ensaios de Cultura da Epoca Revolucionária). R. é claro. 8-9. que a psicanálise traz ao nosso conhecimento. Pode esclarecer melhor seu ponto de vista e seus métodos por meio de uma crítica ponderada e do combate a outras tendências (sem falar. Ganhará evidência absoluta a necessidade de aplicação enfoque sociológico e dialético na psicologia Ocorre que a análise crítica da teoria psicológica de Freud levará integralmente à questão específica das respostas verbalizada da sua importância no conjunto do comportamento humano. em alguns campos da vida (no sexual. Veremos que todas as manifestações e conflitos psíquicos.O próprio Freud e os freudianos consideram a sua doutrina a primeira e única tentativa de construção de uma psicologia verdadeiramente objetiva. Zalkjnd. Já mostramos que na bibliografia russa sobre psicologia e filosofia apareceram vários trabalhos que demonstram que a psicanálise tem razão em tais pretensões e. VIII. A. na psicologia. B. por seu próprio fundamento (é claro. o estabelecimento de vínculos entre respostas visuais. por exemplo desenvolve-se de modo especialmente difícil e lento a formação vínculos verbalizados (isto é. Komílov. tudo isso são conflitos da consciência com o inconsciente”.

desenvolver-se a partir dos elementos mais simples do psiquismo individual. 2. não se pode acreditar nem na mais impecável. Muitos supõem que as questões das ciências particulares podem e devem ser Colocadas independentemente da concepção geral de mundo. o leitor já pode perceber que o aspecto psicológico e especificamente científico do freudismo nada tem de neutro em relação à sua posição de classe. Achamos que essa neutralidade de uma ciência particular é inteiramente fictícia: é impossível tanto por considerações lógicas quanto sociológjcas 1 2. pode servir perfeitamente como ponto de apoio de Arquimedes para a desintegração do quadro material do mundo em seu conjunto. Na atual discus5~0 sobre o objeto e os métodos em psicologia.Outro problema que se nos coloca com igual agudeza quando empreendemos a análise crítica do freudismo tem estreita relação com o primeiro: estamos falando das respostas verbalizadas. Aquele fragmento do “vivido de dentro para fora”. trata-se de outro aspecto do mesmo problema. é produto apenas da criação orgânica individual. leva inevitavelmente ou ao isto é. do primeiro ao último. 22 De fato. ou a um monismo puramente idealista. que pelo visto é totalmente invisível e que. conseqüentemente. uma vez que tomamos consciência do conteúdo do psiquismo mediante o discurso interior. como se estivesse em uma atmosfera socialmente vazia. se a pensamos de forma essa teoria fornece inevitavelmente uma orientação filosófica geral. desejos. Por outro lado. Essa é uma questão com a qual todos estão de acordo. devemos enfocar mais uma questão que no início abordamos apenas de passagem. alguns cientistas lançaram a tese da neutralidade científica das ciências particulares —e entre elas a psicologia — nas questões da ideologia e da orientação social. à desintegração do ser em dois aspectos desconexos — O 1 o espiritual. Aqui. a psicologia em todas as suas modalidades. em seu desenvolvimento lógico. esboçamos apenas duas questões sumamente importantes em psicologia. estilhaça a unidade do curso objetivo-material um experimento em laboratório. A neutralidade científica também é impossível em termos lógicos. Assim. Mas achamos importante que o leitor as tenha em vista ao acompanhar a exposição subseqüente da psicanálise. O interesse de classe e a preconcebida são uma categoria . Freud faz toda a série ideológica. do primeiro ao último integrante. Nenhum integrante dessa série. Das nossas observações preliminares. A idéia mais vaga. evidentemente.7. Ora. que se manifesta com tanta nitidez em seu motivo filosófico central. e um complexo movimento filosófico pressupõem igualmente um convívio organizado entre os indivíduos (é verdade que são diferentes as formas e graus de organização desse convívio). Esta questão diz respeito ao “conteúdo do psiquismo”: o conteúdo dos pensamentos. sonhos etc’2. sociológicos. Esse conteúdo do psiquismo é totalmente jdeológico da idéia confusa e do desejo vago e ainda indefinido ao sistema filosófico e à complexa instituição política temos uma série contínua de fenômenos ideológicos e. uma vez não enunciada. como já vimos. de subjetiva das concepções humanas. Em termos rigorosos. CIÊNCIA E CLASSE Concluindo este capítulo. só se não pensamos integralmente em alguma teoria científica podemos omitir a sua necessária relação com as questões mentais da concepção de mundo.

Parte II Exposição do Freudismo .

continuamente em luta. Se dermos ouvidos apenas ao que a consciência nos fala da nossa vida psíquica, esta nunca será entendida: em luta contínua com o inconsciente, a consciência é sempre tendenciosa. Ela nos fornece dados notoriamente falsos sobre si mesma e a vida psíquica em seu conjunto. Por outro lado, a psicologia sempre construiu as suas teses com base em dados da consciência, e a maioria dos psicólogos simplesmente tem identificado o psíquico com o consciente. Os poucos que, como Lipp5 ou Charcot e a sua escola, levaram em conta o inconsciente subestimaram inteiramente o seu papel no psiquismo. Conceberam-no como algo estável, como um apêndice da vida psíquica definitivamente pronto, permanecendo oculta para eles a luta contínua do inconsciente com a consciência. Segundo Freud, como conseqüência dessa identificação do psíquico com a consciência, a velha psicologia nos desenhou
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um quadro inteiramente falso da nossa vida psíquica, uma vez que massa essencial do psíquico e os seus principais centros de força recaem precisamente no campo do inconsciente. A ênfase do freudismo é a ênfase da descoberta de todo um u verso, de um continente novo e inexplorado além da cultura e da bis ria mas, ao mesmo tempo, de um continente inusitadamente íntimo nós, a cada instante pronto para irromper por entre o manto da consciência e refletir-se em nossa palavra, em algum lapso involuntário, em gesto, em um ato. Essa proximidade do inconsciente, essa leveza da sua penetração no fenômeno mais prosaico da vida, no âmago do dia-a-dia, é uma das peculiaridades fundamentais da teoria de Freud que a distingue doutrinas de “filósofos do inconsciente” de alto estilo como Schopenhauer e especialmente Edward Hartman.

3.2. TRÊS PERÍODOS NA EVOLUÇÃO DO FREUDISMO Essa concepção de inconsciente não se formou e se definiu chofre em Freud, e posteriormente foi objeto de mudanças substanciais. Distinguimos três períodos na história da sua evolução. No primeiro período (o chamado período Freud-Breuer), a concepção freudiana de inconsciente era familiar à doutrina dos famosos psiquiatras e psicólogos franceses Charcot, Líebault, Bernheini e Janet em relação à qual ela se encontrava em dependência genética direta (Freud foi aluno de Charcot e Bernheim). São aproximados os limites cronológicos do primeiro período -1890-1897.0 livro único e fundamental de Freud e Breuer desse período é Studien über Hysterie (Estudos sobre a Histeria), publicado em 1895. No segundo período, o mais longo e mais importante na evolução da psicanálise, são definidos todos os traços característicos basilar da teoria freudiana do inconsciente. Agora ela já se torna totalmente original. Nesse período ocorre a elaboração de todas as questões plano da psicologia teórica e aplicada. Freud ainda evita amplas generalizações filosóficas, evita questões ideológicas. Toda a concepção é de caráter acentuadamente positivista. O estilo¹ das obras de Freud é
1. Até hoje (1926) Freud continua insistindo no caráter rigorosamente empírico de sua doutrina. Segundo suas palavras, a psicanálise não é um sistema filosófico q parte de premissas rigorosamente definidas para tentar abranger todo o conjunto mundo e. uma vez concluída, não deixa mais lugar para novas investigações e concepções melhor elaboradas. Ao contrário, a psicanálise se baseia nos fatos da área estuda da. procura resolver os problemas imediatos que vão surgindo das observações — nunca em vão, está sempre disposto a fazer corretivas em sua teoria (Handwórterbuch, p.616). 27

de Freud esses círculos procuravam ver justamente o tema filosófico, ideológico. Eles esperavam e exigiam da psicanálise a “revelação” no campo da visão de mundo. E pouco a pouco Freud foi-se deixando levar e se sujeitando à essa exigência e expectativa. Deu-se um fenômeno bastante comum: o sucesso e o reconhecimento levaram à adaptação e a uma certa degenerescência da doutrina, que crescera e amadurecera em um clima de hostilidade e falta de reconhecimento. A fronteira cronológica aproximada que separa esse terceiro e último período do segundo estende-se de aproximadamente 1914 a 1915~. Nesse período, as obras principais são os dois últimos livros de Freud, Jenseits des Lustprincips (Além do Princípio de Prazer) e Das Jch und das Es (O Ego e o Jd)4. Aliás, a expressão literária mais nítida desse
2. Traumdeutung (A Interpretação dos Sonhos), 1900. Há uma tradução russa de 1911; Psychopatologie des Alltagslebens (Psicopatologia do Cotidiano), tradução russa de 1925; Der Witz (O Chiste) com a tradução russa datada de 1925; DreiAbhandlungen Sexualtlzeotie (Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade); há tradução russa, mas sem indicação do ano; Kleine Schr(ften zur Neurosenlehre (Ensaios sobre a Teoria das Neuroses) em três volumes. Há outras obras menos importantes. 3.As primeiras notas, que caracterizam o último período do freudismo, começam a ecoar em obras como Einffihrung des Narcismus e Trauer und Melancholie. 4.Traduzido para o russo e publicado pela editora Academia em 1924. 28

período da psicanálise não vem de Freud mas de seu discípulo preferido do Otto Rank com seu O Trauma do Nascimento5, livro que foi publicado três anos antes e alcançou um sucesso estrondoso. Trata-se d expressão mais característica do novo espírito que passou a dominar na psicanálise ultimamente. E um livro filosófico do começo ao fim’ Foi escrito com o tom e o estilo de um sábio, “que proclama grandes terríveis sofismas”. Em algumas passagens ele parece uma paródia rui do Nietzsche do período de envolvimento com Schopenhauer6. As conclusões impressionam pelo tom extremado. No clima sóbrio e seco d segundo período da psicanálise — o período clássico —‘ semelhante livro seria absolutamente impossível. São esses os três períodos de evolução da psicanálise. Suas diferenças e peculiaridades devem ser sempre levadas em conta; não podem ser ignoradas em proveito da unidade lógica da teoria. Em seus 33 anos de existência histórica, a psicanálise mudou muito e essencialmente. A época atual não é mais aquela de antes da guerra de 1914.

3.3. A PRIMEIRA CONCEPÇÃO DE INCONSCIENTE O que é o “inconsciente”? Qual era a concepção que se tinha dele no primeiro período de evolução da psicanálise? Ainda em 1889 em Nancy, Freud, então jovem médico vienense ficou impressionado com uma experiência de Bernheim, famoso conhecedor de hipnose: a uma paciente hipnotizada foi ordenado por sugestão que, algum tempo após despertar, abrisse um guarda-chuva que estava em um canto da sala. Desperta do sono hipnótico, a senhora cumpriu a ordem com exatidão no prazo estipulado: foi ao canto da sala e abriu o guarda-chuva. Perguntada sobre os motivos do seu ato, ela respondeu que teria sentido vontade de verificar se aquele guardachuva era o seu. Esse motivo não correspondia de maneira nenhuma causa real do ato e, pelo visto, foi inventado post factum* , mas satisfez plenamente a consciência da paciente: ela estava sinceramente convencida de que

do ato; 2. às vezes, o ato pode ser determinado por forças que agem no psiquismo mas não chegam à consciência; 3. mediante certos procedimentos, essas forças psíquicas podem ser levadas à consciência. Com base nessas três teses, verificadas em sua própria prática psiquiátrica, Freud elaborou, em conjunto com o doutor Breuer, seu antigo colega, o chamado método catártico de tratamento da histeria8.

3.4. O MÉTODO CATÁRTICO A essência desse método consiste no seguinte: a histeria e algumas outras doenças nervosas psicogênicas (provocadas por abalo psíquico e não por abalo orgânico) se baseiam em formações psíquicas que não chegam à consciência do doente; são toda sorte de abalos psíquicos, sentimentos ou desejos já vivenciados pelo doente que, não obstante os esqueceu deliberadamente uma vez que sua consciência os teme ou se envergonha de recordá-los por algum motivo. Sem penetrar na consciência essas experiências emocionais esquecidas não podem ser erradicadas nem descarregadas por via normal; são elas que Suscitam os sintomas mórbidos da histeria. O médico deve remover a amnésia nessas experiências emocionais, levá-las à consciência do paciente, entrelaçá-las num tecido único dessa consciência e, assim, dar-lhes a possibilidades de descarregar-se e erradicar-se. É por meio dessa erradicação que se destroem os sintomas mórbidos da histeria. Por exemplo uma jovem sente por alguém de sua intimidade uma atração amorosa que acha tão inadmissível, terrível e contranatural que não tem condição de confessar tal sentimento nem a si mesma. Por isso não pode submetê-lo a uma análise sóbria e consciente nem mesmo a sós consigo. Essa emoção, que a própria jovem não reconhece fica em Situação de total isolamento em sua psique; não pode entrar em nenhum contato com outras emoções, pensamentos e considerações. O medo, a vergonha e a indignação enviam essa emoção para um angustiante exílio psíquico Essa emoção isolada não consegue encontrar Saída desse exílio: Porque sua saída normal seria algum ato, alguma
~. Para a exposição subseqüente veja-se Breuer e Preud. Studien über Hylterie, 1 Aul’lage 1895, (IV. Aufl. 1922), ~ o artigo de Freud em Handwordd Sex Wissensch P 610

30 ação ou palavras e argumentos racionais da consciência. Todas essas saídas estão fechadas. Reprimida de todos os lados (apertadas num tomo, eingeklemmte, segundo expressão de Freud), a experiência emocional começa a procurar saídas por vias anormais onde pode permanecer não reconhecida; no entorpecimento de algum membro sadio do corpo, em acessos imotivados de medo, em alguma ação desprovida de sentido etc. É por essas vias que se formam os sintomas da histeria, Neste caso, o médico tem por tarefa, antes de mais nada, identificar na paciente e fazê-la recordar essa causa da doença que ela deliberadamente esquece e não reconhece. Para tanto, Freud e Breuer lançaram mão da hipnose (total ou parcial). Uma vez identificada a causa da doença, cabia ao médico levar a paciente a reconhecer a experiênci4 emocional esquecida, superando o medo e a vergonha, a deixar de “escondê-la” nos sintomas de histeria e colocá-la no “uso normal” da consciência. Aqui, seja por meio de um combate consciente a essa experiência emocional, seja fazendo uma conveniente concessão a o médico lhe permite descarregar-se normalmente. Talvez a nossa jovem tenha de experimentar duros infortúnios ou contrariedades, mas em todo caso, já não estará doente. Os sintomas de histeria se tornam desnecessários e irão desaparecendo pouco a pouco.

Studien ülser Hysterie. Idem. estável: a luta entre as forças psíquicas não era. PECULIARIDADES DO SEGUNDO PERÍODO Passemos agora à ulterior evolução do conceito de inconsciente já no segundo período — o clássico — da psicanálise. os pensamentos e obras que ele mesmo não reconhece como pecaminosos e sobre os quais nada pode falar a outra pessoa em outras circunstâncias. Cabe ainda observar que. esquecida. neste caso o padre. regular de vida psíquica. ibidem. o inconsciente já se torna um componente indispensável e sumamente importante do dispositivo psíquico de todo 12. ibidem. o inconsciente se concebia até certo ponto como fenômeno casual no psiquismo humano: era uma espécie de apêndice patológico do psiquismo. Assim ele dá uma expressão verbalizada e um desfecho verbalizado àquilo que fora reprimido e isolado no seu psiquismo. afora a consciência do próprio doente. 3. Dependendo das peculiaridades individuais do homem e das circunstâncias casuais da vida. Freud não faz quaisquer generalizações tipológicas dessas experiências. Lembremos ainda ao leitor a imensa importância que o método catártico atribui à resposta verbalizada. Nisso reside a força purificadora da palavra¹². uma forma permanente. No primeiro período. sendo nesta antes um fenômeno excepcional e anormal. pp. essa ou aquela experiência emocional dolorosa ou vergonhosa era isolada. Breuer e Freud. Nesse período. perquiria até chegar às experiências emocionais ‘vergonhosas ou temerárias’ recalcadas no inconsciente e. como ainda não sugere a importância excepcional do elemento sexual. 10. 1-14. o médico depois de preparar previamente o paciente. dava-lhes descarga natural. Idem. algo como um corpo estranho que penetra na alma do homem predisposto à histeria sob a influência de circunstâncias fortuitas da vida. Na confissão. o aparelho psíquico normal era algo plenamente estático. agravando-o.9. No primeiro período. quando ele é enriquecido por toda uma série de elementos sumamente substanciais. 32 . 11. Por meio de perguntas sugeridas e de longa observação. 31 costas à fisiologia. só podemos obter os produtos do inconsciente traduzindo-os para a linguagem da consciência. absolutamente. o conteúdo do inconsciente permaneceu totalmente impossível de se elucidar e como que fortuito. não há e nem pode haver outro enfoque imediato do inconsciente. Em segundo lugar. e tomava-se inconsciente. o religioso realmente sai aliviado e purificado graças ao que confessa a outra pessoa. levando-as a consciência. No segundo período.5. nesse período. O próprio Freud ressalta esse traço da sua teoria: compara seu método de tratamento da histeria à confissão católica. Freud deixara de aplicar em sua prática de Psiquiatra os métodos da hipnose com fins catárticos e o substituíra pelo método das livres associações.

p. não registra o recalcado e pode inclusive não suspeitar absolutamente da sua existência ou composição. todas as experiências emocionais psíquicas devem passar na psique por uma prova dupla do ponto de vista de cada um desses princípios. . Schr. do ponto de vis das fases subseqüentes do desenvolvimento. Esta recebe a si mesma em forma totalmente pronta. nunca se extingue nem perde a força. Assim. sentimentos e desejos “censurados”. isto é. ou apenas ganha a possibilidade de integrá-la. Porque amiúde o desejo pode não ser satisfeito e por isso causar sofrimento ou. psych. o medo. “tudo é permitido”. A esse domínio absoluto do princípio do prazer. Neurosenle 3. Z. qualquer 13. é claro. Qualquer representação pode ser vinculada ao sentimento de medo por uma estreita relação associativa ou à lembrança de um sofrimento: mais representações não devem surgir na psique. que suporta uma prova dupla do ponto de vista de ambos os princípios. Freud.O que é recalque? 3. que Freud chama figuradamente de censura. e só aquela formação psíquica. d.ehens. Esse recalque. que funciona ao longo de toda a vida do homem. o nosso psiquismo desconhece a distinção entre possível e impossível. o princípio de prazer perde seu domínio exclusivo no psíquico: ao lado dele e contrariando-o frequentemente começa a agir um novo princípio da vida psíquica — “o princípio de realidade”. Na aurora do desenvolvimento alma humana. Gesc/. Agora. sentimentos e desejos.6. Esta se situa na fronteira entre os sistemas do inconsciente e da consciência. Über zwei Princip. útil e nocivo. Porque erradicar algum desejo ou sentimento só é possível através da consciência e dos atos e ações por ela orientadas. de tomar-se pré-consciente. nas etapas subseqüentes do desenvolvimento levariam pavor à consciência pelo que têm de criminoso e vicioso. ocorre uma seleção psíquica. ao ser satisfeito. permitido e proibido. F. viciosos. antes de tudo através do discurso humano. psique infantil. acarretar conseqüências desagradáveis: tais desejos devem ser reprimidos. Kl. Para ela. porque a criança ainda desconhece a diferença entre o real e o irreal. O recalque é dirigido por uma força psíquica específica. Tudo o que está na consciência ou pode integrá-la é rigorosamente censurado’5. tem medo da palavra. o homem conserva o sonho essa satisfação alucinatória¹4. para ela não há desejos e sentimentos amorais e ela. Ela é dirigida apenas pelo princípio do prazer (Lustprincip)’3. desconhecendo a vergonha. 271. usa amplamente esse privilégio para acumular uma enorme reserva das mais viciosas imagens. deslocados para o inconsciente. A DOUTRINA DO RECALQUE Nas primeiras fases de desenvolvimento da personalidade humana . ganha plenitude de direitos e integra o sistema superior do psíquico — a consciência. Desejos inconscientes não podemos reconhecer nem para nós no discurso interior. 33 representação já é realidade. O inconsciente é mudo. As mesmas experiências emocionais que não suportam uma prova se tomam ilegais e são recalcadas para o sistema do inconsciente. realiza-se mecanicamente. sem qualquer participação da consciência. como que se legaliza. nos primórdios do desenvolvimento incorpora se a capacidade de satisfação aleatória dos desejos. Todo o acervo de representações. nela surgem livre e desimpedidamente representações sentimentos e desejos que. Nas etapas subseqüentes do desenvolvimento psíquico. Durante toda a vida.

4. O Conteúdo do Inconsciente .capítulo.

Drei Abhandungen zur Sexualtheorie. Moscou. Freud. mas nunca se extingue inteiramente no organismo e no psiquismo. 36 Esses dois grupos de pulsão são irredutíveis um ao outro e freqüentemente entram em conflitos diversos. mas de modo algum é o seu começo³. Scbr Z. nasce com seu corpo e tem uma vida constante que. Kt. Neur 4. 1925. Abordaremos apenas as pulsões sexuais. Giz. Ensaios de Psicologia da Sexualidade. 37 . 2. apenas se atenua. pulsão sexual se caracteriza pelas seguintes peculiaridades básicas: 1. pulsões sexuais. e qualquer parte do corpo pode tornar-se fonte somática de excitação sexual. onde a criança pode adquirir desejos pervertidos. a criança acumula uma imensa reserva de sentimentos e desejos pervertidos e amorais do ponto de vista da consciência. A genitália ainda não se tornou o centro somático organizador da pulsão sexual. Sarnmi. cap. iv. o polegar ou o dedo grande do pé4.2.~uii seksualnosri (Ensaios de Psicologia da sexualidade). Freud estudo minuciosamente o grupo dessas pulsões2. cd. em que ainda domina absoluto o princípio de prazer com o seu “tudo é permitido”. A VIDA SEXUAL DA CRIANÇA No capítulo anterior dissemos que. ainda que seja às custas da vida do indivíduo. 61. 43-44. cujo fim é a autopreservação da espécie. Freud denomina pré-genital esse primeiro período do desenvolvimento sexual uma vez que os órgãos sexuais ainda não se tornaram o centro das pulsões do corpo. 58. amorais? Ora. 1905. cujo fim é a continuação da espécie. O amadurecimento sexual é apenas uma etapa — se bem que muito importante — no desenvolvimento da sexualidade. uma vez que elas fornecem o acervo principal de matéria ao sistema do inconsciente. E: Triebe und Ttiebschicksale. Nas primeiras fases do desenvolvimento. 4. pulsões individuais ou pulsões do “eu” (Ichtriebe). a criança é o bolo da inocência e da pureza! A pulsão sexual ou libido (fome sexual). 3. Alguns estudiosos consideram que os méritos essenciais do freudismo estão precisamente no campo da teoria da sexualidade. bem como O Ego e o Id. como a denomina Freud é própria da criança desde o começo de sua vida. Idem. De fato. mas dispersa por todo o organismo. Ao que desconheça o freudismo. Traduzido para 01 como Ótclierki po psikho1o. pp. Pode-se dizer que a pulsão sexual ou libido da criança não está reunida nem concentrada nos órgãos sexuais ainda não amadurecidos. essa afirmação provavelmente muito estranha e talvez provoque perplexidade. nas primeiras fases de sua psíquica.1. 1. 4. Cabe observar que certo grau de excitação sexual também permanece 2. o ânus durante a evacuação. às vezes. a pele. é apenas uma das zonas erógenas (como Freud nomina as partes sexualmente excitáveis do corpo) e enfrenta a concorrência bemsucedida de outras zonas como a boca (no ato de sugar). Cf.

começa uma luta árdua e persistente com as pulsões incestuosas. Segundo Otto Rank. Aí é absolutamente inevitável o surgimento dos desejos.3. que lhe permitiria a posse absoluta da mãe. tudo isso tem colorido sexual para a criança. Quando o princípio de realidade ganha força e a voz do pai. Daí surge na criança o desejo infantil da morte do pai.56-58 8. Durante esse processo são inevitáveis contatos com diversas zonas erógenas e com a genitália. a criança é organicamente atraída para o incesto. célebre e autorizado discípulo de Freud.Idem.pp.São esses. O COMPLEXO DE ÉDIPO O mais importante acontecimento dessa história recalcada da vida sexual da criança são o desejo sexual pela mãe e o ódio ao pai relacionado a tal desejo. mas os acontecimentos dessa época não perderam sua força e estão permanentemente vivos no inconsciente. a segunda é a fase anal e a última aquela em zona genital ocupa o primeiro lugar. às vezes. no fundo. Assim. Nessas pulsões do pequeno Édipo. pré-genital ou oral. Todo o complexo de Édipo é objeto de uma amnésia total.Idem. Uma vez que nessa fase do desenvolvimento ainda domina no psiquismo da criança o princípio de prazer.( Nota da Redação) 6. quer hostis assim como de desejos e diversos sentimentos e imagens congêneres¹¹. Porque o pai interfere nas relações filho com a mãe. o banho. os traços principais do erotismo infantil. representações e sentimentos a eles vinculados pode surgir na psique da criança com base na libido infantil e mais tarde deve ser implacavelmente deslocada no sentido do inconsciente. Mas a libido se volta mais e mais para a mãe. sexualizando cada ato do seu afastamento e das suas preocupações: o ato de mamar no peito. a criança passa com bastante facilidade por todas essas fases aproximadamente entre os cinco e os seis anos de vida. obriga-o a ser independente. a primeira ereção. sentimentos e representações incestuosos. As relações da criança com a mãe são sexualizadas desde o início. não permite levá-lo para a cama. na qual cabe à boca o papel principal em conformidade com os interesses essenciais da criança. a defecação. evidentemente nos termos do erotismo infantil acima caracterizado. seu pai se torna seu rival atrai para si o ódio do filho. Podemos dizer que toda a época primária da história do nosso Psiquismo está situada fora da nossa consciência —porque habitual mente o homem não se lembra do que lhe aconteceu antes dos quatro anos -. até a permanência do feto no ventre da mãe tem caráter libidinoso e. passa a ser reelaborada pouco a pouco como voz da própria consciência.se no presente porque não foi erradicado. a fazer suas coisas sem a ajuda da mãe etc.75-79 7. conserva.pp. e a memória vaga do seu organismo a atrai para o uterus da mãe.Segundo Freud.66-68 38 4. o rompimento da unidade com ela começa a tragédia do Èdipo ¹°. despertando na criança sentimentos agradáveis e. com o ato do nascimento — a primeira e sofrida separação da mãe. segundo Freud. seus vetos. A criança se arrasta para a cama da mãe. não há nenhum limite ao desenvolvimento de tendências quer incestuosas. Agora fica claro que enorme reserva de desejos sexuais. esse passado não morreu.pp56. A teoria desse complexo e do seu papel na vida do homem é um dos pontos mais importantes do freudismo. o desenvolvimento da pulsão sexual na criança passa pelas seguintes fases: a primeira . Ensaio de Psicologia da Sexualidade. No lugar das pulsões recalcadas surgem o medo e a vergonha. provocados no psiquismo pela própria . gruda no corpo dela. e estas são deslocadas para o inconsciente. A mãe é o primeiro objeto da pulsão erótica do homem. Sua essência é a seguinte. o chamado complexo de Édipo. 5.. para a regressão a esse uterus. Segundo Freud.

evidentemente. Freud. a paixão pela mãe ou a hostilidade ao pai costumam ser transferidas para o médico durante as sessões de psicanálise e com isto são superadas. é incompatível com a simples idéia de sensualidade: esse medo pode fundir-se na alma do homem com toda sorte de respeito. coisas da cabeça.) 40 mãe e pelo pai. Isto inviabiliza freqüentemente o contato sexual com a mulher espiritualmente amada e respeitada. do espancamento dos filhos pelo pai e outras lendas de família. Geschichte der Fobie cines 5-jahrigen Knaben. que não abrangem as próprias profundezas do organismo e do psiquismo. para as profundezas do inconsciente¹3. O primeiro objeto do amor de um jovem costuma parecer-se com a mãe. Isto se funda no chamado mecanismo da transferência (Ubertragung). segundo Freud. redundando numa divisão fatal de uma atração indivisa em dois fluxos: em paixão sensual e afeição espiritual.) Em latim no original russo. do assassinato do pai pelo filho ou. O futuro coitus* do homem é apenas uma compensação parcial do paraíso perdido do estado intrauterino. Comparadas a ele. . A transferência é um dos meios de contornar as interdições da consciência oficial e. do objeto imediato para outro que o substitui: assim. explica perfeitamente por que estão tão disseminados entre diferentes povos os mitos do incesto. (N. Schr. como qualquer grande obra de arte. 1 e seguintes. que antecedeu à plena unidade orgânica como objeto desse amor — a mãe. que com base na psicanálise.. 13. Esse primeiro amor e esse primeiro ódio ficarão para sempre como os sentimentos mais integralmente orgânicos da sua vida. e Freud lhe atribui uma importância imensa e francamente decisiva para a vida do homem. O mecanismo da transferência é um elemento muito importante da teoria e da prática psicanalíticas. Freud entende a transferência inconsciente das paixões recalcadas. Mas para Freud essa tragédia. Em sua vida posterior. o chamado amor-respeito. não se volta. para a nossa consciência oficial mas para todo o psiquismo em seu conjunto e. campo do inconsciente.O complexo de Édipo. de modo algum. embora do ponto de vista da consciência oficial devamos reconhecer que a situação de Édipo foi inventada e de maneira alguma é típica da vida. Aí reside a importância do mecanismo da transferência para a prática da psicoterapia. e ganharam na literatura psicanalítica o novo termo de “psicologia das profundezas” (TiefenpsychOIOgic) (N. que já transcorrem à luz da consciência. principalmente as sexuais. Mas a imagem da mãe também pode desempenhar papel fatal no desenvolvimento da pulsão sexual: o medo do incesto. acima de tudo.Essas investigações psicológicas. ter qualquer consciência disso —. ao menos parcialmente. Freud supõe que a vida amorosa do homem depende muito do quanto ele consegue liberar a sua libido da fixação na mãe. transferindo para eles os seus sentimentos recalcados — e por isso eternamente vivos — pela 12. O complexo de Édipo é o primeiro acontecimento pré-histórico da vida do homem. que não se juntam em objeto¹4. que para a consciência oficial tomou o amor à mãe propositadamente espiritual. PP. da R. E. KI. Édipo rei. Rank e Ferenczi acham mesmo que todas essas relações amorosas posteriores são apenas um sucedâneo do primeiro amor edipiano do homem. todas as subseqüentes relações eróticas. A isso mesmo se deve a impressão irresistível que a tragédia de Sófocles. 3. Por esse mecanismo. produz em todas as pessoas. procuram penetrar nas profundezas do psiquismo humano. se afiguram como algo superficial. do T. Todos os acontecimentos da vida adulta herdam sua força psíquica desse primeiro acontecimento deslocado para o inconsciente — o complexo de Édipo. dar liberdade e expressão ao inconsciente. com qualquer coisa do espírito. o homem torna a representar reiteradamente todo esse acontecimento primordial do complexo de Édipo — sem. ao contrário. e o faz com novos participantes da vida. Cf.

ibidem. Por isso nos limitaremos a um breve exame apenas do que há de mais importante. Integra esse campo tudo o que o organismo desejou e imaginou claramente (e. É esse. ldem. como já dissemos. o conteúdo do inconsciente. pulsão de morte.do prazer. n~ segundo e positivo período do desenvolvimento da psicanálise. Por Eros Freud entende a pulsão para a vida orgânica. • Bakhtin usa o termo “Eros” onde alguns estudiosos de Freud. Porque é em nossos dias que o desenvolvimento desse período chega ao ponto culminante. assim. 2. que no terceiro período esse estudo foi objeto de modificações e acréscimos substanciais. distinguindo-se. se não fosse tolhido pelo princípio de realidade e pela cultura. Foi nos trabalhos desse período que se baseou predominantemente a nossa exposição. Não nos deteremos minuciosamente em tudo o que a psicanálise trouxe de novidade nesse terceiro período. 4. a criança é. Muita coisa nele ainda não se constituiu nem se definiu de uma vez por todas. dos trabalhos anteriores que são quase clássicos pela transparência. do recalque. característicos desse período. Sabemos. em todos os sentidos. ampliou-se excepcionalmente. do conteúdo do inconsciente — foram elaboradas por Freud. a precisão e o acabamento. em grau ínfimo. são vagos em algumas passagens.5. acima de tudo. Os dois livros do próprio Freud. porém. Todas as referidas definições e características dos elementos centrais da concepção freudiana de inconsciente — os dois princípios da realização psíquica. 15. surgiu um novo dualismo: 1. em linhas gerais. A pulsão do “eu” e. A TEORIA DAS PULSÕES NO TERCEIRO PERÍODO (EROS E MORTE) A teoria das pulsões sofreu mudanças substanciais. pela continuação da espécie (a sexualidade em termos restritos) ou de conservação do indivíduo. Em vez da antiga divisão das pulsões em sexuais (continuidade da espécie) e pulsões do “eu” (conservação do indivíduo). realizou) na tenra fase infantil da vida período em que a pressão da realidade e da cultura ainda era fraca e o homem era mais livre na manifestação de sua tradicional auto-suficiência orgânica. da teoria das pulsões e. o instinto de autoconservação foram revertidas para as pulsões sexuais (Eros). Sabemos igualmente que direção tomaram essas modificações. abrangendo os dois membros da divisão anterior. da censura. apresentam reticências. pulsão sexual ou Eros*. Nesse terreno também se elabora material suficiente para o inconsciente. Esse egoísmo desconhece a existência de quaisquer restrições morais e culturais. um egoísta genuíno e consequente. A tarefa da pulsão de morte é reverter todos os organismos . Podemos exprimi-lo na seguinte forma resumida: entra no mundo do inconsciente tudo o que o organismo poderia fazer se estivesse à mercê do puro princípio do prazer. como Ehsabeth 42 cujo conceito. por último. assim.

O “Jd” são as paixões —o”Ego” é a razão e o senso comum. O Ego e o Jd (ed. O Ego e o Id (cd. auto-imolação pelo fogo etc. O “Ideal do Ego” é acima de tudo aquele censor cujas imposições são postas em prática pelo recalque. usam “vida”. casos em que o homem revela uma severidade inusitada consigo mesmo. seu enriquecimento com elementos qualitativamente novos e singulares. é hostil ao nosso “Eu” consciente. amoral. relacionadas a castigos impostos a si mesmos pelos indivíduos (ascese. moral e racional coincidia com a consciência. Esse sentimento desempenhou um grande papel em diversas manifestações de fanatismo religioso. Freud esbarrou nela em suas investigações psiquiátricas18 nesse período predominaram os interesses psiquiátricos específicos. Manifestase no sentimento inconsciente de culpa. (N. russa). que. Idem. 43 vezes experimentamos tão intensamente em nós mesmos e contraria os nossos argumentos racionais e a boa vontade. consta principalmente de pulsões sexuais. 47-48. 17. p. O Ego e o Jd.) 18. encontramos o te Eros (N. Às manifestações do “Ideal do Ego” relacionam-se ainda o chamado “despertar repentino da consciência”. p. Em Ego e o ld. o “Ego” é o agente do princípio de realidade.A segunda peculiaridade do terceiro período na qual nos determos é a ampliação da composição do inconsciente. Ao falarmos de inconsciente. que paira sobre a psique de algumas pessoas. Isso realmente ocorre porque é inconsciente o processo de recalque que parte do “Ego”. melancolia etc. do T. Por último. A “natureza do homem”. se revela a em vários outros importantíssimos fenômenos da vida cultural. autoflagelação. por exemplo. O “Id” é aquele elemento obscuro interior dos anseios e paixões que Roudinesco e Michel Plon. Depois. mas não consegue superá-lo. Freud denomina “Ideal do Ego” (Ichideal) o campo inconsciente superior no “Ego”. Essa concepção é equivocada. No “ld” domina absolutamente o princípio de prazer. como vimos.). p. isto é. Tudo o que era superior. E nesse campo que Freud concentra a sua atenção no último período. “tanto em relação ao bem quanto ao mal. Assim. desprezo por si mesmo. até agora operamos apenas com o “Id”: porque as pulsões recalcadas pertenciam justamente a ele. O segundo período caracterizou-se pela concepção dinâmica inconsciente como recalcado. seu último livro. aquilo que o seu “Ego” conhece através da percepção consciente” (O Ego e o Id. p. profundo e essencial do que parecia no início. pp. Por isso todo o inconsciente se concebia como algo inferior e obscuro. 39. Freud propõe a denominação de “Id” p todo esse campo do psiquismo que não coincide com o nosso “Ego. mas agora cabe acrescentar que esse homem também é bem mais ético do que ele mesmo sabe’9. 16. diz Freud. Do que conhecemos sobre o inconsciente como recalcado podemos concluir que o homem normal é bem mais amoral do que ele mesmo supõe. uma parte considerável do “Ego” também é inconsciente. O inconsciente não é só o “Id”. Já na tradução de O Ego o Id feita por José Octávio de Aguiar Abreu. 54). do T. O “Ego”. 14. Esse campo vem a ser bem mais amplo. supera em muito o que ele supõe sobre si mesmo. Rio de Janeiro. russa). A consciência não reconhece essa culpa.). sob direção e revisão técnica ia Salomão e publicada pela editora lmago. o “Id” é o inconsciente. Em todas essas . Essa conclusão é correta. e ainda por cima em sua esfera superior também é campo do inconsciente. é inconsciente o trabalho da censura que se realiza segundo os interesses do “Ego”. luta contra esse sentimento. * August Weismann (1834-1914). ele. O recalcado.“As investigações patológicas desviaram o nosso interesse exclusivamente para o lado do recalcado”. 39. o “Ideal do Ego”.

define o inconsciente como não verbal. quando é impossível possuir o seu objeto. Freud dá a essa definição mais importância do que em seus trabalhos anteriores. introduzi-lo seu organismo. tanto mais rigorosamente o “ideal do Ego” irá dominar subseqüetemente sobre o “Eu” como consciência e. identifica-se com ela20. assim. talvez. Massenpsychologie und lch-Anaiyse. quanto mais impetuoso for o seu recalque [. proibições. Aqui concluímos a caracterização do inconsciente. 21. o homem como que absorve o caráter da pessoa amada. . incorpora-se à voz do pai a autoridade dos professores. mas ainda desconhecemos o principal: com base em que material e através de que métodos ou procedimentos investigatórios Freud obteve todos esses dados sobre o inconsciente? Porque só a resposta a essa pergunta permite julgar a fundamentação científica e a autenticidade de todos esses dados. mas mesmo aqui ela ainda não está desenvolvida. do dever. Quando fracassa o amor. suas ameaças. 45 45 Concluindo. cabe assinalar que Freud. como imposição suprema da consciência e dependente do “Eu”. Posteriormente. É a isto que dedicamos o próximo capítulo. À identificação deve-se também o surgimento do “Ideal do Ego” na alma do homem. i parecido com ela. Na vida do ser humano a identificação às vezes substitui uma aspiração normal à posse do objeto amor. razão por que elas mesmas procurar a força tomando-a de empréstimo a identificações mais primitivas do homem com o pai e com sua vontade. 1921. pp. Para a formação do “Ideal do Ego”. como sentimento consciente de culpa”. Já conhecemos a sua origem. 68-77.parece valor ela procura imediatamente pôr na boca e. do imperativo categórico “Tu deves” ecoou pela primeira vez na mente do ser humano como’ do pai na época do complexo de Édipo. em seu último livro. 20. da educação. ele se transforma em pré-consciente (de onde sempre pode passar à consciência) através da união com as respectivas representações verbais21. da religião. e quanto mais forte for complexo de Édipo. pp.. ordens. Freud. Aqui a criança absorve o pai com sua coragem. mas essas influências são mais superficiais e conscientes. Aqui Freud cita trabalhos mais antigos onde aparece pela primeira vez essa definição. tem a maior importância identificação com o pai no período de vivenciamento do complexo Édipo. Daí os tons severos e ásperos no “Ideal do nas imposições da consciência. o seu conteúdo. O “Ideal do Ego” diz Freud — “conservará o caráter do pai. com esse complexo essa deslocada para o inconsciente. A tendência à imitação é uma espécie de psíquico de uma absorção mais antiga.Cf. de onde continua a ecoar como a autoridade interna do dever. É essa a doutrina do “Ideal do Ego” em Freud. 15-16..}. O Ego e o ld.

lapsos. das quais nos lembramos facilmente e narramos vontade à outras pessoas. O mesmo cabe repetir sobre o método maduro de Freud. Freud distingue dois momentos nos sonhos: 1. formações normais — sonhos. isto é. Rio de Janeiro. p. onde permanecem desconhecidas. Todas essas formações de compromisso podem subdividir-se dois grupos: 1. manifestações patológicas da vida cotidiana como o esq mento de nomes. Elas só podem fazê-lo parcialmente mediante o compromisso e a deformação. e já daí. idéias deliras fobias. 14)*. através da qual renovam a vigilância da censura * A passagem da tradução russa citada por Bakhtin coincide inteiramente com Sua similar da tradução brasileira de O Ego e o !d.) 48 A deformação e o mascaramento das pulsões recalcadas ocorrem. p. Mesmo o inconsciente só podemos conhecer mediante sua transformação em consciência” (O Ego e o Jd. Que formações são essas? Como já sabemos. salientamos que este não encontrou acesso direto e imediato a ele. 2. lmago. O estudo de maior fundamento de Freud é o que trata dos sonhos. ao inconsciente está fechado o acesso direto à consciência também no pré-consciente. imagens artísticas. os sentidos latentes do sonho (latente Traumgedanken). o conteúdo manifesto do sonho (manifester Inhalt) — imagens do sonho habitualmente oriundas de impressões indiferentes do dia anterior ao sonho. É aí. que o pesquisador as localiza e as analisa. Os métodos aí aplicados para interpretar as imagens dos sonhos tornaram clássicos e modelares para toda a psicanálise. i filosóficas. todo o campo da criação lógica do homem. não carecem de energia e por isso procuram constantemente abrir acesso à consciência. freqüentemente a consciência nem desconfia da sua existência ¹. do T. todas elas. atos falhos. As fronteiras desses dois grupos são instáveis: freqüentemente é difícil dizer onde termina o normal e começa o patológico. evidentemente. mitos. mas dele tomou conhecimento através da consciência do próprio paciente. que se permitem reduzir às suas raízes inconscientes.1. AS FORMAÇÕES DE COMPROMISSO Quando expusemos a concepção inicial de inconsciente em Freud. . no campo do inconsciente. Eis o que ele mesmo diz a respeito em seu último livro: “Todo o nosso conhecimento está permanentemente ligado à consciência. 2. Mas sabemos igualmente que as pulsões recalcadas. na consciência. depois de burlarem a censura. 1975 (N. formações patológicas — sintomas de histeria. O método psicológico de Freud consiste na análise interpretativa de algumas formações da consciência de tipo especial. sociais e até políticas. penetram na consciência.5. 30. que temem a luz da consciência e são artificialmente mascarados pelas imagens do conteúdo manifesto do sonho. em cujo limiar opera a censura.

isto é. São muito complexas as leis de formação desses símbolos Substitutivos dos objetos da pulsão recalcada. ora. 101 e seguintes. tentando irromper na consciência. por isso foi mobilizada a força da resistência. Handwõrterbuch. achamos O nosso sonho tão absurdo que nele não pode haver qualquer sentido. São as formações de compromisso. correta e aceitável para a consciência. 83-87. precisamos superar essa resistência obstinada. Porque ela é precisamente aquela força que.elos mediadoras vinculadas t à representação recalcada quanto à representação latente no sonho. Essa resistência acaba mascarada pela realização do desejo³. ainda que distante. Para abrirmos caminho rumo aos sentidos latentes do sonho. notamos imediatamente que ele encontra forte resistência da nossa consciência: surge algum protesto interior contra semelhante interpretação dos sonhos. há. mais das vezes porém não sempre erótico4 e freqüentemente erótico infantil As imagens do sonho latente são representações substitutivas — símbolos — dos objetos do desejo ou. as imagens manifestas do sonho. passando a esse trabalho. pela introdução de imagens de sentido diametralmente opostos. É essa a técnica de formação dos símbolos do sonho. em nada queremos abrir mão das leis que regem esse território superior do psiquismo. isto é. p. têm alguma relação com a pulsão recalcada. recalcada. pp. por último. e esse protesto assume diversas formas: ora nos parece que o conteúdo manifesto do sonho já é compreensível por si e dispensa quaisquer explicações. na qualidade de censura. com a representação reprimida e. transferência dos afetos e emoções dos seus objetos reais para outros detalhes indiferentes do sonho. assumir uma 2. Freud. 4. 50 forma perfeitamente legal. pela transformação dos afetos -no seu oposto etc. Até agora essa força continua inibindo o nosso trabalho. que substituem essa pulsão recalcada na única forma censurada admissível. criticamos as idéias e imagens que nos vêm à cabeça e as recalcamos nos momentos do surgimento como casuais e sem relação com o sonho. os pensamentos e imagens livres que passam pela consciência — tudo indica que fortuitos e desconexos — vêm a ser os elos da cadeia pela qual se pode chegar à pulsão recalcada. é necessário apenas que se tente captar pela atenção tudo o que surge por via não arbitrária no psiquismo2. uma pulsão “não censurada”. ao contrário. em todo caso. ao conteúdo latente do sonho. em conservar alguma ligação. Noutros termos. A Interpretação dos Sonhos. indiscutivelmente.passivo e dar livre acesso a tudo o que chegue à consciência. . Mas a existência da resistência é um indicador muito importante: onde ela existe. Cf. 3. ela mesma é a causa do fácil e rápido esquecimento dos sonhos e daquelas deformações involuntárias a que nós os sujeitamos ao rememorá-los. 616. pp. por outro. sem sentido ou sem relação com o assunto. se consegue pela fusão de algumas imagens em uma imagem mi pela introdução de várias imagens. mesmo que isso pareça absurdo.Idem. O objetivo que os determina consiste. Quando a resistência é finalmente superada em todas as suas manifestações. sempre procuramos preservar e observar o ponto de vista da consciência legal. deformou o verdadeiro conteúdo (os pensamentos latentes) do sonho. por um lado.

nunca desejou que tudo terminasse mais rápido. A informação de que ele foi exumado não corresponde à realidade. Mas semelhantes imprecisões podem ser cometidas com o trabalho dos sonhos com base no que sabemos de outras análises. entretanto. por exemplo: essa . tomo 1. se tivesse desejado que a morte repentina pusesse fim à sua existência excessivamente sofrida? Não duvido de que tenha sido precisamente essa a sua relação Com o pai durante a longa doença e que as afirmações jactanciosas Sobre a sua piedade de temente a Deus visassem a desviar a atenção dessas lembranças. Mas o sonhador conta que. Será que ele está certo? Na verdade. mande arrancá-lo”. nunca perdeu a paciência. você precisa apenas agüentar um pouco. os cuidados e o tratamento custou muito dinheiro a ele. E ele procurou um dentista. pp. E mesmo assim ele não lamentou nada. que deve ser considerada também 5. mas mesmo assim conservado. porque não pode adequar-se ao pai tudo o que se pode dizer sobre o dente. Por acaso a semelhança não seria bem mais indubitável se ele efetivamente tivesse revelado em relação ao pai doente os mesmos sentimentos revelados em relação ao dente doente. O sonho é de um homem que perdeu o pai há muitos anos. pelo visto sem nada em comum com essa questão. Em tais condições. será que não nos salta à vista a contradição nos pensamentos relacionados ao sonho? Ele identificou o pai com o dente. O pai passou longo tempo doente. um dente começou a doer. Jactavase de que havia revelado em relação ao pai a verdadeira piedade judaica e cumprido rigorosamente todas as exigências da lei judaica. 51 em relação a tudo o que se segue. O pai morreu. o sonhador começa a narrar sobre a doença e a morte do pai e as suas relações com ele. Freud. exige neste caso que não se dê atenção nem ao desassossego nem aos gastos. Mas este lhe disse: “esse dente não deve ser arrancado. Vou pôr alguma coisa para matar o nervo. Conferências Introdutórias sobre Psicanálise. Mas em que consiste essa tertium comparationis6 entre o dente e o pai que torna possível a condensação? Sem novas indagações. Neste caso. que reza que o dente deve ser extraído se causa desassossego e dor. Mas em relação ao pai ele também quis agir segundo a prescrição da lei. E não há nada surpreendente que no conteúdo manifesto do sonho tenha acontecido algo absurdo. mas foi exumado e está com uma aparência ruiu Depois disso continua a viver. quando retornou do enterro do pai. Ele quis tratar esse dente conforme a prescrição de uma doutrina religiosa judaica: ‘se um dente te incomoda. o filho. Essa extração — disse de repente o sonhador — é uma extirpação. Eis seu conteúdo manifesto (manifester Jnhalt): “O pai morreu. isto é. que se assuma todo o fardo e não se permitam quaisquer pensamentos hostis em relação ao objeto causador da dor. apenas aproximadamente. e esse desejo se esconde atrás da máscara dos pensamentos de compaixão. Em relação ao dente ele desejou agir segundo a lei judaica. 195 seguintes. Contudo. costuma surgir o desejo de morte daquilo que nos causa todos esses sofrimentos. daqui a três dias você volta e eu tiro o que pus lá”. e o sonhador faz tudo o que está ao S~ alcance para que o morto não note isso”. o sonhador condensou. Depois o sonho se transforma em outras manifestações. que. fundiu numa só coisa o pai morto e o dente morto.Esclareçamos o que acaba de ser dito tomando como exemplo análise de um sonho efetuada pelo próprio Freud5. uma vez que não se extrai o próprio dente mas dele apenas se retira alguma coisa que está morta. e estamos sabendo.

V V. Os pensamentos latentes desse sonho — a hostilidade ao pai e o desejo de eliminá-lo — estão de tal forma mascarados nas imagens manifestas do sonho que este satisfaz plenamente as exigências morais mais rigorosas da consciência. Mas a oração foi composta. então os sintomas das doenças nervosas se constituíram claramente na matéria principal para as conclusões sobre o inconsciente. os desejos secretos) dão vazão às hostilidades ao pai. do período da doença e da morte do pai. Não foi sem alívio para si mesmo o sonhador transferiu essa má aparência de si para o pai. razão por que nos limitaremos a algumas palavras sobre a aplicação do método freudiano em psiquiatria. que leva a um equívoco: todas as imagens desse sonho decorrem de pensamentos latentes e se constituíram numa formação ambivalente substitutiva. onde é natural que o jovem -faça tudo o que pode para ocultar do pai a manifestação da sua sexual. 5. Em todo caso. O sonho condensa as pulsões hostis inconscientes de três períodos de sua vida — do complexo de Édipo.tiveram esse tipo de sonho: em seu amor ao pai se misturaram -muita estima e medo. nesse sonho a sonda do onanismo vai ao fundo propriamente dito — às pulsões infantis do complexo de Édipo. Esse sonho é interessante porque seus pensamentos latentes (isto é. Tudo indica que o paciente de Freud poderia facilmente concordar com semelhante interpretação do sonho. O “depois disso ele continua a -viver”coincide com o desejo de ressuscitar o pai e com a promessa dentista de que o dente vai ficar curado. 53 Assim se processa a interpretação psicanalítica dos sonhos. Se o método foi elaborado.4. “Ele está com uma aparência ruim”. antes de tudo no estudo dos sintomas patológicos de diversas doenças nervosas. lapidado e burilado nas análises dos sonhos. As situações ulteriores do sonho manifesto se explicam pelo complexo do onanismo (conjunto de experiências emocionais vinculadas ao onanismo infantil. 7. ao mesmo tempo. É evidente que não podemos nos aprofundar minimamente nesse Campo interessante mas específico.isso parece referir-se às palavras do dentista. Mas. . por último. da puberdade (o complexo do onanismo) e. Freud chama de trabalho do sonho o processo em que os pensamentos latentes do sonho se transformam no conteúdo manifesto e são revelados atrvés -da interpretação dos sonhos. Agora você está vendo como se formou esse sonho incompreensível. modo especialmente hábil — “o sonhador faz tudo o que está ao alcance para que ele (o pai) não note isso” —‘ calculando suscitar nós o desejo de acrescentar que ele morreu. isso se refere também à má aparência graças à qual o jovem se denuncia ou teme que se manifestem os seus excessos sexuais durante a chegada da puberdade. acumuladas no “inconsciente” durante toda a vida do paciente. Mas o único acréscimo razoável decorre do complexo do onanismo. decorrentes do temor inicial resultante de manifestações sexuais. O SINTOMA NEURÓTICO Freud também aplica os mesmos métodos na análise de outras modalidades de formações de compromisso. Houve uma condensação estranha. Porque ele chegou à interpretação dos sonhos partindo das necessidades da psiquiatria e procurando usar o sonho como sintoma.). caso bastante freqüente no trabalho dos sonhos7. segundo as quais você fica com aparência ruim quando perde um dente nesse lugar. Também nesses exemplos o método da livre fantasia permitiu desvendar todas as formações intermediárias — o dente doente e a necessidade da sua extração — que fundem as imagens manifestas do sonho — o pai exumado — com a pulsão inconsciente recalcada —o desejo infantil de eliminação do pai.

que ele naturalmente nunca reconheceria. graças a esse nome. interrompeu o fluxo do discurso e provocou a sua deturpação. 115. empregou por erro a palavra de sonoridade muito semelhante geneit (não propenso). a mesma conhecida dinâmica psíquica da luta e dos compromissos da consciência com o inconsciente penetra. esquecimentos de nomes. todos esses fenômenos da vida cotidiana. Foi ela que arrastou para o “abismo do esquecimento” esse nome totalmente inocente. mas traduziu justamente a má vontade inconsciente do professor em relação ao seu antecessor na cátedra. Psicopatologia da Vida Cotidiana. Mas acontece que ele esqueceu o nome do vinho que queria tomar. Quando tentamos recordar algum nome que esquecemos. a arte. Em tais casos sempre se verifica que a causa do esquecimento foi alguma lembrança para nós desagradável. por último. Certa vez. todos esses fenômenos vieram a ser formações de compromisso do mesmo tipo que os sonhos e os sintomas patológicos. 9. Esses nomes e pensamentos que afloram involuntariamente são análogos às imagens substitutivas dos sonhos. e esqueceu apenas porque para ele o nome era especialmente memorável. Cf. A partir de um grande número de pensamentos ‘substitutivos’ que lhe ocorreram no lugar do nome esquecido. Ele não só confirmou que tomara aquele vinho pela primeira vez em companhia de uma mulher chamada Edwiges como. as idéias filosóficas e. p. E esse desejo. . O sentido acabou sendo bem diferente. Através delas poderemos chegar ao esquecido. à nossa consciência sempre afloram outros nomes ou pensamentos de alguma maneira vinculados ao nome esquecido. Na época em que isso acontecera ele era casado e feliz no casamento. Começando um discurso um professor quis dizer: “não estou apto (Jch bin nicht geeignet) a avaliar todos os méritos do meu respeitável antecessor”. e a Edwiges estava relacionada à época de sua vida de solteiro.5. Processos semelhantes ocorrem nos casos de esquecimento de certas palavras e nomes próprios. Outro exemplo. liga8. 55 da por associação a um nome esquecido. pude concluir que ele o havia esquecido graças a alguma Edwiges. eu reconheço a existência de um número legal de membros e por isso declaro encerrada a sessão” Ele. O campo seguinte de aplicação do método psicanalítico são as formações ideológicas no sentido mais restrito do termo: os mitos. mas em vez disso declarou: “não estou propenso (Ich bin nicht geneigt) a apreciar todos os méritos” etc. Vejamos alguns exemplos desse campo. deveria dizer “aberta”. lembrou-se no mesmo instante do nome do vinho. Ereud. segundo Freud. Conferências introdutórias sobre Psicanálise. atos falhos etc. Na análise. A tais fenômenos Freud dedicou Psicopatologia da Vida Cotidiana. em vez da palavra geeignet (inapto). contrariando a vontade e a consciência8. é claro. os fenômenos sociais e políticos.5. Assim. Desse modo. PSICOPATOLOGIA DA VIDA COTIDIANA Freud aplicou o método psicanalítico a toda uma série de fenômenos disseminados do cotidiano como os lapsos. o presidente da câmara de economia da Áustria abriu sessão com as seguintes palavras: “Senhores. Vejamos um dos exemplos citados por Freud: “Certa vez um senhor desconhecido me convidou para tomar um copo de vinho italiano com ele no hotel. A que se deve tal lapso?! sessão não lhe prometia nada de bom: do fundo da alma ele a queria ver já encerrada. que ele recordava a contragostos9. Este é o tema do próximo capítulo.

A Filosofia da Cultura em Freud .6.

da transferência do significado4 um plano para outro. de Rustem e Zorab no persa. Associa-se a esse mesmo grupo a lenda da luta entre pai e filho. libertar da seriedade da vida e dar vazão às pulsões infantis recalcadas sexuais ou agressivas. O famoso mito grego em que Cronos devora os filhos e é castrado Zeus. Têm importância especialmente grande na mitologia os motivos vinculados ao vivenciamento e ao recalque do complexo de Édipo. às manifestações estéticas do chiste e os gracejos2. O freudiano Jung aponta várias coincidências surpreendentes entre as fantasias do doente de Dernenda praeeox (demência juvenil) e os mitos dos povos primitivos. O mito é o sonho coletivo de um povo. E o mesmo complexo de Édipo é o solo para alimentar o desenvolvimento das idéias e cultos religiosos. . A forma dos gracejos é regida pelas mesmas leis que criam a estrutura formal das imagens do sonho. * Canç5o popular épica russa. Passemos à arte. (N. da substituição de imagens. A expressão mais genuína religião patrilinear é o judaísmo com suas proibições. seus mandamentos e. salvo pela mãe que o escondeu no ventre (o retorno ao seio terno). As imagens do 1. as leis da formação das representações substitutivas: o mesmo mecanismo para contornar legal por meio da fusão de representações e palavras. Exemplos típicos das primeiras são religiões orientais de Ashtart. da ambivalência verbal. 111. disse. Dependendo do elemento que venha a prevalecer nas experiências emocionais religiosas — seja a atração pela mãe ou as proibições e a vontade do pai (o ‘ideal do Ego”). o “Ideal do Ego” desempenham um papel muito grande. A tendência do chiste e do gracejo é contornar a realidade. o freudismo subdivide as religiões matrilineares e patrilineares. Os sistemas religiosos são bem mais complexos. do deslocamento das emoções etc. Aí. é um dos exemplos mais típicos dessa espécie. por último. 58 mito são símbolos substitutivos de pulsões recalcadas no incosciente. antes de tudo.A criação de imagens mitológicas é absolutamente análoga ao trabalho do sonho. Der Witz uM seine Beziehung zum Unbewussten (1921). isto é. Baal etc. Há tradução russa.minada entre todos os povos: as lutas de Hildebrand com Hudibrand no epos germânico. a circuncisão (símbolo da interdição imposta pelo pai às pulsões incestuosas do filho). ao lado complexos recalcados de pulsões sexuais. É plenamente clara a origem de todos os símbolos desse mito no complexo de Édipo. A ARTE O próprio Freud aplicou o método de interpretação dos sonhos dos sintomas. 6. Auflage.) 2. do T.3. Freud. de Iliâ Muro com o filho nas bilinas* russas são variações do mesmo tema eterno: a luta pela posse da mãe.

Esse princípio da economia (é verdade que em forma mais sutil) foi aplicado por Freud na análise da técnica dos chiste e anedotas. Segundo Iermakov. Tomemos um exemplo tirado da literatura russa. como -por trás do nariz do major Kovalióv*. esconde-se algum complexo erótico individual. AS FORMAS DA VIDA SOCIAL A esta altura cabe abordar brevemente a teoria psicológica da origem das formas sociais. No centro de toda essa teoria psicossociológica se encontram o já conhecido mecanismo de identificação e o campo inconsciente do “Ideal do Ego”. estrejtamente vinculado ao complexo de Edipo (a ameaça do pai): o pavor da perda do pênis ou da potência sexual3 Achamos dispensável multiplicar os exemplos. se a decodificarmos aparece algum objeto erótico. Não sobra espaço para refletir a existência socioeconômica com suas forças e conflitos. O Nariz. na maioria dos casos. ou explicam a forma ponto de vista da velha lei do menor esforço. o nariz vem a ser um símbolo substitutivo do pênis. O professor moscovita Iermakov aplicou o método psicanalítico à interpretação da famosa novela de Gógol. 60 outros motivos familiares do campo do “Ideal do Ego” podem alimentar a criação artística. imperativos do dever. Existe um importante campo de manifestação do “Ideal do Ego”. Assim. toda imagem artística sempre apela para o inconsciente. 3. Sabe-se que um homem apaixonado tende.incosciente de culpa é um dos motivos centrais de Dostoiévski. a cruel exigência ética feita ao homem no Tolstáj do período tardio e Prof lermakov Órcher*i po pslkhologuit gógolskovo tvórtclrestva (Esboços de psicologia da obra de Gógol). É formalmente artístico que exige do observador o mínimo dispêndio de energia na obtenção do resultado máximo. embora esses motivos assumam maior importância nas construções filosóficas e não na arte. inacessíveis ao domínio. Freud dedicou aos fundamentos dessa teorias um dos seu últimos livros: Massenpsychologie and Jch-Analyse. Nestes casos dizemos . ele reflete o jogo das forças psíquicas na alma individual do homem.4. o sentimento . todo o aspecto de conteúdo em arte se extrai de premissas psicologicamente individuais. Por trás da imagem artística aparentemente mais inocente e comum. Onde em arte encontramos imagens tomadas ao mundo das relações econômicas e sociais essas imagens têm significado apenas substitutivo: por trás delas. os psicanalistas ou a contornam inteiramente com o silêncio.posterior desse campo já coube aos seus seguidores.) se forma na alma humana através da identificação (auto-identificação) com o pai e outros objetos do amor na tenra idade. Mas não é só do “Id” inconsciente que a arte haure suas forças: o inconsciente “Ideal do Ego” também pode ser sua fonte. da consciência etc. mas de uma forma que engana e tranqüiliza a consciência Trata-se de um engano benéfico: ele permite erradicar os complexos universalmente humanos sem criar conflitos graves na consciência. a atribuir ao objeto amado toda sorte méritos e perfeição que esse objeto de fato não tem. 6. todo o tema da perda do nariz e alguns motivos de sua elaboração se baseiam no chamado “complexo de castração”. principalmente a OttoRank Segundo os freudianos que escreveram sobre arte. Em todas as modalidades de arte têm importância especialmente grande os símbolos eróticos. que até agora não tivemos oportunidade de abordar. Quanto às questões da forma artística e sua técnica. Vimos que o “Ideal do Ego” (o conjunto de exigências inconscientes. Assim.

a força e a profundidade da cultura criam o “Id”eo “Ideal do Ego”. o “Ego” consciente a três senhores que se hostilizam (o mundo exterior. é claro. De fato. identificaram de forma recíproca o seu “Ego”6. da Igreja e do Estado. Porque. contra o objeto externo q substitui. p. depois de penetrar no íntimo da pessoa e tomar-se ali voz interior da sua consciência. coloca-se no lugar desse “Ideal” e daí dirige facilmente o fraco “Ego” consciente da pessoa. Dessa maneira. No caso da corriqueira paixão erótica. essa relação individual da pessoa isolada com o portador da autoridade o líder. ou melhor. p. 4 Massenpsychotogie und Jch-Analyse. 1921. ele é pressionado de cima pelo “Ideal do Ego” suas exigências categóricas. do sacerdote. 6. 62 Como vê o leitor. 5. O Trauma do Nascimeto. pp. na maioria dos casos. Mas se alienamos inteiramente o nosso “Ideal do Ego” em proveito do objeto ou. segundo Freud a organização social também explica plenamente por mecanismos psíquicos. através de um processo inverso torna a exteriorizar-se e se converte em voz da autoridade externa. lugar da nossa consciência! A vontade de tal autoridade é indiscutível. Idem. 81. o que podemos lhe contrapor? Porque ele ocupou o lugar do nosso “Ideal do Ego”. 83. Graças ao fato de todos os membros da tribo haverem transferido o seu “Ideal do Ego” para um mesmo objeto (o líder). Mas. conseqüentemente. 6. Como se explica isso? Pelo mesmo mecanismo de identificação. Segundo Freud. As forças psíquicas criam a comunicação. Assim se formam a autoridade e o poder do líder. ainda não esgota a organização social. 87-88. a revolução política e social. tornar-se iguais uns aos outros. nivelar as suas diferenças. do Estado. esse processo vem a ser incompleto na maioria dos casos.empobrecendo a nós mesmos. existe ainda uma estreita coesão social entre todos os membros da tribo. Na criação cultural. as tendências sedimentadas no último do de desenvolvimento do freudismo encontraram expressão mais extremada e aguda no livro de Otto Rank. formam-na. Em todos os campos da criação cultural o nosso “Ego” c ciente tem importôncia menor. tem suas raízes no “Id”: é a sublevação “Id” contra o “Ideal do Ego”. lugar da instância crítica em nós. em outros termos. Esse “Ego” defende os interesses realidade (do mundo exterior) com o qual ele tenta conciliar os de e paixões do “Id”. Assim se forma a tribo. o sacerdote etc. J luta contra a autoridade social estabelecida. no período do complexo de Édipo a voz do pai. além dessa relação. não lhes resta outra coisa senão identificar-se mutuamente. Eis a definição resumida do próprio Freud: a massa primitiva (a coletividade) é um conjunto de indivíduos que no lugar do seu “Ideal do Ego” colocaram o mesmo objeto externo e. nós nos privamos de qualquer possibilidade de arrostar a vontade e o poder desse objeto. O TRAUMA DO NASCIMENTO Como já observamos. O hipnotizador se apossa do “Ideal do Ego” do paciente. Dessa maneira. o “Ego” desempenha um papel formal e policial — o patos. da Igreja4. respeitada de forma indiscutível e supersticiosa5. Massenpsychologie und Ich-Analyse. nesse mesmo processo de substituição do “Ideal do Ego” pela personalidade de outro indivíduo se baseiam também os fenômenos da hipnose. -espécie de síntese . colocamos o objeto externo no lugar do “Ideal do Ego”. o “Id” e o “1 do Ego”) e procura conciliar os conflitos que surgem permanente te entre eles.5. dão-lhe solidez e durabilidade.

repete o pavor do nascimento. razão por que agem com tanta força sobre a alma humana. por ultimo. O estado intra-uterino se caracteriza pela ausência de ruptura entre a necessidade e a sua satisfação. Aqui ele abala o corpo do doente. o paraíso socioeconômico das utopias revelam nitidamente os traços da sua origem na mesma propensão para a vida intra-uterina uma vez vivida pelo homem.63 seio materno. as formas do caixão e. Mas. a morte também é interpretada pelo homem como um regresso ao útero. é o enigma do nascimento do homem. que não permite à memória despertar integralmente e a obriga a revestir a propensão ao seio materno com diversas imagens e símbolos substitutivos. OS gregos foram os primeiros a serem capazes de se sentir bem no mundo exterior: não tinham a propensão para o escuro e o aconchego do estado intrauterino. toda a criação é condicionada pelo ato do nascimento para o mundo seja no aspecto da forma ou do conteúdo. O a Posição do feto. Elas se baseiam na memória vaga e inconsciente do paraíso que realmente existiu. ligado à idéia da morte. Rank tenta demonstrar a sua semelhança oculta com o útero. a mais plena compensação do trauma do nascimento é a vida sexual. Sua efetiva erradicação só é possível pelas vias da criação cultural. Mas aí o trauma não se erradica. é o organismo da mãe que lhe dá continuidade imediata ao próprio organismo. A maneira grega de queimar os cadáveres também assinala uma superação melhor sucedida do trauma do nascimento.? Tudo são Sucedâneos e símbolos do protetor seio materno. repetem com precisão primeiras convulsões do organismo nascente. as estátuas arcaicas com seus corpos arqueados e sentados denunciam de modo inequívo. O coito é um regresso parcial ao útero. que. Para Rank. O que é a caverna onde o homem primitivo se deixou esquecer? O que é o quarto em que nos sentimos em aconchego? A pátria. O trauma do nascimento se reproduz nos sintomas de doenças: no medo infantil. nas neuroses e psicoses dos adultos. Vivemos em um mundo de símbolos. . Rank define a cultura como um conjunto de esforços para transformar o mundo exterior em um substituto. em um sucedâneo (Ersatzbildung) do seio materno. segun64 do Rank. repetindo improdutivamente (é claro que em forma atenuada) a comoção real vivida no nascimento. As últimas convulsões da agonia. não foram inventadas. Através da análise das formas arquitetônicas. Desse modo. Esse “trauma do nascimento” determina a tarefa e o sentido tanto da vida pessoal quanto da criação cultural. Ele atrai e afasta. isto é. segundo Rank. os rituais funerários — tudo isso denuncia uma concepção inconsciente da morte como regresso ao seio materno. Resolveram o enigma da esfinge que. o melhor sucedâneo do paraíso. O temor. o Estado etc. segundo Rank. entre o organismo e a realidade exterior: porque o mundo exterior na própria acepção da palavra não existe para o feto. o morto sentado com as pernas encolhidas (posição do feto). assinalam uma coisa: o seio materno (o útero propriamente dito) e os caminhos para ele. Só o homem grego da escultura — o atleta que Joga livremente no mundo exterior — assinala a superação do trauma. o enterro num barco (alusão ao útero e ao líquido da bolsa). As formas mais antigas de sepultamento — o enterro no chão (“mãeterra”). mas sua verdade não está no futuro e sim no passado de cada ser humano. Toda a cultura e a técnica são simbólicas. Extrai as formas da arte da mesma fonte — o trauma do nascimento: assim. É verdade que as portas do paraíso são guardadas por um guardião severo — o pavor do nascimento. Todas as características do paraíso e da idade de ouro nos mitos e sagas. por último. as características da futura harmonia universal nos sistemas filosóficos e revelações religiosas e. no fim das contas.

Parte III Crítica ao Freudismo .

2. Freud e seus discípulos só citam a si mesmos e só se apoiam em si mesmos. die Se/mie.7. cabe mencionar: IX. Cf. nem mesmo aquele mínimo de linguagem comum que é indispensável para o ajuste de contas e a demarcação de fronteiras?’ indica que Freud e seus discípulos estão convencidos disso. Além das obras a que já nos refersnos. Maag. 1 A literatura crítica sobre Freud é pequena. que inicialmente foi objeto da perseguição unânime de todo o mundo científico. É preciso dizer também que a ciência oficial até hoje não legalizou inteira‘nerlte o freudismo. Geschtechtsleben und seelische Stórrungen (Bettrdge ZUrKrítíkder Psychoanalyse). em laboratório. é efetivamente tão grande que entre elas já não pode haver nada comum. 1924. 1912. Para a psicanálise. Leipzig. 1925.. basta que não nos deixemos enganar por sua . Witlels Z. Infelizmente. É fácil nos convencermos disto. Porque o resto do mundo quase não existe para eles2. Trata-se de uma grande falha do freudismo. enquanto nos círculos filosóficos acadêmicos considera-se até Coisa de mau tom falar sobre ele. Será que essa diferença entre a psicanálise e a psicologia. A escola psicanalítica. em período mais tardio começaram a citar Schopenhauer e Nietzsche. O FREUDISMO E A PSICOLOGIA MODERNA No segundo capítulo deste livro caracterizamos as duas tendências centrais da psicologia moderna: a subjetiva e a objetiva. o freudismo efetivamente transferiu para as teorias todas as falhas basilares da psicologia subjetiva da sua atualidade. Também não se elucidou posição de Freud na famosa discussão que deixou preocupados contemporâneos psicólogos e filósofos em torno do paralelismo físico e da causalidade psicofísica4. die 68 Portanto. Edgar Michaelis. com o método experime. E. com a escola de Wiirzburg (Messer e outros). Quando Freud e seus discípulos contrapõem a sua concepção psíquico a toda psicologia restante — sem sequer se darem ao de diferenciar essa psicologia — eles fazem contra ela uma de identificar o psíquico com o consciente. com psicologia funcional (Stumpf e outros). fechou-se em sua concha e assimilou alguns hábitos sectários do trabalho e do pensamento não muito próprios da ciência. Mas será mesmo assim? Infelizmente. Cabe agora responder de forma minuciosa e precisa a qual das duas deve-se associar o freudismo’. Sexcualitãt undDichtung.1. o ciente é apenas um dos sistemas do psíquico5. com a psicologia diferencial (W. Stern)3 e. Frettd der Mano. Urbild ~ líloske. Die Menschheist-Problematizk der Freudschen Psychoanalyse. por último. Freud nunca fez uma única tentativa de estabelecer modo minimamente minucioso e circunstanciado os limites entre doutrina e as demais correntes e métodos da psicologia: não ésua relação com o método introspectivo. Otto Hinrichsen. nem Freud nem os freudianos jamais tentaram elucidar de modo minimamente preciso e minucioso a sua relação com a psicologia de sua época e com os métodos por ela aplicados. com as novas tentativas dos métodos vos do chamado behaviorismo americano.

Até os psicólogos subjetivistas. razão por que é possível abandonar o imediatamente físico 1 apenas como os seus substitutos psíquicos. evitar referência aos seus desejos. Vontade e sentimentos (N. * Johann Nicolaus Tetens (1736-1807). ganhou reconhecimento geral — em vontade (desejos. sentimentos e representações. Já a respeito das forças objetivas reais. não encontramos semelhantes djr a análise empírica em psicologia com uma interpretação do psiquismo baseada racionalismo de Leibniz e Wollf. representações. desejos e sentimentos. através de alguns de seus representantes. O ponto de vista da consciêneia é condutor no lançamento dessas bases da psicologia subjetiva. Consecutivamente. Desse modo. Acontece. que esses elementos da vida psíquica só existem para a consciência. Porque a velha psicologia decompunha o psíquico em componentes elementares com o auxílio do corriqueiro método introspectivo. passa a não ter absolutamente nenhum sentido Conservar sentimentos representações e desejos. como veremos. a introspecção é inteiramente consciente. Tentou 69 Kant.) 70 elementos em nenhum ponto da composição do comportamento: a experiência objetiva externa deve apoiar-se em componentes materiais elementares do comportamento inteiramente diversos. que em sua forma habitual — como afirma o próprio Freud é totalmente incapaz de nos levar além da “consciência oficial”. se examinarmos a composição elementar do psiquismo como a concebe o freudismo. sentimentos e representações. só à luz da autoconsciência subjetiva o quadro da n~ vida psíquica nos apresenta como luta de desejos. porém. em psicologia devia-se partir da Introspecção e dividir empiricamente os fenômenos psíquicos em representações. evidentemente. a mesma diferenciação ali praticada. que servem de base à essa luta. mas quando nós começamos a analisar esses atos de forma objetiva. procurando manter coerentemente e até o fim o ponto de vista da nossa experiência. representações. Abandonada a consciência. parcial (não pode livrar-se das avaliações) e. De fato. pensamentos). em todo caso. veremos que ela se forma de sensações. Assim. a introspecção só é possível do ponto de vista da consciência. Mas. os sentimentos.baseia na premissa latente de se pode encontrar o respectivo equivalente psíquico (no psiquismo inconsciente) todo o físico. aspirações). que nada têm em comum com os desejos. Mas será que temos o direito de construir o inconsciente por analogia com a consciência e supor nele exatamente os mesmos elementos que encontramos na consciência? Nada nos dá esse direito. De fato. por um lado. Quando o homem motiva subjetiva e conscientemente os próprios atos não pode. A velha psicologia desconhecia outro ponto de vista e por isso identificava o psíquico com o consciente. vontade e conhecimento não foi ditado à velha psicologia senão pela consciência. já afirmavam muito antes de Freud que a introspecção é. observe-se que ele conserva até as mesmas definições dessas potencialidades aplicadas pela psicologia da sua época e. afetos) e conhecimento (sensações. as representações. dos mesmos elementos de que se constitui também a “vida psíquica” na velha psicologia. racionaliza demasiadamente a vida psíquica e por isso os seus testemunhos requerem uma elaboração substancial. Freud transfere de modo totalmente acrítico todos esses elementos psíquicos — e ainda por cima em sua forma corriqueira — para o campo do inconsciente: e aí encontramos os desejos. psicólogo e filósofo alemão. fica claro que o desmembramento do psíquico nos elementos de sentimento. por outro. sentimento (emoções. Para ele. isto é. sentimentos e representações. a . do T.

o que há menos neles é o mecânico. além de não controlar o trabalho da censura. desempenham as representações subjetivas e desejos na vida psíquica do homem. Como. É esse mesmo caráter acentuado da psicologização do somático que assume a famosa teoria freudiana das zonas erógenas (ou seja. acabam sujeitando todo o orgânico aos métodos da introspecção. Freud a considera um “mecanismo” que funciona de modo totalmente inconsciente (como o leitor está lembrado. da zona anal (isto é. 71 7. Observemos o trabalho da censura. que é expressivo por seu subjetivismo. Ocupando uma posição subjetiva. Daí resulta certa duplicação das zonas erógenas: o Seu destino no psiquismo se torna totalmente autônomo e independente do seu destino fisico-químico e biológico no organismo material. Mas com que sutileza esse “mecanismo inconsciente” adivinha todos os matizes lógicos dos pensamentos e as nuanças morais dos sentimentos! A censura revela uma imensa competência ideológica e requinte. É claro que todas essas dificuldades metodológicas. procuram apenas reflexos do somático no psiquismo. a consciência. por seu vínculo fisiológico com outras partes do corpo. do ponto de vista da sua introspecção. Freud não se baseia em nenhuma teoria fisiológica dessas zonas. todas as representação e desejos estão seguramente orientadas e os sentimentos conservam toda a riqueza dos seus matizes e das mais sutis conversões. Esses traços da psicanálise se revelam especialmente nítidos quando Freud começa a construir a teoria dos caracteres humanos com base em sua doutrina das zonas erógenas. de uma excitabilidade sexual específica do . De fato. das partes do organismo humano sexualmente excitáveis). Freud afirma que o predomínio. O divórcio entre o subjetivo-interior e o material em psicanálise permanece o mesmo que se verifica na psicologia da consciência. tudo isso são processos que se desencadeiam no mundo material exterior e Freud nunca os define nem os leva efetivamente em conta. nem chega a suspeitar da sua existência). isto é. mecânica? Esse mesmo caráter sumamente “consciente” e ideológico é reli lado por todos os demais “mecanismos psíquicos” de Freud (por exemplo. não tem o menor interesse pela química dessas zonas. produz entre as experiências emocionais uma seleção puramente lógica. Nada tem a fazer com ele: cabe-lhe ignorá-lo inteiramente ou dissolvê-lo no psíquico. Não são nada naturais. Será isso compatível com a sua estrutura inconsciente.4 CRITICA À TEORIA DAS ZONAS ERÓGENAS Assim. sua influência sobre o trabalho e a forma de outros órgãos. O lugar e as funções dessa ou daquela zona erógena (da genital. sua inserção em nada nos ajuda a vincular a regularidade psíquica à regularidade objetiva natural. na composição material do organismo. do papel que. inevitavelmente vinculadas a essa ruptura da unidade e da continuidade da experiência objetiva externa. sua relação com a constituição do corpo etc. o papel de uma zona erógena está vinculado ao papel que ela desempenha no psiquismo Subjetivo visto isoladamente é questão para a qual Freud não fornece nenhuma resposta. o inconsciente não aproxima minimamente o psíquico da natureza material. Freud e seus discípulos jamais operam diretamente com a composição material e com os processos materiais do organismo corporal. por exemplo) na totalidade física do organismo a secreção interina das glândulas genitais. a psicanálise abriu mão do enfoque direto e imediato do material. surgem também para o freudismo. Freud faz uma análise e um estudo abrangente apenas dos seus equivalentes psíquicos. mas ideológicos. na infância. Abordemos apenas um elemento dessa teoria. de fato. -.correspondo com absoluta exatidão a determinados objetos. o mecanismo da transferência que o leitor já conhece). isto é. ética e estética. psicologizando-o.

O princípio escancaradamente subjetivo dessa classificação é perfeitamente claro. No fim das contas. não pode nem ser vinculada diretamente aos dados da experiência externa objetiva. Pfister. segundo Freud. No grupo das pulsões do “Ego” (lchtriebe). Freud acaba tendendo a aplicar com coerência o ponto de vista subjetivo interior: em suma. É dispensável dizer que. que a biologia é a base objetiva da psicanálise. acarreta o surgimento do psiquismo como qualidade nova da matéria. É a essa espécie neutra de ser que pertencem as profundezas do inconsciente. mas o reveste de uma fictícia forma neutra. Todos os termos biológicos que abundam nas páginas dos livros e artigos de psicanálise perdem aqui a sua consistencia objetiva. Até para os vitalistas. porém. que ele coloca no mesmo plano com o “princípio de prazer”. que nunca reconhecem abertamente que em parte alguma a biologia possa ter algo a ver com o “Ego”. É evidente que semelhante afirmação é sumamente ingênua em termos filosóficos. só nas suas camadas mais superiores — próximas do pré-consciente — começa a diferenciação do psíquico e do físico. do ponto de vista de uma biologia rigorosa. exceto as sexuais.Desse modo. de subseqüentemente pode surgir pela diferenciação tanto o ser físico quanto o psíquico. em certa fase. Essa afirmação não se baseia em nada. semelhante classificação é inadmissível. Ela omite inteiramente a questão do método. Trata-se de uma ingênua afirmação metafísica que haure seu material da experiência subjetiva interior. obtida por meio da introspecção. Só um ou outro ponto de vista pode ser aplicado com plena coerência. Estamos mais autorizados a falar de psicologização e subjetivização da psicologia por Freud. encontramos um processo de extrema complexificação da organização da matéria que. O freudismo dissolve no subjetivo-psíquico todas as formas e processos objetivobiológicos do organismo. Para confirmar essa afirmação basta que se mencione a classificação das pulsões feita por Freud. Mas nós sabemos que não encontramos semelhante ser na experiência 73 externa. dissolvendo-se integralmente no contexto psicológicosubjetivo. zonas erógenas determinam. Alguns freudianos (Rank. O FREUDJSMO E A BIOLOGIA Alguns partidários de Freud afirmam. toda a realidade exterior vem a ser para ele mero “princípio de realidade” psíquico. Groddeck) afirmam que a psicanálise conseguiu tatear um campo absolutamente específico do ser não físico nem tampouco psicológico mas como que neutro. nunca e em parte alguma encontramos nessa experiência a matéria e o psiquismo se separando de algo terceiro.5. Essa relação de Freud com a composição física do organismo é perfeitamente compreensível. . que no caso dado. Na experiência objetiva. Podemos perguntar: em que experiência está esse “ser neutro” e transcorre o processo de sua diferenciação: na interna ou na externa? Os referidos freudianos omitem zelosamente essa questão. o caráter e os atos do homem uma vez que o caráter é totalmente inseparável da sua expressão material no comportamento humano —‘ evitando inteiramente o corpo e a constituição física e todo e qualquer meio material. tendo em vista a sua “teoria das pulsões”. evidentemente. Freud reúne todas as pulsões. é decisiva. 7. A experiência emocional interior.

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harmonia etc. A vida psíquica na velha psicologia transcorria naquele estado de “sombra e água fresca”. O rigoroso conceito de necessidade natural passou a reinar em todos os campos da biologia pós-darwiniana. A inocência da criança era substitui pela consciência da razão do homem adulto. Tudo arrumado. o primeiro que salta ~ vista e permanece como a última e mais forte impressão de toda a sua teoria é.. nenhuma catástrofe. . foi nessas concepções do psiquismo que o freudismo realizou a sua transformação mais radical. Em uns autores ele se manifestava com mais intensidade. banidos de todos os outros campos. O nosso leitor provavelmente também experimentou essa impressão de novidade na medida em que foi acompanhando a exposição da psicanálise. Esse otimismo psicológico era uma herança do otimismo biológico que dominara na ciência antes de Darwin. Vimos ainda em que consiste o terreno comum no qual ele vai ao encontro de todos os subjetivistas. Quando tomamos conhecimento da doutrina de Freud. e o infortúnio da nossa vida psíquica.8. o caos. penetrava de forma mais dissimulada todo o quadro da vida psíquica do homem. A NOVIDADE DO FREUDISMO A esta altura já nos convencemos de que o freudismo é apenas uma das variedades da psicologia subjetiva. Mas a questão não se esgota aí: devemos ainda destacar com nitidez e avaliar de forma correta o que precisamente o distingue de outras correntes subjetivistas. Só o psiquismo. Ao natural e ao espontâneo contrapunha-se o psíquico como reino da harmonia e da ordem. em outros. dirigido pela sábia consciência. da morte dos fracos. Ao que tudo indica. nenhuma crise. que acabou sendo substituída pela teoria darwiniana da luta pela existência. da sobrevivência e da multiplicação apenas da minoria mais adaptada. Esse otimismo psicológico ingênuo é um traço característico de toda a psicologia anterior a Freud. Existe realmente algo novo e original que chega ao paradoxal e impressiona todo aquele que faz seu primeiro contato com o freudismo. Do nascimento à morte era o caminho uniforme e plano da evolução tranqüila e racional 76 do crescimento gradual da alma.1. que atravessam como leitmotiv toda a concepção de Freud e que ele mesmo denomina dinâmica psíquica. Isto precisa ser entendido. Tratava-se de uma concepção ingênua sobre a sábia racionalidade do organismo vivo. permaneceu como o último refúgio dos conceitos de racionalidade. no seu lugar. evidentemente a luta. Nisto efetivamente reside a diferença essencial entre Freud e todas as outras correntes em psicologia.

seja individual ou de classe. sendo apenas a sua interpretação específica. dois fenômenos físicos? E claro que só depois de penetrar na consciência. Em toda a teoria freudiana da luta psíquica. recordá-lo. é perfeitamente compreensível que entre a consciência e o inconsciente dominem inter-relações sem nenhuma semelhança com as relações entre duas forças materiais que não se prestam a registro objetivo exato. E o “inconsciente” pode e deve entrar no círculo da introspecção. no campo consciente 77 do psiquismo. mas apenas de diferentes motivos da consciência. Porque o próprio paciente deve reconhecer o conteúdo do “inconsciente” (por exemplo. o empenho de se enganarem mutuamente. evidentemente. dominam um não-reconhecimento recíproco e uma incompreensão. conseqüentemente.. Para a introspecção. a teoria de Freud permanece nos limites do que a própria pessoa pode dizer de si e do seu comportamento com base em sua própria experiência interior. em forma de motivo. alguma doutrina religiosa só leva ao equívoco quem acredita nela e a aceita ingenuamente por . encontram expressão verbalizada e já nessa forma. O inconsciente 78 é apenas um dos motivos dessa consciência. mas não renuncia à introspecção como o único método de identificação dos fenômenos psíquicos na realidade. A ideologia mente para aquele que não é capaz de penetrar no jogo de forças materiais objetivas que se esconde por trás dela. O que é a consciência de um homem isolado senão a ideologia do seu comportamento? Neste sentido podemos perfeitamente compará-la à ideologia na própria acepção do termo. isto é. duas pessoas que se hostilizam. Desse modo. certificar-se da sua existência com o auxílio da introspecção. E verdade que Freud orienta a introspecção para novos caminhos. mas tenta penetrar nas camadas mais profundas do psíquico. E verdade que Freud não dá crédito aos motivos superficiais da consciência. Por exemplo. Todos esses enunciados se constroem. entre a consciência e o inconsciente arde uma polêmica. um dos modos de interpretação ideológica do comportamento. ideologia essa que é expressão da consciência de classe. mas nunca entre duas forças materiais naturais! Por acaso é possível o embuste recíproco ou O não-reconhecimento entre. Mas ainda assim ele não toma os enunciados no seu aspecto objetivo.Toda a teoria psicológica de Freud se funda nos enunciados verbalizados do homem. Segundo a teoria de Freud. definidos por seu conteúdo) os produtos do inconsciente podem entrar em contradição com as exigências éticas ou serem interpretados como embuste da “censura”. de revestir-se de formas de consciência (de formas de desejos. De fato. toda a dinâmica psíquica de Freud é dada numa interpretação ideológica da consciência. algum complexo recalcado). por exemplo. da dinâmica não das forças psíquicas. todos os produtos do inconsciente assumem a forma de desejo ou motivo. duas correntes ideológicas. o homem toma consciência deles. nem acreditar nela sob palavra. leva o paciente a penetrar em outras camadas do psiquismo. Só por essa via alguma experiência emocional deslocada para o “inconsciente” adquire valor de fato psicológico. Porque tais inter-relações são possíveis entre duas idéias. ouvimos apenas a voz parcial da consciência subjetiva que interpreta o comportamento do homem. não procura as suas raízes fisiológicas e sociológicas. com todos os mecanismos que a realizam. Trata-se. Mas não se pode tomar como verdade nenhuma ideologia. tenta encontrar neles próprios os verdadeiros motivos do comportamento: o próprio paciente deve lhe comunicar a respeito das profundezas do “inconsciente”. Desse modo. pensamentos etc.

simplificada e cientificamente incorreta de um fenômeno social mais complexo. 6. procura impor ao médico seu ponto de vista sobre as causas da doença e o caráter das suas experiências emocionais. Já as forças psíquicas são uma teoria arbitrária através da qual Freud tenta explicar essa luta. E uma espécie de “projeção” através da qual investimos (projetamos) na “alma individual” um complexo conjunto de inter-relações sociais. Em outra passagem1. por sua vez. em termos mais amplos. PROJEÇÃO DA DINÂMICA SOCIAL PARA A ALMA INDIVIDUAL Mas de onde vêm o “Ego”. Podemos reconhecer tais enunciações como expressão do psiquismo individual do paciente? Nenhuma enunciação verbalizada pode ser atribuída exclusiva-mente a quem a enunciou: é produto da interação entre falantes e. de idade. As mesmas “vivências psíquicas” do falante. Em que consistem essas inter-relações? O paciente deseja esconder do médico algumas experiências emocionais e acontecimentos de sua vida. são de fato apenas uma interpretação unilateral. determinada entonação da enunciação — é a expressão da relação recíproca entre os falantes e todo o complexo ambiente social em que se desenvolve a conversa. Para compreender 1. O que caracteriza precisamente uma dada enunciação — a escolha de certas palavras. em Zviezdá. Tudo isso complexifica as relações mútuas e a luta entre eles. Cf. O médico.8. A enunciação a encontra pronta no aspecto fundamental. empenha-se em fazê-lo aceitar o ponto de vista correto sobre a doença e os seus sintomas. de posição social. cuja expressão tendemos a ver nessa enunciação. produto de toda uma situação social em que ela surgiu. as relações de reciprocidade muito complexas do paciente com o médico. o qual lhe restringe as possibilidades. pois encontra expressão nos enunciados verbalizados. Elas são o material da enunciação. visa a conseguir revelações do paciente. é um momento do convívio mais amplo do grupo social a que pertence o falante.3. diferença de profissão. a teoria de Freud é uma projeção de certas relações objetivas do mundo exterior para o psiquismo. 1926 o nosso artigo “A Palavra na Vida e a Palavra na Poesia~ . procuramos mostrar que todo produto da linguagem do homem. o “Ideal do Ego” e outras “forças” com que Freud povoa o psiquismo do homem? A luta entre motivos não oferece quaisquer fundamentos para reconhecimento dessas forças. dado na experiência objetiva. em todos os momentos essenciais é determinado não pela vivência subjetiva do falante mas pela situação social em que soa essa enunciação. certa teoria da frase. A luta entre motivos é um fenômeno real. E eis que nesse clima social complexo e singular constroem-se aquelas enunciações verbalizadas — narrações e réplicas do paciente na sua entrevista com o médico — que Freud toma como base de sua teoria. procura preservar sua autoridade de médico. e esse convívio. Nela 79 se expressam. n. Como a maioria das construções da psicologia subjetiva. o “Id”. A palavra é uma espécie de “cenário” daquele convívio mais íntimo em cujo processo ela nasceu. por sua vez. da simples enunciação vital a uma complexa obra literária. A linguagem e suas formas são produto de um longo convívio social de um determinado grupo de linguagem. Com tudo isso cruzam-se outros elementos: entre o médico e o paciente pode haver diferenças de campo. por último. acima de tudo.

dependendo da relação. os diversos complexos recalcados e. A teoria psicológica de Freud projeta toda essa dinâmica relação mútua de duas pessoas à alma individual do homen. Trata-se de uma complexa imagem dramatizada atra qual Freud tenta interpretar os diversos aspectos do comportamento 81 humano. ao ouvinte. quem chegou às conclusões mais radicais foi William James. Essa teoria se constituiu independentemente daquelas experiências e antes delas. a qual chega até às lembranças latentes do complexo de Édipo).Os mecanismos psíquicos nos denunciam facilmente surgem social. uma resistência ao médico. Nós transferimos do presente para o passado pré-consciente da criança. às suas exigências e concepções. o complexo de Edipo. 8. mantendo-se nos limites de apenas uma parte desse comportamento: das reações verbalizadas. No passado vemos apenas o que é essencial para o presente. acima de tudo. a dinâmica psíquica freudiana e seus mecanismos são apenas uma projeção de inter-relações sociais na alma de um indivíduo. na maioria dos casos. na sua tenra infância. o colorido ideológico valoral característico apenas do . Desse modo. são situados por Freud no passado do homem. As poucas experiências de análise imediata do comportamento infantil e dos enunciados infantis que os freudianos2 conseguiram levar a cabo não tiveram e nem poderiam ter importância vital para a elaboração da teoria de Freud. toda a teoria dos complexos infantis é obtida por via retrospectiva. O conteúdo do inconsciente. acima de tudo.4. antes de tudo. das reações verbalizadas do homem. acima de tudo. e as próprias análises já a pressupunham e se apoiavam integralmente nela. Neste sentido. Semelhante projeção não é algo inesperado: é. Mas toda essa teoria dos primeiros períodos pré-conscientes de desenvolvimento do homem se constrói com base em testemunhos de adultos. funda-se na interpretação das lembranças dos adultos e daquelas formações de compromisso através das quais é possível chegar a tais lembranças (lembremos a análise que citamos de um sonho. objetivo. De fato. vem a ser ora uma vivência psíquica (minha sensação representação) ora um corpo físico ou um fenômeno social. Em seu famoso artigo “Existiria a consciência?”. PROJEÇÃO DO PRESENTE CONSCIENTE PARA UM PASSADO INCONSCIENTE Cabe enfocar mais um aspecto da teoria freudiana. acaba sendo levada à conclusão parado que tal limite não existe. de que a consciência não introduz nenhuma realidade nova no mundo apenas outro ponto de vista sobre os mesmos objetos e fenômemos. em geral à outra pessoa. ao médico. O idealismo subjetivo foi apenas coerente ao afirmar que todo o mundo é mera emoção do sujeito. ele chega à conclusão os objetos e pensamentos foram feitos da mesma matéria. isto é. As experiências emocionais. Assim. Quando a psicologia moderna tenta estabelecer um limite preciso vivência e o objeto. um fenômeno comum na psicologia subjetiva. de que tudo depende do ponto de vi mesmo objeto. um dos maiores representantes da psicologia subjetiva. A resistência também é. como já dissemos. Não se pode nem falar da lembrança objetiva das nossas vivências interiores do Passado. Para o momento em que recordamos o nosso passado. Pode-se reconhecer cientificamente fundamentado um método retrospectivo de restabelecimento de experiências emocionais da tenra infância (porque o complexo emocionais é um conjunto de experiências)? Supomos que por essa via não é possível chegar a nada real. do contexto em que o interpretamos. aqui ocorre um fenômeno muito difundido e típico: a interpretação do passado do ponto de vista do presente. apenas duplicam o mundo dos o externos e das relações sociais. O inconsciente não se opõe à consciência individual do paciente mas.

isto é. já a teoria. nem. então? Várias observações objetivas dispersas. de modo algum.absolutamente nada do que dê sérios direitos para falar de complexo de Édipo.5. absolutamente. no campo das vivências interiores da alma infantil. Esses fatos não podem confirmá-la.)? Esse fato é verdadeiro (embora a fisiologia ainda não o tenha submetido a uma minuciosa investigação científica) e universalmente conhecido. para se poder falar de sexualidade infantil é necessário entender por “sexualidade” apenas um conjunto rigorosamente definido de manifestações fisiológicas. que horroriza e comove o espectador. a asfixia pela afluência de sangue aos pulmões. E ainda assim quando lemos o livro de Rank surge involuntariamente a pergunta: tudo isso é “sério” ou é “brincadeira”? O mesmo cabe dizer sobre a relação dos fatos da sexualidade infantil com a teoria do complexo de Édipo. já estamos construindo uma teoria arbitrária: em vez do fato fisiológico da sexualidade partimos da sua forma ideológica.) 83 o fato do abalo físico sofrido pelo organismo no momento em que ele dá a luz unia a criança (o ato de expelir. confirmados ou refutados por reiteradas observações ou práticas de controle. nunca se terá de falar de nenhum complexo de Édipo. Deforma o estado real de coisas. em uma mensuração diferente da dela. por mais que se aumente o acervo de fatos objetivos arroláveis para demonstrá-lo. temos em vista os dados da experiência interior da vivência relacionados a tais manifestações e impregnados de apreciações e pontos de vista. apreciações e interpretações pertencentes ao presente. fundada numa interpretação sumamente ousada e original dos fatos. Ademais. que podem ser feitas do comportamento da criança: a tenra excitabilidade dos órgãos sexuais (a ereção infantil) e de outras zonas erógenas dificuldade de desacostumar a criança da proximidade permanente do corpo da mãe (antes de tudo do peito) etc. Semelhante declaração é radicalmente incorreta. de repetição do enredo da tragédia de Édipo na vida da criança. A teoria do complexo de Édipo é essa forma puramente ideológica projetada na alma da . no original russo. Não se verifica precisamente aquilo que dá sentido profundo e terrível a essa tragédia. seu reconhecimento é universal. Vejamos a teoria absolutamente monstruosa do “trauma do nascimento” de Rank. a influência do clima etc. OS FATOS E A TEORIA Os freudianos declaram freqüentemente aos seus críticos: para refutar a teoria psicanalítica é necessário refutar primeiro os fatos que ela se baseia. uma vez que se encontram em um plano. Mas isso não pode se refletir no tratamento crítico dos fundamentos da teoria. O que resta. porém. Se. do T. O freudismo é uma teoria grandiosa. 8. que entre essa série de fatos e a grandiosa e surpreendente teoria do complexo de Édipo existe todo um abismo. porém. Os próprios fatos são verificados. Os fatos se situam na experiência objetiva externa. aquele minimum* de hipótese de trabalho indispensável à prévia unificação e ao agrupamento desses fatos. Para reconhecê-la no mínimo inverossímil será necessário refutar * Em latim. nem uma série de fatos. Acontece. O freudismo não é. (N. Evidentemente não cabe contestar essa série de fatos. Renunciando-se a projetar no passado os pontos de vista. uma teoria que não cessa de assombrar pelo que tem de surpreendente e paradoxal mesmo que reconheçamos todos aqueles fatos externos arrolados para demonstrálo.

com os quais o freudismo nos faz deparar. Loeb. Especialmente aqueles conflitos do comportamento verbalizado. Só com o auxílio dos métodos flexíveis do materialismo dialético nos será possível lançar luz sobre esses conflitos. coletânea. J. Tropismos e Comportamento Animais (ed. evidentemente. e “A Importância dos TropiS para a Psicologias” em Novas Idéias em Filosofia. para serem compreendidos necessitam.. Naquela a natureza é dada numa interpretação econômica e social. mas no sentido sociológico amplo e concreto — é o meio objetivo em que nos é dado o conteúdo do psiquismo. numa forma pela palavra humana. singular em seus fundamentos. 8. Moscou. A palavra claro que em seu sentido não restritamente lingüística. s/d.base na própria experiência interior. Tais fatores podem ser estudados pelos métodos que serviram de base à teoria dos reflexos condicionados do acadêmico Pávlov e sua escola ou por aqueles que 84 foram elaborados com tanto brilho e fundamento pelo recém-falecido Jaques Loeb em sua famosa teoria do tropicalismo3 ou por outras modalidades do método fisiológico. de uma consideração rigorosa e plurilateral dos fatores socioeconômicos. cd. antes de tudo. Um ensaio crítico não pode. O conteúdo do psiquismo humano. conseqüentemente. o conteúdo dos pensamentos. Alguns desses fatores objetivos do comportamento têm caráter fisiológico (no fim das contas. por mais ampla que seja a interpretação que se faça de tal experiência. demos esboçar apenas o encaminhamento em que é possível a c preensão objetiva e o estudo desses fenômenos. Aquilo que denominamos psiquismo humano e consciência reflete a dialética da história em proporções bem maiores que a dialética da natureza. sentimentos e desejos é dado em uma forma pela consciência e. tudo isso é pouco para explicar o comportamento humano. englobar uma positiva dos motivos e conflitos do comportamento verbalizado. 3. n. GIZ. Movimento Forçados. físicoquímico). em russo). Cf. .

a conversa entre os homens — que lhe deu origem. como explicação científica do seu comportamento. por assim dizer. não pela espécie da sua existência. eles diferem destas. fatores objetivos mente materiais quer no próprio organismo do homem. Mas nós vamos além: os motivos do inconsciente não explicam absolutamente o comportamento. neste sentido. Vimos que a . ~ como vimos.1. Esses dois componentes do comportamento integral são i vos e materiais e requerem. 86 o inconsciente de Freud pode ser denominado consciência oficial diferentemente da consciência “oficial”. pela crítica de princípios dos motivos com os quais o homem tende. não a causa mas sim componente do comportamento. Onde Freud critica a psicologia da consciência podemos nos juntar integralmente a ele: a motivação consciente que o homem tem de seus atos realmente não serve. os motivos da consciência tanto quanto não-oficial são dados de modo inteiramente idêntico nos cursos interior e exterior e são. mas tão somente por seu conteúdo. quer no: natural e consciente que o rodeia. O componente verbal do comportamento é determinado em os momentos essenciais do seu conteúdo por fatores objetivo. A consciência é aquele comentário que todo homem adulto faz de cada ato seu. pois não pertence a mas sim ao seu grupo social (ao seu ambiente social). para sua explicação. apenas a sua outra expressão ideológica. com absoluta sinceridade e boa vontade.sociais. em termos de princípio o inconsciente em Freud em nada difere da consciência. a explicar e comentar o seu comportamento (lembremos a experiência de Bernheim). No capítulo anterior mostramos que toda enunciação concreta sempre reflete o pequeno acontecimento social imediato — o acontecimento do contato.9. o mesmo meio social não cessa de determinar e controlar as reações verbalizadas do homem ao longo de toda sua vida. Para a psicologia objetiva. é apenas outra forma de consciência. Os motivos do inconsciente que se revelam nas sessões de psicanalise através do método da “livre fantasia” são reações verbalizadas do paciente tanto quanto todos os demais motivos da consciência. Do ponto de vista objetivo. Para Freud esse comentário é falso. O meio social deu ao homem as palavras e as uniu a determinados significados e apreciações. assim como é falsa a psicologia que o toma por base. isto ideologicamente. de maneira nenhuma. igualmente. motivo do homem é parte componente do seu ato e nunca a sua. A CONFIGURAÇÃO SOCIOLÓGICA DAS REAÇÕES VERBALIZADAS Sabemos que o freudismo começou pela desconfiança na consciência. Pode-se dizer que o comportamento do homem se decompõe em reações motoras (“ações” no sentido restrito do termo) e nos discursos (reações verbalizadas) interior e exterior que acompanham tais reações. Por isso todo o verbal no comportamento do homem (assim os discursos exterior e interior) de maneira nenhuma pode ser cri do a um sujeito singular tomado isoladamente.

em todas as etapas desse caminho a consciência humana trabalha com a palavra. Um sentimento qualquer não pode atingir maturidade definitiva e precisão sem encontrar a sua expressão externa. um dado primário e indecomponível. basilares. Como vimos. Ao tomar consciência de mim mesmo. ritmo. a socialização de si mesmo e do seu ato. da visão de mundo. entre o conteúdo do psiquismo individual e a ideologia enformada não há uma fronteira em termos de princípio. 88 Esse caminho que vai do conteúdo do psiquismo individual conteúdo da cultura é longo. Uma vivência individual conscientizada já é ideológica. meu pensamento não consegue atingir a clareza definitiva enquanto eu não lhe encontro a formulação verbal precisa e não o associo àquelas teses da ciência que dizem respeito ao mesmo objeto. difícil. Aí estão as raízes objetivas até mesmo das reações verbalizadas mais pessoalmente íntimas. da religião. em pequena escala. de maneira alguma. isto é. mas é um caminho. de quem ela é reflexo e especificação em todos os seus momentos essenciais. 9. as considerações espontâneas sobre as causas efeitos dos fenômenos são embriões de conhecimento científico e .2. da minha classe. O Conteúdo mais vago da consciência e a obra mais perfeita da cultura são apenas elos extremos de uma única cadeia da criação ideológica. os freudianos também comungam dessa convicção. é já uma determinada elaboração ideológica do ser. é. elaborados pelo marxismo para a análise de diversas construções ideológicas — do direito. Em todo caso. sem fecundar palavras. A motivação do meu ato é. a autoconsciência acaba sempre nos levando à consciência de classe. enquanto eu não transformo o meu pensamento em uma obra científica importante. OS MÉTODOS DE ESTUDOS DO CONTEÚDO DA CONSCIÊNCIA Durante muito tempo dominou e ainda hoje é bastante difundida na filosofia burguesa a convicção de que se pode perfeitamente explicar uma obra de criação cultural desde que se consiga reduzi-la a determinados estados individuais e vivências psíquicas do seu criador. em todas as suas etapas é determinado pelas mesmas leis socioeconômicas. Portanto. da moral.tomada de consciência de si mesmo (porque a autoconsciência sempre é verbal. por tal razão. o conteúdo do psiquismo individual não é nada mais compreensível nem mais claro que o conteúdo da criação cultural e por isso não lhe pode servir como explicação. por assim dizer. Entre esses dois elos existe toda uma série de fases e transições Contínuas Quanto mais claro se torna meu pensamento tanto mais ele se aproxima dos produtos enformados da criação científica. eu tento como que olhar para mim pelos olhos de outra pessoa. uma exclamação de alegria ou tristeza é uma obra lírica primitiva. Como chegar a essas raízes? — Através dos mesmos métodos objetivo-sociológicos. essa refração mais sutil e também mais confusa das leis socioeconômicas. da ciência. Além do mais. de outro representante do meu grupo social. criação jurídica e moral. da arte. sem tomar a forma de obra de arte. Toda enunciação verbalizada do homem é uma pequena construção ideológica. Em realidade. Desse modo. cores. do ponto de vista científico ela não é. Devemos estudar as reações verbalizadas em sua forma cotidiana primitiva pelos mesmos métodos que o marxismo elaborou para o estudo das complexas teorias ideológicas vez que lá e cá as leis da refração da necessidade objetiva na pala são as mesmas. ou melhor. sempre consiste em encontrar um determinado complexo verbal) é a colocação de si mesmo sob determinada norma social. e em toda sua extensão.

Todos os conflitos com que opera a psicanálise são sumamente característicos da atualidade pequenoburguesa européia. que correspondem à consciência oficial censurada em Freud. É claro que os casos de acumulação de tais motivos internos. no elemento da ideologia do cotidiano. a brincadeira. de Platão). A “censura” freudjana exprime com muita precisão o ponto de vista da ideologia Cotidiano do pequeno-burguês. mais amiúde são uma prova da decomposição incipiente. mas dos limites do indivíduo em sua totalidade. em todo caso não teme vira ser discurso exterior. como pensa Freud. que corroem a unidade da ideologia do cotidiano. passavam livremente ao seu discurso exterior e chegavam até a ganhar expressão ideológica enformada (veja-se O Banquete. Do ponto de vista objetivo. ao menos de alguns dos seus grupos. Não são conflitos “psíquicos” mas ideológicos. exprimem os momentos mais estáveis e dominantes da consciência de classe. Em um grupo sadio e num indivíduo social-sadio a ideologia do cotidiano. Não vão apenas além dos limites da consciência. é integral e forte: não há nenhuma divergência entre a consciência oficial e a não-oficial. 9. estão muito distantes do sistema estável da ideologia dominante. as paixões sexuais de um heleno antigo da classe dominante não criavam absolutamente quaisquer conflitos em sua ideologia do cotidiano.4. o mito. fundada na base econômico-social. isto é. o conteúdo e a composição do inconsciente. a vulnerabilidade dos habituais motivos ideológicos. AS DIFERENTES CAMADAS DA “IDEOLOGIA DO COTIDIANO” Aqueles campos da ideologia do cotidiano. Nessas camadas da ideologia do cotidiano o discurso interior se regulariza com facilidade e se converte livremente em discurso exterior. Retomemos agora aqueles “conflitos psíquicos” em que a psicanálise se baseia e os quais tenta explicar através da luta entre a conciência e o inconsciente. o gracejo e todos os componentes verbais das formações patológicas refletem a luta de diferentes tendências e correntes ideológicas que se constituíram no interior da ideologia do cotidiano. O conteúdo e a composição das camadas não-oficiais da ideologia do cotidiano (isto é. além do seu aspecto puramente fisiológico). Sugerem a decomposição da unidade e da integridade desse sistema. o sonho.peculiaridades do material. Segundo Freud) são condicionados pela época e por uma classe tanto quanto o são as suas camadas “censuradas” e os sistemas da ideologia enformada (a moral o direito. porém. que correspondem ao inconsciente em Freud. Outras camadas. podem ter caráter fortuito e ser um testemunho apenas da desclassificação social de determinados indivíduos. Estão próximos da ideologia constituída e enformada dessa classe. se não da classe em seu conjunto. Por exemplo. razão porque surge uma impressão cômica quando os freudianos a transferem para o psiquismo de um . todos esses conflitos se desencadeiam no elemento do discurso interior e exterior (evidentemente. a visão de mundo). das suas verdade. razão por que não podem sem entendidos nos limites estreitos 89 de um organismo individual e de um psiquismo individual. sua moral e visão de mundo.

Todas as épocas de decadência e desintegração social se caracterizam por uma superestima vital e ideológica do sexual e ainda por cima em sua concepção unilateral: promove-se a primeiro plano o seu aspecto a-social tomado em forma abstrata. E assim q se cria a ideologia revolucionária em todos os campos da cultura. O complexo de Édipo é. E quanto mais desclassificado é o homem mais . Como um minimun social. — tomou-se evidentemente pouco compreensível em termos econômicos e sociais e pouco falante ao coração. A decomposição da ideologia oficial se reflete antes de tudo nesse campo do comportamento humano. Cada objeto parece voltar-se para o homem em seu aspecto sexual. cada fenômeno e objeto fogem ao contexto das avaliações de classe e sociais. Todos os seres humanos se dividem antes de tudo em homens e mulheres. A sexualidade é proclamada critério supremo de realidade. Torna-se centro de acumulação de forças a-sociais e anti-sociais. Tudo o mais perde o sentido e a importância. mas não em uma clandestinidade psicológica de complexos recalcados e sim em uma clandestinidade política sadia. O sexual procura tornar-se 91 um sucedâneo do social.já não são captados pelo ouvido do burguês europeu atual. É o campo sexual. não social. as avaliações histórico-sociais —. razão por que é possível a sua completa sexualização. É sumamente ilustrativo e sumamente interessante um traço do freudismo: a completa sexualização da família e de todas as relações familiares sem exceção (o complexo de Édipo). O pai não é o dono da empresa. o mais fácil de ser transformado em base para um desvio social. o filho. o seu rival! Essa “interpretação” aguda e nova de todos os aspectos da vida que perderam o sentido atrai um amplo público para o freudismo. Cada face da vida. O SEXUAL Existe um campo sumamente importante do comportamento humano. preferencialmente. São compreensíveis e valorizadas apenas aquelas relações sociais que podem ser sexualizadas. tornaram-se meros sons harmônicos de um tom social básico.) 9. A “ideologia do cotidiano” acabou entregue a si mesma.para tornar-se a-social. acima de tudo. degenera no estado animal primário. um excelente estranhamento da célula familiar. como diriam os “formalistas”. A evidência e o caráter indiscutível das pulsões sexuais são aqui contrapostos à dubiedade e a ao caráter discutível de todas as demais avaliações sociais e ideológicas. em que os contatos verbalizados se estabelecem com grande dificuldade e por isso ele escapa de modo especialmente fácil do contexto social. uma espécie de nova interpretação. o “par” sexual pode ser mais facilmente isolado e transformado em um microcosmo que não necessita de ninguém nem de nada. perde a sua forma ideológica. A família — pilar e esteio do capitalismo. Por trás de toda palavra de uma obra de arte ou filosofia passou a transparecer um símbolo sexual pobre. Todas as demais subdivisões se afiguram secundárias.5. dispersa e não enformada. de essencialidade. o filho não é o herdeiro: o pai é apenas o amante da mãe. para abandonar os contatos. Só inicialmente ele irá desenvolver-se em um pequeno meio social. efetivamente. O atual sucesso do freudismo em toda a Europa sugere a plena decomposição do sistema ideológico oficial. contexto bem organizado e convincente para cada um. todos os demais aspectos — e. Esse campo da vida privada é. entrará na clandestinidade. um “estranhamento’.

o instinto e a sexualidade. três tendências que dividiram entre si o mundo burguês.“cosmicismo” da antroposofia (Steiner). bergsoniano e freudiano — e os três altares da sua fé e culto — a magia. Onde os caminhos criadores da história estão fechados restam apenas os impasses da super individual de uma vida desprovida de sentido. o”psicobiologis e o sexualismo” de Freud. por último. . o “biologismo” de Bergson e. Elas definiram a fisionomia do atual Kulturmenschta-steineriano. cada uma serve a seu modo àquela aspiração filosofia moderna.

E ainda assim há apologistas ardorosos do freudismo entre os marxistas. do T. o artigo de A. publicado referida coletânea. não podemos fugir à tarefa pouco grata de empreender uma análise crítica dessa apologias marxistas do freudismo. n. R. Fridman — “As Concepções Centrais da Psjcologia de Freud e a Teoria do Materialismo Histórico”. publicado na revista Terra Virgem Vermelha** 1924. nossa tarefa se limitará ao exame dos trabalhos de quatro autores abaixo discriminados: • Editado no Brasil pela editora Zahar. 4. a paisagem diferente da v1s~O freudiana de mundo. Bikhovski — “Sobre os Fundamentos Metodológicos da Teoria Psicológica de Freud”. MARXISMO E FREUDISMO O leitor que acompanhou atentamente a exposição do freudismo. 1925. 192 . o artigo de B. com tradução de Muniz Bandeira. Freqüentemente esses pronunciamentos são casuais. provavelmente já percebeu o quanto essa doutrina é profunda e organicamente estranha ao marxismo. A essa Categoria de pronunciamentos se associa a famosa declaração do camarada Trotski em Literatura e Revoluçâo*. D. Na conclusão desta parte crítica. e os respectivos capítulos do seu último livro Vida do Organismo e Sugestão. É difícil não perceber o clima inteiramente diverso. Luria — “A Psicanálise como Sistema de Psicologia Monista”. 1923. segundo a qual a psicanálise é aceitável para o marxismo. Já tivemos oportunidade de nos referir a eles nos primeiros capítulos do livro. publicado na revista Sob A dezra do Marxjsmo*. o artigo de A. publicado na coletânea A Psicologia e o Marxismo Instituto de Psicologia Experimental. Moscou. afora análises críticas várias. 3. Zalkind — “O Freudismo e o Marxismo”. É claro que não podemos abordar todos os pronunciamentos em que os marxistas revelam sua “aceitação” e sua “boa vontade” em relação ao freudismo.10. não são desenvolvidos minuciosamente nem fundamentados. Não vamos nos deter nesses pronunciamentos.1.) 94 1. o artigo de B. B. (N. 4. 2.

sem a autenticidade subjetiva do interiormente vivido. Em Outra passagem do artigo ele escreve: “Tomar consciência do inconsciente: eis o lema da terapia Psicanalítica”. não teriam nenhuma importância terapêutica. que “reproduz inconscientemente” teses do materialismo histórico? B.). reatologia aparece no texto de Bakhtin como sinônimo de psicologia marxista. que iniciou a reformulação da psicologia russa no inicio do período soviético. num ato falho etc. E toda a psicanálise não é senão a tomada interior de consciência do inconsciente. nós nos convencemos não só de que ela está de acordo com a reatologia* como ainda começamos a duvidar do seu subjetivismo. O subjetivismo parece uma capa que obscurece a essência da questão. do T. Tudo isso é indiscutivelmente aceitável para a reatologia (p. freqüentemente as dirige. monismo materialista. Examinemos ponto por ponto essas peculiaridades da metodologia de Freud no enfoque de Bikhovski. tomando O marxismo como fundamento. do T. É ainda radicalmente falsa a afirmação de Bikhovski.) 1. Isso o próprio Bikhovski sabe perfeitamente. por último. no fundo da sua alma. Citemos suas pala * ** Pod známeniem marksizma. famoso professor de psicologia da Universidade de Moscou.hovski resolve afirmar que “o inconsciente não pode ser estudado através da consciência. Como conciliar esta afirmação com aqueles citadas em seu texto? . energeticismo e. e ao próprio Freud nem chegaram a ocorrer outras possibilidades. a imagem do nosso pulmão afetado numa radiografia ou conhecemos o mecanismo fisiológico do processo da tosse. Toda a metodologia das “livres associações” tem apenas um único fim: levar o inconsciente à consciência do paciente. a procurar as condições da participação mínima da consciência (o sonho. Em que ele vê o “núcleo sadio” da psicanálise. Proclamou a reatologia (ciência destinada a estudar as reações ou respostas do paciente) como a concepção marxista em psicologia destinada a superar a unilateralidade da psicologia subjetiva (empírica) e objetiva (reflexologia) pela síntese dessas duas correntes. Bikhovski faz o balanço da sua análise freudismo. O próprio homem deve sondá-lo na experiência interior. Portanto. E absolutamente incompreensível como Bik. mas é Termo criado pelo psicólogo russo Konstantin Nikoláievitch Korní]ov (1842-1924). Bikhovski tenta demonstrar que o método psicanalítico se caracteriza pelas seguintes peculiaridades: objetivismo. a idade infantil). É claro que em sua análise Freud parte do dado objetivo externo: do ato falho. Isto é a causa que leva Freud a estudar as manifestações objetivas do inconsciente (sintomas.. 176-177). do sintoma físico etc. a psicanálise é a doutrina do inconsciente. Este fundamenta de modo s mente estranho objetivismo do método de Freud. Segundo Freud. subjetivamente”! Outras vias para o seu estudo não há nem pode haver. Se para o paciente eles continuassem sendo apenas um fato objetivo externo.) Krdsnaia nos’. “Só podemos conhecer o inconsciente através da consciência” — diz o próprio Freud. B. Como fato objetivo (situado fora do psiquismo subjetivo) nós reconhecemos. 166). por exemplo.pode incluir mais uma vitória em seus ativos (pp. Já o “inconsciente” nós só podemos encontrar nas vias subjetivas da vivência interior. daquilo que ocorre fora dos limites do “eu” subjetivo. (N. (N. dialética. do T. Essas afirmações de Bikhovski estão em contradição com os próprios fundamentos da metodologia de Freud. De fato. (N. a psicanálise só pode alcançar êxitos sob a condição obrigatória de que o próprio paciente conheça e reconheça em sua própria experiência interior os seus complexos recalcados’.) 95 Quando conhecemos mais de perto a psicanálise. segundo a qual o freudjsmo estuda as manifestações objetivas do inconsciente num sintoma. atos falhos etc. O inconsciente não pode ser estudado atra1és da consciência subjetivamente. Com essas palavras. O inconsciente atua de modo real sobre as reações do organismo.

Mesmo que o cauteloso Freud oscile de forma ambígua entre a causalidade psicofísica e o paralelismo psicofísico. o prazer do ato sexual. tão velha como o mundo. mas nele também podemos encontrar mais afirmações de caráter diametralmente oposto. A concepção energética dos processos psíquicos atravessa do começo ao fim a doutrina psicanalítica de Freud. ou se tais manifestações se originam e se vinculam a outros processos psíquicos. o resto não lhe diz respeito. estendendo-as ao fundamento dos fundamentos da teoria — ao energeticismo dos processos psíquicos. mas demonstra não o que deseja Bikhovski.] Podemos dizer que o aparelho psíquico tem por objetivo superar e livrar-se das excitações e instigações que recebe de fora e de dentro (pp. uma vez que “em algum ponto avançado” se admite a série de causas orgânicas que acaba interessando o psicólogo. Uma delas o próprio Bikhovski cita em seguida: É importante elucidar se determinadas manifestações psíquicas têm origem imediata em influências físicas. Nós sempre chamamos de processos psíquicos apenas os processos de “segunda espécie” (p. O mais das vezes ele da questão. Nesta afirmação de Freud. estamos diante do ponto de vista tipicamente expresso do paralelismo psicofísico. e fala através de sua prática. como o quer Bikhovski. Com a palavra o próprio Bikhovski: A conciliação entre a psicanálise e a reatologia não se limita ao exposto. Contudo. Passemos à energética. orgânicas e materiais e.subjetivo. o desprazer. Psicanalistas conseqüentes como Rank e Groddeck dão a essa peculiaridade do seu método uma expressão teórica clara e inequívoca: todo o orgânico tem caráter secundário. 165). O estudo do prazer mais intenso a que o homem tem acesso. atrás dos quais já se escondem em algum ponto avançado uma série de causas orgânicas. E consideravelmente bem mais profunda. isto é. na solução teórica do problema da relação entre o psíquico e o somático a posição do próprio Freud é evasiva e deliberadamente dúbia.. Neste a energética recebe a denominação de “ponto de vista econômico”. De fato. não deixa lugar à dúvida nesse ponto. A psicanálise não nos mostra nunca e em parte alguma as influências do 97 somático sobre o psíquico.psíquico como não é algo apenas somático. Ela só conhece a série psíquica pura. 161). Aqui já se trata de monismo puro. Bikhovski tenta demonstrar o energeticismo da psicanálise. chamamos de económicas as reflexões dessa natureza [.. Ao citar Freud.. neste caso. Uma vez que em tais processos de prazer trata-se de calcular a quantidade de excitação ou energia psíquica. todo o orgânico é deixado à margem da psicologia. ao aumento de tais excitações. Todos os seus pronunciamentos sobre tema são contraditórios e indefinidos. para o psiquismo. . a psicanálise é monista em seus fundamentos. do seu trabalho. Não são poucas as citações análogas que podemos ser escolhidas em Freud. para ele tudo se dissolve no elemento psicossubjetivo infinito e instável. Mas é dispensável reunir esses pronunciamentos: o próprio método fala por si. 166-167). Ela exerce influência na vida psíquica” (p. A citação é efetivamente peculiar. O que é “ponto de vista econômico” em Freud? Simplesmente a transferência gratuita da “lei do menor esforço”. só o psíquico é primário. E uma variedade moderna específica de monismo espiritualista. Uma coisa podemos afirmar com certeza: o prazer está de certo modo relacionado à redução ou à extinção do número de excitações existentes no aparelho psíquico. essa lei por si só é vazia e ainda não diz nada. concebendo o somático apenas como elemento autônomo dessa série. o próprio método desconhece essa vacilação: para ele não existem quaisquer grandezas materiais insuperáveis e impenetráveis. Em linhas gerais. O psicanalista só estuda a série psíquica pura. seu estudo não é assunto da psicologia. só que de um monismo espiritualista. aplicada a um material psíquico. Mas.

é 99 dialético o mito. Como medir a quantidade dessa energia que muda de forma? Porque só sob essa condição poderíamos falar de energética em sentido não metafórico. um desejo a um sentimento: a alma reage com pavor ao amor incestuoso. É dialético todo o pensamento do homem. o secundário. apenas afirma que. a pulsão de morte se choca com Eros etc. O excitador material. sair para o mundo objetivo dos excitadores e reações materiais. na dinâmica dos motivos e não das forças. a transferência da pulsão de um objeto para outro etc. se o fizesse. que determina. édialética a mentira. nos trilhos da dialética entram.central toda a psicanálise — são definidas por Freud como representantes psíquicos das excitações somáticas. materialmente expressa no organismo. ele só opera com esses representantes e com a luta entre eles: a pulsão pela mãe se choca com o medo e com a vergonha e é deslocada para o inconsciente. A falha central do artigo de Bikhovski (e ele a divide com outras analogias do freudismo a serem examinadas) pode ser assim resumida: ausência de enfoque do próprio método psicanalítico como fato objetivo. no fundamental. Seria necessário pegar o método das livres associações e levantar uma questão direta: que papel cabe nesse método à introspecção e que papel cabe à observação objetiva? Dificilmente seria embaraçosa a resposta a uma pergunta levantada de forma tão . com mania de perseguição à pulsão homossexual etc. ele associa à energética toda a dinâmica psíquica. o que. evidentemente. Mas esses elementos isolados são justamente os pontos de apoio dos métodos objetivos da psicanálise. Ele a aciona apenas de passagem. Mas Freud não o faz. permanecem fora dos limites da teoria. a pulsão do “ego” se choca com as pulsões sexuais. que se encontra no mundo exterior. de modo algum. o delírio do louco. a estrutura do seu estilo grotesco e hiperbólico). é um absurdo total. É dialética a alma de qualquer movimento. mesmo o movimento das ficções no cérebro ocioso do homem. Por último. a psicanálise permanece no círculo das excitações e reações intrapsíquicas — uma experiência emocional reage a outra experiência emocional. Mas são justamente essas forças materiais que Freud não revela: ele ignora o caráter ideológico e. Ademais. O que há de surpreendente se o quadro da dinâmica ideológica cotidiana que Freud desenvolve vem a ser interiormente dialético? Mas será essa dialética a mesma dialética material da natureza e da história pesquisada pelo método dtalético marxista? É claro que não! Trata-se de uma dialética de certas forças materiais reais ideologicamente refratada e deformada. Não se pode falar de nenhuma dialética materialista na doutrina de Freud uma vez que esta em nada vai além dos limites do psiquismo subjetivo. É falsa a afirmação de Bikhovski segundo a qual a energética é o fundamento dos fundamentos da psicanálise. nós mostramos que ela não é. é dialético o psiquismo subjetivo do homem. refletida na cabeça do homem. Pelo visto. conseqüentemente. O mesmo se deve dizer também da transformação da energia psíquica: a transformação do amor em ódio. Quanto à dinâmica psíquica. Não é nossa intenção fazer uma abordagem demorada desta questão. Conseqüentemente. a tagarelice Ociosa e a bisbilhotice (lembremos a dialética da bisbilhotice em Gógol. Mas para tanto é necessário ir além dos limites do quadro subjetivamente psíquico dessas mudanças. a específica refrangibilidade e o que há de falso na sua “dinâmica psíquica”. além da vontade. é dialética toda tolice. sobre a dialética. cabe observar que a abordagem econômica está presa à doutrina de Freud. ela não lhe atinge a essência da doutrina. uma luta de forças (que poderia ser praticava por via energética). Concluindo. e a excitação. provavelmente a questão estaria resolvida e a energética e a lei econômica acabariam justificadas. É preciso tomar o próprio método durante o trabalho e elucidar o que ele faz e para onde vai e não citar declarações fortuitas do próprio Freud e seus partidários a respeito do método. um sentimento a um desejo. Dessa maneira. que acredita nos discursos interior e exterior. mas uma luta de motivos ideológicos vitais.

a psicologia experimental enveredou pela via da decomposição de seu material em partículas miúdas — os ‘átomos’ — e do estudo separado desses ‘elementos’ hipotéticos do psiquismo” (p. mente o psiquismo de um indivíduo isolado [. dando dois grandes passos um após Outro: confirmando a possibilidade de fusão de funções psíquicas particulares e introduzindo todo o psiquismo no sistema geral de órgãos e da sua atividade biologicamente condicionada (pp. na incapacidade de enfocar um indivíduo integral. rompe nitidamente com a metafísica e o idealismo da velha psicologia 100 e lança (juntamente com a teoria das reações* e dos reflexos do homem) ~ fundamento .çôl ido da psicologia do monismo materialista. Nessa afirmação está a ênfase de todo o trabalho de Luria. “Sem possibilidade de seguir o caminho da explicação científica dos fenômenos psíquicos — escreve ele —.. ao transferir a doutrina dos fenômenos psfquicos para o plano inteiramente diverso da teoria dos processos orgânicos que ocorrem no organismo integral do homem. que a idéia de “indivíduo integral” não é conquista apenas do marxismo. a psicanálise começou imediatamente pelo problema do indivíduo: impôs-se a tarefa de estudar o indivíduo na sua integridade e os mecanismos que formam o seu comportamento” (p. Sabemos que a idéia de indivíduo integral foi o ponto culminante do idealismo romântico — da filosofia da identidade de Scheiliiig. foi. 58). Não podemos discordar de que o materialismo histórico efetivamente requer o estudo do indivíduo integral e fornece as bases metodológicas (e só ele as fornece) para esse estudo. pode-se dizer que não há e nem houve uma concepção anti-histórica e antisocial do mundo que não tenha lançado ao primeiro plano precisamente a idéia de indivíduo integral. Luria mostra que o estudo de um indivíduo integral é a reivindicação central também da metodologia marxista.. a psicanálise é uma resposta a esse problema: “Ao contrário da psicologia ‘atomizante’ dessa escola. É esse o ponto de vista de Luria. o lema programático da escola romântica. incorporando-o à sua unidade interior. da doutrina de Fichte -. Segundo Luria. Contudo. Sabemos.. 53). do T. que enfoca positiv0. (N. Essa idéia é uma faca de dois gumes: seu enfoque requer uma cautela excepcional. e dificilmente é próprio do marxismo dar destaque exclusivo ao “indivíduo integral” e colocá-lo em primeiro plano.] A psicanálise deu uma grande contribuição para a solução desse problema.) 101 todo o universo. que enfoca o indivíduo “como elemento inalienável e ativo da história”. na história da filosofia a idéia de indivíduo integral encontrou expressão mais conseqüente na monadologia de Leibniz. O marxismo nunca falou de indivíduo integral e sequer de indivíduo sem ressalvas especiais e essenciais: ele emprega tais conceitos de . porém. empregado pelas diversas correntes da psicologia sOVI ética. é sinônimo de resposta. A mônada é fechada e se basta a si mesma e ao mesmo tempo reflete * O termo “reação’. Para o nosso autor.. 79-80). O freudismo é a psicologia do indivíduo integral. a falha principal da psicologia empírica está justamente na atomística psíquica. por último. É possível encontrar realização mais coerente da idéia de indivíduo integral? Além do mais.] É precisamente por essa via que a psicanálise responde à primeira tarefa colocada diante da psicologia moderna pela maior filosofia da época — o materialismo dialético: oferecer um enfoque materialista do indivíduo integral e das forças motrizes do Seu psiquismo [.A psicanálise.

a igreja etc. que lhe abarrotam o artigo. evidentemente. ou melhor. é precisamente o corpo que se introduz no sistema psíquico do indivíduo e não o contrário: introduz. aa~ citações de Freud e dos freudianos. Evidentemente. É claro que nenhum biólogo irá concordar com definição tão estranha do biológico como fronteiriço entre o somático e o psíquico nem o vitalista Driesch concordaria com isso. confinar a vida dele no círculo estreito e desesperador da auto-extinção psíquico-objdtiva. A questão não melhora tampouco com a sua inserção no processo socioeconômico da história. não como corpo externo objetivo mas como um vivenciamento do físico. Dota-se o indivíduo da sua própria história pequena. um corpo de dentro para fora. o conceito de “inconsciente” é bem mais subjetivista que o conceito de “consciência” da psicologia empírica. da Sua natureza pequena. isto é. A psicologia freudiana do indivíduo integral atende a essa condição? . A consciência serve à psicologia idealista. desejos. a solidariedade social como identificação mútua na comunidade do Ideal do Ego. Mas esse monismo dialético só pode ser realizado sob uma condição: a do objetivismo genuíno no enfoque do indivíduo. Fazendo um balanço. Trata-se de um conceito puramente metafísico. o Estado. “As pulsões — diz Luria — são para a psicanálise conceitos de ordem não puramente psicológica e sim coisa mais ampla — conceitos limítrofes entre o psíquico e o somático. não Se pode falar de qualquer conceito fronteiriço entre o subjetivamente psíquico e o objetivamente material. se. a tribo. ele é dissolvido em vários personagens interiores (o “Ego”.) das me mas raízes subjetivamente psíquicas. desejos e representações. porém o inconsciente serve ainda mais e melhor a uma tendência: isolar e fechar o indivíduo. Mas de que elementos Freud constrói o seu indivíduo integral? Dos mesmos “átomos” da psicologia empírica: representações. sentimentos. O organismo é um fenômeno secundário para a psicanálise. Porque já sabemos que Freud extrai todas as formações objetivas históricas (a família. É inteiramente incorreta a tentativa de atribuir caráter objetivo ao conceito psicanalítico de “pulsão”. o capitalismo como sublimação do erotismo anal etc. o “Id”) e se torna um cosmo autosuficiente. a verdadeira. O indivíduo deve ser entendido e definido nos mesmos termos que o mundo material circundante. É radicalmente incorreto apresentar a doutrina das zonas erógenas como teoria objetivamente fisiológica. podemos dizer que o freudismo como psicologia do indivíduo integral nos oferece uma forma que isola e fecha . e o ser de tais formações se esgota no mesmo jogo de forças subjetivas interiores (o poder como Ideal do Ego. a fórmula psicanalítica do indivíduo integral não é integral da por nenhuma grandeza objetiva que permita incluir esse indivíduo na realidade material da natureza que o rodeia. Porque na experiência não existe uma abordagem capaz de nos revelar um híbrido tão singular. 102 Aqui nada podem mudar os argumentos de Luria. Na fórmula marxista do indivíduo e seu comportamento devem entrar as mesmas grandezas que entram nas fórmulas da realidade socialmente histórica e natural que o rodeia.). é claro. Segundo essa teoria. Em linhas gerais. Pode-se concordar com a recriminação que Luria faz à psicologia empírica: de atomística psíquica. Assim. que ele introduz o organismo físico no sistema do psíquico? A segunda alternativa é. o “Ideal do Ego”. por assim dizer. um dos conceitos-chave da metafísica espiritualista.De maneira nenhuma. conceitos biológicos”.integral (em relação ao ser ambiente do qual ele é elemento inseparável). Será que o freudismo efetivamente introduz o psiquismo no ma do organismo como o afirma Luria? Ou não será o contrário. como conjunto de pulsões interiores.

Para o marxismo. o mecanismo psíquico de sua formação. O autor afirma que o ponto de vista marxista sobre a formação das ideologias coincide com as concepções de Freud sobre o mesmo objeto. certa tendência por parte do “consciente”. nem a psicologia podem revelar esse complexo processo de formação das ideologias. continuam “ocultos à ideologia”. que produz a deformação das ideologias. A doutrina de Freud oferece a explicação de como se realiza o processo de formação dos desejos e do reflexo da luta entre eles nas “cabeças” dos homens sob a influência de circunstâncias externas. (p. “ideais”. uma superestrutura também Para e freudismo: entretanto. o modo. tudo o que se apresenta ao homem nas formas da sua própria experiência interior. É neste ponto que psicanálise corresponde à base marxista! Todo o edifício da cultura se erige. isto é. Será que tudo isso não parece paródia? A psicanálise mete à força o próprio mecanismo da formação das ideologias nos limites estreitos da psicologia subjetiva do indivíduo. 152) 104 De fato. esse mecanismo é social e objetivo: ele pressupõe a interação dos indivíduos no interior do grupo economicamente organizado. e não caráter individualmente psicológico. as pulsões subjetivas recalcadas. segundo Freud. da luta de diferentes “desejos” (interesses) na sociedade. que seriam primariamente oriundos da “consciência”. predominantemente as eróticas. segundo Fridman. o que constitui a base dessa superestrutura? inconsciente. os motivos. porque surge a necessidade de justificá-las. que ela por isso investiga. corresponde. não só a consciência é ideológica em suas manifestações superiores mas também o é todo o subjetivo-psíquico. do ponto de vista correto do marxismo. de modo algum a psicologia subjetiva é o fator que deforma a ideologia. A ideologia é. ao passo que. Os fatores que deformam a ideologia têm caráter social. Além disso. marxismo e o freudismo. o freudismo. para os freudianos. Do ponto de vista da doutrina de Freud — escreve ele —. o modo de originar-se uma “ideologia” se explica pelo mecanismo da racionalização a que está condicionado o processo de formação dos sistemas judicativos em geral. para o marxismo. Contudo. Por isso nem a fisiologia. e isto está menos ainda ao alcance de uma psicologia subjetiva. isto é. no freudismo. a própria base. Já afirmamos que nem a mais simples enunciação verbalizada do homem (sua reação verbal) se enquadra nos limites de um organismo individual. As . marxista — a economia — também é. O materialismo histórico considera a consciência “social” como produto e reflexo do curso da história. O fato de as fontes reais de uma aspiração não Serem percebidas pelo indivíduo deve-se à ligação desse processo com o sistema do “inconsciente” A condição de formação de um “sistema’ ou racionalização é a necessidade de evitar a censura. compreendendo de forma idêntica o processo de formação das ideologias.Uma vez que toda atividade se realiza por meio do pensamento. apenas superestrutura erigida sobre a mesma base subjetiva (por exemplo. porque tudo o que motiva o homem para a atividade passa por sua cabeça. estudam diferentes aspectos desse processo e por isto se intercompletam magnificamente: o marxismo estuda as fontes dos fenômenos ideológicos. de classe. efetivamente. O erro da ‘ideologia” é admitir a independência do pensamento (da Consciência) em relação aos outros fenômenos. Quando descrevemos esse fenômeno. Aqui tudo consiste em que as verdadeiras forças motrizes. a luta da consciência com o inconsciente. definição freudiana de capitalismo que nós citamos). À luta de classe. há uma tosca semelhança externa entre o marxismo freudismo na interpretação do mecanismo de formação das Mas é uma semelhança de ordem especial: é assim que a paródia -parece com o original. já apontamos que o seu objetivo é proteger os verdadeiros motivos de uma aspiração com motivos mais elevados. essa original base de pulsões recalcadas. o pensamento é tomado como fonte da motivação.

necessita dos mecanismos freudianos.. interpretar por via reflexológica a doutrina de Kant: os a priori kantianos são uma indiscutível reserva de reflexos. segundo a doutrina marxista. O absurdo de semelhante fantasia é claro para qualquer um. Mas voltemos a Zalkind. é bastante típico. Aplicar o método reflexológico significa fazer uma nova experiência. mas em Compensação esses passos são seguros. Não resiste à crítica a tese do autor segundo a qual o ser. Zalkind. infinitamente lenta mas correta. Mas não pensamos que a tradução para a linguagem da reflexologia e de alguma teoria puramente psicológica seja trabalho mais produtivo e nobre. é só uma das ramificações do método fisiológico único. . Entretanto. e isso requer um enorme volume de trabalho e tempo.Uma distância entre o céu e a terra separa esse niilismo espiritualista da compreensão marxista da fórmula: “o ser determina a consciência”. quando os conceitos centrais da reflexologia (reflexo condicionado. 10.5. o método reflexológico se torna fraseologia reflexológica vazia. eles perdem todo e qualquer valor científico e essa reflexologia nada tem a ver com o marxismo. o campo de aplicação desse método nem de longe é tão amplo como alguns reflexologistas gostariam: ele é um dos métodos fisiológicos. para determinar a consciência. É o mecanismo da erradicação isolada. o valor científico da reflexologia se afigura indiscutível. Contudo. e nisso estão o seu significado e o seu valor.) deixam de organizar a experiência e começam a organizar quase que uma Visão de mundo. individualista e espiritualista. inibição etc. Evidentemente não é o caso de questionar o imenso valor científico do método reflexológico. para Freud o mesmo mecanismo serve à formação dos sonhos e dos sintomas neuróticos) é subjetivista. auto-suficiente e subjetiva da vida e nunca um mecanismo objetivo e socioeconômico de luta de classe que. B. Aqui cabem algumas palavras sobre a reflexologia. B. fora das condições dessa metodologia experimental escrupulosa. O método se move a passos de tartaruga. O mecanismo freudista de formação das ideologias (como se sabe. Seu ponto de vista. E Kant estaria justificado por via reflexológica. Os conceitos centrais do método reflexológico determinam a metodologia experimental concreta. que se resume numa tentativa de interpretar o freudismo por via reflexológica. por exemplo. enquanto os a posteriori são reflexos condicionados etc. Mas muita gente acha que a reflexologia deve servir de pedra de toque para experimentar o valor marxista de qualquer teoria psicológica. quando são transferidos com leviandade puramente especulativa para campos que não se prestam a nenhuma elaboração experimental em laboratório. que não. ZALKIND Resta examinar a posição de A. o dispositivo de Conceitos reflexológicos se transforma em um esquema vazio que 106 nada sugere e pode ser aplicado literalmente a qualquer coisa. Para o marxismo. o que resta da reflexologia como resultado da fusão dessas duas teorias situadas em pólos opostos da metodologia? Antes de mais nada. De que modo ele faz a “reflexologização” do freudismo? O que resta do freudismo “reflexologizado”? O que resta do freudismo. determina a refração ideológica do ser pela consciência. Isolado da metodologia experimental concreta. O FREUDJSMO REFLEXOLOGJZADO DE A. Zalkind rejeita a teoria sexual de Freud.

] O subconsciente dos psicanalistas da nossa corrente é uma parte provisoriamente inibida da reserva global de reflexos. 1927. Assim são as habilidades tenras e facilmente formuladas da infância (“infantis”. Portanto. Depois de reflexologizar o freudismo. Os reflexos. se é licita essa expressão. 171). é claro. 1924..Eis como Zalkind traduz para a linguagem reflexológica o princípio freudiano do prazer: Deve-se entender por princípio do prazer a parte do acervo fisiológico que relacionada com a mínima perda de energia pelo organismo. à frente. que costumam desenvolver-se com a ampla colaboração dos adultos (pais. irmãos etc. acabam sendo infundadas as afirmações de Freud segundo as quais o ser do subconsciente é autônomo. Noutros termos. por enquanto. trata-se de diretrizes inatas e herdadas do organismo (os reflexos incondicionados) e daquelas camadas da sua experiência adquirida e pessoal. uni subconsciente de qualidade especial está subordinado a leis [. p. nos psicanalistas encontramos os conceitos. inibição) ou extinção de outros. outros acabam sendo bloqueados. não vence o reflexo mais racional. aquela parte que é acumulada e revelada pela linha da menor resistência interior. É claro que ele não vem a ser outra coisa senão uma inibição. V7da do Organismo e Sugestão. . p. sem dispêndio excessivos do organismo com a concentração (o reflexo da concentração). Na linguagem dos reflexos ele se chama inibição. no subconsciente. Que racionalidade pode haver no reflexo alimentar de um cão preso a um absurdo sinal sonoro? Em todo caso. 107 De maneira análoga reflexologiza-se o mecanismo do recalque. A vida refletora do organismo consiste na revelação ou criação de uns reflexos e na inibição (recalque. É justamente disto que falam os psicanalistas. Isto mostra o quanto ele permanece em estado potencial. um deles vence. e só. que medraram imediatamente e antes de tudo dos reflexos incondicionados. complexo em Freud (que dedica algumas centenas de páginas à sua análise). o conceito de inconsciente — central em psicanálise — acaba. em que se baseiam todas as suas construções 5ubseqüentes — o conceito de “recalque” — é reflexológico.. como vimos. com excessiva freqüência têm valor inibitório” (artigo publicado no Terra Virgem Vermelha. porém. A análise dos mecanismos dos sonhos e dos elementos da sugestão recebe o mesmo enfoque reflexológico: “Essa paz externa é por si mesma um estímulo de ordem inibitória no sonho.. na sombra do campo atual.. a orientação (o reflexo de orientação) etc. totalmente descartável. B. cd. refletor ou. na sombra da consciência. 175). 4. requerendo para tanto o mínimo de dispêndio de sua força. exclusivamente no corte da doutrina dos reflexos condicionados” (A. e uns deles (ou um grupo deles) vencem à custa da inibição dos Outros. 58). pode “irromper”. reflexologizado se revela tão simples que Zalkind o expõe literalmente em três linhas. este é isolado de toda e qualquer reserva de reflexos. 59). p. Depois da reflexologização dos mecanismo centrais do freudismo. O conceito central dos psicanalistas.. sendo que a vitória está condicionada à acumulação da maior tensão fisiológica (foco da excitação optimal segundo Pávlov) nas proximidades dos primeiros. Quando enfraquece a influência inibitória daqueles estímulos que recalcaram o reflexo. quando cessa a ação dos estímulos externos que. segundo Freud). Zalkind. Zalkind apela para o modo aritmético de verificação em ordem inversa: freudianiza a reflexologia (aplicado ao cão. revela-se atual. sob a influência de um ou outro estímulo novo o reflexo inibido ou recalcado pode reaparecer. o mecanismo freudiano parece bastante original). Não há o mínimo desvio da doutrina reflexológica” (Vida do Organismo. inibidos. O mecanismo do sonho e da sugestão. inibido. GIZ. para usar a velha linguagem subjetivista. (p. concorrem entre si.) que rodeiam a criança. evidentemente. Portanto.

O psiquismo se funda sobre formações socioeconômicas complexas. Aqueles conflitos do comportamento humano a que se referiu Freud não são fatos biológicos. Enquanto método puramente fisiológico. mas nada de reflexologia. esse mecanismo é uma abstração. Então nem freudismo. 10. o freudismo sem freudismo? E esse o resultado da reflexologização. Aplicado ao homem. é um reflexo ideológico do ser social. Isto é assunto para outro estudo. assim como não podemos nos deter na fundamentação mais minuciosa do nosso ponto de vista sobre o psiquismo. Mas será que os fatos do comportamento humano. sem a teoria das pulsões e. Todo o aspecto subjetivo do psiquismo. sem a interpretação dos sonhos. Terra Virgem Vermelha. do T. do gesto sonoro etc. a respeito dos quais Freud teoriza. entendido em termos puramente biológicos. O mecanismo do reflexo condicionado se desenvolve nos limites de um organismo individual. sem o Ego e o Id ou. segundo a qual “o psiquismo do * Em francês. sem a sexologia. conseqüentemente. ao fenômeno material: aplicá-lo ao fato significa subordinar o estudo desse fato a uma determinada metodologia experimental. Nada disso foi levado em conta por Zalkind. e do meio físico puro. isto é. 163). numa palavra. Parece-nos radicalmente equivocada a idéia central do último livro de Zalkind. CONCLUSÕES .) 109 homem é um reflexo biológico do seu ser social” (cf. O que restou do método reflexológico? Três conceitos que nada sugerem: reflexo incondicionado — reflexo condicionado — inibição.Um freudismo sem a categoria de inconsciente.6. etc. (N. que se resume na tentativa de interpretar o fator psicológico na vida do organismo como um conjunto de reflexos condicionados2. precisamente aquele com que Freud opera. Por isso achamos profundamente falsa a convicção teórica central de Zalkind. e o próprio psiquismo necessita de material ideológico específico: o material da palavra. Já tivemos oportunidade de nos referir a isso em outra passagem (vejam-se os capítulos 8 e 9). Nos limites deste livro evidentemente não podemos desenvolver uma análise crítica mais detalhada da teoria do “fator psíquico” de Zalkind. nem reflexologia! A falha principal na posição de Zalkind é a seguinte: não se pode reflexologizar outra teoria (como em geral não se pode traduzir uma teoria para a linguagem de outra). mas no conjunto esse comportamento não pode ser entendido pelo método reflexológico: porque que o comportamento não é um mero fato fisiológico. prestam-se ao método reflexológico? Não. A própria combinação das palavras “reflexo biológico” se nos afigura profundamente absurda em termos filosóficos. o reflexológico pode abranger apenas um componente abstratamente discriminado do comportamento humano. A consciência e o fator psíquico devem ser entendidos em sua originalidade qualitativa e não reduzidos a reflexos condicionados. não se prestam. mas fatos objetivamente sociológicos ideologicamente refratados. sem o complexo de castração etc. Só nesse material o subjetivamente psíquico é dado como fato objetivo. Esperamos ter mostrado de modo suficiente a inconsistência da apologia do freudismo feita por Zalkind. resta um reflexológica façon de parler*. no original russo. sem o conteúdo do inconsciente: sem o complexo de Édipo. Pode-se aplicar o método reflexológico não a outra teoria mas ao fato. p.

.entre elementos isolados da teoria freudiana e do marxismo. como Zalkind. substituem o freudismo por uma reflexologia Uma serena análise objetiva de todos os aspectos do freudismo dificilmente levantaria quaisquer dúvidas quanto à justeza da nossa apreciação marxista dessa doutrina. terceiros.

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