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Carlos Alberto Saloio

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PRÓLOGO

Pedro Sánchez sabia de cor o destino. Por isso, quando o juiz lhe ordenou ouvir de pé a sentença, nem um segundo confiou em mi‑ lagres. O caso era grave e os santos tinham mais que fazer. Há dez sessões que Rafael Ríos — número um na nata dos advogados de Sevilha — lhe atirava à cara resquícios do passado, testemunhos há‑ beis, aleivosos, acusações a dedo de um crime que não cometera. É certo que nada tinha em seu abono. Estava longe do cadas‑ tro limpo, sobravam‑lhe tropeções na vida, às dezenas, dos mais va‑ riados no cardápio penal. Mas nunca o rapto de frágeis e inocentes. Porque, ponto de honra, respeitava muito as crianças. Mesmo esta, sendo filha de embaixador, não lhe aguçara o gesto da crueldade, muito menos de assassiná‑la, quando o resgate foi público e recusa‑ do. Soube da história pelos jornais, pela TV, pelas conversas de rua. Pela notícia gorda, em letras garrafais, semanas a fio. Até que manhã cedo, visitado pela polícia, foi directo aos ca‑ labouços. Alguém se enganara ou quisera tramá‑lo. De nada serviu esbracejar inocência e esgrimir álibis: Espanha inteira, e meio mun‑ do à volta, já dera o veredicto. — O Tribunal considera provados os crimes de rapto e assas‑ sinato, condenando o réu à pena de vinte anos de prisão. Castigo duro, muito duro, o pior de todos que já enfrentara. Pelos anos e pela revolta. Pedro tinha a justeza e o brio dos delin‑ quentes que aceitam pagar dívidas. As suas, mas só essas. Por isso, nesse primeiro de milhares de dias, jurou a si próprio que aquela pena não era para cumprir. Mesmo assim conteve‑se e foi tempo que lhe pareceu demais. Um mês de cativeiro, a preparar o salto, a esboçar planos rascunha‑ dos na mente. Por fim decidiu‑se. Ia rever, ou pôr à prova, o ac‑ tor fugaz doutras vidas, antes da entrega aos apelos do crime. Para quem pisou palcos à passagem dos vinte, simular dores — dessas que ameaçam rebentar o coração — era tarefa fácil ao lado de um texto de Beckett.
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Como esperava, a prevenção funcionou, porque mesmo a um bárbaro salva‑se a vida. E agora, na corrida ao hospital, fazia contas que à chegada tudo corresse como planeado. Os melhores do grupo estariam lá para anular a polícia e cobrir‑lhe a fuga. Durante dias fora tudo estudado, visto e revisto ao pormenor, sem falhas previ‑ síveis. Mas a sorte tem destas coisas. Falharam, como falham os me‑ lhores. À custa de um agente novato, nervoso, ávido de mostrar serviço. No cerne da acção, escaldou‑lhe o sangue e atirou a matar. Pedro Sánchez nunca soube que dois meses mais tarde, quando o escândalo rebentou das entranhas sujas da política, estaria em liber‑ dade por troca com a “esposa intocável” do próprio embaixador. Um erro judicial que verteu rios de tinta, desses que correm para lugar nenhum.

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PRIMEIRA PARTE

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CAPÍTULO UM

Encalhada entre o Darro e a Sierra Nevada, feita a longa viagem de três séculos, esta nau conquistou, a pulso, o privilégio de olhar de‑ fronte a sua criação: o denso e soberbo casario de Granada. Agora, debruçada no monte, a Alhambra, vinda da época andalusí ao do‑ mínio dos cristãos, ganhou fama e romaria, por ser retrato maior da arte islâmica nas terras do Ocidente. Está nos escritos que lembra um barco — pela forma e pelo decifrável tirante — espraiado metros sem fim, da Alcazaba à Torre do Cabo de la Carrera. A proa ergue‑se altiva ao encontro da cidade e ali se fica impávida, imponente, a espreitar‑lhe os segredos, como em velhos tempos da vigilância militar. Hoje em dia, as visitas são aos milhares. Por isso, a manhã já vai alta e a longa fila aos bilhetes quase desespera. Uma sina. Quem não reserva, não foge aos ardores de Agosto, tórrido nestas para‑ gens. Pior ainda, sem garantias de sucesso. Porque algures, de um altifalante remoto, chega a má notícia: só quinhentas entradas para a visita da tarde. Coisa pouca, se somarmos gente a perder de vista, aos que ainda buscam um lugar de parque ou saem às golfadas dos mini‑bus que trepam a Colina Vermelha. Da Alhambra não há registos de época precisa, gastou três sé‑ culos a erguer‑se. Foi palácio, cidadela e fortaleza. Acolheu sultões Nazaríes, altos funcionários, servidores da corte e soldados de elite. São cerca de treze hectares e é, pelo menos, meia jornada de visita para calcorrear as quatro zonas que formam o conjunto: o Gene‑ ralife, a Medina, os Palácios e a Alcazaba. Com rigor de horários e forte vigilância. Juan Pablo não teve vida fácil. Nasceu nos subúrbios de Ma‑ drid e mal se cruzou com o pai, pouco dado ao convívio doméstico e, muito menos, às agruras do trabalho. Nas breves passagens pelas duas assoalhadas decrépitas e bafiosas, chegava tardio, já o sol ia alto e o filho rumara à escola. Onde, aliás, não foi muito longe. As contas da família sempre foram pagas com o magro salário da mãe,
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Isabel, ganho a troco de limpezas numa pensão de duvidosa cate‑ goria. Por isso, no dia em que as fugazes estadias passaram a nulas, tudo ficou exactamente na mesma. Uma história vulgar, centenas de vezes repetida. Na escola, entre as dificuldades na matemática e os tropeções no espanhol, Juan assimilou o mínimo para se fazer, com urgência, à vida. Trabalhou nas obras, vendeu tapas e canhas de ocasião, car‑ regou toldos e tarefas menores nos verões de Marbella, acabando — emprego caído do céu — como segurança na Alhambra. Hoje, olha‑se ao espelho com outra dignidade. Usa farda a preceito, arma, cinturão bordado a balas e uma aparência segura. Fazer‑se respeitar é agora o contraponto de quem agiu solto, sem regras nem amparo, durante muitos anos. Mais do que uma espécie de vingança, é sobretudo uma máscara. Porque lá nas entranhas, desde os tempos da adolescência, ainda sobrevive o “puto‑homem” que queimou etapas e viveu, sem rede, depressa demais. Trinta e cinco graus à sombra e ainda não é meio‑dia. A fila anda passinhos curtos, de dez em dez minutos, e o estreito café ao lado acotovela‑se para fazer negócio. Garrafas de água, gelados, até já saem umas cervezas. Juan faz mais uma ronda por aquele rio de gente. Tudo calmo, com ordem e paciência. Nem um pingo de sus‑ peita, mas precisa de estar atento porque, nos tempos que correm, o crime engorda telejornais. Meia volta e outra espreitadela ao reló‑ gio: tomara que cheguem as duas, para passar o serviço. Longe das férias, só lá para Outubro, vai saber bem a folga de amanhã. O Generalife é a única horta de recreio que sobreviveu no Cerro do Sol. Local de descanso do Rei de Granada, estava perto, mas tão longe da cidadela. Em repouso mesmo ao lado, o monarca atendia às urgências, aos imprevistos do Reino, mas — como se fos‑ sem milhas de distância — desfrutava da paz que, ainda agora, se sorve naquele lugar. Nos pátios e jardins, a flora e a água são, naturalmente, os ele‑ mentos dominantes e bastam para explicar a escolha dos Nazaríes. Corriam os tempos deste reinado, quando o Acequia Real passou a beber, seis quilómetros acima, as águas do Darro para irrigar o “Jardim do Arquitecto”1. Neste canal assenta um complexo siste‑ ma hidráulico, que já foi corrigido e melhorado ao longo dos sécu‑ los. Hoje é visível a cada passo. Nas numerosas fontes, nos lagos ou
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nesse notável corrimão líquido que deu nome e fama à Escalera del Agua. Miguel Ríos quase sempre foi um apaixonado pela Arqueo‑ logia. Pelo menos desde os tempos em que alguns documentários lhe aguçaram o apetite e passou a dedicar‑se às leituras do tema. Na hora de avançar nos estudos a opção foi fácil e, ainda hoje, não está arrependido do caminho que seguiu. Apesar de sentir na pele as dificuldades de tecer uma carreira no mínimo estável, sem sobres‑ saltos financeiros. Sempre teve consciência disso e foi bastante avisado. O pai, distinto advogado de Sevilha, com nome feito na barra, terá so‑ nhado passar‑lhe a fama e o escritório. Em vão. Miguel estava lon‑ ge de rever‑se nos códigos e decretos, incapaz de rebuscar na lei a vírgula que pode transformar culpas em inocência. Tinha uma opinião muito crítica sobre a justiça dos homens. E depois de al‑ gumas insistências, o pai, que há muito percebera isso, desistiu da cruzada. Miguel bebeu da mãe um espírito profundamente religioso, que o levou várias vezes à Praça de S. Pedro — em dias de encontro papal — e lhe podia ter dado o estatuto de missionário nos confins de África, se não fossem os apelos incompatíveis dos livros de Ar‑ queologia. Estava no último ano do curso quando ela sucumbiu ao tumor voraz e implacável. Nessa hora, pela primeira vez, pôs em causa se até no Divino a palavra justiça tem significado. E durante dias e noites a fio, a imagem da mãe, definhada e apática no leito do hospital, ocupou‑lhe a mente quase a tempo inteiro. Só um ano mais tarde, quando conheceu Joane, outras ima‑ gens e pensamentos começaram a fazer sentido. A colega francesa juntou‑se ao seu grupo de jovens arqueólogos, investigadores da Universidade de Jaén, que buscavam vestígios da passagem dos mu‑ çulmanos pelo sul de Espanha. Também ela terminara há pouco o curso, mas os seus vinte e quatro anos não surgiam, de imediato, visíveis. Mesmo três anos passados, é difícil adivinhar‑lhe a idade: o corpo pequeno e frágil, parece não ter ido além do início da ado‑ lescência, mas a face apresenta traços de uma mulher mais madura,
Significado do vocábulo Generalife para a maioria dos autores, que colhem a sua origem nas palavras árabes djennat ( jardim, horta, paraíso ) e al‑arif ( arquitecto, construtor ).
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acima dos trinta. Como se no seu ser coabitassem dois processos evolutivos distintos e antagónicos. Esta contradição física não escapou a Miguel, logo no pri‑ meiro encontro. Aliás, houve alguns comentários em surdina, mas o grupo, naturalmente, acolheu‑a de braços abertos. Pela simpa‑ tia que irradiava e pelo empenho em meter mãos à obra se o tra‑ balho ditava redobradas exigências. Porém, durante vários meses de vivência comum, mesmo quando do lazer ou do mero desabafo emergiam confidências espontâneas, ninguém lhe ouviu um relato aberto do passado. Mais do que um permanente mistério, essa era a dúvida com que Miguel se debatia depois de passar a barreira do melhor amigo. Pelos visitantes que continuam a chegar, os quinhentos bilhe‑ tes são seguramente poucos. O sol de Agosto arde no corpo, agora que o telheiro já ficou para trás e a fila avança, preguiçosa, para a zona das bilheteiras. Apesar de tudo, Joane ri, está bem disposta e, afectuosa, esforça‑se para roubar Miguel à teimosa leitura do El País. Mas já foi vezes sem conta espreitar, lá à frente, o tempo que falta para cumprir este calvário. Percorrer a Alcazaba numa tarde de Verão tórrido, é, sem dúvi‑ da, a tarefa mais difícil da visita. Mas vale a pena recuar séculos aos tempos em que os Nazaríes, fustigados pelos conflitos fronteiriços e pela ofensiva dos reinos cristãos, aperfeiçoaram técnicas e produ‑ ziram avanços notórios na arquitectura militar. A partir do século XI, sucedem‑se as inovações em prol da defesa: grades de ferro nas entradas, corredores angulosos, cadafalsos e parapeitos nos muros. Até os materiais de construção ganharam outra solidez. Nesses tempos, entrava‑se pela Puerta de las Armas, onde os forasteiros podiam deixar as montadas, embrenhando‑se depois por caminhos estreitos e labirínticos, em torno da Torre de la Vela, sempre sob a vigilância dos soldados que a protegiam. Lá dentro, a Plaza de Armas, acolhia as dependências usadas pelos defensores da Alcazaba. Hoje só resistem ruínas das habitações dos chefes e armeiros, de um local de banho para soldados e de uma ancestral masmorra. Se olharmos, atentos, ainda se vislumbra o espaço que foi leito dos encarcerados. Nesta área, por causa da parca visão, Mariana e Júlia têm al‑ guma dificuldade em se locomoverem. Não chegaram cedo mas,
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com bilhetes reservados, sobrou tempo para um almoço calmo, sob um toldo amplo e arejado, à espera que as duas horas facultassem a entrada. Mariana rumou do Porto, Júlia de Évora. Cruzaram‑se no Al‑ garve, à boleia de uma oferta turística inesperada, dessas que tra‑ zem sempre um negócio por detrás. Já lá vão cinco anos e continu‑ am a questionar o prémio, sem a praga dos vendedores por perto. Aparentemente, alguém se esqueceu de cobrar. Caso estranho, in‑ vulgar nos bandos que impunemente minam a privacidade e, vezes demais, ludibriam incautos usando a arma do telefone. À chegada ao Alvor, não iam ao engano. Três dias à beira‑mar, com estadia paga e pensão completa, ninguém oferece de mão bei‑ jada. E ambas, noutras ocasiões, tinham sido abordadas para engo‑ dos semelhantes. Mas, agora, a voz do outro lado da linha fora mui‑ to mais sincera e empática. Não escondeu intenções, não as tratou como ingénuas ou tolas escolhidas ao acaso. Porventura porque era mais profissional e inteligente, pensaram. Feitas as contas, ainda que em pleno Outono e por uma nesga de sol, valia a pena arriscar. Fraco risco para duas mulheres que aprenderam, desde a in‑ fância, a transpor barreiras sem conta. Foi essa luta, com mais de vinte anos, que as aproximou — logo ao primeiro dia — no átrio do hotel. Ficaram naquela tarde, horas sem fim, a partilhar histórias mais ou menos dolorosas de resistência. Mariana não conheceu pai nem mãe, mortos num acidente de viação quando ela cumpria uns meros onze meses. Foi a tia, entre‑ gue ao celibato e à postura reservada que teima em manter, quem lhe deu a mão para desbravar o destino. Júlia, no dia em que fez, com sucesso, a última oral de Sociologia, ganhou coragem para di‑ zer ao padrasto a frase que calara durante longos anos: “Obrigado. És o melhor pai do mundo!”. Refém dos silêncios de uma mãe sol‑ teira, foi dele que colheu a força anímica para se erguer da doença e chegar ali. Já ia longa a conversa, nesse fim de tarde morno no Alvor, quando prometeram não apartar caminhos. Depois da Conquista, os Palácios Nazaríes tomaram o nome de Casa Real Vieja, para marcar a diferença da Nueva, um grande centro político, administrativo e residencial do Império, que Carlos V pretendia erguer. Há referências históricas a sete daqueles palá‑
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cios, mas só Mexuar, Comares e Leones são hoje os núcleos funda‑ mentais da Alhambra. Sem fuga possível às reformas dos cristãos, a Sala del Mexuar ainda guarda a imagem mais aproximada do que eram os antigos Alcázares reais. No velho Tribunal Real nasceu, depois da Conquis‑ ta, uma capela que roubou formas e história à traça original. Até o Oratório — suspenso sobre o bairro de Albaicin, esse rendilhado de ruelas e escadinhas — viria a converter‑se em sacristia. Mas a nobreza dos reis que ergueram a cidadela respira‑se nos Comares. Tempos remotos da diplomacia e da política, o Sultão acolheu ali embaixadores, defendeu Granada e jogou forte com o esplendor da corte. Como no grandioso Salón del Trono, carregado de simbolismo do poder nazari. O Pátio de Los Leones era o espaço privado do monarca, gera‑ do em torno do jardim e de um imenso bosque de colunas, retrato soberbo da arte granadina. Ao centro, chega um pedaço do Darro, viajado até à fonte, por artes de hidráulica muito além do saber comum da época. Os séculos já lhe alteraram a forma. Mas hoje, perfiladas em círculo, essa dúzia de feras vomitando água ( os doze sóis do Zodíaco, donde brota a vida ), correm mundo para mostrar o “navio”. Ramon tropeçou na vida aos quinze anos, numa noite de ex‑ periências surgidas do acaso. A novidade chegou abrupta, com tudo à mistura, vertida num cocktail de sexo e drogas. Dessa madrugada quente nas dunas de uma praia anónima, esqueceu os rostos e os corpos, mas reteve o pó. Mais e mais, até ao salto fatal para outra dimensão. Hoje, depois das tentativas falhadas para inverter caminho, arrasta o destino à custa dos míseros trocados que vai mendigando, sem muita insistência, à porta da Alhambra. Mal lhe chegam para enganar a fome, mil vezes saciada pelo gesto humano dos que ali trabalham. Todos o conhecem, desde que surgiu (sabe‑se lá don‑ de!), a remexer nos caixotes, como um cachorro vadio à procura de espaço e alimento. Uma ronda que estranhamente ainda repete, dia‑a‑dia ao fim da tarde, sem benefícios visíveis. Já lá vão longos meses e por ali ficou, entre as breves ausências na cidade para pagar caro a fugaz coragem da sobrevivência. Fez de um velho alpendre abrigo para as noites mais frias, ganhou tolerân‑
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cia e algumas mãos amigas. Mas só Juan Pablo conseguiu conquis‑ tar‑lhe a confiança e desvendar, a conta‑gotas, retratos difusos do seu passado. Memórias dessa noite de excessos e das passagens pela clínica de Málaga. Porque na presença dos outros, além dos monos‑ sílabos, é difícil ouvir‑lhe mais do que meia dúzia de palavras. Seis da tarde, de um dia mais agitado. Algo se terá passado lá dentro: a polícia foi chamada e os seguranças andaram, até há pou‑ co, numa roda‑viva. Agora está tudo calmo, os turistas começam a debandar e Ramon esforça as últimas moedas. Quase a medo por‑ que, apesar da sina, não perdeu vergonha ao estender a mão. Mas tem de ser assim, só para saciar a fome. Mais não precisa, nem para comprar o vício nas visitas a Granada.

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CAPÍTULO DOIS

Agosto de 2005 Passava pouco das duas quando Miguel e Joane entraram na Alham‑ bra, no rasto da ordeira avalanche, armada de câmaras e guias auri‑ culares. O ponto de partida é, quase sempre, o “Jardim do Arquitec‑ to”. Mais do que um percurso natural, a frescura que emana convi‑ da, desde logo, a mergulhar na calma desse paraíso esboçado entre o belo da flora e o fluir do Darro. Obra‑prima de sábios milenares. Os caminhos abrem‑se por entre hortênsias, lírios, glicínias e tantas outras espécies que, numa etapa curta, já suscitaram uns quantos “flashes” à jovem arqueóloga. Estava defronte de um imen‑ so arco‑íris de calêndulas e dentes‑de‑leão — quadro porventura inédito — quando o telemóvel, incómodo, lhe roubou a descoberta. A conversa foi breve, mas inaudível para Miguel, embrenhado à dis‑ tância na visão do jasmim‑azul, — Quem era? Dá‑me meia hora para adivinhar: o controlo do teu pai. Não há meio de perceber que já estás crescidinha! — São manias dele, também não exageres. E, afinal de contas, não estou assim tão crescida! — gracejou. Procurando, sem mais explicações, deixar a conversa por ali. No dia‑a‑dia com ele, Joane nunca somou preconceitos ao seu aspecto franzino e remete o diálogo, muitas vezes, para a baixa es‑ tatura. “Agora estás condenado, vais preso por pedofilia”, disse‑lhe, num riso provocador, quando acordaram juntos pela primeira vez, naquele quarto emoldurado a pedra, no meio de quase nada. Nesse ano, à chegada da Primavera, Miguel apostou em Trás‑os‑Montes para conferir, ao vivo, as imagens que espreitara a norte nos roteiros portugueses. Não foi difícil arrastá‑la nesta via‑ gem. Nos olhares, nas palavras, nas cumplicidades, há muito que percebera ter companhia para qualquer lugar que inventasse. Mas a escolha foi feliz. Desceram pelo Montesinho e acomo‑
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daram‑se na Campeã, um pedaço de paz semeado à beira de tudo. Do torpor das serras e da cidade inquieta, abraçando o Corgo. Ce‑ nário perfeito para se descobrirem de mais perto, entre o crepitar da lareira e as longas caminhadas ao vento gélido, cortante, sonega‑ do às escarpas do Marão. Manhã cedo saíam pelo vale fervilhando de verde, ao encon‑ tro do cruzeiro nos quatro caminhos, ou do Parque do Alvão e das quedas de água, onde o relógio pára e apetece ficar, horas esqueci‑ das, a contemplar a dádiva dos deuses. Depois, embrenhavam‑se no rendilhado de aldeias, revisitavam Quintã, Pepe e os rostos afáveis daquelas gentes, até que a noite os devolvia ao aconchego da casa rural. Já D. Rosa por lá passara, de mansinho, a deixar mel e com‑ potas para os “seus meninos” de ocasião. Esses dias gravaram marcas além da memória. No regresso a Sevilha, Miguel não voltou sozinho ao T1, perto de La Cartuja, que lhe coube em partilha por morte da mãe. Da sua parte foi facto consumado, mas ela levou tempo para confessar aos pais a mera união, sabendo‑os conservadores demais para aceitarem, sem re‑ ticências, um genro informal, distante e desconhecido. A reacção foi a esperada e já leva um ano para esmorecer. Por isso — decisão tomada a dois — sempre que Joane visita Toulouse, viaja sozi‑ nha. Na Alhambra, cumpriu‑se a insistência. O pai — sempre ele — liga‑lhe, pelo menos, duas a três vezes por semana e as conversas, normalmente rápidas, são pouco mais do que um monólogo. E nem ela relata o tema, nem Miguel o questiona. Até as mentes se abri‑ rem, apostou em ignorar os sogros. Patio de la Acequia. Joane insistiu em gastar aqui algum tempo e afastou‑se pelo jardim andalusí, curiosa, enquanto Miguel ia fo‑ tografando, com calma, todo aquele espaço alongado: as pequenas fontes, os repuxos e o muro do Poente, feito galeria pelos reis cató‑ licos. Só passado algum tempo se apercebeu que, no meio daquele emaranhado de gente, perdera de vista a companheira. Ocorreu‑lhe que estaria num mirante, talvez o Norte, por via do cenário e da brisa fresca que acalma o ardor de Agosto. Mas não. Nem ali, nem do outro lado da linha, quando usou o telemó‑ vel como instrumento de busca. Nesse instante, começou a preo‑ cupar‑se. Algo de estranho se passara e o “Jardim do Arquitecto” é
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um espaço demasiado amplo para descobrir alguém com facilidade, ainda mais tropeçando em centenas de turistas. Mas tentou, quase em desespero. Foi à Escalera, aos Jardins Baixos, ao Patio de Polo, palmilhou todo o Paseo dos Ciprestes. Es‑ forço inglório. E o telemóvel sempre mudo, a chamar sem respos‑ ta. Doença súbita? Rapto? Brincadeira estúpida? Ou simples fuga? Num ápice, muitas hipóteses lhe cruzaram a mente. Só não acredi‑ tava que Joane tivesse engendrado assim o final da relação estável, quase sem beliscaduras, ou que descesse ao ponto de ser tão criança e irresponsável para brincar desta forma. O segurança, a que finalmente recorreu, foi lesto nas comu‑ nicações. Não havia notícia de alguém assistido ou levado ao hos‑ pital. Já fazia tempo sem tais problemas, desde a tarde árida em que uma idosa chilena não resistiu a tamanha caminhada. Palavra passa palavra, Miguel chegou à chefia que, à cautela, pôs a polícia em campo. Um quarto de hora depois, dois carros — com a possível discrição — e meia dúzia de agentes subiram a colina. — Inspector Núñez — apresentou‑se — Para já, quero um retrato em detalhe. Quem é que vamos procurar? Nos minutos seguintes, Miguel narrou a baixa estatura, os cabelos longos e algo alourados, os olhos castanhos, os calções brancos com desenhos a rosa, mais a t‑shirt vermelha e os ténis de marca. Dito isto, o inspector deu ordem de acção, mas, enquanto os outros avançavam para o terreno, ficou à conversa, para saber mais. Indagou tudo. Donde vinham, como se conheceram, o circulo de relações, amigos mais próximos, atitudes estranhas ou telefone‑ mas suspeitos. Até ao ponto de alguns pormenores íntimos. — Acha que alguém podia estar a fazer‑lhe ameaças? — per‑ guntou. — Não me apercebi disso, nem vejo porquê. Praticamente só recebe chamadas do pai. — Quando foi a última? — Há duas horas, mas foi tudo perfeitamente normal. O pai liga‑lhe com frequência, está sempre a controlá‑la. — Sempre a controlá‑la? Porque é que ele faz isso? — insistiu o inspector. — Mania. Para ele, Joane não deixou de ser criança, é a sua
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menina e não aceita a nossa relação. Mas sei pouco dele, nem se‑ quer o conheço. Se sou rejeitado, quero manter as distâncias. O inspector Núñez teve alguma dificuldade em compreender este desprendimento, este aparente desinteresse como Miguel lida‑ va com o passado e com as referências familiares de Joane. — Parece‑me que também sabe pouco dela. Isso não o inco‑ moda? Não é curioso ou prefere nem saber? — O que é que está a insinuar? — por momentos Miguel irri‑ tou‑se, ao adivinhar alguma ironia naquele inquérito. — Fique calmo. O meu trabalho não é insinuar, é fazer per‑ guntas. E convenhamos que a situação não é muito comum. — Pode não ser, mas não tenho razões para desconfianças. Passado é passado, se não quer falar, não fala. Respeito isso e da‑ mo‑nos bem. Para mim é quanto baste. — Está enganado! Se ela não aparecer temos um problema sério. E tinham. Com a tarefa difícil, o inspector pedira reforços e cães‑polícia, mas já a tarde se esvaía e os agentes ainda vasculha‑ vam, sem sucesso, cada palmo da cidadela. — Discutem muito? Como é que está a vossa relação? — Bem, muito bem — garantiu Miguel — Não acredito que ela quisesse terminar tudo, muito menos desta forma. Coragem não lhe falta, sempre enfrentou os pais por causa da nossa relação. — E não estaria a ser pressionada por eles? Ela fez algum co‑ mentário sobre isso? — Já lhe disse que não faço muitas perguntas sobre as conver‑ sas com o pai. Mas, se assim fosse, ou ela me dizia ou, eu próprio, já me tinha apercebido. Afinal de contas, eu assisto a muitos tele‑ fonemas! — E quando ela vai a Toulouse, fica muito tempo? — Pouco. Três, quatro dias, no máximo uma semana. — Porquê? — insistiu Núñez — Não gosta do ambiente? Dão‑lhe cabo da cabeça? — Que eu saiba não é por isso, nunca fez esses comentários. Não gostamos é de estar muito tempo separados. — De facto, você desconhece muita coisa dela. É estranho, muito estranho! — concluiu o inspector. Quase oito da tarde, a Alhambra ia fechar as portas antes da
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visita nocturna, quando Núñez se reuniu com os seus homens. Esti‑ veram num recanto, longo tempo à conversa, fora do espaço audível de Miguel. Findo o diálogo, o inspector dirigiu‑se ao arqueólogo. — Passámos tudo a pente fino. Só encontrámos uma coisa que alguém atirou fora, para o meio das plantas. Reconhece este objec‑ to? Claro que reconhecia. Era o telemóvel de Joane.

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CAPÍTULO TRÊS

Mariana e Júlia passaram a visitar‑se com regularidade desde aquele encontro no Alvor. Normalmente é Mariana que se desloca a Évo‑ ra, não só pela forma aberta e quase familiar como é recebida, mas também pelo aconchego da cidade que mal conhecia, mas começa a descobrir com notório encantamento. De quando em vez pega no telefone e, a pretexto de quase nada, já basta dizer “para a semana estou aí”, sem receios de reticências ou, pior ainda, de acolhimentos esforçados. Pelo menos, nem por um minuto, a sua presença deu sinais de indesejável. Embora ambas não tenham perdido totalmente a visão, é ela que consegue mover‑se, por conta própria, com maior facilidade. Bastante, mesmo. Por isso Júlia, para além de ter ganho uma amiga — são horas sem fim à conversa — encontrou guia para os longos passeios matinais, entre travessas e ruelas, nesse rendilhado de His‑ tória. Aborda, com frequência, a suposta imagem do pai que não passa de um esboço desenhado na mente. Com retoques vários, de ocasião. Coisa pouca. Será fraca curiosidade? — Há histórias que é difícil contar e esta acho que magoa mui‑ to a minha mãe. Nunca tive coragem para remexer na ferida — con‑ fessou Júlia, às insistências da amiga. Nas diversas viagens a Évora, Mariana já lhe registara clara‑ mente o perfil. Uma senhora simpática, afável, capaz do gracejo no momento certo, mas guardiã dos limites, nas conversas e nas atitu‑ des. Mais do que uma forma de estar, talvez um meio de defesa. É o padrasto de Júlia quem faz, na prática, as honras da casa. À mesa do jantar, falando da cidade, dos locais de visita, da situação do país e dos dramas lá de fora que entram porta adentro à hora dos telejornais. Sem detalhes de política, para evitar constrangimentos ou debates inoportunos. Aliás, no decurso dos diálogos, nunca se aventurou por caminhos partidários, mas é provável que tenda para
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a direita, pelo círculo de relações que, de quando em vez, faz ques‑ tão de referir. — Percebo bem as tuas reticências! Mas, francamente, por muito que lhe custe, tens todo o direito a saber quem é o teu pai. — Claro que tenho! Mas não sou capaz de a obrigar a falar. Ia‑me sentir mal para o resto da vida! — Júlia dava conta dos seus medos. — Disparate! Desculpa que te diga, mas isso é uma tontice e um exagero. Precisas é de ganhar coragem! Sempre a mesma conversa, sem resultados práticos. Decidida‑ mente, Júlia recusava ou temia o desafio. Dos seus, Mariana contou‑lhe o relato que, bem cedo, arran‑ cou às reservas da tia. Ao contrário da amiga, fez questão de saber quem eram e o que sucedeu nessa noite fatídica. O pai (gerente ban‑ cário) e a mãe (secretária numa bem sucedida empresa têxtil) não contavam os dias para o final do mês. Ao que soube, estariam de bem com a vida, não fora a doença dela que se agravara aos pou‑ cos. — Meteram‑se à estrada numa noite de temporal. A tua mãe sempre foi doente do coração. Aqui, os médicos queriam operá‑la, mas soube de um especialista melhor em Lisboa e ia à consulta, de manhã, no dia seguinte. Coitada! Não morreu da doença, morreu da cura! O carro despistou‑se e bateu num camião. Ficaram os dois, logo ali. Só algo lhe pareceu estranho nessa história, confessou. No imenso álbum de fotografias, que a tia lhe deu repetidamente a des‑ folhar (“vês como eras um bebé lindo?”), nem um só retrato dos pais. Persiste do passado essa página em branco, redesenhada vezes sem conta. E às perguntas de Mariana sempre a mesma resposta: — Depois do funeral rasguei‑os todos, de raiva! Não era ca‑ paz de vê‑la, tudo aquilo foi muito doloroso! — anos a fio, ainda se justifica. Quanto à falta de visão, não foi logo à nascença. Só passados dois anos os médicos detectaram a doença, irreversível, muito se‑ melhante ao caso de Júlia. Até na forma como surgiu, tinham curio‑ samente etapas de vida em comum. Nisso ou, agora, nos mais simples projectos de ocasião. A Alhambra surgiu de repente, numa dessas manhãs junto ao Templo
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de Diana. Pelo meio de uma conversa de viagens, Mariana sugeriu — ideia súbita — uma visita a Granada, que descobrira dias antes num documentário de TV. Júlia ainda vacilou (tinha sempre algum receio em afastar‑se de casa), mas pouco resistiu ao entusiasmo da amiga, tão forte e determinada quando lhe fluíam as decisões. Nessa tarde de Agosto, no Patio de la Acequia, Júlia quase foi arrastada na pressa de uma jovem franzina apartando a multidão. E nem o súbito relance da bengala lhe deu tempo para se desculpar. — Esta doida não estava ontem no hotel? — Mariana, apesar das dificuldades, tinha retido a imagem. Depois de uma noite em claro à espera de notícias, Miguel regressou, manhã cedo, ao gabinete de Núñez. A mesma resposta da véspera: de Joane, nem uma pista. Porém, haviam outros dados, recolhidos no telemóvel. Só eram dela as impressões digitais, mas todos os registos das chamadas tinham sido apagados. Até da mais recente, recebida na Alhambra. Sem dúvida, quisera limpar o rasto e, portanto, havia algo de muito estranho a desvendar. — Já estamos a trabalhar com a polícia de Toulouse, para iden‑ tificar os pais e obter um contacto. Visto que você não tem referên‑ cias, nem um número de telefone, temos de ser nós a procurá‑las — o inspector aproveitou para lançar mais uma crítica — Mas da‑ qui a pouco temos uma resposta, eles costumam ser rápidos. E foram. Não passou mais de uma hora, para ser chamado de novo ao gabinete de Núñez e receber a notícia mais imprevista da sua vida. — Com que raio de gente você anda metido? Não há nenhuma Joane Blanchard em Toulouse e as dez francesas com esse nome já estão à beira da reforma. Miguel levou algum tempo a recuperar as palavras. De súbito, o pesadelo aumentara e todas aquelas revelações lhe soavam absur‑ das. Nada fazia sentido, a polícia estava totalmente desnorteada. — Não pode ser! Eu vi várias vezes o bilhete de identidade! Tem de haver uma falha, um erro qualquer! Ela fala correctamente o francês. Porque razão me iria mentir este tempo todo? — Esse é o grande mistério. Desde o início desconfiei que algo estava errado nesta história. E quanto ao bilhete de identidade, o negócio é por demais conhecido. Ou, por acaso, vive noutro mun‑ do?
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— Mas não é possível estarem enganados? — Miguel ainda se agarrava a uma réstia de esperança. — Impossível. Ela não consta nos registos nacionais france‑ ses. Resta saber porque é que usa uma identidade falsa, o que é que faz em Espanha e porque é que desapareceu assim, sem deixar rasto. — Não acredito em nada disto! E agora? — Agora vamos continuar à procura. Mas o caso é bastante mais grave. Já não temos só uma desaparecida, temos uma suspei‑ ta em fuga, sabe‑se lá com que intenções! Não saia de Granada e mantenha‑se no hotel, ainda vamos ter muito que conversar. — Está a querer dizer‑me que também sou suspeito? — Por enquanto ainda acho que é apenas ingénuo e foi usado para uma tramóia qualquer. Mas a situação pode mudar e o caso complicar‑se para o seu lado — advertiu Núñez. À cautela, o inspector colocou um agente, junto ao hotel, para vigiar de forma discreta os movimentos de Miguel. E, nessa mesma tarde, gastou mais de três horas a inquiri‑lo. Detalhes dos primeiros contactos com Joane, como surgiu no grupo, as suas capacidades técnicas e, aqui e além, as referências ao curso. Núñez tentava ave‑ riguar se ela seria, de facto, arqueóloga. Mas no final do inquérito, não pareciam restar dúvidas: fosse quem fosse, pelo menos sabia da matéria. — As impressões digitais não mentem. Leva mais algum tem‑ po, mas havemos de saber quem é a “sua” Joane. Por hoje é tudo, veja se consegue descansar — concluiu o inspector. Miguel estava demasiado confuso para regressar, de imediato, ao hotel. Antes disso, preferiu deambular um pouco pelo Albaicin dependurado na encosta, descer as “calle” íngremes e embrenhar‑se nas ruelas onde ainda cheira a mouros. Precisava de andar e reflec‑ tir. Sobretudo remexer nos breves anos ao lado de Joane, vasculhar dias e meses até descobrir um sinal, uma frase ou um simples mo‑ mento onde se revelasse a “outra”, anónima e pérfida, que Núñez es‑ boçara. Nada. Teimosamente, só lhe ocorreu esse desejo guardado de uma noite fria na Campeã: “Quero três filhos. Pelo menos três. É giro ter uma casa cheia!”. Já passava das onze quando voltou ao hotel. Quarto 310. Por debaixo da porta, alguém deixara um bilhete ardilosamente gata‑
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funhado: “Esqueça Joane e saia rápido de Granada. A polícia vai dar‑lhe problemas”.

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CAPÍTULO QUATRO

Em Madrid, poucos metros acima da Praça de Espanha, Alfonso Sánchez ocupa um segundo andar da Calle de la Princesa. Luxo que lhe permite o bem sucedido negócio imobiliário, a que se dedicou — já lá vão quinze anos — depois de várias tentativas, mais ou me‑ nos falhadas, no ramo das vendas. Na loja, instalada no rés‑do‑chão, laboram três empregados, número mais do que suficiente para o papel intermédio entre quem vende e quem quer comprar. Com uma margem de lucro confortável e num espaço de privilégio — no desaguar da Gran Via, em pleno coração da cidade — Alfonso pode, finalmente, considerar‑se um empresário de sucesso. Ao ponto de equacionar a hipótese de uma nova loja em Sevilha ou (dependendo dos custos, que anda há meses a avaliar) talvez Barcelona, um hori‑ zonte mais alargado de negócio. Quando a porta de baixo encerra ao público, sobe dois anda‑ res e abre outra para a solidão assumida. À sua volta não se vislum‑ bra um círculo lato de amizades, nem um ou outro contacto mais frequente, a não ser via net que, na prática, acaba por ser razoável companhia. Aos sessenta e cinco anos, prefere ficar em casa a de‑ vorar os livros da crescente biblioteca, que já forra quase uma as‑ soalhada. Lê e relê de tudo um pouco, embora a História, a Ciência Política e a Pintura lhe retenham boa parte das atenções. — O senhor doutor devia distrair‑se, sair mais. Está sempre aqui fechado, precisa de espairecer e fazer amigos! — de quando em vez, lá vêm os conselhos da velha empregada que, vários anos volvidos, ganhou à‑vontade para tais comentários. Alfonso já deixou de a contradizer ou de argumentar “estou bem assim”. Como desistiu da eterna advertência “não me trates por doutor”, para ela responder, de reacção espontânea, “concerteza, se‑ nhor doutor!”. Viver só não significa necessariamente um estado de isola‑ mento. É o caso. Muitas noites, depois da servidora fiel concluir as tarefas e deixar a casa ao encontro da família, o empresário põe em
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suspenso as leituras de hábito para se ocupar dos mails, a que está atento, dia‑a‑dia, qual controlador diligente. São, aliás, as suas pon‑ tes preferenciais para o mundo que lhe escapa dos livros e extravasa o apartamento de La Princesa. Bastante mais do que o telemóvel ou o telefone fixo que, encostado a um canto da sala, raramente dá sinais de vida. Por incrível que pareça, já várias vezes desceu à rua, noite fora, para usar uma cabine pública. • Miguel remexeu minutos a fio no bilhete que lhe entrara quarto den‑ tro. Rabiscos de destinatário sem rosto, quase de certeza alguém que compartilhava o hotel, cheio na ocasião. Portanto, mais anónimo ainda. E esse era outro elemento estranho a juntar à história inacre‑ ditável que já vivera horas demais para serem só vinte e quatro. Afinal, além dele e da polícia alguém sabia muito mais da fuga de Joane, alguém que estava por perto para controlar a situação e queria libertar‑se de uma presença incómoda ou, talvez, perigo‑ sa. Mas todo este cenário ia ao encontro da hipótese do inspector: “Pode ter sido usado para uma tramóia qualquer”, vaticinara Núñez. Será que o inspector tinha razão? No entanto, ainda resistia forte a imagem da companheira Joane, amiga, amante, acima de qualquer suspeita. Do olhar doce, apaixonado, do corpo franzino (mas de viagens de sonho) com a força rebuscada nas entranhas para ficar só com ele, desafiando a família no projecto de vida que esboçara sem barreiras. Essa era a “sua” Joane. A outra saíra, há escassas horas, deformada de um pe‑ sadelo. Assim nunca seria fácil reconhecê‑la. Na cabeça de Miguel fervilhava um vulcão de contradições. Mas nem por um segundo lhe ocorreu a ideia de partir da cidade com o caso em suspenso. Era como entregar Joane à sua sorte, sem conhecer uma sentença de culpa, da qual tinha motivos demais para duvidar. Porém pressentia que, mais cedo ou mais tarde, iria pagar um preço alto e imprevisível pela permanência ali, com a polícia e alguém mais a controlá‑lo, passo a passo. Por isso, lá veio outra noite praticamente em claro.
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Pela manhã, as ideias começaram a ficar mais claras: não po‑ dia deixar Granada, mas era urgente abandonar o hotel. Mesmo precisando de notícias do inspector, tinha de se libertar desse tal desconhecido e do polícia que lá fora, não por mero acaso, persistia desatento ao fluir caótico do trânsito e às infracções nas suas bar‑ bas. Sinal de alerta: isso implicava cuidados na saída. Juntou as roupas deixadas por Joane, fez rapidamente a mala e desceu à recepção para pagar a conta. Agora, só faltava uma avalan‑ che de turistas, o momento certo para se escapulir sem dar nas vis‑ tas. Não era difícil pelo corropio usual, mas nunca se sabe quando a sorte está de feição. Aguardou calmo, sentado no hall a fingir‑se embrenhado numa revista cor‑de‑rosa, enquanto, pelo vidro fosco da entrada, vigiava o polícia teimosamente plantado no outro lado da rua. E o anónimo? Seria que estava ali mesmo, a observá‑lo, a re‑ gistar a sua fuga? Pouco se importou, esse era o risco que não podia deixar de correr. Meia hora depois, a lógica ou os deuses vieram em seu socor‑ ro. Mesmo defronte ao hotel, dois autocarros em final de viagem ergueram, de súbito, um muro intransponível para os olhos do vi‑ gilante. O abrir das portas verteu uma golfada de franceses e, num ápice, o passeio transformou‑se no amontoado de gente e bagagens que lhe cobriu a saída. Virou a esquina e, sem usar o carro, esguei‑ rou‑se rua fora, célere, até encontrar o primeiro táxi. À distância e sem visão disponível, para o subordinado de Núñez tudo continu‑ ava em ordem: o Renault Clio de Miguel mantinha‑se parqueado alguns metros abaixo. Mal se instalou no outro lado da cidade, na velha residencial sem direito a estrelas — dessas que fazem vista grossa ao nome dos clientes — tratou logo de saber notícias. Durante a noite, pensara longamente nos prós e contras de contar à polícia a história do bi‑ lhete. Mas já se decidira pela negativa quando ligou ao inspector, fazendo de conta no hotel. — Por enquanto não há novidades. Nem dela, nem das impres‑ sões digitais. Mas, tenha calma, ainda hoje temos resultados — foi a resposta que obteve. Mais a promessa de ser chamado, de imediato. Do mal, o menos. Ficou a saber que o agente ainda lá estava, especado, a vigiar o carro. Segurança privada, sem gastar um euro. A vida, às vezes, é uma caixinha de surpresas.
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• Nessa manhã, Mariana levantou‑se mais cedo. Desta vez, não aguardou que a amiga descesse do quarto para tomarem juntas o pequeno‑almoço. Era dia aprazado para descobrirem algo mais de Granada, além da Alhambra. Na recepção, à falta de roteiro em de‑ talhe, talvez conseguisse uma planta para esmiuçar a cidade, antes de sair do hotel. Mal teve tempo de se explicar, porque logo uma avalanche — com sotaque francês — inundou a portaria. — Não te preocupes, vim ao Posto de Turismo buscar folhe‑ tos, um guia, um mapa, qualquer coisa. Espera no hall, não me de‑ moro nada! — ligou para Júlia que, na sua ausência, já calculava apreensiva. Afinal demorou‑se um pouco mais. Hora e meia depois lá chegou, munida de um guia, mas irritada pelo tempo de espera. Turistas a mais, falta de organização e diligência, acusou. Mariana demonstrava, por vezes, essa particularidade de ser pouco tolerante com a falta de resposta em situações que conside‑ rava sensíveis ou essenciais. Segura por hábito, tinha uma tendência natural para decidir de imediato, resolver problemas e agir rápi‑ do, quando as circunstâncias o exigiam ou alguma dúvida pairava. Mais a determinação (melhor, a curiosidade) de não perder sequer pormenores. Aparentemente levou algum tempo a acalmar‑se, mas o tema foi esquecido quando rumaram à Catedral e à Capela Real, pan‑ teão dos Reis Católicos e da sua descendência. Ou depois quando sorveram, por escadinhas e ruelas, os odores mouriscos da alma granadina. Porém, durante todo o dia em Granada, Júlia deu conta de algo anormal na postura da amiga. Nervosa, por vezes demais, sem olhar à sua volta com olhos de ver, ela que tanto apostara nesta viagem. — O que é que passa? Hoje estás muito estranha! — arriscou, mas quase não recebeu resposta. Teve a sensação de que nem sequer a ouvira, ou fizera por isso.

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• Ao fim da tarde, a promessa de Núñez cumpriu‑se no seu gabinete. Quase um monólogo. Sem rodeios, nem tempo para mais inquiri‑ ções. — Confirma‑se. Essa sua companheira não se chama Joane, não é francesa, nem tem pais conservadores que odeiam genros desconhecidos. Espantado? — Claro, embora lhe custe a acreditar. E então? — Miguel es‑ forçou a calma e a postura defensiva. — Então a história é muito diferente. Chama‑se Alexandra, é portuguesa, nasceu no Porto e tem residência desconhecida. Anda por aí com identidade falsa, sabe‑se lá porquê! Quanto aos pais, nem conservadores, nem coisa nenhuma. Foi criada num orfanato. É tudo o que posso dizer‑lhe. Nestes casos complexos, há informa‑ ções que ficam reservadas. — Suponho que não vale a pena perguntar‑lhe mais nada — com tal revelação não foi fácil alinhavar, de imediato, meia dúzia de palavras. — Supõe muito bem — concluiu o inspector — Já agora uma pergunta: o seu hotel tem alguma porta para as traseiras? — Não faço ideia. Porquê? — mensagem registada, colocou o ar mais atónito que lhe foi possível representar. — Mera curiosidade de polícia. Depois falamos — estava ob‑ viamente seguro de que não iria perder Miguel de vista. Àquela hora, o inspector decerto já se informara da saída. Afinal de contas, depois de tanto esforço, era uma espécie de fuga controlada. Mal pensado: à parte o desconforto (ou o perigo?) da vigilância anónima, talvez não fosse necessário ter baixado o nível da estadia e — pior ainda — adensar suspeitas. Quem disse que a noite é sempre boa conselheira?

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CAPÍTULO CINCO

Ontem Juan Pablo esteve de folga, mas hoje cumpriu‑se o ritual di‑ ário. Às duas saiu de serviço na Alhambra, passou rápido por casa para trocar de roupa e despir o ar de segurança, almoçou breve no café vizinho e às quatro já ocupara o seu posto, no bar do hotel. É assim o dia‑a‑dia. Metade de vigilância, metade a servir bebidas e desabafos fortuitos, para saldar o mês com algum desafogo. Quem lhe pergunte a preferência, não tem resposta fácil. Lá em cima, na cidadela, veste a pose de autoridade, farda‑se de dis‑ tância e respeito. De certa forma, olhando para trás, esta nova pos‑ tura faz‑lhe bem ao ego. Mas no hotel reencontra‑se, revive outros tempos. Sem espartilhos, ainda que contido ou às vezes formal, por dever de profissão. A regra quebra‑se de quando em vez, se ao fim da tarde che‑ gam clientes de hábito. Os vendedores de empresas que, pelo me‑ nos, uma vez por mês demandam Granada e, pela insistência, já se sentem a “jogar em casa”. Nesses dias aumenta a receita de Juan Pablo. — Ainda tenho de passar num cliente, mas é coisa rápida. Liga à Vera para esta noite. — Tem estado fora, não sei se já voltou. Pode ser a Dora? — Pablo puxava do cardápio para subir a comissão. — Deixa‑te de histórias, cinco estrelas custam mais “papel”. Vê lá se arranjas mamas ao natural, não preciso de silicone. Acordo feito. Depois do contacto, a tarefa do costume: prepa‑ rar terreno para a visita discreta, via elevador da garagem. É esse o seu trunfo, a alma do negócio, mas também o risco que lhe pode custar caro. Pelo delito de proxeneta, acaba‑se o respeito e o em‑ prego. — Eu faço de conta que não vejo, mas qualquer dia o negócio das putas vai‑te dar chatice — o colega do bar já o avisara vezes sem conta. Juan estava descansado nessa testemunha incontornável, ami‑
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go de longa data. Mas receava que, à boca pequena, outras vozes menos condescendentes lhe minassem o terreno. Tudo se sabe, pro‑ paga‑se pela alcatifa. Já pensara deixar‑se disto, reflectira muito so‑ bre a vida, mas a conta bancária e a mordomia de alguns pequenos luxos (às vezes ocultos, às vezes contidos, para não dar nas vistas) erguiam‑se mais alto. O negócio surgiu na noite em que um empresário de Madrid passou pelo hotel. Com o bar às moscas, empoleirou‑se no balcão e quase “derreteu” uma garrafa de uísque, velha de vinte anos. Pa‑ lavra após palavra e esgotado o futebol, quatro doses de álcool já davam para falar de mulheres, mesmo com um barman desconhe‑ cido. Foi aí que entrou a proposta. Uma parceria vip, no local certo e discreto, só para clientes confiáveis, de boca fechada. Pelo adiantado das horas, tinha o jeito da “conversa de co‑ pos”. Mas não foi. No dia seguinte, com o ar mais sóbrio do mun‑ do, Alfonso Sánchez selou uma espécie de contrato de trabalho. Juan Pablo passava a ser mais um dos seus representantes em Gra‑ nada. Na verdade, a loja da Princesa não é ouro que se veja. Mas paga‑se a si própria e dá jeito para somar, à socapa, os dividendos da real árvore das patacas: desde há dezoito anos que Alfonso sorve rios de dinheiro no negócio crescente da prostituição. De começo num pequeno bar, onde três espanholas e duas portuguesas davam conta do recado. Para ambientar, bebida quanto baste e depois, lá para o meio da noite, era o corropio aos quartos acima. No final da jornada, entre o deve e o haver, nunca teve razões de queixa. Por isso, juntaram‑se mais ibéricas, acolheu brasileiras e o negócio en‑ gordou para uma casa maior, com outra qualidade. Mas porta aberta é exposição demais e Alfonso buscou alter‑ nativas, chegou à fórmula ideal: acompanhantes de hotel e parceiras de viagem. Menos investimento, mais expansão e recato. Com visão estratégica e talento de empresário, aos poucos a rede já é conside‑ rável. Um toque de classe, mais de vinte “promotores” no terreno e direito a site ardilosamente subtil. Um pequeno império, controlado à distância. •
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Miguel já se arrependera mil vezes de se ter escondido naquele an‑ tro. Um quarto minúsculo, esconso, móveis degradados, clientela duvidosa e burburinho noite fora, tudo aconselhava a sair dali quan‑ to antes. Núñez decerto conhecia‑lhe a fuga — quando foi buscar o carro, não encontrou vigilante defronte ao hotel — e agora era, naturalmente, mais suspeito. Porque raio não contou a história do bilhete? E se Joane voltasse, talvez fosse procurá‑lo no hotel. Como é que voltariam a encontrar‑se? Porque é que estava a confiar na polícia de Granada? O nome falso não fazia sentido, mas nada nes‑ ta história batia certo. Estava tudo errado, ou existia “outra” Joane e andara, todo este tempo, a fazer papel de tolo? Pela primeira vez pensava seriamente nesta hipótese. — Precisamos de falar, com urgência. Tenho novidades — um turbilhão de dúvidas travado pela chamada do inspector. Menos de meia hora depois já estava sentado cara a cara com Núñez, à espera de mais um choque. Não gostou nada da expressão que via. — Não lhe vou dar boas notícias. Já é hábito, mas estas são piores. — Piores? Ainda mais? — Isso mesmo. E vou fazê‑lo sem rodeios. Pela descrição que nos fez, tudo indica que encontrámos a tal de Joane, isto é, a Ale‑ xandra. Foi assassinada. — A Joane, morta? Tem a certeza? — Miguel sentiu uma es‑ pécie de soco no estômago e, por momentos, o gabinete girou à sua volta, teve a sensação de que iria desmaiar. Não conseguiu articular nem mais uma palavra. — Restam poucas dúvidas, mas precisamos que identifique o corpo. Foi encontrada num barracão nos subúrbios, com dois ti‑ ros no peito. É um local quase ermo, aparentemente ninguém deu pelo crime. Um drogado qualquer, que vai lá injectar‑se, descobriu o cadáver. Portanto, continuamos sem saber no que é que andava metida, quem a matou e porquê. A caminho da morgue, Miguel quase não proferiu uma fra‑ se. Viera para descansar e descobrir Granada, partilhar memórias e beber da paz que sempre sorve junto de Joane. Mas, ao contrário, a cidade que, desta vez, se esvaía rápida pela janela do carro, fora fatalmente o cenário de um tremendo e longo pesadelo. Agora esta
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corrida. Durava‑lhe uma eternidade, entre a réstia de esperança e o monólogo distante do inspector. — Então? É ela? — Núñez só destapou a palidez da face, sone‑ gando à vista as marcas do crime. Traquejo de profissional. Ficou sem resposta, mas foi tudo dito: Miguel não conseguiu conter as lágrimas.

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CAPÍTULO SEIS

A morte de Joane (porquê chamar‑lhe Alexandra?) não foi só o choque, a revolta, a sensação de perda. Com a vida às avessas, preso à cidade mourisca, na mira da polícia e de uma teia oculta, Miguel tinha urgência de respostas para um sem fim de porquês. Por isso, deitou mãos à tarefa de chegar, por si, à verdade. Quanto antes e na dianteira de Núñez. Primeiro passo: voltar ao hotel, mostrar‑se, fazer braço‑de‑fer‑ ro com quem andava por perto e sabia, talvez, da história toda para contar. Mais cedo ou mais tarde, esse alguém — que gatafunhava bilhetes — iria revelar‑se, nem que fosse por deslize, por um sim‑ ples olhar na fronteira da suspeita. Curiosamente, de volta ao 310. Sentiu‑se forte, determinado, mesmo sem um pingo de apoios. O pai, ao corrente do caso, quisera acompanhá‑lo em Granada, no duplo papel de protector e conselheiro jurídico. Mas a proposta foi recusada, sem insistências. Miguel tinha de estar só para se mover à‑vontade. Segundo passo, olhar atento ao redor. Numa das breves idas ao bar, Juan Pablo não lhe passou despercebido. Aquela cara já a vira algures, num espaço qualquer, seguramente diverso, sem laço nem paletó. De súbito, ficou‑lhe a roer esta dúvida. Que tinha qua‑ se tudo para ser banal, menos o pretexto de começar por qualquer ponta. E foi fácil. No balcão deserto, à hora de jantar, bastavam duas ou três ninharias para início de conversa. Normalmente Pablo media as palavras. Mas aquele jovem, com ares de quem viaja sozinho, podia render bem no negócio do aconchego. Precisava, então, de conhecê‑lo. Conquistar‑lhe abertu‑ ra e cumplicidades, para arriscar cliente. Metas distintas, à beira de se cruzarem. Por tempo a menos que imaginavam. — Já está de partida ou fica por cá mais uns dias? Desculpe a pergunta, não tenho nada com isso! — à cautela, Juan Pablo deixou um toque de profissional que, por hábito, gela reacções negativas.
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— Vou ficar algum tempo. Tenho uns negócios para tratar e a cidade é muito bonita. — Sem dúvida. Todos os clientes dizem o mesmo. Já lá foi acima, ao Alhambra? De novo a memória de Joane e as recordações de um dia tão mau como inesquecível. — Claro. Não há Granada sem Alhambra. Os jardins, a água, os palácios, tudo aquilo é fantástico. Menos a bicha para os bilhetes, com este calor insuportável. — No Outono é a época melhor — vestiu a pose de conselhei‑ ro turístico. Isso mesmo! A espera pelos bilhetes, quando Joane andava num vai‑e‑vem constante, a medir a fila. Miguel quase parou para se ouvir e, nesse preciso momento, fez‑se luz. Aquele rosto esta‑ va‑lhe na memória desde a Alhambra, diluído nesse outro Darro de gente, pedindo licença para inundar as hortas do Arquitecto. — A propósito: acho que já nos cruzámos por aí e talvez tenha sido, há dias, lá em cima. Ou estou enganado? — na dúvida, lançou a rede. Por um instante, teve a plena sensação de que o barman se sentira incomodado, apanhado em falso. Mas logo recuperou, for‑ çando o tom de quem abre um segredo para ficar entre copos. Sim senhor, era segurança na cidadela, mas não gostava de misturar trabalhos. — É claro que os clientes vão lá e podem reconhecer‑me. Qual é o mal? Ninguém me proibiu de fazer as duas coisas, não é preci‑ so esconder. E ao fim do mês vem mais algum. Concorda comigo, sr…? — Miguel Ríos. Tem razão, a vida não está fácil. Para início de acção, a noite não correu mal. Mero fio de es‑ perança, talvez uma porta aberta. Ia voltar lá acima, rebobinar o filme, buscar respostas e, para isso, Pablo podia ser‑lhe muito útil: “era de Alhambra”. Mas — atenção! — tinha de agir com calma, ganhar‑lhe a confiança. Isso leva tempo e, portanto, ainda faltavam várias contas de bar. •
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De um dia para o outro, Mariana mudou de ideias. Já estavam de partida, agora insiste em ficarem mais tempo. Por causa de Grana‑ da, mas mais por Alhambra. — Voltar lá acima? Porquê? — Júlia já não entendia esta “nova” amiga. — Uma tarde foi pouco, quase à pressa. Gostava de voltar lá e sentir aqueles cheiros. Sinto paz, percebes? E também não há pressa de regressares a Évora. Avisas os teus pais e ficamos mais uns dias. Queres que eu fale com eles? — Nada disso, não inventes problemas! É só por mim, estou um bocado cansada. Afinal, porque é que alteraste os planos? — Já te disse, mas posso repetir. Vá lá! Só mais dois dias, juro. Trato ainda hoje dos bilhetes de regresso. Estamos combinadas ou precisas requerimento? Vencida, mas não convencida. Afinal, de que servia insistir se, na prática, lhe estava quase dependente. Por vezes tinha essa sensação estranha do porquê. Naquele fim de tarde algarvio seria encontro ocasional, ou — analisando bem — forçado por Mariana? Fora ela que invadira o seu canto, com o ar resoluto de quem sabe ao que vai e o que dizer. E que histórias partilhar. Fora ela que, um a um, traçara os passos seguintes. Do Porto a Évora, meses a fio, até chegarem aqui. Mariana sempre dominou e ela deixou‑se ir, entregou‑se de peito aberto, como à primeira amizade de ado‑ lescente. De súbito, tanto tempo depois, começou a inquirir‑se. E quase temeu as perguntas. Na manhã seguinte voltaram à cidadela. Gastaram quase todo o tempo a desfrutar o verde. Nos Jardins Baixos, mais o Patio del Ci‑ prés, o Patio de Pólo e em tudo à volta, aberto para além da vista. Um luxo alongado de “carmen”2, ou não fosse obra e aposta de sultões. Se há paz e quietude, respira‑se aqui. Mas, cada vez mais, Mariana parecia algo inquieta. Várias ve‑ zes se afastou, a pretexto de somar fotos ao extenso álbum que já levava de Granada. Numa dessas ocasiões, a demora foi maior e quando regressou trouxe a surpresa de não vir só. — Júlia, quero apresentar‑te um velho amigo: Rafael Maya. Conhecemo‑nos há anos em Madrid e nunca pensei encontrá‑lo
Espaço tradicional andalusí, com casa e pátio convertido num misto de horta e jardim. Dominante no bairro típico de Albaicín.
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aqui, em Granada. Acreditas que quase tropeçámos neste espaço imenso? O mundo, às vezes, é muito pequeno! Rafael tinha aspecto de alguma idade, um ar sóbrio, distinto, na casa dos sessenta. Muito expansivo, quase familiar, foi desde logo revelando a sua condição de empresário, no negócio de imóveis e com porta aberta na capital. Ao que Mariana juntou a forma como se haviam cruzado, para aí quinze anos atrás, num seminário sobre História, que reuniu em Madrid alguns dos mais conceituados es‑ pecialistas ibéricos. Desses dias perduram contactos mais ou menos frequentes. Mas nem sempre à distância: já se haviam visitado no Porto e na Calle de la Princesa. Nessa noite jantaram juntos e Rafael fez questão de explicar a sua paixão pela História e os percalços da vida, construída a pul‑ so, que lhe travaram a almejada entrega total. Tudo claro e demais esclarecido com Júlia, especial atenção como sendo ela, de súbito, o interesse maior deste encontro fortuito. Estranha atitude. Quase deixou para Mariana o papel — assumido — de assistente, quando velhos amigos teriam contas demais para pôr em dia. Mais que curioso, foi quase acutilante. Quis ouvi‑la, saber quase tudo dos seus dias em Évora, da vivência familiar, dos an‑ seios, dos projectos de vida. Afável, mas inquiridor, num ou noutro pormenor roçando a fronteira da inconveniência. Dir‑se‑ia que ti‑ nha pressa, pela ocasião, de traçar‑lhe o retrato a corpo inteiro e de ganhar à‑vontade para reencontros futuros. Às vezes, a Mariana espectadora vinha à conversa, trazer achegas que a amiga — de propósito ou por pudor — remetera ao silêncio. Pelos olhares escorregadios, percebeu‑lhe a irritação e não tinha dúvidas que mais tarde, a sós, havia de ser confrontada por essa quebra de cumplicidade. — Tens alguma coisa para me dizer? — ao fim da noite, depois dos convites insistentes para Madrid, Júlia forçou um princípio de conversa que deixava tudo em aberto. — Tenho: estou exausta. Amanhã conversamos. •

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O bar do hotel é um espaço amplo, aberto, quase diluído no cor‑ ropio dos elevadores, devassado a mais para quem quer um copo privado. Miguel procurava sempre a hora do jantar ou outra mais tardia, à beira do fecho, quando Juan Pablo tinha liberdade de con‑ versa e não sobravam testemunhas por perto. O diálogo repetia‑se agora à terceira e começavam a cair barreiras de formalidade. — Há dias, quando fui lá acima, deve ter havido confusão. É normal chamarem a polícia? — Miguel deu o primeiro passo. — Muito raro. Desapareceu uma mulher que já foi encontrada morta, aí num buraco qualquer. Não ouviu as notícias? A polícia ainda não sabe quem é, uma história esquisita. — E vocês? Não sabem mais do que a polícia diz? — Passo em frente. — Eu sei alguma coisa, mas há quem saiba mais — Juan bai‑ xou o tom, aproximou‑se ao jeito de assunto confidente, e arriscou o retorno.

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CAPÍTULO SETE

Vera tem uma mistura explosiva de sangue português e brasileiro. Fruto de uma noite bem bebida na Baía, deu o salto para Espanha quando percebeu que tinha atributos capazes de fazerem carreira em qualquer negócio do corpo. Assim que o espelho lhe devolveu a imagem de mulher feita e apetecível, trocou a lascívia porca dos “pés descalços”, pelo preço caro das fantasias de luxo. Merecia mais, supunha, ao menos dos lençóis em que se deitava. Mistérios da vida, saiu‑lhe a sorte grande num encontro infor‑ mal, desses imprevistos sem sexo à mistura. Dias depois aterrou em Madrid, com voucher garantido para hotéis e clientes de primeira, dispensada dos bares, de bater no fundo antes de subir na vida. Até hoje ninguém lhe explicou porquê, nem isso a preocupa em dema‑ sia. Faz de conta que é uma dívida com o destino. Quando entrou no quarto de Miguel vestia uns jeans molda‑ dos à pele e uma blusa branca, indiscreta, com suficiente abertura para se antever o trunfo que, nestas ocasiões, usa como o seu me‑ lhor cartão de visita. Jogava forte e bem jogado: os seios hirtos e à medida, médios sem fraudes de silicone, ás de sensualidade num corpo talhado ao milímetro, digno de passerelle. Tudo certo, no sítio certo. O criador não poupara na beleza do rosto, no olhar profundo e no sorriso rasgado, envolventes, nas formas esculpidas a dedo, com cuidados de mestre. Sem erro visível. Em lugar algum Vera passou ou passará despercebida. Agora, saíra‑lhe um cliente nervoso, algo atrapalhado, di‑ zia‑lhe a experiência o porquê. Então, teria de ser ela a gerir o mo‑ mento. De facto, Miguel não sabia ainda como dar os primeiros passos nesta situação em que se metera, quase por impulso. Coisas de principiante. Era novidade a compra de uma noite e ainda lhe custava essa espécie de “traição” às memórias de Joane. Para início de conversa, nada que uma bebida em privado não resolva. Tarefa de Juan Pablo, sempre atento à preparação do terre‑ no, diligente em casos especiais que podem reproduzir‑se e engor‑
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dar o pecúlio. Antecipa o pedido, para que a noite fluia sem sobres‑ saltos ou hiatos. Mais uma vez, resultou na perfeição. O que veio a seguir foi tarefa de profissional. Vera tinha ex‑ periência bastante para dominar as “deixas” e as marcações de uma peça bem encenada. Protagonista num palco onde todos os passos de sedução estavam ensaiados ao pormenor, sabia do ofício e en‑ tregava‑se como poucas, às vezes — raríssimas vezes — despida do papel de actriz. Foi o caso. Miguel libertou‑se dos fantasmas e ela própria dos seus. Deixaram‑se ir, quase adolescentes, extasiados, numa viagem sem rota, ao fluir errático da caminhada completa. — Queres que fique o resto da noite? Acho que precisas de ouvidos para desabafar e não me perguntes porquê, digo‑te já. Não és o tipo de homem que ande por aí a pagar a mulheres para com‑ panhia de hotel, portanto… — Nota‑se muito? — Claro que nota, aposto que é a primeira vez que estás me‑ tido nisto. Ou muito me engano, ou temos história de “uma” para esquecer. Para esquecer? Impossível, de momento. Enquanto não vis‑ lumbrasse além dessa nuvem de enigmas, estava tudo em aberto: o mistério da vida e morte de Joane. A acreditar em Juan Pablo, o que é que Vera, prostituta de luxo, poderia saber? Agora ou nunca, tinha de arriscar. Mentiu descaradamente e fez um esforço para estender o tapete. — Perdeste a aposta. Já pensaste que esta noite pode não ter acontecido por acaso? — Como assim? — De repente, Vera sentiu desconforto. Não esperava a resposta e receou esta súbita segurança de Mi‑ guel. A experiência de vida já lhe ensinara o perigo: quando menos se espera, dorme‑se com o inimigo. Uma noite, num hotel de cinco estrelas, saíra‑lhe na rifa um deputado e a companheira. Vera viu gente a mais e não era o seu estilo. Foi porta fora e a recusa fez mossa. Quase lhe custou a volta à Baía, se não fossem, por cami‑ nhos enviesados, outros galões políticos além da prosápia de um mero figurante de bancada, desses que gastam, anónimos, os anos da legislatura. — Tem calma — fez de conta estar seguro de si próprio — não sou polícia dos bons costumes. Preciso é da tua ajuda.
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Parou para pensar: Seria bom ir por ali? E se ela recusasse a abor‑ dagem? Afinal de contas não passava de uma profissional. — Ajuda? Estás a querer dizer‑me que não foi só sexo? — Estou a dizer‑te que não foi principalmente sexo. Acho que conheces uma história que é demasiado importante para mim. — Achas como? Que história é essa e quem é que te contou isso? De súbito, fez‑se luz. — Já sei! O Juan Pablo vai ter de me ouvir. — Não te precipites. Conversámos por acaso, ele nem sabe que esta história me interessa. Foi mais que a sensação de ter caído numa armadilha. Vera percebeu que era este o momento para sair de cena. Saltou da cama e começou a vestir‑se. Estúpido! Estragas‑te tudo. Ela não pode ir‑se embora. — Espera. Não sou quem tu pensas e preciso muito de ajuda. Por favor, acredita em mim! — não tinha tempo a perder, foi directo — O que é que sabes da Joane? Da Alexandra? Vera ficou petrificada. De pé, meio nua, despida de defesas, fixou‑o sem acreditar no que ouvira. Ou és polícia ou jornalista. Mes‑ mo fugindo, vou ter problemas. Raios partam esta noite! Restava‑lhe o jogo do contra‑ataque. — Joane, Alexandra? Não faço ideia. Porque diabo é que eu devia conhecer essas duas? Do outro lado, a mesma insegurança. Miguel sentia as per‑ nas a tremer, mas ganhou do esforço uma pose estóica para im‑ pedir‑lhe a saída. Na verdade, nem sabia bem porquê. Juan Pablo confidenciara que Vera, estranhamente, ficara muito abalada com aquela morte. Como se soubesse algo que queria ocultar. E logo ela, vendedora de prazeres fugazes. Mais um motivo de inquieta‑ ção: onde é que Alexandra, ou a “sua” Joane, entrava nestes cami‑ nhos cruzados? — Conhecer mesmo, não sei. Mas foi assassinada e não se fala de outra coisa em Granada. Desculpa lá, é só ler, está em todos os jornais! Porra! Falta de jeito, foi forte demais. Se ela sabe alguma coisa, vai fingir‑se ofendida e sair porta fora. — Tudo bem, vou fazer de conta que não percebi. Ficas avisa‑
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do que não tenho o cérebro entre as pernas e vais ter de me explicar qual é o teu interesse neste crime. Pelo menos ficou. E agora? Está curiosa, não há hipótese melhor que abrir o jogo ou deito tudo a perder. Seja o que Deus quiser! Um salto no escuro. Os minutos seguintes foram gastos a re‑ latar os dias ao lado de Joane. Desde os tempos novos da estreante arqueóloga, à tarde negra na cidadela e às dúvidas, às demasiadas dúvidas agora companheiras de Granada. Deu‑se conta de ditar um livro que Vera absorvia, até nas entrelinhas, no mais religioso dos silêncios. À espera de rematar, sem jeito, o discurso. — Finalmente já te passou pela cabeça que não sabes com quem viveste. E só vais ter a resposta porque estamos juntos no mesmo barco. Também eu gostava muito dela. Como é que é possível?, pensou. Ouviu‑se lá longe, porque pre‑ cisava de espaço para cair em si. Nunca imaginou conhecer (assim) “o Miguel”. Mas o mundo é uma quinta e, quando menos se espera, tropeçamos uns nos outros. • Nessa noite, Mariana era um poço de inquietações. Depois de meia hora a fazer tempo, num zapping distraído pela TV, marcou o ponto da situação com Rafael. — Então portei‑me bem? — do outro lado da linha a resposta foi satisfatória — Ficas‑me a dever mais esta, mas prepara‑te que ela está desconfiada. Eu vou fazendo o que posso, mas tens de abrir o jogo. Está difícil aguentá‑la em Granada. Ficou sem resposta. Como sempre, mais um compasso de es‑ pera: “Eu sei, tem paciência, já falamos. Estou no hotel, à espera. E fiz o trabalho de casa, mandei o táxi para aí há meia hora. Vou‑te mostrar como estou agradecido!” Merda! Estou farta disto! Bateu com a porta ( força demais para aquelas horas ) e só então se deu conta que Júlia, não muito longe, no quarto ao fundo do corredor, podia ter‑se apercebido da saída. Já sobravam dúvidas do encontro e, agora, talvez tivesse que inven‑ tar uma boa desculpa pela manhã.
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Carregou no zero e saiu mesmo em frente ao bar. Juan Pablo já apagara as luzes e conferira a caixa, estava quase de saída. Ainda assim, não estranhou o encontro. — Então ela sempre veio? — Mariana foi directa ao assunto. — Tudo certo. Está no 310. E desconfio que fica lá toda a noi‑ te. Toda a noite? Não sei se isso é bom. Que se lixe, estou atrasada! Era uma da manhã e o táxi já cansava de esperar. • Miguel começou a ficar inquieto. De súbito, teve a estranha sensa‑ ção de recear o que ia ouvir. Vera fez uma pausa, sentou‑se no sofá e olhou‑o como quem se prepara, com cautelas, à procura das fra‑ ses certas da confissão. Nesse instante, deixou de ser corpo e sexo. Estava ali, rosto e palavra sem artes de volúpia, à beira de revelar o mais terrível dos enigmas. — A Alexandra andava nesta vida. — Nesta vida, como? Prostituta? — Miguel mastigou a reac‑ ção, ganhando tempo para aguentar o choque. Esperava quase tudo, menos isto. — Poupa‑me a palavra. É assim, mas não gostamos de ouvir. O quarto desmoronou‑se. Nos últimos dias, tudo se desmo‑ ronava à sua volta. Lá longe terá balbuciado um “desculpa”, mas à sua frente passava o filme — mil vezes repetido — das memórias de Joane, nascida ao seu lado. Agora, tarde demais, dava‑se conta de uma vida demasiado curta. Porque é que nunca quis ver isso antes? Afinal de contas, Núñez talvez tivesse razão. — A “tua” Joane, chamava‑se Alexandra e não me perguntes porque é que usou um nome falso. Não sei. Se calhar por medo, para fugir disto. Começámos a fazer juntas os hotéis de Madrid, já lá vão alguns anos, ela tinha muita saída nos tarados por cau‑ sa daquele corpo de criança. Tornámo‑nos amigas e gostava dela, porque era simpática e não teve uma vida fácil. Nunca conheceu os pais, foi criada num orfanato em Portugal e veio para esta vida em Espanha, trazida por um desses gajos da noite. Aqueles negócios
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escuros, sabes como é que é! Andou nisto muito tempo e depois disse‑me que vinha para aqui, para o sul, não sabia bem para onde. Um dia, telefonou‑me a contar que tinha encontrado um tal Mi‑ guel, um arqueólogo, e tinha esperança de refazer a vida. Era uma coincidência engraçada, porque ela também andou em Arqueolo‑ gia, mas não teve dinheiro para acabar o curso. Fomos falando, de tempos a tempos, quando era possível. Estava feliz e garantiu‑me que já não ia voltar a isto. Nunca mais soube nada, só agora pelas notícias dos jornais. Saiu‑lhe tudo de rajada, como quem fecha os olhos e se lança no abismo, desconhecendo o fundo. O que é que eu fiz? Não sabia ao certo se correu riscos, se falou demais, se fez o que Alexandra que‑ ria que, alguma vez, fosse feito. Aguentou a pausa e o arremesso das roupas que jaziam por perto. Lógico! Vais reagir mal. — Que raio de história é essa? Foi bem inventada, mas não me convences, sei lá se a Joane é a Alexandra! Sei lá se a conheces‑te! Só sei que estão todos contra ela e também estás metida no jogo. Vai‑te embora, já ganhaste a noite. Todos contra ela? Sentiu o perigo desse testemunho de golfada, mas não era hora de pedir explicações. Este gajo é perigoso! Põe‑te a milhas. — Como queiras, o problema é teu. Contei‑te uma boa parte do que sei e acho que já falei mais do que devia. Enfrenta a reali‑ dade ou faz de conta que és cego, tu é que sabes! Aposto que ainda me vais pedir ajuda, só que eu não vou correr riscos por tua causa. E nem penses em chamar‑me. Se precisares de companhia, o Juan Pablo tem outros contactos. Pedir ajuda, pois claro. Afinal — apesar da noite bem passada — fora para isso que ele contratara aquelas horas e, agora, podia lançar porta fora a única tábua de salvação, a réstia de referência porventura mais próxima de Joane. Num ápice deu‑se a explosão: várias coisas, demasiadas coisas faziam sentido. Os silêncios da companheira, a neblina do passado, as viagens sem roteiro, mais os dados e as suspeitas de Núñez. Agora, as peças do puzzle come‑ çavam a encaixar‑se. Calma, Miguel, estás a ser estúpido! Já Vera se preparava para sair, quando finalmente caiu em si. — Fica, vamos conversar. Tens razão, preciso mesmo da tua ajuda.
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— Não és tu, é a Alexandra que ainda precisa. Mas contigo não tem muita sorte. Ensaiou o jeito de ataque mortal. Está dito! Que se lixe, tenho de mostrar segurança. E pela segunda vez, na mesma noite, uma porta bateu forte no terceiro andar.

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CAPÍTULO OITO

Já lá ia uma semana desde a última vez que Ramon desceu a Gra‑ nada, para receber adiantado. A romaria aos contentores do lixo mantinha‑se improdutiva: só latas, papéis, garrafas, resquícios da procissão de gente que sofria horas à espera de uma entrada na Alhambra. Pouco o apoquentava a busca inglória, se o Doutor paga‑ va certo sem exigir nada em troca. Cada dia é um dia e as instruções tardavam. No breve encontro não lhe conheceu o nome, por isso tinha de chamar‑lhe qualquer coisa. Chamava‑lhe Doutor pela pose distinta, altiva, pelos meios silêncios de quem só diz o que convém. São assim a porra dos doutores, pensou, quando a figura emergiu daquele mar de gente e o arrastou na conversa, à custa do chorudo contributo para saciar o vício. — Ramon, tenho uma proposta a fazer‑te. — Calma aí! Como é que sabe o meu nome? — Regra essencial: não sejas curioso. Dou‑te “aquilo” que pre‑ cisas, tudo à borla, é só fazer um contacto e vais lá quando te faltar. Mas tens um trabalhinho e é só isso, não te metas onde não és cha‑ mado. Estás a perceber‑me? — Percebo, mas essa história do trabalhinho não me cheira bem! Estou cá na minha, doutor, não quero confusões com a polí‑ cia! — Ramon pressentiu o perigo. — Não vais ter problemas e é muito fácil. Confia em mim. Se chegarmos a acordo, acredita, saiu‑te a lotaria! — Sair‑me a lotaria? Logo a mim? Tudo isto é muito estranho. Quem é você, donde é que me conhece? — Isso não interessa, também faz parte da regra. — Outra vez essa porra da regra! Ao menos posso saber qual é o trabalho? — Estava lúcido e temia pelas consequências. — Para já não podes e não há mais perguntas, ponto final. É pegar ou largar, quando chegar o momento saberás o que tens a fazer.
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Vacilou, receoso, mas o preço da recusa ficava alto demais. Decidiu‑se então pelo risco e, pelos vistos, não fez mal. Por enquanto — pensava de vez a vez — porque é estranho recompensas surgidas do nada. Mais tarde o custo vem e, porventura, paga‑se com juros.

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