Textos sobre a História de Duque de Caxias e da Baixada Fluminense.

Ano III - nº 04 - maio de 2004
NESTA EDIÇÃO:
O OURO E O CAFÉ NA REGIÃO DE IGUAÇU: DA ABERTURA DE CAMINHOS À IMPLANTAÇÃO DA ESTRADA DE FERRO DO RIO IGUASSÚ AO SARAPUHÍ - PRIMEIRO PROJETO FERROVIÁRIO DO BRASIL AS CHAVES DA LIBERDADE: ESTRATÉGIAS DE RESISTÊNCIA ESCRAVA NA FERROVIA MEMÓRIA FERROVIÁRIA DE UMA CIDADE RIO DE JANEIRO: DESENVOLVIMENTO E RETROCESSO A TRAJETÓRIA DO MOVIMENTO NEGRO EM DUQUE DE CAXIAS: UMA ANÁLISE EM CONSTRUÇÃO A PRÉ-HISTÓRIA FLUMINENSE VISÕES UNIVERSITÁRIAS SOBRE A BAIXADA FLUMINENSE : A BAIXADA FLUMINENSE NO QUEBRA-CABEÇA ARQUEOLÓGICO JARDIM PRIMAVERA: LUGAR DE REFÚGIO E SOBREVIVÊNCIA UMA EXPERIÊNCIA EM PESQUISA HISTÓRICA NO ARQUIVO DA CÚRIA DIOCESANA DE NOVA IGUAÇU

CÂMARA MUNICIPAL DE DUQUE DE CAXIAS

Órgão de divulgação conjunta: Instituto Histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto / Câmara Municipal de Duque de Caxias e Associação dos Amigos do Instituto Histórico.

ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS DO INSTITUTO HISTÓRICO

REVISTA PILARES DA HISTÓRIA
Órgão de divulgação conjunta: INSTITUTO HISTÓRICO VEREADOR THOMÉ SIQUEIRA BARRETO / CÂMARA MUNICIPAL DE DUQUE DE CAXIAS e ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS DO INSTITUTO HISTÓRICO PRESIDENTE DA CMDC: Vereador Laury de Souza Villar DIRETOR GERAL DA CMDC: Laurecy de Souza Villar DIRETORA DO INSTITUTO HISTÓRICO: Tania Maria da Silva Amaro de Almeida PRESIDENTE DA ASAMIH: Maria Vitória Souza Guimarães Leal ASSESSORIA DE IMPRENSA E DIVULGAÇÃO DA CMDC: Antonio Pfister CONSELHO EDITORIAL: Alexandre dos Santos Marques Carlos Sá Bezerra Odemir Capistrano Silva Rogério Torres Ruyter Poubel Sandra Godinho Maggessi Pereira Tania Maria da Silva Amaro de Almeida COLABORADORES: Alda Regina Siqueira Assumpção José Rogério Lopes de Oliveira Manoel Mathias Thibúrcio Filho Roselena Braz Veillard Suely Alves Silva CAPA: Agnaldo Werneck FOTO / CAPA: Baroneza, primeira locomotiva a vapor a trafegar no Brasil, na Estrada de Ferro Mauá, em 30 de abril de 1854. Acervo sob a guarda do Instituto Histórico, doação de Eugênio Sciammarella. CORRESPONDÊNCIA: Rua Paulo Lins, 41 - Jardim 25 de Agosto CEP: 25071-140 - Duque de Caxias - RJ Telefone: 2671-6298 ramal 247 e-mail: historico@cmdc.rj.gov.br site: http://www.cmdc.rj.gov.br/

Editorial
SIMBOLISMOS HISTÓRICOS Um ano de fortes simbolismos históricos. Dois deles, sozinhos, preenchem a maioria das agendas de eventos das instituições e entidades Brasil afora: os 40 anos do golpe político-militar e o cinqüentenário da morte de Vargas. A própria Associação dos Amigos do Instituto Histórico, como não poderia deixar de ser, incluiu ambos os temas na sua programação. A Pilares da História também, mas por ora, neste número 4, o seu Conselho Editorial optou por outras pautas _ uma delas, os 150 anos de inauguração da primeira ferrovia do Brasil. O destino das ferrovias em nosso país, aliás, sobretudo nas últimas cinco décadas, tornou-se dependente de políticas de subordinação aos centros internacionais controladores do capital, mais interessados na expansão da malha rodoviária, por conta da expansão, por sua vez, do mercado automobilístico. Entretanto, como indagaria Drummond em “Cota zero”, magistral síntese antecipadora escrita nos anos 20: “Stop/a vida parou/ou foi o automóvel?” Ou seja: O preço do progresso é a cidade engarrafada? São os altos custos de um transporte de massas insatisfatório, deficiente? É o aumento da quantidade de problemas _ acidentes, roubos, doenças, poluição, etc. _ nas áreas urbanas, sem que as precárias condições de vida de significativa parte da população sejam superadas? Entrementes, muitos de nós, como aquele personagem da “Construção”, do Chico, morremos no cotidiano, literal ou metaforicamente, na “contramão atrapalhando o tráfego”, na tentativa de desviar o equivocado, injusto e desfavorável rumo da nossa história para fazê-la tomar trilhos que nos levem a um futuro mais promissor, passando por estações de ambiente mais solidário e moralmente mais saudável, com outro presente, quem sabe um presente para a memória dos que se foram, dos que se mantêm na luta e com alegria, e dos que ainda estão por chegar. Ah! como sonhamos todos escrever uma história nova, e não apenas a título de mera homenagem solene, cerimonial, aos pioneiros, Nélson Werneck Sodré à frente, de 40 anos atrás. Mas para dar vida nova à história, nada como meter a mão na massa e explorar caminhos, ortodoxos e heterodoxos, ainda que fora dos trilhos.

O Instituto Histórico “Vereador Thomé Siqueira Barreto” / Câmara Municipal de Duque de Caxais e a Associação dos Amigos do Instituto Histórico agradecem o apoio:
Dos Autores CEMPEDOCH-BF Centro de Memória, Pesquisa e Documentação da História da Baixada Fluminense FEUDUC Fundação Educacional de Duque de Caxias IPAHB Instituto de Pesquisas e Análises Históricas e de Ciências Sociais da Baixada Fluminense De todos que participaram direta ou indiretamente da produção deste trabalho e daqueles que se empenham no difícil processo da permanente construção e reconstrução da nossa história.

O Conselho Editorial está aberto ao recebimento de artigos para possível publicação.

As idéias e opiniões emitidas nos artigos são da responsabilidade de seus autores.

no pé da Serra de Petrópolis. supridas a cada novo exemplar da revista. professores. acima de tudo. O quarto número do impresso significa. Editada pelo Instituto Histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto. a Revista Pilares da História já se consolidou como uma publicação séria e de grande importância para os pesquisadores.MENSAGEM DO PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE DUQUE DE CAXIAS “A HISTÓRIA É UM BEM DE TODOS” ais uma vez detalhes da história da Baixada Fluminense serão conhecidos através da Revista Pilares da História. estudantes e escritores. modificando por completo as relações comerciais e a ocupação. Cabe a nós cidadãos duquecaxienses e políticos contribuirmos neste processo. que ligava o Porto de Mauá (Estação Guia de Pacobaíba) à região de Fragoso. religiosas e urbanísticas. a revista é um importante veículo de preservação e divulgação de nossa rica memória. A falta de informações aprofundadas. Em seu curto período de vida. que tem um forte time de colaboradores. sociais. As Chaves M . Foi o pontapé inicial para a construção de outras ferrovias na região. A Baixada Fluminense no Quebra-Cabeça Arqueológico. Através de olhares diferenciados. a Revista Pilares da História destaca os 150 anos da primeira Estrada de Ferro construída no Brasil. o nosso compromisso em fomentar. O Ouro e o Café na Região de Iguaçu: da Abertura de Caminhos à Implantação da Estrada de Ferro. da Câmara Municipal de Duque de Caxias e com o apoio da Associação dos Amigos do Instituto. a revista retrata a Pré-História Fluminense. fazendo surgir algumas das atuais cidades da Baixada. inaugurada em 30 de abril de 1854. Além de enfocar a questão da ferrovia. geográficas. em parte. políticas. pois a história é um bem de todos e preservá-la é nosso dever. promover e incentivar o que há de melhor em toda a região. os articulistas apresentam seus pontos de vista em relação aos fatos que marcaram a Baixada Fluminense: transformações econômicas. Em sua quarta edição. concretas e relevantes são.

De cunho acadêmico. a Revista abre espaço para universitários apresentarem suas pesquisas. propagar e divulgar a história e cultura de uma região que não pára de crescer. A Revista Pilares da História nasceu com esse compromisso. Além disso. ao longo dos anos. artístico e cultural.da Liberdade: Estratégias de Resistência Escrava na Ferrovia. e que demonstra grande potencialidade na área do turismo histórico e ecológico. a Revista Pilares da História vem. discutindo. Vereador Laury de Souza Villar . em um constante processo de intercâmbio do conhecimento. São 13 municípios que formam a região que precisa de mais investimentos e promoção do seu patrimônio histórico. enfatizar. entre outros temas. ultrapassando os três milhões de habitantes. desvendando e preservando fatos relevantes da Baixada Fluminense. A Baixada Fluminense possui grande concentração populacional. Rio de Janeiro: Desenvolvimento e Retrocesso. possibilitando que a história possa ser passada de geração para geração. o compromisso de destacar.

......................................................................88 JARDIM PRIMAVERA: LUGAR DE REFÚGIO E SOBREVIVÊNCIA Adriano Manhães.......................................................................72 A PRÉ-HISTÓRIA FLUMINENSE Ondemar Ferreira Dias Júnior............................................................22 AS CHAVES DA LIBERDADE: ESTRATÉGIAS DE RESISTÊNCIA ESCRAVA NA FERROVIA Nielson Rosa Bezerra......................................................................................................................103 Seção ICONOGRAFIA ........................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................54 A TRAJETÓRIA DO MOVIMENTO NEGRO EM DUQUE DE CAXIAS: UMA ANÁLISE EM CONSTRUÇÃO Sandra Godinho Maggessi Pereira....................................................................................................................................................................................................................95 Seção TRANSCRIÇÃO Alexandre dos Santos Marques / Rogério Torres / Tania Maria da Silva Amaro de Almeida.........97 Seção “MEMÓRIA VIVA” Antônio Augusto Braz / Odemir Capistrano Silva.........................................PRIMEIRO PROJETO FERROVIÁRIO DO BRASIL Guilherme Peres................................................................................................................................................................................26 MEMÓRIA FERROVIÁRIA DE UMA CIDADE Jorge Luis Rocha....................................................SUMÁRIO O OURO E O CAFÉ NA REGIÃO DE IGUAÇU: DA ABERTURA DE CAMINHOS À IMPLANTAÇÃO DA ESTRADA DE FERRO Rafael da Silva Oliveira.115 .109 A Associação dos Amigos do Instituto Histórico .......................................................................................................................................................................................................................................................................82 VISÕES UNIVERSITÁRIAS SOBRE A BAIXADA FLUMINENSE : A BAIXADA FLUMINENSE NO QUEBRA-CABEÇA ARQUEOLÓGICO Marcelle da Costa Mandarino................................................................................91 UMA EXPERIÊNCIA EM PESQUISA HISTÓRICA NO ARQUIVO DA CÚRIA DIOCESANA DE NOVA IGUAÇU Denise Vieira Demétrio / Gisele Martins Ribeiro............................. ...7 DO RIO IGUASSÚ AO SARAPUHÍ .......................................46 RIO DE JANEIRO: DESENVOLVIMENTO E RETROCESSO Tania Maria da Silva Amaro de Almeida.............

.

Maio/2004 7 O OURO E O CAFÉ NA REGIÃO DE IGUAÇU: DA ABERTURA DE CAMINHOS À IMPLANTAÇÃO DA ESTRADA DE FERRO Rafael da Silva Oliveira1 Além do rio Iguaçu. dir-se-ia melhor talvez brutalmente civilizadora. visando facilitar seu transporte para produzir mais. como era próprio do seu tempo. confiasse a Artur de Sá _ era.Revista Pilares da História . Fundou arraiais que se converteriam em cidades e saiu à procura de ouro e esmeraldas. graças ao posicionamento privilegiado que a Baixada Fluminense possuía. Especialista em Políticas Territoriais no estado do Rio de Janeiro pelo Departamento de Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sobre esta interferência humana na natureza. tornando. GERSON (1970: 13) contribui: “O homem branco não se deteve diante das montanhas que o separavam do mar e galgou-as pelas trilhas nelas abertas já pelos índios ou por ele mesmo. na ocasião. 1 . mais rígida a fiscalização. também. na transição entre os séculos XVII e XVIII. a proliferação de freguesias e mudando brutalmente a paisagem de outrora. Fundação Educacional de Duque de Caxias (FEUDUC) e Faculdades Integradas Simonsen. acarretando assim a emergência da criação de caminhos que aproximassem o ouro mineiro do porto carioca. 1943 e PEREIRA. o governador deste estado _ a tarefa de produzir um relatório sobre o caminho. a ocupação se efetivou a partir da transição entre o século XVII e XVIII. professor assistente do curso de Graduação em Geografia da Fundação Educacional Unificada Campograndense (FEUC). e nos planaltos.” O afã de ampliar seus lucros fez com que Portugal. e de índios também para o trabalho braçal nas terras que desbravava. no início do século XVII (NIGRA. tendo em vista a busca de caminhos e Geógrafo. trazendo. pois encontrava-se entre o porto do Rio de Janeiro e a região aurífera de Minas Gerais. 1977). mestrando em Ordenamento Territorial pelo Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF). pois. outros eixos de transporte muito contribuíram para a prosperidade de Iguaçu. que diante dele se estendiam. a reboque. pricipiou a sua obra civilizadora. apesar das primeiras ocupações serem evidenciadas com a introdução da cana-de-açúcar.

a alguns índios trabalhadores e a . Até então. Segundo GERSON (1970) e PERES (1993). entretanto. Em carta ao rei expõe os planos para abertura de uma nova estrada. de perto com o Caminho de Parati.000 cruzados (pois pesada demais era a emprêsa para um homem só). a única via de que Portugal dispunha era o chamado “Caminho dos Guaianás”. mas em 1700 já tinha habilitado uma picada entre o Rio e a ressaca onde começavam os campos gerais. expunha o ouro destinado à metrópole à cobiça dos corsários na viagem entre Parati e o Rio _ porque de fato então essas viagens eram marítimas também. pelo Coronel Domingos Rodrigues da Fonseca. em 1968. mencionando-lhe o projeto do bandeirante paulista Garcia Rodrigues Pais. compensando-lhes em troca com sesmarias ao longo do grande caminho em obras e. investindo nesta empreitada seus recursos próprios escravos e economias como minerador.8 Revista Pilares da História .] insistentemente apelou para os da cidade e da Baixada para que o ajudassem com 10.. porta de entrada dos paulistas para Sabaraboçu (GERSON. Garcia Pais. que se iniciava na freguesia de Nossa Senhora dos Remédios de Parati a caminho da área aurífera (PERES. convivendo. PERES (1993: 23). suas economias e a força humana de que dispunha não eram o bastante. pobre dêle.. seu cunhado. além de muito longo. filho do bandeirante paulista Fernão Dias Pais. descrevendo a visita do governador por este “exclusivo” acesso. desde 1697. Garcia Rodrigues Pais “[. o que o tornava merecedor de melhores recompensas. quase nada possuía. logo. se resumiram. Entre o Rio e Parati viajava-se de barco a vela. porém. embora apenas para cavalos e mulas. sendo o mesmo aprovado por sua majestade”. comenta: “jornada longa e penosa. 1993). e depois tomava-se uma antiga trilha dos índios guianás (sic) para a região de Taubaté. que reduziria a 15 dias o tempo que se gastava em 3 meses de viagem.Maio/2004 soluções para maximizar o transporte e estruturar melhor sua fiscalização. Mas estas.] Artur de Sá levou 99 dias. exigindo embarque e desembarque dentro da Baía de Sepetiba. 1970:17)”. percebendo. finalmente ampliada e consolidada. Mesmo assim. apresentando perigos decorrentes do estado do mar e da presença de baleias e piratas entre Angra e Parati. o “caçador de esmeraldas”. quando em 1703 mandou dizer ao Rei que seus escravos haviam fugido em bom número e agora sustentava a dinheiro mais de 100 pessoas para levar por diante a diligência de que se encarregara. que “o caminho existente para as serras. sendo 43 de marcha para chegar às Minas. ao lhe serem concedidas. o filho de Fernão Dias Pais recebeu a liberação do governador Artur de Sá para a construção de um novo caminho. se tornara administrador de minas de lavagem e de esmeraldas.. com o progresso que por causa dêle a todos beneficiaria. mais ainda. então.Nada conseguiu. Porque Garcia. [.. ou diretamente ou por terra até Sepetiba.

. e pelas terras de João Gomes (hoje Palmira). gastavam-se apenas duas semanas”. Macacos (lugar de outra de suas sesmarias) e descendo pela Serra da Estrêla. tomando o atalho que levava a capela de N. que “[. atingia a planície nas proximidades do sítio que depois seria Posse. passava pela Garganta de João Aires. GERSON (1970: 18) nos brinda com sua descrição detalhada do Caminho aberto por Garcia Rodrigues Pais: “O seu Caminho Novo. O desbravador terminava a primeira ligação direta do Rio de Janeiro com as Minas Gerais. o resultado foi positivo. do que o de Paraty. S.000 cruzados anuais. que era de onde o viandante podia prosseguir para o Rio. com sua capela de N. na Mantiqueira. Cumpre mencionar. em termos de encurtamento de distâncias.” Tal ligação ficou conhecida como Caminho Novo das Minas. partindo de Borda do Campo.. em pequenos veleiros ou barcos a remo. João Batista de Meriti e à de N. continuou durante todo o século XVIII a servir de escoadouro da produção colhida nos . ou por terra. substituindo o Caminho de Parati para o escoamento do ouro que era explorado nas Minas Gerais. S. e da de Iguaçu à de S. o Môço. um tanto para o lado da do Tinguá. O novo caminho teve sua abertura para circulação de pedestres e animais em 1704. sob a sua fiscalização”. pois a diligência supracitada lhe custou todas as suas economias.] o percurso que antes se fazia pelo Caminho Velho demorava 16 semanas.. pelo Caminho Novo de Garcia Pais. baseando-se em PERES (2000: 15).] mesmo depois de abandonado este 'Caminho Velho'. tirada da passagem dos rios Paraíba e Paraibuna. e de Jacutinga à de S. da Piedade do Iguaçu (pero da fazenda dos monges beneditinos). ou por mar..Maio/2004 9 uma renda de 5. O Caminho de Parati rapidamente perde não só seu status de exclusividade como também sofre uma decadência abrupta no que tange a seu fluxo de ouro transportado das Minas para o porto do Rio de Janeiro. Apesar do desgaste e prejuízos. de Cássia (perto da atual Fábrica Nacional de Motores) _ e para fazer ponto final no porto fluvial de Pilar. Antonio de Jacutinga (á margem do quilómetro 13 da atual Rodovia Dutra). onde haveria o engenho do Capitão-Mor Francisco Gomes Ribeiro.Revista Pilares da História . O caminho pioneiro passa a ser chamado de Caminho Velho. Entre Rios e Paraíba do Sul. Concernente ao traçado do percurso. de Apresentação de Irajá. ao passo que o recém-desbravado pelo filho do Caçador de Esmeraldas recebe o nome de Caminho novo. Barra do Piraí. tendo em vista que o segundo se tornara mais eficaz. S. pelas de Matias Barbosa (bêrço de Juiz de Fora). como afirma SIEBERT (2001: 92): “[. por Serraria.

. principalmente em dias de chuva que tornavam o terreno lamacento. para os que destinavam a São Paulo. PERES (2000: 41). 1963). esclarecendo sobre o traçado aberto por Proença. meteu mãos à obra no pôrto de Estrêla. afirma que “[. por traz da . contribuía para que quantidades expressivas de pessoas perdessem suas vidas ao desbravar o referido trajeto.. O filho de Fernão Dias Pais recusou a tarefa. 1993 e PRADO.. escreve: “as dificuldades dos caminhos que castigavam as tropas eram por demais penosas. amigos e seus escravos. Dois registros foram construídos neste caminho. alegando não estar mais em condições de recomeçar uma nova empreitada. prejudicando assim o transporte do ouro para o seu ponto de transbordo. rodeado de urubus. tornando o transporte perigoso. e que ao menor descuido iriam fazer companhia às carcaças que.Maio/2004 engenhos e fazendas de serra acima que descia em busca das águas da baía da Ilha Grande. e outro. que se empenhou juntamente com parentes.] com sua gente e seus escravos. Vale frisar que o Caminho Novo de Garcia Pais também era conhecido como “Caminho Novo do Pilar” ou “Caminho Novo do Guaguassu” (PERES. 1970:21). jaziam no fundo do abismo”. passando pela capela da Conceição na Fazenda do Reboredo (hoje Piabetá). formando uma barreira para verificação dos 'Quintos'. Os problemas verificados em alguns locais do Caminho Novo fizeram com que o Governador Aires Saldanha solicitasse. Contornar as serras com estreitas passagens onde o precipício espreitava homens e animais ao sabor de pedras rolantes.] tanto na planície como na subida da Serra da Estrêla” (GERSON. Sendo assim. Apesar da importância do Caminho Novo. 2000). a responsabilidade da criação de uma variante foi entregue ao sargento-mor Bernardo Soares de Proença. um encurtamento “[. Cargas e passageiros eram examinados (procura de ouro ou diamantes): 'um registro ficava em Taubaté. ao Garcia Pais. para quem buscava o Rio de Janeiro”. em Parati. que não só aproximou a região aurífera da Guanabara como também contribuiu para o desbravamento e a ocupação efetiva da região central da Serra Fluminense (LAMEGO. Este caminho possuía trechos íngremes. sobre os problemas enfrentados pelas tropas ao se aventurarem pelo Caminho de Garcia Pais.10 Revista Pilares da História .. havia neste alguns trechos de difícil acesso e com diversas imperfeições. GERSON (1970: 21). o que. e por um sítio onde seria o de Albino Fragoso (hoje lugar da entrada da fábrica de Pau Grande) e na Raiz da Serra enfrentou a montanha ao lado do Rio Caioaba. juntamente com os despenhadeiros pedregosos.

mais tarde. vale afirmar que o caminho aberto por Garcia Pais não só possui uma importância histórica pelo fato de ter aproximado o mar da serra. e daí acompanhou o Córrego Sêco. no limiar do século XIX. Torna-se salutar esclarecer que o termo “novo” era atribuído a todos os caminhos que viessem a surgir. desbravada por Bernardo Soares de Proença. como facilitou a fixação de sesmeiros ao longo de suas margens”. conhecida como “Caminho Novo do Tinguá”. facilitando o . e o Itamarati. além de ser menos íngreme. a partir deste ponto. não só acelerou o desenvolvimento do Rio de Janeiro. Neste sentido. também. de imediato. e seguiu pelo Piabanha. até encontrar-se no Paraíba com o traçado do filho do Caçador de Esmeraldas”. pois.Maio/2004 11 hoje. cujo caminho ganhou o seu nome. Outra variante. encurtando assim não só o tempo de viagem como também abrandando o perigo e diminuindo as despesas. a partir do boom da produção cafeeira. Este caminho. conhecida também como Terra Firme. seria o mais utilizado pelos tropeiros em busca do porto de Iguaçu. Assim sendo. foi aberta no início da segunda década do século XVIII. sendo este adjetivo uma espécie de oposição ao Caminho Velho. na fazenda do sesmeiro Domingos Rodrigues da Rocha. vários “caminhos novos” surgiram naquela época. Esta variante. importante para o desenvolvimento da região. além de ser. em estudo minucioso sobre os caminhos do ouro. até onde seria Pedro do Rio. tronco principal de uma grande rede de caminhos que aos poucos foram surgindo. e atingiu o Alto no Morro de Santo Antônio. pois. Esta variante. ao vencer a Serra do Mar se encontrava com o Caminho de Garcia Pais e o Caminho do Proença na região até hoje chamada de Santo Antônio da Encruzilhada. O Caminho do Proença passou. sendo esta empreitada liderada pelo mestre de campo Estevão Pinto. ficando conhecida como “Caminho do Proença” ou “Caminho Novo do Inhomirim”. os três se tornavam um só caminho rumo à margem direita do rio Paraíba do Sul2 (PERES. Vila Inhomirim (onde no início do século XIX seria a fazenda de mandioca. eliminava o transporte do ouro pelos rios. e passou ao pé da rocha Maria Comprida. salvo algumas alterações. O caminho em tela. do excêntrico Langsdorff). este caminho reduziu quatro dias em relação ao Caminho Novo do Pilar.Revista Pilares da História . 2000). celeiro de riquezas por ele transportados. PERES (1993: 9). surgiu em 1728. aponta que “O significado histórico do Caminho Novo de Garcia Rodrigues Paes. a apresentar vantagens no que concerne ao trânsito do ouro entre as Minas e a Corte.

mas também acelerou o processo de organização do espaço do Rio de Janeiro. como também a abertura de caminhos do ouro. Durante o início das relações econômicas do século XVIII. passava pelas serras de Tinguá e da Viúva. especificamente no porto de Ubá. cujo destino era chegar às Minas Gerais (PEREIRA. 2000: 18-9). marcando assim a ocupação efetiva ao longo de vários trechos deste caminho e de outros que surgiram posteriormente. GERSON (1970: 53). chegando a “ofuscar” a imponência do Estrela de outrora. A referida estrada se iniciava na Vila de Iguaçu. a economia cafeeira trouxe avanços expressivos no que tange à organização espacial em Iguaçu.. descrita nos meados do século XVIII como a mais opulenta das vilas fluminenses”. Sendo assim.. que impulsionaram a ocupação na região fluminense. cortava a Vila de Paty do Alferes.. [.]” (PERES.]. terminando no rio Paraíba. para o Rio de Janeiro. porém. é fora de dúvida que a mineração não trouxe conseqüências apenas para a região das minas. antes do alvorecer da expansão cafeeira que proporcionou nova configuração espacial com a abertura da Estrada do Comércio. da Piedade do Iguaçu e do Porto de Iguaçu.. para que em seu lugar surgisse agora Iguaçu.. com que aos poucos Estrêla perdesse sua importância.12 Revista Pilares da História . visivelmente exemplificado com a transferência da sede do vice-reinado. entre as Minas e o Rio de Janeiro. o aumento de comércio e a dominação de uma classe burguesa que se nutria a sombra do progresso das trocas mercantis.Maio/2004 povoamento e o transporte de ouro. ao discursar sobre o impulso que Iguaçu sofreu. . possibilitando também “[. discorre: “[.] o café e a Estrada do Comércio fariam. Seu espaço se encontrava organizado nos limites de influência da Igreja N. S. mudando assim o eixo econômico do Nordeste (cana-deaçúcar) para o Sul do país.. tendo como variante o Caminho do Proença _ é que se destacava como a mais imponente. Iguaçu.. por conta da extração do ouro. sendo esta concluída em 1822. A Estrada do Comércio recebeu este nome pois sua construção foi sugerida pela Junta Real do Comércio em 1811. Estrela _ que estava situada no quilômetro zero do Caminho de Garcia Pais. se apresentava apenas como um ponto no caminho entre o Rio de Janeiro e o porto de Pilar ou Estrela. contribuindo para a maximização dos fluxos nos rios da região de Iguaçu.. juntamente com algumas moradias.] a valorização de núcleos urbanos. Além do açúcar e do ouro. através dos portos fluviais da Baixada Fluminense e sua rede de caminhos [. onde se localizava o porto que efetuava a articulação comercial com a metrópole. especialmente o fluminense. em 1763. viabilizando a construção de opulentas igrejas que substituíam as acanhadas capelas erguidas nos séculos XVI e XVII. 1970).

Revista Pilares da História - Maio/2004

13

A importância econômica da Estrada do Comércio era tão visível que, em 19 de dezembro de 1836, a Província do Rio de Janeiro subdividiu a estrada em quatro seções no intuito de conservar e desempenhar obras públicas. O trabalho de melhorias foi inicialmente entregue ao coronel-engenheiro Conrado Jacob Niemeyer e também ao tenente Júlio Frederico Koeler. Ambos desempenharam grandes obras em prol da maximização dos fluxos pela Estrada do Comércio, com destaque especial para o primeiro, que foi o responsável pela sua pavimentação. Cumpre frisar que, além da Estrada do Comércio, outras contribuíram para que Iguaçu atingisse um lugar privilegiado de destaque quando comparado com os demais da Província e do Império. Vale destacar as que se encontram no quadro das obras de o caráter geral, aprovado pela Lei n 173, de 27 de novembro de 1894, a saber: a Estrada Mineira (se iniciava na Pavuna, passando por Maxambomba, Bananal de Itaguaí, terminando em São João Marcos); a Estrada de Maxambomba a Iguaçu e Pilar (como o próprio nome já registra o trajeto, esta parte de Maxambomba, passando por Iguaçu até chegar em Pilar) e a Estrada da Polícia (com início no Brejo, atualmente Belford Roxo, cortando Cava, Rio d'Ouro, São Pedro, Sant'anna de Palmeiras, cessando na Estrada de Belém). Todavia, PEREIRA (1970:42), evidencia que a Estrada do Comércio persistia como a mais importante das Estradas: “(...) nenhuma estrada exerceu tanta influência na economia iguaçuana, quanto a Estrada do Comércio que, hoje é apenas um fantasma triste e sombrio, coberta pelas copas das árvores e destruída em certos trechos”. BARROS (1993: 3), destacando a importância do café para a abertura da estrada, além, da criação e desenvolvimento do município de Iguaçu, sublinha: “os caminhos _ na verdade, picadões em meio à Mata Atlântica _ forçaram a abertura da Estrada do Comércio [...]. É que o café _ já produzido no Vale do Paraíba Fluminense _ impunha melhor escoadouro. A Estrada do Comércio foi a primeira estrada brasileira para o escoamento do café. Foi tal produto que, transportado até o Porto dos Saveiros em Iguassu _ criando excelentes condições para um entreposto comercial _ forçou a criação do Município de Iguassu”. Criado em 15 de janeiro de 1833 por decreto da Assembléia Geral Legislativa, foi formado pelas seguintes freguesias (“distritos eclesiáticos”): N. S. da Piedade do Iguaçu, N. S. da Piedade do Inhomirim, Santo Antônio de Jacutinga, N. S. do Pilar, São João de Meriti e N. S. da Conceição de Marapicu. Os referidos distritos eclesiásticos foram desanexados da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A “capital” (sede) de um município era a vila. O município de Iguaçu teve sua “capital” na Povoação de Iguaçu (Vila de Iguaçu).

14

Revista Pilares da História - Maio/2004

O período compreendido entre os anos de 1833 e 1836 foi ocasionado por um misto de problemas, manifestações populares e conquistas. Em 13 de abril de 1835, é criada a inusitada Lei no14, da Assembléia Legislativa Provincial, extinguindo a recémcriada Vila de Iguaçu, dividindo-a entre as vilas de Magé e Vassouras. Se a justificativa para a criação estava calcada no seu franco desenvolvimento econômico e populacional, a lei que surge dois anos depois parece não se sustentar, a ponto de levar a Vila de Iguaçu para seu estágio primitivo. PEIXOTO (1968:32), nos elucida sobre alguns motivos: “(...) três foram os principais motivos que levaram à extinção da Vila: a incompatibilidade entre o Juiz de Paz e a Câmara, a tomada do porto que a Câmara executou contra sua proprietária e a utilização, sem autorização do proprietário, de uma casa para alojamento de uma comissão sanitarista chegada a Iguaçu”. O que, possivelmente, justificaria tal extinção foi a postura unilateral e autoritária da Câmara, que acabou gerando conflitos com o juiz de paz (responsável pelas atribuições judiciárias e policiais). PEREIRA (1970:16), nos endossa ao afirmar: “(...) o que se evidencia é que a Câmara julgou-se plena de podêres para administrar sòzinha a Vila e, exorbitando de tais prerrogativas, feria o direito particular dos moradores e chocava-se frontalmente com a justiça”. Em 7 de maio de 1836, surge outro decreto legislativo _ a Lei no40 _ que tornava interinamente as freguesias de Iguaçu, Marapicu, Jacutinga e Pilar subordinadas à jurisdição de Niterói. O segundo decreto indignou ainda mais a população iguaçuana, que, rapidamente, se organizou e reivindicou a volta da Vila de Iguaçu. FORTE (1933:14-15), discorre sobre a questão: “os iguassuanos, porém, não se conformaram com o acto da Assembléa Provincial, que os privara da existência de uma villa em seu territorio, a qual dois annos antes estabelecera uma comunidade de interesses entre toda a população espalhada pelos valles do Meriti, Sarapuhi, Iguassú e Inhomirim, e appellaram para ella afim de que revogasse sua anterior deliberação”. Neste contexto, a Assembléia reparou tal injustiça, restabelecendo a partir da Lei o n 57, de 10 de dezembro de 1836, a Vila de Iguaçu nos precisos termos do decreto de sua criação. Apesar de a Lei no57 restaurar a vila “nos precisos termos de sua criação”, isso não aconteceu plenamente, pois a freguesia de Inhomirim, que estava, em 1833, subordinada à jurisdição de Iguaçu, não retornou _ não sendo esclarecido nem por ato Legislativo ou tampouco pela própria Presidência Provincial. Inhomirim permaneceu integrando o município de Magé até 1846, quando esta freguesia e a de N. S. da Guia

Revista Pilares da História - Maio/2004

15

de Pacobaíba são desmembradas e integradas à Vila de Estrela, juntamente com a freguesia de N. S. do Pilar, desanexada de Iguaçu e transferida para a nova vila. Sendo assim, Iguaçu reduz ainda mais seu território. Nove anos depois de perder parte de seu território, o município de Iguaçu volta a ampliar seus limites, pois o Decreto de no 813, de 6 de outubro de 1855, cria a freguesia de Sant'anna de Palmeiras, sendo formada por parte de terras desmembradas das freguesias de N. S. da Piedade do Iguaçu, N.S. da Conceição de Paty de Alferes e Sacra Família do Tinguá, sendo as duas últimas de Vassouras. A Vila de Iguaçu desfrutava de tanto prestígio que foram elaborados dois projetos para construção de uma ferrovia, visando assim facilitar a acessibilidade do transporte do café que descia dos vales do Paraíba, “[...] penoso às vêzes que era para os saveiros de maior tamanho subirem até onde a estrada construída por Niemeyer principiava” (GERSON, 1970: 53). A ferrovia, fruto da Revolução Industrial, foi inicialmente implantada na Inglaterra em 1825, sendo que somente em 1830 seria aberta a linha Liverpool-Manchester, a pioneira no que tange ao transporte de passageiros (CUNHA, 2002). No mesmo período em que se consolidava a ferrovia em terras britânicas, no Brasil já se questionava a viabilidade e importância da criação de estradas de ferro que integrassem a Corte às capitais de algumas províncias. CUNHA (2002: 49), relatando as vantagens que a inserção do trem traria para o cenário econômico do país, justificando assim a obsessão de D. Pedro II em implantar rapidamente esta tecnologia, discorre: “a resposta está diretamente relacionada com o aumento da produção cafeeira e sua permanente migração para terras descansadas, cada vez mais afastadas do litoral. Assim, o transporte terrestre, que desde os tempos coloniais fora feito no dorso dos muares, a cada dia se tornava mais caro e penoso. O trem seria recebido com indisfarçável entusiasmo, verdadeiro milagre tecnológico, solução nova para um antigo problema. As estradas de ferro iriam oferecer um transporte rápido e barato. Por outro lado, permitiriam que o fazendeiro pudesse dispensar o pessoal empregado no manejo das tropas de muares, além de liberar grande parte dos campos destinados ao cultivo de alimentos para esses mesmos animais. A ferrovia faria com que o fazendeiro pudesse cuidar exclusivamente de suas atividades agrícolas, deixando que o problema do transporte fosse resolvido por terceiros”. Sendo assim, a Regência buscou viabilizar, a partir da Lei Feijó de 31 de outubro de 1835, com privilégios e isenções a fim de conseguir concessionários, a criação de uma ferrovia que fosse capaz de conectar o Rio de Janeiro às capitais de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Bahia.

e por espaço de cem annos. e acabada dentro de dez annos depois de começada. não será permitido á pessoa alguma fazer qualquer outra estrada de ferro paralella a esta em distancia de cinco leguas. 4 Poderá o mesmo Silveira. que se reconhecer mais conveniente.Maio/2004 O primeiro projeto foi assinado pelo Visconde de Baependy. que elle organisar. como segue abaixo: “O visconde de Baependy. o. Art. 8o. Durante o tempo do privilegio concedido pelo art. é concedido o privilegio exclusivo de conduzir pela mesma estrada. Art. A estrada deverá ser principada dentro de quatro annos. ou outros pontos de serra abaixo. 6 No caso de que para o futuro se projecte a continuação da dita estrada para diversos lugares de serra acima. ou a companhia que elle organisar. a quem o conhecimento e execução da referida lei pertencer. O presidente da província é autorisado a contractar com Antonio da Silveira Caldeira. Art. terá o dito Silveira. que transitarem pela mesma estrada. 7o. ou com a companhia. Art. ou objectos. vice-presidente da provincia do Rio de Janeiro: faço saber a todos os seus habitantes. Art. 2 Ao mesmo Silveira. vapor ou qualquer motor. e a decrete nos termos da Lei de 14 de abril de 1835 no17. preferencia em iguaes circunstancias a qualquer outro empresario. 1o. Art. o. O secretario desta provincia a faça . a todas as autoridades. que se apresente. edificar livremente os armazens ou depositos necessarios para nelles receber. e qualquer outro ponto da Bahia de Nictheroy. 3o. Art. ou a companhia. Para que o presidente da provincia declare a utilidade publica da desapropriação em beneficio da dita estrada. ou a companhia que elle organisar. posteriormente descoberto. bastará a simples circunstancia de passar ella pelo lugar. ou passageiros. a construcção de huma estrada de ferro entre a Villa de Iguassú. que houverem de ser ou tiverem sido conduzidos pela estrada. Mando por tanto. Art. antecedente. que elle organisar. que forem pertencentes. mediante as taxas. o. em carros movidos por animaes. os generos. 5o.16 Revista Pilares da História . que a assembléa legislativa provincial decretou e eu sanccionei a Lei seguinte. que estipularem no contracto. na Lei no192/no22 de 1840. que a cumprão e facão cumprir tão inteiramente como nella se contêm. Ficão derogadas todas as disposições em contrario. ou acondicionar os generos.

ponto terminal da estrada. a Vila de Iguaçu. não foi coberto o capital necessário”. podendo a mesma estrada ter um ramal. Acrescentava o prospecto que. Dada no Palacio do Governo da provincia aos nove dias do mez de maio de mil oitocentos quarenta. dentro de poucos anos. sublinha: “custaria a construção da estrada 347 contos de réis e o trafego seria por tracção animal enquanto não se empregasse a tracção a vapor. comenta: . publicar e correr. assim como as outras vilas de igual importância. PERES (1993: 40). vice-presidente da Província do Rio de Janeiro: “Art.” O referido caminho de ferro. pois. á Corte haveria duas barcas a vapor. da provincia é também autorisado para contractar com o Visconde de Barbacena a factura de uma estrada de ferro que deve partir do porto do Brejo na freguesia de S. decimo nono da independencia e do império (BAEPENDY.” Apesar dos esforços despendidos na criação destes projetos. A. FORTE (1933: 59). não saiu do papel. o o sendo registrado na Lei n 409/n 46. na verdade seria um transporte semelhante a um bonde destinado a cargas e passageiros com tração animal. que atingiu uma notável prosperidade com o café. Não obstante a animação que D. e das que o Governo da província julgar convenientes afim de garantir a mesma empreza (LOBO. Este foi concedido ao visconde de Barbacena. Pedro II deu ao projecto. 1846:92-3). esmorecer diante da chegada do progresso em algumas localidades do seu entorno. de Jacotinga até o rio Guandu. Para o trafego entre o porto de Sarapuhi. começa a amargar a falta de estradas que lhe assegurassem a continuidade do seu comércio. logo que a estrada chegasse ao porto da Amarração. Este outro também não atingiu o êxito de suas pretensões. 2o. que vá encontrar a Villa de Iguassú.Maio/2004 17 imprimir. debaixo das clausulas e condições de um privilegio exclusivo por vinte e cinco annos do uso e gozo da mesma estrada. a uma légua da villa seriam dispensadas as canoas. Após seis anos. referindo-se à perda de importância e status de algumas vilas. comentando sobre o projeto que não se concretizou.Revista Pilares da História . projetado por Antonio Silveira Caldeira. devido à inserção da linha férrea. sendo assinada por Luiz Antonio Muniz dos Santos Lobo. de 28 de maio de 1846. assim como o primeiro. que gastariam uma hora na travessia. Iguaçu iria. surge um novo projeto para a construção de uma ferrovia. 1846: 36-38). subescrevendo cem acções de 100$000 cada uma. tentando resolver o problema do transporte das cargas de café que se tornava cada vez mais crônico. O pres.

Em virtude de tais mudanças estruturais. devido ao desmatamento da Serra do Tinguá (PEREIRA. o país se posicionaria diante de uma outra realidade. às custas de suas finanças e do dinheiro de seus amigos. A o o concessão foi registrada no Decreto n 602/n 12. em 1852. vá terminar nas abas da serra nova de Petrópolis (DECRETO. Cumpre mencionar que os fracassos dos projetos anteriores de construção de estradas de ferro. 1977 e PERES. graças a um sistema de transporte e de vias de circulação que se desviaram. era investida no comércio de escravos. passando a rota comercial para o Porto de Estrela. à estrutura escravocrata que se apresentava em descompasso com a tendência capitalista vigente naquele momento. em decorrência de ele ser mais próximo da zona central do Vale do Paraíba. ganhou. principalmente. inclusive no que concerne à implantação de ferrovias no território nacional. uma concessão do governo da Província do Rio de Janeiro para construção de uma ferrovia interligando a Corte ao Vale do Paraíba do Sul. a Lei Eusébio de Queirós forçaria a disponibilidade de capital que. entre outros fatores. facilitando o transporte de café (PRADO. 1993). Estrela. Jacutinga e Inhomirim. Esta afirmação ganha visibilidade e se justifica quando comparamos a partir de levantamento das despesas do Brasil antes e depois de 1850. que posteriormente receberia o título de Barão de Mauá.” Irineu Evangelista iniciou a construção de sua ferrovia. gerando um esvaziamento que. tiveram seu ciclo de opulência e morte. até as datas que antecedem a lei supracitada. no município de Estrella. porque. nesta época. que interligava as margens da Baía de Guanabara à raiz da serra de Petrópolis. iria aos poucos deslocar todo esse movimento”. levaria à perda do status de opulência que Iguaçu desfrutava outrora. A partir desse momento. 2000). partindo do porto de Mauá. em 27 de abril do corrente anno pelo governo da Província com Irenêo Evangelista de Souza. aos poucos.18 Revista Pilares da História . em 1854. 1854: 90). estavam atrelados. . a vila começa a perder importância quando o rio Iguaçu deixa de ser utilizado. Irineu Evangelista de Souza. a Vila de Iguaçu começa a sofrer a diminuição do volume de água do seu rio. pois a construção das estradas de ferro forçou o deslocamento das atividades econômicas. de 25 de setembro do ano em tela: “Fica approvado o contracto celebrado. Quando Irineu Evangelista de Souza inaugura a primeira via férrea do Brasil. trazendo reflexos nos mais diversos setores do país. A decadência da Vila de Iguaçu começa a se concretizar a partir de meados do século XIX. para construcção de uma estrada de ferro que.Maio/2004 “o surgimento das 'Vilas de Comércio' da Baixada como Pilar. A construção da estrada de ferro. graças à mudança do sistema de transporte e vias de circulação. sem garantia de juros ou subvenções. Iguassu.

Anos depois. povoações surgiram da noite para o dia às margens das estradas. Meriti. Maxambomba passou à categoria de vila. Segundo PRADO (2000:67). na localidade de Iguassu.]”. 1987). praticamente condicionou a decadência e o fim da vila próspera de Iguassu e. 2 Marapicu. 4o. mantendo provisoriamente o Poder Judiciário na Vila de Iguaçu. elevou Maxambomba a foros de cidade.. “o início do período de decadência que se verificou a partir da segunda metade do século XIX. Aproximadamente em toda a região de Iguassu 237 pessoas foram atingidas sendo os negros suas maiores vítimas”. contribuindo para que. vilas. deixando à retaguarda a fama de Iguaçu Velho. No ano seguinte. o. é extinto o município de Estrela. atendendo aos interesses da população.. Este trecho da referida estrada de ferro partia da estação da Aclamação.]. aconteceria a construção e inauguração do primeiro trecho da Estrada de Ferro D. A pobreza e a falta de higiene foram as grandes aliadas para a disseminação da doença.Revista Pilares da História . Sendo assim. então o município em tela com cinco distritos. a Assembléia Provincial sanciona a Lei que transfere para Maxambomba a sede do distrito de Santo Antônio de Jacutinga. que ligaria a capital do Império às províncias de Minas Gerais e São Paulo. A fome e a miséria imperou na região [. em 1855. ficando o. Em 19 de junho de 1891. na cidade do Rio de Janeiro. na freguesia de Santana. S. em 1892. doutor Francisco Portela. A simples parada de trem começava a evoluir como um pequeno lugarejo. “com o avanço da doença houve o abandono das áreas consideradas contaminadas. que funcionaria apenas para atender trâmites burocráticos da região. atual Nova Iguaçu. como aponta FEREIRA (1959:20). As freguesias passaram a ser qualificadas como distritos. para facilitar o escoamento do café. A construção da Estrada de Ferro provocou com freqüência esse fenômeno: cidades. especialmente no que tange a sua limpeza. (com sede em Maxambomba). Pedro II (ABREU. 5o. a Maxambomba e Queimados. deveu-se paradoxalmente às inovações progressistas introduzidas no território fluminense. a saber: 1 Santo Antônio de Jacutinga o... Palmeiras e 6 Pilar. o governador republicano do Rio de Janeiro. sendo que em 1891. . Em 29 de março de 1862. Sant'anna de o. Sendo assim. fosse alastrada uma epidemia de cóleramorbo pela Vila de Iguaçu e freguesias do entorno. O presente cenário de epidemias e decadência econômica juntamente com a parada de trem em Maxambomba. enquanto localidades antiqüíssimas desapareciam rapidamente [. 3 Piedade. sendo seu território partilhado entre os de Iguaçu e Magé. do Pilar volta à jurisdição iguaçuana. em 1858. o assoreamento do rio causou imensas inundações em épocas chuvosas.Maio/2004 19 O rio Iguaçu sofreu um certo abandono. a freguesia de N.

ocasionaram a emergência e decadência de áreas que em determinado momento eram visivelmente prósperas e. Rio de Janeiro: IBGE. Rio de Janeiro: Typ. Decretos e Regulamentos da Província do Rio de Janeiro. ou seja. o café e o Rio. CUNHA. Ney Alberto Gonçalves de. Nova Iguaçu/RJ: Colégio Leopoldo Machado.: Legislação Provincial do Rio de Janeiro de 1851 a 1853 seguida de um repertorio da mesma legislação.92-3. do Diario de N.no12). Alberto Ribeiro. “Lei no192 (1840 . pp. Vianna. 1846. L. no presente artigo.20 Revista Pilares da História . apesar de todas as pesquisas já existentes sobre a Baixada Fluminense. pela região de Iguaçu. 269p. assim como toda a Baixada Fluminense.n 46)”. In. A Evolução urbana do Rio de Janeiro. 1987. 1846.no22)”. assim. O homem e a serra. Rio de Janeiro: IBGE.: Coleção de Leis.. 1933. . Nictheroy: Typographia de Amaral e Irmão. Caso este exemplificado.Maio/2004 Para (não) concluir O município de Nova Iguaçu. Brasil. Enciclopédia dos municípios brasileiros. L. Memória da fundação de Iguassú comemorativa do primeiro centenário da fundação da Villa em 15 de janeiro de 1833. pp36-38. 1970. como algo que ainda está em construção. Jurandir Pires.: Coleção de Leis. Ano I o n 1. a ser descoberto. Luiz Antonio Muniz dos Santos. In. o o LOBO. Rio de Janeiro: Typ..: Revista Pilares da História. ainda transitam nas lacunas entre um parágrafo e outro mais indagações do que respostas. A região em tela se posiciona. bem como. também. 1959. pp90. Do Jornal do Commércio. por conseqüência da transferência dos eixos de transporte _ entre outros elementos _ declinaram abruptamente. In. DECRETO no602 (1852 . representa um laboratório extremamente fértil para refletirmos como os caminhos.. 1840. Temos ainda muito que pesquisar e desvelar sobre esta área pois. incansavelmente. Maurício de Almeida. FORTE. do Diario de N. Visconde de. FERREIRA. BAEPENDY. 1993. out./nov. Vianna. Rio de Janeiro: Typ. pp47-53. GERSON. “Lei n 409 (1846 . Um pouco da história de Iguassú a Iguaçu. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABREU. LAMEGO. 2002. Rogério Torres da. 1854. 1846./dez. 1963. Decretos e Regulamentos da Província do Rio de Janeiro. O ouro. Rio de Janeiro: Livraria Brasiliana Editora. “Mauá e o trem”. BARROS. José Mattoso Maia. Rio de Janeiro: IPLANRIO. estradas e ferrovias deram suporte às economias locais. In.

História social da Baixada fluminense: das sesmarias a foros de cidade.Maio/2004 21 NIGRA. PEIXOTO. Tropeiros e viajantes na Baixada Fluminense ensaio. Clemente Maria da Silva. 1993. D. Colégio Afrânio Peixoto. Duque de Caxias/RJ: Gráfica Register. café e laranja. Nova Iguaçu: Instituto Histórico e Geográfico de Nova Iguaçu. Cana. 1970. 2000. A mudança da Vila (história iguaçuana). no07. 1968. Imagens Iguaçuanas. São Paulo: FTD. Ruy Afrânio. Nova Iguaçu: Tip. 2001. . Célia. Guilherme. História econômica de Nova Iguaçu. 1943.Revista Pilares da História . SIEBERT. Rio de Janeiro: FGV/SEEC. Rio de Janeiro: Ecomuseu fluminense. __________. __________. PEREIRA. Waldick. PERES. 1977. Baixada Fluminense: os caminhos do ouro ensaio. História do estado do Rio de Janeiro. PRADO. Rio de Janeiro: Gráfica Shaovan. 2000. “A antiga fazenda de São Bento em Iguaçu” In. Walter de Oliveira.: Revista do SPHAN.

Vila de Iguassú.Maio/2004 DO RIO IGUASSÚ AO SARAPUHÍ PRIMEIRO PROJETO FERROVIÁRIO DO BRASIL Guilherme Peres 1 Saboreando o doce ciclo do café ainda na primeira metade do século XIX. que. Passando por Belém (Japeri) vinda de Rio Preto. em seus portos fluviais. 1 . em busca da baía de Guanabara. Lama e plantas aquáticas era o que se encontrava na decrescente lâmina de água durante a maré vazante. Toda essa rede de caminhos. servia a centenas de tropas carregadas de mercadorias. diminuindo os veios e conseqüentemente provocando a obstrução do rio e seu extravasamento. Membro da Academia de Letras e Artes de Nova Iguaçu e da Academia de Letras e Artes de São João de Meriti. intensa quantidade de mercadorias que despachavam para o Rio de Janeiro e serra acima. tornou-se opulento posto comercial possuidor de grandes trapiches. Na zona de Marapicu. transportavam a produção de serra acima. destinadas aos portos da Vila. duas estradas iam entroncar-se na localidade de Calhamaço: dos Fazendeiros e a de Mato Grosso. com a formação de pântanos.22 Revista Pilares da História . transportadas em barcos e saveiros (barcaças de fundo chato) pelo rio Iguaçu. como de Pirahí e Valença. nas proximidades do Riachão (acima de Nova Iguaçu)”. ligando-se esta à Vila por outra estrada com “entroncamento em Mangangá. a Estrada da Polícia seguia em direção à Corte. recebendo. Entretanto. passando pela Pavuna no trecho final. Fundador do Instituto de Pesquisas e Análises Históricas e de Ciências Sociais da Baixada Fluminense _ IPAHB. numa febril agitação de tropas e tropeiros que chegavam e seguiam diretamente pela Estrada do Comércio. encaminhandose para o porto de Iguaçu. o processo de desmatamento que se abateu durante muitos anos sobre as encostas da serra. só permitindo a navegação pesada na fase da preamar. na Baixada Fluminense. Sócio fundador da Associação dos Amigos do Instituto Histórico. percorrida diariamente. destruía lentamente a proteção dos seus mananciais.

em um porto chamado da Amarração. justificando o alto custo de sua execução e recomendando desobstruir as margens do rio “que com a destruição das árvores e plantas. que mais convenha adotar a fim de melhorar a já penosa navegação do rio Iguassú. essa junção já estava destinada ao fracasso. contribuíram para a falência das Vilas de comércio. pouco mais ou menos”. e é mister cortar as muitas sinuosidades. Arrastando-se no emaranhado burocrático e falta de verbas. O autor desse relatório revela ter sido procurado pelos “cidadãos.. para aumentar o volume d'água deste. e orçamento”. mediante a concessão de um privilégio”. A FERROVIA Desde 1840. o mesmo relatório pede ao mesmo que lhe envie “proposta acompanhada da planta. que o engenheiro dito major Lorena julgou necessária”. que dependia . Questionado pelo coronel Conrado Jacob de Niemeyer o alto custo da obra. 314. No Relatório da Província do Rio de Janeiro. ainda sem um porto determinado para escoamento da produção: “talvez fosse preferível ao necessariamente difícil e dispendioso melhoramento do rio. hoje em Duque de Caxias. era um projeto que surgiu com a demora na construção da ferrovia. a idéia da construção de uma estrada de ferro que. Prejudicados com o atraso em despachar e receber suas mercadorias. junto com as febres palustres. de 10 de abril de 1844. Vemos assim que antes de seu término. No mesmo relatório.. A junção dos rios Utum com o Iguaçu. cujo verba foi liberada em 1845 “e que a ela se desse começo. solicitando a junção desses dois rios. acabada ela. ainda não fica melhorada a navegação. o estorvão e obstruem cada vez mais”. com uma eclusa. era um sonho alimentado pelos fazendeiros e financistas da região.Revista Pilares da História . que as bordão. ainda não poderão ter princípio”. publicado no Relatório da Província. do porto de Iguaçu à foz do rio Sarapuí. partindo do principal porto da Vila. lamentando “a dificuldade que encontra a navegação do rio Iguassú. a construção de uma estrada de ferro”. encontramos a lei n. na extensão de 15 léguas. a junção iniciou-se nesse mesmo ano em que o mesmo relatório registra: “Considerando como de primeira necessidade a obra já começada da junção do rio Utum ao Iguassú. registrando o exercício dos anos financeiros 1846\1847. avisando que “os exames necessários para averiguação do meio. fosse terminar à foz do rio Sarapuí.Maio/2004 23 Temos em mãos o “orçamento da receita e despesa” para o ano de 1840 a 1841. tal era a diminuição do volume d'água que. Antonio da Silveira Caldeira e Luiz Tavares Guerra” manifestando a “intenção em que está o primeiro de promover a incorporação de uma companhia para a construção dessa estrada de ferro. principal veículo de exportação da florescente Vila desse nome”. que tem o rio Iguassú desde a sua foz até a Vila. vemos pela primeira vez publicada a idéia de uma ferrovia. observa que.

que atualmente se exportam de Iguassú”. Temos em mãos (cópia) o prospecto distribuído aos interessados. travessas de madeira.Maio/2004 da maré enchente.. e mesmo assim com ajuda de escravos que impulsionavam as canoas por meio de varas escoradas no fundo da lama. e importa igualmente grande quantidade de gêneros para o consumo do país.000 arrobas à razão de 60 rs. Comentando como motivação para a venda das ações o pouco tempo que se teria para o assentamento dos trilhos. fizeram com que esse desejo fosse levado à sede do Império e. no dia 9 de maio daquele mesmo ano. por arroba. a mais opulenta da Província do Rio de Janeiro. do qual eliminamos os preços para não o tornar enfadonho: aterrados. 56 carros com mulas. não deriva somente da breve e rápida condução dos gêneros e passageiros de um para outro ponto”. pontilhões. até que se empregue o vapor”. e por isso o seu comércio já é considerável. exporta diariamente cerca de cinco mil arrobas de café. Dando certeza rentável ao empreendimento. pontes.. 247:000$000. que deve partir de Vila de Iguassú a Sarapuí na baia de Niterói (Guanabara). que for empregado na fatura da estrada”.24 Revista Pilares da História . apesar do que ficam ainda assim os gêneros muitas vezes retardados ali por oito e mais dias”. o impresso diz que o terreno irá precisar de “poucos aterros a fazer” e contornar alguns morrotes graças à “igualdade do terreno”. é detalhado no texto. 300$000”. com pequeno numero de sacos e empregando para isso de 150 a 200 escravos na navegação daquele rio. e de certa altura para cima é feita por canoas rasas por grandes dificuldades no tempo de secas. autorizadas pela Fazenda Real. “como se tem experimentado nos diferentes estados da Europa e América”. para qual Sua Majestade Imperial mandou subscrever por o Mordomo da sua Imperial Casa com cem ações. e esclarece que “sendo construída só para um trilho. registrando a imensa quantidade de mercadorias retida no porto: “A atual navegação daquele rio é de nove léguas. totalizando Rs. e suficiente para produzir grandes vantagens ao capital. cita apenas o café. Em seguida comenta o aumento de valor que elas trazem para os terrenos próximos à via férrea. . Convida os financistas a se organizarem numa “Companhia para a fatura de uma estrada de ferro. abriram-se subscrições de ações através da Lei Provincial para tal empreendimento. o folheto enaltece o volume de negócios que se previa: “A Vila de Iguassú. Igualmente seus Ministros tem assignado com grande numero delas”. O orçamento de sua construção assinado pelo engenheiro Pierre Taulois. Relacionando os rendimentos pelo transporte “calculados conforme os gêneros. 2 barcas de vapor. oficinas etc. registrando a quantia de 5.. por ser preciso levá-las arrastadas a mão. divulgando “A grande utilidade que resulta ao comércio e a lavoura das estradas de ferro. mão-de-obra para preparação da madeira. e para carros conduzidos por animais. contribuindo para que “a obra seja pouco dispendiosa”. importando ao todo a quantia de Rs.

José Mattoso Maia. o padre Diogo Antônio Feijó autorizou o governo a conceder privilégios de exclusividade às companhias que se organizassem para explorar o transporte ferroviário de cargas e passageiros no Brasil. coordenada pelo engenheiro Pierre Talois. totalizando Rs. sal. Vemos também a descrição de despesas “miudas”: 10 serventes. Finaliza advertindo que o rendimento foi calculado “sobre dados certos”. 300$000. BENÉVOLO. e que no futuro poderão se elevar ao dobro e até ao triplo. ressaltando que a estrada transportando direto do porto de Iguaçu para o mar. despesas e consertos imprevistos” etc. idem de 2 serventes. carvão para uma barca “de vapor em exercício.Revista Pilares da História . Introdução à História Ferroviária do Brasil. e mais tarde vencendo a serra através de túneis até Barra do Pirahí. resultando na elaboração de uma Companhia com o título de “Estrada de Ferro D. Pedro II em 1858. RELATÓRIO da Província do Rio de Janeiro (1846-1847). “logo que chegue ao porto da Amarração 1 légua distante. podendo este trajeto fazer-se em uma hora”. partindo da estação do Campo da Aclamação. dispensar-se-ão as canoas no rio. 1953 RELATÓRIO da Província do Rio de Janeiro (1840-1841). . REFÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: FORTE. e do que não se faz menção”. hoje praça Cristiano Otoni. 1933. Memória da Fundação de Iguassú.Maio/2004 25 Quanto às importações. era o início de uma rede viária que iria desviar o giro dos transportes de cargas e passageiros em torno das ferrovias. lenha.. “haverá uma barca navegando diariamente para conduzir os gêneros. Jornal do Comércio. sustento de 20 animais. “visto que com isso vai desafiar a rapidez com que em poucas horas se devem transportar os gêneros de Iguassú à cidade. evidentemente um dos maiores interessados em sua realização. e a Companhia principiará a render”. buscando chegar até o rio São Francisco. perto de duas mil arrobas. Rio de Janeiro: Tip. fazendas. até Queimados. registra a entrada de vinhos. Recife. de Sarapuí para a cidade. Com a inauguração da Estrada de Ferro D. e vice-versa. carne. perfazendo um faturamento de Rs. CONCLUSÃO Ainda na regência em 1835. sepultando de vez os portos fluviais e as vilas de comércio que floresceram na Baixada Fluminense durante a primeira metade do século XIX. No trajeto à cidade. Pedro II”. ferro “e muitos outros gêneros. jornal ao mestre. no trajeto “do porto do Iguassú até o Sarapuhí”. Ademar. Vários projetos foram elaborados sem conseqüências práticas. sendo que esse é o único de que temos conhecimento. com oferta de venda de ações. 47$200. e vice versa”.

Com o objetivo de se chegar até a cidade de Petrópolis. Como o nosso trabalho se refere a um período anterior a esta denominação. Professor assistente do Departamento de História da Faculdade de Filosofia. situada no fundo da Baía de Guanabara. 1 .Maio/2004 AS CHAVES DA LIBERDADE: ESTRATÉGIAS DE RESISTÊNCIA ESCRAVA NA FERROVIA Nielson Rosa Bezerra 1 Com o presente artigo pretendemos debater o tema das transformações que ocorreram na região que atualmente conhecemos por Baixada Fluminense2. já nos limites da freguesia de Nossa Senhora da Piedade de Inhomirim. Pesquisa e Documentação de História da Baixada Fluminense _ CEMPEDOCH-BF. Mestre em História pela Universidade Severino Sombra _ Vassouras _ RJ. 2 A região que atualmente denominamos de Baixada Fluminense pode ser definida como o conjunto de municípios limítrofes ao norte da atual Cidade do Rio de Janeiro. Pesquisador do Centro de Memória. Porém. Ciências e Letras de Duque de Caxias FEUDUC.26 Revista Pilares da História . esperamos colaborar para o aprofundamento do conhecimento historiográfico sobre as relações sociais que eram compreendidas no âmbito do regime escravista. a ferrovia tinha o seu início na região que atualmente conhecemos por Mauá. onde a ferrovia tinha a sua estação inicial. Associado Fundador da Associação de Professores e Pesquisadores de História _ APPH-CLIO. no pé da serra de Petrópolis. Professor do Colégio Santo Antônio _ Duque de Caxias e da Rede Pública do Município de Japeri. A primeira ferrovia do Brasil foi construída dentro dos limites administrativos da vila de Estrela. no município de Magé. formando com ela parte do Grande Rio. o porto de Mauá localizava-se na jurisdição da freguesia de Nossa Senhora da Guia de Pacobaíba. Através de uma análise em processos crimes de escravos. ainda no século XIX. Associado fundador e diretor executivo da Associação dos Amigos do Instituto Histórico de Duque de Caxias _ ASAMIH. em função da inauguração da primeira estrada de ferro do Brasil. situado nesta região. É bom lembrar que a Estrada de Ferro Barão de Mauá foi construída no território da vila de Estrela e que atualmente pertence ao município de Magé. utilizaremos o termo Recôncavo da Guanabara ou Recôncavo Guanabarino. prolongando-se até a região de Fragoso. sempre que possível.

as atividades econômicas de Estrela dividiam-se em cinco setores básicos: atividades agrícolas. poderíamos considerar o exemplo dos escravos barqueiros que eram responsáveis por conduzir as embarcações que poderiam atravessar a Baía de Guanabara e ter acesso às ruas da Corte. mas assim como passavam pessoas constantemente por ela.4 De acordo com Vânia Fróes. pois suas ocupações produtivas permitiam-lhes ter acesso a outras regiões. Tratando-se de uma região de entreposto comercial. 72.3 A região onde se localizava a vila de Estrela teve como referência. estes limites eram ultrapassados. São Paulo: Companhia das Letras. Município de Estrela (1846-1847). 5 Ver: FRÓES. a Baía de Guanabara. 1987. Estrela estava em uma região de passagem. A partir desta descrição. Outra categoria ocupacional com possibilidades bem amplas eram os escravos tropeiros que faziam parte das tropas de burros encarregadas de transportar as mercadorias para o interior da província.Maio/2004 27 A construção da Estrada de Ferro Barão de Mauá tinha o objetivo de dinamizar o transporte das mercadorias que eram produzidas no interior fluminense e que se destinavam ao consumo na Corte do Rio de Janeiro ou à exportação para a Europa. ali também tornou-se um lugar onde agentes de diversas origens sociais se estabeleceram desde os tempos coloniais. ver: GUINZBURG. 4 Sobre a circularidade cultural em função do intenso movimento dos agentes sociais que viviam na região. 3 . ao longo do tempo. nos oferecendo aspectos socioculturais interessantes para uma pesquisa histórica. V. era comum a presença de escravos que mantinham uma autonomia privilegiada. 5 artes e manufaturas e comércio. Portanto. Dissertação de Mestrado. Em alguns casos. Carlo. tendo possibilidades de circulação e de mobilidade dentro dos limites geográficos da região. Neste sentido. que complementava sua ligação com o Rio de Janeiro através dos rios que eram utilizados como vias de comunicação e de circulação de mercadorias.Revista Pilares da História . desde os tempos coloniais. oferecendo-nos uma oportunidade rara de analisar uma sociedade assimétrica. serviços e profissões liberais. transportes. o que. podemos identificar um sistema de transporte que articulava o litoral e o interior cortando a região do Recôncavo Guanabarino. Desta forma. onde se torna difícil o estabelecimento de sistemas e regras que possam simplificar este exame historiográfico. p. mesmo que sumária. já que pessoas de diferentes posições sociais mantinham contatos próximos no caminho. Niterói: UFF. cuja função ultrapassava os limites econômicos. Os queijos e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Neste caso. cujas relações sociais escravistas apresentaram características específicas. Pois desde o século XVIII que o porto de Estrela (ou do rio Inhomirim) foi um importante escoadouro das mercadorias que eram produzidas serra acima. já podemos perceber que esta região era uma interseção importante entre o litoral e o interior. 1974. podemos perceber a vila de Estrela com uma tradição econômica bastante significativa. cujas relações entre os componentes de seus segmentos eram constantes. permitiu a formação de uma sociedade diversificada e complexa.

C. Zungú: rumor de muitas vozes. Sendo assim.Maio/2004 podemos perceber que a composição de Estrela é uma credencial poderosa para explicar uma conjugação de elementos da vida rural e urbana. definidos por Carlos Eugênio Soares como: “(. as famosas seduções (. . Em função disso.. que tinham a possibilidade de transitar entre a Corte e as freguesias que formavam as vilas situadas no fundo da Guanabara. buscando fugir da interferência senhorial ou policial.)”.. o zungú era também temido pelas autoridades como foco de rebeliões. cujas funções ultrapassavam os limites permitidos pela vigilância senhorial e policial da 6 SOARES. Esses agentes não se restringiam à circulação econômica. prostituição. Rio de Janeiro: APERJ. por exemplo. L. permitindo aos escravos. A sociedade que se formou na região de Estrela era composta de agentes que tinham um conhecimento amplificado das relações sociais que ocorriam para além do seu espaço de atuação... mas também eram portadores de costumes e signos culturais que eram facilmente assimilados. Mas além destas finalidades aparentemente 'inocentes'. o que mais nos interessa neste momento é a identificação das relações sociais complexas. Sendo assim. levantes.16. permitia a construção de novas possibilidades de interações sociais. 1998. p.) pontos de encontro para cativos. Existiam agentes sociais. ou mesmo para acobertamento de fugas de escravos. podemos inferir que as relações pessoais que se formavam através do exercício de determinadas atividades econômicas podem ser indícios bem interessantes para identificarmos possíveis confluências socioculturais. africanos e crioulos. associar formas de resistência que eram costumeiramente aplicadas no espaço urbano e que eventualmente poderiam ser adaptadas aos setores rurais. podemos trabalhar com a hipótese de ampla diversidade social e cultural no processo de formação das relações sociais entre agentes de segmentos diferentes da sociedade. capazes de nos revelar padrões de sociabilidade típicos do mundo da escravidão urbana em estreita confluência com aspectos da vida social do mundo da escravidão rural.6 Uma das mais importantes instituições forjadas pela experiência escrava. além da companhia de seus iguais. Um exemplo claro dessas articulações são as casas de angu ou zungu. comida. onde eles encontravam músicas. sejam conflituosas ou intermediadas. As diferenças e a distância entre o litoral e o interior não significavam um isolamento. inclusive escravos. o que representava a constante recriação da cosmogonia escrava. Esta recriação cultural será fundamental para a elaboração das interações e negociações voltadas para melhores condições de vida ou a busca pela liberdade. Esta circulação.28 Revista Pilares da História . E.

Revista Pilares da História - Maio/2004

29

cidade do Rio de Janeiro, estas casas de angu tornaram-se uma das principais referências de sociabilidade urbana que a população de cor utilizava. Estas instituições eram muito apreciadas não apenas por escravos e libertos, mas também por agentes de outros segmentos sociais, adeptos das tradições marginalizadas pela elite senhorial e reprimidas pela força policial. Porém, os zungus tornam-se experiências escravas valiosas para o nosso trabalho, quando o autor nos mostra que esta forma de resistência, protagonizada por escravos, crioulos e africanos, cativos e libertos, tinha relações que ultrapassavam os limites urbanos da Corte, atravancando em direção ao interior da província fluminense, levando-nos a perceber que a visão de mundo dos escravos, que viviam na cidade ou na fazenda, não se restringia ao seu espaço físico, mas que ultrajava as barreiras, levando-os a uma concepção mais completa do regime escravista, através do qual os cativos eram submetidos às agruras do cativeiro. Neste sentido, as palavras de Carlos Eugênio tornam-se deveras valiosas, quando nos mostram que os zungus do centro do Rio de Janeiro tinham uma estreita relação com o quilombo de Laranjeiras, na Freguesia de Guapimirim, situada no pé da serra dos órgãos. “Mas a rede de cumplicidades que levou a Catarina Cassange das estreitas vielas da Corte para os amplos espaços da província era ainda mais complexa. A conexão rural da casa de angu da rua dos Ferradores _ o preto Joaquim Mina _ era costumeiro freqüentador do quilombo das Laranjeiras, no distrito de Guapimirim, e costumava se abastecer de lenha no grandioso acampamento de fugitivos, em troca de produtos não 7 produzidos pelos quilombolas: sal, farinha, pólvora”. A concepção que os escravos construíam do regime escravocrata torna perceptível a relação estreita que fluía entre a cidade e o interior, e esta relação era ainda mais próxima quando se tratava do Recôncavo da Guanabara, pois era uma região intermediária, com predominância das tradições rurais mas que continham fortíssimas assimilações de elementos essenciais da vida urbana, que eram desenvolvidas em função da amplitude da sociedade escravista através de situações individuais ou coletivas, podendo ser protagonizadas por elementos de todos os segmentos sociais. A vila de Estrela era um importante entreposto comercial, notabilizando-se por sua posição estratégica no escoamento da riqueza que era produzida no interior da província e que tinha como destino o porto do Rio de Janeiro, de onde o ouro (séc. XVIII) e o café (séc. XIX) era enviado para a circulação no mercado externo. Esta vila, situada em uma região de passagem de riquezas econômicas, tornara-se cenário de circulação
7

Idem, p. 15-16.

30

Revista Pilares da História - Maio/2004

de padrões de sociabilidade e de informações culturais que apresentavam novas perspectivas de mudanças, que acabavam por incorrer na formação de estratégias e dissimulações utilizadas pelos escravos na luta pela liberdade, de elaboração de políticas de dominação que os senhores utilizavam e de construção de ousadias de confluências sociais de que homens livres pobres passavam a dispor. Entretanto, destacar esta posição favorável às interações sociais não significava a ausência de conflitos, pois acreditamos que estes também fazem parte da composição das relações sociais. Neste sentido, podemos ressaltar que mesmo com uma posição destacada no cenário econômico provincial, a região de Estrela também foi palco de profundas tensões, e não apenas entre senhores e escravos, na formação dos quilombos, mas também entre escravos e homens livres pobres e até mesmo entre escravos e escravos. Do mesmo modo que existia uma solidariedade entre os homens livres pobres e os escravos, também havia rivalidades entre eles, possibilitando-nos a suposição de que nem sempre era necessário a intervenção dos senhores para que estes agentes sociais se tornassem inimigos declarados. Assim, o processo criminal a que respondia Frederico, escravo de Joaquim Mariano de Menezes Câmara, por ter assassinado o espanhol José Antônio Figueró. Segundo o que pudemos apurar na análise deste processo, Frederico e Antônio eram tropeiros e tinham uma velha rixa. Em um determinado dia do ano de 1870, o espanhol saiu para procurar uma besta que havia se desgarrado e estava fugida dentro da floresta fechada da Freguesia do Pilar. Frederico, que estava há dias sem aparecer na casa de seu senhor, aproveitou o ensejo e surpreendeu Antônio atacando-o com uma faca. Apesar de socorrido por um outro companheiro, também espanhol, Antônio não agüentou e sucumbiu. Frederico, por sua vez, entregou-se às autoridades. Após ser severamente julgado, foi condenado ao trabalho de galés perpétuo.8 As tensões e as interações se dão em qualquer tipo de relação social. Escravos, senhores e homens livres pobres mantinham contatos próximos que podiam ser dimensionados através de conflitos ou de negociações, de acordo com formas de identificações culturais ou interesses econômicos. No caso do conflito que descrevemos, uma velha rixa entre vizinhos poderia ser um estopim suficiente para a deflagração de uma grave crise. Assim, um assassinato era sem dúvida um fator de desestabilização da ordem que exigia dos senhores um maior esforço para que o controle social pudesse ser restabelecido. Ainda, neste caso, podemos perceber a livre circulação dos escravos em contato cotidiano com homens livres pobres e longe da vigilância senhorial, nos permitindo detectar um complexo conjunto de relações sociais que se formavam no mundo escravista.
8

Arquivo Nacional. Corte de Apelação. Caixa 3668. Processo 6813. Vila de Estrela, 1870.

Revista Pilares da História - Maio/2004

31

Outra questão interessante é a posição estratégica da região revelada neste episódio. Frederico era um escravo tropeiro que tinha a possibilidade de se distanciar da vigilância senhorial, típico de uma região de passagem. Estas situações diversas que aconteciam na região da vila de Estrela, para nós é mais uma evidência que confirma o seu caráter de entreposto, não apenas econômico, mas também de padrões culturais rurais e urbanos identificados através das ambigüidades que caracterizaram as suas relações sociais. A posição de passagem exercida por esta vila tornava-a objeto de constantes mudanças no seu contexto regional, pois em função de seu caráter periférico acabava assimilando as mudanças impostas pela cidade em um tempo mais curto e em uma proporção bem maior do que todo o restante da província. Um exemplo típico do que estamos falando é o advento da construção da primeira Estrada de Ferro do Brasil. Com o curto trajeto que fora inicialmente construído, esperava-se a sua ampliação, integrar toda a província, tendo como objetivo diminuir a distância entre os lugares em que se realizava a produção e o porto do Rio de Janeiro, onde era feito o embarque do café para o mercado externo, por exemplo. Símbolo do progresso urbano e do desenvolvimento capitalista, o trem era um fator de articulação entre o novo e o arcaico, pois levava em seus modernos vagões, puxados pela máquina a vapor, o café, fruto do trabalho escravo, resquício dos tempos do atraso colonial. Entretanto, o trem era um elemento muito rico, capaz de provocar mudanças por onde passava. Inaugurada em 30 de abril de 1854, a primeira Estrada de Ferro do Brasil ligava a Estação de Mauá, localizada na Freguesia de Nossa Senhora da Guia de Pacobaíba, à estação de Fragoso, no pé da serra de Petrópolis, ambas as localidades situadas no âmbito da vila de Estrela, que, por ocasião deste advento, sofreu mudanças geográficas, econômicas, sociais e culturais, tornado-se mais evidente a sua função intermediária. A construção da Estrada de Ferro promoveu um complexo conglomerado empresarial no setor de transporte, que contava com investimentos capitalistas, com o objetivo de monopolizar o transporte de café. Entre a Corte e o Porto de Mauá, atravessava-se a Baía de Guanabara em modernos barcos a vapor; de Mauá até Petrópolis o trem desempenhava o papel de principal fator de agilidade no transporte; e acima de Petrópolis encontrava-se a Estrada União e Indústria, que facilitava através do transporte de rodagem. Estas mudanças, além de conforto e segurança, também representavam ganhos significativos no tempo que deveria se dispor para o escoamento das mercadorias e deslocamento das pessoas na contínua relação entre o litoral e o interior. Entretanto, as mudanças provocadas por estas inovações não significou a imediata e definitiva falência do antigo setor de transporte, que se dava através da Estrada Normal de Estrela, cujo transporte de mercadorias ainda era feito através das

tendo a possibilidade de interagir com antigos e novos parceiros. Para identificarmos estas novas possibilidades que surgiram com o trem.. já que muitos eram alugados à Companhia da Estrada de Ferro. os vapores da Inhomirim e as tropas de burros! Ambos transportam o café. sendo a estação de Mauá. 9 FRÓES. em Pacobaíba. a vila de Estrela passou a comportar dois pontos. como nos diz Vânia Fróes: “(. eis a função do Recôncavo da Guanabara.9 A partir deste advento. seria fundamental esclarecer que o sistema de transporte que partia de Inhomirim fatalmente perderia a sua importância. Com o objetivo de se locomover para Petrópolis. o trem também permitia a transposição de passageiros. pois a modernidade trazida pelo trem traria uma inevitável evidência para a Freguesia de Nossa Senhora da Guia de Pacobaíba. nos ajudando a ouvir várias vozes sociais que apresentam a visão de mundo de agentes marginalizados.Maio/2004 tropas de burros. acrescentando novidades na construção de estratégias e dissimulações com o objetivo de adquirir as chaves da liberdade que os livrariam da prisão humana representada pela condição escrava. Mais adiante. indubitavelmente. Cit. Op. Estrela. sobe-se a serra por vias modernas e pavimentadas onde trafegam burros e escravos”. Nesse sentido. seria fundamental destacar esta freguesia.. como uma rica fonte histórica. Apesar de ter como objetivo principal o transporte de café.. No porto da vila . V. vários cidadãos respeitáveis do Império passavam pela região de Estrela. como os escravos. 35. pois com a sua transformação econômica. mais uma vez. Os extremos são chocantes.) unir dois mundos diversos.32 Revista Pilares da História . o que. p. esta Pacobaíba passa a exercer uma função essencial na vida política. sobretudo em função das mudanças no setor de transporte. e principalmente Estrela. um lugar privilegiado para a construção de experiências e novos padrões de sociabilidade entre os escravos. se refletiria na vida social de Estrela. . pode ser citada como um exemplo valioso de um espaço que compreendia características urbanas e rurais simultaneamente. acrescentando ainda mais os agentes sociais que passavam por Estrela. vemos a análise de processos policiais. distrito onde se localizava o Porto de Mauá. Assim. que tinham a dupla função: a recepção dos que vinham do Rio de Janeiro e a partida daqueles que prosseguiam em direção ao interior da Província. cidade onde se situava a moradia de verão da família imperial. Entretanto. ampliando o leque das possibilidades de interações sociais que eram concebidas no âmbito do regime escravista.

trabalhador da Estação de Ferro Mauá. cujo processo na Corte de Apelação nos desvenda uma série de elementos que eram utilizados na construção de novas formas de luta pela liberdade.. O entorno da estação da Estrada de Ferro passou a ser uma referência para a sociabilidade local.. sendo mancomunados com João Gonçalves Couto. e em poder dos referidos . Foi-lhe informado pelo preto Juviano escravo de Jeronymo José Carneiro. com a missão de desvendar a verdade sobre o desaparecimento de uma série de objetos das malas e baús dos passageiros daquela companhia. há mais de dez anos. e Vicente. Mariana de Marfim com relevo representando Nossa Senhora com o menino e que lhe parecia ser de propriedade do Doutor Perdigão Malheiros.) João Gonçalves Couto. levou à presença do subdelegado da Freguesia de Nossa Senhora da Guia de Pacobaíba “ (.). escravos e homens livres pobres. que havião furtado do mesmo Doutor de dentro de uma malla vinda de Petrópolis para a Corte (.). um empregado do Armazém de Café da Companhia Mauá. que abriam espaços para articulações de estratégias capazes de alimentar o sonho da liberdade. escravo do Coronel Manoel Luis Alves. figuradas por senhores. mais que nunca. por estar informando que em poder do mesmo Gonçalves se achava uma cachinha de marroquim preta contendo um livro de horas.. que os autores dos furtos praticados na estrada de ferro e malas referidas são os pretos Procópio. Além de outros objetos que faltão a diversos passageiros que promette remeter com urgencia a esta subdelegacia (. exercida pela célula da população que trabalhava na Companhia Mauá e pelos demais agentes sociais que gravitavam na sua periferia. escravo da viúva Porcina Maria Porciuncula e Mello.. e por quem fosse encontrado em poder da relação..Revista Pilares da História .Maio/2004 33 Neste sentido. Aos 23 dias do mês de junho do ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1879. com o advento da Estrada de Ferro. demostrando que a região.. Esta sociabilidade promovia preciosas possibilidades de construção de laços de cumplicidade. passava a ter um lugar privilegiado nas complexas confluências sociais e culturais que caracterizavam o dinâmico mundo escravista através da íntima relação do meio rural com a vida urbana. nos parece bastante peculiar o caso do crioulo Procópio.

pois tanto eram empregados homens livres pobres. somados ao silêncio e à cumplicidade entre estes agentes sociais. O golpe era magistral porque eles não arrombavam as malas. 1880. podemos constatar a interação entre escravos. mas afanaram a mala do senador Perdigão Malheiros. que lhe constam servindo-se pellos para abrirem as malas e cometerem o crime e cometerem o crime (. cujo pequeno valor não seria motivo suficiente para uma possível reclamação.Maio/2004 escravos vinte e tres chaves diversas. que eram utilizadas para abrir as malas. Além disso. administrada pela Companhia Mauá. todos exerciam a mesma função dentro da companhia. Entretanto. também percebemos a formação de uma rede de cumplicidade entre escravos e homens livres pobres que. Maço 131.. 6-7. o número de passageiros tinha crescido significativamente. . cujo prestígio político no Império seria motivo suficiente para que uma simples reclamação desencadeasse uma profunda investigação policial. ou até mesmo de importâncias numerárias. eram os responsáveis pela “baldeação” das malas e baús dos passageiros que passavam pela estação.)”. o que necessitava o uso da paciência para tentar diversas vezes. Entre estes. Corte de Apelação. ou seja.10 Após 25 anos da inauguração da estrada de ferro. Nº 1046. que por serem alugados para um trabalho em um local de grande movimentação tinham a possibilidade de ter uma grande mobilidade no âmbito da freguesia de Pacobaíba. p. Também seria necessário controlar a cobiça. poderia despertar a indignação do afanado provocando reclamações que no mínimo provocaria o surgimento de desconfianças dos superiores no trabalho. Estrela. como é o caso do português João Gonçalves Couto. causando a necessidade do emprego de muitos funcionários. se solidarizaram em busca de melhores condições de vida tendo como referência um molho de 23 chaves. como escravos de senhores da região que os alugavam para a companhia. nem tampouco deixavam rastros e pistas. Imaginamos que em muitas ocasiões as malas não se abriam. ambos não esperavam. As ações que desencadeavam os furtos.34 Revista Pilares da História . pois o furto de quantidades muito altas. assim como no Rio de Janeiro nutriam uma solidariedade no entorno das casas de angu. existia uma grande variabilidade entre os segmentos sociais. que consistia em abrir as malas dos passageiros e furtar pequenos objetos. No caso do português Couto e dos escravos Vicente e Procópio. representavam a possibilidade de aumentar os ganhos que eram conseguidos no 10 Arquivo Nacional. de vários tamanhos. Aproveitando-se do conhecimento existente do cotidiano da companhia e do comportamento comum entre os passageiros. os três foram descobertos com um golpe magistral. Mas isto só era possível por conta da posse de 23 chaves. Através deste processo..

e os próprios grupos se definem de acordo com conflitos e solidariedades. promovendo um surpreendente descortinamento de várias pessoas. que contudo não podem ser presumidos a priori. construi-se uma perspectiva de solidariedade e cumplicidade em que elas eram verdadeiros símbolos das tensões e interações sociais que poderiam ser forjadas em uma área de passagem. filho de Manoel Gonçalves Couto. que sabia ler e escrever. Entre elas. é quebrado. mas resultam das dinâmicas que são o objeto da análise”. Em: BURKE. São Paulo: UNESP. Várias pessoas foram ouvidas e investigadas acerca dos roubos que ocorriam na estação da Estrada de Ferro da Companhia Mauá. casado. natural da Freguesia de Santa Marinha de Amar. cujo segredo era guardado mediante a compra do silêncio através de pequenos presentes que conseguiam. Estes argumentos que nos permitem aperfeiçoar a nossa crítica sobre as fontes. Todos participavam diretamente dos furtos ou pelo menos eram coniventes com a situação.) embora os costumes e o uso dos símbolos sejam sempre polissêmicos. possibilitando a identificação entre indivíduos que participavam das mesmas ações. o primeiro que prestou depoimento foi o português João Gonçalves Couto. sumariamente respondeu que “(. Argüido em relação aos acontecimentos que incorpavam as acusações feitas. pois sabiam dos fatos. para Procópio e Vicente estas ações representavam as “chaves da liberdade”. o silêncio.) sobre a sua defesa só tinha a declarar que existia uma caixinha com o livro que se acha em juízo que lhe foi dado pelo Ver: LEVI.. Pois ao longo do processo. serviria como argumento em possível negociação da compra de suas próprias cartas de alforria e as de outras pessoas próximas.11 É bom ressaltar que. apesar dos três serem acusados pelo crime de roubos e furtos dos passageiros. As 23 chaves tornaram-se ferramentas na luta pela liberdade. Sobre a Micro-história. de 38 anos de idade. 152. as estratégias e dissimulações que eram compreendidas através das “23 chaves da liberdade”.. mas com objetivos difusos. G. não se restringiam apenas aos três. P. à medida que vamos lendo os depoimentos. P. podem ser melhor compreendidos nas palavras de Giovanni Levi: “(. fundamental na trama. 11 . não obstante eles assumem conotações mais precisas. No entorno delas. A Escrita da História: Novas Perspectivas. a partir de diferenciações sociais variáveis e dinâmicas.. cuja soma financeira que poderia ser juntada com a venda dos pequenos objetos. Os indivíduos constantemente criam suas próprias identidades. Algumas delas foram ouvidas mais de uma vez.Maio/2004 35 trabalho da estação.Revista Pilares da História . 1992. No entanto..

depois do que pelo menos lhe foi dito que eles tinhão tirado umas coisas que não valião. Bom. mas depois admite ser verdade o que diziam as pessoas que levaram a situação ao conhecimento do subdelegado. Esta atitude nos permite a elaboração de duas interpretações. e que á verdade o que acabavam de dizer as pessoas presentes (. no lugar onde se achão as bagagens e as cargas a hi encontrou o preto Vicente. escravo de Jeronymo José Carneiro. Corte de Apelação.. Como havia uma incerteza. Sendo assim. é que neste caso a ingenuidade passava de longe.Maio/2004 preto Procópio (.. Talvez por ser o mais novo entre os envolvidos. visivelmente comprometido com os delitos. p. intimou para depor o preto Juviano. a não ser o fato de ter recebido um objeto de pouco valor de Procópio. não queria ser envolvido. Maço 131. apresentando detalhes que nenhum outro apresentara: “Respondeu que em dia de domingo já passado. pois as experiências vivenciadas por escravos e homens livres pobres eram parâmetros eficazes para uma tentativa de enrolar as autoridades que os investigavam. podemos supor uma preocupação de despistar e confundir as autoridades.. Em primeira instância. e subtraindo de dentro das malas diversos objetos inclusive o livro de horas que se acha nesta Subdelegacia. designando-se elle para o seu trabalho as cinco horas da manhã. o escravo foi bastante enfático nos seus dois depoimentos.). tendo menos experiência.)”. e Procópio. pois apesar de admitir a veracidade das acusações. 8.36 Revista Pilares da História . o delegado não se poupou a interrogar todas as pessoas que pudessem oferecer alguma informação sobre o assunto. escravo de Donna Porcina Maria e Mello. Couto. natural de Pacobaíba. . Em uma segunda possibilidade de interpretar sua intenção. Declara que tem um chapeo de palha que lhe foi 12 Arquivo Nacional. o que nos parece bastante procedente. Nº 1046.. de idade de 19 anos presumíveis. Estrela. pois primeiro diz não saber de nada.) e que mais nada sabia. abrindo duas malas que se achavão na referida Estação Mauá. solteiro.. procurando desviar a atenção das autoridades para os outros envolvidos.12 Em uma leitura sumária parece que João Couto não queria se comprometer. e que tem um par de brincos em seu poder que lhe forão dados pelo dito Couto (. provocada pelo depoimento de Couto. alegava que não tinha nada a ver com a situação. e por não saber ao certo quem eram os verdadeiros responsáveis. que também era alugado na Companhia Mauá. e que João Gonçalves Couto havia tirado uns brincos bonitos.. 1880. escravo do Coronel Manoel Luis Alves.

realizavam os delitos em dias de domingo às 5 horas da manhã. admitiu os fatos. Estando diante de um quebra-cabeça. no exercício de sua capacidade de observar e decidir. Diga-se de passagem. o que permitiria a ausência de tumulto ou de desconfiança. pois Juviano recebera alguns “presentes” para que não os delatasse. Trabalhador da Companhia Mauá havia mais de dez anos. sem a intenção de lhe servir para abrir malas. dizendo “(. sem demora... mesmo não estando diretamente ligado ao esquema de furtos das malas. nos momentos de menor movimento. Ainda através de seu depoimento. Guia de Pacobaíba o preto Procópio. S. o preto Juviano não era um elemento efetivo do grupo. o proprietário das 23 chaves utilizadas para abrir as portas da liberdade. pois sabia os dias e a hora que se realizavam os furtos. Como podemos perceber. intimou o pivô de todo o esquema. o que não o retirava das redes de interesse e solidariedade que existiam no entorno das “chaves da liberdade”. No dia 26 de junho de 1879. tiraram outros objetos (. ou seja. os escravos. escravo da viúva Dona Porcina Maria Porciuncula e Mello.)”. e que alem destes objetos por outras vezes os mesmos Vicente e Procópio.. que conhecia as 23 chaves pertencentes a Procópio e sempre os via retirar os objetos no fim do dia de trabalho. apesar de ignorar o destino de tais objetos. Juviano era apenas mais uma peça de um incrível quebra-cabeça que o subdelegado deveria montar. importante ressaltar que o silêncio tinha um preço. apresentou-se na casa do subdelegado da Freguesia de N. pois por diversas vezes presenciou os furtos e para não se pronunciar recebera alguns “motivos materiais”. o subdelegado precisava ouvir os possíveis culpados e. este escravo era mais que conivente. Enquanto a sociedade ainda estava embevecida em sono. sem que as mesmas fossem arrombadas. Assim como outras pessoas. solteiro. misteriosos furtos que aconteciam nas malas de passageiros. podemos saber que o mesmo era conhecedor de que os furtos aconteceram diversas vezes. 9. Contudo. mas em suas palavras é clara uma dissimulação na tentativa de retirar qualquer gravidade dos fatos. p.13 Aparentemente. .. A sua conivência era gritante.Maio/2004 37 dado pelo referido Couto. filho de Henriqueta e natural da mesma freguesia em que residia. e João Gonçalves Couto.Revista Pilares da História .) que possuía uma porção de chavinhas que se achão em juízo. de trinta anos de idade. mais que encontrando entre ella respondente diverças malas e subtrahio 13 Idem. os escravos já haviam despertado para o trabalho. entretanto aproveitavam o momento de silêncio para lutar em segredo pela sua liberdade.

. Entretanto. cujo dinheiro era para a liberdade delle respondente. Pois os pequenos objetos não eram os únicos resultados das ações. Ibdem. Entretanto.. que segundo ele já estava em poder do subdelegado. sua amasiada. mas que só duzentos mil réis lhe pertence sendo 15 que os outros tresentos da preta Leonor”.38 Revista Pilares da História . (grifo nosso) Bom. que foi compradas com seu dinheiro e não furtada.Maio/2004 diverços objetos que se achão goardados dentro de dois baus de folhas que se acharão na senzala do preto Antonio escravo de Joaquim Alves Coelho e que elle respondente para ahi as havia levado a pedido do dito preto Antonio para guardar (. pois em seu depoimento acabava admitindo possuir outros pertences e uma quantia significativa em dinheiro.14 É notório que Procópio usa de sagacidade para emprestar um tom de casualidade e de pouca importância aos atos que praticava. os elementos envolvidos nos furtos das malas se multiplicam. p. que logicamente negara ter conseguido através da venda de alguns furtos. etc. 11. que sem intenção de abrir as malas já conseguia abrir algumas. assim como os efeitos. que serviriam para a compra de sua liberdade. Também destacava o fato de serem objetos de pouco valor. observemos a resposta de Procópio ao ser perguntado se além deste relógio de ouro não havia subtraído mais nada: “(. fica claro que existia uma ação coletiva em torno das chaves de Procópio. . Mesmo podendo ser mais uma artimanha de Procópio para que não perdesse todo o dinheiro. p. caso consideremos verídicas as suas palavras. é muito interessante o fato de revelar que apenas 200 mil eram seus e que a maior parte do dinheiro pertenceria a Leonor. cujo espaço de atuação não era apenas a estação ferroviária. podemos perceber o 14 15 Ibdem. seria muito interessante a associação de Leonor e Procópio para que juntos conseguissem a liberdade dele.. Para melhor compreendermos esta situação. nas palavras de Procópio.. mas todo o perímetro da freguesia de Pacobaíba. excetuando-se apenas um relógio de ouro. disse mais que existe quinhentos mil reis em mão da preta Leonor escrava de Joaquim Alves Coelho com que elle respondente está amasiado. Esta dissimulação torna-se fragrante quando afirma que tinha “chavinhas”. mas também tem lá muitas roupas de seu uso mesmo nova. Além disso. parece que este relógio não era a única exceção.) respondeu que tinha subtrahido alguns cortes de chita e lã e algumas peças de roupa que se achava tudo nas mesmas caixas. mesmo se considerarmos que esta sua revelação era apenas mais uma forma de dissimular. 12. Em primeiro lugar.)”. mas também existia a quantia de 500 mil réis.

uma outra questão que nos chama muito a atenção é a quantidade de pessoas envolvidas nesta trama de interesses e de luta cotidiana pela liberdade.Maio/2004 39 laço de confiança que existia entre eles. as palavras do preto Procópio tornam-se bastante reveladoras para a análise principal de nosso trabalho. respondeu que a preta Leonor quase sempre lhe levava comida.) que erão economia que fazia de deseseis mil réis que recebia mençal da Companhia para a sua alimentação. um escravo amigo que teria pedido para guardar os pertences em sua senzala.)”. Além das considerações que foram feitas até aqui. sendo Leonor uma escrava doméstica. tendo sua origem diversa do que poderia provir de roubos. pois ele afirma que recebia uma quantia de 16 mil réis para o seu sustento. Neste momento. Apesar de não ser um escravo ao ganho. a companhia deveria pagar um valor previamente combinado a sua senhora e além disso ainda concedia um valor específico diretamente ao escravo. Leonor. ela também conseguia juntar uma quantia ainda maior. e Antônio. Sendo o dinheiro “limpo”. pois do pouco que recebia mensalmente para o seu sustento. e que elle respondente tambem comprava pão e comia alguma cousa que lhe davão os outros na estação a onde trabalhava (. pois a conclusão de seu depoimento nos permite elaborar a hipótese de que esta rede envolvia muitas pessoas..Revista Pilares da História . ele comprava a comida e ainda sobrava para juntar uma quantia bastante significativa. que já havia prestado depoimento. Parece que isto não era problema para Procópio. 16 Ibdem. Mas as suas revelações não param nestes dois. No caso de Procópio. só poderia ser feito mediante uma cumplicidade capaz de evitar possíveis traições. além de seus parceiros de acusação e de Juviano. sendo assim.16 De acordo com sua palavras. Ora. poderíamos considerar Procópio como um exímio “economizador”. ele adiciona mais dois elementos.. era necessário explicar como era feita esta proeza. quando não era provido pela comida trazida por Leonor. perguntado quem o sustentava visto guardar a quantia destinada para isso. Procópio era alugado... Procópio tinha um valor mensal que poderia administrar. Ainda existia uma questão muito forte. A cada depoimento um nome era citado e mais um componente da rede era revelado. . e que mesmo não sendo suficiente para lhe prover a liberdade seria uma importante justificativa para os ganhos adicionais que fazia com os roubos das malas. pois tinha uma reposta com argumentos muito bem arquitetados: “(. sua namorada. muitas delas que não foram sequer ouvidas. Além disso. pois afirmar em juízo que o dinheiro era “limpo” e que pertencia a Leonor.

quando fala do português. o mesmo Couto se empregou como trabalhador da estação. disse mais que é verdade que por diverças vezes elle respondente tinha cometido esses furtos mais que sempre forão cousas insignificantes porem sabendo o dito Couto disso empregasse como trabalhador na mesma estação e quando elle respondente abria as malas o dito não se contentava com objetos de pequeno valor (.17 O silêncio era comprado através de algumas coisas que eram dadas para os trabalhadores que assistiam ou tinham ciência dos furtos. o português não se contentava e que na última vez que o fizera. Assim. evidenciando uma parceria mais estreita no negócio.. disse mais que os furtos mais importantes forão praticados era auxiliado pelo trabalhador da mesma estação João Gonçalves Couto. mas que ao saber disso. .. Quando lhe foi perguntado se quando ele subtraía os objetos tinha ajuda de alguém. e que no dia seguinte quando elle rspondente recebeu as chaves perguntou o que havia achado dentro da cachinha e que Couto respondeu que tinha achado uns brincos e umas cousa a toa. talvez por precaução. filho de João Couto. respondeu que: “(.Maio/2004 mas que mesmo indiretamente tinham participação no caso. o mesmo Couto havia ficado com várias peças de roupas de homem e de mulher. mas que um homem livre pobre era admitido na rede de cumplicidade. não cita o nome de Vicente.. Não sabemos o número desses trabalhadores. Procópio afirma a participação direta de João Gonçalves Couto e.40 Revista Pilares da História . tanto assim que uma vez o dito Couto levou para sua residência uma cachinha de madeira que se achava fechada a chave. p. de 17 Ibdem. As acusações feitas contra o português Couto demonstram que o golpe das “chaves da liberdade” era praticado essencialmente pelos escravos. deixa de lado o tom de pouca importância e assume uma posição acusatória. além de uma caixa de veludo colorida contendo um par de brincos de brilhante que foi levado para casa através de Alfredo.) na maioria das vezes era nos fundos dos saveiros e que alguns companheiros via mas que elle respondente sempre lhes dava algumas cousas para elles não publicarem.)”.. 13. Segundo Procópio. podemos supor que há uma preocupação em preservar o companheiro de cativeiro Vicente. tendo em vista a necessidade do emprego de várias pessoas no trabalho da estação. mas imaginamos que não seria um número pequeno. curiosamente. todas as vezes que abria as malas e achava coisas de pequeno valor. Ao contrário. dizendo que nas diversas vezes que havia cometido os furtos afanou coisas insignificantes. Além disso.

Assim. ele não deveria interferir nos fatos ocorridos. demonstrando quem eram os principais responsáveis pelos acontecimentos. vestígios ou minúcias que são extremamente importantes para o prosseguimento de nossa abordagem. foi feita a inspeção na casa do senhor Joaquim Alves Coelho. sem se lembrar da data ao certo. pois estava presente um trabalhador branco. à exceção de Procópio. onde foram encontrados dois baús fechados a . como não o fizera. natural da Freguesia de Guia. de forma que pudesse recuperar os objetos furtados na Estrada de Ferro Petrópolis. Ao chegar na Estação de Mauá. Couto. o que não configuraria culpa alguma neste negócio. pois só teria recebido uma camisa branca já usada. o português João Couto. deveria ser o maior culpado. estes documentos nos apresentam detalhes. Para Vicente. Parece que a cobiça de Couto foi crucial para a descoberta da trama. que teria a responsabilidade de delatar os furtos que haviam sido praticados e. Além disso. solteiro. há uma clara preocupação em proteger Procópio. assim como todos. em ocasião nenhuma ela presenciara a prática dos furtos. de trinta e tantos anos presumíveis. a cidade imperial. as acusações são veementemente negadas. Juviano. levando todos a serem investigados como autores de crimes contra o patrimônio dos passageiros e que faziam a baldeação dos saveiros que chegavam do Rio de Janeiro através da Baía de Guanabara para o trem que tinha como destino Petrópolis. filho de Rita. a não ser em um dia de domingo. examinando-se todas as salas. escravo de Joaquim Alves Coelho e na casa da viúva Porcina Maria Porciuncula e Mello. fazendo-se abrir as portas fechadas e nada foi encontrado. A paciência e a discrição eram as principais armas que permitiriam o sucesso das ações e. a cobiça em conseguir valores mais expressivos fosse o principal perigo em ter todo um trabalho arruinado.Maio/2004 41 forma que também não desvelasse a trama praticada bem antes de sua entrada na Companhia Mauá. Segundo Vicente. pois além de acrescentar outras pessoas que também tinham participação nos furtos. Da mesma sorte. pois existem vários elementos que corroboram com a nossa idéia de que Estrela era cenário de uma forte confluência de características sociais do rural e do urbano.Revista Pilares da História . que franqueou a senzala onde vivia o seu escravo Antônio. Mediante os depoimentos. escravo do coronel Manoel Luís Alves. onde foi procedida a mais minuciosa busca. em Estrela. visivelmente Vicente procura dar uma maior proporção à culpa que Couto teria. seu companheiro de cativeiro. encontrou Procópio. quartos e lugares. na senzala de Antônio. Mas que ele jamais havia participado de qualquer coisa. o subdelegado imediatamente executou o auto de informação para a busca e apreensão na casa do português João Gonçalves Couto. o moleque Amâncio e o vigia da estação e que de longe percebeu que todos buliam nas bagagens depositadas. No depoimento de Vicente. A diligência de busca e apreensão iniciou-se pela casa de João Gonçalves Couto. talvez. O resultado desta busca e apreensão nos revela o desfecho do caso.

presumidamente. pois para nós esta confusão também é um sinal bastante forte das complexidades sociais que se configuraram na região onde se situava a vila de Estrela. que era amasiada de Procópio. sendo que neste caso dos 58 objetos que estavam em seu poder a maioria eram. Contudo. Procópio era alugado. que permitiu a entrada no quarto do preto Procópio. os objetos encontrados com Antônio eram de valor insignificante. sendo que neste lote a presença de bens feitos de ouro. na verdade Procópio era um crioulo natural da Freguesia de Nossa Senhora da Guia de Pacobaíba. entre eles meias. o dinheiro foi entregue por Luíza. uma modalidade de trabalho escravo muito mais recorrente no setor urbano. pois a senhora de Procópio assina um termo de entrega. que também era de propriedade de Joaquim Alves Coelho. portanto compartilhava a mesma senzala com Leonor e Luíza. onde dispõe outros objetos para o subdelegado. que foram abertos com as próprias chaves de Procópio. pois entre eles encontravam-se relógios de ouro. É proposital esta descrição confusa que pretendemos registrar. parte do valor que Procópio havia referido em seu depoimento. Como podemos perceber. apesar da quantidade expressiva. e continham um total de 109 objetos. a senhora Porcina também participava da rede de cumplicidade.42 Revista Pilares da História . Era amasiado com uma escrava de . brincos de brilhante. na vila de Estrela. que era amiga de Leonor. que pertenciam ao senhor Joaquim Alves Coelho e que os objetos foram todos levados para a sua residência por Procópio. nos permitindo supor que Procópio preocupava-se com os objetos mais valorizados. A complexidade e a confluência social que estamos apresentando tornam-se ainda mais flagrantes quando isolamos a figura de Procópio para posteriormente contextualizá-lo em toda esta situação. gravatas. A partir deste momento a situação começa a ficar ainda mais interessante. No máximo encontramos alguns pares de brincos de ouro ou brilhante que se encontravam dentro de caixinhas de veludo. o termo de entrega feito por dona Porcina também continha 362 mil réis. o que não significa a sua completa inexistência no setor rural. Apesar de ser denominado como um preto. Segundo ela. que era amigo de Antônio. senzala esta onde se encontrava a maior parte dos objetos roubados por seu amigo Procópio. entre outros.Maio/2004 cadeado. respondeu que nada sabia de furtos e roubos que ocorriam na estação. ocupando-se pessoalmente com a sua guarda. uma escrava amiga de Leonor. Interrogada sobre o dinheiro e as jóias que estavam em seu poder. lenços. diamantes é mais expressiva. pois recebera a escrava Luíza. onde vivia desde o seu nascimento e que trabalhava havia mais de dez anos como empregado na Companhia Mauá. de valor significativo. onde também foi encontrado um baú pequeno contendo mais 54 objetos. leques. braceletes de ouro e prata. Além destes objetos. chapéus. Neste caso. a diligência não se restringiu a esta apreensão e as autoridades delegadas para este trabalho dirigiram-se até a casa de dona Porcina Maria Porciúncula e Mello.

Entretanto. Toda essa complicada relação compôs-se em função das condições possíveis mediante o avanço da modernização urbanística que avançava no ritmo do vapor que se soltava das embarcações e das locomotivas que modificavam não apenas o transporte responsável pelo escoamento da produção para o litoral. também tinha a confiança de Antônio.Maio/2004 43 outro senhor. possivelmente usou sua influência política. onde incluem-se senhores. mas também os padrões sociais que por sua posição propícia tornava a vila de Estrela um lugar de confluência entre os padrões de sociabilidade do campo e da cidade. foi aceita a sua solicitação de que seu processo deveria tramitar em separado dos escravos. parece que no final das contas Procópio foi o único a ser responsabilizado por tudo que havia acontecido. Além disso. e. possivelmente o escravo mais velho da senzala localizada na propriedade de seu senhor. sendo que a sua senhora deveria pagar as custas do processo. que incluía uma extensa lista de companheiros e cúmplices interessados em aumentar os ganhos a que regularmente tinham acesso ou até mesmo serem felicitados com uma tão bem vinda liberdade. Os escravos. o caso do preto Procópio e das “chaves da liberdade”. proprietária de Procópio. Não estamos diante de nenhum processo revolucionário. homens livres pobres e escravos. foi-lhe imposta a pena de quatro anos de galés. 20 açoites e um ano de ferro no pescoço. o coronel Manoel Luís Alves contratou um advogado de defesa e. Após a apelação feita por seu curador público. Todo este relatório demonstra o tamanho expressivo da autonomia de que Procópio desfrutava. Procópio sem dúvida era o principal responsável pelos delitos cometidos na Companhia Mauá. Já Procópio foi condenado a oito anos de galés. pois segundo o relato das autoridades. Quanto a Vicente. A situação de João Gonçalves Couto não temos como saber. assim como todos os seres humanos. nos mostra que a luta contra o cativeiro poderia ter outros traços além da face da violência. Procópio também era “mentor” do plano discreto e silencioso que poderia promover a liberdade de sua pessoa e a de outros escravos que estavam em sua volta. pois o acusado foi absolvido. o seu senhor. marcado por um perigo mortal para a ordem que era tão prezada pela elite senhorial. Pois uma complicada teia de interesses desvela-se no decorrer de seu processo de apelação. Proprietário das chaves. Leonor. com objetivos ambiciosos. sendo o principal elemento de uma extensa rede de agentes sociais que se solidarizavam e tinham cumplicidade. Uma outra questão bastante interessante revela-se quando houve a diligência na casa de dona Porcina. não era o único. 10 açoites e 15 dias de ferro no pescoço.Revista Pilares da História . abriu-se “a porta do quarto do escravo”. além da relação que mantinha com outros escravos alugados na estação. o que representa um posição de liderança entre os seus pares. pois como homem livre. mesmo . entretanto. Apesar da formação de uma longa rede de interesses que revela a diversidade das interações sociais que tiveram vulto na região.

aliados a uma microanálise. Caixa 3668. Ano II _ Edição Especial. bem como a forma como era percebida a vida social pelos elementos que compunham os demais segmentos sociais. Este caso é um bom exemplo para nos mostrar que a história da luta pela liberdade na região do Recôncavo da Guanabara não se restringiu à fuga e à formação de quilombos. BEZERRA. Nielson Rosa. Duque de Caxias. 1992. Ano II _ Nº 2 _ maio de 2003. Arquivo Nacional. podem ser desafiadores dos determinismos que foram estabelecidos pelos estudos generalizantes. 1880. alcançou níveis muito mais prolongados. CHALHOUB.44 Revista Pilares da História . Fontes Arquivo Nacional. Nielson Rosa. Sidney. 2000. pois usavam a sua capacidade humana para formar interações sociais que alcançavam outros elementos da complexa sociedade escravista. 1999. . Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. pois estes enquanto agentes sociais não viviam isolados na sociedade. 2. Clio. Vila de Estrela. Maço 131. podemos colher conclusões reveladoras que podem contribuir significativamente para a produção historiográfica que tem se multiplicado a respeito do tema. Peter. Vila de Estrela. Tensões e interações das relações sociais em torno do regime escravista na Freguesia de Santo Antonio de Jacutinga. A Escrita da História: Novas perspectivas. estas contribuições podem ser ainda mais preciosas. se houver um despertar corajoso para os estudos regionalizados que. In: Hidra de Igoassú: Caderno de Textos de História Local e Regional. Ao contrário. Nº 1046. 1870. 25-32. Assim. Sendo assim. Corte de Apelação (Escravos). São Paulo: Companhia das Letras. Corte de Apelação (Escravos). São Paulo: Unesp. P. 1. Referências bibliográficas BEZERRA. BURKE. Rebeldia e Repressão na Baixada Fluminense _ Século XIX. In: Revista Pilares da História: textos sobre a História de Duque de Caxias e a Baixada Fluminense. aproveitando as articulações culturais que aconteciam em um espaço de circulação econômica. podemos afirmar que um estudo sistematizado sobre o escravismo pode ser um estudo que ultrapassa a construção do conhecimento sobre os próprios escravos. Processo 6813. desejavam a liberdade acima de qualquer outra coisa. atingindo um padrão que exigia um avançado grau de conhecimento sobre visão de mundo dos escravos.Maio/2004 gozando de prestígio com seus senhores ao ponto de ostentarem uma autonomia ampliada. Ao concentrarmos nossa atenção em uma região de passagem.

. Campinans: Unicamp. A África e os africanos na formação do Mundo Atlântico (14001800). Rio de Janeiro: José Olympio. Em torno da autonomia escrava: uma nova direção para a história social da escravidão.Revista Pilares da História . A Micro-história e outros ensaios. Carlo. SOARES. História de quilombolas: mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro _ século XIX. Rio de Janeiro: FGV. PERES. Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. 1996. Gilberto. In: Revista Tempo. A capoeira escrava e outras tradições no Rio de janeiro (1808-1850). 1998. 1974. Rio de Janeiro: Campus. V. Unicamp. Carlos Eugênio L. Maria Yeda Leite. Casa Grande e Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. SOARES. João José e SILVA. São Paulo: Companhia das Letras. THORNTON. Da Micro-história à História das Idéias. Guilherme. Maria Helena P. Maria Silvia de Carvalho. A. São João de Meriti: IPAHB. Dissertação de Mestrado.. 1989. GOMES. J. S. 1974.Dissertação de Mestrado. 2001. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Duque de Caxias: Consócio de Edições. 1989. MACHADO. VAINFAS. Através de um prisma africano: uma nova abordagem no estudo da diáspora africana no Brasil Colonial. Zungú: rumor de muitas vozes. REIS. 2001. Campinas: Ed. . Rio de Janeiro: Campus. P. São Paulo: Companhia das Letras. A herança imaterial: Trajetória de um exorcista no Piemonte do século XVII. Vol. 1988. 1990. Jacques (Org. Rio de Janeiro: APERJ.Maio/2004 45 FRANCO. Baixada Fluminense: os caminhos do ouro. J. S. 6 _ Nº 12. São Paulo. 1992. 2000. FREITAS. p. Jogos de escalas: a experiência da microanálise. T. FRÓES. Homens Livres na Ordem Escravocrata. Eduardo. F. RUSSEL-WOOD. 1975. S. Vania. Micro-história: Os protagonistas anônimos da História. Ronaldo. 8 _ Nº 16. 3-16. Julho/Dezembro. LINHARES. São Paulo: Companhia das Letras. REVEL. e GOMES. e SOARES. F. Carlos Eugênio L. 2002. 1998. Rio de Janeiro: Bertrand. In: Revista Brasileira de História: Escravidão. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Dizem as quitandeiras. 1999. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. 1987. John. São Paulo: Ática. Carlo. Giovani. Rio de Janeiro: Campus. Niterói. GOMES. GUINZBURG. GUINZBURG. In: Acervo: Revista do Arquivo Nacional. p. Município de Estrela (1846-1892). Carlos Eugênio L. 143-160. REIS. 2002. Dezembro. Guilherme. 15. História Geral do Brasil. F. PERES. Tropeiros e viajantes na Baixada Fluminense. século XIX. Niterói: UFF. Paulo: Cortez. FREIRE. Ocupações urbanas e identidades étnicas em uma cidade escravista: Rio de Janeiro. 1996.). LEVI. Marcos C. S. 2000. 11-50. 2004. R. Nº 2. Vol. J.

para os chamados Tempos Modernos. Mais tarde. A identificação e o cadastramento do patrimônio arquitetônico sobrevivente foram a possibilidade tentada para reconstruir uma história verdadeiramente popular. Nosso parâmetro metodológico consistiu em acompanhar roteiros previamente escolhidos a partir do estudo da história regional. com o loteamento desenfreado que tanto marcou a história local no século agora passado. elaborou-se um inventário de imóveis e lugares considerados de valor histórico e cultural para a comunidade. Espalhados e pouco conhecidos até pelos próprios habitantes.Maio/2004 MEMÓRIA FERROVIÁRIA DE UMA CIDADE Jorge Luis Rocha 1 São João de Meriti. aguardente de cana e mantimentos se espalharem durante os séculos XVII e XVIII até terem de compartilhar espaço com as fazendas e situações de café e de criações variadas no século XIX. Entre 1996 e 1997.46 Revista Pilares da História . estradas ferroviárias e rodoviárias eram relacionados e visitados na medida em que revelavam a importância de seus papéis na ocupação e desenvolvimento locais Professor de História Econômica da Faculdade de Filosofia. remonta às primeiras décadas da colonização portuguesa. poucos indícios ainda podem ser encontrados no município. por vezes. pode-se dizer. Sua região. 1 . tem uma história muito antiga que. Chefe do Núcleo de História Oral e Visual do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro. sua recuperação aprofunda e modifica o conhecimento da histórica meritiense. com o apoio da Prefeitura Municipal. E assim. parte da Baixada Fluminense.. assistiu aos engenhos e engenhocas de açúcar. Ciências e Letras de Duque de Caxias (FEUDUC). Rios. hoje mais baseada em analogias estapafúrdias e na imaginação de historiadores que. estão preocupados em preservar a memória da epopéia _ nem sempre heróica _ da elite meritiense. o surgimento do grande aglomerado urbano de hoje. caminhos terrestres. enfim.. desse processo histórico de ocupação do território e de transformação das formas de apropriação e utilização do solo. Entretanto. recebeu as chácaras que precederam. município do Estado do Rio de Janeiro.

pequenos povoados nasceram para facilitar a circulação de mercadorias das regiões produtoras e o provimento de suas necessidades. intensificando o povoamento do interior. durante a segunda metade do século XVI. Dados retirados da Enciclopédia dos municípios brasileiros. latifundiária e escravista. sem concorrer com ela e com o máximo de lucratividade. Os primeiros passos dados no sentido de ocupar a área que. Por esse raciocínio. datam de aproximadamente 1566.Revista Pilares da História . acreditamos que. em 1747. corresponde a São João de Meriti e arredores. se organizaram de acordo com os interesses expressos pelas práticas mercantis estabelecidas pelos colonizadores portugueses: a colônia deveria produzir o que a metrópole não tinha condições de fazer. voltou a localizar-se às margens do rio do qual tomou seu nome. 1959. A igreja matriz _ sede administrativa e religiosa da freguesia _ foi deslocada algumas vezes de lugar de acordo com as circunstâncias. Um pouco da história local De acordo com a visão tradicionalmente aceita pelos historiadores _ e da qual não existem ainda sinais contrários substanciais para não aceitá-la _. pp. que foi caracterizada pela agricultora monocultora. diante da foz do rio Meriti. quando as primeiras doações de terras começaram a ser feitas pelo governo colonial. Rapidamente. 2 . viria a marcar o perfil da produção agrícola regional. à medida que se implementava a agricultura e a criação de animais. cresceu até receber o reconhecimento real pelo alvará régio de dez de fevereiro de 1647: São João Batista de Trairaponga. Esperamos poder assim preservar aquele projeto e. o povoado situado em uma elevação fronteiriça à baía. mais tarde. sob a forma de lotes chamados sesmarias. ao mesmo tempo. a exploração da terra sob o tacão da busca incessante de lucros e poder. tendo recebido outras denominações quando. então. No atual estágio de conhecimento sobre o passado fluminense. mostrar um pouco do que foi coligido. à volta da _ ainda _ Vila de São Sebastião do Rio de Janeiro. se estabeleceram culturas de gêneros de exportação e subsistência.Maio/2004 47 e nos serviam de ponte para o passado e a realização de um inventário de pelo menos parte do processo. 413-415. em nossos dias. O trabalho ora apresentado pretende relatar de forma simples _ quase intimista e saudosa _ alguns aspetos da pesquisa original que acabou abandonada quando o apoio institucional foi retirado. Rio de Janeiro: IBGE. Deu-se. 1. passando a chamar-se oficialmente São João Batista de Meriti 2. O que não impediu o florescimento da produção daqueles gêneros agrícolas voltados à sobrevivência diária dos pioneiros e suas famílias e que. os primeiros núcleos de povoamento no interior das terras que cercam a Baía da Guanabara. volume XXII.

por exemplo). nos primórdios do século seguinte. não conseguiu atender aos interesses dos novos grupos sociais emergentes patrocinadoras e principais beneficiárias do golpe de Estado que instalou a República no Brasil. já transformado em distrito de Nova Iguaçu _ o nome mudara um pouco antes _ e denominado então Pavuna. O desenvolvimento do capitalismo em nosso país minou as relações de produção escravistas que começaram. agora ligadas ao processo de loteamento das antigas fazendas e sítios. a ser substituídas pelo trabalho assalariado e assemelhados. lentamente. permitiram o progressivo abandono das vias fluviais e dos caminhos terrestres _ e os seus inconvenientes _ possibilitando a incorporação.Maio/2004 Embora na região as propriedades rurais não fossem muito extensas e o número de escravos relativamente pequeno. se comparados aos de outras áreas tidas como “de ponta” da economia colonial (como as do Nordeste. já com o nome de Meriti. . As atividades econômicas ligadas à agricultura haviam sido substituídas definitivamente por aquelas relacionadas ao comércio e à prestação de serviços. ao longo das décadas de 1930 e 1950.255 habitantes. possuía 8. Entre elas.569 moradores. O loteamento trouxe a especulação e a grilagem. A ocupação do solo ganhou novas dimensões. A monarquia. fez progredir. as ferrovias implantadas a partir de fins dos oitocentos. defensora dos interesses dos proprietários de terras e escravos. muitas freguesias da região. Um exemplo: no Censo de 1920 o povoado. Neste período. A este processo somaram-se as obras de saneamento e a abertura de estradas de rodagem. em fins do século XVIII as atividades agrícolas e comerciais permitiram a efetiva ocupação do território e a formação de uma elite local relativamente enriquecida. As transformações econômicas e sociais ocorridas ao longo do século XIX tornaram superado o regime monárquico. Meriti atingiu seu apogeu econômico-social. ao crescimento da Cidade do Rio de Janeiro. Dos arredores das estações expandiu-se em outras direções acompanhando o desenvolvimento da cidade. Era o segundo em densidade demográfica na região à qual pertencia. Meriti. de suas circunvizinhanças. Grosso modo. Sob sua jurisdição reuniram-se os principais povoados do oeste da Baía da Guanabara. De modo geral. com o transbordo de mercadorias e passageiros. que cederam lugar aos bairros mal planejados. Em nossa pesquisa ficou demonstrado que as linhas férreas permitiram a ampliação do aglomerado urbano primitivo nascido às margens do rio Meriti. que foi elevada à condição de sede de um novo município criado em 1833 _ no bojo de uma série de iniciativas administrativas típicas do período regencial. Iguaçu. se estabeleceram as bases da “cidade dormitório” que hoje o notabilizam _ pejorativamente. Vinte anos depois.48 Revista Pilares da História . contava com 39. inclusive. A expansão cafeeira fluminense.

armarinhos. Já os movimentos de ocupação e utilização do solo caracterizam-se pelo reloteamento. foi concluído em 1947.673 são mulheres3. Benício. se tornaram imprescindíveis à redefinição da história local recente. era de propriedade particular e fora batizada como Estrada de Ferro Rio D'Ouro. dos quais 233. e a leste e a oeste com Duque de Caxias e Nilópolis. passou a levar passageiros um ano após ser encampada pelo Governo Federal. no que se convencionou chamar Grande Rio de Janeiro. o processo de emancipação política do distrito. Construída inicialmente para transportar material e para a manutenção da adutora que foi instalada na serra. quando foi transferida ao poder público e 4 passou a compor a Estrada de Ferro D. Suas obras foram concluídas em 20 de março de 1882.1. O Ramal Belford Roxo Esta via ligava a Quinta do Caju. Todos hoje incorporados à empresa Super Via. com cerca de 53 quilômetros de extensão. ligado ao Partido Social Democrático (PSD). 55. São João de Meriti integra a área metropolitana da Cidade do Rio de Janeiro. calçados e medicamentos. eletrodomésticos. José Manhães. durante a expansão do capitalismo europeu _ que assumia em alguns países sua forma monopolista e financeira com a associação entre banqueiros e industriais _. Para São João de Meriti são de especial atenção a Linha Auxiliar da Estrada de Ferro Central do Brasil. as chamadas linhas suburbanas.Revista Pilares da História . cuja “máquina eleitoral” fora muito bem montada durante os anos de intervenção estadual pós-Revolução de 30. A população atingiu a marca de 449. Inaugurada em 1876. O vapor nas ferrovias do Brasil. as principais atividades econômicas restringem-se às indústrias de transformação e ao comércio de gêneros alimentícios. Guimarães. no bairro carioca de São Cristóvão (mais tarde chamada Estação Francisco Sá). O primeiro prefeito eleito foi o Sr. seus ramais Belford Roxo e São Mateus e a pequena seção que ligou estas duas ferrovias: o Ramal Circular da Pavuna. Pedro II . criado em 1943. Petrópolis: Ed. 2. 1993. Hoje. articulado por representantes das famílias tradicionais.562 habitantes. Limita-se com Nova Iguaçu e Rio de Janeiro.Maio/2004 49 Após um breve período sob a jurisdição do município de Duque de Caxias. 2. p. Chegou a 3 4 Dados do Censo de 2000. às represas do Rio D'Ouro (Estação Ponta-dosTrilhos). partindo da capital em direção ao interior da Guanabara. ferragens. respectivamente. tecidos em geral. em sua maioria. especialmente o inglês. Ferrovias Originalmente construídas com capital estrangeiro. Jornal da Cidade. ao norte e ao sul. .

em especial durante as décadas de 1930 e 1950. Em Meriti esta ferrovia ergueu as estações de Pavuna. em meados da década de 1920. o conjunto arquitetônico formado pela Praça Getúlio Vargas.50 Revista Pilares da História . antes “Rua do Encanamento”. Neste roteiro avulta pela sua importância para a história local. 6 5 . Nascimento. com academias de ginástica. p. no Rio de Janeiro. a Igreja de São João Batista e o Brito. São João de Meriti: edição do próprio autor. Vila Rosali. Vasconcellos. 1961. Uma caminhada. Rio de Janeiro: e/ed. Situação que permanece. Vias brasileiras de comunicação. bares e lanchonetes. mesmo após a privatização de nossa malha ferroviária. Arlindo. tendo sido um de seus trechos transformado em “calçadão”7. devido às tubulações que fizeram a ligação da capital com as represas do rio D'Ouro. Nac. inaugurada em 15 de janeiro de 1883. Outra presença a se destacar é a do setor de serviços.º distritos do município pelos bairros do Centro. então. quer isoladamente ou em pequenas galerias comerciais..º e 3. seguindo o antigo traçado da ferrovia. Meio século de estradas de ferro. É um simples passeio que _ ainda assim _ resgata de maneira algo ingênua o processo de urbanização desses logradouros facilitado pela ferrovia. em declive suave. escolas. pp.. entre outras. passando por localidades como Jaceruba. A paisagem urbana que se descortina agora é a típica das áreas populosas da Baixada Fluminense: trânsito intenso e caótico nas horas de maior movimento. de Geografia. É um caminho pouco sinuoso.Maio/2004 alcançar 146 quilômetros de extensão. Nela concentram-se os principais pontos comerciais dos dois distritos alcançados pelo roteiro. Viria. como era chamada quando se estendia das estações de Alfredo Maia. Tinguá e Xerém. Agostinho Porto e Coelho da Rocha. 27e 33. calçados e medicamentos. Multiplicam-se as lojas de armarinho. À volta de cada parada mencionada formaram-se núcleos que deram origem a diversos distritos e bairros meritienses. roupas. assim como Agostinho Porto e Coelho da Rocha. 7 Alguns dados foram retirados de Medeiros. 1958. de 1929. Max. s/d. Ainda estão presentes na paisagem desses dois importantes pólos econômicos muito do casario e das praças erguidos no período referido. Pedro II pelos dirigentes do regime político instalado em 1889 _ receosos com os fantasmas da monarquia. Posteriormente foi incorporada ao patrimônio da Estrada de Ferro Central do Brasil _ nova denominação dada à D. Sua evolução se deu sem qualquer planejamento. Rio de Janeiro: Cons. ruas mal traçadas e sujas com variado comércio _ formal e informal _ e serviços. atravessa os 1. Memória histórica de São João de Meriti. 6 cujas datas de instalação não foram encontradas na bibliografia consultada . Pelo lado esquerdo percorre-se a Rua da Matriz. Vila Rosali. até Belford Roxo5. 177. a compor a “Linha Auxiliar" ou "Linha 2”.

indo das estações de Costa Barros a Eng. Posteriormente. Pedro de Alcântara. A praça. participou do planejamento e execução da planta e das obras do templo8. No interior há um grande painel pintado sobre o altar-mor. p.Revista Pilares da História . Em 1932 passou a sede da paróquia. localizada na confluência da rua Coelho da Rocha com avenida Carioca _ próxima à Rodovia Presidente Dutra (BR-116). As principais paradas Informações sobre os locais foram selecionadas da obra São João de Meriti: um balaio de idéias. quando recebeu o atual nome . encontra-se a Praça Castelo Branco. Destacam-se as janelas arcadas e os vitrais coloridos. Minas Gerais. cit. A praça já se chamou Carioca e foi criada no processo de loteamento da área que deu origem ao bairro. Figueira de Melo/RJ) indo até Porto Novo do Cunha. 2000. A Igreja teve sua construção iniciada em 1875 sob o patrocínio das famílias que representavam sua elite agrícola e mercantil. Op.Maio/2004 51 Jazigo da Irmandade do Sagrado Coração. Também acabou incorporada à 9 antiga Central do Brasil. A área acabou ocupada pelo Educandário D. 9 Guimarães. sofrendo sucessivas reformas que diminuíram sua área e modificaram suas formas sensivelmente. sendo inaugurada em 29 de março de 1898. inclusive. executado pela Empresa Cavalcante e Junqueira na década de 1920. que. mas preferimos fazê-lo em uma próxima oportunidade. 54-56. A antiga estrada foi construída com capitais ingleses. sob a administração do padre Plácido de Broders. 53. Chegou a ter 167 quilômetros de extensão e chamava-se Estrada de Ferro Melhoramentos do Brasil. B. Pedreira. 2. referida pela população como Praça da Matriz. No bairro de Agostinho Porto. encontrava-se na já mencionada Praça Getúlio Vargas. hoje. Localizada ao lado da Praça Castelo Branco. está localizada na confluência das ruas Manuel Teles com Matriz. sobressai o Monumento à Bíblia que. sua construção foi financiada por doações feitas pela população e pelo próprio religioso. Com seu formato retangular. anteriormente. de minha autoria. Ramal São Mateus Começava nas proximidades da Estação de Alfredo Maia (r. Hoje está reduzido à condição de ramal da Linha 2 (ou Auxiliar). Centro.2. 8 . Inaugurada em 1949 pelo Monsenhor José Boggiani. Rio de Janeiro: Fábrica de Livros. pp. tem forte sentido de verticalidade e traços influenciados pela arquitetura italiana. Outros testemunhos do passado recente poderiam ser elencados a partir deste roteiro. pelo engenheiro Paulo de Frontin. Esta foi fundada em 27 de julho de 1919. Outra importante igreja relacionada no inventário que inspirou este trabalho é a de Nossa Senhora das Graças. Colégio Fluminense. O antigo jazigo pertencia ao Cemitério da Irmandade do Sagrado Coração. pequenos jardins e bancos feitos de cimento. o cemitério foi encampado pelos órgãos públicos e transferido para outro local. Foi inaugurada oficialmente em 10 de março de 1891. em 1903.

º distrito (São Mateus) de São João de Meriti.10 Tomazinho.. simplesmente Meriti). tomada como ponto de partida de nova caminhada pela história local. por volta da primeira metade do século XX. Esta localidade nasceu a partir do loteamento desenvolvido pela Companhia Segurança do Lar.52 Revista Pilares da História . A área central do distrito.. Nessa época. Tomazinho. Ramal Circular da Pavuna Aberto ainda no princípio do século XX para ligar as estradas de ferro Rio D'Ouro e Melhoramentos do Brasil. por sua vez. Medeiros. Dentro do município de São João de Meriti: São Mateus. cessionário do sr. criando os bairros de São Mateus. Nosso roteiro de visitação cobriu exatamente as ruas e bairros adjacentes ao percurso da ferrovia que incentivou a ocupação moderna da zona do 2. M. 301. Jorge L. p. compreendendo tanto antigas edificações restantes dos núcleos gerados pela ferrovia como construções mais recentes. cit. cit. 7 de julho de 1910. Rocha Sobrinho. Belford (Antônio Sales Nunes Belfort. 100. Nicolau Luiz Cardoso Guimarães (em 1927). Vila Meriti (depois. cit. Magno. José Diez de Lima. Nosso ponto de chegada foi a Praça Aldo de Albuquerque. teve suas estações inauguradas. foi loteada a partir dos terrenos inventariados no espólio do sr. então abandonada12. o bairro chamava-se Itinga (“águas claras”) e a lenda foi criada pela empresa de loteamento para chamar a atenção. tornou-se urbana e reúne elementos arquitetônicos desse último período. sem data conhecida e hoje inexistente. cortada por pequenas estradas e riachos. mais conhecida pelos moradores como Praça de Éden.3. p. Andrade Araújo e Japeri. O que era antes uma zona agrícola. São Mateus. Nossa tentativa de preservação do passado histórico meritiense sugeria a recuperação da antiga Estação de Éden. 41. Rocha Miranda. 12 Rocha. e a de Éden. Vasconcellos. Op.. Na bibliografia consultada. 27 de julho de 1911. Op. Pavuna. responsável pela obra _ o costume popular “alterou” a grafia para Belford). p. Eng.Maio/2004 desta linha eram: Triagem. A. 2. Op. Éden e parte do Grande Rio. Os mais idosos costumam relembrar suas infâncias “atemorizadas” pela ação de uma bruxa que perambulava pelas imediações no início da década de 1930. em 11 de setembro de 1910. Com o tempo acrescentou-se à história o detalhe de que a personagem se escondia na estação. 11 10 . inaugurada em 11 de setembro de 1910. de 29 de dezembro de 11 1914 . segundo o historiador Arlindo de Medeiros. nos anos 30. que passou a pertencer à vida e ao imaginário da população local. respectivamente.

14 Rocha. atravessando parte dos 1. cit. Sobre a Estação de São Mateus. que foi funcionário público. J.º e 2. Francisca César _ antiga União). é possível afirmar que sua construção data de fins da década de 1910. Eng. a Chácara Nhãnhã encontra-se em precárias condições de conservação. O ramal foi construído em terras de propriedade dos herdeiros do finado major Augusto César. Conclusão Muito podemos aprender sobre nosso passado recente. O primeiro dirigia-se ao antigo Porto da Pavuna (foco original da ocupação territorial) e era conhecido pelos moradores como “Caminho Velho de São Mateus”. 3. Favorecidas pela facilitação do transporte. Op. em cuja margem foi construída a estrada de ferro. 33. Além do prédio da parada ferroviária. foram objeto de um projeto de loteamento realizado pela Empresa Territorial Construtora Progressista. cit. nas imediações. que recebeu o nome de Galdino da Rocha até 193113. L. Sua recuperação nos revelaria um dos aspectos mais ricos da história meritiense: o que se caracterizou pela formação de chácaras e granjas que precederam 14 a atual fase da ocupação . Desativado definitivamente na década de 1980. Belford e São Mateus.º distritos do município pelos bairros do Centro. O outro levava até a Vila de Meriti. descobriu-se um casarão arruinado que a comunidade identifica como a Casa da Raiz.. o leito está sendo transformado em áreas de lazer e ciclovias pela prefeitura local. Construída no início do século XX. Ao olho treinado a história pode estar ao alcance de nossas capacidades. Não confundir com a Estação de São Mateus do Ramal de mesmo nome.Revista Pilares da História . em fins da década de 1920 (o projeto se estendia da rua major Augusto César até a r. pelo sr. p. Está localizada na confluência de dois caminhos terrestres muito antigos. Op. ainda existente neste último bairro. Embora sejam vizinhas. delegado e vereador.Maio/2004 53 não constam as datas de inauguração das estações de Costa Barros. O roteiro segue o percurso desta linha férrea. no Rio de Janeiro (então pertencente ao ramal) e São Mateus. seus prédios e rede de trilhos são totalmente independentes. Esperamos que este breve passeio tenha despertado novos comportamentos diante daquilo que vemos mas não enxergamos.. O começo desse processo pode se dar com uma observação simples de construções aparentemente desinteressantes e velhas. pp. M. 56-57. pois no frontispício de seu prédio se encontra uma inscrição: “1918 _ EFCB”. Vasconcellos. Inocêncio dos Santos. no entanto. 13 .

contígua a este. a mais antiga e importante fazenda localizada na região que hoje constitui o município de Duque de Caxias. mais tarde. funcionou ininterruptamente por trinta e cinco anos e sua produção era enviada para o Reino. em 1591. Pós-graduada em História das Relações Internacionais pela mesma universidade. Camorim e Vargem Pequena. Supervisionou o Projeto de Preservação dos Acervos Arquivístico e Bibliográfico do Museu Nacional de Belas Artes. É Diretora do Instituto Histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto. A relação do Rio de Janeiro com a região do recôncavo guanabarino é estreita. se dando desde os primórdios da colonização quando. na Divisão de Documentação Escrita _ Seção do Poder Judiciário. da Câmara Municipal de Duque de Caxias. pretendemos contribuir para o desenvolvimento de pesquisas sobre a Baixada. O primeiro engenho da fazenda. outra porção.UERJ. de sua viúva. 2 Consideramos aqui o conceito geográfico de Baixada ou Recôncavo da Guanabara. Sócia fundadora da Associação dos Amigos do Instituto Histórico / CMDC. onde supervisiona as atividades de preservação do acervo desse órgão. a partir daí.Maio/2004 RIO DE JANEIRO: DESENVOLVIMENTO E RETROCESSO Tania Amaro 1 Com este estudo. Com a fundação dos engenhos de Campos. Lecionou História na rede particular de ensino. Formava-se.54 Revista Pilares da História . 1 . a Igreja de Nossa Senhora do Rosário. recebendo. ainda hoje tem de pé o prédio que lhe serviu de sede e. Ainda. que tem como objetivo desenvolver uma dissertação em caráter de mestrado. pretendemos analisar o desenvolvimento urbano da cidade do Rio de Janeiro e sua relação com as regiões ao redor. É sócia titular da Associação Brasileira de Conservadores e Restauradores _ ABRACOR. mais especificamente com a Baixada da Guanabara2. e como esse desenvolvimento foi influenciado pelos progressos técnicos dos transportes. também conhecida como Fazenda de São Bento. Trabalhou no Arquivo Nacional. Especialista em preservação de acervos documentais / patrimônio histórico. construído em 1611. o Mosteiro de São Bento comprou parte das terras de Cristóvão Monteiro. tendo como ênfase a relação entre a ocupação da região e os meios de transporte nela utilizados. restringindo-nos à região do entorno da Baía de Guanabara (indo de Cachoeira de Macau à Itaguaí). É um estudo inicial. em terras mais produtivas e que exigiam menor Tania Maria Amaro de Almeida é licenciada e bacharelada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro . A Fazenda de Iguaçu.

as terras de São Bento passaram a ser utilizadas. entre elas a de se abrir um caminho rápido. através dos “caminhos” que ligavam a região das minas. por conta de seus rios. a região da Baixada da Guanabara passou a ter importância estratégica. quando o eixo econômico do Brasil em sua relação com Portugal. Já no início do século XVIII. Com o abandono dos canaviais. além de comercializá-los. ladrilhos e telhas para si e para as construções do Mosteiro do Rio de Janeiro.Revista Pilares da História . Guilherme . movimentado por animais. a fazenda de São Bento abasteceu com gêneros alimentícios as tropas que vieram de Minas para combater os invasores. aberto em 1724. assim escreveu o historiador Guilherme Peres em seu “Os Caminhos do Ouro”: “Durante o século XVIII. Sobre os caminhos que. intensificou as relações daquela cidade com os portos da Estrela.Maio/2004 55 aplicação de recursos em trabalhos de infra_estrutura. Já no século XVIII. que ligasse o Rio de Janeiro à região das Minas Gerais. Um novo engenho. aberto entre 1699 e 1704. ali podia ser vista uma promissora lavoura de mandioca para a produção de farinha. Mais tarde seria desativado. Pilar e Iguaçu. se voltou para o ouro do planalto mineiro.1996. o engenho de Iguaçu foi se tornando obsoleto e anti-econômico. Durante a invasão francesa de 1711. bem como pelas estradas que foram abertas através das serras para que o trânsito de mercadorias se desenvolvesse. durante algum tempo.” 3 PERES. O “Caminho Novo” ou “do Pilar”. desde os primeiros tempos. a relação da urbe carioca com a região se estreita ainda mais. seria inaugurado em 1870 e teria como finalidade aumentar a produção de farinha. Queremos assinalar que o adjetivo “novo” era aplicado à outro caminho que viesse surgir. Descritos em ordem cronológica de abertura tínhamos: “Caminho Novo do Pilar” ou do “Guaguassú” ou ainda de Garcia Rodrigues Pais. “Caminho do Mestre de Campo Estevão Pinto” ou “Caminho Novo do Tinguá”. econômico e seguro. encontrando-se 3 dessa forma vários “caminhos novos” naquela época. partindo do Rio de Janeiro. “Caminho Novo do Inhomirim” ou “Caminho de Bernardo Soares de Proença” ou “Caminho do Proença”. aberto em 1728. através da Baixada Fluminense e a região das Gerais. . atingiam as “Gerais”. a olaria da fazenda produziu tijolos. como pasto. pois se tornou área obrigatória de passagem. três eram os caminhos oficialmente reconhecidos entre o Rio de Janeiro. Com a necessidade do escoamento do ouro e o abastecimento da província mineira. É importante assinalar que. aberto devido às necessidades oriundas da mineração.

onde ali puderam erguê-la em caráter definitivo e com uma situação estratégica singular. Esta posição estratégica contribuiu para transformações tanto na cidade do Rio de Janeiro como na própria região. Antônio da Encruzilhada.Maio/2004 Todos esses caminhos. até chegarem a ser cidades. O Rio de Janeiro nasceu de uma forma diferente da maioria das cidades. Contudo. após a vitória das tropas de Estácio e Mem de Sá sobre a resistência dos aliados franco-tamoios.56 Revista Pilares da História . da várzea e do sertão. sendo uma cidade planejada que teria de ser implantada em local seguro e que garantisse a posse da Baía da Guanabara para os portugueses.Rio de Janeiro. pois se situava a 60 metros de altura e à beira-mar. sob o ponto de vista urbanístico. Entretanto. para o morro de São Januário (chamado de Castelo. na parte ocidental da Baía da Guanabara. social e cultural. foi fundada em uma praia entre a encosta do Pão de Açúcar e o morro Cara de Cão . no século XVI. No século XIX. . a cidade foi transferida. a vulnerabilidade e a falta d'água. ao longo dos séculos.a 1º de março de 1565. as freguesias da Baixada da Guanabara. havia ali outros inconvenientes que deveriam ser superados. constituiu-se como uma importante região de passagem entre o interior e o litoral. região hoje conhecida como Baixada Fluminense. como a falta de terreno para a sua expansão e de terras para a lavoura e pastagens. intensificam ainda mais suas relações com o Rio de Janeiro. pois o elemento fundamental da posição geográfica do Rio de Janeiro é a configuração dessa baía que constitui uma das reentrâncias mais notáveis do nosso litoral e por cuja posse lutaram os portugueses. revelando uma estreita interdependência econômica. A cidade. numa posição bastante privilegiada em relação aos planaltos centrais e em condições estratégicas excepcionais do ponto de vista militar. o Rio de Janeiro surgiu em um local pré-determinado. principais vias de circulação de mercadorias do eixo Minas Gerais . deu-se a posse definitiva. juntavam-se em um só caminho. sendo áreas de investimento do capital privado alocado na abertura de estradas e na construção da ferrovia Barão de Mauá. somente no século seguinte. Daí em diante. vilas. no século XVIII). Após o povoamento inicial passavam à categoria de aldeias. além do aspecto estratégico-militar. pouco antes de atingir a margem direita do rio Paraíba. Assim. a 19 de fevereiro de 1567. se encontravam em Stº. Estas costumavam surgir através das povoações em locais possíveis à sobrevivência e à permanência de determinados grupos humanos. depois de subir a serra do Mar. o isolamento. abastecendo a capital com alimentos e madeira e passando a armazenar e escoar a produção do café do Vale do Paraíba. Porém. podemos afirmar que a Baixada da Guanabara. Portanto.

em 1607. que estiveram presentes na cidade de São Sebastião desde o momento de sua fundação. hoje 1º de Março. até sua expulsão. instalaram-se. em virtude das já comentadas ladeiras. em terras pertencentes hoje ao município de Duque de Caxias. instalou-se em uma granja com capela anexa. à medida desse crescimento. Manuel de Brito (depois.Maio/2004 57 Os limites da cidade do Rio de Janeiro. sido aberta a primeira rua do Rio de Janeiro. mais tarde rua Direita. num outeiro próximo que recebeu o nome de São Bento. São Bento). Daí a necessidade de conquistar a várzea. na região do recôncavo da Guanabara. depois dos jesuítas e. Como não havia planejamento urbanístico. Castelo) e Poço do Porteiro (depois. transferiramse para o outeiro de Santo Antônio.Revista Pilares da História . em frente ao largo que dava para o mar (atual Praça XV) e. no século XVII. diferentemente das demais ordens. Em seus terrenos. A descida para a várzea deu-se por três ladeiras: Misericórdia. na ermida de Nossa Senhora da Conceição. que foi ponto de partida de intensa atividade missionária. Os carmelitas instalaram-se na ermida do Ó. no Castelo e fundaram engenhos na região do atual Largo da 2ª-Feira. São José e da Ajuda. em 1640. formada de vasto terreno e ladeada por quatro elevações: São Januário. o traçado da cidade apresentava quarteirões quadrangulares. durante essa centúria. A população. A última ordem a se estabelecer na cidade foi a dos capuchinhos (franceses) que é um ramo dos franciscanos. surgiram as ruas Direita. As ruas. que. A primeira. Conceição e Carmo (mais tarde. propiciou a expansão pela planície. os beneditinos abriram uma rua. Com o tempo. tendo junto ao seu início. a "rua Direita para a Misericórdia" (mais tarde. em 1650. uma vez que o morro tornou-se pequeno. da Ajuda). vindos do Espírito Santo. Conclui-se. assim. "rua da Misericórdia"). em 1590. Além desta. além de travessas e becos com nomes das artes e ofícios elementares ou comércio nelas estabelecidos. perpendicular ou paralelamente a essas ruas. desde o fim da rua da Quitanda até a Prainha. Os beneditinos estiveram presentes também. A chegada de colonos portugueses e principalmente. A ordem de São Bento foi a primeira das ordens regulares a se instalar no Rio. facilitou a conquista da várzea. chegaram à Guanabara os primeiros frades franciscanos. foram abertas outras. tendo o centro de atividades urbanas se desenvolvido nesse espaço. sem quaisquer preocupações urbanísticas. recusaram a oferta do morro próximo e permaneceram na planície. crescera com rapidez. estabelecendo-se na ermida de Santa Luzia mas. por sua proximidade do mar. Em 1592. eram dados pela ocupação das ordens religiosas: os jesuítas. a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro estava limitada geograficamente por essas ordens religiosas. instalando-se no morro fronteiro ao de São Bento. mau delineadas. sem uniformidade. definitivamente. no Engenho Novo. Cotovelo (após. hoje rua de São Bento. até o século XVII. resultaram . o nascimento de mamelucos. onde hoje estão os bairros de Inhaúma e Pilares e na região de São Cristóvão e Santa Cruz. Santo Antônio).

artigos manufaturados europeus. pelo domínio da Guanabara e crescimento da importância de seu porto. encurtando distâncias ou fugindo dos alagadiços. através do surto de engenhos que representaram o mais importante fator econômico de desenvolvimento da cidade. O porto do Rio de Janeiro foi o ponto de apoio fundamental para a fundação e manutenção da Colônia do Sacramento e ainda. . para o povoamento do sul e centro-sul do Brasil. forçando o tráfico direto com Lisboa. não era grande. já se havia fixado na cidade.Maio/2004 ou do caminhar dos habitantes pela orla marítima. em torno da Guanabara e da parte norte da Capitania de São Tomé. O século XVII foi o da monocultura de cana-de-açúcar. além de importar através do porto de Lisboa. nessa época. a atividade açucareira contribuiu para o surgimento. o futuro da mesma. inicialmente. o século XVII bem pode ser chamado no Brasil. Estabelecidos no Rio de Janeiro. e assim. a Guanabara e seu recôncavo serviram de eixo e escoadouro. inaugurando a função do Rio de Janeiro como entreposto comercial e porto exportador para a metrópole. chegando ao Rio da Prata. ou do aforamento da marinha da cidade em 1646. os portugueses conseguiram. tornando-se um porto de açúcar. deu-se a conquista da várzea através dessa expansão urbana não planejada e. É interessante apontar que a importância político-estratégica acompanha a econômica. da Misericórdia) e de Manuel de Brito (atualmente onde está a Praça Mauá). fazendo crescer o número de habitantes e tornando a cidade do Rio de Janeiro e seu porto cada vez mais importantes. Com a expansão da lavoura e indústria açucareira. Também destacou-se como elo de ligação entre o norte da colônia (Bahia e Pernambuco) e o sul afastado do litoral (São Paulo). a cidade e o porto do Rio de Janeiro experimentaram um relativo progresso. picadas e atalhos transformaram-se nas principais vias públicas da cidade. Para a região da urbe carioca. Porém. através de caminhos e dos núcleos de urbanização. apesar da região possuir o melhor ancoradouro de toda a costa brasileira. pois a Bahia era o centro administrativo e econômico da colônia.58 Revista Pilares da História . De 1600 a 1699. o porto do Rio de Janeiro mereceu atenção especial desde quando os holandeses ocuparam o Nordeste. E assim. Contudo. o número de embarcações que o procuravam. em fins do século XVII. que abrangia as praias da Peaçaba (depois. as primitivas trilhas. Como a força da produção açucareira estava voltada para o mercado externo. de pequenos núcleos de povoamento que se comunicavam com o mar por numerosos rios que desaguavam na baía. No dizer de Charles Boxer. o porto do Rio de Janeiro cresceu em importância. em volta da Guanabara. O açúcar foi um dos responsáveis pelo desbravamento das terras em direção ao sul. o "século do açúcar ". garantir a continuidade de sua obra colonizadora.

destaca-se a importância estratégica e militar do porto carioca. além de tornar-se o ponto de escoamento da produção das minas e de importação das mercadorias estrangeiras destinadas aos centros populosos de mineração no vasto território das Minas Gerais. principalmente. As relações comerciais entre Lisboa e Porto de um lado e. já se manifestavam os primeiros sinais de declínio da produção das minas. contudo o crescimento da produção agrícola não permitiu um decréscimo no volume das transações comerciais do porto carioca. Na época do ouro. o Rio foi o porto do ouro. construído por Garcia Rodrigues Paes nos primeiros anos do século XVIII. passava por Taubaté e através do "Caminho Velho". do desenvolvimento comercial e dos portos. e a descoberta do ouro nas Minas Gerais.Maio/2004 59 Em fins do século XVII e durante o século seguinte. produziu-se um desdobrar de empreendimentos. ganhou-se uma grande economia de tempo e redução da distância entre o Rio e as áreas de mineração. a partir de meados do século XVIII. No final da centúria. antes de chegar ao Rio de Janeiro. o porto carioca manteve comércio exterior mais volumoso que qualquer outro da colônia. Graças a esse "Caminho Novo". o "ouro branco" voltou a ocupar o seu lugar. Durante o período da mineração. Através de inúmeros pequenos portos. ia por terra até Parati. juntamente com a exploração de outras riquezas brasileiras. o Rio de Janeiro de outro. madeiras. além da cidade e seu porto tornarem-se o escoadouro do planalto mineiro e seu centro de abastecimento. Era um caminho longo e onde se corriam riscos. nota-se um grande progresso em vários aspectos da urbe carioca. Na década de 1770. além da intensificação das atividades de subsistência. por mar. especialmente fibras. daí. Também e. bem mais próxima das minas e do extremo sul da colônia do que Salvador. O ouro que partia das Minas. o Rio de Janeiro arrebatou àquela cidade a função de capital. exigindo de Portugal a concentração de recursos nessa direção. e já mencionado no início deste artigo. porém não perdeu a sua condição de porto do açúcar. graças às comunicações diretas através dos rios do recôncavo e da própria baía. com a fundação da Colônia do Sacramento.Revista Pilares da História . para a luta na manutenção de Sacramento. Esses inconvenientes levaram a Metrópole a dar instruções para a abertura de um novo caminho que fizesse a ligação direta das Minas com o Rio de Janeiro. . visto que por mar o ouro poderia ser pilhado por piratas. constituiu-se rapidamente uma importante área agrícola que manteria o prestígio da cidade até a segunda metade do século XVIII. fazia-se a remessa dos produtos agrícolas para a cidade. é que no ano de 1763. tintas e cereais. Era estreita a dependência entre os engenhos da baixada e a cidade. Nesse período da transferência da sede do vice-reinado para o Rio de Janeiro. alcançava o porto carioca. Graças a vantagem da posição da Guanabara. ganhando a importância que têm hoje. Na Baixada da Guanabara. aumentaram consideravelmente e.

é importante lembrar que houve um considerável aumento da população. foram feitos melhoramentos para a vida da cidade. C. M. sendo 19.321 livres e 82. em sua obra "Relações Comerciais do Rio de Janeiro com Lisboa _ 1763-1808". a urbe carioca limitada pelos morros do Castelo. É a partir deste século que a cidade do Rio de Janeiro começa a modificar. pág. Neste século. cais. compondo-se sua população. tomaram-se algumas iniciativas para solucionar questões referentes à obtenção da água e iluminação pública. algumas providências higiênicas que melhoraram a condição do povo. A ambição da riqueza sentiuse no panorama urbano. construíram-se chafarizes.578 brancos. o comércio carioca adquiriu feições 4 SANTOS. basicamente. Santo Antônio e da Conceição. Apesar disso. Aos poucos. 8. Mas em 1789. que a cidade do Rio de Janeiro passará por uma transformadora reviravolta. Até então. radicalmente. dos . a população do burgo carioca era de 43. de escravos. 4 Neste século.448 escravos. A chegada e instalação da Corte romperá o equilíbrio da cidade e transformará sua fisionomia. sendo 86. a questão do ouro foi um ponto de apoio para essas transformações. iniciou-se uma tomada de consciência urbanística. serão abastecedores de alimentos para o Rio de Janeiro. . Além do Rio ser o principal porto importador de escravos e o comércio da cidade dar sustentação ao mercado consumidor das Minas Gerais e seus comerciantes. A comparação dos números nos mostra que no espaço de dez anos o número de habitantes quase quadruplicou".769 indivíduos. deve-se considerar o melhor calçamento e conservação das ruas. sua forma urbana e apresentar uma estrutura espacial estratificada em termos de classes sociais. durante este século. 37. apresenta-nos números bastante significativos referentes à cidade. será com a vinda da família real para o Brasil.Maio/2004 Tendo em vista todas essas transformações. cujas freguesias. essa população já alcançava a cifra de 168.60 Revista Pilares da História . poucos trabalhadores livres e reduzida elite. de São Bento. no início do século XIX. a cidade sofreu grandes transformações sócio-urbanísticas.986 escravos. o posterior Congresso de Viena e a reaproximação dos reinos de Portugal e França. como a sege e os côches. com escassez de meios de transporte coletivo. "Em 1779.1980. Corcino Medeiros dos Santos. era uma cidade apertada. Com a queda de Napoleão em 1814.376 habitantes.812 pardos e pretos libertos e 14. onde começaram a trafegar os primeiros veículos de roda. apesar da importância de seu porto e das relações com a região ao redor da Baía da Guanabara.

também a ser procurado por aqueles que tinham poder de mobilidade. Glória. Gamboa e ao Valongo. predominantemente. pouco a pouco. vizinha ao Caminho das Lanternas. o antigo arraial de São Cristovão. sendo as demais freguesias existentes. originando os atuais bairros da Saúde. sobretudo ingleses e franceses. carregadores. Já as classes sociais que contavam com reduzido ou nenhum poder de mobilidade. que posteriormente. particularmente São Cristovão _ levando à criação da freguesia de Santo Antônio. preferencialmente. em 1854. trabalhadores na construção de obras públicas e casas particulares. Dividida socialmente entre senhores e escravos. “nessa cidade portuária dos trópicos”. o Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX é uma cidade que inicia sua transformação tanto econômica. surgiram novas formas de escravidão e relações sociais mais complexas. abrigando o Paço Imperial e as repartições mais importantes do Reino. que se expandia pelo vale do Paraíba. a cidade tem seu desenvolvimento econômico baseado por sua afirmação como eixo portuário de articulação da lavoura escravista do café. abrigando a residência da família real. fixavam-se cada vez mais nas outras freguesias urbanas. quanto política e social. Santa Rita e Santana. de onde com o aluguel de sua . com as mercadorias chegavam comerciantes e representantes de firmas comerciais de países estrangeiros. as atividades portuárias começaram a se deslocar da praia de D. ligando o centro à Quinta da Boa Vista. Com o desenvolvimento da cidade. As freguesias da Candelária e São José. Enfim.Revista Pilares da História . o crescimento da população. ainda. rurais. todas as engrenagens da vida econômica e social eram movimentadas pela força do trabalho escravo. embora houvesse entre aquelas ditas urbanas uma diferenciação social. entre outras funções. transformariam-se em local de residência permanente das classes dirigentes. restringia-se às freguesias da Candelária. com o mercado mundial. As freguesias rurais situadas mais próximas do centro . Catete e Botafogo _ . tiveram suas fazendas recortadas por chácaras de fim-de-semana. O desenvolvimento urbano.Maio/2004 61 novas. Em 1821. Com essa intensificação do movimento comercial. Gamboa e Santo Cristo. passou. especialmente. mas também levavam nossas matérias-primas. em local de residência das classes dirigentes. O porto do Rio passou a ter um imenso movimento com a chegada de navios que traziam novidades. E. “escravos de ganho” passavam os dias como vendedores ambulantes. a maior circulação de mercadorias e a intensificação de ofícios. Como coloca Jaime Larry Benchimol. determinaram o aparecimento da Cidade Nova. Manuel em direção à Saúde. a cidade do Rio de Janeiro. um bairro novo ligado ao Engenho Velho. após o aterramento de parte do Saco de São Diogo. além disso.como Laranjeiras. Sacramento. transformaram-se. São José. Nas ruas da cidade. nas de Santa Rita e Santana.

as ruas tornavam-se mais estreitas. determinou a criação de escolas e o fim da proibição da existência de gráficas. fez o Rio de Janeiro se expandir espacialmente e mudar sua aparência. local de residência da família real. desde a chegada da corte portuguesa. Todo esse desenvolvimento inesperado.Maio/2004 capacidade de trabalho. Para a maioria dos estrangeiros que chegavam. principalmente o abastecimento de água e a retirada de esgotos . visto o aumento do trânsito de homens e mercadorias. É assim que o Rio de Janeiro começa a se ampliar.62 Revista Pilares da História . em 1838. possibilitando a maior circulação de notícias e idéias através de jornais e revistas. existia o contingente de escravos domésticos aos quais cabia a execução de vários serviços ligados à economia doméstica natural que caracterizava as moradias urbanas dos senhores. resultaram na instalação das bases materiais para o início da 5 BENCHIMOL. que trouxe consigo todo um aparelho burocrático do Estado colonial. No plano político. O comércio mundial crescia rapidamente e as exportações de capitais. transformando-se em uma área marcadamente definida. o Rio de Janeiro passa a ser o “centro nevrálgico” da emancipação política. J. da cidade do Rio de Janeiro. em 1822. A presença da Corte modificou os costumes. a chamada segunda revolução industrial consagrou a Inglaterra como a grande potência econômica mundial. que se dirigiam as primeiras diligências de que se tem notícia e. e das guerras subseqüentes com as províncias. através das quais o Estado Nacional em formação subjugou as “forças 5 centrífugas que ameaçaram a união do Império”. atraiu representantes diplomáticos de velhos países europeus e novos países americanos. suja e malcheirosa. cortada por becos e ruas estreitas: um contraste vivo com a beleza exuberante da natureza tropical. L. tanto na aparência quanto no conteúdo. uma das linhas também se dirigia a esse bairro. retiravam a féria que sustentava uma camada numerosa de grandes e pequenos senhores.atividades que posteriormente se tornariam rentáveis serviços públicos a cargo de companhias estrangeiras. estendeu vários meios de transporte de uma ponta a outra da cidade. foi em direção a São Cristovão. . embora outros países também se transformassem através da grande indústria capitalista. No âmbito mundial. sob a forma de empréstimos públicos e investimentos diretos.1990. Ao lado da multidão de “escravos de ganho”. 24 . quando circularam os primeiros ônibus de tração animal. Entretanto. A segunda metade do século XIX caracterizou-se pela emergência de forças de renovação que trariam marcantes transformações. o Rio de Janeiro era uma cidade feia. pág.

A introdução do bonde de burro e do trem a vapor foram essenciais para essa distinção. baseado na aceitação de modelos urbanos europeus. Em suas ruas estreitas. levando à sua projeção internacional. destaca-se a distinção dos costumes e das classes sociais que se aglutinavam no antigo espaço colonial. transformações radicais em suas estruturas urbanas. superpopulosa e insalubre. Montevidéo. principalmente. novas instalações portuárias e serviços públicos responderiam aos novos fluxos de matériasprimas e produtos industrializados. entre outras. atraindo grande número de trabalhadores livres. que transformariam a trama das relações escravistas da antiga cidade colonial. através dos trens. numa “área central” febril. fábricas. apesar do alto preço das passagens. contribuindo qualitativamente para o crescimento físico da cidade do Rio de Janeiro. em bairros predominantemente residenciais. após 1840. A independência política. “A cidade tendeu a se desdobrar. imprimindo novo ritmo à mesma e reproduzindo contradições e conflitos que se refletiriam no espaço urbano. teriam de adaptar-se às novas exigências econômicas e às mudanças sociais. levando a um processo de modernização. de acordo com a nova ordem econômica internacional. de um lado. aqueles da zona sul _ empurrava para os subúrbios.Revista Pilares da História . determinando assim. passando por diversas transformações durante o século XIX. pois ao direcionar as classes com maior poder de mobilidade para os bairros servidos por bondes _ especialmente. para uma nova estruturação social do espaço carioca. Cidades como o Rio de Janeiro. a chegada da família real ao Rio de Janeiro tinha imposto à cidade uma classe social até então inexistente e necessidades materiais novas. bancos. é durante o decorrer do século XIX que irão surgir os elementos responsáveis por possibilitar tal resolução. As ferrovias. geraram uma fase de expansão. contribuindo assim. multiforme. Historicamente. A partir de meados do século XIX a cidade passou a atrair numerosos capitais estrangeiros. de outro. Esse desenvolvimento do capitalismo europeu. a navegação a vapor. refletiria-se em países periféricos como o Brasil. Bueno Aires. coexistiam armazéns. no setor de serviços públicos _ como transportes. sujas e congestionadas. caracterizou-se pela emergência de novos elementos. As contradições e conflitos da nova cidade _ escravista e capitalista _ só poderiam ser resolvidos no século XX. escritórios. oficinas. O período em questão. e que além de tomarem a forma de empréstimos. porém. essencialmente capitalistas. as classes menos privilegiadas. esgoto e etc _ através de concessões obtidas do Estado. voltavam-se intensamente para investimentos diretos. a norte e a sul. Entre eles.Maio/2004 63 modernização das economias periféricas. disponíveis no mercado internacional. gás. em 1822. e o desenvolvimento da economia cafeeira. prédios .

as linhas de bondes ramificando-se pelas zonas norte e sul (de início com tração animal e. assim como o tráfego regular das barcas para Niterói. 1990. progressivamente.. Os progressos técnicos. transformam-se em vasta região urbana cujas dimensões ampliam na escala do deslocamento de seus habitantes' ”. bondes e trens _ os dois elementos impulsionadores do crescimento físico da cidade _ a atuar em conjunto.. mesmo fora dos limites urbanos. que revolucionaram os meios de transporte.” O setor de transportes que então iniciava seu desenvolvimento. 7 O ano de 1870 pôde apresentar-se como um marco importante para a cidade. . F.Maio/2004 públicos. com tração elétrica). pág. casas térreas. “Clozier. nos anos 1870. sobrados. por sua regularidade e sua velocidade.64 Revista Pilares da História . 49. Neste ano _ dois anos após as primeiras concessões para linhas de bondes _ a Estrada de Ferro D. levando assim. L. possibilitaram a expansão sem medidas da cidade nas várias direções. As grandes cidades desde logo toma extensão tentacular.1990. A esse centro vinha dar o tronco ferroviário da E. passou a ter grande importância na expansão da cidade e na transformação de sua forma urbana. cortiços e outras modalidades de habitação coletiva. M.. Pedro II aumentou o número de seus trens suburbanos. se estruturar até o final do século. L. irradiando-se das principais estações ferroviárias. C. na virada do século. acentua que 'os transportes. 96. Desse centro partiriam. pág. que crescera como mais um 6 apêndice suburbano da capital. como antigos casarões do Primeiro Reinado convertidos em casas de cômodos. Pedro II. ao correlacionar a expansão suburbana das cidades com os progressos nos meios de transporte. o operário que pode escolher um domicílio a seu gosto. . BERNARDES. ao longo do qual os subúrbios iriam. J. libertam a mão-de-obra dessa concentração forçada. 6 7 BENCHIMOL. D.

de A. como nos demonstra Lima Barreto: “. em Raiz da Serra. 8 O Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX teve seu desenvolvimento econômico balizado por sua afirmação como eixo portuário de articulação da lavoura escravista do café que se expandia pelo vale do Paraíba. origem das muitas das nossas atuais cidades. foi o começo do fim da navegação pelos rios. ligando o porto da Guia de Pacobaíba à região de Fragoso. Era. servindo também de porto através do qual se exportava grande parte da produção cafeeira e se importavam escravos e artigos manufaturados. as ferrovias. 50. também. levaria os homens esclarecidos da época a pensarem na possibilidade de se construírem estradas de ferro que chegassem ao pé da serra. onde realizavam seus negócios e organizavam novas empresas. iniciando a era ferroviária no Brasil e tornando-se um marco histórico da ocupação urbana. cujas construções faziam parte dos progressos técnicos que permeariam todo o século XIX. das inconveniências ligadas ao transporte fluvial (dependência das marés. modificando por completo as relações comerciais e a ocupação do solo. A necessidade de livrar o crescente tráfego de mercadorias e sobretudo. / Ali? Para que? / . que penetraram em áreas que já vinham sendo urbanizadas ou retalhadas em chácaras desde a primeira metade do século.Revista Pilares da História . M. dos portos fluviais.Antes das estradas de ferro. passa a ser a capital econômica da região agrícola mais rica do país. Já em 1840. Aquelas paredes foram de um sobrado em cujo andar térreo havia uma venda. A cidade que já era a capital políticoadministrativa do país.Maio/2004 65 “Ao contrário dos bondes. surgira a idéia de se construir uma estrada que ligasse o porto do rio Sarapuí à vila de Iguaçu. o café. até então se mantinham exclusivamente rurais”. com o objetivo de melhoramentos nas velhas estradas e a abertura de modernas vias de circulação. o Barão de Mauá concretizava projeto semelhante.. os trens foram responsáveis pela rápida transformação de freguesias que.É o Cambambe. pág. No dia 30 de abril de 1854. as 8 ABREU. Pode-se dizer que a consolidação da posição do Rio de Janeiro como capital e sua grande expansão devese ao advento da era cafeeira no sudeste do Brasil. Para a Baixada. 1988. a corte aonde passaram a vir morar os barões do café. assoreamento dos rios e canais). Foi o início do processo de surgimento de vilas e povoados que se organizaram em torno das estações ferroviárias. dando novo perfil à ocupação do solo. . e dos caminhos dos tropeiros.

Pedro II inaugurava o seu primeiro trecho. é o subúrbio surgindo: “o subúrbio propriamente dito é uma longa faixa de terra que se alonga. . alcançaria o vale do Paraíba (1846). sob vários aspectos.1978. o Rio de Janeiro se viu profundamente atingido com os acontecimentos que conduziram à abolição da escravidão e à queda da monarquia. durante a última década do século XIX que. Zona da Mata.Maio/2004 comunicações com o interior se faziam pelo fundo da baía.66 Revista Pilares da História . O Rio de Janeiro era também centro redistribuidor de escravos. quando o Segundo Reinado iniciava sua decadência e a cidade era a sede de um Estado monárquico centralizador. Ao fim do mesmo ano. em poucos anos. pág. até Sapopemba. pelos idos de 1870. “Vida e Morte de M. e daí até ao cais dos Mineiros. Essa hipertrofia comercial será capaz de fundamentar todas as nuances da vida urbana no correr do século XIX. por Inhomirim. político e culturalmente hegemônico do Brasil. prolongando-se até Belém (Japeri). Espírito Santo e nordeste paulista. o Rio de Janeiro projetou-se como o mais próspero e populoso empório comercial e financeiro do Brasil. LIMA BARRETO. porto de Estrela. 2001. desde o Rocha ou São Francisco Xavier. Gonzaga de Sá”.” 11 Como centro econômico. “Clara dos Anjos”. As estradas de ferro. Já na segunda metade do século. reforçaram a liderança da cidade como canalizadora das exportações de café. J. VII. 9 LIMA BARRETO. L. abastecedor de fazendas. 691. importador de produtos manufaturados e ponto de convergência do comércio de cabotagem. E. no qual se compreendiam as estações de Maxambomba. em faluas que passavam por aqui. concentrando assim o movimento comercial desta atividade que se estendia pelas terras fluminenses. a Estrada de Ferro D. 576. sem concorrência substancial até 1890. 11 LOBO. M. tendo para o 10 eixo a linha férrea da Central”. Os tripulantes destas é que sustentavam a venda que existiu há cinqüenta anos naquele ilhéu sem uma árvore”. pág. foi um período turbulento da vida da cidade. hoje tapera. IV. que foram abertas para servir a região.9 No ano de 1858. cap. Queimados e Sapopemba. 10 . cap. pág. “Pelo Rio de Janeiro escoava a riqueza dos cafezais do planalto. 2001. 155.

(. M. “Os anos de 1890 e 1891 foram de loucura.. J. acreditando nas promessas do novo regime e defendendo seus interesses..1987. com o passar do tempo. ao que parece. Tal situação constituiu o combustível para o movimento jacobino. a República fez muito pouco em termos de expansão de direitos civis e políticos. Economicamente.) Pelo meio da década. A época do Encilhamento trouxe emissão de moeda sem lastro. menores de idade.Revista Pilares da História .) O aumento no custo de vida era agravado pela imigração. que ampliava a oferta de mão-de-obra e acirrava a luta pelos escassos empregos disponíveis. continuaria por muito tempo intocada.” Entretanto. apesar de toda agitação política e militar e das lutas em torno da formação das estruturas de dominação nos estados do país que caracterizariam os últimos anos do século XIX. (. . mulheres. de . Na verdade. analfabetos. além de ser um sistema de governo que se propunha a uma renovação política. Os primeiros anos da República foram de expectativas e agitações intensas. entre outros. (. o Encilhamento não significa apenas caos monetário e especulação. de que 12 só começou a sair no final do governo Campos Sales. instituindo a forma federativa de governo poderia ser colocada apenas como nominal. Contudo. assim como na época do Império. A mudança do sistema político. págs. ficavam excluídos da participação. a cidade também sofreu agitações. o novo regime pareceu uma autêntica república de banqueiros. Movimentaram-se as idéias e acreditou-se na possibilidade de democratizar a República. pois a velha estrutura oligárquica. na qual o poder tinha por base a propriedade da terra . que principiou no governo Floriano e perdurou até o fim da presidência Prudente de Morais. “Na verdade. a grande maioria da população ficava fora da sociedade política. Pobres. Stein 12 CARVALHO. 20/21. diminuindo seu retrocesso em relação a São Paulo.. especulação e inflação.. a cidade do Rio de Janeiro conseguiu tirar proveitos com relação à época do Encilhamento. com maior participação no poder das camadas antes excluídas. Desde os militares até as classes mais baixas reservavam-se o direito de se mobilizar e participar ativamente. a queda dos preços do café contribuiu para agravar a crise e o país entrou em fase de deflação e recessão econômica. onde a lei era enriquecer a todo custo com dinheiro de especulação. membros de ordens religiosas.) Por dois anos... passando por diversos “surtos” de industrialização.Maio/2004 67 A proclamação da República tratava-se da primeira grande mudança de regime após a independência.

epidemias de varíola e febre amarela. que já vinham se configurando desde meados do século. indústria alimentar. de composição étinica e de estrututa ocupacional. além da absorção de mais 200 mil novos habitantes na última década do século. pág. abriu caminho para que o grande capital privado se apoderasse 13 BENCHIMOL. assolada por freqüentes epidemias. segundo José Murilo de Carvalho. a população quase dobrou. entre outras. de saneamento e de higiene. como também aqueles referentes ao abastecimento de água. É neste contexto que se firmarão propostas de remodelação da cidade. cerca de 60% foi efetivamente integralizado. . tornaram a cidade do Rio de Janeiro um lugar perigoso para se viver. a atividade industrial conseguiu se expandir. 170. de maio de 1889 a janeiro de 1892. Eram propostas que se infiltravam na opinião pública já influente e favorável a todo tipo de melhoramento que transformasse a cidade em uma metrópole salubre e moderna. ainda. entre 1872 e 1890. confecções.” 13 Apesar de entraves.1990. Deu-se o crescimento populacional da cidade em termos absolutos e. que também alteravam a vida na cidade. bebidas e mobiliário. principalmente no verão. Os problemas referentes à habitação em termos de quantidade e de qualidade agravaramse. caracterizando-se por pequenos estabelecimentos de fabricação de calçados. surgiam novas características no campo da moral e dos costumes. metalurgias leves e fundições. chapéus. L. A partir de 1860.Maio/2004 demonstrou que do total de capitais subscritos para formação e ampliação de fábricas têxteis. Piorando muito a qualidade de vida na cidade. através de discussões em torno do saneamento da capital. uma cidade insalubre. além do aumento da imigração estrangeira. além disso. concentrandose. engrossaram o contigente de desempregados e subempregados em ocupações mal remuneradas ou sem ocupação fixa. pensões e prostíbulos. exescravos das zonas cafeeiras em decadência. principalmente no centro da cidade e imediações. o impacto desse crescimento populacional acelerado sobre as condições de vida da cidade foi enorme. Como coloca. firmaram sua presença no Rio. José Murilo de Carvalho. Enquanto transcorriam as lutas que marcaram a consolidação política do novo regime e as agitações econômico-financeiras. Ao lado de tudo isso.68 Revista Pilares da História . decorados à francesa. A migração interna de lavradores. casas de espetáculos. vários aspectos alteraram a face da cidade. J. . restaurantes. cafés. além de malária e tuberculose. até o início do século XX. além de gráficas. passando de 226 mil para 522 mil habitantes. Alterou-se a população da capital em termos de números de habitantes.

Rio de Janeiro. Turismo e Esporte.” Todo esse projeto só viria a ser executado amplamente no início do século XX. Mario Ferreira . DUNLOP. prevendo um controle da vida social. Rio de Janeiro: José Olympio. 1990. 288. sobretudo as coletivas. BERNARDES.“Influência da Diplomacia Inglesa na Formação Brasileira” .Maio/2004 69 do urbano. 1987. Gastão . CARVALHO. Além do aterro de pântanos e arrasamento de morros. GARCIA.in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.2a. _ Rio de Janeiro: Cidade e Região. IPLANRIO/ZAHAR. deveriam passar por um “processo de modernização. vols. Rio de Janeiro: IHGB. E Inf.1973. Nilo ."A Evolução Urbana do Rio de Janeiro" . através do estabelecimento das linhas suburbanas.“Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi” .2a. sendo as estradas de ferro. Cultura: Dep. ed. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABREU. Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural. os agentes essenciais da expansão da cidade do Rio de Janeiro em direção aos subúrbios e ao recôncavo da Guanabara. Caio de . ed. Mun.in Revista do Instituto Histórico e . onde se aglomerava a multidão de pobres na área central do Rio de Janeiro.“Pereira Passos: Um Haussmann Tropical . 1970. através das quais a periferia da cidade se transformaria na alternativa possível para as camadas mais pobres da população. Jaime Larry . Lysia M. Rio de Janeiro: Secr. São Paulo: Companhia Editora Nacional. 1965.São Paulo: Companhia das Letras.“Relações do Rio de Janeiro com o Rio da Prata no Século XVII” . Cultural. vol.“O Rio de Janeiro e a União Ibérica” .“George Canning e o Brasil” . as propostas também atingiam a estrutura material urbana e até mesmo. FREITAS.Revista Pilares da História . A cidade edificada sem método e as habitações. José Murilo de . 1958. Charles .Coleção Rio 4 Séculos. FRANÇA.“Os Meios de Transporte do Rio Antigo” . com as obras transformadoras de Pereira Passos e Rodrigues Alves. Geral de Doc. em propostas que passavam pelo campo da medicina. dos costumes e da urbanização propriamente dita. Rio de Janeiro. dos costumes e práticas tradicionais da cidade.A renovação urbana da cidade do Rio de Janeiro no início do século XX. Divisão de Editoração.“Aparência do Rio de Janeiro” . 1988. CRULS. 298 e 298 A.“Panorama Médico dos Séculos XVI e XVII”. 1990. Maurício de Almeida .” .Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura. BENCHIMOL. C.Coleção Brasiliana.

1979. 1972.Rio de Janeiro: IBEMEC.“Viagem Pitoresca ao Brasil” . ed. KIDDER.“Evolução Urnana e Arquitetônica do Rio de Janeiro nos Séculos XVI e XVII” (1567 .: O Processo de Emancipação .1699) . vol.” . Frédéric . LIMA BARRETO.“A Vida Cotidiana no Brasil no Tempo de D.70 Revista Pilares da História . Adolfo Morales de los . A.in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. MOTA. 1991. Joaquim Manoel de . 1996.“Os Estrangeiros e o Comércio do Prazer nas Ruas do Rio” (1890 . Tomo I.Rio de Janeiro: Livraria Garnier.1° vol.“História do Império: A Elaboração da Independência” ."História do Rio de Janeiro: do capital comercial ao capital industrial e financeiro” . 1966. Lená Medeiros de . São Paulo: Ed. Pedro II (1837 . .Rio de Janeiro: UFRJ.. vol. Divisão de Editoração. “QUATRO SÉCULOS DE CULTURA: O RIO DE JANEIRO. MACEDO. belo Horizonte: Ed.Maio/2004 Geográfico Brasileiro. vol.. Organização: Eliane Vasconcellos _ Rio de Janeiro: Editora Nova Aguillar. Carlos Guilherme (org. n° 361. Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural. MOURA. 1970. 288.“História Geral da Civilização Brasileira” . Duque de Caxias: Consócio de Edições.Belo Horizonte: Ed.Tomo II: O Brasil Monárquico .“Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro” .“Reminiscências de Viagens e Permanências nas Províncias do Sul do Brasil: Rio de Janeiro e São Paulo” . HOLANDA. H. São Paulo: Ed. ed. ed.1930).São Paulo: DIFEL. REIS F°.“Brasil em Perspectiva” . RUGENDAS. Itatiaia. 1992. MAURO. Brasília : Ministério da Educação e Cultura. João Maurício . Baixada Fluminense: os caminhos do ouro. 2001. LOBO. 149. 1970.2a. Roberto . Itatiaia. . Irmandades e Confrarias” .in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. 1980. Rio de Janeiro: IHGB. Tobias . São Paulo: Difusão Européia do Livro. Rio de Janeiro: IHGB. MONTEIRO.) . 1995. 288. Rio de Janeiro: IHGB. 8a. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura. LACOMBE. Sérgio Buarque de .Rio de Janeiro: Arquivo Nacional.2a. MENEZES. 1970. Instituto Nacional do Livro. 1978. da Universidade de São Paulo. Eulália Maria Lahmeyer . Daniel P.“Ordens Religiosas.1985. . Lima Barreto: Prova Seleta. 2.3° ed. s/d. da Universidade de São Paulo. Luis Lourenço .Coleção Reconquista do Brasil (Nova Série). PERES.1889)” Companhia das Letras.“Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro” . vol. 1988. Guilherme.

. Fernando N. o Burro e o Trem” _ Artigo in Revista Caxias Magazine. (org.Maio/2004 71 SANTOS. Corcino Medeiros dos . TORRES. 1965. 2002. “Escavando o passado da cidade. SANTOS. TAVARES.Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.“Rio de Janeiro em seus Quatrocentos Anos” .“As Freguesias do Rio de Janeiro” . 1992. Niterói: Universidade Federal Fluminense. 1980. Rogério _ “O Rio. Marlucia Santos de. SILVA. SOUZA.Rio de Janeiro: O Cruzeiro.) . São Paulo: A Gazeta Maçonica.Revista Pilares da História . A construção do poder político local em Duque de Caxias / 1900-1964”.1808) .in A Conjuração Mineira e a Maçonaria que não Houve. 1994.“Relações Comerciais do Rio de Janeiro com Lisboa” (1763 . Francisco Noronha . 1965.Rio de Janeiro: Record. Luiz Edmundo -“O Rio de Janeiro e a Conjuração Mineira” .

imediatamente à crise de 1954. por Juscelino Kubitschek.72 Revista Pilares da História . O país vivia o novo governo Vargas. Muitas delas permanecem em atividade. especificamente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Pontificam a Convenção Nacional do Negro (1949). tanto no plano nacional como internacional. Os movimentos migratórios desaguavam contingentes populacionais nordestinos diretamente no Sudeste. a questão do negro em âmbito nacional toma corpo. outras não. àquela altura. é necessário observar a formação desses núcleos populacionais. Por que muitas delas permaneceram em atividade e outras não? Como isso ocorreu? Para começar a refletir sobre essas questões e como se reuniu grande contingente de população negra em Duque de Caxias. Ciências e Letras de Duque de Caxias . Na década de 50. primeiro quartel da década de 50. Quilombo. visibilidade e expressão política. É nesse momento que se promovem vários eventos políticos e surgem diversas agremiações cujo foco é o debate dessa temática. a atuação do Teatro Experimental Negro _TEN _ e seu jornal. A década de 1960 é marcada pela radicalização de movimentos sociais de caráter reformista ou revolucionário. A 1 Mestranda pela Universidade Severino Sombra. o I Congresso do Negro Brasileiro (1950). Ao mesmo tempo. já se constituindo nos grandes pólos de desenvolvimento econômico nacional.Maio/2004 A TRAJETÓRIA DO MOVIMENTO NEGRO EM DUQUE DE CAXIAS: UMA ANÁLISE EM CONSTRUÇÃO Sandra Godinho Maggessi Pereira 1 No curso de pesquisa patrocinada pela UNESCO e orientada pelo Arquivo Histórico Nacional para a elaboração do “Guia Brasileiro de Fontes para a História do Negro na Sociedade Atual”. seguido. professora de História na rede particular e de História da América na Faculdade de Filosofia. observou-se a existência de um número apreciável de entidades do movimento negro situadas no município de Duque de Caxias. que aprofunda a política dita desenvolvimentista iniciada por Getúlio. evidenciou-se o caráter cíclico dessas entidades.

músicos. quando se registra a explosão do movimento negro no país. porque ainda em elaboração. em resposta. formavam associações filantrópicas que aglutinavam uma elite negra de advogados. O presente artigo constitui uma abordagem ainda precária. Em âmbito local. entidade formada por uma elite negra em âmbito federal e local. escolhendo os candidatos para concorrer nas eleições municipais. Apresentando um caráter assistencialista. restringindo ainda mais as liberdades individuais e a atividade política. por suas características. surge com o objetivo de organizar politicamente a comunidade negra e prestar-lhe apoio jurídico. que tinham como tarefa prestar atendimento à comunidade negra e carente. tem início a organização de núcleos negros em Duque de Caxias inspirados no contexto do movimento negro nacional e internacional. conforme já se disse. se encarrega da preparação de quadros políticos afrodescendentes. a presença e a militância das organizações negras se constatam no Guia Brasileiro de Fontes para a História do Negro na Sociedade Atual. o regime decreta o Ato Institucional n° 5. núcleo do Movimento Negro Unificado (MNU) no município. em levantamentos feitos pela Secretaria de Cultura caxiense e nos relatos da comunidade afrodescendente. tenha sido essa inserção permitida pela elite política ou tenha sido conquistada. Fundação Olímpia Costa _ Centro de Pesquisa e Divulgação da Cultura e Tradição Afro-Brasileira e Grupo Afro-Cultural Ojuobá-Axé. não propriamente vinculada ao movimento negro.Revista Pilares da História . Outra entidade. A União dos Homens de Cor. dispensando-se igualmente atenção às causas do direito administrativo. cuja capital era Niterói. a União dos Homens de Cor. médicos. poetas. são: União dos Homens de Cor. Centro de Estudos. Já o Centro Cultural José do Patrocínio apresentava como finalidades atender ao seu quadro de associados bem . mas que com ele mantinha estreita cooperação. Ressalvadas eventuais alterações futuras de rumo.Maio/2004 73 tentativa de levante universitário na França em 1968 e em boa parte da Europa ocidental tem seu paralelo no Brasil. Os movimentos de resistência negra em Duque de Caxias começam a se organizar a partir da década de 1950. No atendimento jurídico eram prestados serviços tais como a confecção de registros de nascimento e de casamento. É o caso de entidades surgidas no município em 1949. respectivamente. a Liga Eleitoral Independente. onde a resistência à ditadura se acentua e. com núcleo em Duque de Caxias. as vozes tomadas como objeto de estudo dessa pesquisa. Em meados da década de 1950. e do Centro Cultural José do Patrocínio. mas com sede na capital federal e no antigo estado do Rio de Janeiro. Centro Cultural José do Patrocínio. militares. sediado no município de Duque de Caxias. a respeito da trajetória do movimento negro em Duque de Caxias e sua inserção no cenário político local. A dura repressão aos movimentos sociais que se seguiu só começa a arrefecer em fins da década de 1970 e começos dos anos 1980.

ele não apresenta direção clara. ganham configuração orgânica. As origens do movimento abordado aqui estariam na virada do século 20. A entidade sobrevive com apoio de instituições privadas e públicas. funcionaram como núcleo reverberador das vozes das “pequenas Áfricas”. procurando resgatar e remeter à valorização da cultura afrodescendente e também à profissionalização. aulas de canto. p. procurando se fazer ouvir na instância do governo municipal e na câmara municipal. dança afro. por exemplo. As entidades do movimento negro aqui mencionadas desenvolveram propostas reais de inserção no cenário social e político.” Em certa medida.” Para isso. Algumas dessas entidades ainda têm vida orgânica. na verdade. a OYA-MATAMBA. montando a estrutura do Telecurso. atenta às ações da política local. que era “o resgate histórico do negro na formação da sociedade brasileira e o combate sistemático a toda e qualquer 2 forma de racismo. da organização política Frente Negra 2 Guia Brasileiro de Fontes para a História do Negro na Sociedade Atual. Os frutos desse trabalho resultaram numa banda de samba e afro-reagge formada apenas por mulheres. criado em 1983 com a perspectiva de ser um núcleo de resistência da cultura negra. Observam-se tentativas de organização de um movimento negro. em âmbito nacional. Diamante Negro. após ter sofrido a mudança de Vilar dos Teles para Duque de Caxias. capoeira. sentido de movimento.74 Revista Pilares da História . em São Paulo. começa a empreender sua meta. outras não. percussão. Esses núcleos. fazendo convênios com instituições privadas como a Fundação Roberto Marinho. através de suas manifestações artísticas ou de tentativas de participação na política local. e o bloco carnavalesco Ojuobá-Axé. cria cursos voltados para a comunidade carente. o movimento negro é uma série de movimentos com compromissos ideológicos e estratégias políticas diferentes. Entendido como movimento. isto é. 53. Um movimento de grupos com pouca coerência política ou ainda poucas relações entre si. 3 . Semana Nacional de Consciência Negra. alcançando o auge e ao mesmo tempo seu declínio ao longo da década de 1980. O Grupo Afro-Cultural Ojuobá-Axé. na década de 3 1970 . Carnaval e em diversos eventos da comunidade. constituídos inicialmente em entidades isoladas. O Mundo Artístico Negro. Segundo Lélia Gonzalez “movimento negro. é um movimento dos negros. informática. Contudo. É esse modelo de instituição que interessa principalmente à observação desse trabalho. a partir da década de 1930. A maneira de mostrar o trabalho do grupo é através dos eventos criados pelo Ojuobá-Axé e na sua participação das festas locais: Concurso de Beleza Negra. através da ação dos seus diferentes departamentos.Maio/2004 como a comunidade negra e carente em geral. mantendo cursos de cabeleireiro afro. com o surgimento. ou como série de movimentos.

o TEN passa a organizar cursos de alfabetização. eram encenadas peças como o Imperador Jones. uma elite pensante negra. Entre os seus fundadores contavam-se intelectuais. No teatro. toma corpo. Desde 1915 existiam mais de 20 associações de negros espalhadas por São Paulo e Rio de Janeiro. Com esse propósito. as esperanças de organização dos grupos negros se fortalecem. 4 . formação cultural e sociodrama. GEORGE Hanchard. LANNES de Oliveira. A Frente Negra Brasileira teve duração muito curta. A questão do negro em âmbito nacional. com possibilidade de produzir fundamentação teórica e de atuar como grupo de pressão. Dissertação de Mestrado apresentada num Grupo de trabalho durante a ANPUH Nacional . A Frente Negra Brasileira: Política e questão racial nos anos 30. 1998. Paralelamente. A proposta de branqueamento étnico presente no cenário político-social brasileiro suscitava uma resposta dos grupos e associações de negros. de Albert Camus (1949). 6 L. inclusive o Partido Republicano 5 Paulista. Com objetivos extremamente elitistas e atrelados à discussão entre os social-democratas e os integralistas que dividiam o grupo político-partidário. dentro do espaço teatral brasileiro. artistas. Em 1936. 5 Michael. escritor. efetuava-se um trabalho de orientação psicodramática cujo objetivo era a purgação do drama social do negro por intermédio da catarsis. O término da Segunda Guerra Mundial e a recomposição do mapa político mundial estimulam a expansão de movimentos anti-racistas motivados pela luta contra o nazifascismo.Maio/2004 75 Brasileira4 (1930). No sociodrama. Várias propostas surgem nesse sentido. para quem essa militância poderia garantir o espaço desse grupo no cenário político-social. político.Revista Pilares da História . realizada na representação de papéis que o personagem/artista desejaria ocupar na sociedade. COSTA Pinto. como a criação do Teatro Experimental Negro _ TEN _ em 19446. remanescente da aristocracia rural escravocrata . durante a vigência do Estado Novo. 2001. Com o novo ambiente que se instaura no país. A. Vargas extinguira a Frente Negra e fechara todos os partidos políticos. Orfeu e o Poder: Movimento Negro no Rio e São Paulo. difundia-se a ideologia da democracia racial inscrita nos discursos do Estado e apresentada à sociedade civil como um traço afirmativo do nosso caráter nacional. Foi o primeiro movimento negro organizado. Laiana. visibilidade e expressão política efetivamente na década de 1950. É nesse momento que se organizam vários eventos e aparecem diversas instituições voltadas para a discussão dessa temática. começa a se ramificar por algumas partes do país. de Eugene O'Neill (1945) e Calígula. a Frente Negra se transforma em partido político e em 1937 é extinta por um ato de Getúlio Vargas. como no Rio de Janeiro. O Negro no Rio de Janeiro: Relações de Raças numa Sociedade em Mudança. de 1930 a 1937. ativistas negros e profissionais liberais como Abdias do Nascimento. No plano interno. que pretende organizar. É nesse sentido que diversos membros de associações e núcleos de ativistas negros verão no governo de Vargas a possibilidade de encaminhar a resolução de sua problemática. então. artista plástico.

. 10 Idem. fev. mas numa espiritualidade.. idéia que não se materializou pelo temor de que fosse entendida como uma entidade racista. p. moral e cultural do negro. o TEN procurou fazer ecoar o seu discurso. p. a Confederação Nacional de Entidades Negras9. 250. A União dos Homens de Cor tem sua origem no “Centro Espírita Jesus do Himalaia”. sabia-se que Abdias não alcançaria. 1998. sendo Jovino Severino de Melo o líder do Centro e o presidente da Uagacê. Para a União dos Homens de Cor _ Uagacê _ tratava-se de desenhar um projeto associativo que se constituísse como uma “organização destinada à ação contra o preconceito de cor e pelo alevantamento material. 248. a entidade se dedicava ao exercício da caridade e do assistencialismo. cogitam da criação de uma entidade aglutinadora para onde convergiriam vários segmentos dos grupos negros organizados. mas apenas como uma manobra para ampliar o eleitorado do partido. 1950. O Negro no Rio de Janeiro: Relações de Raças numa Sociedade em Mudança. n. que apresentava editoriais chamando a atenção para o objetivo do teatro negro: “suscitar o florescimento de uma elite de homens de cor. 260.) a unidade desta elite não se estriba numa arregimentação. A grande efervescência e a militância dos grupos negros deflagram vários eventos _ influenciados ou não pelo TEN _ como a Convenção Nacional do Negro (1949) e o I Congresso do Negro Brasileiro (1950). p.Maio/2004 Não só no teatro. Quilombo. Para minimizar o problema. A. 8 Idem. p. L. que teve seu nome apresentado na lista de candidatos a deputado. Os delegados do Congresso. quando Abdias do Nascimento foi indicado à candidatura na eleição para vereador. O projeto reuniu elementos da população negra bem diferentes daqueles que o TEN atraiu. 7 . 9 Idem. por via. 11. por meio da distribuição de roupas. da assistência social” . p.7 A efetiva possibilidade de inserção do TEN no cenário político teve lugar com o período pré-eleitoral em 1949/50. mas também pela utilização de outros espaços. Como no jornal Quilombo. na esfera da cultura (. sob a liderança de Abdias do Nascimento. 6. O problema do negro estaria diretamente ligado a sua miséria econômica e social. alimentos e medicamentos nas In. ano II. de que o Teatro Experimental do Negro é a alma mater ”. 8 como de fato não alcançou. votação suficiente para eleger-se deputado . 259. 10 principalmente. que consistiu na proposta de criação de legenda para a candidatura de Abdias. COSTA Pinto.76 Revista Pilares da História .. capazes de empreendimentos de envergadura. Na verdade. Tal chance foi abortada por um golpe.

por conta de suas indefinições ideológicas.Maio/2004 77 localidades listadas como as mais carentes.Revista Pilares da História . a dificuldade de se resolver a problemática racial numa sociedade 12 hierarquizada em classes . p. Os registros e as reivindicações da Uagacê estavam presentes no seu periódico Himalaia. Esse programa de metas foi apresentado pelo presidente da Uagacê durante um congresso negro. julho/1978. O tema central era Raça e Classe no Brasil. principalizando a luta de classes. nas décadas de 1970 e 1980. e Oliveira e a historiadora Beatriz Nascimento. Além disso. Apesar de a população negra ter sido beneficiada por projetos de expansão do sistema educacional. centros médicos e cooperativas que oferecessem gêneros de primeira necessidade nas diversas localidades. no futebol. O conteúdo programático de muitas entidades do movimento negro traz a mensagem marxista-leninista. que publicava correspondência denunciando todo ato discriminatório contra a população negra. por exemplo. assume a face de movimentos engajados nas questões político-partidárias pontuais. cobrava das autoridades governamentais e da sociedade instituída a criação de órgãos que financiassem os empreendimentos necessários para pôr em prática suas propostas de combate à discriminação racial. Setenta e dois por cento dos negros e 68% dos não-brancos permaneciam analfabetos em registros de 1950 a 1973. 203-204. segundo o censo de 1950. de proteção da identidade e da cultura negra. A estatística espacial do negro na sociedade brasileira na década de 1970 era a da exclusão no mercado de trabalho e na representação política e ainda o confinamento da população negra e não-branca nas periferias da cidade e nos municípios do estado do Rio de Janeiro. sobretudo nas mais distantes. Um debate acerca desse tema é travado entre o meio acadêmico e as entidades do movimento negro na década de 1970. O acesso à escola11 apresentava um número alarmante. . à época membro do CEBRAP. do IUPERJ. Raça e classe O movimento negro porém. Idem. oscilava. Numa discussão entre os sociólogos Otávio Ianni. os da Baixada Fluminense. de criação de escolas. apenas 3/5 da população negra teriam conseguido completar o curso primário. orientando-se também pela dicotomia proposta pela divisão do mundo em capitalismo e socialismo. bem como de outros grupos étnicos. foram destacados os seguintes pontos: o resgate da consciência histórica do negro para se posicionar frente ao branco. 11 12 Revista Encontros com a Civilização Brasileira. nº 1. Assim. que se manifesta na música. como. o espaço de resistência do negro. nas escolas de samba. no candomblé. O debate prosseguia tentando identificar onde começava o problema se era uma questão de classe ou se era uma questão racial. Eduardo de O.

“não bastava usar os mesmos 14 banheiros e restaurantes que os brasileiros brancos” . A divergência entre esses grupos do movimento negro na verdade não era muito significativa... Para eles. M. 110 13 . toma corpo outra dimensão para as discussões: os ideais dos ativistas remanescentes do período anterior a 1964. É claro que o debate ideológico é influenciado pelo ativismo internacional.). etc. O que havia era um trânsito aberto de elementos de um grupo dentro do outro. G. Na visão dos africanistas. mas sem uma formulação de luta política (. paralisações. sem conseguir avançar além do ponto em que estávamos no começo. e dos protestos contra atos específicos de exclusão racial (. repercutem fortemente entre nós as idéias de americanistas e africanistas. Em seu lugar. O destino desses grupos iria depender de sua fragilidade ideológica e conseqüentemente de inserção no cenário político-social.)”. Esse pensamento levaria o movimento à extinção. No início dos grandes encontros e reuniões da comunidade negra.78 Revista Pilares da História . Os americanistas propunham um programa pela integração do negro como cidadão na sociedade brasileira. Os americanistas foram se reunir no Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN) e os africanistas na Sociedade de Intercâmbio Brasil-África (SINBA). a partir da década de 1970. p.. p. foi sua inserção no quadro político de esquerda. 109.Maio/2004 A nova feição do movimento.. Orfeu e o Poder . era necessário buscar a essência africana.). HANCHARD. procurando ligar a discussão de raça à discussão de classe e a ela se relacionando outras questões como a sexualidade. seu referencial histórico e ideal do movimento. fundamentados nos modelos dos Panteras Negras e do Poder Negro13. Os africanistas inspiravam-se nos movimentos anticolonialistas da África. não parei nem uma vez para pensar nisso (. a ecologia. posição “afrocêntrica” fundamentada na origem e no retorno. a saber: a visão conformista e a ascensão social. o papel da mulher. Os negros deveriam exigir do Estado e da sociedade civil tratamento compatível com sua condição de contingente majoritário da população. o ambiente aglutinador dos dois grupos foi o Centro de Estudos Afro-Asiáticos (CEAA) na Universidade Cândido Mendes _ espaço aliás que ainda hoje amalgama e irradia discussões do movimento nacional e internacional e atua como centro formador e produtor de conhecimento sobre a problemática do negro _ até o aparecimento das divergências que levaram à divisão em dois grupos. In. p. conforme observado na autocrítica feita pelo fundador do SINBA Yedo Ferreira: “Eu tinha o desejo de criar uma instituição. 109. no contexto da luta pelos direitos civis. 15 Idem. 14 Idem. Dois pontos importantes da pauta de discussão das organizações negras das décadas de 1930 e 1940 foram abandonados. de modo que a instituição continuou assim. Nesse caso. em vez do tratamento desigual que recebia _ idéia reforçada pela concepção americanista...”15 “ Defesa dos boicotes.

nem a criação da Fundação Palmares por decreto presidencial em 1988. nem as manifestações de militantes do movimento negro no centenário da Abolição naquele mesmo ano. nos cursos de artesanato e penteados afro. . nem as antigas nem as novas entidades do movimento negro. tomando como questão fundamental a dominação político-ideológica proposta pelo dominador e assumida pelo dominado. na reconstrução de seus mitos como é o caso da estátua de Zumbi dos Palmares construída com verba municipal. Em todas essa tentativas de participação da comunidade afrodescendente no jogo político está presente o embrião da problemática negra. mas 16 Seção II. p. tentando pensar e pôr em prática ações concretas visando à inclusão da população negra no cenário político nacional. Artigo 5. da Constituição Brasileira de 1988. Independentemente da maneira de inserção nesse cenário _ se através da religiosidade. quando se discutiu a permanência da exclusão da população negra e a inclusão na Constituição Brasileira de um artigo que criminalizasse a discriminação racial _ nada disso resultou em algo conseqüente16. se através de outras manifestações culturais como nos concursos e desfiles de beleza negra. conseguiram se organizar e fazer ecoar suas vozes nas “Pequenas Áfricas” que se formaram nos municípios da região.Revista Pilares da História . 160. na formação de blocos ou grupos afromusicais. Numa discussão inicial de nosso trabalho. Muitos elementos da população afrodescendente começam a se organizar em torno da criação de entidades do movimento negro. quer sejam aquelas de cunho meramente religioso. no sentido de avançar as discussões para além do sentido étnico-racial. A propósito. onde se pode observar a existência de número significativo de entidades do movimento distribuídas nos seus distritos. nem os órgãos auxiliares em eventuais governos de esquerda. Resta saber como essas discussões seriam encaminhadas e o que delas resultaria. a proposta é pensar como as entidades do movimento negro no âmbito local. quer sejam aquelas com proposta de resgate cultural e de inserção no cenário político e social. ocupação e construção de espaços possíveis para segmentos da comunidade negra. Nas propostas dessas entidades e instituições do movimento negro duquecaxiense estão presentes as tentativas de resgate cultural e também a necessidade de defesa. especialmente Duque de Caxias. parágrafo 42. idem.Maio/2004 79 A década de 1980 foi o período de ascensão do movimento negro nacional e ao mesmo tempo o período de seu definhamento. Seria o momento de maturidade ou de mais uma tentativa de afirmação? As gerações anteriores prepararam o terreno e abriram os espaços para incluir a questão de “raça e classe” nas discussões políticas. na década de 1980. especificamente falando dos “bantustões” sociais da periferia da periferia que é a Baixada Fluminense. Entidades pululavam aqui e ali.

pedra de toque desse trabalho. Para além da discussão étnica O que é mais relevante? Discutir se existe racismo no Brasil. na umbanda. na quimbanda etc. a despeito das condições adversas que se apresentavam para eles. ou discutir de que forma as contradições de classe podem ser o pano de fundo da discussão étnica apresentada no país? Parece que a resposta à primeira questão é óbvia. É certo que existiram diversas modalidades de escravismo e que a forma do escravismo pela diferenciação étnica nasce com a experiência colonizadora européia. A necessidade dos afro-brasileiros de Duque de Caxias de se organizar em núcleos cujo número é suficientemente expressivo. que sombras essa parte tem sido capaz de projetar como seus ecos? De que modo ela resistiu como comunidade político-cultural? Rever a organização e a formação da militância do movimento negro local no processo de construção da Caxias de hoje. Trazer a questão do negro para sua efetiva participação no jogo político é fundamental para a discussão da cidadania no município de Duque de Caxias. Já se sabe que houve tentativas de resistência dos negros ao jugo escravocrata e que ao longo dessas lutas de resistência algumas “vitórias” foram alcançadas pela comunidade negra. contudo a segunda ainda precisa ser respondida. para reclamar reconhecimento acadêmico.) e nos núcleos do movimento negro (centros de cultura.Maio/2004 que tem sua autoria reclamada por uma entidade do movimento negro local. a fim de que se perceba como a comunidade negra resistiu e se posicionou ante as camadas dominantes e no conjunto mesmo da sociedade geral. Da mesma forma. capitalista. Perseguidos pela polícia. propor um debate para além das fronteiras da questão racial. os seus desdobramentos. . se se levar em consideração as entidades notificadas. muitas vezes estigmatizados pela comunidade local. pôr em evidência os modos como conseguiram e conseguem ainda as vozes d'África ser ouvidas nesse contexto seriam os pontos mais relevantes da pesquisa.80 Revista Pilares da História . Se Duque de Caxias é em grande parte negra. foram organizando os seus centros de encontro e articulação no cenário local. núcleos de ensino). abrangente. perceber por que existe a preocupação dessa comunidade em se organizar e forjar uma inserção no cenário político-cultural. Sobretudo na formação de seu império colonial nas Américas. os grupamentos afro-brasileiros em Duque de Caxias procuraram se organizar. Atualmente essas resistências afrodescendentes têm eco nos núcleos de religiosidade afrobrasileira (no candomblé. núcleos políticos. e como resistiu política e culturalmente numa cidade sitiada pelos poderes nacionais e pelos poderes locais. associações. Olhar a problemática étnica através da lente da problemática de classe é dar um caráter de maior amplitude ao papel do negro na sociedade brasileira. Nas mais diversas formas e representações. As agremiações que conseguiram sobreviver demandam um desvelamento.

Conferência Contra Racismo. Arquivo Nacional. 02/10/01. 1978. O negro na civilização brasileira. Cidade de Duque de Caxias: desenvolvimento histórico do município _ dados gerais. 1958. Pierre. Em ambos os casos porque a correlação de forças no plano internacional impôs tais limitações ao teor da conferência que ela se tornou pouco mais que uma reunião de injustiçados debatendo entre si e uivando para a lua. em setembro de 2001.Revista Pilares da História . Michael G. 1971. O poder simbólico. Das propostas consideradas no encontro _ produzir “uma declaração com o reconhecimento de formas contemporâneas de discriminação e intolerância e um programa de ação concreta”17 _ a primeira acabou sendo descartada e a segunda perdeu relevância. 1965. 1998. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOURDIEU. 02/10/01. Boris. Tradução. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro. PINTO. Arthur Ramos de A. Rio de Janeiro: Ed. São Paulo: Edusp. José. 1999. na África do Sul. Guia Brasileiro de Fontes para a História do Negro na Sociedade Atual. Caxias. O negro no Rio de Janeiro: relações de raças numa sociedade em mudança. Rio de Janeiro: IBGE. Costa. FAUSTO. 1998. O tema do movimento negro em âmbito local e seu trânsito no espaço político vêm sendo pouco abordado na produção historiográfica. julho. Orfeu e o Poder: O Movimento Negro no Rio de Janeiro e São Paulo (1945 _ 1988). ponto a ponto (1953 a 1957). LUSTOSA. Encontros com a Civilização Brasileira. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil.Maio/2004 81 Na Conferência Mundial Contra o Racismo realizada em Durban. pouco se apresentou em termos de propostas reais. UFRJ. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil. VELHO. Duque de Caxias: Agora. Laís Costa. 2001. 1989. 17 Folha de São Paulo. História do Brasil. PEREIRA. nº 1. deixando exposto ao mesmo tempo um território amplo e fértil. pronto a apresentar novas contribuições acadêmicas interessadas em aceitar o desafio de sua compreensão. Rio de Janeiro: EdUERJ. A17. In: Folha Mundo. Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. HANCHARD. A. . Folha de São Paulo. L. p.

Todos os Estados litorâneos.82 Revista Pilares da História . curso técnico de cerâmica pelo INT. em função da imensa área do nosso território. Washington. Por esta causa não se pode dizer com exatidão o momento da chegada do homem ao território onde seria criada a nação brasileira. de uma forma global. Graças a isto foi possível comparar-se os resultados e estabelecer. pela primeira vez. foram abordados por técnicos que utilizaram a mesma metodologia e as mesmas técnicas de interpretação. Inúmeros trabalhos anteriores. As datações mais antigas recuam este Bacharel e licenciado em História pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. como elementos de referência.Maio/2004 A PRÉ-HISTÓRIA FLUMINENSE Ondemar Ferreira Dias Júnior 1 A pesquisa arqueológica no Brasil ganhou notável desenvolvimento após 1965. complementam o que se conhece a respeito e. pósgraduação pela UFRJ. razão pela qual a evolução cronológica é feita sempre em termos relativos. embora ainda falte muitíssimo a ser esclarecido. o que se sabe hoje é um incentivo para a continuação da pesquisa. as linhas gerais do desenvolvimento da ocupação pré-histórica do nosso país. EUA. especialização em Arqueologia Pré-histórica pela UFPR. “Short Term Scholar” da Smithsonian Institution. com a autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. do Rio Grande do Norte e grande parte da área amazônica. 1 . com a criação de um programa de pesquisas coordenadas. e a maior parte dos trabalhos desenvolvidos após o PRONAPA. livre docência em História da América pela UFRJ. obtidos por diversas fontes. Na reconstituição arqueológica da pré-história são muito raras as vezes em que é possível se determinar o momento certo em que se deu este ou aquele acontecimento. denominado PRONAPA (Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas) patrocinado pelo Conselho Nacional de Pesquisas e Smithsonian Institution. Mesmo os mais modernos meios de datação em uso sempre deixam uma certa margem de erro. embora sejam constantemente utilizados marcos temporais.

complementar. estas comunidades. passaram a praticar uma agricultura incipiente. Esta viria a modificar os padrões de comunidade. Restos culturais destas primeiras populações têm sido encontrados em São Paulo. onde as regiões de . que se estende em direção ao Norte. Em vulto menos espetacular. Minas Gerais etc. Em toda esta região os seus padrões se repetem. se espalharam por grande parte do país. Seus instrumentos eram preponderantemente de pedra. conquistando e colonizando imensa área. tornaram-se semi-sedentários. na ilha do mesmo nome na boca do amazonas. onde a cerâmica apresenta outros elementos de interesse e demonstra a diversificação cultural. No interior a habitação em cavernas foi muito comum. Hoje se aceita que antes do ano 1000 da nossa Era já se encontravam ali. em virtude das dificuldades encontradas na ilha. No Sul do país. mas existem pesquisadores que acreditam poder recuá-lo ainda mais. Com o passar do tempo. em que as modificações do meio ambiente facilitaram a proliferação de moluscos. Numericamente pouco expressivos. Estes bandos. práticas funerárias e outros aspectos culturais. Numa etapa posterior. que veio de fora. atestando a profundidade daquela Tradição cultural. inúmeros grupos se especializaram na coleta destes. inúmeros grupos locais desenvolveram Tradições regionais. evidentemente que no litoral. Este grupo. modificavam também sua utensilagem. onde predominavam a economia da caça e da coleta.000 anos. favorecendo a permanência e o desenvolvimento das relações sociais. destacam-se os “marajoara”. com o aumento gradativo da coleta. Rio Grande do Sul. Entre os grupos ceramistas que apresentam um apreciável grau de desenvolvimento social. O Pré-Cerâmico no Rio de Janeiro A região hoje ocupada pelo Estado do Rio de Janeiro. Há cerca de 4. dando origem aos muitos “sambaquis”.Revista Pilares da História . em conseqüência. Em alguns casos têm sido encontrados restos seus associados aos de animais da fauna extinta.C.000 anos atrás. aos poucos abandonou seus antigos padrões. À medida que estas tribos abandonavam a antiga atividade econômica. após o “ótimo climático” há cerca de 6. desde muito cedo atraiu inúmeros grupos humanos.Maio/2004 83 fato há cerca de 15. Os primeiros povoadores deviam se organizar em bandos. em busca de campos de caça e aprovisionamento. ao redor do ano 500 d. Ainda se discutirá durante longo tempo sua origem e focos de difusão. registrada pelos cronistas que acompanharam os primeiros passos da colonização européia do Brasil. começa a expansão do grupo tupiguarani. pela variação ecológica que apresenta..000 anos passados a cerâmica aparece entre grupos do litoral e da Amazônia.

Não se sabe quando começou o povoamento. restingas. Estes sambaquis podem ser agrupados em dois tipos. grande quantidade de lascas de quartzo. usadas em adornos e para fins funcionais. No primeiro caso. Até o momento estes sítios estão agrupados numa única fase. fornecendo dados elucidativos através da pesquisa arqueológica. espessas camadas úmidas demonstram maior diversificação econômica. Neste último caso. se constituía em verdadeiro paraíso para o homem que dependia da natureza para sua sobrevivência. Em épocas mais recentes. do “ótimo climático”. Nestes sítios são abundantíssimos os restos das fogueiras onde o peixe era posto a assar. ou com partes picoteadas e mesmo polidas. onde ocorrem. Foram muito comuns as pontas feitas de seções alongadas de ossos leves. é provável que há cerca de 10. rios. Peças executadas em osso e concha são relativamente comuns. como em Itaipu e Cabo Frio. nota-se uma preferência pela localização nas margens de pântanos e alagadiços ou. desde os tempos coloniais. Poucos são os que restam. constituídos pelos restos do que foram grandes sambaquis. comunidades. baías calmas e falésias no litoral estão pouco distantes das altas montanhas da serra do Mar e das suaves ondulações em “meia laranja” do interior. parecem ser distendidos.000 anos passados já se encontrassem aqui os primeiros grupos humanos. mais recentemente. denominada Macaé. inclusive baleias. embora sejam mais difíceis de serem conservadas através do tempo. à beira-mar. embora também variem as posições. No interior fluminense só muito recentemente foram descobertos vestígios dos seus acampamentos. estabeleceram-se sobre dunas de areia muito fina. O material cultural desta fase é representado por artefatos de pedra. à medida que a economia se diversificava e que os grupos abandonavam a coleta que originavam os sambaquis. posteriores a estas alterações. geralmente lascados. com antiga cobertura vegetal da Floresta Tropical. lascas e raspadores do mesmo material atestam esta antiga presença. de função muito variada. onde a pesca deve ter se constituído na atividade dominante. São encontrados vestígios de pescas de alto-mar. cuja finalidade é discutível. Por analogia com as regiões vizinhas. Restos de ocre têm sido encontrados associados. suas espinhas e enormes quantidades de lascas de quartzo de gume extremamente cortante compõem imensas camadas superpostas.Maio/2004 praias abertas. Os enterramentos. em praias abertas.000 anos e os recentes. lagos e mar de muito peixe. Os mais antigos. na sua esmagadora maioria destruídos para fabricação de cal. que . Pontas de flecha de quartzo hialino e leitoso. Pouco sabemos a respeito desses pioneiros. com idade em redor dos 6. Área de clima úmido. anteriores às modificações climatológicas. No litoral são encontrados vestígios maiores.84 Revista Pilares da História .

No “apicum” de Guaratiba também foram registrados casos de enterramentos distendidos com algum acompanhamento. o I. Além das já citadas lascas de quartzo. O único Estado componente desta área. Essa fase cultural foi denominada Itaipu. deram à praia.A. aumentou consideravelmente a margem interpretativa fornecida por este material. Em conseqüência dos trabalhos PRONAPA e das pesquisas posteriores. Não há dúvida alguma de que este método (quantitativo) constitui-se num passo a mais na direção do objetivo da pesquisa arqueológica. machados etc. E provável que a cerâmica tenha sido introduzida no final da história deste grupo. em 1964. O material cultural predominante permanece sendo o lítico. através dos doutores Clifford Evans e Betty Meggers. Na área fluminense foram encontrados esqueletos em covas comuns protegidas com ossos de baleia e em posição fetal (fletida). No Sudeste do Brasil. fora da jurisdição. . deve-se crer. estes quadros analíticos vão se tornando mais claros. os quebra-cocos-batedores etc. À medida que o tempo passa. através dos restos que dele ficaram.Revista Pilares da História . ou com ocre. Também o foram em posição distendida e primária. sem qualquer acompanhamento. desde a sua fundação. embora ainda não se tenha idéia precisa da veracidade desta hipótese. embora abundantes. pois os grupos mais antigos ceramistas da área. utilizados com mais de uma finalidade. embora sigam certos padrões Itaipu. são muito comuns os artefatos feitos de seixos de diabásio. normalmente. têm recebido a soma maior de atenção. e a sua seqüente divulgação no Brasil. Sítios deste tipo se estendem por grande parte do litoral do país. gnaisse e micaxisto. uma soma avultada de novos dados permitiu as primeiras (e ainda incompletas) tentativas de reconstrução. vem pesquisando sistematicamente. pois seixos foram. demonstram um certo sentido de economia. com a criação do método de análise de James Ford. Já se registraram três funções numa única peça. que é a reconstituição do passado. é São Paulo. São comuns os batedores-moedores. Rio de Janeiro e Minas Gerais. Os enterramentos desta tradição variam um pouco. mas é mais provável que se estendam mais para o Norte. em homenagem à área onde o primeiro sítio foi localizado. Os demais. As peças. maiores são as deduções tiradas e aos poucos. apresentam variações culturais consideráveis. em 1961. O Período Cerâmico no Sudeste do Brasil A cerâmica há longo tempo vem despertando a atenção dos pesquisadores brasileiros.B. com a chegada de novos elementos. A partir de 1962. sendo determinados atualmente entre Espírito Santo e Rio Grande do Sul.Maio/2004 85 neste caso.

até o momento. em direção ao norte paulista. a mesma técnica decorativa e a mesma 2 Submetidas pelo doutor Clifford Evans. em Minas Gerais. É provável que grupos desta Tradição tenham chegado até períodos históricos muito próximos da época atual.Maio/2004 Em virtude de todos esses longos anos de trabalho de campo e da sua conseqüente análise efetuada em laboratório. a Itaocara. Os tupis-guaranis adaptavam-se a inúmeras situações ecológicas. Até o momento sabe-se que as primeiras comunidades cerâmicas estão filiadas à tradição denominada Una. Sua cerâmica apresenta em todo o país. Em Minas Gerais algumas fases já foram reconhecidas. enterramentos secundários. em terras fluminenses. são comuns os artefatos ósseos. Há imensa variação nos ritos de enterramento desta Tradição. . ocupavam. Seguem-se-lhe a Sernambitiba. situada em torno da baía de Guanabara e ocupando tesos ilhados no apicum sobre antiga ocupação Itaipu. agora. é possível supor-se que a fase Piumhi apresenta um movimento do interior para o litoral. com formas pouco variadas. diretamente na terra. torna-se possível esboçar-se. Esta é basicamente simples. porém vinculadas à fase Piumhi. mas somente as datações que se encontram em processamento poderão confirmar esta hipótese. predominando a esférica e cônica. Mucuri e 2 Piumhi). a Ipuca e a Itabapoana. inclusive na Tangui. como colares de contas. em época ainda indeterminada. como a Cochá. sobretudo as peças de adorno. Devem ter começado sua penetração a partir do século VIII e estavam vinculados à sub-Tradição Pintada (quando ocorre o predomínio deste tipo decorativo). A mais antiga é. a Guaratiba. mais pelo litoral. de Washington.86 Revista Pilares da História . tanto no litoral quanto ao longo do rio Paraíba. Através de datações obtidas pelo método do C-14 sabe-se que já ao redor do século VI da nossa Era grupos tribais Mucuri se fixavam no baixo curso do Rio Paraíba. O material cultural predominante é a cerâmica. Pedro da Aldeia foi possível localizar-se sítio com esta superposição. sem decoração. pertencente à mesma Tradição no Espírito Santo. em cavernas. a Belvedere e outra ainda sem nome. São encontrados simples sepultamentos de ossos. locais anteriormente habitados pelos Itaipu. Francisco. Provavelmente pela mesma época. da Smithsoniam Institution. no alto curso do rio S. inclusive. abrigos e campos abertos. outros grupos. Pelos dados disponíveis. com três fases culturais componentes (Una. fora de urnas. Tribos da mesma Tradição. sempre mantendo padrões de associação e motivos estéticos singularmente conservadores. ocupavam cavernas calcáreas. as linhas gerais do desenvolvimento dos inúmeros grupos locais ceramistas. Inúmeras foram as fases tupiguaranis determinadas na região. Em S. Os tupis-guaranis são mais recentes nesta área do Brasil. No final de sua evolução receberam influências tupi-guaranis. com sítios associados às cavernas. na fase Una. com urucu. Em todas as fases. de dentes e pingentes de placa.

Maio/2004 87 variação nos padrões empregados. . ajudou ou combateu a ocupação européia da região. Há grande diversificação na decoração e na forma do vasilhame. onde predomina o secundário em urnas. mantiveram-se perpetuados através da cerâmica neobrasileira ou cabocla. mesclados com influências européias e negras. mas certa permanência nos padrões de enterramento. Sua cerâmica permaneceu sendo feita após a conquista e muitos traços dela. O grupo tupi-guarani presenciou.Revista Pilares da História .

atraiu e continua a atrair inúmeros admiradores.Maio/2004 VISÕES UNIVERSITÁRIAS SOBRE A BAIXADA FLUMINENSE A BAIXADA FLUMINENSE NO QUEBRA-CABEÇA ARQUEOLÓGICO Marcelle da Costa Mandarino 1 Lembrar do passado. São Paulo: Melhoramentos. W. A leitura ufanista do passado e a escolha dos fatos e objetos que seriam os mais interessantes permeiam e norteiam o pensamento e a idéia sobre algumas ciências. de alguma forma. Mesmo que o glamour dos arqueólogos da realidade não seja tão evidente como os dos filmes. Livros como o de C. O tratamento do passado de forma idílica. Graduanda em História na Faculdade de Filosofia. Quando se trata de uma ciência que inspira e lembra a aventura como a Arqueologia isto se torna mais evidente. C. visa também preencher um espaço que não está dominado por esta área: o prazer profissional. Ciências e Letras de Duque de Caxias/ Museu Nacional da Universidade do Brasil. já se utilizou. Seja por lembrança de períodos felizes. W. existem os resultados dos trabalhos que foram criteriosamente analisados e o desejo de manter-se atuante na área escolhida. além de utilizar como critério a satisfação de suas necessidades materias. 1960. Ainda que não haja pedras rolando. ou até mesmo pela admiração ou indignação por períodos que lembram suntuosidades ou desigualdades.88 Revista Pilares da História . 1 . Ceraw2 foram causadores de admiração incomensurável e ainda responsáveis por uma visão romantizada de ciências como a Arqueologia. ou 'hollywoodiana'. ele está dentro de cada equipe. este pensamento fantasioso sobre a Arqueologia está longe do olhar cientifico próprio desta ciência. cultuá-lo são processos pelos quais todo ser humano. 2 CERAW. seja pela busca pela compreensão do presente a partir do passado. Não se pode negar que a escolha de uma profissão. Túmulos e Sábios. Porém. Pensar em arqueólogos é pensar em pedras rolando e no Indiana Jones preocupando-se eternamente em não perder seu chapéu. Talvez não para os profissionais da área. Deuses. que através de graduações e especializações buscam respostas heurísticas sobre as questões que estão dispostos a analisar. inserido em cada laboratório.

existe aquele disfarçado de legalidade ou de “profissionalismo”. ou ainda para aqueles não possuidores de compromisso com os fatos que se apresentam. a abrangência do território abriga certamente dados que ajudariam a caracterizar os nativos deste território que hoje denominamos Brasil. é também. o que mais importa são os artefatos em si. ou o túmulo de Tutancamon. A estes. buscam atingir seus objetivos com a venda ilegal de objetos. Tudo o que possa inspirar o desejo de colecionadores é alvo desses que utilizam o termo 'arqueólogo' para conseguir fontes para suas atividades ilícitas. somente com aquilo que consideram real. A busca por tesouros ou túneis que revelariam passagens secretas para lugares fantásticos está presente no comportamento deste grupo fantasioso. Estes são os achados arqueológicos para alguns. mas real. Desvendar este passado é incluir novos dados de análise de nossa . No primeiro caso. Talvez esta busca pelo glamour explique a preferência de certos arqueólogos por pesquisas em certas áreas em detrimento de outras. É certo que na região fluminense (como no Brasil em geral) não se encontram sítios arqueológicos como os da região do Nilo ou de Roma. Não serão encontradas pedras que compunham esfinges. não por aquelas que gostariam que existissem. por não ser o meio científico o lugar para aqueles que pretendem dedicar-se a aventuras sem qualquer respaldo metodológico ou teórico. Este grupo. São dominados por pessoas que utilizam a Arqueologia como forma de enriquecimento.Maio/2004 89 Pensar no enigma de Atlântida. e principalmente. Os sítios pertencentes a este território são obviamente caracterizados pelas culturas aqui estabelecidas. conhecer a nossa própria cultura. Negligenciar ou supervalorizar esta localidade resultaria em erros parecidos. etc. Não é o objetivo deste texto uma abordagem provincianista ou a busca de um saudosismo regional. porém apontar quais os motivos que validam a pesquisa arqueológica na Baixada Fluminense. ao possuir a consciência da inexistência de potes de ouro nos sítios arqueológicos. Sejam eles urnas funerárias ou maçanetas de portas de casas de personagens de nossa história. Homens considerados por alguns como visionários. Quando se fala em Arqueologia o que se imagina normalmente são as pirâmides do Egito. dos goitacás. porém peças que compõem e caracterizam as organizações sociais que ocuparam este espaço. É o setor (se é que podemos chamar de setor) para o qual a Academia não cede espaço. Estes Indianas Jones fora das telas são reconhecíveis. e pela maioria como aventureiros aproveitam-se das mais diversas formas desta ciência que estuda o homem através de sua cultura material. não o contexto em que foram encontrados. Além do aspecto aventureiro. presente nas mais diversas localidades. pois sua conduta é condizente com seu discurso. encontrar semelhanças entre a decoração cerâmica nativa de algumas culturas brasileiras e os hieróglifos egípcios ou mesopotâmicos fizeram _ e ainda fazem _ parte da história da Arqueologia. Conhecer a cultura dos tupis.Revista Pilares da História .

No entanto se faz necessária a inclusão deste espaço dentro do campo geral de estudos arqueológicos. com hipóteses dotadas de significados que se aproximam da complexidade daquele que as criou. Uma descrição densa. formando. indica um novo caminho a seguir: o do abandono de preconceitos e da busca do recolhimento de informações das mais diversas formas. estas ciências são dentro da área que atuam dotadas da autoridade necessária para a compreensão e análise de seus objetos. Não se trata de utilizar a Arqueologia como complemento e ilustração dos estudos das culturas. Portanto. cabe a ela a análise neste campo. p. Já no segundo caso. Luiz de Castro. Com isto não queremos dizer que sua ação seja independente. sendo o Arqueologia a responsável pelo estudo do homem através de sua produção material mantida viva nos sítios arqueológicos. 4 Com isso não pretendemos excluir a participação de outras ciências que certamente contribuem com a Arqueologia. In Dédalo. Se pensarmos em ciências consideradas por muitos como rivais _ a Arqueologia. distanciados do objetivo de uma análise científica. maior a possibilidade de composição de uma estrutura social. ou no que Castro Faria chamou de um “passado que nenhuma escrita registrou”3 . Porém.27. teleológico e universal. a Etnologia e a História _ sua aliança numa dinâmica interdisciplinar4 traria contribuições ainda maiores nas análises propostas. Seria demasiado abordar nesse texto as matrizes formadoras da população brasileira. Mas o que será que possuem em comum justificável a uma utilização simultânea? A resposta. São Paulo: mimeo. Inserindo-a tanto dentro do estado. 1989. a partir das partes (regiões). Ao compreender o homem como um ser social. a necessidade de um novo olhar cientifico se faz necessária. é necessária a utilização de métodos capazes de responder às questões propostas ou de restaurar as páginas de um passado que a terra cuidou de conservar. A comparação de tudo que envolve o sistema humano a um quebra-cabeças nos dá a possibilidade de comprovar esta dinâmica interdisciplinar. Este seria o complexo cultural formador do que conhecemos como Brasil.Maio/2004 formação. bastando para isso o encontro do método adequado às múltiplas faces compositoras do ser humano.90 Revista Pilares da História . Tal como um quebra-cabeças o acréscimo de dados indevidos ou simplesmente o menosprezo de algum dado comprometeria a visão do todo. 3 . Quanto maior o número de peças. a supervalorização da região fluminense poderia gerar resultados descaracterizadores. Rio de Janeiro. é o homem. o todo. como dentro do país. por mais óbvia que pareça. Domínios e fronteiras do saber: a identidade da Arqueologia. Explorado dentro de suas múltiplas esferas. O homem como ator social e integrante do todo civilizacional tem em si uma pluralidade de campos a serem desvendados e interpretados. material ou etnológica. FARIA. quando se trata de objetos que incluem um ser tão complexo.

Deuses. C. as páginas do passado que auxiliaram a construir o presente. JARDIM PRIMAVERA: LUGAR DE REFÚGIO E SOBREVIVÊNCIA 5 Adriano Manhães 6 Desde o início do século XX. austríacos. e suas interações na vida sociocultural da localidade e da região. bem como aos demais. FARIA. Nossa pesquisa pretende abordar parte dos grupos de migrantes que aqui se estabeleceram. como alemães. acrescentar e corrigir informações que na maioria das vezes não são divulgadas. a busca atual deve ser a de preservação dos patrimônios arqueológicos. 1960. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CERAW. A busca pelo exótico.Revista Pilares da História . mimeo. mais um idealista que um executivo. italianos. um empreendimento imobiliário pioneiro e original se instalou em uma região do 2º distrito de Duque de Caxias. européia ou contemporânea. judeus. particularmente em Jardim Primavera. árabes. pois este bairro concentrou vários grupos de origens internacionais. Ainda que certas práticas não estejam extintas. No final da década de 40. Seu proprietário. Túmulos e Sábios.Maio/2004 91 Como a própria história do desenvolvimento da Arqueologia. W. 1989. São Paulo: Melhoramentos. 6 Graduando do 6 período do curso de História da Faculdade de Filosofia. Luiz de Castro. 5 . deu ao projeto urbanístico uma feição toda Comunicação livre apresentada no II Congresso de Professores e Pesquisadores da História da Baixada Fluminense com o tema “Baixada Fluminense: uma historiografia em construção” .27. cujas pessoas. P. suas tradições mantidas e perdidas. entre outros. In: Dédalo. está inserida nas páginas que a compõem. as pesquisas na Baixada Fluminense possuem aspectos parecidos. São Paulo. Ciências e Letras de Duque de Caxias e colaborador da Associação de Professores-Pesquisadores de História (APPH-CLIO). pela comprovação de dados advindos de relatos de viajantes. das mais variadas origens. Pretendemos contribuir para este debate analisando a relação desses grupos estrangeiros com a comunidade. iniciaram o processo de construção social contemporânea da região. Domínios e fronteiras do saber: a identidade da Arqueologia. Nelson Cintra. Seja pelo aspecto da ocupação nativa. na cidade de Nova Iguaçu. no mês de setembro de 2002. e ainda pela utilização das informações advindas destes sítios de forma a ratificar. a Baixada Fluminense foi receptora de várias correntes migratórias. poloneses. Seu objetivo deve ser levar ao conhecimento não só dos habitantes dos municípios da região.

se sentiu mais frágil quando seu pai. Ao chegarem no Brasil. arborização. foi apenas uma parada de rotina para um possível abastecimento do avião. Magaly. porém logo sentiam as desvantagens e dificuldades de uma zona rural com algumas perspectivas de urbanização. limitados pela desconfiança. conseguiu soltá-lo. houve uma escala na Itália. A segunda. porém nenhuma pessoa embarcou ou desembarcou. 7 isso foi acontecer . por ser a representante mais idosa e cujas informações são de relevante importância para a perspectiva de nosso trabalho. e que graças a sua mãe. Em seu depoimento. QUINTANILHA. de migrantes do próprio estado. poloneses. sua família. bastante fechados. do antigo Distrito Federal. Foi a que também primeiro entrevistamos. árabes. Somente com a chegada de conterrâneos é que passaram a formar seus grupos. italianos. que era húngaro. enquanto estava em Berlim. embora remotos. Entre as várias famílias que se instalaram em Jardim Primavera. sofrendo mesmo perseguições. foi preso pelo exército de Hitler. a gripe espanhola e outras doenças. a senhora Allo nos informou que veio da Alemanha para o Brasil no início da década de 40 devido à fome que havia lá e por seu pai ter se recusado a servir ao grande ditador Adolf Hitler. austríacos. Atendendo às exigências técnicas do decreto-lei 58. tais como alemães. 7 . Monografia de bacharelado em Português-Literatura. cuidou para que as ruas principais fossem demarcadas com meios-fios. etc. A origem do bairro de Jardim Primavera. Segundo a entrevistada. Rio de Janeiro: Sociedade Universitária Augusto Motta/SUAM. A mesma acrescentou as barbaridades que Hitler fazia com os judeus e as pessoas que não eram alemãs. 1989. em Niterói. vinham em busca do sossego das áreas verdes semi-exploradas e ricas em oxigênio puro. Os estrangeiros foram se acomodando. e os passageiros foram alojados em acampamentos onde os homens e as mulheres ficavam separados. A senhora Elvira Alice Allo. de imigrantes advindos de vários países devastados pela Segunda Guerra Mundial. já que vinham de uma sociedade beligerante. etc. todos eram vacinados contra a varíola. rede pluvial. de municípios vizinhos e de outros estados. o avião pousou na Ilha das Flores. A maior parte dos neoproprietários era constituída por duas classes distintas: a primeira.Maio/2004 especial. Os pioneiros que aqui chegavam.92 Revista Pilares da História . a primeira. foi o nosso primeiro contato. judeus. preocupado com o bem-estar da futura população. oriunda da Alemanha. alemã. as quais eram torturadas e até mesmo queimadas vivas. Quando dona Elvira Alice Allo e sua família foram trazidas da Alemanha pelo avião da Cruz Vermelha. foi a família Allo.

e sua nacionalidade era tcheca. da rede particular. 8 . Este bairro foi denominado por ele de “Jardim Primavera”. A entrevistada comenta que o bairro teve um cinema.Revista Pilares da História . carteado e outros. que havia dado esperanças dizendo que a situação econômica iria melhorar. O senhor Lázaro era dono de uma fábrica de móveis. em casa com sua mãe. Foram para Jardim Primavera devido à influência de um homem chamado Lázaro. o Ginásio Primavera. que naquele momento tinham apenas o trem da Leopoldina Railway como opção de locomoção para a capital. pobre e humilde. tornando-se o homem da lei. sua família migrou para o Brasil por decisão de escolha. por que. e que sua família não pôde matriculá-la devido às mensalidade muito altas e à pouca renda familiar. A senhora Allo comenta que em Jardim Primavera não tinha praça e nem escola pública. do lar. A entrevistada disse que a família não recebeu nenhum apoio ou ajuda. e que seus pais não participavam por não gostarem desse tipo de atividade. o local comprado por Nelson Cintra era uma chácara e que havia apenas mato e árvores frutíferas. com o objetivo de criar um bairro formado apenas por estrangeiros. para os moradores do bairro. Outra atividade da qual participou foi a luta pela implantação de uma linha de ônibus da empresa Luxor que fizesse o itinerário: Central-Jardim 8 Primavera-Central . segundo a entrevistada. que. Segundo dona Elvira. Dona Allo conta que sua Observamos que nessa época a ligação de Duque de Caxias era ou com a Praça Mauá ou com a estação de trem Barão de Mauá. no centro de Caxias. com o objetivo de viabilizar a viagem da Baixada Fluminense para o centro da cidade do Rio de Janeiro. que foi construído por um imigrante iugoslavo. pois poderiam ter ido viver em outro país. que existia somente uma entidade de ensino. já que seu pai era eletrotécnico e sua mãe. que o mesmo o preparou para que fosse ocupada pelas pessoas vindas da Europa e do restante do mundo. embora seus pais não se relacionassem com algumas pessoas do bairro.Maio/2004 93 Segundo a senhora Allo. A família. era de difícil acesso. teve um bom relacionamento com a comunidade. e que depois conseguiu se estabilizar financeiramente. e veio da Europa nas mesmas condições que a sua família se encontrava naquele momento. A mesma relata que naquele período morava de aluguel com sua família no bairro Itatiaia. A senhora Elvira conta que conheceu o Senhor Tenório Cavalcante e que o mesmo intimidava a comunidade caxiense através de suas ações violentas. segundo a mesma. Suas primeiras atividades no bairro de Jardim Primavera foram como doméstica. havia um bar próximo de sua casa onde os estrangeiros se reuniam para beber e praticar jogos como boliche. devido à distância.

pois todos os membros trabalham e estudam. Ela acrescenta que sua mãe não aceitava os costumes da sociedade brasileira. é confirmada pelo fato de Idelga Allo. Monografia de bacharelado em Português-Literatura. seguindo o exemplo de sua mãe. Magaly. Relata-nos ainda que na época não sabia cozinhar feijão. devido aos hábitos que tinha na sua terra natal.Maio/2004 irmã sofreu preconceitos quando foi morar em Campo Grande após ter se casado. filha de Elvira Alice Allo. para uma possível indenização por perdas e danos. que é respeitada e admirada pelos vizinhos e amigos. Os integrantes da família mantêm um bom relacionamento com a comunidade segundo depoimento da senhora Allo. o que comprova uma resistência por parte de sua mãe em relação a essa nova cultura que lhe é apresentada no Brasil. A família leva uma vida razoável em Jardim Primavera. Rio de Janeiro: Sociedade Universitária Augusto Motta/SUAM.94 Revista Pilares da História . Esse formulário que a família recebeu recentemente exigia que fossem anexados documentos de identificação de todos os membros da família que fossem descendentes de alemão. para que os mesmos fossem cadastrados no serviço de apoio aos fugitivos de guerra. com o objetivo de localizar as pessoas que fugiram da Europa devido à Segunda Guerra Mundial. . A educação dada. criado pelo atual governo da Alemanha. A senhora Elvira Alice Allo diz que ensina algumas palavras e frases a seus filhos e netos. por exemplo. Segundo a senhora Allo. com a intenção de reparar os prejuízos provocados pelo governo alemão durante aquele período. Dona Elvira comenta que a embaixada da Alemanha na Argentina entrou em contato com a família através do consulado alemão no Rio de Janeiro. procurou educar os filhos sem nenhuma discriminação. assim como sua mãe o fazia. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS QUINTANILHA. A entrevistada relata que sua mãe passou dificuldades nos primeiros meses porque não possuía conhecimentos da culinária brasileira. apesar de toda violência que presenciou na Alemanha em relação aos tratamentos dispensados aos judeus e às pessoas de outras etnias. o que despertou o desejo de um de seus netos em querer conhecer a Alemanha. tendo que comer banana com farinha. para que não houvesse discriminação. A origem do bairro de Jardim Primavera. legumes e verduras. pois a comunidade não a aceitava no bairro por ser alemã. A família acredita que o processo esteja sofrendo retardamento devido à crise econômica da Argentina. ter se casado com um rapaz negro e ter tido um filho com ele. 1989.

As informações transcritas são armazenadas em fichas paginadas contendo a indicação da folha do livro original que está sendo transcrito. Graduandas do 7º período do curso de História pela Universidade Federal Fluminense. 10 9 . As referidas professoras atuam no Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI) do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense. Possui o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) _ órgão financiador _ e do Arquivo da Cúria Diocesana de Nova Iguaçu. o projeto tem priorizado a documentação de escravos da Freguesia de Santo Antônio de Jacutinga. que disponibiliza a documentação11. S. Santana das Palmeiras. S. Portanto. de batismos de escravos . a data e o tipo de assento (matrimônio. pretendese explorar as classificações e as relações étnicas das populações afrodescendentes escrava e livre da região. Antônio Lacerda e do paleógrafo. A pesquisa vem sendo desenvolvida desde outubro de 2002 e a atividade diária consiste na leitura e transcrição fiel das fontes no período delimitado pelo projeto. Até o momento. 13 O referido livro é de batismos de escravos da Freguesia de Santo Antônio de Jacutinga entre 1807e 1825. Memória e Escravidão. 12 Os referidos livros são: o primeiro. Memória e Identidade” está sendo desenvolvido sob a orientação das professoras doutoras Hebe 10 Maria Mattos e Mariza de Carvalho Soares . no eixo de pesquisa História. da Piedade de Iguaçu.Maio/2004 95 UMA EXPERIÊNCIA EM PESQUISA HISTÓRICA NO ARQUIVO DA CÚRIA DIOCESANA DE NOVA IGUAÇU Denise Vieira Demétrio 9 Gisele Martins Ribeiro O projeto “Populações Negras no Estado do Rio de Janeiro: História. matrimônios e óbitos relativos às freguesias de N. nos encontramos na fase de levantamento de dados. da Conceição de Marapicu.Revista Pilares da História . 11 No Arquivo da Cúria Diocesana de Nova Iguaçu. N. e o segundo.que abrange o período entre 1797 e 1807. batismo ou óbito). O Arquivo da Cúria Diocesana de Nova Iguaçu dispõe de livros de assentos de batismos. Através das informações das freguesias citadas. já foi concluído os dois primeiros livro 12 da série e o livro de batismos de escravos da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Marapicu _ 1871 a 1888. Paulo de Paracambi. todas de inestimável valor histórico para o Estado do Rio de Janeiro.da mesma freguesia . contamos com o inestimável apoio do responsável pelo Arquivo e professor de História. no período entre 1686 a 1855. de batismos e matrimônios de escravos da Freguesia de Santo Antônio de Jacutinga. no período entre 1871 e 1888. Pedro e S. S. Nelson Aranha. e encontra-se em andamento a transcrição do livro subseqüente13. e um livro de batismos de escravos da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Marapicu. Santo Antônio de Jacutinga. entre as datas de 1686 e 1947. Do acervo citado. entre 1686 e 1721.

contestam visões tradicionais da historiografia. Somada aos ganhos pessoais. a documentação será apenas um amontoado de papel velho e malcheiroso. . através deste projeto. E ainda é primordial que as perguntas partam do próprio pesquisador.Maio/2004 após a conclusão desta etapa. atentamos também para a importância da metodologia da pesquisa. conseguimos levar um pouco da importância histórica da região para um meio acadêmico que não a valoriza. muitas vezes. Este projeto possibilitou a nossa inserção na prática da pesquisa em história e nos tem revelado a importância da atividade para a formação de um historiador. tornando insatisfatório o resultado final tanto para o pesquisador quanto para seus leitores. a prática da pesquisa também nos tem oferecido a possibilidade de nos dedicarmos à História da Baixada e levar a nossa experiência a importantes instituições. Caso contrário. fixando laços de compadrio. passariam despercebidas. se elas não existirem.96 Revista Pilares da História . que são inerentes à pesquisa. Estamos tendo a oportunidade de vivenciar todas estas implicações. que talvez em outros momentos. O leque de possibilidades vai desde a curiosa ortografia do período até as relações sociais estabelecidas no mundo escravocrata que. Além desta contribuição. a viabilidade de senhores batizarem escravos. como a Universidade Federal Fluminense. Notamos como é fundamental para o pesquisador que pretende iniciar um trabalho acadêmico possuir tema (delimitação de um assunto geral). política. a fim de tornar proveitosas as suas visitas aos arquivos. como por exemplo a possibilidade de o escravo construir família dentro do controle do sistema escravista desde o século XVII (haja vista que alguns autores datam a sua existência somente a partir do século XIX) ou ainda. Logo. pois se forem feitas por terceiros corre-se o risco de a documentação não falar o suficiente. etc). tempo (delimitação temporal) e eixo temático (linha a ser enfatizada no decorrer do trabalho: cultural. espaço (delimitação geográfica). já que o documento só fala a partir das perguntas do pesquisador. onde há pouco ou nenhum interesse nesta temática. Percebemos no contato com a documentação inúmeras possibilidades passíveis de se tornarem interessantes pesquisas acadêmicas. contribuindo assim para a historiografia do Brasil e também para a superação de “préconceitos” que existem em relação à Baixada Fluminense. pretende-se montar um banco de dados com todas as informações obtidas e disponibilizá-las na internet para todos os pesquisadores interessados. achamos que é essencial ter interesse e técnicas metodológicas para que a pesquisa seja uma atividade interessante e renda um trabalho proveitoso. o que só enriquece a nossa formação acadêmica. social. torna-se uma atividade exaustiva e sem qualquer retorno positivo. Portanto.

4 permitindo. Professor da rede pública municipal de Duque de Caxias. Dando ciência aos pesquisadores e demais interessados sobre o conteúdo de tais documentos.Vassouras . assim. Rio de Janeiro.Revista Pilares da História . Professor das redes públicas estadual do Rio de Janeiro e municipal de Duque de Caxias. Titular da Disciplina Metodologia da Pesquisa do curso de História da Faculdade de Filosofia. Pós-graduada em História das Relações Internacionais pela mesma universidade.Maio/2004 97 Seção TRANSCRIÇÃO Alexandre dos Santos Marques 2 Rogério Torres Tania Maria da Silva Amaro de Almeida 3 O objetivo desta seção é transcrever documentos que integram o acervo do Instituto Histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto e demais instituições que abrigam documentação. MAST.RJ. Coordenador do Centro de Memória. firmamos a certeza de que a preservação de nossa memória histórica é importante para a construção e manutenção de uma identidade local.” Mestrando em História Social do Trabalho pela Universidade Severino Sombra . 2 Licenciado em Pedagogia pelo Instituto de Educação Governador Roberto Silveira e em História pela Sociedade Universitária Augusto Mota. “A preservação não é um fim em si mesma. através da divulgação de tão importantes referências para a história do nosso município e da região da Baixada Fluminense. 1 1 . Museu da República. 1995. Sócia Titular da Associação Brasileira de Conservadores e Restauradores. o exercício pleno da sua cidadania. Sócia fundadora da Associação dos Amigos do Instituto Histórico. 4 Política de Preservação de Acervos Institucionais / Museu de Astronomia e Ciências Afins. Pesquisa e Documentação da História da Baixada Fluminense /Fundação Educacional de Duque de Caxias.Colunista da revista “Caxias Magazine”. Só preservamos para que as informações contidas nos bens culturais possam favorecer o homem no resgate de sua identidade e de sua história. Diretora do Instituto Histórico da Câmara Municipal de Duque de Caxias e supervisora das atividades de preservação desse órgão. visando a preservação das informações das fontes primárias documentos sobre suporte papel. Ciências e Letras de Duque de Caxias. 3 Licenciada e bacharelada em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

“O ADVENTO DAS ESTRADAS DE FERRO” / Hélio Vianna 5 Data de 1835 a primeira tentativa oficial de se fomentar a construção de estradasde-ferro no Brasil. do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Para os editores do livro. Rio de Janeiro: JCV Juruena e Costa Velho Editores Ltda.. 1942. de 1931. dois trechos do livro “Almanaque do Trem”. esta fluminense..Rio. acontecimento que tornou disponíveis capitais e iniciativas nacionais e estrangeiras. nos Anais do III Congresso de História Nacional.. iniciadas ainda dentro do período regencial.. do Guandu a Jacutinga.° José Luís Batista (”O Surto ferroviário e seu desenvolvimento”. Marcou essa lei. até 5% sobre o capital empregado na construção. Juruena e Lais Costa Velho . este teria o objetivo de “(. e um pedido para outra. Todas. segundo o eng. VI .) sobre o desenvolvimento tecnológico e as perspectivas do trem” e “(. (Agenor Gurgel de Roure -“Vias de Comunicações”. III .. pp. organizado por L. do Rio de Janeiro a Resende. nos Anais do Segundo Congresso de História Nacional. 45). quanto a uma linha férrea da vila Iguaçu à baía de Niterói. 5 .98 Revista Pilares da História . pôde o país entrar no terreno das realizações efetivas. S. p. inclusive a garantia oficial de juros. no setor ferroviário. Não teve consequências. Pedro II. Uma lei de 1852 determinou novas e favoráveis condições para os empreendimentos do gênero. 1942. Somente depois da extinção do tráfico de escravos africanos para o Brasil. o mesmo acontecendo a uma concessão provincial para uma estrada-de-ferro de Santos a diversos pontos do interior paulista.) o fornecimento de informações precisas emolduradas pelo lirismo poético que sempre cercou o Cavalo de Ferro”.) Ter à mão informações confiáveis (. nesta edição. em 1846. o verdadeiro ponto in Almanaque do Trem 82 . também não teve êxito outro projeto de ferrovia através da província do Rio de Janeiro...Rio. vol. de 1938.Organizadores: L. e ainda à nova concessão provincial. dezembro de 1982. 142/155). Bahia e Rio Grande do Sul. Vol.S. Um decreto sancionado pelo Regente Feijó autorizou o governo a conceder privilégios de exclusividade às companhias que se organizassem para explorar o transporte ferroviário de gêneros e passageiros entre a Côrte e as capitais de Minas Gerais. coletânea sobre assuntos ferroviários e acontecimentos que envolvem o trem. Juruena e Laís Costa Velho.Maio/2004 Transcrevemos. Já depois de começado pelo governo pessoal de D. Nesses documentos estão mantidas a grafia e a redação dos originais.

do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. 208 e 276 km de estradas-de-ferro arredondamente. a partir da inauguração da Estrada-de-Ferro Mauá. Geográfico e Etnográfico do Brasil. Em 1858. Naquele mesmo ano de 1852 concedera o governo da província do Rio de Janeiro a Irineu Evangelista de Souza o privilégio para construir a estrada que lhe imortalizaria o nome.Rio. 1871-1874. D.“conseguimos inaugurar 517 kms contra 155 do ano anterior”. Com mais uma linha suburbana no Recife e o primeiro trecho da Estrada-de-Ferro de Cantagalo. No mesmo ano iniciaram-se os difíceis trabalhos de construção da estrada de Santos a Jundiaí. e do Rio de Janeiro a Queimados e Belém. inaugurada em 1867. Palhano de Jesus . Estrada-de-Ferro de Jundiaí a Campinas.5 km de linhas férreas do País. ano de maior intensidade da guerra do Paraguai. 725-27).. pôde ser retomado o incentivo oficial à construção de estradas-de-ferro. por um decreto de 1873 e regulamento do ano seguinte.Revista Pilares da História . pp. foram solenemente inaugurados pelo Imperador os primeiros 14. Esse acontecimento internacional não deixaria de refletir-se na evolução política brasileira de transportes. que nos qüinqüênios de 1856-1860 e de 1861-1865 tínhamos inaugurado.” “Datam do período de 1868 a 1875 os empreendimentos das seguintes estradas: Estrada-de-Ferro Central da Bahia. Dois anos depois. Em 1860 coube a vez à Bahia. através da modificação do regime de garantia de juros. Pedro II. na província fluminense. Estrada-de-Ferro de Campos a São Sebastião. como observou J. só conseguimos mais 539 km. I . Os bons resultados da nova legislação não se fizeram esperar. mereceu apurados e excelntes estudos. . da Bahia ao São Francisco e de Santos a Jundiaí. respectivamente. 718 km eram trafegados no Brasil em 1868. o que dá uma média de 61 km por ano nos primeiros 21 anos.. “Já em 1875” balanceou Palhano de Jesus .” (. No regime por ela estabelecido tiveram início as estradas-de-ferro de Mauá a Raiz da Serra. “Em 1870 inauguramos apenas 8 km.“Rápida notícia da viação férrea do Brasil”.Maio/2004 99 de partida da viação férrea brasileira. no Dicionário Histórico. hoje Japeri. Estrada-de-Ferro de Porto Alegre a Nova Hamburgo. do Recife ao São Francisco. Assim. em Pernambuco.” (J.284 km. abriram-se ao tráfego novos trechos: o do Recife ao Cabo. em 1854. vol. Em 1874 possuíamos. ao todo cerca de 1. “minucioso e ponderado trabalho em que se definiam as atribuições do governo geral e das províncias em matéria de concessão”. Palhano de Jesus. “nós. O emprego do capital máximo a ser subvencionado ou garantido. no qüinqüênio de 1866-1870 descemos à quota de 246 e ainda nos quatro anos seguintes. Estrada-de-Ferro de Macaé a Campos. que honram os técnicos da época”. 1922.) Passadas as consequências da guerra.

surgiu a Cia. iniciando a ligação de Campinas às barrancas do rio Paraná e ramificando-se pelo sertão. abrindo caminho para o progresso paulista estimulado pelo café. 6 . depois Rio de Janeiro). a cana-de-açúcar e principalmente o café foram riquezas que exigiram a implantação de um grande número de ferrovias. que partiu de Sorocaba in Almanaque do Trem 82 . deu-se preferência à solução rodoviária. de onde a linha prosseguiria até a romântica Petrópolis. era fundada a Sorocabana.281 km. Agora.583 km de vias férreas em tráfego. basta assinalar que em 1889.5 km ligando o Porto Mauá. ao ser extinta a monarquia. uma opção de transportes que a eletrificação das principais linhas tornará ainda mais atraente. e a quatorze das vinte províncias então transformadas em estados. o Barão de Mauá. Nesta época o Brasil viveu a euforia da estrada de ferro. vencendo sertões e serras. obstáculo natural às riquezas de São Paulo. por qüinqüênios: 1875-1879: 1. com o advento do automóvel e a gasolina barata.. Com 100 km.Maio/2004 “Daí até o encerramento do período imperial foi o seguinte o desenvolvimento das nossas linhas em tráfego. dezembro de 1982. atual Guia de Pacobaíba. existiam no país 9. em 1867. Paulista. Em 1874. Rio de Janeiro: JCV Juruena e Costa Velho Editores Ltda. 1880-1884:3.” “O BRASIL ENTRA NOS TRILHOS” / Martin A. com a crise do petróleo. dos ingleses. servindo ao antigo município neutro (então Distrito Federal. as ferrovias ressurgem como solução para garantir a continuidade do desenvolvimento que elas mesmas iniciaram no século passado. entre Santos e Jundiaí. Trez anos mais tarde. surgia a obraprima da engenharia ferroviária. ligando o litoral ao interior. a primeira estrada de ferro.100 Revista Pilares da História . a São Paulo Railway. nas últimas décadas do século passado. Em 1870. Juruena e Laís Costa Velho.391 km. criando a região da Alta Paulista. até atingir o contrafortes dos Andes.. entre Santos e Bolívia. representou a opção brasileira de desenvolvimento através da ferrovia. à Raiz da Serra da Estrela. Mas.Organizadores: L. pela Noroeste do Brasil. ela venceu a serra do Mar. Renasce.” (.. Santa Lucci 6 Inaugurada em 30 de abril de 1854. em todo leste brasileiro. Eram 14. A partir daí novas ferrovias surgiram no país. construída por Irineu Evangelista de Souza. baía de Guanabara.S. assim.637 km. O cacau.) Concluindo este rápido exame da evolução do sistema ferroviário brasileiro sob o Império. 1885-1889: 3. porém. adquirindo e adaptando às condições do país o que havia de melhor na engenharia ferroviária mundial.

que atingiu Minas Gerais e Góias (hoje essa linha chega a Brasília). a Viação Férrea Rio Grande do Sul. está em atividade desde 1901.F. surgiam a E. Em 1872. O sistema funicular da antiga São Paulo Railway. também ocupa lugar de destaque ao seu lado. em meados do século passado. hoje substituída por uma rodovia.Minas. outro conjunto sobe pelo mesmo cabo.Maio/2004 101 e avançou até Santa Cruz de la Sierra. quando foi construída uma nova linha para substituir a primitiva de 1867. munidos de contrapesos. na linha paralela. Atualmente. rios e montanhas foram transpostos para dar passagem à civilização e ao progresso. Antes do fim do século passado e já no começo deste. a Araraquarense. No funicular os contrapesos são as próprias composições ferroviárias: os vagões só podem descer quando. Joaquim Saldanha Marinho. a engenharia brasileira acumulou tanto “know-how” que hoje ela é chamada a construir ferrovias em outras nações. foi quem lutou pela idéia da Cia. Conde de Paranaíba. São Paulo. estendendo sua rede a Santos e ao litoral sul paulista.F. prevendo linha dupla e eletrificação. Ao longo desses anos. o da Araraquarense. a antiga Baiana entre outras. máquinas fixas movidas a vapor. que exigiu derrubadas largas para obter madeira para dormentes. chegou a provocar admiração no mundo inteiro. Madeira-Mamoré. que continua eficiente até nossos dias. que substituem as locomotivas geram energia para o sistema de freios e ar comprimido. hoje E. Santos-Jundiaí. João Ernesto Viriato de Medeiros. Antônio de Queiroz Teles. Mogiana. Em cada patamar. a São Paulo criando a mais extensa ferrovia particular do país. outros nomes juntam-se ao seu na constituição de uma galeria de arrojados empreendedores que acreditaram na estrada de ferro como instrumento do desenvolvimento nacional. a Fábrica São João do Ipanema.F. mais já em fase de recuperação. A engenharia utilizada pelos ingleses nesta ferrovia. bem como a incrível E. presidente da então Província de São Paulo. em virtude da alta sofisticação da técnica empregada. Luiz Matheus Maylasky iniciou a Sorocabana para ligar a primeira empresa siderúrgica nacional. por exemplo.Revista Pilares da História . São algumas das muitas figuras proeminentes cujo amor às obras que criaram e os levava a realizar verdadeiras façanhas pelo interior da província. selvas. a Leste Brasileiro. paralelamente ao sistema funicular um outro que funciona a base de cremelheiras. e os locobreques. Paulista de Estradas de Ferro e o engenheiro responsável pelas obras. Santos. Embora o Barão de Mauá tenha sido o pioneiro das ferrovias brasileiras. e Bernardino de Campos. foi o fundador da Mogiana. para vencer um declive de 800 metros o sistema se assemelha bastante ao dispositivo empregado nos elevadores domésticos: o movimento de subida e descida é garantido por cabos. com obras na serra do Mar. Graças a esses ideais e esforços. na Bolívia. a mais ocidental do Brasil. para andaimes das . a Cia. garantem a tração. como o faz no Iraque e na Mauritânia. Dividido em cinco patamares independentes.

Mas. com os tcham-tcham . A Cia. Em São Paulo. para queima das caldeiras das locomotivas e causava incêndios com as fagulhas lançadas pelas chaminés. de linhas duplas sem interferências e passagens de nível. para um sistema de metrô de superfície. passou a avançar subitamente em todas as direções dando razão as suas potencialidades. pois com a mesma freqüência do metrô e tarifas baixas.das rodas de aço nas emandas dos trilhos . que gastavam dias para levar a Santos uma carga equivalente a meio vagão de estrada de ferro. urbano e suburbano. ou simplesmente ficar olhando das janelas as paisagens passar. Para longas distâncias ou no emprego dos transportes de massa. derrubou muito mais matas do que as estradas de ferro. substituindo o antigo trapiche de Santos.102 Revista Pilares da História . . acabou por tornar-se a caixa de ressonância dos apelos dos técnicos em transportes de massa. Isso faz com que muitos técnicos . foi exaltado pelo ministro numa viagem que fez pelo Santa Cruz da Central. pesava sobre as ferrovias. até então escoando sua incipiente produção de café por morosas tropas de burros.e também o povo . numa antevisão da crise energética que hoje é realidade. em linhas especiais contornando os centros urbanos. os trens correndo antes da inauguração de São Paulo Railway era uma pequena cidade de cinco mil habitantes. contudo. um dos mais movimentados portos do continente. há meio século. região de pantanais. preconizando um maior estímulo aos serviços de trens suburbanos e em longas distâncias. seus trilhos e seus cabos aéreos eletrificados podiam muito bem servir hoje.lamentem a retirada dos bondes das grandes cidades. Apenas uma acusação. está para voltar. São Paulo.Maio/2004 construções. tornou-se viável e inaugurou seu primeiro trecho de 260 m em 1892.e agora mais do que antes ser o sistema ideal para o traslado de passageiros e cargas. do Rio a São Paulo. O retorno ao calmo deslizar pela estrada de ferro. A de causar um desmatamento desnessário ao sertão. o próprio acusador reconhecia que o General Café em sua marcha a procura da terra roxa do oeste. progrediu sem parar quando recebeu os recursos gerados pela ferrovia. com seus vagões-dormitórios e disponibilidades de higiene pessoal. Eliseu Resende. junto com o metrô. A vantagem do conforto dos trens noturnos ligando as grandes capitais. Docas de Santos. delícia de nossos avós. assolada por epidemias de febre amarela e de tifo e permanentemente atacada pela malária. levantada pelo escritor Coelho Neto. É o sistema mais adequado para os grandes centros urbanos. Coelho Neto. as ferrovias demonstraram ao longo dos anos . Em escala semelhante. E um desafio. conversas. em seu passado glorioso. A verdade é que o próprio Ministro dos Transportes. o mesmo ocorrendo em outras regiões. eletronicamente. deve ter influído de alguma forma para a eletrificação de estradas como a Paulista e Sorocabana. com trens controlados à distâncias. a Fepasa inaugurou um grande trecho de subúrbio num sistema de pré-metrô.tempo livre para leituras.

O tipo de depoimento apresentado no número anterior com a entrevista do jornalista e homem público Ruyter Poubel.Maio/2004 103 Seção MEMÓRIA VIVA Antônio Augusto Braz Odemir Capistrano Silva 2 MURMÚRIOS DO PRESENTE: Lembranças Simples dos Bairros de Duque de Caxias. dos bairros Saracuruna. Publicou contos. Cidadãos comuns. que nos trazem por intermédio de suas memórias. moradores. as décadas de 40. 2 Jornalista. Pesquisa e Documentação da História da Baixada Fluminense. Ciências e Letras de Duque de Caxias. que podemos classificar como “história de vida” será substituído nessa edição por um painel plural de memórias _ apresentadas em trechos de depoimentos de três moradores do nosso município. que se compõe de quase oitenta entrevistas concedidas por homens e mulheres. Orlandim Ramos dos Santos e da senhora Marina Figueiredo da Silva. Trata-se dos depoimentos dos senhores Antônio Joinha. hoje idosos. ligado ao Departamento de História da FEUDUC. artigos e poemas em suplementos literários e jornais (Movimento e Pasquim. o período formador da contemporânea configuração social. econômica e política da Baixada Fluminense. Os trechos que serão apresentados são uma amostra do “banco de oralidade” construído pelo Centro de Memória. 1 1 . importantes aspectos da vida cotidiana de uma geração que viveu e trabalhou num período importantíssimo da História de nosso município e de nossa região. Pós-graduado em História Social do Brasil pela mesma faculdade. é mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ. tanto do nosso município. 50 e 60. Pesquisa e Documentação da História da Baixada Fluminense / Fundação Educacional de Duque de Caxias. Pilar e Taquara / Duque de Caxias. A apresentação desse pequeno painel pretende despertar no leitor a preocupação com o resgate dessas memórias. Diretor do Centro de Memória.Revista Pilares da História . respectivamente. como dos demais municípios da Licenciado em História pela Faculdade de Filosofia. Mestrando em História Social do Trabalho pela Universidade Severino Sombra Vassouras RJ. entre outros). O segundo trabalho que apresentamos nessa seção difere do primeiro na forma e na abordagem. Professor da rede particular e pública municipal de Duque de Caxias.

que tem necessidade de se expandir. História local e cotidiana. não tinha ônibus. 65 anos . a gente pra ir a Caxias tinha que sair de manhã por volta de 7 às 10 horas.Maio/2004 Baixada Fluminense. mosquito e a malária dava até em madeira. se quisesse resolver algum ou comprar alguma coisa. transportar-se para o trabalho e ao menos não se atolar na lama.104 Revista Pilares da História . Antônio Joinha. Essas gerações de pioneiros. a História de comunidades e bairros periféricos não são o que se pode chamar de lugar privilegiado das pesquisas históricas e sociais. Daí a idéia de um “banco de oralidades”. Essas memórias têm sofrido com a implacável marcha do tempo. ricos em detalhes e possibilidades de pesquisa são uma pequena amostra desse potencial que a análise da vida cotidiana das comunidades das periferias podem oferecer à análise global. de bairros periféricos dessas cidades cujas vidas e experiências retratam como preciosos exemplos às duras condições de um tempo em que cuidar da saúde. Eu tive malária! E tinha aquela rua principal que liga a Rio-Magé até a praça que teve vários casos. Daí a apresentação nessa seção desse tipo de depoimento. era estilo antigo né? A condução era só trem. exóticos e pouco relevantes. têm a cada dia encontrado o descanso e o silêncio que a ordem natural das coisas impõe. Seguem então os trechos selecionados. Ao contrário. são na verdade tratados por muitos como assuntos menores. Sr. Erro de avaliação que os historiadores que defendem uma História Social plural apressam-se em corrigir e que nós. pesquisadores ligados ao Departamento de História da FEUDUC e ao Instituto Histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto fazemos questão de combater. Memórias de pessoas simples. que nos precederam. homens e mulheres simples que suportaram essas condições duras e lançaram as bases da vida presente dos inúmeros bairros e logradouros de nosso município e dos demais. homens e mulheres. Era mato. Moradores. tinha que ir a pé até Jardim Primavera e pegar o ônibus que vinha de Mantiquira e depois voltar a pé depois de saltar de novo”. educar a si e às suas famílias. . As estação era antiga. se não como área de interesse acadêmico ao menos como área de interesse acadêmico ao menos como tributo à valentia e obstinação desses bravos sobreviventes. resgatar. eram desejos a serem construídos em um lugar onde tudo era ausência. em sua maioria. É urgente para nós. Depois não tinha mais. era pouco.Bairro Saracuruna “ _ Vim práqui no dia 21 de abril de 1953. registrar e investigar essas memórias. Mas o esforço que se faz no sentido de preserva-las não está ainda à altura da importância de que essas experiências registradas representam. porque aqui não tinha comércio.

A Saúde era precária. Tinha aqui na época a loja do Santos. não tinha mercado nenhum. Tinha a Igreja Católica do Rosário.Bairro Pilar “ _ Em 1960 eu vim práqui. Eu saí do interior. O cinema do seu Araújo era muito bom. a gente conta e a pessoa não acredita. sentava ali na praça e ele mesmo recebia as prestações.. A Educação era precária. compravam os terrenos barato e construíam. cidade pequena. Mas não sei como o Jaime Fichmam loteou o lado de lá e o José o lado de cá. uma organização particular e a população pagava mensalidade. fez o colégio na época pequeno e depois foi comprado pelo governo (. não sei se comprou ou invadiu porque essas terras tinham registros. E o irmão dele. que já estava construída. Orlandim Ramos dos Santos.. as ruas todas sem limpeza sem nada.. A segurança era feita por guardas noturnos. mas era bem quente. porque as coisas já andavam começando a mudar. . Padre vinha do convento de Santo Antônio e às vezes de Caxias..Maio/2004 105 “ _ O Jayme Fichmam vendia os terrenos. “ _ Só que era tudo mato. era uma máquina boa. À tardinha ele ligava o alto-falante e anunciava.). Tinha o jeito dele. Eu tratava meus filhos lá embaixo na Praça da Bandeira ou na rua Matoso. Exatamente ali onde eram as lojas..). 70 anos .. Mas não era sempre. que era muito freqüentado e um aqui chamado Tia Cotinha”.). os governos fizeram pouco (.. não tinha nada. ali no Sales. O próprio pessoal que vinha pra cá fugindo do aluguel.. O circo era armado ali na praça naquela época era mato né? Onde era o mercado Rio. era uma vez por mês. Do seu Araújo não. já tinha a Igreja Batista e Assembléia de Deus lá em cima e o centro de macumba lá na Urussaí. mas não tinha padre. Depois o Sarah adquiriu um terreno. vendia ali na praça.. até gozado. por exemplo: Alô! Seu fulano! Chegou carta pra você! Vem buscar. o Parque João Pessoa”. Esse era um dos problemas. O progresso veio de acordo com a população. não o do cinema. O progresso foi vindo com a população. tinha duas máquinas e corria normalmente. vendia fiado e o pessoal ia construindo.. O do seu Sales tinha uma máquina só e parava pra trocar o rolo. Tinha dois cinemas aqui. Funcionava onde era o colégio Brasil que tinha duas professoras e ia só até a quarta série. pai do Nelson. José Fichmam. Tinha também o serviço de alto-falante. mas tinha era gente (. Mas esse loteamento aqui onde eu moro é o mais antigo. Muniz Sodré no Espírito Santo”. Tinha igrejas evangélicas. Sr. Na época do Império tinham pessoas que têm até hoje escrituras dessas antigas..Revista Pilares da História .. Quando eu mudei só tinha o Colégio Sarah. Mas o circo é que era a diversão da época vinham muitos artistas famosos como Vicente Celestino e Jamelão.

.Bairro Taquara “ _ Meu nome é Marina Figueiredo da Silva. Nascida em Taquara na Fazenda Santiago. Então o dono da fazenda começou a trazer colonos para formar plantação de bananas. Saracuruna. Eu saía daqui quatro da manhã cedinho pra pegar o trem de cinco e dez lá em Campos Elíseos. A poluição é muito grande”. O pessoal criava gado à vontade.. Doutor Edgard Pinho e Doutor Atílio Vivacua. Hoje até peixe acabou. Daqui até a estrada dá uns mil e quinhentos metros. tinha muito curral. antigamente não tinha nada. Era um ligar pacato. quando a família Chapmam veio práqui... “ _ Eram dois donos.. Umas três vezes ao dia. Naquela época havia plantação e curral de animais. Tudo Caxias. Se tomava banho. “ _ Ah! Naquela época era difícil a vida.. aipim. Mantiquira e Raiz da Serra.. mas consegui”.. Posto Bravo. só era mato. Tinha um senhor que era sargento da Marinha.. Então não existia nada.. antigamente só era corte de madeira e carvão..106 Revista Pilares da História .. Eles se apropriaram e lotearam de Gerson Ventura e eu comprei esse lote por intermédio de um amigo meu que morava no Parque Fluminense.. Tinha que andar a pé. Logo que eu vim práqui. O rio sempre teve. Nós vivemos tranqüilos aqui. tinha uma igreja era uma congregação da Igreja Batista. Esse. Já tiveram vários brasileiros aqui com terrinha. Fazenda Santiago. Criava gado. O peixe sai da água pra fora. você sabe como é o estrangeiro no Brasil. ele comprou dois terrenos na rua Natividade e construiu a Igreja Batista. do Pilar também era uma água cristal. O Mantiquira e o Campos Elíseos é que tinha de duas em duas horas.. Isso aqui. na Praça Mauá se podia pegar ônibus lá na Washington Luís... levaria um monte de anos pra pagar. criava porco.Maio/2004 “ _ Primeiro não era lote. Esse rio era uma água cristal. com plantação de cana. De vez em quando um roubinho. uma pequena e depois foi remodelando e hoje é uma igreja muito grande.. Então essa família Chapmam se apropriou disso aqui. Paguei com dificuldade. Existia uma fazenda Taquara. 75 anos . Condução só tinha de Campo Elíseos. Srª Marina Figueiredo da Silva.. “ _ Aqui antigamente. Existiam muitos povos pobres demais”. Na época custou 300 mil cruzeiros pra pagar 3 mil cruzeiros por mês. Em 45 . mas não sei de que maneira. era responsável por tudo... Primeiramente os ônibus de seção. bem pacato... onde meu pai era administrador geral. O pessoal católico ia pra Igreja do Pilar. E eles quase não participavam porque meu pai tomava conta de tudo. Esses colonos moravam em casebre de sapê. fazenda Moça Franca e fazenda Quebra-coco”. que depois foi desmembrada em três ou quatro fazendas. a antiga fazenda Taquara.

. comprei uma lousa para cada uma das oitenta crianças. Mandou mesa.. na Praça São Paulo. Foi uma festa. Quando foi em 1949. ia sempre na fazenda. aquelas folhas e minha mãe cortava assim do tamanho do caderno. Ele era um dos homens mais ricos de Caxias. não tinham dois filhos não. Eles se davam muito bem e o Prefeito falou para mim: 'Pode deixar que eu vou continuar com a escola'. compramos cadernos. o Doutor Francisco Corrêa veio até mim e falou: 'Olha Marina! Se você arranjar um terreno eu faço a escola'. os lavradores. nove. Era tudo de graça. lápis. Minha mãe pegava os embrulhos que meu pai fazia compras na Praça da Bandeira. borracha. e ele foi eleito Prefeito em 47. Aí mandou os ajudantes dele vir aqui arrumar a sala direitinho.. “ _ Como disse. as crianças não sabem ler.. que era muito grande. com seis meses já tinha oitenta crianças. E então na fazenda. entendeu? A Escola Municipal Barão da Taquara é a escola Taquara transferida para aquele lugar. O loteamento era bem feito e as ruas eram todas calçadinhas com pedrinhas. porque ela ia fazer a escola dela. Aí fomos lá embaixo. freqüentava muito a nossa casa”. muito bem feito. era a escola da Taquara”. Isso é ele concorreu outra vez com o Doutor Gaspar Rivaneli e era muito amigo nosso. aqueles papéis de embrulho grandes. Tinham oito. Aí então o Doutor Francisco mandou fazer a escola naquele lugar. Em 1955.Revista Pilares da História .. Naquele tempo nossos meeiros. comprei lousa. Então quando a Nova América comprou o terreno não tinha mais escola aqui. Pensou??? Eu com 500 mil réis??? Naquele tempo??? Comprei cartilha para as crianças todinhas. Cortava e passava na máquina. Ele gostava muito de caçar e aqui tinha muita caça. esse Gastão Reis era muito amigo nosso. onze era assim tudo escadinha. cadeira e eu continuei dando aula.. não podia comprar cartilha. foram mais de quarenta. “ _ A escola Barão da Taquara. eu dava aula.Maio/2004 107 fundaram uma escolinha para dar aula para os filhos dos agricultores daqui né? Tinha muita criança que não sabiam ler e como eu já tinha terminado o estudo meu pai falou que eu deveria e podia ajudar essas crianças. e eu tenho vontade de ensinar'. Porque lá na Taquara a Nova América não quis. Aí ele falou: 'Marina! A partir de hoje não sai mais sem caderno!' E me mandou 500 mil réis. tudo que precisava. Mas aí em 1952 a Nova América começou a lotear e a maioria do pessoal abandonou as terras. alfabetizava as crianças de graça. eu dou aula porque eu gosto.. fizemos uma sala com bancos de madeira e comecei a dar aula para aquelas crianças. No início. Quando ele viu a escolinha falou: 'Você dá aula pra essas crianças? Você não recebe nada? Aí eu falei: é de graça. Aí ele disse: 'Mas como você faz?' Eu não podia comprar caderno. “ _ Meu pai continuou com o Doutor Gastão.. Nesse tempo a secretária de Educação era a Amélia depois passou para dona Regina. era o prefeito de Caxias Gastão Reis.. eu adorava dar aula”. Ele deu a maioria do material par fundar a escola da Taquara.

Maria Margarete. Neiton Rosa Bezerra . eles queriam botar o nome na escola. que são escolhidos por grupos de alunos-pesquisadores. A inauguração foi em 1958. Eles na Secretaria não sabiam nada sobre esse Barão. PILAR Cristiana Romão da Silva.Maio/2004 Em 1955. Quando eu recebi a faixa da escola tava Barão de Taquara. Nádia Portugal P. Maria das Graças Mozar Gomes. que guarda as entrevistas completas de onde esses trechos foram retirados é alimentado por um projeto chamado “Pesquisa de Bairros: História Urbana e Cotidiana”. lembrando que além das entrevistas bases que utilizamos na seção. começaram a fazer a escola. Elizama da Silva Pinto Batista. Guiomar Martins de Oliveira Reis. Erni Pereira da Cunha. Não existiu esse Barão de Taquara aqui!!!” O banco de oralidade do CEMPEDOCH-BF. e eu deixei pra lá nunca mais procurei. Barbosa. registramos aqui seus nomes. mas não queriam botar Escola Taquara então resolveram botar Barão de Taquara. Eu fui até Jacarepaguá porque tem um Barão de Taquara. Ferrinos SARACURUNA André Luís. cada grupo produziu ainda quatro outras entrevistas com outros moradores antigos dos respectivos bairros escolhidos. Maria Emília Lopes M. Herberth Cunha Nunes. que é desenvolvido pelos alunos da FEUDUC. Franco. Procurei. Por questão de justiça.108 Revista Pilares da História . mas ninguém me dava informação. Um de seus passos é exatamente a coleta de entrevistas dos moradores dos bairros. Noêmia Magalhães de Almeida TAQUARA Cristiana Carla de O.

Maio/2004 109 Seção ICONOGRAFIA Esta seção tem como objetivo divulgar os documentos iconográficos que integram o acervo do Instituto Histórico e das demais instituições que abrigam esse tipo de documentação.Revista Pilares da História . .

Maio/2004 .110 Revista Pilares da História .

Maio/2004 111 Porto de Mauá .Revista Pilares da História . vendo-se locomotiva .s/d Acervo iconográfico do Museu Imperial / Iphan / Minc Porto de Mauá.baldeação da barca para o trem .s/d Acervo sob a guarda do Instituto Histórico .

112 Revista Pilares da História .Maio/2004 .

Maio/2004 113 Desembarque no Porto Mauá .Fotógrafo: Cabral .23/09/1987 Acervo sob a guarda do Instituto Histórico . doação de Eugênio Sciammarella Estação Guia de Pacobaíba .s/d Acervo sob a guarda do Instituto Histórico.Revista Pilares da História .

114

Revista Pilares da História - Maio/2004

Revista Pilares da História - Maio/2004

115

ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS DO INSTITUTO HISTÓRICO

A

Associação dos Amigos do Instituto Histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto / Câmara Municipal de Duque de Caxias surgiu para dar maior dinamização ao funcionamento do Instituto Histórico, estimulando maior participação dos setores organizados da sociedade, e conseqüentemente, promovendo uma maior divulgação do órgão. Criada para colaborar com o aprimoramento e o desenvolvimento das atividades do Instituto Histórico, a Asamih é o elo entre a população e o órgão de pesquisa, já que apesar de ser uma entidade sem fins lucrativos, tem entre suas finalidades adquirir acervo, sustentar programas de processamento técnico, conservação e restauração de obras e incentivar exposições. Consta ainda de seu estatuto, aprovado pelos sócios - em número ilimitado, mas composto atualmente por intelectuais e pesquisadores do maior renome na Baixada Fluminense e cidadãos comuns que manifestam interesse pela cultura e história -, o estabelecimento de intercâmbio com outras associações e entidades assemelhadas, o apoio à reprodução de documentos do Instituto Histórico, o incentivo à integração cultural com a comunidade e um programa de captação de recursos financeiros para a instalação de projetos culturais. A Associação dos Amigos do Instituto Histórico está aberta à inscrição de novos sócios. Venha participar! Segue relação com os nomes dos Conselheiros e dos Sócios Fundadores da Associação dos Amigos do Instituto Histórico.

116

Revista Pilares da História - Maio/2004

2003/2005
CONSELHO DELIBERATIVO Efetivos
MARIA VITÓRIA SOUZA GUIMARÃES LEAL RUYTER POUBEL ANTÔNIO AUGUSTO BRAZ CARLOS DE SÁ BEZERRA DALVA LAZARONI DE MORAES GENESIS PEREIRA TORRES IRIS POUBEL DE MENEZES FERRARI LAURY DE SOUZA VILLAR MESSIAS NEIVA PAULO CHRISTIANO MAINHARD ROGERIO TORRES DA CUNHA STELIO JOSÉ DA SILVA LACERDA

Suplentes
AGRINALDO ALVES FARIAS GUILHERME PERES DE CARVALHO ALEXANDRE DOS SANTOS MARQUES MARLUCIA SANTOS DE SOUZA JOSUE CARDOSO PEREIRA SANDRA GODINHO MAGGESSI PEREIRA ROBERTO GASPARI RIBEIRO PAULO PEDRO DA SILVA

CONSELHO FISCAL Efetivos
WASHINGTON LUIZ JUNIOR ARISTIDES FERREIRA MULIM GILBERTO JOSÉ DA SILVA

Suplentes
ODLAN VILLAR FARIAS ROSA CRISTINA DA SILVA LEITE ERCÍLIA COELHO DE OLIVEIRA

DIRETORIA EXECUTIVA Diretor Executivo Secretário Tesoureiro Diretora de Pesquisa
NIELSON ROSA BEZERRA MANOEL MATHIAS THIBURCIO FILHO ODEMIR CAPISTRANO SILVA TANIA MARIA DA SILVA AMARO DE ALMEIDA

Maio/2004 117 SÓCIOS FUNDADORES AGRINALDO ALVES FARIAS ALEXSANDRO LOUREIRO DA SILVA ANA MARIA MANSUR DIAS ANÍDIA SANTOS DA COSTA ANTENOR GOMES FILHO CLEINA MUNIZ COSTA EDELSON GAMA DE MENEZES FARID DAVID SÃO TIAGO GILSON JOSÉ DA SILVA GILVAN JOSÉ DA SILVA HABACUQUE BRIGIDO DOS SANTOS INGRID JUNGER DE ASSIS JOÃO MELEIRO DE CASTILHO JOSÉ CARLOS SILVA JOSÉ CARLOS CRUZ LAURECY DE SOUZA VILLAR LAURY DE SOUZA VILLAR LIGIA MARIA DE LUNA LUZIA LUZIETE DE OLIVEIRA LUCAS MAGDA DOS SANTOS JUNGER ROBERTO FERREIRA DE CARVALHO ROBERTO LIMA DAVID ROBSON GAMA ROSELENA BRAZ VEILLARD ROSELI LOPES GOMES SOUZA SÉRGIO LOCATEL BARRETO SILVANA CARVALHO DE BARROS SONIA CRISTINA DE SOUZA PAIS WALDOMIRO FRANCISCO DAS NEVES TELMA PATRÍCIA ALMEIDA DE SOUZA TELMA TEIXEIRA DE LIMA ALDA REGINA SIQUEIRA ASSUMPÇÃO ADILSON MOREIRA FONTENELE ALEX DOS SANTOS DA SILVEIRA ALEXANDRE GASPARI RIBEIRO ALEXANDER MARTINS VIANNA ALEXANDRE DOS SANTOS MARQUES ÁLVARO LOPES ANA LUCIA DA SILVA AMARO ANA LUCIA SILVAENNE ANA MARIA DA SILVA AMARO ANILTON LOUREIRO DA SILVA ANDRÉ LUIS SILVA DE OLIVEIRA ANDRÉ LUIZ LOPES VIANNA ANDRÉ LUIZ VILLAGELIN BIZERRA ANTÔNIO AUGUSTO BRAZ ANTÔNIO JORGE MATOS ANTÔNIO JOSÉ PFISTER DE FREITAS ANTÔNIO MENDES FREIRE ARISTIDES FERREIRA MULIM AUZENIR GONDIM E SOUZA CARLOS DE SÁ BEZERRA CID HOMERO FERREIRA DOS SANTOS CLÁUDIO UMPIERRE CARLAM DALVA LAZARONI DE MORAES DINA SILVA GUERRA DIOGO DE OLIVEIRA RAMOS EDIELIO DOS SANTOS MENDONÇA EDVALDO SEBASTIÃO DE SOUZA EDUARDO DE SOUZA RIBEIRO ELISETE ROSA HENRIQUES EMIDIO DA SILVA AMARO ERCÍLIA COÊLHO DE OLIVEIRA ERUNDINO LORENZO GONZALES FILHO EVANDRO CYRILLO MARQUES EVANGELINO NOGUEIRA FILHO EUGÊNIO SCIAMMARELLA JÚNIOR FÁBIO MARTINS RIBEIRO FÁBIO PEREIRA FRANCISCO BERNARDO VIEIRA FRANCISCO QUIXABA SOBRINHO GILBERTO JOSÉ DA SILVA GÊNESIS PEREIRA TORRES GILSON RAMOS DA SILVA GIULIANA MONTEIRO DA SILVA GUILHERME PERES DE CARVALHO .Revista Pilares da História .

Maio/2004 ROSANE FERREIRA LARA ROSANGELA DAVID W. DE LIMA RUYTER POUBEL SANDRA GODINHO MAGGESSI PEREIRA SELMA CASTRO DE ALMEIDA SELMA MARIA DA SILVA RODRIGUES STÉLIO JOSÉ DA SILVA LACERDA SOLANGE MARIA AMARAL DA FONSECA SUELY ALVES SILVA TANIA MARIA DA SILVA AMARO DE ALMEIDA UBIRATAN CRUZ VERA LUCIA PONCIANO DA SILVA VILMA CORRÊA AMANCIO DA SILVA WAGNER GASPARI RIBEIRO WASHINGTON LUIZ JUNIOR .118 HERALDO BEZERRA CARVALHO HERMES ARAUJO MACHADO IRANI FONSECA CORREIA ÍRIS POUBEL DE MENEZES FERRARI IVON ALVES DE ARAÚJO JOÃO HERCULANO DIAS JOSÉ REINALDO DA SILVA PASCOAL JOSÉ ROGÉRIO LOPES DE OLIVEIRA JOSUÉ CARDOSO PEREIRA JOSUÉ CASTRO DE ALMEIDA JOSÉ ZUMBA CLEMENTE DA SILVA LAUDICÉA CASTRO DE ALMEIDA LUIZ CARLOS SILVEIRA DE CAMPOS LUIZ HENRIQUE SILVA VIEIRA MARIA ALICE DE OLIVEIRA DOMINICALLI MANOEL MATHIAS THIBÚRCIO FILHO MARCELO BORGES SOARES DE ALMEIDA MARCO AURÉLIO TEIXEIRA BAPTISTA DE LEÃO MARIA DE JESUS MENDES LIMA MARIA VITÓRIA SOUZA GUIMARÃES LEAL MARIA ZÊNIA CORREIA DOMINGUES MARIZE CONCEIÇÃO DE JESUS MARLUCIA SANTOS DE SOUZA MARTHA IGNEZ DE FREITAS ROSSI MESSIAS NEIVA NÁDIA APARECIDA TOBIAS FELIX NEWTON DE ALMEIDA MENEZES NEY ALBERTO GONÇALVES DE BARROS NIELSON ROSA BEZERRA NILSON MOREIRA CAMPOS DONIZETH NIVAN ALMEIDA ODEMIR CAPISTRANO SILVA ODLAN VILLAR FARIAS PAULO CESAR RAMOS PEREIRA PAULO CHRISTIANO MAINHARD PAULO PEDRO DA SILVA PAULO ROBERTO TEIXEIRA LOPES PAULO ROBERTO CLARINDO PAULO ROBERTO REIS FRANCO PEDRO MARCÍLIO DA SILVA LEITE ROBERTO GASPARI RIBEIRO ROGÉRIO TORRES DA CUNHA ROMEU MENEZES DOS SANTOS ROSA CRISTINA DA SILVA LEITE ROSA NASCIMENTO DE SOUZA Revista Pilares da História . G.

ODILON DO CAIXÃO REGINALDO FIGUEIREDO DA CRUZ .MARQUINHO PESSANHA MOACYR RODRIGUES DA SILVA .Revista Pilares da História .Maio/2004 119 Estado do Rio de Janeiro CÂMARA MUNICIPAL DE DUQUE DE CAXIAS 14ª Legislatura: 01/01/2001 a 31/12/2004 MESA EXECUTIVA PARA O BIÊNIO 2003/2004 Presidente: LAURY DE SOUZA VILLAR 1° Vice-Presidente: Prof.JUNIOR REIS IVERALDO CARVALHO PESSOA JOAQUIM ANTÔNIO MOREIRA JONAS DOS SANTOS .CHIQUINHO CAIPIRA AÍRTON LOPES DA SILVA .DONA LEDA 1° Secretário: ADRIÃO PEREIRA NOGUEIRA .JONAS SANTANA JOSÉ ZUMBA CLEMENTE DA SILVA LUIZ ANTÔNIO VENEO DA ROCHA DE FREITAS .CHIQUINHO GRANDÃO SÉRGIO CID DO NASCIMENTO Diretor Geral: LAURECY DE SOUZA VILLAR .ADRIANO 2° Secretário: GERALDO DE SOUZA . CARLOS ELI DE OLIVEIRA SANCHES 2ª Vice-Presidente: MARIA LEIDE DE OLIVEIRA .NANAL SEBASTIÃO FERREIRA DA SILVA .GERALDO MÓVEIS VEREADORES AILTON ABREU NASCIMENTO .ITO DIVAIR ALVES DE OLIVEIRA JUNIOR .MOACYR DA AMBULÂNCIA NIVAN ALMEIDA ODILON REIS PATROCINO .LUIZINHO CAPIVARI MARCOS ELIAS FREITAS PESSANHA MOREIRA .

Maio/2004 Impressão e acabamento Gráfica e Editora Renascer (21) 2676-7022 / 2676-7212 .120 Revista Pilares da História .

MUNICÍPIO DE DUQUE DE CAXIAS MIGUEL PEREIRA PETRÓPOLIS XERÉM XERÉM (4º DISTRITO) LAMARÃO MIRA SERRA IMBARIÊ (3º DISTRITO) SANTA CRUZ DA SERRA PARADA ANGÉLICA MAGÉ CAPIVARI NOVA CAMPINAS IMBARIÊ JARDIM ANHANGÁ NOVA IGUAÇU CHÁCARA RIO-PETRÓPOLIS JARDIM AMAPÁ CIDADE DOS MENINOS PILAR CAMPOS ELÍSEOS (2º DISTRITO) PMDC SARACURUNA JARDIM PRIMAVERA BELFORD ROXO SÃO BENTO PETROBRÁS / REDUC ANA CLARA SÃO JOÃO DE MERITI DUQUE DE CAXIAS (1º DISTRITO) CENTRO BAÍA DE GUANABARA RIO DE JANEIRO .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful