Presidente da República
Luiz Inácio Lula da Silva

Ministro de Estado do Desenvolvimento Agrário
Guilherme Cassel

Secretário Executivo do Ministério do Desenvolvimento Agrário
Daniel Maia

Presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
Rolf Hackbart

Secretário de Agricultura Familiar
Adoniram Sanches Peraci

Diretor do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural
Joaquim Calheiros Soriano

Diretor do Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural
Argileu Martins

Coordenador de Formação de Agentes de ATER e Projetos Especiais
Francisco Roberto Caporal

Equipe do Núcleo de ATER Indigenista
André Araujo, Sílvia Ferrari e Ruth Henrique

André Luis de O. Araujo & Ricardo Verdum (orgs.)

Experiências de Assistência Técnica e Extensão Rural junto aos Povos Indígenas: O Desafio da Interculturalidade

MDA Brasília, DF 2010

c

2010 dos autores

Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA Secretaria da Agricultura Familiar – SAF Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural – DATER 1ª Edição Tiragem: 1.500 exemplares É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte e que não seja para venda ou qualquer fim comercial. Os autores são unicamente responsáveis pelo conteúdo dos artigos, os quais podem não necessariamente refletir a visão ou opinião oficial do Ministério do Desenvolvimento Agrário. A versão eletrônica desta obra é ilustrada com fotos sobre os projetos, enviadas pelos autores, e está disponível no site do Ministério do Desenvolvimento Agrário para acesso gratuito. Site: www.mda.gov.br

Organizadores: André Araujo & Ricardo Verdum Imagens da Capa: André Araujo Arte da Capa: Allan de Oliveira Araujo Diagramação: Pedro Lima Revisão: André Araujo

E96 Experiências de Assistência Técnica e Extensão Rural junto aos Povos Indígenas: O Desafio da Interculturalidade / organizado por Ricardo Verdum; André Araujo. Brasília, DF: NEAD / SAF, 2010. 334 p. : il. ; color. ; 24 cm ; (NEAD Experiências) ISBN: 978-85-60548-73-6 1. Assistência técnica e extensão rural. 2. Políticas públicas - Brasil. 3. Povos indígenas- Brasil. 4. Interculturalidade. I. Verdum, Ricardo (Org.). II. Araújo, André (Org.). III. Série. CDD: 631.981 CDU: 631.5(81)

SUMÁRIO

Gomide Daniela Lima 157 Manejo Sustentável: Uma Questão de Sobrevivência Marcio José Alvim do Nascimento Assistência Técnica e Extensão Rural na Comunidade Indígena 174 Tupinambá de Serra do Padeiro: Experiência. Desafios e Possibilidades da Capacitação sob a Ótica Agroecológica Aurélio José Antunes de Carvalho Carla Teresa dos Santos Marques Erasto Viana Silva Gama Marta Timon Frias Miana Barbosa Magnólia Jesus da Silva . Top’ Tiro Maria Lucia C.09 Apresentação Adoniran Sanches Peraci 14 Breve Esboço do Indigenismo à Brasileira e o Desafio da Interculturalidade Ricardo Verdum Contribuições a uma Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) 53 Indigenista André Luis de Oliveira Araújo A Experiência de Assistência Técnica e Extensão Rural junto aos 89 Povos Indígenas: uma Visão do Gestor da Política Sílvia Helena de Souza Ferrari Reinventando Tradições em busca de Soberania Alimentar 114 Dinah Rodrigues Borges Francisco Ralph Martins da Rocha 130 Capacitação dos Agricultores e Agricultoras Xavante no Uso e Conservação da Agrobiodiversidade no Cerrado Hiparidi D.

Dantas Miguel Ângelo da S. Bahia Marina S. Barreto Lilane S. Rêgo Maria de Fatima B. Nunes Camila O. Colaço Felipe O.O Caso dos Guarani no Estado do Rio Grande do Sul Mariana de Andrade Soares 301 Fortalecimento dos Laços de Coesão Social como Efeito da Produção de Alimento na Aldeia Indígena Guarani Yynn Moroti Wherá Wagner Fernandes de Aquino 323 ANEXO: Projetos apoiados entre 2004 e 2009 . Nunes Amia Carina Spineli 219 Espaço de Revitalização da Cultura na Promoção da Saúde: Uma Experiência em ATER na TI Guarita Noeli Teresinha Falcade Sandro Luckmann Limites e Possibilidades de Articulação das Políticas Públicas de 240 Agricultura com o Sistema Agrícola Guarani Ledson Kurtz de Almeida Jean Carlos de Andrade Medeiros 260 Caxêkwyj : Educação Agroambiental na Terra Indígena Krahô Carlos Antônio Bezerra Salgado 280 É Possível Construir uma Ater Indígena Diferenciada? . Território Indígena Pankararé. Raso da Catarina. de Castro Lílian S.200 Execução e Gestão de Projetos Indígenas: Ater Indígena no Semiárido Brasileiro.

9 APRESENTAÇÃO Adoniram Sanches Peraci .

que buscamos orientar a atuação da Secretaria de Agricultura Familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). para terem assegurados o aproveitamento de seus próprios meios de subsistência e desenvolvimento e se dedicarem livremente a todas as suas atividades econômicas tradicionais e de outro tipo. cabendo ao Estado estabelecer e executar (com a participação dos povos indígenas. econômicas e sociais. Estes projetos foram propostos e implementados por órgãos governamentais e organizações não governamentais: prefeituras. que se complementa com a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho sobre povos indígenas e tribais (1989). cabendo ao Estado assegurar reconhecimento e proteção. busca-se eliminar progressivamente a discriminação. e no estabelecido na nossa Constituição de 1988. e consequentemente a preparação desta obra. utilizar e controlar as terras. É com base no estabelecido na Declaração das Nações Unidas. por meio das suas instituições) programas de assistência para assegurar essa conservação e proteção. aprovada em 13 de setembro de 2007. o Artigo 26 dispõe que os povos indígenas têm o direito de possuir. Por fim.10 A Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Mais à frente. os preconceitos e a exclusão de que são vítimas. contém um conjunto de princípios e normas que reconhece e estabelece internacionalmente os direitos fundamentais indígenas. No Artigo 20 da Declaração é dito que os povos indígenas têm o direito de manter e desenvolver seus sistemas ou instituições políticas. Ao longo dos últimos cinco anos o MDA financiou projetos de assistência técnica para povos indígenas. Colocando a promoção dos direitos dos povos indígenas como um desafio prioritário ao conjunto dos Estados e sociedades nacionais. destacamos da Declaração que aos povos indígenas deve ser reconhecido e garantido o direito à conservação e proteção do meio ambiente e da capacidade produtiva das suas terras ou territórios e recursos. . Na Declaração. territórios e recursos que possuem em razão da propriedade tradicional ou de outra forma tradicional de ocupação ou utilização. assim como aquelas que tenham adquirido de outra forma.

organizações. Em vista disto. procedimentos. estando aptos a serem publicados. comunidades e instituições.11 associações indígenas. os aprendizados e as lições geradas a partir da execução dos projetos apoiados pelo MDA. Das propostas de artigos pré-selecionadas a partir da Chamada. incluindo diretrizes. “ATER em Áreas Indígenas”. Permitindo a reunião de subsídios e argumentos para constantes aperfeiçoamentos na forma de viabilizar as experiências de assistência técnica. etc. critérios. dez artigos chegaram até a etapa final. o apoio a estes projetos configura-se como um esforço de implementar a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER) junto aos povos indígenas do país. aliados e demais colaboradores. os aprendizados e as reflexões sobre a prática indigenista. partimos do princípio de que todos têm aprendizados e várias lições a serem extraídas e transmitidas para outras pessoas. indigenistas. metodologias. gerados a partir destas iniciativas. o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) – por intermédio do núcleo de Assistência Técnica e Extensão Rural Indigenista da Secretaria da Agricultura Familiar (SAF) – selecionou através de uma Chamada Pública propostas de artigos que proponham uma reflexão sobre as práticas. O objetivo da Chamada de Artigos de ATER Indígena foi estimular uma reflexão crítica sobre a ação de assistência técnica e extensão rural desenvolvida pelos parceiros do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) junto a diferentes povos indígenas. A eles foram somados outros três artigos com propósito de ampliar a escala de análise e aprofundar a discussão mais conceitual e operacional da Ação prevista em Plano Pruri Anual. formas de funcionamento. aprimorando futuras iniciativas. e por empresas estaduais de ATER. Ainda que alguns projetos não tenham alcançado o sucesso inicialmente almejado por seus proponentes e executores. Para o MDA. De caráter nacional. à disposição do público em geral. Visa também colocar as lições. Valorizando a produção escrita de indígenas. a sistematização destas reflexões é oportuna para aprofundar e qualificar as especificidades do trabalho com povos indígenas. organizações indigenistas. Nossa avaliação é de que esta publicação se configura como uma . ambientalistas.

a começar pela proposta e pelo conteúdo que traz. cultural e econômico dos povos indígenas. é no âmbito da ATER que essas inciativas de assessoramento chegam mais próximo da configuração de uma Política Pública.188. comunidade. definição sobre o que e como fazer. em suas diferentes etapas – no processo de diagnóstico. seja capaz de fornecer ao leitor elementos que viabilizam ou dificultam uma dada experiência em ATER indígena. Nossa expectativa é que essa publicação. de 11 de janeiro de 2010 que institui a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural para a Agricultura Familiar e Reforma Agrária e o Programa Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural na Agricultura Familiar e na Reforma Agrária. lideranças indígenas. econômica. e como podem ser introduzidos novos conhecimentos e desenvolvidas . são compartilhadas por um coletivo ainda maior de parceiros e gestores e.) aos desafios de ordem técnica. na execução das atividades. ao buscar descrever e interpretar o que foi feito. Embora existam outras iniciativas na esfera pública brasileira de assessoramento técnico e financeiro ao desenvolvimento social. De forma que é positivo que a construção dessa política esteja sempre assentada na reflexão e crítica dos aprendizados por ela gerados. política e/ou cultural. ou ao ethos do público alvo. buscando seu aprimoramento. etc. A reação dos diferentes atores envolvidos na experiência (técnicos. é uma ótima fonte para reflexões. etc. por quem e como. viabilizada por meio da Lei Nº 12. Importante mencionar que dificuldades oriundas da operacionalização administrativa dos projetos. o monitoramento e avaliação das ações pelas comunidades.12 referência muito interessante em vários aspectos. foram referência para a elaboração do novo marco legal da ATER. Importa-nos saber como foram (e são) tratadas as questões que derivam das peculiaridades do encontro intercultural no contexto dos projetos. trata-se de uma discussão que vai além do cumprimento ou não do objeto pactuado em contrato. por exemplo. Importa-nos saber também como é possível apoiar as iniciativas de fortalecimento dos conhecimentos tradicionais relacionados às atividades produtivas. enunciadas em alguns artigos desta obra. nas tomadas de decisão. social. Como a maneira de trabalhar a assistência técnica e a extensão rural teve que se adaptar ao modo de ser.

Desejamos uma boa leitura.13 novas habilidades entre a população indígena. 30 de outubro de 2010 . Além de outras questões e aspectos considerados relevantes pelos autores dos artigos que podem continuar a ser destacados e problematizados. Avaliando (auto)criticamente os resultados alcançados e sustentação no médio e longo prazo. ADONIRAM SANCHES PERACI Secretário de Agricultura Familiar do MDA Brasília-DF.

14 Breve Esboço do Indigenismo à Brasileira e o Desafio da Interculturalidade Ricardo Verdum .

nos parece possível considerar o indigenismo como uma “invenção cultural”. sentia-se. com impactos nos campos literário. Ao mesmo tempo.br .15 Breve Esboço do Indigenismo à Brasileira e o Desafio da Interculturalidade Ricardo Verdum1 O indigenismo tem sido considerado um dos principais e mais originais movimentos culturais surgidos nas primeiras décadas do século XX na América Latina. verdum@inesc. como um ambiente cultural forjado. De uma perspectiva mais ampla. dar conta de uma questão fundamental. artístico. Universidade de Brasília.org. é assessor de políticas socioambientais no INESC . estavam se perdendo no Velho Mundo em decorrência do avanço do processo de urbanização e industrialização nas grandes metrópoles. criar uma personalidade coletiva própria e diferenciada dos valores e princípios de racionalidade originários e importados do Velho Mundo. por setores intelectualizados das elites regionais que buscavam. e de outro. Segundo Eduardo Devés Valdés (2000). filosófico e político que se estendem até nossos dias. em grande medida. O século XX inicia com uma predominância do que Devés Valdés 1 Doutor em Antropologia Social pelo CEPPAC .Centro de Pesquisa e Pós-Graduação sobre as Américas. surge num contexto de crise de legitimidade dos modelos culturais racionalistas de origem europeia. de um lado. o denominado pensamento latino-americano oscilava nos séculos XIX e XX entre dois eixos: de um lado o afã modernizador. recebe a influência de movimentos culturais europeus que almejam preservar e resgatar valores que. em Brasília. principalmente nos países onde havia um grande contingente populacional de origem indígena: qual o lugar destinado a estas populações no projeto republicano no Novo Mundo? O indigenismo. enquanto movimento sociocultural com características próprias.Instituto de Estudos Socioeconômicos. de outro a busca de uma identidade nacional e regional própria.

objetivos e estratégias ali desenvolvidos transformaram-se em referência e espelho na formulação de políticas indigenistas tanto nacionais quanto transnacionais2. Souza Lima (2002). o “indígena”. uma segunda. É nestes países que. onde predominou nos setores urbanos e rurais mais politizados sob influência das correntes libertário-anarquista e socialista. Sua principal inspiração foi sem sombra de dúvida o processo Revolucionário e Pós-Revolucionário Mexicano. Não obstante a importância das três correntes da “onda identitária”. o indigenismo social assume a forma de uma ideologia administrativa que estrutura a política estatal destinada a integrar os povos indígenas na formação de um Estado republicano uninacional. entre os anos trinta e quarenta. que predomina nas duas primeiras décadas. O indigenismo social entendido como uma política social dirigida à população indígena teve seu apogeu na América Latina entre as décadas de 1920 e 1970. esse indigenismo passou por um processo inicial de descontextualização. durante o período 1915-1930. Vários conceitos. que se estendeu até os anos quarenta. que constituíram numa referência para vários governos. Como conjunto de saberes e modos de exercício do poder. . Díaz-Polanco (1991). Verdum (2006). e uma terceira. com um viés mais econômico. ao longo dos anos vinte. a social foi a que teve maior destaque e projeção entre as elites intelectuais latino-americanas.16 (2000) chamou de “eixo identitário”. marcada por preocupações sociais. como marca cultural diferencial da região em relação aos mundos europeu e norte-americano anglo-saxão. Oriundo do contexto político mexicano das primeiras décadas do século XX. se produz um conjunto de escritos que reivindica o próprio do continente. Nesse período se desenvolvem as três principais correntes de caráter identitário: uma mais culturalista. também está na origem 2 Sobre as várias faces ou modalidades de indigenismo ver Bretón (2000). particularmente no México e no Peru. migrando e disseminando-se por praticamente toda a América Latina. que de certa forma prepara as bases para a onda modernizadora que passaria a predominar principalmente nos anos cinquenta. Favre (1998).

Para ele. sendo utilizada essa convenção. em última instância. O Indigenismo à Brasileira e suas Conexões No Brasil. com ênfase especial na formulação de métodos para o tratamento das populações originárias. ou seja. o termo indigenismo se refere ao conjunto de ideias e ideais relativo à inserção de povos indígenas em sociedades subsumidas a Estados nacionais. que por essa época estava em acelerado processo de expansão na América Latina via organizações multilaterais. Freire (2005. Ainda que se possa dizer que as políticas indigenistas de organizações não-governamentais (ONGs). no exercício concreto de seus poderes. o que nos leva a pensar que essa definição de Souza Lima deva ser revisada considerando os múltiplos contextos empíricos em que se manifesta tal política. utilizada pelas pessoas e grupos sociais integrantes do campo indigenista ou da assistência técnica rural. o sertanista torna-se o personagem chave. que vai se cruzar com o indigenismo mexicano nos anos 1950. No contexto do indigenismo à brasileira. operados segundo uma definição do que seja índio. participando e apoiando na formulação da política indigenista dos Estados. instituições religiosas e organismos multilaterais (BIRD e BID. esses agentes também formulam e implementam políticas de natureza indigenista. geralmente formada por mais do que uma palavra. 2008) .17 da formação de verdadeiras tradições antropológicas nacionais no século XX. em especial no Brasil. direta ou indiretamente incidentes sobre os povos indígenas”. as aspas também são utilizadas para marcar uma citação. o indigenismo tem sua história fundada na chamada tradição sertanista4. pacificá-los e induzi-los a caminhar no sentido da civilização e do interesse nacional5. 5 Cf. ainda. o especialista que domina as técnicas de atração e de pacificação dos indígenas arredios. o uso de itálico foi adotado para indicar tratarse de uma categoria nativa. 4 Convenção utilizada no uso de aspas e de itálico: quando alguma palavra estiver entre aspas. Minha percepção é de que há muito. para ressaltar esse aspecto ou pela falta de outro termo mais adequado. que detém os conhecimentos necessários para atraí-los. pela proteção e promoção dos povos indígenas situados no território sob seu domínio. no mais das vezes. na criação de canais de comunicação entre os diferentes indigenismos e políticas indigenistas dos Estados e na estruturação de um aparato políticoadministrativo transnacional a partir dos anos 19403. por exemplo) se orientam de modo geral pela noção do Estado como ente “responsável”. a ser pesquisado sobre os indigenismos e às políticas indigenistas paraestatais. Souza Lima (2002) chama atenção para o papel de destaque que os antropólogos aí desempenharam. 3 No uso dos termos indigenismo e política indigenista tomei como referência inicial a distinção estabelecida por Souza Lima (1995: 14-15). Já política indigenista refere-se às “medidas práticas formuladas por distintos poderes estatizados. isso indica que é um termo de significado ambíguo ou problemático.

em 20 de junho de 1910. Este decreto estabelece o novo Regulamento do Serviço de Proteção aos Índios que inclui “a nacionalização dos silvícolas. Segundo Gersem Luciano (2007). o SPI organizou 66 “escolas indígenas” até 1954. do ponto de vista normativo.18 A institucionalização do indigenismo brasileiro tem início com a criação do Serviço de Proteção aos Índios e Localização dos Trabalhadores Nacionais (SPILTN). e também da Igreja Católica. é uma boa fonte de referência para pesquisas sobre o papel das escolas nas aldeias indígenas. 1º). pela “proteção leiga do Estado”. como forma de incorporar os indígenas no “processo civilizatório” e engajá-los nas estratégias de promoção do “progresso nacional”. Sobre este período. de autoria de Marta Valéria Capacla (1995). isso inclui. além das escolas missionárias. além de atividades de aprendizagem de ofícios (corte e costura e marcenaria. o início do projeto republicano de substituir a catequese religiosa. com o objetivo de sua incorporação à sociedade brasileira” (letra “b” do art. que perdia espaço e poder na “administração dos índios”. que traz a legislação relativa à política indigenista brasileira de 1910 a 1967. entre outras coisas. no âmbito do Ministério da Agricultura. entre outras coisas.Decreto 8. o SPILTN foi dividido. A criação do SPILTN significou. ou na Terra Indígena Uaça. que se caracterizavam fundamentalmente por apresentar currículos e regimentos idênticos aos das escolas rurais. esta perspectiva se explicita claramente. independentes e educados para o cumprimento de todos os deveres cívicos”. no hoje estado do Amapá. ficando constituído o Serviço de Proteção aos Índios (SPI). nos anos 1930. . Para isso. “ensinos de aplicação agrícola ou pecuária”. mas em abril de 1936. Não que o projeto de integração dos indígenas à sociedade nacional já não estivesse em curso. incorporando rudimentos de alfabetização em português. são previstas “medidas” e “ensinamentos” destinados a incorporá-los “economicamente produtivos. é possível evidenciar que. O setor que cuidava da localização de trabalhadores nacionais foi deslocado para o Serviço de Povoamento do Solo. 6 A resenha de teses e livros sobre educação escolar indígena no Brasil no período de 1975-1995. entre outros). Indústria e Comércio . a política de “extensão” agrícola e a escolarização dos indígenas estavam no centro da estratégia do Estado de integração das comunidades indígenas6. por ocasião da assinatura do Decreto no 736/36.072/1910. ver Gagliardi (1989). No livro recentemente publicado por Antônio Carlos de Souza Lima (2009). que em regiões como no estado de Santa Cataria remonta a década dos anos 1940. em meio à pressão política de setores anti-indígenas. Em janeiro de 1918.

às vésperas da “Grande Marcha para o Oeste”7. como a comemoração do dia 19 de abril como Dia do Índio. 8 Cf. 5. Além de planos e estratégias conjuntas para “modernizar” a atuação e o aparato político-administrativo do indigenismo oficial brasileiro.I.). de 02 de junho de 1943. comprometida com o desenvolvimento das respectivas políticas indigenistas nacionais e a implementação de uma estratégia política de abrangência regional. a Seção de Estudos do órgão e. o Brasil adota algumas das deliberações do indigenismo continental. a denominada Missão Andina8. o SPI passou sucessivamente por três ministérios e teve sua legislação diversas vezes alterada. os etnólogos e os sertanistas do CNPI mantinham. Demorou mais dez anos para que o Brasil se vinculasse oficialmente ao Instituto Indigenista Interamericano. Desde então começam a ser introduzidas no órgão tutelar brasileiro as teorias e as práticas elaboradas pelo indigenismo mexicano. foi criado o Conselho Nacional de Proteção aos Índios (CNPI). . em 1942. Verdum (2006: 46-70). por intermédio do Instituto Indigenista Interamericano (I. Foram criados. contatos com o indigenismo interamericano então dominado pelos mexicanos. que por esta época estava presente em outros países sul-americano.540. Três anos após a constituição do SPI. instituído no Brasil por Getúlio Vargas. A partir desses contatos a categoria indigenismo efetivamente passaria a fazer sentido no Brasil.19 Durante o primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945). com a função de “assessorar” o SPI no exercício da sua função de “assistência e proteção aos índios”. nos anos 1950 o SPI estabeleceu convênios com a UNESCO. Foi em 1953. quando o Congresso 7 Cf. Foram também estabelecidas parcerias e intercâmbios acadêmicos e profissionais com o Museu Nacional/RJ e a Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo. Para custear as pesquisas de campo. o Museu do Índio/RJ. em 1954. Garfield (2000). por intermédio do Decreto-Lei n.I. em novembro de 1939. A partir dos anos 1940.

No primeiro ponto da resolução aprovada em 16 de outubro. promove a realização de cursos de formação e capacitação. celebrada na Cidade do México. No ano seguinte uma delegação dos órgãos do indigenismo à brasileira participou pela primeira vez de um Congresso Indigenista organizado pelo Instituto. moradia. escolas. estradas. especialmente da produção gerada pela antropologia aplicada. cooperativas. entre outras atividades. se concede cada vez mais atenção aos programas e projetos de desenvolvimento comunitário. . a delegação brasileira era composta pelo então diretor do SPI José Maria da Gama Malcher e dois técnicos integrantes da Seção de Estudos do órgão. e de maneira muito especial no âmbito americano. Ver Freire (2000). regionais e locais de desenvolvimento integral das comunidades. com vistas a lograr o objetivo de colocar em marcha os planos nacionais de desenvolvimento nos respectivos países” (1962:05). Leon-Portilla está fazendo referência à Primeira Reunião do Conselho Interamericano Econômico e Social. saúde pública. Em uma mesa redonda organizada pelo Banco Interamericano de 9 O I.I. Realizado na Bolívia.I. intercâmbio e fomento das agências indigenistas nacionais. biblioteca. a publicação de estudos e trabalhos de pesquisa. além de congressos.I. após esse tornar-se um organismo especializado da Organização dos Estados Americanos (OEA). especialmente nos campo da reforma agrária. Oliveira Filho & Souza Lima (1983). atuava como agência de articulação. em outubro de 1962. tentando lograr a participação ativa e consciente da população na sua execução. Entre a segunda metade da década de 1950 e os primeiros anos da década seguinte a noção de “desenvolvimento sócio-econômico integral” aparece no centro da pauta dos governos nacionais e dos organismos internacionais no Continente Americano. então diretor do Instituto Indigenista Interamericano: “Pode se afirmar que em todo o mundo. Segundo LeonPortilla. um dos quais o etnólogo Roberto Cardoso de Oliveira9. (Diário do Congresso Nacional de 23/07/1953). serviços públicos e educação da comunidade. recomenda-se que os governos dos Estados membros promovam programas nacionais. inclusive indígenas. a organização de reuniões e oficinas de avaliação de projetos e programas específicos.20 Nacional aprovou a convenção sobre o I.I. assim como ao adestramento de pessoal técnico de desenvolvimento. a articulação com outras agências dos sistemas OEA e ONU.

. onde estariam alojadas as populações indígenas. (1968) Vol. Esta é a versão mexicana de projetos de desenvolvimento da comunidade para regiões chamadas de refúgio. porque nelas persistem estruturas coloniais e arcaicas. 1. deixando visível sua compreensão sobre a importância da intervenção técnica dos cientistas sociais nos rincões de pobreza. A primeira iniciativa de consolidação de dados demográficos.) uma tendência dos planos de desenvolvimento é deixar fora os setores pré-industriais da população. e da atuação dos organismos indigenistas nacionais e outras organizações. aparece em dezembro de 1961. A implementação da política de integração indígena avança também no registro e sistematização de informações sobre a “população alvo”. e o papel complementar dessas populações na aplicação do modelo: (. acentuando a distância que os separa dos mais desenvolvidos. XXVIII. de distribuição geográfica. explicita suas posições. 295-296). estruturado como sociedade dual. Segundo o editorial da revista (1961: . abrangendo a totalidade dos países do continente onde se identificava a presença de indígenas. Gonzalo Aguirre Beltrán. portanto.21 Desenvolvimento (BID) em 1966. pp. órgão de divulgação oficial do Instituto Indigenista Interamericano. chamadas Centros Coordenadores. (In America Indígena. Tratase do Guía de la Población Indígena de América. de legislação. deve. para debater a teoria e a prática do “desarrollo de la comunidad”.. que recebe a designação de ação integral e que constitui a teoria que deu forma às agências de melhoramento e integração. Esta situação de sociedade dual exige uma solução rápida e efetiva e um corpo teórico que explique o processo. com a característica de que estes ensaios foram de índole unilateral. deu ao problema soluções isoladas. de “ocupação”. México. que traz “dados recentes obtidos de fontes de primeira mão”. em um número especial do Boletim Indigenista. ter uma solução integral que inclua a participação da população envolvida na mesma. O resultado destas experiências permitiu aos cientistas sociais elaborar um conjunto unificado de ideias e práticas. então diretor do Instituto Indigenista Interamericano. No.

não mais como um sonho.22 170).700 indivíduos. Esse congresso teve um enfoque eminentemente técnico-científico e de avaliação do corpus doutrinal e da prática do indigenismo no que se refere ao desenvolvimento socioeconômico indígena. aos problemas sanitários e educacionais. Em dezembro de 1962. nos métodos e técnicas da Antropologia Social Aplicada. com base nos conhecimentos. com dados atualizados para o ano de 1960. O aparente entusiasmo dos seus promotores está sustentado na avaliação dos resultados alcançados no V Congresso Indigenista Interamericano. análises e avaliações do período. A julgar pelos relatos. Com base nas Ciências Sociais e. que permita realizar efetivamente “o desenvolvimento socioeconômico destes milhões de indígenas”. agora como Anuário Indigenista. mas como uma realidade palpável. sobretudo. são colocados em funcionamento no México e Bolívia centros de formação de “pessoal em técnicas de desenvolvimento . os dados permitiriam tomar consciência da magnitude do problema indígena no continente e da necessidade de uma ação coordenada muito mais ampla. etc. Por intermédio do Projeto 208 do Programa de Cooperação Técnica. A “etapa romântica do indigenismo foi superada”. envolvendo o Instituto Indigenista Interamericano e o Departamento de Assuntos Sociais da OEA. está se passando por um dos momentos áureos do indigenismo integracionista. anuncia o editorial do volume XXIV do Anuário Indigenista de dezembro de 1964. um momento quando se crê possível e viável levar a termo o objetivo da promoção do “desenvolvimento econômico e social dos indígenas”. ao treinamento de pessoal. é dito que a teoria e a prática do indigenismo interamericano se constituíam numa realidade operante que se expandia pelo continente. nome que se manteria até os anos 2000. ao fomento e proteção do artesanato. realizado em Quito. o Instituto lança o segundo Guía de la Población Indígena de América. Os dados oficiais da população indígena no Brasil para este ano apontam número aproximado de 99. de 19 a 25 de outubro de 1964. métodos e técnicas da moderna Ciência Social.

M. entre os quais G.Ch. a Declaração de Barbados. A crítica de Guillermo Bonfil Batalla ao “conservadorismo” do pensamento reinante na Antropologia Aplicada e o problema do “dualismo ético” e do “dualismo nas formas de desenvolvimento” assinalado por Richard Adams. os interesses particulares. e que a política indigenista adotada pelos governos latino-americanos está dirigida à destruição das culturas autóctones. M. Sardi. pela primeira vez. XXIV: 3). Darcy Ribeiro e Stefano Varesa preparam um documento. Cardenas. O documento tem um tom de denúncia. Esta nova corrente não deixa de colocar em discussão a intervenção dos governos. identificados por Enrique Valencia em 1968. Por ocasião do simpósio sobre conflitos interétnicos realizado em Barbados em janeiro de 1971. realiza-se a 2ª Reunião de Barbados. numerosos antropólogos. integrado por Arturo Warman.23 da comunidade indígena”. conceitos alternativos ao 10 Enrique Valencia faz parte do grupo auto-intitulado de “antropólogos críticos”. junto com alguns representantes de organizações indígenas latino-americanas. . Bartolomé. Guillermo Bonfil e Mercedes Oliveira. etc. G.A.) nas técnicas da antropologia social aplicada e do desenvolvimento comunitário: “para que possam aplicar de forma adequada seus conhecimentos em áreas em que se conservam elevados os percentuais de traços e instituições culturais indígenas” (editorial do Anuário Indigenista. médicos. Em 1978. onde os neo-indigenistas propõem. se amplifica na década de 1970 com a crítica à postura paternalista e assistencial dominante no discurso e na prática do indigenismo dos governos dos Estados nacionais e à atuação de antropólogos e sociólogos nos projetos desenvolvimentistas10. Grunberg. G. Declara que as populações indígenas das Américas permanecem em uma situação colonial de subordinação. A finalidade do Projeto é treinar o maior número possível de profissionais (agrônomos. 1964. antropólogos e indigenistas dissidentes do indigenismo integracionista. Margarida Nolasco. esforçam-se por traçar os princípios e métodos de um novo indigenismo.C. Bonfil Batalla. Ainda em 1971. as investigações dos antropólogos e a ação dos missionários. educadores.

a criação e fortalecimento de hierarquias sócio-políticas locais. Aos postos indígenas – dado o seu contato direto e cotidiano com a população – coube o papel de unidade responsável localmente 11 A importância que a chamada “renda indígena” teve na política indigenista governamental brasileira (SPI e FUNAI). diversidade cultural. por estarem reduzindo o conceito de desenvolvimento indígena à dimensão econômica e comunal. o protecionismo e o assistencialismo foram seguidos de perto pelo produtivismo. e a relação de dominação e exploração a que foram sujeitos os índios por parte de funcionários do órgão tutor foram duramente criticadas nos anos setenta e oitenta. Na prática isso implicou.24 indigenismo integracionista. a integração política e econômica das famílias e comunidades locais nos arranjos de poder e de mercado regional. De outro lado. os indígenas criticam os governos por estarem adotando modelos de desenvolvimento construídos a partir dos processos históricos vividos pelos países “já desenvolvidos”. exploração de florestas nativas por madeireiras. e a liberalização dos territórios indígenas e recursos naturais ali existentes para a exploração comercial via arrendamento. em grande medida. estabelecendo o que Edgard de Assis Carvalho (1981: 17) chamou de “os nexos econômicos determinantes da participação indígena na sociedade nacional”. configurando – como afirmaria Gagliardi (1989) e Souza Lima (1995) – a marca do sistema tutelar do indigenismo implementado sob a batuta do Estado nacional brasileiro. Em 1968. que visualiza os indígenas ora como um “obstáculo” ora como “força de trabalho” a ser integrada e explorada no processo de ocupação territorial e geração de renda11. Criticam a estreiteza do discurso desenvolvimentista. . a introdução de mecanismos de controle e governabilidade da população nas comunidades locais. Roberto Cardoso de Oliveira já apontava criticamente os equívocos do modelo de “crescimento econômico dos grupos silvícolas” baseado em relações do tipo patrão-empregado. a criação e fortalecimento de diferenciações econômicas internas e intercomunitárias. pluralismo cultural e o etnocídio – ver Grupo de Barbados (1979). entre outras. são eles: etnodesenvolvimento. No Brasil.

e de forma contínua de 1939 a 1967. Além disso. Contribui para isso a lembrança que tenho de relatos de indígenas. que denominava o percentual da produção indígena (e renda gerada) que ficava com a instituição. um conhecimento de extrema importância inclusive no campo político. para colocar em questão habitus que persistem no tempo e que ainda são estruturantes do indigenismo e das políticas indigenistas no país. técnicas e pessoal. É difícil deixar de supor que não tenha havido fluxos de ideias. como Roraima. a pecuária e o extrativismos madeireiro – era visto como uma atividade “educativa”. É importante lembrar que o SPI esteve vinculado ao Ministério da Agricultura em grande parte dos 56 anos de sua existência. um vazio enorme no campo do conhecimento a ser preenchido. que estava orientado pela ideia de promoção do desenvolvimento comunitário. instrumentos. e que comunidades indígenas não tenham sido envolvidas em ações do extensionismo rural pelo Brasil a fora. a FUNAI esteve vinculada ao Ministério da Integração nos seus primeiros vinte e dois anos de existência. Roberto Cardoso de Oliveira. ainda. ou de visitas recebidas em . quando se estrutura e expande pelo país o Sistema de Extensão Rural. de diferentes faixas etárias. ela era chamada internamente de dízimo. Envolver as famílias indígenas em atividades que proporcionassem algum tipo de renda – como a lavoura. em depoimento registrado em 2003 informou que quando a renda do patrimônio indígena foi criada pelo SPI nos anos 1950. Sobre a importância e a influência que tiveram ou possam ter tido as políticas e ações do sistema Extensão Rural nas políticas indigenistas do SPI e da FUNAI e no meio indígena há. que em conversas nada estruturadas mencionaram ter participado de cursos formação e de capacitação em “escolas agrícolas” e “escolas agrotécnicas”. do Nordeste e da Região Sul. estratégias.25 pela administração da população e pela gestão econômica do chamado patrimônio indígena. bem como um meio para viabilizar a sustentabilidade econômica das unidades e do sistema político-administrativo de proteção. e também na Amazônia.

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suas aldeias ou locais de moradia de técnicos ligados a agências de extensão rural do estado ou da EMBRATER – Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural12. Como é de conhecimento daqueles que vivenciaram ou conhecem a histórico do chamado Serviço de Extensão Rural no Brasil, nas décadas de 1950 e 1960 a temática “rural”, a “questão agrária” e a necessidade de “levar modernização e progresso aos agricultores” foi objeto de disputas conceituais e políticas entre diversos atores e agências sociais: movimentos e organizações de esquerda, especialmente o Partido Comunista; a Igreja Católica, com um viés marcadamente conservador; acadêmicos e funcionários ligados a órgãos estatais de promoção do desenvolvimento; agrônomos e técnicos agrícolas vinculados ao Estado ou a empresas agroindustriais; antropólogos e outros cientistas sociais, entre outros. Vêm desse período também as interpretações clássicas sobre campesinato no Brasil (Welch et al. 2009). Não é demais lembrar que a primeira experiência de trabalho com extensão rural no país remonta ao ano de 1948, em Minas Gerais, com a criação da Associação da Associação de Crédito e Assistência Técnica Rural (ACAR). Ela foi criada sob o patrocínio da entidade chamada American International Association for Social Development (A.I.A.), do empresário norte-americano Nelson Rockfeller, então interessado em expandir sua Revolução Verde nos países latino-americanos, e com grande interesse na região Centro-Oeste. Sintonizado com o “Programa do Ponto IV” da Doutrina Truman (1949) – de “trabalhar para vencer a pobreza e o atraso dos latinoamericanos” – fazia parte da política de extensão promovida pela ACAR e a A.I.A. fomentar, além do aumento da produtividade, mecanismos como o crédito rural, o associativismo e o cooperativismo, a sindicalização e um sistema de educação agrícola adequado aos objetivos de “modernização do campo”. Essa experiência piloto serviu de base para, em 1954, Juscelino
12 Reinaldo Lindolfo Lohn (2008) diz que no Brasil, desde a década de 1940, eram implementadas diversas ações do tipo “desenvolvimento de comunidades”, com as Campanhas de Educação Rural, Serviço Social Rural, Movimento de Educação de Base, entre outras. Sobre o ensino agrícola no Brasil ver Mendonça (2006).

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Kubitschek assinar um acordo de “cooperação técnico-financeira” com o governo norte-americano, que por sua vez deu origem ao Projeto Técnico de Agricultura (ETA), que tinha entre seus objetivos disseminar os princípios, critérios e instrumentos pelo país e coordenar as ações de extensão rural. No mesmo ano é criada a ANCAR (CE, PE, BA); no ano seguinte a ASCAR-RS e a ANCAR (RN, PB); em 1956, a ACARESC, e assim por diante. As demais ACAR foram sendo criadas em cada estado, totalizando 23 no ano de 1974. Ainda em 1956 foi criada a Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural – ABCAR, que substituiu o ETA, formando o então chamado Sistema ABCAR. No estado do Amazonas, a ASCAR foi criada em 196613. O golpe militar de 1964 trouxe mudanças mantendo, no entanto, a orientação geral do aparato político-institucional do Estado nacional responsável pela “administração” dos assuntos indígenas. O Serviço de Proteção aos Índios (SPI) tinha chegado aos anos 1960 imerso numa crise, derivada de problemas de má gestão, corrupção etc.. Em 5 de dezembro de 1967, por meio da Lei 5.371, o governo militar extinguiu esse órgão e criou, no seu lugar, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI). A constituição do novo órgão significou também a criação da chamada “renda anual do patrimônio indígena”, em que a dimensão econômico política da ação indigenista é renovada e fortalecida, e se institucionaliza a ideia de que os custos de manutenção do aparato burocrático, de pacificação e proteção dos indígenas, deveriam ser parcialmente custeados pela exploração e comercialização das terras e dos recursos naturais presentes nos territórios indígenas. A partir dos anos 1970, o “saber indigenista” é um campo em disputa

13 Como não se trata aqui de detalhar o processo de instituição do Sistema Brasileiro de Extensão Rural (SBER), menciono somente mais dois fatos: que em julho de 1970 o governo federal criou o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA); e que em 1974 o SBER começa a ser estatizado por intermédio da Lei nº 6.126, de 06 de novembro, que autorizou o Poder Executivo a instituir a Empresa Brasileira de Assistência técnica e Extensão Rural (EMBRATER), vinculada ao Ministério da Agricultura, ao mesmo tempo em que promovia sua integração com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), autorizando-as a dar apoio financeiro e técnico às instituições estaduais oficiais de ATER e pesquisa agropecuária. Ver Lohn (2008); Oliveira (1999); Peixoto (2008).

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entre os que ficaram no órgão indigenista oficial, e aqueles que seguiram para ou surgiram de outros espaços de ação e formação: de instituições de ensino e pesquisa; de instituições ligadas à Igreja Católica; de organizações não governamentais (ONGs) nacionais e internacionais; de agências multilaterais e bilaterais de cooperação técnica e financeira no Brasil, entre outras (ver Cardoso de Oliveira 1988). Nesse momento o indigenismo interamericano fundado na tradição mexicana, assim como a chamada antropologia aplicada a ele associada estão em crise, particularmente pelo seu envolvimento com processos de colonialismo interno14. No campo da política indigenista oficial, tivemos nos anos 1970 a “nova utopia indígena”, como denominou Betty Mindlin Lafer uma série de “projetos econômicos destinados a comunidades indígenas” (ver Junqueira & Carvalho 1981). Nos primeiro anos de existência da FUNAI, entre 1967 e 1973, no campo do chamado “desenvolvimento do patrimônio indígena”, além do prosseguimento dos arrendamentos de Terras Indígenas, foram implantados vários projetos de “desenvolvimento econômico” envolvendo o cultivo de soja e trigo, a bovinocultura, a rizicultura e a instalação de serrarias, todos no Sul do país. A partir de 1973, orientado pelo objetivo da “integração progressiva e harmônica à comunhão nacional” definido no Estatuto do Índio (1973), o órgão indigenista oficial voltou-se para o Norte, acompanhado o “boom desenvolvimentista” que se volta de forma planejada para a região15. A “nova utopia” são os chamados projetos socioeconômicos ou de desenvolvimento comunitário, que acompanham o avanço da fronteira desenvolvimentista16. Promover o “desenvolvimento econômico comunitário” é tomado, afirma-se, como meio para “emancipar” os indígenas da tutela do Estado, da pobreza e da situação de exploração da sua força de trabalho por terceiros. Segundo Joana Fernandes Silva (1982: 84), a FUNAI anuncia em 1979 que
14 Sobre a gênese sócio-histórica da noção de colonialismo interno e sua aplicação na etnologia brasileira ver Cardoso de Oliveira (1978); González Casanova (2007). 15 Cf. Davis (1978); Leonel (1992). 16 Cf. Almeida (2001); FUNAI (1975); Oliveira Filho (1979); Verdum (1996).

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está desenvolvendo 55 projetos agrícolas em todo o território nacional, contra 10 de 1973, abrangendo uma área de 11.9443 ha, com plantações de arroz, feijão, milho, café e soja, entre outros “produtos”. Ainda segundo Joana Fernandes, dentro desta linha de promover a integração e emancipação econômica dos indígenas, em 1980 o órgão indigenista anuncia 132 projetos em execução e uma produção esperada pela FUNAI e Ministério do Interior de 34.000 toneladas de arroz, feijão, soja e mandioca. José Gabriel Silveira Corrêa (2008) mapeia 70 projetos, planos e programas de “desenvolvimento indígena” entre 1970 e 1987, alguns de impacto local, outros de abrangência étnica e geográfica mais ampla, como: o Projeto Yanoama (1975); o Projeto de Emergência para as Comunidades do Alto Rio Negro (1976); o Projeto Parque Nacional do Xingu (1978); o Programa Grande Carajás (1982-1984); o Programa Alimentos (1982-1984), entre outros. O termo projeto já era então, anos 1970, parte do vocabulário indigenista oficial17. A Constituição Federal brasileira de 1988 trouxe novos ares ao indigenismo nacional. Reafirma os direitos indígenas sobre as terras que tradicionalmente ocupam; a competência da União de demarcá-las e proteger e fazer respeitar todos os seus bens; o dever do Estado e o direito dos indígenas de serem consultados quando da execução de atividades de exploração de recursos naturais que impactem os seus territórios e população; e a competência civil dos indígenas, individual e coletivamente ingressar em juízo contra o Estado em defesa de seus direitos e interesses. Ao processo constitucional, que envolveu as chamadas entidades ou organizações de apoio e um conjunto de indígenas alçados à cena nacional na qualidade de representantes da indianidade genérica ou de grupos indígenas específicos, segue um período de efervescência organizativa no meio indígena, criando as bases do que veio a se constituir no movimento social organizado de povos indígenas, estruturado em diferentes níveis, do local ao nacional (Albert 1997, 1998, 2001; Athias 2002; Matos 1997; Ricardo 1996b).
17 Sobre a vinculação das ações de saúde da FUNAI com programas e projetos de desenvolvimento no período 1968-1988 ver Selau (1992).

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Ao mesmo tempo, entra em crise a hegemonia política, ideológica e administrativa da FUNAI sobre a gestão oficial da população e dos territórios e recursos naturais indígenas. Até o final dos anos 1980 a FUNAI era o espaço privilegiado da disputa sobre a administração dos “assuntos” e “problemas” indígenas; julgou-se por um período, que se estendeu até bem recente, que ali residiria a solução dos “problemas dos índios”. Dessa perspectiva, a FUNAI era vista e representada como um espaço de poder a ser tomado, ocupado e transformado num espaço “a serviço dos índios” (Cardoso de Oliveira, 1988). Os últimos 15 anos têm revelado, no entanto, que os processos são mais complexos e os resultados inseguros. Em 1991 algumas das suas funções passam a ser compartilhadas ou mesmo repassadas para outros órgãos da administração pública federal. Com a publicação dos Decretos número 23, 24, 25 e 26, de 04 de fevereiro de 1991, são repassadas respectivamente para os Ministérios da Saúde, do Meio Ambiente, da Agricultura e da Educação ações da “política de assistência ao índio” que estavam até então sob a alçada da FUNAI executar e o poder de conceder a terceiros a co-responsabilidade pela implementação (BarrosoHoffman et al. 2004; Ricardo 1996a, 2000; Souza Lima & Barroso-Hoffman 2002; Verdum 2003, 2005a, 2005b). Esta é, em linhas bastante gerais, a narrativa que prevalece sobre o indigenismo no Brasil. Como no México e em boa parte da América Latina, o indigenismo à moda brasileira surge ligado ao projeto de expansão, integração e modernização do capitalismo do meio rural, onde a noção de desenvolvimento comunitário tem papel central no corpo de ideias, práticas e instituições voltadas para a incorporação econômica, política e cultural das sociedades indígenas aos projetos de “desenvolvimento nacional”. Antônio Carlos de Souza Lima já indicava, em 1998, que a expressão projetos econômicos designa uma multiplicidade de formas de utilização do patrimônio indígena não estudada adequadamente até aquele momento (Souza Lima, 1998: 255). Apesar do tempo transcorrido, permanece o quadro de ausência de estudos e análises críticas desses processos que, de

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forma genérica, prefiro distinguir em dois tipos: de “desenvolvimento dos índios” e de “desenvolvimento indígena” – embora muitas vezes seja difícil estabelecer diferenças substantivas entre um e outro, especialmente no campo indigenista brasileiro18. A publicação Povos Indígenas no Brasil, editada primeiramente pelo Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI), e depois pelo Instituto Socioambiental (ISA), é uma boa fonte de consulta e informações sobre “políticas de desenvolvimento” entre povos indígenas no Brasil (ver bibliografia). Ali são encontras inúmeras referências sobre projetos locais e programas de maior abrangência que surgem associados com os grandes projetos de infra-estrutura na Amazônia dos anos 19701990; iniciativas implementadas pela FUNAI, igrejas e ONGs em diferentes regiões do país; assim como iniciativas de projetos originados de entidades indígenas – são associações, cooperativas, organizações regionais que representam um esforço crescente de autodeterminação. Particularmente nos três últimos volumes, publicados respectivamente em 1996, 2000 e 2006, há inúmeras referências sobre as novas tendências discursivas e práticas do desenvolvimento, o dito sustentável, no meio indígena e indigenista governamental e não governamental, aos quais se associam e se estruturam novas modalidades do que poderíamos chamar de extensionismo indigenista multicultural. Como assinalado em outro lugar, são diversas as circunstâncias e demandas dos povos indígenas no tocante a controle território, gestão de recursos naturais e de apoio às atividades produtivas e de sustentabilidade alimentar (Verdum e Moreira, 2005), o que torna necessária uma maior abertura à participação e ao diálogo intercultural tanto no campo indigenista quanto dos extensionistas. O Desafio da Interculturalidade Na presente coletânea foram reunidos dez artigos nos quais os

18 Em 2003, Peter Schoder publicou um estudo sobre as economias indígenas na Amazônia Legal e as experiências de projetos concebidos em torno delas. Salvo engano, não há trabalho semelhante para outras regiões do país.

que o conjunto dos artigos aporta elementos para desencadear dentro do MDA e nas empresas e agências estaduais de ATER um processo de discussão e o desenvolvimento de um sistema de ATER (com povos indígenas) bem mais amplo e ambicioso do que o existente. procedimentos. com' base em experiências locais. por intermédio do núcleo de Assistência Técnica e Extensão Rural Indigenista da Secretaria da Agricultura Familiar (SAF). organizações indigenistas e ambientalistas e por empresas estaduais de ATER. Cremos. critérios. o estabelecido na Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER)19. O objetivo que moveu a seleção dos artigos foi estimular a reflexão crítica da ação de assistência técnica e extensão rural desenvolvida pelos “parceiros” do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) junto a diferentes povos indígenas. forma de financiamento etc. No período de 2004-2008 o MDA financiou projetos de assistência técnica para povos indígenas. Ao MDA. Estes projetos foram propostos e implementados por órgãos governamentais e organizações não governamentais: prefeituras. Embora existam outras iniciativas na esfera pública brasileira de assessoramento técnico e financeiro 19 Sobre os antecedentes dessa política.32 autores compartilham suas reflexões sobre as práticas. De caráter nacional. associações indígenas. junto aos povos indígenas. também. Cremos que esta publicação também deverá interessar a um público mais amplo do que aquele que participa diretamente das ações de ATER do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). é oportuna para aprofundar e qualificar as especificidades do seu trabalho com povos indígenas. Ela apresenta subsídios e argumentos para mudanças e refinamento na forma de viabilizar as experiências de assistência técnica. . entendemos que a sistematização destas reflexões. o apoio a estes projetos se configurou como parte do esforço realizado pelo MDA para colocar em prática. incluindo diretrizes. os aprendizados e as lições geradas a partir da execução dos projetos apoiados pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). ver Verdum (2005b).

projetos e práticas orientadas pelo conceito de interculturalidade. práticas. admitem e problematizam as assimetrias sociais. Sua discussão inclui questões sobre como e em que medida a ATER nos moldes propostos atualmente pelo MDA pode se diferenciar das práticas indigenistas que tradicionalmente foram implementadas pelo Estado brasileiro. cultural e econômico dos povos indígenas. no passado e em certa medida no presente. como o leitor poderá perceber os artigos refletem sobre as complexas relações.33 ao desenvolvimento social. temos o artigo de André Araújo. propõe eixos 20 Cf. processos. que se propõe a fazer uma discussão mais de fundo da política de ATER junto aos povos indígenas. O autor apresenta uma relevante e necessária contextualização sobre o direito indígena a ATER. abordando a legislação vigente e as responsabilidades de diferentes esferas de governo. negociações e intercâmbios culturais ocorridos durante sua implementação e mesmo na fase de preparação. econômicas. conhecimentos. Verdum (2002). pouco se tem refletido sobre o tema e menos ainda sido possibilitado que um público mais amplo possa conhecer e até aprender com as reflexões geradas20. Abrindo a coletânea. os dez artigos de experiências locais de assistência técnica que integram esta publicação compõem um raro e interessante mosaico de situações. propostas e desafios para formulação de políticas. a possibilidade de maior protagonismo individual e coletivo indígena. a partir do órgão oficial responsável pela ação indigenista – o SPI – e especialmente. lógicas e racionalidades. Inglez de Souza et al. informam sobre a interação entre as pessoas. (2007). a partir de 1967. também organizador desta publicação. políticas e de poder que caracterizam o contexto onde são desenvolvidas as experiências e apontam os constrangimentos institucionais que limitam e limitaram. em alguns casos. Por fim. Embora a discussão sobre interculturalidade não tenha sido colocada explicitamente aos executores dos projetos a partir do MDA. . a FUNAI. Na nossa avaliação.

Contribuiu para isso. Em seu artigo. inclusive do ponto de vista da sustentabilidade alimentar. A partir dessa primeira experiência. A promoção de segurança alimentar e o etnodesenvolvimento eram então noções chave. e especialmente dos aprendizados . hortas domésticas. afirmam os autores. Sílvia Ferrari apresenta um histórico dos processos que levaram à criação da ação de ATER em Terras Indígenas no MDA. a atuação do estado. aos povos indígenas. então. A Extensão Indígena. Seu artigo reflete preocupações e anseios de uma pessoa que vive diretamente o desafio de gestar e gerenciar no dia a dia uma ação indigenista diferente daquela que critica. de quem vive. associados com a agrofloresta e o manejo da fauna silvestre foram as principais atividades introduzidas e potencializadas. roçados etc. sob as quais foram elencadas propostas integrando vários setores responsáveis por políticas públicas. A estruturação da ação de ATER em 2003/2004 e as mudanças observadas desde estão e uma avaliação do período 2004-2009 são tratados por Sílvia de um ponto de vista particular. lembra a autora. A noção de segurança alimentar e o propósito de assegurar aos indígenas uma “alimentação mínima e permitisse a subsistência dos povos indígenas” orientava.. o desafio de operacionalizar tal política com a almejada eficácia. iniciou em 2001.34 norteadores para uma assistência inovadora nesse campo e as ações que considera devam ser priorizadas. Dinah Rodrigues Borges e Francisco Ralph Martins da Rocha apresentam um balanço das transformações recentes na política e nas práticas de assistência técnica e extensão rural (ATER) do governo do estado do Acre. O apoio e incentivo à criação de galinha caipira. envolvendo pessoas e organizações governamentais e não governamentais. como é denominada pelos autores. indígenas e não indígenas preocupadas com a situação de precariedade em que viviam vários povos e comunidades locais indígenas. diretamente. a mobilização social no ano de 2002. como medida mitigadora e compensatória em Terras Indígenas “impactadas” pelo asfaltamento das rodovias BR 364 e 317.

alguns. . As sementes tradicionais são parte da sua identidade coletiva. Além da participação e do incentivo ao protagonismo da população. Nessa nova estratégia de promoção do desenvolvimento local. Eles têm o importante papel político de estimular a coesão social e de ser o elo de comunicação entre a comunidade e as instituições governamentais e não governamentais envolvidos nessa política de “reinventar tradições em busca de soberania alimentar”. aos AAFIs é atribuído o papel de assistir tecnicamente às comunidades nas diferentes formas de manejo da fauna e flora locais e na implantação e cuidado dos sistemas agroflorestais e nas atividades de produção de alimentos. é dar vida às histórias e aos relatos míticos desses povos. Por fim. pouco animadores. foi desenvolvida toda uma metodologia de planejamento e implementação. 21 Cf. é respeitar a lógica e as formas como ocupam e desfrutam dos territórios e dos recursos ali disponíveis. Vivan. Fruto de uma experiência que surge e se desenvolve como parte da ação indigenista alternativa à FUNAI21.35 extraídos dos resultados. orientado agora para a soberania alimentar. Valorizar as sementes tradicionais é valorizar os conhecimentos e as práticas indígenas de manejo e cultivo. é valorizar as gerações passadas e futuras. Manchineri e outros povos indígenas no estado) e dizem por que elas são um importante elemento na estratégia do governo do Acre de promoção da soberania alimentar indígena. os agentes agroflorestais indígenas (AAFIs) desempenham um papel central. Sena e Ochoa (2005). busca-se levar em consideração as especificidades socioculturais e ambientais locais. Dinah e Francisco chamam atenção para o papel e o poder simbólico das sementes tradicionais (entre os Jaminawá. aos agentes agroflorestais é dado mais do que uma atribuição técnica de assistência. Segundo os autores. Monte e Gavazzi (2002). Os planos de ação são elaborados envolvendo a comunidade local na definição do que fazer e como fazer.

Eles devem ter certa flexibilidade. tem implicações culturais profundas. no estado do Mato Grosso. estar abertos ao diálogo intercultural e considerar as peculiaridades socioculturais de cada povo indígena. os autores constatam que não houve a tão almejada (pelo projeto indigenista integracionista) assimilação . Os autores relatam transformações na vida desse povo. associados com rituais e histórias que residem fundo na memória xavante. de forma sintética. hoje está fragmentado em onze “Terras Indígenas”. a sedentarização forçada e inúmeras restrições à utilização de recursos naturais do Cerrado. Noções como “natureza” e “território” e o que parece ser algo simples. Top’ Tiro. no entorno das quais existe uma paisagem completamente alterada e degradada pelo agronegócio e a mineração. Gomide e Daniela Lima iniciam enfatizando uma questão central para a formulação e implementação de políticas de etnodesenvolvimento ou desenvolvimento sustentável com povos indígenas: de que. culturais e sociais dessas sociedades. Como será percebida pela leitura do artigo. que permitia deslocamentos amplos e de longa duração até lugares de caça farta.36 Ao relatar o projeto de capacitação dos Xavante no uso e conservação da agrobiodiversidade da Terra Indígena Sangradouro / Volta Grande. que essa perspectiva também deve ser adotada pelos órgãos financiadores de ações de ATER. Hiparidi D. Não obstante esse processo. devem ser levados em consideração o dinamismo e as relações temporais. tanto na concepção quanto na aplicação de projetos envolvendo povos indígenas. A atuação dos órgãos indigenistas do Estado (SPI e FUNAI) e os inúmeros conflitos havidos com essas frentes de ocupação e colonização são apresentados. descontínuas. E mais. É feita uma digressão ao processo de expansão agro-pastoril e mineira dos waradzu sobre o território ocupado pelos Xavante. que ocasionou um crescente cerceamento na sua autonomia de livre trânsito. essa questão foi vivida como desafio concreto pelos autores durante a execução do projeto. Maria Lucia C. a construção de um “viveiro de mudas”. O que era antes um território contínuo. abarcando um período de mais de 60 anos.

um processo de reelaboração cultural a partir de elementos próprios da cultura ancestral. Daí por que o projeto adotar. com resultados bastante positivos. pessoas idosas e parteiras Kaingang no uso e manejo de espécies vegetais. O projeto foi executado na Terra Indígena Guarita. sim. Noeli Teresinha Falcade e Sandro Luckmann relatam e refletem sobre a experiência que desenvolveram de revitalização e socialização dos conhecimentos e saberes tradicionais de mulheres. uma adaptação. onde vivem cerca de 6. No artigo seguinte. implantação de sistemas agroflorestais e a criação de tracajás (quelônio).37 completa dos Xavante a novos hábitos. ele está se perdendo. os detentores do conhecimento das técnicas tradicionais de manejo dos recursos naturais. Como outros projetos que integram essa coletânea. revitalizar e socializar tal memória foram tomados como um ato de reconhecimento de um saber que contribuiu para prevenção de enfermidades e no bem-estar comunitário ao longo de gerações e gerações. Houve. O intercâmbio promovido entre Xavantes e os agentes agroflorestais indígenas no Acre (no Centro de Formação dos Povos da Floresta. no Rio Grande do Sul. se devesse priorizar e valorizar o diálogo com os anciãos e anciães. O intercâmbio de experiências com outros povos aparece aqui como muito promissor. . este partiu da premissa de que a memória dos antepassados está viva e presente nas pessoas idosas da comunidade e que. que na pretensa “capacitação” dos Xavante. Assim. com a morte dessas pessoas. da Comissão Pró-Índio) possibilitou aos primeiros intercambiar e incorporar novos conhecimentos: manejo de hortas orgânicas. no uso e conservação da agrobiodiversidade do Cerrado no contexto territorial atual. como premissa.100 pessoas. além de técnicas não indígenas bem-sucedidas no campo do manejo. aos poucos. Esse entendimento e procedimento foram adotados por outras experiências relatadas nesta coletânea. Para elaboração da proposta de trabalho (o “projeto”) foram envolvidos vários segmentos da comunidade Kaingang (grupos de mulheres.

espécie nativa do bioma Mata Atlântica. a desejada interculturalidade e o estabelecimento de um estado de confiança entre os envolvidos. entre outros). particularmente em relação ao destino dos conhecimentos e saberes que estavam sendo sistematizados. papéis e responsabilidades. com dinâmicas de grupo e oficinas. e que a valorização dessas pessoas contribui para que esses conhecimentos sejam revitalizados dentro da cultura e da comunidade. agentes de saúde e saneamento. Kaingang e não Kaingang. compondo um amplo espectro de visões. cultivo de hortas domésticas e comunitárias visando a capacitação em cultivo e uso de espécies que não eram de domínio tradicional indígena. lideranças. visitas aos nichos de espécies tradicionais utilizadas como alimento e para fim medicamentoso. Verificam ainda. novas formas de interação social e o manejo de novas espécies vegetais em conformidade com a lógica e a ciência tradicional do povo Kaingang. Os Guarani que vivem na Terra Indígena do Ribeirão Silveira. potencializando dimensões não previstas ou não valorizadas na ATER convencional. Nesse sentido. diante do desafio da crescente redução do palmito Juçara (Euterpe edulis). universitários. Os autores afirmam ter verificado que as pessoas detentoras do saber tradicional Kaingang têm as práticas antigas como esteio de força e vitalidade.38 docentes. fica evidente que uma ATER. para ser efetivamente alternativa. centrada na produtividade. A participação e o protagonismo dessas pessoas possibilitaram a construção coletiva. no estado de São Paulo. encontros de pessoas para intercâmbio de experiências e troca de saberes entre grupos de mulheres. que o processo desencadeado pelo projeto oportunizou espaços para outras concepções. terá que orientar-se para o fortalecimento das dinâmicas sociais e os conhecimentos e saberes das comunidades e povos indígenas onde pretende atuar. e da necessidade de terem que elaborar um plano de manejo para explorar . O trabalho de revitalização incluiu a realização de visitas domiciliares e entrevistas com os detentores de conhecimentos tradicionais.

a grave situação dos estoques de plântulas. aos Guarani de Ribeirão Silveira. as condições necessárias para que participassem. Isso implicava um diálogo de saberes. “tratava-se de estimular a investigação de . Essa participação e interação com o conhecimento técnico proporcionado pelo projeto deram. expressão utilizada pelos autores. com os estudos de Paulo Marcos Amorim (1970/1971. A participação dos indígenas em todas as etapas do inventário florestal. O artigo escrito por Marina S. o artigo trata da problemática da comercialização. foi de fundamental importância para que eles percebessem a situação ambiental da sua terra e. dimensão nem sempre abordada com a devida importância pelo assistencialismo técnico. sistema agroflorestal de criação de animais silvestres e áreas de sucessão ecológica) adaptado ao modo de ser e viver dos Pankararé. 1978). Nas palavras de Oliveira. mais especificamente na Terra Indígena Pankararé. O projeto teve como propósito viabilizar um sistema agroecológico integrador de diferentes atividades e subsistemas (casa/quintal. matrizes e plantas adultas da palmeira Juçara. da elaboração do plano de manejo e da estratégia de repovoamento da Terra Indígena com o palmito. de Castro.39 de forma sustentável essa palmeira. de autoria de Marcio José Alvim do Nascimento. Lilian S. particularmente. Embora não explicitada como intenção. roça/pasto. Além de proporcionar algumas pistas para o desenvolvimento de uma prática de ATER mais dialógica. cujo uso no Brasil remonta ao final dos anos 1960. mais focado nos aspectos da produção. localizada no extremo nordeste do estado da Bahia. Barreto e seis outros pesquisadores ligados à Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola e a Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) trata do desafio da ATER na região do semiárido nordestino. inclusive na definição das metodologias de trabalho. em melhores condições. diz o autor. 1975) e a influência de Roberto Cardoso de Oliveira (1976. os autores do artigo de alguma forma atualizam o uso da categoria de “campesinato indígena” em relação aos povos indígenas no Nordeste brasileiro. é a problemática tratada no artigo seguinte.

ornamentais e para produção de fibras. enquanto índios. relações de gênero. mercado e agregação de valor ao principal cultivo da aldeia. A capacitação foi vista. geração de trabalho e renda.40 grupos indígenas remanescentes. como unidades demonstrativas (UDs). ambiente. Ressaltam que o projeto deu um impulso viabilizando que a comunidade vislumbre alternativas produtivas social e ambientalmente sustentáveis. assinado por Aurélio José Antunes de Carvalho e cinco outros autores. A Terra Indígena Tupinambá fica numa região cacaueira. a produção de espécies madeiráveis e energéticas. no entanto. Tudo isso tratado de uma perspectiva sistêmica. oferta de abrigo e alimento para a fauna. solo e recursos genéticos. Um dos grandes desafios enfrentados foi desenvolver com a comunidade técnicas alternativas a queimada associada com o plantio da mandioca. É do Nordeste também o artigo seguinte. O projeto surgiu como uma proposta multidisciplinar de ação que fortalecesse a identidade indígena Tupinambá e sua relação com o território onde vivem. A implantação de sistemas agroflorestais na aldeia. identidade cultural. Isso implicou num diálogo permanente com a comunidade e num cuidado permanente para que nessa relação. então. nesse diálogo fosse assegurado o protagonismo indígena. condimentares. das populações regionais” (1976: 67-68). situada no município de Ilhéus. Bahia. conhecimento tradicional. pois associa a conservação do patrimônio natural existente no território Tupinambá e a produção agrícola para múltiplas funções: segurança alimentar. conservação da água. plantas medicinais. praticamente destituídos de sua ‘cultura tradicional’ embora mantendo viva sua identidade étnica. lastimando. como possibilidade de serem discutidas questões como territorialidade. a mandioca. produção. que ainda não exista uma política pública que possibilite o acompanhamento da comunidade após o término . como o envolvimento da comunidade foi uma iniciativa que se mostrou promissora. religião. o que os tornava quase despercebidos.

religiosos etc. deve ser um local com terras propícias ao cultivo. incorporando elementos novos . de resto. A reflexão que empreendem está voltada para problematizar as possibilidades e limites da articulação entre os programas de ATER e o sistema agrícola Guarani. reinventado seus modelos de gestão de recursos naturais. Sua reflexão toma como base o projeto que desenvolveram junto a 21 aldeias Guarani em Santa Catarina. os Guarani reorganizam-se nos “espaços possíveis”. que beneficiou cerca de 449 indivíduos e. passando a ser a ocupação simbólica do espaço e a percepção da roça em seus aspectos sociais. Como contribuir para tornar realmente possível um tipo de política agrícola que contemple e incentive a variedade de sistemas agrícolas baseados na diversidade sociocultural dos povos indígenas. fomentando a produção de alimentos associada com a geração de recursos financeiros para esses grupos societários é um dos objetivos principais do artigo de Ledson Kurtz de Almeida e Jean Carlos de Andrade Medeiros. psicológicos. econômicos. dizem os autores. deve conter idealmente certas condições geográficas e ecológicas que permitam a constituição da unidade político-religiosaterritorial básica da vida social Guarani: a família extensa. com qualquer povo indígena. O local onde os Guarani escolhem residir não é qualquer local. na qualidade do solo e no retorno financeiro da produção (típico da abordagem orientada ideologicamente pelo objetivo produtivista). o eixo dialógico para a execução do projeto deixou de ser fundado na biologia da planta. Um ano é muito pouco para garantir a consolidação dos novos conhecimentos e práticas adquiridos e das transformações desencadeadas na Terra Indígena Tupinambá. ressaltam os autores. 262 famílias. Conhecer os aspectos fundamentais do sistema Guarani é. e uma diversidade biológica que contemple as múltiplas funções do modo de ser Guarani. localizadas em 11 municípios. indiretamente. Hoje. fundamental para qualquer ação de ATER junto a esse povo e. considerando o objetivo de mostrar os conhecimentos e valorizar os saberes e práticas indígenas. para os autores. filosóficos.41 do projeto. Nesse sentido.

tendo por base uma experiência de mais de 14 anos de trabalho junto aos Krahô. com outros povos indígenas e instituições do campo da agroecologia. Aproveitam para chamar atenção para alguns problemas que tiveram com os critérios de elegibilidade de despesas. Nele. Com o apoio da ATER Indígena do MDA. O artigo também toca noutra questão importante. o método pedagógico que vinha sendo experimentado em apenas uma aldeia ampliou seu leque de ação para oito aldeias. que é a valorização da perspectiva de gênero. e entre diferentes gerações. proporcionado aos Krahô pelo projeto. é o pano de fundo do artigo de Carlos Antônio Bezerra Salgado. outras pelas mulheres. aliando as tecnologias tradicionais e os cuidados agroecológicos. a denominada Escola Agroambiental Caxêkwyj. na relação com os Guarani e na relação com a equipe técnica no MDA. Como existe certa divisão de trabalho no âmbito familiar. o autor relata a experiência pedagógica de educação agroecológica desenvolvida com esse povo. O autor também faz alguns comentários a respeito do mecanismo administrativo-financeiro. À mesma avaliação o autor chega com relação ao intercâmbio de experimentos e conhecimento. Promover atividades que dinamizem o fluxo de informações e conhecimento entre homens e mulheres. onde algumas atividades de produção alimentar são executadas mais pelos homens. alguns conhecimentos e práticas circulam e são mais bem conhecidos diferenciadamente. que como relataram. que tem entre seus objetivos compreender e auxiliar na melhoria da segurança alimentar e nutricional desse povo indígena. mostrou resultados muito positivos. Os autores também sistematizam as formas de mediação utilizadas para operar o projeto. necessitariam adequar-se à situação intercultural.42 e fornecendo evidências de que necessitam de espaços maiores e melhores para viverem em plenitude seu modo de ser. de critérios e procedimentos adotados pelo . Fortalecer a resistência sociocultural e reverter o processo de erosão genética das plantas alimentares cultivadas e dos conhecimentos tradicionais associados.

Neste trabalho.43 programa de apoio aos projetos. O grão produzido e colhido na lavoura traz consigo mais do que o alimento que nutre. acertadamente. como para desencadear mudanças no modo de ser. Wagner Fernandes de Aquino trata no seu artigo da experiência vivida no auxílio à produção de alimentos na Aldeia Guarani Yynn Moroti Wherá. como processo. no estado de Santa Catarina. de forma associada com a valorização do seu sistema tradicional de agricultura. em especial os Guarani. traz alegria. a produção alimentar e a tradição espiritual Guarani. A aldeia está situada na área de abrangência da Serra do Mar. pensar e agir dos técnicos na relação com os indígenas. que por intermédio do Programa RS Rural implementou uma série de ações nas comunidades indígenas no Rio Grande do Sul. No caso da EMATER/RS. Já Mariana de Andrade Soares reflete sobre os desafios enfrentados para estruturar no âmbito EMATER/RS uma política de ATER diferenciada. A experiência revelou ao autor . que devem ser considerados para um possível redesenho ou redimensionamento da iniciativa. Com base nessa experiência. Fechando a coletânea. A capacitação dos técnicos para incorporar as mudanças desejadas foi entendida. visando superar dificuldades enfrentadas pela instituição no trabalho com povos indígenas. o autor pode perceber o quão importante é articular revitalização da agricultura (e as formas de produção de alimentos) com o fortalecimento dos laços sociais de solidariedade. auto-estima e dignidade. respeito e reciprocidade que dão vida à comunidade. que deve acontecer de forma sistemática e permanente. no município de Biguaçu. O eixo temático segurança alimentar foi priorizado em todas as comunidades Guarani. Mariana ressalta que na ação de ATER são necessários esforços de mudança de distintas ordens. Percebeu também o quão são importantes os vínculos existentes entre o social. A autora tem como referência principal a experiência recente da EMATER/RS. foram necessários esforços direcionados tanto para promover mudanças de ordem estrutural e funcional na instituição. região de domínio do Bioma Mata Atlântica.

A questão é se podemos afirmar – como muitos acreditam ou querem fazer crer – que o indigenismo integracionista é coisa do passado. C. (ed. persistem. no plano prático. ALBERT. as assimetrias sócio-políticas e a “coisificação” do ambiente e dos indígenas22. gera certo otimismo. indiscutivelmente. Garcés Velásquez (2009). Isso porque foi privilegiado o processo. “Associações indígenas e desenvolvimento sustentável na Amazônia Brasileira” Em Povos Indígenas no Brasil (1996-2000). 22 Cf. “Ethnographic situation and ethnic movements. Verdum (2009). B. Escobar (1998. RICARDO. de fato. o mais prudente parece ser considerar que o indigenismo. Não poderia finalizar esse artigo sem mencionar a principal questão que. elas se revelaram importante para os aspectos ligados à organização social do grupo. 1999. Notes on post-Malinowskian fielwork”. veio nos acompanhando ao longo do período de preparação dessa publicação. Lander (2000). S. Referências Bibliográficas: ALBERT. 1997.). Critique of Anthropology.44 que mesmo nas situações em que a produção foi insuficiente para atender as necessidades alimentares e nutricionais dos moradores da aldeia. Em tempos de multiculturalismo. 197-207). continua tendo mais fôlego do que imaginamos. 2001. Os artigos que integram esta coletânea apontam para um cenário que. (pp. considerado por alguns como a manifestação mais avançada de colonialidade em relação aos povos indígenas. 17 (1): 5365. A. B. São Paulo: Instituto Socioambiental. de um ponto de vista crítico. . Por outro lado. fortalecendo a vivência em grupo e a transmissão inter geracional de saberes. o que se vê por ai é que mesmo quando nos discursos aparecem preocupações de ordem cultural e com a diversidade. S. 2005).

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53 Contribuições a uma Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) Indigenista André Luis de Oliveira Araújo .

Atualmente. mas cujo pensamento e ações se contrapunham diametralmente ao seu modo de ser. e da chamada “cooperação internacional”. Atua desde outubro de 2006 na gestão técnica da Ação Orçamentária “ATER em Áreas Indígenas” do Ministério do Desenvolvimento Agrário. passamos a enxergar sob a ótica da sustentabilidade socioambiental e do conceito de autonomia. Ao abandonar progressivamente o etnocentrismo predominante na forma como as políticas públicas eram pensadas (ou negadas) a estes públicos. especialista em Indigenismo e Desenvolvimento Sustentável pelo CDS/UNB. supostamente comprometido em trazer melhoras para suas comunidades. na qual incluímos ações indigenistas.54 Contribuições a uma Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) Indigenista André Luís de Oliveira Araújo1 Introdução Ao longo dos últimos vinte anos vivenciamos mudanças significativas na forma como a sociedade nacional se relaciona com os povos indígenas e com o conjunto da agricultura familiar no Brasil. governos e organizações assistencialistas da sociedade civil. Tanto indígenas quanto agricultores familiares sentiram na pele os efeitos colaterais das ações de um “aliado”. é vasta a literatura que indica os efeitos perversos da “modernização conservadora” da agricultura e das iniciativas de “civilização” (sic) dos povos indígenas. as contradições entre os modelos “vendidos” por agências de desenvolvimento. quando as comunidades rurais passam 1 Geógrafo. e os sonhos e a realidade concreta das comunidades. porque assentados em uma lógica vertical de transferência de hábitos e tecnologia negavam os conhecimentos tradicionais locais. Estamos falando das experiências de extensão rural. de assistência técnica convencionais. O cenário se transforma na medida em que o desenvolvimento local passa a ser pensado a partir do reconhecimento e fortalecimento dos saberes e da lógica destes grupos. .

As reflexões e sugestões que dão corpo ao texto partem de conceitos. o desafio a ser tratado por este artigo é reverter a distância e o preconceito estabelecidos para o atendimento dos povos indígenas no que tange a assistência técnica e extensão rural. suscitam várias cautelas.55 a ser entendidas como sujeitos promotores do chamado Desenvolvimento Rural Sustentável. reflexões. conservação ambiental e geração de renda. Em outras palavras. mas também presente entre técnicos e gestores públicos de que “os índios são problema da FUNAI” e os “agricultores das EMATERs”. envolvendo parcerias com . portanto. não é de qualquer forma que esta (re)aproximação deve acontecer. Portanto. O fosso constituído para o atendimento destes dois públicos pelas ações em prol do desenvolvimento desconsidera os avanços do ponto de vista legal no país e os intercâmbios históricos de conhecimento e tecnologias entre migrantes e indígenas desde os primeiros contatos. Todavia. Algumas experiências anteriores que pretendiam incorporar comunidades indígenas – suas terras. Neste novo contexto. ainda pouco estudada no Brasil. diálogos e práticas nesta área. este artigo é uma contribuição para a configuração do conceito e para o estabelecimento de diretrizes próprias da ATER Indigenista. de fato. Este tipo de desenvolvimento. territórios e recursos naturais na lógica produtivista e nos sistemas de produção típicos da Revolução Verde. os quais têm sido proporcionados pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário através dos projetos de ATER nas áreas indígenas. Embora haja experiências no país que tentam aglutinar estes dois focos tanto em torno de reivindicações políticas quanto em projetos de segurança alimentar. é notável como esta distância ainda é presente. é construir uma oportuna resposta ao paradigma estabelecido no senso comum. requer a potencialização do que é endógeno e o aporte de políticas públicas adequadas. A relação entre indigenismo e extensão rural é. Esta resposta se consolida através do conceito da Assistência Técnica e Extensão Rural Indigenista (ATER Indigenista).

apesar de décadas de experiências nas aldeias. os indígenas e os demais grupos sociais componentes da agricultura familiar no país. e a mobilização social por outro fizeram com que a questão indígena e a assistência técnica e extensão rural de cunho alternativo se encontrassem. com públicos. Embora poucos autores se proponham a olhar conjuntamente ATER e indigenismo. Não há mais motivos para a ATER e o indigenismo serem tratados como algo totalmente alheios um ao outro. o presente texto deve ser encarado como mais um aporte para este debate. são vários os posicionamentos. Mesmo porque. a ATER voltada aos povos indígenas é um conceito ainda em construção. Diante da amplitude e complexidade do tema.56 organizações governamentais e não governamentais. Na busca teórica ou na luta cotidiana por um modelo de desenvolvimento rural sustentável. Há muitas questões em comum e muitas experiências que precisam ser trocadas pelos seus promotores e públicos. ensinamentos e bandeiras de instituições. . Não serão discutidas aqui as causas desta separação. os resultados negativos da “modernização conservadora” da agricultura. chegando inclusive a propor o termo ATER Indigenista como o feliz encontro entre a extensão rural agroecológica e o indigenismo pós 1970. O avanço do agronegócio. é uma das principais demandas nos dias de hoje dos povos indígenas e positiva para o conjunto da agricultura familiar. intelectuais e indígenas. contudo esta divisória que aos poucos se tenta romper. bem como as demais atividades ligadas à implementação da Política Nacional de ATER. Como pano de fundo está a intenção de elucidar que as práticas da nova ATER e do indigenismo precisam dialogar. a pressão fundiária e outros acirramentos socioambientais de um lado. agentes e metodologias aparentemente incompatíveis e que não dialogam. passam a compartilhar necessidades e dificuldades.

A extensão rural oficial. problemas de saúde e diferenciação social no campo. Em termos metodológicos. se passa aos pequenos produtores como público prioritário. o contexto difusionista. formadoras de profissionais que graduados aplicavam em campo um diálogo desigual. 1977. Exercendo no sentido mais literal o verbo estender2. Dos médios e grandes produtores. e como entendê-la enquanto comunicação de iguais. via transformação da base técnica da agricultura com o aporte de pesquisa e crédito subsidiado para implantar a “modernização conservadora” da agricultura. ver Paulo Freire. chega aos anos 1980 dando claros sinais da sua insustentabilidade. baseada em metodologias difusionistas. dependência econômica dos agricultores familiares. 1994). . trouxe consigo inúmeras consequências negativas e resultados econômicos questionáveis (CAPORAL & COSTABEBER. Esta proposta será radicalmente criticada pelo movimento de renovação da ATER. ou seja. Tratava-se de uma transmissão vertical de conhecimento. os quais teriam mais facilidade de incorporar as inovações agrícolas. Como resultado de seus dilemas. notadamente impulsionado pós Segunda Guerra Mundial. O incentivo à mecanização. ao uso de insumos externos da indústria e orientação para a monocultura de mercado. entra em crise juntamente com o modelo que a impulsionou. considerado um objeto de nenhum ou pouco saber. dados pela própria realidade. portador do “conhecimento científico”. teve como grande pilar as faculdades de ciências agrárias. 2 Para uma crítica mais aprofundada sobre esta forma de ver a extensão. na irradiação de pacotes tecnológicos. aos quais muitas vezes se relegava apenas um trabalho complementar de cunho social e assistencialista (ibidem. o que impulsionaria uma nova abordagem.57 O Encontro da Extensão Rural Agroecológica e o Indigenismo pós1970 O esgotamento do modelo de crescimento imposto ao setor agrícola brasileiro. 1994). do técnico. Esse modelo provocou além de graves efeitos colaterais ambientais. os promotores da ATER passaram a apontar as contradições do modelo. para o agricultor.

até mesmo porque estes poderiam pagar por este serviço. no sistema de extensão rural se passa a gestar outro discurso. Em relação ao seu público alvo. etc. 1977). que favoreçam iniciativas do grupo familiar e da comunidade. está se tratando de contribuições que vão para além dos aspectos biofísicos da produção. entendendo sob qual contexto vivem. Para isto. Como síntese desta proposta se define a Extensão Rural Agroecológica como um processo de diálogo transformador. em detrimento do paternalismo e das soluções prontas (CAPORAL & COSTABEBER. A nova concepção se fundamenta no entendimento de que os indivíduos (técnico. políticas. A própria compreensão de que a humanidade nos formou analfabetos ecológicos (CAPRA. Porém quando se fala em Agroecologia. como enfoque científico de uma nova extensão rural lastreada nas preocupações próprias do século XXI se dá por diversas razões. propondo abordagens participativas. potencializando sua cultura e seus conhecimentos. 1999) é um importante referencial. Somente através do diálogo e da troca de experiências. é que se consolida uma prática libertadora (FREIRE. incorporando outras dimensões como as variáveis culturais. deixando claro que o latifúndio e a empresa rural não deveriam ser público preferencial da ATER pública. pesquisador e produtor) com olhares diferentes são agentes da mudança. passa a afirmar a prioridade aos pequenos.58 A partir da sua autocrítica nos anos 1980. proporcionando aos sujeitos do processo condições para decidirem conscientemente sobre seu futuro. 1994) em prol da construção da autonomia. Durante muito tempo o sistema de conhecimento ocidental só fez menção aos produtos econômicos e nunca à condição de seus processos ecológicos. se passa a entender este público como sujeito da história. baseado em metodologias participativas. e marginalizados do campo. O custo ambiental da produção material de nossa sociedade nunca é contabilizado. A incorporação da Agroecologia. Escolherem os passos que promovam as melhores condições de progredir em seus projetos de vida. de forma integrada às características específicas de cada ecossistema e de .

para que ocorressem muitas ideias e práticas estiveram em disputa no campo do indigenismo. onde os vários povos habitantes do continente perderiam suas características étnicas e culturais para dar corpo ao chamado povo brasileiro. a chamada “descoberta”. o ambiente escolar e as políticas públicas. o assentamento dos indígenas próximo a comunidades brancas. crenças e organização social. Um viés para o país aumentar suas forças era o acréscimo de sua população através da “civilização” e catequização dos povos indígenas. Não podemos afirmar que tenha sido uma transformação linear e tranquila. O incentivo à adoção de métodos brancos de lavoura. 1998). As teorias e políticas sobre a população do recente país ganham peso no intuito de construir o “povo brasileiro”. que perpassam até hoje o senso comum. fica latente a necessidade de se construir um ideário de nação. Algo iniciado desde os primeiros períodos coloniais pelas missões jesuíticas. os quais ainda viveriam em “hordas errantes nas matas do solo do Brasil”. Na realidade há muito ainda a ser feito dado que os olhares e discursos sobre a temática são (re) construídos desde a referência dos primeiros tempos de contato. o casamento com brancos. Para isto. e os avanços em termos legais são uma evidência disto. muito pelo contrário. Inicialmente a orientação era da progressiva assimilação dos povos autóctones à sociedade nacional. Paulatinamente este pensamento passou a ser considerado ultrapassado.59 cada arcabouço cultural (CAPORAL. Em relação à forma em lidar com os povos indígenas também veremos muitas transformações. e se passa para o entendimento do respeito aos seus sistemas de vida. e a educação dos filhos em separado da família eram algumas das estratégias utilizadas com a intenção de transformar ou mesmo erradicar aspectos da . o Estado abandona em parte as políticas de combate aberto e direto aos povos indígenas. cuja herança são visões estereotipadas e contraditórias sobre os indígenas. e passa a adotar uma série de práticas voltadas para provisão de ajuda e tratamento humanitário com o objetivo de “integrar o indígena”. Quando o Brasil se torna independente.

telecomunicações. A criação das reservas e Terras Indígenas surge ao mesmo tempo como solução para as necessidades de expansão do Estado e como mecanismo de resposta à proteção das culturas indígenas. por volta de 1910. cria-se em 1967 a Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Uma das interpretações sobre a ação indigenista no país. em trabalhador nacional. o que embora tenha lhes garantido um mínimo de acolhimento. com a missão de garantir o resguardo físico dos indígenas até sua assimilação. que pouco altera o pano de fundo da ação estatal do indigenismo. essencialmente para consolidar o domínio territorial de forma homogênea do Estado-nação. para atender ao programa de interiorização e colonização da época. que precisava resolver seu problema indígena (Little. as demarcações correspondem apenas a uma parcela do território tradicionalmente ocupado pelo povo. A missão de pacificar os indígenas promoveu uma relação de tutela entre esses e o Estado Brasileiro. afirma que a mesma teve espaço devido aos interesses e necessidades de expansão da sociedade dominante.60 cultura original e promover hábitos sedentários de trabalho. Com a extinção desse órgão. Em geral. Em contrapartida. inaugura-se uma política estatal de proteção aos indígenas. O objetivo era a progressiva transformação do índio. tolheu o reconhecimento dos mesmos como cidadãos plenos de direitos. uma vez assimilado ao nosso meio. devido a inúmeras denúncias de corrupção e desvios. Em um contexto em que os massacres e demais violências contra os povos indígenas não eram mais tão facilmente tolerados. 2002). A ação de “liberar terras” conduzida pelos órgãos estatais foi essencial para viabilizar as várias frentes de integração nacional através de estradas. cria-se o SPILTN – Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais. tratando-se em alguns casos de lugar totalmente novo. como ocorreram quando houve deslocamento de populações. colonização agrícola e os grandes projetos agropecuários e de exploração . Algo construído principalmente através da apropriação privada das terras.

Às populações com área demarcada fica o desafio de enfrentar os problemas advindos de um “confinamento”. Como forma de garantir a autogestão dos territórios. o indigenismo atual preceitua uma ação contínua e de longo prazo. organizações indígenas e demais organizações não governamentais. além de se fazerem representar pelas suas comunidades e organizações. do sedentarismo e escassez de recursos naturais agravados com o aumento da população residente. torná-los produtivos. seja de assentamentos rurais da reforma agrária. é mister pensar em uma assistência técnica e extensão rural que seja pautada . incorporá-los a comunhão nacional. E isto só é possível com um conhecimento etnográfico do povo com o qual se trabalha. eclesiásticos e sociais (Schiavini. autonomia e um diálogo mais equilibrado entre o mundo indígena e não indígena. quilombos. Tendo em vista os percursos muito brevemente relatados. com prejuízos incomensuráveis às populações indígenas. Diante das necessidades contemporâneas de sustentabilidade dos territórios. O movimento de renovação iniciado no final dos anos 1970. da redução de território. Não estavam interessados em prosseguir na colonização. conquistar suas almas ou suas terras. quando esse passa a ser entendido como outra civilização e quando é incentivado o seu protagonismo. protagonizado por indigenistas do estado descontentes com a política oficial.61 mineral. mesmo conjugando como no passado os poderes estatais. trouxe uma transformação essencial: ao se engajarem na luta pela causa indígena não perseguiram interesses outros senão a garantia aos indígenas do respeito a seus patrimônios e ao direito de viverem segundo suas crenças e tradições. combatiam essas ideias e práticas. 2006). Ao contrário. percebese que no momento atual há o encontro das bases epistemológicas destes dois movimentos. agricultores familiares ou Terras Indígenas. capaz de contextualizar social e historicamente os discursos da sociedade dominante para garantir uma efetiva autonomia dos povos indígenas.

na década de 1970 é um caso típico. haverá maiores condições de se reverter os processos de insegurança alimentar. composto por sementes. nunca é bem sucedida. Ou se constrói o conhecimento juntos ou está se impondo uma visão de mundo sobre outra.62 pelas novas referências trazidas pela renovação da ATER e do indigenismo. serrarias nas Terras Indígenas e a exploração de produtos extrativistas florestais e minerais. o ouro e a cassiterita. insumos e outras tecnologias totalmente diferentes das que os agricultores tradicionalmente utilizavam ou praticavam. com resultados no mínimo desastrosos. Tendo sido comum a criação de fazendas agropecuárias. . que colaborou significativamente para a perda da biodiversidade dos agroecossistemas. E no Brasil temos inúmeros casos assim. Através do encontro das atuais concepções elaboradas no seio de cada um destes campos de disputa. como a borracha. após atrair. que condicionava o fomento da produção a todo um sistema ligado ao crédito. Não foram poucos os casos. “no es posible la conservación y manejo de la biodiversidad sin la preservación de la diversidad cultural”. implantavam programas para “tornálos produtivos”. de maneira vertical e sem diálogo. numa proposta de transferência de tecnologia. A experiência da introdução das monoculturas da FUNAI. Também não foram raros os casos em que os agricultores ficaram à mercê da visão empreendedora de um técnico extensionista. aldear ou transferir os chamados índios isolados e arredios. Conforme enfatiza Miguel Altieri e Clara Nicholls (2000:182). tanto com os indígenas quanto com os outros setores da agricultura familiar. O aumento da produtividade como finalidade máxima subsidiou uma ATER vinculada à tecnificação proporcionada pela Revolução Verde. degradação ambiental e dependência econômica que assolam muitas destas populações. a castanha-do-Brasil. A introdução de novos conhecimentos. da soberania alimentar e econômica das famílias produtoras. durante a existência do SPI e nos primeiros tempos da FUNAI que.

666. e dá outras providências. culturais e ambientais presentes nos agroecossistemas. que herda as diferentes experiências de experientes organizações indigenistas. Como referência para a PNATER fica a indicação de que os planos e programas de ATER. de raça. de gênero. são necessários. de 11 de janeiro de 2010 que institui a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural para a Agricultura Familiar e Reforma Agrária – PNATER e o Programa Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural na Agricultura Familiar e na Reforma Agrária – PRONATER. chegando a aproximadamente R$ 4 milhões (quatro milhões de reais) anuais em 20082011. Trata-se de um direito garantido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho sobre Povos 3 Em janeiro de 2010. de órgãos públicos de ATER e da própria FUNAI. É uma concepção que está em construção. Por isso. de 21 de junho de 1993. . altera a Lei nº 8. mais do que bem-vindos. sejam construídos a partir do reconhecimento das diversidades e especificidades étnicas.63 ATER Indigenista: Conceito em Construção Uma importante ressalva deve acompanhar toda a leitura deste artigo: não existe uma concepção predefinida ou fechada do que é ATER Indigenista e de como deve ser praticada. de associações indígenas. Desta forma esclareço que os esforços da Política Nacional de ATER (PNATER)3 devem dialogar localmente com os povos indígenas. organizações de ATER e sociedade civil de todo o país. de geração e das condições socioeconômicas. As instituições que têm responsabilidade legal e aquelas que se propõem a contribuir precisam aprender a lidar com a diversidade. os esforços de Ministério do Desenvolvimento Agrário. e ganha relevância política e institucional em âmbito federal a partir da consolidação da ação Assistência Técnica e Extensão Rural em Áreas Indígenas nos Planos Plurianuais (PPA). Ver Lei Nº 12. entendemos que deverá haver tantas ATER Indigenistas quanto for o número de povos indígenas no país. seminários e encontros para discutir a temática. Na prática. para a reconstrução da extensão rural pública no Brasil ganha a força de Lei.188. adaptados aos diferentes territórios e realidade regionais. porque para sermos coerentes não deve existir apenas uma única maneira de executar esta política.

incluindo sua visão mercantilista das coisas. É necessário ter um . alternativas que só tinham o mundo dos brancos como fim. Neste contexto. 2009). entidades civis e órgãos governamentais. é importante um alerta: para planejar e executar a ação extensionista deve haver mais do que boa vontade ou espírito humanitário em ajudar os indígenas (ARAUJO. por isso. Pelo menos. Por isso. O que e como os técnicos deverão trabalhar junto ao público indígena deve ser definido em um comum e prévio acordo com as comunidades. Esta referência é relevante porque por décadas foram disponibilizados como “solução” e assistência técnica somente um conjunto limitado de possibilidades aos indígenas. sem hierarquizá-los ou sobrepôlos. geralmente. o diálogo. porque as respostas podem estar condicionadas ao que sempre foi oferecido como o “possível” advindo do mundo não indígena. está comprometido pelas regras do discurso hegemônico e/ou pelas disputas de poder. Embora este processo seja dispendioso e às vezes logisticamente complicado para órgãos e organizações. é preciso buscar o diálogo entre as partes em condição de igualdade de discursos. Em geral. se promova uma “fusão de horizontes” entre os sistemas de significados indígenas e não indígenas. E. esta deve ser a utopia dos agentes envolvidos nas políticas e programas de promoção do etnodesenvolvimento. atualmente não basta chegar às comunidades e simplesmente perguntar o que querem. Nestas ocasiões e durante a execução propriamente dita dos trabalhos de ATER.64 Indígenas e Tribais ratificado pelo Brasil em 2002. Este deve ser o sentido conceitual do que designamos por “diálogo com os povos indígenas”. a ideia é que dentro do possível. nas conversas entre indígenas. baseada em outros importantes intelectuais como Roberto Cardoso de Oliveira. é a maneira mais fácil de obter algum sucesso nas ações que se deseja. Nestes momentos esperase dimensionar e qualificar a demanda real pelo serviço de assistência técnica das aldeias e estabelecer minimamente estratégias de atuação e convívio entre as partes. Conforme aponta Maria Helena Matos (2007).

principalmente com 4 Ver MATOS. muitas vezes subjetiva. 2007. O esforço deve ser para contrariar a ideia. numa postura fetichista que frequentemente indigenistas e sociedade nacional tomam (LIMA. . Tendo por base de referência a experiência acumulada como gestor da política de ATER com povos indígenas no âmbito do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). que não deve ser confundido com a simples caracterização fenotípica ou utilização de artefatos e indumentárias tradicionais dos povos. de que os povos indígenas são capazes apenas de atitudes reflexas. assim como para outros programas governamentais4. Desta forma. Nela. também conhecidos por Canela. 1987). pois estão promovendo na prática a interação de sistemas culturais e sociopolíticos distintos. e principalmente ter como horizonte a perpetuação da identidade étnica no sentido mais profundo do termo. o conceito de ATER Indigenista não pode estar estabelecido sem que antes os diferentes povos indígenas se apropriem do conceito. o que pode levar algum tempo. Portanto. segundo Andréas Kowalski (2007). de reações e não de ações. Entretanto a cultura de apoio aos indígenas não é algo novo e. haverá problemas na implementação desses projetos que dizem respeito às condições do estabelecimento da interculturalidade. A obra A Cultura Ramkokamekrá de Apoio aos Índios é uma boa referência para entender o que foi exposto nos parágrafos anteriores. adquire contornos próprios de acordo com a visão de mundo de cada povo indígena. gestão e execução de projetos com (ou por) indígenas constituem encontros e desencontros de sistemas culturais distintos (MATOS. A elaboração. no que concerne a sua relação com os não indígenas e.65 razoável conhecimento etnográfico. 2007). algo que tem avançado após as conquistas constitucionais dos povos indígenas em 1988. o autor se esforça para conseguir sistematizar o “pensar da etnia” Ramkokamekrá. percebemos que projetos e programas de ATER atuais fazem parte do processo de construção e consolidação de espaços interculturais (políticos e de diálogo) no Brasil.

Foi um esforço para registrar o que o autor vinha “decifrando” da lógica cultural Canela. a maneira de atuar em ATER junto ao público indígena. tradições e. costumes. segundo seus usos. segundo o conjunto de especificidades que os diferenciam. A especificidade que é apresentada nos discursos e orientações para a ação com estas populações é algo bem palpável. Ou seja. Um dos muitos elementos dessa diferença é que. Deve estar claro tanto para os promotores da extensão rural quanto para os povos indígenas que a forma e os temas da ATER depende dos próprios indígenas.66 seus colaboradores não indígenas (muitos deles extensionistas). para o extensionista o importante é o objeto do projeto em si (a construção. em geral. De fato. para a percepção de que a sustentabilidade dos projetos dependia diretamente da presença continuada de assessores não indígenas. incluindo as ferramentas metodológicas que serão utilizadas. . As políticas e ações para os povos indígenas devem ser diferentes. As conclusões de Kowalski (2007) apontam para um descompasso de concepções entre o mundo indígena e não indígena. principalmente. para utilizar um exemplo do estado do Mato Grosso. e para a contradição entre uma alta estima étnica e um forte paternalismo. Um bom acordo para os Pareci pode ser um desastre para os Enawenê-Nawê. na busca por respostas para as ruínas de projetos que se viam nas aldeias. e muito nos serve para reforçar a ideia de como as engrenagens institucionais de apoio aos indígenas podem estar em desarmonia com o modo de ser da comunidade beneficiária. Esperamos que a presente publicação seja um incentivo para novas contribuições neste sentido. em que pese também cada história de contato e as estratégias indígenas para se relacionar com a sociedade envolvente. algo que deveria estar apenas começando com um projeto. enquanto para os indígenas o importante são as relações que aquele objeto gera entre as famílias e entre o povo e os colaboradores de fora. projetos de vida. a escola). a roça. na relação deste povo com os projetos de ajuda humanitária. existe uma necessidade urgente de sistematizar melhor estas especificidades.

procedimentos e estratégias para o trabalho com os dois povos. Isso expressa claramente o significado atribuído por eles ao poder da palavra. quando o filho ganha um nome Guarani. Para facilitar a compreensão. Na língua Guarani. há muitos hectares de plantação de soja e milho para comercialização e também participação político partidária das lideranças .67 depende de cada etnia. Já nas áreas Kaingang é possível observar uma interação maior com o entorno. os não índios são chamados de juruá. Com os Guarani. 2008:22). que significa entre outras coisas. assim como os Ramkokamekrá. questionamentos e diretrizes apontados neste artigo se voltam a extensionistas indígenas e não indígenas. grosso modo. O avati (milho) por sua vez é uma planta sagrada. No Rio Grande do Sul há dois grandes povos. que pode ser traduzido como ‘palavras ao vento’. manter a comunidade no estado de amjikin. Os cuidados. É bem possível que um pomar proposto pelo extensionista não tenha continuidade em algumas comunidades Guarani. O que deve ser garantido para que as comunidades possam. que além de ser uma das principais fontes da alimentação tradicional é utilizada nos rituais de batismo das crianças. árvore é coisa de Nhanderú (divindade Guarani). Por não haver uma fórmula para a ATER Indigenista é preciso que até mesmo os técnicos indígenas que estejam envolvidos nos projetos e programas de ATER assumam o papel de investigador. porque. ter . Por isso “é necessário que os técnicos exerçam o ato de ouvir em detrimento do falar. já chega desrespeitando o valor que a “palavra” tem para este povo. Como fica o órgão de assistência neste estado? Obviamente se percebe a impossibilidade de se ter os mesmos comportamentos.acompanhando as idas e vindas da política municipal e estadual. entendem que o homem não planta árvores. seguem alguns exemplos. caso o extensionista chegue “falando demais”. e este povo é reconhecido pela diversidade dos seus agroecossistemas. Suas sementes têm grande valor. que está relacionada à própria alma Guarani” (SOARES & TRINDADE. Guarani e Kaingang.

em constante reelaboração da tradição diante de novas situações e contextos. o ñande rekó? Entendendo a cultura como algo dinâmico. no âmbito do esforço da Comissão Nacional de Política Indigenista em construir junto às regiões uma nova proposta de Estatuto dos Povos Indígenas. Portanto. mas para o que ela pode contribuir significativamente. o caminho sugerido como apropriado para orientar a construção coletiva da ATER é desvendar justamente como atender a lógica de reprodução social de cada povo beneficiário. o tema do direito indígena a ATER foi pautado nas dez oficinas regionais realizadas. os quais não deixam nenhuma dúvida sobre o direito indígena à ATER e reforçam o papel do Estado em promovê-lo em cooperação e participação com os próprios indígenas. O Direito Indígena a ATER São vários os dispositivos legais que em conjunto garantem aos povos indígenas o direito à assistência técnica e extensão rural. algo que com certeza não se encerra na ATER. já que uma disciplina jurídica específica para o tema. Em seguida. ainda está em processo de construção5. abordaremos as duas noções básicas que vinham subsidiando a compreensão da ATER como direito dos povos indígenas. Resultando daí a redação de artigos a serem apreciados pelo congresso nacional que tratam mais diretamente do direito indígena a uma assistência técnica e extensão rural diferenciada. Inicialmente. 5 Durante o ano de 2008/2009. . trataremos da competência legal em promover a ATER junto aos povos indígenas e concluímos com os dispositivos jurídicos mais atuais sobre o tema. assim como o próprio conceito da ATER Indigenista. em que todos seguem as regras sociais. e onde os rituais e trocas acontecem para manter o mundo em movimento? O que deve ser garantido aos Guaranis Mbya. principalmente a partir do momento em que seja promovida pelos próprios indígenas. agindo em prol do verdadeiramente necessário para os povos indígenas. para que possam reproduzir o seu modo de vida tradicional.68 uma comunidade firme.

diante dos desafios da interação com a sociedade nacional. A segunda noção básica é aquela procedente da Lei Nº 6. dispõe que a política agrícola será planejada e executada na forma da lei. costumes e tradições indígenas. dos rios e dos lagos nelas existentes”. Na lei Nº 8. mas também pelo viés da promoção do que cada povo entender por qualidade de vida. de armazenamento e de transportes. entendendo que a lei Nº 8. há uma capítulo específico para a assistência técnica e extensão rural. no inciso IV do art. de 19 de dezembro de 1973.171 de 1991. Neste capitulo. que desde 1991 dispõe sobre a política agrícola7. apoio às suas próprias ações produtivas e de gestão. a assistência técnica e extensão rural. bem como dos setores de comercialização. envolvendo produtores e trabalhadores rurais.69 A primeira noção é que. que dispõe sobre a política agrícola. nada mais coerente do que estendê-la aos povos indígenas. . assegurado os usos. Em seu Capítulo III – Da Política Agrícola e Fundiária e da Reforma Agrária. Isto quer dizer que apenas aos indígenas cabe a utilização dos recursos naturais de suas terras. a ATER é um mecanismo concreto para viabilizar o usufruto exclusivo indígena conforme prevê a Constituição Federal de 1988. traz a ATER como direito para o conjunto da sociedade brasileira. o Estatuto do Índio6. Assim. 7 A Constituição Federal de 1988 oferece as linhas gerais para a política agrícola. conceitua-se em seu artigo 16 que a assistência técnica 6 Esclarecimento: As normas legais anteriores a 1988 devem ser interpretadas em conformidade com as atuais garantias constitucionais. Portanto. costumes e tradições indígenas. que estende aos índios e às comunidades indígenas a proteção das leis do País. cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo. com a participação efetiva do setor de produção. por exemplo. Segundo o inciso 2º do artigo 231 “as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente. resguardados os usos. levando em conta. Portanto estamos entendendo a ATER como política pública capaz de oferecer aos povos indígenas brasileiros.171. 187. nos mesmos termos em que se aplicam aos demais brasileiros. continua valendo em todo seu vigor de lei. todos os dispositivos do até então vigente Estatuto do Índio (de 1973) que não ferem o disposto na constituição.001. De modo a garantir o usufruto exclusivo não somente pelo viés da proteção e vigilância com a repressão às ameaças externas às Terras Indígenas.

armazenamento. Historicamente esta pauta ficou sob a responsabilidade das unidades federadas que instituíram órgãos ou secretarias próprias para tal atividade. o Estado brasileiro não possui nenhum órgão de execução direta de assistência técnica e extensão rural em âmbito federal. observamos que o texto da Lei 6.70 e extensão rural buscará viabilizar. mas também dos estados e municípios. gerência. Além disso. Em outras palavras significa dizer que é uma responsabilidade da União. com o produtor rural.001 de 1973 citado. bem-estar e preservação do meio ambiente. Por sua vez. suas famílias e organizações. beneficiamento. industrialização. consumo. soluções adequadas a seus problemas de produção. proprietário ou não. comercialização. eletrificação. o Estatuto do Índio de 1973. garantindo atendimento gratuito aos pequenos produtores e suas formas associativas. deixa bastante explícito a competência legal concorrente sobre o tema. Ademais. no seu artigo 2º estabelece que: Passando à problemática da responsabilidade legal sobre a execução da ATER. . dispõe no artigo 17 que o Poder Público manterá serviço oficial de assistência técnica e extensão rural de caráter educativo.

articular. que dispõe sobre a Política Agrária. Agrícola e Extrativista Vegetal. de 23 de dezembro de 1992. segundo o decreto Nº 7. A atenção à saúde indígena sob a responsabilidade do Ministério da Saúde e a educação escolar indígena sob a responsabilidade do Ministério da Educação são exemplos disto.71 Portanto. Fundiária. caso assim desejarem os próprios indígenas. considerando as condições peculiares do público beneficiário e das áreas a serem exploradas. Em relação à União frisamos que. que na Lei Nº 0051. deve ser eficiente o bastante para garantir o direito a ATER nas mais longínquas Terras Indígenas. 33). estadual. municipal e povos indígenas). Na atualidade temos a responsabilização de ministérios. prevê que o Serviço de Assistência Técnica e Extensão Rural Oficial intensificará seu programa de atendimento nas Terras Indígenas e nos assentamentos rurais.056 de 28 de dezembro de 2009. segundo suas pastas. Esta articulação. a mesma não detém mais a exclusividade sobre o cumprimento da política indigenista do Estado brasileiro. coordenar. Dessa maneira. Aos poucos se processou uma descentralização de atribuições que antes ficavam sob a responsabilidade da FUNAI. no que concerne a proteção e promoção dos direitos dos povos indígenas. A ATER sob a lógica da descentralização citada . Vemos que algumas unidades da federação têm se dedicado ao tema do direito indígena a ATER. especificando ainda mais o dever de assistir ao público indígena. como a garantia do direito indígena a ATER é responsabilidade mútua de diferentes níveis governamentais fica evidente a necessidade de uma equilibrada e combinada distribuição dos serviços de ATER. na atenção aos povos indígenas. cabe à FUNAI formular. embora exista um protagonismo da Fundação Nacional do Índio (FUNAI). acompanhar e garantir o cumprimento da política indigenista do estado brasileiro. baseada no diálogo e cooperação entre as partes (governos federal. Art. desde o início da década de 1990. de forma a assegurar a viabilidade econômica e social (capitulo XI da assistência técnica e extensão rural. É o caso do estado do Amapá. na interface com os diferentes órgãos.

e mais propício à compreensão da multiculturalidade e da necessidade de políticas específicas. . silvicultores. a geração de empregos e a elevação da renda. desde 20038 está sob responsabilidade do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). e após ter passado pelo Ministério da Agricultura. §VI). extrativistas. 4º. E tem como princípio a preocupação de promover ações afirmativas que facilitem o acesso de mulheres. A finalidade deste programa é promover o desenvolvimento sustentável do meio rural por intermédio de ações destinadas a implementar o aumento da capacidade produtiva. são também beneficiários os aquicultores. outras políticas do MDA também são abertas ao atendimento indígena. de 13 de junho de 2003. transferiu a competência da ATER do Ministério da Agricultura. jovens e minorias étnicas aos benefícios do programa (Art. Pecuária e Abastecimento para o Ministério do Desenvolvimento Agrário. Pecuária e Abastecimento. incluindo a dotação orçamentária.72 anteriormente. como é o caso do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF). junto com os demais instrumentos formadores do direito internacional dos direitos humanos. indígenas. práticas e interpretações jurídicas do Estado na relação com as sociedades indígenas.739. membros de comunidades remanescentes de quilombos e agricultores assentados pelos programas de acesso à terra do Ministério de Desenvolvimento Agrário (Decreto Nº 3. Estamos falando especialmente da Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho sobre os Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes e da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas que. Oficialmente. visando a melhoria da qualidade de vida e o exercício da cidadania dos beneficiários listados acima. coordenação e execução da ação assistência técnica e extensão rural em áreas indígenas. devem orientar as políticas. pescadores artesanais. de 30 de outubro de 2001).991. Os avanços na esfera internacional repercutem de forma positiva no país e têm contribuído para a consolidação de um arcabouço jurídico mais sensível aos direitos dos povos indígenas. além dos agricultores familiares típicos. Neste contexto. 8 O Decreto Nº 4.

alguns dispositivos legais próprios 9 O governo brasileiro ratifica a Convenção nº169 da OIT sobre os povos indígenas e tribais em países independentes em 25 de julho de 2002.. social e cultural” (Art. Devido à luta dos movimentos sociais indígenas e ao processo de reorganização da ATER pública no Brasil. prevê que “os programas agrários nacionais deverão garantir aos povos interessados condições equivalentes às desfrutadas por outros setores da população. do seu artigo 32. a mesma se vincula à lei dos países que a ratificam. na medida do possível.§ b). E no inciso I.051. E o Decreto Nº 5. assistência técnica e financeira apropriada que leve em conta as técnicas tradicionais e as características culturais desses povos e a importância do desenvolvimento sustentado e equitativo” (Art. para (.§ II). prevê em seu artigo 29 que “os povos indígenas têm o direito à conservação e à proteção do meio ambiente e da capacidade produtiva de suas terras ou territórios e recursos. E de forma mais profunda. que tem caráter vinculante aos países que a adotam9. 7º. aponta que os povos indígenas “deverão ter o direito de escolher suas próprias prioridades no que diz respeito ao processo de desenvolvimento. aprova o texto do instrumento. o seu próprio desenvolvimento econômico.. e de controlar. crenças. prevê que “os povos indígenas têm o direito de determinar e de elaborar as prioridades e estratégias para o desenvolvimento ou a utilização de suas terras ou territórios e outros recursos”. A Convenção 169. O Decreto Legislativo Nº 143 de 20 de junho de 2002. Atualizando as duas noções abordadas no início deste capítulo. instituições e bem-estar espiritual. Os Estados deverão estabelecer e executar programas de assistência aos povos indígenas para assegurar essa conservação e proteção. 23º. quando for possível.73 Os dispositivos internacionais também têm dedicado atenção à temática deste artigo.) concessão dos meios necessários para o desenvolvimento das terras que esses povos já possuam” (Art. A Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. “A pedido dos povos interessados deverá facilitar-se aos mesmos. por sua vez. sem qualquer discriminação”. bem como as terras que ocupam ou utilizam de alguma forma. de 19 de abril de 2004 promulga o instrumento. § I). Como uma Convenção Internacional. na medida em que ele afete as suas vidas. . 19º.

pontua claramente em seu artigo 10 que as ações voltadas para o apoio às atividades produtivas das comunidades indígenas serão fundamentadas em diagnóstico socioambiental e contemplarão atividades de assistência técnica e extensão rural. saúde e apoio às atividades produtivas para as comunidades indígenas. ao longo da primeira década de 2000. que dispõe sobre as ações de proteção ambiental. . necessárias ao adequado desenvolvimento dos programas e projetos. Especialmente o decreto Nº 1. de 11 de janeiro de 2010 que institui a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural para a Agricultura Familiar e Reforma Agrária (PNATER) e o Programa Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural na Agricultura Familiar e na Reforma Agrária (PRONATER). de 19 de maio de 1994. Nela os povos indígenas são identificados claramente no artigo cinco como público beneficiário. Esta lei amalgama o esforço de restruturação da Assistência Técnica e Extensão Rural no país pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. Por outro viés.74 do país têm expressado de forma mais explícita o direito indígena à ATER.188. a Lei Nº 12.141.

é mais uma contribuição ao país da importância e necessidade do conceito “igualdade na diferença”. Longe de ser considerado um privilégio. são/estão inter-relacionados: . e demais órgãos públicos nas aldeias e nos espaços institucionais de diálogo. É deixar de lado a antiga concepção de “civilizar os silvícolas” e reconhecer que sempre foram e continuarão sendo civilizações. ambientalistas.75 Aspectos para uma ATER “desejada” em áreas indígenas A diferença no atendimento aos povos indígenas é. indigenistas. órgãos de fomento e de cooperação internacional. Visualizamos a ATER necessária aos povos indígenas a partir de três eixos norteadores que. Como exposto anteriormente. e que estiveram e estão em constante troca com o que há de diferente nas sociedades que estejam em seu entorno. que pode ser observada pela manifestação ou pelas ações em curso de organizações indígenas. algo que deve ser almejado como parte das políticas públicas de “reconhecimento do outro”. os aspectos abordados abaixo derivam da necessidade cada vez mais crescente da ATER pelos povos indígenas. além de um cumprimento da legislação em vigor no país. as quais detêm um conjunto de conhecimentos. lógicas e saberes próprios que podem ser diferentes ou semelhantes aos da sociedade nacional. na prática.

Isso exige que o tradicional e o exógeno dialoguem. Isto porque estamos tratando tanto da disponibilização de novas técnicas. É aquele que foca os diferentes aspectos relacionados à produção agrícola e não agrícola das comunidades. o zootecnista que se dirige a uma comunidade indígena para ensinar como . o veterinário. Este eixo deve ser entendido prioritariamente como aquele do diálogo em torno das tecnologias apropriadas e ambientalmente sustentáveis. Atualmente podemos até mesmo afirmar que os povos indígenas e a sociedade envolvente são interdependentes. Embora isto ocorra o tempo todo nestas sociedades devido ao encontro de diferentes visões de mundo. com objetivo de melhorar a qualidade e quantidade de alimentos e demais produtos agropecuários. O contexto atual dos povos indígenas obriga grande parcela deles a viver numa realidade ambiental e territorial bastante diferente das quais seus antepassados estavam acostumados. exigindo uma ação extensionista que busque um relacionamento mais justo. segundo seus critérios tradicionais. o técnico agrícola. Tem preocupação com a forma de produzir das famílias indígenas.76 a) Eixo Processo Produtivo O primeiro eixo trata-se daquele mais óbvio quando pensamos em assistência técnica e extensão rural. artesanais. honesto e respeitoso entre estes. é o que trata do apoio e acompanhamento técnico aos processos produtivos das comunidades. o engenheiro de pesca. como da valorização do conhecimento e técnicas tradicionais. e a necessidade de bens manufaturados é um fato dado para um número significativos destes povos. etc. é vital que o balanço deste encontro sinalize para as melhores condições de reprodução social do grupo. florestais. Portanto.

controle de pragas etc. requer este tipo de levantamento porque é possível que tenham existido formas de engorda. ou que conhecem algum rito associado àquele cultivo. que foi sendo repassado. para muitos cultivos já existe um know how de décadas e séculos. pois como dito anteriormente. desvalorizando as técnicas . Portanto. é possível que tenham adotado técnicas não indígenas predatórias. o extensionista deve estar ciente de que não é o sujeito que tudo sabe.77 plantar e cuidar de determinada espécie vegetal ou como lidar com algum tipo de rebanho animal deve entender que existe um histórico ali de relação com o objeto de seu ensino. sendo necessária a experimentação e decisão por parte das famílias indígenas quanto a sua adoção e adequação. não intervir e apenas incentivar. que têm a sabedoria de alguma tecnologia apropriada. associados a qualquer uma das etapas do processo produtivo. uma infinidade de possibilidades as quais é preciso estar atento porque influenciarão nos resultados do trabalho.. referência para que ensinem aos demais. que entendem daquela cultura. Pode haver nenhuma ou muitas experiências em torno daquele tema. Fazer daqueles indivíduos que ainda detêm o conhecimento sobre o cultivo naquele bioma. em muitos casos. Em muitas comunidades o conhecimento que vem de fora (diplomado) passa a ser mais valorizado que o conhecimento endógeno. é possível que exista um conhecimento longínquo. conservação de sementes. Um aspecto primordial é que as pessoas da etnia devem ser motivadas e valorizadas. Embora possa estar disponibilizando técnicas e métodos ainda desconhecidos pela comunidade. que é uma atividade nova para os povos indígenas. cuidados sanitários. represamentos. Por melhor que sejam as técnicas e informações. enfim. além é claro da forma como aquele determinado povo enxerga o mundo das águas e os peixes. manejo de lagos ou até mesmo de criação antecedentes. o extensionista deve se dispor ao diálogo de conhecimento e de sistemas agrícolas para. o que inclui a produção de mudas. elas não podem ser passadas como um modelo ou pacote fechado. Até mesmo a piscicultura.

c) utilização dos impactos benéficos ou benignos do meio ambiente local. aos seguintes critérios: a) baixa dependência de insumos comerciais. contribui bastante para valorizar a cultura local. é aquela que. desvalorizando também as pessoas detentoras deste conhecimento. formado por reconhecidas escolas e universidades. de maneira integrada. o que inclui as novas técnicas e adaptações de técnicas indígenas. antes que a dependência da intensa alteração ou tentativa de controle sobre o meio ambiente. e) manutenção a longo prazo da capacidade produtiva. Fonte: (GLIESSMAN. h) produção de mercadorias para o consumo interno e para a exportação. 2001) A importância da agroecologia como via para a ATER Indigenista. b) uso de recursos renováveis localmente acessíveis.78 e rituais locais ligados a agricultura e artesanato e. . sob o ponto de vista agroecológico. g) utilização do conhecimento e da cultura da população local. f) preservação da diversidade biológica e cultural. todo o pensamento da ATER. chega à comunidade revalorizando estas pessoas da etnia como professores. A agricultura sustentável. Acreditamos que as ações de assistência técnica neste eixo deverão estar preocupadas com a sustentabilidade. consequentemente. é capaz de atender. primeiramente. Por isso. em busca de uma agricultura sustentável. Quando o extensionista. d) aceitação e/ou tolerância das condições locais. normalmente identificado pelas comunidades como uma “pessoa que sabe das coisas”. deve estar assentado nos princípios da ciência agroecológica. tendo como base uma compreensão holística dos agroecossistemas.

2004:12) . que ocorre através do tempo. absorver e trocar conhecimento com os variados povos. 2002). na agricultura. A Agroecologia se apresenta como um enfoque disposto a entender. tem como meta a passagem de um modelo agroquímico de produção (que pode ser mais ou menos intensivo no uso de inputs industriais) a estilos de agriculturas que incorporem princípios e tecnologias de base ecológica” (CAPORAL & COSTABEBER. entendida como um processo gradual e multilinear de mudança. Uma perspectiva concreta de transição agroecológica11 deve ser referência para o trabalho junto àqueles povos que já utilizam o pacote tecnológico proposto pela agricultura convencional. preserva e maneja a biodiversidade. nas formas de manejo dos agroecossistemas. Ou seja. vimos que é preciso encontrar alternativas de produção/conservação interna às comunidades. e aproveitamento energético eficiente para diminuir ao máximo a necessidade de insumos externos à aldeia para o sucesso dos empreendimentos agropecuários indígenas. nos recursos que entram de fora. da forma como cada um deles mantém. Do quadro anterior. 11 “Na Agroecologia é central o conceito de transição agroecológica. sob a perspectiva agroecológica. 2000). É um enfoque que entende que não há como separar a biodiversidade agrícola das culturas que a nutrem (ibidem. é preciso encontrar alternativas locais. constituem outra ciência.79 no contexto da intercientificidade10 (LITTLE. Esta preocupação se reforça tendo em vista que dificilmente 10 A solução proposta por LITTLE (2002) para basear uma nova ação indigenista que considere os saberes tradicionais ambientais desses povos sem romantizá-los é a intercientificidade. As sementes. Esse conceito tem sua base na etnoecologia. técnicas apropriadas. ao pesar a sustentabilidade em longo prazo da produção indígena. está baseada no reconhecimento de que a complexidade dos sistemas de produção indígenas está estreitamente ligada à sofisticação dos conhecimentos daqueles que o manejam (ALTIERI & NICHOLLS. ração e matrizes são exemplos de recursos que são comprados no mercado regional. tem origens na etnociência. Significa dizer que os povos indígenas estabelecem diferentes relações com o meio ambiente e. mas que. sublinhamos a preocupação com a autonomia dos agroecossistemas. É preciso pensar que a lógica produtiva não pode estar baseada safra a safra. possuindo outro tipo de organização dos saberes. que. que por sua vez. 2000).

em grande medida os problemas dos povos indígenas. em conjunto com os esforços da educação escolar indígena. disponíveis para o acesso de qualquer cidadão brasileiro. de forma a saberem transitar com tranquilidade na sociedade nacional. É claro que este eixo também está preocupado com o escoamento. de periodicamente acessar crédito para financiar sua produção e com os resultados da safra. no qual se respeita e potencializa as diferenças culturais. porém já estará relacionada mais diretamente com os aspecto do eixo diálogo intercultural. O foco de ação deste eixo é a formação e capacitação dos indígenas e suas organizações para que entendam melhor o mundo não indígena. tanto as específicas aos povos indígenas quanto aquelas universais que estão. diferentemente do que muitas vezes se expressa nas discussões sobre a temática indígena. é também formar e informar os técnicos extensionistas e a sociedade brasileira das especificidades e contribuições indígenas à sociedade. É. na verdade.80 encontramos sistemas agrícolas indígenas que bem funcionam na lógica empreendedora capitalista. conscientes de seus direitos e das políticas públicas. Por outro lado. cobrindo todos os custos da produção e ainda fazer renda. portanto. b) Eixo Diálogo Intercultural O segundo eixo norteador é o que aborda o diálogo intercultural. contudo são imprescindíveis para atender as especificidades da ATER em áreas indígenas. Os eixos norteadores diálogo intercultural e fortalecimento cultural e territorial que seguem estão relacionados a campos e áreas do conhecimento que em geral “o perfil clássico de quem lida com ATER” não consegue atuar com facilidade porque não teve uma escola que o preparou para tal. distribuição e comercialização da produção. pagar o empréstimo. teoricamente. apontam . Neste sentido. atuar na diminuição da marginalização e exclusão social dos grupos indígenas. a conhecida ATER da porteira para fora.

três. que a médio e longo prazo. No campo da educação escolar.81 soluções para a nossa sociedade. A matemática não tinha muito importância. não há um problema de educação indígena. uma situação comumente reclamada pelas lideranças indígenas é quanto aos formulários e tabelas em demasiado complexas para aprovação e contratação de projetos. a cosmologia se dava por outros elementos. mesmo que haja recursos “carimbados” nos orçamentos federais ou estaduais para atuação com indígenas naquela área. enquanto o repasse de recursos estiver assentado na lógica do estado nacional. o fortalecimento da autonomia indígena passa necessariamente por contínuas capacitações. Para ilustrar a questão. Portanto. dois. recordo que existem povos que até 15 anos atrás só contavam até cinco: um. o extensionista deve apoiar os povos indígenas nas dificuldades que tiverem nesta parte. Sendo assim. garantia de direitos e gerenciamento. cinco e muitos. sobretudo sócio-econômicos. É preciso relativizar os pontos de vista. o repasse não será efetivado. Neste eixo a pauta é de processos. viabilizam os projetos pensados e geridos pelas organizações indígenas. Caso contrário. O fortalecimento das organizações tradicionais e não tradicionais . quatro. acesso a financiamentos. Apenas para situar um pouco esta dificuldade. 1997: 26). por exemplo: “A ação pedagógica para a alteridade não é um descobrimento que fez a sociedade ocidental e nacional para oferecê-la aos povos indígenas. cuja formalização ainda está fortemente assentada nos códigos da sociedade nacional. Assim. mas tudo ao contrário: é o que os povos indígenas podem ainda oferecer à sociedade nacional. precisa ter ciência de que o governo só poderá aprová-los e contratá-los caso esteja tudo muito bem documentado legalmente e detalhado de forma a demonstrar viabilidade. há uma solução indígena ao problema da educação” (MELIÁ. Trata-se da comercialização. Antes de uma comunidade submeter projetos. que contribuem consideravelmente para o início e o sucesso das iniciativas do primeiro eixo.

Enquanto os povos indígenas incorporam a questão da ATER e constituam os seus próprios processos e organizações de ATER. exercendo seus direitos. gestão. devido à possibilidade concreta de formalizarem contratos. os valores e visões de mundo dos povos indígenas devem ser levados em consideração pela ATER. visões de mundo. Por conseguinte. modos de vida e concepções religiosas dos povos indígenas. pois tem valor único para a humanidade. Significa dizer que a ATER baseada no diálogo intercultural reconhece os valores culturais. O primeiro é fazer com que a produção agrícola das famílias indígenas dê certo. Como vimos anteriormente. parcerias e contestações nos códigos da sociedade nacional. entre os Xavante. algo que perpassa todos os três eixos. 1996). e conhece os impactos negativos de enfoques extremamente materialistas e economicistas nestas sociedades.82 indígenas é importante para dar direcionamento e solidez a uma participação ativa de povos indígenas nas várias instâncias decisórias do Estado. c) Eixo Fortalecimento Cultural e Territorial Partimos então para o terceiro e último eixo. que operam a nível local. entre os Kayapó ou o Conselho dos Velhos no pátio da aldeia. incluindo . atenção especial é essencial às instituições políticas tradicionais de cada povo. É gerar as condições para suas iniciativas diante do contexto interétnico. o que está em jogo é a valorização e proteção dos conhecimentos tradicionais. Embora para o extensionista as associações e coordenações indígenas possam aparentar maior relevância. Nem sempre são tão visíveis como a Casa dos Homens. mas elas têm eficácia reguladora sobre as interferências externas (RICARDO. Então este é o segundo eixo no qual a ATER deve atuar. comércio. etc. o segundo é que estas famílias indígenas consigam transitar no mundo dos brancos. que trata do Fortalecimento Cultural e Territorial. Constituem mecanismos internos de resistência ou de apoio às iniciativas implementadas nas aldeias.

reconhecida por muitos como a verdadeira sala de aula daquele povo. o que significa dizer que a produção agrícola não se organiza da forma tradicional. porque tudo está relacionado. Entretanto. colheita e confecção dos alimentos. o modo de vida se organiza a partir da casa de reza. Contribuir para a recuperação de plantios e alimentos tradicionais é outro aspecto que faz reativar signos tradicionais devido à quantidade de rituais ligados aos momentos de plantio. prejudicando o plantio de alimentos sagrados como milho e feijão. Pará e Tocantins são um exemplo disso. e ele pode não se interessar pelos eventos culturais. o sistema Guarani não se organiza a contento. pela língua. Embora no cotidiano possam ser utilizados por qualquer um da aldeia. durante os rituais eles constituem objeto que diferencia socialmente os indivíduos. o extensionista pode contribuir muito com o fortalecimento cultural de um povo.83 a formação de técnicos. resgatando padrões ancestrais e oportunizando novos desenhos. No caso Guarani. Com a quantidade de comida suficiente para receber os parentes se retoma a vida ritual entre as aldeias. o aumento da produção de alimentos é um aspecto que pode reativar a ocorrência de festas e cerimônias coletivas. nem sempre a relação entre a cultura e a agricultura é tão fácil de ser visualizada pelo extensionista. Muitos artesanatos indígenas comercializados atualmente advêm de artefatos rituais. A comercialização deles pode ser um incentivo aos mais jovens de não apenas reativar a técnica de confecção dos banquinhos. Mato Grosso. E embora (por enquanto) seja um agente externo. por um rito de cura ou uma dança. os banquinhos indígenas produzidos por povos indígenas do Amazonas. . e as respectivas cerimônias de consagração e agradecimento. mas todo o simbolismo em torno dele. teremos organizações não indígenas parceiras atuando. Sem ela. porque cria condições para uma aldeia convidar outras. A começar pelo básico. É neste momento que o extensionista precisa saber que não pode enxergar as coisas de forma estanque. Outro exemplo são os grafismos que através do artesanato podem ganhar força.

São muitas as possibilidades.84 A língua é vista como um obstáculo por muito extensionistas. Antes de uma oficina ou um curso é possível incentivar cantos ou discursos tradicionais na língua. sua inserção em determinado povo indígena fica limitada. mas há saberes que apenas alguns detêm. há também uma divisão acerca dos conhecimentos tradicionais. O conhecimento acerca da organização social de cada povo é importante porque nas sociedades indígenas. conceitos e noções. o que pode comprometer a profundidade do seu trabalho de ATER. e por isso. os quais podem ser passados adiante somente segundo uma lógica determinada. Além disso. a estrutura de uma língua influencia diretamente na forma como os falantes desta língua organizam seu pensamento. etc. e permitirá uma compreensão em um nível mais profundo das concepções e forma de vida daquele povo. Portanto o esforço em entender minimamente a língua do povo beneficiário é vital. Apesar de haver falantes de português na maioria esmagadora dos povos brasileiros. não há tradução direta para muitas palavras. Isto inclusive tornará o seu cotidiano na aldeia muito mais agradável. o que não necessariamente significa a presença de um intérprete durante toda a atividade. sentimentos ou processos na língua indígena. há conhecimentos que apenas . contatar o mundo metafísico. Valorizar a língua pode significar também valorizar classificações e fisionomias do bioma local que são próprios daquele povo. Estas classificações tradicionais se diferenciam dos da ciência ocidental e são parte fundamental do conhecimento indígena para manejar o meio ambiente. Há saberes comuns a todos daquele povo. É importante não pensar que o ensino da língua (materna e o português) deva acontecer apenas dentro das salas de aula. Nas diferenciações entre os indivíduos. Mesmo nas sociedades em que o português se mostra predominante à língua materna é recomendável o incentivo do uso da língua. Portanto. assim como na sociedade nacional. organizar a agricultura. não há um indivíduo conhecedor de tudo. Em certos momentos da atividade pode se questionar sobre o nome ou expressão de coisas.

no sentido de sociedades autosuficientes em termos materiais e políticos. os sítios sagrados. perda de território e transformação de seu ecossistema. ou seja. da caça etc. Neste sentido. as terras tradicionalmente ocupadas. Assim. Entendidas como aquelas habitadas em caráter permanente. também deve ser uma preocupação do extensionista. As terras atualmente demarcadas estão distantes de garantir o que é constitucionalmente reconhecido ao indígena. outro dos cantos. ambientais e logo. os povos indígenas tiveram que se adaptar a novos contextos que lhes impuseram consideráveis restrições territoriais. porque é a partir daí que a ATER Indigenista se viabiliza. as antigas aldeias e os lugares mitológicos dos povos indígenas fornecem os elementos espaciais de identidade e pertença a um grupo e a uma história em comum. Outrora autônomos. algo muito distante da categoria mercadoria. as utilizadas para suas atividades produtivas. Acontece que para um povo se realizar culturalmente. na sua forma violenta ou pacífica. A proteção e o uso destas terras. precisa dos recursos naturais que garantem a reprodução física e de marcos geográficos que dão sentido a uma cosmologia particular e a uma própria história enquanto povo. portanto. existe aquele “sábio” da agricultura. necessita de um território. Ilustram como as dimensões física e metafísica podem estar tão conectadas. Ou seja. Evidenciam uma percepção única sobre a terra. outro da reza. clãs ou indivíduos possuem. O terceiro eixo então é aquele que prevê o apoio aos processos indígenas de fortalecimento cultural. e quais são as formas para que este saber possa ser disseminado. Necessita de uma base material que forja e nutre material e simbolicamente suas concepções. Então o extensionista tem que estar atento para perceber dentro do povo indígena se existe pessoa que se destaca pelo seu conhecimento tradicional da agricultura. de saúde. o contato com o “mundo civilizado” provocou depopulação.85 algumas famílias. a denominada gestão ambiental e territorial das Terras Indígenas. e assim devem ser protegidas. As terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas são o pilar da identidade cultural. Invariavelmente. as .

diante das consequências do contato interétnico e do problema territorial.86 imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários ao seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural. pela construção da hidrelétrica de Balbina. Porém a demarcação das terras Pareci garantiu a parte desta população apenas as áreas de cerrado porque eram justamente o tipo de ambiente que à época não era valorizado pelo agronegócio. local onde praticam sua pesca ritual de barragem. A demarcação da Terra Indígena EnawenêNawê não incluiu o Rio Preto. o terceiro eixo deve possuir ações voltadas à gestão e ao controle territorial. extremamente importante para a cosmologia deste povo. os Pareci passaram a ser intensamente assediados para arrendarem suas terras e realizar parcerias agrícolas. Entre 1972 e 1977 o território dos Waimiri-Atroari passou a ser afetado pela estrada BR-174 que liga Manaus a Boa Vista. pela implantação de uma mina de estanho. mais fértil para a agricultura. A pesquisa de Baines (1993) revela que as epidemias que dizimaram grande parcela da população Waimiri-Atroari foram consequência da Frente de Atração Waimiri-Atroari. apoiando o planejamento e organização daquele espaço. à agricultura. Recuperação de áreas degradadas considerando os saberes tradicionais. Os Pareci viviam segundo um calendário adaptado aos ambientes que ocupavam: no cerrado se dedicavam a caça e coleta de frutas e na floresta. e por projetos pecuários nos limites da área. segundo seus usos. seguindo a lógica da integração. defesa e usufruto dos territórios indígenas. Parcelas consideráveis das terras Pataxó e Kaingang eram arrendadas para não indígenas pelo próprio órgão de proteção ao índio. ficou então liberado para o uso dos fazendeiros. Com isso. desde a demarcação das mesmas. Com o desenvolvimento de tecnologias adaptadas para o cultivo de grãos e fibras nos solos do cerrado. Outros vários exemplos ainda poderiam ser citados para demonstrar como é complexo discutir o tema da autonomia indígena. contribuindo com a ocupação. manejo de áreas e espécies. costumes e tradições (CEF Art. e sob os preceitos do . onde exatamente os Pareci praticavam sua agricultura. O solo das matas. 231). dando sentido produtivo às áreas indígenas dentro do contexto cultural de cada povo.

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89 A Experiência de Assistência Técnica e Extensão Rural junto aos Povos Indígenas: uma Visão do Gestor da Política Sílvia Helena de Souza Ferrari .

especialmente no dia a dia da execução de suas ações. Atua desde março de 2008 na gestão técnica da Ação Orçamentária “ATER em Áreas Indígenas” do Ministério do Desenvolvimento Agrário. como um marco nesse processo em que o Estado formaliza o reconhecimento dos grupos tribais com suas especificidades e direitos diferenciados. ainda continuam existindo dificuldades de diálogo e articulação entre os órgãos governamentais. e também faltam maior participação e controle social por parte dos indígenas na construção e execução das políticas. apontou que muitos dos problemas de saúde existentes nas populações indígenas tinham como origem fatores mais amplos e que não poderiam ser solucionados apenas pelo serviço de saúde. 1 Engenheira Florestal. Por outro lado. 5.004. deixando de ser “a questão indígena” apenas atribuição da Fundação Nacional do Índio (FUNAI). regularização. reconhecendo as especificidades das mesmas.051. Podemos destacar o Decreto n. Nesse contexto de reflexões da política indigenista. como o número de áreas do governo a se empenhar na construção de programas específicos para as populações indígenas. no qual o Brasil ratifica a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). de 19 de abril de 2. desintrusão. Na raiz estavam e estão os problemas territoriais (falta de demarcação. . Isso tem representado também uma nova forma de encarar os indígenas como agentes participativos na construção de sua cidadania. a III Conferência Nacional de Saúde para os Povos Indígenas. realizada em maio de 2001.90 A Experiência de Assistência Técnica e Extensão Rural junto aos Povos Indígenas: uma Visão do Gestor da Política Sílvia Helena de Souza Ferrari1 Processos que Levaram ao Trabalho da ATER em Áreas Indígenas no Âmbito do MDA Nos últimos anos a política indigenista brasileira tem passado por diversos avanços. e com uma considerável qualidade na formulação dos mesmos.

Pastoral da Criança e Warã Instituto Indígena Brasileiro. Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste. são eles: Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Espírito Santo e Minas Gerais (APOINME). respeitando suas especificidades e de acordo com sua cosmologia. Ministério da Educação (MEC). a degradação ambiental (no interior e entorno dos territórios indígenas). inclusive econômica. atual Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS). Essa comissão foi formada por representantes governamentais e indígenas. Frente a isso. que inclui todos os tipos de pressão.91 vigilância e áreas muito reduzidas). Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar (MESA). . Conselho Nacional de Mulheres Indígenas (CONAMI). a Comissão Intersetorial de Saúde Indígena (CISI). produtiva e cultural. e relações conturbadas com a sociedade envolvente. Entre 2002 e 2003 foram realizadas 17 consultas aos Povos Indígenas. e teve como objetivo principal reunir subsídios para a elaboração de uma proposta de política nacional focada na promoção da segurança alimentar e no desenvolvimento sustentável dos povos indígenas. era necessária a formulação e execução de políticas complementares que garantissem as condições necessárias para a melhoria da qualidade de vida dos povos indígenas. em forma de oficinas macro regionais. tomou para si a responsabilidade por dar continuidade à discussão encaminhada pela conferência e no segundo semestre de 2002 constituiu uma comissão para promover uma série de consultas às comunidades indígenas e suas organizações. Fundação Nacional de Saúde (FUNASA). Diante desse quadro. Essas oficinas foram coordenadas pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. instância assessora do Conselho Nacional de Saúde (CNS). Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB). Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA). Ministério do Meio Ambiente (MMA). em parceria com outros ministérios e organizações indígenas e indigenistas. Estes fatores geram insegurança alimentar e nutricional e instabilidade social nas comunidades indígenas.

Santa Catarina. Paraná e Amapá. • A proteção. • A política de educação escolar indígena e sua implementação nos diversos níveis de formação. Ceará. e contaram com a participação de 680 lideranças indígenas representando 175 povos de todas as regiões do Brasil. Em novembro de 2003 as oficinas culminaram no Fórum Nacional para Elaboração da Política Nacional de Segurança Alimentar e Desenvolvimento Sustentável dos Povos Indígenas. Entre os temas debatidos pelas comunidades e organizações indígenas durante as consultas destacaram-se os seguintes: • O reconhecimento e a garantia de seus territórios. a recuperação e o uso sustentável dos recursos naturais. • A saúde indígena e os serviços de atenção a ela. por uma comissão de . • A necessidade de maior participação e controle social indígena sobre as políticas públicas que os afetam. Mato Grosso do Sul. da qual participaram 81 lideranças indígenas e representantes do governo federal e de entidades da sociedade civil. Roraima. Acre. Rondônia. Espírito Santo. • O papel da assessoria técnica no fortalecimento das capacidades locais. em audiência pública realizada com a Comissão de Agricultura e Política Rural da Câmara dos Deputados e a Secretaria Geral da Presidência da República. Alagoas. Rio Grande do Sul. • A situação alimentar e nutricional nas Terras Indígenas.92 As oficinas foram realizadas nos estados de Tocantins. O fórum gerou um documento final que foi entregue ao Congresso Nacional no dia 27 de novembro de 2003. assim como alternativas culturalmente adequadas para solucioná-las. Mato Grosso. Amazonas. • As atividades produtivas (auto-sustentação e renda).

mais conhecida como ATER Indígena.739. por intermédio do Decreto n° 4. As consultas e o fórum deram origem a diversas ideias que foram levadas a discussões internas nos órgãos do governo e entre os mesmos. Estruturas de Gestão da Política A Assistência Técnica e Extensão Rural em Áreas Indígenas. com perfil de trabalho fruto das consultas e do Fórum Nacional. Pois é desse fervilhar de ideias que nascem ações específicas para as populações indígenas no MDA.93 representantes indígenas e técnicos governamentais. e tendo como referência principal o documento final do Fórum de Segurança Alimentar e Desenvolvimento Sustentável. No ano seguinte. por meio do Programa de Promoção da Igualdade de Gênero. incorporando a construção política e metodológica fruto do processo das consultas. O documento versou sobre os temas provenientes das consultas. contendo seu detalhamento. necessidades e formas de solução adequada para as mesmas. Raça e Etnia (PPIGRE). Ainda no ano de 2003. foi transferida do Ministério da Agricultura. e também indicou a forma como os Povos Indígenas do Brasil percebiam ser a maneira mais correta de promover ações integradas visando garantir a segurança alimentar e o desenvolvimento sustentável de seus territórios. de 13 de junho. Pecuária e Abastecimento (MAPA) para o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) a competência de coordenação e execução da Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER). inclusive em áreas indígenas. diretamente ligada ao gabinete do ministro do Desenvolvimento Agrário. impulsionadas pela leitura que os representantes indígenas fizeram de suas realidades. MMA e MDS. a Assistência Técnica e Extensão Rural em Áreas Indígenas (ATER Indígena) torna-se realidade como ação orçamentária. nasceu sob a coordenação da Assessoria Especial de Gênero Raça e Etnia (AEGRE). O PPIGRE tem a responsabilidade de atuar no desenvolvimento de .

as discussões não chegaram a um encaminhamento positivo. No mês de março de 2008. Foi levada à direção do departamento pelos técnicos que atuariam com o acompanhamento da ação uma proposta de realizar o trabalho exclusivo pelos mesmos com o tema através de um Núcleo de ATER Indigenista. então. por intermédio do apoio à produção e do acesso e garantia de uso da terra. O núcleo atua. Como o crédito é um tema bastante polêmico. implicando em parte da produção ter de ser reservada para venda e pagamento do crédito. Na SAF. como também a execução da ATER em Áreas Indígenas. seja no sentido da adequação para acesso às outras linhas então existentes. a ação de ATER Indígena mudou de instância coordenadora dentro da estrutura do MDA. e essa lógica econômica conflitar com a realidade cultural da maioria dos grupos indígenas. após quatro anos sendo coordenada por aquela instância. saindo da AEGRE para a Secretaria da Agricultura Familiar (SAF).94 políticas públicas que buscam promover a inclusão social e os direitos econômicos das trabalhadoras rurais. o Departamento da Assistência Técnica e Extensão Rural (DATER) foi o setor que passou a responder pela ATER Indígena. chegando a serem feitos diálogos sobre a criação de uma linha do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) específica para essas populações. A proposta apresentada foi deferida pela direção e hoje é a mesma que orienta o trabalho da área técnica. seja na criação da linha específica. durante o período dos anos de 2003 a 2008 o programa foi responsável por articular com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) o Programa Nacional de Reassentamento de Ocupantes Não Indígenas em Terras Indígenas. Nesse período também foram realizados estudos e discussões sobre as demandas de crédito e dificuldades de acesso pelas populações indígenas. Assim. das populações indígenas e das comunidades quilombolas. o Grupo Técnico Indígenas e a participação da representação indígena no âmbito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável (CONDRAF). com três .

• Fortalecimento Institucional das Organizações Indígenas – que inclui os temas (a) garantia de direitos. recebida pelo PPIGRE. o qual reuniu um . Nesse mesmo ano foi lançado pelo MDA. lançada pela SAF e destinada à capacitação de agricultores familiares. e por demanda espontânea para ATER. o livro Assistência Técnica e Financeira para o Desenvolvimento Indígena – Possibilidades e Desafios para Política Pública. (b) comercialização e (c) gerenciamento. Breve Avaliação das Ações do Período 2004-2009 A ATER Indígena começou suas atividades no ano de 2004. já como ação orçamentária no Plano Plurianual (PPA) 2004-2007. Em dezembro de 2005. • Projetos Produtivos – subdividida em (a) conhecimento tradicional e (b) novos conhecimentos e tecnologias. Nesse ano e em 2005 o MDA dá apoio a projetos para comunidades indígenas por intermédio de dois mecanismos: da denominada chamada pública. o MDA/AEGRE/PPIGRE realiza o seminário Arranjos Produtivos e Desafios Econômicos entre Populações Indígenas – Experiências e Perspectivas para as Políticas Públicas. organizações não governamentais. numa parceria entre o Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (NEAD) e a Editora Contra Capa.95 eixos norteadores para suas atividades: • Diálogo Intercultural e Garantia Territorial. o seminário teve como objetivo específico reunir aportes para MDA/PPIGRE desenhar sua política etnodesenvolvimento indígena e também propor um modelo de chamamento público de ATER Indígena que se aproximasse das demandas das mais diversas etnias indígenas do país. universidades e por órgãos governamentais ou empresas públicas com projetos de apoio e incremento econômico entre populações indígenas. Além de conhecer e analisar experiências então desenvolvidas por organizações indígenas.

assim como por outros programas do governo. São áreas consideradas de grandes necessidades. com participantes das regiões Sudeste e Sul. A ATER Indígena passa a ter um diálogo mais próximo com a ATER pública.96 conjunto de artigos de diferentes autores que trazem novos elementos ao debate da assistência técnica e financeira. Procurando auxiliar na qualificação dos projetos concorrentes ao chamamento. então. O ano de 2008 foi de grandes mudanças na ATER Indígena. a transferência para a SAF abre novas oportunidades. 33 incidiam sobre 156 Terras Indígenas. concentrar esforços nas regiões identificadas como as de populações indígenas com maiores carências e que apresentavam. e outra em Porto Alegre. assim como subsídios aos gestores de políticas e aos executores diretos da ação2. maiores dificuldades na qualificação de projetos. Dos 60 Territórios da Cidadania do programa. As Redes Temáticas são um instrumento criado pela SAF para 2 Cf. em 2006. Buscava-se. por meio dos debates realizados até então. incorporando sugestões feitas por diversos setores da sociedade civil. de uma forma geral e naquele momento. o Programa Territórios da Cidadania começa a ter suas áreas como prioritárias para atendimento pela ATER Indígena. que precisariam de um conjunto de políticas públicas disponibilizadas de forma integrada. Ao mesmo tempo em que gera um período de adaptação à nova estrutura e seus procedimentos internos. foi lançada a primeira chamada específica de projetos de ATER junto a Populações Indígenas. . com participantes do Nordeste do país. as chamadas Empresas Estatais de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER’s) nos estados e com as organizações pertencentes às chamadas Redes de Prestadoras de Serviços de ATER. Logo no início do ano a ação passa a ser coordenada pelo Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural/ Secretaria da Agricultura Familiar (DATER/ SAF). Em 2007. foram realizadas duas oficinas: uma em Maceió. Verdum (2005). No ano seguinte.

RO. GO e MT). que têm a função de introduzir. PA. Biodiesel. TO. ATER para Mulheres Rurais. durante reunião em que compareceram representantes de 21 estados (CE. Produtos e Mercados Diferenciados: ATER e Pesquisa. A Rede Temática de ATER Indígena foi criada em agosto de 2008. RR. MA. desenvolver e fortalecer os temas nas empresas. Também houve participação de representante do Sistema de Vigilância em Saúde (VIGISUS/FUNASA). SP. RS. apresentado pela Coordenação Geral de Desenvolvimento Comunitário da FUNAI. PB. MS. Na ocasião foram acordadas com os articuladores estaduais as ações que deveriam ser priorizadas nos projetos das EMATER’s. A formação de recursos humanos (“técnicos”) nos temas e a criação de uma política institucional de trabalho estão entre as principais tarefas dos articuladores. Formação de Agente de ATER. Com o intuito de trazer a reflexão sobre as especificidades de uma ATER em Áreas Indígenas. Diversificação na Agricultura Familiar Fumicultora. os articuladores indicados pelas EMATER’s para o tema. influenciando assim na forma como os recursos vinculados aos projetos apoiados nessas instituições através de Termo de Referência são aplicados no trabalho de ATER. seu funcionamento e também sobre etnodesenvolvimento. AC. PR. Agroindústria Familiar. BA. Os temas trabalhados pelas redes são os seguintes: Agroecologia. RJ. ES. PE. Financiamento e Proteção da Produção. que falou das experiências de apoio aos projetos de medicina tradicional indígena. AM. considerando duas . tendo como principal interlocutor os articuladores estaduais. AL. Nesse momento foi solicitado que as instituições apresentassem as experiências de trabalho já desenvolvidas com populações indígenas e quais as perspectivas de política institucional para trabalho no tema. As redes temáticas hoje dialogam 14 temas com as EMATER’s. foram realizadas palestras com temas referentes ao histórico da ação. Metodologias Participativas. SC. Leite.97 dialogar com as EMATER’s os temas prioritários de trabalho da Secretaria. Comercialização. ATER em Turismo na Agricultura Familiar e ATER juntos aos Povos Indígenas.

Para estados que já desenvolvem trabalho com os Povos Indígenas. Crédito PRONAF e Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).98 situações: Para estados que não têm atuação junto aos Povos Indígenas: • Apoiar a formação e capacitação de gerências. visando à cooperação interinstitucional. Produtos e Mercados Diferenciados da Agricultura. Atividades Não-Agrícolas (artesanato). como: Agroindústria Familiar. Apoio à Comercialização dos Produtos e Serviços da Agricultura Familiar. também estavam previstos: • Respeitando as características de cada etnia. • Realizar seminários integradores com instituições que assessoram os povos indígenas no estado e órgãos de governo que tenham ações junto aos mesmos. O programa e a metodologia dessas capacitações deverão necessariamente ser negociados com a SAF/MDA. Necessariamente deve contar com apoio de antropólogos com experiência no tema e com as organizações representantes do movimento indígena. núcleos ou departamentos no interior das instituições. evitando sobreposição de ações e potencializando as ações em andamento. • Incentivar a participação indígena no controle social do programa . que respondam ao tema em diálogo com o MDA e outras instituições. além de organizar o trabalho em áreas indígenas junto às demais unidades do órgão no estado. • Intercâmbio dos técnicos com empresas estaduais e ou ONG’s de ATER de referência no trabalho de ATER Indígena. • Realizar formação de pessoal do quadro técnico da organização e de outras instituições parceiras para o trabalho com o público indígena. possibilitar às comunidades acesso aos programas existentes.

No total foi aprovado o apoio financeiro a 17 estados. durante o processo de apresentação das propostas pelas empresas públicas. .99 Territórios da Cidadania. AL. na metodologia do trabalho. CE. SP. É importante destacar que o Termo de Referência para Convênio com as EMATER’s não contou com meta obrigatória para ser executada com relação a ATER em Áreas Indígenas. buscando essa parceria com o MDA de forma voluntária. Foi previsto no Termo de Referência que as metas vinculadas às Redes Temáticas dentro dos projetos deveriam ser acordadas dentro da rede entre o articulador nacional e os estaduais. TO. dentre outros) seguindo estritamente a lógica indígena de apropriação de tecnologia. além de acompanhamento de antropólogo ou indigenista conhecedor do povo. foram recomendados ajustes e complementações nos projetos no que se refere às especificidades socioculturais do público indígena alvo. • Recuperar sementes tradicionais de uso indígena e formar bancos coletivos de sementes. MA e RJ. AM. MS. PA. De modo geral houve grande interesse das empresas em trabalhar com o tema. Posteriormente. As atividades da meta de ATER Indígena foram pactuadas para ações a partir do estágio de trabalho em cada estado com o tema. casa dos homens ou outro espaço de decisão pública/coletiva tradicional. Foi estabelecido como critério básico que os projetos deveriam ser discutidos no pátio da aldeia. tanques de piscicultura. RO. MT. BA. através das EMATER’s do AC. PR. e na incorporação de estratégias de etnodesenvolvimento. SC. PB. PE. levando em consideração a carência de formação dos técnicos no tema. Seguidas de ações continuas de formação e treinamento. as Redes devem apoiar os empreendimentos produtivos indígenas (como casas de farinha. • Nos projetos de investimento firmados com o MDA. meliponicultura.

100 Na maioria dos estados. por meio dos convênios das EMATER’s. foram realizados dois cursos regionais de carga horária de 40 horas cada. Tentando ampliar a discussão das especificidades do trabalho de ATER junto aos Povos Indígenas e contribuir na formação dos técnicos que atuam em campo. o I Seminário Estadual de ATER Indígena de Pernambuco. Apesar dessa dificuldade inicial – a qual se somou o processo transição da ATER Indígena da AEGRE para a SAF. solicitação que vem sendo feita há muito tempo pelos Movimentos de Luta pelos Direitos Indígenas. A execução orçamentária foi parcialmente prejudicada por várias razões nesse ano. em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA). orientando-se para a estruturação de equipes afinadas com o tema. estabelecido pelo Decreto 6. no Norte e com a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Cada curso teve a participação de aproximadamente 40 pessoas. organizado pelo Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA) e apoio financeiro da Secretaria Estadual de Agricultura de Pernambuco. Notou-se também a busca da consolidação das condições necessárias para uma ação sistemática e continuada. Foram iniciativas piloto que tiveram como fim orientar cursos de formação previstos para serem feitos nos estados. que tiveram projetos selecionados na Chamada para Projetos. Nesse mesmo ano ocorreu o primeiro evento fruto dessas discussões com as EMATER’s. de organizações não governamentais. de lideranças indígenas e da FUNAI local e nacional. em se adequar ao sistema de cadastramento e credenciamento para estabelecer convênios com o Governo Federal. os convênios firmados em 2008 tiveram um foco bastante estratégico. no Nordeste.170/2007 e a Portaria Interministerial 127/2008. com a decorrente necessidade de se adequar a dinâmica de execução da nova estrutura político-administrativa . o denominado Sistema de Convênios (SICONV/Ministério do Planejamento). que contou com a presença de agentes de ATER das EMATER’s. entre elas verificou-se que houve grande dificuldade das entidades parceiras.

apesar da pequena dimensão numérica perto dos aproximadamente 1600 delegados totais. Participaram da conferência 40 delegados indígenas e. sendo ainda necessário o aporte de recurso extra da ATER na Agricultura Familiar. É importante destacar também que ocorreu nos dias 23 e 24 de junho de 2008 o Seminário Preparatório dos Delegados Indígenas.I CNDRSS.101 – houve um aumento significativo no recurso orçamentário da ação. Já no ano de 2009 houve a ampliação dos Territórios da Cidadania para 120. a organização apresentada na participação dos indígenas nos espaços de discussão teve grande destaque. Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME). dos quais 63 incidem sobre 317 Terras Indígenas. Esse evento ocorreu em Recife-PE como espaço de discussão dos delegados indígenas sobre o documento base para a I Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário . e ocorreu a partir de uma solicitação da representação indígena no Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável (CONDRAF). com a contratação de projetos e pagamento de parcelas de projetos de anos anteriores. pela necessidade de um encontro preparatório que oportunizasse aos representantes indígenas uma discussão coletiva antes do evento. em que tiraram posições com relação aos temas afetos aos povos indígenas. passando de R$ 450 mil em 2007 para R$ 4. Esse seminário foi organizado pela Secretaria da Agricultura Familiar (SAF) e Secretaria de Desenvolvimento Territorial (SDT) e coordenado pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e pela Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste. O recurso financeiro disponível para ATER Indígena foi aumentado visando o atendimento dos novos desafios colocados pela implementação dos objetivos do Programa Territórios da Cidadania.240 milhões a partir de 2008. Houve também diversas atividades que vieram a fortalecer a ação . e o documento final incorporou diversas propostas dos mesmos. que ocorreu de 25 a 28 de junho. Esse ano contou com a utilização da totalidade do orçamento previsto.

Paraná e Bahia são exemplos de estados que tiveram eventos sobre a questão. Minas Gerais. Essas oficinas foram de grande importância na contribuição para o sucesso do Chamamento Público 2009 para ATER em Áreas Indígenas. Entre elas. Essa publicação. agora. São Paulo. foram convidados parceiros e organizações regionais para discutir esta pauta e planejar uma agenda de reuniões e oficinas direcionadas ao PAA em algumas regiões. Sul/Sudeste e Nordeste. o qual trouxe várias novidades em relação aos chamamentos anteriores. ainda. sobre experiências levadas a cabo por projetos apoiados pela ATER Indígena do MDA. será um passo a frente em relação à feita em 2005. a obrigatoriedade de apresentação da proposta via SICONV e o fortalecimento da Rede Temática ATER Indígena. no nosso entendimento. Mato Grosso do Sul. Nesse seminário pretendeu-se estabelecer as bases para uma maior e melhor inserção dos povos indígenas no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Amazônia Legal.102 da ATER Indígena. MDS. tais oficinas tinham como objetivo o diálogo com os parceiros atuais e potenciais no trabalho de ATER Indígena e movimento indígena organizado. Para isso. pois seu conteúdo reflete. Pará. A equipe de ATER Indigenista/DATER/SAF contribuiu também com a organização de eventos de formação de agentes de ATER que atuarão junto às comunidades indígenas e no diálogo no interior dos órgãos públicos de extensão rural sobre a ATER Indígena. visando à publicação deste livro. No período de julho e agosto foram realizadas. Alagoas. Cabe destacar o Chamamento Público para artigos sobre ATER Indígena. que foi ampliada com a inserção de novos parceiros de organizações . FUNAI. com chamamento aberto pelo MDA e ATER aos projetos atuais e futuros apoiados pela Carteira Indígena/MMA. seis oficinas em parceria com a Carteira Indígena/MMA. organizado por vários órgãos do governo federal (MDA. Outra atividade importante desenvolvida em 2009 foi o Seminário “Acesso a Políticas Públicas e Segurança Alimentar e Nutricional para Povos Indígenas: PAA”. MMA e CONAB) em Brasília. para Pernambuco. Com apoio financeiro do MMA. sobre os processos seletivos de ATER Indígena.

e entre essas. mas também na construção dos conceitos e métodos da ATER Indígena. o governo e o movimento indígena.103 não governamentais que atuam com ATER Indígena e organizações de representação indígena. alterando significativamente muitos itens da alimentação dessas comunidades. A sedução econômica é intensa e no entorno das Terras Indígenas tais plantios já ocorrem. os Xavantes estão tendo que enfrentar propostas de plantio de soja dentro dos seus territórios. As oito Terras Indígenas (TI) Xavante se localizam no estado do Mato Grosso e sofrem intensa pressão do agronegócio. Em algumas TI’s. Foi nesse contexto que tiveram início as primeiras Redes Estaduais de ATER Indígena. fonte principal da alimentação tradicional desse povo. Além dos problemas causados pelas roças mecanizadas de arroz introduzidas pela FUNAI por meio do denominado Projeto de Desenvolvimento da Nação Xavante. Diante desse quadro. Assim conseguimos inovar no conceito das Redes Temáticas e criar um espaço de diálogo não só para o trabalho das EMATER’s. confinamento em territórios sob pressão ecológica dos plantios de soja e algodão em seu entorno. Além dessa situação de fragilidade nutricional. altas taxas de hipertensão e diabetes entre os adultos. em Pernambuco e no Ceará. influenciando diretamente no dia a dia dessas comunidades e na sustentabilidade de seu território. redução significativa do recurso de caça. Também se fortaleceu a ideia da importância do trabalho em rede entre as organizações nas regiões. O MDA se envolveu em parceira com a FUNAI e o MMA no processo de construção do Plano de Gestão Ambiental e Territorial Xavante. com a invasão dos limites territoriais pelos fazendeiros vizinhos. o que é garantido na Constituição de 1988. É urgente elaborar um processo de gestão do território que os fortaleça social e culturalmente e lhes garanta o uso fruto do mesmo. a Associação Xavante Warã a partir de discussões . durante os anos 1980. projeto semelhante foi implementado pelas Missões Salesianas. As duas últimas décadas estão marcadas por números elevados de mortalidade infantil por desnutrição proteico calórica.

104 internas nas aldeias apresentou para FUNAI. comercialização da produção. proteção territorial. MDA e MMA a necessidade de construir uma parceira entre essas instituições do governo e as comunidades Xavante. Essa parceria visaria à construção e implementação de Planos de Gestão Ambiental e Territorial das Terras Indígenas Xavante. Ao final desse evento foi formada uma comissão para dar continuidade ao diálogo interinstitucional. Nesta ocasião foram debatidas demandas e possibilidades de apoio institucional para gestão dos recursos naturais. entre outras questões. . e como primeiro passo dessa parceria foi realizado em novembro o Seminário de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Xavante de Sangradouro/Volta Grande e Marechal Rondon. Esse diálogo começou em meados do ano de 2009. tendo como referência os encaminhamentos tirados como linhas de trabalho prioritárias e a perspectiva de ampliação dessa discussão nas outras TI’s Xavante no ano de 2010.

105 Quadro Síntese: Projetos e Recursos aplicados no período de 2004-2009 .

106 .

em boa parte das vezes . contra o direito de gerenciarem o que querem de melhor para suas vidas e os recursos investidos para isso. A dificuldade de gerenciar as documentações necessárias para comprovação do uso de recursos públicos nos moldes da legislação vigente por meio da estrutura dessas pequenas associações. além da dificuldade de gerenciar essas organizações. assim ampliando esse diálogo com a sociedade em busca de soluções para os mesmos. sem depender de outras instituições. contratos e licitações o que entra em conflito com esse direito. Tais formas de organização também geram em muitos casos conflitos dentro das comunidades indígenas. pois estes têm que se adequar a estruturas de organização da sociedade envolvente como as associações e cooperativas.107 Principais Desafios e Avanços Muitos desafios têm sido vivenciados pela ATER Indígena nesses sete anos de trabalho. Um grande desafio enfrentado nos projetos de ATER Indígena. instituições prestadoras de ATER Indígena. pois estabelecem outras instâncias de decisão e de poder dentro da organização social. costumes. A inexistência de uma legislação que atenda o respeito às formas de organização social dos povos indígenas e que propicie aos mesmos formas diferenciadas de acesso e comprovação do uso do recurso público para projetos em suas comunidades gera dificuldades no acesso. que são motivo de reflexão interna e em diálogo com outros órgãos. movimento indígena e comunidades indígenas beneficiárias. A constituição de 1988 através do artigo 231 garante aos índios o reconhecimento de sua organização social. assim como nas demais linhas de ação disponíveis nos órgãos de governo para acesso pelas comunidades indígenas é a legislação referente ao acesso e comprovação financeira da execução desses projetos. Esse tipo de obrigatoriedade vai contra o fortalecimento da autonomia dessas comunidades. línguas. crenças e tradições. É importante que destaquemos alguns. mas o repasse de recursos oriundos da União para através de projetos é feito obedecendo à legislação de convênios.

Outra dificuldade encontrada pelos projetos de ATER Indígena é o perfil diferenciado que deve ter a instituição para realizar as atividades dessa ação. nos preocupamos quando chamamos instituições para essa parceira e. mesmo não comprovada má fé. Por isso. falta acesso das entidades aos acórdãos dos órgãos de controle. Há a necessidade de adequação dos instrumentos legais num país multicultural e multiétnico. Principalmente nas situações em que o pagamento só pode sair da conta do projeto e ser feito mediante a apresentação da nota fiscal. . pois não possui capilaridade para realizar tal atribuição. A estrutura do governo federal em grande parte de suas ações não faz execução direta dos recursos. de uma forma geral têm dificuldades com essa documentação exigida. As organizações que lidam com o meio rural. como em muitos casos devido a inexistência de concorrência e até mesmo à grande distância dessas em relação ao local das aldeias. mas por meio de parcerias. ou seja. em vez de exigir que esses povos se adequem as mesmas. No caso das organizações indígenas e indigenistas. depois que as mesmas realizam o trabalho são obrigadas a devolver parte dos recursos por inadequação ou problema na documentação comprobatória apresentada.108 em áreas bastante isoladas. é uma preocupação constante dos órgãos do governo com ações voltas para populações indígenas. tanto pela falta de empresas que forneçam as mesmas tais como exigidas. não podendo ser tratadas como políticas universais. o produto tem que ser adiantado ao pagamento. Isso envolve questões que vão além de uma inadequação dos procedimentos legais para esse tipo de público e ação: falta capacitação pelos órgãos dessas instituições na prestação de contas. como é o caso da ATER. existem empresas que se negam a fornecer o produto quando sabem que está vinculado a projetos indígenas. uma vez que são políticas específicas. dentre outras questões. existe o preconceito regional. em que a mesma deve conhecer a cultura indígena e realizar os trabalhos com base nos princípios do etnodesenvolvimento.

sua organização social e sua cultura. As próprias instituições indigenistas têm dificuldade de aderir à proposta da ação por não visualizarem que o trabalho que realizam é de ATER. de fortalecimento da organização local. tribal ou outra. • Imbuir-se de visão indígena endógena. detém o controle sobre suas próprias terras. entre outros. • Preocupar-se em manter relação equilibrada com o meio ambiente. [com] atividades mais participativas. ambiental. São princípios do etnodesenvolvimento: • Objetivar a satisfação de necessidades básicas do maior número de pessoas em vez de priorizar o crescimento econômico. autóctone. pois se acostumaram a entender as atividades de ATER como ações pontuais de transmissão de conhecimento técnico e voltadas para a agricultura familiar não indígena. seus recursos. dar resposta prioritária à resolução dos problemas e necessidades locais. • Visar a autossustentação e a independência de recursos técnicos e de pessoal e realizar uma ação integral de base. Isso implica uma dificuldade de encontrar novas parcerias para realizar o trabalho e mesmo a dificuldade de credenciamento como instituição prestadora de ATER quando algumas dessas organizações indigenistas aderem à proposta . as organizações que tradicionalmente atuam com ATER não costumam se adequar e nem se propor ao trabalho. Devido à necessidade desse perfil diferenciado e de realizar atividades que muitas das vezes não serão de enfoque agropecuário. e é livre para negociar com o Estado o estabelecimento de relações segundo seus interesses (Stavenhagen 1984:57 apud Azanha 2002:31). • Valorizar e utilizar conhecimento e tradição locais na busca da solução dos problemas. ou seja. mas sim cultural.109 O etnodesenvolvimento significa que a etnia.

mas não pode deixar de ser mencionada como uma situação problemática. apesar da dificuldade de manter um corpo técnico dedicado especificamente a esse trabalho. Com relação ao perfil das atividades realizadas no dia a dia dos projetos ainda nos deparamos com situações que. vem sendo oportunizada e tem trazido ganhos para dar nova dimensão aos projetos de ATER em interação com outras políticas. a oportunidade de interação com as diversas diretorias e coordenações. Internamente o espaço de diálogo no MDA para trabalho específico vem se ampliando e ganhando força com diversas instâncias da estrutura entendendo a necessidade do atendimento diferenciado. refletindo que esse debate realmente já vem sendo ampliado. estamos avançando na construção de um trabalho de ATER que respeita as especificidades dos povos indígenas.110 junto às comunidades que atuam. Essa dificuldade envolve uma parte pequena dos projetos apoiados. apesar das propostas bem desenhadas pecam na execução metodológica. assim como outras secretarias. Na SAF. apesar das dificuldades encontradas. O diálogo mais próximo com as empresas públicas de ATER vem apresentando bons frutos. . Apesar dessas dificuldades o número de parcerias tem aumentado. apontando que a discussão tem que ser ampliada e incorporada nos espaços de debate indigenistas e de ATER. É importante também destacar resultados positivos que foram conquistados ao longo desses anos e que demonstram que. com alguns estados formando os técnicos para atuar junto aos povos indígenas e com maior interesse desses órgãos de atuar de forma diferenciada com esse público. limitando-se a assistência técnica pontual e na falta de transparência no uso dos recursos envolvidos nas atividades frente aos beneficiários. Isso reflete uma série de desencontros nos entendimentos. por causa do seu perfil diferenciado. principalmente com espaços de discussão promovidos pelo MDA. como as oficinas realizadas em 2009.

A maior clareza do funcionamento e dos procedimentos da ATER Indígena nos debates e maior espaço também na pauta do movimento indígena tem sido de fundamental importância para o atendimento das reais demandas das aldeias. as organizações de representação indígena e outros órgãos do governo com ações relacionadas.111 O aumento dos recursos orçamentários da ação trouxe um claro diferencial nas possibilidades de trabalho. mesmo que os recursos dos projetos terminem. agroflorestais. não haverá uma forma única. Tendo a equipe de ATER a função de dar suporte para que as próprias comunidades construam caminhos para enfrentar seus desafios. Quando os mesmos estão envolvidos em projetos nas suas comunidades. Os avanços metodológicos são tema de grande ênfase nesses aprendizados. Isso nos leva a um crescimento real do trabalho. Aprendizados Importantes para o Avanço da Política de ATER juntos aos Povos Indígenas Diversos aprendizados vêm se acumulando ao longo desses anos de trabalho. eles dão . E para que a construção da ação com cada povo seja desenhada. Os técnicos e agentes indígenas agrícolas. têm sido um referencial importante para o trabalho. do diálogo e da construção de soluções junto com os indígenas. mas orientações básicas para o trabalho de ATER Indígena. cada vez fica mais claro para todos que não há receita de bolo. mas alcançam também as instituições executoras. de apoio a um maior número de projetos e dos recursos dentro desses. o público beneficiário. ambientais. entre outros. agropecuários. lembrando sempre de trabalhar a partir dos princípios do etnodesenvolvimento. pois prova que sua discussão está sendo internalizada nas mais diversas instâncias e que assim avançaremos de forma coletiva nessa construção. mas deve nascer da base. o mais importante é que eles não se restringem aos gestores.

Outro avanço importante é a desmistificação da ideia bipolar ”bom selvagem” e “índio aculturado” no processo de trabalho. mas a uma visão mais ampla da vida comunitária e uma atuação com esse enfoque. Avançamos no entendimento de que ATER Indígena não remete só a atividade agrícola. Também na gestão pública houve muitos avanços e outros mais são necessários. e que não é possível pensar apenas um aspecto como comercialização. social e econômico estão intimamente ligados. por exemplo. depende do tipo de alimentos. sem divisões como na sociedade envolvente. e pretendemos construir isso junto. Como poderemos perceber ao longo dessa publicação. agropecuária. muitos desafios foram postos e muito aprendizado foi construído na forma. Deixar claro que nas sociedades indígenas o político. Esses rótulos são dispensáveis ao fato de as comunidades quererem acessá-las ou não. sem ver sua repercussão no global. Saber que não é só produzir alimentos. pelo menos dentro da abrangência de sua aldeia. como produzi-lo. na proposta e execução dos projetos. como uma coisa só. se fazem parte da dieta alimentar daquele povo. parcerias e até mesmo que o projeto seja assumido pela associação indígena.112 continuidade ao trabalho de ATER. compreender os processos tecnológicos locais e como as novas tecnologias se inserem nessa realidade. Também são grandes promotores da busca por novos apoios. se são adequadas. As equipes devem estar preparadas para lidar com essa forma de pensar e se organizar e internalizar os processos sociais no seu trabalho. . e fundamentalmente ajudam a dar uma linha bem estruturada nos projetos de acordo com a realidade local. com o relato de algumas dessas experiências. dos valores e hábitos culturais e que podem levar a atividades de enfoque cultural. respeitando as técnicas tradicionais e os princípios agroecológicos e a organização social e economia indígena. visar a Segurança Alimentar e Desenvolvimento Sustentável em Terra Indígena tem como pressupostos o fortalecimento da comunidade. Entendendo que.

Ministério do Desenvolvimento Agrário. Referências Bibliográficas AZANHA. .) Assistência técnica e financeira para o desenvolvimento indígena: possibilidades e desafios para políticas públicas. 2002. 29-37. 2005. BARROSO-HOFFMANN. Gilberto. Antonio Carlos de Souza. Maria (orgs. (org.113 Empenhamo-nos em apoiar e fortalecer uma ATER diferenciada e qualificada que atenda às condições socioculturais e econômicas dos diferentes povos. Rio de Janeiro: Contra Capa.): Etnodesenvolvimento e Políticas Públicas: Bases para uma Nova Política Indigenista. R. pp. In: LIMA. mercado e mecanismos de fomento: possibilidades de desenvolvimento sustentado para as sociedades indígenas no Brasil. Rio de Janeiro/Brasília: Contra Capa Livraria/ Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural. Etnodesenvolvimento. VERDUM.

114 Reinventando Tradições em busca de Soberania Alimentar Dinah Rodrigues Borges Francsico Ralph Martins da Rocha .

Governo do Estado do Acre. Atualmente os paradigmas que norteiam as ações Assistência Técnica e Extensão Agroflorestal e fomento em áreas indígenas é resultado dos esforços de vários atores.br .br 2 Graduado em Ciências Sociais.115 Reinventando Tradições em busca de Soberania Alimentar Dinah Rodrigues Borges 1 Francisco Ralph Martins da Rocha2 A agricultura indígena apresenta aspectos de nomadismo. haja vista que nos “tempos dos direitos”. indo à busca de novas terras para o cultivo de suas sementes e de caça abundante. dinah.rocha@ac. concorreram para que o Estado interviesse. ralph. tendo que se adaptar à nova realidade – com limitações da oferta de alimentos e tendo que trabalhar a recuperação de áreas alteradas. momento em que foram elaborados o Estatuto do Índio (Lei nº 6. governamentais. como o cultivo de roçados e a caça de animais silvestres.borges@ ac.001. O que contribuiu para uma mudança conceitual. movimentos sociais e principalmente o relacionamento paritário que veio sendo desenvolvido ao longo dos anos. percebe-se uma visão 1 Graduada em História e pós-graduação em Agricultura Familiar Camponesa e Educação do Campo. executando ações compensatórias que assegurasse uma alimentação mínima que permitissem a subsistência dos povos indígenas. Essa forma itinerante de utilização do solo e dos recursos naturais garante a sustentabilidade do sistema produtivo e alimentar. sociedade civil organizada. Aliados à elevada taxa de natalidade e às frequentes invasões dos moradores do entorno das TIs. o que implica a necessidade de grandes extensões de terras para o uso dos recursos naturais. de 19 de dezembro de 1973) e as demarcações das TI. Com o desgaste do solo cultivado. com as demarcações das Terras Indígenas (TIs) estes povos encontraram-se restringidos a territórios delimitados.gov. lotada na Secretaria de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar (SEAPROF) do Governo do Estado Acre. as comunidades abandonam as áreas já utilizadas. Entretanto.gov. não governamentais.

(iii) manejo natural da fauna silvestre.116 distorcida da condição dos indígenas. com uma extensão territorial de 2. Contudo. cerca de 17% do território acreano.439. Em 2008. (ii) quintais e sistemas agroflorestais. de 3 famílias linguísticas (Pano. Atividades notadamente em estrita consonância com os estudos sociais. para atender as necessidades das comunidades indígenas impactadas pelo asfaltamento das rodovias BR 364 e 317. distribuídos em 35 Terras Indígenas. piscicultura. visando atender as demandas sem que houvesse um estudo das consequências do paternalismo que. No estado do Acre. Isso resultava na renovação do ciclo vicioso de dependência e subestimação das capacidades e protagonismo indígena. em ações que perpassam pela melhoria do plantel 3 A população indígena do Acre está estimada em aproximadamente 16. Com esse objetivo. em verdade. as atividades que eram realizadas pautavam-se pela imediação. atualmente procura-se atender todos os povos indígenas no estado3. . Logo. ribeirinhas e agricultores familiares de regiões isoladas alternativas na alimentação. concorrendo para a estigmatização e segregação coletiva e individual dos indígenas. (iv) manejo de recursos naturais florestais (flora). se empreendia. na área de produção agroflorestal. inserimos em nosso contexto o Programa de Segurança Alimentar que visa proporcionar às comunidades indígenas.288. que delineia os programas desenvolvidos pela Extensão Indígena: (i) resgate e reintrodução de sementes tradicionais. os quais eram concebidos como em um processo inexorável de assimilação pela sociedade não indígena. culturais e ambientais realizado em cada Terra Indígena (Zoneamento Ecológico e Econômico e Planos de Gestão). pertencentes a 15 povos. Aruak e Arawa). (v) assistência técnica e extensão rural. por meio de ATER e fomento. confeccionou-se o denominado Projeto Estruturante. devido à grande demanda e à necessidade de se trabalhar em bases sustentáveis. a Extensão Indígena começa em 2001.695 hectares. e (vi) formação de Agentes Agroflorestais Indígenas e organização comunitária (associativismo/cooperativismo).

conscientizando-as de seu papel e importância na preservação do meio ambiente. que trata do manejo natural dos animais. Foto 01: Criança Hunikui no roçado de praia. aldeia Mucuripe. Outros povos indígenas já manifestaram o interesse em manejar tracajás que vêm desaparecendo do meio ambiente em consequência da caça predatória. melhoria dos derivados da cana-de-açúcar e melhoria da qualidade da farinha de mandioca. com sucessivas experiências exitosas como é o caso do manejo de tracajás realizado em Assis Brasil. cada ação desenvolvida . roçados sustentáveis. que consiste no repovoamento do rio Yaco pela captura de ovos em locais distantes. para posterior soltura dos tracajás no rio Yaco. sendo atendidos da melhor forma possível. Portanto. Terra Indígena Praia do Carapanã. Outra atividade é o manejo da fauna silvestre em comunidades indígenas. alguns dependendo apenas de ritos burocráticos para se realizar as orientações para o manejo. sistemas agroflorestais (SAFs) e/ou quintais florestais. inserção em tabuleiros com monitoramento dos berçários e eclosão de ovos.117 de galinha caipira. Autora: Daniela Marchese. hortas domésticas. que consiste em delegar competências às próprias comunidades. As premissas que norteiam as atividades estão pautadas no empoderamento dos povos indígenas.

A soberania alimentar traz consigo a valorização regional. Entendemos por soberania alimentar o direito dos povos de definir suas próprias política e estratégias sustentáveis de produção. O avanço do conceito de segurança alimentar para o de soberania alimentar ocorreu devido à percepção de que apenas assegurar a alimentação não era o bastante. onde é dito que: Soberania alimentar é a via para erradicar a fome e a desnutrição e garantir a segurança alimentar duradoura e sustentável para todos os povos.118 nas comunidades indígenas procura fomentar a sustentabilidade social e ambiental. com alternativas agroecológicas e da sensibilização para o uso adequado dos recursos naturais. pesqueiros e indígenas de produção agropecuário. muda-se o foco das ações. nos quais a mulher desempenha um papel fundamental. Soberania alimentar está presente também na vida espiritual e ritualística dos povos indígenas. a autonomia dos povos diante do mercado externo. Defender a . A soberania alimentar favorece a soberania econômica. procuramos adequar as definições a nossa realidade regional e principalmente aos povos indígenas do estado. Cuba. a sustentabilidade que se deseja e. conjugando os conhecimentos tradicionais com as técnicas agroecológicas. política e cultural dos povos. que preveem o uso harmônico da floresta com a produção de alimentos. Diante das várias conceituações sobre soberania alimentar. Isso nos permitiu entender que soberania alimentar está além da qualidade ou da quantidade de alimentos disponíveis nas aldeias. 2001). Consequentemente. respeitando suas próprias culturas e a diversidade de modos camponeses. Uma definição que nos parece sintetizar o entendimento a que então chegamos fomos encontrar na declaração final do Fórum Mundial de Soberania Alimentar (Havana. distribuição e consumo de alimentos que garantam o direito a alimentação para toda a população com base na pequena e média produção. de comercialização e de gestão dos espaços rurais. que outrora eram concebidas como algo alheio aos costumes. consequentemente.

com intuito de não impor o conhecimento técnico em detrimento das tradições indígenas. prioritariamente orientada para satisfação das necessidades dos mercados locais e nacionais. que por sua natureza dialética torna-se dinâmico e está em constante desenvolvimento. Sempre atentos aos devidos cuidados no desenvolvimento das ações. respeitando as diferenças de cada região. cabendo ao estado auxiliá-los na construção e implementação dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTIs). Atualmente. acreditamos. tendo em vista que ambos têm suas limitações. Várias foram as tentativas de auxiliar as comunidades indígenas. Planos de Gestão Territorial e Ambiental: Um Plano de Vida . vinculadas ao território. antes. O objetivo final repousa na sustentabilidade e no empoderamento dos povos indígenas.119 soberania alimentar é reconhecer uma agricultura com camponeses. diversas metodologias de trabalho vêm sendo executadas para contribuir com os conhecimentos tradicionais e subsidiar iniciativas das comunidades indígenas com ênfase no papel secundário desempenhado pelo estado. buscaram construir planos de ação para cada povo. está se consolidando “o tempo do empoderamento”. Diante de ações que agravavam a dependência e oneravam o estado com resultados insatisfatórios. Entretanto. esbarrava-se na dificuldade de compreender as especificidades dos diferentes povos indígenas e de identificar suas reais necessidades. como também pela comunidade em parceria com outros atores imbuídos com a questão indígena. Dessa forma. busca-se apoiar atividades em estrita consonância ao que está previsto nestes planos. Confere-se aos povos indígenas a autogestão de seus territórios e dos recursos naturais. buscou-se. Posteriormente. os costumes milenares e atuando de forma integrada. seguindo paradigmas dialógicos. Essa distribuição de responsabilidades é de fundamental importância. uma cooperação mútua entre estado e comunidades. as entidades governamentais envolvidas com a questão indígena. Entretanto. a junção das aptidões faz com que as ações sejam promovidas não somente pelo estado. indígenas e comunidades pesqueiras.

retornam às comunidades para revisão (validação). . indicando os anseios. os recursos financeiros e humanos são otimizados. Acre. in loco. De posse desses verdadeiros planos de vida. objetivos a serem alcançados em curto. Os Planos de Gestão Territorial e Ambiental desempenham um duplo papel. bem como identificados e delegadas competências a cada um dos envolvidos na consecução das ações. governamentais e não governamentais. são abordadas as fragilidades. De um lado. busca dialogar com as comunidades indígenas. Dos debates e discussões resulta a elaboração de “etno mapas”4.120 Os Planos de Gestão Territorial e Ambiental consistem em realizar oficinas. 5 Conhecidos como povo Katukina da Terra Indígena Katukina do Campinas – Cruzeiro do Sul. 4 Cartografias das Terras Indígenas constando os recursos naturais presentes. a vocação produtiva de cada povo e as áreas destinadas a cada uma das atividades exercidas na Terra Indígena. o que os ajuda a identificar as suas próprias responsabilidades e a buscar outras parcerias. abandonam-se as velhas práticas de atender “demandas de balcão” em favor de políticas públicas que seguem diretrizes propostas pelos próprios povos indígenas. Dessa maneira. com o objetivo de fazer junto com as comunidades um levantamento das iniciativas presentes nas Terras Indígenas. discute-se com as comunidades as ações realizadas na Terra Indígena. onde se processam as alterações e/ou possíveis adições. contando com a participação de equipes interinstitucionais. De outro lado. que depois de confeccionados. Nestas oficinas itinerantes. e do que pretendem realizar em conjunto ou até mesmo se existem ações exclusivamente de âmbito interno da comunidade. visando dimensionar seus planejamentos com a realidade das comunidades e da Terra Indígena. assim intitulado pelo Povo Nuke Kui5. Intitulam-se Povo Nuke Kui (gente verdadeira). médio e longo prazo. fornecendo-lhes a exata medida das ações do Estado. instrumentaliza os entes governamentais com informações precisas de tudo aquilo que consta nas aldeias. potencialidades.

Estão previstas ações de monitoramento e avaliação da efetiva execução das propostas existentes nos planos.121 além do amparo legal que tais documentos proporcionam aos técnicos de campo que visitam as aldeias. e. como tal. Atualmente os PGTIs fazem parte das políticas públicas do Acre e. estarão sendo dialogados e construídos em todas as Terras Indígenas. Só estes agentes têm condições de prestar uma efetiva e eficiente assistência técnica em suas comunidades. o que demanda um tempo maior entre os escritórios regionais e as aldeias. Os AAFIs superam uma dificuldade regional de deslocamento e longas distâncias percorridas pelos técnicos da Seaprof. Visando estabelecer verdadeiras políticas públicas respeitando a autonomia dos povos indígenas. onde são capacitados em diversas técnicas de manejo agroflorestal. destes 69 recebem uma bolsa estudante pago através da Seaprof. pois somente eles são capazes de dialogar com os anciãos indígenas que ainda conhecem sementes. . e a definição de ações pontuais onde o governo do estado possa atuar como parceiro. o que os ajuda a ter uma visão abrangente do que vem sendo trabalhado nas aldeias. além da logística que se emprega nas viagens. pois há um estudo prévio dos Planos. A Importância do Trabalho dos Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs) Os Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs)6 são membros escolhidos pelas suas próprias comunidades para participarem de cursos de formação continuada de iniciativa da organização não governamental Comissão Pró Índio do Acre (CPI-Acre) e pela Secretaria de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar (Seaprof). formas ancestrais de cultivo e coleta de produtos florestais. no momento das demandas. os AAFIs representam um avanço na 6 Atualmente existem cerca de 126 Agentes Agroflorestais Indígenas. compreendê-las e posicionar-se consoante os Planos de Gestão construídos.

na preservação da qualidade dos cursos d’água. são as pessoas de referência no quesito produção. com objetivo de ter o reconhecimento profissional de sua categoria. Por também trabalharem como formadores de opinião dentro de suas comunidades. Como resultado desta parceria entre populações indígenas. encontros e oficinas que são ofertados em âmbito estadual e nacional. muitas formas de manejo da fauna e da flora nativas foram desenhadas e estão sendo colocadas em execução. inserindo neste contexto os habitantes do entorno de seus territórios. Neste ínterim. entidade jurídica que luta pelo fortalecimento dos AAFIs e visa buscar meios de estabelecer um relacionamento interinstitucional com o Estado. seus deveres e direitos contidos nos instrumentos jurídicos. sendo envolvidos nos mais variados cursos.122 relação entre as entidades governamentais e as comunidades indígenas. Em busca do fortalecimento dos AAFIs. sociedade civil. governo e principalmente graças à formação não só técnica. preenchendo lacunas que permitem atualmente uma maior interação das ações governamentais junto às comunidades indígenas. o atual governo do estado do Acre está convencido da importância das atividades desenvolvidas pelos Agentes Agroflorestais Indígenas. procurando agregar valor às suas produções e atentos ao uso da terra. Mas todos estes processos se encontram em desenvolvimento e devem ser entendidos como nunca findos. foi instituída a Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas (AMAAI-AC). multiplicando-se à medida que as comunidades conscientizam-se da importância do uso sustentável. fomentando a autogestão de suas . do seu papel perante o Estado. As comunidades estão se organizando em torno de ações de vigilância e fiscalização. considerando-os parceiros na preservação e manejo sustentável do meio ambiente. mas também política destas comunidades. os AAFIs transmitem às novas gerações a real importância de sua cultura. Hoje esses agentes representam o elo das ações de ATER e fomento em áreas indígenas.

como por exemplo. • Manejo natural de tracajás. a) Atividades desenvolvidas pelos Agentes Agroflorestais Indígenas A seguir. produção de açúcar mascavo. mas também trabalham em prol da toda sua comunidade. • Implantação de horta orgânica. • Produção de mudas para implementação de Sistemas Agroflorestais. • Construção de barragens para a criação de peixes e tracajás. • Tratamento do lixo inorgânico. • Aquisição e multiplicação de sementes tradicionais nos roçados e praias. Concebidos como verdadeiros defensores da floresta. tornando-os protagonistas de sua própria história. o valor mensal recebido a título de bolsa-auxílio não fica somente com o titular. elencamos as principais atividades de responsabilidade dos AAI como agentes de promoção local: • Acompanhamento em todas as atividades de produção de alimentos.123 terras. • Manejo de caça e pesca. Nesse sentido. • Manejo natural de animais silvestres. mas geralmente é repartido entre os seus “parentes” constituindo verdadeiro capital social. criação semi-intensiva de galinhas caipiras. • Vigilância e fiscalização do entorno da terra. os Agentes Agroflorestais Indígenas exercem suas atividades não somente para seu próprio sustento. . rapadura e outros derivados da cana de açúcar. produção da farinha e derivados da macaxeira. fomentando uma cadeia solidária de autogestão de seus territórios. assegurando a qualidade da alimentação das comunidades. piscicultura.

• Apresentar resultados positivos tais como: implantação de SAFs (no mínimo 01 hectare). • Ser escolhido pela comunidade. professores. • Ter bom relacionamento. as entidades que as representam e os parceiros governamentais e não governamentais. lideranças. as sementes tradicionais representam a resistência contra as formas coloniais e liberais de dominação e instauração de desigualdades entre povos e culturas e a esperança de soberania alimentar num futuro . assim como os demais segmentos dentro da comunidade. gestão ambiental integrada com a comunidade. Resgate de Sementes Tradicionais O resgate de sementes tradicionais antecede quaisquer iniciativas governamentais ou não governamentais e já se configurava numa das principais preocupações e anseios dos povos indígenas. Os principais critérios que os indicados têm de atender são: • Residir na aldeia. buscando melhorias para a sua comunidade. Assim como os indígenas. em especial as mulheres. • Exercer atividades integradas com os agentes de saúde.124 b) Critérios da Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas (AMAAIAC) Os critérios estabelecidos pela AMAAIAC para indicação dos agentes agroflorestais indígenas são fruto de intensas discussões envolvendo as comunidades indígenas. crianças e jovens. • Afinidades aos trabalhos de desenvolvimento social e ambiental. • Capacidade de articulação com a comunidade e as instituições governamentais e não governamentais.

Dois séculos de submissão resultaram em transformações na cultura dos povos indígenas. Devido ao contato com a sociedade envolvente. Acho que isso foi a maior ameaça que perdeu. as formas tradicionais de cultivo foram proibidas pelos “colonizadores sulistas” (seringalistas) que os sujeitavam exclusivamente ao trabalho na extração do látex (matériaprima da borracha). Agente Agroflorestal Indígena. muitas vezes deixa seus roçados pra trás. A esperança dos povos indígenas em resgatar o máximo de sua tradição. Seu aproveitamento se reporta à própria origem dos povos indígenas. que após processado resulta em borracha. a gente não tinha uma terra definida. O patrão buscava outro patrão que levava para trabalhar em outro seringal. em colocações. as correrias. no que tange ao cultivo das sementes.Árvore medindo de 20 a 40 m de altura e caule cilíndrico. e passava. Seu principal produto consiste na resina que é retirada do tronco. . 2008). retirado de seringueiras7. encontrou amparo nos paradigmas agroecológicos desenvolvidos 7 Hevea brasiliensis (HBK) M. por meio do programa de resgate e reintrodução de sementes tradicionais. onde tinha patrão. compreendeu que as sementes tradicionais e conhecimento associado representam muito mais do que um simples alimento. a Secretaria de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar (Seaprof). Dialogando com os povos indígenas. só podia levar uma quantidade de sementes. assim como o trato dos roçados não correspondiam com os costumes milenares. em outra colocação. Tarauacá-Acre.125 próximo. . muitas variedades de muitos produtos. Arg. perdemos realmente muitas variedades talvez algumas espécies. Eu acho que o maior responsável pelas perdas das sementes foi o contato mesmo. configura-se num verdadeiro patrimônio cultural. da TI Praia do Carapanã. Entrevista concedida na Oficina de Sementes Tradicionais. de muitas plantas (Zezinho Yube. as novas gerações já não contavam com várias espécies de sementes tradicionais. morava em vários lugares diferentes.

representantes Carapanã. Devido às especificidades de cada comunidade. localizada no município de Assis Brasil. foram propostos bancos de sementes tradicionais itinerantes. TI Praia do Agentes Agroflorestais Indígenas. Vem sendo realizado junto às comunidades indígenas o resgate e reintrodução de sementes tradicionais que algumas comunidades perderam ao longo do contato com a sociedade não indígena. tão logo estejam produzindo excedentes. O monitoramento das trocas. que solicitaram ao governo do Estado a reintrodução do amendoim tradicional que eles tinham perdido durante o contato.126 pela Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER). A reivindicação partiu dos mais velhos para os Agentes Agroflorestais Indígenas. disseminem as espécies em outras localidades. de 14 Terras Indígenas . que consiste em doações e trocas de sementes entre diferentes comunidades indígenas. Autora: Daniela Marchese. jovem Hunikui. a Seaprof promoveu a primeira Feira de Sementes Foto 02: Juliana. O evento contou com a participação de 69 no roçado de praia. Estes têm o compromisso de que. alimentado com auxílio dos Agentes Agroflorestais Indígenas. No ano de 2006. doações e cultivos ficaram ao encargo da Extensão Indígena que atualmente conta com um banco de dados consolidado. segurando amendoim Caboclas do estado do Acre. Esse processo teve início com a solicitação das comunidades Manchineri da Terra Indígena Mamoadate. Aldeia Mucuripe.

O diferencial que torna esta ação única é a concepção dos bancos de sementes tradicionais. Desta forma. Em 2007. catalogadas e monitoradas pela Extensão Indígena que coordena a doação e a troca. Com isso. em Rio Branco. consolidar a autonomia dos indígenas. permitindo um levantamento fiel das variedades e a localização das sementes. que podem coletar as sementes destas variedades e replantá-las no ano seguinte. a Seaprof. os bancos que estão sendo constituídos pelos povos indígenas estão localizados nos próprios roçados de suas comunidades. que ficaram à disposição para conhecimento e trocas entre os participantes. firmando o compromisso de disseminá-las em outras comunidades tão logo colham em quantidade suficiente. junto à Secretaria de Educação. A ação de troca e resgate de sementes tradicionais prevê a doação de sementes aos diferentes povos indígenas que manifestam interesse de participar do processo. As sementes plantadas são cuidadas pelos Agentes Agroflorestais Indígenas. As sementes para os povos indígenas têm caráter sagrado. adquirem maior independência do mercado de insumos e geram um material genético cada vez mais vigoroso e adaptado ao tipo de solo e clima. como forma dos alunos terem alimentos saudáveis. com exposição de sementes resgatadas pelas comunidades. mesmo que a perda de determinadas sementes ocorra em determinadas áreas. sobretudo. as variedades tradicionais atendem a um dos princípios básicos da agroecologia: são capazes de tolerar as variações ambientais e os ataques de organismos prejudiciais e. ao mesmo tempo em que revivem as memórias e tradições dos antigos. Além disso. a reintrodução destas variedades está garantida. Distintamente do que é proposto pelas entidades afins. As discussões reafirmaram a importância do resgate das sementes tradicionais. realizou oficinas de regionalização da merenda escolar indígena na Terra Indígena Mamoadate com os povos Jaminawá e Manchineri. auxiliando na soberania alimentar destas comunidades e perpetuando as variedades. Concomitantemente resgatando . A feira aconteceu no pátio da Seaprof.127 e 69 aldeias.

promover a sustentabilidade com inserção de espécies rústicas e resistentes a pragas. Esses materiais são os norteadores que seguimos. Todas as ações que buscamos realizar com as comunidades indígenas estão previstas tanto nos Planos de Gestão Territorial e Ambiental como também no Zoneamento Ecológico e Econômico (ZEE) e no Etnozoneamento. a soberania alimentar que decorre da vontade de autonomia.725 indígenas. sustentáveis e duradouras. oportunizando às famílias condições para recriar suas próprias estratégias de alimentação e a tão sonhada soberania alimentar. sobretudo. a autogestão com envolvimento dos membros das comunidades na inserção e acompanhamento dessas espécies. Kaxinawá (Jordão e Tarauacá) e Yawanawá (Tarauacá). beneficiando em torno de 3. Projeto Estruturante – Extensão Indígena. de 21 variedades de sementes tradicionais. e.128 e valorizando as tradições dos povos indígenas. Resgatar e reintroduzir sementes tradicionais representa uma síntese do cuidado que tem orientado as ações nos território indígenas no Acre: valorizar os conhecimentos. Referências Bibliográficas ACRE. as histórias e as culturas dos povos indígenas. Governo do Estado do Acre. além das 27 variedades trocadas entre os povos indígenas participantes do V Encontro de Culturas Indígenas e I Jogos da Celebração. Em dois anos foram doados 961Kg. contemplando os povos indígenas Katukina (Cruzeiro do Sul). visando ofertar aos povos indígenas ações conjuntas. Manchineri e Jaminawa (Assis Brasil e Sena Madureira). Secretaria de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar – . ao mesmo tempo que proporciona uma alimentação saudável de forma limpa e permanente. Essa é a forma que encontramos de respeitar e promover o conhecimento e as tradições dos povos indígenas.

ACRE. Zoneamento EcológicoEconômico do Acre Fase II: documento Síntese – Escala 1:250. 2006. Governo do Estado do Acre.129 SEAPROF: 2008. Rio Branco: SEMA. Programa Estadual de Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado do Acre. .000.

Gomide Daniela Lima .130 Capacitação dos Agricultores e Agricultoras Xavante no Uso e Conservação da Agrobiodiversidade no Cerrado Hiparidi D. Top' Tiro Maria Lúcia C.

org.br 3 Daniela Batista de Lima – antropóloga consultora da Associação Xavante Warã e assessora da Mobilização dos Povos Indígenas do Cerrado (MOPIC). a realização de oficinas sobre sistemas agroflorestais e outras estratégias de cultivo das principais espécies e a elaboração de materiais didáticos. danielalima@mopic.com. Top’ Tiro1 Maria Lucia C.131 Capacitação dos Agricultores e Agricultoras Xavante no Uso e Conservação da Agrobiodiversidade no Cerrado Hiparidi D. Essa capacitação tinha como finalidade fortalecer a autonomia da população Xavante quanto à gestão dos recursos naturais do Cerrado. e teve como principal objetivo a capacitação dos agricultores Xavante. o manejo dos viveiros. geógrafa consultora da Associação Xavante Warã malugomide@yahoo.org.Membro da Associação Xavante Warã e Coordenador Geral da Mobilização dos Povos Indígenas do Cerrado (MOPIC). Top’tiro . a partir do desenvolvimento de alternativas autossustentáveis. a construção de viveiros com tecnologia adaptada às condições locais.br . da Terra Indígena Sangradouro/Volta Grande no estado do Mato Grosso.br 2 Maria Lucia Cereda Gomide. hiparidi@mopic. Gomide2 Daniela Lima3 Introdução O Projeto “Capacitação dos Agricultores e Agricultoras Xavante no uso e Conservação da Agrobiodiversidade no Cerrado” foi executado pela Associação Xavante Warã. Dentre os objetivos específicos do projeto. entre os anos de 2005 e 2007. destacamos os seguintes: realizar um Diagnóstico Etnobotânico acerca dos conhecimentos dos recursos vegetais do cerrado e das áreas cultivadas. Uma das características ou diretriz geral que buscamos garantir ao longo da história desse projeto foi a de priorizar a autonomia dos Xavante. a coleta de sementes e mudas no cerrado e nas áreas agricultáveis. daí porque ele tenha sofrido alterações relativas ao tempo de execução das 1 Hiparidi D.

eles devem ter certa flexibilidade. Parabubure. Marechal Rondon. se autodenomina como A´uwê (povo). Em decorrência da perseguição dos bandeirantes. Pimentel Barbosa.132 ações. Suas terras estão localizadas predominantemente em áreas dos cerrados. Areões. estar abertos ao diálogo intercultural e considerar as peculiaridades que permeiam a lógica sociocultural dos povos indígenas. culturais e sociais dessas sociedades. pertencente ao tronco linguístico Macro Jê. depois de dois séculos e meio de história Xavante. Os A’uwe Xavante O povo Xavante. Isso se deveu à necessidade do povo Xavante realizar diversos rituais que envolveram diretamente todos os membros das comunidades. Entendemos que essa perspectiva também deve ser adotada pelos órgãos financiadores. No mapa a seguir pode-se visualizar a situação das Terras Indígenas Xavante na atualidade. onde se encontram até os dias atuais situados em nove Terras Indígenas fragmentadas. a saber: Sangradouro. São Marcos. Chão Preto e Marãiwatsede. Assim. Ubawawe. . os A’uwê foram submetidos a um processo migratório que desencadeou na travessia do Rio das Mortes e a chegada no estado do Mato Grosso. a primeira lição extraída da execução do projeto é a de que tanto na concepção quanto na aplicação de projetos envolvendo povos indígenas deve-se levar em consideração o dinamismo e as relações temporais.

reconstruindo roças. Nessa época. tanto pela expansão da pecuária como por garimpeiros. A partir da década de 1930. próximas ao território Xavante. o trabalho desses sacerdotes se caracterizou pela insistência. antecipando-se ao SPI. Nesta época iniciaram-se as primeiras tentativas dos salesianos de aproximação aos Xavante. como sinais evidentes de uma recusa a essa aproximação. Em 1943. Silva (2007) Fatos importantes da história desse povo.: Maria Lucia C. Segundo Ravagnani (1991). por intermédio da “frente de atração” Pimentel Barbosa. a partir do século XX. foram analisados por alguns autores. o SPI firmou convênio com a . Gomide & Marcelo M. Praticamente forçaram o povo Xavante a aceitar o contato. entre eles destacamos Oswaldo Martins Ravagnani e Aracy Lopes da Silva. cruzes e ranchos que eram constantemente destroçados. o território Xavante vai sendo cercado. Todos os membros da equipe foram mortos. e pretendiam expandir sua catequese anexando esse povo. Após este episodio e com o objetivo de colonizar a região. os salesianos já haviam reunido os Bororo nas Missões de Meruri e Sangradouro. O Serviço de Proteção aos Índios (SPI) fez uma primeira tentativa de contato em 1941.133 Org.

a Expedição entra em território Xavante.cit. serviam-se da terra como valorosa arma de manutenção do poder e de .134 Expedição Roncador Xingu e a Fundação Brasil Central. além das empresas de colonização que desenvolveram núcleos urbanos que mais tarde se tornaram as cidades nos limites das Terras Indígenas (Gomide 2009). em 1944. que participam da atração dos Xavante. Neste contexto. verifica-se que seus territórios eram justamente áreas onde havia interesse na prospecção de minerais. e as missões salesianas de São Marcos e de Sangradouro (idem). O estado do Mato Grosso “. Durante as décadas de 1950 e 60. Do final dos anos 1950 até final de 1960.. os quais vão sendo continuamente ameaçados pela intensa ocupação do entorno por fazendeiros. com a expedição chefiada pela sertanista Francisco Meireles. posseiros. fragmentos do antigo território são controlados por cada subgrupo Xavante (que são as unidades políticas). com o objetivo de colonizar a região.. Ganha destaque a atuação dos irmãos VillasBoas. Assim. fecha-se”. o reconhecimento legal das terras Xavante e sua demarcação se depararam com grande oposição dos fazendeiros que tinham títulos de propriedade dados pelo governo do estado do Mato Grosso através do departamento de terras e colonização estadual. Na região compreendida entre Aragarças até o rio das Mortes. com o objetivo de “atrair” os Xavante.373) é caracterizado pela convivência cotidiana com os postos indígenas. Neste período os Xavante passam a viver o confinamento territorial e o contato constante com o branco. Assim seu “microuniverso” (LOPES DA SILVA op. Aos Xavante foi colocado o seguinte dilema: ou realizar uma política de aproximação com seus vizinhos ou se submeter à guerra (Ravagnani 1991). que se concretiza em 1946. Esse acontecimento foi amplamente divulgado pela imprensa. tem início a ação de “pacificação” do povo Xavante. “o panorama antes vasto. primeiramente o SPI depois a Funai. A Expedição Roncador-Xingu (ERX) foi organizada em 1943. as transformações foram intensas. Em relação aos Xavante.

ou mesmo no imaginário brasileiro. próximas às Terras Indígenas. Esta situação resulta do avanço do capitalismo e da ganância sobre os territórios indígenas. Em 1982. O próprio Estado atua de modo ambíguo: ao mesmo tempo em que possui uma legislação que garante os direitos indígenas. basta observar o episódio sobre a contestação da homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol em Roraima. Esta posição nacionalista é recorrente entre os políticos e esferas de poder locais. . entretanto nestes 50 anos a luta dos Xavante por seu território nunca cessou. por este motivo ocorreu uma expedição de títulos falsos de propriedade (Gomide 2009). que comumente é contrário ao direito indígena aos seus territórios4. onde o desrespeito a esses povos é o que predomina. Não é por outro motivo que o território Xavante foi demarcado em ilhas descontínuas. em 2008. lideranças Xavante disputam e conquistam cargos de vereadores nos municípios próximos às Terras Indígenas. os Xavante reconquistaram parte do território em meio a intensos conflitos e violências vividos desde a “pacificação”. Nos anos 1980 e 1990 são criadas associações indígenas e inicia-se o desenvolvimento de projetos alternativos. a própria Funai foi contrária aos índios alegando que os Xavante pretendiam formar a “Grande Nação Xavante“. No início da década de 1970. devido às reivindicações indígenas para a revisão da TI Sangradouro. 1992:372). patrocina projetos de colonização sobre os territórios indígena (vide a “Marcha para o Oeste”) e na atualidade é um dos principais apoiadores e incentivadores do agronegócio na região (Gomide 2008).135 conquista de apoio político” (LOPES DA SILVA. 4 Essa mesma política e ideologia são ainda vigentes no país.

a qual começa a ter um notável crescimento após a demarcação das Terras Indígenas.136 Tabela 01: Situação fundiária das terras indígenas Xavante Os Xavante viveram uma crise demográfica após o contato com a sociedade envolvente. Os dados sobre a . decorrente de diversas epidemias e violência contra a população. a partir da década de 1940.

No Brasil a média é de 23. passando de 26.49 em 2000.70 óbitos por mil nascidos vivos em 1997. para 23.5 por mil e 133. ambos situados nas proximidades das terras Xavante. (SEPLAN. Coimbra Jr. (Seplan.95% desta população localizada na zona urbana.854.89% ao ano. 2008). a taxa de crescimento populacional é de 1. Os povos indígenas estariam vivendo um “complexo processo de transição epidemiológico”.642 habitantes em 2007.2008) . enquanto que entre os povos indígenas é de 56. estando 76. a tendência histórica tem sido de queda contínua. o que reflete a situação de colonização a que estão submetidos estes povos. muito acima da média nacional. 2009) O Entorno das TI Xavante A população do Mato Grosso teve um grande aumento em poucas décadas. Santos. com populações de cerca de 53.137 demografia indígena como um todo e a Xavante em particular apontam para as altas taxas de mortalidade infantil.7 por mil. onde ao lado de doenças infecciosas e parasitárias. observa-se uma grande disparidade. Entre os municípios com maior população do estado do MT. 2004) Comparando os dados da mortalidade infantil da população Xavante com aqueles do Brasil especificamente com o estado do Mato Grosso. que também está em área de influência das TIs Xavante.6 por mil entre os Xavante. Segundo estimativa do IBGE. enquanto que a Xavante é quase seis vezes maior. estão Barra do Garças (8ª lugar) e Primavera do Leste (10 ª lugar). ocorre aumento importante de doenças crônicas não transmissíveis assim como outras causas externas (Souza. (Gomide. No Mato Grosso. Destaca-se ainda Rondonópolis.729 habitantes respectivamente. A média de mortalidade indígena é duas vezes maior do que a brasileira. com uma população de 2.243 e 44.75 mortes por mil em 2005. e chegando a 17.

A degradação das matas ciliares também está. e a consequente extinção da vegetação nativa. em particular do povo Xavante. a partir da constatação de que parte das atividades planejadas não eram coerentes com determinadas práticas tradicionais. em vinte anos o aumento na produção agrícola foi 650%. como a contaminação de solos e águas pelo uso intenso de agrotóxicos nas culturas de soja (pulverizadas por via aérea).89 milhões de toneladas até o final de 2007. em 1987. “branco”. verifica-se que há uma forte situação de risco à sobrevivência física e cultural dos povos indígenas. entre outros itens. A despeito de estas TIs estarem fortemente ameaçadas pelas atividades do entorno.br 6 Waradzu significa “estrangeiro”. há a introdução de gramíneas exóticas para a formação de pastagens. algodão.Descompassos Embora o projeto tenha sido elaborado com a participação efetiva dos Xavante. relacionada à criação de gado. passou a 17.com. também ocorrem consequências indiretas do agronegócio5 no entorno das TIs. Em decorrência da concentração da monocultura da soja. como o processo crescente de urbanização e implantação de infraestrutura como estradas. Com base no acima exposto. Os números são da Federação de Agricultura e Pecuária (Famato). houve mudanças significativas no decorrer de execução do mesmo. em muitos casos. desmatamentos e queimadas. estas áreas ainda guardam a rica biodiversidade dos cerrados no leste mato grossense. soja. Em relação à pecuária além dos desmatamentos e queimadas.75 milhões de toneladas produzidas de milho. São Marcos. Ou seja. Essas mudanças foram sugeridas pelos próprios indígenas. de 2.138 Existem quatro Terras Indígenas Xavante localizadas na bacia do rio das Mortes: Sangradouro/ Volta Grande. Ações Waradzu6 X Ações A’uwe Xavante .sonoticias.[Fonte: Só Notícias . Entre essas atividades “conflitantes” está a construção e manejo 5 Com o desenvolvimento do agronegócio no Mato Grosso.07/04/2009 http://www. Areões e Pimentel Barbosa. hidrovias e hidrelétricas. . “não índio”.

tem diversas conotações socioculturais que necessitaram ser analisadas e refletidas por todos os . com duração de meses. ai vai e come. a bocaiúva. a gente joga no quintal ai brota é só isso. Isso fica claro no que é dito a seguir por uma anciã Xavante: A gente pega as coisas que comeu. onde a limitação territorial e a sedentarização ocasionaram mudanças bruscas. para nós não existe viveiro. os quais se definem como guerreiros. eram fundamentais na dieta alimentar Xavante. que a nós waradzu. todavia não são mais realizados como em tempos passados em decorrência da limitação territorial. não significou a assimilação absoluta de novos hábitos. Desta forma. eram de suma proeminência na manutenção dos aspectos culturais do povo A´uwê Xavante. é assim. práticas novas se considerarmos o padrão tradicional Xavante. remete a algo “simples”. durante período integral do ano as coletas – de frutos. vai brotando ai cresce . tais como o zomori. plantar a gente joga no Cerrado ai nasce ai dá fruta. Neste sentido. ou caçada longa. complementada com as colheitas da roça e a caça. detêm uma visão de mundo onde os limites demarcatórios são inexistentes.139 dos viveiros e a utilização das mudas na formação de quintais. é só jogar. É só isso. com destaque para questão fundiária. a incorporação de novas técnicas. As gerações mais antigas viveram nas amplitudes do cerrado. mas sim uma adaptação que vem sendo reelaborada pelos Xavante. como a criação de viveiros. (Laura. Os movimentos pelo território. raízes – feitas em geral pelas mulheres. A bocaiúva não foi plantada. Terra Indígena Sangradouro). jatobá e a gente atira a semente e joga ai que dá. Como mencionado. a sedentarização forçada. Por outro lado. o modo de vida dos Xavante foi submetido a intensas transformações. a qual antes de partir para as expedições cultivava as roças de toco. e era acompanhado por toda a comunidade. por conseguinte. Nós não fazemos a plantação. caçadores e coletores e cultivam uma relação de extrema importância com o cerrado. O zomori caracterizava-se pelas atividades de caça e coleta no Cerrado.

assim como as histórias vivenciadas pós-contato. Como relatado pela anciã Laura. não ocorreu de forma homogênea nas Terras Indígenas. às roças de toco. porém a implantação dos mesmos. A finalidade dos quintais é contribuir para o abastecimento alimentar. deveria seguir outros rumos: priorizar a valorização das técnicas tradicionais Xavante.140 envolvidos no projeto. nos quintais eventualmente nasciam frutas que haviam sido consumidas e ali depositadas as sementes. no uso e conservação da agrobiodiversidade existente no cerrado. homens. conclui-se que a pretensa “capacitação” dos agricultores e agricultoras Xavante. por exemplo. estas frutas eram resultado das coletas feitas nos cerrados. No caso das Terras Indígenas Xavante Sangradouro e São Marcos também existem plantios feitos pelos missionários salesianos. e as transformações advindas da introdução de técnicas agrícolas conflitantes com a cultura Xavante. que tanto caracterizam o modo de vida deste povo. Contribuições do Projeto Dentre os principais aspectos positivos do projeto destacam-se as discussões com anciãos. como os movimentos de caça e coleta pelos cerrados. Em suma. sofreram alterações quanto à forma de cultivo. Atualmente cultivam-se diversas espécies exóticas obtidas da FUNAI ou de projetos executados pelas próprias organizações indígenas. mulheres e jovens Xavantes em torno de assuntos concernentes às práticas tradicionais relacionadas à “conservação da agrobiodiversidade” no Cerrado. . à origem dos alimentos. dimensões e espécies cultivadas. bem como as ações referentes à criação de viveiros. Nesse contexto salientaram-se as histórias e mitos Xavante concernentes à agricultura. As grandes mangueiras existentes nas Terras Indígenas nos dias atuais foram plantadas na época do Serviço de Proteção ao Índio. Os quintais tradicionais.

só comiam pau apodrecido. A história do milho Xavante apareceu no pé de jatobá e é a origem da roça de toco (Mulher Xavante da Terra Indígena São Marcos. Quando era adolescente. ‘A mulher estrela’. cuja origem está relacionada com os mitos da descoberta das sementes do milho e a descoberta do fogo: A origem da roça de toco é desde a descoberta do milho Xavante (nodzo). O surgimento da roça de toco é só depois da descoberta do fogo.141 O cultivo das roças de toco ganhou maior importância para os Xavante após o contato com a sociedade ocidental. estas histórias são relatadas nos mitos: ‘O roubo do fogo da onça’. Hoje. Trabalhavam junto com o namorado(a). Antigamente se não trabalhava não havia alimentos. ocasionando o abandono das roças tradicionais com o consequente desaparecimento das sementes nativas. Seguem relatos registrados pelos próprios Xavante sobre como se cultiva a roça de toco. ou depois de se tornar ritéi´wa (jovem iniciado) começa trabalhar para os sogros. As mulheres ajudam os maridos a trabalhar na roça. porque não havia ainda os alimentos cultivados nas roças de toco (não conheciam as sementes). Os mais velhos comentam do tempo em que “só comiam pau podre”. como o realizado durante o desenvolvimento do presente projeto. com a realização de intercâmbios de semente entre os Xavante. Assim à origem das roças estão relacionadas a origem do fogo e dos alimentos cultivados. 2006). 2009). todavia. e nem o uso do fogo (os alimentos não eram cozidos). comentam as etapas do trabalho na roça: Queimar as árvores. Os projetos de “desenvolvimento comunitário” da FUNAI contribuíram para modificar a vida cotidiana e alterar as práticas agrícolas em algumas aldeias. capinar capim com borduna e depois levar para a beira da roça com baquité (cesto). . ‘Os periquitos’ (Gomide. Nos depoimentos a seguir mulheres de São Marcos. há esforços no sentido de reverter tal situação.

E depois debulhavam a semente e armazenavam no “Tsi’ra” e os velhos faziam mesmo o tsi’ra. Antigamente trabalhavam muito. Para a roça se derruba as árvores e depois colhem os galhos e leva até a beirada. chega quase na ponta da casa. os namorados ou recém-casados já se conhecem bem . Quando acabavam distribuíam novamente para cada casa.. dividia a roça pra mandioca. planta milho Xavante com Brudu. mas ao contrário de antes só há preguiça.142 Os capins que já secaram são levados para a beira da roça com baquité.. milho Xavante e também tem um terreno de moça recém-casada. antigamente.. Ah! O feijão Xavante colhiam também junto com o milho Xavante. Depois pegavam madeiras com forquilha para pendurar muitos tsi’ra na frente das casas. E no outro terreno do outro filho.. outra plantação e assim o pai dividia a roça. Os capins que já foram arrancados são levados para beirada da roça nos baquité. machados. A roça mecanizada vem do desmatamento. Na roça se faz queimar os pés das árvores e assim se derrubam. 2006) . (Mulher Xavante da Terra Indígena São Marcos. Esse pau onde se amarram os milho é muito alto. Atualmente se usa ferramenta para trabalhar são: enxadas. trabalhavam juntos e não é como hoje que ficam conversando na roça. E assim que secarem vão colhendo e trançando. O namorado dessa moça. Só querem namorar e dinheiro. o milho Xavante ( nodzo). facas. Se a roça esta pronta. estudo e dinheiro. só viam trabalho. Dentro da casa tem a madeira para pendurar o milho-nodzo que já trançaram as palhas. Antes tinham muitos alimentos. Os filhos recém casados levavam para casa em grande quantidade para dentro da casa. tipo a borduna.

os jovens não escutam. trabalham menos. Quando era machado cortavam pedacinho e distribuíam entre eles. Tsinhõtse´e´upa. mesmo que fique muito perto. Atualmente os jovens e adultos não conhecem as ervas medicinais. Se chamava Hotoratamá. Depois faziam com cabo de madeira o pedacinho de machado. são preguiçosos. mesmo transmitidas para os filhos. tomavam das ferramentas deles. Atualmente já usam essas ferramentas no trabalho e ficam em pé. . e não se preocupam. E com ela trabalhavam sentados muito rápido. Os Xavante que pegavam facas dos waradzu cortavam com Rodoi’a – Ete’A (pedra branca) e mesmo com pedacinho de faca trabalhavam rápido. Conheça esta planta para você estar curando seu filho e para você estar usando também. 2006:9). (Mulher Xavante de São Marcos. então. Os velhos são pacientes. 2006). Os Xavante observam e se preocupam muito com as mudanças nos hábitos alimentares. Atualmente mesmo que tem o conselho dos velhos. também vai caçar para sustentar seus filhos (Bernardina Renhere Xavante. porque só querem comida waradzu. Quando os sogros ou mãe não dão dinheiro para o genro jovem aí fica mais preguiçoso ainda. mas ao contrário.143 Antigamente os Xavante caçavam os waradzu e quando encontravam. assim como pelo tipo de trabalho que antes era realizado: A diminuição dos conhecimentos tradicionais com as ervas. por isso não aprendem nada. não conseguem andar e buscar as ervas. mesmo que não entendem o conhecimento waradzu. A introdução do dinheiro induziu o desinteresse pelo conhecimento tradicional. O povo antigo trabalha muito na roça. eles são melhores. do que vão estar trabalhando com os filhos? São preguiçosos. eles não decoram. Antes cortavam a faca com a pedra branca.

associada com crescente ocupação do Cerrado por fazendeiros e o agronegócio ao longo das ultimas décadas. Essa atividade foi compreendida pelos Xavante. Entretanto. Há prevalência das roças tradicionais de toco onde são cultivadas as sementes nativas de milho. Semente tradicional de milho Xavante brotando. Visita à Roça Xavante na aldeia Idzou’hu durante oficina do projeto. Foto 01. 7 A principal referência desenvolvimentista desse período é o denominado Plano de Desenvolvimento da Nação Xavante ou Projeto Xavante. atualmente. através de extensas plantações de arroz7. Essas últimas foram introduzidas pela FUNAI na década de 70. nome simplificado pelo qual ficou conhecido.070 nas TIs Sangradouro e São Marcos e pelas missões salesianas. distanciou os parentes. Autora: Maria Lucia Gomide Foto 02. Autora: Daniela Lima A fragmentação territorial promovida pela política fundiária do Estado brasileiro. a comunicação e os vínculos sociais entre estes. como indenização pelo asfaltamento da BR.144 Antes se cura na aldeia. anos mais tarde. (Mulher Xavante da TISão Marcos. feijão. . TI Sangradouro. No grupo Etepá que começou a levar as crianças na cidade. cará. contudo as roças mecanizadas também estão presentes em diversas comunidades. 2006) As roças das Terras Indígenas Xavante. abóbora. não levavam para cidade a criança. foi objeto de reflexão e crítica pelos próprios indígenas. incluída a indigenista. a priori. são cultivadas de formas distintas. além de algumas frutas. como relevante meio de subsistência gerador de abundância alimentar e autonomia.

nas TIs Areões. Areões e Pimentel Barbosa) no decorrer do projeto. foram coletadas cerca de 75 espécies em cada um destes. Observa-se também que a própria biodiversidade ainda se mantém nessas Terras Indígenas. TI Sangradouro. Estes levantamentos mostraram a riqueza de conhecimentos Xavante sobre os cerrados. apesar das pressões ambientais e sociais a que estão submetidas. Sangradouro e São Marcos. contribui positivamente para o restabelecimento e fortalecimento da interação e intercambio de conhecimentos entre os indígenas. Em três levantamentos da vegetação dos cerrados. Mulheres Xavante na roça observam as plantas durante oficina do projeto na aldeia Idzou’hu. manejo e sentidos simbólicos. que foram posteriormente nomeadas e classificadas quanto ao uso alimentício ou medicinal. Foto 03. Autora: Daniela Lima Dentre as atividades importantes realizadas estão os levantamentos da vegetação e registro de seus usos. portanto um total em torno de 200 espécies de plantas.145 O encontro entre as comunidades Xavante advindos de diferentes Terras Indígenas (Sangradouro. São Marcos. com duração de apenas três a quatro horas cada. .

assim sendo. Autora: Daniela Lima. os saberes dos Xavante dizem respeito aos cerrados como um todo. (nome Xavante. Identificação e explicações sobre o uso e classificação das plantas coletadas. as frutas nativas e os tubérculos. Fotos 07. No entanto. ilustramos parte do levantamento realizado na TI Areões. 08 e 09. correspondem ao movimento das caminhadas e à aprendizagem do uso dos recursos. importantes itens da alimentação tradicional. Foto 06. observa-se que nas três áreas os cerrados permanecem com biodiversidade tanto de plantas medicinais como alimentícias. e mata ciliar. Plantas do Cerrado coletadas durante oficina do projeto. Mulheres coletam plantas a serem identificadas durante oficina na aldeia Idzou’hu. desde campo limpo até as formações de mata. Na tabela número 2. têm atualmente um consumo restrito.146 Fotos 04 e 05. Não obstante a diferença fitofisionomias dos cerrados entre as Terras Indígenas. uso e local de coleta). aliados ao seu valor simbólico. as plantas comestíveis não são suficientes para a alimentação da população Xavante. O mito Parinai’a explica a relação entre os Xavante e a construção . TI Sangradouro. Autora: Daniela Lima. Pode–se observar que as plantas são de diferentes fitofisionomias dos cerrados. Autora: Daniela Lima. na TI Sangradouro.

Tabela 2 . sobretudo. tubérculos e raízes. durante as longas caminhadas (zomori). caçadas e coletas. à retração territorial. uso e local do cerrado onde são encontradas . que foram restringidas devido.Nome das plantas. assim como os alimentos importantes da dieta Xavante como frutos. pois é neste mito que são criadas os seres e as fitofisionomias.147 dos cerrados. Todos estes valores e conhecimentos eram transmitidos de geração a geração.

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da .150 É relevante salientar o intercâmbio realizado entre um representante Xavante e os povos indígenas acrianos. A viagem teve como objetivo a participação Xavante no curso de formação de agentes agroflorestais indígenas realizado no Centro de Formação dos Povos da Floresta.

aldeia Idzou’hu na TI Sangradouro. Durante este curso foram realizadas atividades de manejo de hortas orgânicas. Bakité – cesto Xavante com o milho a ser distribuído entre os participantes do projeto. Tal atividade consistiu numa importante experiência e troca de conhecimentos entre os diversos participantes indígenas. Outro aspecto positivo que deve ser mencionado foi a elaboração de um material didático a partir dos depoimentos. Esse material será útil nas escolas Xavante e na valorização de seus saberes. além de possibilitar o acesso destes á técnicas não indígenas bem sucedidas no campo do manejo.151 CPI (Comissão Pró Índio do Acre). em especial das mulheres Xavante. Foto 13. além de discussões sobre o sistema agroflorestal e manejo de tracajás (quelônio). Autora: Daniela Lima. . Milho Xavante a ser distribuído. assim como os problemas vividos nos dias atuais. resultado do projeto. que debatiam com entusiasmo e sabedoria os conhecimentos tradicionais. Autora: Daniela Lima. Visita às roças durante o projeto. Autora: Daniela Lima Foto 12. Fotos 10 e 11.

Considerações Finais Por fim. Autora: Daniela Lima. Foto 15. Aldeia Idzou’hu na TI Sangradouro. das plantas. outra lição aprendida com a execução do projeto é a incompatibilidade do conceito de “natureza” entre os povos indígenas e a sociedade ocidental. Fotos 16 e 17. as classificações dos cerrados.152 Foto 14. Aldeia Idzou’hu na TI Sangradouro. Autora: Daniela Lima. Considera-se significativo dentro do conceito de “natureza” Xavante. Preparo do bolo tradicional feito com milho Xavante durante atividade do projeto. Mulher Xavante planta cará –nativo. durante atividade do projeto. Autora: Daniela Lima. Discussões sobre o resgate do milho Xavante durante oficina do projeto. e dos aspectos da .

As frutas neste lugar. As frutas do Cerrado que são alimentos dos animais são: baru. ‘rere e muitas outras. Tsa’iti’ré fica dentro do Itehudu e recebem os mesmos nomes dos lugares dos animais. tatu e tatu-canastra e outros que vivem nas matas. que é descrita de acordo com cada formação vegetal. veado. Animais típicos desta formação são: anta. ITEHUDU: neste lugar as árvores são altas. uwai’re e outras. queixada. tirire. queixadas. Os animais que vivem são: veado. tatu. MARÃ: são as diversas formações florestais. tem buriti e lago. é também lugar de reprodução. As frutas que eles comem no Cerrado: wetsu’a. Frutas: uwai’re. Em sua classificação também há os solos correspondentes. TSÕWAHU: o lugar onde veado costuma ficar e também caititu.alimentação que estão relacionadas com sua cosmologia. coração de anta e muitas outras frutas no Ró. . itsadzapó. O lugar do veado. são os seguintes: anta. wetsu’a. AMHU: é o lugar onde as árvores são baixas e fechadas. tamanduá. wetsuirã e outras. seriema e quase todos os animais que ocupam lugares do Ró. mas as árvores são baixas e são iguais. queixada. as classificações Xavante das fitofisionomias dos cerrados. Neste lugar que comporta mais animais durante inverno. Vejamos. cotia. ficando na sombra. anta e outros. TSIRÃPRÉ: porque o Cerrado é fechado e grande. que nomeiam as diferentes fisionomias de acordo com a vegetação predominante. caititu. Os bichos se alimentam no tsõwahu. tatu. ema. os animais utilizam este lugar e muitos dormem aí. ema. tamanduá-bandeira. e as principais espécies frutíferas que servem de alimento à fauna. anta. tirire. APE: é o campo limpo do Cerrado que se parece com pasto. veados.

No entanto.BURU’RÃ: este lugar se localiza dentro no campo limpo do Cerrado –APE. milho. TSINÕ’RÕTÕ: nesse lugar os animais são anta e queixada. etc” (Bernardina Renhére . quati. tamanduá. o descobrimento das ervas que curam. PADZAIHO’REPRÉ: é a barreira amarela é uma localização dos caçadores. diz respeito às restrições alimentares. traíra. por exemplo. tucunaré. arraia. Este saber é compartilhado com sua esposa que também pode curar as doenças. tem um papel fundamental na cultura Xavante.Aldeia Abelhinha . pertence ao dawede’wa (curador). Vários elementos cosmológicos estão associados à questão alimentar. abóbora assada. as aves. seriema. estes conhecimentos são segredos transmitidos para a próxima geração que tenha a mesma ascendência patrilinear (sendo assim do mesmo . No entanto para se tornarem velhos sábios e melhores sonhadores. veado. entre outros aspectos relevantes. jacaré. cará. mas tem outros peixes). sucuri (e esses são donos desse lago. mandioca assada. jabuti. os nomes das pessoas. homem ou mulher que frequentemente é o mais velho do núcleo doméstico. os Xavante devem ter grande atenção e cuidado com relação à dieta alimentar.TI Sangradouro/2005) Em relação ao sentido simbólico do uso das plantas.cit: 57-8) explica que este conhecimento. entre eles a restrição na fase do menino e da menina. peixe-elétrico. A carne dos animais comida é de caça como: tatu. jatobá. é um tipo de bebedouro onde os caçadores e os animais costumam tomar água como: veado e anta. Carrara (op. como: piranha. em especial das medicinais. O sonho. palmito. sopa de bocaiúva. é através dele que se originam as músicas. “Na cultura Xavante há restrição de alimentos. Outro aspecto ligado ao conceito de “natureza” entre os Xavante. ÖTÕ: lagoa é um lugar dos peixes onde se desenvolvem e recriam. anta. Na fase do menino come qualquer alimento como: mingau de milho. ligado à cosmologia.

velhas histórias In: Revista Brasileira de Ciências Sociais – RBCS. Outro conceito importante bastante debatido pelos Xavante é “território”. . 2009.clã). C. Marãnã bödödi. caracterizase como uma tentativa intercultural de adaptação em meio às intensas transformações que o povo Xavante vem sofrendo ao longo do contato com a sociedade capitalista. São Paulo: FFLCH. Relatório do Diagnostico Antropológico da EIA: Hidrovia Araguaia-Tocantins (trecho do rio das Mortes). Habitações Indígenas.40 junho. conflita com o entendimento do Estado brasileiro sobre as mesmas. depois de inúmeros enfrentamentos com invasores e agências governamentais. Neste sentido. Dezembro. E. A. portanto. 1997. São Paulo: Nobel. 33. a aplicação de um projeto tal como aqui descrito. FFLCH/USP.tese doutorado. 14 n. Esse fato foi explicitado em diversos momentos por anciãos que retomaram partes exíguas do seu território tradicional. In: NOVAES.1997. o qual não tem o sentido nem a configuração das “Terras Indígenas atuais” e. Departamento de Antropologia / USP. _________________ Tewara um vôo sobre o cerrado Xavante. da Universidade de São Paulo. 1983. Outra forma de apreender estes conhecimentos é por meio dos sonhos quando os antepassados transmitem esses saberes (idem). Xavante: casa – aldeia – chão – terra – vida.56 ______________ Novos tempos. M. _____________ Dois séculos e meio de História Xavante In: CUNHA. LOPES DA SILVA. Silvia C. Dissertação de Mestrado. GOMIDE. FFLCH.). Ed. a territorialidade Xavante nos caminhos do Ro. vol. cujas intenções são fundamentalmente colonizadoras. M. Referências Bibliográficas CARRARA. 1999. L. p. (Org. São Paulo.

2009. C.seplan. A. br/pdfs/doc10. Demografia e saúde dos povos indígenas no Brasil: considerações a partir dos Xavante de Mato Grosso (1999-2002). (Documento de trabalho.C. SEPLAN-MT.pdf>.unir. São Paulo: FFLCH-USP. A experiência Xavante com o mundo dos brancos. Disponível em: <http://www. M. Acesso em: set.. V. Disponível em: <http://www. da (org. L. Governo do Estado do Mato Grosso. Araraquara: UNESP.br/>. SOUZA. Acesso em: jun. G. E. n. Secretaria de Estado de Planejamento e Coordenação Geral. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura/Companhia das Letras/Fapesp. 1992. 2009.gov.) História dos índios no Brasil. 1986. 2008. 1991. R. de. 10). . 2004. Mato Grosso em Números: edição 2008. O. Cuiabá. Porto Velho: Universidade Federal de Rondônia. Centro de Estudos em Saúde do Índio de Rondônia. ________________Nomes e amigos – da pratica Xavante a uma reflexão sobre os Jê . RAVAGNANI. COIMBRA JÚNIOR.mt.cesir. SANTOS.

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Manejo Sustentável: uma Questão de Sobrevivência
Márcio José Alvim do Nascimento

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Manejo Sustentável: uma Questão de Sobrevivência
Márcio José Alvim do Nascimento Nas encostas da Serra do Mar, entre os Municípios de Cananeia e Ubatuba, de Sul a Norte do Litoral de São Paulo, indo até o município de Angra dos Reis, no Estado do Rio de Janeiro, vamos encontrar 27 Terras Indígenas (TI), onde estão instaladas aldeias formadas por índios da etnia Guarani e Tupi-Guarani. Este contingente de índios que habitam essas Terras Indígenas, num total aproximado de 3.000 (três mil) pessoas, faz parte do grupo que resistiram ao grande desenvolvimento do estado de São Paulo, bem como aos interesses de exploração imobiliária. A preservação/formação dessas aldeias se deu conforme a vontade de pequenos grupos familiares em razão de sua específica mobilidade social. Com o tempo, mediante a atuação das próprias lideranças indígenas, Ongs e definitivamente da ação governamental, nos âmbitos estadual e federal, nos anos de 1986 até 1990, concluiu-se a maioria dos processos demarcatórios das áreas (outras Terras Indígenas aguardam regularização), garantindo-lhes definitivamente o uso das terras. Atualmente a Terra Indígena Guarani do Ribeirão Silveira, com área territorial de 8.500 hectares (em processo de demarcação física e homologação), é habitada por 85 (oitenta e cinco) famílias num total de 370 (trezentos e setenta) pessoas, sendo que 65% desta população está situada na faixa de 0 a 15 anos. Apresenta hoje uma taxa de mortalidade de zero por cento, e um crescimento vegetativo da ordem de 6,5%. Esclarecemos que os dados referentes ao contingente populacional das aldeias são relativamente variáveis, pois as aldeias mantêm entre si estreitas e intensas relações políticas, econômicas, religiosas e matrimoniais, havendo constantes deslocamentos dos índios, de aldeia para

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aldeia, um dos aspectos da trajetória e tradição cultural desses grupos. A rede de parentesco que compõe uma determinada família Guarani pode se estender por várias aldeias, localizadas em diferentes locais, fazendo com que os indivíduos e mesmo famílias nucleares estejam em constante movimento a fim de reforçar os laços de reciprocidade entre si. Portanto, é comum as aldeias Guarani apresentarem variações no número de famílias e de indivíduos que integram estas famílias, pois, os indígenas circulam constantemente por várias aldeias e por tempos indeterminados, mantendo uma rede de reciprocidade entre parentes que residem nas mais diferentes aldeias. Essa dinâmica na constituição familiar do Povo Guarani implica também a dinâmica da ocupação dos espaços territoriais e no modo de utilização dos recursos naturais existentes no interior das aldeias. A religião ocupa um papel especial em todas as esferas da vida social dos Guarani, cujo ponto principal à compreensão do seu sistema religioso é a noção de “alma humana”, que está vinculada às crenças sobre a concepção. Os Guarani manifestam sua vivência religiosa através da reza (porahêi), de forma coletiva ou individual, ou seja, contando com a participação de toda a aldeia ou apenas de um grupo ligado a uma casa. A ideia mítica do fim do mundo e a cura das doenças realizadas pelo xamã são outros elementos fundamentais da religião Guarani, que incentiva a crença na existência da vida após a morte. Existe na TI. Ribeirão Silveira três Opy (casas de reza), onde são ouvidas as belas palavras (porahei) proferidas pelos xamãs e realizados os rituais como o batismo do milho, funerais, rituais de cura, casamentos etc. Elas estão localizadas próximo ao Morro do Cedro, região central dessa Terra Indígena, na Aldeia Cachoeira e na Aldeia Rio Silveira. No mês de janeiro é realizado ali o Nhemongaraí, cerimônia em que as crianças recebem o nome.

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A relação que os Guarani estabelecem com a natureza, os espíritos e os seres humanos (Guarani ou não) é orientada por um conjunto de regras e normas de conduta. São elas que compõem a estrutura das relações sociais e cosmológicas denominadas nandereko (nosso modo de ser). O cumprimento de tais normas assegura à comunidade a comunicação com o sobrenatural. É o compromisso da comunidade com seu nandereko que propicia a eficácia de seus pajés. Só assim eles são capazes de ouvir as belas palavras e transmití-las ao grupo. São as instruções transmitidas pelos espíritos aos grandes xamãs-profetas, Nanderu, que abrem a possibilidade de alcançar a Terra sem Males, destino primeiro da humanidade Guarani. Toda conduta Guarani é, portanto, reflexo de uma relação divina e orientada no sentido de transcender a realidade social. A figura do xamã é fundamental aos Guarani, sendo, na verdade, o guardião do nandereko. Para a concretização do nandereko é fundamental que a comunidade se assente sobre um lugar que reúna condições básicas. A escolha deste lugar é determinada também pelo xamã que recebe orientação divina. Para que existam condições necessárias à fixação de um tekohá, é preciso que seja mato, que possam plantar, que seja distante do branco, e que não haja conflitos. O tekohá não é apenas terra, a ele estão associadas a casa e as relações com os parentes: é onde enterram os mortos e onde rezam, onde vislumbram a possibilidade de exercer o direito divino de fazer suas roças. A Terra Indígena Ribeirão Silveira reúne todos estes pontos importantes para o estabelecimento de um nandereko. As matas, as nascentes, os rios, as roças de milho, a opy e o cemitério constituem, entre outros, a base da existência dos Guarani da TI Ribeirão Silveira neste mundo. A partir do fato real do reconhecimento e demarcação da Terra Indígena foi estabelecida uma rotina de trabalho junto às comunidades para o desenvolvimento de atividades relativas à assistência à saúde, educação, atividades produtivas, assistência social, habitacional, dentre outras. Do acompanhamento in loco relativo às condições de vida das

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comunidades, constata-se a sua estreita relação com o meio ambiente, já que dele se utilizam para extrair matéria prima para confecção de artesanato e outras atividades. De maneira geral, as comunidades têm sobrevivido mediante sua própria estrutura organizacional, ocupando-se basicamente da confecção de artesanato. Seu padrão de consumo está limitado pela renda que obtém a partir desta prática, tendo que considerar que ficam submetidas às épocas de alta temporada do turismo litorâneo para praticarem as suas vendas. Cultivam também pequenas plantações familiares de banana, mandioca, batata doce e milho, em quantidades insuficientes, não atendendo, portanto a demanda de consumo, em detrimento, sobretudo dos seguintes fatores: a própria aptidão dos indígenas para a atividade agrícola em escala maior, a falta de tradição regional do plantio de cereais, o relevo acidentado e tipo de solo. Assim, as famílias complementam os seus bens de consumo adquirindo-os nos comércios locais. Existe ainda a criação de pequenos animais, como galinhas, e praticam a caça e a pesca, encontrando em suas matas animais como: pacas, cotia, quati, tatu, porco do mato etc. Promovendo o Manejo Sustentável do Palmito Juçara No interior da Terra Indígena existem três viveiros para a produção de mudas de Palmito Juçara, Açaí, Açaí Anão e Pupunha, bem como a produção de plantas ornamentais (Bastão do Imperador, Helicôneas, Banana Flor, e outras). Todos os viveiros estão em pleno funcionamento e os indígenas comercializam as mudas produzidas nestes viveiros, atendendo pedidos encomendados pelas prefeituras locais, empresas de paisagismo e particulares. Existe um projeto relevante relacionado ao Reflorestamento de Palmito, cujo principal objetivo é a preservação do Palmito Juçara, nativo da Mata Atlântica. Atualmente existem no interior da Terra Indígena

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aproximadamente 45.000 pés de Palmito Pupunha plantados e um razoável número de pés de Palmito Açaí e Juçara. No ano de 2002, a iniciativa de reflorestamento do palmito desenvolvida na Terra Indígena Guarani do Ribeirão Silveira recebeu o Prêmio ‘Gestão Pública e Cidadania’ da Fundação Getúlio Vargas e da Fundação Ford, dentre 980 iniciativas de todo o Brasil, em reconhecimento pela preservação do meio ambiente. Em 2006, a Associação Comunitária Indígena Guarani Tjeru Mirim Ba’e Kuaa’I desta Terra Indígena Ribeirão Silveira, com o apoio da CEPISP (Conselho Estadual dos Povos Indígenas de São Paulo), FUNAI (Fundação Nacional do Índio) e da CATI (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral) São Sebastião/Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento, celebrou convênio com o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), objetivando fornecer assistência técnica para a elaboração de um plano de manejo de rendimento sustentado de palmito Juçara (Euterpe edulis) e capacitar representantes indígenas para viabilizar a implantação do plano de manejo. Esse projeto foi proposto pelos Guarani, representados pela Associação Comunitária Indígena Guarani Tjeru Mirim Ba’e Kuaa’i. Surgiu da observação dos próprios índios da crescente redução do Palmito Juçara, ocasionando dificuldade para encontrar a árvore e a necessidade de ter que andar quilômetros para encontrar palmito no tamanho adequado para o corte. Além do mais, os indígenas são vistos pela sociedade envolvente local como depredadores dos recursos naturais em razão da comercialização in natura do Palmito Juçara sem o devido plano de manejo. O projeto visava garantir o reflorestamento da mata e a preservação e retorno das espécies animais associado com o incremento da renda das famílias Guarani, a melhora na auto estima, o reagrupamento das famílias e da comunidade e a preservação cultural.

com as crianças em atividade de plantio de mudas. de maneira predatória. Tal situação levou à proibição da atividade do corte de palmito por lei estadual. Desde então nenhum plano de manejo da espécie foi efetivamente realizado. A extração do palmito. o Palmito Juçara foi explorado intensamente a partir da década de 70. de estipe reto e cilíndrico e que não produz perfilhos. Autor: Antônio Regis A Juçara é uma planta esbelta. podendo atingir 20 metros de comprimento (Carvalho 1994).163 Foto 01: Guarani Karay (Vando dos Santos) coordenador do Projeto Jejy-Reflorestamento de Palmito. é feita na maioria das vezes. permitindo apenas a sua extração em áreas de manejo sustentável. Para esta finalidade. que resulta na morte da planta. levando a atividade do corte de palmito ao colapso e ao atual risco de extinção da espécie. . dela é retirada o palmito. produto muito apreciado pela culinária mundial. Espécie nativa da Floresta Atlântica. O que se usa como alimento é uma porção de aproximadamente 50 cm da parte terminal do caule – ali junto às folhas. eliminando-se inclusive plantas muitos jovens. na fabricação de vassouras. concentra-se o “creme” o palmito saboroso. tornando-se a principal fonte de renda para muitas comunidades da Floresta Atlântica. O estipe pode ser usado em construções rústicas e suas fibras.

periquitos. esquilos. entidade sem fins lucrativos criada em 03. Foram propostas quatro metas para o cumprimento do projeto: (1) a realização de um inventário das plantas de palmito juçara existentes dentro dos limites físicos da Terra Indígena. lideranças e representantes indígenas e instituições parceiras) de um plano de manejo adequando os resultados obtidos no inventário. sábias. (3) iniciar as ações determinadas no plano de manejo e (4) executar ações de divulgação do plano de manejo. tucanos. Costa Silva 2002). Conte 2000. . A importância da conservação da espécie está relacionada ao período da sua frutificação. é um alimento fundamental na mata (Pio Corrêa 1969. econômica e cultural do grupo indígena. O projeto apresentado ao MDA tinha como objetivo a elaboração de um plano de manejo da Palmeira Juçara (Euterpe edulis).1997 e que tem dentro de suas finalidades estatutárias: • Proporcionar à comunidade indígena condições básicas de desenvolvimento sócio econômico e de promoção humana.164 A preservação do Palmito Juçara está diretamente ligada à manutenção da biodiversidade da Mata Atlântica. quando a maioria das outras árvores está sob estresse hídrico devido ao período seco. tatus e capivaras (Carvalho 1994. A entidade proponente e executora do Projeto foi a Associação Comunitária Indígena Guarani Tjeru Mirim Ba’e Kuaa’i.09. Reis 2000. em conjunto com as lideranças e a comunidade indígena. os procedimentos técnicos a serem tomados para o manejo e as especificidades da organização social. visando o manejo adequado da espécie e a substituição progressiva de um sistema de extração sem controle para um sistema de rendimento sustentado (Ribeiro 1994. (2) a elaboração conjunta (técnicos. morcegos. macucos. Nodari 2000. Por ocorrer no inverno. porcos do mato. uma vez que sua semente e seu fruto servem de alimentos para vários animais como gambás. Reis & Kageyama 2000). Nogueira 1982). antas. jacus.

material e à saúde. dentro dos costumes e da cultura do Povo Guarani. visando o desenvolvimento sustentável. educacional.165 • Proporcionar condições para o fortalecimento das famílias indígenas. e que prestou toda a assessoria técnica na elaboração do plano de manejo. dando-lhes conhecimento dos problemas da comunidade indígena específicos e genéricos. pesquisas e projetos para a melhoraria da qualidade de vida da população do Vale do Ribeira. As principais vantagens do manejo florestal sustentável são: . religiosa. cuidando para que o conhecimento adquirido nos estudos seja um meio de torná-lo cada vez mais um verdadeiro representante de seu povo e um defensor da nação Guarani. pleiteando as soluções dentro do âmbito de sua competência. para que possam em conjunto com o cacique local desenvolver trabalhos que visem o bem estar entre os membros da comunidade. • Colaborar com o Poder Público dentro das finalidades da entidade. jurídica. os representantes da Associação decidiram contratar uma instituição para a prestação de serviços de assessoria técnica para realizar as atividades propostas no projeto. Para isto foi assinado um termo de contrato de prestação de serviços técnicos com o Instituto para o Desenvolvimento Sustentável e Cidadania do Vale do Ribeira (IDESC). região da Mata Atlântica. no que diz respeito à assistência social. dar apoio às atividades desenvolvidas pelas diversas entidades que prestam serviços aos índios. entidade que tem como objetivo desenvolver estudos. • Conseguir meios para que cada membro da associação possa estudar e se desenvolver culturalmente. • Desenvolver o espírito associativo e cooperativo entre os membros da comunidade. a melhoria de sua qualidade de vida. • E promover a união dos índios residentes na Aldeia. Com base nessas finalidades. mediante o desenvolvimento da relação intrafamiliar e comunitária.

garantindo o intervalo de tempo suficiente para que a floresta volte ao seu estado original. (iii) respeitar a capacidade das florestas de se regenerar e (iv) garantir meio de subsistência. o seu sustento na natureza de uma maneira racional. Foto 02: Guarani Karay (Vando dos Santos). coordenador do Projeto Jejy-Reflorestamento de Palmito. garantindo a sustentabilidade da comunidade indígena e a preservação da Mata Atlântica. busca-se a exploração dos recursos naturais de uma maneira tal que não comprometa o ciclo de regeneração. Autor: Antônio Regis O mais importante neste processo é que a comunidade indígena possa conseguir. Esclarecemos que a elaboração e a apresentação do plano de manejo é uma exigência legal para a obtenção da licença ambiental de exploração da espécie florestal. (ii) reduzir o impacto ambiental. durante extração do palmito resultado do reflorestamento. aos indígenas foram apresentadas foi . por meio das suas práticas culturais e sociais.166 (i) buscar uma alternativa viável de subsistência. Buscando se enquadrar nas leis que regulamentam o manejo sustentado do Palmito Juçara. Com o manejo sustentado.

O processo de levantamento e elaboração do diagnóstico foi também acompanhado e teve orientações de técnicos especializados. CATI de São Sebastião. Na medida em que os membros da comunidade indígena participaram de todas as etapas do inventário florestal. as observações contidas no inventário são fruto do próprio poder de observação dos indígenas. Prefeitura Municipal de São Sebastião/SP. Instituto Florestal de São Paulo. exigindo. por parte da comunidade indígena. que na prática significa a aprovação do plano e a autorização para o manejo e a comercialização do palmito. IDESC (Instituto para o Desenvolvimento Sustentável e Cidadania do Vale do Ribeira).167 apresentado os resultados observados e coletados quando da realização do inventário florestal. DEPRN (Departamento Estadual de Proteção de Recursos Naturais). A tabela que segue tem por finalidade comparar o resultado da . da situação preocupante do estoque de Juçara que na atualidade encontra-se na matas da Terra Indígena Guarani do Ribeirão Silveira. Prefeitura do Município de Bertioga/SP. portanto. CEPISP (Conselho Estadual dos Povos Indígenas de São Paulo). Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento. a adoção de medidas urgentes e eficazes que venham a mudar este quadro. matrizes e plantas adultas estão abaixo do mínimo que é previsto em lei para planos de manejo. o que vem legitimar as propostas que se objetiva alcançar. Situação extremamente grave. O mais importante foi a tomada de consciência. inclusive sugerido metodologias de trabalho. tendo em vista que os estoques de plântulas. Salientamos que o DEPRN é o órgão do Governo do Estado de São Paulo responsável pelo ato de licenciamento do manejo sustentado. O projeto contou também com a participação dos diversos órgãos e entidades ambientais: IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). FUNAI/Posto Indígena Rio Silveira/AER Bauru-SP. sendo que cada órgão ou entidade se comprometeu em colaborar para o sucesso da referida iniciativa dentro de suas atribuições legais.

Para isso. 16/1994. da Secretaria do . tipo de mata e a finalidade do plantio. com o mínimo exigido pela legislação ambiental (segunda coluna) e com a situação em que se encontra uma área com floresta intocada (terceira coluna). E para haver eficácia do manejo será preciso aumentar o número de plantas na floresta para no mínimo o que estabelece a legislação do Estado de São Paulo. deve-se seguir um plano de manejo sustentável atendendo às normas e as condições estabelecidas na Resolução Nº. tais como: tipo de terreno. é necessário verificar qual o sistema que melhor se adapta a esse trabalho. sendo necessário realizar um intenso trabalho de “repovoamento” do Palmito. isto é: ver novamente a floresta com um número considerável de plantas de palmito. Para que o Palmito Juçara possa ser explorado no Estado de São Paulo. pois algumas observações se fazem necessárias. garantindo assim as fontes de renda e alimento para as famílias que habitam a Terra Indígena. QUADRO COMPARATIVO DA SITUAÇÃO DA JUÇARA O diagnóstico participativo possibilitou aos indígenas concluir que somente seguindo um plano de manejo e as orientações para o eventual corte das plantas de Palmito Juçara é que se pode recuperar a situação.168 situação encontrada na Terra Indígena Guarani do Ribeirão Silveira (primeira coluna).

assim todo ano pode-se cortar uma parte e só voltar a cortar a mesma área depois de 5 anos. tais como: (i) cortar as plantas adultas de palmito de Juçara com pelos menos 09 centímetros de DAP (diâmetro a altura do peito). (v) planilha de dados de campo. de imediato. principais acessos e estradas. onde estejam descritas pelo menos a rede hidrográfica. bem como a metodologia para a realização do inventário.3 metros. onde foram apresentados aos indígenas mapas e imagens aéreas da Terra Indígena. inclusive matrizes. confrontantes. após receber as informações obtidas quando do inventário florestal. fisionomia vegetal predominante e localização das parcelas amostrais permanentes. A comunidade indígena Guarani participou de todas as etapas do projeto. Foram realizadas diversas oficinas. Esse tempo é importante para que as plantas novas possam crescer e chegar ao tamanho mínimo de corte. situando os indivíduos adultos levantando. passou a tomar algumas medidas. (iv) dividir cada área de manejo em 5 partes. data da coleta dos dados (DEPRN – São Paulo 1994).169 Meio Ambiente do Estado de São Paulo. (iii) estimativas do número de palmeiras com altura inferior a 1. benfeitorias. (ii) não cortar as plantas finas. que condiciona esta exploração à autorização do DEPRN. (iii) deixar uma planta mãe a cada (mais ou menos) 14 metros. Foi solicitado que indicassem os principais locais de ocorrência da juçara. para que possa produzir sementes e novas plantas. apesar do uso avançado de . Essa legislação estabelece que o Plano de Manejo deva conter o seguinte: (i) planta planialtimétrica do imóvel não inferior a 1:10000. sendo indicado um coordenador indígena que participou de todas as etapas de implantação. distribuídas em classes de DAP de 2 cm. (iv) fenologia dos indivíduos adultos informando principalmente tratar-se ou não de matrizes. (vi) layout das parcelas amostrais permanentes. (ii) estimativa do número de palmeiras com altura superior a 1. A comunidade indígena Guarani.3 metros. sendo que esta foi muito bem assimilada pelos monitores indígenas.

Para a elaboração do plano de manejo sustentado. (iii) a implantação do projeto de Ecoturismo e (iv) o aumento da escala do artesanato para comercialização. Foto 03: Adolescente Guarani Ivânia Pará Poty no plantio de muda de palmito Juçara.170 ferramentas na área de matemática e estatística. Essa atividade pode ser feita de três formas: (i) plantando as sementes a lanço. visando à recuperação das áreas degradadas e as alternativas a serem implementadas para garantir alternativas de sustento da comunidade indígena durante o período de recuperação da floresta. Cada uma dessas formas . Para que no futuro se possa realizar o manejo e o corte das plantas de palmito Juçara. será preciso aumentar o número de plantas na floresta para no mínimo o que estabelece a legislação do Estado de São Paulo. foi apresentado o resultado do inventário florestal realizado na Terra Indígena e a partir daí. será preciso realizar um intenso trabalho de repovoamento do Palmito Juçara nas matas. buscando propostas a serem implantadas. Entre as alternativas apresentadas destacamos (i) o estabelecimento de um número máximo de plantas a serem cortadas por família. foram estudadas e discutidas as medidas a serem tomadas. (ii) plantando as sementes em covetas e (iii) plantando as mudas. Para que isso seja alcançado. (ii) o aprimoramento do funcionamento dos viveiros de mudas já existentes no interior da Terra Indígena.

levando em conta a distância. . Desafios de ordem técnica existiram. que tem como princípios: (i) o respeito à autonomia e autodeterminação dos povos indígenas. vencendo certas barreiras e desafios. o tipo de mata e a finalidade do plantio. execução. (ii) capacitação dos indígenas na elaboração. à geração de renda e à gestão sustentável dos recursos naturais nas Terras Indígenas. e esses projetos e convênios contribuem para que esses povos indígenas encontrem suas alternativas de subsistência. utensílios e à extração de produtos agroflorestais e (iv) estímulo ao uso de técnicas tradicionais na recuperação de áreas degradadas. de suas formas tradicionais de organização para produção e uso dos recursos naturais e de seus territórios. monitoramento e avaliação de projetos produtivos. passos importantes foram e estão sendo dando pelos povos indígenas em busca da sua autonomia. Considerações Finais No nosso entendimento o projeto vai ao encontro da proposta de promoção do etnodesenvolvimento nas Terras Indígenas. Busca-se também contemplar as linhas de ações definidas nas propostas de etnodesenvolvimento em Terras Indígenas: (i) apoio às ações de segurança alimentar e nutricional.171 de plantio tem suas vantagens e desvantagens e é necessário observar qual sistema melhor se adapta a cada situação ou área de floresta. o tipo de terreno. e ao mesmo tempo. (ii) atividades sustentáveis e voltadas para a redução da dependência tecnológica e econômica. pois as associações indígenas encontram ainda certa dificuldade na elaboração dos processos de formatação das licitações e de prestação de contas (e aí verificamos o papel importante do apoio das instituições parceiras na orientação e colaboração). fortalecendo os conhecimentos tradicionais. (iii) valorização dos saberes indígenas. (iii) valorização das técnicas e dos conhecimentos tradicionais relacionados à produção de alimentos. No entanto.

. LOTTA. 1994. e outros (organizadores). potencialidades e uso da madeira. e temos consciência da importância das crianças participarem. São Paulo: Centro de Trabalho Indigenista. 2005. não acreditar em si próprio. estamos encontrando as soluções para as necessidades da comunidade. e outros. A gente tem muita força.E. A. não saber ver o que tem na natureza e trabalhar para serem valorizadas. Espécies florestais brasileiras: recomendações silviculturais. CARVALHO. com a oração do pajé e da comunidade. O palmito pertence à natureza indígena e a lavoura indica que nós mesmos. Rio de Janeiro: Programa Gestão Pública e Cidadania/ Fundação Getúlio Vargas. Teko Mbaraeterã-Fortalecendo nosso verdadeiro Modo de Ser. G. M. I. LADEIRA. D. pois pobreza para nós é não saber ter iniciativa. & MATTA. São Paulo: Instituto para o Desenvolvimento Sustentável do Vale do Ribeira. Cartilha: O Manejo sustentável do Juçara na Terra Indígena Guarani do Ribeirão Silveira. 2007. P. MALVICINIO. M. para continuar lutando pela preservação da aldeia. 20 Experiências de Gestão Pública e Cidadania. Terras Guarani no Litoral: as matas que foram reservadas aos nossos antigos avós. Podemos nos fortalecer com nossa própria sabedoria. um dos coordenadores do Projeto ‘Jejy – Reflorestamento de Palmito’ desenvolvido há mais de 14 anos no interior da Terra Indígena: Não precisamos mais viver na miséria e na pobreza.R. I. São Paulo: Centro de Trabalho Indigenista. & FELIPIM. Referências Bibliográficas LADEIRA. S. P. 2004. para o projeto não parar no meio do caminho.172 Podemos resumir os desafios enfrentados pela comunidade indígena Guarani da Terra Indígena Ribeirão Silveira com um pensamento do índio Vando Karay dos Santos. 2003. os moradores da mata. Pobreza é a falta de projetos e objetivos. EMBRAPA.

.. REIS. 1962. FANTINI. Considerações ao manejo sustentável do palmito (Euterpe edulis).. FANTINI. J. como subsídios para estratégias de manejo sustentável na Mata Atlântica do sul da Bahia. R.C.. In: ______. Aspectos Fundamentais da Cultura Guarani.. FANTINI.portalsaofrancisco. 2000. Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. NODARI. PORTILHO.br Portal: www.. 2000. R. MANTOVANI. Dinâmica da regeneração natural de Euterpe edulis. MARIOT. A. A. REIS. R. S. Principais atividades de subsistência e organização econômica.com.C. COSTA SILVA.br . R. M. M. NODARI. S.B.. REIS. M.gov. A. M. 2002... São Paulo: EDIPE. REIS. 2000. A. Campinas: UNICAMP (monografia). M. S. Portal: www. O. 2004. Dicionário das plantas úteis do Brasil e das cultivadas exóticas. REIS.. R. REIS. SCHADEN.funai. O. PEREIRA. L. C. de 21 de junho de 1994. W. Estrutura populacional e padrão espacial da palmeira juçara. A.. Restauração de populações de Euterpe edulis Martius na Mata Atlântica. P.G. MAFEI. G.. A. 1969. Sellowia. Florestar Estatístico. RIBEIRO. A economicidade do Palmiteiro (Euterpe edulis Martius) sob manejo em regime de rendimento sustentado.C. E. A.A. Resolução SMA Nº 16. 1994. A.173 CONTE.. PIO CORRÊA. O manejo do palmiteiro no Vale do Ribeira.

Desafios e Possibilidades da Capacitação sob a Ótica Agroecológica Aurélio José Antunes de Carvalho Carla Teresa dos Santos Marques Erasto Viana Silva Gama Marta Timon Frias Miana Barbosa Magnólia Jesus da Silva .174 Assistência Técnica e Extensão Rural na Comunidade Indígena Tupinambá de Serra do Padeiro: Experiência.

atualmente empregado da Codevasf. 3 Engenheiro Agrônomo. organizavam-se mais 22 comunidades Tupinambá. no entorno de Olivença.175 Assistência Técnica e Extensão Rural na Comunidade Indígena Tupinambá de Serra do Padeiro: Experiência. A extensão total da Terra Indígena Tupinambá é estimada em 42 mil hectares. É de 1 Engenheiro Agrônomo. UFRB 4 Antropóloga. mestranda em Ciências Agrárias. UFRB. compreende a vila costeira de Olivença. A aldeia da Serra do Padeiro dista cerca de 30 km da sede do município de Buerarema. na Bahia. mestrando em Ciências Agrárias. e sede da antiga missão jesuítica que reuniu a etnia na região desde o início do século XVIII. atualmente em processo de regularização pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI). É a aldeia mais distante do litoral e está localizada na parte interior da região sul do estado. integrando a denominada microrregião cacaueira do estado da Bahia. sede do distrito de mesmo nome pertencente ao município de Ilhéus. a 457 quilômetros de Salvador. (incluindo a Serra do Padeiro). Situada na costa marítima ao Sul da aludida vila até o limite do município. Desafios e Possibilidades da Capacitação sob a Ótica Agroecológica Aurélio José Antunes de Carvalho1 Carla Teresa dos Santos Marques2 Erasto Viana Silva Gama 3 Marta Timon Frias4 Miana Barbosa5 Magnólia Jesus da Silva6 O Contexto O território Tupinambá como um todo. 2ª SR 2 Engenheira Agrônoma. vinculada à ANAÍ 5 Professora e Monitora Indígena dirigente da AITSP 6 Professora e Monitora Indígena dirigente da AITSP . mestre em Ciências Agrárias.

O povo indígena Tupinambá da Serra do Padeiro conta com uma população em torno de 650 pessoas (130 famílias) de acordo com dados da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA. inclusive florestais. várias retomadas foram ou estão sendo realizadas pelos tupinambá. na qual a Associação Comunitária atua de forma coesa com o cacicado. educação. entre outros aspectos sociais. O processo de reafirmação identitária e regularização de suas terras pela FUNAI envolve não somente a posse e retomada de áreas do território. mas a resignificação de sua cultura em relação à agricultura. com satisfatória preservação de alguns recursos naturais importantes. atenção à saúde e crenças religiosas. sendo que o núcleo da aldeia é composto por sete residências pertencentes aos membros da família do pajé. Nesse contexto. e contar com uma organização comunitária autônoma e bastante consistente. surgiu a necessidade de construir uma proposta multidisciplinar de ação que fortalecesse o processo de construção da identidade indígena Tupinambá e sua relação com a terra e o ambiente . à solidariedade entre os seus habitantes e índios Tupinambás dispersos que retornam à aldeia. 2005). portanto. Além do aldeamento central próximo à Serra do Padeiro. sendo. tendo como peculiaridades: situar-se em uma região de serras. a exemplo do rio Cipó e do rio Una. uma interessante experiência em que o associativismo somou-se à estrutura autóctone de organização indígena. Isso inclui a adoção de medidas compensatórias decorrentes dos impactos negativos da Revolução Verde nas áreas de retomada do Território (degradadas pelos não índios) e da intensificação do uso da terra e demais recursos naturais pelos próprios índios. conservação ambiental. A reocupação do território localmente é denominada de retomada pelos indígenas.176 difícil acesso. É uma terminologia apropriada. aproveitando o descenso da lavoura cacaueira e uma evidente afirmação identitária enquanto indígenas. pois se refere ao momento em que eles vivenciam a reocupação de terras que integram seu território.

igrejas. além da rica experiência de troca entre o conhecimento local e o conhecimento técnico. o mercado e a agregação de valor do principal cultivo da aldeia.177 onde vivem. biólogos e antropólogos. Agroecologia em Terras Indígenas . Um projeto que vislumbrou a capacitação enquanto possibilidade de discussão acerca do território. projeto financiado pelo MDA e executado pela ANAÍ e AITSP no ano de 2006/2007. Dessa forma. é fruto dessa construção coletiva. as relações de gênero. liberados e intermediados pelo Banco do Brasil. da produção. a mandioca.Serra do Padeiro .Povo Tupinambá – Buerarema – BA. de uma perspectiva sistêmica. houve uma interação entre diferentes áreas do saber através do trabalho coletivo de engenheiros agrônomos. Os recursos financeiros usados na execução do projeto foram repassados para o executor pelo Programa de Promoção da Igualdade de Gênero e Etnia (PPIGRE) do Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural (DATER). Associação dos Índios Tupinambás da Serra do Padeiro (AITSP) e o Programa de Pesquisas Sobre Povos Indígenas do Nordeste Brasileiro (PINEB/UFBA). conduzida sob uma abordagem agroecológica. e contou ainda com o apoio do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e do Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (SASOP). Abordagem Metodológica A experiência discorreu em duas vertentes: a antropológica e a agrícola. do conhecimento tradicional desse povo. A articulação para elaboração da proposta aconteceu desde o início envolvendo a Associação Nacional de Ação Indigenista (ANAÍ). A metodologia utilizada no seu viés antropológico envolveu visitas a bibliotecas e arquivos públicos. o meio ambiente. fato que foi fundamental para o sucesso do projeto em foco. ligado à Secretaria da Agricultura Familiar (SAF/MDA). cartórios e centros de . a identidade cultural. a religião. Esse é o ponto de partida do projeto sobre o qual este artigo se refere.

jovens. a exemplo de: cartas à Presidência da Província. Os resultados obtidos foram apresentados em oficinas. jornais antigos da região cacaueira. adotando os princípios teóricos da Agroecologia como critérios para o desenvolvimento e seleção das soluções mais adequadas e compatíveis com as condições específicas de cada agroecossistema e do sistema cultural das pessoas envolvidas no seu manejo (CAPORAL e COSTABEBER. o projeto adotou o conceito de “Extensão Rural Agroecológica” para realização das suas atividades de capacitação agrícola. Sob a orientação metodológica do Plano Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER). Famílias indígenas.178 documentação de instituições de ensino superior. 2000). Para tanto. livros de casamento. mulheres e crianças) puderam partilhar e confrontar os dados coletados com as narrativas históricas do seu povo. a fim de empreender pesquisas em fontes documentais. foram realizadas visitas aos marcos tradicionais do território indígena e a residentes antigos da cidade de Buerarema. em particular. utilizou-se a metodologia da pesquisa-ação de Pedro Demo (1997). que permitam o desenvolvimento de uma prática social mediante a qual os sujeitos do processo buscam a construção e sistematização de conhecimentos que os levem a incidir conscientemente sobre a realidade.. atas de Governo e Câmara. baseado em metodologias de “investigação-ação” participante. em busca de registros que porventura dessem conta da presença indígena na região. correspondências oficiais. a qual é definida como: [. em que os Tupinambá (idosos. batismo e óbito presentes em igrejas dos municípios de Buerarema.. com o objetivo de alcançar um modelo de desenvolvimento socialmente equitativo e ambientalmente sustentável. tendo como fundamento o desafio de construir a capacidade de . suas lideranças e representantes de órgãos estatais também foram entrevistados acerca da atuação destes últimos na comunidade e do censo demográfico na comunidade. Ilhéus e Uma. da comunidade indígena Tupinambá da Serra do Padeiro.] o processo de intervenção de caráter educativo e transformador. Além disso.

Nesta última. visitas às unidades familiares e áreas coletivas. estrategicamente. de modo que. No período de vigência do projeto. reuniões. foi construída. eles protagonizassem ações coerentes acerca das discussões dos temas relacionados à Agroecologia enquanto abordagem geradora de uma agricultura capaz de produzir e conservar os recursos naturais. da valorização do trabalho das mulheres nas atividades agrícolas. a casa de farinha comunitária. beneficiamento e comercialização do excedente da produção. ao invés de se portarem como receptores de técnicas. O Desenvolvimento do Projeto em Parceria com a Comunidade O projeto se propôs a trabalhar alguns dos principais eixos de interesse da comunidade. o qual contou com a contribuição do projeto Agroecologia em Terras Indígenas. água e biodiversidade). e ressaltando a importância dos aspectos de segurança alimentar. visitas de troca de experiências com outras comunidades e planejamento/ implantação de unidades demonstrativas de sistemas agroflorestais e bosque energético. introduzindo e aperfeiçoando técnicas culturalmente apropriadas. através de um projeto para aperfeiçoamento da produção de derivados de mandioca. por meio do fomento à agricultura de base agroecológica. exposições práticas coletivas em campo. duas áreas estavam em processo de consolidação de retomada na Serra do Padeiro: Rio Cipó e Rio Una. . Tudo isso permeado pelo propósito de fortalecer a associação indígena. financiada com recursos da Carteira Indígena do MMA. As atividades de capacitação agrícola foram discutidas com os diretores da associação indígena. como: oficinas. do resgate e conservação de espécies tradicionais de uso indígena. através do emprego das ferramentas e métodos participativos de educação/extensão rural.179 (re)construir. dando ênfase à otimização dos sistemas tradicionais de uso das terras e manejo sustentável dos recursos naturais (solo.

A partir de então. em torno de US$ 4. chegando a ser cotado por cerca de US$ 800/t. A diversidade de espécies mantidas aumentava a vida útil dos cacauais. onde se incluem. por formações florestais secundárias. Ao final do projeto foi implantado no local um bosque energético de sabiá (Mimosa caesalpineafolia). a implantação se deu em sistema de cabruca. O mesmo autor afirma que esta derrubada foi um pouco mais benigna que a da praticada em zonas do café. Neste mesmo período. plantio da lavoura de cacau sob a mata.000 km2 de mata devem ter sido convertidos em plantações na zona do piemonte de Ilhéus. retratado como um bandido pela imprensa da época.000 por tonelada. Com o superávit. Pois como ele descreve. reduzindo o surgimento de doenças. cerca de 1. com aproximadamente 3. O abandono das lavouras contribuiu para o aumento da incidência de . 1997). certamente. isto é. ocasionando conflitos que tiveram como líder o caboclo Marcelino. as áreas de Buerarema e Una. a alta cotação do cacau.180 na sua implementação e execução. preservando espécies climáticas do estrato superior. nos últimos anos. possivelmente. resultou num aumento recorde da área plantada em nível mundial. em vários estágios de desenvolvimento. devido ao uso agrícola intensivo dos solos e à extração indevida de madeira.0 ha. a) O uso dos recursos naturais no território Tupinambá da Serra do Padeiro Parte significativa da vegetação original do bioma Mata Atlântica tem sido substituída. a partir de 1985 os preços decaíram numa constante. No final da década de 70. na metade da década de 30. os baixos preços inviabilizaram a demanda intensiva de mão de obra e o emprego de tecnologias baseadas em insumos modernos. houve uma maior pressão sobre as Terras Indígenas. sobretudo após variações climáticas que passaram a ocorrer sobre a região (Mascarenhas. Segundo Warren Dean (1996).

mas por outro lado. tanto para o trabalho quanto para a gestão de áreas de uso comum. com a função de orientar a comunidade através de avisos de alerta e aconselhamentos quanto à tomada de decisões e encaminhamento de atividades. em partes. Isso se dá porque as matas. inclusive por conta do plantio da mandioca. Essa atitude os diferencia dos não índios que ainda ocupam suas terras e dos povos indígenas que. Os índios Tupinambá da Serra do Padeiro ainda praticam a agricultura 7 Os encantados são espíritos que se comunicam com a aldeia. 2008). Embora exista a presença da atividade agropecuária e extrativista ilegal por parte dos fazendeiros que persistem no território indígena e no seu entorno. à comunidade. provocando em um curto espaço de tempo sérios problemas econômicos (Virgens Filho et al. 1993).. Essa preservação deve-se.181 pragas e doenças. as nascentes e as serras são locais onde residem os encantados. atingindo proporções epidêmicas. que pela sua postura e organização política frente às pressões ambientais. por conta da degradação de seus territórios. também apresenta uma relevância significativa para a preservação ambiental. Mesmo com o desmatamento corrente na região. O culto aos encantados7. O povo Tupinambá demonstra espontaneamente o cuidado e o respeito aos recursos naturais desde a infância. além da importância cultural. . estratégias de lutas e outros aspectos relacionados ao quotidiano da comunidade e mesmo de pessoas individualmente. se comparada com outras serras da região e mesmo com outras porções do território indígena. através dos rituais. são obrigados a utilizar de forma desordenada os recursos da mata para obter o sustento diário. A decadência da cultura do cacau facilitou. tomando esses locais como espaços que devem ser preservados a todo custo (Couto. a qual se disseminou rapidamente. em grande parte. a Serra do Padeiro ainda é relativamente bem preservada. criando condições extremamente favoráveis à vassourade-bruxa. apresenta coesão na cooperação interfamiliar. nota-se ao longo do projeto uma imensa preocupação em preservar os recursos naturais. o processo de retomada das áreas do território indígena ocupadas pelos não índios. base da economia dos Tupinambá. deixou alguns passivos ambientais consideráveis para os índios solucionarem.

queima. O atual sistema de cultivo da mandioca é conduzido pela roçagem. seguido do pousio. mesmo sem recomendação técnica. com uso de adubação a partir do segundo ano. No entanto.182 itinerante baseada na derrubada e queima da mata ou capoeira. ou semeavam a lanço e depois roçavam para os cultivos saírem. pois “não existia sol pra queimar e o mato molhado não queimava. Além dos problemas de fertilidade ocasionados pela intensificação do uso da terra. restringido-se às poucas áreas de roças novas de mandioca. terminologia indígena utilizada para fazer referência ao ato de amontoar o mato roçado. utilizam alguns adubos sintéticos e. tendo a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC). herbicidas. a eficiência dessa prática tem se reduzido amplamente. Não utilizam mecanização tratorizada e. que servem como fertilizante para o solo. só sapecava”. devido ao aumento da população indígena e exiguidade de terra. uma estrutura de ATER oficial. Nas áreas que não eram queimadas.. devido à influência dos pacotes tecnológicos disseminados na região cacaueira a partir da década de 1970. como pode ser observado nos relatos de D. agricultora e agricultor indígena da Serra do Padeiro: [. Atualmente. Almir. realizado após a queima de um roçado) e colocava fogo novamente. utilizado nos plantios para abrir furos no solo. Maria e de Sr. uma vez que pousios mais longos não podem ser viabilizados nos tempos atuais. como viabilizadora de tais tecnologias naquela época. circunscrita a determinada área delimitada e ainda em processo de disputa.] A gente não tinha mais como plantar. os índios Tupinambá também reconhecem que é necessário reduzir a pressão sobre a mata por conta do uso da lenha para produção da farinha. . as opiniões sobre o manejo tradicional do solo e o manejo “moderno” ou convencional são divergentes. plantio e limpa.. plantava-se com fincão8. Segundo relatos. colocava-se fogo e depois “goivava” (fazia coivara. ou para plantio nas cinzas. antigamente derrubava-se a mata com machado. aqui no pé da Serra terra 8 Instrumento agrícola feito a partir de uma vara madeira com a ponta afiada. em menor escala.

vocês planta com supersimples que vocês leva 10 – 12 anos plantando num lugar só. tem contribuído para a conservação de grandes extensões da floresta tropical primária e para o desenvolvimento .183 tava difícil. O relato de Magnólia.. embora a farinha de mandioca seja a cultura principal.. o abacaxi e a banana da terra apresentam elevada importância econômica.. as terra muito seca e nós botou as roça e a mandioca dava uma raizinha. ou melhor! Se você hoje diz. conhecida regionalmente como cabruca.] (Maria de Lírio) [. pra cobrir qualquer dívida é tudo com a mandioca! (Magnólia) Pereira (2000). muitas vezes associado à banana. mais precisamente a farinha.] (Almir Barbosa) A base econômica do Tupinambá de Serra do Padeiro é a cultura da mandioca. culturas como o cacau. traduz a importância da cultura da mandioca para os Tupinambá da Serra do Padeiro: A mandioca é como se a gente tivesse um dinheiro no banco... aí eu aprendi e é mesmo [. daqui a pouco você tá com seu dinheiro na mão. constatou que pressões sociais levaram os índios a substituir progressivamente suas atividades tradicionais de subsistência por atividades orientadas para uma economia de mercado. No caso dos Tupinambá de Serra do Padeiro. eu quero pegar 500 reais e você tem sua mandioca tem a casa de farinha. Essa prática. Aí eu tomei o curso.] Quando nós limpava de estrovenga que é quase igual ao biscol e faz aqueles cambaleão deixava os cisco tudo na roça. na segunda planta já não dava mais. professora indígena. baseada na produção de farinha de mandioca.. não gasta a terra. eles (técnicos da CEPLAC) ensinou pra botar o supersimples que ele é muito natural. O sistema utilizado para o cultivo do cacau.] Tem uns seis anos que eu peguei plantar mandioca com esse supersimples [.. nós produzia muito mais sem adubo e agora nós passa o biscol e aduba e tamos tendo pior[. em estudo com os Kokama do Alto Solimões. aproveita as árvores nativas de grande porte para sombreamento do cacaueiro..

araçá-boi. graviola. milho. com a comercialização do excedente. os Tupinambá observam se a lua está “no claro”9 ou “no escuro” para então realizar o manejo das 9 Período em que a lua está visível no céu à luz do dia. mamão. plantas medicinais. . jaca. em março. como cultura principal.184 da vegetação secundária em vários estágios sucessionais no sul da Bahia. favorecendo o fornecimento de alimento durante o ano inteiro. dentre outras. A colheita dos inhames nativos e cultivados entre abril e junho garante sua conservação durante o armazenamento por até um ano. O plantio de melancia é realizado a partir de agosto até. As espécies de ciclo curto são destinadas à segurança alimentar das famílias. dia 13 de dezembro – Dia de Santa Luzia – se o plantio ocorrer depois desta data. tamarindo. como pássaros e pequenos mamíferos que vivem em tais sistemas. batata-doce. associados a fruteiras como: jenipapo. banana da prata. graviola. A oferta de alimentos não só supre as necessidades nutricionais da população humana. abacate. jambo e cupuaçu. pois no período da quaresma as lavouras sofrem com ataque de pragas e doenças. Quando não é plantado em cabruca. Boa parte dos plantios anuais é realizada na ocasião das chuvas do dia de São José. os métodos tradicionais indígenas de manejo dos cultivos estão inseridos numa lógica de autosuficiência alimentar. favas. no máximo. hortaliças nativas e cultivadas. os cacaueiros entram na composição de sistemas agroflorestais diversificados. A influência das fases lunares e das datas festivas católicas nas atividades agrícolas é bastante marcante no cotidiano da comunidade. diversas variedades de banana. ritualísticas e condimentares de um modo geral. Além das diversas orientações sobre as práticas agrícolas adequadas a cada fase da lua. urucum. tangerina. inhame. como também. feijão. temos: mandioca. Além das vantagens ecológicas promovidas por esta forma de manejo do solo. laranja. abóbora e abacaxi. à colheita ocorrerá depois da Quarta-feira de Cinzas e a melancia só pode ser colhida até o Carnaval. Entre as mais frequentemente produzidas. de muitos animais silvestres. mangalô.

em certo modo. aí a pessoa pode tirar. os mutirões ocorrem semanalmente. agora depois que ela se põe. aquela planta e nem madeira também [. evitando assim o uso de agrotóxicos no cultivo e na pós-colheita dos produtos agrícolas. Aqui a gente chama tá no claro.. na comunidade indígena da Serra do Padeiro existem roças comunitárias destinadas à manutenção de um fundo comunitário que cobre algumas despesas da associação. Pajé). considerando-se que a socialização das crianças no mundo do trabalho – através das brincadeiras onde reproduzem. a pessoa pode plantar que nada persegue. a gente sabe. contando com aprovação e participação de praticamente toda a comunidade. os inseto enxerga né. que nada bicha. Uma atenção especial foi conferida às relações de gênero e ao trabalho das mulheres. e outra destinada às famílias indígenas que retornam dos centros urbanos. se ela tiver fora.. aquela planta dá doença. outra destinada ao grupo de mulheres – para aquisição de bens ou serviços que beneficiem as mulheres da comunidade. as atividades produtivas dos adultos – se dá principalmente com as . é porque os bicho enxerga. em situação de vulnerabilidade social e econômica.” (Lírio da Serra. não sei por que né! É por causa do clarão da lua. porque ela bicha todinha.].185 culturas. E plantando depois que a lua se pôs. como observa-se no depoimento a seguir: O correr do dia a pessoa vai assuntar o que é que a lua tá fazendo. e naquela planta vai cortar. se for madeira e tudo. se a pessoa plantar no claro. ou plantar ou qualquer uma coisa. até serem remanejadas para uma área definitiva. Nestas áreas de trabalho coletivo. dá tudo bichado. a pessoa não pode tirar. aí você já sabe que dá tudo bichado. na hora de plantar a lua tiver de fora. b) A organização social do trabalho na comunidade e as relações de gênero Além de possuírem as roças individuais ou familiares.

Foto 01: Peças em argila confeccionadas pelos homens para representação do seu trabalho cotidiano. As mulheres detalharam as peças de forma mais sistematizada em seu conjunto e buscaram outros recursos como folhas. carroças. para representar suas as atividades diárias. como a raspa da mandioca para fabricação da farinha e o cuidado com a horta. Durante uma das oficinas de diagnóstico. destoca de pastos e a capina para implantação dos roçados. avós. Autor: Erasto Viana Silva Gama Foto 02: Peças em argila confeccionadas pelas mulheres para representação do seu trabalho cotidiano. A discussão desse aspecto foi apontado pela própria comunidade como de fundamental importância para o futuro das gerações. e através do trabalho em argila. buscando entender à dinâmica produtiva local e o papel dos gêneros. Autor: Erasto Viana Silva Gama Nas roças em geral. Os homens construíram peças individualizadas. irmãs mais velhas). as peças produzidas pelos homens foram menos refinadas e sem muitos detalhes. Por seu turno. relataram os universos cotidiano feminino e masculino e evidenciaram a divisão sexual do trabalho dos Tupinambá da Serra do Padeiro. os homens atuam nos trabalhos que exigem mais força. fornos de farinha e a figura de um guerreiro. compondo cenários. representativas do trabalho masculino. sementes e flores. Foram representados machados. enquanto que as mulheres plantam ou . porém. como a roçagem de capoeiras e matas. o grupo foi dividido por sexo.186 mulheres (mães. considerado mais exigente em força.

que eu ia pra roça arrancava 5 carga de mandioca ou 6. Marluce) Agora eu já cansei de botar o braço na tipóia. segundo a análise feminina: “Os homens plantam uma coisa só porque aquilo vai vender e o dinheiro fica com eles. Contudo.” (D. como horta. o transporte e a comercialização ficam a cargo dos homens. assumindo um papel ativo na comunidade. tempero. dependendo da necessidade. realizam capinas e os cuidados diários e participam da colheita.. Maria) Em relação à preocupação com a segurança alimentar. dava a mãe [. As mulheres também estão inseridas em um lugar central nos cultivos de hortaliças.] e eu só lavava roupa e cuidava de meus irmãos. homens e mulheres assumem atividades culturalmente atribuídas ao sexo oposto. pois já não compram aquilo. abacaxi e banana da terra e intervêm politicamente nos espaços de capacitação com muita firmeza e naturalidade. A produção da farinha de mandioca e do beiju são atividades predominantemente femininas. radava ela todinha botava no saco. como se observa no relato de Dona Marluce sobre o período de resguardo pós-parto de sua mãe e de Dona Maria.187 semeiam. além de lidarem com as atividades domésticas. . pegava e levava pra rua. fazia pirão de parida. enquanto que a colheita. então planta a horta” (Magnólia). E a mulher pensa na saúde.. porque as mulheres pensam em economizar. chegava em casa juntava eu mais Ferreira e mais outro rapaz e eu batia no rodo. nota-se que. sobre a colheita de mandioca e a fabricação de farinha: “Pai matava galinha. Já as mulheres plantam mais coisas. (D. o tanto que fosse.

Antes da intervenção de implantação de unidades demonstrativas de Sistemas Agroflorestais (SAFs). Ocorre que tal procedimento. O coivaramento. Almir e para implantação de um bosque energético em sucessão à mandioca. galhos e fustes roçados são consumidos pelo fogo para dar origem às cinzas. atentando à importância de aspectos como matéria orgânica no solo. a amontoa de restos de cultura. com mais três hectares. consumida no âmbito doméstico. desenvolvimento vegetativo dos cultivos. em uma área degradada contígua à casa de farinha comunitária.188 c) Construindo novas relações com a natureza A queimada é um traço cultural bastante marcante na cultura indígena. isto é. Extraída da mata. a lenha é retirada de áreas remanescentes da Mata Atlântica e em processo sucessional de regeneração. a comunidade mobilizou as crianças e os jovens da escola e juntos realizaram um mutirão para produção de mudas de sabiá. reiteradamente realizado numa mesma área. conduzindo a uma redução da qualidade do solo. O desenvolvimento das atividades de capacitação sobre SAFs suscitou a problemática das queimadas e energética do uso da lenha. exaure o solo e reduz drasticamente sua microfauna e microflora. nos fogões. em estufas de secagem de cacau e em casas de farinha. Aliada à implantação das Unidades Demonstrativas de SAFs e aproveitando a semana do meio ambiente. qualidade e conservação dos solos. . visando a produção de lenha para manutenção das atividades da mesma. As mudas foram destinadas à implantação de 200m de cerca viva na área de Sr. e comunitário. foram realizadas oficinas de indicadores de sustentabilidade do solo. também conhecido por sansão do campo. disponibilizam nutrientes e propiciam o crescimento vegetativo. e oficinas de Sistemas Agroflorestais (SAFs) Complexos conduzidos pela implantação sucessional de espécies. ricas em bases que elevam o pH. cobertura morta e viva do solo.

uma assistência técnica mais contínua ou um projeto específico. localizadas nas áreas retomadas do rio Cipó e do rio Una ao lado das áreas cultivadas tradicionalmente pelo grupo. banana. Autoria: Erasto Viana Silva Gama Foto 04: Oficina sobre as práticas agrícolas tradicionais dos Tupinambá da Serra do Padeiro. mandioca. Decerto. organicamente engajado. pode possibilitar a superação dessa prática cultural. através de experimentações participativas que levem à conscientização de que a ausência do pousio para o descanso restaurador da terra torna inviável o emprego das queimadas. o manejo e a socialização da experiência das unidades demonstrativas de Sistemas Agroflorestais (SAFs). porém é uma prática que causa estranheza e necessita de maior tempo para que as mudanças ocorram. pupunha e jenipapo. foi realizado com a introdução de espécies leguminosas como o estilosantes. jaca. açaí. Autoria: Erasto Viana Silva Gama A existência das roças comunitárias facilitou a implantação. neste primeiro momento.189 O projeto ousou discutir e propor alternativas às queimadas. mas de forma consorciada e inserindo mais espécies com outros usos que não o alimentar ou comercial. feijãode-porco. Foto 03: Oficina de acompanhamento e manejo da UD de SAF na retomada do rio Una. A composição inicial dos SAFs contava com cultivos tradicionalmente adotados pelos índios como: abacaxi. mucuna-preta gliricídia e o andu – utilizado tanto para a . O enriquecimento das áreas.

apesar de se observar a presença de outras espécies espontâneas. 10 Facão que se retira o cabo original e é adaptado um cabo mais comprido de madeira. em espaços de capacitação onde se fomentou a observação das diversas espécies herbáceas. enquanto que na unidade do Rio Una. o feto (Pteridium aquilinum) era a espécie predominante. e coarana para ciclagem de nutrientes e produção de biomassa para adubação verde. . observou-se um maior número de espécies espontâneas na unidade demonstrativa da Retomada do Rio Cipó. estas tinham sido recentemente queimadas para implantação das roças comunitárias. visando principalmente à retirada das espécies que já se encontravam em estágio reprodutivo e/ou as que porventura tivessem proporcionado sombra às espécies implantadas na área. ao seu efeito alelopático que inibe o desenvolvimento de outras espécies. Ressalta-se que. em fase anterior à implantação das UDs. e de não-leguminosas como hibiscos. O manejo das plantas espontâneas foi conduzido através de capinas e roçagens seletivas com o uso do facão ou biscó10. provavelmente. As áreas de UD foram manejadas coletivamente com orientação da equipe técnica. apesar das orientações e recomendações para a não realização das queimadas nas áreas. também chamada regionalmente der margaridão. isso devido. Durante o acompanhamento e comparação entre as duas áreas.190 produção de biomassa e fixação de nitrogênio em adubação verde. facilitando a ceifa das plantas espontâneas e oferecendo maior comodidade ao trabalhador nas operações. tithonia. arbustivas e arbóreas que se desenvolviam espontaneamente. como para alimentação humana.

As excursões técnicas para troca de experiências foram oportunas. e possibilita a obtenção de resultados perceptíveis em projetos de curta duração. visualmente foi identificado pelos participantes da oficina um melhor desenvolvimento vegetativo na UD que na roça monotípica. mas o abacaxi da área do Rio Una apresentava um melhor aspecto vegetativo. Foto 06: Mutirão de implantação da UD de SAF em área no rio Una. Autora: Carla Teresa dos Santos Marques Comparando-se a unidade demonstrativa de SAF do rio Cipó com o cultivo solteiro de mandioca na área paralela.191 Foto 05: Vista parcial da cobertura vegetal da UD de SAF em comparação à área de cultivo monotípico de mandioca (à esquerda). talvez devido à qualidade das mudas. Autora: Carla Teresa dos Santos Marques. . criando momentos salutares no decorrer do projeto. Também foram comparadas a UD do rio Cipó com a do Rio Una observou-se que na área do rio Cipó as plantas se desenvolveram melhor. Possibilitar intercâmbios entre agricultores que vivem em ambientes de condições climáticas semelhantes os auxiliam a incorporar e implementar mudanças.

192 Foto 07: Visita de intercâmbio sobre SAFs. Dandara dos Palmares. valorizando sobremaneira o conhecimento local. Embora a comunidade ainda esteja buscando apoio para a publicação do dicionário.A. os Tupinambá da Serra do Padeiro conhecem a experiência do P. . contextualizado na disciplina de técnicas agrícolas. o mesmo foi reproduzido e já está sendo utilizado pelos professores locais como material paradidático. Autor: Erasto Viana Silva Gama Foto 08: Crianças e comunidade reunidas na Semana do Meio Ambiente para produção das mudas de sabiá do bosque energético. em Camamu/BA. Autora: Magnólia de Jesus da Silva A produção do minidicionário de plantas medicinais e ritualísticas. a partir de incursões na mata para reconhecimento e coleta das plantas úteis ao povo Tupinambá para identificação local e científica no herbário da UFBA. e a posterior sistematização dessas espécies e seus respectivos usos juntamente com os jovens e crianças da aldeia (os quais ilustraram o dicionário) possibilitou uma experiência muito rica de troca de saberes entre as gerações e de ressignificação dos seus conhecimentos.

A ANAÍ por sua vez montou um sistema de monitoramento e avaliação processual e contínuo. pelo qual os membros da equipe técnica envolvidos no projeto se reuniam mensalmente para fazer a verificação do alcance das metas estabelecidas. por se relacionarem diretamente aos recursos naturais da região e a formas mais sustentáveis de utilizá-los. Esse conselho reunia-se.. Na avaliação feita pela comunidade indígena ao final do projeto. extraordinariamente. quando necessário.] aquela ocorrência que vocês fizeram sobre as plantas medicinais. por meio de um conselho. . logo após o encerramento de cada atividade e. os mais relevantes para os Tupinambá. Autor: Magno Tupinambá Monitoramento e Avaliação Final do Projeto O monitoramento das ações previstas no projeto foi realizado pelas instituições envolvidas e representantes da comunidade de Serra do Padeiro. Isso pode ser observado nos depoimentos relacionados aos temas trabalhados. composto por seis pessoas. foram destacados alguns aspectos. ordinariamente. Autora: Carla Teresa dos Santos Marques Foto 10: Oficina de plantas medicinais e ritualísticas utilizadas pela comunidade Tupinambá da Serra do Padeiro. permitindo a avaliação e a correção de quaisquer problemas. Construção do minidicionário de plantas medicinais e ritualísticas: “[.193 Foto 09: Incursão na Mata para coleta de plantas medicinais e ritualísticas utilizadas pela comunidade Tupinambá da Serra do Padeiro..

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entendeu? Que foi mais um reforço que buscou sobre até nós mesmo, achei muito importante aquele reforço que foi reforçado sobre as medicinas, né, importantes a todas que... porque tava ficando uma coisa quase “derrubada” e através disso, nós estamos achando que elas estão se levantando novamente, porque nós já não vai mais cortar aquele pé de árvore , de planta que temos aqui, nós já queremos continuar plantar mais e conservar mais porque realmente nós já sabia assim... pra que servia, mas agora a gente achou que foi mais um reforço pra nós mesmo sim, mas uma coisa que a gente fica pensando.. são os jovens... são a parte de gente que não liga [...] ah!!! pra esse povo acreditar em chá ou acreditar em banho, ah!! eles vão tudo pro médico, e hoje nós faz um reforço, a gente velho ficava escabreado de fazer um chá pra uma pessoa [...] a coisa mais importante do mundo é aprender mais [...]” (Maurina,‘Tina’) “A coisa mais difícil é eu ir no médico porque já sei que as ervas curam desde que eu era pequena eu sabia...porque eu nasci dentro da mata e me criei com caça e peixe e eu sei que as plantas medicinais é uma cura muito maravilhosa, com certeza” (Maria de Lírio).

Práticas Agroecológicas:
[...] também achei muito importante nós aprendermos mais a não desmatar, aprendermos mais proteger o meio ambiente, aprendemos mais também proteger os nossos rios, plantar sem que fique derrubando, fazendo queimada, foi muito bom pra gente, também [...] apredemos também como combater o inseto sem que nós vive botando veneno, né, coisa tóxicas em cima da terra, nas nossas plantas né, foi muito bom , aprendemos bastante. Muitas coisas boas que vocês [...] deram foi como eu falei, eu disse: O meu marido já trabalhava com questões de forrar as terras com as bananeira no tempo da seca pra conservar o plantio de cupuaçu dele e com o adubo orgânico e sempre ele colocava nas plantas porque tinha vez que não tinha dinheiro pra comprar adubo ele fazia isso e com isso

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dava [...] o cupuaçu, graças a Deus, não anda comprando adubo que não era todo tempo que tinha dinheiro pra se comprar adubo, e isso aí , quando eles falaram essas questões, eu lembrei logo que ele fazia isso[...]” (Marluce)

Viagens de intercâmbio:
Aquela viagem de Camamu foi uma maravilha,[...] aprendemos muito, gostemos, foi maravilhoso, foi muito lucrativo[...] que a gente aprendeu tudo, como a gente não sabia [...] fazer o geladinho de pupunha [...] aprendeu a fazer a geleia do cupuaçu, que nós tinha o cupuaçu e não sabia fazer a geleia, nós não fazia. Aquela mulher, Del, uma maravilha de pessoa [...] nós queremos até que eles venham um dia [...] visitar nossa região, nossa aldeia também (D. Maria).

O período de execução do projeto não foi suficiente para suprir as demandas geradas na comunidade a partir do mesmo, e isso foi comentado pelos indígenas da Serra do Padeiro, como mostram os depoimentos a seguir:
“O pessoal se conscientizar mais do que nós estamos fazendo, isso é uma grande melhora, né, porque na hora que todo mundo se conscientizar do que vai fazer, eu acho que esse já é um ponto chave para a melhoria das coisas, é o pessoal ter mais incentivo, né, pra vim mais, pra aprenderem mais, então, aí eu acho que é o que falta melhorar. E eu tenho certeza que no projeto vai ter casa cheia, todo mundo vai [...] Aí a gente passa pra última pergunta: O que faltou? Tempo! Tempo! faltou tempo. Quando o tempo dava pra vocês, faltava pra nós, quando dava pra nós faltou pra vocês.”

“O projeto foi muito pequeno, foi curto. Aí quando o povo tá querendo se engajar nas coisas é quando tá acabando [...] que agora é que o povo quer, você viu ontem aquela participação que Déu e Zé

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Mané tudo tava lá, mas foi o quê? Não tem mais tempo se tivesse outra participação daquela ia ser melhor, quer dizer, que o tempo foi pouco e muita gente agora quer se engajar no projeto e o projeto acabou [...] Né, Maria?Aí acaba! Já acabou! Final! Adeusinho!”

O relato dos índios sobre o processo de aprendizado durante o projeto, revela o pensamento corrente entre os Tupinambá da Serra do Padeiro, que consideram o “aprender” e o “ensinar” de suma importância para sua reprodução sociocultural.
Faça um experimento assim, vá pra uma terra, limpe bem limpa, tira toda a sujeira e deixa a outra com a sujeira e plante pra ver a diferença, porque eu já to fazendo e to vendo [...]. E eu acho que tudo a gente tem que ver pra crer, uma terra limpa queimada e uma terra que não teja queimada. Eu acho que a gente adianta mais o lado da gente, do que a gente queimar, fica uma coisa muito boa [...] que eu achei muito bom. (Almir Barbosa).

Algumas Considerações A história da comunidade indígena de Serra do Padeiro está vinculada a uma presença marcante da participação de seus membros, inclusive mulheres e jovens, que expõem suas opiniões com naturalidade. Motivados também por identidades de parentesco, vizinhança e luta pela terra, a exemplo da demarcação de seu território, eles são senhores de um ritmo que somente um projeto com efetiva participação poderia ser implementado. As oficinas de capacitação e a pesquisa antropológica apresentaram esta marcante característica. O trabalho antropológico reforçou a afirmação étnica com a documentação encontrada sobre o caboclo Marcelino, a saga de os índios Tupinambá, o grau de parentesco entre as famílias das diversas aldeias da região e seus costumes, e permitiu a construção de paralelos culturais entre o passado e a contemporaneidade vivenciada pelos Tupinambá.

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Desse modo, o exercício de estar em contato com sua história territorial e o fato dos índios se sentirem sujeitos dela fornecem elementos que os empoderam, tornando-os mais animados na defesa efetiva de seus direitos, sobretudo na luta pelo direito à terra, que na realidade indígena é uma condição vital. A demarcação da Terra Indígena Tupinambá deve ser encarada como ação prioritária pelos órgãos competentes. Por seu turno, assume relevância a necessidade de operar mudanças nas práticas de agricultura sob queimadas e da implementação de estudos de valoração de serviços ambientais, a fim que as comunidades indígenas sejam remuneradas por atividades em prol da conservação do bioma Mata Atlântica. A região apresenta alto índice pluviométrico, com solos profundos, ácidos e de baixa fertilidade química, onde a manutenção da matéria orgânica no solo é uma necessidade constante. Os SAFs difundidos pela equipe técnica despontam enquanto estratégia que possa garantir os predicativos necessários à manutenção e melhoria da qualidade dos solos e produção sustentável. Ademais, possibilita a incorporação de solos degradados ao processo produtivo, sem uso de insumos e crédito externos. Desse modo, a implantação de SAFs na aldeia, tendo como ferramenta as Unidades de Demonstração (UDs), foi uma experiência válida que cumpriu seu objetivo inicial ao despertar na comunidade a vontade de experimentar outra forma de modelagem dos agroecossitemas. Nesta concepção, os SAFs sucessionais diversificados surgem como uma alternativa tecnológica que associa a conservação do patrimônio natural no território Tupinambá e a produção agrícola para múltiplas funções: segurança alimentar; plantas medicinais, condimentares, ornamentais e para produção de fibras; produção de espécies madeiráveis e energéticas; geração de trabalho e renda; conservação da água, solo e recursos genéticos; oferta de abrigo e alimento para a fauna. No entanto, a descontinuidade das capacitações e a falta de assistência técnica no decorrer do desenvolvimento das UDs de SAFs e

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bosque energético podem implicar dificuldades para condução e manejo dos sistemas, desânimo para continuar desenvolvendo a atividade e falta de convicção de que pode dar certo. Questões que esbarram no tempo de execução e etapas para além do decurso temporal do projeto. Daí, este instrumento metodológico deve ser pensado em um prazo mais dilatado ou se deve pensar a perspectiva de acompanhamento da comunidade e dos técnicos após o término do projeto. Falta-lhes, portanto, um projeto com maior espaço temporal e uma ATER mais contínua, sendo uma condição sine qua non para o seu sucesso a ligação orgânica com as organizações indígenas, técnicos e instituições de ATER. Percebe-se, com isso, que editais e projetos de natureza da Agroecologia em Terras Indígenas não substituem a necessidade de existência de órgãos públicos do setor atuantes. Tais iniciativas são apenas faróis, que podem auxiliar na formulação de políticas públicas necessárias à fundamentação de uma ATER engajada, emancipatória, que considere a organização social, os traços culturais, a Agroecologia e a sustentabilidade econômica, ambiental e política dos povos indígenas, os quais possuem peculiaridades que devem ser consideradas pelos atuais órgãos de ATER que, em geral, vivenciam um sucateamento estrutural. Ademais, o saber técnico aliado e confrontado com o saber local, tendo os princípios da Agroecologia como referência constitui, potencialmente, uma ferramenta de promoção do desenvolvimento sustentável nas comunidades rurais indígenas. E isso pode ser evidenciado, comparando-se as duas situações, antes e depois da execução do projeto. Mesmo em pouco tempo, é notório que, embora ainda persistam práticas como as queimadas, hoje existe no povo Tupinambá da Serra do Padeiro uma compreensão da necessidade de mudanças, e das várias alternativas viáveis para a construção de modelos de agroecossistemas que integrem a produção agrícola e a conservação ambiental.

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Barreto Lilane S. Território Indígena Pankararé. Dantas Miguel Ângelo da S.200 Execução e Gestão de Projetos Indígenas: Ater Indígena no Semi-árido Brasileiro. Bahia Marina S. Raso da Catarina. Colaço Felipe O. de Castro Lílian S. Rêgo Maria de Fátima B. Nunes Amia Camila Spineli . Nunes Camila O.

das disparidades e desigualdades regionais brasileiras. . Gente e Arte (INAGEA). Nunes6 Camila O. Gente e Arte (INAGEA). Eng. Dantas4 Miguel Ângelo da S. Bióloga. 6 Biólogo. Rêgo3 Maria de Fátima B. Bahia Marina S. Biólogo. Barreto2 Lilane S. 8 Bióloga. Instituto Natureza. Geóloga. Colaço5 Felipe O. Instituto Natureza.201 Execução e Gestão de Projetos Indígenas: Ater Indígena no Semi-árido Brasileiro. Centro de Desenvolvimento Sustentável/Universidade de Brasília (CDS/UNB). Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e Centro de Desenvolvimento Sustentável/Universidade de Brasília (CDS/UNB). Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA). é um marco histórico importante para o Estado brasileiro e aos povos indígenas nordestinos. 3 Especialista em Gerenciamento Ambiental. Território Indígena Pankararé. Gente e Arte (INAGEA). Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA). Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA). Instituto Natureza. Instituto Natureza. Agrônoma. Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA). Doutora em ecologia. Nunes7 Amia Camila Spineli8 Introdução Refletir a respeito da assistência técnica e a extensão rural (ATER) indígena a partir de experiências diversas. em especial no semiárido brasileiro. A realidade dos povos indígenas na região Nordeste é de luta e 1 Pós-doutoranda em desenvolvimento sustentável. Bióloga. de Castro1 Lílian S. Gente e Arte (INAGEA). 2 Doutoranda em Desenvolvimento Sustentável Políticas Públicas e Gestão Ambiental. Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA). Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA). 4 Mestranda. Programa de Pós-Graduação em Modelagem em Ciências da Terra e do Ambiente da UEFS (PPGM/UEFS). 5 Mestre em Botânica. 7 Biólogo. Raso da Catarina.

a combinação de resistência cultural e identidade étnica. internet. intensificada ainda pela frequente inserção do meio externo às comunidades. Foto 01: Procissão realizada pelos indígenas. a ausência de uma valorização de sua identidade. colocaram-nos na cena sociocultural nacional. Refletindo. rumo ao Cruzeiro. envolvendo disputas com proprietários tradicionais. Essa condição os colocou em uma situação de invisibilidade frente às questões de regularização fundiária de suas terras e de acesso às políticas públicas brasileiras. Com o passar do tempo. extintos ou inexpressivos enquanto população. uma vez que foram considerados por muito tempo aculturados. rádio e a ainda incipiente.202 resistência étnica permanente. No Nordeste os conflitos são fundamentalmente fundiários. Desta forma. Se a relação ha/índio . nos próprios atores sociais. aliada à atuação política à frente dos movimentos sociais na região entre as décadas de 1970 e 1980. grileiros e posseiros. Autora: Celimar Rejane Carneiro. durante a celebração da Festa do Amaro. desviando principalmente os mais jovens do conhecimento tradicional e consequentemente. encaminhando para o êxodo das suas aldeias de origem e a desvalorização de sua identidade cultural. através dos diversos meios de comunicação como TV. culminando em alguns casos no reconhecimento e homologação de seus territórios. até por pequenas extensões de terras agricultáveis.

203 no Norte é maior do que a do Brasil como um todo (335ha/índio). ou seja. tanto internas como externas. Dos povos indígenas do Nordeste. 2003). a cultura é um elemento em constante mutação. e é muito comum encontrar determinados elementos culturais constatados em populações rurais nordestinas. pela intensificação do trabalho (Ploeg. sujeito a incorporações voluntárias e involuntárias de bens e serviços. situadas em faixas climáticas semiáridas e desfavoráveis às atividades agrícolas convencionais. . agregar o conhecimento tradicional às novas tecnologias. O fortalecimento. 2008). no Nordeste esta relação é de 7. A isso se alia ainda a ausência de conhecimento por parte das demais populações não indígenas. Em relação aos antagonismos políticos e às práticas econômicas. Considerando a localização adversa das Terras Indígenas no Nordeste. Ou seja. consequentemente. a valorização da identidade étnica de um povo promovem não somente a aceitação do novo como também a valorização e a salvaguarda dos modos de fazer tradicionais de cada etnia. apenas os Fulni-ô possui uma língua própria. que se utilizam do acesso à máquina do Estado para manter o monopólio da terra e estimular conflitos internos ao campesinato.2ha/índio (PETI. a questão indígena no Nordeste faz parte da questão camponesa. pode ser equiparada à unidade familiar camponesa. Há uma grande incidência de casamentos com não índios e com índios de outras etnias. da dinamicidade cultural a que todos os brasileiros são diariamente submetidos. por decorrência da facilidade de acesso à informação e ao desenvolvimento acelerado da tecnologia. Índios e camponeses em contradição fundamental com poderosas elites tradicionais da região. todos os demais se expressam unicamente pelo português. A dificuldade de se falar em povos indígenas do Nordeste decorre da pouca visibilidade das descontinuidades culturais que expressariam a unidade e a distintividade de um povo indígena em face da cultura e da nação brasileira. o reconhecimento e. a sua intensidade de uso da terra.

formam um dos núcleos mais importantes dessa diversidade. 1994). Paralelamente. que atestam estas ocupações. então. Na busca por uma alternativa de desenvolvimento sustentável. que incorpora dimensões simbólicas e identitárias na relação do grupo com sua área. o que dá profundidade e consistência temporal ao território (Little. . a consagração do conceito de desenvolvimento sustentável como elemento de um novo paradigma de desenvolvimento criou possibilidades para novas alianças (Ribeiro. mas se mantém viva na memória coletiva. A diversidade sociocultural é acompanhada de uma extraordinária diversidade fundiária da situação territorial das etnias. por consequência de práticas históricas de adaptação ao meio ambiente. não reside em leis ou títulos. As diversas sociedades indígenas. às paisagens e aos ecossistemas. A expressão dessa territorialidade. A longa duração dessas ocupações fornece um peso histórico às suas reivindicações territoriais. aliado aos estudos antropológicos e arqueológicos.204 A descontinuidade que instaura nas etnias do Nordeste não é consequência de uma diferença cultural. cada uma delas com formas próprias de inter-relacionamento com seus respectivos ambientes geográficos. 1992). 2002). Para os atores sociais a valorização da tradição e sua autenticidade constituem sua própria reafirmação política (PETI. A dimensão ambiental e agrícola nos Territórios Indígenas se expressa na sustentabilidade ecológica da ocupação por parte desses povos. Os territórios dos povos tradicionais se fundamentam em séculos de ocupação efetiva. baseada nas formas de exploração de baixo impacto dos ecossistemas (Little. calcada em fatores históricos relacionados aos aldeamentos e territorialização frente às missões religiosas. ao mesmo tempo em que mostra sua força histórica e sua resistência cultural. simplesmente as situa dentro de uma razão histórica não instrumental. mas sim de uma produção de instância política e desenvolvimentista. os povos tradicionais passam a ser considerados como parceiros. O fato de seus territórios terem ficado do regime formal não tira a legitimidade de suas reivindicações. 2003).

. Os Pankararé Os Pankararé ocupam uma área com aproximadamente 46. Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e da Fundação Escola Politécnica da Bahia (FEPBA). abrange parte dos municípios de Rodelas. O grupo encontra-se nas aldeias Brejo do Burgo. Raça e Etnia (PPIGRE). no âmbito do Programa de Promoção da Igualdade em Gênero. sempre agregando os conhecimentos tradicionais sobre a biodiversidade do bioma exclusivamente brasileiro. Bahia” e foi executado com o apoio da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA).205 A perspectiva em projetos de Ater indígena pela iniciativa do Governo Federal por meio do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e de acordo com a Política Nacional de Ater (PNATER) tem contribuído para os avanços na atenção ao meio rural frente às questões de segurança alimentar e desenvolvimento rural integrado e sustentável em Terras Indígenas. localizados no extremo nordeste do estado da Bahia. Glória e Paulo Afonso (figura 1).000 ha em extensão. O projeto é intitulado “Assistência Técnica e Extensão Rural Integrada à Produção Agroecológica Sustentável no Território Indígena Pankararé. Serrota e Chico. na região denominada Raso da Catarina. Raso da Catarina. a Caatinga. A reflexão que segue será baseada no projeto aprovado pelo MDA. executado entre fevereiro de 2007 e dezembro de 2008 (22 meses). Foram necessárias adaptações socioambientais ao ecossistema semiárido e à cultura sertaneja regional.

2006) O território indígena Pankararé é formado por duas Terras Indígenas: a Terra Indígena Pankararé. quando vistos em termos de forma de organização social se enquadrariam na categoria de “campesinato indígena”.206 Figura 1 – Mapa de situação e localização do Território Indígena Pankararé. onde o espaço e os recursos ambientais são divididos com os “brancos” (posseiros que não se autodenominam índios). principalmente no Nordeste. com a permanência de comunidades camponesas que mantêm as cinco características das sociedades camponesas identificadas por . que era denominada “área mista”. constituindo-se em uma área de intenso conflito interétnico pela posse de terras até final do ano de 1990. Amazônia e Centro Oeste.000 hectares. Eric Sabourin (2009) confirma a hipótese do campesinato no Brasil corresponder a uma das formas particulares da agricultura familiar. Para Suzana Maura Maia (1992) o grupo pode ser visto como um segmento social ‘camponês’ que se auto identifica como um grupo étnico distinto na população regional. com uma superfície de cerca de 17. Fonte: (DANTAS. Os Pankararé têm uma longa história de contato com seus vizinhos regionais. com superfície de aproximadamente 29. sendo de usufruto exclusivo dos índios e a Terra Indígena Brejo do Burgo. constituída a partir de modalidades específicas de produzir e viver em sociedade. Para essa autora.000 hectares.

produtos de coleta como frutos silvestres: umbu (Spondias tuberosa .207 Henri Mendras (1976): relativa autonomia em relação à sociedade global. os Pankararé se enquadram na denominação “campesinato indígena”. parte autônomo e parte integrado a mercados diversificados. após cálculo econômico feito pelo homem com vistas a garantir provisão para o consumo e para as precisões ou guardados como semente. milho e mandioca) são vendidos no período de safra. Do mesmo modo. .Arecaceae). A Experiência de ATER Tomando a experiência de Ater indígena como reflexão crítica neste contexto territorial e cultural. um sistema econômico diversificado. castanha de caju (Anacardium occidentale . murici (Byrsonima gardneriana . licuri (Syagrus coronata . que se caracteriza pela auto exploração da mão de obra familiar. a importância estruturante do trabalho familiar e do grupo doméstico.Anacardiaceae). o projeto teve como propósito promover um “dialogar de saberes” inserido na prática das rotinas tradicionais de trabalho indígena. Este diálogo tinha como objetivo principal incorporar o modo de fazer indígena a esse sistema agroecológico integrado. Entre os objetivos foram incluídas premissas de construção.Anacardiaceae) e caças (animais silvestres) são comercializados semanal ou quinzenalmente pela mulher para a aquisição daqueles produtos não produzidos internamente. relações de interconhecimento e a função decisiva das mediações entre sociedade local e global. Isso em relação às técnicas e tecnologias. roça/pasto. somente para consumo interno do grupo). No nosso entendimento.Malpighiaceae). economia de subsistência (agricultura e pecuária em pequena escala. sistema agroflorestal de criação de animais silvestres e áreas de sucessão ecológica) adaptado ao modo de fazer indígena. de forma a viabilizar um sistema agroecológico integrador de diferentes subsistemas (casa/ quintal. e os excedentes da produção agrícola (feijão.

confiança e respeito estabelecidos através de diálogos interculturais. sempre considerando as experiências passadas. Os envolvidos no projeto procuraram entender as relações entre o desejado. e mútua e constante influência. resgate ao passado pela linha do tempo na sequência de execução e gestão de projetos relacionados à sustentabilidade ambiental e projetos com abrangência em temas relevantes como gestão etnoambiental. o planejado e o executado. tempo de relação interétnica para o entendimento da visão de futuro e para a sustentabilidade territorial e cultural. da flora nativa. médio e longo prazos criando uma base sólida de ação e confiança no contato intercultural.208 reconstrução e desconstrução a cada dia de execução do projeto. visando geração de renda com produtos oriundos das práticas indígenas e das adaptações tecnológicas. A experiência do projeto em Ater indígena no Território Indígena Pankararé pode ser considerada como um modelo de execução e gestão em projetos de Ater a partir dos princípios e valores éticos e de sustentabilidade adaptados à realidade étnica local. agroecologia e etnodesenvolvimento. Constituindo um programa estratégico planejado em curto. Esta leitura e abordagem foram devidas a pré-requisitos que a equipe executora e os indígenas tomaram como princípios de cogestão participativa e confiança recíproca. Foram cogitadas várias razões . acompanhamento. constância e continuidade da equipe executora com perfil multidisciplinar e interdisciplinar em bases científicas da etnociência e do desenvolvimento sustentável. de água e solo. a agroecologia como modelo adaptado mais do que simplesmente tratar do manejo responsável sobre os recursos naturais parte de um enfoque holístico e de uma abordagem sistêmica com flexibilidade diante dos princípios de manejo tradicionais nas suas múltiplas interrelações. bem como o aproveitamento integral de resíduos. Nestas ações estão o manejo sustentável da fauna silvestre. Os princípios norteadores foram: criação de mecanismos anteriores a gestão e execução do projeto para a definição de coletividade. Portanto. principalmente de espécies arbóreas chaves.

ciclos de produção. O projeto de Ater não foi tomado como uma solução para os inúmeros problemas sociais ou comunitários. calendários agrícolas. nas tomadas de decisões. 2007). As questões derivadas do encontro intercultural. o monitoramento e avaliação das ações pela comunidade sempre foram tratadas pelo diálogo de saberes e não obedecendo a lógicas pré-estabelecidas. que passaram pelos diagnósticos. considerada uma “realidade desejo” do grupo indígena. vivências e de regras do grupo indígena. na escola indígena local. tradições e costumes ao executar e implementar as ações que pareciam muito simples e ao mesmo tempo muito complexas. Autora: Carina Spineli.209 de natureza técnica. na definição sobre o que e como fazer as atividades. assim como permite a operacionalização obedecendo às oportunidades de conhecimentos. mas uma possibilidade de transformar a realidade para outra. . Este tratamento possibilita que não se crie dependência alimentada por práticas assistencialistas. É necessário promover a “fusão de horizontes” entre os sistemas de significados dos indígenas e não indígenas sem hierarquizá-los ou sobrepôlos ao analisar os diálogos estabelecidos (MATOS. qualificações. planejamentos. sobre o desenvolvimento das atividades dos projetos. Foto 02: Reunião com representantes dos grupos familiares da Aldeia Serrota. o que possibilitou que não fosse apenas mais um discurso de poder institucionalizado que opera para garantir sua visibilidade. no processo de diagnóstico.

estaca. temporal. O tempo de decisão na comunidade indígena não coincide com os prazos que são estipulados pelo projeto. e a flexibilidade de cumprimento de prazos se torna necessária. maior a dependência de tecnologias e inovações. sementes de hortaliças). torneira bóia. (ex. política. muitas vezes incompatíveis com a complexidade da realização de projetos participativos e descentralizados que pleiteiam serem solidificados e estruturados pelas comunidades indígenas e entre técnicos envolvidos nas metas do projeto e em consonância com a cultura local. regador. tanque de polietileno. barrote. cultural. 9 Conjunto de elementos de despesa que compõe uma determinada unidade demonstrativa implantada. sendo que quanto mais intenso e longo o contato. A assistência técnica e a extensão rural foram compreendidas pela equipe executora e indígenas como a possibilidade de integrar inovações tecnológicas aos conhecimentos tradicionais de uso e manejo da agrobiodiversidade com objetivo de sustentabilidade das atividades produtivas e reprodutivas do grupo por meio de diálogos interculturais.210 A necessidade de assistência técnica foi considerada consequência dos problemas gerados pelo contato com a sociedade nacional. equipe técnica e comunidade indígena). a) Principais Desafios As dificuldades na execução do projeto foram de diversas ordens (institucional. social) e em seus diversos níveis de gestão (financiador. prego. O instrumento utilizado pelo MDA em forma de “kit”9 restringiu as possibilidades de execução de metas. . grampo.: Kit Unidade Horta – tela de galinheiro. pois imobilizou as possibilidades de gerar alternativas para a solução de problemas locais. Um primeiro aspecto foi em relação às exigências de prazo pelo financiador. fortalecendo encontros e desencontros nos distintos sistemas culturais. ambiental.

fundamentalmente. De ordem social. o que gerou conflitos políticos internos. os recursos alocados nos editais para pagamentos de horas técnicas são insuficientes para atender a demanda de assistência técnica requerida em projetos desta natureza e porte. o que se reflete na dificuldade de adequação do projeto ao calendário agrícola. os gargalos foram em relação à demora na definição final pelos indígenas e técnicos do arranjo adequado a cada subsistema (mudanças de planos) e à dificuldade e tempo longo na aceitação de novas técnicas. forma mais próxima ao manejo que os indígenas já realizavam nos subsistemas de produção e consumo estudados no modelo de desenvolvimento rural. . O fator de ordem política preponderante foi em relação ao ano eleitoral municipal com a candidatura de indígenas a cargos de vereadores. Os aspectos de ordem ambiental incluíram a ausência de chuva no período previsto em relação à produção agroecológica dos policultivos no campo. mas também necessidades pedagógicas. a afirmação de sua identidade. Apesar da necessidade de assistência técnica constante às comunidades indígenas. favorecendo a evasão de membros da equipe técnica responsável. suas necessidades culturais.211 Outra dificuldade foi em relação ao longo tempo de aquisição dos materiais necessários no campo devido à adequação aos “kits” considerada pela equipe técnica como a maior dificuldade de ordem logística e operacional. Os maiores desafios foram o domínio das novas tecnologias pelos indígenas e a Ater integrada à produção agroecológica adaptada ao conhecimento tradicional do manejo e uso da terra. A maneira adotada para trabalhar a Ater foi adaptada ao modo de ser e ao ethos indígena. espirituais e morais. ou seja. político e cultural Pankararé. garantindo a importância da organização social de bases familiares necessárias para que não se considere as atividades produtivas simplesmente necessidades físicas ou de sobrevivência.

. O processo organizativo indígena compreende o planejamento do espaço cultivado. Foto 03: Oficina de implantação do sistema agrosilvopastoril na unidade de criação de animais silvestres da Aldeia Serrota: plantio de mudas de espécies nativas. A diversidade do sistema integrado é representada por diversas experiências. distribuição e consumo. limitações das condições semiáridas. sociais e espirituais) em que as atividades se baseiam essencialmente no policultivo agrícola. a seleção dos plantios de acordo com a necessidade dos grupos familiares e a distribuição dos fazeres por gênero e faixas etárias. sociais e políticas. Autora: Cintia Corsini Fernandes. potencialidades. Não esquecendo que estão organizadas em complexos sistemas de produção. extrativismo e artesanato foram as bases para desenvolver a percepção dos valores do ser e viver indígena. A base de atuação em Ater está na premissa de compreender as lógicas e dinâmicas das comunidades indígenas e suas relações com a sociedade envolvente. oportunidades e perspectivas das condições naturais. sempre obedecendo às relações políticas e culturais socialmente construídas. dependendo muitas vezes de graus de especialização e não de profissionalização. dinâmicas próprias.212 A compreensão da economia de autossustento entendida como uma característica da economia indígena voltada para suprir as necessidades básicas (físicas. caça.

a agricultura de subsistência e o artesanato. Exemplos como estes carecem de fortalecimento quando pensamos em manejo e sistemas agroecológicos indígenas familiares que pouco têm de assistência e acompanhamento em projetos.213 As iniciativas de fortalecimento dos conhecimentos tradicionais relacionados às atividades produtivas podem ser apoiadas no uso sustentável. a comercialização dos frutos nativos in natura como umbu. principalmente do caju. compotas. Nas aldeias que possuem apiários (criação racional de abelhas com ferrão. licuri. sucos e sorvetes que no TIP é escasso. . de forma geral não contam com formas de parcerias e de comercialização dos produtos advindos do uso e manejo dos produtos agrícolas e dos recursos naturais. porém existente como o beneficiamento das frutas. O mel de abelhas é outro produto comercializado pelos indígenas. Sendo que os indígenas. como o extrativismo. b) O Desafio da Comercialização Geralmente não se chega à comercialização pelo processo de produção baseado na qualidade e quantidade de matéria prima que utilizam. continuam sendo as suas principais alternativas econômicas. parcerias e comercialização da produção indígena em que as atividades tradicionais. Por exemplo. murici e caju entram em desvantagem competitiva com outros produtos processados nos comércios regionais. a africanizada Apis mellifera) ou meliponários (criação racional de abelhas nativas) o mel é vendido informalmente ou por atravessadores que compram o produto mais barato e revendem mais caro. como os doces.

com acesso a informações de mercado e capital de giro. economia solidária) se apresentam como oportunidades. a entrada nos mercados que não são os locais exige um nível de empreendedorismo. Neste quadro. além da necessidade de regularidade de produção. No entanto. a decisão sobre a natureza das atividades econômicas a serem desenvolvidas deverá ser feita pela comunidade. adequada às demandas destes mercados.214 Foto 04: Visita técnica para a revisão das colônias de abelhas sem ferrão na Aldeia Brejo do Burgo. novos arranjos econômicos. que agrega valor ao mesmo. tal como saúde. No entanto. além da experimentação com novas formas de economias comunitárias (cooperativas. o foco do apoio deverá ser em atividades que levam ao fortalecimento e bem-estar da comunidade. segurança alimentar e proteção territorial. e não necessariamente na geração de renda. educação. lideranças ou outros segmentos sociais indígenas e não indígenas. Autora: Lilane Sampaio Rêgo. ou estreitando os laços com este mercado. Além da representatividade de um produto indígena. tais como mercado justo. certificação de origem e de produção orgânica. visto a valorização da . Para as comunidades indígenas que estão entrando na economia de mercado. para evitar a centralização pelo agente de ATER.

com diversas ações de instituições específicas. Na maioria das vezes. 2009).215 questão cultural promovida atualmente. pois há um processo de aprendizado.. expor em grupo interesses opostos. estabelecimento de contatos comerciais e adequação dos produtos e embalagens aos mercados e seus principais consumidores. o período de um projeto é insuficiente para atingir os objetivos desejados. Os novos conhecimentos e habilidades foram introduzidos sempre buscando: promover debates entre os informantes. ordenando as prioridades e caracterizando as condições ambientais e produtivas. desmistificar o assistencialismo como solução de problemas. mas regional ou de estado por equipe interdisciplinar e multidisciplinar como propõe o projeto encaminhado em 2008 pela equipe executora de Ater para o MDA. c) Outras Questões Papel importante teve o projeto financiado pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB). além da qualificação para participação em prêmios e editais de financiamento. é preciso lembrar que o desenvolvimento de empreendimentos exige trabalho de longo prazo. intitulado “Desenvolvimento de um Modelo Agroecológico para a Agricultura Familiar Indígena no Semiárido” conduzido no mesmo período cuja oportunidade de pesquisa ação auxiliou na busca de soluções adequadas para problemas surgidos durante a implantação dos sistemas produtivos (Castro et. intitulado “Elaboração de um programa de Ater indígena para o Estado da Bahia”. A sustentação dos resultados alcançados pela Ater indígena deverá dar continuidade através de um programa integrado em Ater indígena pensado em nível não local. al. ou de projetos pontuais. qualificação em grupo das responsabilidades e suas dimensões. . e também continuidade dos processos de produção e dos parceiros. No entanto. relacionadas ao Patrimônio Imaterial de cada povo e bioma no qual está inserido.

solo. assim como a promoção das relações de intercâmbio para ampliar a articulação interétnica (entre indígenas). de forma que os atores sociais indígenas sejam qualificados para que assumam e promovam seu próprio desenvolvimento. com destaque para as ações de governança de acordo com as características de cada etnia. como forma de garantir o desenvolvimento sustentável e o controle e acesso aos recursos naturais (água. jovens e idosos. (3) fomento à produção sustentável de alimentos básicos. (4) auxílio aos indígenas na gestão etnoambiental do território.216 O programa de ATER indígena obedece às seguintes diretrizes: (1) participação legítima da comunidade. como forma de redução da pobreza e promoção do desenvolvimento socioeconômico local e da segurança alimentar e nutricional. negociação. captação de recursos. (7) ações voltadas à valorização e apoio às iniciativas locais da comunidade e suas organizações. incluindo mulheres. Outras questões consideradas pelos autores de destaque pela sua relevância são a inserção das aldeias nas políticas e programas nos três níveis governamentais. gestão financeira. tecnologias. mudas. participando plenamente do planejamento e implementação da ação. Isto significa que deverá existir a participação da comunidade desde o início de qualquer projeto ou ação desenvolvida e esta deverá estar bem informada e devidamente consultada. biodiversidade). planejamento e monitoramento de projetos. (2) promoção de tecnologia adequada ao desenvolvimento sustentável através da valorização das tecnologias tradicionais e a adaptação de inovações tecnológicas às condições agroecológicas e socioeconômicas das comunidades indígenas. fortalecendo as redes de solidariedade existentes entre os participantes. trocar conhecimentos. à comercialização de produtos e serviços da . sementes e demais produtos. (5) apoio ao fortalecimento organizacional e ao desenvolvimento comunitário através do capital social indígena (cognitivo e estrutural) para a formação de recursos humanos próprios qualificados: na formulação. o apoio ao desenvolvimento da agroindústria familiar. (6) apoio às organizações indígenas para a comercialização dos produtos em mercados justos e solidários.

O. Raso da Catarina. il. SPINELI. Territórios Sociais e Povos Tradicionais no Brasil: por uma antropologia da territorialidade.. pretendemos que as reflexões sejam relevantes para o aperfeiçoamento de mecanismos políticos institucionais para Ater indígena nos territórios indígenas do semiárido e do Brasil. os aspectos ambientais e sociais de cada localidade. B.. (Relatório técnico de pesquisa.A. DANTAS. M. M. Como objeto de políticas públicas transversais. M.. Departamento de Ciências Exatas da UEFS. M. Os Pankararé do Brejo do Burgo Campesinato e Etnicidade. 2002.. P. 109 p. Memória e Migração: Por uma teoria de reterritorialização. Espaço. Monografia (Bacharelado em Antropologia) . e ao acesso ao crédito do Programa Nacional para Agricultura Familiar (PRONAF) e ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). 3 volumes). P. C. Referências Bibliográficas CASTRO. Textos de história 2(4): 5-25. RÊGO. MAIA. A Percepção Geológica Local do Território Indígena Pankararé. Universidade de Brasília. 1992.O.S. Feira de Santana-BA.F.Pós-Graduação em Modelagem em Ciências da Terra e do Ambiente. Bahia. por intermédio de metodologias específicas que valorizem os elementos culturais. 2006.Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA. Assim. DANTAS. A. LITTLE.. 1994. NUNES. .B. F. possibilite garantir a segurança alimentar e territorial. 110 p. L.. Série Antropologia 322.217 agricultura familiar e a atividades não agrícolas (artesanato). Monografia (Especialização) ...S. Brasília. E. . F. LITTLE. COLAÇO.. Salvador. o desenvolvimento rural sustentável e apoio às atividades produtivas integradas ao modo de vida das comunidades indígenas. NUNES. E.C. 2009. il. S. S. M. Desenvolvimento de um modelo agroecológico para a agricultura familiar indígena no semiárido.

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219 Espaço de Revitalização da Cultura na Promoção da Saúde: uma Experiência em Ater na TI Guarita Noeli Teresinha Falcade Sandro Luckymann .

com dinâmicas de grupo e oficinas.I. membro da equipe COMIN-ASKAGUARU/ISAEC-DAI. Para a construção coletiva de saberes e de revitalização dos conhecimentos tradicionais organizaram-se: visitas domiciliares e entrevistas com os detentores de saberes tradicionais. encontros setoriais e intersetoriais para intercâmbio de experiências e troca de saberes entre grupos de mulheres. Guarita. 2007-2008. pedagoga e pós-graduanda em “Educação. membro da equipe COMIN-ASKAGUARU/ISAEC-DAI. de acordo com a 1 Técnica de enfermagem. visitas aos nichos de espécies tradicionais medicinais e nutricionais.220 Espaço de Revitalização da Cultura na Promoção da Saúde: uma Experiência em Ater na TI Guarita Noeli Teresinha Falcade1 Sandro Luckymann2 Introdução O presente artigo relata e reflete a experiência de revitalização e socialização dos conhecimentos e saberes tradicionais entre e pelos grupos de mulheres. cultivo de hortas domésticas e comunitárias para a capacitação em cultivo e uso de espécies que não são de domínio tradicional indígena. As atividades ocorreram na Terra Indígena (TI) Guarita. Bananeira e Missão. diversidade e cultura indígena”. Guarita. 2007-2008. A revalorização das pessoas detentoras de saberes tradicionais Kaingang contribuiu para que estes fossem revitalizados dentro da própria cultura e da comunidade. 2 Indigenista e mestrando em educação nas ciências. potencializando uma dimensão distinta em Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) e oportunizando espaços para outras concepções e organizações de interação e manejo de espécies vegetais. nos setores Pau Escrito. Verificou-se que as pessoas detentoras do saber tradicional Kaingang têm nas práticas antigas um esteio de força e vitalidade. pessoas idosas e parteiras da comunidade Kaingang. no município de Redentora/RS.I. colaboradora na execução do projeto de revitalização de saberes tradicionais na T. coordenador do projeto de revitalização de saberes tradicionais na T. .

introdução de novas práticas alimentares e medicinais. Entre as alterações. Essa percepção organizacional dual também se estende na interrelação com os seres da natureza. e preserva a unidade através dos laços matrimoniais. contribui para a incidência de doenças primárias como diarreia. pesca e coleta de frutos. somada às dificuldades na autonomia e diversificação nutricional. sabe-se que no processo histórico ocorreram mudanças significativas para a comunidade Kaingang.institutowara. Organiza-se a partir de grupos sociocêntricos. anemia. a subsistência Kaingang consistia basicamente de caça. Até meados do século XX. 3 Cf. uma região que teve densas florestas e uma rica biodiversidade. alteração de hábitos e práticas tradicionais. que reconhecem princípios sociocosmológicos dualistas. que afligem principalmente as crianças. chás.br/kaiang. social e sobrenatural. não considerando a cultura tradicional Kaingang (plantas medicinais. O cuidado da saúde estava a cargo de um especialista. tais como: desmatamento. entre outras.asp. desde o planalto do Rio Grande do Sul até o sul de São Paulo.org. ao mesmo tempo opostos e complementares. capturado 02/abril/2008. as pessoas mais jovens vêm simpatizando mais com a medicina alopática. afecções. Porém. enquanto que as pessoas idosas têm nas práticas antigas um esteio de força e vitalidade. Tal alteração de valores. O Povo Kaingang O povo Kaingang é habitante tradicional da região sul do Brasil. rituais. alimentos. verminose.. representado pelos antepassados: Kamè e Kairu-krê3. Esta característica determina o modo de ser e viver Kaingang. denominado kujá (xamã). doenças respiratórias.. http://www. que se utilizava de ervas e intermediava as relações entre os mundos natural.221 lógica e a ciência tradicional própria do povo indígena Kaingang. de acordo com o mito de origem. concentração da população.). .

também. De acordo a fonte. A realidade e o contexto histórico do contato intensivo com a sociedade não indígena proporcionaram a incidência de enfermidades desconhecidas entre a população Kaingang. A TI Guarita tem a extensão territorial de 23. em termos de população. A maior população Kaingang encontra-se na Terra Indígena Guarita. com cerca de 6 100 pessoas. http://www.htm. http://www. Houve uma primeira demarcação em 1917.br/template_01/default.500 pessoas em acampamentos rurais e urbanos6.asp?ID_S=33&ID_M=115.org. Motivação para a Revitalização de Saberes A motivação para a experiência em revitalização de saberes tradicionais no uso e manejo de espécies vegetais partiu da própria comunidade Kaingang da TI Guarita.406 hectares. CEPI. 7 Cf.222 Atualmente a população Kaingang é estimada em 29.555 pessoas nas 13 terras demarcadas5.portalkaingang. os Guarani e os Ticuna antecedem os Kaingang. capturado em 20/ abril/2009. por uma comissão estadual do Rio Grande do Sul.org/index_aldeia_principal_1. capturado em 20/abril/2009. e em cerca de 1. a população Kaingang é estimada em 17. está organizada em aldeias/setores Kaingang e. oriundas do contato interétnico.museudoindio. Redentora e Tenente Portela. 6 De acordo a levantamento do Programa RS/Rural. . FUNAI. Corroborando a essa situação. entre os municípios de Erval Seco. também operou a desvalorização e recriminação dos seus conhecimentos e tradições. capturado em 20/abril/2009. Considera-se o povo Kaingang como o terceiro maior povo indígena no Brasil7. No estado do Rio Grande do Sul. com uma população estimada em 150 pessoas.portalkaingang. FUNASA. Localizada na região noroeste do Rio Grande do Sul. 5 Cf. sendo homologada por decreto federal em 1991. http://www. dois/duas setores/aldeias Guarani.org/populacao_por_estado. de 2003. No contato interétnico houve forte pressão por considerar a supremacia 4 Cf. tanto por supostamente não atenderem às novas demandas. inapropriados e desqualificados.htm. como por serem considerados conhecimentos e saberes desatualizados.1404 pessoas.

sobretudo no uso e manejo de espécies. suas formas de identificar e tratar as enfermidades. e sobretudo porque na atualidade. não se fazem presentes no relato entre as gerações. nas dimensões da prevenção.comin. de alteração no modo de vida (preferência por uma nova medicina) e organização social (ausência do kujá). cura e imunização de enfermidades. contribuiu para a elaboração da proposta do projeto de revitalização de saberes tradicionais apresentado ao MDA. europeia. chás. que atua na T. associada à simpatia dos indígenas mais jovens pela medicina alopática. sobretudo de origem ocidental. Utilizavam-se recursos naturais e saudáveis. Este desejo.223 dos conhecimentos. entre outros.org. Tal imposição.br/campos-trabalho_trabalho. Guarita (www. Durante atividades do COMIN/ISAEC-DAÍ8. concebida como mais eficiente e apropriada. sobretudo no uso e manejo de plantas medicinais. conforme relato de membros da comunidade Kaingang. tais temas não são abordados pelo sistema de atendimento à saúde. Embora atualmente não exista kujá na TI Guarita. mas estão presentes no cotidiano Kaingang. 8 Entidade indigenista php?trabalhoId=11). principalmente entre as pessoas mais idosas. rituais. são ali recorrentes relatos. saberes e técnicas concebidas pelas sociedades não indígenas. Os tratamentos eram de domínio próprio. Foi a partir dessa realidade. . alimentos. fez com que se desconsiderasse e desacreditasse na sabedoria tradicional Kaingang. como a verdadeira ciência. que se criou a disposição para compreender e revitalizar a memória sobre como os antepassados restabeleciam o bem-estar de indivíduos e da comunidade. estas manifestavam o desejo de revitalizar os conhecimentos tradicionais de seu povo. por vezes de forma oculta e silenciosa.I. somado às ações cotidianas de mães e avós. de que em um passado recente os problemas de saúde eram atendidos e tratados pelo kujá. seus rituais de cura e os mitos relacionados à cultura tradicional. na interação com grupos de mulheres Kaingang.

Setor Katiú-Griá/TI Guarita.224 Nos diálogos entre a equipe do COMIN/ISAEC-DAI e a liderança Kaingang da TI Guarita. avalizado pelos grupos e pelas lideranças Kaingang da TI Guarita. Falcade. Da esquerda para direita: Profa. transmite vários aspectos relacionados à cultura e ao ser Kaingang. relata uma liderança Kaingang. Também no exercício da liderança. Turíbio Mineiro. elaborou-se a proposta do projeto “Revitalização entre grupos de mulheres Kaingang. quando as pessoas mais jovens ouvem os conselhos dos mais velhos. quando verbalizada. sobre saberes tradicionais de manejo e uso de espécies medicinais e nutricionais”. . em 2006. A proposta visava criar dinâmicas e processos que estimulassem a revitalização e a socialização dos saberes tradicionais. Juraci Venhgrã Emílio. Entende-se que a memória viva. O projeto foi encaminhado à chamada ATER/ PPIGRE/MDA. “Se os detentores do saber não tiverem oportunidade de se pronunciar. aspectos muito importantes de nossa existência”. também houve a manifestação quanto à preocupação em “preservar a cultura”. tidos como fundamentais pela comunidade Kaingang. mas que na contemporaneidade não são evidenciados e/ou considerados como tais. numa reunião em novembro de 2007. dos setores Pau Escrito. Sr. agente indígena de saúde Iraci Pedro Minká. sendo o COMIN/ISAEC-DAI a entidade proponente e coordenadora. Foto 01: Entrevista com detendores de saberes tradicionais. falar de seus saberes. estaremos perdendo junto com os idosos. Autora: Noeli T. Bananeira e Missão (TI Guarita). Assim. entendendo que o conhecimento das pessoas mais idosas é o esteio e a orientação para a nova geração da comunidade Kaingang.

a memória dos antepassados estava viva e presente nas pessoas idosas da comunidade e que. agentes de saúde e saneamento. aumentando. aos poucos. Concebeu-se que tal processo de revitalização dos saberes tradicionais. fortalecer e socializar os saberes tradicionais Kaingang. o potencial para restabelecer o bem-estar comunitário na TI Guarita. considerou-se que a oportunidade de realizar uma experiência em ATER potencializaria a ciência tradicional Kaingang e oportunizaria espaço para dinâmicas e atividades de revitalização e diálogo entre ciências. entre outros). universitários. estabeleceu-se uma proposta de trabalho. visando fomentar. conforme algumas manifestações. mas sim. ela estava se perdendo. na revitalização de saberes e tradições socioculturais na prática cotidiana. prevenção e cura. A partir dessa perspectiva. em aspectos relacionados a espécies nutricionais e medicinais. com a morte destes. familiar e social. potencializaria as perspectivas e alternativas de promoção. A dimensão considerada foi a de que a comunidade Kaingang é dona de uma ciência. Também estimularia a consideração e o conhecimento das pessoas mais novas. Contudo. instigando-as ao conhecimento e consideração de aspectos culturais. lideranças. a revitalização e a socialização dos saberes Kaingang visaram não à cisão entre a ciência indígena e a não indígena/ocidental. aproximaria as gerações e gêneros e possibilitaria maior convivência comunitária.225 Com o envolvimento de vários segmentos da comunidade Kaingang (grupos de mulheres. As atividades foram planejadas com o intuito de potencializar conhecimentos e saberes próprios da comunidade Kaingang como uma ciência. assim. Revitalizar . docentes. Execução do Projeto A premissa foi de que. possibilitar o diálogo intercultural e a cooperação entre os agentes das duas ciências. com técnicas e elaborações concebidas de acordo com sua organização e tradição.

muitas vezes. Foram entrevistadas 46 pessoas idosas. com idade entre 70 e 95 anos. esses conhecimentos estão adormecidos. Atividades – Ações Programáticas a) Visitas domiciliares As primeiras ações realizadas foram visitas domiciliares a pessoas detentoras do saber tradicional Kaingang. e em certos rituais. lideranças Kaingang. O protagonismo desse diálogo e dessa cooperação. pessoas idosas. relacionados com os cuidados com a saúde integral do ser humano. em momentos especiais e em determinadas épocas. enfim. Estas detêm uma essência do conhecimento cultural. não se repassa 9 Equipe Multi-disciplinar de Saúde Indígena / Fundação Nacional de Saúde. Conforme dito por algumas pessoas que foram visitadas. Durante as visitas e as entrevistas foi ressaltado que há saberes que provêm de inspirações. Percebe-se que. agentes de saúde e saneamento. derivados de momentos de retiradas (isolamento) ou de convívio com parentes. Em sua memória viva está armazenada uma riqueza de valores culturais.226 e socializar tal memória constituía um ato de reconhecimento de um saber que contribuiu na prevenção de enfermidades e no bem-estar comunitário. esteve entre os grupos de mulheres. O principal desafio para revitalizar e socializar os saberes foi como estabelecer dinâmicas e processos pedagógicos que possibilitassem a construção coletiva. De acordo com a cultura e tradição Kaingang o aprendizado dos rituais terapêuticos da cultura Kaingang era repassado entre as gerações. EMSI/FUNASA9. por meio de debates e construções coletivas. havendo todo um preparo para tal momento. velados. . a interação e a fidelidade e garantia de que tais saberes seguiriam sob o domínio e a apropriação da comunidade Kaingang. mas que ainda podem auxiliar na reafirmação e na apropriação sociocultural das novas gerações. parteiras. pessoas envolvidas e comprometidas com o bemestar da comunidade indígena.

As pessoas detentoras de saber afirmaram que os medicamentos por eles preparados têm magia. no sentido de estar imunologicamente desprotegidas. As crianças foram as mais susceptíveis e vulneráveis a tais mudanças alimentares. terra. As parteiras visitadas e entrevistadas evidenciaram o cuidado especial com o cordão umbilical. fumaça. Falaram do processo durante a gestação: o cuidado com o corpo. mencionaram as transformações ocorridas na natureza. Relataram sobre as dietas alimentares ofertadas às crianças em complementação à amamentação. os detentores do saber faziam uso de espécies medicinais e nutricionais como água. Ao se referirem às doenças relacionadas às carências nutricionais. o uso de chás e as posições que a mãe deve realizar para facilitar o nascimento. Também os cuidados no pós-parto com a mãe e a criança.227 todas as informações e todos os saberes. apresentaram indícios de fraqueza. com pouca vitalidade e ânimo. Esses rituais eram repetidos dependendo dos sintomas da enfermidade e do andamento da recuperação da pessoa. Foi citado que uma das possíveis interferências é a postura de diferentes setores e instituições não indígenas. que condenam. na direção do sol nascente. têm vida e são compostas conforme a inspiração espiritual e momentânea. rechaçam e ridicularizam as terapias tradicionais Kaingang. Atualmente as ações que persistem são tímidas e ocultas. as práticas terapêuticas que auxiliam o desenvolvimento e a colocação na posição correta do bebê para o parto normal. as dietas alimentares. pois representa a personalidade do ser humano para toda a vida. devendo ser enterrado próximo da casa. porque podem comprometer ou servir de motivo para serem julgadas (medo). Para a realização das práticas terapêuticas. . religiosas ou não. bem como sobre o modo de preparo das mesmas. A concepção de criança fraca e forte estabelece o seguinte: fraca. apresentando um quadro de “míngua”. entre outros elementos naturais. Nas visitas às parteiras indígenas elas relataram sobre os conhecimentos e as experiências que auxiliavam as parturientes. que acarretaram em mudanças nos hábitos alimentares dos Kaingang.

não ocorre atualmente. É uma fonte inspiradora de saberes. Geralmente resistem ao uso do termo “desnutrição”. A mata. foi recorrente durante as visitas e diálogos com as parteiras indígenas. por apresentar uma diversidade de espécies. Ou seja. conforme a avaliação das pessoas visitadas. por um lado porque é desconhecido culturalmente. A pessoa para coletar as espécies precisa estar bem de saúde e ter conhecimento e segurança na identificação das espécies. O restabelecimento do crescimento da planta.228 forte. em separado. uma vez que é oferecida às crianças a mesma comida preparada para os demais membros da família. precisa ser preservada e respeitada. a pessoa coletora precisa atentar a certos quesitos que a qualificam para tal tarefa. Precisa respeitar a planta e tirar somente a porção que vai ser utilizada. para que ela se restabeleça e continue se desenvolvendo normalmente na natureza. . vontade para brincar. por outro. no sentido de ter ânimo. afirmam as avós. bem como a hora em que podem ser coletadas. não se tem uma dieta ou um preparo de alimentos em separado para as crianças ou para as mulheres no pós-parto. é sinal de que a pessoa enferma também terá sucesso no tratamento. b) Visitas aos Nichos de Espécies As pessoas detentoras do saber tradicional indígena possuem um aguçado conhecimento e domínio da mata. Somente elas conhecem os nichos das espécies. De acordo com a cultura Kaingang. por causa dos cuidados e da preocupação das mães com o preparo do alimento em casa. a identificação da parte da erva a ser colhida. Destacou-se o relato de que antigamente não havia crianças fracas. O testemunho da importância na orientação às mães nos cuidados com a dieta alimentar dada às crianças e no pós-parto. Tal fato. por estar associado à morte de diversas crianças no início desta década.

o bem-estar se estabelece quando ocorre a reestruturação de todas as relações ameaçadas pela doença. E. todos sofrem. nos grupos de mulheres possibilitou-se a reflexão sobre as concepções distintas de saúde e doença na sociedade Kaingang e na não indígena. Não se pode tratar a dor apenas de um membro do corpo se todos estão interligados. J. Tais reflexões e trocas de conhecimentos estimularam as participantes na busca e no diálogo entre os grupos. saberes e experiências. dezembro de 1999. Para os Kaingang. A pessoa é um todo. Nestes grupos as pessoas detentoras do saber compartilharam que os conhecimentos culturais são aprendizados que se experimentam no cotidiano das famílias Kaingang. entre outras)10. que envolve as diferentes dimensões da pessoa e da comunidade (física. Os encontros intersetoriais promoveram o intercâmbio interno de informações. A saúde está integrada à vida. psíquica. espiritual. que não concebe um tratamento/ cuidado em partes. por meio de seus encontros. essa visão deriva ou é parte de uma concepção de saúde integral e holística. A convivência sadia contribui para a promoção do bem-estar pessoal e grupal. O mesmo acontece com os membros da família. . Também se oportunizou a troca de conhecimentos em relação ao cuidado materno-infantil. do contato e da escuta. Assim.229 c) Socialização de saberes A constituição e o encontro dos grupos de mulheres Kaingang possibilitaram a socialização dos saberes e das experiências. ela é vista de forma distinta. na cultura Kaingang. A estes ensinamentos vão se somando os exemplos concretos das vivências com pais e mães. Quando todos convivem mutuamente com o sofrimento ou com doenças de um dos componentes. através da convivência. Saberes e Ética – Três Conferências sobre Antropologia da Saúde. pois. anteriormente debatidos e refletidos nos encontros setoriais. relação comunitária. numa lógica própria. foram espaços de socialização em cada setor/ 10 LANGDON. A fragmentação da pessoa a torna frágil. Saúde. todos adoecem.

acompanhando a explanação de cada socialização. por vezes formando círculos. e atitude na socialização dos saberes evidenciaram que o conhecimento está presente na comunidade Kaingang e nela permanece como expressão de autonomia e autodeterminação cultural. familiar e comunitário. Geralmente. entre os grupos de mulheres e pessoas envolvidas a partir das visitas e entrevistas. d) Cultivo de espécies medicinais e nutricionais A finalidade de cultivar espécies medicinais e nutricionais não . proporcionada pelos encontros intersetoriais. Os setores que sediaram os encontros intersetoriais tiveram a oportunidade de participar no intercâmbio e na socialização dos conhecimentos tradicionais revitalizados nos grupos de mulheres. enquanto que as demais pessoas participantes ficavam em volta. de uma ciência própria. tais exposições eram de pessoas mais idosas. por considerarem que tais conhecimentos poderiam ser compreendidos e apropriados pela sociedade não indígena. As atividades de socialização de saberes demonstraram uma especificidade na execução de ATER na TI Guarita.230 aldeia em que se executou o projeto. Nos encontros setoriais as detentoras de saber se agrupavam. Avalia-se que tal experiência. Os encontros tornaram oportunidades para que cada qual expusesse o seu conhecimento. Outro destaque nessa dinâmica foi que a maioria das exposições ocorreu na própria língua Kaingang. a sua prática de coleta e uso das espécies. A experiência ressaltou a importância na interlocução de distintos grupos. Assim se protegiam dos riscos de apropriações indevidas. enquanto as mais jovens ficavam prestando atenção. que propiciaram o lançamento de estratégias significativas de organização e fortalecimento da cultura Kaingang. sendo que cada setor preparava o encontro e recepcionava os grupos de mulheres e demais pessoas dos outros setores participantes do projeto. de forma especial. O processo de construção de novos conhecimentos foi participativo.

endro. Horta Comunitária do Projeto de Revitalização de Saberes Tradicionais. Cada setor teve autonomia para se organizar em conjunto com a monitora local e de planejar a melhor forma de semear. repolho. preparo e consumo. funcho. O manejo e a utilização de ervas medicinais e nutricionais de domínio não indígena.231 indígenas foi no sentido de contribuir para o aumento do potencial dos saberes que cada mãe indígena possui. guaco. compartilhar os saberes já entendidos e construir novos saberes a partir de novos cultivos. melissa. como prática complementar. visa contribuir para a construção de um processo de melhorias na qualidade de vida das famílias. As ervas medicinais cultivadas que não eram de domínio Kaingang foram: mil em rama. Falcade. Autora: Noeli T. malva. sálvia. As mães e detentoras do saber ao identificar novas espécies de plantas. couve. hortelã. beterraba. Foto 02: Atividade com grupo de mulheres do Setor Bananeira/TI Guarita. transplantar. rúcula. cenoura. entre outras de interesse do grupo ou setor. camomila. poejo. brócolis. almeirão. babosa. Todos os setores receberam as mesmas espécies de sementes e mudas de hortaliças e ervas medicinais e nutricionais. ensinar e aprender com o grupo por meio da realidade vivenciada. . tansagem. arruda. O processo de construção e cultivo das hortas e rocinhas de fundo de quintal foi bem distinto e peculiar. a forma de cultivo. diversificando as fontes alimentares. No outono-inverno foram cultivados alface. suas propriedades. colher e dividir as hortaliças. poderão incluí-las na dieta nutricional. boldo.

A partir de sua constituição. água clorada e adubos químicos. como: boldo. Além disso. as participantes. As espécies que não necessitavam de transplante foram divididas entre elas. organização própria e livre-determinação. atendimento de enfermaria. altera-se a compreensão e a atuação prática missionária da IECLB. Neste local. bardana. A ação missionária implantou o ensino bilíngue. O controle das “pragas” deu-se pelo consórcio entre as ervas medicinais e nutricionais e chás ou com as cinzas de ervas medicinais11. 11 De acordo a relatos e observações. a comunidade Kaingang possui práticas de queimada de ervas medicinais com determinadas tipos de madeiras. o simbolismo e o modo de vida kaingang. Equipes de funcionários e pastores residiram no setor até 1985. foi estabelecido um trabalho de assistência social e confessional da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB. tansagem. salsa e vagem. o COMIN tem atuado na defesa dos direitos dos povos indígenas na conquista e garantia das terras tradicionais. que constituiu o COMIN. como órgão de ação e assessoria indigenista da IECLB. pepino. 12 Esse setor é um local de ocupação tradicional kaingang na T. Conforme relatos. . Para o cultivo de hortaliças houve orientação quanto ao não uso de venenos. Convenção 169/OIT). sálvia e babosa. foram replantadas as ervas que haviam morrido com o frio.I. quando se passou a denominar Setor Missão. conforme relato do docente Natalino Góg Crespo. Também no espaço da horta escolar foi cultivado um canteiro de ervas medicinais por um grupo de alunos e docente. melão. e cada uma as semeou em sua horta ou rocinha caseira. A planta mais usada para o controle e como repelente de insetos foi o féj ger gy. no município de Redentora/RS. quando houve a retirada da equipe.232 No período de primavera-verão foram cultivados tomate. Também na década de 1980. educação. de acordo a legislação pertinente (CF 88. e semeados alcachofra. essa planta afasta as pragas sem contaminar a planta nem fazer mal aos consumidores. e na perspectiva pautada pelo diálogo inter-religioso e intercultural. que foram aplicados nas hortas para controlar e/ou repelir insetos. espinafre e abóbora. Uma mulher de cada grupo era a responsável pela semeadura e distribuição das mudas daquelas espécies de transplante. moranga. situado próximo a Vila São João. que se apossaram dos bens e instalações destes. Guarita. A atuação missionária não considerava a implicação de suas ações sobre a cultura. pelos kaingang. sustentabilidade. No setor Missão12 constituíram-se núcleos de mulheres por proximidade de residências. na década de 1960. Esta metodologia possibilitou que os alunos tivessem maior relação com a terra e despertasse neles a curiosidade em descobrir o valor medicinal de cada planta cultivada e de como era usada pelos antepassados. saúde. a implantação de técnicas agrícolas ocidentais e fundou uma comunidade confessional entre os kaingang.

possibilitou novos hábitos alimentares. Na organização e no preparo do cultivo houve a participação de homens. As hortaliças cultivadas destinaram-se ao complemento da merenda escolar. próxima a uma fonte de água.233 O grupo de mulheres do setor Pau Escrito teve dificuldades em difinir um local apropriado e a modalidade para o cultivo das hortaliças. Assim. Algumas participavam e manifestavam o desejo do cultivo individual. constituiu-se outra modalidade de apoio ao cultivo de hortaliças. repassar as mudas e ou verduras aos demais familiares. o grupo de mulheres optou pelo cultivo por grupos familiares. complementando a merenda escolar. depois. No setor Bananeira. Esta foi preparada em local distante das lavouras com agrotóxicos e da rodovia. essa dinâmica não se realizou a contento. ficando responsável em cultivar as hortas em suas casas e. As plantas medicinais cultivadas . já outras as consumiam esporadicamente. foram utilizados no preparo de compostos e “medicação caseira” em oficinas com os grupos de mulheres. Cada representante de grupo recebeu as sementes. sendo cercada para impedir o acesso de animais domésticos. contudo. Contudo. De acordo com relatos de participantes. Um aspecto importante foi que o grupo doou para a escola o excedente da produção de hortaliças. A divisão das hortaliças foi realizada conforme a necessidade de cada família em consumir as hortaliças. contribuiu para a aproximação das mulheres e possibilitou a troca de saberes relacionados aos cuidados com os alimentos consumidos diariamente pelas famílias Kaingang. A comunidade escolar do setor manifestou interesse no cultivo de hortaliças e de ervas medicinais na horta escolar. Algumas famílias consumiam cotidianamente as hortaliças. de acordo com o relato. a horta comunitária além de contribuir no complemento alimentar das envolvidas. em conjunto com as hortaliças. sendo o excedente distribuído entre as famílias de escolares. decidiu-se pela constituição de uma horta comunitária. Os chás cultivados na horta. além das participantes do grupo de mulheres.

Embora o cultivo em horta não seja um aspecto da cultura tradicional Kaingang – conforme foi expresso por pessoas detentoras de saberes tradicionais. . espaço em que vivem e. Contribui. Tal fato revela que o cultivo em horta é uma dinâmica recente entre os Kaingang e reflete uma alteração do ambiente. para a qualidade dos alimentos e preparos terapêuticos. Conforme o relato da direção escolar. foi a disposição das mulheres. que por iniciativa própria assumiram o controle da produção: umidade. uma inovação no modo ser Kaingang. a produção foi favorável. muitas mães buscavam ervas medicinais na escola para fazer o chá para as pessoas da família. capina e colheita. O cultivo consorciado contribui no manejo das espécies. com as intempéries climáticas. as fontes alimentares tradicionais não são cultivadas e sim obtidas através de coletas e manejos em nichos originais. Mesmo com as diferentes propostas de construção e cultivo de hortas. Um aspecto positivo durante o cultivo das hortas. também. e também no tratamento fitoterápico e preventivo de sintomas de doenças manifestadas pelos alunos. A experiência de cultivo consorciado possibilitou a compreensão de que o cultivo de hortas pode ser realizado de diferentes formas. Outro aspecto importante a ser considerado é o cultivo consorciado: canteiros com espécies nutricionais e medicinais. acessados distintamente pelos grupos familiares – tem-se observado a adesão paulatina a essa prática como uma forma de complementar as fontes alimentares e nutricionais. constituindo novos hábitos alimentares.234 na horta escolar foram utilizadas como chá/bebida na merenda escolar. uma vez que o consórcio das plantas possibilita o controle de insetos e contribui no equilíbrio ecológico. adubação. dispensa o uso de produtos químicos. ou roças de fundo de quintal. por conseguinte. em caso de necessidade.

Foi redigido por três docentes Kaingang e com o apoio das monitoras Kaingang (que realizaram as visitas e entrevistas e coordenaram os encontros) e da equipe do COMIN (apoio logístico). mantendo-os sob o seu domínio. . Por esta razão optou-se em elaborar o livro quase que na totalidade na língua Kaingang. na perspectiva de que o conhecimento e os saberes tradicionais precisam ser compartilhados. A equipe redatora e a liderança Kaingang manifestaram a preocupação com a apropriação indevida por parte de pessoas com interesses distintos sobre tais conhecimentos do povo Kaingang. com alguns traduzidos para o português. Os encontros e outras atividades proporcionaram a confecção de material didático destinado aos estudantes Kaingang. O material baseou-se nos relatos proferidos nos encontros e nas entrevistas com pessoas idosas e parteiras da TI Guarita. Na origem dessa decisão está a preocupação em preservar os conhecimentos tradicionais da comunidade Kaingang. Na elaboração do livro definiu-se apresentar a maioria dos textos em Kaingang. Os docentes perceberam que este material poderia estimular e fortalecer a própria identidade Kaingang. respeitando. respeitados e divulgados entre a comunidade Kaingang.235 e) Livro Gufã ag kajró A disposição de elaborar um livro surgiu durante os encontros intersetoriais. valorizando e buscando a revitalização do uso das ervas medicinais e nutricionais de domínio tradicional. A equipe de redação do livro preocupou-se em elaborar um material que auxiliasse na educação escolar indígena e na revitalização dos saberes tradicionais. Os encontros realizados na TI Guarita habilitou docentes Kaingang na elaboração desse material específico para as escolas Kaingang. realizados sob o tema “Revitalização de saberes tradicionais e uso das ervas medicinais e nutricionais”.

estavam atentas ao partilhar dos saberes das mais idosas. oportunizando o compartilhar de saberes e intercâmbio de informações da cultura e do modo de ser Kaingang. Além disso. Outros relatos durante os encontros foram de que a presente experiência foi significativa. foram o início de uma caminhada da comunidade Kaingang. revelando a disposição e as condições de continuarem tais ações. como uma possibilidade de programa em ATER. potencializando e estimulando a troca de saberes. Autor: Gottfried Ernest Phieller. De acordo com a manifestação do cacique Valdonês Joaquim é importante dar continuidade a este tipo ação. a cada encontro percebeuse a crescente participação das mães jovens que.236 ATER – Espaço de Troca e Valorização de Saberes As ações e as atividades realizadas na revitalização de saberes. pois possibilitou a presença das pessoas idosas. Foto 03: Exposição de plantas de uso tradicional durante o Encontro de Revitalização de Saberes Tradicionais na TI Guarita. As atividades e o processo foram positivos. . juntamente com as gestantes e nutrizes. pois a comunidade participou ativamente nos diferentes momentos. em que se experimentou uma forma de assistência técnica pautada na cultura Kaingang.

enfim. . agentes de saúde e saneamento. das entrevistas e dos encontros de grupo mostra a necessidade de trabalhar a socialização dos saberes e experiências como uma das formas de revitalizar as práticas terapêuticas dos antepassados. contribuindo assim para aumentar o potencial de restabelecimento do bem-estar familiar e comunitário dos indígenas e de seus parceiros de trabalho. seja da medicina não indígena. reconhecerem as limitações de todas as medicinas. pessoas idosas. considerados importantes. mas na contemporaneidade quase esquecidos e pouco utilizados. esteve entre os grupos de mulheres. com seus saberes e práticas relacionadas aos cuidados e cura da saúde. As manifestações e considerações apontaram para a busca da revitalização de saberes tradicionais Kaingang. O protagonismo desse diálogo e cooperação. A dinâmica das visitas domiciliares. da área da saúde. EMSI/FUNASA. Este reconhecimento contribui para o respeito e a compreensão de outros sistemas de medicina.237 A participação de membros da liderança. Considerações para Outras Conversas A proposta de revitalização dos saberes tradicionais Kaingang refletiu a importância do papel dos detentores do saber na promoção da saúde e no cuidado com o doente. seja da medicina tradicional Kaingang. parteiras. entre pessoas envolvidas e comprometidas com o bem-estar da comunidade indígena. agentes indígenas de saúde e saneamento reforça a importância em realizar ações e atividades em parceria com a comunidade. Revela também a necessidade e a importância da reflexão sobre as condições de interação entre as medicinas Kaingang e não indígena. Reiteramos a importância da interação entre os agentes da medicina tradicional indígena e não indígena em um processo de diálogo e cooperação. lideranças Kaingang. Reafirma a necessidade de buscar e respeitar os diferentes saberes. Afirmam a necessidade de os profissionais não indígenas. realizado por meio de debates e construções coletivas.

uma vez que não haveria espaços entre os eventos previstos para a apropriação da proposta e sua condução pela comunidade Kaingang. as justificativas de organização temporal para a organização e execução das atividades levavam em consideração tão somente os aspectos técnicos de extensão rural pautados pela sociedade não indígena. bem como a participação na construção coletiva. obteve-se a justificativa para a execução do projeto de acordo com cronograma original de um ano. com a organização temporal distinta e sob influência de diversas variáveis. de revitalização de saberes. Como se mencionou anteriormente. As ações foram concebidas . As atividades visavam uma metodologia processual. na origem do projeto de ATER estava o objetivo de estabelecer. espaços e tempos para troca e diálogo de saberes entre os próprios grupos interessados. Uma possível redução no tempo de execução das atividades (previsto para um ano. Constatou-se que.238 Por ser o protagonismo coletivo e depender dos encontros e articulações. como o proposto nas tratativas para firmar o contrato entre a entidade proponente e o PPIGRE/MDA. demanda um processo de atividades e ações com outra dinâmica de tempo. comprometeria a metodologia processual. não se concebia que programas e atividades em ATER também são pautados por processos pedagógicos. pautada no estímulo e organização em grupos. Contudo. visitas e entrevistas. esta atividade era complementar. Como o projeto de revitalização de saberes na TI Guarita previa o cultivo de hortaliças em dois períodos distintos (outono-inverno e primavera-verão). de construção coletiva. durante a execução de ATER com a comunidade Kaingang da TI Guarita. Ou seja. o foco principal do projeto estava nas dinâmicas e processos de interação e socialização dos saberes tradicionais. melhor dito. ou restabelecer. nem sempre consideradas como elemento constitutivo da ATER. de possibilitar condições de articulação e organização para debater questões de interesse próprio da comunidade e o desenvolvimento de metodologias apontadas pelos seus membros. sendo proposta a execução em seis meses).

A comunidade Kaingang precisou elaborar estratégias e modalidades de interação com esse ambiente alterado. Estes saberes tradicionais foram concebidos numa interação e circulação anteriores à atual realidade. é o estabelecimento de práticas de ATER que subsidiem os saberes tradicionais. Contudo. Constituição (1988). LANGDON. Ou seja. Referências Bibliográficas: BRASIL. Na atualidade. ao mesmo tempo. a interlocução. Saberes e Ética: Três Conferências sobre Antropologia da Saúde. afirma que o conhecimento dos antigos ainda é o esteio e a força da cultura e do povo Kaingang.239 como oportunidades de interlocução entre saberes. em benefício e em atenção às necessidades presentes na comunidade. como percebido na execução das atividades de revitalização de saberes tradicionais. esse ambiente é alterado e introduz-se com novas técnicas. num curto espaço de tempo. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. 1989. 1999. Antropologia em Primeira Mão 37. Florianópolis: Pos-Graduação em Antropologia. as necessidades e articulação comunitária ocorrem em ambientes alterados e distintos aos que os saberes tradicionais foram concebidos. as práticas. UFSC. Saúde. de uma a duas gerações. E. . Porto Alegre: Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul. J. a interação com o meio de outrora era pautado com um ambiente de florestas e de vegetação diversificada e hegemônica. O desafio em ATER na TI Guarita. Mas. como em outras comunidades indígenas e/ou tradicionais.

240 Limites e Possibilidades de Articulação das Políticas Públicas de Agricultura com o Sistema Agrícola Guarani Ledson Kurtz de ALmeida Jean Carlos de Andrade Medeiros .

em termos teóricos. as políticas do Estado brasileiro. oportunizar a troca de material vegetal apontou para o resgate 1 Dr. Na prática. em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Email: ledsonk@ig.org.com. com a manifestação sobre a importância dos seus cultivares. as reflexões e os desafios enfrentados durante o desenvolvimento do projeto: “Fortalecimento da agrobiodiversidade Guarani: ações de intercâmbio de espécies vegetais entre as aldeias de Santa Catarina”3. tomando como base o processo de execução. pretendemos refletir de forma ampla sobre a assistência técnica em agricultura oferecida aos Guarani. Em algumas aldeias há matrizes inexistentes em outras. Assessor Técnico da Asa Brasil. Neste sentido. O projeto surgiu da demanda de anciões Guarani.br 2 Engenheiro Agrônomo – Msc em Agroecossistemas.241 Limites e Possibildiades de Articulação das Políticas Públicas de Agricultura com o Sistema Agrícola Guarani Ledson Kurtz de Almeida1 Jean Carlos de Andrade Medeiros2 Atualmente. através do Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA). por isso. Email: jeancarlos@ asabrasil. o que é extremamente profícuo. Assessor da Associação Rondon Brasil/Funasa. reforçam. os tubérculos e outros alimentos ancestralmente produzidos. como o milho. Pesquisador do Núcleo de Estudos dos Saberes e Saúde Indígena (NESSI /UFSC).UFSC/Museu Nacional/UFF). . dissonâncias cognitivas podem ocorrer entre as concepções técnicas e as concepções indígenas de agricultura. integrante do Núcleo de Transformações Indígenas (NUTI . A perda de certas matrizes em decorrência da restrição territorial e dos processos de colonização de suas terras abriu espaço para outras formas de produzir que não são tão apreciadas por eles. Pesquisador do CNPq. o incentivo ao sistema de produção tradicional indígena articulado com a preservação ambiental.br 3 Este Projeto foi proposto pela Associação Rondon Brasil de Santa Catarina ao Ministério de Desenvolvimento Agrário no ano de 2007 e está inscrito nesta instituição sob o número 275.

De forma ampla. Este material conta com narrativas. bem como observações de campo e inventário agrícola Guarani. registros das reuniões preparatórias e de avaliação – seja com os representantes indígenas. A orientação geral da reflexão aqui desenvolvida é sobre os limites e possibilidades de articulação entre os programas de ATER e o sistema agrícola Guarani. procurando explicitar um maior conhecimento e valorização dos saberes e práticas desta etnia. que é o deslocamento e a realização de intercâmbio entre as aldeias. O material teórico tomado como base originase da área de antropologia e da área de agroecossistemas. Para isso. assim como da expedição à Argentina para a busca de sementes tradicionais.242 dos alimentos tradicionais através do incentivo de uma prática corrente desta sociedade. Neste artigo tomaremos como base a dinâmica assumida pela equipe técnica na primeira fase do projeto. No intermédio das ações. seja com a equipe executora –. as habilidades e desafios da prática de interculturalidade se revelaram no trato e negociação das propostas e dos significados de cada uma delas junto aos índios Guarani. de saberes tradicionais. beneficiando diretamente cerca de 449 indivíduos e indiretamente. foram propostas ações junto às 21 aldeias de Santa Catarina. . localizadas em 11 municípios. o projeto consistiu em encadear ações de pesquisa. de forma a fortalecer a agrobiodiversidade étnica. Somado a este escopo teórico. amalgamando nossas impressões e aprendizados a partir da prática adotada junto aos trabalhos de sensibilização e inventário participativo. além de dar visibilidade às autoridades públicas sobre a produção de alimentos tradicionais. de troca de material vegetal e ATER entre os Guarani. 262 famílias indígenas. tem-se como material de análise os dados resultantes dos levantamentos de campo durante as ações referidas acima.

incentive a variedade de sistemas agrícolas baseados na diversidade sociocultural dos povos indígenas brasileiros. fomentando a produção de alimentos. esta pergunta orienta uma epistemologia para a eficácia da ação. Mais do que buscar uma resposta.243 Foto 01: Reunião na aldeia Morro dos Cavalos. A questão norteadora desta reflexão é como contribuir para tornar realmente possível um tipo de política agrícola que contemple e. Autor: Ledson Kurtz de Almeida. político. Dentre as temáticas subjacentes ao conteúdo desenvolvido destacam-se as formas de mediação entre a assistência técnica do governo e a realidade sociocultural indígena. e a relação entre o tipo de produção própria do sistema Guarani – onde ressalta a noção de “sementes sagradas” – com um tipo de produção que procede do universo não Guarani. sobre uma perspectiva holística que unifica os diferentes universos do cosmos e das práticas agrícolas. bem como a geração de recursos financeiros para estas sociedades. religioso etc. . a crítica à sobreposição de uma perspectiva racionalista que fragmenta o universo social. econômico. ao mesmo tempo.

Em junho começa. Onde este apresenta boas características para a agricultura. geralmente. inclusive. chuvas. A sobrevivência nestes locais é. tempestades são de grande importância na ordenação de suas atividades agrícolas. Em cada uma dessas. Ações e Conexões junto ao Projeto A ocupação territorial antiga dos Guarani permitia a concretização da agricultura em seu molde tradicional. como. nas aldeias. O período ideal. por exemplo. entre o final da lua cheia (jaxy nhepyt) e início da lua minguante (jaxy mbyte py). a observância de fenômenos ambientais como ventos. a afirmativa de que: no final do ara yma sempre vem uma ventania (yvytu vaekue) anunciando os tempos novos (ara pyau). . Acrescenta-se a isto que as atividades agrícolas são efetivadas levando-se em consideração as diversas fases da lua (jaxy). funcionando como sinais. o preparo das áreas para se efetivar os plantios. os quais são. corresponde ao compreendido entre o final do ara yma e início do ara pyau. coincide com o período de outono e inverno. potencializa a disponibilidade para o consumo interno. mas uma das justificativas pragmáticas para esta definição é evitar o caruncho nas sementes. para reconhecimento e identificação de uma nova estação. corresponde ao período de primavera/verão de nosso calendário e o ara yma (“tempos antigos”). em boa parte. de acordo com os informantes.244 Aspectos Fundamentais do Sistema Agrícola Guarani: Relevância. já que percebe-se uma drástica redução do espaço ocupado por eles acompanhada por má qualidade dos solos. dividindo o ano em duas estações bem definidas: ara pyau (“tempos novos”). garantida pelo plantio diversificado de produtos. plantados em pequenas roças de não mais do que dois hectares. não ocorrendo da mesma forma hoje. A agricultura Guarani apresenta um calendário agrícola próprio que define os ciclos de cultivo e manejo do ambiente. a produção de alimentos próprios. apontados pelos Guarani como os de melhor qualidade. Este calendário é próprio do sistema simbólico Guarani.

incorporando elementos novos e nos fornecendo evidências de que necessitam de espaços maiores e melhores para viverem em plenitude seu modo de ser. . possui uma idealização para que a vida se realize em sua plenitude. mas não há substituição de um sistema por outro como mônadas. observa-se o predomínio de roças convencionais em relação às roças tradicionais. Deve conter certas condições geográficas e ecológicas para permitir a constituição da unidade políticoreligiosa-territorial baseada na família extensa. Dentre os diferentes fatores necessários para constituí-lo. Hoje. Pela capacidade de transmissão dos saberes e pelas características de sua dinâmica cultural. local onde residem. cultivo e troca de biodiversidade enquanto componentes fundamentais da própria cultura do grupo.245 A imbricação desta sociedade com o meio ambiente é extremamente significativa. demonstrando a importância da agricultura na aproximação entre natureza e cultura. que o sistema produtivo de base ocidental possa tomar o lugar do modo Guarani de plantar. O tekoha. caça. os produtos e as formas de produção incorporados nas aldeias não têm gerado a desestruturação do sistema de plantio tradicional. caracterizando-se por apresentar acentuada diversidade inter e intra específica. Em alguns casos. As observações efetivadas em campo mostram que. solos e vegetação. que pode ser encontrada na composição de seus ambientes de plantio (roças e quintais). mesmo porque não se pode pensar em dois modelos completamente separados na prática agrícola atual desta etnia. conservação. neste sentido. os Guarani se reorganizam nos espaços possíveis. leia-se: agricultura. bem como na postura quanto à conservação de variáveis ambientais como água. apesar das dificuldades atuais de acesso e manejo nos ambientes que ocupam. as terras cultiváveis recebem destaque. pesca e coleta de matérias-primas. Não acreditamos. o grupo desempenha um papel importante no incremento da biodiversidade local. O agroecossistema Guarani privilegia o uso. Objetivam o usufruto de espaços que possibilitem a concretização de suas atividades fundamentais. reinventando seus modelos de gestão de recursos.

A grande dificuldade surge no momento de aplicação dos mesmos. cosmologia e sistema simbólico Guarani. Com o objetivo de construir uma coerência interna. vai além de uma recuperação das sementes antigas ou do reforço de uma forma típica de plantio. É de fundamental importância o estabelecimento das trocas de sementes durante as visitas. Estes e outros elementos compõem um conjunto de fatores intrínsecos à organização social. tanto no âmbito interno da equipe quanto na relação com a realidade sociocultural Guarani. Articulação de Sistemas Agrícolas A análise da articulação de sistemas nos permitiu desenvolver estratégias teóricas e metodológicas para implantação das ações. Não é fora do comum às equipes formadas por profissionais oriundos de áreas e formações diversas conflitos internos sobre as estratégias de agir. com relação aos quais a agricultura precisa ser tratada como um processo. procurando contribuir para a valorização do sistema agrícola tradicional. denominado imongaraí. a realização do ritual no interior da opy (casa de reza) onde o karaí (pajé) lança sobre as sementes a fumaça do tabaco queimado no petynguá (cachimbo). a organização de grupos de mutirão para o roçado e o ritual de batismo das sementes após a colheita. com maior coesão no sentido de incluir o ponto de vista indígena e outro de determinar ações o menos conflitante ou com menor fricção possível com o sistema agrícola Guarani. Os programas de políticas públicas para os povos indígenas no Brasil atual. O conhecimento do sistema simbólico e .246 Incentivar a agrobiodiversidade Guarani. demonstram uma maior envergadura para lidar com a alteridade. a equipe recorreu à antropologia para desenvolver um processo de ação reflexiva por meio da explicitação e gerência dos conflitos. Neste sentido. o projeto enfrentou um desafio de construir um discurso no interior da equipe. em comparação com aqueles desenvolvidos em governos anteriores. portanto. ou inércia pela falta de estratégia.

psicológico. Neste sentido. As populações ameríndias. passando a ser a ocupação simbólica do espaço e a percepção da roça em seus aspectos econômico. com base na comparação entre saberes distintos relativos às técnicas agrícolas. às causas de êxito ou fracasso do plantio. etc. políticos e cosmológicos envolvidos em tal aproximação cultural. às formas de lidar com mudas e sementes e à percepção da agricultura no âmbito da ideologia e simbolismo (narrativas e rituais). evitando a ação centralizada na equipe técnica. filosófico. passou a considerar outros aspectos. É importante ficar claro que a construção de um diálogo intercultural não implica a exclusão de um tipo de agricultura em favor de outro. a operacionalização de diferentes formas de construção da agricultura pode ocorrer simultaneamente em um mesmo contexto. A antropologia costuma lidar com esta situação sem deixar de considerar os aspectos históricos. ou em uma hierarquia entre os sistemas indígenas e não indígenas. principalmente aquelas com maior intensidade e/ ou maior tempo de contato com a cultura ocidental. desenvolveram sistemas híbridos perceptíveis em diferentes níveis das práticas sociais. O momento de utilizar uma ou outra bagagem cognitiva é fruto do contexto e parte de uma negociação de significados pelo conhecimento de ambos os universos em articulação. Ou seja. Além disso. Agricultura Guarani e os Modelos Possíveis de Articulação Verificamos que os Guarani apresentam um sistema que categoriza os ambientes florestais e nos dão pistas de seu manejo e de suas condições . o eixo dialógico para a execução do projeto deixou de ser fundado na biologia da planta. na qualidade do solo e no retorno financeiro da produção. social.247 da organização social dos Guarani orientou os profissionais e possibilitou a adoção do projeto pelos próprios indígenas. sendo a agricultura um destes.

esse modelo é amplamente divulgado e utilizado como referência por parte de integrantes do grupo. Os Kaaguy ete ou Kaaguy yvate representam ambientes recobertos com matas primárias ou secundárias em estado que variam de médio a avançado de regeneração. Os ambientes nos quais ocorrem Kaaguy karapei constituem aqueles passíveis de serem utilizados para ocupação residencial. Por sua vez. para os locais denominados Poruey recobertos por formações florestais emprega-se a terminologia Kaaguy poruey. entre outras) e caça (sobretudo com o auxílio de armadilhas). corroborando com os seguintes autores Felipim (2004) e Medeiros (2006). Nas áreas de ocorrência de Kaaguy ete o uso dos recursos pelos Guarani limita-se às saídas para caça e à coleta de espécies da flora nativa. podemos observar que as implicações deletérias desse modelo são percebidas pelos indígenas. enquanto alternativa possível de inserção de sua produção no mercado regional.248 fisionômico-estruturais. . Paralelamente aos cultivos convencionais. têm como mote a utilização de tecnologias da agricultura dita convencional. coleta de espécies da flora nativa (madeira para as casas. monocultivos. herdeira da chamada Revolução Verde. sementes híbridas e pesticidas. em algumas aldeias. roça. sobretudo para finalidades medicinais. É inegável que as iniciativas de produção agrícolas levadas a cabo por algumas instituições junto aos Guarani de SC. com a utilização de insumos de base sintética. Considerados como “sagrados”. em um local nos foi revelado que o grupo não se alimenta dos produtos produzidos com essas técnicas. Os ambientes nominados pelos Guarani como Poruey representam os locais intocados. foram 4 Esse sistema pôde ser observado durante o transcurso desse trabalho. Com a dinâmica desse projeto. Por exemplo. A pressão é tamanha que. que “aparentemente” não foram “alterados” pela ação humana. e sucessionais4. Desse modo. os locais Poruey não podem ser utilizados para nenhuma atividade. lenha. Kaaguy karapei é a nominação empregada para os ambientes recobertos com formações florestais secundárias em estágios que variam de inicial a médio de regeneração.

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observadas roças tradicionais, com arranjos em policultivos, de onde saem parte significativa do alimento consumido pelas famílias. Outra questão que merece destaque é a comprovação feita pelos próprios indígenas de que aquelas práticas têm enfraquecido seus solos e contaminando suas águas. Com base nestas considerações, entendemos que o sistema agrícola tradicional praticado pelos Guarani, ao diversificar o número de espécies, além de contribuir para a intensificação da biodiversidade local, garante a conservação dos recursos naturais, possibilitando a valorização da totalidade do sistema agrícola produtivo e não somente os rendimentos de uma cultura, como é o caso do modelo agrícola da Revolução Verde. Formas de Mediação Intercultural O exercício de uma reflexão conjunta quanto à condução coletiva da proposta (técnicos e índios Guarani), foi uma das premissas levadas a cabo pela equipe técnica do projeto. Ao longo do trabalho, a preocupação com a apropriação e sedimentação da proposta junto aos Guarani constituiu-se na tônica norteadora das ações, buscando suas instâncias de discussão. Uma primeira forma de desenvolver esta participação foi, exatamente, incluir um indígena Guarani na equipe executora. Tal atitude representou um importante exercício de aproximação com a alteridade, visto que os diálogos travados durante as reuniões de avaliação e encaminhamento das ações colocavam em cena conteúdos de saberes diferenciados, além de estratégias distintas de ação que deveriam estar em permanente negociação de sentido através da mediação antropológica. A segunda, e mais difícil, foi estabelecer um diálogo permanente com as instâncias políticas dos Guarani. Neste sentido, o projeto organizou uma primeira reunião com representantes da Comissão Iemonguetá para apresentação da proposta, deixando em aberto um espaço de tempo para

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os líderes refletirem em suas aldeias5. A partir daí o Projeto passou a ser inserido nas discussões mais amplas, juntamente com outros assuntos das áreas da saúde, da educação, da regularização territorial, entre outras. A atuação da Comissão não foi simplesmente no plano do acompanhamento do projeto, mas influenciou diretamente em seu desenvolvimento. Certamente esta instância não poderia ser ignorada, contudo exigiu uma série de cuidados para não transferir ao projeto interesses fora dos seus propósitos iniciais, visto que, a organização política pan-aldeã, geralmente, sofre influência de articulações de parentesco e de demandas específicas das aldeias distintas. Uma cautela, neste sentido, foi procurar distinguir a participação política formal e informal e contemplar a opinião de certos anciões, principalmente os líderes religiosos, como é o caso do karaí. Quando o projeto encontrou dificuldades em considerar os diferentes níveis de participação, lançou o problema para os produtores das divergências, colocando em cena os realces das interações discursivas. Este exercício dialógico procurou tornar os aspectos interpessoais e políticos estratégias discursivas. Assim, ao invés de contrapor uma categoria à outra ou indivíduos em relação intersubjetiva, as relações dialógicas passaram a compor um cenário em que os diferentes discursos eram explicitados enquanto problemas a serem resolvidos pelos próprios protagonistas de sua produção. Uma terceira forma de mediação foi possibilitada pela escolha de indivíduos de cada aldeia para acompanhar as ações em curso no local, denominado como Agente Indígena de Agricultura (AIA). Essa categoria havia sido prevista no projeto, em sua versão inicial, sendo reservado um recurso dentro das metas de custos para que esses indivíduos ficassem à disposição da equipe, apresentando a realidade local e mediando os diálogos com os especialistas indígenas de agricultura, visto que, nem todo Guarani é um agricultor especializado neste campo, pois há categorias
5 Visto que, este é o principal espaço de reunião dos representantes das aldeias guarani do estado de SC.

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sociais voltadas para outras atribuições. Avaliamos que a presença do AIA é fundamental. Contudo, entendemos que deve ser tomado o devido cuidado com relação ao processo de sua escolha. Os critérios devem ser estabelecidos junto às instâncias de decisão da sociedade Guarani, respeitando suas formas de mobilização e de escolha. Além disso, ele não pode ser uma categoria profissional assalariada e em competição com os especialistas tradicionais. No caso do projeto, foi interessante a contratação do AIA para ações pontuais.

Foto 02: Participantes da viagem à Argentina expondo sementes e mudas adquiridas. Autor: Vanderlei Cardoso Moreira.

A partir do projeto, percebeu-se a importância de o AIA estar integrado nos objetivos da equipe executora, bem como nas linhas da proposta, para que através dele o seu grupo se fortalecesse e conseguisse participar efetivamente dos empreendimentos, tornando-se protagonista na escolha das formas de desenvolvê-lo. Assim, fica clara a opção por um AIA que tenha afinidade com os especialistas tradicionais e habilidade no trato com os agentes externos, dinamizando as relações de interculturalidade.

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Uma última forma de mediação a se destacar pode ser aquela constituída pela relação entre a própria equipe técnica e a agência financiadora do projeto. Nesse contexto, apresentou-se como questão central a sensibilização dos gestores governamentais sobre as incongruências administrativas frente à alteridade. Este foi o caso, por exemplo, dos gastos com erva-mate e fumo que, embora o valor tenha sido irrisório, o setor financeiro do MDA argumentou como sendo despesas sem relação com o objeto do convênio. Neste sentido, a equipe técnica teve de desenvolver uma justificativa demonstrando que o consumo de fumo e erva mate estaria intricado ao objeto do projeto e o dispêndio efetuado com estes produtos poderia ser enquadrado nos gastos previstos no plano de trabalho. Demonstrou-se que tal consumo não estaria em desacordo com o objeto do projeto, visto que a utilização do fumo (pety) e da erva mate (ka’a) entre os Guarani é fundamental: nos processos de reprodução dos saberes tradicionais; durante os encontros entre representantes de diferentes aldeias para a realização de troca de material vegetal; e, em ações estratégicas de incentivo à atividade agrícola própria desta etnia. Esclarecendo que a transmissão de conhecimento e as práticas relativas à agricultura tradicional inexistem fora dos processos que envolvem o consumo de tabaco e o consumo de erva mate, entre outros, inerentes às formas de sociabilidade e ao simbolismo. Em acréscimo, o setor financeiro argumentou que a utilização dos recursos nestes dois produtos havia sido em “finalidade diversa da estabelecida no Termo de Convênio”. Neste sentido, a justificativa teve de demonstrar que o fumo e a erva mate estão enquadrados nas previsões de gastos do plano de trabalho, pois estes produtos, na ótica Guarani, não se distinguem, em termos de valor, daqueles relativos à alimentação. Para os Guarani, o fumo é como se fosse um alimento do espírito no sentido de servir como elemento purificador e como mediador entre o mundo vivido pelos humanos e o mundo espiritual; além disso, é através do uso do petynguá que o líder espiritual realiza a purificação das “sementes

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verdadeiras”, pré-requisito para o seu plantio e posterior consumo. A erva mate, por sua vez, também está no mesmo nível dos alimentos, pois propicia a leveza e a agilidade necessárias para a subsistência dos indivíduos e sua transcendência. No argumento do MDA o projeto não possui a obrigação de financiar estes dois produtos visto que não estão perfeitamente enquadrados em suas categorias de gastos. Contudo, para os Guarani é óbvio que qualquer projeto deva incluí-los, pois além do uso em si, esses produtos, quando oferecidos pela equipe técnica, estabelecem uma relação de reciprocidade, que é o primeiro passo para articulação intercultural. Considerações Finais Considerar os aspectos apontados acima, que compõem um sistema Guarani e as formas de articulação com outros sistemas agrícolas, é um ponto de partida para o estabelecimento de políticas públicas neste campo. Neste sentido, destacamos três pontos para estimular os mecanismos internos e incentivar a produção de alimentos: • Os Guarani detêm um sofisticado sistema sustentável de recursos naturais e de conservação da biodiversidade, mas para sua plenitude urge a disponibilidade de terras e recursos naturais; • A produção agrícola de acordo com os costumes dos Guarani demanda um grande esforço para garantir o consumo próprio, contudo este sistema é dinâmico e apresenta possibilidades de articulação com outras formas de produção agrícola através da incorporação de técnicas e produtos; • A agricultura tradicional Guarani é um fenômeno histórico-cultural e como tal deve ser foco de estudos agronômicos e antropológicos para torná-la mais rica e melhor aproveitada pelos indígenas. Nesse exercício de interculturalidade, destacamos abaixo diferentes

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pontos que ajudam a pensar de forma preliminar sobre o desencadeamento de ações futuras de ATER junto aos Guarani: • Abordar as especificidades históricas e socioculturais de forma integrada, possibilitando o entrelaçamento entre as atividades produtivas e os outros aspectos culturais que compõem essa imbricada relação (narrativas, rituais, organização social, etc) e reforçando as redes de reciprocidade e parentesco; • Articular com organizações constituídas pelos Guarani enquanto fórum de discussão e encaminhamento de ações, como é o caso da Comissão Iemonguetá; • Propiciar o diálogo entre as estratégias conservacionistas e as representações de solos na cultura Guarani, tecendo estratégias de manejo como: plantio em cobertura, cordões de contorno em terrenos declivosos, dentre outros, sem desprezar o sistema simbólico relativo à organização do espaço e à classificação territorial6; • Valorizar o trabalho com as sementes tradicionais – “sementes verdadeiras” – estimulando as iniciativas de resgate e multiplicação dessas nas diferentes aldeias. Ressaltando que o aspecto fundamental é a concepção de “semente” como parte de um sistema simbólico muito mais amplo do que simplesmente o uso comercial. A concepção de semente Guarani está associada com cosmologia, noção de pessoa, espiritualidade e cura de doenças7;

6 De acordo com Noelli (1993) que revisita os trabalhos do padre Jesuíta Montoya , pode-se referendar a constatação de que os Guarani classificam os solos em função de aspectos como textura, cor e fertilidade. O referido autor afirma que atualmente esses indígenas continuam distinguindo os solos pela coloração, e também, por sua relação com a vegetação (yvy corresponde à ibi). Yvy moroty designa os solos de coloração esbranquiçada, Yvy pytã assinala os solos avermelhados (roxos), Yvy hu representa os solos escuros e acinzentados, yvy sayju são os solos amarelados e pardos. Conforme pudemos comprovar ao longo desse trabalho. 7 Para mais informações sobre a grande relevância das sementes tradicionais e o trato relativo a elas conferir Medeiros (2006), Medeiros e Darella (2007), Ikuta (2002), Felipim (2001), Ladeira (2001), Noelli (1993,1994, 1996 e 2004), Schaden (1974), Brieger et al. (1958), dentre outros.

que estratégias adotar visando sua conversão à uma proposta agroecológica que sejam suficientemente aplicável à realidade sociocultural da aldeia. apresentando alto valor de mercado. possibilidade de agregação de valor. facilidade na produção e desenvolvimento de tecnologia sobre a espécie. • Pensar conjuntamente com os Guarani sobre estratégias de produção de renda. • Estabelecer diálogo com o ATER convencional sobre as bases da valoração dos impactos que esse modelo vem causando nos diferentes aspectos da vida Guarani: ambientais. no reconhecimento de como esse sistema foi adotado pelos indígenas e. contemplar elementos de interesse agronômico . • Apoiar iniciativas de manejo florestal e exploração de recursos a partir das conexões que os Guarani fazem com as categorias faunísticas e florísticas. alta demanda. substituição de espécie exótica. Nesta linha. Em seguida dimensionar suas ações futuras a partir das relações dialógicas com os diferentes interesses locais. sociais. Autor: Vanderlei Cardoso Moreira. lançando um olhar crítico sobre a sustentabilidade do modelo.255 Foto 03: Mudas e sementes adquiridas durante viagem à Argentina. econômicos e culturais. finalmente. utilizando-se de pesquisas que forneçam um panorama da potencialidade das plantas nativas cuja cadeia comercial esteja bem estabelecida.

People of the Fallow: A Historical Ecology of Foraging in Lowland South America. educação e meio ambiente que estão dialogando com as diversas realidades vividas pelos Guarani.T.142-149. seria oportuno que as equipes dialogassem com estudos recentes como o realizado do PROBIO/ MMA (2006) – Plantas do Futuro para a região Sul. realizado por pesquisadores de várias universidades do sul do país.R. de forma geral. etc8. Média de Transpiração no Eucalyptus rostrata e suas 8 Para tanto.. New York.G. priorizando-a e disponibilizando informações. BERTONI. Parece-nos pertinente que. 1992. Brasília: MDA/SAF/Departamento de ATER.256 para o grupo: espécies cultiváveis (cultivares tradicionais) e frutíferas. levem em conta o diálogo com as questões e políticas que almejem a ampliação e reconhecimento do território Guarani.V.. J. W. p. Lançamo-nos ao desafio. ALLEONI. CERONI. Press. E. bem como criação de novas oportunidades de investimento. M. D. Agenda y mentor agrícola. S. Z. GURGEL. National Academy of Sciences – National Research Council..35-57..). BRASIL. Conservation of Neotropical Forests. bem como possibilitem articular a política de agricultura com as políticas de saúde. corante e ou cosmético. que objetivou identificar plantas nativas da Região Sul com perspectiva de fomentar seu uso pelo pequeno agricultor e por comunidades rurais. 1958. Columbia U. medicinal. F. BRIEGER. Puerto Bertoni: Imprenta y edición ‘Ex Sylvis’. In: REDFORD. BLUMENSCHEIN. além de ampliar a sua utilização comercial. 1927. p. Publication 593.A. junto a espécies florestais nativas de potencial madeirável. Races of Maize in Brazil and Other Easthern South American Countries. K.H and PADOCH. PATERNIANI. óleo essencial. 4a Edición Ampliada de la 3a encargada por el Congreso Nacional Paraguayo. Washington. C. dentre elas UFSC-UFRGS. Referências Bibliográficas BALÉE. . com vistas a incentivar sua utilização direta. M. as ações que sejam pensadas junto a esse grupo. (eds.C. Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural..S. 2007.

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não importa que metodicamente desrigoroso. de que resulta indiscutivelmente um certo saber.260 Caxêkwyj : Educação Agroambiental na Terra Indígena Krahô Carlos Antônio Bezerra Salgado A curiosidade ingênua. Paulo Freire . é a que caracteriza o senso comum. O saber de pura experiência feito.

Característica que. formada por nascentes.200 Km2 na região nordeste do Estado do Tocantins. Abrange 3. A Terra Indígena Krahô está entre as maiores áreas de proteção contínua do bioma Cerrado. predominante em todo o território. Itacajá e Santa Maria. constituindo uma região singular de surgência. estabelecendo um fluxo sociedade natureza. a “Mãe Natureza” provedora e parideira. A fragilidade ecológica da Terra Indígena Krahô está na matriz geológica responsável pela gênese dos solos de formação arenítica. Do ponto de vista filosófico. Esse ser sagrado ainda é manifestado entre os diversos povos indígena no Brasil. de onde tudo surge. define partes consideráveis do território como áreas suscetíveis à desertificação. a “dessacralização da natureza significou a violação de sua integridade. servidor da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e Assessor da Escola Agroambiental Caxêkwyj desenvolvida pelos Krahô. Em uma região onde atributos ambientais especiais se configuram na grande ocorrência de campos úmidos e veredas. além de dificultar a produção de alimentos. . fato confirmado por sua memória coletiva e mitológica. dos limites que teriam que ser mantidos para que a vida natural pudesse ressurgir e renovar-se” (SHIVA. 2000: 307). 1 Pesquisador Colaborador do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS) da Universidade de Brasília (UnB). onde estão os municípios de Goiatins. O sagrado cultuado e manifesto em plenitude na harmonia do ambiente natural. córregos e pequenos rios.261 Caxêkwyj : Educação Agroambiental na Terra Indígena Krahô Carlos Antônio Bezerra Salgado1 Introdução Em certos tempos se compreendeu a natureza com ênfase na sua dimensão “sagrada”. O Povo Krahô vive imemorialmente nos Cerrados.

familiar. os levam a manterem um forte movimento de resistência e manutenção cultural. têm experimentado graus tecnológicos e metodológicos diferentes para a produção de alimentos e atendimento às necessidades de manutenção da segurança alimentar. Pelos preceitos da ancestralidade. com a introdução de tecnologias desenvolvidas para o agronegócio. solidário. explorando o conjunto de outros ecossistemas associados. acelerando a erosão dos recursos ambientais. Os povos indígenas habitantes nas Terras Indígenas no bioma Cerrado. como: veredas. matas ciliares. desequilibrando a segurança alimentar e nutricional ancestral. inclusive variedades híbridas associadas a novas técnicas de plantio. Algumas menos adequadas trouxeram o pensamento indutor de mudança no sistema de produção tradicional. Assim desde o contato com nossa sociedade vêm absorvendo novos recursos genéticos. matarias e campos do chapadão. de fácil acesso terrestre. ligada ao mercado. cerrados. guardados por alguns velhos. de guardarem e utilizarem suas sementes e técnicas milenares de manejo agrícola. para uma forma coletiva. A erosão genética das plantas alimentares cultivadas com o conhecimento tradicional a eles associado em um quadro de abandono do próprio hábito de fazer as roças. .262 Plenamente adaptados ao bioma dos Cerrados. pouco sustentáveis. campos úmidos. os Krahô se estabelecem nas chapadas. com base na subsistência. ampliou o quadro já frágil da produção de alimentos no Cerrado. respeitam a natureza que lhes define formas socioculturais sustentáveis e rege a vida cotidiana desde o tempo imemorial. Os conhecimentos tradicionais sobre os ecossistemas do Cerrado. carrascos.

quadro-negro e giz. Jeannette Armstrong. Não queremos uma escola que só tenha mais cadeiras. da epistemologia. apud CAPRA. Diz ainda assim: Transmitir as habilidades e os conhecimentos necessários para se viver bem. a diferença pode estar no como as famílias colocavam os princípios da sobrevivência em termos de conduta comunitária necessária para manter saudáveis os recursos e os sistemas alimentares. na província canadense de British Columbia. E nunca sinta vontade de ir embora. 2006) fala que na ancestralidade a educação ocorria naturalmente no seio familiar. era tão importante naquela época quanto é hoje. CREUZA PRUMKWY. mas sim uma escola da experiência. linguagem e simbolismo. da convivência e da clareza.263 Educação Indígena A escola que a gente quer é a escola do prazer. Essa diferenciação ontológica cria a possibilidade de referência aos indígenas de outra cognição. 2 Povo Indígena que vive na reserva Indígena de Penticton. que em conjunto representavam as necessidades de sobrevivência e eram transmitidas com muito orgulho aos seus descendentes. a partir de interações extremamente intensas e de grande envolvimento com a natureza. Se um dia alguém trouxer um peixe que foi pescado no riacho perto da nossa casa. da ontologia e da cultura indígena se dá a partir de tipologias intrinsecamente vinculadas à biodiversidade. O que representa “pedagogia indígena”. aquela que a gente pode vir todos os dias. e que cada família tinha suas especializações. indígena Okanagan2 em seu ensaio “Em’owkin” (1994. do saber/fazer. . professora Krahò – TO É mais adequado ouvir o que os indígenas dizem sobre educação indígena para termos uma ideia do que é. ele seria nosso objeto de estudo. A manifestação e organização do conhecimento.

marginalizando e fragilizando todas as formas ancestrais de educar. induzida pelas políticas públicas. destinadas aos povos indígenas. Através do exemplo. Como política pública. capazes de auxiliar a compreensão dos outros pela manifestação ontológica de seus saberes. da transformação do saber em fazer. Como subjetividade curiosa. inteligente. Você precisa tomar cuidado para não tirar essa experiência de ninguém”. do prático.264 O mundo não é. a educação escolar indígena leva os povos indígenas a referenciarem a escola como o principal momento de educação para seus filhos. Um ditado indígena diz que: “Quando ensina algo a alguém. todos os indivíduos. ao mesmo tempo essa atitude os sustenta. O professor Fernando Luiz Yawanawá. surge a pedagogia indígena perpetuada em rituais ancestrais realizados cotidianamente pelos mestres indígenas. mas também o de quem intervém como sujeito de ocorrências. O mundo está sendo. desconsidera a educação tradicional indígena como forma de manutenção do saber. e assim o são. missionárias e outras. que a própria vida se confunde com o apreender viver. Na sua concepção natural está a possibilidade de todos serem. Não sou apenas o objeto da história. Essa proximidade e cognição sobre a natureza conferiram resistência a estes povos. A pedagogia . interferidora na objetividade com que dialeticamente me relaciono. educadores de seus saberes aprendidos em fazeres. por isso necessitam da biodiversidade preservada. 1996: 76). (2005: 20) afirma que “educação são os ensinamentos dos pais em casa e os ensinamentos das pessoas mais velhas da aldeia. mantendo-os em suas terras de onde ainda podem utilizar os recursos naturais para sobrevivência. do descobrir. que são contadores de histórias e os pajés”. mas seu sujeito igualmente (FREIRE. em graus variados. A escolarização da educação. A pedagogia indígena traz em si elementos tão próximos à natureza. você está privando a pessoa da experiência de aprender isso. meu papel no mundo não é só o de quem constata o que ocorre.

como inclinação ao desvelamento de algo. mas também por quem é dito e em que circunstâncias. 2006:97). como sinal de atenção que sugere alerta faz parte 3 A kàpey é um conselho comunitário que reúne todas as aldeias Krahô e é representado juridicamente pela União das Aldeias Krahô. pouco contempla a pedagogia ancestral construída com seus próprios saberes e fazeres. Ensinar não é apenas um meio de transmitir conhecimentos e informações. como procura de esclarecimento. como pergunta verbalizada ou não. A Educação Agroambiental: A CAXÊKWYJ A escolarização da educação indígena. organização indígena criada em 1993. apud CAPRA. A curiosidade como inquietação indagadora. A falta de autonomia e protagonismo indígena. é também parte integral desses mesmos conhecimentos (MARGOLIN. nos processos exógenos de escolarização. Foto 01: Meninas Krahô na corrida de tora.1978. baseado em suas próprias verdades e descobertas. Segundo suas próprias realidades existenciais. . Autor: Carlos Salgado.265 indígena não se ocupa apenas com o que é dito. levou a União das Aldeias Krahô (Kàpey)3 a trabalhar o paradigma autônomo de sustentabilidade.

mestres da cultura. tem potencializada sua atuação. amplo e permanente. a “Escola Agro Ambiental Caxêkwyj4”. É um método de “formação prática” de educadores agroambientais5. Os Krahô contam que uma estrela virou mulher para atender ao pedido de um jovem solitário para arranjar uma companheira para ele. acrescentando a ele algo que fazemos (FREIRE. 1996: 32).” Surgiu em 1994. A Caxêkwyj surge como proposta pedagógica de prática educativa alternativa à escolarização. Ela não é propriamente uma escola. um prédio que 4 Caxêkwyj (pronuncia-se catxêcoi). constituindo um amálgama que privilegia a reconstrução da sobrevivência com base em uma visão endógena. privilegiando a geração de conhecimentos e um processo de formação em sintonia com a ética da sustentabilidade por meio do diálogo entre os saberes. vem sendo realizada uma experiência com pedagogia indígena. Sua criação é inspirada na busca de uma compreensão aberta à crescente complexidade dos problemas essenciais da humanidade. Com a orientação e apoio da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (CDS/UnB).266 integrante do fenômeno vital. 5 Isto se deve principalmente à dificuldade de comunicação das crianças em outra língua que não a materna. um educador Krahô mestre de tradições da escola: “É coisa muito antiga. é cultural Krahô. Um mito Timbira. Valoriza a cultura e a natureza no território Krahô. trouxe consigo diversos alimentos novos ensinando como produzir e como comêlos. Como diz Konc Konc. O nome dessa estrela é Caxêkwyj e quando veio à terra. A formação inicial dos educadores já em condições de dar aulas para as crianças necessitou cerca de dez anos para ser efetiva. pautada em relações harmônicas entre humanos e a natureza. e das crianças em atividades pedagógicas. Aqui encontrou o milho e ensinou como utilizá-lo na alimentação. uma instituição. Não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e que nos põe pacientemente impacientes diante do mundo que não fizemos. onde preconiza-se o aprendizado integrado de práticas e conhecimentos teóricos ligados à sobrevivência Krahô. que com o aprendizado proporcionado em vivências dirigidas às crianças. . Assim a formação dos educadores depende das velhas e velhos.

. de questionamento. trabalhando novos conteúdos paradigmáticos de sobrevivência. O início da formação foi realizada com casais jovens.267 circunscreve o saber. que juntos podem auxiliar a manutenção e melhoria da qualidade de saúde e vida. A Caxêkwyj é um processo dialético de educação. Projetos Demonstrativos dos Povos Indígenas (PDPI-MMA). Autor: Carlos Salgado. Para aplicação do método pedagógico são realizadas vivências agroecológicas. experimentações diversas com a produção de alimentos e seu uso cultural. Assim tanto o aprendizado em serviço pode ser experimentado quanto uma relação de intercâmbio com colaboradores eventuais. Foto 02: Aula de cantoria no pátio da aldeia. Objetiva compreender e auxiliar a melhoria da segurança alimentar e nutricional tradicional. no âmbito da carteira de ATER Indígena. formadores das unidades 6 A Caxêkwyj vem trabalhando a formação de Educadores Agro Ambientais há 15 anos. Não se limita a esta concepção. de procedimento argumentativo. com a prática de ritos e brincadeiras ancestrais. um método de diálogo. mas se liga antes ao fazer para então saber aprender a melhor fazer. Um método experimental permanente que vem sendo apreendido pelos Krahô há cerca de 15 anos6. Instituto Sociedade e Proteção da Natureza (ISPN). e pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). realizando projetos apoiados pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI). responsáveis pela formação continuada dos educadores. Alia produção de alimentos às tecnologias ancestrais e cuidados agroecológicos.

Este momento trouxe a oportunidade de se levar a campo algo que vinha sendo desenvolvido embrionariamente. em práticas de âmbito local. terra de ninguém e de todos. de todos da Terra Indígena. que foi organizado fora das aldeias. como que em um laboratório. e a manifestação ontológica ganha forma pedagógica. criação e apropriação da tecnologia diretamente pelas comunidades. A escola é realizada no centro de formação da Kàpey na Terra Indígena Krahô. os “Pedacinhos de Caxêkwyj”. já nas suas aldeias.268 familiares de sobrevivência. agindo como multiplicadores. coloquem em prática tanto no espaço doméstico quanto nas roças de produção de alimentos o que aprenderam. que vinha sendo experimentado apenas na sede da Kàpey. em um território restrito e pouco definido. A proposta é que após a realização das vivências agroambientais. Isto ampliou fortemente perspectivas de autonomia. na Kàpey. internalizando mais ainda o processo. considerando o ethos tribal de cada comunidade. passou a ser realizado em oito aldeias. Com o apoio da ATER Indígena do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) o método pedagógico. . o território é definido e assim a relação da comunidade passa a ser o componente motriz da experiência pedagógica autônoma. Nas aldeias.

Trabalha o respeito e fortalecimento da cultura Krahô. sem estipular ritmos e tempos estranhos ao viver cadenciado ditado pela natureza. além dos projetos financiados pela FUNAI. orientando a prática de costumes e tradições. onde são reveladas formas de plantio. num ideal pedagógico que enxerga na transversalidade universal a permissividade de se desprender de aspectos ortodoxos. Valoriza a perspectiva de gênero. no qual os educadores passaram a conduzir as atividades. a . utiliza conceitos e critérios didáticos que valorizam a experimentação de um processo de ensino/aprendizagem significativo ao povo Krahô. colheita e beneficiamento tradicional dos recursos naturais. e circulam conhecimentos etnobotânicos e recursos genéticos.269 Na prática. posteriormente aprofundada por um projeto financiado pela ATER Indígena / MDA. Já em um segundo projeto também financiado pela ATER Indígena / MDA foi possível experimentar pela primeira vez um trabalho diretamente com as crianças. circunscrevendo as atividades das mulheres e dos homens. teve um projeto financiado pelo PDPI. O apoio externo trouxe uma maior continuidade às atividades. no qual os conteúdos abordados são livres e segue-se o pensar Krahô. quando foi possível iniciar a formação continuada dos educadores. A primeira vivência com crianças realizada pelo projeto do MDA contou com 57 crianças.

de várias aldeias. intervindo educo e me educo. que desenvolve pesquisas com o caju-anão. As crianças são meninas (Kahuré) e meninos (Homré). Ensino porque busco. Foram visitados Centros da Embrapa. Esses que-fazeres se encontram um no corpo do outro. Para manutenção das atividades de pesquisa. 1996:29) A Caxêkwyj usa também como metodologia. centros de processamento de alimentos. Este procedimento atinge um nível bem interessante de aprendizado. Pesquiso para constatar. o Instituto de Permacultura do Cerrado (IPEC) e a Comunidade Alternativa Frater Unidade em Pirenópolis. porque indaguei. constatando. pois se vê na prática diversos métodos de produção alternativa e sustentável de alimentos. continuo buscando. reprocurando. Enquanto ensino. Encontramos eco na fala de Paulo Freire quando ele afirma: Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. porque indago e me indago. . 7 Com o apoio da FUNAI. tanto em sua sede quanto em algumas aldeias. e o Sítio Alegria de produção orgânica.270 derradeira vivência realizada na sede da Kàpey teve a participação de 97 crianças. foi realizada uma excursão pedagógica para Brasília em 2002. atividades de intercâmbio e aprendizado com passeios e excursões pedagógicas7 a centros de pesquisa especializados. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade (FREIRE. projetos de comunidades alternativas. intervenho. fazendas experimentais. A atividade de excursão compreende tanto a visitação quanto a consolidação dos conhecimentos por meio do debate e do registro em desenhos e textos. espécie que se adaptou bem na TI Krahô. a escola usa vários campos experimentais. A FUNAI também apoiou uma excursão para o Centro da Embrapa no Ceará.

.271 Foto 03: Visita de intercâmbio ao Sítio Alegria de produção orgânica. sendo objeto pedagógico abordado pelos educadores agroambientais nas atividades do projeto. Aqui está também a interatividade e importância da continuação da atividade em outro projeto em que o uso de algo apreendido em uma visita de intercâmbio em um projeto foi utilizado como ferramenta pedagógica em outro posterior. Através de um dos projetos financiados pela ATER Indígena / MDA em 2006 foram realizadas duas excursões pedagógicas: uma à Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e a comunidade rural sustentável Goura Vrindavana dos Hare Krishna em Parati-RJ quando foi visitada uma fábrica de banana passa. onde o manejo vai privilegiando as diversas fases da sucessão em um sistema implantado originalmente em uma única etapa. e outra à fazenda Fugidos em Piraí-BA com curso de agrofloresta. e depois uma visita a uma agrofloresta experimental de Cerrado na OCA em Alto Paraíso. ministrado por Ernst Göestch8. a consolidação dos 8 Ernst Göestch é o desenvolvedor e introdutor no Brasil da metodologia de sistemas agroflorestais sucessionais. Estas excursões possibilitaram a consolidação de uma tendência pela adaptação e adoção de tecnologia de agrofloresta pelo método sucessional. Também nas vivências na Terra Indígena.

em atividades transversais ao currículo. levando às crianças aprendizados exógenos ao processo de escolarização. Os livros são utilizados nas escolas formais. “Alimentação Krahô”. Na Caxêkwyj já foram produzidos os seguintes títulos: “Abelhas Nativas: Conservação Ambiental”.272 conhecimentos se dá em oficinas de desenhos e textos. O projeto do PDPI pode dar um seguimento a atividades por quatro anos consecutivos. e “Vivências Agroecológicas na Terra Indígena Krahô”. Configura-se assim uma grande necessidade de se trabalhar melhor . “Excursão Pedagógica”. Surgiu então a possibilidade de se discutir e experimentar novos paradigmas de produção. reforçando e valorizando o saber ancestral no processo de educação escolarizada. “Saúde: Vida Feliz”. “Frutos do Cerrado”. preocupando-se principalmente com o seu funcionamento orgânico. que complementam o aprendizado e produzem material para livros didáticos. Nesse momento discutiu-se pela primeira vez o conteúdo pedagógico livre da Caxêkwyj reforçando a importância da manutenção do protagonismo indígena. permitindo certa continuidade. Dessa forma é trabalhada a dimensão futura da sociedade Krahô. retornando à pauta uma discussão sobre como produzir na fitofisionomia das Chapadas e utilizar as tecnologias de constituição de agroflorestas sucessionais. A ATER Indígena e os Projetos Realizados Alguns projetos realizados pela Caxêkwyj foram mais definidores da sua formatação. “Aprendendo com a Natureza”. A partir dos projetos do ISPN e PDPI foi possível analisar o modelo de realização da agricultura na Terra Indígena Krahô. quanto à forma como são utilizados tradicionalmente e a insustentabilidade gerada pela baixa capacidade de suporte dos recursos naturais. como o caso do projeto apoiado pelo Instituto Sociedade e Proteção da Natureza (ISPN) que privilegiou a construção de um paradigma agroecológico de educação relacionando sobrevivência e conservação dos recursos naturais.

os resultados dos projetos assumem uma dimensão temporal mais adequada ao tempo indígena. implantação de experimentos e seu monitoramento. as ações pedagógicas da Caxêkwyj se consolidam definitivamente como alternativas aos processos de “desenvolvimento” para geração de emprego e renda. Foto 04: Roça Experimental. Autor: Carlos Salgado. visto que os experimentos passaram a ser ligados à sustentabilidade de cada aldeia aumentando a pressão e a responsabilidade por retornos confiáveis. Assim. . construindo uma base científica alicerçada na cultura Krahô. Também cresce a importância dos educadores como extensionistas.273 a “extensão indígena e a assistência técnica”. ou mesmo se adequando ao tempo indígena. pois são tecnologias educativas que ficam registradas na própria cultura. Dessa forma. privilegia-se então o processo endógeno de aprendizado e reconstrução sustentável da própria vida. Com a adaptação e a reconstrução de métodos educativos e tecnológicos. mantendo assim também uma necessidade maior de apoio para formação dos educadores. deixando-se de lado o atrelamento ao mercado ou mesmo a políticas públicas causadoras de expressiva dependência externa.

com aceiros.Constituição de ilhas de proteção de recursos naturais. Pouco se discute ou discutiu sobre a atuação do sistema de ATER nacional e sua atuação com povos indígenas. visto a grande necessidade de assistência técnica e extensão.Vivências Agroambientais de Formação do Educador iniciados com um ritual chamado Tep Teré (peixe e lontra). realizado em 2006. adaptadas e avaliadas quanto a sua sustentabilidade. característica básica das sociedades comunais indígenas. Projetos de ATER Apoiados pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário Em 2006 foi realizado um primeiro projeto apoiado pela ATER Indígena / MDA. Ainda se separa pesquisa e extensão.274 Existem poucas experiências sistemáticas com a extensão indígena no Brasil. Estas Vivências Agroecológicas ainda não objetivavam a inclusão das crianças sendo dirigidos prioritariamente aos casais de educadores. O Estado desta forma é omisso e irresponsável. protegendo contra o fogo manchas de recursos interessantes à sobrevivência Krahô. 3 . menosprezando a necessidade de se estudar e sistematizar conhecimentos que permitam a geração de políticas adequadas de extensão indígena.Manutenção de campos experimentais existentes e implementação de novos. onde retorna-se e demonstra-se a importância da fartura. . quando muitos pesquisadores acabam assumindo o papel de extensionista. sempre encerrados como nas festas tradicionais. foram realizadas as seguintes atividades: 1 . onde tecnologias “sustentáveis” são testadas. 2 . Sua concepção contemplou tanto a necessidade de se conhecer novas experiências quanto a necessidade de implementar nova experimentação interna. No projeto “Vivências Agroecológicas no Território Krahô” financiado pelo MDA.

Na primeira vivência foram preparadas roças que.Elaboração de material didático. comunidade dos Hare Krishna em Parati-RJ. Foram realizadas duas vivências e em ambas foi realizado um ritual chamado Põnhy pré (milho ancestral). resultante das oficinas de desenhos e textos tanto das viagens de intercâmbio. 5 . Assim o levantamento foi realizado superficialmente a partir de informações difusas coletadas nas vivências agroambientais realizadas na sede da Kàpey. na segunda vivência. foram utilizadas para a festa. em Alto Paraíso. e uma segunda viagem com curso de agrofloresta em Piraí-BA e uma visita à agrofloresta experimental de Cerrado. envolto em brincadeiras lúdicas e demonstração da fartura na produção de alimentos. na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e visita a Goura Vrindavana.Levantamento Etnoambiental de recursos naturais planejado para ser realizado em oficinas de campo para o levantamento autônomo dos recursos naturais. 2 . intitulado “Vivências Agroambientais na Terra Indígena Krahô” foi distribuído posteriormente para uso nas escolas indígenas das aldeias como material de apoio.Vivências de formação do Educador Agroambiental juntamente com crianças de várias aldeias nas idades de 10 a 12 anos. como nas outras vivências. quanto das vivências agroecológicas.275 4 . O livro produzido a partir deste material. Este propôs consolidar os conhecimentos agroecológicos abordados anteriormente e procurou desenvolver as seguintes atividades: 1 . Também com o apoio do MDA.Viagens de intercâmbio: para a Fazendinha Agroecológica. Parte destes conhecimentos se encontra no livro produzido pelo projeto. . Este procedimento não foi realizado devido a dificuldade de articulação e mesmo à amplitude da meta que acabou por ser abandonada em sua estratégia. foi realizado em 2007 um novo projeto: “Consolidando ensinos e aprendizados Agroecológicos na Terra Indígena Krahô”.

diretamente com o MDA. protegendo manchas de recursos interessantes à sobrevivência Krahô. trazendo a transversalidade contemplada nos projetos educativos da Caxêkwyj. Além de uma série de formulários mais complexos a serem preenchidos. pois já tinham um regime simplificado de acompanhamento e prestação de contas.Constituição de novas ilhas de proteção de recursos naturais. O acompanhamento indigenista voluntário auxiliou na execução e no preenchimento dos formulários de prestação de contas e acompanhamento do processo até o seu final. Foi quando começaram a implantar o sistema de pregão eletrônico e existiam dúvidas . foi estabelecido um contrato com a Caixa Econômica Federal (CEF) o que facilitou sobremaneira. intitulado “Aprendendo com a Natureza”. quanto no relacionamento com o próprio MDA. sendo necessária a sua aplicação financeira e solicitações constantes de liberação dos recursos/parcelas.Elaboração de material didático. No primeiro projeto realizado com a carteira ATER Indígena. Isso complicou bastante a execução visto que a quantia foi liberada com atraso. 4 . foi distribuído para uso nas escolas do ensino fundamental.276 3 . onde algumas tecnologias “sustentáveis” alternativas foram testadas. O livro didático produzido a partir deste material. Já o segundo projeto foi realizado pela modalidade convênio. resultante das diversas oficinas de desenhos e textos das vivências agroecológicas educativas. 5 . Dificuldades Encontradas no Relacionamento com os Diversos Projetos A principal dificuldade encontrada foi de caráter administrativo/ financeiro. mantendo a metodologia da implantação de aceiros para isolamento contra o fogo. Tanto na gestão autônoma realizada pela Kápey. adaptadas e avaliadas.Manutenção de campos experimentais existentes e implementação de novos.

quando poderá estar envolvido em outra atividade. mas para se captar recursos. auxiliar o processo de execução físico/ financeira. pois na época havia apenas um técnico para acompanhar todos os projetos da carteira. É uma faca de dois gumes captar recursos. nem sempre quem administrou projetos no passado está disponível ou mesmo encarregado de administrar no . O acompanhamento técnico pelo ministério foi realizado à distância. o primeiro se refere a gastos fora do prazo de vigência do projeto e o segundo a não realização de atividades previstas. sendo inclusive devolvidos cerca de 20% dos recursos. acaba-se descuidando desses detalhes. algo que. Mas faz parte do indigenismo a transdisciplinaridade e o altruísmo de não recuar diante de obstáculos aparentemente intransponíveis. disseram que poderia ser pelo antigo sistema ainda. Assim os assessores acabam por assumir tarefas sem o devido preparo. Neste projeto dos problemas de gestão.277 quanto ao real procedimento para as compras. Pode-se dizer que é um erro. Algumas Considerações Pelo fato das carteiras de fomento não permitirem que se paguem assessorias contábeis e acompanhamento financeiro. pois ninguém estava preparado para assumir o novo procedimento. Com a grande rotatividade de dirigentes. raros e fundamentalmente necessários. não é remunerado e quase sempre dispõe de pouco tempo no futuro. mesmo em condições dificultosas para a sua administração. em tese. A capacidade de execução de uma organização não pode ser medida pela sua experiência de ter realizado projetos anteriormente. Isso deixou a própria Kápey sem um apoio institucional mais direto. após alguns meses. sendo que. trabalhar nos projetos e ainda auxiliar na prestação de contas. pedagogicamente poderia garantir uma maior eficácia financeira/administrativa. para o qual nem sempre está preparado. apontamos dois problemáticos. muitas vezes o indigenista que está assessorando o projeto se dispõe a fazer esse préstimo.

Porém de uma forma geral. quase sempre implícitos nas ações indigenistas do estado. 2006. Isso aumentou a necessidade de assistência. . São Paulo. que contemplam a assistência técnica e extensão para o estabelecimento de melhores condições de sobrevivência. A experiência acumulada não é relativa à organização mas sim aos indivíduos que as dirigem ou dirigiram. Jeannette C. não contemplando de maneira satisfatória o acompanhamento dos projetos – algo que deve ir além das rotinas de fiscalização.Acre e Organização dos Professores Indígenas do Acre. Há uma necessidade de qualificação dos profissionais que atuam na temática. gerando mais clientelismo e paternalismo. como também a constituição de quadros de carreira de servidores públicos com esta definição e prerrogativa funcional e profissional. Educação Okanagan para uma vida sustentável: tão natural quanto aprender a andar ou falar.278 presente. a importância dos projetos de segurança alimentar e nutricional. É importante entender melhor o que é diferenciado para que isto se efetive. Referências Bibliográficas: ARMSTRONG. Assim o Estado libera recursos mas não dá tratamento diferenciado aos Povos Indígenas. Cultrix. Hoje várias carteiras operam com a temática indígena. CADERNO de reflexão do professor indígena. geração de renda e gestão ambiental. Comissão Pró Índio . (IN) CAPRA. Porém há que se melhorar a compreensão do estado em viabilizar um tratamento mais qualificado no atendimento das demandas contemporâneas geradas no contexto do contato com nossa sociedade. CPI-Acre. Aí encontramos dificuldades com o gerenciamento realizado por pessoas ainda pouco preparadas. Rio Branco. Alfabetização Ecológica:a educação das crianças para um mundo sustentável. é crucial para a manutenção da qualidade de saúde e vida dos povos indígenas e sustentabilidade de suas comunidades. mas não possuem equipe dimensionada para atender às demandas do próprio processo. Fritjof.

Fritjof. Revista Amauta. Paulo. São Paulo. Excerto de “El Alma Matinal”. São Paulo. São Paulo: Paz e Terra.113 p. FREIRE.1926. Pedagogia Indígena: um olhar sobre as técnicas tradicionais de educação dos índios californianos.pro. Recursos Naturais. 300-316.htm MATURANA. O Homem e o Mito. In: www. (org. Malcolm. Francisco J. Lima Perú. MARIÁTEGUI. José Carlos. V.culturabrasil. Texto reproduzido por Lázaro Curvêlo Chaves. SHIVA. 2000. 2005. Alfabetização Ecológica:a educação das crianças para um mundo sustentável. In: SACHS. W. p. e Varela. (IN) CAPRA. 2001. Palas Athena. A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à pratica educativa. 148 p. Humberto R. Cultrix. 2006.br/ohomemeomito. Petrópolis: Vozes. MARGOLIN.279 2005. 1996. .) Dicionário do Desenvolvimento: Guia para o conhecimento como poder.

280 É Possível Construir uma Ater Indígena Diferenciada? O Caso dos Guarani no Estado do Rio Grande do Sul Mariana de Andrade Soares .

Esse “olhar”. que reforçou a visão dos técnicos de que os índios eram preguiçosos e difíceis de trabalhar. Tendo em vista as dificuldades enfrentadas pela instituição no trabalho junto às comunidades indígenas.281 É Possível Construir uma Ater Indígena Diferenciada? O Caso dos Guarani no Estado do Rio Grande do Sul Mariana de Andrade Soares1 Introdução Desde 1999 a EMATER/RS vem atuando junto às comunidades indígenas. . de capacitar permanentemente os seus técnicos para atuar de forma diferenciada. Entretanto. ficaram evidenciados dois grandes desafios à extensão rural: o primeiro. a instituição desenvolvia suas ações junto aos agricultores familiares e. partindo do respeito às suas diferenças étnicas e. e a insatisfação dos indígenas quanto à assistência técnica e aos projetos que não atendiam suas necessidades. visando o desenvolvimento econômico das comunidades indígenas. consequentemente. viabilizado através de recursos do Ministério 1 Antropóloga da EMATER/RS e Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGAS-UFRGS). na maioria dos primeiros projetos nas comunidades indígenas. segundo. junto com esse público e as instituições que o assistem. historicamente. como se as expectativas de vida fossem similares. Este artigo reflete sobre o processo de construção de uma Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) diferenciada junto às comunidades Guarani no Estado do Rio Grande do Sul. tendo como objetivos a produção para o seu autoconsumo e de um excedente para a comercialização. acabou reproduzindo o mesmo “olhar” e paradigma proposto a este público. da melhoria das suas condições de vida. de construir propostas de trabalho. geralmente estava imbuído da lógica produtivista (a exemplo do histórico das políticas públicas brasileiras). por meio da execução de programas e projetos que visam contribuir para o processo de construção de sua autonomia e.

A Inclusão dos Povos Indígenas na Extensão Rural do Rio Grande do Sul O Rio Grande do Sul possui 25 milhões de hectares de terras.37% das terras gaúchas foram reconhecidas pelo Estado brasileiro às comunidades indígenas. pautado pelo diálogo intercultural entre os extensionistas rurais. Neste sentido. somente 0.282 do Desenvolvimento Agrário (MDA). ou seja. cujo princípio norteador foi definido pelos representantes Guarani. exigindo da instituição a construção de uma metodologia de Ater específica e reafirmando a necessidade de uma readequação do seu quadro profissional. Para tanto. visando também por meio das suas lições e aprendizagens. O novo modelo de Ater foi construído de forma participativa. ou seja. ficou ainda mais explícita a demarcação da fronteira étnica. o fortalecimento do seu sistema cultural (Mbya rekó). da diferença dos Guarani em relação aos não índios (jurua). inseridos nos projetos de Ater da instituição. dessas cerca de 90 mil hectares dizem respeito a Terras Indígenas homologadas. .751 pessoas. pois seu sistema/ modo de ser expressa uma relação diferenciada entre eles (social). as famílias Guarani e as demais instituições governamentais e não governamentais que também as assistem. tomando como ponto de partida a reflexão sobre o processo de construção de uma metodologia específica de Ater e sobre as ações desenvolvidas junto às comunidades Guarani. dentro do contexto atual de políticas públicas indigenistas no país. incluindo capacitações de técnicos e implantação de unidades didáticas em cada uma das comunidades beneficiadas. fazer alguns apontamentos para a construção de perspectivas futuras. o natural (meio ambiente) e o sobrenatural. atingindo aproximadamente 324 famílias e 1. entre os anos de 2004 a 2007. pretende-se analisar os limites e avanços desta experiência de Ater Indígena no estado.

1995). incluindo órgãos federais como a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e a Fundação Nacional de Saúde (FUNASA). direta ou indiretamente. 3 O CEPI é um órgão de caráter deliberativo.283 Apesar deste número reduzido de Terras Indígenas. quando passou a ser denominado de Conselho Estadual dos Povos Indígenas (CEPI)3. definir e propor diretrizes para a política indigenista estadual. No Rio Grande do Sul. através do poder tutelar e de uma ação assistencialista. assegurando formalmente seus direitos enquanto povos culturalmente diferenciados. Coube ao poder público (União. totalizando aproximadamente 24 mil indígenas e mais de 3. também ficou estabelecida a responsabilidade do poder público estadual em relação à construção de políticas públicas aos povos indígenas. 18 representantes Guarani e 18 representantes das Secretarias de Estado. sofreram ao longo dos séculos XIX e XX com uma política indigenista2 inserida dentro de uma visão integracionista (do ponto de vista econômico) e assimilacionista (do ponto de vista cultural) visando. as comunidades indígenas conquistaram o reconhecimento da sua autodeterminação. reformulado em 1999. estados e municípios) a construção de políticas públicas específicas para essas comunidades. que são os Guarani e os Kaingang. O conselho é formado por 18 representantes Kaingang. medidas e práticas que são formuladas por poderes estatizados. incidentes sobre os povos indígenas (Lima. no estado existem as duas etnias com a maior população no Brasil. Cabe ao CEPI.600 famílias. garantindo-lhes os direitos constitucionalmente assegurados. 2 Entende-se por políticas indigenistas. foi uma importante conquista dos Guarani e Kaingang. A partir da Constituição Federal de 1988. integrá-las à sociedade brasileira. normativo. A criação do Conselho Estadual do Índio (CEI) em 1993. com sistemas culturais e processos históricos distintos. com o objetivo de incentivar as comunidades indígenas. Como todas as comunidades indígenas no Brasil. . garantindo a participação de seus representantes no processo de elaboração dessas políticas. por meio da sua Constituição de 1989. consultivo e fiscalizador das ações e políticas relacionadas aos povos indígenas no estado.

foi a reprodução do mesmo “olhar” e paradigma proposto aos agricultores familiares que foi estendido às comunidades indígenas. criado em 14 de março de 1977. classificação e certificação. tendo como objetivos a produção para o seu autoconsumo e de um excedente para 4 Este Programa foi inicialmente denominado de Pró-Rural 2000 e constitui-se através de um contrato de empréstimo com o Banco Mundial (BIRD). incluindo também recursos para assistência técnica e formação do público beneficiário (RS Rural. divididos em três ações prioritárias: manejo e conservação dos recursos naturais (ação obrigatória). Além disso. 2004). a extensão rural desenvolveu ações pontuais em algumas comunidades Kaingang. esses públicos foram considerados prioritários para a EMATER/RS6. o Programa Pró-Rural 2000 também beneficiou algumas comunidades entre os anos de 1997-1999. um espaço de mediação reconhecido e legitimado no meio rural. A partir de 19995. . 5 Desde os anos 80. que tem como missão institucional “promover ações de assistência técnica e social. inicialmente. cooperando no desenvolvimento rural sustentável”. pescadores profissionais artesanais. como se as expectativas de vida fossem similares. pecuaristas familiares e assentados da reforma agrária. O que se constatou. instituição responsável por mais de 90% da execução do Programa. esse “olhar” geralmente estava imbuído da lógica produtivista (a exemplo do histórico das políticas públicas brasileiras). inclusive. A EMATER/RS historicamente atuou junto aos agricultores familiares tendo. Os objetivos do RS Rural foram o combate à pobreza e à degradação ambiental no meio rural (Corezola et.al. no primeiro momento. 2001). ao lado dos também chamados “públicos especiais”: remanescentes dos quilombos. sem qualificação profissional adequada. 6 A Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER/RS) é o órgão oficial de Ater no Rio Grande do Sul. cujos projetos foram estruturados de forma integrada. cuja coordenação foi realizada pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA). geração de renda e infra estrutura social básica. Ao assumir o trabalho com as comunidades indígenas. visando o desenvolvimento econômico das comunidades indígenas. bem como. de extensão rural.284 O primeiro programa estadual que contemplou recursos para as comunidades indígenas foi o Programa RS Rural (1997-2004)4. principalmente na região Norte do estado. os extensionistas rurais tiveram que executar o programa.

O fracasso dos projetos de um lado reforçou a visão dos técnicos de que os índios eram preguiçosos e difíceis de trabalhar. tratando-se de um público culturalmente diferenciado. tentando amenizar as dificuldades enfrentadas pelos extensionistas rurais no trabalho com as comunidades indígenas a instituição contratou profissionais especializados e realizou algumas capacitações em áreas específicas como Antropologia Social. de construir propostas de trabalho junto com esse público e as instituições que o assistem. Por exemplo. segundo. . couberam à extensão rural dois grandes desafios: o primeiro. Neste contexto. de capacitar permanentemente os seus técnicos para atuar de forma diferenciada. buscou estabelecer uma relação dialógica com o CEPI para definição de quais comunidades seriam beneficiadas e quais as linhas gerais para a construção do projeto. de outro. Durante a elaboração do projeto. pois não faz parte da sua cultura. as famílias Guarani deveriam ter uma vaca para garantir o “leite das crianças”. transferindo as responsabilidades para as famílias indígenas e. A Experiência da Ater Indígena: o Caso dos Guarani No final de 2003. mas como muitos deles afirmaram posteriormente: “não sabiam o que tinha por trás da vaca”. geraram a insatisfação dos indígenas quanto à assistência técnica e aos programas que não atendiam suas necessidades. as famílias aceitavam tal aquisição. a EMATER/RS foi colocada diante da possibilidade de elaborar uma proposta de trabalho conjuntamente com os indígenas e as demais instituições que atuam junto a esse público.285 a comercialização. na visão inicial dos técnicos. e. Com a inclusão de ações de “ATER Indígena” no seu convênio com o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). ocasionaram a morte ou o seu próprio abatimento para alimentação das famílias. Os Guarani. partindo do respeito às suas diferenças étnicas. Porém. sem nenhum conhecimento sobre ordenhamento ou cuidados com o animal.

Kaiowa (Schaden. ficando temporariamente a área sem ocupação. as famílias Guarani estão distribuídas pelos estados do Rio Grande do Sul. São Paulo. se deslocam por inúmeros motivos: doenças. famílias indígenas e parceiros). Espírito Santo. até virem outras famílias. matrimônio. Rio de Janeiro. os Guarani estiveram à margem da atuação do indigenismo oficial que os consideravam “estrangeiros”. da família Tupi. beneficiando aproximadamente 324 famílias e 1. Nesse último. deveriam atuar no sentido do fortalecimento do seu 7 Os Guarani pertencem ao tronco linguístico Tupi-Guarani. 8 O território Guarani é justificado apoiando-se na sua memória que é reatualizada através dos seus mitos. a extensão rural. falantes da língua guarani e estão subdivididos em três parcialidades Mbya. realizado em março de 2004. morte. busca religiosa pela Terra sem Males. desde sua concepção. Santa Catarina. ver anexo 5. na Reserva Indígena Tekoá Anhetenguá. as famílias Guarani são Mbya (maioria) e Ñandeva. Dentro deste território. Após a negociação. todas famílias de uma mesma comunidade indígena podem se deslocar para outro lugar. foi entendida como um processo contínuo estabelecido numa relação intercultural (extensionistas rurais. Paraguai. 1997). no Rio Grande do Sul. . cuja coordenação foi feita pelos próprios Guarani. cujas ações foram desenvolvidas entre os anos de 2004 e 2007. Paraná. representantes indígenas e entidades parceiras. De acordo com as lideranças Guarani. considerada como a mais vulnerável socialmente. devido a sua concepção de territorialidade. 9 Dados alcançados no convênio de 2007. Uruguai e Brasil (Garlet. Ñandeva. Especificamente. assim como todas as instituições. e também difíceis de trabalhar pelo seu hermetismo (linguístico e cultural) e por sua mobilidade social8. foi priorizada a etnia Guarani7.1. Outros fatores determinantes na construção da vulnerabilidade social desses grupos são a ausência de demarcação de terras adequadas para sua reprodução física e cultural e de políticas públicas efetivas para a melhoria das suas condições de vida. Numa dada situação. numa ocupação que abrange Argentina. 1962). Esta situação se deve pelo fato de que. premunições.286 Na ocasião do debate no conselho. visando à construção de uma Ater diferenciada junto às comunidades Guarani que. Mato Grosso do Sul. O princípio norteador da ATER foi definido num encontro estadual entre extensionistas rurais. Pará e Tocantins (Ladeira & Matta. a EMATER/RS elaborou uma proposta inicial do projeto ao ministério. durante décadas.751 pessoas9. 2004).

no primeiro ano foram aceitas. A partir desta definição. mas nos convênios seguintes foram sendo cada vez mais burocratizados10. onde fatores sóciocosmológicos podem ocasionar mudanças ao longo do processo pré-estabelecido no projeto. . foram sendo levantadas suas necessidades e demandas. em termos pedagógicos. A EMATER/RS adotou como ferramenta metodológica as unidades didáticas (UDs). e priorizadas as ações de Ater. exigindo da instituição a construção de uma metodologia de Ater específica e reafirmando a necessidade de uma readequação do seu quadro profissional. possibilitou por meio do custeio processos de aprendizagens que contribuíram na própria reprodução do sistema cultural Guarani. por um lado. o natural (meio ambiente) e o sobrenatural. a diferença dos Guarani em relação aos não índios (jurua). foram feitas exigências pelos órgãos de tomada e prestação de contas e em função de novos regramentos do Governo Federal com a implantação do SICONV. uma vez que viabilizaram tanto o processo participativo no desenvolvimento das ações de Ater quanto permitiram seu acompanhamento metodológico. que o ritmo e o tempo dos Guarani são diferentes da nossa lógica ocidental. nas quais conjuntamente técnicos e indígenas “aprenderam fazendo”. na medida em que viabilizou a transmissão 10 A partir do convênio de 2005. rompeu com outras técnicas bastante utilizadas pela extensão rural como as unidades demonstrativas e de observação. cujo processo é meramente de transferência de uma tecnologia (saber) pelo técnico ao público assistido. ou seja. os extensionistas rurais fizeram discussões em cada uma das comunidades Guarani e.287 sistema cultural (Mbya rekó). que a cada ano eram (re)planejadas com base na sua avaliação anterior. Tal metodologia participativa e construtivista exigiu um processo de negociação e de convencimento do órgão financiador para que os aportes financeiros fossem repassados sem rubricas pré-estabelecidas que. com suas quantidades respectivas. Essa opção. Cabe destacar. burocratizando qualquer eventual mudança no processo de tomada de decisão da comunidade indígena. através do diagnóstico da sua realidade realizado pelos próprios indígenas. Já. por outro lado. no plano de trabalho era obrigatório constar a descrição das atividades e os itens a serem adquiridos. Essa concepção demarcou a fronteira étnica. pois seu sistema/modo de ser tradicional expressa uma relação diferenciada entre eles (social). ou de pesquisa científica. Neste sentido.

indispensável para sua sobrevivência. amendoim (mandoví). 2006. Para eles. segurança alimentar e valorização cultural. O eixo de segurança alimentar foi priorizado em todas as comunidades Guarani. educação ambiental e saneamento básico11. concomitantemente aos demais insumos (sementes. muitas famílias que cresceram à beira de estradas não desenvolveram vínculos com a agricultura. Em algumas comunidades indígenas foi solicitada a contratação de horas-máquina para o preparo de solo em áreas acima de um hectare. Felipim. Isto porque constatou-se que um dos motivos por que as famílias Guarani não faziam roças nas comunidades era pela necessidade de um suporte para poder interromper as atividades de artesanato ou venda da mão de obra como diarista. Entretanto. melancia (xandiaú). batata-doce (jety). 2004 e Medeiros. por exemplo. ao longo de todos os convênios. a capina e a coivara. O preparo das roças é feito manualmente sendo utilizada a roçada. feijão (kumanda). mas também foram incluídas outras demandas das comunidades. cuja composição e o preparo dos alimentos foram feitos pelas próprias comunidades. É prática bastante comum o cultivo múltiplo. . visando exclusivamente a geração de renda das famílias envolvidas. crianças e idosos. abrangendo as seguintes culturas: milho (avati). a EMATER/ RS acabou adquirindo “ranchos” durante o período da implantação das UDs. as ações de segurança 11 Ver anexo 5. deixando de obter uma entrada de recursos. Sendo assim. ver Ikuta. adubos orgânicos e pequenas ferramentas). 12 Os Guarani cultivam suas roças familiares em regime de mutirão com a participação de homens.288 de saberes entre diferentes gerações dentro e entre as comunidades beneficiadas. As UDs foram implantadas em três eixos principais: geração de renda. Neste sentido. com ações prioritariamente voltadas para a viabilização do seu sistema tradicional de agricultura12. sendo necessário motivá-las para se envolverem com os roçados. abóbora (andai).2. a lógica das UDs não teve um viés produtivista. mulheres. para implantação dessas unidades foi necessário justificar ao MDA a aquisição de alimentos. visando o melhor aproveitamento dos espaços e a conservação da agrobiodiversidade. Para ver estudo sobre o sistema de agricultura Guarani. mandioca (mandió). Além disso. Cabe destacar que uma das críticas feitas por lideranças indígenas refere-se à distribuição “pura e simplesmente” de cestas básicas pelo poder público e a sociedade civil. 2002.

auxílios-família etc. todos os aspectos do seu cotidiano são “ritualizados” e a própria presença de pessoas de fora da comunidade. representantes Guarani e parceiros na aldeia. ritmo e tempo diferentes das famílias Guarani. dificuldades de deslocamento. entendido como o representante 13 Ressalva-se aqui a situação das famílias que moram à beira de estradas. Isso foi sendo construído através de encontros periódicos como espaço de discussão. através do cotidiano dos técnicos nas aldeias.). o despreparo dos técnicos ocasionava desentendimentos estruturais e fundamentais na relação dialógica feita na “fronteira” entre sistemas culturais distintos. participando de rituais. e da realização de encontros estaduais entre extensionistas rurais. na aldeia. os técnicos agiam sob a orientação de suas demandas. No sistema cultural Mbya. com aprofundamento de conhecimentos antropológicos. e outro prático. Um aspecto bastante trabalhado foi a postura do extensionista rural para atuar junto às comunidades Guarani. mas em médio e longo prazo juntamente com ações estruturantes nas próprias comunidades indígenas13. distância e prazos exíguos para o cumprimento de suas tarefas. visando uma atuação qualificada e diferenciada com este público. No que toca à capacitação dos técnicos. troca de experiências e avaliação do trabalho de Ater Indígena. Porém. sem terras adequadas que possibilitem o acesso aos seus próprios alimentos produzidos pelas e nas comunidades. ouvindo as falas de lideranças religiosas e aprendendo acima de tudo referenciais simbólicos e culturais por meio dos próprios Guarani. cujas decisões tinham de ser tomadas em uma forma. esta foi entendida como um processo permanente. . dentro da instituição. Outra prática frequente dos técnicos era a de buscar dentro das aldeias o diálogo restrito com o cacique. A atuação nas comunidades também exige a relativização da lógica temporal do relógio. exige também o cumprimento de um “ritual”. já que na maioria das vezes.289 alimentar não podem ser pensadas somente em curto prazo (cestas básicas. Essa qualificação foi pensada por duas vias: uma teórica.

Isto é necessário porque dentro de uma mesma comunidade existem um ou mais kuéry (coletivos). quando os técnicos acomodam-se no local indicado e é servido o chimarrão. sendo que cada uma delas tem liberdade na sua tomada de decisão. A partir da fala dos mais velhos. geralmente a liderança religiosa (karai ou kuña-karai). e as mulheres ficam mais afastadas cuidando das crianças e/ou confeccionando artesanato. Porém. Com a chegada das famílias para a reunião.290 legítimo e responsável pela decisão dos projetos na comunidade. Depois. os técnicos são sempre recepcionados por algum Guarani. o xondaro ou outro Guarani faz a negociação com as famílias que moram na aldeia para participarem da conversa com os não índios. tem o tempo da espera. Durante esse tempo. e as mulheres têm o papel fundamental nas definições das necessidades e demandas. Para tanto. os técnicos são solicitados a explicar os motivos que os levaram à aldeia. quando os técnicos devem retornar em outra ocasião. que tem o papel de guardar e zelar pela ordem dentro das comunidades. . os homens da aldeia sentam-se em círculo com os técnicos já que possuem o papel de dialogar com os não índios. isto não significa que as mulheres estejam excluídas do processo de decisão de qualquer projeto da comunidade. do cacique e de outros membros da comunidade. o papel desempenhado por cada indígena e como eles são atribuídos do ponto de vista cultural. geralmente o “soldado” (xondaro). Ao mesmo tempo. as famílias conversam entre si. é preciso um tempo para a tomada de decisão da comunidade. Na próxima reunião entre técnicos e a comunidade indígena são firmadas as prioridades e assumidas as responsabilidades na construção do seu projeto futuro. agendada pelos indígenas. forma esta da sua organização social. Após o entendimento da proposta do projeto pelos indígenas. foi trabalhado para que os extensionistas rurais tivessem uma visão sobre a organização social de cada comunidade. Na aldeia.

durante os encontros estaduais. realizado em dois momentos: de forma individual. e de forma coletiva. O que se constata por um lado é que representantes e lideranças indígenas têm reivindicado a efetiva garantia dos seus direitos constitucionais e. Neste novo contexto político-social. em cada uma das comunidades beneficiadas por meio de uma reunião com as famílias Guarani. Como exemplo. Pra nós não serve. o técnico entendeu a necessidade. Os Desafios na Construção de uma Ater Indígena Diferenciada A Constituição Federal de 1988 indicou novos parâmetros na relação do Estado e da sociedade brasileira com os povos indígenas (Araújo & Leitão.291 Outro ponto fundamental nos convênios foi o seu processo de avaliação. visando estabelecer uma “comunidade de comunicação de natureza . março de 2005). Nosso sistema tem que a cada ano renovar” (Reserva Tekoá Anhetenguá. Tem que vir recurso permanente. trouxeram calcário. Agora tem opy. 2002c. Minha mãe plantou. A terra era fraca. por outro lado. não tinha saúde. passa-se a reconhecer que as comunidades indígenas são capazes de assumir um projeto de vida conforme sua especificidade cultural. lavoura. Souza. traz-se a fala de um dos representantes Guarani que expressa a mudança na sua visão do papel da extensão rural junto às comunidades indígenas: “No início a EMATER/RS queria ensinar a plantar. pediu pra Deus e a planta cresceu. tinha eucalipto antes. 2002a). 2004). como também se supõe que a ação indigenista deve ser exercida dentro de padrões éticos (Lima & Barroso-Hoffmann. O que se destaca também são a preocupação quanto à continuidade das ações de Ater nas comunidades indígenas e os desafios ainda colocados na construção de um trabalho diferenciado. com a formulação de políticas públicas. Não pode sair da reunião e esquecer nossa necessidade. levou no coração. que o poder público tem dado algumas respostas a essa luta política.

característico dos projetos desenvolvimentistas que historicamente foram e são pensados pelos mediadores sociais em relação às comunidades indígenas. podendo ser comprometidos pelo discurso dos mediadores indigenistas (Oliveira. Neste espaço se dará o processo dialógico ou a “fusão de horizontes”. Aqui se pode destacar um dos maiores limites dos programas e projetos para as comunidades indígenas. É necessária a constituição de um espaço intercultural que garanta o estabelecimento desta comunidade de comunicação e argumentação (Oliveira. 2000) entre comunidades indígenas. conforme a demanda das famílias Guarani. 2000). Este foi justamente um dos grandes desafios da Ater. a negociação de pontos de vistas culturais distintos (indígenas e não indígenas). em vez de um confronto étnico.292 interétnica” (Oliveira. Por exemplo. que é a própria burocratização das instituições. isto é. que utilizando de um conjunto de mecanismos. se é reconhecido constitucionalmente aos índios sua . execução e avaliação de projetos. dependendo das regras e da postura metodológica adotada pela instituição. situações em que ocorre o descompasso entre a liberação dos recursos e o período adequado para execução de uma determinada atividade. porque. ou seja: como construir uma Ater diferenciada na relação com os povos indígenas. é bastante restrita. desde a formulação das regras. Na medida em que o planejamento deverá ser seguido à risca e a margem para alterações futuras. como. isso acaba comprometendo o processo de negociação em si e acaba incidindo diretamente na própria execução do projeto. 2000). Ora. estratégias e compulsões sobre os indígenas e suas coletividades. que exige no momento da sua elaboração o planejamento a priori do que será feito. acabam por suprimir suas vontades (individuais e coletivas). extensionistas rurais e parceiros. exercendo aquilo que se denomina de Poder (Oliveira. quem e quanto. 1998). o “diálogo intercultural” e o “discurso participativo” podem se dar no âmbito de relações assimétricas. Neste sentido. elaboração. quando.

está em construir estratégias e mecanismos de controle capazes de contemplar esta diferença cultural. como forma de acessarem recursos para elaboração de seus próprios projetos. ou seja.293 organização social. a demarcação de Terras Indígenas e recursos financeiros permanentes para estruturação das áreas indígenas (infraestrutura. Neste cenário é preciso levar em consideração a diversidade de situações que serão encontradas em nível nacional. consequentemente. costumes. e que não esteja . nos espaços de diálogo interétnico. e outras são favoráveis à inserção das comunidades na lógica dos não índios e. Um exemplo é a lista de presença que serve como comprovante das atividades realizadas no projeto. No caso específico dos Guarani no Rio Grande do Sul. ao mesmo tempo. que exige a assinatura e/ou identificação digital do indígena e que ele disponha de um documento legal. bem como a necessidade de estar atento ao fato de que a construção da autonomia dos povos indígenas requer apoio e fortalecimento da decisão tomada por cada uma delas. o grande desafio da atual política indigenista. em respeitar o ritmo e o tempo dos processos que. que seja capaz de dar respostas positivas à pauta de reivindicações das comunidades indígenas. de um extremo ao outro. e das políticas públicas diferenciadas. Outro aspecto para ser refletido é a constatação de que. são iniciados e interrompidos por falta de entendimentos. mas que exige. tem havido uma passagem do modelo tutelar de gestão para um modelo que prega a “autonomia” (Lima & Barroso-Hoffmann. da sua própria forma político-social. crenças e tradições. recursos e/ou interesses políticos. 2002c). 1993). algumas lideranças defendem a manutenção do Mbya rekó e. e não menos importante. é a formulação de uma política indigenista nacional. que os indígenas dominem códigos da nossa sociedade ocidental moderna (Dumont. quando serão necessárias mudanças e adaptações dentro do nosso próprio sistema de gestão e governabilidade. línguas. na grande maioria. Um último aspecto. recursos naturais). Já outro é o incentivo à organização formal das comunidades indígenas em associações. que inclusive já formaram suas associações.

as instituições de Ater devem assumir as comunidades indígenas como um público prioritário de fato. Direitos indígenas: avanços e impasses pós1988. de pescadores artesanais e remanescentes de quilombos. Secção do Rio Grande do Sul. R. Copyright 1999 SIL International. Dialeto Mbya com informações úteis para o ensino médio. & BARROSO HOFFMANN. Devem buscar um espaço de diálogo intercultural com formas organizativas próprias dos povos indígenas. A. Para tanto. Referências Bibliográficas ARAÚJO. V. F. A. Série Coleção Participe.294 atrelada a vontades político-partidárias e/ou mudanças de governo. R. Constituição do Estado do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Ordem dos Advogados do Brasil.33. Planejamento Participativo e Desenvolvimento Sustentável em Comunidades Tradicionais: comunidades indígenas. LIMA. pp. In: LIMA. conforme determina a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER).. F. Além da Tutela: bases para uma nova política indigenista III. no sentido de planejar ações conjuntas e convergentes. contribuindo no processo de construção da sua autonomia e autodeterminação. bem como com as demais entidades que atuam no campo indigenista. 23 . de S. pp. (orgs).2. Porto Alegre: Assembléia Legislativa. COREZOLA. R. S. C. a aprendizagem e pesquisa linguística (Guaraniportuguês). v. M. Disponível em: . Porto Alegre: Tomo Editorial. capazes de dar respostas às demandas e necessidades das famílias indígenas. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria/LACED. Participação na extensão rural: experiências inovadoras de desenvolvimento local. KROEFF. BRUTTO. M. 1989. A. 91-120.. Constituição da República Federativa do Brasil. & LEITÃO. 2004. (org). L. e não só no discurso. D. 2002c. In: BROSE.. Léxico Guarani. DOOLEY. 1988. A.

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297 Anexos 1. Público beneficiário nos convênios entre a EMATER/RS e o MDA .

298 .

299 2. Unidades didáticas implantadas entre 2004 a 2007 nas comunidades Guarani no Rio Grande do Sul .

300 .

301 Fortalecimento dos Laços de Coesão Social como Efeito da Produção do ALimento na Aldeia Indígena Guarani Yynn Moroti Wherá Wagner Fernandes de Aquino .

O presente trabalho apresenta uma experiência vivida no auxílio à 1 Eng. ela envolve toda uma visão de vida. atualmente trabalha vinculado a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). despertando a percepção do contexto geral e específico no qual se está inserido. Em comunidades indígenas. totalizam cerca de 65. a educação em comunidades indígenas Guarani acontece também na forma de assistência técnica com práticas agrícolas e ações que buscam um desenvolvimento rural sustentável. no espaço geográfico que compreende partes do Paraguai. os Guarani compõem a lista dos povos indígenas do Brasil contemporâneo de maior população: são 35. Viabilizam a produção de suas vidas em pequenas áreas de forma fixa. . Os Guarani possuem a forma agroextrativista de obtenção de alimentos e vivem hoje num contexto fundiário problemático. Distribuídos em aldeias intermitentes. Uruguai. Agrônomo.000 pessoas vivendo em aproximadamente 340 locais. sul e sudeste do Brasil. Dentro desta visão. o que exige que estes povos se adaptem e transformem seu modo de se relacionar com o ecossistema. Segundo Medeiros & Darella (2006).000 pessoas em levantamento de 1998. Pós-Graduado em Educação do Campo e Desenvolvimento Territorial pela UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina. Argentina. a educação é passada de geração em geração pela tradição oral.302 Fortalecimento dos Laços de Coesão Social como Efeito da Produção do ALimento na Aldeia Indígena Guarani Yynn Moroti Wherá Wagner Fernandes de Aquino1 Introdução Pela educação se faz a transmissão e a troca de conhecimentos. que está baseada em princípios naturais e universais que são aplicados no propósito de buscar constantemente o desenvolvimento de todas as potencialidades do ser humano e sua consequente realização como indivíduo e comunidade.

utilizando gravador de mão. Este trabalho começa por uma caracterização da Aldeia Yynn Moroti Wherá.) e afetam o reko ete (“jeito de ser verdadeiro”). a proximidade de centro urbano e a necessidade de trabalhos fora da aldeia (trabalhos temporários ou fixos). . etc. alimentação. bem como revisão bibliográfica. O relato será seguido por uma avaliação das ações a partir do depoimento de membros da comunidade. onde foram buscadas soluções para a problemática com consequente envolvimento comunitário (principalmente dos jovens). filmadoras e caderno de anotações. que liderou o trabalho de revitalização da agricultura e da produção de alimentos. Na esfera social os maiores obstáculos são o assistencialismo. Entre as principais dificuldades ambientais enfrentadas por esta pequena comunidade estão o reduzido espaço de terra e as condições pouco favoráveis do solo. a falta de políticas públicas com valorização da história da comunidade para a cidade. especialmente quanto à organização social do grupo e os efeitos sobres os laços de coesão social. especialmente o pajé Alcindo Moreira. A pesquisa foi realizada por meio da observação direta no campo com entrevistas com os mais velhos. que desagregam a comunidade e geram consequências negativas como a valorização de costumes e mercadorias da sociedade hegemônica não indígena (álcool. o relato da experiência vivida junto à comunidade durante quatro anos em ações de apoio à produção de alimentos. e aponta alguns dos efeitos desta produção local na vida da comunidade. onde residem 130 índios Guarani. Nesse segmento. Entre outros efeitos observou-se o fortalecimento da coesão social. e por último a discussão dos efeitos desta produção na vida da comunidade neste período de atuação. será feita uma análise dos aspectos da vida da comunidade mostrando como foram afetados pela produção de alimentos. jovens e lideranças político-religiosas da comunidade.303 produção de alimentos na Aldeia Guarani Yynn Moroti Wherá. no município de Biguaçu/SC.

através dos ritos que transmitiam sua cultura em sua essência verdadeira. 2001. e demografia A aldeia Yynn Moroti Wherá se originou em 1987 a partir de duas famílias que vieram de Morro dos Cavalos. caracterização ambiental. apud Bertho. de Milton Moreira. Ele. a aldeia foi delimitada em 58 hectares e homologada pelo Ministério da Justiça. retornado a Chapecó. conforme a legislação ambiental vigente. sendo que a família de Alcindo já havia morado em Morro dos Cavalos. apud Bertho. possuindo em alguns . p. Rosa Poty Pereira e filhos.304 Nesse processo foi possível perceber o quanto o trabalho de produção de alimentos contribuiu como mecanismo para o fortalecimento dos laços de coesão social. 2005). Também se percebeu que a prática da religiosidade desenvolvida dentro da comunidade. reivindicando as terras como terra tradicional Guarani. de Alcindo Moreira. filho da família extensa de habitantes de Morro dos Cavalos (Bott. em grande parte esse espaço se encontra preservado. é essencial para a produção do alimento e principalmente para o fortalecimento dos laços de coesão. região de domínio do Bioma Mata Atlântica. Após 17 anos de ocupação. 2005). Ele. no Km 190 da rodovia BR 101. 1975. com o resgate da tradição espiritual. E a segunda. A primeira. Os Guarani Yynn Moroti Wherá a) Aspecto histórico. primo do pai de Milton e seu sogro. pois o alimento que sustenta o corpo também sustenta a alma Guarani. no município de Biguaçu/SC. Rosali Moreira e filhos. A quase totalidade dos espaços da Aldeia está sobre áreas de preservação permanente (APP). depois em Sangãozinho e novamente voltado (Mello. A Aldeia Guarani Yynn Moroti Wherá está situada na abrangência da Serra do Mar da Baía de São Miguel.73-140. em 12 de outubro de 2004.

e o restante (52 hectares) no lado esquerdo. uma casa de artesanato. que atende a aldeia com o Ensino Fundamental. com professores indígenas e não indígenas. do 1ª ao 9ª ano e o Ensino Médio. a terra da Aldeia tem aproximadamente 6 hectares à direita da BR 101.305 pontos roças tradicionais Guarani. também há mananciais de água que abastecem tanto a Terra Indígena quanto parte da comunidade do entorno. Foto 01: Imagem aérea mostrando instalações. onde atualmente residem 30 famílias. Autor: Henrique Azevedo. ESCOLA CASA DE REZA AÇUDE LAVOURA COMUNITÁRIA CASA DE ARTESANATO CASA DE NUTRIÇÃO POSTO DE SAÚDE BR 101 . uma casa de reza (Opy) que recebe indígenas de diversas regiões e uma escola indígena. Existem atualmente na comunidade 36 casas. A topografia da área é acidentada na maior parte. de 30 a 400 metros nas cotas de encosta e de 0 a 30 metros nas cotas de baixada. um posto de saúde. Sendo dividida pela rodovia. alcançando altitudes de 400 metros nas cotas superiores. no sentido norte.

A figura de Alcindo é também a de um grande conhecedor da agricultura. arcos e flechas. A comunidade busca os conselhos e cura do pajé Alcindo Moreiro e sua mulher. medicina. 2) a criação de animais (aves e peixes em especial). O artesanato indígena Guarani é confeccionado na aldeia por artesões da comunidade e os produtos são comercializados principalmente na Casa de Artesanato localizada rente à rodovia BR-101.306 b) Renda. cerâmicas e outros). atividade econômica Atualmente na economia familiar da comunidade Guarani de Biguaçu existem diversas atividades em que ressalta principalmente: 1) a agricultura de subsistência com o cultivo de sementes tradicionais e não tradicionais e a venda de excedentes de produção advindas principalmente do plantio das sementes externas. 4) produção e venda de artesanato (balaios. 5) prestação de serviços temporários fora da comunidade como carpinteiro. artesanato. roupas e calçados e 8) a renda advinda de aposentadoria. artefatos. agente indígena de saúde e agente indígena de saneamento. . 7) doações de cesta básica. servente de pedreiro entre outros. esteiras. c) Aspectos religiosos e importância para agricultura na aldeia Os Guarani da aldeia Yynn Moroti Wherá vivem um intenso momento de resgate e revitalização da tradição religiosa e espiritual. Rosa. colares. cozinheiras. com as cerimônias que contam com grande participação interna dos moradores e de outras Aldeias. 3) a coleta extrativista em pequena quantidade para fins diversos (habitação. bichos esculpidos em madeira. comercialização). isto porque sua história de vida inclui a passagem por ecossistemas diversos. 6) prestação de serviços dentro da comunidade como professores indígenas.

A terra é reservada exclusivamente para o cultivo de alimentos como milhos de diversas variedades (avaty eté). Autoria: Wagner Aquino A produção de alimentos dentro da comunidade é praticada em pequena monta em roças próximas às casas e em uma área de lavoura comunitária com cerca de três hectares. entre outros. amendoin (manduvi). Relato de Atuação Junto à Comunidade Minha atuação junto à comunidade Yynn Moroti Wherá iniciou no ano de 2004 com o Projeto Alimento e Dignidade. São Paulo. Dn. taiá. batata doce (djetý). . Rosa e Sr.OSCIP que presta Assistência de Saúde em convênio com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) às Aldeias Indígenas dos Estados do Rio Grande do Sul. Alicindo.307 Foto 02. Neste trabalho se buscou a produção de alimentos de maneira a potencializar os cultivos existentes na comunidade. considerados indispensáveis à subsistência da comunidade. batatinha (djetý í). Rio de Janeiro e Tocantins. feijão (Kumandá). desenvolvido a partir da solicitação das lideranças da Aldeia à Associação dos Rondonistas de Santa Catarina – Projeto Rondon/SC. aipim (mandió). atual Associação Rondon Brasil2. Santa Catarina. arroz. cana-de-açúcar. com enfoque nas 2 Organização da Sociedade Civil de Interesse Público .

A formação de atitudes mobilizadoras acontecia durante a semana estimulada pelo líder espiritual Alcindo Werá Tupã Moreira e sua parceira Rosa Poty Djerá que. quando da convocação e pré-sensibilização por parte do Cacique Hyral. ninguém está sabendo mais de nada. 1997). Os trabalhos nos sábados se justificam pelo fato de um grupo de pessoas da comunidade que trabalhavam fora durante a semana poderem ajudar nas atividades. faziam todo o esforço na roça para repassarem aos jovens e crianças da comunidade seus conhecimentos. Quando a planta está crescendo uma criança tem que adorar. Agora estamos todos no meio dos djuruá (homem branco) o djuruá ta tratando nós.. no alto de suas idades. com a participação expressiva de grande parte da comunidade. enfermeiros. para a redução do quadro de insegurança alimentar que os agentes de saúde3 apontavam dentro da aldeia. motorista e outros. Nós antigamente vivíamos num sofrimento. seu Alcindo fala sobre a importância da participação dos jovens nas atividades de plantio e diz o seguinte: “Na lavoura todos precisam saber como é que se planta... nativa que é pra vir. Não nos lembramos mais nada de plantar.. técnicos em enfermagem.. Outra expectativa do trabalho era o envolvimento dos jovens com a agricultura observando o saber acadêmico e o tradicional dentro da proposta pedagógica do “aprender a fazer fazendo” que consistia no modo de fazer onde todos os participantes eram ao mesmo tempo educandos e educadores (Freire. Hoje. nada.. como é que se colhe.Não nos lembramos de mais nada. . Dentista. Tem horas que penso em cada aldeia com neto.. tem que ensinar!. 1982. Tem 3 A equipe de agentes de Saúde é composta por Médico. não machucar. era saudável viu. bisneto. Em entrevista.. De forma geral os trabalhos eram feitos na forma de mutirões aos sábados..308 culturas tradicionais e outras de interesse.. nada.

. parece sacrifício pra fazer.. .. vem cá... filho. Mas o pequeno não tem culpa! Aqui é diferente! Ontem de noite falei pra todo mundo. cada aldeia tem neto.Cada um. sinto muito.” A fala de Alcindo propõe “atitude” para que o povo Guarani não desista do plantio mesmo diante do contexto de limitações vivido pelas comunidades. cada um de vocês tem filhinhos. tão crescendo. avô tem que dizer. esse ano graças à nhanderú (Deus). sinto. é assim que se planta é assim que se colhe. Mas não! Agora tão crescendo. Não é só o Djuruá que faz. vai sobrar bastante. Na entrevista acima e em outras. só que temos que ter amor. vamos mostrar como se faz o fumo.309 horas que eu sinto.... Autor: Wagner Aquino.. vamos lá na rocinha... “olha meus filhos....... Foto 03: Alcindo Werá Tupã Moreira exibe variedades de milho Guarani com o jovem Ronaldo. tão com o pai. os netos não acompanham e os mais velhos não gostam. Chega de comprar do djuruá. olha meus netos. Uma coisa fácil.. dá pra gozar dois anos com o alimento plantado. ele era incansável em dizer que os mais velhos devem se empenhar em passar o conhecimento e lida da lavoura às novas gerações e que é importante aproveitar os recursos existentes para a garantia do alimento e da transmissão da cultura do plantar. Porque ele não ensinou primeiro? Hoje os brancos falam aquela aldeia é assim. Se não tem amor parece que não dá certo. Ô neto.

visto o fumo ter relação direta com as cerimônias existentes na aldeia. Na interação de conhecimentos tradicionais e acadêmicos foram sendo desenvolvidas e praticadas técnicas de conservação de solo com cordões verdes. aparelho de nível que auxiliava na marcação de curvas de nível para o plantio das plantas de lavoura. Autoria: Wagner Aquino. dos cordões verdes de cana e na construção dos terraços para o plantio das hortaliças. que estruturalmente conectam a perspectiva da terra. curvas de nível. saúde e. . 4 Ferramenta de Nível a qual os guarani denominaram de “uru py”. adubações verdes. Deste modo. Minha função como agente de desenvolvimento local neste período foi a de um fomentador e pesquisador das técnicas que eram construídas em conjunto com a comunidade. adubações orgânicas e convencionais e os consórcios e rotações culturais com o uso de variedades tradicionais. corpo e espiritualidade. estacas. terraços. um fio de prumo e um nível de pedreiro. barbante. o plantio do fumo. Cordões verdes com cana e terraços construídos pela comunidade. caixas de leite vazias e o “pé de galinha”4. alimento.310 Em sua fala percebem-se quatro eixos: território. e que consta de três sarrafos. Fotos 04 e 05. representa um exemplo de atitude que promove o fortalecimento desta transmissão de saberes. no dizer de Alcindo. num sentido amplo. Como ferramentas dos trabalhos eram utilizadas enxadas. autonomia. e sua importância está também numa maior independência da comunidade. carrinho de mão.

00 (dez mil reais) sendo este recurso vindo de uma ação conjunta do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome e do Ministério do Meio Ambiente5. caçamba e maquinários. conserto da escada. e as Estações Experimentais da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural do Estado de Santa Catarina (Epagri). projetos e realizadas visitas agendadas a diversas instituições em busca de parcerias próximas que pudessem auxiliar diretamente na produção de alimentos sendo encaminhados. a prefeitura municipal de Biguaçu. que forneceu “composto” para os terraços com hortaliças. conservação de solos e da água. troca de vidraças quebradas. relatórios fotográficos. a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc). e equipamentos. agroecologia. Entre as parcerias feitas naquele momento destacou-se a das Centrais de Abastecimento de Santa Catarina (Ceasa). Através deste projeto foi possível realizar as ações de: (i) reforma de uma parte da Casa de Artesanato (pintura. Na safra de 2004/2005. foram registradas produções junto à área 5 No MDS através Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional e no MMA através da Secretaria de Políticas para o Desenvolvimento Sustentável. doando mudas frutíferas. 4) compra de insumos para a realização dos plantios de feijão. concretagem da base do “monge” e dos canos que passam pelo talude).311 Durante estes trabalhos foram encaminhados ofícios. (iii) oficinas sobre: plantas medicinais (ministradas pelos mais idosos da comunidade). (ii) revitalização e conserto do açude da comunidade (aquisição de alevinos de tilápia e carpas diversas. . com as análises de solo. conseguimos a aprovação de um projeto no valor de R$ 10. que esporadicamente fornecia insumos e equipamentos. sementes. ajardinamento do entorno da casa e implantação de sistema de segurança eletrônico). aipim e cana de açúcar. No final do ano de 2004. milho.000. que esporadicamente disponibilizava trator. a Fundação Nacional do Índio (Funai/Palhoça). e que utilizou a linha de financiamento da Carteira Indígena de Projetos Fome Zero.

as atividades 6 Município localizado do Litoral – Sul do Estado de Santa Catarina. 1800 quilogramas de batata-inglesa. a aquisição de máquinas e equipamentos de costuras e de beneficiamento do Artesanato para o grupo de mulheres (Cunhangué Nhemboaty). alho. . Em maio de 2005. repolho. 780 quilogramas de feijão. entre outras. o envolvimento voluntário dos moradores e principalmente dos jovens (objetivos centrais do projeto) acontecia timidamente. sendo destacadas as áreas social.312 da lavoura comunitária de 5000 quilogramas de milho tradicional e não tradicional. as comunidades Guarani de Tekoá Marangatu /Imaruí6 e Yynn Moroti Wherá/ Biguaçu me selecionaram para atuar como engenheiro agrônomo nas comunidades através do Projeto Prapem/ Microbacias 27. foram elaborados os Planos de Desenvolvimento da Aldeia. cana-de-açúcar. 600 quilogramas de arroz de sequeiro. ficando em muitas circunstâncias o líder Espiritual Alcindo e sua companheira Rosa trabalhando sozinhos na roça. moranga. oficinas de troca de saberes. Como ações desenvolvidas neste período de 2005 a início de 2008 pode-se destacar: os sistemas de saneamento. a construção da casa de auxílio a Opy (casa de reza). o auxílio à revitalização da Casa de Artesanato. a qual prestava serviço as Associações de Moradores sob a coordenação geral da Epagri. econômico e ambiental dentro de um conjunto de ações que o Programa Prapem / Microbacias 2 podia contribuir dentro da comunidade. No entanto. Como síntese deste projeto pode-se observar uma potencialização nos cultivos tradicionais e não tradicionais. a construção de uma câmara de armazenamento de alimentos. a aquisição de insumos e ferramentas para apoio à produção de alimentos na área da roça comunitária. 7 Programa de Recuperação Ambiental e de Apoio ao Pequeno Produtor Rural. banana e hortaliças diversas como batata-doce. ficando vinculado à Cooperativa de Trabalho Uneagro. obtendo-se boa quantidade de alimentos. as capacitações. Com metodologias específicas. e as produções de amendoim. baseadas no construtivismo.

trilhas etnoecológicas.313 culturais como teatros. proteína animal advindas do açude e de criações de galinhas e as produções diversas de amendoim. é empresa estatal subsidiária da ELETROBRÁS.100. (ii) condução de projetos em Sistemas Agroflorestais por meio da Associação Rondon Brasil. 600 quilogramas de arroz de sequeiro. alho. 8 Programa de Promoção da Igualdade de Gênero.PPIGRE 9 A ELETROSUL Centrais Elétricas S. No entanto. entre outras. repolho. cana-de-açúcar. A partir dessas articulações junto a outras instituições. Nas safras de 2005/2006. o Microbacias possuía em sua linha de apoio o valor de R$ 1. foram registradas produções médias anuais de 660 quilogramas de feijão. 2006/2007 e 2007/2008. 10 Ação do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transporte (DNIT) Trecho Norte . edição de filmes. sendo insuficientes para a construção de casas para todos os que precisavam. com recursos do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA)8.A. na lavoura comunitária. pinturas nas paredes e muros da escola com o painel da cidadania. Como primeira ação junto ao Projeto Microbacias 2 as lideranças da aldeia priorizaram a construção de moradias. e a busca de articulação com outras instituições. mesmo após a construção de residências com recursos da duplicação da BR-101 trecho norte10.00 (um mil e cem reais) por família para a “reforma de casas”. Raça e etnia . visto as condições precárias em que as famílias ainda viviam. aproximadamente 18 metros cúbicos de espigas de milho tradicional e não tradicional (armazenadas na câmara de armazenamento). moranga. destacaramse feitos como: (i) a melhoria da estrada de acesso interno da aldeia que vai até a escola indígena através de contato com o Departamento Nacional de DNIT e Ministério Público. com destaque para a colheita de 4800 quilogramas de batata na safra 2006/2007. banana e hortaliças como batata-doce. concessionária de serviços públicos de energia elétrica que atua nos três Estados da Região Sul e no Mato Grosso do Sul. (iii) projeto de cerâmica pelo Projeto Estação Arte e (iv) auxílio ao estudo de Complementação dos Impactos Sócio Ambientais do “Reforço Energético à Ilha de Santa Catarina e Litoral Catarinense/ELETROSUL” sobre a Comunidade9.

um pouco diferente do que acontecia fora. Foto 06 e 07: Casas existentes na aldeia e as moradoras: Santa e Sônia com seu filho ao colo. mas faltavam mais momentos destas com as outras instituições e juntamente com a comunidade para elaboração e construção de propostas com a aldeia. segmentada e cada uma cuidando da sua função. sendo estes sistemas construídos com mão de obra da comunidade e em parceria com a prefeitura que cedeu máquina retroescavadeira. a participação com pré-sensibilização da comunidade determinou o envolvimento de grande parte dos moradores nos dias de mutirão e assim foram instalados sistemas com tanque séptico. Esta atividade de saneamento se mostrou complicada devido à declividade das áreas onde as casas se encontravam. Com este jeito de tratar o desenvolvimento local. Autoria: Andréa Eichenberger. filtro anaeróbico e valas de infiltração e círculos de bananeira. os agentes . no entanto. Na aldeia. as instituições trabalhavam suas ações ainda agindo de forma muito cautelosa.314 De acordo com estas observações as lideranças optaram por investir no primeiro ano do projeto em 12 sistemas de saneamento para as casas existentes. Neste período observava que as instituições que trabalhavam diretamente com a comunidade tinham uma parceria legalizada no papel.

no local sagrado onde se vive a “base do modo de ser Guarani”. o equilíbrio corpo/mente e se mantém a harmonia espiritual e social da aldeia. Alcindo é o avô conselheiro (tcharamõe opyguá) que transforma a casa de reza na primeira escola. eu chegava mais próximo da lida e do dia a dia da aldeia. artesanato. facilitador do Projeto Microbacias 2 e lideranças comunitárias. A casa de reza é onde se fortalecem as inter-relações. As atividades neste período eram mais abrangentes e. Lá. escola e a participação.315 locais comunitários11 buscavam se reunir para solucionar problemas comuns. construídos pelos agentes locais comunitários conforme descrito em anexo. Autoria: Wagner Aquino. Fotos 07 e 08. pude visualizar e sentir a importância da casa de reza e da presença do líder espiritual para a vida da aldeia. saúde e meio ambiente. professores indígenas e não indígenas. fator primordial na execução de projetos comunitários. com o convite das lideranças. Nestas cerimônias. Sistemas de saneamento e Educação Ambiental. quando da participação e mobilização da comunidade. como consequência. Como exemplo desta atitude foram os eventos que tratavam de temas relacionados à educação. A partir deste período entendi que mesmo com uma produção 11 Entenda-se como agentes locais comunitários os agentes de saúde e saneamento indígenas e não indígenas. . nas cerimônias dentro da casa de reza da comunidade (Opy). passando dos limites das ações da lavoura para outras como saneamento.

316 insuficiente para atender às necessidades alimentares e nutricionais da aldeia. Durante anos nossa cultura e nosso povo foram oprimidos. fortalece a vivência em grupo. Através dele estamos reaprendendo e sedimentando nos nossos jovens os conhecimentos mais antigos. O fortalecimento das relações dentro da comunidade se dá principalmente pelo tempo de intensa busca pela revitalização de tradições nas diversas áreas da aldeia. a agricultura assume um dos aspectos de grande . e consequentemente é um mecanismo de transmissão de saberes intergeracional. costumes e espiritualidade. Neste contexto. Na mata nativa encontramos harmonia. obrigado a viver longe da raiz da tradição. além de promover a Segurança Alimentar. E temos orgulho de termos sobrevivido a estes anos de opressão. Este momento de revitalização é comentado por Marcelo França (2007) em seu trabalho e evidenciado na fala do cacique Hyral Moreira: Precisamos de terra para manter nossa tradição. Hoje vivemos um momento único em nossa aldeia. A terra nos proporciona condições de manter e fortalecer nossa cultura. desenvolvemos o equilíbrio espiritual e físico e dela tiramos nosso alimento tradicional. sendo este um processo educativo e cultural. o ato de produzir e colher alimentos dentro da Aldeia. ela se revelava importante para os aspectos ligados à organização social do grupo. Desta forma repassamos os costumes e tradições mais antigas. de tempos imemoriais do nosso povo. estamos revitalizando nossas tradições. Efeito da Produção de Alimento como Mecanismo de Fortalecimento dos Laços de Coesão Social Diante dos empecilhos que limitam os Guarani de Yynn Moroti Wherá de exercerem seu modo de vida de forma plena. Através de nosso tcharamõe (nosso avô) líder espiritual.

Ela traz verdadeiramente os sentimentos de autoestima e dignidade. pois Alcindo Werá Moreira além de líder espiritual é o “agricultor”. com os grãos produzidos e colhidos na lavoura. Durante entrevista.. Plantamos nosso milho nativo e agradecemos muito lá em cima (Nhanderu/Deus). sendo ressaltados os “resultados” obtidos nas colheitas junto à área da lavoura comunitária nos últimos anos e cada um a seu modo contava sua experiência vivida. O relato do líder espiritual Alcindo demonstra “a alegria”. A produção de alimentos dentro da aldeia proporciona bem-estar a tudo e a todos. em vários anos ninguém tinha visto a bebida do Kawí... cuidadosamente separadas e acondicionadas. como faz ... enquanto mostrava sementes de avatxi/milho tradicional Guarani. Taí o nosso cacique a trinta e poucos anos de idade agora é que conhece. em período de colheita. como costuma dizer. com um correto direcionamento de ações. Graciliano falava com satisfação da lavoura e da produção de uma bebida tradicional produzida dentro da comunidade. Nunca você escutou. Nesse ano deu bastante. Alcindo Moreira e Sr.. Esse ano sobrou. buscados nas pretensões iniciais dos trabalhos. pensamentos. Durante entrevistas e conversas feitas junto à comunidade os moradores contavam o que viam dos trabalhos de produção de alimentos.317 importância para a comunidade. . uma bebida fermentada produzida a base de milho tradicional escuro (avaxí u) que traz junto de si bem mais do que os alimentos que nutrem.. Muitos sabem que ela existe mas não sabem quem que faz... sendo o responsável direto pela área da lavoura comunitária e o orientador na busca do envolvimento dos jovens. o que gerou o consequente feitio da “Kawí”. sentimentos e palavras.. Essa nossa bebida vai ter pra todos da aldeia e ainda vamos levar 46 litros pra cerimônias em Urubici e 29 litros lá pra Joinville.

chegávamos à terra próximo a planta pra ver se vinha bem.. Gosto de trabalhar na lavoura! Passei neste ano na prova do Colégio Agrícola de Araquari e vou estudar lá pra também poder ajudar mais minha comunidade. Antes com o sol e a chuva batendo direto. de roças tradicionais férteis (kokue) e de determinados seres – vegetais e animais. limpamos só o suficiente e deixamos o mato no pé da planta... o conceito Guarani de “alegria” remete a um estado de viver para ser atingido..... deve-se estar em ambientes integrais. Não precisamos limpar tudo. a batata. de nascentes (yakã porá) de água limpa. cuja condição seja o mais próxima daquela deixada pelas divindades. (Ronaldo/ jovem ajudante dos trabalhos junto à área da lavoura comunitária) De acordo com Elisabeth Pissolato (apud Eletrosul. a mandioca.. houve uma produção maior. o solo ficava meio avermelhado já aparecendo o fundo.. assim a terra fica mais úmida. (Geraldo/ professor indígena) Pra mim.E hoje melhorou e isso reflete principalmente no ânimo de quem está plantando”.. a terra e a planta sofriam muito. Hoje o comportamento das plantas mudou. observamos mudanças no comportamento das plantas e do solo. Tais ambientes são reconhecidos pela presença de mata bonita (ka’aguy porá). No contexto de Yynn Moroti Wherá. Antes morava lá no Morro dos Cavalos e o jeito de plantar era roçando. houve uma mudança e a gente consegue observar que mudou.. o feijão crescer. hoje quando planto. botando fogo. dá mais alegria quando vejo o milho. ai fazíamos um buraquinho colocávamos a semente.. um dos motivos de maior alegria para a comunidade foi o fato de ter podido celebrar cerimônias tradicionais do Nhemongarai (festa da boa colheita do milho) com o feitio de alimentos . o povo plantava e não dava. A erosão que existia antes das técnicas era muito grande. 2007).. mas nada.318 “Através do uso de técnicas para o plantio. Temos mais sustentabilidade. E o que mudou é observado no que produzimos..

ela acontece quando os cultivos tradicionais são colhidos e “abençoados” e nelas são atribuídos os nomes às crianças nascidas no período. o grupo de mulheres é que colhia o milho (avaxi etei). que há trinta anos não era feita pelo grupo. 1992). fortalecendo os laços de cooperação. entre outras. através de cantos sagrados. Nas tarefas que antecediam os ritos. Na aldeia observava-se que os ritos possuíam sequência e lógica de acontecimento e tudo isso era relembrado pelas lideranças espirituais e acompanhado e registrado pela comunidade. caracterizado pelos fortes temporais que ocorrem no verão (Ladeira. mbyta – pão de milho preparado com um milho não maduro. Os ritos de colheita do milho são abordados por estudiosos como Maria Inês Ladeira (1992) como sendo a principal cerimônia realizada na aldeia junto à casa de reza (Opy). agradecer à mãe terra pelos “frutos” colhidos.319 típicos como o mbodjapé – pão de milho. Nestas cerimônias crianças e jovens participavam das atividades juntamente com a escola e em família. conversando e fortalecendo a identidade e o orgulho de ser índio. Nos ritos de preparo dos pratos típicos a base de milho. para que durante a noite toda a comunidade pudesse. a limpeza da casa de reza. As pinturas no chão de barro da casa com figuras e gravuras indicando simbologias baseadas em princípios naturais eram também feitas . o preparo dos pratos típicos a base de milho e o preparo do altar com a exposição das espigas de milho. elas iam com crianças ao colo até a casa de reza e depositavam os pratos e espigas junto ao altar. O Nheemongarai coincide com a época dos ‘tempos novos’ (ara pyau). Logo depois de feita a colheita. chipa caure pão de milho de forma cilíndrica e a bebida Kawí. preparado com farinha de milho maduro previamente tostado. Segundo Ladeira. já existiam os responsáveis pela coleta da lenha.

Nesta linha concluo este trabalho com os dizeres do médico Haroldo Evangelhista Vargas: Quando se buscar apoiar os povos indígenas para uma produção com qualidade de vida é importante pensar em projetos dentro da visão verdadeiramente indígena. Não há como negar que hoje a realidade . Os moradores viviam no dia a dia da aldeia estes acontecimentos. com as cerimônias que promoviam a contextualização no tempo e no espaço. Considerações Finais Diante do contexto vivido pela comunidade Yynn Moroti Wherá. sendo este um processo educacional.320 de maneira coletiva e estimulavam a criatividade. pode-se ressaltar que o ato da produção. quando conectado a “base do modo de ser Guarani”. Assim. de vivência em grupo e promoção das relações sociais e espirituais que se observou residir a fortaleza do povo Guarani. de união do alimento matéria com a “base do modo de ser Guarani”. por despertar ritos que fortalecem a transmissão de saberes e da cultura. marcando um momento vivido e guardando os ensinamentos do líder espiritual que. Os rituais específicos eram registrados pelos jovens com filmadoras. que é sua espiritualidade.. é nesse processo integrado de produção de alimentos com ritos de agradecimento. para guardar e massificar a notícia do feito a outras aldeias. permitindo o desenvolvimento de todas as potencialidades com consequente realização como indivíduo e como comunidade. batismo. com 97 anos. cura. revivia – como costumava dizer – tempos de fartura. de modo não segmentado e numa visão cosmológica em todos os aspectos da vida da comunidade: na escola. entre outros. nas residências e principalmente na casa de reza. no posto de saúde.. consegue ser um importante mecanismo de coesão social.

04 p. M. Na minha opinião o problema é que independente do pouco ou muito que se consiga nestes aspectos. ELETROSUL/Brasil. Referências Bibliográficas BERTHO.Saberes necessários à prática educativa. M. A. A. (org. 2006. M. 1992. FREIRE. PUC-SP. Universidade Gama Filho. 1997. Os Índios Guarani da Serra do Tabuleiro e a Conservação da Natureza – Uma Perspectiva Etnoambiental. São Paulo. P. 1982. Guarani: Síntese Histórica. Paz e Terra. Biguaçu.Curso de Administração e Planejamento de Projetos Sociais. Estudo de Complementação dos Impactos SócioAmbientais do “Reforço Energético à Ilha de Santa Catarina e Litoral Catarinense/ELETROSUL” sobre a Comunidade e a Terra Indígena Mbiguçu/ Yynn Moroti Wherá. FREIRE.).321 é outra e deve existir uma adaptação a estes tempos e também um aproveitamento consciente do que existe de recursos e possibilidades da sociedade envolvente para a vida indígena sem perder a própria identidade. M. I. LADEIRA. “O caminhar sob a luz” . P. FRANÇA. Brasília. P. Funai. Florianópolis. Análise do Projeto Alimento e Dignidade na Aldeia M’Biguaçu. 2007. . 2005. dignidade e autoestima em cada indivíduo e das comunidades como um todo. Pedagogia da Autonomia . Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais.O território Mbyá à beira do oceano. B. poderá ser em vão se não se trabalha na raiz a questão que é a retomada da própria base que está na tradição. DOS SANTOS. Paulo Freire. Dissertação (Pós Graduação) . Tese de Doutorado. São Paulo. São Paulo. 200p. Extensão ou Comunicação. e possibilita o resgate da identidade. Paz e Terra. C. 1997.

1 No. Rev. 33-46. Relatório Medicina Tradicional.Pará.socioambiental. M. Bras. 07 p. E. & DARELLA.. C. & VIEIRA.322 MEDEIROS.).trabalhoindiginista. A Terra Sem mal dos Guarani Economia e Profecia. I. 1990. Revista de Antropologia. M. B. Sites: www. de Agroecologia. P. LOVATO.P. Florianópolis: Não Possui. SILVA. Vol. M. E.1.org www. 2006. C.org. 2006 VARGAS. A. p. (Org. MELIA. Brasil. Projeto roça sem queimar: Uma proposta de manejo para a Região da Transamazônica . Manejo e Conservação da Agrobiodiversidade pelos Índios Guarani Mbyá: Um estudo de caso da aldeia Yakã Porã/Garuva-SC. de A. 2004.br . UFSC. J.D.

323 ANEXOS .

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