Copyright 2011 Editora Estronho Esta é uma versão de demonstração, em baixa resolução, do livro “Deus Ex Machina - Anjos de Demônios na Era do Vapor” e pode ser distribuida gratuitamente. Porém seu conteúdo não pode ser copiado, reproduzido ou alterado sem a permissão da editora estronho. Nesta versão você encontra o prefácio de Bruno Accioly e o conto “A Diabólica Comédia - A Conquista dos Mares” de Romeu Martins.

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mas no tempo. ou da não menos poderosa inspiração desde seu pla no imaginário. um contrário de Prefácio o qual. caro leitor. Machadeando ou não.Se o SteamPunk. . Portanto lhe ofe reço. da busca por personagens incomuns e da livre conjectura ace rca do mito. imaginativa e profundamente competente na arte da pesquisa histórica clássica . Desta feita. mas com um especial tempero de nossa cul tura. na forma trad icional. vêm influenciando os destinos da humanidade. seja através da açã o direta. sobre criaturas que possivelmente nunca existiram. o presente texto pretende lhe incentivar a ir para trás. não na leitura. lhe suscitaria ir em frente na leitura. A presente antologia joga car vão em caldeiras brasileiras. para que as nuvens de vapor desvele m a presença de entidades que. de uma ou de outra forma. creio que esta obra se alia com honras àquelas do mesmo gênero que vem sendo editadas. Estás diante de uma antologia que discorre sobre um passado que jamais houve. Vapor Punk ou Vapor Marginal pode ser descrito como escrever Ficção Científica do Século XIX nos presentes dias. mas se mostra uma criatura prolífica. o escrito r brasileiro deste gênero vaporoso faz parte de uma fauna jovem. ent retanto.

or do Out it d e r. ja ad e épica pele que decidiu-se por madura celestial r É esta a . h s o s n s e l no teamPun a S u o q r a a t conhecim n o . a o a h n n m o o o u itora Estr investind tir-se de .b m o eratura a dotweb.a uma brig m a r p m o ente c ageiros repetidam ilidade de mens cias s e r o t u a b onsa equên ra. a. hocas se encontra e n s e e r das eng contos p l o vapor a u q o n livro ento. editor co r. os Nesta ob enunciam a resp cionais. brandir a de não apenas e digna das hostes gênero a o t ç ro de um lançamen ro. senão lendo do óis-autor r e k.c ede Social de Lit d O E do C o cioly é m. . reves do a or sobre so tro título p u o lo a r e á u c d lt lo a u co ac aind espada d ste mas aladas.br. do firmam raCoisa. lismas bre alados so emos e sobre catac róprio Livro da Vid c p e es contam bem conh to. ia Bruno Ac im L S ao Conselho ncebeu o com. co é co-fundador do ginal. a ç e b a c com a Ed b suas asas. cujas cons ríamos a sa e d s ou fic jamais tom is a u controver eventos histórico q s o d a. Mar Fantástic ista Vapor v e r a d e SteamCast .br a R teamPunk. ntes neste tomo. uma escaramu t n e d a ic m dos êne atíp m cada u um e mesmo g ma obra s a u d é a s a u in esmo fortes Mach Deus Ex e as cores dizer que este é m a glória z e id v a a o com dada poss atípico e.

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Stea aradigmas 1. est al desenvolvedor reei em 2 os livros P por Rich 00 a passado rd Diegues. Na ficção. VanderM eer a ser . nização de Gian de um e vou ser u Celli organizad na Steampunk Bible (A m dos brasileiros a pelo edi lançada e t m 2011. org punk – Histórias nizado a T presentes arja Editorial). or americano Jeff brams Image). e tecnologia Minha especialid rsidade Federal de s. sou a d s e o Conhecim bre a qual já pu é a área de ci Santa ê e coautoria nto & Riqueza (e bliquei um livro ch ncia e ditora In com Robe a mado st da Plata r forma La to Pacheco.Meu nom e jornalista é Romeu Man oel Coel formado p ho Marti Catarina e l a U n i v n . orga 9 com e m (ambos da xtraordinário. princi ituto Stela). em p contos pu t blicados n tes.

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e expondo parte dos tripulantes aos ares oceânicos. o brilho do fogo se reflete nas grossas escamas que protegem cada parte de sua forma bestial. a encouraçada nau-capitânia submergível da frota dos infernos. metade para fora dos vagalhões que sua passagem provoca. irrompendo vez por outra feito o magma dos vulcões. Nesta noite de trevas tão densas que obrigam a luz dos olhos da figura de proa a brilhar como sóis. feita de placas metálicas negras. Assim que emerge. expelidas como o veneno encarnado de suas peçonhas. Este é Raab. o comandante da nave aproximase de seu novo rei. Das narinas do monstro. Led Zepellin A bocarra se arreganha ao despontar sobre as águas que o monstro atravessa como se fosse uma serpente prestes a dar o bote. Entre as duas fileiras de dentes. ao encontro do inimigo nestes tempos de guerra. in the war is common cry Pick up you swords and fly The sky is filled with good And bad that mortals never know “The Battle of Evermore”. posicionados num cortejo de lâminas afiadas. dando à máquina bélica uma configuração de navio. Ela segue seu rumo com as caldeiras exigidas ao máximo para produção do vapor que a impulsiona e à sua tripulação sempre em frente.12 Oh. Em momentos assim. a fera regurgita faíscas incandescentes. É possível ver as chamas arderem lá dentro. aquilo que seria o dorso da criatura reptiliana que ela representa se abre. metade submersa. Seu corpanzil negro vem logo atrás. são liberadas nuvens negras e ondulantes. dois buracos que se assemelham a crateras lunares. formando uma carapaça . O primeiro enverga a pesada armadura que o consagrou. “O Arremetedor”. empesteando os céus da mesma forma que sua simples presença conspurca o oceano de onde acaba de brotar.

as dimensões de seu braço não rivalizam com as do homem da armadura. Outros tantos se prostram a estibordo e a bombordo. antigo inimigo. tirando uma das mãos que antes repousava no cinturão para acomodá-la no braço do atual companheiro de armas a seu lado.. – Lúcifer se foi sem deixar simpatias. por ora.. Seu olhar passa lentamente da tripulação de fato mista à sua frente para encarar o interlocutor. espalhados entre meus guerreiros. Por baixo deles. posicionado no andar inferior. acima e abaixo. todos dividindo as funções do mais poderoso navio que já existiu. – No entanto. que o das estranhas alianças forjadas pela guerra. e lá estão teus comandados.A diabólica comédia . Muitos entoam canções de guerra enquanto dividem a lida no maquinário. Por nenhum outro motivo fazemos isso. jamais vencido em batalhas. Gabriel retribui o gesto. Sabe. ao final do comprido pescoço do dragão que orna aquele ser mecânico.. Não sem pelejarmos para ver qual grupo arrancaria mais sangue do outro por tal honra – o capitão fala isso batendo com a manopla no ombro do superior. Alguns conduzem carregamentos de carvão até a sala das caldeiras. Apesar de sua estatura ser considerável. assumiu como seu.. uma camaradagem nada comum entre realeza e súditos. na guerra contra a quem servi por tempo demais. ao contrário do antigo rei assassinado por ele. – A guerra forja estranhas alianças. contudo. Gabriel. Não foi por outro motivo que pude contar com teu apoio para destronar teu antigo mestre. soldados das duas facções dividem esforços na manutenção da nau em seu curso. alcançar-lhe o ombro. Mesmo motivo que agora estamos juntos cavalgando os mares. Lúcifer. Ainda com semblante melancólico. estás aqui. meu camarada. sem. . O segundo veste as roupas cerimoniais herdadas do antigo ocupante do cargo que. mas apropriada aos veteranos das frentes de batalhas. capitão Leviatã. Hades ainda é guardado em boa memória por muitos no mundo . ... cuidando dos múltiplos canhões. sólida. mesmo tanto tempo após a morte. – Curioso pensar que antes do golpe que te levou ao poder nos Reinos Inferiores jamais aceitaria a ti e a teus homens a bordo do Raab.A conquista dos mares [ Romeu Martins ] . responsáveis em grande parte por tão invejável condição de invencibilidade da embarcação mais temida dos mares e das fossas abissais.

mas a seriedade que ela transmite deixa evidente que há mais do que torcida. verdade seja dita. só o que faço é preparar tropas em terra. aquele que me convenceu a apoiar a conspirata que o levou a tomar o poder do Reino Inferior. – Gabriel. – Para te falar a verdade. Desde que pus esta coroa de chifres pela primeira vez – ele tira a mão do braço do capitão para ajeitar o objeto com tais adornos pontudos que lhe pesa a fronte –. todavia a verdade é que estou contente por servir a ti nesta nova era de batalhas memoráveis. Além da coroa. Leviatã aproveita a deixa para também livrar o outro do seu aperto e passa a olhá-lo de frente. o antigo arcanjo volta a relaxar em um sorriso mais franco. conheço tua fama. não chega a ser afetado. – Posso te contar minha história. Não invejo tua posição atual. tem a ver com o único deles que tu não estás a utilizar. Caso de Caronte. Ainda não tive o tempo necessário para me inteirar de tudo sobre os bastidores da corte. Ou melhor. a proximidade da outra mão ainda apoiada no cinturão que prende o renomado gládio do conquistador do Inferno.14 subterrâneo que um dia levou o nome dele. Convencido pelo ar de genuíno interesse do seu anfitrião. para as movimentações estratégicas. ele usa a capa de pele vermelha e até mesmo as botas escuras com casco de bode . A seriedade da voz e. O clima de confraternização entre ambos. Conheces minha fama. de padroeiro infernal da inveja. garanto-te que não me arrependo. – Torço para que não tenhas te arrependido da decisão – o tom de voz é ameno. temos tempo enquanto não localizamos nosso alvo. entretanto. E ela tem a ver com os símbolos reais que passaste a ostentar depois da decapitação de Lúcifer. O novo Rei do Inferno passa os olhos em torno de si para tentar entender sobre o que o capitão fala. apenas quero ser lembrado nas futuras conquistas do império. mas não os motivos. O sorriso no rosto do capitão evidencia que ele percebeu a leve ameaça feita pelo homem a quem ele ainda segura pelo ombro. e agora nos oceanos.

Muitos anos antes.A diabólica comédia .. . ainda ferido e humilhado. Através da traição. E se há três coisas que não podem faltar em um navio sob minhas ordens são ferro. Não faço ideia do que ainda me faltaria nas insígnias reais. matara o antigo soberano e tomara para si a esposa dele. um feudo dominado pelo irmão do rei recentemente assassinado. o demônio de armadura passa a narrar suas lembranças ao arcanjo rebelado. do antecessor desde que se rebelou contra o governante das Terras Altas e tomou o poder no Reino Inferior. pois ouvir a seco os contos de um marujo não seria justo. tomar um reino sempre é algo mais simples que conseguir mantê-lo. Estava de peito nu. Uso por conselho de meu irmão. Mar Egeu. O capitão acena para um dos seus tripulantes com um gesto diante da boca. Sabia eu que a arma continha história.. Fazia pouco que ele surgira.. mesmo desprovido de armamentos. como bem sabes. Diz ele que tal gesto pode facilitar a transição de poder entre os que teimam em questionar minha autoridade no antigo Hades. Gabriel. – Não sei no que reparas. Assim sendo. ele me recebeu sozinho na sala do trono. fui enviado como embaixador para tentar garantir a paz com a terceira potência da época.. enquanto eu envergava armadura completa. . Todavia. a mesma Perséfone que agora é tua companheira. Usava cabeleira e barbas tão negras quanto compridas. . no Hades. Último representante de uma antiga linhagem de monarcas guerreiros. Enquanto isso bebe algo. e rum. Lúcifer havia acabado de ser expulso dos Céus naqueles tempos.A conquista dos mares [ Romeu Martins ] . vapor. Já ele portava como cetro a estranha lança de três pontas que chamava de tridente... estas indumentárias ao gosto exótico do meu antecessor. – Posso te contar os fatos enquanto navegamos. Rafael. Com ambos abastecidos de canecas cheias daquela bebida forte.. capitão.. Poseidon era o nome do dono do castelo onde me encontrava. a noite é longa e as engrenagens do tempo giram lentamente.

que me ouvia com semblante furioso. Zeus foi o primeiro a cair. Por isso não me esforcei em nada para desfazer as dúvidas daquele monarca quanto às intenções de Lúcifer. apesar de minhas ordens serem pela paz. a qual rebatizou com o próprio nome. Gabriel. Apesar dele mesmo dever o império marítimo ao regicídio e de ter como opção de aliança um rei que havia derrubado outro de seus irmãos. os filhos dividiram a herança. pelo menos.16 Foi com ela que Poseidon e dois de seus irmãos haviam matado. o próprio pai. o tirano teve o maior receio tornado realidade. e meu anfitrião naquela tarde tornou-se o senhor das vastidões oceânicas. Coube ao mais velho. Após derrotar o pai. Minha armadura bateu naquela massa de pedra soando feito um sino. meu desejo pessoal era bem outro. O estrondo reverberou por toda a sala do trono. Antes que minha vista pudesse se dar conta. Já o sangue de Hades ainda encharcava as mãos de Lúcifer quando ele me enviou àquele castelo para assegurar. . o tirano Cronos. Neste momento devo reconhecer que. tempos atrás. da mesma forma que seu irmão mais velho fazia com lanças em forma de raios. Tal foi a violência do ato que fui jogado na direção de uma das paredes do palácio. Traído pela esposa. Meu ar de deboche diante do luto daquela autoridade e minha má vontade diante das perguntas que me fazia tiveram êxito em provocar-lhe cólera mortal. quando dominava os céus a partir do Olimpo. Poseidon era o único de sua geração a manter uma coroa sobre a cabeça. inimigo do homem que conquistara o Olimpo. por meu intermédio. ele arremessou o tridente contra meu peito. quando teu antigo mestre. Zeus. com tua ajuda. Ansiava por ter meu próprio quinhão em um período no qual o poder estava sendo dividido. as terras em torno de um monte de nome Olimpo. que ocultara o trio de irmãos. e que estaria ali. Esta era minha missão e foi a que comuniquei ao homem à minha frente. que praticava canibalismo em suas crias justamente por medo de um dia ser degolado pelos herdeiros. invadiu os domínios onde hoje se encontram as Terras Altas. um sinal agourento. Hades ocupou a região mais baixa. oferecendo uma declaração de armistício ao regente dos oceanos. Poseidon não escondia o desconforto com tal audiência. a neutralidade de um regente cercado de vizinhos belicosos.

logo percebendo o que acontecera... A couraça que visto é. não havia mais nada que poderia fazer para salvar sua posição.. pois o rei se virou. por óbvio. Tendo uma base sólida para me ajudar. Passado o surto.A diabólica comédia . pude virar o jogo que a arrogância de meu adversário julgava já ter vencido. Ele desconhecia que eu possuía uma vantagem em relação a outras vítimas. Mas eu estava mais bem posicionado naquele cabo de guerra cujo ganhador seria quem empurrasse com mais força o tridente contra o outro. mal dando tempo para eu retirar as pontas alojadas em minha malha de aço. Precisei apenas recuperar o fôlego para me por de pé novamente. por baixo da barba cerrada dele. Meu intento. era cravar aquele espeto nas costas do desgraçado.. porém. Em termos físicos. meu pretenso assassino nem se deu ao trabalho de olhar em minha direção. o momento em que Poseidon se deu conta da derrota. na verdade. . Só que antes que eu pudesse fazê-lo. . Deu-se conta de que me subestimara. quando teve de trocar o ponto de apoio na parte da frente dos pés. . uma dupla armadura. típico de quem ataca. foram muitos os fustigados daquela mesma forma por seu braço forte e pela arma de três pontas. Foi no exato instante em que foi obrigado a reequilibrar-se para a luta. dando-me as costas. Tamanha era a certeza da morte de quem havia ousado incomodá-lo em seu lar que ele logo passou a cuidar de outros interesses. alternativa restante a quem se defende. Pude perceber.A conquista dos mares [ Romeu Martins ] . Durante os vários anos de seu reinado. não foi capaz de vencer a derradeira. pela segurança dos calcanhares... ele correu em minha direção e agarrou o cabo do tridente. Algum ruído alertou o único outro ocupante do recinto fechado. Quando os joelhos dobraram-se para trás. O trio de lâminas serviu bem para romper a primeira barreira que protegia meu peito. nossas forças se equivaliam. Por sorte consegui me preparar para resistir ao assalto. Este foi o último erro que Poseidon teve a oportunidade de cometer. Tinha já as duas mãos firmes na haste superior da arma e apoiei uma das pernas na parede atrás de mim. talvez ele levasse mesmo certa vantagem até.

– E assim foi. eu já reunira poder demais para ser desafiado sem enfraquecer o Reino Inferior num conflito interno. empalado pelo Tridente que simbolizava o poder que trocava de mãos naquele dia. – Aquele mesmo tridente é a arma real adotada por Lúcifer e que está ausente em tua caracterização de monarca do Reino Inferior. ainda ouvi o velho nobre berrar e amaldiçoar os bárbaros que vieram tomar o lugar dele e o de seus irmãos de casta superior. Naquele momento. no fundo. Deleitei-me com cada segundo que durou o tormento de um rei. Mas nós dois sabemos o quanto aquela criatura era. . Lúcifer aceitou o que não havia mais jeito de contornar. Limpa a boca antes de voltar a falar.18 Assim que as costas nuas do meu opositor bateram contra o solo. Quando Lúcifer pensou em me destituir do cargo. com minha reivindicação para me tornar o encarregado do Inferno na administração dos mares e oceanos. De volta à ponte de comando do encouraçado submergível Raab. Foi o presente que levei pessoalmente ao anjo caído. meu caro Gabriel. O capitão torce o pescoço dentro da armadura forjada em aço para tomar o resto da bebida em um trago maior que os demais. A história de Leviatã se conclui na hora em que ele e seu ouvinte sorviam os últimos goles do rum servido em recipientes de ferro. enquanto nuvens de vapor passam rapidamente acima de suas cabeças. Mesmo assim. os ossos se partiram e o sangue jorrou abundante. fortes o suficiente para criar sombras nas expressões endurecidas dos guerreiros. Este navio onde estamos já havia sido construído e contava com uma tripulação fiel apenas e somente a mim. Foi quando ganhei a reputação de que ninguém seria tão corajoso para me provocar. Pude apreciar o ódio lançado pelos olhos enquanto terminava de pregá-lo com a própria arma no piso do próprio castelo. o sol começava a nascer com raios pálidos. mesmo depois do teu odiado antecessor descobrir que fiz o que fiz por inveja dele e dos demais mandatários de extensos territórios. tratei de enfiar o cabo cego contra o peito dele com tamanha força que a carne se rompeu. um biltre.

A diabólica comédia . Prova disso é a trombeta que soa dando o aviso para todos se prepararem para a batalha iminente.. – Estou vendo agora. . uma tripulação de anjos se encontra em prontidão. – Mas tenho predileção por minha espada flamejante. Gabriel. Dahaka. capitão. Silenciosa em seu deslocamento. postura comum das aves de rapina. a mesma que me acompanhou em tantas campanhas. com as asas bem abertas para cima. Gabriel que tudo ouvira em silêncio também dá o derradeiro gole no líquido no qual vinha observando o próprio reflexo. . pela primeira vez em toda minha existência.A conquista dos mares [ Romeu Martins ] .. ciente de que fora avistada pelos adversários.. garras esticadas e olhar fixo para o alvo abaixo. O pássaro na verdade é uma estrutura metálica puxada para cima por sete balões encaixados entre asas que formam um imenso arco protetor. é o que o capitão e os homens de O Arremetedor avistam surgir entre a neblina do alvorecer. Não iria abandoná-la justo quando. – Capitão. – Lá estão os malditos. aprumando-se de acordo com o balanço do navio. Leviatã ia comentar a decisão do arcanjo renegado quando os berros de um tripulante deixaram todos a bordo em alerta. bom trabalho – o comandante recebe uma luneta para vasculhar os ares. de fato. Mas a natureza daquele gigante dos céus é tão artificiosa quanto é a da serpente marítima em que navegam os comandados de Gabriel e Leviatã... No interior dela. o antigo rei sempre usava – ele se ergue da paliçada onde esteve escorado para ouvir o relato. alvo a vista! Lá em cima. como bem o disseste. Um enorme pássaro branco. posso empunhá-la sem dever satisfação a ninguém. – Agora entendo o porquê da tua fama e ao mesmo tempo me dou conta da ausência do tridente que. surgindo contra o sol nascente! – o demônio de aparência oriental aponta para o céu usando uma espada curva. sangue e vísceras necessários para aplacar o ódio que sente por tal afronta cometida por aqueles seres diminutos surgidos das águas imundas abaixo de si. .. O bico afiado parece antecipar o gosto de carne. quase é possível sentir na pele de cada anjo e demônio a bordo do navio a respiração tensa e entrecortada da criatura que se prepara para abater todos aqueles que invadiram seu espaço e ousaram persegui-la.

– Pois não apenas precisamos impedir os amaldiçoados de levar a carga. A estrutura metálica geme. o Senhor das Terras Altas. No caso. Temem que um futuro cerco os pegue desprevenidos. Com elas o navegador experiente opera o leme empregando agilidade o suficiente para desviar a embarcação da mira dos projéteis. o barco aéreo que costuma ser capitaneado por Azrael – Gabriel é quem observava pela luneta naquele instante. ele grita com toda energia. enquanto o navio quebra ondas de proporções titânicas em seu trajeto improvisado. canos de transmissão do vapor se rompem. logo surge ordem do caos e uma disciplina marcial se estabelece nos gestos de dezenas de pares de braços e de pernas. dependurado na mureta de proteção. a sensação é enganosa. Um paredão de água à esquerda e dois à direita determinam os pontos exatos onde a artilharia aérea se chocou contra . Tal disciplina passa a ser exigida tão logo o pássaro começa a liberar em direção ao alvo serpentino as cargas que lhe emprestam o nome. devemos estar preparados para a defesa e para o ataque – em seguida. Daquilo que seria a barriga emplumada da ave abre-se uma comporta de onde saltam barris de madeira imensos com estopas de pano incendiadas pelas tochas dos tripulantes aéreos. Colunas de explosão se erguem de um lado e do outro. sem provisões para resistir a nosso ataque ao antigo Olimpo. Leviatã ata no queixo as faixas do seu elmo de batalha. assumindo o posto de capitão em zona de guerra. – Atenção homens do Raab: todos a vossos postos! Preparai as medidas dispersivas e o canhão de proa! Enfiarei nas caldeiras pessoalmente os miseráveis que não forem rápidos o bastante! Logo começa uma correria à primeira vista desordenada no tombadilho da nave submergível. Aquelas bombas são conhecidas como a “Luz Vinda do Senhor”. Evitar tais cargas mortíferas exige a intervenção das mãos firmes e envoltas em aço do capitão do Raab. mas aqueles homens devem ter a missão de levar mercadorias para as Terras Altas. O mesmo Senhor que até há pouco tempo era o mestre de Gabriel.20 – É Lux Ex Domini. – Não sei se é ele quem está lá em cima agora. aquele que destitui Zeus e seu exército da mais imponente das montanhas. Contudo.

Gabriel assiste impotente ao espetáculo macabro de choro. da carne queimada e do metal retorcido que se desvenda abaixo de sua posição. reconhece antigos aliados tornando a fechar a comporta do dirigível. primeiramente pelas luzes da combustão explosiva. a cor teima em permanecer.. Alguns. a água. – Quero um disparo preciso e com força total antes da próxima leva de bombas daqueles fujões. Em um segundo.A diabólica comédia . Percebe.. a nave ganha altura. as mesmas cores que ele próprio envergou durante quase todos os anos de sua vida. uma série de trepidações e de rangidos de metal batendo-se contra metal sinaliza que algo se precipita na grande cabeça de dragão à frente do vaso de guerra. Outros tantos queimam em chamas. A explosão tinge tudo de vermelho naquela porção do navio. Azrael. Entre eles. Rolos de fumaça se desprendem com vontade das ventas do réptil de metal e labaredas internas emergem sem controle daquela escultura monumental.A conquista dos mares [ Romeu Martins ] . desta feita na forma do sangue de uma dezena de marinheiros atingidos pelo impacto da bomba. Um quarto barril. logo as portas são encerradas para preparar uma segunda carga de morte luminosa. mutilados. Percebe com o canto do olho que Leviatã está atento à sua reação enquanto encara aqueles que já foram seus mais estimados aliados. Em resposta ao comando. praguejando contra suas dores. – Chegamos ao ponto certo. que agora o antigo comandado usa a armadura de arcanjo. . Gabriel roga uma maldição com os dentes cerrados de ódio e a cara lavada pela água salgada.. no entanto. Todavia. . . com os lastros aliviados. a voz de Leviatã sai enfraquecida. permanecem estirados no piso úmido.. temos distância de disparo – grita alguém pelo comunicador interno em forma de tubo que une a sala das caldeiras à ponte de comando.. Quando volta os olhos para cima.. – Iniciar procedimentos de tiro! – com braços ardendo pelo esforço das manobras. O momento dura pouco. numa troca ínfima de olhares. mas não menos imperiosa. ao mesmo tempo em que. as placas acomodam-se com gemidos estridentes enquanto engrenagens giram para fazer o pescoço da figura se curvar e a boca se esgarçar ainda mais e mais. tem mais sucesso e intercepta o flanco ferroso do dragão.

na direção da ave que recomeça lentamente a abrir suas ameaçadoras comportas. Gabriel saca a espada que continua a ser seu símbolo principal e a empunha por sobre a cabeça. Eles tiraram o primeiro sangue. Fazei isso. – Temos Lux Ex Domini na mira. o que de prático se seguiu ao comando de disparo foi a incomensurável bola de fogo que partiu da bocarra de dragão à frente do Raab. manchando suas penas de ferro com uma coloração rósea. O cometa de ferro embebido em lava risca o firmamento numa curva breve que o leva diretamente até o centro do dirigível inimigo. aquela é a marca da morte. homens do Raab! Com a chama do dragão das trevas! Os brados de apoio e de exaltação dos marujos lançam uma sombra de preocupação no rosto por baixo do elmo de batalha de Leviatã. Fora os gritos e aplausos. agora é nossa vez de revidar – neste momento. O capitão na realidade lança um desafio para testar-lhe a lealdade diante de uma situação verdadeira de enfrentamento com aqueles com quem já compartilhou uma bandeira. Ele é o único que não participa da empolgada manifestação que se segue ao discurso breve e enérgico do homem que usurpou o poder no Inferno.22 A indicação de que o canhão encontrou seu alvo se dá quando os dois fachos de luzes que se desprendem dos olhos da criatura fixam-se na barriga do pássaro. . Atendamos aos desejos dele e vamos garantir que não sobre um só miserável vivo naquele barco aéreo. – Nosso inimigo cultua a morte e idolatra os mártires. Deseja ter a honra de ordenar o comando de fogo. nossos inimigos estão ao alcance das armas que temos para nos defender. O antigo arcanjo sabe que as palavras são mais do que um reconhecimento de sua autoridade. ainda olhando fixo para os guerreiros abaixo de si. mas a todos os tripulantes que aguardam as ordens a bordo do navio tingido de sangue. meu soberano? – a voz de Leviatã sai espremida pelo sorriso sarcástico. Teria ele a coragem necessária para derrubar as últimas pontes que ainda o ligam a seu passado celestial? A resposta é dirigida não ao capitão. Sem que o animal mecânico tenha consciência. – Homens valorosos do Raab.

As chamas logo atingem os primeiros balões. a embarcação aérea repete a queda do primeiro homem que tentou se erguer aos céus. que restos mortais afundam lentamente. A primeira parte que atinge os domínios que um dia foram de Poseidon e hoje são as posses de Leviatã é o bico do pássaro convertido na tumba de tantos soldados.. .A diabólica comédia .. . Desprovida dos balões. Logo todo o ar em volta do objeto se incinera..A conquista dos mares [ Romeu Martins ] . O impacto faz voarem penas metálicas da cauda do pássaro adversário. transformando o firmamento no espetáculo de explosões que poderia ser o nascimento de estrelas.. numa trajetória cercada de fogo em direção ao mar. É diante dos olhos daquele capitão. de seu rei e dos homens dos quais eles dividem a lealdade. Um coro de gemidos pode ser percebido entre uma pausa e outra que se segue a cada novo estouro. ... Trombetas se calam. incluindo o que já se encontrava no interior dos pulmões dos soldados alados. como um balão de chumbo engolido por uma maré indolente que parece se recusar a reconhecer um dono.

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